REVISTA BRASILEIRA DE

São Paulo 2009

Diretoria Presidente Vice-presidente 1º Secretário 2º Secretária 1º Tesoureiro 2º Tesoureiro Conselho Fiscal

A B R A L I C 2009-2011 Marilene Weinhardt (UFPR) Luiz Carlos Santos Simon (UEL) Benito Martinez Rodriguez (UFPR) Silvana Oliveira (UEPG) Luís Gonçales Bueno de Camargo (UFPR) Maurício Mendonça Cardozo (UFPR) José Luís Jobim (UERJ, UFF) Lívia Reis (UFF) Sandra Margarida Nitrini (USP) Helena Bonito Couto Pereira (Universidade Mackenzie) Arnaldo Franco Junior (UNESP - S. J. do Rio Preto) Carlos Alexandre Baumgarten (FURG) Rogério Lima (UnB) Sueli Cavendish de Moura (UFPE)

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ABRALIC CNPJ 91.343.350/0001-06 Universidade Federal do Paraná Rua General Carneiro, 460, 11.o andar 80.430-050, Curitiba - PR E-mail: revista@abralic.org

REVISTA BRASILEIRA DE

ISSN 0103-6963 Rev. Bras. Liter. Comp. São Paulo n.15 p. 1-195 2009

1991v. fundada em Porto Alegre. entidade civil de caráter cultural que congrega professores universitários.1 (1991) – Rio de Janeiro: Abralic.1. em 1986. Literatura comparada – Periódicos. Editor Organizador Comissão editorial Luís Bueno Maurício Mendonça Cardozo Luiz Carlos Santos Simon Benito Martinez Rodriguez Silvana Oliveira Luís Bueno Maurício Mendonça Cardozo Preparação/Revisão Diagramação Patrícia Domingues Ribas Rachel Cristina Pavim Revista Brasileira de Literatura Comparada / Associação Brasileira de Literatura Comparada – v. I. n.15. 2009 ISSN 0103-6963 1. pesquisadores e estudiosos de Literatura Comparada.2. sejam quais forem os meios empregados.091 (05) . Associação Brasileira de Literatura Comparada. Nenhuma parte desta revista poderá ser reproduzida ou transmitida.005 CDU 82. sem permissão por escrito.0103-6963) é uma publicação semestral da Associação Brasileira de Literatura Comparada (Abralic). CDD 809. n.2008 Associação Brasileira de Literatura Comparada A Revista Brasileira de Literatura Comparada (ISSN. Todos os direitos reservados.

Sumário Apresentação Luís Bueno Mauricio Cardozo 7 Artigos Os estudos de língua e literatura brasileiras no contexto dos estudos portugueses e latino-americanos na Alemanha Ligia Chiappini A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria Ferenc Pál Tempos e contextos da literatura brasileira na Argentina e no exterior Florencia Garramuño Ideia de literatura brasileira com propósito cosmopolita Abel Barros Baptista O ameríndio como personagem do Outro na literatura brasileira contemporânea: Órfãos do Eldorado e Nove noites Rita Olivieri-Godet Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate de nosso tempo Idelber Avelar O ensino de literatura brasileira por meio do Teatro do Oprimido: uma experiência na Carolina do Norte Érica Rodrigues Fontes 9 25 49 61 89 113 151 .

As alunas e os contos: a narrativa curta brasileira num curso de escrita criativa nos Estados Unidos Heloisa Pait 173 190 191 Pareceristas Normas da revista .

Abel Barros Baptista. o que se destaca é a dimensão por assim dizer institucional dos estudos brasileiros no exterior. por sua vez. ao concentrar-se nas questões levantadas pelas leituras brasileira e estrangeira de Machado de Assis. Rita Cavalieri Godet. organizados a partir da dimensão que privilegiam em sua discussão. O segundo bloco é constituído por três trabalhos que privilegiam a dimensão da análise literária. bem como de suas relações com o deslocamento da posição ocupada pelo Brasil no cenário político e econômico mundial nas duas últimas décadas.7 Apresentação Ao propor como tema os “Estudos de literatura brasileira no exterior”. traçam amplos panoramas históricos – com um olhar atento ao futuro – dos estudos de literatura brasileira em dois países que se localizam a distâncias (não só geográficas) muito diferentes em relação ao Brasil: Hungria e Argentina. Ferenc Pál e Florencia Garramuño. os artigos que compõem este número da Revista formam três blocos diferentes. O artigo de Lígia Chiapinni é o significativo balanço da experiência fundamental que representou a criação e rápida extinção da única Cátedra de Brasilianística de uma universidade alemã. Respondendo a essa proposta inicial. a Revista Brasileira de Literatura Comparada procurou abrir um espaço para a discussão dos diferentes lugares e dinâmicas de estudo da literatura brasileira fora do Brasil. da Universidade Nova de Lisboa. vale-se do conceito de “hospitalidade” para discutir o estatuto do estudioso estrangeiro de literatura brasileira. No primeiro bloco. da .

8 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Já Idelber Avelar. Érica Rodrigues Fontes trata de sua proposta de utilização dos fundamentos do Teatro do Oprimido de Augusto Boal como instrumento de aproximação de uma realidade que. No primeiro deles. lança seu olhar para a representação que a ficção brasileira contemporânea faz do ameríndio. é estranha ao aluno estrangeiro. enfrenta as dificuldades das pequenas faculdades americanas. O bloco final nos traz dois relatos que investem na dimensão da experiência de professoras brasileiras nos Estados Unidos. Luís Bueno Mauricio Cardozo . em princípio. n. da Universidade de Tulane. ao tomar partido de sua posição de professor brasileiro que atua nos Estados Unidos.14. apesar de ter grande tradição. No artigo que fecha este número da Revista Brasileira de Literatura Comparada. Heloisa Pait conta como procurou superar as dificuldades de discussão de textos brasileiros em tradução no contexto de uma instituição que. convoca estudiosos tanto brasileiros como estrangeiros para retomar um tema fulcral da crítica: o do estabelecimento do valor. 2009 Universidade de Rennes 2. ao realizar cuidadosa leitura de obras de Milton Hatoum e Bernardo Carvalho.

closure chair A literatura proveniente da América Latina tem direito a ser considerada no mesmo nível que outras literaturas. literatura brasileira. reforma curricular. entre 1997 e 2010. resumo: palavras-chave: ensino e pesquisa. Porém os preconceitos ou. encerramento cátedra.língua portuguesa. bem como na pesquisa. confirmaria uma tradicional contradição na Alemanha entre um grande interesse pelo Brasil e um quase desinteresse por sua literatura. abstract: The current status of the studies of Brazilian language. Não é preciso acentuar que uma obra literária transmite muitos elementos procedentes de outra cultura na ficção e desperta para outras formas de viver e de pensar. Atualmente trabalhando na orientação de teses no mesmo Instituto. a partir de 2010. descrita a partir da experiência única da cátedra de Brasilianística que a autora ocupou por quase quinze anos na Universidade Livre de Berlim. não deveria ser lida somente como veículo de informações sobre o país. 1 language. curriculum reform. que influenciam o diálogo entre o autor traduzido e o Professora catedrática de Literatura e Cultura Brasileiras do Instituto Latino-Americano da Universidade Livre de Berlim. Brazilian literature. keywords: teaching and research. junto ao Centro de Pesquisas Brasileiras.9 Os estudos de língua e literatura brasileiras no contexto dos estudos portugueses e latino-americanos na Alemanha1 Ligia Chiappini* Situação atual dos estudos de língua. A interrupção dessa experiência. * . literatura e cultura brasileiras na Alemanha. literature and culture in Germany is described by the author who occupied the only Chair in Brasilianistik ever created in Germany for almost fifteen years at the Freie University of of Berlin. os clichês. The interruption of this experience in October 2010. do qual é co-fundadora. digamos. do confirm a traditional contradiction in Germany between a great interest in Brazil and almost no interest in its literature. Portuguese Em memória de Marlyse Meyer.

no texto “Literatura e cultura no contexto dos estudos brasileiros na Alemanha: a cátedra de Brasilianística” (Chiappini. n. (Johann Jacob von Tschudi) O objetivo deste texto é resumir um pouco o percurso e a situação atual dos estudos de língua. Esta ironia se esclarecerá no decorrer deste texto. Adorno e Benjamin. até segunda ordem. para citar apenas alguns dos grandes estudiosos de língua alemã que trataram dos textos em seus contextos e dos contextos nos textos. a Anglizistik. significa Literatura Brasileira ou Filologia Brasileira. pois esta não deve ser confundida com o estudo meramente formal dos textos em si mesmos. abrindo-se a outras linguagens. Auerbach. que atualiza informações já divulgadas em algumas publicações anteriores. a língua portuguesa fica quase tão desconhecida como o pérsico ou o sânscrito. propondo para nossa reflexão alguns problemas que pude identificar em quase quinze anos de trabalho na Universidade Livre de Berlim. 2005) 2 . do cinema. ao que parece.2 Brasilianistik. a Hispanistik.15. Para além da filologia mas com a filologia. nesse contexto. pois a literatura brasileira Por exemplo. (Ray-Güde Martin) Nos meios cultos da Alemanha. única e. Mas o que parece simples no enunciado acima é. são. ela se localizou na confluência do Departamento de Romanística com o Instituto de Estudos LatinoAmericanos. por analogia a outras áreas desses estudos. Na Universidade Livre de Berlim. que conheço melhor. difíceis de desaparecer na mente das pessoas. da poesia e narrativa orais. pelo menos na terra de Spitzer. como a primeira. da televisão. adotou o tratamento da literatura como manifestação cultural. principalmente em Berlim. literatura e cultura brasileiras e de suas diferentes modalidades na Alemanha. muito complicado. E. última professora de Brasilianística da Alemanha. da música popular. tais como a Germanistik. na verdade. de mais longa tradição acadêmica. 2009 seu leitor estrangeiro. das artes plásticas. em alemão.10 Revista Brasileira de Literatura Comparada.

que sempre por ele se interessaram. botânicos. sociólogos. mas também na ignorância da dimensão que a própria língua portuguesa tem no mundo. sobre ele pesquisaram e escreveram. p. Dietrich Briesemeister (2000) faz um balanço dessa luta. 11 Critérios e preconceitos que.3 Ainda segundo Briesemeister: Os estudos brasileiros. caso do nosso Instituto. como parte da Romanística. ela perde espaço e visibilidade. haveria um semidesconhecimento cultural e. Entre aqueles e estas. uma ignorância quanto à “participação individual do Brasil na cultura universal”. e paralelamente. sendo ela frequentemente . mesmo em contextos nos quais se impôs como necessária. Começa constatando nesse percurso um permanente desequilíbrio na visão do Brasil pelos estudiosos na Alemanha. ou dos estudos hispanoamericanos. p. processo que durou de 1988 a 1995. 2000. depois de uma longa luta pela institucionalização da disciplina. tensionada entre os Estudos de Literatura e Cultura Latino-Americanos – hoje identificados com os Estudos Culturais Norte-Americanos – e a Lusitanística. Em palestra realizada no primeiro simpósio internacional promovido pela Brasilianística. nos departamentos ou institutos latino-americanos. 349). vigorando “enfoques valorativos eurocêntricos e critérios preconceituosos” (Briesemeister. O desconhecimento e o desinteresse não se manifestariam apenas na ausência ou invisibilidade da literatura. seria esse País Tropical um paraíso para geólogos. Por um lado. como a de toda literatura).Os estudos de língua e literatura brasileiras no contexto. Por outro lado. E aí também a situação piora dia a dia. “Brasil: país do passado?”. sempre foi um apêndice de Portugal. no caso da literatura. que se publicou posteriormente em livro com o mesmo título. 349). com o português fazendo parte de uma estrutura que privilegia o espanhol (2000. e por parte dos que provocaram. que ajuda a entender a situação presente. por parte dos que nunca quiseram a cátedra de Brasilianística na Universidade Livre de Berlim e retardaram ao máximo a sua criação. aliás. mesmo. nos departamentos de Romanística das Universidades.. geógrafos. apoiaram ou facilmente aceitaram a sua extinção quinze anos depois.. 3 ainda enfrenta dificuldades para ser reconhecida em sua autonomia (mesmo que relativa. do início do século XIX ao final da década de 90 do século XX. etnólogos. tornaram a vigorar.

O mesmo fenômeno nota Briesemeister nos livros sobre literaturas latino-americanas. A regra continuaria sendo o predomínio do interesse econômico. como no livro de Max Leopold Wagner. principalmente. como línguas mais ou menos exóticas e minoritárias: Não obstante o número muito elevado e ainda o aumento da população mundial dos países lusófonos em quatro continentes (. 351). p. a maior parte dos quais. . até há pouco tempo. O português entra em competição com o espanhol como “terceira língua”. da valorização e da divulgação da literatura brasileira. não se fez muito nos países de língua alemã a favor da pesquisa. ficando atrás em relação ao número de alunos (Briesemeister. Pelo contrário.12 Revista Brasileira de Literatura Comparada.. Die Spanisch-amerikanische Literatur in Ihren Hautströmungen. o ensino torna-se imperdoavelmente reduzido nas universidades alemãs. Lamenta que esse exemplo não tenha sido seguido como merecia e acusa mesmo um possível retrocesso: desde aquela obra singular de Wolf. deixava de fora o Brasil: (O) Brasil continuou ausente das obras que tratavam da América Latina e. de sua literatura. p. como a posição do austríaco Ferdinand Wolf. 351). deixando as manifestações culturais sempre em segundo plano. publicado em 1863. em que a literatura é a grande ausente.). Isso revelaria um grande desconhecimento tanto da dimensão quanto da qualidade desta. 2009 comparada ao sânscrito e ao romeno. constata-se até uma tendência regressiva em comparação com o posicionamento avançado do erudito austríaco (Briesemeister. O Brasil e a Alemanha: 1822-1922. 2000.15. de 1924 (Briesemeister. n. p. autor de Le Brésil Littéraire. 350-351).. 2000. 2000. Briesemeister reconhece algumas raras exceções a essa tendência ainda no século XIX. como no contraexemplo do livro de Wilhelm Giese.

2000. o Instituto Geográfico da Universidade de Tübingen. p. o Centro Latino-Americano de Münster e. em Berlim.. dos Frades Franciscanos. da qual tiramos a epígrafe acima. em Aachen.Os estudos de língua e literatura brasileiras no contexto. ocupada pela autora deste texto. o mesmo autor resume “o largo caminho da institucionalização” (Briesemeister. p. o Instituto Latino-Americano. Por exemplo.” (Briesemeister. a cátedra mal completara um ano quando organizamos o simpósio internacional. Destaca também novos centros. só contém artigos dedicados a autores de língua espanhola (Briesemeister. falava-se freqüentemente em América Latina. depois de muitos prós e contras. que só 25 anos depois de criado. 351-352). 2000. no qual foi proferida essa conferência de Briesemeister. como o Instituto de Cultura Brasileira. o Instituto Português e Brasileiro da Universidade de Colônia. . Materialien zur lateinamerikanischen Literatur (1976). da Universidade Livre de Berlim. p. ao mesmo tempo. a diversificação interdisciplinar. finalmente. como primeiro centro de estudos interdisciplinares sobre América Latina numa universidade alemã. em 1912. mas quase sempre com referência exclusiva à América espanhola. 353) Essa foi realmente uma conquista significativa. ou seja. a fundação do primeiro Instituto Latino-Americano da Alemanha. a partir de 1995. a criação de três institutos que continuaram existindo depois dela: o Instituto de Pesquisas sobre Ibero-América da Universidade de Hamburgo. foi “dotado de uma cátedra (única no país) de literatura e cultura brasileiras. em Mettingen.. 2000. 13 Ainda nos anos 60 do século XX. o Instituto Ibero-Americano do Patrimônio Cultural Prussiano. Criada em 1989 e somente em 1997. o livro de Michi Strausfeld. pelo cônsul Heirich Schüler. 351) dos estudos portugueses e brasileiros na Alemanha. Ainda antes da segunda guerra. bem como a de Ray Güde-Mertin. pontuando. Defendendo a necessidade dos estudos regionais e.

porque estes muitas vezes tendem a confinar o estudo dos textos e a própria literatura nos países considerados periféricos a um conjunto de informações superficiais e até mesmo estereotipadas das produções culturais. sem desconhecer suas especificidades linguísticas e históricas. havendo um esforço permanente para relacioná-los com seus contextos. implicando um diálogo constante da crítica. a cada nova tendência teórica produzida nos centros universitários hegemônicos da Europa e Estados Unidos da América do Norte. embora ela tenha trabalhado também com textos não canônicos e com textos que só podem ser considerados literários em sentido amplo. dos estudos de teatro. dedicandose. entre os quais. numa predisposição e abertura para a inter/pluri/transdisciplinaridade. a Brasilianística no LAI dedicou-se sobretudo ao estudo sistemático e à divulgação dos textos mais significativos da Literatura Brasileira. da teoria e da história literárias com a linguística. permitindo-se juntar num único seminário. poesia oral. Para tanto. já nos anos 1970.4 Mas isso não significou tratar os textos isoladamente. como “Altos e baixos estudos”5 de literatura e cultura e não como Cultural Studies. a economia. Carlos Azevedo e Carlos Ladeira. entre outros. entre outros. tais como filmes. novelas de televisão. aos estudos sobre cordel e folhetim. mitos. Zinka Ziebell. essa foi sempre a direção buscada. de modo indiscriminado. assim.14 Revista Brasileira de Literatura Comparada. contou com uma ótima base linguística dos estudantes. o qual não podemos esquecer. hoje também leitora na FU. A Brasilianística concebeu-se. tanto como parte de uma hipotética Weltliteraturwissenschaft quanto da Romanística. que já constituem mais de dois séculos de um saber acumulado. mas tudo isso sem esquecer sua base nos estudos de literatura brasileira. valorizava com saudável distanciamento irônico os estudos culturais para além dos cânones literários. A Brasilianística concebeu-se. a história e as ciências sociais. ainda. da Lusitanística. 4 O termo se deve a Marlyse Meyer. como quem inventa a roda. bem como da Latino-americanística e em diálogo estreito com a Caribística. da Literatura Comparada. a começar por tudo o que o une à América Latina. que. a proposta sempre foi trabalhar com o Brasil sem deixar de levar em consideração a sua integração no mundo. Por outro lado. 5 . muito antes de os Cultural Studies se terem transformado em moda na América Latina. que aprenderam português brasileiro com Berthold Zilly e outros excelentes mestres. arbitrário e puramente folclórico. encarregados de cursos de língua. n. 2009 Considerando as lacunas apontadas por esses e outros estudiosos. ambos parcialmente financiados com auxílio do governo brasileiro.15. artes e comunicações.

Isso tudo. .. associação de brasilianistas dos Estados Unidos. 15 Como defendeu um colega norte-americano no jornal da Brazilian Studies Association (Brasa). a Brasilianística sempre defendeu o espaço e a possibilidade de os escritores brasileiros escreverem e publicarem literatura. embora vinculando-se estreitamente a elas.e redutoramente nas ciências sociais. entendendo que negar essa possibilidade em nome da democracia. seria um efeito perverso da atitude libertária. Guimarães Rosa. Como já foi dito. pois a literatura sempre foi estudada aí como parte da cultura e esta. permitiu conquistar um espaço autônomo para os estudos de literatura e cultura. impedindo que se dissolvessem conteudística. Para entender a importância disso – sobretudo porque no Brasil poucos percebem a diferença entre as condições de trabalho de um professor e de um assistente ou de um leitor. Por outro lado. promover eventos. escravidão. assinar convênios e gerenciálos. 6 aulas sobre descobrimentos. todo docente universitário com doutorado poderia fazer. aparentemente. o intercâmbio interdisciplinar com os estudos hispano-americanos de literatura e cultura. como abertura para o não canônico. possibilita uma continuidade de produção teórica e prática no ensino e na pesquisa. música popular brasileira e jeitinho brasileiro. e mesmo intensificou. No caso da Brasilianística. com esse cargo de titular para a Brasilianística criou-se a possibilidade de os estudos brasileiros escaparem à situação de apêndice dos estudos portugueses ou hispano-americanos.Os estudos de língua e literatura brasileiras no contexto. tão importante na formação das novas gerações. mesmo que bem intencionada. um cargo de professor implica um espaço próprio e possibilidades bem maiores de fazer coisas que. o aprofundamento da pesquisa e do ensino específicos da literatura e da cultura brasileiras preservou.6 Finalmente.. O jornal chama-se Fagulha e no número de 1997 estampou esse programa como alternativa aos programas tradicionais de literatura e cultura brasileira. mais o contrato permanente de trabalho. como permite o sistema brasileiro: desde orientar teses de doutoramento até coordenar projetos. é preciso saber que na Alemanha. para não falar dos professores horistas ou encarregados de cursos –. onde a hierarquia universitária se mantém de modo muito rígido e conservador. como em qualquer parte do mundo.. como social e histórica.

2000. como vimos. ajuste esse que o autor antecipou e que logo iríamos começar a viver de modo vertiginoso. n. no sentido acordado em Bolonha: generalização dos cursos de Bachelor e Master e substituição dos cursos tradicionais de graduação. parece ser o lugar institucional ideal para uma disciplina desse tipo. E. 354). tanto na sua tradição. um ano antes do balanço pessimista mas realista de Briesemeister. p. Apesar das várias realizações da Brasilianística – entre outras. como no âmbito das reformas anunciadas para o futuro próximo (Briesemeister. 2009 É importante assinalar que o Instituto Latino-Americano. a Brasilianística começou a funcionar já num momento extremamente desfavorável. A reforma universitária vinha junto com significativos cortes de orçamento. a oferta de quatro a cinco cursos diferentes por semestre. O experiente professor e pesquisador já pressentia nessa reforma novos entraves para os poucos progressos feitos na institucionalização dos estudos de língua e literatura brasileira. o que o levava a sugerir um tanto profeticamente que tudo tenderia a piorar: O que impede quase insuperavelmente a independentização dos estudos brasileiros nas condições precárias do momento atual são as estruturas administrativas organizatórias da universidade alemã. quando a Universidade começava a ser pressionada para ajustar-se às reformas neoliberais. segundo ele. concorrendo para a integração da América Latina. Nas Humanidades. uma das primeiras áreas atingidas foi o português.16 Revista Brasileira de Literatura Comparada. piorou. Tais entraves iriam reforçar. pois permite não apenas aprofundar a interdisciplinaridade mas também desenvolver atividades que levem a superar culturalmente o tratado de Tordesilhas.15. como a então recente criação da Brasilianística. com a introdução das reformas curriculares nas universidades alemãs e europeias. na Alemanha. Entretanto. ou mesmo por causa delas. realmente. prevendo a extinção de postos e áreas inteiras. apesar de suas contradições. aqueles identificados no passado. e mesmo portuguesa. a .

8 orientação de mestrados e doutorados. não só para garantir. Não apenas a literatura brasileira se vê ameaçada. em face disso. Em Berlim. menos professores: ou seja. 17 As recentes reformas implicaram o fechamento de departamentos inteiros de português em toda a Alemanha. como parte do BA de Estudos portugueses e brasileiros. América Latina no contexto global. então. mais econômicos que científicos. o estabelecimento e gerenciamento de convênios internacionais com outras instituições dedicadas à cultura e à língua brasileiras no Brasil e na Europa –. ao nível do BA. com um BA de estudos brasileiros e portugueses (valendo 60 pontos e não 90. . a especialização é absolutamente necessária. com cinco módulos obrigatórios e alguns opcionais. A Universidade Livre tem mais condições hoje de manter uma parte deles. cultura e sociedade. p. Motivos? Ao que parece. ciclo de palestras e publicações. passou para o mesmo departamento. mas também para ajustar a formação profissional dos jovens universitários às exigências de hoje (Briesemeister. a Universidade Humboldt encerrou mais radicalmente esses estudos. planejou-se e. Os básicos são: Constituição da América Latina. em menos de cinco anos. em nível institucional. 2000). Ele enunciou. Esse master começou em outubro de 2005. Conceitos e métodos da pesquisa sobre América Latina. o que significa..Os estudos de língua e literatura brasileiras no contexto. “torna-se impossível conciliar as necessidades da diferenciação adequada com os critérios didáticos de aprendizagem e as relações histórico-culturais dos países do mundo lusófono” (2000. o português brasileiro. os alunos podem optar entre cinco áreas de concentração: Transformação e desenvolvimento. da qual fazia parte a Brasilianística como uma subárea. transformações.000. Brasil no contexto global: literatura. mas estranhamente assimilada ao BA de Filologia Espanhola. Os “dilemas da institucionalização” ameaçam também a variante europeia da língua e os respectivos estudos literários e culturais específicos da lusitanística. decretou-se o seu desaparecimento no âmbito mais geral seja da Lusitanística.7 seja no âmbito dos Estudos Culturais Latino-Americanos. o que significa menos carga horária. mas o máximo que conseguiu foi fazê-los sobreviver como diploma complementar aos Bachalerados da Romanística. Poder e diferença. uma necessidade que estamos longe de preencher: Sem dúvida. a língua e a literatura brasileiras deslocaram-se para o departamento de Filologia Românica. formas de vida. ao espanhol da América. a organização de simpósios. 7 O Master do Instituto prevê um primeiro ano comum. a assimilação de uma língua de quase 200.000 de falantes. uma formação mais superficial na área. além de um módulo para desenvolvimento de projetos. concretamente. Relações de gênero. quando os novos bacharelados já haviam começado e hoje já se evidencia em ambos a necessidade urgente de serem repensados e reformulados. como os outros).8 Ao nível do Bacharelado. inevitável e urgente. menos disciplinas. Antropologia cultural. Num segundo ano.. ao nível do Master. 350). a exclusão do Brasil da América Latina ou. a qualidade da pesquisa científica. enquanto a disciplina de Latino-americanística. Como também previu Briesemeister. Literaturas nas dinâmicas culturais da América Latina..

como queria o escritor brasileiro Afrânio Peixoto no início do século XX. que por si só a justifica. ocupado pela primeira colocada no concurso feito em 1990. 9 . coerentemente com a tradição de que nos falava Briesemeister. há um paradoxo. como vimos. entretanto. do instituto mais importante na Alemanha dedicado aos estudos sobre a América Latina. ajudar a superar tanto uma suposta autonomia absoluta dos estudos filológicos quanto o preconceito de muitos brasilianistas das ciências sociais. não foi acompanhada de uma diminuição da demanda. ligadas aos negócios ou às chamadas ciências sociais. ora como seu equivalente ao contrário: puro documento. na variante europeia e nas demais. consiste em. pelo menos. em 1997. para cursos destinados aos interessados das áreas consideradas mais úteis. finalmente. justifica a criação de bacharelados disciplinares em que os estudos portugueses e Veja-se a lista das publicações. Essa concepção ainda positivista da literatura e das artes embasa ou. que quase dez anos depois. como vimos. cursos e projetos de pesquisa em nossa homepage: <http://www. pela extinção do cargo após a aposentadoria da sua titular. eventos. E justamente agora.de/studium/disziplinen/ brasilianistik/index. quando expressivos resultados do trabalho aí desenvolvido começam a aparecer. após muitas idas e vindas. que eram contemplados normalmente no antigo currículo. com tentativas de fechá-lo antes que começasse a funcionar e tendo funcionado dois anos com professores substitutos.15.fuberlin. não aos estudos de literatura e cultura ou aos estudos linguísticos. para os quais a literatura é vista ora como uma joia supérflua.18 Revista Brasileira de Literatura Comparada. “sorriso da sociedade”.lai.9 corta-se a sua continuidade. recentemente.html>. n. 2009 A restrição da oferta no ensino de português. No caso do Instituto Latino-Americano da Universidade Livre de Berlim. veio a ser. Uma tarefa da Brasilianística. Existindo desde meados da década de 1970. indo além do seu próprio gueto. Trata-se. só em 1989. esse Instituto conseguiu abrir um cargo de titular em literatura e cultura brasileiras. que continua a crescer. mas está sendo canalizada. com uma tradição respeitável de estudos sobre o Brasil e que. se propôs a criar um Centro de Pesquisas Brasileiras.

a Brasilianística voltou a fazer parte de uma só disciplina. aí se procura articular em torno de certos temas. como ocorria há quinze anos. Lateinamerikanistik/Brasilianistik (Literatura e Cultura Latinoamericanas).Os estudos de língua e literatura brasileiras no contexto.11 História. Atualmente. contra 90 nos bacharelados principais)10 e menos tempo ou nos Masters interdisciplinares. Socio- . um método para que cada um produza seu próprio método. a Associação dos Lusitanistas alemães faz um balanço do desmonte dos estudos de língua e literatura em língua portuguesa e constata que ele prossegue. pelo menos desde Aristóteles. o que implica a desconsideração total da questão estética. com profundidade. perdendo sua especificidade. De todo modo. 11 brasileiros têm menos pontos (60. o que importa aqui é a qualidade da formação. pois o que se ensina. foi resguardar o essencial. 10 Nesse conjunto. Em meio a tantas mudanças. embora uma avaliação menos pessimista não veja isso como desmonte. servida por apenas um cargo de titular. incapazes de dar conta da sua complexidade como objeto feito de palavras que são ao mesmo tempo coletivas e individuais. pelo predomínio da análise conteudística ou a abordagem das condições de produção ou de recepção dos textos. o que não significa utilizá-los de modo acrítico ou extemporâneo. que é a capacidade de trabalhar intensivamente.. portanto. textos que constituem nosso objeto de estudo. e esta não se faz sem um domínio da linguagem em que se expressa cada texto como produção simbólica. a partir do semestre de inverno de 2010. que abrange toda a América Latina e o Caribe. 19 A cada ano. No caso da literatura. sem o domínio da língua e dos métodos de leitura desenvolvidos pelas teorias da literatura. senão um lamentável retrocesso. o que configura necessariamente uma grande restrição. Mais que quantidade de informação. mais que uma série de informações sobre eles. é uma atitude analítica. bem como a historicidade das formas. no nosso espaço cada vez mais restrito. começa-se a rediscutir as bases do nosso Master de Estudos Latino-Americanos que se quer interdisciplinar. necessárias e esclarecedoras mas externas a eles e. considerados prioritários. neste caso. mas tampouco fazer tabula rasa do capital teórico e analítico aí acumulado. mas como concentração desses estudos em algumas universidades em detrimento de outras. em que a literatura e a cultura submergem nos chamados estudos de área. mas não se sabe ainda muito bem o que fazer dos estudos da cultura quando esses ultrapassam as leituras meramente conteudísticas e passam a investigar o tratamento dado aos temas. o que tentamos.. as diferentes disciplinas – Altamerikanistik (Antropologia e Arqueologia do continente americano).

Ao mesmo tempo. tivemos até quase o final de 2010 uma situação que se pode considerar de excelência na área dos estudos brasileiros. principalmente se tratando do Brasil e da América Latina. trata-se de um desafio que é o desafio de todo trabalho interdisciplinar. com a Sociologia. mesmo que não quisessem sê-lo. é que. “desde o formalismo jurídico até o senso humanitário”. é preciso reconhecer que. 2009 logia. com a Economia. não é possível estudá-la sem relacioná-la intimamente com a História. 1989. A teoria e crítica literárias aí já nasceram comparadas. 180). onde. a fim de que esse diálogo realmente seja um diálogo e não a submissão ou a diluição destes perante uma hegemonia das ciências sociais? Seja como for. Quem estuda literatura e cultura num país como o Brasil sabe que não é possível fazê-lo a não ser estabelecendo comparações. com a Política. mas dificilmente o é. tudo foi historicamente permeado pela literatura.20 Revista Brasileira de Literatura Comparada. ao mesmo tempo como criação estética e como documento. No caso da literatura. Parece óbvio – mas nem sempre o óbvio é percebido como tal – que não é possível realizar um trabalho inter ou transdisciplinar sem respeitar os pressupostos epistemológicos e metodológicos próprios de cada disciplina. em Berlim. Como devem ser abordados os objetos literários a partir da perspectiva dos estudos propriamente literários. quando ela aparece na sua complexidade. n. o que implica a busca de padrões e categorias que permitem tratar adequadamente semelhanças e diferenças. como reconheceu há muito Antonio Candido. agora. é o de explicitar a comparação imanente. p. pode dizer muito mais sobre a vida. Essa excelência deriva de . Mas é verdade que isso se fez muitas vezes de modo implícito. O desafio. o que precisava ser compreendido.15. chegando à “expressão dos sentimentos no âmbito familiar” (Candido. nesse diálogo das disciplinas. incluindo a literatura e cultura. E num país onde a literatura se forma sob a pressão e a certeza de que se está gestando com ela também a nação. Ciências Políticas e Economia. com a Antropologia.

Eu mesma. A situação negativa que os estudos de literatura brasileira. como ocorre atualmente na Universidade . mas também graças à importância reconhecida do Brasil para as relações internacionais da Alemanha. Essa excelência precisa ser defendida e potencializada. caso não se venha a compensar de forma consistente a perda da Brasilianística. Quanto à variante europeia do português.. com base no texto citado de Briesemeister. sob o mote de “Wir wollen Portugiesisch” (Nós queremos português). além de contarmos com uma professora para essa cátedra. Hoje em dia a situação começa a mudar. no contexto dos estudos de português em geral. como foi o caso do movimento iniciado pelos estudantes da Universidade de Jena. 21 que. mas que na verdade era realismo. provocou periodicamente balanços extremamente negativos.. vêm enfrentando nos últimos anos. dentro e fora da Alemanha. hoje se financiam novos leitorados para compensar algumas perdas ou se estabelecem convênios que permitem preservar sobretudo os cursos de língua que sobreviveram nos novos currículos. volta a se fazer presente. graças à organização da comunidade científica dos Lusitanistas e Brasilianistas. resumida ao longo deste texto. sem falar nos encarregados de cursos que ajudaram a ampliar e diversificar a oferta de cursos desde o início. teoria e história literárias. o Instituto Camões.Os estudos de língua e literatura brasileiras no contexto. crítica. mas isso parece difícil de ser conseguido. o que foi previsto no processo de criação do Centro de Pesquisas Brasileiras acima referido. reforcei esse tom pessimista em outras publicações. cujo apoio aos leitorados parecia ter-se enfraquecido. Pelo lado brasileiro. mas também num estudo de Walnice Nogueira Galvão e em informações divulgadas nos encontros bienais da Associação de Lusitanistas Alemães. Aqui e acolá há sinais de resistência que nos impedem de desanimar. contávamos também com um leitor extremamente competente tanto no ensino da língua brasileira quanto na tradução. financiando pelo menos parcialmente alguns leitorados. se antes havia pouco incentivo. o que chegou a ser lido como nostalgia.

Isso tudo leva a juntar forças. No caso do Master de Estudos Latino-Americanos. a experiência da variante brasileira. de diferentes gêneros. Assim. 12 . pelo lado da literatura talvez o desafio Esse trabalho. Uma produção de material didático de caráter contrastivo do português brasileiro com o português de Portugal e de Angola. quanto outros mais complexos. desde o início da sua formação no bacharelado. coordenado por Ligia Chiappini e mediado pela Embaixada Brasileira. desta vez com o espanhol. objeto de estudos comparativos.22 Revista Brasileira de Literatura Comparada. tais como textos de e sobre literatura e cultura. desde o início. as outras variantes da língua são. no Bacharelado de Estudos Portugueses e Brasileiros da Universidade Livre de Berlin. Zinka Ziebell e Rosa Henckel. que vai de mapas a dados numéricos e históricos.15. Dessa forma. também estamos produzindo um material contrastivo.12 Se pelo lado do ensino da língua esses são o panorama e o desafio atuais. Também uma antologia de textos curtos e atuais. produzindo e compilando tanto um material básico para iniciantes. como instrumento ágil para proporcionar aos estudantes de português. em que se trabalha mais diretamente com o português do Brasil. com ajuda da Embaixada Brasileira. num esforço de cooperar para vencer a tendência a concorrer e dividir. vem sendo desenvolvido pelas Dras. para ser usado no sistema do e-Learning. em que o português europeu é central. estamos fazendo um trabalho desde 2007 no sentido de conceber cursos de cultura brasileira para além dos tradicionais e panorâmicos cursos de civilização. os diferentes registros da língua portuguesa e suas variantes regionais e nacionais passam a ser considerados riqueza comum e não instrumentos para reafirmar hierarquias e justificar discriminações. 2009 Livre de Berlim e na Universidade Humboldt. n. já que a maior parte dos estudantes tem conhecimento dessa língua. é elemento de apoio básico nesse ensino. Assim. em português brasileiro. No que diz respeito à variante brasileira. entre eles os que tratam das manifestações culturais afro-brasileiras ou dos povos indígenas. que foi iniciado e prossegue no âmbito de um convênio com o Brasil. a partir dessa base. eles terão oportunidade de desenvolver um conhecimento mais profundo e uma prática linguística mais ativa nos módulos mais avançados. vem sendo preparada e sistematicamente atualizada.

2008. ocidental. que já em 1998 Ray Güde-Martin tematizava no trecho aqui escolhido como epígrafe. No Instituto Latino-Americano tivemos por quase 30 anos um cargo pleno de leitor para Português Brasileiro e. porque esta também só interessa.13 Constatava-se aí que a literatura de qualidade estaria perdendo terreno para a literatura meramente comercial e para uma espécie de novo exotismo. menos ainda se valoriza o conhecimento da língua como matéria e forma da e na literatura. E... que implica um grau mais alto de elaboração linguística. por quase 15 anos. assim como Briesemeister. que trabalham com clássicos da chamada literatura universal. um posto de Professor para Literatura Brasileira. dificilmente consegue ser republicado. ainda não conseguimos despertar o interesse de colegas e estudantes de outros departamentos da mesma universidade. simultânea e pioneiramente. Mesmo assim. 13 seja maior. coincidiu com um debate sobre a literatura brasileira como um mau negócio.Os estudos de língua e literatura brasileiras no contexto. do ponto de vista editorial. Considerado muito difícil e tendo suas traduções em alemão esgotadas. Pois se já poucos reconhecem a importância de estudar a língua portuguesa e suas variantes para a comunicação e outros usos meramente instrumentais. que a boa literatura carrega junto com as suas dimensões ideológicas conservadoras. A literatura mais exigente. apesar do balanço negativo. . como vimos. pois a Universidade e pareceristas externos a ela reconheceram a autonomia e a dimensão desta para comportar uma abordagem específica. como documento ou como mercadoria. branca. 23 Alusão a um debate realizado no Instituto Iberoamericano de Berlim em parceria com o Instituto Goethe de São Paulo. expresso na representação espetacular do brutalismo nas favelas. em março de 2008. é simplesmente demonizada ou ignorada. Mas. termina seu texto de modo otimista. o quadro tampouco é positivo. Um exemplo disso é o caso de Guimarães Rosa. Desconsidera-se aí aquilo que Antonio Candido definiu como contraveneno. citando o crescente interesse de um certo público e a presença maior dos escritores cineastas e artistas brasileiros em encontros. no caso do best-seller. porque julgada elitista. O ano do seu jubileu.

p.24 Revista Brasileira de Literatura Comparada. 2009 recitais. acreditar. 2005. MartiusStaden-Jahrbuch. Literatura e cultura no contexto dos estudos brasileiros na Alemanha: a cátedra de Brasilianística. Ligia. ZILLY. bem como a atuação de colegas que ensinam. podemos ainda. em certo modo esquizofrênica.15. Brasil. 349-357. mais de dez anos depois. pelo reconhecimento das lacunas e a invenção de novos mecanismos que ajudem a preservar e a desenvolver o que já foi realizado. Referências BRIESEMEISTER. n. 2000.). p. 1989. In: CHIAPPINI. Infelizmente. Antonio. mas continuamos apostando que o trabalho desenvolvido no espaço conquistado para a literatura brasileira no Instituto Latino-Americano da Universidade Livre de Berlim poderá ajudar a superar essa esquizofrenia. 2000. Os estudos brasileiros na Alemanha. São Paulo: Ática. Antonio. Ligia. . p. colóquios. que a indiferença pela Literatura do Brasil e o seu desconhecimento podem ser superados na Alemanha. traduzem e comentam o melhor da literatura brasileira. 251-263. além das associações que ajudam a manter a vitalidade do setor. rivalizante e paradoxal. Dietrich. 354).” (Briesemeister. muito do diagnóstico de Briesemeister ainda vale para o presente e a maioria dos brasilianistas alemães ainda “leva uma existência profissional acadêmica. estudam. semanas culturais dedicadas ao Brasil. São Paulo. CANDIDO. Berthold (Orgs. DIMAS. CHIAPPINI. 52. Literatura de dois gumes. país do passado? São Paulo: Boitempo. n. apesar de todas as lacunas e retrocessos. In: A educação pela noite e outros ensaios.

exclamou num libelo político as seguintes palavras contra a opressão turca: “Tenho notícias de que no Brasil há terras desertas em abundância. traduzida muitas vezes para servir interesses privados ou políticos. exótico. o público húngaro formou uma imagem do Brasil a que a literatura. doesn’t suit to. expectations. inteiraram-se da existência do Brasil no século XVII. escritor. * . reception of the literature. FL da ELTE (Faculdade de Letras da Universidade Eötvös Loránd) de Budapeste. peçamos pois ao rei espanhol [sic!] uma província. Instituto de Romanística. quando o autor da epopeia nacional húngara Szigeti Veszedelem (“Desgraça de Szigetvár”). façamos uma colônia tornando-nos cidadãos Departamento de Português. não correspondia. se bem que de uma forma e em condições um pouco especiais. translated for serving private or political interests. Tendo-se inteirado da existência do Brasil e obtido muitas informações deste país nos séculos XVII a XIX. abstract: This study examines the reception of the Brazilian literature in Hungary. expectativas. recepção da literatura. The Hungarian (reading) public has got a lot of information about this country during the XVII-XIXth centuries. so formed an image about Brazil what the literature. keywords: image of Brazil. palavras-chave: imagem do Brasil. Brasil e Hungria: primeiros contatos Os húngaros.25 A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria Ferenc Pál* resumo: O presente trabalho estuda as condições da recepção da literatura brasileira na Hungria. político e eminente militar da época. Miklós Zrínyi. exotic.

2009 [daquele país]”(Zrínyi. cujas páginas trazem. 1968. começou a difundir-se no século XIX. Nos jornais e revistas húngaros da segunda metade do século XIX podemos ler muitas informações sobre o Brasil. editado em 1720 na Universidade Arquiepiscopal. por Franciscum Szedlar e pela Sociedade de Jesus. 4 jun. o semanário de Budapeste Vasárnapi Újság informa. 2 Cf. n. Nas notícias po- “Ugy hallom Braziliában elég puszta ország vagyon. 1854.2 Um conhecimento mais intenso. que participavam como missionários no levantamento topográfico e na descrição das terras brasileiras.15.” 1 É em parte resultado do seu trabalho o livro Itinerarium peregrini philosophi. p. na seção “Tárház” (“Depósito”). de 30 de outubro de 1859.3 e nos meados dos Oitocentos já havia um contato regular entre os dois países. “Utazás a föld körül” (Viagem em torno da Terra). kérjünk spanyor királytul egy tartományt. 1854-1860). mas que. 3 “Tejfa” (Árvore que dá leite) “ Um relato sobre a fauna do rio Amazonas e do Rio Negro. em Tyrnavae.26 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Vasárnapi Újság. porque na década de 1850 já temos notícias do Brasil que dizem respeito a atividades de magiares. Hegeds. que “numa antologia geral. csináljunk egy coloniát. Vasárnapi Újság. em primeiro lugar. Em seu número 44. as notícias também mostram o Brasil como parceiro comercial e cultural da Hungria. sem nos atrevermos a tecer proposições freudianas. n. Sinis. em especial sobre a consequência do trabalho dos jesuítas húngaros. O Brasil e a Hungria. primeiramente por causa da emigração. Cicincina. algumas vezes abordadas de forma científica. que a Hungria integrava. no entanto. 243244. Entre os primeiros emigrantes supostamente havia também húngaros cultos.4 bem como relatos sobre viagens a esse país e nomeadamente ao Rio de Janeiro. sobre a curiosa flora e fauna brasileiras. as expectativas do público são bem ilustradas pelo mesmo semanário Vasárnapi Újság. na questão do urbanismo. 17 set. que se iniciou depois da abolição do tráfico de escravos em 1850. mantiveram contatos diplomáticos a partir de 1817. legyünk polgárrá. versados na literatura. 4 Andersen – Dr. que a partir de então o Brasil devia ou podia existir no subconsciente húngaro como um lugar particular. 5 . Japone. 1854. Canada et Brasilia definitum. notícias interessantes. Ramirez. n. ou melhor o Império Austríaco. Nos séculos posteriores houve notícias esporádicas do Brasil. 1661/2009). Quanto à presença do Brasil e das coisas brasileiras no imaginário húngaro da época. entre eles János Zakariás e Dávid Fáy. Além de seus aspectos exóticos. 29. distinto. acham-se onze poemas húngaros” (Vasárnapi Újság. publicada no Rio de Janeiro. 14.1 Podemos supor.5 informando que a região atrai os visitantes com a beleza da sua vegetação. provoca má impressão aos viajantes europeus.

