REVISTA BRASILEIRA DE

São Paulo 2009

Diretoria Presidente Vice-presidente 1º Secretário 2º Secretária 1º Tesoureiro 2º Tesoureiro Conselho Fiscal

A B R A L I C 2009-2011 Marilene Weinhardt (UFPR) Luiz Carlos Santos Simon (UEL) Benito Martinez Rodriguez (UFPR) Silvana Oliveira (UEPG) Luís Gonçales Bueno de Camargo (UFPR) Maurício Mendonça Cardozo (UFPR) José Luís Jobim (UERJ, UFF) Lívia Reis (UFF) Sandra Margarida Nitrini (USP) Helena Bonito Couto Pereira (Universidade Mackenzie) Arnaldo Franco Junior (UNESP - S. J. do Rio Preto) Carlos Alexandre Baumgarten (FURG) Rogério Lima (UnB) Sueli Cavendish de Moura (UFPE)

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ABRALIC CNPJ 91.343.350/0001-06 Universidade Federal do Paraná Rua General Carneiro, 460, 11.o andar 80.430-050, Curitiba - PR E-mail: revista@abralic.org

REVISTA BRASILEIRA DE

ISSN 0103-6963 Rev. Bras. Liter. Comp. São Paulo n.15 p. 1-195 2009

2009 ISSN 0103-6963 1. pesquisadores e estudiosos de Literatura Comparada. sem permissão por escrito. 1991v. em 1986. n.1. entidade civil de caráter cultural que congrega professores universitários. fundada em Porto Alegre. n.1 (1991) – Rio de Janeiro: Abralic.15.2008 Associação Brasileira de Literatura Comparada A Revista Brasileira de Literatura Comparada (ISSN. Nenhuma parte desta revista poderá ser reproduzida ou transmitida. I.2. sejam quais forem os meios empregados. Literatura comparada – Periódicos. Todos os direitos reservados. Associação Brasileira de Literatura Comparada.0103-6963) é uma publicação semestral da Associação Brasileira de Literatura Comparada (Abralic). Editor Organizador Comissão editorial Luís Bueno Maurício Mendonça Cardozo Luiz Carlos Santos Simon Benito Martinez Rodriguez Silvana Oliveira Luís Bueno Maurício Mendonça Cardozo Preparação/Revisão Diagramação Patrícia Domingues Ribas Rachel Cristina Pavim Revista Brasileira de Literatura Comparada / Associação Brasileira de Literatura Comparada – v.005 CDU 82.091 (05) . CDD 809.

Sumário Apresentação Luís Bueno Mauricio Cardozo 7 Artigos Os estudos de língua e literatura brasileiras no contexto dos estudos portugueses e latino-americanos na Alemanha Ligia Chiappini A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria Ferenc Pál Tempos e contextos da literatura brasileira na Argentina e no exterior Florencia Garramuño Ideia de literatura brasileira com propósito cosmopolita Abel Barros Baptista O ameríndio como personagem do Outro na literatura brasileira contemporânea: Órfãos do Eldorado e Nove noites Rita Olivieri-Godet Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate de nosso tempo Idelber Avelar O ensino de literatura brasileira por meio do Teatro do Oprimido: uma experiência na Carolina do Norte Érica Rodrigues Fontes 9 25 49 61 89 113 151 .

As alunas e os contos: a narrativa curta brasileira num curso de escrita criativa nos Estados Unidos Heloisa Pait 173 190 191 Pareceristas Normas da revista .

Respondendo a essa proposta inicial. organizados a partir da dimensão que privilegiam em sua discussão. Rita Cavalieri Godet. os artigos que compõem este número da Revista formam três blocos diferentes. o que se destaca é a dimensão por assim dizer institucional dos estudos brasileiros no exterior. Ferenc Pál e Florencia Garramuño. No primeiro bloco. a Revista Brasileira de Literatura Comparada procurou abrir um espaço para a discussão dos diferentes lugares e dinâmicas de estudo da literatura brasileira fora do Brasil. da . da Universidade Nova de Lisboa. O artigo de Lígia Chiapinni é o significativo balanço da experiência fundamental que representou a criação e rápida extinção da única Cátedra de Brasilianística de uma universidade alemã. vale-se do conceito de “hospitalidade” para discutir o estatuto do estudioso estrangeiro de literatura brasileira. ao concentrar-se nas questões levantadas pelas leituras brasileira e estrangeira de Machado de Assis. O segundo bloco é constituído por três trabalhos que privilegiam a dimensão da análise literária.7 Apresentação Ao propor como tema os “Estudos de literatura brasileira no exterior”. bem como de suas relações com o deslocamento da posição ocupada pelo Brasil no cenário político e econômico mundial nas duas últimas décadas. traçam amplos panoramas históricos – com um olhar atento ao futuro – dos estudos de literatura brasileira em dois países que se localizam a distâncias (não só geográficas) muito diferentes em relação ao Brasil: Hungria e Argentina. por sua vez. Abel Barros Baptista.

enfrenta as dificuldades das pequenas faculdades americanas. No primeiro deles. ao tomar partido de sua posição de professor brasileiro que atua nos Estados Unidos. Érica Rodrigues Fontes trata de sua proposta de utilização dos fundamentos do Teatro do Oprimido de Augusto Boal como instrumento de aproximação de uma realidade que. 2009 Universidade de Rennes 2.8 Revista Brasileira de Literatura Comparada. apesar de ter grande tradição. Já Idelber Avelar. O bloco final nos traz dois relatos que investem na dimensão da experiência de professoras brasileiras nos Estados Unidos. Heloisa Pait conta como procurou superar as dificuldades de discussão de textos brasileiros em tradução no contexto de uma instituição que.14. No artigo que fecha este número da Revista Brasileira de Literatura Comparada. convoca estudiosos tanto brasileiros como estrangeiros para retomar um tema fulcral da crítica: o do estabelecimento do valor. Luís Bueno Mauricio Cardozo . da Universidade de Tulane. lança seu olhar para a representação que a ficção brasileira contemporânea faz do ameríndio. n. em princípio. é estranha ao aluno estrangeiro. ao realizar cuidadosa leitura de obras de Milton Hatoum e Bernardo Carvalho.

confirmaria uma tradicional contradição na Alemanha entre um grande interesse pelo Brasil e um quase desinteresse por sua literatura. bem como na pesquisa. literatura brasileira. que influenciam o diálogo entre o autor traduzido e o Professora catedrática de Literatura e Cultura Brasileiras do Instituto Latino-Americano da Universidade Livre de Berlim. entre 1997 e 2010. * . do confirm a traditional contradiction in Germany between a great interest in Brazil and almost no interest in its literature. closure chair A literatura proveniente da América Latina tem direito a ser considerada no mesmo nível que outras literaturas. resumo: palavras-chave: ensino e pesquisa. Atualmente trabalhando na orientação de teses no mesmo Instituto. The interruption of this experience in October 2010. os clichês. abstract: The current status of the studies of Brazilian language. Porém os preconceitos ou. Brazilian literature. literature and culture in Germany is described by the author who occupied the only Chair in Brasilianistik ever created in Germany for almost fifteen years at the Freie University of of Berlin.9 Os estudos de língua e literatura brasileiras no contexto dos estudos portugueses e latino-americanos na Alemanha1 Ligia Chiappini* Situação atual dos estudos de língua. Portuguese Em memória de Marlyse Meyer. encerramento cátedra. keywords: teaching and research. descrita a partir da experiência única da cátedra de Brasilianística que a autora ocupou por quase quinze anos na Universidade Livre de Berlim. Não é preciso acentuar que uma obra literária transmite muitos elementos procedentes de outra cultura na ficção e desperta para outras formas de viver e de pensar. não deveria ser lida somente como veículo de informações sobre o país. junto ao Centro de Pesquisas Brasileiras. digamos. literatura e cultura brasileiras na Alemanha. 1 language. reforma curricular. do qual é co-fundadora. curriculum reform. A interrupção dessa experiência. a partir de 2010.língua portuguesa.

propondo para nossa reflexão alguns problemas que pude identificar em quase quinze anos de trabalho na Universidade Livre de Berlim. significa Literatura Brasileira ou Filologia Brasileira. literatura e cultura brasileiras e de suas diferentes modalidades na Alemanha. muito complicado. em alemão. tais como a Germanistik. E. a Hispanistik. como a primeira. Auerbach. a língua portuguesa fica quase tão desconhecida como o pérsico ou o sânscrito. das artes plásticas.2 Brasilianistik. Mas o que parece simples no enunciado acima é. são. por analogia a outras áreas desses estudos. que atualiza informações já divulgadas em algumas publicações anteriores. que conheço melhor. abrindo-se a outras linguagens. Para além da filologia mas com a filologia. Adorno e Benjamin. única e. principalmente em Berlim.10 Revista Brasileira de Literatura Comparada. adotou o tratamento da literatura como manifestação cultural. 2009 seu leitor estrangeiro. até segunda ordem. da poesia e narrativa orais. da música popular. de mais longa tradição acadêmica. a Anglizistik. (Johann Jacob von Tschudi) O objetivo deste texto é resumir um pouco o percurso e a situação atual dos estudos de língua. pelo menos na terra de Spitzer. Esta ironia se esclarecerá no decorrer deste texto. no texto “Literatura e cultura no contexto dos estudos brasileiros na Alemanha: a cátedra de Brasilianística” (Chiappini. Na Universidade Livre de Berlim. (Ray-Güde Martin) Nos meios cultos da Alemanha. n. pois a literatura brasileira Por exemplo. nesse contexto. ela se localizou na confluência do Departamento de Romanística com o Instituto de Estudos LatinoAmericanos. do cinema. para citar apenas alguns dos grandes estudiosos de língua alemã que trataram dos textos em seus contextos e dos contextos nos textos. ao que parece. na verdade. pois esta não deve ser confundida com o estudo meramente formal dos textos em si mesmos. da televisão. última professora de Brasilianística da Alemanha.15. difíceis de desaparecer na mente das pessoas. 2005) 2 .

nos departamentos de Romanística das Universidades. ou dos estudos hispanoamericanos. nos departamentos ou institutos latino-americanos. do início do século XIX ao final da década de 90 do século XX. Começa constatando nesse percurso um permanente desequilíbrio na visão do Brasil pelos estudiosos na Alemanha. tensionada entre os Estudos de Literatura e Cultura Latino-Americanos – hoje identificados com os Estudos Culturais Norte-Americanos – e a Lusitanística. que sempre por ele se interessaram. mas também na ignorância da dimensão que a própria língua portuguesa tem no mundo. vigorando “enfoques valorativos eurocêntricos e critérios preconceituosos” (Briesemeister. Em palestra realizada no primeiro simpósio internacional promovido pela Brasilianística. 3 ainda enfrenta dificuldades para ser reconhecida em sua autonomia (mesmo que relativa. que se publicou posteriormente em livro com o mesmo título. por parte dos que nunca quiseram a cátedra de Brasilianística na Universidade Livre de Berlim e retardaram ao máximo a sua criação. p. p. como parte da Romanística. geógrafos. caso do nosso Instituto. e paralelamente. O desconhecimento e o desinteresse não se manifestariam apenas na ausência ou invisibilidade da literatura. etnólogos. mesmo em contextos nos quais se impôs como necessária. 349). Por outro lado. 2000. tornaram a vigorar. E aí também a situação piora dia a dia. 349). Entre aqueles e estas. com o português fazendo parte de uma estrutura que privilegia o espanhol (2000. uma ignorância quanto à “participação individual do Brasil na cultura universal”.. apoiaram ou facilmente aceitaram a sua extinção quinze anos depois. haveria um semidesconhecimento cultural e. botânicos. processo que durou de 1988 a 1995. que ajuda a entender a situação presente.3 Ainda segundo Briesemeister: Os estudos brasileiros. no caso da literatura. sempre foi um apêndice de Portugal. ela perde espaço e visibilidade. seria esse País Tropical um paraíso para geólogos. sobre ele pesquisaram e escreveram. sendo ela frequentemente . e por parte dos que provocaram.. Dietrich Briesemeister (2000) faz um balanço dessa luta. Por um lado. mesmo. como a de toda literatura). depois de uma longa luta pela institucionalização da disciplina.Os estudos de língua e literatura brasileiras no contexto. aliás. 11 Critérios e preconceitos que. sociólogos. “Brasil: país do passado?”.

. 2000. a maior parte dos quais. deixando as manifestações culturais sempre em segundo plano. . 2009 comparada ao sânscrito e ao romeno. até há pouco tempo. O mesmo fenômeno nota Briesemeister nos livros sobre literaturas latino-americanas. O português entra em competição com o espanhol como “terceira língua”.15. 351). A regra continuaria sendo o predomínio do interesse econômico. autor de Le Brésil Littéraire. de 1924 (Briesemeister. como no contraexemplo do livro de Wilhelm Giese. constata-se até uma tendência regressiva em comparação com o posicionamento avançado do erudito austríaco (Briesemeister. Isso revelaria um grande desconhecimento tanto da dimensão quanto da qualidade desta. Die Spanisch-amerikanische Literatur in Ihren Hautströmungen. como no livro de Max Leopold Wagner. n. publicado em 1863. como línguas mais ou menos exóticas e minoritárias: Não obstante o número muito elevado e ainda o aumento da população mundial dos países lusófonos em quatro continentes (. 351)..12 Revista Brasileira de Literatura Comparada.). p. O Brasil e a Alemanha: 1822-1922. principalmente. p. em que a literatura é a grande ausente. Pelo contrário. p. ficando atrás em relação ao número de alunos (Briesemeister. Lamenta que esse exemplo não tenha sido seguido como merecia e acusa mesmo um possível retrocesso: desde aquela obra singular de Wolf. o ensino torna-se imperdoavelmente reduzido nas universidades alemãs. 350-351). deixava de fora o Brasil: (O) Brasil continuou ausente das obras que tratavam da América Latina e. da valorização e da divulgação da literatura brasileira. 2000. 2000. como a posição do austríaco Ferdinand Wolf. Briesemeister reconhece algumas raras exceções a essa tendência ainda no século XIX. não se fez muito nos países de língua alemã a favor da pesquisa. de sua literatura.

Os estudos de língua e literatura brasileiras no contexto. em 1912. . em Mettingen. finalmente. o livro de Michi Strausfeld. o Instituto Latino-Americano. falava-se freqüentemente em América Latina. depois de muitos prós e contras. o Centro Latino-Americano de Münster e. 351) dos estudos portugueses e brasileiros na Alemanha. ocupada pela autora deste texto. dos Frades Franciscanos. o mesmo autor resume “o largo caminho da institucionalização” (Briesemeister.” (Briesemeister. Defendendo a necessidade dos estudos regionais e. p. como o Instituto de Cultura Brasileira. a partir de 1995. ou seja. o Instituto Português e Brasileiro da Universidade de Colônia. ao mesmo tempo. 353) Essa foi realmente uma conquista significativa. p. da Universidade Livre de Berlim. o Instituto Ibero-Americano do Patrimônio Cultural Prussiano. que só 25 anos depois de criado. 2000. só contém artigos dedicados a autores de língua espanhola (Briesemeister. Materialien zur lateinamerikanischen Literatur (1976). a diversificação interdisciplinar. p. Criada em 1989 e somente em 1997. Destaca também novos centros. a fundação do primeiro Instituto Latino-Americano da Alemanha. 2000. mas quase sempre com referência exclusiva à América espanhola. Por exemplo. no qual foi proferida essa conferência de Briesemeister. como primeiro centro de estudos interdisciplinares sobre América Latina numa universidade alemã. 2000. pontuando. 351-352). da qual tiramos a epígrafe acima. 13 Ainda nos anos 60 do século XX. pelo cônsul Heirich Schüler. Ainda antes da segunda guerra. o Instituto Geográfico da Universidade de Tübingen. bem como a de Ray Güde-Mertin. foi “dotado de uma cátedra (única no país) de literatura e cultura brasileiras. a cátedra mal completara um ano quando organizamos o simpósio internacional.. a criação de três institutos que continuaram existindo depois dela: o Instituto de Pesquisas sobre Ibero-América da Universidade de Hamburgo. em Aachen.. em Berlim.

o qual não podemos esquecer.15. como “Altos e baixos estudos”5 de literatura e cultura e não como Cultural Studies. arbitrário e puramente folclórico. da Literatura Comparada. 2009 Considerando as lacunas apontadas por esses e outros estudiosos. tais como filmes. novelas de televisão. encarregados de cursos de língua. já nos anos 1970.4 Mas isso não significou tratar os textos isoladamente. embora ela tenha trabalhado também com textos não canônicos e com textos que só podem ser considerados literários em sentido amplo. ainda. a história e as ciências sociais. que já constituem mais de dois séculos de um saber acumulado. que aprenderam português brasileiro com Berthold Zilly e outros excelentes mestres. n. assim. entre outros. mas tudo isso sem esquecer sua base nos estudos de literatura brasileira. a cada nova tendência teórica produzida nos centros universitários hegemônicos da Europa e Estados Unidos da América do Norte. valorizava com saudável distanciamento irônico os estudos culturais para além dos cânones literários. a começar por tudo o que o une à América Latina. 4 O termo se deve a Marlyse Meyer. ambos parcialmente financiados com auxílio do governo brasileiro. entre os quais. da Lusitanística. aos estudos sobre cordel e folhetim. bem como da Latino-americanística e em diálogo estreito com a Caribística. Zinka Ziebell. dedicandose. porque estes muitas vezes tendem a confinar o estudo dos textos e a própria literatura nos países considerados periféricos a um conjunto de informações superficiais e até mesmo estereotipadas das produções culturais. numa predisposição e abertura para a inter/pluri/transdisciplinaridade. a proposta sempre foi trabalhar com o Brasil sem deixar de levar em consideração a sua integração no mundo. tanto como parte de uma hipotética Weltliteraturwissenschaft quanto da Romanística. a economia. da teoria e da história literárias com a linguística. Por outro lado. a Brasilianística no LAI dedicou-se sobretudo ao estudo sistemático e à divulgação dos textos mais significativos da Literatura Brasileira. implicando um diálogo constante da crítica. essa foi sempre a direção buscada. que. entre outros. permitindo-se juntar num único seminário. sem desconhecer suas especificidades linguísticas e históricas. como quem inventa a roda. poesia oral. de modo indiscriminado. Carlos Azevedo e Carlos Ladeira. artes e comunicações. mitos. 5 . hoje também leitora na FU. A Brasilianística concebeu-se. Para tanto. muito antes de os Cultural Studies se terem transformado em moda na América Latina. contou com uma ótima base linguística dos estudantes. dos estudos de teatro.14 Revista Brasileira de Literatura Comparada. havendo um esforço permanente para relacioná-los com seus contextos. A Brasilianística concebeu-se.

impedindo que se dissolvessem conteudística.. associação de brasilianistas dos Estados Unidos. 6 aulas sobre descobrimentos. promover eventos. assinar convênios e gerenciálos. entendendo que negar essa possibilidade em nome da democracia. como permite o sistema brasileiro: desde orientar teses de doutoramento até coordenar projetos. Para entender a importância disso – sobretudo porque no Brasil poucos percebem a diferença entre as condições de trabalho de um professor e de um assistente ou de um leitor. como social e histórica. seria um efeito perverso da atitude libertária. o intercâmbio interdisciplinar com os estudos hispano-americanos de literatura e cultura. todo docente universitário com doutorado poderia fazer. tão importante na formação das novas gerações. Como já foi dito. Por outro lado. O jornal chama-se Fagulha e no número de 1997 estampou esse programa como alternativa aos programas tradicionais de literatura e cultura brasileira. a Brasilianística sempre defendeu o espaço e a possibilidade de os escritores brasileiros escreverem e publicarem literatura. onde a hierarquia universitária se mantém de modo muito rígido e conservador. o aprofundamento da pesquisa e do ensino específicos da literatura e da cultura brasileiras preservou. possibilita uma continuidade de produção teórica e prática no ensino e na pesquisa.6 Finalmente. e mesmo intensificou.e redutoramente nas ciências sociais. como em qualquer parte do mundo. é preciso saber que na Alemanha. um cargo de professor implica um espaço próprio e possibilidades bem maiores de fazer coisas que. para não falar dos professores horistas ou encarregados de cursos –. embora vinculando-se estreitamente a elas. mesmo que bem intencionada. como abertura para o não canônico. aparentemente. música popular brasileira e jeitinho brasileiro. No caso da Brasilianística. 15 Como defendeu um colega norte-americano no jornal da Brazilian Studies Association (Brasa)... Isso tudo. mais o contrato permanente de trabalho. . pois a literatura sempre foi estudada aí como parte da cultura e esta. permitiu conquistar um espaço autônomo para os estudos de literatura e cultura. Guimarães Rosa.Os estudos de língua e literatura brasileiras no contexto. escravidão. com esse cargo de titular para a Brasilianística criou-se a possibilidade de os estudos brasileiros escaparem à situação de apêndice dos estudos portugueses ou hispano-americanos.

um ano antes do balanço pessimista mas realista de Briesemeister. quando a Universidade começava a ser pressionada para ajustar-se às reformas neoliberais. a oferta de quatro a cinco cursos diferentes por semestre. n. 2000. uma das primeiras áreas atingidas foi o português. e mesmo portuguesa. pois permite não apenas aprofundar a interdisciplinaridade mas também desenvolver atividades que levem a superar culturalmente o tratado de Tordesilhas. no sentido acordado em Bolonha: generalização dos cursos de Bachelor e Master e substituição dos cursos tradicionais de graduação. como a então recente criação da Brasilianística. prevendo a extinção de postos e áreas inteiras. aqueles identificados no passado. apesar de suas contradições. p. Entretanto. tanto na sua tradição. piorou.15. ajuste esse que o autor antecipou e que logo iríamos começar a viver de modo vertiginoso. a . parece ser o lugar institucional ideal para uma disciplina desse tipo. ou mesmo por causa delas. concorrendo para a integração da América Latina. segundo ele. com a introdução das reformas curriculares nas universidades alemãs e europeias. Nas Humanidades. 2009 É importante assinalar que o Instituto Latino-Americano. A reforma universitária vinha junto com significativos cortes de orçamento. O experiente professor e pesquisador já pressentia nessa reforma novos entraves para os poucos progressos feitos na institucionalização dos estudos de língua e literatura brasileira. Tais entraves iriam reforçar. 354). Apesar das várias realizações da Brasilianística – entre outras.16 Revista Brasileira de Literatura Comparada. como vimos. a Brasilianística começou a funcionar já num momento extremamente desfavorável. na Alemanha. o que o levava a sugerir um tanto profeticamente que tudo tenderia a piorar: O que impede quase insuperavelmente a independentização dos estudos brasileiros nas condições precárias do momento atual são as estruturas administrativas organizatórias da universidade alemã. realmente. como no âmbito das reformas anunciadas para o futuro próximo (Briesemeister. E.

como parte do BA de Estudos portugueses e brasileiros. Ele enunciou. a Universidade Humboldt encerrou mais radicalmente esses estudos. formas de vida. A Universidade Livre tem mais condições hoje de manter uma parte deles.8 Ao nível do Bacharelado. ao espanhol da América. o que significa.. ao nível do Master. concretamente. . passou para o mesmo departamento. em menos de cinco anos. Poder e diferença. menos disciplinas. não só para garantir. Brasil no contexto global: literatura. Esse master começou em outubro de 2005. a organização de simpósios. Como também previu Briesemeister. a qualidade da pesquisa científica.. Em Berlim. 17 As recentes reformas implicaram o fechamento de departamentos inteiros de português em toda a Alemanha. ao nível do BA. uma formação mais superficial na área. o estabelecimento e gerenciamento de convênios internacionais com outras instituições dedicadas à cultura e à língua brasileiras no Brasil e na Europa –. em face disso. uma necessidade que estamos longe de preencher: Sem dúvida. mais econômicos que científicos. Num segundo ano. além de um módulo para desenvolvimento de projetos. em nível institucional. então. mas estranhamente assimilada ao BA de Filologia Espanhola. América Latina no contexto global. o português brasileiro. inevitável e urgente. mas também para ajustar a formação profissional dos jovens universitários às exigências de hoje (Briesemeister. como os outros). Antropologia cultural. transformações.. cultura e sociedade. 350). Conceitos e métodos da pesquisa sobre América Latina. Não apenas a literatura brasileira se vê ameaçada. a exclusão do Brasil da América Latina ou. da qual fazia parte a Brasilianística como uma subárea. Os básicos são: Constituição da América Latina. ciclo de palestras e publicações. Relações de gênero. o que significa menos carga horária. com cinco módulos obrigatórios e alguns opcionais. decretou-se o seu desaparecimento no âmbito mais geral seja da Lusitanística. a assimilação de uma língua de quase 200. Motivos? Ao que parece. com um BA de estudos brasileiros e portugueses (valendo 60 pontos e não 90. mas o máximo que conseguiu foi fazê-los sobreviver como diploma complementar aos Bachalerados da Romanística. quando os novos bacharelados já haviam começado e hoje já se evidencia em ambos a necessidade urgente de serem repensados e reformulados. enquanto a disciplina de Latino-americanística.7 seja no âmbito dos Estudos Culturais Latino-Americanos. Os “dilemas da institucionalização” ameaçam também a variante europeia da língua e os respectivos estudos literários e culturais específicos da lusitanística. Literaturas nas dinâmicas culturais da América Latina. p. a língua e a literatura brasileiras deslocaram-se para o departamento de Filologia Românica. menos professores: ou seja.000. 7 O Master do Instituto prevê um primeiro ano comum. 8 orientação de mestrados e doutorados. planejou-se e. a especialização é absolutamente necessária. 2000). os alunos podem optar entre cinco áreas de concentração: Transformação e desenvolvimento.Os estudos de língua e literatura brasileiras no contexto.000 de falantes. “torna-se impossível conciliar as necessidades da diferenciação adequada com os critérios didáticos de aprendizagem e as relações histórico-culturais dos países do mundo lusófono” (2000.

entretanto. 9 .fuberlin. No caso do Instituto Latino-Americano da Universidade Livre de Berlim.lai. “sorriso da sociedade”. pela extinção do cargo após a aposentadoria da sua titular. para cursos destinados aos interessados das áreas consideradas mais úteis. que por si só a justifica. E justamente agora.18 Revista Brasileira de Literatura Comparada. justifica a criação de bacharelados disciplinares em que os estudos portugueses e Veja-se a lista das publicações. Trata-se.html>. em 1997. esse Instituto conseguiu abrir um cargo de titular em literatura e cultura brasileiras. após muitas idas e vindas. mas está sendo canalizada. eventos.de/studium/disziplinen/ brasilianistik/index. que eram contemplados normalmente no antigo currículo. cursos e projetos de pesquisa em nossa homepage: <http://www. que quase dez anos depois. 2009 A restrição da oferta no ensino de português. como vimos.15. Uma tarefa da Brasilianística. ligadas aos negócios ou às chamadas ciências sociais. quando expressivos resultados do trabalho aí desenvolvido começam a aparecer. ocupado pela primeira colocada no concurso feito em 1990. com tentativas de fechá-lo antes que começasse a funcionar e tendo funcionado dois anos com professores substitutos. há um paradoxo. como vimos. ajudar a superar tanto uma suposta autonomia absoluta dos estudos filológicos quanto o preconceito de muitos brasilianistas das ciências sociais. na variante europeia e nas demais. do instituto mais importante na Alemanha dedicado aos estudos sobre a América Latina. finalmente. só em 1989. Existindo desde meados da década de 1970. não aos estudos de literatura e cultura ou aos estudos linguísticos. para os quais a literatura é vista ora como uma joia supérflua. que continua a crescer. n. se propôs a criar um Centro de Pesquisas Brasileiras. indo além do seu próprio gueto.9 corta-se a sua continuidade. consiste em. com uma tradição respeitável de estudos sobre o Brasil e que. veio a ser. como queria o escritor brasileiro Afrânio Peixoto no início do século XX. ora como seu equivalente ao contrário: puro documento. pelo menos. recentemente. Essa concepção ainda positivista da literatura e das artes embasa ou. coerentemente com a tradição de que nos falava Briesemeister. não foi acompanhada de uma diminuição da demanda.

Socio- . sem o domínio da língua e dos métodos de leitura desenvolvidos pelas teorias da literatura. mais que uma série de informações sobre eles. mas não se sabe ainda muito bem o que fazer dos estudos da cultura quando esses ultrapassam as leituras meramente conteudísticas e passam a investigar o tratamento dado aos temas. começa-se a rediscutir as bases do nosso Master de Estudos Latino-Americanos que se quer interdisciplinar. as diferentes disciplinas – Altamerikanistik (Antropologia e Arqueologia do continente americano). que é a capacidade de trabalhar intensivamente. 11 brasileiros têm menos pontos (60. bem como a historicidade das formas. Lateinamerikanistik/Brasilianistik (Literatura e Cultura Latinoamericanas). Atualmente. um método para que cada um produza seu próprio método. neste caso. pelo predomínio da análise conteudística ou a abordagem das condições de produção ou de recepção dos textos. como ocorria há quinze anos. De todo modo. embora uma avaliação menos pessimista não veja isso como desmonte. a Brasilianística voltou a fazer parte de uma só disciplina. incapazes de dar conta da sua complexidade como objeto feito de palavras que são ao mesmo tempo coletivas e individuais. 19 A cada ano. o que tentamos. pois o que se ensina.. que abrange toda a América Latina e o Caribe. mas como concentração desses estudos em algumas universidades em detrimento de outras.11 História. 10 Nesse conjunto. necessárias e esclarecedoras mas externas a eles e. textos que constituem nosso objeto de estudo. com profundidade. a partir do semestre de inverno de 2010. é uma atitude analítica. contra 90 nos bacharelados principais)10 e menos tempo ou nos Masters interdisciplinares. senão um lamentável retrocesso. e esta não se faz sem um domínio da linguagem em que se expressa cada texto como produção simbólica. perdendo sua especificidade. foi resguardar o essencial. aí se procura articular em torno de certos temas. portanto.Os estudos de língua e literatura brasileiras no contexto. no nosso espaço cada vez mais restrito. pelo menos desde Aristóteles. servida por apenas um cargo de titular. mas tampouco fazer tabula rasa do capital teórico e analítico aí acumulado.. em que a literatura e a cultura submergem nos chamados estudos de área. No caso da literatura. o que configura necessariamente uma grande restrição. Em meio a tantas mudanças. o que não significa utilizá-los de modo acrítico ou extemporâneo. o que importa aqui é a qualidade da formação. considerados prioritários. o que implica a desconsideração total da questão estética. Mais que quantidade de informação. a Associação dos Lusitanistas alemães faz um balanço do desmonte dos estudos de língua e literatura em língua portuguesa e constata que ele prossegue.

p. mas dificilmente o é. principalmente se tratando do Brasil e da América Latina. trata-se de um desafio que é o desafio de todo trabalho interdisciplinar. 180). o que implica a busca de padrões e categorias que permitem tratar adequadamente semelhanças e diferenças. incluindo a literatura e cultura. No caso da literatura. O desafio.20 Revista Brasileira de Literatura Comparada. com a Antropologia. chegando à “expressão dos sentimentos no âmbito familiar” (Candido. Mas é verdade que isso se fez muitas vezes de modo implícito. é que. não é possível estudá-la sem relacioná-la intimamente com a História. nesse diálogo das disciplinas. “desde o formalismo jurídico até o senso humanitário”. agora. tudo foi historicamente permeado pela literatura. quando ela aparece na sua complexidade. é preciso reconhecer que. com a Sociologia. como reconheceu há muito Antonio Candido. Como devem ser abordados os objetos literários a partir da perspectiva dos estudos propriamente literários. mesmo que não quisessem sê-lo.15. em Berlim. ao mesmo tempo como criação estética e como documento. onde. 1989. Ciências Políticas e Economia. tivemos até quase o final de 2010 uma situação que se pode considerar de excelência na área dos estudos brasileiros. é o de explicitar a comparação imanente. a fim de que esse diálogo realmente seja um diálogo e não a submissão ou a diluição destes perante uma hegemonia das ciências sociais? Seja como for. Essa excelência deriva de . com a Economia. pode dizer muito mais sobre a vida. 2009 logia. A teoria e crítica literárias aí já nasceram comparadas. E num país onde a literatura se forma sob a pressão e a certeza de que se está gestando com ela também a nação. Quem estuda literatura e cultura num país como o Brasil sabe que não é possível fazê-lo a não ser estabelecendo comparações. com a Política. Ao mesmo tempo. o que precisava ser compreendido. n. Parece óbvio – mas nem sempre o óbvio é percebido como tal – que não é possível realizar um trabalho inter ou transdisciplinar sem respeitar os pressupostos epistemológicos e metodológicos próprios de cada disciplina.

Pelo lado brasileiro. o que chegou a ser lido como nostalgia. reforcei esse tom pessimista em outras publicações. mas também num estudo de Walnice Nogueira Galvão e em informações divulgadas nos encontros bienais da Associação de Lusitanistas Alemães. vêm enfrentando nos últimos anos. no contexto dos estudos de português em geral. sob o mote de “Wir wollen Portugiesisch” (Nós queremos português). financiando pelo menos parcialmente alguns leitorados. Essa excelência precisa ser defendida e potencializada. volta a se fazer presente. mas isso parece difícil de ser conseguido. hoje se financiam novos leitorados para compensar algumas perdas ou se estabelecem convênios que permitem preservar sobretudo os cursos de língua que sobreviveram nos novos currículos. além de contarmos com uma professora para essa cátedra.Os estudos de língua e literatura brasileiras no contexto. mas também graças à importância reconhecida do Brasil para as relações internacionais da Alemanha. como ocorre atualmente na Universidade . sem falar nos encarregados de cursos que ajudaram a ampliar e diversificar a oferta de cursos desde o início. provocou periodicamente balanços extremamente negativos. dentro e fora da Alemanha. crítica. Quanto à variante europeia do português... Aqui e acolá há sinais de resistência que nos impedem de desanimar. teoria e história literárias. caso não se venha a compensar de forma consistente a perda da Brasilianística. o Instituto Camões. 21 que. como foi o caso do movimento iniciado pelos estudantes da Universidade de Jena. se antes havia pouco incentivo. o que foi previsto no processo de criação do Centro de Pesquisas Brasileiras acima referido. cujo apoio aos leitorados parecia ter-se enfraquecido. Eu mesma. Hoje em dia a situação começa a mudar. contávamos também com um leitor extremamente competente tanto no ensino da língua brasileira quanto na tradução. A situação negativa que os estudos de literatura brasileira. com base no texto citado de Briesemeister. resumida ao longo deste texto. mas que na verdade era realismo. graças à organização da comunidade científica dos Lusitanistas e Brasilianistas.

tais como textos de e sobre literatura e cultura. Isso tudo leva a juntar forças. desde o início da sua formação no bacharelado. a partir dessa base. já que a maior parte dos estudantes tem conhecimento dessa língua. No caso do Master de Estudos Latino-Americanos.12 Se pelo lado do ensino da língua esses são o panorama e o desafio atuais. de diferentes gêneros. a experiência da variante brasileira. estamos fazendo um trabalho desde 2007 no sentido de conceber cursos de cultura brasileira para além dos tradicionais e panorâmicos cursos de civilização. também estamos produzindo um material contrastivo. pelo lado da literatura talvez o desafio Esse trabalho. desta vez com o espanhol. vem sendo desenvolvido pelas Dras. que foi iniciado e prossegue no âmbito de um convênio com o Brasil. 12 . em que se trabalha mais diretamente com o português do Brasil. Zinka Ziebell e Rosa Henckel. para ser usado no sistema do e-Learning. é elemento de apoio básico nesse ensino. coordenado por Ligia Chiappini e mediado pela Embaixada Brasileira. em que o português europeu é central. produzindo e compilando tanto um material básico para iniciantes. entre eles os que tratam das manifestações culturais afro-brasileiras ou dos povos indígenas. num esforço de cooperar para vencer a tendência a concorrer e dividir. objeto de estudos comparativos. Dessa forma. eles terão oportunidade de desenvolver um conhecimento mais profundo e uma prática linguística mais ativa nos módulos mais avançados. no Bacharelado de Estudos Portugueses e Brasileiros da Universidade Livre de Berlin. vem sendo preparada e sistematicamente atualizada. os diferentes registros da língua portuguesa e suas variantes regionais e nacionais passam a ser considerados riqueza comum e não instrumentos para reafirmar hierarquias e justificar discriminações. Também uma antologia de textos curtos e atuais. Uma produção de material didático de caráter contrastivo do português brasileiro com o português de Portugal e de Angola. n. as outras variantes da língua são. desde o início. quanto outros mais complexos. Assim. que vai de mapas a dados numéricos e históricos. 2009 Livre de Berlim e na Universidade Humboldt.15. como instrumento ágil para proporcionar aos estudantes de português. em português brasileiro.22 Revista Brasileira de Literatura Comparada. com ajuda da Embaixada Brasileira. Assim. No que diz respeito à variante brasileira.

ainda não conseguimos despertar o interesse de colegas e estudantes de outros departamentos da mesma universidade. do ponto de vista editorial. no caso do best-seller. O ano do seu jubileu. dificilmente consegue ser republicado. assim como Briesemeister. que trabalham com clássicos da chamada literatura universal. Desconsidera-se aí aquilo que Antonio Candido definiu como contraveneno. Mas. coincidiu com um debate sobre a literatura brasileira como um mau negócio. menos ainda se valoriza o conhecimento da língua como matéria e forma da e na literatura. 13 seja maior. Um exemplo disso é o caso de Guimarães Rosa. .Os estudos de língua e literatura brasileiras no contexto. ocidental. termina seu texto de modo otimista. 23 Alusão a um debate realizado no Instituto Iberoamericano de Berlim em parceria com o Instituto Goethe de São Paulo.. No Instituto Latino-Americano tivemos por quase 30 anos um cargo pleno de leitor para Português Brasileiro e. simultânea e pioneiramente. Mesmo assim. é simplesmente demonizada ou ignorada. 2008. que implica um grau mais alto de elaboração linguística. porque julgada elitista. que a boa literatura carrega junto com as suas dimensões ideológicas conservadoras. expresso na representação espetacular do brutalismo nas favelas.13 Constatava-se aí que a literatura de qualidade estaria perdendo terreno para a literatura meramente comercial e para uma espécie de novo exotismo. citando o crescente interesse de um certo público e a presença maior dos escritores cineastas e artistas brasileiros em encontros. o quadro tampouco é positivo. em março de 2008. por quase 15 anos. como vimos. Pois se já poucos reconhecem a importância de estudar a língua portuguesa e suas variantes para a comunicação e outros usos meramente instrumentais. apesar do balanço negativo. porque esta também só interessa. Considerado muito difícil e tendo suas traduções em alemão esgotadas. como documento ou como mercadoria. E. A literatura mais exigente. que já em 1998 Ray Güde-Martin tematizava no trecho aqui escolhido como epígrafe. pois a Universidade e pareceristas externos a ela reconheceram a autonomia e a dimensão desta para comportar uma abordagem específica.. branca. um posto de Professor para Literatura Brasileira.

15. p. ZILLY. 2009 recitais. Ligia. CANDIDO. 52. Antonio. que a indiferença pela Literatura do Brasil e o seu desconhecimento podem ser superados na Alemanha. bem como a atuação de colegas que ensinam. apesar de todas as lacunas e retrocessos. Berthold (Orgs. 2000. pelo reconhecimento das lacunas e a invenção de novos mecanismos que ajudem a preservar e a desenvolver o que já foi realizado. p.24 Revista Brasileira de Literatura Comparada. 2000. 1989. Referências BRIESEMEISTER. Literatura de dois gumes. 2005. Ligia. colóquios. traduzem e comentam o melhor da literatura brasileira. MartiusStaden-Jahrbuch.” (Briesemeister. 251-263. n. Dietrich. muito do diagnóstico de Briesemeister ainda vale para o presente e a maioria dos brasilianistas alemães ainda “leva uma existência profissional acadêmica. DIMAS. país do passado? São Paulo: Boitempo. acreditar. podemos ainda. Infelizmente. 354). Antonio. em certo modo esquizofrênica. São Paulo. . além das associações que ajudam a manter a vitalidade do setor. In: A educação pela noite e outros ensaios. n. rivalizante e paradoxal. mais de dez anos depois. Literatura e cultura no contexto dos estudos brasileiros na Alemanha: a cátedra de Brasilianística. semanas culturais dedicadas ao Brasil. Os estudos brasileiros na Alemanha. São Paulo: Ática. In: CHIAPPINI.). 349-357. p. estudam. mas continuamos apostando que o trabalho desenvolvido no espaço conquistado para a literatura brasileira no Instituto Latino-Americano da Universidade Livre de Berlim poderá ajudar a superar essa esquizofrenia. CHIAPPINI. Brasil.

The Hungarian (reading) public has got a lot of information about this country during the XVII-XIXth centuries. se bem que de uma forma e em condições um pouco especiais. translated for serving private or political interests. * . Miklós Zrínyi. reception of the literature. escritor. traduzida muitas vezes para servir interesses privados ou políticos. quando o autor da epopeia nacional húngara Szigeti Veszedelem (“Desgraça de Szigetvár”). Brasil e Hungria: primeiros contatos Os húngaros. peçamos pois ao rei espanhol [sic!] uma província. político e eminente militar da época. Instituto de Romanística. o público húngaro formou uma imagem do Brasil a que a literatura. expectativas. inteiraram-se da existência do Brasil no século XVII. abstract: This study examines the reception of the Brazilian literature in Hungary. keywords: image of Brazil. exclamou num libelo político as seguintes palavras contra a opressão turca: “Tenho notícias de que no Brasil há terras desertas em abundância. exotic. Tendo-se inteirado da existência do Brasil e obtido muitas informações deste país nos séculos XVII a XIX. recepção da literatura. so formed an image about Brazil what the literature.25 A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria Ferenc Pál* resumo: O presente trabalho estuda as condições da recepção da literatura brasileira na Hungria. palavras-chave: imagem do Brasil. expectations. não correspondia. doesn’t suit to. exótico. façamos uma colônia tornando-nos cidadãos Departamento de Português. FL da ELTE (Faculdade de Letras da Universidade Eötvös Loránd) de Budapeste.

5 informando que a região atrai os visitantes com a beleza da sua vegetação. O Brasil e a Hungria. porque na década de 1850 já temos notícias do Brasil que dizem respeito a atividades de magiares. na seção “Tárház” (“Depósito”).3 e nos meados dos Oitocentos já havia um contato regular entre os dois países. csináljunk egy coloniát. mas que. 3 “Tejfa” (Árvore que dá leite) “ Um relato sobre a fauna do rio Amazonas e do Rio Negro. em primeiro lugar. começou a difundir-se no século XIX. Canada et Brasilia definitum. Nas notícias po- “Ugy hallom Braziliában elég puszta ország vagyon. ou melhor o Império Austríaco.” 1 É em parte resultado do seu trabalho o livro Itinerarium peregrini philosophi. editado em 1720 na Universidade Arquiepiscopal. 2009 [daquele país]”(Zrínyi. em especial sobre a consequência do trabalho dos jesuítas húngaros. que participavam como missionários no levantamento topográfico e na descrição das terras brasileiras. legyünk polgárrá. que “numa antologia geral. as expectativas do público são bem ilustradas pelo mesmo semanário Vasárnapi Újság. que a Hungria integrava. sobre a curiosa flora e fauna brasileiras. as notícias também mostram o Brasil como parceiro comercial e cultural da Hungria. Vasárnapi Újság. 2 Cf. o semanário de Budapeste Vasárnapi Újság informa. 1968. p. 1854. distinto. Em seu número 44. Além de seus aspectos exóticos. notícias interessantes. Ramirez. 5 . de 30 de outubro de 1859.4 bem como relatos sobre viagens a esse país e nomeadamente ao Rio de Janeiro. publicada no Rio de Janeiro. 243244. 1661/2009). n. algumas vezes abordadas de forma científica. 1854-1860).15. “Utazás a föld körül” (Viagem em torno da Terra).2 Um conhecimento mais intenso. em Tyrnavae. Japone. Nos séculos posteriores houve notícias esporádicas do Brasil. primeiramente por causa da emigração. Hegeds. por Franciscum Szedlar e pela Sociedade de Jesus. Quanto à presença do Brasil e das coisas brasileiras no imaginário húngaro da época. Entre os primeiros emigrantes supostamente havia também húngaros cultos.26 Revista Brasileira de Literatura Comparada. 29. acham-se onze poemas húngaros” (Vasárnapi Újság.1 Podemos supor. 4 jun. 4 Andersen – Dr. n. mantiveram contatos diplomáticos a partir de 1817. kérjünk spanyor királytul egy tartományt. 14. n. cujas páginas trazem. que se iniciou depois da abolição do tráfico de escravos em 1850. provoca má impressão aos viajantes europeus. na questão do urbanismo. 1854. Vasárnapi Újság. sem nos atrevermos a tecer proposições freudianas. Nos jornais e revistas húngaros da segunda metade do século XIX podemos ler muitas informações sobre o Brasil. versados na literatura. 17 set. que a partir de então o Brasil devia ou podia existir no subconsciente húngaro como um lugar particular. entre eles János Zakariás e Dávid Fáy. no entanto. Sinis. Cicincina.

Esta duplicidade da imagem ou dicotomia da recepção do Brasil também se observa na obra de Mór Jókai. e que um aristocrata húngaro. 6 set.” 11 Vasárnapi Újság. e não no apartamento oficial. 42. n. etc. 1969. Em um artigo no Vasárnapi Újság. n. condigno a um monarca. aliás escritor favorito do imperador D. 29 abr. também se fala na flora e fauna brasileiras. referindo-se dessa maneira à população negra. graças a um dono de barco brasileiro passam uma semana no Rio de Janeiro. 8 Vasárnapi Újság. por exemplo. Essa demanda pelo estranho. p. no início da década de 1870: “[Mór Jókai] tem amigos soberanos. 7 II.11 em cujas obras as aventuras acontecidas no Brasil e certas peripécias econômicas andam de mãos dadas. como em Az arany ember (O homem de ouro. No conto do escritor intitulado Tíz millió dollár (“Dez milhões de dólares”). exótico. os personagens. 27. em que se . 1873). juntamente com informações de caráter político. hospedou-se intencionalmente no Hotel ‘Angol királyn’.6 também se informa que a cantora Lagrange cantou uma ária do compositor húngaro Ferenc Erkel no Teatro da Ópera do Rio de Janeiro. 23. 17. morreu no Brasil. 47. pretendia-se satisfazer a curiosidade do público leitor em relação ao exotismo. n. 1857. 6 Vasárnapi Újság. publicado no ano de 1928. publicado no Hírmondó. 1883. o artigo de 1889 sobre a visita de Dom Pedro II à Hungria nos anos 1870. Com estranhamento. 49 a 52. 12 demos ler informações sobre o cultivo e comércio do café.12 Mas. “Egy magyar tengerész Brazíliában” (“Um marujo húngaro no Brasil”). nos romances posteriores – para além de meras referências a um ou outro fenômeno curioso. 1889. 9 “A vizi boa-kigyó” (A jibóia – serpente da água). Vasárnapi Újság. László Alvinczy. inexistente em território húngaro. sobre o fato de que um comerciante húngaro transportou vinhos de Arad. Pedro II. romancista romântico de fantasia profícua. Pedro a Budapeste.9 Rthy Frigyes fala sobre o “povo estranho” que vive no Brasil.10 descreve alguns animais repulsivos do Brasil. No número 5 da revista.. envolvidos em aventuras rocambolescas. Gyula Szini fornece em “Jókai: Egy élet regénye” (“Jókai: Romance de uma vida”) a seguinte informação sobre a curiosa visita de D. como foi. 274.A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria 27 Vasárnapi Újság. 17 out. imperador brasileiro). o interessante imperador brasileiro. n. Hírmondó. cidade do sul da Hungria de então. informa que o imperador tinha em grande estima a obra de Mór Jókai. 1858. satisfazem-na tanto os artigos publicados nos jornais como os livros publicados nessa época.8 ou informações sobre a proclamação da República no Brasil e outros acontecimentos de política interior. o bondoso Mór Jókai. n. Dom Pedro. O artigo intitulado “A vizi boa-kígyó” (A jibóia – serpente da água).7 No enorme número de revistas e jornais que saíram na Hungria do último terço do século XIX. dez. a fim de poder ter um contacto mais íntimo e fácil com o seu parente espiritual. Rio de Janeiro. para a capital do Brasil. 10 Uma comunicação da revista literária Nyugat. Dom Pedro brazíliai császár (D. pitoresco. Pedro II. prestigiosa revista literária de Budapeste da primeira metade do século XX. 24 nov. no Castelo de Buda. n. 1857.

