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rev Bras. de Lit. Comparada

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REVISTA BRASILEIRA DE

São Paulo 2009

Diretoria Presidente Vice-presidente 1º Secretário 2º Secretária 1º Tesoureiro 2º Tesoureiro Conselho Fiscal

A B R A L I C 2009-2011 Marilene Weinhardt (UFPR) Luiz Carlos Santos Simon (UEL) Benito Martinez Rodriguez (UFPR) Silvana Oliveira (UEPG) Luís Gonçales Bueno de Camargo (UFPR) Maurício Mendonça Cardozo (UFPR) José Luís Jobim (UERJ, UFF) Lívia Reis (UFF) Sandra Margarida Nitrini (USP) Helena Bonito Couto Pereira (Universidade Mackenzie) Arnaldo Franco Junior (UNESP - S. J. do Rio Preto) Carlos Alexandre Baumgarten (FURG) Rogério Lima (UnB) Sueli Cavendish de Moura (UFPE)

Suplentes

Adeítalo Manoel Pinto (UEFS) Zênia de Faria (UFG)

Conselho editorial

Benedito Nunes, Bóris Schnaidermann, Eneida Maria de Souza, Jonathan Culler, Lisa Bloch de Behar, Luiz Costa Lima, Marlyse Meyer, Raul Antelo, Silviano Santiago, Sonia Brayner, Yves Chevrel.

ABRALIC CNPJ 91.343.350/0001-06 Universidade Federal do Paraná Rua General Carneiro, 460, 11.o andar 80.430-050, Curitiba - PR E-mail: revista@abralic.org

REVISTA BRASILEIRA DE

ISSN 0103-6963 Rev. Bras. Liter. Comp. São Paulo n.15 p. 1-195 2009

1991v. sem permissão por escrito. CDD 809. sejam quais forem os meios empregados. pesquisadores e estudiosos de Literatura Comparada. n. n. Nenhuma parte desta revista poderá ser reproduzida ou transmitida.091 (05) .0103-6963) é uma publicação semestral da Associação Brasileira de Literatura Comparada (Abralic).2. fundada em Porto Alegre.005 CDU 82. Todos os direitos reservados.2008 Associação Brasileira de Literatura Comparada A Revista Brasileira de Literatura Comparada (ISSN.1 (1991) – Rio de Janeiro: Abralic. Associação Brasileira de Literatura Comparada. entidade civil de caráter cultural que congrega professores universitários. Editor Organizador Comissão editorial Luís Bueno Maurício Mendonça Cardozo Luiz Carlos Santos Simon Benito Martinez Rodriguez Silvana Oliveira Luís Bueno Maurício Mendonça Cardozo Preparação/Revisão Diagramação Patrícia Domingues Ribas Rachel Cristina Pavim Revista Brasileira de Literatura Comparada / Associação Brasileira de Literatura Comparada – v. 2009 ISSN 0103-6963 1. I. em 1986. Literatura comparada – Periódicos.15.1.

Sumário Apresentação Luís Bueno Mauricio Cardozo 7 Artigos Os estudos de língua e literatura brasileiras no contexto dos estudos portugueses e latino-americanos na Alemanha Ligia Chiappini A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria Ferenc Pál Tempos e contextos da literatura brasileira na Argentina e no exterior Florencia Garramuño Ideia de literatura brasileira com propósito cosmopolita Abel Barros Baptista O ameríndio como personagem do Outro na literatura brasileira contemporânea: Órfãos do Eldorado e Nove noites Rita Olivieri-Godet Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate de nosso tempo Idelber Avelar O ensino de literatura brasileira por meio do Teatro do Oprimido: uma experiência na Carolina do Norte Érica Rodrigues Fontes 9 25 49 61 89 113 151 .

As alunas e os contos: a narrativa curta brasileira num curso de escrita criativa nos Estados Unidos Heloisa Pait 173 190 191 Pareceristas Normas da revista .

os artigos que compõem este número da Revista formam três blocos diferentes. O artigo de Lígia Chiapinni é o significativo balanço da experiência fundamental que representou a criação e rápida extinção da única Cátedra de Brasilianística de uma universidade alemã.7 Apresentação Ao propor como tema os “Estudos de literatura brasileira no exterior”. da Universidade Nova de Lisboa. vale-se do conceito de “hospitalidade” para discutir o estatuto do estudioso estrangeiro de literatura brasileira. Ferenc Pál e Florencia Garramuño. bem como de suas relações com o deslocamento da posição ocupada pelo Brasil no cenário político e econômico mundial nas duas últimas décadas. Respondendo a essa proposta inicial. a Revista Brasileira de Literatura Comparada procurou abrir um espaço para a discussão dos diferentes lugares e dinâmicas de estudo da literatura brasileira fora do Brasil. o que se destaca é a dimensão por assim dizer institucional dos estudos brasileiros no exterior. No primeiro bloco. por sua vez. O segundo bloco é constituído por três trabalhos que privilegiam a dimensão da análise literária. da . Rita Cavalieri Godet. Abel Barros Baptista. organizados a partir da dimensão que privilegiam em sua discussão. traçam amplos panoramas históricos – com um olhar atento ao futuro – dos estudos de literatura brasileira em dois países que se localizam a distâncias (não só geográficas) muito diferentes em relação ao Brasil: Hungria e Argentina. ao concentrar-se nas questões levantadas pelas leituras brasileira e estrangeira de Machado de Assis.

Heloisa Pait conta como procurou superar as dificuldades de discussão de textos brasileiros em tradução no contexto de uma instituição que. enfrenta as dificuldades das pequenas faculdades americanas. ao realizar cuidadosa leitura de obras de Milton Hatoum e Bernardo Carvalho. ao tomar partido de sua posição de professor brasileiro que atua nos Estados Unidos. 2009 Universidade de Rennes 2. é estranha ao aluno estrangeiro. convoca estudiosos tanto brasileiros como estrangeiros para retomar um tema fulcral da crítica: o do estabelecimento do valor. O bloco final nos traz dois relatos que investem na dimensão da experiência de professoras brasileiras nos Estados Unidos.8 Revista Brasileira de Literatura Comparada. No artigo que fecha este número da Revista Brasileira de Literatura Comparada. No primeiro deles. n. da Universidade de Tulane. apesar de ter grande tradição.14. lança seu olhar para a representação que a ficção brasileira contemporânea faz do ameríndio. Luís Bueno Mauricio Cardozo . em princípio. Já Idelber Avelar. Érica Rodrigues Fontes trata de sua proposta de utilização dos fundamentos do Teatro do Oprimido de Augusto Boal como instrumento de aproximação de uma realidade que.

língua portuguesa. A interrupção dessa experiência. do confirm a traditional contradiction in Germany between a great interest in Brazil and almost no interest in its literature. que influenciam o diálogo entre o autor traduzido e o Professora catedrática de Literatura e Cultura Brasileiras do Instituto Latino-Americano da Universidade Livre de Berlim. closure chair A literatura proveniente da América Latina tem direito a ser considerada no mesmo nível que outras literaturas. * . bem como na pesquisa. entre 1997 e 2010. não deveria ser lida somente como veículo de informações sobre o país. descrita a partir da experiência única da cátedra de Brasilianística que a autora ocupou por quase quinze anos na Universidade Livre de Berlim. literatura e cultura brasileiras na Alemanha. Atualmente trabalhando na orientação de teses no mesmo Instituto. 1 language. keywords: teaching and research. a partir de 2010. resumo: palavras-chave: ensino e pesquisa.9 Os estudos de língua e literatura brasileiras no contexto dos estudos portugueses e latino-americanos na Alemanha1 Ligia Chiappini* Situação atual dos estudos de língua. os clichês. Portuguese Em memória de Marlyse Meyer. confirmaria uma tradicional contradição na Alemanha entre um grande interesse pelo Brasil e um quase desinteresse por sua literatura. Não é preciso acentuar que uma obra literária transmite muitos elementos procedentes de outra cultura na ficção e desperta para outras formas de viver e de pensar. digamos. curriculum reform. literatura brasileira. The interruption of this experience in October 2010. literature and culture in Germany is described by the author who occupied the only Chair in Brasilianistik ever created in Germany for almost fifteen years at the Freie University of of Berlin. reforma curricular. junto ao Centro de Pesquisas Brasileiras. do qual é co-fundadora. Brazilian literature. abstract: The current status of the studies of Brazilian language. encerramento cátedra. Porém os preconceitos ou.

a língua portuguesa fica quase tão desconhecida como o pérsico ou o sânscrito. tais como a Germanistik. única e. ao que parece. Para além da filologia mas com a filologia. 2005) 2 . significa Literatura Brasileira ou Filologia Brasileira. literatura e cultura brasileiras e de suas diferentes modalidades na Alemanha. que conheço melhor.15. Mas o que parece simples no enunciado acima é. pois esta não deve ser confundida com o estudo meramente formal dos textos em si mesmos. em alemão. das artes plásticas. E. da música popular. nesse contexto. muito complicado. (Ray-Güde Martin) Nos meios cultos da Alemanha. são.10 Revista Brasileira de Literatura Comparada. no texto “Literatura e cultura no contexto dos estudos brasileiros na Alemanha: a cátedra de Brasilianística” (Chiappini. última professora de Brasilianística da Alemanha. como a primeira. ela se localizou na confluência do Departamento de Romanística com o Instituto de Estudos LatinoAmericanos. (Johann Jacob von Tschudi) O objetivo deste texto é resumir um pouco o percurso e a situação atual dos estudos de língua. principalmente em Berlim. a Hispanistik. da televisão. a Anglizistik. Adorno e Benjamin.2 Brasilianistik. n. por analogia a outras áreas desses estudos. abrindo-se a outras linguagens. propondo para nossa reflexão alguns problemas que pude identificar em quase quinze anos de trabalho na Universidade Livre de Berlim. de mais longa tradição acadêmica. para citar apenas alguns dos grandes estudiosos de língua alemã que trataram dos textos em seus contextos e dos contextos nos textos. Auerbach. pelo menos na terra de Spitzer. da poesia e narrativa orais. pois a literatura brasileira Por exemplo. que atualiza informações já divulgadas em algumas publicações anteriores. 2009 seu leitor estrangeiro. Esta ironia se esclarecerá no decorrer deste texto. Na Universidade Livre de Berlim. na verdade. até segunda ordem. adotou o tratamento da literatura como manifestação cultural. do cinema. difíceis de desaparecer na mente das pessoas.

Por outro lado. sociólogos. aliás. Por um lado. processo que durou de 1988 a 1995. por parte dos que nunca quiseram a cátedra de Brasilianística na Universidade Livre de Berlim e retardaram ao máximo a sua criação.3 Ainda segundo Briesemeister: Os estudos brasileiros. sobre ele pesquisaram e escreveram. geógrafos. etnólogos. como a de toda literatura). mesmo em contextos nos quais se impôs como necessária. seria esse País Tropical um paraíso para geólogos. mas também na ignorância da dimensão que a própria língua portuguesa tem no mundo.. Entre aqueles e estas. 349). “Brasil: país do passado?”. que sempre por ele se interessaram. botânicos. tornaram a vigorar. vigorando “enfoques valorativos eurocêntricos e critérios preconceituosos” (Briesemeister. haveria um semidesconhecimento cultural e. p. com o português fazendo parte de uma estrutura que privilegia o espanhol (2000. e por parte dos que provocaram. apoiaram ou facilmente aceitaram a sua extinção quinze anos depois. sempre foi um apêndice de Portugal. caso do nosso Instituto. Dietrich Briesemeister (2000) faz um balanço dessa luta. sendo ela frequentemente . no caso da literatura. E aí também a situação piora dia a dia. nos departamentos de Romanística das Universidades. 3 ainda enfrenta dificuldades para ser reconhecida em sua autonomia (mesmo que relativa. 2000. mesmo.Os estudos de língua e literatura brasileiras no contexto. 349). ou dos estudos hispanoamericanos. como parte da Romanística. p. nos departamentos ou institutos latino-americanos. O desconhecimento e o desinteresse não se manifestariam apenas na ausência ou invisibilidade da literatura. 11 Critérios e preconceitos que. do início do século XIX ao final da década de 90 do século XX. tensionada entre os Estudos de Literatura e Cultura Latino-Americanos – hoje identificados com os Estudos Culturais Norte-Americanos – e a Lusitanística. e paralelamente. Começa constatando nesse percurso um permanente desequilíbrio na visão do Brasil pelos estudiosos na Alemanha. Em palestra realizada no primeiro simpósio internacional promovido pela Brasilianística. ela perde espaço e visibilidade. depois de uma longa luta pela institucionalização da disciplina. que se publicou posteriormente em livro com o mesmo título. uma ignorância quanto à “participação individual do Brasil na cultura universal”.. que ajuda a entender a situação presente.

15. como línguas mais ou menos exóticas e minoritárias: Não obstante o número muito elevado e ainda o aumento da população mundial dos países lusófonos em quatro continentes (. 351). autor de Le Brésil Littéraire. Die Spanisch-amerikanische Literatur in Ihren Hautströmungen. 351). p. Isso revelaria um grande desconhecimento tanto da dimensão quanto da qualidade desta.. como no livro de Max Leopold Wagner. Pelo contrário. a maior parte dos quais. não se fez muito nos países de língua alemã a favor da pesquisa. deixava de fora o Brasil: (O) Brasil continuou ausente das obras que tratavam da América Latina e. 2000. Briesemeister reconhece algumas raras exceções a essa tendência ainda no século XIX.12 Revista Brasileira de Literatura Comparada. constata-se até uma tendência regressiva em comparação com o posicionamento avançado do erudito austríaco (Briesemeister. p. 2009 comparada ao sânscrito e ao romeno. 2000. ficando atrás em relação ao número de alunos (Briesemeister. de 1924 (Briesemeister. . Lamenta que esse exemplo não tenha sido seguido como merecia e acusa mesmo um possível retrocesso: desde aquela obra singular de Wolf.). o ensino torna-se imperdoavelmente reduzido nas universidades alemãs. O português entra em competição com o espanhol como “terceira língua”. como a posição do austríaco Ferdinand Wolf. até há pouco tempo. da valorização e da divulgação da literatura brasileira. como no contraexemplo do livro de Wilhelm Giese. A regra continuaria sendo o predomínio do interesse econômico. O mesmo fenômeno nota Briesemeister nos livros sobre literaturas latino-americanas. p. principalmente.. deixando as manifestações culturais sempre em segundo plano. 2000. n. O Brasil e a Alemanha: 1822-1922. 350-351). de sua literatura. publicado em 1863. em que a literatura é a grande ausente.

o livro de Michi Strausfeld. em Mettingen. a fundação do primeiro Instituto Latino-Americano da Alemanha. a partir de 1995. dos Frades Franciscanos. falava-se freqüentemente em América Latina. Materialien zur lateinamerikanischen Literatur (1976). como o Instituto de Cultura Brasileira. como primeiro centro de estudos interdisciplinares sobre América Latina numa universidade alemã. o mesmo autor resume “o largo caminho da institucionalização” (Briesemeister. Criada em 1989 e somente em 1997. Defendendo a necessidade dos estudos regionais e. a criação de três institutos que continuaram existindo depois dela: o Instituto de Pesquisas sobre Ibero-América da Universidade de Hamburgo. 351-352). p.Os estudos de língua e literatura brasileiras no contexto. da qual tiramos a epígrafe acima. o Instituto Latino-Americano.. a diversificação interdisciplinar. pelo cônsul Heirich Schüler. pontuando. Destaca também novos centros. ao mesmo tempo. 13 Ainda nos anos 60 do século XX. 2000. bem como a de Ray Güde-Mertin. finalmente. . ou seja. p. o Instituto Ibero-Americano do Patrimônio Cultural Prussiano. foi “dotado de uma cátedra (única no país) de literatura e cultura brasileiras. da Universidade Livre de Berlim. em 1912. Por exemplo.. em Aachen. no qual foi proferida essa conferência de Briesemeister.” (Briesemeister. o Instituto Português e Brasileiro da Universidade de Colônia. em Berlim. o Instituto Geográfico da Universidade de Tübingen. p. 2000. 2000. a cátedra mal completara um ano quando organizamos o simpósio internacional. Ainda antes da segunda guerra. mas quase sempre com referência exclusiva à América espanhola. 351) dos estudos portugueses e brasileiros na Alemanha. 353) Essa foi realmente uma conquista significativa. o Centro Latino-Americano de Münster e. ocupada pela autora deste texto. só contém artigos dedicados a autores de língua espanhola (Briesemeister. depois de muitos prós e contras. que só 25 anos depois de criado.

novelas de televisão. encarregados de cursos de língua. como “Altos e baixos estudos”5 de literatura e cultura e não como Cultural Studies. a economia. da Literatura Comparada. entre os quais. que aprenderam português brasileiro com Berthold Zilly e outros excelentes mestres. 4 O termo se deve a Marlyse Meyer. que já constituem mais de dois séculos de um saber acumulado. 2009 Considerando as lacunas apontadas por esses e outros estudiosos. de modo indiscriminado. dedicandose. mitos. A Brasilianística concebeu-se. da Lusitanística.4 Mas isso não significou tratar os textos isoladamente. entre outros. Carlos Azevedo e Carlos Ladeira. da teoria e da história literárias com a linguística. sem desconhecer suas especificidades linguísticas e históricas. a Brasilianística no LAI dedicou-se sobretudo ao estudo sistemático e à divulgação dos textos mais significativos da Literatura Brasileira. permitindo-se juntar num único seminário. tanto como parte de uma hipotética Weltliteraturwissenschaft quanto da Romanística. numa predisposição e abertura para a inter/pluri/transdisciplinaridade. n.15. hoje também leitora na FU. aos estudos sobre cordel e folhetim. bem como da Latino-americanística e em diálogo estreito com a Caribística. Para tanto. implicando um diálogo constante da crítica. dos estudos de teatro. entre outros. a começar por tudo o que o une à América Latina. já nos anos 1970. havendo um esforço permanente para relacioná-los com seus contextos. a cada nova tendência teórica produzida nos centros universitários hegemônicos da Europa e Estados Unidos da América do Norte. Por outro lado. essa foi sempre a direção buscada. mas tudo isso sem esquecer sua base nos estudos de literatura brasileira. artes e comunicações. o qual não podemos esquecer. muito antes de os Cultural Studies se terem transformado em moda na América Latina. embora ela tenha trabalhado também com textos não canônicos e com textos que só podem ser considerados literários em sentido amplo. Zinka Ziebell. valorizava com saudável distanciamento irônico os estudos culturais para além dos cânones literários. como quem inventa a roda.14 Revista Brasileira de Literatura Comparada. arbitrário e puramente folclórico. A Brasilianística concebeu-se. assim. que. poesia oral. a proposta sempre foi trabalhar com o Brasil sem deixar de levar em consideração a sua integração no mundo. contou com uma ótima base linguística dos estudantes. tais como filmes. porque estes muitas vezes tendem a confinar o estudo dos textos e a própria literatura nos países considerados periféricos a um conjunto de informações superficiais e até mesmo estereotipadas das produções culturais. ambos parcialmente financiados com auxílio do governo brasileiro. ainda. a história e as ciências sociais. 5 .

assinar convênios e gerenciálos.Os estudos de língua e literatura brasileiras no contexto. impedindo que se dissolvessem conteudística. . embora vinculando-se estreitamente a elas. escravidão. entendendo que negar essa possibilidade em nome da democracia. música popular brasileira e jeitinho brasileiro. possibilita uma continuidade de produção teórica e prática no ensino e na pesquisa. mesmo que bem intencionada. 15 Como defendeu um colega norte-americano no jornal da Brazilian Studies Association (Brasa). o intercâmbio interdisciplinar com os estudos hispano-americanos de literatura e cultura. todo docente universitário com doutorado poderia fazer. permitiu conquistar um espaço autônomo para os estudos de literatura e cultura. Como já foi dito. para não falar dos professores horistas ou encarregados de cursos –. pois a literatura sempre foi estudada aí como parte da cultura e esta. Isso tudo. a Brasilianística sempre defendeu o espaço e a possibilidade de os escritores brasileiros escreverem e publicarem literatura. o aprofundamento da pesquisa e do ensino específicos da literatura e da cultura brasileiras preservou. aparentemente.. mais o contrato permanente de trabalho. como abertura para o não canônico. como permite o sistema brasileiro: desde orientar teses de doutoramento até coordenar projetos. promover eventos. é preciso saber que na Alemanha. seria um efeito perverso da atitude libertária. tão importante na formação das novas gerações. Por outro lado. Para entender a importância disso – sobretudo porque no Brasil poucos percebem a diferença entre as condições de trabalho de um professor e de um assistente ou de um leitor. como social e histórica. 6 aulas sobre descobrimentos.e redutoramente nas ciências sociais. Guimarães Rosa. O jornal chama-se Fagulha e no número de 1997 estampou esse programa como alternativa aos programas tradicionais de literatura e cultura brasileira. e mesmo intensificou. No caso da Brasilianística.6 Finalmente.. onde a hierarquia universitária se mantém de modo muito rígido e conservador. um cargo de professor implica um espaço próprio e possibilidades bem maiores de fazer coisas que. com esse cargo de titular para a Brasilianística criou-se a possibilidade de os estudos brasileiros escaparem à situação de apêndice dos estudos portugueses ou hispano-americanos. associação de brasilianistas dos Estados Unidos. como em qualquer parte do mundo..

na Alemanha. p. parece ser o lugar institucional ideal para uma disciplina desse tipo. A reforma universitária vinha junto com significativos cortes de orçamento. Entretanto. como a então recente criação da Brasilianística. concorrendo para a integração da América Latina. como no âmbito das reformas anunciadas para o futuro próximo (Briesemeister. com a introdução das reformas curriculares nas universidades alemãs e europeias. tanto na sua tradição. E. pois permite não apenas aprofundar a interdisciplinaridade mas também desenvolver atividades que levem a superar culturalmente o tratado de Tordesilhas. Apesar das várias realizações da Brasilianística – entre outras. a oferta de quatro a cinco cursos diferentes por semestre. ajuste esse que o autor antecipou e que logo iríamos começar a viver de modo vertiginoso. Nas Humanidades. quando a Universidade começava a ser pressionada para ajustar-se às reformas neoliberais. 354).16 Revista Brasileira de Literatura Comparada. piorou. 2000. prevendo a extinção de postos e áreas inteiras. Tais entraves iriam reforçar. a Brasilianística começou a funcionar já num momento extremamente desfavorável. aqueles identificados no passado. a . segundo ele. no sentido acordado em Bolonha: generalização dos cursos de Bachelor e Master e substituição dos cursos tradicionais de graduação. uma das primeiras áreas atingidas foi o português. o que o levava a sugerir um tanto profeticamente que tudo tenderia a piorar: O que impede quase insuperavelmente a independentização dos estudos brasileiros nas condições precárias do momento atual são as estruturas administrativas organizatórias da universidade alemã. ou mesmo por causa delas. 2009 É importante assinalar que o Instituto Latino-Americano. O experiente professor e pesquisador já pressentia nessa reforma novos entraves para os poucos progressos feitos na institucionalização dos estudos de língua e literatura brasileira. apesar de suas contradições. um ano antes do balanço pessimista mas realista de Briesemeister. realmente. e mesmo portuguesa.15. como vimos. n.

Num segundo ano. mas estranhamente assimilada ao BA de Filologia Espanhola. com um BA de estudos brasileiros e portugueses (valendo 60 pontos e não 90. Ele enunciou. o que significa menos carga horária. uma necessidade que estamos longe de preencher: Sem dúvida. em face disso. Relações de gênero. os alunos podem optar entre cinco áreas de concentração: Transformação e desenvolvimento.. inevitável e urgente. ciclo de palestras e publicações. Os “dilemas da institucionalização” ameaçam também a variante europeia da língua e os respectivos estudos literários e culturais específicos da lusitanística. transformações. o que significa. mas também para ajustar a formação profissional dos jovens universitários às exigências de hoje (Briesemeister.. a qualidade da pesquisa científica.000. ao espanhol da América. em menos de cinco anos. como parte do BA de Estudos portugueses e brasileiros. 7 O Master do Instituto prevê um primeiro ano comum. 350). não só para garantir. quando os novos bacharelados já haviam começado e hoje já se evidencia em ambos a necessidade urgente de serem repensados e reformulados. p. a organização de simpósios. a língua e a literatura brasileiras deslocaram-se para o departamento de Filologia Românica. passou para o mesmo departamento. mais econômicos que científicos. menos professores: ou seja. América Latina no contexto global. ao nível do Master. formas de vida. 8 orientação de mestrados e doutorados. Em Berlim. em nível institucional. Esse master começou em outubro de 2005. uma formação mais superficial na área. ao nível do BA. A Universidade Livre tem mais condições hoje de manter uma parte deles. a especialização é absolutamente necessária.Os estudos de língua e literatura brasileiras no contexto. 2000). a assimilação de uma língua de quase 200. concretamente. Como também previu Briesemeister. Literaturas nas dinâmicas culturais da América Latina. decretou-se o seu desaparecimento no âmbito mais geral seja da Lusitanística. o português brasileiro. Brasil no contexto global: literatura. além de um módulo para desenvolvimento de projetos. cultura e sociedade. a Universidade Humboldt encerrou mais radicalmente esses estudos. então. Poder e diferença.8 Ao nível do Bacharelado.000 de falantes. “torna-se impossível conciliar as necessidades da diferenciação adequada com os critérios didáticos de aprendizagem e as relações histórico-culturais dos países do mundo lusófono” (2000. enquanto a disciplina de Latino-americanística. Motivos? Ao que parece. Antropologia cultural..7 seja no âmbito dos Estudos Culturais Latino-Americanos. menos disciplinas. com cinco módulos obrigatórios e alguns opcionais. . a exclusão do Brasil da América Latina ou. como os outros). mas o máximo que conseguiu foi fazê-los sobreviver como diploma complementar aos Bachalerados da Romanística. da qual fazia parte a Brasilianística como uma subárea. 17 As recentes reformas implicaram o fechamento de departamentos inteiros de português em toda a Alemanha. Não apenas a literatura brasileira se vê ameaçada. o estabelecimento e gerenciamento de convênios internacionais com outras instituições dedicadas à cultura e à língua brasileiras no Brasil e na Europa –. Os básicos são: Constituição da América Latina. planejou-se e. Conceitos e métodos da pesquisa sobre América Latina.

ora como seu equivalente ao contrário: puro documento. se propôs a criar um Centro de Pesquisas Brasileiras. esse Instituto conseguiu abrir um cargo de titular em literatura e cultura brasileiras. não aos estudos de literatura e cultura ou aos estudos linguísticos.fuberlin. No caso do Instituto Latino-Americano da Universidade Livre de Berlim. que eram contemplados normalmente no antigo currículo. não foi acompanhada de uma diminuição da demanda. para cursos destinados aos interessados das áreas consideradas mais úteis. eventos. na variante europeia e nas demais. 9 . Existindo desde meados da década de 1970.15. n. ocupado pela primeira colocada no concurso feito em 1990. do instituto mais importante na Alemanha dedicado aos estudos sobre a América Latina. ligadas aos negócios ou às chamadas ciências sociais. após muitas idas e vindas. mas está sendo canalizada.lai. que continua a crescer. com uma tradição respeitável de estudos sobre o Brasil e que.de/studium/disziplinen/ brasilianistik/index. para os quais a literatura é vista ora como uma joia supérflua. pela extinção do cargo após a aposentadoria da sua titular. que quase dez anos depois. justifica a criação de bacharelados disciplinares em que os estudos portugueses e Veja-se a lista das publicações. entretanto. cursos e projetos de pesquisa em nossa homepage: <http://www. E justamente agora. “sorriso da sociedade”. como vimos. recentemente. consiste em. em 1997. coerentemente com a tradição de que nos falava Briesemeister. 2009 A restrição da oferta no ensino de português. que por si só a justifica. quando expressivos resultados do trabalho aí desenvolvido começam a aparecer.html>. veio a ser. só em 1989. como vimos. há um paradoxo. com tentativas de fechá-lo antes que começasse a funcionar e tendo funcionado dois anos com professores substitutos. Uma tarefa da Brasilianística. Essa concepção ainda positivista da literatura e das artes embasa ou. como queria o escritor brasileiro Afrânio Peixoto no início do século XX. finalmente.18 Revista Brasileira de Literatura Comparada.9 corta-se a sua continuidade. Trata-se. pelo menos. ajudar a superar tanto uma suposta autonomia absoluta dos estudos filológicos quanto o preconceito de muitos brasilianistas das ciências sociais. indo além do seu próprio gueto.

aí se procura articular em torno de certos temas. portanto. pelo menos desde Aristóteles. incapazes de dar conta da sua complexidade como objeto feito de palavras que são ao mesmo tempo coletivas e individuais. bem como a historicidade das formas. pois o que se ensina. o que importa aqui é a qualidade da formação. mas não se sabe ainda muito bem o que fazer dos estudos da cultura quando esses ultrapassam as leituras meramente conteudísticas e passam a investigar o tratamento dado aos temas. um método para que cada um produza seu próprio método. perdendo sua especificidade. mais que uma série de informações sobre eles.11 História. Mais que quantidade de informação. o que não significa utilizá-los de modo acrítico ou extemporâneo. 11 brasileiros têm menos pontos (60. 10 Nesse conjunto. em que a literatura e a cultura submergem nos chamados estudos de área. que abrange toda a América Latina e o Caribe. servida por apenas um cargo de titular. a Brasilianística voltou a fazer parte de uma só disciplina. que é a capacidade de trabalhar intensivamente. Em meio a tantas mudanças. No caso da literatura. o que implica a desconsideração total da questão estética. como ocorria há quinze anos. pelo predomínio da análise conteudística ou a abordagem das condições de produção ou de recepção dos textos. neste caso. o que configura necessariamente uma grande restrição. o que tentamos. é uma atitude analítica.. mas como concentração desses estudos em algumas universidades em detrimento de outras.. Socio- . senão um lamentável retrocesso. começa-se a rediscutir as bases do nosso Master de Estudos Latino-Americanos que se quer interdisciplinar. a partir do semestre de inverno de 2010. a Associação dos Lusitanistas alemães faz um balanço do desmonte dos estudos de língua e literatura em língua portuguesa e constata que ele prossegue. 19 A cada ano. embora uma avaliação menos pessimista não veja isso como desmonte. foi resguardar o essencial. Lateinamerikanistik/Brasilianistik (Literatura e Cultura Latinoamericanas). considerados prioritários. com profundidade. De todo modo. necessárias e esclarecedoras mas externas a eles e.Os estudos de língua e literatura brasileiras no contexto. e esta não se faz sem um domínio da linguagem em que se expressa cada texto como produção simbólica. as diferentes disciplinas – Altamerikanistik (Antropologia e Arqueologia do continente americano). mas tampouco fazer tabula rasa do capital teórico e analítico aí acumulado. no nosso espaço cada vez mais restrito. Atualmente. contra 90 nos bacharelados principais)10 e menos tempo ou nos Masters interdisciplinares. textos que constituem nosso objeto de estudo. sem o domínio da língua e dos métodos de leitura desenvolvidos pelas teorias da literatura.

chegando à “expressão dos sentimentos no âmbito familiar” (Candido. tivemos até quase o final de 2010 uma situação que se pode considerar de excelência na área dos estudos brasileiros. pode dizer muito mais sobre a vida. com a Economia. com a Antropologia. mesmo que não quisessem sê-lo. onde. como reconheceu há muito Antonio Candido. com a Política. o que precisava ser compreendido.15. nesse diálogo das disciplinas. é o de explicitar a comparação imanente. Ao mesmo tempo. o que implica a busca de padrões e categorias que permitem tratar adequadamente semelhanças e diferenças. No caso da literatura. p. mas dificilmente o é. E num país onde a literatura se forma sob a pressão e a certeza de que se está gestando com ela também a nação. Parece óbvio – mas nem sempre o óbvio é percebido como tal – que não é possível realizar um trabalho inter ou transdisciplinar sem respeitar os pressupostos epistemológicos e metodológicos próprios de cada disciplina. Mas é verdade que isso se fez muitas vezes de modo implícito. Essa excelência deriva de . 2009 logia. é que. 1989. Quem estuda literatura e cultura num país como o Brasil sabe que não é possível fazê-lo a não ser estabelecendo comparações. tudo foi historicamente permeado pela literatura. incluindo a literatura e cultura. Como devem ser abordados os objetos literários a partir da perspectiva dos estudos propriamente literários. é preciso reconhecer que. O desafio. principalmente se tratando do Brasil e da América Latina. A teoria e crítica literárias aí já nasceram comparadas. em Berlim.20 Revista Brasileira de Literatura Comparada. agora. n. quando ela aparece na sua complexidade. “desde o formalismo jurídico até o senso humanitário”. 180). a fim de que esse diálogo realmente seja um diálogo e não a submissão ou a diluição destes perante uma hegemonia das ciências sociais? Seja como for. não é possível estudá-la sem relacioná-la intimamente com a História. com a Sociologia. trata-se de um desafio que é o desafio de todo trabalho interdisciplinar. Ciências Políticas e Economia. ao mesmo tempo como criação estética e como documento.

como foi o caso do movimento iniciado pelos estudantes da Universidade de Jena. teoria e história literárias. como ocorre atualmente na Universidade . além de contarmos com uma professora para essa cátedra. se antes havia pouco incentivo.. caso não se venha a compensar de forma consistente a perda da Brasilianística. Aqui e acolá há sinais de resistência que nos impedem de desanimar. A situação negativa que os estudos de literatura brasileira. hoje se financiam novos leitorados para compensar algumas perdas ou se estabelecem convênios que permitem preservar sobretudo os cursos de língua que sobreviveram nos novos currículos. com base no texto citado de Briesemeister. provocou periodicamente balanços extremamente negativos.Os estudos de língua e literatura brasileiras no contexto. o que foi previsto no processo de criação do Centro de Pesquisas Brasileiras acima referido. Pelo lado brasileiro. cujo apoio aos leitorados parecia ter-se enfraquecido. sem falar nos encarregados de cursos que ajudaram a ampliar e diversificar a oferta de cursos desde o início. mas que na verdade era realismo. mas também num estudo de Walnice Nogueira Galvão e em informações divulgadas nos encontros bienais da Associação de Lusitanistas Alemães. graças à organização da comunidade científica dos Lusitanistas e Brasilianistas. volta a se fazer presente. financiando pelo menos parcialmente alguns leitorados. vêm enfrentando nos últimos anos. no contexto dos estudos de português em geral. Essa excelência precisa ser defendida e potencializada. mas isso parece difícil de ser conseguido. o que chegou a ser lido como nostalgia.. crítica. sob o mote de “Wir wollen Portugiesisch” (Nós queremos português). dentro e fora da Alemanha. reforcei esse tom pessimista em outras publicações. resumida ao longo deste texto. Eu mesma. o Instituto Camões. Hoje em dia a situação começa a mudar. Quanto à variante europeia do português. mas também graças à importância reconhecida do Brasil para as relações internacionais da Alemanha. 21 que. contávamos também com um leitor extremamente competente tanto no ensino da língua brasileira quanto na tradução.

também estamos produzindo um material contrastivo. é elemento de apoio básico nesse ensino. eles terão oportunidade de desenvolver um conhecimento mais profundo e uma prática linguística mais ativa nos módulos mais avançados. as outras variantes da língua são. no Bacharelado de Estudos Portugueses e Brasileiros da Universidade Livre de Berlin. produzindo e compilando tanto um material básico para iniciantes. entre eles os que tratam das manifestações culturais afro-brasileiras ou dos povos indígenas. 12 . vem sendo desenvolvido pelas Dras. num esforço de cooperar para vencer a tendência a concorrer e dividir. 2009 Livre de Berlim e na Universidade Humboldt. pelo lado da literatura talvez o desafio Esse trabalho. Isso tudo leva a juntar forças. tais como textos de e sobre literatura e cultura. Assim.22 Revista Brasileira de Literatura Comparada. a experiência da variante brasileira. vem sendo preparada e sistematicamente atualizada. que foi iniciado e prossegue no âmbito de um convênio com o Brasil. quanto outros mais complexos. desta vez com o espanhol. Dessa forma. em que o português europeu é central. com ajuda da Embaixada Brasileira. como instrumento ágil para proporcionar aos estudantes de português. n. desde o início da sua formação no bacharelado. No que diz respeito à variante brasileira. Uma produção de material didático de caráter contrastivo do português brasileiro com o português de Portugal e de Angola. que vai de mapas a dados numéricos e históricos.15. os diferentes registros da língua portuguesa e suas variantes regionais e nacionais passam a ser considerados riqueza comum e não instrumentos para reafirmar hierarquias e justificar discriminações. já que a maior parte dos estudantes tem conhecimento dessa língua. em português brasileiro. desde o início. No caso do Master de Estudos Latino-Americanos.12 Se pelo lado do ensino da língua esses são o panorama e o desafio atuais. objeto de estudos comparativos. estamos fazendo um trabalho desde 2007 no sentido de conceber cursos de cultura brasileira para além dos tradicionais e panorâmicos cursos de civilização. a partir dessa base. coordenado por Ligia Chiappini e mediado pela Embaixada Brasileira. para ser usado no sistema do e-Learning. Também uma antologia de textos curtos e atuais. Zinka Ziebell e Rosa Henckel. em que se trabalha mais diretamente com o português do Brasil. de diferentes gêneros. Assim.

que a boa literatura carrega junto com as suas dimensões ideológicas conservadoras. assim como Briesemeister.. coincidiu com um debate sobre a literatura brasileira como um mau negócio. como documento ou como mercadoria. no caso do best-seller. Pois se já poucos reconhecem a importância de estudar a língua portuguesa e suas variantes para a comunicação e outros usos meramente instrumentais. que já em 1998 Ray Güde-Martin tematizava no trecho aqui escolhido como epígrafe. porque esta também só interessa. 13 seja maior.Os estudos de língua e literatura brasileiras no contexto. Um exemplo disso é o caso de Guimarães Rosa. menos ainda se valoriza o conhecimento da língua como matéria e forma da e na literatura. branca. expresso na representação espetacular do brutalismo nas favelas. o quadro tampouco é positivo. um posto de Professor para Literatura Brasileira. citando o crescente interesse de um certo público e a presença maior dos escritores cineastas e artistas brasileiros em encontros. que implica um grau mais alto de elaboração linguística. . 2008. porque julgada elitista. 23 Alusão a um debate realizado no Instituto Iberoamericano de Berlim em parceria com o Instituto Goethe de São Paulo.13 Constatava-se aí que a literatura de qualidade estaria perdendo terreno para a literatura meramente comercial e para uma espécie de novo exotismo. A literatura mais exigente. dificilmente consegue ser republicado. Mesmo assim. como vimos. apesar do balanço negativo. simultânea e pioneiramente. termina seu texto de modo otimista. pois a Universidade e pareceristas externos a ela reconheceram a autonomia e a dimensão desta para comportar uma abordagem específica. que trabalham com clássicos da chamada literatura universal.. O ano do seu jubileu. é simplesmente demonizada ou ignorada. ocidental. do ponto de vista editorial. Mas. ainda não conseguimos despertar o interesse de colegas e estudantes de outros departamentos da mesma universidade. E. Desconsidera-se aí aquilo que Antonio Candido definiu como contraveneno. Considerado muito difícil e tendo suas traduções em alemão esgotadas. por quase 15 anos. em março de 2008. No Instituto Latino-Americano tivemos por quase 30 anos um cargo pleno de leitor para Português Brasileiro e.

Brasil. Os estudos brasileiros na Alemanha. p. n. 354). 349-357. Antonio. Referências BRIESEMEISTER. mas continuamos apostando que o trabalho desenvolvido no espaço conquistado para a literatura brasileira no Instituto Latino-Americano da Universidade Livre de Berlim poderá ajudar a superar essa esquizofrenia. pelo reconhecimento das lacunas e a invenção de novos mecanismos que ajudem a preservar e a desenvolver o que já foi realizado. CHIAPPINI. traduzem e comentam o melhor da literatura brasileira. semanas culturais dedicadas ao Brasil. 2000. 251-263. MartiusStaden-Jahrbuch. Antonio. n. In: A educação pela noite e outros ensaios. Dietrich. colóquios. p. 52.” (Briesemeister. Ligia. 2000. São Paulo: Ática. Literatura e cultura no contexto dos estudos brasileiros na Alemanha: a cátedra de Brasilianística. acreditar.15. Infelizmente. São Paulo. em certo modo esquizofrênica. que a indiferença pela Literatura do Brasil e o seu desconhecimento podem ser superados na Alemanha. ZILLY. CANDIDO. p. muito do diagnóstico de Briesemeister ainda vale para o presente e a maioria dos brasilianistas alemães ainda “leva uma existência profissional acadêmica. 1989. apesar de todas as lacunas e retrocessos. estudam. Literatura de dois gumes. In: CHIAPPINI. DIMAS. rivalizante e paradoxal. podemos ainda. 2005. bem como a atuação de colegas que ensinam. . além das associações que ajudam a manter a vitalidade do setor. país do passado? São Paulo: Boitempo.). Berthold (Orgs. mais de dez anos depois.24 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Ligia. 2009 recitais.

exclamou num libelo político as seguintes palavras contra a opressão turca: “Tenho notícias de que no Brasil há terras desertas em abundância. doesn’t suit to. façamos uma colônia tornando-nos cidadãos Departamento de Português. expectations. Brasil e Hungria: primeiros contatos Os húngaros. expectativas. Miklós Zrínyi. quando o autor da epopeia nacional húngara Szigeti Veszedelem (“Desgraça de Szigetvár”). FL da ELTE (Faculdade de Letras da Universidade Eötvös Loránd) de Budapeste.25 A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria Ferenc Pál* resumo: O presente trabalho estuda as condições da recepção da literatura brasileira na Hungria. traduzida muitas vezes para servir interesses privados ou políticos. inteiraram-se da existência do Brasil no século XVII. recepção da literatura. * . The Hungarian (reading) public has got a lot of information about this country during the XVII-XIXth centuries. keywords: image of Brazil. escritor. exótico. so formed an image about Brazil what the literature. não correspondia. se bem que de uma forma e em condições um pouco especiais. peçamos pois ao rei espanhol [sic!] uma província. translated for serving private or political interests. reception of the literature. o público húngaro formou uma imagem do Brasil a que a literatura. Instituto de Romanística. abstract: This study examines the reception of the Brazilian literature in Hungary. político e eminente militar da época. exotic. palavras-chave: imagem do Brasil. Tendo-se inteirado da existência do Brasil e obtido muitas informações deste país nos séculos XVII a XIX.

26 Revista Brasileira de Literatura Comparada. kérjünk spanyor királytul egy tartományt. 2 Cf. em Tyrnavae. 1854. n. as expectativas do público são bem ilustradas pelo mesmo semanário Vasárnapi Újság. primeiramente por causa da emigração. publicada no Rio de Janeiro. 4 Andersen – Dr. que a Hungria integrava. “Utazás a föld körül” (Viagem em torno da Terra). 14. Hegeds. legyünk polgárrá. por Franciscum Szedlar e pela Sociedade de Jesus. n. mas que. as notícias também mostram o Brasil como parceiro comercial e cultural da Hungria. no entanto. 1661/2009). Nos séculos posteriores houve notícias esporádicas do Brasil. em especial sobre a consequência do trabalho dos jesuítas húngaros. que a partir de então o Brasil devia ou podia existir no subconsciente húngaro como um lugar particular.15. 1854. distinto. que se iniciou depois da abolição do tráfico de escravos em 1850. 1968.5 informando que a região atrai os visitantes com a beleza da sua vegetação. versados na literatura. ou melhor o Império Austríaco. mantiveram contatos diplomáticos a partir de 1817. 17 set. 243244. Nas notícias po- “Ugy hallom Braziliában elég puszta ország vagyon. que “numa antologia geral. Vasárnapi Újság. porque na década de 1850 já temos notícias do Brasil que dizem respeito a atividades de magiares. provoca má impressão aos viajantes europeus.2 Um conhecimento mais intenso. que participavam como missionários no levantamento topográfico e na descrição das terras brasileiras. Japone.” 1 É em parte resultado do seu trabalho o livro Itinerarium peregrini philosophi. p. 1854-1860). acham-se onze poemas húngaros” (Vasárnapi Újság. Canada et Brasilia definitum. Vasárnapi Újság. na seção “Tárház” (“Depósito”). na questão do urbanismo. csináljunk egy coloniát. Sinis. 5 . começou a difundir-se no século XIX. n.4 bem como relatos sobre viagens a esse país e nomeadamente ao Rio de Janeiro. Cicincina. notícias interessantes. algumas vezes abordadas de forma científica.1 Podemos supor. Entre os primeiros emigrantes supostamente havia também húngaros cultos. entre eles János Zakariás e Dávid Fáy. 2009 [daquele país]”(Zrínyi.3 e nos meados dos Oitocentos já havia um contato regular entre os dois países. 4 jun. Além de seus aspectos exóticos. Em seu número 44. sobre a curiosa flora e fauna brasileiras. sem nos atrevermos a tecer proposições freudianas. 29. Ramirez. de 30 de outubro de 1859. cujas páginas trazem. O Brasil e a Hungria. editado em 1720 na Universidade Arquiepiscopal. Nos jornais e revistas húngaros da segunda metade do século XIX podemos ler muitas informações sobre o Brasil. o semanário de Budapeste Vasárnapi Újság informa. Quanto à presença do Brasil e das coisas brasileiras no imaginário húngaro da época. em primeiro lugar. 3 “Tejfa” (Árvore que dá leite) “ Um relato sobre a fauna do rio Amazonas e do Rio Negro.

Rio de Janeiro. 8 Vasárnapi Újság. 23. no início da década de 1870: “[Mór Jókai] tem amigos soberanos. Dom Pedro.9 Rthy Frigyes fala sobre o “povo estranho” que vive no Brasil. 27. morreu no Brasil. Pedro a Budapeste. aliás escritor favorito do imperador D. 6 Vasárnapi Újság. a fim de poder ter um contacto mais íntimo e fácil com o seu parente espiritual. o interessante imperador brasileiro. publicado no ano de 1928. e não no apartamento oficial. inexistente em território húngaro. n. László Alvinczy.” 11 Vasárnapi Újság. hospedou-se intencionalmente no Hotel ‘Angol királyn’. como em Az arany ember (O homem de ouro. 1858. exótico. 6 set. n. n. romancista romântico de fantasia profícua. 1883.8 ou informações sobre a proclamação da República no Brasil e outros acontecimentos de política interior. 1889. cidade do sul da Hungria de então. 1873). Em um artigo no Vasárnapi Újság. sobre o fato de que um comerciante húngaro transportou vinhos de Arad. n. dez. publicado no Hírmondó. juntamente com informações de caráter político. 1857. condigno a um monarca. e que um aristocrata húngaro. pitoresco.7 No enorme número de revistas e jornais que saíram na Hungria do último terço do século XIX. Pedro II.11 em cujas obras as aventuras acontecidas no Brasil e certas peripécias econômicas andam de mãos dadas. 9 “A vizi boa-kigyó” (A jibóia – serpente da água). 1969. 1857. também se fala na flora e fauna brasileiras. referindo-se dessa maneira à população negra. Gyula Szini fornece em “Jókai: Egy élet regénye” (“Jókai: Romance de uma vida”) a seguinte informação sobre a curiosa visita de D. p. envolvidos em aventuras rocambolescas. por exemplo. 12 demos ler informações sobre o cultivo e comércio do café. prestigiosa revista literária de Budapeste da primeira metade do século XX. satisfazem-na tanto os artigos publicados nos jornais como os livros publicados nessa época. O artigo intitulado “A vizi boa-kígyó” (A jibóia – serpente da água).6 também se informa que a cantora Lagrange cantou uma ária do compositor húngaro Ferenc Erkel no Teatro da Ópera do Rio de Janeiro.A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria 27 Vasárnapi Újság. etc. Hírmondó. Vasárnapi Újság. No conto do escritor intitulado Tíz millió dollár (“Dez milhões de dólares”). 7 II. em que se .10 descreve alguns animais repulsivos do Brasil. para a capital do Brasil. nos romances posteriores – para além de meras referências a um ou outro fenômeno curioso. imperador brasileiro). 17. como foi. Dom Pedro brazíliai császár (D. 10 Uma comunicação da revista literária Nyugat. Pedro II. o artigo de 1889 sobre a visita de Dom Pedro II à Hungria nos anos 1870. 17 out. 42.. Essa demanda pelo estranho. “Egy magyar tengerész Brazíliában” (“Um marujo húngaro no Brasil”). os personagens. informa que o imperador tinha em grande estima a obra de Mór Jókai. n. No número 5 da revista. Esta duplicidade da imagem ou dicotomia da recepção do Brasil também se observa na obra de Mór Jókai. 29 abr. 49 a 52. n. o bondoso Mór Jókai. graças a um dono de barco brasileiro passam uma semana no Rio de Janeiro. Com estranhamento. 274. 24 nov. 47. pretendia-se satisfazer a curiosidade do público leitor em relação ao exotismo.12 Mas. no Castelo de Buda.