24 nov. 47. 1857. 29 abr. n. romancista romântico de fantasia profícua. pretendia-se satisfazer a curiosidade do público leitor em relação ao exotismo. e não no apartamento oficial. condigno a um monarca. Gyula Szini fornece em “Jókai: Egy élet regénye” (“Jókai: Romance de uma vida”) a seguinte informação sobre a curiosa visita de D. 10 Uma comunicação da revista literária Nyugat. 1969. em que se . inexistente em território húngaro. 6 Vasárnapi Újság. No conto do escritor intitulado Tíz millió dollár (“Dez milhões de dólares”). a fim de poder ter um contacto mais íntimo e fácil com o seu parente espiritual. o bondoso Mór Jókai. hospedou-se intencionalmente no Hotel ‘Angol királyn’. morreu no Brasil. exótico. n. 8 Vasárnapi Újság. o artigo de 1889 sobre a visita de Dom Pedro II à Hungria nos anos 1870.10 descreve alguns animais repulsivos do Brasil. como foi. satisfazem-na tanto os artigos publicados nos jornais como os livros publicados nessa época. imperador brasileiro). o interessante imperador brasileiro. referindo-se dessa maneira à população negra. 6 set. cidade do sul da Hungria de então. Em um artigo no Vasárnapi Újság. Vasárnapi Újság. graças a um dono de barco brasileiro passam uma semana no Rio de Janeiro.8 ou informações sobre a proclamação da República no Brasil e outros acontecimentos de política interior. 1873). no Castelo de Buda. 1858.11 em cujas obras as aventuras acontecidas no Brasil e certas peripécias econômicas andam de mãos dadas. 1889. 12 demos ler informações sobre o cultivo e comércio do café. publicado no Hírmondó. 42. 274. p. também se fala na flora e fauna brasileiras. publicado no ano de 1928. Pedro II. O artigo intitulado “A vizi boa-kígyó” (A jibóia – serpente da água). 7 II. sobre o fato de que um comerciante húngaro transportou vinhos de Arad.” 11 Vasárnapi Újság.A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria 27 Vasárnapi Újság. etc. 27. por exemplo. n. pitoresco. Pedro II. os personagens. para a capital do Brasil. 1857. dez. e que um aristocrata húngaro. prestigiosa revista literária de Budapeste da primeira metade do século XX. Com estranhamento. Esta duplicidade da imagem ou dicotomia da recepção do Brasil também se observa na obra de Mór Jókai. informa que o imperador tinha em grande estima a obra de Mór Jókai. nos romances posteriores – para além de meras referências a um ou outro fenômeno curioso. No número 5 da revista. 49 a 52. n. Essa demanda pelo estranho. “Egy magyar tengerész Brazíliában” (“Um marujo húngaro no Brasil”). 17 out. Dom Pedro. 9 “A vizi boa-kigyó” (A jibóia – serpente da água). no início da década de 1870: “[Mór Jókai] tem amigos soberanos.7 No enorme número de revistas e jornais que saíram na Hungria do último terço do século XIX. n..12 Mas. Dom Pedro brazíliai császár (D. 17. Rio de Janeiro. envolvidos em aventuras rocambolescas. aliás escritor favorito do imperador D. 1883. Pedro a Budapeste. László Alvinczy.6 também se informa que a cantora Lagrange cantou uma ária do compositor húngaro Ferenc Erkel no Teatro da Ópera do Rio de Janeiro. Hírmondó. juntamente com informações de caráter político. 23. como em Az arany ember (O homem de ouro.9 Rthy Frigyes fala sobre o “povo estranho” que vive no Brasil. n.

onde as condições de vida e de trabalho eram semelhantes às da Hungria..18 Contudo. Romances que se movem no universo das obras da literatura de cordel. 1935) e Lajos Wild: Tizenöt év Brazíliában (Quinze anos no Brasil.15. tornou-se terreno de lutas políticas das forças populares contra o imperialismo e pela paz. p. 1870)..] Japán és Brazília befoglalásával” (Jókai.17 Depois da Segunda Guerra Mundial. hazátlanok (Arranha-céus. escreve que “os peruanos e os brasileiros sempre pagam com prata”.. Tartós Békéért. na ficção húngara de temática brasileira se registram ainda muitos elementos exóticos. 1926). 1872) também se leem divagações de teor econômico: “Até não querermos mais do que a importação do café. quando por causa do enorme número de emigrantes húngaros o Brasil entrava no dia a dia húngaro19 como um país “normal”. do algodão e do petróleo [. 4.] Kína [. 2009 lê sobre um sapo luminoso que “irradia uma luz fosforescente” e “canta de noite nos interiores. aparece a frase: “A farinha era um produto húngaro.. 11 jun. s/d).14 Na ficção fantástica A jöv század regénye (O romance do século vindouro. s/d)..” (Jókai. ott vannak a leghíresebb gyémántbányák” (Jókai.. Zoltán Nyisztor: Felhkarcolók. e com um contingente grande de emigrantes na primeira metade do século XX. serdk. foi o paquete Adria que a transportou até o Rio de Janeiro”.28 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Rio de Janeiroig Adria gzös szállította” (Jókai.. Béla Bangha: Dél-Keresztje alatt (Sob a cruz do sul. “A brazil nép lelkesen támogatja a békeegyezmény megkötését követel felhívást” (O povo brasileiro apoia com entusiasmo o apelo por celebrar o acordo pela paz. a exigência ou a ânsia do exótico continuava a existir por parte do público. Ahol a pénz nem isten (Onde o dinheiro não é deus. 23. 1934).. No romance Fekete gyémántok (Diamantes pretos. tornou-se um cenário real. como afirmavam muitos livros de não ficção dessa época. n.. 18 . o romancista fala largamente sobre as relações comerciais entre a Austro-Hungria e o Brasil.] às vezes tão alto que sua voz suplanta a dos cantores e da orquestra na ópera” (Jókai. Békéscsaba.. gyapot és kolaj behozatalára [. como A brazíliai fenevad Segunda parte: “[.. mint kávé. [. lá estão as minas de diamantes mais famosas”. Vasárnap. s/d). s/d). na década de 1950. por exemplo. Budapeste.] a peruiak. 15 “A liszt magyarországi termény volt.”15 Em seu último romance. n. n.13 E mesmo em Az arany ember informa que “A capital do Brasil é o Rio de Janeiro..] o Japão e o Brasil.. 14 Primeira parte: “Amíg nem terjeszkedünk többre..] incluindo a China [. quando na Hungria aconteceu um câmbio de paradigma político. É de lá que transportam para cá o algodão e o tabaco. 23.. 13 Primeira parte: “A senki szigete” (“Ilha de ninguém”): “Brazília fvárosa Rio de Janeiro. p. Nos anos 1930 e 1940.. 2. 16 Dezs Migend: A brazíliai aranyhegyek árnyékában (Sob a sombra das montanhas de ouro brasileiras.16 O Brasil. Budapeste. brazíliaiak mind csupa ezüsttel fizetnek. Tartós Békéért. Onnan hozzák a gyapotot meg a dohányt. Ao menos era assim que os órgãos políticos húngaros informavam seus leitores. 1905). s/d) –. o Brasil. 17 Sobre a situação interna do Brasil saíram artigos com títulos: “Brazília vezet személyiségei az atomfegyver betiltásáért” (Principais personalidades do Brasil defendem proibição de armas nucleares. alvo da emigração húngara. 1936). no que dizia respeito ao Brasil. 1950). apátridos. Arad. selvas.

regressou à Hungria e começou a escrever ficção. 19-33 e Pál. p. 23 Presença da literatura brasileira na Hungria Podemos deduzir.26 no caso do Fazendo referência à “rivalidade” de Portugal e do Brasil. 1951). têm muito desse exotismo. 1996. p. que sempre nos instiga a fazer cotejamentos. lentamente passava-se a ter condições de formar do Brasil uma imagem diversificada e verídica que correspondesse à realidade do país. Contudo. 2004a. Pál. de Tibor Magyar. p.25 citando palavras de Simone Beauvoir. o erotismo desenfreado ou requintado. 1997. mescla do relato de experiências pretensamente vividas e de histórias imaginadas. Se dissemos em outra ocasião. Pál. 24 25 26 Cf. tenham um maior halo de conotações na Hungria. que prefere relacionar o Brasil com o exótico. o Brasil estava mais representado na imprensa húngara do que Portugal. de Mihály Witte. “A brazíliai Kommunista Ifjúsági Szövetség újjászervezése” (A reorganização das Juventudes Comunistas brasileiras. Budapeste: Nemzeti Figyel. saiu em 1940. e o ambiente brasileiro de pequenas povoações à beira da selva e dentro da selva amazônica passou a ser palco de histórias movimentadas.23 que o público húngaro havia muito tempo tinha tomado conhecimento do Brasil e que esse país ocupava um lugar privilegiado na consciência húngara. as liberdades do carnaval e das praias do Rio de Janeiro. 1944. se desenha nos romances do ex-naturalista Gábor Molnár.A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria 29 10 jun. etc. Outro Brasil. O autor foi cônsul húngaro no Brasil entre 1928 e 1942. La force de l’âge. 2004b. Nesse livro e nalguns outros que o seguiram ele não fez senão relatar o que tinha experimentado e visto naqueles dois anos que viveu no Brasil. com o tempo. Budapeste: FerencesVilágmisszió kiadása. 1940. Boglár Lajos. p. . 121. apesar de que alguns momentos da literatura portuguesa. jan.22 de um tal László György. Em húngaro: A kor hatalma. essas experiências colhidas da realidade ficavam em segundo plano. 22 (A fera brasileira). que em 1930 viajou à selva amazônica e. n. 2004c. 1951). Cf. 1965. e o fez num estilo vivo e vigoroso.21 e o Brazíliai nagybácsi (O tio brasileiro). do panorama histórico acima traçado.. Cf. parece que há determinadas expectativas. 3. p. Cf. Mas. 161-171. Budapeste: Európa. preconceitos ou ideias fixas que orientavam e orientam o gosto do público. O primeiro livro dele. Tartós Békéért.. para quem “a literatura é a melhor via para se conhecer um país estrangeiro”. 11. 1942. podemos mencionar que tradicionalmente. depois de perder a vista num acidente. 19 20 21 Budapeste. Pál. intitulado Kalandok a brazíliai serdben (“Aventuras na selva brasileira”). aventuras entre os índios e na selva. de aventuras na selva.24 Assim.20 o livro de contos Villanó fények az serd mélyén (Luzes cintilantes no fundo da selva). e em especial no século XIX. 11-37. por meio da obra e figura de Camões e de Pessoa.

como Macedo. encontramos informações cada vez mais sofisticadas sobre a literatura brasileira. Nas enciclopédias posteriores. 2009 Brasil havemos de acrescentar que.). se queremos ultrapassar uma simples enumeração. n. publicada 27 A Pallasz Nagy Lexikona. 3. à maneira positivista. só foram aceitas pelo público e tiveram êxito na Hungria as obras brasileiras que satisfizeram as expectativas acima enumeradas. até que. Bernardo Guimarães. Esse critério talvez seja muito rigoroso e restritivo mas. Gadamer ou outros teóricos que supõem alguma identificação conotativa com uma obra para fazê-la sair do âmbito do simples terreno denotativo. v. 1911). de 1911. . existente mas sem influência. etc. partindo das ideias de Ricoeur. No volume 3. Álvares de Azevedo.15.27 mas a alguns poetas destacados (como Gonçalves de Magalhães. das obras traduzidas da literatura brasileira. temos de estudar a recepção das obras brasileiras e ver quais delas tiveram impacto no meio húngaro. independentemente do valor da obra e das intenções dos editores.30 Revista Brasileira de Literatura Comparada. As primeiras informações da literatura brasileira chegaram por via dos verbetes das enciclopédias editadas na viragem dos séculos XIX e XX. que representam uma matéria morta. Nessa enciclopédia já é maior o número de autores com verbete autônomo (encontramos verbetes sobre os autores mais importantes ou renomados do Romantismo. em especial nas enciclopédias de literatura universal. Gonçalves Dias e Tomás António de Gonzaga) a obra já dedica verbetes autônomos. na iniciativa de grande envergadura da Világirodalmi Lexikon (“Enciclopédia da literatura universal”). da Révai Nagy Lexikona (Grande enciclopédia de Révai) já se encontra um verbete em separado sobre a “literatura brasiliana” rezando que “a literatura brasiliana durante muito tempo foi apenas um ramo da literatura portuguesa e só nos últimos tempos começou a se desenvolver em rumo diferente” (Révai Nagy Lexikona. Em A Pallas Nagy Lexikona (A grande enciclopédia da [Editora] Pallas) ainda não se encontra uma informação sobre a literatura do país no verbete Brazília.

uma revista político-literária publicada em Moscou. de 1931. dado que nessa enciclopédia não há referências a obras brasileiras publicadas em húngaro. 29 entre 1970 e meados de 1990. sem indicação do nome do tradutor. além dos verbetes sobre a literatura brasileira e fenômenos literários ligados com o Brasil (como. Világ. Na seção de folhetim. 46. Assim. na realidade. p. que ainda não se fazia acompanhar de traduções de obras para efetivo conhecimento por parte do público húngaro.A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria 31 “Az ápoló” (“O enfermeiro”). 28 Világirodalmi Lexikon. quer dizer. 1912. Tratava-se de mera informação sobre as letras brasileiras. v. de forma que não temos informação sobre qual dos contos do autor figura na revista. verbetes sobre 228 escritores brasileiros. p. não são mais do que informações gerais dessa literatura. 23 fev. em seguida surgem as primeiras publicações de traduções que. segundo podemos afirmar hoje. por exemplo. publicado no (suposto) número 1 da revista intitulada Új Hang.29 Infelizmente. 1090. até os anos 1910. o Modernismo). o número mencionado do periódico. Essa informação aparece na “Enciclopédia da Literatura Universal”. foi um conto de Machado de Assis. até o momento da redação deste artigo. incerto quanto aos dados bibliográficos: é um conto de Ottavio Brandão. Parece-nos mais ou menos evidente que. com o título Az ápoló. há informações a respeito de um conto de Monteiro Lobato que saiu na revista ilustrada de lite- . figuram. publicado em 1912 no jornal Világ de Budapeste. e após esse conhecimento geral surgem ou podem surgir as obras com as quais o público leitor tem já um contato mais familiar. até a publicação dos primeiros volumes da “Grande Enciclopédia de Révai”. 1. nem encontramos em nosso trabalho de pesquisa nenhuma outra menção de obras traduzidas desse país. com relação ao modo como as letras brasileiras tornam-se de fato conhecidas na Hungria é bastante difícil identificar os fatores determinantes da expansão desse conhecimento: por um lado temos as primeiras notícias informativas. Por outro lado. 1-2. n. ano III. A primeira obra brasileira traduzida para o húngaro. não se traduzira obra brasileira alguma para o húngaro.28 Temos outro texto brasileiro traduzido para o húngaro. não foi possível consultar.

2009 ratura e artes intitulada Pásztortz (Fogueira de Pastores). A seleção deu preferência aos poemas de alto quilate poético... crítico e historiador de literatura. informamos que Paulo Rónai (1907-1992) é um literato húngaro que em 1940 trasladou-se para o Brasil como bolsista do governo brasileiro e nesta sua nova pátria desenvolveu variada atividade como tradutor. n. Sem nome completo do tradutor. universalizantes. apresenta a poesia brasileira como manifestação “de um jovem povo com cultura. editada na Transilvânia. Tem por objetivo fazer um contraponto à literatura francesa. 391). traduzida por Paulo Rónai. que reunia uma série de escritores da Transilvânia da época. no prefácio do livro. 8). o tradutor afirma: “Nos seus versos muito burilados. relegando ao segundo plano aqueles que em versos Az élcfaragó. Sobre a poesia de Olavo Bilac. além dos dados biográficos. In: Pásztortz (Kolozsvár/Cluj). Paulo Rónai. Trata-se da seleção intitulada Brazília üzen (“Mensagem do Brasil”). 8).” (Pásztortz. 30 Para os poucos que não conheçam seu nome. e. experimentando uma vida intelectual cada vez mais profunda” (Rónai. de saída. contudo eles contêm uma cintilação tropical indefinida” (Rónai. 1939. não obstante passar quase despercebido. 31 . Assim. um pouco frios. 391-393. 1930. ano XVI. indica o primeiro momento da difusão mais abrangente da literatura brasileira na Hungria. A apresentação avaliativa do autor faz-nos supor que é trabalho de uma pessoa conhecedora da literatura brasileira e mostra a seriedade daquela revista.31 Este livrinho. p. p. é num parecer bastante generalizado que um livro de poemas. com um círculo reduzido de leitores.32 Revista Brasileira de Literatura Comparada. rejeitando satisfazer um gosto pelo exótico ou movido por um interesse folclórico. 24 ago. e foi acompanhado de uma nota que. n. indicado apenas com a abreviação: Szys. revelar as enfermidades da alma brasileira. 17. ao mesmo tempo. 1939. é uma publicação que lança os alicerces para um conhecimento ulterior. 1930. enérgico e em vias de desenvolvimento. oferecia uma avaliação ponderada do autor: “Monteiro Lobato é o criador da moderna literatura nacional no Brasil.30 O conto Az élcfaragó (Fabricante de piadas) saiu na seção “Narradores Estrangeiros”. falta o couleur locale. que tem poemas de 25 poetas brasileiros da primeira metade do século XX. os critérios da seleção dos textos já contavam.15. p. Afinal. acompanhados de uma introdução que esboça o panorama da literatura (ou antes: da poesia) brasileira. Nos poemas da antologia prevalece um certo gosto ou “ar” parnasiano. publicado em 1939. p.

não correspondiam ao gosto do selecionador. 1939a. O jornalista que. [. Essa mesma antipatia pela literatura da vanguarda e/ou experimental também se nota.. quase instituição nacional. um pouco precipitada (e. parece. por exemplo. com a literatura húngara. em francês. no entanto os poetas informam sobre o essencial. por outro lado. que pensam descobrir uma incongruência de datas. os que Ronald de Carvalho escreveu a respeito do Brasil. que se frisa na recensão informativo-crítica do publicista György Bálint. esse “outro Brasil”. suas palavras sobre a poesia brasileira têm uma mensagem política para a atualidade de então. mais modernos. uma falta total de poemas da primeira fase do movimento modernista. e não as peculiaridades exóticas. já sabemos. 31. só oito do ciclo “Descobrimento do Brasil” evocam ambientes tipicamente brasileiros. Esse essencial. não aparecem os representantes da poesia concreta. falsa).34 escrito depois da leitura. pode-se dizer que tal princípio de escolha e apresentação dos poemas resultou do gosto intelectual urbano daquele momento.33 Essa mesma posição se reflete num outro texto dele.. Assim. escritas na véspera da Segunda Guerra Mundial. que. Não sejamos. negros. de que os brasileiros são gente feliz porque têm preferência pela literatura pura. alheia aos trágicos problemas nacionais.. É essa mesma voz universal. etc. Para os leitores mais sagazes. escrita alguns meses depois da publicação do livro de poemas de Paulo Rónai. Os livros de viagens ou os folhetos turísticos mostram só o exotismo. muito mais tarde. se familiarizara com o Brasil pela leitura das traduções de Paulo Rónai35 chega à conclusão.A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria 33 Notamos. índios e mestiços causaas também aos franceses ou húngaros. que ele apresenta como romance por excelência. contudo. por exemplo.32 Assim. p. assinalamos que o publicista pôde ler as traduções de Paulo Rónai antes da publicação do livro Mensagem do Brasil. Julgando-se objetivamente. (Bálint. a mesma coisa que causa dor ou alegria aos poetas crioulos. 7) É com estas palavras que o texto termina: “Agora desde escrivaninhas brasileiras. na sua colaboração para a Enciclopédia da literatura universal. segundo ele mesmo diz. afinal. 1939. injustos com Paulo Rónai: em seu prefácio. na qual. 32 desiguais e livres apresentavam cores e tons mais ásperos. como. por exemplo. ao contrário do que ocorre. 7) 33 34 35 Bálint. Suas vozes são afins e universais. ele fala sobre as dificuldades de obter livros do Brasil: pode ser que simplesmente não tivesse à mão todas as obras necessárias para uma antologia equilibrada.] Todos os poetas são aparentados. Brazíliai regény (Romance brasileiro). dos 33 poemas do livro. e da Europa maltratada bate-se a resposta: ‘Obrigado!’” (Bálint. reunidos em quatro pequenos ciclos. do Dom Casmurro de Machado de Assis. mãos brancas ou negras batem o sinal tranqüilizador. em agosto de 1939. Suas palavras novamente refletem . dizendo que estão de guarda. 1939b. nós o encontramos nesse livro de traduções novo e belo. percebe-se também uma preocupação com os valores da cultura ameaçados. p. Nessas palavras do jornalista. porque o tradutor publicara algumas delas em diferentes revistas. anteriormente.. p.

povos mais novos e mais felizes irão retomá-lo na América” (Bálint. publicada na revista literária Nyugat (Ocidente). que se manifestava tão intensamente nas obras de ficção de temática brasileira dos escritores húngaros acima mencionados. a não ser que os criados sejam negros e um dos amigos do personagem principal sofra de hanseníase. Como já mencionamos. incluindo as brasileiras. tempos depois. 1939).. nos intelectuais que formavam o gosto literário daquela época. uma seleção de . a visão da geração que travou contato amplo e profundo com as letras latino-americanas. encontramos. 1939b. n. O estranho não se diz com respeito ao couleur locale. essa atitude fundada no eurocentrismo e afastada do gosto geral do público leitor. quando já não existir na Europa. que não podiam ou não queriam observar da literatura brasileira senão aquelas obras que “demonstram que o espírito europeu não conhece fronteiras e num tempo futuro. 2009 uma perspectiva universalizante. ou ao menos diante dos problemas específicos do Brasil. em outra resenha crítica a respeito de Brazília üzen (Mensagem do Brasil). Os poemas caracteristicamente brasileiros passam quase despercebidos para o crítico. Gabriel García Márquez.” (Nagy. o autor escreve: “não procuremos um exotismo exterior na poesia”.15. E justifica-se: “além dos poemas de costume. neste livro. a falta de sensibilidade diante do exotismo brasileiro. Juan Rulfo. alguns poemas de pompa estranha e surpreendentes. aspectos que tanto marcaram. 31). Rómulo Gallegos.. p. que deixam entrever uma influência francesa. também deformou a visão dos intelectuais (e de seu público) de então. 31) É curioso observar. notadamente Alejo Carpentier. 1939. p. Nesses anos aparecem mais duas obras literárias brasileiras: Paulo Rónai publica. em 1940.34 Revista Brasileira de Literatura Comparada. porque ele sublinha que o maior mérito desse livro é que não é “nada brasileiro”: “Nada tem de exótico.” (Bálint. etc. por meio dos escritores do boom. que continuava interessado pelos momentos exóticos do Brasil. Assim.

até o n. mais independente em relação aos Estados Unidos do que os outros países latino-americanos. Por isso. em primeiro lugar a da União Soviética. a “construção do socialismo”. cinco nos anos 1950. África e Ásia. no posfácio desse livro: “Dez ou quinze anos atrás talvez fosse supérfluo este posfácio. etc.36 e o jornal Népszava publica em folhetins O cortiço. de 1941. Alteram-se também os horizontes da orientação literária: a literatura do “ocidente culto” (França. Inglaterra. Nesse novo horizonte cultural-literário. 2002. parte ocidental da Alemanha. 233. o tradutor de Dona Flor e seus dois maridos. senão uma resposta mais ou menos imediata à realidade circundante. “Egy brazil bérház”. Estados Unidos. Budapeste: Íbisz. já não se procuram nela valores universais e eternos. não contando as inúmeras reedições). Hangyaboly. Entre 1947 e 1976 saíram quinze livros de Jorge Amado (dois no final dos anos 1940. Trad. 499).39 Sobre esses livros . János Benyhe. em aparência. torna-se um escritor de presença contínua na imprensa. Sendo. 1940.) é considerada arte decadente e o lugar dela. In Népszava (Budapeste). com o título Egy brazil bérház (Um prédio brasileiro). desde o n. os romances do primeiro período de Jorge Amado são publicados na Hungria e o autor. de Aluísio Azevedo. que circula entre Praga e a União Soviética. ocupa-o a literatura socialista. pode escrever com plena razão. dos países socialistas e a literatura progressista dos países das Américas. seis nos anos 1960 e três nos anos 1970. Aluizio. 1970. de 1940. p. 20. indicam uma mudança de concepção na recepção e interpretação da literatura em geral e da literatura brasileira em particular. com o título Hangyaboly (Formigueiro). em 1944. Por essa razão. Esta edição de 1944 do romance de Azevedo (Budapeste: Anonymus) teve uma pequena edição fac-similada de 30 exemplares: Azevedo. Jorge Amado foi o escritor estrangeiro mais conhecido e mais popular na Hungria” (Benyhe.38 A Segunda Guerra Mundial e o estabelecimento de um novo sistema político na Hungria. o Brasil torna-se um alvo privilegiado na luta contra o imperialismo ocidental. essa tradução é publicada em forma de livro.37 Depois. cabe ao Brasil um lugar privilegiado.A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria 35 36 37 Budapeste: Officina. A literatura passa a ser uma arma da luta ideológica. com o título de Santosi Versek (Poemas de Santos). 38 poemas de Ribeiro Couto. em 1970. por Henrik Horváth. Dessa forma.

Budapeste: Szépirodalmi. da Associação Húngara de Escritores. Trad. Sándor Tavaszy. mas sim a violenta luta de classes simbolizada pela batalha entre os coroneis do cacau e seus escravos. Budapeste: Szikra. Gabriela. 1952. em especial a partir de Dona Flor e seus dois maridos. Mar Morto (Holt tenger). Trad. Budapeste: Európa. Budapeste: Európa. A morte e a morte de Quincas Berro Dagua (Vízordító három halála). 1950). publicada na revista científico-ideológica do partido comunista. Seara vermelha (Vörös vetés). um dos historiadores de literatura daquele Oferecemos uma lista completa das edições das obras de Jorge Amado em húngaro (entre parênteses indicamos as edições posteriores): Terras do sem fim (Szenvedélyek földje). 834) Compreende-se este tom altamente engajado porque se trata de um artigo de teor informativo que saiu numa revista teórica. 1975). Budapeste: Szikra. Trad. Attila Orbók. Trad. Lajos Boglár. o cavaleiro da esperança (A reménység lovagja. János Benyhe. Életrajzi regény Luis Carlos Prestesrl). Budapeste: Kossuth. 1961. Entre 1953 e 1975 saíram 16 artigos que diziam respeito a ele. terceira edição: idem. Trad. indiretamente. e muitos com títulos altissonantes. Trad.. que estabelece as forçosamente necessárias linhas de interpretação dessa obra – válidas. Cacau (Arany gyümölcsök földje). para os outros romances do mesmo autor: Jorge Amado. Emil Hartai. Pablo Neruda e os outros escritores eminentes [. um dos primeiros escritos é uma recensão crítica de Terras do sem fim. (-z. Budapeste: Szépirodalmi. szegf és fahéj).40 Mas o que mais demonstra a difusão da imagem de Amado como escritor politicamente comprometido e como “zoon políticon” é o grande número de escritos sobre a sua pessoa. Na revista literária intitulada Csillag. 1950.41 Com a profusão com que os romances de Jorge Amado circulavam na Hungria (com tiragens de 40 a 80 mil exemplares). Sándor Szalay. Os pastôres da noite (Az éjszaka pásztorai). Trad. mas as recensões publicadas nas revistas literárias também incorrem nesse tom politizado em que não há lugar para análises estético-literárias. 1949 (segunda edição: Európa. 1963..36 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Budapeste: Kossuth. A completa verdade sôbre as discutidas aventuras do Comandante Vasco Moscoso de Aragão. como: “Os eminentes soldados da paz: Jorge Amado” ou “Jorge Amado sobre o movimento da paz brasileiro e sobre seu novo romance”. 1950. János Benyhe. Budapeste: Európa. 2009 foram publicadas 26 recensões críticas. 1961 (segunda edição: idem. Budapeste: Káldor. 1973). Não é o exotismo. Jubiabá (Zsubiabá). Sobre Jorge Amado. Trad. 1975). e a pintura do mundo colorido e exótico da Bahia. -l. 1967. Sándor Szalay. Trad. n. Vida de Luís Carlos Prestes. Capitão de Longo Curso (A vén tengerész). Tanto mais porque Jorge Amado foi o escritor brasileiro cujas obras satisfaziam as expectativas do público leitor com o seu latente erotismo. ou a imagem das selvas sem fim que prevalece em suas obras. Marcell Benedek. 1961. cravo e canela (Gabriela. Dona Flor e seus dois 39 .] mostram uma nova cara da América Latina. Trad. (segunda edição: idem. Társadalmi Szemle (Revista Social). 1947 (uma segunda edição com o título húngaro Végtelen földek. Trad.15. não é de estranhar que até hoje o Brasil apareça-nos tal como o escritor baiano o pintou. Budapeste: Révai. 1960. 1951. Emil Hartai. p. Emil Hartai.

n. 1970. Seus heróis verdadeiros são o povo e o homem de novo quilate. 729) . não apenas políticos. já se encontra um tom mais equilibrado. pois “até aos operários miseráveis chegou a esperança que estimula a viver: a esperança da nova vida. 8.] A apresentação dessa podridão não desce ao naturalismo. depois de assistir ao congresso do PEN Clube no Rio de Janeiro. essa imagem deformada do Brasil e de sua literatura começa a se matizar com diferentes tons. 41 Nagyvilág (Budapeste).. unilateral. 30 maio 1953. Algumas vezes o discurso ganha tons de hino. saído em 1963. 1950.A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria maridos (Flor asszony két férje). (Koczkás. Budapeste: Kozmosz Könyvek. entre eles. 42 Essa imagem estreita. Assim saíram dois poemas de Jorge de Lima na revista de literatura mundial. 1959. Capitão de Longo Curso. que saiu num semanário de literatura. do socialismo” (L. “Jorge Amado a brazil békemozgalomról és új regényérl”. ago. Sándor Tavaszy. Irodalmi Újság (“Jornal Literário”). de cuja beleza e intimidade gostei tanto quanto da sua rica fantasia e das suas múltiplas cores decorativas. saído do povo e lutando contra os horrores do mundo imperialista: o homem comunista. Queremos notar como curiosidade que do romance A completa verdade sôbre as discutidas aventuras do Comandante Vasco Moscoso Aragão. a pretexto dos romances de Jorge Amado. 40 37 período assim descreveu os fundamentos de “A terra de frutos de ouro”: O romance de Amado é um escrito combativo. Trad. Budapeste: Európa. Tenda dos Milagres (Csodabazár). p. Nagyvilág (fundada na época do “abrandamento” do poder totalitário). alguns cuja obra tem outros valores. intitulado em húngaro A vén tengerész (“O velho marinheiro”). Szabad Nép (Budapeste).42 E nas notas de viagens de um literato húngaro que em 1961 publicou as suas Impressões do Brasil. 18 dez. Além de Jorge Amado. é o reflexo verídico desta sociedade que requer amostras fidelíssimas da macabra dança do capitalismo. comunista. subordinada a fins eminentemente políticos é a que se apresenta quando. Trad. Para ele. 61) “A béke kiváló harcosai: Amado Jorge”. Budapeste: Európa. János Benyhe. 1961. 1976.” (Stér. p. 1953. Capitães da areia (A kiköt rémei). Népszava (Budapeste). vêm aparecendo outros escritores e.. p. 1951) Ao final da década de 1950. [. Trad. 1173-1174. como na recensão sobre Seara vermelha. 1971. Ano IV. fala-se sobre o Brasil. em 1951: “Seara vermelha mostra o Brasil levantando-se”. I. a obra de Jorge Amado é uma fonte de informação antes sensorial que exclusivamente politizada sobre “esse peculiar mundo popular. András Gulyás. escreveram-se entre maio e outubro daquele ano seis recensões informativas nos mais diversos órgãos de imprensa.

Brazíliai útijegyzetek (Entre índios do trópico. de Richard Katz. do diretor francês Marcel Camus. Essa nova forma de recepção do Brasil fora previamente preparada por livros publicados a partir dos últimos anos da década de 1950: As imagens do Rio. O público requer já cada vez mais abertamente uma recepção cultural mais sofisticada e diversificada. Budapeste: Táncsics. 44 . também em húngaro. n. Finalmente. de componentes culturais e étnicos múltiplos e amalgamados. Notas de viagem do Brasil). estimulando.44 Sob outro prisma. sublinhados aqueles que o distinguem da Europa. mesmo que um pouco contraditoriamente.38 Revista Brasileira de Literatura Comparada. obras como Trópusi Indiánok között. do etnólogo húngaro Lajos Boglár. Com essa relativa abertura nos pontos de vista que começava a prevalecer lentamente a partir do início dos anos 1960 na política cultural e literária húngaras. O autor mais divulgado ainda é Jorge Amado. surge uma exigência por bens culturais anteriormente vedados. 1959. multifacetado. e que aos intelectuais compete a tarefa e a responsabilidade de formar a consciência do grande público. Será essa Riói Képek. da selva e dos índios. Após os anos da ditadura forte e o total encerramento do país. Budapeste: Táncsics. começa a diversificar-se a edição de livros e enriquecer-se a divulgação da literatura brasileira. assim.15. de Erich Wustmann. 2009 Em suas andanças pelo mundo brasileiro. o viajante atreve-se a dizer aos húngaros que o Brasil não deve ser entrevisto como um mero panorama ou cenário de fundo político. 43 A zöld pokol. Mas Stér tem bastante sensibilidade para ver e descobrir um Brasil excêntrico. apresentam o Brasil dos trópicos. que Stér interpreta sob a influência do filme Orfeu negro. ou o carnaval e seu simbolismo popular. os romances mais divertidos dele. o guia desse literato húngaro é a monografia intitulada Geografia da fome. exigência que se vê satisfeita. de Josué de Castro. o interesse por outros aspectos desse país. mas em harmonia com a renovada temática da sua obra aparecem. que cativam o público. motivado pela Guerra Fria. entre eles a música popular brasileira e a sua melancólica melodia.43 O inferno verde. 1958.

A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria

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Aki átment a szivárvány alatt. Budapeste: Kossuth, 1964.
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Emberek és rákok. Budapeste: Kossuth, 1968.
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Emberfarkas. Budapeste: Európa, 1962. Aszály. Budapeste: Európa, 1967.
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A többi néma csend. Budapeste: Európa, 1967.
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Máglyák az serdben. Budapeste: Móra, 1970.
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busca do diferente, do exótico que marcará e determinará o interesse pelo Brasil nos anos subsequentes. Entretanto, publicam-se obras de autores comprometidos, como as de Jorge Amado, já mencionadas: Quarto de despejo, de Carolina Maria de Jesus,45 O ciclo do caranguejo, de Josué de Castro,46 São Bernardo e Vidas secas, de Graciliano Ramos,47 e ao lado deles saem romances como O resto é silêncio, de Érico Veríssimo48 e O Guarani, de José de Alencar, embora este seja transposto para o húngaro em versão condensada, em uma edição para jovens.49 Por outro lado, e de forma menos manifesta, aparecem obras das mais diversas naturezas, mormente direcionadas aos intelectuais. Essa forma de publicação “velada”, um pouco contrária à política cultural oficial, caracteriza em primeiro lugar a revista de literatura mundial Nagyvilág e algumas antologias de poesia e de prosa. Destinadas a um público seleto, surgem nessas publicações, de forma esporádica, muitos autores de valor da literatura brasileira. Publicações como Dél keresztje (Cruzeiro do Sul, 1957), Kígyóöl ének (Canto de matar cobras, 1973), Hesperidák kertje (Jardim das Hespérides, 1971), Járom és csillag (Jugo e estrela, 1984) divulgam a poesia latino-americana. Os poemas são acompanhados de notas biográficas e bibliográficas; dessa forma, em torno de 40 grandes poetas brasileiros são publicados na Hungria. Essas antologias seguem o princípio da antologia de Paulo Rónai, ou seja, selecionam os poemas apenas pelo seu valor poético e estético e não demonstram o menor interesse em ilustrar o desenvolvimento da história literária brasileira. Fazem falta, por exemplo, poemas que caracterizem os primeiros anos do Modernismo, ou do Concretismo e de outras tendências experimentalistas. Nesse mesmo contexto, publicaram-se contos de Graciliano Ramos, João Guimarães Rosa e Jorge Amado em antologias de prosa latino-americana: Ördögszakadék (Abismo de diabo, 1966), Dél-amerikai elbeszélk (Narradores latino-americanos, 1970), Az üldöz (O perseguidor, novelas latino-americanas, 1972).

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Revista Brasileira de Literatura Comparada, n.15, 2009

Um dos grandes méritos da revista de literatura mundial Nagyvilág é a apresentação de autores e obras, de tendências e fenômenos literários, com base em critérios puramente poéticos ou estéticos. Em 1961, a revista traz informações sobre as atividades de Paulo Rónai no Brasil, frisando a importância do seu trabalho no conhecimento mútuo entre o Brasil e a Hungria (Gyergyai, 1961, p. 1566-1567). E é naquelas páginas que, em 1962, aparece um estudo sobre o romance brasileiro contemporâneo (Tavaszy, 1962, p. 1388-1391), assim como, em 1969, um ensaio sobre o desenvolvimento da literatura latinoamericana (Benyhe, 1969, p. 1723-1731). Mencionamos também certas resenhas sobre os livros de Jorge Amado, sobre romances como O tempo e o vento, de Érico Veríssimo, e Irmão Juazeiro, de Francisco Julião. O texto de recepção mais característico dessa época é o necrológio de Guimarães Rosa que Nagyvilág publicou em 1968. Nele se fala na “síntese dos mágicos elementos primitivos de mundos diferentes”, em “mitos de valor universal de conteúdo filosófico” (Rónai, 1968, p. 338-339) e a linguagem engenhosa e estranha que o escritor compilou para si e que se parece muito com a linguagem de James Joyce. Tal análise da obra de Guimarães Rosa só se tornou possível graças à mudança de tom que marcou a imprensa política, única e oficial na Hungria de então. Assim, na recensão informativa que a revista teórica Társadalmi Szemle publicou sobre Vidas secas, de Graciliano Ramos (Szllsy, 1967, p. 137), já se comenta a “exatidão sociológica” ao lado dos valores estéticos da obra, numa análise mais flexível e sutil do que se fazia nos anos precedentes. A partir de meados dos anos 1970, sob a influência do boom da literatura latino-americana em espanhol, relega-se para o segundo plano a literatura brasileira, e em especial a literatura chamada progressista. Na realidade, diminui o interesse do público pelas obras brasileiras que tratavam de uma forma direta os problemas políticos e sociais. O exotismo dos autores do realismo mágico, a forte carga intelectual dos pós-modernos como Julio Cortázar e Jorge

A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria

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Luis Borges, e a urdidura complexa dos romances políticos de autores peruanos ou mexicanos, tudo isso atrai mais o interesse dos leitores húngaros. Só obras de Jorge Amado, tais como Dona Flor e seus dois maridos ou Gabriela cravo e canela, continuam cativando novas e novas gerações de leitores.

Novos aspectos da presença literária brasileira na cena húngara
Entretanto, surge, enquanto isso, uma nova geração de divulgadores das letras brasileiras, marcados por um gosto literário renovado e pelo objetivo de revelar aos leitores húngaros os traços característicos e essenciais da literatura brasileira. Assim, entre 1983 e 1986, a Rádio Nacional Húngara realizou uma série de emissões, de meia hora cada uma, com o título Latin Amerika Irodalma (Literatura da América Latina). Essa série apresentou uma visão panorâmica das literaturas do século XX naquele continente, com os fenômenos novos e característicos da literatura brasileira: o Pré-modernismo e o Modernismo, a poesia concreta, a moderna prosa experimental e a da grande urbe, fazendo conhecer ao público nomes que nunca haviam sido mencionados antes, como Oswald de Andrade, Haroldo de Campos, Rubem Fonseca, Dalton Trevisan e Ignácio de Loyola Brandão, que com sua obra despertaram o interesse da elite intelectual. Nessa época, transcorreu uma significativa etapa do processo de divulgação da literatura brasileira na Hungria: a publicação do Macunaíma, de Mário de Andrade. A tradução dessa obra conheceu um verdadeiro êxito editorial, pois em poucos meses esgotou-se uma tiragem de dez mil exemplares. O público, ávido do exotismo – até então condenado –, devorava o livro, que foi apresentado como um grande acontecimento cultural tanto pelos programas culturais de rádio e tevê quanto pelas recensões críticas.50 Nessa perspectiva, em resenha cujo título menciona a cé-

Szalontai, 1984. Bodor, 1984. Cserti, 1984.
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A edição de Nove. Jorge de Lima. neste caso. 1984. que se cultiva nos recantos ocultos do Brasil e que conserva valores eternos. 52 . Antônio de Castro Alves. Ascenso Ferreira. como referência. um representante da velha estirpe pôs em confronto com a literatura de fortes cores brasileiras uma literatura classicizante. Trad. Gregório de Matos.15. Budapest: Európa. por Jorge Amado e Guimarães Rosa. seleção. novena. Olavo Bilac. predomina igualmente numa antologia de 1984.42 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Budapeste: Kozmosz. Bernardino da Costa Lopes. Antônio Cândido Gonçalves Crespo. a força primitiva da obra comentada: Macunaíma é conseqüência da capitalização latino-americana irregular e tormentosa. representado. 211). Geir Campos. Aqui aparece novamente. p. Joaquim Maria Machado de Assis. ilustre estudioso e tradutor. a obra nordestina de Jorge Amado. 1984). Raúl Bopp e Vinícius de Morais são os nomes novos) e assim mesmo há muitas coincidências na escolha dos poemas. Luís José Junqueira Freire. O que surpreende é que a lista dos poetas modernos é quase igual à da seleção de meio século atrás (apenas Ascenso Ferreira. o elemento exótico. evoca. folclórica e etnográfica) de múltiplas cores e raízes e dos excessos intelectuais amotinados e revoltosos (Bodor. Judit Xantus. Manuel Bandeira.52 a maior antologia húngara da poesia latino-americana publicada até os dias de hoje.51 revela certa perplexidade provocada por este câmbio de paradigma no gosto dos divulgadores. Raul Bopp. da americanização que abraça aplastando a versatilidade étnica (lingüística. Teófilo Dias. a ambientação sulista de Verissimo e as fortes cores mineiras de Guimarães Rosa. Augusto Frederico Schmidt. prefácio e notas por János Benyhe. de Osman Lins. um tanto indeciso. Kilenc és kilenced. n. Tal princípio distintivo. Vicente de Carvalho. Essas palavras do literato e tradutor János Benyhe novamente aludem às contradições da “oferta e da procura” da literatura brasileira na Hungria. Carlos Drummond de Andrade. Augusto dos Anjos. que se mantém quase intacto desde a antologia de 1939. Mensagem do Brasil. Luís Delfino. 2009 lebre epopeia finlandesa e que qualifica Macunaíma como “Kalevala artificial da zona tórrida”. 51 Járom és csillag (Jugo e estrela). Sebastião Cínero dos Guimarãens Passos. 1985. Ronald de Carvalho. O autor do posfácio. segundo ele. pastoril. Alphonsus de Guimaraens. Cecília Meireles. 1985. Num debate transmitido pela rádio. João da Cruz e Sousa. Vinícius de Morais. Raimundo Correia. Alberto de Oliveira. o crítico Pál Bodor frisa com entusiasmo a mistura feliz de elementos intelectuais e populares. Na antologia aparecem poemas de Mário de Andrade. Rui Ribeiro Couto. lamentando que “os enérgicos elementos linguísticos deste último faltem na obra de Osman Lins” (Benyhe. Francisco Antônio de Carvalho Júnior.

O grande público. 1986. Trad. Aníbal M. de Ignácio de Loyola Brandão. . Lima Barreto: O homem que sabia javanês. Marques Rebelo: Caprichoso da Tijuca. de Machado: O ascensorista. Monteiro Lobato: O comprador de fazendas. e as séries televisivas ocuparam lentamente o lugar dos livros e da leitura. O grifado é nosso. com a liberalização da edição e do mercado de livro. suscitado pela telenovela feita com base no romance de Bernardo Guimarães.” (Magyar Hírlap. Tóth. que atualmente é o autor brasileiro mais popular (e quase exclusivo) na Hungria. Trad. Éva Faragó. foi recebida com entusiasmo da parte dos críticos. Carlos Drummond de Andrade: Beira-rio. A terceira margem do rio. João Alphonsus de Guimaraens: Eis a noite!. 54 Zero. vale a pena meditar sobre a seguinte asserção: “A maioria dos contos mostra gente lutando com seu fado. reuniram uma importante soma a fim de remir da escravatura aquela bela e talentosa jovem. 5). Budapeste: Európa. Eszter S.55 que a crítica recebeu como fonte de informação privilegiada a respeito de um mundo caoticamente moderno (apud Wirth. Ao se reler a resenha dessas duas obras. os hábitos de leitura e o gosto do público húngaro. no auge do interesse do público pelo Brasil. houve possibilidade de publicar autores mais sofisticados. Mário de Andrade: O peru de Natal.54 quer dizer. situando-se entre o passado e o presente. de Machado de Assis. Alcântara Machado: As cinco panelas de oiro. 1991. István Bárczy. a imagem do Brasil tal como vive no (sub)consciente das pessoas na Hungria. acompanhada de notas bibliográficas. anciãos de um pequeno vilarejo do interior do país. no entanto. sel. porque novamente se faz referência à imagem de um país exótico. Budapeste: Európa. Clarice Lispector: Feliz aniversário. uma coletânea de contos53 que reunia desde Pai contra mãe. 55 Outro livro dessa natureza. Paulo Rónai. Nestas últimas duas décadas. a rabszolgalány. até Feliz aniversário. Lygia Fagundes Telles: Venha ver o pôr do sol. de 1986. Budapeste: Európa. 1990. afastou-se da literatura de valor. A seleção criteriosa. João Guimarães Rosa. e notas de Paulo Rónai. p. Ferenc Pál. Trad. talvez.A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria 43 Boszorkányszombat (Mistério de sábado). Oto Lara Resende: O retrato na gaveta. A partir do final da década de 1980 mudaram. Rachel de Queirós: A donzela e a moura torta. Luís Jardim: Paisagem perdida. István Bárczy. estagnado em cerimônias. foi a antologia Boszorkányszombat. um país de tempo estancado. Orígenes Lessa: Roteiro de Fortaleza. ou seja. outrora leitor ávido dos romances de Jorge Amado. gente que quase nunca triunfa. inventada por Bernardo Guimarães havia mais de um século. e passou a ler obras de Paulo Coelho. Rui Ribeiro Couto: Mistério de sábado. 53 Isaura. 1987. Ervin Székely. Aurélio Buarque de Holanda: O chapéu de meu pai. o curioso e célebre episódio em que telespectadores húngaros de A escrava Isaura. num mundo de senzalas e casas grandes. Dessa forma. Ferenc Pál. talvez porque saísse ao mesmo tempo em que a edição em húngaro de A escrava Isaura. de Clarice Lispector. saiu em 1990 o Zero. Com essa atitude pode-se explicar. Na antologia se encontram contos de Machado de Assis: Pai contra mãe. 1987.

András Petcz e Ferenc Pál. A modern brazil elbeszélés – Antologia do moderno conto brasileiro. 2008). Autran Dourado. passaram a conceder mais espaço à atual literatura brasileira. prefácio e notas de Ferenc Pál. 1997. Trad. Clarice Lispector. publicaram-se dois contos de Dalton Trevisan. No número de agosto de 1992 (ano XXXVII. No presente momento. publicada por iniciativa da Embaixada do Brasil e com o apoio do Ministério das Relações Exteriores. com introdução e apresentações dos autores pelo diplomata. Mais tarde saíram obras de outros escritores que descreviam a vida de grandes centros urbanos. uma antologia bilíngue. Guimarães Rosa.44 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Márcia Denser. os foros mais exigentes da literatura. prefácio e notas de Ferenc Pál. Rubem Fonseca. Décio Pignatari: Vers-gyakorlatok (Exercícios de poesia). Budapeste: Íbisz. Seleção. Fernando Sabino. 56 Para além do material poético. Esta revista publicou. n. András Petcz e Ferenc Pál. 58 . Dalton Trevisan. segundo afirma um dos críticos do livro (Urfi. e muito especialmente Guimarães Rosa. foram traduzidos para um seletíssimo público-leitor poemas de dois representantes da poesia concreta. p.56 Nesse sentido. como a revista Nagyvilág. e se pode dizer que seus motivos regionalistas já se manifestam sob forma universalizante. Ligia Fagundes Telles.58 dos quais as resenhas destacam Autran Dourado. Raduan Nassar. Lindgren Alves.. a importância dessas duas antologias reside na demonstração de que a literatura brasileira tornou-se independente. Na antologia figuram contos de dezessete autores. selecionada pelo embaixador José A. o conto “Bolívar”. Ingácio de Loyola Brandão.. Trad. em revistas literárias. 8). Rubem Fonseca. 1997. Haroldo de Campos e Décio Pignatari. de um conhecido poeta experimental. no seu número de abril de 1991 (ano XXXVI. 11). Adélia Prado. é um bom manual para conhecer a prosa brasileira do século XX. no qual ficou consignado o reconhecimento da independência criativa dos autores desse país dos trópicos: A formação da [.15. com o conto Duelo. um parecer crítico. Márcio Souza. 57 De Antônio de Alcântara Machado. representa na Hungria a literatura brasileira. Antônio Fraga. de Victor Giudice. Otto Lara Resende. 2009 p.] poesia concreta no início dos anos cinqüenta não é o primeiro exemplo de que nas circunjacências da zona cultural euro-americana criam-se uma nova linguagem e uma expressão autêntica que correspondem às demandas intelectuais desta região (Szkárosi. Endre Szkárosi. 14). 4). como contos de Dalton Trevisan e de Rubem Fonseca. Seleção. 1999. Rachel de Queiroz. Com a mudança do gosto literário. pois Haroldo de Campos: Konkrét versek (Poemas concretos). n. Moacyr Scliar. n.57 Esses livros de poemas obtiveram. Budapeste: Íbisz.

