REVISTA BRASILEIRA DE

São Paulo 2009

Diretoria Presidente Vice-presidente 1º Secretário 2º Secretária 1º Tesoureiro 2º Tesoureiro Conselho Fiscal

A B R A L I C 2009-2011 Marilene Weinhardt (UFPR) Luiz Carlos Santos Simon (UEL) Benito Martinez Rodriguez (UFPR) Silvana Oliveira (UEPG) Luís Gonçales Bueno de Camargo (UFPR) Maurício Mendonça Cardozo (UFPR) José Luís Jobim (UERJ, UFF) Lívia Reis (UFF) Sandra Margarida Nitrini (USP) Helena Bonito Couto Pereira (Universidade Mackenzie) Arnaldo Franco Junior (UNESP - S. J. do Rio Preto) Carlos Alexandre Baumgarten (FURG) Rogério Lima (UnB) Sueli Cavendish de Moura (UFPE)

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ABRALIC CNPJ 91.343.350/0001-06 Universidade Federal do Paraná Rua General Carneiro, 460, 11.o andar 80.430-050, Curitiba - PR E-mail: revista@abralic.org

REVISTA BRASILEIRA DE

ISSN 0103-6963 Rev. Bras. Liter. Comp. São Paulo n.15 p. 1-195 2009

2009 ISSN 0103-6963 1. Editor Organizador Comissão editorial Luís Bueno Maurício Mendonça Cardozo Luiz Carlos Santos Simon Benito Martinez Rodriguez Silvana Oliveira Luís Bueno Maurício Mendonça Cardozo Preparação/Revisão Diagramação Patrícia Domingues Ribas Rachel Cristina Pavim Revista Brasileira de Literatura Comparada / Associação Brasileira de Literatura Comparada – v. entidade civil de caráter cultural que congrega professores universitários. pesquisadores e estudiosos de Literatura Comparada.15.2008 Associação Brasileira de Literatura Comparada A Revista Brasileira de Literatura Comparada (ISSN. n. Associação Brasileira de Literatura Comparada. I. fundada em Porto Alegre. n.0103-6963) é uma publicação semestral da Associação Brasileira de Literatura Comparada (Abralic). sejam quais forem os meios empregados. Literatura comparada – Periódicos. Todos os direitos reservados. 1991v. em 1986.091 (05) .1 (1991) – Rio de Janeiro: Abralic.2.005 CDU 82. CDD 809.1. Nenhuma parte desta revista poderá ser reproduzida ou transmitida. sem permissão por escrito.

Sumário Apresentação Luís Bueno Mauricio Cardozo 7 Artigos Os estudos de língua e literatura brasileiras no contexto dos estudos portugueses e latino-americanos na Alemanha Ligia Chiappini A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria Ferenc Pál Tempos e contextos da literatura brasileira na Argentina e no exterior Florencia Garramuño Ideia de literatura brasileira com propósito cosmopolita Abel Barros Baptista O ameríndio como personagem do Outro na literatura brasileira contemporânea: Órfãos do Eldorado e Nove noites Rita Olivieri-Godet Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate de nosso tempo Idelber Avelar O ensino de literatura brasileira por meio do Teatro do Oprimido: uma experiência na Carolina do Norte Érica Rodrigues Fontes 9 25 49 61 89 113 151 .

As alunas e os contos: a narrativa curta brasileira num curso de escrita criativa nos Estados Unidos Heloisa Pait 173 190 191 Pareceristas Normas da revista .

vale-se do conceito de “hospitalidade” para discutir o estatuto do estudioso estrangeiro de literatura brasileira.7 Apresentação Ao propor como tema os “Estudos de literatura brasileira no exterior”. O segundo bloco é constituído por três trabalhos que privilegiam a dimensão da análise literária. da . O artigo de Lígia Chiapinni é o significativo balanço da experiência fundamental que representou a criação e rápida extinção da única Cátedra de Brasilianística de uma universidade alemã. organizados a partir da dimensão que privilegiam em sua discussão. os artigos que compõem este número da Revista formam três blocos diferentes. Respondendo a essa proposta inicial. da Universidade Nova de Lisboa. Abel Barros Baptista. traçam amplos panoramas históricos – com um olhar atento ao futuro – dos estudos de literatura brasileira em dois países que se localizam a distâncias (não só geográficas) muito diferentes em relação ao Brasil: Hungria e Argentina. bem como de suas relações com o deslocamento da posição ocupada pelo Brasil no cenário político e econômico mundial nas duas últimas décadas. a Revista Brasileira de Literatura Comparada procurou abrir um espaço para a discussão dos diferentes lugares e dinâmicas de estudo da literatura brasileira fora do Brasil. No primeiro bloco. Ferenc Pál e Florencia Garramuño. o que se destaca é a dimensão por assim dizer institucional dos estudos brasileiros no exterior. Rita Cavalieri Godet. ao concentrar-se nas questões levantadas pelas leituras brasileira e estrangeira de Machado de Assis. por sua vez.

No primeiro deles. enfrenta as dificuldades das pequenas faculdades americanas. ao realizar cuidadosa leitura de obras de Milton Hatoum e Bernardo Carvalho. da Universidade de Tulane. convoca estudiosos tanto brasileiros como estrangeiros para retomar um tema fulcral da crítica: o do estabelecimento do valor. Heloisa Pait conta como procurou superar as dificuldades de discussão de textos brasileiros em tradução no contexto de uma instituição que.14. lança seu olhar para a representação que a ficção brasileira contemporânea faz do ameríndio. Já Idelber Avelar. é estranha ao aluno estrangeiro. No artigo que fecha este número da Revista Brasileira de Literatura Comparada. n. Érica Rodrigues Fontes trata de sua proposta de utilização dos fundamentos do Teatro do Oprimido de Augusto Boal como instrumento de aproximação de uma realidade que. apesar de ter grande tradição. em princípio. ao tomar partido de sua posição de professor brasileiro que atua nos Estados Unidos. Luís Bueno Mauricio Cardozo . 2009 Universidade de Rennes 2. O bloco final nos traz dois relatos que investem na dimensão da experiência de professoras brasileiras nos Estados Unidos.8 Revista Brasileira de Literatura Comparada.

encerramento cátedra. os clichês. The interruption of this experience in October 2010. Portuguese Em memória de Marlyse Meyer. literature and culture in Germany is described by the author who occupied the only Chair in Brasilianistik ever created in Germany for almost fifteen years at the Freie University of of Berlin. reforma curricular. descrita a partir da experiência única da cátedra de Brasilianística que a autora ocupou por quase quinze anos na Universidade Livre de Berlim. do qual é co-fundadora. junto ao Centro de Pesquisas Brasileiras. a partir de 2010. Brazilian literature. confirmaria uma tradicional contradição na Alemanha entre um grande interesse pelo Brasil e um quase desinteresse por sua literatura. Atualmente trabalhando na orientação de teses no mesmo Instituto. literatura e cultura brasileiras na Alemanha. que influenciam o diálogo entre o autor traduzido e o Professora catedrática de Literatura e Cultura Brasileiras do Instituto Latino-Americano da Universidade Livre de Berlim. bem como na pesquisa. keywords: teaching and research. A interrupção dessa experiência. abstract: The current status of the studies of Brazilian language. * .9 Os estudos de língua e literatura brasileiras no contexto dos estudos portugueses e latino-americanos na Alemanha1 Ligia Chiappini* Situação atual dos estudos de língua. Porém os preconceitos ou. não deveria ser lida somente como veículo de informações sobre o país.língua portuguesa. Não é preciso acentuar que uma obra literária transmite muitos elementos procedentes de outra cultura na ficção e desperta para outras formas de viver e de pensar. resumo: palavras-chave: ensino e pesquisa. 1 language. literatura brasileira. do confirm a traditional contradiction in Germany between a great interest in Brazil and almost no interest in its literature. curriculum reform. entre 1997 e 2010. digamos. closure chair A literatura proveniente da América Latina tem direito a ser considerada no mesmo nível que outras literaturas.

Esta ironia se esclarecerá no decorrer deste texto. muito complicado. são. propondo para nossa reflexão alguns problemas que pude identificar em quase quinze anos de trabalho na Universidade Livre de Berlim. em alemão.15. última professora de Brasilianística da Alemanha. da televisão. pelo menos na terra de Spitzer. significa Literatura Brasileira ou Filologia Brasileira. no texto “Literatura e cultura no contexto dos estudos brasileiros na Alemanha: a cátedra de Brasilianística” (Chiappini. nesse contexto. abrindo-se a outras linguagens. principalmente em Berlim. E. a língua portuguesa fica quase tão desconhecida como o pérsico ou o sânscrito. única e. como a primeira. (Johann Jacob von Tschudi) O objetivo deste texto é resumir um pouco o percurso e a situação atual dos estudos de língua. pois a literatura brasileira Por exemplo. que atualiza informações já divulgadas em algumas publicações anteriores. ela se localizou na confluência do Departamento de Romanística com o Instituto de Estudos LatinoAmericanos. tais como a Germanistik. que conheço melhor. Para além da filologia mas com a filologia. para citar apenas alguns dos grandes estudiosos de língua alemã que trataram dos textos em seus contextos e dos contextos nos textos.2 Brasilianistik. literatura e cultura brasileiras e de suas diferentes modalidades na Alemanha. da música popular. Mas o que parece simples no enunciado acima é. pois esta não deve ser confundida com o estudo meramente formal dos textos em si mesmos.10 Revista Brasileira de Literatura Comparada. das artes plásticas. difíceis de desaparecer na mente das pessoas. 2009 seu leitor estrangeiro. a Hispanistik. na verdade. Auerbach. adotou o tratamento da literatura como manifestação cultural. 2005) 2 . de mais longa tradição acadêmica. (Ray-Güde Martin) Nos meios cultos da Alemanha. n. Adorno e Benjamin. do cinema. Na Universidade Livre de Berlim. a Anglizistik. da poesia e narrativa orais. ao que parece. por analogia a outras áreas desses estudos. até segunda ordem.

3 Ainda segundo Briesemeister: Os estudos brasileiros. Dietrich Briesemeister (2000) faz um balanço dessa luta. que sempre por ele se interessaram. que se publicou posteriormente em livro com o mesmo título. haveria um semidesconhecimento cultural e. tornaram a vigorar.Os estudos de língua e literatura brasileiras no contexto.. Em palestra realizada no primeiro simpósio internacional promovido pela Brasilianística. apoiaram ou facilmente aceitaram a sua extinção quinze anos depois. etnólogos. Por outro lado. nos departamentos de Romanística das Universidades. mesmo em contextos nos quais se impôs como necessária. com o português fazendo parte de uma estrutura que privilegia o espanhol (2000. 349). como parte da Romanística. 11 Critérios e preconceitos que. do início do século XIX ao final da década de 90 do século XX. botânicos. p. vigorando “enfoques valorativos eurocêntricos e critérios preconceituosos” (Briesemeister. E aí também a situação piora dia a dia. no caso da literatura. seria esse País Tropical um paraíso para geólogos. sociólogos. “Brasil: país do passado?”. O desconhecimento e o desinteresse não se manifestariam apenas na ausência ou invisibilidade da literatura. Começa constatando nesse percurso um permanente desequilíbrio na visão do Brasil pelos estudiosos na Alemanha. mas também na ignorância da dimensão que a própria língua portuguesa tem no mundo. 2000. que ajuda a entender a situação presente. ela perde espaço e visibilidade. e por parte dos que provocaram. sempre foi um apêndice de Portugal. como a de toda literatura). Por um lado. por parte dos que nunca quiseram a cátedra de Brasilianística na Universidade Livre de Berlim e retardaram ao máximo a sua criação. e paralelamente. aliás. nos departamentos ou institutos latino-americanos. geógrafos. processo que durou de 1988 a 1995. 3 ainda enfrenta dificuldades para ser reconhecida em sua autonomia (mesmo que relativa. mesmo. 349). sobre ele pesquisaram e escreveram. p. caso do nosso Instituto. uma ignorância quanto à “participação individual do Brasil na cultura universal”. Entre aqueles e estas. sendo ela frequentemente .. ou dos estudos hispanoamericanos. depois de uma longa luta pela institucionalização da disciplina. tensionada entre os Estudos de Literatura e Cultura Latino-Americanos – hoje identificados com os Estudos Culturais Norte-Americanos – e a Lusitanística.

351). 2009 comparada ao sânscrito e ao romeno. p.15.12 Revista Brasileira de Literatura Comparada. de 1924 (Briesemeister. 2000. p. a maior parte dos quais. O mesmo fenômeno nota Briesemeister nos livros sobre literaturas latino-americanas. n. 2000. Lamenta que esse exemplo não tenha sido seguido como merecia e acusa mesmo um possível retrocesso: desde aquela obra singular de Wolf. 351). Isso revelaria um grande desconhecimento tanto da dimensão quanto da qualidade desta. principalmente. como a posição do austríaco Ferdinand Wolf. como línguas mais ou menos exóticas e minoritárias: Não obstante o número muito elevado e ainda o aumento da população mundial dos países lusófonos em quatro continentes (. . A regra continuaria sendo o predomínio do interesse econômico. O português entra em competição com o espanhol como “terceira língua”. de sua literatura. Die Spanisch-amerikanische Literatur in Ihren Hautströmungen. o ensino torna-se imperdoavelmente reduzido nas universidades alemãs. como no contraexemplo do livro de Wilhelm Giese. publicado em 1863. até há pouco tempo. deixava de fora o Brasil: (O) Brasil continuou ausente das obras que tratavam da América Latina e. Pelo contrário. ficando atrás em relação ao número de alunos (Briesemeister.. não se fez muito nos países de língua alemã a favor da pesquisa. da valorização e da divulgação da literatura brasileira. autor de Le Brésil Littéraire. deixando as manifestações culturais sempre em segundo plano. p. em que a literatura é a grande ausente. 2000. constata-se até uma tendência regressiva em comparação com o posicionamento avançado do erudito austríaco (Briesemeister.. como no livro de Max Leopold Wagner.). Briesemeister reconhece algumas raras exceções a essa tendência ainda no século XIX. O Brasil e a Alemanha: 1822-1922. 350-351).

da qual tiramos a epígrafe acima. p. 13 Ainda nos anos 60 do século XX. em Aachen. 353) Essa foi realmente uma conquista significativa. pontuando. o Instituto Geográfico da Universidade de Tübingen.Os estudos de língua e literatura brasileiras no contexto. . o mesmo autor resume “o largo caminho da institucionalização” (Briesemeister. 351) dos estudos portugueses e brasileiros na Alemanha. o Instituto Ibero-Americano do Patrimônio Cultural Prussiano. p. da Universidade Livre de Berlim. o Instituto Latino-Americano. a diversificação interdisciplinar. ao mesmo tempo. finalmente. como o Instituto de Cultura Brasileira. que só 25 anos depois de criado.” (Briesemeister. dos Frades Franciscanos. 2000. a criação de três institutos que continuaram existindo depois dela: o Instituto de Pesquisas sobre Ibero-América da Universidade de Hamburgo.. em Berlim. Materialien zur lateinamerikanischen Literatur (1976). Criada em 1989 e somente em 1997. o Instituto Português e Brasileiro da Universidade de Colônia. 351-352). só contém artigos dedicados a autores de língua espanhola (Briesemeister. em Mettingen. foi “dotado de uma cátedra (única no país) de literatura e cultura brasileiras. Destaca também novos centros. em 1912. bem como a de Ray Güde-Mertin. ou seja. 2000. mas quase sempre com referência exclusiva à América espanhola. a partir de 1995. depois de muitos prós e contras. o Centro Latino-Americano de Münster e. Defendendo a necessidade dos estudos regionais e. pelo cônsul Heirich Schüler. Ainda antes da segunda guerra. o livro de Michi Strausfeld. ocupada pela autora deste texto. p. a fundação do primeiro Instituto Latino-Americano da Alemanha. Por exemplo. 2000. como primeiro centro de estudos interdisciplinares sobre América Latina numa universidade alemã. a cátedra mal completara um ano quando organizamos o simpósio internacional. no qual foi proferida essa conferência de Briesemeister.. falava-se freqüentemente em América Latina.

havendo um esforço permanente para relacioná-los com seus contextos. a proposta sempre foi trabalhar com o Brasil sem deixar de levar em consideração a sua integração no mundo. ambos parcialmente financiados com auxílio do governo brasileiro. bem como da Latino-americanística e em diálogo estreito com a Caribística. o qual não podemos esquecer. tanto como parte de uma hipotética Weltliteraturwissenschaft quanto da Romanística. a começar por tudo o que o une à América Latina. essa foi sempre a direção buscada. arbitrário e puramente folclórico. novelas de televisão. dedicandose. muito antes de os Cultural Studies se terem transformado em moda na América Latina. dos estudos de teatro. ainda. Carlos Azevedo e Carlos Ladeira. poesia oral. que. encarregados de cursos de língua. valorizava com saudável distanciamento irônico os estudos culturais para além dos cânones literários. como “Altos e baixos estudos”5 de literatura e cultura e não como Cultural Studies. tais como filmes. que aprenderam português brasileiro com Berthold Zilly e outros excelentes mestres. como quem inventa a roda. 5 . assim. 4 O termo se deve a Marlyse Meyer. a cada nova tendência teórica produzida nos centros universitários hegemônicos da Europa e Estados Unidos da América do Norte. de modo indiscriminado. já nos anos 1970.15. Por outro lado. embora ela tenha trabalhado também com textos não canônicos e com textos que só podem ser considerados literários em sentido amplo. numa predisposição e abertura para a inter/pluri/transdisciplinaridade. porque estes muitas vezes tendem a confinar o estudo dos textos e a própria literatura nos países considerados periféricos a um conjunto de informações superficiais e até mesmo estereotipadas das produções culturais. a Brasilianística no LAI dedicou-se sobretudo ao estudo sistemático e à divulgação dos textos mais significativos da Literatura Brasileira. que já constituem mais de dois séculos de um saber acumulado. Para tanto.4 Mas isso não significou tratar os textos isoladamente. entre os quais. artes e comunicações. da teoria e da história literárias com a linguística.14 Revista Brasileira de Literatura Comparada. aos estudos sobre cordel e folhetim. a história e as ciências sociais. entre outros. mas tudo isso sem esquecer sua base nos estudos de literatura brasileira. mitos. entre outros. A Brasilianística concebeu-se. A Brasilianística concebeu-se. n. sem desconhecer suas especificidades linguísticas e históricas. permitindo-se juntar num único seminário. hoje também leitora na FU. da Literatura Comparada. 2009 Considerando as lacunas apontadas por esses e outros estudiosos. a economia. da Lusitanística. contou com uma ótima base linguística dos estudantes. Zinka Ziebell. implicando um diálogo constante da crítica.

permitiu conquistar um espaço autônomo para os estudos de literatura e cultura. 6 aulas sobre descobrimentos. música popular brasileira e jeitinho brasileiro. Por outro lado. Isso tudo. como em qualquer parte do mundo.. promover eventos. como social e histórica. a Brasilianística sempre defendeu o espaço e a possibilidade de os escritores brasileiros escreverem e publicarem literatura. e mesmo intensificou. impedindo que se dissolvessem conteudística. com esse cargo de titular para a Brasilianística criou-se a possibilidade de os estudos brasileiros escaparem à situação de apêndice dos estudos portugueses ou hispano-americanos. assinar convênios e gerenciálos. 15 Como defendeu um colega norte-americano no jornal da Brazilian Studies Association (Brasa). Para entender a importância disso – sobretudo porque no Brasil poucos percebem a diferença entre as condições de trabalho de um professor e de um assistente ou de um leitor. o intercâmbio interdisciplinar com os estudos hispano-americanos de literatura e cultura. . um cargo de professor implica um espaço próprio e possibilidades bem maiores de fazer coisas que.. mesmo que bem intencionada. embora vinculando-se estreitamente a elas. Guimarães Rosa. pois a literatura sempre foi estudada aí como parte da cultura e esta. entendendo que negar essa possibilidade em nome da democracia. No caso da Brasilianística.. O jornal chama-se Fagulha e no número de 1997 estampou esse programa como alternativa aos programas tradicionais de literatura e cultura brasileira. o aprofundamento da pesquisa e do ensino específicos da literatura e da cultura brasileiras preservou. Como já foi dito. mais o contrato permanente de trabalho. onde a hierarquia universitária se mantém de modo muito rígido e conservador.6 Finalmente. é preciso saber que na Alemanha. associação de brasilianistas dos Estados Unidos. como abertura para o não canônico. todo docente universitário com doutorado poderia fazer. para não falar dos professores horistas ou encarregados de cursos –. escravidão. seria um efeito perverso da atitude libertária. possibilita uma continuidade de produção teórica e prática no ensino e na pesquisa. aparentemente.Os estudos de língua e literatura brasileiras no contexto.e redutoramente nas ciências sociais. tão importante na formação das novas gerações. como permite o sistema brasileiro: desde orientar teses de doutoramento até coordenar projetos.

Tais entraves iriam reforçar. como no âmbito das reformas anunciadas para o futuro próximo (Briesemeister. a . uma das primeiras áreas atingidas foi o português. na Alemanha. o que o levava a sugerir um tanto profeticamente que tudo tenderia a piorar: O que impede quase insuperavelmente a independentização dos estudos brasileiros nas condições precárias do momento atual são as estruturas administrativas organizatórias da universidade alemã. E. quando a Universidade começava a ser pressionada para ajustar-se às reformas neoliberais. e mesmo portuguesa. ajuste esse que o autor antecipou e que logo iríamos começar a viver de modo vertiginoso. um ano antes do balanço pessimista mas realista de Briesemeister. Nas Humanidades. 2009 É importante assinalar que o Instituto Latino-Americano. como vimos. apesar de suas contradições. segundo ele. a oferta de quatro a cinco cursos diferentes por semestre. parece ser o lugar institucional ideal para uma disciplina desse tipo. como a então recente criação da Brasilianística. ou mesmo por causa delas. p. pois permite não apenas aprofundar a interdisciplinaridade mas também desenvolver atividades que levem a superar culturalmente o tratado de Tordesilhas. piorou. O experiente professor e pesquisador já pressentia nessa reforma novos entraves para os poucos progressos feitos na institucionalização dos estudos de língua e literatura brasileira. n.15. no sentido acordado em Bolonha: generalização dos cursos de Bachelor e Master e substituição dos cursos tradicionais de graduação.16 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Apesar das várias realizações da Brasilianística – entre outras. Entretanto. prevendo a extinção de postos e áreas inteiras. com a introdução das reformas curriculares nas universidades alemãs e europeias. a Brasilianística começou a funcionar já num momento extremamente desfavorável. 354). realmente. tanto na sua tradição. 2000. concorrendo para a integração da América Latina. aqueles identificados no passado. A reforma universitária vinha junto com significativos cortes de orçamento.

além de um módulo para desenvolvimento de projetos.. não só para garantir. como os outros). a exclusão do Brasil da América Latina ou. uma formação mais superficial na área. Esse master começou em outubro de 2005. Como também previu Briesemeister. com cinco módulos obrigatórios e alguns opcionais. formas de vida. 7 O Master do Instituto prevê um primeiro ano comum. “torna-se impossível conciliar as necessidades da diferenciação adequada com os critérios didáticos de aprendizagem e as relações histórico-culturais dos países do mundo lusófono” (2000. 8 orientação de mestrados e doutorados. da qual fazia parte a Brasilianística como uma subárea. mas o máximo que conseguiu foi fazê-los sobreviver como diploma complementar aos Bachalerados da Romanística. em face disso. o que significa. Brasil no contexto global: literatura. menos professores: ou seja. concretamente. Antropologia cultural. em menos de cinco anos. mais econômicos que científicos.. ao nível do BA. inevitável e urgente. enquanto a disciplina de Latino-americanística. mas também para ajustar a formação profissional dos jovens universitários às exigências de hoje (Briesemeister. como parte do BA de Estudos portugueses e brasileiros. passou para o mesmo departamento. a assimilação de uma língua de quase 200. a Universidade Humboldt encerrou mais radicalmente esses estudos. cultura e sociedade. Relações de gênero. Ele enunciou. planejou-se e. . ciclo de palestras e publicações. quando os novos bacharelados já haviam começado e hoje já se evidencia em ambos a necessidade urgente de serem repensados e reformulados. Não apenas a literatura brasileira se vê ameaçada. Os básicos são: Constituição da América Latina. menos disciplinas. com um BA de estudos brasileiros e portugueses (valendo 60 pontos e não 90. 17 As recentes reformas implicaram o fechamento de departamentos inteiros de português em toda a Alemanha. 350). A Universidade Livre tem mais condições hoje de manter uma parte deles.000. Motivos? Ao que parece. p. a especialização é absolutamente necessária. 2000). América Latina no contexto global. o estabelecimento e gerenciamento de convênios internacionais com outras instituições dedicadas à cultura e à língua brasileiras no Brasil e na Europa –. uma necessidade que estamos longe de preencher: Sem dúvida. a organização de simpósios. Literaturas nas dinâmicas culturais da América Latina.. transformações. Conceitos e métodos da pesquisa sobre América Latina.000 de falantes. o português brasileiro. Em Berlim. Poder e diferença. mas estranhamente assimilada ao BA de Filologia Espanhola. Os “dilemas da institucionalização” ameaçam também a variante europeia da língua e os respectivos estudos literários e culturais específicos da lusitanística. em nível institucional.7 seja no âmbito dos Estudos Culturais Latino-Americanos. Num segundo ano.Os estudos de língua e literatura brasileiras no contexto. então. a língua e a literatura brasileiras deslocaram-se para o departamento de Filologia Românica. a qualidade da pesquisa científica. os alunos podem optar entre cinco áreas de concentração: Transformação e desenvolvimento. ao espanhol da América. decretou-se o seu desaparecimento no âmbito mais geral seja da Lusitanística. ao nível do Master. o que significa menos carga horária.8 Ao nível do Bacharelado.

indo além do seu próprio gueto. que quase dez anos depois. esse Instituto conseguiu abrir um cargo de titular em literatura e cultura brasileiras. Uma tarefa da Brasilianística. pelo menos. após muitas idas e vindas. ocupado pela primeira colocada no concurso feito em 1990.18 Revista Brasileira de Literatura Comparada. entretanto. como vimos. ajudar a superar tanto uma suposta autonomia absoluta dos estudos filológicos quanto o preconceito de muitos brasilianistas das ciências sociais. que continua a crescer. ora como seu equivalente ao contrário: puro documento. com uma tradição respeitável de estudos sobre o Brasil e que. pela extinção do cargo após a aposentadoria da sua titular. do instituto mais importante na Alemanha dedicado aos estudos sobre a América Latina. eventos.de/studium/disziplinen/ brasilianistik/index. n. Existindo desde meados da década de 1970. justifica a criação de bacharelados disciplinares em que os estudos portugueses e Veja-se a lista das publicações. ligadas aos negócios ou às chamadas ciências sociais. com tentativas de fechá-lo antes que começasse a funcionar e tendo funcionado dois anos com professores substitutos. quando expressivos resultados do trabalho aí desenvolvido começam a aparecer. 9 .9 corta-se a sua continuidade.lai. recentemente. não foi acompanhada de uma diminuição da demanda.fuberlin. que por si só a justifica. como queria o escritor brasileiro Afrânio Peixoto no início do século XX. na variante europeia e nas demais. se propôs a criar um Centro de Pesquisas Brasileiras. E justamente agora. só em 1989. como vimos. cursos e projetos de pesquisa em nossa homepage: <http://www. não aos estudos de literatura e cultura ou aos estudos linguísticos. que eram contemplados normalmente no antigo currículo.html>. Essa concepção ainda positivista da literatura e das artes embasa ou. No caso do Instituto Latino-Americano da Universidade Livre de Berlim. Trata-se. finalmente. consiste em. para cursos destinados aos interessados das áreas consideradas mais úteis. mas está sendo canalizada. para os quais a literatura é vista ora como uma joia supérflua. veio a ser.15. em 1997. 2009 A restrição da oferta no ensino de português. coerentemente com a tradição de que nos falava Briesemeister. há um paradoxo. “sorriso da sociedade”.

contra 90 nos bacharelados principais)10 e menos tempo ou nos Masters interdisciplinares. perdendo sua especificidade. incapazes de dar conta da sua complexidade como objeto feito de palavras que são ao mesmo tempo coletivas e individuais. as diferentes disciplinas – Altamerikanistik (Antropologia e Arqueologia do continente americano). senão um lamentável retrocesso. Lateinamerikanistik/Brasilianistik (Literatura e Cultura Latinoamericanas). Mais que quantidade de informação. considerados prioritários. portanto. no nosso espaço cada vez mais restrito. a partir do semestre de inverno de 2010. começa-se a rediscutir as bases do nosso Master de Estudos Latino-Americanos que se quer interdisciplinar. o que importa aqui é a qualidade da formação. bem como a historicidade das formas. mas tampouco fazer tabula rasa do capital teórico e analítico aí acumulado. 10 Nesse conjunto. e esta não se faz sem um domínio da linguagem em que se expressa cada texto como produção simbólica. 19 A cada ano. como ocorria há quinze anos. o que implica a desconsideração total da questão estética. aí se procura articular em torno de certos temas. o que configura necessariamente uma grande restrição. De todo modo.. é uma atitude analítica. Atualmente. pelo menos desde Aristóteles. 11 brasileiros têm menos pontos (60.. com profundidade. neste caso. embora uma avaliação menos pessimista não veja isso como desmonte. No caso da literatura. mais que uma série de informações sobre eles. foi resguardar o essencial.11 História. o que não significa utilizá-los de modo acrítico ou extemporâneo. servida por apenas um cargo de titular. Em meio a tantas mudanças. em que a literatura e a cultura submergem nos chamados estudos de área. que é a capacidade de trabalhar intensivamente. a Brasilianística voltou a fazer parte de uma só disciplina. pois o que se ensina. a Associação dos Lusitanistas alemães faz um balanço do desmonte dos estudos de língua e literatura em língua portuguesa e constata que ele prossegue. Socio- . necessárias e esclarecedoras mas externas a eles e. sem o domínio da língua e dos métodos de leitura desenvolvidos pelas teorias da literatura. um método para que cada um produza seu próprio método. textos que constituem nosso objeto de estudo. mas como concentração desses estudos em algumas universidades em detrimento de outras. que abrange toda a América Latina e o Caribe. pelo predomínio da análise conteudística ou a abordagem das condições de produção ou de recepção dos textos. mas não se sabe ainda muito bem o que fazer dos estudos da cultura quando esses ultrapassam as leituras meramente conteudísticas e passam a investigar o tratamento dado aos temas.Os estudos de língua e literatura brasileiras no contexto. o que tentamos.

com a Antropologia. 2009 logia. Mas é verdade que isso se fez muitas vezes de modo implícito. n. “desde o formalismo jurídico até o senso humanitário”. 180). com a Economia. Como devem ser abordados os objetos literários a partir da perspectiva dos estudos propriamente literários. agora. Parece óbvio – mas nem sempre o óbvio é percebido como tal – que não é possível realizar um trabalho inter ou transdisciplinar sem respeitar os pressupostos epistemológicos e metodológicos próprios de cada disciplina. com a Sociologia. No caso da literatura. p. não é possível estudá-la sem relacioná-la intimamente com a História. 1989. mesmo que não quisessem sê-lo. em Berlim. tudo foi historicamente permeado pela literatura. principalmente se tratando do Brasil e da América Latina. incluindo a literatura e cultura. A teoria e crítica literárias aí já nasceram comparadas. com a Política. Quem estuda literatura e cultura num país como o Brasil sabe que não é possível fazê-lo a não ser estabelecendo comparações. Ciências Políticas e Economia. é preciso reconhecer que. o que precisava ser compreendido. trata-se de um desafio que é o desafio de todo trabalho interdisciplinar. O desafio. tivemos até quase o final de 2010 uma situação que se pode considerar de excelência na área dos estudos brasileiros. o que implica a busca de padrões e categorias que permitem tratar adequadamente semelhanças e diferenças. a fim de que esse diálogo realmente seja um diálogo e não a submissão ou a diluição destes perante uma hegemonia das ciências sociais? Seja como for. ao mesmo tempo como criação estética e como documento. onde. chegando à “expressão dos sentimentos no âmbito familiar” (Candido. E num país onde a literatura se forma sob a pressão e a certeza de que se está gestando com ela também a nação. é que. Essa excelência deriva de . mas dificilmente o é. Ao mesmo tempo. pode dizer muito mais sobre a vida.15.20 Revista Brasileira de Literatura Comparada. como reconheceu há muito Antonio Candido. é o de explicitar a comparação imanente. nesse diálogo das disciplinas. quando ela aparece na sua complexidade.

mas que na verdade era realismo. A situação negativa que os estudos de literatura brasileira. resumida ao longo deste texto. dentro e fora da Alemanha. como foi o caso do movimento iniciado pelos estudantes da Universidade de Jena. se antes havia pouco incentivo. mas também graças à importância reconhecida do Brasil para as relações internacionais da Alemanha. Eu mesma. Essa excelência precisa ser defendida e potencializada..Os estudos de língua e literatura brasileiras no contexto. como ocorre atualmente na Universidade . financiando pelo menos parcialmente alguns leitorados. graças à organização da comunidade científica dos Lusitanistas e Brasilianistas. teoria e história literárias. cujo apoio aos leitorados parecia ter-se enfraquecido. Quanto à variante europeia do português. mas isso parece difícil de ser conseguido. volta a se fazer presente. crítica. o que chegou a ser lido como nostalgia. sob o mote de “Wir wollen Portugiesisch” (Nós queremos português). mas também num estudo de Walnice Nogueira Galvão e em informações divulgadas nos encontros bienais da Associação de Lusitanistas Alemães. com base no texto citado de Briesemeister. Hoje em dia a situação começa a mudar. reforcei esse tom pessimista em outras publicações. Pelo lado brasileiro. 21 que. vêm enfrentando nos últimos anos. Aqui e acolá há sinais de resistência que nos impedem de desanimar. contávamos também com um leitor extremamente competente tanto no ensino da língua brasileira quanto na tradução. o Instituto Camões. sem falar nos encarregados de cursos que ajudaram a ampliar e diversificar a oferta de cursos desde o início. caso não se venha a compensar de forma consistente a perda da Brasilianística. no contexto dos estudos de português em geral. além de contarmos com uma professora para essa cátedra. provocou periodicamente balanços extremamente negativos. o que foi previsto no processo de criação do Centro de Pesquisas Brasileiras acima referido.. hoje se financiam novos leitorados para compensar algumas perdas ou se estabelecem convênios que permitem preservar sobretudo os cursos de língua que sobreviveram nos novos currículos.

15. os diferentes registros da língua portuguesa e suas variantes regionais e nacionais passam a ser considerados riqueza comum e não instrumentos para reafirmar hierarquias e justificar discriminações. num esforço de cooperar para vencer a tendência a concorrer e dividir. em que o português europeu é central. com ajuda da Embaixada Brasileira. que vai de mapas a dados numéricos e históricos. é elemento de apoio básico nesse ensino. em português brasileiro. objeto de estudos comparativos. as outras variantes da língua são. vem sendo preparada e sistematicamente atualizada. coordenado por Ligia Chiappini e mediado pela Embaixada Brasileira. Assim. Isso tudo leva a juntar forças. para ser usado no sistema do e-Learning. como instrumento ágil para proporcionar aos estudantes de português. No que diz respeito à variante brasileira. tais como textos de e sobre literatura e cultura. desde o início da sua formação no bacharelado. Uma produção de material didático de caráter contrastivo do português brasileiro com o português de Portugal e de Angola. 12 . a partir dessa base. quanto outros mais complexos. entre eles os que tratam das manifestações culturais afro-brasileiras ou dos povos indígenas.22 Revista Brasileira de Literatura Comparada. estamos fazendo um trabalho desde 2007 no sentido de conceber cursos de cultura brasileira para além dos tradicionais e panorâmicos cursos de civilização. também estamos produzindo um material contrastivo. produzindo e compilando tanto um material básico para iniciantes. 2009 Livre de Berlim e na Universidade Humboldt.12 Se pelo lado do ensino da língua esses são o panorama e o desafio atuais. vem sendo desenvolvido pelas Dras. No caso do Master de Estudos Latino-Americanos. em que se trabalha mais diretamente com o português do Brasil. Também uma antologia de textos curtos e atuais. no Bacharelado de Estudos Portugueses e Brasileiros da Universidade Livre de Berlin. Dessa forma. a experiência da variante brasileira. já que a maior parte dos estudantes tem conhecimento dessa língua. eles terão oportunidade de desenvolver um conhecimento mais profundo e uma prática linguística mais ativa nos módulos mais avançados. Assim. desde o início. pelo lado da literatura talvez o desafio Esse trabalho. n. que foi iniciado e prossegue no âmbito de um convênio com o Brasil. Zinka Ziebell e Rosa Henckel. de diferentes gêneros. desta vez com o espanhol.

é simplesmente demonizada ou ignorada. como vimos. coincidiu com um debate sobre a literatura brasileira como um mau negócio. 23 Alusão a um debate realizado no Instituto Iberoamericano de Berlim em parceria com o Instituto Goethe de São Paulo. Mas. citando o crescente interesse de um certo público e a presença maior dos escritores cineastas e artistas brasileiros em encontros. que implica um grau mais alto de elaboração linguística. 2008. em março de 2008. No Instituto Latino-Americano tivemos por quase 30 anos um cargo pleno de leitor para Português Brasileiro e. Considerado muito difícil e tendo suas traduções em alemão esgotadas. 13 seja maior. A literatura mais exigente. do ponto de vista editorial. que já em 1998 Ray Güde-Martin tematizava no trecho aqui escolhido como epígrafe. termina seu texto de modo otimista. menos ainda se valoriza o conhecimento da língua como matéria e forma da e na literatura. assim como Briesemeister. O ano do seu jubileu. Pois se já poucos reconhecem a importância de estudar a língua portuguesa e suas variantes para a comunicação e outros usos meramente instrumentais..13 Constatava-se aí que a literatura de qualidade estaria perdendo terreno para a literatura meramente comercial e para uma espécie de novo exotismo. pois a Universidade e pareceristas externos a ela reconheceram a autonomia e a dimensão desta para comportar uma abordagem específica.. um posto de Professor para Literatura Brasileira. que trabalham com clássicos da chamada literatura universal.Os estudos de língua e literatura brasileiras no contexto. ainda não conseguimos despertar o interesse de colegas e estudantes de outros departamentos da mesma universidade. no caso do best-seller. expresso na representação espetacular do brutalismo nas favelas. Um exemplo disso é o caso de Guimarães Rosa. . que a boa literatura carrega junto com as suas dimensões ideológicas conservadoras. o quadro tampouco é positivo. E. simultânea e pioneiramente. dificilmente consegue ser republicado. ocidental. apesar do balanço negativo. Desconsidera-se aí aquilo que Antonio Candido definiu como contraveneno. Mesmo assim. como documento ou como mercadoria. porque julgada elitista. por quase 15 anos. porque esta também só interessa. branca.

n. Berthold (Orgs. Ligia. p. 2000. 1989. Os estudos brasileiros na Alemanha. podemos ainda.” (Briesemeister. Referências BRIESEMEISTER. além das associações que ajudam a manter a vitalidade do setor. . p. São Paulo. traduzem e comentam o melhor da literatura brasileira. estudam. 52. bem como a atuação de colegas que ensinam. CANDIDO. muito do diagnóstico de Briesemeister ainda vale para o presente e a maioria dos brasilianistas alemães ainda “leva uma existência profissional acadêmica. ZILLY. CHIAPPINI. In: A educação pela noite e outros ensaios. MartiusStaden-Jahrbuch. rivalizante e paradoxal. Ligia. país do passado? São Paulo: Boitempo.15.24 Revista Brasileira de Literatura Comparada. pelo reconhecimento das lacunas e a invenção de novos mecanismos que ajudem a preservar e a desenvolver o que já foi realizado. n. Antonio. Literatura e cultura no contexto dos estudos brasileiros na Alemanha: a cátedra de Brasilianística. 349-357. apesar de todas as lacunas e retrocessos. mais de dez anos depois. 2009 recitais. Literatura de dois gumes.). que a indiferença pela Literatura do Brasil e o seu desconhecimento podem ser superados na Alemanha. Infelizmente. 2005. São Paulo: Ática. In: CHIAPPINI. semanas culturais dedicadas ao Brasil. Antonio. DIMAS. Dietrich. Brasil. p. 2000. 354). mas continuamos apostando que o trabalho desenvolvido no espaço conquistado para a literatura brasileira no Instituto Latino-Americano da Universidade Livre de Berlim poderá ajudar a superar essa esquizofrenia. 251-263. acreditar. colóquios. em certo modo esquizofrênica.

escritor. doesn’t suit to. keywords: image of Brazil. so formed an image about Brazil what the literature. reception of the literature. expectations. abstract: This study examines the reception of the Brazilian literature in Hungary. façamos uma colônia tornando-nos cidadãos Departamento de Português. exclamou num libelo político as seguintes palavras contra a opressão turca: “Tenho notícias de que no Brasil há terras desertas em abundância. recepção da literatura. peçamos pois ao rei espanhol [sic!] uma província. quando o autor da epopeia nacional húngara Szigeti Veszedelem (“Desgraça de Szigetvár”). The Hungarian (reading) public has got a lot of information about this country during the XVII-XIXth centuries. o público húngaro formou uma imagem do Brasil a que a literatura. FL da ELTE (Faculdade de Letras da Universidade Eötvös Loránd) de Budapeste. exótico. translated for serving private or political interests.25 A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria Ferenc Pál* resumo: O presente trabalho estuda as condições da recepção da literatura brasileira na Hungria. traduzida muitas vezes para servir interesses privados ou políticos. palavras-chave: imagem do Brasil. Instituto de Romanística. Tendo-se inteirado da existência do Brasil e obtido muitas informações deste país nos séculos XVII a XIX. expectativas. exotic. se bem que de uma forma e em condições um pouco especiais. político e eminente militar da época. Miklós Zrínyi. Brasil e Hungria: primeiros contatos Os húngaros. não correspondia. inteiraram-se da existência do Brasil no século XVII. * .

O Brasil e a Hungria. Ramirez. que participavam como missionários no levantamento topográfico e na descrição das terras brasileiras. as notícias também mostram o Brasil como parceiro comercial e cultural da Hungria. no entanto. na questão do urbanismo. em Tyrnavae. 4 jun. sobre a curiosa flora e fauna brasileiras. acham-se onze poemas húngaros” (Vasárnapi Újság. algumas vezes abordadas de forma científica. 1661/2009). 243244. em primeiro lugar. Vasárnapi Újság. versados na literatura. Hegeds.” 1 É em parte resultado do seu trabalho o livro Itinerarium peregrini philosophi. em especial sobre a consequência do trabalho dos jesuítas húngaros. Japone. Entre os primeiros emigrantes supostamente havia também húngaros cultos. notícias interessantes. de 30 de outubro de 1859. começou a difundir-se no século XIX. 17 set. Sinis. na seção “Tárház” (“Depósito”). Cicincina. 1854. primeiramente por causa da emigração. kérjünk spanyor királytul egy tartományt. que a partir de então o Brasil devia ou podia existir no subconsciente húngaro como um lugar particular. Quanto à presença do Brasil e das coisas brasileiras no imaginário húngaro da época. n. 1968. Canada et Brasilia definitum. p. 4 Andersen – Dr. Nos jornais e revistas húngaros da segunda metade do século XIX podemos ler muitas informações sobre o Brasil. 5 . publicada no Rio de Janeiro. legyünk polgárrá. Em seu número 44. 1854-1860). Nos séculos posteriores houve notícias esporádicas do Brasil. cujas páginas trazem. distinto. Além de seus aspectos exóticos.1 Podemos supor. “Utazás a föld körül” (Viagem em torno da Terra). 2 Cf. que “numa antologia geral. 2009 [daquele país]”(Zrínyi.2 Um conhecimento mais intenso. n. 29. as expectativas do público são bem ilustradas pelo mesmo semanário Vasárnapi Újság.4 bem como relatos sobre viagens a esse país e nomeadamente ao Rio de Janeiro.26 Revista Brasileira de Literatura Comparada.3 e nos meados dos Oitocentos já havia um contato regular entre os dois países. o semanário de Budapeste Vasárnapi Újság informa. por Franciscum Szedlar e pela Sociedade de Jesus. n.15. csináljunk egy coloniát. que a Hungria integrava.5 informando que a região atrai os visitantes com a beleza da sua vegetação. Nas notícias po- “Ugy hallom Braziliában elég puszta ország vagyon. entre eles János Zakariás e Dávid Fáy. mantiveram contatos diplomáticos a partir de 1817. editado em 1720 na Universidade Arquiepiscopal. 14. sem nos atrevermos a tecer proposições freudianas. porque na década de 1850 já temos notícias do Brasil que dizem respeito a atividades de magiares. mas que. ou melhor o Império Austríaco. que se iniciou depois da abolição do tráfico de escravos em 1850. 3 “Tejfa” (Árvore que dá leite) “ Um relato sobre a fauna do rio Amazonas e do Rio Negro. Vasárnapi Újság. provoca má impressão aos viajantes europeus. 1854.

