REVISTA BRASILEIRA DE

São Paulo 2009

Diretoria Presidente Vice-presidente 1º Secretário 2º Secretária 1º Tesoureiro 2º Tesoureiro Conselho Fiscal

A B R A L I C 2009-2011 Marilene Weinhardt (UFPR) Luiz Carlos Santos Simon (UEL) Benito Martinez Rodriguez (UFPR) Silvana Oliveira (UEPG) Luís Gonçales Bueno de Camargo (UFPR) Maurício Mendonça Cardozo (UFPR) José Luís Jobim (UERJ, UFF) Lívia Reis (UFF) Sandra Margarida Nitrini (USP) Helena Bonito Couto Pereira (Universidade Mackenzie) Arnaldo Franco Junior (UNESP - S. J. do Rio Preto) Carlos Alexandre Baumgarten (FURG) Rogério Lima (UnB) Sueli Cavendish de Moura (UFPE)

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ABRALIC CNPJ 91.343.350/0001-06 Universidade Federal do Paraná Rua General Carneiro, 460, 11.o andar 80.430-050, Curitiba - PR E-mail: revista@abralic.org

REVISTA BRASILEIRA DE

ISSN 0103-6963 Rev. Bras. Liter. Comp. São Paulo n.15 p. 1-195 2009

Nenhuma parte desta revista poderá ser reproduzida ou transmitida.2.005 CDU 82.091 (05) . em 1986. I.1. pesquisadores e estudiosos de Literatura Comparada. sejam quais forem os meios empregados. Literatura comparada – Periódicos.2008 Associação Brasileira de Literatura Comparada A Revista Brasileira de Literatura Comparada (ISSN. 1991v. sem permissão por escrito. entidade civil de caráter cultural que congrega professores universitários. CDD 809. Associação Brasileira de Literatura Comparada.1 (1991) – Rio de Janeiro: Abralic. n. Todos os direitos reservados. fundada em Porto Alegre. 2009 ISSN 0103-6963 1.15. n. Editor Organizador Comissão editorial Luís Bueno Maurício Mendonça Cardozo Luiz Carlos Santos Simon Benito Martinez Rodriguez Silvana Oliveira Luís Bueno Maurício Mendonça Cardozo Preparação/Revisão Diagramação Patrícia Domingues Ribas Rachel Cristina Pavim Revista Brasileira de Literatura Comparada / Associação Brasileira de Literatura Comparada – v.0103-6963) é uma publicação semestral da Associação Brasileira de Literatura Comparada (Abralic).

Sumário Apresentação Luís Bueno Mauricio Cardozo 7 Artigos Os estudos de língua e literatura brasileiras no contexto dos estudos portugueses e latino-americanos na Alemanha Ligia Chiappini A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria Ferenc Pál Tempos e contextos da literatura brasileira na Argentina e no exterior Florencia Garramuño Ideia de literatura brasileira com propósito cosmopolita Abel Barros Baptista O ameríndio como personagem do Outro na literatura brasileira contemporânea: Órfãos do Eldorado e Nove noites Rita Olivieri-Godet Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate de nosso tempo Idelber Avelar O ensino de literatura brasileira por meio do Teatro do Oprimido: uma experiência na Carolina do Norte Érica Rodrigues Fontes 9 25 49 61 89 113 151 .

As alunas e os contos: a narrativa curta brasileira num curso de escrita criativa nos Estados Unidos Heloisa Pait 173 190 191 Pareceristas Normas da revista .

da . O segundo bloco é constituído por três trabalhos que privilegiam a dimensão da análise literária. por sua vez. ao concentrar-se nas questões levantadas pelas leituras brasileira e estrangeira de Machado de Assis. Respondendo a essa proposta inicial. Rita Cavalieri Godet. traçam amplos panoramas históricos – com um olhar atento ao futuro – dos estudos de literatura brasileira em dois países que se localizam a distâncias (não só geográficas) muito diferentes em relação ao Brasil: Hungria e Argentina. organizados a partir da dimensão que privilegiam em sua discussão. bem como de suas relações com o deslocamento da posição ocupada pelo Brasil no cenário político e econômico mundial nas duas últimas décadas. No primeiro bloco. a Revista Brasileira de Literatura Comparada procurou abrir um espaço para a discussão dos diferentes lugares e dinâmicas de estudo da literatura brasileira fora do Brasil. Ferenc Pál e Florencia Garramuño. os artigos que compõem este número da Revista formam três blocos diferentes. o que se destaca é a dimensão por assim dizer institucional dos estudos brasileiros no exterior.7 Apresentação Ao propor como tema os “Estudos de literatura brasileira no exterior”. Abel Barros Baptista. vale-se do conceito de “hospitalidade” para discutir o estatuto do estudioso estrangeiro de literatura brasileira. da Universidade Nova de Lisboa. O artigo de Lígia Chiapinni é o significativo balanço da experiência fundamental que representou a criação e rápida extinção da única Cátedra de Brasilianística de uma universidade alemã.

enfrenta as dificuldades das pequenas faculdades americanas. O bloco final nos traz dois relatos que investem na dimensão da experiência de professoras brasileiras nos Estados Unidos. ao tomar partido de sua posição de professor brasileiro que atua nos Estados Unidos. n. Érica Rodrigues Fontes trata de sua proposta de utilização dos fundamentos do Teatro do Oprimido de Augusto Boal como instrumento de aproximação de uma realidade que.8 Revista Brasileira de Literatura Comparada. lança seu olhar para a representação que a ficção brasileira contemporânea faz do ameríndio. Já Idelber Avelar. é estranha ao aluno estrangeiro. No primeiro deles. apesar de ter grande tradição. ao realizar cuidadosa leitura de obras de Milton Hatoum e Bernardo Carvalho. Luís Bueno Mauricio Cardozo . Heloisa Pait conta como procurou superar as dificuldades de discussão de textos brasileiros em tradução no contexto de uma instituição que. No artigo que fecha este número da Revista Brasileira de Literatura Comparada. 2009 Universidade de Rennes 2. convoca estudiosos tanto brasileiros como estrangeiros para retomar um tema fulcral da crítica: o do estabelecimento do valor. em princípio. da Universidade de Tulane.14.

keywords: teaching and research. do confirm a traditional contradiction in Germany between a great interest in Brazil and almost no interest in its literature. closure chair A literatura proveniente da América Latina tem direito a ser considerada no mesmo nível que outras literaturas. reforma curricular. The interruption of this experience in October 2010. Porém os preconceitos ou. abstract: The current status of the studies of Brazilian language. literatura e cultura brasileiras na Alemanha. literature and culture in Germany is described by the author who occupied the only Chair in Brasilianistik ever created in Germany for almost fifteen years at the Freie University of of Berlin. que influenciam o diálogo entre o autor traduzido e o Professora catedrática de Literatura e Cultura Brasileiras do Instituto Latino-Americano da Universidade Livre de Berlim. junto ao Centro de Pesquisas Brasileiras. literatura brasileira. não deveria ser lida somente como veículo de informações sobre o país.9 Os estudos de língua e literatura brasileiras no contexto dos estudos portugueses e latino-americanos na Alemanha1 Ligia Chiappini* Situação atual dos estudos de língua. encerramento cátedra. curriculum reform. descrita a partir da experiência única da cátedra de Brasilianística que a autora ocupou por quase quinze anos na Universidade Livre de Berlim. Não é preciso acentuar que uma obra literária transmite muitos elementos procedentes de outra cultura na ficção e desperta para outras formas de viver e de pensar. Brazilian literature. resumo: palavras-chave: ensino e pesquisa. bem como na pesquisa. digamos. entre 1997 e 2010. do qual é co-fundadora.língua portuguesa. Atualmente trabalhando na orientação de teses no mesmo Instituto. 1 language. * . a partir de 2010. Portuguese Em memória de Marlyse Meyer. A interrupção dessa experiência. confirmaria uma tradicional contradição na Alemanha entre um grande interesse pelo Brasil e um quase desinteresse por sua literatura. os clichês.

em alemão. das artes plásticas. 2005) 2 . até segunda ordem. que atualiza informações já divulgadas em algumas publicações anteriores. a Anglizistik. da televisão. pois a literatura brasileira Por exemplo. pelo menos na terra de Spitzer. Esta ironia se esclarecerá no decorrer deste texto.2 Brasilianistik. da poesia e narrativa orais. E. 2009 seu leitor estrangeiro. que conheço melhor. Mas o que parece simples no enunciado acima é. a língua portuguesa fica quase tão desconhecida como o pérsico ou o sânscrito. no texto “Literatura e cultura no contexto dos estudos brasileiros na Alemanha: a cátedra de Brasilianística” (Chiappini. na verdade.15. Auerbach. adotou o tratamento da literatura como manifestação cultural. última professora de Brasilianística da Alemanha. Na Universidade Livre de Berlim. significa Literatura Brasileira ou Filologia Brasileira. n. literatura e cultura brasileiras e de suas diferentes modalidades na Alemanha. do cinema. difíceis de desaparecer na mente das pessoas. para citar apenas alguns dos grandes estudiosos de língua alemã que trataram dos textos em seus contextos e dos contextos nos textos. Para além da filologia mas com a filologia. única e. tais como a Germanistik. a Hispanistik. pois esta não deve ser confundida com o estudo meramente formal dos textos em si mesmos. ela se localizou na confluência do Departamento de Romanística com o Instituto de Estudos LatinoAmericanos. da música popular. (Johann Jacob von Tschudi) O objetivo deste texto é resumir um pouco o percurso e a situação atual dos estudos de língua. propondo para nossa reflexão alguns problemas que pude identificar em quase quinze anos de trabalho na Universidade Livre de Berlim. muito complicado. por analogia a outras áreas desses estudos. Adorno e Benjamin. como a primeira. abrindo-se a outras linguagens. ao que parece. nesse contexto.10 Revista Brasileira de Literatura Comparada. (Ray-Güde Martin) Nos meios cultos da Alemanha. principalmente em Berlim. de mais longa tradição acadêmica. são.

vigorando “enfoques valorativos eurocêntricos e critérios preconceituosos” (Briesemeister. aliás. que sempre por ele se interessaram. nos departamentos de Romanística das Universidades. que ajuda a entender a situação presente. ou dos estudos hispanoamericanos. e paralelamente. Entre aqueles e estas. do início do século XIX ao final da década de 90 do século XX. processo que durou de 1988 a 1995. Em palestra realizada no primeiro simpósio internacional promovido pela Brasilianística. etnólogos. 3 ainda enfrenta dificuldades para ser reconhecida em sua autonomia (mesmo que relativa. uma ignorância quanto à “participação individual do Brasil na cultura universal”. nos departamentos ou institutos latino-americanos. geógrafos. como a de toda literatura).. p. e por parte dos que provocaram. tornaram a vigorar. mesmo em contextos nos quais se impôs como necessária. ela perde espaço e visibilidade. botânicos. que se publicou posteriormente em livro com o mesmo título. sociólogos. p. E aí também a situação piora dia a dia. caso do nosso Instituto. haveria um semidesconhecimento cultural e. “Brasil: país do passado?”. mesmo. 11 Critérios e preconceitos que. depois de uma longa luta pela institucionalização da disciplina. apoiaram ou facilmente aceitaram a sua extinção quinze anos depois. 349). tensionada entre os Estudos de Literatura e Cultura Latino-Americanos – hoje identificados com os Estudos Culturais Norte-Americanos – e a Lusitanística. seria esse País Tropical um paraíso para geólogos. sendo ela frequentemente . no caso da literatura. sobre ele pesquisaram e escreveram. com o português fazendo parte de uma estrutura que privilegia o espanhol (2000. mas também na ignorância da dimensão que a própria língua portuguesa tem no mundo. por parte dos que nunca quiseram a cátedra de Brasilianística na Universidade Livre de Berlim e retardaram ao máximo a sua criação. como parte da Romanística.3 Ainda segundo Briesemeister: Os estudos brasileiros. Dietrich Briesemeister (2000) faz um balanço dessa luta. O desconhecimento e o desinteresse não se manifestariam apenas na ausência ou invisibilidade da literatura. 349).. 2000. Por outro lado. Por um lado.Os estudos de língua e literatura brasileiras no contexto. sempre foi um apêndice de Portugal. Começa constatando nesse percurso um permanente desequilíbrio na visão do Brasil pelos estudiosos na Alemanha.

constata-se até uma tendência regressiva em comparação com o posicionamento avançado do erudito austríaco (Briesemeister. p. até há pouco tempo. deixando as manifestações culturais sempre em segundo plano. principalmente. ficando atrás em relação ao número de alunos (Briesemeister. deixava de fora o Brasil: (O) Brasil continuou ausente das obras que tratavam da América Latina e. A regra continuaria sendo o predomínio do interesse econômico. 2009 comparada ao sânscrito e ao romeno. Lamenta que esse exemplo não tenha sido seguido como merecia e acusa mesmo um possível retrocesso: desde aquela obra singular de Wolf.). de sua literatura.. como no livro de Max Leopold Wagner. p. 2000.. não se fez muito nos países de língua alemã a favor da pesquisa. . como línguas mais ou menos exóticas e minoritárias: Não obstante o número muito elevado e ainda o aumento da população mundial dos países lusófonos em quatro continentes (. 350-351). n. 351). autor de Le Brésil Littéraire. Die Spanisch-amerikanische Literatur in Ihren Hautströmungen. o ensino torna-se imperdoavelmente reduzido nas universidades alemãs. em que a literatura é a grande ausente. de 1924 (Briesemeister. como no contraexemplo do livro de Wilhelm Giese. publicado em 1863. O Brasil e a Alemanha: 1822-1922. 351). da valorização e da divulgação da literatura brasileira. O português entra em competição com o espanhol como “terceira língua”. Isso revelaria um grande desconhecimento tanto da dimensão quanto da qualidade desta. Briesemeister reconhece algumas raras exceções a essa tendência ainda no século XIX. Pelo contrário. O mesmo fenômeno nota Briesemeister nos livros sobre literaturas latino-americanas. p.15. 2000. como a posição do austríaco Ferdinand Wolf. 2000.12 Revista Brasileira de Literatura Comparada. a maior parte dos quais.

como o Instituto de Cultura Brasileira. 13 Ainda nos anos 60 do século XX. ou seja. . 2000. a diversificação interdisciplinar. o Instituto Geográfico da Universidade de Tübingen. em 1912. em Aachen. dos Frades Franciscanos. da qual tiramos a epígrafe acima.. bem como a de Ray Güde-Mertin. Por exemplo. Destaca também novos centros. Ainda antes da segunda guerra. pelo cônsul Heirich Schüler.. depois de muitos prós e contras. ao mesmo tempo. só contém artigos dedicados a autores de língua espanhola (Briesemeister. falava-se freqüentemente em América Latina. 351) dos estudos portugueses e brasileiros na Alemanha. p. a partir de 1995. 2000.Os estudos de língua e literatura brasileiras no contexto. em Berlim. como primeiro centro de estudos interdisciplinares sobre América Latina numa universidade alemã. Defendendo a necessidade dos estudos regionais e. o Centro Latino-Americano de Münster e. 353) Essa foi realmente uma conquista significativa. Materialien zur lateinamerikanischen Literatur (1976). o Instituto Ibero-Americano do Patrimônio Cultural Prussiano. 351-352). em Mettingen. finalmente. Criada em 1989 e somente em 1997. mas quase sempre com referência exclusiva à América espanhola. o Instituto Latino-Americano. o mesmo autor resume “o largo caminho da institucionalização” (Briesemeister. ocupada pela autora deste texto. o livro de Michi Strausfeld. no qual foi proferida essa conferência de Briesemeister.” (Briesemeister. o Instituto Português e Brasileiro da Universidade de Colônia. foi “dotado de uma cátedra (única no país) de literatura e cultura brasileiras. da Universidade Livre de Berlim. pontuando. p. a cátedra mal completara um ano quando organizamos o simpósio internacional. a criação de três institutos que continuaram existindo depois dela: o Instituto de Pesquisas sobre Ibero-América da Universidade de Hamburgo. p. 2000. que só 25 anos depois de criado. a fundação do primeiro Instituto Latino-Americano da Alemanha.

dos estudos de teatro.14 Revista Brasileira de Literatura Comparada. como quem inventa a roda. mas tudo isso sem esquecer sua base nos estudos de literatura brasileira. Por outro lado. contou com uma ótima base linguística dos estudantes. Carlos Azevedo e Carlos Ladeira. sem desconhecer suas especificidades linguísticas e históricas. numa predisposição e abertura para a inter/pluri/transdisciplinaridade. havendo um esforço permanente para relacioná-los com seus contextos. a Brasilianística no LAI dedicou-se sobretudo ao estudo sistemático e à divulgação dos textos mais significativos da Literatura Brasileira. bem como da Latino-americanística e em diálogo estreito com a Caribística. muito antes de os Cultural Studies se terem transformado em moda na América Latina. que aprenderam português brasileiro com Berthold Zilly e outros excelentes mestres. encarregados de cursos de língua. Para tanto. 5 . de modo indiscriminado. implicando um diálogo constante da crítica. essa foi sempre a direção buscada. a proposta sempre foi trabalhar com o Brasil sem deixar de levar em consideração a sua integração no mundo. poesia oral. assim. já nos anos 1970. valorizava com saudável distanciamento irônico os estudos culturais para além dos cânones literários. 4 O termo se deve a Marlyse Meyer. n. novelas de televisão. Zinka Ziebell. o qual não podemos esquecer. da Lusitanística. A Brasilianística concebeu-se. entre os quais. que. aos estudos sobre cordel e folhetim. 2009 Considerando as lacunas apontadas por esses e outros estudiosos. porque estes muitas vezes tendem a confinar o estudo dos textos e a própria literatura nos países considerados periféricos a um conjunto de informações superficiais e até mesmo estereotipadas das produções culturais. tanto como parte de uma hipotética Weltliteraturwissenschaft quanto da Romanística. mitos. ainda. arbitrário e puramente folclórico. dedicandose. entre outros. embora ela tenha trabalhado também com textos não canônicos e com textos que só podem ser considerados literários em sentido amplo. hoje também leitora na FU. que já constituem mais de dois séculos de um saber acumulado. a começar por tudo o que o une à América Latina.15. permitindo-se juntar num único seminário. tais como filmes. artes e comunicações. como “Altos e baixos estudos”5 de literatura e cultura e não como Cultural Studies. entre outros. da teoria e da história literárias com a linguística.4 Mas isso não significou tratar os textos isoladamente. ambos parcialmente financiados com auxílio do governo brasileiro. a cada nova tendência teórica produzida nos centros universitários hegemônicos da Europa e Estados Unidos da América do Norte. A Brasilianística concebeu-se. da Literatura Comparada. a economia. a história e as ciências sociais.

Isso tudo. impedindo que se dissolvessem conteudística. e mesmo intensificou.6 Finalmente. como abertura para o não canônico. mesmo que bem intencionada.. 6 aulas sobre descobrimentos. todo docente universitário com doutorado poderia fazer. como permite o sistema brasileiro: desde orientar teses de doutoramento até coordenar projetos.Os estudos de língua e literatura brasileiras no contexto. música popular brasileira e jeitinho brasileiro. seria um efeito perverso da atitude libertária. como em qualquer parte do mundo. Para entender a importância disso – sobretudo porque no Brasil poucos percebem a diferença entre as condições de trabalho de um professor e de um assistente ou de um leitor. escravidão. assinar convênios e gerenciálos. um cargo de professor implica um espaço próprio e possibilidades bem maiores de fazer coisas que. . permitiu conquistar um espaço autônomo para os estudos de literatura e cultura.e redutoramente nas ciências sociais. embora vinculando-se estreitamente a elas. No caso da Brasilianística. Por outro lado. o aprofundamento da pesquisa e do ensino específicos da literatura e da cultura brasileiras preservou. é preciso saber que na Alemanha. entendendo que negar essa possibilidade em nome da democracia. Como já foi dito. associação de brasilianistas dos Estados Unidos. O jornal chama-se Fagulha e no número de 1997 estampou esse programa como alternativa aos programas tradicionais de literatura e cultura brasileira. promover eventos. possibilita uma continuidade de produção teórica e prática no ensino e na pesquisa. onde a hierarquia universitária se mantém de modo muito rígido e conservador.. a Brasilianística sempre defendeu o espaço e a possibilidade de os escritores brasileiros escreverem e publicarem literatura. aparentemente. como social e histórica. o intercâmbio interdisciplinar com os estudos hispano-americanos de literatura e cultura. tão importante na formação das novas gerações. 15 Como defendeu um colega norte-americano no jornal da Brazilian Studies Association (Brasa). pois a literatura sempre foi estudada aí como parte da cultura e esta. com esse cargo de titular para a Brasilianística criou-se a possibilidade de os estudos brasileiros escaparem à situação de apêndice dos estudos portugueses ou hispano-americanos. mais o contrato permanente de trabalho. para não falar dos professores horistas ou encarregados de cursos –. Guimarães Rosa..

aqueles identificados no passado. Entretanto. a Brasilianística começou a funcionar já num momento extremamente desfavorável. pois permite não apenas aprofundar a interdisciplinaridade mas também desenvolver atividades que levem a superar culturalmente o tratado de Tordesilhas. 2009 É importante assinalar que o Instituto Latino-Americano. Tais entraves iriam reforçar. com a introdução das reformas curriculares nas universidades alemãs e europeias. um ano antes do balanço pessimista mas realista de Briesemeister. piorou. na Alemanha. ajuste esse que o autor antecipou e que logo iríamos começar a viver de modo vertiginoso. como a então recente criação da Brasilianística. segundo ele. quando a Universidade começava a ser pressionada para ajustar-se às reformas neoliberais. como vimos. o que o levava a sugerir um tanto profeticamente que tudo tenderia a piorar: O que impede quase insuperavelmente a independentização dos estudos brasileiros nas condições precárias do momento atual são as estruturas administrativas organizatórias da universidade alemã. n. e mesmo portuguesa. A reforma universitária vinha junto com significativos cortes de orçamento. p.16 Revista Brasileira de Literatura Comparada. ou mesmo por causa delas. 354). parece ser o lugar institucional ideal para uma disciplina desse tipo. tanto na sua tradição. Nas Humanidades. apesar de suas contradições. prevendo a extinção de postos e áreas inteiras. a oferta de quatro a cinco cursos diferentes por semestre. concorrendo para a integração da América Latina. Apesar das várias realizações da Brasilianística – entre outras.15. O experiente professor e pesquisador já pressentia nessa reforma novos entraves para os poucos progressos feitos na institucionalização dos estudos de língua e literatura brasileira. no sentido acordado em Bolonha: generalização dos cursos de Bachelor e Master e substituição dos cursos tradicionais de graduação. uma das primeiras áreas atingidas foi o português. E. 2000. como no âmbito das reformas anunciadas para o futuro próximo (Briesemeister. a . realmente.

ao espanhol da América. 2000). a qualidade da pesquisa científica. em menos de cinco anos.Os estudos de língua e literatura brasileiras no contexto. uma formação mais superficial na área. mais econômicos que científicos.000 de falantes. além de um módulo para desenvolvimento de projetos. o português brasileiro. ao nível do Master. mas também para ajustar a formação profissional dos jovens universitários às exigências de hoje (Briesemeister. o que significa menos carga horária. “torna-se impossível conciliar as necessidades da diferenciação adequada com os critérios didáticos de aprendizagem e as relações histórico-culturais dos países do mundo lusófono” (2000. então. como parte do BA de Estudos portugueses e brasileiros. Não apenas a literatura brasileira se vê ameaçada. ao nível do BA. Literaturas nas dinâmicas culturais da América Latina. Ele enunciou. transformações. Antropologia cultural. com um BA de estudos brasileiros e portugueses (valendo 60 pontos e não 90. Como também previu Briesemeister. Os “dilemas da institucionalização” ameaçam também a variante europeia da língua e os respectivos estudos literários e culturais específicos da lusitanística. 7 O Master do Instituto prevê um primeiro ano comum. a organização de simpósios. a Universidade Humboldt encerrou mais radicalmente esses estudos. os alunos podem optar entre cinco áreas de concentração: Transformação e desenvolvimento. concretamente. Esse master começou em outubro de 2005. da qual fazia parte a Brasilianística como uma subárea. menos professores: ou seja.8 Ao nível do Bacharelado. em face disso. planejou-se e. Brasil no contexto global: literatura. a exclusão do Brasil da América Latina ou. A Universidade Livre tem mais condições hoje de manter uma parte deles.7 seja no âmbito dos Estudos Culturais Latino-Americanos. p. como os outros). Relações de gênero. 8 orientação de mestrados e doutorados. 17 As recentes reformas implicaram o fechamento de departamentos inteiros de português em toda a Alemanha.. Motivos? Ao que parece. a assimilação de uma língua de quase 200.. inevitável e urgente. com cinco módulos obrigatórios e alguns opcionais. Poder e diferença. a especialização é absolutamente necessária. o que significa. Num segundo ano.. mas o máximo que conseguiu foi fazê-los sobreviver como diploma complementar aos Bachalerados da Romanística. Conceitos e métodos da pesquisa sobre América Latina. Os básicos são: Constituição da América Latina. 350).000. quando os novos bacharelados já haviam começado e hoje já se evidencia em ambos a necessidade urgente de serem repensados e reformulados. formas de vida. menos disciplinas. cultura e sociedade. enquanto a disciplina de Latino-americanística. mas estranhamente assimilada ao BA de Filologia Espanhola. em nível institucional. América Latina no contexto global. . ciclo de palestras e publicações. uma necessidade que estamos longe de preencher: Sem dúvida. a língua e a literatura brasileiras deslocaram-se para o departamento de Filologia Românica. não só para garantir. Em Berlim. passou para o mesmo departamento. decretou-se o seu desaparecimento no âmbito mais geral seja da Lusitanística. o estabelecimento e gerenciamento de convênios internacionais com outras instituições dedicadas à cultura e à língua brasileiras no Brasil e na Europa –.

Trata-se. ocupado pela primeira colocada no concurso feito em 1990. coerentemente com a tradição de que nos falava Briesemeister. do instituto mais importante na Alemanha dedicado aos estudos sobre a América Latina. indo além do seu próprio gueto. para cursos destinados aos interessados das áreas consideradas mais úteis. quando expressivos resultados do trabalho aí desenvolvido começam a aparecer. que por si só a justifica. E justamente agora. “sorriso da sociedade”. 2009 A restrição da oferta no ensino de português. Existindo desde meados da década de 1970.html>. se propôs a criar um Centro de Pesquisas Brasileiras.9 corta-se a sua continuidade. como vimos. Essa concepção ainda positivista da literatura e das artes embasa ou. esse Instituto conseguiu abrir um cargo de titular em literatura e cultura brasileiras. entretanto. não foi acompanhada de uma diminuição da demanda. pela extinção do cargo após a aposentadoria da sua titular. ligadas aos negócios ou às chamadas ciências sociais. cursos e projetos de pesquisa em nossa homepage: <http://www.fuberlin. mas está sendo canalizada. recentemente. eventos. após muitas idas e vindas. 9 . que quase dez anos depois. só em 1989. finalmente. como queria o escritor brasileiro Afrânio Peixoto no início do século XX. ajudar a superar tanto uma suposta autonomia absoluta dos estudos filológicos quanto o preconceito de muitos brasilianistas das ciências sociais. n. há um paradoxo. na variante europeia e nas demais. veio a ser.15. pelo menos. justifica a criação de bacharelados disciplinares em que os estudos portugueses e Veja-se a lista das publicações. consiste em. não aos estudos de literatura e cultura ou aos estudos linguísticos. com tentativas de fechá-lo antes que começasse a funcionar e tendo funcionado dois anos com professores substitutos. que eram contemplados normalmente no antigo currículo.18 Revista Brasileira de Literatura Comparada. ora como seu equivalente ao contrário: puro documento. em 1997.lai. Uma tarefa da Brasilianística. para os quais a literatura é vista ora como uma joia supérflua. com uma tradição respeitável de estudos sobre o Brasil e que. que continua a crescer. como vimos. No caso do Instituto Latino-Americano da Universidade Livre de Berlim.de/studium/disziplinen/ brasilianistik/index.

e esta não se faz sem um domínio da linguagem em que se expressa cada texto como produção simbólica. portanto. que é a capacidade de trabalhar intensivamente.11 História. foi resguardar o essencial. perdendo sua especificidade. é uma atitude analítica. no nosso espaço cada vez mais restrito. que abrange toda a América Latina e o Caribe. o que implica a desconsideração total da questão estética. mais que uma série de informações sobre eles. o que tentamos. embora uma avaliação menos pessimista não veja isso como desmonte. 19 A cada ano.. aí se procura articular em torno de certos temas. Socio- . em que a literatura e a cultura submergem nos chamados estudos de área. Lateinamerikanistik/Brasilianistik (Literatura e Cultura Latinoamericanas).. contra 90 nos bacharelados principais)10 e menos tempo ou nos Masters interdisciplinares. Mais que quantidade de informação. mas como concentração desses estudos em algumas universidades em detrimento de outras. sem o domínio da língua e dos métodos de leitura desenvolvidos pelas teorias da literatura. começa-se a rediscutir as bases do nosso Master de Estudos Latino-Americanos que se quer interdisciplinar. No caso da literatura. servida por apenas um cargo de titular. necessárias e esclarecedoras mas externas a eles e. mas tampouco fazer tabula rasa do capital teórico e analítico aí acumulado. neste caso. textos que constituem nosso objeto de estudo. a Associação dos Lusitanistas alemães faz um balanço do desmonte dos estudos de língua e literatura em língua portuguesa e constata que ele prossegue. bem como a historicidade das formas. 10 Nesse conjunto.Os estudos de língua e literatura brasileiras no contexto. a partir do semestre de inverno de 2010. pelo predomínio da análise conteudística ou a abordagem das condições de produção ou de recepção dos textos. pois o que se ensina. considerados prioritários. o que configura necessariamente uma grande restrição. incapazes de dar conta da sua complexidade como objeto feito de palavras que são ao mesmo tempo coletivas e individuais. Atualmente. o que não significa utilizá-los de modo acrítico ou extemporâneo. com profundidade. pelo menos desde Aristóteles. 11 brasileiros têm menos pontos (60. mas não se sabe ainda muito bem o que fazer dos estudos da cultura quando esses ultrapassam as leituras meramente conteudísticas e passam a investigar o tratamento dado aos temas. De todo modo. um método para que cada um produza seu próprio método. as diferentes disciplinas – Altamerikanistik (Antropologia e Arqueologia do continente americano). como ocorria há quinze anos. o que importa aqui é a qualidade da formação. Em meio a tantas mudanças. a Brasilianística voltou a fazer parte de uma só disciplina. senão um lamentável retrocesso.

o que implica a busca de padrões e categorias que permitem tratar adequadamente semelhanças e diferenças. n. ao mesmo tempo como criação estética e como documento. Essa excelência deriva de . incluindo a literatura e cultura. nesse diálogo das disciplinas. p. 2009 logia. mesmo que não quisessem sê-lo. A teoria e crítica literárias aí já nasceram comparadas. não é possível estudá-la sem relacioná-la intimamente com a História. o que precisava ser compreendido. com a Política. mas dificilmente o é. O desafio.15. tivemos até quase o final de 2010 uma situação que se pode considerar de excelência na área dos estudos brasileiros. agora. principalmente se tratando do Brasil e da América Latina. “desde o formalismo jurídico até o senso humanitário”. 1989. pode dizer muito mais sobre a vida. trata-se de um desafio que é o desafio de todo trabalho interdisciplinar. em Berlim. No caso da literatura. com a Economia. tudo foi historicamente permeado pela literatura. quando ela aparece na sua complexidade. 180). é o de explicitar a comparação imanente. com a Sociologia. a fim de que esse diálogo realmente seja um diálogo e não a submissão ou a diluição destes perante uma hegemonia das ciências sociais? Seja como for. é preciso reconhecer que. com a Antropologia. como reconheceu há muito Antonio Candido. Mas é verdade que isso se fez muitas vezes de modo implícito. Ao mesmo tempo.20 Revista Brasileira de Literatura Comparada. é que. Quem estuda literatura e cultura num país como o Brasil sabe que não é possível fazê-lo a não ser estabelecendo comparações. Como devem ser abordados os objetos literários a partir da perspectiva dos estudos propriamente literários. Ciências Políticas e Economia. Parece óbvio – mas nem sempre o óbvio é percebido como tal – que não é possível realizar um trabalho inter ou transdisciplinar sem respeitar os pressupostos epistemológicos e metodológicos próprios de cada disciplina. onde. chegando à “expressão dos sentimentos no âmbito familiar” (Candido. E num país onde a literatura se forma sob a pressão e a certeza de que se está gestando com ela também a nação.

