REVISTA BRASILEIRA DE

São Paulo 2009

Diretoria Presidente Vice-presidente 1º Secretário 2º Secretária 1º Tesoureiro 2º Tesoureiro Conselho Fiscal

A B R A L I C 2009-2011 Marilene Weinhardt (UFPR) Luiz Carlos Santos Simon (UEL) Benito Martinez Rodriguez (UFPR) Silvana Oliveira (UEPG) Luís Gonçales Bueno de Camargo (UFPR) Maurício Mendonça Cardozo (UFPR) José Luís Jobim (UERJ, UFF) Lívia Reis (UFF) Sandra Margarida Nitrini (USP) Helena Bonito Couto Pereira (Universidade Mackenzie) Arnaldo Franco Junior (UNESP - S. J. do Rio Preto) Carlos Alexandre Baumgarten (FURG) Rogério Lima (UnB) Sueli Cavendish de Moura (UFPE)

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ABRALIC CNPJ 91.343.350/0001-06 Universidade Federal do Paraná Rua General Carneiro, 460, 11.o andar 80.430-050, Curitiba - PR E-mail: revista@abralic.org

REVISTA BRASILEIRA DE

ISSN 0103-6963 Rev. Bras. Liter. Comp. São Paulo n.15 p. 1-195 2009

sem permissão por escrito.0103-6963) é uma publicação semestral da Associação Brasileira de Literatura Comparada (Abralic). n.005 CDU 82. I. fundada em Porto Alegre.091 (05) . Associação Brasileira de Literatura Comparada. Todos os direitos reservados. em 1986. CDD 809.1. 2009 ISSN 0103-6963 1.15.2. sejam quais forem os meios empregados.1 (1991) – Rio de Janeiro: Abralic. n. 1991v. Editor Organizador Comissão editorial Luís Bueno Maurício Mendonça Cardozo Luiz Carlos Santos Simon Benito Martinez Rodriguez Silvana Oliveira Luís Bueno Maurício Mendonça Cardozo Preparação/Revisão Diagramação Patrícia Domingues Ribas Rachel Cristina Pavim Revista Brasileira de Literatura Comparada / Associação Brasileira de Literatura Comparada – v. pesquisadores e estudiosos de Literatura Comparada. entidade civil de caráter cultural que congrega professores universitários.2008 Associação Brasileira de Literatura Comparada A Revista Brasileira de Literatura Comparada (ISSN. Nenhuma parte desta revista poderá ser reproduzida ou transmitida. Literatura comparada – Periódicos.

Sumário Apresentação Luís Bueno Mauricio Cardozo 7 Artigos Os estudos de língua e literatura brasileiras no contexto dos estudos portugueses e latino-americanos na Alemanha Ligia Chiappini A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria Ferenc Pál Tempos e contextos da literatura brasileira na Argentina e no exterior Florencia Garramuño Ideia de literatura brasileira com propósito cosmopolita Abel Barros Baptista O ameríndio como personagem do Outro na literatura brasileira contemporânea: Órfãos do Eldorado e Nove noites Rita Olivieri-Godet Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate de nosso tempo Idelber Avelar O ensino de literatura brasileira por meio do Teatro do Oprimido: uma experiência na Carolina do Norte Érica Rodrigues Fontes 9 25 49 61 89 113 151 .

As alunas e os contos: a narrativa curta brasileira num curso de escrita criativa nos Estados Unidos Heloisa Pait 173 190 191 Pareceristas Normas da revista .

da . Respondendo a essa proposta inicial. O segundo bloco é constituído por três trabalhos que privilegiam a dimensão da análise literária. a Revista Brasileira de Literatura Comparada procurou abrir um espaço para a discussão dos diferentes lugares e dinâmicas de estudo da literatura brasileira fora do Brasil. os artigos que compõem este número da Revista formam três blocos diferentes. Ferenc Pál e Florencia Garramuño. vale-se do conceito de “hospitalidade” para discutir o estatuto do estudioso estrangeiro de literatura brasileira. organizados a partir da dimensão que privilegiam em sua discussão. ao concentrar-se nas questões levantadas pelas leituras brasileira e estrangeira de Machado de Assis. No primeiro bloco. Rita Cavalieri Godet.7 Apresentação Ao propor como tema os “Estudos de literatura brasileira no exterior”. traçam amplos panoramas históricos – com um olhar atento ao futuro – dos estudos de literatura brasileira em dois países que se localizam a distâncias (não só geográficas) muito diferentes em relação ao Brasil: Hungria e Argentina. O artigo de Lígia Chiapinni é o significativo balanço da experiência fundamental que representou a criação e rápida extinção da única Cátedra de Brasilianística de uma universidade alemã. bem como de suas relações com o deslocamento da posição ocupada pelo Brasil no cenário político e econômico mundial nas duas últimas décadas. Abel Barros Baptista. por sua vez. o que se destaca é a dimensão por assim dizer institucional dos estudos brasileiros no exterior. da Universidade Nova de Lisboa.

n. ao realizar cuidadosa leitura de obras de Milton Hatoum e Bernardo Carvalho. O bloco final nos traz dois relatos que investem na dimensão da experiência de professoras brasileiras nos Estados Unidos. em princípio. 2009 Universidade de Rennes 2. No primeiro deles. Heloisa Pait conta como procurou superar as dificuldades de discussão de textos brasileiros em tradução no contexto de uma instituição que.8 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Luís Bueno Mauricio Cardozo . da Universidade de Tulane. ao tomar partido de sua posição de professor brasileiro que atua nos Estados Unidos. convoca estudiosos tanto brasileiros como estrangeiros para retomar um tema fulcral da crítica: o do estabelecimento do valor. é estranha ao aluno estrangeiro. enfrenta as dificuldades das pequenas faculdades americanas. Já Idelber Avelar. Érica Rodrigues Fontes trata de sua proposta de utilização dos fundamentos do Teatro do Oprimido de Augusto Boal como instrumento de aproximação de uma realidade que.14. No artigo que fecha este número da Revista Brasileira de Literatura Comparada. apesar de ter grande tradição. lança seu olhar para a representação que a ficção brasileira contemporânea faz do ameríndio.

Atualmente trabalhando na orientação de teses no mesmo Instituto.9 Os estudos de língua e literatura brasileiras no contexto dos estudos portugueses e latino-americanos na Alemanha1 Ligia Chiappini* Situação atual dos estudos de língua. entre 1997 e 2010. junto ao Centro de Pesquisas Brasileiras. Brazilian literature. literatura brasileira. A interrupção dessa experiência. encerramento cátedra. * . do qual é co-fundadora. Não é preciso acentuar que uma obra literária transmite muitos elementos procedentes de outra cultura na ficção e desperta para outras formas de viver e de pensar. closure chair A literatura proveniente da América Latina tem direito a ser considerada no mesmo nível que outras literaturas. confirmaria uma tradicional contradição na Alemanha entre um grande interesse pelo Brasil e um quase desinteresse por sua literatura. literature and culture in Germany is described by the author who occupied the only Chair in Brasilianistik ever created in Germany for almost fifteen years at the Freie University of of Berlin.língua portuguesa. descrita a partir da experiência única da cátedra de Brasilianística que a autora ocupou por quase quinze anos na Universidade Livre de Berlim. que influenciam o diálogo entre o autor traduzido e o Professora catedrática de Literatura e Cultura Brasileiras do Instituto Latino-Americano da Universidade Livre de Berlim. não deveria ser lida somente como veículo de informações sobre o país. keywords: teaching and research. abstract: The current status of the studies of Brazilian language. bem como na pesquisa. literatura e cultura brasileiras na Alemanha. curriculum reform. a partir de 2010. do confirm a traditional contradiction in Germany between a great interest in Brazil and almost no interest in its literature. digamos. resumo: palavras-chave: ensino e pesquisa. reforma curricular. Portuguese Em memória de Marlyse Meyer. Porém os preconceitos ou. os clichês. 1 language. The interruption of this experience in October 2010.

em alemão. Adorno e Benjamin. até segunda ordem. literatura e cultura brasileiras e de suas diferentes modalidades na Alemanha. como a primeira. tais como a Germanistik. Auerbach. difíceis de desaparecer na mente das pessoas. ela se localizou na confluência do Departamento de Romanística com o Instituto de Estudos LatinoAmericanos. adotou o tratamento da literatura como manifestação cultural. significa Literatura Brasileira ou Filologia Brasileira. no texto “Literatura e cultura no contexto dos estudos brasileiros na Alemanha: a cátedra de Brasilianística” (Chiappini. das artes plásticas. propondo para nossa reflexão alguns problemas que pude identificar em quase quinze anos de trabalho na Universidade Livre de Berlim. E. por analogia a outras áreas desses estudos. a Hispanistik. Na Universidade Livre de Berlim. pois esta não deve ser confundida com o estudo meramente formal dos textos em si mesmos. nesse contexto. 2009 seu leitor estrangeiro. principalmente em Berlim.2 Brasilianistik. pois a literatura brasileira Por exemplo. única e. muito complicado. (Ray-Güde Martin) Nos meios cultos da Alemanha. última professora de Brasilianística da Alemanha. de mais longa tradição acadêmica. são. n. da televisão. para citar apenas alguns dos grandes estudiosos de língua alemã que trataram dos textos em seus contextos e dos contextos nos textos. da poesia e narrativa orais. Mas o que parece simples no enunciado acima é. Esta ironia se esclarecerá no decorrer deste texto. pelo menos na terra de Spitzer. ao que parece. a Anglizistik. (Johann Jacob von Tschudi) O objetivo deste texto é resumir um pouco o percurso e a situação atual dos estudos de língua. que conheço melhor. do cinema. na verdade. 2005) 2 .15. Para além da filologia mas com a filologia. que atualiza informações já divulgadas em algumas publicações anteriores. a língua portuguesa fica quase tão desconhecida como o pérsico ou o sânscrito.10 Revista Brasileira de Literatura Comparada. abrindo-se a outras linguagens. da música popular.

haveria um semidesconhecimento cultural e. ela perde espaço e visibilidade. 3 ainda enfrenta dificuldades para ser reconhecida em sua autonomia (mesmo que relativa. mas também na ignorância da dimensão que a própria língua portuguesa tem no mundo. 349). mesmo. ou dos estudos hispanoamericanos. vigorando “enfoques valorativos eurocêntricos e critérios preconceituosos” (Briesemeister. sobre ele pesquisaram e escreveram. 11 Critérios e preconceitos que. que sempre por ele se interessaram. como a de toda literatura). 2000. Por outro lado. “Brasil: país do passado?”. do início do século XIX ao final da década de 90 do século XX. sociólogos. mesmo em contextos nos quais se impôs como necessária. nos departamentos ou institutos latino-americanos. que ajuda a entender a situação presente. Em palestra realizada no primeiro simpósio internacional promovido pela Brasilianística. Por um lado. E aí também a situação piora dia a dia. com o português fazendo parte de uma estrutura que privilegia o espanhol (2000. botânicos. Dietrich Briesemeister (2000) faz um balanço dessa luta. por parte dos que nunca quiseram a cátedra de Brasilianística na Universidade Livre de Berlim e retardaram ao máximo a sua criação. tornaram a vigorar. etnólogos. tensionada entre os Estudos de Literatura e Cultura Latino-Americanos – hoje identificados com os Estudos Culturais Norte-Americanos – e a Lusitanística. depois de uma longa luta pela institucionalização da disciplina. que se publicou posteriormente em livro com o mesmo título. uma ignorância quanto à “participação individual do Brasil na cultura universal”.3 Ainda segundo Briesemeister: Os estudos brasileiros. e paralelamente. 349). caso do nosso Instituto..Os estudos de língua e literatura brasileiras no contexto. geógrafos. p. Começa constatando nesse percurso um permanente desequilíbrio na visão do Brasil pelos estudiosos na Alemanha. como parte da Romanística. sendo ela frequentemente . no caso da literatura. sempre foi um apêndice de Portugal. processo que durou de 1988 a 1995. e por parte dos que provocaram. O desconhecimento e o desinteresse não se manifestariam apenas na ausência ou invisibilidade da literatura. nos departamentos de Romanística das Universidades. seria esse País Tropical um paraíso para geólogos. Entre aqueles e estas. p. aliás.. apoiaram ou facilmente aceitaram a sua extinção quinze anos depois.

principalmente. constata-se até uma tendência regressiva em comparação com o posicionamento avançado do erudito austríaco (Briesemeister. ficando atrás em relação ao número de alunos (Briesemeister. p. como no contraexemplo do livro de Wilhelm Giese. deixava de fora o Brasil: (O) Brasil continuou ausente das obras que tratavam da América Latina e. Briesemeister reconhece algumas raras exceções a essa tendência ainda no século XIX. autor de Le Brésil Littéraire. O Brasil e a Alemanha: 1822-1922. em que a literatura é a grande ausente. não se fez muito nos países de língua alemã a favor da pesquisa. o ensino torna-se imperdoavelmente reduzido nas universidades alemãs. de 1924 (Briesemeister. Pelo contrário. 2000. Isso revelaria um grande desconhecimento tanto da dimensão quanto da qualidade desta. p. até há pouco tempo. 2000. O português entra em competição com o espanhol como “terceira língua”. de sua literatura.. 2009 comparada ao sânscrito e ao romeno. Die Spanisch-amerikanische Literatur in Ihren Hautströmungen. 351).15. . p. deixando as manifestações culturais sempre em segundo plano. 351).. Lamenta que esse exemplo não tenha sido seguido como merecia e acusa mesmo um possível retrocesso: desde aquela obra singular de Wolf. como no livro de Max Leopold Wagner. 2000. n. A regra continuaria sendo o predomínio do interesse econômico. como a posição do austríaco Ferdinand Wolf. da valorização e da divulgação da literatura brasileira. 350-351). publicado em 1863.12 Revista Brasileira de Literatura Comparada.). como línguas mais ou menos exóticas e minoritárias: Não obstante o número muito elevado e ainda o aumento da população mundial dos países lusófonos em quatro continentes (. a maior parte dos quais. O mesmo fenômeno nota Briesemeister nos livros sobre literaturas latino-americanas.

em Berlim. a criação de três institutos que continuaram existindo depois dela: o Instituto de Pesquisas sobre Ibero-América da Universidade de Hamburgo. só contém artigos dedicados a autores de língua espanhola (Briesemeister. Por exemplo. 2000.” (Briesemeister. depois de muitos prós e contras. que só 25 anos depois de criado.Os estudos de língua e literatura brasileiras no contexto. em 1912. o Instituto Ibero-Americano do Patrimônio Cultural Prussiano. Criada em 1989 e somente em 1997. pontuando. 351) dos estudos portugueses e brasileiros na Alemanha. em Aachen. ocupada pela autora deste texto. como o Instituto de Cultura Brasileira. no qual foi proferida essa conferência de Briesemeister. p. . Ainda antes da segunda guerra. p. o livro de Michi Strausfeld. 351-352). bem como a de Ray Güde-Mertin. foi “dotado de uma cátedra (única no país) de literatura e cultura brasileiras. a diversificação interdisciplinar. da qual tiramos a epígrafe acima. Destaca também novos centros. 2000. pelo cônsul Heirich Schüler. o mesmo autor resume “o largo caminho da institucionalização” (Briesemeister. mas quase sempre com referência exclusiva à América espanhola. da Universidade Livre de Berlim. a partir de 1995. o Instituto Geográfico da Universidade de Tübingen. o Instituto Latino-Americano. 13 Ainda nos anos 60 do século XX. a cátedra mal completara um ano quando organizamos o simpósio internacional.. p. em Mettingen. ou seja. finalmente.. Materialien zur lateinamerikanischen Literatur (1976). Defendendo a necessidade dos estudos regionais e. dos Frades Franciscanos. falava-se freqüentemente em América Latina. 2000. 353) Essa foi realmente uma conquista significativa. como primeiro centro de estudos interdisciplinares sobre América Latina numa universidade alemã. o Instituto Português e Brasileiro da Universidade de Colônia. a fundação do primeiro Instituto Latino-Americano da Alemanha. ao mesmo tempo. o Centro Latino-Americano de Münster e.

entre os quais. da teoria e da história literárias com a linguística. a Brasilianística no LAI dedicou-se sobretudo ao estudo sistemático e à divulgação dos textos mais significativos da Literatura Brasileira. dedicandose. da Lusitanística. Para tanto. a começar por tudo o que o une à América Latina. bem como da Latino-americanística e em diálogo estreito com a Caribística. n. A Brasilianística concebeu-se. mitos.4 Mas isso não significou tratar os textos isoladamente. permitindo-se juntar num único seminário. porque estes muitas vezes tendem a confinar o estudo dos textos e a própria literatura nos países considerados periféricos a um conjunto de informações superficiais e até mesmo estereotipadas das produções culturais. assim. entre outros.15. aos estudos sobre cordel e folhetim. 5 . que. Por outro lado. contou com uma ótima base linguística dos estudantes. que já constituem mais de dois séculos de um saber acumulado. o qual não podemos esquecer. numa predisposição e abertura para a inter/pluri/transdisciplinaridade. encarregados de cursos de língua. hoje também leitora na FU. ainda. havendo um esforço permanente para relacioná-los com seus contextos. embora ela tenha trabalhado também com textos não canônicos e com textos que só podem ser considerados literários em sentido amplo. novelas de televisão. tais como filmes. implicando um diálogo constante da crítica. sem desconhecer suas especificidades linguísticas e históricas. essa foi sempre a direção buscada. poesia oral. de modo indiscriminado. 2009 Considerando as lacunas apontadas por esses e outros estudiosos. Carlos Azevedo e Carlos Ladeira. mas tudo isso sem esquecer sua base nos estudos de literatura brasileira. A Brasilianística concebeu-se. como “Altos e baixos estudos”5 de literatura e cultura e não como Cultural Studies. dos estudos de teatro. arbitrário e puramente folclórico. ambos parcialmente financiados com auxílio do governo brasileiro. artes e comunicações. que aprenderam português brasileiro com Berthold Zilly e outros excelentes mestres. entre outros. 4 O termo se deve a Marlyse Meyer. Zinka Ziebell. a história e as ciências sociais. a economia. da Literatura Comparada. a cada nova tendência teórica produzida nos centros universitários hegemônicos da Europa e Estados Unidos da América do Norte. como quem inventa a roda. a proposta sempre foi trabalhar com o Brasil sem deixar de levar em consideração a sua integração no mundo. já nos anos 1970.14 Revista Brasileira de Literatura Comparada. valorizava com saudável distanciamento irônico os estudos culturais para além dos cânones literários. tanto como parte de uma hipotética Weltliteraturwissenschaft quanto da Romanística. muito antes de os Cultural Studies se terem transformado em moda na América Latina.

é preciso saber que na Alemanha. promover eventos. com esse cargo de titular para a Brasilianística criou-se a possibilidade de os estudos brasileiros escaparem à situação de apêndice dos estudos portugueses ou hispano-americanos. como abertura para o não canônico. Por outro lado. como social e histórica.6 Finalmente. onde a hierarquia universitária se mantém de modo muito rígido e conservador. Isso tudo.Os estudos de língua e literatura brasileiras no contexto. 6 aulas sobre descobrimentos. mais o contrato permanente de trabalho.. embora vinculando-se estreitamente a elas. . Como já foi dito. No caso da Brasilianística. e mesmo intensificou. o aprofundamento da pesquisa e do ensino específicos da literatura e da cultura brasileiras preservou. permitiu conquistar um espaço autônomo para os estudos de literatura e cultura. entendendo que negar essa possibilidade em nome da democracia. pois a literatura sempre foi estudada aí como parte da cultura e esta. para não falar dos professores horistas ou encarregados de cursos –. possibilita uma continuidade de produção teórica e prática no ensino e na pesquisa.e redutoramente nas ciências sociais. 15 Como defendeu um colega norte-americano no jornal da Brazilian Studies Association (Brasa). impedindo que se dissolvessem conteudística. como permite o sistema brasileiro: desde orientar teses de doutoramento até coordenar projetos. O jornal chama-se Fagulha e no número de 1997 estampou esse programa como alternativa aos programas tradicionais de literatura e cultura brasileira. Para entender a importância disso – sobretudo porque no Brasil poucos percebem a diferença entre as condições de trabalho de um professor e de um assistente ou de um leitor. a Brasilianística sempre defendeu o espaço e a possibilidade de os escritores brasileiros escreverem e publicarem literatura. como em qualquer parte do mundo. assinar convênios e gerenciálos. mesmo que bem intencionada. o intercâmbio interdisciplinar com os estudos hispano-americanos de literatura e cultura. todo docente universitário com doutorado poderia fazer.. escravidão.. um cargo de professor implica um espaço próprio e possibilidades bem maiores de fazer coisas que. música popular brasileira e jeitinho brasileiro. seria um efeito perverso da atitude libertária. Guimarães Rosa. tão importante na formação das novas gerações. associação de brasilianistas dos Estados Unidos. aparentemente.

quando a Universidade começava a ser pressionada para ajustar-se às reformas neoliberais. realmente. 2000. aqueles identificados no passado. pois permite não apenas aprofundar a interdisciplinaridade mas também desenvolver atividades que levem a superar culturalmente o tratado de Tordesilhas. A reforma universitária vinha junto com significativos cortes de orçamento. no sentido acordado em Bolonha: generalização dos cursos de Bachelor e Master e substituição dos cursos tradicionais de graduação. 2009 É importante assinalar que o Instituto Latino-Americano. piorou. a Brasilianística começou a funcionar já num momento extremamente desfavorável. n. como no âmbito das reformas anunciadas para o futuro próximo (Briesemeister. uma das primeiras áreas atingidas foi o português. parece ser o lugar institucional ideal para uma disciplina desse tipo. como a então recente criação da Brasilianística. Nas Humanidades. p. ajuste esse que o autor antecipou e que logo iríamos começar a viver de modo vertiginoso. apesar de suas contradições. como vimos. Tais entraves iriam reforçar. Apesar das várias realizações da Brasilianística – entre outras.16 Revista Brasileira de Literatura Comparada. 354).15. tanto na sua tradição. Entretanto. com a introdução das reformas curriculares nas universidades alemãs e europeias. um ano antes do balanço pessimista mas realista de Briesemeister. O experiente professor e pesquisador já pressentia nessa reforma novos entraves para os poucos progressos feitos na institucionalização dos estudos de língua e literatura brasileira. a . e mesmo portuguesa. o que o levava a sugerir um tanto profeticamente que tudo tenderia a piorar: O que impede quase insuperavelmente a independentização dos estudos brasileiros nas condições precárias do momento atual são as estruturas administrativas organizatórias da universidade alemã. prevendo a extinção de postos e áreas inteiras. a oferta de quatro a cinco cursos diferentes por semestre. E. na Alemanha. concorrendo para a integração da América Latina. segundo ele. ou mesmo por causa delas.

uma necessidade que estamos longe de preencher: Sem dúvida. então. Em Berlim. formas de vida. em face disso. Antropologia cultural. da qual fazia parte a Brasilianística como uma subárea. Num segundo ano.8 Ao nível do Bacharelado. não só para garantir. Esse master começou em outubro de 2005. mas também para ajustar a formação profissional dos jovens universitários às exigências de hoje (Briesemeister. planejou-se e. p. cultura e sociedade. quando os novos bacharelados já haviam começado e hoje já se evidencia em ambos a necessidade urgente de serem repensados e reformulados. 17 As recentes reformas implicaram o fechamento de departamentos inteiros de português em toda a Alemanha. 8 orientação de mestrados e doutorados. passou para o mesmo departamento. menos professores: ou seja. A Universidade Livre tem mais condições hoje de manter uma parte deles. a assimilação de uma língua de quase 200.7 seja no âmbito dos Estudos Culturais Latino-Americanos. a exclusão do Brasil da América Latina ou. Conceitos e métodos da pesquisa sobre América Latina. ao espanhol da América. os alunos podem optar entre cinco áreas de concentração: Transformação e desenvolvimento.. América Latina no contexto global. 2000). transformações. a Universidade Humboldt encerrou mais radicalmente esses estudos. além de um módulo para desenvolvimento de projetos. ao nível do Master. Motivos? Ao que parece. a qualidade da pesquisa científica.Os estudos de língua e literatura brasileiras no contexto. concretamente. ciclo de palestras e publicações. o que significa menos carga horária. 350).. Literaturas nas dinâmicas culturais da América Latina. . Não apenas a literatura brasileira se vê ameaçada. o estabelecimento e gerenciamento de convênios internacionais com outras instituições dedicadas à cultura e à língua brasileiras no Brasil e na Europa –. com cinco módulos obrigatórios e alguns opcionais.000. mas o máximo que conseguiu foi fazê-los sobreviver como diploma complementar aos Bachalerados da Romanística. Ele enunciou. o português brasileiro.000 de falantes. com um BA de estudos brasileiros e portugueses (valendo 60 pontos e não 90. em nível institucional. como parte do BA de Estudos portugueses e brasileiros. mais econômicos que científicos. “torna-se impossível conciliar as necessidades da diferenciação adequada com os critérios didáticos de aprendizagem e as relações histórico-culturais dos países do mundo lusófono” (2000. o que significa. Os “dilemas da institucionalização” ameaçam também a variante europeia da língua e os respectivos estudos literários e culturais específicos da lusitanística.. como os outros). Como também previu Briesemeister. a especialização é absolutamente necessária. Relações de gênero. ao nível do BA. menos disciplinas. enquanto a disciplina de Latino-americanística. a organização de simpósios. 7 O Master do Instituto prevê um primeiro ano comum. em menos de cinco anos. uma formação mais superficial na área. Poder e diferença. inevitável e urgente. decretou-se o seu desaparecimento no âmbito mais geral seja da Lusitanística. Brasil no contexto global: literatura. Os básicos são: Constituição da América Latina. a língua e a literatura brasileiras deslocaram-se para o departamento de Filologia Românica. mas estranhamente assimilada ao BA de Filologia Espanhola.

se propôs a criar um Centro de Pesquisas Brasileiras.9 corta-se a sua continuidade. eventos. Existindo desde meados da década de 1970.html>. do instituto mais importante na Alemanha dedicado aos estudos sobre a América Latina. esse Instituto conseguiu abrir um cargo de titular em literatura e cultura brasileiras. que quase dez anos depois. quando expressivos resultados do trabalho aí desenvolvido começam a aparecer. ora como seu equivalente ao contrário: puro documento. consiste em. finalmente. 2009 A restrição da oferta no ensino de português. para os quais a literatura é vista ora como uma joia supérflua. Uma tarefa da Brasilianística. na variante europeia e nas demais. há um paradoxo. após muitas idas e vindas. “sorriso da sociedade”. ligadas aos negócios ou às chamadas ciências sociais. com tentativas de fechá-lo antes que começasse a funcionar e tendo funcionado dois anos com professores substitutos. 9 . como vimos. recentemente. em 1997. ajudar a superar tanto uma suposta autonomia absoluta dos estudos filológicos quanto o preconceito de muitos brasilianistas das ciências sociais.15. mas está sendo canalizada. E justamente agora. No caso do Instituto Latino-Americano da Universidade Livre de Berlim. n. Trata-se.18 Revista Brasileira de Literatura Comparada.lai. coerentemente com a tradição de que nos falava Briesemeister. só em 1989.de/studium/disziplinen/ brasilianistik/index. veio a ser. entretanto. que continua a crescer. como vimos. que por si só a justifica. pela extinção do cargo após a aposentadoria da sua titular. Essa concepção ainda positivista da literatura e das artes embasa ou. justifica a criação de bacharelados disciplinares em que os estudos portugueses e Veja-se a lista das publicações. ocupado pela primeira colocada no concurso feito em 1990. não aos estudos de literatura e cultura ou aos estudos linguísticos. que eram contemplados normalmente no antigo currículo. cursos e projetos de pesquisa em nossa homepage: <http://www. com uma tradição respeitável de estudos sobre o Brasil e que.fuberlin. indo além do seu próprio gueto. para cursos destinados aos interessados das áreas consideradas mais úteis. pelo menos. como queria o escritor brasileiro Afrânio Peixoto no início do século XX. não foi acompanhada de uma diminuição da demanda.

mais que uma série de informações sobre eles. necessárias e esclarecedoras mas externas a eles e. mas tampouco fazer tabula rasa do capital teórico e analítico aí acumulado. servida por apenas um cargo de titular. pelo predomínio da análise conteudística ou a abordagem das condições de produção ou de recepção dos textos. Lateinamerikanistik/Brasilianistik (Literatura e Cultura Latinoamericanas). como ocorria há quinze anos. um método para que cada um produza seu próprio método. a Brasilianística voltou a fazer parte de uma só disciplina. incapazes de dar conta da sua complexidade como objeto feito de palavras que são ao mesmo tempo coletivas e individuais. pelo menos desde Aristóteles. No caso da literatura. foi resguardar o essencial. em que a literatura e a cultura submergem nos chamados estudos de área. 10 Nesse conjunto. no nosso espaço cada vez mais restrito. considerados prioritários. que abrange toda a América Latina e o Caribe. e esta não se faz sem um domínio da linguagem em que se expressa cada texto como produção simbólica. com profundidade. Mais que quantidade de informação. pois o que se ensina. neste caso. senão um lamentável retrocesso. textos que constituem nosso objeto de estudo. portanto. Socio- . que é a capacidade de trabalhar intensivamente. é uma atitude analítica. o que não significa utilizá-los de modo acrítico ou extemporâneo. começa-se a rediscutir as bases do nosso Master de Estudos Latino-Americanos que se quer interdisciplinar. o que implica a desconsideração total da questão estética. sem o domínio da língua e dos métodos de leitura desenvolvidos pelas teorias da literatura. a partir do semestre de inverno de 2010. perdendo sua especificidade. Atualmente. contra 90 nos bacharelados principais)10 e menos tempo ou nos Masters interdisciplinares. embora uma avaliação menos pessimista não veja isso como desmonte.11 História. bem como a historicidade das formas. o que importa aqui é a qualidade da formação. aí se procura articular em torno de certos temas.. mas não se sabe ainda muito bem o que fazer dos estudos da cultura quando esses ultrapassam as leituras meramente conteudísticas e passam a investigar o tratamento dado aos temas. a Associação dos Lusitanistas alemães faz um balanço do desmonte dos estudos de língua e literatura em língua portuguesa e constata que ele prossegue. mas como concentração desses estudos em algumas universidades em detrimento de outras. as diferentes disciplinas – Altamerikanistik (Antropologia e Arqueologia do continente americano).Os estudos de língua e literatura brasileiras no contexto. 11 brasileiros têm menos pontos (60. 19 A cada ano. De todo modo.. o que configura necessariamente uma grande restrição. o que tentamos. Em meio a tantas mudanças.

com a Economia. o que implica a busca de padrões e categorias que permitem tratar adequadamente semelhanças e diferenças. tivemos até quase o final de 2010 uma situação que se pode considerar de excelência na área dos estudos brasileiros. ao mesmo tempo como criação estética e como documento. trata-se de um desafio que é o desafio de todo trabalho interdisciplinar. em Berlim. com a Política. Mas é verdade que isso se fez muitas vezes de modo implícito. Parece óbvio – mas nem sempre o óbvio é percebido como tal – que não é possível realizar um trabalho inter ou transdisciplinar sem respeitar os pressupostos epistemológicos e metodológicos próprios de cada disciplina. nesse diálogo das disciplinas. “desde o formalismo jurídico até o senso humanitário”. O desafio. incluindo a literatura e cultura. Quem estuda literatura e cultura num país como o Brasil sabe que não é possível fazê-lo a não ser estabelecendo comparações. A teoria e crítica literárias aí já nasceram comparadas. n. chegando à “expressão dos sentimentos no âmbito familiar” (Candido. tudo foi historicamente permeado pela literatura. 180). pode dizer muito mais sobre a vida. p.20 Revista Brasileira de Literatura Comparada. o que precisava ser compreendido. não é possível estudá-la sem relacioná-la intimamente com a História. Ao mesmo tempo. é que. quando ela aparece na sua complexidade. principalmente se tratando do Brasil e da América Latina. com a Antropologia. é preciso reconhecer que. com a Sociologia. a fim de que esse diálogo realmente seja um diálogo e não a submissão ou a diluição destes perante uma hegemonia das ciências sociais? Seja como for. Essa excelência deriva de . mesmo que não quisessem sê-lo.15. agora. 2009 logia. E num país onde a literatura se forma sob a pressão e a certeza de que se está gestando com ela também a nação. Ciências Políticas e Economia. No caso da literatura. 1989. mas dificilmente o é. como reconheceu há muito Antonio Candido. Como devem ser abordados os objetos literários a partir da perspectiva dos estudos propriamente literários. onde. é o de explicitar a comparação imanente.

Hoje em dia a situação começa a mudar. o Instituto Camões. vêm enfrentando nos últimos anos. Eu mesma.. dentro e fora da Alemanha. mas também num estudo de Walnice Nogueira Galvão e em informações divulgadas nos encontros bienais da Associação de Lusitanistas Alemães.. 21 que. Essa excelência precisa ser defendida e potencializada. crítica. graças à organização da comunidade científica dos Lusitanistas e Brasilianistas. Pelo lado brasileiro.Os estudos de língua e literatura brasileiras no contexto. o que foi previsto no processo de criação do Centro de Pesquisas Brasileiras acima referido. cujo apoio aos leitorados parecia ter-se enfraquecido. como ocorre atualmente na Universidade . o que chegou a ser lido como nostalgia. mas isso parece difícil de ser conseguido. reforcei esse tom pessimista em outras publicações. Aqui e acolá há sinais de resistência que nos impedem de desanimar. financiando pelo menos parcialmente alguns leitorados. sob o mote de “Wir wollen Portugiesisch” (Nós queremos português). teoria e história literárias. mas que na verdade era realismo. Quanto à variante europeia do português. além de contarmos com uma professora para essa cátedra. A situação negativa que os estudos de literatura brasileira. no contexto dos estudos de português em geral. se antes havia pouco incentivo. como foi o caso do movimento iniciado pelos estudantes da Universidade de Jena. hoje se financiam novos leitorados para compensar algumas perdas ou se estabelecem convênios que permitem preservar sobretudo os cursos de língua que sobreviveram nos novos currículos. caso não se venha a compensar de forma consistente a perda da Brasilianística. mas também graças à importância reconhecida do Brasil para as relações internacionais da Alemanha. sem falar nos encarregados de cursos que ajudaram a ampliar e diversificar a oferta de cursos desde o início. com base no texto citado de Briesemeister. resumida ao longo deste texto. provocou periodicamente balanços extremamente negativos. volta a se fazer presente. contávamos também com um leitor extremamente competente tanto no ensino da língua brasileira quanto na tradução.

desde o início. a partir dessa base. Zinka Ziebell e Rosa Henckel. já que a maior parte dos estudantes tem conhecimento dessa língua. no Bacharelado de Estudos Portugueses e Brasileiros da Universidade Livre de Berlin. desta vez com o espanhol.12 Se pelo lado do ensino da língua esses são o panorama e o desafio atuais. como instrumento ágil para proporcionar aos estudantes de português. em que se trabalha mais diretamente com o português do Brasil. estamos fazendo um trabalho desde 2007 no sentido de conceber cursos de cultura brasileira para além dos tradicionais e panorâmicos cursos de civilização.22 Revista Brasileira de Literatura Comparada. coordenado por Ligia Chiappini e mediado pela Embaixada Brasileira. Dessa forma. com ajuda da Embaixada Brasileira. quanto outros mais complexos. em que o português europeu é central. vem sendo preparada e sistematicamente atualizada. os diferentes registros da língua portuguesa e suas variantes regionais e nacionais passam a ser considerados riqueza comum e não instrumentos para reafirmar hierarquias e justificar discriminações. que foi iniciado e prossegue no âmbito de um convênio com o Brasil. desde o início da sua formação no bacharelado. n. Isso tudo leva a juntar forças. objeto de estudos comparativos. tais como textos de e sobre literatura e cultura. é elemento de apoio básico nesse ensino. No que diz respeito à variante brasileira. de diferentes gêneros. Assim. as outras variantes da língua são. também estamos produzindo um material contrastivo. produzindo e compilando tanto um material básico para iniciantes. Também uma antologia de textos curtos e atuais. a experiência da variante brasileira. 12 . entre eles os que tratam das manifestações culturais afro-brasileiras ou dos povos indígenas. num esforço de cooperar para vencer a tendência a concorrer e dividir. No caso do Master de Estudos Latino-Americanos. vem sendo desenvolvido pelas Dras. Assim. em português brasileiro. 2009 Livre de Berlim e na Universidade Humboldt. que vai de mapas a dados numéricos e históricos. Uma produção de material didático de caráter contrastivo do português brasileiro com o português de Portugal e de Angola. eles terão oportunidade de desenvolver um conhecimento mais profundo e uma prática linguística mais ativa nos módulos mais avançados.15. pelo lado da literatura talvez o desafio Esse trabalho. para ser usado no sistema do e-Learning.

ocidental. A literatura mais exigente. termina seu texto de modo otimista. Considerado muito difícil e tendo suas traduções em alemão esgotadas. que implica um grau mais alto de elaboração linguística. assim como Briesemeister. E. 2008. é simplesmente demonizada ou ignorada. que a boa literatura carrega junto com as suas dimensões ideológicas conservadoras. Mas.. ainda não conseguimos despertar o interesse de colegas e estudantes de outros departamentos da mesma universidade. 23 Alusão a um debate realizado no Instituto Iberoamericano de Berlim em parceria com o Instituto Goethe de São Paulo. no caso do best-seller. Mesmo assim. do ponto de vista editorial. No Instituto Latino-Americano tivemos por quase 30 anos um cargo pleno de leitor para Português Brasileiro e. como documento ou como mercadoria. em março de 2008. porque julgada elitista. por quase 15 anos. menos ainda se valoriza o conhecimento da língua como matéria e forma da e na literatura. . o quadro tampouco é positivo. simultânea e pioneiramente. pois a Universidade e pareceristas externos a ela reconheceram a autonomia e a dimensão desta para comportar uma abordagem específica. porque esta também só interessa. dificilmente consegue ser republicado. Um exemplo disso é o caso de Guimarães Rosa. que já em 1998 Ray Güde-Martin tematizava no trecho aqui escolhido como epígrafe. que trabalham com clássicos da chamada literatura universal. coincidiu com um debate sobre a literatura brasileira como um mau negócio. expresso na representação espetacular do brutalismo nas favelas.. Desconsidera-se aí aquilo que Antonio Candido definiu como contraveneno. como vimos. citando o crescente interesse de um certo público e a presença maior dos escritores cineastas e artistas brasileiros em encontros. apesar do balanço negativo. Pois se já poucos reconhecem a importância de estudar a língua portuguesa e suas variantes para a comunicação e outros usos meramente instrumentais. um posto de Professor para Literatura Brasileira.13 Constatava-se aí que a literatura de qualidade estaria perdendo terreno para a literatura meramente comercial e para uma espécie de novo exotismo.Os estudos de língua e literatura brasileiras no contexto. 13 seja maior. branca. O ano do seu jubileu.

DIMAS. Literatura e cultura no contexto dos estudos brasileiros na Alemanha: a cátedra de Brasilianística. Literatura de dois gumes. Antonio. país do passado? São Paulo: Boitempo. semanas culturais dedicadas ao Brasil. bem como a atuação de colegas que ensinam. p. estudam. 2000. Dietrich. São Paulo. Ligia. n. traduzem e comentam o melhor da literatura brasileira. Referências BRIESEMEISTER. p. 251-263.” (Briesemeister. 2005. 349-357. ZILLY. Ligia. em certo modo esquizofrênica.24 Revista Brasileira de Literatura Comparada.15. rivalizante e paradoxal. In: CHIAPPINI. . podemos ainda. Infelizmente. Brasil.). 1989. mais de dez anos depois. muito do diagnóstico de Briesemeister ainda vale para o presente e a maioria dos brasilianistas alemães ainda “leva uma existência profissional acadêmica. pelo reconhecimento das lacunas e a invenção de novos mecanismos que ajudem a preservar e a desenvolver o que já foi realizado. que a indiferença pela Literatura do Brasil e o seu desconhecimento podem ser superados na Alemanha. p. Antonio. In: A educação pela noite e outros ensaios. além das associações que ajudam a manter a vitalidade do setor. CANDIDO. 354). apesar de todas as lacunas e retrocessos. 52. 2000. mas continuamos apostando que o trabalho desenvolvido no espaço conquistado para a literatura brasileira no Instituto Latino-Americano da Universidade Livre de Berlim poderá ajudar a superar essa esquizofrenia. n. colóquios. CHIAPPINI. Os estudos brasileiros na Alemanha. São Paulo: Ática. MartiusStaden-Jahrbuch. acreditar. 2009 recitais. Berthold (Orgs.

abstract: This study examines the reception of the Brazilian literature in Hungary. Miklós Zrínyi. expectativas. não correspondia. doesn’t suit to. exótico. palavras-chave: imagem do Brasil. expectations. recepção da literatura. FL da ELTE (Faculdade de Letras da Universidade Eötvös Loránd) de Budapeste. translated for serving private or political interests. The Hungarian (reading) public has got a lot of information about this country during the XVII-XIXth centuries. keywords: image of Brazil. reception of the literature. inteiraram-se da existência do Brasil no século XVII. Instituto de Romanística. exclamou num libelo político as seguintes palavras contra a opressão turca: “Tenho notícias de que no Brasil há terras desertas em abundância. traduzida muitas vezes para servir interesses privados ou políticos. façamos uma colônia tornando-nos cidadãos Departamento de Português. se bem que de uma forma e em condições um pouco especiais. Brasil e Hungria: primeiros contatos Os húngaros. * . peçamos pois ao rei espanhol [sic!] uma província. Tendo-se inteirado da existência do Brasil e obtido muitas informações deste país nos séculos XVII a XIX. o público húngaro formou uma imagem do Brasil a que a literatura. escritor.25 A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria Ferenc Pál* resumo: O presente trabalho estuda as condições da recepção da literatura brasileira na Hungria. so formed an image about Brazil what the literature. político e eminente militar da época. exotic. quando o autor da epopeia nacional húngara Szigeti Veszedelem (“Desgraça de Szigetvár”).

Quanto à presença do Brasil e das coisas brasileiras no imaginário húngaro da época. algumas vezes abordadas de forma científica. Em seu número 44. Vasárnapi Újság. Ramirez.1 Podemos supor. 3 “Tejfa” (Árvore que dá leite) “ Um relato sobre a fauna do rio Amazonas e do Rio Negro. sem nos atrevermos a tecer proposições freudianas. que se iniciou depois da abolição do tráfico de escravos em 1850. publicada no Rio de Janeiro. editado em 1720 na Universidade Arquiepiscopal. csináljunk egy coloniát. na seção “Tárház” (“Depósito”).” 1 É em parte resultado do seu trabalho o livro Itinerarium peregrini philosophi. no entanto. ou melhor o Império Austríaco. começou a difundir-se no século XIX.2 Um conhecimento mais intenso. p. Nos séculos posteriores houve notícias esporádicas do Brasil.4 bem como relatos sobre viagens a esse país e nomeadamente ao Rio de Janeiro. provoca má impressão aos viajantes europeus. 1854. Japone. n.26 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Canada et Brasilia definitum. em primeiro lugar. 17 set. que participavam como missionários no levantamento topográfico e na descrição das terras brasileiras. em especial sobre a consequência do trabalho dos jesuítas húngaros. 14. 243244.15. 2 Cf. 1854. Entre os primeiros emigrantes supostamente havia também húngaros cultos. primeiramente por causa da emigração. Além de seus aspectos exóticos. 4 Andersen – Dr. notícias interessantes. de 30 de outubro de 1859. O Brasil e a Hungria. legyünk polgárrá. porque na década de 1850 já temos notícias do Brasil que dizem respeito a atividades de magiares. Nos jornais e revistas húngaros da segunda metade do século XIX podemos ler muitas informações sobre o Brasil. por Franciscum Szedlar e pela Sociedade de Jesus. as expectativas do público são bem ilustradas pelo mesmo semanário Vasárnapi Újság. o semanário de Budapeste Vasárnapi Újság informa. distinto. entre eles János Zakariás e Dávid Fáy. em Tyrnavae. na questão do urbanismo. 29. versados na literatura.3 e nos meados dos Oitocentos já havia um contato regular entre os dois países. Sinis. 5 . que “numa antologia geral. 1661/2009). 1854-1860). que a Hungria integrava. cujas páginas trazem. 4 jun. Cicincina. n. mas que. Nas notícias po- “Ugy hallom Braziliában elég puszta ország vagyon. as notícias também mostram o Brasil como parceiro comercial e cultural da Hungria. mantiveram contatos diplomáticos a partir de 1817. 2009 [daquele país]”(Zrínyi. 1968. Hegeds. “Utazás a föld körül” (Viagem em torno da Terra). sobre a curiosa flora e fauna brasileiras.5 informando que a região atrai os visitantes com a beleza da sua vegetação. Vasárnapi Újság. que a partir de então o Brasil devia ou podia existir no subconsciente húngaro como um lugar particular. n. kérjünk spanyor királytul egy tartományt. acham-se onze poemas húngaros” (Vasárnapi Újság.