Dom Pedro brazíliai császár (D. como foi. romancista romântico de fantasia profícua. Em um artigo no Vasárnapi Újság. a fim de poder ter um contacto mais íntimo e fácil com o seu parente espiritual. juntamente com informações de caráter político. dez. no início da década de 1870: “[Mór Jókai] tem amigos soberanos. envolvidos em aventuras rocambolescas. 49 a 52. e não no apartamento oficial. 24 nov. no Castelo de Buda. 1858. por exemplo. informa que o imperador tinha em grande estima a obra de Mór Jókai. imperador brasileiro). No número 5 da revista. etc. “Egy magyar tengerész Brazíliában” (“Um marujo húngaro no Brasil”). Pedro II. 6 Vasárnapi Újság. hospedou-se intencionalmente no Hotel ‘Angol királyn’. n.10 descreve alguns animais repulsivos do Brasil. Pedro a Budapeste. aliás escritor favorito do imperador D. pitoresco. 17 out. inexistente em território húngaro.6 também se informa que a cantora Lagrange cantou uma ária do compositor húngaro Ferenc Erkel no Teatro da Ópera do Rio de Janeiro. Pedro II. No conto do escritor intitulado Tíz millió dollár (“Dez milhões de dólares”). 9 “A vizi boa-kigyó” (A jibóia – serpente da água). n. prestigiosa revista literária de Budapeste da primeira metade do século XX.” 11 Vasárnapi Újság. 29 abr. publicado no ano de 1928.12 Mas. 8 Vasárnapi Újság. condigno a um monarca. sobre o fato de que um comerciante húngaro transportou vinhos de Arad. 1889. p. o interessante imperador brasileiro. morreu no Brasil. 274. os personagens. 12 demos ler informações sobre o cultivo e comércio do café. 23. também se fala na flora e fauna brasileiras. n. 47. graças a um dono de barco brasileiro passam uma semana no Rio de Janeiro.7 No enorme número de revistas e jornais que saíram na Hungria do último terço do século XIX. Vasárnapi Újság. Com estranhamento. 42. o bondoso Mór Jókai. László Alvinczy. e que um aristocrata húngaro. n. publicado no Hírmondó. 1857. Hírmondó. satisfazem-na tanto os artigos publicados nos jornais como os livros publicados nessa época. em que se . 7 II. 10 Uma comunicação da revista literária Nyugat. Essa demanda pelo estranho. n. 6 set. 27. 1857. Esta duplicidade da imagem ou dicotomia da recepção do Brasil também se observa na obra de Mór Jókai. Rio de Janeiro. 17. Gyula Szini fornece em “Jókai: Egy élet regénye” (“Jókai: Romance de uma vida”) a seguinte informação sobre a curiosa visita de D. O artigo intitulado “A vizi boa-kígyó” (A jibóia – serpente da água). n.9 Rthy Frigyes fala sobre o “povo estranho” que vive no Brasil. referindo-se dessa maneira à população negra.A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria 27 Vasárnapi Újság. como em Az arany ember (O homem de ouro.8 ou informações sobre a proclamação da República no Brasil e outros acontecimentos de política interior. nos romances posteriores – para além de meras referências a um ou outro fenômeno curioso. Dom Pedro.11 em cujas obras as aventuras acontecidas no Brasil e certas peripécias econômicas andam de mãos dadas. 1969. 1873). o artigo de 1889 sobre a visita de Dom Pedro II à Hungria nos anos 1870.. 1883. exótico. cidade do sul da Hungria de então. para a capital do Brasil. pretendia-se satisfazer a curiosidade do público leitor em relação ao exotismo.

n.] incluindo a China [. 1935) e Lajos Wild: Tizenöt év Brazíliában (Quinze anos no Brasil.17 Depois da Segunda Guerra Mundial. s/d) –. “A brazil nép lelkesen támogatja a békeegyezmény megkötését követel felhívást” (O povo brasileiro apoia com entusiasmo o apelo por celebrar o acordo pela paz.. o romancista fala largamente sobre as relações comerciais entre a Austro-Hungria e o Brasil. n. alvo da emigração húngara. 1870). tornou-se terreno de lutas políticas das forças populares contra o imperialismo e pela paz.15. na década de 1950.] às vezes tão alto que sua voz suplanta a dos cantores e da orquestra na ópera” (Jókai. Onnan hozzák a gyapotot meg a dohányt. No romance Fekete gyémántok (Diamantes pretos. 1934). gyapot és kolaj behozatalára [. mint kávé. 11 jun. na ficção húngara de temática brasileira se registram ainda muitos elementos exóticos.. Nos anos 1930 e 1940. quando por causa do enorme número de emigrantes húngaros o Brasil entrava no dia a dia húngaro19 como um país “normal”... Tartós Békéért. hazátlanok (Arranha-céus. 15 “A liszt magyarországi termény volt. 17 Sobre a situação interna do Brasil saíram artigos com títulos: “Brazília vezet személyiségei az atomfegyver betiltásáért” (Principais personalidades do Brasil defendem proibição de armas nucleares. 1905).... selvas. quando na Hungria aconteceu um câmbio de paradigma político.28 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Tartós Békéért.] Kína [.” (Jókai. Ahol a pénz nem isten (Onde o dinheiro não é deus. como afirmavam muitos livros de não ficção dessa época. Romances que se movem no universo das obras da literatura de cordel. s/d). Budapeste. Rio de Janeiroig Adria gzös szállította” (Jókai.. a exigência ou a ânsia do exótico continuava a existir por parte do público.. onde as condições de vida e de trabalho eram semelhantes às da Hungria. p..”15 Em seu último romance. 4. foi o paquete Adria que a transportou até o Rio de Janeiro”. 1926). e com um contingente grande de emigrantes na primeira metade do século XX. Budapeste.. Arad. no que dizia respeito ao Brasil.16 O Brasil. lá estão as minas de diamantes mais famosas”. 18 . serdk.] o Japão e o Brasil. Békéscsaba. 2. como A brazíliai fenevad Segunda parte: “[.. s/d). 1936). 13 Primeira parte: “A senki szigete” (“Ilha de ninguém”): “Brazília fvárosa Rio de Janeiro. n.18 Contudo. aparece a frase: “A farinha era um produto húngaro.. ott vannak a leghíresebb gyémántbányák” (Jókai. É de lá que transportam para cá o algodão e o tabaco.. por exemplo. s/d). s/d). 16 Dezs Migend: A brazíliai aranyhegyek árnyékában (Sob a sombra das montanhas de ouro brasileiras. brazíliaiak mind csupa ezüsttel fizetnek.] Japán és Brazília befoglalásával” (Jókai. apátridos. escreve que “os peruanos e os brasileiros sempre pagam com prata”.. 1950). o Brasil. 1872) também se leem divagações de teor econômico: “Até não querermos mais do que a importação do café.13 E mesmo em Az arany ember informa que “A capital do Brasil é o Rio de Janeiro. 23.] a peruiak. Béla Bangha: Dél-Keresztje alatt (Sob a cruz do sul. Ao menos era assim que os órgãos políticos húngaros informavam seus leitores. [. 23. 2009 lê sobre um sapo luminoso que “irradia uma luz fosforescente” e “canta de noite nos interiores. Zoltán Nyisztor: Felhkarcolók. do algodão e do petróleo [. tornou-se um cenário real. 14 Primeira parte: “Amíg nem terjeszkedünk többre.. Vasárnap. p.14 Na ficção fantástica A jöv század regénye (O romance do século vindouro.

para quem “a literatura é a melhor via para se conhecer um país estrangeiro”. Contudo. “A brazíliai Kommunista Ifjúsági Szövetség újjászervezése” (A reorganização das Juventudes Comunistas brasileiras. O autor foi cônsul húngaro no Brasil entre 1928 e 1942. apesar de que alguns momentos da literatura portuguesa. que em 1930 viajou à selva amazônica e. p. Em húngaro: A kor hatalma. e o ambiente brasileiro de pequenas povoações à beira da selva e dentro da selva amazônica passou a ser palco de histórias movimentadas. 1951). Mas. tenham um maior halo de conotações na Hungria. n. se desenha nos romances do ex-naturalista Gábor Molnár. Budapeste: FerencesVilágmisszió kiadása. por meio da obra e figura de Camões e de Pessoa. depois de perder a vista num acidente. Cf. etc. Cf. as liberdades do carnaval e das praias do Rio de Janeiro. La force de l’âge. 11.26 no caso do Fazendo referência à “rivalidade” de Portugal e do Brasil. p. podemos mencionar que tradicionalmente. 161-171. O primeiro livro dele. p. p. que sempre nos instiga a fazer cotejamentos. 24 25 26 Cf. Cf. lentamente passava-se a ter condições de formar do Brasil uma imagem diversificada e verídica que correspondesse à realidade do país. 1965. de aventuras na selva. 19-33 e Pál. Budapeste: Európa. Pál. 1951). 1944. 121. com o tempo.20 o livro de contos Villanó fények az serd mélyén (Luzes cintilantes no fundo da selva). regressou à Hungria e começou a escrever ficção. 23 Presença da literatura brasileira na Hungria Podemos deduzir.. preconceitos ou ideias fixas que orientavam e orientam o gosto do público. 19 20 21 Budapeste.23 que o público húngaro havia muito tempo tinha tomado conhecimento do Brasil e que esse país ocupava um lugar privilegiado na consciência húngara. 22 (A fera brasileira). 1940.21 e o Brazíliai nagybácsi (O tio brasileiro). e o fez num estilo vivo e vigoroso. 3. 11-37. 1942. intitulado Kalandok a brazíliai serdben (“Aventuras na selva brasileira”). têm muito desse exotismo. Nesse livro e nalguns outros que o seguiram ele não fez senão relatar o que tinha experimentado e visto naqueles dois anos que viveu no Brasil. p. e em especial no século XIX. 1996. .24 Assim. Outro Brasil.A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria 29 10 jun. Se dissemos em outra ocasião. Budapeste: Nemzeti Figyel. Boglár Lajos. Tartós Békéért. 2004b. que prefere relacionar o Brasil com o exótico. 2004c.25 citando palavras de Simone Beauvoir. de Tibor Magyar. parece que há determinadas expectativas. jan. 1997. aventuras entre os índios e na selva. Pál. saiu em 1940. o erotismo desenfreado ou requintado. Pál. do panorama histórico acima traçado.. 2004a.22 de um tal László György. mescla do relato de experiências pretensamente vividas e de histórias imaginadas. essas experiências colhidas da realidade ficavam em segundo plano. de Mihály Witte. o Brasil estava mais representado na imprensa húngara do que Portugal.

na iniciativa de grande envergadura da Világirodalmi Lexikon (“Enciclopédia da literatura universal”). etc. Bernardo Guimarães.15. só foram aceitas pelo público e tiveram êxito na Hungria as obras brasileiras que satisfizeram as expectativas acima enumeradas. em especial nas enciclopédias de literatura universal. Gadamer ou outros teóricos que supõem alguma identificação conotativa com uma obra para fazê-la sair do âmbito do simples terreno denotativo. Em A Pallas Nagy Lexikona (A grande enciclopédia da [Editora] Pallas) ainda não se encontra uma informação sobre a literatura do país no verbete Brazília. que representam uma matéria morta. Álvares de Azevedo. de 1911. 1911). n. das obras traduzidas da literatura brasileira. partindo das ideias de Ricoeur. temos de estudar a recepção das obras brasileiras e ver quais delas tiveram impacto no meio húngaro. da Révai Nagy Lexikona (Grande enciclopédia de Révai) já se encontra um verbete em separado sobre a “literatura brasiliana” rezando que “a literatura brasiliana durante muito tempo foi apenas um ramo da literatura portuguesa e só nos últimos tempos começou a se desenvolver em rumo diferente” (Révai Nagy Lexikona.27 mas a alguns poetas destacados (como Gonçalves de Magalhães. publicada 27 A Pallasz Nagy Lexikona. como Macedo. Esse critério talvez seja muito rigoroso e restritivo mas. As primeiras informações da literatura brasileira chegaram por via dos verbetes das enciclopédias editadas na viragem dos séculos XIX e XX. independentemente do valor da obra e das intenções dos editores.30 Revista Brasileira de Literatura Comparada. . 3. encontramos informações cada vez mais sofisticadas sobre a literatura brasileira. se queremos ultrapassar uma simples enumeração. v. 2009 Brasil havemos de acrescentar que.). até que. Nessa enciclopédia já é maior o número de autores com verbete autônomo (encontramos verbetes sobre os autores mais importantes ou renomados do Romantismo. Nas enciclopédias posteriores. existente mas sem influência. Gonçalves Dias e Tomás António de Gonzaga) a obra já dedica verbetes autônomos. No volume 3. à maneira positivista.

1. Világ. p. Assim. na realidade. A primeira obra brasileira traduzida para o húngaro. com o título Az ápoló. dado que nessa enciclopédia não há referências a obras brasileiras publicadas em húngaro. foi um conto de Machado de Assis. em seguida surgem as primeiras publicações de traduções que. verbetes sobre 228 escritores brasileiros. figuram. v. p. publicado no (suposto) número 1 da revista intitulada Új Hang. Parece-nos mais ou menos evidente que. por exemplo. 46. 28 Világirodalmi Lexikon. ano III.29 Infelizmente. Essa informação aparece na “Enciclopédia da Literatura Universal”. incerto quanto aos dados bibliográficos: é um conto de Ottavio Brandão. com relação ao modo como as letras brasileiras tornam-se de fato conhecidas na Hungria é bastante difícil identificar os fatores determinantes da expansão desse conhecimento: por um lado temos as primeiras notícias informativas. 29 entre 1970 e meados de 1990. até a publicação dos primeiros volumes da “Grande Enciclopédia de Révai”. quer dizer. e após esse conhecimento geral surgem ou podem surgir as obras com as quais o público leitor tem já um contato mais familiar. n. há informações a respeito de um conto de Monteiro Lobato que saiu na revista ilustrada de lite- . Por outro lado.A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria 31 “Az ápoló” (“O enfermeiro”). sem indicação do nome do tradutor. até o momento da redação deste artigo.28 Temos outro texto brasileiro traduzido para o húngaro. publicado em 1912 no jornal Világ de Budapeste. não são mais do que informações gerais dessa literatura. não se traduzira obra brasileira alguma para o húngaro. uma revista político-literária publicada em Moscou. além dos verbetes sobre a literatura brasileira e fenômenos literários ligados com o Brasil (como. segundo podemos afirmar hoje. de 1931. 1-2. o número mencionado do periódico. nem encontramos em nosso trabalho de pesquisa nenhuma outra menção de obras traduzidas desse país. 1090. que ainda não se fazia acompanhar de traduções de obras para efetivo conhecimento por parte do público húngaro. 1912. de forma que não temos informação sobre qual dos contos do autor figura na revista. o Modernismo). 23 fev. até os anos 1910. não foi possível consultar. Na seção de folhetim. Tratava-se de mera informação sobre as letras brasileiras.

n. oferecia uma avaliação ponderada do autor: “Monteiro Lobato é o criador da moderna literatura nacional no Brasil. e. p. 8). de saída. publicado em 1939. 1930. Afinal. é num parecer bastante generalizado que um livro de poemas. 17. Paulo Rónai. A apresentação avaliativa do autor faz-nos supor que é trabalho de uma pessoa conhecedora da literatura brasileira e mostra a seriedade daquela revista. informamos que Paulo Rónai (1907-1992) é um literato húngaro que em 1940 trasladou-se para o Brasil como bolsista do governo brasileiro e nesta sua nova pátria desenvolveu variada atividade como tradutor. experimentando uma vida intelectual cada vez mais profunda” (Rónai. 391-393. p. indica o primeiro momento da difusão mais abrangente da literatura brasileira na Hungria. ano XVI.30 O conto Az élcfaragó (Fabricante de piadas) saiu na seção “Narradores Estrangeiros”. no prefácio do livro. traduzida por Paulo Rónai. universalizantes. 24 ago. A seleção deu preferência aos poemas de alto quilate poético. que tem poemas de 25 poetas brasileiros da primeira metade do século XX. é uma publicação que lança os alicerces para um conhecimento ulterior..32 Revista Brasileira de Literatura Comparada. 8). além dos dados biográficos. um pouco frios.31 Este livrinho.15. que reunia uma série de escritores da Transilvânia da época. falta o couleur locale. n.. Sobre a poesia de Olavo Bilac. contudo eles contêm uma cintilação tropical indefinida” (Rónai. crítico e historiador de literatura. 391). 30 Para os poucos que não conheçam seu nome. ao mesmo tempo.” (Pásztortz. indicado apenas com a abreviação: Szys. acompanhados de uma introdução que esboça o panorama da literatura (ou antes: da poesia) brasileira. p. Sem nome completo do tradutor. p. enérgico e em vias de desenvolvimento. 1939. rejeitando satisfazer um gosto pelo exótico ou movido por um interesse folclórico. o tradutor afirma: “Nos seus versos muito burilados. In: Pásztortz (Kolozsvár/Cluj). editada na Transilvânia. 1939. Assim. apresenta a poesia brasileira como manifestação “de um jovem povo com cultura. e foi acompanhado de uma nota que. relegando ao segundo plano aqueles que em versos Az élcfaragó. Trata-se da seleção intitulada Brazília üzen (“Mensagem do Brasil”). com um círculo reduzido de leitores. não obstante passar quase despercebido. 2009 ratura e artes intitulada Pásztortz (Fogueira de Pastores). Tem por objetivo fazer um contraponto à literatura francesa. revelar as enfermidades da alma brasileira. Nos poemas da antologia prevalece um certo gosto ou “ar” parnasiano. 1930. os critérios da seleção dos textos já contavam. 31 .

parece.33 Essa mesma posição se reflete num outro texto dele. escritas na véspera da Segunda Guerra Mundial. na sua colaboração para a Enciclopédia da literatura universal. assinalamos que o publicista pôde ler as traduções de Paulo Rónai antes da publicação do livro Mensagem do Brasil. que ele apresenta como romance por excelência. que. [. no entanto os poetas informam sobre o essencial. percebe-se também uma preocupação com os valores da cultura ameaçados. Suas vozes são afins e universais. quase instituição nacional. que se frisa na recensão informativo-crítica do publicista György Bálint. alheia aos trágicos problemas nacionais. negros. nós o encontramos nesse livro de traduções novo e belo. afinal. do Dom Casmurro de Machado de Assis.32 Assim. na qual. 1939. porque o tradutor publicara algumas delas em diferentes revistas. que pensam descobrir uma incongruência de datas. 31. 7) É com estas palavras que o texto termina: “Agora desde escrivaninhas brasileiras. Brazíliai regény (Romance brasileiro). por exemplo. só oito do ciclo “Descobrimento do Brasil” evocam ambientes tipicamente brasileiros. segundo ele mesmo diz. já sabemos. Suas palavras novamente refletem . Nessas palavras do jornalista..] Todos os poetas são aparentados... Os livros de viagens ou os folhetos turísticos mostram só o exotismo. etc. mãos brancas ou negras batem o sinal tranqüilizador. uma falta total de poemas da primeira fase do movimento modernista. p. ele fala sobre as dificuldades de obter livros do Brasil: pode ser que simplesmente não tivesse à mão todas as obras necessárias para uma antologia equilibrada. dizendo que estão de guarda. a mesma coisa que causa dor ou alegria aos poetas crioulos. (Bálint. por exemplo. Não sejamos. 1939b. os que Ronald de Carvalho escreveu a respeito do Brasil. O jornalista que. 32 desiguais e livres apresentavam cores e tons mais ásperos. pode-se dizer que tal princípio de escolha e apresentação dos poemas resultou do gosto intelectual urbano daquele momento. Julgando-se objetivamente. p. 7) 33 34 35 Bálint. índios e mestiços causaas também aos franceses ou húngaros. injustos com Paulo Rónai: em seu prefácio. falsa). em agosto de 1939. mais modernos. É essa mesma voz universal. de que os brasileiros são gente feliz porque têm preferência pela literatura pura. como. Assim. por outro lado. por exemplo. um pouco precipitada (e. e não as peculiaridades exóticas. esse “outro Brasil”. 1939a. e da Europa maltratada bate-se a resposta: ‘Obrigado!’” (Bálint. não aparecem os representantes da poesia concreta. p.A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria 33 Notamos. se familiarizara com o Brasil pela leitura das traduções de Paulo Rónai35 chega à conclusão. com a literatura húngara. dos 33 poemas do livro. escrita alguns meses depois da publicação do livro de poemas de Paulo Rónai. Essa mesma antipatia pela literatura da vanguarda e/ou experimental também se nota. reunidos em quatro pequenos ciclos.. anteriormente.34 escrito depois da leitura. muito mais tarde. em francês. ao contrário do que ocorre. Esse essencial. suas palavras sobre a poesia brasileira têm uma mensagem política para a atualidade de então. não correspondiam ao gosto do selecionador. contudo. Para os leitores mais sagazes.

O estranho não se diz com respeito ao couleur locale.34 Revista Brasileira de Literatura Comparada. incluindo as brasileiras. p. Nesses anos aparecem mais duas obras literárias brasileiras: Paulo Rónai publica. quando já não existir na Europa. a falta de sensibilidade diante do exotismo brasileiro. ou ao menos diante dos problemas específicos do Brasil. também deformou a visão dos intelectuais (e de seu público) de então.. povos mais novos e mais felizes irão retomá-lo na América” (Bálint. o autor escreve: “não procuremos um exotismo exterior na poesia”. que deixam entrever uma influência francesa. que se manifestava tão intensamente nas obras de ficção de temática brasileira dos escritores húngaros acima mencionados. em outra resenha crítica a respeito de Brazília üzen (Mensagem do Brasil). neste livro. aspectos que tanto marcaram. 1939). 2009 uma perspectiva universalizante. tempos depois. nos intelectuais que formavam o gosto literário daquela época. 1939b. n. Juan Rulfo. Assim. Como já mencionamos. que continuava interessado pelos momentos exóticos do Brasil. notadamente Alejo Carpentier.15. Rómulo Gallegos. 1939. Os poemas caracteristicamente brasileiros passam quase despercebidos para o crítico. etc. que não podiam ou não queriam observar da literatura brasileira senão aquelas obras que “demonstram que o espírito europeu não conhece fronteiras e num tempo futuro. E justifica-se: “além dos poemas de costume. 31). encontramos. 31) É curioso observar.” (Nagy. porque ele sublinha que o maior mérito desse livro é que não é “nada brasileiro”: “Nada tem de exótico. por meio dos escritores do boom. Gabriel García Márquez. essa atitude fundada no eurocentrismo e afastada do gosto geral do público leitor.. alguns poemas de pompa estranha e surpreendentes. publicada na revista literária Nyugat (Ocidente). p. uma seleção de .” (Bálint. em 1940. a visão da geração que travou contato amplo e profundo com as letras latino-americanas. a não ser que os criados sejam negros e um dos amigos do personagem principal sofra de hanseníase.

“Egy brazil bérház”.37 Depois. cinco nos anos 1950. desde o n. até o n. Por essa razão. 20. parte ocidental da Alemanha. de 1940. In Népszava (Budapeste). com o título Hangyaboly (Formigueiro). mais independente em relação aos Estados Unidos do que os outros países latino-americanos. de Aluísio Azevedo. em aparência. 233. 38 poemas de Ribeiro Couto. etc. Esta edição de 1944 do romance de Azevedo (Budapeste: Anonymus) teve uma pequena edição fac-similada de 30 exemplares: Azevedo. em 1970. A literatura passa a ser uma arma da luta ideológica. indicam uma mudança de concepção na recepção e interpretação da literatura em geral e da literatura brasileira em particular. p. Trad. não contando as inúmeras reedições). dos países socialistas e a literatura progressista dos países das Américas.A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria 35 36 37 Budapeste: Officina. senão uma resposta mais ou menos imediata à realidade circundante. Alteram-se também os horizontes da orientação literária: a literatura do “ocidente culto” (França. a “construção do socialismo”. por Henrik Horváth. 499). Inglaterra. com o título Egy brazil bérház (Um prédio brasileiro). em primeiro lugar a da União Soviética. Aluizio. Estados Unidos. já não se procuram nela valores universais e eternos. 2002. Jorge Amado foi o escritor estrangeiro mais conhecido e mais popular na Hungria” (Benyhe. Hangyaboly. de 1941. no posfácio desse livro: “Dez ou quinze anos atrás talvez fosse supérfluo este posfácio. seis nos anos 1960 e três nos anos 1970. 1970. pode escrever com plena razão. Entre 1947 e 1976 saíram quinze livros de Jorge Amado (dois no final dos anos 1940.36 e o jornal Népszava publica em folhetins O cortiço. essa tradução é publicada em forma de livro. em 1944. János Benyhe. torna-se um escritor de presença contínua na imprensa. cabe ao Brasil um lugar privilegiado.38 A Segunda Guerra Mundial e o estabelecimento de um novo sistema político na Hungria. ocupa-o a literatura socialista. com o título de Santosi Versek (Poemas de Santos). Dessa forma. o tradutor de Dona Flor e seus dois maridos. que circula entre Praga e a União Soviética. Sendo. o Brasil torna-se um alvo privilegiado na luta contra o imperialismo ocidental. Nesse novo horizonte cultural-literário. 1940. Por isso. os romances do primeiro período de Jorge Amado são publicados na Hungria e o autor. Budapeste: Íbisz.39 Sobre esses livros .) é considerada arte decadente e o lugar dela. África e Ásia.

Társadalmi Szemle (Revista Social). Trad. Életrajzi regény Luis Carlos Prestesrl). Budapeste: Európa. Trad. (segunda edição: idem. Budapeste: Szikra. ou a imagem das selvas sem fim que prevalece em suas obras. Marcell Benedek. Emil Hartai. Cacau (Arany gyümölcsök földje). 1961. 1961.15. Sándor Tavaszy. Trad.] mostram uma nova cara da América Latina. p. szegf és fahéj). A completa verdade sôbre as discutidas aventuras do Comandante Vasco Moscoso de Aragão. Budapeste: Révai. o cavaleiro da esperança (A reménység lovagja. 1973). Capitão de Longo Curso (A vén tengerész). publicada na revista científico-ideológica do partido comunista. Budapeste: Európa. não é de estranhar que até hoje o Brasil apareça-nos tal como o escritor baiano o pintou. A morte e a morte de Quincas Berro Dagua (Vízordító három halála). 834) Compreende-se este tom altamente engajado porque se trata de um artigo de teor informativo que saiu numa revista teórica. e a pintura do mundo colorido e exótico da Bahia. -l. 1950. Emil Hartai. cravo e canela (Gabriela. 1960. 2009 foram publicadas 26 recensões críticas. Budapeste: Szépirodalmi. 1951. (-z. Budapeste: Szépirodalmi. Pablo Neruda e os outros escritores eminentes [. que estabelece as forçosamente necessárias linhas de interpretação dessa obra – válidas. Trad. 1952. Sobre Jorge Amado. como: “Os eminentes soldados da paz: Jorge Amado” ou “Jorge Amado sobre o movimento da paz brasileiro e sobre seu novo romance”. Trad. Vida de Luís Carlos Prestes.36 Revista Brasileira de Literatura Comparada.. um dos historiadores de literatura daquele Oferecemos uma lista completa das edições das obras de Jorge Amado em húngaro (entre parênteses indicamos as edições posteriores): Terras do sem fim (Szenvedélyek földje). Mar Morto (Holt tenger). Budapeste: Európa. um dos primeiros escritos é uma recensão crítica de Terras do sem fim. mas sim a violenta luta de classes simbolizada pela batalha entre os coroneis do cacau e seus escravos. Emil Hartai. Seara vermelha (Vörös vetés). Dona Flor e seus dois 39 . Os pastôres da noite (Az éjszaka pásztorai). Trad. terceira edição: idem. Gabriela. Jubiabá (Zsubiabá). 1975). Trad. Budapeste: Kossuth. 1947 (uma segunda edição com o título húngaro Végtelen földek. Sándor Szalay. para os outros romances do mesmo autor: Jorge Amado. Entre 1953 e 1975 saíram 16 artigos que diziam respeito a ele. da Associação Húngara de Escritores. Sándor Szalay.. 1950. 1963. 1975). 1950). Na revista literária intitulada Csillag. Trad. János Benyhe. e muitos com títulos altissonantes. Lajos Boglár.40 Mas o que mais demonstra a difusão da imagem de Amado como escritor politicamente comprometido e como “zoon políticon” é o grande número de escritos sobre a sua pessoa. Trad. Trad. Budapeste: Káldor. 1967. Attila Orbók. Trad. n. 1961 (segunda edição: idem. János Benyhe. 1949 (segunda edição: Európa.41 Com a profusão com que os romances de Jorge Amado circulavam na Hungria (com tiragens de 40 a 80 mil exemplares). indiretamente. Não é o exotismo. Tanto mais porque Jorge Amado foi o escritor brasileiro cujas obras satisfaziam as expectativas do público leitor com o seu latente erotismo. em especial a partir de Dona Flor e seus dois maridos. mas as recensões publicadas nas revistas literárias também incorrem nesse tom politizado em que não há lugar para análises estético-literárias. Budapeste: Szikra. Budapeste: Kossuth.

Algumas vezes o discurso ganha tons de hino. Budapeste: Európa.42 E nas notas de viagens de um literato húngaro que em 1961 publicou as suas Impressões do Brasil.” (Stér. unilateral. do socialismo” (L. “Jorge Amado a brazil békemozgalomról és új regényérl”. Para ele. János Benyhe. Assim saíram dois poemas de Jorge de Lima na revista de literatura mundial. Irodalmi Újság (“Jornal Literário”). 1970. fala-se sobre o Brasil. depois de assistir ao congresso do PEN Clube no Rio de Janeiro. já se encontra um tom mais equilibrado. I. escreveram-se entre maio e outubro daquele ano seis recensões informativas nos mais diversos órgãos de imprensa. essa imagem deformada do Brasil e de sua literatura começa a se matizar com diferentes tons. Budapeste: Kozmosz Könyvek. Capitães da areia (A kiköt rémei).. 42 Essa imagem estreita. 30 maio 1953. András Gulyás. 1950. Seus heróis verdadeiros são o povo e o homem de novo quilate. 1173-1174. 18 dez. Capitão de Longo Curso. comunista. 1959. Além de Jorge Amado. Sándor Tavaszy. Tenda dos Milagres (Csodabazár).. Trad. (Koczkás. ago. Trad. saído do povo e lutando contra os horrores do mundo imperialista: o homem comunista. entre eles. 729) . a obra de Jorge Amado é uma fonte de informação antes sensorial que exclusivamente politizada sobre “esse peculiar mundo popular. p. que saiu num semanário de literatura. 1976. subordinada a fins eminentemente políticos é a que se apresenta quando. Queremos notar como curiosidade que do romance A completa verdade sôbre as discutidas aventuras do Comandante Vasco Moscoso Aragão. Budapeste: Európa. n. 1971. Nagyvilág (fundada na época do “abrandamento” do poder totalitário). como na recensão sobre Seara vermelha. 61) “A béke kiváló harcosai: Amado Jorge”. intitulado em húngaro A vén tengerész (“O velho marinheiro”). de cuja beleza e intimidade gostei tanto quanto da sua rica fantasia e das suas múltiplas cores decorativas. alguns cuja obra tem outros valores. 1961.] A apresentação dessa podridão não desce ao naturalismo. pois “até aos operários miseráveis chegou a esperança que estimula a viver: a esperança da nova vida. 1953. p. saído em 1963. Népszava (Budapeste).A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria maridos (Flor asszony két férje). Trad. Szabad Nép (Budapeste). [. é o reflexo verídico desta sociedade que requer amostras fidelíssimas da macabra dança do capitalismo. vêm aparecendo outros escritores e. a pretexto dos romances de Jorge Amado. p. 41 Nagyvilág (Budapeste). 1951) Ao final da década de 1950. 8. não apenas políticos. Ano IV. 40 37 período assim descreveu os fundamentos de “A terra de frutos de ouro”: O romance de Amado é um escrito combativo. em 1951: “Seara vermelha mostra o Brasil levantando-se”.

começa a diversificar-se a edição de livros e enriquecer-se a divulgação da literatura brasileira. Budapeste: Táncsics. os romances mais divertidos dele. n. o guia desse literato húngaro é a monografia intitulada Geografia da fome. ou o carnaval e seu simbolismo popular.15. da selva e dos índios. estimulando. assim. multifacetado. Essa nova forma de recepção do Brasil fora previamente preparada por livros publicados a partir dos últimos anos da década de 1950: As imagens do Rio. Será essa Riói Képek. mesmo que um pouco contraditoriamente. Brazíliai útijegyzetek (Entre índios do trópico. o interesse por outros aspectos desse país. 2009 Em suas andanças pelo mundo brasileiro. sublinhados aqueles que o distinguem da Europa. Budapeste: Táncsics. 44 . O autor mais divulgado ainda é Jorge Amado. do etnólogo húngaro Lajos Boglár. do diretor francês Marcel Camus.38 Revista Brasileira de Literatura Comparada. 1958. Após os anos da ditadura forte e o total encerramento do país. 43 A zöld pokol. de componentes culturais e étnicos múltiplos e amalgamados. Notas de viagem do Brasil). O público requer já cada vez mais abertamente uma recepção cultural mais sofisticada e diversificada. e que aos intelectuais compete a tarefa e a responsabilidade de formar a consciência do grande público. entre eles a música popular brasileira e a sua melancólica melodia.43 O inferno verde. de Richard Katz. Mas Stér tem bastante sensibilidade para ver e descobrir um Brasil excêntrico. de Erich Wustmann.44 Sob outro prisma. 1959. surge uma exigência por bens culturais anteriormente vedados. também em húngaro. que Stér interpreta sob a influência do filme Orfeu negro. apresentam o Brasil dos trópicos. mas em harmonia com a renovada temática da sua obra aparecem. de Josué de Castro. obras como Trópusi Indiánok között. Finalmente. exigência que se vê satisfeita. que cativam o público. motivado pela Guerra Fria. Com essa relativa abertura nos pontos de vista que começava a prevalecer lentamente a partir do início dos anos 1960 na política cultural e literária húngaras. o viajante atreve-se a dizer aos húngaros que o Brasil não deve ser entrevisto como um mero panorama ou cenário de fundo político.

A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria

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Aki átment a szivárvány alatt. Budapeste: Kossuth, 1964.
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Emberek és rákok. Budapeste: Kossuth, 1968.
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Emberfarkas. Budapeste: Európa, 1962. Aszály. Budapeste: Európa, 1967.
47

A többi néma csend. Budapeste: Európa, 1967.
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Máglyák az serdben. Budapeste: Móra, 1970.
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busca do diferente, do exótico que marcará e determinará o interesse pelo Brasil nos anos subsequentes. Entretanto, publicam-se obras de autores comprometidos, como as de Jorge Amado, já mencionadas: Quarto de despejo, de Carolina Maria de Jesus,45 O ciclo do caranguejo, de Josué de Castro,46 São Bernardo e Vidas secas, de Graciliano Ramos,47 e ao lado deles saem romances como O resto é silêncio, de Érico Veríssimo48 e O Guarani, de José de Alencar, embora este seja transposto para o húngaro em versão condensada, em uma edição para jovens.49 Por outro lado, e de forma menos manifesta, aparecem obras das mais diversas naturezas, mormente direcionadas aos intelectuais. Essa forma de publicação “velada”, um pouco contrária à política cultural oficial, caracteriza em primeiro lugar a revista de literatura mundial Nagyvilág e algumas antologias de poesia e de prosa. Destinadas a um público seleto, surgem nessas publicações, de forma esporádica, muitos autores de valor da literatura brasileira. Publicações como Dél keresztje (Cruzeiro do Sul, 1957), Kígyóöl ének (Canto de matar cobras, 1973), Hesperidák kertje (Jardim das Hespérides, 1971), Járom és csillag (Jugo e estrela, 1984) divulgam a poesia latino-americana. Os poemas são acompanhados de notas biográficas e bibliográficas; dessa forma, em torno de 40 grandes poetas brasileiros são publicados na Hungria. Essas antologias seguem o princípio da antologia de Paulo Rónai, ou seja, selecionam os poemas apenas pelo seu valor poético e estético e não demonstram o menor interesse em ilustrar o desenvolvimento da história literária brasileira. Fazem falta, por exemplo, poemas que caracterizem os primeiros anos do Modernismo, ou do Concretismo e de outras tendências experimentalistas. Nesse mesmo contexto, publicaram-se contos de Graciliano Ramos, João Guimarães Rosa e Jorge Amado em antologias de prosa latino-americana: Ördögszakadék (Abismo de diabo, 1966), Dél-amerikai elbeszélk (Narradores latino-americanos, 1970), Az üldöz (O perseguidor, novelas latino-americanas, 1972).

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Revista Brasileira de Literatura Comparada, n.15, 2009

Um dos grandes méritos da revista de literatura mundial Nagyvilág é a apresentação de autores e obras, de tendências e fenômenos literários, com base em critérios puramente poéticos ou estéticos. Em 1961, a revista traz informações sobre as atividades de Paulo Rónai no Brasil, frisando a importância do seu trabalho no conhecimento mútuo entre o Brasil e a Hungria (Gyergyai, 1961, p. 1566-1567). E é naquelas páginas que, em 1962, aparece um estudo sobre o romance brasileiro contemporâneo (Tavaszy, 1962, p. 1388-1391), assim como, em 1969, um ensaio sobre o desenvolvimento da literatura latinoamericana (Benyhe, 1969, p. 1723-1731). Mencionamos também certas resenhas sobre os livros de Jorge Amado, sobre romances como O tempo e o vento, de Érico Veríssimo, e Irmão Juazeiro, de Francisco Julião. O texto de recepção mais característico dessa época é o necrológio de Guimarães Rosa que Nagyvilág publicou em 1968. Nele se fala na “síntese dos mágicos elementos primitivos de mundos diferentes”, em “mitos de valor universal de conteúdo filosófico” (Rónai, 1968, p. 338-339) e a linguagem engenhosa e estranha que o escritor compilou para si e que se parece muito com a linguagem de James Joyce. Tal análise da obra de Guimarães Rosa só se tornou possível graças à mudança de tom que marcou a imprensa política, única e oficial na Hungria de então. Assim, na recensão informativa que a revista teórica Társadalmi Szemle publicou sobre Vidas secas, de Graciliano Ramos (Szllsy, 1967, p. 137), já se comenta a “exatidão sociológica” ao lado dos valores estéticos da obra, numa análise mais flexível e sutil do que se fazia nos anos precedentes. A partir de meados dos anos 1970, sob a influência do boom da literatura latino-americana em espanhol, relega-se para o segundo plano a literatura brasileira, e em especial a literatura chamada progressista. Na realidade, diminui o interesse do público pelas obras brasileiras que tratavam de uma forma direta os problemas políticos e sociais. O exotismo dos autores do realismo mágico, a forte carga intelectual dos pós-modernos como Julio Cortázar e Jorge

A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria

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Luis Borges, e a urdidura complexa dos romances políticos de autores peruanos ou mexicanos, tudo isso atrai mais o interesse dos leitores húngaros. Só obras de Jorge Amado, tais como Dona Flor e seus dois maridos ou Gabriela cravo e canela, continuam cativando novas e novas gerações de leitores.

Novos aspectos da presença literária brasileira na cena húngara
Entretanto, surge, enquanto isso, uma nova geração de divulgadores das letras brasileiras, marcados por um gosto literário renovado e pelo objetivo de revelar aos leitores húngaros os traços característicos e essenciais da literatura brasileira. Assim, entre 1983 e 1986, a Rádio Nacional Húngara realizou uma série de emissões, de meia hora cada uma, com o título Latin Amerika Irodalma (Literatura da América Latina). Essa série apresentou uma visão panorâmica das literaturas do século XX naquele continente, com os fenômenos novos e característicos da literatura brasileira: o Pré-modernismo e o Modernismo, a poesia concreta, a moderna prosa experimental e a da grande urbe, fazendo conhecer ao público nomes que nunca haviam sido mencionados antes, como Oswald de Andrade, Haroldo de Campos, Rubem Fonseca, Dalton Trevisan e Ignácio de Loyola Brandão, que com sua obra despertaram o interesse da elite intelectual. Nessa época, transcorreu uma significativa etapa do processo de divulgação da literatura brasileira na Hungria: a publicação do Macunaíma, de Mário de Andrade. A tradução dessa obra conheceu um verdadeiro êxito editorial, pois em poucos meses esgotou-se uma tiragem de dez mil exemplares. O público, ávido do exotismo – até então condenado –, devorava o livro, que foi apresentado como um grande acontecimento cultural tanto pelos programas culturais de rádio e tevê quanto pelas recensões críticas.50 Nessa perspectiva, em resenha cujo título menciona a cé-

Szalontai, 1984. Bodor, 1984. Cserti, 1984.
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Geir Campos. Vinícius de Morais. novena. como referência. Luís Delfino. Manuel Bandeira. de Osman Lins. um tanto indeciso. Raul Bopp.42 Revista Brasileira de Literatura Comparada. o crítico Pál Bodor frisa com entusiasmo a mistura feliz de elementos intelectuais e populares. que se mantém quase intacto desde a antologia de 1939. Carlos Drummond de Andrade. Budapeste: Kozmosz. 1985. pastoril. 2009 lebre epopeia finlandesa e que qualifica Macunaíma como “Kalevala artificial da zona tórrida”. ilustre estudioso e tradutor. Luís José Junqueira Freire. Augusto Frederico Schmidt. Aqui aparece novamente. Bernardino da Costa Lopes. 52 .52 a maior antologia húngara da poesia latino-americana publicada até os dias de hoje. um representante da velha estirpe pôs em confronto com a literatura de fortes cores brasileiras uma literatura classicizante. a força primitiva da obra comentada: Macunaíma é conseqüência da capitalização latino-americana irregular e tormentosa. o elemento exótico. segundo ele. da americanização que abraça aplastando a versatilidade étnica (lingüística. Jorge de Lima. evoca. Cecília Meireles. João da Cruz e Sousa. 1984). Antônio de Castro Alves. Ronald de Carvalho. Essas palavras do literato e tradutor János Benyhe novamente aludem às contradições da “oferta e da procura” da literatura brasileira na Hungria. Kilenc és kilenced. Alberto de Oliveira. lamentando que “os enérgicos elementos linguísticos deste último faltem na obra de Osman Lins” (Benyhe.51 revela certa perplexidade provocada por este câmbio de paradigma no gosto dos divulgadores. neste caso. Budapest: Európa. A edição de Nove. Vicente de Carvalho. Raúl Bopp e Vinícius de Morais são os nomes novos) e assim mesmo há muitas coincidências na escolha dos poemas. Augusto dos Anjos. Sebastião Cínero dos Guimarãens Passos. por Jorge Amado e Guimarães Rosa. Teófilo Dias. O autor do posfácio. Judit Xantus. predomina igualmente numa antologia de 1984. 1984. a obra nordestina de Jorge Amado. Joaquim Maria Machado de Assis. n. 51 Járom és csillag (Jugo e estrela). que se cultiva nos recantos ocultos do Brasil e que conserva valores eternos. Gregório de Matos. Tal princípio distintivo. a ambientação sulista de Verissimo e as fortes cores mineiras de Guimarães Rosa. Olavo Bilac. O que surpreende é que a lista dos poetas modernos é quase igual à da seleção de meio século atrás (apenas Ascenso Ferreira. prefácio e notas por János Benyhe. folclórica e etnográfica) de múltiplas cores e raízes e dos excessos intelectuais amotinados e revoltosos (Bodor.15. Francisco Antônio de Carvalho Júnior. Num debate transmitido pela rádio. Raimundo Correia. seleção. Alphonsus de Guimaraens. Ascenso Ferreira. Trad. 1985. Mensagem do Brasil. representado. 211). Antônio Cândido Gonçalves Crespo. Rui Ribeiro Couto. Na antologia aparecem poemas de Mário de Andrade. p.

Budapeste: Európa. um país de tempo estancado. 1987. foi recebida com entusiasmo da parte dos críticos. A terceira margem do rio. houve possibilidade de publicar autores mais sofisticados. Éva Faragó. A seleção criteriosa. foi a antologia Boszorkányszombat. estagnado em cerimônias. Rachel de Queirós: A donzela e a moura torta. João Alphonsus de Guimaraens: Eis a noite!. Nestas últimas duas décadas. Trad. o curioso e célebre episódio em que telespectadores húngaros de A escrava Isaura. Na antologia se encontram contos de Machado de Assis: Pai contra mãe. Rui Ribeiro Couto: Mistério de sábado. István Bárczy. porque novamente se faz referência à imagem de um país exótico. Tóth. Budapeste: Európa. vale a pena meditar sobre a seguinte asserção: “A maioria dos contos mostra gente lutando com seu fado. de Clarice Lispector. de Machado: O ascensorista. Clarice Lispector: Feliz aniversário. e notas de Paulo Rónai. anciãos de um pequeno vilarejo do interior do país. 53 Isaura. de Machado de Assis. inventada por Bernardo Guimarães havia mais de um século. de Ignácio de Loyola Brandão. 1991. Com essa atitude pode-se explicar.54 quer dizer. Eszter S. no auge do interesse do público pelo Brasil. Trad. Luís Jardim: Paisagem perdida. Alcântara Machado: As cinco panelas de oiro. no entanto. ou seja. 1987. Monteiro Lobato: O comprador de fazendas. Ferenc Pál. 54 Zero. uma coletânea de contos53 que reunia desde Pai contra mãe. acompanhada de notas bibliográficas. João Guimarães Rosa. a imagem do Brasil tal como vive no (sub)consciente das pessoas na Hungria. talvez porque saísse ao mesmo tempo em que a edição em húngaro de A escrava Isaura. Dessa forma. Marques Rebelo: Caprichoso da Tijuca. reuniram uma importante soma a fim de remir da escravatura aquela bela e talentosa jovem.A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria 43 Boszorkányszombat (Mistério de sábado). p. Trad. . Ervin Székely. sel. 1990. que atualmente é o autor brasileiro mais popular (e quase exclusivo) na Hungria. István Bárczy. até Feliz aniversário. Budapeste: Európa.55 que a crítica recebeu como fonte de informação privilegiada a respeito de um mundo caoticamente moderno (apud Wirth. Lygia Fagundes Telles: Venha ver o pôr do sol. e as séries televisivas ocuparam lentamente o lugar dos livros e da leitura. Lima Barreto: O homem que sabia javanês. O grifado é nosso. suscitado pela telenovela feita com base no romance de Bernardo Guimarães. 55 Outro livro dessa natureza. afastou-se da literatura de valor. saiu em 1990 o Zero. Aníbal M. Ao se reler a resenha dessas duas obras. de 1986. Oto Lara Resende: O retrato na gaveta. os hábitos de leitura e o gosto do público húngaro. gente que quase nunca triunfa. Paulo Rónai. A partir do final da década de 1980 mudaram. Carlos Drummond de Andrade: Beira-rio. outrora leitor ávido dos romances de Jorge Amado. situando-se entre o passado e o presente. Orígenes Lessa: Roteiro de Fortaleza.” (Magyar Hírlap. com a liberalização da edição e do mercado de livro. num mundo de senzalas e casas grandes. talvez. 1986. 5). a rabszolgalány. O grande público. e passou a ler obras de Paulo Coelho. Aurélio Buarque de Holanda: O chapéu de meu pai. Ferenc Pál. Mário de Andrade: O peru de Natal.

58 . 8). os foros mais exigentes da literatura. 1997. Clarice Lispector. Endre Szkárosi. Otto Lara Resende. Lindgren Alves. é um bom manual para conhecer a prosa brasileira do século XX. Autran Dourado. no seu número de abril de 1991 (ano XXXVI. n. No presente momento. 14). Décio Pignatari: Vers-gyakorlatok (Exercícios de poesia). e se pode dizer que seus motivos regionalistas já se manifestam sob forma universalizante. um parecer crítico. prefácio e notas de Ferenc Pál. no qual ficou consignado o reconhecimento da independência criativa dos autores desse país dos trópicos: A formação da [. Guimarães Rosa.57 Esses livros de poemas obtiveram. Rubem Fonseca. passaram a conceder mais espaço à atual literatura brasileira. n. foram traduzidos para um seletíssimo público-leitor poemas de dois representantes da poesia concreta. Seleção. n. segundo afirma um dos críticos do livro (Urfi.. Raduan Nassar. Esta revista publicou. Com a mudança do gosto literário. Seleção. publicada por iniciativa da Embaixada do Brasil e com o apoio do Ministério das Relações Exteriores. Budapeste: Íbisz. András Petcz e Ferenc Pál. Moacyr Scliar.56 Nesse sentido. com o conto Duelo. prefácio e notas de Ferenc Pál. 11). Márcio Souza. András Petcz e Ferenc Pál. de Victor Giudice. No número de agosto de 1992 (ano XXXVII. 1997. e muito especialmente Guimarães Rosa. pois Haroldo de Campos: Konkrét versek (Poemas concretos). Trad. Rubem Fonseca.58 dos quais as resenhas destacam Autran Dourado. Budapeste: Íbisz. Haroldo de Campos e Décio Pignatari. em revistas literárias. como a revista Nagyvilág..15. o conto “Bolívar”. 2009 p. Mais tarde saíram obras de outros escritores que descreviam a vida de grandes centros urbanos. 1999. p. Márcia Denser. de um conhecido poeta experimental. 4). 2008). Ligia Fagundes Telles. selecionada pelo embaixador José A. 57 De Antônio de Alcântara Machado.44 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Fernando Sabino. representa na Hungria a literatura brasileira. A modern brazil elbeszélés – Antologia do moderno conto brasileiro. Ingácio de Loyola Brandão. Adélia Prado. Na antologia figuram contos de dezessete autores. a importância dessas duas antologias reside na demonstração de que a literatura brasileira tornou-se independente. Rachel de Queiroz. publicaram-se dois contos de Dalton Trevisan. Trad. Dalton Trevisan.] poesia concreta no início dos anos cinqüenta não é o primeiro exemplo de que nas circunjacências da zona cultural euro-americana criam-se uma nova linguagem e uma expressão autêntica que correspondem às demandas intelectuais desta região (Szkárosi. como contos de Dalton Trevisan e de Rubem Fonseca. com introdução e apresentações dos autores pelo diplomata. Antônio Fraga. 56 Para além do material poético. uma antologia bilíngue.