. quando na Hungria aconteceu um câmbio de paradigma político.] incluindo a China [..] o Japão e o Brasil. p.17 Depois da Segunda Guerra Mundial. tornou-se terreno de lutas políticas das forças populares contra o imperialismo e pela paz. onde as condições de vida e de trabalho eram semelhantes às da Hungria.. 11 jun. 1870). 4. s/d). o romancista fala largamente sobre as relações comerciais entre a Austro-Hungria e o Brasil.16 O Brasil. alvo da emigração húngara.. [. selvas.14 Na ficção fantástica A jöv század regénye (O romance do século vindouro. como A brazíliai fenevad Segunda parte: “[... 1926). “A brazil nép lelkesen támogatja a békeegyezmény megkötését követel felhívást” (O povo brasileiro apoia com entusiasmo o apelo por celebrar o acordo pela paz. na década de 1950.18 Contudo. apátridos. como afirmavam muitos livros de não ficção dessa época. Ahol a pénz nem isten (Onde o dinheiro não é deus. lá estão as minas de diamantes mais famosas”. o Brasil. 1872) também se leem divagações de teor econômico: “Até não querermos mais do que a importação do café. Békéscsaba. quando por causa do enorme número de emigrantes húngaros o Brasil entrava no dia a dia húngaro19 como um país “normal”. 16 Dezs Migend: A brazíliai aranyhegyek árnyékában (Sob a sombra das montanhas de ouro brasileiras.. Budapeste.] Kína [.] Japán és Brazília befoglalásával” (Jókai. a exigência ou a ânsia do exótico continuava a existir por parte do público. p. Béla Bangha: Dél-Keresztje alatt (Sob a cruz do sul. ott vannak a leghíresebb gyémántbányák” (Jókai.. no que dizia respeito ao Brasil. É de lá que transportam para cá o algodão e o tabaco. mint kávé. n. hazátlanok (Arranha-céus. Vasárnap. foi o paquete Adria que a transportou até o Rio de Janeiro”. Nos anos 1930 e 1940. s/d). Onnan hozzák a gyapotot meg a dohányt. 14 Primeira parte: “Amíg nem terjeszkedünk többre. 2009 lê sobre um sapo luminoso que “irradia uma luz fosforescente” e “canta de noite nos interiores. 1936). Arad. 23. 13 Primeira parte: “A senki szigete” (“Ilha de ninguém”): “Brazília fvárosa Rio de Janeiro. brazíliaiak mind csupa ezüsttel fizetnek. Tartós Békéért. Ao menos era assim que os órgãos políticos húngaros informavam seus leitores.. 18 . s/d).. 17 Sobre a situação interna do Brasil saíram artigos com títulos: “Brazília vezet személyiségei az atomfegyver betiltásáért” (Principais personalidades do Brasil defendem proibição de armas nucleares.] a peruiak.15. s/d). escreve que “os peruanos e os brasileiros sempre pagam com prata”. n.” (Jókai. por exemplo. aparece a frase: “A farinha era um produto húngaro. No romance Fekete gyémántok (Diamantes pretos. 1950). 1935) e Lajos Wild: Tizenöt év Brazíliában (Quinze anos no Brasil. 1905).] às vezes tão alto que sua voz suplanta a dos cantores e da orquestra na ópera” (Jókai. na ficção húngara de temática brasileira se registram ainda muitos elementos exóticos. e com um contingente grande de emigrantes na primeira metade do século XX. Tartós Békéért. Romances que se movem no universo das obras da literatura de cordel.. 15 “A liszt magyarországi termény volt. s/d) –..”15 Em seu último romance. gyapot és kolaj behozatalára [.13 E mesmo em Az arany ember informa que “A capital do Brasil é o Rio de Janeiro..28 Revista Brasileira de Literatura Comparada.. do algodão e do petróleo [. Zoltán Nyisztor: Felhkarcolók. Rio de Janeiroig Adria gzös szállította” (Jókai... serdk. n. 2. Budapeste. 1934). tornou-se um cenário real. 23.

Nesse livro e nalguns outros que o seguiram ele não fez senão relatar o que tinha experimentado e visto naqueles dois anos que viveu no Brasil. Cf. Mas. Budapeste: Európa. e o ambiente brasileiro de pequenas povoações à beira da selva e dentro da selva amazônica passou a ser palco de histórias movimentadas. podemos mencionar que tradicionalmente. Se dissemos em outra ocasião. Contudo. essas experiências colhidas da realidade ficavam em segundo plano. que prefere relacionar o Brasil com o exótico. 1951). 1997. Cf. tenham um maior halo de conotações na Hungria. jan. p. 11-37. 1942. que em 1930 viajou à selva amazônica e.20 o livro de contos Villanó fények az serd mélyén (Luzes cintilantes no fundo da selva). o erotismo desenfreado ou requintado.26 no caso do Fazendo referência à “rivalidade” de Portugal e do Brasil. p. e em especial no século XIX. Budapeste: Nemzeti Figyel..25 citando palavras de Simone Beauvoir. 121. O autor foi cônsul húngaro no Brasil entre 1928 e 1942. depois de perder a vista num acidente. lentamente passava-se a ter condições de formar do Brasil uma imagem diversificada e verídica que correspondesse à realidade do país. apesar de que alguns momentos da literatura portuguesa. La force de l’âge. 19-33 e Pál.24 Assim. 24 25 26 Cf. 1996. 1944. têm muito desse exotismo. com o tempo. 2004c. Budapeste: FerencesVilágmisszió kiadása. n.. 1951). . p. saiu em 1940. 2004b. Pál. Cf. p. Tartós Békéért. 11. se desenha nos romances do ex-naturalista Gábor Molnár. 1965. intitulado Kalandok a brazíliai serdben (“Aventuras na selva brasileira”). “A brazíliai Kommunista Ifjúsági Szövetség újjászervezése” (A reorganização das Juventudes Comunistas brasileiras. de aventuras na selva. 22 (A fera brasileira). 2004a. 19 20 21 Budapeste. 161-171. de Mihály Witte. o Brasil estava mais representado na imprensa húngara do que Portugal. 1940. parece que há determinadas expectativas. e o fez num estilo vivo e vigoroso.22 de um tal László György. Pál. as liberdades do carnaval e das praias do Rio de Janeiro. do panorama histórico acima traçado. para quem “a literatura é a melhor via para se conhecer um país estrangeiro”. mescla do relato de experiências pretensamente vividas e de histórias imaginadas. que sempre nos instiga a fazer cotejamentos. O primeiro livro dele. regressou à Hungria e começou a escrever ficção. Em húngaro: A kor hatalma. aventuras entre os índios e na selva. 3.21 e o Brazíliai nagybácsi (O tio brasileiro). Pál. p. por meio da obra e figura de Camões e de Pessoa. preconceitos ou ideias fixas que orientavam e orientam o gosto do público. etc. de Tibor Magyar.A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria 29 10 jun.23 que o público húngaro havia muito tempo tinha tomado conhecimento do Brasil e que esse país ocupava um lugar privilegiado na consciência húngara. Boglár Lajos. 23 Presença da literatura brasileira na Hungria Podemos deduzir. Outro Brasil.

As primeiras informações da literatura brasileira chegaram por via dos verbetes das enciclopédias editadas na viragem dos séculos XIX e XX. temos de estudar a recepção das obras brasileiras e ver quais delas tiveram impacto no meio húngaro. v. 1911).). existente mas sem influência. independentemente do valor da obra e das intenções dos editores. Em A Pallas Nagy Lexikona (A grande enciclopédia da [Editora] Pallas) ainda não se encontra uma informação sobre a literatura do país no verbete Brazília. se queremos ultrapassar uma simples enumeração. à maneira positivista. encontramos informações cada vez mais sofisticadas sobre a literatura brasileira. Gonçalves Dias e Tomás António de Gonzaga) a obra já dedica verbetes autônomos. n.27 mas a alguns poetas destacados (como Gonçalves de Magalhães. Nessa enciclopédia já é maior o número de autores com verbete autônomo (encontramos verbetes sobre os autores mais importantes ou renomados do Romantismo. Nas enciclopédias posteriores. publicada 27 A Pallasz Nagy Lexikona. 3. Gadamer ou outros teóricos que supõem alguma identificação conotativa com uma obra para fazê-la sair do âmbito do simples terreno denotativo. na iniciativa de grande envergadura da Világirodalmi Lexikon (“Enciclopédia da literatura universal”). de 1911. da Révai Nagy Lexikona (Grande enciclopédia de Révai) já se encontra um verbete em separado sobre a “literatura brasiliana” rezando que “a literatura brasiliana durante muito tempo foi apenas um ramo da literatura portuguesa e só nos últimos tempos começou a se desenvolver em rumo diferente” (Révai Nagy Lexikona. Bernardo Guimarães. partindo das ideias de Ricoeur. Álvares de Azevedo. etc.30 Revista Brasileira de Literatura Comparada. em especial nas enciclopédias de literatura universal. que representam uma matéria morta. Esse critério talvez seja muito rigoroso e restritivo mas. só foram aceitas pelo público e tiveram êxito na Hungria as obras brasileiras que satisfizeram as expectativas acima enumeradas. No volume 3. 2009 Brasil havemos de acrescentar que. das obras traduzidas da literatura brasileira.15. como Macedo. . até que.

até a publicação dos primeiros volumes da “Grande Enciclopédia de Révai”. com o título Az ápoló. há informações a respeito de um conto de Monteiro Lobato que saiu na revista ilustrada de lite- . foi um conto de Machado de Assis. na realidade. em seguida surgem as primeiras publicações de traduções que. não se traduzira obra brasileira alguma para o húngaro. que ainda não se fazia acompanhar de traduções de obras para efetivo conhecimento por parte do público húngaro. não foi possível consultar.29 Infelizmente. 28 Világirodalmi Lexikon. Por outro lado. o número mencionado do periódico. Na seção de folhetim. incerto quanto aos dados bibliográficos: é um conto de Ottavio Brandão. nem encontramos em nosso trabalho de pesquisa nenhuma outra menção de obras traduzidas desse país. n. 1-2. 1.28 Temos outro texto brasileiro traduzido para o húngaro. até o momento da redação deste artigo. de forma que não temos informação sobre qual dos contos do autor figura na revista. não são mais do que informações gerais dessa literatura. sem indicação do nome do tradutor. Világ. dado que nessa enciclopédia não há referências a obras brasileiras publicadas em húngaro. por exemplo. v. quer dizer. além dos verbetes sobre a literatura brasileira e fenômenos literários ligados com o Brasil (como. 1912. Assim. verbetes sobre 228 escritores brasileiros. figuram. com relação ao modo como as letras brasileiras tornam-se de fato conhecidas na Hungria é bastante difícil identificar os fatores determinantes da expansão desse conhecimento: por um lado temos as primeiras notícias informativas. p. o Modernismo). 46. Essa informação aparece na “Enciclopédia da Literatura Universal”. ano III. publicado em 1912 no jornal Világ de Budapeste. publicado no (suposto) número 1 da revista intitulada Új Hang. uma revista político-literária publicada em Moscou. 1090. e após esse conhecimento geral surgem ou podem surgir as obras com as quais o público leitor tem já um contato mais familiar. segundo podemos afirmar hoje. Parece-nos mais ou menos evidente que.A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria 31 “Az ápoló” (“O enfermeiro”). 23 fev. Tratava-se de mera informação sobre as letras brasileiras. até os anos 1910. A primeira obra brasileira traduzida para o húngaro. p. 29 entre 1970 e meados de 1990. de 1931.

relegando ao segundo plano aqueles que em versos Az élcfaragó. indica o primeiro momento da difusão mais abrangente da literatura brasileira na Hungria. oferecia uma avaliação ponderada do autor: “Monteiro Lobato é o criador da moderna literatura nacional no Brasil. Tem por objetivo fazer um contraponto à literatura francesa. Nos poemas da antologia prevalece um certo gosto ou “ar” parnasiano. rejeitando satisfazer um gosto pelo exótico ou movido por um interesse folclórico.30 O conto Az élcfaragó (Fabricante de piadas) saiu na seção “Narradores Estrangeiros”. ano XVI. p. 1939. p. ao mesmo tempo.. 30 Para os poucos que não conheçam seu nome. traduzida por Paulo Rónai. que tem poemas de 25 poetas brasileiros da primeira metade do século XX. 8). acompanhados de uma introdução que esboça o panorama da literatura (ou antes: da poesia) brasileira. é num parecer bastante generalizado que um livro de poemas. Assim.. experimentando uma vida intelectual cada vez mais profunda” (Rónai. 1939. In: Pásztortz (Kolozsvár/Cluj).15. falta o couleur locale. no prefácio do livro. 1930. A apresentação avaliativa do autor faz-nos supor que é trabalho de uma pessoa conhecedora da literatura brasileira e mostra a seriedade daquela revista. um pouco frios. que reunia uma série de escritores da Transilvânia da época. e. Trata-se da seleção intitulada Brazília üzen (“Mensagem do Brasil”). contudo eles contêm uma cintilação tropical indefinida” (Rónai. editada na Transilvânia. 2009 ratura e artes intitulada Pásztortz (Fogueira de Pastores).32 Revista Brasileira de Literatura Comparada. 8). o tradutor afirma: “Nos seus versos muito burilados. 391-393. de saída. enérgico e em vias de desenvolvimento. apresenta a poesia brasileira como manifestação “de um jovem povo com cultura. é uma publicação que lança os alicerces para um conhecimento ulterior. não obstante passar quase despercebido. Afinal. 31 . e foi acompanhado de uma nota que. indicado apenas com a abreviação: Szys. revelar as enfermidades da alma brasileira. Paulo Rónai. 24 ago. A seleção deu preferência aos poemas de alto quilate poético. com um círculo reduzido de leitores.” (Pásztortz. p. publicado em 1939. 17. n. Sobre a poesia de Olavo Bilac. n.31 Este livrinho. informamos que Paulo Rónai (1907-1992) é um literato húngaro que em 1940 trasladou-se para o Brasil como bolsista do governo brasileiro e nesta sua nova pátria desenvolveu variada atividade como tradutor. p. além dos dados biográficos. crítico e historiador de literatura. 1930. os critérios da seleção dos textos já contavam. Sem nome completo do tradutor. 391). universalizantes.

32 desiguais e livres apresentavam cores e tons mais ásperos. e da Europa maltratada bate-se a resposta: ‘Obrigado!’” (Bálint. na sua colaboração para a Enciclopédia da literatura universal. p. anteriormente. Não sejamos. Suas palavras novamente refletem . por exemplo. já sabemos. de que os brasileiros são gente feliz porque têm preferência pela literatura pura. assinalamos que o publicista pôde ler as traduções de Paulo Rónai antes da publicação do livro Mensagem do Brasil.. e não as peculiaridades exóticas. por exemplo. 7) É com estas palavras que o texto termina: “Agora desde escrivaninhas brasileiras.. os que Ronald de Carvalho escreveu a respeito do Brasil. alheia aos trágicos problemas nacionais. se familiarizara com o Brasil pela leitura das traduções de Paulo Rónai35 chega à conclusão. muito mais tarde.32 Assim. percebe-se também uma preocupação com os valores da cultura ameaçados. Nessas palavras do jornalista. reunidos em quatro pequenos ciclos. segundo ele mesmo diz.33 Essa mesma posição se reflete num outro texto dele. no entanto os poetas informam sobre o essencial. quase instituição nacional. Brazíliai regény (Romance brasileiro). que se frisa na recensão informativo-crítica do publicista György Bálint. p. 1939a. injustos com Paulo Rónai: em seu prefácio. a mesma coisa que causa dor ou alegria aos poetas crioulos. (Bálint.. afinal. que pensam descobrir uma incongruência de datas. em francês. Para os leitores mais sagazes. que ele apresenta como romance por excelência.] Todos os poetas são aparentados. mais modernos. suas palavras sobre a poesia brasileira têm uma mensagem política para a atualidade de então. mãos brancas ou negras batem o sinal tranqüilizador. porque o tradutor publicara algumas delas em diferentes revistas. escrita alguns meses depois da publicação do livro de poemas de Paulo Rónai. como. um pouco precipitada (e. por outro lado. parece. não aparecem os representantes da poesia concreta. Esse essencial.34 escrito depois da leitura. que. negros. não correspondiam ao gosto do selecionador. Essa mesma antipatia pela literatura da vanguarda e/ou experimental também se nota. escritas na véspera da Segunda Guerra Mundial. na qual. 1939b. contudo. Os livros de viagens ou os folhetos turísticos mostram só o exotismo. Assim. [.. Julgando-se objetivamente. É essa mesma voz universal. só oito do ciclo “Descobrimento do Brasil” evocam ambientes tipicamente brasileiros. por exemplo. dizendo que estão de guarda. 7) 33 34 35 Bálint. com a literatura húngara. pode-se dizer que tal princípio de escolha e apresentação dos poemas resultou do gosto intelectual urbano daquele momento. nós o encontramos nesse livro de traduções novo e belo. Suas vozes são afins e universais. falsa). ao contrário do que ocorre. índios e mestiços causaas também aos franceses ou húngaros. 31. 1939. ele fala sobre as dificuldades de obter livros do Brasil: pode ser que simplesmente não tivesse à mão todas as obras necessárias para uma antologia equilibrada. uma falta total de poemas da primeira fase do movimento modernista.A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria 33 Notamos. do Dom Casmurro de Machado de Assis. O jornalista que. em agosto de 1939. dos 33 poemas do livro. esse “outro Brasil”. p. etc.

alguns poemas de pompa estranha e surpreendentes. 1939. Nesses anos aparecem mais duas obras literárias brasileiras: Paulo Rónai publica. também deformou a visão dos intelectuais (e de seu público) de então. E justifica-se: “além dos poemas de costume. p. incluindo as brasileiras. essa atitude fundada no eurocentrismo e afastada do gosto geral do público leitor. que se manifestava tão intensamente nas obras de ficção de temática brasileira dos escritores húngaros acima mencionados. 31). encontramos. nos intelectuais que formavam o gosto literário daquela época.. 2009 uma perspectiva universalizante. Juan Rulfo. publicada na revista literária Nyugat (Ocidente). em 1940. a falta de sensibilidade diante do exotismo brasileiro.” (Bálint. 31) É curioso observar..” (Nagy. que deixam entrever uma influência francesa. porque ele sublinha que o maior mérito desse livro é que não é “nada brasileiro”: “Nada tem de exótico. 1939). Assim. n. por meio dos escritores do boom. Gabriel García Márquez. que não podiam ou não queriam observar da literatura brasileira senão aquelas obras que “demonstram que o espírito europeu não conhece fronteiras e num tempo futuro.15. uma seleção de . aspectos que tanto marcaram. 1939b. em outra resenha crítica a respeito de Brazília üzen (Mensagem do Brasil).34 Revista Brasileira de Literatura Comparada. ou ao menos diante dos problemas específicos do Brasil. notadamente Alejo Carpentier. Rómulo Gallegos. a não ser que os criados sejam negros e um dos amigos do personagem principal sofra de hanseníase. Os poemas caracteristicamente brasileiros passam quase despercebidos para o crítico. neste livro. a visão da geração que travou contato amplo e profundo com as letras latino-americanas. que continuava interessado pelos momentos exóticos do Brasil. p. etc. povos mais novos e mais felizes irão retomá-lo na América” (Bálint. quando já não existir na Europa. Como já mencionamos. tempos depois. o autor escreve: “não procuremos um exotismo exterior na poesia”. O estranho não se diz com respeito ao couleur locale.

até o n. com o título de Santosi Versek (Poemas de Santos). seis nos anos 1960 e três nos anos 1970. por Henrik Horváth. A literatura passa a ser uma arma da luta ideológica. Hangyaboly. Trad. o tradutor de Dona Flor e seus dois maridos. “Egy brazil bérház”.38 A Segunda Guerra Mundial e o estabelecimento de um novo sistema político na Hungria. 233. 38 poemas de Ribeiro Couto. essa tradução é publicada em forma de livro. o Brasil torna-se um alvo privilegiado na luta contra o imperialismo ocidental. torna-se um escritor de presença contínua na imprensa. Budapeste: Íbisz. p. 1970. Aluizio. Por essa razão. Dessa forma. no posfácio desse livro: “Dez ou quinze anos atrás talvez fosse supérfluo este posfácio. em aparência. de 1940. que circula entre Praga e a União Soviética. com o título Hangyaboly (Formigueiro). ocupa-o a literatura socialista. Alteram-se também os horizontes da orientação literária: a literatura do “ocidente culto” (França. de 1941. com o título Egy brazil bérház (Um prédio brasileiro). parte ocidental da Alemanha. já não se procuram nela valores universais e eternos. em primeiro lugar a da União Soviética. dos países socialistas e a literatura progressista dos países das Américas. a “construção do socialismo”. etc.37 Depois. cabe ao Brasil um lugar privilegiado. de Aluísio Azevedo. 1940. indicam uma mudança de concepção na recepção e interpretação da literatura em geral e da literatura brasileira em particular.39 Sobre esses livros . África e Ásia. mais independente em relação aos Estados Unidos do que os outros países latino-americanos. Nesse novo horizonte cultural-literário. 499). os romances do primeiro período de Jorge Amado são publicados na Hungria e o autor. Jorge Amado foi o escritor estrangeiro mais conhecido e mais popular na Hungria” (Benyhe. não contando as inúmeras reedições).A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria 35 36 37 Budapeste: Officina. Por isso. cinco nos anos 1950. In Népszava (Budapeste). Entre 1947 e 1976 saíram quinze livros de Jorge Amado (dois no final dos anos 1940. em 1944. Esta edição de 1944 do romance de Azevedo (Budapeste: Anonymus) teve uma pequena edição fac-similada de 30 exemplares: Azevedo. Sendo. Estados Unidos.36 e o jornal Népszava publica em folhetins O cortiço. Inglaterra. 20. 2002. senão uma resposta mais ou menos imediata à realidade circundante. desde o n.) é considerada arte decadente e o lugar dela. em 1970. pode escrever com plena razão. János Benyhe.

em especial a partir de Dona Flor e seus dois maridos. Trad. Budapeste: Európa. Trad. Budapeste: Révai. n. Trad. um dos historiadores de literatura daquele Oferecemos uma lista completa das edições das obras de Jorge Amado em húngaro (entre parênteses indicamos as edições posteriores): Terras do sem fim (Szenvedélyek földje). 1950. Trad. Vida de Luís Carlos Prestes. Sándor Tavaszy. Társadalmi Szemle (Revista Social). Tanto mais porque Jorge Amado foi o escritor brasileiro cujas obras satisfaziam as expectativas do público leitor com o seu latente erotismo. Os pastôres da noite (Az éjszaka pásztorai). Trad. 1975). Budapeste: Szépirodalmi. 1961 (segunda edição: idem. indiretamente. Budapeste: Európa. (-z. Budapeste: Szikra. 2009 foram publicadas 26 recensões críticas. János Benyhe. 1947 (uma segunda edição com o título húngaro Végtelen földek.41 Com a profusão com que os romances de Jorge Amado circulavam na Hungria (com tiragens de 40 a 80 mil exemplares). Na revista literária intitulada Csillag. 1960. Sándor Szalay. Lajos Boglár. János Benyhe. Életrajzi regény Luis Carlos Prestesrl). p. Cacau (Arany gyümölcsök földje). -l.. Budapeste: Káldor. mas sim a violenta luta de classes simbolizada pela batalha entre os coroneis do cacau e seus escravos. 1950. Emil Hartai. Budapeste: Kossuth. 1950). Budapeste: Európa. e muitos com títulos altissonantes. Gabriela. 1963. Budapeste: Szépirodalmi. Marcell Benedek.] mostram uma nova cara da América Latina. Capitão de Longo Curso (A vén tengerész).. Trad. e a pintura do mundo colorido e exótico da Bahia. terceira edição: idem. mas as recensões publicadas nas revistas literárias também incorrem nesse tom politizado em que não há lugar para análises estético-literárias. Jubiabá (Zsubiabá). Trad. Trad. um dos primeiros escritos é uma recensão crítica de Terras do sem fim.15. 834) Compreende-se este tom altamente engajado porque se trata de um artigo de teor informativo que saiu numa revista teórica. Dona Flor e seus dois 39 . como: “Os eminentes soldados da paz: Jorge Amado” ou “Jorge Amado sobre o movimento da paz brasileiro e sobre seu novo romance”. A completa verdade sôbre as discutidas aventuras do Comandante Vasco Moscoso de Aragão. o cavaleiro da esperança (A reménység lovagja. Entre 1953 e 1975 saíram 16 artigos que diziam respeito a ele.36 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Trad. Emil Hartai.40 Mas o que mais demonstra a difusão da imagem de Amado como escritor politicamente comprometido e como “zoon políticon” é o grande número de escritos sobre a sua pessoa. Emil Hartai. 1961. Sándor Szalay. 1952. Sobre Jorge Amado. 1961. cravo e canela (Gabriela. szegf és fahéj). Trad. Pablo Neruda e os outros escritores eminentes [. (segunda edição: idem. Não é o exotismo. Seara vermelha (Vörös vetés). Trad. 1975). Budapeste: Szikra. ou a imagem das selvas sem fim que prevalece em suas obras. Attila Orbók. A morte e a morte de Quincas Berro Dagua (Vízordító három halála). da Associação Húngara de Escritores. 1951. Mar Morto (Holt tenger). 1973). para os outros romances do mesmo autor: Jorge Amado. não é de estranhar que até hoje o Brasil apareça-nos tal como o escritor baiano o pintou. 1967. publicada na revista científico-ideológica do partido comunista. 1949 (segunda edição: Európa. Budapeste: Kossuth. que estabelece as forçosamente necessárias linhas de interpretação dessa obra – válidas.

vêm aparecendo outros escritores e. p.A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria maridos (Flor asszony két férje). Sándor Tavaszy. Seus heróis verdadeiros são o povo e o homem de novo quilate. Nagyvilág (fundada na época do “abrandamento” do poder totalitário). János Benyhe. Capitães da areia (A kiköt rémei). p. Além de Jorge Amado. Tenda dos Milagres (Csodabazár). n. “Jorge Amado a brazil békemozgalomról és új regényérl”. Szabad Nép (Budapeste). unilateral. depois de assistir ao congresso do PEN Clube no Rio de Janeiro. ago. Trad. já se encontra um tom mais equilibrado. I. saído em 1963. Trad. 8. Népszava (Budapeste). do socialismo” (L. 729) . Queremos notar como curiosidade que do romance A completa verdade sôbre as discutidas aventuras do Comandante Vasco Moscoso Aragão. [. 1173-1174. a pretexto dos romances de Jorge Amado. em 1951: “Seara vermelha mostra o Brasil levantando-se”.] A apresentação dessa podridão não desce ao naturalismo. p. que saiu num semanário de literatura. de cuja beleza e intimidade gostei tanto quanto da sua rica fantasia e das suas múltiplas cores decorativas. 41 Nagyvilág (Budapeste). Trad. 30 maio 1953. 18 dez. 1971.. pois “até aos operários miseráveis chegou a esperança que estimula a viver: a esperança da nova vida. Ano IV. escreveram-se entre maio e outubro daquele ano seis recensões informativas nos mais diversos órgãos de imprensa. comunista. 1953. Budapeste: Európa. 1959. saído do povo e lutando contra os horrores do mundo imperialista: o homem comunista.. 1951) Ao final da década de 1950. essa imagem deformada do Brasil e de sua literatura começa a se matizar com diferentes tons. András Gulyás. Budapeste: Kozmosz Könyvek. 61) “A béke kiváló harcosai: Amado Jorge”. Assim saíram dois poemas de Jorge de Lima na revista de literatura mundial. como na recensão sobre Seara vermelha. Capitão de Longo Curso. fala-se sobre o Brasil. a obra de Jorge Amado é uma fonte de informação antes sensorial que exclusivamente politizada sobre “esse peculiar mundo popular.42 E nas notas de viagens de um literato húngaro que em 1961 publicou as suas Impressões do Brasil. 1961. intitulado em húngaro A vén tengerész (“O velho marinheiro”). entre eles. 1970. Budapeste: Európa. é o reflexo verídico desta sociedade que requer amostras fidelíssimas da macabra dança do capitalismo. subordinada a fins eminentemente políticos é a que se apresenta quando. Algumas vezes o discurso ganha tons de hino. alguns cuja obra tem outros valores. 1976. Irodalmi Újság (“Jornal Literário”). Para ele. 42 Essa imagem estreita.” (Stér. (Koczkás. 1950. 40 37 período assim descreveu os fundamentos de “A terra de frutos de ouro”: O romance de Amado é um escrito combativo. não apenas políticos.

43 A zöld pokol. Finalmente. ou o carnaval e seu simbolismo popular. 1958. de Josué de Castro. sublinhados aqueles que o distinguem da Europa.15. Budapeste: Táncsics. o viajante atreve-se a dizer aos húngaros que o Brasil não deve ser entrevisto como um mero panorama ou cenário de fundo político. obras como Trópusi Indiánok között.43 O inferno verde. Será essa Riói Képek. Budapeste: Táncsics. n. e que aos intelectuais compete a tarefa e a responsabilidade de formar a consciência do grande público. também em húngaro. O autor mais divulgado ainda é Jorge Amado. do diretor francês Marcel Camus. de Erich Wustmann.44 Sob outro prisma. da selva e dos índios. O público requer já cada vez mais abertamente uma recepção cultural mais sofisticada e diversificada. mas em harmonia com a renovada temática da sua obra aparecem. os romances mais divertidos dele. Com essa relativa abertura nos pontos de vista que começava a prevalecer lentamente a partir do início dos anos 1960 na política cultural e literária húngaras. exigência que se vê satisfeita. entre eles a música popular brasileira e a sua melancólica melodia. de Richard Katz. que Stér interpreta sob a influência do filme Orfeu negro. Notas de viagem do Brasil). Mas Stér tem bastante sensibilidade para ver e descobrir um Brasil excêntrico. de componentes culturais e étnicos múltiplos e amalgamados. que cativam o público. assim.38 Revista Brasileira de Literatura Comparada. o interesse por outros aspectos desse país. mesmo que um pouco contraditoriamente. Após os anos da ditadura forte e o total encerramento do país. motivado pela Guerra Fria. Brazíliai útijegyzetek (Entre índios do trópico. 44 . começa a diversificar-se a edição de livros e enriquecer-se a divulgação da literatura brasileira. surge uma exigência por bens culturais anteriormente vedados. Essa nova forma de recepção do Brasil fora previamente preparada por livros publicados a partir dos últimos anos da década de 1950: As imagens do Rio. o guia desse literato húngaro é a monografia intitulada Geografia da fome. do etnólogo húngaro Lajos Boglár. multifacetado. 2009 Em suas andanças pelo mundo brasileiro. apresentam o Brasil dos trópicos. estimulando. 1959.

A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria

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Aki átment a szivárvány alatt. Budapeste: Kossuth, 1964.
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Emberek és rákok. Budapeste: Kossuth, 1968.
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Emberfarkas. Budapeste: Európa, 1962. Aszály. Budapeste: Európa, 1967.
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A többi néma csend. Budapeste: Európa, 1967.
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Máglyák az serdben. Budapeste: Móra, 1970.
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busca do diferente, do exótico que marcará e determinará o interesse pelo Brasil nos anos subsequentes. Entretanto, publicam-se obras de autores comprometidos, como as de Jorge Amado, já mencionadas: Quarto de despejo, de Carolina Maria de Jesus,45 O ciclo do caranguejo, de Josué de Castro,46 São Bernardo e Vidas secas, de Graciliano Ramos,47 e ao lado deles saem romances como O resto é silêncio, de Érico Veríssimo48 e O Guarani, de José de Alencar, embora este seja transposto para o húngaro em versão condensada, em uma edição para jovens.49 Por outro lado, e de forma menos manifesta, aparecem obras das mais diversas naturezas, mormente direcionadas aos intelectuais. Essa forma de publicação “velada”, um pouco contrária à política cultural oficial, caracteriza em primeiro lugar a revista de literatura mundial Nagyvilág e algumas antologias de poesia e de prosa. Destinadas a um público seleto, surgem nessas publicações, de forma esporádica, muitos autores de valor da literatura brasileira. Publicações como Dél keresztje (Cruzeiro do Sul, 1957), Kígyóöl ének (Canto de matar cobras, 1973), Hesperidák kertje (Jardim das Hespérides, 1971), Járom és csillag (Jugo e estrela, 1984) divulgam a poesia latino-americana. Os poemas são acompanhados de notas biográficas e bibliográficas; dessa forma, em torno de 40 grandes poetas brasileiros são publicados na Hungria. Essas antologias seguem o princípio da antologia de Paulo Rónai, ou seja, selecionam os poemas apenas pelo seu valor poético e estético e não demonstram o menor interesse em ilustrar o desenvolvimento da história literária brasileira. Fazem falta, por exemplo, poemas que caracterizem os primeiros anos do Modernismo, ou do Concretismo e de outras tendências experimentalistas. Nesse mesmo contexto, publicaram-se contos de Graciliano Ramos, João Guimarães Rosa e Jorge Amado em antologias de prosa latino-americana: Ördögszakadék (Abismo de diabo, 1966), Dél-amerikai elbeszélk (Narradores latino-americanos, 1970), Az üldöz (O perseguidor, novelas latino-americanas, 1972).

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Revista Brasileira de Literatura Comparada, n.15, 2009

Um dos grandes méritos da revista de literatura mundial Nagyvilág é a apresentação de autores e obras, de tendências e fenômenos literários, com base em critérios puramente poéticos ou estéticos. Em 1961, a revista traz informações sobre as atividades de Paulo Rónai no Brasil, frisando a importância do seu trabalho no conhecimento mútuo entre o Brasil e a Hungria (Gyergyai, 1961, p. 1566-1567). E é naquelas páginas que, em 1962, aparece um estudo sobre o romance brasileiro contemporâneo (Tavaszy, 1962, p. 1388-1391), assim como, em 1969, um ensaio sobre o desenvolvimento da literatura latinoamericana (Benyhe, 1969, p. 1723-1731). Mencionamos também certas resenhas sobre os livros de Jorge Amado, sobre romances como O tempo e o vento, de Érico Veríssimo, e Irmão Juazeiro, de Francisco Julião. O texto de recepção mais característico dessa época é o necrológio de Guimarães Rosa que Nagyvilág publicou em 1968. Nele se fala na “síntese dos mágicos elementos primitivos de mundos diferentes”, em “mitos de valor universal de conteúdo filosófico” (Rónai, 1968, p. 338-339) e a linguagem engenhosa e estranha que o escritor compilou para si e que se parece muito com a linguagem de James Joyce. Tal análise da obra de Guimarães Rosa só se tornou possível graças à mudança de tom que marcou a imprensa política, única e oficial na Hungria de então. Assim, na recensão informativa que a revista teórica Társadalmi Szemle publicou sobre Vidas secas, de Graciliano Ramos (Szllsy, 1967, p. 137), já se comenta a “exatidão sociológica” ao lado dos valores estéticos da obra, numa análise mais flexível e sutil do que se fazia nos anos precedentes. A partir de meados dos anos 1970, sob a influência do boom da literatura latino-americana em espanhol, relega-se para o segundo plano a literatura brasileira, e em especial a literatura chamada progressista. Na realidade, diminui o interesse do público pelas obras brasileiras que tratavam de uma forma direta os problemas políticos e sociais. O exotismo dos autores do realismo mágico, a forte carga intelectual dos pós-modernos como Julio Cortázar e Jorge

A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria

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Luis Borges, e a urdidura complexa dos romances políticos de autores peruanos ou mexicanos, tudo isso atrai mais o interesse dos leitores húngaros. Só obras de Jorge Amado, tais como Dona Flor e seus dois maridos ou Gabriela cravo e canela, continuam cativando novas e novas gerações de leitores.

Novos aspectos da presença literária brasileira na cena húngara
Entretanto, surge, enquanto isso, uma nova geração de divulgadores das letras brasileiras, marcados por um gosto literário renovado e pelo objetivo de revelar aos leitores húngaros os traços característicos e essenciais da literatura brasileira. Assim, entre 1983 e 1986, a Rádio Nacional Húngara realizou uma série de emissões, de meia hora cada uma, com o título Latin Amerika Irodalma (Literatura da América Latina). Essa série apresentou uma visão panorâmica das literaturas do século XX naquele continente, com os fenômenos novos e característicos da literatura brasileira: o Pré-modernismo e o Modernismo, a poesia concreta, a moderna prosa experimental e a da grande urbe, fazendo conhecer ao público nomes que nunca haviam sido mencionados antes, como Oswald de Andrade, Haroldo de Campos, Rubem Fonseca, Dalton Trevisan e Ignácio de Loyola Brandão, que com sua obra despertaram o interesse da elite intelectual. Nessa época, transcorreu uma significativa etapa do processo de divulgação da literatura brasileira na Hungria: a publicação do Macunaíma, de Mário de Andrade. A tradução dessa obra conheceu um verdadeiro êxito editorial, pois em poucos meses esgotou-se uma tiragem de dez mil exemplares. O público, ávido do exotismo – até então condenado –, devorava o livro, que foi apresentado como um grande acontecimento cultural tanto pelos programas culturais de rádio e tevê quanto pelas recensões críticas.50 Nessa perspectiva, em resenha cujo título menciona a cé-

Szalontai, 1984. Bodor, 1984. Cserti, 1984.
50

de Osman Lins. 1984). 211). Aqui aparece novamente. 1984. Alphonsus de Guimaraens. Bernardino da Costa Lopes. folclórica e etnográfica) de múltiplas cores e raízes e dos excessos intelectuais amotinados e revoltosos (Bodor. Jorge de Lima. Sebastião Cínero dos Guimarãens Passos. seleção. Teófilo Dias. neste caso.51 revela certa perplexidade provocada por este câmbio de paradigma no gosto dos divulgadores.42 Revista Brasileira de Literatura Comparada. 1985. Cecília Meireles. João da Cruz e Sousa. Gregório de Matos. que se cultiva nos recantos ocultos do Brasil e que conserva valores eternos. Vinícius de Morais. Judit Xantus. Ascenso Ferreira. segundo ele. 52 . Manuel Bandeira. Olavo Bilac. Trad. Augusto Frederico Schmidt. a ambientação sulista de Verissimo e as fortes cores mineiras de Guimarães Rosa. lamentando que “os enérgicos elementos linguísticos deste último faltem na obra de Osman Lins” (Benyhe. p. Budapest: Európa. Kilenc és kilenced. Antônio Cândido Gonçalves Crespo. prefácio e notas por János Benyhe. por Jorge Amado e Guimarães Rosa. representado. evoca.15.52 a maior antologia húngara da poesia latino-americana publicada até os dias de hoje. a força primitiva da obra comentada: Macunaíma é conseqüência da capitalização latino-americana irregular e tormentosa. um representante da velha estirpe pôs em confronto com a literatura de fortes cores brasileiras uma literatura classicizante. Luís Delfino. predomina igualmente numa antologia de 1984. um tanto indeciso. que se mantém quase intacto desde a antologia de 1939. Na antologia aparecem poemas de Mário de Andrade. O que surpreende é que a lista dos poetas modernos é quase igual à da seleção de meio século atrás (apenas Ascenso Ferreira. Augusto dos Anjos. Vicente de Carvalho. 51 Járom és csillag (Jugo e estrela). Antônio de Castro Alves. Essas palavras do literato e tradutor János Benyhe novamente aludem às contradições da “oferta e da procura” da literatura brasileira na Hungria. Ronald de Carvalho. n. Rui Ribeiro Couto. Carlos Drummond de Andrade. 1985. a obra nordestina de Jorge Amado. Tal princípio distintivo. pastoril. Raul Bopp. novena. o elemento exótico. Num debate transmitido pela rádio. como referência. ilustre estudioso e tradutor. Budapeste: Kozmosz. o crítico Pál Bodor frisa com entusiasmo a mistura feliz de elementos intelectuais e populares. A edição de Nove. O autor do posfácio. Joaquim Maria Machado de Assis. 2009 lebre epopeia finlandesa e que qualifica Macunaíma como “Kalevala artificial da zona tórrida”. Luís José Junqueira Freire. Raúl Bopp e Vinícius de Morais são os nomes novos) e assim mesmo há muitas coincidências na escolha dos poemas. Francisco Antônio de Carvalho Júnior. Mensagem do Brasil. Raimundo Correia. da americanização que abraça aplastando a versatilidade étnica (lingüística. Geir Campos. Alberto de Oliveira.

Mário de Andrade: O peru de Natal. talvez. foi recebida com entusiasmo da parte dos críticos. Com essa atitude pode-se explicar. Nestas últimas duas décadas. João Guimarães Rosa. Na antologia se encontram contos de Machado de Assis: Pai contra mãe. talvez porque saísse ao mesmo tempo em que a edição em húngaro de A escrava Isaura. 1986. Ervin Székely. afastou-se da literatura de valor. Aníbal M. Clarice Lispector: Feliz aniversário. Lima Barreto: O homem que sabia javanês. Tóth. 54 Zero. gente que quase nunca triunfa.A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria 43 Boszorkányszombat (Mistério de sábado).” (Magyar Hírlap. que atualmente é o autor brasileiro mais popular (e quase exclusivo) na Hungria. houve possibilidade de publicar autores mais sofisticados. 55 Outro livro dessa natureza. uma coletânea de contos53 que reunia desde Pai contra mãe. Oto Lara Resende: O retrato na gaveta. situando-se entre o passado e o presente. no auge do interesse do público pelo Brasil. e passou a ler obras de Paulo Coelho. Paulo Rónai. no entanto. o curioso e célebre episódio em que telespectadores húngaros de A escrava Isaura. outrora leitor ávido dos romances de Jorge Amado. Trad. A partir do final da década de 1980 mudaram. Lygia Fagundes Telles: Venha ver o pôr do sol. Rui Ribeiro Couto: Mistério de sábado. István Bárczy. com a liberalização da edição e do mercado de livro. de Ignácio de Loyola Brandão. A seleção criteriosa. 1990. a rabszolgalány. 5). Budapeste: Európa. Ferenc Pál. ou seja. Luís Jardim: Paisagem perdida. acompanhada de notas bibliográficas. O grifado é nosso. Éva Faragó. Rachel de Queirós: A donzela e a moura torta. Ferenc Pál. Trad. Aurélio Buarque de Holanda: O chapéu de meu pai. Budapeste: Európa. a imagem do Brasil tal como vive no (sub)consciente das pessoas na Hungria. saiu em 1990 o Zero. 1987. sel. suscitado pela telenovela feita com base no romance de Bernardo Guimarães. até Feliz aniversário. O grande público. p. Budapeste: Európa. e notas de Paulo Rónai. foi a antologia Boszorkányszombat. A terceira margem do rio.54 quer dizer. de Clarice Lispector. um país de tempo estancado. vale a pena meditar sobre a seguinte asserção: “A maioria dos contos mostra gente lutando com seu fado. Carlos Drummond de Andrade: Beira-rio. João Alphonsus de Guimaraens: Eis a noite!. Alcântara Machado: As cinco panelas de oiro. 1991. Dessa forma. estagnado em cerimônias. Marques Rebelo: Caprichoso da Tijuca. de Machado de Assis. Orígenes Lessa: Roteiro de Fortaleza.55 que a crítica recebeu como fonte de informação privilegiada a respeito de um mundo caoticamente moderno (apud Wirth. Trad. 1987. István Bárczy. 53 Isaura. porque novamente se faz referência à imagem de um país exótico. os hábitos de leitura e o gosto do público húngaro. e as séries televisivas ocuparam lentamente o lugar dos livros e da leitura. . num mundo de senzalas e casas grandes. Eszter S. inventada por Bernardo Guimarães havia mais de um século. Monteiro Lobato: O comprador de fazendas. de Machado: O ascensorista. Ao se reler a resenha dessas duas obras. reuniram uma importante soma a fim de remir da escravatura aquela bela e talentosa jovem. anciãos de um pequeno vilarejo do interior do país. de 1986.

Fernando Sabino. 2008). no seu número de abril de 1991 (ano XXXVI. 58 . Raduan Nassar.57 Esses livros de poemas obtiveram. n. passaram a conceder mais espaço à atual literatura brasileira. Esta revista publicou. Décio Pignatari: Vers-gyakorlatok (Exercícios de poesia). n. Ligia Fagundes Telles. 1997. foram traduzidos para um seletíssimo público-leitor poemas de dois representantes da poesia concreta. p. com introdução e apresentações dos autores pelo diplomata.58 dos quais as resenhas destacam Autran Dourado. Budapeste: Íbisz. prefácio e notas de Ferenc Pál. Seleção. Haroldo de Campos e Décio Pignatari.. Rubem Fonseca. Endre Szkárosi. 11). Trad. Rachel de Queiroz. os foros mais exigentes da literatura. Mais tarde saíram obras de outros escritores que descreviam a vida de grandes centros urbanos. de Victor Giudice. A modern brazil elbeszélés – Antologia do moderno conto brasileiro. e se pode dizer que seus motivos regionalistas já se manifestam sob forma universalizante.15. 14).44 Revista Brasileira de Literatura Comparada. como a revista Nagyvilág. o conto “Bolívar”. Seleção. 4). 8). Budapeste: Íbisz. segundo afirma um dos críticos do livro (Urfi. Guimarães Rosa. 1999. Adélia Prado. Antônio Fraga. Clarice Lispector. Com a mudança do gosto literário. 57 De Antônio de Alcântara Machado. e muito especialmente Guimarães Rosa. 1997. Trad.] poesia concreta no início dos anos cinqüenta não é o primeiro exemplo de que nas circunjacências da zona cultural euro-americana criam-se uma nova linguagem e uma expressão autêntica que correspondem às demandas intelectuais desta região (Szkárosi. n. com o conto Duelo. uma antologia bilíngue. prefácio e notas de Ferenc Pál. pois Haroldo de Campos: Konkrét versek (Poemas concretos). No número de agosto de 1992 (ano XXXVII. No presente momento. Otto Lara Resende. no qual ficou consignado o reconhecimento da independência criativa dos autores desse país dos trópicos: A formação da [. Márcia Denser. Autran Dourado. Rubem Fonseca. András Petcz e Ferenc Pál. Márcio Souza. selecionada pelo embaixador José A. como contos de Dalton Trevisan e de Rubem Fonseca. 2009 p. Lindgren Alves.56 Nesse sentido. Na antologia figuram contos de dezessete autores. de um conhecido poeta experimental. representa na Hungria a literatura brasileira. 56 Para além do material poético. em revistas literárias. Ingácio de Loyola Brandão. a importância dessas duas antologias reside na demonstração de que a literatura brasileira tornou-se independente. Dalton Trevisan. András Petcz e Ferenc Pál. é um bom manual para conhecer a prosa brasileira do século XX. publicada por iniciativa da Embaixada do Brasil e com o apoio do Ministério das Relações Exteriores.. publicaram-se dois contos de Dalton Trevisan. um parecer crítico. Moacyr Scliar.