11 em cujas obras as aventuras acontecidas no Brasil e certas peripécias econômicas andam de mãos dadas. László Alvinczy. p. graças a um dono de barco brasileiro passam uma semana no Rio de Janeiro. 1969. como foi. também se fala na flora e fauna brasileiras.8 ou informações sobre a proclamação da República no Brasil e outros acontecimentos de política interior. imperador brasileiro). 6 Vasárnapi Újság. pretendia-se satisfazer a curiosidade do público leitor em relação ao exotismo. exótico. 47. 1857.A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria 27 Vasárnapi Újság.. 274. 1883. os personagens.6 também se informa que a cantora Lagrange cantou uma ária do compositor húngaro Ferenc Erkel no Teatro da Ópera do Rio de Janeiro. Pedro II. hospedou-se intencionalmente no Hotel ‘Angol királyn’. como em Az arany ember (O homem de ouro. No conto do escritor intitulado Tíz millió dollár (“Dez milhões de dólares”). 23. prestigiosa revista literária de Budapeste da primeira metade do século XX. e que um aristocrata húngaro. juntamente com informações de caráter político. n. a fim de poder ter um contacto mais íntimo e fácil com o seu parente espiritual. n. publicado no Hírmondó.” 11 Vasárnapi Újság. satisfazem-na tanto os artigos publicados nos jornais como os livros publicados nessa época. No número 5 da revista. cidade do sul da Hungria de então. 8 Vasárnapi Újság. 9 “A vizi boa-kigyó” (A jibóia – serpente da água). Pedro a Budapeste. 27. o artigo de 1889 sobre a visita de Dom Pedro II à Hungria nos anos 1870. Gyula Szini fornece em “Jókai: Egy élet regénye” (“Jókai: Romance de uma vida”) a seguinte informação sobre a curiosa visita de D. 1873). envolvidos em aventuras rocambolescas. 1857. nos romances posteriores – para além de meras referências a um ou outro fenômeno curioso. 6 set. etc.7 No enorme número de revistas e jornais que saíram na Hungria do último terço do século XIX. inexistente em território húngaro. por exemplo. 1858.10 descreve alguns animais repulsivos do Brasil. 7 II. aliás escritor favorito do imperador D. 17 out. Esta duplicidade da imagem ou dicotomia da recepção do Brasil também se observa na obra de Mór Jókai. Vasárnapi Újság. pitoresco. no Castelo de Buda. Hírmondó. Rio de Janeiro. informa que o imperador tinha em grande estima a obra de Mór Jókai. 49 a 52. 10 Uma comunicação da revista literária Nyugat. Pedro II. referindo-se dessa maneira à população negra. 12 demos ler informações sobre o cultivo e comércio do café. 42. 24 nov. romancista romântico de fantasia profícua. e não no apartamento oficial. n. Em um artigo no Vasárnapi Újság. 1889. 29 abr. “Egy magyar tengerész Brazíliában” (“Um marujo húngaro no Brasil”). morreu no Brasil. n. para a capital do Brasil. O artigo intitulado “A vizi boa-kígyó” (A jibóia – serpente da água). publicado no ano de 1928. no início da década de 1870: “[Mór Jókai] tem amigos soberanos. sobre o fato de que um comerciante húngaro transportou vinhos de Arad. n. em que se . o bondoso Mór Jókai. Dom Pedro brazíliai császár (D. o interessante imperador brasileiro. condigno a um monarca. 17. dez. Essa demanda pelo estranho. Com estranhamento.9 Rthy Frigyes fala sobre o “povo estranho” que vive no Brasil. Dom Pedro.12 Mas. n.

p... 16 Dezs Migend: A brazíliai aranyhegyek árnyékában (Sob a sombra das montanhas de ouro brasileiras. Onnan hozzák a gyapotot meg a dohányt. o Brasil. No romance Fekete gyémántok (Diamantes pretos. É de lá que transportam para cá o algodão e o tabaco. n. 4. “A brazil nép lelkesen támogatja a békeegyezmény megkötését követel felhívást” (O povo brasileiro apoia com entusiasmo o apelo por celebrar o acordo pela paz.16 O Brasil.. como afirmavam muitos livros de não ficção dessa época. s/d). mint kávé. 1870). na ficção húngara de temática brasileira se registram ainda muitos elementos exóticos. por exemplo.28 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Ao menos era assim que os órgãos políticos húngaros informavam seus leitores. a exigência ou a ânsia do exótico continuava a existir por parte do público. Rio de Janeiroig Adria gzös szállította” (Jókai..17 Depois da Segunda Guerra Mundial. no que dizia respeito ao Brasil. Tartós Békéért.. 18 . s/d)... quando na Hungria aconteceu um câmbio de paradigma político. Tartós Békéért.. e com um contingente grande de emigrantes na primeira metade do século XX. 1950). Arad. 2.. s/d) –. Vasárnap.] a peruiak.. 1936).”15 Em seu último romance. na década de 1950. p. do algodão e do petróleo [.15... gyapot és kolaj behozatalára [. brazíliaiak mind csupa ezüsttel fizetnek. quando por causa do enorme número de emigrantes húngaros o Brasil entrava no dia a dia húngaro19 como um país “normal”.] Kína [. [. como A brazíliai fenevad Segunda parte: “[. 15 “A liszt magyarországi termény volt.18 Contudo. tornou-se terreno de lutas políticas das forças populares contra o imperialismo e pela paz. s/d). 13 Primeira parte: “A senki szigete” (“Ilha de ninguém”): “Brazília fvárosa Rio de Janeiro. s/d). Béla Bangha: Dél-Keresztje alatt (Sob a cruz do sul. 1872) também se leem divagações de teor econômico: “Até não querermos mais do que a importação do café.. Romances que se movem no universo das obras da literatura de cordel. Békéscsaba. Zoltán Nyisztor: Felhkarcolók.] o Japão e o Brasil. 1905). 23. 11 jun. Nos anos 1930 e 1940.] Japán és Brazília befoglalásával” (Jókai. Budapeste. n. lá estão as minas de diamantes mais famosas”. 14 Primeira parte: “Amíg nem terjeszkedünk többre. alvo da emigração húngara. onde as condições de vida e de trabalho eram semelhantes às da Hungria. serdk. ott vannak a leghíresebb gyémántbányák” (Jókai.. 1935) e Lajos Wild: Tizenöt év Brazíliában (Quinze anos no Brasil. escreve que “os peruanos e os brasileiros sempre pagam com prata”.] às vezes tão alto que sua voz suplanta a dos cantores e da orquestra na ópera” (Jókai. o romancista fala largamente sobre as relações comerciais entre a Austro-Hungria e o Brasil. selvas. n. Budapeste.14 Na ficção fantástica A jöv század regénye (O romance do século vindouro. apátridos.. tornou-se um cenário real. 23. 1934). Ahol a pénz nem isten (Onde o dinheiro não é deus.] incluindo a China [.” (Jókai. aparece a frase: “A farinha era um produto húngaro. 1926).13 E mesmo em Az arany ember informa que “A capital do Brasil é o Rio de Janeiro. hazátlanok (Arranha-céus. 2009 lê sobre um sapo luminoso que “irradia uma luz fosforescente” e “canta de noite nos interiores. 17 Sobre a situação interna do Brasil saíram artigos com títulos: “Brazília vezet személyiségei az atomfegyver betiltásáért” (Principais personalidades do Brasil defendem proibição de armas nucleares.. foi o paquete Adria que a transportou até o Rio de Janeiro”.

Boglár Lajos. . podemos mencionar que tradicionalmente. que sempre nos instiga a fazer cotejamentos.24 Assim. O primeiro livro dele. e o ambiente brasileiro de pequenas povoações à beira da selva e dentro da selva amazônica passou a ser palco de histórias movimentadas.. 2004b. e em especial no século XIX. parece que há determinadas expectativas. p. Budapeste: Nemzeti Figyel.26 no caso do Fazendo referência à “rivalidade” de Portugal e do Brasil. o Brasil estava mais representado na imprensa húngara do que Portugal. aventuras entre os índios e na selva. 1944. 19 20 21 Budapeste. Se dissemos em outra ocasião. p. Cf. saiu em 1940. p.22 de um tal László György. Cf. 161-171. que em 1930 viajou à selva amazônica e. 19-33 e Pál. Contudo. Outro Brasil. com o tempo. as liberdades do carnaval e das praias do Rio de Janeiro. p. Em húngaro: A kor hatalma. 1951).25 citando palavras de Simone Beauvoir. mescla do relato de experiências pretensamente vividas e de histórias imaginadas. Pál. 121. 1942. Pál. p. para quem “a literatura é a melhor via para se conhecer um país estrangeiro”. 1965. tenham um maior halo de conotações na Hungria. La force de l’âge. 11. essas experiências colhidas da realidade ficavam em segundo plano. regressou à Hungria e começou a escrever ficção. “A brazíliai Kommunista Ifjúsági Szövetség újjászervezése” (A reorganização das Juventudes Comunistas brasileiras. Tartós Békéért. têm muito desse exotismo. se desenha nos romances do ex-naturalista Gábor Molnár. etc. 2004a. 24 25 26 Cf.. 1996.21 e o Brazíliai nagybácsi (O tio brasileiro). que prefere relacionar o Brasil com o exótico.20 o livro de contos Villanó fények az serd mélyén (Luzes cintilantes no fundo da selva). de Tibor Magyar. 1951). jan. 11-37. Cf. Nesse livro e nalguns outros que o seguiram ele não fez senão relatar o que tinha experimentado e visto naqueles dois anos que viveu no Brasil. lentamente passava-se a ter condições de formar do Brasil uma imagem diversificada e verídica que correspondesse à realidade do país. 1997. 23 Presença da literatura brasileira na Hungria Podemos deduzir. intitulado Kalandok a brazíliai serdben (“Aventuras na selva brasileira”). 3. n. depois de perder a vista num acidente. Budapeste: Európa. Mas. Budapeste: FerencesVilágmisszió kiadása. de aventuras na selva. 1940. preconceitos ou ideias fixas que orientavam e orientam o gosto do público. e o fez num estilo vivo e vigoroso. de Mihály Witte. o erotismo desenfreado ou requintado. O autor foi cônsul húngaro no Brasil entre 1928 e 1942.23 que o público húngaro havia muito tempo tinha tomado conhecimento do Brasil e que esse país ocupava um lugar privilegiado na consciência húngara. 22 (A fera brasileira). 2004c. por meio da obra e figura de Camões e de Pessoa. apesar de que alguns momentos da literatura portuguesa.A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria 29 10 jun. do panorama histórico acima traçado. Pál.

Gadamer ou outros teóricos que supõem alguma identificação conotativa com uma obra para fazê-la sair do âmbito do simples terreno denotativo. da Révai Nagy Lexikona (Grande enciclopédia de Révai) já se encontra um verbete em separado sobre a “literatura brasiliana” rezando que “a literatura brasiliana durante muito tempo foi apenas um ramo da literatura portuguesa e só nos últimos tempos começou a se desenvolver em rumo diferente” (Révai Nagy Lexikona. etc. em especial nas enciclopédias de literatura universal. 1911). Álvares de Azevedo.30 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Esse critério talvez seja muito rigoroso e restritivo mas. se queremos ultrapassar uma simples enumeração. temos de estudar a recepção das obras brasileiras e ver quais delas tiveram impacto no meio húngaro. v. partindo das ideias de Ricoeur. como Macedo. n.27 mas a alguns poetas destacados (como Gonçalves de Magalhães. Gonçalves Dias e Tomás António de Gonzaga) a obra já dedica verbetes autônomos. No volume 3. . Nas enciclopédias posteriores. até que. de 1911. das obras traduzidas da literatura brasileira. Nessa enciclopédia já é maior o número de autores com verbete autônomo (encontramos verbetes sobre os autores mais importantes ou renomados do Romantismo. 3. na iniciativa de grande envergadura da Világirodalmi Lexikon (“Enciclopédia da literatura universal”). Bernardo Guimarães. Em A Pallas Nagy Lexikona (A grande enciclopédia da [Editora] Pallas) ainda não se encontra uma informação sobre a literatura do país no verbete Brazília. existente mas sem influência. independentemente do valor da obra e das intenções dos editores. 2009 Brasil havemos de acrescentar que.15.). encontramos informações cada vez mais sofisticadas sobre a literatura brasileira. que representam uma matéria morta. As primeiras informações da literatura brasileira chegaram por via dos verbetes das enciclopédias editadas na viragem dos séculos XIX e XX. só foram aceitas pelo público e tiveram êxito na Hungria as obras brasileiras que satisfizeram as expectativas acima enumeradas. à maneira positivista. publicada 27 A Pallasz Nagy Lexikona.

1090. Por outro lado. com relação ao modo como as letras brasileiras tornam-se de fato conhecidas na Hungria é bastante difícil identificar os fatores determinantes da expansão desse conhecimento: por um lado temos as primeiras notícias informativas. há informações a respeito de um conto de Monteiro Lobato que saiu na revista ilustrada de lite- . publicado em 1912 no jornal Világ de Budapeste. até os anos 1910. por exemplo.28 Temos outro texto brasileiro traduzido para o húngaro. ano III.29 Infelizmente. 1912. A primeira obra brasileira traduzida para o húngaro. Essa informação aparece na “Enciclopédia da Literatura Universal”. Na seção de folhetim. quer dizer. com o título Az ápoló. de forma que não temos informação sobre qual dos contos do autor figura na revista. e após esse conhecimento geral surgem ou podem surgir as obras com as quais o público leitor tem já um contato mais familiar. o Modernismo). 29 entre 1970 e meados de 1990. 46. além dos verbetes sobre a literatura brasileira e fenômenos literários ligados com o Brasil (como. Parece-nos mais ou menos evidente que. na realidade. 28 Világirodalmi Lexikon. 1. uma revista político-literária publicada em Moscou. v. até o momento da redação deste artigo. publicado no (suposto) número 1 da revista intitulada Új Hang. Assim. não se traduzira obra brasileira alguma para o húngaro. p. sem indicação do nome do tradutor. Tratava-se de mera informação sobre as letras brasileiras. figuram. não foi possível consultar. foi um conto de Machado de Assis. nem encontramos em nosso trabalho de pesquisa nenhuma outra menção de obras traduzidas desse país. Világ. verbetes sobre 228 escritores brasileiros.A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria 31 “Az ápoló” (“O enfermeiro”). dado que nessa enciclopédia não há referências a obras brasileiras publicadas em húngaro. 23 fev. não são mais do que informações gerais dessa literatura. n. p. que ainda não se fazia acompanhar de traduções de obras para efetivo conhecimento por parte do público húngaro. segundo podemos afirmar hoje. o número mencionado do periódico. em seguida surgem as primeiras publicações de traduções que. 1-2. até a publicação dos primeiros volumes da “Grande Enciclopédia de Révai”. de 1931. incerto quanto aos dados bibliográficos: é um conto de Ottavio Brandão.

contudo eles contêm uma cintilação tropical indefinida” (Rónai.31 Este livrinho. que reunia uma série de escritores da Transilvânia da época. indicado apenas com a abreviação: Szys. oferecia uma avaliação ponderada do autor: “Monteiro Lobato é o criador da moderna literatura nacional no Brasil. universalizantes. experimentando uma vida intelectual cada vez mais profunda” (Rónai. não obstante passar quase despercebido. 1939. Sem nome completo do tradutor. Nos poemas da antologia prevalece um certo gosto ou “ar” parnasiano.. é uma publicação que lança os alicerces para um conhecimento ulterior. editada na Transilvânia. traduzida por Paulo Rónai. e. p. publicado em 1939. com um círculo reduzido de leitores. e foi acompanhado de uma nota que. Trata-se da seleção intitulada Brazília üzen (“Mensagem do Brasil”). ano XVI. 8). apresenta a poesia brasileira como manifestação “de um jovem povo com cultura. 1939. n. 2009 ratura e artes intitulada Pásztortz (Fogueira de Pastores). é num parecer bastante generalizado que um livro de poemas. Sobre a poesia de Olavo Bilac. de saída. p. 24 ago. Afinal. enérgico e em vias de desenvolvimento. o tradutor afirma: “Nos seus versos muito burilados. 17. A seleção deu preferência aos poemas de alto quilate poético. os critérios da seleção dos textos já contavam. 1930.15. rejeitando satisfazer um gosto pelo exótico ou movido por um interesse folclórico. Paulo Rónai.32 Revista Brasileira de Literatura Comparada. 31 . indica o primeiro momento da difusão mais abrangente da literatura brasileira na Hungria. Tem por objetivo fazer um contraponto à literatura francesa. p. um pouco frios. 30 Para os poucos que não conheçam seu nome. no prefácio do livro. falta o couleur locale. acompanhados de uma introdução que esboça o panorama da literatura (ou antes: da poesia) brasileira. além dos dados biográficos.30 O conto Az élcfaragó (Fabricante de piadas) saiu na seção “Narradores Estrangeiros”.. A apresentação avaliativa do autor faz-nos supor que é trabalho de uma pessoa conhecedora da literatura brasileira e mostra a seriedade daquela revista. In: Pásztortz (Kolozsvár/Cluj). 391-393. Assim. ao mesmo tempo. revelar as enfermidades da alma brasileira. crítico e historiador de literatura. que tem poemas de 25 poetas brasileiros da primeira metade do século XX. 1930. p. informamos que Paulo Rónai (1907-1992) é um literato húngaro que em 1940 trasladou-se para o Brasil como bolsista do governo brasileiro e nesta sua nova pátria desenvolveu variada atividade como tradutor. n.” (Pásztortz. relegando ao segundo plano aqueles que em versos Az élcfaragó. 391). 8).

suas palavras sobre a poesia brasileira têm uma mensagem política para a atualidade de então. Suas palavras novamente refletem . ele fala sobre as dificuldades de obter livros do Brasil: pode ser que simplesmente não tivesse à mão todas as obras necessárias para uma antologia equilibrada. 1939a. Julgando-se objetivamente. parece. etc. de que os brasileiros são gente feliz porque têm preferência pela literatura pura. Brazíliai regény (Romance brasileiro). por exemplo. esse “outro Brasil”. a mesma coisa que causa dor ou alegria aos poetas crioulos. Esse essencial.. como. com a literatura húngara. p.33 Essa mesma posição se reflete num outro texto dele. contudo. afinal. por exemplo. só oito do ciclo “Descobrimento do Brasil” evocam ambientes tipicamente brasileiros. p. O jornalista que. dos 33 poemas do livro. já sabemos. Os livros de viagens ou os folhetos turísticos mostram só o exotismo. 1939b. os que Ronald de Carvalho escreveu a respeito do Brasil. alheia aos trágicos problemas nacionais. por outro lado. se familiarizara com o Brasil pela leitura das traduções de Paulo Rónai35 chega à conclusão. não correspondiam ao gosto do selecionador. que pensam descobrir uma incongruência de datas. injustos com Paulo Rónai: em seu prefácio. dizendo que estão de guarda. negros.. uma falta total de poemas da primeira fase do movimento modernista.. pode-se dizer que tal princípio de escolha e apresentação dos poemas resultou do gosto intelectual urbano daquele momento. não aparecem os representantes da poesia concreta. que. percebe-se também uma preocupação com os valores da cultura ameaçados.. 1939.A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria 33 Notamos. falsa). um pouco precipitada (e.34 escrito depois da leitura. Suas vozes são afins e universais. que ele apresenta como romance por excelência. e da Europa maltratada bate-se a resposta: ‘Obrigado!’” (Bálint. 7) É com estas palavras que o texto termina: “Agora desde escrivaninhas brasileiras. e não as peculiaridades exóticas. p. Assim. mãos brancas ou negras batem o sinal tranqüilizador. anteriormente. segundo ele mesmo diz. na qual. reunidos em quatro pequenos ciclos. em francês. muito mais tarde. escrita alguns meses depois da publicação do livro de poemas de Paulo Rónai. Essa mesma antipatia pela literatura da vanguarda e/ou experimental também se nota. 7) 33 34 35 Bálint. quase instituição nacional. em agosto de 1939. ao contrário do que ocorre. índios e mestiços causaas também aos franceses ou húngaros. (Bálint. na sua colaboração para a Enciclopédia da literatura universal. nós o encontramos nesse livro de traduções novo e belo. Para os leitores mais sagazes. 31. por exemplo. É essa mesma voz universal. escritas na véspera da Segunda Guerra Mundial. no entanto os poetas informam sobre o essencial. 32 desiguais e livres apresentavam cores e tons mais ásperos.] Todos os poetas são aparentados. Não sejamos. Nessas palavras do jornalista. porque o tradutor publicara algumas delas em diferentes revistas. [. assinalamos que o publicista pôde ler as traduções de Paulo Rónai antes da publicação do livro Mensagem do Brasil.32 Assim. mais modernos. que se frisa na recensão informativo-crítica do publicista György Bálint. do Dom Casmurro de Machado de Assis.

31) É curioso observar. Rómulo Gallegos. que continuava interessado pelos momentos exóticos do Brasil. neste livro. em outra resenha crítica a respeito de Brazília üzen (Mensagem do Brasil).34 Revista Brasileira de Literatura Comparada. a visão da geração que travou contato amplo e profundo com as letras latino-americanas. publicada na revista literária Nyugat (Ocidente). 1939b. que se manifestava tão intensamente nas obras de ficção de temática brasileira dos escritores húngaros acima mencionados. povos mais novos e mais felizes irão retomá-lo na América” (Bálint. Assim. O estranho não se diz com respeito ao couleur locale. em 1940. porque ele sublinha que o maior mérito desse livro é que não é “nada brasileiro”: “Nada tem de exótico.. p.” (Bálint. o autor escreve: “não procuremos um exotismo exterior na poesia”. ou ao menos diante dos problemas específicos do Brasil. aspectos que tanto marcaram. também deformou a visão dos intelectuais (e de seu público) de então. etc. Nesses anos aparecem mais duas obras literárias brasileiras: Paulo Rónai publica. incluindo as brasileiras. que não podiam ou não queriam observar da literatura brasileira senão aquelas obras que “demonstram que o espírito europeu não conhece fronteiras e num tempo futuro. n. Os poemas caracteristicamente brasileiros passam quase despercebidos para o crítico. por meio dos escritores do boom. que deixam entrever uma influência francesa. nos intelectuais que formavam o gosto literário daquela época.. 1939). E justifica-se: “além dos poemas de costume. uma seleção de .15. tempos depois. a não ser que os criados sejam negros e um dos amigos do personagem principal sofra de hanseníase. quando já não existir na Europa. encontramos. notadamente Alejo Carpentier.” (Nagy. alguns poemas de pompa estranha e surpreendentes. essa atitude fundada no eurocentrismo e afastada do gosto geral do público leitor. 2009 uma perspectiva universalizante. Como já mencionamos. p. Juan Rulfo. a falta de sensibilidade diante do exotismo brasileiro. 1939. 31). Gabriel García Márquez.

Alteram-se também os horizontes da orientação literária: a literatura do “ocidente culto” (França. em aparência. 233. desde o n. em 1970. Budapeste: Íbisz. Esta edição de 1944 do romance de Azevedo (Budapeste: Anonymus) teve uma pequena edição fac-similada de 30 exemplares: Azevedo. mais independente em relação aos Estados Unidos do que os outros países latino-americanos. de 1941. com o título Hangyaboly (Formigueiro). 38 poemas de Ribeiro Couto. 1940. por Henrik Horváth. essa tradução é publicada em forma de livro. parte ocidental da Alemanha. Inglaterra. 499). de Aluísio Azevedo. “Egy brazil bérház”. com o título Egy brazil bérház (Um prédio brasileiro). In Népszava (Budapeste). etc. a “construção do socialismo”. Por essa razão. indicam uma mudança de concepção na recepção e interpretação da literatura em geral e da literatura brasileira em particular.37 Depois. África e Ásia. o Brasil torna-se um alvo privilegiado na luta contra o imperialismo ocidental. seis nos anos 1960 e três nos anos 1970. cinco nos anos 1950. os romances do primeiro período de Jorge Amado são publicados na Hungria e o autor. Trad. torna-se um escritor de presença contínua na imprensa. senão uma resposta mais ou menos imediata à realidade circundante. 20. Jorge Amado foi o escritor estrangeiro mais conhecido e mais popular na Hungria” (Benyhe. Hangyaboly. Sendo. Aluizio. com o título de Santosi Versek (Poemas de Santos). 1970. Entre 1947 e 1976 saíram quinze livros de Jorge Amado (dois no final dos anos 1940.A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria 35 36 37 Budapeste: Officina. dos países socialistas e a literatura progressista dos países das Américas. 2002.39 Sobre esses livros . János Benyhe. Dessa forma. não contando as inúmeras reedições).) é considerada arte decadente e o lugar dela. A literatura passa a ser uma arma da luta ideológica. Nesse novo horizonte cultural-literário. p. que circula entre Praga e a União Soviética. no posfácio desse livro: “Dez ou quinze anos atrás talvez fosse supérfluo este posfácio. pode escrever com plena razão. ocupa-o a literatura socialista. de 1940. o tradutor de Dona Flor e seus dois maridos. em 1944. já não se procuram nela valores universais e eternos. Por isso.38 A Segunda Guerra Mundial e o estabelecimento de um novo sistema político na Hungria. Estados Unidos.36 e o jornal Népszava publica em folhetins O cortiço. cabe ao Brasil um lugar privilegiado. até o n. em primeiro lugar a da União Soviética.

cravo e canela (Gabriela. Trad. Társadalmi Szemle (Revista Social). A morte e a morte de Quincas Berro Dagua (Vízordító három halála). Sobre Jorge Amado. Gabriela. 834) Compreende-se este tom altamente engajado porque se trata de um artigo de teor informativo que saiu numa revista teórica. Jubiabá (Zsubiabá).40 Mas o que mais demonstra a difusão da imagem de Amado como escritor politicamente comprometido e como “zoon políticon” é o grande número de escritos sobre a sua pessoa. Trad. indiretamente. Tanto mais porque Jorge Amado foi o escritor brasileiro cujas obras satisfaziam as expectativas do público leitor com o seu latente erotismo. 1963. Budapeste: Európa. 1975). mas sim a violenta luta de classes simbolizada pela batalha entre os coroneis do cacau e seus escravos. e a pintura do mundo colorido e exótico da Bahia. Budapeste: Kossuth. Sándor Szalay. 1947 (uma segunda edição com o título húngaro Végtelen földek. Emil Hartai. 1950. Attila Orbók. Budapeste: Szikra. 1975). 1960. Trad. Emil Hartai. Trad. Cacau (Arany gyümölcsök földje). 2009 foram publicadas 26 recensões críticas. Budapeste: Európa. szegf és fahéj). Marcell Benedek. um dos primeiros escritos é uma recensão crítica de Terras do sem fim. Budapeste: Kossuth.41 Com a profusão com que os romances de Jorge Amado circulavam na Hungria (com tiragens de 40 a 80 mil exemplares). -l. Budapeste: Szépirodalmi. Budapeste: Európa. Trad. Trad. Capitão de Longo Curso (A vén tengerész).36 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Seara vermelha (Vörös vetés). Sándor Szalay. o cavaleiro da esperança (A reménység lovagja. Mar Morto (Holt tenger). Não é o exotismo.] mostram uma nova cara da América Latina. 1950. 1973).15. 1967. publicada na revista científico-ideológica do partido comunista. (segunda edição: idem. não é de estranhar que até hoje o Brasil apareça-nos tal como o escritor baiano o pintou. Entre 1953 e 1975 saíram 16 artigos que diziam respeito a ele.. n. ou a imagem das selvas sem fim que prevalece em suas obras. Trad. Dona Flor e seus dois 39 . Trad. para os outros romances do mesmo autor: Jorge Amado. em especial a partir de Dona Flor e seus dois maridos. 1961 (segunda edição: idem. Os pastôres da noite (Az éjszaka pásztorai). Pablo Neruda e os outros escritores eminentes [. Trad. Budapeste: Káldor. um dos historiadores de literatura daquele Oferecemos uma lista completa das edições das obras de Jorge Amado em húngaro (entre parênteses indicamos as edições posteriores): Terras do sem fim (Szenvedélyek földje). 1961. como: “Os eminentes soldados da paz: Jorge Amado” ou “Jorge Amado sobre o movimento da paz brasileiro e sobre seu novo romance”. 1951. Sándor Tavaszy. János Benyhe. Emil Hartai. Vida de Luís Carlos Prestes. que estabelece as forçosamente necessárias linhas de interpretação dessa obra – válidas. terceira edição: idem. da Associação Húngara de Escritores. 1961.. Trad. Budapeste: Révai. 1950). János Benyhe. p. Na revista literária intitulada Csillag. Trad. Lajos Boglár. (-z. 1952. mas as recensões publicadas nas revistas literárias também incorrem nesse tom politizado em que não há lugar para análises estético-literárias. Budapeste: Szikra. Életrajzi regény Luis Carlos Prestesrl). A completa verdade sôbre as discutidas aventuras do Comandante Vasco Moscoso de Aragão. 1949 (segunda edição: Európa. Budapeste: Szépirodalmi. e muitos com títulos altissonantes.

Capitão de Longo Curso. 41 Nagyvilág (Budapeste). Ano IV. 40 37 período assim descreveu os fundamentos de “A terra de frutos de ouro”: O romance de Amado é um escrito combativo. é o reflexo verídico desta sociedade que requer amostras fidelíssimas da macabra dança do capitalismo. 1959. depois de assistir ao congresso do PEN Clube no Rio de Janeiro. Sándor Tavaszy. János Benyhe. intitulado em húngaro A vén tengerész (“O velho marinheiro”). a pretexto dos romances de Jorge Amado. entre eles. Trad. “Jorge Amado a brazil békemozgalomról és új regényérl”. fala-se sobre o Brasil. (Koczkás. do socialismo” (L. Queremos notar como curiosidade que do romance A completa verdade sôbre as discutidas aventuras do Comandante Vasco Moscoso Aragão. p. Capitães da areia (A kiköt rémei). 1971. em 1951: “Seara vermelha mostra o Brasil levantando-se”. Budapeste: Európa.” (Stér. escreveram-se entre maio e outubro daquele ano seis recensões informativas nos mais diversos órgãos de imprensa. Trad. comunista. unilateral. saído do povo e lutando contra os horrores do mundo imperialista: o homem comunista. essa imagem deformada do Brasil e de sua literatura começa a se matizar com diferentes tons. p. 42 Essa imagem estreita. que saiu num semanário de literatura. Para ele. Algumas vezes o discurso ganha tons de hino. 1173-1174. 1970. 1961. Szabad Nép (Budapeste). Budapeste: Európa. Seus heróis verdadeiros são o povo e o homem de novo quilate.. ago. alguns cuja obra tem outros valores. 61) “A béke kiváló harcosai: Amado Jorge”. Tenda dos Milagres (Csodabazár). [. a obra de Jorge Amado é uma fonte de informação antes sensorial que exclusivamente politizada sobre “esse peculiar mundo popular.A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria maridos (Flor asszony két férje). Népszava (Budapeste).42 E nas notas de viagens de um literato húngaro que em 1961 publicou as suas Impressões do Brasil. subordinada a fins eminentemente políticos é a que se apresenta quando. de cuja beleza e intimidade gostei tanto quanto da sua rica fantasia e das suas múltiplas cores decorativas. Trad. Irodalmi Újság (“Jornal Literário”). Assim saíram dois poemas de Jorge de Lima na revista de literatura mundial. András Gulyás. Budapeste: Kozmosz Könyvek. p. não apenas políticos. 1976. Além de Jorge Amado.] A apresentação dessa podridão não desce ao naturalismo. 729) . 30 maio 1953. vêm aparecendo outros escritores e. n. 1953.. saído em 1963. 1951) Ao final da década de 1950. já se encontra um tom mais equilibrado. pois “até aos operários miseráveis chegou a esperança que estimula a viver: a esperança da nova vida. como na recensão sobre Seara vermelha. 18 dez. I. Nagyvilág (fundada na época do “abrandamento” do poder totalitário). 8. 1950.

do etnólogo húngaro Lajos Boglár. os romances mais divertidos dele. Será essa Riói Képek. 43 A zöld pokol. que cativam o público. surge uma exigência por bens culturais anteriormente vedados. Com essa relativa abertura nos pontos de vista que começava a prevalecer lentamente a partir do início dos anos 1960 na política cultural e literária húngaras. Brazíliai útijegyzetek (Entre índios do trópico.38 Revista Brasileira de Literatura Comparada. de Richard Katz.15. de Josué de Castro. entre eles a música popular brasileira e a sua melancólica melodia. exigência que se vê satisfeita. o guia desse literato húngaro é a monografia intitulada Geografia da fome. O autor mais divulgado ainda é Jorge Amado. assim. Budapeste: Táncsics. 44 . 1959. Notas de viagem do Brasil). da selva e dos índios. de Erich Wustmann. de componentes culturais e étnicos múltiplos e amalgamados. também em húngaro. 2009 Em suas andanças pelo mundo brasileiro.43 O inferno verde. do diretor francês Marcel Camus. Essa nova forma de recepção do Brasil fora previamente preparada por livros publicados a partir dos últimos anos da década de 1950: As imagens do Rio. 1958. mesmo que um pouco contraditoriamente. o interesse por outros aspectos desse país. n. começa a diversificar-se a edição de livros e enriquecer-se a divulgação da literatura brasileira. o viajante atreve-se a dizer aos húngaros que o Brasil não deve ser entrevisto como um mero panorama ou cenário de fundo político.44 Sob outro prisma. ou o carnaval e seu simbolismo popular. que Stér interpreta sob a influência do filme Orfeu negro. Budapeste: Táncsics. e que aos intelectuais compete a tarefa e a responsabilidade de formar a consciência do grande público. apresentam o Brasil dos trópicos. O público requer já cada vez mais abertamente uma recepção cultural mais sofisticada e diversificada. Finalmente. multifacetado. estimulando. Mas Stér tem bastante sensibilidade para ver e descobrir um Brasil excêntrico. obras como Trópusi Indiánok között. mas em harmonia com a renovada temática da sua obra aparecem. motivado pela Guerra Fria. Após os anos da ditadura forte e o total encerramento do país. sublinhados aqueles que o distinguem da Europa.

A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria

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Aki átment a szivárvány alatt. Budapeste: Kossuth, 1964.
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Emberek és rákok. Budapeste: Kossuth, 1968.
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Emberfarkas. Budapeste: Európa, 1962. Aszály. Budapeste: Európa, 1967.
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A többi néma csend. Budapeste: Európa, 1967.
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Máglyák az serdben. Budapeste: Móra, 1970.
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busca do diferente, do exótico que marcará e determinará o interesse pelo Brasil nos anos subsequentes. Entretanto, publicam-se obras de autores comprometidos, como as de Jorge Amado, já mencionadas: Quarto de despejo, de Carolina Maria de Jesus,45 O ciclo do caranguejo, de Josué de Castro,46 São Bernardo e Vidas secas, de Graciliano Ramos,47 e ao lado deles saem romances como O resto é silêncio, de Érico Veríssimo48 e O Guarani, de José de Alencar, embora este seja transposto para o húngaro em versão condensada, em uma edição para jovens.49 Por outro lado, e de forma menos manifesta, aparecem obras das mais diversas naturezas, mormente direcionadas aos intelectuais. Essa forma de publicação “velada”, um pouco contrária à política cultural oficial, caracteriza em primeiro lugar a revista de literatura mundial Nagyvilág e algumas antologias de poesia e de prosa. Destinadas a um público seleto, surgem nessas publicações, de forma esporádica, muitos autores de valor da literatura brasileira. Publicações como Dél keresztje (Cruzeiro do Sul, 1957), Kígyóöl ének (Canto de matar cobras, 1973), Hesperidák kertje (Jardim das Hespérides, 1971), Járom és csillag (Jugo e estrela, 1984) divulgam a poesia latino-americana. Os poemas são acompanhados de notas biográficas e bibliográficas; dessa forma, em torno de 40 grandes poetas brasileiros são publicados na Hungria. Essas antologias seguem o princípio da antologia de Paulo Rónai, ou seja, selecionam os poemas apenas pelo seu valor poético e estético e não demonstram o menor interesse em ilustrar o desenvolvimento da história literária brasileira. Fazem falta, por exemplo, poemas que caracterizem os primeiros anos do Modernismo, ou do Concretismo e de outras tendências experimentalistas. Nesse mesmo contexto, publicaram-se contos de Graciliano Ramos, João Guimarães Rosa e Jorge Amado em antologias de prosa latino-americana: Ördögszakadék (Abismo de diabo, 1966), Dél-amerikai elbeszélk (Narradores latino-americanos, 1970), Az üldöz (O perseguidor, novelas latino-americanas, 1972).

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Revista Brasileira de Literatura Comparada, n.15, 2009

Um dos grandes méritos da revista de literatura mundial Nagyvilág é a apresentação de autores e obras, de tendências e fenômenos literários, com base em critérios puramente poéticos ou estéticos. Em 1961, a revista traz informações sobre as atividades de Paulo Rónai no Brasil, frisando a importância do seu trabalho no conhecimento mútuo entre o Brasil e a Hungria (Gyergyai, 1961, p. 1566-1567). E é naquelas páginas que, em 1962, aparece um estudo sobre o romance brasileiro contemporâneo (Tavaszy, 1962, p. 1388-1391), assim como, em 1969, um ensaio sobre o desenvolvimento da literatura latinoamericana (Benyhe, 1969, p. 1723-1731). Mencionamos também certas resenhas sobre os livros de Jorge Amado, sobre romances como O tempo e o vento, de Érico Veríssimo, e Irmão Juazeiro, de Francisco Julião. O texto de recepção mais característico dessa época é o necrológio de Guimarães Rosa que Nagyvilág publicou em 1968. Nele se fala na “síntese dos mágicos elementos primitivos de mundos diferentes”, em “mitos de valor universal de conteúdo filosófico” (Rónai, 1968, p. 338-339) e a linguagem engenhosa e estranha que o escritor compilou para si e que se parece muito com a linguagem de James Joyce. Tal análise da obra de Guimarães Rosa só se tornou possível graças à mudança de tom que marcou a imprensa política, única e oficial na Hungria de então. Assim, na recensão informativa que a revista teórica Társadalmi Szemle publicou sobre Vidas secas, de Graciliano Ramos (Szllsy, 1967, p. 137), já se comenta a “exatidão sociológica” ao lado dos valores estéticos da obra, numa análise mais flexível e sutil do que se fazia nos anos precedentes. A partir de meados dos anos 1970, sob a influência do boom da literatura latino-americana em espanhol, relega-se para o segundo plano a literatura brasileira, e em especial a literatura chamada progressista. Na realidade, diminui o interesse do público pelas obras brasileiras que tratavam de uma forma direta os problemas políticos e sociais. O exotismo dos autores do realismo mágico, a forte carga intelectual dos pós-modernos como Julio Cortázar e Jorge

A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria

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Luis Borges, e a urdidura complexa dos romances políticos de autores peruanos ou mexicanos, tudo isso atrai mais o interesse dos leitores húngaros. Só obras de Jorge Amado, tais como Dona Flor e seus dois maridos ou Gabriela cravo e canela, continuam cativando novas e novas gerações de leitores.

Novos aspectos da presença literária brasileira na cena húngara
Entretanto, surge, enquanto isso, uma nova geração de divulgadores das letras brasileiras, marcados por um gosto literário renovado e pelo objetivo de revelar aos leitores húngaros os traços característicos e essenciais da literatura brasileira. Assim, entre 1983 e 1986, a Rádio Nacional Húngara realizou uma série de emissões, de meia hora cada uma, com o título Latin Amerika Irodalma (Literatura da América Latina). Essa série apresentou uma visão panorâmica das literaturas do século XX naquele continente, com os fenômenos novos e característicos da literatura brasileira: o Pré-modernismo e o Modernismo, a poesia concreta, a moderna prosa experimental e a da grande urbe, fazendo conhecer ao público nomes que nunca haviam sido mencionados antes, como Oswald de Andrade, Haroldo de Campos, Rubem Fonseca, Dalton Trevisan e Ignácio de Loyola Brandão, que com sua obra despertaram o interesse da elite intelectual. Nessa época, transcorreu uma significativa etapa do processo de divulgação da literatura brasileira na Hungria: a publicação do Macunaíma, de Mário de Andrade. A tradução dessa obra conheceu um verdadeiro êxito editorial, pois em poucos meses esgotou-se uma tiragem de dez mil exemplares. O público, ávido do exotismo – até então condenado –, devorava o livro, que foi apresentado como um grande acontecimento cultural tanto pelos programas culturais de rádio e tevê quanto pelas recensões críticas.50 Nessa perspectiva, em resenha cujo título menciona a cé-

Szalontai, 1984. Bodor, 1984. Cserti, 1984.
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que se cultiva nos recantos ocultos do Brasil e que conserva valores eternos. de Osman Lins. Trad. o elemento exótico. Luís José Junqueira Freire. ilustre estudioso e tradutor. João da Cruz e Sousa. Mensagem do Brasil.52 a maior antologia húngara da poesia latino-americana publicada até os dias de hoje. Num debate transmitido pela rádio. Augusto dos Anjos. Luís Delfino. folclórica e etnográfica) de múltiplas cores e raízes e dos excessos intelectuais amotinados e revoltosos (Bodor. Budapest: Európa. Alberto de Oliveira. O autor do posfácio. 52 . a força primitiva da obra comentada: Macunaíma é conseqüência da capitalização latino-americana irregular e tormentosa.51 revela certa perplexidade provocada por este câmbio de paradigma no gosto dos divulgadores. Essas palavras do literato e tradutor János Benyhe novamente aludem às contradições da “oferta e da procura” da literatura brasileira na Hungria. 1985. Antônio de Castro Alves. evoca. da americanização que abraça aplastando a versatilidade étnica (lingüística. Raúl Bopp e Vinícius de Morais são os nomes novos) e assim mesmo há muitas coincidências na escolha dos poemas. representado. Aqui aparece novamente. Sebastião Cínero dos Guimarãens Passos. Vinícius de Morais. Geir Campos. A edição de Nove.15. 51 Járom és csillag (Jugo e estrela). Na antologia aparecem poemas de Mário de Andrade. neste caso. Manuel Bandeira. Teófilo Dias. Ascenso Ferreira. Francisco Antônio de Carvalho Júnior. segundo ele. predomina igualmente numa antologia de 1984. Augusto Frederico Schmidt. o crítico Pál Bodor frisa com entusiasmo a mistura feliz de elementos intelectuais e populares. prefácio e notas por János Benyhe. Judit Xantus. um tanto indeciso. O que surpreende é que a lista dos poetas modernos é quase igual à da seleção de meio século atrás (apenas Ascenso Ferreira.42 Revista Brasileira de Literatura Comparada. que se mantém quase intacto desde a antologia de 1939. lamentando que “os enérgicos elementos linguísticos deste último faltem na obra de Osman Lins” (Benyhe. Carlos Drummond de Andrade. 2009 lebre epopeia finlandesa e que qualifica Macunaíma como “Kalevala artificial da zona tórrida”. um representante da velha estirpe pôs em confronto com a literatura de fortes cores brasileiras uma literatura classicizante. como referência. 1985. por Jorge Amado e Guimarães Rosa. Raul Bopp. 211). Jorge de Lima. Rui Ribeiro Couto. Ronald de Carvalho. 1984. Raimundo Correia. Tal princípio distintivo. n. Vicente de Carvalho. a ambientação sulista de Verissimo e as fortes cores mineiras de Guimarães Rosa. pastoril. p. Joaquim Maria Machado de Assis. Olavo Bilac. Kilenc és kilenced. novena. Antônio Cândido Gonçalves Crespo. 1984). Bernardino da Costa Lopes. Alphonsus de Guimaraens. Gregório de Matos. Cecília Meireles. Budapeste: Kozmosz. a obra nordestina de Jorge Amado. seleção.

de Machado: O ascensorista. estagnado em cerimônias. afastou-se da literatura de valor. 55 Outro livro dessa natureza. 54 Zero. Mário de Andrade: O peru de Natal. O grande público. foi a antologia Boszorkányszombat. que atualmente é o autor brasileiro mais popular (e quase exclusivo) na Hungria. talvez. porque novamente se faz referência à imagem de um país exótico. Éva Faragó. e notas de Paulo Rónai. de 1986.54 quer dizer. a imagem do Brasil tal como vive no (sub)consciente das pessoas na Hungria. vale a pena meditar sobre a seguinte asserção: “A maioria dos contos mostra gente lutando com seu fado. Ferenc Pál. no entanto. 1991. Marques Rebelo: Caprichoso da Tijuca. e passou a ler obras de Paulo Coelho. Com essa atitude pode-se explicar. de Ignácio de Loyola Brandão. inventada por Bernardo Guimarães havia mais de um século. Orígenes Lessa: Roteiro de Fortaleza. foi recebida com entusiasmo da parte dos críticos. A partir do final da década de 1980 mudaram. ou seja. situando-se entre o passado e o presente. Carlos Drummond de Andrade: Beira-rio. João Guimarães Rosa. João Alphonsus de Guimaraens: Eis a noite!. Na antologia se encontram contos de Machado de Assis: Pai contra mãe. o curioso e célebre episódio em que telespectadores húngaros de A escrava Isaura. a rabszolgalány. Lygia Fagundes Telles: Venha ver o pôr do sol. um país de tempo estancado. Oto Lara Resende: O retrato na gaveta. István Bárczy. 5). saiu em 1990 o Zero. Dessa forma. Aurélio Buarque de Holanda: O chapéu de meu pai. 1987. os hábitos de leitura e o gosto do público húngaro. 1990. outrora leitor ávido dos romances de Jorge Amado. Trad. O grifado é nosso. uma coletânea de contos53 que reunia desde Pai contra mãe. acompanhada de notas bibliográficas. p. Tóth. Nestas últimas duas décadas. Rachel de Queirós: A donzela e a moura torta. no auge do interesse do público pelo Brasil. suscitado pela telenovela feita com base no romance de Bernardo Guimarães. Alcântara Machado: As cinco panelas de oiro. Lima Barreto: O homem que sabia javanês. num mundo de senzalas e casas grandes. e as séries televisivas ocuparam lentamente o lugar dos livros e da leitura. István Bárczy. com a liberalização da edição e do mercado de livro. Trad.” (Magyar Hírlap. Luís Jardim: Paisagem perdida. . anciãos de um pequeno vilarejo do interior do país.55 que a crítica recebeu como fonte de informação privilegiada a respeito de um mundo caoticamente moderno (apud Wirth. 1987. Rui Ribeiro Couto: Mistério de sábado. Budapeste: Európa. Monteiro Lobato: O comprador de fazendas. Paulo Rónai. Ao se reler a resenha dessas duas obras. de Clarice Lispector. Ervin Székely. Budapeste: Európa. de Machado de Assis. A seleção criteriosa. Trad. talvez porque saísse ao mesmo tempo em que a edição em húngaro de A escrava Isaura. reuniram uma importante soma a fim de remir da escravatura aquela bela e talentosa jovem. 53 Isaura. houve possibilidade de publicar autores mais sofisticados. gente que quase nunca triunfa.A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria 43 Boszorkányszombat (Mistério de sábado). 1986. Clarice Lispector: Feliz aniversário. Ferenc Pál. A terceira margem do rio. Eszter S. sel. Aníbal M. até Feliz aniversário. Budapeste: Európa.

um parecer crítico. o conto “Bolívar”. representa na Hungria a literatura brasileira. como contos de Dalton Trevisan e de Rubem Fonseca. Márcio Souza. a importância dessas duas antologias reside na demonstração de que a literatura brasileira tornou-se independente. A modern brazil elbeszélés – Antologia do moderno conto brasileiro. 1997. Endre Szkárosi. Raduan Nassar. Dalton Trevisan. 2008). p.] poesia concreta no início dos anos cinqüenta não é o primeiro exemplo de que nas circunjacências da zona cultural euro-americana criam-se uma nova linguagem e uma expressão autêntica que correspondem às demandas intelectuais desta região (Szkárosi. e se pode dizer que seus motivos regionalistas já se manifestam sob forma universalizante. 4). no qual ficou consignado o reconhecimento da independência criativa dos autores desse país dos trópicos: A formação da [. e muito especialmente Guimarães Rosa. Com a mudança do gosto literário. 14).58 dos quais as resenhas destacam Autran Dourado. András Petcz e Ferenc Pál. Adélia Prado. em revistas literárias. Rachel de Queiroz. de um conhecido poeta experimental.15. Budapeste: Íbisz. pois Haroldo de Campos: Konkrét versek (Poemas concretos). Autran Dourado. Ingácio de Loyola Brandão.57 Esses livros de poemas obtiveram. Haroldo de Campos e Décio Pignatari. András Petcz e Ferenc Pál. Clarice Lispector. 1997.44 Revista Brasileira de Literatura Comparada. prefácio e notas de Ferenc Pál. Guimarães Rosa. 1999. 58 . Rubem Fonseca. segundo afirma um dos críticos do livro (Urfi. publicada por iniciativa da Embaixada do Brasil e com o apoio do Ministério das Relações Exteriores. os foros mais exigentes da literatura.. Moacyr Scliar. n. 57 De Antônio de Alcântara Machado. é um bom manual para conhecer a prosa brasileira do século XX. passaram a conceder mais espaço à atual literatura brasileira. Esta revista publicou.. 2009 p. No presente momento. com o conto Duelo. Seleção. foram traduzidos para um seletíssimo público-leitor poemas de dois representantes da poesia concreta. Décio Pignatari: Vers-gyakorlatok (Exercícios de poesia). com introdução e apresentações dos autores pelo diplomata. Seleção. Trad. no seu número de abril de 1991 (ano XXXVI. 8). Otto Lara Resende. Rubem Fonseca. No número de agosto de 1992 (ano XXXVII. 56 Para além do material poético. Budapeste: Íbisz.56 Nesse sentido. n. Fernando Sabino. Trad. Ligia Fagundes Telles. Na antologia figuram contos de dezessete autores. Márcia Denser. de Victor Giudice. selecionada pelo embaixador José A. prefácio e notas de Ferenc Pál. publicaram-se dois contos de Dalton Trevisan. Mais tarde saíram obras de outros escritores que descreviam a vida de grandes centros urbanos. Lindgren Alves. como a revista Nagyvilág. uma antologia bilíngue. n. Antônio Fraga. 11).

o nome de Chico Buarque de Holanda. 59 este é o único conto em que aparece o elemento exótico (apud Galamb. da imprensa e da mídia. que correspondem aos cânones universais. com o romance Budapeste. p. György. cujas obras inundam as livrarias. 7. 2005. tanto nos temas elaborados como nos recursos artísticos de que lançam mão. Az üldöz. e tacitamente sempre esperou que a literatura correspondesse a esses estereótipos decorrentes de “preconceitos” devidos a circunstâncias históricas diversas. Trad. Isso distingue o conto de Rosa dos demais textos. n. e de certa forma a dificuldade da divulgação de autores modernos cuja obra se afasta de uma imagem tradicional do Brasil. 1-18. Resumindo. existem enciclopédias. Havemos de mencionar. 1972. podemos dizer que neste momento a literatura brasileira está relativamente bem representada na Hungria.59 também está disponível nas estantes. 1939a. Ferenc Pál. que formou uma imagem do Brasil a partir das informações obtidas dos livros de viagens. Esse fato explica o êxito das obras de Jorge Amado e o êxito isolado de Macunaíma. Budapeste: Atheneum. de Mário de Andrade. Referências A Pallas Nagy Lexikona. Budapeste: Pallas. Contudo. e assim podem informar e orientar os interessados.A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria 45 Budapeste. 225. Brazília üzen. Budapeste: Európa. BALINT. que. falta um vivo contato com as letras brasileiras – as primeiras obras literárias apareceram relativamente tarde e só raras vezes corresponderam às expectativas do público. 1893-1900. 2000. tendências literárias. . além de Paulo Coelho. Budapeste. 2008). neste caso o fato de o escritor/cantor ter escrito um romance cuja ação decorre em parte em Budapeste é muito mais importante para os leitores húngaros do que os valores estéticos do livro. Contudo. antologias de poesia e de contos que informam detalhadamente sobre autores. Magyarország.