Ferenc Pál. o nome de Chico Buarque de Holanda. Budapeste: Európa. Referências A Pallas Nagy Lexikona. além de Paulo Coelho. 225. 2005. György. Contudo. Trad. da imprensa e da mídia. 1-18. Budapeste: Atheneum. 2000. Resumindo. tanto nos temas elaborados como nos recursos artísticos de que lançam mão. 1893-1900. que correspondem aos cânones universais. n. falta um vivo contato com as letras brasileiras – as primeiras obras literárias apareceram relativamente tarde e só raras vezes corresponderam às expectativas do público. 59 este é o único conto em que aparece o elemento exótico (apud Galamb. e de certa forma a dificuldade da divulgação de autores modernos cuja obra se afasta de uma imagem tradicional do Brasil. podemos dizer que neste momento a literatura brasileira está relativamente bem representada na Hungria. tendências literárias. de Mário de Andrade. Magyarország. neste caso o fato de o escritor/cantor ter escrito um romance cuja ação decorre em parte em Budapeste é muito mais importante para os leitores húngaros do que os valores estéticos do livro. Esse fato explica o êxito das obras de Jorge Amado e o êxito isolado de Macunaíma. 1939a. 7. 1972. Contudo. Az üldöz. com o romance Budapeste. e tacitamente sempre esperou que a literatura correspondesse a esses estereótipos decorrentes de “preconceitos” devidos a circunstâncias históricas diversas.59 também está disponível nas estantes. antologias de poesia e de contos que informam detalhadamente sobre autores.A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria 45 Budapeste. Budapeste. Brazília üzen. p. existem enciclopédias. 2008). Budapeste: Pallas. Havemos de mencionar. . e assim podem informar e orientar os interessados. que. Isso distingue o conto de Rosa dos demais textos. BALINT. que formou uma imagem do Brasil a partir das informações obtidas dos livros de viagens. cujas obras inundam as livrarias.

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1 O evento estava destinado a mapear os brasilianistas que trabalham pelo mundo fora. * keywords: Brazilian literature. Quais seriam os problemas e os impasses com . o modo como essa difusão.49 Tempos e contextos da literatura brasileira na Argentina e no exterior Florencia Garramuño* resumo: O artigo discute diferentes momentos da difusão da literatura brasileira na Argentina. Felipe Lindoso e João Cezar de Castro Rocha o convite para participar do encontro. regionalização. palavras-chave: literatura brasileira. Latin American literature. literatura latino-ameri- cana. poderia ajudar na construção de novas comunidades culturais. It seeks to think how today – in the era of the regionalization of cultures – a comparative literature perspective for the diffusion of Brazilian literature can help in the construction of new cultural communities. o Instituto Itaú Cultural realizou o I Encontro Internacional Conexões Itaú Cultural – Mapeamento da Literatura Brasileira no Exterior. literatura comparada. cujo objetivo é mapear e reunir um amplo e inédito número de profissionais estrangeiros que estudam ou pesquisam temas e autores da literatura brasileira. analyzing different historical and cultural contexts as conditions for the promotion of Brazilian Literature in Latin America. Agradeço a Claudiney Ferreira. Universidad de San Andrés/ Conicet. regionalization. 1 Em dezembro de 2009. com o alvo de construir novos laços e conexões entre aqueles que trabalham sobre e com a literatura brasileira em universidades e diversas instituições estrangeiras e fazê-los refletir em conjunto sobre o estado atual da literatura brasileira no exterior. alicerçada numa perspectiva de literatura comparada. abstract: The article discusses particular moments in the diffusion of Brazilian Literature in Argentina. em São Paulo. comparative literature. Uma primeira versão deste texto foi apresentada nesse evento. que marcou o lançamento da base de dados Conexões. analisando os diferentes contextos históricos e culturais como condições para a promoção da literatura brasileira no modo de se pensar hoje – na era da regionalização das culturas –.

França. assim como da própria cultura brasileira? O encontro não só congregou professores e pesquisadores de universidades de diferentes países (Argentina.50 Revista Brasileira de Literatura Comparada. já que a partir dele se iniciaram muitos trabalhos em conjunto entre diversos pesquisadores. tradutores e editores. Inglaterra. que abriram um diálogo fecundo sobre os dilemas da difusão da literatura brasileira em extrema coincidência com os debates que preocupam os pesquisadores. n. mas também em termos de difusão da literatura brasileira. 2009 que os pesquisadores do Brasil se confrontam ao se encontrarem distantes do Brasil. Uma dessas questões – e a que me parece mais premente. a partir das quais é possível vislumbrar uma transformação em andamento de um conceito de literatura e de cultura brasileira que leva em conta sua colocação na paisagem transformada de um mundo contemporâneo no qual fronteiras e limites são redesenhados cotidianamente. comunidades e preocupações que não teriam como não influir numa disciplina tão sensível à sociedade e à cultura como o é a dos estudos literários – ou de quaisquer dos diversos ramos da arte. dos documentos. rearranjando regiões. dos livros. entre outros). Espanha. Alemanha e Japão. e até três das identidades profissionais (pesquisador. mas também convocou tradutores e editores de literatura brasileira no exterior. editor) reunidas no encontro encontravam-se numa mesma pessoa. talvez o mais produtivo do encontro tenha sido a grande quantidade de perguntas teóricas que desabotoaram das discussões e debates. Do ponto de vista da pesquisa sobre a literatura brasileira. já que condiz com muitas das características da literatura mais contemporânea com as quais a minha própria pesquisa vem lidando há algum tempo – é a da situação complexa da difusão de uma literatura brasileira contemporânea que já não parece poder ser contida nos . Estados Unidos. O encontro foi frutífero não só em termos profissionais e de contato – pelo fato de fazer se conhecerem pessoas que trabalham com problemas afins –. tradutor. dos arquivos. tanto que muitas vezes duas.15.

novos problemas surgem – que a ideia mesma da difusão e promoção da literatura brasileira . Um grande número de textos brasileiros – assim como também de textos de outros países e regiões – põe em cena um extravasamento espantoso dos limites e fronteiras que tinham definido o literário como um tipo de discurso ancorado numa certa especificidade institucional. Entre esses parâmetros hoje extrapolados. traduzida. de Bernardo Carvalho (Carvalho. parece evidente que. O filho da mãe. fomentar e alicerçar uma discussão dessas novas “comunidades imaginadas” – para usar em um sentido mais complexo o conceito de Benedict Anderson (1983) – seriam estratégias mais sensíveis ao que essa nova literatura pareceria estar discutindo. 51 parâmetros que definiram a instituição literária no passado. vale a pena ressaltar.. embora não seja o único. pesquisada e.. a própria noção de literatura como instituição nacional fortemente ligada a certos padrões de constituição de uma identidade nacional é talvez um dos limites mais evidentemente ultrapassados. 2009). pelo contrário. língua e nação –como proporia Giorgio Agambem (2001) –. E é nesse sentido também – uma vez que a literatura brasileira no exterior está sempre se relacionando com as formas da literatura dos países nos quais essa literatura está sendo difundida. no entanto. no contato com essa cultura diferente. habita um número cada vez maior de romances contemporâneos – brasileiros. ou não. aparece como o exemplo mais extremo desse afastamento da problemática do nacional na literatura brasileira contemporânea que. para a difusão e promoção dessa literatura brasileira no estrangeiro. parece se propor cada vez mais fortemente como imaginação de comunidades e coletividades que desconhecem a ferrenha ligação entre território. Até que ponto esse extravasamento de problemáticas nacionais – “especificamente brasileiras” – deveria modificar também a forma de encarar as próprias ferramentas e conceitos para se pesquisar e ensinar a literatura brasileira no exterior? Se a literatura contemporânea já não se arrosta exclusivamente à discussão de uma identidade nacional e se.Tempos e contextos da literatura brasileira na Argentina.

quando se cristaliza. apontou. a noção de tradução –linguística.2 E aí a pergunta que surgiu é a de se uma instituição como o Itaú poderia. mas também intervir na produção A apresentação de Victor Mendes. 72). p. da mão das políticas culturais do Estado Novo de Getúlio Vargas (1937-1945). Na primeira etapa veem-se os vínculos estreitos entre diplomacia e tradução e resulta 3 . no encontro Conexões. 2003. deslocando-o em outros contextos. Seria uma forma de produzir um saber novo. n. “in naming a transnational process constitutive of its disciplinary nomination comparative literature breaks the isomorphic fit between the name of a nation and the name of a language” (Apter. Na proposta de Apter. e como.52 Revista Brasileira de Literatura Comparada. diferente do já conhecido. e as suas ferramentas – na era da regionalização da economia global e. que se aproveitaria dessa mesma migração e deslocamento como uma forma de produzir saberes “outros” que despontariam ao se confrontar a literatura brasileira com um contexto estrangeiro ao que essa literatura interpelaria de uma forma diferente. Outra das questões tem a ver com a possibilidade de se pensar a difusão – e. p. 2003. para esta possibilidade. com ela. mas também cultural – tem um papel fundamental no programa de uma “nova literatura comparada”. os “difusores” – da literatura brasileira no exterior noutros termos que já não só do ponto de vista de uma transmissão. global or wordly” (Spivak. 243). Também Spivak tem elaborado algumas noções interessantes – e bem complexas – sobre o problema da literatura comparada na contemporaneidade. divulgação ou propagação de uma literatura ou de um saber que existiria feito e pronto no Brasil e que os pesquisadores só transmitiríamos. não só atender à difusão da literatura brasileira. os seus problemas. propondo uma colaboração entre os estudos de área (“area studies”) e a literatura comparada que poderia tentar “to figure themselves – imagine themselves – as planetary rather than continental. professor de University of Massachusetts Darthmouth. principalmente a partir de discussões como as elaboradas por Emily Apter em The translation zone ou Gayatri Spivak em Death of a discipline sobre os modos de se pensar a literatura comparada – a disciplina. com ela. 2009 no exterior compartilha muitos dos problemas que têm se associado nos últimos anos à discussão da literatura comparada. Segundo ela. também das culturas. a ideia de uma “auténtica cultura nacional brasileña” que inicia o segundo período.15. 2 O livro de Sorá estuda quatro períodos importantes: o primeiro estende-se desde o século XIX até os anos 1930.

cuja primeira edição no Brasil é de 1904. quando a tradução mostra seus vínculos com as políticas estatais e com as a alianças políticas e ideológicas de esquerda que nasceram do exílio na Argentina de Luiz Carlos Prestes e Jorge Amado. ao se falar da difusão da literatura brasileira no exterior. um quarto período. Caberia ressaltar a importância que nos anos sessenta adquirem questões ideológicas e o tipo de problemas para os quais os estudos sociais brasileiros vão ser tomados como modelos a observar. que Sorá denomina de internacionalização. 53 de esse “saber outro” que. no caso. por sua vez. por exemplo (autores como os já na época afamados Machado de Assis. e dos circuitos construtores do mercado editorial internacional. vai de 1945 a 1985 e exibe a hegemonia do mercado na seleção e produção da tradução. nenhum deles teve reedição alguma. Algumas dessas questões dizem respeito a um mapeamento qualitativo da literatura brasileira no exterior que seria bem interessante fazer. que Sorá denomina mercantil. Por último. Um terceiro período. O antropólogo Gustavo Sorá começou a pensar algumas dessas questões para o contexto da Argentina durante o século XX no seu importante livro Traducir el Brasil (2003). Partindo de uma pesquisa empírica sobre as traduções de escritores brasileiros para o espanhol realizadas na Argentina. estava se produzindo gerado precisamente por aquele encontro. principalmente durante os anos do Romantismo. como se pode concluir da relevância que os temas do desenvolvimento econômico e social adquiririam nesse momento. muito . José de Alencar ou Aluísio Azevedo). Barcelona. um dos grandes ganhos de encontros daquela natureza em termos teóricos. no entanto. evidência de um intenso diálogo entre a literatura argentina e brasileira no período. Essa sincronia é. em 1905.3 Mas a pesquisa demonstrou também outra consequência mais relevante – e lamentável – ainda para a história cultural da Argentina e do Brasil: a de que a efetiva tradução de autores brasileiros na Argentina não tem sempre ajudado a reduzir o mútuo desconhecimento entre os dois países. Fica claro que. surpreendente pela espantosa atualidade das traduções: Esaú e Jacob.. A pouca reedição e circulação desses livros é um dado incontestável: dos canônicos e importantíssimos livros brasileiros traduzidos pela Biblioteca La Nación – uma importante editora universalista – nas primeiras décadas do século XX. inicia-se em 1985.. A identificação dessas questões e a elaboração de respostas para elas. por exemplo. É no segundo período. foi traduzido para o espanhol só um ano depois. assim como a criação de redes de pesquisadores e de contatos e fluxos de saberes é. é importante analisar os tempos e contextos dessa difusão. de Machado de Assis. Sorá demonstrou que a tradução de autores brasileiros tem sido muito mais importante e constante na Argentina – segundo algumas variáveis históricas – do que na maioria dos outros paises. levando em conta as diferentes condições de possibilidade que esses tempos e contextos têm oferecido para o conhecimento da literatura brasileira em países estrangeiros. além do fato pragmático – também importante – de facilitação dessa rede e desses contatos. quando as relações entre a cultura argentina e brasileira resultam em grande parte da mediação de intercâmbios internacionais nas feiras de Frankfurt. sem dúvida.Tempos e contextos da literatura brasileira na Argentina. além do mapeamento quantitativo.

n. nem. e que os problemas da tradução não dizem respeito só a duas culturas nacionais específicas. a ser lidos. arquivos e instituições dedicadas ao desenvolvimento do conhecimento sobre o Brasil não contribuiu. mas que na verdade ela não acarretou consequências de peso para o efetivo conhecimento da literatura brasileira na Argentina ou nos países de fala espanhola nos quais esses livros brasileiros poderiam passar. p. por outro lado. 2003. quando a . fica evidente que essas traduções não fizeram com que a literatura argentina se alimentasse da brasileira nem que a brasileira se alimentasse da argentina. que o significado dos livros traduzidos em suas dimensões históricas depende das formas nas quais esses livros são recebidos e apropriados por seus leitores. Fica claro a partir da leitura do importante livro de Gustavo Sorá. 221). como diz Sorá. mas respondem a uma configuração internacional de redes de relações linguísticas. portanto.54 Revista Brasileira de Literatura Comparada. desde esse momento. tampouco. assim como das posições no campo intelectual dos agentes tradutores e dos pesquisadores. demonstrando.15. Era claro – a pesquisa demonstrava – que houve condições para uma tradução bem rica naquele momento. para “atualizar” e manter vivo o conhecimento do Brasil que esses livros traduzidos poderiam – e deveriam – ter acarretado. Se pensarmos na relação entre os escritores argentinos da época e a literatura brasileira. A debilidade institucional da Argentina em termos de bibliotecas. 2009 embora muitos dos títulos dessa mesma editora que provinham de diferentes tradições literárias europeias tenham sido reeditados ano após ano. que a literatura brasileira ficasse conhecida na Argentina fora do interesse de algumas pessoas específicas. que “las fuerzas de internacionalización de los mercados desde fines de los años ochenta remataron el distanciamiento entre dos ‘culturas nacionales’ cuya vigencia editorial es regulada en aduanas muy lejanas” (Sorá. ou entre os críticos argentinos e a literatura brasileira. Um momento mais bem-sucedido dessa difusão foram – sem dúvida – os anos 60 e 70 do século XX.

com a entrada dos autores brasileiros. tomou o nome de “Premio Casa de las Américas”. que premiou autores brasileiros e contou no júri com escritores e intelectuais brasileiros da talha de Antonio Candido.. Casimiro de Abreu. foi construído particularmente por uma editora de origem espanhola. Chico Buarque ou Davi Arrigucci Jr. José Guilherme Merquior. 1972). na época. p. tendo ele artigos como os de Antonio Candido. a Seix Barral – e compartilhou com ela o seu momento de fama internacional. e ao tecer uma rede fraternal que abraça o continente com suas possibilidades de compreensão e intercâmbio (apud Cabañas e Fornet. como “Concurso literário latino-americano” e. Cuba tem sido a grande mediadora. 55 literatura brasileira pegou carona no boom da literatura latino-americana – que. a presença da literatura brasileira no volume é incontestável. . em 1972.. colocam em relação a literatura hispano-americana e a brasileira referindo-se a autores como Alencar. Quando a Editorial Siglo XXI publica América latina en su literatura. É por esses anos que o que tinha sido conhecido até então como “Concurso literário hispano-americano” foi se denominar. Antonio Candido disse sobre o prêmio: Para nós. Antonio Houaiss. com a Revolução Cubana e as instituições que iriam se criar. logo em seguida. ou de tantos outros que. geralmente tão separados dos irmãos de fala espanhola. Haroldo de Campos. fez com que a difusão da literatura brasileira tivesse um impacto mais forte nas literaturas de língua espanhola. Em depoimento em Havana. 1999. brasileiros. lembremos. o contexto político da América Latina. ou Emir Rodríguez Monegal e outros críticos latino-americanos que fazem referência à literatura brasileira. 181). sem falar exclusivamente da literatura brasileira.Tempos e contextos da literatura brasileira na Argentina. Clarice Lispector e tantos outros escritores brasileiros citados e analisados nesses textos (Moreno. Guimarães Rosa. É claro que. ao criar a possibilidade de entendimento que se forma aqui e se desenvolve fora. Machado.

mas se assemelharia com a corrupção das unidades homogêneas que Caetano Veloso comemorava em Língua – canção que também dançávamos e cantávamos ainda com mais fervor. intensa. na época. Caetano retoma uma frase famosa de Fernando Pessoa em “A minha pátria é a minha língua”. se possível.) A língua é minha pátria E eu não tenho pátria. de Bernardo Soares (Pessoa. da literatura brasileira na América Latina. que dançávamos e cantávamos com fervor nas festas da época. “Língua”.. no entanto. colaboraram ou não para uma difusão efetiva. Segundo Pablo Rocca. 4 . é importante ressaltar é até que ponto essas condições. do Livro do desassossego. “ningún crítico hispanoamericano coetáneo de la nacionalidad que fuere se encargó. Na canção. em 1984. n. que Caetano repetia gozoso: Flor do Lácio Sambódromo Lusamérica latim em pó O que quer? O que pode esta língua? Vamos atentar para a sintaxe dos paulistas E o falso inglês relax dos surfistas Sejamos imperialistas! Cadê? Sejamos imperialistas! (. Uma questão que. 2009 Para aqueles que. aparece em Velô. composta por Caetano Veloso. em 1967.. os latino-americanos que queríamos e pretendíamos construir uma América Latina grande. estudávamos literatura na universidade argentina.56 Revista Brasileira de Literatura Comparada. con tanto interés y persistencia de “Soy loco por ti América” foi composta sob o efeito da morte do Che Guevara e gravada em Tropicália. as discussões que um problema como esse abre.15. 4 O leque que uma história da difusão da literatura brasileira no exterior abre é bem complexo e não seria possível esgotar. no fim da década de 1980. que víamos representada na canção de Gilberto Gil com letra de Capinam. Basta lembrar o refrão de Língua para ouvir uma alusão leve a essa América Latina. E essa América Latina grande não se preocuparia tanto com a questão da identidade nacional ou regional. esse livro foi a descoberta de que a literatura brasileira existia numa sintonia de problemas com a literatura latino-americana e que ela própria podia se converter em um campo de estudo e pesquisa para nós. como Monegal o como Rama. perdurável. em um único artigo. tenho mátria E quero frátria. 1982). Soy loco por ti América..

tendo abandonado a preocupação pela identidade latino-americana. tomado de empréstimo de um verso de Drummond? Qual seria a literatura brasileira desse Brasil nenhum que quereríamos difundir. sobretudo o de Rama.. com a contribuição deles para a literatura latino-americana em espanhol. que. há evidência importante sobre a multiplicação dos estudos comparativos entre as literaturas e as culturas do Brasil e da Argentina. e interromper aquelas outras propriedades que levam ao apagamento das diferenças e à imposição de lógicas homogeneizantes? Queremos continuar defendendo uma identidade da literatura brasileira ou pretendemos abrir esse conceito? Como poderíamos pensar e contribuir para a difusão da literatura brasileira no exterior partindo da inspiração do título da coletânea Nenhum Brasil existe (Rocha. apesar do diálogo entre Rama e Candido e outras poucas honrosas exceções.5 Eu acrescentaria que tanto o trabalho de Rama como o de Rodríguez Monegal sobre a literatura brasileira talvez não tenham comparação. Montevideo: Ediciones de la Banda Oriental. 57 Um trabalho mais abrangente sobre as relações entre Emir Rodríguez Monegal e Angel Rama com o Brasil pode se encontrar no livro de Rocca. 20 5 la literatura brasileña” (Rocca.Tempos e contextos da literatura brasileira na Argentina. Se esses tempos e contextos hoje são bem diferentes.. quando a palavra de ordem é a redução dos orçamentos no contexto da crise global. bastante pouco produtivo. como se deveria pensar a difusão da literatura brasileira na era da globalização e das culturas pós-nacionais ou transnacionais? Como as diversas instituições de pesquisa e ensino da literatura brasileira poderiam contribuir para uma discussão dessas questões que. Ángel Rama. e. Emir Rodríguez Monegal y el Brasil. 2003). 56). incorporam nesse estudo as . possa se inserir no contexto contemporâneo para tirar desse processo as boas qualidades. em um sentido mais geral. e como deveríamos fazer essa difusão? Hoje. o que é bem pouco para um campo de crítica latino-americana que tem sido bastante rico e produtivo. sobre as literaturas latinoamericanas. p. levando em conta as condições atuais da globalização. aprofundá-las. O que também é evidente é que o diálogo entre críticos de fala espanhola e portuguesa também tem sido. no campo intelectual latino-americano. 2006a.

Os sertões. ou No se dice. n. um diálogo muito mais intenso entre a crítica argentina e a crítica brasileira. Hoje existe uma série dentro de uma editora argentina (a Corregidor) especialmente dedicada à publicação e tradução de literatura brasileira que vem. e lançando dentro de sua editora livros completos de alguns poetas brasileiros contemporâneos. realizados tanto na Argentina como no Brasil. ou Literatura e vida literária. junto com livros como A descoberta do mundo. como o caso do Sublunar. com muito mais frequência. publicando clássicos como Oswald de Andrade ou Graciliano Ramos e literatura mais contemporânea. como o Balanço da bossa.15. tanto de ensaios. traduzidos e não traduzidos. hoje. é o fato de esses livros estarem hoje influenciando uma escrita literária argentina que tem se nutrido deles e que. Basta ler alguns poemas de Carlito . Mais importante do que o número de volumes publicados. ou os vários romances de João Gilberto Noll e Adriana Hidalgo. demonstram uma presença cada vez maior da literatura brasileira no catálogo de editoras argentinas. assim como outros muitos. de Augusto de Campos. evidenciam-se numa escrita poética que se nutre desses contatos. O caso da poesia contemporânea é muito significativo. de Clarice Lispector. de Marcos Siscar. ou Um amor anarquista e os vários textos que Beatriz Viterbo vem publicando. Mas não só. de Carlito Azevedo.58 Revista Brasileira de Literatura Comparada. também está nutrindo os escritores brasileiros. A revista Tsé Tsé vem publicando uma série de livros e de poemas. Tanto esses livros como o contato fluido dos poetas argentinos e brasileiros em festivais diversos. no entanto. de Euclides da Cunha. há quase dez anos ininterruptos. de Flora Sussekind. autores brasileiros contemporâneos e clássicos: a nova edição que o Fondo de Cultura Econômica fez de um livro que era inencontrável nas livrarias argentinas. Também grande parte das maiores editoras argentinas e multinacionais vem publicando em Buenos Aires. por sua vez. E existe também. 2009 culturas do Brasil sem os empecilhos do purismo linguístico ou historiográfico do passado. como Ana Cristina Cesar ou Leminski.

Pensar a difusão da literatura brasileira de uma perspectiva de literatura comparada transformada. 2001. e com ela o papel da literatura em geral – nesse novo mundo a cuja transformação estamos assistindo. em parceria com a Capes do Brasil..Tempos e contextos da literatura brasileira na Argentina. pelo contrário. Valencia: Pre-Textos. que desenham uma encruzilhada de fertilização cruzada. e em várias direções. mais importante ainda. mas que é uma viagem de ida e volta. talvez seja hoje uma estratégia para transformarmos. As verbas para projetos de cooperação internacional e para trabalhos comparativos têm aumentado exponencialmente na Argentina. . Giorgio. que já não esteja procurando as identidades de uma literatura como referentes de uma identidade nacional. Medios sin fin: notas sobre la política. mas que. na medida de nossas fracas possibilidades. que. É importante. Referências AGAMBEN. Benedict. sobretudo na Secretaria de Ciência e Técnica do Ministério de Educação da Argentina. nesse contexto. ANDERSON. Os livros da coleção Vereda Brasil têm instalado um conhecimento importante dos autores publicados. lembrar que difusão não implica um trajeto de uma só via. já que. Imagined communities. o papel da literatura brasileira. se fundamente na relação dessa literatura brasileira com as outras literaturas. além de publicar o livro traduzido. 1991. cada volume traz estudos preliminares e bibliografias que ajudam os livros traduzidos a se instalarem no mercado e.. na cabeça dos leitores. New York: Verso. tem financiado e continua financiando pesquisas desenvolvidas por universidades argentinas e brasileiras em conjunto. 59 Azevedo ou Marília Garcia para ver que essas influências têm andado nas duas direções. e que essa difusão acontece num contexto global de poder e conhecimento que influencia crucialmente a paisagem intelectual.

VELOSO. . Polygram. Rio de Janeiro: Universidade do Estado do Rio de Janeiro. New York: Columbia University. 1982. Caetano. 1999. Gayatri. FORNET. CARVALHO. Valdei. La Habana: Fondo Editorial Casa de las Américas. Lisboa: Ática. LOPES DE ARAUJO. Inés. Premio Casa de las Américas: memoria. Princeton: Princeton University. Gustavo. 1967. 2003. n. 1972. O eixo e a roda. São Paulo: Companhia das Letras. 1984. 2009. Bernardo de. CABAÑAS. Rosa (la visión hispanoamericana de Emir Rodríguez Monegal y Ángel Rama). 2003. A minha pátria é minha língua. Death of a discipline. Traducir el Brasil. Gilberto. GIL. SORÁ. Phillips. FERNÁNDEZ MORENO. Montevideo: Ediciones de la Banda Oriental. 2006. PESSOA. _____. 2009 APTER. ROCCA. Ángel Rama. Emily. Nenhum Brasil existe.15. La fisura regionalista de Graciliano a G. Livro do desassossego. Fernando. v. O filho da mãe. 2006b. 2003.60 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Prefácio e Organização de Jacinto do Prado Coelho). 12. Velô. Pablo. In: _____. Tropicália. Belo Horizonte. César. 1960-1999. América latina en su literatura. In: _____. SPIVAK. The translation zone. Emir Rodríguez Monegal y el Brasil: dos caras de un proyecto latinoamericano. Soy loco por ti América. CAPINAM. 2006a. Una antropologia de la circulación internacional de ideas. (Recolha e transcrição dos textos de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha. Jorge. México: Siglo XXI. Buenos Aires: Libros Del Zorzal.

61 Ideia de Literatura Brasileira com propósito cosmopolita Abel Barros Baptista* Resumo: O ensaio procura rever o problema da relação da literatura brasileira com a noção de literatura e a literatura mundial. inside of a dog. Machado de Assis. Machado de Assis. it’s too dark to read. não deixa de envolver particularidades curiosas. Partindo de uma noção que valoriza a literatura sobre a língua. e ademais como parte dos “estudos de literatura brasileira no exterior”. literary nationalism. KeywoRds: Brazilian literature. Outside of a dog. world literature. Arguing for an idea of literature superseding the language. não ocorre essa acepção de “exterior” * Universidade Nova de Lisboa . as a notion without nation. cosmopolitism. nacionalismo literário. reviews the case of Machado de Assis in order to step into de debate on universal versus local and on the problem of the international reception of his work. A mais imediata será o sublinhado duma diferença dentro da língua: no português europeu. as it seems to be the Brazilian case. and the very idea of Literature. elemento de exclusão. Groucho Marx 1. a book is a man’s best friend. PalavRas-cHave: literatura brasileira. aBstRact: The essay aims at a revision of the problem of the relation between a national literature. regressa ao caso de Machado de Assis para intervir no debate sobre o conflito entre local e universal na sua obra e a respectiva recepção fora do Brasil. Pedir a um português que escreva sobre os estudos de literatura brasileira em Portugal. cosmopolitismo. as a way of exclusion. literatura mundial.

absolutamente. ao suspender a familiaridade. Nada disto. a alemã ou a italiana: como se houvesse uma substantivação de “o estrangeiro” que o “exterior” já não alcançou. requer determinação. Você verá várias placas em Portugal. que a pessoa vá dormir fora ou. pode nem ser estrangeiro. e que significa precisamente “jogar fora de casa” por ser o oposto de “jogar em casa”. é também locução portuguesa. Ou a versão da pilhagem que Roberto Schwarz ofereceu no ensaio a que mais adiante me referirei. Se dissermos que “nem todos os estudos de literatura portuguesa conduzidos no estrangeiro são estrangeiros”. enfim. Por exemplo. estudos “estrangeiros”? Já a formulação “nem todos os estudos conduzidos no exterior são por isso exteriores” faz figura mais de problemática do que disparatada. a determinação do interior como nacional. Mas talvez disséssemos “estudos de literatura brasileira no estrangeiro” mais depressa do que estudos de literatura brasileira “fora do Brasil” ou “no exterior do Brasil”. Daí que a modalidade portuguesa. a frase talvez não pareça logo o absurdo que é: o que serão. por outro lado. falando de cidadãos. o jogo de palavras. O verbete completo diz isto: “Não significa. mormente as cínicas ou as que derivam do sublinhado de traços de degradação do ideal cosmopolita. 2009 como conjunto de países constituído por todos os que não são o nosso. 1 Claro que estão disponíveis várias descrições alternativas. Convenhamos que não há enorme diferença entre as duas palavras. no confronto com a brasileira. n. promete alguma coisa pertinente. a mesma construção valendo. aliás. significa o que é de fora ou vem de fora. para outras literaturas. marioprataonline. a interferência do exterior no interior. Deitar fora é jogar fora.htm>. “Leituras em competição”: uma “guarda 2 .1 Isto. e diríamos “estudos de literatura portuguesa no estrangeiro”. Ademais. etc. sugerindo que académicos medíocres procuram longe escritores obscuros para fazerem carreira sem controlo nem concorrência.br/obra/ literatura/adulto/dicionario/ framegranda_a. dizendo: Por favor. suspensa de uma referência que destrince exterior de interior.15. 1993) tenha necessidade de esclarecer que a locução “deitar fora” não significa “dormir fora de casa” mas “jogar fora”. parece mais pertinente delimitar “exteriores” do que “estrangeiros”. até pela etimologia. seja a inglesa. Digamos que há sempre o “estrangeiro”. permita. já tratando-se de difusão de uma literatura nacional ou de estudos de uma literatura nacional.62 Revista Brasileira de Literatura Comparada. a orientação do interior para o exterior. pelo menos. estrangeiro é exterior e. a orientação do estrangeiro para o doméstico. por seu lado. Com efeito.com. do domínio do futebol. Usamos “o estrangeiro”. como todos. Também se usa em Portugal a locução “lá fora”. atrai a atenção para a definição do exterior como estrangeiro. sem se aperceber de que “jogar fora”. tratando-se de estudos. mas o advérbio indica registo coloquial e em regra requer um “fora” de referência para o nosso primitivismo pôr os olhos. e sempre se sabe o que é: o “exterior”. no que é nosso. Mas exterior excede estrangeiro e. até estimule jogos de palavras fáceis: a formulação “nem todos os que vivem no estrangeiro são estrangeiros” resultaria em disparate se transposta mecanicamente para “nem todos os que vivem no exterior são exteriores”. propriamente falando.” Disponível em: <http://www. no nacional. E é curioso que um dicionário on line de português para brasileiros (Prata. deite no lixo! Não leve ao pé da letra. dar uma deitadinha na casa de um amigo ou amiga.

sem universal em que se apoie. p. casa. por outro lado. chamam interior. 3 63 Colho esta expressão na tradução para português da conferência proferida por Michael Wood num colóquio sobre Machado de Assis na Universidade de Princeton. nunca serão estrangeiros. evidentemente não se tornam portugueses. 2009. sem eles. Estamos sempre em algum lugar – em algum local. O mesmo se passa de resto com os brasileiros: um brasilianista é alguém que se dedica aos “estudos brasileiros”. em janeiro de 2009 (Wood. cheio de brasilianistas ou cheio de brasileiros. mas estes. mas mais quotidiano. que vale para as pessoas. Um “Instituto de Estudos Brasileiros”. onde não viveram. 4 talvez porque. mas hóspedes. Dir-se-á. o cosmopolita pode estar condenado à errância eterna. Pode. Nesse sentido. e ainda querendo tê-lo muito fortemente.2 Então. são brasileiros sem serem brasileiros e que se chamam brasileiros precisamente na medida em que estão no exterior do Brasil e num interior que não se chama Brasil. porque de algum modo se dedicam ao Brasil. aqueles que. quase cidadãos honorários. o maior risco. desde que obtenha proventos fáceis (cf. Isto. como cidadãos. modalidade decerto muito inconveniente de prestar tributo ao princípio de nacionalidade em literatura. em rigor não tem país. e as universidades em princípio não confundem brasilianistas com brasileiros.3 Note-se que. que viajam por causa da literatura que não se fez na sua terra. 66). Certa tradição académica chama “portugueses” justamente àqueles estudos de língua. aliás. não se prendendo a nenhum espaço delimitado por fronteiras. literatura ou cultura portuguesa que no estrangeiro são conduzidos por não portugueses. Talvez se possa inferir do exemplo que os estudos. 2006. 187). é provável que hoje pagássemos a Berlusconi para ler a Divina comédia. vai a “terras distantes” à procura do que a faz menos provinciana e por isso não se importa de ignorar a história e o contexto. é sempre pouco para quem vive neste ou naquele aglomerado nacional. não como “o lar de outras pessoas”. se deslocam sempre para o território que outros.4 Sem dúvida. filantropos embora. pela simples razão de que ninguém o pode habitar. que estes que viajam. e em princípio hóspedes de honra. sendo o menor. ou que só visitaram justamente porque se interessaram pela respectiva literatura – talvez alguma convicção de que a literatura. não parece valer para as organizações nem para os estudos. Schwarz. A segunda consequência é que. no sentido em que pertence a este ou àquele aglomerado nacional. espaço doméstico. residir nessa aspiração a razão última por que muitos académicos se dedicam a estudar a literatura de países onde não nasceram. o de se ver obrigado a esbarrar em regras que lhe são adversas ou a tolerar convicções que lhe repugnam. esses académicos. ilustram este princípio estranho: as pessoas têm necessidade de viajar porque as ideias e os estudos. aonde nunca foram. kantianamente guiados pelo ponto de vista filantrópico universal.Ideia de literatura brasileira com propósito cosmopolita avançada” do “centro” pilha as obras da “periferia” para as incluir em repertórios internacionais. Paulo. tanto pode estar sediado em Roma como em S. não podem nem precisam de viajar. por sua vez. A imediata consequência a extrair seria que o universal não existe. literal ou figuradamente. e que provincianismo é ver o exterior só como exterior. vão de um país a outro por causa da literatura. não acreditamos que os estudos possam ser domésticos ou nacionais sem ao menos aspirarem à condição universal. tendo país. p. .

editoras. centros de pesquisa. trabalhar no interior de um paradigma pode ser condição necessária para trabalhar no interior de uma disciplina e de uma instituição. fundações. 2009 Eis o dilema: aquele académico que viaja para outro lado por causa da literatura. Eis outra forma de dizer que o universal não existe: porque o local se tornou impossível. há-de vir do exterior ou de algum interior do Brasil? Ou o factor decisivo estará antes nesse outro interior que é a instituição exterior. desde logo. o interior não é nacional senão depreciativamente. de que padrões ou critérios. essa instituição o avalia? Acaso da capacidade de se tornar estrangeiro para não ser estrangeiro no país da literatura que estuda? Outra pertinência da distinção entre “exterior” e “estrangeiro” residiria então em que o “exterior” tem aptidão superior à de “estrangeiro” para referir situações que envolvem instituições. e no propósito do estudo dela. deve pretender tornar-se interior apesar de estrangeiro ou. ou até de ambos: o reconhecimento decisivo do brasilianista. o interior tornou-se demasiado escuro para que se consiga ler nele com nitidez. disciplinas ou paradigmas. outras universidades. Exterior deixou de significar estrangeiro: no mundo universitário. numa rede tendencialmente tão diversificada no mapa como similar nos padrões e critérios de avaliação. n. antes.15. . A impossibilidade do interior bem circunscrito decorre da dissolução da autonomia numa rede de instâncias por definição exteriores. não brasileira. esforçar-se por se manter exterior porque estrangeiro? Qualquer estudo implica legitimidade e reconhecimento. Trabalhar no exterior de um paradigma pode ser mais perturbador do que trabalhar no exterior de uma disciplina ou de uma instituição. da importância do seu estudo e da relevância da sua pesquisa. que ao brasilianista lhe paga essas viagens e esses estudos? E em nome de quê.64 Revista Brasileira de Literatura Comparada. mas as próprias disciplinas. agências governamentais. e o reconhecimento do pesquisador ultrapassa já não apenas a nação. que ou provêm do interior da instituição em que se trabalha ou do exterior dela. Em todo caso.

mas postula que tal desejo não se confunde com o que eles ou todos nós chamamos literatura brasileira – nem é o único guia. delimitálo historicamente. não podia senão ser muitíssimo sensível à diferença entre exterior e estrangeiro.5 . como. O artigo de Roberto Schwarz atrás citado. aliás.Ideia de literatura brasileira com propósito cosmopolita 65 O presente ensaio conclui um percurso de estudos machadianos inaugurado há mais de vinte anos com uma análise de “instinto de nacionalidade”. 21-111. ou. O que se deve então legitimamente exigir ao brasilianista? Que estude e divulgue o Brasil de que a literatura brasileira fala ou. desnaturalizá-lo e. Duas interrogações sobre Machado de Assis (Baptista. sendo uma reacção à fortuna crítica de Machado fora do Brasil e ao que ele chama “leitura internacional”. no sentido mimético e no diplomático. edição portuguesa de 1991). estude e divulgue a razão de a literatura falar do Brasil? Que se interesse pela realidade nacional brasileira ou. E há-de ser particularmente sensível à presença do estrangeiro no seu interior – e sobretudo à projecção desse interior no exterior indeterminado do “estrangeiro”. Filiando-se. tampouco em afirmá-la ou sequer reconhecê-la: consiste. muito menos o melhor. uma literatura. 2003. na linhagem que o primeiro grande espírito cosmopolita do Brasil. identificá-lo como uma das forças da literatura moderna em acção no Brasil. Machado de Assis. sim. pelo interesse da literatura brasileira pela realidade nacional brasileira? Que se torne porta-voz de uma literatura entendida como representação do Brasil. enquanto o primeiro a subordina a uma qualquer relação com o Brasil. como a brasileira. em negar a nacionalidade da literatura brasileira em nome de uma natureza intemporal e transcultural da literatura. inaugurou com o célebre “instinto de nacionalidade”. analise o processo por meio do qual no Brasil se procurou construir uma literatura entendida como representação do Brasil? Proponho designar cosmopolita a perspectiva que estabelece essas distinções e argumenta em favor do segundo termo da alternativa. antes. antes. 5 Ora. para a conhecer. antes. noutras nações. supostamente em competição com a “leitura nacional”. enfim. em reconhecer o desejo de nacionalidade. é suficiente para mostrar que se mantêm a actualidade crítica e a energia polémica da análise que propus do ensaio de Machado. O propósito cosmopolita não consiste. e a que voltarei mais adiante. que preserva a relação com a literatura. p. portanto. O propósito cosmopolita leva em conta o desejo de criação de uma literatura a que os brasileiros possam chamar sua. enfim. que se representa hegemonicamente como construção que circunscreve o interior para que coincida com o nacional. que o leitor interessado pode encontrar no meu livro A formação do nome.

o domínio da Weltliteratur. 1969. 17). 1969. “Filologia e Weltliteratur” (1952). A pressuposição da Weltliteratur é uma felix culpa: a divisão da espécie humana em muitas culturas (Auerbach. 1969. acaba a declarar que “a nossa casa filológica é o planeta. sem nenhum paradoxo. 2) A dificuldade é manter a tarefa da filologia diante do processo de estandardização da vida humana à escala global. ao convocá-lo. na noção . a Weltliteratur não se refere apenas ao que é genericamente comum e humano: antes considera que a humanidade é o produto das relações frutuosas entre os seus membros.15. já não pode ser a nação” (Auerbach. sublinha. p. a formular certo programa de urgência: “devemos regressar. o meu propósito. se é possível algum sentido para Weltliteratur mantendo o termo na visão de Goethe. o modo como. n. 17). em circunstâncias notoriamente diversas. Auerbach perguntava num dos seus últimos ensaios. há por aí qualquer coisa de urgentemente actual. 2009 2. p. Espírito? Humanidade? O vocabulário não é seguramente de hoje: ou parece hoje muito pouco cosmopolita. pode também desnortear. está a diminuir e a perder diversidade. no entanto. que Auerbach detecta e cujo termo pleno. num modo que sequer é propriamente paródico. seria de um só golpe a realização e a supressão da própria noção de Weltliteratur. que apresento nesta formulação decerto precária. e mais do que isso. como se se tratasse de um programa político: o propósito cosmopolita consiste em reafirmar.66 Revista Brasileira de Literatura Comparada. ou causar estranheza pelo desuso: o melhor bem? o bem comum? o bem supremo? E. isto é. relacionando-o tanto com o passado quanto com o futuro e considerando o próprio estado do mundo: O nosso planeta. Não cabendo aqui sequer tentar resumir o argumento que ocupa a parte central do ensaio. àquilo que a cultura medieval pré-nacional já possuía: a noção de que o espírito não é nacional” (Auerbach. é citar o desfecho dele. O colorido kantiano do meu título. No entanto. p.

que é a mesma não porque seja desde sempre e essencialmente a mesma. aquele que não pode deixar de ser reconhecido e não pode deixar de se reconhecer como estrangeiro. mais restritos e nada essenciais – mas o espaço que se abstém de limitar e impor condições à entrada e estada do estrangeiro. onde o espírito vagueia livre. Essa concepção da literatura poderia receber outro nome – tradução –. em termos menos circulares. universal. não um espaço homogéneo. sem fronteiras nem conflitos. Nos estudos literários. e designadamente dele espera a responsabilidade de circunscrever ele próprio a sua incompreensão e a sua ignorância. não fosse o traço decisivo do carácter incondicional da hospitalidade. formando alguma espécie de cânone supranacional ou literatura internacional. mas uma ideia de literatura definida precisamente pelo propósito cosmopolita: digamos que o ensaio de propósito cosmopolita é o que se aproxima da literatura presumindo que o que a constitui é o propósito cosmopolita! Ou. o que se aproxima da literatura animado da convicção de que o propósito cosmopolita é inerente à noção de literatura – um propósito constitutivo da literatura moderna. não um espaço essencial de onde derivem e se deduzam todos os espaços. a concepção visionária daquela felix culpa como abertura dum espaço de hospitalidade incondicional. para onde alguns poucos afortunados são cooptados. Decerto é quase de tra- . pela Unesco ou pelo sucesso comercial. antes porque a caracteriza a hospitalidade incondicional.Ideia de literatura brasileira com propósito cosmopolita 67 moderna de literatura. o propósito cosmopolita define o princípio teórico e político que nos orienta a aproximação a qualquer texto com a ideia de que o que há de nobre e de emancipador na noção de literatura é o que nos anima a pressupor que cada texto foi escrito na previsão do estrangeiro que um dia o virá a ler e estará à altura de o ler precisamente na medida em que for capaz de circunscrever os limites da própria incompreensão sem perder de vista o privilégio de habitar a mesma casa. O fundamento da hospitalidade não é a natureza humana nem alguma ideia genérica de humanidade. Não um espaço superior e restrito.