Brazília üzen. Budapeste: Pallas. Budapeste: Európa. e tacitamente sempre esperou que a literatura correspondesse a esses estereótipos decorrentes de “preconceitos” devidos a circunstâncias históricas diversas. 1893-1900. Havemos de mencionar. Referências A Pallas Nagy Lexikona. e de certa forma a dificuldade da divulgação de autores modernos cuja obra se afasta de uma imagem tradicional do Brasil. o nome de Chico Buarque de Holanda. cujas obras inundam as livrarias. György. neste caso o fato de o escritor/cantor ter escrito um romance cuja ação decorre em parte em Budapeste é muito mais importante para os leitores húngaros do que os valores estéticos do livro. falta um vivo contato com as letras brasileiras – as primeiras obras literárias apareceram relativamente tarde e só raras vezes corresponderam às expectativas do público. . e assim podem informar e orientar os interessados. que formou uma imagem do Brasil a partir das informações obtidas dos livros de viagens.59 também está disponível nas estantes. além de Paulo Coelho. 1939a. Az üldöz. 2008). que correspondem aos cânones universais. Esse fato explica o êxito das obras de Jorge Amado e o êxito isolado de Macunaíma. tanto nos temas elaborados como nos recursos artísticos de que lançam mão. que. antologias de poesia e de contos que informam detalhadamente sobre autores. 1972. Trad. Contudo. BALINT. Resumindo. Isso distingue o conto de Rosa dos demais textos. da imprensa e da mídia. Magyarország.A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria 45 Budapeste. 2005. Budapeste: Atheneum. Ferenc Pál. tendências literárias. 7. Contudo. 225. com o romance Budapeste. Budapeste. p. n. podemos dizer que neste momento a literatura brasileira está relativamente bem representada na Hungria. 2000. de Mário de Andrade. 1-18. 59 este é o único conto em que aparece o elemento exótico (apud Galamb. existem enciclopédias.

n. 1971. ano II. Nyugat. CD-rom. Mór. Budapeste. p. 1961. s/d. 1985. BOGLÁR. 1957. n. 499. 1908-1941. ano VI. Boszorkányszombat. Nyugat. 1970 L. Latin-amerikai számvetés. Nagyvilág. Pesti Napló. Budapeste: Arcanum. Brazíliai útijegyzetek. Budapeste: Szimbiozis. Irodalmi Újság. Budapeste: Európa. Csillag. Budapeste: Gondolat. GYERGYAI. _____. Izgalmas üzenet. p. 18. Latin-amerikai elbeszélk. Budapeste: Kozmosz. I. CD-rom. 1987. 1969. 1939. Egy irodalmi legenda – digitálisan. 1984. Kígyóöl ének. n. 31. Budapeste. 5. Arany gyümölcsök földje. Járom és csillag. Budapeste. BODOR. n. 110. Dél keresztje. 211-217. Forróégövi m-Kalevala (Mário de Andrade Makunaíma-fordításáról). Utószó. Ördögszakadék.15. Trópusi indiánok között. CSERTI. Budapeste. n. . Magyar Világ Brazíliában. 10. 1908-1941. János. Flor asszony két férje. Budapeste: Kossuth. Mai brazil költk – Rónai Pál fordításai. Nagyvilág. n. 1939b. _____. Összes mvei. Makunaíma (Mário de Andrade regénye). Kilenc és kilenced. Cd-rom. 1966. NN. Albert. 1984. n. ano XIV. NAGY. 11. Lajos. Budapeste: Európa. 27. 172. Budapeste. Nyugat. 1970. 1950. s/d. Brazília üzen. p. Hesperidák kertje. Egy irodalmi legenda – digitálisan. Budapeste. Budapeste: Kozmosz. Brazíliai regény. Pál. Seção Figyel. KOCZKÁS. Oszkár. 1973. 1984. 61. 1997. Magyar Hírlap. p. 1951. 2009 _____. Budapeste. Magyarok külföldön. p. Budapeste: Európa.46 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Vörös vetés. Zoltán. Budapeste: Európa Könyvkiadó. ano 20. 12. p. Új Tükör. JÓKAI. BENYHE. Élet és Irodalom. 1566-1567. n. Sándor. Budapeste: Európa. brazil elbeszélk – Isaura után. p. 1966. Budapeste: Arcanum. 1723-1731. Utószó. _____.

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Agradeço a Claudiney Ferreira. * keywords: Brazilian literature. 1 Em dezembro de 2009. literatura latino-ameri- cana. Quais seriam os problemas e os impasses com . que marcou o lançamento da base de dados Conexões. analyzing different historical and cultural contexts as conditions for the promotion of Brazilian Literature in Latin America. Uma primeira versão deste texto foi apresentada nesse evento. palavras-chave: literatura brasileira. regionalização. Universidad de San Andrés/ Conicet. It seeks to think how today – in the era of the regionalization of cultures – a comparative literature perspective for the diffusion of Brazilian literature can help in the construction of new cultural communities. em São Paulo. poderia ajudar na construção de novas comunidades culturais.1 O evento estava destinado a mapear os brasilianistas que trabalham pelo mundo fora. analisando os diferentes contextos históricos e culturais como condições para a promoção da literatura brasileira no modo de se pensar hoje – na era da regionalização das culturas –. Felipe Lindoso e João Cezar de Castro Rocha o convite para participar do encontro. cujo objetivo é mapear e reunir um amplo e inédito número de profissionais estrangeiros que estudam ou pesquisam temas e autores da literatura brasileira. o modo como essa difusão. Latin American literature. comparative literature. alicerçada numa perspectiva de literatura comparada. abstract: The article discusses particular moments in the diffusion of Brazilian Literature in Argentina. regionalization. com o alvo de construir novos laços e conexões entre aqueles que trabalham sobre e com a literatura brasileira em universidades e diversas instituições estrangeiras e fazê-los refletir em conjunto sobre o estado atual da literatura brasileira no exterior.49 Tempos e contextos da literatura brasileira na Argentina e no exterior Florencia Garramuño* resumo: O artigo discute diferentes momentos da difusão da literatura brasileira na Argentina. o Instituto Itaú Cultural realizou o I Encontro Internacional Conexões Itaú Cultural – Mapeamento da Literatura Brasileira no Exterior. literatura comparada.

talvez o mais produtivo do encontro tenha sido a grande quantidade de perguntas teóricas que desabotoaram das discussões e debates. Estados Unidos. editor) reunidas no encontro encontravam-se numa mesma pessoa. a partir das quais é possível vislumbrar uma transformação em andamento de um conceito de literatura e de cultura brasileira que leva em conta sua colocação na paisagem transformada de um mundo contemporâneo no qual fronteiras e limites são redesenhados cotidianamente. já que a partir dele se iniciaram muitos trabalhos em conjunto entre diversos pesquisadores.15. assim como da própria cultura brasileira? O encontro não só congregou professores e pesquisadores de universidades de diferentes países (Argentina. Do ponto de vista da pesquisa sobre a literatura brasileira. Inglaterra. Uma dessas questões – e a que me parece mais premente. comunidades e preocupações que não teriam como não influir numa disciplina tão sensível à sociedade e à cultura como o é a dos estudos literários – ou de quaisquer dos diversos ramos da arte. tanto que muitas vezes duas. 2009 que os pesquisadores do Brasil se confrontam ao se encontrarem distantes do Brasil. mas também em termos de difusão da literatura brasileira. O encontro foi frutífero não só em termos profissionais e de contato – pelo fato de fazer se conhecerem pessoas que trabalham com problemas afins –. que abriram um diálogo fecundo sobre os dilemas da difusão da literatura brasileira em extrema coincidência com os debates que preocupam os pesquisadores. dos documentos. n. Alemanha e Japão.50 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Espanha. rearranjando regiões. França. dos arquivos. tradutor. dos livros. já que condiz com muitas das características da literatura mais contemporânea com as quais a minha própria pesquisa vem lidando há algum tempo – é a da situação complexa da difusão de uma literatura brasileira contemporânea que já não parece poder ser contida nos . entre outros). tradutores e editores. e até três das identidades profissionais (pesquisador. mas também convocou tradutores e editores de literatura brasileira no exterior.

51 parâmetros que definiram a instituição literária no passado. traduzida. novos problemas surgem – que a ideia mesma da difusão e promoção da literatura brasileira . a própria noção de literatura como instituição nacional fortemente ligada a certos padrões de constituição de uma identidade nacional é talvez um dos limites mais evidentemente ultrapassados. de Bernardo Carvalho (Carvalho. língua e nação –como proporia Giorgio Agambem (2001) –. Até que ponto esse extravasamento de problemáticas nacionais – “especificamente brasileiras” – deveria modificar também a forma de encarar as próprias ferramentas e conceitos para se pesquisar e ensinar a literatura brasileira no exterior? Se a literatura contemporânea já não se arrosta exclusivamente à discussão de uma identidade nacional e se. habita um número cada vez maior de romances contemporâneos – brasileiros. aparece como o exemplo mais extremo desse afastamento da problemática do nacional na literatura brasileira contemporânea que. parece evidente que.. 2009). parece se propor cada vez mais fortemente como imaginação de comunidades e coletividades que desconhecem a ferrenha ligação entre território.Tempos e contextos da literatura brasileira na Argentina. embora não seja o único. no contato com essa cultura diferente. Entre esses parâmetros hoje extrapolados. ou não. fomentar e alicerçar uma discussão dessas novas “comunidades imaginadas” – para usar em um sentido mais complexo o conceito de Benedict Anderson (1983) – seriam estratégias mais sensíveis ao que essa nova literatura pareceria estar discutindo. pelo contrário. pesquisada e. vale a pena ressaltar. O filho da mãe.. Um grande número de textos brasileiros – assim como também de textos de outros países e regiões – põe em cena um extravasamento espantoso dos limites e fronteiras que tinham definido o literário como um tipo de discurso ancorado numa certa especificidade institucional. para a difusão e promoção dessa literatura brasileira no estrangeiro. E é nesse sentido também – uma vez que a literatura brasileira no exterior está sempre se relacionando com as formas da literatura dos países nos quais essa literatura está sendo difundida. no entanto.

com ela. deslocando-o em outros contextos. Outra das questões tem a ver com a possibilidade de se pensar a difusão – e. 2009 no exterior compartilha muitos dos problemas que têm se associado nos últimos anos à discussão da literatura comparada. quando se cristaliza.2 E aí a pergunta que surgiu é a de se uma instituição como o Itaú poderia. global or wordly” (Spivak. propondo uma colaboração entre os estudos de área (“area studies”) e a literatura comparada que poderia tentar “to figure themselves – imagine themselves – as planetary rather than continental. n.15. apontou. mas também cultural – tem um papel fundamental no programa de uma “nova literatura comparada”. 2 O livro de Sorá estuda quatro períodos importantes: o primeiro estende-se desde o século XIX até os anos 1930. a noção de tradução –linguística. 2003. Também Spivak tem elaborado algumas noções interessantes – e bem complexas – sobre o problema da literatura comparada na contemporaneidade. os seus problemas. no encontro Conexões. que se aproveitaria dessa mesma migração e deslocamento como uma forma de produzir saberes “outros” que despontariam ao se confrontar a literatura brasileira com um contexto estrangeiro ao que essa literatura interpelaria de uma forma diferente. Na primeira etapa veem-se os vínculos estreitos entre diplomacia e tradução e resulta 3 . também das culturas. “in naming a transnational process constitutive of its disciplinary nomination comparative literature breaks the isomorphic fit between the name of a nation and the name of a language” (Apter. Seria uma forma de produzir um saber novo. e como. não só atender à difusão da literatura brasileira. divulgação ou propagação de uma literatura ou de um saber que existiria feito e pronto no Brasil e que os pesquisadores só transmitiríamos. professor de University of Massachusetts Darthmouth. da mão das políticas culturais do Estado Novo de Getúlio Vargas (1937-1945). os “difusores” – da literatura brasileira no exterior noutros termos que já não só do ponto de vista de uma transmissão. mas também intervir na produção A apresentação de Victor Mendes. p. Na proposta de Apter. para esta possibilidade. diferente do já conhecido. 72). 243). p. e as suas ferramentas – na era da regionalização da economia global e. com ela. a ideia de uma “auténtica cultura nacional brasileña” que inicia o segundo período. 2003.52 Revista Brasileira de Literatura Comparada. principalmente a partir de discussões como as elaboradas por Emily Apter em The translation zone ou Gayatri Spivak em Death of a discipline sobre os modos de se pensar a literatura comparada – a disciplina. Segundo ela.

levando em conta as diferentes condições de possibilidade que esses tempos e contextos têm oferecido para o conhecimento da literatura brasileira em países estrangeiros. A identificação dessas questões e a elaboração de respostas para elas. ao se falar da difusão da literatura brasileira no exterior. inicia-se em 1985. foi traduzido para o espanhol só um ano depois. evidência de um intenso diálogo entre a literatura argentina e brasileira no período. estava se produzindo gerado precisamente por aquele encontro. assim como a criação de redes de pesquisadores e de contatos e fluxos de saberes é. Fica claro que. de Machado de Assis. surpreendente pela espantosa atualidade das traduções: Esaú e Jacob. Por último. e dos circuitos construtores do mercado editorial internacional. nenhum deles teve reedição alguma. É no segundo período. como se pode concluir da relevância que os temas do desenvolvimento econômico e social adquiririam nesse momento.Tempos e contextos da literatura brasileira na Argentina. quando as relações entre a cultura argentina e brasileira resultam em grande parte da mediação de intercâmbios internacionais nas feiras de Frankfurt. principalmente durante os anos do Romantismo. vai de 1945 a 1985 e exibe a hegemonia do mercado na seleção e produção da tradução. quando a tradução mostra seus vínculos com as políticas estatais e com as a alianças políticas e ideológicas de esquerda que nasceram do exílio na Argentina de Luiz Carlos Prestes e Jorge Amado. Caberia ressaltar a importância que nos anos sessenta adquirem questões ideológicas e o tipo de problemas para os quais os estudos sociais brasileiros vão ser tomados como modelos a observar. no entanto. um dos grandes ganhos de encontros daquela natureza em termos teóricos. em 1905. um quarto período. Um terceiro período. é importante analisar os tempos e contextos dessa difusão. sem dúvida. Partindo de uma pesquisa empírica sobre as traduções de escritores brasileiros para o espanhol realizadas na Argentina. cuja primeira edição no Brasil é de 1904. O antropólogo Gustavo Sorá começou a pensar algumas dessas questões para o contexto da Argentina durante o século XX no seu importante livro Traducir el Brasil (2003). por sua vez. por exemplo. Sorá demonstrou que a tradução de autores brasileiros tem sido muito mais importante e constante na Argentina – segundo algumas variáveis históricas – do que na maioria dos outros paises. Barcelona. além do mapeamento quantitativo. que Sorá denomina mercantil. A pouca reedição e circulação desses livros é um dado incontestável: dos canônicos e importantíssimos livros brasileiros traduzidos pela Biblioteca La Nación – uma importante editora universalista – nas primeiras décadas do século XX. no caso. muito .. por exemplo (autores como os já na época afamados Machado de Assis.. além do fato pragmático – também importante – de facilitação dessa rede e desses contatos. 53 de esse “saber outro” que. José de Alencar ou Aluísio Azevedo). Algumas dessas questões dizem respeito a um mapeamento qualitativo da literatura brasileira no exterior que seria bem interessante fazer. que Sorá denomina de internacionalização.3 Mas a pesquisa demonstrou também outra consequência mais relevante – e lamentável – ainda para a história cultural da Argentina e do Brasil: a de que a efetiva tradução de autores brasileiros na Argentina não tem sempre ajudado a reduzir o mútuo desconhecimento entre os dois países. Essa sincronia é.

2009 embora muitos dos títulos dessa mesma editora que provinham de diferentes tradições literárias europeias tenham sido reeditados ano após ano. para “atualizar” e manter vivo o conhecimento do Brasil que esses livros traduzidos poderiam – e deveriam – ter acarretado. a ser lidos. arquivos e instituições dedicadas ao desenvolvimento do conhecimento sobre o Brasil não contribuiu. A debilidade institucional da Argentina em termos de bibliotecas. por outro lado. n. que a literatura brasileira ficasse conhecida na Argentina fora do interesse de algumas pessoas específicas. que o significado dos livros traduzidos em suas dimensões históricas depende das formas nas quais esses livros são recebidos e apropriados por seus leitores.54 Revista Brasileira de Literatura Comparada. 221). Um momento mais bem-sucedido dessa difusão foram – sem dúvida – os anos 60 e 70 do século XX. tampouco. mas que na verdade ela não acarretou consequências de peso para o efetivo conhecimento da literatura brasileira na Argentina ou nos países de fala espanhola nos quais esses livros brasileiros poderiam passar. Se pensarmos na relação entre os escritores argentinos da época e a literatura brasileira. portanto. assim como das posições no campo intelectual dos agentes tradutores e dos pesquisadores. p.15. como diz Sorá. fica evidente que essas traduções não fizeram com que a literatura argentina se alimentasse da brasileira nem que a brasileira se alimentasse da argentina. ou entre os críticos argentinos e a literatura brasileira. demonstrando. Era claro – a pesquisa demonstrava – que houve condições para uma tradução bem rica naquele momento. desde esse momento. nem. 2003. Fica claro a partir da leitura do importante livro de Gustavo Sorá. quando a . que “las fuerzas de internacionalización de los mercados desde fines de los años ochenta remataron el distanciamiento entre dos ‘culturas nacionales’ cuya vigencia editorial es regulada en aduanas muy lejanas” (Sorá. e que os problemas da tradução não dizem respeito só a duas culturas nacionais específicas. mas respondem a uma configuração internacional de redes de relações linguísticas.

José Guilherme Merquior. Machado. a Seix Barral – e compartilhou com ela o seu momento de fama internacional. tendo ele artigos como os de Antonio Candido. Quando a Editorial Siglo XXI publica América latina en su literatura. Cuba tem sido a grande mediadora. logo em seguida. geralmente tão separados dos irmãos de fala espanhola.. Clarice Lispector e tantos outros escritores brasileiros citados e analisados nesses textos (Moreno.. É por esses anos que o que tinha sido conhecido até então como “Concurso literário hispano-americano” foi se denominar. foi construído particularmente por uma editora de origem espanhola. ou de tantos outros que. como “Concurso literário latino-americano” e. e ao tecer uma rede fraternal que abraça o continente com suas possibilidades de compreensão e intercâmbio (apud Cabañas e Fornet. com a Revolução Cubana e as instituições que iriam se criar. o contexto político da América Latina. . Em depoimento em Havana. ao criar a possibilidade de entendimento que se forma aqui e se desenvolve fora. com a entrada dos autores brasileiros. Antonio Houaiss. Antonio Candido disse sobre o prêmio: Para nós. 1999.Tempos e contextos da literatura brasileira na Argentina. Guimarães Rosa. em 1972. que premiou autores brasileiros e contou no júri com escritores e intelectuais brasileiros da talha de Antonio Candido. p. Chico Buarque ou Davi Arrigucci Jr. a presença da literatura brasileira no volume é incontestável. tomou o nome de “Premio Casa de las Américas”. Casimiro de Abreu. 1972). na época. É claro que. fez com que a difusão da literatura brasileira tivesse um impacto mais forte nas literaturas de língua espanhola. 55 literatura brasileira pegou carona no boom da literatura latino-americana – que. ou Emir Rodríguez Monegal e outros críticos latino-americanos que fazem referência à literatura brasileira. Haroldo de Campos. brasileiros. sem falar exclusivamente da literatura brasileira. lembremos. 181). colocam em relação a literatura hispano-americana e a brasileira referindo-se a autores como Alencar.

em um único artigo.15. intensa. que víamos representada na canção de Gilberto Gil com letra de Capinam. é importante ressaltar é até que ponto essas condições. Segundo Pablo Rocca. 2009 Para aqueles que. em 1967. do Livro do desassossego. tenho mátria E quero frátria. Caetano retoma uma frase famosa de Fernando Pessoa em “A minha pátria é a minha língua”. Uma questão que. 4 .56 Revista Brasileira de Literatura Comparada. de Bernardo Soares (Pessoa.. composta por Caetano Veloso. que dançávamos e cantávamos com fervor nas festas da época. no entanto. da literatura brasileira na América Latina.. “ningún crítico hispanoamericano coetáneo de la nacionalidad que fuere se encargó. E essa América Latina grande não se preocuparia tanto com a questão da identidade nacional ou regional. na época. aparece em Velô. esse livro foi a descoberta de que a literatura brasileira existia numa sintonia de problemas com a literatura latino-americana e que ela própria podia se converter em um campo de estudo e pesquisa para nós. con tanto interés y persistencia de “Soy loco por ti América” foi composta sob o efeito da morte do Che Guevara e gravada em Tropicália.) A língua é minha pátria E eu não tenho pátria. as discussões que um problema como esse abre. estudávamos literatura na universidade argentina. 1982). Na canção. 4 O leque que uma história da difusão da literatura brasileira no exterior abre é bem complexo e não seria possível esgotar. que Caetano repetia gozoso: Flor do Lácio Sambódromo Lusamérica latim em pó O que quer? O que pode esta língua? Vamos atentar para a sintaxe dos paulistas E o falso inglês relax dos surfistas Sejamos imperialistas! Cadê? Sejamos imperialistas! (. os latino-americanos que queríamos e pretendíamos construir uma América Latina grande. em 1984.. “Língua”. Basta lembrar o refrão de Língua para ouvir uma alusão leve a essa América Latina. no fim da década de 1980. mas se assemelharia com a corrupção das unidades homogêneas que Caetano Veloso comemorava em Língua – canção que também dançávamos e cantávamos ainda com mais fervor. se possível. n. colaboraram ou não para uma difusão efetiva. Soy loco por ti América. perdurável. como Monegal o como Rama.

5 Eu acrescentaria que tanto o trabalho de Rama como o de Rodríguez Monegal sobre a literatura brasileira talvez não tenham comparação. 2003). que. em um sentido mais geral. sobre as literaturas latinoamericanas. 56).. apesar do diálogo entre Rama e Candido e outras poucas honrosas exceções. e interromper aquelas outras propriedades que levam ao apagamento das diferenças e à imposição de lógicas homogeneizantes? Queremos continuar defendendo uma identidade da literatura brasileira ou pretendemos abrir esse conceito? Como poderíamos pensar e contribuir para a difusão da literatura brasileira no exterior partindo da inspiração do título da coletânea Nenhum Brasil existe (Rocha.. incorporam nesse estudo as . bastante pouco produtivo. 20 5 la literatura brasileña” (Rocca. com a contribuição deles para a literatura latino-americana em espanhol. no campo intelectual latino-americano. aprofundá-las. possa se inserir no contexto contemporâneo para tirar desse processo as boas qualidades. O que também é evidente é que o diálogo entre críticos de fala espanhola e portuguesa também tem sido. 57 Um trabalho mais abrangente sobre as relações entre Emir Rodríguez Monegal e Angel Rama com o Brasil pode se encontrar no livro de Rocca. como se deveria pensar a difusão da literatura brasileira na era da globalização e das culturas pós-nacionais ou transnacionais? Como as diversas instituições de pesquisa e ensino da literatura brasileira poderiam contribuir para uma discussão dessas questões que. e como deveríamos fazer essa difusão? Hoje.Tempos e contextos da literatura brasileira na Argentina. 2006a. há evidência importante sobre a multiplicação dos estudos comparativos entre as literaturas e as culturas do Brasil e da Argentina. quando a palavra de ordem é a redução dos orçamentos no contexto da crise global. levando em conta as condições atuais da globalização. e. Emir Rodríguez Monegal y el Brasil. Montevideo: Ediciones de la Banda Oriental. Ángel Rama. sobretudo o de Rama. o que é bem pouco para um campo de crítica latino-americana que tem sido bastante rico e produtivo. tendo abandonado a preocupação pela identidade latino-americana. p. Se esses tempos e contextos hoje são bem diferentes. tomado de empréstimo de um verso de Drummond? Qual seria a literatura brasileira desse Brasil nenhum que quereríamos difundir.

ou Um amor anarquista e os vários textos que Beatriz Viterbo vem publicando. evidenciam-se numa escrita poética que se nutre desses contatos. Os sertões. demonstram uma presença cada vez maior da literatura brasileira no catálogo de editoras argentinas. como o caso do Sublunar. por sua vez.15. e lançando dentro de sua editora livros completos de alguns poetas brasileiros contemporâneos. Tanto esses livros como o contato fluido dos poetas argentinos e brasileiros em festivais diversos. realizados tanto na Argentina como no Brasil. traduzidos e não traduzidos. como o Balanço da bossa. de Euclides da Cunha. publicando clássicos como Oswald de Andrade ou Graciliano Ramos e literatura mais contemporânea. de Marcos Siscar. Mas não só. autores brasileiros contemporâneos e clássicos: a nova edição que o Fondo de Cultura Econômica fez de um livro que era inencontrável nas livrarias argentinas. no entanto. ou Literatura e vida literária. n. de Carlito Azevedo. é o fato de esses livros estarem hoje influenciando uma escrita literária argentina que tem se nutrido deles e que. de Flora Sussekind. como Ana Cristina Cesar ou Leminski. de Augusto de Campos. Basta ler alguns poemas de Carlito . há quase dez anos ininterruptos.58 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Hoje existe uma série dentro de uma editora argentina (a Corregidor) especialmente dedicada à publicação e tradução de literatura brasileira que vem. Também grande parte das maiores editoras argentinas e multinacionais vem publicando em Buenos Aires. 2009 culturas do Brasil sem os empecilhos do purismo linguístico ou historiográfico do passado. também está nutrindo os escritores brasileiros. Mais importante do que o número de volumes publicados. tanto de ensaios. de Clarice Lispector. um diálogo muito mais intenso entre a crítica argentina e a crítica brasileira. ou os vários romances de João Gilberto Noll e Adriana Hidalgo. ou No se dice. E existe também. junto com livros como A descoberta do mundo. com muito mais frequência. O caso da poesia contemporânea é muito significativo. A revista Tsé Tsé vem publicando uma série de livros e de poemas. hoje. assim como outros muitos.

. Referências AGAMBEN. 2001. 59 Azevedo ou Marília Garcia para ver que essas influências têm andado nas duas direções. É importante. Benedict. que já não esteja procurando as identidades de uma literatura como referentes de uma identidade nacional. nesse contexto. e com ela o papel da literatura em geral – nesse novo mundo a cuja transformação estamos assistindo. lembrar que difusão não implica um trajeto de uma só via. na medida de nossas fracas possibilidades. além de publicar o livro traduzido. Imagined communities. Pensar a difusão da literatura brasileira de uma perspectiva de literatura comparada transformada. tem financiado e continua financiando pesquisas desenvolvidas por universidades argentinas e brasileiras em conjunto. . o papel da literatura brasileira. já que. ANDERSON. se fundamente na relação dessa literatura brasileira com as outras literaturas. mas que. Giorgio. e que essa difusão acontece num contexto global de poder e conhecimento que influencia crucialmente a paisagem intelectual.. na cabeça dos leitores. talvez seja hoje uma estratégia para transformarmos. pelo contrário. Medios sin fin: notas sobre la política. mais importante ainda. cada volume traz estudos preliminares e bibliografias que ajudam os livros traduzidos a se instalarem no mercado e. que desenham uma encruzilhada de fertilização cruzada. e em várias direções. Os livros da coleção Vereda Brasil têm instalado um conhecimento importante dos autores publicados. que.Tempos e contextos da literatura brasileira na Argentina. New York: Verso. em parceria com a Capes do Brasil. mas que é uma viagem de ida e volta. Valencia: Pre-Textos. As verbas para projetos de cooperação internacional e para trabalhos comparativos têm aumentado exponencialmente na Argentina. sobretudo na Secretaria de Ciência e Técnica do Ministério de Educação da Argentina. 1991.

In: _____. O eixo e a roda. Princeton: Princeton University. CARVALHO. Traducir el Brasil. CAPINAM. VELOSO.15. México: Siglo XXI. Gilberto. _____. SPIVAK. O filho da mãe. Buenos Aires: Libros Del Zorzal. Livro do desassossego. 2003. 1982. Belo Horizonte. São Paulo: Companhia das Letras. PESSOA. 2003. Rio de Janeiro: Universidade do Estado do Rio de Janeiro. New York: Columbia University. Soy loco por ti América. Fernando. Valdei. Lisboa: Ática. La fisura regionalista de Graciliano a G. FORNET. Prefácio e Organização de Jacinto do Prado Coelho). GIL. Emir Rodríguez Monegal y el Brasil: dos caras de un proyecto latinoamericano. v. A minha pátria é minha língua. Gayatri. 2003. América latina en su literatura. Inés. Nenhum Brasil existe. Caetano. Polygram. Premio Casa de las Américas: memoria. Phillips. Bernardo de. 1972. 1960-1999. César. 2009. The translation zone. SORÁ. Emily. n. Velô. LOPES DE ARAUJO. 1967. 2009 APTER. FERNÁNDEZ MORENO. 2006. Rosa (la visión hispanoamericana de Emir Rodríguez Monegal y Ángel Rama). 12. Ángel Rama. Pablo. In: _____. Jorge. Tropicália. ROCCA. 1984. . Gustavo.60 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Una antropologia de la circulación internacional de ideas. 2006a. CABAÑAS. La Habana: Fondo Editorial Casa de las Américas. 1999. 2006b. Montevideo: Ediciones de la Banda Oriental. Death of a discipline. (Recolha e transcrição dos textos de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha.

a book is a man’s best friend. as a notion without nation. cosmopolitism. it’s too dark to read. e ademais como parte dos “estudos de literatura brasileira no exterior”. cosmopolitismo. inside of a dog. as it seems to be the Brazilian case. world literature. Arguing for an idea of literature superseding the language. and the very idea of Literature. Outside of a dog. regressa ao caso de Machado de Assis para intervir no debate sobre o conflito entre local e universal na sua obra e a respectiva recepção fora do Brasil. reviews the case of Machado de Assis in order to step into de debate on universal versus local and on the problem of the international reception of his work. Groucho Marx 1. literatura mundial. KeywoRds: Brazilian literature. Machado de Assis. aBstRact: The essay aims at a revision of the problem of the relation between a national literature. Partindo de uma noção que valoriza a literatura sobre a língua. Pedir a um português que escreva sobre os estudos de literatura brasileira em Portugal. elemento de exclusão. A mais imediata será o sublinhado duma diferença dentro da língua: no português europeu. PalavRas-cHave: literatura brasileira. as a way of exclusion. não ocorre essa acepção de “exterior” * Universidade Nova de Lisboa . nacionalismo literário. literary nationalism. não deixa de envolver particularidades curiosas. Machado de Assis.61 Ideia de Literatura Brasileira com propósito cosmopolita Abel Barros Baptista* Resumo: O ensaio procura rever o problema da relação da literatura brasileira com a noção de literatura e a literatura mundial.

a frase talvez não pareça logo o absurdo que é: o que serão. Mas talvez disséssemos “estudos de literatura brasileira no estrangeiro” mais depressa do que estudos de literatura brasileira “fora do Brasil” ou “no exterior do Brasil”. Nada disto. e diríamos “estudos de literatura portuguesa no estrangeiro”. promete alguma coisa pertinente.com. estrangeiro é exterior e. a interferência do exterior no interior. Com efeito. e sempre se sabe o que é: o “exterior”. suspensa de uma referência que destrince exterior de interior. a orientação do interior para o exterior. n. Mas exterior excede estrangeiro e. falando de cidadãos. deite no lixo! Não leve ao pé da letra. tratando-se de estudos. 1993) tenha necessidade de esclarecer que a locução “deitar fora” não significa “dormir fora de casa” mas “jogar fora”. estudos “estrangeiros”? Já a formulação “nem todos os estudos conduzidos no exterior são por isso exteriores” faz figura mais de problemática do que disparatada. enfim. ao suspender a familiaridade. E é curioso que um dicionário on line de português para brasileiros (Prata. parece mais pertinente delimitar “exteriores” do que “estrangeiros”. Ou a versão da pilhagem que Roberto Schwarz ofereceu no ensaio a que mais adiante me referirei. requer determinação. a alemã ou a italiana: como se houvesse uma substantivação de “o estrangeiro” que o “exterior” já não alcançou. a mesma construção valendo. sugerindo que académicos medíocres procuram longe escritores obscuros para fazerem carreira sem controlo nem concorrência. mas o advérbio indica registo coloquial e em regra requer um “fora” de referência para o nosso primitivismo pôr os olhos. seja a inglesa. Se dissermos que “nem todos os estudos de literatura portuguesa conduzidos no estrangeiro são estrangeiros”.htm>. sem se aperceber de que “jogar fora”. até pela etimologia. como todos. atrai a atenção para a definição do exterior como estrangeiro. é também locução portuguesa.62 Revista Brasileira de Literatura Comparada. marioprataonline. que a pessoa vá dormir fora ou. permita.br/obra/ literatura/adulto/dicionario/ framegranda_a. Digamos que há sempre o “estrangeiro”. “Leituras em competição”: uma “guarda 2 . do domínio do futebol. e que significa precisamente “jogar fora de casa” por ser o oposto de “jogar em casa”. no que é nosso. pode nem ser estrangeiro. por outro lado.1 Isto. dizendo: Por favor. 1 Claro que estão disponíveis várias descrições alternativas. pelo menos. já tratando-se de difusão de uma literatura nacional ou de estudos de uma literatura nacional. significa o que é de fora ou vem de fora. a orientação do estrangeiro para o doméstico. Deitar fora é jogar fora. etc. O verbete completo diz isto: “Não significa. no confronto com a brasileira. Você verá várias placas em Portugal. Daí que a modalidade portuguesa. Usamos “o estrangeiro”. Ademais. para outras literaturas. dar uma deitadinha na casa de um amigo ou amiga. Convenhamos que não há enorme diferença entre as duas palavras. no nacional. propriamente falando. mormente as cínicas ou as que derivam do sublinhado de traços de degradação do ideal cosmopolita. 2009 como conjunto de países constituído por todos os que não são o nosso.” Disponível em: <http://www. absolutamente. o jogo de palavras. até estimule jogos de palavras fáceis: a formulação “nem todos os que vivem no estrangeiro são estrangeiros” resultaria em disparate se transposta mecanicamente para “nem todos os que vivem no exterior são exteriores”. Por exemplo. aliás. a determinação do interior como nacional. por seu lado.15. Também se usa em Portugal a locução “lá fora”.

modalidade decerto muito inconveniente de prestar tributo ao princípio de nacionalidade em literatura. A segunda consequência é que. em rigor não tem país. desde que obtenha proventos fáceis (cf. p. O mesmo se passa de resto com os brasileiros: um brasilianista é alguém que se dedica aos “estudos brasileiros”.Ideia de literatura brasileira com propósito cosmopolita avançada” do “centro” pilha as obras da “periferia” para as incluir em repertórios internacionais. 2009. A imediata consequência a extrair seria que o universal não existe. não acreditamos que os estudos possam ser domésticos ou nacionais sem ao menos aspirarem à condição universal.2 Então. quase cidadãos honorários. cheio de brasilianistas ou cheio de brasileiros. sendo o menor. no sentido em que pertence a este ou àquele aglomerado nacional. literal ou figuradamente. ou que só visitaram justamente porque se interessaram pela respectiva literatura – talvez alguma convicção de que a literatura. que estes que viajam. aonde nunca foram. evidentemente não se tornam portugueses. ilustram este princípio estranho: as pessoas têm necessidade de viajar porque as ideias e os estudos. vão de um país a outro por causa da literatura. . em janeiro de 2009 (Wood. se deslocam sempre para o território que outros. por outro lado. sem universal em que se apoie. o de se ver obrigado a esbarrar em regras que lhe são adversas ou a tolerar convicções que lhe repugnam. Um “Instituto de Estudos Brasileiros”. Schwarz. que vale para as pessoas. são brasileiros sem serem brasileiros e que se chamam brasileiros precisamente na medida em que estão no exterior do Brasil e num interior que não se chama Brasil. aliás. Pode. casa. 3 63 Colho esta expressão na tradução para português da conferência proferida por Michael Wood num colóquio sobre Machado de Assis na Universidade de Princeton. Estamos sempre em algum lugar – em algum local. não parece valer para as organizações nem para os estudos. que viajam por causa da literatura que não se fez na sua terra. onde não viveram. Isto. não como “o lar de outras pessoas”. é sempre pouco para quem vive neste ou naquele aglomerado nacional. kantianamente guiados pelo ponto de vista filantrópico universal. mas estes. por sua vez. 187).3 Note-se que. 4 talvez porque. vai a “terras distantes” à procura do que a faz menos provinciana e por isso não se importa de ignorar a história e o contexto. espaço doméstico. Certa tradição académica chama “portugueses” justamente àqueles estudos de língua. Talvez se possa inferir do exemplo que os estudos. e que provincianismo é ver o exterior só como exterior. e as universidades em princípio não confundem brasilianistas com brasileiros. p. tendo país. residir nessa aspiração a razão última por que muitos académicos se dedicam a estudar a literatura de países onde não nasceram. o maior risco. é provável que hoje pagássemos a Berlusconi para ler a Divina comédia. chamam interior. filantropos embora. Nesse sentido. como cidadãos. Paulo. e ainda querendo tê-lo muito fortemente. sem eles. Dir-se-á. porque de algum modo se dedicam ao Brasil. aqueles que. esses académicos. não podem nem precisam de viajar. e em princípio hóspedes de honra. pela simples razão de que ninguém o pode habitar. o cosmopolita pode estar condenado à errância eterna. mas mais quotidiano. literatura ou cultura portuguesa que no estrangeiro são conduzidos por não portugueses. 2006. 66). tanto pode estar sediado em Roma como em S. não se prendendo a nenhum espaço delimitado por fronteiras. nunca serão estrangeiros. mas hóspedes.4 Sem dúvida.

outras universidades. . n. deve pretender tornar-se interior apesar de estrangeiro ou.15. Trabalhar no exterior de um paradigma pode ser mais perturbador do que trabalhar no exterior de uma disciplina ou de uma instituição. essa instituição o avalia? Acaso da capacidade de se tornar estrangeiro para não ser estrangeiro no país da literatura que estuda? Outra pertinência da distinção entre “exterior” e “estrangeiro” residiria então em que o “exterior” tem aptidão superior à de “estrangeiro” para referir situações que envolvem instituições. esforçar-se por se manter exterior porque estrangeiro? Qualquer estudo implica legitimidade e reconhecimento. e o reconhecimento do pesquisador ultrapassa já não apenas a nação. há-de vir do exterior ou de algum interior do Brasil? Ou o factor decisivo estará antes nesse outro interior que é a instituição exterior. agências governamentais. trabalhar no interior de um paradigma pode ser condição necessária para trabalhar no interior de uma disciplina e de uma instituição. desde logo. e no propósito do estudo dela. o interior tornou-se demasiado escuro para que se consiga ler nele com nitidez. ou até de ambos: o reconhecimento decisivo do brasilianista. o interior não é nacional senão depreciativamente. que ou provêm do interior da instituição em que se trabalha ou do exterior dela. antes. disciplinas ou paradigmas. 2009 Eis o dilema: aquele académico que viaja para outro lado por causa da literatura. da importância do seu estudo e da relevância da sua pesquisa. que ao brasilianista lhe paga essas viagens e esses estudos? E em nome de quê. mas as próprias disciplinas. editoras. não brasileira. A impossibilidade do interior bem circunscrito decorre da dissolução da autonomia numa rede de instâncias por definição exteriores. Exterior deixou de significar estrangeiro: no mundo universitário. centros de pesquisa.64 Revista Brasileira de Literatura Comparada. de que padrões ou critérios. Em todo caso. Eis outra forma de dizer que o universal não existe: porque o local se tornou impossível. numa rede tendencialmente tão diversificada no mapa como similar nos padrões e critérios de avaliação. fundações.

que o leitor interessado pode encontrar no meu livro A formação do nome. não podia senão ser muitíssimo sensível à diferença entre exterior e estrangeiro. mas postula que tal desejo não se confunde com o que eles ou todos nós chamamos literatura brasileira – nem é o único guia. O que se deve então legitimamente exigir ao brasilianista? Que estude e divulgue o Brasil de que a literatura brasileira fala ou. delimitálo historicamente. antes. que se representa hegemonicamente como construção que circunscreve o interior para que coincida com o nacional. edição portuguesa de 1991). portanto. O artigo de Roberto Schwarz atrás citado. e a que voltarei mais adiante. 21-111. em reconhecer o desejo de nacionalidade. é suficiente para mostrar que se mantêm a actualidade crítica e a energia polémica da análise que propus do ensaio de Machado. antes. na linhagem que o primeiro grande espírito cosmopolita do Brasil. pelo interesse da literatura brasileira pela realidade nacional brasileira? Que se torne porta-voz de uma literatura entendida como representação do Brasil. para a conhecer. estude e divulgue a razão de a literatura falar do Brasil? Que se interesse pela realidade nacional brasileira ou. enquanto o primeiro a subordina a uma qualquer relação com o Brasil. ou. enfim. O propósito cosmopolita não consiste. Duas interrogações sobre Machado de Assis (Baptista. no sentido mimético e no diplomático. 2003. p. sendo uma reacção à fortuna crítica de Machado fora do Brasil e ao que ele chama “leitura internacional”. identificá-lo como uma das forças da literatura moderna em acção no Brasil.Ideia de literatura brasileira com propósito cosmopolita 65 O presente ensaio conclui um percurso de estudos machadianos inaugurado há mais de vinte anos com uma análise de “instinto de nacionalidade”. uma literatura. que preserva a relação com a literatura. tampouco em afirmá-la ou sequer reconhecê-la: consiste. noutras nações. sim. analise o processo por meio do qual no Brasil se procurou construir uma literatura entendida como representação do Brasil? Proponho designar cosmopolita a perspectiva que estabelece essas distinções e argumenta em favor do segundo termo da alternativa. 5 Ora. O propósito cosmopolita leva em conta o desejo de criação de uma literatura a que os brasileiros possam chamar sua. em negar a nacionalidade da literatura brasileira em nome de uma natureza intemporal e transcultural da literatura. Filiando-se. antes. Machado de Assis. muito menos o melhor. inaugurou com o célebre “instinto de nacionalidade”. aliás. desnaturalizá-lo e. como a brasileira. E há-de ser particularmente sensível à presença do estrangeiro no seu interior – e sobretudo à projecção desse interior no exterior indeterminado do “estrangeiro”. enfim. supostamente em competição com a “leitura nacional”. como.5 .

ao convocá-lo. a formular certo programa de urgência: “devemos regressar. seria de um só golpe a realização e a supressão da própria noção de Weltliteratur. “Filologia e Weltliteratur” (1952). está a diminuir e a perder diversidade. ou causar estranheza pelo desuso: o melhor bem? o bem comum? o bem supremo? E. 17). p. em circunstâncias notoriamente diversas. isto é. n. já não pode ser a nação” (Auerbach. que Auerbach detecta e cujo termo pleno. que apresento nesta formulação decerto precária. 2) A dificuldade é manter a tarefa da filologia diante do processo de estandardização da vida humana à escala global. se é possível algum sentido para Weltliteratur mantendo o termo na visão de Goethe. pode também desnortear. 1969. A pressuposição da Weltliteratur é uma felix culpa: a divisão da espécie humana em muitas culturas (Auerbach.66 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Espírito? Humanidade? O vocabulário não é seguramente de hoje: ou parece hoje muito pouco cosmopolita. o domínio da Weltliteratur. o meu propósito. no entanto. àquilo que a cultura medieval pré-nacional já possuía: a noção de que o espírito não é nacional” (Auerbach. 2009 2. num modo que sequer é propriamente paródico. No entanto. é citar o desfecho dele. p. 1969. p. Não cabendo aqui sequer tentar resumir o argumento que ocupa a parte central do ensaio. na noção . a Weltliteratur não se refere apenas ao que é genericamente comum e humano: antes considera que a humanidade é o produto das relações frutuosas entre os seus membros. O colorido kantiano do meu título. o modo como. relacionando-o tanto com o passado quanto com o futuro e considerando o próprio estado do mundo: O nosso planeta. sem nenhum paradoxo. há por aí qualquer coisa de urgentemente actual. como se se tratasse de um programa político: o propósito cosmopolita consiste em reafirmar. sublinha. acaba a declarar que “a nossa casa filológica é o planeta. Auerbach perguntava num dos seus últimos ensaios.15. e mais do que isso. 17). 1969.

pela Unesco ou pelo sucesso comercial. o propósito cosmopolita define o princípio teórico e político que nos orienta a aproximação a qualquer texto com a ideia de que o que há de nobre e de emancipador na noção de literatura é o que nos anima a pressupor que cada texto foi escrito na previsão do estrangeiro que um dia o virá a ler e estará à altura de o ler precisamente na medida em que for capaz de circunscrever os limites da própria incompreensão sem perder de vista o privilégio de habitar a mesma casa. Nos estudos literários. o que se aproxima da literatura animado da convicção de que o propósito cosmopolita é inerente à noção de literatura – um propósito constitutivo da literatura moderna. não um espaço homogéneo. não um espaço essencial de onde derivem e se deduzam todos os espaços. formando alguma espécie de cânone supranacional ou literatura internacional. não fosse o traço decisivo do carácter incondicional da hospitalidade. antes porque a caracteriza a hospitalidade incondicional. que é a mesma não porque seja desde sempre e essencialmente a mesma. e designadamente dele espera a responsabilidade de circunscrever ele próprio a sua incompreensão e a sua ignorância. Decerto é quase de tra- . universal. mais restritos e nada essenciais – mas o espaço que se abstém de limitar e impor condições à entrada e estada do estrangeiro. a concepção visionária daquela felix culpa como abertura dum espaço de hospitalidade incondicional. O fundamento da hospitalidade não é a natureza humana nem alguma ideia genérica de humanidade. para onde alguns poucos afortunados são cooptados. onde o espírito vagueia livre. mas uma ideia de literatura definida precisamente pelo propósito cosmopolita: digamos que o ensaio de propósito cosmopolita é o que se aproxima da literatura presumindo que o que a constitui é o propósito cosmopolita! Ou. Não um espaço superior e restrito. Essa concepção da literatura poderia receber outro nome – tradução –. sem fronteiras nem conflitos.Ideia de literatura brasileira com propósito cosmopolita 67 moderna de literatura. aquele que não pode deixar de ser reconhecido e não pode deixar de se reconhecer como estrangeiro. em termos menos circulares.