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Uma primeira versão deste texto foi apresentada nesse evento. It seeks to think how today – in the era of the regionalization of cultures – a comparative literature perspective for the diffusion of Brazilian literature can help in the construction of new cultural communities. regionalização. poderia ajudar na construção de novas comunidades culturais. Latin American literature. regionalization. * keywords: Brazilian literature. com o alvo de construir novos laços e conexões entre aqueles que trabalham sobre e com a literatura brasileira em universidades e diversas instituições estrangeiras e fazê-los refletir em conjunto sobre o estado atual da literatura brasileira no exterior. literatura comparada. que marcou o lançamento da base de dados Conexões. 1 Em dezembro de 2009. Quais seriam os problemas e os impasses com . em São Paulo. Universidad de San Andrés/ Conicet.49 Tempos e contextos da literatura brasileira na Argentina e no exterior Florencia Garramuño* resumo: O artigo discute diferentes momentos da difusão da literatura brasileira na Argentina. analisando os diferentes contextos históricos e culturais como condições para a promoção da literatura brasileira no modo de se pensar hoje – na era da regionalização das culturas –. palavras-chave: literatura brasileira. literatura latino-ameri- cana. analyzing different historical and cultural contexts as conditions for the promotion of Brazilian Literature in Latin America.1 O evento estava destinado a mapear os brasilianistas que trabalham pelo mundo fora. abstract: The article discusses particular moments in the diffusion of Brazilian Literature in Argentina. o modo como essa difusão. o Instituto Itaú Cultural realizou o I Encontro Internacional Conexões Itaú Cultural – Mapeamento da Literatura Brasileira no Exterior. alicerçada numa perspectiva de literatura comparada. cujo objetivo é mapear e reunir um amplo e inédito número de profissionais estrangeiros que estudam ou pesquisam temas e autores da literatura brasileira. comparative literature. Agradeço a Claudiney Ferreira. Felipe Lindoso e João Cezar de Castro Rocha o convite para participar do encontro.

Inglaterra. Do ponto de vista da pesquisa sobre a literatura brasileira. Estados Unidos. a partir das quais é possível vislumbrar uma transformação em andamento de um conceito de literatura e de cultura brasileira que leva em conta sua colocação na paisagem transformada de um mundo contemporâneo no qual fronteiras e limites são redesenhados cotidianamente. tradutor. e até três das identidades profissionais (pesquisador. dos arquivos. que abriram um diálogo fecundo sobre os dilemas da difusão da literatura brasileira em extrema coincidência com os debates que preocupam os pesquisadores. talvez o mais produtivo do encontro tenha sido a grande quantidade de perguntas teóricas que desabotoaram das discussões e debates. mas também convocou tradutores e editores de literatura brasileira no exterior. Espanha. França. tradutores e editores. rearranjando regiões. dos documentos. comunidades e preocupações que não teriam como não influir numa disciplina tão sensível à sociedade e à cultura como o é a dos estudos literários – ou de quaisquer dos diversos ramos da arte. 2009 que os pesquisadores do Brasil se confrontam ao se encontrarem distantes do Brasil. O encontro foi frutífero não só em termos profissionais e de contato – pelo fato de fazer se conhecerem pessoas que trabalham com problemas afins –. já que a partir dele se iniciaram muitos trabalhos em conjunto entre diversos pesquisadores. Uma dessas questões – e a que me parece mais premente. Alemanha e Japão. editor) reunidas no encontro encontravam-se numa mesma pessoa. dos livros. n. tanto que muitas vezes duas.15. mas também em termos de difusão da literatura brasileira. já que condiz com muitas das características da literatura mais contemporânea com as quais a minha própria pesquisa vem lidando há algum tempo – é a da situação complexa da difusão de uma literatura brasileira contemporânea que já não parece poder ser contida nos .50 Revista Brasileira de Literatura Comparada. entre outros). assim como da própria cultura brasileira? O encontro não só congregou professores e pesquisadores de universidades de diferentes países (Argentina.

no entanto. de Bernardo Carvalho (Carvalho. aparece como o exemplo mais extremo desse afastamento da problemática do nacional na literatura brasileira contemporânea que.Tempos e contextos da literatura brasileira na Argentina. traduzida. E é nesse sentido também – uma vez que a literatura brasileira no exterior está sempre se relacionando com as formas da literatura dos países nos quais essa literatura está sendo difundida. Até que ponto esse extravasamento de problemáticas nacionais – “especificamente brasileiras” – deveria modificar também a forma de encarar as próprias ferramentas e conceitos para se pesquisar e ensinar a literatura brasileira no exterior? Se a literatura contemporânea já não se arrosta exclusivamente à discussão de uma identidade nacional e se. habita um número cada vez maior de romances contemporâneos – brasileiros.. a própria noção de literatura como instituição nacional fortemente ligada a certos padrões de constituição de uma identidade nacional é talvez um dos limites mais evidentemente ultrapassados. embora não seja o único. pesquisada e. 51 parâmetros que definiram a instituição literária no passado. 2009). novos problemas surgem – que a ideia mesma da difusão e promoção da literatura brasileira . Um grande número de textos brasileiros – assim como também de textos de outros países e regiões – põe em cena um extravasamento espantoso dos limites e fronteiras que tinham definido o literário como um tipo de discurso ancorado numa certa especificidade institucional. fomentar e alicerçar uma discussão dessas novas “comunidades imaginadas” – para usar em um sentido mais complexo o conceito de Benedict Anderson (1983) – seriam estratégias mais sensíveis ao que essa nova literatura pareceria estar discutindo. para a difusão e promoção dessa literatura brasileira no estrangeiro. ou não. parece se propor cada vez mais fortemente como imaginação de comunidades e coletividades que desconhecem a ferrenha ligação entre território. pelo contrário.. no contato com essa cultura diferente. língua e nação –como proporia Giorgio Agambem (2001) –. O filho da mãe. vale a pena ressaltar. parece evidente que. Entre esses parâmetros hoje extrapolados.

Na proposta de Apter. Também Spivak tem elaborado algumas noções interessantes – e bem complexas – sobre o problema da literatura comparada na contemporaneidade. mas também cultural – tem um papel fundamental no programa de uma “nova literatura comparada”. da mão das políticas culturais do Estado Novo de Getúlio Vargas (1937-1945). 2003. mas também intervir na produção A apresentação de Victor Mendes. 243). e como. os seus problemas. Na primeira etapa veem-se os vínculos estreitos entre diplomacia e tradução e resulta 3 . p. deslocando-o em outros contextos. divulgação ou propagação de uma literatura ou de um saber que existiria feito e pronto no Brasil e que os pesquisadores só transmitiríamos.52 Revista Brasileira de Literatura Comparada. 2 O livro de Sorá estuda quatro períodos importantes: o primeiro estende-se desde o século XIX até os anos 1930. “in naming a transnational process constitutive of its disciplinary nomination comparative literature breaks the isomorphic fit between the name of a nation and the name of a language” (Apter. Segundo ela. Outra das questões tem a ver com a possibilidade de se pensar a difusão – e. propondo uma colaboração entre os estudos de área (“area studies”) e a literatura comparada que poderia tentar “to figure themselves – imagine themselves – as planetary rather than continental. 72). global or wordly” (Spivak. e as suas ferramentas – na era da regionalização da economia global e. os “difusores” – da literatura brasileira no exterior noutros termos que já não só do ponto de vista de uma transmissão. professor de University of Massachusetts Darthmouth. n. 2003. quando se cristaliza. para esta possibilidade.15. apontou. principalmente a partir de discussões como as elaboradas por Emily Apter em The translation zone ou Gayatri Spivak em Death of a discipline sobre os modos de se pensar a literatura comparada – a disciplina. p. a ideia de uma “auténtica cultura nacional brasileña” que inicia o segundo período. não só atender à difusão da literatura brasileira.2 E aí a pergunta que surgiu é a de se uma instituição como o Itaú poderia. que se aproveitaria dessa mesma migração e deslocamento como uma forma de produzir saberes “outros” que despontariam ao se confrontar a literatura brasileira com um contexto estrangeiro ao que essa literatura interpelaria de uma forma diferente. com ela. também das culturas. diferente do já conhecido. 2009 no exterior compartilha muitos dos problemas que têm se associado nos últimos anos à discussão da literatura comparada. no encontro Conexões. a noção de tradução –linguística. com ela. Seria uma forma de produzir um saber novo.

principalmente durante os anos do Romantismo.. Por último. Um terceiro período. Sorá demonstrou que a tradução de autores brasileiros tem sido muito mais importante e constante na Argentina – segundo algumas variáveis históricas – do que na maioria dos outros paises.Tempos e contextos da literatura brasileira na Argentina. Caberia ressaltar a importância que nos anos sessenta adquirem questões ideológicas e o tipo de problemas para os quais os estudos sociais brasileiros vão ser tomados como modelos a observar. que Sorá denomina de internacionalização. quando as relações entre a cultura argentina e brasileira resultam em grande parte da mediação de intercâmbios internacionais nas feiras de Frankfurt. foi traduzido para o espanhol só um ano depois. um quarto período. A identificação dessas questões e a elaboração de respostas para elas. levando em conta as diferentes condições de possibilidade que esses tempos e contextos têm oferecido para o conhecimento da literatura brasileira em países estrangeiros. no caso. de Machado de Assis. ao se falar da difusão da literatura brasileira no exterior. Fica claro que. inicia-se em 1985. por sua vez. vai de 1945 a 1985 e exibe a hegemonia do mercado na seleção e produção da tradução. por exemplo (autores como os já na época afamados Machado de Assis. Partindo de uma pesquisa empírica sobre as traduções de escritores brasileiros para o espanhol realizadas na Argentina. e dos circuitos construtores do mercado editorial internacional. no entanto. Essa sincronia é. em 1905. nenhum deles teve reedição alguma. que Sorá denomina mercantil. Algumas dessas questões dizem respeito a um mapeamento qualitativo da literatura brasileira no exterior que seria bem interessante fazer. cuja primeira edição no Brasil é de 1904. O antropólogo Gustavo Sorá começou a pensar algumas dessas questões para o contexto da Argentina durante o século XX no seu importante livro Traducir el Brasil (2003). por exemplo. um dos grandes ganhos de encontros daquela natureza em termos teóricos. além do mapeamento quantitativo. 53 de esse “saber outro” que. assim como a criação de redes de pesquisadores e de contatos e fluxos de saberes é. estava se produzindo gerado precisamente por aquele encontro. evidência de um intenso diálogo entre a literatura argentina e brasileira no período. como se pode concluir da relevância que os temas do desenvolvimento econômico e social adquiririam nesse momento. sem dúvida. É no segundo período. é importante analisar os tempos e contextos dessa difusão. surpreendente pela espantosa atualidade das traduções: Esaú e Jacob. quando a tradução mostra seus vínculos com as políticas estatais e com as a alianças políticas e ideológicas de esquerda que nasceram do exílio na Argentina de Luiz Carlos Prestes e Jorge Amado. além do fato pragmático – também importante – de facilitação dessa rede e desses contatos. José de Alencar ou Aluísio Azevedo). A pouca reedição e circulação desses livros é um dado incontestável: dos canônicos e importantíssimos livros brasileiros traduzidos pela Biblioteca La Nación – uma importante editora universalista – nas primeiras décadas do século XX. muito .3 Mas a pesquisa demonstrou também outra consequência mais relevante – e lamentável – ainda para a história cultural da Argentina e do Brasil: a de que a efetiva tradução de autores brasileiros na Argentina não tem sempre ajudado a reduzir o mútuo desconhecimento entre os dois países. Barcelona..

p. tampouco. fica evidente que essas traduções não fizeram com que a literatura argentina se alimentasse da brasileira nem que a brasileira se alimentasse da argentina. assim como das posições no campo intelectual dos agentes tradutores e dos pesquisadores. demonstrando. ou entre os críticos argentinos e a literatura brasileira. n. desde esse momento. que “las fuerzas de internacionalización de los mercados desde fines de los años ochenta remataron el distanciamiento entre dos ‘culturas nacionales’ cuya vigencia editorial es regulada en aduanas muy lejanas” (Sorá. Era claro – a pesquisa demonstrava – que houve condições para uma tradução bem rica naquele momento. quando a . nem. para “atualizar” e manter vivo o conhecimento do Brasil que esses livros traduzidos poderiam – e deveriam – ter acarretado. que o significado dos livros traduzidos em suas dimensões históricas depende das formas nas quais esses livros são recebidos e apropriados por seus leitores.15. Se pensarmos na relação entre os escritores argentinos da época e a literatura brasileira. como diz Sorá. Fica claro a partir da leitura do importante livro de Gustavo Sorá. a ser lidos. mas respondem a uma configuração internacional de redes de relações linguísticas.54 Revista Brasileira de Literatura Comparada. 221). arquivos e instituições dedicadas ao desenvolvimento do conhecimento sobre o Brasil não contribuiu. A debilidade institucional da Argentina em termos de bibliotecas. Um momento mais bem-sucedido dessa difusão foram – sem dúvida – os anos 60 e 70 do século XX. 2003. que a literatura brasileira ficasse conhecida na Argentina fora do interesse de algumas pessoas específicas. portanto. mas que na verdade ela não acarretou consequências de peso para o efetivo conhecimento da literatura brasileira na Argentina ou nos países de fala espanhola nos quais esses livros brasileiros poderiam passar. por outro lado. 2009 embora muitos dos títulos dessa mesma editora que provinham de diferentes tradições literárias europeias tenham sido reeditados ano após ano. e que os problemas da tradução não dizem respeito só a duas culturas nacionais específicas.

1999. Antonio Houaiss. colocam em relação a literatura hispano-americana e a brasileira referindo-se a autores como Alencar. em 1972. logo em seguida. tomou o nome de “Premio Casa de las Américas”. fez com que a difusão da literatura brasileira tivesse um impacto mais forte nas literaturas de língua espanhola. Clarice Lispector e tantos outros escritores brasileiros citados e analisados nesses textos (Moreno. brasileiros. Haroldo de Campos. Chico Buarque ou Davi Arrigucci Jr. Cuba tem sido a grande mediadora. Antonio Candido disse sobre o prêmio: Para nós. geralmente tão separados dos irmãos de fala espanhola. É claro que. José Guilherme Merquior. 181). com a entrada dos autores brasileiros. a Seix Barral – e compartilhou com ela o seu momento de fama internacional. . que premiou autores brasileiros e contou no júri com escritores e intelectuais brasileiros da talha de Antonio Candido. o contexto político da América Latina. Quando a Editorial Siglo XXI publica América latina en su literatura. como “Concurso literário latino-americano” e. ao criar a possibilidade de entendimento que se forma aqui e se desenvolve fora. foi construído particularmente por uma editora de origem espanhola. ou de tantos outros que. ou Emir Rodríguez Monegal e outros críticos latino-americanos que fazem referência à literatura brasileira. 1972). Machado. Casimiro de Abreu. tendo ele artigos como os de Antonio Candido. e ao tecer uma rede fraternal que abraça o continente com suas possibilidades de compreensão e intercâmbio (apud Cabañas e Fornet. Guimarães Rosa.. É por esses anos que o que tinha sido conhecido até então como “Concurso literário hispano-americano” foi se denominar. com a Revolução Cubana e as instituições que iriam se criar. 55 literatura brasileira pegou carona no boom da literatura latino-americana – que. na época.. lembremos. a presença da literatura brasileira no volume é incontestável. sem falar exclusivamente da literatura brasileira. p.Tempos e contextos da literatura brasileira na Argentina. Em depoimento em Havana.

) A língua é minha pátria E eu não tenho pátria.56 Revista Brasileira de Literatura Comparada. em um único artigo. Caetano retoma uma frase famosa de Fernando Pessoa em “A minha pátria é a minha língua”. Segundo Pablo Rocca. aparece em Velô. da literatura brasileira na América Latina. em 1967. Basta lembrar o refrão de Língua para ouvir uma alusão leve a essa América Latina. tenho mátria E quero frátria. Soy loco por ti América. intensa. esse livro foi a descoberta de que a literatura brasileira existia numa sintonia de problemas com a literatura latino-americana e que ela própria podia se converter em um campo de estudo e pesquisa para nós. Uma questão que. no fim da década de 1980. “ningún crítico hispanoamericano coetáneo de la nacionalidad que fuere se encargó. con tanto interés y persistencia de “Soy loco por ti América” foi composta sob o efeito da morte do Che Guevara e gravada em Tropicália. que víamos representada na canção de Gilberto Gil com letra de Capinam. Na canção.. 4 . em 1984. é importante ressaltar é até que ponto essas condições. 1982). perdurável. na época. se possível. colaboraram ou não para uma difusão efetiva. que dançávamos e cantávamos com fervor nas festas da época. estudávamos literatura na universidade argentina.15. como Monegal o como Rama. as discussões que um problema como esse abre. que Caetano repetia gozoso: Flor do Lácio Sambódromo Lusamérica latim em pó O que quer? O que pode esta língua? Vamos atentar para a sintaxe dos paulistas E o falso inglês relax dos surfistas Sejamos imperialistas! Cadê? Sejamos imperialistas! (. mas se assemelharia com a corrupção das unidades homogêneas que Caetano Veloso comemorava em Língua – canção que também dançávamos e cantávamos ainda com mais fervor.. de Bernardo Soares (Pessoa. os latino-americanos que queríamos e pretendíamos construir uma América Latina grande. composta por Caetano Veloso. n.. no entanto. E essa América Latina grande não se preocuparia tanto com a questão da identidade nacional ou regional. do Livro do desassossego. 4 O leque que uma história da difusão da literatura brasileira no exterior abre é bem complexo e não seria possível esgotar. “Língua”. 2009 Para aqueles que.

20 5 la literatura brasileña” (Rocca. sobre as literaturas latinoamericanas. Montevideo: Ediciones de la Banda Oriental. em um sentido mais geral. o que é bem pouco para um campo de crítica latino-americana que tem sido bastante rico e produtivo. levando em conta as condições atuais da globalização.Tempos e contextos da literatura brasileira na Argentina. tomado de empréstimo de um verso de Drummond? Qual seria a literatura brasileira desse Brasil nenhum que quereríamos difundir. Emir Rodríguez Monegal y el Brasil. incorporam nesse estudo as . bastante pouco produtivo. quando a palavra de ordem é a redução dos orçamentos no contexto da crise global. Se esses tempos e contextos hoje são bem diferentes. com a contribuição deles para a literatura latino-americana em espanhol. como se deveria pensar a difusão da literatura brasileira na era da globalização e das culturas pós-nacionais ou transnacionais? Como as diversas instituições de pesquisa e ensino da literatura brasileira poderiam contribuir para uma discussão dessas questões que. Ángel Rama. e como deveríamos fazer essa difusão? Hoje. 57 Um trabalho mais abrangente sobre as relações entre Emir Rodríguez Monegal e Angel Rama com o Brasil pode se encontrar no livro de Rocca. que.. 2003). e. O que também é evidente é que o diálogo entre críticos de fala espanhola e portuguesa também tem sido. há evidência importante sobre a multiplicação dos estudos comparativos entre as literaturas e as culturas do Brasil e da Argentina. no campo intelectual latino-americano.5 Eu acrescentaria que tanto o trabalho de Rama como o de Rodríguez Monegal sobre a literatura brasileira talvez não tenham comparação. 2006a. 56). tendo abandonado a preocupação pela identidade latino-americana. sobretudo o de Rama. apesar do diálogo entre Rama e Candido e outras poucas honrosas exceções.. aprofundá-las. p. e interromper aquelas outras propriedades que levam ao apagamento das diferenças e à imposição de lógicas homogeneizantes? Queremos continuar defendendo uma identidade da literatura brasileira ou pretendemos abrir esse conceito? Como poderíamos pensar e contribuir para a difusão da literatura brasileira no exterior partindo da inspiração do título da coletânea Nenhum Brasil existe (Rocha. possa se inserir no contexto contemporâneo para tirar desse processo as boas qualidades.

ou Um amor anarquista e os vários textos que Beatriz Viterbo vem publicando. de Clarice Lispector. com muito mais frequência. ou os vários romances de João Gilberto Noll e Adriana Hidalgo. e lançando dentro de sua editora livros completos de alguns poetas brasileiros contemporâneos. traduzidos e não traduzidos. é o fato de esses livros estarem hoje influenciando uma escrita literária argentina que tem se nutrido deles e que. 2009 culturas do Brasil sem os empecilhos do purismo linguístico ou historiográfico do passado. realizados tanto na Argentina como no Brasil.15.58 Revista Brasileira de Literatura Comparada. de Euclides da Cunha. um diálogo muito mais intenso entre a crítica argentina e a crítica brasileira. de Carlito Azevedo. assim como outros muitos. Os sertões. por sua vez. junto com livros como A descoberta do mundo. como Ana Cristina Cesar ou Leminski. n. autores brasileiros contemporâneos e clássicos: a nova edição que o Fondo de Cultura Econômica fez de um livro que era inencontrável nas livrarias argentinas. Mas não só. no entanto. Hoje existe uma série dentro de uma editora argentina (a Corregidor) especialmente dedicada à publicação e tradução de literatura brasileira que vem. também está nutrindo os escritores brasileiros. O caso da poesia contemporânea é muito significativo. de Marcos Siscar. A revista Tsé Tsé vem publicando uma série de livros e de poemas. de Augusto de Campos. Mais importante do que o número de volumes publicados. ou No se dice. hoje. Também grande parte das maiores editoras argentinas e multinacionais vem publicando em Buenos Aires. como o caso do Sublunar. evidenciam-se numa escrita poética que se nutre desses contatos. E existe também. Basta ler alguns poemas de Carlito . demonstram uma presença cada vez maior da literatura brasileira no catálogo de editoras argentinas. de Flora Sussekind. como o Balanço da bossa. publicando clássicos como Oswald de Andrade ou Graciliano Ramos e literatura mais contemporânea. tanto de ensaios. ou Literatura e vida literária. há quase dez anos ininterruptos. Tanto esses livros como o contato fluido dos poetas argentinos e brasileiros em festivais diversos.

New York: Verso. na medida de nossas fracas possibilidades. cada volume traz estudos preliminares e bibliografias que ajudam os livros traduzidos a se instalarem no mercado e. e que essa difusão acontece num contexto global de poder e conhecimento que influencia crucialmente a paisagem intelectual. mais importante ainda. As verbas para projetos de cooperação internacional e para trabalhos comparativos têm aumentado exponencialmente na Argentina. que desenham uma encruzilhada de fertilização cruzada. mas que. talvez seja hoje uma estratégia para transformarmos. pelo contrário. e em várias direções. que. 2001. já que.. Pensar a difusão da literatura brasileira de uma perspectiva de literatura comparada transformada.. . nesse contexto. É importante. 59 Azevedo ou Marília Garcia para ver que essas influências têm andado nas duas direções. o papel da literatura brasileira. na cabeça dos leitores. Imagined communities. 1991. ANDERSON. além de publicar o livro traduzido. em parceria com a Capes do Brasil. Valencia: Pre-Textos. Giorgio. Medios sin fin: notas sobre la política.Tempos e contextos da literatura brasileira na Argentina. Benedict. lembrar que difusão não implica um trajeto de uma só via. sobretudo na Secretaria de Ciência e Técnica do Ministério de Educação da Argentina. que já não esteja procurando as identidades de uma literatura como referentes de uma identidade nacional. Os livros da coleção Vereda Brasil têm instalado um conhecimento importante dos autores publicados. e com ela o papel da literatura em geral – nesse novo mundo a cuja transformação estamos assistindo. se fundamente na relação dessa literatura brasileira com as outras literaturas. mas que é uma viagem de ida e volta. tem financiado e continua financiando pesquisas desenvolvidas por universidades argentinas e brasileiras em conjunto. Referências AGAMBEN.

12. In: _____. Ángel Rama. FORNET. In: _____. Death of a discipline. Princeton: Princeton University. Prefácio e Organização de Jacinto do Prado Coelho).15. São Paulo: Companhia das Letras. (Recolha e transcrição dos textos de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha. GIL. FERNÁNDEZ MORENO. SPIVAK. 1984. LOPES DE ARAUJO. O eixo e a roda. 2003. Emir Rodríguez Monegal y el Brasil: dos caras de un proyecto latinoamericano. 1972. Belo Horizonte. VELOSO. Buenos Aires: Libros Del Zorzal. 2009. 2006b. César. 1960-1999. CAPINAM. Caetano. Pablo. Bernardo de. Phillips. 1982. A minha pátria é minha língua. n. América latina en su literatura. Traducir el Brasil. Gayatri. Velô. Rio de Janeiro: Universidade do Estado do Rio de Janeiro. CABAÑAS. Jorge. Soy loco por ti América. Fernando. _____. Gustavo. 1999. Inés. 2006a.60 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Montevideo: Ediciones de la Banda Oriental. . Una antropologia de la circulación internacional de ideas. 2003. Nenhum Brasil existe. 1967. La fisura regionalista de Graciliano a G. Livro do desassossego. Rosa (la visión hispanoamericana de Emir Rodríguez Monegal y Ángel Rama). Lisboa: Ática. Tropicália. The translation zone. 2003. La Habana: Fondo Editorial Casa de las Américas. New York: Columbia University. Valdei. 2009 APTER. Polygram. Gilberto. ROCCA. SORÁ. México: Siglo XXI. Emily. v. Premio Casa de las Américas: memoria. CARVALHO. O filho da mãe. PESSOA. 2006.

reviews the case of Machado de Assis in order to step into de debate on universal versus local and on the problem of the international reception of his work. elemento de exclusão. as it seems to be the Brazilian case. A mais imediata será o sublinhado duma diferença dentro da língua: no português europeu. KeywoRds: Brazilian literature. literatura mundial. e ademais como parte dos “estudos de literatura brasileira no exterior”. Pedir a um português que escreva sobre os estudos de literatura brasileira em Portugal. Machado de Assis. as a notion without nation. nacionalismo literário. Machado de Assis. não deixa de envolver particularidades curiosas.61 Ideia de Literatura Brasileira com propósito cosmopolita Abel Barros Baptista* Resumo: O ensaio procura rever o problema da relação da literatura brasileira com a noção de literatura e a literatura mundial. a book is a man’s best friend. aBstRact: The essay aims at a revision of the problem of the relation between a national literature. Partindo de uma noção que valoriza a literatura sobre a língua. world literature. PalavRas-cHave: literatura brasileira. cosmopolitism. it’s too dark to read. cosmopolitismo. inside of a dog. as a way of exclusion. Outside of a dog. não ocorre essa acepção de “exterior” * Universidade Nova de Lisboa . literary nationalism. Arguing for an idea of literature superseding the language. regressa ao caso de Machado de Assis para intervir no debate sobre o conflito entre local e universal na sua obra e a respectiva recepção fora do Brasil. Groucho Marx 1. and the very idea of Literature.

O verbete completo diz isto: “Não significa. enfim.com. a orientação do interior para o exterior. Ou a versão da pilhagem que Roberto Schwarz ofereceu no ensaio a que mais adiante me referirei. a determinação do interior como nacional. já tratando-se de difusão de uma literatura nacional ou de estudos de uma literatura nacional. Mas talvez disséssemos “estudos de literatura brasileira no estrangeiro” mais depressa do que estudos de literatura brasileira “fora do Brasil” ou “no exterior do Brasil”. seja a inglesa. Daí que a modalidade portuguesa. promete alguma coisa pertinente. dizendo: Por favor. a orientação do estrangeiro para o doméstico. e sempre se sabe o que é: o “exterior”. por outro lado. pelo menos. propriamente falando. Ademais.br/obra/ literatura/adulto/dicionario/ framegranda_a. suspensa de uma referência que destrince exterior de interior. é também locução portuguesa. a interferência do exterior no interior. n. estudos “estrangeiros”? Já a formulação “nem todos os estudos conduzidos no exterior são por isso exteriores” faz figura mais de problemática do que disparatada. e diríamos “estudos de literatura portuguesa no estrangeiro”. Se dissermos que “nem todos os estudos de literatura portuguesa conduzidos no estrangeiro são estrangeiros”. sugerindo que académicos medíocres procuram longe escritores obscuros para fazerem carreira sem controlo nem concorrência. no nacional. no confronto com a brasileira. Mas exterior excede estrangeiro e. significa o que é de fora ou vem de fora. absolutamente. o jogo de palavras. ao suspender a familiaridade. deite no lixo! Não leve ao pé da letra. a mesma construção valendo. a alemã ou a italiana: como se houvesse uma substantivação de “o estrangeiro” que o “exterior” já não alcançou. Convenhamos que não há enorme diferença entre as duas palavras. “Leituras em competição”: uma “guarda 2 .1 Isto. Também se usa em Portugal a locução “lá fora”. até pela etimologia. mormente as cínicas ou as que derivam do sublinhado de traços de degradação do ideal cosmopolita. pode nem ser estrangeiro. até estimule jogos de palavras fáceis: a formulação “nem todos os que vivem no estrangeiro são estrangeiros” resultaria em disparate se transposta mecanicamente para “nem todos os que vivem no exterior são exteriores”. tratando-se de estudos. E é curioso que um dicionário on line de português para brasileiros (Prata. Com efeito. no que é nosso.” Disponível em: <http://www. como todos. estrangeiro é exterior e. por seu lado. etc. parece mais pertinente delimitar “exteriores” do que “estrangeiros”. falando de cidadãos. Por exemplo. mas o advérbio indica registo coloquial e em regra requer um “fora” de referência para o nosso primitivismo pôr os olhos. 2009 como conjunto de países constituído por todos os que não são o nosso. permita. e que significa precisamente “jogar fora de casa” por ser o oposto de “jogar em casa”.15. sem se aperceber de que “jogar fora”. Deitar fora é jogar fora. requer determinação. Você verá várias placas em Portugal. para outras literaturas. aliás. 1 Claro que estão disponíveis várias descrições alternativas.62 Revista Brasileira de Literatura Comparada. que a pessoa vá dormir fora ou. do domínio do futebol. a frase talvez não pareça logo o absurdo que é: o que serão. Digamos que há sempre o “estrangeiro”. Usamos “o estrangeiro”. Nada disto.htm>. marioprataonline. dar uma deitadinha na casa de um amigo ou amiga. atrai a atenção para a definição do exterior como estrangeiro. 1993) tenha necessidade de esclarecer que a locução “deitar fora” não significa “dormir fora de casa” mas “jogar fora”.

filantropos embora. tanto pode estar sediado em Roma como em S. e em princípio hóspedes de honra. mas estes. onde não viveram. Nesse sentido. literatura ou cultura portuguesa que no estrangeiro são conduzidos por não portugueses. que estes que viajam. ou que só visitaram justamente porque se interessaram pela respectiva literatura – talvez alguma convicção de que a literatura. quase cidadãos honorários. não se prendendo a nenhum espaço delimitado por fronteiras. se deslocam sempre para o território que outros. A imediata consequência a extrair seria que o universal não existe. vai a “terras distantes” à procura do que a faz menos provinciana e por isso não se importa de ignorar a história e o contexto. 2009. e ainda querendo tê-lo muito fortemente. 2006. sem universal em que se apoie. não parece valer para as organizações nem para os estudos. não acreditamos que os estudos possam ser domésticos ou nacionais sem ao menos aspirarem à condição universal. Estamos sempre em algum lugar – em algum local. é sempre pouco para quem vive neste ou naquele aglomerado nacional. por outro lado. kantianamente guiados pelo ponto de vista filantrópico universal. mas mais quotidiano. o maior risco. esses académicos. Pode. o cosmopolita pode estar condenado à errância eterna. 187).4 Sem dúvida. Isto. p. desde que obtenha proventos fáceis (cf. como cidadãos. A segunda consequência é que. aonde nunca foram. e as universidades em princípio não confundem brasilianistas com brasileiros.3 Note-se que. casa. que vale para as pessoas. o de se ver obrigado a esbarrar em regras que lhe são adversas ou a tolerar convicções que lhe repugnam. e que provincianismo é ver o exterior só como exterior. aqueles que. O mesmo se passa de resto com os brasileiros: um brasilianista é alguém que se dedica aos “estudos brasileiros”. que viajam por causa da literatura que não se fez na sua terra. sem eles. são brasileiros sem serem brasileiros e que se chamam brasileiros precisamente na medida em que estão no exterior do Brasil e num interior que não se chama Brasil. . aliás. pela simples razão de que ninguém o pode habitar. 66). mas hóspedes. sendo o menor. é provável que hoje pagássemos a Berlusconi para ler a Divina comédia. porque de algum modo se dedicam ao Brasil. espaço doméstico. em janeiro de 2009 (Wood. Dir-se-á. Certa tradição académica chama “portugueses” justamente àqueles estudos de língua. literal ou figuradamente. chamam interior. evidentemente não se tornam portugueses.2 Então. Talvez se possa inferir do exemplo que os estudos.Ideia de literatura brasileira com propósito cosmopolita avançada” do “centro” pilha as obras da “periferia” para as incluir em repertórios internacionais. cheio de brasilianistas ou cheio de brasileiros. vão de um país a outro por causa da literatura. modalidade decerto muito inconveniente de prestar tributo ao princípio de nacionalidade em literatura. Paulo. não podem nem precisam de viajar. não como “o lar de outras pessoas”. nunca serão estrangeiros. 3 63 Colho esta expressão na tradução para português da conferência proferida por Michael Wood num colóquio sobre Machado de Assis na Universidade de Princeton. Um “Instituto de Estudos Brasileiros”. Schwarz. p. por sua vez. tendo país. no sentido em que pertence a este ou àquele aglomerado nacional. ilustram este princípio estranho: as pessoas têm necessidade de viajar porque as ideias e os estudos. em rigor não tem país. 4 talvez porque. residir nessa aspiração a razão última por que muitos académicos se dedicam a estudar a literatura de países onde não nasceram.

Eis outra forma de dizer que o universal não existe: porque o local se tornou impossível.64 Revista Brasileira de Literatura Comparada. . antes. editoras. que ao brasilianista lhe paga essas viagens e esses estudos? E em nome de quê. e no propósito do estudo dela.15. centros de pesquisa. da importância do seu estudo e da relevância da sua pesquisa. fundações. e o reconhecimento do pesquisador ultrapassa já não apenas a nação. A impossibilidade do interior bem circunscrito decorre da dissolução da autonomia numa rede de instâncias por definição exteriores. ou até de ambos: o reconhecimento decisivo do brasilianista. deve pretender tornar-se interior apesar de estrangeiro ou. outras universidades. agências governamentais. Trabalhar no exterior de um paradigma pode ser mais perturbador do que trabalhar no exterior de uma disciplina ou de uma instituição. 2009 Eis o dilema: aquele académico que viaja para outro lado por causa da literatura. que ou provêm do interior da instituição em que se trabalha ou do exterior dela. Em todo caso. mas as próprias disciplinas. de que padrões ou critérios. há-de vir do exterior ou de algum interior do Brasil? Ou o factor decisivo estará antes nesse outro interior que é a instituição exterior. desde logo. o interior tornou-se demasiado escuro para que se consiga ler nele com nitidez. numa rede tendencialmente tão diversificada no mapa como similar nos padrões e critérios de avaliação. esforçar-se por se manter exterior porque estrangeiro? Qualquer estudo implica legitimidade e reconhecimento. disciplinas ou paradigmas. não brasileira. essa instituição o avalia? Acaso da capacidade de se tornar estrangeiro para não ser estrangeiro no país da literatura que estuda? Outra pertinência da distinção entre “exterior” e “estrangeiro” residiria então em que o “exterior” tem aptidão superior à de “estrangeiro” para referir situações que envolvem instituições. Exterior deixou de significar estrangeiro: no mundo universitário. trabalhar no interior de um paradigma pode ser condição necessária para trabalhar no interior de uma disciplina e de uma instituição. o interior não é nacional senão depreciativamente. n.

no sentido mimético e no diplomático. enfim. que se representa hegemonicamente como construção que circunscreve o interior para que coincida com o nacional. enquanto o primeiro a subordina a uma qualquer relação com o Brasil. p. em negar a nacionalidade da literatura brasileira em nome de uma natureza intemporal e transcultural da literatura. é suficiente para mostrar que se mantêm a actualidade crítica e a energia polémica da análise que propus do ensaio de Machado. E há-de ser particularmente sensível à presença do estrangeiro no seu interior – e sobretudo à projecção desse interior no exterior indeterminado do “estrangeiro”. sendo uma reacção à fortuna crítica de Machado fora do Brasil e ao que ele chama “leitura internacional”. O propósito cosmopolita leva em conta o desejo de criação de uma literatura a que os brasileiros possam chamar sua. 21-111. analise o processo por meio do qual no Brasil se procurou construir uma literatura entendida como representação do Brasil? Proponho designar cosmopolita a perspectiva que estabelece essas distinções e argumenta em favor do segundo termo da alternativa. O propósito cosmopolita não consiste. antes. aliás. que o leitor interessado pode encontrar no meu livro A formação do nome. ou. não podia senão ser muitíssimo sensível à diferença entre exterior e estrangeiro.Ideia de literatura brasileira com propósito cosmopolita 65 O presente ensaio conclui um percurso de estudos machadianos inaugurado há mais de vinte anos com uma análise de “instinto de nacionalidade”. que preserva a relação com a literatura. estude e divulgue a razão de a literatura falar do Brasil? Que se interesse pela realidade nacional brasileira ou. 2003. sim. edição portuguesa de 1991). na linhagem que o primeiro grande espírito cosmopolita do Brasil. como a brasileira. uma literatura. Filiando-se. mas postula que tal desejo não se confunde com o que eles ou todos nós chamamos literatura brasileira – nem é o único guia. e a que voltarei mais adiante. 5 Ora. como. Duas interrogações sobre Machado de Assis (Baptista. O que se deve então legitimamente exigir ao brasilianista? Que estude e divulgue o Brasil de que a literatura brasileira fala ou. em reconhecer o desejo de nacionalidade. supostamente em competição com a “leitura nacional”. O artigo de Roberto Schwarz atrás citado. para a conhecer. desnaturalizá-lo e. noutras nações.5 . antes. muito menos o melhor. identificá-lo como uma das forças da literatura moderna em acção no Brasil. portanto. antes. inaugurou com o célebre “instinto de nacionalidade”. pelo interesse da literatura brasileira pela realidade nacional brasileira? Que se torne porta-voz de uma literatura entendida como representação do Brasil. delimitálo historicamente. enfim. Machado de Assis. tampouco em afirmá-la ou sequer reconhecê-la: consiste.

àquilo que a cultura medieval pré-nacional já possuía: a noção de que o espírito não é nacional” (Auerbach. no entanto. se é possível algum sentido para Weltliteratur mantendo o termo na visão de Goethe. isto é.66 Revista Brasileira de Literatura Comparada. A pressuposição da Weltliteratur é uma felix culpa: a divisão da espécie humana em muitas culturas (Auerbach. em circunstâncias notoriamente diversas. acaba a declarar que “a nossa casa filológica é o planeta.15. o modo como. já não pode ser a nação” (Auerbach. a formular certo programa de urgência: “devemos regressar. o domínio da Weltliteratur. e mais do que isso. 17). ao convocá-lo. pode também desnortear. 2) A dificuldade é manter a tarefa da filologia diante do processo de estandardização da vida humana à escala global. p. que Auerbach detecta e cujo termo pleno. Espírito? Humanidade? O vocabulário não é seguramente de hoje: ou parece hoje muito pouco cosmopolita. 17). 2009 2. Não cabendo aqui sequer tentar resumir o argumento que ocupa a parte central do ensaio. “Filologia e Weltliteratur” (1952). No entanto. num modo que sequer é propriamente paródico. 1969. é citar o desfecho dele. na noção . n. há por aí qualquer coisa de urgentemente actual. O colorido kantiano do meu título. 1969. o meu propósito. relacionando-o tanto com o passado quanto com o futuro e considerando o próprio estado do mundo: O nosso planeta. 1969. está a diminuir e a perder diversidade. p. Auerbach perguntava num dos seus últimos ensaios. p. sublinha. sem nenhum paradoxo. a Weltliteratur não se refere apenas ao que é genericamente comum e humano: antes considera que a humanidade é o produto das relações frutuosas entre os seus membros. como se se tratasse de um programa político: o propósito cosmopolita consiste em reafirmar. seria de um só golpe a realização e a supressão da própria noção de Weltliteratur. que apresento nesta formulação decerto precária. ou causar estranheza pelo desuso: o melhor bem? o bem comum? o bem supremo? E.

em termos menos circulares. Não um espaço superior e restrito. para onde alguns poucos afortunados são cooptados. aquele que não pode deixar de ser reconhecido e não pode deixar de se reconhecer como estrangeiro. o que se aproxima da literatura animado da convicção de que o propósito cosmopolita é inerente à noção de literatura – um propósito constitutivo da literatura moderna. Nos estudos literários. antes porque a caracteriza a hospitalidade incondicional. mais restritos e nada essenciais – mas o espaço que se abstém de limitar e impor condições à entrada e estada do estrangeiro. pela Unesco ou pelo sucesso comercial. não um espaço homogéneo. sem fronteiras nem conflitos.Ideia de literatura brasileira com propósito cosmopolita 67 moderna de literatura. não um espaço essencial de onde derivem e se deduzam todos os espaços. e designadamente dele espera a responsabilidade de circunscrever ele próprio a sua incompreensão e a sua ignorância. o propósito cosmopolita define o princípio teórico e político que nos orienta a aproximação a qualquer texto com a ideia de que o que há de nobre e de emancipador na noção de literatura é o que nos anima a pressupor que cada texto foi escrito na previsão do estrangeiro que um dia o virá a ler e estará à altura de o ler precisamente na medida em que for capaz de circunscrever os limites da própria incompreensão sem perder de vista o privilégio de habitar a mesma casa. Decerto é quase de tra- . onde o espírito vagueia livre. Essa concepção da literatura poderia receber outro nome – tradução –. universal. não fosse o traço decisivo do carácter incondicional da hospitalidade. O fundamento da hospitalidade não é a natureza humana nem alguma ideia genérica de humanidade. que é a mesma não porque seja desde sempre e essencialmente a mesma. mas uma ideia de literatura definida precisamente pelo propósito cosmopolita: digamos que o ensaio de propósito cosmopolita é o que se aproxima da literatura presumindo que o que a constitui é o propósito cosmopolita! Ou. formando alguma espécie de cânone supranacional ou literatura internacional. a concepção visionária daquela felix culpa como abertura dum espaço de hospitalidade incondicional.

como se compreende. tensões não obstante as unidades. mas nunca opera o transporte unívoco de um conteúdo prévio – e por isso a hospitalidade é incondicional. o bem comum é o da literatura e da partilha da literatura. há um exemplo de . de estada e exercício da hospitalidade sem condições. e nesse sentido. ou do que com tanta facilidade se chama “a mesma língua”. E não há razão para que essa ideia não seja válida no quadro da mesma língua. então. Como se o esperasse – e a melhor descrição de literatura é essa. 2009 dução que se trata. aliás. em que ela espera e depende do estrangeiro para se constituir –. A literatura é uma linha que passa entre esses dois polos. somos sempre estrangeiros diante de qualquer obra de literatura. Nas relações ou nos primórdios das relações entre a literatura portuguesa e a brasileira.68 Revista Brasileira de Literatura Comparada. ser esta: faz de quem dela se aproxima um estrangeiro e pelo mesmo gesto oferece-lhe todas as condições para que se instale à vontade. O espírito é o espírito da hospitalidade. força que cria unidades além deles e tensões por causa deles: unidades apesar das tensões. 3. ou quando fala a nossa língua. A definição de literatura podia. que a literatura unisse o que a língua separa. quanto o nacionalismo da língua cioso do núcleo essencial insusceptível de tradução.15. de cruzamento. n. A língua. A ideia da literatura como hospitalidade incondicional recusa tanto o universalismo como morada última que apaga todas as línguas. mas passando entre os polos extremos que a definem: a tradução visa necessariamente à inteligibilidade sem restos – e por isso a hospitalidade é possível –. que a literatura se constituísse morada de encontro. desde sempre destinando-se ao mundo. eis justamente o que separa: porque é a língua que permite reconhecer o estrangeiro como estrangeiro e sobretudo quando fala a mesma língua. O sonho emancipador aqui seria.