Isso distingue o conto de Rosa dos demais textos. que formou uma imagem do Brasil a partir das informações obtidas dos livros de viagens. György. falta um vivo contato com as letras brasileiras – as primeiras obras literárias apareceram relativamente tarde e só raras vezes corresponderam às expectativas do público. Budapeste: Pallas. que. o nome de Chico Buarque de Holanda. Resumindo. . podemos dizer que neste momento a literatura brasileira está relativamente bem representada na Hungria. e assim podem informar e orientar os interessados. e tacitamente sempre esperou que a literatura correspondesse a esses estereótipos decorrentes de “preconceitos” devidos a circunstâncias históricas diversas. 225. existem enciclopédias. e de certa forma a dificuldade da divulgação de autores modernos cuja obra se afasta de uma imagem tradicional do Brasil. Budapeste. 7. 59 este é o único conto em que aparece o elemento exótico (apud Galamb. 1893-1900. Havemos de mencionar. com o romance Budapeste. da imprensa e da mídia. BALINT. p. Esse fato explica o êxito das obras de Jorge Amado e o êxito isolado de Macunaíma. 2000. que correspondem aos cânones universais.A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria 45 Budapeste. Ferenc Pál. Magyarország. Trad. de Mário de Andrade. 1939a. Budapeste: Európa. antologias de poesia e de contos que informam detalhadamente sobre autores. neste caso o fato de o escritor/cantor ter escrito um romance cuja ação decorre em parte em Budapeste é muito mais importante para os leitores húngaros do que os valores estéticos do livro. tendências literárias. além de Paulo Coelho. Budapeste: Atheneum. cujas obras inundam as livrarias. tanto nos temas elaborados como nos recursos artísticos de que lançam mão. 1972. 2005. 1-18. 2008). Az üldöz. Contudo. Contudo.59 também está disponível nas estantes. Brazília üzen. Referências A Pallas Nagy Lexikona. n.

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.A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria 47 PÁL. Centro Cultural Calouste Gulbenkian. As modificações da imagem do Brasil na Hungria. In: PÁL. Budapeste. Graciliano Ramos: Aszály. 338-339. Literatura brasileira na Hungria e literatura húngara no Brasil: recepção mútua e fortunas críticas. 1388-1391. 2004a. Cartas vincadas. Révai Nagy Lexikona. 1-25. Arquivos do Centro Cultural Calouste Gulbenkian. Tibor. PAL. MARINHO. 19-33. 1983. p. espirituais e culturais. Sándor. 14. Marcelo. 8. 1815-1889. Vera. Letras de Hoje – Revista da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (Porto Alegre). 137. p.Paris. Makunaíma (Mário de Andrade könyve). Ferenc. ano XXII. e posfácio. 121-150. A mai brazil regény. Budapeste. L ’Édition d’Auteurs Portugais à l’Étranger. Traducteurs. Élet és Irodalom. In: PÁL. p. ano XIII. _____. Tabelas I-II. Ezekiel Stanley. Makunaíma. Campo Grande: Letra Livre. 1967. Budapeste. 1911-1926. 729-735. p. Budapeste. MARINHO. Mihály. Endre. p. 1961. Brazil impresszió. _____. Lisboa. n. 243-244. Magyar Nemzet. XLVII. Ferenc. n. Brazília üzen. TAVASZY. Nagyvilág. n. 1-19. São Paulo. ano I. Campo Grande: Letra Livre. Ferenc. RÓNAI. v. Trad. n. 1939. SZLLSY. Ferenc. éditeurs et lecteurs: moments objectifs et subjectifs de la présence des lettres portugaises en Hongrie. Nagyvilág. De março de 1983 a abril de 1986. p. 1996. letras no espelho. ano VII. 1962. Brasil e Hungria ao transcorrer dos séculos: escambos materiais. _____. 2004c. Cartas vincadas. 1968. Budapeste: Vajda János Társaság. As relações entre a Áustria e o Brasil. Budapeste. Magyar Rádió (Budapeste). 2004b. João Guimarães Rosa. p. p. 161-171. Új Írás. SZALONTAI. 3. 11-37. Budapeste: Révai. letras no espelho. Latin-amerika Irodalma. Budapeste. SZKÁROSI. Pál (Sel. Budapeste: Magvet. 1968. 9. _____. PÁL. A nyelv végének barlangrajzai. Marcelo. 105.). 1984. SZÉKÁCS. 1999. István. STÉR. p. Ferenc. Társadalmi Szemle. p. RAMIREZ.

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abstract: The article discusses particular moments in the diffusion of Brazilian Literature in Argentina. o Instituto Itaú Cultural realizou o I Encontro Internacional Conexões Itaú Cultural – Mapeamento da Literatura Brasileira no Exterior. analyzing different historical and cultural contexts as conditions for the promotion of Brazilian Literature in Latin America. literatura comparada. alicerçada numa perspectiva de literatura comparada. poderia ajudar na construção de novas comunidades culturais. Felipe Lindoso e João Cezar de Castro Rocha o convite para participar do encontro. literatura latino-ameri- cana. em São Paulo. Uma primeira versão deste texto foi apresentada nesse evento. comparative literature.1 O evento estava destinado a mapear os brasilianistas que trabalham pelo mundo fora. regionalization. * keywords: Brazilian literature. 1 Em dezembro de 2009. cujo objetivo é mapear e reunir um amplo e inédito número de profissionais estrangeiros que estudam ou pesquisam temas e autores da literatura brasileira.49 Tempos e contextos da literatura brasileira na Argentina e no exterior Florencia Garramuño* resumo: O artigo discute diferentes momentos da difusão da literatura brasileira na Argentina. Latin American literature. com o alvo de construir novos laços e conexões entre aqueles que trabalham sobre e com a literatura brasileira em universidades e diversas instituições estrangeiras e fazê-los refletir em conjunto sobre o estado atual da literatura brasileira no exterior. que marcou o lançamento da base de dados Conexões. Quais seriam os problemas e os impasses com . Agradeço a Claudiney Ferreira. regionalização. Universidad de San Andrés/ Conicet. o modo como essa difusão. palavras-chave: literatura brasileira. It seeks to think how today – in the era of the regionalization of cultures – a comparative literature perspective for the diffusion of Brazilian literature can help in the construction of new cultural communities. analisando os diferentes contextos históricos e culturais como condições para a promoção da literatura brasileira no modo de se pensar hoje – na era da regionalização das culturas –.

Espanha. n. e até três das identidades profissionais (pesquisador. dos arquivos. O encontro foi frutífero não só em termos profissionais e de contato – pelo fato de fazer se conhecerem pessoas que trabalham com problemas afins –. tanto que muitas vezes duas. mas também convocou tradutores e editores de literatura brasileira no exterior. rearranjando regiões. já que a partir dele se iniciaram muitos trabalhos em conjunto entre diversos pesquisadores. editor) reunidas no encontro encontravam-se numa mesma pessoa. mas também em termos de difusão da literatura brasileira. talvez o mais produtivo do encontro tenha sido a grande quantidade de perguntas teóricas que desabotoaram das discussões e debates. que abriram um diálogo fecundo sobre os dilemas da difusão da literatura brasileira em extrema coincidência com os debates que preocupam os pesquisadores. assim como da própria cultura brasileira? O encontro não só congregou professores e pesquisadores de universidades de diferentes países (Argentina. 2009 que os pesquisadores do Brasil se confrontam ao se encontrarem distantes do Brasil. Uma dessas questões – e a que me parece mais premente. França. Inglaterra. já que condiz com muitas das características da literatura mais contemporânea com as quais a minha própria pesquisa vem lidando há algum tempo – é a da situação complexa da difusão de uma literatura brasileira contemporânea que já não parece poder ser contida nos . tradutores e editores. dos livros.50 Revista Brasileira de Literatura Comparada. dos documentos.15. Estados Unidos. Do ponto de vista da pesquisa sobre a literatura brasileira. comunidades e preocupações que não teriam como não influir numa disciplina tão sensível à sociedade e à cultura como o é a dos estudos literários – ou de quaisquer dos diversos ramos da arte. entre outros). a partir das quais é possível vislumbrar uma transformação em andamento de um conceito de literatura e de cultura brasileira que leva em conta sua colocação na paisagem transformada de um mundo contemporâneo no qual fronteiras e limites são redesenhados cotidianamente. Alemanha e Japão. tradutor.

ou não. Entre esses parâmetros hoje extrapolados. fomentar e alicerçar uma discussão dessas novas “comunidades imaginadas” – para usar em um sentido mais complexo o conceito de Benedict Anderson (1983) – seriam estratégias mais sensíveis ao que essa nova literatura pareceria estar discutindo. novos problemas surgem – que a ideia mesma da difusão e promoção da literatura brasileira . Até que ponto esse extravasamento de problemáticas nacionais – “especificamente brasileiras” – deveria modificar também a forma de encarar as próprias ferramentas e conceitos para se pesquisar e ensinar a literatura brasileira no exterior? Se a literatura contemporânea já não se arrosta exclusivamente à discussão de uma identidade nacional e se. parece evidente que.. O filho da mãe. parece se propor cada vez mais fortemente como imaginação de comunidades e coletividades que desconhecem a ferrenha ligação entre território. vale a pena ressaltar. E é nesse sentido também – uma vez que a literatura brasileira no exterior está sempre se relacionando com as formas da literatura dos países nos quais essa literatura está sendo difundida. Um grande número de textos brasileiros – assim como também de textos de outros países e regiões – põe em cena um extravasamento espantoso dos limites e fronteiras que tinham definido o literário como um tipo de discurso ancorado numa certa especificidade institucional.. pelo contrário. aparece como o exemplo mais extremo desse afastamento da problemática do nacional na literatura brasileira contemporânea que. de Bernardo Carvalho (Carvalho. no contato com essa cultura diferente. traduzida. pesquisada e. 2009). no entanto. para a difusão e promoção dessa literatura brasileira no estrangeiro. a própria noção de literatura como instituição nacional fortemente ligada a certos padrões de constituição de uma identidade nacional é talvez um dos limites mais evidentemente ultrapassados. habita um número cada vez maior de romances contemporâneos – brasileiros. embora não seja o único. 51 parâmetros que definiram a instituição literária no passado. língua e nação –como proporia Giorgio Agambem (2001) –.Tempos e contextos da literatura brasileira na Argentina.

mas também cultural – tem um papel fundamental no programa de uma “nova literatura comparada”.2 E aí a pergunta que surgiu é a de se uma instituição como o Itaú poderia. divulgação ou propagação de uma literatura ou de um saber que existiria feito e pronto no Brasil e que os pesquisadores só transmitiríamos. propondo uma colaboração entre os estudos de área (“area studies”) e a literatura comparada que poderia tentar “to figure themselves – imagine themselves – as planetary rather than continental. a ideia de uma “auténtica cultura nacional brasileña” que inicia o segundo período. e as suas ferramentas – na era da regionalização da economia global e. quando se cristaliza. n. com ela. diferente do já conhecido. Segundo ela. os seus problemas. com ela. mas também intervir na produção A apresentação de Victor Mendes. 243). p. os “difusores” – da literatura brasileira no exterior noutros termos que já não só do ponto de vista de uma transmissão. não só atender à difusão da literatura brasileira. 2003.15. Também Spivak tem elaborado algumas noções interessantes – e bem complexas – sobre o problema da literatura comparada na contemporaneidade. principalmente a partir de discussões como as elaboradas por Emily Apter em The translation zone ou Gayatri Spivak em Death of a discipline sobre os modos de se pensar a literatura comparada – a disciplina. para esta possibilidade. Na proposta de Apter. professor de University of Massachusetts Darthmouth. da mão das políticas culturais do Estado Novo de Getúlio Vargas (1937-1945). que se aproveitaria dessa mesma migração e deslocamento como uma forma de produzir saberes “outros” que despontariam ao se confrontar a literatura brasileira com um contexto estrangeiro ao que essa literatura interpelaria de uma forma diferente. 2009 no exterior compartilha muitos dos problemas que têm se associado nos últimos anos à discussão da literatura comparada. apontou. global or wordly” (Spivak. 2003. Na primeira etapa veem-se os vínculos estreitos entre diplomacia e tradução e resulta 3 . a noção de tradução –linguística.52 Revista Brasileira de Literatura Comparada. e como. p. também das culturas. 2 O livro de Sorá estuda quatro períodos importantes: o primeiro estende-se desde o século XIX até os anos 1930. no encontro Conexões. Outra das questões tem a ver com a possibilidade de se pensar a difusão – e. Seria uma forma de produzir um saber novo. deslocando-o em outros contextos. 72). “in naming a transnational process constitutive of its disciplinary nomination comparative literature breaks the isomorphic fit between the name of a nation and the name of a language” (Apter.

é importante analisar os tempos e contextos dessa difusão. É no segundo período. Sorá demonstrou que a tradução de autores brasileiros tem sido muito mais importante e constante na Argentina – segundo algumas variáveis históricas – do que na maioria dos outros paises. como se pode concluir da relevância que os temas do desenvolvimento econômico e social adquiririam nesse momento. no entanto. em 1905. além do fato pragmático – também importante – de facilitação dessa rede e desses contatos. evidência de um intenso diálogo entre a literatura argentina e brasileira no período. que Sorá denomina mercantil. Um terceiro período. ao se falar da difusão da literatura brasileira no exterior. Barcelona. assim como a criação de redes de pesquisadores e de contatos e fluxos de saberes é. Partindo de uma pesquisa empírica sobre as traduções de escritores brasileiros para o espanhol realizadas na Argentina. vai de 1945 a 1985 e exibe a hegemonia do mercado na seleção e produção da tradução. muito . Fica claro que. cuja primeira edição no Brasil é de 1904. A pouca reedição e circulação desses livros é um dado incontestável: dos canônicos e importantíssimos livros brasileiros traduzidos pela Biblioteca La Nación – uma importante editora universalista – nas primeiras décadas do século XX.. José de Alencar ou Aluísio Azevedo). de Machado de Assis. Essa sincronia é. no caso. 53 de esse “saber outro” que. principalmente durante os anos do Romantismo. A identificação dessas questões e a elaboração de respostas para elas. levando em conta as diferentes condições de possibilidade que esses tempos e contextos têm oferecido para o conhecimento da literatura brasileira em países estrangeiros. um dos grandes ganhos de encontros daquela natureza em termos teóricos. nenhum deles teve reedição alguma.. por exemplo (autores como os já na época afamados Machado de Assis. além do mapeamento quantitativo. inicia-se em 1985. foi traduzido para o espanhol só um ano depois. um quarto período. Por último. Caberia ressaltar a importância que nos anos sessenta adquirem questões ideológicas e o tipo de problemas para os quais os estudos sociais brasileiros vão ser tomados como modelos a observar.Tempos e contextos da literatura brasileira na Argentina. estava se produzindo gerado precisamente por aquele encontro. por exemplo. surpreendente pela espantosa atualidade das traduções: Esaú e Jacob. O antropólogo Gustavo Sorá começou a pensar algumas dessas questões para o contexto da Argentina durante o século XX no seu importante livro Traducir el Brasil (2003). por sua vez. quando as relações entre a cultura argentina e brasileira resultam em grande parte da mediação de intercâmbios internacionais nas feiras de Frankfurt. quando a tradução mostra seus vínculos com as políticas estatais e com as a alianças políticas e ideológicas de esquerda que nasceram do exílio na Argentina de Luiz Carlos Prestes e Jorge Amado. que Sorá denomina de internacionalização.3 Mas a pesquisa demonstrou também outra consequência mais relevante – e lamentável – ainda para a história cultural da Argentina e do Brasil: a de que a efetiva tradução de autores brasileiros na Argentina não tem sempre ajudado a reduzir o mútuo desconhecimento entre os dois países. e dos circuitos construtores do mercado editorial internacional. Algumas dessas questões dizem respeito a um mapeamento qualitativo da literatura brasileira no exterior que seria bem interessante fazer. sem dúvida.

n. assim como das posições no campo intelectual dos agentes tradutores e dos pesquisadores. desde esse momento. e que os problemas da tradução não dizem respeito só a duas culturas nacionais específicas.15. que “las fuerzas de internacionalización de los mercados desde fines de los años ochenta remataron el distanciamiento entre dos ‘culturas nacionales’ cuya vigencia editorial es regulada en aduanas muy lejanas” (Sorá. que o significado dos livros traduzidos em suas dimensões históricas depende das formas nas quais esses livros são recebidos e apropriados por seus leitores. fica evidente que essas traduções não fizeram com que a literatura argentina se alimentasse da brasileira nem que a brasileira se alimentasse da argentina. portanto. A debilidade institucional da Argentina em termos de bibliotecas. Se pensarmos na relação entre os escritores argentinos da época e a literatura brasileira. por outro lado. Um momento mais bem-sucedido dessa difusão foram – sem dúvida – os anos 60 e 70 do século XX. Fica claro a partir da leitura do importante livro de Gustavo Sorá. 221). arquivos e instituições dedicadas ao desenvolvimento do conhecimento sobre o Brasil não contribuiu. que a literatura brasileira ficasse conhecida na Argentina fora do interesse de algumas pessoas específicas. nem. 2009 embora muitos dos títulos dessa mesma editora que provinham de diferentes tradições literárias europeias tenham sido reeditados ano após ano. p. tampouco. mas respondem a uma configuração internacional de redes de relações linguísticas. como diz Sorá. Era claro – a pesquisa demonstrava – que houve condições para uma tradução bem rica naquele momento. para “atualizar” e manter vivo o conhecimento do Brasil que esses livros traduzidos poderiam – e deveriam – ter acarretado. a ser lidos. ou entre os críticos argentinos e a literatura brasileira.54 Revista Brasileira de Literatura Comparada. demonstrando. mas que na verdade ela não acarretou consequências de peso para o efetivo conhecimento da literatura brasileira na Argentina ou nos países de fala espanhola nos quais esses livros brasileiros poderiam passar. 2003. quando a .

em 1972. tomou o nome de “Premio Casa de las Américas”. geralmente tão separados dos irmãos de fala espanhola. que premiou autores brasileiros e contou no júri com escritores e intelectuais brasileiros da talha de Antonio Candido. É claro que. Clarice Lispector e tantos outros escritores brasileiros citados e analisados nesses textos (Moreno. José Guilherme Merquior. logo em seguida.. com a entrada dos autores brasileiros. Chico Buarque ou Davi Arrigucci Jr. lembremos. a presença da literatura brasileira no volume é incontestável. tendo ele artigos como os de Antonio Candido. brasileiros. Haroldo de Campos. foi construído particularmente por uma editora de origem espanhola.. Antonio Houaiss. Cuba tem sido a grande mediadora. 1999. Casimiro de Abreu. . como “Concurso literário latino-americano” e. Guimarães Rosa. o contexto político da América Latina. e ao tecer uma rede fraternal que abraça o continente com suas possibilidades de compreensão e intercâmbio (apud Cabañas e Fornet. 55 literatura brasileira pegou carona no boom da literatura latino-americana – que. É por esses anos que o que tinha sido conhecido até então como “Concurso literário hispano-americano” foi se denominar.Tempos e contextos da literatura brasileira na Argentina. fez com que a difusão da literatura brasileira tivesse um impacto mais forte nas literaturas de língua espanhola. ou de tantos outros que. colocam em relação a literatura hispano-americana e a brasileira referindo-se a autores como Alencar. Machado. na época. ou Emir Rodríguez Monegal e outros críticos latino-americanos que fazem referência à literatura brasileira. ao criar a possibilidade de entendimento que se forma aqui e se desenvolve fora. 1972). 181). com a Revolução Cubana e as instituições que iriam se criar. sem falar exclusivamente da literatura brasileira. Em depoimento em Havana. Quando a Editorial Siglo XXI publica América latina en su literatura. a Seix Barral – e compartilhou com ela o seu momento de fama internacional. p. Antonio Candido disse sobre o prêmio: Para nós.

.. esse livro foi a descoberta de que a literatura brasileira existia numa sintonia de problemas com a literatura latino-americana e que ela própria podia se converter em um campo de estudo e pesquisa para nós. no fim da década de 1980. do Livro do desassossego. aparece em Velô. con tanto interés y persistencia de “Soy loco por ti América” foi composta sob o efeito da morte do Che Guevara e gravada em Tropicália. como Monegal o como Rama. 4 . que dançávamos e cantávamos com fervor nas festas da época. “Língua”. mas se assemelharia com a corrupção das unidades homogêneas que Caetano Veloso comemorava em Língua – canção que também dançávamos e cantávamos ainda com mais fervor. composta por Caetano Veloso. Na canção. Uma questão que. Soy loco por ti América. Caetano retoma uma frase famosa de Fernando Pessoa em “A minha pátria é a minha língua”. os latino-americanos que queríamos e pretendíamos construir uma América Latina grande. se possível. no entanto. Segundo Pablo Rocca. n. tenho mátria E quero frátria.15. E essa América Latina grande não se preocuparia tanto com a questão da identidade nacional ou regional. “ningún crítico hispanoamericano coetáneo de la nacionalidad que fuere se encargó.) A língua é minha pátria E eu não tenho pátria.56 Revista Brasileira de Literatura Comparada. estudávamos literatura na universidade argentina. em 1984. de Bernardo Soares (Pessoa. é importante ressaltar é até que ponto essas condições. Basta lembrar o refrão de Língua para ouvir uma alusão leve a essa América Latina. em 1967. 1982). 4 O leque que uma história da difusão da literatura brasileira no exterior abre é bem complexo e não seria possível esgotar. na época. que Caetano repetia gozoso: Flor do Lácio Sambódromo Lusamérica latim em pó O que quer? O que pode esta língua? Vamos atentar para a sintaxe dos paulistas E o falso inglês relax dos surfistas Sejamos imperialistas! Cadê? Sejamos imperialistas! (. 2009 Para aqueles que. da literatura brasileira na América Latina. colaboraram ou não para uma difusão efetiva. que víamos representada na canção de Gilberto Gil com letra de Capinam. perdurável. em um único artigo.. intensa. as discussões que um problema como esse abre.

p. sobre as literaturas latinoamericanas. levando em conta as condições atuais da globalização. possa se inserir no contexto contemporâneo para tirar desse processo as boas qualidades. quando a palavra de ordem é a redução dos orçamentos no contexto da crise global. 57 Um trabalho mais abrangente sobre as relações entre Emir Rodríguez Monegal e Angel Rama com o Brasil pode se encontrar no livro de Rocca. e interromper aquelas outras propriedades que levam ao apagamento das diferenças e à imposição de lógicas homogeneizantes? Queremos continuar defendendo uma identidade da literatura brasileira ou pretendemos abrir esse conceito? Como poderíamos pensar e contribuir para a difusão da literatura brasileira no exterior partindo da inspiração do título da coletânea Nenhum Brasil existe (Rocha. com a contribuição deles para a literatura latino-americana em espanhol. 56).Tempos e contextos da literatura brasileira na Argentina. 2003). que. em um sentido mais geral. incorporam nesse estudo as . aprofundá-las.. Ángel Rama. há evidência importante sobre a multiplicação dos estudos comparativos entre as literaturas e as culturas do Brasil e da Argentina. tomado de empréstimo de um verso de Drummond? Qual seria a literatura brasileira desse Brasil nenhum que quereríamos difundir. como se deveria pensar a difusão da literatura brasileira na era da globalização e das culturas pós-nacionais ou transnacionais? Como as diversas instituições de pesquisa e ensino da literatura brasileira poderiam contribuir para uma discussão dessas questões que. Emir Rodríguez Monegal y el Brasil. tendo abandonado a preocupação pela identidade latino-americana. o que é bem pouco para um campo de crítica latino-americana que tem sido bastante rico e produtivo.5 Eu acrescentaria que tanto o trabalho de Rama como o de Rodríguez Monegal sobre a literatura brasileira talvez não tenham comparação. O que também é evidente é que o diálogo entre críticos de fala espanhola e portuguesa também tem sido. sobretudo o de Rama. 2006a. 20 5 la literatura brasileña” (Rocca. apesar do diálogo entre Rama e Candido e outras poucas honrosas exceções. e como deveríamos fazer essa difusão? Hoje. no campo intelectual latino-americano. e. Montevideo: Ediciones de la Banda Oriental.. bastante pouco produtivo. Se esses tempos e contextos hoje são bem diferentes.

de Clarice Lispector. E existe também.58 Revista Brasileira de Literatura Comparada. evidenciam-se numa escrita poética que se nutre desses contatos. como Ana Cristina Cesar ou Leminski. publicando clássicos como Oswald de Andrade ou Graciliano Ramos e literatura mais contemporânea. e lançando dentro de sua editora livros completos de alguns poetas brasileiros contemporâneos. de Euclides da Cunha. A revista Tsé Tsé vem publicando uma série de livros e de poemas. traduzidos e não traduzidos. também está nutrindo os escritores brasileiros. um diálogo muito mais intenso entre a crítica argentina e a crítica brasileira. ou Literatura e vida literária. de Marcos Siscar. de Flora Sussekind. O caso da poesia contemporânea é muito significativo. tanto de ensaios. Basta ler alguns poemas de Carlito . ou Um amor anarquista e os vários textos que Beatriz Viterbo vem publicando. hoje. como o caso do Sublunar. autores brasileiros contemporâneos e clássicos: a nova edição que o Fondo de Cultura Econômica fez de um livro que era inencontrável nas livrarias argentinas. Hoje existe uma série dentro de uma editora argentina (a Corregidor) especialmente dedicada à publicação e tradução de literatura brasileira que vem. como o Balanço da bossa. junto com livros como A descoberta do mundo. de Augusto de Campos. por sua vez. realizados tanto na Argentina como no Brasil. Tanto esses livros como o contato fluido dos poetas argentinos e brasileiros em festivais diversos. ou os vários romances de João Gilberto Noll e Adriana Hidalgo. Os sertões. 2009 culturas do Brasil sem os empecilhos do purismo linguístico ou historiográfico do passado. é o fato de esses livros estarem hoje influenciando uma escrita literária argentina que tem se nutrido deles e que. há quase dez anos ininterruptos. assim como outros muitos. demonstram uma presença cada vez maior da literatura brasileira no catálogo de editoras argentinas.15. de Carlito Azevedo. n. Mas não só. Também grande parte das maiores editoras argentinas e multinacionais vem publicando em Buenos Aires. com muito mais frequência. no entanto. Mais importante do que o número de volumes publicados. ou No se dice.

em parceria com a Capes do Brasil. 1991. e com ela o papel da literatura em geral – nesse novo mundo a cuja transformação estamos assistindo.. 59 Azevedo ou Marília Garcia para ver que essas influências têm andado nas duas direções. nesse contexto. mas que é uma viagem de ida e volta. já que. 2001. . lembrar que difusão não implica um trajeto de uma só via. que desenham uma encruzilhada de fertilização cruzada. e em várias direções.Tempos e contextos da literatura brasileira na Argentina. na cabeça dos leitores. As verbas para projetos de cooperação internacional e para trabalhos comparativos têm aumentado exponencialmente na Argentina. Pensar a difusão da literatura brasileira de uma perspectiva de literatura comparada transformada. New York: Verso. cada volume traz estudos preliminares e bibliografias que ajudam os livros traduzidos a se instalarem no mercado e. Referências AGAMBEN. Os livros da coleção Vereda Brasil têm instalado um conhecimento importante dos autores publicados. Benedict. que já não esteja procurando as identidades de uma literatura como referentes de uma identidade nacional. sobretudo na Secretaria de Ciência e Técnica do Ministério de Educação da Argentina. e que essa difusão acontece num contexto global de poder e conhecimento que influencia crucialmente a paisagem intelectual. mas que. Giorgio. ANDERSON. se fundamente na relação dessa literatura brasileira com as outras literaturas. Medios sin fin: notas sobre la política. que. o papel da literatura brasileira. Valencia: Pre-Textos. tem financiado e continua financiando pesquisas desenvolvidas por universidades argentinas e brasileiras em conjunto.. talvez seja hoje uma estratégia para transformarmos. na medida de nossas fracas possibilidades. pelo contrário. É importante. além de publicar o livro traduzido. Imagined communities. mais importante ainda.

. Inés. Emir Rodríguez Monegal y el Brasil: dos caras de un proyecto latinoamericano. 1999. SPIVAK. Emily. Tropicália. Livro do desassossego. Valdei. Death of a discipline. 2009 APTER. In: _____. 1984. Phillips. 1972. 2006. CARVALHO. (Recolha e transcrição dos textos de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha. ROCCA.15. In: _____. CABAÑAS. Rio de Janeiro: Universidade do Estado do Rio de Janeiro. n. América latina en su literatura. México: Siglo XXI. _____. Prefácio e Organização de Jacinto do Prado Coelho). Buenos Aires: Libros Del Zorzal. 1982. 2003. Belo Horizonte. 2003. 2006a. O eixo e a roda. Gustavo. 1967. Montevideo: Ediciones de la Banda Oriental. 1960-1999. FERNÁNDEZ MORENO. La fisura regionalista de Graciliano a G.60 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Lisboa: Ática. Caetano. A minha pátria é minha língua. Princeton: Princeton University. Bernardo de. CAPINAM. Soy loco por ti América. The translation zone. La Habana: Fondo Editorial Casa de las Américas. VELOSO. O filho da mãe. Ángel Rama. 2006b. Gilberto. Polygram. Jorge. PESSOA. 2003. Gayatri. 12. 2009. Nenhum Brasil existe. Una antropologia de la circulación internacional de ideas. FORNET. César. Premio Casa de las Américas: memoria. Rosa (la visión hispanoamericana de Emir Rodríguez Monegal y Ángel Rama). New York: Columbia University. SORÁ. Traducir el Brasil. v. São Paulo: Companhia das Letras. LOPES DE ARAUJO. Pablo. GIL. Fernando. Velô.

as a notion without nation. elemento de exclusão. não deixa de envolver particularidades curiosas. não ocorre essa acepção de “exterior” * Universidade Nova de Lisboa . literatura mundial. Outside of a dog. literary nationalism. PalavRas-cHave: literatura brasileira. cosmopolitism. e ademais como parte dos “estudos de literatura brasileira no exterior”. reviews the case of Machado de Assis in order to step into de debate on universal versus local and on the problem of the international reception of his work. Groucho Marx 1.61 Ideia de Literatura Brasileira com propósito cosmopolita Abel Barros Baptista* Resumo: O ensaio procura rever o problema da relação da literatura brasileira com a noção de literatura e a literatura mundial. Partindo de uma noção que valoriza a literatura sobre a língua. A mais imediata será o sublinhado duma diferença dentro da língua: no português europeu. aBstRact: The essay aims at a revision of the problem of the relation between a national literature. inside of a dog. as it seems to be the Brazilian case. and the very idea of Literature. Machado de Assis. world literature. a book is a man’s best friend. regressa ao caso de Machado de Assis para intervir no debate sobre o conflito entre local e universal na sua obra e a respectiva recepção fora do Brasil. Arguing for an idea of literature superseding the language. it’s too dark to read. nacionalismo literário. cosmopolitismo. Machado de Assis. as a way of exclusion. KeywoRds: Brazilian literature. Pedir a um português que escreva sobre os estudos de literatura brasileira em Portugal.

é também locução portuguesa. o jogo de palavras. Por exemplo. Se dissermos que “nem todos os estudos de literatura portuguesa conduzidos no estrangeiro são estrangeiros”. para outras literaturas. Com efeito. mas o advérbio indica registo coloquial e em regra requer um “fora” de referência para o nosso primitivismo pôr os olhos. estudos “estrangeiros”? Já a formulação “nem todos os estudos conduzidos no exterior são por isso exteriores” faz figura mais de problemática do que disparatada. requer determinação. no confronto com a brasileira. promete alguma coisa pertinente. seja a inglesa. O verbete completo diz isto: “Não significa. Nada disto. falando de cidadãos. a orientação do interior para o exterior. por outro lado. Digamos que há sempre o “estrangeiro”. Mas talvez disséssemos “estudos de literatura brasileira no estrangeiro” mais depressa do que estudos de literatura brasileira “fora do Brasil” ou “no exterior do Brasil”. até pela etimologia. enfim. Você verá várias placas em Portugal. Daí que a modalidade portuguesa. sugerindo que académicos medíocres procuram longe escritores obscuros para fazerem carreira sem controlo nem concorrência. 2009 como conjunto de países constituído por todos os que não são o nosso. Mas exterior excede estrangeiro e. e que significa precisamente “jogar fora de casa” por ser o oposto de “jogar em casa”. e sempre se sabe o que é: o “exterior”. a mesma construção valendo. Convenhamos que não há enorme diferença entre as duas palavras. etc.62 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Usamos “o estrangeiro”. dar uma deitadinha na casa de um amigo ou amiga. a interferência do exterior no interior. do domínio do futebol. “Leituras em competição”: uma “guarda 2 . estrangeiro é exterior e. até estimule jogos de palavras fáceis: a formulação “nem todos os que vivem no estrangeiro são estrangeiros” resultaria em disparate se transposta mecanicamente para “nem todos os que vivem no exterior são exteriores”. significa o que é de fora ou vem de fora. por seu lado. atrai a atenção para a definição do exterior como estrangeiro. Ademais. no que é nosso. ao suspender a familiaridade.htm>. a frase talvez não pareça logo o absurdo que é: o que serão. pode nem ser estrangeiro.1 Isto. deite no lixo! Não leve ao pé da letra. a alemã ou a italiana: como se houvesse uma substantivação de “o estrangeiro” que o “exterior” já não alcançou. propriamente falando.com. permita. pelo menos.br/obra/ literatura/adulto/dicionario/ framegranda_a. já tratando-se de difusão de uma literatura nacional ou de estudos de uma literatura nacional. suspensa de uma referência que destrince exterior de interior. aliás. E é curioso que um dicionário on line de português para brasileiros (Prata. absolutamente. Também se usa em Portugal a locução “lá fora”. n. a determinação do interior como nacional. parece mais pertinente delimitar “exteriores” do que “estrangeiros”.” Disponível em: <http://www. Deitar fora é jogar fora. tratando-se de estudos.15. que a pessoa vá dormir fora ou. sem se aperceber de que “jogar fora”. Ou a versão da pilhagem que Roberto Schwarz ofereceu no ensaio a que mais adiante me referirei. como todos. 1 Claro que estão disponíveis várias descrições alternativas. 1993) tenha necessidade de esclarecer que a locução “deitar fora” não significa “dormir fora de casa” mas “jogar fora”. a orientação do estrangeiro para o doméstico. no nacional. e diríamos “estudos de literatura portuguesa no estrangeiro”. dizendo: Por favor. mormente as cínicas ou as que derivam do sublinhado de traços de degradação do ideal cosmopolita. marioprataonline.

casa.2 Então. o cosmopolita pode estar condenado à errância eterna. p. cheio de brasilianistas ou cheio de brasileiros. modalidade decerto muito inconveniente de prestar tributo ao princípio de nacionalidade em literatura. Dir-se-á. por outro lado. Schwarz. . quase cidadãos honorários. espaço doméstico.3 Note-se que. onde não viveram. mas hóspedes. não podem nem precisam de viajar. e ainda querendo tê-lo muito fortemente. vai a “terras distantes” à procura do que a faz menos provinciana e por isso não se importa de ignorar a história e o contexto. mas estes. é sempre pouco para quem vive neste ou naquele aglomerado nacional. 66). residir nessa aspiração a razão última por que muitos académicos se dedicam a estudar a literatura de países onde não nasceram. 4 talvez porque. não como “o lar de outras pessoas”. que viajam por causa da literatura que não se fez na sua terra. 2009. chamam interior. em janeiro de 2009 (Wood. tanto pode estar sediado em Roma como em S. não acreditamos que os estudos possam ser domésticos ou nacionais sem ao menos aspirarem à condição universal. Talvez se possa inferir do exemplo que os estudos. Nesse sentido. que estes que viajam. literal ou figuradamente. aonde nunca foram. por sua vez. kantianamente guiados pelo ponto de vista filantrópico universal. não parece valer para as organizações nem para os estudos.4 Sem dúvida. 2006. sendo o menor. porque de algum modo se dedicam ao Brasil.Ideia de literatura brasileira com propósito cosmopolita avançada” do “centro” pilha as obras da “periferia” para as incluir em repertórios internacionais. A imediata consequência a extrair seria que o universal não existe. é provável que hoje pagássemos a Berlusconi para ler a Divina comédia. Paulo. como cidadãos. se deslocam sempre para o território que outros. pela simples razão de que ninguém o pode habitar. ou que só visitaram justamente porque se interessaram pela respectiva literatura – talvez alguma convicção de que a literatura. vão de um país a outro por causa da literatura. sem eles. p. Um “Instituto de Estudos Brasileiros”. literatura ou cultura portuguesa que no estrangeiro são conduzidos por não portugueses. aliás. 3 63 Colho esta expressão na tradução para português da conferência proferida por Michael Wood num colóquio sobre Machado de Assis na Universidade de Princeton. o maior risco. o de se ver obrigado a esbarrar em regras que lhe são adversas ou a tolerar convicções que lhe repugnam. e que provincianismo é ver o exterior só como exterior. são brasileiros sem serem brasileiros e que se chamam brasileiros precisamente na medida em que estão no exterior do Brasil e num interior que não se chama Brasil. O mesmo se passa de resto com os brasileiros: um brasilianista é alguém que se dedica aos “estudos brasileiros”. A segunda consequência é que. Estamos sempre em algum lugar – em algum local. mas mais quotidiano. no sentido em que pertence a este ou àquele aglomerado nacional. evidentemente não se tornam portugueses. filantropos embora. nunca serão estrangeiros. em rigor não tem país. aqueles que. Certa tradição académica chama “portugueses” justamente àqueles estudos de língua. que vale para as pessoas. ilustram este princípio estranho: as pessoas têm necessidade de viajar porque as ideias e os estudos. Isto. e as universidades em princípio não confundem brasilianistas com brasileiros. desde que obtenha proventos fáceis (cf. e em princípio hóspedes de honra. sem universal em que se apoie. não se prendendo a nenhum espaço delimitado por fronteiras. Pode. esses académicos. tendo país. 187).

ou até de ambos: o reconhecimento decisivo do brasilianista. e o reconhecimento do pesquisador ultrapassa já não apenas a nação. editoras. essa instituição o avalia? Acaso da capacidade de se tornar estrangeiro para não ser estrangeiro no país da literatura que estuda? Outra pertinência da distinção entre “exterior” e “estrangeiro” residiria então em que o “exterior” tem aptidão superior à de “estrangeiro” para referir situações que envolvem instituições. antes. 2009 Eis o dilema: aquele académico que viaja para outro lado por causa da literatura.15. trabalhar no interior de um paradigma pode ser condição necessária para trabalhar no interior de uma disciplina e de uma instituição. esforçar-se por se manter exterior porque estrangeiro? Qualquer estudo implica legitimidade e reconhecimento. mas as próprias disciplinas. Exterior deixou de significar estrangeiro: no mundo universitário. que ao brasilianista lhe paga essas viagens e esses estudos? E em nome de quê. agências governamentais. o interior não é nacional senão depreciativamente. Eis outra forma de dizer que o universal não existe: porque o local se tornou impossível. e no propósito do estudo dela. que ou provêm do interior da instituição em que se trabalha ou do exterior dela. . A impossibilidade do interior bem circunscrito decorre da dissolução da autonomia numa rede de instâncias por definição exteriores. outras universidades. da importância do seu estudo e da relevância da sua pesquisa. desde logo. centros de pesquisa. há-de vir do exterior ou de algum interior do Brasil? Ou o factor decisivo estará antes nesse outro interior que é a instituição exterior. numa rede tendencialmente tão diversificada no mapa como similar nos padrões e critérios de avaliação. n. Em todo caso. deve pretender tornar-se interior apesar de estrangeiro ou. Trabalhar no exterior de um paradigma pode ser mais perturbador do que trabalhar no exterior de uma disciplina ou de uma instituição. fundações. o interior tornou-se demasiado escuro para que se consiga ler nele com nitidez.64 Revista Brasileira de Literatura Comparada. não brasileira. disciplinas ou paradigmas. de que padrões ou critérios.

2003. pelo interesse da literatura brasileira pela realidade nacional brasileira? Que se torne porta-voz de uma literatura entendida como representação do Brasil. antes. p. O propósito cosmopolita leva em conta o desejo de criação de uma literatura a que os brasileiros possam chamar sua. desnaturalizá-lo e. 21-111. enfim. enquanto o primeiro a subordina a uma qualquer relação com o Brasil. que o leitor interessado pode encontrar no meu livro A formação do nome. sendo uma reacção à fortuna crítica de Machado fora do Brasil e ao que ele chama “leitura internacional”. enfim. para a conhecer. Machado de Assis. muito menos o melhor. aliás. antes. na linhagem que o primeiro grande espírito cosmopolita do Brasil. estude e divulgue a razão de a literatura falar do Brasil? Que se interesse pela realidade nacional brasileira ou. sim. que se representa hegemonicamente como construção que circunscreve o interior para que coincida com o nacional. não podia senão ser muitíssimo sensível à diferença entre exterior e estrangeiro. analise o processo por meio do qual no Brasil se procurou construir uma literatura entendida como representação do Brasil? Proponho designar cosmopolita a perspectiva que estabelece essas distinções e argumenta em favor do segundo termo da alternativa. tampouco em afirmá-la ou sequer reconhecê-la: consiste.5 . identificá-lo como uma das forças da literatura moderna em acção no Brasil. que preserva a relação com a literatura. Filiando-se. no sentido mimético e no diplomático. 5 Ora. e a que voltarei mais adiante.Ideia de literatura brasileira com propósito cosmopolita 65 O presente ensaio conclui um percurso de estudos machadianos inaugurado há mais de vinte anos com uma análise de “instinto de nacionalidade”. inaugurou com o célebre “instinto de nacionalidade”. Duas interrogações sobre Machado de Assis (Baptista. é suficiente para mostrar que se mantêm a actualidade crítica e a energia polémica da análise que propus do ensaio de Machado. noutras nações. delimitálo historicamente. antes. mas postula que tal desejo não se confunde com o que eles ou todos nós chamamos literatura brasileira – nem é o único guia. como a brasileira. ou. uma literatura. portanto. edição portuguesa de 1991). em reconhecer o desejo de nacionalidade. em negar a nacionalidade da literatura brasileira em nome de uma natureza intemporal e transcultural da literatura. E há-de ser particularmente sensível à presença do estrangeiro no seu interior – e sobretudo à projecção desse interior no exterior indeterminado do “estrangeiro”. O propósito cosmopolita não consiste. como. supostamente em competição com a “leitura nacional”. O artigo de Roberto Schwarz atrás citado. O que se deve então legitimamente exigir ao brasilianista? Que estude e divulgue o Brasil de que a literatura brasileira fala ou.

pode também desnortear. 1969. 2009 2. O colorido kantiano do meu título.66 Revista Brasileira de Literatura Comparada. 2) A dificuldade é manter a tarefa da filologia diante do processo de estandardização da vida humana à escala global. p. como se se tratasse de um programa político: o propósito cosmopolita consiste em reafirmar. 17). Espírito? Humanidade? O vocabulário não é seguramente de hoje: ou parece hoje muito pouco cosmopolita. o domínio da Weltliteratur. e mais do que isso. Auerbach perguntava num dos seus últimos ensaios. acaba a declarar que “a nossa casa filológica é o planeta. isto é. n. ao convocá-lo. há por aí qualquer coisa de urgentemente actual. 1969. 1969. o meu propósito. que apresento nesta formulação decerto precária. no entanto. 17). p. a formular certo programa de urgência: “devemos regressar. num modo que sequer é propriamente paródico.15. se é possível algum sentido para Weltliteratur mantendo o termo na visão de Goethe. sem nenhum paradoxo. que Auerbach detecta e cujo termo pleno. “Filologia e Weltliteratur” (1952). na noção . está a diminuir e a perder diversidade. No entanto. é citar o desfecho dele. Não cabendo aqui sequer tentar resumir o argumento que ocupa a parte central do ensaio. já não pode ser a nação” (Auerbach. A pressuposição da Weltliteratur é uma felix culpa: a divisão da espécie humana em muitas culturas (Auerbach. p. àquilo que a cultura medieval pré-nacional já possuía: a noção de que o espírito não é nacional” (Auerbach. em circunstâncias notoriamente diversas. seria de um só golpe a realização e a supressão da própria noção de Weltliteratur. ou causar estranheza pelo desuso: o melhor bem? o bem comum? o bem supremo? E. sublinha. relacionando-o tanto com o passado quanto com o futuro e considerando o próprio estado do mundo: O nosso planeta. o modo como. a Weltliteratur não se refere apenas ao que é genericamente comum e humano: antes considera que a humanidade é o produto das relações frutuosas entre os seus membros.

universal. a concepção visionária daquela felix culpa como abertura dum espaço de hospitalidade incondicional. Decerto é quase de tra- . mas uma ideia de literatura definida precisamente pelo propósito cosmopolita: digamos que o ensaio de propósito cosmopolita é o que se aproxima da literatura presumindo que o que a constitui é o propósito cosmopolita! Ou. pela Unesco ou pelo sucesso comercial. Nos estudos literários. não um espaço essencial de onde derivem e se deduzam todos os espaços. o propósito cosmopolita define o princípio teórico e político que nos orienta a aproximação a qualquer texto com a ideia de que o que há de nobre e de emancipador na noção de literatura é o que nos anima a pressupor que cada texto foi escrito na previsão do estrangeiro que um dia o virá a ler e estará à altura de o ler precisamente na medida em que for capaz de circunscrever os limites da própria incompreensão sem perder de vista o privilégio de habitar a mesma casa. não fosse o traço decisivo do carácter incondicional da hospitalidade.Ideia de literatura brasileira com propósito cosmopolita 67 moderna de literatura. Não um espaço superior e restrito. sem fronteiras nem conflitos. em termos menos circulares. antes porque a caracteriza a hospitalidade incondicional. formando alguma espécie de cânone supranacional ou literatura internacional. Essa concepção da literatura poderia receber outro nome – tradução –. mais restritos e nada essenciais – mas o espaço que se abstém de limitar e impor condições à entrada e estada do estrangeiro. não um espaço homogéneo. e designadamente dele espera a responsabilidade de circunscrever ele próprio a sua incompreensão e a sua ignorância. para onde alguns poucos afortunados são cooptados. O fundamento da hospitalidade não é a natureza humana nem alguma ideia genérica de humanidade. onde o espírito vagueia livre. o que se aproxima da literatura animado da convicção de que o propósito cosmopolita é inerente à noção de literatura – um propósito constitutivo da literatura moderna. que é a mesma não porque seja desde sempre e essencialmente a mesma. aquele que não pode deixar de ser reconhecido e não pode deixar de se reconhecer como estrangeiro.