E não há razão para que essa ideia não seja válida no quadro da mesma língua. há um exemplo de . desde sempre destinando-se ao mundo. o bem comum é o da literatura e da partilha da literatura. n. ou do que com tanta facilidade se chama “a mesma língua”. Nas relações ou nos primórdios das relações entre a literatura portuguesa e a brasileira. de estada e exercício da hospitalidade sem condições.68 Revista Brasileira de Literatura Comparada.15. ou quando fala a nossa língua. de cruzamento. A ideia da literatura como hospitalidade incondicional recusa tanto o universalismo como morada última que apaga todas as línguas. em que ela espera e depende do estrangeiro para se constituir –. mas nunca opera o transporte unívoco de um conteúdo prévio – e por isso a hospitalidade é incondicional. ser esta: faz de quem dela se aproxima um estrangeiro e pelo mesmo gesto oferece-lhe todas as condições para que se instale à vontade. força que cria unidades além deles e tensões por causa deles: unidades apesar das tensões. 2009 dução que se trata. mas passando entre os polos extremos que a definem: a tradução visa necessariamente à inteligibilidade sem restos – e por isso a hospitalidade é possível –. quanto o nacionalismo da língua cioso do núcleo essencial insusceptível de tradução. aliás. O sonho emancipador aqui seria. como se compreende. então. somos sempre estrangeiros diante de qualquer obra de literatura. eis justamente o que separa: porque é a língua que permite reconhecer o estrangeiro como estrangeiro e sobretudo quando fala a mesma língua. A língua. Como se o esperasse – e a melhor descrição de literatura é essa. O espírito é o espírito da hospitalidade. A literatura é uma linha que passa entre esses dois polos. tensões não obstante as unidades. que a literatura unisse o que a língua separa. A definição de literatura podia. e nesse sentido. 3. que a literatura se constituísse morada de encontro.

Herculano. Duvido também de que um estrangeiro possa avaliar sob todos os aspectos uma composição de semelhante natureza (Herculano. Hoje pode ler-se no volume da edição crítica dos Opúsculos dedicado aos assuntos de literatura (v. Não é imediatamente perceptível o que faz o “estrangeiro” na análise de Herculano.). e surgiria apenas em 1947. Pedro II sobre A Confederação dos Tamoios. pela mão de Alcindo Sodré. de Gonçalves de Magalhães. . o primeiro traço que distingue a carta é que Herculano. M. a pedido do próprio Herculano. 25 et seq. p. 1986. Herculano publicara um ensaio a propósito dos Primeiros cantos de Gonçalves Dias. o de Alexandre Herculano. na 2. invocando-a até como fundamento da incredulidade que fere a capacidade crítica: estrangeiro. tanto quanto sei. 1986. 2005. atolado no passado. I. para dar a opinião sobre o poema que D. a servir de prólogo. tornando-se por isso relativa em vez de absoluta. e retomado nos Opúsculos (Herculano. trata das consequências para a literatura portuguesa do aparecimento da brasileira. embaraçando o velho decrépito. p. 199-204). no Anuário do Museu Imperial. mais do que da poesia de Gonçalves Dias: é um ensaio centrado na metáfora do jovem.7 Ora. porém. 213). Herculano escreveu uma longa carta a D. p. Portugal. define com outra palavra a sua condição relativa à nação brasileira. Pedro II lhe pedira. Escreve Herculano: V. 1986. e a carta merece um estudo demorado que. originalmente publicado na Revista Universal Lisbonense.6 Este texto. que viria a ser incluído. Um ensaio escrito por um português – e que o assume expressamente. e muito. e mais ainda que o seja na América. Anos antes. ainda não teve. estranhará talvez que eu comece por uma declaração de incredulidade que prejudica a crítica especial do poema ou pelo menos a subordina a considerações superiores. de que nesta nossa época o poema épico seja possível na Europa. 212-221). em 1947. 6 Permito-me remeter o leitor interessado para o comentário deste ensaio de Herculano que apresento em O livro agreste (Baptista. Duvido. Datada de 6 de dezembro de 1856. o Brasil. permaneceu inédita.Ideia de literatura brasileira com propósito cosmopolita 69 Trata-se de “Futuro literário de Portugal e do Brasil”. p. que se ergue para criar o novo.ª edição dos Cantos. 7 propósito cosmopolita pouco conhecido.

70 Revista Brasileira de Literatura Comparada. e os que traíram os interesses da sua gente e a religião dos seus antepassados para se aliarem com os conquistadores. a um tempo . sei de certo é que ele não poderia vencer a desarmonia do espírito público. que se sobrepõem às condições actuais em que o poeta eventualmente o tenta. Não é. o que seria adequado à epopeia não é nacional. e o que se tornou nacional é indigno da epopeia. Desde logo. não constituísse hoje duas nacionalidades distintas” (Herculano. sob todos os aspectos. 1986. 2009 Limito-me aqui a observações rápidas que me conduzem ao meu ponto. Herculano reputa impossível a epopeia – e sublinha que nenhum dos “sumos poetas contemporâneos” a tentou – em virtude das próprias exigências do género. E o Brasil. O Brasil é um império novo. o “estrangeiro” não está onde se esperava.15. p. “se uma raça outrora única. mas os brasileiros são apenas europeus na América. Esta dificuldade. n. a sua civilização o mesmo que a nossa? Não se confunde a classe média do Brasil com a classe média da Europa. O que. porém. Claro que o argumento envolve um juízo sobre essas condições que não se confunde com a noção das exigências do género: “a nossa geração não é épica”. entretanto. 215). a nacionalidade brasileira não pode encontrar nos índios um substituto para os primitivos portugueses: aqueles [chefes índios] que se conservaram fiéis às tradições da pátria americana não têm identidade nem unidade nacional com os brasileiros de hoje. razão fundamental por que “a poesia é hoje quase exclusivamente lírica e dramática”. 215). porque as reputo insuperáveis. Por outro lado. considera-a Herculano insuperável: Duvido que o génio pudesse vencer estas repugnâncias. Em suma. poeticamente considerados. p. são. uma completa negação da generosidade e do heroísmo da epopeia (Herculano. apresenta certa especificidade que Herculano também não negligencia: diz ele que as eras heroicas e as gerações épicas do Brasil seriam as do primitivo Portugal. 1986.

E sublinhe-se. p. as comparações. não apenas Portugal. ou havia de trazer estes para a casa em que ele os avaliasse – ou seja. M. acima de tudo. há locuções que num país se tornaram plebeias. Desde logo na diferença de estilos. a consideração da originalidade do Brasil não faria de Herculano um estrangeiro.Ideia de literatura brasileira com propósito cosmopolita 71 ardente nas suas paixões e céptica e fria nas suas opiniões e ideias? Como estabelecer aí uma harmonia entre o poeta épico e o público. podendo não o ser para um brasileiro: exemplos de como Herculano. Embora a língua seja idêntica entre dois povos. que o juízo de Herculano sobre a epopeia não depende de ele ignorar ou recusar a originalidade brasileira. 1986. que seria impossível aqui? (Herculano. por causa disto ou daquilo. O aspecto decisivo é que. p. 218). mas justamente de a considerar e estar convicto de que a pode descrever com exactidão no que à epopeia diz respeito. antipoéticas. e que noutro são elevadas ou pelo menos toleráveis (Herculano. I. 215) Sublinhe-se que o “aqui” é a Europa. antes. Seguem-se exemplos de frases que a um ouvinte português pareceriam “baixas e triviais”. Pode sempre o estrangeiro avaliar bem a frase. o próprio exercício do juízo havia de mantê-lo na mesma casa daqueles que escreveriam essa epopeia. a barreira que define o estrangeiro? Aí deparamos com a surpresa: a barreira é a própria língua. o mesmo que dizer que desta não decorre nenhuma barreira que relativize ou desqualifique o juízo como juízo de estrangeiro. nesse . recai aí a outra dúvida de que no princípio falei a V. Escreve Herculano: Pelo que respeita às formas externas do poema. Isto não é o mesmo que dizer que a originalidade do Brasil está de antemão subordinada pela consideração das exigências do género épico: é. 1986. Onde se constitui. a verdade descritiva de um poema? Creio que não. nesse juízo. então. ainda que Herculano defendesse que a epopeia seria possível no Brasil.

n. Herculano não precisa proceder a uma expedição etnográfica para responder à solicitação de Pedro II: chega-lhe o conhecimento da possibilidade de a mesma palavra não ser a mesma palavra. porém. A incompetência. Outro aspecto. das incorrecções gramaticais” (Herculano. Contudo. que forma o propósito cosmopolita. 218). p.72 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Delimitar a barreira. A língua deixa o estrangeiro à porta: sendo a mesma. creio. É acerca dos prosaísmos. O que cabe no seu propósito é não deixar que o juízo se torne absoluto quando tem áreas de incompetência. as comparações: “Das comparações tiradas de entidades privativas da América ainda a crítica da Europa está menos habilitada para ajuizar” (Herculano. todavia. a avaliação da epopeia defronta-se com a barreira da língua. Herculano não postula sequer a unidade poética da língua – como não postula nenhum princípio de relativização poética em função da diferença linguística. Justamente a unidade poética do género circunscreve a área de incompetência ao mesmo tempo que a subordina: nem defesa da unidade intemporal e transnacional da língua para efeitos de epopeia. 1986. das imperfeições de metro. considera o seu juízo “portanto. que. 219). É isto. p. quando é a mesma ou quando se presume a mesma. se torna nacional.15. circunscrever a área de incompetência e ponderar o conjunto: a própria definição da crítica podia ser dada nesta tríade. . coisas em que a crítica da Europa e a da América tem de concordar. apesar de transnacional. já de antemão aberta à possibilidade da diferença local. é também o que separa e o que pode separar sem deixar marca. E não precisa rever a noção de epopeia. 1986. o paradigma do propósito cosmopolita na avaliação literária. é decorrente da estipulação de uma unidade prioritária: “Há. incompetente”. Numa palavra. nem condução do reconhecimento da diferença à renúncia a um princípio de avaliação inerente ao próprio género e portanto independente das particularidades locais. nem fazer alastrar a incompetência à negação do juízo inteiro. 2009 particular.

de particularização. não há literatura moderna sem incompetência declarada do estrangeiro: é nela que se decide a possibilidade de a literatura se erguer acima das condições particulares em que surge. deve ter sido o primeiro a expor uma ideia de literatura brasileira do ponto de vista cosmopolita. Gonçalves de Magalhães interiorizou Denis. Ferdinand Denis. quer dizer. Alexandre Herculano não foi apenas certeiro nas apreciações contidas na carta. no seu Resumé. É na incompetência reconhecida mas circunscrita do estrangeiro que a literatura finalmente se cumpre como literatura. O reconhecimento da diferença local é inerente. ao propósito cosmopolita. mas deixou eloquente exemplo de crítica literária em que o propósito cosmopolita nem sequer é incompatível com a instigação à “nacionalização” da poesia do Brasil. E isto é válido ainda quando a literatura se define sobretudo como assunto nacional.Ideia de literatura brasileira com propósito cosmopolita 73 O propósito cosmopolita é a voluntária subordinação a alguma noção de literatura pela comunidade dos que se reclamam dela: é a aceitação da impossibilidade de nacionalização plena das formas literárias. já enfaticamente presente no ensaio sobre Gonçalves Dias. Já a repetição de Denis pelo grupo da Niterói inaugurou a ideia de literatura brasileira do ponto de vista brasileiro. é o reconhecimento da estabilidade e da transportabilidade das formas diante das modalidades de apropriação. quer dizer. Repegando a antinomia de início. de enraizamento. subordinada a uma ideia de literatura. A própria dependência da noção de literatura nacional em que Herculano escreve as suas apreciações do poema de Gonçalves Magalhães comprova que o propósito cosmopolita se caracteriza pela dependência de uma noção de literatura capaz de tornar globalmente partilhável a própria ideia de enraizamento no local nacional. antigas ou modernas. e aliás nem haveria necessidade de propósito cosmopolita sem reconhecimento da diferença. Mais radicalmente. subordinada a uma ideia de Brasil. O caso particular da Confederação dos Tamoios atesta-o bem. não no sentido superficial de ter . por isso.

desde aí. Num trabalho recente. 2006. 2006. os dois postulados básicos de Magalhães. a influência da realidade local. isto é. Franchetti mostra de forma convincente como a articulação desses postulados determinou decisivamente a historiografia e a crítica literária posterior (Franchetti.74 Revista Brasileira de Literatura Comparada. as formas e as técnicas da literatura europeia se não obstruem. mas no mais decisivo de ter tornado doméstico o que era cosmopolita. 115). . determina a literatura consciente ou inconscientemente e de modo distintivo. que Franchetti identifica. 2009 assimilado a lição do estrangeiro. n. coincidissem num “gesto de afirmação nacional e política da nova nação” (Franchetti. b) a crença em que a representação da realidade local. estruturou-se um dispositivo anticosmopolita de equívocos. sendo por virtude dessa influência uma inevitabilidade. Apesar da adopção da França como matriz cultural. que definem o romantismo de Magalhães. ao menos dificultam a expressão do caráter nacional na produção letrada do país”. a saber: a) a confusão que dissolve toda e qualquer diferenciação literária em “carácter nacional” e a redução de todos os factores de diferenciação a um único. de ter tornado dependente de uma pátria o que em si mesmo não tinha pátria – uma ideia de literatura. o segundo diz que “os temas.15. p. em nome das ideias de liberdade e de universalidade. E de facto. p. E pôde fazê-lo precisamente porque essa ideia era cosmopolita e se oferecia com a generosidade de quem trabalha para o bem comum. 121 et seq. Daí que a oposição antilusitana e anticlássica. Paulo Franchetti mostrou como o programa literário de Magalhães depende da ideia de que o Brasil estaria num segundo momento da sua história. a força com que a natureza da terra guiaria a transformação completa da literatura em literatura plenamente brasileira. aquele em que “tomava consciência da sua especificidade e se constituía plenamente como nação”. estruturam claramente uma posição anticosmopolita: o primeiro é o do “instinto oculto”.). para o ideal partilhável de uma literatura moderna formada pela livre agremiação das particularidades expressas em literaturas nacionais.

A estipulação do local por oposição ao universal representa sempre o privilégio do local. do que está antes da literatura e que logo transforma o universal em mero repertório de temas e formas: é uma figura da oposição da realidade à literatura e da subordinação da literatura pelas representações naturalizadas da realidade. a oposição do local ao universal sobrevive por meio da oposição do consciente ao inconsciente e do voluntário ao involuntário: aqueles escritores que se distanciam do projecto de nacionalização da lite- . na narrativa da “formação”. Daí o efeito decisivo da sua persistência: local e universal. d) a confusão do projecto de construção de uma literatura nacional. cultura e nação. em direcção a uma etapa final de nacionalização definida pela harmonia entre literatura e terra. facilita outra confusão. que já Machado denunciou. Nesse preciso ponto. o processo pelo qual a nação se revela a si mesma pela sua literatura. Nesse sentido. f) enfim. etc. cuja fortuna brasileira decorre do obscurecimento da diferença entre a noção de literatura como projecção subordinada a um ideal cosmopolita de literatura e a noção de literatura como projecto subordinado a um ideal nacional de país construindo-se dotado de literatura “própria”. consoante os vocabulários –. quaisquer que sejam as formas com que historicamente se reedita. “tradição afortunada” ou “formação”. com a própria nacionalidade da literatura. Mas a oposição do local ao universal é sobretudo um instrumento do projecto de circunscrição nacional da literatura. modernidade artística e modernidade social. mostrando que querer ostentar certa cor local e querer tornar nacional uma literatura não são projectos necessariamente coincidentes. a do propósito cosmopolita com o pendor para o universal. O sintoma desse dispositivo de equívocos é a persistente oposição entre o local e o universal. projecto de afirmação política e de natureza prescritiva.Ideia de literatura brasileira com propósito cosmopolita 75 c) a confusão do local com o nacional. a crença num processo contínuo e irreversível – “instinto oculto”. tornam-se polos em tensão de um mesmo processo da literatura em direcção ao nacional. literatura e sociedade.

projectando-se para um horizonte indeterminado no tempo e no espaço. tarde ou cedo. dissolve-o num processo que não admite exterior. Desde logo. quer dizer. Daí que Machado de Assis seja o óbvio.15. onde não há efectiva alternativa para o nacional. Eis como a oposição entre local e universal se revela instrumento de poder. . a ausência conspícua de empenhamento no local desafia a imaginação e acaba por torná-lo prisioneiro inevitável da ideia do “nacional mais profundo” ou do “nacional inconsciente”. mas ainda porque é a esse mesmo ideal que a grandeza de Machado remete o leitor cosmopolita. de um modo ou de outro. a sua reformulação. de domínio de uma doxa interpretativa inimiga da diferença cosmopolita: confundindo o cosmopolita com o universal. não apenas porque a obra machadiana se estruturou e destinou no âmbito definido por esse ideal. o incontornável ponto de crise do paradigma hegemónico de autorrepresentação da literatura brasileira. ou como nacionalistas involuntários ou como cultores de nacionalismo literário “mais profundo”. esquecendo-o ou desprezando-o? Também não é possível. por nele ser harmoniosamente integrados. ambas destinadas a bloquear a possibilidade de leitura cosmopolita da obra machadiana. porém. exigindo. 4. onde não há lugar para o estrangeiro. É impossível ignorar que o ideal de entendimento universal inerente ao sonho emancipador da literatura moderna ruiu há muito. Acresce que qualquer dessas ideias acaba por tornar manifesto que o propósito final de uma e outra é subordinar a inteligibilidade e avaliação da obra machadiana à possibilidade de certa comunidade que se designa como brasileira a declarar “inteiramente brasileira”. há sempre uma linha de fuga por meio da qual Machado se torna escritor sem pátria. 2009 ratura brasileira ou lhe permanecem indiferentes acabam.76 Revista Brasileira de Literatura Comparada. n. Mas. Mas como ler Machado sem levar em conta esse ideal. o mesmo é dizer.

e quando precisa. Nessa descrição. o fragmentário”. isto é. “altamente consciente”. precisamente porque estipula que a inteligibilidade e a originalidade de Machado decorrem do modo como ele próprio. dir-se-ia que o mesmo Antonio Candido se muda para o lado adverso. e esta é uma das razões da sua grandeza” e “o segredo da sua independência em relação aos contemporâneos europeus. limitando-o ao processo da “formação da literatura brasileira”: está a recusar o ponto de vista cosmopolita. 1995. que Machado “pressupõe a existência dos predecessores. de definitivo. Depois de dizer que “o que primeiro chama a atenção do crítico na ficção de Machado de Assis é a despreocupação com as modas dominantes e o aparente arcaísmo da técnica”. escreve que Machado “se embebeu meticulosamente da obra dos predecessores”. 117-118). Quando. p. 26). se inseriu nesse processo. a “formação” de Machado como escritor decorre essencialmente em ambiente doméstico e o estrangeiro não é mencionado senão para sublinhar o alheamento e recusa que o excluem do processo. que compreendeu o que havia de certo. Já não se estranhará. p. Já quando fala de Machado nas Universidades da Flórida e do Wisconsin. na orientação de Macedo para a descrição de costumes. v. na vocação analítica de José de Alencar”. o incompleto. em vez dos nomes de . 2.Ideia de literatura brasileira com propósito cosmopolita 77 Veja-se o exemplo de Antonio Candido. que as descrições comparativas da página seguinte. no realismo sadio e colorido de Manuel Antônio de Almeida. acaba explicando que se tratava de uma forma de manter na segunda metade do século XIX “o tom caprichoso” de Sterne e de criar algum eco do “conte philosophique à maneira de Voltaire” (Candido. 1981. Antonio Candido não está apenas a situar Machado no quadro nacional. quase 10 anos depois da Formação. que a “sua linha evolutiva mostra o escritor altamente consciente. logo a seguir. na Formação da literatura brasileira. o cosmopolita. depois disso. do seu alheamento das modas literárias de Portugal e França” (Candido. notando que o escritor “cultivou livremente o elíptico.

crítico inteligente e informado. diante da sua obra. Em vez disso. Candido oferece duas descrições incompatíveis. não teria duvidado de que o seu auditório na Flórida ou no Wisconsin havia de permanecer razoavelmente indiferente se ele insistisse em explicar-lhes que a grandeza de Machado decorre de ter estudado Macedo e superado Alencar: não porque os desconhecesse. que o dá consciente dos predecessores e a querer superá-lo. Para o mesmo fenómeno – a distância de Machado das “modas literárias” do seu tempo –. mas a uma tradição comum. Decerto Antonio Candido. a da Formação. e a do “Esquema”. seja Sterne ou Voltaire. porém. etc. convoquem Kafka. O segundo Candido é melhor ou pior do que o primeiro? Dir-se-á que se complementam. e este não admite o outro.78 Revista Brasileira de Literatura Comparada. É aí que o propósito cosmopolita pode actuar. o que Candido faz não é diluir a originalidade de Machado de Assis tornando-o aceitável ou tolerável pelo estrangeiro ignorante das coisas brasileiras. no “Esquema”. nem sequer Machado. a do romance europeu e da noção de literatura que representa. Como quer que seja. ou seja. seria a narrativa da “formação da literatura brasileira” – a narrativa que precisamente os constitui estrangeiros diante de Machado.15. que consiste em procurar tornar inteligível e apreciável um escritor a quem quer que se interesse por escritores e literatura. A verdade. deveríamos interpretar a diferença do segundo ensaio à luz de um princípio de filantropia literária. não depare com nenhuma barreira que torne absoluta a sua condição de estrangeiro. mas porque o protagonista dessa explicação não seria nenhum deles. é que o segundo Candido não tem lugar para o primeiro. Gide. Candido não apela a nomes familiares. em fazer que o estrangeiro. n. o segundo. 2009 Alencar ou Macedo. o universal. polos necessários de qualquer descrição rigorosa da obra machadiana. Proust ou Faulkner. que o dá a recu- . digamos assim. Dostoiévski. e por isso é aí que a incompatibilidade entre as duas perspectivas salta inexorável. que o primeiro valoriza o local. nem valorizar o universal em detrimento estratégico do local: generosamente.

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perar uma linha do romance europeu que essas “modas” interromperam: a primeira desenha uma linha contínua, a segunda refere uma linha quebrada; a primeira postula uma evolução irreversível, a segunda acredita no resgate do anacrónico; a primeira está claramente circunscrita ao espaço nacional, como se essa linha contínua e irreversível se desenrolasse num compartimento estanque, ao passo que a segunda requer um espaço difuso de trocas e influências, não determinado nacionalmente. E, em cima de tudo, a primeira requer o conhecimento do processo da “formação” como condição da inteligibilidade de Machado, a segunda não só o dispensa como torna Machado um romancista muito mais relevante porque capaz de actuar criticamente sobre a tradição e a actualidade da situação literária europeia. A diferença em nada depende da oposição entre local e universal: em nenhum dos casos Machado é descrito pelo penchant para o universal ou para o local, é antes a mesma característica – o alheamento das “modas literárias” europeias – que num caso se define dotada de conteúdo nacional e no outro desprovida dele. A diferença entre os dois Machados é gerada pela diferença entre duas atitudes diante da situação e da tradição literária europeia, e na verdade expressão eloquente da diferença entre dois Candidos: o Antonio Candido da Formação é o crítico comprometido com a nação, empenhado em entregar aos brasileiros um Machado que os represente, por numerosos e sofisticados que sejam os mediadores dessa representação, enquanto o Antonio Candido do “Esquema” é o crítico comprometido com a literatura, na busca de um Machado que o estrangeiro possa chamar seu sem que o brasileiro se sinta espoliado.

5.
Que o primeiro Candido não pode desenvolver-se sem erradicar o segundo, e que o segundo apenas emerge na condição de destruir pressupostos básicos do paradigma crí-

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Revista Brasileira de Literatura Comparada, n.15, 2009

tico do primeiro – eis o que curiosamente se comprova com a peça final do edifício machadiano de Roberto Schwarz, o ensaio “Leituras em competição”: os dois géneros que Schwarz delimita, a “leitura nacional” e a “leitura internacional”, encontram afinal no próprio Antonio Candido exemplar praticante, senão mesmo o primeiro. De facto, para Schwarz, a “crítica internacional” define-se por ler Machado sem considerar a relação com a nação brasileira, mais propriamente, “crítica internacional” é toda a que se não ocupa de esclarecer a relação entre o carácter inconfundível da ficção machadiana e o carácter inconfundível da nação brasileira. Em contrapartida, “crítica nacional” não é a que se faz no Brasil, ainda menos a que é feita por brasileiros, mas a que tem nessa relação com a nação o centro de gravidade dos seus esforços, e que aliás Schwarz descreve ainda segundo o modelo da linha contínua, em progresso irreversível na direcção de uma meta, que se presume tenha sido atingida pelo desenhador da linha, seu principal praticante e intérprete, o mesmo Schwarz. Nenhuma surpresa, aliás. Isso basta para perceber por que motivo a “leitura nacional” é sempre referida no singular, ao passo que se sugere que a internacional poderia receber a designação alternativa de “várias não-nacionais” (Schwarz, 2006, p. 64). O ensaio é, na verdade, uma reacção a certa resenha publicada em Nova York e que, sem agressividade mas com assinalável contundência, danifica o sentido global do trabalho de Schwarz. Trata-se de “Master among the ruins”, de Michael Wood, professor de Princeton, que a New York Review of Books publicou por ocasião da publicação de novas traduções de Machado para inglês. Schwarz refere-se expressamente ao artigo, classifica-o de “resenha abrangente e consagradora do romance machadiano”, sublinha que apresenta questões difíceis e incontornáveis que definem a cena do debate entre a “leitura nacional” e a “leitura internacional”, e refere, numa proposição intercalada, quase despercebida, que Michael Wood “leva em conta a crítica brasileira”. Ora, sendo certo que a

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V. Wood, 2002. As novas traduções, publicadas pela Oxford University Press, incluem Memórias póstumas de Brás Cubas (1997) e Quincas Borba (1998), ambos por Gregory Rabassa, Dom Casmurro (1997), por John Gledson, e Esaú e Jacó (2000), por Elizabeth Powe. Outro livro incluído no rol dos resenhados é Machado de Assis: reflections on a Brazilian master writer (1999), organizado por Richard Graham, e que inclui contribuições de, entre outros, John Gledson e João Adolfo Hansen. Mas o ensaio efectivamente avaliado pela resenha é o de Schwarz.
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resenha dedica boa parte do seu espaço ao conjunto dos romances machadianos da segunda fase, não deixa de ser também uma resenha crítica da tradução inglesa do livro de Schwarz, Um mestre na periferia do capitalismo: e é essa a forma, porque não se encontra outra, de “levar em conta a crítica brasileira”.8 Para dizer logo tudo, aquilo que Schwarz apresenta sob a égide da distinção entre “leitura nacional” e “leitura internacional” são elaborações em resposta a observações críticas que Michael Wood coloca ao trabalho crítico de Roberto Schwarz, mais precisamente uma restrição fundamental, como já veremos. Por que então graduá-las em interpelação crítica da “leitura nacional”? Claro, já o deixei dito atrás, Schwarz considera-se o terminus ad quem de uma linha de leitura que, lenta mas progressivamente, devolveu o verdadeiro Machado ao Brasil, resgatando-o de décadas de fortuna crítica irrelevante. Mas há mais em jogo: na exacta medida em que a restrição de Wood não é periférica, nem acessória, mas fundamental, Schwarz não pode reparar o dano causado senão radicalizando a noção de “leitura nacional” ao ponto de fazer dela uma barreira preservativa contra o estrangeiro. Aí se confirma, então, e em pleno, como a ideia cosmopolita, indo além da oposição entre universal e local, é a única à altura da exigência de liberdade e de inteligência que a obra de Machado coloca aos leitores. Para o compreender, retenhamos a passagem em que Schwarz se refere à resenha:
A certa altura do seu ensaio, Wood, que leva em conta a crítica brasileira, propõe uma dissociação sutil. As relações com a vida local podem existir, tais como apontadas, sem entretanto esclarecer a ‘maestria e modernidade’ do escritor. Ou, noutro passo: seria preciso interessar-se pela realidade brasileira para apreciar a qualidade da ficção machadiana? Ou ainda, a peculiaridade de uma relação de classe, mesmo que fascinante para o historiador, não será ‘um tópico demasiado monótono para dar conta de uma obra-prima?’ (Schwarz, 2006, p. 64).

e é a sua colocação diante da obra de Machado e diante do ensaio de Schwarz. o conteúdo dela e a especificidade da pergunta implícita na observação crítica. E é depois disso que Michael Wood formula as interrogações que Schwarz cita e parafraseia. ou melhor. mas são formuladas na dependência dessa consideração crítica. essas observações e perguntas encontram-se no texto de Wood. um sentimento amargo e áspero. se cómico? Ora.” A observação.15. Com efeito. mas também não é inteiramente fiel à resenha.82 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Há na alma deste livro. reitera Brás Cubas: “O que faz do meu Brás Cubas um autor particular é o que ele chama ‘rabugens de pessimismo’. ecoa nessa pergunta a questão de Brás Cubas perante o próprio livro: é a questão das rabugens de pessimismo e da possibilidade de a partir delas se distinguir a forma livre tal como praticada pelo autor defunto. já agora parafraseando Brás Cubas: por que cómico. Seria interessante. que está longe de vir dos seus modelos. respondendo a Capristano de Abreu e Macedo Soares. n. and writes repeatedly of the work’s comical and farcical effects. 2002). completa-se com esta outra. por que sombrio. se sombrio. não se trata esta de uma pergunta qualquer. But his thesis is a little grim and unrelieved. Perde-se sobretudo a direcção do comentário de Wood.” O passo é muito conhe- . de resto inteiramente certeira. mas ainda assim pouco relevante. Além disso. que Schwarz oblitera: “What Schwarz´s book doesn’t tell us is why the novel [Memórias póstumas de Brás Cubas] is so funny as well as so bleak. ecoa as palavras de Machado no prólogo da 4.ª edição. por mais risonho que pareça. even when the subject is not slavery” (Wood. Em primeiro lugar. e que seria. 2009 Não é uma paráfrase inteiramente falsa. logo a seguir: “Schwarz himself is clearly alert to the fun. quando. no contexto da resenha de confronto do ensaio de Schwarz com a obra de Machado. O que se perde na paráfrase? Decerto a noção de que Wood pressente um crítico severo e carrancudo. que lhe dá a importância decisiva que obrigou à reacção de Roberto Schwarz. que toca o cómico para o dissolver numa tese monótona.

A resenha. se considerarmos que a meta intermédia desse processo em curso é descrita como etapa em que “a composição. pode dizer-se que não há leitor competente que não saia da leitura colocando essa pergunta. ao menos para o crítico americano. Se levarmos a sério a narrativa de Schwarz da “leitura nacional”. galgaram o século e foram impelir um espírito americano desocupado a reformular a pergunta de sempre: como que a usá-lo para nos trazer a todos de volta ao decisivo. para o que agora nos interessa. se. se cómico? Em segundo lugar. redunda em dizer: “Sim. desde a recusa do “clássico nacional anódino” à deslocação do centro para “o processamento literário da realidade imediata”.9 mas é. no tom de generosidade intelectual e até de concordância complacente que assume. o romancista foi transformado de fenómeno solitário e inexplicável em continuador crítico e coroamento da tradição literária local”. não se trata apenas de uma questão importante a que o livro de Schwarz não responde: é uma questão que o livro de Schwarz não consegue impedir que ressurja. a cadência. p. todo esse processo é inteiramente irrelevante: não lhe resolve o problema da originalidade tal como o recebe da leitura do romance e tampouco o substitui por outro. Dir-se-ia que Brás Cubas e Machado. e a textura do romance machadiano foram vistas como formalização artística de aspectos peculiares à ex-colônia”. em “idealizador de formas sob medida. sim. pois. as elites. crucial para entender a relação de Machado com a figura de Brás Cubas. se sombrio. cansados de tanta apropriação historicista e sociologizante. de resto. aliás. 2003.Ideia de literatura brasileira com propósito cosmopolita 83 Permito-me remeter o leitor interessado para a análise deste prólogo que levo a cabo em Autobibliografias (Baptista. inusitada. o lugar primordial. 331-337). sobretudo. muito in- . digamos assim. entre a forma livre e a filosofia. Hoje. 9 cido e. a escravidão. retivermos a conclusão de que “passo a passo. onde se decide a originalidade das Memórias póstumas de Brás Cubas: e justamente na ligação. e a colocação provavelmente decide a competência de qualquer leitor: por que cómico. por que sombrio. capazes de dar figura inteligente aos descompassos históricos da sociedade brasileira” – então. a reiteração da questão do cómico só pode significar que. enfim.

é o principal meio de defesa contra a crítica que a põe em causa: é o meio de mostrar ao elemento hostil a dimensão e a força daquilo em que está a tocar. lendo-o. Produzir a verdadeira e exacta história da crítica machadiana. Não há nenhuma inocência na precisão com que Schwarz sublinha que Wood não é “especialista em Machado. fazendo o reparo de que não responde à questão do cómico sombrio. sobretudo sem a intenção delineadora de um processo. a bem dizer despiciendo. Por quê? A razão é óbvia: para armar a defesa. o crítico estranho toca numa tradição. Talvez sem se aperceber disso. n. entrevistas ou resenhas. Justamente a necessidade de a armar . diga-me. em passagens particulares.. o procedimento de Schwarz consiste em formar e radicalizar a narrativa que percebe posta em causa por uma resenha que apenas implicava um livro. num processo intelectual demorado – num país. contínuo. a essa narrativa que Wood colocava restrições. irrelevante. até. nem brasilianista. Mas a consequência não podia deixar de ser precisamente essa para quem. porque sombrio se cómico?” Ora. 2009 teressante. porque cómico se sombrio. essa narrativa da evolução da crítica a que Schwarz procede não tinha ainda alcançado essa forma sintética e expressiva de narrativa teleológica. mas um crítico e comparatista às voltas com a latitude do presente”: é o mesmo que dizer que esse crítico é alguém de fora e que está por fora. homogéneo e irreversível que Schwarz agora definitivamente lhe imprimiu. também chamada “leitura nacional”. trabalha dentro de um paradigma que se define a partir dessa narrativa: ser declarado desnecessário.. assim se defende. pois. e brandamente repreendendo-o. além de deprimente e monótono. Não era. Mas a defesa tem a ambiguidade própria dos gestos em pleno desastre. Por outras palavras. Dava-se dispersa.15.84 Revista Brasileira de Literatura Comparada. como Schwarz. e então o crítico severo e carrancudo sai do recolhimento e explica. aqui e ali. estrangeiro que permanece duplamente no exterior: tocando num livro. mas afinal. que nem tem ideia de que tal coisa pudesse ser inventada. dir-se-ia.

a sua fortuna no mundo de língua inglesa pode aumentar – o que implica inevitavelmente a desgraça da “leitura nacional”. Essa condição é inconcebível para Schwarz. O estrangeiro que se integrou na “leitura nacional” representa o êxito do paradigma nacional. 83). A precisão de que o “nacional” não tem de coincidir com o estrangeiro. mas americano. e o “leitor nacional” tivesse um “toque de comparação extranacional” (Wood. 10 revela a vulnerabilidade da arma. Na medida em que se trata de impor uma barreira que deixa o estrangeiro à porta. recusa declarar que a posição de Roberto Schwarz é coerentemente incompatível com qualquer “leitura internacional” de Machado. sem prejuízo de aprenderem ou receberem alguma coisa um do outro. há alguma eficácia argumentativa10 e até política: sempre se deu mais um passo para delimitar o “nosso” por oposição ao alheio. porque a própria condição em que a defesa é armada e usada decorre já num cenário exterior ao nacional e em que o nacional como valor próprio não tem sentido. propondo uma espécie de solução de compromisso em que o “leitor internacional” pudesse tornar-se o mais nacional possível e depois “proveitosamente voltar para casa e comparar”. em particular. para o estrangeiro que se interessa por Machado mas não se interessa pelo Brasil. denuncia o carácter profundamente anticosmopolita e discriminatório da distinção: o estrangeiro que se integra no nacional é tão-só o que se sujeita às regras que definem o nacional. com a dimensão emancipadora e a liberdade intelectual que lhe são inerentes. porque incapaz de entender tudo o que está em causa. 2009). pela restrição das possibilidades da “internacional”. Daí a relevância de o estrangeiro não ser qualquer. ao cabo. Esse compromisso redunda em “coexistência pacífica”. p. e americano de Princeton. Essa perspectiva. 2009. ocupando-o e governando-o legitimamente. Machado foi mais uma vez traduzido para inglês. no sentido diplomático do termo: cada um no seu território. para barrar o acesso do estrangeiro ao “nosso”. Não há lugar. criando por si só um estado de crise em todo o edifício da “leitura nacional”: esse estrangeiro representa um poder que suplanta as narrativas teleológicas para consumo doméstico. como Schwarz a define. a força e capacidade de atrair os outros ao espaço doméstico e principalmente representa . A defesa aberta da superioridade da “leitura nacional” é o melhor testemunho da incompatibilidade das interpretações centradas no problema nacional com a noção moderna de literatura e. porque “a cor do passaporte e o local de residência dos críticos não são determinantes”. Mas precariamente. nessa distinção. se a “leitura nacional” se definir.Ideia de literatura brasileira com propósito cosmopolita 85 Veja-se o modo complacente e um tanto defensivo como Michael Wood reagiu no artigo “Entre Paris e Itaguaí” (Wood. Não apenas a contundência da restrição que formula é inexorável.

winter 1969. do exterior ou do interior. O livro agreste. v. Pressupõe o governo do texto como promessa de inteligibilidade e prazer que o texto dirige à inteligência e à paixão do estrangeiro. os procedimentos e as razões daqueles que se dedicam à leitura. Campinas: Unicamp. by Mary and Edward Said. há um século ou hoje. 2003. De um modo ou de outro. 13.15. alguma força requer dos leitores a formulação da mesma pergunta. no Rio ou em Nova York. a competência do leitor cosmopolita reside na capacidade de perceber a relevância e a urgência dessa pergunta e fazer apelo à hospitalidade incondicional. A “leitura nacional” não é hospitaleira. a que ecoa o espaço primordial da originalidade das Memórias póstumas: por que cómico. Autobibliografias. 2005. são exemplos disso. Philology and Weltliteratur. 1. O estranho estrangeiro. como a questão da epopeia para Herculano. ou é hospitaleira com muitíssimas condições: afinal. Abel Barros. ou da ideia de certo governo: mas presume-o no texto mesmo de Machado. A questão do cómico sombrio. não abdica desse governo. as paixões. Transl. se sombrio. East Lensing. 2009 uma promessa de viabilidade de domínio sobre todos os que se interessam e venham a interessar-se por Machado. o inassimilável. The Centennial Review. mas aqueles que exemplificam que essa ameaça é não só inerente à obra machadiana como é por ela procurada desde o início. Referências AUERBACH. representa a total impossibilidade de governar os interesses. Daí que o propósito cosmopolita seja aquele que. por que sombrio. se cómico? Sem ignorar o espaço da sua incompetência. Eric. n. não obstante. apenas aceita aqueles que derem garantias sólidas de não perturbarem a segurança interna.86 Revista Brasileira de Literatura Comparada. ao ensino e à divulgação da obra machadiana: não tanto aqueles que ameaçam a nacionalidade de Machado. _____. BAPTISTA. n. Campinas: Unicamp. .

Organização. dez. introdução e notas de Jorge Custódio e José Manuel Garcia. Entre Paris e Itaguaí. 18/07/2002. 1981. 2009. 2006. _____. Opúsculos. Leituras em competição. br/obra/literatura/adulto/dicionario/framegranda_a. 83. V. 75. 6. Revista de Letras. São Paulo: Globo. Vários escritos. Edição crítica. 2.htm>. n. ed. Antonio. New York. HERCULANO. Alexandre Herculano.marioprataonline. São Paulo: Duas Cidades. Novos Estudos Cebrap. São José do Rio Preto. Michael. São Paulo. Master among the ruins. Paulo. ed. v. Mário. The New York Review of Books. 1993. Novos Estudos Cebrap. In: _____. jul. WOOD.Ideia de literatura brasileira com propósito cosmopolita 87 CANDIDO. Lisboa: Editorial Presença.com. Disponível em: <http://www. 1995. mar. Roberto. 2006. SCHWARZ. Esquema de Machado de Assis. Formação da literatura brasileira. 3. Schifaizfavoire – Dicionário de português. _____. Gonçalves de Magalhães e o Romantismo no Brasil. . 1986. n. PRATA. n. FRANCHETTI. 46. São Paulo. Belo Horizonte: Itatiaia.

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questionando o lugar que ele ocupa no espaço nacional. keywords: alterity. contemporary Brazilian lit- terature. in relation with a reference group which belongs to the occidental society model. in two contemporary brazilian novels: Orfãos do Eldorado (2008) written by Milton Hatoum and Nove Noites (2001) by Bernardo Carvalho. de como instância de alteridade. scrutinizing the position that it occupies in the national space. ameríndio. A análise desses textos romanescos visa a discutir os elementos que fundamentam a figuração atual do ameríndio na literatura brasileira. * . palavras-chave: alteridade. literatura brasileira contemporânea. The analysis of these novels will discuss some elements which form the basis of contemporary figurations of the Amerindian in the Brazilian literature. Je crois que l’imaginaire a autant de réalité que le matériel Georges Duby et Guy Landreau. analyzing the relation between identity and alterity which is built-in. Dialogues Université Rennes 2. abstract: This work aims at the exploration of such representation. em relação a um grupo de referência que se inscreve no modelo da sociedade ocidental.89 O ameríndio como personagem do Outro na literatura brasileira contemporânea: órfãos do Eldorado e Nove noites Rita Olivieri-Godet* resumo: Este trabalho propõe-se a examinar a representação do ameríndio e a relação entre identidade e alteridade que lhe é consubstancial a partir da leitura de dois romances contemporâneos brasileiros: Orfãos do Eldorado (2008). França. These two stories choose the Amerindian as a subject of alterity. amerindian.

abrindo-se a uma prática metadiscursiva que lhes permite fazer interagir criação. Il s’articule sur ses propres déterminations et s’accompagne toujours de ce qu’on pourrait appeler ses attributs. Francis Affergan. 2009 L ’Autre n’est pas un objet vide et indéterminé. 2004). n. temáticos e estéticos.90 Revista Brasileira de Literatura Comparada.15. prêt à s’assujettir au regard et au traitement scientifique de l’observateur. como é o caso da representação do índio como instância de alteridade. 2007). inaugura novas linhas de força temáticas e formais. quando se restringem ao espaço nacional. 1 . Não se trata de procurar um invariante abstrato. p. as narrativas que se inserem nessa poética da alteridade procuram alargar o imaginário nacional para além de suas fronteiras.1 Na dialética do “selvagem” e do “civilizado” que atravessa o processo de construção das identidades plurais e problemáticas das Américas. a representação do ameríndio A esse respeito. explorando uma geografia imaginária da diferença cultural. gerada num contexto multiétnico. 32). o fazem para questionar o lugar que nele ocupa o “estrangeiro de dentro”. em mutação. crítica literária e teoria da cultura. plurilinguístico e multicultural de nossas sociedades urbanas atuais. que nos ajuda a organizar nosso pensamento crítico (Hutcheon. Utilizo o termo “poética” no sentido que lhe atribui Linda Hutcheon: uma estrutura teórica aberta. E. Meus trabalhos mais recentes refletem sobre uma “poética da alteridade” como uma das modalidades da ficção contemporânea brasileira. Os mecanismos especiais que eles acionam para dizer nosso tempo induzem a uma espécie de arqueologia das culturas e da linguagem. 1991. comuns a um conjunto de textos que participam da prática literária contemporânea e que tendem a exacerbar a confrontação com a alteridade. ainda que esta vertente não se constitua numa exclusividade nacional (Godet. Assim. Critiques anthropologiques A produção literária contemporânea. ver a obra de Janet M. Paterson (Paterson. uma regra ou uma lei. mas antes de refletir sobre signos formais.

1994)..3 Orfãos do Eldorado: a alteridade ameríndia entre mito e história A obra de Milton Hatoum interroga as formas de interagir com o outro que conduzem a processos de hibridismo. A representação das relações identidade/alteridade a partir da escolha do ameríndio como personagem do Outro tem a ver com a experiência do espaço e a temática da errância. escamotear seus aspectos traumáticos. No entanto. autorizam certos críticos a postular a existência de um cenário mítico americano.. “La poétique de l’altérité et la représentation de l’Amérindien dans la fiction des Amériques”. Seus narradores investigam as construções identitárias do sujeito e da comunidade a partir do lugar fronteiriço que ocupam entre familiaridade e estranhamento. que a produção contemporânea não cessa de revisitar. . sem. de Milton Hatoum. 3 ocupa um lugar central. no qual imaginários “arcaicos” coexistem com imaginários planetários. ver a excelente introdução de Jean Morency à sua obra Le mythe américain dans les fictions d’Amérique (Morency. atravessados por imaginários culturais diversos. examino a questão numa perspectiva comparatista que inclui romances quebequenses e argentinos. e Nove noites (2001). Este trabalho pretende explorar essa representação e a relação entre identidade e alteridade que lhe é consubstancial a partir da leitura de dois romances contemporâneos brasileiros: Órfãos do Eldorado (2008). Essas questões atravessam a produção literária recente no Brasil e nas Américas. cruzando experiência vivida e memória. seria redutor se ater às questões de fronteiras culturais que os romances de Hatoum levantam sem considerar a relação com a experiência íntima da alteridade que elas implicam. 2 Num artigo ainda inédito. Esses elementos constitutivos dos textos fundadores das literaturas americanas. de Bernardo Carvalho. baseado no mito da renovação.2 O questionamento da figuração do ameríndio como “estranho estrangeiro de dentro” ajuda-nos a compreender o lugar que as sociedades urbanas modernas reservam a esses povos.O ameríndio como personagem do Outro na literatura. que se articula sobre valores antitéticos entre espírito europeu e mundo selvagem americano. no contexto atual de nossas sociedades. 91 Sobre o assunto. no entanto.

escreve Hatoum. circulando entre os espaços da cidade e da floresta. de uma forma muito mais ostensiva. 2009 praticando a passagem da etnicidade ao estranhamento. A partir de Cinzas do norte (2005). marcado por referentes culturais libaneses. mas discreta.15. sem cair na armadilha de um regionalismo redutor. Essa estratégia confere uma dimensão universal à obra do autor amazonense e possibilita explorar as várias facetas de uma região emblemática. híbrida. que colocam em cena o diálogo entre o mundo amazônico e a imigração libanesa. Com a publicação de Orfãos do Eldorado. e terminam por ocupar um lugar cada vez mais central no universo fictício do autor. o imaginário ameríndio sempre fez parte do universo romanesco do escritor. Desde o início de sua produção. sobretudo nos seus dois primeiros romances. construída a partir de múltiplas interações culturais entre as quais se destacam elementos da problemática coabitação entre a cultura tapuia e a modernidade transplantada. Em Orfãos do Eldorado (2008). o autor aproxima o mito amazônico da Cidade Encantada do mito do Eldorado para interrogar o diálogo entre as culturas ameríndia e ocidental. permitindo assim o alargamento a uma perspectiva subjetiva. sustentado pelas elites. os restos da sociedade nativa entre ‘as roupagens civilizadoras’”. sondando principalmente o lugar fronteiriço dos narradores. Relato de um certo Oriente (1989) e Dois irmãos (2000). no seio da sociedade amazonense. Cidade compósita. recentemente publicado. examinando os efeitos de um projeto de modernidade. Presença constante. comentando cartas de Euclides da Cunha nas quais se refere a essa cidade (Hatoum. dando destaque para a figura do ameríndio como instância da alteridade. e o presente do país natal.92 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Milton Hatoum continua a explorar as relações interculturais. tematizada no quarto romance do autor. A narrativa segue a trilha das . “Em Manaus ainda hoje se encontram. 2000). n. os personagens pobres e explorados dos ameríndios se tornam mais visíveis. situado entre dois mundos: a memória do passado herdado da família.

que entrelaça memória pessoal e coletiva. Da mesma forma que o romance se afasta de uma representação idealizada do processo de mestiçagem cultural. ele recusa-se a idealizar a relação com a alteridade ameríndia. a narrativa encena uma construção identitária sofrida. sublinhando a complexidade das trocas entre culturas diferentes e evocando a história violenta de seus ganhos e perdas. Orfãos do Eldorado questiona o lugar da cultura ameríndia no seio da sociedade brasileira a partir da experiência amazonense: fenômenos de imbricação mas também de depauperação culturais.. o processo de construção identitária do narrador-personagem se realiza por meio do confronto com a alteridade paterna e da atração pela alteridade ameríndia.. cruzando história do indivíduo e da coletividade. 2005) por um sujeito atravessado por imaginários diversos. a narrativa constrói as complexas relações de Arminto com o espaço. trocas. impregnação. 93 anteriores. seja ele familiar. urbano ou natural.O ameríndio como personagem do Outro na literatura. O lugar fronteiriço ocupado por Arminto permite explorar as relações de resistência ou de abertura ao Outro. Figuração que interroga as relações interculturais. uma busca inútil de um lugar habitável (Harel. história e mito. aculturação. Arminto Cordovil. levando em consideração tanto os processos de aculturação resultantes de políticas colonialistas quanto os cruzamentos culturais que possibilitam o renascimento de tradições em outros contextos. Em Órfãos do Eldorado. mas do mesmo modo estiolamento. o relato de sua paixão por Dinaura e a reconstrução do passado de sua família têm como pano de fundo a história local (a guerra dos Cabanos) e mundial (as duas Grandes Guerras). Assim. ao escolher se dedicar às complexas interações culturais pelo viés do drama íntimo de um narrador. Entre alteridade rejeitada e alteridade desejada. durante o qual Arminto transita por um território cultural ambivalente. . Revisitando o percurso da infância à idade adulta. na busca de si mesmo e do sentido da sua trajetória existencial. examinando o sentimento de pertença de um sujeito desestabilizado.