.. caso não se venha a compensar de forma consistente a perda da Brasilianística. mas também num estudo de Walnice Nogueira Galvão e em informações divulgadas nos encontros bienais da Associação de Lusitanistas Alemães.Os estudos de língua e literatura brasileiras no contexto. mas que na verdade era realismo. como ocorre atualmente na Universidade . resumida ao longo deste texto. volta a se fazer presente. hoje se financiam novos leitorados para compensar algumas perdas ou se estabelecem convênios que permitem preservar sobretudo os cursos de língua que sobreviveram nos novos currículos. sem falar nos encarregados de cursos que ajudaram a ampliar e diversificar a oferta de cursos desde o início. crítica. dentro e fora da Alemanha. Quanto à variante europeia do português. com base no texto citado de Briesemeister. contávamos também com um leitor extremamente competente tanto no ensino da língua brasileira quanto na tradução. A situação negativa que os estudos de literatura brasileira. sob o mote de “Wir wollen Portugiesisch” (Nós queremos português). financiando pelo menos parcialmente alguns leitorados. cujo apoio aos leitorados parecia ter-se enfraquecido. Aqui e acolá há sinais de resistência que nos impedem de desanimar. no contexto dos estudos de português em geral. Hoje em dia a situação começa a mudar. graças à organização da comunidade científica dos Lusitanistas e Brasilianistas. mas isso parece difícil de ser conseguido. vêm enfrentando nos últimos anos. teoria e história literárias. o que chegou a ser lido como nostalgia. Essa excelência precisa ser defendida e potencializada. reforcei esse tom pessimista em outras publicações. mas também graças à importância reconhecida do Brasil para as relações internacionais da Alemanha. provocou periodicamente balanços extremamente negativos. além de contarmos com uma professora para essa cátedra. o Instituto Camões. Pelo lado brasileiro. se antes havia pouco incentivo. como foi o caso do movimento iniciado pelos estudantes da Universidade de Jena. Eu mesma. o que foi previsto no processo de criação do Centro de Pesquisas Brasileiras acima referido. 21 que.

que foi iniciado e prossegue no âmbito de um convênio com o Brasil. em português brasileiro. Assim. entre eles os que tratam das manifestações culturais afro-brasileiras ou dos povos indígenas. Também uma antologia de textos curtos e atuais. desde o início.22 Revista Brasileira de Literatura Comparada. com ajuda da Embaixada Brasileira. num esforço de cooperar para vencer a tendência a concorrer e dividir. vem sendo desenvolvido pelas Dras. Assim. Isso tudo leva a juntar forças. eles terão oportunidade de desenvolver um conhecimento mais profundo e uma prática linguística mais ativa nos módulos mais avançados. é elemento de apoio básico nesse ensino. já que a maior parte dos estudantes tem conhecimento dessa língua. em que o português europeu é central. Dessa forma. a experiência da variante brasileira. No que diz respeito à variante brasileira. em que se trabalha mais diretamente com o português do Brasil. no Bacharelado de Estudos Portugueses e Brasileiros da Universidade Livre de Berlin. também estamos produzindo um material contrastivo. n. as outras variantes da língua são. a partir dessa base. objeto de estudos comparativos. pelo lado da literatura talvez o desafio Esse trabalho. No caso do Master de Estudos Latino-Americanos. os diferentes registros da língua portuguesa e suas variantes regionais e nacionais passam a ser considerados riqueza comum e não instrumentos para reafirmar hierarquias e justificar discriminações. desde o início da sua formação no bacharelado. 12 .15.12 Se pelo lado do ensino da língua esses são o panorama e o desafio atuais. desta vez com o espanhol. quanto outros mais complexos. 2009 Livre de Berlim e na Universidade Humboldt. de diferentes gêneros. vem sendo preparada e sistematicamente atualizada. que vai de mapas a dados numéricos e históricos. Uma produção de material didático de caráter contrastivo do português brasileiro com o português de Portugal e de Angola. Zinka Ziebell e Rosa Henckel. como instrumento ágil para proporcionar aos estudantes de português. produzindo e compilando tanto um material básico para iniciantes. tais como textos de e sobre literatura e cultura. para ser usado no sistema do e-Learning. estamos fazendo um trabalho desde 2007 no sentido de conceber cursos de cultura brasileira para além dos tradicionais e panorâmicos cursos de civilização. coordenado por Ligia Chiappini e mediado pela Embaixada Brasileira.

que já em 1998 Ray Güde-Martin tematizava no trecho aqui escolhido como epígrafe. o quadro tampouco é positivo. 2008. Mas. que a boa literatura carrega junto com as suas dimensões ideológicas conservadoras. 23 Alusão a um debate realizado no Instituto Iberoamericano de Berlim em parceria com o Instituto Goethe de São Paulo. pois a Universidade e pareceristas externos a ela reconheceram a autonomia e a dimensão desta para comportar uma abordagem específica. termina seu texto de modo otimista.Os estudos de língua e literatura brasileiras no contexto. Considerado muito difícil e tendo suas traduções em alemão esgotadas. no caso do best-seller. apesar do balanço negativo. Desconsidera-se aí aquilo que Antonio Candido definiu como contraveneno. por quase 15 anos. que implica um grau mais alto de elaboração linguística. ocidental. A literatura mais exigente. coincidiu com um debate sobre a literatura brasileira como um mau negócio. um posto de Professor para Literatura Brasileira. O ano do seu jubileu.. .13 Constatava-se aí que a literatura de qualidade estaria perdendo terreno para a literatura meramente comercial e para uma espécie de novo exotismo. expresso na representação espetacular do brutalismo nas favelas. porque esta também só interessa. menos ainda se valoriza o conhecimento da língua como matéria e forma da e na literatura. 13 seja maior. como vimos. que trabalham com clássicos da chamada literatura universal. No Instituto Latino-Americano tivemos por quase 30 anos um cargo pleno de leitor para Português Brasileiro e. E. Mesmo assim. do ponto de vista editorial. porque julgada elitista. Um exemplo disso é o caso de Guimarães Rosa. é simplesmente demonizada ou ignorada. branca. dificilmente consegue ser republicado. ainda não conseguimos despertar o interesse de colegas e estudantes de outros departamentos da mesma universidade. como documento ou como mercadoria. assim como Briesemeister. Pois se já poucos reconhecem a importância de estudar a língua portuguesa e suas variantes para a comunicação e outros usos meramente instrumentais. em março de 2008. simultânea e pioneiramente.. citando o crescente interesse de um certo público e a presença maior dos escritores cineastas e artistas brasileiros em encontros.

São Paulo: Ática. n. Brasil. rivalizante e paradoxal. mas continuamos apostando que o trabalho desenvolvido no espaço conquistado para a literatura brasileira no Instituto Latino-Americano da Universidade Livre de Berlim poderá ajudar a superar essa esquizofrenia. semanas culturais dedicadas ao Brasil. DIMAS. colóquios. p. 354).15. traduzem e comentam o melhor da literatura brasileira. 52. além das associações que ajudam a manter a vitalidade do setor. CANDIDO. acreditar.). 251-263. Ligia. CHIAPPINI.24 Revista Brasileira de Literatura Comparada. bem como a atuação de colegas que ensinam. 2009 recitais. Infelizmente. pelo reconhecimento das lacunas e a invenção de novos mecanismos que ajudem a preservar e a desenvolver o que já foi realizado. Dietrich. Os estudos brasileiros na Alemanha. que a indiferença pela Literatura do Brasil e o seu desconhecimento podem ser superados na Alemanha. p. Literatura de dois gumes. In: CHIAPPINI. 349-357. n. muito do diagnóstico de Briesemeister ainda vale para o presente e a maioria dos brasilianistas alemães ainda “leva uma existência profissional acadêmica. podemos ainda. ZILLY.” (Briesemeister. 2005. Ligia. mais de dez anos depois. Berthold (Orgs. In: A educação pela noite e outros ensaios. 1989. 2000. apesar de todas as lacunas e retrocessos. Antonio. São Paulo. estudam. MartiusStaden-Jahrbuch. Referências BRIESEMEISTER. Literatura e cultura no contexto dos estudos brasileiros na Alemanha: a cátedra de Brasilianística. em certo modo esquizofrênica. . Antonio. país do passado? São Paulo: Boitempo. 2000. p.

recepção da literatura. keywords: image of Brazil. inteiraram-se da existência do Brasil no século XVII. político e eminente militar da época. reception of the literature. expectativas. abstract: This study examines the reception of the Brazilian literature in Hungary. Instituto de Romanística. Miklós Zrínyi. escritor. peçamos pois ao rei espanhol [sic!] uma província. exclamou num libelo político as seguintes palavras contra a opressão turca: “Tenho notícias de que no Brasil há terras desertas em abundância. palavras-chave: imagem do Brasil. expectations. quando o autor da epopeia nacional húngara Szigeti Veszedelem (“Desgraça de Szigetvár”). o público húngaro formou uma imagem do Brasil a que a literatura. não correspondia. The Hungarian (reading) public has got a lot of information about this country during the XVII-XIXth centuries. FL da ELTE (Faculdade de Letras da Universidade Eötvös Loránd) de Budapeste. exotic. se bem que de uma forma e em condições um pouco especiais. façamos uma colônia tornando-nos cidadãos Departamento de Português. doesn’t suit to. so formed an image about Brazil what the literature. Tendo-se inteirado da existência do Brasil e obtido muitas informações deste país nos séculos XVII a XIX. Brasil e Hungria: primeiros contatos Os húngaros. traduzida muitas vezes para servir interesses privados ou políticos. * . translated for serving private or political interests.25 A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria Ferenc Pál* resumo: O presente trabalho estuda as condições da recepção da literatura brasileira na Hungria. exótico.

as expectativas do público são bem ilustradas pelo mesmo semanário Vasárnapi Újság. csináljunk egy coloniát. de 30 de outubro de 1859. em primeiro lugar. Nos séculos posteriores houve notícias esporádicas do Brasil. “Utazás a föld körül” (Viagem em torno da Terra). 14. n. Quanto à presença do Brasil e das coisas brasileiras no imaginário húngaro da época. no entanto. mantiveram contatos diplomáticos a partir de 1817. as notícias também mostram o Brasil como parceiro comercial e cultural da Hungria. em especial sobre a consequência do trabalho dos jesuítas húngaros. kérjünk spanyor királytul egy tartományt.1 Podemos supor. distinto. Entre os primeiros emigrantes supostamente havia também húngaros cultos. 1968. legyünk polgárrá. O Brasil e a Hungria.5 informando que a região atrai os visitantes com a beleza da sua vegetação. n. 2009 [daquele país]”(Zrínyi. Vasárnapi Újság. 1854-1860). cujas páginas trazem. p. 17 set. provoca má impressão aos viajantes europeus. 3 “Tejfa” (Árvore que dá leite) “ Um relato sobre a fauna do rio Amazonas e do Rio Negro. em Tyrnavae. Japone. Nos jornais e revistas húngaros da segunda metade do século XIX podemos ler muitas informações sobre o Brasil.” 1 É em parte resultado do seu trabalho o livro Itinerarium peregrini philosophi. 1661/2009). na questão do urbanismo. Nas notícias po- “Ugy hallom Braziliában elég puszta ország vagyon. versados na literatura. publicada no Rio de Janeiro.26 Revista Brasileira de Literatura Comparada. 4 jun. por Franciscum Szedlar e pela Sociedade de Jesus.4 bem como relatos sobre viagens a esse país e nomeadamente ao Rio de Janeiro. notícias interessantes. que a Hungria integrava. Em seu número 44. 5 . editado em 1720 na Universidade Arquiepiscopal.2 Um conhecimento mais intenso. 1854. n. Ramirez. Canada et Brasilia definitum. que “numa antologia geral.15. sem nos atrevermos a tecer proposições freudianas. acham-se onze poemas húngaros” (Vasárnapi Újság. porque na década de 1850 já temos notícias do Brasil que dizem respeito a atividades de magiares. Cicincina. 2 Cf.3 e nos meados dos Oitocentos já havia um contato regular entre os dois países. Vasárnapi Újság. que se iniciou depois da abolição do tráfico de escravos em 1850. Hegeds. mas que. 1854. 29. na seção “Tárház” (“Depósito”). Além de seus aspectos exóticos. primeiramente por causa da emigração. que participavam como missionários no levantamento topográfico e na descrição das terras brasileiras. Sinis. o semanário de Budapeste Vasárnapi Újság informa. ou melhor o Império Austríaco. 4 Andersen – Dr. sobre a curiosa flora e fauna brasileiras. 243244. algumas vezes abordadas de forma científica. começou a difundir-se no século XIX. entre eles János Zakariás e Dávid Fáy. que a partir de então o Brasil devia ou podia existir no subconsciente húngaro como um lugar particular.

42. prestigiosa revista literária de Budapeste da primeira metade do século XX. Rio de Janeiro. Esta duplicidade da imagem ou dicotomia da recepção do Brasil também se observa na obra de Mór Jókai. Dom Pedro. Hírmondó. 49 a 52. 1857. László Alvinczy. 12 demos ler informações sobre o cultivo e comércio do café.A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria 27 Vasárnapi Újság. por exemplo. 1969.7 No enorme número de revistas e jornais que saíram na Hungria do último terço do século XIX. em que se . 17 out. No número 5 da revista. 24 nov.. hospedou-se intencionalmente no Hotel ‘Angol királyn’. 1883. condigno a um monarca. aliás escritor favorito do imperador D. etc.11 em cujas obras as aventuras acontecidas no Brasil e certas peripécias econômicas andam de mãos dadas. publicado no Hírmondó. sobre o fato de que um comerciante húngaro transportou vinhos de Arad. como em Az arany ember (O homem de ouro. o bondoso Mór Jókai. Pedro II. juntamente com informações de caráter político. como foi. morreu no Brasil.12 Mas. imperador brasileiro). referindo-se dessa maneira à população negra. romancista romântico de fantasia profícua.9 Rthy Frigyes fala sobre o “povo estranho” que vive no Brasil. 27. no início da década de 1870: “[Mór Jókai] tem amigos soberanos. “Egy magyar tengerész Brazíliában” (“Um marujo húngaro no Brasil”). nos romances posteriores – para além de meras referências a um ou outro fenômeno curioso. inexistente em território húngaro. 274. n. Em um artigo no Vasárnapi Újság. 1873). a fim de poder ter um contacto mais íntimo e fácil com o seu parente espiritual. 6 Vasárnapi Újság. envolvidos em aventuras rocambolescas. 47. o artigo de 1889 sobre a visita de Dom Pedro II à Hungria nos anos 1870. graças a um dono de barco brasileiro passam uma semana no Rio de Janeiro. dez. No conto do escritor intitulado Tíz millió dollár (“Dez milhões de dólares”). 10 Uma comunicação da revista literária Nyugat. 1889. e não no apartamento oficial. Pedro II. Essa demanda pelo estranho. n. 1857. pitoresco. Com estranhamento. n. Pedro a Budapeste. 1858. n. para a capital do Brasil.6 também se informa que a cantora Lagrange cantou uma ária do compositor húngaro Ferenc Erkel no Teatro da Ópera do Rio de Janeiro. exótico. o interessante imperador brasileiro. 7 II. 9 “A vizi boa-kigyó” (A jibóia – serpente da água). também se fala na flora e fauna brasileiras. e que um aristocrata húngaro. Gyula Szini fornece em “Jókai: Egy élet regénye” (“Jókai: Romance de uma vida”) a seguinte informação sobre a curiosa visita de D. os personagens. Dom Pedro brazíliai császár (D. p. 6 set. pretendia-se satisfazer a curiosidade do público leitor em relação ao exotismo. cidade do sul da Hungria de então. n. publicado no ano de 1928. O artigo intitulado “A vizi boa-kígyó” (A jibóia – serpente da água).10 descreve alguns animais repulsivos do Brasil.8 ou informações sobre a proclamação da República no Brasil e outros acontecimentos de política interior. informa que o imperador tinha em grande estima a obra de Mór Jókai. n. 29 abr. 23. satisfazem-na tanto os artigos publicados nos jornais como os livros publicados nessa época.” 11 Vasárnapi Újság. no Castelo de Buda. 17. 8 Vasárnapi Újság. Vasárnapi Újság.

11 jun.. 23. [. Nos anos 1930 e 1940.”15 Em seu último romance. escreve que “os peruanos e os brasileiros sempre pagam com prata”. Zoltán Nyisztor: Felhkarcolók. Romances que se movem no universo das obras da literatura de cordel.18 Contudo. 23. s/d)... como A brazíliai fenevad Segunda parte: “[. e com um contingente grande de emigrantes na primeira metade do século XX. Ao menos era assim que os órgãos políticos húngaros informavam seus leitores. 1934).28 Revista Brasileira de Literatura Comparada.. serdk. Békéscsaba. mint kávé. p. como afirmavam muitos livros de não ficção dessa época.. 13 Primeira parte: “A senki szigete” (“Ilha de ninguém”): “Brazília fvárosa Rio de Janeiro. o Brasil. n. 1870). Tartós Békéért. 1905). tornou-se terreno de lutas políticas das forças populares contra o imperialismo e pela paz. Budapeste.. do algodão e do petróleo [. 17 Sobre a situação interna do Brasil saíram artigos com títulos: “Brazília vezet személyiségei az atomfegyver betiltásáért” (Principais personalidades do Brasil defendem proibição de armas nucleares. o romancista fala largamente sobre as relações comerciais entre a Austro-Hungria e o Brasil. apátridos. a exigência ou a ânsia do exótico continuava a existir por parte do público. quando por causa do enorme número de emigrantes húngaros o Brasil entrava no dia a dia húngaro19 como um país “normal”... Ahol a pénz nem isten (Onde o dinheiro não é deus..17 Depois da Segunda Guerra Mundial. No romance Fekete gyémántok (Diamantes pretos. 1950). Vasárnap. alvo da emigração húngara. Rio de Janeiroig Adria gzös szállította” (Jókai. s/d). 2.] o Japão e o Brasil. 1926). tornou-se um cenário real. onde as condições de vida e de trabalho eram semelhantes às da Hungria. 18 . selvas. p. por exemplo...] a peruiak. 14 Primeira parte: “Amíg nem terjeszkedünk többre.13 E mesmo em Az arany ember informa que “A capital do Brasil é o Rio de Janeiro. 15 “A liszt magyarországi termény volt. “A brazil nép lelkesen támogatja a békeegyezmény megkötését követel felhívást” (O povo brasileiro apoia com entusiasmo o apelo por celebrar o acordo pela paz. Tartós Békéért.] Kína [.. na década de 1950.14 Na ficção fantástica A jöv század regénye (O romance do século vindouro.” (Jókai. no que dizia respeito ao Brasil. 16 Dezs Migend: A brazíliai aranyhegyek árnyékában (Sob a sombra das montanhas de ouro brasileiras. ott vannak a leghíresebb gyémántbányák” (Jókai. 1872) também se leem divagações de teor econômico: “Até não querermos mais do que a importação do café. s/d). É de lá que transportam para cá o algodão e o tabaco. s/d) –. s/d). aparece a frase: “A farinha era um produto húngaro. 1936). 2009 lê sobre um sapo luminoso que “irradia uma luz fosforescente” e “canta de noite nos interiores. Arad. gyapot és kolaj behozatalára [. 1935) e Lajos Wild: Tizenöt év Brazíliában (Quinze anos no Brasil. Béla Bangha: Dél-Keresztje alatt (Sob a cruz do sul..] às vezes tão alto que sua voz suplanta a dos cantores e da orquestra na ópera” (Jókai. n. Budapeste. foi o paquete Adria que a transportou até o Rio de Janeiro”. hazátlanok (Arranha-céus. 4. na ficção húngara de temática brasileira se registram ainda muitos elementos exóticos..16 O Brasil.15. Onnan hozzák a gyapotot meg a dohányt.] incluindo a China [. quando na Hungria aconteceu um câmbio de paradigma político. lá estão as minas de diamantes mais famosas”. n.. brazíliaiak mind csupa ezüsttel fizetnek..] Japán és Brazília befoglalásával” (Jókai.

23 que o público húngaro havia muito tempo tinha tomado conhecimento do Brasil e que esse país ocupava um lugar privilegiado na consciência húngara. Cf. Em húngaro: A kor hatalma. Contudo. Pál. por meio da obra e figura de Camões e de Pessoa.26 no caso do Fazendo referência à “rivalidade” de Portugal e do Brasil. Budapeste: Nemzeti Figyel. 19-33 e Pál. Nesse livro e nalguns outros que o seguiram ele não fez senão relatar o que tinha experimentado e visto naqueles dois anos que viveu no Brasil. jan. do panorama histórico acima traçado. essas experiências colhidas da realidade ficavam em segundo plano. mescla do relato de experiências pretensamente vividas e de histórias imaginadas. n. que prefere relacionar o Brasil com o exótico. para quem “a literatura é a melhor via para se conhecer um país estrangeiro”. tenham um maior halo de conotações na Hungria.. Outro Brasil. intitulado Kalandok a brazíliai serdben (“Aventuras na selva brasileira”). 24 25 26 Cf. “A brazíliai Kommunista Ifjúsági Szövetség újjászervezése” (A reorganização das Juventudes Comunistas brasileiras. 1951). 11. 2004c. Se dissemos em outra ocasião. apesar de que alguns momentos da literatura portuguesa. O primeiro livro dele. de aventuras na selva.20 o livro de contos Villanó fények az serd mélyén (Luzes cintilantes no fundo da selva). preconceitos ou ideias fixas que orientavam e orientam o gosto do público. parece que há determinadas expectativas. se desenha nos romances do ex-naturalista Gábor Molnár. 1996. p. e o ambiente brasileiro de pequenas povoações à beira da selva e dentro da selva amazônica passou a ser palco de histórias movimentadas. Tartós Békéért. p. p. aventuras entre os índios e na selva. p. as liberdades do carnaval e das praias do Rio de Janeiro. etc. Pál. 23 Presença da literatura brasileira na Hungria Podemos deduzir.24 Assim. 19 20 21 Budapeste. 121. 1951). depois de perder a vista num acidente. 2004a. 1965..A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria 29 10 jun. que sempre nos instiga a fazer cotejamentos. de Tibor Magyar. lentamente passava-se a ter condições de formar do Brasil uma imagem diversificada e verídica que correspondesse à realidade do país. La force de l’âge. 1997. 11-37. 1942. têm muito desse exotismo. Cf. e o fez num estilo vivo e vigoroso. 2004b. p. o Brasil estava mais representado na imprensa húngara do que Portugal. Pál. 1944. 1940. Mas. de Mihály Witte. O autor foi cônsul húngaro no Brasil entre 1928 e 1942. que em 1930 viajou à selva amazônica e. e em especial no século XIX. . Budapeste: FerencesVilágmisszió kiadása.22 de um tal László György.21 e o Brazíliai nagybácsi (O tio brasileiro). com o tempo. 3. 22 (A fera brasileira). Cf.25 citando palavras de Simone Beauvoir. 161-171. Boglár Lajos. regressou à Hungria e começou a escrever ficção. Budapeste: Európa. o erotismo desenfreado ou requintado. saiu em 1940. podemos mencionar que tradicionalmente.