I.6 Este texto. e retomado nos Opúsculos (Herculano. o primeiro traço que distingue a carta é que Herculano. 25 et seq. o de Alexandre Herculano. 7 propósito cosmopolita pouco conhecido. e a carta merece um estudo demorado que. de que nesta nossa época o poema épico seja possível na Europa. Herculano publicara um ensaio a propósito dos Primeiros cantos de Gonçalves Dias. 2005. 1986. e surgiria apenas em 1947. tanto quanto sei. Não é imediatamente perceptível o que faz o “estrangeiro” na análise de Herculano. Herculano. Datada de 6 de dezembro de 1856. invocando-a até como fundamento da incredulidade que fere a capacidade crítica: estrangeiro. Pedro II lhe pedira. Pedro II sobre A Confederação dos Tamoios. 213). que viria a ser incluído. 199-204). Duvido também de que um estrangeiro possa avaliar sob todos os aspectos uma composição de semelhante natureza (Herculano. tornando-se por isso relativa em vez de absoluta. M. Anos antes.ª edição dos Cantos. 1986. que se ergue para criar o novo. a pedido do próprio Herculano. em 1947. . pela mão de Alcindo Sodré. trata das consequências para a literatura portuguesa do aparecimento da brasileira. embaraçando o velho decrépito. estranhará talvez que eu comece por uma declaração de incredulidade que prejudica a crítica especial do poema ou pelo menos a subordina a considerações superiores.7 Ora. a servir de prólogo. atolado no passado. define com outra palavra a sua condição relativa à nação brasileira. no Anuário do Museu Imperial. Um ensaio escrito por um português – e que o assume expressamente. 1986. de Gonçalves de Magalhães. permaneceu inédita. na 2. Herculano escreveu uma longa carta a D. 212-221). o Brasil. para dar a opinião sobre o poema que D. p. e mais ainda que o seja na América. Escreve Herculano: V.).Ideia de literatura brasileira com propósito cosmopolita 69 Trata-se de “Futuro literário de Portugal e do Brasil”. 6 Permito-me remeter o leitor interessado para o comentário deste ensaio de Herculano que apresento em O livro agreste (Baptista. originalmente publicado na Revista Universal Lisbonense. Duvido. Hoje pode ler-se no volume da edição crítica dos Opúsculos dedicado aos assuntos de literatura (v. p. p. e muito. mais do que da poesia de Gonçalves Dias: é um ensaio centrado na metáfora do jovem. p. ainda não teve. porém. Portugal.

e o que se tornou nacional é indigno da epopeia. 2009 Limito-me aqui a observações rápidas que me conduzem ao meu ponto. razão fundamental por que “a poesia é hoje quase exclusivamente lírica e dramática”. O Brasil é um império novo. mas os brasileiros são apenas europeus na América. apresenta certa especificidade que Herculano também não negligencia: diz ele que as eras heroicas e as gerações épicas do Brasil seriam as do primitivo Portugal. E o Brasil. sob todos os aspectos. a sua civilização o mesmo que a nossa? Não se confunde a classe média do Brasil com a classe média da Europa. o que seria adequado à epopeia não é nacional. sei de certo é que ele não poderia vencer a desarmonia do espírito público. 1986. 215). que se sobrepõem às condições actuais em que o poeta eventualmente o tenta. a nacionalidade brasileira não pode encontrar nos índios um substituto para os primitivos portugueses: aqueles [chefes índios] que se conservaram fiéis às tradições da pátria americana não têm identidade nem unidade nacional com os brasileiros de hoje. Desde logo.15. considera-a Herculano insuperável: Duvido que o génio pudesse vencer estas repugnâncias. não constituísse hoje duas nacionalidades distintas” (Herculano. porém. 1986. 215). entretanto. Em suma. Esta dificuldade. o “estrangeiro” não está onde se esperava. e os que traíram os interesses da sua gente e a religião dos seus antepassados para se aliarem com os conquistadores.70 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Herculano reputa impossível a epopeia – e sublinha que nenhum dos “sumos poetas contemporâneos” a tentou – em virtude das próprias exigências do género. p. p. Claro que o argumento envolve um juízo sobre essas condições que não se confunde com a noção das exigências do género: “a nossa geração não é épica”. O que. a um tempo . Por outro lado. são. n. Não é. uma completa negação da generosidade e do heroísmo da epopeia (Herculano. poeticamente considerados. “se uma raça outrora única. porque as reputo insuperáveis.

recai aí a outra dúvida de que no princípio falei a V. há locuções que num país se tornaram plebeias. e que noutro são elevadas ou pelo menos toleráveis (Herculano. o próprio exercício do juízo havia de mantê-lo na mesma casa daqueles que escreveriam essa epopeia. O aspecto decisivo é que. Isto não é o mesmo que dizer que a originalidade do Brasil está de antemão subordinada pela consideração das exigências do género épico: é. ou havia de trazer estes para a casa em que ele os avaliasse – ou seja. E sublinhe-se. o mesmo que dizer que desta não decorre nenhuma barreira que relativize ou desqualifique o juízo como juízo de estrangeiro. que seria impossível aqui? (Herculano. 1986. 218). mas justamente de a considerar e estar convicto de que a pode descrever com exactidão no que à epopeia diz respeito. que o juízo de Herculano sobre a epopeia não depende de ele ignorar ou recusar a originalidade brasileira. então. Escreve Herculano: Pelo que respeita às formas externas do poema. 1986. nesse juízo. Seguem-se exemplos de frases que a um ouvinte português pareceriam “baixas e triviais”. Embora a língua seja idêntica entre dois povos. M. Onde se constitui. a verdade descritiva de um poema? Creio que não. as comparações. I. a barreira que define o estrangeiro? Aí deparamos com a surpresa: a barreira é a própria língua. Pode sempre o estrangeiro avaliar bem a frase. p. podendo não o ser para um brasileiro: exemplos de como Herculano. por causa disto ou daquilo. ainda que Herculano defendesse que a epopeia seria possível no Brasil. a consideração da originalidade do Brasil não faria de Herculano um estrangeiro. 215) Sublinhe-se que o “aqui” é a Europa.Ideia de literatura brasileira com propósito cosmopolita 71 ardente nas suas paixões e céptica e fria nas suas opiniões e ideias? Como estabelecer aí uma harmonia entre o poeta épico e o público. acima de tudo. antes. não apenas Portugal. nesse . Desde logo na diferença de estilos. p. antipoéticas.

considera o seu juízo “portanto. a avaliação da epopeia defronta-se com a barreira da língua. incompetente”. quando é a mesma ou quando se presume a mesma. p. p. coisas em que a crítica da Europa e a da América tem de concordar. 1986. Delimitar a barreira. n. é decorrente da estipulação de uma unidade prioritária: “Há. que forma o propósito cosmopolita. Herculano não precisa proceder a uma expedição etnográfica para responder à solicitação de Pedro II: chega-lhe o conhecimento da possibilidade de a mesma palavra não ser a mesma palavra. que. das imperfeições de metro. nem condução do reconhecimento da diferença à renúncia a um princípio de avaliação inerente ao próprio género e portanto independente das particularidades locais. É isto. nem fazer alastrar a incompetência à negação do juízo inteiro.15. apesar de transnacional. circunscrever a área de incompetência e ponderar o conjunto: a própria definição da crítica podia ser dada nesta tríade. É acerca dos prosaísmos. Outro aspecto. 218). se torna nacional. . Herculano não postula sequer a unidade poética da língua – como não postula nenhum princípio de relativização poética em função da diferença linguística. porém. Contudo. é também o que separa e o que pode separar sem deixar marca. Justamente a unidade poética do género circunscreve a área de incompetência ao mesmo tempo que a subordina: nem defesa da unidade intemporal e transnacional da língua para efeitos de epopeia. E não precisa rever a noção de epopeia. o paradigma do propósito cosmopolita na avaliação literária. 1986.72 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Numa palavra. creio. todavia. as comparações: “Das comparações tiradas de entidades privativas da América ainda a crítica da Europa está menos habilitada para ajuizar” (Herculano. 2009 particular. A língua deixa o estrangeiro à porta: sendo a mesma. O que cabe no seu propósito é não deixar que o juízo se torne absoluto quando tem áreas de incompetência. das incorrecções gramaticais” (Herculano. já de antemão aberta à possibilidade da diferença local. 219). A incompetência.

Já a repetição de Denis pelo grupo da Niterói inaugurou a ideia de literatura brasileira do ponto de vista brasileiro. subordinada a uma ideia de Brasil. não há literatura moderna sem incompetência declarada do estrangeiro: é nela que se decide a possibilidade de a literatura se erguer acima das condições particulares em que surge. Alexandre Herculano não foi apenas certeiro nas apreciações contidas na carta. no seu Resumé. Repegando a antinomia de início. O reconhecimento da diferença local é inerente. ao propósito cosmopolita. Ferdinand Denis. deve ter sido o primeiro a expor uma ideia de literatura brasileira do ponto de vista cosmopolita. Mais radicalmente. não no sentido superficial de ter . A própria dependência da noção de literatura nacional em que Herculano escreve as suas apreciações do poema de Gonçalves Magalhães comprova que o propósito cosmopolita se caracteriza pela dependência de uma noção de literatura capaz de tornar globalmente partilhável a própria ideia de enraizamento no local nacional. É na incompetência reconhecida mas circunscrita do estrangeiro que a literatura finalmente se cumpre como literatura. e aliás nem haveria necessidade de propósito cosmopolita sem reconhecimento da diferença. mas deixou eloquente exemplo de crítica literária em que o propósito cosmopolita nem sequer é incompatível com a instigação à “nacionalização” da poesia do Brasil. O caso particular da Confederação dos Tamoios atesta-o bem. já enfaticamente presente no ensaio sobre Gonçalves Dias. E isto é válido ainda quando a literatura se define sobretudo como assunto nacional. quer dizer. de enraizamento. antigas ou modernas. subordinada a uma ideia de literatura. quer dizer. Gonçalves de Magalhães interiorizou Denis. é o reconhecimento da estabilidade e da transportabilidade das formas diante das modalidades de apropriação. de particularização. por isso.Ideia de literatura brasileira com propósito cosmopolita 73 O propósito cosmopolita é a voluntária subordinação a alguma noção de literatura pela comunidade dos que se reclamam dela: é a aceitação da impossibilidade de nacionalização plena das formas literárias.

p.15. que Franchetti identifica. 2009 assimilado a lição do estrangeiro. os dois postulados básicos de Magalhães. a força com que a natureza da terra guiaria a transformação completa da literatura em literatura plenamente brasileira. determina a literatura consciente ou inconscientemente e de modo distintivo. o segundo diz que “os temas. 2006. a saber: a) a confusão que dissolve toda e qualquer diferenciação literária em “carácter nacional” e a redução de todos os factores de diferenciação a um único. estruturou-se um dispositivo anticosmopolita de equívocos. Num trabalho recente. Apesar da adopção da França como matriz cultural. aquele em que “tomava consciência da sua especificidade e se constituía plenamente como nação”. E de facto. mas no mais decisivo de ter tornado doméstico o que era cosmopolita. as formas e as técnicas da literatura europeia se não obstruem. isto é. E pôde fazê-lo precisamente porque essa ideia era cosmopolita e se oferecia com a generosidade de quem trabalha para o bem comum. Paulo Franchetti mostrou como o programa literário de Magalhães depende da ideia de que o Brasil estaria num segundo momento da sua história. n. em nome das ideias de liberdade e de universalidade. sendo por virtude dessa influência uma inevitabilidade. . 121 et seq.74 Revista Brasileira de Literatura Comparada. desde aí. de ter tornado dependente de uma pátria o que em si mesmo não tinha pátria – uma ideia de literatura. p. a influência da realidade local. estruturam claramente uma posição anticosmopolita: o primeiro é o do “instinto oculto”.). para o ideal partilhável de uma literatura moderna formada pela livre agremiação das particularidades expressas em literaturas nacionais. 115). coincidissem num “gesto de afirmação nacional e política da nova nação” (Franchetti. que definem o romantismo de Magalhães. Daí que a oposição antilusitana e anticlássica. b) a crença em que a representação da realidade local. 2006. ao menos dificultam a expressão do caráter nacional na produção letrada do país”. Franchetti mostra de forma convincente como a articulação desses postulados determinou decisivamente a historiografia e a crítica literária posterior (Franchetti.

com a própria nacionalidade da literatura. a crença num processo contínuo e irreversível – “instinto oculto”. do que está antes da literatura e que logo transforma o universal em mero repertório de temas e formas: é uma figura da oposição da realidade à literatura e da subordinação da literatura pelas representações naturalizadas da realidade. tornam-se polos em tensão de um mesmo processo da literatura em direcção ao nacional. em direcção a uma etapa final de nacionalização definida pela harmonia entre literatura e terra. cultura e nação. consoante os vocabulários –.Ideia de literatura brasileira com propósito cosmopolita 75 c) a confusão do local com o nacional. Mas a oposição do local ao universal é sobretudo um instrumento do projecto de circunscrição nacional da literatura. literatura e sociedade. modernidade artística e modernidade social. o processo pelo qual a nação se revela a si mesma pela sua literatura. f) enfim. Nesse sentido. a oposição do local ao universal sobrevive por meio da oposição do consciente ao inconsciente e do voluntário ao involuntário: aqueles escritores que se distanciam do projecto de nacionalização da lite- . Daí o efeito decisivo da sua persistência: local e universal. a do propósito cosmopolita com o pendor para o universal. O sintoma desse dispositivo de equívocos é a persistente oposição entre o local e o universal. “tradição afortunada” ou “formação”. facilita outra confusão. que já Machado denunciou. na narrativa da “formação”. mostrando que querer ostentar certa cor local e querer tornar nacional uma literatura não são projectos necessariamente coincidentes. cuja fortuna brasileira decorre do obscurecimento da diferença entre a noção de literatura como projecção subordinada a um ideal cosmopolita de literatura e a noção de literatura como projecto subordinado a um ideal nacional de país construindo-se dotado de literatura “própria”. A estipulação do local por oposição ao universal representa sempre o privilégio do local. Nesse preciso ponto. quaisquer que sejam as formas com que historicamente se reedita. d) a confusão do projecto de construção de uma literatura nacional. projecto de afirmação política e de natureza prescritiva. etc.

porém. o incontornável ponto de crise do paradigma hegemónico de autorrepresentação da literatura brasileira. por nele ser harmoniosamente integrados. de domínio de uma doxa interpretativa inimiga da diferença cosmopolita: confundindo o cosmopolita com o universal. projectando-se para um horizonte indeterminado no tempo e no espaço. dissolve-o num processo que não admite exterior. de um modo ou de outro. Desde logo. Acresce que qualquer dessas ideias acaba por tornar manifesto que o propósito final de uma e outra é subordinar a inteligibilidade e avaliação da obra machadiana à possibilidade de certa comunidade que se designa como brasileira a declarar “inteiramente brasileira”. o mesmo é dizer. Mas. . Mas como ler Machado sem levar em conta esse ideal. Daí que Machado de Assis seja o óbvio. É impossível ignorar que o ideal de entendimento universal inerente ao sonho emancipador da literatura moderna ruiu há muito. a ausência conspícua de empenhamento no local desafia a imaginação e acaba por torná-lo prisioneiro inevitável da ideia do “nacional mais profundo” ou do “nacional inconsciente”. onde não há efectiva alternativa para o nacional. 2009 ratura brasileira ou lhe permanecem indiferentes acabam. quer dizer. onde não há lugar para o estrangeiro. exigindo. 4. ambas destinadas a bloquear a possibilidade de leitura cosmopolita da obra machadiana.15. esquecendo-o ou desprezando-o? Também não é possível. ou como nacionalistas involuntários ou como cultores de nacionalismo literário “mais profundo”. Eis como a oposição entre local e universal se revela instrumento de poder. não apenas porque a obra machadiana se estruturou e destinou no âmbito definido por esse ideal.76 Revista Brasileira de Literatura Comparada. mas ainda porque é a esse mesmo ideal que a grandeza de Machado remete o leitor cosmopolita. há sempre uma linha de fuga por meio da qual Machado se torna escritor sem pátria. a sua reformulação. n. tarde ou cedo.

1995. se inseriu nesse processo. e quando precisa. o fragmentário”. 26). o incompleto. acaba explicando que se tratava de uma forma de manter na segunda metade do século XIX “o tom caprichoso” de Sterne e de criar algum eco do “conte philosophique à maneira de Voltaire” (Candido. logo a seguir. notando que o escritor “cultivou livremente o elíptico. quase 10 anos depois da Formação. limitando-o ao processo da “formação da literatura brasileira”: está a recusar o ponto de vista cosmopolita. 117-118). precisamente porque estipula que a inteligibilidade e a originalidade de Machado decorrem do modo como ele próprio. Nessa descrição. Quando. 2. p. dir-se-ia que o mesmo Antonio Candido se muda para o lado adverso. no realismo sadio e colorido de Manuel Antônio de Almeida. Antonio Candido não está apenas a situar Machado no quadro nacional. depois disso. que Machado “pressupõe a existência dos predecessores. isto é. que as descrições comparativas da página seguinte. em vez dos nomes de . p. na vocação analítica de José de Alencar”. na Formação da literatura brasileira. de definitivo. Já não se estranhará. que compreendeu o que havia de certo.Ideia de literatura brasileira com propósito cosmopolita 77 Veja-se o exemplo de Antonio Candido. Depois de dizer que “o que primeiro chama a atenção do crítico na ficção de Machado de Assis é a despreocupação com as modas dominantes e o aparente arcaísmo da técnica”. 1981. o cosmopolita. v. “altamente consciente”. do seu alheamento das modas literárias de Portugal e França” (Candido. que a “sua linha evolutiva mostra o escritor altamente consciente. a “formação” de Machado como escritor decorre essencialmente em ambiente doméstico e o estrangeiro não é mencionado senão para sublinhar o alheamento e recusa que o excluem do processo. na orientação de Macedo para a descrição de costumes. escreve que Machado “se embebeu meticulosamente da obra dos predecessores”. Já quando fala de Machado nas Universidades da Flórida e do Wisconsin. e esta é uma das razões da sua grandeza” e “o segredo da sua independência em relação aos contemporâneos europeus.

Decerto Antonio Candido. a da Formação. convoquem Kafka. Proust ou Faulkner. no “Esquema”. Candido oferece duas descrições incompatíveis. digamos assim. que consiste em procurar tornar inteligível e apreciável um escritor a quem quer que se interesse por escritores e literatura. que o primeiro valoriza o local. diante da sua obra. o que Candido faz não é diluir a originalidade de Machado de Assis tornando-o aceitável ou tolerável pelo estrangeiro ignorante das coisas brasileiras. seja Sterne ou Voltaire. não teria duvidado de que o seu auditório na Flórida ou no Wisconsin havia de permanecer razoavelmente indiferente se ele insistisse em explicar-lhes que a grandeza de Machado decorre de ter estudado Macedo e superado Alencar: não porque os desconhecesse. que o dá consciente dos predecessores e a querer superá-lo. e por isso é aí que a incompatibilidade entre as duas perspectivas salta inexorável. Gide. É aí que o propósito cosmopolita pode actuar. deveríamos interpretar a diferença do segundo ensaio à luz de um princípio de filantropia literária. o segundo. mas porque o protagonista dessa explicação não seria nenhum deles. Como quer que seja. Em vez disso. O segundo Candido é melhor ou pior do que o primeiro? Dir-se-á que se complementam. nem sequer Machado. a do romance europeu e da noção de literatura que representa. em fazer que o estrangeiro. ou seja. porém. crítico inteligente e informado. o universal. Para o mesmo fenómeno – a distância de Machado das “modas literárias” do seu tempo –. não depare com nenhuma barreira que torne absoluta a sua condição de estrangeiro. n. e este não admite o outro.78 Revista Brasileira de Literatura Comparada. 2009 Alencar ou Macedo. Dostoiévski. seria a narrativa da “formação da literatura brasileira” – a narrativa que precisamente os constitui estrangeiros diante de Machado. nem valorizar o universal em detrimento estratégico do local: generosamente. Candido não apela a nomes familiares. A verdade. mas a uma tradição comum. polos necessários de qualquer descrição rigorosa da obra machadiana. e a do “Esquema”.15. que o dá a recu- . etc. é que o segundo Candido não tem lugar para o primeiro.

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perar uma linha do romance europeu que essas “modas” interromperam: a primeira desenha uma linha contínua, a segunda refere uma linha quebrada; a primeira postula uma evolução irreversível, a segunda acredita no resgate do anacrónico; a primeira está claramente circunscrita ao espaço nacional, como se essa linha contínua e irreversível se desenrolasse num compartimento estanque, ao passo que a segunda requer um espaço difuso de trocas e influências, não determinado nacionalmente. E, em cima de tudo, a primeira requer o conhecimento do processo da “formação” como condição da inteligibilidade de Machado, a segunda não só o dispensa como torna Machado um romancista muito mais relevante porque capaz de actuar criticamente sobre a tradição e a actualidade da situação literária europeia. A diferença em nada depende da oposição entre local e universal: em nenhum dos casos Machado é descrito pelo penchant para o universal ou para o local, é antes a mesma característica – o alheamento das “modas literárias” europeias – que num caso se define dotada de conteúdo nacional e no outro desprovida dele. A diferença entre os dois Machados é gerada pela diferença entre duas atitudes diante da situação e da tradição literária europeia, e na verdade expressão eloquente da diferença entre dois Candidos: o Antonio Candido da Formação é o crítico comprometido com a nação, empenhado em entregar aos brasileiros um Machado que os represente, por numerosos e sofisticados que sejam os mediadores dessa representação, enquanto o Antonio Candido do “Esquema” é o crítico comprometido com a literatura, na busca de um Machado que o estrangeiro possa chamar seu sem que o brasileiro se sinta espoliado.

5.
Que o primeiro Candido não pode desenvolver-se sem erradicar o segundo, e que o segundo apenas emerge na condição de destruir pressupostos básicos do paradigma crí-

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Revista Brasileira de Literatura Comparada, n.15, 2009

tico do primeiro – eis o que curiosamente se comprova com a peça final do edifício machadiano de Roberto Schwarz, o ensaio “Leituras em competição”: os dois géneros que Schwarz delimita, a “leitura nacional” e a “leitura internacional”, encontram afinal no próprio Antonio Candido exemplar praticante, senão mesmo o primeiro. De facto, para Schwarz, a “crítica internacional” define-se por ler Machado sem considerar a relação com a nação brasileira, mais propriamente, “crítica internacional” é toda a que se não ocupa de esclarecer a relação entre o carácter inconfundível da ficção machadiana e o carácter inconfundível da nação brasileira. Em contrapartida, “crítica nacional” não é a que se faz no Brasil, ainda menos a que é feita por brasileiros, mas a que tem nessa relação com a nação o centro de gravidade dos seus esforços, e que aliás Schwarz descreve ainda segundo o modelo da linha contínua, em progresso irreversível na direcção de uma meta, que se presume tenha sido atingida pelo desenhador da linha, seu principal praticante e intérprete, o mesmo Schwarz. Nenhuma surpresa, aliás. Isso basta para perceber por que motivo a “leitura nacional” é sempre referida no singular, ao passo que se sugere que a internacional poderia receber a designação alternativa de “várias não-nacionais” (Schwarz, 2006, p. 64). O ensaio é, na verdade, uma reacção a certa resenha publicada em Nova York e que, sem agressividade mas com assinalável contundência, danifica o sentido global do trabalho de Schwarz. Trata-se de “Master among the ruins”, de Michael Wood, professor de Princeton, que a New York Review of Books publicou por ocasião da publicação de novas traduções de Machado para inglês. Schwarz refere-se expressamente ao artigo, classifica-o de “resenha abrangente e consagradora do romance machadiano”, sublinha que apresenta questões difíceis e incontornáveis que definem a cena do debate entre a “leitura nacional” e a “leitura internacional”, e refere, numa proposição intercalada, quase despercebida, que Michael Wood “leva em conta a crítica brasileira”. Ora, sendo certo que a

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V. Wood, 2002. As novas traduções, publicadas pela Oxford University Press, incluem Memórias póstumas de Brás Cubas (1997) e Quincas Borba (1998), ambos por Gregory Rabassa, Dom Casmurro (1997), por John Gledson, e Esaú e Jacó (2000), por Elizabeth Powe. Outro livro incluído no rol dos resenhados é Machado de Assis: reflections on a Brazilian master writer (1999), organizado por Richard Graham, e que inclui contribuições de, entre outros, John Gledson e João Adolfo Hansen. Mas o ensaio efectivamente avaliado pela resenha é o de Schwarz.
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resenha dedica boa parte do seu espaço ao conjunto dos romances machadianos da segunda fase, não deixa de ser também uma resenha crítica da tradução inglesa do livro de Schwarz, Um mestre na periferia do capitalismo: e é essa a forma, porque não se encontra outra, de “levar em conta a crítica brasileira”.8 Para dizer logo tudo, aquilo que Schwarz apresenta sob a égide da distinção entre “leitura nacional” e “leitura internacional” são elaborações em resposta a observações críticas que Michael Wood coloca ao trabalho crítico de Roberto Schwarz, mais precisamente uma restrição fundamental, como já veremos. Por que então graduá-las em interpelação crítica da “leitura nacional”? Claro, já o deixei dito atrás, Schwarz considera-se o terminus ad quem de uma linha de leitura que, lenta mas progressivamente, devolveu o verdadeiro Machado ao Brasil, resgatando-o de décadas de fortuna crítica irrelevante. Mas há mais em jogo: na exacta medida em que a restrição de Wood não é periférica, nem acessória, mas fundamental, Schwarz não pode reparar o dano causado senão radicalizando a noção de “leitura nacional” ao ponto de fazer dela uma barreira preservativa contra o estrangeiro. Aí se confirma, então, e em pleno, como a ideia cosmopolita, indo além da oposição entre universal e local, é a única à altura da exigência de liberdade e de inteligência que a obra de Machado coloca aos leitores. Para o compreender, retenhamos a passagem em que Schwarz se refere à resenha:
A certa altura do seu ensaio, Wood, que leva em conta a crítica brasileira, propõe uma dissociação sutil. As relações com a vida local podem existir, tais como apontadas, sem entretanto esclarecer a ‘maestria e modernidade’ do escritor. Ou, noutro passo: seria preciso interessar-se pela realidade brasileira para apreciar a qualidade da ficção machadiana? Ou ainda, a peculiaridade de uma relação de classe, mesmo que fascinante para o historiador, não será ‘um tópico demasiado monótono para dar conta de uma obra-prima?’ (Schwarz, 2006, p. 64).

que lhe dá a importância decisiva que obrigou à reacção de Roberto Schwarz. reitera Brás Cubas: “O que faz do meu Brás Cubas um autor particular é o que ele chama ‘rabugens de pessimismo’.82 Revista Brasileira de Literatura Comparada. se cómico? Ora. mas são formuladas na dependência dessa consideração crítica. quando. e que seria. ou melhor. mas ainda assim pouco relevante. logo a seguir: “Schwarz himself is clearly alert to the fun. E é depois disso que Michael Wood formula as interrogações que Schwarz cita e parafraseia. 2002). um sentimento amargo e áspero. não se trata esta de uma pergunta qualquer. já agora parafraseando Brás Cubas: por que cómico. se sombrio. O que se perde na paráfrase? Decerto a noção de que Wood pressente um crítico severo e carrancudo. n. mas também não é inteiramente fiel à resenha. But his thesis is a little grim and unrelieved. ecoa as palavras de Machado no prólogo da 4.” A observação. que toca o cómico para o dissolver numa tese monótona. Com efeito. por mais risonho que pareça. 2009 Não é uma paráfrase inteiramente falsa. respondendo a Capristano de Abreu e Macedo Soares. essas observações e perguntas encontram-se no texto de Wood. o conteúdo dela e a especificidade da pergunta implícita na observação crítica. Em primeiro lugar. Além disso. and writes repeatedly of the work’s comical and farcical effects.” O passo é muito conhe- . de resto inteiramente certeira.ª edição. que Schwarz oblitera: “What Schwarz´s book doesn’t tell us is why the novel [Memórias póstumas de Brás Cubas] is so funny as well as so bleak. no contexto da resenha de confronto do ensaio de Schwarz com a obra de Machado. even when the subject is not slavery” (Wood. e é a sua colocação diante da obra de Machado e diante do ensaio de Schwarz. que está longe de vir dos seus modelos. por que sombrio. Há na alma deste livro. Perde-se sobretudo a direcção do comentário de Wood.15. ecoa nessa pergunta a questão de Brás Cubas perante o próprio livro: é a questão das rabugens de pessimismo e da possibilidade de a partir delas se distinguir a forma livre tal como praticada pelo autor defunto. Seria interessante. completa-se com esta outra.

pode dizer-se que não há leitor competente que não saia da leitura colocando essa pergunta.9 mas é. muito in- . para o que agora nos interessa. 2003. se cómico? Em segundo lugar. o romancista foi transformado de fenómeno solitário e inexplicável em continuador crítico e coroamento da tradição literária local”. em “idealizador de formas sob medida. se. entre a forma livre e a filosofia. cansados de tanta apropriação historicista e sociologizante. o lugar primordial. crucial para entender a relação de Machado com a figura de Brás Cubas. inusitada. e a colocação provavelmente decide a competência de qualquer leitor: por que cómico. Se levarmos a sério a narrativa de Schwarz da “leitura nacional”. 331-337). capazes de dar figura inteligente aos descompassos históricos da sociedade brasileira” – então. ao menos para o crítico americano. sobretudo. redunda em dizer: “Sim. galgaram o século e foram impelir um espírito americano desocupado a reformular a pergunta de sempre: como que a usá-lo para nos trazer a todos de volta ao decisivo. onde se decide a originalidade das Memórias póstumas de Brás Cubas: e justamente na ligação. A resenha. e a textura do romance machadiano foram vistas como formalização artística de aspectos peculiares à ex-colônia”. aliás. p. a escravidão. Hoje. as elites. pois. desde a recusa do “clássico nacional anódino” à deslocação do centro para “o processamento literário da realidade imediata”. retivermos a conclusão de que “passo a passo. todo esse processo é inteiramente irrelevante: não lhe resolve o problema da originalidade tal como o recebe da leitura do romance e tampouco o substitui por outro.Ideia de literatura brasileira com propósito cosmopolita 83 Permito-me remeter o leitor interessado para a análise deste prólogo que levo a cabo em Autobibliografias (Baptista. Dir-se-ia que Brás Cubas e Machado. de resto. se considerarmos que a meta intermédia desse processo em curso é descrita como etapa em que “a composição. sim. por que sombrio. a cadência. se sombrio. digamos assim. não se trata apenas de uma questão importante a que o livro de Schwarz não responde: é uma questão que o livro de Schwarz não consegue impedir que ressurja. a reiteração da questão do cómico só pode significar que. 9 cido e. enfim. no tom de generosidade intelectual e até de concordância complacente que assume.

. o crítico estranho toca numa tradição. e brandamente repreendendo-o. Produzir a verdadeira e exacta história da crítica machadiana. e então o crítico severo e carrancudo sai do recolhimento e explica. lendo-o. Talvez sem se aperceber disso. homogéneo e irreversível que Schwarz agora definitivamente lhe imprimiu. entrevistas ou resenhas. Justamente a necessidade de a armar . Mas a defesa tem a ambiguidade própria dos gestos em pleno desastre. como Schwarz. é o principal meio de defesa contra a crítica que a põe em causa: é o meio de mostrar ao elemento hostil a dimensão e a força daquilo em que está a tocar. trabalha dentro de um paradigma que se define a partir dessa narrativa: ser declarado desnecessário. mas afinal. fazendo o reparo de que não responde à questão do cómico sombrio. sobretudo sem a intenção delineadora de um processo. o procedimento de Schwarz consiste em formar e radicalizar a narrativa que percebe posta em causa por uma resenha que apenas implicava um livro. a bem dizer despiciendo. contínuo. dir-se-ia. Não era. aqui e ali. além de deprimente e monótono. porque cómico se sombrio. Dava-se dispersa. n. também chamada “leitura nacional”.84 Revista Brasileira de Literatura Comparada. porque sombrio se cómico?” Ora. mas um crítico e comparatista às voltas com a latitude do presente”: é o mesmo que dizer que esse crítico é alguém de fora e que está por fora. até. Não há nenhuma inocência na precisão com que Schwarz sublinha que Wood não é “especialista em Machado.15. Por quê? A razão é óbvia: para armar a defesa. num processo intelectual demorado – num país. diga-me. a essa narrativa que Wood colocava restrições. assim se defende. essa narrativa da evolução da crítica a que Schwarz procede não tinha ainda alcançado essa forma sintética e expressiva de narrativa teleológica. em passagens particulares. pois. estrangeiro que permanece duplamente no exterior: tocando num livro. Mas a consequência não podia deixar de ser precisamente essa para quem.. Por outras palavras. que nem tem ideia de que tal coisa pudesse ser inventada. irrelevante. nem brasilianista. 2009 teressante.

e americano de Princeton. no sentido diplomático do termo: cada um no seu território. recusa declarar que a posição de Roberto Schwarz é coerentemente incompatível com qualquer “leitura internacional” de Machado. como Schwarz a define. Daí a relevância de o estrangeiro não ser qualquer. para barrar o acesso do estrangeiro ao “nosso”. porque incapaz de entender tudo o que está em causa. para o estrangeiro que se interessa por Machado mas não se interessa pelo Brasil. propondo uma espécie de solução de compromisso em que o “leitor internacional” pudesse tornar-se o mais nacional possível e depois “proveitosamente voltar para casa e comparar”. Essa perspectiva. porque “a cor do passaporte e o local de residência dos críticos não são determinantes”. A precisão de que o “nacional” não tem de coincidir com o estrangeiro. 83). Machado foi mais uma vez traduzido para inglês. Não há lugar. 10 revela a vulnerabilidade da arma. mas americano. a força e capacidade de atrair os outros ao espaço doméstico e principalmente representa . pela restrição das possibilidades da “internacional”. e o “leitor nacional” tivesse um “toque de comparação extranacional” (Wood. O estrangeiro que se integrou na “leitura nacional” representa o êxito do paradigma nacional. há alguma eficácia argumentativa10 e até política: sempre se deu mais um passo para delimitar o “nosso” por oposição ao alheio. ocupando-o e governando-o legitimamente. com a dimensão emancipadora e a liberdade intelectual que lhe são inerentes. p. se a “leitura nacional” se definir. ao cabo. Esse compromisso redunda em “coexistência pacífica”. criando por si só um estado de crise em todo o edifício da “leitura nacional”: esse estrangeiro representa um poder que suplanta as narrativas teleológicas para consumo doméstico. Não apenas a contundência da restrição que formula é inexorável. em particular. Essa condição é inconcebível para Schwarz. Na medida em que se trata de impor uma barreira que deixa o estrangeiro à porta. a sua fortuna no mundo de língua inglesa pode aumentar – o que implica inevitavelmente a desgraça da “leitura nacional”. nessa distinção. Mas precariamente. 2009). denuncia o carácter profundamente anticosmopolita e discriminatório da distinção: o estrangeiro que se integra no nacional é tão-só o que se sujeita às regras que definem o nacional. 2009. sem prejuízo de aprenderem ou receberem alguma coisa um do outro. A defesa aberta da superioridade da “leitura nacional” é o melhor testemunho da incompatibilidade das interpretações centradas no problema nacional com a noção moderna de literatura e. porque a própria condição em que a defesa é armada e usada decorre já num cenário exterior ao nacional e em que o nacional como valor próprio não tem sentido.Ideia de literatura brasileira com propósito cosmopolita 85 Veja-se o modo complacente e um tanto defensivo como Michael Wood reagiu no artigo “Entre Paris e Itaguaí” (Wood.

ou é hospitaleira com muitíssimas condições: afinal. O estranho estrangeiro. A “leitura nacional” não é hospitaleira. como a questão da epopeia para Herculano. 1. no Rio ou em Nova York. do exterior ou do interior. Campinas: Unicamp. se sombrio. Referências AUERBACH. as paixões. A questão do cómico sombrio. 2009 uma promessa de viabilidade de domínio sobre todos os que se interessam e venham a interessar-se por Machado.86 Revista Brasileira de Literatura Comparada.15. ao ensino e à divulgação da obra machadiana: não tanto aqueles que ameaçam a nacionalidade de Machado. n. BAPTISTA. De um modo ou de outro. são exemplos disso. o inassimilável. Transl. os procedimentos e as razões daqueles que se dedicam à leitura. representa a total impossibilidade de governar os interesses. por que sombrio. Pressupõe o governo do texto como promessa de inteligibilidade e prazer que o texto dirige à inteligência e à paixão do estrangeiro. Daí que o propósito cosmopolita seja aquele que. . 2005. 13. n. Eric. by Mary and Edward Said. _____. winter 1969. O livro agreste. v. Abel Barros. alguma força requer dos leitores a formulação da mesma pergunta. mas aqueles que exemplificam que essa ameaça é não só inerente à obra machadiana como é por ela procurada desde o início. se cómico? Sem ignorar o espaço da sua incompetência. não abdica desse governo. não obstante. 2003. apenas aceita aqueles que derem garantias sólidas de não perturbarem a segurança interna. ou da ideia de certo governo: mas presume-o no texto mesmo de Machado. Autobibliografias. The Centennial Review. East Lensing. há um século ou hoje. a competência do leitor cosmopolita reside na capacidade de perceber a relevância e a urgência dessa pergunta e fazer apelo à hospitalidade incondicional. Philology and Weltliteratur. a que ecoa o espaço primordial da originalidade das Memórias póstumas: por que cómico. Campinas: Unicamp.

Entre Paris e Itaguaí. 6. Master among the ruins. Disponível em: <http://www. Novos Estudos Cebrap. n. v. São Paulo: Globo. n. Revista de Letras. Novos Estudos Cebrap. Paulo. Belo Horizonte: Itatiaia.marioprataonline.htm>. introdução e notas de Jorge Custódio e José Manuel Garcia. 2. São Paulo. Gonçalves de Magalhães e o Romantismo no Brasil. Esquema de Machado de Assis. mar. Formação da literatura brasileira. 75. 1993. n.com. In: _____. Michael. . ed. FRANCHETTI. 18/07/2002. SCHWARZ. Lisboa: Editorial Presença. WOOD. 2006. 2006. Schifaizfavoire – Dicionário de português. Antonio. br/obra/literatura/adulto/dicionario/framegranda_a. 46. Leituras em competição. V. 3. ed. São Paulo. 2009. Mário. HERCULANO. _____. São José do Rio Preto.Ideia de literatura brasileira com propósito cosmopolita 87 CANDIDO. Alexandre Herculano. Opúsculos. 1981. Organização. São Paulo: Duas Cidades. New York. 83. Vários escritos. dez. PRATA. jul. _____. 1986. 1995. Edição crítica. Roberto. The New York Review of Books.

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analyzing the relation between identity and alterity which is built-in. in two contemporary brazilian novels: Orfãos do Eldorado (2008) written by Milton Hatoum and Nove Noites (2001) by Bernardo Carvalho. in relation with a reference group which belongs to the occidental society model. Je crois que l’imaginaire a autant de réalité que le matériel Georges Duby et Guy Landreau. França. em relação a um grupo de referência que se inscreve no modelo da sociedade ocidental.89 O ameríndio como personagem do Outro na literatura brasileira contemporânea: órfãos do Eldorado e Nove noites Rita Olivieri-Godet* resumo: Este trabalho propõe-se a examinar a representação do ameríndio e a relação entre identidade e alteridade que lhe é consubstancial a partir da leitura de dois romances contemporâneos brasileiros: Orfãos do Eldorado (2008). questionando o lugar que ele ocupa no espaço nacional. A análise desses textos romanescos visa a discutir os elementos que fundamentam a figuração atual do ameríndio na literatura brasileira. amerindian. contemporary Brazilian lit- terature. de como instância de alteridade. abstract: This work aims at the exploration of such representation. scrutinizing the position that it occupies in the national space. palavras-chave: alteridade. The analysis of these novels will discuss some elements which form the basis of contemporary figurations of the Amerindian in the Brazilian literature. Dialogues Université Rennes 2. keywords: alterity. ameríndio. literatura brasileira contemporânea. * . These two stories choose the Amerindian as a subject of alterity.

abrindo-se a uma prática metadiscursiva que lhes permite fazer interagir criação. explorando uma geografia imaginária da diferença cultural. em mutação. a representação do ameríndio A esse respeito. mas antes de refletir sobre signos formais. Critiques anthropologiques A produção literária contemporânea. ver a obra de Janet M. 1991. que nos ajuda a organizar nosso pensamento crítico (Hutcheon. prêt à s’assujettir au regard et au traitement scientifique de l’observateur. 2004). quando se restringem ao espaço nacional.15. 2009 L ’Autre n’est pas un objet vide et indéterminé. Paterson (Paterson. Il s’articule sur ses propres déterminations et s’accompagne toujours de ce qu’on pourrait appeler ses attributs. 1 . Não se trata de procurar um invariante abstrato. crítica literária e teoria da cultura. Meus trabalhos mais recentes refletem sobre uma “poética da alteridade” como uma das modalidades da ficção contemporânea brasileira. comuns a um conjunto de textos que participam da prática literária contemporânea e que tendem a exacerbar a confrontação com a alteridade. uma regra ou uma lei. plurilinguístico e multicultural de nossas sociedades urbanas atuais. as narrativas que se inserem nessa poética da alteridade procuram alargar o imaginário nacional para além de suas fronteiras. E. ainda que esta vertente não se constitua numa exclusividade nacional (Godet. gerada num contexto multiétnico.1 Na dialética do “selvagem” e do “civilizado” que atravessa o processo de construção das identidades plurais e problemáticas das Américas.90 Revista Brasileira de Literatura Comparada. inaugura novas linhas de força temáticas e formais. n. o fazem para questionar o lugar que nele ocupa o “estrangeiro de dentro”. temáticos e estéticos. Assim. p. Utilizo o termo “poética” no sentido que lhe atribui Linda Hutcheon: uma estrutura teórica aberta. Francis Affergan. 32). 2007). como é o caso da representação do índio como instância de alteridade. Os mecanismos especiais que eles acionam para dizer nosso tempo induzem a uma espécie de arqueologia das culturas e da linguagem.

2 O questionamento da figuração do ameríndio como “estranho estrangeiro de dentro” ajuda-nos a compreender o lugar que as sociedades urbanas modernas reservam a esses povos. 1994). 3 ocupa um lugar central. “La poétique de l’altérité et la représentation de l’Amérindien dans la fiction des Amériques”. no qual imaginários “arcaicos” coexistem com imaginários planetários. de Bernardo Carvalho. atravessados por imaginários culturais diversos. . que a produção contemporânea não cessa de revisitar. e Nove noites (2001). no contexto atual de nossas sociedades. Este trabalho pretende explorar essa representação e a relação entre identidade e alteridade que lhe é consubstancial a partir da leitura de dois romances contemporâneos brasileiros: Órfãos do Eldorado (2008). autorizam certos críticos a postular a existência de um cenário mítico americano. 91 Sobre o assunto. A representação das relações identidade/alteridade a partir da escolha do ameríndio como personagem do Outro tem a ver com a experiência do espaço e a temática da errância. sem. 2 Num artigo ainda inédito. escamotear seus aspectos traumáticos. baseado no mito da renovação.3 Orfãos do Eldorado: a alteridade ameríndia entre mito e história A obra de Milton Hatoum interroga as formas de interagir com o outro que conduzem a processos de hibridismo.. Seus narradores investigam as construções identitárias do sujeito e da comunidade a partir do lugar fronteiriço que ocupam entre familiaridade e estranhamento. Esses elementos constitutivos dos textos fundadores das literaturas americanas. seria redutor se ater às questões de fronteiras culturais que os romances de Hatoum levantam sem considerar a relação com a experiência íntima da alteridade que elas implicam. ver a excelente introdução de Jean Morency à sua obra Le mythe américain dans les fictions d’Amérique (Morency. Essas questões atravessam a produção literária recente no Brasil e nas Américas. de Milton Hatoum. No entanto. cruzando experiência vivida e memória. examino a questão numa perspectiva comparatista que inclui romances quebequenses e argentinos.. no entanto.O ameríndio como personagem do Outro na literatura. que se articula sobre valores antitéticos entre espírito europeu e mundo selvagem americano.

“Em Manaus ainda hoje se encontram. sondando principalmente o lugar fronteiriço dos narradores. permitindo assim o alargamento a uma perspectiva subjetiva. recentemente publicado. que colocam em cena o diálogo entre o mundo amazônico e a imigração libanesa. no seio da sociedade amazonense. de uma forma muito mais ostensiva. Com a publicação de Orfãos do Eldorado.92 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Milton Hatoum continua a explorar as relações interculturais. tematizada no quarto romance do autor. o autor aproxima o mito amazônico da Cidade Encantada do mito do Eldorado para interrogar o diálogo entre as culturas ameríndia e ocidental. e terminam por ocupar um lugar cada vez mais central no universo fictício do autor. A narrativa segue a trilha das . escreve Hatoum. híbrida. e o presente do país natal. os restos da sociedade nativa entre ‘as roupagens civilizadoras’”. 2009 praticando a passagem da etnicidade ao estranhamento. sem cair na armadilha de um regionalismo redutor. examinando os efeitos de um projeto de modernidade. 2000). Presença constante. Desde o início de sua produção. circulando entre os espaços da cidade e da floresta. o imaginário ameríndio sempre fez parte do universo romanesco do escritor.15. construída a partir de múltiplas interações culturais entre as quais se destacam elementos da problemática coabitação entre a cultura tapuia e a modernidade transplantada. Relato de um certo Oriente (1989) e Dois irmãos (2000). mas discreta. Essa estratégia confere uma dimensão universal à obra do autor amazonense e possibilita explorar as várias facetas de uma região emblemática. sustentado pelas elites. A partir de Cinzas do norte (2005). dando destaque para a figura do ameríndio como instância da alteridade. marcado por referentes culturais libaneses. comentando cartas de Euclides da Cunha nas quais se refere a essa cidade (Hatoum. sobretudo nos seus dois primeiros romances. Cidade compósita. Em Orfãos do Eldorado (2008). situado entre dois mundos: a memória do passado herdado da família. os personagens pobres e explorados dos ameríndios se tornam mais visíveis. n.

urbano ou natural. Revisitando o percurso da infância à idade adulta. o relato de sua paixão por Dinaura e a reconstrução do passado de sua família têm como pano de fundo a história local (a guerra dos Cabanos) e mundial (as duas Grandes Guerras). 93 anteriores. ele recusa-se a idealizar a relação com a alteridade ameríndia. O lugar fronteiriço ocupado por Arminto permite explorar as relações de resistência ou de abertura ao Outro. Em Órfãos do Eldorado. examinando o sentimento de pertença de um sujeito desestabilizado. . seja ele familiar. sublinhando a complexidade das trocas entre culturas diferentes e evocando a história violenta de seus ganhos e perdas. impregnação..O ameríndio como personagem do Outro na literatura. a narrativa encena uma construção identitária sofrida. Assim. 2005) por um sujeito atravessado por imaginários diversos. Entre alteridade rejeitada e alteridade desejada. uma busca inútil de um lugar habitável (Harel. na busca de si mesmo e do sentido da sua trajetória existencial. cruzando história do indivíduo e da coletividade.. o processo de construção identitária do narrador-personagem se realiza por meio do confronto com a alteridade paterna e da atração pela alteridade ameríndia. durante o qual Arminto transita por um território cultural ambivalente. mas do mesmo modo estiolamento. Figuração que interroga as relações interculturais. história e mito. ao escolher se dedicar às complexas interações culturais pelo viés do drama íntimo de um narrador. Da mesma forma que o romance se afasta de uma representação idealizada do processo de mestiçagem cultural. que entrelaça memória pessoal e coletiva. levando em consideração tanto os processos de aculturação resultantes de políticas colonialistas quanto os cruzamentos culturais que possibilitam o renascimento de tradições em outros contextos. Orfãos do Eldorado questiona o lugar da cultura ameríndia no seio da sociedade brasileira a partir da experiência amazonense: fenômenos de imbricação mas também de depauperação culturais. Arminto Cordovil. trocas. a narrativa constrói as complexas relações de Arminto com o espaço. aculturação.