A definição de literatura podia. quanto o nacionalismo da língua cioso do núcleo essencial insusceptível de tradução. 3. tensões não obstante as unidades. Como se o esperasse – e a melhor descrição de literatura é essa. que a literatura se constituísse morada de encontro. O espírito é o espírito da hospitalidade. ou quando fala a nossa língua. mas nunca opera o transporte unívoco de um conteúdo prévio – e por isso a hospitalidade é incondicional. Nas relações ou nos primórdios das relações entre a literatura portuguesa e a brasileira. de cruzamento. então. O sonho emancipador aqui seria. e nesse sentido. força que cria unidades além deles e tensões por causa deles: unidades apesar das tensões.15. desde sempre destinando-se ao mundo. A língua. A literatura é uma linha que passa entre esses dois polos. eis justamente o que separa: porque é a língua que permite reconhecer o estrangeiro como estrangeiro e sobretudo quando fala a mesma língua. que a literatura unisse o que a língua separa. ou do que com tanta facilidade se chama “a mesma língua”. A ideia da literatura como hospitalidade incondicional recusa tanto o universalismo como morada última que apaga todas as línguas.68 Revista Brasileira de Literatura Comparada. como se compreende. 2009 dução que se trata. ser esta: faz de quem dela se aproxima um estrangeiro e pelo mesmo gesto oferece-lhe todas as condições para que se instale à vontade. o bem comum é o da literatura e da partilha da literatura. em que ela espera e depende do estrangeiro para se constituir –. somos sempre estrangeiros diante de qualquer obra de literatura. de estada e exercício da hospitalidade sem condições. n. E não há razão para que essa ideia não seja válida no quadro da mesma língua. mas passando entre os polos extremos que a definem: a tradução visa necessariamente à inteligibilidade sem restos – e por isso a hospitalidade é possível –. há um exemplo de . aliás.

de Gonçalves de Magalhães.6 Este texto. 1986. 199-204). 212-221). 1986. tornando-se por isso relativa em vez de absoluta. originalmente publicado na Revista Universal Lisbonense. Herculano. p. no Anuário do Museu Imperial. Duvido também de que um estrangeiro possa avaliar sob todos os aspectos uma composição de semelhante natureza (Herculano. porém. define com outra palavra a sua condição relativa à nação brasileira. a pedido do próprio Herculano. p. tanto quanto sei. I. estranhará talvez que eu comece por uma declaração de incredulidade que prejudica a crítica especial do poema ou pelo menos a subordina a considerações superiores. p. e mais ainda que o seja na América. Hoje pode ler-se no volume da edição crítica dos Opúsculos dedicado aos assuntos de literatura (v. atolado no passado. Escreve Herculano: V. embaraçando o velho decrépito. 1986. Herculano escreveu uma longa carta a D. e retomado nos Opúsculos (Herculano. Pedro II lhe pedira. Duvido. invocando-a até como fundamento da incredulidade que fere a capacidade crítica: estrangeiro. em 1947. e muito.Ideia de literatura brasileira com propósito cosmopolita 69 Trata-se de “Futuro literário de Portugal e do Brasil”.ª edição dos Cantos. 7 propósito cosmopolita pouco conhecido. Portugal. 2005. Datada de 6 de dezembro de 1856. 213). 6 Permito-me remeter o leitor interessado para o comentário deste ensaio de Herculano que apresento em O livro agreste (Baptista. que se ergue para criar o novo. de que nesta nossa época o poema épico seja possível na Europa. na 2. o primeiro traço que distingue a carta é que Herculano. Anos antes.7 Ora.). Herculano publicara um ensaio a propósito dos Primeiros cantos de Gonçalves Dias. Não é imediatamente perceptível o que faz o “estrangeiro” na análise de Herculano. M. trata das consequências para a literatura portuguesa do aparecimento da brasileira. ainda não teve. a servir de prólogo. permaneceu inédita. 25 et seq. Pedro II sobre A Confederação dos Tamoios. Um ensaio escrito por um português – e que o assume expressamente. mais do que da poesia de Gonçalves Dias: é um ensaio centrado na metáfora do jovem. para dar a opinião sobre o poema que D. e surgiria apenas em 1947. p. o Brasil. que viria a ser incluído. . e a carta merece um estudo demorado que. pela mão de Alcindo Sodré. o de Alexandre Herculano.

e o que se tornou nacional é indigno da epopeia. mas os brasileiros são apenas europeus na América. p. e os que traíram os interesses da sua gente e a religião dos seus antepassados para se aliarem com os conquistadores. não constituísse hoje duas nacionalidades distintas” (Herculano. E o Brasil. Herculano reputa impossível a epopeia – e sublinha que nenhum dos “sumos poetas contemporâneos” a tentou – em virtude das próprias exigências do género.70 Revista Brasileira de Literatura Comparada. p. Desde logo. razão fundamental por que “a poesia é hoje quase exclusivamente lírica e dramática”. poeticamente considerados. porque as reputo insuperáveis. O Brasil é um império novo. uma completa negação da generosidade e do heroísmo da epopeia (Herculano. Por outro lado. Não é. n. Claro que o argumento envolve um juízo sobre essas condições que não se confunde com a noção das exigências do género: “a nossa geração não é épica”. 215). sei de certo é que ele não poderia vencer a desarmonia do espírito público. que se sobrepõem às condições actuais em que o poeta eventualmente o tenta. 2009 Limito-me aqui a observações rápidas que me conduzem ao meu ponto. a nacionalidade brasileira não pode encontrar nos índios um substituto para os primitivos portugueses: aqueles [chefes índios] que se conservaram fiéis às tradições da pátria americana não têm identidade nem unidade nacional com os brasileiros de hoje. 1986. a um tempo . 1986. 215). Em suma. O que. apresenta certa especificidade que Herculano também não negligencia: diz ele que as eras heroicas e as gerações épicas do Brasil seriam as do primitivo Portugal. considera-a Herculano insuperável: Duvido que o génio pudesse vencer estas repugnâncias. o que seria adequado à epopeia não é nacional. entretanto. são. a sua civilização o mesmo que a nossa? Não se confunde a classe média do Brasil com a classe média da Europa. o “estrangeiro” não está onde se esperava. sob todos os aspectos. Esta dificuldade. porém.15. “se uma raça outrora única.

Ideia de literatura brasileira com propósito cosmopolita 71 ardente nas suas paixões e céptica e fria nas suas opiniões e ideias? Como estabelecer aí uma harmonia entre o poeta épico e o público. Onde se constitui. Desde logo na diferença de estilos. mas justamente de a considerar e estar convicto de que a pode descrever com exactidão no que à epopeia diz respeito. I. Isto não é o mesmo que dizer que a originalidade do Brasil está de antemão subordinada pela consideração das exigências do género épico: é. 218). p. antipoéticas. p. Seguem-se exemplos de frases que a um ouvinte português pareceriam “baixas e triviais”. 215) Sublinhe-se que o “aqui” é a Europa. o próprio exercício do juízo havia de mantê-lo na mesma casa daqueles que escreveriam essa epopeia. 1986. há locuções que num país se tornaram plebeias. antes. ou havia de trazer estes para a casa em que ele os avaliasse – ou seja. nesse juízo. o mesmo que dizer que desta não decorre nenhuma barreira que relativize ou desqualifique o juízo como juízo de estrangeiro. acima de tudo. a verdade descritiva de um poema? Creio que não. nesse . a barreira que define o estrangeiro? Aí deparamos com a surpresa: a barreira é a própria língua. recai aí a outra dúvida de que no princípio falei a V. Pode sempre o estrangeiro avaliar bem a frase. a consideração da originalidade do Brasil não faria de Herculano um estrangeiro. podendo não o ser para um brasileiro: exemplos de como Herculano. não apenas Portugal. que o juízo de Herculano sobre a epopeia não depende de ele ignorar ou recusar a originalidade brasileira. M. e que noutro são elevadas ou pelo menos toleráveis (Herculano. ainda que Herculano defendesse que a epopeia seria possível no Brasil. E sublinhe-se. que seria impossível aqui? (Herculano. Embora a língua seja idêntica entre dois povos. as comparações. O aspecto decisivo é que. 1986. Escreve Herculano: Pelo que respeita às formas externas do poema. então. por causa disto ou daquilo.

É isto. Herculano não precisa proceder a uma expedição etnográfica para responder à solicitação de Pedro II: chega-lhe o conhecimento da possibilidade de a mesma palavra não ser a mesma palavra.72 Revista Brasileira de Literatura Comparada. incompetente”. das incorrecções gramaticais” (Herculano. Numa palavra. Contudo. circunscrever a área de incompetência e ponderar o conjunto: a própria definição da crítica podia ser dada nesta tríade. todavia. 1986. Delimitar a barreira. se torna nacional. 218). porém. das imperfeições de metro. nem condução do reconhecimento da diferença à renúncia a um princípio de avaliação inerente ao próprio género e portanto independente das particularidades locais. n. as comparações: “Das comparações tiradas de entidades privativas da América ainda a crítica da Europa está menos habilitada para ajuizar” (Herculano. 2009 particular. p. já de antemão aberta à possibilidade da diferença local. coisas em que a crítica da Europa e a da América tem de concordar. que forma o propósito cosmopolita. Herculano não postula sequer a unidade poética da língua – como não postula nenhum princípio de relativização poética em função da diferença linguística. é decorrente da estipulação de uma unidade prioritária: “Há. apesar de transnacional. p. 1986. nem fazer alastrar a incompetência à negação do juízo inteiro. quando é a mesma ou quando se presume a mesma. é também o que separa e o que pode separar sem deixar marca. considera o seu juízo “portanto. Outro aspecto. a avaliação da epopeia defronta-se com a barreira da língua. O que cabe no seu propósito é não deixar que o juízo se torne absoluto quando tem áreas de incompetência. creio.15. 219). o paradigma do propósito cosmopolita na avaliação literária. Justamente a unidade poética do género circunscreve a área de incompetência ao mesmo tempo que a subordina: nem defesa da unidade intemporal e transnacional da língua para efeitos de epopeia. que. É acerca dos prosaísmos. . A língua deixa o estrangeiro à porta: sendo a mesma. E não precisa rever a noção de epopeia. A incompetência.

de particularização. quer dizer. ao propósito cosmopolita. A própria dependência da noção de literatura nacional em que Herculano escreve as suas apreciações do poema de Gonçalves Magalhães comprova que o propósito cosmopolita se caracteriza pela dependência de uma noção de literatura capaz de tornar globalmente partilhável a própria ideia de enraizamento no local nacional. quer dizer. Gonçalves de Magalhães interiorizou Denis. Mais radicalmente. Repegando a antinomia de início. subordinada a uma ideia de literatura. Ferdinand Denis.Ideia de literatura brasileira com propósito cosmopolita 73 O propósito cosmopolita é a voluntária subordinação a alguma noção de literatura pela comunidade dos que se reclamam dela: é a aceitação da impossibilidade de nacionalização plena das formas literárias. Alexandre Herculano não foi apenas certeiro nas apreciações contidas na carta. por isso. no seu Resumé. O caso particular da Confederação dos Tamoios atesta-o bem. O reconhecimento da diferença local é inerente. é o reconhecimento da estabilidade e da transportabilidade das formas diante das modalidades de apropriação. não há literatura moderna sem incompetência declarada do estrangeiro: é nela que se decide a possibilidade de a literatura se erguer acima das condições particulares em que surge. antigas ou modernas. E isto é válido ainda quando a literatura se define sobretudo como assunto nacional. subordinada a uma ideia de Brasil. não no sentido superficial de ter . Já a repetição de Denis pelo grupo da Niterói inaugurou a ideia de literatura brasileira do ponto de vista brasileiro. e aliás nem haveria necessidade de propósito cosmopolita sem reconhecimento da diferença. deve ter sido o primeiro a expor uma ideia de literatura brasileira do ponto de vista cosmopolita. É na incompetência reconhecida mas circunscrita do estrangeiro que a literatura finalmente se cumpre como literatura. já enfaticamente presente no ensaio sobre Gonçalves Dias. de enraizamento. mas deixou eloquente exemplo de crítica literária em que o propósito cosmopolita nem sequer é incompatível com a instigação à “nacionalização” da poesia do Brasil.

desde aí.). mas no mais decisivo de ter tornado doméstico o que era cosmopolita. para o ideal partilhável de uma literatura moderna formada pela livre agremiação das particularidades expressas em literaturas nacionais. coincidissem num “gesto de afirmação nacional e política da nova nação” (Franchetti. Num trabalho recente. . Daí que a oposição antilusitana e anticlássica. 2006. n. E de facto. p. isto é. de ter tornado dependente de uma pátria o que em si mesmo não tinha pátria – uma ideia de literatura. estruturou-se um dispositivo anticosmopolita de equívocos. p. a saber: a) a confusão que dissolve toda e qualquer diferenciação literária em “carácter nacional” e a redução de todos os factores de diferenciação a um único. aquele em que “tomava consciência da sua especificidade e se constituía plenamente como nação”. os dois postulados básicos de Magalhães. estruturam claramente uma posição anticosmopolita: o primeiro é o do “instinto oculto”. as formas e as técnicas da literatura europeia se não obstruem. que Franchetti identifica. ao menos dificultam a expressão do caráter nacional na produção letrada do país”. 2009 assimilado a lição do estrangeiro. Franchetti mostra de forma convincente como a articulação desses postulados determinou decisivamente a historiografia e a crítica literária posterior (Franchetti. Paulo Franchetti mostrou como o programa literário de Magalhães depende da ideia de que o Brasil estaria num segundo momento da sua história. a força com que a natureza da terra guiaria a transformação completa da literatura em literatura plenamente brasileira. 115). 121 et seq. Apesar da adopção da França como matriz cultural. b) a crença em que a representação da realidade local. E pôde fazê-lo precisamente porque essa ideia era cosmopolita e se oferecia com a generosidade de quem trabalha para o bem comum. o segundo diz que “os temas. a influência da realidade local. em nome das ideias de liberdade e de universalidade. determina a literatura consciente ou inconscientemente e de modo distintivo. 2006.74 Revista Brasileira de Literatura Comparada. sendo por virtude dessa influência uma inevitabilidade.15. que definem o romantismo de Magalhães.

Mas a oposição do local ao universal é sobretudo um instrumento do projecto de circunscrição nacional da literatura. Daí o efeito decisivo da sua persistência: local e universal. cultura e nação. quaisquer que sejam as formas com que historicamente se reedita. d) a confusão do projecto de construção de uma literatura nacional. consoante os vocabulários –. Nesse sentido. em direcção a uma etapa final de nacionalização definida pela harmonia entre literatura e terra. modernidade artística e modernidade social. na narrativa da “formação”. a do propósito cosmopolita com o pendor para o universal. tornam-se polos em tensão de um mesmo processo da literatura em direcção ao nacional. literatura e sociedade. facilita outra confusão. etc.Ideia de literatura brasileira com propósito cosmopolita 75 c) a confusão do local com o nacional. do que está antes da literatura e que logo transforma o universal em mero repertório de temas e formas: é uma figura da oposição da realidade à literatura e da subordinação da literatura pelas representações naturalizadas da realidade. “tradição afortunada” ou “formação”. a crença num processo contínuo e irreversível – “instinto oculto”. a oposição do local ao universal sobrevive por meio da oposição do consciente ao inconsciente e do voluntário ao involuntário: aqueles escritores que se distanciam do projecto de nacionalização da lite- . mostrando que querer ostentar certa cor local e querer tornar nacional uma literatura não são projectos necessariamente coincidentes. com a própria nacionalidade da literatura. Nesse preciso ponto. cuja fortuna brasileira decorre do obscurecimento da diferença entre a noção de literatura como projecção subordinada a um ideal cosmopolita de literatura e a noção de literatura como projecto subordinado a um ideal nacional de país construindo-se dotado de literatura “própria”. A estipulação do local por oposição ao universal representa sempre o privilégio do local. o processo pelo qual a nação se revela a si mesma pela sua literatura. O sintoma desse dispositivo de equívocos é a persistente oposição entre o local e o universal. que já Machado denunciou. projecto de afirmação política e de natureza prescritiva. f) enfim.

4. projectando-se para um horizonte indeterminado no tempo e no espaço. há sempre uma linha de fuga por meio da qual Machado se torna escritor sem pátria.76 Revista Brasileira de Literatura Comparada. ou como nacionalistas involuntários ou como cultores de nacionalismo literário “mais profundo”. tarde ou cedo. exigindo. 2009 ratura brasileira ou lhe permanecem indiferentes acabam. Mas como ler Machado sem levar em conta esse ideal. mas ainda porque é a esse mesmo ideal que a grandeza de Machado remete o leitor cosmopolita. Acresce que qualquer dessas ideias acaba por tornar manifesto que o propósito final de uma e outra é subordinar a inteligibilidade e avaliação da obra machadiana à possibilidade de certa comunidade que se designa como brasileira a declarar “inteiramente brasileira”. a sua reformulação. de domínio de uma doxa interpretativa inimiga da diferença cosmopolita: confundindo o cosmopolita com o universal. onde não há efectiva alternativa para o nacional. de um modo ou de outro. Desde logo. onde não há lugar para o estrangeiro. Eis como a oposição entre local e universal se revela instrumento de poder. É impossível ignorar que o ideal de entendimento universal inerente ao sonho emancipador da literatura moderna ruiu há muito.15. a ausência conspícua de empenhamento no local desafia a imaginação e acaba por torná-lo prisioneiro inevitável da ideia do “nacional mais profundo” ou do “nacional inconsciente”. n. ambas destinadas a bloquear a possibilidade de leitura cosmopolita da obra machadiana. por nele ser harmoniosamente integrados. quer dizer. Daí que Machado de Assis seja o óbvio. o incontornável ponto de crise do paradigma hegemónico de autorrepresentação da literatura brasileira. Mas. o mesmo é dizer. esquecendo-o ou desprezando-o? Também não é possível. não apenas porque a obra machadiana se estruturou e destinou no âmbito definido por esse ideal. porém. . dissolve-o num processo que não admite exterior.

e esta é uma das razões da sua grandeza” e “o segredo da sua independência em relação aos contemporâneos europeus. de definitivo. que a “sua linha evolutiva mostra o escritor altamente consciente. acaba explicando que se tratava de uma forma de manter na segunda metade do século XIX “o tom caprichoso” de Sterne e de criar algum eco do “conte philosophique à maneira de Voltaire” (Candido. 1995.Ideia de literatura brasileira com propósito cosmopolita 77 Veja-se o exemplo de Antonio Candido. notando que o escritor “cultivou livremente o elíptico. Nessa descrição. no realismo sadio e colorido de Manuel Antônio de Almeida. v. limitando-o ao processo da “formação da literatura brasileira”: está a recusar o ponto de vista cosmopolita. o fragmentário”. p. na vocação analítica de José de Alencar”. que compreendeu o que havia de certo. Já quando fala de Machado nas Universidades da Flórida e do Wisconsin. depois disso. logo a seguir. do seu alheamento das modas literárias de Portugal e França” (Candido. em vez dos nomes de . na orientação de Macedo para a descrição de costumes. dir-se-ia que o mesmo Antonio Candido se muda para o lado adverso. 1981. o incompleto. na Formação da literatura brasileira. o cosmopolita. isto é. 2. e quando precisa. quase 10 anos depois da Formação. que as descrições comparativas da página seguinte. 26). se inseriu nesse processo. Antonio Candido não está apenas a situar Machado no quadro nacional. Já não se estranhará. 117-118). Quando. que Machado “pressupõe a existência dos predecessores. p. a “formação” de Machado como escritor decorre essencialmente em ambiente doméstico e o estrangeiro não é mencionado senão para sublinhar o alheamento e recusa que o excluem do processo. Depois de dizer que “o que primeiro chama a atenção do crítico na ficção de Machado de Assis é a despreocupação com as modas dominantes e o aparente arcaísmo da técnica”. precisamente porque estipula que a inteligibilidade e a originalidade de Machado decorrem do modo como ele próprio. escreve que Machado “se embebeu meticulosamente da obra dos predecessores”. “altamente consciente”.

ou seja. A verdade. seja Sterne ou Voltaire. n. Para o mesmo fenómeno – a distância de Machado das “modas literárias” do seu tempo –. É aí que o propósito cosmopolita pode actuar. porém. diante da sua obra. o que Candido faz não é diluir a originalidade de Machado de Assis tornando-o aceitável ou tolerável pelo estrangeiro ignorante das coisas brasileiras. Em vez disso. não depare com nenhuma barreira que torne absoluta a sua condição de estrangeiro. o universal. 2009 Alencar ou Macedo.78 Revista Brasileira de Literatura Comparada. deveríamos interpretar a diferença do segundo ensaio à luz de um princípio de filantropia literária. no “Esquema”. em fazer que o estrangeiro. polos necessários de qualquer descrição rigorosa da obra machadiana. Como quer que seja. nem valorizar o universal em detrimento estratégico do local: generosamente. Proust ou Faulkner. crítico inteligente e informado. convoquem Kafka. Decerto Antonio Candido. Gide.15. digamos assim. Candido não apela a nomes familiares. mas porque o protagonista dessa explicação não seria nenhum deles. nem sequer Machado. que o dá consciente dos predecessores e a querer superá-lo. que o dá a recu- . que o primeiro valoriza o local. Dostoiévski. o segundo. O segundo Candido é melhor ou pior do que o primeiro? Dir-se-á que se complementam. não teria duvidado de que o seu auditório na Flórida ou no Wisconsin havia de permanecer razoavelmente indiferente se ele insistisse em explicar-lhes que a grandeza de Machado decorre de ter estudado Macedo e superado Alencar: não porque os desconhecesse. etc. mas a uma tradição comum. seria a narrativa da “formação da literatura brasileira” – a narrativa que precisamente os constitui estrangeiros diante de Machado. que consiste em procurar tornar inteligível e apreciável um escritor a quem quer que se interesse por escritores e literatura. a da Formação. a do romance europeu e da noção de literatura que representa. e por isso é aí que a incompatibilidade entre as duas perspectivas salta inexorável. e a do “Esquema”. é que o segundo Candido não tem lugar para o primeiro. Candido oferece duas descrições incompatíveis. e este não admite o outro.

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perar uma linha do romance europeu que essas “modas” interromperam: a primeira desenha uma linha contínua, a segunda refere uma linha quebrada; a primeira postula uma evolução irreversível, a segunda acredita no resgate do anacrónico; a primeira está claramente circunscrita ao espaço nacional, como se essa linha contínua e irreversível se desenrolasse num compartimento estanque, ao passo que a segunda requer um espaço difuso de trocas e influências, não determinado nacionalmente. E, em cima de tudo, a primeira requer o conhecimento do processo da “formação” como condição da inteligibilidade de Machado, a segunda não só o dispensa como torna Machado um romancista muito mais relevante porque capaz de actuar criticamente sobre a tradição e a actualidade da situação literária europeia. A diferença em nada depende da oposição entre local e universal: em nenhum dos casos Machado é descrito pelo penchant para o universal ou para o local, é antes a mesma característica – o alheamento das “modas literárias” europeias – que num caso se define dotada de conteúdo nacional e no outro desprovida dele. A diferença entre os dois Machados é gerada pela diferença entre duas atitudes diante da situação e da tradição literária europeia, e na verdade expressão eloquente da diferença entre dois Candidos: o Antonio Candido da Formação é o crítico comprometido com a nação, empenhado em entregar aos brasileiros um Machado que os represente, por numerosos e sofisticados que sejam os mediadores dessa representação, enquanto o Antonio Candido do “Esquema” é o crítico comprometido com a literatura, na busca de um Machado que o estrangeiro possa chamar seu sem que o brasileiro se sinta espoliado.

5.
Que o primeiro Candido não pode desenvolver-se sem erradicar o segundo, e que o segundo apenas emerge na condição de destruir pressupostos básicos do paradigma crí-

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Revista Brasileira de Literatura Comparada, n.15, 2009

tico do primeiro – eis o que curiosamente se comprova com a peça final do edifício machadiano de Roberto Schwarz, o ensaio “Leituras em competição”: os dois géneros que Schwarz delimita, a “leitura nacional” e a “leitura internacional”, encontram afinal no próprio Antonio Candido exemplar praticante, senão mesmo o primeiro. De facto, para Schwarz, a “crítica internacional” define-se por ler Machado sem considerar a relação com a nação brasileira, mais propriamente, “crítica internacional” é toda a que se não ocupa de esclarecer a relação entre o carácter inconfundível da ficção machadiana e o carácter inconfundível da nação brasileira. Em contrapartida, “crítica nacional” não é a que se faz no Brasil, ainda menos a que é feita por brasileiros, mas a que tem nessa relação com a nação o centro de gravidade dos seus esforços, e que aliás Schwarz descreve ainda segundo o modelo da linha contínua, em progresso irreversível na direcção de uma meta, que se presume tenha sido atingida pelo desenhador da linha, seu principal praticante e intérprete, o mesmo Schwarz. Nenhuma surpresa, aliás. Isso basta para perceber por que motivo a “leitura nacional” é sempre referida no singular, ao passo que se sugere que a internacional poderia receber a designação alternativa de “várias não-nacionais” (Schwarz, 2006, p. 64). O ensaio é, na verdade, uma reacção a certa resenha publicada em Nova York e que, sem agressividade mas com assinalável contundência, danifica o sentido global do trabalho de Schwarz. Trata-se de “Master among the ruins”, de Michael Wood, professor de Princeton, que a New York Review of Books publicou por ocasião da publicação de novas traduções de Machado para inglês. Schwarz refere-se expressamente ao artigo, classifica-o de “resenha abrangente e consagradora do romance machadiano”, sublinha que apresenta questões difíceis e incontornáveis que definem a cena do debate entre a “leitura nacional” e a “leitura internacional”, e refere, numa proposição intercalada, quase despercebida, que Michael Wood “leva em conta a crítica brasileira”. Ora, sendo certo que a

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V. Wood, 2002. As novas traduções, publicadas pela Oxford University Press, incluem Memórias póstumas de Brás Cubas (1997) e Quincas Borba (1998), ambos por Gregory Rabassa, Dom Casmurro (1997), por John Gledson, e Esaú e Jacó (2000), por Elizabeth Powe. Outro livro incluído no rol dos resenhados é Machado de Assis: reflections on a Brazilian master writer (1999), organizado por Richard Graham, e que inclui contribuições de, entre outros, John Gledson e João Adolfo Hansen. Mas o ensaio efectivamente avaliado pela resenha é o de Schwarz.
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resenha dedica boa parte do seu espaço ao conjunto dos romances machadianos da segunda fase, não deixa de ser também uma resenha crítica da tradução inglesa do livro de Schwarz, Um mestre na periferia do capitalismo: e é essa a forma, porque não se encontra outra, de “levar em conta a crítica brasileira”.8 Para dizer logo tudo, aquilo que Schwarz apresenta sob a égide da distinção entre “leitura nacional” e “leitura internacional” são elaborações em resposta a observações críticas que Michael Wood coloca ao trabalho crítico de Roberto Schwarz, mais precisamente uma restrição fundamental, como já veremos. Por que então graduá-las em interpelação crítica da “leitura nacional”? Claro, já o deixei dito atrás, Schwarz considera-se o terminus ad quem de uma linha de leitura que, lenta mas progressivamente, devolveu o verdadeiro Machado ao Brasil, resgatando-o de décadas de fortuna crítica irrelevante. Mas há mais em jogo: na exacta medida em que a restrição de Wood não é periférica, nem acessória, mas fundamental, Schwarz não pode reparar o dano causado senão radicalizando a noção de “leitura nacional” ao ponto de fazer dela uma barreira preservativa contra o estrangeiro. Aí se confirma, então, e em pleno, como a ideia cosmopolita, indo além da oposição entre universal e local, é a única à altura da exigência de liberdade e de inteligência que a obra de Machado coloca aos leitores. Para o compreender, retenhamos a passagem em que Schwarz se refere à resenha:
A certa altura do seu ensaio, Wood, que leva em conta a crítica brasileira, propõe uma dissociação sutil. As relações com a vida local podem existir, tais como apontadas, sem entretanto esclarecer a ‘maestria e modernidade’ do escritor. Ou, noutro passo: seria preciso interessar-se pela realidade brasileira para apreciar a qualidade da ficção machadiana? Ou ainda, a peculiaridade de uma relação de classe, mesmo que fascinante para o historiador, não será ‘um tópico demasiado monótono para dar conta de uma obra-prima?’ (Schwarz, 2006, p. 64).

” A observação. ecoa as palavras de Machado no prólogo da 4. ecoa nessa pergunta a questão de Brás Cubas perante o próprio livro: é a questão das rabugens de pessimismo e da possibilidade de a partir delas se distinguir a forma livre tal como praticada pelo autor defunto. 2002). que Schwarz oblitera: “What Schwarz´s book doesn’t tell us is why the novel [Memórias póstumas de Brás Cubas] is so funny as well as so bleak. 2009 Não é uma paráfrase inteiramente falsa. reitera Brás Cubas: “O que faz do meu Brás Cubas um autor particular é o que ele chama ‘rabugens de pessimismo’. no contexto da resenha de confronto do ensaio de Schwarz com a obra de Machado.15. já agora parafraseando Brás Cubas: por que cómico. even when the subject is not slavery” (Wood. se sombrio. Com efeito. que toca o cómico para o dissolver numa tese monótona. E é depois disso que Michael Wood formula as interrogações que Schwarz cita e parafraseia. que está longe de vir dos seus modelos. ou melhor. mas são formuladas na dependência dessa consideração crítica. quando. But his thesis is a little grim and unrelieved. completa-se com esta outra. respondendo a Capristano de Abreu e Macedo Soares. logo a seguir: “Schwarz himself is clearly alert to the fun.ª edição. and writes repeatedly of the work’s comical and farcical effects. Seria interessante. O que se perde na paráfrase? Decerto a noção de que Wood pressente um crítico severo e carrancudo. Além disso. essas observações e perguntas encontram-se no texto de Wood. Há na alma deste livro. não se trata esta de uma pergunta qualquer. o conteúdo dela e a especificidade da pergunta implícita na observação crítica. por que sombrio. se cómico? Ora. mas ainda assim pouco relevante. Em primeiro lugar. por mais risonho que pareça. um sentimento amargo e áspero. Perde-se sobretudo a direcção do comentário de Wood. n. e que seria. e é a sua colocação diante da obra de Machado e diante do ensaio de Schwarz. que lhe dá a importância decisiva que obrigou à reacção de Roberto Schwarz. mas também não é inteiramente fiel à resenha.” O passo é muito conhe- .82 Revista Brasileira de Literatura Comparada. de resto inteiramente certeira.

retivermos a conclusão de que “passo a passo. não se trata apenas de uma questão importante a que o livro de Schwarz não responde: é uma questão que o livro de Schwarz não consegue impedir que ressurja. de resto. crucial para entender a relação de Machado com a figura de Brás Cubas. se cómico? Em segundo lugar. a reiteração da questão do cómico só pode significar que. 9 cido e. e a colocação provavelmente decide a competência de qualquer leitor: por que cómico. 2003. o lugar primordial. em “idealizador de formas sob medida. inusitada. desde a recusa do “clássico nacional anódino” à deslocação do centro para “o processamento literário da realidade imediata”. o romancista foi transformado de fenómeno solitário e inexplicável em continuador crítico e coroamento da tradição literária local”. se considerarmos que a meta intermédia desse processo em curso é descrita como etapa em que “a composição.Ideia de literatura brasileira com propósito cosmopolita 83 Permito-me remeter o leitor interessado para a análise deste prólogo que levo a cabo em Autobibliografias (Baptista. sim. a escravidão.9 mas é. entre a forma livre e a filosofia. enfim. redunda em dizer: “Sim. Hoje. capazes de dar figura inteligente aos descompassos históricos da sociedade brasileira” – então. ao menos para o crítico americano. galgaram o século e foram impelir um espírito americano desocupado a reformular a pergunta de sempre: como que a usá-lo para nos trazer a todos de volta ao decisivo. aliás. p. as elites. cansados de tanta apropriação historicista e sociologizante. a cadência. para o que agora nos interessa. sobretudo. por que sombrio. digamos assim. no tom de generosidade intelectual e até de concordância complacente que assume. todo esse processo é inteiramente irrelevante: não lhe resolve o problema da originalidade tal como o recebe da leitura do romance e tampouco o substitui por outro. Se levarmos a sério a narrativa de Schwarz da “leitura nacional”. se. pode dizer-se que não há leitor competente que não saia da leitura colocando essa pergunta. Dir-se-ia que Brás Cubas e Machado. e a textura do romance machadiano foram vistas como formalização artística de aspectos peculiares à ex-colônia”. se sombrio. muito in- . 331-337). A resenha. onde se decide a originalidade das Memórias póstumas de Brás Cubas: e justamente na ligação. pois.

é o principal meio de defesa contra a crítica que a põe em causa: é o meio de mostrar ao elemento hostil a dimensão e a força daquilo em que está a tocar. também chamada “leitura nacional”.15. e brandamente repreendendo-o. pois. 2009 teressante. lendo-o. homogéneo e irreversível que Schwarz agora definitivamente lhe imprimiu. sobretudo sem a intenção delineadora de um processo. a bem dizer despiciendo. Justamente a necessidade de a armar . como Schwarz. a essa narrativa que Wood colocava restrições. além de deprimente e monótono. Mas a consequência não podia deixar de ser precisamente essa para quem. n. porque sombrio se cómico?” Ora. Não era. dir-se-ia. entrevistas ou resenhas. o procedimento de Schwarz consiste em formar e radicalizar a narrativa que percebe posta em causa por uma resenha que apenas implicava um livro.. Não há nenhuma inocência na precisão com que Schwarz sublinha que Wood não é “especialista em Machado. mas um crítico e comparatista às voltas com a latitude do presente”: é o mesmo que dizer que esse crítico é alguém de fora e que está por fora. estrangeiro que permanece duplamente no exterior: tocando num livro. trabalha dentro de um paradigma que se define a partir dessa narrativa: ser declarado desnecessário. Produzir a verdadeira e exacta história da crítica machadiana. em passagens particulares. essa narrativa da evolução da crítica a que Schwarz procede não tinha ainda alcançado essa forma sintética e expressiva de narrativa teleológica. assim se defende. mas afinal. contínuo. até. Por quê? A razão é óbvia: para armar a defesa. que nem tem ideia de que tal coisa pudesse ser inventada. porque cómico se sombrio. Dava-se dispersa.84 Revista Brasileira de Literatura Comparada. num processo intelectual demorado – num país. diga-me. Talvez sem se aperceber disso. fazendo o reparo de que não responde à questão do cómico sombrio. e então o crítico severo e carrancudo sai do recolhimento e explica. Por outras palavras. Mas a defesa tem a ambiguidade própria dos gestos em pleno desastre. irrelevante. aqui e ali. o crítico estranho toca numa tradição.. nem brasilianista.

Na medida em que se trata de impor uma barreira que deixa o estrangeiro à porta. 10 revela a vulnerabilidade da arma. Não apenas a contundência da restrição que formula é inexorável. com a dimensão emancipadora e a liberdade intelectual que lhe são inerentes. porque a própria condição em que a defesa é armada e usada decorre já num cenário exterior ao nacional e em que o nacional como valor próprio não tem sentido. mas americano. nessa distinção. A precisão de que o “nacional” não tem de coincidir com o estrangeiro. O estrangeiro que se integrou na “leitura nacional” representa o êxito do paradigma nacional. propondo uma espécie de solução de compromisso em que o “leitor internacional” pudesse tornar-se o mais nacional possível e depois “proveitosamente voltar para casa e comparar”. se a “leitura nacional” se definir. para o estrangeiro que se interessa por Machado mas não se interessa pelo Brasil. criando por si só um estado de crise em todo o edifício da “leitura nacional”: esse estrangeiro representa um poder que suplanta as narrativas teleológicas para consumo doméstico. para barrar o acesso do estrangeiro ao “nosso”. Essa perspectiva. sem prejuízo de aprenderem ou receberem alguma coisa um do outro. 2009). 83). Mas precariamente. Essa condição é inconcebível para Schwarz. a força e capacidade de atrair os outros ao espaço doméstico e principalmente representa . ao cabo. e o “leitor nacional” tivesse um “toque de comparação extranacional” (Wood. Não há lugar.Ideia de literatura brasileira com propósito cosmopolita 85 Veja-se o modo complacente e um tanto defensivo como Michael Wood reagiu no artigo “Entre Paris e Itaguaí” (Wood. 2009. recusa declarar que a posição de Roberto Schwarz é coerentemente incompatível com qualquer “leitura internacional” de Machado. pela restrição das possibilidades da “internacional”. no sentido diplomático do termo: cada um no seu território. ocupando-o e governando-o legitimamente. Esse compromisso redunda em “coexistência pacífica”. denuncia o carácter profundamente anticosmopolita e discriminatório da distinção: o estrangeiro que se integra no nacional é tão-só o que se sujeita às regras que definem o nacional. e americano de Princeton. A defesa aberta da superioridade da “leitura nacional” é o melhor testemunho da incompatibilidade das interpretações centradas no problema nacional com a noção moderna de literatura e. porque “a cor do passaporte e o local de residência dos críticos não são determinantes”. como Schwarz a define. p. Machado foi mais uma vez traduzido para inglês. há alguma eficácia argumentativa10 e até política: sempre se deu mais um passo para delimitar o “nosso” por oposição ao alheio. a sua fortuna no mundo de língua inglesa pode aumentar – o que implica inevitavelmente a desgraça da “leitura nacional”. em particular. porque incapaz de entender tudo o que está em causa. Daí a relevância de o estrangeiro não ser qualquer.

se sombrio. by Mary and Edward Said. ou é hospitaleira com muitíssimas condições: afinal. 1. as paixões. _____. Eric. 2003. Abel Barros. The Centennial Review. os procedimentos e as razões daqueles que se dedicam à leitura. são exemplos disso. East Lensing. Campinas: Unicamp. a que ecoa o espaço primordial da originalidade das Memórias póstumas: por que cómico. do exterior ou do interior. 13. n. A “leitura nacional” não é hospitaleira. se cómico? Sem ignorar o espaço da sua incompetência. por que sombrio. Daí que o propósito cosmopolita seja aquele que. apenas aceita aqueles que derem garantias sólidas de não perturbarem a segurança interna. O livro agreste. n. v. o inassimilável. 2009 uma promessa de viabilidade de domínio sobre todos os que se interessam e venham a interessar-se por Machado. Transl. há um século ou hoje.15. A questão do cómico sombrio. mas aqueles que exemplificam que essa ameaça é não só inerente à obra machadiana como é por ela procurada desde o início. De um modo ou de outro. 2005. Campinas: Unicamp. Referências AUERBACH. não obstante. alguma força requer dos leitores a formulação da mesma pergunta.86 Revista Brasileira de Literatura Comparada. como a questão da epopeia para Herculano. ao ensino e à divulgação da obra machadiana: não tanto aqueles que ameaçam a nacionalidade de Machado. O estranho estrangeiro. não abdica desse governo. BAPTISTA. representa a total impossibilidade de governar os interesses. Philology and Weltliteratur. a competência do leitor cosmopolita reside na capacidade de perceber a relevância e a urgência dessa pergunta e fazer apelo à hospitalidade incondicional. Autobibliografias. no Rio ou em Nova York. ou da ideia de certo governo: mas presume-o no texto mesmo de Machado. winter 1969. . Pressupõe o governo do texto como promessa de inteligibilidade e prazer que o texto dirige à inteligência e à paixão do estrangeiro.

2006. SCHWARZ. HERCULANO. 6. São Paulo. . Schifaizfavoire – Dicionário de português. Paulo. Novos Estudos Cebrap. Entre Paris e Itaguaí. 2. 1986. 18/07/2002. Novos Estudos Cebrap. São Paulo: Duas Cidades. Gonçalves de Magalhães e o Romantismo no Brasil. Lisboa: Editorial Presença. New York.com. n. Revista de Letras. WOOD. 3. Alexandre Herculano. Edição crítica. 75. Master among the ruins. São José do Rio Preto. Antonio. V. mar. dez. Roberto. _____. ed. Formação da literatura brasileira. 2009. Vários escritos. 1995. _____. The New York Review of Books. Belo Horizonte: Itatiaia. 1993. v.marioprataonline. Esquema de Machado de Assis. n. Opúsculos. jul. Mário.Ideia de literatura brasileira com propósito cosmopolita 87 CANDIDO. São Paulo: Globo. Michael. Organização.htm>. Disponível em: <http://www. Leituras em competição. 2006. ed. 46. FRANCHETTI. 1981. PRATA. br/obra/literatura/adulto/dicionario/framegranda_a. introdução e notas de Jorge Custódio e José Manuel Garcia. n. In: _____. São Paulo. 83.

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contemporary Brazilian lit- terature. Je crois que l’imaginaire a autant de réalité que le matériel Georges Duby et Guy Landreau. amerindian. scrutinizing the position that it occupies in the national space. in relation with a reference group which belongs to the occidental society model.89 O ameríndio como personagem do Outro na literatura brasileira contemporânea: órfãos do Eldorado e Nove noites Rita Olivieri-Godet* resumo: Este trabalho propõe-se a examinar a representação do ameríndio e a relação entre identidade e alteridade que lhe é consubstancial a partir da leitura de dois romances contemporâneos brasileiros: Orfãos do Eldorado (2008). de como instância de alteridade. França. abstract: This work aims at the exploration of such representation. These two stories choose the Amerindian as a subject of alterity. analyzing the relation between identity and alterity which is built-in. palavras-chave: alteridade. A análise desses textos romanescos visa a discutir os elementos que fundamentam a figuração atual do ameríndio na literatura brasileira. literatura brasileira contemporânea. The analysis of these novels will discuss some elements which form the basis of contemporary figurations of the Amerindian in the Brazilian literature. ameríndio. Dialogues Université Rennes 2. em relação a um grupo de referência que se inscreve no modelo da sociedade ocidental. * . in two contemporary brazilian novels: Orfãos do Eldorado (2008) written by Milton Hatoum and Nove Noites (2001) by Bernardo Carvalho. keywords: alterity. questionando o lugar que ele ocupa no espaço nacional.

as narrativas que se inserem nessa poética da alteridade procuram alargar o imaginário nacional para além de suas fronteiras. o fazem para questionar o lugar que nele ocupa o “estrangeiro de dentro”. 2004). Il s’articule sur ses propres déterminations et s’accompagne toujours de ce qu’on pourrait appeler ses attributs.90 Revista Brasileira de Literatura Comparada. gerada num contexto multiétnico. uma regra ou uma lei. Meus trabalhos mais recentes refletem sobre uma “poética da alteridade” como uma das modalidades da ficção contemporânea brasileira. Francis Affergan. Critiques anthropologiques A produção literária contemporânea. Assim. a representação do ameríndio A esse respeito. Paterson (Paterson. 2009 L ’Autre n’est pas un objet vide et indéterminé. abrindo-se a uma prática metadiscursiva que lhes permite fazer interagir criação. Não se trata de procurar um invariante abstrato. quando se restringem ao espaço nacional. plurilinguístico e multicultural de nossas sociedades urbanas atuais. n. mas antes de refletir sobre signos formais. em mutação. inaugura novas linhas de força temáticas e formais. E. crítica literária e teoria da cultura. temáticos e estéticos. que nos ajuda a organizar nosso pensamento crítico (Hutcheon. 2007). ver a obra de Janet M. 32). p.15. Utilizo o termo “poética” no sentido que lhe atribui Linda Hutcheon: uma estrutura teórica aberta. 1991. como é o caso da representação do índio como instância de alteridade. 1 . prêt à s’assujettir au regard et au traitement scientifique de l’observateur. explorando uma geografia imaginária da diferença cultural. comuns a um conjunto de textos que participam da prática literária contemporânea e que tendem a exacerbar a confrontação com a alteridade. Os mecanismos especiais que eles acionam para dizer nosso tempo induzem a uma espécie de arqueologia das culturas e da linguagem. ainda que esta vertente não se constitua numa exclusividade nacional (Godet.1 Na dialética do “selvagem” e do “civilizado” que atravessa o processo de construção das identidades plurais e problemáticas das Américas.

3 ocupa um lugar central. . no entanto. que se articula sobre valores antitéticos entre espírito europeu e mundo selvagem americano. atravessados por imaginários culturais diversos. baseado no mito da renovação.3 Orfãos do Eldorado: a alteridade ameríndia entre mito e história A obra de Milton Hatoum interroga as formas de interagir com o outro que conduzem a processos de hibridismo. Seus narradores investigam as construções identitárias do sujeito e da comunidade a partir do lugar fronteiriço que ocupam entre familiaridade e estranhamento. no contexto atual de nossas sociedades. ver a excelente introdução de Jean Morency à sua obra Le mythe américain dans les fictions d’Amérique (Morency.O ameríndio como personagem do Outro na literatura. Este trabalho pretende explorar essa representação e a relação entre identidade e alteridade que lhe é consubstancial a partir da leitura de dois romances contemporâneos brasileiros: Órfãos do Eldorado (2008). seria redutor se ater às questões de fronteiras culturais que os romances de Hatoum levantam sem considerar a relação com a experiência íntima da alteridade que elas implicam. sem. no qual imaginários “arcaicos” coexistem com imaginários planetários. No entanto. que a produção contemporânea não cessa de revisitar. cruzando experiência vivida e memória. 2 Num artigo ainda inédito. 1994).2 O questionamento da figuração do ameríndio como “estranho estrangeiro de dentro” ajuda-nos a compreender o lugar que as sociedades urbanas modernas reservam a esses povos. A representação das relações identidade/alteridade a partir da escolha do ameríndio como personagem do Outro tem a ver com a experiência do espaço e a temática da errância. Esses elementos constitutivos dos textos fundadores das literaturas americanas. escamotear seus aspectos traumáticos. de Bernardo Carvalho... examino a questão numa perspectiva comparatista que inclui romances quebequenses e argentinos. de Milton Hatoum. “La poétique de l’altérité et la représentation de l’Amérindien dans la fiction des Amériques”. e Nove noites (2001). autorizam certos críticos a postular a existência de um cenário mítico americano. Essas questões atravessam a produção literária recente no Brasil e nas Américas. 91 Sobre o assunto.

no seio da sociedade amazonense. o autor aproxima o mito amazônico da Cidade Encantada do mito do Eldorado para interrogar o diálogo entre as culturas ameríndia e ocidental. A partir de Cinzas do norte (2005). e o presente do país natal. tematizada no quarto romance do autor. A narrativa segue a trilha das . construída a partir de múltiplas interações culturais entre as quais se destacam elementos da problemática coabitação entre a cultura tapuia e a modernidade transplantada. “Em Manaus ainda hoje se encontram. de uma forma muito mais ostensiva. Em Orfãos do Eldorado (2008). Cidade compósita. comentando cartas de Euclides da Cunha nas quais se refere a essa cidade (Hatoum. recentemente publicado. examinando os efeitos de um projeto de modernidade. Desde o início de sua produção. e terminam por ocupar um lugar cada vez mais central no universo fictício do autor. sondando principalmente o lugar fronteiriço dos narradores. sustentado pelas elites. os restos da sociedade nativa entre ‘as roupagens civilizadoras’”.92 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Relato de um certo Oriente (1989) e Dois irmãos (2000). Milton Hatoum continua a explorar as relações interculturais. dando destaque para a figura do ameríndio como instância da alteridade.15. que colocam em cena o diálogo entre o mundo amazônico e a imigração libanesa. Com a publicação de Orfãos do Eldorado. escreve Hatoum. Presença constante. 2000). situado entre dois mundos: a memória do passado herdado da família. híbrida. circulando entre os espaços da cidade e da floresta. o imaginário ameríndio sempre fez parte do universo romanesco do escritor. os personagens pobres e explorados dos ameríndios se tornam mais visíveis. marcado por referentes culturais libaneses. Essa estratégia confere uma dimensão universal à obra do autor amazonense e possibilita explorar as várias facetas de uma região emblemática. permitindo assim o alargamento a uma perspectiva subjetiva. sem cair na armadilha de um regionalismo redutor. 2009 praticando a passagem da etnicidade ao estranhamento. sobretudo nos seus dois primeiros romances. n. mas discreta.