Gadamer ou outros teóricos que supõem alguma identificação conotativa com uma obra para fazê-la sair do âmbito do simples terreno denotativo. que representam uma matéria morta. até que. etc. v. 2009 Brasil havemos de acrescentar que. Nas enciclopédias posteriores. Gonçalves Dias e Tomás António de Gonzaga) a obra já dedica verbetes autônomos. à maneira positivista.27 mas a alguns poetas destacados (como Gonçalves de Magalhães.). temos de estudar a recepção das obras brasileiras e ver quais delas tiveram impacto no meio húngaro. existente mas sem influência. na iniciativa de grande envergadura da Világirodalmi Lexikon (“Enciclopédia da literatura universal”). Em A Pallas Nagy Lexikona (A grande enciclopédia da [Editora] Pallas) ainda não se encontra uma informação sobre a literatura do país no verbete Brazília. em especial nas enciclopédias de literatura universal. No volume 3. das obras traduzidas da literatura brasileira. 3.15. partindo das ideias de Ricoeur. n. de 1911. como Macedo. Álvares de Azevedo. . Bernardo Guimarães. da Révai Nagy Lexikona (Grande enciclopédia de Révai) já se encontra um verbete em separado sobre a “literatura brasiliana” rezando que “a literatura brasiliana durante muito tempo foi apenas um ramo da literatura portuguesa e só nos últimos tempos começou a se desenvolver em rumo diferente” (Révai Nagy Lexikona. independentemente do valor da obra e das intenções dos editores. Nessa enciclopédia já é maior o número de autores com verbete autônomo (encontramos verbetes sobre os autores mais importantes ou renomados do Romantismo. 1911). só foram aceitas pelo público e tiveram êxito na Hungria as obras brasileiras que satisfizeram as expectativas acima enumeradas. encontramos informações cada vez mais sofisticadas sobre a literatura brasileira. As primeiras informações da literatura brasileira chegaram por via dos verbetes das enciclopédias editadas na viragem dos séculos XIX e XX.30 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Esse critério talvez seja muito rigoroso e restritivo mas. se queremos ultrapassar uma simples enumeração. publicada 27 A Pallasz Nagy Lexikona.

até os anos 1910. nem encontramos em nosso trabalho de pesquisa nenhuma outra menção de obras traduzidas desse país. figuram. Parece-nos mais ou menos evidente que. Assim. uma revista político-literária publicada em Moscou. até o momento da redação deste artigo. dado que nessa enciclopédia não há referências a obras brasileiras publicadas em húngaro. A primeira obra brasileira traduzida para o húngaro. Essa informação aparece na “Enciclopédia da Literatura Universal”. foi um conto de Machado de Assis. Tratava-se de mera informação sobre as letras brasileiras. em seguida surgem as primeiras publicações de traduções que. verbetes sobre 228 escritores brasileiros. Na seção de folhetim. não se traduzira obra brasileira alguma para o húngaro. de 1931. com relação ao modo como as letras brasileiras tornam-se de fato conhecidas na Hungria é bastante difícil identificar os fatores determinantes da expansão desse conhecimento: por um lado temos as primeiras notícias informativas. incerto quanto aos dados bibliográficos: é um conto de Ottavio Brandão. 29 entre 1970 e meados de 1990. há informações a respeito de um conto de Monteiro Lobato que saiu na revista ilustrada de lite- . 1090.A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria 31 “Az ápoló” (“O enfermeiro”). não foi possível consultar. 23 fev.29 Infelizmente. sem indicação do nome do tradutor. não são mais do que informações gerais dessa literatura. segundo podemos afirmar hoje. 1-2. publicado em 1912 no jornal Világ de Budapeste. além dos verbetes sobre a literatura brasileira e fenômenos literários ligados com o Brasil (como. o Modernismo). 1. o número mencionado do periódico. 1912. de forma que não temos informação sobre qual dos contos do autor figura na revista.28 Temos outro texto brasileiro traduzido para o húngaro. ano III. com o título Az ápoló. quer dizer. v. Por outro lado. por exemplo. publicado no (suposto) número 1 da revista intitulada Új Hang. n. na realidade. Világ. que ainda não se fazia acompanhar de traduções de obras para efetivo conhecimento por parte do público húngaro. 46. p. 28 Világirodalmi Lexikon. até a publicação dos primeiros volumes da “Grande Enciclopédia de Révai”. e após esse conhecimento geral surgem ou podem surgir as obras com as quais o público leitor tem já um contato mais familiar. p.

oferecia uma avaliação ponderada do autor: “Monteiro Lobato é o criador da moderna literatura nacional no Brasil. Paulo Rónai. não obstante passar quase despercebido. ao mesmo tempo. Tem por objetivo fazer um contraponto à literatura francesa.” (Pásztortz. que reunia uma série de escritores da Transilvânia da época. A seleção deu preferência aos poemas de alto quilate poético. que tem poemas de 25 poetas brasileiros da primeira metade do século XX. Afinal. é num parecer bastante generalizado que um livro de poemas.31 Este livrinho. Sem nome completo do tradutor. no prefácio do livro. acompanhados de uma introdução que esboça o panorama da literatura (ou antes: da poesia) brasileira. os critérios da seleção dos textos já contavam. p. editada na Transilvânia. um pouco frios. contudo eles contêm uma cintilação tropical indefinida” (Rónai. n. apresenta a poesia brasileira como manifestação “de um jovem povo com cultura. 8). 391). de saída. com um círculo reduzido de leitores. 1930. e foi acompanhado de uma nota que. além dos dados biográficos. e. ano XVI. 31 . p. traduzida por Paulo Rónai. Nos poemas da antologia prevalece um certo gosto ou “ar” parnasiano. o tradutor afirma: “Nos seus versos muito burilados. A apresentação avaliativa do autor faz-nos supor que é trabalho de uma pessoa conhecedora da literatura brasileira e mostra a seriedade daquela revista. revelar as enfermidades da alma brasileira. 24 ago. 1930. In: Pásztortz (Kolozsvár/Cluj). 8). 30 Para os poucos que não conheçam seu nome. publicado em 1939. indicado apenas com a abreviação: Szys. p.30 O conto Az élcfaragó (Fabricante de piadas) saiu na seção “Narradores Estrangeiros”. n. Assim. experimentando uma vida intelectual cada vez mais profunda” (Rónai.. p. rejeitando satisfazer um gosto pelo exótico ou movido por um interesse folclórico. 2009 ratura e artes intitulada Pásztortz (Fogueira de Pastores). relegando ao segundo plano aqueles que em versos Az élcfaragó. crítico e historiador de literatura. 1939. 17. Sobre a poesia de Olavo Bilac.32 Revista Brasileira de Literatura Comparada. universalizantes. falta o couleur locale. enérgico e em vias de desenvolvimento.15. indica o primeiro momento da difusão mais abrangente da literatura brasileira na Hungria. informamos que Paulo Rónai (1907-1992) é um literato húngaro que em 1940 trasladou-se para o Brasil como bolsista do governo brasileiro e nesta sua nova pátria desenvolveu variada atividade como tradutor. 1939. 391-393. é uma publicação que lança os alicerces para um conhecimento ulterior.. Trata-se da seleção intitulada Brazília üzen (“Mensagem do Brasil”).

É essa mesma voz universal. 32 desiguais e livres apresentavam cores e tons mais ásperos. Não sejamos.. dos 33 poemas do livro.. Os livros de viagens ou os folhetos turísticos mostram só o exotismo. mãos brancas ou negras batem o sinal tranqüilizador. e não as peculiaridades exóticas. Para os leitores mais sagazes. um pouco precipitada (e. contudo. em francês. nós o encontramos nesse livro de traduções novo e belo. no entanto os poetas informam sobre o essencial.33 Essa mesma posição se reflete num outro texto dele. índios e mestiços causaas também aos franceses ou húngaros. se familiarizara com o Brasil pela leitura das traduções de Paulo Rónai35 chega à conclusão. já sabemos. por exemplo. segundo ele mesmo diz. 1939a. que. e da Europa maltratada bate-se a resposta: ‘Obrigado!’” (Bálint. na qual. [. muito mais tarde. escritas na véspera da Segunda Guerra Mundial. p. reunidos em quatro pequenos ciclos. Esse essencial. esse “outro Brasil”.] Todos os poetas são aparentados. Suas vozes são afins e universais. por exemplo.34 escrito depois da leitura. 7) 33 34 35 Bálint. que se frisa na recensão informativo-crítica do publicista György Bálint. afinal. os que Ronald de Carvalho escreveu a respeito do Brasil. Suas palavras novamente refletem . parece. como. percebe-se também uma preocupação com os valores da cultura ameaçados.. por outro lado. mais modernos. injustos com Paulo Rónai: em seu prefácio. pode-se dizer que tal princípio de escolha e apresentação dos poemas resultou do gosto intelectual urbano daquele momento. quase instituição nacional. com a literatura húngara. ele fala sobre as dificuldades de obter livros do Brasil: pode ser que simplesmente não tivesse à mão todas as obras necessárias para uma antologia equilibrada. alheia aos trágicos problemas nacionais. escrita alguns meses depois da publicação do livro de poemas de Paulo Rónai. O jornalista que. porque o tradutor publicara algumas delas em diferentes revistas. que ele apresenta como romance por excelência. (Bálint. Assim. 1939. falsa). negros. na sua colaboração para a Enciclopédia da literatura universal. só oito do ciclo “Descobrimento do Brasil” evocam ambientes tipicamente brasileiros. que pensam descobrir uma incongruência de datas. ao contrário do que ocorre. dizendo que estão de guarda. p. Essa mesma antipatia pela literatura da vanguarda e/ou experimental também se nota. de que os brasileiros são gente feliz porque têm preferência pela literatura pura. suas palavras sobre a poesia brasileira têm uma mensagem política para a atualidade de então. etc. não aparecem os representantes da poesia concreta. a mesma coisa que causa dor ou alegria aos poetas crioulos. 31. p.. assinalamos que o publicista pôde ler as traduções de Paulo Rónai antes da publicação do livro Mensagem do Brasil. em agosto de 1939. uma falta total de poemas da primeira fase do movimento modernista. 7) É com estas palavras que o texto termina: “Agora desde escrivaninhas brasileiras. Brazíliai regény (Romance brasileiro). Julgando-se objetivamente. do Dom Casmurro de Machado de Assis.A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria 33 Notamos. não correspondiam ao gosto do selecionador. Nessas palavras do jornalista. anteriormente. por exemplo.32 Assim. 1939b.

34 Revista Brasileira de Literatura Comparada. encontramos. a visão da geração que travou contato amplo e profundo com as letras latino-americanas. a não ser que os criados sejam negros e um dos amigos do personagem principal sofra de hanseníase. 2009 uma perspectiva universalizante. o autor escreve: “não procuremos um exotismo exterior na poesia”. aspectos que tanto marcaram. etc. O estranho não se diz com respeito ao couleur locale. Assim. Os poemas caracteristicamente brasileiros passam quase despercebidos para o crítico. Gabriel García Márquez. 1939). alguns poemas de pompa estranha e surpreendentes. que continuava interessado pelos momentos exóticos do Brasil. Nesses anos aparecem mais duas obras literárias brasileiras: Paulo Rónai publica. em 1940. que não podiam ou não queriam observar da literatura brasileira senão aquelas obras que “demonstram que o espírito europeu não conhece fronteiras e num tempo futuro. p. por meio dos escritores do boom. publicada na revista literária Nyugat (Ocidente). E justifica-se: “além dos poemas de costume. essa atitude fundada no eurocentrismo e afastada do gosto geral do público leitor. Rómulo Gallegos.15. n. povos mais novos e mais felizes irão retomá-lo na América” (Bálint. p.” (Bálint. também deformou a visão dos intelectuais (e de seu público) de então. notadamente Alejo Carpentier.. que se manifestava tão intensamente nas obras de ficção de temática brasileira dos escritores húngaros acima mencionados. Juan Rulfo. em outra resenha crítica a respeito de Brazília üzen (Mensagem do Brasil). que deixam entrever uma influência francesa. 1939b. uma seleção de . 31). porque ele sublinha que o maior mérito desse livro é que não é “nada brasileiro”: “Nada tem de exótico.. 1939. tempos depois. incluindo as brasileiras. 31) É curioso observar. ou ao menos diante dos problemas específicos do Brasil. Como já mencionamos.” (Nagy. a falta de sensibilidade diante do exotismo brasileiro. quando já não existir na Europa. neste livro. nos intelectuais que formavam o gosto literário daquela época.

“Egy brazil bérház”. cabe ao Brasil um lugar privilegiado. de 1941. pode escrever com plena razão. mais independente em relação aos Estados Unidos do que os outros países latino-americanos. até o n. com o título Egy brazil bérház (Um prédio brasileiro). dos países socialistas e a literatura progressista dos países das Américas. Por essa razão. por Henrik Horváth. em 1944. o tradutor de Dona Flor e seus dois maridos. Nesse novo horizonte cultural-literário. Esta edição de 1944 do romance de Azevedo (Budapeste: Anonymus) teve uma pequena edição fac-similada de 30 exemplares: Azevedo. Hangyaboly. que circula entre Praga e a União Soviética. os romances do primeiro período de Jorge Amado são publicados na Hungria e o autor. com o título Hangyaboly (Formigueiro). não contando as inúmeras reedições). Jorge Amado foi o escritor estrangeiro mais conhecido e mais popular na Hungria” (Benyhe. A literatura passa a ser uma arma da luta ideológica. 20. Sendo. em aparência. Budapeste: Íbisz.) é considerada arte decadente e o lugar dela. ocupa-o a literatura socialista. em primeiro lugar a da União Soviética. torna-se um escritor de presença contínua na imprensa. 38 poemas de Ribeiro Couto. Alteram-se também os horizontes da orientação literária: a literatura do “ocidente culto” (França.38 A Segunda Guerra Mundial e o estabelecimento de um novo sistema político na Hungria. cinco nos anos 1950. János Benyhe. com o título de Santosi Versek (Poemas de Santos). 1940.37 Depois. Aluizio. Dessa forma. em 1970. de Aluísio Azevedo. parte ocidental da Alemanha. 2002.39 Sobre esses livros . essa tradução é publicada em forma de livro. no posfácio desse livro: “Dez ou quinze anos atrás talvez fosse supérfluo este posfácio. de 1940. seis nos anos 1960 e três nos anos 1970. Por isso. o Brasil torna-se um alvo privilegiado na luta contra o imperialismo ocidental. desde o n. África e Ásia. senão uma resposta mais ou menos imediata à realidade circundante. 233. In Népszava (Budapeste). a “construção do socialismo”.A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria 35 36 37 Budapeste: Officina.36 e o jornal Népszava publica em folhetins O cortiço. etc. Entre 1947 e 1976 saíram quinze livros de Jorge Amado (dois no final dos anos 1940. Inglaterra. Estados Unidos. 499). indicam uma mudança de concepção na recepção e interpretação da literatura em geral e da literatura brasileira em particular. Trad. p. já não se procuram nela valores universais e eternos. 1970.

Jubiabá (Zsubiabá).36 Revista Brasileira de Literatura Comparada. 1949 (segunda edição: Európa. 1952. Lajos Boglár. A completa verdade sôbre as discutidas aventuras do Comandante Vasco Moscoso de Aragão. Trad. Budapeste: Szikra. indiretamente. 1973). Gabriela. em especial a partir de Dona Flor e seus dois maridos. 834) Compreende-se este tom altamente engajado porque se trata de um artigo de teor informativo que saiu numa revista teórica. Budapeste: Szépirodalmi.40 Mas o que mais demonstra a difusão da imagem de Amado como escritor politicamente comprometido e como “zoon políticon” é o grande número de escritos sobre a sua pessoa. 1967. Não é o exotismo. Trad. 2009 foram publicadas 26 recensões críticas. publicada na revista científico-ideológica do partido comunista. Budapeste: Kossuth. Sándor Szalay. Trad.. Entre 1953 e 1975 saíram 16 artigos que diziam respeito a ele. um dos primeiros escritos é uma recensão crítica de Terras do sem fim. Budapeste: Szikra. 1960. Emil Hartai. Tanto mais porque Jorge Amado foi o escritor brasileiro cujas obras satisfaziam as expectativas do público leitor com o seu latente erotismo. Trad. 1950. Budapeste: Európa. Sándor Szalay. Mar Morto (Holt tenger). 1975). terceira edição: idem. Sándor Tavaszy. Seara vermelha (Vörös vetés). János Benyhe. 1963. Trad. mas sim a violenta luta de classes simbolizada pela batalha entre os coroneis do cacau e seus escravos. Dona Flor e seus dois 39 . Vida de Luís Carlos Prestes. Na revista literária intitulada Csillag. Trad. 1947 (uma segunda edição com o título húngaro Végtelen földek. cravo e canela (Gabriela. Trad. n. para os outros romances do mesmo autor: Jorge Amado. Budapeste: Káldor. Életrajzi regény Luis Carlos Prestesrl). 1975). como: “Os eminentes soldados da paz: Jorge Amado” ou “Jorge Amado sobre o movimento da paz brasileiro e sobre seu novo romance”. mas as recensões publicadas nas revistas literárias também incorrem nesse tom politizado em que não há lugar para análises estético-literárias. Capitão de Longo Curso (A vén tengerész). Pablo Neruda e os outros escritores eminentes [. szegf és fahéj). Budapeste: Révai. 1950). (segunda edição: idem. Attila Orbók. 1961.15. o cavaleiro da esperança (A reménység lovagja. Emil Hartai. Emil Hartai. um dos historiadores de literatura daquele Oferecemos uma lista completa das edições das obras de Jorge Amado em húngaro (entre parênteses indicamos as edições posteriores): Terras do sem fim (Szenvedélyek földje). Trad. Marcell Benedek. que estabelece as forçosamente necessárias linhas de interpretação dessa obra – válidas. János Benyhe. Cacau (Arany gyümölcsök földje).41 Com a profusão com que os romances de Jorge Amado circulavam na Hungria (com tiragens de 40 a 80 mil exemplares). -l. (-z. Budapeste: Kossuth. 1950. Sobre Jorge Amado. não é de estranhar que até hoje o Brasil apareça-nos tal como o escritor baiano o pintou. p. e a pintura do mundo colorido e exótico da Bahia. Budapeste: Európa. Budapeste: Európa. Társadalmi Szemle (Revista Social). e muitos com títulos altissonantes. Os pastôres da noite (Az éjszaka pásztorai). ou a imagem das selvas sem fim que prevalece em suas obras. Trad. A morte e a morte de Quincas Berro Dagua (Vízordító három halála).] mostram uma nova cara da América Latina. 1961. da Associação Húngara de Escritores. 1951. Budapeste: Szépirodalmi. Trad.. Trad. 1961 (segunda edição: idem.

Népszava (Budapeste).. Trad. p. depois de assistir ao congresso do PEN Clube no Rio de Janeiro. “Jorge Amado a brazil békemozgalomról és új regényérl”. 1173-1174. Ano IV. 1976. Nagyvilág (fundada na época do “abrandamento” do poder totalitário). essa imagem deformada do Brasil e de sua literatura começa a se matizar com diferentes tons. 1970. János Benyhe.A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria maridos (Flor asszony két férje). é o reflexo verídico desta sociedade que requer amostras fidelíssimas da macabra dança do capitalismo. 1959. de cuja beleza e intimidade gostei tanto quanto da sua rica fantasia e das suas múltiplas cores decorativas. 40 37 período assim descreveu os fundamentos de “A terra de frutos de ouro”: O romance de Amado é um escrito combativo. 1951) Ao final da década de 1950. Budapeste: Európa. n. Além de Jorge Amado. Trad. Capitães da areia (A kiköt rémei). Trad. (Koczkás. saído em 1963. 1971.” (Stér. p. vêm aparecendo outros escritores e. 729) . 1953. do socialismo” (L. Assim saíram dois poemas de Jorge de Lima na revista de literatura mundial. Szabad Nép (Budapeste). como na recensão sobre Seara vermelha. Budapeste: Európa. a pretexto dos romances de Jorge Amado. Capitão de Longo Curso. Algumas vezes o discurso ganha tons de hino. Tenda dos Milagres (Csodabazár). Seus heróis verdadeiros são o povo e o homem de novo quilate. 41 Nagyvilág (Budapeste). András Gulyás. unilateral. a obra de Jorge Amado é uma fonte de informação antes sensorial que exclusivamente politizada sobre “esse peculiar mundo popular. 18 dez. 1961. 30 maio 1953. subordinada a fins eminentemente políticos é a que se apresenta quando. Irodalmi Újság (“Jornal Literário”). fala-se sobre o Brasil. já se encontra um tom mais equilibrado. comunista. intitulado em húngaro A vén tengerész (“O velho marinheiro”). Queremos notar como curiosidade que do romance A completa verdade sôbre as discutidas aventuras do Comandante Vasco Moscoso Aragão. ago. p. 1950. escreveram-se entre maio e outubro daquele ano seis recensões informativas nos mais diversos órgãos de imprensa.42 E nas notas de viagens de um literato húngaro que em 1961 publicou as suas Impressões do Brasil. Para ele. 61) “A béke kiváló harcosai: Amado Jorge”. [.. pois “até aos operários miseráveis chegou a esperança que estimula a viver: a esperança da nova vida. 42 Essa imagem estreita. Sándor Tavaszy. que saiu num semanário de literatura. alguns cuja obra tem outros valores. não apenas políticos. em 1951: “Seara vermelha mostra o Brasil levantando-se”. 8. Budapeste: Kozmosz Könyvek. saído do povo e lutando contra os horrores do mundo imperialista: o homem comunista.] A apresentação dessa podridão não desce ao naturalismo. entre eles. I.

começa a diversificar-se a edição de livros e enriquecer-se a divulgação da literatura brasileira. entre eles a música popular brasileira e a sua melancólica melodia. 1958. de Josué de Castro. os romances mais divertidos dele. o guia desse literato húngaro é a monografia intitulada Geografia da fome. 2009 Em suas andanças pelo mundo brasileiro. mesmo que um pouco contraditoriamente. sublinhados aqueles que o distinguem da Europa. do etnólogo húngaro Lajos Boglár. que cativam o público. Budapeste: Táncsics. Finalmente. Após os anos da ditadura forte e o total encerramento do país. o interesse por outros aspectos desse país. Com essa relativa abertura nos pontos de vista que começava a prevalecer lentamente a partir do início dos anos 1960 na política cultural e literária húngaras. surge uma exigência por bens culturais anteriormente vedados.15. exigência que se vê satisfeita. O público requer já cada vez mais abertamente uma recepção cultural mais sofisticada e diversificada. motivado pela Guerra Fria. 43 A zöld pokol. de Erich Wustmann. 44 . Essa nova forma de recepção do Brasil fora previamente preparada por livros publicados a partir dos últimos anos da década de 1950: As imagens do Rio. O autor mais divulgado ainda é Jorge Amado. Brazíliai útijegyzetek (Entre índios do trópico. o viajante atreve-se a dizer aos húngaros que o Brasil não deve ser entrevisto como um mero panorama ou cenário de fundo político. estimulando. de componentes culturais e étnicos múltiplos e amalgamados. de Richard Katz. do diretor francês Marcel Camus. obras como Trópusi Indiánok között. Será essa Riói Képek. mas em harmonia com a renovada temática da sua obra aparecem. também em húngaro. assim. n. da selva e dos índios. 1959. Budapeste: Táncsics. Mas Stér tem bastante sensibilidade para ver e descobrir um Brasil excêntrico. multifacetado. apresentam o Brasil dos trópicos. e que aos intelectuais compete a tarefa e a responsabilidade de formar a consciência do grande público.44 Sob outro prisma. que Stér interpreta sob a influência do filme Orfeu negro. ou o carnaval e seu simbolismo popular.43 O inferno verde.38 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Notas de viagem do Brasil).

A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria

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Aki átment a szivárvány alatt. Budapeste: Kossuth, 1964.
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Emberek és rákok. Budapeste: Kossuth, 1968.
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Emberfarkas. Budapeste: Európa, 1962. Aszály. Budapeste: Európa, 1967.
47

A többi néma csend. Budapeste: Európa, 1967.
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Máglyák az serdben. Budapeste: Móra, 1970.
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busca do diferente, do exótico que marcará e determinará o interesse pelo Brasil nos anos subsequentes. Entretanto, publicam-se obras de autores comprometidos, como as de Jorge Amado, já mencionadas: Quarto de despejo, de Carolina Maria de Jesus,45 O ciclo do caranguejo, de Josué de Castro,46 São Bernardo e Vidas secas, de Graciliano Ramos,47 e ao lado deles saem romances como O resto é silêncio, de Érico Veríssimo48 e O Guarani, de José de Alencar, embora este seja transposto para o húngaro em versão condensada, em uma edição para jovens.49 Por outro lado, e de forma menos manifesta, aparecem obras das mais diversas naturezas, mormente direcionadas aos intelectuais. Essa forma de publicação “velada”, um pouco contrária à política cultural oficial, caracteriza em primeiro lugar a revista de literatura mundial Nagyvilág e algumas antologias de poesia e de prosa. Destinadas a um público seleto, surgem nessas publicações, de forma esporádica, muitos autores de valor da literatura brasileira. Publicações como Dél keresztje (Cruzeiro do Sul, 1957), Kígyóöl ének (Canto de matar cobras, 1973), Hesperidák kertje (Jardim das Hespérides, 1971), Járom és csillag (Jugo e estrela, 1984) divulgam a poesia latino-americana. Os poemas são acompanhados de notas biográficas e bibliográficas; dessa forma, em torno de 40 grandes poetas brasileiros são publicados na Hungria. Essas antologias seguem o princípio da antologia de Paulo Rónai, ou seja, selecionam os poemas apenas pelo seu valor poético e estético e não demonstram o menor interesse em ilustrar o desenvolvimento da história literária brasileira. Fazem falta, por exemplo, poemas que caracterizem os primeiros anos do Modernismo, ou do Concretismo e de outras tendências experimentalistas. Nesse mesmo contexto, publicaram-se contos de Graciliano Ramos, João Guimarães Rosa e Jorge Amado em antologias de prosa latino-americana: Ördögszakadék (Abismo de diabo, 1966), Dél-amerikai elbeszélk (Narradores latino-americanos, 1970), Az üldöz (O perseguidor, novelas latino-americanas, 1972).

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Revista Brasileira de Literatura Comparada, n.15, 2009

Um dos grandes méritos da revista de literatura mundial Nagyvilág é a apresentação de autores e obras, de tendências e fenômenos literários, com base em critérios puramente poéticos ou estéticos. Em 1961, a revista traz informações sobre as atividades de Paulo Rónai no Brasil, frisando a importância do seu trabalho no conhecimento mútuo entre o Brasil e a Hungria (Gyergyai, 1961, p. 1566-1567). E é naquelas páginas que, em 1962, aparece um estudo sobre o romance brasileiro contemporâneo (Tavaszy, 1962, p. 1388-1391), assim como, em 1969, um ensaio sobre o desenvolvimento da literatura latinoamericana (Benyhe, 1969, p. 1723-1731). Mencionamos também certas resenhas sobre os livros de Jorge Amado, sobre romances como O tempo e o vento, de Érico Veríssimo, e Irmão Juazeiro, de Francisco Julião. O texto de recepção mais característico dessa época é o necrológio de Guimarães Rosa que Nagyvilág publicou em 1968. Nele se fala na “síntese dos mágicos elementos primitivos de mundos diferentes”, em “mitos de valor universal de conteúdo filosófico” (Rónai, 1968, p. 338-339) e a linguagem engenhosa e estranha que o escritor compilou para si e que se parece muito com a linguagem de James Joyce. Tal análise da obra de Guimarães Rosa só se tornou possível graças à mudança de tom que marcou a imprensa política, única e oficial na Hungria de então. Assim, na recensão informativa que a revista teórica Társadalmi Szemle publicou sobre Vidas secas, de Graciliano Ramos (Szllsy, 1967, p. 137), já se comenta a “exatidão sociológica” ao lado dos valores estéticos da obra, numa análise mais flexível e sutil do que se fazia nos anos precedentes. A partir de meados dos anos 1970, sob a influência do boom da literatura latino-americana em espanhol, relega-se para o segundo plano a literatura brasileira, e em especial a literatura chamada progressista. Na realidade, diminui o interesse do público pelas obras brasileiras que tratavam de uma forma direta os problemas políticos e sociais. O exotismo dos autores do realismo mágico, a forte carga intelectual dos pós-modernos como Julio Cortázar e Jorge

A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria

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Luis Borges, e a urdidura complexa dos romances políticos de autores peruanos ou mexicanos, tudo isso atrai mais o interesse dos leitores húngaros. Só obras de Jorge Amado, tais como Dona Flor e seus dois maridos ou Gabriela cravo e canela, continuam cativando novas e novas gerações de leitores.