à qual ele é muito ligado e que o iniciará à cultura ameríndia e à vida sexual. As relações entre pai e filho são frias. história e memória. uma das moças pobres acolhidas pelo orfanato da cidade. Florita é uma tradutora. a do narrador-personagem Arminto Cordovil. de origem e destino misteriosos: índia ou mestiça. abrindo-lhe as portas à sensibilidade ameríndia. que não conheceu sua mãe. Mais uma vez. Amamentado por uma índia tapuia. convite à viagem. Lugar de troca por excelência. entre os quais o Eldorado. Ela introduz Arminto no universo ameríndio.15.94 Revista Brasileira de Literatura Comparada. morta ao dá-lo à luz. rico proprietário de cargueiros que transportavam mercadorias no rio Amazonas. num posfácio no qual a voz autoral dá a conhecer sua fonte: o que lemos é uma história que lhe foi contada pelo seu avô. n. a que diz respeito à própria narrativa. o discurso literário reinventa mito. criando pontes entre a floresta e a cidade. Este conta sua história a um interlocutor cuja identidade só é revelada no final. Memória de uma vida. questionando o processo de transmissão da tradição e da autodeterminação a partir de dois planos: o individual (que diz respeito à vida do narrador e da relação com seu pai) e o coletivo (que trata das marcas da presença da comunidade ameríndia e de sua relação com a sociedade amazonense). Florita. 2009 A narrativa de Hatoum inspira-se no mito ameríndio da Cidade Encantada para tecer os fios entre mito. no sentido amplo do termo. desta feita. história e memória. Arminto tem a impressão de que seu pai o culpabiliza por essa morte. aproxima-o das crianças indígenas da aldeia situada nas cercanias da cidade. empregada que faz todo tipo de serviço. A intriga romanesca está centrada na crônica da vida do narrador-personagem. trata-se de uma questão de herança. traduz para ele os mitos e as lendas contadas pelos índios. Florita interpreta seus sonhos e desejos. Desempenha um papel de mediadora. ele foi criado por uma outra índia. O menino cresce rejeitando todo tipo de identificação com o universo do pai. Arminto Cordovil. . Mas é por Dinaura que ele se apaixona loucamente.

a mansão branca de Vila Bela. 2008. como se a felicidade e a justiça estivessem escondidas num lugar encantado. “uma cidade que brilhava de tanto ouro e luz” (Hatoum. Ele conhecia os segredos do fundo do rio e podia conversar com Uiara. Porque mitos. confundindo-se com o mito do Eldorado: “Houve tempo em que Manaus. 2008. pai de Arminto. a cidade prodigiosa que atiçava os sonhos febris dos navegantes e conquistadores europeus ao mesmo tempo que se furtava a todo esforço de localização”. . região que alterna períodos de fausto e de declínio. não cessa de ter visões e sonhar com ela. leitora de romances e igualmente sensível ao mito indígena da Cidade Encantada. 4 “Mitos que fazem parte da cultura indo-européia. a fazenda Boa Vida. Dinaura. chefes de todos os encantados que viviam na cidade submersa (Hatoum. o leitor não o saberá jamais. era sinônimo de Eldorado. p. mas também da ameríndia e de muitas outras. 5 ela pode ser sua madrasta ou sua irmã. a mesma que eu tinha escutado na infância. O Eldorado naufraga. p. que depois do seu desaparecimento se transformou em lenda para os habitantes da cidade.O ameríndio como personagem do Outro na literatura. 106).. 64). Mas o mito indígena da Cidade Encantada é atemporal e persiste. 95 Apresentação do romance pela editora (orelha do livro). o grande curandeiro xamã de Maués. 2008. 67). obcecado pelo desejo por essa “mulher encantada”. a utopia de um lugar ideal persiste no imaginário amazônico: A Cidade Encantada era uma lenda antiga. que teve as plantações de cacau destruídas pelas pragas (Hatoum. 99..5 Contrastando com a miséria que assola a cidade real. Este último. p. p. A crônica da decrepitude moral de Arminto e da decadência de uma família é também a da Amazônia. Arminto sonha com a mulher da mesma forma que a população pobre da cidade sonha com a Cidade Encantada. Ulisses Tupi queria que eu conversasse com um pajé: o espírito dele podia ir até o fundo das águas para quebrar o encanto e trazer Dinaura para o nosso mundo. 2008. Surgia na mente de quase todo mundo. Sugeriu que eu fosse atrás de dom Antelmo. Ver também p. Pertencem à História e à memória coletiva” (HATOUM. Arminto gasta a fortuna herdada do pai e vende todas as suas propriedades: a casa de Manaus.4 Mitos e culturas viajam e se entrecruzam. desaparece pouco tempo depois da morte de Amando. assim como culturas. viajam e estão entrelaçados. 64). ou Manoa.

nenhuma possibilidade de viagem. mãe-d’água. passando pela figura descentrada de um certo cavaleiro que percorre as estradas da Mancha em busca de sua Dulcineia. à deambulação). sereia. Retomado pelo texto como “o poema grego” que Estiliano está traduzindo. p. Figurações da errância física e mental que o romance acolhe.96 Revista Brasileira de Literatura Comparada. alimentando-se assim de fontes populares que fazem parte da memória coletiva.15. José de Alencar. 2009 Uiara. do ponto de vista do texto poético que paira sobre o romance. em oposição ao anterior. Homero). sonho e pesadelo. num intenso trabalho intertextual que traz à tona a memória literária. Se o romance glosa. que é a negação mesmo de uma certa ideia da literatura como espaço liberador e de refúgio: “Não encontrarás novas terras. este poema desencantado está em consonância com a atmosfera desoladora que o romance instaura. 7). do poema homérico aos de Konstantinos Kaváfis (além de “A cidade”. nenhuma esperança: “Sempre chegarás a esta cidade. existe um diálogo implícito com “Itaca” que. citado na epígrafe. nenhum “ailleurs”. o romance projeta a errância de mitos e de textos./ Não há barco nem caminho para ti” (Kaváfis apud Hatoum. Escrito em palimpsesto. Não esperes ir a outro lugar. a narrativa romanesca gera uma tensão entre a voz individual e a voz coletiva: discurso da utopia e contradiscurso. versões . Por meio da combinação de elementos heteróclitos na sua composição. é um convite à viagem. nem outros mares”. n. ele dialoga igualmente com a tradição literária que recria esses mitos (Mário de Andrade. Poema que recusa todo tipo de promessa de um outro lugar possível. Um exemplo marcante da escrita em palimpsesto do romance é o reaproveitamento do poema de Konstantinos Kaváfis “A cidade” (1910). que se alimenta tanto de fontes populares quanto da tradição literária. que lhe serve de epígrafe. Não há portanto. relatos e versões de mitos errantes que se misturam e que constituem o imbricado tecido narrativo do romance. criando analogias com o próprio percurso do narrador-personagem. 2008.

tempo que deixa transparecer os sinais de enfraquecimento da cultura ameríndia: A sala parecia um museu pobre e improvisado.O ameríndio como personagem do Outro na literatura. narrativa de busca e de perda. Arminto encontra-se impossibilitado de restabelecer os laços com o passado que povoou o imaginário de sua infância. articulação de diferentes práticas discursivas.. 2008. 39). peças de cerâmica. no qual a história destrói o mito. Na trilha de Mário de Andrade. 6 de mitos. Quando passamos do mito à história. caboclos. 97 “O escritor puxava conversa com todo mundo: índios. pela violência. O tempo presente é o do sonho que se transforma rapidamente em pesadelo. No chão. no qual a realidade não cessa de desmentir as promessas de felicidade. espaço de representações memoriais. seguindo o modelo do capitalismo ocidental. Comia tudo. pelas doenças. sente dificuldade em encontrar seu lugar num mundo que está desaparecendo. máscaras de rituais e cacos de urnas funerárias de tribos indígenas que já não existiam (Hatoum. artesãos e compositores de toadas. p. autor que o romance homenageia fazendo alusão à célebre viagem do modernista à Amazônia. O naufrágio do navio Eldorado constitui-se num dos símbolos eloquentes do fracasso dessa política. E não se cansava de anotar o nome de plantas e bichos. 86). que representa o projeto de modernização do país baseado numa política de colonização (massacre e aculturação dos índios). o narrador conduz o fio do discurso e é por meio do seu olhar desencantado que o leitor descobre o universo amazônico. Sua narrativa fala de um desejo que não pode ser satisfeito. fazendo-os coexistir no espaço do texto. de diferentes visões de mundo.6 Hatoum fagocita e transforma elementos diversos. Ele recusa a identificação à sua família. . narrativa de uma impossível construção de plenitude identitária. da miragem à matéria do real. Arminto é um dos numerosos órfãos do Eldorado aos quais o título do romance faz alusão.. até piranha frita” (Hatoum. 2008. p. traduções “traidoras”. em processo de plena degenerescência. marcado pelo desregramento econômico e moral. por outro lado. No entanto. a visão de um território faustuoso e cheio de promessas de felicidade transforma-se em ruínas.

Na verdade. o barqueiro. tirânica e mórbida da sociedade e do território amazônico. 2009 Desse modo. para poupar o menino Arminto. acolhidas pelas famílias da cidade para servir de empregada doméstica. n. a mulher se suicida por ter perdido seu marido e seus filhos vítimas da miséria e da doença. que vem . O momento dessa revelação. em Orfãos do Eldorado. Florita. A decadência do povo ameríndio está principalmente representada pelas personagens femininas. o romance denuncia a exploração sexual das mulheres e meninas ameríndias. Outras formas de opressão. como as que sofrem as moças. são encenadas pela narrativa. no entanto. A violência é um dado consubstancial a essa realidade.98 Revista Brasileira de Literatura Comparada. vendidas ou trocadas por mercadorias para servir aos comerciantes de Manaus ou aos homens políticos (Hatoum. moças sequestradas. ela termina sempre por mostrar sua face. é também o da confissão de sua imensa solidão. Mesmo dissimulada. violentadas. atraída por um ser encantado. A cena inaugural do romance é representativa das relações que estabelece entre o mito. num regime de semiescravidão. traduzindo-as por um relato perfeitamente integrado ao universo cultural e mítico ameríndio: a mulher. mascaradas sob a aparência de proteção. a caracterização dos personagens e a representação do espaço constroem uma visão violenta. p. Assim como na obra de Márcio Souza. em alusão ao barqueiro infernal. um processo de aculturação que começa pela proibição de falar sua própria língua. como Florita. mas que sofrem. outro grande escritor amazonense.15. no final do romance. órfãs na sua maioria. próximo da morte de Florita. A representação do espaço constrói um cenário mórbido por onde circulam personagens como Denísio cão. suas possíveis interpretações e a realidade. Há ainda as ameríndias do orfanato que as freiras protegem do tráfico sexual. Nela assiste-se ao suicídio por afogamento de uma jovem índia. que a liberará de sua vida de miséria material e afetiva. 42). vítimas da miséria e da doença. deturpa suas últimas palavras. 2008. teria escolhido ir viver junto com ele no fundo do rio.

As novas vítimas da “modernidade na floresta” (Hardman. Imagens de um paraíso perdido. e Mad Maria. “Cegos do Paraíso”. na beira do barranco. A imagem fala por ela mesma. que emigrou para o Brasil quando tinha doze anos. os imigrantes e migrantes nordestinos. Ilha do Eldorado) e a realidade. quase todos cegos pela defumação do látex. onde Ferreira de Castro. 343-351). do território que eles ocupavam nas proximidades da cidade. 95). 2008. A memória do texto de Ferreira de Castro se faz presente igualmente pela alusão a um incêndio num seringal. O que existiu. como no célebre romance A selva (1930). Atracou aí embaixo. que nos remete ao incêndio do seringal Paraíso.. trabalhou como seringueiro durante quatro anos. A leitura desse texto ajuda a esclarecer a percepção e a representação do espaço em Órfãos do Eldorado. Trouxe dos seringais do Madeira mais de cem homens. era o que se dizia. 1993). Paraíso era também o nome do seringal situado às margens do rio Madeira. 1988). no Amazonas. Misturando referentes reais e ficcionais. de Márcio Souza (Hatoum. de Ferreira de Castro. p. A podridão está dissimulada sob sua beleza luxuriante. foi o barco Paraíso. episódio que fecha o romance do escritor português. E um novo bairro surgiu: Cegos do Paraíso (Hatoum. e eu não esqueci nunca. a narrativa romanesca expõe a oposição gritante entre os sentidos sugeridos pelos topônimos (Vila Bela. do seu amigo Alberto Rangel (Cunha. Aqui. 2000. p. mais uma vez. para utilizar as palavras de Euclides da Cunha ao comentar a obra Inferno verde. a beleza grandiosa e luxuriante da floresta esconde o regime de escravidão ao qual os seringueiros são submetidos. Boa Vida. Lá onde ficava a Aldeia. de “uma sociedade que está morrendo”. 7 reforçar a onipresença da morte nesse território. “Inferno e barbárie”7 são a outra face da floresta: O paraíso estava aqui. 99 Título de um subcapítulo de um artigo de Milton Hatoum dedicado aos romances A selva. experiência que se encontra recriada no romance A selva. ocupam o lugar dos ameríndios. .O ameríndio como personagem do Outro na literatura.. do escritor português Ferreira de Castro (1898-1974). expulsos. o prefeito mandou derrubar a floresta para construir barracos. Mil e uma histórias que sobrevivem e se metamorfoseiam nos relatos literários.

filhos de homens calados.15. Lugar lindo. recorrendo a uma descrição lírica da maravilhosa visão do lago do Eldorado. doente. No entanto. remetendo a uma relação disfórica que ele entretém com um espaço onde impera uma ordem social injusta. não há possibilidade de fusão harmoniosa com a natureza. sinais do mal-estar que Arminto manifesta. o texto não para de semear. situado a 100 quilômetros de Manaus. A narrativa evoca a beleza grandiosa da paisagem. 2009 A última viagem de Arminto (navegador de “viagens supérfluas” entre Manaus e Vila Bela) pelo rio Amazonas ganha um outro sentido. me agachei e vi um ninho de baratas-cascudas. um dos lugares célébres do ecoturismo da Amazônia. Os filhos dos empregados se aproximavam da varanda e paravam para observar a casa. p. Durante a viagem de Arminto em busca do seu Eldorado. n. com guarásvermelhos e jaçanãs no céu e nas árvores. representada pela voz autoritária do pai: Eu me sentia mal na Boa Vida. o cheiro e o asco dos insetos me deram um suadouro. Voz mesmo só a de Armando: voz para ser obedecida (Hatoum. Fui até lá. p. 2008. repulsivo. 2008. a alternância entre as descrições líricas e os sinais que maculam essa beleza da paisagem reforça a perspectiva antagonista da representação do espaço adotada pelo romance. Lá . referente geográfico real. 102).. face que se revela desde o momento em que fazemos a experiência de penetrar nesse espaço: Um volume escuro tremia num canto.. Crianças caladas. Personagem decadente da história e do mito.100 Revista Brasileira de Literatura Comparada.] Não era o lugar que me perturbava: era a lembrança do lugar. A ilha do Eldorado seria uma das ilhas do Arquipélago das Anavilhanas. pois. Arminto parte na terceira classe de um navio velho e sujo em busca da ilha do Eldorado. paisagem de beleza ímpar (Hatoum. nauseabundo. aqui e ali. Dinaura teria se refugiado. 67-68). Trata-se de construir a visão de uma natureza que abriga um mundo doente. Senti um abafamento. onde. desde o início. [.

O que se esconde sob as aparências da visão do paraíso? A distância entre o sonho e a realidade que essas imagens de um mundo em degeneração nos devolvem como um espelho invertido. 102). prisioneiros de um mundo de cinzas. Aquele lugar tão bonito. “Não há barco nem caminho para ti”. assinalando o impasse do parâmetro do progresso como fundamento da civilização. sublinha Simon Harel (2007. o Eldorado. anuncia o poema de Kaváfis. p. coloca o leitor perante a problemática condição humana. 12). Essas imagens revelam um ponto de vista pessimista sobre o processo histórico marcado pelas injustiças. Hatoum pertence à linhagem de escritores que produzem livros do desassossego: “é preciso aceitar que a literatura complica o mundo”. em consonância com o que escreve o sociólogo português Boaventura de Souza Santos.. 101 fora. Essas cinzas do Norte dizem muito do estado de deriva dos mitos e dos relatos que resultam do esforço contínuo do sujeito na sua busca de imprimir um sentido à trajetória humana. Podridão.O ameríndio como personagem do Outro na literatura. erigindo a literatura como um dos lugares possíveis de resistência. condenados a fazer viagens imaginárias que não tranquilizam mais ninguém. morte. múltiplos signos disfóricos para evocar esse encontro fracassado entre o mito e a história. A obra de Hatoum não produz sombras consoladoras. 2008. pelas escolhas políticas autoritárias. doença.. ao contrário. E silêncio. ao afirmar que “O futuro prometido pela modernidade não tem futuro” (Santos. era habitado pela solidão (Hatoum. p. a imensidão do lago e da floresta. solidão. A herança comum que o ameríndio compartilha com o homem ocidental é a de serem órfãos da civilização. p. . O lugar inaugurado pela criação literária está longe de corresponder ao de um refúgio protetor. 2000. mesmo que seja para dizer a impossibilidade da viagem. 322).

encontrar a solução do enigma. experiência vivida e ficção. aos 27 anos. a experiência da alteridade ameríndia gera uma espécie de fascinação pelo Outro no único sujeito da enunciação.15. Misturando fatos históricos. 8 . de Bernardo Carvalho. Nove noites tece sua trama em torno de um enigma: as razões que conduziram o antropólogo norte-americano Buell Quain. o personagemnarrador Arminto Cordovil. Nos dois romances. 2009 alteridade invisível: o índio em Nove noites. quando da sua estadia no Xingu com os índios krahô. quando ele fica sabendo. Assim como em Mongólia (2002). ex-aluno de Franz Boas. a representação do ameríndio é submetida a diferentes pontos de vista assumidos por múltiplos sujeitos do discurso.102 Revista Brasileira de Literatura Comparada. ver Godet. n. a intriga de Nove noites cruza várias versões e inscreve no seio da narrativa o personagem do escritor que procura de forma obsessiva preencher a precariedade do sentido. procura compreender o gesto brutal do an- Sobre Mongólia. enquanto em Orfãos do Eldorado a ambiguidade da narrativa decorre das interrelações entre mito e história e da complexa viagem ao passado por meio da memória do narrador. Desde então. Para essas narrativas. em 1939. só existem visões do real. a se suicidar no Brasil. 2007. em Nove noites é a multiplicidade de vozes narrativas e a focalização que tornam a percepção do real problemática. por Buell Quain data de 2001. de Bernardo carvalho No romance de Milton Hatoum.8 que se constrói em torno do desaparecimento de um fotógrafo nos Montes Altai. de sua existência. narrador do romance. instaurando o processo de mise en abyme do ato da escrita. trata-se de abolir uma representação realista do mundo. por acaso. Em Nove noites. O interesse do personagem-escritor. a narrativa de Nove noites ultrapassa as fronteiras de gênero e situa-se a meio caminho entre autobiografia ficcional e documentário jornalístico romanceado. ao ler no jornal um artigo do antropólogo que se suicidou em plena floresta. da Universidade de Columbia. Mas.

. a quem ele teria feito confissões desesperadas durante nove noites passadas na cidade de Carolina. A alternância de vozes narrativas é assinalada por caracteres tipográficos. engenheiro responsável pelo Serviço de Proteção dos Índios. ele será levado. por causa de sua investigação. Mais de trinta anos depois. o narrador frequentou com seu pai a região do Xingu. Os índios querem um pai. assim como testemunhos de diversas pessoas que conviveram com ele. A razão da busca obstinada que leva o narrador a se interrogar sobre a morte do antropólogo só será revelada no final do romance: ela está relacionada com a infância. Bernardo Carvalho afirma que seu romance é uma interrogação sobre a paternidade: “Todo mundo está à procura de um pai. O romance alterna a narrativa da investigação conduzida pelo narrador com o testemunho fictício deixado por Manoel Perna. amigo de Buell Quain. com a imagem do seu pai.. cujo mistério permanece velado. os elementos da investigação sobre Quain se imbricam com lembranças antigas do contato com os índios em companhia de seu pai. justapõe a história do antropólogo à de seu próprio pai” (Moura). sem no entanto esclarecer o mistério. destacando as armadilhas de uma atividade interpretativa da subjetividade do outro. Menino de seis anos. Quain tinha relações complicadas com seu pai e ao mesmo tempo. O narrador. Numa entrevista. que esfaqueou e mutilou seu corpo antes de se enforcar. Pouco a pouco. 103 tropólogo. onde este último tinha comprado uma fazenda. por meio de cartas que ele deixa após sua morte. a mais próxima da aldeia indígena. É a natureza inacessível do ser humano que é colocada em . com sua relação como cidadão brasileiro branco e urbano com o índio. Todos esses elementos trazem indícios da angústia e do desespero do antropólogo. igualmente. As diferentes versões e visões acentuam o caráter polifônico do romance. Às vozes desses dois narradores acrescenta-se a voz de Quain. a refazer a viagem nessa região e permanecerá na mesma tribo de Buell Quain. ele representa o papel de pai com os índios. pois de uma certa maneira são órfãos da civilização.O ameríndio como personagem do Outro na literatura.

la compréhension. Mais uma vez. de um povo decadente. p. um objeto de estudo. A narrativa nos fala dos laços indissolúveis entre a interrogação sobre a estranheza do outro e o rastro subjetivo do sujeito investigador: qualquer que seja o objeto da investigação. Nove noites chama a atenção sobre . 1991.. O trabalho de escrita que visa a constituir o outro só pode se fazer pelo imaginário “par ce va-et-vient entre soi et l’Autre [. quando encontramos o narrador adulto em visita aos índios Krahô. explorando as terras da Amazônia. Bernardo Carvalho elabora uma narrativa labiríntica que desconfia do poder da linguagem para elucidar o enigma do real. Apesar dos diferentes períodos históricos aos quais o texto faz alusão. seus laços de parentesco. a recusa de ir em direção ao outro. n. seus ritos. do departamento de antropologia de Columbia ao qual pertencia Buell Quain. e o início do novo milênio. Em Nove noites. Nove noites é. antes de tudo. em processo de desaparecimento.] qui conditionne le sens. o final dos anos 60. antes de tudo. o índio é. 2009 evidência.15. a representação do índio permanece a mesma.104 Revista Brasileira de Literatura Comparada. enfim.. sua comida. a imersão no mundo do outro é sempre uma incursão íntima. período no qual evolui o personagem Buell Quain no meio dos índios brasileiros. que em princípio se dedica a compreender e a fazer compreender o Outro. a imagem. Três momentos precisos são evocados: o final dos anos 30. como o grupo de Franz Boas. um romance sobre as relações de alteridade a partir de uma reflexão sobre o procedimento antropológico. seguindo a pista de Quain. 171). que coloca em cena as lembranças da infância do narrador com seu pai. O que predomina é uma percepção negativa das marcas mais significativas da alteridade dos índios. O texto tomanesco lembra os inúmeros antropólogos estrangeiros que se dedicaram ao estudo dos povos indígenas do Brasil. em direção de suas singularidades radicais. os europeus célebres como Lévi-Strauss e o suíço Alfred Métraux. A figura do ameríndio em Nove noites está inscrita na temporalidade do século XX. et l’interprétation” (Affergan.

.O ameríndio como personagem do Outro na literatura. que não somente teria vendido objetos que ele subtraía às tribos indígenas. O romance alude a . interessou-se primeiramente pelos trumai. dessa maneira. alertando também para o fato de que os textos construídos pelas ciências humanas estão longe de serem neutros. A questão levantada pelo texto de Nove noites tem sentido: até que ponto esses sujeitos realmente existiram como tais para todos esses cientistas? Até onde o diálogo pôde se realizar? A obra contempla uma preocupação que se faz presente na reflexão antropológica da atualidade. O Brasil dos anos 1930 e 1940 tornou-se um país-fetiche dos antropólogos e sociólogos: o índio e o negro. política e financeira. obcecado pela morte. liberando-os das ideias pré-concebidas da época. O romance revela o comportamento de certos antropólogos. o personagem antropólogo do romance. reduzidos à categoria de objeto de estudo. a interpretação. objetos de culto da curiosidade científica deles. Ele se articula sobre suas próprias determinações e traz consigo o que poderíamos chamar de seus atributos (Affergan. denunciando. Mas não se trata tampouco de deixar passar em silêncio um certo olhar dirigido a esse território e a seus habitantes que não são brancos. Mikhail Bakhtin lembra-nos que o objeto das ciências humanas é um sujeito e o método delas. como teria transmitido relatórios políticos ao governo americano. Ele encontrou aí um povo marcado pelo processo de autodestruição. Não se trata de desprezar as contribuições de grandes pesquisadores à compreensão desses sistemas culturais. Buell Quain. O outro. como o norte-americano William Lipkind. Antes de viver com os krahô. 1991). sem que se conheça a razão dessa expulsão. disposto a se submeter ao olhar e ao tratamento científico do observador. 105 essa espécie de instrumentalização do outro. como assinala Francis Affergan.. a instrumentalização intelectual. Foi expulso da tribo pelo Serviço de Proteção aos Índios. que habitavam um dos territórios mais inacessíveis da Amazônia. não é um objeto vazio e indeterminado. contribuindo para que elas gozassem de um reconhecimento pleno.

ao lembrar as orientações do Serviço de Proteção aos Índios.106 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Quain não compreende os índios. denunciando a utilização que se faz do Outro para fins que não lhe dizem diretamente respeito (Carvalho. A construção desse personagem antropólogo questiona seu olhar etnocêntrico e sua atitude egocêntrica. p. Uma das pistas sutilmente levantadas pelo texto romanesco faz alusão a problemas de ordem sexual. A convivência com os krahô também não o libera da solidão. ele teria encontrado um povo cuja cultura refletia seu próprio desespero. 2001. p. sua íntima decadência. 2001. uma barreira intransponível. o sertanista amigo de Buell Quain. o célebre sertanista Cândido Rondon). sua nudez. nas ilhas Fiji. 2001.15. rejeita seus costumes.” (Carvalho. Suas lembranças da infância. ele os considera idiotas: “Encontrei um grupo de índios krahô e eles parecem pavorosamente obtusos. O antropólogo americano confessa sua dificuldade em trabalhar sobre os índios brasileiros e rejeita parcialmente as marcas (consideradas desagradáveis) que as culturas indígenas imprimiram à cultura brasileira. evocam um espetáculo deprimente. n. os índios representando seu próprio papel para um público de brancos. enfim. 163). pelo bisavô de Bernardo Carvalho. É a imagem de um homem aterrorizado. instável. o outro é sempre. existe o medo que a criança sente desse povo exótico e desse espaço selvagem: a casa solitária no meio . O território brasileiro nada mais é para ele do que o inferno. Para o narrador. quando fez a primeira viagem a essa região. 72). vai elaborar: com os trumai. 30). O fato é que o antropólogo parecia muito afetado pela sua estadia na tribo dos trumai. foi criado em 1910. 2009 uma provável homossexualidade de Quain. Além do mais. o Xingu também é a imagem do inferno: “O Xingu ficou guardado na minha memória como a imagem do inferno” (Carvalho. que proibia as relações sexuais com os índios (serviço que. a maneira como eles cortam o cabelo. Para Quain. p. furam as orelhas e continuam sem usar roupas nas cidades. desesperado que o testemunho de Manoel Perna. para ele. o paraíso estaria em outro lugar. Têm cortes de cabelo engraçados. aliás.

mostrando o abismo existente entre seu universo de intelectual urbano e o dos povos autóctones. imagem depurada da história que o homem . ao qual ele se refere como “um dos espetáculos mais deslumbrantes da minha vida” (Carvalho. a floresta agredida e transformada pela violência de um desmatamento caótico imposto pela nova ordem civilizacional. Um povo órfão. os rituais. quando os fazendeiros mataram 26 deles. vestidos de short e calçando sandálias japonesas. e relembra o massacre que os índios krahô sofreram um ano após a morte de Buell Quain. antítese da civilização. Para amainar a decepção do seu primeiro contato com os índios. ele não hesita. Adulto. as brincadeiras. 107 de lugar nenhum. perdida no tempo. 100): a cena na qual um velho krahô entoa um canto em torno de uma fogueira numa noite de lua. O olhar do narrador recusa o paternalismo: se ele é sensível ao sofrimento dos índios. mas também recusa da alteridade linguística. Ao mesmo tempo. em expor seus preconceitos. mito deslocado significando o encontro abortado entre o brasileiro urbano e os povos autóctones do Brasil. A narrativa coloca em evidência o sofrimento de um povo empobrecido pela política governamental..O ameríndio como personagem do Outro na literatura. o narrador sublinha o processo de aculturação em marcha. Medo. símbolo estereotipado do índio selvagem. Uma só passagem no romance evoca a possibilidade de um encontro.. seu pai lhe oferece um brinquedo. 2001. recusa de compartilhar a comida deles. um povo que não quer ser esquecido pelos brancos. É sempre o mesmo medo que o acompanha diante dos ritos que ele não consegue compreender. comportamental. o narrador retorna à região seguindo os rastros de Quain. no entanto. um Forte Apache de plástico. p. abandonado. no fim do mundo. um só momento em que o narrador se mostra atraído pelo outro. imagem ancestral comum a todo ser humano. índios que comem macarrão e arroz com feijão. A harmonia dessa cena remete a uma imagem arcaica. marcado por um sentimento de trágica impotência. vítima de doenças e de comportamentos viciosos transmitidos pelo contato com os ocidentais.

o caminho escolhido pelo escritor coloca em evidência uma representação do lugar marginal que a sociedade brasileira reserva ao índio. n. percebido como indecifrável e ameaçador. para o antropólogo. para melhor as proteger (Carvalho. As teorias pós-modernas sobre as relações interculturais se afastam dessa perspectiva e . o ameríndio é um tema enviesado. distanciando-se de uma tradição literária que tende a idealizar a figura do índio. o não-valor de sua cultura. então. O que sobressai do efeito do outro sobre o sujeito do discurso é sua incapacidade de ir ao encontro do ameríndio. O índio surge. O outro que o atrai não é o ameríndio. um objeto de estudo. este é o sujeito da alteridade produtora de sentido que o aproxima de seu pai. p. submisso a uma consciência que o constrói. que defende uma comunicação “suficiente” mas não “excessiva” com as culturas ameaçadas de extinção. Tão bela quanto frágil e efêmera. O narrador de Nove noites não compreende o papel que os índios lhe atribuem nos seus rituais. No romance de Bernardo Carvalho. 52). Constatação de um encontro e de um diálogo frustrados. a recusa em considerá-lo como sujeito autônomo. de sua infância e que o conduz a refazer a experiência na tribo indígena. sua recusa em construir laços. a figuração do ameríndio como personagem do outro explora a distância com o grupo de referência ao qual pertence o personagem do escritor. 2009 construiu. Para o narrador. mas o antropólogo norte-americano.15. 2001. como o estrangeiro de dentro. como se a possibilidade de um diálogo entre o Brasil ocidental e urbano e o Brasil dos povos autóctones estivesse para sempre perdida. O raiar do dia expulsará a poesia e restabelecerá a incompreensão e o medo. A figuração do ameríndio em Nove noites privilegia as diferenças como enfrentamento estéril. nem o olhar que eles lhe dirigem. sua tendência a se fechar sobre suas próprias referências.108 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Qual o futuro para as relações interculturais entre uma civilização que tem seu declínio anunciado e uma outra que tem a expansão de sua dominação assinalada? O narrador refere-se ao ponto de vista de Lévi-Strauss.

reduzido a um objeto exótico ou a um objeto de estudo. Milton Hatoum se inspira em uma realidade na qual a presença ameríndia é marcante. O texto de Nove noites não se inscreve em nenhuma dessas perspectivas. depois de uma estadia nos Estados Unidos. confere-lhe.O ameríndio como personagem do Outro na literatura. contraditoriamente. ele recusa qualquer possibilidade de contatos e trocas equilibrados e frutuosos e elabora uma visão trágica de uma civilização em via de extinção. eles iniciam uma conversa no momento em que o avião está sobrevoando a região amazônica próximo ao local onde Quain se matou. Mas. Trata-se da viagem de volta do narrador. a adoção do ponto de vista do brasileiro urbano. uma visibilidade. aliando-se a uma perspectiva comum a outros romances da produção literária das Américas.. ao fazê-lo. país que visitou em 2001 na esperança de encontrar a família de Buell Quain.” afirma Edouard Glissant (1996. 2004) ou de creolização (Glissant. decadente. Sentado no avião ao lado de um jovem estudante americano. 109 insistem nos aspectos positivos do inevitável processo de hibridação (Canclini. 1996) que caracteriza a contemporaneidade: “Vivre la totalité-monde à partir du lieu qui est le sien.. o jovem responde: “Eu vou estudar os índios do Brasil”. na imprevisibilidade do mundo-caos. Em relação à dialética do “selvagem” e do “civilizado”. p. Ao ser abordado pelo narrador. Visão trágica que lhe retira a perdurabilidade. participando de um espaço urbano híbrido. c’est établir relation et non pas consacrer exclusion. reproduzindo a imagem de um índio aculturado. branco e letrado projeta a imagem do ameríndio como uma alteridade invisível e em via de desaparecimento. que lhe pergunta se ele vai ao Brasil para fazer turismo. Talvez porque nas nossas sociedades cada vez mais compósitas.  Em Nove noites. o romancista possa apenas registrar essa invisibilidade do “estrangeiro de dentro”. 67). O ponto de vista adotado é o do brasileiro que bebeu na fonte da cultura ameríndia e que é fascinado . A cena que fecha o romance é particularmente expressiva.

2000.110 Revista Brasileira de Literatura Comparada. CANCLINI. 2007. desconsiderando os aspectos da necessária reconstrução de um “lugar habitável” para o sujeito. O autor não se deixa levar por uma ideologia da mestiçagem como elemento consubstancial à nação brasileira. Néstor Garcia. isoladamente. Adota outro ponto de vista. Conselho Editorial. Paris: Presses de la Fondation Nationale des Sciences Politiques. abrindo-se para a subjetivação da experiência da alteridade. 108). nem por isso o ameríndio escapa à condição subalterna e à visão trágica que o condena ao desaparecimento. Hatoum não o idealiza. Nove noites. p. Brasília: Senado Federal. Euclides da. Critiques anthropologiques. Dessa forma. CARVALHO. o escritor se distancia de um discurso banal que se contenta em louvar as trocas culturais. transformando a escritura numa “zona de tensões” (Harel. expondo suas fraturas. Mesmo reconhecendo o processo de mestiçagem cultural. 2001. preferindo destacar a construção dramática desse espaço ambivalente. como elemento que se abre à relação com o Outro. 1991. a existência de uma sociedade mais justa e solidária nem para os ameríndios nem para os pobres brasileiros inseridos na sociedade urbana. Culturas híbridas. Figurado como mediador do espaço e dos mitos entre a floresta e a cidade. 2004. 2009 por ela. denunciando assim o papel marginal que a sociedade reserva ao índio. n. Referências AFFERGAN. Um paraíso perdido: reunião de ensaios amazônicos.15. São Paulo: Companhia das Letras. Francis. . Estrategias para entrar y salir de la modernidad. Hatoum recusa uma visão reconciliadora do processo de mestiçagem. Bernardo. herdeiros de visões do paraíso. México: Grijalbo. CUNHA. deixa transparecer a ideia de que esse processo não é capaz de assegurar. Adotando uma perspectiva complexa do processo de inter-relação de culturas e de imaginários. onde os conflitos herdados do colonialismo se fazem presentes. abandonados à miséria e à orfandade.

Paris: Gallimard. 2004. SANTOS. Trem fantasma. 29. In: _____. FFLCH-USP São .br/pdtl2/sub. Linda. MOURA. Pela mão de Alice. 185-194. 1991. 2005. Québec: Nuit Blanche. Simon. _____. _____. São Paulo: Companhia das Letras. 2008. HAREL. Disponível em: <http://www. Figures de l’Autre dans le roman québécois. 1996. Flávio. Orfãos do Eldorado. Edouard. Jean. Rita Olivieri. 2007.. HATOUM. La poétique de l’altérité et la représentation de l’Amérindien dans la fiction des Amériques. L ’espace en perdition. 1993. Brasília. 2000. Estranhos estrangeiros: poética da alteridade na narrativa contemporânea brasileira. 1994. Boaventura de Souza. A natureza como ficção (Leitura do espaço nos romances A selva. 111 GLISSANT. jan. Les passages obligés de l’écriture migrante. PATERSON. de Ferreira de Castro.portrasdasletras. A utopia e os conflitos paradigmáticos. Francisco Foot. Janet M. Québec: Les Presses de l’Université Laval. 1988. In: _____ et al. _____. n. _____.php?op=resumos/docs/novenoites>. São Paulo: Companhia das Letras. Salvador: Fundação Casa Jorge Amado. ed.O ameríndio como personagem do Outro na literatura. p. Les lieux de la précarité de la vie quotidienne. a modernidade na selva. com. Québec: Éditions Nota Bene. 34. . A dois passos do deserto: visões urbanas de Euclides na Amazônia. Introduction à une poétique du divers. 2007. O social e o político na pós-modernidade. Teresa: revista de literatura brasileira. p.-jun. O espaço geográfico no romance brasileiro. HUTCHEON. 1. Poética do Pós-Modernismo. Texto inédito. n. Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea. 2000. p. de Márcio Souza). Montréal: XYZ. Milton. Paulo. MORENCY. 233-252.. GODET. Rio de Janeiro: Imago. 101-117. e Mad Maria. Le mythe américain dans les fictions d’Amérique. A trama traiçoeira de Nove noites. São Paulo: Cortez. HARDMAN. entrevista de Bernardo Carvalho.

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I argue that canon-revising culturalists as well as aestheticists who defend the primacy of the Western canon share a number of premises. compartilham uma série de pressupostos. cânone e crítica formal Este ensaio parte da premissa de que não há crítica ou teoria literária. defensores da primazia do cânone ocidental. based on the often ignored discontinuity among the concepts of value. frequentemente ignorada. sugerem-se algumas pautas para o debate. por mais descritiva. essa premissa é simultaneamente negada e aceita pelos dois polos de um debate que. argumentando que culturalistas. canon. contingency. de estética e de cânone.113 Cânone Literário e Valor Estético: notas sobre um debate de nosso tempo Idelber Avelar* resumo: Este ensaio se insere no debate contemporâneo acerca do valor estético. and canon. estética. entre os conceitos de valor. I suggest a few possible routes for the debate. Understanding the contingent nature of aesthetic value and the impossibility of grounding it immanently. This article is part of a contemporary debate on aesthetic value. revisores do cânone. é apresentado como uma polêmica entre defensores de um firme cânone * Tulane University. com frequência. baseadas na descontinuidade. contingência. aesthetics. e esteticistas. cânone. . A partir de uma compreensão do caráter contingente do valor estético e da impossibilidade de fundamentá-lo de maneira imanente à obra. na qual não esteja implícita uma posição sobre o valor. keywords: value. palavras-chave: abstract: valor. aesthetics. Como veremos.

Os textos de Roland Barthes em que a preocupação com o valor se torna explícita são aqueles escritos a partir do final dos anos 1960. já numa fase de seu pensamento em que são visíveis as inspirações nietzscheana e lacaniana. sabemos. P Blackmur. Cleanth Brooks – se . A insistência dos new critics no caráter desinteressado da literatura acabou sendo um gesto no qual se albergava um nítido interesse. visível na batalha que eles livraram contra o establishment da filologia.15. S. Além de tomar algumas posições que não se alinham com nenhum dos dois polos. conceito que herdaram de T. elaborou pouco sobre a questão do valor. mesmo nos momentos de maior formalização do método. este ensaio tenta demonstrar que a própria formulação do debate é problemática. diferenciavam dos filólogos então dominantes ao conferir um papel edificante para a literatura. como Roland Barthes e Julia Kristeva. e que o valor estético e o cânone literário podem e devem ser repensados em outros termos. que fizesse desta o antídoto contra a vulgaridade massiva associada à racionalidade técnica moderna e à “dissociação da sensibilidade”. nos anos 1930. mas no sentido classista . O estruturalismo. o New Criticism focalizou a valoração na diferença entre a literatura e a cultura de massas. que rejeitariam o pressuposto da inevitabilidade valorativa. embora seus principais teóricos. n. depois da progressiva ruptura com a formalização do estruturalismo. O New Criticism surgiu. com seu afã científico e universalizante. os new critics – John Crowe Ransom. 2009 ocidental e culturalistas favoráveis a uma relativização ou abolição desse cânone. Allen Tate. como intervenção numa polêmica culturalista – entendendo-se “cultura” não no sentido antropológico. mas não em distinções efetuadas no interior da série literária. discursos com fortes componentes axiológicos. Há correntes críticas do século XX. Nas suas origens. R. Robert Penn Warren. optando por um projeto que tinha um caráter mais descritivo que valorativo. portanto.114 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Hegemônico durante décadas na crítica estadunidense. Eliot. jamais tivessem escondido suas preferências literárias.

p. uma apresentação explícita do problema da valoração já era inevitável. o momento de triunfo do New Criticism na universidade e de consolidação da poesia modernista no currículo coincidiu com o arrefecimento dessa veia polêmica. quebradas em meias-verdades …. onde não há fatos. 145 et seq. ainda que fosse para negar sua pertinência para a prática crítica. Como apontaram Gerald Graff (1987.. Embora não fizesse ali nenhuma referência ao trabalho da antropologia estrutural que. 115 e aristocrático do termo. 155-175). p. a ambiguidade e o paradoxo que eles antes reservavam aos modernos e aos poetas metafísicos ingleses do século XVII. na França. que era seu principal antagonista. de maneira hegeliana. o jogo de antinomias. Uma das diferenças importantes é que Frye se dedicou longamente ao problema do valor literário. o caráter sistematizador. e onde todas as verdades já foram. sentimos talvez que o estudo da literatura é relativo e subjetivo demais para ter sentido consistente. a centralidade do conceito de mito. Os new critics se moveriam em direção à análise de estruturas internas dos textos. A consolidação do método como leitura hegemônica acabou acarretando a universalização dos traços que eles antes só viam nos autores do seu paideuma particular. no qual ele se distanciava tanto do New Criticism como da Escola de Chicago. Tomo Frye como ponto de partida de uma demonstração do que considero o caráter aporético da discussão sobre o valor literário: Na história do gosto. e alguns dos eixos da obra revelavam nítido parentesco com o trabalho que o estruturalismo literário francês realizaria nos anos seguintes: as metáforas espaciais.) e John Guillory (1993. No momento em que Northrop Frye publicou o hoje clássico Anatomia da crítica (1957). a insistência no imanentismo e no caráter autossuficiente da crítica literária. Frye chegou a considerar “Poética estrutural” como um possível subtítulo para o livro.Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. nas quais invariavelmente encontrariam a ironia.. Mas como a história do gosto não tem vínculo . já se desenvolvia havia uma década com Lévi-Strauss.

1957. mais válidas quando silenciosas. O leitor o percebe quando chega o espinhoso momento em que Frye tem de justificar suas escolhas. À medida que o leitor percorre as páginas de Anatomia da crítica. Mas quanto mais óbvio se torne isso. O curioso da analogia de Frye. vai se impondo uma conclusão: sempre que Frye diz que a crítica é “facilmente separável” do gosto e do juízo valorativo. 3) .15. São minhas as traduções de todas as citações de fontes em línguas estrangeiras. 1 Anatomia da crítica sugere.1 Um pouco antes. e não princípios expressos que guiam sua prática. 18). portanto. a de que é preferível que os valores que subjazem às escolhas estéticas da crítica fiquem escondidos. O crítico verá logo. 1957.116 Revista Brasileira de Literatura Comparada. p. menos tempo ele desejará desperdiçar insistindo na questão. ele lança mão de uma curiosa tese. 25). p. n. ela pode ser facilmente separada (Frye. simultaneamente. assim como não é óbvio que a polêmica Marx-Ricardo não seja parte da “estrutura” da economia política. que 1) a crítica é uma esfera separada da história do gosto. e constantemente. 2009 orgânico com a crítica. pode-se estar razoavelmente convicto de que tal separação é a coisa menos fácil que há. dinamitando a separação que se havia proposto entre elas: As estimativas comparativas de valor são realmente inferências da prática crítica. é que está bem longe de ser uma verdade evidente que a polêmica Huxley-Wilberforce não seja parte da “estrutura da biologia” (seja lá o que for isso). Para isso. por certo. Porque insistir nela é tudo o que ele pode fazer: qualquer crítica motivada por um desejo de estabelecê-lo ou prová-lo será meramente mais um documento na história do gosto (Frye. 2) é “óbvio” que alguns poetas são melhores que outros. assim como o debate Huxley-Wilberforce não é parte da estrutura da ciência biológica” (p. ele afirmara que “a história do gosto não é parte da estrutura da crítica. 18). pois explicitá-los terminaria fundamentando a crítica na história do gosto e. que Milton é um poeta mais sugestivo e recompensador que Blackmore.

3) já que a valoração é definida como parte de uma história do gosto externa à crítica. a consolidação do poder político nas mãos de Stálin os forçou ao exílio ou ao silêncio. O projeto de descrever cientificamente a linguagem poética os levou a estabelecer a noção de estranhamento (ostraneniye) como o mais próprio da literatura.. Shklóvski definiu o conceito como o processo por meio do qual a novidade das operações poéticas sobre a linguagem prolongaria a percepção. sob o risco de que todo o edifício desmorone. se sustenta sobre um tripé de premissas de visível precariedade: 1) a crítica e o gosto não se misturam. esses dois eixos coexistiram com certa tensão. um dos livros de crítica literária mais influentes do século XX. O estranhamento possibilitaria uma renovação de uma experiência do mundo caracterizada por uma percepção já automatizada. Seria possível demonstrar que a aporia detectada em Frye se repete nos métodos interpretativos que tentaram fazer da crítica literária uma operação descritiva na qual não teria lugar o debate acerca das opções valorativas. Numa futura história dos métodos formais no século XX. 117 Para o estruturalismo.. aumentando-lhe a dificuldade. Preso num discurso que postula a separabilidade da crítica ante a história do gosto. não da crítica. Anatomia da crítica. mesmo que reconheçamos que a atividade crítica depende de escolhas valorativas. não antes que Yuri Tinianov formulasse algumas pistas acerca do que poderia ter sido uma concepção formalista da . ver o notável trabalho de história intelectual já feito por François Dosse (1991-92). mas tropeça na constante interferência desta sobre aquela. Frye não pode senão sugerir que os fundamentos das escolhas valorativas permaneçam sem discussão. No momento mais frutífero do desenvolvimento das pesquisas dos formalistas. 2) não se faz crítica sem uma escolha valorativa.Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. teremos de esconder debaixo do tapete os critérios que subjazem a elas. fruto da repetição constante. No caso do formalismo russo.2 haveria que se dedicar especial atenção às maneiras como o desejo de cientificidade entrou em choque com a inevitabilidade valorativa. 2 qualquer tentativa de explicar essa obviedade está fadada a ser parte da história do gosto.