. levando em consideração tanto os processos de aculturação resultantes de políticas colonialistas quanto os cruzamentos culturais que possibilitam o renascimento de tradições em outros contextos. examinando o sentimento de pertença de um sujeito desestabilizado. uma busca inútil de um lugar habitável (Harel. Orfãos do Eldorado questiona o lugar da cultura ameríndia no seio da sociedade brasileira a partir da experiência amazonense: fenômenos de imbricação mas também de depauperação culturais. sublinhando a complexidade das trocas entre culturas diferentes e evocando a história violenta de seus ganhos e perdas. a narrativa encena uma construção identitária sofrida. . durante o qual Arminto transita por um território cultural ambivalente. Em Órfãos do Eldorado. o processo de construção identitária do narrador-personagem se realiza por meio do confronto com a alteridade paterna e da atração pela alteridade ameríndia. 93 anteriores.O ameríndio como personagem do Outro na literatura. ele recusa-se a idealizar a relação com a alteridade ameríndia. Revisitando o percurso da infância à idade adulta. Assim. a narrativa constrói as complexas relações de Arminto com o espaço. O lugar fronteiriço ocupado por Arminto permite explorar as relações de resistência ou de abertura ao Outro. Entre alteridade rejeitada e alteridade desejada. que entrelaça memória pessoal e coletiva. ao escolher se dedicar às complexas interações culturais pelo viés do drama íntimo de um narrador. seja ele familiar. o relato de sua paixão por Dinaura e a reconstrução do passado de sua família têm como pano de fundo a história local (a guerra dos Cabanos) e mundial (as duas Grandes Guerras). Arminto Cordovil. na busca de si mesmo e do sentido da sua trajetória existencial. história e mito. 2005) por um sujeito atravessado por imaginários diversos. Da mesma forma que o romance se afasta de uma representação idealizada do processo de mestiçagem cultural. impregnação. aculturação. mas do mesmo modo estiolamento. urbano ou natural. cruzando história do indivíduo e da coletividade. Figuração que interroga as relações interculturais. trocas..

Memória de uma vida. Florita interpreta seus sonhos e desejos. a que diz respeito à própria narrativa. Mas é por Dinaura que ele se apaixona loucamente. a do narrador-personagem Arminto Cordovil. ele foi criado por uma outra índia. Este conta sua história a um interlocutor cuja identidade só é revelada no final. num posfácio no qual a voz autoral dá a conhecer sua fonte: o que lemos é uma história que lhe foi contada pelo seu avô. empregada que faz todo tipo de serviço. o discurso literário reinventa mito. à qual ele é muito ligado e que o iniciará à cultura ameríndia e à vida sexual. questionando o processo de transmissão da tradição e da autodeterminação a partir de dois planos: o individual (que diz respeito à vida do narrador e da relação com seu pai) e o coletivo (que trata das marcas da presença da comunidade ameríndia e de sua relação com a sociedade amazonense). Amamentado por uma índia tapuia. Desempenha um papel de mediadora. abrindo-lhe as portas à sensibilidade ameríndia. desta feita. uma das moças pobres acolhidas pelo orfanato da cidade. entre os quais o Eldorado. história e memória. Florita é uma tradutora.15. história e memória. 2009 A narrativa de Hatoum inspira-se no mito ameríndio da Cidade Encantada para tecer os fios entre mito. Ela introduz Arminto no universo ameríndio. que não conheceu sua mãe. convite à viagem. Florita. Lugar de troca por excelência. de origem e destino misteriosos: índia ou mestiça. As relações entre pai e filho são frias. morta ao dá-lo à luz. . A intriga romanesca está centrada na crônica da vida do narrador-personagem. rico proprietário de cargueiros que transportavam mercadorias no rio Amazonas. trata-se de uma questão de herança. aproxima-o das crianças indígenas da aldeia situada nas cercanias da cidade. O menino cresce rejeitando todo tipo de identificação com o universo do pai. Arminto tem a impressão de que seu pai o culpabiliza por essa morte. traduz para ele os mitos e as lendas contadas pelos índios. Arminto Cordovil. n. Mais uma vez. criando pontes entre a floresta e a cidade.94 Revista Brasileira de Literatura Comparada. no sentido amplo do termo.

64). Dinaura. confundindo-se com o mito do Eldorado: “Houve tempo em que Manaus. era sinônimo de Eldorado. p. Ulisses Tupi queria que eu conversasse com um pajé: o espírito dele podia ir até o fundo das águas para quebrar o encanto e trazer Dinaura para o nosso mundo. 64). 2008.O ameríndio como personagem do Outro na literatura. 99. Sugeriu que eu fosse atrás de dom Antelmo. ou Manoa. pai de Arminto. 95 Apresentação do romance pela editora (orelha do livro). Porque mitos. obcecado pelo desejo por essa “mulher encantada”. leitora de romances e igualmente sensível ao mito indígena da Cidade Encantada. Mas o mito indígena da Cidade Encantada é atemporal e persiste. Ele conhecia os segredos do fundo do rio e podia conversar com Uiara. que teve as plantações de cacau destruídas pelas pragas (Hatoum. região que alterna períodos de fausto e de declínio.. Surgia na mente de quase todo mundo. Arminto gasta a fortuna herdada do pai e vende todas as suas propriedades: a casa de Manaus. chefes de todos os encantados que viviam na cidade submersa (Hatoum. p. O Eldorado naufraga. 5 ela pode ser sua madrasta ou sua irmã. Este último. “uma cidade que brilhava de tanto ouro e luz” (Hatoum. a mesma que eu tinha escutado na infância.5 Contrastando com a miséria que assola a cidade real. não cessa de ter visões e sonhar com ela. como se a felicidade e a justiça estivessem escondidas num lugar encantado. a fazenda Boa Vida.. a cidade prodigiosa que atiçava os sonhos febris dos navegantes e conquistadores europeus ao mesmo tempo que se furtava a todo esforço de localização”. Arminto sonha com a mulher da mesma forma que a população pobre da cidade sonha com a Cidade Encantada. 2008. mas também da ameríndia e de muitas outras. p. 2008. viajam e estão entrelaçados. Pertencem à História e à memória coletiva” (HATOUM. . 2008. p. 106). Ver também p. que depois do seu desaparecimento se transformou em lenda para os habitantes da cidade. assim como culturas. desaparece pouco tempo depois da morte de Amando. o grande curandeiro xamã de Maués.4 Mitos e culturas viajam e se entrecruzam. 67). o leitor não o saberá jamais. 4 “Mitos que fazem parte da cultura indo-européia. a utopia de um lugar ideal persiste no imaginário amazônico: A Cidade Encantada era uma lenda antiga. a mansão branca de Vila Bela. A crônica da decrepitude moral de Arminto e da decadência de uma família é também a da Amazônia.

15. Retomado pelo texto como “o poema grego” que Estiliano está traduzindo. 7). sereia. sonho e pesadelo. este poema desencantado está em consonância com a atmosfera desoladora que o romance instaura. Homero). do poema homérico aos de Konstantinos Kaváfis (além de “A cidade”. mãe-d’água./ Não há barco nem caminho para ti” (Kaváfis apud Hatoum. 2009 Uiara. que é a negação mesmo de uma certa ideia da literatura como espaço liberador e de refúgio: “Não encontrarás novas terras.96 Revista Brasileira de Literatura Comparada. alimentando-se assim de fontes populares que fazem parte da memória coletiva. Se o romance glosa. o romance projeta a errância de mitos e de textos. nenhuma possibilidade de viagem. Poema que recusa todo tipo de promessa de um outro lugar possível. 2008. criando analogias com o próprio percurso do narrador-personagem. versões . passando pela figura descentrada de um certo cavaleiro que percorre as estradas da Mancha em busca de sua Dulcineia. num intenso trabalho intertextual que traz à tona a memória literária. é um convite à viagem. Um exemplo marcante da escrita em palimpsesto do romance é o reaproveitamento do poema de Konstantinos Kaváfis “A cidade” (1910). nenhum “ailleurs”. nem outros mares”. à deambulação). José de Alencar. existe um diálogo implícito com “Itaca” que. em oposição ao anterior. Escrito em palimpsesto. que lhe serve de epígrafe. n. ele dialoga igualmente com a tradição literária que recria esses mitos (Mário de Andrade. Por meio da combinação de elementos heteróclitos na sua composição. citado na epígrafe. Não há portanto. relatos e versões de mitos errantes que se misturam e que constituem o imbricado tecido narrativo do romance. Não esperes ir a outro lugar. Figurações da errância física e mental que o romance acolhe. p. do ponto de vista do texto poético que paira sobre o romance. nenhuma esperança: “Sempre chegarás a esta cidade. a narrativa romanesca gera uma tensão entre a voz individual e a voz coletiva: discurso da utopia e contradiscurso. que se alimenta tanto de fontes populares quanto da tradição literária.

pelas doenças. No chão. p. no qual a história destrói o mito. narrativa de uma impossível construção de plenitude identitária. 39). fazendo-os coexistir no espaço do texto. Quando passamos do mito à história. artesãos e compositores de toadas. da miragem à matéria do real. peças de cerâmica. 2008. Arminto encontra-se impossibilitado de restabelecer os laços com o passado que povoou o imaginário de sua infância.6 Hatoum fagocita e transforma elementos diversos. que representa o projeto de modernização do país baseado numa política de colonização (massacre e aculturação dos índios).O ameríndio como personagem do Outro na literatura. seguindo o modelo do capitalismo ocidental. o narrador conduz o fio do discurso e é por meio do seu olhar desencantado que o leitor descobre o universo amazônico. em processo de plena degenerescência. narrativa de busca e de perda. E não se cansava de anotar o nome de plantas e bichos. autor que o romance homenageia fazendo alusão à célebre viagem do modernista à Amazônia. por outro lado. sente dificuldade em encontrar seu lugar num mundo que está desaparecendo. Arminto é um dos numerosos órfãos do Eldorado aos quais o título do romance faz alusão. traduções “traidoras”. de diferentes visões de mundo. a visão de um território faustuoso e cheio de promessas de felicidade transforma-se em ruínas. O naufrágio do navio Eldorado constitui-se num dos símbolos eloquentes do fracasso dessa política. O tempo presente é o do sonho que se transforma rapidamente em pesadelo. . espaço de representações memoriais. máscaras de rituais e cacos de urnas funerárias de tribos indígenas que já não existiam (Hatoum. Na trilha de Mário de Andrade. caboclos. Ele recusa a identificação à sua família. p. 86). no qual a realidade não cessa de desmentir as promessas de felicidade. pela violência. até piranha frita” (Hatoum. Comia tudo. tempo que deixa transparecer os sinais de enfraquecimento da cultura ameríndia: A sala parecia um museu pobre e improvisado. 97 “O escritor puxava conversa com todo mundo: índios. Sua narrativa fala de um desejo que não pode ser satisfeito. 2008.. articulação de diferentes práticas discursivas. marcado pelo desregramento econômico e moral. No entanto. 6 de mitos..

próximo da morte de Florita. suas possíveis interpretações e a realidade. como Florita. Há ainda as ameríndias do orfanato que as freiras protegem do tráfico sexual. no entanto. n. 2009 Desse modo. acolhidas pelas famílias da cidade para servir de empregada doméstica. em alusão ao barqueiro infernal.98 Revista Brasileira de Literatura Comparada. outro grande escritor amazonense. Na verdade. é também o da confissão de sua imensa solidão. moças sequestradas. Florita. vítimas da miséria e da doença. no final do romance. Mesmo dissimulada. violentadas. órfãs na sua maioria. Outras formas de opressão. tirânica e mórbida da sociedade e do território amazônico. que vem . em Orfãos do Eldorado. traduzindo-as por um relato perfeitamente integrado ao universo cultural e mítico ameríndio: a mulher. que a liberará de sua vida de miséria material e afetiva. ela termina sempre por mostrar sua face. O momento dessa revelação. teria escolhido ir viver junto com ele no fundo do rio. deturpa suas últimas palavras. a mulher se suicida por ter perdido seu marido e seus filhos vítimas da miséria e da doença. num regime de semiescravidão. Assim como na obra de Márcio Souza. o romance denuncia a exploração sexual das mulheres e meninas ameríndias.15. para poupar o menino Arminto. 2008. 42). A decadência do povo ameríndio está principalmente representada pelas personagens femininas. um processo de aculturação que começa pela proibição de falar sua própria língua. mas que sofrem. Nela assiste-se ao suicídio por afogamento de uma jovem índia. p. atraída por um ser encantado. vendidas ou trocadas por mercadorias para servir aos comerciantes de Manaus ou aos homens políticos (Hatoum. mascaradas sob a aparência de proteção. A representação do espaço constrói um cenário mórbido por onde circulam personagens como Denísio cão. o barqueiro. A cena inaugural do romance é representativa das relações que estabelece entre o mito. como as que sofrem as moças. A violência é um dado consubstancial a essa realidade. são encenadas pela narrativa. a caracterização dos personagens e a representação do espaço constroem uma visão violenta.

Misturando referentes reais e ficcionais. 7 reforçar a onipresença da morte nesse território. A imagem fala por ela mesma. trabalhou como seringueiro durante quatro anos. para utilizar as palavras de Euclides da Cunha ao comentar a obra Inferno verde.. os imigrantes e migrantes nordestinos. de Ferreira de Castro. Ilha do Eldorado) e a realidade. de “uma sociedade que está morrendo”. 1988). quase todos cegos pela defumação do látex. O que existiu. A podridão está dissimulada sob sua beleza luxuriante. 343-351). mais uma vez. 1993). e eu não esqueci nunca. 2000. 2008. do escritor português Ferreira de Castro (1898-1974). Aqui. como no célebre romance A selva (1930). p. “Inferno e barbárie”7 são a outra face da floresta: O paraíso estava aqui. “Cegos do Paraíso”. expulsos. p. ocupam o lugar dos ameríndios. A leitura desse texto ajuda a esclarecer a percepção e a representação do espaço em Órfãos do Eldorado.. na beira do barranco. Trouxe dos seringais do Madeira mais de cem homens. que nos remete ao incêndio do seringal Paraíso. o prefeito mandou derrubar a floresta para construir barracos.O ameríndio como personagem do Outro na literatura. Mil e uma histórias que sobrevivem e se metamorfoseiam nos relatos literários. a narrativa romanesca expõe a oposição gritante entre os sentidos sugeridos pelos topônimos (Vila Bela. no Amazonas. Imagens de um paraíso perdido. que emigrou para o Brasil quando tinha doze anos. E um novo bairro surgiu: Cegos do Paraíso (Hatoum. e Mad Maria. Atracou aí embaixo. episódio que fecha o romance do escritor português. A memória do texto de Ferreira de Castro se faz presente igualmente pela alusão a um incêndio num seringal. de Márcio Souza (Hatoum. a beleza grandiosa e luxuriante da floresta esconde o regime de escravidão ao qual os seringueiros são submetidos. foi o barco Paraíso. Boa Vida. Paraíso era também o nome do seringal situado às margens do rio Madeira. experiência que se encontra recriada no romance A selva. do seu amigo Alberto Rangel (Cunha. onde Ferreira de Castro. era o que se dizia. 99 Título de um subcapítulo de um artigo de Milton Hatoum dedicado aos romances A selva. . 95). do território que eles ocupavam nas proximidades da cidade. As novas vítimas da “modernidade na floresta” (Hardman. Lá onde ficava a Aldeia.

No entanto. face que se revela desde o momento em que fazemos a experiência de penetrar nesse espaço: Um volume escuro tremia num canto. Dinaura teria se refugiado.15. p. paisagem de beleza ímpar (Hatoum. representada pela voz autoritária do pai: Eu me sentia mal na Boa Vida. repulsivo. A ilha do Eldorado seria uma das ilhas do Arquipélago das Anavilhanas. p. Os filhos dos empregados se aproximavam da varanda e paravam para observar a casa. Fui até lá. com guarásvermelhos e jaçanãs no céu e nas árvores. desde o início. 67-68). me agachei e vi um ninho de baratas-cascudas. 102). [. um dos lugares célébres do ecoturismo da Amazônia. o cheiro e o asco dos insetos me deram um suadouro. Senti um abafamento. Trata-se de construir a visão de uma natureza que abriga um mundo doente.. 2009 A última viagem de Arminto (navegador de “viagens supérfluas” entre Manaus e Vila Bela) pelo rio Amazonas ganha um outro sentido. aqui e ali. onde. filhos de homens calados. situado a 100 quilômetros de Manaus. o texto não para de semear. Durante a viagem de Arminto em busca do seu Eldorado. A narrativa evoca a beleza grandiosa da paisagem. Lugar lindo. doente. 2008. referente geográfico real. a alternância entre as descrições líricas e os sinais que maculam essa beleza da paisagem reforça a perspectiva antagonista da representação do espaço adotada pelo romance. Lá . Voz mesmo só a de Armando: voz para ser obedecida (Hatoum. não há possibilidade de fusão harmoniosa com a natureza. n. 2008..100 Revista Brasileira de Literatura Comparada.] Não era o lugar que me perturbava: era a lembrança do lugar. Crianças caladas. Personagem decadente da história e do mito. remetendo a uma relação disfórica que ele entretém com um espaço onde impera uma ordem social injusta. recorrendo a uma descrição lírica da maravilhosa visão do lago do Eldorado. sinais do mal-estar que Arminto manifesta. pois. nauseabundo. Arminto parte na terceira classe de um navio velho e sujo em busca da ilha do Eldorado.

a imensidão do lago e da floresta. pelas escolhas políticas autoritárias. . em consonância com o que escreve o sociólogo português Boaventura de Souza Santos. era habitado pela solidão (Hatoum. assinalando o impasse do parâmetro do progresso como fundamento da civilização. Essas cinzas do Norte dizem muito do estado de deriva dos mitos e dos relatos que resultam do esforço contínuo do sujeito na sua busca de imprimir um sentido à trajetória humana. anuncia o poema de Kaváfis. 322). prisioneiros de um mundo de cinzas. p.. Aquele lugar tão bonito. E silêncio.. O lugar inaugurado pela criação literária está longe de corresponder ao de um refúgio protetor. ao afirmar que “O futuro prometido pela modernidade não tem futuro” (Santos. solidão. Essas imagens revelam um ponto de vista pessimista sobre o processo histórico marcado pelas injustiças. 2000. Hatoum pertence à linhagem de escritores que produzem livros do desassossego: “é preciso aceitar que a literatura complica o mundo”. 102). “Não há barco nem caminho para ti”. Podridão. o Eldorado. 101 fora. doença. condenados a fazer viagens imaginárias que não tranquilizam mais ninguém. sublinha Simon Harel (2007. mesmo que seja para dizer a impossibilidade da viagem. 12). erigindo a literatura como um dos lugares possíveis de resistência. p. A herança comum que o ameríndio compartilha com o homem ocidental é a de serem órfãos da civilização. A obra de Hatoum não produz sombras consoladoras. O que se esconde sob as aparências da visão do paraíso? A distância entre o sonho e a realidade que essas imagens de um mundo em degeneração nos devolvem como um espelho invertido.O ameríndio como personagem do Outro na literatura. 2008. ao contrário. p. coloca o leitor perante a problemática condição humana. múltiplos signos disfóricos para evocar esse encontro fracassado entre o mito e a história. morte.

quando da sua estadia no Xingu com os índios krahô. Nove noites tece sua trama em torno de um enigma: as razões que conduziram o antropólogo norte-americano Buell Quain. a representação do ameríndio é submetida a diferentes pontos de vista assumidos por múltiplos sujeitos do discurso. procura compreender o gesto brutal do an- Sobre Mongólia. o personagemnarrador Arminto Cordovil. Assim como em Mongólia (2002). Desde então. aos 27 anos. de Bernardo Carvalho. experiência vivida e ficção. trata-se de abolir uma representação realista do mundo. narrador do romance. a experiência da alteridade ameríndia gera uma espécie de fascinação pelo Outro no único sujeito da enunciação. Nos dois romances.102 Revista Brasileira de Literatura Comparada. só existem visões do real. Mas. a intriga de Nove noites cruza várias versões e inscreve no seio da narrativa o personagem do escritor que procura de forma obsessiva preencher a precariedade do sentido.8 que se constrói em torno do desaparecimento de um fotógrafo nos Montes Altai. por acaso. n. 2009 alteridade invisível: o índio em Nove noites. Em Nove noites. quando ele fica sabendo. em 1939. Para essas narrativas. a se suicidar no Brasil.15. 2007. ver Godet. ao ler no jornal um artigo do antropólogo que se suicidou em plena floresta. ex-aluno de Franz Boas. O interesse do personagem-escritor. enquanto em Orfãos do Eldorado a ambiguidade da narrativa decorre das interrelações entre mito e história e da complexa viagem ao passado por meio da memória do narrador. de Bernardo carvalho No romance de Milton Hatoum. 8 . em Nove noites é a multiplicidade de vozes narrativas e a focalização que tornam a percepção do real problemática. instaurando o processo de mise en abyme do ato da escrita. da Universidade de Columbia. de sua existência. a narrativa de Nove noites ultrapassa as fronteiras de gênero e situa-se a meio caminho entre autobiografia ficcional e documentário jornalístico romanceado. por Buell Quain data de 2001. encontrar a solução do enigma. Misturando fatos históricos.

Bernardo Carvalho afirma que seu romance é uma interrogação sobre a paternidade: “Todo mundo está à procura de um pai. As diferentes versões e visões acentuam o caráter polifônico do romance. Todos esses elementos trazem indícios da angústia e do desespero do antropólogo. amigo de Buell Quain. justapõe a história do antropólogo à de seu próprio pai” (Moura). engenheiro responsável pelo Serviço de Proteção dos Índios. Os índios querem um pai. por meio de cartas que ele deixa após sua morte. Quain tinha relações complicadas com seu pai e ao mesmo tempo. Numa entrevista. O romance alterna a narrativa da investigação conduzida pelo narrador com o testemunho fictício deixado por Manoel Perna. por causa de sua investigação. assim como testemunhos de diversas pessoas que conviveram com ele. destacando as armadilhas de uma atividade interpretativa da subjetividade do outro.O ameríndio como personagem do Outro na literatura. com sua relação como cidadão brasileiro branco e urbano com o índio. ele representa o papel de pai com os índios.. o narrador frequentou com seu pai a região do Xingu. com a imagem do seu pai. A alternância de vozes narrativas é assinalada por caracteres tipográficos. Menino de seis anos. 103 tropólogo. sem no entanto esclarecer o mistério. O narrador. cujo mistério permanece velado. a quem ele teria feito confissões desesperadas durante nove noites passadas na cidade de Carolina. pois de uma certa maneira são órfãos da civilização. que esfaqueou e mutilou seu corpo antes de se enforcar. A razão da busca obstinada que leva o narrador a se interrogar sobre a morte do antropólogo só será revelada no final do romance: ela está relacionada com a infância. Às vozes desses dois narradores acrescenta-se a voz de Quain. ele será levado. a refazer a viagem nessa região e permanecerá na mesma tribo de Buell Quain. os elementos da investigação sobre Quain se imbricam com lembranças antigas do contato com os índios em companhia de seu pai. igualmente. onde este último tinha comprado uma fazenda. a mais próxima da aldeia indígena.. Mais de trinta anos depois. Pouco a pouco. É a natureza inacessível do ser humano que é colocada em .

] qui conditionne le sens. p. Mais uma vez.15. a representação do índio permanece a mesma. e o início do novo milênio. O que predomina é uma percepção negativa das marcas mais significativas da alteridade dos índios. do departamento de antropologia de Columbia ao qual pertencia Buell Quain.104 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Bernardo Carvalho elabora uma narrativa labiríntica que desconfia do poder da linguagem para elucidar o enigma do real.. os europeus célebres como Lévi-Strauss e o suíço Alfred Métraux. a imagem. Apesar dos diferentes períodos históricos aos quais o texto faz alusão. 1991. de um povo decadente. quando encontramos o narrador adulto em visita aos índios Krahô. que em princípio se dedica a compreender e a fazer compreender o Outro. em processo de desaparecimento. seus laços de parentesco. n. explorando as terras da Amazônia. Nove noites é. Em Nove noites. a imersão no mundo do outro é sempre uma incursão íntima. a recusa de ir em direção ao outro. antes de tudo. Três momentos precisos são evocados: o final dos anos 30. um objeto de estudo. 171). que coloca em cena as lembranças da infância do narrador com seu pai. como o grupo de Franz Boas. seguindo a pista de Quain. O trabalho de escrita que visa a constituir o outro só pode se fazer pelo imaginário “par ce va-et-vient entre soi et l’Autre [. período no qual evolui o personagem Buell Quain no meio dos índios brasileiros. o índio é. la compréhension. um romance sobre as relações de alteridade a partir de uma reflexão sobre o procedimento antropológico. o final dos anos 60.. A figura do ameríndio em Nove noites está inscrita na temporalidade do século XX. Nove noites chama a atenção sobre . 2009 evidência. et l’interprétation” (Affergan. em direção de suas singularidades radicais. antes de tudo. sua comida. A narrativa nos fala dos laços indissolúveis entre a interrogação sobre a estranheza do outro e o rastro subjetivo do sujeito investigador: qualquer que seja o objeto da investigação. enfim. O texto tomanesco lembra os inúmeros antropólogos estrangeiros que se dedicaram ao estudo dos povos indígenas do Brasil. seus ritos.

a instrumentalização intelectual. reduzidos à categoria de objeto de estudo. que não somente teria vendido objetos que ele subtraía às tribos indígenas. Mikhail Bakhtin lembra-nos que o objeto das ciências humanas é um sujeito e o método delas. Foi expulso da tribo pelo Serviço de Proteção aos Índios. Buell Quain. a interpretação. não é um objeto vazio e indeterminado. O romance revela o comportamento de certos antropólogos. como assinala Francis Affergan. dessa maneira. liberando-os das ideias pré-concebidas da época. obcecado pela morte. Não se trata de desprezar as contribuições de grandes pesquisadores à compreensão desses sistemas culturais. sem que se conheça a razão dessa expulsão. O outro.O ameríndio como personagem do Outro na literatura. Antes de viver com os krahô. disposto a se submeter ao olhar e ao tratamento científico do observador. O Brasil dos anos 1930 e 1940 tornou-se um país-fetiche dos antropólogos e sociólogos: o índio e o negro. Ele encontrou aí um povo marcado pelo processo de autodestruição. Ele se articula sobre suas próprias determinações e traz consigo o que poderíamos chamar de seus atributos (Affergan. Mas não se trata tampouco de deixar passar em silêncio um certo olhar dirigido a esse território e a seus habitantes que não são brancos.. alertando também para o fato de que os textos construídos pelas ciências humanas estão longe de serem neutros. denunciando. como o norte-americano William Lipkind. interessou-se primeiramente pelos trumai. 1991). 105 essa espécie de instrumentalização do outro. como teria transmitido relatórios políticos ao governo americano. O romance alude a . contribuindo para que elas gozassem de um reconhecimento pleno. que habitavam um dos territórios mais inacessíveis da Amazônia. política e financeira. A questão levantada pelo texto de Nove noites tem sentido: até que ponto esses sujeitos realmente existiram como tais para todos esses cientistas? Até onde o diálogo pôde se realizar? A obra contempla uma preocupação que se faz presente na reflexão antropológica da atualidade. o personagem antropólogo do romance.. objetos de culto da curiosidade científica deles.

enfim. É a imagem de um homem aterrorizado. furam as orelhas e continuam sem usar roupas nas cidades. pelo bisavô de Bernardo Carvalho. O território brasileiro nada mais é para ele do que o inferno. existe o medo que a criança sente desse povo exótico e desse espaço selvagem: a casa solitária no meio . ele os considera idiotas: “Encontrei um grupo de índios krahô e eles parecem pavorosamente obtusos. desesperado que o testemunho de Manoel Perna. Além do mais. rejeita seus costumes. denunciando a utilização que se faz do Outro para fins que não lhe dizem diretamente respeito (Carvalho. o outro é sempre. sua nudez. p. os índios representando seu próprio papel para um público de brancos. para ele. Quain não compreende os índios. 2001. 30). 2001. 163). o paraíso estaria em outro lugar. o célebre sertanista Cândido Rondon). O antropólogo americano confessa sua dificuldade em trabalhar sobre os índios brasileiros e rejeita parcialmente as marcas (consideradas desagradáveis) que as culturas indígenas imprimiram à cultura brasileira. que proibia as relações sexuais com os índios (serviço que. ao lembrar as orientações do Serviço de Proteção aos Índios. aliás. Para o narrador. Têm cortes de cabelo engraçados. Para Quain. foi criado em 1910.” (Carvalho. 2009 uma provável homossexualidade de Quain. Suas lembranças da infância. evocam um espetáculo deprimente. nas ilhas Fiji. vai elaborar: com os trumai. ele teria encontrado um povo cuja cultura refletia seu próprio desespero.106 Revista Brasileira de Literatura Comparada. uma barreira intransponível. Uma das pistas sutilmente levantadas pelo texto romanesco faz alusão a problemas de ordem sexual. p. instável.15. 2001. p. n. o sertanista amigo de Buell Quain. o Xingu também é a imagem do inferno: “O Xingu ficou guardado na minha memória como a imagem do inferno” (Carvalho. sua íntima decadência. O fato é que o antropólogo parecia muito afetado pela sua estadia na tribo dos trumai. a maneira como eles cortam o cabelo. A convivência com os krahô também não o libera da solidão. A construção desse personagem antropólogo questiona seu olhar etnocêntrico e sua atitude egocêntrica. 72). quando fez a primeira viagem a essa região.

os rituais. mito deslocado significando o encontro abortado entre o brasileiro urbano e os povos autóctones do Brasil. 100): a cena na qual um velho krahô entoa um canto em torno de uma fogueira numa noite de lua. perdida no tempo. um Forte Apache de plástico. o narrador sublinha o processo de aculturação em marcha. ao qual ele se refere como “um dos espetáculos mais deslumbrantes da minha vida” (Carvalho. o narrador retorna à região seguindo os rastros de Quain. recusa de compartilhar a comida deles. símbolo estereotipado do índio selvagem. Medo. Para amainar a decepção do seu primeiro contato com os índios. as brincadeiras. marcado por um sentimento de trágica impotência. índios que comem macarrão e arroz com feijão. mas também recusa da alteridade linguística. um só momento em que o narrador se mostra atraído pelo outro.. mostrando o abismo existente entre seu universo de intelectual urbano e o dos povos autóctones. imagem depurada da história que o homem . imagem ancestral comum a todo ser humano. em expor seus preconceitos. A narrativa coloca em evidência o sofrimento de um povo empobrecido pela política governamental. Uma só passagem no romance evoca a possibilidade de um encontro. p.O ameríndio como personagem do Outro na literatura. e relembra o massacre que os índios krahô sofreram um ano após a morte de Buell Quain. quando os fazendeiros mataram 26 deles. no entanto. ele não hesita. 107 de lugar nenhum. É sempre o mesmo medo que o acompanha diante dos ritos que ele não consegue compreender. abandonado. comportamental. seu pai lhe oferece um brinquedo. no fim do mundo. a floresta agredida e transformada pela violência de um desmatamento caótico imposto pela nova ordem civilizacional. O olhar do narrador recusa o paternalismo: se ele é sensível ao sofrimento dos índios. A harmonia dessa cena remete a uma imagem arcaica. 2001.. vítima de doenças e de comportamentos viciosos transmitidos pelo contato com os ocidentais. Adulto. um povo que não quer ser esquecido pelos brancos. Um povo órfão. Ao mesmo tempo. antítese da civilização. vestidos de short e calçando sandálias japonesas.

para o antropólogo. O que sobressai do efeito do outro sobre o sujeito do discurso é sua incapacidade de ir ao encontro do ameríndio. a figuração do ameríndio como personagem do outro explora a distância com o grupo de referência ao qual pertence o personagem do escritor. p. que defende uma comunicação “suficiente” mas não “excessiva” com as culturas ameaçadas de extinção. O outro que o atrai não é o ameríndio. mas o antropólogo norte-americano. Para o narrador. sua tendência a se fechar sobre suas próprias referências. 52). distanciando-se de uma tradição literária que tende a idealizar a figura do índio. nem o olhar que eles lhe dirigem. como se a possibilidade de um diálogo entre o Brasil ocidental e urbano e o Brasil dos povos autóctones estivesse para sempre perdida. sua recusa em construir laços.108 Revista Brasileira de Literatura Comparada. O narrador de Nove noites não compreende o papel que os índios lhe atribuem nos seus rituais. O índio surge. submisso a uma consciência que o constrói. n. A figuração do ameríndio em Nove noites privilegia as diferenças como enfrentamento estéril. 2009 construiu. Tão bela quanto frágil e efêmera. para melhor as proteger (Carvalho. a recusa em considerá-lo como sujeito autônomo. Constatação de um encontro e de um diálogo frustrados. 2001. como o estrangeiro de dentro. este é o sujeito da alteridade produtora de sentido que o aproxima de seu pai. percebido como indecifrável e ameaçador. o não-valor de sua cultura. As teorias pós-modernas sobre as relações interculturais se afastam dessa perspectiva e . um objeto de estudo. de sua infância e que o conduz a refazer a experiência na tribo indígena. O raiar do dia expulsará a poesia e restabelecerá a incompreensão e o medo. Qual o futuro para as relações interculturais entre uma civilização que tem seu declínio anunciado e uma outra que tem a expansão de sua dominação assinalada? O narrador refere-se ao ponto de vista de Lévi-Strauss. o caminho escolhido pelo escritor coloca em evidência uma representação do lugar marginal que a sociedade brasileira reserva ao índio. o ameríndio é um tema enviesado. então.15. No romance de Bernardo Carvalho.

O ameríndio como personagem do Outro na literatura. eles iniciam uma conversa no momento em que o avião está sobrevoando a região amazônica próximo ao local onde Quain se matou. uma visibilidade.. decadente. 1996) que caracteriza a contemporaneidade: “Vivre la totalité-monde à partir du lieu qui est le sien. A cena que fecha o romance é particularmente expressiva. c’est établir relation et non pas consacrer exclusion. Sentado no avião ao lado de um jovem estudante americano. a adoção do ponto de vista do brasileiro urbano. Trata-se da viagem de volta do narrador.  Em Nove noites.” afirma Edouard Glissant (1996. Mas. Em relação à dialética do “selvagem” e do “civilizado”. país que visitou em 2001 na esperança de encontrar a família de Buell Quain. p. 109 insistem nos aspectos positivos do inevitável processo de hibridação (Canclini. o jovem responde: “Eu vou estudar os índios do Brasil”. ao fazê-lo. branco e letrado projeta a imagem do ameríndio como uma alteridade invisível e em via de desaparecimento. ele recusa qualquer possibilidade de contatos e trocas equilibrados e frutuosos e elabora uma visão trágica de uma civilização em via de extinção. Milton Hatoum se inspira em uma realidade na qual a presença ameríndia é marcante. confere-lhe. participando de um espaço urbano híbrido. Ao ser abordado pelo narrador. aliando-se a uma perspectiva comum a outros romances da produção literária das Américas.. O ponto de vista adotado é o do brasileiro que bebeu na fonte da cultura ameríndia e que é fascinado . Talvez porque nas nossas sociedades cada vez mais compósitas. na imprevisibilidade do mundo-caos. 67). O texto de Nove noites não se inscreve em nenhuma dessas perspectivas. reduzido a um objeto exótico ou a um objeto de estudo. contraditoriamente. o romancista possa apenas registrar essa invisibilidade do “estrangeiro de dentro”. reproduzindo a imagem de um índio aculturado. Visão trágica que lhe retira a perdurabilidade. que lhe pergunta se ele vai ao Brasil para fazer turismo. 2004) ou de creolização (Glissant. depois de uma estadia nos Estados Unidos.

herdeiros de visões do paraíso. Estrategias para entrar y salir de la modernidad. 2009 por ela. Adota outro ponto de vista. 2004. 2007. abrindo-se para a subjetivação da experiência da alteridade. 2001. 1991. o escritor se distancia de um discurso banal que se contenta em louvar as trocas culturais. p. Referências AFFERGAN. Dessa forma. como elemento que se abre à relação com o Outro. denunciando assim o papel marginal que a sociedade reserva ao índio.110 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Conselho Editorial. nem por isso o ameríndio escapa à condição subalterna e à visão trágica que o condena ao desaparecimento. Figurado como mediador do espaço e dos mitos entre a floresta e a cidade. Euclides da. desconsiderando os aspectos da necessária reconstrução de um “lugar habitável” para o sujeito. Mesmo reconhecendo o processo de mestiçagem cultural. Hatoum recusa uma visão reconciliadora do processo de mestiçagem. expondo suas fraturas. Paris: Presses de la Fondation Nationale des Sciences Politiques. O autor não se deixa levar por uma ideologia da mestiçagem como elemento consubstancial à nação brasileira. preferindo destacar a construção dramática desse espaço ambivalente. 108). Hatoum não o idealiza. Francis. 2000. Adotando uma perspectiva complexa do processo de inter-relação de culturas e de imaginários. isoladamente. n. Nove noites. CARVALHO. Néstor Garcia. Culturas híbridas. deixa transparecer a ideia de que esse processo não é capaz de assegurar. Brasília: Senado Federal. São Paulo: Companhia das Letras. a existência de uma sociedade mais justa e solidária nem para os ameríndios nem para os pobres brasileiros inseridos na sociedade urbana. Critiques anthropologiques. onde os conflitos herdados do colonialismo se fazem presentes. Um paraíso perdido: reunião de ensaios amazônicos.15. . México: Grijalbo. CUNHA. Bernardo. abandonados à miséria e à orfandade. transformando a escritura numa “zona de tensões” (Harel. CANCLINI.

111 GLISSANT. La poétique de l’altérité et la représentation de l’Amérindien dans la fiction des Amériques. n. Edouard. 2004. O social e o político na pós-modernidade. Introduction à une poétique du divers. SANTOS. Québec: Éditions Nota Bene. 1991. Estranhos estrangeiros: poética da alteridade na narrativa contemporânea brasileira. Pela mão de Alice. L ’espace en perdition. HAREL. _____. Milton. Rio de Janeiro: Imago. 2007. 2007. Texto inédito. Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea. Poética do Pós-Modernismo. 34. 2005.-jun. de Ferreira de Castro. ed. 185-194. 1996. MOURA. _____. Teresa: revista de literatura brasileira. _____. 101-117. p.php?op=resumos/docs/novenoites>. Trem fantasma. .. São Paulo: Companhia das Letras. 2008. PATERSON. HUTCHEON. Québec: Nuit Blanche. Montréal: XYZ. entrevista de Bernardo Carvalho.portrasdasletras. com. 1994. Janet M. n. São Paulo: Companhia das Letras. MORENCY. Le mythe américain dans les fictions d’Amérique. 29. 1988. Brasília. GODET. Francisco Foot. A utopia e os conflitos paradigmáticos. Québec: Les Presses de l’Université Laval. Les passages obligés de l’écriture migrante. 1. _____. Jean. Orfãos do Eldorado. O espaço geográfico no romance brasileiro. HARDMAN. Salvador: Fundação Casa Jorge Amado. São Paulo: Cortez. a modernidade na selva. Paulo. Paris: Gallimard. Rita Olivieri. de Márcio Souza). jan. 1993. e Mad Maria. Figures de l’Autre dans le roman québécois. In: _____ et al. Les lieux de la précarité de la vie quotidienne. Simon. p. 2000. A dois passos do deserto: visões urbanas de Euclides na Amazônia. Boaventura de Souza. p. FFLCH-USP São . 2000.br/pdtl2/sub. Disponível em: <http://www. 233-252. Flávio. Linda. In: _____. A natureza como ficção (Leitura do espaço nos romances A selva. HATOUM..O ameríndio como personagem do Outro na literatura. A trama traiçoeira de Nove noites.

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aesthetics. de estética e de cânone. na qual não esteja implícita uma posição sobre o valor. This article is part of a contemporary debate on aesthetic value. palavras-chave: abstract: valor. defensores da primazia do cânone ocidental. and canon. argumentando que culturalistas. sugerem-se algumas pautas para o debate. frequentemente ignorada. é apresentado como uma polêmica entre defensores de um firme cânone * Tulane University. compartilham uma série de pressupostos. com frequência. revisores do cânone. cânone e crítica formal Este ensaio parte da premissa de que não há crítica ou teoria literária. baseadas na descontinuidade. entre os conceitos de valor. contingency. Como veremos. aesthetics. essa premissa é simultaneamente negada e aceita pelos dois polos de um debate que. por mais descritiva. A partir de uma compreensão do caráter contingente do valor estético e da impossibilidade de fundamentá-lo de maneira imanente à obra. Understanding the contingent nature of aesthetic value and the impossibility of grounding it immanently. cânone.113 Cânone Literário e Valor Estético: notas sobre um debate de nosso tempo Idelber Avelar* resumo: Este ensaio se insere no debate contemporâneo acerca do valor estético. e esteticistas. contingência. keywords: value. I suggest a few possible routes for the debate. . I argue that canon-revising culturalists as well as aestheticists who defend the primacy of the Western canon share a number of premises. estética. based on the often ignored discontinuity among the concepts of value. canon.

mas no sentido classista . Allen Tate. elaborou pouco sobre a questão do valor. que rejeitariam o pressuposto da inevitabilidade valorativa. o New Criticism focalizou a valoração na diferença entre a literatura e a cultura de massas. O New Criticism surgiu. jamais tivessem escondido suas preferências literárias. nos anos 1930. optando por um projeto que tinha um caráter mais descritivo que valorativo. com seu afã científico e universalizante. S. mesmo nos momentos de maior formalização do método. 2009 ocidental e culturalistas favoráveis a uma relativização ou abolição desse cânone. este ensaio tenta demonstrar que a própria formulação do debate é problemática. Além de tomar algumas posições que não se alinham com nenhum dos dois polos. como intervenção numa polêmica culturalista – entendendo-se “cultura” não no sentido antropológico. que fizesse desta o antídoto contra a vulgaridade massiva associada à racionalidade técnica moderna e à “dissociação da sensibilidade”. Cleanth Brooks – se . já numa fase de seu pensamento em que são visíveis as inspirações nietzscheana e lacaniana. conceito que herdaram de T. Hegemônico durante décadas na crítica estadunidense.114 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Os textos de Roland Barthes em que a preocupação com o valor se torna explícita são aqueles escritos a partir do final dos anos 1960.15. Eliot. O estruturalismo. visível na batalha que eles livraram contra o establishment da filologia. sabemos. R. Há correntes críticas do século XX. A insistência dos new critics no caráter desinteressado da literatura acabou sendo um gesto no qual se albergava um nítido interesse. discursos com fortes componentes axiológicos. portanto. como Roland Barthes e Julia Kristeva. P Blackmur. e que o valor estético e o cânone literário podem e devem ser repensados em outros termos. mas não em distinções efetuadas no interior da série literária. os new critics – John Crowe Ransom. Robert Penn Warren. depois da progressiva ruptura com a formalização do estruturalismo. n. embora seus principais teóricos. diferenciavam dos filólogos então dominantes ao conferir um papel edificante para a literatura. Nas suas origens.

Frye chegou a considerar “Poética estrutural” como um possível subtítulo para o livro. no qual ele se distanciava tanto do New Criticism como da Escola de Chicago. quebradas em meias-verdades …. nas quais invariavelmente encontrariam a ironia. na França. o jogo de antinomias. que era seu principal antagonista. a centralidade do conceito de mito.. Como apontaram Gerald Graff (1987. e alguns dos eixos da obra revelavam nítido parentesco com o trabalho que o estruturalismo literário francês realizaria nos anos seguintes: as metáforas espaciais. ainda que fosse para negar sua pertinência para a prática crítica. a ambiguidade e o paradoxo que eles antes reservavam aos modernos e aos poetas metafísicos ingleses do século XVII. e onde todas as verdades já foram. o momento de triunfo do New Criticism na universidade e de consolidação da poesia modernista no currículo coincidiu com o arrefecimento dessa veia polêmica. a insistência no imanentismo e no caráter autossuficiente da crítica literária.Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate.) e John Guillory (1993. o caráter sistematizador. 155-175). Uma das diferenças importantes é que Frye se dedicou longamente ao problema do valor literário. p. Tomo Frye como ponto de partida de uma demonstração do que considero o caráter aporético da discussão sobre o valor literário: Na história do gosto.. A consolidação do método como leitura hegemônica acabou acarretando a universalização dos traços que eles antes só viam nos autores do seu paideuma particular. No momento em que Northrop Frye publicou o hoje clássico Anatomia da crítica (1957). 115 e aristocrático do termo. Mas como a história do gosto não tem vínculo . sentimos talvez que o estudo da literatura é relativo e subjetivo demais para ter sentido consistente. onde não há fatos. uma apresentação explícita do problema da valoração já era inevitável. 145 et seq. já se desenvolvia havia uma década com Lévi-Strauss. de maneira hegeliana. p. Os new critics se moveriam em direção à análise de estruturas internas dos textos. Embora não fizesse ali nenhuma referência ao trabalho da antropologia estrutural que.

1 Anatomia da crítica sugere. ele lança mão de uma curiosa tese. mais válidas quando silenciosas. dinamitando a separação que se havia proposto entre elas: As estimativas comparativas de valor são realmente inferências da prática crítica. 3) . 18). O leitor o percebe quando chega o espinhoso momento em que Frye tem de justificar suas escolhas.116 Revista Brasileira de Literatura Comparada. 1957. O crítico verá logo. O curioso da analogia de Frye. assim como não é óbvio que a polêmica Marx-Ricardo não seja parte da “estrutura” da economia política. 25). que 1) a crítica é uma esfera separada da história do gosto.1 Um pouco antes. 18). simultaneamente. p. 1957. 2) é “óbvio” que alguns poetas são melhores que outros. é que está bem longe de ser uma verdade evidente que a polêmica Huxley-Wilberforce não seja parte da “estrutura da biologia” (seja lá o que for isso). À medida que o leitor percorre as páginas de Anatomia da crítica.15. p. pode-se estar razoavelmente convicto de que tal separação é a coisa menos fácil que há. n. a de que é preferível que os valores que subjazem às escolhas estéticas da crítica fiquem escondidos. portanto. vai se impondo uma conclusão: sempre que Frye diz que a crítica é “facilmente separável” do gosto e do juízo valorativo. Porque insistir nela é tudo o que ele pode fazer: qualquer crítica motivada por um desejo de estabelecê-lo ou prová-lo será meramente mais um documento na história do gosto (Frye. pois explicitá-los terminaria fundamentando a crítica na história do gosto e. São minhas as traduções de todas as citações de fontes em línguas estrangeiras. e constantemente. que Milton é um poeta mais sugestivo e recompensador que Blackmore. 2009 orgânico com a crítica. ele afirmara que “a história do gosto não é parte da estrutura da crítica. menos tempo ele desejará desperdiçar insistindo na questão. Mas quanto mais óbvio se torne isso. Para isso. ela pode ser facilmente separada (Frye. e não princípios expressos que guiam sua prática. por certo. assim como o debate Huxley-Wilberforce não é parte da estrutura da ciência biológica” (p.