Novos aspectos da presença literária brasileira na cena húngara
Entretanto, surge, enquanto isso, uma nova geração de divulgadores das letras brasileiras, marcados por um gosto literário renovado e pelo objetivo de revelar aos leitores húngaros os traços característicos e essenciais da literatura brasileira. Assim, entre 1983 e 1986, a Rádio Nacional Húngara realizou uma série de emissões, de meia hora cada uma, com o título Latin Amerika Irodalma (Literatura da América Latina). Essa série apresentou uma visão panorâmica das literaturas do século XX naquele continente, com os fenômenos novos e característicos da literatura brasileira: o Pré-modernismo e o Modernismo, a poesia concreta, a moderna prosa experimental e a da grande urbe, fazendo conhecer ao público nomes que nunca haviam sido mencionados antes, como Oswald de Andrade, Haroldo de Campos, Rubem Fonseca, Dalton Trevisan e Ignácio de Loyola Brandão, que com sua obra despertaram o interesse da elite intelectual. Nessa época, transcorreu uma significativa etapa do processo de divulgação da literatura brasileira na Hungria: a publicação do Macunaíma, de Mário de Andrade. A tradução dessa obra conheceu um verdadeiro êxito editorial, pois em poucos meses esgotou-se uma tiragem de dez mil exemplares. O público, ávido do exotismo – até então condenado –, devorava o livro, que foi apresentado como um grande acontecimento cultural tanto pelos programas culturais de rádio e tevê quanto pelas recensões críticas.50 Nessa perspectiva, em resenha cujo título menciona a cé-

Szalontai, 1984. Bodor, 1984. Cserti, 1984.
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o elemento exótico. lamentando que “os enérgicos elementos linguísticos deste último faltem na obra de Osman Lins” (Benyhe.42 Revista Brasileira de Literatura Comparada. 51 Járom és csillag (Jugo e estrela). Manuel Bandeira. Raúl Bopp e Vinícius de Morais são os nomes novos) e assim mesmo há muitas coincidências na escolha dos poemas. Gregório de Matos. Alberto de Oliveira. Augusto dos Anjos. seleção. Raimundo Correia.52 a maior antologia húngara da poesia latino-americana publicada até os dias de hoje. como referência. 52 . Rui Ribeiro Couto. representado. Antônio Cândido Gonçalves Crespo. Raul Bopp. Carlos Drummond de Andrade. Kilenc és kilenced. evoca. Vicente de Carvalho. Judit Xantus. da americanização que abraça aplastando a versatilidade étnica (lingüística. Olavo Bilac. 1984). Teófilo Dias. prefácio e notas por János Benyhe. O autor do posfácio. 1985. que se mantém quase intacto desde a antologia de 1939. 211). Ascenso Ferreira. um tanto indeciso.15. Augusto Frederico Schmidt. Alphonsus de Guimaraens. Aqui aparece novamente. novena. Mensagem do Brasil. que se cultiva nos recantos ocultos do Brasil e que conserva valores eternos. a obra nordestina de Jorge Amado. Antônio de Castro Alves. predomina igualmente numa antologia de 1984. Trad. Luís Delfino. 1985. por Jorge Amado e Guimarães Rosa. 2009 lebre epopeia finlandesa e que qualifica Macunaíma como “Kalevala artificial da zona tórrida”. Na antologia aparecem poemas de Mário de Andrade.51 revela certa perplexidade provocada por este câmbio de paradigma no gosto dos divulgadores. pastoril. ilustre estudioso e tradutor. a força primitiva da obra comentada: Macunaíma é conseqüência da capitalização latino-americana irregular e tormentosa. Geir Campos. A edição de Nove. 1984. Budapest: Európa. Bernardino da Costa Lopes. Cecília Meireles. Essas palavras do literato e tradutor János Benyhe novamente aludem às contradições da “oferta e da procura” da literatura brasileira na Hungria. n. Luís José Junqueira Freire. Francisco Antônio de Carvalho Júnior. um representante da velha estirpe pôs em confronto com a literatura de fortes cores brasileiras uma literatura classicizante. p. a ambientação sulista de Verissimo e as fortes cores mineiras de Guimarães Rosa. Budapeste: Kozmosz. folclórica e etnográfica) de múltiplas cores e raízes e dos excessos intelectuais amotinados e revoltosos (Bodor. Joaquim Maria Machado de Assis. Tal princípio distintivo. segundo ele. Sebastião Cínero dos Guimarãens Passos. Jorge de Lima. de Osman Lins. o crítico Pál Bodor frisa com entusiasmo a mistura feliz de elementos intelectuais e populares. Num debate transmitido pela rádio. Ronald de Carvalho. neste caso. Vinícius de Morais. O que surpreende é que a lista dos poetas modernos é quase igual à da seleção de meio século atrás (apenas Ascenso Ferreira. João da Cruz e Sousa.

a rabszolgalány. outrora leitor ávido dos romances de Jorge Amado. inventada por Bernardo Guimarães havia mais de um século. Aníbal M. Trad. Nestas últimas duas décadas. 5). p. reuniram uma importante soma a fim de remir da escravatura aquela bela e talentosa jovem.A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria 43 Boszorkányszombat (Mistério de sábado).55 que a crítica recebeu como fonte de informação privilegiada a respeito de um mundo caoticamente moderno (apud Wirth. vale a pena meditar sobre a seguinte asserção: “A maioria dos contos mostra gente lutando com seu fado. e passou a ler obras de Paulo Coelho. Orígenes Lessa: Roteiro de Fortaleza. 1987. de Machado de Assis. 53 Isaura. Oto Lara Resende: O retrato na gaveta. um país de tempo estancado. sel. de 1986. A terceira margem do rio. foi recebida com entusiasmo da parte dos críticos. Marques Rebelo: Caprichoso da Tijuca. Luís Jardim: Paisagem perdida. István Bárczy. talvez porque saísse ao mesmo tempo em que a edição em húngaro de A escrava Isaura. Monteiro Lobato: O comprador de fazendas. Com essa atitude pode-se explicar. que atualmente é o autor brasileiro mais popular (e quase exclusivo) na Hungria. 1991. ou seja. Lima Barreto: O homem que sabia javanês. Budapeste: Európa. houve possibilidade de publicar autores mais sofisticados. 1986. Éva Faragó. 54 Zero. uma coletânea de contos53 que reunia desde Pai contra mãe. Mário de Andrade: O peru de Natal. Aurélio Buarque de Holanda: O chapéu de meu pai. Eszter S.54 quer dizer. Tóth. João Guimarães Rosa. Carlos Drummond de Andrade: Beira-rio. Ao se reler a resenha dessas duas obras. e notas de Paulo Rónai. talvez. de Clarice Lispector. 1990. Budapeste: Európa. 1987. anciãos de um pequeno vilarejo do interior do país. afastou-se da literatura de valor. A partir do final da década de 1980 mudaram. Dessa forma. 55 Outro livro dessa natureza. Lygia Fagundes Telles: Venha ver o pôr do sol. Clarice Lispector: Feliz aniversário. no auge do interesse do público pelo Brasil. Budapeste: Európa. O grifado é nosso. saiu em 1990 o Zero. Ferenc Pál. Na antologia se encontram contos de Machado de Assis: Pai contra mãe. de Ignácio de Loyola Brandão. Rui Ribeiro Couto: Mistério de sábado. porque novamente se faz referência à imagem de um país exótico. e as séries televisivas ocuparam lentamente o lugar dos livros e da leitura. num mundo de senzalas e casas grandes. situando-se entre o passado e o presente. Trad. João Alphonsus de Guimaraens: Eis a noite!. de Machado: O ascensorista. . estagnado em cerimônias. Paulo Rónai. gente que quase nunca triunfa. suscitado pela telenovela feita com base no romance de Bernardo Guimarães. os hábitos de leitura e o gosto do público húngaro. foi a antologia Boszorkányszombat. no entanto. Rachel de Queirós: A donzela e a moura torta. o curioso e célebre episódio em que telespectadores húngaros de A escrava Isaura. com a liberalização da edição e do mercado de livro. O grande público. István Bárczy. Alcântara Machado: As cinco panelas de oiro. A seleção criteriosa. até Feliz aniversário. Ervin Székely. a imagem do Brasil tal como vive no (sub)consciente das pessoas na Hungria. Ferenc Pál.” (Magyar Hírlap. acompanhada de notas bibliográficas. Trad.

foram traduzidos para um seletíssimo público-leitor poemas de dois representantes da poesia concreta. Trad. os foros mais exigentes da literatura. 4). Lindgren Alves. a importância dessas duas antologias reside na demonstração de que a literatura brasileira tornou-se independente. Trad. A modern brazil elbeszélés – Antologia do moderno conto brasileiro. Guimarães Rosa. Budapeste: Íbisz. Endre Szkárosi. prefácio e notas de Ferenc Pál. n. Rubem Fonseca. 2008). Moacyr Scliar. e muito especialmente Guimarães Rosa. o conto “Bolívar”. Márcio Souza. Haroldo de Campos e Décio Pignatari. e se pode dizer que seus motivos regionalistas já se manifestam sob forma universalizante. com introdução e apresentações dos autores pelo diplomata. representa na Hungria a literatura brasileira. Clarice Lispector. No presente momento. prefácio e notas de Ferenc Pál. Rachel de Queiroz. passaram a conceder mais espaço à atual literatura brasileira. Ligia Fagundes Telles.44 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Adélia Prado.. Márcia Denser. 1997. Décio Pignatari: Vers-gyakorlatok (Exercícios de poesia).57 Esses livros de poemas obtiveram. n. como a revista Nagyvilág. Antônio Fraga. é um bom manual para conhecer a prosa brasileira do século XX. um parecer crítico. Mais tarde saíram obras de outros escritores que descreviam a vida de grandes centros urbanos. Seleção. Seleção. 14). Rubem Fonseca. Esta revista publicou. publicaram-se dois contos de Dalton Trevisan. p. de Victor Giudice. Budapeste: Íbisz. Fernando Sabino. com o conto Duelo. Raduan Nassar.56 Nesse sentido. de um conhecido poeta experimental. Na antologia figuram contos de dezessete autores. Autran Dourado. no qual ficou consignado o reconhecimento da independência criativa dos autores desse país dos trópicos: A formação da [. publicada por iniciativa da Embaixada do Brasil e com o apoio do Ministério das Relações Exteriores. Dalton Trevisan.. András Petcz e Ferenc Pál. uma antologia bilíngue. Com a mudança do gosto literário. No número de agosto de 1992 (ano XXXVII. Ingácio de Loyola Brandão. 11). selecionada pelo embaixador José A. 2009 p. 56 Para além do material poético. 1997. Otto Lara Resende. 1999. como contos de Dalton Trevisan e de Rubem Fonseca.] poesia concreta no início dos anos cinqüenta não é o primeiro exemplo de que nas circunjacências da zona cultural euro-americana criam-se uma nova linguagem e uma expressão autêntica que correspondem às demandas intelectuais desta região (Szkárosi. 57 De Antônio de Alcântara Machado. 58 .15. no seu número de abril de 1991 (ano XXXVI. em revistas literárias. pois Haroldo de Campos: Konkrét versek (Poemas concretos).58 dos quais as resenhas destacam Autran Dourado. segundo afirma um dos críticos do livro (Urfi. 8). n. András Petcz e Ferenc Pál.

e tacitamente sempre esperou que a literatura correspondesse a esses estereótipos decorrentes de “preconceitos” devidos a circunstâncias históricas diversas. o nome de Chico Buarque de Holanda. com o romance Budapeste. Trad. além de Paulo Coelho. 1-18. Ferenc Pál. Havemos de mencionar. Budapeste. Budapeste: Atheneum. que. existem enciclopédias. que correspondem aos cânones universais. 7. neste caso o fato de o escritor/cantor ter escrito um romance cuja ação decorre em parte em Budapeste é muito mais importante para os leitores húngaros do que os valores estéticos do livro. Az üldöz. n. Contudo. 1939a. podemos dizer que neste momento a literatura brasileira está relativamente bem representada na Hungria. Resumindo. Brazília üzen. de Mário de Andrade. Isso distingue o conto de Rosa dos demais textos. falta um vivo contato com as letras brasileiras – as primeiras obras literárias apareceram relativamente tarde e só raras vezes corresponderam às expectativas do público. tanto nos temas elaborados como nos recursos artísticos de que lançam mão. Referências A Pallas Nagy Lexikona. 1893-1900. cujas obras inundam as livrarias. Contudo.59 também está disponível nas estantes.A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria 45 Budapeste. Budapeste: Európa. 225. que formou uma imagem do Brasil a partir das informações obtidas dos livros de viagens. 59 este é o único conto em que aparece o elemento exótico (apud Galamb. . Budapeste: Pallas. e de certa forma a dificuldade da divulgação de autores modernos cuja obra se afasta de uma imagem tradicional do Brasil. 2000. György. e assim podem informar e orientar os interessados. p. Esse fato explica o êxito das obras de Jorge Amado e o êxito isolado de Macunaíma. 1972. BALINT. 2005. tendências literárias. antologias de poesia e de contos que informam detalhadamente sobre autores. Magyarország. 2008). da imprensa e da mídia.

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analisando os diferentes contextos históricos e culturais como condições para a promoção da literatura brasileira no modo de se pensar hoje – na era da regionalização das culturas –. com o alvo de construir novos laços e conexões entre aqueles que trabalham sobre e com a literatura brasileira em universidades e diversas instituições estrangeiras e fazê-los refletir em conjunto sobre o estado atual da literatura brasileira no exterior. literatura comparada. Latin American literature. abstract: The article discusses particular moments in the diffusion of Brazilian Literature in Argentina. alicerçada numa perspectiva de literatura comparada. comparative literature. Agradeço a Claudiney Ferreira. o Instituto Itaú Cultural realizou o I Encontro Internacional Conexões Itaú Cultural – Mapeamento da Literatura Brasileira no Exterior. * keywords: Brazilian literature. regionalização. regionalization. palavras-chave: literatura brasileira. Universidad de San Andrés/ Conicet. cujo objetivo é mapear e reunir um amplo e inédito número de profissionais estrangeiros que estudam ou pesquisam temas e autores da literatura brasileira. em São Paulo. que marcou o lançamento da base de dados Conexões. poderia ajudar na construção de novas comunidades culturais. 1 Em dezembro de 2009. It seeks to think how today – in the era of the regionalization of cultures – a comparative literature perspective for the diffusion of Brazilian literature can help in the construction of new cultural communities. Quais seriam os problemas e os impasses com . o modo como essa difusão.1 O evento estava destinado a mapear os brasilianistas que trabalham pelo mundo fora. analyzing different historical and cultural contexts as conditions for the promotion of Brazilian Literature in Latin America. literatura latino-ameri- cana. Uma primeira versão deste texto foi apresentada nesse evento. Felipe Lindoso e João Cezar de Castro Rocha o convite para participar do encontro.49 Tempos e contextos da literatura brasileira na Argentina e no exterior Florencia Garramuño* resumo: O artigo discute diferentes momentos da difusão da literatura brasileira na Argentina.

O encontro foi frutífero não só em termos profissionais e de contato – pelo fato de fazer se conhecerem pessoas que trabalham com problemas afins –. n. que abriram um diálogo fecundo sobre os dilemas da difusão da literatura brasileira em extrema coincidência com os debates que preocupam os pesquisadores. Do ponto de vista da pesquisa sobre a literatura brasileira. Alemanha e Japão.15. dos documentos. mas também em termos de difusão da literatura brasileira. talvez o mais produtivo do encontro tenha sido a grande quantidade de perguntas teóricas que desabotoaram das discussões e debates. Espanha. Uma dessas questões – e a que me parece mais premente. Estados Unidos. mas também convocou tradutores e editores de literatura brasileira no exterior. editor) reunidas no encontro encontravam-se numa mesma pessoa. tradutores e editores. dos livros. Inglaterra. rearranjando regiões. já que a partir dele se iniciaram muitos trabalhos em conjunto entre diversos pesquisadores. a partir das quais é possível vislumbrar uma transformação em andamento de um conceito de literatura e de cultura brasileira que leva em conta sua colocação na paisagem transformada de um mundo contemporâneo no qual fronteiras e limites são redesenhados cotidianamente. já que condiz com muitas das características da literatura mais contemporânea com as quais a minha própria pesquisa vem lidando há algum tempo – é a da situação complexa da difusão de uma literatura brasileira contemporânea que já não parece poder ser contida nos . e até três das identidades profissionais (pesquisador. 2009 que os pesquisadores do Brasil se confrontam ao se encontrarem distantes do Brasil. tanto que muitas vezes duas.50 Revista Brasileira de Literatura Comparada. assim como da própria cultura brasileira? O encontro não só congregou professores e pesquisadores de universidades de diferentes países (Argentina. dos arquivos. entre outros). comunidades e preocupações que não teriam como não influir numa disciplina tão sensível à sociedade e à cultura como o é a dos estudos literários – ou de quaisquer dos diversos ramos da arte. França. tradutor.

. de Bernardo Carvalho (Carvalho. no contato com essa cultura diferente. traduzida. no entanto.. Um grande número de textos brasileiros – assim como também de textos de outros países e regiões – põe em cena um extravasamento espantoso dos limites e fronteiras que tinham definido o literário como um tipo de discurso ancorado numa certa especificidade institucional.Tempos e contextos da literatura brasileira na Argentina. Até que ponto esse extravasamento de problemáticas nacionais – “especificamente brasileiras” – deveria modificar também a forma de encarar as próprias ferramentas e conceitos para se pesquisar e ensinar a literatura brasileira no exterior? Se a literatura contemporânea já não se arrosta exclusivamente à discussão de uma identidade nacional e se. 2009). fomentar e alicerçar uma discussão dessas novas “comunidades imaginadas” – para usar em um sentido mais complexo o conceito de Benedict Anderson (1983) – seriam estratégias mais sensíveis ao que essa nova literatura pareceria estar discutindo. E é nesse sentido também – uma vez que a literatura brasileira no exterior está sempre se relacionando com as formas da literatura dos países nos quais essa literatura está sendo difundida. aparece como o exemplo mais extremo desse afastamento da problemática do nacional na literatura brasileira contemporânea que. parece se propor cada vez mais fortemente como imaginação de comunidades e coletividades que desconhecem a ferrenha ligação entre território. novos problemas surgem – que a ideia mesma da difusão e promoção da literatura brasileira . O filho da mãe. Entre esses parâmetros hoje extrapolados. vale a pena ressaltar. língua e nação –como proporia Giorgio Agambem (2001) –. pelo contrário. ou não. parece evidente que. para a difusão e promoção dessa literatura brasileira no estrangeiro. embora não seja o único. habita um número cada vez maior de romances contemporâneos – brasileiros. pesquisada e. 51 parâmetros que definiram a instituição literária no passado. a própria noção de literatura como instituição nacional fortemente ligada a certos padrões de constituição de uma identidade nacional é talvez um dos limites mais evidentemente ultrapassados.

para esta possibilidade. não só atender à difusão da literatura brasileira. 2003. quando se cristaliza. no encontro Conexões. os “difusores” – da literatura brasileira no exterior noutros termos que já não só do ponto de vista de uma transmissão. que se aproveitaria dessa mesma migração e deslocamento como uma forma de produzir saberes “outros” que despontariam ao se confrontar a literatura brasileira com um contexto estrangeiro ao que essa literatura interpelaria de uma forma diferente. Na primeira etapa veem-se os vínculos estreitos entre diplomacia e tradução e resulta 3 .52 Revista Brasileira de Literatura Comparada. p. Seria uma forma de produzir um saber novo.2 E aí a pergunta que surgiu é a de se uma instituição como o Itaú poderia. a ideia de uma “auténtica cultura nacional brasileña” que inicia o segundo período. 2003. p. com ela. da mão das políticas culturais do Estado Novo de Getúlio Vargas (1937-1945). a noção de tradução –linguística. apontou. divulgação ou propagação de uma literatura ou de um saber que existiria feito e pronto no Brasil e que os pesquisadores só transmitiríamos. “in naming a transnational process constitutive of its disciplinary nomination comparative literature breaks the isomorphic fit between the name of a nation and the name of a language” (Apter. global or wordly” (Spivak. professor de University of Massachusetts Darthmouth. e como. também das culturas. Outra das questões tem a ver com a possibilidade de se pensar a difusão – e.15. 72). propondo uma colaboração entre os estudos de área (“area studies”) e a literatura comparada que poderia tentar “to figure themselves – imagine themselves – as planetary rather than continental. 243). 2009 no exterior compartilha muitos dos problemas que têm se associado nos últimos anos à discussão da literatura comparada. Segundo ela. com ela. os seus problemas. n. diferente do já conhecido. Também Spivak tem elaborado algumas noções interessantes – e bem complexas – sobre o problema da literatura comparada na contemporaneidade. Na proposta de Apter. mas também intervir na produção A apresentação de Victor Mendes. principalmente a partir de discussões como as elaboradas por Emily Apter em The translation zone ou Gayatri Spivak em Death of a discipline sobre os modos de se pensar a literatura comparada – a disciplina. e as suas ferramentas – na era da regionalização da economia global e. 2 O livro de Sorá estuda quatro períodos importantes: o primeiro estende-se desde o século XIX até os anos 1930. mas também cultural – tem um papel fundamental no programa de uma “nova literatura comparada”. deslocando-o em outros contextos.

Partindo de uma pesquisa empírica sobre as traduções de escritores brasileiros para o espanhol realizadas na Argentina. um quarto período. no entanto.3 Mas a pesquisa demonstrou também outra consequência mais relevante – e lamentável – ainda para a história cultural da Argentina e do Brasil: a de que a efetiva tradução de autores brasileiros na Argentina não tem sempre ajudado a reduzir o mútuo desconhecimento entre os dois países.. por sua vez. Caberia ressaltar a importância que nos anos sessenta adquirem questões ideológicas e o tipo de problemas para os quais os estudos sociais brasileiros vão ser tomados como modelos a observar. Por último. É no segundo período. muito . ao se falar da difusão da literatura brasileira no exterior.. por exemplo. Essa sincronia é. cuja primeira edição no Brasil é de 1904. O antropólogo Gustavo Sorá começou a pensar algumas dessas questões para o contexto da Argentina durante o século XX no seu importante livro Traducir el Brasil (2003). Barcelona. principalmente durante os anos do Romantismo. José de Alencar ou Aluísio Azevedo). surpreendente pela espantosa atualidade das traduções: Esaú e Jacob. foi traduzido para o espanhol só um ano depois.Tempos e contextos da literatura brasileira na Argentina. é importante analisar os tempos e contextos dessa difusão. que Sorá denomina de internacionalização. A identificação dessas questões e a elaboração de respostas para elas. A pouca reedição e circulação desses livros é um dado incontestável: dos canônicos e importantíssimos livros brasileiros traduzidos pela Biblioteca La Nación – uma importante editora universalista – nas primeiras décadas do século XX. como se pode concluir da relevância que os temas do desenvolvimento econômico e social adquiririam nesse momento. vai de 1945 a 1985 e exibe a hegemonia do mercado na seleção e produção da tradução. estava se produzindo gerado precisamente por aquele encontro. nenhum deles teve reedição alguma. sem dúvida. Fica claro que. e dos circuitos construtores do mercado editorial internacional. Algumas dessas questões dizem respeito a um mapeamento qualitativo da literatura brasileira no exterior que seria bem interessante fazer. evidência de um intenso diálogo entre a literatura argentina e brasileira no período. que Sorá denomina mercantil. quando a tradução mostra seus vínculos com as políticas estatais e com as a alianças políticas e ideológicas de esquerda que nasceram do exílio na Argentina de Luiz Carlos Prestes e Jorge Amado. 53 de esse “saber outro” que. além do mapeamento quantitativo. levando em conta as diferentes condições de possibilidade que esses tempos e contextos têm oferecido para o conhecimento da literatura brasileira em países estrangeiros. inicia-se em 1985. um dos grandes ganhos de encontros daquela natureza em termos teóricos. em 1905. além do fato pragmático – também importante – de facilitação dessa rede e desses contatos. assim como a criação de redes de pesquisadores e de contatos e fluxos de saberes é. de Machado de Assis. Sorá demonstrou que a tradução de autores brasileiros tem sido muito mais importante e constante na Argentina – segundo algumas variáveis históricas – do que na maioria dos outros paises. por exemplo (autores como os já na época afamados Machado de Assis. no caso. quando as relações entre a cultura argentina e brasileira resultam em grande parte da mediação de intercâmbios internacionais nas feiras de Frankfurt. Um terceiro período.

Fica claro a partir da leitura do importante livro de Gustavo Sorá. n. e que os problemas da tradução não dizem respeito só a duas culturas nacionais específicas. nem. a ser lidos. p. arquivos e instituições dedicadas ao desenvolvimento do conhecimento sobre o Brasil não contribuiu. demonstrando.15. para “atualizar” e manter vivo o conhecimento do Brasil que esses livros traduzidos poderiam – e deveriam – ter acarretado. tampouco. desde esse momento. quando a . mas respondem a uma configuração internacional de redes de relações linguísticas. que “las fuerzas de internacionalización de los mercados desde fines de los años ochenta remataron el distanciamiento entre dos ‘culturas nacionales’ cuya vigencia editorial es regulada en aduanas muy lejanas” (Sorá. 2003. A debilidade institucional da Argentina em termos de bibliotecas. 2009 embora muitos dos títulos dessa mesma editora que provinham de diferentes tradições literárias europeias tenham sido reeditados ano após ano. Um momento mais bem-sucedido dessa difusão foram – sem dúvida – os anos 60 e 70 do século XX. mas que na verdade ela não acarretou consequências de peso para o efetivo conhecimento da literatura brasileira na Argentina ou nos países de fala espanhola nos quais esses livros brasileiros poderiam passar. fica evidente que essas traduções não fizeram com que a literatura argentina se alimentasse da brasileira nem que a brasileira se alimentasse da argentina.54 Revista Brasileira de Literatura Comparada. por outro lado. 221). que a literatura brasileira ficasse conhecida na Argentina fora do interesse de algumas pessoas específicas. Era claro – a pesquisa demonstrava – que houve condições para uma tradução bem rica naquele momento. Se pensarmos na relação entre os escritores argentinos da época e a literatura brasileira. que o significado dos livros traduzidos em suas dimensões históricas depende das formas nas quais esses livros são recebidos e apropriados por seus leitores. assim como das posições no campo intelectual dos agentes tradutores e dos pesquisadores. como diz Sorá. portanto. ou entre os críticos argentinos e a literatura brasileira.

tomou o nome de “Premio Casa de las Américas”. 1972). brasileiros. Antonio Candido disse sobre o prêmio: Para nós. José Guilherme Merquior. Clarice Lispector e tantos outros escritores brasileiros citados e analisados nesses textos (Moreno. sem falar exclusivamente da literatura brasileira. a presença da literatura brasileira no volume é incontestável. ou de tantos outros que. Chico Buarque ou Davi Arrigucci Jr. fez com que a difusão da literatura brasileira tivesse um impacto mais forte nas literaturas de língua espanhola. Em depoimento em Havana. Cuba tem sido a grande mediadora. ao criar a possibilidade de entendimento que se forma aqui e se desenvolve fora. em 1972. com a entrada dos autores brasileiros. logo em seguida. a Seix Barral – e compartilhou com ela o seu momento de fama internacional. Casimiro de Abreu.. 55 literatura brasileira pegou carona no boom da literatura latino-americana – que. Guimarães Rosa. na época. É claro que. foi construído particularmente por uma editora de origem espanhola. 1999. Antonio Houaiss. geralmente tão separados dos irmãos de fala espanhola. p. com a Revolução Cubana e as instituições que iriam se criar. como “Concurso literário latino-americano” e.Tempos e contextos da literatura brasileira na Argentina. 181). o contexto político da América Latina. que premiou autores brasileiros e contou no júri com escritores e intelectuais brasileiros da talha de Antonio Candido. Quando a Editorial Siglo XXI publica América latina en su literatura. Haroldo de Campos. . É por esses anos que o que tinha sido conhecido até então como “Concurso literário hispano-americano” foi se denominar. colocam em relação a literatura hispano-americana e a brasileira referindo-se a autores como Alencar. e ao tecer uma rede fraternal que abraça o continente com suas possibilidades de compreensão e intercâmbio (apud Cabañas e Fornet. lembremos. Machado. ou Emir Rodríguez Monegal e outros críticos latino-americanos que fazem referência à literatura brasileira.. tendo ele artigos como os de Antonio Candido.

em 1984. em um único artigo.. no fim da década de 1980. 4 . mas se assemelharia com a corrupção das unidades homogêneas que Caetano Veloso comemorava em Língua – canção que também dançávamos e cantávamos ainda com mais fervor. E essa América Latina grande não se preocuparia tanto com a questão da identidade nacional ou regional. tenho mátria E quero frátria.) A língua é minha pátria E eu não tenho pátria. estudávamos literatura na universidade argentina. se possível. Segundo Pablo Rocca. da literatura brasileira na América Latina. é importante ressaltar é até que ponto essas condições. “ningún crítico hispanoamericano coetáneo de la nacionalidad que fuere se encargó. con tanto interés y persistencia de “Soy loco por ti América” foi composta sob o efeito da morte do Che Guevara e gravada em Tropicália. esse livro foi a descoberta de que a literatura brasileira existia numa sintonia de problemas com a literatura latino-americana e que ela própria podia se converter em um campo de estudo e pesquisa para nós. como Monegal o como Rama. que dançávamos e cantávamos com fervor nas festas da época. composta por Caetano Veloso. que Caetano repetia gozoso: Flor do Lácio Sambódromo Lusamérica latim em pó O que quer? O que pode esta língua? Vamos atentar para a sintaxe dos paulistas E o falso inglês relax dos surfistas Sejamos imperialistas! Cadê? Sejamos imperialistas! (. as discussões que um problema como esse abre. Basta lembrar o refrão de Língua para ouvir uma alusão leve a essa América Latina. em 1967.. Caetano retoma uma frase famosa de Fernando Pessoa em “A minha pátria é a minha língua”. Uma questão que. do Livro do desassossego. 2009 Para aqueles que. 1982). os latino-americanos que queríamos e pretendíamos construir uma América Latina grande.15. n. perdurável. intensa. Soy loco por ti América. no entanto. 4 O leque que uma história da difusão da literatura brasileira no exterior abre é bem complexo e não seria possível esgotar. de Bernardo Soares (Pessoa. que víamos representada na canção de Gilberto Gil com letra de Capinam. na época. “Língua”. colaboraram ou não para uma difusão efetiva. Na canção..56 Revista Brasileira de Literatura Comparada. aparece em Velô.

levando em conta as condições atuais da globalização. o que é bem pouco para um campo de crítica latino-americana que tem sido bastante rico e produtivo.Tempos e contextos da literatura brasileira na Argentina. e. incorporam nesse estudo as . como se deveria pensar a difusão da literatura brasileira na era da globalização e das culturas pós-nacionais ou transnacionais? Como as diversas instituições de pesquisa e ensino da literatura brasileira poderiam contribuir para uma discussão dessas questões que. Ángel Rama. bastante pouco produtivo. quando a palavra de ordem é a redução dos orçamentos no contexto da crise global. Emir Rodríguez Monegal y el Brasil. aprofundá-las. possa se inserir no contexto contemporâneo para tirar desse processo as boas qualidades. em um sentido mais geral.. 20 5 la literatura brasileña” (Rocca. apesar do diálogo entre Rama e Candido e outras poucas honrosas exceções.. p. 57 Um trabalho mais abrangente sobre as relações entre Emir Rodríguez Monegal e Angel Rama com o Brasil pode se encontrar no livro de Rocca. no campo intelectual latino-americano. Se esses tempos e contextos hoje são bem diferentes. 2006a. O que também é evidente é que o diálogo entre críticos de fala espanhola e portuguesa também tem sido. e interromper aquelas outras propriedades que levam ao apagamento das diferenças e à imposição de lógicas homogeneizantes? Queremos continuar defendendo uma identidade da literatura brasileira ou pretendemos abrir esse conceito? Como poderíamos pensar e contribuir para a difusão da literatura brasileira no exterior partindo da inspiração do título da coletânea Nenhum Brasil existe (Rocha. tendo abandonado a preocupação pela identidade latino-americana. há evidência importante sobre a multiplicação dos estudos comparativos entre as literaturas e as culturas do Brasil e da Argentina. que. tomado de empréstimo de um verso de Drummond? Qual seria a literatura brasileira desse Brasil nenhum que quereríamos difundir. com a contribuição deles para a literatura latino-americana em espanhol. sobre as literaturas latinoamericanas. sobretudo o de Rama. 56). 2003). Montevideo: Ediciones de la Banda Oriental. e como deveríamos fazer essa difusão? Hoje.5 Eu acrescentaria que tanto o trabalho de Rama como o de Rodríguez Monegal sobre a literatura brasileira talvez não tenham comparação.