2009 dução que se trata. como se compreende. e nesse sentido. Nas relações ou nos primórdios das relações entre a literatura portuguesa e a brasileira. ou do que com tanta facilidade se chama “a mesma língua”. que a literatura unisse o que a língua separa. eis justamente o que separa: porque é a língua que permite reconhecer o estrangeiro como estrangeiro e sobretudo quando fala a mesma língua. ou quando fala a nossa língua. mas nunca opera o transporte unívoco de um conteúdo prévio – e por isso a hospitalidade é incondicional. A ideia da literatura como hospitalidade incondicional recusa tanto o universalismo como morada última que apaga todas as línguas. O espírito é o espírito da hospitalidade.15. mas passando entre os polos extremos que a definem: a tradução visa necessariamente à inteligibilidade sem restos – e por isso a hospitalidade é possível –. E não há razão para que essa ideia não seja válida no quadro da mesma língua. há um exemplo de . força que cria unidades além deles e tensões por causa deles: unidades apesar das tensões. em que ela espera e depende do estrangeiro para se constituir –. tensões não obstante as unidades. A língua. de estada e exercício da hospitalidade sem condições. quanto o nacionalismo da língua cioso do núcleo essencial insusceptível de tradução. aliás. A definição de literatura podia. A literatura é uma linha que passa entre esses dois polos. desde sempre destinando-se ao mundo. n. 3. ser esta: faz de quem dela se aproxima um estrangeiro e pelo mesmo gesto oferece-lhe todas as condições para que se instale à vontade. que a literatura se constituísse morada de encontro. o bem comum é o da literatura e da partilha da literatura. Como se o esperasse – e a melhor descrição de literatura é essa. somos sempre estrangeiros diante de qualquer obra de literatura.68 Revista Brasileira de Literatura Comparada. de cruzamento. O sonho emancipador aqui seria. então.

de que nesta nossa época o poema épico seja possível na Europa. Um ensaio escrito por um português – e que o assume expressamente. permaneceu inédita. mais do que da poesia de Gonçalves Dias: é um ensaio centrado na metáfora do jovem. Escreve Herculano: V. trata das consequências para a literatura portuguesa do aparecimento da brasileira. define com outra palavra a sua condição relativa à nação brasileira. 199-204). no Anuário do Museu Imperial. 6 Permito-me remeter o leitor interessado para o comentário deste ensaio de Herculano que apresento em O livro agreste (Baptista. 1986. Não é imediatamente perceptível o que faz o “estrangeiro” na análise de Herculano. p. embaraçando o velho decrépito. p.Ideia de literatura brasileira com propósito cosmopolita 69 Trata-se de “Futuro literário de Portugal e do Brasil”. tornando-se por isso relativa em vez de absoluta. 1986. o Brasil. Pedro II sobre A Confederação dos Tamoios. Herculano publicara um ensaio a propósito dos Primeiros cantos de Gonçalves Dias. Duvido.7 Ora.ª edição dos Cantos. em 1947.). 7 propósito cosmopolita pouco conhecido. 1986. 212-221). e a carta merece um estudo demorado que. Herculano.6 Este texto. e muito. Herculano escreveu uma longa carta a D. que viria a ser incluído. ainda não teve. 25 et seq. o de Alexandre Herculano. 2005. . tanto quanto sei. Duvido também de que um estrangeiro possa avaliar sob todos os aspectos uma composição de semelhante natureza (Herculano. Portugal. o primeiro traço que distingue a carta é que Herculano. a servir de prólogo. Hoje pode ler-se no volume da edição crítica dos Opúsculos dedicado aos assuntos de literatura (v. para dar a opinião sobre o poema que D. p. e retomado nos Opúsculos (Herculano. invocando-a até como fundamento da incredulidade que fere a capacidade crítica: estrangeiro. na 2. Pedro II lhe pedira. atolado no passado. M. a pedido do próprio Herculano. porém. e mais ainda que o seja na América. Datada de 6 de dezembro de 1856. que se ergue para criar o novo. estranhará talvez que eu comece por uma declaração de incredulidade que prejudica a crítica especial do poema ou pelo menos a subordina a considerações superiores. de Gonçalves de Magalhães. 213). p. Anos antes. originalmente publicado na Revista Universal Lisbonense. I. e surgiria apenas em 1947. pela mão de Alcindo Sodré.

“se uma raça outrora única. 215). E o Brasil. porém. razão fundamental por que “a poesia é hoje quase exclusivamente lírica e dramática”. e o que se tornou nacional é indigno da epopeia. Não é.70 Revista Brasileira de Literatura Comparada. uma completa negação da generosidade e do heroísmo da epopeia (Herculano. Desde logo. Claro que o argumento envolve um juízo sobre essas condições que não se confunde com a noção das exigências do género: “a nossa geração não é épica”. e os que traíram os interesses da sua gente e a religião dos seus antepassados para se aliarem com os conquistadores. 1986. apresenta certa especificidade que Herculano também não negligencia: diz ele que as eras heroicas e as gerações épicas do Brasil seriam as do primitivo Portugal. poeticamente considerados. entretanto. a um tempo . 215). que se sobrepõem às condições actuais em que o poeta eventualmente o tenta. Em suma. a sua civilização o mesmo que a nossa? Não se confunde a classe média do Brasil com a classe média da Europa. porque as reputo insuperáveis. a nacionalidade brasileira não pode encontrar nos índios um substituto para os primitivos portugueses: aqueles [chefes índios] que se conservaram fiéis às tradições da pátria americana não têm identidade nem unidade nacional com os brasileiros de hoje. 1986. o que seria adequado à epopeia não é nacional. Por outro lado. 2009 Limito-me aqui a observações rápidas que me conduzem ao meu ponto. n.15. sob todos os aspectos. p. são. Herculano reputa impossível a epopeia – e sublinha que nenhum dos “sumos poetas contemporâneos” a tentou – em virtude das próprias exigências do género. sei de certo é que ele não poderia vencer a desarmonia do espírito público. O Brasil é um império novo. o “estrangeiro” não está onde se esperava. Esta dificuldade. considera-a Herculano insuperável: Duvido que o génio pudesse vencer estas repugnâncias. não constituísse hoje duas nacionalidades distintas” (Herculano. mas os brasileiros são apenas europeus na América. O que. p.

e que noutro são elevadas ou pelo menos toleráveis (Herculano. não apenas Portugal. ou havia de trazer estes para a casa em que ele os avaliasse – ou seja. então. Onde se constitui. por causa disto ou daquilo. a consideração da originalidade do Brasil não faria de Herculano um estrangeiro. podendo não o ser para um brasileiro: exemplos de como Herculano. a barreira que define o estrangeiro? Aí deparamos com a surpresa: a barreira é a própria língua. 1986. M. há locuções que num país se tornaram plebeias. 218). que o juízo de Herculano sobre a epopeia não depende de ele ignorar ou recusar a originalidade brasileira.Ideia de literatura brasileira com propósito cosmopolita 71 ardente nas suas paixões e céptica e fria nas suas opiniões e ideias? Como estabelecer aí uma harmonia entre o poeta épico e o público. Escreve Herculano: Pelo que respeita às formas externas do poema. ainda que Herculano defendesse que a epopeia seria possível no Brasil. recai aí a outra dúvida de que no princípio falei a V. p. o mesmo que dizer que desta não decorre nenhuma barreira que relativize ou desqualifique o juízo como juízo de estrangeiro. Pode sempre o estrangeiro avaliar bem a frase. 215) Sublinhe-se que o “aqui” é a Europa. O aspecto decisivo é que. que seria impossível aqui? (Herculano. nesse . 1986. antes. Embora a língua seja idêntica entre dois povos. E sublinhe-se. o próprio exercício do juízo havia de mantê-lo na mesma casa daqueles que escreveriam essa epopeia. p. Isto não é o mesmo que dizer que a originalidade do Brasil está de antemão subordinada pela consideração das exigências do género épico: é. Desde logo na diferença de estilos. Seguem-se exemplos de frases que a um ouvinte português pareceriam “baixas e triviais”. as comparações. I. antipoéticas. mas justamente de a considerar e estar convicto de que a pode descrever com exactidão no que à epopeia diz respeito. nesse juízo. acima de tudo. a verdade descritiva de um poema? Creio que não.

creio. porém. circunscrever a área de incompetência e ponderar o conjunto: a própria definição da crítica podia ser dada nesta tríade. todavia. que forma o propósito cosmopolita. Delimitar a barreira. das imperfeições de metro. a avaliação da epopeia defronta-se com a barreira da língua. coisas em que a crítica da Europa e a da América tem de concordar. nem fazer alastrar a incompetência à negação do juízo inteiro. . nem condução do reconhecimento da diferença à renúncia a um princípio de avaliação inerente ao próprio género e portanto independente das particularidades locais. incompetente”. É acerca dos prosaísmos. E não precisa rever a noção de epopeia. Outro aspecto. as comparações: “Das comparações tiradas de entidades privativas da América ainda a crítica da Europa está menos habilitada para ajuizar” (Herculano. 1986. considera o seu juízo “portanto. O que cabe no seu propósito é não deixar que o juízo se torne absoluto quando tem áreas de incompetência.15. Justamente a unidade poética do género circunscreve a área de incompetência ao mesmo tempo que a subordina: nem defesa da unidade intemporal e transnacional da língua para efeitos de epopeia. p. das incorrecções gramaticais” (Herculano. Herculano não postula sequer a unidade poética da língua – como não postula nenhum princípio de relativização poética em função da diferença linguística. já de antemão aberta à possibilidade da diferença local. A incompetência. quando é a mesma ou quando se presume a mesma. se torna nacional. A língua deixa o estrangeiro à porta: sendo a mesma. apesar de transnacional. Numa palavra. p. 2009 particular. Contudo. 218).72 Revista Brasileira de Literatura Comparada. 219). é também o que separa e o que pode separar sem deixar marca. É isto. é decorrente da estipulação de uma unidade prioritária: “Há. que. n. o paradigma do propósito cosmopolita na avaliação literária. 1986. Herculano não precisa proceder a uma expedição etnográfica para responder à solicitação de Pedro II: chega-lhe o conhecimento da possibilidade de a mesma palavra não ser a mesma palavra.

E isto é válido ainda quando a literatura se define sobretudo como assunto nacional. não há literatura moderna sem incompetência declarada do estrangeiro: é nela que se decide a possibilidade de a literatura se erguer acima das condições particulares em que surge. Ferdinand Denis. Mais radicalmente. quer dizer. Já a repetição de Denis pelo grupo da Niterói inaugurou a ideia de literatura brasileira do ponto de vista brasileiro. e aliás nem haveria necessidade de propósito cosmopolita sem reconhecimento da diferença. subordinada a uma ideia de Brasil. ao propósito cosmopolita. não no sentido superficial de ter . Repegando a antinomia de início. deve ter sido o primeiro a expor uma ideia de literatura brasileira do ponto de vista cosmopolita. subordinada a uma ideia de literatura. antigas ou modernas. O caso particular da Confederação dos Tamoios atesta-o bem. de particularização. O reconhecimento da diferença local é inerente. de enraizamento. é o reconhecimento da estabilidade e da transportabilidade das formas diante das modalidades de apropriação. Alexandre Herculano não foi apenas certeiro nas apreciações contidas na carta. mas deixou eloquente exemplo de crítica literária em que o propósito cosmopolita nem sequer é incompatível com a instigação à “nacionalização” da poesia do Brasil. já enfaticamente presente no ensaio sobre Gonçalves Dias. É na incompetência reconhecida mas circunscrita do estrangeiro que a literatura finalmente se cumpre como literatura. no seu Resumé.Ideia de literatura brasileira com propósito cosmopolita 73 O propósito cosmopolita é a voluntária subordinação a alguma noção de literatura pela comunidade dos que se reclamam dela: é a aceitação da impossibilidade de nacionalização plena das formas literárias. quer dizer. A própria dependência da noção de literatura nacional em que Herculano escreve as suas apreciações do poema de Gonçalves Magalhães comprova que o propósito cosmopolita se caracteriza pela dependência de uma noção de literatura capaz de tornar globalmente partilhável a própria ideia de enraizamento no local nacional. Gonçalves de Magalhães interiorizou Denis. por isso.

2009 assimilado a lição do estrangeiro. o segundo diz que “os temas. Apesar da adopção da França como matriz cultural. 2006. ao menos dificultam a expressão do caráter nacional na produção letrada do país”. aquele em que “tomava consciência da sua especificidade e se constituía plenamente como nação”. mas no mais decisivo de ter tornado doméstico o que era cosmopolita. isto é. n. Num trabalho recente. a influência da realidade local. . 121 et seq. b) a crença em que a representação da realidade local.15.). 2006. sendo por virtude dessa influência uma inevitabilidade. a força com que a natureza da terra guiaria a transformação completa da literatura em literatura plenamente brasileira. 115). p. Daí que a oposição antilusitana e anticlássica. E de facto. Franchetti mostra de forma convincente como a articulação desses postulados determinou decisivamente a historiografia e a crítica literária posterior (Franchetti. desde aí. para o ideal partilhável de uma literatura moderna formada pela livre agremiação das particularidades expressas em literaturas nacionais. p. de ter tornado dependente de uma pátria o que em si mesmo não tinha pátria – uma ideia de literatura. os dois postulados básicos de Magalhães. a saber: a) a confusão que dissolve toda e qualquer diferenciação literária em “carácter nacional” e a redução de todos os factores de diferenciação a um único.74 Revista Brasileira de Literatura Comparada. em nome das ideias de liberdade e de universalidade. estruturam claramente uma posição anticosmopolita: o primeiro é o do “instinto oculto”. determina a literatura consciente ou inconscientemente e de modo distintivo. que definem o romantismo de Magalhães. coincidissem num “gesto de afirmação nacional e política da nova nação” (Franchetti. que Franchetti identifica. as formas e as técnicas da literatura europeia se não obstruem. E pôde fazê-lo precisamente porque essa ideia era cosmopolita e se oferecia com a generosidade de quem trabalha para o bem comum. Paulo Franchetti mostrou como o programa literário de Magalhães depende da ideia de que o Brasil estaria num segundo momento da sua história. estruturou-se um dispositivo anticosmopolita de equívocos.

d) a confusão do projecto de construção de uma literatura nacional.Ideia de literatura brasileira com propósito cosmopolita 75 c) a confusão do local com o nacional. o processo pelo qual a nação se revela a si mesma pela sua literatura. Mas a oposição do local ao universal é sobretudo um instrumento do projecto de circunscrição nacional da literatura. O sintoma desse dispositivo de equívocos é a persistente oposição entre o local e o universal. na narrativa da “formação”. a crença num processo contínuo e irreversível – “instinto oculto”. facilita outra confusão. A estipulação do local por oposição ao universal representa sempre o privilégio do local. mostrando que querer ostentar certa cor local e querer tornar nacional uma literatura não são projectos necessariamente coincidentes. literatura e sociedade. do que está antes da literatura e que logo transforma o universal em mero repertório de temas e formas: é uma figura da oposição da realidade à literatura e da subordinação da literatura pelas representações naturalizadas da realidade. Nesse preciso ponto. a do propósito cosmopolita com o pendor para o universal. modernidade artística e modernidade social. quaisquer que sejam as formas com que historicamente se reedita. Nesse sentido. projecto de afirmação política e de natureza prescritiva. com a própria nacionalidade da literatura. consoante os vocabulários –. em direcção a uma etapa final de nacionalização definida pela harmonia entre literatura e terra. tornam-se polos em tensão de um mesmo processo da literatura em direcção ao nacional. cultura e nação. f) enfim. que já Machado denunciou. “tradição afortunada” ou “formação”. etc. Daí o efeito decisivo da sua persistência: local e universal. a oposição do local ao universal sobrevive por meio da oposição do consciente ao inconsciente e do voluntário ao involuntário: aqueles escritores que se distanciam do projecto de nacionalização da lite- . cuja fortuna brasileira decorre do obscurecimento da diferença entre a noção de literatura como projecção subordinada a um ideal cosmopolita de literatura e a noção de literatura como projecto subordinado a um ideal nacional de país construindo-se dotado de literatura “própria”.

há sempre uma linha de fuga por meio da qual Machado se torna escritor sem pátria. 2009 ratura brasileira ou lhe permanecem indiferentes acabam. 4. n. Mas como ler Machado sem levar em conta esse ideal. o mesmo é dizer. Desde logo. dissolve-o num processo que não admite exterior. Acresce que qualquer dessas ideias acaba por tornar manifesto que o propósito final de uma e outra é subordinar a inteligibilidade e avaliação da obra machadiana à possibilidade de certa comunidade que se designa como brasileira a declarar “inteiramente brasileira”. quer dizer. de domínio de uma doxa interpretativa inimiga da diferença cosmopolita: confundindo o cosmopolita com o universal. onde não há efectiva alternativa para o nacional. tarde ou cedo. de um modo ou de outro. ambas destinadas a bloquear a possibilidade de leitura cosmopolita da obra machadiana. a ausência conspícua de empenhamento no local desafia a imaginação e acaba por torná-lo prisioneiro inevitável da ideia do “nacional mais profundo” ou do “nacional inconsciente”. não apenas porque a obra machadiana se estruturou e destinou no âmbito definido por esse ideal. ou como nacionalistas involuntários ou como cultores de nacionalismo literário “mais profundo”. exigindo. . Daí que Machado de Assis seja o óbvio. projectando-se para um horizonte indeterminado no tempo e no espaço. É impossível ignorar que o ideal de entendimento universal inerente ao sonho emancipador da literatura moderna ruiu há muito. onde não há lugar para o estrangeiro. Mas. por nele ser harmoniosamente integrados. a sua reformulação. o incontornável ponto de crise do paradigma hegemónico de autorrepresentação da literatura brasileira. porém. esquecendo-o ou desprezando-o? Também não é possível. mas ainda porque é a esse mesmo ideal que a grandeza de Machado remete o leitor cosmopolita.76 Revista Brasileira de Literatura Comparada.15. Eis como a oposição entre local e universal se revela instrumento de poder.

1981. 117-118). Já não se estranhará. se inseriu nesse processo. logo a seguir. escreve que Machado “se embebeu meticulosamente da obra dos predecessores”. depois disso. de definitivo. e esta é uma das razões da sua grandeza” e “o segredo da sua independência em relação aos contemporâneos europeus. na vocação analítica de José de Alencar”. acaba explicando que se tratava de uma forma de manter na segunda metade do século XIX “o tom caprichoso” de Sterne e de criar algum eco do “conte philosophique à maneira de Voltaire” (Candido. em vez dos nomes de . que a “sua linha evolutiva mostra o escritor altamente consciente. Depois de dizer que “o que primeiro chama a atenção do crítico na ficção de Machado de Assis é a despreocupação com as modas dominantes e o aparente arcaísmo da técnica”. 26). precisamente porque estipula que a inteligibilidade e a originalidade de Machado decorrem do modo como ele próprio. v. notando que o escritor “cultivou livremente o elíptico.Ideia de literatura brasileira com propósito cosmopolita 77 Veja-se o exemplo de Antonio Candido. a “formação” de Machado como escritor decorre essencialmente em ambiente doméstico e o estrangeiro não é mencionado senão para sublinhar o alheamento e recusa que o excluem do processo. o fragmentário”. 2. o incompleto. no realismo sadio e colorido de Manuel Antônio de Almeida. limitando-o ao processo da “formação da literatura brasileira”: está a recusar o ponto de vista cosmopolita. que as descrições comparativas da página seguinte. Nessa descrição. e quando precisa. quase 10 anos depois da Formação. na orientação de Macedo para a descrição de costumes. isto é. “altamente consciente”. na Formação da literatura brasileira. Já quando fala de Machado nas Universidades da Flórida e do Wisconsin. que Machado “pressupõe a existência dos predecessores. do seu alheamento das modas literárias de Portugal e França” (Candido. que compreendeu o que havia de certo. 1995. p. Quando. Antonio Candido não está apenas a situar Machado no quadro nacional. p. o cosmopolita. dir-se-ia que o mesmo Antonio Candido se muda para o lado adverso.

crítico inteligente e informado. mas porque o protagonista dessa explicação não seria nenhum deles. seria a narrativa da “formação da literatura brasileira” – a narrativa que precisamente os constitui estrangeiros diante de Machado. nem sequer Machado. Dostoiévski. a do romance europeu e da noção de literatura que representa. Em vez disso. Como quer que seja. etc. Candido não apela a nomes familiares. que o dá consciente dos predecessores e a querer superá-lo. Proust ou Faulkner. Candido oferece duas descrições incompatíveis. em fazer que o estrangeiro.78 Revista Brasileira de Literatura Comparada. É aí que o propósito cosmopolita pode actuar. que consiste em procurar tornar inteligível e apreciável um escritor a quem quer que se interesse por escritores e literatura. não teria duvidado de que o seu auditório na Flórida ou no Wisconsin havia de permanecer razoavelmente indiferente se ele insistisse em explicar-lhes que a grandeza de Machado decorre de ter estudado Macedo e superado Alencar: não porque os desconhecesse. seja Sterne ou Voltaire. n. convoquem Kafka. diante da sua obra. o segundo. mas a uma tradição comum. A verdade. que o primeiro valoriza o local. ou seja. e este não admite o outro.15. nem valorizar o universal em detrimento estratégico do local: generosamente. 2009 Alencar ou Macedo. e a do “Esquema”. o que Candido faz não é diluir a originalidade de Machado de Assis tornando-o aceitável ou tolerável pelo estrangeiro ignorante das coisas brasileiras. o universal. e por isso é aí que a incompatibilidade entre as duas perspectivas salta inexorável. é que o segundo Candido não tem lugar para o primeiro. a da Formação. no “Esquema”. Gide. digamos assim. Para o mesmo fenómeno – a distância de Machado das “modas literárias” do seu tempo –. deveríamos interpretar a diferença do segundo ensaio à luz de um princípio de filantropia literária. Decerto Antonio Candido. não depare com nenhuma barreira que torne absoluta a sua condição de estrangeiro. O segundo Candido é melhor ou pior do que o primeiro? Dir-se-á que se complementam. polos necessários de qualquer descrição rigorosa da obra machadiana. que o dá a recu- . porém.

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perar uma linha do romance europeu que essas “modas” interromperam: a primeira desenha uma linha contínua, a segunda refere uma linha quebrada; a primeira postula uma evolução irreversível, a segunda acredita no resgate do anacrónico; a primeira está claramente circunscrita ao espaço nacional, como se essa linha contínua e irreversível se desenrolasse num compartimento estanque, ao passo que a segunda requer um espaço difuso de trocas e influências, não determinado nacionalmente. E, em cima de tudo, a primeira requer o conhecimento do processo da “formação” como condição da inteligibilidade de Machado, a segunda não só o dispensa como torna Machado um romancista muito mais relevante porque capaz de actuar criticamente sobre a tradição e a actualidade da situação literária europeia. A diferença em nada depende da oposição entre local e universal: em nenhum dos casos Machado é descrito pelo penchant para o universal ou para o local, é antes a mesma característica – o alheamento das “modas literárias” europeias – que num caso se define dotada de conteúdo nacional e no outro desprovida dele. A diferença entre os dois Machados é gerada pela diferença entre duas atitudes diante da situação e da tradição literária europeia, e na verdade expressão eloquente da diferença entre dois Candidos: o Antonio Candido da Formação é o crítico comprometido com a nação, empenhado em entregar aos brasileiros um Machado que os represente, por numerosos e sofisticados que sejam os mediadores dessa representação, enquanto o Antonio Candido do “Esquema” é o crítico comprometido com a literatura, na busca de um Machado que o estrangeiro possa chamar seu sem que o brasileiro se sinta espoliado.

5.
Que o primeiro Candido não pode desenvolver-se sem erradicar o segundo, e que o segundo apenas emerge na condição de destruir pressupostos básicos do paradigma crí-

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Revista Brasileira de Literatura Comparada, n.15, 2009

tico do primeiro – eis o que curiosamente se comprova com a peça final do edifício machadiano de Roberto Schwarz, o ensaio “Leituras em competição”: os dois géneros que Schwarz delimita, a “leitura nacional” e a “leitura internacional”, encontram afinal no próprio Antonio Candido exemplar praticante, senão mesmo o primeiro. De facto, para Schwarz, a “crítica internacional” define-se por ler Machado sem considerar a relação com a nação brasileira, mais propriamente, “crítica internacional” é toda a que se não ocupa de esclarecer a relação entre o carácter inconfundível da ficção machadiana e o carácter inconfundível da nação brasileira. Em contrapartida, “crítica nacional” não é a que se faz no Brasil, ainda menos a que é feita por brasileiros, mas a que tem nessa relação com a nação o centro de gravidade dos seus esforços, e que aliás Schwarz descreve ainda segundo o modelo da linha contínua, em progresso irreversível na direcção de uma meta, que se presume tenha sido atingida pelo desenhador da linha, seu principal praticante e intérprete, o mesmo Schwarz. Nenhuma surpresa, aliás. Isso basta para perceber por que motivo a “leitura nacional” é sempre referida no singular, ao passo que se sugere que a internacional poderia receber a designação alternativa de “várias não-nacionais” (Schwarz, 2006, p. 64). O ensaio é, na verdade, uma reacção a certa resenha publicada em Nova York e que, sem agressividade mas com assinalável contundência, danifica o sentido global do trabalho de Schwarz. Trata-se de “Master among the ruins”, de Michael Wood, professor de Princeton, que a New York Review of Books publicou por ocasião da publicação de novas traduções de Machado para inglês. Schwarz refere-se expressamente ao artigo, classifica-o de “resenha abrangente e consagradora do romance machadiano”, sublinha que apresenta questões difíceis e incontornáveis que definem a cena do debate entre a “leitura nacional” e a “leitura internacional”, e refere, numa proposição intercalada, quase despercebida, que Michael Wood “leva em conta a crítica brasileira”. Ora, sendo certo que a

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V. Wood, 2002. As novas traduções, publicadas pela Oxford University Press, incluem Memórias póstumas de Brás Cubas (1997) e Quincas Borba (1998), ambos por Gregory Rabassa, Dom Casmurro (1997), por John Gledson, e Esaú e Jacó (2000), por Elizabeth Powe. Outro livro incluído no rol dos resenhados é Machado de Assis: reflections on a Brazilian master writer (1999), organizado por Richard Graham, e que inclui contribuições de, entre outros, John Gledson e João Adolfo Hansen. Mas o ensaio efectivamente avaliado pela resenha é o de Schwarz.
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resenha dedica boa parte do seu espaço ao conjunto dos romances machadianos da segunda fase, não deixa de ser também uma resenha crítica da tradução inglesa do livro de Schwarz, Um mestre na periferia do capitalismo: e é essa a forma, porque não se encontra outra, de “levar em conta a crítica brasileira”.8 Para dizer logo tudo, aquilo que Schwarz apresenta sob a égide da distinção entre “leitura nacional” e “leitura internacional” são elaborações em resposta a observações críticas que Michael Wood coloca ao trabalho crítico de Roberto Schwarz, mais precisamente uma restrição fundamental, como já veremos. Por que então graduá-las em interpelação crítica da “leitura nacional”? Claro, já o deixei dito atrás, Schwarz considera-se o terminus ad quem de uma linha de leitura que, lenta mas progressivamente, devolveu o verdadeiro Machado ao Brasil, resgatando-o de décadas de fortuna crítica irrelevante. Mas há mais em jogo: na exacta medida em que a restrição de Wood não é periférica, nem acessória, mas fundamental, Schwarz não pode reparar o dano causado senão radicalizando a noção de “leitura nacional” ao ponto de fazer dela uma barreira preservativa contra o estrangeiro. Aí se confirma, então, e em pleno, como a ideia cosmopolita, indo além da oposição entre universal e local, é a única à altura da exigência de liberdade e de inteligência que a obra de Machado coloca aos leitores. Para o compreender, retenhamos a passagem em que Schwarz se refere à resenha:
A certa altura do seu ensaio, Wood, que leva em conta a crítica brasileira, propõe uma dissociação sutil. As relações com a vida local podem existir, tais como apontadas, sem entretanto esclarecer a ‘maestria e modernidade’ do escritor. Ou, noutro passo: seria preciso interessar-se pela realidade brasileira para apreciar a qualidade da ficção machadiana? Ou ainda, a peculiaridade de uma relação de classe, mesmo que fascinante para o historiador, não será ‘um tópico demasiado monótono para dar conta de uma obra-prima?’ (Schwarz, 2006, p. 64).

de resto inteiramente certeira. por que sombrio. Em primeiro lugar. quando. e é a sua colocação diante da obra de Machado e diante do ensaio de Schwarz. completa-se com esta outra. and writes repeatedly of the work’s comical and farcical effects. ecoa nessa pergunta a questão de Brás Cubas perante o próprio livro: é a questão das rabugens de pessimismo e da possibilidade de a partir delas se distinguir a forma livre tal como praticada pelo autor defunto. o conteúdo dela e a especificidade da pergunta implícita na observação crítica. respondendo a Capristano de Abreu e Macedo Soares. e que seria. que lhe dá a importância decisiva que obrigou à reacção de Roberto Schwarz. mas também não é inteiramente fiel à resenha. no contexto da resenha de confronto do ensaio de Schwarz com a obra de Machado.” A observação. n. já agora parafraseando Brás Cubas: por que cómico. que Schwarz oblitera: “What Schwarz´s book doesn’t tell us is why the novel [Memórias póstumas de Brás Cubas] is so funny as well as so bleak. Com efeito. But his thesis is a little grim and unrelieved. 2002). logo a seguir: “Schwarz himself is clearly alert to the fun. ecoa as palavras de Machado no prólogo da 4. se sombrio.ª edição. que está longe de vir dos seus modelos. Seria interessante. 2009 Não é uma paráfrase inteiramente falsa. Perde-se sobretudo a direcção do comentário de Wood. se cómico? Ora. reitera Brás Cubas: “O que faz do meu Brás Cubas um autor particular é o que ele chama ‘rabugens de pessimismo’. even when the subject is not slavery” (Wood. não se trata esta de uma pergunta qualquer. O que se perde na paráfrase? Decerto a noção de que Wood pressente um crítico severo e carrancudo. essas observações e perguntas encontram-se no texto de Wood. Além disso. ou melhor. por mais risonho que pareça. um sentimento amargo e áspero. Há na alma deste livro.” O passo é muito conhe- .82 Revista Brasileira de Literatura Comparada. E é depois disso que Michael Wood formula as interrogações que Schwarz cita e parafraseia.15. mas são formuladas na dependência dessa consideração crítica. que toca o cómico para o dissolver numa tese monótona. mas ainda assim pouco relevante.

a cadência. 331-337). para o que agora nos interessa. Se levarmos a sério a narrativa de Schwarz da “leitura nacional”. a reiteração da questão do cómico só pode significar que. não se trata apenas de uma questão importante a que o livro de Schwarz não responde: é uma questão que o livro de Schwarz não consegue impedir que ressurja. 9 cido e. se sombrio.9 mas é. p. as elites. crucial para entender a relação de Machado com a figura de Brás Cubas. inusitada. a escravidão. capazes de dar figura inteligente aos descompassos históricos da sociedade brasileira” – então. galgaram o século e foram impelir um espírito americano desocupado a reformular a pergunta de sempre: como que a usá-lo para nos trazer a todos de volta ao decisivo. enfim. desde a recusa do “clássico nacional anódino” à deslocação do centro para “o processamento literário da realidade imediata”. ao menos para o crítico americano. o romancista foi transformado de fenómeno solitário e inexplicável em continuador crítico e coroamento da tradição literária local”. retivermos a conclusão de que “passo a passo.Ideia de literatura brasileira com propósito cosmopolita 83 Permito-me remeter o leitor interessado para a análise deste prólogo que levo a cabo em Autobibliografias (Baptista. sim. se considerarmos que a meta intermédia desse processo em curso é descrita como etapa em que “a composição. Hoje. pode dizer-se que não há leitor competente que não saia da leitura colocando essa pergunta. aliás. no tom de generosidade intelectual e até de concordância complacente que assume. muito in- . digamos assim. onde se decide a originalidade das Memórias póstumas de Brás Cubas: e justamente na ligação. o lugar primordial. cansados de tanta apropriação historicista e sociologizante. A resenha. todo esse processo é inteiramente irrelevante: não lhe resolve o problema da originalidade tal como o recebe da leitura do romance e tampouco o substitui por outro. Dir-se-ia que Brás Cubas e Machado. em “idealizador de formas sob medida. sobretudo. e a colocação provavelmente decide a competência de qualquer leitor: por que cómico. se. redunda em dizer: “Sim. se cómico? Em segundo lugar. por que sombrio. de resto. 2003. entre a forma livre e a filosofia. e a textura do romance machadiano foram vistas como formalização artística de aspectos peculiares à ex-colônia”. pois.

nem brasilianista. mas afinal. 2009 teressante.15. pois. a essa narrativa que Wood colocava restrições. e brandamente repreendendo-o. num processo intelectual demorado – num país. assim se defende. Produzir a verdadeira e exacta história da crítica machadiana. Por outras palavras. o crítico estranho toca numa tradição. como Schwarz. n. porque cómico se sombrio. Por quê? A razão é óbvia: para armar a defesa. homogéneo e irreversível que Schwarz agora definitivamente lhe imprimiu. Mas a defesa tem a ambiguidade própria dos gestos em pleno desastre. Talvez sem se aperceber disso. lendo-o. também chamada “leitura nacional”. trabalha dentro de um paradigma que se define a partir dessa narrativa: ser declarado desnecessário. diga-me. sobretudo sem a intenção delineadora de um processo. estrangeiro que permanece duplamente no exterior: tocando num livro. irrelevante. e então o crítico severo e carrancudo sai do recolhimento e explica. Não há nenhuma inocência na precisão com que Schwarz sublinha que Wood não é “especialista em Machado. além de deprimente e monótono. Mas a consequência não podia deixar de ser precisamente essa para quem. Dava-se dispersa. contínuo. em passagens particulares. aqui e ali. até.84 Revista Brasileira de Literatura Comparada. o procedimento de Schwarz consiste em formar e radicalizar a narrativa que percebe posta em causa por uma resenha que apenas implicava um livro. que nem tem ideia de que tal coisa pudesse ser inventada. dir-se-ia. Justamente a necessidade de a armar . a bem dizer despiciendo. porque sombrio se cómico?” Ora. entrevistas ou resenhas. Não era. mas um crítico e comparatista às voltas com a latitude do presente”: é o mesmo que dizer que esse crítico é alguém de fora e que está por fora. fazendo o reparo de que não responde à questão do cómico sombrio. é o principal meio de defesa contra a crítica que a põe em causa: é o meio de mostrar ao elemento hostil a dimensão e a força daquilo em que está a tocar.. essa narrativa da evolução da crítica a que Schwarz procede não tinha ainda alcançado essa forma sintética e expressiva de narrativa teleológica..

pela restrição das possibilidades da “internacional”. nessa distinção. propondo uma espécie de solução de compromisso em que o “leitor internacional” pudesse tornar-se o mais nacional possível e depois “proveitosamente voltar para casa e comparar”. A defesa aberta da superioridade da “leitura nacional” é o melhor testemunho da incompatibilidade das interpretações centradas no problema nacional com a noção moderna de literatura e. se a “leitura nacional” se definir. Não apenas a contundência da restrição que formula é inexorável. porque “a cor do passaporte e o local de residência dos críticos não são determinantes”. há alguma eficácia argumentativa10 e até política: sempre se deu mais um passo para delimitar o “nosso” por oposição ao alheio. Esse compromisso redunda em “coexistência pacífica”. a sua fortuna no mundo de língua inglesa pode aumentar – o que implica inevitavelmente a desgraça da “leitura nacional”. ocupando-o e governando-o legitimamente. 2009. sem prejuízo de aprenderem ou receberem alguma coisa um do outro. e o “leitor nacional” tivesse um “toque de comparação extranacional” (Wood. com a dimensão emancipadora e a liberdade intelectual que lhe são inerentes. 2009). para barrar o acesso do estrangeiro ao “nosso”. mas americano. para o estrangeiro que se interessa por Machado mas não se interessa pelo Brasil. porque a própria condição em que a defesa é armada e usada decorre já num cenário exterior ao nacional e em que o nacional como valor próprio não tem sentido. O estrangeiro que se integrou na “leitura nacional” representa o êxito do paradigma nacional. no sentido diplomático do termo: cada um no seu território. porque incapaz de entender tudo o que está em causa. e americano de Princeton. ao cabo. 10 revela a vulnerabilidade da arma. Não há lugar. criando por si só um estado de crise em todo o edifício da “leitura nacional”: esse estrangeiro representa um poder que suplanta as narrativas teleológicas para consumo doméstico. Na medida em que se trata de impor uma barreira que deixa o estrangeiro à porta. p. recusa declarar que a posição de Roberto Schwarz é coerentemente incompatível com qualquer “leitura internacional” de Machado. A precisão de que o “nacional” não tem de coincidir com o estrangeiro. como Schwarz a define. 83). em particular. Mas precariamente. a força e capacidade de atrair os outros ao espaço doméstico e principalmente representa . Essa perspectiva. Essa condição é inconcebível para Schwarz. Daí a relevância de o estrangeiro não ser qualquer. denuncia o carácter profundamente anticosmopolita e discriminatório da distinção: o estrangeiro que se integra no nacional é tão-só o que se sujeita às regras que definem o nacional. Machado foi mais uma vez traduzido para inglês.Ideia de literatura brasileira com propósito cosmopolita 85 Veja-se o modo complacente e um tanto defensivo como Michael Wood reagiu no artigo “Entre Paris e Itaguaí” (Wood.

n. Campinas: Unicamp. no Rio ou em Nova York. ou da ideia de certo governo: mas presume-o no texto mesmo de Machado. 13. a que ecoa o espaço primordial da originalidade das Memórias póstumas: por que cómico. _____.15. Eric. Daí que o propósito cosmopolita seja aquele que. The Centennial Review. se cómico? Sem ignorar o espaço da sua incompetência. não obstante. alguma força requer dos leitores a formulação da mesma pergunta. representa a total impossibilidade de governar os interesses. se sombrio. por que sombrio. Referências AUERBACH. East Lensing. 2005. Transl. do exterior ou do interior. O livro agreste. n. 2009 uma promessa de viabilidade de domínio sobre todos os que se interessam e venham a interessar-se por Machado. by Mary and Edward Said. v. os procedimentos e as razões daqueles que se dedicam à leitura. BAPTISTA. as paixões. 1. Pressupõe o governo do texto como promessa de inteligibilidade e prazer que o texto dirige à inteligência e à paixão do estrangeiro. ou é hospitaleira com muitíssimas condições: afinal. ao ensino e à divulgação da obra machadiana: não tanto aqueles que ameaçam a nacionalidade de Machado. O estranho estrangeiro. Philology and Weltliteratur. winter 1969. De um modo ou de outro.86 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Autobibliografias. apenas aceita aqueles que derem garantias sólidas de não perturbarem a segurança interna. . como a questão da epopeia para Herculano. Campinas: Unicamp. 2003. a competência do leitor cosmopolita reside na capacidade de perceber a relevância e a urgência dessa pergunta e fazer apelo à hospitalidade incondicional. são exemplos disso. o inassimilável. mas aqueles que exemplificam que essa ameaça é não só inerente à obra machadiana como é por ela procurada desde o início. há um século ou hoje. A “leitura nacional” não é hospitaleira. Abel Barros. não abdica desse governo. A questão do cómico sombrio.

ed. 83. _____.htm>. . Vários escritos. 46. Gonçalves de Magalhães e o Romantismo no Brasil. Entre Paris e Itaguaí.com. 2. dez.Ideia de literatura brasileira com propósito cosmopolita 87 CANDIDO. 1981. 75. FRANCHETTI. São Paulo: Globo. v. 1986. Leituras em competição. introdução e notas de Jorge Custódio e José Manuel Garcia. Esquema de Machado de Assis. Schifaizfavoire – Dicionário de português. In: _____. Lisboa: Editorial Presença. Michael. 2006. 2006. 2009. Master among the ruins. Alexandre Herculano. Novos Estudos Cebrap. Belo Horizonte: Itatiaia. 6. 1993. The New York Review of Books. Paulo. n. SCHWARZ. br/obra/literatura/adulto/dicionario/framegranda_a. Edição crítica.marioprataonline. mar. PRATA. New York. 1995. ed. Mário. _____. V. Antonio. Roberto. 18/07/2002. Disponível em: <http://www. Opúsculos. São Paulo: Duas Cidades. São José do Rio Preto. Organização. n. WOOD. São Paulo. São Paulo. Revista de Letras. jul. 3. n. HERCULANO. Novos Estudos Cebrap. Formação da literatura brasileira.

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questionando o lugar que ele ocupa no espaço nacional. literatura brasileira contemporânea. The analysis of these novels will discuss some elements which form the basis of contemporary figurations of the Amerindian in the Brazilian literature. in two contemporary brazilian novels: Orfãos do Eldorado (2008) written by Milton Hatoum and Nove Noites (2001) by Bernardo Carvalho. analyzing the relation between identity and alterity which is built-in. contemporary Brazilian lit- terature. A análise desses textos romanescos visa a discutir os elementos que fundamentam a figuração atual do ameríndio na literatura brasileira.89 O ameríndio como personagem do Outro na literatura brasileira contemporânea: órfãos do Eldorado e Nove noites Rita Olivieri-Godet* resumo: Este trabalho propõe-se a examinar a representação do ameríndio e a relação entre identidade e alteridade que lhe é consubstancial a partir da leitura de dois romances contemporâneos brasileiros: Orfãos do Eldorado (2008). in relation with a reference group which belongs to the occidental society model. These two stories choose the Amerindian as a subject of alterity. de como instância de alteridade. ameríndio. abstract: This work aims at the exploration of such representation. França. palavras-chave: alteridade. em relação a um grupo de referência que se inscreve no modelo da sociedade ocidental. keywords: alterity. scrutinizing the position that it occupies in the national space. Je crois que l’imaginaire a autant de réalité que le matériel Georges Duby et Guy Landreau. Dialogues Université Rennes 2. * . amerindian.

ver a obra de Janet M. 2007).90 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Critiques anthropologiques A produção literária contemporânea. a representação do ameríndio A esse respeito. que nos ajuda a organizar nosso pensamento crítico (Hutcheon. inaugura novas linhas de força temáticas e formais. Utilizo o termo “poética” no sentido que lhe atribui Linda Hutcheon: uma estrutura teórica aberta.1 Na dialética do “selvagem” e do “civilizado” que atravessa o processo de construção das identidades plurais e problemáticas das Américas. Francis Affergan. como é o caso da representação do índio como instância de alteridade. gerada num contexto multiétnico. Paterson (Paterson. explorando uma geografia imaginária da diferença cultural. Os mecanismos especiais que eles acionam para dizer nosso tempo induzem a uma espécie de arqueologia das culturas e da linguagem. Il s’articule sur ses propres déterminations et s’accompagne toujours de ce qu’on pourrait appeler ses attributs. prêt à s’assujettir au regard et au traitement scientifique de l’observateur. 1 . p. o fazem para questionar o lugar que nele ocupa o “estrangeiro de dentro”. uma regra ou uma lei. crítica literária e teoria da cultura. mas antes de refletir sobre signos formais. temáticos e estéticos. 2004). n. ainda que esta vertente não se constitua numa exclusividade nacional (Godet. as narrativas que se inserem nessa poética da alteridade procuram alargar o imaginário nacional para além de suas fronteiras. 1991. E. 32). 2009 L ’Autre n’est pas un objet vide et indéterminé. quando se restringem ao espaço nacional. Assim. comuns a um conjunto de textos que participam da prática literária contemporânea e que tendem a exacerbar a confrontação com a alteridade. plurilinguístico e multicultural de nossas sociedades urbanas atuais. Não se trata de procurar um invariante abstrato. Meus trabalhos mais recentes refletem sobre uma “poética da alteridade” como uma das modalidades da ficção contemporânea brasileira. abrindo-se a uma prática metadiscursiva que lhes permite fazer interagir criação. em mutação.15.

de Bernardo Carvalho. que a produção contemporânea não cessa de revisitar. examino a questão numa perspectiva comparatista que inclui romances quebequenses e argentinos. sem. baseado no mito da renovação. ver a excelente introdução de Jean Morency à sua obra Le mythe américain dans les fictions d’Amérique (Morency.. no qual imaginários “arcaicos” coexistem com imaginários planetários. seria redutor se ater às questões de fronteiras culturais que os romances de Hatoum levantam sem considerar a relação com a experiência íntima da alteridade que elas implicam.3 Orfãos do Eldorado: a alteridade ameríndia entre mito e história A obra de Milton Hatoum interroga as formas de interagir com o outro que conduzem a processos de hibridismo. de Milton Hatoum. que se articula sobre valores antitéticos entre espírito europeu e mundo selvagem americano. “La poétique de l’altérité et la représentation de l’Amérindien dans la fiction des Amériques”. 1994). atravessados por imaginários culturais diversos. A representação das relações identidade/alteridade a partir da escolha do ameríndio como personagem do Outro tem a ver com a experiência do espaço e a temática da errância. . autorizam certos críticos a postular a existência de um cenário mítico americano. Este trabalho pretende explorar essa representação e a relação entre identidade e alteridade que lhe é consubstancial a partir da leitura de dois romances contemporâneos brasileiros: Órfãos do Eldorado (2008). Seus narradores investigam as construções identitárias do sujeito e da comunidade a partir do lugar fronteiriço que ocupam entre familiaridade e estranhamento. escamotear seus aspectos traumáticos. Essas questões atravessam a produção literária recente no Brasil e nas Américas. No entanto. cruzando experiência vivida e memória..O ameríndio como personagem do Outro na literatura. e Nove noites (2001). 91 Sobre o assunto. 2 Num artigo ainda inédito. 3 ocupa um lugar central. no entanto. no contexto atual de nossas sociedades.2 O questionamento da figuração do ameríndio como “estranho estrangeiro de dentro” ajuda-nos a compreender o lugar que as sociedades urbanas modernas reservam a esses povos. Esses elementos constitutivos dos textos fundadores das literaturas americanas.

híbrida. o autor aproxima o mito amazônico da Cidade Encantada do mito do Eldorado para interrogar o diálogo entre as culturas ameríndia e ocidental. comentando cartas de Euclides da Cunha nas quais se refere a essa cidade (Hatoum. Com a publicação de Orfãos do Eldorado. no seio da sociedade amazonense. circulando entre os espaços da cidade e da floresta. marcado por referentes culturais libaneses. Essa estratégia confere uma dimensão universal à obra do autor amazonense e possibilita explorar as várias facetas de uma região emblemática. e o presente do país natal. situado entre dois mundos: a memória do passado herdado da família.15. sustentado pelas elites. n. Em Orfãos do Eldorado (2008). Relato de um certo Oriente (1989) e Dois irmãos (2000). os restos da sociedade nativa entre ‘as roupagens civilizadoras’”. A partir de Cinzas do norte (2005).92 Revista Brasileira de Literatura Comparada. escreve Hatoum. Desde o início de sua produção. sondando principalmente o lugar fronteiriço dos narradores. os personagens pobres e explorados dos ameríndios se tornam mais visíveis. o imaginário ameríndio sempre fez parte do universo romanesco do escritor. Milton Hatoum continua a explorar as relações interculturais. construída a partir de múltiplas interações culturais entre as quais se destacam elementos da problemática coabitação entre a cultura tapuia e a modernidade transplantada. dando destaque para a figura do ameríndio como instância da alteridade. de uma forma muito mais ostensiva. que colocam em cena o diálogo entre o mundo amazônico e a imigração libanesa. Presença constante. sem cair na armadilha de um regionalismo redutor. “Em Manaus ainda hoje se encontram. 2000). 2009 praticando a passagem da etnicidade ao estranhamento. A narrativa segue a trilha das . recentemente publicado. Cidade compósita. examinando os efeitos de um projeto de modernidade. permitindo assim o alargamento a uma perspectiva subjetiva. mas discreta. sobretudo nos seus dois primeiros romances. tematizada no quarto romance do autor. e terminam por ocupar um lugar cada vez mais central no universo fictício do autor.

mas do mesmo modo estiolamento. Arminto Cordovil. uma busca inútil de um lugar habitável (Harel.O ameríndio como personagem do Outro na literatura. na busca de si mesmo e do sentido da sua trajetória existencial. trocas. o processo de construção identitária do narrador-personagem se realiza por meio do confronto com a alteridade paterna e da atração pela alteridade ameríndia. o relato de sua paixão por Dinaura e a reconstrução do passado de sua família têm como pano de fundo a história local (a guerra dos Cabanos) e mundial (as duas Grandes Guerras). levando em consideração tanto os processos de aculturação resultantes de políticas colonialistas quanto os cruzamentos culturais que possibilitam o renascimento de tradições em outros contextos. ele recusa-se a idealizar a relação com a alteridade ameríndia. que entrelaça memória pessoal e coletiva. a narrativa constrói as complexas relações de Arminto com o espaço. Da mesma forma que o romance se afasta de uma representação idealizada do processo de mestiçagem cultural. impregnação.. a narrativa encena uma construção identitária sofrida. urbano ou natural. sublinhando a complexidade das trocas entre culturas diferentes e evocando a história violenta de seus ganhos e perdas. examinando o sentimento de pertença de um sujeito desestabilizado.. Revisitando o percurso da infância à idade adulta. seja ele familiar. cruzando história do indivíduo e da coletividade. aculturação. 93 anteriores. durante o qual Arminto transita por um território cultural ambivalente. O lugar fronteiriço ocupado por Arminto permite explorar as relações de resistência ou de abertura ao Outro. Figuração que interroga as relações interculturais. Entre alteridade rejeitada e alteridade desejada. 2005) por um sujeito atravessado por imaginários diversos. . ao escolher se dedicar às complexas interações culturais pelo viés do drama íntimo de um narrador. Assim. história e mito. Em Órfãos do Eldorado. Orfãos do Eldorado questiona o lugar da cultura ameríndia no seio da sociedade brasileira a partir da experiência amazonense: fenômenos de imbricação mas também de depauperação culturais.