. não antes que Yuri Tinianov formulasse algumas pistas acerca do que poderia ter sido uma concepção formalista da .2 haveria que se dedicar especial atenção às maneiras como o desejo de cientificidade entrou em choque com a inevitabilidade valorativa. Numa futura história dos métodos formais no século XX. aumentando-lhe a dificuldade. O projeto de descrever cientificamente a linguagem poética os levou a estabelecer a noção de estranhamento (ostraneniye) como o mais próprio da literatura. 2) não se faz crítica sem uma escolha valorativa. Frye não pode senão sugerir que os fundamentos das escolhas valorativas permaneçam sem discussão. se sustenta sobre um tripé de premissas de visível precariedade: 1) a crítica e o gosto não se misturam. mas tropeça na constante interferência desta sobre aquela. No caso do formalismo russo. Shklóvski definiu o conceito como o processo por meio do qual a novidade das operações poéticas sobre a linguagem prolongaria a percepção. 2 qualquer tentativa de explicar essa obviedade está fadada a ser parte da história do gosto. mesmo que reconheçamos que a atividade crítica depende de escolhas valorativas. Preso num discurso que postula a separabilidade da crítica ante a história do gosto. Anatomia da crítica. teremos de esconder debaixo do tapete os critérios que subjazem a elas. No momento mais frutífero do desenvolvimento das pesquisas dos formalistas. sob o risco de que todo o edifício desmorone. esses dois eixos coexistiram com certa tensão. a consolidação do poder político nas mãos de Stálin os forçou ao exílio ou ao silêncio. 3) já que a valoração é definida como parte de uma história do gosto externa à crítica.Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. O estranhamento possibilitaria uma renovação de uma experiência do mundo caracterizada por uma percepção já automatizada. não da crítica. 117 Para o estruturalismo. ver o notável trabalho de história intelectual já feito por François Dosse (1991-92). Seria possível demonstrar que a aporia detectada em Frye se repete nos métodos interpretativos que tentaram fazer da crítica literária uma operação descritiva na qual não teria lugar o debate acerca das opções valorativas. fruto da repetição constante.. um dos livros de crítica literária mais influentes do século XX.

2009 história literária. Para Tinianov. A sofisticação do aparato teórico dos formalistas os levou do imanentismo textualista a uma incipiente teoria da história literária. Sempre que um procedimento passasse a ser parte do repertório de práticas já esperadas. O edifício teórico dos formalistas nos leva à conclusão ineludível de que Dom Quixote tem um valor que Amadis de Gaula não apresenta. a literatura evoluiria por meio da paródia. e assim por diante. Um exemplo clássico é o que Dom Quixote fez aos romances de cavalaria. Apesar de que as observações feitas acima sobre Frye não se aplicam aos formalistas. combinada à condenação ao impressionismo dos simbolistas. pelo estranhamento imposto a formas literárias automatizadas pelo uso excessivo. eles tampouco se dedicaram a tematizar explicitamente o problema do valor. tornando visível a automatização anterior. ajuda a explicar a relação multifacetada que os formalistas mantiveram com o tema do valor. ou seja. é claro. n. às correntes críticas que explicitamente reivindicam a valoração como elemento constitutivo da ati- . parece inescapável a conclusão de que o valor está acoplado à realização desse programa: quanto mais estranhamento e mais ruptura paródica com as formas anteriores. Muito ainda poderia ser dito aqui. uma operação paródica tenderia a surgir.118 Revista Brasileira de Literatura Comparada. As conhecidas afinidades entre o formalismo e o futurismo russos emprestam credibilidade a essa tese.15. expondo a artificialidade de suas convenções. Mas reconhecer sua existência – mesmo que implícita – é indício adicional de que até nas empreitadas mais cientificistas da crítica literária impõe-se a inevitabilidade valorativa. mais valor. A insistência na função descritiva da teoria literária. de que as vanguardas realizam a vocação da literatura de uma maneira que os parnasianos não fazem. A partir das premissas de que o estranhamento é mais próprio à literatura e de que a história literária evolui pela operação paródica sobre formas anteriores congeladas. interrompida pela consolidação do poder burocrático na União Soviética. mas passemos ao extremo oposto. Não há nada de condenável nessa axiologia.

142). Booth tenta resgatar essa função humanista sem reduzi-la a um conjunto de normas. ao mesmo tempo em que continua se agarrando a um conceito de literatura como fonte singular de um “mergulho em outras mentes” (p. Posição de destaque nessa vertente cabe aos críticos que se ocupam das relações entre ética e literatura. ou seja. crítica ética e falácia igualitária Wayne Booth. 119 vidade crítico-literária. O desafio que Booth se coloca é manter algumas das premissas da teoria contemporânea (acerca da variabilidade histórica do sentido ou da impossibilidade de uma medida transcendental de valor). Se não. ao continuar tomando esses valores como intrínsecos. ix). que ele define como uma “Conversa celebrando as muitas maneiras em que as narrativas podem ser boas para você – com vislumbres de como evitar seus poderes para o mal” (p.. 36). necessária.Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. seria a defesa daqueles valores sobre outros. Como se verá. com seu The company we keep.. que valeriam “menos”. Consciente de que as condenações moralizantes de uma tradição que vai de Platão a Leavis deram à crítica ética uma má fama. que provocaria uma “série de efeitos no ‘caráter’”. a tarefa não é fácil. o Bem ou o Mal . ocupa um lugar central no chamado ressurgimento da crítica ética nos EUA. Booth abraça o projeto humanista de ilustração por meio das letras. p. um debate cujas origens podem ser remetidas aos Livros III e X da República de Platão. Na tentativa de esclarecer os valores que subjazem às análises estéticas. a saber. Booth coloca a pergunta: “Poderemos esperar encontrar uma crítica que respeite a variedade e ofereça um saber acerca de por que algumas ficções valem [are worth] mais que outras?” (1988. a conclusão lógica. Qualquer tentativa de sustentar este último postulado – de que algumas ficções realmente valem mais que outras – só poderia “respeitar a variedade” interrogandose sobre os processos históricos por meio dos quais certos valores foram conferidos àquelas ficções.

uma minuciosa tentativa de aceitar a variabilidade de interpretações sem deslocar a discussão do terreno do valor intrínseco ao campo da valoração social. como o contraste entre King Lear. então.. A reductio ad absurdum será uma das estratégias retóricas favoritas dos que mantêm a referência ao valor estético como propriedade intrínseca e resistem ao argumento de que o valor só pode ser entendido por meio da remissão ao seu solo social. com sua insubstituível função moral reassegurada.) sem renunciar à premissa de um valor ético intrínseco à literatura e a algumas obras literárias mais que a outras. ou entre um poema de Yeats e uma brincadeira improvisada em verso. por mais variável que se conceda que ele seja. e um exemplar da revista pornográfica Hustler. a grande literatura emerge intacta. etc. Depois de superar essas caricaturas.15. O objetivo é evitar os “riscos” de “fechamento” ou “abertura” excessiva. de Shakespeare. 2009 aos quais o prefácio alude. No momento em que a teoria não consegue . aquela área cinza que permitiria ao crítico evitar qualquer “silogismo universal” (esta obra é boa porque apresenta X. termina sempre transcendendo os conflitos da valoração social. Company é. Booth quer aceitar o pluralismo hermenêutico da teoria literária contemporânea sem abrir mão do absolutismo da filosofia moral.. uma dose excessiva de qualquer valor (seja a ironia. Daí sua busca do meio do caminho. qualquer virtude levada ao extremo pode destruir as outras. n. A solução moderada busca um pluralismo que mantenha a referência a um valor intrínseco o qual. A necessidade de caminhar sobre a corda bamba que separa o reconhecimento das contingências históricas do compromisso humanista leva Booth a fazer uma série de gestos na direção do relativismo: o que é bom cá não é bom lá. pode ser bom para você mas não para mim. Booth “realiza” essa tarefa por meio de uma série de exercícios de reductio ad absurdum. Os tropeços da crítica ética seriam explicáveis por sua tentação especial de “sobre-generalizar”. portanto todas as obras que apresentem X.120 Revista Brasileira de Literatura Comparada. a abertura formal ou qualquer outro) pode ser prejudicial em vez de positiva.

seu pluralismo não é radical. Ao se referir à crítica contemporânea. 73). 84). Booth afirma que “a ênfase na variedade de interpretações nos diz pouco sobre o valor real das obras” (p. “a recorrente ansiedade / acusação / reclamação de que a menos que se possa demonstrar que um juízo é mais ‘válido’ que outro. Significa que “competência” não é um significante com sentido unívoco e eterno.. ou seja. e que seu próprio conteúdo só pode ser compreendido com referência ao contexto particular em que algumas habilidades contam como competência e outras. Essa afirmação repousa sobre a premissa de que o valor é uma espécie de propriedade inerente ou essência eterna. posição que Booth descarta como “subjetivista” (p. compare-se a Divina comédia com um exemplar da Revista Veja. todos os juízos devem . e sim liberal. o terreno está preparado para que o liberal sensível procure a conciliação razoável. ou seja. A equação imaginária entre a contingência social do valor e uma suposta igualdade entre os agentes valoradores é o que Barbara Herrnstein Smith denominou a falácia igualitária. 121 fundamentar essa transcendência. constate-se a óbvia diferença entre os valores intrínsecos e o problema está “resolvido”. mas que somente são valoradas” (p.Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. Ao contrário do que argumenta Booth.. não. Essa mitologia da ponderação não deixa de operar na teoria. Mas Booth parece ter entendido mal a teoria da contingência. Sempre que se remete um problema à “tentação de sobre-generalizar”. ela pressupõe uma recusa a considerar o argumento de que todo valor é produto do choque de valorações contingentes e historicamente variáveis. Os ataques ao “subjetivismo” do ponto de vista de uma ética humanista são bem conhecidos e Booth os repete em seu livro: “pressupõe-se claramente uma completa equivalência na competência de todos os intérpretes no argumento de que as obras não possuem ou exercem valor inerente. 85). Afirmar que a valoração é socialmente contingente não significa dizer que todos os agentes valoradores são igualmente competentes.

de alguma forma. p.122 Revista Brasileira de Literatura Comparada. 98). mergulho na alma humana. uma espécie de grau zero da axiologia que replica a ilha de Daniel Defoe. renovação da linguagem. se a compreensão do conceito de valor se deslocou de uma imanência dormente a uma rede de relações sociais. digamos. é precisamente porque os juízos não são igualmente válidos que os valores nunca são intrínsecos. Eis aí a falácia da ansiedade essencialista que preconiza que. progresso do espírito. nos romances de Faulkner. obviamente. não teriam a mesma pertinência para o “nosso” discurso. padece da impossibilidade de fundamentá-los mais além da tautologia. suas opiniões sejam tão pertinentes a nosso discurso sobre Faulkner como as opiniões de leitores experientes” (p. 1988. uma pessoa inexperiente em literatura não poderia pertencer à mesma cultura e suas opiniões.15. Com efeito. diferentes vertentes da crítica prescritiva arrolaram fundamentos transcendentais a partir dos quais a literatura deveria ser julgada: formação do caráter. A falácia igualitária se sustenta no que Marx chamava de “robinsonada”. A falácia é que. idênticos uns aos outros. Na verdade. . por definição. Se os imanentismos formais não escapam da axiologia. por mais que se queiram descritivos. a crítica humanista. idênticos a si mesmos. n. 2009 ser ‘iguais’ ou ‘igualmente válidos’” (Smith. A falácia igualitária confunde uma posição social construtivista com uma posição moral e estética relativista. Note-se um exemplo em Booth: “me parece difícil acreditar que se uma pessoa de nossa cultura que é completamente inexperiente em literatura não vê absolutamente nenhum valor. que não esconde seu compromisso com a noção de que a literatura deve defender valores éticos. É exatamente por causa do fato de que as valorações não são nem válidas da mesma forma nem identicamente posicionadas nas relações sociais que elas jamais são intercambiáveis. sempre há que se perguntar qual sujeito da enunciação se esconde por trás de um pronome de primeira pessoa do plural. e sim articulados por meio de conflitos sociais. Como a desconstrução e o marxismo nos ensinaram de diferentes formas. os valores ficaram. 85).

Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. Mas nenhum desses fundamentos se sustenta como base de uma estética sem remissão a outro valor que o justificaria. desconstrucionistas. p. exceto não ter tornado bem visível o seu próprio ressentimento. podemos censurar qualquer coisa. 123 defesa do legado ocidental.. 20). porque sua contribuição ao progresso social é a generosidade de se oferecer para rápida ingestão e descarte” (p.. assim. a única resposta possível é: quem ja- . emancipação do proletariado. Diante de certas frases de Bloom. em alguém que responsabiliza a Escola do Ressentimento pelo fato de viver “no que considero a pior de todas as épocas para a crítica literária” (p. feministas. Ela dispara. como “o radicalismo acadêmico chega ao ponto de sugerir que as obras se incorporam ao Cânone por causa de propagandas [advertising] bem-sucedidas e campanhas de doutrinação [propaganda]” (p. em seu O cânone ocidental e. em seu Altas literaturas. crítica estética e pânico ocidentalista Para Harold Bloom. um processo de regressão infinita. A pergunta: “por que deve ser este o valor a partir do qual julgar a literatura?” não pode ser respondida imanentemente. no Brasil. 22). uma alteração da ordem vigente provocará a sensação de que qualquer ordem está se tornando impossível. uma estrutura abismal. 20) e proclama “a abertura do Cânone” (termo que Bloom insiste em grafar com maiúscula) para a incorporação de obras que “não devem e não podem ser relidas. é inevitável. neo-historicistas e afrocêntricos seriam os agentes contemporâneos de uma “Escola do Ressentimento” que “nega a Shakespeare sua palpável supremacia estética” (1994. de Leyla Perrone-Moisés. lacanianos. 30). É o que vemos nas críticas estéticas de Harold Bloom. Para quem experimenta uma contingência como se esta fosse uma não-contingência. Ironicamente. Vários “defensores do cânone ocidental” reagem nervosamente à demonstração da impossibilidade de autofundamentação imanente do valor estético. marxistas. A fundamentação do valor na estética teria.

Da leitura de Bloom. de Henry Louis Gates. como The signifying monkey. que talvez seja a mais ilustre barthesiana da América Latina e cujos primeiros livros foram escritos na mais absoluta alegria e afirmação. quando mais socialmente precário seja seu fundamento. é impossível não se perguntar que pai é esse que. Mais que atacar Bloom. O mais surpreendente é que essa posição – defendida nos EUA por Harold Bloom. n. produz filhos tão bárbaros como os desprezíveis afrocêntricos e feministas. a ser representada no Brasil por Leyla Perrone-Moisés. 2009 mais disse isso? Qual feminista ou “afrocêntrico” de relevo disse algum dia que a incorporação de uma obra ao cânone se deve ao advertising e à propaganda? Desconhece-se.15.124 Revista Brasileira de Literatura Comparada. ou de um ponto de vista afro. de Sandra Gilbert e Susan Gubar. É verdade . pois nas centenas de páginas de queixas ressentidas contra a tal Escola de Ressentimento. retiremos mais um axioma: quanto mais ameaçados se sintam os guardiães da suposta universalidade de um determinado valor. mesmo perfeito. como The madwoman in the attic. ensaísta que não tem nenhum histórico de associação com o conservadorismo político. 40) – e é ubíqua sua afirmativa de que Shakespeare é o pai de todos –. e o livro de Bloom não ajuda. Se é correto afirmar que parte da crítica contemporânea se dedica a questionar o processo de emergência dos cânones. trata-se aqui de assinalar um paradoxo bem curioso que veremos reiterado no lamento contra os estudos culturais. Nas obras que se dedicaram a revisar o cânone a partir de uma perspectiva feminista. há uma década e meia. um crítico associado à direita mais conservadora – passou. ele não nomeia seus supostos integrantes. menor será sua capacidade de entrar em genuíno debate com a força emergente que aponta o caráter contingente desse valor. seria difícil encontrar um estudo sério defendendo algo que vagamente lembrasse a caricatura apresentada por Bloom. certamente não encontramos nenhuma equação entre a construção do cânone e a propaganda. Se Bloom insiste com tanta ênfase em afirmar que “Shakespeare inventou a todos nós” (p.

posto que todo o livro de Smith é uma análise do porquê dos juízos de valor serem inevitáveis. colheu suas referências principais em Derrida. gerando a dúvida sobre se ela realmente os terá lido. p.. introdutor dos estudos “póscoloniais”. a palavra ocidental foi suprimida na denominação dos cursos sobre cultura (Perrone-Moisés. 196). Também é bastante irônico . p. dedicado ao diagnóstico do presente. foi achar que se tratava de um erro tipográfico. Observe-se. 230). Bhabha. a abundância de vozes passivas (“o cânone ocidental . Foucault.3 Tomemos o diagnóstico da ensaísta brasileira sobre as raízes da perda de relevância social da literatura e da daninha influência norte-americana: Um curso de humanidades baseado na leitura de ‘grandes obras’ do Ocidente.. por pressão dos grupos particularistas. Jamais sabemos quem são eles.Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. seria hoje impensável nos Estados Unidos. Kristeva. “as feministas norte-americanas”. ao ler que Barbara Herrnstein Smith “considera que o juízo de valor é indesejável” (Perrone-Moisés. Lefort etc. 1998. ela lhes atribui posições diametralmente opostas às que defendem em seus livros. Na Universidade de Stanford. “os anti-canônicos”. 1998. 3 que a ensaísta brasileira se diferencia de Bloom. “os particularistas”. 125 Minha primeira reação. O turco Homi K. p. como aquele que foi ministrado em 1936 na Universidade Columbia por Lionel Trilling e outros. Nos momentos em que Leyla Perrone nomeia duas figuras envolvidas com o debate sobre o cânone nos EUA – John Guillory e Barbara Herrnstein Smith –. Reencontramos em Altas literaturas o mesmo procedimento de Bloom: o ataque a um adversário cujos representantes não são nomeados e ao quais não se concede a generosidade da citação. Parecem não ter obra. foi posto sob suspeita”... 195). 192). no capítulo 5 de Altas literaturas. “a formação desse cânone foi examinada do ângulo ideológico”. de sujeitos ocultos e de sintagmas como “alguns grupos”. mas o diagnóstico do que teria acontecido a partir da chegada dos estudos culturais é fundamentalmente o mesmo. acrescido do altamente antiantropofágico medo de que o Brasil se contamine pela influência norte-americana: “o lamentável de tudo isso é que muitos universitários brasileiros estejam recebendo essas tendências norte-americanas sem o menor espírito crítico” (Perrone-Moisés 1998. p.

sem citações.] há um contra-senso histórico no desejo de modificar o cânone passado. Melville.]. de Edward Said. 4) Desconhece-se universidade estadunidense que tenha excluído Mark Twain. para nele incluir os então excluídos [. 2009 que os “pós-coloniais” se insurjam contra o que chamam genericamente de “ideologia ocidental”. seja na pós-graduação em literatura.. Corrijamos alguns: 1) Homi Bhabha não é “turco”. exames e teses. que herdam de Foucault a suspeita ante o conceito.. 194-195). Melville e Hemingway do currículo. no máximo. n.. porque eram escravagistas. Fica difícil realizar um debate a partir de tantos erros factuais. já que Leyla Perrone os caracteriza genericamente. Faulkner. causa estupefação a afirmativa de que é hoje “impensável” um “curso de huma- ... (p. para colocar em seu lugar alguma mulher medieval que porventura tenha conseguido escrever alguns versos não seria ato de justiça.126 Revista Brasileira de Literatura Comparada.15. uma vingança extemporânea [. As exclusões ideológicas têm tido um efeito imediato e lamentável nos currículos norte-americanos: Mark Twain e Faulkner. porque antiecológico etc. 3) Não se sabe quais seriam esses teóricos pós-coloniais que se insurgem contra “o que chamam genericamente de ‘ideologia ocidental’”. Excluir do cânone um Dante. seria. bem europeia e humanista. Hemingway. 2005) apontam como momento inaugural a publicação de Orientalismo (1978). uma rápida busca nos sistemas das cento e três instituições catalogadas pela Carnegie Mellon como Research universities demonstra que esses quatro autores continuam abundantemente presentes em cursos. campo de estudos cujas genealogias unanimemente (Desai e Nair. aliás. porque era caçador e machista. seja na licenciatura em inglês. 198-199). mas é sabido que a noção de ideologia tem pouca circulação nos teóricos pós-coloniais. 2) Bhabha não é o “introdutor” dos estudos pós-coloniais.]. e sim indiano. munidos de argumentos iluministas historicamente tão ocidentais quanto o repudiado imperialismo (p. [. palestino-americano de formação.. 5) Para qualquer conhecedor do sistema universitário norte-americano.

a implantação do novo currículo foi absolutamente tranquila.4 Não é exatamente uma seleção escalada por uma afrofeminista radical. os currículos universitários norte-americanos incluem um curso de obras-primas ocidentais que percorre. Graff. cito o que está sendo ministrado na minha própria. em geral. onde se incluíam textos “não-ocidentais” como os de Frantz Fanon e Rigoberta Menchú. de cunho comparativo. Rousseau. 127 A lista de leituras está disponível em: <http://honors. Nietzsche. 6) A incrível afirmação de que em Stanford “a palavra ocidental foi suprimida na denominação dos cursos sobre cultura” merece parágrafos à parte. 1993) teria sido suficiente para evitar o erro. Em março de 1988. asp?id=Courses>. O curso do segundo semestre cobre da Antiguidade até a Idade Média. Primo Levi. em uma das grades. Dentro de Stanford. tulane. Hobbes. um trajeto que vai de Homero (ou Platão) a Nietzsche. Como sabem quase todos. Como exemplo. no primeiro semestre de 2010: a lista de leituras consiste em Maquiavel. Tulane.. 2001. Fanon e Coetzee. Freud. o Senado de Stanford decidiu aprovar uma proposta de substituição de um desses cursos de “cultura ocidental”. e nele não há sombra de “alguma mulher medieval que porventura tenha conseguido escrever alguns versos”. Virginia Woolf. são parte de oito grades dentro das quais o aluno pode cumprir os requisitos de humanas. Marx. Newsweek e Wall Street Journal acerca da polêmica em Stanford que desatou as chamadas “guerras culturais” nos EUA. Dostoiévski. Casement. Uma breve consulta à bibliografia séria acerca do incidente (Pratt. em Stanford.Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. O curso que costuma atender pelo nome de Great Books é um dos mais comuns em qualquer grade curricular de qualquer boa universidade estadunidense. Cervantes. por um curso intitulado “Culturas e valores”. embora esses autores também sejam lidos numa série de cursos que. num debate já informado por . 1996. É lamentável que uma ensaísta que dedica páginas a criticar as simplificações da cultura de massas e da mídia reproduza a distorção veiculada por Time.edu/web/default. 4 nidades baseado na leitura das grandes obras do Ocidente”.. inclui Dante. Stendhal.

um think tank de direita). estava pronta para presenciar a queda do comunismo e identificava na cultura a nova guerra que deveria vencer. a direita republicana concluía oito anos de controle sobre a Casa Branca. A grande imprensa passou a dedicar blocos de seus programas à “eliminação da cultura ocidental no currículo das universidades americanas”. que aprendeu espanhol já adulta.5 Em 1988. Menchú. ver o belo livro de Yúdice. autor do best-seller Illiberal education. ativista guatemalteca de etnia maiaquiché. A defesa do projeto foi ligeiramente politizada por grupos de estudantes. mas tudo correu dentro da normalidade que se espera de uma revisão curricular como qualquer outra. as forças conservadoras do país passaram a dedicar intenso esforço à vitória na luta cultural. O livro de D’Souza atacava especialmente a incorporação ao currículo do testemunho de Rigoberta Menchú. grupos religiosos e o Partido Republicano acompanhavam o debate de perto. 2009 anos de reflexão sobre a necessidade de oferecer outras versões sobre a modernidade. 2004. Herbert London (fundador do Hudson Institute. Estavam lançadas as sementes do que se conheceria depois como “as guerras culturais”. William Bennett (ex-secretário de educação no governo Reagan). O relato é indissociável das atrocidades cometidas na guerra civil da Guatemala nos anos 1970 e 1980. ao “assassinato de Shakespeare e Platão” e à “intimidação de ativistas estudantis”. de Sobre o caráter ubíquo que tem adquirido a cultura como terreno onde se jogam os antagonismos políticos. Desde Watergate. 5 . entre outras generalizações provocadoras de pânico. a queda de Nixon e a consequente desmoralização da direita americana.15. exceto por um detalhe: as principais fundações da direita norte-americana. Os neoconservadores sabiam que era no terreno da cultura que se jogaria a cartada decisiva. narrou verbalmente sua história de vida à antropóloga Elizabeth Burgos. Allan Bloom. n. passariam a acusar Stanford de jogar no lixo a cultura ocidental. A votação no Senado foi normal. e Dinesh D’Souza. acabava de estrangular a revolução centro-americana. autor de The closing of the American mind.128 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Investiram-se milhões de dólares na construção de think tanks como a Heritage Foundation.

não em projeções fantasmáticas. é atrocidade também. p. em incontáveis cursos de Stanford ou de qualquer outra boa universidade norte-americana. latino-americano e ocidental têm se transformado de maneira lenta e modesta. os cânones brasileiro. especialmente aquelas marcadas por ansiedades quanto aos estudos culturais: a rentabilidade do debate sobre o valor estético costuma ser inversamente proporcional à sua acoplagem ao problema do cânone. Dito de outra forma: o conceito de valor abre um horizonte riquíssimo . 1998. creio ser desnecessário confirmar que a presença do termo “ocidental”. O que enfurecia no testemunho de Menchú era que. bem menos dramática do que seria de se imaginar por intervenções apocalípticas (“estão assassinando Platão e Shakespeare”) ou triunfantes (“estamos conquistando espaço para os excluídos”). O livro dizia: o ocidente é isto aqui também.Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. ele dava uma resposta implícita aos que idealizam o Ocidente ou “os valores ocidentais” como cavalos de batalha morais. Os exemplos citados acima ilustram algo que é frequentemente esquecido por ambos os lados no debate sobre o valor. A estas alturas.. ou que não exista nada a se criticar nos estudos culturais e nas plataformas feministas ou étnicas de revisão do cânone – simplesmente é melhor fazer os balanços disciplinares com base em fatos e bibliografia. jamais esteve em perigo. Apesar das aparências. ao ser incluído num currículo universitário de culturas ocidentais. valor literário e apocalipse Daí não se conclua que tudo vai bem com o ensino de literatura nos EUA.. Proponho desenvolver aqui uma ideia que parecerá estranha aos que acompanham as discussões sobre o valor. É incoerente citar o axioma benjaminiano acerca da inseparabilidade entre documento de cultura e documento de barbárie (Perrone-Moisés. 202) e reagir com pânico no momento em que se extrai uma mínima consequência prática da profunda e radical verdade desse axioma. 129 responsabilidade de uma ditadura financiada pelos EUA.

sobre a suposta barbárie que ela vê nos tempos atuais. utilidade. Haroldo de Campos e Sollers contrastam nitidamente com a desinformação do capítulo final. Depois de mapear os paideumas dos escritores-críticos modernos. escritura e Falência da crítica em minha própria entrada na profissão e. “ocidentalistas” e “particularistas”. Borges. sim. visualidade e sonoridade. que insistia que os críticos literários deveriam escrever sempre sobre aquilo de que gostam. Butor. concisão.15. pelo papel que cumpriu a beleza cintilante de livros como Texto. completude e fragmentação. Perdido nesse debate fica o fato óbvio. Calvino. n. A paixão e a erudição com que a autora escreve os capítulos sobre Eliot. pela estatura intelectual inegável de sua autora. pelo fato de que a obra não esconde os seus pressupostos axiológicos. Pode-se criticar qualquer coisa na defesa que faz Leyla Perrone do cânone moderno. 2009 para a crítica literária. que defende seu cânone com base numa naturalização muito menos reflexiva. Leyla Perrone encontra alguns valores que seriam comuns a todos. por sua importância no debate crítico brasileiro. há uma diferença nítida com Bloom. Essa extrema honestidade intelectual me fascina em Altas literaturas. Aqui. Essa redução une esteticistas e culturalistas. que teria sido mais um magnífico livro de Leyla Perrone caso ela o tivesse interrompido na página 173. Pound. impessoalidade. de que o conceito de valor não se reduz a suas consequências para o cânone. universalidade e novidade. Aqui. Paz. Leyla Perrone está. intransitividade. continuo tomando Altas literaturas como interlocutor privilegiado. crítica. Dificilmente encontraremos uma síntese tão exata dos valores que balizam a prática literária moderna. exatidão. O contraste me fez recordar a observação de uma saudosa professora. atenta ao fato de que esses valores podem estar . mas pouco analisado. intensidade. São eles: maestria técnica. acima de tudo. inclusive.130 Revista Brasileira de Literatura Comparada. que só é obscurecido se o reduzimos ao problema de quais autores farão parte do panteão de leituras obrigatórias. menos a falta de explicitação dos valores que a orientam.

. 164) – ou seja. 160-163). não é contraditória com o ideal da obra aberta (p. mas que isso não impede Eliot de ver a utilidade da literatura na “preservação do idioma” ou Sollers de associar “transgressão poética e subversão política” (p. Esta última. a lista de características privilegiadas por oito escritores-críticos que produziram o fundamental de suas obras num brevíssimo intervalo de tempo (pouco mais de meio século) pode balizar a compreensão do que a modernidade literária pós-romântica privilegiou na sua prática.Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. . ainda restaria a pergunta acerca do que fundamenta o valor estético encontrado por todos eles em obras que não pertencem à modernidade e que foram escritas de acordo com outras pautas. já não a poesia. Supondo-se que esses traços são distintivos da modernidade crítica. Em resposta à pergunta “para que serve a literatura?” – ou seja. a ficção e o ensaísmo da modernidade crítica pós-romântica. como fundamentar um conceito transhistórico de valor estético? Leyla Perrone não se furta a encarar o problema. 131 em contradição uns com os outros: afinal. O mesmo se aplica à aparente contradição entre fragmentação e completude. permaneça inconteste o valor estético de obras escritas a partir de pautas diferentes e muitas vezes contraditórias com aquelas privilegiadas em suas próprias práticas? Em outras palavras. Seria a Divina comédia um poema “fragmentado”? Teria a Odisseia o dom da “concisão”? Como explicar o fato de que. mas ainda não diz nada sobre o valor estético como tal. alargar e valorizar nossa experiência do mundo. No entanto. a intransitividade –. entendida como coerência interna. a ensaísta brasileira afirma: Se nós acreditamos que a literatura tem a alta utilidade de esclarecer. não seria a utilidade o oposto da intransitividade? Como conciliar fragmentação e completude? Tecendo uma série de refinadas distinções.. para os modernos. mas a literatura como tal –. ela mostra que os modernos coincidem na “independência do objeto estético” (p. 165).

n. digamos. como tal.15. é o nosso objetivo. mas exemplificar um postulado teórico que se desprende da leitura de uma de nossas mais sofisticadas ensaístas: qualquer definição trans-histórica de literatura. E se a fruição da literatura. Muito pouco se “esclarece” ali. 21-22). certamente seria rejeitada em termos categóricos pela autora. qualquer tentativa de defini-la em termos puramente imanentes fracassará no teste da falsificabilidade. 2009 admitiremos que a história do conjunto de suas realizações maximiza o proveito que podemos tirar do contato com cada realização particular. no seu mais alto sentido de conhecimento e valorização da experiência humana. perfeitamente plausível para alguém que trabalhe com uma definição historicizada e agnóstica de valor literário. Algum aluno impertinente poderia encontrar uma contradição entre essa definição de literatura e o cânone defendido pelo livro. O objetivo aqui não é caçar contradições no discurso alheio. No limite. a “experiência humana” que retrata a obra deste último é uma repetição infinita de uma alienante brutalidade incognoscível para o sujeito. Kafka. não seria absurdo dizer que a impossibilidade de “esclarecer. No entanto. . Atendonos à definição que oferece Leyla Perrone para o que “serve” a literatura. Jorge Amado sobre. e a afirmação de que Jorge Amado lhe é superior.132 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Kafka é pilar central do cânone estético defendido por Altas literaturas. serve para valorizar a experiência humana. qualquer resposta essencialista à pergunta sobre sua natureza. Afinal de contas. alargar e valorizar nossa experiência do mundo” é o tema mesmo da obra kafkiana. seremos levados a defender um certo tipo de história literária: aquela que otimiza a fruição das obras (p. seria difícil não escolher. digamos. poderíamos perguntar: Quem é o “nós” sujeito do verbo “acreditar” nesse trecho? Estamos todos os consumidores de literatura incluídos nele? Será mesmo tão impossível imaginar uma comunidade de leitores para os quais a “utilidade” da literatura seria justamente a oposta. Partindo-se do pressuposto de que a literatura.

como essência do texto literário. Aqui. “o desafeto progressivo pela leitura é um fenômeno internacionalmente reconhecido” (p. p.. de um conjunto de postulados próprios a uma região e um momento histórico só pode levar à incapacidade de ler o presente a não ser como queda: “a literatura [. mas desvelar-lhe a miséria? “Para que serve” a literatura é uma pergunta para a qual não há resposta de antemão.] está muito ameaçada” (p. “os livros de ficção se tornaram mais curtos e mais leves” (p. não valorizá-la. El pasado (2003). 178).. 178).. que. segundo o Le Monde. 133 não “esclarecer”. Não há respostas imanentes às perguntas acerca de qual é o valor desses artefatos e quais. 571). 1991. 178). 179). desenvolve em mais de 500 páginas recheadas de um vasto saber psicanalítico e cinematográfico uma história de amor marcada por uma essencial e deliciosa assimetria: Rímini. A universalização.] publicam livros light” (p. passaram a ser designados como “literatura”. A extrema erudição e extensão do romance não o impediram de tornar-se um bem-sucedido filme em mãos de Héctor Babenco. 2666. entre eles. Sofia. 178). em abstrato. no Passagen-Werk. sem referência aos conflitos e pactos sociais que presidem a circulação dos artefatos verbais que.. apaixonado por Sofia. num momento muito recente – o século XVIII –. “a literatura [.] recolheu-se a um canto” (Perrone-Moisés.Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. 1998. “os novos escritores [. de Alan Pauls – segundo muitos. exibem esse valor em medida superior aos demais... apontava que a crença nos períodos de declínio é coextensiva à crença entorpecida no progresso. mas embaçar a experiência do mundo. p. Nos últimos anos... o romance póstumo do . o grande romance de amor do novo século –. apaixonada por seu amor por Rímini. o grande romance argentino da década e. “Não há períodos de declínio” (Benjamin. a literatura latino-americana ofereceu abundantes contraexemplos à percepção de que a ficção se encaminhava necessariamente na direção do mais breve e light. prefiro ficar com Walter Benjamin. O apocalíptico e o otimista progressivo representam duas faces da mesma moeda.

especialmente no caso deste último. numa narrativa que mescla testemunho. que compra sua liberdade e percorre oito décadas de história brasileira e africana no século XIX. foi contradita por inúmeras ocorrências anteriores dessa retórica. O discurso de que o samba corre risco de morte tem a exata . Alan Pauls e Roberto Bolaño são bem mais numerosos que nos fariam crer os apocalípticos. Em meu trabalho sobre música popular. nos anos 1930. Luisa Mahin ou Kehinde – possivelmente a mãe do poeta Luiz Gama –. 2009 chileno Roberto Bolaño. ainda no contexto da Rádio Nacional. oferece. apresenta. um relato que conjuga os horrores dos assassinatos de mulheres na fronteira mexicano-americana com um estudo da frivolidade cúmplice que Bolaño via como característica das cliques acadêmicas e literárias. da mineira Ana Maria Gonçalves. por sua vez. Um defeito de cor (2006). contradita pela sua aparição durante a compra dos sambas dos compositores negros do morro por intérpretes brancos de classe média.15. descobri que a afirmação de que já não se faz samba como antes aparece no primeiro livro escrito sobre o samba. em mais de 800 páginas. Esses leitores com frequência testemunham que a sofisticação dos textos não é contraditória com o interesse gerado pela peripécia. como Francisco Alves. cujo refinamento não impediu que ele se transformasse em fenômeno editorial. Estupefato. A hipótese de que a percepção de uma decadência no samba datava dos anos 1940 foi.134 Revista Brasileira de Literatura Comparada. uma saga narrada por uma escrava. n. nos anos 1950. a de que o discurso coincidia com o início da apropriação bossanovista do samba de morro nos anos 1960. Desde quando se diz isso? Minha hipótese inicial. em mais de 900 páginas. Voltando ainda mais. em 1933. Os leitores das obras de Ana Maria Gonçalves. interessou-me em certo momento a origem do discurso sobre a decadência do samba: “Já não se faz mais samba como antigamente”. encontrei outras instâncias na época do sambaexaltação e da sobreorquestração do gênero no molde das big bands norte-americanas. pelo jornalista Vagalume. historiografia e ficção sem nenhuma concessão ao naturalismo fácil.

Um valor é sempre o resultado de uma luta mas. a adequação aos modelos da Antiguidade na literatura .. o fato de que em 1964 o poeta mexicano Octavio Paz tenha reunido uma lista de sinais de decadência da literatura não quer dizer que “a situação em que hoje vivemos foi claramente prevista” por ele (Perrone-Moisés. Um determinado valor ou sistema de valores pode perfeitamente ser objetivo (na medida em que ele independe da subjetividade particular de qualquer membro da comunidade interpretativa). p. objetivo e motivado. Bastaria pensar no considerável poder de tração de valores como o mester de clerecía (a técnica aprendida na tradição) na literatura tardo-medieval hispânica. A expressão-chave aqui. inclusive. e continuaria sendo contingente. Antes que a patrulha antirrelativista afie suas garras.Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. Da mesma forma. 179). um dos fundamentos que presidem a emergência da própria comunidade.. um dos elementos constitutivos da comunidade mesma. No espaço circunscrito da comunidade interpretativa em questão. 135 idade do samba. 1988. absoluto (posto que não relativizável dentro de tal comunidade) e motivado (no sentido de que sua origem não é produto de uma eleição puramente arbitrária). A coincidência de contingências que conferem inteligibilidade a um valor pode ser. é “dentro da comunidade”. 30-53). esse valor contingente tenderá a aparecer aos membros da comunidade interpretativa como uma não-contingência. 1998. relativismo e contingência O axioma da filósofa Barbara Herrnstein Smith é um achado mais complexo e frutífero do que parece à primeira vista: o valor é sempre e necessariamente contingente (Smith. uma vez consolidado. Nada disso mudaria seu caráter contingente. axiologia. é bom esclarecer que “contingente” não quer dizer “subjetivo” nem “relativo” nem “arbitrário”. claro. p. um valor pode ser absoluto. Significa que a existência de profetas da queda do valor literário é tão antiga como a literatura mesma.

15. digamos. Um exemplo análogo. sua versão original. n. A afirmação não está na esfera do indizível. mas ela não . Em cada um desses casos. nem sobre as propriedades intrínsecas do objeto valorado. ou a inovação e a ruptura nas vanguardas de princípios do século XX. Os juízos discordantes tenderão a ser lidos como deficiência ou falta de cultura do sujeito valorador. É claro que é possível questionar essa valoração (e já encontrei vários leitores. Esse questionamento. particularmente leitoras. realizou uma transcendentalização de um processo que era imanente à comunidade valorativa em questão. O grau de estabilidade de um determinado sistema de valores em sua respectiva comunidade não diz nada sobre sua suposta obviedade. a não ser como sinédoque cega a suas próprias condições de produção. de Gabriel García Márquez. com Cem anos de solidão. ou seja. de Isabel Allende. seria o hipotético leitor que adentrasse as comunidades interpretativas dentro das quais circula o romance dos anos 1930 para propor a tese de que Jorge Amado é superior a Graciliano Ramos. no entanto. 2009 neoclássica do século XVIII. A casa dos espíritos. Os juízos que se adéquam ao pacto valorativo dominante tenderão a ser lidos como confirmação da obviedade e naturalidade dos valores implícitos no pacto. Tomemos um exemplo latino-americano: é amplamente hegemônica a percepção de que. mas expressa a naturalização do pacto valorativo.136 Revista Brasileira de Literatura Comparada. mas ela não é uma teoria da literatura e do valor estético como tais. que afirmavam que o melodrama de Allende lhes falava à experiência de uma forma que a saga de García Márquez não fazia). no Brasil. a justificativa de um valor contingente fez uso de um vocabulário da nãocontingência. especialmente na França. não pode ocorrer sem que o sujeito se instale em posição exterior a um consenso crítico que preside as comunidades interpretativas nas quais circulam esses textos. desfruta de um valor ausente em. seja qual for a crítica que se possa ter à estética do realismo mágico. A transcendentalização dos resultados de um pacto particular é uma estratégia comum e recorrente nas querelas entre escolas e estilos literários.

Mas.. não por acaso. Nietzsche não foi. o neokantismo de princípios do século XX leu como “relativistas” afirmações do tipo “falar de justiça e injustiça em si carece de todo sentido” (Nietzsche. vale sempre a regrinha: ao ver alguém ser acusado de relativista. que não há “justiça” até o momento em que o mais forte estabeleça sua lei. confundida com o bicho-papão do relativismo. Os defensores da naturalidade do pacto valorativo em geral replicarão com a falácia desenvolvimentista: o argumento de que a percepção minoritária é produto de uma deficiência do sujeito valorador e que. Nessas polêmicas. que afirmaria que todos os valores seriam igualmente válidos ou. mais baixos. com frequência. que insiste em igualar desconstrução e relativismo). uma vez que os leitores sejam educados direitinho. Ao questionar a obviedade de valores como “bondade”. claro. um relativista. dê uma olhada no absolutismo de quem acusa. ou seja. de forma alguma. Nietzsche ensinou algo acerca de como funcionam as operações de naturalização. 1967-77. a acusação de relativismo invariavelmente remete a uma suposta tendência dos estudos culturais – ou das demonizadas feministas e afrocêntricos .. “piedade” e “humildade”. para usar a fórmula popular. valores de escravo. A posição que apresento aqui é. Ele afirmou taxativamente que os valores socrático-cristãos são piores. todos reconhecerão que não há como negar a superioridade estética de García Márquez sobre Allende. A única possibilidade que restaria a esse hipotético leitor seria desvendar a natureza contingente da aparente naturalidade da valoração anterior. No caso do valor estético.Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. daninhos à afirmação da vida. questionar a totalidade do pacto valorativo. que “daria tudo na mesma” (um dos expoentes dessa desleitura. no interior de uma comunidade interpretativa. Nietzsche sugeria. Com esse axioma. p. no Brasil. 312). A acusação de relativismo tenderá a se repetir quando. 137 pode ser acomodada nos pactos valorativos dentro dos quais circulam os romances desses dois autores. for exposta a contingência que sustenta um valor supostamente absoluto. é o filósofo e poeta Antonio Cicero.

grau de distorção. p. o heavy metal. se essa distinção de valor não é aceita. 4/4) e compostos (ternários: 6/8. temática das letras. 3/4. 9/8). por exemplo. performance. com pesquisa formal e etnográfica (Frith. tal “irregularidade” provinha do fato de que a teoria ocidental prevê compassos simples (binários: 2/4. passou a ser agrupado sob o rótulo de “música clássica”. volume. O próprio Mário de Andrade faz referência a ela como característica “tida em geral como provinda da Africa” (1987. Ou seja. a partir do século XX. n.15. multifacetadas ou especializadas que aquelas feitas pelos ouvintes do heterogêneo corpus de peças europeias modernas que. Aceitar essa diferença seria um pré-requisito para qualquer discriminação de valor. 409). poderá testemunhar acerca da miríade de distinções de subgêneros baseadas em andamento. na qual me parece que o conceito de valor está colocado em terreno mais sólido. imanente entre o valor das obras agrupadas sob a rubrica da arte erudita e o valor daquelas que convencionamos chamar de populares ou massivas. rigorosas. nenhuma distinção de valor é possível. que as distinções valorativas realizadas pelos fãs de música popular não são. 1996). mas não prevê compassos que misturem de forma sistemática agrupamentos dos dois tipos. exatamente a mistura que . menos complexas. timbre ou padrão rítmico – distinções incompreensíveis e ilegíveis para aqueles situados fora do pacto valorativo que preside o consumo do gênero. Para seguir com a analogia musical: durante décadas. 2009 – de não aceitar a “óbvia” diferença de “qualidade” entre os grandes monumentos da modernidade e as formas estéticas mais populares ou massivas.138 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Recorro à etnomusicologia. a acusação de relativismo costuma pressupor que. instrumentação. Qualquer consumidor de música popular que acompanhe. Ora. vocalização. absolutamente. os estudos de música brasileira trabalharam com a noção de síncope como “irregularidade” essencialmente africana. Carece de qualquer fundamentação filosófica a ideia de que a viabilidade do conceito de valor estético dependa da aceitação de uma diferença essencial. Está demonstrado.

2006. O valor rítmico contramétrico era ilegível numa notação construída para descrever e privilegiar a harmonia. Incontáveis são juízos contemporâneos que veem O jogo de amarelinha como romance que “sofreu enormemente a passagem do tempo” (Sarlo. 85). Os pactos valorativos na estética se tornarão visíveis em proporção direta à exposição do caráter contingente dos fundamentos que os sustentam.. nos últimos trinta anos. 2001. uma “perfumaria free tax de aeroporto” (Abraham.. 39). dedicando-se exclusivamente a repetir seus velhos clichês e a responder às exigências estereotipadas de seu público” (Piglia. irregulares (exigindo. para sua correta execução. “depois de Todos los fuegos el fuego já não escreveu mais. 139 é uma das marcas da música da África subsaariana. 26). que inspirou uma geração de neovanguardistas estéticos e revolucionários políticos. nota-se uma acentuadíssima queda no capital cultural de um escritor que chegou a ser considerado um dos maiores do continente. evidentemente. Uma determinada conjunção de fatores estéticos e políticos criou as condições para uma leitura celebratória de Cortázar nos anos 1960. p. ajudarão a encaminhar a conclusão teórica. incluindose um que ilustra minhas críticas às revisões feministas. 2001) que. étnicas e pós-coloniais do cânone. A chamada “irregularidade africana” não era senão a impossibilidade de que a partitura ocidental descrevesse apropriadamente o novo objeto. Na Argentina. A obra não parece ter renovado sua legibilidade depois daquele contexto (o que não quer dizer. O resultado é que “ritmos desse tipo apareceram nas partituras como deslocados.Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. p. de Bestiario. 2008) e “está escrito para candidatos de agência de turismo cultural”. que não possa vir a fazê-lo num momento futuro). o recurso gráfico da ligadura e o recurso analítico da contagem) – em uma palavra. anormais. O fato é que hoje . a avaliação mais recorrente de Cortázar é que se trata de um escritor em cuja obra talvez se salvem os primeiros contos. Na Argentina. mas não muita coisa mais. 1993. p. como síncopes” (Sandroni. Julio Cortázar. é hoje invariavelmente visto como “escritor para adolescentes” (Aira. Dois exemplos.