Arminto Cordovil. que não conheceu sua mãe. morta ao dá-lo à luz. a do narrador-personagem Arminto Cordovil. Florita interpreta seus sonhos e desejos. num posfácio no qual a voz autoral dá a conhecer sua fonte: o que lemos é uma história que lhe foi contada pelo seu avô.15. ele foi criado por uma outra índia. Desempenha um papel de mediadora. no sentido amplo do termo. rico proprietário de cargueiros que transportavam mercadorias no rio Amazonas. Amamentado por uma índia tapuia. 2009 A narrativa de Hatoum inspira-se no mito ameríndio da Cidade Encantada para tecer os fios entre mito. à qual ele é muito ligado e que o iniciará à cultura ameríndia e à vida sexual. questionando o processo de transmissão da tradição e da autodeterminação a partir de dois planos: o individual (que diz respeito à vida do narrador e da relação com seu pai) e o coletivo (que trata das marcas da presença da comunidade ameríndia e de sua relação com a sociedade amazonense). Ela introduz Arminto no universo ameríndio. n. Memória de uma vida. história e memória. uma das moças pobres acolhidas pelo orfanato da cidade. trata-se de uma questão de herança. traduz para ele os mitos e as lendas contadas pelos índios. Lugar de troca por excelência. As relações entre pai e filho são frias. Mas é por Dinaura que ele se apaixona loucamente. A intriga romanesca está centrada na crônica da vida do narrador-personagem. convite à viagem. Arminto tem a impressão de que seu pai o culpabiliza por essa morte.94 Revista Brasileira de Literatura Comparada. . história e memória. desta feita. Florita. o discurso literário reinventa mito. Mais uma vez. a que diz respeito à própria narrativa. de origem e destino misteriosos: índia ou mestiça. entre os quais o Eldorado. Este conta sua história a um interlocutor cuja identidade só é revelada no final. criando pontes entre a floresta e a cidade. O menino cresce rejeitando todo tipo de identificação com o universo do pai. empregada que faz todo tipo de serviço. aproxima-o das crianças indígenas da aldeia situada nas cercanias da cidade. Florita é uma tradutora. abrindo-lhe as portas à sensibilidade ameríndia.

. p. Ver também p. 67). Ele conhecia os segredos do fundo do rio e podia conversar com Uiara. Porque mitos. que teve as plantações de cacau destruídas pelas pragas (Hatoum. Sugeriu que eu fosse atrás de dom Antelmo. a mansão branca de Vila Bela. “uma cidade que brilhava de tanto ouro e luz” (Hatoum. a cidade prodigiosa que atiçava os sonhos febris dos navegantes e conquistadores europeus ao mesmo tempo que se furtava a todo esforço de localização”. o leitor não o saberá jamais.5 Contrastando com a miséria que assola a cidade real. confundindo-se com o mito do Eldorado: “Houve tempo em que Manaus. região que alterna períodos de fausto e de declínio. 2008. A crônica da decrepitude moral de Arminto e da decadência de uma família é também a da Amazônia. Arminto sonha com a mulher da mesma forma que a população pobre da cidade sonha com a Cidade Encantada. . Pertencem à História e à memória coletiva” (HATOUM. 106). O Eldorado naufraga. não cessa de ter visões e sonhar com ela.4 Mitos e culturas viajam e se entrecruzam. como se a felicidade e a justiça estivessem escondidas num lugar encantado. 5 ela pode ser sua madrasta ou sua irmã. chefes de todos os encantados que viviam na cidade submersa (Hatoum. 2008. a mesma que eu tinha escutado na infância.O ameríndio como personagem do Outro na literatura. Dinaura. 2008. o grande curandeiro xamã de Maués. que depois do seu desaparecimento se transformou em lenda para os habitantes da cidade. Ulisses Tupi queria que eu conversasse com um pajé: o espírito dele podia ir até o fundo das águas para quebrar o encanto e trazer Dinaura para o nosso mundo. pai de Arminto. p. 4 “Mitos que fazem parte da cultura indo-européia. 99. 64). ou Manoa. desaparece pouco tempo depois da morte de Amando. Surgia na mente de quase todo mundo. p. a utopia de um lugar ideal persiste no imaginário amazônico: A Cidade Encantada era uma lenda antiga. Arminto gasta a fortuna herdada do pai e vende todas as suas propriedades: a casa de Manaus. obcecado pelo desejo por essa “mulher encantada”. a fazenda Boa Vida. Mas o mito indígena da Cidade Encantada é atemporal e persiste. era sinônimo de Eldorado. p. mas também da ameríndia e de muitas outras.. viajam e estão entrelaçados. assim como culturas. 2008. 95 Apresentação do romance pela editora (orelha do livro). Este último. 64). leitora de romances e igualmente sensível ao mito indígena da Cidade Encantada.

que lhe serve de epígrafe. Se o romance glosa. nem outros mares”. Poema que recusa todo tipo de promessa de um outro lugar possível. Por meio da combinação de elementos heteróclitos na sua composição. passando pela figura descentrada de um certo cavaleiro que percorre as estradas da Mancha em busca de sua Dulcineia. José de Alencar. Figurações da errância física e mental que o romance acolhe. mãe-d’água. este poema desencantado está em consonância com a atmosfera desoladora que o romance instaura. citado na epígrafe. relatos e versões de mitos errantes que se misturam e que constituem o imbricado tecido narrativo do romance. sereia. Homero). que é a negação mesmo de uma certa ideia da literatura como espaço liberador e de refúgio: “Não encontrarás novas terras.96 Revista Brasileira de Literatura Comparada. alimentando-se assim de fontes populares que fazem parte da memória coletiva. existe um diálogo implícito com “Itaca” que. o romance projeta a errância de mitos e de textos. 2008. Retomado pelo texto como “o poema grego” que Estiliano está traduzindo. a narrativa romanesca gera uma tensão entre a voz individual e a voz coletiva: discurso da utopia e contradiscurso. que se alimenta tanto de fontes populares quanto da tradição literária. Não há portanto. nenhuma possibilidade de viagem. n. Não esperes ir a outro lugar. à deambulação). criando analogias com o próprio percurso do narrador-personagem. num intenso trabalho intertextual que traz à tona a memória literária.15. Escrito em palimpsesto./ Não há barco nem caminho para ti” (Kaváfis apud Hatoum. ele dialoga igualmente com a tradição literária que recria esses mitos (Mário de Andrade. nenhuma esperança: “Sempre chegarás a esta cidade. Um exemplo marcante da escrita em palimpsesto do romance é o reaproveitamento do poema de Konstantinos Kaváfis “A cidade” (1910). do poema homérico aos de Konstantinos Kaváfis (além de “A cidade”. 7). versões . 2009 Uiara. em oposição ao anterior. nenhum “ailleurs”. do ponto de vista do texto poético que paira sobre o romance. sonho e pesadelo. p. é um convite à viagem.

Arminto é um dos numerosos órfãos do Eldorado aos quais o título do romance faz alusão. O tempo presente é o do sonho que se transforma rapidamente em pesadelo. o narrador conduz o fio do discurso e é por meio do seu olhar desencantado que o leitor descobre o universo amazônico.6 Hatoum fagocita e transforma elementos diversos. marcado pelo desregramento econômico e moral. de diferentes visões de mundo. sente dificuldade em encontrar seu lugar num mundo que está desaparecendo. narrativa de busca e de perda. 2008. da miragem à matéria do real. seguindo o modelo do capitalismo ocidental.O ameríndio como personagem do Outro na literatura. E não se cansava de anotar o nome de plantas e bichos. Arminto encontra-se impossibilitado de restabelecer os laços com o passado que povoou o imaginário de sua infância. p. no qual a realidade não cessa de desmentir as promessas de felicidade. máscaras de rituais e cacos de urnas funerárias de tribos indígenas que já não existiam (Hatoum. tempo que deixa transparecer os sinais de enfraquecimento da cultura ameríndia: A sala parecia um museu pobre e improvisado. a visão de um território faustuoso e cheio de promessas de felicidade transforma-se em ruínas. que representa o projeto de modernização do país baseado numa política de colonização (massacre e aculturação dos índios). artesãos e compositores de toadas. pelas doenças. espaço de representações memoriais. 86). p. narrativa de uma impossível construção de plenitude identitária. Comia tudo. No entanto. . traduções “traidoras”.. 2008. autor que o romance homenageia fazendo alusão à célebre viagem do modernista à Amazônia. Quando passamos do mito à história. Na trilha de Mário de Andrade. fazendo-os coexistir no espaço do texto. em processo de plena degenerescência. 39). 97 “O escritor puxava conversa com todo mundo: índios. Ele recusa a identificação à sua família. por outro lado. O naufrágio do navio Eldorado constitui-se num dos símbolos eloquentes do fracasso dessa política. articulação de diferentes práticas discursivas. no qual a história destrói o mito. peças de cerâmica. No chão. 6 de mitos.. até piranha frita” (Hatoum. caboclos. Sua narrativa fala de um desejo que não pode ser satisfeito. pela violência.

Nela assiste-se ao suicídio por afogamento de uma jovem índia. o barqueiro. em alusão ao barqueiro infernal. traduzindo-as por um relato perfeitamente integrado ao universo cultural e mítico ameríndio: a mulher. A violência é um dado consubstancial a essa realidade. A cena inaugural do romance é representativa das relações que estabelece entre o mito. um processo de aculturação que começa pela proibição de falar sua própria língua. são encenadas pela narrativa. Florita. para poupar o menino Arminto. deturpa suas últimas palavras. vendidas ou trocadas por mercadorias para servir aos comerciantes de Manaus ou aos homens políticos (Hatoum. no final do romance. 2008. violentadas. Há ainda as ameríndias do orfanato que as freiras protegem do tráfico sexual. suas possíveis interpretações e a realidade. O momento dessa revelação. é também o da confissão de sua imensa solidão. mascaradas sob a aparência de proteção. que vem . num regime de semiescravidão. como Florita. Outras formas de opressão. a mulher se suicida por ter perdido seu marido e seus filhos vítimas da miséria e da doença. atraída por um ser encantado. órfãs na sua maioria. Mesmo dissimulada. moças sequestradas. Assim como na obra de Márcio Souza. a caracterização dos personagens e a representação do espaço constroem uma visão violenta. em Orfãos do Eldorado. n. vítimas da miséria e da doença.15. tirânica e mórbida da sociedade e do território amazônico. próximo da morte de Florita. p. Na verdade. acolhidas pelas famílias da cidade para servir de empregada doméstica. o romance denuncia a exploração sexual das mulheres e meninas ameríndias. 2009 Desse modo. 42). no entanto. A representação do espaço constrói um cenário mórbido por onde circulam personagens como Denísio cão. outro grande escritor amazonense. que a liberará de sua vida de miséria material e afetiva. mas que sofrem.98 Revista Brasileira de Literatura Comparada. ela termina sempre por mostrar sua face. teria escolhido ir viver junto com ele no fundo do rio. A decadência do povo ameríndio está principalmente representada pelas personagens femininas. como as que sofrem as moças.

foi o barco Paraíso. os imigrantes e migrantes nordestinos. Atracou aí embaixo. a beleza grandiosa e luxuriante da floresta esconde o regime de escravidão ao qual os seringueiros são submetidos. e eu não esqueci nunca. trabalhou como seringueiro durante quatro anos.. 7 reforçar a onipresença da morte nesse território. mais uma vez. expulsos. 95). de Ferreira de Castro.. era o que se dizia. E um novo bairro surgiu: Cegos do Paraíso (Hatoum. Imagens de um paraíso perdido. p. p. ocupam o lugar dos ameríndios. . no Amazonas.O ameríndio como personagem do Outro na literatura. a narrativa romanesca expõe a oposição gritante entre os sentidos sugeridos pelos topônimos (Vila Bela. A podridão está dissimulada sob sua beleza luxuriante. 343-351). Misturando referentes reais e ficcionais. que emigrou para o Brasil quando tinha doze anos. o prefeito mandou derrubar a floresta para construir barracos. quase todos cegos pela defumação do látex. Ilha do Eldorado) e a realidade. onde Ferreira de Castro. “Cegos do Paraíso”. 2000. As novas vítimas da “modernidade na floresta” (Hardman. Aqui. Paraíso era também o nome do seringal situado às margens do rio Madeira. episódio que fecha o romance do escritor português. 2008. do seu amigo Alberto Rangel (Cunha. A imagem fala por ela mesma. 99 Título de um subcapítulo de um artigo de Milton Hatoum dedicado aos romances A selva. como no célebre romance A selva (1930). de Márcio Souza (Hatoum. Boa Vida. do território que eles ocupavam nas proximidades da cidade. para utilizar as palavras de Euclides da Cunha ao comentar a obra Inferno verde. de “uma sociedade que está morrendo”. e Mad Maria. A leitura desse texto ajuda a esclarecer a percepção e a representação do espaço em Órfãos do Eldorado. 1988). do escritor português Ferreira de Castro (1898-1974). na beira do barranco. “Inferno e barbárie”7 são a outra face da floresta: O paraíso estava aqui. Lá onde ficava a Aldeia. A memória do texto de Ferreira de Castro se faz presente igualmente pela alusão a um incêndio num seringal. experiência que se encontra recriada no romance A selva. Mil e uma histórias que sobrevivem e se metamorfoseiam nos relatos literários. que nos remete ao incêndio do seringal Paraíso. 1993). O que existiu. Trouxe dos seringais do Madeira mais de cem homens.

Trata-se de construir a visão de uma natureza que abriga um mundo doente. No entanto. Personagem decadente da história e do mito. não há possibilidade de fusão harmoniosa com a natureza.15. repulsivo. paisagem de beleza ímpar (Hatoum.. nauseabundo. pois. Voz mesmo só a de Armando: voz para ser obedecida (Hatoum. sinais do mal-estar que Arminto manifesta. A narrativa evoca a beleza grandiosa da paisagem. 2008. o cheiro e o asco dos insetos me deram um suadouro. 67-68). com guarásvermelhos e jaçanãs no céu e nas árvores. Lá . um dos lugares célébres do ecoturismo da Amazônia. [. onde.] Não era o lugar que me perturbava: era a lembrança do lugar. aqui e ali. a alternância entre as descrições líricas e os sinais que maculam essa beleza da paisagem reforça a perspectiva antagonista da representação do espaço adotada pelo romance. Os filhos dos empregados se aproximavam da varanda e paravam para observar a casa. 102). situado a 100 quilômetros de Manaus. Lugar lindo. Fui até lá. Senti um abafamento. 2009 A última viagem de Arminto (navegador de “viagens supérfluas” entre Manaus e Vila Bela) pelo rio Amazonas ganha um outro sentido. referente geográfico real. Arminto parte na terceira classe de um navio velho e sujo em busca da ilha do Eldorado. filhos de homens calados.100 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Crianças caladas. n. me agachei e vi um ninho de baratas-cascudas. desde o início. o texto não para de semear. p. recorrendo a uma descrição lírica da maravilhosa visão do lago do Eldorado. representada pela voz autoritária do pai: Eu me sentia mal na Boa Vida. face que se revela desde o momento em que fazemos a experiência de penetrar nesse espaço: Um volume escuro tremia num canto. p. Dinaura teria se refugiado. Durante a viagem de Arminto em busca do seu Eldorado. doente. remetendo a uma relação disfórica que ele entretém com um espaço onde impera uma ordem social injusta.. 2008. A ilha do Eldorado seria uma das ilhas do Arquipélago das Anavilhanas.

solidão. era habitado pela solidão (Hatoum. morte. Hatoum pertence à linhagem de escritores que produzem livros do desassossego: “é preciso aceitar que a literatura complica o mundo”. p. 101 fora. em consonância com o que escreve o sociólogo português Boaventura de Souza Santos. mesmo que seja para dizer a impossibilidade da viagem. p.O ameríndio como personagem do Outro na literatura. . o Eldorado. “Não há barco nem caminho para ti”. erigindo a literatura como um dos lugares possíveis de resistência. a imensidão do lago e da floresta. O lugar inaugurado pela criação literária está longe de corresponder ao de um refúgio protetor. múltiplos signos disfóricos para evocar esse encontro fracassado entre o mito e a história. 2000. Essas cinzas do Norte dizem muito do estado de deriva dos mitos e dos relatos que resultam do esforço contínuo do sujeito na sua busca de imprimir um sentido à trajetória humana. 102). condenados a fazer viagens imaginárias que não tranquilizam mais ninguém. anuncia o poema de Kaváfis. Essas imagens revelam um ponto de vista pessimista sobre o processo histórico marcado pelas injustiças. 12).. 322). prisioneiros de um mundo de cinzas. coloca o leitor perante a problemática condição humana. A herança comum que o ameríndio compartilha com o homem ocidental é a de serem órfãos da civilização. p. ao contrário. ao afirmar que “O futuro prometido pela modernidade não tem futuro” (Santos. E silêncio. sublinha Simon Harel (2007. pelas escolhas políticas autoritárias. 2008. A obra de Hatoum não produz sombras consoladoras. Aquele lugar tão bonito. doença. Podridão. assinalando o impasse do parâmetro do progresso como fundamento da civilização. O que se esconde sob as aparências da visão do paraíso? A distância entre o sonho e a realidade que essas imagens de um mundo em degeneração nos devolvem como um espelho invertido..

102 Revista Brasileira de Literatura Comparada. experiência vivida e ficção. O interesse do personagem-escritor. em 1939. procura compreender o gesto brutal do an- Sobre Mongólia. de Bernardo carvalho No romance de Milton Hatoum. a narrativa de Nove noites ultrapassa as fronteiras de gênero e situa-se a meio caminho entre autobiografia ficcional e documentário jornalístico romanceado. n.8 que se constrói em torno do desaparecimento de um fotógrafo nos Montes Altai. Desde então. por Buell Quain data de 2001. de sua existência. ex-aluno de Franz Boas. a se suicidar no Brasil. trata-se de abolir uma representação realista do mundo. por acaso. 8 . a experiência da alteridade ameríndia gera uma espécie de fascinação pelo Outro no único sujeito da enunciação. Misturando fatos históricos. encontrar a solução do enigma. ver Godet. o personagemnarrador Arminto Cordovil. 2009 alteridade invisível: o índio em Nove noites. Mas. da Universidade de Columbia. Nove noites tece sua trama em torno de um enigma: as razões que conduziram o antropólogo norte-americano Buell Quain. ao ler no jornal um artigo do antropólogo que se suicidou em plena floresta. de Bernardo Carvalho. Nos dois romances. narrador do romance. quando ele fica sabendo. a representação do ameríndio é submetida a diferentes pontos de vista assumidos por múltiplos sujeitos do discurso. em Nove noites é a multiplicidade de vozes narrativas e a focalização que tornam a percepção do real problemática. Para essas narrativas.15. aos 27 anos. 2007. instaurando o processo de mise en abyme do ato da escrita. Assim como em Mongólia (2002). a intriga de Nove noites cruza várias versões e inscreve no seio da narrativa o personagem do escritor que procura de forma obsessiva preencher a precariedade do sentido. quando da sua estadia no Xingu com os índios krahô. só existem visões do real. Em Nove noites. enquanto em Orfãos do Eldorado a ambiguidade da narrativa decorre das interrelações entre mito e história e da complexa viagem ao passado por meio da memória do narrador.

pois de uma certa maneira são órfãos da civilização. o narrador frequentou com seu pai a região do Xingu. os elementos da investigação sobre Quain se imbricam com lembranças antigas do contato com os índios em companhia de seu pai. As diferentes versões e visões acentuam o caráter polifônico do romance. igualmente. com sua relação como cidadão brasileiro branco e urbano com o índio. O romance alterna a narrativa da investigação conduzida pelo narrador com o testemunho fictício deixado por Manoel Perna.O ameríndio como personagem do Outro na literatura. É a natureza inacessível do ser humano que é colocada em . Bernardo Carvalho afirma que seu romance é uma interrogação sobre a paternidade: “Todo mundo está à procura de um pai. sem no entanto esclarecer o mistério. a quem ele teria feito confissões desesperadas durante nove noites passadas na cidade de Carolina. que esfaqueou e mutilou seu corpo antes de se enforcar. onde este último tinha comprado uma fazenda. cujo mistério permanece velado.. amigo de Buell Quain. com a imagem do seu pai. por meio de cartas que ele deixa após sua morte. Mais de trinta anos depois. 103 tropólogo. Numa entrevista. Os índios querem um pai. ele será levado. Às vozes desses dois narradores acrescenta-se a voz de Quain. ele representa o papel de pai com os índios. assim como testemunhos de diversas pessoas que conviveram com ele. Pouco a pouco. engenheiro responsável pelo Serviço de Proteção dos Índios. Quain tinha relações complicadas com seu pai e ao mesmo tempo. destacando as armadilhas de uma atividade interpretativa da subjetividade do outro. por causa de sua investigação. O narrador. Menino de seis anos. A alternância de vozes narrativas é assinalada por caracteres tipográficos. justapõe a história do antropólogo à de seu próprio pai” (Moura).. Todos esses elementos trazem indícios da angústia e do desespero do antropólogo. a mais próxima da aldeia indígena. a refazer a viagem nessa região e permanecerá na mesma tribo de Buell Quain. A razão da busca obstinada que leva o narrador a se interrogar sobre a morte do antropólogo só será revelada no final do romance: ela está relacionada com a infância.

em direção de suas singularidades radicais. 2009 evidência. Mais uma vez. e o início do novo milênio. a imagem. a recusa de ir em direção ao outro. O texto tomanesco lembra os inúmeros antropólogos estrangeiros que se dedicaram ao estudo dos povos indígenas do Brasil. explorando as terras da Amazônia. seus laços de parentesco. enfim. antes de tudo. como o grupo de Franz Boas. sua comida. o índio é. n. em processo de desaparecimento. os europeus célebres como Lévi-Strauss e o suíço Alfred Métraux. A figura do ameríndio em Nove noites está inscrita na temporalidade do século XX. de um povo decadente. Bernardo Carvalho elabora uma narrativa labiríntica que desconfia do poder da linguagem para elucidar o enigma do real. quando encontramos o narrador adulto em visita aos índios Krahô.104 Revista Brasileira de Literatura Comparada. que coloca em cena as lembranças da infância do narrador com seu pai. O que predomina é uma percepção negativa das marcas mais significativas da alteridade dos índios. Apesar dos diferentes períodos históricos aos quais o texto faz alusão. Nove noites é.15.. a representação do índio permanece a mesma. seguindo a pista de Quain. antes de tudo. a imersão no mundo do outro é sempre uma incursão íntima. A narrativa nos fala dos laços indissolúveis entre a interrogação sobre a estranheza do outro e o rastro subjetivo do sujeito investigador: qualquer que seja o objeto da investigação. 171). seus ritos. 1991. um objeto de estudo. período no qual evolui o personagem Buell Quain no meio dos índios brasileiros. et l’interprétation” (Affergan. Três momentos precisos são evocados: o final dos anos 30.] qui conditionne le sens. Nove noites chama a atenção sobre . do departamento de antropologia de Columbia ao qual pertencia Buell Quain. p. la compréhension.. um romance sobre as relações de alteridade a partir de uma reflexão sobre o procedimento antropológico. O trabalho de escrita que visa a constituir o outro só pode se fazer pelo imaginário “par ce va-et-vient entre soi et l’Autre [. que em princípio se dedica a compreender e a fazer compreender o Outro. Em Nove noites. o final dos anos 60.

Foi expulso da tribo pelo Serviço de Proteção aos Índios. liberando-os das ideias pré-concebidas da época. objetos de culto da curiosidade científica deles. política e financeira. sem que se conheça a razão dessa expulsão. Mas não se trata tampouco de deixar passar em silêncio um certo olhar dirigido a esse território e a seus habitantes que não são brancos. Mikhail Bakhtin lembra-nos que o objeto das ciências humanas é um sujeito e o método delas.. como o norte-americano William Lipkind. alertando também para o fato de que os textos construídos pelas ciências humanas estão longe de serem neutros. Não se trata de desprezar as contribuições de grandes pesquisadores à compreensão desses sistemas culturais. não é um objeto vazio e indeterminado. como teria transmitido relatórios políticos ao governo americano. Ele encontrou aí um povo marcado pelo processo de autodestruição. A questão levantada pelo texto de Nove noites tem sentido: até que ponto esses sujeitos realmente existiram como tais para todos esses cientistas? Até onde o diálogo pôde se realizar? A obra contempla uma preocupação que se faz presente na reflexão antropológica da atualidade. 105 essa espécie de instrumentalização do outro.. dessa maneira. disposto a se submeter ao olhar e ao tratamento científico do observador. O romance alude a . Buell Quain. denunciando. a interpretação. o personagem antropólogo do romance. obcecado pela morte.O ameríndio como personagem do Outro na literatura. 1991). Antes de viver com os krahô. O Brasil dos anos 1930 e 1940 tornou-se um país-fetiche dos antropólogos e sociólogos: o índio e o negro. que não somente teria vendido objetos que ele subtraía às tribos indígenas. reduzidos à categoria de objeto de estudo. O outro. Ele se articula sobre suas próprias determinações e traz consigo o que poderíamos chamar de seus atributos (Affergan. interessou-se primeiramente pelos trumai. como assinala Francis Affergan. que habitavam um dos territórios mais inacessíveis da Amazônia. O romance revela o comportamento de certos antropólogos. contribuindo para que elas gozassem de um reconhecimento pleno. a instrumentalização intelectual.

A convivência com os krahô também não o libera da solidão. o Xingu também é a imagem do inferno: “O Xingu ficou guardado na minha memória como a imagem do inferno” (Carvalho. p. É a imagem de um homem aterrorizado. 2009 uma provável homossexualidade de Quain. A construção desse personagem antropólogo questiona seu olhar etnocêntrico e sua atitude egocêntrica. o célebre sertanista Cândido Rondon). uma barreira intransponível. Além do mais. n. o outro é sempre. 2001. O território brasileiro nada mais é para ele do que o inferno. existe o medo que a criança sente desse povo exótico e desse espaço selvagem: a casa solitária no meio . O fato é que o antropólogo parecia muito afetado pela sua estadia na tribo dos trumai. o sertanista amigo de Buell Quain. os índios representando seu próprio papel para um público de brancos. vai elaborar: com os trumai. ao lembrar as orientações do Serviço de Proteção aos Índios. 72). ele teria encontrado um povo cuja cultura refletia seu próprio desespero. 163). 2001. que proibia as relações sexuais com os índios (serviço que. evocam um espetáculo deprimente. pelo bisavô de Bernardo Carvalho. 2001. denunciando a utilização que se faz do Outro para fins que não lhe dizem diretamente respeito (Carvalho. Quain não compreende os índios. p. p. Para Quain. 30). foi criado em 1910.106 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Têm cortes de cabelo engraçados. furam as orelhas e continuam sem usar roupas nas cidades. instável.15. Suas lembranças da infância. sua íntima decadência. Uma das pistas sutilmente levantadas pelo texto romanesco faz alusão a problemas de ordem sexual. desesperado que o testemunho de Manoel Perna. aliás. nas ilhas Fiji. enfim. o paraíso estaria em outro lugar. Para o narrador. ele os considera idiotas: “Encontrei um grupo de índios krahô e eles parecem pavorosamente obtusos. O antropólogo americano confessa sua dificuldade em trabalhar sobre os índios brasileiros e rejeita parcialmente as marcas (consideradas desagradáveis) que as culturas indígenas imprimiram à cultura brasileira. a maneira como eles cortam o cabelo.” (Carvalho. sua nudez. rejeita seus costumes. para ele. quando fez a primeira viagem a essa região.

imagem depurada da história que o homem . A harmonia dessa cena remete a uma imagem arcaica. a floresta agredida e transformada pela violência de um desmatamento caótico imposto pela nova ordem civilizacional. Medo. O olhar do narrador recusa o paternalismo: se ele é sensível ao sofrimento dos índios. um Forte Apache de plástico. 100): a cena na qual um velho krahô entoa um canto em torno de uma fogueira numa noite de lua. Adulto. imagem ancestral comum a todo ser humano. um povo que não quer ser esquecido pelos brancos. os rituais. quando os fazendeiros mataram 26 deles. no fim do mundo.. Um povo órfão. marcado por um sentimento de trágica impotência. índios que comem macarrão e arroz com feijão. mostrando o abismo existente entre seu universo de intelectual urbano e o dos povos autóctones. em expor seus preconceitos. símbolo estereotipado do índio selvagem. Para amainar a decepção do seu primeiro contato com os índios. mas também recusa da alteridade linguística. 107 de lugar nenhum. comportamental. as brincadeiras. antítese da civilização. A narrativa coloca em evidência o sofrimento de um povo empobrecido pela política governamental. perdida no tempo. o narrador retorna à região seguindo os rastros de Quain. É sempre o mesmo medo que o acompanha diante dos ritos que ele não consegue compreender. e relembra o massacre que os índios krahô sofreram um ano após a morte de Buell Quain. Ao mesmo tempo. vítima de doenças e de comportamentos viciosos transmitidos pelo contato com os ocidentais. abandonado.. ao qual ele se refere como “um dos espetáculos mais deslumbrantes da minha vida” (Carvalho. vestidos de short e calçando sandálias japonesas. um só momento em que o narrador se mostra atraído pelo outro. p. o narrador sublinha o processo de aculturação em marcha. recusa de compartilhar a comida deles.O ameríndio como personagem do Outro na literatura. Uma só passagem no romance evoca a possibilidade de um encontro. 2001. seu pai lhe oferece um brinquedo. mito deslocado significando o encontro abortado entre o brasileiro urbano e os povos autóctones do Brasil. ele não hesita. no entanto.

distanciando-se de uma tradição literária que tende a idealizar a figura do índio. O narrador de Nove noites não compreende o papel que os índios lhe atribuem nos seus rituais. Constatação de um encontro e de um diálogo frustrados. O que sobressai do efeito do outro sobre o sujeito do discurso é sua incapacidade de ir ao encontro do ameríndio. O outro que o atrai não é o ameríndio. Qual o futuro para as relações interculturais entre uma civilização que tem seu declínio anunciado e uma outra que tem a expansão de sua dominação assinalada? O narrador refere-se ao ponto de vista de Lévi-Strauss. para melhor as proteger (Carvalho. que defende uma comunicação “suficiente” mas não “excessiva” com as culturas ameaçadas de extinção. de sua infância e que o conduz a refazer a experiência na tribo indígena. a recusa em considerá-lo como sujeito autônomo. O índio surge. como se a possibilidade de um diálogo entre o Brasil ocidental e urbano e o Brasil dos povos autóctones estivesse para sempre perdida. 2009 construiu. O raiar do dia expulsará a poesia e restabelecerá a incompreensão e o medo. submisso a uma consciência que o constrói. um objeto de estudo. 52). A figuração do ameríndio em Nove noites privilegia as diferenças como enfrentamento estéril. a figuração do ameríndio como personagem do outro explora a distância com o grupo de referência ao qual pertence o personagem do escritor. nem o olhar que eles lhe dirigem. 2001. este é o sujeito da alteridade produtora de sentido que o aproxima de seu pai.108 Revista Brasileira de Literatura Comparada. para o antropólogo. então. o ameríndio é um tema enviesado.15. mas o antropólogo norte-americano. No romance de Bernardo Carvalho. As teorias pós-modernas sobre as relações interculturais se afastam dessa perspectiva e . sua tendência a se fechar sobre suas próprias referências. percebido como indecifrável e ameaçador. p. Para o narrador. o caminho escolhido pelo escritor coloca em evidência uma representação do lugar marginal que a sociedade brasileira reserva ao índio. como o estrangeiro de dentro. sua recusa em construir laços. n. Tão bela quanto frágil e efêmera. o não-valor de sua cultura.

a adoção do ponto de vista do brasileiro urbano.. c’est établir relation et non pas consacrer exclusion. 2004) ou de creolização (Glissant. branco e letrado projeta a imagem do ameríndio como uma alteridade invisível e em via de desaparecimento. Em relação à dialética do “selvagem” e do “civilizado”. reproduzindo a imagem de um índio aculturado. depois de uma estadia nos Estados Unidos. ao fazê-lo. contraditoriamente. eles iniciam uma conversa no momento em que o avião está sobrevoando a região amazônica próximo ao local onde Quain se matou. ele recusa qualquer possibilidade de contatos e trocas equilibrados e frutuosos e elabora uma visão trágica de uma civilização em via de extinção. Trata-se da viagem de volta do narrador.” afirma Edouard Glissant (1996. na imprevisibilidade do mundo-caos. O texto de Nove noites não se inscreve em nenhuma dessas perspectivas. A cena que fecha o romance é particularmente expressiva.  Em Nove noites. Sentado no avião ao lado de um jovem estudante americano. 1996) que caracteriza a contemporaneidade: “Vivre la totalité-monde à partir du lieu qui est le sien. Mas. p. decadente. que lhe pergunta se ele vai ao Brasil para fazer turismo. 67).O ameríndio como personagem do Outro na literatura. uma visibilidade. Visão trágica que lhe retira a perdurabilidade. Milton Hatoum se inspira em uma realidade na qual a presença ameríndia é marcante. aliando-se a uma perspectiva comum a outros romances da produção literária das Américas. Talvez porque nas nossas sociedades cada vez mais compósitas. Ao ser abordado pelo narrador. confere-lhe. O ponto de vista adotado é o do brasileiro que bebeu na fonte da cultura ameríndia e que é fascinado .. o romancista possa apenas registrar essa invisibilidade do “estrangeiro de dentro”. país que visitou em 2001 na esperança de encontrar a família de Buell Quain. reduzido a um objeto exótico ou a um objeto de estudo. participando de um espaço urbano híbrido. o jovem responde: “Eu vou estudar os índios do Brasil”. 109 insistem nos aspectos positivos do inevitável processo de hibridação (Canclini.

a existência de uma sociedade mais justa e solidária nem para os ameríndios nem para os pobres brasileiros inseridos na sociedade urbana. 108). Estrategias para entrar y salir de la modernidad. CARVALHO. abandonados à miséria e à orfandade. Néstor Garcia. Conselho Editorial. CUNHA. 2000. p. 2009 por ela. isoladamente. CANCLINI. Dessa forma. nem por isso o ameríndio escapa à condição subalterna e à visão trágica que o condena ao desaparecimento. São Paulo: Companhia das Letras. desconsiderando os aspectos da necessária reconstrução de um “lugar habitável” para o sujeito. Um paraíso perdido: reunião de ensaios amazônicos. México: Grijalbo.15. Nove noites. Brasília: Senado Federal. O autor não se deixa levar por uma ideologia da mestiçagem como elemento consubstancial à nação brasileira. Culturas híbridas. Francis. Euclides da. transformando a escritura numa “zona de tensões” (Harel. abrindo-se para a subjetivação da experiência da alteridade. como elemento que se abre à relação com o Outro.110 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Paris: Presses de la Fondation Nationale des Sciences Politiques. preferindo destacar a construção dramática desse espaço ambivalente. Referências AFFERGAN. herdeiros de visões do paraíso. 1991. Critiques anthropologiques. o escritor se distancia de um discurso banal que se contenta em louvar as trocas culturais. 2007. denunciando assim o papel marginal que a sociedade reserva ao índio. deixa transparecer a ideia de que esse processo não é capaz de assegurar. onde os conflitos herdados do colonialismo se fazem presentes. Hatoum recusa uma visão reconciliadora do processo de mestiçagem. 2004. 2001. . Hatoum não o idealiza. Adotando uma perspectiva complexa do processo de inter-relação de culturas e de imaginários. Bernardo. Mesmo reconhecendo o processo de mestiçagem cultural. n. Figurado como mediador do espaço e dos mitos entre a floresta e a cidade. Adota outro ponto de vista. expondo suas fraturas.

Jean. Trem fantasma. Québec: Éditions Nota Bene. entrevista de Bernardo Carvalho. 2004. Estranhos estrangeiros: poética da alteridade na narrativa contemporânea brasileira. La poétique de l’altérité et la représentation de l’Amérindien dans la fiction des Amériques. _____. Janet M. p. 34. 2000. 1988. 2005. GODET. MORENCY. Milton. Pela mão de Alice. L ’espace en perdition. _____.. Simon. Teresa: revista de literatura brasileira. São Paulo: Cortez. São Paulo: Companhia das Letras. 233-252. 111 GLISSANT. de Ferreira de Castro.-jun. n.. 1991. 185-194. Les passages obligés de l’écriture migrante. Francisco Foot. Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea. FFLCH-USP São . jan. In: _____. O espaço geográfico no romance brasileiro. HUTCHEON. A trama traiçoeira de Nove noites.br/pdtl2/sub. a modernidade na selva. _____. Les lieux de la précarité de la vie quotidienne. Figures de l’Autre dans le roman québécois. 2008. com. p. Rio de Janeiro: Imago. A natureza como ficção (Leitura do espaço nos romances A selva. . 1. 1993. Linda. Edouard. Texto inédito. A dois passos do deserto: visões urbanas de Euclides na Amazônia. O social e o político na pós-modernidade. Poética do Pós-Modernismo. Brasília. _____. Disponível em: <http://www. 2007.php?op=resumos/docs/novenoites>. Paulo. Boaventura de Souza. e Mad Maria. p. Montréal: XYZ. PATERSON. HAREL. Paris: Gallimard. HATOUM.O ameríndio como personagem do Outro na literatura. Salvador: Fundação Casa Jorge Amado. Québec: Les Presses de l’Université Laval. ed. In: _____ et al. Orfãos do Eldorado. 29. 1994. São Paulo: Companhia das Letras. Québec: Nuit Blanche. Introduction à une poétique du divers. Rita Olivieri. SANTOS. Flávio. A utopia e os conflitos paradigmáticos. 101-117. 1996. MOURA. 2007. n. de Márcio Souza). 2000. Le mythe américain dans les fictions d’Amérique.portrasdasletras. HARDMAN.

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cânone e crítica formal Este ensaio parte da premissa de que não há crítica ou teoria literária. This article is part of a contemporary debate on aesthetic value. cânone. A partir de uma compreensão do caráter contingente do valor estético e da impossibilidade de fundamentá-lo de maneira imanente à obra.113 Cânone Literário e Valor Estético: notas sobre um debate de nosso tempo Idelber Avelar* resumo: Este ensaio se insere no debate contemporâneo acerca do valor estético. baseadas na descontinuidade. na qual não esteja implícita uma posição sobre o valor. compartilham uma série de pressupostos. aesthetics. argumentando que culturalistas. por mais descritiva. Understanding the contingent nature of aesthetic value and the impossibility of grounding it immanently. palavras-chave: abstract: valor. aesthetics. e esteticistas. keywords: value. é apresentado como uma polêmica entre defensores de um firme cânone * Tulane University. based on the often ignored discontinuity among the concepts of value. I suggest a few possible routes for the debate. essa premissa é simultaneamente negada e aceita pelos dois polos de um debate que. sugerem-se algumas pautas para o debate. and canon. defensores da primazia do cânone ocidental. Como veremos. com frequência. frequentemente ignorada. I argue that canon-revising culturalists as well as aestheticists who defend the primacy of the Western canon share a number of premises. . revisores do cânone. estética. canon. de estética e de cânone. contingência. entre os conceitos de valor. contingency.

que rejeitariam o pressuposto da inevitabilidade valorativa. visível na batalha que eles livraram contra o establishment da filologia. o New Criticism focalizou a valoração na diferença entre a literatura e a cultura de massas. este ensaio tenta demonstrar que a própria formulação do debate é problemática. mas no sentido classista . Allen Tate. Robert Penn Warren. mas não em distinções efetuadas no interior da série literária. como intervenção numa polêmica culturalista – entendendo-se “cultura” não no sentido antropológico. diferenciavam dos filólogos então dominantes ao conferir um papel edificante para a literatura. optando por um projeto que tinha um caráter mais descritivo que valorativo. embora seus principais teóricos. O New Criticism surgiu. Os textos de Roland Barthes em que a preocupação com o valor se torna explícita são aqueles escritos a partir do final dos anos 1960. com seu afã científico e universalizante. portanto. R. n. já numa fase de seu pensamento em que são visíveis as inspirações nietzscheana e lacaniana. elaborou pouco sobre a questão do valor. que fizesse desta o antídoto contra a vulgaridade massiva associada à racionalidade técnica moderna e à “dissociação da sensibilidade”. depois da progressiva ruptura com a formalização do estruturalismo. A insistência dos new critics no caráter desinteressado da literatura acabou sendo um gesto no qual se albergava um nítido interesse. O estruturalismo.15. e que o valor estético e o cânone literário podem e devem ser repensados em outros termos. jamais tivessem escondido suas preferências literárias. Cleanth Brooks – se . sabemos. nos anos 1930.114 Revista Brasileira de Literatura Comparada. S. os new critics – John Crowe Ransom. Nas suas origens. conceito que herdaram de T. como Roland Barthes e Julia Kristeva. Há correntes críticas do século XX. 2009 ocidental e culturalistas favoráveis a uma relativização ou abolição desse cânone. Hegemônico durante décadas na crítica estadunidense. Eliot. P Blackmur. discursos com fortes componentes axiológicos. Além de tomar algumas posições que não se alinham com nenhum dos dois polos. mesmo nos momentos de maior formalização do método.

145 et seq. o jogo de antinomias. quebradas em meias-verdades …. Uma das diferenças importantes é que Frye se dedicou longamente ao problema do valor literário. No momento em que Northrop Frye publicou o hoje clássico Anatomia da crítica (1957). a ambiguidade e o paradoxo que eles antes reservavam aos modernos e aos poetas metafísicos ingleses do século XVII. de maneira hegeliana. 115 e aristocrático do termo. p. no qual ele se distanciava tanto do New Criticism como da Escola de Chicago. Os new critics se moveriam em direção à análise de estruturas internas dos textos. nas quais invariavelmente encontrariam a ironia. o caráter sistematizador. uma apresentação explícita do problema da valoração já era inevitável. 155-175)...Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. a centralidade do conceito de mito. e onde todas as verdades já foram. Frye chegou a considerar “Poética estrutural” como um possível subtítulo para o livro. A consolidação do método como leitura hegemônica acabou acarretando a universalização dos traços que eles antes só viam nos autores do seu paideuma particular. o momento de triunfo do New Criticism na universidade e de consolidação da poesia modernista no currículo coincidiu com o arrefecimento dessa veia polêmica. e alguns dos eixos da obra revelavam nítido parentesco com o trabalho que o estruturalismo literário francês realizaria nos anos seguintes: as metáforas espaciais. Como apontaram Gerald Graff (1987. na França. que era seu principal antagonista. Embora não fizesse ali nenhuma referência ao trabalho da antropologia estrutural que. onde não há fatos. Tomo Frye como ponto de partida de uma demonstração do que considero o caráter aporético da discussão sobre o valor literário: Na história do gosto. sentimos talvez que o estudo da literatura é relativo e subjetivo demais para ter sentido consistente. a insistência no imanentismo e no caráter autossuficiente da crítica literária. p.) e John Guillory (1993. Mas como a história do gosto não tem vínculo . já se desenvolvia havia uma década com Lévi-Strauss. ainda que fosse para negar sua pertinência para a prática crítica.

assim como não é óbvio que a polêmica Marx-Ricardo não seja parte da “estrutura” da economia política. Mas quanto mais óbvio se torne isso. portanto. simultaneamente. Porque insistir nela é tudo o que ele pode fazer: qualquer crítica motivada por um desejo de estabelecê-lo ou prová-lo será meramente mais um documento na história do gosto (Frye.1 Um pouco antes. pois explicitá-los terminaria fundamentando a crítica na história do gosto e. Para isso. dinamitando a separação que se havia proposto entre elas: As estimativas comparativas de valor são realmente inferências da prática crítica. 2) é “óbvio” que alguns poetas são melhores que outros.15. 1957. a de que é preferível que os valores que subjazem às escolhas estéticas da crítica fiquem escondidos. e constantemente. ela pode ser facilmente separada (Frye. 18). p. O curioso da analogia de Frye. O leitor o percebe quando chega o espinhoso momento em que Frye tem de justificar suas escolhas. que 1) a crítica é uma esfera separada da história do gosto. 3) . que Milton é um poeta mais sugestivo e recompensador que Blackmore. São minhas as traduções de todas as citações de fontes em línguas estrangeiras. ele lança mão de uma curiosa tese. assim como o debate Huxley-Wilberforce não é parte da estrutura da ciência biológica” (p. pode-se estar razoavelmente convicto de que tal separação é a coisa menos fácil que há. 1957. O crítico verá logo. menos tempo ele desejará desperdiçar insistindo na questão. é que está bem longe de ser uma verdade evidente que a polêmica Huxley-Wilberforce não seja parte da “estrutura da biologia” (seja lá o que for isso).116 Revista Brasileira de Literatura Comparada. À medida que o leitor percorre as páginas de Anatomia da crítica. e não princípios expressos que guiam sua prática. 25). 2009 orgânico com a crítica. 18). vai se impondo uma conclusão: sempre que Frye diz que a crítica é “facilmente separável” do gosto e do juízo valorativo. p. 1 Anatomia da crítica sugere. n. mais válidas quando silenciosas. ele afirmara que “a história do gosto não é parte da estrutura da crítica. por certo.