Mas é por Dinaura que ele se apaixona loucamente. 2009 A narrativa de Hatoum inspira-se no mito ameríndio da Cidade Encantada para tecer os fios entre mito. morta ao dá-lo à luz. questionando o processo de transmissão da tradição e da autodeterminação a partir de dois planos: o individual (que diz respeito à vida do narrador e da relação com seu pai) e o coletivo (que trata das marcas da presença da comunidade ameríndia e de sua relação com a sociedade amazonense). Amamentado por uma índia tapuia. o discurso literário reinventa mito. Mais uma vez. traduz para ele os mitos e as lendas contadas pelos índios. Memória de uma vida. abrindo-lhe as portas à sensibilidade ameríndia. A intriga romanesca está centrada na crônica da vida do narrador-personagem. entre os quais o Eldorado. história e memória.94 Revista Brasileira de Literatura Comparada. n. ele foi criado por uma outra índia. que não conheceu sua mãe. O menino cresce rejeitando todo tipo de identificação com o universo do pai. empregada que faz todo tipo de serviço. As relações entre pai e filho são frias. Arminto tem a impressão de que seu pai o culpabiliza por essa morte. Florita. a do narrador-personagem Arminto Cordovil. . trata-se de uma questão de herança. convite à viagem. aproxima-o das crianças indígenas da aldeia situada nas cercanias da cidade. história e memória. Desempenha um papel de mediadora. rico proprietário de cargueiros que transportavam mercadorias no rio Amazonas. no sentido amplo do termo. Este conta sua história a um interlocutor cuja identidade só é revelada no final. Florita interpreta seus sonhos e desejos. à qual ele é muito ligado e que o iniciará à cultura ameríndia e à vida sexual. criando pontes entre a floresta e a cidade.15. desta feita. Florita é uma tradutora. Ela introduz Arminto no universo ameríndio. de origem e destino misteriosos: índia ou mestiça. a que diz respeito à própria narrativa. num posfácio no qual a voz autoral dá a conhecer sua fonte: o que lemos é uma história que lhe foi contada pelo seu avô. Arminto Cordovil. uma das moças pobres acolhidas pelo orfanato da cidade. Lugar de troca por excelência.

p. “uma cidade que brilhava de tanto ouro e luz” (Hatoum. O Eldorado naufraga.. o leitor não o saberá jamais. a mansão branca de Vila Bela. 64). p. pai de Arminto. ou Manoa. a cidade prodigiosa que atiçava os sonhos febris dos navegantes e conquistadores europeus ao mesmo tempo que se furtava a todo esforço de localização”. 64). desaparece pouco tempo depois da morte de Amando. Pertencem à História e à memória coletiva” (HATOUM. 67). Sugeriu que eu fosse atrás de dom Antelmo. que depois do seu desaparecimento se transformou em lenda para os habitantes da cidade. Arminto gasta a fortuna herdada do pai e vende todas as suas propriedades: a casa de Manaus. Dinaura. 106). mas também da ameríndia e de muitas outras. Arminto sonha com a mulher da mesma forma que a população pobre da cidade sonha com a Cidade Encantada. era sinônimo de Eldorado. leitora de romances e igualmente sensível ao mito indígena da Cidade Encantada. 95 Apresentação do romance pela editora (orelha do livro). . 2008. não cessa de ter visões e sonhar com ela. 2008.O ameríndio como personagem do Outro na literatura. que teve as plantações de cacau destruídas pelas pragas (Hatoum. 2008. p. Ele conhecia os segredos do fundo do rio e podia conversar com Uiara. a utopia de um lugar ideal persiste no imaginário amazônico: A Cidade Encantada era uma lenda antiga. região que alterna períodos de fausto e de declínio. como se a felicidade e a justiça estivessem escondidas num lugar encantado. chefes de todos os encantados que viviam na cidade submersa (Hatoum. a mesma que eu tinha escutado na infância. Ulisses Tupi queria que eu conversasse com um pajé: o espírito dele podia ir até o fundo das águas para quebrar o encanto e trazer Dinaura para o nosso mundo. viajam e estão entrelaçados. 99. a fazenda Boa Vida.. p. Mas o mito indígena da Cidade Encantada é atemporal e persiste. Surgia na mente de quase todo mundo. Este último. 5 ela pode ser sua madrasta ou sua irmã. Ver também p. obcecado pelo desejo por essa “mulher encantada”. 4 “Mitos que fazem parte da cultura indo-européia. assim como culturas. confundindo-se com o mito do Eldorado: “Houve tempo em que Manaus. 2008. o grande curandeiro xamã de Maués. Porque mitos.4 Mitos e culturas viajam e se entrecruzam.5 Contrastando com a miséria que assola a cidade real. A crônica da decrepitude moral de Arminto e da decadência de uma família é também a da Amazônia.

o romance projeta a errância de mitos e de textos. Se o romance glosa. a narrativa romanesca gera uma tensão entre a voz individual e a voz coletiva: discurso da utopia e contradiscurso. criando analogias com o próprio percurso do narrador-personagem. nenhum “ailleurs”. mãe-d’água. é um convite à viagem. Um exemplo marcante da escrita em palimpsesto do romance é o reaproveitamento do poema de Konstantinos Kaváfis “A cidade” (1910).96 Revista Brasileira de Literatura Comparada. do poema homérico aos de Konstantinos Kaváfis (além de “A cidade”. nenhuma esperança: “Sempre chegarás a esta cidade. relatos e versões de mitos errantes que se misturam e que constituem o imbricado tecido narrativo do romance. 7). que se alimenta tanto de fontes populares quanto da tradição literária. sonho e pesadelo. Poema que recusa todo tipo de promessa de um outro lugar possível. este poema desencantado está em consonância com a atmosfera desoladora que o romance instaura. à deambulação). ele dialoga igualmente com a tradição literária que recria esses mitos (Mário de Andrade. em oposição ao anterior. do ponto de vista do texto poético que paira sobre o romance. Escrito em palimpsesto. passando pela figura descentrada de um certo cavaleiro que percorre as estradas da Mancha em busca de sua Dulcineia. que lhe serve de epígrafe. Homero). que é a negação mesmo de uma certa ideia da literatura como espaço liberador e de refúgio: “Não encontrarás novas terras. nem outros mares”. num intenso trabalho intertextual que traz à tona a memória literária. sereia. Não esperes ir a outro lugar. José de Alencar. 2008. 2009 Uiara. alimentando-se assim de fontes populares que fazem parte da memória coletiva.15. Por meio da combinação de elementos heteróclitos na sua composição. citado na epígrafe./ Não há barco nem caminho para ti” (Kaváfis apud Hatoum. p. existe um diálogo implícito com “Itaca” que. versões . nenhuma possibilidade de viagem. n. Retomado pelo texto como “o poema grego” que Estiliano está traduzindo. Não há portanto. Figurações da errância física e mental que o romance acolhe.

. 2008. até piranha frita” (Hatoum. 86). 2008. No chão. narrativa de busca e de perda.. traduções “traidoras”. de diferentes visões de mundo. espaço de representações memoriais. p. p. máscaras de rituais e cacos de urnas funerárias de tribos indígenas que já não existiam (Hatoum. por outro lado.O ameríndio como personagem do Outro na literatura. O tempo presente é o do sonho que se transforma rapidamente em pesadelo. no qual a história destrói o mito. no qual a realidade não cessa de desmentir as promessas de felicidade. 6 de mitos. da miragem à matéria do real. Na trilha de Mário de Andrade. O naufrágio do navio Eldorado constitui-se num dos símbolos eloquentes do fracasso dessa política. pela violência. Quando passamos do mito à história. seguindo o modelo do capitalismo ocidental. sente dificuldade em encontrar seu lugar num mundo que está desaparecendo. Comia tudo. Ele recusa a identificação à sua família. autor que o romance homenageia fazendo alusão à célebre viagem do modernista à Amazônia. pelas doenças. Sua narrativa fala de um desejo que não pode ser satisfeito. que representa o projeto de modernização do país baseado numa política de colonização (massacre e aculturação dos índios). narrativa de uma impossível construção de plenitude identitária. a visão de um território faustuoso e cheio de promessas de felicidade transforma-se em ruínas. caboclos. tempo que deixa transparecer os sinais de enfraquecimento da cultura ameríndia: A sala parecia um museu pobre e improvisado. em processo de plena degenerescência. o narrador conduz o fio do discurso e é por meio do seu olhar desencantado que o leitor descobre o universo amazônico. artesãos e compositores de toadas. marcado pelo desregramento econômico e moral. . No entanto. Arminto é um dos numerosos órfãos do Eldorado aos quais o título do romance faz alusão. E não se cansava de anotar o nome de plantas e bichos. 39). fazendo-os coexistir no espaço do texto. Arminto encontra-se impossibilitado de restabelecer os laços com o passado que povoou o imaginário de sua infância.6 Hatoum fagocita e transforma elementos diversos. articulação de diferentes práticas discursivas. peças de cerâmica. 97 “O escritor puxava conversa com todo mundo: índios.

num regime de semiescravidão. A decadência do povo ameríndio está principalmente representada pelas personagens femininas. teria escolhido ir viver junto com ele no fundo do rio. 42). mas que sofrem. Na verdade. suas possíveis interpretações e a realidade. ela termina sempre por mostrar sua face. mascaradas sob a aparência de proteção. um processo de aculturação que começa pela proibição de falar sua própria língua. Florita. vítimas da miséria e da doença. 2008. A representação do espaço constrói um cenário mórbido por onde circulam personagens como Denísio cão. vendidas ou trocadas por mercadorias para servir aos comerciantes de Manaus ou aos homens políticos (Hatoum. são encenadas pela narrativa. o romance denuncia a exploração sexual das mulheres e meninas ameríndias. Outras formas de opressão. p. o barqueiro. em alusão ao barqueiro infernal. para poupar o menino Arminto. A violência é um dado consubstancial a essa realidade. deturpa suas últimas palavras. no entanto.98 Revista Brasileira de Literatura Comparada. a caracterização dos personagens e a representação do espaço constroem uma visão violenta. como Florita. Nela assiste-se ao suicídio por afogamento de uma jovem índia. Há ainda as ameríndias do orfanato que as freiras protegem do tráfico sexual. a mulher se suicida por ter perdido seu marido e seus filhos vítimas da miséria e da doença. Assim como na obra de Márcio Souza. tirânica e mórbida da sociedade e do território amazônico. em Orfãos do Eldorado. n. violentadas. que vem . que a liberará de sua vida de miséria material e afetiva. traduzindo-as por um relato perfeitamente integrado ao universo cultural e mítico ameríndio: a mulher.15. moças sequestradas. O momento dessa revelação. como as que sofrem as moças. outro grande escritor amazonense. órfãs na sua maioria. próximo da morte de Florita. no final do romance. Mesmo dissimulada. atraída por um ser encantado. 2009 Desse modo. é também o da confissão de sua imensa solidão. A cena inaugural do romance é representativa das relações que estabelece entre o mito. acolhidas pelas famílias da cidade para servir de empregada doméstica.

A memória do texto de Ferreira de Castro se faz presente igualmente pela alusão a um incêndio num seringal. episódio que fecha o romance do escritor português. Mil e uma histórias que sobrevivem e se metamorfoseiam nos relatos literários. 95). “Inferno e barbárie”7 são a outra face da floresta: O paraíso estava aqui. p. . que nos remete ao incêndio do seringal Paraíso. e eu não esqueci nunca. para utilizar as palavras de Euclides da Cunha ao comentar a obra Inferno verde. 343-351). o prefeito mandou derrubar a floresta para construir barracos. mais uma vez. os imigrantes e migrantes nordestinos. Atracou aí embaixo. 1993). O que existiu. foi o barco Paraíso. 99 Título de um subcapítulo de um artigo de Milton Hatoum dedicado aos romances A selva. de “uma sociedade que está morrendo”. A imagem fala por ela mesma. trabalhou como seringueiro durante quatro anos. do escritor português Ferreira de Castro (1898-1974). de Ferreira de Castro. como no célebre romance A selva (1930). na beira do barranco. 7 reforçar a onipresença da morte nesse território. do seu amigo Alberto Rangel (Cunha.. E um novo bairro surgiu: Cegos do Paraíso (Hatoum. As novas vítimas da “modernidade na floresta” (Hardman. expulsos. e Mad Maria. do território que eles ocupavam nas proximidades da cidade. quase todos cegos pela defumação do látex. Paraíso era também o nome do seringal situado às margens do rio Madeira. Trouxe dos seringais do Madeira mais de cem homens. que emigrou para o Brasil quando tinha doze anos. ocupam o lugar dos ameríndios. A podridão está dissimulada sob sua beleza luxuriante. onde Ferreira de Castro. 2000. Ilha do Eldorado) e a realidade. “Cegos do Paraíso”. Imagens de um paraíso perdido. p.O ameríndio como personagem do Outro na literatura. A leitura desse texto ajuda a esclarecer a percepção e a representação do espaço em Órfãos do Eldorado. Lá onde ficava a Aldeia. experiência que se encontra recriada no romance A selva. 1988). Aqui. a beleza grandiosa e luxuriante da floresta esconde o regime de escravidão ao qual os seringueiros são submetidos. no Amazonas. Misturando referentes reais e ficcionais. a narrativa romanesca expõe a oposição gritante entre os sentidos sugeridos pelos topônimos (Vila Bela.. 2008. Boa Vida. de Márcio Souza (Hatoum. era o que se dizia.

aqui e ali. 67-68). paisagem de beleza ímpar (Hatoum. Senti um abafamento. 102). A ilha do Eldorado seria uma das ilhas do Arquipélago das Anavilhanas. Lugar lindo. Fui até lá. filhos de homens calados. me agachei e vi um ninho de baratas-cascudas. p. sinais do mal-estar que Arminto manifesta. No entanto. com guarásvermelhos e jaçanãs no céu e nas árvores. n.. p. Crianças caladas. Dinaura teria se refugiado. um dos lugares célébres do ecoturismo da Amazônia. Os filhos dos empregados se aproximavam da varanda e paravam para observar a casa.100 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Durante a viagem de Arminto em busca do seu Eldorado. o texto não para de semear. pois. 2009 A última viagem de Arminto (navegador de “viagens supérfluas” entre Manaus e Vila Bela) pelo rio Amazonas ganha um outro sentido. Arminto parte na terceira classe de um navio velho e sujo em busca da ilha do Eldorado.15. situado a 100 quilômetros de Manaus.. Lá . Trata-se de construir a visão de uma natureza que abriga um mundo doente. desde o início. [. A narrativa evoca a beleza grandiosa da paisagem. 2008. referente geográfico real. o cheiro e o asco dos insetos me deram um suadouro. recorrendo a uma descrição lírica da maravilhosa visão do lago do Eldorado. não há possibilidade de fusão harmoniosa com a natureza. onde. a alternância entre as descrições líricas e os sinais que maculam essa beleza da paisagem reforça a perspectiva antagonista da representação do espaço adotada pelo romance. repulsivo. doente. 2008. remetendo a uma relação disfórica que ele entretém com um espaço onde impera uma ordem social injusta. face que se revela desde o momento em que fazemos a experiência de penetrar nesse espaço: Um volume escuro tremia num canto. Personagem decadente da história e do mito. Voz mesmo só a de Armando: voz para ser obedecida (Hatoum.] Não era o lugar que me perturbava: era a lembrança do lugar. nauseabundo. representada pela voz autoritária do pai: Eu me sentia mal na Boa Vida.

102). ao contrário. Hatoum pertence à linhagem de escritores que produzem livros do desassossego: “é preciso aceitar que a literatura complica o mundo”. solidão. morte.. pelas escolhas políticas autoritárias. p. 2000. em consonância com o que escreve o sociólogo português Boaventura de Souza Santos. O que se esconde sob as aparências da visão do paraíso? A distância entre o sonho e a realidade que essas imagens de um mundo em degeneração nos devolvem como um espelho invertido. múltiplos signos disfóricos para evocar esse encontro fracassado entre o mito e a história. p. condenados a fazer viagens imaginárias que não tranquilizam mais ninguém. mesmo que seja para dizer a impossibilidade da viagem. coloca o leitor perante a problemática condição humana.O ameríndio como personagem do Outro na literatura. 322). ao afirmar que “O futuro prometido pela modernidade não tem futuro” (Santos. prisioneiros de um mundo de cinzas. O lugar inaugurado pela criação literária está longe de corresponder ao de um refúgio protetor. 101 fora.. era habitado pela solidão (Hatoum. anuncia o poema de Kaváfis. doença. erigindo a literatura como um dos lugares possíveis de resistência. 12). p. A obra de Hatoum não produz sombras consoladoras. assinalando o impasse do parâmetro do progresso como fundamento da civilização. a imensidão do lago e da floresta. A herança comum que o ameríndio compartilha com o homem ocidental é a de serem órfãos da civilização. . Essas cinzas do Norte dizem muito do estado de deriva dos mitos e dos relatos que resultam do esforço contínuo do sujeito na sua busca de imprimir um sentido à trajetória humana. Podridão. “Não há barco nem caminho para ti”. 2008. o Eldorado. E silêncio. Essas imagens revelam um ponto de vista pessimista sobre o processo histórico marcado pelas injustiças. sublinha Simon Harel (2007. Aquele lugar tão bonito.

trata-se de abolir uma representação realista do mundo. por Buell Quain data de 2001. Para essas narrativas. instaurando o processo de mise en abyme do ato da escrita. em Nove noites é a multiplicidade de vozes narrativas e a focalização que tornam a percepção do real problemática. a representação do ameríndio é submetida a diferentes pontos de vista assumidos por múltiplos sujeitos do discurso.8 que se constrói em torno do desaparecimento de um fotógrafo nos Montes Altai. 2009 alteridade invisível: o índio em Nove noites. experiência vivida e ficção. a se suicidar no Brasil. de Bernardo carvalho No romance de Milton Hatoum. o personagemnarrador Arminto Cordovil. Nove noites tece sua trama em torno de um enigma: as razões que conduziram o antropólogo norte-americano Buell Quain. só existem visões do real. procura compreender o gesto brutal do an- Sobre Mongólia. Assim como em Mongólia (2002). de Bernardo Carvalho. em 1939. por acaso. O interesse do personagem-escritor. 2007. n. a experiência da alteridade ameríndia gera uma espécie de fascinação pelo Outro no único sujeito da enunciação. da Universidade de Columbia. ver Godet. ex-aluno de Franz Boas. 8 . Em Nove noites. quando da sua estadia no Xingu com os índios krahô.15. a narrativa de Nove noites ultrapassa as fronteiras de gênero e situa-se a meio caminho entre autobiografia ficcional e documentário jornalístico romanceado. ao ler no jornal um artigo do antropólogo que se suicidou em plena floresta. de sua existência.102 Revista Brasileira de Literatura Comparada. a intriga de Nove noites cruza várias versões e inscreve no seio da narrativa o personagem do escritor que procura de forma obsessiva preencher a precariedade do sentido. aos 27 anos. Mas. Misturando fatos históricos. enquanto em Orfãos do Eldorado a ambiguidade da narrativa decorre das interrelações entre mito e história e da complexa viagem ao passado por meio da memória do narrador. narrador do romance. Desde então. encontrar a solução do enigma. quando ele fica sabendo. Nos dois romances.

a refazer a viagem nessa região e permanecerá na mesma tribo de Buell Quain. a quem ele teria feito confissões desesperadas durante nove noites passadas na cidade de Carolina. os elementos da investigação sobre Quain se imbricam com lembranças antigas do contato com os índios em companhia de seu pai. 103 tropólogo. O narrador. destacando as armadilhas de uma atividade interpretativa da subjetividade do outro. ele representa o papel de pai com os índios. o narrador frequentou com seu pai a região do Xingu. assim como testemunhos de diversas pessoas que conviveram com ele. Quain tinha relações complicadas com seu pai e ao mesmo tempo. Os índios querem um pai. sem no entanto esclarecer o mistério. com a imagem do seu pai. Bernardo Carvalho afirma que seu romance é uma interrogação sobre a paternidade: “Todo mundo está à procura de um pai. cujo mistério permanece velado. É a natureza inacessível do ser humano que é colocada em . a mais próxima da aldeia indígena. justapõe a história do antropólogo à de seu próprio pai” (Moura). A alternância de vozes narrativas é assinalada por caracteres tipográficos. Mais de trinta anos depois.O ameríndio como personagem do Outro na literatura. Menino de seis anos.. que esfaqueou e mutilou seu corpo antes de se enforcar. Pouco a pouco. por meio de cartas que ele deixa após sua morte. pois de uma certa maneira são órfãos da civilização. A razão da busca obstinada que leva o narrador a se interrogar sobre a morte do antropólogo só será revelada no final do romance: ela está relacionada com a infância. amigo de Buell Quain. com sua relação como cidadão brasileiro branco e urbano com o índio. Todos esses elementos trazem indícios da angústia e do desespero do antropólogo. engenheiro responsável pelo Serviço de Proteção dos Índios. ele será levado. onde este último tinha comprado uma fazenda. Numa entrevista. por causa de sua investigação. Às vozes desses dois narradores acrescenta-se a voz de Quain. O romance alterna a narrativa da investigação conduzida pelo narrador com o testemunho fictício deixado por Manoel Perna. igualmente. As diferentes versões e visões acentuam o caráter polifônico do romance..

. A figura do ameríndio em Nove noites está inscrita na temporalidade do século XX. a recusa de ir em direção ao outro. quando encontramos o narrador adulto em visita aos índios Krahô.] qui conditionne le sens. Apesar dos diferentes períodos históricos aos quais o texto faz alusão. Nove noites chama a atenção sobre . et l’interprétation” (Affergan. Bernardo Carvalho elabora uma narrativa labiríntica que desconfia do poder da linguagem para elucidar o enigma do real.104 Revista Brasileira de Literatura Comparada. um objeto de estudo. A narrativa nos fala dos laços indissolúveis entre a interrogação sobre a estranheza do outro e o rastro subjetivo do sujeito investigador: qualquer que seja o objeto da investigação. que em princípio se dedica a compreender e a fazer compreender o Outro. os europeus célebres como Lévi-Strauss e o suíço Alfred Métraux. a representação do índio permanece a mesma. 2009 evidência. antes de tudo. O texto tomanesco lembra os inúmeros antropólogos estrangeiros que se dedicaram ao estudo dos povos indígenas do Brasil. p. Em Nove noites. 171). a imagem.15. n.. o final dos anos 60. que coloca em cena as lembranças da infância do narrador com seu pai. seus ritos. sua comida. e o início do novo milênio. período no qual evolui o personagem Buell Quain no meio dos índios brasileiros. em processo de desaparecimento. explorando as terras da Amazônia. em direção de suas singularidades radicais. Nove noites é. enfim. la compréhension. o índio é. seus laços de parentesco. Mais uma vez. O trabalho de escrita que visa a constituir o outro só pode se fazer pelo imaginário “par ce va-et-vient entre soi et l’Autre [. O que predomina é uma percepção negativa das marcas mais significativas da alteridade dos índios. um romance sobre as relações de alteridade a partir de uma reflexão sobre o procedimento antropológico. 1991. Três momentos precisos são evocados: o final dos anos 30. antes de tudo. como o grupo de Franz Boas. do departamento de antropologia de Columbia ao qual pertencia Buell Quain. de um povo decadente. a imersão no mundo do outro é sempre uma incursão íntima. seguindo a pista de Quain.

contribuindo para que elas gozassem de um reconhecimento pleno. não é um objeto vazio e indeterminado. que habitavam um dos territórios mais inacessíveis da Amazônia. disposto a se submeter ao olhar e ao tratamento científico do observador. como teria transmitido relatórios políticos ao governo americano. liberando-os das ideias pré-concebidas da época. sem que se conheça a razão dessa expulsão. Mas não se trata tampouco de deixar passar em silêncio um certo olhar dirigido a esse território e a seus habitantes que não são brancos. interessou-se primeiramente pelos trumai. Ele se articula sobre suas próprias determinações e traz consigo o que poderíamos chamar de seus atributos (Affergan. reduzidos à categoria de objeto de estudo. objetos de culto da curiosidade científica deles. Antes de viver com os krahô. Buell Quain. Ele encontrou aí um povo marcado pelo processo de autodestruição. O romance alude a . como assinala Francis Affergan. Foi expulso da tribo pelo Serviço de Proteção aos Índios...O ameríndio como personagem do Outro na literatura. O romance revela o comportamento de certos antropólogos. O outro. a interpretação. que não somente teria vendido objetos que ele subtraía às tribos indígenas. Não se trata de desprezar as contribuições de grandes pesquisadores à compreensão desses sistemas culturais. como o norte-americano William Lipkind. denunciando. 1991). dessa maneira. política e financeira. Mikhail Bakhtin lembra-nos que o objeto das ciências humanas é um sujeito e o método delas. alertando também para o fato de que os textos construídos pelas ciências humanas estão longe de serem neutros. o personagem antropólogo do romance. obcecado pela morte. O Brasil dos anos 1930 e 1940 tornou-se um país-fetiche dos antropólogos e sociólogos: o índio e o negro. a instrumentalização intelectual. 105 essa espécie de instrumentalização do outro. A questão levantada pelo texto de Nove noites tem sentido: até que ponto esses sujeitos realmente existiram como tais para todos esses cientistas? Até onde o diálogo pôde se realizar? A obra contempla uma preocupação que se faz presente na reflexão antropológica da atualidade.

163). O território brasileiro nada mais é para ele do que o inferno. Além do mais. Suas lembranças da infância. ele teria encontrado um povo cuja cultura refletia seu próprio desespero. existe o medo que a criança sente desse povo exótico e desse espaço selvagem: a casa solitária no meio . o paraíso estaria em outro lugar.106 Revista Brasileira de Literatura Comparada. o outro é sempre. o sertanista amigo de Buell Quain. p. os índios representando seu próprio papel para um público de brancos. 2001. rejeita seus costumes.” (Carvalho. n. evocam um espetáculo deprimente. O fato é que o antropólogo parecia muito afetado pela sua estadia na tribo dos trumai. sua nudez. ele os considera idiotas: “Encontrei um grupo de índios krahô e eles parecem pavorosamente obtusos. o célebre sertanista Cândido Rondon). vai elaborar: com os trumai. É a imagem de um homem aterrorizado. desesperado que o testemunho de Manoel Perna. pelo bisavô de Bernardo Carvalho. Para o narrador. 30). que proibia as relações sexuais com os índios (serviço que. nas ilhas Fiji. 2001. 2009 uma provável homossexualidade de Quain. A construção desse personagem antropólogo questiona seu olhar etnocêntrico e sua atitude egocêntrica. instável. O antropólogo americano confessa sua dificuldade em trabalhar sobre os índios brasileiros e rejeita parcialmente as marcas (consideradas desagradáveis) que as culturas indígenas imprimiram à cultura brasileira. uma barreira intransponível. denunciando a utilização que se faz do Outro para fins que não lhe dizem diretamente respeito (Carvalho. o Xingu também é a imagem do inferno: “O Xingu ficou guardado na minha memória como a imagem do inferno” (Carvalho. enfim. Uma das pistas sutilmente levantadas pelo texto romanesco faz alusão a problemas de ordem sexual. Quain não compreende os índios. Para Quain.15. p. a maneira como eles cortam o cabelo. 72). quando fez a primeira viagem a essa região. 2001. ao lembrar as orientações do Serviço de Proteção aos Índios. foi criado em 1910. sua íntima decadência. aliás. furam as orelhas e continuam sem usar roupas nas cidades. p. A convivência com os krahô também não o libera da solidão. Têm cortes de cabelo engraçados. para ele.

a floresta agredida e transformada pela violência de um desmatamento caótico imposto pela nova ordem civilizacional. antítese da civilização. mito deslocado significando o encontro abortado entre o brasileiro urbano e os povos autóctones do Brasil. Uma só passagem no romance evoca a possibilidade de um encontro. Para amainar a decepção do seu primeiro contato com os índios. vestidos de short e calçando sandálias japonesas. o narrador sublinha o processo de aculturação em marcha. mas também recusa da alteridade linguística. perdida no tempo. o narrador retorna à região seguindo os rastros de Quain. vítima de doenças e de comportamentos viciosos transmitidos pelo contato com os ocidentais. comportamental. imagem depurada da história que o homem . É sempre o mesmo medo que o acompanha diante dos ritos que ele não consegue compreender. índios que comem macarrão e arroz com feijão. um só momento em que o narrador se mostra atraído pelo outro. um povo que não quer ser esquecido pelos brancos. 107 de lugar nenhum. seu pai lhe oferece um brinquedo. e relembra o massacre que os índios krahô sofreram um ano após a morte de Buell Quain. ao qual ele se refere como “um dos espetáculos mais deslumbrantes da minha vida” (Carvalho. A narrativa coloca em evidência o sofrimento de um povo empobrecido pela política governamental. marcado por um sentimento de trágica impotência. 2001. Ao mesmo tempo. ele não hesita.. imagem ancestral comum a todo ser humano. símbolo estereotipado do índio selvagem. Um povo órfão. Adulto. os rituais. um Forte Apache de plástico. Medo. 100): a cena na qual um velho krahô entoa um canto em torno de uma fogueira numa noite de lua.O ameríndio como personagem do Outro na literatura. no fim do mundo. abandonado. O olhar do narrador recusa o paternalismo: se ele é sensível ao sofrimento dos índios. p. no entanto. A harmonia dessa cena remete a uma imagem arcaica. recusa de compartilhar a comida deles. quando os fazendeiros mataram 26 deles. mostrando o abismo existente entre seu universo de intelectual urbano e o dos povos autóctones.. as brincadeiras. em expor seus preconceitos.

mas o antropólogo norte-americano. 52). submisso a uma consciência que o constrói. a recusa em considerá-lo como sujeito autônomo. Constatação de um encontro e de um diálogo frustrados. então. como o estrangeiro de dentro. nem o olhar que eles lhe dirigem. No romance de Bernardo Carvalho. n. sua recusa em construir laços. Qual o futuro para as relações interculturais entre uma civilização que tem seu declínio anunciado e uma outra que tem a expansão de sua dominação assinalada? O narrador refere-se ao ponto de vista de Lévi-Strauss. para melhor as proteger (Carvalho. para o antropólogo. O que sobressai do efeito do outro sobre o sujeito do discurso é sua incapacidade de ir ao encontro do ameríndio. o ameríndio é um tema enviesado. O outro que o atrai não é o ameríndio. um objeto de estudo. este é o sujeito da alteridade produtora de sentido que o aproxima de seu pai. o caminho escolhido pelo escritor coloca em evidência uma representação do lugar marginal que a sociedade brasileira reserva ao índio. p. O narrador de Nove noites não compreende o papel que os índios lhe atribuem nos seus rituais. Para o narrador. 2001. o não-valor de sua cultura. O raiar do dia expulsará a poesia e restabelecerá a incompreensão e o medo. a figuração do ameríndio como personagem do outro explora a distância com o grupo de referência ao qual pertence o personagem do escritor. As teorias pós-modernas sobre as relações interculturais se afastam dessa perspectiva e . de sua infância e que o conduz a refazer a experiência na tribo indígena. que defende uma comunicação “suficiente” mas não “excessiva” com as culturas ameaçadas de extinção. O índio surge. A figuração do ameríndio em Nove noites privilegia as diferenças como enfrentamento estéril. percebido como indecifrável e ameaçador. como se a possibilidade de um diálogo entre o Brasil ocidental e urbano e o Brasil dos povos autóctones estivesse para sempre perdida.108 Revista Brasileira de Literatura Comparada. 2009 construiu.15. sua tendência a se fechar sobre suas próprias referências. distanciando-se de uma tradição literária que tende a idealizar a figura do índio. Tão bela quanto frágil e efêmera.

contraditoriamente. uma visibilidade. o jovem responde: “Eu vou estudar os índios do Brasil”. A cena que fecha o romance é particularmente expressiva. a adoção do ponto de vista do brasileiro urbano. Mas. depois de uma estadia nos Estados Unidos. Ao ser abordado pelo narrador. confere-lhe. 109 insistem nos aspectos positivos do inevitável processo de hibridação (Canclini. na imprevisibilidade do mundo-caos. decadente. Sentado no avião ao lado de um jovem estudante americano. reproduzindo a imagem de um índio aculturado. branco e letrado projeta a imagem do ameríndio como uma alteridade invisível e em via de desaparecimento. aliando-se a uma perspectiva comum a outros romances da produção literária das Américas. O texto de Nove noites não se inscreve em nenhuma dessas perspectivas. 67). participando de um espaço urbano híbrido. reduzido a um objeto exótico ou a um objeto de estudo. ele recusa qualquer possibilidade de contatos e trocas equilibrados e frutuosos e elabora uma visão trágica de uma civilização em via de extinção. o romancista possa apenas registrar essa invisibilidade do “estrangeiro de dentro”. Milton Hatoum se inspira em uma realidade na qual a presença ameríndia é marcante. 2004) ou de creolização (Glissant.  Em Nove noites. que lhe pergunta se ele vai ao Brasil para fazer turismo. p..” afirma Edouard Glissant (1996.O ameríndio como personagem do Outro na literatura.. eles iniciam uma conversa no momento em que o avião está sobrevoando a região amazônica próximo ao local onde Quain se matou. Talvez porque nas nossas sociedades cada vez mais compósitas. c’est établir relation et non pas consacrer exclusion. Em relação à dialética do “selvagem” e do “civilizado”. Visão trágica que lhe retira a perdurabilidade. 1996) que caracteriza a contemporaneidade: “Vivre la totalité-monde à partir du lieu qui est le sien. ao fazê-lo. Trata-se da viagem de volta do narrador. O ponto de vista adotado é o do brasileiro que bebeu na fonte da cultura ameríndia e que é fascinado . país que visitou em 2001 na esperança de encontrar a família de Buell Quain.

expondo suas fraturas. 2001. deixa transparecer a ideia de que esse processo não é capaz de assegurar.15. herdeiros de visões do paraíso. 2007. onde os conflitos herdados do colonialismo se fazem presentes. Néstor Garcia. Adota outro ponto de vista.110 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Critiques anthropologiques. Adotando uma perspectiva complexa do processo de inter-relação de culturas e de imaginários. Bernardo. Hatoum recusa uma visão reconciliadora do processo de mestiçagem. Francis. transformando a escritura numa “zona de tensões” (Harel. CUNHA. CARVALHO. 1991. São Paulo: Companhia das Letras. n. desconsiderando os aspectos da necessária reconstrução de um “lugar habitável” para o sujeito. abrindo-se para a subjetivação da experiência da alteridade. como elemento que se abre à relação com o Outro. nem por isso o ameríndio escapa à condição subalterna e à visão trágica que o condena ao desaparecimento. p. Culturas híbridas. preferindo destacar a construção dramática desse espaço ambivalente. Figurado como mediador do espaço e dos mitos entre a floresta e a cidade. Estrategias para entrar y salir de la modernidad. Conselho Editorial. abandonados à miséria e à orfandade. México: Grijalbo. 108). Paris: Presses de la Fondation Nationale des Sciences Politiques. . Mesmo reconhecendo o processo de mestiçagem cultural. Um paraíso perdido: reunião de ensaios amazônicos. Euclides da. Referências AFFERGAN. denunciando assim o papel marginal que a sociedade reserva ao índio. Dessa forma. 2009 por ela. 2000. O autor não se deixa levar por uma ideologia da mestiçagem como elemento consubstancial à nação brasileira. o escritor se distancia de um discurso banal que se contenta em louvar as trocas culturais. 2004. Nove noites. CANCLINI. Brasília: Senado Federal. isoladamente. a existência de uma sociedade mais justa e solidária nem para os ameríndios nem para os pobres brasileiros inseridos na sociedade urbana. Hatoum não o idealiza.

Montréal: XYZ. 1.. MOURA. de Ferreira de Castro.-jun. Introduction à une poétique du divers. Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea. Québec: Nuit Blanche. Salvador: Fundação Casa Jorge Amado. Disponível em: <http://www. Pela mão de Alice. 101-117. Estranhos estrangeiros: poética da alteridade na narrativa contemporânea brasileira. 2000. 2004. Québec: Éditions Nota Bene. Francisco Foot. jan. O espaço geográfico no romance brasileiro. Teresa: revista de literatura brasileira. SANTOS. Jean. Flávio. e Mad Maria. La poétique de l’altérité et la représentation de l’Amérindien dans la fiction des Amériques. 233-252. 34. Linda. In: _____ et al. 185-194.O ameríndio como personagem do Outro na literatura. Les passages obligés de l’écriture migrante. 1988. a modernidade na selva.php?op=resumos/docs/novenoites>. 2000. FFLCH-USP São . O social e o político na pós-modernidade. Le mythe américain dans les fictions d’Amérique.portrasdasletras. L ’espace en perdition. Edouard. Rita Olivieri. Brasília. entrevista de Bernardo Carvalho. Orfãos do Eldorado. 1991. com. Québec: Les Presses de l’Université Laval. HATOUM. 2008. . In: _____. p. Les lieux de la précarité de la vie quotidienne. 2007. Texto inédito. A dois passos do deserto: visões urbanas de Euclides na Amazônia. HUTCHEON. n. São Paulo: Cortez. Boaventura de Souza. 111 GLISSANT. PATERSON. _____. GODET.br/pdtl2/sub. MORENCY. 29. A utopia e os conflitos paradigmáticos. HARDMAN. Simon. Paris: Gallimard. Paulo. Rio de Janeiro: Imago. São Paulo: Companhia das Letras. n. 2007.. A trama traiçoeira de Nove noites. _____. Janet M. Milton. _____. p. _____. 2005. Figures de l’Autre dans le roman québécois. 1994. 1996. HAREL. Trem fantasma. A natureza como ficção (Leitura do espaço nos romances A selva. ed. 1993. p. Poética do Pós-Modernismo. de Márcio Souza). São Paulo: Companhia das Letras.

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e esteticistas. argumentando que culturalistas. and canon. por mais descritiva. palavras-chave: abstract: valor. sugerem-se algumas pautas para o debate. I suggest a few possible routes for the debate. I argue that canon-revising culturalists as well as aestheticists who defend the primacy of the Western canon share a number of premises. revisores do cânone. aesthetics. contingência. defensores da primazia do cânone ocidental. na qual não esteja implícita uma posição sobre o valor. aesthetics. frequentemente ignorada. Understanding the contingent nature of aesthetic value and the impossibility of grounding it immanently. cânone e crítica formal Este ensaio parte da premissa de que não há crítica ou teoria literária. cânone. entre os conceitos de valor. de estética e de cânone. contingency. based on the often ignored discontinuity among the concepts of value. com frequência. estética. Como veremos. . canon. compartilham uma série de pressupostos. é apresentado como uma polêmica entre defensores de um firme cânone * Tulane University. keywords: value. baseadas na descontinuidade. A partir de uma compreensão do caráter contingente do valor estético e da impossibilidade de fundamentá-lo de maneira imanente à obra.113 Cânone Literário e Valor Estético: notas sobre um debate de nosso tempo Idelber Avelar* resumo: Este ensaio se insere no debate contemporâneo acerca do valor estético. This article is part of a contemporary debate on aesthetic value. essa premissa é simultaneamente negada e aceita pelos dois polos de um debate que.

mas não em distinções efetuadas no interior da série literária. Além de tomar algumas posições que não se alinham com nenhum dos dois polos. jamais tivessem escondido suas preferências literárias. nos anos 1930.114 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Nas suas origens. Robert Penn Warren. como intervenção numa polêmica culturalista – entendendo-se “cultura” não no sentido antropológico. discursos com fortes componentes axiológicos. Eliot. Hegemônico durante décadas na crítica estadunidense. que fizesse desta o antídoto contra a vulgaridade massiva associada à racionalidade técnica moderna e à “dissociação da sensibilidade”. mesmo nos momentos de maior formalização do método. e que o valor estético e o cânone literário podem e devem ser repensados em outros termos. Os textos de Roland Barthes em que a preocupação com o valor se torna explícita são aqueles escritos a partir do final dos anos 1960. S. depois da progressiva ruptura com a formalização do estruturalismo. como Roland Barthes e Julia Kristeva. n. A insistência dos new critics no caráter desinteressado da literatura acabou sendo um gesto no qual se albergava um nítido interesse. este ensaio tenta demonstrar que a própria formulação do debate é problemática. O New Criticism surgiu. com seu afã científico e universalizante. embora seus principais teóricos. P Blackmur. visível na batalha que eles livraram contra o establishment da filologia. O estruturalismo. conceito que herdaram de T. elaborou pouco sobre a questão do valor. optando por um projeto que tinha um caráter mais descritivo que valorativo. Há correntes críticas do século XX. o New Criticism focalizou a valoração na diferença entre a literatura e a cultura de massas. 2009 ocidental e culturalistas favoráveis a uma relativização ou abolição desse cânone. Allen Tate. diferenciavam dos filólogos então dominantes ao conferir um papel edificante para a literatura.15. Cleanth Brooks – se . os new critics – John Crowe Ransom. já numa fase de seu pensamento em que são visíveis as inspirações nietzscheana e lacaniana. portanto. que rejeitariam o pressuposto da inevitabilidade valorativa. mas no sentido classista . sabemos. R.

na França... 115 e aristocrático do termo. que era seu principal antagonista. Frye chegou a considerar “Poética estrutural” como um possível subtítulo para o livro. no qual ele se distanciava tanto do New Criticism como da Escola de Chicago. o jogo de antinomias. nas quais invariavelmente encontrariam a ironia. Embora não fizesse ali nenhuma referência ao trabalho da antropologia estrutural que. de maneira hegeliana. a centralidade do conceito de mito. Como apontaram Gerald Graff (1987. Mas como a história do gosto não tem vínculo . p. a ambiguidade e o paradoxo que eles antes reservavam aos modernos e aos poetas metafísicos ingleses do século XVII. 155-175). Os new critics se moveriam em direção à análise de estruturas internas dos textos. o caráter sistematizador. e alguns dos eixos da obra revelavam nítido parentesco com o trabalho que o estruturalismo literário francês realizaria nos anos seguintes: as metáforas espaciais.) e John Guillory (1993. uma apresentação explícita do problema da valoração já era inevitável. sentimos talvez que o estudo da literatura é relativo e subjetivo demais para ter sentido consistente. já se desenvolvia havia uma década com Lévi-Strauss.Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. Uma das diferenças importantes é que Frye se dedicou longamente ao problema do valor literário. p. o momento de triunfo do New Criticism na universidade e de consolidação da poesia modernista no currículo coincidiu com o arrefecimento dessa veia polêmica. A consolidação do método como leitura hegemônica acabou acarretando a universalização dos traços que eles antes só viam nos autores do seu paideuma particular. a insistência no imanentismo e no caráter autossuficiente da crítica literária. onde não há fatos. No momento em que Northrop Frye publicou o hoje clássico Anatomia da crítica (1957). ainda que fosse para negar sua pertinência para a prática crítica. quebradas em meias-verdades …. e onde todas as verdades já foram. Tomo Frye como ponto de partida de uma demonstração do que considero o caráter aporético da discussão sobre o valor literário: Na história do gosto. 145 et seq.

Porque insistir nela é tudo o que ele pode fazer: qualquer crítica motivada por um desejo de estabelecê-lo ou prová-lo será meramente mais um documento na história do gosto (Frye. 2) é “óbvio” que alguns poetas são melhores que outros. À medida que o leitor percorre as páginas de Anatomia da crítica.1 Um pouco antes. O crítico verá logo.116 Revista Brasileira de Literatura Comparada. simultaneamente. vai se impondo uma conclusão: sempre que Frye diz que a crítica é “facilmente separável” do gosto e do juízo valorativo. Para isso. p. 25). dinamitando a separação que se havia proposto entre elas: As estimativas comparativas de valor são realmente inferências da prática crítica. assim como não é óbvio que a polêmica Marx-Ricardo não seja parte da “estrutura” da economia política. 2009 orgânico com a crítica. 3) . O leitor o percebe quando chega o espinhoso momento em que Frye tem de justificar suas escolhas. ele afirmara que “a história do gosto não é parte da estrutura da crítica. n. mais válidas quando silenciosas. portanto. ela pode ser facilmente separada (Frye. por certo. assim como o debate Huxley-Wilberforce não é parte da estrutura da ciência biológica” (p. 1 Anatomia da crítica sugere. p. 1957.15. e não princípios expressos que guiam sua prática. e constantemente. pode-se estar razoavelmente convicto de que tal separação é a coisa menos fácil que há. que Milton é um poeta mais sugestivo e recompensador que Blackmore. São minhas as traduções de todas as citações de fontes em línguas estrangeiras. que 1) a crítica é uma esfera separada da história do gosto. 1957. Mas quanto mais óbvio se torne isso. é que está bem longe de ser uma verdade evidente que a polêmica Huxley-Wilberforce não seja parte da “estrutura da biologia” (seja lá o que for isso). 18). pois explicitá-los terminaria fundamentando a crítica na história do gosto e. 18). menos tempo ele desejará desperdiçar insistindo na questão. ele lança mão de uma curiosa tese. a de que é preferível que os valores que subjazem às escolhas estéticas da crítica fiquem escondidos. O curioso da analogia de Frye.

não antes que Yuri Tinianov formulasse algumas pistas acerca do que poderia ter sido uma concepção formalista da . Frye não pode senão sugerir que os fundamentos das escolhas valorativas permaneçam sem discussão. sob o risco de que todo o edifício desmorone.2 haveria que se dedicar especial atenção às maneiras como o desejo de cientificidade entrou em choque com a inevitabilidade valorativa. teremos de esconder debaixo do tapete os critérios que subjazem a elas. Numa futura história dos métodos formais no século XX. Shklóvski definiu o conceito como o processo por meio do qual a novidade das operações poéticas sobre a linguagem prolongaria a percepção. ver o notável trabalho de história intelectual já feito por François Dosse (1991-92).Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate.. esses dois eixos coexistiram com certa tensão. se sustenta sobre um tripé de premissas de visível precariedade: 1) a crítica e o gosto não se misturam. mesmo que reconheçamos que a atividade crítica depende de escolhas valorativas. mas tropeça na constante interferência desta sobre aquela. 2 qualquer tentativa de explicar essa obviedade está fadada a ser parte da história do gosto. fruto da repetição constante. não da crítica. Anatomia da crítica. No momento mais frutífero do desenvolvimento das pesquisas dos formalistas. Seria possível demonstrar que a aporia detectada em Frye se repete nos métodos interpretativos que tentaram fazer da crítica literária uma operação descritiva na qual não teria lugar o debate acerca das opções valorativas. aumentando-lhe a dificuldade. a consolidação do poder político nas mãos de Stálin os forçou ao exílio ou ao silêncio. 2) não se faz crítica sem uma escolha valorativa. No caso do formalismo russo. Preso num discurso que postula a separabilidade da crítica ante a história do gosto. 117 Para o estruturalismo. O projeto de descrever cientificamente a linguagem poética os levou a estabelecer a noção de estranhamento (ostraneniye) como o mais próprio da literatura. O estranhamento possibilitaria uma renovação de uma experiência do mundo caracterizada por uma percepção já automatizada. um dos livros de crítica literária mais influentes do século XX. 3) já que a valoração é definida como parte de uma história do gosto externa à crítica..