] Japán és Brazília befoglalásával” (Jókai. Romances que se movem no universo das obras da literatura de cordel. 4.. Ahol a pénz nem isten (Onde o dinheiro não é deus. selvas.. 17 Sobre a situação interna do Brasil saíram artigos com títulos: “Brazília vezet személyiségei az atomfegyver betiltásáért” (Principais personalidades do Brasil defendem proibição de armas nucleares.. Budapeste.” (Jókai. no que dizia respeito ao Brasil. Béla Bangha: Dél-Keresztje alatt (Sob a cruz do sul.. 13 Primeira parte: “A senki szigete” (“Ilha de ninguém”): “Brazília fvárosa Rio de Janeiro. p.. o Brasil. ott vannak a leghíresebb gyémántbányák” (Jókai... e com um contingente grande de emigrantes na primeira metade do século XX. s/d). 1926).14 Na ficção fantástica A jöv század regénye (O romance do século vindouro.”15 Em seu último romance. 2009 lê sobre um sapo luminoso que “irradia uma luz fosforescente” e “canta de noite nos interiores. 16 Dezs Migend: A brazíliai aranyhegyek árnyékában (Sob a sombra das montanhas de ouro brasileiras. s/d). Vasárnap.] incluindo a China [. 14 Primeira parte: “Amíg nem terjeszkedünk többre.] às vezes tão alto que sua voz suplanta a dos cantores e da orquestra na ópera” (Jókai. Onnan hozzák a gyapotot meg a dohányt.. quando na Hungria aconteceu um câmbio de paradigma político. tornou-se um cenário real. escreve que “os peruanos e os brasileiros sempre pagam com prata”. 1950).. mint kávé. apátridos. Budapeste. na década de 1950.17 Depois da Segunda Guerra Mundial. 1934). o romancista fala largamente sobre as relações comerciais entre a Austro-Hungria e o Brasil.. n. Nos anos 1930 e 1940.] Kína [. É de lá que transportam para cá o algodão e o tabaco. foi o paquete Adria que a transportou até o Rio de Janeiro”. Tartós Békéért. gyapot és kolaj behozatalára [. onde as condições de vida e de trabalho eram semelhantes às da Hungria. s/d). a exigência ou a ânsia do exótico continuava a existir por parte do público. lá estão as minas de diamantes mais famosas”. hazátlanok (Arranha-céus. quando por causa do enorme número de emigrantes húngaros o Brasil entrava no dia a dia húngaro19 como um país “normal”. 2. por exemplo. n. 1870). 1872) também se leem divagações de teor econômico: “Até não querermos mais do que a importação do café. Zoltán Nyisztor: Felhkarcolók. 23. 11 jun. Tartós Békéért.13 E mesmo em Az arany ember informa que “A capital do Brasil é o Rio de Janeiro. s/d) –. Arad.. 15 “A liszt magyarországi termény volt. “A brazil nép lelkesen támogatja a békeegyezmény megkötését követel felhívást” (O povo brasileiro apoia com entusiasmo o apelo por celebrar o acordo pela paz.16 O Brasil..28 Revista Brasileira de Literatura Comparada.. n. [. tornou-se terreno de lutas políticas das forças populares contra o imperialismo e pela paz. aparece a frase: “A farinha era um produto húngaro.] o Japão e o Brasil. p. como afirmavam muitos livros de não ficção dessa época. como A brazíliai fenevad Segunda parte: “[. alvo da emigração húngara. Békéscsaba. do algodão e do petróleo [. serdk. 1935) e Lajos Wild: Tizenöt év Brazíliában (Quinze anos no Brasil. 18 .18 Contudo. Ao menos era assim que os órgãos políticos húngaros informavam seus leitores.15. s/d).. na ficção húngara de temática brasileira se registram ainda muitos elementos exóticos. 23. Rio de Janeiroig Adria gzös szállította” (Jókai. No romance Fekete gyémántok (Diamantes pretos. 1905)..] a peruiak.. brazíliaiak mind csupa ezüsttel fizetnek. 1936).

. tenham um maior halo de conotações na Hungria. 1944. 1997. que prefere relacionar o Brasil com o exótico. Nesse livro e nalguns outros que o seguiram ele não fez senão relatar o que tinha experimentado e visto naqueles dois anos que viveu no Brasil. por meio da obra e figura de Camões e de Pessoa. as liberdades do carnaval e das praias do Rio de Janeiro.A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria 29 10 jun. Pál. lentamente passava-se a ter condições de formar do Brasil uma imagem diversificada e verídica que correspondesse à realidade do país. saiu em 1940. e em especial no século XIX. o erotismo desenfreado ou requintado. 22 (A fera brasileira).20 o livro de contos Villanó fények az serd mélyén (Luzes cintilantes no fundo da selva).. La force de l’âge. jan. Outro Brasil. e o ambiente brasileiro de pequenas povoações à beira da selva e dentro da selva amazônica passou a ser palco de histórias movimentadas. preconceitos ou ideias fixas que orientavam e orientam o gosto do público.22 de um tal László György. 1942. 24 25 26 Cf. 11-37. Se dissemos em outra ocasião. O primeiro livro dele. O autor foi cônsul húngaro no Brasil entre 1928 e 1942. que sempre nos instiga a fazer cotejamentos. Budapeste: Nemzeti Figyel.24 Assim. parece que há determinadas expectativas. de Tibor Magyar. Contudo. Boglár Lajos. 2004b. 121. Cf. p. de aventuras na selva. 1951). Cf. se desenha nos romances do ex-naturalista Gábor Molnár.25 citando palavras de Simone Beauvoir. Pál. Em húngaro: A kor hatalma. 1996. e o fez num estilo vivo e vigoroso. 3. aventuras entre os índios e na selva. p. apesar de que alguns momentos da literatura portuguesa. Mas. Pál. 2004c. “A brazíliai Kommunista Ifjúsági Szövetség újjászervezése” (A reorganização das Juventudes Comunistas brasileiras. têm muito desse exotismo. para quem “a literatura é a melhor via para se conhecer um país estrangeiro”. 161-171. p. Cf. 2004a. Budapeste: FerencesVilágmisszió kiadása. essas experiências colhidas da realidade ficavam em segundo plano. Budapeste: Európa. Tartós Békéért. podemos mencionar que tradicionalmente. regressou à Hungria e começou a escrever ficção. de Mihály Witte. depois de perder a vista num acidente. 19-33 e Pál. p. o Brasil estava mais representado na imprensa húngara do que Portugal. do panorama histórico acima traçado. mescla do relato de experiências pretensamente vividas e de histórias imaginadas. etc.23 que o público húngaro havia muito tempo tinha tomado conhecimento do Brasil e que esse país ocupava um lugar privilegiado na consciência húngara. . que em 1930 viajou à selva amazônica e.26 no caso do Fazendo referência à “rivalidade” de Portugal e do Brasil. intitulado Kalandok a brazíliai serdben (“Aventuras na selva brasileira”). n. com o tempo.21 e o Brazíliai nagybácsi (O tio brasileiro). 19 20 21 Budapeste. 1965. 1951). p. 11. 23 Presença da literatura brasileira na Hungria Podemos deduzir. 1940.

que representam uma matéria morta. independentemente do valor da obra e das intenções dos editores. existente mas sem influência. até que. Gadamer ou outros teóricos que supõem alguma identificação conotativa com uma obra para fazê-la sair do âmbito do simples terreno denotativo. à maneira positivista. Nessa enciclopédia já é maior o número de autores com verbete autônomo (encontramos verbetes sobre os autores mais importantes ou renomados do Romantismo. Nas enciclopédias posteriores.27 mas a alguns poetas destacados (como Gonçalves de Magalhães. publicada 27 A Pallasz Nagy Lexikona. das obras traduzidas da literatura brasileira. como Macedo. partindo das ideias de Ricoeur. encontramos informações cada vez mais sofisticadas sobre a literatura brasileira.). Esse critério talvez seja muito rigoroso e restritivo mas. Álvares de Azevedo. As primeiras informações da literatura brasileira chegaram por via dos verbetes das enciclopédias editadas na viragem dos séculos XIX e XX. Gonçalves Dias e Tomás António de Gonzaga) a obra já dedica verbetes autônomos. na iniciativa de grande envergadura da Világirodalmi Lexikon (“Enciclopédia da literatura universal”). Em A Pallas Nagy Lexikona (A grande enciclopédia da [Editora] Pallas) ainda não se encontra uma informação sobre a literatura do país no verbete Brazília. Bernardo Guimarães. . de 1911. 1911). da Révai Nagy Lexikona (Grande enciclopédia de Révai) já se encontra um verbete em separado sobre a “literatura brasiliana” rezando que “a literatura brasiliana durante muito tempo foi apenas um ramo da literatura portuguesa e só nos últimos tempos começou a se desenvolver em rumo diferente” (Révai Nagy Lexikona. v. 2009 Brasil havemos de acrescentar que. em especial nas enciclopédias de literatura universal. só foram aceitas pelo público e tiveram êxito na Hungria as obras brasileiras que satisfizeram as expectativas acima enumeradas. 3.30 Revista Brasileira de Literatura Comparada. temos de estudar a recepção das obras brasileiras e ver quais delas tiveram impacto no meio húngaro. No volume 3. etc.15. se queremos ultrapassar uma simples enumeração. n.

verbetes sobre 228 escritores brasileiros. incerto quanto aos dados bibliográficos: é um conto de Ottavio Brandão.28 Temos outro texto brasileiro traduzido para o húngaro. p. 29 entre 1970 e meados de 1990. não se traduzira obra brasileira alguma para o húngaro. o Modernismo). 1. Assim.29 Infelizmente. além dos verbetes sobre a literatura brasileira e fenômenos literários ligados com o Brasil (como. publicado no (suposto) número 1 da revista intitulada Új Hang. com relação ao modo como as letras brasileiras tornam-se de fato conhecidas na Hungria é bastante difícil identificar os fatores determinantes da expansão desse conhecimento: por um lado temos as primeiras notícias informativas. quer dizer. 1-2. por exemplo. sem indicação do nome do tradutor. até a publicação dos primeiros volumes da “Grande Enciclopédia de Révai”. na realidade. Essa informação aparece na “Enciclopédia da Literatura Universal”. que ainda não se fazia acompanhar de traduções de obras para efetivo conhecimento por parte do público húngaro. até os anos 1910. 28 Világirodalmi Lexikon. até o momento da redação deste artigo. Világ. em seguida surgem as primeiras publicações de traduções que. figuram. foi um conto de Machado de Assis. 1912.A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria 31 “Az ápoló” (“O enfermeiro”). Parece-nos mais ou menos evidente que. não foi possível consultar. nem encontramos em nosso trabalho de pesquisa nenhuma outra menção de obras traduzidas desse país. e após esse conhecimento geral surgem ou podem surgir as obras com as quais o público leitor tem já um contato mais familiar. publicado em 1912 no jornal Világ de Budapeste. não são mais do que informações gerais dessa literatura. Por outro lado. ano III. n. v. há informações a respeito de um conto de Monteiro Lobato que saiu na revista ilustrada de lite- . 46. segundo podemos afirmar hoje. Tratava-se de mera informação sobre as letras brasileiras. com o título Az ápoló. de forma que não temos informação sobre qual dos contos do autor figura na revista. p. uma revista político-literária publicada em Moscou. A primeira obra brasileira traduzida para o húngaro. de 1931. Na seção de folhetim. 1090. 23 fev. dado que nessa enciclopédia não há referências a obras brasileiras publicadas em húngaro. o número mencionado do periódico.

publicado em 1939. um pouco frios. Tem por objetivo fazer um contraponto à literatura francesa. Paulo Rónai. ao mesmo tempo. p. A apresentação avaliativa do autor faz-nos supor que é trabalho de uma pessoa conhecedora da literatura brasileira e mostra a seriedade daquela revista. p. A seleção deu preferência aos poemas de alto quilate poético. Sem nome completo do tradutor.. editada na Transilvânia. contudo eles contêm uma cintilação tropical indefinida” (Rónai. que tem poemas de 25 poetas brasileiros da primeira metade do século XX. 8). n. no prefácio do livro. não obstante passar quase despercebido. n. 1930. Nos poemas da antologia prevalece um certo gosto ou “ar” parnasiano. 2009 ratura e artes intitulada Pásztortz (Fogueira de Pastores).15. experimentando uma vida intelectual cada vez mais profunda” (Rónai. Assim. universalizantes. Afinal. 391). e foi acompanhado de uma nota que. 1939. o tradutor afirma: “Nos seus versos muito burilados. indica o primeiro momento da difusão mais abrangente da literatura brasileira na Hungria. revelar as enfermidades da alma brasileira. traduzida por Paulo Rónai. enérgico e em vias de desenvolvimento. p. é uma publicação que lança os alicerces para um conhecimento ulterior.32 Revista Brasileira de Literatura Comparada. ano XVI. 31 . falta o couleur locale. informamos que Paulo Rónai (1907-1992) é um literato húngaro que em 1940 trasladou-se para o Brasil como bolsista do governo brasileiro e nesta sua nova pátria desenvolveu variada atividade como tradutor. Sobre a poesia de Olavo Bilac. é num parecer bastante generalizado que um livro de poemas. 8). crítico e historiador de literatura. rejeitando satisfazer um gosto pelo exótico ou movido por um interesse folclórico. além dos dados biográficos. p. 17. 1939.. 30 Para os poucos que não conheçam seu nome. Trata-se da seleção intitulada Brazília üzen (“Mensagem do Brasil”). acompanhados de uma introdução que esboça o panorama da literatura (ou antes: da poesia) brasileira. apresenta a poesia brasileira como manifestação “de um jovem povo com cultura.30 O conto Az élcfaragó (Fabricante de piadas) saiu na seção “Narradores Estrangeiros”. que reunia uma série de escritores da Transilvânia da época. 1930. indicado apenas com a abreviação: Szys. oferecia uma avaliação ponderada do autor: “Monteiro Lobato é o criador da moderna literatura nacional no Brasil. In: Pásztortz (Kolozsvár/Cluj).” (Pásztortz. os critérios da seleção dos textos já contavam.31 Este livrinho. 24 ago. com um círculo reduzido de leitores. de saída. relegando ao segundo plano aqueles que em versos Az élcfaragó. e. 391-393.

ele fala sobre as dificuldades de obter livros do Brasil: pode ser que simplesmente não tivesse à mão todas as obras necessárias para uma antologia equilibrada. assinalamos que o publicista pôde ler as traduções de Paulo Rónai antes da publicação do livro Mensagem do Brasil. não correspondiam ao gosto do selecionador. Os livros de viagens ou os folhetos turísticos mostram só o exotismo. no entanto os poetas informam sobre o essencial. 1939b. injustos com Paulo Rónai: em seu prefácio. dizendo que estão de guarda. que se frisa na recensão informativo-crítica do publicista György Bálint. mãos brancas ou negras batem o sinal tranqüilizador. do Dom Casmurro de Machado de Assis. só oito do ciclo “Descobrimento do Brasil” evocam ambientes tipicamente brasileiros.A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria 33 Notamos.33 Essa mesma posição se reflete num outro texto dele. etc. reunidos em quatro pequenos ciclos. Julgando-se objetivamente. pode-se dizer que tal princípio de escolha e apresentação dos poemas resultou do gosto intelectual urbano daquele momento. 32 desiguais e livres apresentavam cores e tons mais ásperos. os que Ronald de Carvalho escreveu a respeito do Brasil. Para os leitores mais sagazes. mais modernos. 7) É com estas palavras que o texto termina: “Agora desde escrivaninhas brasileiras. p. que ele apresenta como romance por excelência.. 7) 33 34 35 Bálint. com a literatura húngara. nós o encontramos nesse livro de traduções novo e belo. se familiarizara com o Brasil pela leitura das traduções de Paulo Rónai35 chega à conclusão.. O jornalista que. 31. anteriormente. escrita alguns meses depois da publicação do livro de poemas de Paulo Rónai. que. Nessas palavras do jornalista. Suas vozes são afins e universais.. Assim. parece.32 Assim. na sua colaboração para a Enciclopédia da literatura universal. e não as peculiaridades exóticas. segundo ele mesmo diz.34 escrito depois da leitura. alheia aos trágicos problemas nacionais. p. suas palavras sobre a poesia brasileira têm uma mensagem política para a atualidade de então. Brazíliai regény (Romance brasileiro). a mesma coisa que causa dor ou alegria aos poetas crioulos. afinal. porque o tradutor publicara algumas delas em diferentes revistas.] Todos os poetas são aparentados. negros. e da Europa maltratada bate-se a resposta: ‘Obrigado!’” (Bálint. por exemplo.. Esse essencial. como. contudo. que pensam descobrir uma incongruência de datas. percebe-se também uma preocupação com os valores da cultura ameaçados. um pouco precipitada (e. Suas palavras novamente refletem . (Bálint. escritas na véspera da Segunda Guerra Mundial. por exemplo. em agosto de 1939. [. índios e mestiços causaas também aos franceses ou húngaros. falsa). muito mais tarde. não aparecem os representantes da poesia concreta. quase instituição nacional. na qual. em francês. de que os brasileiros são gente feliz porque têm preferência pela literatura pura. ao contrário do que ocorre. por outro lado. uma falta total de poemas da primeira fase do movimento modernista. 1939. É essa mesma voz universal. dos 33 poemas do livro. por exemplo. 1939a. Não sejamos. já sabemos. esse “outro Brasil”. p. Essa mesma antipatia pela literatura da vanguarda e/ou experimental também se nota.

E justifica-se: “além dos poemas de costume. Gabriel García Márquez. porque ele sublinha que o maior mérito desse livro é que não é “nada brasileiro”: “Nada tem de exótico. encontramos. Rómulo Gallegos.. 31). quando já não existir na Europa.” (Bálint. 1939b. Assim. que deixam entrever uma influência francesa. 1939). incluindo as brasileiras. que continuava interessado pelos momentos exóticos do Brasil. publicada na revista literária Nyugat (Ocidente). tempos depois. aspectos que tanto marcaram. etc. O estranho não se diz com respeito ao couleur locale. Nesses anos aparecem mais duas obras literárias brasileiras: Paulo Rónai publica. 2009 uma perspectiva universalizante. n. uma seleção de . 31) É curioso observar. nos intelectuais que formavam o gosto literário daquela época. também deformou a visão dos intelectuais (e de seu público) de então. Juan Rulfo. notadamente Alejo Carpentier. 1939. essa atitude fundada no eurocentrismo e afastada do gosto geral do público leitor.. neste livro. que se manifestava tão intensamente nas obras de ficção de temática brasileira dos escritores húngaros acima mencionados. em 1940. o autor escreve: “não procuremos um exotismo exterior na poesia”.” (Nagy.34 Revista Brasileira de Literatura Comparada. povos mais novos e mais felizes irão retomá-lo na América” (Bálint. a não ser que os criados sejam negros e um dos amigos do personagem principal sofra de hanseníase. Como já mencionamos. p. p. alguns poemas de pompa estranha e surpreendentes. a falta de sensibilidade diante do exotismo brasileiro. em outra resenha crítica a respeito de Brazília üzen (Mensagem do Brasil). por meio dos escritores do boom. ou ao menos diante dos problemas específicos do Brasil.15. que não podiam ou não queriam observar da literatura brasileira senão aquelas obras que “demonstram que o espírito europeu não conhece fronteiras e num tempo futuro. Os poemas caracteristicamente brasileiros passam quase despercebidos para o crítico. a visão da geração que travou contato amplo e profundo com as letras latino-americanas.

Jorge Amado foi o escritor estrangeiro mais conhecido e mais popular na Hungria” (Benyhe. senão uma resposta mais ou menos imediata à realidade circundante. 2002. em 1944. a “construção do socialismo”. por Henrik Horváth. ocupa-o a literatura socialista. János Benyhe. com o título Egy brazil bérház (Um prédio brasileiro). de 1940. não contando as inúmeras reedições).A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria 35 36 37 Budapeste: Officina. Por essa razão. Hangyaboly. de Aluísio Azevedo. A literatura passa a ser uma arma da luta ideológica. torna-se um escritor de presença contínua na imprensa. 233.39 Sobre esses livros . Dessa forma. Inglaterra. mais independente em relação aos Estados Unidos do que os outros países latino-americanos. 38 poemas de Ribeiro Couto. no posfácio desse livro: “Dez ou quinze anos atrás talvez fosse supérfluo este posfácio. em primeiro lugar a da União Soviética. cabe ao Brasil um lugar privilegiado. Alteram-se também os horizontes da orientação literária: a literatura do “ocidente culto” (França. desde o n. o Brasil torna-se um alvo privilegiado na luta contra o imperialismo ocidental. indicam uma mudança de concepção na recepção e interpretação da literatura em geral e da literatura brasileira em particular. Budapeste: Íbisz. em 1970. 1970. 20. essa tradução é publicada em forma de livro. Por isso. já não se procuram nela valores universais e eternos. até o n. Estados Unidos. Entre 1947 e 1976 saíram quinze livros de Jorge Amado (dois no final dos anos 1940. Sendo. cinco nos anos 1950. África e Ásia.36 e o jornal Népszava publica em folhetins O cortiço. de 1941. 499). o tradutor de Dona Flor e seus dois maridos. p. etc. em aparência. com o título Hangyaboly (Formigueiro). Esta edição de 1944 do romance de Azevedo (Budapeste: Anonymus) teve uma pequena edição fac-similada de 30 exemplares: Azevedo. Trad. parte ocidental da Alemanha. Aluizio. Nesse novo horizonte cultural-literário. “Egy brazil bérház”. que circula entre Praga e a União Soviética. In Népszava (Budapeste).) é considerada arte decadente e o lugar dela. seis nos anos 1960 e três nos anos 1970. 1940. dos países socialistas e a literatura progressista dos países das Américas.37 Depois.38 A Segunda Guerra Mundial e o estabelecimento de um novo sistema político na Hungria. com o título de Santosi Versek (Poemas de Santos). os romances do primeiro período de Jorge Amado são publicados na Hungria e o autor. pode escrever com plena razão.

Budapeste: Káldor. 1952. da Associação Húngara de Escritores. Attila Orbók. 1950. Vida de Luís Carlos Prestes. János Benyhe.] mostram uma nova cara da América Latina. Sándor Szalay. 2009 foram publicadas 26 recensões críticas. n.. János Benyhe. Budapeste: Szikra. Mar Morto (Holt tenger). Emil Hartai. Budapeste: Szépirodalmi. publicada na revista científico-ideológica do partido comunista. Budapeste: Európa. Életrajzi regény Luis Carlos Prestesrl). Cacau (Arany gyümölcsök földje).36 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Trad. 1967. Marcell Benedek. Trad. Trad. Na revista literária intitulada Csillag. Budapeste: Kossuth. um dos primeiros escritos é uma recensão crítica de Terras do sem fim. A morte e a morte de Quincas Berro Dagua (Vízordító három halála). Budapeste: Révai. Emil Hartai. e muitos com títulos altissonantes. Budapeste: Európa. e a pintura do mundo colorido e exótico da Bahia. cravo e canela (Gabriela. szegf és fahéj).. Sobre Jorge Amado. Trad. 1947 (uma segunda edição com o título húngaro Végtelen földek. p. como: “Os eminentes soldados da paz: Jorge Amado” ou “Jorge Amado sobre o movimento da paz brasileiro e sobre seu novo romance”. Trad. -l. (segunda edição: idem. Tanto mais porque Jorge Amado foi o escritor brasileiro cujas obras satisfaziam as expectativas do público leitor com o seu latente erotismo. em especial a partir de Dona Flor e seus dois maridos. Sándor Tavaszy. Trad. Dona Flor e seus dois 39 . 1960. não é de estranhar que até hoje o Brasil apareça-nos tal como o escritor baiano o pintou. Entre 1953 e 1975 saíram 16 artigos que diziam respeito a ele. terceira edição: idem. o cavaleiro da esperança (A reménység lovagja. Gabriela. Budapeste: Szépirodalmi. 1961. Trad. 1961 (segunda edição: idem. 1950. que estabelece as forçosamente necessárias linhas de interpretação dessa obra – válidas. Trad. 1951. 1975). Seara vermelha (Vörös vetés). Budapeste: Európa.40 Mas o que mais demonstra a difusão da imagem de Amado como escritor politicamente comprometido e como “zoon políticon” é o grande número de escritos sobre a sua pessoa. 1975). 1961. Os pastôres da noite (Az éjszaka pásztorai). Capitão de Longo Curso (A vén tengerész). mas sim a violenta luta de classes simbolizada pela batalha entre os coroneis do cacau e seus escravos. A completa verdade sôbre as discutidas aventuras do Comandante Vasco Moscoso de Aragão. Trad. 1973). Lajos Boglár. Sándor Szalay. ou a imagem das selvas sem fim que prevalece em suas obras. Pablo Neruda e os outros escritores eminentes [. Trad. para os outros romances do mesmo autor: Jorge Amado. 834) Compreende-se este tom altamente engajado porque se trata de um artigo de teor informativo que saiu numa revista teórica. Jubiabá (Zsubiabá).15. mas as recensões publicadas nas revistas literárias também incorrem nesse tom politizado em que não há lugar para análises estético-literárias. um dos historiadores de literatura daquele Oferecemos uma lista completa das edições das obras de Jorge Amado em húngaro (entre parênteses indicamos as edições posteriores): Terras do sem fim (Szenvedélyek földje). Budapeste: Kossuth. 1963. Emil Hartai. Não é o exotismo. 1950). Társadalmi Szemle (Revista Social). 1949 (segunda edição: Európa. Budapeste: Szikra. indiretamente.41 Com a profusão com que os romances de Jorge Amado circulavam na Hungria (com tiragens de 40 a 80 mil exemplares). Trad. (-z.

Capitão de Longo Curso. 1970. Budapeste: Kozmosz Könyvek. 1976. depois de assistir ao congresso do PEN Clube no Rio de Janeiro. 42 Essa imagem estreita. a pretexto dos romances de Jorge Amado. p. entre eles. Tenda dos Milagres (Csodabazár).42 E nas notas de viagens de um literato húngaro que em 1961 publicou as suas Impressões do Brasil. escreveram-se entre maio e outubro daquele ano seis recensões informativas nos mais diversos órgãos de imprensa. 1173-1174. Trad. Irodalmi Újság (“Jornal Literário”). a obra de Jorge Amado é uma fonte de informação antes sensorial que exclusivamente politizada sobre “esse peculiar mundo popular. 8. Ano IV. 61) “A béke kiváló harcosai: Amado Jorge”. saído do povo e lutando contra os horrores do mundo imperialista: o homem comunista. 1959. comunista. saído em 1963. 1971. Budapeste: Európa. [. como na recensão sobre Seara vermelha. Budapeste: Európa. (Koczkás. Queremos notar como curiosidade que do romance A completa verdade sôbre as discutidas aventuras do Comandante Vasco Moscoso Aragão. “Jorge Amado a brazil békemozgalomról és új regényérl”. intitulado em húngaro A vén tengerész (“O velho marinheiro”).A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria maridos (Flor asszony két férje). Nagyvilág (fundada na época do “abrandamento” do poder totalitário). p. 1951) Ao final da década de 1950. Szabad Nép (Budapeste). do socialismo” (L. Népszava (Budapeste).. I. János Benyhe. 1950. Assim saíram dois poemas de Jorge de Lima na revista de literatura mundial. Trad. fala-se sobre o Brasil. é o reflexo verídico desta sociedade que requer amostras fidelíssimas da macabra dança do capitalismo. pois “até aos operários miseráveis chegou a esperança que estimula a viver: a esperança da nova vida. Além de Jorge Amado. 40 37 período assim descreveu os fundamentos de “A terra de frutos de ouro”: O romance de Amado é um escrito combativo. n. 1961. Trad. essa imagem deformada do Brasil e de sua literatura começa a se matizar com diferentes tons. de cuja beleza e intimidade gostei tanto quanto da sua rica fantasia e das suas múltiplas cores decorativas. não apenas políticos. András Gulyás. 729) . que saiu num semanário de literatura.. alguns cuja obra tem outros valores. 30 maio 1953. em 1951: “Seara vermelha mostra o Brasil levantando-se”. ago. Sándor Tavaszy. 1953. subordinada a fins eminentemente políticos é a que se apresenta quando.] A apresentação dessa podridão não desce ao naturalismo. unilateral. Para ele. vêm aparecendo outros escritores e. Seus heróis verdadeiros são o povo e o homem de novo quilate. 41 Nagyvilág (Budapeste). Capitães da areia (A kiköt rémei).” (Stér. Algumas vezes o discurso ganha tons de hino. p. já se encontra um tom mais equilibrado. 18 dez.

Essa nova forma de recepção do Brasil fora previamente preparada por livros publicados a partir dos últimos anos da década de 1950: As imagens do Rio. Finalmente. Mas Stér tem bastante sensibilidade para ver e descobrir um Brasil excêntrico. O público requer já cada vez mais abertamente uma recepção cultural mais sofisticada e diversificada. e que aos intelectuais compete a tarefa e a responsabilidade de formar a consciência do grande público. do diretor francês Marcel Camus. 2009 Em suas andanças pelo mundo brasileiro. Será essa Riói Képek. 1958. de componentes culturais e étnicos múltiplos e amalgamados. exigência que se vê satisfeita. de Erich Wustmann. da selva e dos índios. Budapeste: Táncsics. Com essa relativa abertura nos pontos de vista que começava a prevalecer lentamente a partir do início dos anos 1960 na política cultural e literária húngaras.44 Sob outro prisma. do etnólogo húngaro Lajos Boglár. 44 . o viajante atreve-se a dizer aos húngaros que o Brasil não deve ser entrevisto como um mero panorama ou cenário de fundo político. motivado pela Guerra Fria. assim. também em húngaro. de Richard Katz. 43 A zöld pokol. estimulando. multifacetado. entre eles a música popular brasileira e a sua melancólica melodia.43 O inferno verde. de Josué de Castro. surge uma exigência por bens culturais anteriormente vedados. começa a diversificar-se a edição de livros e enriquecer-se a divulgação da literatura brasileira. O autor mais divulgado ainda é Jorge Amado. mas em harmonia com a renovada temática da sua obra aparecem. 1959. apresentam o Brasil dos trópicos. n. ou o carnaval e seu simbolismo popular.38 Revista Brasileira de Literatura Comparada. o guia desse literato húngaro é a monografia intitulada Geografia da fome. obras como Trópusi Indiánok között. que cativam o público. Brazíliai útijegyzetek (Entre índios do trópico. os romances mais divertidos dele. Budapeste: Táncsics. que Stér interpreta sob a influência do filme Orfeu negro. sublinhados aqueles que o distinguem da Europa. o interesse por outros aspectos desse país. Notas de viagem do Brasil). Após os anos da ditadura forte e o total encerramento do país.15. mesmo que um pouco contraditoriamente.

A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria

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Aki átment a szivárvány alatt. Budapeste: Kossuth, 1964.
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Emberek és rákok. Budapeste: Kossuth, 1968.
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Emberfarkas. Budapeste: Európa, 1962. Aszály. Budapeste: Európa, 1967.
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A többi néma csend. Budapeste: Európa, 1967.
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Máglyák az serdben. Budapeste: Móra, 1970.
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busca do diferente, do exótico que marcará e determinará o interesse pelo Brasil nos anos subsequentes. Entretanto, publicam-se obras de autores comprometidos, como as de Jorge Amado, já mencionadas: Quarto de despejo, de Carolina Maria de Jesus,45 O ciclo do caranguejo, de Josué de Castro,46 São Bernardo e Vidas secas, de Graciliano Ramos,47 e ao lado deles saem romances como O resto é silêncio, de Érico Veríssimo48 e O Guarani, de José de Alencar, embora este seja transposto para o húngaro em versão condensada, em uma edição para jovens.49 Por outro lado, e de forma menos manifesta, aparecem obras das mais diversas naturezas, mormente direcionadas aos intelectuais. Essa forma de publicação “velada”, um pouco contrária à política cultural oficial, caracteriza em primeiro lugar a revista de literatura mundial Nagyvilág e algumas antologias de poesia e de prosa. Destinadas a um público seleto, surgem nessas publicações, de forma esporádica, muitos autores de valor da literatura brasileira. Publicações como Dél keresztje (Cruzeiro do Sul, 1957), Kígyóöl ének (Canto de matar cobras, 1973), Hesperidák kertje (Jardim das Hespérides, 1971), Járom és csillag (Jugo e estrela, 1984) divulgam a poesia latino-americana. Os poemas são acompanhados de notas biográficas e bibliográficas; dessa forma, em torno de 40 grandes poetas brasileiros são publicados na Hungria. Essas antologias seguem o princípio da antologia de Paulo Rónai, ou seja, selecionam os poemas apenas pelo seu valor poético e estético e não demonstram o menor interesse em ilustrar o desenvolvimento da história literária brasileira. Fazem falta, por exemplo, poemas que caracterizem os primeiros anos do Modernismo, ou do Concretismo e de outras tendências experimentalistas. Nesse mesmo contexto, publicaram-se contos de Graciliano Ramos, João Guimarães Rosa e Jorge Amado em antologias de prosa latino-americana: Ördögszakadék (Abismo de diabo, 1966), Dél-amerikai elbeszélk (Narradores latino-americanos, 1970), Az üldöz (O perseguidor, novelas latino-americanas, 1972).

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Revista Brasileira de Literatura Comparada, n.15, 2009

Um dos grandes méritos da revista de literatura mundial Nagyvilág é a apresentação de autores e obras, de tendências e fenômenos literários, com base em critérios puramente poéticos ou estéticos. Em 1961, a revista traz informações sobre as atividades de Paulo Rónai no Brasil, frisando a importância do seu trabalho no conhecimento mútuo entre o Brasil e a Hungria (Gyergyai, 1961, p. 1566-1567). E é naquelas páginas que, em 1962, aparece um estudo sobre o romance brasileiro contemporâneo (Tavaszy, 1962, p. 1388-1391), assim como, em 1969, um ensaio sobre o desenvolvimento da literatura latinoamericana (Benyhe, 1969, p. 1723-1731). Mencionamos também certas resenhas sobre os livros de Jorge Amado, sobre romances como O tempo e o vento, de Érico Veríssimo, e Irmão Juazeiro, de Francisco Julião. O texto de recepção mais característico dessa época é o necrológio de Guimarães Rosa que Nagyvilág publicou em 1968. Nele se fala na “síntese dos mágicos elementos primitivos de mundos diferentes”, em “mitos de valor universal de conteúdo filosófico” (Rónai, 1968, p. 338-339) e a linguagem engenhosa e estranha que o escritor compilou para si e que se parece muito com a linguagem de James Joyce. Tal análise da obra de Guimarães Rosa só se tornou possível graças à mudança de tom que marcou a imprensa política, única e oficial na Hungria de então. Assim, na recensão informativa que a revista teórica Társadalmi Szemle publicou sobre Vidas secas, de Graciliano Ramos (Szllsy, 1967, p. 137), já se comenta a “exatidão sociológica” ao lado dos valores estéticos da obra, numa análise mais flexível e sutil do que se fazia nos anos precedentes. A partir de meados dos anos 1970, sob a influência do boom da literatura latino-americana em espanhol, relega-se para o segundo plano a literatura brasileira, e em especial a literatura chamada progressista. Na realidade, diminui o interesse do público pelas obras brasileiras que tratavam de uma forma direta os problemas políticos e sociais. O exotismo dos autores do realismo mágico, a forte carga intelectual dos pós-modernos como Julio Cortázar e Jorge

A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria

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Luis Borges, e a urdidura complexa dos romances políticos de autores peruanos ou mexicanos, tudo isso atrai mais o interesse dos leitores húngaros. Só obras de Jorge Amado, tais como Dona Flor e seus dois maridos ou Gabriela cravo e canela, continuam cativando novas e novas gerações de leitores.

Novos aspectos da presença literária brasileira na cena húngara
Entretanto, surge, enquanto isso, uma nova geração de divulgadores das letras brasileiras, marcados por um gosto literário renovado e pelo objetivo de revelar aos leitores húngaros os traços característicos e essenciais da literatura brasileira. Assim, entre 1983 e 1986, a Rádio Nacional Húngara realizou uma série de emissões, de meia hora cada uma, com o título Latin Amerika Irodalma (Literatura da América Latina). Essa série apresentou uma visão panorâmica das literaturas do século XX naquele continente, com os fenômenos novos e característicos da literatura brasileira: o Pré-modernismo e o Modernismo, a poesia concreta, a moderna prosa experimental e a da grande urbe, fazendo conhecer ao público nomes que nunca haviam sido mencionados antes, como Oswald de Andrade, Haroldo de Campos, Rubem Fonseca, Dalton Trevisan e Ignácio de Loyola Brandão, que com sua obra despertaram o interesse da elite intelectual. Nessa época, transcorreu uma significativa etapa do processo de divulgação da literatura brasileira na Hungria: a publicação do Macunaíma, de Mário de Andrade. A tradução dessa obra conheceu um verdadeiro êxito editorial, pois em poucos meses esgotou-se uma tiragem de dez mil exemplares. O público, ávido do exotismo – até então condenado –, devorava o livro, que foi apresentado como um grande acontecimento cultural tanto pelos programas culturais de rádio e tevê quanto pelas recensões críticas.50 Nessa perspectiva, em resenha cujo título menciona a cé-

Szalontai, 1984. Bodor, 1984. Cserti, 1984.
50

51 Járom és csillag (Jugo e estrela). Ascenso Ferreira. pastoril. como referência. Na antologia aparecem poemas de Mário de Andrade.52 a maior antologia húngara da poesia latino-americana publicada até os dias de hoje. Luís José Junqueira Freire. da americanização que abraça aplastando a versatilidade étnica (lingüística. Manuel Bandeira. Trad. lamentando que “os enérgicos elementos linguísticos deste último faltem na obra de Osman Lins” (Benyhe. Raúl Bopp e Vinícius de Morais são os nomes novos) e assim mesmo há muitas coincidências na escolha dos poemas. folclórica e etnográfica) de múltiplas cores e raízes e dos excessos intelectuais amotinados e revoltosos (Bodor. O autor do posfácio. Geir Campos. Num debate transmitido pela rádio. neste caso. o crítico Pál Bodor frisa com entusiasmo a mistura feliz de elementos intelectuais e populares. a obra nordestina de Jorge Amado. Francisco Antônio de Carvalho Júnior. Gregório de Matos. Augusto dos Anjos. n. Sebastião Cínero dos Guimarãens Passos. 2009 lebre epopeia finlandesa e que qualifica Macunaíma como “Kalevala artificial da zona tórrida”. Carlos Drummond de Andrade. segundo ele.15. Teófilo Dias. Augusto Frederico Schmidt. Olavo Bilac. Alberto de Oliveira. Raimundo Correia. Antônio de Castro Alves. p. João da Cruz e Sousa. que se mantém quase intacto desde a antologia de 1939. que se cultiva nos recantos ocultos do Brasil e que conserva valores eternos. um tanto indeciso. 1985. Budapest: Európa. Aqui aparece novamente.51 revela certa perplexidade provocada por este câmbio de paradigma no gosto dos divulgadores. Luís Delfino. Essas palavras do literato e tradutor János Benyhe novamente aludem às contradições da “oferta e da procura” da literatura brasileira na Hungria. Bernardino da Costa Lopes. novena. prefácio e notas por János Benyhe. a ambientação sulista de Verissimo e as fortes cores mineiras de Guimarães Rosa. Jorge de Lima. o elemento exótico. Tal princípio distintivo. 1984. Alphonsus de Guimaraens. 52 . Ronald de Carvalho.42 Revista Brasileira de Literatura Comparada. 1984). seleção. Kilenc és kilenced. de Osman Lins. evoca. Vinícius de Morais. um representante da velha estirpe pôs em confronto com a literatura de fortes cores brasileiras uma literatura classicizante. a força primitiva da obra comentada: Macunaíma é conseqüência da capitalização latino-americana irregular e tormentosa. Mensagem do Brasil. 211). A edição de Nove. Joaquim Maria Machado de Assis. predomina igualmente numa antologia de 1984. Cecília Meireles. ilustre estudioso e tradutor. Antônio Cândido Gonçalves Crespo. representado. Raul Bopp. Budapeste: Kozmosz. por Jorge Amado e Guimarães Rosa. Rui Ribeiro Couto. O que surpreende é que a lista dos poetas modernos é quase igual à da seleção de meio século atrás (apenas Ascenso Ferreira. 1985. Judit Xantus. Vicente de Carvalho.

de Machado de Assis. 54 Zero. Marques Rebelo: Caprichoso da Tijuca. Ao se reler a resenha dessas duas obras. de Clarice Lispector. e passou a ler obras de Paulo Coelho. talvez porque saísse ao mesmo tempo em que a edição em húngaro de A escrava Isaura. Lygia Fagundes Telles: Venha ver o pôr do sol. talvez. Oto Lara Resende: O retrato na gaveta. Paulo Rónai. até Feliz aniversário. Budapeste: Európa. situando-se entre o passado e o presente. e notas de Paulo Rónai. porque novamente se faz referência à imagem de um país exótico. 1986.54 quer dizer. 1987. de 1986. saiu em 1990 o Zero. estagnado em cerimônias. Rui Ribeiro Couto: Mistério de sábado. Orígenes Lessa: Roteiro de Fortaleza. Éva Faragó. Alcântara Machado: As cinco panelas de oiro. a imagem do Brasil tal como vive no (sub)consciente das pessoas na Hungria. de Ignácio de Loyola Brandão. de Machado: O ascensorista. Trad. Trad. reuniram uma importante soma a fim de remir da escravatura aquela bela e talentosa jovem. Ferenc Pál. p. foi recebida com entusiasmo da parte dos críticos. Nestas últimas duas décadas. Lima Barreto: O homem que sabia javanês.” (Magyar Hírlap. Na antologia se encontram contos de Machado de Assis: Pai contra mãe. com a liberalização da edição e do mercado de livro. e as séries televisivas ocuparam lentamente o lugar dos livros e da leitura. anciãos de um pequeno vilarejo do interior do país.A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria 43 Boszorkányszombat (Mistério de sábado). no auge do interesse do público pelo Brasil. acompanhada de notas bibliográficas. Budapeste: Európa. gente que quase nunca triunfa. Tóth. no entanto. Clarice Lispector: Feliz aniversário. Budapeste: Európa. Com essa atitude pode-se explicar. 1990. que atualmente é o autor brasileiro mais popular (e quase exclusivo) na Hungria. inventada por Bernardo Guimarães havia mais de um século. Ferenc Pál. num mundo de senzalas e casas grandes. A seleção criteriosa. 53 Isaura. 1991. Aurélio Buarque de Holanda: O chapéu de meu pai. 1987. Eszter S. Carlos Drummond de Andrade: Beira-rio. foi a antologia Boszorkányszombat. Aníbal M. um país de tempo estancado. Mário de Andrade: O peru de Natal. João Guimarães Rosa. ou seja. o curioso e célebre episódio em que telespectadores húngaros de A escrava Isaura. Trad.55 que a crítica recebeu como fonte de informação privilegiada a respeito de um mundo caoticamente moderno (apud Wirth. Monteiro Lobato: O comprador de fazendas. . os hábitos de leitura e o gosto do público húngaro. István Bárczy. a rabszolgalány. Dessa forma. afastou-se da literatura de valor. O grifado é nosso. João Alphonsus de Guimaraens: Eis a noite!. vale a pena meditar sobre a seguinte asserção: “A maioria dos contos mostra gente lutando com seu fado. Rachel de Queirós: A donzela e a moura torta. A terceira margem do rio. O grande público. uma coletânea de contos53 que reunia desde Pai contra mãe. houve possibilidade de publicar autores mais sofisticados. 55 Outro livro dessa natureza. István Bárczy. 5). Ervin Székely. A partir do final da década de 1980 mudaram. Luís Jardim: Paisagem perdida. suscitado pela telenovela feita com base no romance de Bernardo Guimarães. outrora leitor ávido dos romances de Jorge Amado. sel.

p. Seleção. representa na Hungria a literatura brasileira. András Petcz e Ferenc Pál.57 Esses livros de poemas obtiveram. de um conhecido poeta experimental. prefácio e notas de Ferenc Pál. em revistas literárias. 11). No número de agosto de 1992 (ano XXXVII. Na antologia figuram contos de dezessete autores. Clarice Lispector. Raduan Nassar. com introdução e apresentações dos autores pelo diplomata. 57 De Antônio de Alcântara Machado. Guimarães Rosa. Márcia Denser. A modern brazil elbeszélés – Antologia do moderno conto brasileiro. Otto Lara Resende. 1999. Rachel de Queiroz. Seleção. com o conto Duelo. 2008). e muito especialmente Guimarães Rosa. n. como a revista Nagyvilág. no seu número de abril de 1991 (ano XXXVI. 2009 p. Endre Szkárosi. segundo afirma um dos críticos do livro (Urfi. Esta revista publicou. n. foram traduzidos para um seletíssimo público-leitor poemas de dois representantes da poesia concreta. Fernando Sabino. Autran Dourado. selecionada pelo embaixador José A. pois Haroldo de Campos: Konkrét versek (Poemas concretos).58 dos quais as resenhas destacam Autran Dourado. Ingácio de Loyola Brandão. os foros mais exigentes da literatura. Budapeste: Íbisz. 56 Para além do material poético. Moacyr Scliar. 4).44 Revista Brasileira de Literatura Comparada. passaram a conceder mais espaço à atual literatura brasileira.56 Nesse sentido. Ligia Fagundes Telles. 8). No presente momento. Lindgren Alves. 14). András Petcz e Ferenc Pál. 1997. Rubem Fonseca. Antônio Fraga. uma antologia bilíngue. 58 . como contos de Dalton Trevisan e de Rubem Fonseca. a importância dessas duas antologias reside na demonstração de que a literatura brasileira tornou-se independente.15. Mais tarde saíram obras de outros escritores que descreviam a vida de grandes centros urbanos. Rubem Fonseca. Haroldo de Campos e Décio Pignatari... publicada por iniciativa da Embaixada do Brasil e com o apoio do Ministério das Relações Exteriores. é um bom manual para conhecer a prosa brasileira do século XX. e se pode dizer que seus motivos regionalistas já se manifestam sob forma universalizante. Márcio Souza. n. um parecer crítico. Décio Pignatari: Vers-gyakorlatok (Exercícios de poesia). Trad. no qual ficou consignado o reconhecimento da independência criativa dos autores desse país dos trópicos: A formação da [. 1997.] poesia concreta no início dos anos cinqüenta não é o primeiro exemplo de que nas circunjacências da zona cultural euro-americana criam-se uma nova linguagem e uma expressão autêntica que correspondem às demandas intelectuais desta região (Szkárosi. prefácio e notas de Ferenc Pál. Dalton Trevisan. Budapeste: Íbisz. de Victor Giudice. Trad. publicaram-se dois contos de Dalton Trevisan. Adélia Prado. Com a mudança do gosto literário. o conto “Bolívar”.

que. Esse fato explica o êxito das obras de Jorge Amado e o êxito isolado de Macunaíma. e assim podem informar e orientar os interessados. existem enciclopédias. Budapeste: Atheneum. n. Brazília üzen. antologias de poesia e de contos que informam detalhadamente sobre autores. e tacitamente sempre esperou que a literatura correspondesse a esses estereótipos decorrentes de “preconceitos” devidos a circunstâncias históricas diversas. tendências literárias. Havemos de mencionar. 1-18. Trad. que formou uma imagem do Brasil a partir das informações obtidas dos livros de viagens. Contudo. além de Paulo Coelho. Isso distingue o conto de Rosa dos demais textos.A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria 45 Budapeste. tanto nos temas elaborados como nos recursos artísticos de que lançam mão. cujas obras inundam as livrarias. 1939a. o nome de Chico Buarque de Holanda. 2000. 1893-1900. György. da imprensa e da mídia. Resumindo. neste caso o fato de o escritor/cantor ter escrito um romance cuja ação decorre em parte em Budapeste é muito mais importante para os leitores húngaros do que os valores estéticos do livro. falta um vivo contato com as letras brasileiras – as primeiras obras literárias apareceram relativamente tarde e só raras vezes corresponderam às expectativas do público. que correspondem aos cânones universais. 7. p. Contudo. Referências A Pallas Nagy Lexikona. 1972. com o romance Budapeste. e de certa forma a dificuldade da divulgação de autores modernos cuja obra se afasta de uma imagem tradicional do Brasil. 2008). 225. Budapeste. Budapeste: Pallas. BALINT. de Mário de Andrade. 2005. 59 este é o único conto em que aparece o elemento exótico (apud Galamb. Magyarország. podemos dizer que neste momento a literatura brasileira está relativamente bem representada na Hungria. Az üldöz. .59 também está disponível nas estantes. Ferenc Pál. Budapeste: Európa.