2 qualquer tentativa de explicar essa obviedade está fadada a ser parte da história do gosto. O estranhamento possibilitaria uma renovação de uma experiência do mundo caracterizada por uma percepção já automatizada. mas tropeça na constante interferência desta sobre aquela. No momento mais frutífero do desenvolvimento das pesquisas dos formalistas. um dos livros de crítica literária mais influentes do século XX. se sustenta sobre um tripé de premissas de visível precariedade: 1) a crítica e o gosto não se misturam. 117 Para o estruturalismo. mesmo que reconheçamos que a atividade crítica depende de escolhas valorativas. Shklóvski definiu o conceito como o processo por meio do qual a novidade das operações poéticas sobre a linguagem prolongaria a percepção. sob o risco de que todo o edifício desmorone. não antes que Yuri Tinianov formulasse algumas pistas acerca do que poderia ter sido uma concepção formalista da . Anatomia da crítica. Preso num discurso que postula a separabilidade da crítica ante a história do gosto.2 haveria que se dedicar especial atenção às maneiras como o desejo de cientificidade entrou em choque com a inevitabilidade valorativa. teremos de esconder debaixo do tapete os critérios que subjazem a elas. esses dois eixos coexistiram com certa tensão.. Frye não pode senão sugerir que os fundamentos das escolhas valorativas permaneçam sem discussão. aumentando-lhe a dificuldade. Numa futura história dos métodos formais no século XX. 2) não se faz crítica sem uma escolha valorativa. 3) já que a valoração é definida como parte de uma história do gosto externa à crítica. fruto da repetição constante. Seria possível demonstrar que a aporia detectada em Frye se repete nos métodos interpretativos que tentaram fazer da crítica literária uma operação descritiva na qual não teria lugar o debate acerca das opções valorativas.Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. não da crítica. a consolidação do poder político nas mãos de Stálin os forçou ao exílio ou ao silêncio. No caso do formalismo russo.. ver o notável trabalho de história intelectual já feito por François Dosse (1991-92). O projeto de descrever cientificamente a linguagem poética os levou a estabelecer a noção de estranhamento (ostraneniye) como o mais próprio da literatura.

A insistência na função descritiva da teoria literária. e assim por diante. pelo estranhamento imposto a formas literárias automatizadas pelo uso excessivo.118 Revista Brasileira de Literatura Comparada. interrompida pela consolidação do poder burocrático na União Soviética. Um exemplo clássico é o que Dom Quixote fez aos romances de cavalaria. a literatura evoluiria por meio da paródia. eles tampouco se dedicaram a tematizar explicitamente o problema do valor. ajuda a explicar a relação multifacetada que os formalistas mantiveram com o tema do valor.15. Mas reconhecer sua existência – mesmo que implícita – é indício adicional de que até nas empreitadas mais cientificistas da crítica literária impõe-se a inevitabilidade valorativa. combinada à condenação ao impressionismo dos simbolistas. A partir das premissas de que o estranhamento é mais próprio à literatura e de que a história literária evolui pela operação paródica sobre formas anteriores congeladas. Para Tinianov. Sempre que um procedimento passasse a ser parte do repertório de práticas já esperadas. uma operação paródica tenderia a surgir. Muito ainda poderia ser dito aqui. n. ou seja. As conhecidas afinidades entre o formalismo e o futurismo russos emprestam credibilidade a essa tese. parece inescapável a conclusão de que o valor está acoplado à realização desse programa: quanto mais estranhamento e mais ruptura paródica com as formas anteriores. é claro. 2009 história literária. expondo a artificialidade de suas convenções. tornando visível a automatização anterior. de que as vanguardas realizam a vocação da literatura de uma maneira que os parnasianos não fazem. A sofisticação do aparato teórico dos formalistas os levou do imanentismo textualista a uma incipiente teoria da história literária. mas passemos ao extremo oposto. Não há nada de condenável nessa axiologia. às correntes críticas que explicitamente reivindicam a valoração como elemento constitutivo da ati- . O edifício teórico dos formalistas nos leva à conclusão ineludível de que Dom Quixote tem um valor que Amadis de Gaula não apresenta. mais valor. Apesar de que as observações feitas acima sobre Frye não se aplicam aos formalistas.

Na tentativa de esclarecer os valores que subjazem às análises estéticas. ao continuar tomando esses valores como intrínsecos. 36). seria a defesa daqueles valores sobre outros. o Bem ou o Mal . Booth coloca a pergunta: “Poderemos esperar encontrar uma crítica que respeite a variedade e ofereça um saber acerca de por que algumas ficções valem [are worth] mais que outras?” (1988. O desafio que Booth se coloca é manter algumas das premissas da teoria contemporânea (acerca da variabilidade histórica do sentido ou da impossibilidade de uma medida transcendental de valor). a tarefa não é fácil. Como se verá. que valeriam “menos”. crítica ética e falácia igualitária Wayne Booth. p. 142). 119 vidade crítico-literária. a saber. Posição de destaque nessa vertente cabe aos críticos que se ocupam das relações entre ética e literatura. Booth tenta resgatar essa função humanista sem reduzi-la a um conjunto de normas. ocupa um lugar central no chamado ressurgimento da crítica ética nos EUA. ao mesmo tempo em que continua se agarrando a um conceito de literatura como fonte singular de um “mergulho em outras mentes” (p.. que provocaria uma “série de efeitos no ‘caráter’”. ou seja. Booth abraça o projeto humanista de ilustração por meio das letras. a conclusão lógica. um debate cujas origens podem ser remetidas aos Livros III e X da República de Platão. com seu The company we keep. que ele define como uma “Conversa celebrando as muitas maneiras em que as narrativas podem ser boas para você – com vislumbres de como evitar seus poderes para o mal” (p. necessária. Qualquer tentativa de sustentar este último postulado – de que algumas ficções realmente valem mais que outras – só poderia “respeitar a variedade” interrogandose sobre os processos históricos por meio dos quais certos valores foram conferidos àquelas ficções. Consciente de que as condenações moralizantes de uma tradição que vai de Platão a Leavis deram à crítica ética uma má fama. ix). Se não..Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate.

Os tropeços da crítica ética seriam explicáveis por sua tentação especial de “sobre-generalizar”. aquela área cinza que permitiria ao crítico evitar qualquer “silogismo universal” (esta obra é boa porque apresenta X. pode ser bom para você mas não para mim. A necessidade de caminhar sobre a corda bamba que separa o reconhecimento das contingências históricas do compromisso humanista leva Booth a fazer uma série de gestos na direção do relativismo: o que é bom cá não é bom lá. Booth quer aceitar o pluralismo hermenêutico da teoria literária contemporânea sem abrir mão do absolutismo da filosofia moral. de Shakespeare. por mais variável que se conceda que ele seja.. portanto todas as obras que apresentem X. 2009 aos quais o prefácio alude.15. uma dose excessiva de qualquer valor (seja a ironia. A solução moderada busca um pluralismo que mantenha a referência a um valor intrínseco o qual. Daí sua busca do meio do caminho. qualquer virtude levada ao extremo pode destruir as outras.. com sua insubstituível função moral reassegurada. n. a grande literatura emerge intacta. Depois de superar essas caricaturas. uma minuciosa tentativa de aceitar a variabilidade de interpretações sem deslocar a discussão do terreno do valor intrínseco ao campo da valoração social. como o contraste entre King Lear. termina sempre transcendendo os conflitos da valoração social. O objetivo é evitar os “riscos” de “fechamento” ou “abertura” excessiva. Booth “realiza” essa tarefa por meio de uma série de exercícios de reductio ad absurdum. No momento em que a teoria não consegue . etc. e um exemplar da revista pornográfica Hustler.120 Revista Brasileira de Literatura Comparada. ou entre um poema de Yeats e uma brincadeira improvisada em verso. a abertura formal ou qualquer outro) pode ser prejudicial em vez de positiva. então. Company é.) sem renunciar à premissa de um valor ético intrínseco à literatura e a algumas obras literárias mais que a outras. A reductio ad absurdum será uma das estratégias retóricas favoritas dos que mantêm a referência ao valor estético como propriedade intrínseca e resistem ao argumento de que o valor só pode ser entendido por meio da remissão ao seu solo social.

85). 73). Ao se referir à crítica contemporânea. o terreno está preparado para que o liberal sensível procure a conciliação razoável. Mas Booth parece ter entendido mal a teoria da contingência. Afirmar que a valoração é socialmente contingente não significa dizer que todos os agentes valoradores são igualmente competentes. e sim liberal. Essa afirmação repousa sobre a premissa de que o valor é uma espécie de propriedade inerente ou essência eterna. “a recorrente ansiedade / acusação / reclamação de que a menos que se possa demonstrar que um juízo é mais ‘válido’ que outro. Essa mitologia da ponderação não deixa de operar na teoria. Os ataques ao “subjetivismo” do ponto de vista de uma ética humanista são bem conhecidos e Booth os repete em seu livro: “pressupõe-se claramente uma completa equivalência na competência de todos os intérpretes no argumento de que as obras não possuem ou exercem valor inerente. todos os juízos devem . ou seja. compare-se a Divina comédia com um exemplar da Revista Veja... constate-se a óbvia diferença entre os valores intrínsecos e o problema está “resolvido”. Sempre que se remete um problema à “tentação de sobre-generalizar”. posição que Booth descarta como “subjetivista” (p. Booth afirma que “a ênfase na variedade de interpretações nos diz pouco sobre o valor real das obras” (p. e que seu próprio conteúdo só pode ser compreendido com referência ao contexto particular em que algumas habilidades contam como competência e outras. Ao contrário do que argumenta Booth. 121 fundamentar essa transcendência. seu pluralismo não é radical. ou seja. A equação imaginária entre a contingência social do valor e uma suposta igualdade entre os agentes valoradores é o que Barbara Herrnstein Smith denominou a falácia igualitária. mas que somente são valoradas” (p. 84).Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. Significa que “competência” não é um significante com sentido unívoco e eterno. ela pressupõe uma recusa a considerar o argumento de que todo valor é produto do choque de valorações contingentes e historicamente variáveis. não.

progresso do espírito. e sim articulados por meio de conflitos sociais. A falácia igualitária confunde uma posição social construtivista com uma posição moral e estética relativista. Se os imanentismos formais não escapam da axiologia. de alguma forma. padece da impossibilidade de fundamentá-los mais além da tautologia. mergulho na alma humana. 2009 ser ‘iguais’ ou ‘igualmente válidos’” (Smith. 85). idênticos uns aos outros. A falácia é que. digamos. n. por mais que se queiram descritivos. 1988. Na verdade. Com efeito. p. Eis aí a falácia da ansiedade essencialista que preconiza que. renovação da linguagem. diferentes vertentes da crítica prescritiva arrolaram fundamentos transcendentais a partir dos quais a literatura deveria ser julgada: formação do caráter. .122 Revista Brasileira de Literatura Comparada. que não esconde seu compromisso com a noção de que a literatura deve defender valores éticos. Como a desconstrução e o marxismo nos ensinaram de diferentes formas. é precisamente porque os juízos não são igualmente válidos que os valores nunca são intrínsecos. É exatamente por causa do fato de que as valorações não são nem válidas da mesma forma nem identicamente posicionadas nas relações sociais que elas jamais são intercambiáveis. por definição. Note-se um exemplo em Booth: “me parece difícil acreditar que se uma pessoa de nossa cultura que é completamente inexperiente em literatura não vê absolutamente nenhum valor. suas opiniões sejam tão pertinentes a nosso discurso sobre Faulkner como as opiniões de leitores experientes” (p. a crítica humanista. 98). sempre há que se perguntar qual sujeito da enunciação se esconde por trás de um pronome de primeira pessoa do plural. idênticos a si mesmos. A falácia igualitária se sustenta no que Marx chamava de “robinsonada”. não teriam a mesma pertinência para o “nosso” discurso. se a compreensão do conceito de valor se deslocou de uma imanência dormente a uma rede de relações sociais.15. uma espécie de grau zero da axiologia que replica a ilha de Daniel Defoe. os valores ficaram. nos romances de Faulkner. obviamente. uma pessoa inexperiente em literatura não poderia pertencer à mesma cultura e suas opiniões.

porque sua contribuição ao progresso social é a generosidade de se oferecer para rápida ingestão e descarte” (p. neo-historicistas e afrocêntricos seriam os agentes contemporâneos de uma “Escola do Ressentimento” que “nega a Shakespeare sua palpável supremacia estética” (1994. 22). A pergunta: “por que deve ser este o valor a partir do qual julgar a literatura?” não pode ser respondida imanentemente. desconstrucionistas. podemos censurar qualquer coisa.. 123 defesa do legado ocidental. crítica estética e pânico ocidentalista Para Harold Bloom. a única resposta possível é: quem ja- . um processo de regressão infinita. lacanianos. emancipação do proletariado. Vários “defensores do cânone ocidental” reagem nervosamente à demonstração da impossibilidade de autofundamentação imanente do valor estético. em seu Altas literaturas. uma estrutura abismal. é inevitável.. feministas. Ela dispara. Ironicamente. Diante de certas frases de Bloom. em seu O cânone ocidental e. A fundamentação do valor na estética teria. assim. 30). de Leyla Perrone-Moisés. Mas nenhum desses fundamentos se sustenta como base de uma estética sem remissão a outro valor que o justificaria. p.Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. 20) e proclama “a abertura do Cânone” (termo que Bloom insiste em grafar com maiúscula) para a incorporação de obras que “não devem e não podem ser relidas. como “o radicalismo acadêmico chega ao ponto de sugerir que as obras se incorporam ao Cânone por causa de propagandas [advertising] bem-sucedidas e campanhas de doutrinação [propaganda]” (p. 20). exceto não ter tornado bem visível o seu próprio ressentimento. uma alteração da ordem vigente provocará a sensação de que qualquer ordem está se tornando impossível. em alguém que responsabiliza a Escola do Ressentimento pelo fato de viver “no que considero a pior de todas as épocas para a crítica literária” (p. marxistas. É o que vemos nas críticas estéticas de Harold Bloom. Para quem experimenta uma contingência como se esta fosse uma não-contingência. no Brasil.

e o livro de Bloom não ajuda. pois nas centenas de páginas de queixas ressentidas contra a tal Escola de Ressentimento. ele não nomeia seus supostos integrantes. Mais que atacar Bloom. O mais surpreendente é que essa posição – defendida nos EUA por Harold Bloom. de Sandra Gilbert e Susan Gubar. 40) – e é ubíqua sua afirmativa de que Shakespeare é o pai de todos –. ensaísta que não tem nenhum histórico de associação com o conservadorismo político. retiremos mais um axioma: quanto mais ameaçados se sintam os guardiães da suposta universalidade de um determinado valor. como The signifying monkey. Se é correto afirmar que parte da crítica contemporânea se dedica a questionar o processo de emergência dos cânones. a ser representada no Brasil por Leyla Perrone-Moisés. ou de um ponto de vista afro. que talvez seja a mais ilustre barthesiana da América Latina e cujos primeiros livros foram escritos na mais absoluta alegria e afirmação. é impossível não se perguntar que pai é esse que. n. de Henry Louis Gates. 2009 mais disse isso? Qual feminista ou “afrocêntrico” de relevo disse algum dia que a incorporação de uma obra ao cânone se deve ao advertising e à propaganda? Desconhece-se. seria difícil encontrar um estudo sério defendendo algo que vagamente lembrasse a caricatura apresentada por Bloom. Nas obras que se dedicaram a revisar o cânone a partir de uma perspectiva feminista.15.124 Revista Brasileira de Literatura Comparada. É verdade . produz filhos tão bárbaros como os desprezíveis afrocêntricos e feministas. Se Bloom insiste com tanta ênfase em afirmar que “Shakespeare inventou a todos nós” (p. um crítico associado à direita mais conservadora – passou. trata-se aqui de assinalar um paradoxo bem curioso que veremos reiterado no lamento contra os estudos culturais. mesmo perfeito. quando mais socialmente precário seja seu fundamento. certamente não encontramos nenhuma equação entre a construção do cânone e a propaganda. como The madwoman in the attic. menor será sua capacidade de entrar em genuíno debate com a força emergente que aponta o caráter contingente desse valor. Da leitura de Bloom. há uma década e meia.

de sujeitos ocultos e de sintagmas como “alguns grupos”. gerando a dúvida sobre se ela realmente os terá lido.. a palavra ocidental foi suprimida na denominação dos cursos sobre cultura (Perrone-Moisés. introdutor dos estudos “póscoloniais”. p. ao ler que Barbara Herrnstein Smith “considera que o juízo de valor é indesejável” (Perrone-Moisés. Na Universidade de Stanford. por pressão dos grupos particularistas. acrescido do altamente antiantropofágico medo de que o Brasil se contamine pela influência norte-americana: “o lamentável de tudo isso é que muitos universitários brasileiros estejam recebendo essas tendências norte-americanas sem o menor espírito crítico” (Perrone-Moisés 1998.Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. Foucault. posto que todo o livro de Smith é uma análise do porquê dos juízos de valor serem inevitáveis. Parecem não ter obra. 1998. Nos momentos em que Leyla Perrone nomeia duas figuras envolvidas com o debate sobre o cânone nos EUA – John Guillory e Barbara Herrnstein Smith –. 125 Minha primeira reação. como aquele que foi ministrado em 1936 na Universidade Columbia por Lionel Trilling e outros. mas o diagnóstico do que teria acontecido a partir da chegada dos estudos culturais é fundamentalmente o mesmo.. 1998. “os anti-canônicos”. “os particularistas”. 3 que a ensaísta brasileira se diferencia de Bloom. Observe-se.3 Tomemos o diagnóstico da ensaísta brasileira sobre as raízes da perda de relevância social da literatura e da daninha influência norte-americana: Um curso de humanidades baseado na leitura de ‘grandes obras’ do Ocidente. “a formação desse cânone foi examinada do ângulo ideológico”. 192). O turco Homi K. p. colheu suas referências principais em Derrida. Bhabha. “as feministas norte-americanas”. seria hoje impensável nos Estados Unidos. Kristeva. no capítulo 5 de Altas literaturas. 196). Jamais sabemos quem são eles. p. dedicado ao diagnóstico do presente. 195). foi posto sob suspeita”. Reencontramos em Altas literaturas o mesmo procedimento de Bloom: o ataque a um adversário cujos representantes não são nomeados e ao quais não se concede a generosidade da citação. 230). Também é bastante irônico . foi achar que se tratava de um erro tipográfico. ela lhes atribui posições diametralmente opostas às que defendem em seus livros. Lefort etc... p. a abundância de vozes passivas (“o cânone ocidental .

aliás. uma rápida busca nos sistemas das cento e três instituições catalogadas pela Carnegie Mellon como Research universities demonstra que esses quatro autores continuam abundantemente presentes em cursos. 2) Bhabha não é o “introdutor” dos estudos pós-coloniais.. Melville.. As exclusões ideológicas têm tido um efeito imediato e lamentável nos currículos norte-americanos: Mark Twain e Faulkner. Excluir do cânone um Dante. porque antiecológico etc. para nele incluir os então excluídos [. mas é sabido que a noção de ideologia tem pouca circulação nos teóricos pós-coloniais. e sim indiano.].. causa estupefação a afirmativa de que é hoje “impensável” um “curso de huma- .. 2005) apontam como momento inaugural a publicação de Orientalismo (1978). Melville e Hemingway do currículo. Faulkner. porque eram escravagistas. porque era caçador e machista. uma vingança extemporânea [. 198-199). seja na pós-graduação em literatura. de Edward Said. seria. seja na licenciatura em inglês. 194-195).. que herdam de Foucault a suspeita ante o conceito. para colocar em seu lugar alguma mulher medieval que porventura tenha conseguido escrever alguns versos não seria ato de justiça. (p. no máximo.126 Revista Brasileira de Literatura Comparada. [. sem citações. Fica difícil realizar um debate a partir de tantos erros factuais. bem europeia e humanista.] há um contra-senso histórico no desejo de modificar o cânone passado. Hemingway. campo de estudos cujas genealogias unanimemente (Desai e Nair. exames e teses.. palestino-americano de formação. já que Leyla Perrone os caracteriza genericamente. 5) Para qualquer conhecedor do sistema universitário norte-americano. 3) Não se sabe quais seriam esses teóricos pós-coloniais que se insurgem contra “o que chamam genericamente de ‘ideologia ocidental’”. munidos de argumentos iluministas historicamente tão ocidentais quanto o repudiado imperialismo (p.15. Corrijamos alguns: 1) Homi Bhabha não é “turco”. n. 4) Desconhece-se universidade estadunidense que tenha excluído Mark Twain. 2009 que os “pós-coloniais” se insurjam contra o que chamam genericamente de “ideologia ocidental”.].

Newsweek e Wall Street Journal acerca da polêmica em Stanford que desatou as chamadas “guerras culturais” nos EUA. cito o que está sendo ministrado na minha própria. Fanon e Coetzee. 1993) teria sido suficiente para evitar o erro. tulane. Como exemplo. Como sabem quase todos.Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. Primo Levi. Em março de 1988. O curso do segundo semestre cobre da Antiguidade até a Idade Média. Casement. em uma das grades. 1996. inclui Dante. 4 nidades baseado na leitura das grandes obras do Ocidente”.4 Não é exatamente uma seleção escalada por uma afrofeminista radical. num debate já informado por . Hobbes. Rousseau. os currículos universitários norte-americanos incluem um curso de obras-primas ocidentais que percorre. Nietzsche. O curso que costuma atender pelo nome de Great Books é um dos mais comuns em qualquer grade curricular de qualquer boa universidade estadunidense. e nele não há sombra de “alguma mulher medieval que porventura tenha conseguido escrever alguns versos”. no primeiro semestre de 2010: a lista de leituras consiste em Maquiavel.. onde se incluíam textos “não-ocidentais” como os de Frantz Fanon e Rigoberta Menchú. um trajeto que vai de Homero (ou Platão) a Nietzsche.. É lamentável que uma ensaísta que dedica páginas a criticar as simplificações da cultura de massas e da mídia reproduza a distorção veiculada por Time. em geral. o Senado de Stanford decidiu aprovar uma proposta de substituição de um desses cursos de “cultura ocidental”. 2001. por um curso intitulado “Culturas e valores”. Virginia Woolf. Uma breve consulta à bibliografia séria acerca do incidente (Pratt.edu/web/default. são parte de oito grades dentro das quais o aluno pode cumprir os requisitos de humanas. Cervantes. embora esses autores também sejam lidos numa série de cursos que. Stendhal. Dentro de Stanford. 6) A incrível afirmação de que em Stanford “a palavra ocidental foi suprimida na denominação dos cursos sobre cultura” merece parágrafos à parte. Freud. a implantação do novo currículo foi absolutamente tranquila. asp?id=Courses>. Marx. em Stanford. Dostoiévski. 127 A lista de leituras está disponível em: <http://honors. Graff. de cunho comparativo. Tulane.

2004. O livro de D’Souza atacava especialmente a incorporação ao currículo do testemunho de Rigoberta Menchú. um think tank de direita). a direita republicana concluía oito anos de controle sobre a Casa Branca. estava pronta para presenciar a queda do comunismo e identificava na cultura a nova guerra que deveria vencer. narrou verbalmente sua história de vida à antropóloga Elizabeth Burgos. Herbert London (fundador do Hudson Institute.128 Revista Brasileira de Literatura Comparada. A votação no Senado foi normal. Allan Bloom. 5 . de Sobre o caráter ubíquo que tem adquirido a cultura como terreno onde se jogam os antagonismos políticos. William Bennett (ex-secretário de educação no governo Reagan).15. ver o belo livro de Yúdice. Menchú. Desde Watergate. n. Estavam lançadas as sementes do que se conheceria depois como “as guerras culturais”.5 Em 1988. autor do best-seller Illiberal education. ao “assassinato de Shakespeare e Platão” e à “intimidação de ativistas estudantis”. autor de The closing of the American mind. passariam a acusar Stanford de jogar no lixo a cultura ocidental. que aprendeu espanhol já adulta. A grande imprensa passou a dedicar blocos de seus programas à “eliminação da cultura ocidental no currículo das universidades americanas”. Os neoconservadores sabiam que era no terreno da cultura que se jogaria a cartada decisiva. as forças conservadoras do país passaram a dedicar intenso esforço à vitória na luta cultural. e Dinesh D’Souza. entre outras generalizações provocadoras de pânico. 2009 anos de reflexão sobre a necessidade de oferecer outras versões sobre a modernidade. a queda de Nixon e a consequente desmoralização da direita americana. grupos religiosos e o Partido Republicano acompanhavam o debate de perto. acabava de estrangular a revolução centro-americana. ativista guatemalteca de etnia maiaquiché. Investiram-se milhões de dólares na construção de think tanks como a Heritage Foundation. O relato é indissociável das atrocidades cometidas na guerra civil da Guatemala nos anos 1970 e 1980. exceto por um detalhe: as principais fundações da direita norte-americana. mas tudo correu dentro da normalidade que se espera de uma revisão curricular como qualquer outra. A defesa do projeto foi ligeiramente politizada por grupos de estudantes.

não em projeções fantasmáticas. Proponho desenvolver aqui uma ideia que parecerá estranha aos que acompanham as discussões sobre o valor. Os exemplos citados acima ilustram algo que é frequentemente esquecido por ambos os lados no debate sobre o valor. creio ser desnecessário confirmar que a presença do termo “ocidental”. valor literário e apocalipse Daí não se conclua que tudo vai bem com o ensino de literatura nos EUA.. é atrocidade também. 129 responsabilidade de uma ditadura financiada pelos EUA. bem menos dramática do que seria de se imaginar por intervenções apocalípticas (“estão assassinando Platão e Shakespeare”) ou triunfantes (“estamos conquistando espaço para os excluídos”). É incoerente citar o axioma benjaminiano acerca da inseparabilidade entre documento de cultura e documento de barbárie (Perrone-Moisés. O que enfurecia no testemunho de Menchú era que. latino-americano e ocidental têm se transformado de maneira lenta e modesta.Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. jamais esteve em perigo. Apesar das aparências. Dito de outra forma: o conceito de valor abre um horizonte riquíssimo .. especialmente aquelas marcadas por ansiedades quanto aos estudos culturais: a rentabilidade do debate sobre o valor estético costuma ser inversamente proporcional à sua acoplagem ao problema do cânone. os cânones brasileiro. O livro dizia: o ocidente é isto aqui também. em incontáveis cursos de Stanford ou de qualquer outra boa universidade norte-americana. ou que não exista nada a se criticar nos estudos culturais e nas plataformas feministas ou étnicas de revisão do cânone – simplesmente é melhor fazer os balanços disciplinares com base em fatos e bibliografia. 202) e reagir com pânico no momento em que se extrai uma mínima consequência prática da profunda e radical verdade desse axioma. ao ser incluído num currículo universitário de culturas ocidentais. A estas alturas. p. 1998. ele dava uma resposta implícita aos que idealizam o Ocidente ou “os valores ocidentais” como cavalos de batalha morais.

São eles: maestria técnica. escritura e Falência da crítica em minha própria entrada na profissão e. concisão. Perdido nesse debate fica o fato óbvio. pela estatura intelectual inegável de sua autora. há uma diferença nítida com Bloom. Haroldo de Campos e Sollers contrastam nitidamente com a desinformação do capítulo final. pelo papel que cumpriu a beleza cintilante de livros como Texto. que defende seu cânone com base numa naturalização muito menos reflexiva.130 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Essa redução une esteticistas e culturalistas. Essa extrema honestidade intelectual me fascina em Altas literaturas. atenta ao fato de que esses valores podem estar . pelo fato de que a obra não esconde os seus pressupostos axiológicos. Calvino. utilidade. impessoalidade. Leyla Perrone está. 2009 para a crítica literária. mas pouco analisado. sim. de que o conceito de valor não se reduz a suas consequências para o cânone. Butor. Leyla Perrone encontra alguns valores que seriam comuns a todos. O contraste me fez recordar a observação de uma saudosa professora. acima de tudo. intensidade. Pound. Aqui.15. que insistia que os críticos literários deveriam escrever sempre sobre aquilo de que gostam. Depois de mapear os paideumas dos escritores-críticos modernos. Aqui. por sua importância no debate crítico brasileiro. exatidão. completude e fragmentação. inclusive. Dificilmente encontraremos uma síntese tão exata dos valores que balizam a prática literária moderna. Borges. Paz. A paixão e a erudição com que a autora escreve os capítulos sobre Eliot. que teria sido mais um magnífico livro de Leyla Perrone caso ela o tivesse interrompido na página 173. universalidade e novidade. crítica. que só é obscurecido se o reduzimos ao problema de quais autores farão parte do panteão de leituras obrigatórias. sobre a suposta barbárie que ela vê nos tempos atuais. n. visualidade e sonoridade. Pode-se criticar qualquer coisa na defesa que faz Leyla Perrone do cânone moderno. menos a falta de explicitação dos valores que a orientam. continuo tomando Altas literaturas como interlocutor privilegiado. “ocidentalistas” e “particularistas”. intransitividade.

não seria a utilidade o oposto da intransitividade? Como conciliar fragmentação e completude? Tecendo uma série de refinadas distinções. alargar e valorizar nossa experiência do mundo.. já não a poesia. a ensaísta brasileira afirma: Se nós acreditamos que a literatura tem a alta utilidade de esclarecer. mas que isso não impede Eliot de ver a utilidade da literatura na “preservação do idioma” ou Sollers de associar “transgressão poética e subversão política” (p. Supondo-se que esses traços são distintivos da modernidade crítica. ela mostra que os modernos coincidem na “independência do objeto estético” (p. 160-163).Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. Em resposta à pergunta “para que serve a literatura?” – ou seja. No entanto. 164) – ou seja. a intransitividade –. a lista de características privilegiadas por oito escritores-críticos que produziram o fundamental de suas obras num brevíssimo intervalo de tempo (pouco mais de meio século) pode balizar a compreensão do que a modernidade literária pós-romântica privilegiou na sua prática.. mas ainda não diz nada sobre o valor estético como tal. 131 em contradição uns com os outros: afinal. Esta última. a ficção e o ensaísmo da modernidade crítica pós-romântica. para os modernos. não é contraditória com o ideal da obra aberta (p. 165). Seria a Divina comédia um poema “fragmentado”? Teria a Odisseia o dom da “concisão”? Como explicar o fato de que. mas a literatura como tal –. permaneça inconteste o valor estético de obras escritas a partir de pautas diferentes e muitas vezes contraditórias com aquelas privilegiadas em suas próprias práticas? Em outras palavras. . como fundamentar um conceito transhistórico de valor estético? Leyla Perrone não se furta a encarar o problema. ainda restaria a pergunta acerca do que fundamenta o valor estético encontrado por todos eles em obras que não pertencem à modernidade e que foram escritas de acordo com outras pautas. entendida como coerência interna. O mesmo se aplica à aparente contradição entre fragmentação e completude.

digamos. O objetivo aqui não é caçar contradições no discurso alheio. serve para valorizar a experiência humana. Jorge Amado sobre. digamos. No limite. seria difícil não escolher. mas exemplificar um postulado teórico que se desprende da leitura de uma de nossas mais sofisticadas ensaístas: qualquer definição trans-histórica de literatura. Afinal de contas. como tal. 21-22). No entanto. E se a fruição da literatura. poderíamos perguntar: Quem é o “nós” sujeito do verbo “acreditar” nesse trecho? Estamos todos os consumidores de literatura incluídos nele? Será mesmo tão impossível imaginar uma comunidade de leitores para os quais a “utilidade” da literatura seria justamente a oposta. seremos levados a defender um certo tipo de história literária: aquela que otimiza a fruição das obras (p. Kafka. 2009 admitiremos que a história do conjunto de suas realizações maximiza o proveito que podemos tirar do contato com cada realização particular. a “experiência humana” que retrata a obra deste último é uma repetição infinita de uma alienante brutalidade incognoscível para o sujeito. não seria absurdo dizer que a impossibilidade de “esclarecer. alargar e valorizar nossa experiência do mundo” é o tema mesmo da obra kafkiana. Kafka é pilar central do cânone estético defendido por Altas literaturas.15. Algum aluno impertinente poderia encontrar uma contradição entre essa definição de literatura e o cânone defendido pelo livro. Muito pouco se “esclarece” ali.132 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Atendonos à definição que oferece Leyla Perrone para o que “serve” a literatura. perfeitamente plausível para alguém que trabalhe com uma definição historicizada e agnóstica de valor literário. n. no seu mais alto sentido de conhecimento e valorização da experiência humana. qualquer tentativa de defini-la em termos puramente imanentes fracassará no teste da falsificabilidade. Partindo-se do pressuposto de que a literatura. qualquer resposta essencialista à pergunta sobre sua natureza. certamente seria rejeitada em termos categóricos pela autora. e a afirmação de que Jorge Amado lhe é superior. . é o nosso objetivo.

A extrema erudição e extensão do romance não o impediram de tornar-se um bem-sucedido filme em mãos de Héctor Babenco.. de Alan Pauls – segundo muitos. no Passagen-Werk. 178). o romance póstumo do . 1998. 179). Aqui. em abstrato. exibem esse valor em medida superior aos demais.. 1991. El pasado (2003). como essência do texto literário.. segundo o Le Monde.. Sofia. 178). apaixonado por Sofia. prefiro ficar com Walter Benjamin.. mas desvelar-lhe a miséria? “Para que serve” a literatura é uma pergunta para a qual não há resposta de antemão. “a literatura [. p. 133 não “esclarecer”. passaram a ser designados como “literatura”. não valorizá-la.. “o desafeto progressivo pela leitura é um fenômeno internacionalmente reconhecido” (p. que. A universalização. entre eles. 178). “os livros de ficção se tornaram mais curtos e mais leves” (p. o grande romance argentino da década e. de um conjunto de postulados próprios a uma região e um momento histórico só pode levar à incapacidade de ler o presente a não ser como queda: “a literatura [. “os novos escritores [. 2666.. apaixonada por seu amor por Rímini.] publicam livros light” (p.. num momento muito recente – o século XVIII –. mas embaçar a experiência do mundo.] está muito ameaçada” (p. 571). Nos últimos anos. o grande romance de amor do novo século –. 178). sem referência aos conflitos e pactos sociais que presidem a circulação dos artefatos verbais que. a literatura latino-americana ofereceu abundantes contraexemplos à percepção de que a ficção se encaminhava necessariamente na direção do mais breve e light. O apocalíptico e o otimista progressivo representam duas faces da mesma moeda.] recolheu-se a um canto” (Perrone-Moisés. desenvolve em mais de 500 páginas recheadas de um vasto saber psicanalítico e cinematográfico uma história de amor marcada por uma essencial e deliciosa assimetria: Rímini. Não há respostas imanentes às perguntas acerca de qual é o valor desses artefatos e quais. p.Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. “Não há períodos de declínio” (Benjamin. apontava que a crença nos períodos de declínio é coextensiva à crença entorpecida no progresso.

a de que o discurso coincidia com o início da apropriação bossanovista do samba de morro nos anos 1960. oferece. Os leitores das obras de Ana Maria Gonçalves. em mais de 800 páginas. nos anos 1930. Esses leitores com frequência testemunham que a sofisticação dos textos não é contraditória com o interesse gerado pela peripécia. Estupefato. nos anos 1950. Desde quando se diz isso? Minha hipótese inicial. em 1933. apresenta. Em meu trabalho sobre música popular. contradita pela sua aparição durante a compra dos sambas dos compositores negros do morro por intérpretes brancos de classe média.15. por sua vez. como Francisco Alves. historiografia e ficção sem nenhuma concessão ao naturalismo fácil. cujo refinamento não impediu que ele se transformasse em fenômeno editorial. ainda no contexto da Rádio Nacional. especialmente no caso deste último. interessou-me em certo momento a origem do discurso sobre a decadência do samba: “Já não se faz mais samba como antigamente”. Um defeito de cor (2006). 2009 chileno Roberto Bolaño.134 Revista Brasileira de Literatura Comparada. encontrei outras instâncias na época do sambaexaltação e da sobreorquestração do gênero no molde das big bands norte-americanas. Alan Pauls e Roberto Bolaño são bem mais numerosos que nos fariam crer os apocalípticos. O discurso de que o samba corre risco de morte tem a exata . numa narrativa que mescla testemunho. pelo jornalista Vagalume. foi contradita por inúmeras ocorrências anteriores dessa retórica. em mais de 900 páginas. Voltando ainda mais. Luisa Mahin ou Kehinde – possivelmente a mãe do poeta Luiz Gama –. uma saga narrada por uma escrava. que compra sua liberdade e percorre oito décadas de história brasileira e africana no século XIX. um relato que conjuga os horrores dos assassinatos de mulheres na fronteira mexicano-americana com um estudo da frivolidade cúmplice que Bolaño via como característica das cliques acadêmicas e literárias. A hipótese de que a percepção de uma decadência no samba datava dos anos 1940 foi. n. descobri que a afirmação de que já não se faz samba como antes aparece no primeiro livro escrito sobre o samba. da mineira Ana Maria Gonçalves.

Significa que a existência de profetas da queda do valor literário é tão antiga como a literatura mesma. Nada disso mudaria seu caráter contingente. Um determinado valor ou sistema de valores pode perfeitamente ser objetivo (na medida em que ele independe da subjetividade particular de qualquer membro da comunidade interpretativa). é “dentro da comunidade”. 30-53). 1998. 1988. A expressão-chave aqui. um dos fundamentos que presidem a emergência da própria comunidade. p. No espaço circunscrito da comunidade interpretativa em questão. relativismo e contingência O axioma da filósofa Barbara Herrnstein Smith é um achado mais complexo e frutífero do que parece à primeira vista: o valor é sempre e necessariamente contingente (Smith.. Um valor é sempre o resultado de uma luta mas. Bastaria pensar no considerável poder de tração de valores como o mester de clerecía (a técnica aprendida na tradição) na literatura tardo-medieval hispânica. o fato de que em 1964 o poeta mexicano Octavio Paz tenha reunido uma lista de sinais de decadência da literatura não quer dizer que “a situação em que hoje vivemos foi claramente prevista” por ele (Perrone-Moisés.. um dos elementos constitutivos da comunidade mesma. absoluto (posto que não relativizável dentro de tal comunidade) e motivado (no sentido de que sua origem não é produto de uma eleição puramente arbitrária). A coincidência de contingências que conferem inteligibilidade a um valor pode ser. a adequação aos modelos da Antiguidade na literatura . esse valor contingente tenderá a aparecer aos membros da comunidade interpretativa como uma não-contingência. Antes que a patrulha antirrelativista afie suas garras. 179). 135 idade do samba.Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. inclusive. uma vez consolidado. e continuaria sendo contingente. um valor pode ser absoluto. p. Da mesma forma. objetivo e motivado. claro. é bom esclarecer que “contingente” não quer dizer “subjetivo” nem “relativo” nem “arbitrário”. axiologia.

n. Os juízos discordantes tenderão a ser lidos como deficiência ou falta de cultura do sujeito valorador. seja qual for a crítica que se possa ter à estética do realismo mágico. que afirmavam que o melodrama de Allende lhes falava à experiência de uma forma que a saga de García Márquez não fazia). Um exemplo análogo. É claro que é possível questionar essa valoração (e já encontrei vários leitores. A casa dos espíritos.15. ou a inovação e a ruptura nas vanguardas de princípios do século XX. mas ela não é uma teoria da literatura e do valor estético como tais. de Gabriel García Márquez. Esse questionamento. Em cada um desses casos. com Cem anos de solidão. A afirmação não está na esfera do indizível. realizou uma transcendentalização de um processo que era imanente à comunidade valorativa em questão. sua versão original. não pode ocorrer sem que o sujeito se instale em posição exterior a um consenso crítico que preside as comunidades interpretativas nas quais circulam esses textos. a justificativa de um valor contingente fez uso de um vocabulário da nãocontingência. mas ela não . ou seja. O grau de estabilidade de um determinado sistema de valores em sua respectiva comunidade não diz nada sobre sua suposta obviedade. nem sobre as propriedades intrínsecas do objeto valorado. desfruta de um valor ausente em. particularmente leitoras.136 Revista Brasileira de Literatura Comparada. digamos. no Brasil. de Isabel Allende. a não ser como sinédoque cega a suas próprias condições de produção. no entanto. seria o hipotético leitor que adentrasse as comunidades interpretativas dentro das quais circula o romance dos anos 1930 para propor a tese de que Jorge Amado é superior a Graciliano Ramos. mas expressa a naturalização do pacto valorativo. Os juízos que se adéquam ao pacto valorativo dominante tenderão a ser lidos como confirmação da obviedade e naturalidade dos valores implícitos no pacto. Tomemos um exemplo latino-americano: é amplamente hegemônica a percepção de que. 2009 neoclássica do século XVIII. especialmente na França. A transcendentalização dos resultados de um pacto particular é uma estratégia comum e recorrente nas querelas entre escolas e estilos literários.

claro. Nietzsche não foi. Com esse axioma. Mas. No caso do valor estético. no interior de uma comunidade interpretativa. que afirmaria que todos os valores seriam igualmente válidos ou. mais baixos. que não há “justiça” até o momento em que o mais forte estabeleça sua lei. A única possibilidade que restaria a esse hipotético leitor seria desvendar a natureza contingente da aparente naturalidade da valoração anterior. uma vez que os leitores sejam educados direitinho. valores de escravo. Nietzsche sugeria. Nessas polêmicas. confundida com o bicho-papão do relativismo. não por acaso.Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. ou seja.. Os defensores da naturalidade do pacto valorativo em geral replicarão com a falácia desenvolvimentista: o argumento de que a percepção minoritária é produto de uma deficiência do sujeito valorador e que. daninhos à afirmação da vida. A posição que apresento aqui é. o neokantismo de princípios do século XX leu como “relativistas” afirmações do tipo “falar de justiça e injustiça em si carece de todo sentido” (Nietzsche. Ao questionar a obviedade de valores como “bondade”. a acusação de relativismo invariavelmente remete a uma suposta tendência dos estudos culturais – ou das demonizadas feministas e afrocêntricos . questionar a totalidade do pacto valorativo. Ele afirmou taxativamente que os valores socrático-cristãos são piores.. que “daria tudo na mesma” (um dos expoentes dessa desleitura. no Brasil. 312). para usar a fórmula popular. 1967-77. A acusação de relativismo tenderá a se repetir quando. 137 pode ser acomodada nos pactos valorativos dentro dos quais circulam os romances desses dois autores. Nietzsche ensinou algo acerca de como funcionam as operações de naturalização. “piedade” e “humildade”. vale sempre a regrinha: ao ver alguém ser acusado de relativista. um relativista. com frequência. que insiste em igualar desconstrução e relativismo). dê uma olhada no absolutismo de quem acusa. for exposta a contingência que sustenta um valor supostamente absoluto. de forma alguma. p. é o filósofo e poeta Antonio Cicero. todos reconhecerão que não há como negar a superioridade estética de García Márquez sobre Allende.

Aceitar essa diferença seria um pré-requisito para qualquer discriminação de valor. rigorosas. mas não prevê compassos que misturem de forma sistemática agrupamentos dos dois tipos. 2009 – de não aceitar a “óbvia” diferença de “qualidade” entre os grandes monumentos da modernidade e as formas estéticas mais populares ou massivas. menos complexas. Ora. o heavy metal. 9/8). a partir do século XX. os estudos de música brasileira trabalharam com a noção de síncope como “irregularidade” essencialmente africana. Para seguir com a analogia musical: durante décadas.15. Carece de qualquer fundamentação filosófica a ideia de que a viabilidade do conceito de valor estético dependa da aceitação de uma diferença essencial. Está demonstrado. p. se essa distinção de valor não é aceita. n. Qualquer consumidor de música popular que acompanhe. a acusação de relativismo costuma pressupor que. passou a ser agrupado sob o rótulo de “música clássica”. poderá testemunhar acerca da miríade de distinções de subgêneros baseadas em andamento. 4/4) e compostos (ternários: 6/8. temática das letras.138 Revista Brasileira de Literatura Comparada. nenhuma distinção de valor é possível. Ou seja. que as distinções valorativas realizadas pelos fãs de música popular não são. grau de distorção. Recorro à etnomusicologia. na qual me parece que o conceito de valor está colocado em terreno mais sólido. 1996). instrumentação. 409). O próprio Mário de Andrade faz referência a ela como característica “tida em geral como provinda da Africa” (1987. timbre ou padrão rítmico – distinções incompreensíveis e ilegíveis para aqueles situados fora do pacto valorativo que preside o consumo do gênero. com pesquisa formal e etnográfica (Frith. absolutamente. multifacetadas ou especializadas que aquelas feitas pelos ouvintes do heterogêneo corpus de peças europeias modernas que. vocalização. 3/4. por exemplo. tal “irregularidade” provinha do fato de que a teoria ocidental prevê compassos simples (binários: 2/4. imanente entre o valor das obras agrupadas sob a rubrica da arte erudita e o valor daquelas que convencionamos chamar de populares ou massivas. performance. volume. exatamente a mistura que .

irregulares (exigindo. 2001. 1993. o recurso gráfico da ligadura e o recurso analítico da contagem) – em uma palavra. dedicando-se exclusivamente a repetir seus velhos clichês e a responder às exigências estereotipadas de seu público” (Piglia. 26). nos últimos trinta anos. de Bestiario. 2006. a avaliação mais recorrente de Cortázar é que se trata de um escritor em cuja obra talvez se salvem os primeiros contos. para sua correta execução.. Na Argentina. que não possa vir a fazê-lo num momento futuro). incluindose um que ilustra minhas críticas às revisões feministas. Dois exemplos. ajudarão a encaminhar a conclusão teórica. p.. uma “perfumaria free tax de aeroporto” (Abraham. 2008) e “está escrito para candidatos de agência de turismo cultural”. 139 é uma das marcas da música da África subsaariana. como síncopes” (Sandroni. 39). “depois de Todos los fuegos el fuego já não escreveu mais. Uma determinada conjunção de fatores estéticos e políticos criou as condições para uma leitura celebratória de Cortázar nos anos 1960. étnicas e pós-coloniais do cânone. O valor rítmico contramétrico era ilegível numa notação construída para descrever e privilegiar a harmonia. Incontáveis são juízos contemporâneos que veem O jogo de amarelinha como romance que “sofreu enormemente a passagem do tempo” (Sarlo. Na Argentina. é hoje invariavelmente visto como “escritor para adolescentes” (Aira. p. nota-se uma acentuadíssima queda no capital cultural de um escritor que chegou a ser considerado um dos maiores do continente. Os pactos valorativos na estética se tornarão visíveis em proporção direta à exposição do caráter contingente dos fundamentos que os sustentam. evidentemente. Julio Cortázar. mas não muita coisa mais. O resultado é que “ritmos desse tipo apareceram nas partituras como deslocados. que inspirou uma geração de neovanguardistas estéticos e revolucionários políticos. O fato é que hoje . 2001) que. 85). p. A chamada “irregularidade africana” não era senão a impossibilidade de que a partitura ocidental descrevesse apropriadamente o novo objeto.Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. anormais. A obra não parece ter renovado sua legibilidade depois daquele contexto (o que não quer dizer.