Mas na Argentina ela seria recebida como uma junção de termos incomensuráveis. e a história de Menchú. como a de Cortázar. A publicação de Biografía de un cimarrón. uma vantagem do gênero em relação à literatura na representação dos excluídos. também latino-americano. O testemunho havia recebido um primeiro reconhecimento em 1967.6 Com o exemplo de Cortázar. resultado de 25 horas de gravações realizadas pela antropóloga franco-venezuelana Elisabeth Burgos. comuns nos anos 1960. Um outro episódio de valoração. Há uma lição menos óbvia a se extrair daí. oferece algo a ser pensado pelos dois polos do atual debate: a entrada do testemunho ao cânone literário. de Miguel Barnet. que o valor dos escritores na Bolsa Literária (segundo a feliz expressão de Leyla Perrone-Moisés) muda no tempo e no espaço. 2009 seria bastante difícil encontrar um estudioso de literatura na Argentina que colocasse Cortázar no mesmo patamar de. na Espanha e talvez nos EUA. mesmo no caso das obras mais politizadas. gerou comentários acerca de uma suposta transparência da voz testemunhal. Seguindo-se à Agradeço a Mariano Siskind pela interlocução sobre a perda de capital cultural de Julio Cortázar na Argentina e também pela citação de Beatriz Sarlo. por exemplo.15. como demonstra uma pesquisa nos bancos de dados da disciplina. étnica e pós-colonial do cânone ainda não refletiram o suficiente: a incontornável descontinuidade entre valor estético e resultado político. hoje soariam risíveis aos ouvidos dos que circulamos no interior dos pactos valorativos que presidem a circulação desses textos. publicou-se o testemunho de Rigoberta Menchú.140 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Uma tese que se propusesse a comparar “o fantástico em Borges e Cortázar” é imaginável no Brasil. Juan José Saer. Em 1983. As comparações com Jorge Luis Borges. formada na luta contra os horrores do regime guatemalteco. 6 . quando Casa de las Américas criou uma categoria especial para o gênero em seu prestigioso prêmio. comoveu uma série de críticos de esquerda que buscavam alternativas a uma política literária herdada do boom. sobre a qual as revisões feminista. Era o auge dos movimentos de solidariedade à revolução centro-americana. não quero me limitar a ilustrar o óbvio. n.

em geral um antropólogo) levou a própria crítica a matizar a euforia do primeiro momento. A euforia levava a declarações como a de John Beverley. p. ela funciona como explicação simples para o complexo quadro de perda de capital cultural da literatura. 2001) ou no papel do testemunho como recuperação imaginária de uma vocação política perdida na literatura (Avelar. como chegaram a lamentar Roberto González Echevarría e outros expoentes da direita crítica latino-americana. 1992). camponês ou imigrante) e a posição do mediador (um intelectual. Tanto esteticistas como culturalistas sobrestimam as consequências da revisão de uma lista de leituras.. no interior dos estudos sobre o testemunho. homossexuais. na aura de autenticidade da voz do subalterno (Moreiras. o testemunho permite a emergência – mesmo que mediada – de identidades femininas. mas limitado. Estudos fundamentados no problema da mediação (Sklodowska. patriarcal e ‘letrado’. como chegaram a celebrar John Beverley e George Yúdice. em geral indígena. masculino. a ênfase nas mediações por meio das quais a voz testemunhal se registra na escrita e a análise da descontinuidade entre a posição do depoente (um subalterno. Entretanto.. George Yúdice opôs a literatura como “portadora privilegiada da identidade nacional” (1991. indígenas e proletárias” (1993. branco. 2003.Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. 20) ao testemunho como “expressão de uma consciência liberada de tal elitismo” (p. p. 51-104) relativizaram a “revolução” testemunhal que parte da esquerda anunciara nos anos 1980. 141 publicação do testemunho de Menchú. A incorporação de depoimentos dos subalternos ao cânone não representou nem um assassinato de Cervantes e Borges pela barbárie iletrada. de que enquanto a literatura na América Latina “tem sido (principalmente) um veículo para engendrar um sujeito adulto. 98). nem um golpe ao poder “elitista” da literatura. Para os primeiros. p. logo absorvido pelo pacto valorativo que preside a leitura do corpus latino-americano. . 26). O saldo do episódio da canonização do testemunho foi que o texto de Rigoberta Menchú produziu um impacto importante.

] um poema bom. salvar a literatura ou democratizar o cânone. A grande tarefa da teoria não seria. o conceito de valor [Wert] não aparece no contexto do estabelecimento da estética. Este é um fato filológico tão banal quanto regularmente esquecido: na origem da estética. sendo vistos como contíguos entre si por esteticistas e culturalistas. como se estas representassem uma vitória política real contra o racismo. o sexismo. mas que todo mundo que o 7 .. como se toda estética pressupusesse a noção de valor. ao valor da existência humana (§4) e à necessidade do postulado da existência de seres racionais para que o mundo seja dotado de valor (§87). na Crítica do juízo kantiana. 2009 Para os segundos. nenhuma hierarquia do belo. sugiro rotas de dissociação entre esses conceitos. dedicado à comparação entre as várias belas artes (segundo Kant. mais inclusivas. o valor e a estética de forma a não permitir nenhuma descontinuidade entre os três termos. a estética seria a esfera da experiência Que Antonio Cicero decrete que “quando digo que um texto é [. A única menção ao valor num contexto estético ocorre em §53. então. então. nenhuma atribuição de valor à beleza. funciona como mecanismo compensatório que permite a apresentação de novas listas de leitura. ou como se valorar obras de arte sempre implicasse que o juízo em questão fosse estético. Ou seja. a mais alta seria a poesia). quantitativo que é próprio do conceito. não há conceito de valor. para Kant. referências ao valor de um ato (§91). Como se sabe.142 Revista Brasileira de Literatura Comparada. não estou dizendo meramente que gosto dele. Recorde-se que. Mas não há. com observações acerca do que denomino uma concepção agnóstica de valor literário. todas essas ocorrências se referem a uma esfera extraestética. mas introduzir algum espaço de respiração na interseção entre esses três conceitos. na Crítica do juízo. n. Kant faz. Ambos trabalham com o cânone. no sentido mensurável. Para concluir. o etnocentrismo e a opressão de classe. Para uma genealogia do conceito de valor estético Os conceitos de valor e de estética terminaram..15. sim.

não sugiro. em negociação e em articulação. não pretendo o mesmo” (2009a). p.. por outro lado. ao propor a tese da contingência do valor. Os enunciados falsificáveis evidentemente não se submetem às mesmas regras de verificabilidade dos não falsificáveis. incorre em paradoxos que solapam suas próprias teses” (2009b. 230). ele parece não ter se dado conta de que há um capítulo inteiro de Contingencies of value dedicado a refutar a objeção de que supostamente não se poderia afirmar que o valor é sempre contingente sem cair em contradição. Sugiro. o ônus da prova cabe a estes. econômico. é pueril argumentar que não podemos afirmar que “o sentido não é eterno e unívoco” pelo fato de que essa frase supostamente teria um sentido eterno e unívoco. “se digo ‘eu gosto de abacate’. Na verdade. Caso se apresente a objeção de que a impossibilidade de submeter o belo a fórmulas comparativas contraria todo o senso comum que desenvolvemos como consumidores de arte. Basta ler a analítica do belo (§6 a §22) para constatar que Kant o entende como objeto de um juízo de tipo. Ao enfrentar-se com a pergunta acerca de como se chegou a delimitar o terreno propriamente estético. ela se limita a apresentar uma negativa. Quem afirma a contingência do valor não está conferindo ao objeto valorado um atributo que permaneceria no tempo. Esses traços ou potencialidades passarão a ser apresentados como característicos da experiência estética. Ao propor que não há conceito não tautológico de valor estético fora da economia. jamais de grau. “nem sequer se dá conta de que. considere desinteressadamente deve reconhecer” esse suposto fato e que. não há que se repreender Barbara Herrnstein Smith por remeter o valor estético ao terreno da economia (Perrone-Moisés. Em bom português: no debate entre agnósticos e crentes. A frase não confere um atributo ao sentido. aqueles traços inicialmente definidos como característicos do estético! Não é à toa que os alunos não aceitam isso facilmente. não há outro vocabulário que não o da economia. sim. remete-se o interlocutor à existência de obras que exibem. p... incontáveis leitores dizem que “No meio do caminho” é um bom poema e outros incontáveis leitores dizem o contrário. 143 desinteressada do belo. que o valor estético de Grande sertão: veredas possa ser deduzido do preço da mercadoria comercializada pela Editora Nova Fronteira. Decretar que estes últimos são maus leitores não resolve o problema teórico. no qual atos de valoração socialmente situados entram em conflito.. Quando Cicero afirma que Barbara Herrnstein Smith. Deixemos de lado o caráter escorregadio dessa premissa. sendo sua maior ou menor presença em cada obra o critério para sua valoração. exatamente como ocorre com o gosto do abacate.Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. não torna essa distinção verdadeira. mediados por . já amplamente criticada pela tradição (a começar pelo próprio Hegel). 8). evidentemente. apresentada como apreço que necessariamente demanda universalização. que esse valor se deduz num contexto eminentemente relacional. ao dizer tais coisas. Todas as definições não econômicas de valor estético que tenham pretensões trans-históricas incorrem em versões mais ou menos sofisticadas de uma tautologia: define-se o valor como a presença de certos traços formais (sejam quais forem) ou a capacidade de produzir certas sensações. No mundo real.7 Por isso. concordância de todos. não custa lembrar que o próprio pilar da analítica kantiana do belo – a demanda de concordância universal sobre o juízo – também embute um patente contrassenso. 1998. Ou seja.

de rentabilidade limitada. 2009 instituições como a escola. nas teorias imanentistas do valor estético. 1992. p. 581). vale a pena refletir sobre como a economia política entendeu o valor. extrai sua origem do trabalho” (Foucault. de Adam Smith. na qual ele sempre teve sua morada mais sólida. p. 71). O conceito de valor. portanto. constante e permutável sob todos os céus e todos os tempos. 270). 1992.15. pelo menos na economia política. num processo que conforma um equilíbrio nunca completamente estável – o que venho chamando aqui de pacto valorativo. pressupõe um transcendental. 1999. que serve de fundamento a todas as outras trocas: “o trabalho é a real medida do valor intercambiável de todas as mercadorias” (Smith. dá o crédito a Aristóteles como o “primeiro pesquisador a ter analisado a formavalor” (1952. 269). ocorre não a partir do fato de que o “trabalho seja um valor fixo. entre fisiocratas e utilitaristas. com Ricardo. p. O conceito da comparabilidade universal precede. n. a imprensa e a crítica. a economia política em mais de dois milênios. p. que delimita uma região na qual a representação “não tem mais domínio” (Foucault. As genealogias da economia política em geral conferem a Riqueza das nações. É para esse fim que se introduziu o dinheiro” (1133a). mas sim porque todo valor. É o trabalho que lhes confere valor e explica a possibilidade de equivalência entre duas mercadorias distintas. É o próprio Marx que. no primeiro capítulo de Capital. Já está presente em Aristóteles a compreensão de uma diferença clara entre o valor de uso e o valor de troca: “todas as coisas que são trocadas devem ser de alguma forma comparáveis. mas justamente notar que há uma operação analógica silenciosa. dedicado à mercadoria. Para compreender sua dinâmica. o trabalho. o mérito da ruptura com a natureza circular do debate anterior. Smith escapa da circularidade da equivalência universal das mercadorias ao dotar um conceito de um papel transcendental. qualquer que seja. A consolidação da teoria do valortrabalho.144 Revista Brasileira de Literatura Comparada. A economia . O objetivo aqui não é traçar uma analogia entre o valor estético e o valor econômico.

Repetidamente citada e recitada. O trabalho que produz a obra de arte não é traduzível. e completamente inserida numa rede de intertextualidade que continuamente constitui a alta cultura [. claro. e pode assim realizar várias funções para nós (Smith. Na economia. que a lei do valor-trabalho se aplica a objetos reprodutíveis. essa altamente variável entidade à qual nos referimos como “Homero” recorrentemente entra na nossa experiência em relação com uma grande variedade de nossos interesses. mas entender como e por que os poemas homéricos. essa observação não é o fim. e portanto sua permanência no tempo não se explica imanentemente: A permanência de um autor clássico como Homero se deve não ao valor supostamente transcultural ou universal de suas obras mas. 52-53).. p. o trabalho. produtos do que ele chamou de “infância da humanidade”. não muito diferentes das equivalências universais tautológicas dos economistas anteriores a Adam Smith. Haveria que se estudar o que. 145 política sempre enfatizou. Na ausência desse transcendental.Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. a teoria do valor depende de um transcendental. a teoria do valor estético só pode definir o valor imanentemente a partir das operações circulares descritas acima. lecionada e imitada. Evidentemente. 1998.. mas o prolegômeno da pesquisa. à continuidade de sua circulação numa cultura particular.].. Atesta-o a célebre observação de Marx na introdução aos Grundrisse. A manutenção do valor de uma mercadoria ao longo do tempo se explica pelo fato de que ali se aninha uma quantidade determinada de trabalho que mantém alguma tradutibilidade (com as naturais oscilações que serão fruto das próprias variações no valor do tipo de trabalho que se encontra ali congelado). e que o cálculo do valor da mercadoria como quantidade de trabalho socialmente necessário para a sua produção não se aplica a objetos estéticos.. . de que o mistério não era explicar que a arte grega emergiu como produto de circunstâncias históricas particulares próprias à sociedade helênica. ainda nos fascinam e mantêm sua legibilidade. traduzida. pelo contrário.

instituições. de Manuel Bandeira (1963) a Italo Moriconi (2000.15. escolas. Para além do lamento de que a internet é responsável por uma queda na qualidade e na frequência da leitura das novas gerações – queixa jamais fundamentada com pesquisa empírica e agora patentemente desmentida (Castells. como os relatos de viagem (Süssekind. 2001). 1991). 1990) ou as tecnologias da reprodução (1987). a valiosa sequência de pesquisas feitas por Marisa Lajolo e Regina Zilberman sobre a história da leitura e do livro (Lajolo e Zilberman. 1991. o estudo de Roberto Ventura sobre as polêmicas literárias. para não mencionar mais que alguns exemplos. na conformação do sistema de valores literários brasileiros. como a recente antologia de escritos de Machado de Assis sobre a afrodescendência realizada por Eduardo de Assis Duarte (2007). academias e intertextos lhe atribuíram ao longo dos anos. n. essas verdadeiras máquinas de produção e destruição de valor (Ventura. ganharíamos terreno se o dissociássemos da polêmica entre o culturalismo e os defensores do “cânone ocidental” e o remetêssemos a todo o vasto material que pode informar uma futura história da construção do valor literário no Brasil: o erudito mapa traçado por Raúl Antelo do ideário da transgressão na modernidade (Antelo. A história da profissionalização do escritor e das suas relações com a imprensa e com o mercado ainda nos oferece vastas zonas de pesquisa não realizada. 2001).146 Revista Brasileira de Literatura Comparada. permitiu que cada obra realizasse as funções que os vários leitores. as pesquisas de Flora Süssekind sobre as relações da literatura com outros discursos. uma série de novos escritores faz uso das tecnologias de publicação online para circular seus textos e manufaturar concepções emergentes de valor literário. a recuperação de facetas pouco exploradas dos escritores mais canônicos. O postulado da contingência essencial do valor só abre um espaço de relevância ainda maior para essas pesquisas. Acredito que ainda sabemos pouco sobre o papel das antologias. 2001). . 2009 em cada situação e contexto. 2009) –. 1996. No caso do debate sobre o valor que tem se desenvolvido nos estudos de literatura brasileira e latino-americana.

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151 O ensino de literatura brasileira por meio do Teatro do Oprimido: uma experiência na Carolina do Norte Érica Rodrigues Fontes* resumo: Este trabalho analisa experiências no ensino de litera- tura brasileira realizadas com alunos estadunidenses da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill (UNC-CH). de Nélida Piñon. Marina Colasanti’s little Girl in Red on her way to the moon and Clarice Lispector’s the Hour of the star. de Clarice Lispector. abstract: This paper analyzes experiences with the teaching of Professora adjunta de língua inglesa (Graduação) e de literatura (Mestrado em Letras) da Universidade Federal do Piauí (UFPI). These experiences were done with American Students from the University of North Carolina at Chapel Hill (UNC-CH). By using a theater method based on the Augusto Boal’s Theater of the Oppressed. we intended to create an ideological relationship between the American students who took the course and not only the Brazilian literature but also the Brazilian context. de forma a lidar mais eficientemente com algumas questões apresentadas em nossa literatura e que concernem diretamente textos de autoria feminina. . em especial textos escritos na segunda metade do século passado. especially texts written during the second half of the last century. ∗ Brazilian literature. de Augusto Boal. e a hora da estrela. Ao utilizarmos um método teatral baseado no Teatro do Oprimido. Aqui se propõe uma avaliação de exercícios a partir da leitura de I love my husband. de Marina Colasanti. pretendemos criar uma relação ideológica entre os alunos americanos e não só a literatura brasileira. as a means of dealing more efficiently with some issues presented by our literature and which directly concern texts by women authors. Here I propose an evaluation of the exercises done based on the reading of Nélida Piñon I love my husband. educação. palavras-chave: literatura brasileira. mas o contexto brasileiro. Teatro do Oprimido. menina de vermelho a caminho da lua.

como afirma Linda Hutcheon (1999). Houve. Eles mostram a vida como representada pela ideologia. com a interpretação brasileira de mundo. no contexto estadunidense. é em sua temática que nossa literatura parece ser mais enriquecedora quando pertencente a um currículo estrangeiro. Portanto. 1 . 1987. Assim. 2009 Brazilian literature.15. não há de fato acesso à perspectiva ideológica de outras nações. Theater of the Oppressed. n. Nos Estados Unidos. torna-se um compromisso do professor de literatura brasileira. 24). pois. a uma exposição sobre a história e política brasileiras. Introdução Ensinar literatura brasileira no exterior (e para estrangeiros) está obrigatoriamente atrelado a uma experiência cultural. embora neste país da América do Norte exista muita exposição à cultura de outros países. portanto. e por ater-me principalmente ao ensino das obras escritas no Brasil. ao selecionar textos para leitura e debate em sala. education.152 keywords: Revista Brasileira de Literatura Comparada. they depict life as it is represented by ideology”1 (Davis. criar para os alunos possibilidades de interação com a mentalidade brasileira. procurei priorizar esses dois temas. os textos escolhidos foram considerados representativos da ideologia brasileira contemporânea com atenção para os temas supracitados. percebi dois pontos de interesse comum das culturas e literaturas estadunidense e brasileira: as minorias políticas e as questões identitárias. De fato. Muito mais do que o ensino de movimentos literários. pois. uma preocupação com a criação de uma estratégia de relacionamento entre a nossa realidade e a realidade do país onde a nossa está Romances não mostram a vida. tal ligação se torna indispensável. Como afirma Leonard Davis: “Novels do not depict life. Minha tradução. métrica ou outros assuntos de interesse da literatura. p. Depois de ensinar em cinco turmas de graduação a matéria Literatura Lusófona na Carolina do Norte. a ideologia é a própria representação da cultura.

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sob estudo, pois, embora muitas vezes essa ideologia esteja clara para um nacional da literatura lida, para o estrangeiro ela precisa ser apontada. Como exemplo, cito um momento de debate sobre a personagem Macabéa do romance A hora da estrela, de Clarice Lispector. Para os alunos do curso, em sua maioria nascidos em um contexto rural como o da Carolina do Norte, era quase impossível entender a condição tragicômica dessa personagem, pois ela está inserida em um contexto urbano, onde mora longe de seu estado de origem, com pessoas desconhecidas. Os fatos engraçados que acontecem na vida de Macabéa são gerados pela sua estranheza, pela sua falta de adaptação à sociedade, sua marginalidade. Se nos EUA a principal razão para os jovens saírem de sua terra natal é estudar em uma boa instituição, no Brasil o principal motivo para o êxodo jovem tem razões muito diferentes: a fuga da fome, da miséria e da pobreza. Para os alunos norte-americanos, portanto, entender o comportamento de Macabéa tornava-se difícil. Eles consideravam-na simplesmente um ser humano desprovido de inteligência e, então, digno de risadas e deboche. Foi preciso comparar a situação dessa personagem com uma vítima da pobreza, fome e desastres naturais no estado do Mississippi (o mais pobre dos Estados Unidos) para que os alunos entendessem a tragicomicidade da obra. Muito provavelmente pela dificuldade de localizar pontos de interseção entre as duas culturas é que outros instrutores do curso supracitado haviam detectado que a participação dos alunos nas discussões era bastante inferior às suas expectativas e que as atividades, em muitos casos, eram desinteressantes para os discentes. Foi principalmente por causa do aparente desinteresse dos alunos pela disciplina que resolvi implementar em minha aula de literatura exercícios de teatro para posterior montagem teatral e um segundo momento de discussão. A metodologia escolhida foi a do Teatro do Oprimido, objeto de minha pesquisa de doutorado.

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O projeto relatado neste artigo teve por objetivo a melhor absorção de conteúdos literários pelos alunos de literatura de graduação de diversos cursos da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill (UNC-CH). Realizado de agosto de 2004 a julho de 2006, ele revela experiências ocorridas nas turmas de Português 40 (Introdução à Literatura Lusófona), das quais fui instrutora, enquanto aluna de mestrado e doutorado na UNC-CH. Neste artigo, analiso exercícios teatrais desenvolvidos a partir de três textos brasileiros de autoria feminina: I love my husband, de Nélida Piñon, Menina de vermelho a caminho da lua, de Marina Colasanti, e A hora da estrela, de Clarice Lispector. Os textos foram analisados e encenados a partir de traduções inglesas das obras, nos moldes do Teatro do Oprimido e principalmente do Teatro Fórum (técnica de Boal para discussão de problemas sociais no palco, a ser explicada a seguir, juntamente com sua adaptação para a aula de literatura). Por meio dessas técnicas e de sua adaptação para as aulas, os alunos se colocam no lugar de personagens brasileiros, discutem a resolução do seu problema e depois trazem algumas situações para o contexto estadunidense, ao debater ou analisar problemas equivalentes nas duas Américas ou, mais especificamente, nos dois países. Há pelo menos dois fatores que favorecem a utilização do método teatral de Boal nessa aula de literatura: a ideologia sob a qual os textos tratados foram escritos (condição subalterna da mulher e a sua necessidade de liberação) e o fato de o Teatro do Oprimido ser um tipo de teatro que tem como proposta final a discussão de problemas sociais. Esses textos traduzem opressões contemporâneas vivenciadas no Brasil e que têm equivalentes na sociedade norteamericana, ainda que estes não sejam divulgados. Assim, descreveremos como foi proporcionada essa ligação entre a identidade norte-americana e a identidade brasileira para o ensino de literatura brasileira, visando exclusivamente a um melhor aproveitamento literário e cultural dos alunos,

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originado por uma maior convivência com as obras, por meio do envolvimento teatro-lúdico. Neste artigo me concentrarei no resultado concernente ao trabalho desenvolvido com os textos supracitados. As duas últimas obras foram estudadas no final do semestre, indicando um envolvimento mais profundo dos alunos com a metodologia.
As observações descritas a seguir foram feitas a partir das experiências de sala de aula e baseadas nas ideias retiradas do livro Técnicas latino-americanas de teatro popular, de Augusto Boal. Os seus métodos teatrais, mais divulgados com a publicação do livro Teatro do Oprimido, ocorrida no início dos anos 1970, ficaram conhecidos em todo o mundo e priorizam uma participação mais ativa do espectador, que vai além do modelo observador e consciente apresentado pelo dramaturgo alemão Bertolt Brecht.2

Walter Benjamin explica que, no teatro épico de Brecht, priorizam-se a crítica social e a interrupção da ação dramática (os momentos narrativos são exemplo dessa interrupção) para reflexão sobre a crítica encenada. O público, porém, não participa do espetáculo ativamente. No teatro de Boal, diferentemente, o público pode interferir diretamente na ação, encenando suas sugestões, ainda que sob a supervisão e orientação de um diretor, o Curinga.
2

É no Teatro Fórum, uma das técnicas do Teatro do Oprimido, em que há o incentivo à discussão de problemas sociais, que a participação da plateia pode ser mais claramente notada. Neste modelo de teatro, a primeira parte de uma peça é tradicional (com a separação entre público e atores), se dá em aproximadamente 30 minutos e apresenta pelo menos um problema ou erro em cada cena. Por erro entende-se uma situação social de opressão, sendo o erro, portanto, cometido pelo opressor e também por uma falta de postura mais libertária do oprimido. Na segunda parte da peça, que é introduzida por um Curinga, espécie de diretor teatral, perito na metodologia de Boal, o objetivo do público é, então, tentar consertar ou remediar o erro. O Curinga indica para a plateia que as cenas poderão ser modificadas por meio da substituição do oprimido (de acordo com a ideologia do Teatro do Oprimido, somente o oprimido pode ser substituído), com quem a plateia é levada a se identificar. Muitas vezes ela (plateia) até tem uma história que já auxilia esse processo, visto que muitas das peças são apresentadas em edifícios públicos, tais

Passemos então a um breve relato das experiências que. tendem a permanecer iguais. consequentemente. então.156 Revista Brasileira de Literatura Comparada. serão perfeitas ilustrações de como a leitura de um conto ou outro tipo de texto literário pode ser enriquecida com este método. de acordo com o Teatro do Oprimido. não é a substituição do opressor que modificará ou ensaiará uma modificação social. o sistema mude a seu favor. usei a ideia geral do Teatro do Oprimido. respectivamente) para estudar as relações presentes nos textos e. 2009 como escolas. e retratam os contextos socialmente carentes do espectador. sugerir uma interpretação mais profunda destes. porém. já que a plateia é inicialmente incentivada a identificar-se com o oprimido. lentamente. Ou seja. prepara tortas de chocolate.15. Nesse conto. o teatro do oprimido em I love my husband Nas aulas mencionadas. que divide a sociedade no binário oprimidoopressor (equivalentes ao protagonista e antagonista. o sistema social não testemunha uma frequente mudança na atitude de pessoas que fazem o papel de opressores. postura justificada pelo fato de que o Teatro do Oprimido é do oprimido. muitos outros . Comecemos com I love my husband. na concepção deste. não há muito que o oprimido possa fazer a respeito. a partir de então. Quando o opressor é modificado. Além disso. com protagonistas que querem mudar a sua história de vida. feito por ele e mostrado para ele. hospitais e prisões. por si só. deve mudar para que. temos o retrato de uma mulher que é praticamente escrava de seu marido: faz para ele café todos os dias. a plateia tenta modificar uma postura sobre a qual não tem nenhuma influência no dia a dia. evita falar de amor com ele porque há. As exceções com relação à substituição ocorrem somente no caso de o opressor tornar-se ainda mais cruel em sua opressão. pois estes. n. pois não é esse o papel que faz e. ao substituir o opressor. A atitude daquele que é vítima de opressão.

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problemas que merecem mais atenção, como, por exemplo, a situação econômica do país. Esta mulher, completamente submissa a seu marido, segue mecanicamente as ações que são esperadas dela como uma boa esposa: está feliz quando ele chega em casa às sete da noite e tenta reclamar cada vez menos do seu serviço de casa. No final do conto, relembra os votos de seu casamento e conclui que, sim, ama seu marido, embora o que ela relata seja digno do sentimento oposto. Após a leitura desta obra, houve um debate sobre a literatura de autoria feminina nos anos 1980 como reacionária à predominância de textos de autores masculinos até pouco tempo antes dessa década. Depois de traçarmos um breve painel sobre a liberação da mulher e sua repercussão na literatura, comentamos o conto propriamente dito. Com relação a esse texto, pedi aos alunos que fizessem um exercício anterior à identificação do opressor e oprimido da obra, normalmente o primeiro passo para aplicação da metodologia de Boal. A turma foi dividida em duplas e pedi a elas que escolhessem o momento que demonstrasse uma intensa emoção e que exagerassem essa emoção em uma cena teatral. Por termos pouco tempo para apresentar esse exercício, apenas três cenas foram mostradas para toda a turma, após um curto período de prática, e merecem atenção particular. Na primeira cena, uma aluna se comportou como uma guerreira, gritando e portando-se ferozmente. Revelou-se então sensual e bela durante a ausência de seu marido. Essa cena levou-nos a debater sobre o caráter frustrante do cárcere privado da esposa do conto, combatido em sua vida onírica. A segunda cena mostrou um marido mais agressivo do que o descrito no conto, o que exigiria uma postura mais firme de sua mulher para que esta pudesse ter uma vida mais digna. A última cena mostrou a esposa literalmente como uma escrava, absolutamente dominada pelo marido e impossibilitada de mover-se por si só. Depois desses exercícios, discutimos a natureza da opressão nesse conto e chegamos à conclusão de que ela

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é proveniente do machismo e da condição subalterna da mulher, muitas vezes aceita por ela mesma passivamente. No texto, a liberação dessa dona de casa acontece somente em um mundo fantasioso, quando ela se mostra uma amante selvagem, cercada por javalis e pelo Clark Gable. Posteriormente, as duplas definiram o opressor e o oprimido, encenando suas adaptações de I love my husband. Uma das duplas mudou o final do texto, sendo o marido vítima de homicídio. Nessa adaptação, a mulher se mostrou falsamente mais solícita e amável do que no conto, o marido se mostrou mais agressivo e inconformado com a mulher e o homicídio aparece como resolução óbvia, embora não seja esse o objetivo do Teatro do Oprimido, que quer fornecer para o público, por meio do teatro, os meios para que o problema seja examinado, e não sua resolução.

o teatro do oprimido em Menina de vermelho a caminho da lua
O segundo texto em questão, Menina de vermelho a caminho da lua, trata do universo infantil pervertido pela desigualdade social. O título alude à cor da roupa de uma menina de aproximadamente dez anos de idade que intenciona brincar em um parque de diversões, mesmo não tendo dinheiro para isso. A história inicia-se com a mãe de duas meninas contratando um narrador a partir de um anúncio de jornal para relatar o episódio do pseudoencontro entre ela e a menina de vermelho. Embora a mãe prefira uma mulher para narrar a história, tem de aceitar um homem, única pessoa que responde ao anúncio, requerendo que ele use roupa de mulher para ver se, de alguma forma, terá uma atitude mais feminina. Assim, o homem escreve todo o tempo vestindo uma saia rosa e um lenço na cabeça, e com pouquíssima autonomia, pois a mulher se declara detentora dos fatos, fazendo com que sejam narrados segundo a preferência dela.

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O conto narra a ida dessa mãe com suas duas filhas a um parque de diversões em um sábado e, principalmente, seu encontro com a realidade de uma menina de rua de dez anos de idade que, por não ter dinheiro para andar na mesma atração que suas filhas (uma bolha, espécie de pulapula), insinua-se sexualmente para o homem responsável pelo brinquedo para poder brincar de graça. O estilo do texto descreve o erotismo e a sexualidade precoces de uma pré-adolescente que usa seu corpo como meio de adquirir aquilo que ela não pode com dinheiro. Verbos que aludem à experiência sexual (“penetrar” e “perfurar”, por exemplo) são uma constante em todo o texto, usados mesmo quando não descrevem momentos sexuais. Quando acaba o sábado e essa menina descalça vai embora, sendo observada pela mãe das duas meninas, sua figura juvenil mancha o ar de vermelho (referência à cor de sua roupa), indicando, muito provavelmente, a perda da inocência e o ingresso em um mundo cruel para os desprovidos de bens materiais. Na discussão inicial, vários foram os pontos levantados a respeito desse conto. Nele, há uma menina que precisa utilizar-se de táticas sensuais e até sexuais para conseguir o que a falta de dinheiro não lhe proporciona, um homem sem voz e submisso a uma mulher (na figura do narrador) para quem trabalha e a discrepância social entre as filhas da mulher que contrata o narrador e a menina de vermelho no parque. Não podemos deixar de falar também da omissão dessa mulher em relação à situação da menina de vermelho e da literatura como canal de reação social, pois é ela o meio que a mulher usa para tornar a sua história pública e passível de crítica. Os alunos mostraram-se surpresos principalmente em relação à prostituição infantil que, nos EUA, não é tão visível ou noticiada quanto na América Latina. Como lemos uma tradução para o inglês intitulada Little girl in red on her way to the moon, o fato de a menina usar de artifícios sexuais se torna ainda mais desconcertante, porque ela não é apenas uma menina. Na tradução inglesa, ela é uma menininha, o que acentua ainda mais a pouca idade

Esse resultado confirmou a incidência da prostituição infantil nos países em desenvolvimento. pois esta é da mãe das meninas (uma inversão da opressão à qual normalmente as mulheres são submetidas). Nesse ponto. exatamente para desabafar e se eximir da culpa de não ter feito nada para ajudar uma menina da idade de suas duas filhas. de aproximadamente cinco componentes cada. Por conta da alusão da história à prostituição infantil. mas foi necessário indicar para eles a drástica diferença entre sensualidade e prostituição como meio de sobrevivência. comumente atingindo as crianças de rua. Embora tenhamos a menina de vermelho como protagonista e possivelmente a única apontada como oprimida na leitura inicial. normalmente temos acesso a diversas interpretações de uma mesma obra. os alunos foram motivados a buscar informações a respeito do tópico e descobrir a situação desse crime em vários países. Para a surpresa de muitos. Após a discussão da obra literária e apresentação de sua crítica social. existem outras opressões: a opressão pela qual passa a mãe das duas meninas. que contrata um narrador para a sua história. Em alguns momentos.160 Revista Brasileira de Literatura Comparada. onde há crianças de rua em maior quantidade. os alunos questionaram a sensualidade precoce da cultura latino-americana. 2009 de um ser humano já iniciando na prostituição. O resultado dessa pesquisa foi apresentado individualmente na aula imediatamente posterior. que muitas vezes assumem uma vida com hábitos adultos antes mesmo de chegarem à adolescência. no entanto. . o que independe da idade. O primeiro passo para o trabalho em grupo foi definir onde havia a opressão no texto ou quem era o oprimido e estava lutando pelo seu lugar na sociedade. Há a opressão do homem contratado para narrar a história travestido de mulher e sem a possibilidade de expressar a sua voz. A turma foi dividida em seis grupos. chegou o momento de aplicar a metodologia de Boal ao texto. principalmente nas regiões menos desenvolvidas. também existe prostituição infantil em grande quantidade nos EUA. n.15.

Depois de uma longa discussão a respeito da prostituição local. os objetivos são claros: identificar a opressão e criar meios para que o oprimido tenha voz para lutar contra ela. Um dos grupos acentuou a opressão à qual foi submetido o narrador. E os últimos dois resolveram falar do homem como vítima da prostituição infantil. muitas vezes. uma situação encenada na aula (uma adaptação do texto original) por um desses dois últimos grupos demonstrou as agruras de um menino que fora expulso de um orfanato e começou a se prostituir como resultado do preconceito social. Assim. Ao lidarmos com a metodologia de Boal. como é o caso de Chapel Hill. salientando o fato de que são oprimidos todos os que agem sem ter autonomia sobre suas ações. vimos que. Nessa cidade universitária de uma área abastada dos Estados Unidos. pois. talvez aludindo ao que historicamente acompanhou (e muitas vezes ainda acompanha) a trajetória da mulher no Brasil. surpreendentemente. porque ao sair do orfanato ninguém lhe deu emprego. o sistema social . Houve. os seis grupos mostraram diferentes facetas da opressão em Menina de vermelho a caminho da lua. As diversas interpretações da opressão mostradas no conto motivaram debates sobre a origem da opressão sexual e sobre o que favorece a sua proliferação dentro do sistema no qual vivemos.. uma discussão sobre quem sustenta a prostituição em países desenvolvidos e em cidades universitárias americanas. onde esta discussão específica ocorreu. há um local que está aberto 24 horas por dia: o University Massage. como vimos.. Outro grupo chamou atenção para a angústia da mãe ao narrar a história por meio desse homem. Esta é provavelmente uma das poucas casas comerciais que nunca fechou as portas nesta cidade.O ensino de literatura brasileira por meio do Teatro. 161 Assim. a opressão a ele não passou despercebida no conto. pois também nisso via-se uma falta de liberdade para que essa mulher expusesse seu ponto de vista livremente. Outros dois grupos preferiram falar da menina de vermelho e da precocidade de suas ações por conta de sua situação social. onde sempre se deve utilizar a porta traseira (conforme aviso fixado na porta).

a autora deixa o universo da alta classe média para penetrar no mundo marginal e excluído do nordestino que se muda para o sudeste em busca de uma vida melhor. Juntamente com Um sopro de vida. sendo esta mantida por pessoas instruídas e ricas. seu namorado. Embora sua protagonista seja novamente uma mulher com o nome estranho de Macabéa. também é tão excluído quanto ela.162 Revista Brasileira de Literatura Comparada. à semelhança de outros de seus contos e romances. em 1977. nome que remete aos revoltosos macabeus. uma vida estranha. coincidindo com o final da vida de Lispector. Lispector divaga sobre o poder do autor ao dar vida e matar. Isso se torna óbvio quando lemos a respeito do primeiro encontro dos dois. Mas o foco é mesmo a moça virgem que bebe coca-cola e tem um nome estranho. onde se veem quase como em um espelho. o teatro do oprimido e A hora da estrela O próximo texto em discussão foi o romance A hora da estrela. um namorado estranho. Embora ele tenha sido escrito e publicado antes de Menina de vermelho a caminho da lua. colocando-as quase como um objeto em suas próprias residências.15. Talvez por isso a história de Macabéa seja mais trágica para . A partir daí refletimos sobre o que pode ser feito para minimizar esse poder opressor. Em vários momentos. de Clarice Lispector. M. A personagem de Clarice em seu romance final é quase subumana. pois reconhecem um no outro sua origem e trajetória de vida. n. para dar início e fim a sua protagonista. esse romance pretende entender a própria existência. poder concedido por ela a Rodrigo S. Olímpico. sua extensão e diversidade temática explicam a preferência por estudá-lo no final do curso. Nessa obra. Em A hora da estrela. mas nem um pouco irreal para aqueles que conhecem a população brasileira. que é aludida quando a autora utiliza-se de questões de autoria no romance. Clarice Lispector não mantém o foco em suas protagonistas donas de casa dominadas por um sistema que subjuga a mulher. 2009 sustenta a prostituição.

da protagonista às coadjuvantes. afirma que as respostas não são apropriadas para uma moça virgem como ela. Seu namorado a trata mal do início ao fim do relacionamento. colega de trabalho de Macabéa. E. se for o caso. Após uma breve exposição sobre o romance e a discussão inicial a respeito da obra com as turmas. A difícil convivência dos dois. Logo depois. recebe uma resposta grosseira. o que não ocorre em vida. ex-prostituta e agora cartomante.. a própria Glória sugere a Macabéa que vá à casa de Madame Carlota. desprovido de qualquer capacidade in- . Na verdade. sobre alguns questionamentos da moça. Olímpico afirma que ela pagará a diferença de preço. colegas de quarto e de trabalho demonstra que ela é vista quase como um animal.O ensino de literatura brasileira por meio do Teatro. O título e seus vários subtítulos (A culpa é minha. pois esta sempre se desculpa por erros que ainda nem cometeu. Sua hora de brilhar só acontece mesmo no momento da morte. E é Carlota que prevê um futuro brilhante para Macabéa. mulher mais encorpada do que a colega nordestina e também mais provocante e sensual.. Olímpico a troca por Glória. O tratamento ao qual é submetida Macabéa pelo chefe. decreta o fim do relacionamento. muito mais por parte de Olímpico do que de Macabéa. as mulheres estão todas em uma situação de opressão social. mas para os dois grupos a história sempre mantém seu quê de tragédia e comédia. entre outros) indicam que a protagonista é uma vítima social. ao pedir por açúcar. O mais interessante no relacionamento dos dois são os diálogos. para ver o que a aguarda no futuro. namorado. 163 os que a leem no Brasil e mais engraçada para os que a leem fora do Brasil. O direito de protestar e Uma saída discreta pela porta dos fundos. ele nunca assume sua ignorância em relação às respostas. Diz que Macabéa só faz perguntas tolas e. pois Olímpico se julga inteligente e vencedor. Isso porque. pois a protagonista morre em seguida. mas nunca sabe as respostas para as perguntas de Macabéa. Até quando ela pede que ele compre um café para ela. há um interesse maior nos tópicos relacionados à mulher.

O segundo grupo mostrou Olímpico e Macabéa como pessoas quase semelhantes. sugere a Macabéa que se envolva com uma mulher. Como a turma fora dividida em dez grupos de três componentes cada. como apontado por Peggy Phelan (1993). Ao passarmos para a leitura da obra sob a perspectiva do Teatro do Oprimido. pois quase não frequentou a escola. pois os homens são agressivos e ela não está preparada para isso. pois sempre indaga sobre aquilo que quer saber. Madame Carlota. O primeiro grupo focou os diálogos de Olímpico e Macabéa. Glória. chamando-a de feia. Os dois atores usaram maquiagem e figurino similares e os diálogos chamaram atenção . Sua sensualidade cultivada tem o único objetivo de fazer com que ela sempre seja admirada e amparada por um homem. a colega estenógrafa de Macabéa. n. muito provavelmente pela clareza da opressão. por causa de sua preocupação com a aparência. é um objeto sexual. embora exagerando a agressão verbal à protagonista. No entanto. agride Macabéa. que nem executa muito bem. situação explicável pelo seu contexto. Mas os personagens mantiveram a sua essência: enquanto Macabéa se achava a principal culpada pela impaciência de Olímpico e de tudo de errado que acontecia. procederei ao relato das experiências de apenas quatro grupos. o fato de que Macabéa gostaria de conhecer mais o mundo não pode ser negado. ouve ópera e escuta a informativa Rádio Relógio. ele se manteve como o político do futuro que venceria todo e qualquer obstáculo. outra mulher de destaque na obra. Glória é o que é por causa do outro. E. 2009 telectual. Esse exagero é muitas vezes necessário para que a opressão se torne visível. embora muitas vezes a capacidade intelectual da personagem não motive nenhuma pena ou simpatia.15. houve preferência para uma encenação do relacionamento entre Macabéa e Olímpico. que nunca fique só. A minha escolha se dá ao fato de que esses quatro grupos trataram de situações e de personagens diversos. pratica um trabalho mecânico (datilografia).164 Revista Brasileira de Literatura Comparada.

no entanto. apresentar uma solução ao adaptá-las. O último grupo do qual falaremos ateve-se à relação de Madame Carlota e Macabéa. embora na história Glória seja mais desejada pelos homens do que sua colega nordestina. Macabéa tem de aguentar os desaforos de seu chefe. estilo de vida. sendo as duas consideradas oprimidas socialmente. ela quer ser estrela de cinema) e a exclusão social na qual vivem. Semelhantemente às peças do Teatro Fórum. o objetivo das encenações na sala de aula era o clímax do conflito. Vimos que. Os debates que se seguiram focalizaram principalmente na mulher como objeto sexual. Mesmo que uma personagem não oprima a outra. dificilmente conseguirá outro emprego que sustente as suas já tão básicas necessidades. no preconceito regional e no machismo da sociedade.. É ela quem faz soar a voz que exclui os feios. na encenação Madame Carlota foi mostrada como a voz social que indica a pouca esperança para jovens como Macabéa. pois. há na América Latina uma tendência cultural ao subjugo do feminino pelo masculino e o machismo é muitas vezes também percebido em mulheres como Glória. Para todas as obras descritas acima. que necessitam trabalhar sua sensualidade de acordo com o que é esperado pelos homens para se sentirem incluídas na sociedade. ela está muito longe de atingir o padrão de beleza da mídia: a cor de seu cabelo é falsa. . os passos seguidos foram escrever e encenar trechos das obras literárias sem. O próximo grupo salientou a esdrúxula competição de Glória com Macabéa porque. embora esses problemas não sejam exclusivos do Brasil. pois são nordestinos morando na zona mais nobre do Rio de Janeiro. pobres e marginalizados. além de não ser uma boa datilógrafa.O ensino de literatura brasileira por meio do Teatro. embora vítimas de opressões de naturezas diferentes. expectativas (se ele quer ser político. Enquanto Madame Carlota teve de se prostituir para sobreviver quando jovem. suas roupas são bregas e seus namorados são todos do naipe de Olímpico. 165 para os pontos em comum que já aparecem no romance: origem..

uma nova percepção do trabalho acontece. n. as várias percepções interpretativas ocorrem exatamente nesta terceira parte. Inclusive como já visto acima. a percepção de quem oprime e de quem é o oprimido pode mudar dependendo de quem lê a obra ou assiste à sua encenação. trazendo à tona o que gera a opressão e propiciando uma discussão cênica do problema. Por isso. Nessa re-performance.166 Revista Brasileira de Literatura Comparada.O que você faria se estivesse no lugar de tal personagem? 2. Eco afirma que. Para que essa re-performance seja útil para a discussão de uma obra.O que motiva tal personagem a agir desse jeito? 3.15. Antes desse estágio. a crise nunca deve ser totalmente resolvida. mesmo que encenado. sua visualização se torna primordial. mas em responder a perguntas tais como: 1. Assim. De fato. é necessário que haja uma teatralização delas. no Teatro do Oprimido tal fato é quase uma exigência: após a divisão das relações de opressão do texto. sempre que um trabalho de arte é recebido por um leitor ou espectador. Normalmente. uma re-performance deste. nunca nos preocupamos com a resolução do conflito. muitas vezes é difícil para o aluno entender os textos de literatura brasileira. 2009 que convida à intervenção e discussão de assuntos interessantes dos materiais lidos. Isso pode ser percebido em cada uma das adaptações demonstradas pelos grupos. De fato. .Como tal personagem deve agir para se libertar desse contexto opressor? o texto aberto O processo pelo qual passam as obras literárias acima descritas é definido por Umberto Eco (1979) em sua teoria “A poética da obra aberta” do livro O papel do leitor. além da recepção.Tal personagem é o oprimido? 4. pois o Teatro do Oprimido só coopera com os meios para que isso ocorra socialmente. nesse ponto do curso não houve interesse em favorecer a substituição dos personagens. há.

tão nordestino quanto Macabéa. No entanto.O ensino de literatura brasileira por meio do Teatro. uma comparação entre a realidade da América do Sul e as semelhanças entre essa região e as regiões economicamente menos favorecidas dos Estados . Até mesmo no final. além disso. sem dar a ela o carinho e a afeição esperados. Em I love my husband. Como em todas as outras obras. os alunos passam a entender a tragédia na vida dessa personagem. Mas. Essa interpretação inicial inesperada também ocorre quando da leitura de Menina de vermelho a caminho da lua. ela parece conformar-se com toda a sua vida em comum com esse homem. nenhum estadunidense entende o que leva essa jovem menina a se prostituir. muitas vezes os alunos não conseguem entender Macabéa e suas motivações. quando a protagonista relembra o início da união. Acham-na ridícula.. quando procedemos à análise do contexto social e econômico latino-americano. Quando fazemos. 167 Várias vezes eles julgam os textos de nossa literatura como negativos ou deprimentes. O mundo opressor pode. no entanto. Em um primeiro momento. quando citamos a semelhança do seu universo com o de personagens de regiões mais pobres dos Estados Unidos. ser personificado em personagens como Olímpico. exagerada e seus problemas parecem não ter fundamento. É necessário conviverem com essa personagem para entenderem que essa repetição da frase “Amo meu marido” é muito mais para resultar em algo positivo do que para retratar algo positivo. o mundo que cerca Macabéa passa a ser o que a oprime e ela passa a ser a vítima. Acham que o fato de ela repetir que o ama indica que está conformada com a situação. mas que a recrimina e detesta quase como se esta fosse um ser de outro mundo. social e politicamente apresentada. Em A hora da estrela. muitas vezes os alunos não conseguem compreender a postura irônica da protagonista ao descrever sua rotina submissa e afirmar que ama o homem que mais faz com que ela trabalhe sem parar. o caso muda de figura. A partir dessa conclusão. Acham que não há nada que justifique a prostituição de uma criança.. a opressão está numa esfera invisível.