Hoje existe uma série dentro de uma editora argentina (a Corregidor) especialmente dedicada à publicação e tradução de literatura brasileira que vem. de Clarice Lispector. e lançando dentro de sua editora livros completos de alguns poetas brasileiros contemporâneos. de Augusto de Campos. no entanto. evidenciam-se numa escrita poética que se nutre desses contatos. A revista Tsé Tsé vem publicando uma série de livros e de poemas. 2009 culturas do Brasil sem os empecilhos do purismo linguístico ou historiográfico do passado. hoje. autores brasileiros contemporâneos e clássicos: a nova edição que o Fondo de Cultura Econômica fez de um livro que era inencontrável nas livrarias argentinas. também está nutrindo os escritores brasileiros. Os sertões. um diálogo muito mais intenso entre a crítica argentina e a crítica brasileira. ou No se dice. E existe também. de Marcos Siscar. traduzidos e não traduzidos. Basta ler alguns poemas de Carlito . Também grande parte das maiores editoras argentinas e multinacionais vem publicando em Buenos Aires.58 Revista Brasileira de Literatura Comparada. assim como outros muitos. ou Literatura e vida literária. ou Um amor anarquista e os vários textos que Beatriz Viterbo vem publicando. junto com livros como A descoberta do mundo.15. publicando clássicos como Oswald de Andrade ou Graciliano Ramos e literatura mais contemporânea. tanto de ensaios. como o caso do Sublunar. de Carlito Azevedo. realizados tanto na Argentina como no Brasil. como Ana Cristina Cesar ou Leminski. Mas não só. há quase dez anos ininterruptos. é o fato de esses livros estarem hoje influenciando uma escrita literária argentina que tem se nutrido deles e que. Mais importante do que o número de volumes publicados. Tanto esses livros como o contato fluido dos poetas argentinos e brasileiros em festivais diversos. n. como o Balanço da bossa. por sua vez. O caso da poesia contemporânea é muito significativo. ou os vários romances de João Gilberto Noll e Adriana Hidalgo. com muito mais frequência. de Flora Sussekind. demonstram uma presença cada vez maior da literatura brasileira no catálogo de editoras argentinas. de Euclides da Cunha.

mas que. tem financiado e continua financiando pesquisas desenvolvidas por universidades argentinas e brasileiras em conjunto. ANDERSON. Os livros da coleção Vereda Brasil têm instalado um conhecimento importante dos autores publicados. 1991. Valencia: Pre-Textos. e que essa difusão acontece num contexto global de poder e conhecimento que influencia crucialmente a paisagem intelectual. . Pensar a difusão da literatura brasileira de uma perspectiva de literatura comparada transformada. e com ela o papel da literatura em geral – nesse novo mundo a cuja transformação estamos assistindo. se fundamente na relação dessa literatura brasileira com as outras literaturas. As verbas para projetos de cooperação internacional e para trabalhos comparativos têm aumentado exponencialmente na Argentina. que desenham uma encruzilhada de fertilização cruzada. cada volume traz estudos preliminares e bibliografias que ajudam os livros traduzidos a se instalarem no mercado e. na cabeça dos leitores. na medida de nossas fracas possibilidades. Benedict. sobretudo na Secretaria de Ciência e Técnica do Ministério de Educação da Argentina. Imagined communities. já que. nesse contexto. pelo contrário... New York: Verso. em parceria com a Capes do Brasil. Medios sin fin: notas sobre la política. 59 Azevedo ou Marília Garcia para ver que essas influências têm andado nas duas direções. lembrar que difusão não implica um trajeto de uma só via. talvez seja hoje uma estratégia para transformarmos. que já não esteja procurando as identidades de uma literatura como referentes de uma identidade nacional. Referências AGAMBEN. mais importante ainda. mas que é uma viagem de ida e volta. 2001. e em várias direções. o papel da literatura brasileira. Giorgio. além de publicar o livro traduzido. É importante.Tempos e contextos da literatura brasileira na Argentina. que.

15. César. 2003. GIL. 2006b. 1960-1999. The translation zone. FERNÁNDEZ MORENO. Nenhum Brasil existe. Bernardo de. Traducir el Brasil. Pablo.60 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Belo Horizonte. Prefácio e Organização de Jacinto do Prado Coelho). New York: Columbia University. _____. PESSOA. Polygram. Rosa (la visión hispanoamericana de Emir Rodríguez Monegal y Ángel Rama). 2003. A minha pátria é minha língua. América latina en su literatura. ROCCA. 1967. 1982. Soy loco por ti América. n. 1984. SPIVAK. (Recolha e transcrição dos textos de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha. Gayatri. Phillips. Gilberto. Caetano. Valdei. CABAÑAS. Jorge. CARVALHO. Emir Rodríguez Monegal y el Brasil: dos caras de un proyecto latinoamericano. . LOPES DE ARAUJO. Fernando. Velô. Death of a discipline. 2009 APTER. VELOSO. Inés. FORNET. Gustavo. O filho da mãe. In: _____. 1972. Premio Casa de las Américas: memoria. São Paulo: Companhia das Letras. In: _____. La Habana: Fondo Editorial Casa de las Américas. Ángel Rama. Tropicália. O eixo e a roda. La fisura regionalista de Graciliano a G. v. Emily. México: Siglo XXI. CAPINAM. 2003. SORÁ. Lisboa: Ática. Una antropologia de la circulación internacional de ideas. 2009. 1999. 2006a. 2006. Montevideo: Ediciones de la Banda Oriental. 12. Buenos Aires: Libros Del Zorzal. Princeton: Princeton University. Livro do desassossego. Rio de Janeiro: Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

reviews the case of Machado de Assis in order to step into de debate on universal versus local and on the problem of the international reception of his work. A mais imediata será o sublinhado duma diferença dentro da língua: no português europeu. aBstRact: The essay aims at a revision of the problem of the relation between a national literature. it’s too dark to read. as a way of exclusion. inside of a dog. as a notion without nation. Outside of a dog. as it seems to be the Brazilian case. cosmopolitism. literatura mundial. Partindo de uma noção que valoriza a literatura sobre a língua. and the very idea of Literature. elemento de exclusão. e ademais como parte dos “estudos de literatura brasileira no exterior”. nacionalismo literário. não deixa de envolver particularidades curiosas. world literature. não ocorre essa acepção de “exterior” * Universidade Nova de Lisboa . Arguing for an idea of literature superseding the language. Machado de Assis. cosmopolitismo.61 Ideia de Literatura Brasileira com propósito cosmopolita Abel Barros Baptista* Resumo: O ensaio procura rever o problema da relação da literatura brasileira com a noção de literatura e a literatura mundial. KeywoRds: Brazilian literature. PalavRas-cHave: literatura brasileira. Groucho Marx 1. a book is a man’s best friend. regressa ao caso de Machado de Assis para intervir no debate sobre o conflito entre local e universal na sua obra e a respectiva recepção fora do Brasil. literary nationalism. Machado de Assis. Pedir a um português que escreva sobre os estudos de literatura brasileira em Portugal.

dizendo: Por favor. e sempre se sabe o que é: o “exterior”. mormente as cínicas ou as que derivam do sublinhado de traços de degradação do ideal cosmopolita. propriamente falando. 1993) tenha necessidade de esclarecer que a locução “deitar fora” não significa “dormir fora de casa” mas “jogar fora”. requer determinação. Ademais. Ou a versão da pilhagem que Roberto Schwarz ofereceu no ensaio a que mais adiante me referirei. E é curioso que um dicionário on line de português para brasileiros (Prata.1 Isto. absolutamente. no confronto com a brasileira. por seu lado. Digamos que há sempre o “estrangeiro”. Você verá várias placas em Portugal. sugerindo que académicos medíocres procuram longe escritores obscuros para fazerem carreira sem controlo nem concorrência. significa o que é de fora ou vem de fora.62 Revista Brasileira de Literatura Comparada. estudos “estrangeiros”? Já a formulação “nem todos os estudos conduzidos no exterior são por isso exteriores” faz figura mais de problemática do que disparatada.15. Também se usa em Portugal a locução “lá fora”.htm>. pelo menos. Por exemplo. suspensa de uma referência que destrince exterior de interior. seja a inglesa. Mas exterior excede estrangeiro e. n. Se dissermos que “nem todos os estudos de literatura portuguesa conduzidos no estrangeiro são estrangeiros”. mas o advérbio indica registo coloquial e em regra requer um “fora” de referência para o nosso primitivismo pôr os olhos. Mas talvez disséssemos “estudos de literatura brasileira no estrangeiro” mais depressa do que estudos de literatura brasileira “fora do Brasil” ou “no exterior do Brasil”. a orientação do interior para o exterior. falando de cidadãos. etc. “Leituras em competição”: uma “guarda 2 . atrai a atenção para a definição do exterior como estrangeiro. a interferência do exterior no interior. é também locução portuguesa. promete alguma coisa pertinente. no nacional. dar uma deitadinha na casa de um amigo ou amiga. tratando-se de estudos. Convenhamos que não há enorme diferença entre as duas palavras. estrangeiro é exterior e. no que é nosso. o jogo de palavras. deite no lixo! Não leve ao pé da letra.br/obra/ literatura/adulto/dicionario/ framegranda_a. permita. até estimule jogos de palavras fáceis: a formulação “nem todos os que vivem no estrangeiro são estrangeiros” resultaria em disparate se transposta mecanicamente para “nem todos os que vivem no exterior são exteriores”. a alemã ou a italiana: como se houvesse uma substantivação de “o estrangeiro” que o “exterior” já não alcançou.com. parece mais pertinente delimitar “exteriores” do que “estrangeiros”. que a pessoa vá dormir fora ou. Nada disto. 2009 como conjunto de países constituído por todos os que não são o nosso. Daí que a modalidade portuguesa. a frase talvez não pareça logo o absurdo que é: o que serão. a mesma construção valendo.” Disponível em: <http://www. pode nem ser estrangeiro. como todos. Deitar fora é jogar fora. e que significa precisamente “jogar fora de casa” por ser o oposto de “jogar em casa”. ao suspender a familiaridade. a orientação do estrangeiro para o doméstico. Usamos “o estrangeiro”. Com efeito. aliás. 1 Claro que estão disponíveis várias descrições alternativas. do domínio do futebol. enfim. até pela etimologia. por outro lado. a determinação do interior como nacional. já tratando-se de difusão de uma literatura nacional ou de estudos de uma literatura nacional. para outras literaturas. O verbete completo diz isto: “Não significa. e diríamos “estudos de literatura portuguesa no estrangeiro”. marioprataonline. sem se aperceber de que “jogar fora”.

não acreditamos que os estudos possam ser domésticos ou nacionais sem ao menos aspirarem à condição universal. que vale para as pessoas. aonde nunca foram. residir nessa aspiração a razão última por que muitos académicos se dedicam a estudar a literatura de países onde não nasceram. sem universal em que se apoie. são brasileiros sem serem brasileiros e que se chamam brasileiros precisamente na medida em que estão no exterior do Brasil e num interior que não se chama Brasil. . literal ou figuradamente. e que provincianismo é ver o exterior só como exterior. 187). Um “Instituto de Estudos Brasileiros”. ilustram este princípio estranho: as pessoas têm necessidade de viajar porque as ideias e os estudos. aqueles que. chamam interior. sem eles. 3 63 Colho esta expressão na tradução para português da conferência proferida por Michael Wood num colóquio sobre Machado de Assis na Universidade de Princeton. ou que só visitaram justamente porque se interessaram pela respectiva literatura – talvez alguma convicção de que a literatura. vão de um país a outro por causa da literatura. 4 talvez porque. mas hóspedes. tendo país. e ainda querendo tê-lo muito fortemente. O mesmo se passa de resto com os brasileiros: um brasilianista é alguém que se dedica aos “estudos brasileiros”. Dir-se-á. o maior risco. e as universidades em princípio não confundem brasilianistas com brasileiros. no sentido em que pertence a este ou àquele aglomerado nacional. não como “o lar de outras pessoas”. tanto pode estar sediado em Roma como em S. Schwarz. não parece valer para as organizações nem para os estudos. casa. cheio de brasilianistas ou cheio de brasileiros. mas estes.2 Então. p. Certa tradição académica chama “portugueses” justamente àqueles estudos de língua. e em princípio hóspedes de honra.Ideia de literatura brasileira com propósito cosmopolita avançada” do “centro” pilha as obras da “periferia” para as incluir em repertórios internacionais. esses académicos. literatura ou cultura portuguesa que no estrangeiro são conduzidos por não portugueses. A segunda consequência é que. é sempre pouco para quem vive neste ou naquele aglomerado nacional. sendo o menor. Paulo.3 Note-se que. kantianamente guiados pelo ponto de vista filantrópico universal. quase cidadãos honorários. que viajam por causa da literatura que não se fez na sua terra. não podem nem precisam de viajar. que estes que viajam. espaço doméstico. Talvez se possa inferir do exemplo que os estudos. o de se ver obrigado a esbarrar em regras que lhe são adversas ou a tolerar convicções que lhe repugnam. onde não viveram. nunca serão estrangeiros. vai a “terras distantes” à procura do que a faz menos provinciana e por isso não se importa de ignorar a história e o contexto. como cidadãos. filantropos embora. o cosmopolita pode estar condenado à errância eterna. porque de algum modo se dedicam ao Brasil. 66). A imediata consequência a extrair seria que o universal não existe. em janeiro de 2009 (Wood. mas mais quotidiano. não se prendendo a nenhum espaço delimitado por fronteiras. em rigor não tem país. Isto. por sua vez. 2009. desde que obtenha proventos fáceis (cf. p. é provável que hoje pagássemos a Berlusconi para ler a Divina comédia. 2006. modalidade decerto muito inconveniente de prestar tributo ao princípio de nacionalidade em literatura. Nesse sentido. Estamos sempre em algum lugar – em algum local. pela simples razão de que ninguém o pode habitar. evidentemente não se tornam portugueses. se deslocam sempre para o território que outros. Pode. aliás.4 Sem dúvida. por outro lado.

que ao brasilianista lhe paga essas viagens e esses estudos? E em nome de quê. disciplinas ou paradigmas. esforçar-se por se manter exterior porque estrangeiro? Qualquer estudo implica legitimidade e reconhecimento. o interior tornou-se demasiado escuro para que se consiga ler nele com nitidez. essa instituição o avalia? Acaso da capacidade de se tornar estrangeiro para não ser estrangeiro no país da literatura que estuda? Outra pertinência da distinção entre “exterior” e “estrangeiro” residiria então em que o “exterior” tem aptidão superior à de “estrangeiro” para referir situações que envolvem instituições. n. há-de vir do exterior ou de algum interior do Brasil? Ou o factor decisivo estará antes nesse outro interior que é a instituição exterior. ou até de ambos: o reconhecimento decisivo do brasilianista.64 Revista Brasileira de Literatura Comparada. editoras. Trabalhar no exterior de um paradigma pode ser mais perturbador do que trabalhar no exterior de uma disciplina ou de uma instituição. numa rede tendencialmente tão diversificada no mapa como similar nos padrões e critérios de avaliação. agências governamentais. centros de pesquisa. fundações. não brasileira. da importância do seu estudo e da relevância da sua pesquisa. que ou provêm do interior da instituição em que se trabalha ou do exterior dela. trabalhar no interior de um paradigma pode ser condição necessária para trabalhar no interior de uma disciplina e de uma instituição.15. e no propósito do estudo dela. 2009 Eis o dilema: aquele académico que viaja para outro lado por causa da literatura. e o reconhecimento do pesquisador ultrapassa já não apenas a nação. o interior não é nacional senão depreciativamente. desde logo. A impossibilidade do interior bem circunscrito decorre da dissolução da autonomia numa rede de instâncias por definição exteriores. mas as próprias disciplinas. Exterior deixou de significar estrangeiro: no mundo universitário. Em todo caso. deve pretender tornar-se interior apesar de estrangeiro ou. . outras universidades. antes. de que padrões ou critérios. Eis outra forma de dizer que o universal não existe: porque o local se tornou impossível.

delimitálo historicamente. como a brasileira. sim. antes. noutras nações. não podia senão ser muitíssimo sensível à diferença entre exterior e estrangeiro. Duas interrogações sobre Machado de Assis (Baptista. para a conhecer. enquanto o primeiro a subordina a uma qualquer relação com o Brasil. p. aliás. 2003. 21-111. mas postula que tal desejo não se confunde com o que eles ou todos nós chamamos literatura brasileira – nem é o único guia. 5 Ora. na linhagem que o primeiro grande espírito cosmopolita do Brasil. e a que voltarei mais adiante. Filiando-se. é suficiente para mostrar que se mantêm a actualidade crítica e a energia polémica da análise que propus do ensaio de Machado. em reconhecer o desejo de nacionalidade. supostamente em competição com a “leitura nacional”. antes. analise o processo por meio do qual no Brasil se procurou construir uma literatura entendida como representação do Brasil? Proponho designar cosmopolita a perspectiva que estabelece essas distinções e argumenta em favor do segundo termo da alternativa. que se representa hegemonicamente como construção que circunscreve o interior para que coincida com o nacional. que o leitor interessado pode encontrar no meu livro A formação do nome. estude e divulgue a razão de a literatura falar do Brasil? Que se interesse pela realidade nacional brasileira ou. antes. O propósito cosmopolita não consiste. em negar a nacionalidade da literatura brasileira em nome de uma natureza intemporal e transcultural da literatura. O propósito cosmopolita leva em conta o desejo de criação de uma literatura a que os brasileiros possam chamar sua. no sentido mimético e no diplomático. identificá-lo como uma das forças da literatura moderna em acção no Brasil. edição portuguesa de 1991). pelo interesse da literatura brasileira pela realidade nacional brasileira? Que se torne porta-voz de uma literatura entendida como representação do Brasil. tampouco em afirmá-la ou sequer reconhecê-la: consiste. O que se deve então legitimamente exigir ao brasilianista? Que estude e divulgue o Brasil de que a literatura brasileira fala ou. inaugurou com o célebre “instinto de nacionalidade”. que preserva a relação com a literatura. O artigo de Roberto Schwarz atrás citado. muito menos o melhor.5 . Machado de Assis. ou. E há-de ser particularmente sensível à presença do estrangeiro no seu interior – e sobretudo à projecção desse interior no exterior indeterminado do “estrangeiro”. portanto. sendo uma reacção à fortuna crítica de Machado fora do Brasil e ao que ele chama “leitura internacional”. desnaturalizá-lo e. enfim. como. uma literatura.Ideia de literatura brasileira com propósito cosmopolita 65 O presente ensaio conclui um percurso de estudos machadianos inaugurado há mais de vinte anos com uma análise de “instinto de nacionalidade”. enfim.

1969. n. se é possível algum sentido para Weltliteratur mantendo o termo na visão de Goethe. num modo que sequer é propriamente paródico. “Filologia e Weltliteratur” (1952). sem nenhum paradoxo. e mais do que isso. já não pode ser a nação” (Auerbach. que apresento nesta formulação decerto precária. que Auerbach detecta e cujo termo pleno. em circunstâncias notoriamente diversas. No entanto. 2009 2. Não cabendo aqui sequer tentar resumir o argumento que ocupa a parte central do ensaio.15. 17). na noção . 1969. A pressuposição da Weltliteratur é uma felix culpa: a divisão da espécie humana em muitas culturas (Auerbach. isto é. relacionando-o tanto com o passado quanto com o futuro e considerando o próprio estado do mundo: O nosso planeta. há por aí qualquer coisa de urgentemente actual. acaba a declarar que “a nossa casa filológica é o planeta. sublinha. ou causar estranheza pelo desuso: o melhor bem? o bem comum? o bem supremo? E. a formular certo programa de urgência: “devemos regressar. é citar o desfecho dele. pode também desnortear. Espírito? Humanidade? O vocabulário não é seguramente de hoje: ou parece hoje muito pouco cosmopolita. 2) A dificuldade é manter a tarefa da filologia diante do processo de estandardização da vida humana à escala global. o modo como.66 Revista Brasileira de Literatura Comparada. O colorido kantiano do meu título. 1969. ao convocá-lo. p. seria de um só golpe a realização e a supressão da própria noção de Weltliteratur. o meu propósito. p. como se se tratasse de um programa político: o propósito cosmopolita consiste em reafirmar. 17). p. Auerbach perguntava num dos seus últimos ensaios. no entanto. o domínio da Weltliteratur. a Weltliteratur não se refere apenas ao que é genericamente comum e humano: antes considera que a humanidade é o produto das relações frutuosas entre os seus membros. está a diminuir e a perder diversidade. àquilo que a cultura medieval pré-nacional já possuía: a noção de que o espírito não é nacional” (Auerbach.

aquele que não pode deixar de ser reconhecido e não pode deixar de se reconhecer como estrangeiro. e designadamente dele espera a responsabilidade de circunscrever ele próprio a sua incompreensão e a sua ignorância.Ideia de literatura brasileira com propósito cosmopolita 67 moderna de literatura. onde o espírito vagueia livre. não um espaço homogéneo. para onde alguns poucos afortunados são cooptados. O fundamento da hospitalidade não é a natureza humana nem alguma ideia genérica de humanidade. que é a mesma não porque seja desde sempre e essencialmente a mesma. o propósito cosmopolita define o princípio teórico e político que nos orienta a aproximação a qualquer texto com a ideia de que o que há de nobre e de emancipador na noção de literatura é o que nos anima a pressupor que cada texto foi escrito na previsão do estrangeiro que um dia o virá a ler e estará à altura de o ler precisamente na medida em que for capaz de circunscrever os limites da própria incompreensão sem perder de vista o privilégio de habitar a mesma casa. sem fronteiras nem conflitos. antes porque a caracteriza a hospitalidade incondicional. mas uma ideia de literatura definida precisamente pelo propósito cosmopolita: digamos que o ensaio de propósito cosmopolita é o que se aproxima da literatura presumindo que o que a constitui é o propósito cosmopolita! Ou. pela Unesco ou pelo sucesso comercial. universal. Decerto é quase de tra- . a concepção visionária daquela felix culpa como abertura dum espaço de hospitalidade incondicional. o que se aproxima da literatura animado da convicção de que o propósito cosmopolita é inerente à noção de literatura – um propósito constitutivo da literatura moderna. formando alguma espécie de cânone supranacional ou literatura internacional. em termos menos circulares. não um espaço essencial de onde derivem e se deduzam todos os espaços. Não um espaço superior e restrito. mais restritos e nada essenciais – mas o espaço que se abstém de limitar e impor condições à entrada e estada do estrangeiro. Nos estudos literários. Essa concepção da literatura poderia receber outro nome – tradução –. não fosse o traço decisivo do carácter incondicional da hospitalidade.

ou do que com tanta facilidade se chama “a mesma língua”. Como se o esperasse – e a melhor descrição de literatura é essa. E não há razão para que essa ideia não seja válida no quadro da mesma língua. como se compreende. ou quando fala a nossa língua. de estada e exercício da hospitalidade sem condições.68 Revista Brasileira de Literatura Comparada. força que cria unidades além deles e tensões por causa deles: unidades apesar das tensões. de cruzamento. O espírito é o espírito da hospitalidade. O sonho emancipador aqui seria. ser esta: faz de quem dela se aproxima um estrangeiro e pelo mesmo gesto oferece-lhe todas as condições para que se instale à vontade. A ideia da literatura como hospitalidade incondicional recusa tanto o universalismo como morada última que apaga todas as línguas. A definição de literatura podia. em que ela espera e depende do estrangeiro para se constituir –. A língua. 2009 dução que se trata. o bem comum é o da literatura e da partilha da literatura. somos sempre estrangeiros diante de qualquer obra de literatura. 3. n. mas passando entre os polos extremos que a definem: a tradução visa necessariamente à inteligibilidade sem restos – e por isso a hospitalidade é possível –. eis justamente o que separa: porque é a língua que permite reconhecer o estrangeiro como estrangeiro e sobretudo quando fala a mesma língua. quanto o nacionalismo da língua cioso do núcleo essencial insusceptível de tradução. que a literatura unisse o que a língua separa. mas nunca opera o transporte unívoco de um conteúdo prévio – e por isso a hospitalidade é incondicional. e nesse sentido. desde sempre destinando-se ao mundo. aliás. que a literatura se constituísse morada de encontro.15. há um exemplo de . A literatura é uma linha que passa entre esses dois polos. tensões não obstante as unidades. Nas relações ou nos primórdios das relações entre a literatura portuguesa e a brasileira. então.

Hoje pode ler-se no volume da edição crítica dos Opúsculos dedicado aos assuntos de literatura (v. Um ensaio escrito por um português – e que o assume expressamente. 7 propósito cosmopolita pouco conhecido. 2005. no Anuário do Museu Imperial.7 Ora. Duvido também de que um estrangeiro possa avaliar sob todos os aspectos uma composição de semelhante natureza (Herculano.). embaraçando o velho decrépito. e muito. atolado no passado. p. que se ergue para criar o novo. define com outra palavra a sua condição relativa à nação brasileira. Anos antes. em 1947. e mais ainda que o seja na América. de que nesta nossa época o poema épico seja possível na Europa. . 6 Permito-me remeter o leitor interessado para o comentário deste ensaio de Herculano que apresento em O livro agreste (Baptista. 25 et seq. o Brasil. Herculano publicara um ensaio a propósito dos Primeiros cantos de Gonçalves Dias. I. e a carta merece um estudo demorado que. 1986.6 Este texto. a pedido do próprio Herculano. trata das consequências para a literatura portuguesa do aparecimento da brasileira. o de Alexandre Herculano.Ideia de literatura brasileira com propósito cosmopolita 69 Trata-se de “Futuro literário de Portugal e do Brasil”. Herculano. que viria a ser incluído. Portugal. p. p. Escreve Herculano: V. Pedro II sobre A Confederação dos Tamoios. de Gonçalves de Magalhães. e surgiria apenas em 1947. 1986. o primeiro traço que distingue a carta é que Herculano. permaneceu inédita. estranhará talvez que eu comece por uma declaração de incredulidade que prejudica a crítica especial do poema ou pelo menos a subordina a considerações superiores. M. ainda não teve.ª edição dos Cantos. Datada de 6 de dezembro de 1856. Pedro II lhe pedira. na 2. tanto quanto sei. Não é imediatamente perceptível o que faz o “estrangeiro” na análise de Herculano. 212-221). pela mão de Alcindo Sodré. 1986. tornando-se por isso relativa em vez de absoluta. a servir de prólogo. Herculano escreveu uma longa carta a D. originalmente publicado na Revista Universal Lisbonense. 213). mais do que da poesia de Gonçalves Dias: é um ensaio centrado na metáfora do jovem. e retomado nos Opúsculos (Herculano. porém. Duvido. 199-204). para dar a opinião sobre o poema que D. p. invocando-a até como fundamento da incredulidade que fere a capacidade crítica: estrangeiro.

o que seria adequado à epopeia não é nacional. razão fundamental por que “a poesia é hoje quase exclusivamente lírica e dramática”. sob todos os aspectos. p. 2009 Limito-me aqui a observações rápidas que me conduzem ao meu ponto. a sua civilização o mesmo que a nossa? Não se confunde a classe média do Brasil com a classe média da Europa. O Brasil é um império novo. Desde logo. E o Brasil. 215).70 Revista Brasileira de Literatura Comparada. porém. Claro que o argumento envolve um juízo sobre essas condições que não se confunde com a noção das exigências do género: “a nossa geração não é épica”. não constituísse hoje duas nacionalidades distintas” (Herculano. o “estrangeiro” não está onde se esperava. Esta dificuldade. entretanto. apresenta certa especificidade que Herculano também não negligencia: diz ele que as eras heroicas e as gerações épicas do Brasil seriam as do primitivo Portugal. que se sobrepõem às condições actuais em que o poeta eventualmente o tenta. O que. a nacionalidade brasileira não pode encontrar nos índios um substituto para os primitivos portugueses: aqueles [chefes índios] que se conservaram fiéis às tradições da pátria americana não têm identidade nem unidade nacional com os brasileiros de hoje. porque as reputo insuperáveis. “se uma raça outrora única. mas os brasileiros são apenas europeus na América. uma completa negação da generosidade e do heroísmo da epopeia (Herculano. Herculano reputa impossível a epopeia – e sublinha que nenhum dos “sumos poetas contemporâneos” a tentou – em virtude das próprias exigências do género. n. 215). poeticamente considerados. considera-a Herculano insuperável: Duvido que o génio pudesse vencer estas repugnâncias. e os que traíram os interesses da sua gente e a religião dos seus antepassados para se aliarem com os conquistadores. Em suma. sei de certo é que ele não poderia vencer a desarmonia do espírito público. Não é. e o que se tornou nacional é indigno da epopeia. 1986. a um tempo . 1986. p.15. Por outro lado. são.

p. podendo não o ser para um brasileiro: exemplos de como Herculano. e que noutro são elevadas ou pelo menos toleráveis (Herculano. o próprio exercício do juízo havia de mantê-lo na mesma casa daqueles que escreveriam essa epopeia. nesse juízo. antipoéticas. recai aí a outra dúvida de que no princípio falei a V. nesse . a consideração da originalidade do Brasil não faria de Herculano um estrangeiro. M. E sublinhe-se. 1986. ainda que Herculano defendesse que a epopeia seria possível no Brasil. a barreira que define o estrangeiro? Aí deparamos com a surpresa: a barreira é a própria língua. que seria impossível aqui? (Herculano. mas justamente de a considerar e estar convicto de que a pode descrever com exactidão no que à epopeia diz respeito. ou havia de trazer estes para a casa em que ele os avaliasse – ou seja. Escreve Herculano: Pelo que respeita às formas externas do poema.Ideia de literatura brasileira com propósito cosmopolita 71 ardente nas suas paixões e céptica e fria nas suas opiniões e ideias? Como estabelecer aí uma harmonia entre o poeta épico e o público. não apenas Portugal. 215) Sublinhe-se que o “aqui” é a Europa. Embora a língua seja idêntica entre dois povos. as comparações. antes. 1986. Desde logo na diferença de estilos. p. há locuções que num país se tornaram plebeias. acima de tudo. a verdade descritiva de um poema? Creio que não. Onde se constitui. Isto não é o mesmo que dizer que a originalidade do Brasil está de antemão subordinada pela consideração das exigências do género épico: é. O aspecto decisivo é que. por causa disto ou daquilo. Pode sempre o estrangeiro avaliar bem a frase. o mesmo que dizer que desta não decorre nenhuma barreira que relativize ou desqualifique o juízo como juízo de estrangeiro. que o juízo de Herculano sobre a epopeia não depende de ele ignorar ou recusar a originalidade brasileira. 218). Seguem-se exemplos de frases que a um ouvinte português pareceriam “baixas e triviais”. I. então.

que. apesar de transnacional. das imperfeições de metro. É acerca dos prosaísmos. se torna nacional. Outro aspecto. considera o seu juízo “portanto. Numa palavra. já de antemão aberta à possibilidade da diferença local. incompetente”. 218). . Herculano não precisa proceder a uma expedição etnográfica para responder à solicitação de Pedro II: chega-lhe o conhecimento da possibilidade de a mesma palavra não ser a mesma palavra. É isto. que forma o propósito cosmopolita. o paradigma do propósito cosmopolita na avaliação literária. é decorrente da estipulação de uma unidade prioritária: “Há. A língua deixa o estrangeiro à porta: sendo a mesma. nem condução do reconhecimento da diferença à renúncia a um princípio de avaliação inerente ao próprio género e portanto independente das particularidades locais. todavia. coisas em que a crítica da Europa e a da América tem de concordar. quando é a mesma ou quando se presume a mesma. creio. 1986. p. porém. circunscrever a área de incompetência e ponderar o conjunto: a própria definição da crítica podia ser dada nesta tríade. n. E não precisa rever a noção de epopeia. O que cabe no seu propósito é não deixar que o juízo se torne absoluto quando tem áreas de incompetência. as comparações: “Das comparações tiradas de entidades privativas da América ainda a crítica da Europa está menos habilitada para ajuizar” (Herculano. Herculano não postula sequer a unidade poética da língua – como não postula nenhum princípio de relativização poética em função da diferença linguística. Delimitar a barreira. p. nem fazer alastrar a incompetência à negação do juízo inteiro. Justamente a unidade poética do género circunscreve a área de incompetência ao mesmo tempo que a subordina: nem defesa da unidade intemporal e transnacional da língua para efeitos de epopeia. 1986.15. 2009 particular. A incompetência. a avaliação da epopeia defronta-se com a barreira da língua. é também o que separa e o que pode separar sem deixar marca. das incorrecções gramaticais” (Herculano.72 Revista Brasileira de Literatura Comparada. 219). Contudo.