2009 história literária. Para Tinianov. As conhecidas afinidades entre o formalismo e o futurismo russos emprestam credibilidade a essa tese. expondo a artificialidade de suas convenções. Sempre que um procedimento passasse a ser parte do repertório de práticas já esperadas. Mas reconhecer sua existência – mesmo que implícita – é indício adicional de que até nas empreitadas mais cientificistas da crítica literária impõe-se a inevitabilidade valorativa. A insistência na função descritiva da teoria literária. e assim por diante. pelo estranhamento imposto a formas literárias automatizadas pelo uso excessivo. é claro. interrompida pela consolidação do poder burocrático na União Soviética. Não há nada de condenável nessa axiologia. Apesar de que as observações feitas acima sobre Frye não se aplicam aos formalistas. parece inescapável a conclusão de que o valor está acoplado à realização desse programa: quanto mais estranhamento e mais ruptura paródica com as formas anteriores. n. O edifício teórico dos formalistas nos leva à conclusão ineludível de que Dom Quixote tem um valor que Amadis de Gaula não apresenta. uma operação paródica tenderia a surgir. mais valor. mas passemos ao extremo oposto. tornando visível a automatização anterior. A sofisticação do aparato teórico dos formalistas os levou do imanentismo textualista a uma incipiente teoria da história literária. a literatura evoluiria por meio da paródia. A partir das premissas de que o estranhamento é mais próprio à literatura e de que a história literária evolui pela operação paródica sobre formas anteriores congeladas.118 Revista Brasileira de Literatura Comparada. ou seja. ajuda a explicar a relação multifacetada que os formalistas mantiveram com o tema do valor. de que as vanguardas realizam a vocação da literatura de uma maneira que os parnasianos não fazem. Muito ainda poderia ser dito aqui. eles tampouco se dedicaram a tematizar explicitamente o problema do valor.15. Um exemplo clássico é o que Dom Quixote fez aos romances de cavalaria. combinada à condenação ao impressionismo dos simbolistas. às correntes críticas que explicitamente reivindicam a valoração como elemento constitutivo da ati- .

o Bem ou o Mal . Qualquer tentativa de sustentar este último postulado – de que algumas ficções realmente valem mais que outras – só poderia “respeitar a variedade” interrogandose sobre os processos históricos por meio dos quais certos valores foram conferidos àquelas ficções. Se não. Booth tenta resgatar essa função humanista sem reduzi-la a um conjunto de normas. que provocaria uma “série de efeitos no ‘caráter’”. Na tentativa de esclarecer os valores que subjazem às análises estéticas. 36). p. a tarefa não é fácil. com seu The company we keep. 119 vidade crítico-literária. ou seja. que ele define como uma “Conversa celebrando as muitas maneiras em que as narrativas podem ser boas para você – com vislumbres de como evitar seus poderes para o mal” (p. Consciente de que as condenações moralizantes de uma tradição que vai de Platão a Leavis deram à crítica ética uma má fama.. ao continuar tomando esses valores como intrínsecos. necessária. crítica ética e falácia igualitária Wayne Booth. que valeriam “menos”. ix). um debate cujas origens podem ser remetidas aos Livros III e X da República de Platão. a saber. 142). O desafio que Booth se coloca é manter algumas das premissas da teoria contemporânea (acerca da variabilidade histórica do sentido ou da impossibilidade de uma medida transcendental de valor). seria a defesa daqueles valores sobre outros. Como se verá..Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. Booth coloca a pergunta: “Poderemos esperar encontrar uma crítica que respeite a variedade e ofereça um saber acerca de por que algumas ficções valem [are worth] mais que outras?” (1988. ao mesmo tempo em que continua se agarrando a um conceito de literatura como fonte singular de um “mergulho em outras mentes” (p. a conclusão lógica. ocupa um lugar central no chamado ressurgimento da crítica ética nos EUA. Booth abraça o projeto humanista de ilustração por meio das letras. Posição de destaque nessa vertente cabe aos críticos que se ocupam das relações entre ética e literatura.

então. n. A solução moderada busca um pluralismo que mantenha a referência a um valor intrínseco o qual. Daí sua busca do meio do caminho. termina sempre transcendendo os conflitos da valoração social. qualquer virtude levada ao extremo pode destruir as outras. No momento em que a teoria não consegue . ou entre um poema de Yeats e uma brincadeira improvisada em verso.) sem renunciar à premissa de um valor ético intrínseco à literatura e a algumas obras literárias mais que a outras. a abertura formal ou qualquer outro) pode ser prejudicial em vez de positiva. etc. 2009 aos quais o prefácio alude.. como o contraste entre King Lear. Company é. Os tropeços da crítica ética seriam explicáveis por sua tentação especial de “sobre-generalizar”. A reductio ad absurdum será uma das estratégias retóricas favoritas dos que mantêm a referência ao valor estético como propriedade intrínseca e resistem ao argumento de que o valor só pode ser entendido por meio da remissão ao seu solo social. A necessidade de caminhar sobre a corda bamba que separa o reconhecimento das contingências históricas do compromisso humanista leva Booth a fazer uma série de gestos na direção do relativismo: o que é bom cá não é bom lá. portanto todas as obras que apresentem X. de Shakespeare. por mais variável que se conceda que ele seja. com sua insubstituível função moral reassegurada.120 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Booth quer aceitar o pluralismo hermenêutico da teoria literária contemporânea sem abrir mão do absolutismo da filosofia moral. aquela área cinza que permitiria ao crítico evitar qualquer “silogismo universal” (esta obra é boa porque apresenta X. a grande literatura emerge intacta.15. uma minuciosa tentativa de aceitar a variabilidade de interpretações sem deslocar a discussão do terreno do valor intrínseco ao campo da valoração social. Booth “realiza” essa tarefa por meio de uma série de exercícios de reductio ad absurdum. O objetivo é evitar os “riscos” de “fechamento” ou “abertura” excessiva. Depois de superar essas caricaturas. pode ser bom para você mas não para mim. uma dose excessiva de qualquer valor (seja a ironia. e um exemplar da revista pornográfica Hustler..

“a recorrente ansiedade / acusação / reclamação de que a menos que se possa demonstrar que um juízo é mais ‘válido’ que outro. constate-se a óbvia diferença entre os valores intrínsecos e o problema está “resolvido”. Sempre que se remete um problema à “tentação de sobre-generalizar”.. 84). 85). 121 fundamentar essa transcendência. Ao contrário do que argumenta Booth. 73). Mas Booth parece ter entendido mal a teoria da contingência. não. A equação imaginária entre a contingência social do valor e uma suposta igualdade entre os agentes valoradores é o que Barbara Herrnstein Smith denominou a falácia igualitária. seu pluralismo não é radical. Booth afirma que “a ênfase na variedade de interpretações nos diz pouco sobre o valor real das obras” (p. Ao se referir à crítica contemporânea.Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. Essa afirmação repousa sobre a premissa de que o valor é uma espécie de propriedade inerente ou essência eterna. e que seu próprio conteúdo só pode ser compreendido com referência ao contexto particular em que algumas habilidades contam como competência e outras. Os ataques ao “subjetivismo” do ponto de vista de uma ética humanista são bem conhecidos e Booth os repete em seu livro: “pressupõe-se claramente uma completa equivalência na competência de todos os intérpretes no argumento de que as obras não possuem ou exercem valor inerente. todos os juízos devem . Significa que “competência” não é um significante com sentido unívoco e eterno. ela pressupõe uma recusa a considerar o argumento de que todo valor é produto do choque de valorações contingentes e historicamente variáveis. o terreno está preparado para que o liberal sensível procure a conciliação razoável. compare-se a Divina comédia com um exemplar da Revista Veja. posição que Booth descarta como “subjetivista” (p. e sim liberal.. Essa mitologia da ponderação não deixa de operar na teoria. Afirmar que a valoração é socialmente contingente não significa dizer que todos os agentes valoradores são igualmente competentes. mas que somente são valoradas” (p. ou seja. ou seja.

suas opiniões sejam tão pertinentes a nosso discurso sobre Faulkner como as opiniões de leitores experientes” (p. obviamente. sempre há que se perguntar qual sujeito da enunciação se esconde por trás de um pronome de primeira pessoa do plural. renovação da linguagem. os valores ficaram. Note-se um exemplo em Booth: “me parece difícil acreditar que se uma pessoa de nossa cultura que é completamente inexperiente em literatura não vê absolutamente nenhum valor. a crítica humanista. Como a desconstrução e o marxismo nos ensinaram de diferentes formas.15. de alguma forma. p. digamos. que não esconde seu compromisso com a noção de que a literatura deve defender valores éticos. 98). Eis aí a falácia da ansiedade essencialista que preconiza que. A falácia igualitária se sustenta no que Marx chamava de “robinsonada”. idênticos a si mesmos. por definição. n. padece da impossibilidade de fundamentá-los mais além da tautologia. Se os imanentismos formais não escapam da axiologia. é precisamente porque os juízos não são igualmente válidos que os valores nunca são intrínsecos. uma espécie de grau zero da axiologia que replica a ilha de Daniel Defoe. mergulho na alma humana. É exatamente por causa do fato de que as valorações não são nem válidas da mesma forma nem identicamente posicionadas nas relações sociais que elas jamais são intercambiáveis. 85). não teriam a mesma pertinência para o “nosso” discurso. . e sim articulados por meio de conflitos sociais. por mais que se queiram descritivos. Com efeito. Na verdade. 2009 ser ‘iguais’ ou ‘igualmente válidos’” (Smith. uma pessoa inexperiente em literatura não poderia pertencer à mesma cultura e suas opiniões. nos romances de Faulkner.122 Revista Brasileira de Literatura Comparada. idênticos uns aos outros. A falácia igualitária confunde uma posição social construtivista com uma posição moral e estética relativista. progresso do espírito. diferentes vertentes da crítica prescritiva arrolaram fundamentos transcendentais a partir dos quais a literatura deveria ser julgada: formação do caráter. se a compreensão do conceito de valor se deslocou de uma imanência dormente a uma rede de relações sociais. 1988. A falácia é que.

Ela dispara. Ironicamente. Diante de certas frases de Bloom. A fundamentação do valor na estética teria. Para quem experimenta uma contingência como se esta fosse uma não-contingência. lacanianos. assim. a única resposta possível é: quem ja- . É o que vemos nas críticas estéticas de Harold Bloom. 20). crítica estética e pânico ocidentalista Para Harold Bloom. em alguém que responsabiliza a Escola do Ressentimento pelo fato de viver “no que considero a pior de todas as épocas para a crítica literária” (p. um processo de regressão infinita.Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. no Brasil. porque sua contribuição ao progresso social é a generosidade de se oferecer para rápida ingestão e descarte” (p. uma estrutura abismal. desconstrucionistas. p. Vários “defensores do cânone ocidental” reagem nervosamente à demonstração da impossibilidade de autofundamentação imanente do valor estético. 20) e proclama “a abertura do Cânone” (termo que Bloom insiste em grafar com maiúscula) para a incorporação de obras que “não devem e não podem ser relidas. emancipação do proletariado. neo-historicistas e afrocêntricos seriam os agentes contemporâneos de uma “Escola do Ressentimento” que “nega a Shakespeare sua palpável supremacia estética” (1994. exceto não ter tornado bem visível o seu próprio ressentimento. é inevitável. em seu O cânone ocidental e. podemos censurar qualquer coisa. uma alteração da ordem vigente provocará a sensação de que qualquer ordem está se tornando impossível. marxistas. em seu Altas literaturas. A pergunta: “por que deve ser este o valor a partir do qual julgar a literatura?” não pode ser respondida imanentemente. 22). como “o radicalismo acadêmico chega ao ponto de sugerir que as obras se incorporam ao Cânone por causa de propagandas [advertising] bem-sucedidas e campanhas de doutrinação [propaganda]” (p. 123 defesa do legado ocidental.. feministas. 30). de Leyla Perrone-Moisés. Mas nenhum desses fundamentos se sustenta como base de uma estética sem remissão a outro valor que o justificaria..

15. a ser representada no Brasil por Leyla Perrone-Moisés. como The madwoman in the attic. seria difícil encontrar um estudo sério defendendo algo que vagamente lembrasse a caricatura apresentada por Bloom. 2009 mais disse isso? Qual feminista ou “afrocêntrico” de relevo disse algum dia que a incorporação de uma obra ao cânone se deve ao advertising e à propaganda? Desconhece-se. Se Bloom insiste com tanta ênfase em afirmar que “Shakespeare inventou a todos nós” (p. É verdade . um crítico associado à direita mais conservadora – passou. ensaísta que não tem nenhum histórico de associação com o conservadorismo político. mesmo perfeito. retiremos mais um axioma: quanto mais ameaçados se sintam os guardiães da suposta universalidade de um determinado valor. Da leitura de Bloom. produz filhos tão bárbaros como os desprezíveis afrocêntricos e feministas. certamente não encontramos nenhuma equação entre a construção do cânone e a propaganda. n. pois nas centenas de páginas de queixas ressentidas contra a tal Escola de Ressentimento. que talvez seja a mais ilustre barthesiana da América Latina e cujos primeiros livros foram escritos na mais absoluta alegria e afirmação. Se é correto afirmar que parte da crítica contemporânea se dedica a questionar o processo de emergência dos cânones. Nas obras que se dedicaram a revisar o cânone a partir de uma perspectiva feminista. Mais que atacar Bloom. é impossível não se perguntar que pai é esse que. trata-se aqui de assinalar um paradoxo bem curioso que veremos reiterado no lamento contra os estudos culturais. ou de um ponto de vista afro. quando mais socialmente precário seja seu fundamento. de Sandra Gilbert e Susan Gubar. ele não nomeia seus supostos integrantes. como The signifying monkey.124 Revista Brasileira de Literatura Comparada. há uma década e meia. de Henry Louis Gates. 40) – e é ubíqua sua afirmativa de que Shakespeare é o pai de todos –. O mais surpreendente é que essa posição – defendida nos EUA por Harold Bloom. menor será sua capacidade de entrar em genuíno debate com a força emergente que aponta o caráter contingente desse valor. e o livro de Bloom não ajuda.

1998. no capítulo 5 de Altas literaturas. p. por pressão dos grupos particularistas. ela lhes atribui posições diametralmente opostas às que defendem em seus livros. 196). Kristeva. “a formação desse cânone foi examinada do ângulo ideológico”. seria hoje impensável nos Estados Unidos. 1998. acrescido do altamente antiantropofágico medo de que o Brasil se contamine pela influência norte-americana: “o lamentável de tudo isso é que muitos universitários brasileiros estejam recebendo essas tendências norte-americanas sem o menor espírito crítico” (Perrone-Moisés 1998.Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. 230). Observe-se. a abundância de vozes passivas (“o cânone ocidental .. 192). Foucault. p. Reencontramos em Altas literaturas o mesmo procedimento de Bloom: o ataque a um adversário cujos representantes não são nomeados e ao quais não se concede a generosidade da citação. gerando a dúvida sobre se ela realmente os terá lido. foi posto sob suspeita”. 195). como aquele que foi ministrado em 1936 na Universidade Columbia por Lionel Trilling e outros. Bhabha. Parecem não ter obra. “os anti-canônicos”. p. foi achar que se tratava de um erro tipográfico.. posto que todo o livro de Smith é uma análise do porquê dos juízos de valor serem inevitáveis. de sujeitos ocultos e de sintagmas como “alguns grupos”. colheu suas referências principais em Derrida. Também é bastante irônico .. mas o diagnóstico do que teria acontecido a partir da chegada dos estudos culturais é fundamentalmente o mesmo. p.3 Tomemos o diagnóstico da ensaísta brasileira sobre as raízes da perda de relevância social da literatura e da daninha influência norte-americana: Um curso de humanidades baseado na leitura de ‘grandes obras’ do Ocidente. 3 que a ensaísta brasileira se diferencia de Bloom. “as feministas norte-americanas”. dedicado ao diagnóstico do presente. introdutor dos estudos “póscoloniais”. a palavra ocidental foi suprimida na denominação dos cursos sobre cultura (Perrone-Moisés.. O turco Homi K. Lefort etc. ao ler que Barbara Herrnstein Smith “considera que o juízo de valor é indesejável” (Perrone-Moisés. Nos momentos em que Leyla Perrone nomeia duas figuras envolvidas com o debate sobre o cânone nos EUA – John Guillory e Barbara Herrnstein Smith –. 125 Minha primeira reação. “os particularistas”. Na Universidade de Stanford. Jamais sabemos quem são eles.

194-195). Corrijamos alguns: 1) Homi Bhabha não é “turco”. porque era caçador e machista. e sim indiano.. Melville. que herdam de Foucault a suspeita ante o conceito. Faulkner. munidos de argumentos iluministas historicamente tão ocidentais quanto o repudiado imperialismo (p..]. 5) Para qualquer conhecedor do sistema universitário norte-americano. aliás. exames e teses. sem citações. 2009 que os “pós-coloniais” se insurjam contra o que chamam genericamente de “ideologia ocidental”. n.15.... [.126 Revista Brasileira de Literatura Comparada. uma vingança extemporânea [. As exclusões ideológicas têm tido um efeito imediato e lamentável nos currículos norte-americanos: Mark Twain e Faulkner. porque antiecológico etc. palestino-americano de formação.]. seja na pós-graduação em literatura. no máximo. uma rápida busca nos sistemas das cento e três instituições catalogadas pela Carnegie Mellon como Research universities demonstra que esses quatro autores continuam abundantemente presentes em cursos. seja na licenciatura em inglês. porque eram escravagistas.] há um contra-senso histórico no desejo de modificar o cânone passado. Hemingway. Excluir do cânone um Dante. Fica difícil realizar um debate a partir de tantos erros factuais. campo de estudos cujas genealogias unanimemente (Desai e Nair. Melville e Hemingway do currículo. já que Leyla Perrone os caracteriza genericamente. seria. 2) Bhabha não é o “introdutor” dos estudos pós-coloniais. mas é sabido que a noção de ideologia tem pouca circulação nos teóricos pós-coloniais. 4) Desconhece-se universidade estadunidense que tenha excluído Mark Twain. 2005) apontam como momento inaugural a publicação de Orientalismo (1978). de Edward Said. bem europeia e humanista. 198-199). 3) Não se sabe quais seriam esses teóricos pós-coloniais que se insurgem contra “o que chamam genericamente de ‘ideologia ocidental’”. para colocar em seu lugar alguma mulher medieval que porventura tenha conseguido escrever alguns versos não seria ato de justiça. para nele incluir os então excluídos [. (p. causa estupefação a afirmativa de que é hoje “impensável” um “curso de huma- ..

em uma das grades. em geral. 4 nidades baseado na leitura das grandes obras do Ocidente”. os currículos universitários norte-americanos incluem um curso de obras-primas ocidentais que percorre. e nele não há sombra de “alguma mulher medieval que porventura tenha conseguido escrever alguns versos”. Como sabem quase todos. Cervantes.. onde se incluíam textos “não-ocidentais” como os de Frantz Fanon e Rigoberta Menchú. no primeiro semestre de 2010: a lista de leituras consiste em Maquiavel. Marx. Dentro de Stanford.. Graff.Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate.4 Não é exatamente uma seleção escalada por uma afrofeminista radical. de cunho comparativo. Stendhal. inclui Dante. É lamentável que uma ensaísta que dedica páginas a criticar as simplificações da cultura de massas e da mídia reproduza a distorção veiculada por Time. Rousseau. Casement. 1996. um trajeto que vai de Homero (ou Platão) a Nietzsche. O curso do segundo semestre cobre da Antiguidade até a Idade Média. Nietzsche. por um curso intitulado “Culturas e valores”. Uma breve consulta à bibliografia séria acerca do incidente (Pratt. Fanon e Coetzee. Como exemplo. Primo Levi. Newsweek e Wall Street Journal acerca da polêmica em Stanford que desatou as chamadas “guerras culturais” nos EUA. Hobbes. 1993) teria sido suficiente para evitar o erro. Dostoiévski. Em março de 1988.edu/web/default. 6) A incrível afirmação de que em Stanford “a palavra ocidental foi suprimida na denominação dos cursos sobre cultura” merece parágrafos à parte. em Stanford. Virginia Woolf. o Senado de Stanford decidiu aprovar uma proposta de substituição de um desses cursos de “cultura ocidental”. tulane. embora esses autores também sejam lidos numa série de cursos que. 2001. cito o que está sendo ministrado na minha própria. O curso que costuma atender pelo nome de Great Books é um dos mais comuns em qualquer grade curricular de qualquer boa universidade estadunidense. Freud. são parte de oito grades dentro das quais o aluno pode cumprir os requisitos de humanas. Tulane. num debate já informado por . asp?id=Courses>. a implantação do novo currículo foi absolutamente tranquila. 127 A lista de leituras está disponível em: <http://honors.

Allan Bloom. Menchú. estava pronta para presenciar a queda do comunismo e identificava na cultura a nova guerra que deveria vencer.15. narrou verbalmente sua história de vida à antropóloga Elizabeth Burgos. a direita republicana concluía oito anos de controle sobre a Casa Branca. Os neoconservadores sabiam que era no terreno da cultura que se jogaria a cartada decisiva. n. O relato é indissociável das atrocidades cometidas na guerra civil da Guatemala nos anos 1970 e 1980. mas tudo correu dentro da normalidade que se espera de uma revisão curricular como qualquer outra. as forças conservadoras do país passaram a dedicar intenso esforço à vitória na luta cultural. ativista guatemalteca de etnia maiaquiché. ao “assassinato de Shakespeare e Platão” e à “intimidação de ativistas estudantis”. A grande imprensa passou a dedicar blocos de seus programas à “eliminação da cultura ocidental no currículo das universidades americanas”. autor do best-seller Illiberal education. acabava de estrangular a revolução centro-americana. e Dinesh D’Souza.128 Revista Brasileira de Literatura Comparada. 2009 anos de reflexão sobre a necessidade de oferecer outras versões sobre a modernidade.5 Em 1988. Estavam lançadas as sementes do que se conheceria depois como “as guerras culturais”. Investiram-se milhões de dólares na construção de think tanks como a Heritage Foundation. um think tank de direita). Desde Watergate. ver o belo livro de Yúdice. A defesa do projeto foi ligeiramente politizada por grupos de estudantes. grupos religiosos e o Partido Republicano acompanhavam o debate de perto. a queda de Nixon e a consequente desmoralização da direita americana. autor de The closing of the American mind. de Sobre o caráter ubíquo que tem adquirido a cultura como terreno onde se jogam os antagonismos políticos. Herbert London (fundador do Hudson Institute. passariam a acusar Stanford de jogar no lixo a cultura ocidental. 2004. 5 . que aprendeu espanhol já adulta. O livro de D’Souza atacava especialmente a incorporação ao currículo do testemunho de Rigoberta Menchú. entre outras generalizações provocadoras de pânico. exceto por um detalhe: as principais fundações da direita norte-americana. William Bennett (ex-secretário de educação no governo Reagan). A votação no Senado foi normal.

em incontáveis cursos de Stanford ou de qualquer outra boa universidade norte-americana.Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. é atrocidade também. creio ser desnecessário confirmar que a presença do termo “ocidental”. Proponho desenvolver aqui uma ideia que parecerá estranha aos que acompanham as discussões sobre o valor. 129 responsabilidade de uma ditadura financiada pelos EUA. A estas alturas. Dito de outra forma: o conceito de valor abre um horizonte riquíssimo . É incoerente citar o axioma benjaminiano acerca da inseparabilidade entre documento de cultura e documento de barbárie (Perrone-Moisés. ele dava uma resposta implícita aos que idealizam o Ocidente ou “os valores ocidentais” como cavalos de batalha morais. 202) e reagir com pânico no momento em que se extrai uma mínima consequência prática da profunda e radical verdade desse axioma.. p. O livro dizia: o ocidente é isto aqui também.. ou que não exista nada a se criticar nos estudos culturais e nas plataformas feministas ou étnicas de revisão do cânone – simplesmente é melhor fazer os balanços disciplinares com base em fatos e bibliografia. não em projeções fantasmáticas. os cânones brasileiro. bem menos dramática do que seria de se imaginar por intervenções apocalípticas (“estão assassinando Platão e Shakespeare”) ou triunfantes (“estamos conquistando espaço para os excluídos”). especialmente aquelas marcadas por ansiedades quanto aos estudos culturais: a rentabilidade do debate sobre o valor estético costuma ser inversamente proporcional à sua acoplagem ao problema do cânone. Os exemplos citados acima ilustram algo que é frequentemente esquecido por ambos os lados no debate sobre o valor. 1998. Apesar das aparências. jamais esteve em perigo. latino-americano e ocidental têm se transformado de maneira lenta e modesta. valor literário e apocalipse Daí não se conclua que tudo vai bem com o ensino de literatura nos EUA. ao ser incluído num currículo universitário de culturas ocidentais. O que enfurecia no testemunho de Menchú era que.

Essa redução une esteticistas e culturalistas. mas pouco analisado. pelo papel que cumpriu a beleza cintilante de livros como Texto. exatidão. que teria sido mais um magnífico livro de Leyla Perrone caso ela o tivesse interrompido na página 173. Butor. Leyla Perrone está. que insistia que os críticos literários deveriam escrever sempre sobre aquilo de que gostam. Pound. intransitividade. há uma diferença nítida com Bloom. O contraste me fez recordar a observação de uma saudosa professora. concisão. Essa extrema honestidade intelectual me fascina em Altas literaturas. Perdido nesse debate fica o fato óbvio. de que o conceito de valor não se reduz a suas consequências para o cânone. que só é obscurecido se o reduzimos ao problema de quais autores farão parte do panteão de leituras obrigatórias. universalidade e novidade. continuo tomando Altas literaturas como interlocutor privilegiado. utilidade. impessoalidade. Haroldo de Campos e Sollers contrastam nitidamente com a desinformação do capítulo final. sim. Pode-se criticar qualquer coisa na defesa que faz Leyla Perrone do cânone moderno. acima de tudo. atenta ao fato de que esses valores podem estar . Depois de mapear os paideumas dos escritores-críticos modernos.15. São eles: maestria técnica. escritura e Falência da crítica em minha própria entrada na profissão e. Aqui. crítica. “ocidentalistas” e “particularistas”. Aqui. visualidade e sonoridade. Calvino. n. A paixão e a erudição com que a autora escreve os capítulos sobre Eliot. inclusive. Paz. intensidade. pelo fato de que a obra não esconde os seus pressupostos axiológicos.130 Revista Brasileira de Literatura Comparada. sobre a suposta barbárie que ela vê nos tempos atuais. Borges. menos a falta de explicitação dos valores que a orientam. Leyla Perrone encontra alguns valores que seriam comuns a todos. que defende seu cânone com base numa naturalização muito menos reflexiva. por sua importância no debate crítico brasileiro. completude e fragmentação. pela estatura intelectual inegável de sua autora. 2009 para a crítica literária. Dificilmente encontraremos uma síntese tão exata dos valores que balizam a prática literária moderna.

não é contraditória com o ideal da obra aberta (p. já não a poesia.. . mas a literatura como tal –. entendida como coerência interna. a lista de características privilegiadas por oito escritores-críticos que produziram o fundamental de suas obras num brevíssimo intervalo de tempo (pouco mais de meio século) pode balizar a compreensão do que a modernidade literária pós-romântica privilegiou na sua prática. alargar e valorizar nossa experiência do mundo. Supondo-se que esses traços são distintivos da modernidade crítica. mas que isso não impede Eliot de ver a utilidade da literatura na “preservação do idioma” ou Sollers de associar “transgressão poética e subversão política” (p.. ainda restaria a pergunta acerca do que fundamenta o valor estético encontrado por todos eles em obras que não pertencem à modernidade e que foram escritas de acordo com outras pautas. para os modernos. permaneça inconteste o valor estético de obras escritas a partir de pautas diferentes e muitas vezes contraditórias com aquelas privilegiadas em suas próprias práticas? Em outras palavras. O mesmo se aplica à aparente contradição entre fragmentação e completude. mas ainda não diz nada sobre o valor estético como tal. 165). Seria a Divina comédia um poema “fragmentado”? Teria a Odisseia o dom da “concisão”? Como explicar o fato de que. a ensaísta brasileira afirma: Se nós acreditamos que a literatura tem a alta utilidade de esclarecer. 164) – ou seja. como fundamentar um conceito transhistórico de valor estético? Leyla Perrone não se furta a encarar o problema. ela mostra que os modernos coincidem na “independência do objeto estético” (p. 160-163). a intransitividade –. a ficção e o ensaísmo da modernidade crítica pós-romântica. Em resposta à pergunta “para que serve a literatura?” – ou seja. 131 em contradição uns com os outros: afinal. No entanto. Esta última.Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. não seria a utilidade o oposto da intransitividade? Como conciliar fragmentação e completude? Tecendo uma série de refinadas distinções.

Jorge Amado sobre. 21-22). é o nosso objetivo. seria difícil não escolher. Algum aluno impertinente poderia encontrar uma contradição entre essa definição de literatura e o cânone defendido pelo livro. seremos levados a defender um certo tipo de história literária: aquela que otimiza a fruição das obras (p. e a afirmação de que Jorge Amado lhe é superior. qualquer tentativa de defini-la em termos puramente imanentes fracassará no teste da falsificabilidade. Partindo-se do pressuposto de que a literatura. poderíamos perguntar: Quem é o “nós” sujeito do verbo “acreditar” nesse trecho? Estamos todos os consumidores de literatura incluídos nele? Será mesmo tão impossível imaginar uma comunidade de leitores para os quais a “utilidade” da literatura seria justamente a oposta. qualquer resposta essencialista à pergunta sobre sua natureza. não seria absurdo dizer que a impossibilidade de “esclarecer. Kafka é pilar central do cânone estético defendido por Altas literaturas. no seu mais alto sentido de conhecimento e valorização da experiência humana. 2009 admitiremos que a história do conjunto de suas realizações maximiza o proveito que podemos tirar do contato com cada realização particular. Afinal de contas. alargar e valorizar nossa experiência do mundo” é o tema mesmo da obra kafkiana. E se a fruição da literatura. perfeitamente plausível para alguém que trabalhe com uma definição historicizada e agnóstica de valor literário. O objetivo aqui não é caçar contradições no discurso alheio. . como tal. serve para valorizar a experiência humana. n. No entanto. Muito pouco se “esclarece” ali.132 Revista Brasileira de Literatura Comparada. mas exemplificar um postulado teórico que se desprende da leitura de uma de nossas mais sofisticadas ensaístas: qualquer definição trans-histórica de literatura. a “experiência humana” que retrata a obra deste último é uma repetição infinita de uma alienante brutalidade incognoscível para o sujeito. digamos.15. certamente seria rejeitada em termos categóricos pela autora. Atendonos à definição que oferece Leyla Perrone para o que “serve” a literatura. No limite. Kafka. digamos.

Nos últimos anos.] está muito ameaçada” (p. em abstrato. 179). A extrema erudição e extensão do romance não o impediram de tornar-se um bem-sucedido filme em mãos de Héctor Babenco. 571). 178). o romance póstumo do .. apontava que a crença nos períodos de declínio é coextensiva à crença entorpecida no progresso. prefiro ficar com Walter Benjamin. Sofia. p. que. mas desvelar-lhe a miséria? “Para que serve” a literatura é uma pergunta para a qual não há resposta de antemão. apaixonado por Sofia. “Não há períodos de declínio” (Benjamin. mas embaçar a experiência do mundo. 133 não “esclarecer”. O apocalíptico e o otimista progressivo representam duas faces da mesma moeda. “o desafeto progressivo pela leitura é um fenômeno internacionalmente reconhecido” (p. no Passagen-Werk. num momento muito recente – o século XVIII –.. sem referência aos conflitos e pactos sociais que presidem a circulação dos artefatos verbais que. apaixonada por seu amor por Rímini. passaram a ser designados como “literatura”. desenvolve em mais de 500 páginas recheadas de um vasto saber psicanalítico e cinematográfico uma história de amor marcada por uma essencial e deliciosa assimetria: Rímini. A universalização. entre eles. 2666.. p. 178). o grande romance de amor do novo século –. 178). de Alan Pauls – segundo muitos. Aqui. 1998. exibem esse valor em medida superior aos demais. a literatura latino-americana ofereceu abundantes contraexemplos à percepção de que a ficção se encaminhava necessariamente na direção do mais breve e light.Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. “os novos escritores [. “a literatura [. de um conjunto de postulados próprios a uma região e um momento histórico só pode levar à incapacidade de ler o presente a não ser como queda: “a literatura [. o grande romance argentino da década e. como essência do texto literário..] recolheu-se a um canto” (Perrone-Moisés.] publicam livros light” (p.. segundo o Le Monde. 1991. El pasado (2003).. 178).. “os livros de ficção se tornaram mais curtos e mais leves” (p. Não há respostas imanentes às perguntas acerca de qual é o valor desses artefatos e quais.. não valorizá-la.

em mais de 900 páginas. Um defeito de cor (2006). em mais de 800 páginas. em 1933. cujo refinamento não impediu que ele se transformasse em fenômeno editorial. A hipótese de que a percepção de uma decadência no samba datava dos anos 1940 foi. por sua vez. Estupefato.134 Revista Brasileira de Literatura Comparada. historiografia e ficção sem nenhuma concessão ao naturalismo fácil. Voltando ainda mais. uma saga narrada por uma escrava. Os leitores das obras de Ana Maria Gonçalves. que compra sua liberdade e percorre oito décadas de história brasileira e africana no século XIX. interessou-me em certo momento a origem do discurso sobre a decadência do samba: “Já não se faz mais samba como antigamente”. descobri que a afirmação de que já não se faz samba como antes aparece no primeiro livro escrito sobre o samba. 2009 chileno Roberto Bolaño. a de que o discurso coincidia com o início da apropriação bossanovista do samba de morro nos anos 1960. ainda no contexto da Rádio Nacional. foi contradita por inúmeras ocorrências anteriores dessa retórica. da mineira Ana Maria Gonçalves. Em meu trabalho sobre música popular. nos anos 1950. um relato que conjuga os horrores dos assassinatos de mulheres na fronteira mexicano-americana com um estudo da frivolidade cúmplice que Bolaño via como característica das cliques acadêmicas e literárias. nos anos 1930. Desde quando se diz isso? Minha hipótese inicial. encontrei outras instâncias na época do sambaexaltação e da sobreorquestração do gênero no molde das big bands norte-americanas. como Francisco Alves.15. apresenta. especialmente no caso deste último. pelo jornalista Vagalume. contradita pela sua aparição durante a compra dos sambas dos compositores negros do morro por intérpretes brancos de classe média. n. Luisa Mahin ou Kehinde – possivelmente a mãe do poeta Luiz Gama –. Esses leitores com frequência testemunham que a sofisticação dos textos não é contraditória com o interesse gerado pela peripécia. oferece. numa narrativa que mescla testemunho. Alan Pauls e Roberto Bolaño são bem mais numerosos que nos fariam crer os apocalípticos. O discurso de que o samba corre risco de morte tem a exata .

e continuaria sendo contingente. Significa que a existência de profetas da queda do valor literário é tão antiga como a literatura mesma. a adequação aos modelos da Antiguidade na literatura . uma vez consolidado. relativismo e contingência O axioma da filósofa Barbara Herrnstein Smith é um achado mais complexo e frutífero do que parece à primeira vista: o valor é sempre e necessariamente contingente (Smith. um dos fundamentos que presidem a emergência da própria comunidade. p. 135 idade do samba. Nada disso mudaria seu caráter contingente.. Um determinado valor ou sistema de valores pode perfeitamente ser objetivo (na medida em que ele independe da subjetividade particular de qualquer membro da comunidade interpretativa). absoluto (posto que não relativizável dentro de tal comunidade) e motivado (no sentido de que sua origem não é produto de uma eleição puramente arbitrária). esse valor contingente tenderá a aparecer aos membros da comunidade interpretativa como uma não-contingência. 1998. Antes que a patrulha antirrelativista afie suas garras. é “dentro da comunidade”. axiologia. 1988. Da mesma forma. Um valor é sempre o resultado de uma luta mas. Bastaria pensar no considerável poder de tração de valores como o mester de clerecía (a técnica aprendida na tradição) na literatura tardo-medieval hispânica. inclusive. A expressão-chave aqui. objetivo e motivado. é bom esclarecer que “contingente” não quer dizer “subjetivo” nem “relativo” nem “arbitrário”. o fato de que em 1964 o poeta mexicano Octavio Paz tenha reunido uma lista de sinais de decadência da literatura não quer dizer que “a situação em que hoje vivemos foi claramente prevista” por ele (Perrone-Moisés. 179). 30-53). No espaço circunscrito da comunidade interpretativa em questão. um valor pode ser absoluto.. claro. p.Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. um dos elementos constitutivos da comunidade mesma. A coincidência de contingências que conferem inteligibilidade a um valor pode ser.

mas expressa a naturalização do pacto valorativo. A afirmação não está na esfera do indizível. A transcendentalização dos resultados de um pacto particular é uma estratégia comum e recorrente nas querelas entre escolas e estilos literários. a justificativa de um valor contingente fez uso de um vocabulário da nãocontingência. digamos. no entanto. É claro que é possível questionar essa valoração (e já encontrei vários leitores. Em cada um desses casos. Os juízos discordantes tenderão a ser lidos como deficiência ou falta de cultura do sujeito valorador. mas ela não é uma teoria da literatura e do valor estético como tais. Esse questionamento. 2009 neoclássica do século XVIII. a não ser como sinédoque cega a suas próprias condições de produção. ou seja. Um exemplo análogo.15. com Cem anos de solidão. de Isabel Allende. desfruta de um valor ausente em. de Gabriel García Márquez. realizou uma transcendentalização de um processo que era imanente à comunidade valorativa em questão. Os juízos que se adéquam ao pacto valorativo dominante tenderão a ser lidos como confirmação da obviedade e naturalidade dos valores implícitos no pacto. n.136 Revista Brasileira de Literatura Comparada. seja qual for a crítica que se possa ter à estética do realismo mágico. particularmente leitoras. seria o hipotético leitor que adentrasse as comunidades interpretativas dentro das quais circula o romance dos anos 1930 para propor a tese de que Jorge Amado é superior a Graciliano Ramos. mas ela não . no Brasil. não pode ocorrer sem que o sujeito se instale em posição exterior a um consenso crítico que preside as comunidades interpretativas nas quais circulam esses textos. Tomemos um exemplo latino-americano: é amplamente hegemônica a percepção de que. O grau de estabilidade de um determinado sistema de valores em sua respectiva comunidade não diz nada sobre sua suposta obviedade. especialmente na França. nem sobre as propriedades intrínsecas do objeto valorado. sua versão original. ou a inovação e a ruptura nas vanguardas de princípios do século XX. A casa dos espíritos. que afirmavam que o melodrama de Allende lhes falava à experiência de uma forma que a saga de García Márquez não fazia).

Nietzsche sugeria. o neokantismo de princípios do século XX leu como “relativistas” afirmações do tipo “falar de justiça e injustiça em si carece de todo sentido” (Nietzsche. A acusação de relativismo tenderá a se repetir quando. ou seja. for exposta a contingência que sustenta um valor supostamente absoluto. claro. um relativista. que “daria tudo na mesma” (um dos expoentes dessa desleitura. que insiste em igualar desconstrução e relativismo). todos reconhecerão que não há como negar a superioridade estética de García Márquez sobre Allende. a acusação de relativismo invariavelmente remete a uma suposta tendência dos estudos culturais – ou das demonizadas feministas e afrocêntricos . questionar a totalidade do pacto valorativo. 137 pode ser acomodada nos pactos valorativos dentro dos quais circulam os romances desses dois autores. é o filósofo e poeta Antonio Cicero. Nietzsche ensinou algo acerca de como funcionam as operações de naturalização. vale sempre a regrinha: ao ver alguém ser acusado de relativista. para usar a fórmula popular. A única possibilidade que restaria a esse hipotético leitor seria desvendar a natureza contingente da aparente naturalidade da valoração anterior. “piedade” e “humildade”. uma vez que os leitores sejam educados direitinho. no Brasil. 312). Mas. Ele afirmou taxativamente que os valores socrático-cristãos são piores. confundida com o bicho-papão do relativismo. Os defensores da naturalidade do pacto valorativo em geral replicarão com a falácia desenvolvimentista: o argumento de que a percepção minoritária é produto de uma deficiência do sujeito valorador e que.Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. no interior de uma comunidade interpretativa. p. dê uma olhada no absolutismo de quem acusa. valores de escravo. daninhos à afirmação da vida. que não há “justiça” até o momento em que o mais forte estabeleça sua lei. mais baixos. No caso do valor estético. Ao questionar a obviedade de valores como “bondade”. A posição que apresento aqui é. com frequência.. 1967-77. que afirmaria que todos os valores seriam igualmente válidos ou. não por acaso. Nietzsche não foi. Com esse axioma. Nessas polêmicas.. de forma alguma.

poderá testemunhar acerca da miríade de distinções de subgêneros baseadas em andamento. Está demonstrado. p. vocalização. temática das letras. menos complexas. 3/4. tal “irregularidade” provinha do fato de que a teoria ocidental prevê compassos simples (binários: 2/4. que as distinções valorativas realizadas pelos fãs de música popular não são. Recorro à etnomusicologia. 2009 – de não aceitar a “óbvia” diferença de “qualidade” entre os grandes monumentos da modernidade e as formas estéticas mais populares ou massivas. o heavy metal.138 Revista Brasileira de Literatura Comparada. por exemplo. O próprio Mário de Andrade faz referência a ela como característica “tida em geral como provinda da Africa” (1987. Carece de qualquer fundamentação filosófica a ideia de que a viabilidade do conceito de valor estético dependa da aceitação de uma diferença essencial. 1996). se essa distinção de valor não é aceita. Qualquer consumidor de música popular que acompanhe. mas não prevê compassos que misturem de forma sistemática agrupamentos dos dois tipos. performance. Aceitar essa diferença seria um pré-requisito para qualquer discriminação de valor. Ora. n. volume. com pesquisa formal e etnográfica (Frith. 409). 4/4) e compostos (ternários: 6/8. nenhuma distinção de valor é possível. timbre ou padrão rítmico – distinções incompreensíveis e ilegíveis para aqueles situados fora do pacto valorativo que preside o consumo do gênero. a partir do século XX.15. na qual me parece que o conceito de valor está colocado em terreno mais sólido. Para seguir com a analogia musical: durante décadas. instrumentação. imanente entre o valor das obras agrupadas sob a rubrica da arte erudita e o valor daquelas que convencionamos chamar de populares ou massivas. grau de distorção. exatamente a mistura que . 9/8). multifacetadas ou especializadas que aquelas feitas pelos ouvintes do heterogêneo corpus de peças europeias modernas que. os estudos de música brasileira trabalharam com a noção de síncope como “irregularidade” essencialmente africana. passou a ser agrupado sob o rótulo de “música clássica”. Ou seja. rigorosas. absolutamente. a acusação de relativismo costuma pressupor que.

39). A chamada “irregularidade africana” não era senão a impossibilidade de que a partitura ocidental descrevesse apropriadamente o novo objeto. ajudarão a encaminhar a conclusão teórica. Os pactos valorativos na estética se tornarão visíveis em proporção direta à exposição do caráter contingente dos fundamentos que os sustentam. é hoje invariavelmente visto como “escritor para adolescentes” (Aira. Na Argentina. 2006. O fato é que hoje . O resultado é que “ritmos desse tipo apareceram nas partituras como deslocados. Uma determinada conjunção de fatores estéticos e políticos criou as condições para uma leitura celebratória de Cortázar nos anos 1960. dedicando-se exclusivamente a repetir seus velhos clichês e a responder às exigências estereotipadas de seu público” (Piglia. que inspirou uma geração de neovanguardistas estéticos e revolucionários políticos. 85). nota-se uma acentuadíssima queda no capital cultural de um escritor que chegou a ser considerado um dos maiores do continente. irregulares (exigindo. “depois de Todos los fuegos el fuego já não escreveu mais. de Bestiario. nos últimos trinta anos. Na Argentina.. Incontáveis são juízos contemporâneos que veem O jogo de amarelinha como romance que “sofreu enormemente a passagem do tempo” (Sarlo. p. 2008) e “está escrito para candidatos de agência de turismo cultural”. 1993. incluindose um que ilustra minhas críticas às revisões feministas. uma “perfumaria free tax de aeroporto” (Abraham. Dois exemplos. O valor rítmico contramétrico era ilegível numa notação construída para descrever e privilegiar a harmonia. p. Julio Cortázar.. étnicas e pós-coloniais do cânone.Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. a avaliação mais recorrente de Cortázar é que se trata de um escritor em cuja obra talvez se salvem os primeiros contos. 26). mas não muita coisa mais. como síncopes” (Sandroni. A obra não parece ter renovado sua legibilidade depois daquele contexto (o que não quer dizer. o recurso gráfico da ligadura e o recurso analítico da contagem) – em uma palavra. que não possa vir a fazê-lo num momento futuro). 2001. 2001) que. para sua correta execução. anormais. evidentemente. 139 é uma das marcas da música da África subsaariana. p.