2009 história literária. Mas reconhecer sua existência – mesmo que implícita – é indício adicional de que até nas empreitadas mais cientificistas da crítica literária impõe-se a inevitabilidade valorativa. ajuda a explicar a relação multifacetada que os formalistas mantiveram com o tema do valor. combinada à condenação ao impressionismo dos simbolistas. pelo estranhamento imposto a formas literárias automatizadas pelo uso excessivo. Sempre que um procedimento passasse a ser parte do repertório de práticas já esperadas. Um exemplo clássico é o que Dom Quixote fez aos romances de cavalaria. n. tornando visível a automatização anterior. expondo a artificialidade de suas convenções. a literatura evoluiria por meio da paródia. eles tampouco se dedicaram a tematizar explicitamente o problema do valor.15. parece inescapável a conclusão de que o valor está acoplado à realização desse programa: quanto mais estranhamento e mais ruptura paródica com as formas anteriores. uma operação paródica tenderia a surgir. ou seja. e assim por diante. A sofisticação do aparato teórico dos formalistas os levou do imanentismo textualista a uma incipiente teoria da história literária. A partir das premissas de que o estranhamento é mais próprio à literatura e de que a história literária evolui pela operação paródica sobre formas anteriores congeladas. às correntes críticas que explicitamente reivindicam a valoração como elemento constitutivo da ati- . O edifício teórico dos formalistas nos leva à conclusão ineludível de que Dom Quixote tem um valor que Amadis de Gaula não apresenta. mais valor.118 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Muito ainda poderia ser dito aqui. é claro. Apesar de que as observações feitas acima sobre Frye não se aplicam aos formalistas. As conhecidas afinidades entre o formalismo e o futurismo russos emprestam credibilidade a essa tese. Não há nada de condenável nessa axiologia. interrompida pela consolidação do poder burocrático na União Soviética. Para Tinianov. mas passemos ao extremo oposto. de que as vanguardas realizam a vocação da literatura de uma maneira que os parnasianos não fazem. A insistência na função descritiva da teoria literária.

o Bem ou o Mal . seria a defesa daqueles valores sobre outros. 36). Consciente de que as condenações moralizantes de uma tradição que vai de Platão a Leavis deram à crítica ética uma má fama. um debate cujas origens podem ser remetidas aos Livros III e X da República de Platão. ou seja.. que ele define como uma “Conversa celebrando as muitas maneiras em que as narrativas podem ser boas para você – com vislumbres de como evitar seus poderes para o mal” (p. O desafio que Booth se coloca é manter algumas das premissas da teoria contemporânea (acerca da variabilidade histórica do sentido ou da impossibilidade de uma medida transcendental de valor). Booth abraça o projeto humanista de ilustração por meio das letras. a conclusão lógica. crítica ética e falácia igualitária Wayne Booth. ocupa um lugar central no chamado ressurgimento da crítica ética nos EUA. Posição de destaque nessa vertente cabe aos críticos que se ocupam das relações entre ética e literatura. ao continuar tomando esses valores como intrínsecos.Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. Na tentativa de esclarecer os valores que subjazem às análises estéticas. ao mesmo tempo em que continua se agarrando a um conceito de literatura como fonte singular de um “mergulho em outras mentes” (p. Qualquer tentativa de sustentar este último postulado – de que algumas ficções realmente valem mais que outras – só poderia “respeitar a variedade” interrogandose sobre os processos históricos por meio dos quais certos valores foram conferidos àquelas ficções. a saber. com seu The company we keep. 142). ix). p.. Booth tenta resgatar essa função humanista sem reduzi-la a um conjunto de normas. que valeriam “menos”. a tarefa não é fácil. necessária. 119 vidade crítico-literária. Se não. que provocaria uma “série de efeitos no ‘caráter’”. Booth coloca a pergunta: “Poderemos esperar encontrar uma crítica que respeite a variedade e ofereça um saber acerca de por que algumas ficções valem [are worth] mais que outras?” (1988. Como se verá.

15. Booth quer aceitar o pluralismo hermenêutico da teoria literária contemporânea sem abrir mão do absolutismo da filosofia moral. Os tropeços da crítica ética seriam explicáveis por sua tentação especial de “sobre-generalizar”. A necessidade de caminhar sobre a corda bamba que separa o reconhecimento das contingências históricas do compromisso humanista leva Booth a fazer uma série de gestos na direção do relativismo: o que é bom cá não é bom lá. como o contraste entre King Lear. A reductio ad absurdum será uma das estratégias retóricas favoritas dos que mantêm a referência ao valor estético como propriedade intrínseca e resistem ao argumento de que o valor só pode ser entendido por meio da remissão ao seu solo social. No momento em que a teoria não consegue . aquela área cinza que permitiria ao crítico evitar qualquer “silogismo universal” (esta obra é boa porque apresenta X. Depois de superar essas caricaturas. termina sempre transcendendo os conflitos da valoração social. qualquer virtude levada ao extremo pode destruir as outras.. Company é. uma dose excessiva de qualquer valor (seja a ironia. portanto todas as obras que apresentem X. por mais variável que se conceda que ele seja. ou entre um poema de Yeats e uma brincadeira improvisada em verso. A solução moderada busca um pluralismo que mantenha a referência a um valor intrínseco o qual. com sua insubstituível função moral reassegurada. etc. então.. a abertura formal ou qualquer outro) pode ser prejudicial em vez de positiva. O objetivo é evitar os “riscos” de “fechamento” ou “abertura” excessiva. e um exemplar da revista pornográfica Hustler. 2009 aos quais o prefácio alude. uma minuciosa tentativa de aceitar a variabilidade de interpretações sem deslocar a discussão do terreno do valor intrínseco ao campo da valoração social. pode ser bom para você mas não para mim. Booth “realiza” essa tarefa por meio de uma série de exercícios de reductio ad absurdum. Daí sua busca do meio do caminho.) sem renunciar à premissa de um valor ético intrínseco à literatura e a algumas obras literárias mais que a outras. n. a grande literatura emerge intacta.120 Revista Brasileira de Literatura Comparada. de Shakespeare.

Significa que “competência” não é um significante com sentido unívoco e eterno. 85). seu pluralismo não é radical. constate-se a óbvia diferença entre os valores intrínsecos e o problema está “resolvido”. Afirmar que a valoração é socialmente contingente não significa dizer que todos os agentes valoradores são igualmente competentes. ou seja. e sim liberal. ela pressupõe uma recusa a considerar o argumento de que todo valor é produto do choque de valorações contingentes e historicamente variáveis.. 73). posição que Booth descarta como “subjetivista” (p. não. Ao se referir à crítica contemporânea. Ao contrário do que argumenta Booth. todos os juízos devem . o terreno está preparado para que o liberal sensível procure a conciliação razoável. A equação imaginária entre a contingência social do valor e uma suposta igualdade entre os agentes valoradores é o que Barbara Herrnstein Smith denominou a falácia igualitária. Os ataques ao “subjetivismo” do ponto de vista de uma ética humanista são bem conhecidos e Booth os repete em seu livro: “pressupõe-se claramente uma completa equivalência na competência de todos os intérpretes no argumento de que as obras não possuem ou exercem valor inerente. Essa afirmação repousa sobre a premissa de que o valor é uma espécie de propriedade inerente ou essência eterna. 121 fundamentar essa transcendência. 84).Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. “a recorrente ansiedade / acusação / reclamação de que a menos que se possa demonstrar que um juízo é mais ‘válido’ que outro. ou seja. e que seu próprio conteúdo só pode ser compreendido com referência ao contexto particular em que algumas habilidades contam como competência e outras. mas que somente são valoradas” (p. compare-se a Divina comédia com um exemplar da Revista Veja. Booth afirma que “a ênfase na variedade de interpretações nos diz pouco sobre o valor real das obras” (p. Sempre que se remete um problema à “tentação de sobre-generalizar”.. Mas Booth parece ter entendido mal a teoria da contingência. Essa mitologia da ponderação não deixa de operar na teoria.

85). de alguma forma. a crítica humanista. n. por definição. A falácia é que. p. Na verdade. É exatamente por causa do fato de que as valorações não são nem válidas da mesma forma nem identicamente posicionadas nas relações sociais que elas jamais são intercambiáveis. progresso do espírito. mergulho na alma humana. uma pessoa inexperiente em literatura não poderia pertencer à mesma cultura e suas opiniões. sempre há que se perguntar qual sujeito da enunciação se esconde por trás de um pronome de primeira pessoa do plural. digamos. padece da impossibilidade de fundamentá-los mais além da tautologia. Se os imanentismos formais não escapam da axiologia. que não esconde seu compromisso com a noção de que a literatura deve defender valores éticos. por mais que se queiram descritivos. 1988. é precisamente porque os juízos não são igualmente válidos que os valores nunca são intrínsecos. Eis aí a falácia da ansiedade essencialista que preconiza que. obviamente. os valores ficaram. diferentes vertentes da crítica prescritiva arrolaram fundamentos transcendentais a partir dos quais a literatura deveria ser julgada: formação do caráter. A falácia igualitária confunde uma posição social construtivista com uma posição moral e estética relativista. nos romances de Faulkner. idênticos a si mesmos. e sim articulados por meio de conflitos sociais. . 2009 ser ‘iguais’ ou ‘igualmente válidos’” (Smith. uma espécie de grau zero da axiologia que replica a ilha de Daniel Defoe. A falácia igualitária se sustenta no que Marx chamava de “robinsonada”.122 Revista Brasileira de Literatura Comparada.15. Como a desconstrução e o marxismo nos ensinaram de diferentes formas. Com efeito. renovação da linguagem. idênticos uns aos outros. não teriam a mesma pertinência para o “nosso” discurso. 98). suas opiniões sejam tão pertinentes a nosso discurso sobre Faulkner como as opiniões de leitores experientes” (p. se a compreensão do conceito de valor se deslocou de uma imanência dormente a uma rede de relações sociais. Note-se um exemplo em Booth: “me parece difícil acreditar que se uma pessoa de nossa cultura que é completamente inexperiente em literatura não vê absolutamente nenhum valor.

desconstrucionistas. É o que vemos nas críticas estéticas de Harold Bloom. Diante de certas frases de Bloom. 20). Ela dispara. Ironicamente. uma estrutura abismal.. crítica estética e pânico ocidentalista Para Harold Bloom. um processo de regressão infinita. em seu O cânone ocidental e. porque sua contribuição ao progresso social é a generosidade de se oferecer para rápida ingestão e descarte” (p. em alguém que responsabiliza a Escola do Ressentimento pelo fato de viver “no que considero a pior de todas as épocas para a crítica literária” (p. no Brasil. emancipação do proletariado. A fundamentação do valor na estética teria. é inevitável. p. Vários “defensores do cânone ocidental” reagem nervosamente à demonstração da impossibilidade de autofundamentação imanente do valor estético. de Leyla Perrone-Moisés. feministas. 123 defesa do legado ocidental. exceto não ter tornado bem visível o seu próprio ressentimento. neo-historicistas e afrocêntricos seriam os agentes contemporâneos de uma “Escola do Ressentimento” que “nega a Shakespeare sua palpável supremacia estética” (1994. Mas nenhum desses fundamentos se sustenta como base de uma estética sem remissão a outro valor que o justificaria. marxistas. podemos censurar qualquer coisa. uma alteração da ordem vigente provocará a sensação de que qualquer ordem está se tornando impossível. A pergunta: “por que deve ser este o valor a partir do qual julgar a literatura?” não pode ser respondida imanentemente. como “o radicalismo acadêmico chega ao ponto de sugerir que as obras se incorporam ao Cânone por causa de propagandas [advertising] bem-sucedidas e campanhas de doutrinação [propaganda]” (p. assim. 22). lacanianos. a única resposta possível é: quem ja- .Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. 30). 20) e proclama “a abertura do Cânone” (termo que Bloom insiste em grafar com maiúscula) para a incorporação de obras que “não devem e não podem ser relidas. Para quem experimenta uma contingência como se esta fosse uma não-contingência.. em seu Altas literaturas.

ou de um ponto de vista afro. produz filhos tão bárbaros como os desprezíveis afrocêntricos e feministas. de Henry Louis Gates. de Sandra Gilbert e Susan Gubar. mesmo perfeito. Nas obras que se dedicaram a revisar o cânone a partir de uma perspectiva feminista. 40) – e é ubíqua sua afirmativa de que Shakespeare é o pai de todos –. como The signifying monkey. O mais surpreendente é que essa posição – defendida nos EUA por Harold Bloom. 2009 mais disse isso? Qual feminista ou “afrocêntrico” de relevo disse algum dia que a incorporação de uma obra ao cânone se deve ao advertising e à propaganda? Desconhece-se. a ser representada no Brasil por Leyla Perrone-Moisés. n. há uma década e meia. Da leitura de Bloom. ele não nomeia seus supostos integrantes. Se Bloom insiste com tanta ênfase em afirmar que “Shakespeare inventou a todos nós” (p. certamente não encontramos nenhuma equação entre a construção do cânone e a propaganda. ensaísta que não tem nenhum histórico de associação com o conservadorismo político.124 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Mais que atacar Bloom. retiremos mais um axioma: quanto mais ameaçados se sintam os guardiães da suposta universalidade de um determinado valor. seria difícil encontrar um estudo sério defendendo algo que vagamente lembrasse a caricatura apresentada por Bloom.15. Se é correto afirmar que parte da crítica contemporânea se dedica a questionar o processo de emergência dos cânones. trata-se aqui de assinalar um paradoxo bem curioso que veremos reiterado no lamento contra os estudos culturais. É verdade . que talvez seja a mais ilustre barthesiana da América Latina e cujos primeiros livros foram escritos na mais absoluta alegria e afirmação. é impossível não se perguntar que pai é esse que. quando mais socialmente precário seja seu fundamento. um crítico associado à direita mais conservadora – passou. pois nas centenas de páginas de queixas ressentidas contra a tal Escola de Ressentimento. como The madwoman in the attic. menor será sua capacidade de entrar em genuíno debate com a força emergente que aponta o caráter contingente desse valor. e o livro de Bloom não ajuda.

Bhabha. Também é bastante irônico . p. ela lhes atribui posições diametralmente opostas às que defendem em seus livros. p. Na Universidade de Stanford. Jamais sabemos quem são eles. de sujeitos ocultos e de sintagmas como “alguns grupos”. foi achar que se tratava de um erro tipográfico. acrescido do altamente antiantropofágico medo de que o Brasil se contamine pela influência norte-americana: “o lamentável de tudo isso é que muitos universitários brasileiros estejam recebendo essas tendências norte-americanas sem o menor espírito crítico” (Perrone-Moisés 1998. Nos momentos em que Leyla Perrone nomeia duas figuras envolvidas com o debate sobre o cânone nos EUA – John Guillory e Barbara Herrnstein Smith –.. 3 que a ensaísta brasileira se diferencia de Bloom. seria hoje impensável nos Estados Unidos. a abundância de vozes passivas (“o cânone ocidental .. “as feministas norte-americanas”. 1998. 192). mas o diagnóstico do que teria acontecido a partir da chegada dos estudos culturais é fundamentalmente o mesmo. 1998. Parecem não ter obra. p. “os particularistas”. 196).. p. 230). Reencontramos em Altas literaturas o mesmo procedimento de Bloom: o ataque a um adversário cujos representantes não são nomeados e ao quais não se concede a generosidade da citação. a palavra ocidental foi suprimida na denominação dos cursos sobre cultura (Perrone-Moisés. dedicado ao diagnóstico do presente. posto que todo o livro de Smith é uma análise do porquê dos juízos de valor serem inevitáveis. por pressão dos grupos particularistas. Kristeva. O turco Homi K. “os anti-canônicos”. foi posto sob suspeita”. Lefort etc. 125 Minha primeira reação. introdutor dos estudos “póscoloniais”. 195). ao ler que Barbara Herrnstein Smith “considera que o juízo de valor é indesejável” (Perrone-Moisés. Observe-se. Foucault. como aquele que foi ministrado em 1936 na Universidade Columbia por Lionel Trilling e outros.3 Tomemos o diagnóstico da ensaísta brasileira sobre as raízes da perda de relevância social da literatura e da daninha influência norte-americana: Um curso de humanidades baseado na leitura de ‘grandes obras’ do Ocidente. no capítulo 5 de Altas literaturas. “a formação desse cânone foi examinada do ângulo ideológico”..Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. colheu suas referências principais em Derrida. gerando a dúvida sobre se ela realmente os terá lido.

campo de estudos cujas genealogias unanimemente (Desai e Nair. [. Excluir do cânone um Dante. n. bem europeia e humanista.. aliás. (p. Fica difícil realizar um debate a partir de tantos erros factuais. Melville e Hemingway do currículo.. para nele incluir os então excluídos [. Corrijamos alguns: 1) Homi Bhabha não é “turco”. 3) Não se sabe quais seriam esses teóricos pós-coloniais que se insurgem contra “o que chamam genericamente de ‘ideologia ocidental’”. causa estupefação a afirmativa de que é hoje “impensável” um “curso de huma- . uma rápida busca nos sistemas das cento e três instituições catalogadas pela Carnegie Mellon como Research universities demonstra que esses quatro autores continuam abundantemente presentes em cursos... exames e teses. 194-195).15. 2) Bhabha não é o “introdutor” dos estudos pós-coloniais. 4) Desconhece-se universidade estadunidense que tenha excluído Mark Twain. e sim indiano. munidos de argumentos iluministas historicamente tão ocidentais quanto o repudiado imperialismo (p.] há um contra-senso histórico no desejo de modificar o cânone passado. 2009 que os “pós-coloniais” se insurjam contra o que chamam genericamente de “ideologia ocidental”. porque era caçador e machista. que herdam de Foucault a suspeita ante o conceito. palestino-americano de formação. para colocar em seu lugar alguma mulher medieval que porventura tenha conseguido escrever alguns versos não seria ato de justiça. 5) Para qualquer conhecedor do sistema universitário norte-americano. no máximo. seja na licenciatura em inglês. já que Leyla Perrone os caracteriza genericamente. 2005) apontam como momento inaugural a publicação de Orientalismo (1978).]. seja na pós-graduação em literatura. Hemingway.. As exclusões ideológicas têm tido um efeito imediato e lamentável nos currículos norte-americanos: Mark Twain e Faulkner. sem citações. uma vingança extemporânea [. 198-199). porque eram escravagistas. de Edward Said.].126 Revista Brasileira de Literatura Comparada. porque antiecológico etc. mas é sabido que a noção de ideologia tem pouca circulação nos teóricos pós-coloniais. Faulkner. seria.. Melville.

de cunho comparativo. Uma breve consulta à bibliografia séria acerca do incidente (Pratt. Marx. o Senado de Stanford decidiu aprovar uma proposta de substituição de um desses cursos de “cultura ocidental”. onde se incluíam textos “não-ocidentais” como os de Frantz Fanon e Rigoberta Menchú. Stendhal. num debate já informado por . Virginia Woolf. Tulane.Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. Casement. em geral. O curso do segundo semestre cobre da Antiguidade até a Idade Média. um trajeto que vai de Homero (ou Platão) a Nietzsche. Rousseau. no primeiro semestre de 2010: a lista de leituras consiste em Maquiavel. Graff. Fanon e Coetzee. 1993) teria sido suficiente para evitar o erro. asp?id=Courses>. Dentro de Stanford. e nele não há sombra de “alguma mulher medieval que porventura tenha conseguido escrever alguns versos”. Hobbes. cito o que está sendo ministrado na minha própria. 1996. são parte de oito grades dentro das quais o aluno pode cumprir os requisitos de humanas. Primo Levi. Nietzsche. a implantação do novo currículo foi absolutamente tranquila. 2001. Newsweek e Wall Street Journal acerca da polêmica em Stanford que desatou as chamadas “guerras culturais” nos EUA. 4 nidades baseado na leitura das grandes obras do Ocidente”. 127 A lista de leituras está disponível em: <http://honors.edu/web/default. Como sabem quase todos. em uma das grades.. Em março de 1988. inclui Dante. 6) A incrível afirmação de que em Stanford “a palavra ocidental foi suprimida na denominação dos cursos sobre cultura” merece parágrafos à parte. Como exemplo. por um curso intitulado “Culturas e valores”.. Cervantes. tulane. O curso que costuma atender pelo nome de Great Books é um dos mais comuns em qualquer grade curricular de qualquer boa universidade estadunidense. em Stanford. embora esses autores também sejam lidos numa série de cursos que. os currículos universitários norte-americanos incluem um curso de obras-primas ocidentais que percorre. É lamentável que uma ensaísta que dedica páginas a criticar as simplificações da cultura de massas e da mídia reproduza a distorção veiculada por Time. Dostoiévski.4 Não é exatamente uma seleção escalada por uma afrofeminista radical. Freud.

que aprendeu espanhol já adulta. Os neoconservadores sabiam que era no terreno da cultura que se jogaria a cartada decisiva. Menchú. O livro de D’Souza atacava especialmente a incorporação ao currículo do testemunho de Rigoberta Menchú.128 Revista Brasileira de Literatura Comparada. narrou verbalmente sua história de vida à antropóloga Elizabeth Burgos. as forças conservadoras do país passaram a dedicar intenso esforço à vitória na luta cultural. 2009 anos de reflexão sobre a necessidade de oferecer outras versões sobre a modernidade. a direita republicana concluía oito anos de controle sobre a Casa Branca. um think tank de direita). de Sobre o caráter ubíquo que tem adquirido a cultura como terreno onde se jogam os antagonismos políticos. exceto por um detalhe: as principais fundações da direita norte-americana. A grande imprensa passou a dedicar blocos de seus programas à “eliminação da cultura ocidental no currículo das universidades americanas”. passariam a acusar Stanford de jogar no lixo a cultura ocidental. William Bennett (ex-secretário de educação no governo Reagan). Desde Watergate. ativista guatemalteca de etnia maiaquiché. autor de The closing of the American mind. n. A defesa do projeto foi ligeiramente politizada por grupos de estudantes. autor do best-seller Illiberal education. acabava de estrangular a revolução centro-americana. O relato é indissociável das atrocidades cometidas na guerra civil da Guatemala nos anos 1970 e 1980. Herbert London (fundador do Hudson Institute. ao “assassinato de Shakespeare e Platão” e à “intimidação de ativistas estudantis”. 2004. Allan Bloom.5 Em 1988. A votação no Senado foi normal. mas tudo correu dentro da normalidade que se espera de uma revisão curricular como qualquer outra. a queda de Nixon e a consequente desmoralização da direita americana. Estavam lançadas as sementes do que se conheceria depois como “as guerras culturais”. entre outras generalizações provocadoras de pânico.15. grupos religiosos e o Partido Republicano acompanhavam o debate de perto. e Dinesh D’Souza. estava pronta para presenciar a queda do comunismo e identificava na cultura a nova guerra que deveria vencer. 5 . ver o belo livro de Yúdice. Investiram-se milhões de dólares na construção de think tanks como a Heritage Foundation.

Apesar das aparências. jamais esteve em perigo. p. 202) e reagir com pânico no momento em que se extrai uma mínima consequência prática da profunda e radical verdade desse axioma. O que enfurecia no testemunho de Menchú era que. é atrocidade também. O livro dizia: o ocidente é isto aqui também.. valor literário e apocalipse Daí não se conclua que tudo vai bem com o ensino de literatura nos EUA. 129 responsabilidade de uma ditadura financiada pelos EUA. em incontáveis cursos de Stanford ou de qualquer outra boa universidade norte-americana. Dito de outra forma: o conceito de valor abre um horizonte riquíssimo . ou que não exista nada a se criticar nos estudos culturais e nas plataformas feministas ou étnicas de revisão do cânone – simplesmente é melhor fazer os balanços disciplinares com base em fatos e bibliografia.Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. 1998. Os exemplos citados acima ilustram algo que é frequentemente esquecido por ambos os lados no debate sobre o valor. A estas alturas. creio ser desnecessário confirmar que a presença do termo “ocidental”. os cânones brasileiro. latino-americano e ocidental têm se transformado de maneira lenta e modesta. ao ser incluído num currículo universitário de culturas ocidentais. bem menos dramática do que seria de se imaginar por intervenções apocalípticas (“estão assassinando Platão e Shakespeare”) ou triunfantes (“estamos conquistando espaço para os excluídos”). É incoerente citar o axioma benjaminiano acerca da inseparabilidade entre documento de cultura e documento de barbárie (Perrone-Moisés.. não em projeções fantasmáticas. especialmente aquelas marcadas por ansiedades quanto aos estudos culturais: a rentabilidade do debate sobre o valor estético costuma ser inversamente proporcional à sua acoplagem ao problema do cânone. Proponho desenvolver aqui uma ideia que parecerá estranha aos que acompanham as discussões sobre o valor. ele dava uma resposta implícita aos que idealizam o Ocidente ou “os valores ocidentais” como cavalos de batalha morais.

pelo papel que cumpriu a beleza cintilante de livros como Texto. Butor. concisão. utilidade. Borges. A paixão e a erudição com que a autora escreve os capítulos sobre Eliot. atenta ao fato de que esses valores podem estar . n. pela estatura intelectual inegável de sua autora. Essa extrema honestidade intelectual me fascina em Altas literaturas. há uma diferença nítida com Bloom. que só é obscurecido se o reduzimos ao problema de quais autores farão parte do panteão de leituras obrigatórias. por sua importância no debate crítico brasileiro. escritura e Falência da crítica em minha própria entrada na profissão e. Depois de mapear os paideumas dos escritores-críticos modernos. crítica. impessoalidade. visualidade e sonoridade. intransitividade. universalidade e novidade. mas pouco analisado. inclusive.15. Paz. Essa redução une esteticistas e culturalistas.130 Revista Brasileira de Literatura Comparada. acima de tudo. que teria sido mais um magnífico livro de Leyla Perrone caso ela o tivesse interrompido na página 173. pelo fato de que a obra não esconde os seus pressupostos axiológicos. O contraste me fez recordar a observação de uma saudosa professora. Leyla Perrone está. que defende seu cânone com base numa naturalização muito menos reflexiva. Dificilmente encontraremos uma síntese tão exata dos valores que balizam a prática literária moderna. Pound. Aqui. “ocidentalistas” e “particularistas”. de que o conceito de valor não se reduz a suas consequências para o cânone. intensidade. que insistia que os críticos literários deveriam escrever sempre sobre aquilo de que gostam. Pode-se criticar qualquer coisa na defesa que faz Leyla Perrone do cânone moderno. Haroldo de Campos e Sollers contrastam nitidamente com a desinformação do capítulo final. Calvino. continuo tomando Altas literaturas como interlocutor privilegiado. sobre a suposta barbárie que ela vê nos tempos atuais. Leyla Perrone encontra alguns valores que seriam comuns a todos. completude e fragmentação. 2009 para a crítica literária. menos a falta de explicitação dos valores que a orientam. sim. exatidão. Aqui. Perdido nesse debate fica o fato óbvio. São eles: maestria técnica.

já não a poesia. como fundamentar um conceito transhistórico de valor estético? Leyla Perrone não se furta a encarar o problema. 165). para os modernos. a intransitividade –. No entanto. 164) – ou seja. não seria a utilidade o oposto da intransitividade? Como conciliar fragmentação e completude? Tecendo uma série de refinadas distinções. ainda restaria a pergunta acerca do que fundamenta o valor estético encontrado por todos eles em obras que não pertencem à modernidade e que foram escritas de acordo com outras pautas. 131 em contradição uns com os outros: afinal. mas que isso não impede Eliot de ver a utilidade da literatura na “preservação do idioma” ou Sollers de associar “transgressão poética e subversão política” (p. entendida como coerência interna. Em resposta à pergunta “para que serve a literatura?” – ou seja. Supondo-se que esses traços são distintivos da modernidade crítica.. mas a literatura como tal –. ela mostra que os modernos coincidem na “independência do objeto estético” (p. 160-163). mas ainda não diz nada sobre o valor estético como tal. Esta última. alargar e valorizar nossa experiência do mundo. não é contraditória com o ideal da obra aberta (p. a ensaísta brasileira afirma: Se nós acreditamos que a literatura tem a alta utilidade de esclarecer. a lista de características privilegiadas por oito escritores-críticos que produziram o fundamental de suas obras num brevíssimo intervalo de tempo (pouco mais de meio século) pode balizar a compreensão do que a modernidade literária pós-romântica privilegiou na sua prática. O mesmo se aplica à aparente contradição entre fragmentação e completude. permaneça inconteste o valor estético de obras escritas a partir de pautas diferentes e muitas vezes contraditórias com aquelas privilegiadas em suas próprias práticas? Em outras palavras. Seria a Divina comédia um poema “fragmentado”? Teria a Odisseia o dom da “concisão”? Como explicar o fato de que. ..Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. a ficção e o ensaísmo da modernidade crítica pós-romântica.

qualquer tentativa de defini-la em termos puramente imanentes fracassará no teste da falsificabilidade. Jorge Amado sobre. Kafka.132 Revista Brasileira de Literatura Comparada. seria difícil não escolher. Algum aluno impertinente poderia encontrar uma contradição entre essa definição de literatura e o cânone defendido pelo livro.15. certamente seria rejeitada em termos categóricos pela autora. seremos levados a defender um certo tipo de história literária: aquela que otimiza a fruição das obras (p. no seu mais alto sentido de conhecimento e valorização da experiência humana. O objetivo aqui não é caçar contradições no discurso alheio. mas exemplificar um postulado teórico que se desprende da leitura de uma de nossas mais sofisticadas ensaístas: qualquer definição trans-histórica de literatura. a “experiência humana” que retrata a obra deste último é uma repetição infinita de uma alienante brutalidade incognoscível para o sujeito. Afinal de contas. No entanto. poderíamos perguntar: Quem é o “nós” sujeito do verbo “acreditar” nesse trecho? Estamos todos os consumidores de literatura incluídos nele? Será mesmo tão impossível imaginar uma comunidade de leitores para os quais a “utilidade” da literatura seria justamente a oposta. Muito pouco se “esclarece” ali. digamos. alargar e valorizar nossa experiência do mundo” é o tema mesmo da obra kafkiana. é o nosso objetivo. qualquer resposta essencialista à pergunta sobre sua natureza. 21-22). perfeitamente plausível para alguém que trabalhe com uma definição historicizada e agnóstica de valor literário. serve para valorizar a experiência humana. 2009 admitiremos que a história do conjunto de suas realizações maximiza o proveito que podemos tirar do contato com cada realização particular. Partindo-se do pressuposto de que a literatura. digamos. não seria absurdo dizer que a impossibilidade de “esclarecer. n. E se a fruição da literatura. e a afirmação de que Jorge Amado lhe é superior. . No limite. Kafka é pilar central do cânone estético defendido por Altas literaturas. Atendonos à definição que oferece Leyla Perrone para o que “serve” a literatura. como tal.

no Passagen-Werk. o grande romance argentino da década e. segundo o Le Monde. exibem esse valor em medida superior aos demais. Aqui. 1991.. 178). como essência do texto literário. num momento muito recente – o século XVIII –. não valorizá-la.] está muito ameaçada” (p. 571). A universalização.] publicam livros light” (p... 179). O apocalíptico e o otimista progressivo representam duas faces da mesma moeda. apaixonada por seu amor por Rímini. “os novos escritores [. 133 não “esclarecer”.. 2666. p. de um conjunto de postulados próprios a uma região e um momento histórico só pode levar à incapacidade de ler o presente a não ser como queda: “a literatura [. “o desafeto progressivo pela leitura é um fenômeno internacionalmente reconhecido” (p. “a literatura [. 178). a literatura latino-americana ofereceu abundantes contraexemplos à percepção de que a ficção se encaminhava necessariamente na direção do mais breve e light... entre eles.. apaixonado por Sofia. que.] recolheu-se a um canto” (Perrone-Moisés. 178). sem referência aos conflitos e pactos sociais que presidem a circulação dos artefatos verbais que. o romance póstumo do . El pasado (2003). 178). Sofia. mas desvelar-lhe a miséria? “Para que serve” a literatura é uma pergunta para a qual não há resposta de antemão. “os livros de ficção se tornaram mais curtos e mais leves” (p. “Não há períodos de declínio” (Benjamin. o grande romance de amor do novo século –. apontava que a crença nos períodos de declínio é coextensiva à crença entorpecida no progresso. 1998. prefiro ficar com Walter Benjamin. mas embaçar a experiência do mundo. passaram a ser designados como “literatura”. de Alan Pauls – segundo muitos. p.. em abstrato. A extrema erudição e extensão do romance não o impediram de tornar-se um bem-sucedido filme em mãos de Héctor Babenco. desenvolve em mais de 500 páginas recheadas de um vasto saber psicanalítico e cinematográfico uma história de amor marcada por uma essencial e deliciosa assimetria: Rímini. Nos últimos anos.Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. Não há respostas imanentes às perguntas acerca de qual é o valor desses artefatos e quais.

pelo jornalista Vagalume.134 Revista Brasileira de Literatura Comparada. nos anos 1930. da mineira Ana Maria Gonçalves. em 1933. numa narrativa que mescla testemunho. nos anos 1950. como Francisco Alves. 2009 chileno Roberto Bolaño. Voltando ainda mais. Luisa Mahin ou Kehinde – possivelmente a mãe do poeta Luiz Gama –. foi contradita por inúmeras ocorrências anteriores dessa retórica. Desde quando se diz isso? Minha hipótese inicial. Em meu trabalho sobre música popular. A hipótese de que a percepção de uma decadência no samba datava dos anos 1940 foi. Estupefato. contradita pela sua aparição durante a compra dos sambas dos compositores negros do morro por intérpretes brancos de classe média. encontrei outras instâncias na época do sambaexaltação e da sobreorquestração do gênero no molde das big bands norte-americanas. Um defeito de cor (2006). descobri que a afirmação de que já não se faz samba como antes aparece no primeiro livro escrito sobre o samba. a de que o discurso coincidia com o início da apropriação bossanovista do samba de morro nos anos 1960. interessou-me em certo momento a origem do discurso sobre a decadência do samba: “Já não se faz mais samba como antigamente”. uma saga narrada por uma escrava. cujo refinamento não impediu que ele se transformasse em fenômeno editorial. oferece. Os leitores das obras de Ana Maria Gonçalves.15. Alan Pauls e Roberto Bolaño são bem mais numerosos que nos fariam crer os apocalípticos. apresenta. um relato que conjuga os horrores dos assassinatos de mulheres na fronteira mexicano-americana com um estudo da frivolidade cúmplice que Bolaño via como característica das cliques acadêmicas e literárias. Esses leitores com frequência testemunham que a sofisticação dos textos não é contraditória com o interesse gerado pela peripécia. especialmente no caso deste último. em mais de 900 páginas. O discurso de que o samba corre risco de morte tem a exata . por sua vez. n. ainda no contexto da Rádio Nacional. em mais de 800 páginas. que compra sua liberdade e percorre oito décadas de história brasileira e africana no século XIX. historiografia e ficção sem nenhuma concessão ao naturalismo fácil.

absoluto (posto que não relativizável dentro de tal comunidade) e motivado (no sentido de que sua origem não é produto de uma eleição puramente arbitrária). p..Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. o fato de que em 1964 o poeta mexicano Octavio Paz tenha reunido uma lista de sinais de decadência da literatura não quer dizer que “a situação em que hoje vivemos foi claramente prevista” por ele (Perrone-Moisés. No espaço circunscrito da comunidade interpretativa em questão. 179). A expressão-chave aqui.. a adequação aos modelos da Antiguidade na literatura . um dos elementos constitutivos da comunidade mesma. Antes que a patrulha antirrelativista afie suas garras. Um valor é sempre o resultado de uma luta mas. 30-53). 1998. relativismo e contingência O axioma da filósofa Barbara Herrnstein Smith é um achado mais complexo e frutífero do que parece à primeira vista: o valor é sempre e necessariamente contingente (Smith. inclusive. Um determinado valor ou sistema de valores pode perfeitamente ser objetivo (na medida em que ele independe da subjetividade particular de qualquer membro da comunidade interpretativa). Bastaria pensar no considerável poder de tração de valores como o mester de clerecía (a técnica aprendida na tradição) na literatura tardo-medieval hispânica. 1988. é “dentro da comunidade”. 135 idade do samba. um dos fundamentos que presidem a emergência da própria comunidade. A coincidência de contingências que conferem inteligibilidade a um valor pode ser. é bom esclarecer que “contingente” não quer dizer “subjetivo” nem “relativo” nem “arbitrário”. p. Da mesma forma. Significa que a existência de profetas da queda do valor literário é tão antiga como a literatura mesma. um valor pode ser absoluto. Nada disso mudaria seu caráter contingente. objetivo e motivado. esse valor contingente tenderá a aparecer aos membros da comunidade interpretativa como uma não-contingência. axiologia. e continuaria sendo contingente. uma vez consolidado. claro.

mas ela não . realizou uma transcendentalização de um processo que era imanente à comunidade valorativa em questão. desfruta de um valor ausente em. A casa dos espíritos. com Cem anos de solidão. Um exemplo análogo. que afirmavam que o melodrama de Allende lhes falava à experiência de uma forma que a saga de García Márquez não fazia). particularmente leitoras. Tomemos um exemplo latino-americano: é amplamente hegemônica a percepção de que. ou seja. ou a inovação e a ruptura nas vanguardas de princípios do século XX. A transcendentalização dos resultados de um pacto particular é uma estratégia comum e recorrente nas querelas entre escolas e estilos literários. A afirmação não está na esfera do indizível. a justificativa de um valor contingente fez uso de um vocabulário da nãocontingência. O grau de estabilidade de um determinado sistema de valores em sua respectiva comunidade não diz nada sobre sua suposta obviedade. de Isabel Allende. especialmente na França. a não ser como sinédoque cega a suas próprias condições de produção. de Gabriel García Márquez. no Brasil. Os juízos discordantes tenderão a ser lidos como deficiência ou falta de cultura do sujeito valorador. mas ela não é uma teoria da literatura e do valor estético como tais. nem sobre as propriedades intrínsecas do objeto valorado. Os juízos que se adéquam ao pacto valorativo dominante tenderão a ser lidos como confirmação da obviedade e naturalidade dos valores implícitos no pacto. seja qual for a crítica que se possa ter à estética do realismo mágico. digamos. É claro que é possível questionar essa valoração (e já encontrei vários leitores.136 Revista Brasileira de Literatura Comparada. seria o hipotético leitor que adentrasse as comunidades interpretativas dentro das quais circula o romance dos anos 1930 para propor a tese de que Jorge Amado é superior a Graciliano Ramos. Em cada um desses casos. não pode ocorrer sem que o sujeito se instale em posição exterior a um consenso crítico que preside as comunidades interpretativas nas quais circulam esses textos. mas expressa a naturalização do pacto valorativo. 2009 neoclássica do século XVIII. Esse questionamento. no entanto. sua versão original.15. n.

um relativista. Ao questionar a obviedade de valores como “bondade”. Ele afirmou taxativamente que os valores socrático-cristãos são piores. A única possibilidade que restaria a esse hipotético leitor seria desvendar a natureza contingente da aparente naturalidade da valoração anterior. para usar a fórmula popular. for exposta a contingência que sustenta um valor supostamente absoluto. ou seja. Nietzsche não foi. que “daria tudo na mesma” (um dos expoentes dessa desleitura. valores de escravo. claro. Nietzsche sugeria. vale sempre a regrinha: ao ver alguém ser acusado de relativista. com frequência. confundida com o bicho-papão do relativismo. A acusação de relativismo tenderá a se repetir quando. No caso do valor estético. que insiste em igualar desconstrução e relativismo). a acusação de relativismo invariavelmente remete a uma suposta tendência dos estudos culturais – ou das demonizadas feministas e afrocêntricos . Mas. é o filósofo e poeta Antonio Cicero. Nessas polêmicas. mais baixos. p. A posição que apresento aqui é. no interior de uma comunidade interpretativa. não por acaso. 1967-77. que não há “justiça” até o momento em que o mais forte estabeleça sua lei.Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. questionar a totalidade do pacto valorativo. Nietzsche ensinou algo acerca de como funcionam as operações de naturalização. de forma alguma. daninhos à afirmação da vida. Os defensores da naturalidade do pacto valorativo em geral replicarão com a falácia desenvolvimentista: o argumento de que a percepção minoritária é produto de uma deficiência do sujeito valorador e que. Com esse axioma.. no Brasil.. “piedade” e “humildade”. que afirmaria que todos os valores seriam igualmente válidos ou. uma vez que os leitores sejam educados direitinho. dê uma olhada no absolutismo de quem acusa. o neokantismo de princípios do século XX leu como “relativistas” afirmações do tipo “falar de justiça e injustiça em si carece de todo sentido” (Nietzsche. 137 pode ser acomodada nos pactos valorativos dentro dos quais circulam os romances desses dois autores. todos reconhecerão que não há como negar a superioridade estética de García Márquez sobre Allende. 312).

n. O próprio Mário de Andrade faz referência a ela como característica “tida em geral como provinda da Africa” (1987. a partir do século XX. Para seguir com a analogia musical: durante décadas. p. 9/8). instrumentação. o heavy metal. por exemplo. tal “irregularidade” provinha do fato de que a teoria ocidental prevê compassos simples (binários: 2/4. mas não prevê compassos que misturem de forma sistemática agrupamentos dos dois tipos. poderá testemunhar acerca da miríade de distinções de subgêneros baseadas em andamento. grau de distorção. Qualquer consumidor de música popular que acompanhe. Ou seja.15. performance. Está demonstrado. menos complexas. 2009 – de não aceitar a “óbvia” diferença de “qualidade” entre os grandes monumentos da modernidade e as formas estéticas mais populares ou massivas. imanente entre o valor das obras agrupadas sob a rubrica da arte erudita e o valor daquelas que convencionamos chamar de populares ou massivas. rigorosas. 1996). volume. a acusação de relativismo costuma pressupor que. os estudos de música brasileira trabalharam com a noção de síncope como “irregularidade” essencialmente africana. Aceitar essa diferença seria um pré-requisito para qualquer discriminação de valor.138 Revista Brasileira de Literatura Comparada. nenhuma distinção de valor é possível. na qual me parece que o conceito de valor está colocado em terreno mais sólido. Recorro à etnomusicologia. timbre ou padrão rítmico – distinções incompreensíveis e ilegíveis para aqueles situados fora do pacto valorativo que preside o consumo do gênero. 3/4. vocalização. temática das letras. passou a ser agrupado sob o rótulo de “música clássica”. exatamente a mistura que . se essa distinção de valor não é aceita. 409). absolutamente. com pesquisa formal e etnográfica (Frith. Ora. multifacetadas ou especializadas que aquelas feitas pelos ouvintes do heterogêneo corpus de peças europeias modernas que. 4/4) e compostos (ternários: 6/8. que as distinções valorativas realizadas pelos fãs de música popular não são. Carece de qualquer fundamentação filosófica a ideia de que a viabilidade do conceito de valor estético dependa da aceitação de uma diferença essencial.

A chamada “irregularidade africana” não era senão a impossibilidade de que a partitura ocidental descrevesse apropriadamente o novo objeto. 85). como síncopes” (Sandroni. 1993.. p. p. p. nos últimos trinta anos. é hoje invariavelmente visto como “escritor para adolescentes” (Aira. “depois de Todos los fuegos el fuego já não escreveu mais. étnicas e pós-coloniais do cânone. Julio Cortázar. que inspirou uma geração de neovanguardistas estéticos e revolucionários políticos. anormais. evidentemente. ajudarão a encaminhar a conclusão teórica. incluindose um que ilustra minhas críticas às revisões feministas. irregulares (exigindo. dedicando-se exclusivamente a repetir seus velhos clichês e a responder às exigências estereotipadas de seu público” (Piglia. Os pactos valorativos na estética se tornarão visíveis em proporção direta à exposição do caráter contingente dos fundamentos que os sustentam. que não possa vir a fazê-lo num momento futuro). Dois exemplos. A obra não parece ter renovado sua legibilidade depois daquele contexto (o que não quer dizer. uma “perfumaria free tax de aeroporto” (Abraham. para sua correta execução. 39). O valor rítmico contramétrico era ilegível numa notação construída para descrever e privilegiar a harmonia. de Bestiario. Uma determinada conjunção de fatores estéticos e políticos criou as condições para uma leitura celebratória de Cortázar nos anos 1960. nota-se uma acentuadíssima queda no capital cultural de um escritor que chegou a ser considerado um dos maiores do continente. O resultado é que “ritmos desse tipo apareceram nas partituras como deslocados. 2008) e “está escrito para candidatos de agência de turismo cultural”. Na Argentina. 26). Incontáveis são juízos contemporâneos que veem O jogo de amarelinha como romance que “sofreu enormemente a passagem do tempo” (Sarlo. 2006. a avaliação mais recorrente de Cortázar é que se trata de um escritor em cuja obra talvez se salvem os primeiros contos. 139 é uma das marcas da música da África subsaariana.Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. mas não muita coisa mais. 2001) que. 2001. o recurso gráfico da ligadura e o recurso analítico da contagem) – em uma palavra. Na Argentina. O fato é que hoje ..