É na incompetência reconhecida mas circunscrita do estrangeiro que a literatura finalmente se cumpre como literatura. E isto é válido ainda quando a literatura se define sobretudo como assunto nacional. Já a repetição de Denis pelo grupo da Niterói inaugurou a ideia de literatura brasileira do ponto de vista brasileiro.Ideia de literatura brasileira com propósito cosmopolita 73 O propósito cosmopolita é a voluntária subordinação a alguma noção de literatura pela comunidade dos que se reclamam dela: é a aceitação da impossibilidade de nacionalização plena das formas literárias. Ferdinand Denis. quer dizer. deve ter sido o primeiro a expor uma ideia de literatura brasileira do ponto de vista cosmopolita. não há literatura moderna sem incompetência declarada do estrangeiro: é nela que se decide a possibilidade de a literatura se erguer acima das condições particulares em que surge. Repegando a antinomia de início. subordinada a uma ideia de Brasil. subordinada a uma ideia de literatura. de enraizamento. mas deixou eloquente exemplo de crítica literária em que o propósito cosmopolita nem sequer é incompatível com a instigação à “nacionalização” da poesia do Brasil. O reconhecimento da diferença local é inerente. por isso. quer dizer. de particularização. Gonçalves de Magalhães interiorizou Denis. ao propósito cosmopolita. antigas ou modernas. A própria dependência da noção de literatura nacional em que Herculano escreve as suas apreciações do poema de Gonçalves Magalhães comprova que o propósito cosmopolita se caracteriza pela dependência de uma noção de literatura capaz de tornar globalmente partilhável a própria ideia de enraizamento no local nacional. não no sentido superficial de ter . Mais radicalmente. no seu Resumé. Alexandre Herculano não foi apenas certeiro nas apreciações contidas na carta. é o reconhecimento da estabilidade e da transportabilidade das formas diante das modalidades de apropriação. já enfaticamente presente no ensaio sobre Gonçalves Dias. e aliás nem haveria necessidade de propósito cosmopolita sem reconhecimento da diferença. O caso particular da Confederação dos Tamoios atesta-o bem.

que definem o romantismo de Magalhães. Paulo Franchetti mostrou como o programa literário de Magalhães depende da ideia de que o Brasil estaria num segundo momento da sua história. Franchetti mostra de forma convincente como a articulação desses postulados determinou decisivamente a historiografia e a crítica literária posterior (Franchetti. 2006. para o ideal partilhável de uma literatura moderna formada pela livre agremiação das particularidades expressas em literaturas nacionais. 2009 assimilado a lição do estrangeiro. os dois postulados básicos de Magalhães. a força com que a natureza da terra guiaria a transformação completa da literatura em literatura plenamente brasileira. em nome das ideias de liberdade e de universalidade. Num trabalho recente. p. aquele em que “tomava consciência da sua especificidade e se constituía plenamente como nação”. n. o segundo diz que “os temas. ao menos dificultam a expressão do caráter nacional na produção letrada do país”. 121 et seq. 2006. estruturam claramente uma posição anticosmopolita: o primeiro é o do “instinto oculto”. isto é. desde aí. estruturou-se um dispositivo anticosmopolita de equívocos. Apesar da adopção da França como matriz cultural. E de facto. determina a literatura consciente ou inconscientemente e de modo distintivo. mas no mais decisivo de ter tornado doméstico o que era cosmopolita.74 Revista Brasileira de Literatura Comparada. E pôde fazê-lo precisamente porque essa ideia era cosmopolita e se oferecia com a generosidade de quem trabalha para o bem comum. 115). de ter tornado dependente de uma pátria o que em si mesmo não tinha pátria – uma ideia de literatura. sendo por virtude dessa influência uma inevitabilidade. b) a crença em que a representação da realidade local.). Daí que a oposição antilusitana e anticlássica. p. a influência da realidade local. a saber: a) a confusão que dissolve toda e qualquer diferenciação literária em “carácter nacional” e a redução de todos os factores de diferenciação a um único. . coincidissem num “gesto de afirmação nacional e política da nova nação” (Franchetti. que Franchetti identifica.15. as formas e as técnicas da literatura europeia se não obstruem.

Ideia de literatura brasileira com propósito cosmopolita 75 c) a confusão do local com o nacional. modernidade artística e modernidade social. a oposição do local ao universal sobrevive por meio da oposição do consciente ao inconsciente e do voluntário ao involuntário: aqueles escritores que se distanciam do projecto de nacionalização da lite- . mostrando que querer ostentar certa cor local e querer tornar nacional uma literatura não são projectos necessariamente coincidentes. com a própria nacionalidade da literatura. literatura e sociedade. Mas a oposição do local ao universal é sobretudo um instrumento do projecto de circunscrição nacional da literatura. Daí o efeito decisivo da sua persistência: local e universal. a do propósito cosmopolita com o pendor para o universal. Nesse preciso ponto. tornam-se polos em tensão de um mesmo processo da literatura em direcção ao nacional. “tradição afortunada” ou “formação”. quaisquer que sejam as formas com que historicamente se reedita. que já Machado denunciou. d) a confusão do projecto de construção de uma literatura nacional. do que está antes da literatura e que logo transforma o universal em mero repertório de temas e formas: é uma figura da oposição da realidade à literatura e da subordinação da literatura pelas representações naturalizadas da realidade. consoante os vocabulários –. cultura e nação. projecto de afirmação política e de natureza prescritiva. cuja fortuna brasileira decorre do obscurecimento da diferença entre a noção de literatura como projecção subordinada a um ideal cosmopolita de literatura e a noção de literatura como projecto subordinado a um ideal nacional de país construindo-se dotado de literatura “própria”. na narrativa da “formação”. A estipulação do local por oposição ao universal representa sempre o privilégio do local. etc. em direcção a uma etapa final de nacionalização definida pela harmonia entre literatura e terra. a crença num processo contínuo e irreversível – “instinto oculto”. facilita outra confusão. O sintoma desse dispositivo de equívocos é a persistente oposição entre o local e o universal. Nesse sentido. f) enfim. o processo pelo qual a nação se revela a si mesma pela sua literatura.

15. quer dizer.76 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Daí que Machado de Assis seja o óbvio. projectando-se para um horizonte indeterminado no tempo e no espaço. ou como nacionalistas involuntários ou como cultores de nacionalismo literário “mais profundo”. Eis como a oposição entre local e universal se revela instrumento de poder. Mas. Acresce que qualquer dessas ideias acaba por tornar manifesto que o propósito final de uma e outra é subordinar a inteligibilidade e avaliação da obra machadiana à possibilidade de certa comunidade que se designa como brasileira a declarar “inteiramente brasileira”. . de um modo ou de outro. Desde logo. 2009 ratura brasileira ou lhe permanecem indiferentes acabam. porém. o mesmo é dizer. há sempre uma linha de fuga por meio da qual Machado se torna escritor sem pátria. 4. de domínio de uma doxa interpretativa inimiga da diferença cosmopolita: confundindo o cosmopolita com o universal. esquecendo-o ou desprezando-o? Também não é possível. tarde ou cedo. onde não há lugar para o estrangeiro. dissolve-o num processo que não admite exterior. a sua reformulação. ambas destinadas a bloquear a possibilidade de leitura cosmopolita da obra machadiana. exigindo. É impossível ignorar que o ideal de entendimento universal inerente ao sonho emancipador da literatura moderna ruiu há muito. a ausência conspícua de empenhamento no local desafia a imaginação e acaba por torná-lo prisioneiro inevitável da ideia do “nacional mais profundo” ou do “nacional inconsciente”. onde não há efectiva alternativa para o nacional. mas ainda porque é a esse mesmo ideal que a grandeza de Machado remete o leitor cosmopolita. por nele ser harmoniosamente integrados. o incontornável ponto de crise do paradigma hegemónico de autorrepresentação da literatura brasileira. não apenas porque a obra machadiana se estruturou e destinou no âmbito definido por esse ideal. n. Mas como ler Machado sem levar em conta esse ideal.

logo a seguir. Já não se estranhará. Depois de dizer que “o que primeiro chama a atenção do crítico na ficção de Machado de Assis é a despreocupação com as modas dominantes e o aparente arcaísmo da técnica”. na orientação de Macedo para a descrição de costumes. o incompleto. Nessa descrição. na vocação analítica de José de Alencar”. Quando. 117-118). que Machado “pressupõe a existência dos predecessores. o fragmentário”. Já quando fala de Machado nas Universidades da Flórida e do Wisconsin. escreve que Machado “se embebeu meticulosamente da obra dos predecessores”. depois disso. de definitivo. que a “sua linha evolutiva mostra o escritor altamente consciente. 2. 26). e quando precisa. no realismo sadio e colorido de Manuel Antônio de Almeida. dir-se-ia que o mesmo Antonio Candido se muda para o lado adverso. quase 10 anos depois da Formação. 1981. 1995. precisamente porque estipula que a inteligibilidade e a originalidade de Machado decorrem do modo como ele próprio. “altamente consciente”. na Formação da literatura brasileira. p. do seu alheamento das modas literárias de Portugal e França” (Candido. p. que as descrições comparativas da página seguinte. a “formação” de Machado como escritor decorre essencialmente em ambiente doméstico e o estrangeiro não é mencionado senão para sublinhar o alheamento e recusa que o excluem do processo. acaba explicando que se tratava de uma forma de manter na segunda metade do século XIX “o tom caprichoso” de Sterne e de criar algum eco do “conte philosophique à maneira de Voltaire” (Candido. se inseriu nesse processo. o cosmopolita. em vez dos nomes de . v.Ideia de literatura brasileira com propósito cosmopolita 77 Veja-se o exemplo de Antonio Candido. notando que o escritor “cultivou livremente o elíptico. que compreendeu o que havia de certo. Antonio Candido não está apenas a situar Machado no quadro nacional. limitando-o ao processo da “formação da literatura brasileira”: está a recusar o ponto de vista cosmopolita. isto é. e esta é uma das razões da sua grandeza” e “o segredo da sua independência em relação aos contemporâneos europeus.

Decerto Antonio Candido. é que o segundo Candido não tem lugar para o primeiro. ou seja. mas porque o protagonista dessa explicação não seria nenhum deles. e por isso é aí que a incompatibilidade entre as duas perspectivas salta inexorável. não teria duvidado de que o seu auditório na Flórida ou no Wisconsin havia de permanecer razoavelmente indiferente se ele insistisse em explicar-lhes que a grandeza de Machado decorre de ter estudado Macedo e superado Alencar: não porque os desconhecesse. crítico inteligente e informado. n. O segundo Candido é melhor ou pior do que o primeiro? Dir-se-á que se complementam. não depare com nenhuma barreira que torne absoluta a sua condição de estrangeiro. a da Formação. polos necessários de qualquer descrição rigorosa da obra machadiana. nem sequer Machado. e este não admite o outro. A verdade.15. e a do “Esquema”. 2009 Alencar ou Macedo.78 Revista Brasileira de Literatura Comparada. convoquem Kafka. Para o mesmo fenómeno – a distância de Machado das “modas literárias” do seu tempo –. a do romance europeu e da noção de literatura que representa. Candido não apela a nomes familiares. nem valorizar o universal em detrimento estratégico do local: generosamente. diante da sua obra. o que Candido faz não é diluir a originalidade de Machado de Assis tornando-o aceitável ou tolerável pelo estrangeiro ignorante das coisas brasileiras. porém. que consiste em procurar tornar inteligível e apreciável um escritor a quem quer que se interesse por escritores e literatura. Em vez disso. que o dá a recu- . em fazer que o estrangeiro. digamos assim. que o dá consciente dos predecessores e a querer superá-lo. que o primeiro valoriza o local. Dostoiévski. etc. Como quer que seja. Candido oferece duas descrições incompatíveis. no “Esquema”. mas a uma tradição comum. o segundo. Gide. seria a narrativa da “formação da literatura brasileira” – a narrativa que precisamente os constitui estrangeiros diante de Machado. seja Sterne ou Voltaire. Proust ou Faulkner. É aí que o propósito cosmopolita pode actuar. deveríamos interpretar a diferença do segundo ensaio à luz de um princípio de filantropia literária. o universal.

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perar uma linha do romance europeu que essas “modas” interromperam: a primeira desenha uma linha contínua, a segunda refere uma linha quebrada; a primeira postula uma evolução irreversível, a segunda acredita no resgate do anacrónico; a primeira está claramente circunscrita ao espaço nacional, como se essa linha contínua e irreversível se desenrolasse num compartimento estanque, ao passo que a segunda requer um espaço difuso de trocas e influências, não determinado nacionalmente. E, em cima de tudo, a primeira requer o conhecimento do processo da “formação” como condição da inteligibilidade de Machado, a segunda não só o dispensa como torna Machado um romancista muito mais relevante porque capaz de actuar criticamente sobre a tradição e a actualidade da situação literária europeia. A diferença em nada depende da oposição entre local e universal: em nenhum dos casos Machado é descrito pelo penchant para o universal ou para o local, é antes a mesma característica – o alheamento das “modas literárias” europeias – que num caso se define dotada de conteúdo nacional e no outro desprovida dele. A diferença entre os dois Machados é gerada pela diferença entre duas atitudes diante da situação e da tradição literária europeia, e na verdade expressão eloquente da diferença entre dois Candidos: o Antonio Candido da Formação é o crítico comprometido com a nação, empenhado em entregar aos brasileiros um Machado que os represente, por numerosos e sofisticados que sejam os mediadores dessa representação, enquanto o Antonio Candido do “Esquema” é o crítico comprometido com a literatura, na busca de um Machado que o estrangeiro possa chamar seu sem que o brasileiro se sinta espoliado.

5.
Que o primeiro Candido não pode desenvolver-se sem erradicar o segundo, e que o segundo apenas emerge na condição de destruir pressupostos básicos do paradigma crí-

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Revista Brasileira de Literatura Comparada, n.15, 2009

tico do primeiro – eis o que curiosamente se comprova com a peça final do edifício machadiano de Roberto Schwarz, o ensaio “Leituras em competição”: os dois géneros que Schwarz delimita, a “leitura nacional” e a “leitura internacional”, encontram afinal no próprio Antonio Candido exemplar praticante, senão mesmo o primeiro. De facto, para Schwarz, a “crítica internacional” define-se por ler Machado sem considerar a relação com a nação brasileira, mais propriamente, “crítica internacional” é toda a que se não ocupa de esclarecer a relação entre o carácter inconfundível da ficção machadiana e o carácter inconfundível da nação brasileira. Em contrapartida, “crítica nacional” não é a que se faz no Brasil, ainda menos a que é feita por brasileiros, mas a que tem nessa relação com a nação o centro de gravidade dos seus esforços, e que aliás Schwarz descreve ainda segundo o modelo da linha contínua, em progresso irreversível na direcção de uma meta, que se presume tenha sido atingida pelo desenhador da linha, seu principal praticante e intérprete, o mesmo Schwarz. Nenhuma surpresa, aliás. Isso basta para perceber por que motivo a “leitura nacional” é sempre referida no singular, ao passo que se sugere que a internacional poderia receber a designação alternativa de “várias não-nacionais” (Schwarz, 2006, p. 64). O ensaio é, na verdade, uma reacção a certa resenha publicada em Nova York e que, sem agressividade mas com assinalável contundência, danifica o sentido global do trabalho de Schwarz. Trata-se de “Master among the ruins”, de Michael Wood, professor de Princeton, que a New York Review of Books publicou por ocasião da publicação de novas traduções de Machado para inglês. Schwarz refere-se expressamente ao artigo, classifica-o de “resenha abrangente e consagradora do romance machadiano”, sublinha que apresenta questões difíceis e incontornáveis que definem a cena do debate entre a “leitura nacional” e a “leitura internacional”, e refere, numa proposição intercalada, quase despercebida, que Michael Wood “leva em conta a crítica brasileira”. Ora, sendo certo que a

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V. Wood, 2002. As novas traduções, publicadas pela Oxford University Press, incluem Memórias póstumas de Brás Cubas (1997) e Quincas Borba (1998), ambos por Gregory Rabassa, Dom Casmurro (1997), por John Gledson, e Esaú e Jacó (2000), por Elizabeth Powe. Outro livro incluído no rol dos resenhados é Machado de Assis: reflections on a Brazilian master writer (1999), organizado por Richard Graham, e que inclui contribuições de, entre outros, John Gledson e João Adolfo Hansen. Mas o ensaio efectivamente avaliado pela resenha é o de Schwarz.
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resenha dedica boa parte do seu espaço ao conjunto dos romances machadianos da segunda fase, não deixa de ser também uma resenha crítica da tradução inglesa do livro de Schwarz, Um mestre na periferia do capitalismo: e é essa a forma, porque não se encontra outra, de “levar em conta a crítica brasileira”.8 Para dizer logo tudo, aquilo que Schwarz apresenta sob a égide da distinção entre “leitura nacional” e “leitura internacional” são elaborações em resposta a observações críticas que Michael Wood coloca ao trabalho crítico de Roberto Schwarz, mais precisamente uma restrição fundamental, como já veremos. Por que então graduá-las em interpelação crítica da “leitura nacional”? Claro, já o deixei dito atrás, Schwarz considera-se o terminus ad quem de uma linha de leitura que, lenta mas progressivamente, devolveu o verdadeiro Machado ao Brasil, resgatando-o de décadas de fortuna crítica irrelevante. Mas há mais em jogo: na exacta medida em que a restrição de Wood não é periférica, nem acessória, mas fundamental, Schwarz não pode reparar o dano causado senão radicalizando a noção de “leitura nacional” ao ponto de fazer dela uma barreira preservativa contra o estrangeiro. Aí se confirma, então, e em pleno, como a ideia cosmopolita, indo além da oposição entre universal e local, é a única à altura da exigência de liberdade e de inteligência que a obra de Machado coloca aos leitores. Para o compreender, retenhamos a passagem em que Schwarz se refere à resenha:
A certa altura do seu ensaio, Wood, que leva em conta a crítica brasileira, propõe uma dissociação sutil. As relações com a vida local podem existir, tais como apontadas, sem entretanto esclarecer a ‘maestria e modernidade’ do escritor. Ou, noutro passo: seria preciso interessar-se pela realidade brasileira para apreciar a qualidade da ficção machadiana? Ou ainda, a peculiaridade de uma relação de classe, mesmo que fascinante para o historiador, não será ‘um tópico demasiado monótono para dar conta de uma obra-prima?’ (Schwarz, 2006, p. 64).

de resto inteiramente certeira. E é depois disso que Michael Wood formula as interrogações que Schwarz cita e parafraseia.ª edição. completa-se com esta outra.82 Revista Brasileira de Literatura Comparada. But his thesis is a little grim and unrelieved. se sombrio. Seria interessante. Com efeito. o conteúdo dela e a especificidade da pergunta implícita na observação crítica. and writes repeatedly of the work’s comical and farcical effects. Perde-se sobretudo a direcção do comentário de Wood. Há na alma deste livro. 2009 Não é uma paráfrase inteiramente falsa. por mais risonho que pareça. que lhe dá a importância decisiva que obrigou à reacção de Roberto Schwarz.15. essas observações e perguntas encontram-se no texto de Wood. mas são formuladas na dependência dessa consideração crítica. e é a sua colocação diante da obra de Machado e diante do ensaio de Schwarz. Além disso. no contexto da resenha de confronto do ensaio de Schwarz com a obra de Machado.” A observação. quando. não se trata esta de uma pergunta qualquer. mas ainda assim pouco relevante. e que seria. que Schwarz oblitera: “What Schwarz´s book doesn’t tell us is why the novel [Memórias póstumas de Brás Cubas] is so funny as well as so bleak.” O passo é muito conhe- . reitera Brás Cubas: “O que faz do meu Brás Cubas um autor particular é o que ele chama ‘rabugens de pessimismo’. even when the subject is not slavery” (Wood. ecoa nessa pergunta a questão de Brás Cubas perante o próprio livro: é a questão das rabugens de pessimismo e da possibilidade de a partir delas se distinguir a forma livre tal como praticada pelo autor defunto. que toca o cómico para o dissolver numa tese monótona. O que se perde na paráfrase? Decerto a noção de que Wood pressente um crítico severo e carrancudo. que está longe de vir dos seus modelos. ecoa as palavras de Machado no prólogo da 4. se cómico? Ora. já agora parafraseando Brás Cubas: por que cómico. 2002). logo a seguir: “Schwarz himself is clearly alert to the fun. ou melhor. por que sombrio. Em primeiro lugar. n. respondendo a Capristano de Abreu e Macedo Soares. um sentimento amargo e áspero. mas também não é inteiramente fiel à resenha.

e a textura do romance machadiano foram vistas como formalização artística de aspectos peculiares à ex-colônia”. não se trata apenas de uma questão importante a que o livro de Schwarz não responde: é uma questão que o livro de Schwarz não consegue impedir que ressurja. 331-337). Se levarmos a sério a narrativa de Schwarz da “leitura nacional”. as elites. 2003. p. cansados de tanta apropriação historicista e sociologizante. a cadência. sobretudo. aliás. pois. se. todo esse processo é inteiramente irrelevante: não lhe resolve o problema da originalidade tal como o recebe da leitura do romance e tampouco o substitui por outro. muito in- . digamos assim. para o que agora nos interessa. o romancista foi transformado de fenómeno solitário e inexplicável em continuador crítico e coroamento da tradição literária local”. a reiteração da questão do cómico só pode significar que. sim. A resenha. se cómico? Em segundo lugar. e a colocação provavelmente decide a competência de qualquer leitor: por que cómico. inusitada. de resto. se considerarmos que a meta intermédia desse processo em curso é descrita como etapa em que “a composição. pode dizer-se que não há leitor competente que não saia da leitura colocando essa pergunta. no tom de generosidade intelectual e até de concordância complacente que assume. por que sombrio. enfim. o lugar primordial. a escravidão. retivermos a conclusão de que “passo a passo. crucial para entender a relação de Machado com a figura de Brás Cubas. redunda em dizer: “Sim.9 mas é. Dir-se-ia que Brás Cubas e Machado. em “idealizador de formas sob medida. ao menos para o crítico americano. desde a recusa do “clássico nacional anódino” à deslocação do centro para “o processamento literário da realidade imediata”. se sombrio. 9 cido e. capazes de dar figura inteligente aos descompassos históricos da sociedade brasileira” – então. galgaram o século e foram impelir um espírito americano desocupado a reformular a pergunta de sempre: como que a usá-lo para nos trazer a todos de volta ao decisivo. entre a forma livre e a filosofia.Ideia de literatura brasileira com propósito cosmopolita 83 Permito-me remeter o leitor interessado para a análise deste prólogo que levo a cabo em Autobibliografias (Baptista. onde se decide a originalidade das Memórias póstumas de Brás Cubas: e justamente na ligação. Hoje.

mas afinal. aqui e ali. Talvez sem se aperceber disso. Mas a consequência não podia deixar de ser precisamente essa para quem. porque sombrio se cómico?” Ora. homogéneo e irreversível que Schwarz agora definitivamente lhe imprimiu. o procedimento de Schwarz consiste em formar e radicalizar a narrativa que percebe posta em causa por uma resenha que apenas implicava um livro. Não era. a bem dizer despiciendo.. também chamada “leitura nacional”. em passagens particulares. Produzir a verdadeira e exacta história da crítica machadiana. entrevistas ou resenhas. lendo-o. como Schwarz. Por outras palavras. Não há nenhuma inocência na precisão com que Schwarz sublinha que Wood não é “especialista em Machado. diga-me. Por quê? A razão é óbvia: para armar a defesa. dir-se-ia. assim se defende. sobretudo sem a intenção delineadora de um processo. trabalha dentro de um paradigma que se define a partir dessa narrativa: ser declarado desnecessário. nem brasilianista. até. contínuo. e então o crítico severo e carrancudo sai do recolhimento e explica. a essa narrativa que Wood colocava restrições. mas um crítico e comparatista às voltas com a latitude do presente”: é o mesmo que dizer que esse crítico é alguém de fora e que está por fora. num processo intelectual demorado – num país. é o principal meio de defesa contra a crítica que a põe em causa: é o meio de mostrar ao elemento hostil a dimensão e a força daquilo em que está a tocar. pois. essa narrativa da evolução da crítica a que Schwarz procede não tinha ainda alcançado essa forma sintética e expressiva de narrativa teleológica. Mas a defesa tem a ambiguidade própria dos gestos em pleno desastre. n. irrelevante. estrangeiro que permanece duplamente no exterior: tocando num livro.15. 2009 teressante. que nem tem ideia de que tal coisa pudesse ser inventada. Justamente a necessidade de a armar . e brandamente repreendendo-o. Dava-se dispersa. além de deprimente e monótono. fazendo o reparo de que não responde à questão do cómico sombrio.84 Revista Brasileira de Literatura Comparada. o crítico estranho toca numa tradição. porque cómico se sombrio..

a sua fortuna no mundo de língua inglesa pode aumentar – o que implica inevitavelmente a desgraça da “leitura nacional”. Na medida em que se trata de impor uma barreira que deixa o estrangeiro à porta. 10 revela a vulnerabilidade da arma. Essa condição é inconcebível para Schwarz. p. há alguma eficácia argumentativa10 e até política: sempre se deu mais um passo para delimitar o “nosso” por oposição ao alheio. porque “a cor do passaporte e o local de residência dos críticos não são determinantes”. 2009. A defesa aberta da superioridade da “leitura nacional” é o melhor testemunho da incompatibilidade das interpretações centradas no problema nacional com a noção moderna de literatura e. em particular. a força e capacidade de atrair os outros ao espaço doméstico e principalmente representa . e o “leitor nacional” tivesse um “toque de comparação extranacional” (Wood. denuncia o carácter profundamente anticosmopolita e discriminatório da distinção: o estrangeiro que se integra no nacional é tão-só o que se sujeita às regras que definem o nacional. como Schwarz a define. Esse compromisso redunda em “coexistência pacífica”. nessa distinção. criando por si só um estado de crise em todo o edifício da “leitura nacional”: esse estrangeiro representa um poder que suplanta as narrativas teleológicas para consumo doméstico. Daí a relevância de o estrangeiro não ser qualquer. porque incapaz de entender tudo o que está em causa. Não apenas a contundência da restrição que formula é inexorável. A precisão de que o “nacional” não tem de coincidir com o estrangeiro. Mas precariamente. ao cabo. 2009). mas americano. Machado foi mais uma vez traduzido para inglês. no sentido diplomático do termo: cada um no seu território. propondo uma espécie de solução de compromisso em que o “leitor internacional” pudesse tornar-se o mais nacional possível e depois “proveitosamente voltar para casa e comparar”. se a “leitura nacional” se definir. ocupando-o e governando-o legitimamente. para o estrangeiro que se interessa por Machado mas não se interessa pelo Brasil. O estrangeiro que se integrou na “leitura nacional” representa o êxito do paradigma nacional. recusa declarar que a posição de Roberto Schwarz é coerentemente incompatível com qualquer “leitura internacional” de Machado. 83). pela restrição das possibilidades da “internacional”. porque a própria condição em que a defesa é armada e usada decorre já num cenário exterior ao nacional e em que o nacional como valor próprio não tem sentido. Não há lugar. com a dimensão emancipadora e a liberdade intelectual que lhe são inerentes.Ideia de literatura brasileira com propósito cosmopolita 85 Veja-se o modo complacente e um tanto defensivo como Michael Wood reagiu no artigo “Entre Paris e Itaguaí” (Wood. e americano de Princeton. para barrar o acesso do estrangeiro ao “nosso”. Essa perspectiva. sem prejuízo de aprenderem ou receberem alguma coisa um do outro.

n. não obstante. O livro agreste. há um século ou hoje. mas aqueles que exemplificam que essa ameaça é não só inerente à obra machadiana como é por ela procurada desde o início. alguma força requer dos leitores a formulação da mesma pergunta. Transl. são exemplos disso. ou é hospitaleira com muitíssimas condições: afinal. Referências AUERBACH. 2005. Daí que o propósito cosmopolita seja aquele que. Campinas: Unicamp. a competência do leitor cosmopolita reside na capacidade de perceber a relevância e a urgência dessa pergunta e fazer apelo à hospitalidade incondicional. ou da ideia de certo governo: mas presume-o no texto mesmo de Machado. no Rio ou em Nova York. a que ecoa o espaço primordial da originalidade das Memórias póstumas: por que cómico. n. Autobibliografias. 2003. The Centennial Review. A “leitura nacional” não é hospitaleira. by Mary and Edward Said. O estranho estrangeiro. se cómico? Sem ignorar o espaço da sua incompetência. v. se sombrio. não abdica desse governo. . East Lensing.15. Eric. por que sombrio. De um modo ou de outro.86 Revista Brasileira de Literatura Comparada. o inassimilável. _____. como a questão da epopeia para Herculano. Pressupõe o governo do texto como promessa de inteligibilidade e prazer que o texto dirige à inteligência e à paixão do estrangeiro. os procedimentos e as razões daqueles que se dedicam à leitura. 13. A questão do cómico sombrio. 2009 uma promessa de viabilidade de domínio sobre todos os que se interessam e venham a interessar-se por Machado. apenas aceita aqueles que derem garantias sólidas de não perturbarem a segurança interna. BAPTISTA. do exterior ou do interior. as paixões. ao ensino e à divulgação da obra machadiana: não tanto aqueles que ameaçam a nacionalidade de Machado. winter 1969. Campinas: Unicamp. Abel Barros. Philology and Weltliteratur. representa a total impossibilidade de governar os interesses. 1.