Budapeste: Kozmosz. n. Nagyvilág. 2009 _____. 1908-1941. n. 499. 12. Budapeste: Európa. Latin-amerikai számvetés. Utószó. 27. s/d. p. 1951. n. 1961. CD-rom. Mai brazil költk – Rónai Pál fordításai. Oszkár. Mór. 61. Budapeste: Arcanum. Magyar Világ Brazíliában. Budapeste. Latin-amerikai elbeszélk. 211-217. Egy irodalmi legenda – digitálisan. _____. _____. Budapeste: Szimbiozis. _____. Seção Figyel. 1984. CD-rom. Nyugat. ano II. Cd-rom. NAGY. BOGLÁR. Pál. Élet és Irodalom. n. brazil elbeszélk – Isaura után. Dél keresztje. Budapeste. CSERTI. p. n. 1566-1567. n. Budapeste. . 1971. BODOR. Budapeste: Európa. Utószó. Trópusi indiánok között. Flor asszony két férje. 1950. Boszorkányszombat. Budapeste: Kossuth. 1970. Magyar Hírlap. Budapeste: Gondolat. JÓKAI.46 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Budapeste. Nagyvilág. Új Tükör. Irodalmi Újság. 11. 5. Forróégövi m-Kalevala (Mário de Andrade Makunaíma-fordításáról). János. 172. Kígyóöl ének. p. Vörös vetés. Brazíliai regény. Budapeste. NN. 1973. Budapeste. Brazília üzen. Nyugat. Egy irodalmi legenda – digitálisan. Makunaíma (Mário de Andrade regénye). I. p. BENYHE. Budapeste: Európa. 1957. Nyugat. 1908-1941. Összes mvei. ano 20. 31. 1970 L. Pesti Napló. Kilenc és kilenced. p. Brazíliai útijegyzetek. 1966. 1939b. p. 1966. Zoltán. 10. ano VI. 1984. 1984. Sándor. 1969. Lajos. s/d. Arany gyümölcsök földje. Budapeste. Budapeste: Kozmosz. 1723-1731. Járom és csillag. Csillag. 1939. Budapeste: Arcanum.15. Magyarok külföldön. 1985. p. 18. 1987. Budapeste: Európa. n. ano XIV. Ördögszakadék. n. KOCZKÁS. GYERGYAI. Izgalmas üzenet. Hesperidák kertje. Budapeste: Európa Könyvkiadó. 1997. 110. Albert.

Ferenc. Budapeste. . 1911-1926. Ezekiel Stanley. Magyar Nemzet. espirituais e culturais.Paris. Brazil impresszió. István.A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria 47 PÁL. Endre. De março de 1983 a abril de 1986. Társadalmi Szemle. p. Graciliano Ramos: Aszály. Latin-amerika Irodalma. TAVASZY. n. Új Írás. p. Budapeste: Vajda János Társaság. Arquivos do Centro Cultural Calouste Gulbenkian. Traducteurs. 1939. Élet és Irodalom. 2004b. n. Budapeste. éditeurs et lecteurs: moments objectifs et subjectifs de la présence des lettres portugaises en Hongrie. Makunaíma. 161-171. 19-33. STÉR. ano XIII. _____. Cartas vincadas. Tabelas I-II. Tibor. Makunaíma (Mário de Andrade könyve). Ferenc. 1815-1889. 1967. 1962. Centro Cultural Calouste Gulbenkian. p. letras no espelho. Vera. Brasil e Hungria ao transcorrer dos séculos: escambos materiais. Campo Grande: Letra Livre.). ano I. A mai brazil regény. Budapeste. Ferenc. v. Nagyvilág. SZLLSY. Nagyvilág. Marcelo. 2004a. Brazília üzen. 243-244. p. SZALONTAI. A nyelv végének barlangrajzai. Budapeste: Révai. RAMIREZ. 338-339. Ferenc. Sándor. _____. PÁL. 11-37. Mihály. p. 1961. 1-25. 1996. 1968. Révai Nagy Lexikona. 137. XLVII. 105. 1984. Marcelo. SZKÁROSI. Lisboa. 3. 14. p. Campo Grande: Letra Livre. Budapeste. Trad. letras no espelho. _____. 1-19. As relações entre a Áustria e o Brasil. Budapeste. Pál (Sel. Magyar Rádió (Budapeste). 729-735. n. e posfácio. n. 1983. 121-150. Cartas vincadas. p. 1968. In: PÁL. In: PÁL. Literatura brasileira na Hungria e literatura húngara no Brasil: recepção mútua e fortunas críticas. p. ano XXII. ano VII. Budapeste. PAL. 8. Ferenc. MARINHO. 1999. MARINHO. São Paulo. p. Budapeste: Magvet. As modificações da imagem do Brasil na Hungria. João Guimarães Rosa. Letras de Hoje – Revista da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (Porto Alegre). 2004c. 9. p. L ’Édition d’Auteurs Portugais à l’Étranger. 1388-1391. RÓNAI. SZÉKÁCS. _____.

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palavras-chave: literatura brasileira. alicerçada numa perspectiva de literatura comparada. Latin American literature. cujo objetivo é mapear e reunir um amplo e inédito número de profissionais estrangeiros que estudam ou pesquisam temas e autores da literatura brasileira. regionalização. analyzing different historical and cultural contexts as conditions for the promotion of Brazilian Literature in Latin America. poderia ajudar na construção de novas comunidades culturais. que marcou o lançamento da base de dados Conexões. regionalization. Felipe Lindoso e João Cezar de Castro Rocha o convite para participar do encontro.1 O evento estava destinado a mapear os brasilianistas que trabalham pelo mundo fora. literatura comparada. * keywords: Brazilian literature. com o alvo de construir novos laços e conexões entre aqueles que trabalham sobre e com a literatura brasileira em universidades e diversas instituições estrangeiras e fazê-los refletir em conjunto sobre o estado atual da literatura brasileira no exterior. abstract: The article discusses particular moments in the diffusion of Brazilian Literature in Argentina. Agradeço a Claudiney Ferreira. o Instituto Itaú Cultural realizou o I Encontro Internacional Conexões Itaú Cultural – Mapeamento da Literatura Brasileira no Exterior. literatura latino-ameri- cana. comparative literature. analisando os diferentes contextos históricos e culturais como condições para a promoção da literatura brasileira no modo de se pensar hoje – na era da regionalização das culturas –. It seeks to think how today – in the era of the regionalization of cultures – a comparative literature perspective for the diffusion of Brazilian literature can help in the construction of new cultural communities. Quais seriam os problemas e os impasses com . 1 Em dezembro de 2009. Uma primeira versão deste texto foi apresentada nesse evento. o modo como essa difusão. Universidad de San Andrés/ Conicet. em São Paulo.49 Tempos e contextos da literatura brasileira na Argentina e no exterior Florencia Garramuño* resumo: O artigo discute diferentes momentos da difusão da literatura brasileira na Argentina.

dos livros. mas também em termos de difusão da literatura brasileira. Do ponto de vista da pesquisa sobre a literatura brasileira. dos arquivos. Alemanha e Japão. entre outros). a partir das quais é possível vislumbrar uma transformação em andamento de um conceito de literatura e de cultura brasileira que leva em conta sua colocação na paisagem transformada de um mundo contemporâneo no qual fronteiras e limites são redesenhados cotidianamente. já que condiz com muitas das características da literatura mais contemporânea com as quais a minha própria pesquisa vem lidando há algum tempo – é a da situação complexa da difusão de uma literatura brasileira contemporânea que já não parece poder ser contida nos . assim como da própria cultura brasileira? O encontro não só congregou professores e pesquisadores de universidades de diferentes países (Argentina. tradutores e editores. mas também convocou tradutores e editores de literatura brasileira no exterior. O encontro foi frutífero não só em termos profissionais e de contato – pelo fato de fazer se conhecerem pessoas que trabalham com problemas afins –. Estados Unidos. Inglaterra. comunidades e preocupações que não teriam como não influir numa disciplina tão sensível à sociedade e à cultura como o é a dos estudos literários – ou de quaisquer dos diversos ramos da arte. e até três das identidades profissionais (pesquisador. já que a partir dele se iniciaram muitos trabalhos em conjunto entre diversos pesquisadores. rearranjando regiões. França. Uma dessas questões – e a que me parece mais premente. Espanha. que abriram um diálogo fecundo sobre os dilemas da difusão da literatura brasileira em extrema coincidência com os debates que preocupam os pesquisadores. dos documentos. tradutor.15. n. 2009 que os pesquisadores do Brasil se confrontam ao se encontrarem distantes do Brasil. tanto que muitas vezes duas. editor) reunidas no encontro encontravam-se numa mesma pessoa. talvez o mais produtivo do encontro tenha sido a grande quantidade de perguntas teóricas que desabotoaram das discussões e debates.50 Revista Brasileira de Literatura Comparada.

O filho da mãe. parece evidente que. a própria noção de literatura como instituição nacional fortemente ligada a certos padrões de constituição de uma identidade nacional é talvez um dos limites mais evidentemente ultrapassados. ou não. embora não seja o único. Um grande número de textos brasileiros – assim como também de textos de outros países e regiões – põe em cena um extravasamento espantoso dos limites e fronteiras que tinham definido o literário como um tipo de discurso ancorado numa certa especificidade institucional.. pesquisada e. no entanto. habita um número cada vez maior de romances contemporâneos – brasileiros. Entre esses parâmetros hoje extrapolados.. 2009). novos problemas surgem – que a ideia mesma da difusão e promoção da literatura brasileira . traduzida. no contato com essa cultura diferente. língua e nação –como proporia Giorgio Agambem (2001) –. de Bernardo Carvalho (Carvalho. vale a pena ressaltar. Até que ponto esse extravasamento de problemáticas nacionais – “especificamente brasileiras” – deveria modificar também a forma de encarar as próprias ferramentas e conceitos para se pesquisar e ensinar a literatura brasileira no exterior? Se a literatura contemporânea já não se arrosta exclusivamente à discussão de uma identidade nacional e se.Tempos e contextos da literatura brasileira na Argentina. parece se propor cada vez mais fortemente como imaginação de comunidades e coletividades que desconhecem a ferrenha ligação entre território. pelo contrário. para a difusão e promoção dessa literatura brasileira no estrangeiro. aparece como o exemplo mais extremo desse afastamento da problemática do nacional na literatura brasileira contemporânea que. E é nesse sentido também – uma vez que a literatura brasileira no exterior está sempre se relacionando com as formas da literatura dos países nos quais essa literatura está sendo difundida. fomentar e alicerçar uma discussão dessas novas “comunidades imaginadas” – para usar em um sentido mais complexo o conceito de Benedict Anderson (1983) – seriam estratégias mais sensíveis ao que essa nova literatura pareceria estar discutindo. 51 parâmetros que definiram a instituição literária no passado.

deslocando-o em outros contextos. Na proposta de Apter. Seria uma forma de produzir um saber novo. 2003. propondo uma colaboração entre os estudos de área (“area studies”) e a literatura comparada que poderia tentar “to figure themselves – imagine themselves – as planetary rather than continental. professor de University of Massachusetts Darthmouth. e as suas ferramentas – na era da regionalização da economia global e. p. com ela. “in naming a transnational process constitutive of its disciplinary nomination comparative literature breaks the isomorphic fit between the name of a nation and the name of a language” (Apter. para esta possibilidade. também das culturas. mas também intervir na produção A apresentação de Victor Mendes. principalmente a partir de discussões como as elaboradas por Emily Apter em The translation zone ou Gayatri Spivak em Death of a discipline sobre os modos de se pensar a literatura comparada – a disciplina. Na primeira etapa veem-se os vínculos estreitos entre diplomacia e tradução e resulta 3 . global or wordly” (Spivak. 243). no encontro Conexões. quando se cristaliza.52 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Também Spivak tem elaborado algumas noções interessantes – e bem complexas – sobre o problema da literatura comparada na contemporaneidade. p. os seus problemas. a noção de tradução –linguística.15. Outra das questões tem a ver com a possibilidade de se pensar a difusão – e. diferente do já conhecido. 2009 no exterior compartilha muitos dos problemas que têm se associado nos últimos anos à discussão da literatura comparada. Segundo ela. divulgação ou propagação de uma literatura ou de um saber que existiria feito e pronto no Brasil e que os pesquisadores só transmitiríamos. e como. mas também cultural – tem um papel fundamental no programa de uma “nova literatura comparada”. a ideia de uma “auténtica cultura nacional brasileña” que inicia o segundo período. não só atender à difusão da literatura brasileira.2 E aí a pergunta que surgiu é a de se uma instituição como o Itaú poderia. 72). 2003. da mão das políticas culturais do Estado Novo de Getúlio Vargas (1937-1945). apontou. n. que se aproveitaria dessa mesma migração e deslocamento como uma forma de produzir saberes “outros” que despontariam ao se confrontar a literatura brasileira com um contexto estrangeiro ao que essa literatura interpelaria de uma forma diferente. com ela. os “difusores” – da literatura brasileira no exterior noutros termos que já não só do ponto de vista de uma transmissão. 2 O livro de Sorá estuda quatro períodos importantes: o primeiro estende-se desde o século XIX até os anos 1930.

que Sorá denomina mercantil. estava se produzindo gerado precisamente por aquele encontro. Algumas dessas questões dizem respeito a um mapeamento qualitativo da literatura brasileira no exterior que seria bem interessante fazer. Um terceiro período. evidência de um intenso diálogo entre a literatura argentina e brasileira no período. É no segundo período. ao se falar da difusão da literatura brasileira no exterior. em 1905. 53 de esse “saber outro” que. Fica claro que. Partindo de uma pesquisa empírica sobre as traduções de escritores brasileiros para o espanhol realizadas na Argentina. além do fato pragmático – também importante – de facilitação dessa rede e desses contatos.Tempos e contextos da literatura brasileira na Argentina. Por último. sem dúvida. muito . A identificação dessas questões e a elaboração de respostas para elas. Essa sincronia é. nenhum deles teve reedição alguma. Sorá demonstrou que a tradução de autores brasileiros tem sido muito mais importante e constante na Argentina – segundo algumas variáveis históricas – do que na maioria dos outros paises. além do mapeamento quantitativo.3 Mas a pesquisa demonstrou também outra consequência mais relevante – e lamentável – ainda para a história cultural da Argentina e do Brasil: a de que a efetiva tradução de autores brasileiros na Argentina não tem sempre ajudado a reduzir o mútuo desconhecimento entre os dois países.. assim como a criação de redes de pesquisadores e de contatos e fluxos de saberes é. um quarto período. principalmente durante os anos do Romantismo. José de Alencar ou Aluísio Azevedo). levando em conta as diferentes condições de possibilidade que esses tempos e contextos têm oferecido para o conhecimento da literatura brasileira em países estrangeiros. como se pode concluir da relevância que os temas do desenvolvimento econômico e social adquiririam nesse momento. Barcelona. vai de 1945 a 1985 e exibe a hegemonia do mercado na seleção e produção da tradução. Caberia ressaltar a importância que nos anos sessenta adquirem questões ideológicas e o tipo de problemas para os quais os estudos sociais brasileiros vão ser tomados como modelos a observar. inicia-se em 1985. que Sorá denomina de internacionalização. cuja primeira edição no Brasil é de 1904. é importante analisar os tempos e contextos dessa difusão. de Machado de Assis. e dos circuitos construtores do mercado editorial internacional. por exemplo. O antropólogo Gustavo Sorá começou a pensar algumas dessas questões para o contexto da Argentina durante o século XX no seu importante livro Traducir el Brasil (2003). A pouca reedição e circulação desses livros é um dado incontestável: dos canônicos e importantíssimos livros brasileiros traduzidos pela Biblioteca La Nación – uma importante editora universalista – nas primeiras décadas do século XX. no entanto. foi traduzido para o espanhol só um ano depois. por exemplo (autores como os já na época afamados Machado de Assis. quando as relações entre a cultura argentina e brasileira resultam em grande parte da mediação de intercâmbios internacionais nas feiras de Frankfurt. por sua vez. um dos grandes ganhos de encontros daquela natureza em termos teóricos. surpreendente pela espantosa atualidade das traduções: Esaú e Jacob.. no caso. quando a tradução mostra seus vínculos com as políticas estatais e com as a alianças políticas e ideológicas de esquerda que nasceram do exílio na Argentina de Luiz Carlos Prestes e Jorge Amado.

Se pensarmos na relação entre os escritores argentinos da época e a literatura brasileira. Era claro – a pesquisa demonstrava – que houve condições para uma tradução bem rica naquele momento. Fica claro a partir da leitura do importante livro de Gustavo Sorá.15. fica evidente que essas traduções não fizeram com que a literatura argentina se alimentasse da brasileira nem que a brasileira se alimentasse da argentina. que o significado dos livros traduzidos em suas dimensões históricas depende das formas nas quais esses livros são recebidos e apropriados por seus leitores. que a literatura brasileira ficasse conhecida na Argentina fora do interesse de algumas pessoas específicas. n. 221). e que os problemas da tradução não dizem respeito só a duas culturas nacionais específicas. 2009 embora muitos dos títulos dessa mesma editora que provinham de diferentes tradições literárias europeias tenham sido reeditados ano após ano. demonstrando. para “atualizar” e manter vivo o conhecimento do Brasil que esses livros traduzidos poderiam – e deveriam – ter acarretado.54 Revista Brasileira de Literatura Comparada. tampouco. p. por outro lado. 2003. ou entre os críticos argentinos e a literatura brasileira. mas que na verdade ela não acarretou consequências de peso para o efetivo conhecimento da literatura brasileira na Argentina ou nos países de fala espanhola nos quais esses livros brasileiros poderiam passar. portanto. a ser lidos. assim como das posições no campo intelectual dos agentes tradutores e dos pesquisadores. Um momento mais bem-sucedido dessa difusão foram – sem dúvida – os anos 60 e 70 do século XX. arquivos e instituições dedicadas ao desenvolvimento do conhecimento sobre o Brasil não contribuiu. A debilidade institucional da Argentina em termos de bibliotecas. que “las fuerzas de internacionalización de los mercados desde fines de los años ochenta remataron el distanciamiento entre dos ‘culturas nacionales’ cuya vigencia editorial es regulada en aduanas muy lejanas” (Sorá. como diz Sorá. mas respondem a uma configuração internacional de redes de relações linguísticas. desde esse momento. nem. quando a .

Antonio Houaiss. 1999. tomou o nome de “Premio Casa de las Américas”. com a entrada dos autores brasileiros.. José Guilherme Merquior. 1972). Machado. Haroldo de Campos. o contexto político da América Latina. É por esses anos que o que tinha sido conhecido até então como “Concurso literário hispano-americano” foi se denominar. Guimarães Rosa. Chico Buarque ou Davi Arrigucci Jr.. a Seix Barral – e compartilhou com ela o seu momento de fama internacional. com a Revolução Cubana e as instituições que iriam se criar. ao criar a possibilidade de entendimento que se forma aqui e se desenvolve fora. Cuba tem sido a grande mediadora. foi construído particularmente por uma editora de origem espanhola. lembremos. ou de tantos outros que. e ao tecer uma rede fraternal que abraça o continente com suas possibilidades de compreensão e intercâmbio (apud Cabañas e Fornet. É claro que. . Clarice Lispector e tantos outros escritores brasileiros citados e analisados nesses textos (Moreno. colocam em relação a literatura hispano-americana e a brasileira referindo-se a autores como Alencar. fez com que a difusão da literatura brasileira tivesse um impacto mais forte nas literaturas de língua espanhola. a presença da literatura brasileira no volume é incontestável.Tempos e contextos da literatura brasileira na Argentina. 55 literatura brasileira pegou carona no boom da literatura latino-americana – que. que premiou autores brasileiros e contou no júri com escritores e intelectuais brasileiros da talha de Antonio Candido. sem falar exclusivamente da literatura brasileira. Quando a Editorial Siglo XXI publica América latina en su literatura. tendo ele artigos como os de Antonio Candido. Casimiro de Abreu. geralmente tão separados dos irmãos de fala espanhola. brasileiros. como “Concurso literário latino-americano” e. 181). ou Emir Rodríguez Monegal e outros críticos latino-americanos que fazem referência à literatura brasileira. Em depoimento em Havana. em 1972. Antonio Candido disse sobre o prêmio: Para nós. p. logo em seguida. na época.

se possível. Caetano retoma uma frase famosa de Fernando Pessoa em “A minha pátria é a minha língua”. 1982). na época. 4 . E essa América Latina grande não se preocuparia tanto com a questão da identidade nacional ou regional.. con tanto interés y persistencia de “Soy loco por ti América” foi composta sob o efeito da morte do Che Guevara e gravada em Tropicália. os latino-americanos que queríamos e pretendíamos construir uma América Latina grande. perdurável. 2009 Para aqueles que. de Bernardo Soares (Pessoa. é importante ressaltar é até que ponto essas condições. intensa. composta por Caetano Veloso. que Caetano repetia gozoso: Flor do Lácio Sambódromo Lusamérica latim em pó O que quer? O que pode esta língua? Vamos atentar para a sintaxe dos paulistas E o falso inglês relax dos surfistas Sejamos imperialistas! Cadê? Sejamos imperialistas! (. em 1967. 4 O leque que uma história da difusão da literatura brasileira no exterior abre é bem complexo e não seria possível esgotar. “Língua”.56 Revista Brasileira de Literatura Comparada. que dançávamos e cantávamos com fervor nas festas da época.. aparece em Velô.) A língua é minha pátria E eu não tenho pátria. em 1984. esse livro foi a descoberta de que a literatura brasileira existia numa sintonia de problemas com a literatura latino-americana e que ela própria podia se converter em um campo de estudo e pesquisa para nós.. do Livro do desassossego.15. no fim da década de 1980. “ningún crítico hispanoamericano coetáneo de la nacionalidad que fuere se encargó. estudávamos literatura na universidade argentina. as discussões que um problema como esse abre. Na canção. da literatura brasileira na América Latina. no entanto. n. em um único artigo. colaboraram ou não para uma difusão efetiva. que víamos representada na canção de Gilberto Gil com letra de Capinam. Basta lembrar o refrão de Língua para ouvir uma alusão leve a essa América Latina. tenho mátria E quero frátria. como Monegal o como Rama. mas se assemelharia com a corrupção das unidades homogêneas que Caetano Veloso comemorava em Língua – canção que também dançávamos e cantávamos ainda com mais fervor. Soy loco por ti América. Segundo Pablo Rocca. Uma questão que.

. e interromper aquelas outras propriedades que levam ao apagamento das diferenças e à imposição de lógicas homogeneizantes? Queremos continuar defendendo uma identidade da literatura brasileira ou pretendemos abrir esse conceito? Como poderíamos pensar e contribuir para a difusão da literatura brasileira no exterior partindo da inspiração do título da coletânea Nenhum Brasil existe (Rocha. no campo intelectual latino-americano. levando em conta as condições atuais da globalização. Emir Rodríguez Monegal y el Brasil. possa se inserir no contexto contemporâneo para tirar desse processo as boas qualidades. 2003).5 Eu acrescentaria que tanto o trabalho de Rama como o de Rodríguez Monegal sobre a literatura brasileira talvez não tenham comparação. 57 Um trabalho mais abrangente sobre as relações entre Emir Rodríguez Monegal e Angel Rama com o Brasil pode se encontrar no livro de Rocca. bastante pouco produtivo. em um sentido mais geral. p.. sobre as literaturas latinoamericanas.Tempos e contextos da literatura brasileira na Argentina. Montevideo: Ediciones de la Banda Oriental. 56). quando a palavra de ordem é a redução dos orçamentos no contexto da crise global. 2006a. como se deveria pensar a difusão da literatura brasileira na era da globalização e das culturas pós-nacionais ou transnacionais? Como as diversas instituições de pesquisa e ensino da literatura brasileira poderiam contribuir para uma discussão dessas questões que. sobretudo o de Rama. tomado de empréstimo de um verso de Drummond? Qual seria a literatura brasileira desse Brasil nenhum que quereríamos difundir. que. com a contribuição deles para a literatura latino-americana em espanhol. Se esses tempos e contextos hoje são bem diferentes. há evidência importante sobre a multiplicação dos estudos comparativos entre as literaturas e as culturas do Brasil e da Argentina. tendo abandonado a preocupação pela identidade latino-americana. 20 5 la literatura brasileña” (Rocca. o que é bem pouco para um campo de crítica latino-americana que tem sido bastante rico e produtivo. Ángel Rama. aprofundá-las. e como deveríamos fazer essa difusão? Hoje. incorporam nesse estudo as . apesar do diálogo entre Rama e Candido e outras poucas honrosas exceções. O que também é evidente é que o diálogo entre críticos de fala espanhola e portuguesa também tem sido. e.

58 Revista Brasileira de Literatura Comparada. como Ana Cristina Cesar ou Leminski. ou Literatura e vida literária.15. por sua vez. 2009 culturas do Brasil sem os empecilhos do purismo linguístico ou historiográfico do passado. ou os vários romances de João Gilberto Noll e Adriana Hidalgo. no entanto. demonstram uma presença cada vez maior da literatura brasileira no catálogo de editoras argentinas. ou Um amor anarquista e os vários textos que Beatriz Viterbo vem publicando. tanto de ensaios. Também grande parte das maiores editoras argentinas e multinacionais vem publicando em Buenos Aires. Tanto esses livros como o contato fluido dos poetas argentinos e brasileiros em festivais diversos. autores brasileiros contemporâneos e clássicos: a nova edição que o Fondo de Cultura Econômica fez de um livro que era inencontrável nas livrarias argentinas. como o Balanço da bossa. A revista Tsé Tsé vem publicando uma série de livros e de poemas. publicando clássicos como Oswald de Andrade ou Graciliano Ramos e literatura mais contemporânea. assim como outros muitos. e lançando dentro de sua editora livros completos de alguns poetas brasileiros contemporâneos. de Marcos Siscar. de Clarice Lispector. O caso da poesia contemporânea é muito significativo. Mais importante do que o número de volumes publicados. n. hoje. ou No se dice. evidenciam-se numa escrita poética que se nutre desses contatos. realizados tanto na Argentina como no Brasil. junto com livros como A descoberta do mundo. de Augusto de Campos. com muito mais frequência. traduzidos e não traduzidos. de Carlito Azevedo. é o fato de esses livros estarem hoje influenciando uma escrita literária argentina que tem se nutrido deles e que. também está nutrindo os escritores brasileiros. E existe também. como o caso do Sublunar. Mas não só. Basta ler alguns poemas de Carlito . Hoje existe uma série dentro de uma editora argentina (a Corregidor) especialmente dedicada à publicação e tradução de literatura brasileira que vem. de Euclides da Cunha. um diálogo muito mais intenso entre a crítica argentina e a crítica brasileira. há quase dez anos ininterruptos. Os sertões. de Flora Sussekind.

pelo contrário. na cabeça dos leitores. nesse contexto. Valencia: Pre-Textos. 2001. mais importante ainda. já que. que desenham uma encruzilhada de fertilização cruzada.. se fundamente na relação dessa literatura brasileira com as outras literaturas. e que essa difusão acontece num contexto global de poder e conhecimento que influencia crucialmente a paisagem intelectual. Benedict. que já não esteja procurando as identidades de uma literatura como referentes de uma identidade nacional. e em várias direções. 1991. sobretudo na Secretaria de Ciência e Técnica do Ministério de Educação da Argentina. Referências AGAMBEN. cada volume traz estudos preliminares e bibliografias que ajudam os livros traduzidos a se instalarem no mercado e. e com ela o papel da literatura em geral – nesse novo mundo a cuja transformação estamos assistindo. 59 Azevedo ou Marília Garcia para ver que essas influências têm andado nas duas direções. mas que é uma viagem de ida e volta. tem financiado e continua financiando pesquisas desenvolvidas por universidades argentinas e brasileiras em conjunto. As verbas para projetos de cooperação internacional e para trabalhos comparativos têm aumentado exponencialmente na Argentina. Os livros da coleção Vereda Brasil têm instalado um conhecimento importante dos autores publicados. em parceria com a Capes do Brasil. Imagined communities. . New York: Verso. talvez seja hoje uma estratégia para transformarmos. É importante. lembrar que difusão não implica um trajeto de uma só via. além de publicar o livro traduzido. Medios sin fin: notas sobre la política. ANDERSON. Giorgio..Tempos e contextos da literatura brasileira na Argentina. que. na medida de nossas fracas possibilidades. o papel da literatura brasileira. mas que. Pensar a difusão da literatura brasileira de uma perspectiva de literatura comparada transformada.

Una antropologia de la circulación internacional de ideas. 2003. 2009. 12. 2006b. Emir Rodríguez Monegal y el Brasil: dos caras de un proyecto latinoamericano. CAPINAM. 1984. The translation zone. La fisura regionalista de Graciliano a G. Velô. Jorge. 1982. Gilberto. Buenos Aires: Libros Del Zorzal. Premio Casa de las Américas: memoria.60 Revista Brasileira de Literatura Comparada. (Recolha e transcrição dos textos de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha. Prefácio e Organização de Jacinto do Prado Coelho). Gustavo. Inés. In: _____. Phillips. Emily. São Paulo: Companhia das Letras. Pablo. LOPES DE ARAUJO. Tropicália. César. Princeton: Princeton University. 2009 APTER. _____. México: Siglo XXI. Gayatri. FORNET. Polygram. Rosa (la visión hispanoamericana de Emir Rodríguez Monegal y Ángel Rama). Bernardo de. Rio de Janeiro: Universidade do Estado do Rio de Janeiro. 2003. Caetano. Nenhum Brasil existe. SPIVAK. FERNÁNDEZ MORENO. 1972. n. CARVALHO. O eixo e a roda. Livro do desassossego. 2006. La Habana: Fondo Editorial Casa de las Américas. GIL. VELOSO. SORÁ. Montevideo: Ediciones de la Banda Oriental. Death of a discipline. ROCCA. Fernando. 2006a. New York: Columbia University. Belo Horizonte. A minha pátria é minha língua. PESSOA. Valdei. 1960-1999. Lisboa: Ática. 1999. O filho da mãe. . Ángel Rama. 1967. Soy loco por ti América.15. CABAÑAS. In: _____. v. Traducir el Brasil. 2003. América latina en su literatura.

A mais imediata será o sublinhado duma diferença dentro da língua: no português europeu. literary nationalism. reviews the case of Machado de Assis in order to step into de debate on universal versus local and on the problem of the international reception of his work. a book is a man’s best friend. literatura mundial. Outside of a dog.61 Ideia de Literatura Brasileira com propósito cosmopolita Abel Barros Baptista* Resumo: O ensaio procura rever o problema da relação da literatura brasileira com a noção de literatura e a literatura mundial. Pedir a um português que escreva sobre os estudos de literatura brasileira em Portugal. nacionalismo literário. cosmopolitism. Groucho Marx 1. não deixa de envolver particularidades curiosas. e ademais como parte dos “estudos de literatura brasileira no exterior”. and the very idea of Literature. world literature. regressa ao caso de Machado de Assis para intervir no debate sobre o conflito entre local e universal na sua obra e a respectiva recepção fora do Brasil. cosmopolitismo. elemento de exclusão. Partindo de uma noção que valoriza a literatura sobre a língua. não ocorre essa acepção de “exterior” * Universidade Nova de Lisboa . KeywoRds: Brazilian literature. as a way of exclusion. inside of a dog. as it seems to be the Brazilian case. Machado de Assis. PalavRas-cHave: literatura brasileira. as a notion without nation. Machado de Assis. Arguing for an idea of literature superseding the language. it’s too dark to read. aBstRact: The essay aims at a revision of the problem of the relation between a national literature.

suspensa de uma referência que destrince exterior de interior. pode nem ser estrangeiro. que a pessoa vá dormir fora ou.br/obra/ literatura/adulto/dicionario/ framegranda_a. seja a inglesa. a mesma construção valendo. Digamos que há sempre o “estrangeiro”. aliás. propriamente falando. Daí que a modalidade portuguesa. Deitar fora é jogar fora. dar uma deitadinha na casa de um amigo ou amiga. parece mais pertinente delimitar “exteriores” do que “estrangeiros”. 2009 como conjunto de países constituído por todos os que não são o nosso. já tratando-se de difusão de uma literatura nacional ou de estudos de uma literatura nacional. Convenhamos que não há enorme diferença entre as duas palavras. no que é nosso. Você verá várias placas em Portugal. dizendo: Por favor. no confronto com a brasileira. estrangeiro é exterior e. Por exemplo. Também se usa em Portugal a locução “lá fora”. n. estudos “estrangeiros”? Já a formulação “nem todos os estudos conduzidos no exterior são por isso exteriores” faz figura mais de problemática do que disparatada. e diríamos “estudos de literatura portuguesa no estrangeiro”. ao suspender a familiaridade. sugerindo que académicos medíocres procuram longe escritores obscuros para fazerem carreira sem controlo nem concorrência. Mas exterior excede estrangeiro e. “Leituras em competição”: uma “guarda 2 . E é curioso que um dicionário on line de português para brasileiros (Prata. marioprataonline. deite no lixo! Não leve ao pé da letra.com. para outras literaturas. enfim. e que significa precisamente “jogar fora de casa” por ser o oposto de “jogar em casa”. o jogo de palavras. mas o advérbio indica registo coloquial e em regra requer um “fora” de referência para o nosso primitivismo pôr os olhos. Mas talvez disséssemos “estudos de literatura brasileira no estrangeiro” mais depressa do que estudos de literatura brasileira “fora do Brasil” ou “no exterior do Brasil”. a frase talvez não pareça logo o absurdo que é: o que serão. permita. requer determinação. Se dissermos que “nem todos os estudos de literatura portuguesa conduzidos no estrangeiro são estrangeiros”. a orientação do estrangeiro para o doméstico.15. promete alguma coisa pertinente. Ademais.62 Revista Brasileira de Literatura Comparada. até estimule jogos de palavras fáceis: a formulação “nem todos os que vivem no estrangeiro são estrangeiros” resultaria em disparate se transposta mecanicamente para “nem todos os que vivem no exterior são exteriores”. Nada disto. a determinação do interior como nacional.htm>. falando de cidadãos. absolutamente. por outro lado. por seu lado. é também locução portuguesa. significa o que é de fora ou vem de fora. como todos. mormente as cínicas ou as que derivam do sublinhado de traços de degradação do ideal cosmopolita. a orientação do interior para o exterior. O verbete completo diz isto: “Não significa. do domínio do futebol. a interferência do exterior no interior. 1993) tenha necessidade de esclarecer que a locução “deitar fora” não significa “dormir fora de casa” mas “jogar fora”. até pela etimologia. tratando-se de estudos. pelo menos. Com efeito. sem se aperceber de que “jogar fora”.” Disponível em: <http://www. a alemã ou a italiana: como se houvesse uma substantivação de “o estrangeiro” que o “exterior” já não alcançou. e sempre se sabe o que é: o “exterior”. etc. Usamos “o estrangeiro”.1 Isto. no nacional. 1 Claro que estão disponíveis várias descrições alternativas. Ou a versão da pilhagem que Roberto Schwarz ofereceu no ensaio a que mais adiante me referirei. atrai a atenção para a definição do exterior como estrangeiro.

não parece valer para as organizações nem para os estudos. o de se ver obrigado a esbarrar em regras que lhe são adversas ou a tolerar convicções que lhe repugnam. Paulo. que viajam por causa da literatura que não se fez na sua terra. ilustram este princípio estranho: as pessoas têm necessidade de viajar porque as ideias e os estudos. no sentido em que pertence a este ou àquele aglomerado nacional. mas hóspedes. que vale para as pessoas. literal ou figuradamente. aliás. onde não viveram. 3 63 Colho esta expressão na tradução para português da conferência proferida por Michael Wood num colóquio sobre Machado de Assis na Universidade de Princeton. quase cidadãos honorários. aqueles que. O mesmo se passa de resto com os brasileiros: um brasilianista é alguém que se dedica aos “estudos brasileiros”. Schwarz. é sempre pouco para quem vive neste ou naquele aglomerado nacional. aonde nunca foram. p. Talvez se possa inferir do exemplo que os estudos. vai a “terras distantes” à procura do que a faz menos provinciana e por isso não se importa de ignorar a história e o contexto. Pode. é provável que hoje pagássemos a Berlusconi para ler a Divina comédia. e as universidades em princípio não confundem brasilianistas com brasileiros. como cidadãos. sem eles. esses académicos. evidentemente não se tornam portugueses. A segunda consequência é que. não se prendendo a nenhum espaço delimitado por fronteiras. porque de algum modo se dedicam ao Brasil. o cosmopolita pode estar condenado à errância eterna. nunca serão estrangeiros. . tendo país. residir nessa aspiração a razão última por que muitos académicos se dedicam a estudar a literatura de países onde não nasceram. tanto pode estar sediado em Roma como em S. 4 talvez porque. e ainda querendo tê-lo muito fortemente. em janeiro de 2009 (Wood. não acreditamos que os estudos possam ser domésticos ou nacionais sem ao menos aspirarem à condição universal. 187). 66). 2006.Ideia de literatura brasileira com propósito cosmopolita avançada” do “centro” pilha as obras da “periferia” para as incluir em repertórios internacionais. literatura ou cultura portuguesa que no estrangeiro são conduzidos por não portugueses. Certa tradição académica chama “portugueses” justamente àqueles estudos de língua. pela simples razão de que ninguém o pode habitar. Isto. filantropos embora. chamam interior. e em princípio hóspedes de honra. casa. 2009. kantianamente guiados pelo ponto de vista filantrópico universal. são brasileiros sem serem brasileiros e que se chamam brasileiros precisamente na medida em que estão no exterior do Brasil e num interior que não se chama Brasil. Um “Instituto de Estudos Brasileiros”. Dir-se-á. Estamos sempre em algum lugar – em algum local. A imediata consequência a extrair seria que o universal não existe.3 Note-se que. se deslocam sempre para o território que outros. vão de um país a outro por causa da literatura. p. mas estes. em rigor não tem país. que estes que viajam. cheio de brasilianistas ou cheio de brasileiros. espaço doméstico. Nesse sentido. por outro lado. o maior risco. modalidade decerto muito inconveniente de prestar tributo ao princípio de nacionalidade em literatura. e que provincianismo é ver o exterior só como exterior. sem universal em que se apoie. mas mais quotidiano. não podem nem precisam de viajar. não como “o lar de outras pessoas”. por sua vez. ou que só visitaram justamente porque se interessaram pela respectiva literatura – talvez alguma convicção de que a literatura. desde que obtenha proventos fáceis (cf.2 Então. sendo o menor.4 Sem dúvida.

antes. Em todo caso. Trabalhar no exterior de um paradigma pode ser mais perturbador do que trabalhar no exterior de uma disciplina ou de uma instituição. ou até de ambos: o reconhecimento decisivo do brasilianista. o interior não é nacional senão depreciativamente. que ou provêm do interior da instituição em que se trabalha ou do exterior dela. trabalhar no interior de um paradigma pode ser condição necessária para trabalhar no interior de uma disciplina e de uma instituição. da importância do seu estudo e da relevância da sua pesquisa. fundações. agências governamentais. numa rede tendencialmente tão diversificada no mapa como similar nos padrões e critérios de avaliação. A impossibilidade do interior bem circunscrito decorre da dissolução da autonomia numa rede de instâncias por definição exteriores. centros de pesquisa. n. mas as próprias disciplinas. que ao brasilianista lhe paga essas viagens e esses estudos? E em nome de quê. esforçar-se por se manter exterior porque estrangeiro? Qualquer estudo implica legitimidade e reconhecimento. não brasileira. Exterior deixou de significar estrangeiro: no mundo universitário. há-de vir do exterior ou de algum interior do Brasil? Ou o factor decisivo estará antes nesse outro interior que é a instituição exterior. Eis outra forma de dizer que o universal não existe: porque o local se tornou impossível. editoras. essa instituição o avalia? Acaso da capacidade de se tornar estrangeiro para não ser estrangeiro no país da literatura que estuda? Outra pertinência da distinção entre “exterior” e “estrangeiro” residiria então em que o “exterior” tem aptidão superior à de “estrangeiro” para referir situações que envolvem instituições.15. . outras universidades. disciplinas ou paradigmas.64 Revista Brasileira de Literatura Comparada. deve pretender tornar-se interior apesar de estrangeiro ou. o interior tornou-se demasiado escuro para que se consiga ler nele com nitidez. de que padrões ou critérios. e no propósito do estudo dela. desde logo. e o reconhecimento do pesquisador ultrapassa já não apenas a nação. 2009 Eis o dilema: aquele académico que viaja para outro lado por causa da literatura.

Ideia de literatura brasileira com propósito cosmopolita 65 O presente ensaio conclui um percurso de estudos machadianos inaugurado há mais de vinte anos com uma análise de “instinto de nacionalidade”. O propósito cosmopolita leva em conta o desejo de criação de uma literatura a que os brasileiros possam chamar sua. em negar a nacionalidade da literatura brasileira em nome de uma natureza intemporal e transcultural da literatura. não podia senão ser muitíssimo sensível à diferença entre exterior e estrangeiro. é suficiente para mostrar que se mantêm a actualidade crítica e a energia polémica da análise que propus do ensaio de Machado. 2003. que se representa hegemonicamente como construção que circunscreve o interior para que coincida com o nacional. sendo uma reacção à fortuna crítica de Machado fora do Brasil e ao que ele chama “leitura internacional”. tampouco em afirmá-la ou sequer reconhecê-la: consiste. Duas interrogações sobre Machado de Assis (Baptista. uma literatura. em reconhecer o desejo de nacionalidade. noutras nações. ou. supostamente em competição com a “leitura nacional”. enfim. delimitálo historicamente. portanto. O artigo de Roberto Schwarz atrás citado. edição portuguesa de 1991). sim. como a brasileira. mas postula que tal desejo não se confunde com o que eles ou todos nós chamamos literatura brasileira – nem é o único guia. p. que preserva a relação com a literatura. antes. aliás. muito menos o melhor. na linhagem que o primeiro grande espírito cosmopolita do Brasil. O propósito cosmopolita não consiste. 21-111. como. estude e divulgue a razão de a literatura falar do Brasil? Que se interesse pela realidade nacional brasileira ou. antes. enquanto o primeiro a subordina a uma qualquer relação com o Brasil. 5 Ora. O que se deve então legitimamente exigir ao brasilianista? Que estude e divulgue o Brasil de que a literatura brasileira fala ou. analise o processo por meio do qual no Brasil se procurou construir uma literatura entendida como representação do Brasil? Proponho designar cosmopolita a perspectiva que estabelece essas distinções e argumenta em favor do segundo termo da alternativa. que o leitor interessado pode encontrar no meu livro A formação do nome. para a conhecer.5 . enfim. pelo interesse da literatura brasileira pela realidade nacional brasileira? Que se torne porta-voz de uma literatura entendida como representação do Brasil. inaugurou com o célebre “instinto de nacionalidade”. Machado de Assis. Filiando-se. E há-de ser particularmente sensível à presença do estrangeiro no seu interior – e sobretudo à projecção desse interior no exterior indeterminado do “estrangeiro”. e a que voltarei mais adiante. no sentido mimético e no diplomático. identificá-lo como uma das forças da literatura moderna em acção no Brasil. antes. desnaturalizá-lo e.

p. ao convocá-lo. se é possível algum sentido para Weltliteratur mantendo o termo na visão de Goethe. seria de um só golpe a realização e a supressão da própria noção de Weltliteratur. sem nenhum paradoxo. que apresento nesta formulação decerto precária. 1969. 17). num modo que sequer é propriamente paródico. está a diminuir e a perder diversidade. como se se tratasse de um programa político: o propósito cosmopolita consiste em reafirmar.66 Revista Brasileira de Literatura Comparada. o domínio da Weltliteratur. no entanto. 2) A dificuldade é manter a tarefa da filologia diante do processo de estandardização da vida humana à escala global. O colorido kantiano do meu título. Espírito? Humanidade? O vocabulário não é seguramente de hoje: ou parece hoje muito pouco cosmopolita. àquilo que a cultura medieval pré-nacional já possuía: a noção de que o espírito não é nacional” (Auerbach. é citar o desfecho dele. Não cabendo aqui sequer tentar resumir o argumento que ocupa a parte central do ensaio. sublinha. No entanto. p. p. acaba a declarar que “a nossa casa filológica é o planeta. A pressuposição da Weltliteratur é uma felix culpa: a divisão da espécie humana em muitas culturas (Auerbach. e mais do que isso. 1969. n. que Auerbach detecta e cujo termo pleno. o modo como. Auerbach perguntava num dos seus últimos ensaios. em circunstâncias notoriamente diversas. a formular certo programa de urgência: “devemos regressar. 17). a Weltliteratur não se refere apenas ao que é genericamente comum e humano: antes considera que a humanidade é o produto das relações frutuosas entre os seus membros. pode também desnortear. há por aí qualquer coisa de urgentemente actual. já não pode ser a nação” (Auerbach. o meu propósito. ou causar estranheza pelo desuso: o melhor bem? o bem comum? o bem supremo? E.15. “Filologia e Weltliteratur” (1952). 1969. na noção . relacionando-o tanto com o passado quanto com o futuro e considerando o próprio estado do mundo: O nosso planeta. isto é. 2009 2.

o que se aproxima da literatura animado da convicção de que o propósito cosmopolita é inerente à noção de literatura – um propósito constitutivo da literatura moderna. formando alguma espécie de cânone supranacional ou literatura internacional. O fundamento da hospitalidade não é a natureza humana nem alguma ideia genérica de humanidade. que é a mesma não porque seja desde sempre e essencialmente a mesma. e designadamente dele espera a responsabilidade de circunscrever ele próprio a sua incompreensão e a sua ignorância. mais restritos e nada essenciais – mas o espaço que se abstém de limitar e impor condições à entrada e estada do estrangeiro. onde o espírito vagueia livre. para onde alguns poucos afortunados são cooptados. em termos menos circulares. não um espaço homogéneo.Ideia de literatura brasileira com propósito cosmopolita 67 moderna de literatura. aquele que não pode deixar de ser reconhecido e não pode deixar de se reconhecer como estrangeiro. Decerto é quase de tra- . universal. Nos estudos literários. não um espaço essencial de onde derivem e se deduzam todos os espaços. o propósito cosmopolita define o princípio teórico e político que nos orienta a aproximação a qualquer texto com a ideia de que o que há de nobre e de emancipador na noção de literatura é o que nos anima a pressupor que cada texto foi escrito na previsão do estrangeiro que um dia o virá a ler e estará à altura de o ler precisamente na medida em que for capaz de circunscrever os limites da própria incompreensão sem perder de vista o privilégio de habitar a mesma casa. Não um espaço superior e restrito. não fosse o traço decisivo do carácter incondicional da hospitalidade. a concepção visionária daquela felix culpa como abertura dum espaço de hospitalidade incondicional. Essa concepção da literatura poderia receber outro nome – tradução –. antes porque a caracteriza a hospitalidade incondicional. sem fronteiras nem conflitos. mas uma ideia de literatura definida precisamente pelo propósito cosmopolita: digamos que o ensaio de propósito cosmopolita é o que se aproxima da literatura presumindo que o que a constitui é o propósito cosmopolita! Ou. pela Unesco ou pelo sucesso comercial.

ou quando fala a nossa língua. de cruzamento. de estada e exercício da hospitalidade sem condições. A definição de literatura podia. Como se o esperasse – e a melhor descrição de literatura é essa.68 Revista Brasileira de Literatura Comparada. A língua. E não há razão para que essa ideia não seja válida no quadro da mesma língua. O sonho emancipador aqui seria. há um exemplo de . A literatura é uma linha que passa entre esses dois polos. como se compreende. então. ser esta: faz de quem dela se aproxima um estrangeiro e pelo mesmo gesto oferece-lhe todas as condições para que se instale à vontade. eis justamente o que separa: porque é a língua que permite reconhecer o estrangeiro como estrangeiro e sobretudo quando fala a mesma língua. quanto o nacionalismo da língua cioso do núcleo essencial insusceptível de tradução. e nesse sentido. A ideia da literatura como hospitalidade incondicional recusa tanto o universalismo como morada última que apaga todas as línguas. 3. 2009 dução que se trata. O espírito é o espírito da hospitalidade. em que ela espera e depende do estrangeiro para se constituir –. mas passando entre os polos extremos que a definem: a tradução visa necessariamente à inteligibilidade sem restos – e por isso a hospitalidade é possível –. força que cria unidades além deles e tensões por causa deles: unidades apesar das tensões. o bem comum é o da literatura e da partilha da literatura. aliás. mas nunca opera o transporte unívoco de um conteúdo prévio – e por isso a hospitalidade é incondicional. desde sempre destinando-se ao mundo. ou do que com tanta facilidade se chama “a mesma língua”. Nas relações ou nos primórdios das relações entre a literatura portuguesa e a brasileira. tensões não obstante as unidades. que a literatura unisse o que a língua separa.15. somos sempre estrangeiros diante de qualquer obra de literatura. que a literatura se constituísse morada de encontro. n.