Era o auge dos movimentos de solidariedade à revolução centro-americana. Mas na Argentina ela seria recebida como uma junção de termos incomensuráveis. Seguindo-se à Agradeço a Mariano Siskind pela interlocução sobre a perda de capital cultural de Julio Cortázar na Argentina e também pela citação de Beatriz Sarlo. e a história de Menchú. resultado de 25 horas de gravações realizadas pela antropóloga franco-venezuelana Elisabeth Burgos. quando Casa de las Américas criou uma categoria especial para o gênero em seu prestigioso prêmio. de Miguel Barnet. n. uma vantagem do gênero em relação à literatura na representação dos excluídos. mesmo no caso das obras mais politizadas. também latino-americano. As comparações com Jorge Luis Borges. Em 1983. oferece algo a ser pensado pelos dois polos do atual debate: a entrada do testemunho ao cânone literário. 6 . Um outro episódio de valoração. Uma tese que se propusesse a comparar “o fantástico em Borges e Cortázar” é imaginável no Brasil. hoje soariam risíveis aos ouvidos dos que circulamos no interior dos pactos valorativos que presidem a circulação desses textos.140 Revista Brasileira de Literatura Comparada.15. gerou comentários acerca de uma suposta transparência da voz testemunhal. A publicação de Biografía de un cimarrón. Juan José Saer. sobre a qual as revisões feminista. formada na luta contra os horrores do regime guatemalteco. por exemplo. comoveu uma série de críticos de esquerda que buscavam alternativas a uma política literária herdada do boom. O testemunho havia recebido um primeiro reconhecimento em 1967. que o valor dos escritores na Bolsa Literária (segundo a feliz expressão de Leyla Perrone-Moisés) muda no tempo e no espaço. na Espanha e talvez nos EUA. Há uma lição menos óbvia a se extrair daí.6 Com o exemplo de Cortázar. como demonstra uma pesquisa nos bancos de dados da disciplina. publicou-se o testemunho de Rigoberta Menchú. 2009 seria bastante difícil encontrar um estudioso de literatura na Argentina que colocasse Cortázar no mesmo patamar de. étnica e pós-colonial do cânone ainda não refletiram o suficiente: a incontornável descontinuidade entre valor estético e resultado político. não quero me limitar a ilustrar o óbvio. como a de Cortázar. comuns nos anos 1960.

no interior dos estudos sobre o testemunho. Estudos fundamentados no problema da mediação (Sklodowska. . p. O saldo do episódio da canonização do testemunho foi que o texto de Rigoberta Menchú produziu um impacto importante. Tanto esteticistas como culturalistas sobrestimam as consequências da revisão de uma lista de leituras. 2001) ou no papel do testemunho como recuperação imaginária de uma vocação política perdida na literatura (Avelar. ela funciona como explicação simples para o complexo quadro de perda de capital cultural da literatura. como chegaram a lamentar Roberto González Echevarría e outros expoentes da direita crítica latino-americana. o testemunho permite a emergência – mesmo que mediada – de identidades femininas. camponês ou imigrante) e a posição do mediador (um intelectual. 1992).. homossexuais. de que enquanto a literatura na América Latina “tem sido (principalmente) um veículo para engendrar um sujeito adulto. p. mas limitado. 51-104) relativizaram a “revolução” testemunhal que parte da esquerda anunciara nos anos 1980. 2003. A incorporação de depoimentos dos subalternos ao cânone não representou nem um assassinato de Cervantes e Borges pela barbárie iletrada.. 98). na aura de autenticidade da voz do subalterno (Moreiras. 20) ao testemunho como “expressão de uma consciência liberada de tal elitismo” (p. 141 publicação do testemunho de Menchú. Para os primeiros. como chegaram a celebrar John Beverley e George Yúdice. p. logo absorvido pelo pacto valorativo que preside a leitura do corpus latino-americano.Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. a ênfase nas mediações por meio das quais a voz testemunhal se registra na escrita e a análise da descontinuidade entre a posição do depoente (um subalterno. 26). nem um golpe ao poder “elitista” da literatura. em geral um antropólogo) levou a própria crítica a matizar a euforia do primeiro momento. indígenas e proletárias” (1993. em geral indígena. patriarcal e ‘letrado’. branco. masculino. George Yúdice opôs a literatura como “portadora privilegiada da identidade nacional” (1991. Entretanto. A euforia levava a declarações como a de John Beverley.

n. dedicado à comparação entre as várias belas artes (segundo Kant. ao valor da existência humana (§4) e à necessidade do postulado da existência de seres racionais para que o mundo seja dotado de valor (§87). Para uma genealogia do conceito de valor estético Os conceitos de valor e de estética terminaram. Mas não há. no sentido mensurável. Recorde-se que. funciona como mecanismo compensatório que permite a apresentação de novas listas de leitura. nenhuma atribuição de valor à beleza. A grande tarefa da teoria não seria. sugiro rotas de dissociação entre esses conceitos. o valor e a estética de forma a não permitir nenhuma descontinuidade entre os três termos. Este é um fato filológico tão banal quanto regularmente esquecido: na origem da estética. com observações acerca do que denomino uma concepção agnóstica de valor literário. o etnocentrismo e a opressão de classe. todas essas ocorrências se referem a uma esfera extraestética. na Crítica do juízo. a mais alta seria a poesia). não há conceito de valor.] um poema bom. então.142 Revista Brasileira de Literatura Comparada... Kant faz. mas introduzir algum espaço de respiração na interseção entre esses três conceitos. sim. não estou dizendo meramente que gosto dele. salvar a literatura ou democratizar o cânone. o conceito de valor [Wert] não aparece no contexto do estabelecimento da estética. 2009 Para os segundos. ou como se valorar obras de arte sempre implicasse que o juízo em questão fosse estético. mais inclusivas. para Kant. mas que todo mundo que o 7 . como se estas representassem uma vitória política real contra o racismo. Ou seja. quantitativo que é próprio do conceito. a estética seria a esfera da experiência Que Antonio Cicero decrete que “quando digo que um texto é [. Como se sabe. então. nenhuma hierarquia do belo. Ambos trabalham com o cânone. A única menção ao valor num contexto estético ocorre em §53. como se toda estética pressupusesse a noção de valor. sendo vistos como contíguos entre si por esteticistas e culturalistas. na Crítica do juízo kantiana. Para concluir. o sexismo. referências ao valor de um ato (§91).15.

8). o ônus da prova cabe a estes. Na verdade.. considere desinteressadamente deve reconhecer” esse suposto fato e que. 143 desinteressada do belo. Decretar que estes últimos são maus leitores não resolve o problema teórico. não custa lembrar que o próprio pilar da analítica kantiana do belo – a demanda de concordância universal sobre o juízo – também embute um patente contrassenso. é pueril argumentar que não podemos afirmar que “o sentido não é eterno e unívoco” pelo fato de que essa frase supostamente teria um sentido eterno e unívoco. Em bom português: no debate entre agnósticos e crentes. ele parece não ter se dado conta de que há um capítulo inteiro de Contingencies of value dedicado a refutar a objeção de que supostamente não se poderia afirmar que o valor é sempre contingente sem cair em contradição. não pretendo o mesmo” (2009a). Deixemos de lado o caráter escorregadio dessa premissa. Caso se apresente a objeção de que a impossibilidade de submeter o belo a fórmulas comparativas contraria todo o senso comum que desenvolvemos como consumidores de arte. Os enunciados falsificáveis evidentemente não se submetem às mesmas regras de verificabilidade dos não falsificáveis. incorre em paradoxos que solapam suas próprias teses” (2009b. Basta ler a analítica do belo (§6 a §22) para constatar que Kant o entende como objeto de um juízo de tipo. Sugiro.. Ao enfrentar-se com a pergunta acerca de como se chegou a delimitar o terreno propriamente estético. Quem afirma a contingência do valor não está conferindo ao objeto valorado um atributo que permaneceria no tempo. evidentemente. 230). não há outro vocabulário que não o da economia.Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. 1998. por outro lado. remete-se o interlocutor à existência de obras que exibem. Ou seja. no qual atos de valoração socialmente situados entram em conflito.. sendo sua maior ou menor presença em cada obra o critério para sua valoração. não sugiro. em negociação e em articulação. ao propor a tese da contingência do valor. não há que se repreender Barbara Herrnstein Smith por remeter o valor estético ao terreno da economia (Perrone-Moisés. ela se limita a apresentar uma negativa. p. incontáveis leitores dizem que “No meio do caminho” é um bom poema e outros incontáveis leitores dizem o contrário.7 Por isso. Todas as definições não econômicas de valor estético que tenham pretensões trans-históricas incorrem em versões mais ou menos sofisticadas de uma tautologia: define-se o valor como a presença de certos traços formais (sejam quais forem) ou a capacidade de produzir certas sensações. Quando Cicero afirma que Barbara Herrnstein Smith. Esses traços ou potencialidades passarão a ser apresentados como característicos da experiência estética. “se digo ‘eu gosto de abacate’. apresentada como apreço que necessariamente demanda universalização. que esse valor se deduz num contexto eminentemente relacional. jamais de grau. sim. exatamente como ocorre com o gosto do abacate. A frase não confere um atributo ao sentido. “nem sequer se dá conta de que. aqueles traços inicialmente definidos como característicos do estético! Não é à toa que os alunos não aceitam isso facilmente. ao dizer tais coisas. que o valor estético de Grande sertão: veredas possa ser deduzido do preço da mercadoria comercializada pela Editora Nova Fronteira. já amplamente criticada pela tradição (a começar pelo próprio Hegel). não torna essa distinção verdadeira. econômico. Ao propor que não há conceito não tautológico de valor estético fora da economia. mediados por .. p. No mundo real. concordância de todos.

a economia política em mais de dois milênios. É o próprio Marx que. n. É para esse fim que se introduziu o dinheiro” (1133a). p. mas justamente notar que há uma operação analógica silenciosa. 581). com Ricardo. 1999. Smith escapa da circularidade da equivalência universal das mercadorias ao dotar um conceito de um papel transcendental. A economia . entre fisiocratas e utilitaristas. dedicado à mercadoria. num processo que conforma um equilíbrio nunca completamente estável – o que venho chamando aqui de pacto valorativo. Já está presente em Aristóteles a compreensão de uma diferença clara entre o valor de uso e o valor de troca: “todas as coisas que são trocadas devem ser de alguma forma comparáveis. O conceito de valor. nas teorias imanentistas do valor estético. A consolidação da teoria do valortrabalho.15. que delimita uma região na qual a representação “não tem mais domínio” (Foucault. Para compreender sua dinâmica. qualquer que seja. vale a pena refletir sobre como a economia política entendeu o valor. de rentabilidade limitada. no primeiro capítulo de Capital. constante e permutável sob todos os céus e todos os tempos. de Adam Smith. pressupõe um transcendental. 1992. As genealogias da economia política em geral conferem a Riqueza das nações. O conceito da comparabilidade universal precede. que serve de fundamento a todas as outras trocas: “o trabalho é a real medida do valor intercambiável de todas as mercadorias” (Smith. extrai sua origem do trabalho” (Foucault. ocorre não a partir do fato de que o “trabalho seja um valor fixo. dá o crédito a Aristóteles como o “primeiro pesquisador a ter analisado a formavalor” (1952. pelo menos na economia política. p. 269). 2009 instituições como a escola. 1992. a imprensa e a crítica. 71). 270). mas sim porque todo valor. p.144 Revista Brasileira de Literatura Comparada. na qual ele sempre teve sua morada mais sólida. portanto. É o trabalho que lhes confere valor e explica a possibilidade de equivalência entre duas mercadorias distintas. p. o trabalho. O objetivo aqui não é traçar uma analogia entre o valor estético e o valor econômico. o mérito da ruptura com a natureza circular do debate anterior.

Repetidamente citada e recitada. produtos do que ele chamou de “infância da humanidade”. A manutenção do valor de uma mercadoria ao longo do tempo se explica pelo fato de que ali se aninha uma quantidade determinada de trabalho que mantém alguma tradutibilidade (com as naturais oscilações que serão fruto das próprias variações no valor do tipo de trabalho que se encontra ali congelado). essa observação não é o fim. essa altamente variável entidade à qual nos referimos como “Homero” recorrentemente entra na nossa experiência em relação com uma grande variedade de nossos interesses. . p.]. a teoria do valor depende de um transcendental. ainda nos fascinam e mantêm sua legibilidade. traduzida. 1998. Haveria que se estudar o que. Evidentemente. que a lei do valor-trabalho se aplica a objetos reprodutíveis.. o trabalho. não muito diferentes das equivalências universais tautológicas dos economistas anteriores a Adam Smith. à continuidade de sua circulação numa cultura particular. Na ausência desse transcendental. 52-53).. e completamente inserida numa rede de intertextualidade que continuamente constitui a alta cultura [. e pode assim realizar várias funções para nós (Smith. a teoria do valor estético só pode definir o valor imanentemente a partir das operações circulares descritas acima. pelo contrário. mas o prolegômeno da pesquisa. mas entender como e por que os poemas homéricos. lecionada e imitada. O trabalho que produz a obra de arte não é traduzível.Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. claro. Na economia. Atesta-o a célebre observação de Marx na introdução aos Grundrisse. e portanto sua permanência no tempo não se explica imanentemente: A permanência de um autor clássico como Homero se deve não ao valor supostamente transcultural ou universal de suas obras mas.. de que o mistério não era explicar que a arte grega emergiu como produto de circunstâncias históricas particulares próprias à sociedade helênica. e que o cálculo do valor da mercadoria como quantidade de trabalho socialmente necessário para a sua produção não se aplica a objetos estéticos.. 145 política sempre enfatizou.

2009) –. instituições. academias e intertextos lhe atribuíram ao longo dos anos. essas verdadeiras máquinas de produção e destruição de valor (Ventura. o estudo de Roberto Ventura sobre as polêmicas literárias. escolas. 1996. No caso do debate sobre o valor que tem se desenvolvido nos estudos de literatura brasileira e latino-americana. 2009 em cada situação e contexto. 2001). 1991). 1990) ou as tecnologias da reprodução (1987). O postulado da contingência essencial do valor só abre um espaço de relevância ainda maior para essas pesquisas. ganharíamos terreno se o dissociássemos da polêmica entre o culturalismo e os defensores do “cânone ocidental” e o remetêssemos a todo o vasto material que pode informar uma futura história da construção do valor literário no Brasil: o erudito mapa traçado por Raúl Antelo do ideário da transgressão na modernidade (Antelo. na conformação do sistema de valores literários brasileiros. Acredito que ainda sabemos pouco sobre o papel das antologias. Para além do lamento de que a internet é responsável por uma queda na qualidade e na frequência da leitura das novas gerações – queixa jamais fundamentada com pesquisa empírica e agora patentemente desmentida (Castells. de Manuel Bandeira (1963) a Italo Moriconi (2000. n. para não mencionar mais que alguns exemplos. permitiu que cada obra realizasse as funções que os vários leitores. A história da profissionalização do escritor e das suas relações com a imprensa e com o mercado ainda nos oferece vastas zonas de pesquisa não realizada.146 Revista Brasileira de Literatura Comparada.15. 2001). 1991. uma série de novos escritores faz uso das tecnologias de publicação online para circular seus textos e manufaturar concepções emergentes de valor literário. a recuperação de facetas pouco exploradas dos escritores mais canônicos. as pesquisas de Flora Süssekind sobre as relações da literatura com outros discursos. . 2001). como os relatos de viagem (Süssekind. como a recente antologia de escritos de Machado de Assis sobre a afrodescendência realizada por Eduardo de Assis Duarte (2007). a valiosa sequência de pesquisas feitas por Marisa Lajolo e Regina Zilberman sobre a história da leitura e do livro (Lajolo e Zilberman.

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mas o contexto brasileiro. pretendemos criar uma relação ideológica entre os alunos americanos e não só a literatura brasileira. de Clarice Lispector. de Marina Colasanti. we intended to create an ideological relationship between the American students who took the course and not only the Brazilian literature but also the Brazilian context. Marina Colasanti’s little Girl in Red on her way to the moon and Clarice Lispector’s the Hour of the star. . Here I propose an evaluation of the exercises done based on the reading of Nélida Piñon I love my husband. Teatro do Oprimido. especially texts written during the second half of the last century. educação. ∗ Brazilian literature. de Nélida Piñon. palavras-chave: literatura brasileira. Ao utilizarmos um método teatral baseado no Teatro do Oprimido. These experiences were done with American Students from the University of North Carolina at Chapel Hill (UNC-CH). abstract: This paper analyzes experiences with the teaching of Professora adjunta de língua inglesa (Graduação) e de literatura (Mestrado em Letras) da Universidade Federal do Piauí (UFPI). By using a theater method based on the Augusto Boal’s Theater of the Oppressed. em especial textos escritos na segunda metade do século passado. de Augusto Boal. as a means of dealing more efficiently with some issues presented by our literature and which directly concern texts by women authors.151 O ensino de literatura brasileira por meio do Teatro do Oprimido: uma experiência na Carolina do Norte Érica Rodrigues Fontes* resumo: Este trabalho analisa experiências no ensino de litera- tura brasileira realizadas com alunos estadunidenses da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill (UNC-CH). menina de vermelho a caminho da lua. de forma a lidar mais eficientemente com algumas questões apresentadas em nossa literatura e que concernem diretamente textos de autoria feminina. Aqui se propõe uma avaliação de exercícios a partir da leitura de I love my husband. e a hora da estrela.

com a interpretação brasileira de mundo. e por ater-me principalmente ao ensino das obras escritas no Brasil. Depois de ensinar em cinco turmas de graduação a matéria Literatura Lusófona na Carolina do Norte. they depict life as it is represented by ideology”1 (Davis. Muito mais do que o ensino de movimentos literários. Minha tradução. 1 . ao selecionar textos para leitura e debate em sala. torna-se um compromisso do professor de literatura brasileira. uma preocupação com a criação de uma estratégia de relacionamento entre a nossa realidade e a realidade do país onde a nossa está Romances não mostram a vida. pois. Portanto. De fato. como afirma Linda Hutcheon (1999). Como afirma Leonard Davis: “Novels do not depict life. education.15. embora neste país da América do Norte exista muita exposição à cultura de outros países. Introdução Ensinar literatura brasileira no exterior (e para estrangeiros) está obrigatoriamente atrelado a uma experiência cultural. Assim. a uma exposição sobre a história e política brasileiras. 1987. criar para os alunos possibilidades de interação com a mentalidade brasileira. Nos Estados Unidos. a ideologia é a própria representação da cultura. procurei priorizar esses dois temas. tal ligação se torna indispensável. Houve. 2009 Brazilian literature. no contexto estadunidense. Eles mostram a vida como representada pela ideologia. os textos escolhidos foram considerados representativos da ideologia brasileira contemporânea com atenção para os temas supracitados. n. p. Theater of the Oppressed. não há de fato acesso à perspectiva ideológica de outras nações. 24). portanto. pois.152 keywords: Revista Brasileira de Literatura Comparada. é em sua temática que nossa literatura parece ser mais enriquecedora quando pertencente a um currículo estrangeiro. percebi dois pontos de interesse comum das culturas e literaturas estadunidense e brasileira: as minorias políticas e as questões identitárias. métrica ou outros assuntos de interesse da literatura.

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sob estudo, pois, embora muitas vezes essa ideologia esteja clara para um nacional da literatura lida, para o estrangeiro ela precisa ser apontada. Como exemplo, cito um momento de debate sobre a personagem Macabéa do romance A hora da estrela, de Clarice Lispector. Para os alunos do curso, em sua maioria nascidos em um contexto rural como o da Carolina do Norte, era quase impossível entender a condição tragicômica dessa personagem, pois ela está inserida em um contexto urbano, onde mora longe de seu estado de origem, com pessoas desconhecidas. Os fatos engraçados que acontecem na vida de Macabéa são gerados pela sua estranheza, pela sua falta de adaptação à sociedade, sua marginalidade. Se nos EUA a principal razão para os jovens saírem de sua terra natal é estudar em uma boa instituição, no Brasil o principal motivo para o êxodo jovem tem razões muito diferentes: a fuga da fome, da miséria e da pobreza. Para os alunos norte-americanos, portanto, entender o comportamento de Macabéa tornava-se difícil. Eles consideravam-na simplesmente um ser humano desprovido de inteligência e, então, digno de risadas e deboche. Foi preciso comparar a situação dessa personagem com uma vítima da pobreza, fome e desastres naturais no estado do Mississippi (o mais pobre dos Estados Unidos) para que os alunos entendessem a tragicomicidade da obra. Muito provavelmente pela dificuldade de localizar pontos de interseção entre as duas culturas é que outros instrutores do curso supracitado haviam detectado que a participação dos alunos nas discussões era bastante inferior às suas expectativas e que as atividades, em muitos casos, eram desinteressantes para os discentes. Foi principalmente por causa do aparente desinteresse dos alunos pela disciplina que resolvi implementar em minha aula de literatura exercícios de teatro para posterior montagem teatral e um segundo momento de discussão. A metodologia escolhida foi a do Teatro do Oprimido, objeto de minha pesquisa de doutorado.

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O projeto relatado neste artigo teve por objetivo a melhor absorção de conteúdos literários pelos alunos de literatura de graduação de diversos cursos da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill (UNC-CH). Realizado de agosto de 2004 a julho de 2006, ele revela experiências ocorridas nas turmas de Português 40 (Introdução à Literatura Lusófona), das quais fui instrutora, enquanto aluna de mestrado e doutorado na UNC-CH. Neste artigo, analiso exercícios teatrais desenvolvidos a partir de três textos brasileiros de autoria feminina: I love my husband, de Nélida Piñon, Menina de vermelho a caminho da lua, de Marina Colasanti, e A hora da estrela, de Clarice Lispector. Os textos foram analisados e encenados a partir de traduções inglesas das obras, nos moldes do Teatro do Oprimido e principalmente do Teatro Fórum (técnica de Boal para discussão de problemas sociais no palco, a ser explicada a seguir, juntamente com sua adaptação para a aula de literatura). Por meio dessas técnicas e de sua adaptação para as aulas, os alunos se colocam no lugar de personagens brasileiros, discutem a resolução do seu problema e depois trazem algumas situações para o contexto estadunidense, ao debater ou analisar problemas equivalentes nas duas Américas ou, mais especificamente, nos dois países. Há pelo menos dois fatores que favorecem a utilização do método teatral de Boal nessa aula de literatura: a ideologia sob a qual os textos tratados foram escritos (condição subalterna da mulher e a sua necessidade de liberação) e o fato de o Teatro do Oprimido ser um tipo de teatro que tem como proposta final a discussão de problemas sociais. Esses textos traduzem opressões contemporâneas vivenciadas no Brasil e que têm equivalentes na sociedade norteamericana, ainda que estes não sejam divulgados. Assim, descreveremos como foi proporcionada essa ligação entre a identidade norte-americana e a identidade brasileira para o ensino de literatura brasileira, visando exclusivamente a um melhor aproveitamento literário e cultural dos alunos,

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originado por uma maior convivência com as obras, por meio do envolvimento teatro-lúdico. Neste artigo me concentrarei no resultado concernente ao trabalho desenvolvido com os textos supracitados. As duas últimas obras foram estudadas no final do semestre, indicando um envolvimento mais profundo dos alunos com a metodologia.
As observações descritas a seguir foram feitas a partir das experiências de sala de aula e baseadas nas ideias retiradas do livro Técnicas latino-americanas de teatro popular, de Augusto Boal. Os seus métodos teatrais, mais divulgados com a publicação do livro Teatro do Oprimido, ocorrida no início dos anos 1970, ficaram conhecidos em todo o mundo e priorizam uma participação mais ativa do espectador, que vai além do modelo observador e consciente apresentado pelo dramaturgo alemão Bertolt Brecht.2

Walter Benjamin explica que, no teatro épico de Brecht, priorizam-se a crítica social e a interrupção da ação dramática (os momentos narrativos são exemplo dessa interrupção) para reflexão sobre a crítica encenada. O público, porém, não participa do espetáculo ativamente. No teatro de Boal, diferentemente, o público pode interferir diretamente na ação, encenando suas sugestões, ainda que sob a supervisão e orientação de um diretor, o Curinga.
2

É no Teatro Fórum, uma das técnicas do Teatro do Oprimido, em que há o incentivo à discussão de problemas sociais, que a participação da plateia pode ser mais claramente notada. Neste modelo de teatro, a primeira parte de uma peça é tradicional (com a separação entre público e atores), se dá em aproximadamente 30 minutos e apresenta pelo menos um problema ou erro em cada cena. Por erro entende-se uma situação social de opressão, sendo o erro, portanto, cometido pelo opressor e também por uma falta de postura mais libertária do oprimido. Na segunda parte da peça, que é introduzida por um Curinga, espécie de diretor teatral, perito na metodologia de Boal, o objetivo do público é, então, tentar consertar ou remediar o erro. O Curinga indica para a plateia que as cenas poderão ser modificadas por meio da substituição do oprimido (de acordo com a ideologia do Teatro do Oprimido, somente o oprimido pode ser substituído), com quem a plateia é levada a se identificar. Muitas vezes ela (plateia) até tem uma história que já auxilia esse processo, visto que muitas das peças são apresentadas em edifícios públicos, tais

usei a ideia geral do Teatro do Oprimido. Nesse conto. que divide a sociedade no binário oprimidoopressor (equivalentes ao protagonista e antagonista. pois não é esse o papel que faz e. o sistema mude a seu favor. tendem a permanecer iguais. pois estes. não há muito que o oprimido possa fazer a respeito. evita falar de amor com ele porque há. 2009 como escolas. por si só. serão perfeitas ilustrações de como a leitura de um conto ou outro tipo de texto literário pode ser enriquecida com este método. As exceções com relação à substituição ocorrem somente no caso de o opressor tornar-se ainda mais cruel em sua opressão. porém. a partir de então. consequentemente. hospitais e prisões. então. A atitude daquele que é vítima de opressão. com protagonistas que querem mudar a sua história de vida. de acordo com o Teatro do Oprimido. Quando o opressor é modificado. prepara tortas de chocolate. Comecemos com I love my husband. o teatro do oprimido em I love my husband Nas aulas mencionadas. na concepção deste. já que a plateia é inicialmente incentivada a identificar-se com o oprimido. respectivamente) para estudar as relações presentes nos textos e. muitos outros . n.15. postura justificada pelo fato de que o Teatro do Oprimido é do oprimido. o sistema social não testemunha uma frequente mudança na atitude de pessoas que fazem o papel de opressores. temos o retrato de uma mulher que é praticamente escrava de seu marido: faz para ele café todos os dias. Ou seja. ao substituir o opressor. a plateia tenta modificar uma postura sobre a qual não tem nenhuma influência no dia a dia. sugerir uma interpretação mais profunda destes. deve mudar para que. e retratam os contextos socialmente carentes do espectador. feito por ele e mostrado para ele. lentamente. não é a substituição do opressor que modificará ou ensaiará uma modificação social. Passemos então a um breve relato das experiências que. Além disso.156 Revista Brasileira de Literatura Comparada.

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problemas que merecem mais atenção, como, por exemplo, a situação econômica do país. Esta mulher, completamente submissa a seu marido, segue mecanicamente as ações que são esperadas dela como uma boa esposa: está feliz quando ele chega em casa às sete da noite e tenta reclamar cada vez menos do seu serviço de casa. No final do conto, relembra os votos de seu casamento e conclui que, sim, ama seu marido, embora o que ela relata seja digno do sentimento oposto. Após a leitura desta obra, houve um debate sobre a literatura de autoria feminina nos anos 1980 como reacionária à predominância de textos de autores masculinos até pouco tempo antes dessa década. Depois de traçarmos um breve painel sobre a liberação da mulher e sua repercussão na literatura, comentamos o conto propriamente dito. Com relação a esse texto, pedi aos alunos que fizessem um exercício anterior à identificação do opressor e oprimido da obra, normalmente o primeiro passo para aplicação da metodologia de Boal. A turma foi dividida em duplas e pedi a elas que escolhessem o momento que demonstrasse uma intensa emoção e que exagerassem essa emoção em uma cena teatral. Por termos pouco tempo para apresentar esse exercício, apenas três cenas foram mostradas para toda a turma, após um curto período de prática, e merecem atenção particular. Na primeira cena, uma aluna se comportou como uma guerreira, gritando e portando-se ferozmente. Revelou-se então sensual e bela durante a ausência de seu marido. Essa cena levou-nos a debater sobre o caráter frustrante do cárcere privado da esposa do conto, combatido em sua vida onírica. A segunda cena mostrou um marido mais agressivo do que o descrito no conto, o que exigiria uma postura mais firme de sua mulher para que esta pudesse ter uma vida mais digna. A última cena mostrou a esposa literalmente como uma escrava, absolutamente dominada pelo marido e impossibilitada de mover-se por si só. Depois desses exercícios, discutimos a natureza da opressão nesse conto e chegamos à conclusão de que ela

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é proveniente do machismo e da condição subalterna da mulher, muitas vezes aceita por ela mesma passivamente. No texto, a liberação dessa dona de casa acontece somente em um mundo fantasioso, quando ela se mostra uma amante selvagem, cercada por javalis e pelo Clark Gable. Posteriormente, as duplas definiram o opressor e o oprimido, encenando suas adaptações de I love my husband. Uma das duplas mudou o final do texto, sendo o marido vítima de homicídio. Nessa adaptação, a mulher se mostrou falsamente mais solícita e amável do que no conto, o marido se mostrou mais agressivo e inconformado com a mulher e o homicídio aparece como resolução óbvia, embora não seja esse o objetivo do Teatro do Oprimido, que quer fornecer para o público, por meio do teatro, os meios para que o problema seja examinado, e não sua resolução.

o teatro do oprimido em Menina de vermelho a caminho da lua
O segundo texto em questão, Menina de vermelho a caminho da lua, trata do universo infantil pervertido pela desigualdade social. O título alude à cor da roupa de uma menina de aproximadamente dez anos de idade que intenciona brincar em um parque de diversões, mesmo não tendo dinheiro para isso. A história inicia-se com a mãe de duas meninas contratando um narrador a partir de um anúncio de jornal para relatar o episódio do pseudoencontro entre ela e a menina de vermelho. Embora a mãe prefira uma mulher para narrar a história, tem de aceitar um homem, única pessoa que responde ao anúncio, requerendo que ele use roupa de mulher para ver se, de alguma forma, terá uma atitude mais feminina. Assim, o homem escreve todo o tempo vestindo uma saia rosa e um lenço na cabeça, e com pouquíssima autonomia, pois a mulher se declara detentora dos fatos, fazendo com que sejam narrados segundo a preferência dela.

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O conto narra a ida dessa mãe com suas duas filhas a um parque de diversões em um sábado e, principalmente, seu encontro com a realidade de uma menina de rua de dez anos de idade que, por não ter dinheiro para andar na mesma atração que suas filhas (uma bolha, espécie de pulapula), insinua-se sexualmente para o homem responsável pelo brinquedo para poder brincar de graça. O estilo do texto descreve o erotismo e a sexualidade precoces de uma pré-adolescente que usa seu corpo como meio de adquirir aquilo que ela não pode com dinheiro. Verbos que aludem à experiência sexual (“penetrar” e “perfurar”, por exemplo) são uma constante em todo o texto, usados mesmo quando não descrevem momentos sexuais. Quando acaba o sábado e essa menina descalça vai embora, sendo observada pela mãe das duas meninas, sua figura juvenil mancha o ar de vermelho (referência à cor de sua roupa), indicando, muito provavelmente, a perda da inocência e o ingresso em um mundo cruel para os desprovidos de bens materiais. Na discussão inicial, vários foram os pontos levantados a respeito desse conto. Nele, há uma menina que precisa utilizar-se de táticas sensuais e até sexuais para conseguir o que a falta de dinheiro não lhe proporciona, um homem sem voz e submisso a uma mulher (na figura do narrador) para quem trabalha e a discrepância social entre as filhas da mulher que contrata o narrador e a menina de vermelho no parque. Não podemos deixar de falar também da omissão dessa mulher em relação à situação da menina de vermelho e da literatura como canal de reação social, pois é ela o meio que a mulher usa para tornar a sua história pública e passível de crítica. Os alunos mostraram-se surpresos principalmente em relação à prostituição infantil que, nos EUA, não é tão visível ou noticiada quanto na América Latina. Como lemos uma tradução para o inglês intitulada Little girl in red on her way to the moon, o fato de a menina usar de artifícios sexuais se torna ainda mais desconcertante, porque ela não é apenas uma menina. Na tradução inglesa, ela é uma menininha, o que acentua ainda mais a pouca idade

. 2009 de um ser humano já iniciando na prostituição. Para a surpresa de muitos. o que independe da idade. mas foi necessário indicar para eles a drástica diferença entre sensualidade e prostituição como meio de sobrevivência. existem outras opressões: a opressão pela qual passa a mãe das duas meninas. chegou o momento de aplicar a metodologia de Boal ao texto. O primeiro passo para o trabalho em grupo foi definir onde havia a opressão no texto ou quem era o oprimido e estava lutando pelo seu lugar na sociedade. no entanto. A turma foi dividida em seis grupos. exatamente para desabafar e se eximir da culpa de não ter feito nada para ajudar uma menina da idade de suas duas filhas. normalmente temos acesso a diversas interpretações de uma mesma obra. Esse resultado confirmou a incidência da prostituição infantil nos países em desenvolvimento. n. comumente atingindo as crianças de rua. pois esta é da mãe das meninas (uma inversão da opressão à qual normalmente as mulheres são submetidas). O resultado dessa pesquisa foi apresentado individualmente na aula imediatamente posterior. que muitas vezes assumem uma vida com hábitos adultos antes mesmo de chegarem à adolescência. Após a discussão da obra literária e apresentação de sua crítica social. onde há crianças de rua em maior quantidade. também existe prostituição infantil em grande quantidade nos EUA. Há a opressão do homem contratado para narrar a história travestido de mulher e sem a possibilidade de expressar a sua voz. Por conta da alusão da história à prostituição infantil. os alunos foram motivados a buscar informações a respeito do tópico e descobrir a situação desse crime em vários países. de aproximadamente cinco componentes cada. que contrata um narrador para a sua história.160 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Nesse ponto. os alunos questionaram a sensualidade precoce da cultura latino-americana. principalmente nas regiões menos desenvolvidas. Em alguns momentos. Embora tenhamos a menina de vermelho como protagonista e possivelmente a única apontada como oprimida na leitura inicial.15.

Houve. uma situação encenada na aula (uma adaptação do texto original) por um desses dois últimos grupos demonstrou as agruras de um menino que fora expulso de um orfanato e começou a se prostituir como resultado do preconceito social. pois também nisso via-se uma falta de liberdade para que essa mulher expusesse seu ponto de vista livremente. os objetivos são claros: identificar a opressão e criar meios para que o oprimido tenha voz para lutar contra ela. Assim. talvez aludindo ao que historicamente acompanhou (e muitas vezes ainda acompanha) a trajetória da mulher no Brasil. Ao lidarmos com a metodologia de Boal. Outro grupo chamou atenção para a angústia da mãe ao narrar a história por meio desse homem. Outros dois grupos preferiram falar da menina de vermelho e da precocidade de suas ações por conta de sua situação social. porque ao sair do orfanato ninguém lhe deu emprego. Esta é provavelmente uma das poucas casas comerciais que nunca fechou as portas nesta cidade. salientando o fato de que são oprimidos todos os que agem sem ter autonomia sobre suas ações. Depois de uma longa discussão a respeito da prostituição local. muitas vezes. pois. o sistema social . E os últimos dois resolveram falar do homem como vítima da prostituição infantil. há um local que está aberto 24 horas por dia: o University Massage. Nessa cidade universitária de uma área abastada dos Estados Unidos. uma discussão sobre quem sustenta a prostituição em países desenvolvidos e em cidades universitárias americanas. como vimos. os seis grupos mostraram diferentes facetas da opressão em Menina de vermelho a caminho da lua.. 161 Assim. como é o caso de Chapel Hill.O ensino de literatura brasileira por meio do Teatro.. onde sempre se deve utilizar a porta traseira (conforme aviso fixado na porta). onde esta discussão específica ocorreu. As diversas interpretações da opressão mostradas no conto motivaram debates sobre a origem da opressão sexual e sobre o que favorece a sua proliferação dentro do sistema no qual vivemos. a opressão a ele não passou despercebida no conto. Um dos grupos acentuou a opressão à qual foi submetido o narrador. vimos que. surpreendentemente.

Em A hora da estrela. sua extensão e diversidade temática explicam a preferência por estudá-lo no final do curso. Isso se torna óbvio quando lemos a respeito do primeiro encontro dos dois. A partir daí refletimos sobre o que pode ser feito para minimizar esse poder opressor. a autora deixa o universo da alta classe média para penetrar no mundo marginal e excluído do nordestino que se muda para o sudeste em busca de uma vida melhor.15. Embora ele tenha sido escrito e publicado antes de Menina de vermelho a caminho da lua. Juntamente com Um sopro de vida. uma vida estranha. A personagem de Clarice em seu romance final é quase subumana.162 Revista Brasileira de Literatura Comparada. também é tão excluído quanto ela. sendo esta mantida por pessoas instruídas e ricas. n. coincidindo com o final da vida de Lispector. mas nem um pouco irreal para aqueles que conhecem a população brasileira. nome que remete aos revoltosos macabeus. M. Embora sua protagonista seja novamente uma mulher com o nome estranho de Macabéa. seu namorado. 2009 sustenta a prostituição. colocando-as quase como um objeto em suas próprias residências. pois reconhecem um no outro sua origem e trajetória de vida. Lispector divaga sobre o poder do autor ao dar vida e matar. poder concedido por ela a Rodrigo S. de Clarice Lispector. Olímpico. Nessa obra. esse romance pretende entender a própria existência. Em vários momentos. Talvez por isso a história de Macabéa seja mais trágica para . onde se veem quase como em um espelho. para dar início e fim a sua protagonista. em 1977. Clarice Lispector não mantém o foco em suas protagonistas donas de casa dominadas por um sistema que subjuga a mulher. que é aludida quando a autora utiliza-se de questões de autoria no romance. Mas o foco é mesmo a moça virgem que bebe coca-cola e tem um nome estranho. o teatro do oprimido e A hora da estrela O próximo texto em discussão foi o romance A hora da estrela. à semelhança de outros de seus contos e romances. um namorado estranho.

colegas de quarto e de trabalho demonstra que ela é vista quase como um animal. ele nunca assume sua ignorância em relação às respostas. 163 os que a leem no Brasil e mais engraçada para os que a leem fora do Brasil. mulher mais encorpada do que a colega nordestina e também mais provocante e sensual. Após uma breve exposição sobre o romance e a discussão inicial a respeito da obra com as turmas. E é Carlota que prevê um futuro brilhante para Macabéa. entre outros) indicam que a protagonista é uma vítima social. sobre alguns questionamentos da moça. Olímpico a troca por Glória. namorado.O ensino de literatura brasileira por meio do Teatro. há um interesse maior nos tópicos relacionados à mulher. mas nunca sabe as respostas para as perguntas de Macabéa. pois esta sempre se desculpa por erros que ainda nem cometeu. se for o caso. as mulheres estão todas em uma situação de opressão social. E. Até quando ela pede que ele compre um café para ela. pois Olímpico se julga inteligente e vencedor. mas para os dois grupos a história sempre mantém seu quê de tragédia e comédia. recebe uma resposta grosseira. ao pedir por açúcar. Diz que Macabéa só faz perguntas tolas e. O direito de protestar e Uma saída discreta pela porta dos fundos. Seu namorado a trata mal do início ao fim do relacionamento. O mais interessante no relacionamento dos dois são os diálogos. muito mais por parte de Olímpico do que de Macabéa. da protagonista às coadjuvantes. Olímpico afirma que ela pagará a diferença de preço. a própria Glória sugere a Macabéa que vá à casa de Madame Carlota. para ver o que a aguarda no futuro. afirma que as respostas não são apropriadas para uma moça virgem como ela. A difícil convivência dos dois. ex-prostituta e agora cartomante. desprovido de qualquer capacidade in- . decreta o fim do relacionamento. pois a protagonista morre em seguida. colega de trabalho de Macabéa. o que não ocorre em vida.. O título e seus vários subtítulos (A culpa é minha. Isso porque. Logo depois. Sua hora de brilhar só acontece mesmo no momento da morte. O tratamento ao qual é submetida Macabéa pelo chefe.. Na verdade.

Como a turma fora dividida em dez grupos de três componentes cada. O segundo grupo mostrou Olímpico e Macabéa como pessoas quase semelhantes. houve preferência para uma encenação do relacionamento entre Macabéa e Olímpico. embora muitas vezes a capacidade intelectual da personagem não motive nenhuma pena ou simpatia. E. que nem executa muito bem. é um objeto sexual. No entanto. procederei ao relato das experiências de apenas quatro grupos. ouve ópera e escuta a informativa Rádio Relógio. A minha escolha se dá ao fato de que esses quatro grupos trataram de situações e de personagens diversos. Glória é o que é por causa do outro. 2009 telectual. ele se manteve como o político do futuro que venceria todo e qualquer obstáculo.164 Revista Brasileira de Literatura Comparada. pois os homens são agressivos e ela não está preparada para isso. sugere a Macabéa que se envolva com uma mulher. Mas os personagens mantiveram a sua essência: enquanto Macabéa se achava a principal culpada pela impaciência de Olímpico e de tudo de errado que acontecia. como apontado por Peggy Phelan (1993). muito provavelmente pela clareza da opressão. Os dois atores usaram maquiagem e figurino similares e os diálogos chamaram atenção . pois sempre indaga sobre aquilo que quer saber. chamando-a de feia. o fato de que Macabéa gostaria de conhecer mais o mundo não pode ser negado. n. O primeiro grupo focou os diálogos de Olímpico e Macabéa. embora exagerando a agressão verbal à protagonista. pois quase não frequentou a escola. outra mulher de destaque na obra. Madame Carlota. Glória. pratica um trabalho mecânico (datilografia). Esse exagero é muitas vezes necessário para que a opressão se torne visível. a colega estenógrafa de Macabéa. agride Macabéa. Sua sensualidade cultivada tem o único objetivo de fazer com que ela sempre seja admirada e amparada por um homem. situação explicável pelo seu contexto. por causa de sua preocupação com a aparência. Ao passarmos para a leitura da obra sob a perspectiva do Teatro do Oprimido. que nunca fique só.15.

além de não ser uma boa datilógrafa. expectativas (se ele quer ser político. ela está muito longe de atingir o padrão de beleza da mídia: a cor de seu cabelo é falsa. embora vítimas de opressões de naturezas diferentes. suas roupas são bregas e seus namorados são todos do naipe de Olímpico. há na América Latina uma tendência cultural ao subjugo do feminino pelo masculino e o machismo é muitas vezes também percebido em mulheres como Glória. dificilmente conseguirá outro emprego que sustente as suas já tão básicas necessidades. O último grupo do qual falaremos ateve-se à relação de Madame Carlota e Macabéa. pois são nordestinos morando na zona mais nobre do Rio de Janeiro. Os debates que se seguiram focalizaram principalmente na mulher como objeto sexual. estilo de vida. sendo as duas consideradas oprimidas socialmente.. o objetivo das encenações na sala de aula era o clímax do conflito. embora esses problemas não sejam exclusivos do Brasil. . Macabéa tem de aguentar os desaforos de seu chefe. Enquanto Madame Carlota teve de se prostituir para sobreviver quando jovem. Vimos que. que necessitam trabalhar sua sensualidade de acordo com o que é esperado pelos homens para se sentirem incluídas na sociedade. os passos seguidos foram escrever e encenar trechos das obras literárias sem.. embora na história Glória seja mais desejada pelos homens do que sua colega nordestina. no entanto. ela quer ser estrela de cinema) e a exclusão social na qual vivem. pois. apresentar uma solução ao adaptá-las. 165 para os pontos em comum que já aparecem no romance: origem.O ensino de literatura brasileira por meio do Teatro. no preconceito regional e no machismo da sociedade. pobres e marginalizados. Para todas as obras descritas acima. Mesmo que uma personagem não oprima a outra. na encenação Madame Carlota foi mostrada como a voz social que indica a pouca esperança para jovens como Macabéa. É ela quem faz soar a voz que exclui os feios. Semelhantemente às peças do Teatro Fórum. O próximo grupo salientou a esdrúxula competição de Glória com Macabéa porque.

além da recepção. a crise nunca deve ser totalmente resolvida.166 Revista Brasileira de Literatura Comparada. De fato. Normalmente. Eco afirma que. Assim.15. Por isso. mesmo que encenado. Antes desse estágio. n. . no Teatro do Oprimido tal fato é quase uma exigência: após a divisão das relações de opressão do texto.O que motiva tal personagem a agir desse jeito? 3. Inclusive como já visto acima. nunca nos preocupamos com a resolução do conflito. uma re-performance deste. sua visualização se torna primordial. é necessário que haja uma teatralização delas. 2009 que convida à intervenção e discussão de assuntos interessantes dos materiais lidos. Para que essa re-performance seja útil para a discussão de uma obra. trazendo à tona o que gera a opressão e propiciando uma discussão cênica do problema. as várias percepções interpretativas ocorrem exatamente nesta terceira parte. muitas vezes é difícil para o aluno entender os textos de literatura brasileira. pois o Teatro do Oprimido só coopera com os meios para que isso ocorra socialmente. nesse ponto do curso não houve interesse em favorecer a substituição dos personagens. a percepção de quem oprime e de quem é o oprimido pode mudar dependendo de quem lê a obra ou assiste à sua encenação.Como tal personagem deve agir para se libertar desse contexto opressor? o texto aberto O processo pelo qual passam as obras literárias acima descritas é definido por Umberto Eco (1979) em sua teoria “A poética da obra aberta” do livro O papel do leitor. De fato. uma nova percepção do trabalho acontece.Tal personagem é o oprimido? 4. Nessa re-performance. Isso pode ser percebido em cada uma das adaptações demonstradas pelos grupos. mas em responder a perguntas tais como: 1. sempre que um trabalho de arte é recebido por um leitor ou espectador. há.O que você faria se estivesse no lugar de tal personagem? 2.

social e politicamente apresentada. quando citamos a semelhança do seu universo com o de personagens de regiões mais pobres dos Estados Unidos. Como em todas as outras obras. No entanto. Em I love my husband. os alunos passam a entender a tragédia na vida dessa personagem. É necessário conviverem com essa personagem para entenderem que essa repetição da frase “Amo meu marido” é muito mais para resultar em algo positivo do que para retratar algo positivo. a opressão está numa esfera invisível. Mas. o caso muda de figura. tão nordestino quanto Macabéa. Acham que o fato de ela repetir que o ama indica que está conformada com a situação. A partir dessa conclusão. nenhum estadunidense entende o que leva essa jovem menina a se prostituir. 167 Várias vezes eles julgam os textos de nossa literatura como negativos ou deprimentes. Acham que não há nada que justifique a prostituição de uma criança. além disso. quando a protagonista relembra o início da união. no entanto. sem dar a ela o carinho e a afeição esperados.. mas que a recrimina e detesta quase como se esta fosse um ser de outro mundo. uma comparação entre a realidade da América do Sul e as semelhanças entre essa região e as regiões economicamente menos favorecidas dos Estados . quando procedemos à análise do contexto social e econômico latino-americano. exagerada e seus problemas parecem não ter fundamento. O mundo opressor pode. Até mesmo no final. o mundo que cerca Macabéa passa a ser o que a oprime e ela passa a ser a vítima. muitas vezes os alunos não conseguem entender Macabéa e suas motivações. Em A hora da estrela.. ser personificado em personagens como Olímpico. Quando fazemos. Essa interpretação inicial inesperada também ocorre quando da leitura de Menina de vermelho a caminho da lua. Acham-na ridícula. Em um primeiro momento. muitas vezes os alunos não conseguem compreender a postura irônica da protagonista ao descrever sua rotina submissa e afirmar que ama o homem que mais faz com que ela trabalhe sem parar. ela parece conformar-se com toda a sua vida em comum com esse homem.O ensino de literatura brasileira por meio do Teatro.

o que a mãe realmente deseja é pôr um fim na dor que sentiu ao compartilhar a situação da menina e esperar que a história não se repita. E é importante vermos que. situação esta da qual ele quer sair) for montada e que outros (membros da plateia) puderem cooperar para o desenvolvimento da resolução da crise do protagonista. o fim do subjugo das suas protagonistas. a pobreza apresenta a maior . Todas as histórias narradas almejam. Os temas de A hora de estrela e Menina de vermelho a caminho da lua são bastante similares. para que possa ser mais facilmente combatido. pretendem fazê-lo visível. conclusão Embora exista campo para divergência quanto à natureza da opressão de uma história. só depois que diferentes cenas sobre diferentes questões foram montadas e algumas pseudossubstituições ocorreram. ao escrever sobre a história. Os três textos têm. a turma chegou à conclusão de que a opressão não era o que tinha sido inicialmente pensado. não vivem com suas famílias e estão à margem da sociedade. retratando um universo afeiçoado à opressão.15. As histórias narram as adversidades na vida de duas jovens que são vítimas da pobreza. Nas duas obras. portanto. portanto. econômica e social. n. pois. essa opressão é traduzida de duas maneiras pela mãe que detém a história: ao se omitir com relação à menina e ao subjugar o homem que narra a história. o opressor mais forte só será achado depois que a cena (simples diálogo que precisa inicialmente detectar a situação-crise do oprimido. percebemos que as diferenças são ínfimas.168 Revista Brasileira de Literatura Comparada. uma natureza muito mais positiva do que negativa. por exemplo. 2009 Unidos. Muitas vezes. Se a vida da menina que protagoniza a história é resultado de um descaso histórico com a situação da população pertencente à classe baixa e os meninos e meninas de rua. ao implicitamente indicar o desejo de mudança com relação à situação das vítimas de opressão sexual. se pensamos na natureza opressora dos dois.

ela prefere calar-se a ofendê-lo também. Da mesma forma. desde o primeiro dia de aula. Combatê-la está fora do alcance dos protagonistas e do nosso próprio. Macabéa não reage nem se irrita nunca. A esposa também não. pelo menos aparentemente. Menina de vermelho a caminho da lua e A hora da estrela. como plateia participativa. Talvez Macabéa e a esposa de I love my husband tenham sido as personagens mais difíceis de encenar segundo as técnicas do Teatro do Oprimido. percebo que a literatura só se torna objeto de intensa discussão se o aluno puder entrar no contexto do livro. participando da vida dos personagens como se fosse a sua própria. Macabéa se desculpa até mesmo pelos erros alheios. possivelmente teríamos chegado apenas aos dois primeiros níveis de interpretação supracitados. Quando Olímpico a ofende e termina o namoro com ela. pelas experiências vistas até a presente data.. o que é exemplificado com o exercício aplicado em I love my husband. A discussão também é motivada pela transferência do contexto da obra para o . respectivamente.. que não louva as vítimas ou os indivíduos que não sabem lutar pelos seus direitos. com perguntas direcionadas.O ensino de literatura brasileira por meio do Teatro. pois sua força está além de um extermínio imediato. um nome de guerreira e uma vida fantasiosa de guerreira. Talvez por isso ela seja completamente desassistida pela sociedade na qual está inserida e inicialmente indigna de compaixão na sociedade norte-americana. Para Boal. Foi o sucesso dessas primeiras experiências que me motivou a prosseguir com a aplicação dos exercícios do Teatro do Oprimido em outros textos. o teatro só pode ser do oprimido se ele participar do seu processo. pois são personagens cabisbaixas que se comportam de forma oposta ao que nos leva a pensar. 169 fonte de depressão das personagens. A utilização do método do Teatro do Oprimido fez-me perceber. Mas a essa conclusão só chegamos depois de experimentar possibilidades com o texto e ver quem ou o que oprimia mais certo personagem. Se houvéssemos apenas feito uma discussão. que muitas dessas questões jamais seriam tratadas se não dessa forma.