Juan José Saer. Era o auge dos movimentos de solidariedade à revolução centro-americana. Há uma lição menos óbvia a se extrair daí. por exemplo. formada na luta contra os horrores do regime guatemalteco. como a de Cortázar. 2009 seria bastante difícil encontrar um estudioso de literatura na Argentina que colocasse Cortázar no mesmo patamar de. e a história de Menchú. comuns nos anos 1960. n. As comparações com Jorge Luis Borges. resultado de 25 horas de gravações realizadas pela antropóloga franco-venezuelana Elisabeth Burgos. gerou comentários acerca de uma suposta transparência da voz testemunhal. Uma tese que se propusesse a comparar “o fantástico em Borges e Cortázar” é imaginável no Brasil. não quero me limitar a ilustrar o óbvio. A publicação de Biografía de un cimarrón. mesmo no caso das obras mais politizadas. Seguindo-se à Agradeço a Mariano Siskind pela interlocução sobre a perda de capital cultural de Julio Cortázar na Argentina e também pela citação de Beatriz Sarlo. na Espanha e talvez nos EUA.15.6 Com o exemplo de Cortázar. publicou-se o testemunho de Rigoberta Menchú. comoveu uma série de críticos de esquerda que buscavam alternativas a uma política literária herdada do boom. também latino-americano. O testemunho havia recebido um primeiro reconhecimento em 1967. quando Casa de las Américas criou uma categoria especial para o gênero em seu prestigioso prêmio. uma vantagem do gênero em relação à literatura na representação dos excluídos. Um outro episódio de valoração. de Miguel Barnet. que o valor dos escritores na Bolsa Literária (segundo a feliz expressão de Leyla Perrone-Moisés) muda no tempo e no espaço. Em 1983. sobre a qual as revisões feminista. hoje soariam risíveis aos ouvidos dos que circulamos no interior dos pactos valorativos que presidem a circulação desses textos. oferece algo a ser pensado pelos dois polos do atual debate: a entrada do testemunho ao cânone literário. Mas na Argentina ela seria recebida como uma junção de termos incomensuráveis. 6 . étnica e pós-colonial do cânone ainda não refletiram o suficiente: a incontornável descontinuidade entre valor estético e resultado político.140 Revista Brasileira de Literatura Comparada. como demonstra uma pesquisa nos bancos de dados da disciplina.

masculino. Para os primeiros. 51-104) relativizaram a “revolução” testemunhal que parte da esquerda anunciara nos anos 1980. 98). p. Entretanto. 26). homossexuais. no interior dos estudos sobre o testemunho. na aura de autenticidade da voz do subalterno (Moreiras. camponês ou imigrante) e a posição do mediador (um intelectual. como chegaram a lamentar Roberto González Echevarría e outros expoentes da direita crítica latino-americana. O saldo do episódio da canonização do testemunho foi que o texto de Rigoberta Menchú produziu um impacto importante. mas limitado. 2003. Estudos fundamentados no problema da mediação (Sklodowska.Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. A euforia levava a declarações como a de John Beverley. Tanto esteticistas como culturalistas sobrestimam as consequências da revisão de uma lista de leituras. indígenas e proletárias” (1993.. 141 publicação do testemunho de Menchú. George Yúdice opôs a literatura como “portadora privilegiada da identidade nacional” (1991. logo absorvido pelo pacto valorativo que preside a leitura do corpus latino-americano. como chegaram a celebrar John Beverley e George Yúdice. a ênfase nas mediações por meio das quais a voz testemunhal se registra na escrita e a análise da descontinuidade entre a posição do depoente (um subalterno. . patriarcal e ‘letrado’. 2001) ou no papel do testemunho como recuperação imaginária de uma vocação política perdida na literatura (Avelar. em geral indígena. de que enquanto a literatura na América Latina “tem sido (principalmente) um veículo para engendrar um sujeito adulto. ela funciona como explicação simples para o complexo quadro de perda de capital cultural da literatura. A incorporação de depoimentos dos subalternos ao cânone não representou nem um assassinato de Cervantes e Borges pela barbárie iletrada. em geral um antropólogo) levou a própria crítica a matizar a euforia do primeiro momento.. p. branco. 20) ao testemunho como “expressão de uma consciência liberada de tal elitismo” (p. o testemunho permite a emergência – mesmo que mediada – de identidades femininas. 1992). nem um golpe ao poder “elitista” da literatura. p.

mas que todo mundo que o 7 . Mas não há. Para concluir. a mais alta seria a poesia). então. o conceito de valor [Wert] não aparece no contexto do estabelecimento da estética. sugiro rotas de dissociação entre esses conceitos. todas essas ocorrências se referem a uma esfera extraestética. sendo vistos como contíguos entre si por esteticistas e culturalistas. mas introduzir algum espaço de respiração na interseção entre esses três conceitos. não estou dizendo meramente que gosto dele. o etnocentrismo e a opressão de classe. 2009 Para os segundos. o valor e a estética de forma a não permitir nenhuma descontinuidade entre os três termos. no sentido mensurável.142 Revista Brasileira de Literatura Comparada.] um poema bom. na Crítica do juízo kantiana. Este é um fato filológico tão banal quanto regularmente esquecido: na origem da estética. sim. dedicado à comparação entre as várias belas artes (segundo Kant. quantitativo que é próprio do conceito. para Kant. salvar a literatura ou democratizar o cânone.15. Recorde-se que. Ambos trabalham com o cânone. n. então.. como se toda estética pressupusesse a noção de valor. Ou seja. ao valor da existência humana (§4) e à necessidade do postulado da existência de seres racionais para que o mundo seja dotado de valor (§87). a estética seria a esfera da experiência Que Antonio Cicero decrete que “quando digo que um texto é [. na Crítica do juízo. funciona como mecanismo compensatório que permite a apresentação de novas listas de leitura. referências ao valor de um ato (§91). Para uma genealogia do conceito de valor estético Os conceitos de valor e de estética terminaram. nenhuma hierarquia do belo. A única menção ao valor num contexto estético ocorre em §53. o sexismo.. Como se sabe. A grande tarefa da teoria não seria. com observações acerca do que denomino uma concepção agnóstica de valor literário. mais inclusivas. Kant faz. ou como se valorar obras de arte sempre implicasse que o juízo em questão fosse estético. nenhuma atribuição de valor à beleza. não há conceito de valor. como se estas representassem uma vitória política real contra o racismo.

Quando Cicero afirma que Barbara Herrnstein Smith. ao propor a tese da contingência do valor. Basta ler a analítica do belo (§6 a §22) para constatar que Kant o entende como objeto de um juízo de tipo. exatamente como ocorre com o gosto do abacate. econômico. Esses traços ou potencialidades passarão a ser apresentados como característicos da experiência estética. sendo sua maior ou menor presença em cada obra o critério para sua valoração.Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. ela se limita a apresentar uma negativa. não custa lembrar que o próprio pilar da analítica kantiana do belo – a demanda de concordância universal sobre o juízo – também embute um patente contrassenso. p. Decretar que estes últimos são maus leitores não resolve o problema teórico. A frase não confere um atributo ao sentido. o ônus da prova cabe a estes. No mundo real.. evidentemente. no qual atos de valoração socialmente situados entram em conflito. aqueles traços inicialmente definidos como característicos do estético! Não é à toa que os alunos não aceitam isso facilmente..7 Por isso. Os enunciados falsificáveis evidentemente não se submetem às mesmas regras de verificabilidade dos não falsificáveis. que o valor estético de Grande sertão: veredas possa ser deduzido do preço da mercadoria comercializada pela Editora Nova Fronteira. p. ao dizer tais coisas. Ao enfrentar-se com a pergunta acerca de como se chegou a delimitar o terreno propriamente estético. Deixemos de lado o caráter escorregadio dessa premissa. “se digo ‘eu gosto de abacate’. Ou seja. não há que se repreender Barbara Herrnstein Smith por remeter o valor estético ao terreno da economia (Perrone-Moisés. Caso se apresente a objeção de que a impossibilidade de submeter o belo a fórmulas comparativas contraria todo o senso comum que desenvolvemos como consumidores de arte. por outro lado. incontáveis leitores dizem que “No meio do caminho” é um bom poema e outros incontáveis leitores dizem o contrário. é pueril argumentar que não podemos afirmar que “o sentido não é eterno e unívoco” pelo fato de que essa frase supostamente teria um sentido eterno e unívoco. jamais de grau. não sugiro. 8). Todas as definições não econômicas de valor estético que tenham pretensões trans-históricas incorrem em versões mais ou menos sofisticadas de uma tautologia: define-se o valor como a presença de certos traços formais (sejam quais forem) ou a capacidade de produzir certas sensações. 230). considere desinteressadamente deve reconhecer” esse suposto fato e que. em negociação e em articulação. Ao propor que não há conceito não tautológico de valor estético fora da economia. Na verdade. não pretendo o mesmo” (2009a). incorre em paradoxos que solapam suas próprias teses” (2009b. “nem sequer se dá conta de que. não torna essa distinção verdadeira. sim. ele parece não ter se dado conta de que há um capítulo inteiro de Contingencies of value dedicado a refutar a objeção de que supostamente não se poderia afirmar que o valor é sempre contingente sem cair em contradição. apresentada como apreço que necessariamente demanda universalização. que esse valor se deduz num contexto eminentemente relacional. Sugiro. mediados por . 1998... Em bom português: no debate entre agnósticos e crentes. Quem afirma a contingência do valor não está conferindo ao objeto valorado um atributo que permaneceria no tempo. remete-se o interlocutor à existência de obras que exibem. não há outro vocabulário que não o da economia. 143 desinteressada do belo. concordância de todos. já amplamente criticada pela tradição (a começar pelo próprio Hegel).

no primeiro capítulo de Capital. constante e permutável sob todos os céus e todos os tempos. nas teorias imanentistas do valor estético. 581). pressupõe um transcendental. pelo menos na economia política. a economia política em mais de dois milênios. n. É o trabalho que lhes confere valor e explica a possibilidade de equivalência entre duas mercadorias distintas. Smith escapa da circularidade da equivalência universal das mercadorias ao dotar um conceito de um papel transcendental. o trabalho. 71). 2009 instituições como a escola. portanto. As genealogias da economia política em geral conferem a Riqueza das nações. extrai sua origem do trabalho” (Foucault. qualquer que seja. 1999. Para compreender sua dinâmica. de Adam Smith. com Ricardo. 270). dedicado à mercadoria. O conceito de valor. 269). O conceito da comparabilidade universal precede. que delimita uma região na qual a representação “não tem mais domínio” (Foucault. dá o crédito a Aristóteles como o “primeiro pesquisador a ter analisado a formavalor” (1952. a imprensa e a crítica. p. o mérito da ruptura com a natureza circular do debate anterior. p. mas justamente notar que há uma operação analógica silenciosa. de rentabilidade limitada. A consolidação da teoria do valortrabalho. entre fisiocratas e utilitaristas. O objetivo aqui não é traçar uma analogia entre o valor estético e o valor econômico. A economia . mas sim porque todo valor. 1992. É o próprio Marx que. p. É para esse fim que se introduziu o dinheiro” (1133a).144 Revista Brasileira de Literatura Comparada. vale a pena refletir sobre como a economia política entendeu o valor. Já está presente em Aristóteles a compreensão de uma diferença clara entre o valor de uso e o valor de troca: “todas as coisas que são trocadas devem ser de alguma forma comparáveis. num processo que conforma um equilíbrio nunca completamente estável – o que venho chamando aqui de pacto valorativo. ocorre não a partir do fato de que o “trabalho seja um valor fixo. na qual ele sempre teve sua morada mais sólida. 1992. que serve de fundamento a todas as outras trocas: “o trabalho é a real medida do valor intercambiável de todas as mercadorias” (Smith. p.15.

a teoria do valor depende de um transcendental. ainda nos fascinam e mantêm sua legibilidade. a teoria do valor estético só pode definir o valor imanentemente a partir das operações circulares descritas acima.. à continuidade de sua circulação numa cultura particular.. 145 política sempre enfatizou.. e pode assim realizar várias funções para nós (Smith. Atesta-o a célebre observação de Marx na introdução aos Grundrisse. 52-53). não muito diferentes das equivalências universais tautológicas dos economistas anteriores a Adam Smith. de que o mistério não era explicar que a arte grega emergiu como produto de circunstâncias históricas particulares próprias à sociedade helênica. e que o cálculo do valor da mercadoria como quantidade de trabalho socialmente necessário para a sua produção não se aplica a objetos estéticos. Haveria que se estudar o que. lecionada e imitada. essa altamente variável entidade à qual nos referimos como “Homero” recorrentemente entra na nossa experiência em relação com uma grande variedade de nossos interesses. Na ausência desse transcendental. . traduzida. essa observação não é o fim. e completamente inserida numa rede de intertextualidade que continuamente constitui a alta cultura [. e portanto sua permanência no tempo não se explica imanentemente: A permanência de um autor clássico como Homero se deve não ao valor supostamente transcultural ou universal de suas obras mas. Repetidamente citada e recitada. p. mas entender como e por que os poemas homéricos. produtos do que ele chamou de “infância da humanidade”. A manutenção do valor de uma mercadoria ao longo do tempo se explica pelo fato de que ali se aninha uma quantidade determinada de trabalho que mantém alguma tradutibilidade (com as naturais oscilações que serão fruto das próprias variações no valor do tipo de trabalho que se encontra ali congelado). 1998..Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. o trabalho. pelo contrário. O trabalho que produz a obra de arte não é traduzível. mas o prolegômeno da pesquisa. Na economia. claro.]. Evidentemente. que a lei do valor-trabalho se aplica a objetos reprodutíveis.

1991). como os relatos de viagem (Süssekind. 1996. escolas. na conformação do sistema de valores literários brasileiros. uma série de novos escritores faz uso das tecnologias de publicação online para circular seus textos e manufaturar concepções emergentes de valor literário. ganharíamos terreno se o dissociássemos da polêmica entre o culturalismo e os defensores do “cânone ocidental” e o remetêssemos a todo o vasto material que pode informar uma futura história da construção do valor literário no Brasil: o erudito mapa traçado por Raúl Antelo do ideário da transgressão na modernidade (Antelo.146 Revista Brasileira de Literatura Comparada. a valiosa sequência de pesquisas feitas por Marisa Lajolo e Regina Zilberman sobre a história da leitura e do livro (Lajolo e Zilberman. permitiu que cada obra realizasse as funções que os vários leitores. Para além do lamento de que a internet é responsável por uma queda na qualidade e na frequência da leitura das novas gerações – queixa jamais fundamentada com pesquisa empírica e agora patentemente desmentida (Castells. O postulado da contingência essencial do valor só abre um espaço de relevância ainda maior para essas pesquisas. No caso do debate sobre o valor que tem se desenvolvido nos estudos de literatura brasileira e latino-americana. de Manuel Bandeira (1963) a Italo Moriconi (2000. 1990) ou as tecnologias da reprodução (1987). academias e intertextos lhe atribuíram ao longo dos anos. Acredito que ainda sabemos pouco sobre o papel das antologias.15. 2009 em cada situação e contexto. . 1991. para não mencionar mais que alguns exemplos. n. 2001). a recuperação de facetas pouco exploradas dos escritores mais canônicos. o estudo de Roberto Ventura sobre as polêmicas literárias. 2001). 2001). 2009) –. essas verdadeiras máquinas de produção e destruição de valor (Ventura. instituições. A história da profissionalização do escritor e das suas relações com a imprensa e com o mercado ainda nos oferece vastas zonas de pesquisa não realizada. as pesquisas de Flora Süssekind sobre as relações da literatura com outros discursos. como a recente antologia de escritos de Machado de Assis sobre a afrodescendência realizada por Eduardo de Assis Duarte (2007).

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menina de vermelho a caminho da lua. By using a theater method based on the Augusto Boal’s Theater of the Oppressed. Teatro do Oprimido. Aqui se propõe uma avaliação de exercícios a partir da leitura de I love my husband. educação. especially texts written during the second half of the last century. Marina Colasanti’s little Girl in Red on her way to the moon and Clarice Lispector’s the Hour of the star.151 O ensino de literatura brasileira por meio do Teatro do Oprimido: uma experiência na Carolina do Norte Érica Rodrigues Fontes* resumo: Este trabalho analisa experiências no ensino de litera- tura brasileira realizadas com alunos estadunidenses da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill (UNC-CH). de forma a lidar mais eficientemente com algumas questões apresentadas em nossa literatura e que concernem diretamente textos de autoria feminina. de Clarice Lispector. abstract: This paper analyzes experiences with the teaching of Professora adjunta de língua inglesa (Graduação) e de literatura (Mestrado em Letras) da Universidade Federal do Piauí (UFPI). mas o contexto brasileiro. ∗ Brazilian literature. de Augusto Boal. de Marina Colasanti. we intended to create an ideological relationship between the American students who took the course and not only the Brazilian literature but also the Brazilian context. palavras-chave: literatura brasileira. de Nélida Piñon. Ao utilizarmos um método teatral baseado no Teatro do Oprimido. Here I propose an evaluation of the exercises done based on the reading of Nélida Piñon I love my husband. e a hora da estrela. as a means of dealing more efficiently with some issues presented by our literature and which directly concern texts by women authors. . These experiences were done with American Students from the University of North Carolina at Chapel Hill (UNC-CH). em especial textos escritos na segunda metade do século passado. pretendemos criar uma relação ideológica entre os alunos americanos e não só a literatura brasileira.

a ideologia é a própria representação da cultura. embora neste país da América do Norte exista muita exposição à cultura de outros países. é em sua temática que nossa literatura parece ser mais enriquecedora quando pertencente a um currículo estrangeiro. De fato. 24). Muito mais do que o ensino de movimentos literários. tal ligação se torna indispensável. os textos escolhidos foram considerados representativos da ideologia brasileira contemporânea com atenção para os temas supracitados. Eles mostram a vida como representada pela ideologia. métrica ou outros assuntos de interesse da literatura. procurei priorizar esses dois temas. 1 . a uma exposição sobre a história e política brasileiras. torna-se um compromisso do professor de literatura brasileira. uma preocupação com a criação de uma estratégia de relacionamento entre a nossa realidade e a realidade do país onde a nossa está Romances não mostram a vida. percebi dois pontos de interesse comum das culturas e literaturas estadunidense e brasileira: as minorias políticas e as questões identitárias. 2009 Brazilian literature. n. não há de fato acesso à perspectiva ideológica de outras nações. e por ater-me principalmente ao ensino das obras escritas no Brasil.152 keywords: Revista Brasileira de Literatura Comparada. pois. Depois de ensinar em cinco turmas de graduação a matéria Literatura Lusófona na Carolina do Norte. Portanto. education. com a interpretação brasileira de mundo. pois. they depict life as it is represented by ideology”1 (Davis. portanto. p. Como afirma Leonard Davis: “Novels do not depict life. criar para os alunos possibilidades de interação com a mentalidade brasileira. Assim. no contexto estadunidense. Houve. Minha tradução. 1987. Introdução Ensinar literatura brasileira no exterior (e para estrangeiros) está obrigatoriamente atrelado a uma experiência cultural. como afirma Linda Hutcheon (1999). ao selecionar textos para leitura e debate em sala. Nos Estados Unidos. Theater of the Oppressed.15.

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sob estudo, pois, embora muitas vezes essa ideologia esteja clara para um nacional da literatura lida, para o estrangeiro ela precisa ser apontada. Como exemplo, cito um momento de debate sobre a personagem Macabéa do romance A hora da estrela, de Clarice Lispector. Para os alunos do curso, em sua maioria nascidos em um contexto rural como o da Carolina do Norte, era quase impossível entender a condição tragicômica dessa personagem, pois ela está inserida em um contexto urbano, onde mora longe de seu estado de origem, com pessoas desconhecidas. Os fatos engraçados que acontecem na vida de Macabéa são gerados pela sua estranheza, pela sua falta de adaptação à sociedade, sua marginalidade. Se nos EUA a principal razão para os jovens saírem de sua terra natal é estudar em uma boa instituição, no Brasil o principal motivo para o êxodo jovem tem razões muito diferentes: a fuga da fome, da miséria e da pobreza. Para os alunos norte-americanos, portanto, entender o comportamento de Macabéa tornava-se difícil. Eles consideravam-na simplesmente um ser humano desprovido de inteligência e, então, digno de risadas e deboche. Foi preciso comparar a situação dessa personagem com uma vítima da pobreza, fome e desastres naturais no estado do Mississippi (o mais pobre dos Estados Unidos) para que os alunos entendessem a tragicomicidade da obra. Muito provavelmente pela dificuldade de localizar pontos de interseção entre as duas culturas é que outros instrutores do curso supracitado haviam detectado que a participação dos alunos nas discussões era bastante inferior às suas expectativas e que as atividades, em muitos casos, eram desinteressantes para os discentes. Foi principalmente por causa do aparente desinteresse dos alunos pela disciplina que resolvi implementar em minha aula de literatura exercícios de teatro para posterior montagem teatral e um segundo momento de discussão. A metodologia escolhida foi a do Teatro do Oprimido, objeto de minha pesquisa de doutorado.

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O projeto relatado neste artigo teve por objetivo a melhor absorção de conteúdos literários pelos alunos de literatura de graduação de diversos cursos da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill (UNC-CH). Realizado de agosto de 2004 a julho de 2006, ele revela experiências ocorridas nas turmas de Português 40 (Introdução à Literatura Lusófona), das quais fui instrutora, enquanto aluna de mestrado e doutorado na UNC-CH. Neste artigo, analiso exercícios teatrais desenvolvidos a partir de três textos brasileiros de autoria feminina: I love my husband, de Nélida Piñon, Menina de vermelho a caminho da lua, de Marina Colasanti, e A hora da estrela, de Clarice Lispector. Os textos foram analisados e encenados a partir de traduções inglesas das obras, nos moldes do Teatro do Oprimido e principalmente do Teatro Fórum (técnica de Boal para discussão de problemas sociais no palco, a ser explicada a seguir, juntamente com sua adaptação para a aula de literatura). Por meio dessas técnicas e de sua adaptação para as aulas, os alunos se colocam no lugar de personagens brasileiros, discutem a resolução do seu problema e depois trazem algumas situações para o contexto estadunidense, ao debater ou analisar problemas equivalentes nas duas Américas ou, mais especificamente, nos dois países. Há pelo menos dois fatores que favorecem a utilização do método teatral de Boal nessa aula de literatura: a ideologia sob a qual os textos tratados foram escritos (condição subalterna da mulher e a sua necessidade de liberação) e o fato de o Teatro do Oprimido ser um tipo de teatro que tem como proposta final a discussão de problemas sociais. Esses textos traduzem opressões contemporâneas vivenciadas no Brasil e que têm equivalentes na sociedade norteamericana, ainda que estes não sejam divulgados. Assim, descreveremos como foi proporcionada essa ligação entre a identidade norte-americana e a identidade brasileira para o ensino de literatura brasileira, visando exclusivamente a um melhor aproveitamento literário e cultural dos alunos,

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originado por uma maior convivência com as obras, por meio do envolvimento teatro-lúdico. Neste artigo me concentrarei no resultado concernente ao trabalho desenvolvido com os textos supracitados. As duas últimas obras foram estudadas no final do semestre, indicando um envolvimento mais profundo dos alunos com a metodologia.
As observações descritas a seguir foram feitas a partir das experiências de sala de aula e baseadas nas ideias retiradas do livro Técnicas latino-americanas de teatro popular, de Augusto Boal. Os seus métodos teatrais, mais divulgados com a publicação do livro Teatro do Oprimido, ocorrida no início dos anos 1970, ficaram conhecidos em todo o mundo e priorizam uma participação mais ativa do espectador, que vai além do modelo observador e consciente apresentado pelo dramaturgo alemão Bertolt Brecht.2

Walter Benjamin explica que, no teatro épico de Brecht, priorizam-se a crítica social e a interrupção da ação dramática (os momentos narrativos são exemplo dessa interrupção) para reflexão sobre a crítica encenada. O público, porém, não participa do espetáculo ativamente. No teatro de Boal, diferentemente, o público pode interferir diretamente na ação, encenando suas sugestões, ainda que sob a supervisão e orientação de um diretor, o Curinga.
2

É no Teatro Fórum, uma das técnicas do Teatro do Oprimido, em que há o incentivo à discussão de problemas sociais, que a participação da plateia pode ser mais claramente notada. Neste modelo de teatro, a primeira parte de uma peça é tradicional (com a separação entre público e atores), se dá em aproximadamente 30 minutos e apresenta pelo menos um problema ou erro em cada cena. Por erro entende-se uma situação social de opressão, sendo o erro, portanto, cometido pelo opressor e também por uma falta de postura mais libertária do oprimido. Na segunda parte da peça, que é introduzida por um Curinga, espécie de diretor teatral, perito na metodologia de Boal, o objetivo do público é, então, tentar consertar ou remediar o erro. O Curinga indica para a plateia que as cenas poderão ser modificadas por meio da substituição do oprimido (de acordo com a ideologia do Teatro do Oprimido, somente o oprimido pode ser substituído), com quem a plateia é levada a se identificar. Muitas vezes ela (plateia) até tem uma história que já auxilia esse processo, visto que muitas das peças são apresentadas em edifícios públicos, tais

hospitais e prisões. Ou seja. já que a plateia é inicialmente incentivada a identificar-se com o oprimido. serão perfeitas ilustrações de como a leitura de um conto ou outro tipo de texto literário pode ser enriquecida com este método. tendem a permanecer iguais. ao substituir o opressor. pois estes. temos o retrato de uma mulher que é praticamente escrava de seu marido: faz para ele café todos os dias. na concepção deste. evita falar de amor com ele porque há. deve mudar para que. com protagonistas que querem mudar a sua história de vida. lentamente. por si só. não há muito que o oprimido possa fazer a respeito. Quando o opressor é modificado.156 Revista Brasileira de Literatura Comparada. pois não é esse o papel que faz e. respectivamente) para estudar as relações presentes nos textos e. que divide a sociedade no binário oprimidoopressor (equivalentes ao protagonista e antagonista.15. de acordo com o Teatro do Oprimido. 2009 como escolas. usei a ideia geral do Teatro do Oprimido. muitos outros . Passemos então a um breve relato das experiências que. a plateia tenta modificar uma postura sobre a qual não tem nenhuma influência no dia a dia. a partir de então. o teatro do oprimido em I love my husband Nas aulas mencionadas. o sistema social não testemunha uma frequente mudança na atitude de pessoas que fazem o papel de opressores. e retratam os contextos socialmente carentes do espectador. Comecemos com I love my husband. feito por ele e mostrado para ele. porém. então. prepara tortas de chocolate. Além disso. postura justificada pelo fato de que o Teatro do Oprimido é do oprimido. não é a substituição do opressor que modificará ou ensaiará uma modificação social. n. As exceções com relação à substituição ocorrem somente no caso de o opressor tornar-se ainda mais cruel em sua opressão. o sistema mude a seu favor. sugerir uma interpretação mais profunda destes. Nesse conto. consequentemente. A atitude daquele que é vítima de opressão.

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problemas que merecem mais atenção, como, por exemplo, a situação econômica do país. Esta mulher, completamente submissa a seu marido, segue mecanicamente as ações que são esperadas dela como uma boa esposa: está feliz quando ele chega em casa às sete da noite e tenta reclamar cada vez menos do seu serviço de casa. No final do conto, relembra os votos de seu casamento e conclui que, sim, ama seu marido, embora o que ela relata seja digno do sentimento oposto. Após a leitura desta obra, houve um debate sobre a literatura de autoria feminina nos anos 1980 como reacionária à predominância de textos de autores masculinos até pouco tempo antes dessa década. Depois de traçarmos um breve painel sobre a liberação da mulher e sua repercussão na literatura, comentamos o conto propriamente dito. Com relação a esse texto, pedi aos alunos que fizessem um exercício anterior à identificação do opressor e oprimido da obra, normalmente o primeiro passo para aplicação da metodologia de Boal. A turma foi dividida em duplas e pedi a elas que escolhessem o momento que demonstrasse uma intensa emoção e que exagerassem essa emoção em uma cena teatral. Por termos pouco tempo para apresentar esse exercício, apenas três cenas foram mostradas para toda a turma, após um curto período de prática, e merecem atenção particular. Na primeira cena, uma aluna se comportou como uma guerreira, gritando e portando-se ferozmente. Revelou-se então sensual e bela durante a ausência de seu marido. Essa cena levou-nos a debater sobre o caráter frustrante do cárcere privado da esposa do conto, combatido em sua vida onírica. A segunda cena mostrou um marido mais agressivo do que o descrito no conto, o que exigiria uma postura mais firme de sua mulher para que esta pudesse ter uma vida mais digna. A última cena mostrou a esposa literalmente como uma escrava, absolutamente dominada pelo marido e impossibilitada de mover-se por si só. Depois desses exercícios, discutimos a natureza da opressão nesse conto e chegamos à conclusão de que ela

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é proveniente do machismo e da condição subalterna da mulher, muitas vezes aceita por ela mesma passivamente. No texto, a liberação dessa dona de casa acontece somente em um mundo fantasioso, quando ela se mostra uma amante selvagem, cercada por javalis e pelo Clark Gable. Posteriormente, as duplas definiram o opressor e o oprimido, encenando suas adaptações de I love my husband. Uma das duplas mudou o final do texto, sendo o marido vítima de homicídio. Nessa adaptação, a mulher se mostrou falsamente mais solícita e amável do que no conto, o marido se mostrou mais agressivo e inconformado com a mulher e o homicídio aparece como resolução óbvia, embora não seja esse o objetivo do Teatro do Oprimido, que quer fornecer para o público, por meio do teatro, os meios para que o problema seja examinado, e não sua resolução.

o teatro do oprimido em Menina de vermelho a caminho da lua
O segundo texto em questão, Menina de vermelho a caminho da lua, trata do universo infantil pervertido pela desigualdade social. O título alude à cor da roupa de uma menina de aproximadamente dez anos de idade que intenciona brincar em um parque de diversões, mesmo não tendo dinheiro para isso. A história inicia-se com a mãe de duas meninas contratando um narrador a partir de um anúncio de jornal para relatar o episódio do pseudoencontro entre ela e a menina de vermelho. Embora a mãe prefira uma mulher para narrar a história, tem de aceitar um homem, única pessoa que responde ao anúncio, requerendo que ele use roupa de mulher para ver se, de alguma forma, terá uma atitude mais feminina. Assim, o homem escreve todo o tempo vestindo uma saia rosa e um lenço na cabeça, e com pouquíssima autonomia, pois a mulher se declara detentora dos fatos, fazendo com que sejam narrados segundo a preferência dela.

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O conto narra a ida dessa mãe com suas duas filhas a um parque de diversões em um sábado e, principalmente, seu encontro com a realidade de uma menina de rua de dez anos de idade que, por não ter dinheiro para andar na mesma atração que suas filhas (uma bolha, espécie de pulapula), insinua-se sexualmente para o homem responsável pelo brinquedo para poder brincar de graça. O estilo do texto descreve o erotismo e a sexualidade precoces de uma pré-adolescente que usa seu corpo como meio de adquirir aquilo que ela não pode com dinheiro. Verbos que aludem à experiência sexual (“penetrar” e “perfurar”, por exemplo) são uma constante em todo o texto, usados mesmo quando não descrevem momentos sexuais. Quando acaba o sábado e essa menina descalça vai embora, sendo observada pela mãe das duas meninas, sua figura juvenil mancha o ar de vermelho (referência à cor de sua roupa), indicando, muito provavelmente, a perda da inocência e o ingresso em um mundo cruel para os desprovidos de bens materiais. Na discussão inicial, vários foram os pontos levantados a respeito desse conto. Nele, há uma menina que precisa utilizar-se de táticas sensuais e até sexuais para conseguir o que a falta de dinheiro não lhe proporciona, um homem sem voz e submisso a uma mulher (na figura do narrador) para quem trabalha e a discrepância social entre as filhas da mulher que contrata o narrador e a menina de vermelho no parque. Não podemos deixar de falar também da omissão dessa mulher em relação à situação da menina de vermelho e da literatura como canal de reação social, pois é ela o meio que a mulher usa para tornar a sua história pública e passível de crítica. Os alunos mostraram-se surpresos principalmente em relação à prostituição infantil que, nos EUA, não é tão visível ou noticiada quanto na América Latina. Como lemos uma tradução para o inglês intitulada Little girl in red on her way to the moon, o fato de a menina usar de artifícios sexuais se torna ainda mais desconcertante, porque ela não é apenas uma menina. Na tradução inglesa, ela é uma menininha, o que acentua ainda mais a pouca idade

Para a surpresa de muitos. 2009 de um ser humano já iniciando na prostituição. os alunos questionaram a sensualidade precoce da cultura latino-americana. de aproximadamente cinco componentes cada. que contrata um narrador para a sua história. o que independe da idade. onde há crianças de rua em maior quantidade. os alunos foram motivados a buscar informações a respeito do tópico e descobrir a situação desse crime em vários países. O resultado dessa pesquisa foi apresentado individualmente na aula imediatamente posterior. que muitas vezes assumem uma vida com hábitos adultos antes mesmo de chegarem à adolescência. Esse resultado confirmou a incidência da prostituição infantil nos países em desenvolvimento. Após a discussão da obra literária e apresentação de sua crítica social. n. exatamente para desabafar e se eximir da culpa de não ter feito nada para ajudar uma menina da idade de suas duas filhas. normalmente temos acesso a diversas interpretações de uma mesma obra. comumente atingindo as crianças de rua. Há a opressão do homem contratado para narrar a história travestido de mulher e sem a possibilidade de expressar a sua voz. . no entanto.160 Revista Brasileira de Literatura Comparada. existem outras opressões: a opressão pela qual passa a mãe das duas meninas. A turma foi dividida em seis grupos. Embora tenhamos a menina de vermelho como protagonista e possivelmente a única apontada como oprimida na leitura inicial. mas foi necessário indicar para eles a drástica diferença entre sensualidade e prostituição como meio de sobrevivência. O primeiro passo para o trabalho em grupo foi definir onde havia a opressão no texto ou quem era o oprimido e estava lutando pelo seu lugar na sociedade. Nesse ponto. chegou o momento de aplicar a metodologia de Boal ao texto. pois esta é da mãe das meninas (uma inversão da opressão à qual normalmente as mulheres são submetidas). Em alguns momentos. também existe prostituição infantil em grande quantidade nos EUA. principalmente nas regiões menos desenvolvidas. Por conta da alusão da história à prostituição infantil.15.

o sistema social .O ensino de literatura brasileira por meio do Teatro. uma discussão sobre quem sustenta a prostituição em países desenvolvidos e em cidades universitárias americanas. uma situação encenada na aula (uma adaptação do texto original) por um desses dois últimos grupos demonstrou as agruras de um menino que fora expulso de um orfanato e começou a se prostituir como resultado do preconceito social. surpreendentemente. onde sempre se deve utilizar a porta traseira (conforme aviso fixado na porta). Outros dois grupos preferiram falar da menina de vermelho e da precocidade de suas ações por conta de sua situação social. 161 Assim. Um dos grupos acentuou a opressão à qual foi submetido o narrador. Houve. há um local que está aberto 24 horas por dia: o University Massage. E os últimos dois resolveram falar do homem como vítima da prostituição infantil.. salientando o fato de que são oprimidos todos os que agem sem ter autonomia sobre suas ações. Nessa cidade universitária de uma área abastada dos Estados Unidos. As diversas interpretações da opressão mostradas no conto motivaram debates sobre a origem da opressão sexual e sobre o que favorece a sua proliferação dentro do sistema no qual vivemos. a opressão a ele não passou despercebida no conto. talvez aludindo ao que historicamente acompanhou (e muitas vezes ainda acompanha) a trajetória da mulher no Brasil. pois. Outro grupo chamou atenção para a angústia da mãe ao narrar a história por meio desse homem.. onde esta discussão específica ocorreu. Depois de uma longa discussão a respeito da prostituição local. vimos que. Assim. muitas vezes. pois também nisso via-se uma falta de liberdade para que essa mulher expusesse seu ponto de vista livremente. porque ao sair do orfanato ninguém lhe deu emprego. como vimos. Ao lidarmos com a metodologia de Boal. os seis grupos mostraram diferentes facetas da opressão em Menina de vermelho a caminho da lua. como é o caso de Chapel Hill. os objetivos são claros: identificar a opressão e criar meios para que o oprimido tenha voz para lutar contra ela. Esta é provavelmente uma das poucas casas comerciais que nunca fechou as portas nesta cidade.

Embora sua protagonista seja novamente uma mulher com o nome estranho de Macabéa. 2009 sustenta a prostituição. Em A hora da estrela. em 1977. pois reconhecem um no outro sua origem e trajetória de vida. mas nem um pouco irreal para aqueles que conhecem a população brasileira. uma vida estranha. seu namorado. de Clarice Lispector. Lispector divaga sobre o poder do autor ao dar vida e matar. Juntamente com Um sopro de vida. A personagem de Clarice em seu romance final é quase subumana. à semelhança de outros de seus contos e romances. Olímpico. para dar início e fim a sua protagonista. coincidindo com o final da vida de Lispector.162 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Em vários momentos. n. Mas o foco é mesmo a moça virgem que bebe coca-cola e tem um nome estranho. um namorado estranho. que é aludida quando a autora utiliza-se de questões de autoria no romance. Clarice Lispector não mantém o foco em suas protagonistas donas de casa dominadas por um sistema que subjuga a mulher. A partir daí refletimos sobre o que pode ser feito para minimizar esse poder opressor. esse romance pretende entender a própria existência. onde se veem quase como em um espelho. Talvez por isso a história de Macabéa seja mais trágica para . também é tão excluído quanto ela. Nessa obra. nome que remete aos revoltosos macabeus. sua extensão e diversidade temática explicam a preferência por estudá-lo no final do curso.15. poder concedido por ela a Rodrigo S. sendo esta mantida por pessoas instruídas e ricas. Embora ele tenha sido escrito e publicado antes de Menina de vermelho a caminho da lua. Isso se torna óbvio quando lemos a respeito do primeiro encontro dos dois. M. a autora deixa o universo da alta classe média para penetrar no mundo marginal e excluído do nordestino que se muda para o sudeste em busca de uma vida melhor. o teatro do oprimido e A hora da estrela O próximo texto em discussão foi o romance A hora da estrela. colocando-as quase como um objeto em suas próprias residências.

E é Carlota que prevê um futuro brilhante para Macabéa. Após uma breve exposição sobre o romance e a discussão inicial a respeito da obra com as turmas. ao pedir por açúcar. Logo depois.. A difícil convivência dos dois. mulher mais encorpada do que a colega nordestina e também mais provocante e sensual. ex-prostituta e agora cartomante. para ver o que a aguarda no futuro.. desprovido de qualquer capacidade in- . se for o caso. pois Olímpico se julga inteligente e vencedor. pois a protagonista morre em seguida. Diz que Macabéa só faz perguntas tolas e. Olímpico a troca por Glória. pois esta sempre se desculpa por erros que ainda nem cometeu. afirma que as respostas não são apropriadas para uma moça virgem como ela. há um interesse maior nos tópicos relacionados à mulher. Seu namorado a trata mal do início ao fim do relacionamento. recebe uma resposta grosseira. colega de trabalho de Macabéa. Isso porque. colegas de quarto e de trabalho demonstra que ela é vista quase como um animal. mas para os dois grupos a história sempre mantém seu quê de tragédia e comédia. ele nunca assume sua ignorância em relação às respostas. Olímpico afirma que ela pagará a diferença de preço. a própria Glória sugere a Macabéa que vá à casa de Madame Carlota. mas nunca sabe as respostas para as perguntas de Macabéa. E. decreta o fim do relacionamento. Até quando ela pede que ele compre um café para ela. O direito de protestar e Uma saída discreta pela porta dos fundos. O tratamento ao qual é submetida Macabéa pelo chefe. sobre alguns questionamentos da moça. Sua hora de brilhar só acontece mesmo no momento da morte.O ensino de literatura brasileira por meio do Teatro. O título e seus vários subtítulos (A culpa é minha. O mais interessante no relacionamento dos dois são os diálogos. muito mais por parte de Olímpico do que de Macabéa. entre outros) indicam que a protagonista é uma vítima social. Na verdade. as mulheres estão todas em uma situação de opressão social. da protagonista às coadjuvantes. o que não ocorre em vida. 163 os que a leem no Brasil e mais engraçada para os que a leem fora do Brasil. namorado.

outra mulher de destaque na obra.164 Revista Brasileira de Literatura Comparada. No entanto. O primeiro grupo focou os diálogos de Olímpico e Macabéa. chamando-a de feia. é um objeto sexual. Esse exagero é muitas vezes necessário para que a opressão se torne visível. o fato de que Macabéa gostaria de conhecer mais o mundo não pode ser negado. 2009 telectual. Mas os personagens mantiveram a sua essência: enquanto Macabéa se achava a principal culpada pela impaciência de Olímpico e de tudo de errado que acontecia. n.15. a colega estenógrafa de Macabéa. ouve ópera e escuta a informativa Rádio Relógio. A minha escolha se dá ao fato de que esses quatro grupos trataram de situações e de personagens diversos. ele se manteve como o político do futuro que venceria todo e qualquer obstáculo. agride Macabéa. sugere a Macabéa que se envolva com uma mulher. Os dois atores usaram maquiagem e figurino similares e os diálogos chamaram atenção . como apontado por Peggy Phelan (1993). Glória. Madame Carlota. pois sempre indaga sobre aquilo que quer saber. Sua sensualidade cultivada tem o único objetivo de fazer com que ela sempre seja admirada e amparada por um homem. Glória é o que é por causa do outro. por causa de sua preocupação com a aparência. situação explicável pelo seu contexto. houve preferência para uma encenação do relacionamento entre Macabéa e Olímpico. pois os homens são agressivos e ela não está preparada para isso. que nem executa muito bem. pois quase não frequentou a escola. Ao passarmos para a leitura da obra sob a perspectiva do Teatro do Oprimido. Como a turma fora dividida em dez grupos de três componentes cada. procederei ao relato das experiências de apenas quatro grupos. E. pratica um trabalho mecânico (datilografia). embora muitas vezes a capacidade intelectual da personagem não motive nenhuma pena ou simpatia. muito provavelmente pela clareza da opressão. embora exagerando a agressão verbal à protagonista. O segundo grupo mostrou Olímpico e Macabéa como pessoas quase semelhantes. que nunca fique só.

expectativas (se ele quer ser político. embora esses problemas não sejam exclusivos do Brasil. há na América Latina uma tendência cultural ao subjugo do feminino pelo masculino e o machismo é muitas vezes também percebido em mulheres como Glória. O próximo grupo salientou a esdrúxula competição de Glória com Macabéa porque. que necessitam trabalhar sua sensualidade de acordo com o que é esperado pelos homens para se sentirem incluídas na sociedade. pois são nordestinos morando na zona mais nobre do Rio de Janeiro.. sendo as duas consideradas oprimidas socialmente. . no preconceito regional e no machismo da sociedade. embora vítimas de opressões de naturezas diferentes. além de não ser uma boa datilógrafa. dificilmente conseguirá outro emprego que sustente as suas já tão básicas necessidades. 165 para os pontos em comum que já aparecem no romance: origem. Enquanto Madame Carlota teve de se prostituir para sobreviver quando jovem. ela quer ser estrela de cinema) e a exclusão social na qual vivem.O ensino de literatura brasileira por meio do Teatro. os passos seguidos foram escrever e encenar trechos das obras literárias sem. Os debates que se seguiram focalizaram principalmente na mulher como objeto sexual. pobres e marginalizados. o objetivo das encenações na sala de aula era o clímax do conflito. Para todas as obras descritas acima. Macabéa tem de aguentar os desaforos de seu chefe. embora na história Glória seja mais desejada pelos homens do que sua colega nordestina. apresentar uma solução ao adaptá-las. ela está muito longe de atingir o padrão de beleza da mídia: a cor de seu cabelo é falsa. O último grupo do qual falaremos ateve-se à relação de Madame Carlota e Macabéa. Mesmo que uma personagem não oprima a outra. Vimos que. Semelhantemente às peças do Teatro Fórum. na encenação Madame Carlota foi mostrada como a voz social que indica a pouca esperança para jovens como Macabéa. pois.. É ela quem faz soar a voz que exclui os feios. estilo de vida. no entanto. suas roupas são bregas e seus namorados são todos do naipe de Olímpico.

Inclusive como já visto acima. além da recepção. Para que essa re-performance seja útil para a discussão de uma obra. a percepção de quem oprime e de quem é o oprimido pode mudar dependendo de quem lê a obra ou assiste à sua encenação. uma nova percepção do trabalho acontece. no Teatro do Oprimido tal fato é quase uma exigência: após a divisão das relações de opressão do texto.Como tal personagem deve agir para se libertar desse contexto opressor? o texto aberto O processo pelo qual passam as obras literárias acima descritas é definido por Umberto Eco (1979) em sua teoria “A poética da obra aberta” do livro O papel do leitor.166 Revista Brasileira de Literatura Comparada.Tal personagem é o oprimido? 4.O que você faria se estivesse no lugar de tal personagem? 2. nesse ponto do curso não houve interesse em favorecer a substituição dos personagens. muitas vezes é difícil para o aluno entender os textos de literatura brasileira. Normalmente. De fato. é necessário que haja uma teatralização delas. trazendo à tona o que gera a opressão e propiciando uma discussão cênica do problema. 2009 que convida à intervenção e discussão de assuntos interessantes dos materiais lidos. as várias percepções interpretativas ocorrem exatamente nesta terceira parte. pois o Teatro do Oprimido só coopera com os meios para que isso ocorra socialmente. há. De fato. uma re-performance deste. sua visualização se torna primordial. Assim. sempre que um trabalho de arte é recebido por um leitor ou espectador. mesmo que encenado. Antes desse estágio. . Eco afirma que. a crise nunca deve ser totalmente resolvida. n. Isso pode ser percebido em cada uma das adaptações demonstradas pelos grupos. nunca nos preocupamos com a resolução do conflito. mas em responder a perguntas tais como: 1. Por isso.15.O que motiva tal personagem a agir desse jeito? 3. Nessa re-performance.

Quando fazemos. Acham que o fato de ela repetir que o ama indica que está conformada com a situação. Mas. social e politicamente apresentada. nenhum estadunidense entende o que leva essa jovem menina a se prostituir. no entanto. ser personificado em personagens como Olímpico. No entanto. exagerada e seus problemas parecem não ter fundamento. Em A hora da estrela. Essa interpretação inicial inesperada também ocorre quando da leitura de Menina de vermelho a caminho da lua. a opressão está numa esfera invisível. Até mesmo no final. sem dar a ela o carinho e a afeição esperados. o mundo que cerca Macabéa passa a ser o que a oprime e ela passa a ser a vítima.. quando citamos a semelhança do seu universo com o de personagens de regiões mais pobres dos Estados Unidos. ela parece conformar-se com toda a sua vida em comum com esse homem. Acham que não há nada que justifique a prostituição de uma criança. uma comparação entre a realidade da América do Sul e as semelhanças entre essa região e as regiões economicamente menos favorecidas dos Estados . além disso. muitas vezes os alunos não conseguem compreender a postura irônica da protagonista ao descrever sua rotina submissa e afirmar que ama o homem que mais faz com que ela trabalhe sem parar. o caso muda de figura. quando procedemos à análise do contexto social e econômico latino-americano.O ensino de literatura brasileira por meio do Teatro. A partir dessa conclusão. muitas vezes os alunos não conseguem entender Macabéa e suas motivações. É necessário conviverem com essa personagem para entenderem que essa repetição da frase “Amo meu marido” é muito mais para resultar em algo positivo do que para retratar algo positivo. Acham-na ridícula. mas que a recrimina e detesta quase como se esta fosse um ser de outro mundo. O mundo opressor pode. quando a protagonista relembra o início da união. 167 Várias vezes eles julgam os textos de nossa literatura como negativos ou deprimentes. Em um primeiro momento. tão nordestino quanto Macabéa. os alunos passam a entender a tragédia na vida dessa personagem. Como em todas as outras obras.. Em I love my husband.