Escreve Herculano: V. de Gonçalves de Magalhães.). Duvido. p. 212-221). Herculano. embaraçando o velho decrépito. tanto quanto sei. ainda não teve.Ideia de literatura brasileira com propósito cosmopolita 69 Trata-se de “Futuro literário de Portugal e do Brasil”. mais do que da poesia de Gonçalves Dias: é um ensaio centrado na metáfora do jovem. Datada de 6 de dezembro de 1856. estranhará talvez que eu comece por uma declaração de incredulidade que prejudica a crítica especial do poema ou pelo menos a subordina a considerações superiores. Herculano publicara um ensaio a propósito dos Primeiros cantos de Gonçalves Dias. Um ensaio escrito por um português – e que o assume expressamente. e surgiria apenas em 1947. de que nesta nossa época o poema épico seja possível na Europa. em 1947. permaneceu inédita. o de Alexandre Herculano.ª edição dos Cantos. 1986. na 2. e a carta merece um estudo demorado que. e muito. que se ergue para criar o novo. invocando-a até como fundamento da incredulidade que fere a capacidade crítica: estrangeiro. p. trata das consequências para a literatura portuguesa do aparecimento da brasileira.7 Ora. e retomado nos Opúsculos (Herculano. Anos antes. porém.6 Este texto. p. 1986. . pela mão de Alcindo Sodré. 25 et seq. o Brasil. no Anuário do Museu Imperial. Duvido também de que um estrangeiro possa avaliar sob todos os aspectos uma composição de semelhante natureza (Herculano. Não é imediatamente perceptível o que faz o “estrangeiro” na análise de Herculano. atolado no passado. originalmente publicado na Revista Universal Lisbonense. 7 propósito cosmopolita pouco conhecido. que viria a ser incluído. p. tornando-se por isso relativa em vez de absoluta. Portugal. 199-204). 2005. I. Herculano escreveu uma longa carta a D. para dar a opinião sobre o poema que D. 1986. o primeiro traço que distingue a carta é que Herculano. 6 Permito-me remeter o leitor interessado para o comentário deste ensaio de Herculano que apresento em O livro agreste (Baptista. a servir de prólogo. Pedro II lhe pedira. 213). a pedido do próprio Herculano. Hoje pode ler-se no volume da edição crítica dos Opúsculos dedicado aos assuntos de literatura (v. define com outra palavra a sua condição relativa à nação brasileira. e mais ainda que o seja na América. Pedro II sobre A Confederação dos Tamoios. M.

1986. Desde logo. são. o que seria adequado à epopeia não é nacional. uma completa negação da generosidade e do heroísmo da epopeia (Herculano. porque as reputo insuperáveis. O Brasil é um império novo. não constituísse hoje duas nacionalidades distintas” (Herculano. considera-a Herculano insuperável: Duvido que o génio pudesse vencer estas repugnâncias. p. “se uma raça outrora única. que se sobrepõem às condições actuais em que o poeta eventualmente o tenta. 215). sei de certo é que ele não poderia vencer a desarmonia do espírito público. sob todos os aspectos. Por outro lado. o “estrangeiro” não está onde se esperava. a sua civilização o mesmo que a nossa? Não se confunde a classe média do Brasil com a classe média da Europa. poeticamente considerados. Em suma. n. mas os brasileiros são apenas europeus na América. e os que traíram os interesses da sua gente e a religião dos seus antepassados para se aliarem com os conquistadores. a nacionalidade brasileira não pode encontrar nos índios um substituto para os primitivos portugueses: aqueles [chefes índios] que se conservaram fiéis às tradições da pátria americana não têm identidade nem unidade nacional com os brasileiros de hoje. 215). Não é. apresenta certa especificidade que Herculano também não negligencia: diz ele que as eras heroicas e as gerações épicas do Brasil seriam as do primitivo Portugal. Claro que o argumento envolve um juízo sobre essas condições que não se confunde com a noção das exigências do género: “a nossa geração não é épica”. e o que se tornou nacional é indigno da epopeia. 2009 Limito-me aqui a observações rápidas que me conduzem ao meu ponto. porém. a um tempo . Esta dificuldade.70 Revista Brasileira de Literatura Comparada. 1986. razão fundamental por que “a poesia é hoje quase exclusivamente lírica e dramática”. entretanto. O que. E o Brasil. p.15. Herculano reputa impossível a epopeia – e sublinha que nenhum dos “sumos poetas contemporâneos” a tentou – em virtude das próprias exigências do género.

ainda que Herculano defendesse que a epopeia seria possível no Brasil. o próprio exercício do juízo havia de mantê-lo na mesma casa daqueles que escreveriam essa epopeia. 215) Sublinhe-se que o “aqui” é a Europa. Onde se constitui. Isto não é o mesmo que dizer que a originalidade do Brasil está de antemão subordinada pela consideração das exigências do género épico: é. as comparações. e que noutro são elevadas ou pelo menos toleráveis (Herculano. antes. p. Desde logo na diferença de estilos. nesse juízo. 218). acima de tudo. a consideração da originalidade do Brasil não faria de Herculano um estrangeiro. Escreve Herculano: Pelo que respeita às formas externas do poema. por causa disto ou daquilo. p. não apenas Portugal. antipoéticas. a verdade descritiva de um poema? Creio que não. recai aí a outra dúvida de que no princípio falei a V. que o juízo de Herculano sobre a epopeia não depende de ele ignorar ou recusar a originalidade brasileira. ou havia de trazer estes para a casa em que ele os avaliasse – ou seja. há locuções que num país se tornaram plebeias. que seria impossível aqui? (Herculano. Embora a língua seja idêntica entre dois povos. 1986. E sublinhe-se. Seguem-se exemplos de frases que a um ouvinte português pareceriam “baixas e triviais”. I. o mesmo que dizer que desta não decorre nenhuma barreira que relativize ou desqualifique o juízo como juízo de estrangeiro.Ideia de literatura brasileira com propósito cosmopolita 71 ardente nas suas paixões e céptica e fria nas suas opiniões e ideias? Como estabelecer aí uma harmonia entre o poeta épico e o público. O aspecto decisivo é que. a barreira que define o estrangeiro? Aí deparamos com a surpresa: a barreira é a própria língua. nesse . 1986. então. Pode sempre o estrangeiro avaliar bem a frase. M. podendo não o ser para um brasileiro: exemplos de como Herculano. mas justamente de a considerar e estar convicto de que a pode descrever com exactidão no que à epopeia diz respeito.

p. creio. porém.15. Justamente a unidade poética do género circunscreve a área de incompetência ao mesmo tempo que a subordina: nem defesa da unidade intemporal e transnacional da língua para efeitos de epopeia. coisas em que a crítica da Europa e a da América tem de concordar. 219). nem condução do reconhecimento da diferença à renúncia a um princípio de avaliação inerente ao próprio género e portanto independente das particularidades locais. que forma o propósito cosmopolita. que. já de antemão aberta à possibilidade da diferença local. incompetente”. Delimitar a barreira. . p. 218). 1986. quando é a mesma ou quando se presume a mesma. nem fazer alastrar a incompetência à negação do juízo inteiro. Herculano não postula sequer a unidade poética da língua – como não postula nenhum princípio de relativização poética em função da diferença linguística. E não precisa rever a noção de epopeia. das incorrecções gramaticais” (Herculano. todavia. n. das imperfeições de metro. as comparações: “Das comparações tiradas de entidades privativas da América ainda a crítica da Europa está menos habilitada para ajuizar” (Herculano. A incompetência. se torna nacional. apesar de transnacional. 1986. O que cabe no seu propósito é não deixar que o juízo se torne absoluto quando tem áreas de incompetência. A língua deixa o estrangeiro à porta: sendo a mesma. considera o seu juízo “portanto. a avaliação da epopeia defronta-se com a barreira da língua. Contudo. circunscrever a área de incompetência e ponderar o conjunto: a própria definição da crítica podia ser dada nesta tríade. É isto. Outro aspecto. 2009 particular.72 Revista Brasileira de Literatura Comparada. o paradigma do propósito cosmopolita na avaliação literária. é também o que separa e o que pode separar sem deixar marca. Herculano não precisa proceder a uma expedição etnográfica para responder à solicitação de Pedro II: chega-lhe o conhecimento da possibilidade de a mesma palavra não ser a mesma palavra. É acerca dos prosaísmos. Numa palavra. é decorrente da estipulação de uma unidade prioritária: “Há.

Repegando a antinomia de início. deve ter sido o primeiro a expor uma ideia de literatura brasileira do ponto de vista cosmopolita. quer dizer. subordinada a uma ideia de Brasil. por isso. não no sentido superficial de ter . é o reconhecimento da estabilidade e da transportabilidade das formas diante das modalidades de apropriação. É na incompetência reconhecida mas circunscrita do estrangeiro que a literatura finalmente se cumpre como literatura. subordinada a uma ideia de literatura. ao propósito cosmopolita. Mais radicalmente. Já a repetição de Denis pelo grupo da Niterói inaugurou a ideia de literatura brasileira do ponto de vista brasileiro. mas deixou eloquente exemplo de crítica literária em que o propósito cosmopolita nem sequer é incompatível com a instigação à “nacionalização” da poesia do Brasil. O reconhecimento da diferença local é inerente. não há literatura moderna sem incompetência declarada do estrangeiro: é nela que se decide a possibilidade de a literatura se erguer acima das condições particulares em que surge. de particularização. já enfaticamente presente no ensaio sobre Gonçalves Dias. O caso particular da Confederação dos Tamoios atesta-o bem. Gonçalves de Magalhães interiorizou Denis. E isto é válido ainda quando a literatura se define sobretudo como assunto nacional. no seu Resumé. de enraizamento.Ideia de literatura brasileira com propósito cosmopolita 73 O propósito cosmopolita é a voluntária subordinação a alguma noção de literatura pela comunidade dos que se reclamam dela: é a aceitação da impossibilidade de nacionalização plena das formas literárias. Alexandre Herculano não foi apenas certeiro nas apreciações contidas na carta. quer dizer. Ferdinand Denis. A própria dependência da noção de literatura nacional em que Herculano escreve as suas apreciações do poema de Gonçalves Magalhães comprova que o propósito cosmopolita se caracteriza pela dependência de uma noção de literatura capaz de tornar globalmente partilhável a própria ideia de enraizamento no local nacional. antigas ou modernas. e aliás nem haveria necessidade de propósito cosmopolita sem reconhecimento da diferença.

Apesar da adopção da França como matriz cultural. Num trabalho recente. desde aí. p. estruturam claramente uma posição anticosmopolita: o primeiro é o do “instinto oculto”. determina a literatura consciente ou inconscientemente e de modo distintivo. 2006. 2006. E pôde fazê-lo precisamente porque essa ideia era cosmopolita e se oferecia com a generosidade de quem trabalha para o bem comum. p. o segundo diz que “os temas. 2009 assimilado a lição do estrangeiro. b) a crença em que a representação da realidade local.). Franchetti mostra de forma convincente como a articulação desses postulados determinou decisivamente a historiografia e a crítica literária posterior (Franchetti. a força com que a natureza da terra guiaria a transformação completa da literatura em literatura plenamente brasileira. a influência da realidade local. que Franchetti identifica. . estruturou-se um dispositivo anticosmopolita de equívocos. para o ideal partilhável de uma literatura moderna formada pela livre agremiação das particularidades expressas em literaturas nacionais. os dois postulados básicos de Magalhães. em nome das ideias de liberdade e de universalidade. aquele em que “tomava consciência da sua especificidade e se constituía plenamente como nação”. Daí que a oposição antilusitana e anticlássica. 121 et seq. E de facto.15. de ter tornado dependente de uma pátria o que em si mesmo não tinha pátria – uma ideia de literatura. as formas e as técnicas da literatura europeia se não obstruem. que definem o romantismo de Magalhães. 115). ao menos dificultam a expressão do caráter nacional na produção letrada do país”.74 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Paulo Franchetti mostrou como o programa literário de Magalhães depende da ideia de que o Brasil estaria num segundo momento da sua história. a saber: a) a confusão que dissolve toda e qualquer diferenciação literária em “carácter nacional” e a redução de todos os factores de diferenciação a um único. sendo por virtude dessa influência uma inevitabilidade. isto é. mas no mais decisivo de ter tornado doméstico o que era cosmopolita. n. coincidissem num “gesto de afirmação nacional e política da nova nação” (Franchetti.

etc. A estipulação do local por oposição ao universal representa sempre o privilégio do local. que já Machado denunciou. tornam-se polos em tensão de um mesmo processo da literatura em direcção ao nacional. com a própria nacionalidade da literatura. projecto de afirmação política e de natureza prescritiva. do que está antes da literatura e que logo transforma o universal em mero repertório de temas e formas: é uma figura da oposição da realidade à literatura e da subordinação da literatura pelas representações naturalizadas da realidade. a do propósito cosmopolita com o pendor para o universal. em direcção a uma etapa final de nacionalização definida pela harmonia entre literatura e terra. a oposição do local ao universal sobrevive por meio da oposição do consciente ao inconsciente e do voluntário ao involuntário: aqueles escritores que se distanciam do projecto de nacionalização da lite- . quaisquer que sejam as formas com que historicamente se reedita. Nesse sentido. O sintoma desse dispositivo de equívocos é a persistente oposição entre o local e o universal. cuja fortuna brasileira decorre do obscurecimento da diferença entre a noção de literatura como projecção subordinada a um ideal cosmopolita de literatura e a noção de literatura como projecto subordinado a um ideal nacional de país construindo-se dotado de literatura “própria”. o processo pelo qual a nação se revela a si mesma pela sua literatura. na narrativa da “formação”.Ideia de literatura brasileira com propósito cosmopolita 75 c) a confusão do local com o nacional. Nesse preciso ponto. f) enfim. consoante os vocabulários –. literatura e sociedade. modernidade artística e modernidade social. Mas a oposição do local ao universal é sobretudo um instrumento do projecto de circunscrição nacional da literatura. d) a confusão do projecto de construção de uma literatura nacional. facilita outra confusão. Daí o efeito decisivo da sua persistência: local e universal. a crença num processo contínuo e irreversível – “instinto oculto”. “tradição afortunada” ou “formação”. mostrando que querer ostentar certa cor local e querer tornar nacional uma literatura não são projectos necessariamente coincidentes. cultura e nação.

Acresce que qualquer dessas ideias acaba por tornar manifesto que o propósito final de uma e outra é subordinar a inteligibilidade e avaliação da obra machadiana à possibilidade de certa comunidade que se designa como brasileira a declarar “inteiramente brasileira”. 2009 ratura brasileira ou lhe permanecem indiferentes acabam. n. ambas destinadas a bloquear a possibilidade de leitura cosmopolita da obra machadiana. ou como nacionalistas involuntários ou como cultores de nacionalismo literário “mais profundo”. não apenas porque a obra machadiana se estruturou e destinou no âmbito definido por esse ideal. de um modo ou de outro. onde não há lugar para o estrangeiro. a sua reformulação. porém.76 Revista Brasileira de Literatura Comparada.15. a ausência conspícua de empenhamento no local desafia a imaginação e acaba por torná-lo prisioneiro inevitável da ideia do “nacional mais profundo” ou do “nacional inconsciente”. dissolve-o num processo que não admite exterior. o incontornável ponto de crise do paradigma hegemónico de autorrepresentação da literatura brasileira. há sempre uma linha de fuga por meio da qual Machado se torna escritor sem pátria. . Mas como ler Machado sem levar em conta esse ideal. exigindo. quer dizer. onde não há efectiva alternativa para o nacional. Desde logo. esquecendo-o ou desprezando-o? Também não é possível. Daí que Machado de Assis seja o óbvio. mas ainda porque é a esse mesmo ideal que a grandeza de Machado remete o leitor cosmopolita. Eis como a oposição entre local e universal se revela instrumento de poder. projectando-se para um horizonte indeterminado no tempo e no espaço. de domínio de uma doxa interpretativa inimiga da diferença cosmopolita: confundindo o cosmopolita com o universal. Mas. o mesmo é dizer. por nele ser harmoniosamente integrados. 4. É impossível ignorar que o ideal de entendimento universal inerente ao sonho emancipador da literatura moderna ruiu há muito. tarde ou cedo.

a “formação” de Machado como escritor decorre essencialmente em ambiente doméstico e o estrangeiro não é mencionado senão para sublinhar o alheamento e recusa que o excluem do processo. em vez dos nomes de . e quando precisa. e esta é uma das razões da sua grandeza” e “o segredo da sua independência em relação aos contemporâneos europeus. 117-118). na orientação de Macedo para a descrição de costumes. que Machado “pressupõe a existência dos predecessores. isto é. o fragmentário”. depois disso. v. Antonio Candido não está apenas a situar Machado no quadro nacional. na vocação analítica de José de Alencar”. na Formação da literatura brasileira. que a “sua linha evolutiva mostra o escritor altamente consciente. Já quando fala de Machado nas Universidades da Flórida e do Wisconsin. no realismo sadio e colorido de Manuel Antônio de Almeida. que compreendeu o que havia de certo. p. logo a seguir. do seu alheamento das modas literárias de Portugal e França” (Candido. o cosmopolita. limitando-o ao processo da “formação da literatura brasileira”: está a recusar o ponto de vista cosmopolita. 26). “altamente consciente”. p. Já não se estranhará. 1981. notando que o escritor “cultivou livremente o elíptico. Depois de dizer que “o que primeiro chama a atenção do crítico na ficção de Machado de Assis é a despreocupação com as modas dominantes e o aparente arcaísmo da técnica”. escreve que Machado “se embebeu meticulosamente da obra dos predecessores”. 2. precisamente porque estipula que a inteligibilidade e a originalidade de Machado decorrem do modo como ele próprio. o incompleto. acaba explicando que se tratava de uma forma de manter na segunda metade do século XIX “o tom caprichoso” de Sterne e de criar algum eco do “conte philosophique à maneira de Voltaire” (Candido. Quando. dir-se-ia que o mesmo Antonio Candido se muda para o lado adverso.Ideia de literatura brasileira com propósito cosmopolita 77 Veja-se o exemplo de Antonio Candido. 1995. de definitivo. que as descrições comparativas da página seguinte. se inseriu nesse processo. Nessa descrição. quase 10 anos depois da Formação.

deveríamos interpretar a diferença do segundo ensaio à luz de um princípio de filantropia literária. Gide. o segundo.78 Revista Brasileira de Literatura Comparada. ou seja. é que o segundo Candido não tem lugar para o primeiro. seja Sterne ou Voltaire. e a do “Esquema”. Candido oferece duas descrições incompatíveis. que consiste em procurar tornar inteligível e apreciável um escritor a quem quer que se interesse por escritores e literatura. etc. A verdade. não depare com nenhuma barreira que torne absoluta a sua condição de estrangeiro. Decerto Antonio Candido. É aí que o propósito cosmopolita pode actuar. não teria duvidado de que o seu auditório na Flórida ou no Wisconsin havia de permanecer razoavelmente indiferente se ele insistisse em explicar-lhes que a grandeza de Machado decorre de ter estudado Macedo e superado Alencar: não porque os desconhecesse. mas a uma tradição comum. que o primeiro valoriza o local. que o dá consciente dos predecessores e a querer superá-lo.15. n. o universal. diante da sua obra. e este não admite o outro. Proust ou Faulkner. a da Formação. O segundo Candido é melhor ou pior do que o primeiro? Dir-se-á que se complementam. nem valorizar o universal em detrimento estratégico do local: generosamente. porém. mas porque o protagonista dessa explicação não seria nenhum deles. Como quer que seja. digamos assim. crítico inteligente e informado. seria a narrativa da “formação da literatura brasileira” – a narrativa que precisamente os constitui estrangeiros diante de Machado. Em vez disso. o que Candido faz não é diluir a originalidade de Machado de Assis tornando-o aceitável ou tolerável pelo estrangeiro ignorante das coisas brasileiras. Candido não apela a nomes familiares. em fazer que o estrangeiro. Para o mesmo fenómeno – a distância de Machado das “modas literárias” do seu tempo –. e por isso é aí que a incompatibilidade entre as duas perspectivas salta inexorável. 2009 Alencar ou Macedo. no “Esquema”. Dostoiévski. nem sequer Machado. convoquem Kafka. polos necessários de qualquer descrição rigorosa da obra machadiana. que o dá a recu- . a do romance europeu e da noção de literatura que representa.

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perar uma linha do romance europeu que essas “modas” interromperam: a primeira desenha uma linha contínua, a segunda refere uma linha quebrada; a primeira postula uma evolução irreversível, a segunda acredita no resgate do anacrónico; a primeira está claramente circunscrita ao espaço nacional, como se essa linha contínua e irreversível se desenrolasse num compartimento estanque, ao passo que a segunda requer um espaço difuso de trocas e influências, não determinado nacionalmente. E, em cima de tudo, a primeira requer o conhecimento do processo da “formação” como condição da inteligibilidade de Machado, a segunda não só o dispensa como torna Machado um romancista muito mais relevante porque capaz de actuar criticamente sobre a tradição e a actualidade da situação literária europeia. A diferença em nada depende da oposição entre local e universal: em nenhum dos casos Machado é descrito pelo penchant para o universal ou para o local, é antes a mesma característica – o alheamento das “modas literárias” europeias – que num caso se define dotada de conteúdo nacional e no outro desprovida dele. A diferença entre os dois Machados é gerada pela diferença entre duas atitudes diante da situação e da tradição literária europeia, e na verdade expressão eloquente da diferença entre dois Candidos: o Antonio Candido da Formação é o crítico comprometido com a nação, empenhado em entregar aos brasileiros um Machado que os represente, por numerosos e sofisticados que sejam os mediadores dessa representação, enquanto o Antonio Candido do “Esquema” é o crítico comprometido com a literatura, na busca de um Machado que o estrangeiro possa chamar seu sem que o brasileiro se sinta espoliado.

5.
Que o primeiro Candido não pode desenvolver-se sem erradicar o segundo, e que o segundo apenas emerge na condição de destruir pressupostos básicos do paradigma crí-

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Revista Brasileira de Literatura Comparada, n.15, 2009

tico do primeiro – eis o que curiosamente se comprova com a peça final do edifício machadiano de Roberto Schwarz, o ensaio “Leituras em competição”: os dois géneros que Schwarz delimita, a “leitura nacional” e a “leitura internacional”, encontram afinal no próprio Antonio Candido exemplar praticante, senão mesmo o primeiro. De facto, para Schwarz, a “crítica internacional” define-se por ler Machado sem considerar a relação com a nação brasileira, mais propriamente, “crítica internacional” é toda a que se não ocupa de esclarecer a relação entre o carácter inconfundível da ficção machadiana e o carácter inconfundível da nação brasileira. Em contrapartida, “crítica nacional” não é a que se faz no Brasil, ainda menos a que é feita por brasileiros, mas a que tem nessa relação com a nação o centro de gravidade dos seus esforços, e que aliás Schwarz descreve ainda segundo o modelo da linha contínua, em progresso irreversível na direcção de uma meta, que se presume tenha sido atingida pelo desenhador da linha, seu principal praticante e intérprete, o mesmo Schwarz. Nenhuma surpresa, aliás. Isso basta para perceber por que motivo a “leitura nacional” é sempre referida no singular, ao passo que se sugere que a internacional poderia receber a designação alternativa de “várias não-nacionais” (Schwarz, 2006, p. 64). O ensaio é, na verdade, uma reacção a certa resenha publicada em Nova York e que, sem agressividade mas com assinalável contundência, danifica o sentido global do trabalho de Schwarz. Trata-se de “Master among the ruins”, de Michael Wood, professor de Princeton, que a New York Review of Books publicou por ocasião da publicação de novas traduções de Machado para inglês. Schwarz refere-se expressamente ao artigo, classifica-o de “resenha abrangente e consagradora do romance machadiano”, sublinha que apresenta questões difíceis e incontornáveis que definem a cena do debate entre a “leitura nacional” e a “leitura internacional”, e refere, numa proposição intercalada, quase despercebida, que Michael Wood “leva em conta a crítica brasileira”. Ora, sendo certo que a

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V. Wood, 2002. As novas traduções, publicadas pela Oxford University Press, incluem Memórias póstumas de Brás Cubas (1997) e Quincas Borba (1998), ambos por Gregory Rabassa, Dom Casmurro (1997), por John Gledson, e Esaú e Jacó (2000), por Elizabeth Powe. Outro livro incluído no rol dos resenhados é Machado de Assis: reflections on a Brazilian master writer (1999), organizado por Richard Graham, e que inclui contribuições de, entre outros, John Gledson e João Adolfo Hansen. Mas o ensaio efectivamente avaliado pela resenha é o de Schwarz.
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resenha dedica boa parte do seu espaço ao conjunto dos romances machadianos da segunda fase, não deixa de ser também uma resenha crítica da tradução inglesa do livro de Schwarz, Um mestre na periferia do capitalismo: e é essa a forma, porque não se encontra outra, de “levar em conta a crítica brasileira”.8 Para dizer logo tudo, aquilo que Schwarz apresenta sob a égide da distinção entre “leitura nacional” e “leitura internacional” são elaborações em resposta a observações críticas que Michael Wood coloca ao trabalho crítico de Roberto Schwarz, mais precisamente uma restrição fundamental, como já veremos. Por que então graduá-las em interpelação crítica da “leitura nacional”? Claro, já o deixei dito atrás, Schwarz considera-se o terminus ad quem de uma linha de leitura que, lenta mas progressivamente, devolveu o verdadeiro Machado ao Brasil, resgatando-o de décadas de fortuna crítica irrelevante. Mas há mais em jogo: na exacta medida em que a restrição de Wood não é periférica, nem acessória, mas fundamental, Schwarz não pode reparar o dano causado senão radicalizando a noção de “leitura nacional” ao ponto de fazer dela uma barreira preservativa contra o estrangeiro. Aí se confirma, então, e em pleno, como a ideia cosmopolita, indo além da oposição entre universal e local, é a única à altura da exigência de liberdade e de inteligência que a obra de Machado coloca aos leitores. Para o compreender, retenhamos a passagem em que Schwarz se refere à resenha:
A certa altura do seu ensaio, Wood, que leva em conta a crítica brasileira, propõe uma dissociação sutil. As relações com a vida local podem existir, tais como apontadas, sem entretanto esclarecer a ‘maestria e modernidade’ do escritor. Ou, noutro passo: seria preciso interessar-se pela realidade brasileira para apreciar a qualidade da ficção machadiana? Ou ainda, a peculiaridade de uma relação de classe, mesmo que fascinante para o historiador, não será ‘um tópico demasiado monótono para dar conta de uma obra-prima?’ (Schwarz, 2006, p. 64).

Seria interessante. quando. even when the subject is not slavery” (Wood. mas são formuladas na dependência dessa consideração crítica. essas observações e perguntas encontram-se no texto de Wood. But his thesis is a little grim and unrelieved. Perde-se sobretudo a direcção do comentário de Wood. e é a sua colocação diante da obra de Machado e diante do ensaio de Schwarz. respondendo a Capristano de Abreu e Macedo Soares. no contexto da resenha de confronto do ensaio de Schwarz com a obra de Machado. O que se perde na paráfrase? Decerto a noção de que Wood pressente um crítico severo e carrancudo.82 Revista Brasileira de Literatura Comparada. mas ainda assim pouco relevante. ecoa nessa pergunta a questão de Brás Cubas perante o próprio livro: é a questão das rabugens de pessimismo e da possibilidade de a partir delas se distinguir a forma livre tal como praticada pelo autor defunto.ª edição. reitera Brás Cubas: “O que faz do meu Brás Cubas um autor particular é o que ele chama ‘rabugens de pessimismo’.15. por que sombrio. ou melhor. o conteúdo dela e a especificidade da pergunta implícita na observação crítica.” O passo é muito conhe- . n. 2002). não se trata esta de uma pergunta qualquer. se cómico? Ora. de resto inteiramente certeira. Além disso. Com efeito. E é depois disso que Michael Wood formula as interrogações que Schwarz cita e parafraseia. logo a seguir: “Schwarz himself is clearly alert to the fun. Em primeiro lugar. ecoa as palavras de Machado no prólogo da 4. que toca o cómico para o dissolver numa tese monótona. 2009 Não é uma paráfrase inteiramente falsa. and writes repeatedly of the work’s comical and farcical effects. se sombrio. que está longe de vir dos seus modelos.” A observação. já agora parafraseando Brás Cubas: por que cómico. um sentimento amargo e áspero. e que seria. por mais risonho que pareça. que lhe dá a importância decisiva que obrigou à reacção de Roberto Schwarz. que Schwarz oblitera: “What Schwarz´s book doesn’t tell us is why the novel [Memórias póstumas de Brás Cubas] is so funny as well as so bleak. completa-se com esta outra. mas também não é inteiramente fiel à resenha. Há na alma deste livro.

pois. a cadência. inusitada. ao menos para o crítico americano. de resto. crucial para entender a relação de Machado com a figura de Brás Cubas. A resenha.9 mas é. 9 cido e. a reiteração da questão do cómico só pode significar que.Ideia de literatura brasileira com propósito cosmopolita 83 Permito-me remeter o leitor interessado para a análise deste prólogo que levo a cabo em Autobibliografias (Baptista. Dir-se-ia que Brás Cubas e Machado. galgaram o século e foram impelir um espírito americano desocupado a reformular a pergunta de sempre: como que a usá-lo para nos trazer a todos de volta ao decisivo. Hoje. o lugar primordial. 331-337). pode dizer-se que não há leitor competente que não saia da leitura colocando essa pergunta. se sombrio. no tom de generosidade intelectual e até de concordância complacente que assume. para o que agora nos interessa. enfim. capazes de dar figura inteligente aos descompassos históricos da sociedade brasileira” – então. o romancista foi transformado de fenómeno solitário e inexplicável em continuador crítico e coroamento da tradição literária local”. se cómico? Em segundo lugar. se considerarmos que a meta intermédia desse processo em curso é descrita como etapa em que “a composição. e a textura do romance machadiano foram vistas como formalização artística de aspectos peculiares à ex-colônia”. por que sombrio. Se levarmos a sério a narrativa de Schwarz da “leitura nacional”. retivermos a conclusão de que “passo a passo. onde se decide a originalidade das Memórias póstumas de Brás Cubas: e justamente na ligação. digamos assim. se. em “idealizador de formas sob medida. cansados de tanta apropriação historicista e sociologizante. a escravidão. p. as elites. sobretudo. muito in- . aliás. 2003. redunda em dizer: “Sim. não se trata apenas de uma questão importante a que o livro de Schwarz não responde: é uma questão que o livro de Schwarz não consegue impedir que ressurja. e a colocação provavelmente decide a competência de qualquer leitor: por que cómico. todo esse processo é inteiramente irrelevante: não lhe resolve o problema da originalidade tal como o recebe da leitura do romance e tampouco o substitui por outro. entre a forma livre e a filosofia. sim. desde a recusa do “clássico nacional anódino” à deslocação do centro para “o processamento literário da realidade imediata”.

mas um crítico e comparatista às voltas com a latitude do presente”: é o mesmo que dizer que esse crítico é alguém de fora e que está por fora. num processo intelectual demorado – num país. e então o crítico severo e carrancudo sai do recolhimento e explica. Justamente a necessidade de a armar .15. lendo-o. dir-se-ia. o procedimento de Schwarz consiste em formar e radicalizar a narrativa que percebe posta em causa por uma resenha que apenas implicava um livro. Mas a defesa tem a ambiguidade própria dos gestos em pleno desastre. pois. n. a essa narrativa que Wood colocava restrições. também chamada “leitura nacional”. é o principal meio de defesa contra a crítica que a põe em causa: é o meio de mostrar ao elemento hostil a dimensão e a força daquilo em que está a tocar. Por quê? A razão é óbvia: para armar a defesa. entrevistas ou resenhas. trabalha dentro de um paradigma que se define a partir dessa narrativa: ser declarado desnecessário. 2009 teressante.. fazendo o reparo de que não responde à questão do cómico sombrio. essa narrativa da evolução da crítica a que Schwarz procede não tinha ainda alcançado essa forma sintética e expressiva de narrativa teleológica. homogéneo e irreversível que Schwarz agora definitivamente lhe imprimiu. Talvez sem se aperceber disso. Produzir a verdadeira e exacta história da crítica machadiana. a bem dizer despiciendo. como Schwarz. em passagens particulares. Não era. diga-me. o crítico estranho toca numa tradição.. até. mas afinal. aqui e ali. porque sombrio se cómico?” Ora.84 Revista Brasileira de Literatura Comparada. estrangeiro que permanece duplamente no exterior: tocando num livro. irrelevante. Dava-se dispersa. porque cómico se sombrio. assim se defende. nem brasilianista. Por outras palavras. contínuo. sobretudo sem a intenção delineadora de um processo. e brandamente repreendendo-o. Mas a consequência não podia deixar de ser precisamente essa para quem. além de deprimente e monótono. Não há nenhuma inocência na precisão com que Schwarz sublinha que Wood não é “especialista em Machado. que nem tem ideia de que tal coisa pudesse ser inventada.

há alguma eficácia argumentativa10 e até política: sempre se deu mais um passo para delimitar o “nosso” por oposição ao alheio. e americano de Princeton. com a dimensão emancipadora e a liberdade intelectual que lhe são inerentes. criando por si só um estado de crise em todo o edifício da “leitura nacional”: esse estrangeiro representa um poder que suplanta as narrativas teleológicas para consumo doméstico. Essa condição é inconcebível para Schwarz. Machado foi mais uma vez traduzido para inglês. p. se a “leitura nacional” se definir. sem prejuízo de aprenderem ou receberem alguma coisa um do outro. para o estrangeiro que se interessa por Machado mas não se interessa pelo Brasil. porque a própria condição em que a defesa é armada e usada decorre já num cenário exterior ao nacional e em que o nacional como valor próprio não tem sentido. no sentido diplomático do termo: cada um no seu território. pela restrição das possibilidades da “internacional”. A defesa aberta da superioridade da “leitura nacional” é o melhor testemunho da incompatibilidade das interpretações centradas no problema nacional com a noção moderna de literatura e. nessa distinção. ao cabo. e o “leitor nacional” tivesse um “toque de comparação extranacional” (Wood. porque incapaz de entender tudo o que está em causa. como Schwarz a define. 10 revela a vulnerabilidade da arma. a sua fortuna no mundo de língua inglesa pode aumentar – o que implica inevitavelmente a desgraça da “leitura nacional”. 2009). 2009. Não há lugar. Esse compromisso redunda em “coexistência pacífica”. porque “a cor do passaporte e o local de residência dos críticos não são determinantes”. Daí a relevância de o estrangeiro não ser qualquer. Mas precariamente. denuncia o carácter profundamente anticosmopolita e discriminatório da distinção: o estrangeiro que se integra no nacional é tão-só o que se sujeita às regras que definem o nacional. a força e capacidade de atrair os outros ao espaço doméstico e principalmente representa . O estrangeiro que se integrou na “leitura nacional” representa o êxito do paradigma nacional. recusa declarar que a posição de Roberto Schwarz é coerentemente incompatível com qualquer “leitura internacional” de Machado. mas americano. Essa perspectiva. ocupando-o e governando-o legitimamente. A precisão de que o “nacional” não tem de coincidir com o estrangeiro. Na medida em que se trata de impor uma barreira que deixa o estrangeiro à porta. Não apenas a contundência da restrição que formula é inexorável. propondo uma espécie de solução de compromisso em que o “leitor internacional” pudesse tornar-se o mais nacional possível e depois “proveitosamente voltar para casa e comparar”. 83). em particular.Ideia de literatura brasileira com propósito cosmopolita 85 Veja-se o modo complacente e um tanto defensivo como Michael Wood reagiu no artigo “Entre Paris e Itaguaí” (Wood. para barrar o acesso do estrangeiro ao “nosso”.

ou da ideia de certo governo: mas presume-o no texto mesmo de Machado. os procedimentos e as razões daqueles que se dedicam à leitura. o inassimilável. 1. 2009 uma promessa de viabilidade de domínio sobre todos os que se interessam e venham a interessar-se por Machado. 2005. A “leitura nacional” não é hospitaleira. Eric. no Rio ou em Nova York. O livro agreste. 13. Transl. winter 1969. Pressupõe o governo do texto como promessa de inteligibilidade e prazer que o texto dirige à inteligência e à paixão do estrangeiro. _____. Abel Barros. O estranho estrangeiro. as paixões. ao ensino e à divulgação da obra machadiana: não tanto aqueles que ameaçam a nacionalidade de Machado. Philology and Weltliteratur. . há um século ou hoje. são exemplos disso.15. v.86 Revista Brasileira de Literatura Comparada. a competência do leitor cosmopolita reside na capacidade de perceber a relevância e a urgência dessa pergunta e fazer apelo à hospitalidade incondicional. East Lensing. por que sombrio. não abdica desse governo. mas aqueles que exemplificam que essa ameaça é não só inerente à obra machadiana como é por ela procurada desde o início. The Centennial Review. não obstante. Campinas: Unicamp. se cómico? Sem ignorar o espaço da sua incompetência. como a questão da epopeia para Herculano. representa a total impossibilidade de governar os interesses. Autobibliografias. Campinas: Unicamp. se sombrio. apenas aceita aqueles que derem garantias sólidas de não perturbarem a segurança interna. a que ecoa o espaço primordial da originalidade das Memórias póstumas: por que cómico. do exterior ou do interior. n. alguma força requer dos leitores a formulação da mesma pergunta. by Mary and Edward Said. A questão do cómico sombrio. Referências AUERBACH. BAPTISTA. ou é hospitaleira com muitíssimas condições: afinal. Daí que o propósito cosmopolita seja aquele que. 2003. De um modo ou de outro. n.

46. br/obra/literatura/adulto/dicionario/framegranda_a. 1986. Roberto. Organização. v. _____. 1981. In: _____. _____. Novos Estudos Cebrap. 2009. 2. Disponível em: <http://www. Edição crítica. Alexandre Herculano. 83. n. Opúsculos. New York. 18/07/2002. Master among the ruins. ed. 75. FRANCHETTI. Paulo. n. Belo Horizonte: Itatiaia. São Paulo. Formação da literatura brasileira. The New York Review of Books. Revista de Letras.marioprataonline. Lisboa: Editorial Presença. jul. HERCULANO. Mário. Antonio. V.Ideia de literatura brasileira com propósito cosmopolita 87 CANDIDO. Novos Estudos Cebrap. Vários escritos. . São Paulo: Globo. 3. 6. SCHWARZ. ed. Entre Paris e Itaguaí. n. PRATA. 2006. São José do Rio Preto. Michael. 1993. 2006. 1995. Esquema de Machado de Assis. Gonçalves de Magalhães e o Romantismo no Brasil. mar. Schifaizfavoire – Dicionário de português. Leituras em competição. São Paulo: Duas Cidades. São Paulo.htm>. dez. introdução e notas de Jorge Custódio e José Manuel Garcia.com. WOOD.

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Dialogues Université Rennes 2. amerindian. França. analyzing the relation between identity and alterity which is built-in. in two contemporary brazilian novels: Orfãos do Eldorado (2008) written by Milton Hatoum and Nove Noites (2001) by Bernardo Carvalho. de como instância de alteridade. contemporary Brazilian lit- terature. in relation with a reference group which belongs to the occidental society model.89 O ameríndio como personagem do Outro na literatura brasileira contemporânea: órfãos do Eldorado e Nove noites Rita Olivieri-Godet* resumo: Este trabalho propõe-se a examinar a representação do ameríndio e a relação entre identidade e alteridade que lhe é consubstancial a partir da leitura de dois romances contemporâneos brasileiros: Orfãos do Eldorado (2008). The analysis of these novels will discuss some elements which form the basis of contemporary figurations of the Amerindian in the Brazilian literature. abstract: This work aims at the exploration of such representation. A análise desses textos romanescos visa a discutir os elementos que fundamentam a figuração atual do ameríndio na literatura brasileira. Je crois que l’imaginaire a autant de réalité que le matériel Georges Duby et Guy Landreau. These two stories choose the Amerindian as a subject of alterity. literatura brasileira contemporânea. questionando o lugar que ele ocupa no espaço nacional. keywords: alterity. scrutinizing the position that it occupies in the national space. em relação a um grupo de referência que se inscreve no modelo da sociedade ocidental. ameríndio. * . palavras-chave: alteridade.

as narrativas que se inserem nessa poética da alteridade procuram alargar o imaginário nacional para além de suas fronteiras. crítica literária e teoria da cultura. o fazem para questionar o lugar que nele ocupa o “estrangeiro de dentro”. abrindo-se a uma prática metadiscursiva que lhes permite fazer interagir criação. Critiques anthropologiques A produção literária contemporânea. plurilinguístico e multicultural de nossas sociedades urbanas atuais. Il s’articule sur ses propres déterminations et s’accompagne toujours de ce qu’on pourrait appeler ses attributs. Assim. ver a obra de Janet M. Francis Affergan.90 Revista Brasileira de Literatura Comparada. comuns a um conjunto de textos que participam da prática literária contemporânea e que tendem a exacerbar a confrontação com a alteridade. gerada num contexto multiétnico. E. 1 . explorando uma geografia imaginária da diferença cultural. 2004). 32). p. mas antes de refletir sobre signos formais. Meus trabalhos mais recentes refletem sobre uma “poética da alteridade” como uma das modalidades da ficção contemporânea brasileira. prêt à s’assujettir au regard et au traitement scientifique de l’observateur.15. inaugura novas linhas de força temáticas e formais. a representação do ameríndio A esse respeito. quando se restringem ao espaço nacional. Não se trata de procurar um invariante abstrato. como é o caso da representação do índio como instância de alteridade. Os mecanismos especiais que eles acionam para dizer nosso tempo induzem a uma espécie de arqueologia das culturas e da linguagem. temáticos e estéticos. 2007). 1991. Paterson (Paterson. uma regra ou uma lei.1 Na dialética do “selvagem” e do “civilizado” que atravessa o processo de construção das identidades plurais e problemáticas das Américas. Utilizo o termo “poética” no sentido que lhe atribui Linda Hutcheon: uma estrutura teórica aberta. 2009 L ’Autre n’est pas un objet vide et indéterminé. que nos ajuda a organizar nosso pensamento crítico (Hutcheon. ainda que esta vertente não se constitua numa exclusividade nacional (Godet. em mutação. n.

que a produção contemporânea não cessa de revisitar. que se articula sobre valores antitéticos entre espírito europeu e mundo selvagem americano. baseado no mito da renovação. Seus narradores investigam as construções identitárias do sujeito e da comunidade a partir do lugar fronteiriço que ocupam entre familiaridade e estranhamento.. . no qual imaginários “arcaicos” coexistem com imaginários planetários. 1994). “La poétique de l’altérité et la représentation de l’Amérindien dans la fiction des Amériques”. 3 ocupa um lugar central. atravessados por imaginários culturais diversos. 91 Sobre o assunto. ver a excelente introdução de Jean Morency à sua obra Le mythe américain dans les fictions d’Amérique (Morency.2 O questionamento da figuração do ameríndio como “estranho estrangeiro de dentro” ajuda-nos a compreender o lugar que as sociedades urbanas modernas reservam a esses povos.. cruzando experiência vivida e memória.3 Orfãos do Eldorado: a alteridade ameríndia entre mito e história A obra de Milton Hatoum interroga as formas de interagir com o outro que conduzem a processos de hibridismo. e Nove noites (2001). de Milton Hatoum. sem. no contexto atual de nossas sociedades. autorizam certos críticos a postular a existência de um cenário mítico americano. Esses elementos constitutivos dos textos fundadores das literaturas americanas. 2 Num artigo ainda inédito. de Bernardo Carvalho.O ameríndio como personagem do Outro na literatura. A representação das relações identidade/alteridade a partir da escolha do ameríndio como personagem do Outro tem a ver com a experiência do espaço e a temática da errância. seria redutor se ater às questões de fronteiras culturais que os romances de Hatoum levantam sem considerar a relação com a experiência íntima da alteridade que elas implicam. examino a questão numa perspectiva comparatista que inclui romances quebequenses e argentinos. Essas questões atravessam a produção literária recente no Brasil e nas Américas. escamotear seus aspectos traumáticos. Este trabalho pretende explorar essa representação e a relação entre identidade e alteridade que lhe é consubstancial a partir da leitura de dois romances contemporâneos brasileiros: Órfãos do Eldorado (2008). No entanto. no entanto.

os personagens pobres e explorados dos ameríndios se tornam mais visíveis. sondando principalmente o lugar fronteiriço dos narradores. escreve Hatoum. o autor aproxima o mito amazônico da Cidade Encantada do mito do Eldorado para interrogar o diálogo entre as culturas ameríndia e ocidental. que colocam em cena o diálogo entre o mundo amazônico e a imigração libanesa. marcado por referentes culturais libaneses.15. Com a publicação de Orfãos do Eldorado. n. híbrida. 2000). Desde o início de sua produção. construída a partir de múltiplas interações culturais entre as quais se destacam elementos da problemática coabitação entre a cultura tapuia e a modernidade transplantada. dando destaque para a figura do ameríndio como instância da alteridade. sustentado pelas elites. comentando cartas de Euclides da Cunha nas quais se refere a essa cidade (Hatoum. permitindo assim o alargamento a uma perspectiva subjetiva. e terminam por ocupar um lugar cada vez mais central no universo fictício do autor. Cidade compósita. o imaginário ameríndio sempre fez parte do universo romanesco do escritor. os restos da sociedade nativa entre ‘as roupagens civilizadoras’”. circulando entre os espaços da cidade e da floresta. tematizada no quarto romance do autor. A partir de Cinzas do norte (2005). sobretudo nos seus dois primeiros romances. examinando os efeitos de um projeto de modernidade. situado entre dois mundos: a memória do passado herdado da família. Relato de um certo Oriente (1989) e Dois irmãos (2000). Em Orfãos do Eldorado (2008). e o presente do país natal. “Em Manaus ainda hoje se encontram. sem cair na armadilha de um regionalismo redutor. de uma forma muito mais ostensiva. 2009 praticando a passagem da etnicidade ao estranhamento.92 Revista Brasileira de Literatura Comparada. A narrativa segue a trilha das . Essa estratégia confere uma dimensão universal à obra do autor amazonense e possibilita explorar as várias facetas de uma região emblemática. Milton Hatoum continua a explorar as relações interculturais. no seio da sociedade amazonense. Presença constante. mas discreta. recentemente publicado.