Juan José Saer. comuns nos anos 1960. oferece algo a ser pensado pelos dois polos do atual debate: a entrada do testemunho ao cânone literário. Era o auge dos movimentos de solidariedade à revolução centro-americana.15. n. mesmo no caso das obras mais politizadas. resultado de 25 horas de gravações realizadas pela antropóloga franco-venezuelana Elisabeth Burgos. uma vantagem do gênero em relação à literatura na representação dos excluídos. não quero me limitar a ilustrar o óbvio. Uma tese que se propusesse a comparar “o fantástico em Borges e Cortázar” é imaginável no Brasil. 6 . A publicação de Biografía de un cimarrón. O testemunho havia recebido um primeiro reconhecimento em 1967. sobre a qual as revisões feminista. 2009 seria bastante difícil encontrar um estudioso de literatura na Argentina que colocasse Cortázar no mesmo patamar de. quando Casa de las Américas criou uma categoria especial para o gênero em seu prestigioso prêmio. de Miguel Barnet. Um outro episódio de valoração. Mas na Argentina ela seria recebida como uma junção de termos incomensuráveis.6 Com o exemplo de Cortázar. publicou-se o testemunho de Rigoberta Menchú. Há uma lição menos óbvia a se extrair daí. hoje soariam risíveis aos ouvidos dos que circulamos no interior dos pactos valorativos que presidem a circulação desses textos. étnica e pós-colonial do cânone ainda não refletiram o suficiente: a incontornável descontinuidade entre valor estético e resultado político. como demonstra uma pesquisa nos bancos de dados da disciplina. comoveu uma série de críticos de esquerda que buscavam alternativas a uma política literária herdada do boom. As comparações com Jorge Luis Borges. na Espanha e talvez nos EUA.140 Revista Brasileira de Literatura Comparada. como a de Cortázar. Em 1983. Seguindo-se à Agradeço a Mariano Siskind pela interlocução sobre a perda de capital cultural de Julio Cortázar na Argentina e também pela citação de Beatriz Sarlo. por exemplo. gerou comentários acerca de uma suposta transparência da voz testemunhal. também latino-americano. que o valor dos escritores na Bolsa Literária (segundo a feliz expressão de Leyla Perrone-Moisés) muda no tempo e no espaço. e a história de Menchú. formada na luta contra os horrores do regime guatemalteco.

em geral um antropólogo) levou a própria crítica a matizar a euforia do primeiro momento. homossexuais. p. como chegaram a lamentar Roberto González Echevarría e outros expoentes da direita crítica latino-americana. 51-104) relativizaram a “revolução” testemunhal que parte da esquerda anunciara nos anos 1980. Entretanto.Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. A incorporação de depoimentos dos subalternos ao cânone não representou nem um assassinato de Cervantes e Borges pela barbárie iletrada. p. de que enquanto a literatura na América Latina “tem sido (principalmente) um veículo para engendrar um sujeito adulto. masculino. o testemunho permite a emergência – mesmo que mediada – de identidades femininas. no interior dos estudos sobre o testemunho. ela funciona como explicação simples para o complexo quadro de perda de capital cultural da literatura. Tanto esteticistas como culturalistas sobrestimam as consequências da revisão de uma lista de leituras. 2001) ou no papel do testemunho como recuperação imaginária de uma vocação política perdida na literatura (Avelar. indígenas e proletárias” (1993. 141 publicação do testemunho de Menchú. George Yúdice opôs a literatura como “portadora privilegiada da identidade nacional” (1991. A euforia levava a declarações como a de John Beverley. 26).. como chegaram a celebrar John Beverley e George Yúdice. mas limitado. 98). p. 20) ao testemunho como “expressão de uma consciência liberada de tal elitismo” (p. a ênfase nas mediações por meio das quais a voz testemunhal se registra na escrita e a análise da descontinuidade entre a posição do depoente (um subalterno. O saldo do episódio da canonização do testemunho foi que o texto de Rigoberta Menchú produziu um impacto importante. nem um golpe ao poder “elitista” da literatura. logo absorvido pelo pacto valorativo que preside a leitura do corpus latino-americano. Estudos fundamentados no problema da mediação (Sklodowska. 1992). patriarcal e ‘letrado’. Para os primeiros. camponês ou imigrante) e a posição do mediador (um intelectual. . branco. 2003. em geral indígena. na aura de autenticidade da voz do subalterno (Moreiras..

Para uma genealogia do conceito de valor estético Os conceitos de valor e de estética terminaram. na Crítica do juízo. Este é um fato filológico tão banal quanto regularmente esquecido: na origem da estética. na Crítica do juízo kantiana. como se toda estética pressupusesse a noção de valor.. funciona como mecanismo compensatório que permite a apresentação de novas listas de leitura. o valor e a estética de forma a não permitir nenhuma descontinuidade entre os três termos. nenhuma hierarquia do belo. sendo vistos como contíguos entre si por esteticistas e culturalistas. Como se sabe. a mais alta seria a poesia). Para concluir.. A única menção ao valor num contexto estético ocorre em §53. o etnocentrismo e a opressão de classe. 2009 Para os segundos. então. n. mais inclusivas. mas que todo mundo que o 7 . sim. dedicado à comparação entre as várias belas artes (segundo Kant. a estética seria a esfera da experiência Que Antonio Cicero decrete que “quando digo que um texto é [. Recorde-se que.15. referências ao valor de um ato (§91). mas introduzir algum espaço de respiração na interseção entre esses três conceitos. Ou seja. o sexismo. ou como se valorar obras de arte sempre implicasse que o juízo em questão fosse estético. no sentido mensurável.] um poema bom. sugiro rotas de dissociação entre esses conceitos. Mas não há. o conceito de valor [Wert] não aparece no contexto do estabelecimento da estética. salvar a literatura ou democratizar o cânone. ao valor da existência humana (§4) e à necessidade do postulado da existência de seres racionais para que o mundo seja dotado de valor (§87). não estou dizendo meramente que gosto dele. nenhuma atribuição de valor à beleza. para Kant. com observações acerca do que denomino uma concepção agnóstica de valor literário. então. não há conceito de valor.142 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Kant faz. todas essas ocorrências se referem a uma esfera extraestética. A grande tarefa da teoria não seria. como se estas representassem uma vitória política real contra o racismo. Ambos trabalham com o cânone. quantitativo que é próprio do conceito.

. exatamente como ocorre com o gosto do abacate. Os enunciados falsificáveis evidentemente não se submetem às mesmas regras de verificabilidade dos não falsificáveis. ele parece não ter se dado conta de que há um capítulo inteiro de Contingencies of value dedicado a refutar a objeção de que supostamente não se poderia afirmar que o valor é sempre contingente sem cair em contradição. incontáveis leitores dizem que “No meio do caminho” é um bom poema e outros incontáveis leitores dizem o contrário. não pretendo o mesmo” (2009a). evidentemente. p. considere desinteressadamente deve reconhecer” esse suposto fato e que. Sugiro. não há que se repreender Barbara Herrnstein Smith por remeter o valor estético ao terreno da economia (Perrone-Moisés. 230). apresentada como apreço que necessariamente demanda universalização. ela se limita a apresentar uma negativa. Ao enfrentar-se com a pergunta acerca de como se chegou a delimitar o terreno propriamente estético. ao dizer tais coisas. Ao propor que não há conceito não tautológico de valor estético fora da economia. não há outro vocabulário que não o da economia. Deixemos de lado o caráter escorregadio dessa premissa. ao propor a tese da contingência do valor. não custa lembrar que o próprio pilar da analítica kantiana do belo – a demanda de concordância universal sobre o juízo – também embute um patente contrassenso. Quem afirma a contingência do valor não está conferindo ao objeto valorado um atributo que permaneceria no tempo. aqueles traços inicialmente definidos como característicos do estético! Não é à toa que os alunos não aceitam isso facilmente. Basta ler a analítica do belo (§6 a §22) para constatar que Kant o entende como objeto de um juízo de tipo. concordância de todos. “se digo ‘eu gosto de abacate’. econômico. que esse valor se deduz num contexto eminentemente relacional. “nem sequer se dá conta de que. Decretar que estes últimos são maus leitores não resolve o problema teórico. não torna essa distinção verdadeira. Caso se apresente a objeção de que a impossibilidade de submeter o belo a fórmulas comparativas contraria todo o senso comum que desenvolvemos como consumidores de arte. p.Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. sim. Em bom português: no debate entre agnósticos e crentes. não sugiro. 1998. em negociação e em articulação. 8). 143 desinteressada do belo. No mundo real. que o valor estético de Grande sertão: veredas possa ser deduzido do preço da mercadoria comercializada pela Editora Nova Fronteira.. já amplamente criticada pela tradição (a começar pelo próprio Hegel). mediados por . jamais de grau. Na verdade. Todas as definições não econômicas de valor estético que tenham pretensões trans-históricas incorrem em versões mais ou menos sofisticadas de uma tautologia: define-se o valor como a presença de certos traços formais (sejam quais forem) ou a capacidade de produzir certas sensações.. incorre em paradoxos que solapam suas próprias teses” (2009b. Quando Cicero afirma que Barbara Herrnstein Smith.7 Por isso. é pueril argumentar que não podemos afirmar que “o sentido não é eterno e unívoco” pelo fato de que essa frase supostamente teria um sentido eterno e unívoco. o ônus da prova cabe a estes. remete-se o interlocutor à existência de obras que exibem. sendo sua maior ou menor presença em cada obra o critério para sua valoração. A frase não confere um atributo ao sentido. por outro lado. no qual atos de valoração socialmente situados entram em conflito.. Ou seja. Esses traços ou potencialidades passarão a ser apresentados como característicos da experiência estética.

que delimita uma região na qual a representação “não tem mais domínio” (Foucault. de rentabilidade limitada. 2009 instituições como a escola. qualquer que seja. Smith escapa da circularidade da equivalência universal das mercadorias ao dotar um conceito de um papel transcendental. com Ricardo. num processo que conforma um equilíbrio nunca completamente estável – o que venho chamando aqui de pacto valorativo. na qual ele sempre teve sua morada mais sólida. Para compreender sua dinâmica. p. no primeiro capítulo de Capital. portanto. a economia política em mais de dois milênios. n. 1992. É o próprio Marx que. que serve de fundamento a todas as outras trocas: “o trabalho é a real medida do valor intercambiável de todas as mercadorias” (Smith. dedicado à mercadoria. 1992. É o trabalho que lhes confere valor e explica a possibilidade de equivalência entre duas mercadorias distintas. mas justamente notar que há uma operação analógica silenciosa. pelo menos na economia política. As genealogias da economia política em geral conferem a Riqueza das nações. A consolidação da teoria do valortrabalho. ocorre não a partir do fato de que o “trabalho seja um valor fixo. É para esse fim que se introduziu o dinheiro” (1133a). dá o crédito a Aristóteles como o “primeiro pesquisador a ter analisado a formavalor” (1952. 269). vale a pena refletir sobre como a economia política entendeu o valor. extrai sua origem do trabalho” (Foucault. p.144 Revista Brasileira de Literatura Comparada. o trabalho. O conceito da comparabilidade universal precede. entre fisiocratas e utilitaristas. 270). O conceito de valor. a imprensa e a crítica. Já está presente em Aristóteles a compreensão de uma diferença clara entre o valor de uso e o valor de troca: “todas as coisas que são trocadas devem ser de alguma forma comparáveis. de Adam Smith. 1999. O objetivo aqui não é traçar uma analogia entre o valor estético e o valor econômico. constante e permutável sob todos os céus e todos os tempos.15. A economia . p. mas sim porque todo valor. p. 71). pressupõe um transcendental. o mérito da ruptura com a natureza circular do debate anterior. nas teorias imanentistas do valor estético. 581).

.Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. . A manutenção do valor de uma mercadoria ao longo do tempo se explica pelo fato de que ali se aninha uma quantidade determinada de trabalho que mantém alguma tradutibilidade (com as naturais oscilações que serão fruto das próprias variações no valor do tipo de trabalho que se encontra ali congelado). traduzida. não muito diferentes das equivalências universais tautológicas dos economistas anteriores a Adam Smith.. produtos do que ele chamou de “infância da humanidade”. claro. essa altamente variável entidade à qual nos referimos como “Homero” recorrentemente entra na nossa experiência em relação com uma grande variedade de nossos interesses. mas o prolegômeno da pesquisa. Evidentemente. Repetidamente citada e recitada. e que o cálculo do valor da mercadoria como quantidade de trabalho socialmente necessário para a sua produção não se aplica a objetos estéticos. O trabalho que produz a obra de arte não é traduzível. Haveria que se estudar o que. e portanto sua permanência no tempo não se explica imanentemente: A permanência de um autor clássico como Homero se deve não ao valor supostamente transcultural ou universal de suas obras mas. essa observação não é o fim. pelo contrário. a teoria do valor estético só pode definir o valor imanentemente a partir das operações circulares descritas acima. ainda nos fascinam e mantêm sua legibilidade. lecionada e imitada. que a lei do valor-trabalho se aplica a objetos reprodutíveis. Na economia. mas entender como e por que os poemas homéricos. Na ausência desse transcendental. 145 política sempre enfatizou. 1998.. de que o mistério não era explicar que a arte grega emergiu como produto de circunstâncias históricas particulares próprias à sociedade helênica. e pode assim realizar várias funções para nós (Smith. Atesta-o a célebre observação de Marx na introdução aos Grundrisse. a teoria do valor depende de um transcendental.].. à continuidade de sua circulação numa cultura particular. o trabalho. p. e completamente inserida numa rede de intertextualidade que continuamente constitui a alta cultura [. 52-53).

Para além do lamento de que a internet é responsável por uma queda na qualidade e na frequência da leitura das novas gerações – queixa jamais fundamentada com pesquisa empírica e agora patentemente desmentida (Castells. na conformação do sistema de valores literários brasileiros. n.15. para não mencionar mais que alguns exemplos. escolas. No caso do debate sobre o valor que tem se desenvolvido nos estudos de literatura brasileira e latino-americana. academias e intertextos lhe atribuíram ao longo dos anos. como os relatos de viagem (Süssekind. 1990) ou as tecnologias da reprodução (1987). o estudo de Roberto Ventura sobre as polêmicas literárias.146 Revista Brasileira de Literatura Comparada. . permitiu que cada obra realizasse as funções que os vários leitores. como a recente antologia de escritos de Machado de Assis sobre a afrodescendência realizada por Eduardo de Assis Duarte (2007). 2009) –. a recuperação de facetas pouco exploradas dos escritores mais canônicos. de Manuel Bandeira (1963) a Italo Moriconi (2000. 2001). instituições. 1991. Acredito que ainda sabemos pouco sobre o papel das antologias. as pesquisas de Flora Süssekind sobre as relações da literatura com outros discursos. 2001). 2001). essas verdadeiras máquinas de produção e destruição de valor (Ventura. O postulado da contingência essencial do valor só abre um espaço de relevância ainda maior para essas pesquisas. A história da profissionalização do escritor e das suas relações com a imprensa e com o mercado ainda nos oferece vastas zonas de pesquisa não realizada. 1996. a valiosa sequência de pesquisas feitas por Marisa Lajolo e Regina Zilberman sobre a história da leitura e do livro (Lajolo e Zilberman. 1991). 2009 em cada situação e contexto. ganharíamos terreno se o dissociássemos da polêmica entre o culturalismo e os defensores do “cânone ocidental” e o remetêssemos a todo o vasto material que pode informar uma futura história da construção do valor literário no Brasil: o erudito mapa traçado por Raúl Antelo do ideário da transgressão na modernidade (Antelo. uma série de novos escritores faz uso das tecnologias de publicação online para circular seus textos e manufaturar concepções emergentes de valor literário.

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menina de vermelho a caminho da lua. de Marina Colasanti. . pretendemos criar uma relação ideológica entre os alunos americanos e não só a literatura brasileira. These experiences were done with American Students from the University of North Carolina at Chapel Hill (UNC-CH).151 O ensino de literatura brasileira por meio do Teatro do Oprimido: uma experiência na Carolina do Norte Érica Rodrigues Fontes* resumo: Este trabalho analisa experiências no ensino de litera- tura brasileira realizadas com alunos estadunidenses da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill (UNC-CH). Aqui se propõe uma avaliação de exercícios a partir da leitura de I love my husband. e a hora da estrela. educação. palavras-chave: literatura brasileira. Here I propose an evaluation of the exercises done based on the reading of Nélida Piñon I love my husband. abstract: This paper analyzes experiences with the teaching of Professora adjunta de língua inglesa (Graduação) e de literatura (Mestrado em Letras) da Universidade Federal do Piauí (UFPI). de forma a lidar mais eficientemente com algumas questões apresentadas em nossa literatura e que concernem diretamente textos de autoria feminina. de Clarice Lispector. em especial textos escritos na segunda metade do século passado. By using a theater method based on the Augusto Boal’s Theater of the Oppressed. ∗ Brazilian literature. de Augusto Boal. de Nélida Piñon. mas o contexto brasileiro. we intended to create an ideological relationship between the American students who took the course and not only the Brazilian literature but also the Brazilian context. especially texts written during the second half of the last century. as a means of dealing more efficiently with some issues presented by our literature and which directly concern texts by women authors. Marina Colasanti’s little Girl in Red on her way to the moon and Clarice Lispector’s the Hour of the star. Teatro do Oprimido. Ao utilizarmos um método teatral baseado no Teatro do Oprimido.

Muito mais do que o ensino de movimentos literários. Houve.15. pois. não há de fato acesso à perspectiva ideológica de outras nações. com a interpretação brasileira de mundo. 1987. Depois de ensinar em cinco turmas de graduação a matéria Literatura Lusófona na Carolina do Norte. torna-se um compromisso do professor de literatura brasileira. Portanto. portanto. education. Introdução Ensinar literatura brasileira no exterior (e para estrangeiros) está obrigatoriamente atrelado a uma experiência cultural. Minha tradução. uma preocupação com a criação de uma estratégia de relacionamento entre a nossa realidade e a realidade do país onde a nossa está Romances não mostram a vida. e por ater-me principalmente ao ensino das obras escritas no Brasil. De fato. criar para os alunos possibilidades de interação com a mentalidade brasileira. 24). a uma exposição sobre a história e política brasileiras. como afirma Linda Hutcheon (1999). ao selecionar textos para leitura e debate em sala. é em sua temática que nossa literatura parece ser mais enriquecedora quando pertencente a um currículo estrangeiro. embora neste país da América do Norte exista muita exposição à cultura de outros países. a ideologia é a própria representação da cultura. os textos escolhidos foram considerados representativos da ideologia brasileira contemporânea com atenção para os temas supracitados. tal ligação se torna indispensável. Como afirma Leonard Davis: “Novels do not depict life.152 keywords: Revista Brasileira de Literatura Comparada. Nos Estados Unidos. métrica ou outros assuntos de interesse da literatura. Assim. p. they depict life as it is represented by ideology”1 (Davis. Eles mostram a vida como representada pela ideologia. percebi dois pontos de interesse comum das culturas e literaturas estadunidense e brasileira: as minorias políticas e as questões identitárias. pois. 1 . Theater of the Oppressed. n. procurei priorizar esses dois temas. 2009 Brazilian literature. no contexto estadunidense.

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sob estudo, pois, embora muitas vezes essa ideologia esteja clara para um nacional da literatura lida, para o estrangeiro ela precisa ser apontada. Como exemplo, cito um momento de debate sobre a personagem Macabéa do romance A hora da estrela, de Clarice Lispector. Para os alunos do curso, em sua maioria nascidos em um contexto rural como o da Carolina do Norte, era quase impossível entender a condição tragicômica dessa personagem, pois ela está inserida em um contexto urbano, onde mora longe de seu estado de origem, com pessoas desconhecidas. Os fatos engraçados que acontecem na vida de Macabéa são gerados pela sua estranheza, pela sua falta de adaptação à sociedade, sua marginalidade. Se nos EUA a principal razão para os jovens saírem de sua terra natal é estudar em uma boa instituição, no Brasil o principal motivo para o êxodo jovem tem razões muito diferentes: a fuga da fome, da miséria e da pobreza. Para os alunos norte-americanos, portanto, entender o comportamento de Macabéa tornava-se difícil. Eles consideravam-na simplesmente um ser humano desprovido de inteligência e, então, digno de risadas e deboche. Foi preciso comparar a situação dessa personagem com uma vítima da pobreza, fome e desastres naturais no estado do Mississippi (o mais pobre dos Estados Unidos) para que os alunos entendessem a tragicomicidade da obra. Muito provavelmente pela dificuldade de localizar pontos de interseção entre as duas culturas é que outros instrutores do curso supracitado haviam detectado que a participação dos alunos nas discussões era bastante inferior às suas expectativas e que as atividades, em muitos casos, eram desinteressantes para os discentes. Foi principalmente por causa do aparente desinteresse dos alunos pela disciplina que resolvi implementar em minha aula de literatura exercícios de teatro para posterior montagem teatral e um segundo momento de discussão. A metodologia escolhida foi a do Teatro do Oprimido, objeto de minha pesquisa de doutorado.

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O projeto relatado neste artigo teve por objetivo a melhor absorção de conteúdos literários pelos alunos de literatura de graduação de diversos cursos da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill (UNC-CH). Realizado de agosto de 2004 a julho de 2006, ele revela experiências ocorridas nas turmas de Português 40 (Introdução à Literatura Lusófona), das quais fui instrutora, enquanto aluna de mestrado e doutorado na UNC-CH. Neste artigo, analiso exercícios teatrais desenvolvidos a partir de três textos brasileiros de autoria feminina: I love my husband, de Nélida Piñon, Menina de vermelho a caminho da lua, de Marina Colasanti, e A hora da estrela, de Clarice Lispector. Os textos foram analisados e encenados a partir de traduções inglesas das obras, nos moldes do Teatro do Oprimido e principalmente do Teatro Fórum (técnica de Boal para discussão de problemas sociais no palco, a ser explicada a seguir, juntamente com sua adaptação para a aula de literatura). Por meio dessas técnicas e de sua adaptação para as aulas, os alunos se colocam no lugar de personagens brasileiros, discutem a resolução do seu problema e depois trazem algumas situações para o contexto estadunidense, ao debater ou analisar problemas equivalentes nas duas Américas ou, mais especificamente, nos dois países. Há pelo menos dois fatores que favorecem a utilização do método teatral de Boal nessa aula de literatura: a ideologia sob a qual os textos tratados foram escritos (condição subalterna da mulher e a sua necessidade de liberação) e o fato de o Teatro do Oprimido ser um tipo de teatro que tem como proposta final a discussão de problemas sociais. Esses textos traduzem opressões contemporâneas vivenciadas no Brasil e que têm equivalentes na sociedade norteamericana, ainda que estes não sejam divulgados. Assim, descreveremos como foi proporcionada essa ligação entre a identidade norte-americana e a identidade brasileira para o ensino de literatura brasileira, visando exclusivamente a um melhor aproveitamento literário e cultural dos alunos,

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originado por uma maior convivência com as obras, por meio do envolvimento teatro-lúdico. Neste artigo me concentrarei no resultado concernente ao trabalho desenvolvido com os textos supracitados. As duas últimas obras foram estudadas no final do semestre, indicando um envolvimento mais profundo dos alunos com a metodologia.
As observações descritas a seguir foram feitas a partir das experiências de sala de aula e baseadas nas ideias retiradas do livro Técnicas latino-americanas de teatro popular, de Augusto Boal. Os seus métodos teatrais, mais divulgados com a publicação do livro Teatro do Oprimido, ocorrida no início dos anos 1970, ficaram conhecidos em todo o mundo e priorizam uma participação mais ativa do espectador, que vai além do modelo observador e consciente apresentado pelo dramaturgo alemão Bertolt Brecht.2

Walter Benjamin explica que, no teatro épico de Brecht, priorizam-se a crítica social e a interrupção da ação dramática (os momentos narrativos são exemplo dessa interrupção) para reflexão sobre a crítica encenada. O público, porém, não participa do espetáculo ativamente. No teatro de Boal, diferentemente, o público pode interferir diretamente na ação, encenando suas sugestões, ainda que sob a supervisão e orientação de um diretor, o Curinga.
2

É no Teatro Fórum, uma das técnicas do Teatro do Oprimido, em que há o incentivo à discussão de problemas sociais, que a participação da plateia pode ser mais claramente notada. Neste modelo de teatro, a primeira parte de uma peça é tradicional (com a separação entre público e atores), se dá em aproximadamente 30 minutos e apresenta pelo menos um problema ou erro em cada cena. Por erro entende-se uma situação social de opressão, sendo o erro, portanto, cometido pelo opressor e também por uma falta de postura mais libertária do oprimido. Na segunda parte da peça, que é introduzida por um Curinga, espécie de diretor teatral, perito na metodologia de Boal, o objetivo do público é, então, tentar consertar ou remediar o erro. O Curinga indica para a plateia que as cenas poderão ser modificadas por meio da substituição do oprimido (de acordo com a ideologia do Teatro do Oprimido, somente o oprimido pode ser substituído), com quem a plateia é levada a se identificar. Muitas vezes ela (plateia) até tem uma história que já auxilia esse processo, visto que muitas das peças são apresentadas em edifícios públicos, tais

lentamente. porém. pois estes. A atitude daquele que é vítima de opressão.156 Revista Brasileira de Literatura Comparada. já que a plateia é inicialmente incentivada a identificar-se com o oprimido. por si só. com protagonistas que querem mudar a sua história de vida. que divide a sociedade no binário oprimidoopressor (equivalentes ao protagonista e antagonista. e retratam os contextos socialmente carentes do espectador. respectivamente) para estudar as relações presentes nos textos e. Nesse conto. Ou seja. postura justificada pelo fato de que o Teatro do Oprimido é do oprimido. pois não é esse o papel que faz e. As exceções com relação à substituição ocorrem somente no caso de o opressor tornar-se ainda mais cruel em sua opressão. o sistema mude a seu favor. feito por ele e mostrado para ele. o teatro do oprimido em I love my husband Nas aulas mencionadas. Quando o opressor é modificado. a plateia tenta modificar uma postura sobre a qual não tem nenhuma influência no dia a dia. evita falar de amor com ele porque há. na concepção deste. Comecemos com I love my husband. consequentemente. a partir de então. ao substituir o opressor. de acordo com o Teatro do Oprimido. sugerir uma interpretação mais profunda destes.15. hospitais e prisões. o sistema social não testemunha uma frequente mudança na atitude de pessoas que fazem o papel de opressores. Além disso. 2009 como escolas. não há muito que o oprimido possa fazer a respeito. deve mudar para que. então. prepara tortas de chocolate. muitos outros . temos o retrato de uma mulher que é praticamente escrava de seu marido: faz para ele café todos os dias. não é a substituição do opressor que modificará ou ensaiará uma modificação social. tendem a permanecer iguais. usei a ideia geral do Teatro do Oprimido. n. Passemos então a um breve relato das experiências que. serão perfeitas ilustrações de como a leitura de um conto ou outro tipo de texto literário pode ser enriquecida com este método.

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problemas que merecem mais atenção, como, por exemplo, a situação econômica do país. Esta mulher, completamente submissa a seu marido, segue mecanicamente as ações que são esperadas dela como uma boa esposa: está feliz quando ele chega em casa às sete da noite e tenta reclamar cada vez menos do seu serviço de casa. No final do conto, relembra os votos de seu casamento e conclui que, sim, ama seu marido, embora o que ela relata seja digno do sentimento oposto. Após a leitura desta obra, houve um debate sobre a literatura de autoria feminina nos anos 1980 como reacionária à predominância de textos de autores masculinos até pouco tempo antes dessa década. Depois de traçarmos um breve painel sobre a liberação da mulher e sua repercussão na literatura, comentamos o conto propriamente dito. Com relação a esse texto, pedi aos alunos que fizessem um exercício anterior à identificação do opressor e oprimido da obra, normalmente o primeiro passo para aplicação da metodologia de Boal. A turma foi dividida em duplas e pedi a elas que escolhessem o momento que demonstrasse uma intensa emoção e que exagerassem essa emoção em uma cena teatral. Por termos pouco tempo para apresentar esse exercício, apenas três cenas foram mostradas para toda a turma, após um curto período de prática, e merecem atenção particular. Na primeira cena, uma aluna se comportou como uma guerreira, gritando e portando-se ferozmente. Revelou-se então sensual e bela durante a ausência de seu marido. Essa cena levou-nos a debater sobre o caráter frustrante do cárcere privado da esposa do conto, combatido em sua vida onírica. A segunda cena mostrou um marido mais agressivo do que o descrito no conto, o que exigiria uma postura mais firme de sua mulher para que esta pudesse ter uma vida mais digna. A última cena mostrou a esposa literalmente como uma escrava, absolutamente dominada pelo marido e impossibilitada de mover-se por si só. Depois desses exercícios, discutimos a natureza da opressão nesse conto e chegamos à conclusão de que ela

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é proveniente do machismo e da condição subalterna da mulher, muitas vezes aceita por ela mesma passivamente. No texto, a liberação dessa dona de casa acontece somente em um mundo fantasioso, quando ela se mostra uma amante selvagem, cercada por javalis e pelo Clark Gable. Posteriormente, as duplas definiram o opressor e o oprimido, encenando suas adaptações de I love my husband. Uma das duplas mudou o final do texto, sendo o marido vítima de homicídio. Nessa adaptação, a mulher se mostrou falsamente mais solícita e amável do que no conto, o marido se mostrou mais agressivo e inconformado com a mulher e o homicídio aparece como resolução óbvia, embora não seja esse o objetivo do Teatro do Oprimido, que quer fornecer para o público, por meio do teatro, os meios para que o problema seja examinado, e não sua resolução.

o teatro do oprimido em Menina de vermelho a caminho da lua
O segundo texto em questão, Menina de vermelho a caminho da lua, trata do universo infantil pervertido pela desigualdade social. O título alude à cor da roupa de uma menina de aproximadamente dez anos de idade que intenciona brincar em um parque de diversões, mesmo não tendo dinheiro para isso. A história inicia-se com a mãe de duas meninas contratando um narrador a partir de um anúncio de jornal para relatar o episódio do pseudoencontro entre ela e a menina de vermelho. Embora a mãe prefira uma mulher para narrar a história, tem de aceitar um homem, única pessoa que responde ao anúncio, requerendo que ele use roupa de mulher para ver se, de alguma forma, terá uma atitude mais feminina. Assim, o homem escreve todo o tempo vestindo uma saia rosa e um lenço na cabeça, e com pouquíssima autonomia, pois a mulher se declara detentora dos fatos, fazendo com que sejam narrados segundo a preferência dela.

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O conto narra a ida dessa mãe com suas duas filhas a um parque de diversões em um sábado e, principalmente, seu encontro com a realidade de uma menina de rua de dez anos de idade que, por não ter dinheiro para andar na mesma atração que suas filhas (uma bolha, espécie de pulapula), insinua-se sexualmente para o homem responsável pelo brinquedo para poder brincar de graça. O estilo do texto descreve o erotismo e a sexualidade precoces de uma pré-adolescente que usa seu corpo como meio de adquirir aquilo que ela não pode com dinheiro. Verbos que aludem à experiência sexual (“penetrar” e “perfurar”, por exemplo) são uma constante em todo o texto, usados mesmo quando não descrevem momentos sexuais. Quando acaba o sábado e essa menina descalça vai embora, sendo observada pela mãe das duas meninas, sua figura juvenil mancha o ar de vermelho (referência à cor de sua roupa), indicando, muito provavelmente, a perda da inocência e o ingresso em um mundo cruel para os desprovidos de bens materiais. Na discussão inicial, vários foram os pontos levantados a respeito desse conto. Nele, há uma menina que precisa utilizar-se de táticas sensuais e até sexuais para conseguir o que a falta de dinheiro não lhe proporciona, um homem sem voz e submisso a uma mulher (na figura do narrador) para quem trabalha e a discrepância social entre as filhas da mulher que contrata o narrador e a menina de vermelho no parque. Não podemos deixar de falar também da omissão dessa mulher em relação à situação da menina de vermelho e da literatura como canal de reação social, pois é ela o meio que a mulher usa para tornar a sua história pública e passível de crítica. Os alunos mostraram-se surpresos principalmente em relação à prostituição infantil que, nos EUA, não é tão visível ou noticiada quanto na América Latina. Como lemos uma tradução para o inglês intitulada Little girl in red on her way to the moon, o fato de a menina usar de artifícios sexuais se torna ainda mais desconcertante, porque ela não é apenas uma menina. Na tradução inglesa, ela é uma menininha, o que acentua ainda mais a pouca idade

o que independe da idade. exatamente para desabafar e se eximir da culpa de não ter feito nada para ajudar uma menina da idade de suas duas filhas. de aproximadamente cinco componentes cada.15. pois esta é da mãe das meninas (uma inversão da opressão à qual normalmente as mulheres são submetidas). O primeiro passo para o trabalho em grupo foi definir onde havia a opressão no texto ou quem era o oprimido e estava lutando pelo seu lugar na sociedade. Esse resultado confirmou a incidência da prostituição infantil nos países em desenvolvimento. Há a opressão do homem contratado para narrar a história travestido de mulher e sem a possibilidade de expressar a sua voz. onde há crianças de rua em maior quantidade. Após a discussão da obra literária e apresentação de sua crítica social. no entanto.160 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Nesse ponto. A turma foi dividida em seis grupos. os alunos foram motivados a buscar informações a respeito do tópico e descobrir a situação desse crime em vários países. Por conta da alusão da história à prostituição infantil. que contrata um narrador para a sua história. os alunos questionaram a sensualidade precoce da cultura latino-americana. . mas foi necessário indicar para eles a drástica diferença entre sensualidade e prostituição como meio de sobrevivência. n. normalmente temos acesso a diversas interpretações de uma mesma obra. 2009 de um ser humano já iniciando na prostituição. comumente atingindo as crianças de rua. O resultado dessa pesquisa foi apresentado individualmente na aula imediatamente posterior. principalmente nas regiões menos desenvolvidas. também existe prostituição infantil em grande quantidade nos EUA. chegou o momento de aplicar a metodologia de Boal ao texto. que muitas vezes assumem uma vida com hábitos adultos antes mesmo de chegarem à adolescência. existem outras opressões: a opressão pela qual passa a mãe das duas meninas. Em alguns momentos. Embora tenhamos a menina de vermelho como protagonista e possivelmente a única apontada como oprimida na leitura inicial. Para a surpresa de muitos.

como é o caso de Chapel Hill. As diversas interpretações da opressão mostradas no conto motivaram debates sobre a origem da opressão sexual e sobre o que favorece a sua proliferação dentro do sistema no qual vivemos. Outros dois grupos preferiram falar da menina de vermelho e da precocidade de suas ações por conta de sua situação social. os objetivos são claros: identificar a opressão e criar meios para que o oprimido tenha voz para lutar contra ela. o sistema social . talvez aludindo ao que historicamente acompanhou (e muitas vezes ainda acompanha) a trajetória da mulher no Brasil..O ensino de literatura brasileira por meio do Teatro. como vimos. onde sempre se deve utilizar a porta traseira (conforme aviso fixado na porta). Outro grupo chamou atenção para a angústia da mãe ao narrar a história por meio desse homem. surpreendentemente. vimos que. pois. a opressão a ele não passou despercebida no conto. salientando o fato de que são oprimidos todos os que agem sem ter autonomia sobre suas ações. 161 Assim. muitas vezes. Houve. Assim. E os últimos dois resolveram falar do homem como vítima da prostituição infantil. porque ao sair do orfanato ninguém lhe deu emprego. pois também nisso via-se uma falta de liberdade para que essa mulher expusesse seu ponto de vista livremente. Um dos grupos acentuou a opressão à qual foi submetido o narrador. uma discussão sobre quem sustenta a prostituição em países desenvolvidos e em cidades universitárias americanas. há um local que está aberto 24 horas por dia: o University Massage. Esta é provavelmente uma das poucas casas comerciais que nunca fechou as portas nesta cidade. onde esta discussão específica ocorreu.. os seis grupos mostraram diferentes facetas da opressão em Menina de vermelho a caminho da lua. Depois de uma longa discussão a respeito da prostituição local. Ao lidarmos com a metodologia de Boal. Nessa cidade universitária de uma área abastada dos Estados Unidos. uma situação encenada na aula (uma adaptação do texto original) por um desses dois últimos grupos demonstrou as agruras de um menino que fora expulso de um orfanato e começou a se prostituir como resultado do preconceito social.

seu namorado. em 1977. pois reconhecem um no outro sua origem e trajetória de vida. que é aludida quando a autora utiliza-se de questões de autoria no romance. também é tão excluído quanto ela. Em vários momentos. esse romance pretende entender a própria existência.162 Revista Brasileira de Literatura Comparada. mas nem um pouco irreal para aqueles que conhecem a população brasileira. A partir daí refletimos sobre o que pode ser feito para minimizar esse poder opressor. Em A hora da estrela. um namorado estranho. Isso se torna óbvio quando lemos a respeito do primeiro encontro dos dois. uma vida estranha. sua extensão e diversidade temática explicam a preferência por estudá-lo no final do curso. M. Talvez por isso a história de Macabéa seja mais trágica para . nome que remete aos revoltosos macabeus. Juntamente com Um sopro de vida. onde se veem quase como em um espelho. Mas o foco é mesmo a moça virgem que bebe coca-cola e tem um nome estranho. o teatro do oprimido e A hora da estrela O próximo texto em discussão foi o romance A hora da estrela. Lispector divaga sobre o poder do autor ao dar vida e matar. n.15. coincidindo com o final da vida de Lispector. Olímpico. Clarice Lispector não mantém o foco em suas protagonistas donas de casa dominadas por um sistema que subjuga a mulher. Embora ele tenha sido escrito e publicado antes de Menina de vermelho a caminho da lua. Nessa obra. a autora deixa o universo da alta classe média para penetrar no mundo marginal e excluído do nordestino que se muda para o sudeste em busca de uma vida melhor. à semelhança de outros de seus contos e romances. de Clarice Lispector. A personagem de Clarice em seu romance final é quase subumana. para dar início e fim a sua protagonista. poder concedido por ela a Rodrigo S. Embora sua protagonista seja novamente uma mulher com o nome estranho de Macabéa. sendo esta mantida por pessoas instruídas e ricas. colocando-as quase como um objeto em suas próprias residências. 2009 sustenta a prostituição.

para ver o que a aguarda no futuro. ele nunca assume sua ignorância em relação às respostas. se for o caso. ao pedir por açúcar. o que não ocorre em vida. mas para os dois grupos a história sempre mantém seu quê de tragédia e comédia. Olímpico afirma que ela pagará a diferença de preço. O direito de protestar e Uma saída discreta pela porta dos fundos. mulher mais encorpada do que a colega nordestina e também mais provocante e sensual. Sua hora de brilhar só acontece mesmo no momento da morte. sobre alguns questionamentos da moça. Após uma breve exposição sobre o romance e a discussão inicial a respeito da obra com as turmas. E. O mais interessante no relacionamento dos dois são os diálogos. pois Olímpico se julga inteligente e vencedor. as mulheres estão todas em uma situação de opressão social. entre outros) indicam que a protagonista é uma vítima social. da protagonista às coadjuvantes. afirma que as respostas não são apropriadas para uma moça virgem como ela. Isso porque. há um interesse maior nos tópicos relacionados à mulher. muito mais por parte de Olímpico do que de Macabéa. mas nunca sabe as respostas para as perguntas de Macabéa. ex-prostituta e agora cartomante. pois esta sempre se desculpa por erros que ainda nem cometeu. Na verdade. E é Carlota que prevê um futuro brilhante para Macabéa.O ensino de literatura brasileira por meio do Teatro. Seu namorado a trata mal do início ao fim do relacionamento. A difícil convivência dos dois. pois a protagonista morre em seguida. 163 os que a leem no Brasil e mais engraçada para os que a leem fora do Brasil. namorado. Até quando ela pede que ele compre um café para ela. O tratamento ao qual é submetida Macabéa pelo chefe.. colegas de quarto e de trabalho demonstra que ela é vista quase como um animal. Diz que Macabéa só faz perguntas tolas e. decreta o fim do relacionamento. colega de trabalho de Macabéa. Logo depois.. Olímpico a troca por Glória. O título e seus vários subtítulos (A culpa é minha. a própria Glória sugere a Macabéa que vá à casa de Madame Carlota. desprovido de qualquer capacidade in- . recebe uma resposta grosseira.

embora muitas vezes a capacidade intelectual da personagem não motive nenhuma pena ou simpatia. A minha escolha se dá ao fato de que esses quatro grupos trataram de situações e de personagens diversos. ele se manteve como o político do futuro que venceria todo e qualquer obstáculo. outra mulher de destaque na obra. E. situação explicável pelo seu contexto. Mas os personagens mantiveram a sua essência: enquanto Macabéa se achava a principal culpada pela impaciência de Olímpico e de tudo de errado que acontecia.164 Revista Brasileira de Literatura Comparada. o fato de que Macabéa gostaria de conhecer mais o mundo não pode ser negado. No entanto. Madame Carlota. que nem executa muito bem. houve preferência para uma encenação do relacionamento entre Macabéa e Olímpico. n. O primeiro grupo focou os diálogos de Olímpico e Macabéa. 2009 telectual. muito provavelmente pela clareza da opressão. como apontado por Peggy Phelan (1993). Os dois atores usaram maquiagem e figurino similares e os diálogos chamaram atenção . Sua sensualidade cultivada tem o único objetivo de fazer com que ela sempre seja admirada e amparada por um homem. Como a turma fora dividida em dez grupos de três componentes cada. pois quase não frequentou a escola. O segundo grupo mostrou Olímpico e Macabéa como pessoas quase semelhantes. agride Macabéa. pois sempre indaga sobre aquilo que quer saber. Glória. é um objeto sexual. ouve ópera e escuta a informativa Rádio Relógio. Ao passarmos para a leitura da obra sob a perspectiva do Teatro do Oprimido. embora exagerando a agressão verbal à protagonista. pois os homens são agressivos e ela não está preparada para isso. Glória é o que é por causa do outro. Esse exagero é muitas vezes necessário para que a opressão se torne visível. sugere a Macabéa que se envolva com uma mulher. pratica um trabalho mecânico (datilografia). a colega estenógrafa de Macabéa. que nunca fique só. procederei ao relato das experiências de apenas quatro grupos.15. por causa de sua preocupação com a aparência. chamando-a de feia.

ela quer ser estrela de cinema) e a exclusão social na qual vivem. embora na história Glória seja mais desejada pelos homens do que sua colega nordestina. estilo de vida. há na América Latina uma tendência cultural ao subjugo do feminino pelo masculino e o machismo é muitas vezes também percebido em mulheres como Glória. expectativas (se ele quer ser político. Os debates que se seguiram focalizaram principalmente na mulher como objeto sexual. 165 para os pontos em comum que já aparecem no romance: origem. O próximo grupo salientou a esdrúxula competição de Glória com Macabéa porque. dificilmente conseguirá outro emprego que sustente as suas já tão básicas necessidades. Enquanto Madame Carlota teve de se prostituir para sobreviver quando jovem. Vimos que. suas roupas são bregas e seus namorados são todos do naipe de Olímpico. embora vítimas de opressões de naturezas diferentes. Semelhantemente às peças do Teatro Fórum. na encenação Madame Carlota foi mostrada como a voz social que indica a pouca esperança para jovens como Macabéa. Para todas as obras descritas acima. que necessitam trabalhar sua sensualidade de acordo com o que é esperado pelos homens para se sentirem incluídas na sociedade. pois são nordestinos morando na zona mais nobre do Rio de Janeiro. pois. o objetivo das encenações na sala de aula era o clímax do conflito. pobres e marginalizados. além de não ser uma boa datilógrafa. O último grupo do qual falaremos ateve-se à relação de Madame Carlota e Macabéa. embora esses problemas não sejam exclusivos do Brasil.O ensino de literatura brasileira por meio do Teatro. no entanto. Mesmo que uma personagem não oprima a outra. . os passos seguidos foram escrever e encenar trechos das obras literárias sem. É ela quem faz soar a voz que exclui os feios. no preconceito regional e no machismo da sociedade. sendo as duas consideradas oprimidas socialmente.. apresentar uma solução ao adaptá-las. ela está muito longe de atingir o padrão de beleza da mídia: a cor de seu cabelo é falsa.. Macabéa tem de aguentar os desaforos de seu chefe.

n. Para que essa re-performance seja útil para a discussão de uma obra. nesse ponto do curso não houve interesse em favorecer a substituição dos personagens. . a crise nunca deve ser totalmente resolvida.O que você faria se estivesse no lugar de tal personagem? 2. pois o Teatro do Oprimido só coopera com os meios para que isso ocorra socialmente. muitas vezes é difícil para o aluno entender os textos de literatura brasileira. mas em responder a perguntas tais como: 1. sua visualização se torna primordial. Antes desse estágio. De fato. Por isso. uma nova percepção do trabalho acontece. 2009 que convida à intervenção e discussão de assuntos interessantes dos materiais lidos.Como tal personagem deve agir para se libertar desse contexto opressor? o texto aberto O processo pelo qual passam as obras literárias acima descritas é definido por Umberto Eco (1979) em sua teoria “A poética da obra aberta” do livro O papel do leitor. trazendo à tona o que gera a opressão e propiciando uma discussão cênica do problema. Normalmente.15.Tal personagem é o oprimido? 4. De fato. há. sempre que um trabalho de arte é recebido por um leitor ou espectador. além da recepção. Nessa re-performance.O que motiva tal personagem a agir desse jeito? 3. a percepção de quem oprime e de quem é o oprimido pode mudar dependendo de quem lê a obra ou assiste à sua encenação. nunca nos preocupamos com a resolução do conflito. mesmo que encenado. uma re-performance deste. Isso pode ser percebido em cada uma das adaptações demonstradas pelos grupos. Assim.166 Revista Brasileira de Literatura Comparada. as várias percepções interpretativas ocorrem exatamente nesta terceira parte. no Teatro do Oprimido tal fato é quase uma exigência: após a divisão das relações de opressão do texto. é necessário que haja uma teatralização delas. Inclusive como já visto acima. Eco afirma que.

Até mesmo no final. tão nordestino quanto Macabéa.O ensino de literatura brasileira por meio do Teatro. O mundo opressor pode. 167 Várias vezes eles julgam os textos de nossa literatura como negativos ou deprimentes. Essa interpretação inicial inesperada também ocorre quando da leitura de Menina de vermelho a caminho da lua. quando citamos a semelhança do seu universo com o de personagens de regiões mais pobres dos Estados Unidos. os alunos passam a entender a tragédia na vida dessa personagem. A partir dessa conclusão. Em um primeiro momento. Quando fazemos. o mundo que cerca Macabéa passa a ser o que a oprime e ela passa a ser a vítima. Como em todas as outras obras. quando a protagonista relembra o início da união. Acham-na ridícula. Em A hora da estrela. ela parece conformar-se com toda a sua vida em comum com esse homem. ser personificado em personagens como Olímpico. Acham que não há nada que justifique a prostituição de uma criança. No entanto. mas que a recrimina e detesta quase como se esta fosse um ser de outro mundo. uma comparação entre a realidade da América do Sul e as semelhanças entre essa região e as regiões economicamente menos favorecidas dos Estados . Mas. nenhum estadunidense entende o que leva essa jovem menina a se prostituir. quando procedemos à análise do contexto social e econômico latino-americano. muitas vezes os alunos não conseguem entender Macabéa e suas motivações. social e politicamente apresentada. Acham que o fato de ela repetir que o ama indica que está conformada com a situação. o caso muda de figura. Em I love my husband.. sem dar a ela o carinho e a afeição esperados. exagerada e seus problemas parecem não ter fundamento. muitas vezes os alunos não conseguem compreender a postura irônica da protagonista ao descrever sua rotina submissa e afirmar que ama o homem que mais faz com que ela trabalhe sem parar. É necessário conviverem com essa personagem para entenderem que essa repetição da frase “Amo meu marido” é muito mais para resultar em algo positivo do que para retratar algo positivo.. além disso. no entanto. a opressão está numa esfera invisível.