LISPECTOR. New York and London: Methuen. DAVIS. Lennard. The politics of postmodernism. Clarice. Little girl in red on her way to the moon. 2. Somente a partir de um profundo envolvimento com a obra literária. Menina de vermelho a caminho da lua. Umberto. 2. 195-203. relacionando-a com suas próprias questões e fazendo-a parte da sua vida. 1992. Rio de Janeiro: Record. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. In: SADLIER. pela sua imaginação. _____. 1987. 1992.). 1982.). Augusto. A hora da estrela. n. I love my husband. Linda. Ítalo (Org.170 Revista Brasileira de Literatura Comparada. In: DENSER. Técnicas latino-americanas de teatro popular: uma revolução copernicana ao contrário. New York: Routledge.). In: MORICONI. PHELAN. Entrevista pessoal. _____. Peggy. Bloomington: Indiana University. o aluno contribuirá com um avanço no campo interpretativo da obra. London: Routledge. 16 de julho de 2003. The hour of the star. Giovanni Pontiero. ed. ECO. Versuche über Brecht. Trad. New York: New Directions. Walter. 1995. ed. Referências BENJAMIN. 1984.15. 1989. PINON. São Paulo: Hucitec. Frankfurt am Main: Suhrkamp. 1966. Rio de Janeiro: Francisco Alves. 2009 contexto do leitor ou espectador. Resisting novels: ideology and fiction. Márcia (Org. HUTCHEON. One hundred years after tomorrow: Brazilian women’s fiction in the 20th Century. 1980. tal como visto nas análises acima. BOAL. Teatro do oprimido e outras poéticas políticas. Darlene (Org. COLASANTI. Indianapolis: Indiana University. . Nélida. Marina. Muito prazer: contos eróticos. aplicando uma realidade literária a uma realidade social. Unmarked: the politics of performance. 1979. _____. _____. The role of the reader: explorations in the semiotics of texts. p. 1993.

171 Os cem melhores contos brasileiros do século. Playing Boal: theatre. 451-456.). In: SZOKA. SCHUTZMAN. 1994. Rio de Janeiro: Objetiva. activism. p. p. . Fourteen female voices from Brazil: interviews and works. Mady (Org. London: Routledge..O ensino de literatura brasileira por meio do Teatro. Elzbieta. I love my husband.. 2001. Austin: Host Publications. 2002. _____. therapy. 11-18.

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crônicas. United States. Também é relatado no artigo o crescente interesse dos alunos pela literatura brasileira e pelos gêneros apresentados. abstract: This article narrates a teaching experience in a graduate program in creative writing in the United States which introduced the main Brazilian short story and chronicle authors. São examinados os principais desafios para o ensino de literatura brasileira em tradução para o inglês. contos. uma estação linda nos Estados Unidos. The main challenges involved in the teaching of Brazilian literature in translation are examined. perguntei. such as the lack of basic information about Brazil and the institutional context. short stories. até liguei para meu irmão. o céu azul. Estados Unidos. palavras-chave: literatura brasileira. keywords: Brazilian literature. Conclui-se que a riqueza do conto e da crônica brasileiras de fato serviu de ponte para o diálogo intercultural almejado. Students’ increasing interest in Brazilian literature and in the genres presented is also examined. o que será?”.173 As alunas e os contos: a narrativa curta brasileira num curso de escrita criativa nos Estados Unidos Heloisa Pait* resumo: Este artigo relata uma experiência de ensino num curso de pós-graduação lato sensu em escrita criativa nos Estados Unidos. chronicles. The article sustains that the richness of the Brazilian short narrative made possible the desired intercultural dialogue. teaching. “Ninguém veio falar comigo. tais como a falta de informação inicial sobre o Brasil e o contexto institucional. Mas veio o outono.Araraquara). . ele disse. sem se preocupar. estranhei o vazio do campus. Quando cheguei lá. * Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp . no qual se buscou apresentar os principais autores brasileiros do conto e da crônica. ensino. “É normal. os professores ainda não voltaram do verão”.

que já tinha tido no corpo docente Hannah Arendt e outros. Tive. e sua self-reliance. com seus valores sólidos. Rorty e Melucci. era de uma riqueza intelectual inesgotável. mas num lugar muito particular que refletia os problemas das pequenas faculdades americanas. Minha cunhada estudou no intelectual Swarthmore College. O nosso cotidiano de estudantes de pósgraduação. Eu costumava dizer: isso aqui é divertido como voltar ao Pequeno Príncipe na Rua Avaré. Eu havia dado uma palestra no hippie Hampshire College. 2009 o ar fresco. conhecia uma fatia do ensino superior americano muito estreita. além da solidão e de uma grande confusão quanto aos objetivos da instituição. Pois. discutindo sobre a política. no primeiro semestre. a das instituições progressistas e disputadas.174 Revista Brasileira de Literatura Comparada. e lecionado no questionador Lang College. e no oeste as novas faculdades já eram criadas para os dois grupos. universidade visitada por Habermas e Derrida. É que eu conhecia a universidade americana por meio da muito particular New School for Social Research. como a evasão e a busca permanente de alunos para cobrir custos relativamente fixos. n. A instituição era uma das poucas faculdades americanas que ainda se dedicavam exclusivamente ao ensino de mulheres. alguns bons alunos num curso introdutório sobre o Brasil. muitas delas foram criadas na costa leste. que poderia ser bem interessante. Então. a linguagem e a vida em Nova York. Só não veio aquele diálogo intelectual que eu esperava. complementando as faculdades para homens. desta forma dando acesso ao ensino superior a um grande nú- . Também conhecia as Faculdades de Artes Liberais. para manter o impecável imenso jardim e os prédios centenários e amortizar a recente construção do ginásio. vejo agora. E pulei no que as pessoas se referem como “Real America” – não numa América Real qualquer. Ao longo do século XIX. Críticas e rigorosas. primordialmente entre os alunos europeus e latino-americanos e com os professores novaiorquinos.15. Corrijo-me: tive algumas boas alunas. era mesmo preciso um bom dinheiro.

obviamente com exceções. mas. para trazer um pouco do Brasil para o campus. além disso. entre os professores detectei também uma falta de curiosidade sobre o Brasil. eu estaria ali para isso. Não eram as únicas. particularmente. tais como Radcliffe College. Afinal. de qualquer modo. no qual a cada ano um país determinado era escolhido. O trabalho que mais me chamou a atenção foi sobre um assunto que eu mesma desconhecia: a existência de um cinema mudo brasileiro muito ligado com tendências europeias da época. talvez pela natureza dos cursos ou pela tradição. Como disse. acho o . A maioria dessas instituições tornou-se mista ao longo do século XX. A instituição tinha um programa já antigo. uma certa apatia na sala de aula e desinteresse sobre o mundo. grande parte tinha dificuldades com a leitura e a escrita e. mas outras continuam admitindo apenas mulheres. uma das mais concorridas faculdade americanas. Mas o modo como a instituição conseguia financiar a tradição era abrindo uma série de cursos de pós-graduação lato sensu em áreas mais aplicadas. Aquele era o ano do Brasil. abertos aos homens. mas pouco conhecido tanto no Brasil como nas pesquisas no exterior. diferentemente de nossos alunos. Era um argumento de peso decrescente. eu estava dando aulas numa instituição que havia escolhido manter a tradição. como Smith College. 175 mero de mulheres. Eu. um professor visitante era chamado e... no outono tive algumas alunas muito boas. Mas as alunas capazes de produzir trabalhos autônomos eram poucas. Na segunda metade do século XX. a justificativa para continuar mantendo o ensino separado era que as mulheres teriam melhores condições de ensino caso não tivessem de disputar a atenção dos professores com os homens em sala de aula. havia palestras e eventos sobre o país e a região. Ainda assim. que escolheram escrever sobre aspectos muito interessantes da cultura brasileira.As alunas e os contos: a narrativa curta brasileira. que se juntou a Harvard College. como as tentativas de reforma do ensino médio ou sobre a participação de jovens artistas plásticos em comunidades na internet. a maioria dos alunos eram mulheres.

2009 Brasil bem interessante. ao fim do semestre. têm a duração de um . eu daria aulas apenas para alunos do programa de escrita criativa. Algumas alunas iriam.176 Revista Brasileira de Literatura Comparada. passar duas semanas no Brasil. por exemplo. mas a verdade é que eu estava bem perdida.15. A desindustrialização trouxe para a região problemas sociais enormes. Mas há também o problema simbólico: como construir uma identidade urbana a partir de uma não identidade? “A cidade que não é do automóvel”. em nível de pós-graduação. A cidade onde a faculdade se localizava era parte do que os americanos chamam de Rust Belt. vou evitá-lo. Os programas de intercâmbio são marca registrada das universidades americanas. no verão do hemisfério norte. Alguns são bem rigorosos. Foi nessa situação de deslocamento urbano e isolamento intelectual que o semestre da primavera começou. esse processo econômico. ainda se reflete no cotidiano difícil de populações inteiras. aliado a tensões raciais e erros crassos de planejamento urbano. Em Detroit. ou “a cidade que não é do aço” são títulos difíceis de se portar. não entendia bem a falta de interesse sobre o meu país. os paulistanos com sua cidade que não é da garoa ou os cariocas com sua cidade que não é capital. eu não sabia exatamente onde estava. e acho que nisso tenho vasta companhia além das fronteiras nacionais. numa viagem patrocinada pela escola e organizada por uma instituição brasileira reconhecida. Eu assuntava: por que escolheram o Brasil? Como esse programa de estudos internacionais se coaduna com os objetivos educacionais dirigidos a esse corpo discente? Não tinham respostas. Mas redefinir a identidade de uma cidade é importante. n. em certa medida eu vivi essa indefinição como deslocamento. região americana do meio-oeste que sofreu com o colapso da indústria pesada ocorrido na segunda metade do século XX. Então. Todos temos um pouco disso. o Cinturão da Ferrugem. especializada nesse turismo acadêmico. e como já virou clichê falar de experiência kafkiana. E só conseguia me localizar novamente quando viajava pelo país e encontrava pontos de referência antigos ou explorava novos.

Pela turma que peguei. Todos nós conhecemos os estereótipos antigos. que temos acesso a elas nos jornais e revistas. Esse me pareceu ser um turismo cultural inteligente para alunos com interesse em expandir seus horizontes mas sem o tempo de preparo anterior na língua e história do país. A dificuldade na graduação foi. a história e a literatura. do que uma área da cultura na qual nós temos uma certa “vantagem comparativa”. e sou fascinada pela narrativa curta que fica em nossas mentes muito depois de terminada a história. eu quis obviamente mostrar um Brasil verdadeiro. tanto na graduação como na pós. Queria mostrar por meio deles alguma coisa do que somos. São cursos para quem quer escrever ficção ou não-ficção. a maior parte dos alunos estava em momentos de transição e buscou o mestrado como forma de se rearticular.As alunas e os contos: a narrativa curta brasileira. são também comuns nos Estados Unidos.. que queria dar uma visão mais abrangente da cultura brasileira. a política. escrevo contos eu mesma. pois dividia o curso com outra professora. Brasil do desma- . Ela se alimenta e faz parte de nosso cotidiano. Depois há os novos. literatura de viagens. Tive de negociar o conteúdo do curso a cada aula. Os alunos podem aí se especializar em literatura infantil. Zé Carioca e Carmen Miranda. Então. Propus um curso sobre contos e crônicas. Além disso. Outros são apenas passeios pelo Caribe. nada melhor. incluindo o cinema. com contribuições à cultura mundial. que incluem literatura mas que têm um sentido mais prático que analítico. Sobre os cursos de escrita criativa. que fosse além dos estereótipos tropicais. como é o caso da narrativa curta brasileira. Não que houvesse estereótipos nas salas de aula. não pude descobrir exatamente o objetivo profissional do curso. Eu queria falar dos contos. sua ausência. Ao longo de minha estada nos Estados Unidos. 177 semestre e são precedidos por estudos de línguas e cursos preparatórios e envolvem cursos regulares ou estágios em países estrangeiros. na verdade. a narrativa curta brasileira tem um lugar muito especial para nós leitores brasileiros. pensei.. e assim por diante.

que estão. 1992).15. pois o Brasil praticamente não existia no imaginário de muitos alunos.178 Revista Brasileira de Literatura Comparada. incompletos. havia referências poucas mas queridas que fizeram aqueles alunos se inscreverem em meu curso. apresentando cronologicamente os principais autores da narrativa curta brasileira. . em sua maioria. Mas lá naquela faculdade eu vi a ausência de informações sobre o Brasil. entretanto. 1992). Entre as esquerdas. 2009 tamento e dos meninos de rua. mas. das crônicas de Ignácio de Loyola Brandão que lemos às quintas no Estadão. assim como no caso anterior. de Nelson Rodrigues (2008). Moacyr Scliar. Então. Montei o curso de modo muito tradicional. O que impressionava era que o Brasil fosse tão grande. Um bom apanhado dos contos está numa antologia da Oxford University Press (Jackson. Guimarães Rosa. não são representativas do gênero. talvez. mal-entendidos. Havia a presença de uma comunidade negra importante. Nosso elo. Havia o Paulo Coelho. Tudo o que eu falasse era novidade. que encontrei em outras traduções (Sadlier. havia a Clarice Lispector. Milton Hatoum e tantos outros. As crônicas são maravilhosas. são espetaculares nos dois sentidos. para falar das crônicas havia um obstáculo muito concreto. 2006). Estão ali Machado de Assis. recentemente publicadas. Reais todos. n. Já nas crônicas é diferente. então. As crônicas de “Life as it is”. há também a construção mítica do presidente socialista que se contrapôs à ordem neoliberal. traduzidos. Há também crônicas de Clarice Lispector em “Foreign legion” (Lispector. maior que a Venezuela. era o interesse difuso naquele país latino-americano desconhecido e uma vaga curiosidade sobre o conto e a crônica. mas parciais. havia informações dispersas prévias. Senti falta de Márcia Denser apenas. por exemplo. Hilda Hilst. Na primeira aula. diferem muito. diziam. que reúne contos de “A legião estrangeira” e crônicas de “Para não esquecer”. Clarice Lispector. notei que quase nenhum aluno tinha interesse específico sobre o conto ou a crônica. não há antologias de crônicas que reúnam vários autores. Enfim. que língua mesmo falavam ali? No curso de pós.

que fiz por ocasião de meu aniversário. Então. foi bem diferente. pedia que chegassem a partir da 1 da tarde. de Mário de Andrade. 179 A respeito dos contos. acredito. mais “profundos”. Parecia que os textos mais densos. Machado de Assis. Uma colega me disse. de jeito nenhum. Tínhamos acabado de ver o filme “Vidas secas”. em geral. eu dava preferência aos contos da antologia. Avisei que o horário era o brasileiro. Fiz a couve e a feijoada. por sugestão da outra professora. E para cada um eu pedi que trouxesse uma coisa: o arroz. que a última feijoada. e outra com joelho de porco e costelas. Tentando o quê? Tentando. que vieram polidamente. Já adianto ao leitor. mas isso me motivou a continuar tentando. depois das caipirinhas. Guimarães Rosa.As alunas e os contos: a narrativa curta brasileira. . Mas. em três panelas distintas: uma para os vegetarianos. pois não sou muito de suspenses. Lembro que numa das primeiras semanas na cidade fiz uma feijoada para algumas pessoas. um tom sério e pesado que não trazia a leveza da prosa brasileira. comeram. forjar alguma comunicação real que havia me escapado nos meses anteriores. por razões práticas. por exemplo. se qualificavam melhor para a tradução que o cômico e o banal. ao final de minha estada. cadeiras extras.. pois um dos meus melhores amigos na faculdade era muçulmano.. etc. em volta dos convidados aboletados no apartamento pequeno. E os contos ali tinham. Os principais autores estavam presentes na antologia da Oxford e também em inúmeras outras traduções. E nós brasileiros não fazemos desse banal a nossa melhor poesia? A uma certa altura. uma sem carne suína. ou seja. nos romances e também nos contos. conversaram sobre a faculdade e foram embora sem me deixar com a sensação de plenitude que tenho depois de cozinhar para amigos e conhecidos no Brasil ou no exterior. e não pontualmente nesse horário. a biblioteca tinha poucos recursos e era preciso fazer escolhas. uma aluna perguntou se era tudo assim pesado na literatura brasileira. a dificuldade era de natureza distinta. Clarice Lispector e Moacyr Scliar estão bem traduzidos. Eu disse que não. lemos o triste “Piá não sofre? Sofre”. os pratos.

Queria que eles se sentissem confortáveis no gênero. . Pareceu à classe que o autor ria de algo que não deveria ser piada. O encontro deveria ter algo de erótico e de conflituoso. é na verdade um romance escrito em capítulos publicados em série. mulheres reflexivas. encontros. o maravilhoso “Memórias de um sargento de milícias” (Almeida. desafios e desfechos. pela literatura e também pela modernidade de um Brasil antigo.180 Revista Brasileira de Literatura Comparada. pensar o conto era uma viagem minha. com leis. nessas alturas. deveria conter um encontro entre um brasileiro e um morador local. E encontrei um primeiro elo. as tantas violências domésticas que pipocam no tempo do Rei. e eu ainda me adaptava ao curso a quatro mãos. num dia importante para a cidade. Claro. a partir de Bosi (1994) e Piglia (2000). advogados. eu deveria ter dado destaque. Ficou espremido. Buscava um elo. choques. Notei ali o tanto de esforço que há em nossa descontração.15. A outra professora notou a ausência dos negros e pobres na narrativa. e poderia estar no fim ou no início da narrativa. americanos que de repente se lembravam das comidas e cheiros brasileiros. Não são contos nem crônicas. 2000). Era no começo do semestre. sobre seus recursos. Machado os surpreendeu. Pedi aos alunos que escrevessem um conto. que acredito pouco interessava aos alunos. eu também queria ver no papel as minhas próprias emoções. O resultado foi maravilhoso: imigrantes brasileiros discriminados que falavam palavrão. Discutimos um pouco a natureza do conto. mas quem é que vai dizer que não são boas crônicas imaginadas? E havia tradução. 2009 que nunca havia se sentido tão à vontade. e também que por meio do conto começassem a pensar sobre as diferenças entre as culturas americana e brasileira. n. interessada nas relações entre a realidade social e o caráter político da arte brasileira. Mas. Eu fiquei lavando os pratos de uma feijoada sem festa. ou com a professora. Mas acho que o texto de Manuel Antônio de Almeida fez tanto sentido aos alunos como a primeira feijoada que ofereci aos colegas. ainda se familiarizando com a narrativa.

E rimos com a cena final de “Amor”. Então. Assim como com Machado.. que não achei traduzido. 2006). O perigo de Clarice é cairmos numa deferência exagerada à poesia e virtuosidade da autora. Tensa também.As alunas e os contos: a narrativa curta brasileira. mas não havia tradução. Uma delícia. Achei Guimarães Rosa difícil de apresentar. eu contava. cobriam muita coisa. mas também pela musicalidade do texto (Pessôa. não só pelo uso particular que faz da linguagem. junto a sua modernidade. 1984). pedi que formassem pequenos grupos. 181 Clarice foi fácil. Fiquei animada. Todos adoraram. Então. escolhessem um pequeno trecho de um dos contos discutidos e elaborassem uma pequena cena. apropriando-nos da humanidade daqueles personagens intensos da autora. passei tardes lendo as histórias e escolhi algumas para recontar. organizada por Graciliano Ramos (1966). Eu conseguiria trazer o . depois. um diálogo com a tradição oral? Então por que não simplesmente contar as histórias de que eu gostava mais? Por que me prender a traduções selecionadas? Quando havia coisas que eu queria dar. a surpresa de uma escrita sofisticada. A biblioteca da universidade estadual local. e contei para eles “A hora e a vez de Augusto Matraga”. Isso queria dizer que eu podia escolher meus contos favoritos. explorando o olhar perscrutador de Clarice e o modo sutil como ela define os ambientes externos e a vida interior dos personagens. ao final de uma das aulas sobre a autora. Sim.. Pois o conto não traz. tinha uma coletânea de contos regionais maravilhosa. As traduções eram boas. 1963) que tinham jeito de conto. Rimos com outras cenas também. que falava à alma. Duas alunas em particular usaram o texto de Clarice para uma jornada de descoberta que encantou a todos. contei. Algo se perde na tradução do autor. interpretada por uma aluna em quem eu via algo da própria autora. Eles toparam. era um desafio. com o marido atordoado sem compreender a fuga da esposa etérea. quebrando a solenidade do texto. por exemplo. e apresentá-los com paixão (Lispector. Recortei alguns trechos de “Grande sertão: veredas” (Rosa.

não. eu. O risco que eu havia corrido era de ter virado naquela sala de aula uma simples nativa que conhecia os hábitos vigentes. talvez por mim. todos eles lá. Mas tudo é questão de treino. mas acima de tudo frustrante. por exemplo. como sempre quando falo do Brasil. falando para uma audiência interessada de um lugar que eu já havia visitado. sugeri a leitura de alguns livros para quem quisesse se aprofundar e. Sem eles. ao menos. é impossível descrever o valor que passamos a dar à comunicação humana. Com eles. além das de Clarice e de Nelson Rodrigues. o que havia acontecido em outros ambientes da faculdade anteriormente. algumas cômicas. Agradeço aos tradutores e editores também. me chamaram para conversar com os alunos. 2005). 2009 texto para a sala de aula? Recontar em inglês uma história querida? Com alguns. n. eu voltava à minha humanidade normal de quem fala e escuta. sem eles. com eles nos conhecemos. Mas a partir do conto e da crônica brasileira. Falei sobre a história política recente. aquele diálogo em qualquer forma que fosse. E isso me tocava profundamente. sem dúvida conscientes de serem pontes precárias nesse importante diálogo entre as gentes. a Scliar e Machado. numa reunião de preparação para a viagem ao Brasil. expressa por meio de atos cotidianos às vezes até singelos. fiz rir. viramos personagens fascinantes de um teatro próprio. No fim do curso agradeci aos alunos. me entusiasmei. quanto mais professora. Muitas tristes. eu o via sendo construído. também escolhi algumas da coletânea “Cem melhores crônicas brasileiras do século” (Santos. consegui. éramos estranhos. a Denser e Ângelo. não era gente. virei professora de novo. éramos sem graça.182 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Era um pouco ofensivo. claro.15. agradeço. Mas as perguntas foram sobre aspectos corriqueiros da . mas agradeço agora a Clarice e Rosa. Naquela classe – fazendo rir e chorar com histórias –. Aquele elo que eu buscava. com outros. Para as crônicas. Estavam todos eles ali presentes nas aulas. quando dela somos privados. E recontei. com eles. Talvez por uma turma aberta e interessada. Sem eles. alguns dos quais estavam matriculados em meu curso. emocionei. Então.

o texto sem asperezas. me vi num dilema. A palavra que eu usava em aula é essa: nossa cultura é soft. Mesmo Márcia Denser. tem aquele amor ao detalhe. Quando dei as aulas sobre as crônicas. e não de salto alto. trouxessem a musicalidade de nossa língua e de nosso texto que a tradução nunca poderia trazer.. 183 cultura nacional: “No Brasil. os alunos se matricularam num curso de uma brasileira. mas tem uma maciez que você não encontra na literatura americana. numa aula.” eu disse. Algo que me encanta na literatura brasileira é o texto macio.As alunas e os contos: a narrativa curta brasileira. uma dinâmica em que eu fosse a nativa e ela a antropóloga podia ter se instaurado. pode ser mordaz. inconscientemente familiar a minha própria cultura. Os alunos se encantaram com uma literatura sobre e também disponível no cotidiano dos leitores de jornais. Então eu sentia que era eu que devia tentar explicar isso. na metade do semestre. entenderam que ali havia um diferencial. pelos textos que não se calquem apenas nessa leveza. um pouco disso ficou evidente. Pode ser violenta. Com a capacidade de olhar o cotidiano de um jeito rico – ou com a riqueza de nosso cotidiano. Mas. Quanto ao meu curso. que tragam o drama pesado ou político. pretensiosa. eu esperava. fazendo barulho. Mas isso pode se perder na tradução. da melhor forma possível. pelos editores. É algo intangível.. Mesmo o texto filosófico de Clarice reforça o lado banal das grandes questões humanas. irônica. eu não teria podido falar dessa literatura de que eu gosto e que é minha. Mas eu também trouxe. e nesse caso em particular eu via muitos problemas nos trabalhos. “aqui é que jantam um pouco cedo.. as pessoas jantam tarde?” Respondi que jantávamos no horário normal. os alunos apresentaram os projetos de seus trabalhos. que me pareciam mais leituras neutras comentadas que exercícios .. lembrem disso. E desse lugar de nativa. Sou naturalmente uma professora crítica. a uma certa delicadeza textual. crítica de tudo. uma seleção de chorinhos que. quando a outra professora se juntou ao curso – bem. não sei mais. Uma literatura que anda de chinelo. e daí talvez as escolhas. Quando.

. n. como a nativa de plantão? Esse receio.184 Revista Brasileira de Literatura Comparada. sobre o que os contos e crônicas realmente haviam falado para eles. Pois meu espírito crítico teve de ser controlado. pois cada texto diz uma coisa para cada leitor. ou me viam apenas. Sobre a produção de sentido no jogo simbólico. Na aula seguinte. que estava sendo produzida naquela sala de aula daquela faculdade daquela cidade do Cinturão Enferrujado americano? Que esquecessem a Clarice que eles achavam que os professores achariam a correta. Haviam me dito. Eles assentiram.15. Quem era aquela Clarice ali. quando comentamos os projetos propriamente ditos. e isso não é mau. Sou sempre otimista quanto aos alunos. paradoxalmente. e de Machado para entender a relação entre a racionalidade e as crenças populares no Brasil do século XIX. Ali estava uma turma que queria usar os textos de Clarice para compreender o existencialismo. dos projetos. Alguns tinham já familiaridade com estudos culturais e feminismo. sobre interpretações corajosas. que queria saber mais sobre as leituras dos alunos sobre os textos. foi muito produtivo. Uma coisa que me surpreendeu na classe foi a curiosidade sobre a filosofia da linguagem e as teorias sociais. Não falei dos trabalhos.. E lasquei uma boa aula sobre a noção de interpretação de Peirce. 2009 de interpretação que trouxessem novos aspectos dos textos e autores lidos. os alunos mesmos – eu tinha na verdade um aluno e o restante da pequena classe formado por alunas – trouxeram tudo o que tinham pensado em escrever mas não consideraram acadêmico o suficiente. indiretamente. nessa classe dada em colaboração? E será que os alunos me escutariam. mas minha experiência no semestre anterior tinha me revelado uma falta de familiaridade com a investigação intelectual que eu não associava com o ambiente universitário. mas para outros alunos aquele curso abriu as . antes do curso. que os alunos de pós tinham dificuldades de leitura e escrita comparáveis às dos de graduação. Comecei a aula perguntando se eles gostariam de ter minhas críticas. Mas será que eu tinha autoridade para criticar os trabalhos. Falei. como disse anteriormente. Então me surpreendi.

Resolvi dar uma aula sobre a literatura judaica no Brasil (Waldman. 2004). no semestre anterior. penso que sim. mesmo quando em tensão. Os alunos ficaram encantados com aquelas influências literárias antigas que entraram no Brasil mas também na literatura europeia e americana. e isso foi bom: saímos então do lugar chamado Brasil para situarmos o Brasil no mundo. recebendo influências mil. Havia apenas uma coletânea disponível (Alvares e Lima. cotidianos e complexos. novamente. obviamente. a poeta amazonense Astrid Cabral. africana. 185 portas para Merleau-Ponty. Enfim. brasileira. os alunos apresentaram os trabalhos para a classe. indígena. e com pontes indo também a lugares mil. mas fazendo pontes com as literaturas de outros países também. mas o tema geral da situação da mulher negra nas Américas era de conhecimento de todos. 2003). E isso serviu de ponte para falar de Milton Hatoum e de sua Manaus misturada. a discussão foi rica e acalorada. como parte dos eventos do Ano do Brasil. trabalhos que de um modo ou outro já conhecíamos a partir de lei- . na qual também víamos escritores de origem árabe. cuja palestra algumas alunas haviam visto. Ao final do curso. foram aqueles nossos autores brasileiros. examinamos a literatura escrita por mulheres negras. mostrando o caráter diaspórico da literatura brasileira.. árabe. Também ao final do curso. e aí o processo foi inverso. Funcionou? No todo. era tudo novidade. mas não opostos. banais e sofisticados: falar da existência humana a partir de um ovo que se quebra dentro da rede. A ponte.As alunas e os contos: a narrativa curta brasileira. ao final do curso não havia mais tempo para se aprofundar nos autores. pois nos dois países as identidades se enriquecem. Então. mesmo com pouco material. japonesa e. Discutimos como no Brasil e nos Estados Unidos as identidades nacional e étnica aparecem na literatura de modos distintos.. Simmel e outros pensadores bastante sofisticados. Foi uma aula já ao final do curso. mas sim para introduzi-los e esperar que aquele se constituísse num primeiro contato com essa nossa literatura. A faculdade havia convidado.

o que permitia essa troca de modo fácil e intuitivo. é possível ir adiante. A outra. Foram aulas de troca intensa. Mas estavam lá comigo não apenas os autores que fizeram a nossa literatura. Na classe em que havia ideias iniciais sobre o Brasil. há . 2009 turas e discussões anteriores. O que ficou dessa experiência? Que ensinar literatura brasileira no exterior é um trabalho coletivo. viam valor em textos que não me chamavam a atenção. mesmo que inconsistente. é possível o aprendizado individual. é difícil tocar adiante o projeto educacional. Tinham certamente um olhar distinto do meu. avançar. Todo o material apresentado era colocado no ambiente educacional virtual Moodle. Sem alguma referência inicial. pois a essa altura todos se sentiam um pouco autores uns dos trabalhos dos outros. mas talvez não o coletivo. Uma excelente aluna de graduação que se matriculou no curso escreveu sobre os dilemas de gênero que apareciam em Machado e também em Nelson Rodrigues. Também aprendi que o contexto no qual esse ensino se dá é importantíssimo. e às vezes deixavam de lado algumas gemas. que procurou refletir sobre sua própria cultura repleta de misticismos a partir do conto de Machado “A cartomante”. Além disso. Não consigo terminar este artigo antes de falar brevemente dos trabalhos. Um trabalho que debatemos muito em aula foi escrito por uma aluna caribenha. Um aluno fez uma análise filosófica de “O ovo e a galinha”.15. Duas alunas escreveram também sobre a autora. Em outras. a partir de conversas com leitores de seu círculo de amizades. elaborar. no conto “Amor”. o compartilhar de experiências. como foi o caso desse curso de literatura. como também seus editores e tradutores na língua inglesa. Mas estavam lá na sala de aula. é certo. Uma escreveu sobre uma experiência de infância que se assemelhava ao olhar de estranhamento de Ana. procurou investigar que tipo de reflexão os textos de Clarice evocavam. que a leitura de Clarice evocou. de Lispector. n. Eu tinha a sensação de uma profunda solidão.186 Revista Brasileira de Literatura Comparada. me ajudando a construir essa ponte que é um dos motores da literatura.

Essas expectativas todas entram na sala de aula. mas numa aula também coloquei o próprio Drummond declamando o poema. para que eles compreendessem o significado. Mas a maioria não conhecia nada da língua. José?”. Pois por que não às vezes ser um pouco a brasileira palhaça. com uma brasileira que morava na cidade e. Os alunos riram. onde professores universitários da área de ciências humanas não conheciam Keynes. uma colega fez um aposto para explicar quem era Keynes. 187 também as ideias iniciais da instituição e dos colegas sobre o Brasil. obviamente em português.As alunas e os contos: a narrativa curta brasileira. e acredito que bater de frente com elas não seja a melhor alternativa. Depois li o poema em inglês. Ou qual era o mundo. de Drummond. A professora com quem dividi o curso queria apresentar um panorama geral sobre a cultura brasileira. além de dar aulas de línguas. Depois. para que eles se familiarizassem com a língua. que não funcionou tão bem. de conversação. mas sim ir sutilmente as aceitando e subvertendo. Uma até confessou que agora se dava conta que seu professor de capoeira falava mesmo daquele jeito. musicada. dei umas mexidas e pronto. também cantava na ópera e lecionava voz. e eu queria examinar o conto. Coloquei o poema em nosso site na internet. fugir do exame desigual .. nada mais. mostrei a um poeta novaiorquino com quem tenho um ótimo diálogo literário e pessoal. o que esperavam de mim? Como imaginavam um professor brasileiro? Lembro-me que.. claro que explicando que era apenas uma imitação de paulista. não estava tirando sarro dela nas aulas com aquela entonação vagarosa. estereotipada? Num belo dia resolvi traduzir o poema “E agora. E até tentei uma imitação de carioca. li o poema imitando o sotaque baiano. a produção literária brasileira. E aí começou a brincadeira: li o poema em português. pois acredito que a partir de nossas realizações é que podemos nos reconhecer como iguais. Fiquei me perguntando qual era o Brasil que ela imaginava. em uma conversa sobre a crise econômica. Alguns alunos faziam um curso bem introdutório. Fiz um primeiro esboço.

as minhas histórias pessoais e a minha vivência. Oxford: Oxford University. Memoirs of a militia sergeant. Miriam. os meus próprios contos. O romance sempre seria comparado ao que os alunos já conheciam da literatura inglesa e americana. Women righting: afroBrazilian women’s short fiction. Oxford anthology of the Brazilian short story. K. O conto disse para eles que há outras formas de pensar. _____. De certo modo. 2000. Acho que ela serviu de elo entre nós. de um modo que outra forma talvez não o fizesse. 2006. O conto brasileiro contemporâneo. Maria Helena. digamos. LIMA. 2004. Austin: University of Texas. 1984. PESSÔA. trazendo a música. André Vinicius. 2009 de um povo sobre o outro. Oxford University. Mas de certo modo eu também apresentei esse panorama geral. Alfredo. Vieram em maio ao Brasil. Mango Publishing... para os alunos que fizeram esse curso. Manuel Antonio de. ALVARES. São Paulo: Cultrix. JACKSON. Sei que. Family ties. O conto brasileiro talvez tenha sido porta de entrada para uma sensibilidade distinta – e para uma sociabilidade distinta também. David. 1992. LISPECTOR. Rio de Janeiro. o sotaque. Foreign legion: stories and chronicles. as vozes de nossos escritores estavam com eles. Referências ALMEIDA. de sentir. de viver.188 Revista Brasileira de Literatura Comparada. New Directions Publishing Corporation. eu fui um pouco a nativa. Dissertação (Mestrado) . Muitos alunos disseram se surpreender com a forma sintética e evocativa que nós dominamos tão bem. Clarice. O que viram? Com quem conversaram? Como se sentiram? Não sei. onde quer que tenham ido. Mas não sei se afirmo que realmente investigamos a forma. Consegui dar um curso sobre o conto como forma literária? Isso fica em aberto. Uma nativa de óculos. 2006. 1994. BOSI.15. n. Uma poética da musicalidade na obra de João Guimarães Rosa.

As alunas e os contos: a narrativa curta brasileira. One hundred years after tomorrow: Brazilian women’s fiction in the 20th century. Host Publications. 2000. As cem melhores crônicas brasileiras. Rio de Janeiro: Objetiva.. WALDMAN. 1966. Indiana University. Joaquim Ferreira dos. Darlene J. Nelson. RODRIGUES. Knopf. The devil to pay in the Backlands. RAMOS. PIGLIA. Berta. Seleção de contos brasileiros. Entre passos e rastros. Formas breves. 1963. Rio de Janeiro: Edições de Ouro. São Paulo: Perspectiva. ROSA. 189 – Universidade Federal do Rio de Janeiro. 1992.. . Barcelona: Anagrama. 2008. Life as it is. Graciliano. Ricardo. SADLIER. 2003. SANTOS. João Guimarães. 2005.

Pareceristas Arnaldo Franco Junior Benito Martines Rodriguez Clarissa Jordão Eurídice Figueiredo Isabel Jasinski Luís Bueno Luiz Carlos Simon Mauricio Mendonça Cardozo Marilene Weinhardt Paulo Soethe Renata Telles Silvana Oliveira Susana Scramin .

A extensão do texto deve ser de. Todos os trabalhos devem apresentar também Abstract e Keywords. . no máximo. espaço simples. por exemplo. em maiúsculas e negrito (sem grifos). e-mail. o trabalho deve obedecer  à seguinte sequência: . duas linhas abaixo do título.br •  Os artigos podem ser apresentados em português ou em  outro idioma. . •  Após a folha de identificação. Usar asterisco para nota de rodapé. desde que a convite da comissão editorial – casos de colaborações de escritores. •  O espaço para publicação é exclusivo para pesquisadores  doutores. O nome da instituição deve estar por extenso. Devem ser produzidos em MSWord 2007 (ou versão superior). título e temática escolhida. endereço para correspondência (com o CEP). indicando a instituição à qual está vinculado(a). com uma folha de rosto onde constem os dados de identificação do autor: nome.Nome(s) do(s) autor(es) – à direita da página (sem negrito nem grifo). com maiúscula só para as letras iniciais.191 Normas da revista Normas para apresentação de artigos • só serão aceitos trabalhos enviados pela internet para o endereço: revista@abralic. poderá ser aceito trabalho de não doutor. 20. telefone (com prefixo). Eventualmente. seguido da sigla. no mínimo. 10 páginas e.título – centralizado.org. instituição.

.tabelas e ilustrações (fotografias. duas linhas abaixo do nome do autor. Corpo 10. corpo 12.Palavras-chave – dar um espaço em branco após o resumo e alinhar com as mesmas margens. corpo menor (fonte 11). com recuo de dois centímetros de margem direita e esquerda. itálico e maiúsculas. ano de publicação e página(s). vêm com recuo de 4 cm na margem esquerda.subtítulos – sem adentramento. desenhos.Notas – devem aparecer ao pé da página.Keywords – mesmas observações sobre as palavraschave. gráficos etc. . . A expressão palavras-chave deverá estar em negrito. . Corpo de texto 10. em negrito. Máximo: 5 palavras-chave. seguida de dois pontos.citações de até três linhas vêm entre aspas (sem itálico). Palavras em língua estrangeira – itálico. negrito. numeradas de acordo com a ordem de aparecimento.abstract – mesmas observações sobre o Resumo. sem itálico e também seguidas do sobre- . sem numeração. sem aspas. O resumo deve ter no mínimo 3 linhas e no máximo 10. seguida de dois pontos. quando houver. 2009 . O texto-resumo deverá ser apresentado em itálico. Espaçamento simples entre linhas e parágrafos. seguidas das seguintes informações entre parênteses: sobrenome do autor (só a primeira letra em maiúscula). . .) – devem vir prontas para serem impressas. . itálico e maiúsculas.15. .192 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Com mais de 3 linhas.Ênfase ou destaque no corpo do texto – negrito. Usar espaçamento duplo entre o corpo do texto e subitens. ilustrações e tabelas.Resumo – a palavra Resumo em corpo 10. . só com a primeira letra em maiúscula.texto – em Times New Roman. . n. dentro do padrão geral do texto e no espaço a elas destinados pelo autor.Parágrafos – usar adentramento 1 (um). corpo 10.

.. 1998. devem ser colocados antes das referências.” (PAZ. 1982. A palavra REFERÊNCIAS deve estar em maiúsculas.As citações em língua estrangeira devem vir em itálico e traduzidas em nota de rodapé. as indefinições.] entre as advertências de Haroldo de Campos (1992). sem adentramento. o enfoque das personagens .. devem incluir referência completa. 1969) • citação de várias obras do mesmo autor As construções metafóricas da linguagem. a presença da ironia e da sátira. Campos. sem adentramento e sem numeração. o único testemunho de nossa realidade. Recomenda-se que anexos sejam utilizados apenas quando absolutamente necessários.Referências – devem ser apenas aquelas referentes aos textos citados no trabalho.anexos. negrito. ou pelo menos. 1991. precedidos da palavra ANEXO. não há qualquer reivindicação de possíveis influências ou contágio. 37) • citação indireta [. “As fronteiras entre objeto e sujeito mostram-se particularmente indecisas. foi antes a poesia concreta que assumiu as conseqüências de certas linhas da poética drummoniana. Elas são nossa única realidade. 1977. Eliot. p. ano de publicação e página(s)..Normas da revista 193 nome do autor (só a primeira letra em maiúscula). duas linhas antes da primeira entrada. 1991. alguns exemplos de citações • citação direta com três linhas ou menos [. em maiúsculas e negrito. pode-se recorrer a vários poetas.] conforme Octavio Paz.. . evidenciando um confronto entre o sagrado e o profano. Somos feitos de palavras. bem como permissão dos editores para publicação. Quando constituírem textos já publicados. Valéry. • citação de vários autores Sobre a questão. caso existam. teóricos e críticos da literatura (Pound. ao contrário. A palavra é o próprio homem. Borges.

Paradoxos do nacionalismo literário. [. 2004. (Org. • capítulo de livro BERND.. 1991. n. M. 2007. Perspectivas comparadas trans-americanas. Itinerários. São Paulo: Companhia das Letras.). veja-se um trecho do capítulo XV da Arte Poética de Freire: Vê. Lugares dos discursos literários e culturais – o local. 37.194 Revista Brasileira de Literatura Comparada. 22. concebendo que todo o homem tem potência de rir [. o nacional. 1988. tira ele e forma uma imagem que antes não havia. 1759. Letras e Ciências Humanas. p. o planetário. Z. V.] o nosso entendimento que a fantasia aprendera e formara em si muitas imagens de homens. O erotismo na produção poética de Paula Tavares e Olga Savary. Zilá. Niterói: EdUFF. Claudia Pastore. o regional. p. nacionalismo. 148) alguns exemplos de referências • livro PERRONE-MOISÉS. 2004. .57.15. In: JOBIM. que faz? Ajunta-as e. o internacional. • artigo de periódico GOBBI.. • dissertação e tese PARMAGNANI. p. São Paulo. de tantas imagens particulares que recolhera a apreensiva inferior [fantasia]. 1999. 1992) • citação de citação e citação com mais de três linhas Para servir de fundamento ao que se afirma. Relações entre ficção e história: uma breve revisão teórica. 87 apud TEIXEIRA. Tese (Doutorado) – Faculdade de Filosofia.. Araraquara. 2006. p. Universidade de São Paulo. Vira e mexe.. José Luís et al. 2009 em diálogo dúbio entre seus papéis principais e secundários são todos componentes de um caleidoscópio que põe em destaque o valor estético da obra de Saramago (1980.122-33. n. Leyla.] (FREIRE.

Jornal de Resenhas.br/scielo. Acesso em: 6 fev../jun. p. • Publicação on-line – Internet FINAZZI-AGRÒ. Alea: Estudos Neolatinos. • trabalho publicado em anais CARVALHAL. 1. 8 abr. .Paulo. 10. Rio de Janeiro. 85-95.Normas da revista 195 • artigo de jornal TEIXEIRA. 1990. I. F. jan.scielo. Belo Horizonte. Folha de S.php?pid= S1517106X2008000100005&script=sci_arttext>.. 2008. Ettore. p. A intermediação da memória: Otto Maria Carpeaux. 2009. In: II CONGRESSO ABRALIC – Literatura e Memória Cultural. observação final: A desconsideração das normas implica a não aceitação do trabalho. Disponível em: <http://www. São Paulo. 4. 2000. Gramática do louvor. n. Anais. Os artigos recusados não serão devolvidos ao(s) autor(es). T. v. O comum e o disperso: história (e geografia) literária na Itália contemporânea.

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