O ameríndio como personagem do Outro na literatura.. Arminto Cordovil. Da mesma forma que o romance se afasta de uma representação idealizada do processo de mestiçagem cultural. Orfãos do Eldorado questiona o lugar da cultura ameríndia no seio da sociedade brasileira a partir da experiência amazonense: fenômenos de imbricação mas também de depauperação culturais. na busca de si mesmo e do sentido da sua trajetória existencial. a narrativa constrói as complexas relações de Arminto com o espaço.. o relato de sua paixão por Dinaura e a reconstrução do passado de sua família têm como pano de fundo a história local (a guerra dos Cabanos) e mundial (as duas Grandes Guerras). ao escolher se dedicar às complexas interações culturais pelo viés do drama íntimo de um narrador. 2005) por um sujeito atravessado por imaginários diversos. durante o qual Arminto transita por um território cultural ambivalente. aculturação. trocas. urbano ou natural. Em Órfãos do Eldorado. o processo de construção identitária do narrador-personagem se realiza por meio do confronto com a alteridade paterna e da atração pela alteridade ameríndia. Revisitando o percurso da infância à idade adulta. sublinhando a complexidade das trocas entre culturas diferentes e evocando a história violenta de seus ganhos e perdas. história e mito. 93 anteriores. O lugar fronteiriço ocupado por Arminto permite explorar as relações de resistência ou de abertura ao Outro. Entre alteridade rejeitada e alteridade desejada. seja ele familiar. levando em consideração tanto os processos de aculturação resultantes de políticas colonialistas quanto os cruzamentos culturais que possibilitam o renascimento de tradições em outros contextos. que entrelaça memória pessoal e coletiva. uma busca inútil de um lugar habitável (Harel. cruzando história do indivíduo e da coletividade. Assim. a narrativa encena uma construção identitária sofrida. Figuração que interroga as relações interculturais. mas do mesmo modo estiolamento. ele recusa-se a idealizar a relação com a alteridade ameríndia. impregnação. . examinando o sentimento de pertença de um sujeito desestabilizado.

As relações entre pai e filho são frias. a do narrador-personagem Arminto Cordovil. questionando o processo de transmissão da tradição e da autodeterminação a partir de dois planos: o individual (que diz respeito à vida do narrador e da relação com seu pai) e o coletivo (que trata das marcas da presença da comunidade ameríndia e de sua relação com a sociedade amazonense). 2009 A narrativa de Hatoum inspira-se no mito ameríndio da Cidade Encantada para tecer os fios entre mito. história e memória. criando pontes entre a floresta e a cidade. Florita interpreta seus sonhos e desejos.15. rico proprietário de cargueiros que transportavam mercadorias no rio Amazonas. empregada que faz todo tipo de serviço. morta ao dá-lo à luz. Este conta sua história a um interlocutor cuja identidade só é revelada no final. Florita. Arminto Cordovil. a que diz respeito à própria narrativa. n. abrindo-lhe as portas à sensibilidade ameríndia. o discurso literário reinventa mito. Arminto tem a impressão de que seu pai o culpabiliza por essa morte. Ela introduz Arminto no universo ameríndio. entre os quais o Eldorado. Lugar de troca por excelência. ele foi criado por uma outra índia. A intriga romanesca está centrada na crônica da vida do narrador-personagem. O menino cresce rejeitando todo tipo de identificação com o universo do pai. . Desempenha um papel de mediadora. desta feita. convite à viagem. Florita é uma tradutora. de origem e destino misteriosos: índia ou mestiça. no sentido amplo do termo.94 Revista Brasileira de Literatura Comparada. história e memória. aproxima-o das crianças indígenas da aldeia situada nas cercanias da cidade. Mas é por Dinaura que ele se apaixona loucamente. que não conheceu sua mãe. trata-se de uma questão de herança. à qual ele é muito ligado e que o iniciará à cultura ameríndia e à vida sexual. uma das moças pobres acolhidas pelo orfanato da cidade. Memória de uma vida. traduz para ele os mitos e as lendas contadas pelos índios. Amamentado por uma índia tapuia. num posfácio no qual a voz autoral dá a conhecer sua fonte: o que lemos é uma história que lhe foi contada pelo seu avô. Mais uma vez.

chefes de todos os encantados que viviam na cidade submersa (Hatoum. que teve as plantações de cacau destruídas pelas pragas (Hatoum. a utopia de um lugar ideal persiste no imaginário amazônico: A Cidade Encantada era uma lenda antiga. 67). 2008. mas também da ameríndia e de muitas outras. .. região que alterna períodos de fausto e de declínio.4 Mitos e culturas viajam e se entrecruzam. Ver também p. p. 106). a cidade prodigiosa que atiçava os sonhos febris dos navegantes e conquistadores europeus ao mesmo tempo que se furtava a todo esforço de localização”. a mansão branca de Vila Bela. p.. 4 “Mitos que fazem parte da cultura indo-européia. assim como culturas. 5 ela pode ser sua madrasta ou sua irmã. Pertencem à História e à memória coletiva” (HATOUM. 64). Dinaura. Ele conhecia os segredos do fundo do rio e podia conversar com Uiara. Sugeriu que eu fosse atrás de dom Antelmo. que depois do seu desaparecimento se transformou em lenda para os habitantes da cidade. pai de Arminto. 2008. 95 Apresentação do romance pela editora (orelha do livro). a mesma que eu tinha escutado na infância.O ameríndio como personagem do Outro na literatura. Arminto sonha com a mulher da mesma forma que a população pobre da cidade sonha com a Cidade Encantada. desaparece pouco tempo depois da morte de Amando. 2008. Ulisses Tupi queria que eu conversasse com um pajé: o espírito dele podia ir até o fundo das águas para quebrar o encanto e trazer Dinaura para o nosso mundo. 64). obcecado pelo desejo por essa “mulher encantada”. Mas o mito indígena da Cidade Encantada é atemporal e persiste. viajam e estão entrelaçados. era sinônimo de Eldorado. a fazenda Boa Vida. o leitor não o saberá jamais. Porque mitos. leitora de romances e igualmente sensível ao mito indígena da Cidade Encantada. 99. o grande curandeiro xamã de Maués. ou Manoa. p. não cessa de ter visões e sonhar com ela. 2008.5 Contrastando com a miséria que assola a cidade real. “uma cidade que brilhava de tanto ouro e luz” (Hatoum. p. Este último. Surgia na mente de quase todo mundo. A crônica da decrepitude moral de Arminto e da decadência de uma família é também a da Amazônia. confundindo-se com o mito do Eldorado: “Houve tempo em que Manaus. O Eldorado naufraga. Arminto gasta a fortuna herdada do pai e vende todas as suas propriedades: a casa de Manaus. como se a felicidade e a justiça estivessem escondidas num lugar encantado.

citado na epígrafe. José de Alencar. que se alimenta tanto de fontes populares quanto da tradição literária. 2009 Uiara. este poema desencantado está em consonância com a atmosfera desoladora que o romance instaura. relatos e versões de mitos errantes que se misturam e que constituem o imbricado tecido narrativo do romance. Não esperes ir a outro lugar. nenhum “ailleurs”. nem outros mares”. Escrito em palimpsesto. em oposição ao anterior. do ponto de vista do texto poético que paira sobre o romance. sereia. Um exemplo marcante da escrita em palimpsesto do romance é o reaproveitamento do poema de Konstantinos Kaváfis “A cidade” (1910). do poema homérico aos de Konstantinos Kaváfis (além de “A cidade”. passando pela figura descentrada de um certo cavaleiro que percorre as estradas da Mancha em busca de sua Dulcineia. que lhe serve de epígrafe. versões . Por meio da combinação de elementos heteróclitos na sua composição. num intenso trabalho intertextual que traz à tona a memória literária. 2008. mãe-d’água.96 Revista Brasileira de Literatura Comparada. criando analogias com o próprio percurso do narrador-personagem. ele dialoga igualmente com a tradição literária que recria esses mitos (Mário de Andrade. é um convite à viagem. Não há portanto. Poema que recusa todo tipo de promessa de um outro lugar possível. Retomado pelo texto como “o poema grego” que Estiliano está traduzindo. nenhuma possibilidade de viagem./ Não há barco nem caminho para ti” (Kaváfis apud Hatoum. existe um diálogo implícito com “Itaca” que. Homero). alimentando-se assim de fontes populares que fazem parte da memória coletiva. p. sonho e pesadelo. que é a negação mesmo de uma certa ideia da literatura como espaço liberador e de refúgio: “Não encontrarás novas terras.15. 7). Figurações da errância física e mental que o romance acolhe. à deambulação). Se o romance glosa. nenhuma esperança: “Sempre chegarás a esta cidade. a narrativa romanesca gera uma tensão entre a voz individual e a voz coletiva: discurso da utopia e contradiscurso. o romance projeta a errância de mitos e de textos. n.

No entanto. por outro lado. da miragem à matéria do real. até piranha frita” (Hatoum. fazendo-os coexistir no espaço do texto. Sua narrativa fala de um desejo que não pode ser satisfeito. caboclos. articulação de diferentes práticas discursivas. Na trilha de Mário de Andrade.6 Hatoum fagocita e transforma elementos diversos. 2008. 39). 86). pelas doenças. peças de cerâmica. O tempo presente é o do sonho que se transforma rapidamente em pesadelo. narrativa de uma impossível construção de plenitude identitária.. sente dificuldade em encontrar seu lugar num mundo que está desaparecendo. No chão. marcado pelo desregramento econômico e moral. espaço de representações memoriais. . de diferentes visões de mundo. máscaras de rituais e cacos de urnas funerárias de tribos indígenas que já não existiam (Hatoum. p. 2008. 97 “O escritor puxava conversa com todo mundo: índios. seguindo o modelo do capitalismo ocidental. Ele recusa a identificação à sua família. artesãos e compositores de toadas. em processo de plena degenerescência. p..O ameríndio como personagem do Outro na literatura. O naufrágio do navio Eldorado constitui-se num dos símbolos eloquentes do fracasso dessa política. no qual a realidade não cessa de desmentir as promessas de felicidade. traduções “traidoras”. 6 de mitos. E não se cansava de anotar o nome de plantas e bichos. pela violência. Comia tudo. autor que o romance homenageia fazendo alusão à célebre viagem do modernista à Amazônia. Arminto é um dos numerosos órfãos do Eldorado aos quais o título do romance faz alusão. Quando passamos do mito à história. Arminto encontra-se impossibilitado de restabelecer os laços com o passado que povoou o imaginário de sua infância. a visão de um território faustuoso e cheio de promessas de felicidade transforma-se em ruínas. narrativa de busca e de perda. no qual a história destrói o mito. tempo que deixa transparecer os sinais de enfraquecimento da cultura ameríndia: A sala parecia um museu pobre e improvisado. que representa o projeto de modernização do país baseado numa política de colonização (massacre e aculturação dos índios). o narrador conduz o fio do discurso e é por meio do seu olhar desencantado que o leitor descobre o universo amazônico.

vítimas da miséria e da doença. 2009 Desse modo. um processo de aculturação que começa pela proibição de falar sua própria língua. A decadência do povo ameríndio está principalmente representada pelas personagens femininas. próximo da morte de Florita. 42). num regime de semiescravidão. A cena inaugural do romance é representativa das relações que estabelece entre o mito. n.98 Revista Brasileira de Literatura Comparada. que a liberará de sua vida de miséria material e afetiva.15. acolhidas pelas famílias da cidade para servir de empregada doméstica. em alusão ao barqueiro infernal. a caracterização dos personagens e a representação do espaço constroem uma visão violenta. no entanto. A violência é um dado consubstancial a essa realidade. é também o da confissão de sua imensa solidão. mas que sofrem. Assim como na obra de Márcio Souza. são encenadas pela narrativa. órfãs na sua maioria. atraída por um ser encantado. traduzindo-as por um relato perfeitamente integrado ao universo cultural e mítico ameríndio: a mulher. ela termina sempre por mostrar sua face. em Orfãos do Eldorado. p. a mulher se suicida por ter perdido seu marido e seus filhos vítimas da miséria e da doença. outro grande escritor amazonense. que vem . como as que sofrem as moças. 2008. Florita. O momento dessa revelação. tirânica e mórbida da sociedade e do território amazônico. Nela assiste-se ao suicídio por afogamento de uma jovem índia. para poupar o menino Arminto. moças sequestradas. Na verdade. Há ainda as ameríndias do orfanato que as freiras protegem do tráfico sexual. suas possíveis interpretações e a realidade. Mesmo dissimulada. deturpa suas últimas palavras. Outras formas de opressão. o romance denuncia a exploração sexual das mulheres e meninas ameríndias. teria escolhido ir viver junto com ele no fundo do rio. violentadas. vendidas ou trocadas por mercadorias para servir aos comerciantes de Manaus ou aos homens políticos (Hatoum. A representação do espaço constrói um cenário mórbido por onde circulam personagens como Denísio cão. como Florita. o barqueiro. no final do romance. mascaradas sob a aparência de proteção.

como no célebre romance A selva (1930). foi o barco Paraíso. Mil e uma histórias que sobrevivem e se metamorfoseiam nos relatos literários. onde Ferreira de Castro. episódio que fecha o romance do escritor português. 99 Título de um subcapítulo de um artigo de Milton Hatoum dedicado aos romances A selva. no Amazonas. Ilha do Eldorado) e a realidade. para utilizar as palavras de Euclides da Cunha ao comentar a obra Inferno verde. Boa Vida. ocupam o lugar dos ameríndios.. Atracou aí embaixo. As novas vítimas da “modernidade na floresta” (Hardman. era o que se dizia. 2000. 2008. o prefeito mandou derrubar a floresta para construir barracos. os imigrantes e migrantes nordestinos. “Inferno e barbárie”7 são a outra face da floresta: O paraíso estava aqui. de Márcio Souza (Hatoum. 7 reforçar a onipresença da morte nesse território. Trouxe dos seringais do Madeira mais de cem homens. A imagem fala por ela mesma. A podridão está dissimulada sob sua beleza luxuriante. que nos remete ao incêndio do seringal Paraíso. e eu não esqueci nunca. Aqui. na beira do barranco. a narrativa romanesca expõe a oposição gritante entre os sentidos sugeridos pelos topônimos (Vila Bela. 1993). a beleza grandiosa e luxuriante da floresta esconde o regime de escravidão ao qual os seringueiros são submetidos. experiência que se encontra recriada no romance A selva.. A leitura desse texto ajuda a esclarecer a percepção e a representação do espaço em Órfãos do Eldorado. p. Paraíso era também o nome do seringal situado às margens do rio Madeira. mais uma vez. do território que eles ocupavam nas proximidades da cidade. Misturando referentes reais e ficcionais. de Ferreira de Castro. Imagens de um paraíso perdido. e Mad Maria. do escritor português Ferreira de Castro (1898-1974). trabalhou como seringueiro durante quatro anos. de “uma sociedade que está morrendo”. do seu amigo Alberto Rangel (Cunha.O ameríndio como personagem do Outro na literatura. p. . 343-351). expulsos. 1988). O que existiu. “Cegos do Paraíso”. Lá onde ficava a Aldeia. E um novo bairro surgiu: Cegos do Paraíso (Hatoum. 95). A memória do texto de Ferreira de Castro se faz presente igualmente pela alusão a um incêndio num seringal. quase todos cegos pela defumação do látex. que emigrou para o Brasil quando tinha doze anos.

. n. desde o início. Voz mesmo só a de Armando: voz para ser obedecida (Hatoum. 2008. Senti um abafamento. referente geográfico real. 102). onde. p. Fui até lá. p. Lugar lindo. a alternância entre as descrições líricas e os sinais que maculam essa beleza da paisagem reforça a perspectiva antagonista da representação do espaço adotada pelo romance. Lá .. representada pela voz autoritária do pai: Eu me sentia mal na Boa Vida. remetendo a uma relação disfórica que ele entretém com um espaço onde impera uma ordem social injusta. aqui e ali. Durante a viagem de Arminto em busca do seu Eldorado. 2008. Dinaura teria se refugiado. não há possibilidade de fusão harmoniosa com a natureza. um dos lugares célébres do ecoturismo da Amazônia. Trata-se de construir a visão de uma natureza que abriga um mundo doente. Os filhos dos empregados se aproximavam da varanda e paravam para observar a casa. pois.15. 2009 A última viagem de Arminto (navegador de “viagens supérfluas” entre Manaus e Vila Bela) pelo rio Amazonas ganha um outro sentido. paisagem de beleza ímpar (Hatoum. me agachei e vi um ninho de baratas-cascudas. [.100 Revista Brasileira de Literatura Comparada.] Não era o lugar que me perturbava: era a lembrança do lugar. o texto não para de semear. sinais do mal-estar que Arminto manifesta. face que se revela desde o momento em que fazemos a experiência de penetrar nesse espaço: Um volume escuro tremia num canto. doente. nauseabundo. 67-68). repulsivo. Personagem decadente da história e do mito. A narrativa evoca a beleza grandiosa da paisagem. situado a 100 quilômetros de Manaus. com guarásvermelhos e jaçanãs no céu e nas árvores. A ilha do Eldorado seria uma das ilhas do Arquipélago das Anavilhanas. o cheiro e o asco dos insetos me deram um suadouro. Crianças caladas. recorrendo a uma descrição lírica da maravilhosa visão do lago do Eldorado. filhos de homens calados. No entanto. Arminto parte na terceira classe de um navio velho e sujo em busca da ilha do Eldorado.

a imensidão do lago e da floresta. coloca o leitor perante a problemática condição humana. A obra de Hatoum não produz sombras consoladoras. Aquele lugar tão bonito. condenados a fazer viagens imaginárias que não tranquilizam mais ninguém. p. p. 12). doença. Podridão. E silêncio. era habitado pela solidão (Hatoum. mesmo que seja para dizer a impossibilidade da viagem. assinalando o impasse do parâmetro do progresso como fundamento da civilização.O ameríndio como personagem do Outro na literatura. 101 fora. 322). A herança comum que o ameríndio compartilha com o homem ocidental é a de serem órfãos da civilização. prisioneiros de um mundo de cinzas. Essas cinzas do Norte dizem muito do estado de deriva dos mitos e dos relatos que resultam do esforço contínuo do sujeito na sua busca de imprimir um sentido à trajetória humana. em consonância com o que escreve o sociólogo português Boaventura de Souza Santos. sublinha Simon Harel (2007. pelas escolhas políticas autoritárias. Essas imagens revelam um ponto de vista pessimista sobre o processo histórico marcado pelas injustiças. 2008. ao afirmar que “O futuro prometido pela modernidade não tem futuro” (Santos. anuncia o poema de Kaváfis. ao contrário. o Eldorado. erigindo a literatura como um dos lugares possíveis de resistência. morte. solidão. múltiplos signos disfóricos para evocar esse encontro fracassado entre o mito e a história. O lugar inaugurado pela criação literária está longe de corresponder ao de um refúgio protetor. O que se esconde sob as aparências da visão do paraíso? A distância entre o sonho e a realidade que essas imagens de um mundo em degeneração nos devolvem como um espelho invertido. Hatoum pertence à linhagem de escritores que produzem livros do desassossego: “é preciso aceitar que a literatura complica o mundo”. 102). p. “Não há barco nem caminho para ti”. ... 2000.

a representação do ameríndio é submetida a diferentes pontos de vista assumidos por múltiplos sujeitos do discurso. O interesse do personagem-escritor. enquanto em Orfãos do Eldorado a ambiguidade da narrativa decorre das interrelações entre mito e história e da complexa viagem ao passado por meio da memória do narrador.8 que se constrói em torno do desaparecimento de um fotógrafo nos Montes Altai. experiência vivida e ficção. a experiência da alteridade ameríndia gera uma espécie de fascinação pelo Outro no único sujeito da enunciação. ao ler no jornal um artigo do antropólogo que se suicidou em plena floresta. em 1939. aos 27 anos. 2009 alteridade invisível: o índio em Nove noites. quando da sua estadia no Xingu com os índios krahô. só existem visões do real. ex-aluno de Franz Boas. Desde então. a narrativa de Nove noites ultrapassa as fronteiras de gênero e situa-se a meio caminho entre autobiografia ficcional e documentário jornalístico romanceado.102 Revista Brasileira de Literatura Comparada. da Universidade de Columbia. 8 . Assim como em Mongólia (2002). Nos dois romances. em Nove noites é a multiplicidade de vozes narrativas e a focalização que tornam a percepção do real problemática. a se suicidar no Brasil. por Buell Quain data de 2001. Misturando fatos históricos. Nove noites tece sua trama em torno de um enigma: as razões que conduziram o antropólogo norte-americano Buell Quain. quando ele fica sabendo. Para essas narrativas. ver Godet. trata-se de abolir uma representação realista do mundo. o personagemnarrador Arminto Cordovil. Em Nove noites. narrador do romance. procura compreender o gesto brutal do an- Sobre Mongólia. por acaso. a intriga de Nove noites cruza várias versões e inscreve no seio da narrativa o personagem do escritor que procura de forma obsessiva preencher a precariedade do sentido.15. de sua existência. instaurando o processo de mise en abyme do ato da escrita. Mas. de Bernardo Carvalho. encontrar a solução do enigma. de Bernardo carvalho No romance de Milton Hatoum. 2007. n.

. Menino de seis anos. que esfaqueou e mutilou seu corpo antes de se enforcar. destacando as armadilhas de uma atividade interpretativa da subjetividade do outro. É a natureza inacessível do ser humano que é colocada em . As diferentes versões e visões acentuam o caráter polifônico do romance. Mais de trinta anos depois. cujo mistério permanece velado. Quain tinha relações complicadas com seu pai e ao mesmo tempo. justapõe a história do antropólogo à de seu próprio pai” (Moura). igualmente. a quem ele teria feito confissões desesperadas durante nove noites passadas na cidade de Carolina. A alternância de vozes narrativas é assinalada por caracteres tipográficos. a refazer a viagem nessa região e permanecerá na mesma tribo de Buell Quain. Os índios querem um pai. os elementos da investigação sobre Quain se imbricam com lembranças antigas do contato com os índios em companhia de seu pai.O ameríndio como personagem do Outro na literatura. engenheiro responsável pelo Serviço de Proteção dos Índios. por meio de cartas que ele deixa após sua morte. o narrador frequentou com seu pai a região do Xingu. 103 tropólogo. O romance alterna a narrativa da investigação conduzida pelo narrador com o testemunho fictício deixado por Manoel Perna. A razão da busca obstinada que leva o narrador a se interrogar sobre a morte do antropólogo só será revelada no final do romance: ela está relacionada com a infância. assim como testemunhos de diversas pessoas que conviveram com ele. ele será levado. onde este último tinha comprado uma fazenda. a mais próxima da aldeia indígena. amigo de Buell Quain. pois de uma certa maneira são órfãos da civilização.. sem no entanto esclarecer o mistério. Às vozes desses dois narradores acrescenta-se a voz de Quain. Pouco a pouco. ele representa o papel de pai com os índios. O narrador. com a imagem do seu pai. Numa entrevista. Todos esses elementos trazem indícios da angústia e do desespero do antropólogo. por causa de sua investigação. Bernardo Carvalho afirma que seu romance é uma interrogação sobre a paternidade: “Todo mundo está à procura de um pai. com sua relação como cidadão brasileiro branco e urbano com o índio.

como o grupo de Franz Boas. de um povo decadente. antes de tudo. do departamento de antropologia de Columbia ao qual pertencia Buell Quain. um romance sobre as relações de alteridade a partir de uma reflexão sobre o procedimento antropológico. o final dos anos 60. enfim. Nove noites é. a recusa de ir em direção ao outro. que em princípio se dedica a compreender e a fazer compreender o Outro. 2009 evidência. antes de tudo. a imagem. Mais uma vez. seus ritos. O trabalho de escrita que visa a constituir o outro só pode se fazer pelo imaginário “par ce va-et-vient entre soi et l’Autre [..15. n. seus laços de parentesco. que coloca em cena as lembranças da infância do narrador com seu pai. A narrativa nos fala dos laços indissolúveis entre a interrogação sobre a estranheza do outro e o rastro subjetivo do sujeito investigador: qualquer que seja o objeto da investigação. Apesar dos diferentes períodos históricos aos quais o texto faz alusão. o índio é. la compréhension. e o início do novo milênio.] qui conditionne le sens. seguindo a pista de Quain. Nove noites chama a atenção sobre . em direção de suas singularidades radicais. a imersão no mundo do outro é sempre uma incursão íntima. em processo de desaparecimento. 171). sua comida. quando encontramos o narrador adulto em visita aos índios Krahô. p. a representação do índio permanece a mesma. et l’interprétation” (Affergan. O que predomina é uma percepção negativa das marcas mais significativas da alteridade dos índios. A figura do ameríndio em Nove noites está inscrita na temporalidade do século XX. Em Nove noites.104 Revista Brasileira de Literatura Comparada. 1991. O texto tomanesco lembra os inúmeros antropólogos estrangeiros que se dedicaram ao estudo dos povos indígenas do Brasil. um objeto de estudo. Três momentos precisos são evocados: o final dos anos 30. período no qual evolui o personagem Buell Quain no meio dos índios brasileiros. Bernardo Carvalho elabora uma narrativa labiríntica que desconfia do poder da linguagem para elucidar o enigma do real. explorando as terras da Amazônia. os europeus célebres como Lévi-Strauss e o suíço Alfred Métraux..

como o norte-americano William Lipkind. objetos de culto da curiosidade científica deles. a instrumentalização intelectual. Não se trata de desprezar as contribuições de grandes pesquisadores à compreensão desses sistemas culturais. que habitavam um dos territórios mais inacessíveis da Amazônia.O ameríndio como personagem do Outro na literatura. como assinala Francis Affergan. denunciando. obcecado pela morte. 1991).. 105 essa espécie de instrumentalização do outro. como teria transmitido relatórios políticos ao governo americano. O Brasil dos anos 1930 e 1940 tornou-se um país-fetiche dos antropólogos e sociólogos: o índio e o negro. sem que se conheça a razão dessa expulsão. não é um objeto vazio e indeterminado. O romance revela o comportamento de certos antropólogos. Ele encontrou aí um povo marcado pelo processo de autodestruição. Foi expulso da tribo pelo Serviço de Proteção aos Índios. o personagem antropólogo do romance. interessou-se primeiramente pelos trumai. a interpretação. Mas não se trata tampouco de deixar passar em silêncio um certo olhar dirigido a esse território e a seus habitantes que não são brancos.. disposto a se submeter ao olhar e ao tratamento científico do observador. O outro. Buell Quain. O romance alude a . Ele se articula sobre suas próprias determinações e traz consigo o que poderíamos chamar de seus atributos (Affergan. política e financeira. Antes de viver com os krahô. alertando também para o fato de que os textos construídos pelas ciências humanas estão longe de serem neutros. dessa maneira. contribuindo para que elas gozassem de um reconhecimento pleno. que não somente teria vendido objetos que ele subtraía às tribos indígenas. liberando-os das ideias pré-concebidas da época. A questão levantada pelo texto de Nove noites tem sentido: até que ponto esses sujeitos realmente existiram como tais para todos esses cientistas? Até onde o diálogo pôde se realizar? A obra contempla uma preocupação que se faz presente na reflexão antropológica da atualidade. reduzidos à categoria de objeto de estudo. Mikhail Bakhtin lembra-nos que o objeto das ciências humanas é um sujeito e o método delas.

Quain não compreende os índios. evocam um espetáculo deprimente. o Xingu também é a imagem do inferno: “O Xingu ficou guardado na minha memória como a imagem do inferno” (Carvalho. O território brasileiro nada mais é para ele do que o inferno. ele teria encontrado um povo cuja cultura refletia seu próprio desespero. 2001. o célebre sertanista Cândido Rondon). 163).” (Carvalho. ao lembrar as orientações do Serviço de Proteção aos Índios.15. os índios representando seu próprio papel para um público de brancos. para ele. instável. 72). n. Para Quain.106 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Têm cortes de cabelo engraçados. uma barreira intransponível. denunciando a utilização que se faz do Outro para fins que não lhe dizem diretamente respeito (Carvalho. Além do mais. o outro é sempre. O fato é que o antropólogo parecia muito afetado pela sua estadia na tribo dos trumai. Uma das pistas sutilmente levantadas pelo texto romanesco faz alusão a problemas de ordem sexual. rejeita seus costumes. 30). 2001. É a imagem de um homem aterrorizado. desesperado que o testemunho de Manoel Perna. quando fez a primeira viagem a essa região. p. pelo bisavô de Bernardo Carvalho. A construção desse personagem antropólogo questiona seu olhar etnocêntrico e sua atitude egocêntrica. 2009 uma provável homossexualidade de Quain. o paraíso estaria em outro lugar. sua nudez. furam as orelhas e continuam sem usar roupas nas cidades. sua íntima decadência. O antropólogo americano confessa sua dificuldade em trabalhar sobre os índios brasileiros e rejeita parcialmente as marcas (consideradas desagradáveis) que as culturas indígenas imprimiram à cultura brasileira. p. o sertanista amigo de Buell Quain. aliás. Para o narrador. a maneira como eles cortam o cabelo. existe o medo que a criança sente desse povo exótico e desse espaço selvagem: a casa solitária no meio . 2001. vai elaborar: com os trumai. Suas lembranças da infância. foi criado em 1910. A convivência com os krahô também não o libera da solidão. p. enfim. que proibia as relações sexuais com os índios (serviço que. ele os considera idiotas: “Encontrei um grupo de índios krahô e eles parecem pavorosamente obtusos. nas ilhas Fiji.

o narrador retorna à região seguindo os rastros de Quain. um Forte Apache de plástico.. ele não hesita. Um povo órfão. 107 de lugar nenhum. Para amainar a decepção do seu primeiro contato com os índios. quando os fazendeiros mataram 26 deles. mito deslocado significando o encontro abortado entre o brasileiro urbano e os povos autóctones do Brasil. Adulto. no entanto. a floresta agredida e transformada pela violência de um desmatamento caótico imposto pela nova ordem civilizacional. marcado por um sentimento de trágica impotência. É sempre o mesmo medo que o acompanha diante dos ritos que ele não consegue compreender. um só momento em que o narrador se mostra atraído pelo outro. imagem depurada da história que o homem . antítese da civilização. vítima de doenças e de comportamentos viciosos transmitidos pelo contato com os ocidentais. 100): a cena na qual um velho krahô entoa um canto em torno de uma fogueira numa noite de lua.. seu pai lhe oferece um brinquedo. vestidos de short e calçando sandálias japonesas. um povo que não quer ser esquecido pelos brancos. mas também recusa da alteridade linguística. Ao mesmo tempo. no fim do mundo. índios que comem macarrão e arroz com feijão. Medo.O ameríndio como personagem do Outro na literatura. Uma só passagem no romance evoca a possibilidade de um encontro. A narrativa coloca em evidência o sofrimento de um povo empobrecido pela política governamental. ao qual ele se refere como “um dos espetáculos mais deslumbrantes da minha vida” (Carvalho. A harmonia dessa cena remete a uma imagem arcaica. recusa de compartilhar a comida deles. O olhar do narrador recusa o paternalismo: se ele é sensível ao sofrimento dos índios. em expor seus preconceitos. 2001. os rituais. imagem ancestral comum a todo ser humano. o narrador sublinha o processo de aculturação em marcha. as brincadeiras. p. abandonado. mostrando o abismo existente entre seu universo de intelectual urbano e o dos povos autóctones. comportamental. símbolo estereotipado do índio selvagem. e relembra o massacre que os índios krahô sofreram um ano após a morte de Buell Quain. perdida no tempo.

52). como se a possibilidade de um diálogo entre o Brasil ocidental e urbano e o Brasil dos povos autóctones estivesse para sempre perdida. O que sobressai do efeito do outro sobre o sujeito do discurso é sua incapacidade de ir ao encontro do ameríndio. distanciando-se de uma tradição literária que tende a idealizar a figura do índio. a recusa em considerá-lo como sujeito autônomo. percebido como indecifrável e ameaçador. Constatação de um encontro e de um diálogo frustrados. como o estrangeiro de dentro. A figuração do ameríndio em Nove noites privilegia as diferenças como enfrentamento estéril. nem o olhar que eles lhe dirigem. para melhor as proteger (Carvalho. sua tendência a se fechar sobre suas próprias referências. um objeto de estudo. As teorias pós-modernas sobre as relações interculturais se afastam dessa perspectiva e . Para o narrador. que defende uma comunicação “suficiente” mas não “excessiva” com as culturas ameaçadas de extinção. o caminho escolhido pelo escritor coloca em evidência uma representação do lugar marginal que a sociedade brasileira reserva ao índio. a figuração do ameríndio como personagem do outro explora a distância com o grupo de referência ao qual pertence o personagem do escritor. de sua infância e que o conduz a refazer a experiência na tribo indígena. o ameríndio é um tema enviesado. O raiar do dia expulsará a poesia e restabelecerá a incompreensão e o medo. sua recusa em construir laços. O narrador de Nove noites não compreende o papel que os índios lhe atribuem nos seus rituais. mas o antropólogo norte-americano. No romance de Bernardo Carvalho. n. o não-valor de sua cultura. 2009 construiu. Qual o futuro para as relações interculturais entre uma civilização que tem seu declínio anunciado e uma outra que tem a expansão de sua dominação assinalada? O narrador refere-se ao ponto de vista de Lévi-Strauss.15. 2001. O outro que o atrai não é o ameríndio. para o antropólogo.108 Revista Brasileira de Literatura Comparada. submisso a uma consciência que o constrói. então. O índio surge. p. este é o sujeito da alteridade produtora de sentido que o aproxima de seu pai. Tão bela quanto frágil e efêmera.

Sentado no avião ao lado de um jovem estudante americano. ao fazê-lo. contraditoriamente. O texto de Nove noites não se inscreve em nenhuma dessas perspectivas. c’est établir relation et non pas consacrer exclusion. a adoção do ponto de vista do brasileiro urbano. Em relação à dialética do “selvagem” e do “civilizado”. o romancista possa apenas registrar essa invisibilidade do “estrangeiro de dentro”. na imprevisibilidade do mundo-caos. 2004) ou de creolização (Glissant.. uma visibilidade. A cena que fecha o romance é particularmente expressiva. ele recusa qualquer possibilidade de contatos e trocas equilibrados e frutuosos e elabora uma visão trágica de uma civilização em via de extinção. branco e letrado projeta a imagem do ameríndio como uma alteridade invisível e em via de desaparecimento. 1996) que caracteriza a contemporaneidade: “Vivre la totalité-monde à partir du lieu qui est le sien.  Em Nove noites. Talvez porque nas nossas sociedades cada vez mais compósitas. Trata-se da viagem de volta do narrador. país que visitou em 2001 na esperança de encontrar a família de Buell Quain. decadente. Visão trágica que lhe retira a perdurabilidade. eles iniciam uma conversa no momento em que o avião está sobrevoando a região amazônica próximo ao local onde Quain se matou.O ameríndio como personagem do Outro na literatura. confere-lhe. Milton Hatoum se inspira em uma realidade na qual a presença ameríndia é marcante. p. aliando-se a uma perspectiva comum a outros romances da produção literária das Américas. 67). depois de uma estadia nos Estados Unidos. reproduzindo a imagem de um índio aculturado. 109 insistem nos aspectos positivos do inevitável processo de hibridação (Canclini. O ponto de vista adotado é o do brasileiro que bebeu na fonte da cultura ameríndia e que é fascinado . que lhe pergunta se ele vai ao Brasil para fazer turismo. reduzido a um objeto exótico ou a um objeto de estudo. Mas. Ao ser abordado pelo narrador..” afirma Edouard Glissant (1996. participando de um espaço urbano híbrido. o jovem responde: “Eu vou estudar os índios do Brasil”.

2004. Néstor Garcia. Hatoum recusa uma visão reconciliadora do processo de mestiçagem. abandonados à miséria e à orfandade. México: Grijalbo. Francis. Hatoum não o idealiza. preferindo destacar a construção dramática desse espaço ambivalente. deixa transparecer a ideia de que esse processo não é capaz de assegurar.15. CUNHA. transformando a escritura numa “zona de tensões” (Harel. Brasília: Senado Federal. O autor não se deixa levar por uma ideologia da mestiçagem como elemento consubstancial à nação brasileira. 2000. Adota outro ponto de vista. denunciando assim o papel marginal que a sociedade reserva ao índio. CARVALHO. Figurado como mediador do espaço e dos mitos entre a floresta e a cidade. 1991. Um paraíso perdido: reunião de ensaios amazônicos. Critiques anthropologiques. Mesmo reconhecendo o processo de mestiçagem cultural. Adotando uma perspectiva complexa do processo de inter-relação de culturas e de imaginários. isoladamente. Paris: Presses de la Fondation Nationale des Sciences Politiques.110 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Referências AFFERGAN. CANCLINI. 2001. p. o escritor se distancia de um discurso banal que se contenta em louvar as trocas culturais. Nove noites. Euclides da. Estrategias para entrar y salir de la modernidad. 108). Bernardo. n. desconsiderando os aspectos da necessária reconstrução de um “lugar habitável” para o sujeito. onde os conflitos herdados do colonialismo se fazem presentes. Dessa forma. Culturas híbridas. . a existência de uma sociedade mais justa e solidária nem para os ameríndios nem para os pobres brasileiros inseridos na sociedade urbana. expondo suas fraturas. nem por isso o ameríndio escapa à condição subalterna e à visão trágica que o condena ao desaparecimento. São Paulo: Companhia das Letras. 2007. 2009 por ela. abrindo-se para a subjetivação da experiência da alteridade. herdeiros de visões do paraíso. Conselho Editorial. como elemento que se abre à relação com o Outro.

Les passages obligés de l’écriture migrante. Disponível em: <http://www. L ’espace en perdition. 29. A natureza como ficção (Leitura do espaço nos romances A selva. Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea. São Paulo: Companhia das Letras. Rita Olivieri. n. 1993. Linda. 2000. FFLCH-USP São . HATOUM. MORENCY. 101-117. Trem fantasma. HARDMAN. Janet M. A trama traiçoeira de Nove noites. p. Paulo. Estranhos estrangeiros: poética da alteridade na narrativa contemporânea brasileira. 2008. ed. MOURA. Paris: Gallimard.portrasdasletras. In: _____ et al. . Pela mão de Alice. Poética do Pós-Modernismo. In: _____. Québec: Les Presses de l’Université Laval. HUTCHEON. com. Salvador: Fundação Casa Jorge Amado. 2000. 34. GODET. O social e o político na pós-modernidade. 2007. a modernidade na selva. Orfãos do Eldorado. Québec: Nuit Blanche. 185-194. Simon. Le mythe américain dans les fictions d’Amérique. Jean. Montréal: XYZ. Rio de Janeiro: Imago.php?op=resumos/docs/novenoites>. Flávio. 1994. 2004. 1991. São Paulo: Cortez. 2007. de Márcio Souza). 1. La poétique de l’altérité et la représentation de l’Amérindien dans la fiction des Amériques. PATERSON. SANTOS.. Francisco Foot. Edouard. n. _____. p.br/pdtl2/sub. p. A utopia e os conflitos paradigmáticos. O espaço geográfico no romance brasileiro. 1988. HAREL. _____. 2005. Brasília. Boaventura de Souza. 1996. e Mad Maria. Introduction à une poétique du divers. Texto inédito. jan. 233-252.O ameríndio como personagem do Outro na literatura. 111 GLISSANT. _____. Les lieux de la précarité de la vie quotidienne. entrevista de Bernardo Carvalho. Figures de l’Autre dans le roman québécois. Teresa: revista de literatura brasileira. A dois passos do deserto: visões urbanas de Euclides na Amazônia. de Ferreira de Castro.. São Paulo: Companhia das Letras.-jun. Québec: Éditions Nota Bene. _____. Milton.

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com frequência. argumentando que culturalistas. . and canon. aesthetics. e esteticistas. aesthetics. estética. I argue that canon-revising culturalists as well as aestheticists who defend the primacy of the Western canon share a number of premises. Como veremos. é apresentado como uma polêmica entre defensores de um firme cânone * Tulane University. A partir de uma compreensão do caráter contingente do valor estético e da impossibilidade de fundamentá-lo de maneira imanente à obra. based on the often ignored discontinuity among the concepts of value. cânone. palavras-chave: abstract: valor. contingency. cânone e crítica formal Este ensaio parte da premissa de que não há crítica ou teoria literária. This article is part of a contemporary debate on aesthetic value. contingência. baseadas na descontinuidade. entre os conceitos de valor. na qual não esteja implícita uma posição sobre o valor. compartilham uma série de pressupostos. canon. essa premissa é simultaneamente negada e aceita pelos dois polos de um debate que. Understanding the contingent nature of aesthetic value and the impossibility of grounding it immanently. defensores da primazia do cânone ocidental. por mais descritiva. frequentemente ignorada. sugerem-se algumas pautas para o debate. de estética e de cânone. I suggest a few possible routes for the debate. keywords: value.113 Cânone Literário e Valor Estético: notas sobre um debate de nosso tempo Idelber Avelar* resumo: Este ensaio se insere no debate contemporâneo acerca do valor estético. revisores do cânone.

embora seus principais teóricos. que rejeitariam o pressuposto da inevitabilidade valorativa. portanto. e que o valor estético e o cânone literário podem e devem ser repensados em outros termos. que fizesse desta o antídoto contra a vulgaridade massiva associada à racionalidade técnica moderna e à “dissociação da sensibilidade”. Há correntes críticas do século XX. O New Criticism surgiu. A insistência dos new critics no caráter desinteressado da literatura acabou sendo um gesto no qual se albergava um nítido interesse. discursos com fortes componentes axiológicos. já numa fase de seu pensamento em que são visíveis as inspirações nietzscheana e lacaniana. visível na batalha que eles livraram contra o establishment da filologia. P Blackmur. jamais tivessem escondido suas preferências literárias. o New Criticism focalizou a valoração na diferença entre a literatura e a cultura de massas. como intervenção numa polêmica culturalista – entendendo-se “cultura” não no sentido antropológico. elaborou pouco sobre a questão do valor.15. Eliot. Allen Tate. diferenciavam dos filólogos então dominantes ao conferir um papel edificante para a literatura. conceito que herdaram de T.114 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Nas suas origens. mesmo nos momentos de maior formalização do método. Cleanth Brooks – se . este ensaio tenta demonstrar que a própria formulação do debate é problemática. nos anos 1930. O estruturalismo. optando por um projeto que tinha um caráter mais descritivo que valorativo. os new critics – John Crowe Ransom. depois da progressiva ruptura com a formalização do estruturalismo. Os textos de Roland Barthes em que a preocupação com o valor se torna explícita são aqueles escritos a partir do final dos anos 1960. mas não em distinções efetuadas no interior da série literária. R. Hegemônico durante décadas na crítica estadunidense. Além de tomar algumas posições que não se alinham com nenhum dos dois polos. n. 2009 ocidental e culturalistas favoráveis a uma relativização ou abolição desse cânone. mas no sentido classista . S. como Roland Barthes e Julia Kristeva. com seu afã científico e universalizante. sabemos. Robert Penn Warren.

a centralidade do conceito de mito. p. Frye chegou a considerar “Poética estrutural” como um possível subtítulo para o livro. 145 et seq. ainda que fosse para negar sua pertinência para a prática crítica. Embora não fizesse ali nenhuma referência ao trabalho da antropologia estrutural que. 115 e aristocrático do termo. sentimos talvez que o estudo da literatura é relativo e subjetivo demais para ter sentido consistente. Tomo Frye como ponto de partida de uma demonstração do que considero o caráter aporético da discussão sobre o valor literário: Na história do gosto.. que era seu principal antagonista. No momento em que Northrop Frye publicou o hoje clássico Anatomia da crítica (1957). Os new critics se moveriam em direção à análise de estruturas internas dos textos. Como apontaram Gerald Graff (1987. nas quais invariavelmente encontrariam a ironia. p.. e onde todas as verdades já foram. a insistência no imanentismo e no caráter autossuficiente da crítica literária. de maneira hegeliana. o caráter sistematizador. a ambiguidade e o paradoxo que eles antes reservavam aos modernos e aos poetas metafísicos ingleses do século XVII. o jogo de antinomias. na França. Uma das diferenças importantes é que Frye se dedicou longamente ao problema do valor literário. Mas como a história do gosto não tem vínculo . no qual ele se distanciava tanto do New Criticism como da Escola de Chicago. o momento de triunfo do New Criticism na universidade e de consolidação da poesia modernista no currículo coincidiu com o arrefecimento dessa veia polêmica. 155-175). uma apresentação explícita do problema da valoração já era inevitável. já se desenvolvia havia uma década com Lévi-Strauss.Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. quebradas em meias-verdades …. A consolidação do método como leitura hegemônica acabou acarretando a universalização dos traços que eles antes só viam nos autores do seu paideuma particular. e alguns dos eixos da obra revelavam nítido parentesco com o trabalho que o estruturalismo literário francês realizaria nos anos seguintes: as metáforas espaciais.) e John Guillory (1993. onde não há fatos.

3) . pode-se estar razoavelmente convicto de que tal separação é a coisa menos fácil que há. ele lança mão de uma curiosa tese.116 Revista Brasileira de Literatura Comparada.1 Um pouco antes. 1957.15. O curioso da analogia de Frye. 1 Anatomia da crítica sugere. ele afirmara que “a história do gosto não é parte da estrutura da crítica. 18). O leitor o percebe quando chega o espinhoso momento em que Frye tem de justificar suas escolhas. Porque insistir nela é tudo o que ele pode fazer: qualquer crítica motivada por um desejo de estabelecê-lo ou prová-lo será meramente mais um documento na história do gosto (Frye. portanto. mais válidas quando silenciosas. 25). menos tempo ele desejará desperdiçar insistindo na questão. 2) é “óbvio” que alguns poetas são melhores que outros. 1957. que Milton é um poeta mais sugestivo e recompensador que Blackmore. a de que é preferível que os valores que subjazem às escolhas estéticas da crítica fiquem escondidos. O crítico verá logo. é que está bem longe de ser uma verdade evidente que a polêmica Huxley-Wilberforce não seja parte da “estrutura da biologia” (seja lá o que for isso). simultaneamente. p. vai se impondo uma conclusão: sempre que Frye diz que a crítica é “facilmente separável” do gosto e do juízo valorativo. São minhas as traduções de todas as citações de fontes em línguas estrangeiras. Para isso. n. ela pode ser facilmente separada (Frye. pois explicitá-los terminaria fundamentando a crítica na história do gosto e. e não princípios expressos que guiam sua prática. assim como o debate Huxley-Wilberforce não é parte da estrutura da ciência biológica” (p. que 1) a crítica é uma esfera separada da história do gosto. por certo. 2009 orgânico com a crítica. p. 18). À medida que o leitor percorre as páginas de Anatomia da crítica. Mas quanto mais óbvio se torne isso. e constantemente. dinamitando a separação que se havia proposto entre elas: As estimativas comparativas de valor são realmente inferências da prática crítica. assim como não é óbvio que a polêmica Marx-Ricardo não seja parte da “estrutura” da economia política.