Novos Estudos Cebrap. Leituras em competição. Organização. Esquema de Machado de Assis. Opúsculos. 18/07/2002.Ideia de literatura brasileira com propósito cosmopolita 87 CANDIDO. Antonio. br/obra/literatura/adulto/dicionario/framegranda_a. _____. Formação da literatura brasileira. Master among the ruins. Alexandre Herculano. Schifaizfavoire – Dicionário de português. 2. WOOD. The New York Review of Books. V. Lisboa: Editorial Presença. v. Mário. introdução e notas de Jorge Custódio e José Manuel Garcia. 1981. 46.htm>. São Paulo: Globo. Michael.com. dez. Disponível em: <http://www. PRATA. 1993. n. Vários escritos. São Paulo. São José do Rio Preto.marioprataonline. 2006. New York. n. 2009. mar. In: _____. 2006. São Paulo. . São Paulo: Duas Cidades. Paulo. jul. _____. ed. Entre Paris e Itaguaí. Roberto. Edição crítica. SCHWARZ. 1995. 3. 83. Gonçalves de Magalhães e o Romantismo no Brasil. n. FRANCHETTI. Belo Horizonte: Itatiaia. 1986. Revista de Letras. Novos Estudos Cebrap. HERCULANO. ed. 75. 6.

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in relation with a reference group which belongs to the occidental society model. A análise desses textos romanescos visa a discutir os elementos que fundamentam a figuração atual do ameríndio na literatura brasileira. ameríndio. literatura brasileira contemporânea. Dialogues Université Rennes 2. These two stories choose the Amerindian as a subject of alterity.89 O ameríndio como personagem do Outro na literatura brasileira contemporânea: órfãos do Eldorado e Nove noites Rita Olivieri-Godet* resumo: Este trabalho propõe-se a examinar a representação do ameríndio e a relação entre identidade e alteridade que lhe é consubstancial a partir da leitura de dois romances contemporâneos brasileiros: Orfãos do Eldorado (2008). in two contemporary brazilian novels: Orfãos do Eldorado (2008) written by Milton Hatoum and Nove Noites (2001) by Bernardo Carvalho. de como instância de alteridade. contemporary Brazilian lit- terature. The analysis of these novels will discuss some elements which form the basis of contemporary figurations of the Amerindian in the Brazilian literature. keywords: alterity. França. questionando o lugar que ele ocupa no espaço nacional. palavras-chave: alteridade. em relação a um grupo de referência que se inscreve no modelo da sociedade ocidental. scrutinizing the position that it occupies in the national space. amerindian. Je crois que l’imaginaire a autant de réalité que le matériel Georges Duby et Guy Landreau. analyzing the relation between identity and alterity which is built-in. abstract: This work aims at the exploration of such representation. * .

Il s’articule sur ses propres déterminations et s’accompagne toujours de ce qu’on pourrait appeler ses attributs. Assim. p. gerada num contexto multiétnico. Não se trata de procurar um invariante abstrato. 1991. 2004). 2009 L ’Autre n’est pas un objet vide et indéterminé. plurilinguístico e multicultural de nossas sociedades urbanas atuais. crítica literária e teoria da cultura. 32). Meus trabalhos mais recentes refletem sobre uma “poética da alteridade” como uma das modalidades da ficção contemporânea brasileira.90 Revista Brasileira de Literatura Comparada. temáticos e estéticos. Paterson (Paterson. em mutação. as narrativas que se inserem nessa poética da alteridade procuram alargar o imaginário nacional para além de suas fronteiras. Critiques anthropologiques A produção literária contemporânea. 1 . Francis Affergan. que nos ajuda a organizar nosso pensamento crítico (Hutcheon. n.15. Utilizo o termo “poética” no sentido que lhe atribui Linda Hutcheon: uma estrutura teórica aberta. explorando uma geografia imaginária da diferença cultural. 2007). Os mecanismos especiais que eles acionam para dizer nosso tempo induzem a uma espécie de arqueologia das culturas e da linguagem. quando se restringem ao espaço nacional. ver a obra de Janet M. comuns a um conjunto de textos que participam da prática literária contemporânea e que tendem a exacerbar a confrontação com a alteridade. mas antes de refletir sobre signos formais. a representação do ameríndio A esse respeito. inaugura novas linhas de força temáticas e formais. abrindo-se a uma prática metadiscursiva que lhes permite fazer interagir criação.1 Na dialética do “selvagem” e do “civilizado” que atravessa o processo de construção das identidades plurais e problemáticas das Américas. prêt à s’assujettir au regard et au traitement scientifique de l’observateur. como é o caso da representação do índio como instância de alteridade. E. uma regra ou uma lei. o fazem para questionar o lugar que nele ocupa o “estrangeiro de dentro”. ainda que esta vertente não se constitua numa exclusividade nacional (Godet.

de Milton Hatoum. e Nove noites (2001). ver a excelente introdução de Jean Morency à sua obra Le mythe américain dans les fictions d’Amérique (Morency. que a produção contemporânea não cessa de revisitar. cruzando experiência vivida e memória. Essas questões atravessam a produção literária recente no Brasil e nas Américas. baseado no mito da renovação. no contexto atual de nossas sociedades. que se articula sobre valores antitéticos entre espírito europeu e mundo selvagem americano. no qual imaginários “arcaicos” coexistem com imaginários planetários. Seus narradores investigam as construções identitárias do sujeito e da comunidade a partir do lugar fronteiriço que ocupam entre familiaridade e estranhamento. 3 ocupa um lugar central.. autorizam certos críticos a postular a existência de um cenário mítico americano.O ameríndio como personagem do Outro na literatura. no entanto. sem. atravessados por imaginários culturais diversos. de Bernardo Carvalho. 1994). No entanto. “La poétique de l’altérité et la représentation de l’Amérindien dans la fiction des Amériques”. 91 Sobre o assunto.2 O questionamento da figuração do ameríndio como “estranho estrangeiro de dentro” ajuda-nos a compreender o lugar que as sociedades urbanas modernas reservam a esses povos. escamotear seus aspectos traumáticos. A representação das relações identidade/alteridade a partir da escolha do ameríndio como personagem do Outro tem a ver com a experiência do espaço e a temática da errância. . Este trabalho pretende explorar essa representação e a relação entre identidade e alteridade que lhe é consubstancial a partir da leitura de dois romances contemporâneos brasileiros: Órfãos do Eldorado (2008).. 2 Num artigo ainda inédito. Esses elementos constitutivos dos textos fundadores das literaturas americanas.3 Orfãos do Eldorado: a alteridade ameríndia entre mito e história A obra de Milton Hatoum interroga as formas de interagir com o outro que conduzem a processos de hibridismo. examino a questão numa perspectiva comparatista que inclui romances quebequenses e argentinos. seria redutor se ater às questões de fronteiras culturais que os romances de Hatoum levantam sem considerar a relação com a experiência íntima da alteridade que elas implicam.

Essa estratégia confere uma dimensão universal à obra do autor amazonense e possibilita explorar as várias facetas de uma região emblemática. Com a publicação de Orfãos do Eldorado. comentando cartas de Euclides da Cunha nas quais se refere a essa cidade (Hatoum. A narrativa segue a trilha das . os restos da sociedade nativa entre ‘as roupagens civilizadoras’”. Milton Hatoum continua a explorar as relações interculturais.92 Revista Brasileira de Literatura Comparada. híbrida. “Em Manaus ainda hoje se encontram. que colocam em cena o diálogo entre o mundo amazônico e a imigração libanesa. dando destaque para a figura do ameríndio como instância da alteridade. situado entre dois mundos: a memória do passado herdado da família. o imaginário ameríndio sempre fez parte do universo romanesco do escritor.15. e terminam por ocupar um lugar cada vez mais central no universo fictício do autor. A partir de Cinzas do norte (2005). 2000). sustentado pelas elites. no seio da sociedade amazonense. tematizada no quarto romance do autor. e o presente do país natal. permitindo assim o alargamento a uma perspectiva subjetiva. recentemente publicado. escreve Hatoum. de uma forma muito mais ostensiva. o autor aproxima o mito amazônico da Cidade Encantada do mito do Eldorado para interrogar o diálogo entre as culturas ameríndia e ocidental. construída a partir de múltiplas interações culturais entre as quais se destacam elementos da problemática coabitação entre a cultura tapuia e a modernidade transplantada. n. sem cair na armadilha de um regionalismo redutor. marcado por referentes culturais libaneses. mas discreta. Relato de um certo Oriente (1989) e Dois irmãos (2000). sobretudo nos seus dois primeiros romances. os personagens pobres e explorados dos ameríndios se tornam mais visíveis. Em Orfãos do Eldorado (2008). Presença constante. circulando entre os espaços da cidade e da floresta. 2009 praticando a passagem da etnicidade ao estranhamento. Cidade compósita. examinando os efeitos de um projeto de modernidade. sondando principalmente o lugar fronteiriço dos narradores. Desde o início de sua produção.

Assim. Arminto Cordovil. mas do mesmo modo estiolamento. ao escolher se dedicar às complexas interações culturais pelo viés do drama íntimo de um narrador.O ameríndio como personagem do Outro na literatura. examinando o sentimento de pertença de um sujeito desestabilizado. Orfãos do Eldorado questiona o lugar da cultura ameríndia no seio da sociedade brasileira a partir da experiência amazonense: fenômenos de imbricação mas também de depauperação culturais. o relato de sua paixão por Dinaura e a reconstrução do passado de sua família têm como pano de fundo a história local (a guerra dos Cabanos) e mundial (as duas Grandes Guerras). Da mesma forma que o romance se afasta de uma representação idealizada do processo de mestiçagem cultural. que entrelaça memória pessoal e coletiva. 93 anteriores. urbano ou natural. . aculturação. a narrativa encena uma construção identitária sofrida. história e mito.. Figuração que interroga as relações interculturais. cruzando história do indivíduo e da coletividade. impregnação. sublinhando a complexidade das trocas entre culturas diferentes e evocando a história violenta de seus ganhos e perdas. trocas. Revisitando o percurso da infância à idade adulta. uma busca inútil de um lugar habitável (Harel. levando em consideração tanto os processos de aculturação resultantes de políticas colonialistas quanto os cruzamentos culturais que possibilitam o renascimento de tradições em outros contextos. durante o qual Arminto transita por um território cultural ambivalente. o processo de construção identitária do narrador-personagem se realiza por meio do confronto com a alteridade paterna e da atração pela alteridade ameríndia.. Em Órfãos do Eldorado. Entre alteridade rejeitada e alteridade desejada. 2005) por um sujeito atravessado por imaginários diversos. seja ele familiar. na busca de si mesmo e do sentido da sua trajetória existencial. ele recusa-se a idealizar a relação com a alteridade ameríndia. a narrativa constrói as complexas relações de Arminto com o espaço. O lugar fronteiriço ocupado por Arminto permite explorar as relações de resistência ou de abertura ao Outro.

Arminto tem a impressão de que seu pai o culpabiliza por essa morte. de origem e destino misteriosos: índia ou mestiça. criando pontes entre a floresta e a cidade. Mas é por Dinaura que ele se apaixona loucamente. história e memória. entre os quais o Eldorado. O menino cresce rejeitando todo tipo de identificação com o universo do pai. 2009 A narrativa de Hatoum inspira-se no mito ameríndio da Cidade Encantada para tecer os fios entre mito. questionando o processo de transmissão da tradição e da autodeterminação a partir de dois planos: o individual (que diz respeito à vida do narrador e da relação com seu pai) e o coletivo (que trata das marcas da presença da comunidade ameríndia e de sua relação com a sociedade amazonense). uma das moças pobres acolhidas pelo orfanato da cidade. Florita interpreta seus sonhos e desejos. à qual ele é muito ligado e que o iniciará à cultura ameríndia e à vida sexual. no sentido amplo do termo. que não conheceu sua mãe. Florita. n.94 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Lugar de troca por excelência. rico proprietário de cargueiros que transportavam mercadorias no rio Amazonas. ele foi criado por uma outra índia. Ela introduz Arminto no universo ameríndio.15. Florita é uma tradutora. As relações entre pai e filho são frias. A intriga romanesca está centrada na crônica da vida do narrador-personagem. empregada que faz todo tipo de serviço. Arminto Cordovil. num posfácio no qual a voz autoral dá a conhecer sua fonte: o que lemos é uma história que lhe foi contada pelo seu avô. Mais uma vez. abrindo-lhe as portas à sensibilidade ameríndia. a que diz respeito à própria narrativa. Desempenha um papel de mediadora. morta ao dá-lo à luz. aproxima-o das crianças indígenas da aldeia situada nas cercanias da cidade. traduz para ele os mitos e as lendas contadas pelos índios. história e memória. Memória de uma vida. desta feita. Este conta sua história a um interlocutor cuja identidade só é revelada no final. trata-se de uma questão de herança. . o discurso literário reinventa mito. convite à viagem. a do narrador-personagem Arminto Cordovil. Amamentado por uma índia tapuia.

2008. era sinônimo de Eldorado. 2008. a utopia de um lugar ideal persiste no imaginário amazônico: A Cidade Encantada era uma lenda antiga. 99. confundindo-se com o mito do Eldorado: “Houve tempo em que Manaus. mas também da ameríndia e de muitas outras. p. ou Manoa. viajam e estão entrelaçados. “uma cidade que brilhava de tanto ouro e luz” (Hatoum. . 95 Apresentação do romance pela editora (orelha do livro). Mas o mito indígena da Cidade Encantada é atemporal e persiste. p. Porque mitos. p. 64). Dinaura. 5 ela pode ser sua madrasta ou sua irmã. O Eldorado naufraga. Este último. Arminto sonha com a mulher da mesma forma que a população pobre da cidade sonha com a Cidade Encantada. que depois do seu desaparecimento se transformou em lenda para os habitantes da cidade. que teve as plantações de cacau destruídas pelas pragas (Hatoum. o grande curandeiro xamã de Maués. desaparece pouco tempo depois da morte de Amando. a fazenda Boa Vida. leitora de romances e igualmente sensível ao mito indígena da Cidade Encantada.O ameríndio como personagem do Outro na literatura. Surgia na mente de quase todo mundo. não cessa de ter visões e sonhar com ela. Ele conhecia os segredos do fundo do rio e podia conversar com Uiara. 106). como se a felicidade e a justiça estivessem escondidas num lugar encantado. Arminto gasta a fortuna herdada do pai e vende todas as suas propriedades: a casa de Manaus. a mesma que eu tinha escutado na infância. Sugeriu que eu fosse atrás de dom Antelmo. Ulisses Tupi queria que eu conversasse com um pajé: o espírito dele podia ir até o fundo das águas para quebrar o encanto e trazer Dinaura para o nosso mundo. A crônica da decrepitude moral de Arminto e da decadência de uma família é também a da Amazônia. 2008. a cidade prodigiosa que atiçava os sonhos febris dos navegantes e conquistadores europeus ao mesmo tempo que se furtava a todo esforço de localização”. Ver também p.. a mansão branca de Vila Bela.5 Contrastando com a miséria que assola a cidade real. assim como culturas. 64). obcecado pelo desejo por essa “mulher encantada”.4 Mitos e culturas viajam e se entrecruzam. o leitor não o saberá jamais.. pai de Arminto. Pertencem à História e à memória coletiva” (HATOUM. chefes de todos os encantados que viviam na cidade submersa (Hatoum. 67). p. 4 “Mitos que fazem parte da cultura indo-européia. 2008. região que alterna períodos de fausto e de declínio.

a narrativa romanesca gera uma tensão entre a voz individual e a voz coletiva: discurso da utopia e contradiscurso. n. Escrito em palimpsesto. Não há portanto. em oposição ao anterior. nem outros mares”. Se o romance glosa. José de Alencar. existe um diálogo implícito com “Itaca” que. Retomado pelo texto como “o poema grego” que Estiliano está traduzindo. é um convite à viagem./ Não há barco nem caminho para ti” (Kaváfis apud Hatoum.15. nenhum “ailleurs”. do poema homérico aos de Konstantinos Kaváfis (além de “A cidade”. criando analogias com o próprio percurso do narrador-personagem. nenhuma esperança: “Sempre chegarás a esta cidade. versões . 2009 Uiara. passando pela figura descentrada de um certo cavaleiro que percorre as estradas da Mancha em busca de sua Dulcineia. Por meio da combinação de elementos heteróclitos na sua composição. Não esperes ir a outro lugar. num intenso trabalho intertextual que traz à tona a memória literária. relatos e versões de mitos errantes que se misturam e que constituem o imbricado tecido narrativo do romance. nenhuma possibilidade de viagem. p. que é a negação mesmo de uma certa ideia da literatura como espaço liberador e de refúgio: “Não encontrarás novas terras. Figurações da errância física e mental que o romance acolhe. este poema desencantado está em consonância com a atmosfera desoladora que o romance instaura. alimentando-se assim de fontes populares que fazem parte da memória coletiva. ele dialoga igualmente com a tradição literária que recria esses mitos (Mário de Andrade. sereia. à deambulação). Homero). 7).96 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Poema que recusa todo tipo de promessa de um outro lugar possível. citado na epígrafe. que lhe serve de epígrafe. 2008. Um exemplo marcante da escrita em palimpsesto do romance é o reaproveitamento do poema de Konstantinos Kaváfis “A cidade” (1910). o romance projeta a errância de mitos e de textos. que se alimenta tanto de fontes populares quanto da tradição literária. do ponto de vista do texto poético que paira sobre o romance. mãe-d’água. sonho e pesadelo.

o narrador conduz o fio do discurso e é por meio do seu olhar desencantado que o leitor descobre o universo amazônico. por outro lado. 2008. peças de cerâmica. narrativa de uma impossível construção de plenitude identitária. em processo de plena degenerescência. Ele recusa a identificação à sua família. Na trilha de Mário de Andrade. 97 “O escritor puxava conversa com todo mundo: índios. da miragem à matéria do real. . 86).6 Hatoum fagocita e transforma elementos diversos. 39). traduções “traidoras”. artesãos e compositores de toadas. a visão de um território faustuoso e cheio de promessas de felicidade transforma-se em ruínas. 2008. Arminto é um dos numerosos órfãos do Eldorado aos quais o título do romance faz alusão. Arminto encontra-se impossibilitado de restabelecer os laços com o passado que povoou o imaginário de sua infância.O ameríndio como personagem do Outro na literatura. No chão. O tempo presente é o do sonho que se transforma rapidamente em pesadelo. Quando passamos do mito à história. máscaras de rituais e cacos de urnas funerárias de tribos indígenas que já não existiam (Hatoum. pela violência. narrativa de busca e de perda. articulação de diferentes práticas discursivas. espaço de representações memoriais. tempo que deixa transparecer os sinais de enfraquecimento da cultura ameríndia: A sala parecia um museu pobre e improvisado. marcado pelo desregramento econômico e moral. no qual a história destrói o mito. O naufrágio do navio Eldorado constitui-se num dos símbolos eloquentes do fracasso dessa política.. caboclos. p. autor que o romance homenageia fazendo alusão à célebre viagem do modernista à Amazônia. seguindo o modelo do capitalismo ocidental. p. pelas doenças. fazendo-os coexistir no espaço do texto. que representa o projeto de modernização do país baseado numa política de colonização (massacre e aculturação dos índios). No entanto. no qual a realidade não cessa de desmentir as promessas de felicidade. Comia tudo. até piranha frita” (Hatoum. Sua narrativa fala de um desejo que não pode ser satisfeito. 6 de mitos. de diferentes visões de mundo. sente dificuldade em encontrar seu lugar num mundo que está desaparecendo. E não se cansava de anotar o nome de plantas e bichos..

suas possíveis interpretações e a realidade. são encenadas pela narrativa. Outras formas de opressão. violentadas. tirânica e mórbida da sociedade e do território amazônico. 2009 Desse modo. a mulher se suicida por ter perdido seu marido e seus filhos vítimas da miséria e da doença. no entanto. em alusão ao barqueiro infernal. deturpa suas últimas palavras. mas que sofrem.98 Revista Brasileira de Literatura Comparada. num regime de semiescravidão. Nela assiste-se ao suicídio por afogamento de uma jovem índia. no final do romance. como as que sofrem as moças. um processo de aculturação que começa pela proibição de falar sua própria língua. Assim como na obra de Márcio Souza. o romance denuncia a exploração sexual das mulheres e meninas ameríndias. outro grande escritor amazonense. A decadência do povo ameríndio está principalmente representada pelas personagens femininas. p. 42). acolhidas pelas famílias da cidade para servir de empregada doméstica. para poupar o menino Arminto. que a liberará de sua vida de miséria material e afetiva. é também o da confissão de sua imensa solidão. órfãs na sua maioria. O momento dessa revelação. Mesmo dissimulada. ela termina sempre por mostrar sua face. Na verdade. A cena inaugural do romance é representativa das relações que estabelece entre o mito. moças sequestradas. Há ainda as ameríndias do orfanato que as freiras protegem do tráfico sexual. próximo da morte de Florita. teria escolhido ir viver junto com ele no fundo do rio. 2008. o barqueiro. como Florita. Florita. vítimas da miséria e da doença. A representação do espaço constrói um cenário mórbido por onde circulam personagens como Denísio cão. atraída por um ser encantado. A violência é um dado consubstancial a essa realidade. vendidas ou trocadas por mercadorias para servir aos comerciantes de Manaus ou aos homens políticos (Hatoum.15. n. traduzindo-as por um relato perfeitamente integrado ao universo cultural e mítico ameríndio: a mulher. mascaradas sob a aparência de proteção. a caracterização dos personagens e a representação do espaço constroem uma visão violenta. em Orfãos do Eldorado. que vem .

Mil e uma histórias que sobrevivem e se metamorfoseiam nos relatos literários. de “uma sociedade que está morrendo”. o prefeito mandou derrubar a floresta para construir barracos. na beira do barranco. 95). episódio que fecha o romance do escritor português. mais uma vez. no Amazonas. Paraíso era também o nome do seringal situado às margens do rio Madeira. A leitura desse texto ajuda a esclarecer a percepção e a representação do espaço em Órfãos do Eldorado. Aqui. do território que eles ocupavam nas proximidades da cidade. 99 Título de um subcapítulo de um artigo de Milton Hatoum dedicado aos romances A selva. . e Mad Maria. Boa Vida. “Inferno e barbárie”7 são a outra face da floresta: O paraíso estava aqui. os imigrantes e migrantes nordestinos. Imagens de um paraíso perdido. do escritor português Ferreira de Castro (1898-1974). foi o barco Paraíso. 343-351). quase todos cegos pela defumação do látex. expulsos. Trouxe dos seringais do Madeira mais de cem homens. Misturando referentes reais e ficcionais. 2008. do seu amigo Alberto Rangel (Cunha. e eu não esqueci nunca. As novas vítimas da “modernidade na floresta” (Hardman. Atracou aí embaixo. A imagem fala por ela mesma. O que existiu. 2000. onde Ferreira de Castro. 1993). era o que se dizia. a narrativa romanesca expõe a oposição gritante entre os sentidos sugeridos pelos topônimos (Vila Bela.. de Ferreira de Castro.O ameríndio como personagem do Outro na literatura. que emigrou para o Brasil quando tinha doze anos. 1988). A podridão está dissimulada sob sua beleza luxuriante. A memória do texto de Ferreira de Castro se faz presente igualmente pela alusão a um incêndio num seringal. p. p. 7 reforçar a onipresença da morte nesse território. E um novo bairro surgiu: Cegos do Paraíso (Hatoum. que nos remete ao incêndio do seringal Paraíso. ocupam o lugar dos ameríndios.. de Márcio Souza (Hatoum. experiência que se encontra recriada no romance A selva. para utilizar as palavras de Euclides da Cunha ao comentar a obra Inferno verde. como no célebre romance A selva (1930). “Cegos do Paraíso”. Ilha do Eldorado) e a realidade. trabalhou como seringueiro durante quatro anos. Lá onde ficava a Aldeia. a beleza grandiosa e luxuriante da floresta esconde o regime de escravidão ao qual os seringueiros são submetidos.

desde o início. 67-68). doente. paisagem de beleza ímpar (Hatoum. Lá .. p. remetendo a uma relação disfórica que ele entretém com um espaço onde impera uma ordem social injusta. Arminto parte na terceira classe de um navio velho e sujo em busca da ilha do Eldorado. aqui e ali. Lugar lindo. Crianças caladas. Os filhos dos empregados se aproximavam da varanda e paravam para observar a casa. referente geográfico real. Senti um abafamento. recorrendo a uma descrição lírica da maravilhosa visão do lago do Eldorado. situado a 100 quilômetros de Manaus. 2008. a alternância entre as descrições líricas e os sinais que maculam essa beleza da paisagem reforça a perspectiva antagonista da representação do espaço adotada pelo romance. n.100 Revista Brasileira de Literatura Comparada.] Não era o lugar que me perturbava: era a lembrança do lugar. p. Voz mesmo só a de Armando: voz para ser obedecida (Hatoum.. filhos de homens calados.15. face que se revela desde o momento em que fazemos a experiência de penetrar nesse espaço: Um volume escuro tremia num canto. [. nauseabundo. com guarásvermelhos e jaçanãs no céu e nas árvores. sinais do mal-estar que Arminto manifesta. Trata-se de construir a visão de uma natureza que abriga um mundo doente. pois. um dos lugares célébres do ecoturismo da Amazônia. me agachei e vi um ninho de baratas-cascudas. repulsivo. A narrativa evoca a beleza grandiosa da paisagem. Durante a viagem de Arminto em busca do seu Eldorado. Dinaura teria se refugiado. No entanto. 102). o texto não para de semear. Personagem decadente da história e do mito. 2009 A última viagem de Arminto (navegador de “viagens supérfluas” entre Manaus e Vila Bela) pelo rio Amazonas ganha um outro sentido. o cheiro e o asco dos insetos me deram um suadouro. 2008. não há possibilidade de fusão harmoniosa com a natureza. onde. A ilha do Eldorado seria uma das ilhas do Arquipélago das Anavilhanas. representada pela voz autoritária do pai: Eu me sentia mal na Boa Vida. Fui até lá.

anuncia o poema de Kaváfis. p. p. 102). coloca o leitor perante a problemática condição humana. Essas cinzas do Norte dizem muito do estado de deriva dos mitos e dos relatos que resultam do esforço contínuo do sujeito na sua busca de imprimir um sentido à trajetória humana. A obra de Hatoum não produz sombras consoladoras. ao afirmar que “O futuro prometido pela modernidade não tem futuro” (Santos. doença. o Eldorado. sublinha Simon Harel (2007.O ameríndio como personagem do Outro na literatura. 2000. 101 fora. a imensidão do lago e da floresta. A herança comum que o ameríndio compartilha com o homem ocidental é a de serem órfãos da civilização. assinalando o impasse do parâmetro do progresso como fundamento da civilização.. erigindo a literatura como um dos lugares possíveis de resistência. pelas escolhas políticas autoritárias. Essas imagens revelam um ponto de vista pessimista sobre o processo histórico marcado pelas injustiças. ao contrário. morte. p. Aquele lugar tão bonito. Podridão. 2008. 12). era habitado pela solidão (Hatoum.. 322). múltiplos signos disfóricos para evocar esse encontro fracassado entre o mito e a história. condenados a fazer viagens imaginárias que não tranquilizam mais ninguém. em consonância com o que escreve o sociólogo português Boaventura de Souza Santos. . E silêncio. “Não há barco nem caminho para ti”. Hatoum pertence à linhagem de escritores que produzem livros do desassossego: “é preciso aceitar que a literatura complica o mundo”. O que se esconde sob as aparências da visão do paraíso? A distância entre o sonho e a realidade que essas imagens de um mundo em degeneração nos devolvem como um espelho invertido. prisioneiros de um mundo de cinzas. mesmo que seja para dizer a impossibilidade da viagem. O lugar inaugurado pela criação literária está longe de corresponder ao de um refúgio protetor. solidão.