Se a vida da menina que protagoniza a história é resultado de um descaso histórico com a situação da população pertencente à classe baixa e os meninos e meninas de rua. retratando um universo afeiçoado à opressão. essa opressão é traduzida de duas maneiras pela mãe que detém a história: ao se omitir com relação à menina e ao subjugar o homem que narra a história. conclusão Embora exista campo para divergência quanto à natureza da opressão de uma história. econômica e social. E é importante vermos que. a turma chegou à conclusão de que a opressão não era o que tinha sido inicialmente pensado. As histórias narram as adversidades na vida de duas jovens que são vítimas da pobreza. pretendem fazê-lo visível. Muitas vezes. não vivem com suas famílias e estão à margem da sociedade.168 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Nas duas obras. uma natureza muito mais positiva do que negativa. só depois que diferentes cenas sobre diferentes questões foram montadas e algumas pseudossubstituições ocorreram. percebemos que as diferenças são ínfimas. para que possa ser mais facilmente combatido. ao escrever sobre a história. situação esta da qual ele quer sair) for montada e que outros (membros da plateia) puderem cooperar para o desenvolvimento da resolução da crise do protagonista. o fim do subjugo das suas protagonistas. pois. 2009 Unidos. portanto. por exemplo. o opressor mais forte só será achado depois que a cena (simples diálogo que precisa inicialmente detectar a situação-crise do oprimido. Todas as histórias narradas almejam. o que a mãe realmente deseja é pôr um fim na dor que sentiu ao compartilhar a situação da menina e esperar que a história não se repita. Os três textos têm. ao implicitamente indicar o desejo de mudança com relação à situação das vítimas de opressão sexual. n. Os temas de A hora de estrela e Menina de vermelho a caminho da lua são bastante similares. a pobreza apresenta a maior . portanto.15. se pensamos na natureza opressora dos dois.

Quando Olímpico a ofende e termina o namoro com ela. pois sua força está além de um extermínio imediato. Mas a essa conclusão só chegamos depois de experimentar possibilidades com o texto e ver quem ou o que oprimia mais certo personagem. com perguntas direcionadas. pelas experiências vistas até a presente data. que muitas dessas questões jamais seriam tratadas se não dessa forma. Macabéa se desculpa até mesmo pelos erros alheios.. Macabéa não reage nem se irrita nunca. respectivamente. o teatro só pode ser do oprimido se ele participar do seu processo. que não louva as vítimas ou os indivíduos que não sabem lutar pelos seus direitos. Se houvéssemos apenas feito uma discussão. o que é exemplificado com o exercício aplicado em I love my husband. pelo menos aparentemente. A discussão também é motivada pela transferência do contexto da obra para o . percebo que a literatura só se torna objeto de intensa discussão se o aluno puder entrar no contexto do livro. um nome de guerreira e uma vida fantasiosa de guerreira. ela prefere calar-se a ofendê-lo também. A esposa também não.. possivelmente teríamos chegado apenas aos dois primeiros níveis de interpretação supracitados. participando da vida dos personagens como se fosse a sua própria. Talvez por isso ela seja completamente desassistida pela sociedade na qual está inserida e inicialmente indigna de compaixão na sociedade norte-americana.O ensino de literatura brasileira por meio do Teatro. como plateia participativa. Da mesma forma. Foi o sucesso dessas primeiras experiências que me motivou a prosseguir com a aplicação dos exercícios do Teatro do Oprimido em outros textos. Para Boal. pois são personagens cabisbaixas que se comportam de forma oposta ao que nos leva a pensar. A utilização do método do Teatro do Oprimido fez-me perceber. Menina de vermelho a caminho da lua e A hora da estrela. 169 fonte de depressão das personagens. Talvez Macabéa e a esposa de I love my husband tenham sido as personagens mais difíceis de encenar segundo as técnicas do Teatro do Oprimido. desde o primeiro dia de aula. Combatê-la está fora do alcance dos protagonistas e do nosso próprio.

170 Revista Brasileira de Literatura Comparada. 2. p. Técnicas latino-americanas de teatro popular: uma revolução copernicana ao contrário.). Frankfurt am Main: Suhrkamp. 1966. Nélida. o aluno contribuirá com um avanço no campo interpretativo da obra. Márcia (Org. Entrevista pessoal. aplicando uma realidade literária a uma realidade social. 1979. Bloomington: Indiana University. New York: New Directions. Indianapolis: Indiana University. relacionando-a com suas próprias questões e fazendo-a parte da sua vida. Walter. São Paulo: Hucitec. _____. 195-203. New York: Routledge. Rio de Janeiro: Francisco Alves. PINON. Umberto. 1980. . n. _____. Resisting novels: ideology and fiction. In: SADLIER. 16 de julho de 2003. 2009 contexto do leitor ou espectador. 2. Teatro do oprimido e outras poéticas políticas. 1992. Clarice. PHELAN. Ítalo (Org. The role of the reader: explorations in the semiotics of texts. ed. COLASANTI. 1995. ECO. Peggy. Somente a partir de um profundo envolvimento com a obra literária. HUTCHEON. ed. Versuche über Brecht. One hundred years after tomorrow: Brazilian women’s fiction in the 20th Century. Augusto. 1992. LISPECTOR.15. Little girl in red on her way to the moon. The politics of postmodernism. Rio de Janeiro: Record. tal como visto nas análises acima. Lennard. The hour of the star. 1987.). Marina. Linda. I love my husband. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. Darlene (Org. 1982. Unmarked: the politics of performance. In: MORICONI. Muito prazer: contos eróticos. 1993. 1989. _____. _____. Trad. 1984. pela sua imaginação. In: DENSER. Giovanni Pontiero.). A hora da estrela. Menina de vermelho a caminho da lua. DAVIS. New York and London: Methuen. London: Routledge. BOAL. Referências BENJAMIN.

11-18. Austin: Host Publications. . 2001. 171 Os cem melhores contos brasileiros do século. therapy. Elzbieta.O ensino de literatura brasileira por meio do Teatro. Rio de Janeiro: Objetiva. Fourteen female voices from Brazil: interviews and works. Playing Boal: theatre. London: Routledge. _____. I love my husband. activism.). SCHUTZMAN. 2002. In: SZOKA.. 1994.. p. 451-456. Mady (Org. p.

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Quando cheguei lá.173 As alunas e os contos: a narrativa curta brasileira num curso de escrita criativa nos Estados Unidos Heloisa Pait* resumo: Este artigo relata uma experiência de ensino num curso de pós-graduação lato sensu em escrita criativa nos Estados Unidos. tais como a falta de informação inicial sobre o Brasil e o contexto institucional. chronicles. perguntei. o que será?”. . abstract: This article narrates a teaching experience in a graduate program in creative writing in the United States which introduced the main Brazilian short story and chronicle authors. uma estação linda nos Estados Unidos. Também é relatado no artigo o crescente interesse dos alunos pela literatura brasileira e pelos gêneros apresentados.Araraquara). short stories. teaching. “Ninguém veio falar comigo. no qual se buscou apresentar os principais autores brasileiros do conto e da crônica. Students’ increasing interest in Brazilian literature and in the genres presented is also examined. Mas veio o outono. Conclui-se que a riqueza do conto e da crônica brasileiras de fato serviu de ponte para o diálogo intercultural almejado. such as the lack of basic information about Brazil and the institutional context. Estados Unidos. São examinados os principais desafios para o ensino de literatura brasileira em tradução para o inglês. estranhei o vazio do campus. contos. palavras-chave: literatura brasileira. The article sustains that the richness of the Brazilian short narrative made possible the desired intercultural dialogue. ensino. o céu azul. United States. * Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp . os professores ainda não voltaram do verão”. ele disse. crônicas. até liguei para meu irmão. “É normal. keywords: Brazilian literature. sem se preocupar. The main challenges involved in the teaching of Brazilian literature in translation are examined.

Críticas e rigorosas. e lecionado no questionador Lang College. além da solidão e de uma grande confusão quanto aos objetivos da instituição. complementando as faculdades para homens. Tive. A instituição era uma das poucas faculdades americanas que ainda se dedicavam exclusivamente ao ensino de mulheres. era de uma riqueza intelectual inesgotável. muitas delas foram criadas na costa leste. que poderia ser bem interessante.174 Revista Brasileira de Literatura Comparada. conhecia uma fatia do ensino superior americano muito estreita. era mesmo preciso um bom dinheiro. Só não veio aquele diálogo intelectual que eu esperava. E pulei no que as pessoas se referem como “Real America” – não numa América Real qualquer. Corrijo-me: tive algumas boas alunas. Também conhecia as Faculdades de Artes Liberais. com seus valores sólidos. 2009 o ar fresco. primordialmente entre os alunos europeus e latino-americanos e com os professores novaiorquinos. vejo agora. que já tinha tido no corpo docente Hannah Arendt e outros. Ao longo do século XIX. a das instituições progressistas e disputadas. no primeiro semestre. É que eu conhecia a universidade americana por meio da muito particular New School for Social Research. desta forma dando acesso ao ensino superior a um grande nú- . Eu havia dado uma palestra no hippie Hampshire College. Então. universidade visitada por Habermas e Derrida. Pois. O nosso cotidiano de estudantes de pósgraduação. alguns bons alunos num curso introdutório sobre o Brasil. Minha cunhada estudou no intelectual Swarthmore College. Rorty e Melucci. para manter o impecável imenso jardim e os prédios centenários e amortizar a recente construção do ginásio. discutindo sobre a política. e sua self-reliance. mas num lugar muito particular que refletia os problemas das pequenas faculdades americanas. e no oeste as novas faculdades já eram criadas para os dois grupos.15. n. como a evasão e a busca permanente de alunos para cobrir custos relativamente fixos. a linguagem e a vida em Nova York. Eu costumava dizer: isso aqui é divertido como voltar ao Pequeno Príncipe na Rua Avaré.

Era um argumento de peso decrescente. acho o . particularmente. diferentemente de nossos alunos. abertos aos homens. um professor visitante era chamado e. Ainda assim. que se juntou a Harvard College. Afinal. A instituição tinha um programa já antigo. grande parte tinha dificuldades com a leitura e a escrita e. que escolheram escrever sobre aspectos muito interessantes da cultura brasileira. Aquele era o ano do Brasil.As alunas e os contos: a narrativa curta brasileira. havia palestras e eventos sobre o país e a região. mas pouco conhecido tanto no Brasil como nas pesquisas no exterior. a maioria dos alunos eram mulheres. a justificativa para continuar mantendo o ensino separado era que as mulheres teriam melhores condições de ensino caso não tivessem de disputar a atenção dos professores com os homens em sala de aula. Eu. mas outras continuam admitindo apenas mulheres. uma das mais concorridas faculdade americanas. obviamente com exceções. Mas as alunas capazes de produzir trabalhos autônomos eram poucas. O trabalho que mais me chamou a atenção foi sobre um assunto que eu mesma desconhecia: a existência de um cinema mudo brasileiro muito ligado com tendências europeias da época. Como disse. para trazer um pouco do Brasil para o campus.. como as tentativas de reforma do ensino médio ou sobre a participação de jovens artistas plásticos em comunidades na internet.. Não eram as únicas. como Smith College. de qualquer modo. entre os professores detectei também uma falta de curiosidade sobre o Brasil. além disso. Mas o modo como a instituição conseguia financiar a tradição era abrindo uma série de cursos de pós-graduação lato sensu em áreas mais aplicadas. eu estaria ali para isso. no outono tive algumas alunas muito boas. Na segunda metade do século XX. eu estava dando aulas numa instituição que havia escolhido manter a tradição. 175 mero de mulheres. no qual a cada ano um país determinado era escolhido. uma certa apatia na sala de aula e desinteresse sobre o mundo. A maioria dessas instituições tornou-se mista ao longo do século XX. mas. talvez pela natureza dos cursos ou pela tradição. tais como Radcliffe College.

e como já virou clichê falar de experiência kafkiana. ou “a cidade que não é do aço” são títulos difíceis de se portar. no verão do hemisfério norte. especializada nesse turismo acadêmico. Todos temos um pouco disso. eu daria aulas apenas para alunos do programa de escrita criativa. Foi nessa situação de deslocamento urbano e isolamento intelectual que o semestre da primavera começou. Mas há também o problema simbólico: como construir uma identidade urbana a partir de uma não identidade? “A cidade que não é do automóvel”. n. região americana do meio-oeste que sofreu com o colapso da indústria pesada ocorrido na segunda metade do século XX. não entendia bem a falta de interesse sobre o meu país. A cidade onde a faculdade se localizava era parte do que os americanos chamam de Rust Belt. E só conseguia me localizar novamente quando viajava pelo país e encontrava pontos de referência antigos ou explorava novos. em nível de pós-graduação. eu não sabia exatamente onde estava. aliado a tensões raciais e erros crassos de planejamento urbano. mas a verdade é que eu estava bem perdida. Algumas alunas iriam. esse processo econômico. o Cinturão da Ferrugem. Em Detroit. ainda se reflete no cotidiano difícil de populações inteiras. Mas redefinir a identidade de uma cidade é importante. têm a duração de um .15. Eu assuntava: por que escolheram o Brasil? Como esse programa de estudos internacionais se coaduna com os objetivos educacionais dirigidos a esse corpo discente? Não tinham respostas.176 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Então. ao fim do semestre. em certa medida eu vivi essa indefinição como deslocamento. vou evitá-lo. Os programas de intercâmbio são marca registrada das universidades americanas. passar duas semanas no Brasil. A desindustrialização trouxe para a região problemas sociais enormes. por exemplo. e acho que nisso tenho vasta companhia além das fronteiras nacionais. os paulistanos com sua cidade que não é da garoa ou os cariocas com sua cidade que não é capital. 2009 Brasil bem interessante. Alguns são bem rigorosos. numa viagem patrocinada pela escola e organizada por uma instituição brasileira reconhecida.

A dificuldade na graduação foi. 177 semestre e são precedidos por estudos de línguas e cursos preparatórios e envolvem cursos regulares ou estágios em países estrangeiros. a narrativa curta brasileira tem um lugar muito especial para nós leitores brasileiros. Não que houvesse estereótipos nas salas de aula. que fosse além dos estereótipos tropicais.As alunas e os contos: a narrativa curta brasileira. como é o caso da narrativa curta brasileira. na verdade. pensei. Tive de negociar o conteúdo do curso a cada aula. nada melhor.. Os alunos podem aí se especializar em literatura infantil. Queria mostrar por meio deles alguma coisa do que somos. escrevo contos eu mesma. Brasil do desma- . que queria dar uma visão mais abrangente da cultura brasileira. Então. tanto na graduação como na pós. Todos nós conhecemos os estereótipos antigos. Eu queria falar dos contos. sua ausência. São cursos para quem quer escrever ficção ou não-ficção. pois dividia o curso com outra professora. literatura de viagens. Outros são apenas passeios pelo Caribe. incluindo o cinema. Esse me pareceu ser um turismo cultural inteligente para alunos com interesse em expandir seus horizontes mas sem o tempo de preparo anterior na língua e história do país. do que uma área da cultura na qual nós temos uma certa “vantagem comparativa”. a maior parte dos alunos estava em momentos de transição e buscou o mestrado como forma de se rearticular. com contribuições à cultura mundial. Pela turma que peguei. Além disso.. não pude descobrir exatamente o objetivo profissional do curso. que temos acesso a elas nos jornais e revistas. e sou fascinada pela narrativa curta que fica em nossas mentes muito depois de terminada a história. Sobre os cursos de escrita criativa. Ao longo de minha estada nos Estados Unidos. eu quis obviamente mostrar um Brasil verdadeiro. a história e a literatura. que incluem literatura mas que têm um sentido mais prático que analítico. são também comuns nos Estados Unidos. Zé Carioca e Carmen Miranda. e assim por diante. Propus um curso sobre contos e crônicas. Depois há os novos. Ela se alimenta e faz parte de nosso cotidiano. a política.

havia informações dispersas prévias. notei que quase nenhum aluno tinha interesse específico sobre o conto ou a crônica. recentemente publicadas. Hilda Hilst. Senti falta de Márcia Denser apenas. Guimarães Rosa. As crônicas são maravilhosas. mal-entendidos. Montei o curso de modo muito tradicional. mas. que língua mesmo falavam ali? No curso de pós. Clarice Lispector. Reais todos. não há antologias de crônicas que reúnam vários autores. 1992). diferem muito. n. Então. talvez. incompletos. Entre as esquerdas. há também a construção mítica do presidente socialista que se contrapôs à ordem neoliberal. são espetaculares nos dois sentidos. em sua maioria. Na primeira aula. apresentando cronologicamente os principais autores da narrativa curta brasileira. que encontrei em outras traduções (Sadlier. então. havia a Clarice Lispector. Um bom apanhado dos contos está numa antologia da Oxford University Press (Jackson. traduzidos. de Nelson Rodrigues (2008). Moacyr Scliar. 2009 tamento e dos meninos de rua. As crônicas de “Life as it is”. por exemplo. Há também crônicas de Clarice Lispector em “Foreign legion” (Lispector. Mas lá naquela faculdade eu vi a ausência de informações sobre o Brasil. havia referências poucas mas queridas que fizeram aqueles alunos se inscreverem em meu curso. O que impressionava era que o Brasil fosse tão grande. diziam. 1992).178 Revista Brasileira de Literatura Comparada. era o interesse difuso naquele país latino-americano desconhecido e uma vaga curiosidade sobre o conto e a crônica. entretanto. Tudo o que eu falasse era novidade. Enfim. que estão. Nosso elo. . assim como no caso anterior. maior que a Venezuela. mas parciais. que reúne contos de “A legião estrangeira” e crônicas de “Para não esquecer”. não são representativas do gênero. Havia o Paulo Coelho. para falar das crônicas havia um obstáculo muito concreto. Já nas crônicas é diferente. das crônicas de Ignácio de Loyola Brandão que lemos às quintas no Estadão.15. Havia a presença de uma comunidade negra importante. pois o Brasil praticamente não existia no imaginário de muitos alunos. Estão ali Machado de Assis. 2006). Milton Hatoum e tantos outros.

Eu disse que não. e outra com joelho de porco e costelas. que a última feijoada. forjar alguma comunicação real que havia me escapado nos meses anteriores. lemos o triste “Piá não sofre? Sofre”. por exemplo. ou seja. e não pontualmente nesse horário. uma sem carne suína. Tentando o quê? Tentando. pois um dos meus melhores amigos na faculdade era muçulmano. um tom sério e pesado que não trazia a leveza da prosa brasileira. Clarice Lispector e Moacyr Scliar estão bem traduzidos. E nós brasileiros não fazemos desse banal a nossa melhor poesia? A uma certa altura. mas isso me motivou a continuar tentando. a biblioteca tinha poucos recursos e era preciso fazer escolhas. E os contos ali tinham. Lembro que numa das primeiras semanas na cidade fiz uma feijoada para algumas pessoas. por razões práticas. comeram. cadeiras extras. em três panelas distintas: uma para os vegetarianos. 179 A respeito dos contos. Uma colega me disse. de Mário de Andrade. uma aluna perguntou se era tudo assim pesado na literatura brasileira. ao final de minha estada. pedia que chegassem a partir da 1 da tarde. . a dificuldade era de natureza distinta. E para cada um eu pedi que trouxesse uma coisa: o arroz. que vieram polidamente. Então. Machado de Assis. Os principais autores estavam presentes na antologia da Oxford e também em inúmeras outras traduções. conversaram sobre a faculdade e foram embora sem me deixar com a sensação de plenitude que tenho depois de cozinhar para amigos e conhecidos no Brasil ou no exterior. pois não sou muito de suspenses. em geral. os pratos. Fiz a couve e a feijoada.. se qualificavam melhor para a tradução que o cômico e o banal. Tínhamos acabado de ver o filme “Vidas secas”. que fiz por ocasião de meu aniversário. Mas. nos romances e também nos contos. acredito.As alunas e os contos: a narrativa curta brasileira. foi bem diferente. Avisei que o horário era o brasileiro. etc.. eu dava preferência aos contos da antologia. por sugestão da outra professora. de jeito nenhum. Já adianto ao leitor. em volta dos convidados aboletados no apartamento pequeno. Parecia que os textos mais densos. mais “profundos”. Guimarães Rosa. depois das caipirinhas.

eu também queria ver no papel as minhas próprias emoções. advogados. a partir de Bosi (1994) e Piglia (2000). Não são contos nem crônicas. Machado os surpreendeu. o maravilhoso “Memórias de um sargento de milícias” (Almeida. . ou com a professora. as tantas violências domésticas que pipocam no tempo do Rei. Claro. sobre seus recursos. Pedi aos alunos que escrevessem um conto. A outra professora notou a ausência dos negros e pobres na narrativa. num dia importante para a cidade. nessas alturas. Queria que eles se sentissem confortáveis no gênero. eu deveria ter dado destaque. Mas. Buscava um elo. Eu fiquei lavando os pratos de uma feijoada sem festa. Notei ali o tanto de esforço que há em nossa descontração. interessada nas relações entre a realidade social e o caráter político da arte brasileira. Pareceu à classe que o autor ria de algo que não deveria ser piada. que acredito pouco interessava aos alunos. ainda se familiarizando com a narrativa. Discutimos um pouco a natureza do conto. E encontrei um primeiro elo. n.15. pensar o conto era uma viagem minha. deveria conter um encontro entre um brasileiro e um morador local. O resultado foi maravilhoso: imigrantes brasileiros discriminados que falavam palavrão. mulheres reflexivas. 2000). com leis. O encontro deveria ter algo de erótico e de conflituoso. americanos que de repente se lembravam das comidas e cheiros brasileiros. Era no começo do semestre. e poderia estar no fim ou no início da narrativa. Ficou espremido. e eu ainda me adaptava ao curso a quatro mãos. é na verdade um romance escrito em capítulos publicados em série. 2009 que nunca havia se sentido tão à vontade. e também que por meio do conto começassem a pensar sobre as diferenças entre as culturas americana e brasileira.180 Revista Brasileira de Literatura Comparada. mas quem é que vai dizer que não são boas crônicas imaginadas? E havia tradução. Mas acho que o texto de Manuel Antônio de Almeida fez tanto sentido aos alunos como a primeira feijoada que ofereci aos colegas. desafios e desfechos. encontros. choques. pela literatura e também pela modernidade de um Brasil antigo.

e contei para eles “A hora e a vez de Augusto Matraga”.. Todos adoraram. Rimos com outras cenas também. junto a sua modernidade. e apresentá-los com paixão (Lispector. Achei Guimarães Rosa difícil de apresentar. As traduções eram boas. que não achei traduzido. O perigo de Clarice é cairmos numa deferência exagerada à poesia e virtuosidade da autora. um diálogo com a tradição oral? Então por que não simplesmente contar as histórias de que eu gostava mais? Por que me prender a traduções selecionadas? Quando havia coisas que eu queria dar. eu contava. tinha uma coletânea de contos regionais maravilhosa. 2006). Eles toparam. A biblioteca da universidade estadual local. Pois o conto não traz. 1963) que tinham jeito de conto. interpretada por uma aluna em quem eu via algo da própria autora. escolhessem um pequeno trecho de um dos contos discutidos e elaborassem uma pequena cena. Então. Duas alunas em particular usaram o texto de Clarice para uma jornada de descoberta que encantou a todos. Uma delícia. pedi que formassem pequenos grupos. Algo se perde na tradução do autor. apropriando-nos da humanidade daqueles personagens intensos da autora. Assim como com Machado. mas também pela musicalidade do texto (Pessôa. cobriam muita coisa. era um desafio. não só pelo uso particular que faz da linguagem. depois. com o marido atordoado sem compreender a fuga da esposa etérea. 1984). Eu conseguiria trazer o . explorando o olhar perscrutador de Clarice e o modo sutil como ela define os ambientes externos e a vida interior dos personagens.. a surpresa de uma escrita sofisticada. Isso queria dizer que eu podia escolher meus contos favoritos. mas não havia tradução. organizada por Graciliano Ramos (1966).As alunas e os contos: a narrativa curta brasileira. Tensa também. Recortei alguns trechos de “Grande sertão: veredas” (Rosa. por exemplo. Fiquei animada. 181 Clarice foi fácil. contei. Sim. que falava à alma. quebrando a solenidade do texto. ao final de uma das aulas sobre a autora. passei tardes lendo as histórias e escolhi algumas para recontar. Então. E rimos com a cena final de “Amor”.

aquele diálogo em qualquer forma que fosse. Mas a partir do conto e da crônica brasileira. sem eles. Com eles. ao menos. E recontei. talvez por mim. eu o via sendo construído. emocionei. também escolhi algumas da coletânea “Cem melhores crônicas brasileiras do século” (Santos. Era um pouco ofensivo. mas acima de tudo frustrante. Mas tudo é questão de treino. E isso me tocava profundamente. claro.15. por exemplo. o que havia acontecido em outros ambientes da faculdade anteriormente. n. sugeri a leitura de alguns livros para quem quisesse se aprofundar e. algumas cômicas. fiz rir. éramos estranhos. Estavam todos eles ali presentes nas aulas. Para as crônicas. com outros. eu voltava à minha humanidade normal de quem fala e escuta. numa reunião de preparação para a viagem ao Brasil.182 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Sem eles. Então. alguns dos quais estavam matriculados em meu curso. não era gente. como sempre quando falo do Brasil. 2005). mas agradeço agora a Clarice e Rosa. Aquele elo que eu buscava. 2009 texto para a sala de aula? Recontar em inglês uma história querida? Com alguns. não. viramos personagens fascinantes de um teatro próprio. Mas as perguntas foram sobre aspectos corriqueiros da . a Denser e Ângelo. consegui. Sem eles. O risco que eu havia corrido era de ter virado naquela sala de aula uma simples nativa que conhecia os hábitos vigentes. falando para uma audiência interessada de um lugar que eu já havia visitado. Agradeço aos tradutores e editores também. Falei sobre a história política recente. expressa por meio de atos cotidianos às vezes até singelos. Talvez por uma turma aberta e interessada. No fim do curso agradeci aos alunos. é impossível descrever o valor que passamos a dar à comunicação humana. com eles. com eles nos conhecemos. quando dela somos privados. me chamaram para conversar com os alunos. Naquela classe – fazendo rir e chorar com histórias –. todos eles lá. eu. agradeço. a Scliar e Machado. sem dúvida conscientes de serem pontes precárias nesse importante diálogo entre as gentes. virei professora de novo. me entusiasmei. quanto mais professora. éramos sem graça. Muitas tristes. além das de Clarice e de Nelson Rodrigues.

um pouco disso ficou evidente.. não sei mais. Quando dei as aulas sobre as crônicas. da melhor forma possível.. o texto sem asperezas. irônica. Os alunos se encantaram com uma literatura sobre e também disponível no cotidiano dos leitores de jornais. tem aquele amor ao detalhe.. numa aula. quando a outra professora se juntou ao curso – bem. uma dinâmica em que eu fosse a nativa e ela a antropóloga podia ter se instaurado. e não de salto alto. Mesmo o texto filosófico de Clarice reforça o lado banal das grandes questões humanas. uma seleção de chorinhos que. Sou naturalmente uma professora crítica. Mas isso pode se perder na tradução. Uma literatura que anda de chinelo. fazendo barulho. Algo que me encanta na literatura brasileira é o texto macio. pelos textos que não se calquem apenas nessa leveza. Mas eu também trouxe. inconscientemente familiar a minha própria cultura. “aqui é que jantam um pouco cedo.As alunas e os contos: a narrativa curta brasileira. as pessoas jantam tarde?” Respondi que jantávamos no horário normal. os alunos apresentaram os projetos de seus trabalhos. e daí talvez as escolhas. Com a capacidade de olhar o cotidiano de um jeito rico – ou com a riqueza de nosso cotidiano. Mas. Então eu sentia que era eu que devia tentar explicar isso. pretensiosa. a uma certa delicadeza textual.. crítica de tudo. os alunos se matricularam num curso de uma brasileira. e nesse caso em particular eu via muitos problemas nos trabalhos. pode ser mordaz.” eu disse. que me pareciam mais leituras neutras comentadas que exercícios . Quando. eu não teria podido falar dessa literatura de que eu gosto e que é minha. pelos editores. eu esperava. Pode ser violenta. É algo intangível. Quanto ao meu curso. E desse lugar de nativa. mas tem uma maciez que você não encontra na literatura americana. que tragam o drama pesado ou político. me vi num dilema. A palavra que eu usava em aula é essa: nossa cultura é soft. 183 cultura nacional: “No Brasil. na metade do semestre. entenderam que ali havia um diferencial. trouxessem a musicalidade de nossa língua e de nosso texto que a tradução nunca poderia trazer. Mesmo Márcia Denser. lembrem disso.

foi muito produtivo. mas minha experiência no semestre anterior tinha me revelado uma falta de familiaridade com a investigação intelectual que eu não associava com o ambiente universitário. antes do curso. Quem era aquela Clarice ali. Pois meu espírito crítico teve de ser controlado. Comecei a aula perguntando se eles gostariam de ter minhas críticas.. mas para outros alunos aquele curso abriu as . Sou sempre otimista quanto aos alunos. Na aula seguinte. pois cada texto diz uma coisa para cada leitor.. e isso não é mau. que queria saber mais sobre as leituras dos alunos sobre os textos. E lasquei uma boa aula sobre a noção de interpretação de Peirce. Mas será que eu tinha autoridade para criticar os trabalhos. Então me surpreendi. sobre o que os contos e crônicas realmente haviam falado para eles. como disse anteriormente. Haviam me dito. ou me viam apenas. Uma coisa que me surpreendeu na classe foi a curiosidade sobre a filosofia da linguagem e as teorias sociais. os alunos mesmos – eu tinha na verdade um aluno e o restante da pequena classe formado por alunas – trouxeram tudo o que tinham pensado em escrever mas não consideraram acadêmico o suficiente. 2009 de interpretação que trouxessem novos aspectos dos textos e autores lidos. Eles assentiram. e de Machado para entender a relação entre a racionalidade e as crenças populares no Brasil do século XIX. que os alunos de pós tinham dificuldades de leitura e escrita comparáveis às dos de graduação. n. Alguns tinham já familiaridade com estudos culturais e feminismo. Ali estava uma turma que queria usar os textos de Clarice para compreender o existencialismo. dos projetos. Sobre a produção de sentido no jogo simbólico. como a nativa de plantão? Esse receio. indiretamente.15. quando comentamos os projetos propriamente ditos. paradoxalmente. Não falei dos trabalhos.184 Revista Brasileira de Literatura Comparada. sobre interpretações corajosas. nessa classe dada em colaboração? E será que os alunos me escutariam. Falei. que estava sendo produzida naquela sala de aula daquela faculdade daquela cidade do Cinturão Enferrujado americano? Que esquecessem a Clarice que eles achavam que os professores achariam a correta.

mas não opostos.As alunas e os contos: a narrativa curta brasileira. Discutimos como no Brasil e nos Estados Unidos as identidades nacional e étnica aparecem na literatura de modos distintos. A ponte. trabalhos que de um modo ou outro já conhecíamos a partir de lei- . novamente. 185 portas para Merleau-Ponty.. 2003). mesmo quando em tensão. árabe. Enfim. mesmo com pouco material. mas sim para introduzi-los e esperar que aquele se constituísse num primeiro contato com essa nossa literatura. os alunos apresentaram os trabalhos para a classe. E isso serviu de ponte para falar de Milton Hatoum e de sua Manaus misturada. Resolvi dar uma aula sobre a literatura judaica no Brasil (Waldman. na qual também víamos escritores de origem árabe. era tudo novidade. ao final do curso não havia mais tempo para se aprofundar nos autores. Simmel e outros pensadores bastante sofisticados. pois nos dois países as identidades se enriquecem. recebendo influências mil. Ao final do curso. obviamente.. e aí o processo foi inverso. no semestre anterior. foram aqueles nossos autores brasileiros. mas o tema geral da situação da mulher negra nas Américas era de conhecimento de todos. Havia apenas uma coletânea disponível (Alvares e Lima. mostrando o caráter diaspórico da literatura brasileira. Foi uma aula já ao final do curso. como parte dos eventos do Ano do Brasil. 2004). e com pontes indo também a lugares mil. indígena. africana. a poeta amazonense Astrid Cabral. Também ao final do curso. cotidianos e complexos. a discussão foi rica e acalorada. Funcionou? No todo. Os alunos ficaram encantados com aquelas influências literárias antigas que entraram no Brasil mas também na literatura europeia e americana. e isso foi bom: saímos então do lugar chamado Brasil para situarmos o Brasil no mundo. penso que sim. examinamos a literatura escrita por mulheres negras. brasileira. banais e sofisticados: falar da existência humana a partir de um ovo que se quebra dentro da rede. cuja palestra algumas alunas haviam visto. A faculdade havia convidado. Então. japonesa e. mas fazendo pontes com as literaturas de outros países também.

a partir de conversas com leitores de seu círculo de amizades. Uma escreveu sobre uma experiência de infância que se assemelhava ao olhar de estranhamento de Ana. o compartilhar de experiências. Sem alguma referência inicial. Mas estavam lá na sala de aula. Além disso.186 Revista Brasileira de Literatura Comparada. mesmo que inconsistente. Mas estavam lá comigo não apenas os autores que fizeram a nossa literatura. Não consigo terminar este artigo antes de falar brevemente dos trabalhos. que a leitura de Clarice evocou. Foram aulas de troca intensa. Todo o material apresentado era colocado no ambiente educacional virtual Moodle. Duas alunas escreveram também sobre a autora. 2009 turas e discussões anteriores. Um aluno fez uma análise filosófica de “O ovo e a galinha”. há . Na classe em que havia ideias iniciais sobre o Brasil. mas talvez não o coletivo. Tinham certamente um olhar distinto do meu. me ajudando a construir essa ponte que é um dos motores da literatura. como foi o caso desse curso de literatura. n. Uma excelente aluna de graduação que se matriculou no curso escreveu sobre os dilemas de gênero que apareciam em Machado e também em Nelson Rodrigues. elaborar. como também seus editores e tradutores na língua inglesa. que procurou refletir sobre sua própria cultura repleta de misticismos a partir do conto de Machado “A cartomante”. no conto “Amor”. Eu tinha a sensação de uma profunda solidão. procurou investigar que tipo de reflexão os textos de Clarice evocavam. avançar.15. Também aprendi que o contexto no qual esse ensino se dá é importantíssimo. é possível ir adiante. o que permitia essa troca de modo fácil e intuitivo. e às vezes deixavam de lado algumas gemas. pois a essa altura todos se sentiam um pouco autores uns dos trabalhos dos outros. de Lispector. é difícil tocar adiante o projeto educacional. Em outras. viam valor em textos que não me chamavam a atenção. O que ficou dessa experiência? Que ensinar literatura brasileira no exterior é um trabalho coletivo. Um trabalho que debatemos muito em aula foi escrito por uma aluna caribenha. A outra. é possível o aprendizado individual. é certo.

mostrei a um poeta novaiorquino com quem tenho um ótimo diálogo literário e pessoal. em uma conversa sobre a crise econômica. além de dar aulas de línguas. fugir do exame desigual . para que eles se familiarizassem com a língua. de conversação. Os alunos riram.. Mas a maioria não conhecia nada da língua. A professora com quem dividi o curso queria apresentar um panorama geral sobre a cultura brasileira. José?”. com uma brasileira que morava na cidade e. mas numa aula também coloquei o próprio Drummond declamando o poema. Depois. E aí começou a brincadeira: li o poema em português. 187 também as ideias iniciais da instituição e dos colegas sobre o Brasil. de Drummond. Fiz um primeiro esboço. não estava tirando sarro dela nas aulas com aquela entonação vagarosa..As alunas e os contos: a narrativa curta brasileira. Alguns alunos faziam um curso bem introdutório. uma colega fez um aposto para explicar quem era Keynes. E até tentei uma imitação de carioca. pois acredito que a partir de nossas realizações é que podemos nos reconhecer como iguais. e acredito que bater de frente com elas não seja a melhor alternativa. Fiquei me perguntando qual era o Brasil que ela imaginava. Essas expectativas todas entram na sala de aula. musicada. mas sim ir sutilmente as aceitando e subvertendo. para que eles compreendessem o significado. a produção literária brasileira. dei umas mexidas e pronto. nada mais. Pois por que não às vezes ser um pouco a brasileira palhaça. obviamente em português. estereotipada? Num belo dia resolvi traduzir o poema “E agora. Ou qual era o mundo. claro que explicando que era apenas uma imitação de paulista. Depois li o poema em inglês. e eu queria examinar o conto. li o poema imitando o sotaque baiano. Uma até confessou que agora se dava conta que seu professor de capoeira falava mesmo daquele jeito. também cantava na ópera e lecionava voz. o que esperavam de mim? Como imaginavam um professor brasileiro? Lembro-me que. Coloquei o poema em nosso site na internet. onde professores universitários da área de ciências humanas não conheciam Keynes. que não funcionou tão bem.

de viver. as vozes de nossos escritores estavam com eles. onde quer que tenham ido. 1984. O conto disse para eles que há outras formas de pensar. Acho que ela serviu de elo entre nós. LISPECTOR. Uma poética da musicalidade na obra de João Guimarães Rosa. de um modo que outra forma talvez não o fizesse. Foreign legion: stories and chronicles. 2004. Family ties. eu fui um pouco a nativa. BOSI. 2006. Consegui dar um curso sobre o conto como forma literária? Isso fica em aberto.. Uma nativa de óculos. 2009 de um povo sobre o outro. Dissertação (Mestrado) . Referências ALMEIDA. Alfredo. K. o sotaque. Memoirs of a militia sergeant. Mango Publishing. n. Oxford: Oxford University. O conto brasileiro talvez tenha sido porta de entrada para uma sensibilidade distinta – e para uma sociabilidade distinta também. New Directions Publishing Corporation. André Vinicius. Vieram em maio ao Brasil. 2000. O que viram? Com quem conversaram? Como se sentiram? Não sei.. David. Rio de Janeiro. Oxford anthology of the Brazilian short story. as minhas histórias pessoais e a minha vivência. Clarice. O romance sempre seria comparado ao que os alunos já conheciam da literatura inglesa e americana. PESSÔA. Oxford University.15. Maria Helena. De certo modo. os meus próprios contos. de sentir. trazendo a música. Mas de certo modo eu também apresentei esse panorama geral. JACKSON. para os alunos que fizeram esse curso. LIMA. São Paulo: Cultrix. 1992. Women righting: afroBrazilian women’s short fiction. ALVARES. Mas não sei se afirmo que realmente investigamos a forma. O conto brasileiro contemporâneo. Austin: University of Texas. 1994. Sei que. digamos. Miriam.188 Revista Brasileira de Literatura Comparada. 2006. _____. Muitos alunos disseram se surpreender com a forma sintética e evocativa que nós dominamos tão bem. Manuel Antonio de.

WALDMAN. 1966. 189 – Universidade Federal do Rio de Janeiro. As cem melhores crônicas brasileiras. Life as it is. The devil to pay in the Backlands. Berta. Formas breves. RAMOS. 2005. Host Publications. Darlene J. 1992. . 2008. 2003. Ricardo. RODRIGUES. 1963. SANTOS. Entre passos e rastros.. SADLIER. São Paulo: Perspectiva. Joaquim Ferreira dos. Nelson.As alunas e os contos: a narrativa curta brasileira. Graciliano.. Seleção de contos brasileiros. ROSA. Rio de Janeiro: Edições de Ouro. 2000. PIGLIA. One hundred years after tomorrow: Brazilian women’s fiction in the 20th century. Indiana University. Barcelona: Anagrama. Knopf. João Guimarães. Rio de Janeiro: Objetiva.

Pareceristas Arnaldo Franco Junior Benito Martines Rodriguez Clarissa Jordão Eurídice Figueiredo Isabel Jasinski Luís Bueno Luiz Carlos Simon Mauricio Mendonça Cardozo Marilene Weinhardt Paulo Soethe Renata Telles Silvana Oliveira Susana Scramin .

com uma folha de rosto onde constem os dados de identificação do autor: nome. no mínimo.título – centralizado. Eventualmente. título e temática escolhida. indicando a instituição à qual está vinculado(a). •  Após a folha de identificação. Usar asterisco para nota de rodapé. A extensão do texto deve ser de.org. Todos os trabalhos devem apresentar também Abstract e Keywords. telefone (com prefixo).br •  Os artigos podem ser apresentados em português ou em  outro idioma. Devem ser produzidos em MSWord 2007 (ou versão superior). por exemplo. com maiúscula só para as letras iniciais. espaço simples. endereço para correspondência (com o CEP). o trabalho deve obedecer  à seguinte sequência: . seguido da sigla. e-mail. instituição. 10 páginas e.Nome(s) do(s) autor(es) – à direita da página (sem negrito nem grifo). no máximo.191 Normas da revista Normas para apresentação de artigos • só serão aceitos trabalhos enviados pela internet para o endereço: revista@abralic. •  O espaço para publicação é exclusivo para pesquisadores  doutores. em maiúsculas e negrito (sem grifos). . poderá ser aceito trabalho de não doutor. O nome da instituição deve estar por extenso. 20. . desde que a convite da comissão editorial – casos de colaborações de escritores. duas linhas abaixo do título.

.Keywords – mesmas observações sobre as palavraschave. . O resumo deve ter no mínimo 3 linhas e no máximo 10. seguida de dois pontos. vêm com recuo de 4 cm na margem esquerda. Espaçamento simples entre linhas e parágrafos. itálico e maiúsculas. Com mais de 3 linhas. Palavras em língua estrangeira – itálico. em negrito. Máximo: 5 palavras-chave. A expressão palavras-chave deverá estar em negrito. duas linhas abaixo do nome do autor. gráficos etc.Notas – devem aparecer ao pé da página.Palavras-chave – dar um espaço em branco após o resumo e alinhar com as mesmas margens. seguida de dois pontos. numeradas de acordo com a ordem de aparecimento. dentro do padrão geral do texto e no espaço a elas destinados pelo autor. corpo menor (fonte 11).tabelas e ilustrações (fotografias. . Corpo de texto 10. n.Resumo – a palavra Resumo em corpo 10. 2009 . ano de publicação e página(s). . Corpo 10. ilustrações e tabelas. . . . corpo 12. sem itálico e também seguidas do sobre- .192 Revista Brasileira de Literatura Comparada.subtítulos – sem adentramento. negrito.) – devem vir prontas para serem impressas. sem numeração.Parágrafos – usar adentramento 1 (um). corpo 10. sem aspas. O texto-resumo deverá ser apresentado em itálico. .abstract – mesmas observações sobre o Resumo. com recuo de dois centímetros de margem direita e esquerda. quando houver. Usar espaçamento duplo entre o corpo do texto e subitens.15.Ênfase ou destaque no corpo do texto – negrito. . desenhos. itálico e maiúsculas. seguidas das seguintes informações entre parênteses: sobrenome do autor (só a primeira letra em maiúscula).texto – em Times New Roman. só com a primeira letra em maiúscula. .citações de até três linhas vêm entre aspas (sem itálico).

1977. Borges.. Somos feitos de palavras. a presença da ironia e da sátira. alguns exemplos de citações • citação direta com três linhas ou menos [. Valéry. pode-se recorrer a vários poetas. . 1998. • citação de vários autores Sobre a questão.Normas da revista 193 nome do autor (só a primeira letra em maiúscula). 1982. bem como permissão dos editores para publicação. .Referências – devem ser apenas aquelas referentes aos textos citados no trabalho. não há qualquer reivindicação de possíveis influências ou contágio. Campos.anexos. A palavra REFERÊNCIAS deve estar em maiúsculas.As citações em língua estrangeira devem vir em itálico e traduzidas em nota de rodapé.. ao contrário. o único testemunho de nossa realidade. evidenciando um confronto entre o sagrado e o profano. o enfoque das personagens . 37) • citação indireta [. 1969) • citação de várias obras do mesmo autor As construções metafóricas da linguagem.” (PAZ. ano de publicação e página(s). foi antes a poesia concreta que assumiu as conseqüências de certas linhas da poética drummoniana. negrito. sem adentramento e sem numeração. A palavra é o próprio homem.] entre as advertências de Haroldo de Campos (1992). devem ser colocados antes das referências. caso existam. em maiúsculas e negrito. as indefinições. duas linhas antes da primeira entrada. 1991. devem incluir referência completa. precedidos da palavra ANEXO.] conforme Octavio Paz. teóricos e críticos da literatura (Pound. “As fronteiras entre objeto e sujeito mostram-se particularmente indecisas. 1991. ou pelo menos.. Elas são nossa única realidade.. p. Eliot. Quando constituírem textos já publicados. sem adentramento. Recomenda-se que anexos sejam utilizados apenas quando absolutamente necessários.

15.. Vira e mexe. p. 148) alguns exemplos de referências • livro PERRONE-MOISÉS. tira ele e forma uma imagem que antes não havia.. Relações entre ficção e história: uma breve revisão teórica. São Paulo. 2006. (Org.122-33. veja-se um trecho do capítulo XV da Arte Poética de Freire: Vê.194 Revista Brasileira de Literatura Comparada. o regional. Leyla. 1988. n.] o nosso entendimento que a fantasia aprendera e formara em si muitas imagens de homens. 1991. [. Letras e Ciências Humanas. Claudia Pastore.] (FREIRE. 1999. 37. 2007. o nacional. V.. Itinerários. José Luís et al. In: JOBIM. São Paulo: Companhia das Letras. Niterói: EdUFF. 2004. concebendo que todo o homem tem potência de rir [.57. p. 1759. o planetário. 2009 em diálogo dúbio entre seus papéis principais e secundários são todos componentes de um caleidoscópio que põe em destaque o valor estético da obra de Saramago (1980. 1992) • citação de citação e citação com mais de três linhas Para servir de fundamento ao que se afirma. 22. • capítulo de livro BERND. que faz? Ajunta-as e. n.. O erotismo na produção poética de Paula Tavares e Olga Savary. Universidade de São Paulo. Paradoxos do nacionalismo literário. de tantas imagens particulares que recolhera a apreensiva inferior [fantasia]. Z. p. nacionalismo. p.). o internacional. Tese (Doutorado) – Faculdade de Filosofia. M. Araraquara. 87 apud TEIXEIRA. Perspectivas comparadas trans-americanas. 2004. • artigo de periódico GOBBI. . • dissertação e tese PARMAGNANI. Lugares dos discursos literários e culturais – o local. Zilá.

A intermediação da memória: Otto Maria Carpeaux. v.php?pid= S1517106X2008000100005&script=sci_arttext>. O comum e o disperso: história (e geografia) literária na Itália contemporânea. Alea: Estudos Neolatinos. 4. In: II CONGRESSO ABRALIC – Literatura e Memória Cultural.. p.Paulo. Jornal de Resenhas. Gramática do louvor. n.br/scielo. 1990. Ettore./jun. 10. 2008. 2000. observação final: A desconsideração das normas implica a não aceitação do trabalho. F. • Publicação on-line – Internet FINAZZI-AGRÒ. Acesso em: 6 fev. Folha de S. .. 85-95. • trabalho publicado em anais CARVALHAL. T. Anais. 2009. I. Disponível em: <http://www. 1. Belo Horizonte. Rio de Janeiro. 8 abr. Os artigos recusados não serão devolvidos ao(s) autor(es).scielo. São Paulo. jan.Normas da revista 195 • artigo de jornal TEIXEIRA. p.