117 Para o estruturalismo. 3) já que a valoração é definida como parte de uma história do gosto externa à crítica. não da crítica. fruto da repetição constante. O projeto de descrever cientificamente a linguagem poética os levou a estabelecer a noção de estranhamento (ostraneniye) como o mais próprio da literatura. No caso do formalismo russo.2 haveria que se dedicar especial atenção às maneiras como o desejo de cientificidade entrou em choque com a inevitabilidade valorativa. ver o notável trabalho de história intelectual já feito por François Dosse (1991-92).Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. esses dois eixos coexistiram com certa tensão. Frye não pode senão sugerir que os fundamentos das escolhas valorativas permaneçam sem discussão. sob o risco de que todo o edifício desmorone. Seria possível demonstrar que a aporia detectada em Frye se repete nos métodos interpretativos que tentaram fazer da crítica literária uma operação descritiva na qual não teria lugar o debate acerca das opções valorativas. mas tropeça na constante interferência desta sobre aquela. não antes que Yuri Tinianov formulasse algumas pistas acerca do que poderia ter sido uma concepção formalista da . 2 qualquer tentativa de explicar essa obviedade está fadada a ser parte da história do gosto. a consolidação do poder político nas mãos de Stálin os forçou ao exílio ou ao silêncio. teremos de esconder debaixo do tapete os critérios que subjazem a elas. Shklóvski definiu o conceito como o processo por meio do qual a novidade das operações poéticas sobre a linguagem prolongaria a percepção. Numa futura história dos métodos formais no século XX. No momento mais frutífero do desenvolvimento das pesquisas dos formalistas.. Anatomia da crítica. aumentando-lhe a dificuldade. se sustenta sobre um tripé de premissas de visível precariedade: 1) a crítica e o gosto não se misturam. mesmo que reconheçamos que a atividade crítica depende de escolhas valorativas.. 2) não se faz crítica sem uma escolha valorativa. um dos livros de crítica literária mais influentes do século XX. O estranhamento possibilitaria uma renovação de uma experiência do mundo caracterizada por uma percepção já automatizada. Preso num discurso que postula a separabilidade da crítica ante a história do gosto.

mais valor. As conhecidas afinidades entre o formalismo e o futurismo russos emprestam credibilidade a essa tese. n. às correntes críticas que explicitamente reivindicam a valoração como elemento constitutivo da ati- . parece inescapável a conclusão de que o valor está acoplado à realização desse programa: quanto mais estranhamento e mais ruptura paródica com as formas anteriores. Muito ainda poderia ser dito aqui. Para Tinianov. Sempre que um procedimento passasse a ser parte do repertório de práticas já esperadas. combinada à condenação ao impressionismo dos simbolistas. A insistência na função descritiva da teoria literária. e assim por diante. uma operação paródica tenderia a surgir. pelo estranhamento imposto a formas literárias automatizadas pelo uso excessivo. expondo a artificialidade de suas convenções.118 Revista Brasileira de Literatura Comparada. a literatura evoluiria por meio da paródia. A partir das premissas de que o estranhamento é mais próprio à literatura e de que a história literária evolui pela operação paródica sobre formas anteriores congeladas. 2009 história literária. de que as vanguardas realizam a vocação da literatura de uma maneira que os parnasianos não fazem. Não há nada de condenável nessa axiologia. tornando visível a automatização anterior. mas passemos ao extremo oposto. ajuda a explicar a relação multifacetada que os formalistas mantiveram com o tema do valor. é claro. O edifício teórico dos formalistas nos leva à conclusão ineludível de que Dom Quixote tem um valor que Amadis de Gaula não apresenta. Apesar de que as observações feitas acima sobre Frye não se aplicam aos formalistas. ou seja. eles tampouco se dedicaram a tematizar explicitamente o problema do valor. A sofisticação do aparato teórico dos formalistas os levou do imanentismo textualista a uma incipiente teoria da história literária.15. Um exemplo clássico é o que Dom Quixote fez aos romances de cavalaria. interrompida pela consolidação do poder burocrático na União Soviética. Mas reconhecer sua existência – mesmo que implícita – é indício adicional de que até nas empreitadas mais cientificistas da crítica literária impõe-se a inevitabilidade valorativa.

Booth tenta resgatar essa função humanista sem reduzi-la a um conjunto de normas. p. a saber. que valeriam “menos”.Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. Se não. seria a defesa daqueles valores sobre outros.. que ele define como uma “Conversa celebrando as muitas maneiras em que as narrativas podem ser boas para você – com vislumbres de como evitar seus poderes para o mal” (p. Posição de destaque nessa vertente cabe aos críticos que se ocupam das relações entre ética e literatura. O desafio que Booth se coloca é manter algumas das premissas da teoria contemporânea (acerca da variabilidade histórica do sentido ou da impossibilidade de uma medida transcendental de valor). que provocaria uma “série de efeitos no ‘caráter’”. 142). a tarefa não é fácil. a conclusão lógica. um debate cujas origens podem ser remetidas aos Livros III e X da República de Platão. 119 vidade crítico-literária. ocupa um lugar central no chamado ressurgimento da crítica ética nos EUA. Na tentativa de esclarecer os valores que subjazem às análises estéticas. Booth abraça o projeto humanista de ilustração por meio das letras. crítica ética e falácia igualitária Wayne Booth. Booth coloca a pergunta: “Poderemos esperar encontrar uma crítica que respeite a variedade e ofereça um saber acerca de por que algumas ficções valem [are worth] mais que outras?” (1988. ou seja. Como se verá. Qualquer tentativa de sustentar este último postulado – de que algumas ficções realmente valem mais que outras – só poderia “respeitar a variedade” interrogandose sobre os processos históricos por meio dos quais certos valores foram conferidos àquelas ficções.. 36). necessária. com seu The company we keep. ix). ao continuar tomando esses valores como intrínsecos. Consciente de que as condenações moralizantes de uma tradição que vai de Platão a Leavis deram à crítica ética uma má fama. ao mesmo tempo em que continua se agarrando a um conceito de literatura como fonte singular de um “mergulho em outras mentes” (p. o Bem ou o Mal .

então. Booth quer aceitar o pluralismo hermenêutico da teoria literária contemporânea sem abrir mão do absolutismo da filosofia moral.. A reductio ad absurdum será uma das estratégias retóricas favoritas dos que mantêm a referência ao valor estético como propriedade intrínseca e resistem ao argumento de que o valor só pode ser entendido por meio da remissão ao seu solo social. pode ser bom para você mas não para mim. como o contraste entre King Lear. A solução moderada busca um pluralismo que mantenha a referência a um valor intrínseco o qual. uma minuciosa tentativa de aceitar a variabilidade de interpretações sem deslocar a discussão do terreno do valor intrínseco ao campo da valoração social. Company é. e um exemplar da revista pornográfica Hustler. a grande literatura emerge intacta.) sem renunciar à premissa de um valor ético intrínseco à literatura e a algumas obras literárias mais que a outras. n. Depois de superar essas caricaturas.120 Revista Brasileira de Literatura Comparada. com sua insubstituível função moral reassegurada. aquela área cinza que permitiria ao crítico evitar qualquer “silogismo universal” (esta obra é boa porque apresenta X. A necessidade de caminhar sobre a corda bamba que separa o reconhecimento das contingências históricas do compromisso humanista leva Booth a fazer uma série de gestos na direção do relativismo: o que é bom cá não é bom lá. Booth “realiza” essa tarefa por meio de uma série de exercícios de reductio ad absurdum. termina sempre transcendendo os conflitos da valoração social. portanto todas as obras que apresentem X.. O objetivo é evitar os “riscos” de “fechamento” ou “abertura” excessiva. Daí sua busca do meio do caminho. qualquer virtude levada ao extremo pode destruir as outras. por mais variável que se conceda que ele seja. de Shakespeare. Os tropeços da crítica ética seriam explicáveis por sua tentação especial de “sobre-generalizar”. 2009 aos quais o prefácio alude. a abertura formal ou qualquer outro) pode ser prejudicial em vez de positiva. ou entre um poema de Yeats e uma brincadeira improvisada em verso. etc. uma dose excessiva de qualquer valor (seja a ironia. No momento em que a teoria não consegue .15.

ela pressupõe uma recusa a considerar o argumento de que todo valor é produto do choque de valorações contingentes e historicamente variáveis.Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. compare-se a Divina comédia com um exemplar da Revista Veja. 84). o terreno está preparado para que o liberal sensível procure a conciliação razoável. 121 fundamentar essa transcendência. “a recorrente ansiedade / acusação / reclamação de que a menos que se possa demonstrar que um juízo é mais ‘válido’ que outro. Ao se referir à crítica contemporânea. ou seja. mas que somente são valoradas” (p. Sempre que se remete um problema à “tentação de sobre-generalizar”. Os ataques ao “subjetivismo” do ponto de vista de uma ética humanista são bem conhecidos e Booth os repete em seu livro: “pressupõe-se claramente uma completa equivalência na competência de todos os intérpretes no argumento de que as obras não possuem ou exercem valor inerente. Mas Booth parece ter entendido mal a teoria da contingência. todos os juízos devem . Booth afirma que “a ênfase na variedade de interpretações nos diz pouco sobre o valor real das obras” (p. Significa que “competência” não é um significante com sentido unívoco e eterno. Essa mitologia da ponderação não deixa de operar na teoria. constate-se a óbvia diferença entre os valores intrínsecos e o problema está “resolvido”. Afirmar que a valoração é socialmente contingente não significa dizer que todos os agentes valoradores são igualmente competentes. seu pluralismo não é radical. 73). ou seja. 85).. Ao contrário do que argumenta Booth. não.. e sim liberal. e que seu próprio conteúdo só pode ser compreendido com referência ao contexto particular em que algumas habilidades contam como competência e outras. posição que Booth descarta como “subjetivista” (p. A equação imaginária entre a contingência social do valor e uma suposta igualdade entre os agentes valoradores é o que Barbara Herrnstein Smith denominou a falácia igualitária. Essa afirmação repousa sobre a premissa de que o valor é uma espécie de propriedade inerente ou essência eterna.

Com efeito. Eis aí a falácia da ansiedade essencialista que preconiza que. progresso do espírito. n. 1988. p. e sim articulados por meio de conflitos sociais. mergulho na alma humana. . Na verdade.15. de alguma forma. A falácia igualitária confunde uma posição social construtivista com uma posição moral e estética relativista. idênticos a si mesmos. Note-se um exemplo em Booth: “me parece difícil acreditar que se uma pessoa de nossa cultura que é completamente inexperiente em literatura não vê absolutamente nenhum valor. diferentes vertentes da crítica prescritiva arrolaram fundamentos transcendentais a partir dos quais a literatura deveria ser julgada: formação do caráter. é precisamente porque os juízos não são igualmente válidos que os valores nunca são intrínsecos. 98). 85). por mais que se queiram descritivos. uma espécie de grau zero da axiologia que replica a ilha de Daniel Defoe. suas opiniões sejam tão pertinentes a nosso discurso sobre Faulkner como as opiniões de leitores experientes” (p. os valores ficaram.122 Revista Brasileira de Literatura Comparada. É exatamente por causa do fato de que as valorações não são nem válidas da mesma forma nem identicamente posicionadas nas relações sociais que elas jamais são intercambiáveis. por definição. não teriam a mesma pertinência para o “nosso” discurso. digamos. nos romances de Faulkner. Como a desconstrução e o marxismo nos ensinaram de diferentes formas. 2009 ser ‘iguais’ ou ‘igualmente válidos’” (Smith. Se os imanentismos formais não escapam da axiologia. a crítica humanista. uma pessoa inexperiente em literatura não poderia pertencer à mesma cultura e suas opiniões. sempre há que se perguntar qual sujeito da enunciação se esconde por trás de um pronome de primeira pessoa do plural. idênticos uns aos outros. padece da impossibilidade de fundamentá-los mais além da tautologia. obviamente. que não esconde seu compromisso com a noção de que a literatura deve defender valores éticos. A falácia igualitária se sustenta no que Marx chamava de “robinsonada”. se a compreensão do conceito de valor se deslocou de uma imanência dormente a uma rede de relações sociais. A falácia é que. renovação da linguagem.

22). Diante de certas frases de Bloom. p. podemos censurar qualquer coisa. crítica estética e pânico ocidentalista Para Harold Bloom. A fundamentação do valor na estética teria. neo-historicistas e afrocêntricos seriam os agentes contemporâneos de uma “Escola do Ressentimento” que “nega a Shakespeare sua palpável supremacia estética” (1994. um processo de regressão infinita. 123 defesa do legado ocidental. É o que vemos nas críticas estéticas de Harold Bloom. A pergunta: “por que deve ser este o valor a partir do qual julgar a literatura?” não pode ser respondida imanentemente. de Leyla Perrone-Moisés. uma alteração da ordem vigente provocará a sensação de que qualquer ordem está se tornando impossível. 20) e proclama “a abertura do Cânone” (termo que Bloom insiste em grafar com maiúscula) para a incorporação de obras que “não devem e não podem ser relidas. no Brasil.. em seu Altas literaturas.. assim. como “o radicalismo acadêmico chega ao ponto de sugerir que as obras se incorporam ao Cânone por causa de propagandas [advertising] bem-sucedidas e campanhas de doutrinação [propaganda]” (p. a única resposta possível é: quem ja- .Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. 20). feministas. lacanianos. Vários “defensores do cânone ocidental” reagem nervosamente à demonstração da impossibilidade de autofundamentação imanente do valor estético. em seu O cânone ocidental e. marxistas. porque sua contribuição ao progresso social é a generosidade de se oferecer para rápida ingestão e descarte” (p. em alguém que responsabiliza a Escola do Ressentimento pelo fato de viver “no que considero a pior de todas as épocas para a crítica literária” (p. 30). exceto não ter tornado bem visível o seu próprio ressentimento. Ela dispara. Para quem experimenta uma contingência como se esta fosse uma não-contingência. desconstrucionistas. é inevitável. Ironicamente. uma estrutura abismal. emancipação do proletariado. Mas nenhum desses fundamentos se sustenta como base de uma estética sem remissão a outro valor que o justificaria.

ensaísta que não tem nenhum histórico de associação com o conservadorismo político. e o livro de Bloom não ajuda. quando mais socialmente precário seja seu fundamento. Mais que atacar Bloom. há uma década e meia. Se é correto afirmar que parte da crítica contemporânea se dedica a questionar o processo de emergência dos cânones. retiremos mais um axioma: quanto mais ameaçados se sintam os guardiães da suposta universalidade de um determinado valor.15. 40) – e é ubíqua sua afirmativa de que Shakespeare é o pai de todos –. ou de um ponto de vista afro. um crítico associado à direita mais conservadora – passou. É verdade . que talvez seja a mais ilustre barthesiana da América Latina e cujos primeiros livros foram escritos na mais absoluta alegria e afirmação. ele não nomeia seus supostos integrantes. O mais surpreendente é que essa posição – defendida nos EUA por Harold Bloom. certamente não encontramos nenhuma equação entre a construção do cânone e a propaganda.124 Revista Brasileira de Literatura Comparada. como The madwoman in the attic. produz filhos tão bárbaros como os desprezíveis afrocêntricos e feministas. mesmo perfeito. é impossível não se perguntar que pai é esse que. trata-se aqui de assinalar um paradoxo bem curioso que veremos reiterado no lamento contra os estudos culturais. Se Bloom insiste com tanta ênfase em afirmar que “Shakespeare inventou a todos nós” (p. seria difícil encontrar um estudo sério defendendo algo que vagamente lembrasse a caricatura apresentada por Bloom. Da leitura de Bloom. menor será sua capacidade de entrar em genuíno debate com a força emergente que aponta o caráter contingente desse valor. 2009 mais disse isso? Qual feminista ou “afrocêntrico” de relevo disse algum dia que a incorporação de uma obra ao cânone se deve ao advertising e à propaganda? Desconhece-se. a ser representada no Brasil por Leyla Perrone-Moisés. n. Nas obras que se dedicaram a revisar o cânone a partir de uma perspectiva feminista. de Henry Louis Gates. pois nas centenas de páginas de queixas ressentidas contra a tal Escola de Ressentimento. como The signifying monkey. de Sandra Gilbert e Susan Gubar.

seria hoje impensável nos Estados Unidos. de sujeitos ocultos e de sintagmas como “alguns grupos”. foi achar que se tratava de um erro tipográfico. Na Universidade de Stanford..3 Tomemos o diagnóstico da ensaísta brasileira sobre as raízes da perda de relevância social da literatura e da daninha influência norte-americana: Um curso de humanidades baseado na leitura de ‘grandes obras’ do Ocidente. dedicado ao diagnóstico do presente. introdutor dos estudos “póscoloniais”. a abundância de vozes passivas (“o cânone ocidental .Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. Parecem não ter obra. 1998. no capítulo 5 de Altas literaturas. Jamais sabemos quem são eles. p. “a formação desse cânone foi examinada do ângulo ideológico”. Também é bastante irônico . por pressão dos grupos particularistas.. posto que todo o livro de Smith é uma análise do porquê dos juízos de valor serem inevitáveis. ela lhes atribui posições diametralmente opostas às que defendem em seus livros. 195). Lefort etc. p. 196). p. como aquele que foi ministrado em 1936 na Universidade Columbia por Lionel Trilling e outros. Foucault. 125 Minha primeira reação. O turco Homi K. 1998. colheu suas referências principais em Derrida. Reencontramos em Altas literaturas o mesmo procedimento de Bloom: o ataque a um adversário cujos representantes não são nomeados e ao quais não se concede a generosidade da citação. mas o diagnóstico do que teria acontecido a partir da chegada dos estudos culturais é fundamentalmente o mesmo. “os particularistas”. a palavra ocidental foi suprimida na denominação dos cursos sobre cultura (Perrone-Moisés. “as feministas norte-americanas”. 3 que a ensaísta brasileira se diferencia de Bloom. 230). Nos momentos em que Leyla Perrone nomeia duas figuras envolvidas com o debate sobre o cânone nos EUA – John Guillory e Barbara Herrnstein Smith –. p. acrescido do altamente antiantropofágico medo de que o Brasil se contamine pela influência norte-americana: “o lamentável de tudo isso é que muitos universitários brasileiros estejam recebendo essas tendências norte-americanas sem o menor espírito crítico” (Perrone-Moisés 1998. ao ler que Barbara Herrnstein Smith “considera que o juízo de valor é indesejável” (Perrone-Moisés. Kristeva. “os anti-canônicos”. gerando a dúvida sobre se ela realmente os terá lido. Observe-se.. foi posto sob suspeita”.. Bhabha. 192).

Hemingway. e sim indiano. seja na pós-graduação em literatura. mas é sabido que a noção de ideologia tem pouca circulação nos teóricos pós-coloniais. [. que herdam de Foucault a suspeita ante o conceito.]. bem europeia e humanista. munidos de argumentos iluministas historicamente tão ocidentais quanto o repudiado imperialismo (p. uma vingança extemporânea [. Melville. para nele incluir os então excluídos [. Excluir do cânone um Dante.. 5) Para qualquer conhecedor do sistema universitário norte-americano. 194-195). porque era caçador e machista. 4) Desconhece-se universidade estadunidense que tenha excluído Mark Twain. 2) Bhabha não é o “introdutor” dos estudos pós-coloniais... campo de estudos cujas genealogias unanimemente (Desai e Nair. 198-199). As exclusões ideológicas têm tido um efeito imediato e lamentável nos currículos norte-americanos: Mark Twain e Faulkner. aliás. palestino-americano de formação. porque eram escravagistas.. (p. já que Leyla Perrone os caracteriza genericamente. porque antiecológico etc.15. 2009 que os “pós-coloniais” se insurjam contra o que chamam genericamente de “ideologia ocidental”. seria. 3) Não se sabe quais seriam esses teóricos pós-coloniais que se insurgem contra “o que chamam genericamente de ‘ideologia ocidental’”. uma rápida busca nos sistemas das cento e três instituições catalogadas pela Carnegie Mellon como Research universities demonstra que esses quatro autores continuam abundantemente presentes em cursos. exames e teses.. de Edward Said. sem citações. Corrijamos alguns: 1) Homi Bhabha não é “turco”. Fica difícil realizar um debate a partir de tantos erros factuais.].126 Revista Brasileira de Literatura Comparada.. para colocar em seu lugar alguma mulher medieval que porventura tenha conseguido escrever alguns versos não seria ato de justiça. Faulkner. seja na licenciatura em inglês.] há um contra-senso histórico no desejo de modificar o cânone passado. causa estupefação a afirmativa de que é hoje “impensável” um “curso de huma- . Melville e Hemingway do currículo. 2005) apontam como momento inaugural a publicação de Orientalismo (1978). no máximo. n.

o Senado de Stanford decidiu aprovar uma proposta de substituição de um desses cursos de “cultura ocidental”. Newsweek e Wall Street Journal acerca da polêmica em Stanford que desatou as chamadas “guerras culturais” nos EUA. Stendhal. Tulane. Marx. Cervantes. O curso que costuma atender pelo nome de Great Books é um dos mais comuns em qualquer grade curricular de qualquer boa universidade estadunidense. um trajeto que vai de Homero (ou Platão) a Nietzsche. em Stanford. onde se incluíam textos “não-ocidentais” como os de Frantz Fanon e Rigoberta Menchú. 1996. 6) A incrível afirmação de que em Stanford “a palavra ocidental foi suprimida na denominação dos cursos sobre cultura” merece parágrafos à parte. asp?id=Courses>. Uma breve consulta à bibliografia séria acerca do incidente (Pratt. O curso do segundo semestre cobre da Antiguidade até a Idade Média. Hobbes. Como sabem quase todos. Rousseau. 127 A lista de leituras está disponível em: <http://honors. embora esses autores também sejam lidos numa série de cursos que. 1993) teria sido suficiente para evitar o erro. em uma das grades.4 Não é exatamente uma seleção escalada por uma afrofeminista radical. por um curso intitulado “Culturas e valores”. Nietzsche. Freud. Fanon e Coetzee.. Casement. e nele não há sombra de “alguma mulher medieval que porventura tenha conseguido escrever alguns versos”.edu/web/default.. num debate já informado por . 4 nidades baseado na leitura das grandes obras do Ocidente”. Virginia Woolf. cito o que está sendo ministrado na minha própria. Graff. a implantação do novo currículo foi absolutamente tranquila. de cunho comparativo. os currículos universitários norte-americanos incluem um curso de obras-primas ocidentais que percorre. 2001. inclui Dante. É lamentável que uma ensaísta que dedica páginas a criticar as simplificações da cultura de massas e da mídia reproduza a distorção veiculada por Time. Dostoiévski. Primo Levi. em geral. são parte de oito grades dentro das quais o aluno pode cumprir os requisitos de humanas. tulane.Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. Como exemplo. Em março de 1988. no primeiro semestre de 2010: a lista de leituras consiste em Maquiavel. Dentro de Stanford.

a direita republicana concluía oito anos de controle sobre a Casa Branca. narrou verbalmente sua história de vida à antropóloga Elizabeth Burgos. exceto por um detalhe: as principais fundações da direita norte-americana. Os neoconservadores sabiam que era no terreno da cultura que se jogaria a cartada decisiva. as forças conservadoras do país passaram a dedicar intenso esforço à vitória na luta cultural. Menchú. Allan Bloom. um think tank de direita). A defesa do projeto foi ligeiramente politizada por grupos de estudantes. mas tudo correu dentro da normalidade que se espera de uma revisão curricular como qualquer outra.5 Em 1988. a queda de Nixon e a consequente desmoralização da direita americana. William Bennett (ex-secretário de educação no governo Reagan). acabava de estrangular a revolução centro-americana. ao “assassinato de Shakespeare e Platão” e à “intimidação de ativistas estudantis”. O livro de D’Souza atacava especialmente a incorporação ao currículo do testemunho de Rigoberta Menchú. 2004. entre outras generalizações provocadoras de pânico. autor do best-seller Illiberal education. Investiram-se milhões de dólares na construção de think tanks como a Heritage Foundation. Herbert London (fundador do Hudson Institute. e Dinesh D’Souza. A grande imprensa passou a dedicar blocos de seus programas à “eliminação da cultura ocidental no currículo das universidades americanas”. ativista guatemalteca de etnia maiaquiché. autor de The closing of the American mind. de Sobre o caráter ubíquo que tem adquirido a cultura como terreno onde se jogam os antagonismos políticos. O relato é indissociável das atrocidades cometidas na guerra civil da Guatemala nos anos 1970 e 1980. ver o belo livro de Yúdice. 2009 anos de reflexão sobre a necessidade de oferecer outras versões sobre a modernidade. Desde Watergate. Estavam lançadas as sementes do que se conheceria depois como “as guerras culturais”.128 Revista Brasileira de Literatura Comparada. grupos religiosos e o Partido Republicano acompanhavam o debate de perto. passariam a acusar Stanford de jogar no lixo a cultura ocidental. A votação no Senado foi normal. 5 . estava pronta para presenciar a queda do comunismo e identificava na cultura a nova guerra que deveria vencer.15. n. que aprendeu espanhol já adulta.

. os cânones brasileiro.Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. 129 responsabilidade de uma ditadura financiada pelos EUA. ou que não exista nada a se criticar nos estudos culturais e nas plataformas feministas ou étnicas de revisão do cânone – simplesmente é melhor fazer os balanços disciplinares com base em fatos e bibliografia. Apesar das aparências. não em projeções fantasmáticas. em incontáveis cursos de Stanford ou de qualquer outra boa universidade norte-americana. O livro dizia: o ocidente é isto aqui também. é atrocidade também. 202) e reagir com pânico no momento em que se extrai uma mínima consequência prática da profunda e radical verdade desse axioma. especialmente aquelas marcadas por ansiedades quanto aos estudos culturais: a rentabilidade do debate sobre o valor estético costuma ser inversamente proporcional à sua acoplagem ao problema do cânone. ao ser incluído num currículo universitário de culturas ocidentais. Os exemplos citados acima ilustram algo que é frequentemente esquecido por ambos os lados no debate sobre o valor. creio ser desnecessário confirmar que a presença do termo “ocidental”. p. Dito de outra forma: o conceito de valor abre um horizonte riquíssimo . latino-americano e ocidental têm se transformado de maneira lenta e modesta. ele dava uma resposta implícita aos que idealizam o Ocidente ou “os valores ocidentais” como cavalos de batalha morais. O que enfurecia no testemunho de Menchú era que. É incoerente citar o axioma benjaminiano acerca da inseparabilidade entre documento de cultura e documento de barbárie (Perrone-Moisés. A estas alturas. valor literário e apocalipse Daí não se conclua que tudo vai bem com o ensino de literatura nos EUA. jamais esteve em perigo. Proponho desenvolver aqui uma ideia que parecerá estranha aos que acompanham as discussões sobre o valor.. bem menos dramática do que seria de se imaginar por intervenções apocalípticas (“estão assassinando Platão e Shakespeare”) ou triunfantes (“estamos conquistando espaço para os excluídos”). 1998.

atenta ao fato de que esses valores podem estar . São eles: maestria técnica. crítica. Leyla Perrone encontra alguns valores que seriam comuns a todos. que só é obscurecido se o reduzimos ao problema de quais autores farão parte do panteão de leituras obrigatórias. que teria sido mais um magnífico livro de Leyla Perrone caso ela o tivesse interrompido na página 173. Pound. sobre a suposta barbárie que ela vê nos tempos atuais.15. exatidão. impessoalidade. Borges. Essa redução une esteticistas e culturalistas. Essa extrema honestidade intelectual me fascina em Altas literaturas. acima de tudo. Paz. Haroldo de Campos e Sollers contrastam nitidamente com a desinformação do capítulo final. pela estatura intelectual inegável de sua autora. Dificilmente encontraremos uma síntese tão exata dos valores que balizam a prática literária moderna. intensidade.130 Revista Brasileira de Literatura Comparada. completude e fragmentação. sim. continuo tomando Altas literaturas como interlocutor privilegiado. inclusive. mas pouco analisado. n. Aqui. concisão. visualidade e sonoridade. Pode-se criticar qualquer coisa na defesa que faz Leyla Perrone do cânone moderno. que defende seu cânone com base numa naturalização muito menos reflexiva. “ocidentalistas” e “particularistas”. Leyla Perrone está. por sua importância no debate crítico brasileiro. Butor. intransitividade. pelo papel que cumpriu a beleza cintilante de livros como Texto. de que o conceito de valor não se reduz a suas consequências para o cânone. que insistia que os críticos literários deveriam escrever sempre sobre aquilo de que gostam. há uma diferença nítida com Bloom. menos a falta de explicitação dos valores que a orientam. 2009 para a crítica literária. universalidade e novidade. Depois de mapear os paideumas dos escritores-críticos modernos. Calvino. Perdido nesse debate fica o fato óbvio. Aqui. pelo fato de que a obra não esconde os seus pressupostos axiológicos. escritura e Falência da crítica em minha própria entrada na profissão e. O contraste me fez recordar a observação de uma saudosa professora. utilidade. A paixão e a erudição com que a autora escreve os capítulos sobre Eliot.

mas que isso não impede Eliot de ver a utilidade da literatura na “preservação do idioma” ou Sollers de associar “transgressão poética e subversão política” (p... 164) – ou seja. Supondo-se que esses traços são distintivos da modernidade crítica. permaneça inconteste o valor estético de obras escritas a partir de pautas diferentes e muitas vezes contraditórias com aquelas privilegiadas em suas próprias práticas? Em outras palavras. a intransitividade –. O mesmo se aplica à aparente contradição entre fragmentação e completude. já não a poesia.Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. 131 em contradição uns com os outros: afinal. Em resposta à pergunta “para que serve a literatura?” – ou seja. para os modernos. No entanto. . alargar e valorizar nossa experiência do mundo. não seria a utilidade o oposto da intransitividade? Como conciliar fragmentação e completude? Tecendo uma série de refinadas distinções. a ficção e o ensaísmo da modernidade crítica pós-romântica. entendida como coerência interna. ela mostra que os modernos coincidem na “independência do objeto estético” (p. ainda restaria a pergunta acerca do que fundamenta o valor estético encontrado por todos eles em obras que não pertencem à modernidade e que foram escritas de acordo com outras pautas. mas ainda não diz nada sobre o valor estético como tal. 160-163). a lista de características privilegiadas por oito escritores-críticos que produziram o fundamental de suas obras num brevíssimo intervalo de tempo (pouco mais de meio século) pode balizar a compreensão do que a modernidade literária pós-romântica privilegiou na sua prática. Esta última. como fundamentar um conceito transhistórico de valor estético? Leyla Perrone não se furta a encarar o problema. não é contraditória com o ideal da obra aberta (p. mas a literatura como tal –. a ensaísta brasileira afirma: Se nós acreditamos que a literatura tem a alta utilidade de esclarecer. 165). Seria a Divina comédia um poema “fragmentado”? Teria a Odisseia o dom da “concisão”? Como explicar o fato de que.

No limite. Muito pouco se “esclarece” ali. poderíamos perguntar: Quem é o “nós” sujeito do verbo “acreditar” nesse trecho? Estamos todos os consumidores de literatura incluídos nele? Será mesmo tão impossível imaginar uma comunidade de leitores para os quais a “utilidade” da literatura seria justamente a oposta. Afinal de contas. . não seria absurdo dizer que a impossibilidade de “esclarecer. e a afirmação de que Jorge Amado lhe é superior. mas exemplificar um postulado teórico que se desprende da leitura de uma de nossas mais sofisticadas ensaístas: qualquer definição trans-histórica de literatura. O objetivo aqui não é caçar contradições no discurso alheio. Algum aluno impertinente poderia encontrar uma contradição entre essa definição de literatura e o cânone defendido pelo livro. No entanto. digamos. como tal. qualquer resposta essencialista à pergunta sobre sua natureza. Partindo-se do pressuposto de que a literatura. serve para valorizar a experiência humana. E se a fruição da literatura.132 Revista Brasileira de Literatura Comparada.15. Kafka. a “experiência humana” que retrata a obra deste último é uma repetição infinita de uma alienante brutalidade incognoscível para o sujeito. n. seremos levados a defender um certo tipo de história literária: aquela que otimiza a fruição das obras (p. 2009 admitiremos que a história do conjunto de suas realizações maximiza o proveito que podemos tirar do contato com cada realização particular. Kafka é pilar central do cânone estético defendido por Altas literaturas. no seu mais alto sentido de conhecimento e valorização da experiência humana. alargar e valorizar nossa experiência do mundo” é o tema mesmo da obra kafkiana. qualquer tentativa de defini-la em termos puramente imanentes fracassará no teste da falsificabilidade. digamos. é o nosso objetivo. perfeitamente plausível para alguém que trabalhe com uma definição historicizada e agnóstica de valor literário. Atendonos à definição que oferece Leyla Perrone para o que “serve” a literatura. 21-22). certamente seria rejeitada em termos categóricos pela autora. Jorge Amado sobre. seria difícil não escolher.

como essência do texto literário. mas embaçar a experiência do mundo. 133 não “esclarecer”...] está muito ameaçada” (p. passaram a ser designados como “literatura”.. em abstrato. de Alan Pauls – segundo muitos. 178).] publicam livros light” (p. no Passagen-Werk. prefiro ficar com Walter Benjamin. 571). 2666. 178). A universalização. num momento muito recente – o século XVIII –. Sofia. a literatura latino-americana ofereceu abundantes contraexemplos à percepção de que a ficção se encaminhava necessariamente na direção do mais breve e light.. apaixonado por Sofia. “os livros de ficção se tornaram mais curtos e mais leves” (p. apontava que a crença nos períodos de declínio é coextensiva à crença entorpecida no progresso. El pasado (2003). exibem esse valor em medida superior aos demais. 1998.. 179). 178).. “a literatura [.] recolheu-se a um canto” (Perrone-Moisés. segundo o Le Monde. p.. “Não há períodos de declínio” (Benjamin. 1991. sem referência aos conflitos e pactos sociais que presidem a circulação dos artefatos verbais que. “o desafeto progressivo pela leitura é um fenômeno internacionalmente reconhecido” (p. o grande romance argentino da década e.Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. entre eles. A extrema erudição e extensão do romance não o impediram de tornar-se um bem-sucedido filme em mãos de Héctor Babenco. o romance póstumo do . mas desvelar-lhe a miséria? “Para que serve” a literatura é uma pergunta para a qual não há resposta de antemão. p. apaixonada por seu amor por Rímini. O apocalíptico e o otimista progressivo representam duas faces da mesma moeda. Não há respostas imanentes às perguntas acerca de qual é o valor desses artefatos e quais. desenvolve em mais de 500 páginas recheadas de um vasto saber psicanalítico e cinematográfico uma história de amor marcada por uma essencial e deliciosa assimetria: Rímini. o grande romance de amor do novo século –. Nos últimos anos. Aqui. 178). “os novos escritores [.. de um conjunto de postulados próprios a uma região e um momento histórico só pode levar à incapacidade de ler o presente a não ser como queda: “a literatura [. não valorizá-la. que.

pelo jornalista Vagalume. O discurso de que o samba corre risco de morte tem a exata . interessou-me em certo momento a origem do discurso sobre a decadência do samba: “Já não se faz mais samba como antigamente”. nos anos 1950. que compra sua liberdade e percorre oito décadas de história brasileira e africana no século XIX. Estupefato. foi contradita por inúmeras ocorrências anteriores dessa retórica. Os leitores das obras de Ana Maria Gonçalves. nos anos 1930. A hipótese de que a percepção de uma decadência no samba datava dos anos 1940 foi. uma saga narrada por uma escrava. cujo refinamento não impediu que ele se transformasse em fenômeno editorial. Esses leitores com frequência testemunham que a sofisticação dos textos não é contraditória com o interesse gerado pela peripécia.15. Em meu trabalho sobre música popular. contradita pela sua aparição durante a compra dos sambas dos compositores negros do morro por intérpretes brancos de classe média. descobri que a afirmação de que já não se faz samba como antes aparece no primeiro livro escrito sobre o samba. especialmente no caso deste último. Um defeito de cor (2006). Luisa Mahin ou Kehinde – possivelmente a mãe do poeta Luiz Gama –. 2009 chileno Roberto Bolaño. historiografia e ficção sem nenhuma concessão ao naturalismo fácil. Desde quando se diz isso? Minha hipótese inicial. oferece. Alan Pauls e Roberto Bolaño são bem mais numerosos que nos fariam crer os apocalípticos. em mais de 900 páginas. um relato que conjuga os horrores dos assassinatos de mulheres na fronteira mexicano-americana com um estudo da frivolidade cúmplice que Bolaño via como característica das cliques acadêmicas e literárias. Voltando ainda mais. a de que o discurso coincidia com o início da apropriação bossanovista do samba de morro nos anos 1960. em mais de 800 páginas. apresenta. ainda no contexto da Rádio Nacional. da mineira Ana Maria Gonçalves. encontrei outras instâncias na época do sambaexaltação e da sobreorquestração do gênero no molde das big bands norte-americanas. como Francisco Alves.134 Revista Brasileira de Literatura Comparada. em 1933. n. numa narrativa que mescla testemunho. por sua vez.

objetivo e motivado. Um determinado valor ou sistema de valores pode perfeitamente ser objetivo (na medida em que ele independe da subjetividade particular de qualquer membro da comunidade interpretativa). Significa que a existência de profetas da queda do valor literário é tão antiga como a literatura mesma. um dos fundamentos que presidem a emergência da própria comunidade. Bastaria pensar no considerável poder de tração de valores como o mester de clerecía (a técnica aprendida na tradição) na literatura tardo-medieval hispânica. e continuaria sendo contingente. p. 179). A expressão-chave aqui. Da mesma forma. relativismo e contingência O axioma da filósofa Barbara Herrnstein Smith é um achado mais complexo e frutífero do que parece à primeira vista: o valor é sempre e necessariamente contingente (Smith. um dos elementos constitutivos da comunidade mesma. 30-53). A coincidência de contingências que conferem inteligibilidade a um valor pode ser. o fato de que em 1964 o poeta mexicano Octavio Paz tenha reunido uma lista de sinais de decadência da literatura não quer dizer que “a situação em que hoje vivemos foi claramente prevista” por ele (Perrone-Moisés. Um valor é sempre o resultado de uma luta mas. Nada disso mudaria seu caráter contingente. é “dentro da comunidade”. um valor pode ser absoluto. claro. uma vez consolidado. 1998.. esse valor contingente tenderá a aparecer aos membros da comunidade interpretativa como uma não-contingência.. a adequação aos modelos da Antiguidade na literatura . No espaço circunscrito da comunidade interpretativa em questão. é bom esclarecer que “contingente” não quer dizer “subjetivo” nem “relativo” nem “arbitrário”. inclusive. axiologia. p.Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. 1988. Antes que a patrulha antirrelativista afie suas garras. absoluto (posto que não relativizável dentro de tal comunidade) e motivado (no sentido de que sua origem não é produto de uma eleição puramente arbitrária). 135 idade do samba.

não pode ocorrer sem que o sujeito se instale em posição exterior a um consenso crítico que preside as comunidades interpretativas nas quais circulam esses textos. O grau de estabilidade de um determinado sistema de valores em sua respectiva comunidade não diz nada sobre sua suposta obviedade. a não ser como sinédoque cega a suas próprias condições de produção. A transcendentalização dos resultados de um pacto particular é uma estratégia comum e recorrente nas querelas entre escolas e estilos literários. no entanto. Em cada um desses casos.136 Revista Brasileira de Literatura Comparada. seria o hipotético leitor que adentrasse as comunidades interpretativas dentro das quais circula o romance dos anos 1930 para propor a tese de que Jorge Amado é superior a Graciliano Ramos. seja qual for a crítica que se possa ter à estética do realismo mágico. ou a inovação e a ruptura nas vanguardas de princípios do século XX. realizou uma transcendentalização de um processo que era imanente à comunidade valorativa em questão. de Isabel Allende. mas expressa a naturalização do pacto valorativo. nem sobre as propriedades intrínsecas do objeto valorado.15. mas ela não . Os juízos que se adéquam ao pacto valorativo dominante tenderão a ser lidos como confirmação da obviedade e naturalidade dos valores implícitos no pacto. 2009 neoclássica do século XVIII. com Cem anos de solidão. a justificativa de um valor contingente fez uso de um vocabulário da nãocontingência. Tomemos um exemplo latino-americano: é amplamente hegemônica a percepção de que. mas ela não é uma teoria da literatura e do valor estético como tais. especialmente na França. desfruta de um valor ausente em. no Brasil. A afirmação não está na esfera do indizível. ou seja. n. que afirmavam que o melodrama de Allende lhes falava à experiência de uma forma que a saga de García Márquez não fazia). Um exemplo análogo. Esse questionamento. particularmente leitoras. de Gabriel García Márquez. É claro que é possível questionar essa valoração (e já encontrei vários leitores. sua versão original. digamos. A casa dos espíritos. Os juízos discordantes tenderão a ser lidos como deficiência ou falta de cultura do sujeito valorador.

no interior de uma comunidade interpretativa. que insiste em igualar desconstrução e relativismo). Mas. com frequência. de forma alguma. Com esse axioma. 137 pode ser acomodada nos pactos valorativos dentro dos quais circulam os romances desses dois autores. 312). dê uma olhada no absolutismo de quem acusa. a acusação de relativismo invariavelmente remete a uma suposta tendência dos estudos culturais – ou das demonizadas feministas e afrocêntricos .. é o filósofo e poeta Antonio Cicero. Nietzsche ensinou algo acerca de como funcionam as operações de naturalização. valores de escravo. claro. que “daria tudo na mesma” (um dos expoentes dessa desleitura. ou seja. p. “piedade” e “humildade”. A posição que apresento aqui é. confundida com o bicho-papão do relativismo. Os defensores da naturalidade do pacto valorativo em geral replicarão com a falácia desenvolvimentista: o argumento de que a percepção minoritária é produto de uma deficiência do sujeito valorador e que. um relativista. 1967-77. todos reconhecerão que não há como negar a superioridade estética de García Márquez sobre Allende. A acusação de relativismo tenderá a se repetir quando. No caso do valor estético. que afirmaria que todos os valores seriam igualmente válidos ou. no Brasil. Nietzsche não foi.. Ele afirmou taxativamente que os valores socrático-cristãos são piores. não por acaso. uma vez que os leitores sejam educados direitinho. o neokantismo de princípios do século XX leu como “relativistas” afirmações do tipo “falar de justiça e injustiça em si carece de todo sentido” (Nietzsche. Nessas polêmicas. mais baixos. for exposta a contingência que sustenta um valor supostamente absoluto. A única possibilidade que restaria a esse hipotético leitor seria desvendar a natureza contingente da aparente naturalidade da valoração anterior. para usar a fórmula popular. vale sempre a regrinha: ao ver alguém ser acusado de relativista.Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. Nietzsche sugeria. Ao questionar a obviedade de valores como “bondade”. daninhos à afirmação da vida. questionar a totalidade do pacto valorativo. que não há “justiça” até o momento em que o mais forte estabeleça sua lei.

9/8). mas não prevê compassos que misturem de forma sistemática agrupamentos dos dois tipos. 3/4. volume. 2009 – de não aceitar a “óbvia” diferença de “qualidade” entre os grandes monumentos da modernidade e as formas estéticas mais populares ou massivas. temática das letras. tal “irregularidade” provinha do fato de que a teoria ocidental prevê compassos simples (binários: 2/4. Recorro à etnomusicologia. p. Aceitar essa diferença seria um pré-requisito para qualquer discriminação de valor. se essa distinção de valor não é aceita. instrumentação. timbre ou padrão rítmico – distinções incompreensíveis e ilegíveis para aqueles situados fora do pacto valorativo que preside o consumo do gênero. Ou seja. com pesquisa formal e etnográfica (Frith. rigorosas. a acusação de relativismo costuma pressupor que. grau de distorção. por exemplo. n. poderá testemunhar acerca da miríade de distinções de subgêneros baseadas em andamento. Ora. o heavy metal. passou a ser agrupado sob o rótulo de “música clássica”. que as distinções valorativas realizadas pelos fãs de música popular não são. performance. os estudos de música brasileira trabalharam com a noção de síncope como “irregularidade” essencialmente africana. a partir do século XX. 1996). O próprio Mário de Andrade faz referência a ela como característica “tida em geral como provinda da Africa” (1987. menos complexas. exatamente a mistura que . na qual me parece que o conceito de valor está colocado em terreno mais sólido. imanente entre o valor das obras agrupadas sob a rubrica da arte erudita e o valor daquelas que convencionamos chamar de populares ou massivas. Está demonstrado. 4/4) e compostos (ternários: 6/8. absolutamente.15. nenhuma distinção de valor é possível. vocalização. Para seguir com a analogia musical: durante décadas. 409). Carece de qualquer fundamentação filosófica a ideia de que a viabilidade do conceito de valor estético dependa da aceitação de uma diferença essencial. multifacetadas ou especializadas que aquelas feitas pelos ouvintes do heterogêneo corpus de peças europeias modernas que. Qualquer consumidor de música popular que acompanhe.138 Revista Brasileira de Literatura Comparada.

p. que não possa vir a fazê-lo num momento futuro). que inspirou uma geração de neovanguardistas estéticos e revolucionários políticos.. 26). uma “perfumaria free tax de aeroporto” (Abraham. dedicando-se exclusivamente a repetir seus velhos clichês e a responder às exigências estereotipadas de seu público” (Piglia. é hoje invariavelmente visto como “escritor para adolescentes” (Aira. Na Argentina. O fato é que hoje . “depois de Todos los fuegos el fuego já não escreveu mais. evidentemente. 39). Dois exemplos. para sua correta execução. Julio Cortázar. A chamada “irregularidade africana” não era senão a impossibilidade de que a partitura ocidental descrevesse apropriadamente o novo objeto. 2008) e “está escrito para candidatos de agência de turismo cultural”. O valor rítmico contramétrico era ilegível numa notação construída para descrever e privilegiar a harmonia. ajudarão a encaminhar a conclusão teórica. nos últimos trinta anos. 2006. 1993. 2001. irregulares (exigindo. A obra não parece ter renovado sua legibilidade depois daquele contexto (o que não quer dizer. a avaliação mais recorrente de Cortázar é que se trata de um escritor em cuja obra talvez se salvem os primeiros contos. 85). Na Argentina. o recurso gráfico da ligadura e o recurso analítico da contagem) – em uma palavra. p. como síncopes” (Sandroni. p. incluindose um que ilustra minhas críticas às revisões feministas. O resultado é que “ritmos desse tipo apareceram nas partituras como deslocados. 139 é uma das marcas da música da África subsaariana.Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. anormais. Os pactos valorativos na estética se tornarão visíveis em proporção direta à exposição do caráter contingente dos fundamentos que os sustentam. Uma determinada conjunção de fatores estéticos e políticos criou as condições para uma leitura celebratória de Cortázar nos anos 1960. Incontáveis são juízos contemporâneos que veem O jogo de amarelinha como romance que “sofreu enormemente a passagem do tempo” (Sarlo. de Bestiario. étnicas e pós-coloniais do cânone.. nota-se uma acentuadíssima queda no capital cultural de um escritor que chegou a ser considerado um dos maiores do continente. mas não muita coisa mais. 2001) que.