Se a vida da menina que protagoniza a história é resultado de um descaso histórico com a situação da população pertencente à classe baixa e os meninos e meninas de rua. Os temas de A hora de estrela e Menina de vermelho a caminho da lua são bastante similares. o fim do subjugo das suas protagonistas. uma natureza muito mais positiva do que negativa. essa opressão é traduzida de duas maneiras pela mãe que detém a história: ao se omitir com relação à menina e ao subjugar o homem que narra a história. retratando um universo afeiçoado à opressão. o que a mãe realmente deseja é pôr um fim na dor que sentiu ao compartilhar a situação da menina e esperar que a história não se repita. ao implicitamente indicar o desejo de mudança com relação à situação das vítimas de opressão sexual. Nas duas obras. Os três textos têm. Muitas vezes. ao escrever sobre a história. econômica e social. portanto. não vivem com suas famílias e estão à margem da sociedade. Todas as histórias narradas almejam.15. se pensamos na natureza opressora dos dois. conclusão Embora exista campo para divergência quanto à natureza da opressão de uma história. As histórias narram as adversidades na vida de duas jovens que são vítimas da pobreza.168 Revista Brasileira de Literatura Comparada. n. percebemos que as diferenças são ínfimas. para que possa ser mais facilmente combatido. só depois que diferentes cenas sobre diferentes questões foram montadas e algumas pseudossubstituições ocorreram. 2009 Unidos. portanto. pois. pretendem fazê-lo visível. E é importante vermos que. por exemplo. a pobreza apresenta a maior . o opressor mais forte só será achado depois que a cena (simples diálogo que precisa inicialmente detectar a situação-crise do oprimido. a turma chegou à conclusão de que a opressão não era o que tinha sido inicialmente pensado. situação esta da qual ele quer sair) for montada e que outros (membros da plateia) puderem cooperar para o desenvolvimento da resolução da crise do protagonista.

A esposa também não. Para Boal. respectivamente. o que é exemplificado com o exercício aplicado em I love my husband. um nome de guerreira e uma vida fantasiosa de guerreira. que muitas dessas questões jamais seriam tratadas se não dessa forma. o teatro só pode ser do oprimido se ele participar do seu processo. percebo que a literatura só se torna objeto de intensa discussão se o aluno puder entrar no contexto do livro. Talvez por isso ela seja completamente desassistida pela sociedade na qual está inserida e inicialmente indigna de compaixão na sociedade norte-americana. Macabéa se desculpa até mesmo pelos erros alheios. Combatê-la está fora do alcance dos protagonistas e do nosso próprio. Quando Olímpico a ofende e termina o namoro com ela. Mas a essa conclusão só chegamos depois de experimentar possibilidades com o texto e ver quem ou o que oprimia mais certo personagem. pois são personagens cabisbaixas que se comportam de forma oposta ao que nos leva a pensar. com perguntas direcionadas. ela prefere calar-se a ofendê-lo também. Da mesma forma. Foi o sucesso dessas primeiras experiências que me motivou a prosseguir com a aplicação dos exercícios do Teatro do Oprimido em outros textos. pelas experiências vistas até a presente data. como plateia participativa. Talvez Macabéa e a esposa de I love my husband tenham sido as personagens mais difíceis de encenar segundo as técnicas do Teatro do Oprimido.O ensino de literatura brasileira por meio do Teatro. desde o primeiro dia de aula. pelo menos aparentemente. possivelmente teríamos chegado apenas aos dois primeiros níveis de interpretação supracitados. participando da vida dos personagens como se fosse a sua própria.. Macabéa não reage nem se irrita nunca. A utilização do método do Teatro do Oprimido fez-me perceber. pois sua força está além de um extermínio imediato.. que não louva as vítimas ou os indivíduos que não sabem lutar pelos seus direitos. Menina de vermelho a caminho da lua e A hora da estrela. A discussão também é motivada pela transferência do contexto da obra para o . Se houvéssemos apenas feito uma discussão. 169 fonte de depressão das personagens.

Frankfurt am Main: Suhrkamp. pela sua imaginação. Darlene (Org. Resisting novels: ideology and fiction. New York: New Directions. Márcia (Org. Walter. 1995. tal como visto nas análises acima. In: MORICONI. Lennard. _____. Giovanni Pontiero. Umberto. Nélida. Ítalo (Org. The role of the reader: explorations in the semiotics of texts. Linda. 1989. Bloomington: Indiana University. Marina. o aluno contribuirá com um avanço no campo interpretativo da obra. One hundred years after tomorrow: Brazilian women’s fiction in the 20th Century.). 1992. 2009 contexto do leitor ou espectador. 1987. São Paulo: Hucitec.15. 2. 16 de julho de 2003. A hora da estrela.). Clarice. aplicando uma realidade literária a uma realidade social. PHELAN. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. In: DENSER. n. The hour of the star. ed. Entrevista pessoal. COLASANTI. _____. _____. I love my husband. London: Routledge. 195-203. 1979. New York: Routledge. Menina de vermelho a caminho da lua. relacionando-a com suas próprias questões e fazendo-a parte da sua vida. 1993. ed. Peggy. BOAL. Unmarked: the politics of performance. Versuche über Brecht. 1984. . Rio de Janeiro: Record. LISPECTOR. _____. p.). Indianapolis: Indiana University. Little girl in red on her way to the moon. Teatro do oprimido e outras poéticas políticas.170 Revista Brasileira de Literatura Comparada. 2. Muito prazer: contos eróticos. Trad. ECO. The politics of postmodernism. 1992. DAVIS. In: SADLIER. 1982. Augusto. 1966. Rio de Janeiro: Francisco Alves. Referências BENJAMIN. Técnicas latino-americanas de teatro popular: uma revolução copernicana ao contrário. HUTCHEON. New York and London: Methuen. Somente a partir de um profundo envolvimento com a obra literária. 1980. PINON.

London: Routledge.. p. activism. Fourteen female voices from Brazil: interviews and works.). Austin: Host Publications. 11-18. 2002. In: SZOKA. Elzbieta. 2001. . 451-456.. 171 Os cem melhores contos brasileiros do século. Mady (Org. therapy. Rio de Janeiro: Objetiva. SCHUTZMAN.O ensino de literatura brasileira por meio do Teatro. Playing Boal: theatre. 1994. p. _____. I love my husband.

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crônicas. The main challenges involved in the teaching of Brazilian literature in translation are examined. perguntei. . abstract: This article narrates a teaching experience in a graduate program in creative writing in the United States which introduced the main Brazilian short story and chronicle authors. such as the lack of basic information about Brazil and the institutional context. United States. São examinados os principais desafios para o ensino de literatura brasileira em tradução para o inglês. Students’ increasing interest in Brazilian literature and in the genres presented is also examined. Mas veio o outono. Também é relatado no artigo o crescente interesse dos alunos pela literatura brasileira e pelos gêneros apresentados. Estados Unidos. short stories. no qual se buscou apresentar os principais autores brasileiros do conto e da crônica. The article sustains that the richness of the Brazilian short narrative made possible the desired intercultural dialogue. chronicles. o céu azul. contos. * Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp . ele disse. os professores ainda não voltaram do verão”. palavras-chave: literatura brasileira. até liguei para meu irmão. keywords: Brazilian literature. Conclui-se que a riqueza do conto e da crônica brasileiras de fato serviu de ponte para o diálogo intercultural almejado. ensino. Quando cheguei lá. uma estação linda nos Estados Unidos.173 As alunas e os contos: a narrativa curta brasileira num curso de escrita criativa nos Estados Unidos Heloisa Pait* resumo: Este artigo relata uma experiência de ensino num curso de pós-graduação lato sensu em escrita criativa nos Estados Unidos. tais como a falta de informação inicial sobre o Brasil e o contexto institucional. sem se preocupar.Araraquara). teaching. o que será?”. “Ninguém veio falar comigo. “É normal. estranhei o vazio do campus.

era mesmo preciso um bom dinheiro. 2009 o ar fresco. discutindo sobre a política.174 Revista Brasileira de Literatura Comparada. alguns bons alunos num curso introdutório sobre o Brasil. além da solidão e de uma grande confusão quanto aos objetivos da instituição. com seus valores sólidos. Rorty e Melucci.15. conhecia uma fatia do ensino superior americano muito estreita. Críticas e rigorosas. que já tinha tido no corpo docente Hannah Arendt e outros. complementando as faculdades para homens. Eu costumava dizer: isso aqui é divertido como voltar ao Pequeno Príncipe na Rua Avaré. para manter o impecável imenso jardim e os prédios centenários e amortizar a recente construção do ginásio. O nosso cotidiano de estudantes de pósgraduação. era de uma riqueza intelectual inesgotável. vejo agora. mas num lugar muito particular que refletia os problemas das pequenas faculdades americanas. E pulei no que as pessoas se referem como “Real America” – não numa América Real qualquer. Ao longo do século XIX. universidade visitada por Habermas e Derrida. Corrijo-me: tive algumas boas alunas. desta forma dando acesso ao ensino superior a um grande nú- . que poderia ser bem interessante. no primeiro semestre. e lecionado no questionador Lang College. Eu havia dado uma palestra no hippie Hampshire College. Então. primordialmente entre os alunos europeus e latino-americanos e com os professores novaiorquinos. É que eu conhecia a universidade americana por meio da muito particular New School for Social Research. como a evasão e a busca permanente de alunos para cobrir custos relativamente fixos. a das instituições progressistas e disputadas. Só não veio aquele diálogo intelectual que eu esperava. Tive. muitas delas foram criadas na costa leste. Minha cunhada estudou no intelectual Swarthmore College. e no oeste as novas faculdades já eram criadas para os dois grupos. a linguagem e a vida em Nova York. n. Também conhecia as Faculdades de Artes Liberais. Pois. A instituição era uma das poucas faculdades americanas que ainda se dedicavam exclusivamente ao ensino de mulheres. e sua self-reliance.

As alunas e os contos: a narrativa curta brasileira. Não eram as únicas. A instituição tinha um programa já antigo. como Smith College. obviamente com exceções. A maioria dessas instituições tornou-se mista ao longo do século XX. a justificativa para continuar mantendo o ensino separado era que as mulheres teriam melhores condições de ensino caso não tivessem de disputar a atenção dos professores com os homens em sala de aula. Como disse. que escolheram escrever sobre aspectos muito interessantes da cultura brasileira.. Aquele era o ano do Brasil. de qualquer modo. O trabalho que mais me chamou a atenção foi sobre um assunto que eu mesma desconhecia: a existência de um cinema mudo brasileiro muito ligado com tendências europeias da época. Era um argumento de peso decrescente. Na segunda metade do século XX. entre os professores detectei também uma falta de curiosidade sobre o Brasil. que se juntou a Harvard College. a maioria dos alunos eram mulheres. uma das mais concorridas faculdade americanas. Eu. no outono tive algumas alunas muito boas. mas outras continuam admitindo apenas mulheres. abertos aos homens.. eu estava dando aulas numa instituição que havia escolhido manter a tradição. mas pouco conhecido tanto no Brasil como nas pesquisas no exterior. 175 mero de mulheres. além disso. como as tentativas de reforma do ensino médio ou sobre a participação de jovens artistas plásticos em comunidades na internet. Mas as alunas capazes de produzir trabalhos autônomos eram poucas. grande parte tinha dificuldades com a leitura e a escrita e. Ainda assim. havia palestras e eventos sobre o país e a região. Mas o modo como a instituição conseguia financiar a tradição era abrindo uma série de cursos de pós-graduação lato sensu em áreas mais aplicadas. particularmente. um professor visitante era chamado e. para trazer um pouco do Brasil para o campus. mas. no qual a cada ano um país determinado era escolhido. Afinal. diferentemente de nossos alunos. uma certa apatia na sala de aula e desinteresse sobre o mundo. talvez pela natureza dos cursos ou pela tradição. acho o . eu estaria ali para isso. tais como Radcliffe College.

não entendia bem a falta de interesse sobre o meu país. Todos temos um pouco disso. em nível de pós-graduação. 2009 Brasil bem interessante. o Cinturão da Ferrugem.15. esse processo econômico. e acho que nisso tenho vasta companhia além das fronteiras nacionais. ou “a cidade que não é do aço” são títulos difíceis de se portar. Mas há também o problema simbólico: como construir uma identidade urbana a partir de uma não identidade? “A cidade que não é do automóvel”. Os programas de intercâmbio são marca registrada das universidades americanas. os paulistanos com sua cidade que não é da garoa ou os cariocas com sua cidade que não é capital. especializada nesse turismo acadêmico. Algumas alunas iriam. eu daria aulas apenas para alunos do programa de escrita criativa. aliado a tensões raciais e erros crassos de planejamento urbano. no verão do hemisfério norte. por exemplo. Alguns são bem rigorosos. e como já virou clichê falar de experiência kafkiana. numa viagem patrocinada pela escola e organizada por uma instituição brasileira reconhecida. ao fim do semestre. Mas redefinir a identidade de uma cidade é importante. n. passar duas semanas no Brasil. A cidade onde a faculdade se localizava era parte do que os americanos chamam de Rust Belt. em certa medida eu vivi essa indefinição como deslocamento. região americana do meio-oeste que sofreu com o colapso da indústria pesada ocorrido na segunda metade do século XX.176 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Em Detroit. Foi nessa situação de deslocamento urbano e isolamento intelectual que o semestre da primavera começou. eu não sabia exatamente onde estava. ainda se reflete no cotidiano difícil de populações inteiras. Eu assuntava: por que escolheram o Brasil? Como esse programa de estudos internacionais se coaduna com os objetivos educacionais dirigidos a esse corpo discente? Não tinham respostas. E só conseguia me localizar novamente quando viajava pelo país e encontrava pontos de referência antigos ou explorava novos. têm a duração de um . vou evitá-lo. mas a verdade é que eu estava bem perdida. A desindustrialização trouxe para a região problemas sociais enormes. Então.

pensei. Ela se alimenta e faz parte de nosso cotidiano. e sou fascinada pela narrativa curta que fica em nossas mentes muito depois de terminada a história. Queria mostrar por meio deles alguma coisa do que somos. do que uma área da cultura na qual nós temos uma certa “vantagem comparativa”. na verdade. e assim por diante. que temos acesso a elas nos jornais e revistas. tanto na graduação como na pós. nada melhor. Sobre os cursos de escrita criativa. a política. Tive de negociar o conteúdo do curso a cada aula. Então. que queria dar uma visão mais abrangente da cultura brasileira. Depois há os novos. a narrativa curta brasileira tem um lugar muito especial para nós leitores brasileiros. Todos nós conhecemos os estereótipos antigos. Propus um curso sobre contos e crônicas. a maior parte dos alunos estava em momentos de transição e buscou o mestrado como forma de se rearticular. como é o caso da narrativa curta brasileira. não pude descobrir exatamente o objetivo profissional do curso. literatura de viagens. Pela turma que peguei. Não que houvesse estereótipos nas salas de aula. a história e a literatura. pois dividia o curso com outra professora. que fosse além dos estereótipos tropicais. sua ausência.. são também comuns nos Estados Unidos. 177 semestre e são precedidos por estudos de línguas e cursos preparatórios e envolvem cursos regulares ou estágios em países estrangeiros. com contribuições à cultura mundial. incluindo o cinema..As alunas e os contos: a narrativa curta brasileira. Zé Carioca e Carmen Miranda. Ao longo de minha estada nos Estados Unidos. Brasil do desma- . escrevo contos eu mesma. Esse me pareceu ser um turismo cultural inteligente para alunos com interesse em expandir seus horizontes mas sem o tempo de preparo anterior na língua e história do país. Além disso. Os alunos podem aí se especializar em literatura infantil. Eu queria falar dos contos. São cursos para quem quer escrever ficção ou não-ficção. Outros são apenas passeios pelo Caribe. eu quis obviamente mostrar um Brasil verdadeiro. A dificuldade na graduação foi. que incluem literatura mas que têm um sentido mais prático que analítico.

havia referências poucas mas queridas que fizeram aqueles alunos se inscreverem em meu curso. 2009 tamento e dos meninos de rua. Havia a presença de uma comunidade negra importante. há também a construção mítica do presidente socialista que se contrapôs à ordem neoliberal. 1992). em sua maioria. apresentando cronologicamente os principais autores da narrativa curta brasileira. O que impressionava era que o Brasil fosse tão grande. Então. Reais todos. As crônicas são maravilhosas. 2006). Nosso elo. Na primeira aula. assim como no caso anterior. mas parciais. Entre as esquerdas. por exemplo. mal-entendidos. que encontrei em outras traduções (Sadlier. então. que estão. entretanto. incompletos. notei que quase nenhum aluno tinha interesse específico sobre o conto ou a crônica. havia informações dispersas prévias. não são representativas do gênero. Senti falta de Márcia Denser apenas. As crônicas de “Life as it is”. que reúne contos de “A legião estrangeira” e crônicas de “Para não esquecer”. diferem muito. maior que a Venezuela. Clarice Lispector. Milton Hatoum e tantos outros. Enfim. Tudo o que eu falasse era novidade. pois o Brasil praticamente não existia no imaginário de muitos alunos. Já nas crônicas é diferente. havia a Clarice Lispector. talvez. de Nelson Rodrigues (2008). Moacyr Scliar. Guimarães Rosa. recentemente publicadas. . Mas lá naquela faculdade eu vi a ausência de informações sobre o Brasil. 1992). não há antologias de crônicas que reúnam vários autores. Hilda Hilst. era o interesse difuso naquele país latino-americano desconhecido e uma vaga curiosidade sobre o conto e a crônica. que língua mesmo falavam ali? No curso de pós. das crônicas de Ignácio de Loyola Brandão que lemos às quintas no Estadão. Estão ali Machado de Assis. mas. Havia o Paulo Coelho. são espetaculares nos dois sentidos. para falar das crônicas havia um obstáculo muito concreto. Montei o curso de modo muito tradicional.178 Revista Brasileira de Literatura Comparada.15. n. Há também crônicas de Clarice Lispector em “Foreign legion” (Lispector. diziam. Um bom apanhado dos contos está numa antologia da Oxford University Press (Jackson. traduzidos.

Machado de Assis. mas isso me motivou a continuar tentando. pois um dos meus melhores amigos na faculdade era muçulmano. eu dava preferência aos contos da antologia. Tentando o quê? Tentando. forjar alguma comunicação real que havia me escapado nos meses anteriores. cadeiras extras. acredito. Já adianto ao leitor. se qualificavam melhor para a tradução que o cômico e o banal. em três panelas distintas: uma para os vegetarianos. em volta dos convidados aboletados no apartamento pequeno. Fiz a couve e a feijoada. comeram.. por exemplo. conversaram sobre a faculdade e foram embora sem me deixar com a sensação de plenitude que tenho depois de cozinhar para amigos e conhecidos no Brasil ou no exterior. Tínhamos acabado de ver o filme “Vidas secas”. Mas. e outra com joelho de porco e costelas. E nós brasileiros não fazemos desse banal a nossa melhor poesia? A uma certa altura. depois das caipirinhas. foi bem diferente. por razões práticas. um tom sério e pesado que não trazia a leveza da prosa brasileira.. que vieram polidamente. Guimarães Rosa. 179 A respeito dos contos. nos romances e também nos contos. Uma colega me disse. mais “profundos”. que fiz por ocasião de meu aniversário. Parecia que os textos mais densos. ao final de minha estada. a dificuldade era de natureza distinta. que a última feijoada. por sugestão da outra professora. Os principais autores estavam presentes na antologia da Oxford e também em inúmeras outras traduções. etc. Avisei que o horário era o brasileiro. uma aluna perguntou se era tudo assim pesado na literatura brasileira. E os contos ali tinham. . de jeito nenhum. pedia que chegassem a partir da 1 da tarde. a biblioteca tinha poucos recursos e era preciso fazer escolhas. em geral. Eu disse que não. de Mário de Andrade. Clarice Lispector e Moacyr Scliar estão bem traduzidos.As alunas e os contos: a narrativa curta brasileira. ou seja. os pratos. e não pontualmente nesse horário. E para cada um eu pedi que trouxesse uma coisa: o arroz. lemos o triste “Piá não sofre? Sofre”. uma sem carne suína. Lembro que numa das primeiras semanas na cidade fiz uma feijoada para algumas pessoas. pois não sou muito de suspenses. Então.

n. Não são contos nem crônicas. Eu fiquei lavando os pratos de uma feijoada sem festa. num dia importante para a cidade. e também que por meio do conto começassem a pensar sobre as diferenças entre as culturas americana e brasileira. Machado os surpreendeu. mas quem é que vai dizer que não são boas crônicas imaginadas? E havia tradução. A outra professora notou a ausência dos negros e pobres na narrativa. advogados. interessada nas relações entre a realidade social e o caráter político da arte brasileira. e eu ainda me adaptava ao curso a quatro mãos. 2000). Queria que eles se sentissem confortáveis no gênero. com leis. pensar o conto era uma viagem minha. desafios e desfechos. o maravilhoso “Memórias de um sargento de milícias” (Almeida. Claro. encontros. que acredito pouco interessava aos alunos. ou com a professora. eu deveria ter dado destaque. Notei ali o tanto de esforço que há em nossa descontração. Ficou espremido. Pedi aos alunos que escrevessem um conto. eu também queria ver no papel as minhas próprias emoções. Era no começo do semestre. Mas. E encontrei um primeiro elo. O resultado foi maravilhoso: imigrantes brasileiros discriminados que falavam palavrão. Buscava um elo. Pareceu à classe que o autor ria de algo que não deveria ser piada. e poderia estar no fim ou no início da narrativa. 2009 que nunca havia se sentido tão à vontade. as tantas violências domésticas que pipocam no tempo do Rei.180 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Discutimos um pouco a natureza do conto. a partir de Bosi (1994) e Piglia (2000). sobre seus recursos. ainda se familiarizando com a narrativa. americanos que de repente se lembravam das comidas e cheiros brasileiros. . mulheres reflexivas. Mas acho que o texto de Manuel Antônio de Almeida fez tanto sentido aos alunos como a primeira feijoada que ofereci aos colegas. é na verdade um romance escrito em capítulos publicados em série.15. deveria conter um encontro entre um brasileiro e um morador local. O encontro deveria ter algo de erótico e de conflituoso. pela literatura e também pela modernidade de um Brasil antigo. nessas alturas. choques.

eu contava. 181 Clarice foi fácil. Todos adoraram. 2006). A biblioteca da universidade estadual local. Duas alunas em particular usaram o texto de Clarice para uma jornada de descoberta que encantou a todos. Eles toparam. Fiquei animada. contei. apropriando-nos da humanidade daqueles personagens intensos da autora. E rimos com a cena final de “Amor”.. Isso queria dizer que eu podia escolher meus contos favoritos. explorando o olhar perscrutador de Clarice e o modo sutil como ela define os ambientes externos e a vida interior dos personagens. 1963) que tinham jeito de conto. Então. Recortei alguns trechos de “Grande sertão: veredas” (Rosa. um diálogo com a tradição oral? Então por que não simplesmente contar as histórias de que eu gostava mais? Por que me prender a traduções selecionadas? Quando havia coisas que eu queria dar. Eu conseguiria trazer o . por exemplo. Uma delícia.As alunas e os contos: a narrativa curta brasileira. Achei Guimarães Rosa difícil de apresentar. junto a sua modernidade. mas não havia tradução. e contei para eles “A hora e a vez de Augusto Matraga”. interpretada por uma aluna em quem eu via algo da própria autora. tinha uma coletânea de contos regionais maravilhosa. O perigo de Clarice é cairmos numa deferência exagerada à poesia e virtuosidade da autora. mas também pela musicalidade do texto (Pessôa. pedi que formassem pequenos grupos. Tensa também. não só pelo uso particular que faz da linguagem. depois. ao final de uma das aulas sobre a autora. era um desafio. 1984). a surpresa de uma escrita sofisticada. Assim como com Machado. organizada por Graciliano Ramos (1966). Rimos com outras cenas também. escolhessem um pequeno trecho de um dos contos discutidos e elaborassem uma pequena cena. Sim. Pois o conto não traz. As traduções eram boas. Algo se perde na tradução do autor. com o marido atordoado sem compreender a fuga da esposa etérea. cobriam muita coisa. passei tardes lendo as histórias e escolhi algumas para recontar. Então. quebrando a solenidade do texto. que não achei traduzido. que falava à alma.. e apresentá-los com paixão (Lispector.

Agradeço aos tradutores e editores também. claro. consegui. Era um pouco ofensivo. eu o via sendo construído. também escolhi algumas da coletânea “Cem melhores crônicas brasileiras do século” (Santos. Mas a partir do conto e da crônica brasileira. como sempre quando falo do Brasil. 2009 texto para a sala de aula? Recontar em inglês uma história querida? Com alguns. alguns dos quais estavam matriculados em meu curso. E isso me tocava profundamente. ao menos. eu voltava à minha humanidade normal de quem fala e escuta. O risco que eu havia corrido era de ter virado naquela sala de aula uma simples nativa que conhecia os hábitos vigentes. talvez por mim. com eles. sem dúvida conscientes de serem pontes precárias nesse importante diálogo entre as gentes. a Denser e Ângelo. me entusiasmei. Mas tudo é questão de treino. Para as crônicas. a Scliar e Machado. numa reunião de preparação para a viagem ao Brasil. algumas cômicas. Muitas tristes. Naquela classe – fazendo rir e chorar com histórias –. por exemplo. virei professora de novo. Mas as perguntas foram sobre aspectos corriqueiros da . agradeço. expressa por meio de atos cotidianos às vezes até singelos. com eles nos conhecemos.182 Revista Brasileira de Literatura Comparada. aquele diálogo em qualquer forma que fosse. sugeri a leitura de alguns livros para quem quisesse se aprofundar e. com outros. viramos personagens fascinantes de um teatro próprio. éramos estranhos. quando dela somos privados. No fim do curso agradeci aos alunos. Então. Sem eles. todos eles lá. além das de Clarice e de Nelson Rodrigues. falando para uma audiência interessada de um lugar que eu já havia visitado. mas acima de tudo frustrante. o que havia acontecido em outros ambientes da faculdade anteriormente. Com eles. sem eles. Falei sobre a história política recente. E recontei. emocionei. não era gente. quanto mais professora. Aquele elo que eu buscava. n. Talvez por uma turma aberta e interessada. mas agradeço agora a Clarice e Rosa. eu. 2005). éramos sem graça. fiz rir. é impossível descrever o valor que passamos a dar à comunicação humana. Sem eles. Estavam todos eles ali presentes nas aulas.15. me chamaram para conversar com os alunos. não.

trouxessem a musicalidade de nossa língua e de nosso texto que a tradução nunca poderia trazer.” eu disse. não sei mais. as pessoas jantam tarde?” Respondi que jantávamos no horário normal. a uma certa delicadeza textual. Mas.. Uma literatura que anda de chinelo. Quando dei as aulas sobre as crônicas. Sou naturalmente uma professora crítica. pretensiosa. me vi num dilema. Pode ser violenta.. Mas isso pode se perder na tradução. fazendo barulho. Mesmo Márcia Denser. Mesmo o texto filosófico de Clarice reforça o lado banal das grandes questões humanas. que me pareciam mais leituras neutras comentadas que exercícios . A palavra que eu usava em aula é essa: nossa cultura é soft. Quanto ao meu curso. numa aula. Então eu sentia que era eu que devia tentar explicar isso.. quando a outra professora se juntou ao curso – bem. irônica. na metade do semestre. “aqui é que jantam um pouco cedo. e não de salto alto. e nesse caso em particular eu via muitos problemas nos trabalhos. e daí talvez as escolhas. uma dinâmica em que eu fosse a nativa e ela a antropóloga podia ter se instaurado. Os alunos se encantaram com uma literatura sobre e também disponível no cotidiano dos leitores de jornais. os alunos apresentaram os projetos de seus trabalhos. crítica de tudo. E desse lugar de nativa. um pouco disso ficou evidente. o texto sem asperezas. pode ser mordaz. inconscientemente familiar a minha própria cultura. É algo intangível. 183 cultura nacional: “No Brasil. eu esperava. Mas eu também trouxe. Com a capacidade de olhar o cotidiano de um jeito rico – ou com a riqueza de nosso cotidiano. pelos editores.As alunas e os contos: a narrativa curta brasileira. os alunos se matricularam num curso de uma brasileira. da melhor forma possível. uma seleção de chorinhos que. mas tem uma maciez que você não encontra na literatura americana. que tragam o drama pesado ou político. tem aquele amor ao detalhe. entenderam que ali havia um diferencial. Algo que me encanta na literatura brasileira é o texto macio. eu não teria podido falar dessa literatura de que eu gosto e que é minha. pelos textos que não se calquem apenas nessa leveza.. lembrem disso. Quando.

que queria saber mais sobre as leituras dos alunos sobre os textos. Sobre a produção de sentido no jogo simbólico. Uma coisa que me surpreendeu na classe foi a curiosidade sobre a filosofia da linguagem e as teorias sociais. dos projetos. e isso não é mau. sobre interpretações corajosas. Quem era aquela Clarice ali. Alguns tinham já familiaridade com estudos culturais e feminismo. como disse anteriormente. mas para outros alunos aquele curso abriu as . como a nativa de plantão? Esse receio. Mas será que eu tinha autoridade para criticar os trabalhos. 2009 de interpretação que trouxessem novos aspectos dos textos e autores lidos. Pois meu espírito crítico teve de ser controlado. nessa classe dada em colaboração? E será que os alunos me escutariam. os alunos mesmos – eu tinha na verdade um aluno e o restante da pequena classe formado por alunas – trouxeram tudo o que tinham pensado em escrever mas não consideraram acadêmico o suficiente. pois cada texto diz uma coisa para cada leitor. Eles assentiram. que estava sendo produzida naquela sala de aula daquela faculdade daquela cidade do Cinturão Enferrujado americano? Que esquecessem a Clarice que eles achavam que os professores achariam a correta.15. n. sobre o que os contos e crônicas realmente haviam falado para eles. quando comentamos os projetos propriamente ditos. Ali estava uma turma que queria usar os textos de Clarice para compreender o existencialismo. Não falei dos trabalhos. Na aula seguinte. foi muito produtivo. Falei. mas minha experiência no semestre anterior tinha me revelado uma falta de familiaridade com a investigação intelectual que eu não associava com o ambiente universitário. E lasquei uma boa aula sobre a noção de interpretação de Peirce. indiretamente. paradoxalmente.. Então me surpreendi.. ou me viam apenas. Comecei a aula perguntando se eles gostariam de ter minhas críticas. Sou sempre otimista quanto aos alunos. e de Machado para entender a relação entre a racionalidade e as crenças populares no Brasil do século XIX. antes do curso. Haviam me dito.184 Revista Brasileira de Literatura Comparada. que os alunos de pós tinham dificuldades de leitura e escrita comparáveis às dos de graduação.

recebendo influências mil. cuja palestra algumas alunas haviam visto. penso que sim. na qual também víamos escritores de origem árabe. era tudo novidade. Resolvi dar uma aula sobre a literatura judaica no Brasil (Waldman. E isso serviu de ponte para falar de Milton Hatoum e de sua Manaus misturada. 185 portas para Merleau-Ponty. como parte dos eventos do Ano do Brasil. mas fazendo pontes com as literaturas de outros países também. brasileira. no semestre anterior. a poeta amazonense Astrid Cabral. Enfim. Funcionou? No todo.. indígena. Foi uma aula já ao final do curso. mas o tema geral da situação da mulher negra nas Américas era de conhecimento de todos. japonesa e. Então. africana. ao final do curso não havia mais tempo para se aprofundar nos autores. A ponte. e isso foi bom: saímos então do lugar chamado Brasil para situarmos o Brasil no mundo. trabalhos que de um modo ou outro já conhecíamos a partir de lei- . mesmo quando em tensão. árabe. A faculdade havia convidado. Os alunos ficaram encantados com aquelas influências literárias antigas que entraram no Brasil mas também na literatura europeia e americana. Havia apenas uma coletânea disponível (Alvares e Lima. Simmel e outros pensadores bastante sofisticados. pois nos dois países as identidades se enriquecem. mesmo com pouco material. e com pontes indo também a lugares mil. Ao final do curso. cotidianos e complexos.. os alunos apresentaram os trabalhos para a classe. obviamente. mostrando o caráter diaspórico da literatura brasileira. banais e sofisticados: falar da existência humana a partir de um ovo que se quebra dentro da rede. 2003). foram aqueles nossos autores brasileiros. Também ao final do curso. Discutimos como no Brasil e nos Estados Unidos as identidades nacional e étnica aparecem na literatura de modos distintos. novamente.As alunas e os contos: a narrativa curta brasileira. e aí o processo foi inverso. mas sim para introduzi-los e esperar que aquele se constituísse num primeiro contato com essa nossa literatura. a discussão foi rica e acalorada. 2004). examinamos a literatura escrita por mulheres negras. mas não opostos.

O que ficou dessa experiência? Que ensinar literatura brasileira no exterior é um trabalho coletivo. é certo. Sem alguma referência inicial. Em outras.15. Tinham certamente um olhar distinto do meu. como também seus editores e tradutores na língua inglesa. Mas estavam lá na sala de aula. Um aluno fez uma análise filosófica de “O ovo e a galinha”. pois a essa altura todos se sentiam um pouco autores uns dos trabalhos dos outros. viam valor em textos que não me chamavam a atenção. elaborar. Na classe em que havia ideias iniciais sobre o Brasil. Um trabalho que debatemos muito em aula foi escrito por uma aluna caribenha. A outra. o que permitia essa troca de modo fácil e intuitivo. é possível ir adiante. é possível o aprendizado individual. Também aprendi que o contexto no qual esse ensino se dá é importantíssimo. mas talvez não o coletivo. de Lispector. Duas alunas escreveram também sobre a autora. Eu tinha a sensação de uma profunda solidão. avançar. me ajudando a construir essa ponte que é um dos motores da literatura. Uma escreveu sobre uma experiência de infância que se assemelhava ao olhar de estranhamento de Ana. como foi o caso desse curso de literatura. o compartilhar de experiências. a partir de conversas com leitores de seu círculo de amizades.186 Revista Brasileira de Literatura Comparada. mesmo que inconsistente. Todo o material apresentado era colocado no ambiente educacional virtual Moodle. que procurou refletir sobre sua própria cultura repleta de misticismos a partir do conto de Machado “A cartomante”. n. Além disso. é difícil tocar adiante o projeto educacional. que a leitura de Clarice evocou. há . 2009 turas e discussões anteriores. Foram aulas de troca intensa. Não consigo terminar este artigo antes de falar brevemente dos trabalhos. procurou investigar que tipo de reflexão os textos de Clarice evocavam. e às vezes deixavam de lado algumas gemas. Mas estavam lá comigo não apenas os autores que fizeram a nossa literatura. no conto “Amor”. Uma excelente aluna de graduação que se matriculou no curso escreveu sobre os dilemas de gênero que apareciam em Machado e também em Nelson Rodrigues.

que não funcionou tão bem. não estava tirando sarro dela nas aulas com aquela entonação vagarosa. 187 também as ideias iniciais da instituição e dos colegas sobre o Brasil. e eu queria examinar o conto. fugir do exame desigual . Depois. para que eles se familiarizassem com a língua. com uma brasileira que morava na cidade e. Mas a maioria não conhecia nada da língua. Fiquei me perguntando qual era o Brasil que ela imaginava. Pois por que não às vezes ser um pouco a brasileira palhaça. nada mais. de conversação. a produção literária brasileira. para que eles compreendessem o significado. mas sim ir sutilmente as aceitando e subvertendo. de Drummond. Os alunos riram.. claro que explicando que era apenas uma imitação de paulista. Depois li o poema em inglês. A professora com quem dividi o curso queria apresentar um panorama geral sobre a cultura brasileira.. musicada. E aí começou a brincadeira: li o poema em português. dei umas mexidas e pronto. Coloquei o poema em nosso site na internet.As alunas e os contos: a narrativa curta brasileira. além de dar aulas de línguas. e acredito que bater de frente com elas não seja a melhor alternativa. pois acredito que a partir de nossas realizações é que podemos nos reconhecer como iguais. José?”. Essas expectativas todas entram na sala de aula. onde professores universitários da área de ciências humanas não conheciam Keynes. E até tentei uma imitação de carioca. mostrei a um poeta novaiorquino com quem tenho um ótimo diálogo literário e pessoal. estereotipada? Num belo dia resolvi traduzir o poema “E agora. em uma conversa sobre a crise econômica. Uma até confessou que agora se dava conta que seu professor de capoeira falava mesmo daquele jeito. li o poema imitando o sotaque baiano. o que esperavam de mim? Como imaginavam um professor brasileiro? Lembro-me que. mas numa aula também coloquei o próprio Drummond declamando o poema. uma colega fez um aposto para explicar quem era Keynes. também cantava na ópera e lecionava voz. Alguns alunos faziam um curso bem introdutório. obviamente em português. Ou qual era o mundo. Fiz um primeiro esboço.

2006. para os alunos que fizeram esse curso. 1992. Dissertação (Mestrado) . os meus próprios contos. LIMA. Uma poética da musicalidade na obra de João Guimarães Rosa. Family ties. Miriam. BOSI. David. Oxford anthology of the Brazilian short story. Rio de Janeiro. n. Consegui dar um curso sobre o conto como forma literária? Isso fica em aberto. O que viram? Com quem conversaram? Como se sentiram? Não sei. o sotaque. Sei que. Uma nativa de óculos. JACKSON. New Directions Publishing Corporation.15. Oxford University. Memoirs of a militia sergeant. onde quer que tenham ido. 1994. São Paulo: Cultrix.188 Revista Brasileira de Literatura Comparada. O conto disse para eles que há outras formas de pensar. de viver. Oxford: Oxford University. Vieram em maio ao Brasil. Mas de certo modo eu também apresentei esse panorama geral. O conto brasileiro contemporâneo. 2000. _____. De certo modo. K. André Vinicius. Mas não sei se afirmo que realmente investigamos a forma.. Acho que ela serviu de elo entre nós. Foreign legion: stories and chronicles. de um modo que outra forma talvez não o fizesse. Women righting: afroBrazilian women’s short fiction. O conto brasileiro talvez tenha sido porta de entrada para uma sensibilidade distinta – e para uma sociabilidade distinta também. Clarice. trazendo a música. ALVARES. Referências ALMEIDA. 2009 de um povo sobre o outro. digamos. 1984. O romance sempre seria comparado ao que os alunos já conheciam da literatura inglesa e americana.. LISPECTOR. PESSÔA. de sentir. Muitos alunos disseram se surpreender com a forma sintética e evocativa que nós dominamos tão bem. as vozes de nossos escritores estavam com eles. Maria Helena. Austin: University of Texas. as minhas histórias pessoais e a minha vivência. eu fui um pouco a nativa. 2006. Mango Publishing. Alfredo. Manuel Antonio de. 2004.

As alunas e os contos: a narrativa curta brasileira. SADLIER. Knopf.. 2000. Darlene J. 1992. Nelson. Indiana University. One hundred years after tomorrow: Brazilian women’s fiction in the 20th century. Life as it is. WALDMAN. Rio de Janeiro: Objetiva. Ricardo. Host Publications. 1963. 189 – Universidade Federal do Rio de Janeiro. 2008. 2003. Formas breves. . Joaquim Ferreira dos. São Paulo: Perspectiva. Entre passos e rastros. Graciliano. 2005. RAMOS. As cem melhores crônicas brasileiras. SANTOS. João Guimarães. RODRIGUES. Berta. ROSA. The devil to pay in the Backlands. Seleção de contos brasileiros. PIGLIA.. Rio de Janeiro: Edições de Ouro. Barcelona: Anagrama. 1966.

Pareceristas Arnaldo Franco Junior Benito Martines Rodriguez Clarissa Jordão Eurídice Figueiredo Isabel Jasinski Luís Bueno Luiz Carlos Simon Mauricio Mendonça Cardozo Marilene Weinhardt Paulo Soethe Renata Telles Silvana Oliveira Susana Scramin .

instituição. no mínimo. espaço simples. endereço para correspondência (com o CEP). no máximo. com uma folha de rosto onde constem os dados de identificação do autor: nome. e-mail. poderá ser aceito trabalho de não doutor. Devem ser produzidos em MSWord 2007 (ou versão superior). Usar asterisco para nota de rodapé. •  O espaço para publicação é exclusivo para pesquisadores  doutores. 20. duas linhas abaixo do título. Todos os trabalhos devem apresentar também Abstract e Keywords.título – centralizado. o trabalho deve obedecer  à seguinte sequência: . Eventualmente. em maiúsculas e negrito (sem grifos). A extensão do texto deve ser de. indicando a instituição à qual está vinculado(a). por exemplo. O nome da instituição deve estar por extenso. . 10 páginas e.Nome(s) do(s) autor(es) – à direita da página (sem negrito nem grifo). •  Após a folha de identificação. desde que a convite da comissão editorial – casos de colaborações de escritores. . seguido da sigla. título e temática escolhida.191 Normas da revista Normas para apresentação de artigos • só serão aceitos trabalhos enviados pela internet para o endereço: revista@abralic.br •  Os artigos podem ser apresentados em português ou em  outro idioma. telefone (com prefixo). com maiúscula só para as letras iniciais.org.

O resumo deve ter no mínimo 3 linhas e no máximo 10. corpo 12. itálico e maiúsculas.texto – em Times New Roman. ilustrações e tabelas. Corpo 10. .) – devem vir prontas para serem impressas. desenhos. em negrito. quando houver.citações de até três linhas vêm entre aspas (sem itálico).tabelas e ilustrações (fotografias. . Com mais de 3 linhas. seguida de dois pontos. duas linhas abaixo do nome do autor. seguidas das seguintes informações entre parênteses: sobrenome do autor (só a primeira letra em maiúscula). . sem numeração. A expressão palavras-chave deverá estar em negrito. . vêm com recuo de 4 cm na margem esquerda. seguida de dois pontos.Resumo – a palavra Resumo em corpo 10.subtítulos – sem adentramento. .abstract – mesmas observações sobre o Resumo. 2009 . gráficos etc. . .Parágrafos – usar adentramento 1 (um).15. corpo 10.Palavras-chave – dar um espaço em branco após o resumo e alinhar com as mesmas margens. com recuo de dois centímetros de margem direita e esquerda. numeradas de acordo com a ordem de aparecimento. Palavras em língua estrangeira – itálico. Corpo de texto 10.Notas – devem aparecer ao pé da página. sem aspas. . ano de publicação e página(s). só com a primeira letra em maiúscula. n.Ênfase ou destaque no corpo do texto – negrito. . itálico e maiúsculas. Usar espaçamento duplo entre o corpo do texto e subitens. O texto-resumo deverá ser apresentado em itálico.Keywords – mesmas observações sobre as palavraschave. Espaçamento simples entre linhas e parágrafos. negrito.192 Revista Brasileira de Literatura Comparada. dentro do padrão geral do texto e no espaço a elas destinados pelo autor. sem itálico e também seguidas do sobre- . corpo menor (fonte 11). . Máximo: 5 palavras-chave.

• citação de vários autores Sobre a questão. a presença da ironia e da sátira. ao contrário. Eliot. Somos feitos de palavras. ano de publicação e página(s).Referências – devem ser apenas aquelas referentes aos textos citados no trabalho. pode-se recorrer a vários poetas.] entre as advertências de Haroldo de Campos (1992). 1991. ou pelo menos.. sem adentramento e sem numeração. devem ser colocados antes das referências. A palavra REFERÊNCIAS deve estar em maiúsculas. caso existam. .. .] conforme Octavio Paz. bem como permissão dos editores para publicação.anexos. p. precedidos da palavra ANEXO. Borges. Recomenda-se que anexos sejam utilizados apenas quando absolutamente necessários.. 1982. teóricos e críticos da literatura (Pound. 1977. 1969) • citação de várias obras do mesmo autor As construções metafóricas da linguagem. evidenciando um confronto entre o sagrado e o profano. 1991.. não há qualquer reivindicação de possíveis influências ou contágio. o enfoque das personagens . devem incluir referência completa.” (PAZ. Valéry.Normas da revista 193 nome do autor (só a primeira letra em maiúscula). alguns exemplos de citações • citação direta com três linhas ou menos [. Campos. 1998. em maiúsculas e negrito. Quando constituírem textos já publicados. duas linhas antes da primeira entrada. o único testemunho de nossa realidade.As citações em língua estrangeira devem vir em itálico e traduzidas em nota de rodapé. sem adentramento. A palavra é o próprio homem. 37) • citação indireta [. Elas são nossa única realidade. foi antes a poesia concreta que assumiu as conseqüências de certas linhas da poética drummoniana. negrito. “As fronteiras entre objeto e sujeito mostram-se particularmente indecisas. as indefinições.

p. 1992) • citação de citação e citação com mais de três linhas Para servir de fundamento ao que se afirma. [. 1988. Perspectivas comparadas trans-americanas. que faz? Ajunta-as e. José Luís et al. o planetário. Vira e mexe.).. 2004. p. Itinerários. Zilá. Paradoxos do nacionalismo literário. 1999. São Paulo: Companhia das Letras. 2007. 22. tira ele e forma uma imagem que antes não havia. o internacional. 148) alguns exemplos de referências • livro PERRONE-MOISÉS. São Paulo. Universidade de São Paulo.. M. • capítulo de livro BERND. Lugares dos discursos literários e culturais – o local. p. In: JOBIM. 87 apud TEIXEIRA.. Relações entre ficção e história: uma breve revisão teórica. p. . concebendo que todo o homem tem potência de rir [.] (FREIRE. Claudia Pastore.. n.15. de tantas imagens particulares que recolhera a apreensiva inferior [fantasia]. Z. Leyla. 2006. nacionalismo. o regional. o nacional. • artigo de periódico GOBBI. 1759.122-33. V. O erotismo na produção poética de Paula Tavares e Olga Savary.57. Araraquara. 2004. veja-se um trecho do capítulo XV da Arte Poética de Freire: Vê. Letras e Ciências Humanas.] o nosso entendimento que a fantasia aprendera e formara em si muitas imagens de homens. Tese (Doutorado) – Faculdade de Filosofia. n. 1991. 2009 em diálogo dúbio entre seus papéis principais e secundários são todos componentes de um caleidoscópio que põe em destaque o valor estético da obra de Saramago (1980. 37. • dissertação e tese PARMAGNANI. Niterói: EdUFF.194 Revista Brasileira de Literatura Comparada. (Org.

br/scielo. 2009. Jornal de Resenhas. v. Anais. T. A intermediação da memória: Otto Maria Carpeaux./jun. Alea: Estudos Neolatinos. Gramática do louvor. p.scielo.. Rio de Janeiro. n. Acesso em: 6 fev. 10. Folha de S. Belo Horizonte. .. p. F. jan. 2000. 85-95. I.Normas da revista 195 • artigo de jornal TEIXEIRA. O comum e o disperso: história (e geografia) literária na Itália contemporânea.Paulo. observação final: A desconsideração das normas implica a não aceitação do trabalho.php?pid= S1517106X2008000100005&script=sci_arttext>. São Paulo. Disponível em: <http://www. 8 abr. In: II CONGRESSO ABRALIC – Literatura e Memória Cultural. • trabalho publicado em anais CARVALHAL. 4. 2008. • Publicação on-line – Internet FINAZZI-AGRÒ. 1. Os artigos recusados não serão devolvidos ao(s) autor(es). Ettore. 1990.

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