Muitas vezes.15. As histórias narram as adversidades na vida de duas jovens que são vítimas da pobreza. essa opressão é traduzida de duas maneiras pela mãe que detém a história: ao se omitir com relação à menina e ao subjugar o homem que narra a história. pretendem fazê-lo visível. não vivem com suas famílias e estão à margem da sociedade. o opressor mais forte só será achado depois que a cena (simples diálogo que precisa inicialmente detectar a situação-crise do oprimido. conclusão Embora exista campo para divergência quanto à natureza da opressão de uma história. Os três textos têm. por exemplo. ao escrever sobre a história. situação esta da qual ele quer sair) for montada e que outros (membros da plateia) puderem cooperar para o desenvolvimento da resolução da crise do protagonista. Nas duas obras. só depois que diferentes cenas sobre diferentes questões foram montadas e algumas pseudossubstituições ocorreram. n. E é importante vermos que. percebemos que as diferenças são ínfimas. pois. o fim do subjugo das suas protagonistas. se pensamos na natureza opressora dos dois. ao implicitamente indicar o desejo de mudança com relação à situação das vítimas de opressão sexual. 2009 Unidos. para que possa ser mais facilmente combatido. Os temas de A hora de estrela e Menina de vermelho a caminho da lua são bastante similares. o que a mãe realmente deseja é pôr um fim na dor que sentiu ao compartilhar a situação da menina e esperar que a história não se repita. uma natureza muito mais positiva do que negativa. retratando um universo afeiçoado à opressão. econômica e social.168 Revista Brasileira de Literatura Comparada. a pobreza apresenta a maior . portanto. Se a vida da menina que protagoniza a história é resultado de um descaso histórico com a situação da população pertencente à classe baixa e os meninos e meninas de rua. portanto. Todas as histórias narradas almejam. a turma chegou à conclusão de que a opressão não era o que tinha sido inicialmente pensado.

A esposa também não. 169 fonte de depressão das personagens. Macabéa não reage nem se irrita nunca.. pois sua força está além de um extermínio imediato. Para Boal. percebo que a literatura só se torna objeto de intensa discussão se o aluno puder entrar no contexto do livro. o que é exemplificado com o exercício aplicado em I love my husband. Menina de vermelho a caminho da lua e A hora da estrela. desde o primeiro dia de aula. possivelmente teríamos chegado apenas aos dois primeiros níveis de interpretação supracitados. Se houvéssemos apenas feito uma discussão. Foi o sucesso dessas primeiras experiências que me motivou a prosseguir com a aplicação dos exercícios do Teatro do Oprimido em outros textos. com perguntas direcionadas. um nome de guerreira e uma vida fantasiosa de guerreira. ela prefere calar-se a ofendê-lo também. Talvez por isso ela seja completamente desassistida pela sociedade na qual está inserida e inicialmente indigna de compaixão na sociedade norte-americana. Quando Olímpico a ofende e termina o namoro com ela. A utilização do método do Teatro do Oprimido fez-me perceber. Da mesma forma. pois são personagens cabisbaixas que se comportam de forma oposta ao que nos leva a pensar. o teatro só pode ser do oprimido se ele participar do seu processo. participando da vida dos personagens como se fosse a sua própria. A discussão também é motivada pela transferência do contexto da obra para o .O ensino de literatura brasileira por meio do Teatro. Combatê-la está fora do alcance dos protagonistas e do nosso próprio. Mas a essa conclusão só chegamos depois de experimentar possibilidades com o texto e ver quem ou o que oprimia mais certo personagem. como plateia participativa. pelo menos aparentemente. respectivamente. pelas experiências vistas até a presente data.. Macabéa se desculpa até mesmo pelos erros alheios. que muitas dessas questões jamais seriam tratadas se não dessa forma. Talvez Macabéa e a esposa de I love my husband tenham sido as personagens mais difíceis de encenar segundo as técnicas do Teatro do Oprimido. que não louva as vítimas ou os indivíduos que não sabem lutar pelos seus direitos.

In: SADLIER. ECO. PINON. Walter. Trad. Teatro do oprimido e outras poéticas políticas. 1989. 16 de julho de 2003. _____. _____. New York and London: Methuen. _____. Resisting novels: ideology and fiction. 1984. Frankfurt am Main: Suhrkamp. aplicando uma realidade literária a uma realidade social. 1982. Referências BENJAMIN. New York: New Directions. DAVIS. Somente a partir de um profundo envolvimento com a obra literária. 1995.). HUTCHEON. In: DENSER. 2009 contexto do leitor ou espectador. Bloomington: Indiana University. ed. 2. Augusto. Muito prazer: contos eróticos. Linda. Márcia (Org. COLASANTI. n. Umberto. 1979. Menina de vermelho a caminho da lua.). 1966. Lennard. _____. São Paulo: Hucitec. 1992. BOAL. . 1980.15. The hour of the star. Rio de Janeiro: Francisco Alves. pela sua imaginação. Nélida. Giovanni Pontiero. New York: Routledge. 1992. London: Routledge. In: MORICONI. Entrevista pessoal. Little girl in red on her way to the moon. Darlene (Org. One hundred years after tomorrow: Brazilian women’s fiction in the 20th Century. LISPECTOR. Marina. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. The politics of postmodernism. Ítalo (Org. 1987. o aluno contribuirá com um avanço no campo interpretativo da obra. relacionando-a com suas próprias questões e fazendo-a parte da sua vida. 2. Indianapolis: Indiana University. Rio de Janeiro: Record. The role of the reader: explorations in the semiotics of texts. Clarice. p. I love my husband. PHELAN. tal como visto nas análises acima.170 Revista Brasileira de Literatura Comparada. 195-203. Unmarked: the politics of performance. 1993. Técnicas latino-americanas de teatro popular: uma revolução copernicana ao contrário. Versuche über Brecht. A hora da estrela.). ed. Peggy.

2001. therapy. 171 Os cem melhores contos brasileiros do século. . In: SZOKA.. _____. 451-456. 1994.O ensino de literatura brasileira por meio do Teatro. p. Rio de Janeiro: Objetiva. Mady (Org. 11-18. activism.). London: Routledge. p. 2002. Fourteen female voices from Brazil: interviews and works. Playing Boal: theatre. I love my husband. Elzbieta. SCHUTZMAN. Austin: Host Publications..

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no qual se buscou apresentar os principais autores brasileiros do conto e da crônica. chronicles. sem se preocupar. uma estação linda nos Estados Unidos. ele disse. short stories.Araraquara). The article sustains that the richness of the Brazilian short narrative made possible the desired intercultural dialogue. estranhei o vazio do campus.173 As alunas e os contos: a narrativa curta brasileira num curso de escrita criativa nos Estados Unidos Heloisa Pait* resumo: Este artigo relata uma experiência de ensino num curso de pós-graduação lato sensu em escrita criativa nos Estados Unidos. Conclui-se que a riqueza do conto e da crônica brasileiras de fato serviu de ponte para o diálogo intercultural almejado. Students’ increasing interest in Brazilian literature and in the genres presented is also examined. Mas veio o outono. os professores ainda não voltaram do verão”. palavras-chave: literatura brasileira. Também é relatado no artigo o crescente interesse dos alunos pela literatura brasileira e pelos gêneros apresentados. abstract: This article narrates a teaching experience in a graduate program in creative writing in the United States which introduced the main Brazilian short story and chronicle authors. United States. contos. ensino. “É normal. o que será?”. tais como a falta de informação inicial sobre o Brasil e o contexto institucional. “Ninguém veio falar comigo. * Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp . o céu azul. teaching. keywords: Brazilian literature. Quando cheguei lá. São examinados os principais desafios para o ensino de literatura brasileira em tradução para o inglês. The main challenges involved in the teaching of Brazilian literature in translation are examined. perguntei. crônicas. até liguei para meu irmão. such as the lack of basic information about Brazil and the institutional context. . Estados Unidos.

no primeiro semestre. a linguagem e a vida em Nova York. que poderia ser bem interessante. Também conhecia as Faculdades de Artes Liberais. n. Pois. O nosso cotidiano de estudantes de pósgraduação. e no oeste as novas faculdades já eram criadas para os dois grupos. E pulei no que as pessoas se referem como “Real America” – não numa América Real qualquer. Eu havia dado uma palestra no hippie Hampshire College. muitas delas foram criadas na costa leste. complementando as faculdades para homens. É que eu conhecia a universidade americana por meio da muito particular New School for Social Research. primordialmente entre os alunos europeus e latino-americanos e com os professores novaiorquinos. a das instituições progressistas e disputadas. Críticas e rigorosas. mas num lugar muito particular que refletia os problemas das pequenas faculdades americanas. e lecionado no questionador Lang College. universidade visitada por Habermas e Derrida. desta forma dando acesso ao ensino superior a um grande nú- . que já tinha tido no corpo docente Hannah Arendt e outros.174 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Rorty e Melucci. Só não veio aquele diálogo intelectual que eu esperava. além da solidão e de uma grande confusão quanto aos objetivos da instituição.15. era mesmo preciso um bom dinheiro. Ao longo do século XIX. A instituição era uma das poucas faculdades americanas que ainda se dedicavam exclusivamente ao ensino de mulheres. era de uma riqueza intelectual inesgotável. conhecia uma fatia do ensino superior americano muito estreita. Corrijo-me: tive algumas boas alunas. para manter o impecável imenso jardim e os prédios centenários e amortizar a recente construção do ginásio. Tive. Então. Minha cunhada estudou no intelectual Swarthmore College. como a evasão e a busca permanente de alunos para cobrir custos relativamente fixos. e sua self-reliance. com seus valores sólidos. 2009 o ar fresco. Eu costumava dizer: isso aqui é divertido como voltar ao Pequeno Príncipe na Rua Avaré. vejo agora. discutindo sobre a política. alguns bons alunos num curso introdutório sobre o Brasil.

Era um argumento de peso decrescente. que escolheram escrever sobre aspectos muito interessantes da cultura brasileira.. Mas o modo como a instituição conseguia financiar a tradição era abrindo uma série de cursos de pós-graduação lato sensu em áreas mais aplicadas. tais como Radcliffe College. como as tentativas de reforma do ensino médio ou sobre a participação de jovens artistas plásticos em comunidades na internet. de qualquer modo. particularmente. Como disse. grande parte tinha dificuldades com a leitura e a escrita e. Na segunda metade do século XX. obviamente com exceções. Eu. A maioria dessas instituições tornou-se mista ao longo do século XX. entre os professores detectei também uma falta de curiosidade sobre o Brasil. talvez pela natureza dos cursos ou pela tradição. Mas as alunas capazes de produzir trabalhos autônomos eram poucas. mas. diferentemente de nossos alunos. A instituição tinha um programa já antigo. no outono tive algumas alunas muito boas. eu estaria ali para isso. um professor visitante era chamado e. mas pouco conhecido tanto no Brasil como nas pesquisas no exterior.. acho o . eu estava dando aulas numa instituição que havia escolhido manter a tradição. abertos aos homens. para trazer um pouco do Brasil para o campus. Não eram as únicas. como Smith College. O trabalho que mais me chamou a atenção foi sobre um assunto que eu mesma desconhecia: a existência de um cinema mudo brasileiro muito ligado com tendências europeias da época. Ainda assim. uma das mais concorridas faculdade americanas. no qual a cada ano um país determinado era escolhido. Afinal. a justificativa para continuar mantendo o ensino separado era que as mulheres teriam melhores condições de ensino caso não tivessem de disputar a atenção dos professores com os homens em sala de aula. uma certa apatia na sala de aula e desinteresse sobre o mundo. mas outras continuam admitindo apenas mulheres. 175 mero de mulheres. além disso. havia palestras e eventos sobre o país e a região. a maioria dos alunos eram mulheres. Aquele era o ano do Brasil.As alunas e os contos: a narrativa curta brasileira. que se juntou a Harvard College.

têm a duração de um . Mas redefinir a identidade de uma cidade é importante. vou evitá-lo. Os programas de intercâmbio são marca registrada das universidades americanas. em certa medida eu vivi essa indefinição como deslocamento. e acho que nisso tenho vasta companhia além das fronteiras nacionais. os paulistanos com sua cidade que não é da garoa ou os cariocas com sua cidade que não é capital. não entendia bem a falta de interesse sobre o meu país. o Cinturão da Ferrugem. no verão do hemisfério norte. Todos temos um pouco disso. Então. A desindustrialização trouxe para a região problemas sociais enormes. Em Detroit. e como já virou clichê falar de experiência kafkiana. em nível de pós-graduação.176 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Mas há também o problema simbólico: como construir uma identidade urbana a partir de uma não identidade? “A cidade que não é do automóvel”. ao fim do semestre. Foi nessa situação de deslocamento urbano e isolamento intelectual que o semestre da primavera começou.15. região americana do meio-oeste que sofreu com o colapso da indústria pesada ocorrido na segunda metade do século XX. por exemplo. Eu assuntava: por que escolheram o Brasil? Como esse programa de estudos internacionais se coaduna com os objetivos educacionais dirigidos a esse corpo discente? Não tinham respostas. aliado a tensões raciais e erros crassos de planejamento urbano. Algumas alunas iriam. numa viagem patrocinada pela escola e organizada por uma instituição brasileira reconhecida. mas a verdade é que eu estava bem perdida. E só conseguia me localizar novamente quando viajava pelo país e encontrava pontos de referência antigos ou explorava novos. eu não sabia exatamente onde estava. passar duas semanas no Brasil. A cidade onde a faculdade se localizava era parte do que os americanos chamam de Rust Belt. eu daria aulas apenas para alunos do programa de escrita criativa. especializada nesse turismo acadêmico. n. esse processo econômico. ou “a cidade que não é do aço” são títulos difíceis de se portar. 2009 Brasil bem interessante. Alguns são bem rigorosos. ainda se reflete no cotidiano difícil de populações inteiras.

Queria mostrar por meio deles alguma coisa do que somos. não pude descobrir exatamente o objetivo profissional do curso. são também comuns nos Estados Unidos. literatura de viagens. sua ausência. a maior parte dos alunos estava em momentos de transição e buscou o mestrado como forma de se rearticular. Então. Os alunos podem aí se especializar em literatura infantil. tanto na graduação como na pós. pensei. incluindo o cinema. Propus um curso sobre contos e crônicas. 177 semestre e são precedidos por estudos de línguas e cursos preparatórios e envolvem cursos regulares ou estágios em países estrangeiros. a história e a literatura. Zé Carioca e Carmen Miranda. e assim por diante. a política.. Ao longo de minha estada nos Estados Unidos. nada melhor. eu quis obviamente mostrar um Brasil verdadeiro. Eu queria falar dos contos. Outros são apenas passeios pelo Caribe. do que uma área da cultura na qual nós temos uma certa “vantagem comparativa”. Brasil do desma- . São cursos para quem quer escrever ficção ou não-ficção. Ela se alimenta e faz parte de nosso cotidiano. que queria dar uma visão mais abrangente da cultura brasileira. na verdade.. que temos acesso a elas nos jornais e revistas. que fosse além dos estereótipos tropicais.As alunas e os contos: a narrativa curta brasileira. Não que houvesse estereótipos nas salas de aula. Esse me pareceu ser um turismo cultural inteligente para alunos com interesse em expandir seus horizontes mas sem o tempo de preparo anterior na língua e história do país. e sou fascinada pela narrativa curta que fica em nossas mentes muito depois de terminada a história. pois dividia o curso com outra professora. a narrativa curta brasileira tem um lugar muito especial para nós leitores brasileiros. com contribuições à cultura mundial. Todos nós conhecemos os estereótipos antigos. Depois há os novos. que incluem literatura mas que têm um sentido mais prático que analítico. como é o caso da narrativa curta brasileira. Sobre os cursos de escrita criativa. escrevo contos eu mesma. Pela turma que peguei. Tive de negociar o conteúdo do curso a cada aula. A dificuldade na graduação foi. Além disso.

2006). que reúne contos de “A legião estrangeira” e crônicas de “Para não esquecer”. não há antologias de crônicas que reúnam vários autores.178 Revista Brasileira de Literatura Comparada. havia referências poucas mas queridas que fizeram aqueles alunos se inscreverem em meu curso. incompletos. Senti falta de Márcia Denser apenas. era o interesse difuso naquele país latino-americano desconhecido e uma vaga curiosidade sobre o conto e a crônica. Clarice Lispector. Enfim. havia a Clarice Lispector. Hilda Hilst. assim como no caso anterior. Na primeira aula. que encontrei em outras traduções (Sadlier. diferem muito. mal-entendidos. que língua mesmo falavam ali? No curso de pós. não são representativas do gênero. As crônicas de “Life as it is”. Montei o curso de modo muito tradicional. Milton Hatoum e tantos outros. traduzidos. n. Havia a presença de uma comunidade negra importante. maior que a Venezuela. Nosso elo. entretanto. para falar das crônicas havia um obstáculo muito concreto. são espetaculares nos dois sentidos. Reais todos. 1992). recentemente publicadas. 2009 tamento e dos meninos de rua. As crônicas são maravilhosas. há também a construção mítica do presidente socialista que se contrapôs à ordem neoliberal.15. havia informações dispersas prévias. Então. Guimarães Rosa. por exemplo. talvez. em sua maioria. apresentando cronologicamente os principais autores da narrativa curta brasileira. notei que quase nenhum aluno tinha interesse específico sobre o conto ou a crônica. que estão. Há também crônicas de Clarice Lispector em “Foreign legion” (Lispector. Já nas crônicas é diferente. Havia o Paulo Coelho. das crônicas de Ignácio de Loyola Brandão que lemos às quintas no Estadão. então. mas parciais. pois o Brasil praticamente não existia no imaginário de muitos alunos. Estão ali Machado de Assis. mas. . de Nelson Rodrigues (2008). Tudo o que eu falasse era novidade. 1992). Moacyr Scliar. Um bom apanhado dos contos está numa antologia da Oxford University Press (Jackson. Mas lá naquela faculdade eu vi a ausência de informações sobre o Brasil. Entre as esquerdas. diziam. O que impressionava era que o Brasil fosse tão grande.

mais “profundos”. que a última feijoada. de jeito nenhum. nos romances e também nos contos. em geral. Avisei que o horário era o brasileiro. uma aluna perguntou se era tudo assim pesado na literatura brasileira. cadeiras extras. os pratos. Eu disse que não. Clarice Lispector e Moacyr Scliar estão bem traduzidos. Parecia que os textos mais densos. depois das caipirinhas. e não pontualmente nesse horário. mas isso me motivou a continuar tentando. etc. em volta dos convidados aboletados no apartamento pequeno. de Mário de Andrade. forjar alguma comunicação real que havia me escapado nos meses anteriores. uma sem carne suína. 179 A respeito dos contos. Tentando o quê? Tentando.. Guimarães Rosa. por exemplo. em três panelas distintas: uma para os vegetarianos. por sugestão da outra professora. . a biblioteca tinha poucos recursos e era preciso fazer escolhas.. pois um dos meus melhores amigos na faculdade era muçulmano. Fiz a couve e a feijoada. Mas. E nós brasileiros não fazemos desse banal a nossa melhor poesia? A uma certa altura. acredito. que vieram polidamente. Já adianto ao leitor. comeram. ou seja. foi bem diferente.As alunas e os contos: a narrativa curta brasileira. Então. E os contos ali tinham. E para cada um eu pedi que trouxesse uma coisa: o arroz. eu dava preferência aos contos da antologia. Machado de Assis. lemos o triste “Piá não sofre? Sofre”. e outra com joelho de porco e costelas. Lembro que numa das primeiras semanas na cidade fiz uma feijoada para algumas pessoas. por razões práticas. que fiz por ocasião de meu aniversário. Uma colega me disse. ao final de minha estada. a dificuldade era de natureza distinta. se qualificavam melhor para a tradução que o cômico e o banal. um tom sério e pesado que não trazia a leveza da prosa brasileira. conversaram sobre a faculdade e foram embora sem me deixar com a sensação de plenitude que tenho depois de cozinhar para amigos e conhecidos no Brasil ou no exterior. pois não sou muito de suspenses. Os principais autores estavam presentes na antologia da Oxford e também em inúmeras outras traduções. pedia que chegassem a partir da 1 da tarde. Tínhamos acabado de ver o filme “Vidas secas”.

sobre seus recursos. advogados. . O resultado foi maravilhoso: imigrantes brasileiros discriminados que falavam palavrão. n. A outra professora notou a ausência dos negros e pobres na narrativa. Não são contos nem crônicas. E encontrei um primeiro elo. 2009 que nunca havia se sentido tão à vontade. americanos que de repente se lembravam das comidas e cheiros brasileiros.15. Mas acho que o texto de Manuel Antônio de Almeida fez tanto sentido aos alunos como a primeira feijoada que ofereci aos colegas. Pedi aos alunos que escrevessem um conto. encontros.180 Revista Brasileira de Literatura Comparada. e também que por meio do conto começassem a pensar sobre as diferenças entre as culturas americana e brasileira. Eu fiquei lavando os pratos de uma feijoada sem festa. 2000). Queria que eles se sentissem confortáveis no gênero. Buscava um elo. eu deveria ter dado destaque. desafios e desfechos. mulheres reflexivas. a partir de Bosi (1994) e Piglia (2000). O encontro deveria ter algo de erótico e de conflituoso. Pareceu à classe que o autor ria de algo que não deveria ser piada. Ficou espremido. pensar o conto era uma viagem minha. Mas. Notei ali o tanto de esforço que há em nossa descontração. e poderia estar no fim ou no início da narrativa. o maravilhoso “Memórias de um sargento de milícias” (Almeida. que acredito pouco interessava aos alunos. eu também queria ver no papel as minhas próprias emoções. Machado os surpreendeu. interessada nas relações entre a realidade social e o caráter político da arte brasileira. é na verdade um romance escrito em capítulos publicados em série. ou com a professora. as tantas violências domésticas que pipocam no tempo do Rei. num dia importante para a cidade. com leis. pela literatura e também pela modernidade de um Brasil antigo. Era no começo do semestre. Discutimos um pouco a natureza do conto. Claro. choques. nessas alturas. e eu ainda me adaptava ao curso a quatro mãos. mas quem é que vai dizer que não são boas crônicas imaginadas? E havia tradução. deveria conter um encontro entre um brasileiro e um morador local. ainda se familiarizando com a narrativa.

Algo se perde na tradução do autor. Rimos com outras cenas também. Recortei alguns trechos de “Grande sertão: veredas” (Rosa.. Duas alunas em particular usaram o texto de Clarice para uma jornada de descoberta que encantou a todos. não só pelo uso particular que faz da linguagem. Pois o conto não traz. 2006). Eles toparam. Então. era um desafio.. interpretada por uma aluna em quem eu via algo da própria autora. Uma delícia. e contei para eles “A hora e a vez de Augusto Matraga”. que falava à alma. um diálogo com a tradição oral? Então por que não simplesmente contar as histórias de que eu gostava mais? Por que me prender a traduções selecionadas? Quando havia coisas que eu queria dar. Eu conseguiria trazer o . Isso queria dizer que eu podia escolher meus contos favoritos. mas não havia tradução. que não achei traduzido. junto a sua modernidade. Então. A biblioteca da universidade estadual local. As traduções eram boas. contei. cobriam muita coisa. 1963) que tinham jeito de conto. e apresentá-los com paixão (Lispector. Tensa também. E rimos com a cena final de “Amor”. por exemplo. ao final de uma das aulas sobre a autora. eu contava. Sim. Assim como com Machado. passei tardes lendo as histórias e escolhi algumas para recontar. quebrando a solenidade do texto. depois. pedi que formassem pequenos grupos. mas também pela musicalidade do texto (Pessôa. a surpresa de uma escrita sofisticada. escolhessem um pequeno trecho de um dos contos discutidos e elaborassem uma pequena cena. Fiquei animada. 181 Clarice foi fácil.As alunas e os contos: a narrativa curta brasileira. Todos adoraram. tinha uma coletânea de contos regionais maravilhosa. organizada por Graciliano Ramos (1966). apropriando-nos da humanidade daqueles personagens intensos da autora. Achei Guimarães Rosa difícil de apresentar. 1984). explorando o olhar perscrutador de Clarice e o modo sutil como ela define os ambientes externos e a vida interior dos personagens. com o marido atordoado sem compreender a fuga da esposa etérea. O perigo de Clarice é cairmos numa deferência exagerada à poesia e virtuosidade da autora.

éramos sem graça. eu. a Denser e Ângelo. mas agradeço agora a Clarice e Rosa. E recontei. 2009 texto para a sala de aula? Recontar em inglês uma história querida? Com alguns. como sempre quando falo do Brasil. O risco que eu havia corrido era de ter virado naquela sala de aula uma simples nativa que conhecia os hábitos vigentes. Mas tudo é questão de treino. Era um pouco ofensivo.182 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Mas as perguntas foram sobre aspectos corriqueiros da . éramos estranhos. consegui. virei professora de novo. Aquele elo que eu buscava. talvez por mim. expressa por meio de atos cotidianos às vezes até singelos. falando para uma audiência interessada de um lugar que eu já havia visitado. Então. Sem eles. Com eles. 2005).15. Talvez por uma turma aberta e interessada. emocionei. viramos personagens fascinantes de um teatro próprio. não. a Scliar e Machado. além das de Clarice e de Nelson Rodrigues. Naquela classe – fazendo rir e chorar com histórias –. fiz rir. não era gente. com outros. alguns dos quais estavam matriculados em meu curso. No fim do curso agradeci aos alunos. me chamaram para conversar com os alunos. também escolhi algumas da coletânea “Cem melhores crônicas brasileiras do século” (Santos. claro. com eles nos conhecemos. aquele diálogo em qualquer forma que fosse. eu o via sendo construído. n. mas acima de tudo frustrante. o que havia acontecido em outros ambientes da faculdade anteriormente. é impossível descrever o valor que passamos a dar à comunicação humana. sem eles. Mas a partir do conto e da crônica brasileira. quanto mais professora. Estavam todos eles ali presentes nas aulas. sugeri a leitura de alguns livros para quem quisesse se aprofundar e. quando dela somos privados. Agradeço aos tradutores e editores também. sem dúvida conscientes de serem pontes precárias nesse importante diálogo entre as gentes. por exemplo. numa reunião de preparação para a viagem ao Brasil. todos eles lá. E isso me tocava profundamente. Muitas tristes. me entusiasmei. com eles. Falei sobre a história política recente. eu voltava à minha humanidade normal de quem fala e escuta. agradeço. Para as crônicas. algumas cômicas. Sem eles. ao menos.

Os alunos se encantaram com uma literatura sobre e também disponível no cotidiano dos leitores de jornais. irônica. lembrem disso. Quanto ao meu curso. da melhor forma possível. Mas isso pode se perder na tradução. Pode ser violenta. mas tem uma maciez que você não encontra na literatura americana. eu esperava. Sou naturalmente uma professora crítica.” eu disse. os alunos se matricularam num curso de uma brasileira. pelos textos que não se calquem apenas nessa leveza. Uma literatura que anda de chinelo. “aqui é que jantam um pouco cedo. Mesmo o texto filosófico de Clarice reforça o lado banal das grandes questões humanas. Então eu sentia que era eu que devia tentar explicar isso. fazendo barulho. tem aquele amor ao detalhe. trouxessem a musicalidade de nossa língua e de nosso texto que a tradução nunca poderia trazer. E desse lugar de nativa. uma seleção de chorinhos que. os alunos apresentaram os projetos de seus trabalhos.. Quando.. as pessoas jantam tarde?” Respondi que jantávamos no horário normal.. Mas eu também trouxe. inconscientemente familiar a minha própria cultura. o texto sem asperezas. e daí talvez as escolhas. pelos editores. A palavra que eu usava em aula é essa: nossa cultura é soft. Com a capacidade de olhar o cotidiano de um jeito rico – ou com a riqueza de nosso cotidiano. e não de salto alto.As alunas e os contos: a narrativa curta brasileira. que me pareciam mais leituras neutras comentadas que exercícios . É algo intangível. na metade do semestre. crítica de tudo. um pouco disso ficou evidente. Mas. me vi num dilema. não sei mais. Algo que me encanta na literatura brasileira é o texto macio. que tragam o drama pesado ou político. Mesmo Márcia Denser. e nesse caso em particular eu via muitos problemas nos trabalhos. eu não teria podido falar dessa literatura de que eu gosto e que é minha. quando a outra professora se juntou ao curso – bem. entenderam que ali havia um diferencial. pretensiosa. a uma certa delicadeza textual.. 183 cultura nacional: “No Brasil. Quando dei as aulas sobre as crônicas. uma dinâmica em que eu fosse a nativa e ela a antropóloga podia ter se instaurado. pode ser mordaz. numa aula.

Falei. Sobre a produção de sentido no jogo simbólico. pois cada texto diz uma coisa para cada leitor. os alunos mesmos – eu tinha na verdade um aluno e o restante da pequena classe formado por alunas – trouxeram tudo o que tinham pensado em escrever mas não consideraram acadêmico o suficiente. nessa classe dada em colaboração? E será que os alunos me escutariam.184 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Haviam me dito. Mas será que eu tinha autoridade para criticar os trabalhos. como disse anteriormente. que estava sendo produzida naquela sala de aula daquela faculdade daquela cidade do Cinturão Enferrujado americano? Que esquecessem a Clarice que eles achavam que os professores achariam a correta. mas minha experiência no semestre anterior tinha me revelado uma falta de familiaridade com a investigação intelectual que eu não associava com o ambiente universitário. Alguns tinham já familiaridade com estudos culturais e feminismo. Pois meu espírito crítico teve de ser controlado.15. Ali estava uma turma que queria usar os textos de Clarice para compreender o existencialismo. Sou sempre otimista quanto aos alunos.. n. Então me surpreendi. que queria saber mais sobre as leituras dos alunos sobre os textos. Uma coisa que me surpreendeu na classe foi a curiosidade sobre a filosofia da linguagem e as teorias sociais. que os alunos de pós tinham dificuldades de leitura e escrita comparáveis às dos de graduação. e isso não é mau. como a nativa de plantão? Esse receio. dos projetos. Comecei a aula perguntando se eles gostariam de ter minhas críticas. mas para outros alunos aquele curso abriu as . Não falei dos trabalhos.. sobre interpretações corajosas. indiretamente. e de Machado para entender a relação entre a racionalidade e as crenças populares no Brasil do século XIX. Na aula seguinte. paradoxalmente. quando comentamos os projetos propriamente ditos. foi muito produtivo. 2009 de interpretação que trouxessem novos aspectos dos textos e autores lidos. ou me viam apenas. E lasquei uma boa aula sobre a noção de interpretação de Peirce. sobre o que os contos e crônicas realmente haviam falado para eles. antes do curso. Quem era aquela Clarice ali. Eles assentiram.

Enfim. Também ao final do curso. mas sim para introduzi-los e esperar que aquele se constituísse num primeiro contato com essa nossa literatura. Foi uma aula já ao final do curso. árabe. trabalhos que de um modo ou outro já conhecíamos a partir de lei- . Então. mesmo quando em tensão. brasileira. A ponte. africana. novamente. mesmo com pouco material. Os alunos ficaram encantados com aquelas influências literárias antigas que entraram no Brasil mas também na literatura europeia e americana. recebendo influências mil. mostrando o caráter diaspórico da literatura brasileira. mas não opostos.As alunas e os contos: a narrativa curta brasileira. a poeta amazonense Astrid Cabral. japonesa e. Funcionou? No todo. na qual também víamos escritores de origem árabe. E isso serviu de ponte para falar de Milton Hatoum e de sua Manaus misturada. obviamente. Ao final do curso. era tudo novidade. foram aqueles nossos autores brasileiros. e aí o processo foi inverso. Havia apenas uma coletânea disponível (Alvares e Lima. mas o tema geral da situação da mulher negra nas Américas era de conhecimento de todos. 2004). 185 portas para Merleau-Ponty. 2003).. no semestre anterior. indígena. a discussão foi rica e acalorada. examinamos a literatura escrita por mulheres negras. Discutimos como no Brasil e nos Estados Unidos as identidades nacional e étnica aparecem na literatura de modos distintos. A faculdade havia convidado. ao final do curso não havia mais tempo para se aprofundar nos autores. os alunos apresentaram os trabalhos para a classe. Resolvi dar uma aula sobre a literatura judaica no Brasil (Waldman. cotidianos e complexos. pois nos dois países as identidades se enriquecem. Simmel e outros pensadores bastante sofisticados. e com pontes indo também a lugares mil. penso que sim. cuja palestra algumas alunas haviam visto. como parte dos eventos do Ano do Brasil.. e isso foi bom: saímos então do lugar chamado Brasil para situarmos o Brasil no mundo. mas fazendo pontes com as literaturas de outros países também. banais e sofisticados: falar da existência humana a partir de um ovo que se quebra dentro da rede.

Sem alguma referência inicial. mas talvez não o coletivo. Uma excelente aluna de graduação que se matriculou no curso escreveu sobre os dilemas de gênero que apareciam em Machado e também em Nelson Rodrigues. Em outras. Também aprendi que o contexto no qual esse ensino se dá é importantíssimo. de Lispector. Foram aulas de troca intensa. procurou investigar que tipo de reflexão os textos de Clarice evocavam. o compartilhar de experiências. Não consigo terminar este artigo antes de falar brevemente dos trabalhos. Mas estavam lá comigo não apenas os autores que fizeram a nossa literatura. que a leitura de Clarice evocou. o que permitia essa troca de modo fácil e intuitivo. Mas estavam lá na sala de aula. como também seus editores e tradutores na língua inglesa. é certo. 2009 turas e discussões anteriores. Na classe em que havia ideias iniciais sobre o Brasil. pois a essa altura todos se sentiam um pouco autores uns dos trabalhos dos outros. é possível o aprendizado individual. viam valor em textos que não me chamavam a atenção. elaborar.186 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Duas alunas escreveram também sobre a autora.15. O que ficou dessa experiência? Que ensinar literatura brasileira no exterior é um trabalho coletivo. Além disso. me ajudando a construir essa ponte que é um dos motores da literatura. Um aluno fez uma análise filosófica de “O ovo e a galinha”. é difícil tocar adiante o projeto educacional. A outra. Tinham certamente um olhar distinto do meu. avançar. no conto “Amor”. é possível ir adiante. como foi o caso desse curso de literatura. n. há . Eu tinha a sensação de uma profunda solidão. mesmo que inconsistente. Todo o material apresentado era colocado no ambiente educacional virtual Moodle. que procurou refletir sobre sua própria cultura repleta de misticismos a partir do conto de Machado “A cartomante”. a partir de conversas com leitores de seu círculo de amizades. Um trabalho que debatemos muito em aula foi escrito por uma aluna caribenha. e às vezes deixavam de lado algumas gemas. Uma escreveu sobre uma experiência de infância que se assemelhava ao olhar de estranhamento de Ana.

Fiquei me perguntando qual era o Brasil que ela imaginava. fugir do exame desigual . onde professores universitários da área de ciências humanas não conheciam Keynes. estereotipada? Num belo dia resolvi traduzir o poema “E agora. dei umas mexidas e pronto. Pois por que não às vezes ser um pouco a brasileira palhaça. 187 também as ideias iniciais da instituição e dos colegas sobre o Brasil. a produção literária brasileira. Alguns alunos faziam um curso bem introdutório.As alunas e os contos: a narrativa curta brasileira. além de dar aulas de línguas. Mas a maioria não conhecia nada da língua. também cantava na ópera e lecionava voz. de conversação.. não estava tirando sarro dela nas aulas com aquela entonação vagarosa. A professora com quem dividi o curso queria apresentar um panorama geral sobre a cultura brasileira. e eu queria examinar o conto.. para que eles compreendessem o significado. nada mais. Coloquei o poema em nosso site na internet. Ou qual era o mundo. Uma até confessou que agora se dava conta que seu professor de capoeira falava mesmo daquele jeito. E até tentei uma imitação de carioca. Depois li o poema em inglês. José?”. uma colega fez um aposto para explicar quem era Keynes. Depois. em uma conversa sobre a crise econômica. Essas expectativas todas entram na sala de aula. E aí começou a brincadeira: li o poema em português. li o poema imitando o sotaque baiano. mostrei a um poeta novaiorquino com quem tenho um ótimo diálogo literário e pessoal. mas sim ir sutilmente as aceitando e subvertendo. de Drummond. Os alunos riram. musicada. que não funcionou tão bem. o que esperavam de mim? Como imaginavam um professor brasileiro? Lembro-me que. obviamente em português. claro que explicando que era apenas uma imitação de paulista. para que eles se familiarizassem com a língua. Fiz um primeiro esboço. pois acredito que a partir de nossas realizações é que podemos nos reconhecer como iguais. com uma brasileira que morava na cidade e. mas numa aula também coloquei o próprio Drummond declamando o poema. e acredito que bater de frente com elas não seja a melhor alternativa.

n. Acho que ela serviu de elo entre nós. 1994.15.. de viver. Rio de Janeiro. ALVARES. eu fui um pouco a nativa. Vieram em maio ao Brasil. Muitos alunos disseram se surpreender com a forma sintética e evocativa que nós dominamos tão bem. 1984. 1992. LIMA. Foreign legion: stories and chronicles. Memoirs of a militia sergeant. Oxford University. Clarice. São Paulo: Cultrix. LISPECTOR. trazendo a música. K. as minhas histórias pessoais e a minha vivência. JACKSON. Oxford anthology of the Brazilian short story. Family ties. Referências ALMEIDA. Mas de certo modo eu também apresentei esse panorama geral. Mango Publishing.188 Revista Brasileira de Literatura Comparada. O conto disse para eles que há outras formas de pensar. PESSÔA. _____. Austin: University of Texas. Manuel Antonio de. de sentir. Mas não sei se afirmo que realmente investigamos a forma. o sotaque. O romance sempre seria comparado ao que os alunos já conheciam da literatura inglesa e americana. Uma poética da musicalidade na obra de João Guimarães Rosa. Women righting: afroBrazilian women’s short fiction. Uma nativa de óculos. Alfredo.. para os alunos que fizeram esse curso. 2000. BOSI. digamos. Sei que. Miriam. Maria Helena. 2009 de um povo sobre o outro. David. O que viram? Com quem conversaram? Como se sentiram? Não sei. André Vinicius. onde quer que tenham ido. New Directions Publishing Corporation. O conto brasileiro contemporâneo. 2006. Oxford: Oxford University. 2004. O conto brasileiro talvez tenha sido porta de entrada para uma sensibilidade distinta – e para uma sociabilidade distinta também. De certo modo. de um modo que outra forma talvez não o fizesse. as vozes de nossos escritores estavam com eles. Dissertação (Mestrado) . 2006. os meus próprios contos. Consegui dar um curso sobre o conto como forma literária? Isso fica em aberto.

. Graciliano. RODRIGUES. Ricardo. 2008. Nelson. 1963. SANTOS. The devil to pay in the Backlands.As alunas e os contos: a narrativa curta brasileira. 1966. Indiana University. As cem melhores crônicas brasileiras.. 189 – Universidade Federal do Rio de Janeiro. Berta. WALDMAN.. Rio de Janeiro: Objetiva. Barcelona: Anagrama. Formas breves. Seleção de contos brasileiros. Knopf. RAMOS. 1992. PIGLIA. Rio de Janeiro: Edições de Ouro. ROSA. SADLIER. Host Publications. 2000. Life as it is. 2005. São Paulo: Perspectiva. Entre passos e rastros. João Guimarães. One hundred years after tomorrow: Brazilian women’s fiction in the 20th century. Darlene J. 2003. Joaquim Ferreira dos.

Pareceristas Arnaldo Franco Junior Benito Martines Rodriguez Clarissa Jordão Eurídice Figueiredo Isabel Jasinski Luís Bueno Luiz Carlos Simon Mauricio Mendonça Cardozo Marilene Weinhardt Paulo Soethe Renata Telles Silvana Oliveira Susana Scramin .

indicando a instituição à qual está vinculado(a). A extensão do texto deve ser de.org. título e temática escolhida. duas linhas abaixo do título. •  O espaço para publicação é exclusivo para pesquisadores  doutores. com uma folha de rosto onde constem os dados de identificação do autor: nome. e-mail. Devem ser produzidos em MSWord 2007 (ou versão superior). •  Após a folha de identificação. telefone (com prefixo).Nome(s) do(s) autor(es) – à direita da página (sem negrito nem grifo).br •  Os artigos podem ser apresentados em português ou em  outro idioma. poderá ser aceito trabalho de não doutor. 20. no máximo. espaço simples.191 Normas da revista Normas para apresentação de artigos • só serão aceitos trabalhos enviados pela internet para o endereço: revista@abralic. por exemplo. seguido da sigla. O nome da instituição deve estar por extenso. com maiúscula só para as letras iniciais. instituição. . . o trabalho deve obedecer  à seguinte sequência: . desde que a convite da comissão editorial – casos de colaborações de escritores. Todos os trabalhos devem apresentar também Abstract e Keywords. endereço para correspondência (com o CEP). no mínimo. Eventualmente. Usar asterisco para nota de rodapé.título – centralizado. 10 páginas e. em maiúsculas e negrito (sem grifos).

. . Palavras em língua estrangeira – itálico.Keywords – mesmas observações sobre as palavraschave. seguida de dois pontos. em negrito. . quando houver. sem numeração. itálico e maiúsculas. O resumo deve ter no mínimo 3 linhas e no máximo 10. só com a primeira letra em maiúscula. corpo 10. . Usar espaçamento duplo entre o corpo do texto e subitens. sem itálico e também seguidas do sobre- . A expressão palavras-chave deverá estar em negrito. ano de publicação e página(s). numeradas de acordo com a ordem de aparecimento. gráficos etc. duas linhas abaixo do nome do autor. com recuo de dois centímetros de margem direita e esquerda. seguida de dois pontos.) – devem vir prontas para serem impressas. itálico e maiúsculas. negrito.abstract – mesmas observações sobre o Resumo. ilustrações e tabelas.Palavras-chave – dar um espaço em branco após o resumo e alinhar com as mesmas margens. Corpo de texto 10.citações de até três linhas vêm entre aspas (sem itálico).15.Notas – devem aparecer ao pé da página. Máximo: 5 palavras-chave. . . dentro do padrão geral do texto e no espaço a elas destinados pelo autor. corpo menor (fonte 11). . desenhos. O texto-resumo deverá ser apresentado em itálico.subtítulos – sem adentramento. seguidas das seguintes informações entre parênteses: sobrenome do autor (só a primeira letra em maiúscula).192 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Espaçamento simples entre linhas e parágrafos. . 2009 . vêm com recuo de 4 cm na margem esquerda. Com mais de 3 linhas.Resumo – a palavra Resumo em corpo 10. corpo 12. Corpo 10. . . n.Ênfase ou destaque no corpo do texto – negrito. sem aspas.tabelas e ilustrações (fotografias.Parágrafos – usar adentramento 1 (um).texto – em Times New Roman.

pode-se recorrer a vários poetas. negrito. Valéry. duas linhas antes da primeira entrada.Normas da revista 193 nome do autor (só a primeira letra em maiúscula). as indefinições. 1982. Elas são nossa única realidade. Eliot. A palavra é o próprio homem. Recomenda-se que anexos sejam utilizados apenas quando absolutamente necessários. 1998. ou pelo menos. sem adentramento. bem como permissão dos editores para publicação. ano de publicação e página(s).anexos. 37) • citação indireta [. 1991. foi antes a poesia concreta que assumiu as conseqüências de certas linhas da poética drummoniana.] conforme Octavio Paz.] entre as advertências de Haroldo de Campos (1992). em maiúsculas e negrito. o enfoque das personagens .As citações em língua estrangeira devem vir em itálico e traduzidas em nota de rodapé. . • citação de vários autores Sobre a questão. ao contrário. Borges... o único testemunho de nossa realidade. a presença da ironia e da sátira.Referências – devem ser apenas aquelas referentes aos textos citados no trabalho. não há qualquer reivindicação de possíveis influências ou contágio. . teóricos e críticos da literatura (Pound. 1969) • citação de várias obras do mesmo autor As construções metafóricas da linguagem. sem adentramento e sem numeração. Quando constituírem textos já publicados. alguns exemplos de citações • citação direta com três linhas ou menos [.” (PAZ.. Campos. precedidos da palavra ANEXO. devem ser colocados antes das referências.. evidenciando um confronto entre o sagrado e o profano. p. A palavra REFERÊNCIAS deve estar em maiúsculas. 1991. 1977. Somos feitos de palavras. devem incluir referência completa. “As fronteiras entre objeto e sujeito mostram-se particularmente indecisas. caso existam.

1992) • citação de citação e citação com mais de três linhas Para servir de fundamento ao que se afirma. n.. o regional. Leyla. M. 2004. Tese (Doutorado) – Faculdade de Filosofia. p. Claudia Pastore. 22. tira ele e forma uma imagem que antes não havia. 2006. Letras e Ciências Humanas.). São Paulo.122-33. • capítulo de livro BERND. São Paulo: Companhia das Letras. Paradoxos do nacionalismo literário. 2007.] o nosso entendimento que a fantasia aprendera e formara em si muitas imagens de homens. Araraquara. 1991. 1988. . • dissertação e tese PARMAGNANI. 2004. concebendo que todo o homem tem potência de rir [. 1999. O erotismo na produção poética de Paula Tavares e Olga Savary.. 37. nacionalismo. José Luís et al. p. Vira e mexe. 87 apud TEIXEIRA. 2009 em diálogo dúbio entre seus papéis principais e secundários são todos componentes de um caleidoscópio que põe em destaque o valor estético da obra de Saramago (1980. (Org. Relações entre ficção e história: uma breve revisão teórica. Z. 1759. V.] (FREIRE. Lugares dos discursos literários e culturais – o local. Niterói: EdUFF. de tantas imagens particulares que recolhera a apreensiva inferior [fantasia].15. p. Zilá. • artigo de periódico GOBBI. veja-se um trecho do capítulo XV da Arte Poética de Freire: Vê. In: JOBIM..194 Revista Brasileira de Literatura Comparada. p.. Itinerários. o internacional. o planetário. Universidade de São Paulo. 148) alguns exemplos de referências • livro PERRONE-MOISÉS. Perspectivas comparadas trans-americanas.57. n. o nacional. [. que faz? Ajunta-as e.

scielo. 10. 2008./jun. n. observação final: A desconsideração das normas implica a não aceitação do trabalho. Alea: Estudos Neolatinos.php?pid= S1517106X2008000100005&script=sci_arttext>. p.. 4.Paulo. F. jan. São Paulo. Anais. v. Belo Horizonte. T. Disponível em: <http://www. 85-95. Folha de S. I. A intermediação da memória: Otto Maria Carpeaux. In: II CONGRESSO ABRALIC – Literatura e Memória Cultural. Acesso em: 6 fev. 8 abr. 2000. O comum e o disperso: história (e geografia) literária na Itália contemporânea.Normas da revista 195 • artigo de jornal TEIXEIRA. 1. . 2009. Gramática do louvor. Os artigos recusados não serão devolvidos ao(s) autor(es).. Rio de Janeiro. • trabalho publicado em anais CARVALHAL. 1990. Ettore.br/scielo. p. • Publicação on-line – Internet FINAZZI-AGRÒ. Jornal de Resenhas.