6 . resultado de 25 horas de gravações realizadas pela antropóloga franco-venezuelana Elisabeth Burgos. sobre a qual as revisões feminista. 2009 seria bastante difícil encontrar um estudioso de literatura na Argentina que colocasse Cortázar no mesmo patamar de. que o valor dos escritores na Bolsa Literária (segundo a feliz expressão de Leyla Perrone-Moisés) muda no tempo e no espaço.140 Revista Brasileira de Literatura Comparada. mesmo no caso das obras mais politizadas. na Espanha e talvez nos EUA. O testemunho havia recebido um primeiro reconhecimento em 1967. não quero me limitar a ilustrar o óbvio. Seguindo-se à Agradeço a Mariano Siskind pela interlocução sobre a perda de capital cultural de Julio Cortázar na Argentina e também pela citação de Beatriz Sarlo. uma vantagem do gênero em relação à literatura na representação dos excluídos. formada na luta contra os horrores do regime guatemalteco.6 Com o exemplo de Cortázar. de Miguel Barnet.15. gerou comentários acerca de uma suposta transparência da voz testemunhal. comoveu uma série de críticos de esquerda que buscavam alternativas a uma política literária herdada do boom. Juan José Saer. A publicação de Biografía de un cimarrón. publicou-se o testemunho de Rigoberta Menchú. Uma tese que se propusesse a comparar “o fantástico em Borges e Cortázar” é imaginável no Brasil. hoje soariam risíveis aos ouvidos dos que circulamos no interior dos pactos valorativos que presidem a circulação desses textos. comuns nos anos 1960. também latino-americano. como a de Cortázar. Um outro episódio de valoração. por exemplo. Há uma lição menos óbvia a se extrair daí. e a história de Menchú. como demonstra uma pesquisa nos bancos de dados da disciplina. oferece algo a ser pensado pelos dois polos do atual debate: a entrada do testemunho ao cânone literário. As comparações com Jorge Luis Borges. étnica e pós-colonial do cânone ainda não refletiram o suficiente: a incontornável descontinuidade entre valor estético e resultado político. n. quando Casa de las Américas criou uma categoria especial para o gênero em seu prestigioso prêmio. Mas na Argentina ela seria recebida como uma junção de termos incomensuráveis. Em 1983. Era o auge dos movimentos de solidariedade à revolução centro-americana.

camponês ou imigrante) e a posição do mediador (um intelectual.. nem um golpe ao poder “elitista” da literatura.Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. a ênfase nas mediações por meio das quais a voz testemunhal se registra na escrita e a análise da descontinuidade entre a posição do depoente (um subalterno. p. 2003. na aura de autenticidade da voz do subalterno (Moreiras. como chegaram a celebrar John Beverley e George Yúdice. George Yúdice opôs a literatura como “portadora privilegiada da identidade nacional” (1991.. p. . logo absorvido pelo pacto valorativo que preside a leitura do corpus latino-americano. A incorporação de depoimentos dos subalternos ao cânone não representou nem um assassinato de Cervantes e Borges pela barbárie iletrada. 51-104) relativizaram a “revolução” testemunhal que parte da esquerda anunciara nos anos 1980. A euforia levava a declarações como a de John Beverley. 141 publicação do testemunho de Menchú. O saldo do episódio da canonização do testemunho foi que o texto de Rigoberta Menchú produziu um impacto importante. ela funciona como explicação simples para o complexo quadro de perda de capital cultural da literatura. indígenas e proletárias” (1993. Para os primeiros. branco. em geral um antropólogo) levou a própria crítica a matizar a euforia do primeiro momento. masculino. Entretanto. o testemunho permite a emergência – mesmo que mediada – de identidades femininas. 26). p. Tanto esteticistas como culturalistas sobrestimam as consequências da revisão de uma lista de leituras. homossexuais. como chegaram a lamentar Roberto González Echevarría e outros expoentes da direita crítica latino-americana. de que enquanto a literatura na América Latina “tem sido (principalmente) um veículo para engendrar um sujeito adulto. no interior dos estudos sobre o testemunho. em geral indígena. mas limitado. patriarcal e ‘letrado’. 1992). 98). 20) ao testemunho como “expressão de uma consciência liberada de tal elitismo” (p. Estudos fundamentados no problema da mediação (Sklodowska. 2001) ou no papel do testemunho como recuperação imaginária de uma vocação política perdida na literatura (Avelar.

Recorde-se que. como se toda estética pressupusesse a noção de valor. nenhuma hierarquia do belo. sugiro rotas de dissociação entre esses conceitos. o conceito de valor [Wert] não aparece no contexto do estabelecimento da estética. o sexismo. Como se sabe. mas que todo mundo que o 7 . sendo vistos como contíguos entre si por esteticistas e culturalistas.. ao valor da existência humana (§4) e à necessidade do postulado da existência de seres racionais para que o mundo seja dotado de valor (§87). sim. Ou seja. então.] um poema bom. 2009 Para os segundos. a estética seria a esfera da experiência Que Antonio Cicero decrete que “quando digo que um texto é [. Ambos trabalham com o cânone. referências ao valor de um ato (§91). todas essas ocorrências se referem a uma esfera extraestética. A grande tarefa da teoria não seria. o etnocentrismo e a opressão de classe. Kant faz.142 Revista Brasileira de Literatura Comparada. no sentido mensurável. dedicado à comparação entre as várias belas artes (segundo Kant. Para uma genealogia do conceito de valor estético Os conceitos de valor e de estética terminaram. não há conceito de valor. mas introduzir algum espaço de respiração na interseção entre esses três conceitos. então. Mas não há. na Crítica do juízo kantiana. nenhuma atribuição de valor à beleza. mais inclusivas. para Kant. Para concluir.15. n. não estou dizendo meramente que gosto dele. a mais alta seria a poesia). na Crítica do juízo. A única menção ao valor num contexto estético ocorre em §53. o valor e a estética de forma a não permitir nenhuma descontinuidade entre os três termos. salvar a literatura ou democratizar o cânone. quantitativo que é próprio do conceito. Este é um fato filológico tão banal quanto regularmente esquecido: na origem da estética. como se estas representassem uma vitória política real contra o racismo. com observações acerca do que denomino uma concepção agnóstica de valor literário.. ou como se valorar obras de arte sempre implicasse que o juízo em questão fosse estético. funciona como mecanismo compensatório que permite a apresentação de novas listas de leitura.

apresentada como apreço que necessariamente demanda universalização. Esses traços ou potencialidades passarão a ser apresentados como característicos da experiência estética. p. Quando Cicero afirma que Barbara Herrnstein Smith. A frase não confere um atributo ao sentido. 230). mediados por . no qual atos de valoração socialmente situados entram em conflito. não torna essa distinção verdadeira.7 Por isso. Na verdade.. Todas as definições não econômicas de valor estético que tenham pretensões trans-históricas incorrem em versões mais ou menos sofisticadas de uma tautologia: define-se o valor como a presença de certos traços formais (sejam quais forem) ou a capacidade de produzir certas sensações. aqueles traços inicialmente definidos como característicos do estético! Não é à toa que os alunos não aceitam isso facilmente. o ônus da prova cabe a estes. “se digo ‘eu gosto de abacate’. Basta ler a analítica do belo (§6 a §22) para constatar que Kant o entende como objeto de um juízo de tipo. 143 desinteressada do belo. é pueril argumentar que não podemos afirmar que “o sentido não é eterno e unívoco” pelo fato de que essa frase supostamente teria um sentido eterno e unívoco. ele parece não ter se dado conta de que há um capítulo inteiro de Contingencies of value dedicado a refutar a objeção de que supostamente não se poderia afirmar que o valor é sempre contingente sem cair em contradição. p. não custa lembrar que o próprio pilar da analítica kantiana do belo – a demanda de concordância universal sobre o juízo – também embute um patente contrassenso. não há outro vocabulário que não o da economia.Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. No mundo real. Os enunciados falsificáveis evidentemente não se submetem às mesmas regras de verificabilidade dos não falsificáveis. 1998. concordância de todos. sim. jamais de grau. Quem afirma a contingência do valor não está conferindo ao objeto valorado um atributo que permaneceria no tempo. Ao propor que não há conceito não tautológico de valor estético fora da economia. exatamente como ocorre com o gosto do abacate.. ao propor a tese da contingência do valor. 8). “nem sequer se dá conta de que. que o valor estético de Grande sertão: veredas possa ser deduzido do preço da mercadoria comercializada pela Editora Nova Fronteira. Ou seja. Deixemos de lado o caráter escorregadio dessa premissa. ela se limita a apresentar uma negativa. em negociação e em articulação. considere desinteressadamente deve reconhecer” esse suposto fato e que. incorre em paradoxos que solapam suas próprias teses” (2009b.. por outro lado.. Em bom português: no debate entre agnósticos e crentes. Caso se apresente a objeção de que a impossibilidade de submeter o belo a fórmulas comparativas contraria todo o senso comum que desenvolvemos como consumidores de arte. não pretendo o mesmo” (2009a). Sugiro. não sugiro. ao dizer tais coisas. Decretar que estes últimos são maus leitores não resolve o problema teórico. já amplamente criticada pela tradição (a começar pelo próprio Hegel). remete-se o interlocutor à existência de obras que exibem. evidentemente. econômico. que esse valor se deduz num contexto eminentemente relacional. Ao enfrentar-se com a pergunta acerca de como se chegou a delimitar o terreno propriamente estético. sendo sua maior ou menor presença em cada obra o critério para sua valoração. não há que se repreender Barbara Herrnstein Smith por remeter o valor estético ao terreno da economia (Perrone-Moisés. incontáveis leitores dizem que “No meio do caminho” é um bom poema e outros incontáveis leitores dizem o contrário.

p. 1999. O conceito de valor. de rentabilidade limitada. entre fisiocratas e utilitaristas. a economia política em mais de dois milênios. O conceito da comparabilidade universal precede. pressupõe um transcendental. num processo que conforma um equilíbrio nunca completamente estável – o que venho chamando aqui de pacto valorativo. constante e permutável sob todos os céus e todos os tempos. qualquer que seja. É o próprio Marx que. 1992. O objetivo aqui não é traçar uma analogia entre o valor estético e o valor econômico. extrai sua origem do trabalho” (Foucault. que serve de fundamento a todas as outras trocas: “o trabalho é a real medida do valor intercambiável de todas as mercadorias” (Smith. na qual ele sempre teve sua morada mais sólida. 71). o trabalho. 581). É para esse fim que se introduziu o dinheiro” (1133a). A consolidação da teoria do valortrabalho. nas teorias imanentistas do valor estético. As genealogias da economia política em geral conferem a Riqueza das nações. que delimita uma região na qual a representação “não tem mais domínio” (Foucault. A economia . a imprensa e a crítica. n. Smith escapa da circularidade da equivalência universal das mercadorias ao dotar um conceito de um papel transcendental. 2009 instituições como a escola. pelo menos na economia política. dedicado à mercadoria. mas sim porque todo valor. 1992. mas justamente notar que há uma operação analógica silenciosa. vale a pena refletir sobre como a economia política entendeu o valor. Para compreender sua dinâmica. 270).144 Revista Brasileira de Literatura Comparada. de Adam Smith. Já está presente em Aristóteles a compreensão de uma diferença clara entre o valor de uso e o valor de troca: “todas as coisas que são trocadas devem ser de alguma forma comparáveis. portanto. dá o crédito a Aristóteles como o “primeiro pesquisador a ter analisado a formavalor” (1952. p. 269). no primeiro capítulo de Capital. ocorre não a partir do fato de que o “trabalho seja um valor fixo.15. p. o mérito da ruptura com a natureza circular do debate anterior. É o trabalho que lhes confere valor e explica a possibilidade de equivalência entre duas mercadorias distintas. com Ricardo. p.

à continuidade de sua circulação numa cultura particular. mas entender como e por que os poemas homéricos.Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. Repetidamente citada e recitada. 145 política sempre enfatizou. pelo contrário. e portanto sua permanência no tempo não se explica imanentemente: A permanência de um autor clássico como Homero se deve não ao valor supostamente transcultural ou universal de suas obras mas. claro. que a lei do valor-trabalho se aplica a objetos reprodutíveis. Atesta-o a célebre observação de Marx na introdução aos Grundrisse. Na ausência desse transcendental. a teoria do valor depende de um transcendental. A manutenção do valor de uma mercadoria ao longo do tempo se explica pelo fato de que ali se aninha uma quantidade determinada de trabalho que mantém alguma tradutibilidade (com as naturais oscilações que serão fruto das próprias variações no valor do tipo de trabalho que se encontra ali congelado). Na economia. produtos do que ele chamou de “infância da humanidade”. traduzida. ainda nos fascinam e mantêm sua legibilidade.. mas o prolegômeno da pesquisa. e que o cálculo do valor da mercadoria como quantidade de trabalho socialmente necessário para a sua produção não se aplica a objetos estéticos. Haveria que se estudar o que. p. o trabalho. Evidentemente.]. essa observação não é o fim. 1998.. e pode assim realizar várias funções para nós (Smith.. O trabalho que produz a obra de arte não é traduzível. . a teoria do valor estético só pode definir o valor imanentemente a partir das operações circulares descritas acima. não muito diferentes das equivalências universais tautológicas dos economistas anteriores a Adam Smith. lecionada e imitada. essa altamente variável entidade à qual nos referimos como “Homero” recorrentemente entra na nossa experiência em relação com uma grande variedade de nossos interesses. e completamente inserida numa rede de intertextualidade que continuamente constitui a alta cultura [.. 52-53). de que o mistério não era explicar que a arte grega emergiu como produto de circunstâncias históricas particulares próprias à sociedade helênica.

2001). 2009 em cada situação e contexto. como a recente antologia de escritos de Machado de Assis sobre a afrodescendência realizada por Eduardo de Assis Duarte (2007). Acredito que ainda sabemos pouco sobre o papel das antologias. como os relatos de viagem (Süssekind. 1991). Para além do lamento de que a internet é responsável por uma queda na qualidade e na frequência da leitura das novas gerações – queixa jamais fundamentada com pesquisa empírica e agora patentemente desmentida (Castells. 2009) –. de Manuel Bandeira (1963) a Italo Moriconi (2000.15. n. uma série de novos escritores faz uso das tecnologias de publicação online para circular seus textos e manufaturar concepções emergentes de valor literário. . as pesquisas de Flora Süssekind sobre as relações da literatura com outros discursos. 1996. 1990) ou as tecnologias da reprodução (1987). No caso do debate sobre o valor que tem se desenvolvido nos estudos de literatura brasileira e latino-americana. academias e intertextos lhe atribuíram ao longo dos anos. a valiosa sequência de pesquisas feitas por Marisa Lajolo e Regina Zilberman sobre a história da leitura e do livro (Lajolo e Zilberman. permitiu que cada obra realizasse as funções que os vários leitores. ganharíamos terreno se o dissociássemos da polêmica entre o culturalismo e os defensores do “cânone ocidental” e o remetêssemos a todo o vasto material que pode informar uma futura história da construção do valor literário no Brasil: o erudito mapa traçado por Raúl Antelo do ideário da transgressão na modernidade (Antelo. instituições. escolas. na conformação do sistema de valores literários brasileiros. O postulado da contingência essencial do valor só abre um espaço de relevância ainda maior para essas pesquisas. para não mencionar mais que alguns exemplos. 2001). 1991. 2001). a recuperação de facetas pouco exploradas dos escritores mais canônicos.146 Revista Brasileira de Literatura Comparada. o estudo de Roberto Ventura sobre as polêmicas literárias. essas verdadeiras máquinas de produção e destruição de valor (Ventura. A história da profissionalização do escritor e das suas relações com a imprensa e com o mercado ainda nos oferece vastas zonas de pesquisa não realizada.

ANDRADE. Manuel (Org. César. The Western canon: the books and school of the ages. Poesia do Brasil. Against literature. BEVERLEY. Roberto. 147 Estabelecer com a valoração uma relação menos essencialista e mais agnóstica não implica que o crítico deixará.Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. 37-45. 1987. Nova York. Alegorias da derrota: a ficção pós-ditatorial e o trabalho do luto na América Latina. Referências ABRAHAM. São Paulo: Martins. Barcelona: Anagrama.metacafe. Entrevista de Francisco Ángeles a César Aira. 1941. 2666. Significa que não se confundirão esses juízos com uma teoria geral do valor. Transgressão e modernidade. Rolf Tiedemann e Hermann Schweppenhiuser. n. Nicomachean ethics. Walter. Tomás. 1 e 2. AIRA.). 2003. The basic works of Aristotle. Harold. Acesso em: 15 dez. D. Gesammelte Schriften. Porto Alegre: Editora do Autor.. p.). Passagen-Werk. Frankfurt am Main: Suhrkamp. John. In: MCKEON.-ago. BANDEIRA. Ross.com/watch/3437882/ entrevista_a_c_sar_aira_1_de_2/>. W. No horizonte imenso aberto por esta última. Cuadernos Hispanoamericanos.. v. 1994. AVELAR. Belo Horizonte: UFMG. Idelber. Impresiones de los autores que se fueron. BOLAÑO. 2009. Trad. jul. 927-1112. Mário de. 1993. Disponível em: <http://www. as querelas sobre o cânone ocidental talvez não passem de uma nota ao pé de página. . de exercitar os juízos de valor que são uma inevitabilidade da própria prática crítica. San Diego e Londres: Harcourt Brace. ARISTÓTELES. 2004. Richard (Ed. Ponta Grossa: UEPG. em situações e contextos específicos. Nova York: Random House. 1972-1989. BENJAMIN. p. 1963. BLOOM. ANTELO. Ed. 2001. A melodia do boi e outras peças. Minneapolis e Londres: University of Minnesota. Raúl. 2006. 673-674.

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we intended to create an ideological relationship between the American students who took the course and not only the Brazilian literature but also the Brazilian context. . de Marina Colasanti. These experiences were done with American Students from the University of North Carolina at Chapel Hill (UNC-CH). de Nélida Piñon. educação. By using a theater method based on the Augusto Boal’s Theater of the Oppressed. as a means of dealing more efficiently with some issues presented by our literature and which directly concern texts by women authors. menina de vermelho a caminho da lua. Aqui se propõe uma avaliação de exercícios a partir da leitura de I love my husband. em especial textos escritos na segunda metade do século passado.151 O ensino de literatura brasileira por meio do Teatro do Oprimido: uma experiência na Carolina do Norte Érica Rodrigues Fontes* resumo: Este trabalho analisa experiências no ensino de litera- tura brasileira realizadas com alunos estadunidenses da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill (UNC-CH). de Augusto Boal. de Clarice Lispector. de forma a lidar mais eficientemente com algumas questões apresentadas em nossa literatura e que concernem diretamente textos de autoria feminina. Ao utilizarmos um método teatral baseado no Teatro do Oprimido. Marina Colasanti’s little Girl in Red on her way to the moon and Clarice Lispector’s the Hour of the star. ∗ Brazilian literature. especially texts written during the second half of the last century. abstract: This paper analyzes experiences with the teaching of Professora adjunta de língua inglesa (Graduação) e de literatura (Mestrado em Letras) da Universidade Federal do Piauí (UFPI). Teatro do Oprimido. Here I propose an evaluation of the exercises done based on the reading of Nélida Piñon I love my husband. pretendemos criar uma relação ideológica entre os alunos americanos e não só a literatura brasileira. mas o contexto brasileiro. palavras-chave: literatura brasileira. e a hora da estrela.

De fato. como afirma Linda Hutcheon (1999). Eles mostram a vida como representada pela ideologia. ao selecionar textos para leitura e debate em sala. Muito mais do que o ensino de movimentos literários. Minha tradução. a uma exposição sobre a história e política brasileiras. Portanto. no contexto estadunidense. Assim. education. com a interpretação brasileira de mundo. embora neste país da América do Norte exista muita exposição à cultura de outros países. tal ligação se torna indispensável. percebi dois pontos de interesse comum das culturas e literaturas estadunidense e brasileira: as minorias políticas e as questões identitárias. a ideologia é a própria representação da cultura. p. Nos Estados Unidos.152 keywords: Revista Brasileira de Literatura Comparada. é em sua temática que nossa literatura parece ser mais enriquecedora quando pertencente a um currículo estrangeiro. procurei priorizar esses dois temas. Houve. 2009 Brazilian literature. Introdução Ensinar literatura brasileira no exterior (e para estrangeiros) está obrigatoriamente atrelado a uma experiência cultural. Theater of the Oppressed. Depois de ensinar em cinco turmas de graduação a matéria Literatura Lusófona na Carolina do Norte. os textos escolhidos foram considerados representativos da ideologia brasileira contemporânea com atenção para os temas supracitados. e por ater-me principalmente ao ensino das obras escritas no Brasil. criar para os alunos possibilidades de interação com a mentalidade brasileira. 1987. torna-se um compromisso do professor de literatura brasileira. 24). pois.15. não há de fato acesso à perspectiva ideológica de outras nações. Como afirma Leonard Davis: “Novels do not depict life. 1 . uma preocupação com a criação de uma estratégia de relacionamento entre a nossa realidade e a realidade do país onde a nossa está Romances não mostram a vida. pois. they depict life as it is represented by ideology”1 (Davis. n. métrica ou outros assuntos de interesse da literatura. portanto.

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sob estudo, pois, embora muitas vezes essa ideologia esteja clara para um nacional da literatura lida, para o estrangeiro ela precisa ser apontada. Como exemplo, cito um momento de debate sobre a personagem Macabéa do romance A hora da estrela, de Clarice Lispector. Para os alunos do curso, em sua maioria nascidos em um contexto rural como o da Carolina do Norte, era quase impossível entender a condição tragicômica dessa personagem, pois ela está inserida em um contexto urbano, onde mora longe de seu estado de origem, com pessoas desconhecidas. Os fatos engraçados que acontecem na vida de Macabéa são gerados pela sua estranheza, pela sua falta de adaptação à sociedade, sua marginalidade. Se nos EUA a principal razão para os jovens saírem de sua terra natal é estudar em uma boa instituição, no Brasil o principal motivo para o êxodo jovem tem razões muito diferentes: a fuga da fome, da miséria e da pobreza. Para os alunos norte-americanos, portanto, entender o comportamento de Macabéa tornava-se difícil. Eles consideravam-na simplesmente um ser humano desprovido de inteligência e, então, digno de risadas e deboche. Foi preciso comparar a situação dessa personagem com uma vítima da pobreza, fome e desastres naturais no estado do Mississippi (o mais pobre dos Estados Unidos) para que os alunos entendessem a tragicomicidade da obra. Muito provavelmente pela dificuldade de localizar pontos de interseção entre as duas culturas é que outros instrutores do curso supracitado haviam detectado que a participação dos alunos nas discussões era bastante inferior às suas expectativas e que as atividades, em muitos casos, eram desinteressantes para os discentes. Foi principalmente por causa do aparente desinteresse dos alunos pela disciplina que resolvi implementar em minha aula de literatura exercícios de teatro para posterior montagem teatral e um segundo momento de discussão. A metodologia escolhida foi a do Teatro do Oprimido, objeto de minha pesquisa de doutorado.

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O projeto relatado neste artigo teve por objetivo a melhor absorção de conteúdos literários pelos alunos de literatura de graduação de diversos cursos da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill (UNC-CH). Realizado de agosto de 2004 a julho de 2006, ele revela experiências ocorridas nas turmas de Português 40 (Introdução à Literatura Lusófona), das quais fui instrutora, enquanto aluna de mestrado e doutorado na UNC-CH. Neste artigo, analiso exercícios teatrais desenvolvidos a partir de três textos brasileiros de autoria feminina: I love my husband, de Nélida Piñon, Menina de vermelho a caminho da lua, de Marina Colasanti, e A hora da estrela, de Clarice Lispector. Os textos foram analisados e encenados a partir de traduções inglesas das obras, nos moldes do Teatro do Oprimido e principalmente do Teatro Fórum (técnica de Boal para discussão de problemas sociais no palco, a ser explicada a seguir, juntamente com sua adaptação para a aula de literatura). Por meio dessas técnicas e de sua adaptação para as aulas, os alunos se colocam no lugar de personagens brasileiros, discutem a resolução do seu problema e depois trazem algumas situações para o contexto estadunidense, ao debater ou analisar problemas equivalentes nas duas Américas ou, mais especificamente, nos dois países. Há pelo menos dois fatores que favorecem a utilização do método teatral de Boal nessa aula de literatura: a ideologia sob a qual os textos tratados foram escritos (condição subalterna da mulher e a sua necessidade de liberação) e o fato de o Teatro do Oprimido ser um tipo de teatro que tem como proposta final a discussão de problemas sociais. Esses textos traduzem opressões contemporâneas vivenciadas no Brasil e que têm equivalentes na sociedade norteamericana, ainda que estes não sejam divulgados. Assim, descreveremos como foi proporcionada essa ligação entre a identidade norte-americana e a identidade brasileira para o ensino de literatura brasileira, visando exclusivamente a um melhor aproveitamento literário e cultural dos alunos,

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originado por uma maior convivência com as obras, por meio do envolvimento teatro-lúdico. Neste artigo me concentrarei no resultado concernente ao trabalho desenvolvido com os textos supracitados. As duas últimas obras foram estudadas no final do semestre, indicando um envolvimento mais profundo dos alunos com a metodologia.
As observações descritas a seguir foram feitas a partir das experiências de sala de aula e baseadas nas ideias retiradas do livro Técnicas latino-americanas de teatro popular, de Augusto Boal. Os seus métodos teatrais, mais divulgados com a publicação do livro Teatro do Oprimido, ocorrida no início dos anos 1970, ficaram conhecidos em todo o mundo e priorizam uma participação mais ativa do espectador, que vai além do modelo observador e consciente apresentado pelo dramaturgo alemão Bertolt Brecht.2

Walter Benjamin explica que, no teatro épico de Brecht, priorizam-se a crítica social e a interrupção da ação dramática (os momentos narrativos são exemplo dessa interrupção) para reflexão sobre a crítica encenada. O público, porém, não participa do espetáculo ativamente. No teatro de Boal, diferentemente, o público pode interferir diretamente na ação, encenando suas sugestões, ainda que sob a supervisão e orientação de um diretor, o Curinga.
2

É no Teatro Fórum, uma das técnicas do Teatro do Oprimido, em que há o incentivo à discussão de problemas sociais, que a participação da plateia pode ser mais claramente notada. Neste modelo de teatro, a primeira parte de uma peça é tradicional (com a separação entre público e atores), se dá em aproximadamente 30 minutos e apresenta pelo menos um problema ou erro em cada cena. Por erro entende-se uma situação social de opressão, sendo o erro, portanto, cometido pelo opressor e também por uma falta de postura mais libertária do oprimido. Na segunda parte da peça, que é introduzida por um Curinga, espécie de diretor teatral, perito na metodologia de Boal, o objetivo do público é, então, tentar consertar ou remediar o erro. O Curinga indica para a plateia que as cenas poderão ser modificadas por meio da substituição do oprimido (de acordo com a ideologia do Teatro do Oprimido, somente o oprimido pode ser substituído), com quem a plateia é levada a se identificar. Muitas vezes ela (plateia) até tem uma história que já auxilia esse processo, visto que muitas das peças são apresentadas em edifícios públicos, tais

não há muito que o oprimido possa fazer a respeito. prepara tortas de chocolate. que divide a sociedade no binário oprimidoopressor (equivalentes ao protagonista e antagonista. 2009 como escolas. de acordo com o Teatro do Oprimido. o sistema social não testemunha uma frequente mudança na atitude de pessoas que fazem o papel de opressores. feito por ele e mostrado para ele. Quando o opressor é modificado. usei a ideia geral do Teatro do Oprimido. já que a plateia é inicialmente incentivada a identificar-se com o oprimido. não é a substituição do opressor que modificará ou ensaiará uma modificação social. Passemos então a um breve relato das experiências que. o teatro do oprimido em I love my husband Nas aulas mencionadas. Comecemos com I love my husband. evita falar de amor com ele porque há. ao substituir o opressor. sugerir uma interpretação mais profunda destes. a plateia tenta modificar uma postura sobre a qual não tem nenhuma influência no dia a dia. pois estes. postura justificada pelo fato de que o Teatro do Oprimido é do oprimido. deve mudar para que. na concepção deste. então.15. Além disso.156 Revista Brasileira de Literatura Comparada. consequentemente. respectivamente) para estudar as relações presentes nos textos e. As exceções com relação à substituição ocorrem somente no caso de o opressor tornar-se ainda mais cruel em sua opressão. hospitais e prisões. a partir de então. Nesse conto. n. e retratam os contextos socialmente carentes do espectador. Ou seja. o sistema mude a seu favor. temos o retrato de uma mulher que é praticamente escrava de seu marido: faz para ele café todos os dias. serão perfeitas ilustrações de como a leitura de um conto ou outro tipo de texto literário pode ser enriquecida com este método. por si só. lentamente. porém. com protagonistas que querem mudar a sua história de vida. tendem a permanecer iguais. A atitude daquele que é vítima de opressão. muitos outros . pois não é esse o papel que faz e.

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problemas que merecem mais atenção, como, por exemplo, a situação econômica do país. Esta mulher, completamente submissa a seu marido, segue mecanicamente as ações que são esperadas dela como uma boa esposa: está feliz quando ele chega em casa às sete da noite e tenta reclamar cada vez menos do seu serviço de casa. No final do conto, relembra os votos de seu casamento e conclui que, sim, ama seu marido, embora o que ela relata seja digno do sentimento oposto. Após a leitura desta obra, houve um debate sobre a literatura de autoria feminina nos anos 1980 como reacionária à predominância de textos de autores masculinos até pouco tempo antes dessa década. Depois de traçarmos um breve painel sobre a liberação da mulher e sua repercussão na literatura, comentamos o conto propriamente dito. Com relação a esse texto, pedi aos alunos que fizessem um exercício anterior à identificação do opressor e oprimido da obra, normalmente o primeiro passo para aplicação da metodologia de Boal. A turma foi dividida em duplas e pedi a elas que escolhessem o momento que demonstrasse uma intensa emoção e que exagerassem essa emoção em uma cena teatral. Por termos pouco tempo para apresentar esse exercício, apenas três cenas foram mostradas para toda a turma, após um curto período de prática, e merecem atenção particular. Na primeira cena, uma aluna se comportou como uma guerreira, gritando e portando-se ferozmente. Revelou-se então sensual e bela durante a ausência de seu marido. Essa cena levou-nos a debater sobre o caráter frustrante do cárcere privado da esposa do conto, combatido em sua vida onírica. A segunda cena mostrou um marido mais agressivo do que o descrito no conto, o que exigiria uma postura mais firme de sua mulher para que esta pudesse ter uma vida mais digna. A última cena mostrou a esposa literalmente como uma escrava, absolutamente dominada pelo marido e impossibilitada de mover-se por si só. Depois desses exercícios, discutimos a natureza da opressão nesse conto e chegamos à conclusão de que ela

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é proveniente do machismo e da condição subalterna da mulher, muitas vezes aceita por ela mesma passivamente. No texto, a liberação dessa dona de casa acontece somente em um mundo fantasioso, quando ela se mostra uma amante selvagem, cercada por javalis e pelo Clark Gable. Posteriormente, as duplas definiram o opressor e o oprimido, encenando suas adaptações de I love my husband. Uma das duplas mudou o final do texto, sendo o marido vítima de homicídio. Nessa adaptação, a mulher se mostrou falsamente mais solícita e amável do que no conto, o marido se mostrou mais agressivo e inconformado com a mulher e o homicídio aparece como resolução óbvia, embora não seja esse o objetivo do Teatro do Oprimido, que quer fornecer para o público, por meio do teatro, os meios para que o problema seja examinado, e não sua resolução.

o teatro do oprimido em Menina de vermelho a caminho da lua
O segundo texto em questão, Menina de vermelho a caminho da lua, trata do universo infantil pervertido pela desigualdade social. O título alude à cor da roupa de uma menina de aproximadamente dez anos de idade que intenciona brincar em um parque de diversões, mesmo não tendo dinheiro para isso. A história inicia-se com a mãe de duas meninas contratando um narrador a partir de um anúncio de jornal para relatar o episódio do pseudoencontro entre ela e a menina de vermelho. Embora a mãe prefira uma mulher para narrar a história, tem de aceitar um homem, única pessoa que responde ao anúncio, requerendo que ele use roupa de mulher para ver se, de alguma forma, terá uma atitude mais feminina. Assim, o homem escreve todo o tempo vestindo uma saia rosa e um lenço na cabeça, e com pouquíssima autonomia, pois a mulher se declara detentora dos fatos, fazendo com que sejam narrados segundo a preferência dela.

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O conto narra a ida dessa mãe com suas duas filhas a um parque de diversões em um sábado e, principalmente, seu encontro com a realidade de uma menina de rua de dez anos de idade que, por não ter dinheiro para andar na mesma atração que suas filhas (uma bolha, espécie de pulapula), insinua-se sexualmente para o homem responsável pelo brinquedo para poder brincar de graça. O estilo do texto descreve o erotismo e a sexualidade precoces de uma pré-adolescente que usa seu corpo como meio de adquirir aquilo que ela não pode com dinheiro. Verbos que aludem à experiência sexual (“penetrar” e “perfurar”, por exemplo) são uma constante em todo o texto, usados mesmo quando não descrevem momentos sexuais. Quando acaba o sábado e essa menina descalça vai embora, sendo observada pela mãe das duas meninas, sua figura juvenil mancha o ar de vermelho (referência à cor de sua roupa), indicando, muito provavelmente, a perda da inocência e o ingresso em um mundo cruel para os desprovidos de bens materiais. Na discussão inicial, vários foram os pontos levantados a respeito desse conto. Nele, há uma menina que precisa utilizar-se de táticas sensuais e até sexuais para conseguir o que a falta de dinheiro não lhe proporciona, um homem sem voz e submisso a uma mulher (na figura do narrador) para quem trabalha e a discrepância social entre as filhas da mulher que contrata o narrador e a menina de vermelho no parque. Não podemos deixar de falar também da omissão dessa mulher em relação à situação da menina de vermelho e da literatura como canal de reação social, pois é ela o meio que a mulher usa para tornar a sua história pública e passível de crítica. Os alunos mostraram-se surpresos principalmente em relação à prostituição infantil que, nos EUA, não é tão visível ou noticiada quanto na América Latina. Como lemos uma tradução para o inglês intitulada Little girl in red on her way to the moon, o fato de a menina usar de artifícios sexuais se torna ainda mais desconcertante, porque ela não é apenas uma menina. Na tradução inglesa, ela é uma menininha, o que acentua ainda mais a pouca idade

Nesse ponto. existem outras opressões: a opressão pela qual passa a mãe das duas meninas. no entanto. O resultado dessa pesquisa foi apresentado individualmente na aula imediatamente posterior. mas foi necessário indicar para eles a drástica diferença entre sensualidade e prostituição como meio de sobrevivência. normalmente temos acesso a diversas interpretações de uma mesma obra. Em alguns momentos. também existe prostituição infantil em grande quantidade nos EUA. Por conta da alusão da história à prostituição infantil. n.15. que muitas vezes assumem uma vida com hábitos adultos antes mesmo de chegarem à adolescência. que contrata um narrador para a sua história. Embora tenhamos a menina de vermelho como protagonista e possivelmente a única apontada como oprimida na leitura inicial. chegou o momento de aplicar a metodologia de Boal ao texto. Há a opressão do homem contratado para narrar a história travestido de mulher e sem a possibilidade de expressar a sua voz. . Para a surpresa de muitos. Após a discussão da obra literária e apresentação de sua crítica social. A turma foi dividida em seis grupos. exatamente para desabafar e se eximir da culpa de não ter feito nada para ajudar uma menina da idade de suas duas filhas. os alunos questionaram a sensualidade precoce da cultura latino-americana. onde há crianças de rua em maior quantidade.160 Revista Brasileira de Literatura Comparada. de aproximadamente cinco componentes cada. o que independe da idade. Esse resultado confirmou a incidência da prostituição infantil nos países em desenvolvimento. pois esta é da mãe das meninas (uma inversão da opressão à qual normalmente as mulheres são submetidas). comumente atingindo as crianças de rua. O primeiro passo para o trabalho em grupo foi definir onde havia a opressão no texto ou quem era o oprimido e estava lutando pelo seu lugar na sociedade. os alunos foram motivados a buscar informações a respeito do tópico e descobrir a situação desse crime em vários países. principalmente nas regiões menos desenvolvidas. 2009 de um ser humano já iniciando na prostituição.

uma situação encenada na aula (uma adaptação do texto original) por um desses dois últimos grupos demonstrou as agruras de um menino que fora expulso de um orfanato e começou a se prostituir como resultado do preconceito social. 161 Assim. Esta é provavelmente uma das poucas casas comerciais que nunca fechou as portas nesta cidade. pois também nisso via-se uma falta de liberdade para que essa mulher expusesse seu ponto de vista livremente. As diversas interpretações da opressão mostradas no conto motivaram debates sobre a origem da opressão sexual e sobre o que favorece a sua proliferação dentro do sistema no qual vivemos. Ao lidarmos com a metodologia de Boal. Outros dois grupos preferiram falar da menina de vermelho e da precocidade de suas ações por conta de sua situação social. como é o caso de Chapel Hill. Houve. Assim. surpreendentemente.. talvez aludindo ao que historicamente acompanhou (e muitas vezes ainda acompanha) a trajetória da mulher no Brasil. Depois de uma longa discussão a respeito da prostituição local. salientando o fato de que são oprimidos todos os que agem sem ter autonomia sobre suas ações.. onde esta discussão específica ocorreu. Um dos grupos acentuou a opressão à qual foi submetido o narrador. os objetivos são claros: identificar a opressão e criar meios para que o oprimido tenha voz para lutar contra ela. Outro grupo chamou atenção para a angústia da mãe ao narrar a história por meio desse homem.O ensino de literatura brasileira por meio do Teatro. Nessa cidade universitária de uma área abastada dos Estados Unidos. o sistema social . os seis grupos mostraram diferentes facetas da opressão em Menina de vermelho a caminho da lua. uma discussão sobre quem sustenta a prostituição em países desenvolvidos e em cidades universitárias americanas. vimos que. pois. há um local que está aberto 24 horas por dia: o University Massage. muitas vezes. onde sempre se deve utilizar a porta traseira (conforme aviso fixado na porta). a opressão a ele não passou despercebida no conto. porque ao sair do orfanato ninguém lhe deu emprego. E os últimos dois resolveram falar do homem como vítima da prostituição infantil. como vimos.

à semelhança de outros de seus contos e romances. A partir daí refletimos sobre o que pode ser feito para minimizar esse poder opressor. M. coincidindo com o final da vida de Lispector. A personagem de Clarice em seu romance final é quase subumana. Embora ele tenha sido escrito e publicado antes de Menina de vermelho a caminho da lua. uma vida estranha. onde se veem quase como em um espelho. sendo esta mantida por pessoas instruídas e ricas. para dar início e fim a sua protagonista. Olímpico. Talvez por isso a história de Macabéa seja mais trágica para . seu namorado. Em A hora da estrela. mas nem um pouco irreal para aqueles que conhecem a população brasileira.15. esse romance pretende entender a própria existência. poder concedido por ela a Rodrigo S. a autora deixa o universo da alta classe média para penetrar no mundo marginal e excluído do nordestino que se muda para o sudeste em busca de uma vida melhor. sua extensão e diversidade temática explicam a preferência por estudá-lo no final do curso. de Clarice Lispector. colocando-as quase como um objeto em suas próprias residências.162 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Em vários momentos. nome que remete aos revoltosos macabeus. um namorado estranho. Lispector divaga sobre o poder do autor ao dar vida e matar. Isso se torna óbvio quando lemos a respeito do primeiro encontro dos dois. pois reconhecem um no outro sua origem e trajetória de vida. o teatro do oprimido e A hora da estrela O próximo texto em discussão foi o romance A hora da estrela. que é aludida quando a autora utiliza-se de questões de autoria no romance. Nessa obra. Juntamente com Um sopro de vida. em 1977. Embora sua protagonista seja novamente uma mulher com o nome estranho de Macabéa. Clarice Lispector não mantém o foco em suas protagonistas donas de casa dominadas por um sistema que subjuga a mulher. 2009 sustenta a prostituição. n. Mas o foco é mesmo a moça virgem que bebe coca-cola e tem um nome estranho. também é tão excluído quanto ela.

sobre alguns questionamentos da moça. mas nunca sabe as respostas para as perguntas de Macabéa. da protagonista às coadjuvantes. muito mais por parte de Olímpico do que de Macabéa. Até quando ela pede que ele compre um café para ela. para ver o que a aguarda no futuro. E. afirma que as respostas não são apropriadas para uma moça virgem como ela. E é Carlota que prevê um futuro brilhante para Macabéa.. Diz que Macabéa só faz perguntas tolas e. as mulheres estão todas em uma situação de opressão social. Seu namorado a trata mal do início ao fim do relacionamento. colega de trabalho de Macabéa. se for o caso. ele nunca assume sua ignorância em relação às respostas. ex-prostituta e agora cartomante. namorado. há um interesse maior nos tópicos relacionados à mulher. mas para os dois grupos a história sempre mantém seu quê de tragédia e comédia.O ensino de literatura brasileira por meio do Teatro.. ao pedir por açúcar. pois esta sempre se desculpa por erros que ainda nem cometeu. entre outros) indicam que a protagonista é uma vítima social. Sua hora de brilhar só acontece mesmo no momento da morte. a própria Glória sugere a Macabéa que vá à casa de Madame Carlota. mulher mais encorpada do que a colega nordestina e também mais provocante e sensual. O mais interessante no relacionamento dos dois são os diálogos. 163 os que a leem no Brasil e mais engraçada para os que a leem fora do Brasil. Isso porque. Após uma breve exposição sobre o romance e a discussão inicial a respeito da obra com as turmas. Olímpico afirma que ela pagará a diferença de preço. Olímpico a troca por Glória. pois Olímpico se julga inteligente e vencedor. Na verdade. decreta o fim do relacionamento. recebe uma resposta grosseira. O direito de protestar e Uma saída discreta pela porta dos fundos. O título e seus vários subtítulos (A culpa é minha. A difícil convivência dos dois. Logo depois. o que não ocorre em vida. colegas de quarto e de trabalho demonstra que ela é vista quase como um animal. O tratamento ao qual é submetida Macabéa pelo chefe. pois a protagonista morre em seguida. desprovido de qualquer capacidade in- .

outra mulher de destaque na obra. a colega estenógrafa de Macabéa. A minha escolha se dá ao fato de que esses quatro grupos trataram de situações e de personagens diversos. embora exagerando a agressão verbal à protagonista. Como a turma fora dividida em dez grupos de três componentes cada. chamando-a de feia. agride Macabéa. embora muitas vezes a capacidade intelectual da personagem não motive nenhuma pena ou simpatia. No entanto. Ao passarmos para a leitura da obra sob a perspectiva do Teatro do Oprimido. Os dois atores usaram maquiagem e figurino similares e os diálogos chamaram atenção .15. pois os homens são agressivos e ela não está preparada para isso. pois sempre indaga sobre aquilo que quer saber. Mas os personagens mantiveram a sua essência: enquanto Macabéa se achava a principal culpada pela impaciência de Olímpico e de tudo de errado que acontecia. que nunca fique só. houve preferência para uma encenação do relacionamento entre Macabéa e Olímpico. é um objeto sexual. O segundo grupo mostrou Olímpico e Macabéa como pessoas quase semelhantes. situação explicável pelo seu contexto. pratica um trabalho mecânico (datilografia). ele se manteve como o político do futuro que venceria todo e qualquer obstáculo. n. pois quase não frequentou a escola. E.164 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Glória é o que é por causa do outro. Sua sensualidade cultivada tem o único objetivo de fazer com que ela sempre seja admirada e amparada por um homem. ouve ópera e escuta a informativa Rádio Relógio. sugere a Macabéa que se envolva com uma mulher. O primeiro grupo focou os diálogos de Olímpico e Macabéa. Glória. 2009 telectual. que nem executa muito bem. muito provavelmente pela clareza da opressão. como apontado por Peggy Phelan (1993). o fato de que Macabéa gostaria de conhecer mais o mundo não pode ser negado. por causa de sua preocupação com a aparência. procederei ao relato das experiências de apenas quatro grupos. Madame Carlota. Esse exagero é muitas vezes necessário para que a opressão se torne visível.

ela quer ser estrela de cinema) e a exclusão social na qual vivem. O próximo grupo salientou a esdrúxula competição de Glória com Macabéa porque. que necessitam trabalhar sua sensualidade de acordo com o que é esperado pelos homens para se sentirem incluídas na sociedade. sendo as duas consideradas oprimidas socialmente. embora na história Glória seja mais desejada pelos homens do que sua colega nordestina. 165 para os pontos em comum que já aparecem no romance: origem. Enquanto Madame Carlota teve de se prostituir para sobreviver quando jovem. estilo de vida. há na América Latina uma tendência cultural ao subjugo do feminino pelo masculino e o machismo é muitas vezes também percebido em mulheres como Glória. expectativas (se ele quer ser político. ela está muito longe de atingir o padrão de beleza da mídia: a cor de seu cabelo é falsa. Para todas as obras descritas acima. Semelhantemente às peças do Teatro Fórum. . além de não ser uma boa datilógrafa. embora vítimas de opressões de naturezas diferentes. pois. no preconceito regional e no machismo da sociedade. na encenação Madame Carlota foi mostrada como a voz social que indica a pouca esperança para jovens como Macabéa.. Mesmo que uma personagem não oprima a outra. os passos seguidos foram escrever e encenar trechos das obras literárias sem. apresentar uma solução ao adaptá-las. no entanto.. embora esses problemas não sejam exclusivos do Brasil. dificilmente conseguirá outro emprego que sustente as suas já tão básicas necessidades. É ela quem faz soar a voz que exclui os feios. suas roupas são bregas e seus namorados são todos do naipe de Olímpico. o objetivo das encenações na sala de aula era o clímax do conflito. pobres e marginalizados. pois são nordestinos morando na zona mais nobre do Rio de Janeiro.O ensino de literatura brasileira por meio do Teatro. O último grupo do qual falaremos ateve-se à relação de Madame Carlota e Macabéa. Macabéa tem de aguentar os desaforos de seu chefe. Os debates que se seguiram focalizaram principalmente na mulher como objeto sexual. Vimos que.

Por isso. Nessa re-performance. uma re-performance deste. Inclusive como já visto acima. . uma nova percepção do trabalho acontece. no Teatro do Oprimido tal fato é quase uma exigência: após a divisão das relações de opressão do texto.166 Revista Brasileira de Literatura Comparada. De fato.O que você faria se estivesse no lugar de tal personagem? 2. Isso pode ser percebido em cada uma das adaptações demonstradas pelos grupos. n. as várias percepções interpretativas ocorrem exatamente nesta terceira parte.O que motiva tal personagem a agir desse jeito? 3. trazendo à tona o que gera a opressão e propiciando uma discussão cênica do problema.15. nesse ponto do curso não houve interesse em favorecer a substituição dos personagens. De fato. mas em responder a perguntas tais como: 1. sua visualização se torna primordial. Para que essa re-performance seja útil para a discussão de uma obra. Normalmente. a percepção de quem oprime e de quem é o oprimido pode mudar dependendo de quem lê a obra ou assiste à sua encenação.Como tal personagem deve agir para se libertar desse contexto opressor? o texto aberto O processo pelo qual passam as obras literárias acima descritas é definido por Umberto Eco (1979) em sua teoria “A poética da obra aberta” do livro O papel do leitor. nunca nos preocupamos com a resolução do conflito. mesmo que encenado. Assim. é necessário que haja uma teatralização delas. a crise nunca deve ser totalmente resolvida. 2009 que convida à intervenção e discussão de assuntos interessantes dos materiais lidos. sempre que um trabalho de arte é recebido por um leitor ou espectador. além da recepção. Eco afirma que. muitas vezes é difícil para o aluno entender os textos de literatura brasileira.Tal personagem é o oprimido? 4. Antes desse estágio. há. pois o Teatro do Oprimido só coopera com os meios para que isso ocorra socialmente.

sem dar a ela o carinho e a afeição esperados. muitas vezes os alunos não conseguem compreender a postura irônica da protagonista ao descrever sua rotina submissa e afirmar que ama o homem que mais faz com que ela trabalhe sem parar. o caso muda de figura. mas que a recrimina e detesta quase como se esta fosse um ser de outro mundo. 167 Várias vezes eles julgam os textos de nossa literatura como negativos ou deprimentes. social e politicamente apresentada. nenhum estadunidense entende o que leva essa jovem menina a se prostituir. Acham que o fato de ela repetir que o ama indica que está conformada com a situação. quando procedemos à análise do contexto social e econômico latino-americano. Em um primeiro momento. uma comparação entre a realidade da América do Sul e as semelhanças entre essa região e as regiões economicamente menos favorecidas dos Estados . Em I love my husband. Mas. Acham que não há nada que justifique a prostituição de uma criança. Quando fazemos.O ensino de literatura brasileira por meio do Teatro. Até mesmo no final. Em A hora da estrela. quando citamos a semelhança do seu universo com o de personagens de regiões mais pobres dos Estados Unidos. exagerada e seus problemas parecem não ter fundamento. muitas vezes os alunos não conseguem entender Macabéa e suas motivações. No entanto. É necessário conviverem com essa personagem para entenderem que essa repetição da frase “Amo meu marido” é muito mais para resultar em algo positivo do que para retratar algo positivo. quando a protagonista relembra o início da união. o mundo que cerca Macabéa passa a ser o que a oprime e ela passa a ser a vítima.. a opressão está numa esfera invisível. O mundo opressor pode. Como em todas as outras obras. no entanto. A partir dessa conclusão. ser personificado em personagens como Olímpico. além disso. ela parece conformar-se com toda a sua vida em comum com esse homem. os alunos passam a entender a tragédia na vida dessa personagem.. Acham-na ridícula. tão nordestino quanto Macabéa. Essa interpretação inicial inesperada também ocorre quando da leitura de Menina de vermelho a caminho da lua.

ao escrever sobre a história. conclusão Embora exista campo para divergência quanto à natureza da opressão de uma história. retratando um universo afeiçoado à opressão. percebemos que as diferenças são ínfimas. portanto. portanto. Todas as histórias narradas almejam. Os temas de A hora de estrela e Menina de vermelho a caminho da lua são bastante similares. o que a mãe realmente deseja é pôr um fim na dor que sentiu ao compartilhar a situação da menina e esperar que a história não se repita. As histórias narram as adversidades na vida de duas jovens que são vítimas da pobreza. econômica e social. Muitas vezes. ao implicitamente indicar o desejo de mudança com relação à situação das vítimas de opressão sexual. para que possa ser mais facilmente combatido. se pensamos na natureza opressora dos dois. Se a vida da menina que protagoniza a história é resultado de um descaso histórico com a situação da população pertencente à classe baixa e os meninos e meninas de rua. Nas duas obras. pois. 2009 Unidos. uma natureza muito mais positiva do que negativa. a pobreza apresenta a maior . E é importante vermos que. só depois que diferentes cenas sobre diferentes questões foram montadas e algumas pseudossubstituições ocorreram. pretendem fazê-lo visível. n. Os três textos têm. o opressor mais forte só será achado depois que a cena (simples diálogo que precisa inicialmente detectar a situação-crise do oprimido.168 Revista Brasileira de Literatura Comparada. não vivem com suas famílias e estão à margem da sociedade.15. o fim do subjugo das suas protagonistas. por exemplo. a turma chegou à conclusão de que a opressão não era o que tinha sido inicialmente pensado. situação esta da qual ele quer sair) for montada e que outros (membros da plateia) puderem cooperar para o desenvolvimento da resolução da crise do protagonista. essa opressão é traduzida de duas maneiras pela mãe que detém a história: ao se omitir com relação à menina e ao subjugar o homem que narra a história.

Macabéa não reage nem se irrita nunca. o que é exemplificado com o exercício aplicado em I love my husband. A utilização do método do Teatro do Oprimido fez-me perceber.. pelo menos aparentemente. como plateia participativa. desde o primeiro dia de aula. possivelmente teríamos chegado apenas aos dois primeiros níveis de interpretação supracitados. Talvez por isso ela seja completamente desassistida pela sociedade na qual está inserida e inicialmente indigna de compaixão na sociedade norte-americana. pois são personagens cabisbaixas que se comportam de forma oposta ao que nos leva a pensar. pelas experiências vistas até a presente data. Para Boal. percebo que a literatura só se torna objeto de intensa discussão se o aluno puder entrar no contexto do livro..O ensino de literatura brasileira por meio do Teatro. Foi o sucesso dessas primeiras experiências que me motivou a prosseguir com a aplicação dos exercícios do Teatro do Oprimido em outros textos. o teatro só pode ser do oprimido se ele participar do seu processo. com perguntas direcionadas. pois sua força está além de um extermínio imediato. que não louva as vítimas ou os indivíduos que não sabem lutar pelos seus direitos. Da mesma forma. respectivamente. que muitas dessas questões jamais seriam tratadas se não dessa forma. Se houvéssemos apenas feito uma discussão. A esposa também não. Macabéa se desculpa até mesmo pelos erros alheios. A discussão também é motivada pela transferência do contexto da obra para o . Menina de vermelho a caminho da lua e A hora da estrela. um nome de guerreira e uma vida fantasiosa de guerreira. Mas a essa conclusão só chegamos depois de experimentar possibilidades com o texto e ver quem ou o que oprimia mais certo personagem. Talvez Macabéa e a esposa de I love my husband tenham sido as personagens mais difíceis de encenar segundo as técnicas do Teatro do Oprimido. participando da vida dos personagens como se fosse a sua própria. ela prefere calar-se a ofendê-lo também. Combatê-la está fora do alcance dos protagonistas e do nosso próprio. Quando Olímpico a ofende e termina o namoro com ela. 169 fonte de depressão das personagens.

Umberto. Somente a partir de um profundo envolvimento com a obra literária. Unmarked: the politics of performance.). Resisting novels: ideology and fiction. ed. The role of the reader: explorations in the semiotics of texts. Walter. Técnicas latino-americanas de teatro popular: uma revolução copernicana ao contrário. Muito prazer: contos eróticos. São Paulo: Hucitec. In: MORICONI. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. 1980. Márcia (Org.). pela sua imaginação.). Lennard. Peggy. Entrevista pessoal. Rio de Janeiro: Record. 1992. Frankfurt am Main: Suhrkamp. New York and London: Methuen. Menina de vermelho a caminho da lua. The politics of postmodernism. BOAL. Augusto. Trad. relacionando-a com suas próprias questões e fazendo-a parte da sua vida. 1992. Darlene (Org. 16 de julho de 2003. One hundred years after tomorrow: Brazilian women’s fiction in the 20th Century. o aluno contribuirá com um avanço no campo interpretativo da obra. New York: Routledge. Referências BENJAMIN. LISPECTOR. _____. COLASANTI. London: Routledge. Nélida. 1993. In: DENSER. 195-203. 1987. ed. _____. aplicando uma realidade literária a uma realidade social. Rio de Janeiro: Francisco Alves. . DAVIS. ECO. _____. 2. n. I love my husband. In: SADLIER. Indianapolis: Indiana University. 1984. 1995. p. _____. A hora da estrela. PHELAN. Linda. 1966. New York: New Directions.170 Revista Brasileira de Literatura Comparada. The hour of the star. tal como visto nas análises acima. Clarice. Ítalo (Org. Bloomington: Indiana University. 2009 contexto do leitor ou espectador. Giovanni Pontiero. Marina. 1989.15. Teatro do oprimido e outras poéticas políticas. 1982. PINON. 1979. Versuche über Brecht. HUTCHEON. Little girl in red on her way to the moon. 2.

451-456. 11-18. 2001.).O ensino de literatura brasileira por meio do Teatro. Playing Boal: theatre. _____. activism. p. 171 Os cem melhores contos brasileiros do século. 1994. In: SZOKA. therapy. Fourteen female voices from Brazil: interviews and works. Austin: Host Publications.. p. .. 2002. Rio de Janeiro: Objetiva. Mady (Org. I love my husband. SCHUTZMAN. London: Routledge. Elzbieta.

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Quando cheguei lá. uma estação linda nos Estados Unidos. os professores ainda não voltaram do verão”. teaching. Também é relatado no artigo o crescente interesse dos alunos pela literatura brasileira e pelos gêneros apresentados. chronicles. The article sustains that the richness of the Brazilian short narrative made possible the desired intercultural dialogue. . The main challenges involved in the teaching of Brazilian literature in translation are examined. United States. contos. such as the lack of basic information about Brazil and the institutional context. Estados Unidos. ensino. sem se preocupar. tais como a falta de informação inicial sobre o Brasil e o contexto institucional. keywords: Brazilian literature. o céu azul.Araraquara). estranhei o vazio do campus. ele disse. perguntei. * Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp . no qual se buscou apresentar os principais autores brasileiros do conto e da crônica. São examinados os principais desafios para o ensino de literatura brasileira em tradução para o inglês. abstract: This article narrates a teaching experience in a graduate program in creative writing in the United States which introduced the main Brazilian short story and chronicle authors. short stories. crônicas. palavras-chave: literatura brasileira. Conclui-se que a riqueza do conto e da crônica brasileiras de fato serviu de ponte para o diálogo intercultural almejado. “É normal. o que será?”. até liguei para meu irmão. Students’ increasing interest in Brazilian literature and in the genres presented is also examined. “Ninguém veio falar comigo. Mas veio o outono.173 As alunas e os contos: a narrativa curta brasileira num curso de escrita criativa nos Estados Unidos Heloisa Pait* resumo: Este artigo relata uma experiência de ensino num curso de pós-graduação lato sensu em escrita criativa nos Estados Unidos.

a das instituições progressistas e disputadas. universidade visitada por Habermas e Derrida.174 Revista Brasileira de Literatura Comparada. muitas delas foram criadas na costa leste. Eu costumava dizer: isso aqui é divertido como voltar ao Pequeno Príncipe na Rua Avaré. mas num lugar muito particular que refletia os problemas das pequenas faculdades americanas. A instituição era uma das poucas faculdades americanas que ainda se dedicavam exclusivamente ao ensino de mulheres. Também conhecia as Faculdades de Artes Liberais. É que eu conhecia a universidade americana por meio da muito particular New School for Social Research. Tive. conhecia uma fatia do ensino superior americano muito estreita. Minha cunhada estudou no intelectual Swarthmore College. Corrijo-me: tive algumas boas alunas. no primeiro semestre. era de uma riqueza intelectual inesgotável. para manter o impecável imenso jardim e os prédios centenários e amortizar a recente construção do ginásio. 2009 o ar fresco. e sua self-reliance. desta forma dando acesso ao ensino superior a um grande nú- . a linguagem e a vida em Nova York. com seus valores sólidos. Então. alguns bons alunos num curso introdutório sobre o Brasil. Eu havia dado uma palestra no hippie Hampshire College. O nosso cotidiano de estudantes de pósgraduação. e lecionado no questionador Lang College. Ao longo do século XIX. que já tinha tido no corpo docente Hannah Arendt e outros. E pulei no que as pessoas se referem como “Real America” – não numa América Real qualquer. Rorty e Melucci. Críticas e rigorosas.15. discutindo sobre a política. n. complementando as faculdades para homens. era mesmo preciso um bom dinheiro. além da solidão e de uma grande confusão quanto aos objetivos da instituição. e no oeste as novas faculdades já eram criadas para os dois grupos. primordialmente entre os alunos europeus e latino-americanos e com os professores novaiorquinos. Só não veio aquele diálogo intelectual que eu esperava. que poderia ser bem interessante. vejo agora. como a evasão e a busca permanente de alunos para cobrir custos relativamente fixos. Pois.

As alunas e os contos: a narrativa curta brasileira. no qual a cada ano um país determinado era escolhido. A maioria dessas instituições tornou-se mista ao longo do século XX. mas pouco conhecido tanto no Brasil como nas pesquisas no exterior. Era um argumento de peso decrescente. que se juntou a Harvard College. havia palestras e eventos sobre o país e a região. eu estava dando aulas numa instituição que havia escolhido manter a tradição. abertos aos homens. Não eram as únicas. particularmente. Eu. a justificativa para continuar mantendo o ensino separado era que as mulheres teriam melhores condições de ensino caso não tivessem de disputar a atenção dos professores com os homens em sala de aula. grande parte tinha dificuldades com a leitura e a escrita e. uma das mais concorridas faculdade americanas. um professor visitante era chamado e. Na segunda metade do século XX. O trabalho que mais me chamou a atenção foi sobre um assunto que eu mesma desconhecia: a existência de um cinema mudo brasileiro muito ligado com tendências europeias da época. Como disse. para trazer um pouco do Brasil para o campus. talvez pela natureza dos cursos ou pela tradição. 175 mero de mulheres. como Smith College. eu estaria ali para isso. Ainda assim. obviamente com exceções. mas outras continuam admitindo apenas mulheres. Afinal. além disso. Mas as alunas capazes de produzir trabalhos autônomos eram poucas.. uma certa apatia na sala de aula e desinteresse sobre o mundo. Aquele era o ano do Brasil. acho o . entre os professores detectei também uma falta de curiosidade sobre o Brasil. que escolheram escrever sobre aspectos muito interessantes da cultura brasileira. diferentemente de nossos alunos. a maioria dos alunos eram mulheres.. como as tentativas de reforma do ensino médio ou sobre a participação de jovens artistas plásticos em comunidades na internet. A instituição tinha um programa já antigo. Mas o modo como a instituição conseguia financiar a tradição era abrindo uma série de cursos de pós-graduação lato sensu em áreas mais aplicadas. mas. de qualquer modo. no outono tive algumas alunas muito boas. tais como Radcliffe College.

em certa medida eu vivi essa indefinição como deslocamento. numa viagem patrocinada pela escola e organizada por uma instituição brasileira reconhecida. especializada nesse turismo acadêmico.15. não entendia bem a falta de interesse sobre o meu país. Os programas de intercâmbio são marca registrada das universidades americanas. E só conseguia me localizar novamente quando viajava pelo país e encontrava pontos de referência antigos ou explorava novos. vou evitá-lo. Todos temos um pouco disso. têm a duração de um .176 Revista Brasileira de Literatura Comparada. mas a verdade é que eu estava bem perdida. em nível de pós-graduação. por exemplo. ou “a cidade que não é do aço” são títulos difíceis de se portar. e como já virou clichê falar de experiência kafkiana. esse processo econômico. o Cinturão da Ferrugem. n. e acho que nisso tenho vasta companhia além das fronteiras nacionais. passar duas semanas no Brasil. Em Detroit. região americana do meio-oeste que sofreu com o colapso da indústria pesada ocorrido na segunda metade do século XX. 2009 Brasil bem interessante. Foi nessa situação de deslocamento urbano e isolamento intelectual que o semestre da primavera começou. A cidade onde a faculdade se localizava era parte do que os americanos chamam de Rust Belt. Mas redefinir a identidade de uma cidade é importante. Alguns são bem rigorosos. ao fim do semestre. eu não sabia exatamente onde estava. A desindustrialização trouxe para a região problemas sociais enormes. Eu assuntava: por que escolheram o Brasil? Como esse programa de estudos internacionais se coaduna com os objetivos educacionais dirigidos a esse corpo discente? Não tinham respostas. ainda se reflete no cotidiano difícil de populações inteiras. no verão do hemisfério norte. Então. os paulistanos com sua cidade que não é da garoa ou os cariocas com sua cidade que não é capital. Algumas alunas iriam. aliado a tensões raciais e erros crassos de planejamento urbano. Mas há também o problema simbólico: como construir uma identidade urbana a partir de uma não identidade? “A cidade que não é do automóvel”. eu daria aulas apenas para alunos do programa de escrita criativa.

que fosse além dos estereótipos tropicais. Tive de negociar o conteúdo do curso a cada aula. são também comuns nos Estados Unidos. 177 semestre e são precedidos por estudos de línguas e cursos preparatórios e envolvem cursos regulares ou estágios em países estrangeiros. a política. escrevo contos eu mesma. Pela turma que peguei. pensei. que temos acesso a elas nos jornais e revistas.As alunas e os contos: a narrativa curta brasileira. Ao longo de minha estada nos Estados Unidos. Zé Carioca e Carmen Miranda. Outros são apenas passeios pelo Caribe. que incluem literatura mas que têm um sentido mais prático que analítico. Não que houvesse estereótipos nas salas de aula. A dificuldade na graduação foi. Depois há os novos. Queria mostrar por meio deles alguma coisa do que somos. Ela se alimenta e faz parte de nosso cotidiano. nada melhor. Esse me pareceu ser um turismo cultural inteligente para alunos com interesse em expandir seus horizontes mas sem o tempo de preparo anterior na língua e história do país. incluindo o cinema. literatura de viagens. Todos nós conhecemos os estereótipos antigos. Os alunos podem aí se especializar em literatura infantil. sua ausência. não pude descobrir exatamente o objetivo profissional do curso.. Além disso. e assim por diante. na verdade. São cursos para quem quer escrever ficção ou não-ficção. como é o caso da narrativa curta brasileira. eu quis obviamente mostrar um Brasil verdadeiro. do que uma área da cultura na qual nós temos uma certa “vantagem comparativa”. Sobre os cursos de escrita criativa. Eu queria falar dos contos. Brasil do desma- . e sou fascinada pela narrativa curta que fica em nossas mentes muito depois de terminada a história. Propus um curso sobre contos e crônicas. tanto na graduação como na pós. Então. a maior parte dos alunos estava em momentos de transição e buscou o mestrado como forma de se rearticular. pois dividia o curso com outra professora. a narrativa curta brasileira tem um lugar muito especial para nós leitores brasileiros. com contribuições à cultura mundial.. que queria dar uma visão mais abrangente da cultura brasileira. a história e a literatura.

Nosso elo. pois o Brasil praticamente não existia no imaginário de muitos alunos. Havia a presença de uma comunidade negra importante. diferem muito. mal-entendidos. Enfim. era o interesse difuso naquele país latino-americano desconhecido e uma vaga curiosidade sobre o conto e a crônica. não são representativas do gênero. recentemente publicadas. então. 1992). assim como no caso anterior. Hilda Hilst. Na primeira aula. 2009 tamento e dos meninos de rua. O que impressionava era que o Brasil fosse tão grande. traduzidos. apresentando cronologicamente os principais autores da narrativa curta brasileira. 2006). são espetaculares nos dois sentidos. Entre as esquerdas. Mas lá naquela faculdade eu vi a ausência de informações sobre o Brasil. não há antologias de crônicas que reúnam vários autores. Então. Clarice Lispector. Havia o Paulo Coelho. Milton Hatoum e tantos outros. incompletos. que encontrei em outras traduções (Sadlier. em sua maioria. talvez. que reúne contos de “A legião estrangeira” e crônicas de “Para não esquecer”. notei que quase nenhum aluno tinha interesse específico sobre o conto ou a crônica. Reais todos. n. As crônicas são maravilhosas. Tudo o que eu falasse era novidade. de Nelson Rodrigues (2008). mas. As crônicas de “Life as it is”. havia informações dispersas prévias. . que língua mesmo falavam ali? No curso de pós. maior que a Venezuela. por exemplo. que estão. Já nas crônicas é diferente. há também a construção mítica do presidente socialista que se contrapôs à ordem neoliberal. Guimarães Rosa. mas parciais. Um bom apanhado dos contos está numa antologia da Oxford University Press (Jackson. para falar das crônicas havia um obstáculo muito concreto. Montei o curso de modo muito tradicional.15. Senti falta de Márcia Denser apenas. diziam. entretanto. havia a Clarice Lispector. 1992). Moacyr Scliar. Há também crônicas de Clarice Lispector em “Foreign legion” (Lispector. Estão ali Machado de Assis.178 Revista Brasileira de Literatura Comparada. das crônicas de Ignácio de Loyola Brandão que lemos às quintas no Estadão. havia referências poucas mas queridas que fizeram aqueles alunos se inscreverem em meu curso.

. eu dava preferência aos contos da antologia. Já adianto ao leitor. cadeiras extras. ou seja. Eu disse que não. forjar alguma comunicação real que havia me escapado nos meses anteriores. e não pontualmente nesse horário. Mas. Clarice Lispector e Moacyr Scliar estão bem traduzidos. mais “profundos”. pedia que chegassem a partir da 1 da tarde. Tínhamos acabado de ver o filme “Vidas secas”. E para cada um eu pedi que trouxesse uma coisa: o arroz. por razões práticas. que a última feijoada. Tentando o quê? Tentando. em três panelas distintas: uma para os vegetarianos. de jeito nenhum. que fiz por ocasião de meu aniversário. Parecia que os textos mais densos. por exemplo. E nós brasileiros não fazemos desse banal a nossa melhor poesia? A uma certa altura. de Mário de Andrade. etc. pois um dos meus melhores amigos na faculdade era muçulmano. os pratos. conversaram sobre a faculdade e foram embora sem me deixar com a sensação de plenitude que tenho depois de cozinhar para amigos e conhecidos no Brasil ou no exterior. uma aluna perguntou se era tudo assim pesado na literatura brasileira. Guimarães Rosa. Os principais autores estavam presentes na antologia da Oxford e também em inúmeras outras traduções. mas isso me motivou a continuar tentando. por sugestão da outra professora. comeram. E os contos ali tinham. Machado de Assis.As alunas e os contos: a narrativa curta brasileira. ao final de minha estada. acredito. Avisei que o horário era o brasileiro. Uma colega me disse. Lembro que numa das primeiras semanas na cidade fiz uma feijoada para algumas pessoas.. se qualificavam melhor para a tradução que o cômico e o banal. a dificuldade era de natureza distinta. 179 A respeito dos contos. e outra com joelho de porco e costelas. . um tom sério e pesado que não trazia a leveza da prosa brasileira. depois das caipirinhas. Então. pois não sou muito de suspenses. em volta dos convidados aboletados no apartamento pequeno. Fiz a couve e a feijoada. a biblioteca tinha poucos recursos e era preciso fazer escolhas. que vieram polidamente. foi bem diferente. lemos o triste “Piá não sofre? Sofre”. uma sem carne suína. nos romances e também nos contos. em geral.

nessas alturas. Era no começo do semestre. n. e também que por meio do conto começassem a pensar sobre as diferenças entre as culturas americana e brasileira. mulheres reflexivas. e poderia estar no fim ou no início da narrativa. Eu fiquei lavando os pratos de uma feijoada sem festa. eu deveria ter dado destaque. é na verdade um romance escrito em capítulos publicados em série. Claro. Mas. Notei ali o tanto de esforço que há em nossa descontração. Não são contos nem crônicas. Mas acho que o texto de Manuel Antônio de Almeida fez tanto sentido aos alunos como a primeira feijoada que ofereci aos colegas. pela literatura e também pela modernidade de um Brasil antigo. ou com a professora. . Discutimos um pouco a natureza do conto. O encontro deveria ter algo de erótico e de conflituoso. num dia importante para a cidade. sobre seus recursos. Queria que eles se sentissem confortáveis no gênero. com leis. que acredito pouco interessava aos alunos. Pareceu à classe que o autor ria de algo que não deveria ser piada. choques. o maravilhoso “Memórias de um sargento de milícias” (Almeida. eu também queria ver no papel as minhas próprias emoções. 2009 que nunca havia se sentido tão à vontade. a partir de Bosi (1994) e Piglia (2000). encontros. deveria conter um encontro entre um brasileiro e um morador local. O resultado foi maravilhoso: imigrantes brasileiros discriminados que falavam palavrão. as tantas violências domésticas que pipocam no tempo do Rei. 2000). interessada nas relações entre a realidade social e o caráter político da arte brasileira. americanos que de repente se lembravam das comidas e cheiros brasileiros. Ficou espremido. desafios e desfechos.180 Revista Brasileira de Literatura Comparada. E encontrei um primeiro elo. A outra professora notou a ausência dos negros e pobres na narrativa. Pedi aos alunos que escrevessem um conto. Machado os surpreendeu. advogados. mas quem é que vai dizer que não são boas crônicas imaginadas? E havia tradução. ainda se familiarizando com a narrativa. e eu ainda me adaptava ao curso a quatro mãos. pensar o conto era uma viagem minha. Buscava um elo.15.

2006). a surpresa de uma escrita sofisticada. passei tardes lendo as histórias e escolhi algumas para recontar. por exemplo. Então.. e contei para eles “A hora e a vez de Augusto Matraga”. Sim. explorando o olhar perscrutador de Clarice e o modo sutil como ela define os ambientes externos e a vida interior dos personagens. junto a sua modernidade. A biblioteca da universidade estadual local. organizada por Graciliano Ramos (1966). tinha uma coletânea de contos regionais maravilhosa. interpretada por uma aluna em quem eu via algo da própria autora. depois. quebrando a solenidade do texto. Recortei alguns trechos de “Grande sertão: veredas” (Rosa. escolhessem um pequeno trecho de um dos contos discutidos e elaborassem uma pequena cena. Eu conseguiria trazer o .. Eles toparam. Então. Fiquei animada. com o marido atordoado sem compreender a fuga da esposa etérea. Tensa também. não só pelo uso particular que faz da linguagem. Pois o conto não traz. 181 Clarice foi fácil. mas também pela musicalidade do texto (Pessôa. contei. e apresentá-los com paixão (Lispector. mas não havia tradução. Rimos com outras cenas também. Isso queria dizer que eu podia escolher meus contos favoritos. Algo se perde na tradução do autor. apropriando-nos da humanidade daqueles personagens intensos da autora. 1963) que tinham jeito de conto. Duas alunas em particular usaram o texto de Clarice para uma jornada de descoberta que encantou a todos. era um desafio. O perigo de Clarice é cairmos numa deferência exagerada à poesia e virtuosidade da autora. que falava à alma. Achei Guimarães Rosa difícil de apresentar. cobriam muita coisa.As alunas e os contos: a narrativa curta brasileira. Uma delícia. um diálogo com a tradição oral? Então por que não simplesmente contar as histórias de que eu gostava mais? Por que me prender a traduções selecionadas? Quando havia coisas que eu queria dar. 1984). pedi que formassem pequenos grupos. Todos adoraram. que não achei traduzido. E rimos com a cena final de “Amor”. Assim como com Machado. eu contava. ao final de uma das aulas sobre a autora. As traduções eram boas.

numa reunião de preparação para a viagem ao Brasil. é impossível descrever o valor que passamos a dar à comunicação humana. por exemplo. éramos sem graça. algumas cômicas. Mas a partir do conto e da crônica brasileira. quando dela somos privados. E isso me tocava profundamente. a Scliar e Machado. n. 2009 texto para a sala de aula? Recontar em inglês uma história querida? Com alguns. sem eles. éramos estranhos. aquele diálogo em qualquer forma que fosse. Naquela classe – fazendo rir e chorar com histórias –. claro. expressa por meio de atos cotidianos às vezes até singelos. Sem eles. quanto mais professora. ao menos. fiz rir. talvez por mim. com eles. viramos personagens fascinantes de um teatro próprio.182 Revista Brasileira de Literatura Comparada. falando para uma audiência interessada de um lugar que eu já havia visitado. Com eles. emocionei. consegui. com eles nos conhecemos. eu voltava à minha humanidade normal de quem fala e escuta. E recontei. No fim do curso agradeci aos alunos. mas acima de tudo frustrante. como sempre quando falo do Brasil. Mas tudo é questão de treino. alguns dos quais estavam matriculados em meu curso. Para as crônicas. me chamaram para conversar com os alunos. 2005). mas agradeço agora a Clarice e Rosa. O risco que eu havia corrido era de ter virado naquela sala de aula uma simples nativa que conhecia os hábitos vigentes. sugeri a leitura de alguns livros para quem quisesse se aprofundar e. também escolhi algumas da coletânea “Cem melhores crônicas brasileiras do século” (Santos. Estavam todos eles ali presentes nas aulas. Então. virei professora de novo. além das de Clarice e de Nelson Rodrigues. eu o via sendo construído. Talvez por uma turma aberta e interessada. não era gente. o que havia acontecido em outros ambientes da faculdade anteriormente. eu. Muitas tristes. Mas as perguntas foram sobre aspectos corriqueiros da . não. Sem eles. Aquele elo que eu buscava. Falei sobre a história política recente. a Denser e Ângelo. Agradeço aos tradutores e editores também. me entusiasmei. Era um pouco ofensivo. com outros. todos eles lá. agradeço.15. sem dúvida conscientes de serem pontes precárias nesse importante diálogo entre as gentes.

É algo intangível.. Sou naturalmente uma professora crítica. E desse lugar de nativa. Os alunos se encantaram com uma literatura sobre e também disponível no cotidiano dos leitores de jornais. fazendo barulho. Pode ser violenta. na metade do semestre. um pouco disso ficou evidente. os alunos apresentaram os projetos de seus trabalhos. mas tem uma maciez que você não encontra na literatura americana. “aqui é que jantam um pouco cedo. numa aula. entenderam que ali havia um diferencial. pode ser mordaz. Quando... Mesmo Márcia Denser. pretensiosa. inconscientemente familiar a minha própria cultura. eu esperava. que me pareciam mais leituras neutras comentadas que exercícios . tem aquele amor ao detalhe. uma seleção de chorinhos que. que tragam o drama pesado ou político. da melhor forma possível. Uma literatura que anda de chinelo. Então eu sentia que era eu que devia tentar explicar isso. 183 cultura nacional: “No Brasil. uma dinâmica em que eu fosse a nativa e ela a antropóloga podia ter se instaurado. os alunos se matricularam num curso de uma brasileira. crítica de tudo. e nesse caso em particular eu via muitos problemas nos trabalhos. a uma certa delicadeza textual. Mesmo o texto filosófico de Clarice reforça o lado banal das grandes questões humanas.” eu disse. irônica. e daí talvez as escolhas. e não de salto alto. A palavra que eu usava em aula é essa: nossa cultura é soft. trouxessem a musicalidade de nossa língua e de nosso texto que a tradução nunca poderia trazer. eu não teria podido falar dessa literatura de que eu gosto e que é minha. me vi num dilema. quando a outra professora se juntou ao curso – bem. Mas isso pode se perder na tradução.As alunas e os contos: a narrativa curta brasileira. pelos textos que não se calquem apenas nessa leveza. Quando dei as aulas sobre as crônicas. Quanto ao meu curso. Com a capacidade de olhar o cotidiano de um jeito rico – ou com a riqueza de nosso cotidiano. o texto sem asperezas. Algo que me encanta na literatura brasileira é o texto macio.. pelos editores. não sei mais. Mas. as pessoas jantam tarde?” Respondi que jantávamos no horário normal. lembrem disso. Mas eu também trouxe.

quando comentamos os projetos propriamente ditos.. E lasquei uma boa aula sobre a noção de interpretação de Peirce. mas minha experiência no semestre anterior tinha me revelado uma falta de familiaridade com a investigação intelectual que eu não associava com o ambiente universitário.. que queria saber mais sobre as leituras dos alunos sobre os textos. como a nativa de plantão? Esse receio. e de Machado para entender a relação entre a racionalidade e as crenças populares no Brasil do século XIX. Eles assentiram. paradoxalmente. Não falei dos trabalhos. n. e isso não é mau. que os alunos de pós tinham dificuldades de leitura e escrita comparáveis às dos de graduação. pois cada texto diz uma coisa para cada leitor. Sou sempre otimista quanto aos alunos. ou me viam apenas. nessa classe dada em colaboração? E será que os alunos me escutariam. dos projetos. Quem era aquela Clarice ali. 2009 de interpretação que trouxessem novos aspectos dos textos e autores lidos. Haviam me dito. mas para outros alunos aquele curso abriu as . Na aula seguinte. antes do curso. Pois meu espírito crítico teve de ser controlado.184 Revista Brasileira de Literatura Comparada. foi muito produtivo. Sobre a produção de sentido no jogo simbólico. sobre o que os contos e crônicas realmente haviam falado para eles. que estava sendo produzida naquela sala de aula daquela faculdade daquela cidade do Cinturão Enferrujado americano? Que esquecessem a Clarice que eles achavam que os professores achariam a correta. Ali estava uma turma que queria usar os textos de Clarice para compreender o existencialismo. Uma coisa que me surpreendeu na classe foi a curiosidade sobre a filosofia da linguagem e as teorias sociais. Mas será que eu tinha autoridade para criticar os trabalhos. como disse anteriormente.15. indiretamente. Comecei a aula perguntando se eles gostariam de ter minhas críticas. Então me surpreendi. Falei. Alguns tinham já familiaridade com estudos culturais e feminismo. os alunos mesmos – eu tinha na verdade um aluno e o restante da pequena classe formado por alunas – trouxeram tudo o que tinham pensado em escrever mas não consideraram acadêmico o suficiente. sobre interpretações corajosas.

examinamos a literatura escrita por mulheres negras. banais e sofisticados: falar da existência humana a partir de um ovo que se quebra dentro da rede. Enfim. Foi uma aula já ao final do curso. brasileira. pois nos dois países as identidades se enriquecem. penso que sim. A faculdade havia convidado. Ao final do curso. cuja palestra algumas alunas haviam visto. mesmo com pouco material. trabalhos que de um modo ou outro já conhecíamos a partir de lei- . japonesa e. 185 portas para Merleau-Ponty. mesmo quando em tensão. 2004). 2003). como parte dos eventos do Ano do Brasil. mas não opostos. Então. mas fazendo pontes com as literaturas de outros países também. Discutimos como no Brasil e nos Estados Unidos as identidades nacional e étnica aparecem na literatura de modos distintos. Funcionou? No todo... no semestre anterior. Havia apenas uma coletânea disponível (Alvares e Lima. Os alunos ficaram encantados com aquelas influências literárias antigas que entraram no Brasil mas também na literatura europeia e americana. foram aqueles nossos autores brasileiros. árabe. Também ao final do curso. e aí o processo foi inverso. era tudo novidade. cotidianos e complexos. os alunos apresentaram os trabalhos para a classe. africana. A ponte. recebendo influências mil. novamente. obviamente. e com pontes indo também a lugares mil. a discussão foi rica e acalorada. E isso serviu de ponte para falar de Milton Hatoum e de sua Manaus misturada. a poeta amazonense Astrid Cabral. Simmel e outros pensadores bastante sofisticados. ao final do curso não havia mais tempo para se aprofundar nos autores. indígena. e isso foi bom: saímos então do lugar chamado Brasil para situarmos o Brasil no mundo. mas o tema geral da situação da mulher negra nas Américas era de conhecimento de todos. mas sim para introduzi-los e esperar que aquele se constituísse num primeiro contato com essa nossa literatura.As alunas e os contos: a narrativa curta brasileira. na qual também víamos escritores de origem árabe. Resolvi dar uma aula sobre a literatura judaica no Brasil (Waldman. mostrando o caráter diaspórico da literatura brasileira.

Mas estavam lá comigo não apenas os autores que fizeram a nossa literatura. elaborar. Tinham certamente um olhar distinto do meu. é certo. Uma escreveu sobre uma experiência de infância que se assemelhava ao olhar de estranhamento de Ana. Em outras. que a leitura de Clarice evocou. Foram aulas de troca intensa. Sem alguma referência inicial. avançar. 2009 turas e discussões anteriores. como foi o caso desse curso de literatura. Também aprendi que o contexto no qual esse ensino se dá é importantíssimo. e às vezes deixavam de lado algumas gemas. há . mas talvez não o coletivo. mesmo que inconsistente. Todo o material apresentado era colocado no ambiente educacional virtual Moodle. Além disso. Um trabalho que debatemos muito em aula foi escrito por uma aluna caribenha. é possível ir adiante. Uma excelente aluna de graduação que se matriculou no curso escreveu sobre os dilemas de gênero que apareciam em Machado e também em Nelson Rodrigues. Na classe em que havia ideias iniciais sobre o Brasil. Mas estavam lá na sala de aula. que procurou refletir sobre sua própria cultura repleta de misticismos a partir do conto de Machado “A cartomante”.186 Revista Brasileira de Literatura Comparada. n. é difícil tocar adiante o projeto educacional. A outra. o que permitia essa troca de modo fácil e intuitivo. a partir de conversas com leitores de seu círculo de amizades. Um aluno fez uma análise filosófica de “O ovo e a galinha”. Eu tinha a sensação de uma profunda solidão. de Lispector. viam valor em textos que não me chamavam a atenção. é possível o aprendizado individual. me ajudando a construir essa ponte que é um dos motores da literatura. Não consigo terminar este artigo antes de falar brevemente dos trabalhos. como também seus editores e tradutores na língua inglesa. o compartilhar de experiências. O que ficou dessa experiência? Que ensinar literatura brasileira no exterior é um trabalho coletivo. pois a essa altura todos se sentiam um pouco autores uns dos trabalhos dos outros. no conto “Amor”. Duas alunas escreveram também sobre a autora.15. procurou investigar que tipo de reflexão os textos de Clarice evocavam.

fugir do exame desigual . de conversação. para que eles compreendessem o significado. musicada. pois acredito que a partir de nossas realizações é que podemos nos reconhecer como iguais. dei umas mexidas e pronto. o que esperavam de mim? Como imaginavam um professor brasileiro? Lembro-me que. Pois por que não às vezes ser um pouco a brasileira palhaça. com uma brasileira que morava na cidade e. Ou qual era o mundo. Fiz um primeiro esboço. além de dar aulas de línguas. obviamente em português. E aí começou a brincadeira: li o poema em português. Depois. Coloquei o poema em nosso site na internet. Uma até confessou que agora se dava conta que seu professor de capoeira falava mesmo daquele jeito. E até tentei uma imitação de carioca.. Fiquei me perguntando qual era o Brasil que ela imaginava. li o poema imitando o sotaque baiano. não estava tirando sarro dela nas aulas com aquela entonação vagarosa.. Os alunos riram. e acredito que bater de frente com elas não seja a melhor alternativa. Essas expectativas todas entram na sala de aula. a produção literária brasileira. Alguns alunos faziam um curso bem introdutório. uma colega fez um aposto para explicar quem era Keynes. onde professores universitários da área de ciências humanas não conheciam Keynes. mas sim ir sutilmente as aceitando e subvertendo. 187 também as ideias iniciais da instituição e dos colegas sobre o Brasil. mostrei a um poeta novaiorquino com quem tenho um ótimo diálogo literário e pessoal. José?”. Mas a maioria não conhecia nada da língua. e eu queria examinar o conto. em uma conversa sobre a crise econômica. estereotipada? Num belo dia resolvi traduzir o poema “E agora. mas numa aula também coloquei o próprio Drummond declamando o poema. A professora com quem dividi o curso queria apresentar um panorama geral sobre a cultura brasileira. que não funcionou tão bem. claro que explicando que era apenas uma imitação de paulista.As alunas e os contos: a narrativa curta brasileira. nada mais. também cantava na ópera e lecionava voz. para que eles se familiarizassem com a língua. Depois li o poema em inglês. de Drummond.

para os alunos que fizeram esse curso. Memoirs of a militia sergeant.15. Referências ALMEIDA. trazendo a música. 2009 de um povo sobre o outro. 2006. O conto disse para eles que há outras formas de pensar. onde quer que tenham ido. Vieram em maio ao Brasil. LIMA. Consegui dar um curso sobre o conto como forma literária? Isso fica em aberto. Women righting: afroBrazilian women’s short fiction. JACKSON. digamos. as minhas histórias pessoais e a minha vivência. O conto brasileiro talvez tenha sido porta de entrada para uma sensibilidade distinta – e para uma sociabilidade distinta também.. Austin: University of Texas. André Vinicius. Sei que. De certo modo. as vozes de nossos escritores estavam com eles. São Paulo: Cultrix. n. eu fui um pouco a nativa. o sotaque. Oxford anthology of the Brazilian short story. PESSÔA. O conto brasileiro contemporâneo.188 Revista Brasileira de Literatura Comparada. 2000.. Oxford University. Mango Publishing. Clarice. LISPECTOR. de viver. Uma poética da musicalidade na obra de João Guimarães Rosa. de um modo que outra forma talvez não o fizesse. de sentir. Manuel Antonio de. Miriam. Alfredo. K. 1984. O romance sempre seria comparado ao que os alunos já conheciam da literatura inglesa e americana. Uma nativa de óculos. ALVARES. David. Rio de Janeiro. os meus próprios contos. Mas não sei se afirmo que realmente investigamos a forma. New Directions Publishing Corporation. O que viram? Com quem conversaram? Como se sentiram? Não sei. 1994. Mas de certo modo eu também apresentei esse panorama geral. 2004. _____. Oxford: Oxford University. Foreign legion: stories and chronicles. Acho que ela serviu de elo entre nós. 2006. 1992. Muitos alunos disseram se surpreender com a forma sintética e evocativa que nós dominamos tão bem. BOSI. Maria Helena. Family ties. Dissertação (Mestrado) .

2000. RAMOS. Rio de Janeiro: Edições de Ouro. 1992. Formas breves. Darlene J. 2003. 2008. The devil to pay in the Backlands. Host Publications. Rio de Janeiro: Objetiva. ROSA. Ricardo. WALDMAN.As alunas e os contos: a narrativa curta brasileira. SANTOS. . One hundred years after tomorrow: Brazilian women’s fiction in the 20th century. Life as it is. Berta. PIGLIA. 189 – Universidade Federal do Rio de Janeiro. João Guimarães.. 1963. RODRIGUES. Graciliano. São Paulo: Perspectiva. As cem melhores crônicas brasileiras. SADLIER. 2005. Indiana University.. 1966. Entre passos e rastros. Joaquim Ferreira dos. Barcelona: Anagrama. Nelson. Knopf. Seleção de contos brasileiros.

Pareceristas Arnaldo Franco Junior Benito Martines Rodriguez Clarissa Jordão Eurídice Figueiredo Isabel Jasinski Luís Bueno Luiz Carlos Simon Mauricio Mendonça Cardozo Marilene Weinhardt Paulo Soethe Renata Telles Silvana Oliveira Susana Scramin .

. A extensão do texto deve ser de. instituição. O nome da instituição deve estar por extenso. por exemplo. com maiúscula só para as letras iniciais. no máximo. •  Após a folha de identificação. . poderá ser aceito trabalho de não doutor. com uma folha de rosto onde constem os dados de identificação do autor: nome.título – centralizado.191 Normas da revista Normas para apresentação de artigos • só serão aceitos trabalhos enviados pela internet para o endereço: revista@abralic. 20. Devem ser produzidos em MSWord 2007 (ou versão superior). em maiúsculas e negrito (sem grifos). Eventualmente. telefone (com prefixo). seguido da sigla. Todos os trabalhos devem apresentar também Abstract e Keywords. endereço para correspondência (com o CEP). e-mail. título e temática escolhida. 10 páginas e.Nome(s) do(s) autor(es) – à direita da página (sem negrito nem grifo). no mínimo.org. •  O espaço para publicação é exclusivo para pesquisadores  doutores. Usar asterisco para nota de rodapé. desde que a convite da comissão editorial – casos de colaborações de escritores. duas linhas abaixo do título.br •  Os artigos podem ser apresentados em português ou em  outro idioma. indicando a instituição à qual está vinculado(a). o trabalho deve obedecer  à seguinte sequência: . espaço simples.

gráficos etc.Palavras-chave – dar um espaço em branco após o resumo e alinhar com as mesmas margens. duas linhas abaixo do nome do autor. corpo 10. Máximo: 5 palavras-chave. só com a primeira letra em maiúscula. desenhos. com recuo de dois centímetros de margem direita e esquerda. ilustrações e tabelas. A expressão palavras-chave deverá estar em negrito. Espaçamento simples entre linhas e parágrafos. corpo menor (fonte 11). Com mais de 3 linhas.) – devem vir prontas para serem impressas. O texto-resumo deverá ser apresentado em itálico.15. . . seguidas das seguintes informações entre parênteses: sobrenome do autor (só a primeira letra em maiúscula). corpo 12.Parágrafos – usar adentramento 1 (um). seguida de dois pontos.citações de até três linhas vêm entre aspas (sem itálico). itálico e maiúsculas.tabelas e ilustrações (fotografias. Palavras em língua estrangeira – itálico. numeradas de acordo com a ordem de aparecimento.texto – em Times New Roman. Usar espaçamento duplo entre o corpo do texto e subitens.subtítulos – sem adentramento. seguida de dois pontos. . . n. ano de publicação e página(s). Corpo de texto 10. . . Corpo 10. itálico e maiúsculas. quando houver. 2009 . .abstract – mesmas observações sobre o Resumo. vêm com recuo de 4 cm na margem esquerda.Ênfase ou destaque no corpo do texto – negrito.Keywords – mesmas observações sobre as palavraschave. . sem aspas.Resumo – a palavra Resumo em corpo 10. . O resumo deve ter no mínimo 3 linhas e no máximo 10. dentro do padrão geral do texto e no espaço a elas destinados pelo autor. . negrito. sem itálico e também seguidas do sobre- .192 Revista Brasileira de Literatura Comparada. sem numeração.Notas – devem aparecer ao pé da página. em negrito.

] conforme Octavio Paz. alguns exemplos de citações • citação direta com três linhas ou menos [. 1969) • citação de várias obras do mesmo autor As construções metafóricas da linguagem.] entre as advertências de Haroldo de Campos (1992).As citações em língua estrangeira devem vir em itálico e traduzidas em nota de rodapé. evidenciando um confronto entre o sagrado e o profano. Elas são nossa única realidade. ou pelo menos.” (PAZ. ao contrário. o único testemunho de nossa realidade. Recomenda-se que anexos sejam utilizados apenas quando absolutamente necessários. 1991. foi antes a poesia concreta que assumiu as conseqüências de certas linhas da poética drummoniana. caso existam. duas linhas antes da primeira entrada. Borges.anexos. . 1977. Eliot. Campos. bem como permissão dos editores para publicação. A palavra é o próprio homem.. “As fronteiras entre objeto e sujeito mostram-se particularmente indecisas. precedidos da palavra ANEXO. Somos feitos de palavras. 1982.. . o enfoque das personagens .. ano de publicação e página(s). sem adentramento e sem numeração. 1991. A palavra REFERÊNCIAS deve estar em maiúsculas.Referências – devem ser apenas aquelas referentes aos textos citados no trabalho. 1998. teóricos e críticos da literatura (Pound. não há qualquer reivindicação de possíveis influências ou contágio. devem incluir referência completa. sem adentramento. Valéry.Normas da revista 193 nome do autor (só a primeira letra em maiúscula). as indefinições.. a presença da ironia e da sátira. pode-se recorrer a vários poetas. negrito. 37) • citação indireta [. p. devem ser colocados antes das referências. Quando constituírem textos já publicados. • citação de vários autores Sobre a questão. em maiúsculas e negrito.

). 87 apud TEIXEIRA. 2004. p. . o planetário. 22. São Paulo: Companhia das Letras. 1759. 2009 em diálogo dúbio entre seus papéis principais e secundários são todos componentes de um caleidoscópio que põe em destaque o valor estético da obra de Saramago (1980. Leyla.194 Revista Brasileira de Literatura Comparada. veja-se um trecho do capítulo XV da Arte Poética de Freire: Vê. o internacional. Araraquara. p. Zilá. 2007. tira ele e forma uma imagem que antes não havia. de tantas imagens particulares que recolhera a apreensiva inferior [fantasia]. nacionalismo. Niterói: EdUFF. 2006. Relações entre ficção e história: uma breve revisão teórica. 1992) • citação de citação e citação com mais de três linhas Para servir de fundamento ao que se afirma. • capítulo de livro BERND. n. n. 2004. José Luís et al. • dissertação e tese PARMAGNANI. V. 1991. (Org. São Paulo.. que faz? Ajunta-as e. [. 148) alguns exemplos de referências • livro PERRONE-MOISÉS. Claudia Pastore. Paradoxos do nacionalismo literário. Lugares dos discursos literários e culturais – o local.. Perspectivas comparadas trans-americanas. • artigo de periódico GOBBI. p.] o nosso entendimento que a fantasia aprendera e formara em si muitas imagens de homens.15. Tese (Doutorado) – Faculdade de Filosofia. o nacional. Universidade de São Paulo. 1988. 37. In: JOBIM. Letras e Ciências Humanas.57. Itinerários.. O erotismo na produção poética de Paula Tavares e Olga Savary. o regional.. Z. 1999. Vira e mexe.] (FREIRE. M.122-33. p. concebendo que todo o homem tem potência de rir [.

observação final: A desconsideração das normas implica a não aceitação do trabalho. jan. Alea: Estudos Neolatinos. 8 abr. 2008. O comum e o disperso: história (e geografia) literária na Itália contemporânea. São Paulo. 2009. Disponível em: <http://www. Folha de S. Jornal de Resenhas..Normas da revista 195 • artigo de jornal TEIXEIRA. • trabalho publicado em anais CARVALHAL./jun. F. 1. • Publicação on-line – Internet FINAZZI-AGRÒ.scielo.br/scielo. 1990. T.Paulo. Belo Horizonte.php?pid= S1517106X2008000100005&script=sci_arttext>. Acesso em: 6 fev. 4. I.. . 2000. A intermediação da memória: Otto Maria Carpeaux. 85-95. Os artigos recusados não serão devolvidos ao(s) autor(es). p. Gramática do louvor. n. Rio de Janeiro. In: II CONGRESSO ABRALIC – Literatura e Memória Cultural. 10. v. Ettore. p. Anais.

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