Desde então. n. Mas. a experiência da alteridade ameríndia gera uma espécie de fascinação pelo Outro no único sujeito da enunciação. Nove noites tece sua trama em torno de um enigma: as razões que conduziram o antropólogo norte-americano Buell Quain. só existem visões do real. ex-aluno de Franz Boas. por acaso. aos 27 anos. 8 . instaurando o processo de mise en abyme do ato da escrita. quando ele fica sabendo. 2009 alteridade invisível: o índio em Nove noites.8 que se constrói em torno do desaparecimento de um fotógrafo nos Montes Altai. a representação do ameríndio é submetida a diferentes pontos de vista assumidos por múltiplos sujeitos do discurso. Misturando fatos históricos. de Bernardo carvalho No romance de Milton Hatoum. enquanto em Orfãos do Eldorado a ambiguidade da narrativa decorre das interrelações entre mito e história e da complexa viagem ao passado por meio da memória do narrador. a narrativa de Nove noites ultrapassa as fronteiras de gênero e situa-se a meio caminho entre autobiografia ficcional e documentário jornalístico romanceado. trata-se de abolir uma representação realista do mundo.15. Para essas narrativas. de Bernardo Carvalho. em 1939. quando da sua estadia no Xingu com os índios krahô. encontrar a solução do enigma. ao ler no jornal um artigo do antropólogo que se suicidou em plena floresta. narrador do romance. ver Godet. O interesse do personagem-escritor. Nos dois romances. da Universidade de Columbia. experiência vivida e ficção. em Nove noites é a multiplicidade de vozes narrativas e a focalização que tornam a percepção do real problemática. procura compreender o gesto brutal do an- Sobre Mongólia. 2007. Assim como em Mongólia (2002). de sua existência. o personagemnarrador Arminto Cordovil. por Buell Quain data de 2001. a se suicidar no Brasil. a intriga de Nove noites cruza várias versões e inscreve no seio da narrativa o personagem do escritor que procura de forma obsessiva preencher a precariedade do sentido.102 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Em Nove noites.

Os índios querem um pai. É a natureza inacessível do ser humano que é colocada em . amigo de Buell Quain. igualmente.O ameríndio como personagem do Outro na literatura. Numa entrevista.. O narrador. A razão da busca obstinada que leva o narrador a se interrogar sobre a morte do antropólogo só será revelada no final do romance: ela está relacionada com a infância. justapõe a história do antropólogo à de seu próprio pai” (Moura). por meio de cartas que ele deixa após sua morte. a refazer a viagem nessa região e permanecerá na mesma tribo de Buell Quain.. Todos esses elementos trazem indícios da angústia e do desespero do antropólogo. a mais próxima da aldeia indígena. pois de uma certa maneira são órfãos da civilização. que esfaqueou e mutilou seu corpo antes de se enforcar. os elementos da investigação sobre Quain se imbricam com lembranças antigas do contato com os índios em companhia de seu pai. O romance alterna a narrativa da investigação conduzida pelo narrador com o testemunho fictício deixado por Manoel Perna. As diferentes versões e visões acentuam o caráter polifônico do romance. A alternância de vozes narrativas é assinalada por caracteres tipográficos. ele representa o papel de pai com os índios. onde este último tinha comprado uma fazenda. a quem ele teria feito confissões desesperadas durante nove noites passadas na cidade de Carolina. Pouco a pouco. engenheiro responsável pelo Serviço de Proteção dos Índios. Bernardo Carvalho afirma que seu romance é uma interrogação sobre a paternidade: “Todo mundo está à procura de um pai. Às vozes desses dois narradores acrescenta-se a voz de Quain. o narrador frequentou com seu pai a região do Xingu. 103 tropólogo. Mais de trinta anos depois. destacando as armadilhas de uma atividade interpretativa da subjetividade do outro. com sua relação como cidadão brasileiro branco e urbano com o índio. assim como testemunhos de diversas pessoas que conviveram com ele. ele será levado. por causa de sua investigação. com a imagem do seu pai. Menino de seis anos. cujo mistério permanece velado. Quain tinha relações complicadas com seu pai e ao mesmo tempo. sem no entanto esclarecer o mistério.

o final dos anos 60. 2009 evidência. e o início do novo milênio. la compréhension. O texto tomanesco lembra os inúmeros antropólogos estrangeiros que se dedicaram ao estudo dos povos indígenas do Brasil. enfim. que coloca em cena as lembranças da infância do narrador com seu pai. et l’interprétation” (Affergan.. de um povo decadente. n. a representação do índio permanece a mesma. antes de tudo. A narrativa nos fala dos laços indissolúveis entre a interrogação sobre a estranheza do outro e o rastro subjetivo do sujeito investigador: qualquer que seja o objeto da investigação. quando encontramos o narrador adulto em visita aos índios Krahô. antes de tudo. Apesar dos diferentes períodos históricos aos quais o texto faz alusão. Mais uma vez. explorando as terras da Amazônia.. em direção de suas singularidades radicais. 1991. A figura do ameríndio em Nove noites está inscrita na temporalidade do século XX. o índio é. do departamento de antropologia de Columbia ao qual pertencia Buell Quain. O que predomina é uma percepção negativa das marcas mais significativas da alteridade dos índios. O trabalho de escrita que visa a constituir o outro só pode se fazer pelo imaginário “par ce va-et-vient entre soi et l’Autre [. seguindo a pista de Quain. Em Nove noites. p. 171). seus laços de parentesco. Nove noites chama a atenção sobre . um romance sobre as relações de alteridade a partir de uma reflexão sobre o procedimento antropológico. os europeus célebres como Lévi-Strauss e o suíço Alfred Métraux. a recusa de ir em direção ao outro. que em princípio se dedica a compreender e a fazer compreender o Outro.] qui conditionne le sens. Bernardo Carvalho elabora uma narrativa labiríntica que desconfia do poder da linguagem para elucidar o enigma do real. a imersão no mundo do outro é sempre uma incursão íntima.104 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Nove noites é. em processo de desaparecimento. período no qual evolui o personagem Buell Quain no meio dos índios brasileiros. seus ritos. como o grupo de Franz Boas. um objeto de estudo.15. Três momentos precisos são evocados: o final dos anos 30. a imagem. sua comida.

Mikhail Bakhtin lembra-nos que o objeto das ciências humanas é um sujeito e o método delas. alertando também para o fato de que os textos construídos pelas ciências humanas estão longe de serem neutros. Foi expulso da tribo pelo Serviço de Proteção aos Índios. que não somente teria vendido objetos que ele subtraía às tribos indígenas. 1991). como teria transmitido relatórios políticos ao governo americano. denunciando. Não se trata de desprezar as contribuições de grandes pesquisadores à compreensão desses sistemas culturais. Antes de viver com os krahô. contribuindo para que elas gozassem de um reconhecimento pleno. política e financeira. liberando-os das ideias pré-concebidas da época. Ele se articula sobre suas próprias determinações e traz consigo o que poderíamos chamar de seus atributos (Affergan.. como o norte-americano William Lipkind. interessou-se primeiramente pelos trumai. O outro. como assinala Francis Affergan. objetos de culto da curiosidade científica deles. reduzidos à categoria de objeto de estudo. Buell Quain. não é um objeto vazio e indeterminado. que habitavam um dos territórios mais inacessíveis da Amazônia. 105 essa espécie de instrumentalização do outro. O romance revela o comportamento de certos antropólogos. sem que se conheça a razão dessa expulsão. a interpretação. O romance alude a ..O ameríndio como personagem do Outro na literatura. Mas não se trata tampouco de deixar passar em silêncio um certo olhar dirigido a esse território e a seus habitantes que não são brancos. dessa maneira. a instrumentalização intelectual. Ele encontrou aí um povo marcado pelo processo de autodestruição. disposto a se submeter ao olhar e ao tratamento científico do observador. A questão levantada pelo texto de Nove noites tem sentido: até que ponto esses sujeitos realmente existiram como tais para todos esses cientistas? Até onde o diálogo pôde se realizar? A obra contempla uma preocupação que se faz presente na reflexão antropológica da atualidade. o personagem antropólogo do romance. obcecado pela morte. O Brasil dos anos 1930 e 1940 tornou-se um país-fetiche dos antropólogos e sociólogos: o índio e o negro.

vai elaborar: com os trumai. aliás. n. 163). o célebre sertanista Cândido Rondon). É a imagem de um homem aterrorizado. A convivência com os krahô também não o libera da solidão. Uma das pistas sutilmente levantadas pelo texto romanesco faz alusão a problemas de ordem sexual. ao lembrar as orientações do Serviço de Proteção aos Índios. os índios representando seu próprio papel para um público de brancos. rejeita seus costumes. pelo bisavô de Bernardo Carvalho. nas ilhas Fiji. A construção desse personagem antropólogo questiona seu olhar etnocêntrico e sua atitude egocêntrica. enfim. 2001. p. O antropólogo americano confessa sua dificuldade em trabalhar sobre os índios brasileiros e rejeita parcialmente as marcas (consideradas desagradáveis) que as culturas indígenas imprimiram à cultura brasileira. evocam um espetáculo deprimente.” (Carvalho. Para Quain. 2001. sua íntima decadência. O território brasileiro nada mais é para ele do que o inferno. quando fez a primeira viagem a essa região.106 Revista Brasileira de Literatura Comparada. ele os considera idiotas: “Encontrei um grupo de índios krahô e eles parecem pavorosamente obtusos. o paraíso estaria em outro lugar. 2001. Para o narrador. instável. furam as orelhas e continuam sem usar roupas nas cidades. 30). 72). sua nudez. ele teria encontrado um povo cuja cultura refletia seu próprio desespero. o Xingu também é a imagem do inferno: “O Xingu ficou guardado na minha memória como a imagem do inferno” (Carvalho. uma barreira intransponível. desesperado que o testemunho de Manoel Perna. p. Suas lembranças da infância. Além do mais. a maneira como eles cortam o cabelo. 2009 uma provável homossexualidade de Quain. denunciando a utilização que se faz do Outro para fins que não lhe dizem diretamente respeito (Carvalho. Têm cortes de cabelo engraçados. que proibia as relações sexuais com os índios (serviço que. o outro é sempre. para ele. o sertanista amigo de Buell Quain. O fato é que o antropólogo parecia muito afetado pela sua estadia na tribo dos trumai. p. Quain não compreende os índios. existe o medo que a criança sente desse povo exótico e desse espaço selvagem: a casa solitária no meio .15. foi criado em 1910.

o narrador retorna à região seguindo os rastros de Quain. Medo. A narrativa coloca em evidência o sofrimento de um povo empobrecido pela política governamental. ele não hesita. mas também recusa da alteridade linguística. mostrando o abismo existente entre seu universo de intelectual urbano e o dos povos autóctones. perdida no tempo. um povo que não quer ser esquecido pelos brancos. imagem ancestral comum a todo ser humano. no fim do mundo. em expor seus preconceitos. comportamental. um Forte Apache de plástico. A harmonia dessa cena remete a uma imagem arcaica. ao qual ele se refere como “um dos espetáculos mais deslumbrantes da minha vida” (Carvalho. 100): a cena na qual um velho krahô entoa um canto em torno de uma fogueira numa noite de lua. Uma só passagem no romance evoca a possibilidade de um encontro. O olhar do narrador recusa o paternalismo: se ele é sensível ao sofrimento dos índios. imagem depurada da história que o homem . 107 de lugar nenhum. marcado por um sentimento de trágica impotência. e relembra o massacre que os índios krahô sofreram um ano após a morte de Buell Quain. quando os fazendeiros mataram 26 deles. seu pai lhe oferece um brinquedo.O ameríndio como personagem do Outro na literatura.. antítese da civilização. abandonado. a floresta agredida e transformada pela violência de um desmatamento caótico imposto pela nova ordem civilizacional. símbolo estereotipado do índio selvagem. as brincadeiras. no entanto.. índios que comem macarrão e arroz com feijão. os rituais. o narrador sublinha o processo de aculturação em marcha. É sempre o mesmo medo que o acompanha diante dos ritos que ele não consegue compreender. p. 2001. Para amainar a decepção do seu primeiro contato com os índios. Um povo órfão. um só momento em que o narrador se mostra atraído pelo outro. vestidos de short e calçando sandálias japonesas. mito deslocado significando o encontro abortado entre o brasileiro urbano e os povos autóctones do Brasil. Adulto. Ao mesmo tempo. recusa de compartilhar a comida deles. vítima de doenças e de comportamentos viciosos transmitidos pelo contato com os ocidentais.

O narrador de Nove noites não compreende o papel que os índios lhe atribuem nos seus rituais. o não-valor de sua cultura. Qual o futuro para as relações interculturais entre uma civilização que tem seu declínio anunciado e uma outra que tem a expansão de sua dominação assinalada? O narrador refere-se ao ponto de vista de Lévi-Strauss. p. Constatação de um encontro e de um diálogo frustrados. como o estrangeiro de dentro. O que sobressai do efeito do outro sobre o sujeito do discurso é sua incapacidade de ir ao encontro do ameríndio. sua recusa em construir laços. o ameríndio é um tema enviesado. sua tendência a se fechar sobre suas próprias referências. para melhor as proteger (Carvalho. O índio surge. um objeto de estudo. de sua infância e que o conduz a refazer a experiência na tribo indígena. distanciando-se de uma tradição literária que tende a idealizar a figura do índio. nem o olhar que eles lhe dirigem. a figuração do ameríndio como personagem do outro explora a distância com o grupo de referência ao qual pertence o personagem do escritor. o caminho escolhido pelo escritor coloca em evidência uma representação do lugar marginal que a sociedade brasileira reserva ao índio. As teorias pós-modernas sobre as relações interculturais se afastam dessa perspectiva e . Tão bela quanto frágil e efêmera. mas o antropólogo norte-americano. para o antropólogo. 52). Para o narrador. 2009 construiu. O raiar do dia expulsará a poesia e restabelecerá a incompreensão e o medo. então. 2001.108 Revista Brasileira de Literatura Comparada. percebido como indecifrável e ameaçador.15. No romance de Bernardo Carvalho. como se a possibilidade de um diálogo entre o Brasil ocidental e urbano e o Brasil dos povos autóctones estivesse para sempre perdida. submisso a uma consciência que o constrói. que defende uma comunicação “suficiente” mas não “excessiva” com as culturas ameaçadas de extinção. A figuração do ameríndio em Nove noites privilegia as diferenças como enfrentamento estéril. a recusa em considerá-lo como sujeito autônomo. O outro que o atrai não é o ameríndio. n. este é o sujeito da alteridade produtora de sentido que o aproxima de seu pai.

uma visibilidade. decadente. contraditoriamente.  Em Nove noites. Trata-se da viagem de volta do narrador. Talvez porque nas nossas sociedades cada vez mais compósitas. c’est établir relation et non pas consacrer exclusion. Ao ser abordado pelo narrador. aliando-se a uma perspectiva comum a outros romances da produção literária das Américas. participando de um espaço urbano híbrido. a adoção do ponto de vista do brasileiro urbano. confere-lhe. eles iniciam uma conversa no momento em que o avião está sobrevoando a região amazônica próximo ao local onde Quain se matou. 1996) que caracteriza a contemporaneidade: “Vivre la totalité-monde à partir du lieu qui est le sien.O ameríndio como personagem do Outro na literatura. Em relação à dialética do “selvagem” e do “civilizado”. A cena que fecha o romance é particularmente expressiva.. O texto de Nove noites não se inscreve em nenhuma dessas perspectivas. país que visitou em 2001 na esperança de encontrar a família de Buell Quain. Sentado no avião ao lado de um jovem estudante americano. na imprevisibilidade do mundo-caos. 2004) ou de creolização (Glissant. o jovem responde: “Eu vou estudar os índios do Brasil”. ele recusa qualquer possibilidade de contatos e trocas equilibrados e frutuosos e elabora uma visão trágica de uma civilização em via de extinção. 67). p. Milton Hatoum se inspira em uma realidade na qual a presença ameríndia é marcante. o romancista possa apenas registrar essa invisibilidade do “estrangeiro de dentro”. ao fazê-lo. reduzido a um objeto exótico ou a um objeto de estudo. branco e letrado projeta a imagem do ameríndio como uma alteridade invisível e em via de desaparecimento. Visão trágica que lhe retira a perdurabilidade. depois de uma estadia nos Estados Unidos. que lhe pergunta se ele vai ao Brasil para fazer turismo.” afirma Edouard Glissant (1996. O ponto de vista adotado é o do brasileiro que bebeu na fonte da cultura ameríndia e que é fascinado . reproduzindo a imagem de um índio aculturado. 109 insistem nos aspectos positivos do inevitável processo de hibridação (Canclini.. Mas.

Hatoum recusa uma visão reconciliadora do processo de mestiçagem. desconsiderando os aspectos da necessária reconstrução de um “lugar habitável” para o sujeito. México: Grijalbo. preferindo destacar a construção dramática desse espaço ambivalente. Francis. 1991. Adotando uma perspectiva complexa do processo de inter-relação de culturas e de imaginários. Mesmo reconhecendo o processo de mestiçagem cultural. a existência de uma sociedade mais justa e solidária nem para os ameríndios nem para os pobres brasileiros inseridos na sociedade urbana. herdeiros de visões do paraíso. . Critiques anthropologiques. transformando a escritura numa “zona de tensões” (Harel. Culturas híbridas. 2000. Hatoum não o idealiza. isoladamente. 2001.15. Estrategias para entrar y salir de la modernidad. Paris: Presses de la Fondation Nationale des Sciences Politiques. Adota outro ponto de vista. CANCLINI. 2007. expondo suas fraturas. Referências AFFERGAN. Um paraíso perdido: reunião de ensaios amazônicos. n. p. denunciando assim o papel marginal que a sociedade reserva ao índio. abrindo-se para a subjetivação da experiência da alteridade. Figurado como mediador do espaço e dos mitos entre a floresta e a cidade. 108). Néstor Garcia.110 Revista Brasileira de Literatura Comparada. abandonados à miséria e à orfandade. Nove noites. 2004. deixa transparecer a ideia de que esse processo não é capaz de assegurar. Dessa forma. Euclides da. CUNHA. nem por isso o ameríndio escapa à condição subalterna e à visão trágica que o condena ao desaparecimento. Bernardo. onde os conflitos herdados do colonialismo se fazem presentes. 2009 por ela. o escritor se distancia de um discurso banal que se contenta em louvar as trocas culturais. Brasília: Senado Federal. São Paulo: Companhia das Letras. como elemento que se abre à relação com o Outro. O autor não se deixa levar por uma ideologia da mestiçagem como elemento consubstancial à nação brasileira. Conselho Editorial. CARVALHO.

Linda. Les lieux de la précarité de la vie quotidienne. Paulo. 2000. Montréal: XYZ. Estranhos estrangeiros: poética da alteridade na narrativa contemporânea brasileira. Orfãos do Eldorado. MORENCY. A dois passos do deserto: visões urbanas de Euclides na Amazônia. Trem fantasma. Flávio. Québec: Éditions Nota Bene. 2008. GODET. SANTOS. p.O ameríndio como personagem do Outro na literatura. São Paulo: Cortez. 1993. 2007. Paris: Gallimard. 233-252.. Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea.portrasdasletras. MOURA. n. n. Pela mão de Alice. Rita Olivieri. p. A trama traiçoeira de Nove noites.php?op=resumos/docs/novenoites>. 185-194. Figures de l’Autre dans le roman québécois. 111 GLISSANT. Edouard. São Paulo: Companhia das Letras.. Le mythe américain dans les fictions d’Amérique. Francisco Foot. 29. PATERSON. _____. _____. In: _____. a modernidade na selva. ed. Jean. Québec: Nuit Blanche. 2007. La poétique de l’altérité et la représentation de l’Amérindien dans la fiction des Amériques. HUTCHEON. Brasília. de Ferreira de Castro. 1988. Simon. Disponível em: <http://www. Teresa: revista de literatura brasileira. HARDMAN. 1996. 1. Les passages obligés de l’écriture migrante. L ’espace en perdition. de Márcio Souza). Québec: Les Presses de l’Université Laval. entrevista de Bernardo Carvalho.br/pdtl2/sub. Salvador: Fundação Casa Jorge Amado. Rio de Janeiro: Imago. jan. Texto inédito. A utopia e os conflitos paradigmáticos. . com. São Paulo: Companhia das Letras. 2000. Boaventura de Souza. FFLCH-USP São . O social e o político na pós-modernidade. 1994. Poética do Pós-Modernismo. 1991. e Mad Maria. A natureza como ficção (Leitura do espaço nos romances A selva. 2004. Milton. 2005. In: _____ et al. HATOUM. _____. Janet M.-jun. HAREL. p. 34. Introduction à une poétique du divers. O espaço geográfico no romance brasileiro. 101-117. _____.

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A partir de uma compreensão do caráter contingente do valor estético e da impossibilidade de fundamentá-lo de maneira imanente à obra. defensores da primazia do cânone ocidental. compartilham uma série de pressupostos. cânone e crítica formal Este ensaio parte da premissa de que não há crítica ou teoria literária. estética. Understanding the contingent nature of aesthetic value and the impossibility of grounding it immanently. revisores do cânone. e esteticistas.113 Cânone Literário e Valor Estético: notas sobre um debate de nosso tempo Idelber Avelar* resumo: Este ensaio se insere no debate contemporâneo acerca do valor estético. This article is part of a contemporary debate on aesthetic value. entre os conceitos de valor. Como veremos. I argue that canon-revising culturalists as well as aestheticists who defend the primacy of the Western canon share a number of premises. na qual não esteja implícita uma posição sobre o valor. contingency. de estética e de cânone. canon. aesthetics. essa premissa é simultaneamente negada e aceita pelos dois polos de um debate que. and canon. frequentemente ignorada. keywords: value. based on the often ignored discontinuity among the concepts of value. cânone. contingência. palavras-chave: abstract: valor. baseadas na descontinuidade. com frequência. argumentando que culturalistas. aesthetics. I suggest a few possible routes for the debate. sugerem-se algumas pautas para o debate. por mais descritiva. . é apresentado como uma polêmica entre defensores de um firme cânone * Tulane University.

depois da progressiva ruptura com a formalização do estruturalismo. que fizesse desta o antídoto contra a vulgaridade massiva associada à racionalidade técnica moderna e à “dissociação da sensibilidade”. com seu afã científico e universalizante.114 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Há correntes críticas do século XX. R. nos anos 1930. Cleanth Brooks – se . como intervenção numa polêmica culturalista – entendendo-se “cultura” não no sentido antropológico. jamais tivessem escondido suas preferências literárias. Os textos de Roland Barthes em que a preocupação com o valor se torna explícita são aqueles escritos a partir do final dos anos 1960. os new critics – John Crowe Ransom. A insistência dos new critics no caráter desinteressado da literatura acabou sendo um gesto no qual se albergava um nítido interesse. visível na batalha que eles livraram contra o establishment da filologia. mesmo nos momentos de maior formalização do método. como Roland Barthes e Julia Kristeva. embora seus principais teóricos. diferenciavam dos filólogos então dominantes ao conferir um papel edificante para a literatura. e que o valor estético e o cânone literário podem e devem ser repensados em outros termos. já numa fase de seu pensamento em que são visíveis as inspirações nietzscheana e lacaniana. que rejeitariam o pressuposto da inevitabilidade valorativa. optando por um projeto que tinha um caráter mais descritivo que valorativo. Além de tomar algumas posições que não se alinham com nenhum dos dois polos. 2009 ocidental e culturalistas favoráveis a uma relativização ou abolição desse cânone. n. Allen Tate. discursos com fortes componentes axiológicos. o New Criticism focalizou a valoração na diferença entre a literatura e a cultura de massas. P Blackmur. conceito que herdaram de T. portanto. O estruturalismo. mas no sentido classista . mas não em distinções efetuadas no interior da série literária. Nas suas origens. este ensaio tenta demonstrar que a própria formulação do debate é problemática. Eliot.15. Robert Penn Warren. S. sabemos. elaborou pouco sobre a questão do valor. O New Criticism surgiu. Hegemônico durante décadas na crítica estadunidense.

Mas como a história do gosto não tem vínculo . a insistência no imanentismo e no caráter autossuficiente da crítica literária. o caráter sistematizador. 155-175). 115 e aristocrático do termo. 145 et seq. quebradas em meias-verdades …. o momento de triunfo do New Criticism na universidade e de consolidação da poesia modernista no currículo coincidiu com o arrefecimento dessa veia polêmica.Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. p. e onde todas as verdades já foram. a centralidade do conceito de mito. sentimos talvez que o estudo da literatura é relativo e subjetivo demais para ter sentido consistente. no qual ele se distanciava tanto do New Criticism como da Escola de Chicago. Tomo Frye como ponto de partida de uma demonstração do que considero o caráter aporético da discussão sobre o valor literário: Na história do gosto. ainda que fosse para negar sua pertinência para a prática crítica. No momento em que Northrop Frye publicou o hoje clássico Anatomia da crítica (1957). nas quais invariavelmente encontrariam a ironia. e alguns dos eixos da obra revelavam nítido parentesco com o trabalho que o estruturalismo literário francês realizaria nos anos seguintes: as metáforas espaciais. p. a ambiguidade e o paradoxo que eles antes reservavam aos modernos e aos poetas metafísicos ingleses do século XVII.) e John Guillory (1993.. Uma das diferenças importantes é que Frye se dedicou longamente ao problema do valor literário. já se desenvolvia havia uma década com Lévi-Strauss. Como apontaram Gerald Graff (1987. Os new critics se moveriam em direção à análise de estruturas internas dos textos. onde não há fatos. de maneira hegeliana. Frye chegou a considerar “Poética estrutural” como um possível subtítulo para o livro. na França. o jogo de antinomias. A consolidação do método como leitura hegemônica acabou acarretando a universalização dos traços que eles antes só viam nos autores do seu paideuma particular. Embora não fizesse ali nenhuma referência ao trabalho da antropologia estrutural que. uma apresentação explícita do problema da valoração já era inevitável. que era seu principal antagonista..

O curioso da analogia de Frye. e constantemente. 18). assim como não é óbvio que a polêmica Marx-Ricardo não seja parte da “estrutura” da economia política. portanto. Mas quanto mais óbvio se torne isso. 2) é “óbvio” que alguns poetas são melhores que outros. ele afirmara que “a história do gosto não é parte da estrutura da crítica. dinamitando a separação que se havia proposto entre elas: As estimativas comparativas de valor são realmente inferências da prática crítica. 1 Anatomia da crítica sugere.15. p. À medida que o leitor percorre as páginas de Anatomia da crítica. 18). 25). menos tempo ele desejará desperdiçar insistindo na questão. 3) . mais válidas quando silenciosas. é que está bem longe de ser uma verdade evidente que a polêmica Huxley-Wilberforce não seja parte da “estrutura da biologia” (seja lá o que for isso). Porque insistir nela é tudo o que ele pode fazer: qualquer crítica motivada por um desejo de estabelecê-lo ou prová-lo será meramente mais um documento na história do gosto (Frye.1 Um pouco antes. que 1) a crítica é uma esfera separada da história do gosto. São minhas as traduções de todas as citações de fontes em línguas estrangeiras. Para isso. O crítico verá logo. por certo. pois explicitá-los terminaria fundamentando a crítica na história do gosto e. ela pode ser facilmente separada (Frye. a de que é preferível que os valores que subjazem às escolhas estéticas da crítica fiquem escondidos.116 Revista Brasileira de Literatura Comparada. e não princípios expressos que guiam sua prática. n. p. pode-se estar razoavelmente convicto de que tal separação é a coisa menos fácil que há. O leitor o percebe quando chega o espinhoso momento em que Frye tem de justificar suas escolhas. 2009 orgânico com a crítica. simultaneamente. vai se impondo uma conclusão: sempre que Frye diz que a crítica é “facilmente separável” do gosto e do juízo valorativo. ele lança mão de uma curiosa tese. 1957. assim como o debate Huxley-Wilberforce não é parte da estrutura da ciência biológica” (p. 1957. que Milton é um poeta mais sugestivo e recompensador que Blackmore.

esses dois eixos coexistiram com certa tensão.2 haveria que se dedicar especial atenção às maneiras como o desejo de cientificidade entrou em choque com a inevitabilidade valorativa. Seria possível demonstrar que a aporia detectada em Frye se repete nos métodos interpretativos que tentaram fazer da crítica literária uma operação descritiva na qual não teria lugar o debate acerca das opções valorativas. sob o risco de que todo o edifício desmorone. 117 Para o estruturalismo. No momento mais frutífero do desenvolvimento das pesquisas dos formalistas. um dos livros de crítica literária mais influentes do século XX. se sustenta sobre um tripé de premissas de visível precariedade: 1) a crítica e o gosto não se misturam. não antes que Yuri Tinianov formulasse algumas pistas acerca do que poderia ter sido uma concepção formalista da . aumentando-lhe a dificuldade. a consolidação do poder político nas mãos de Stálin os forçou ao exílio ou ao silêncio. Anatomia da crítica. teremos de esconder debaixo do tapete os critérios que subjazem a elas.. 2) não se faz crítica sem uma escolha valorativa. Frye não pode senão sugerir que os fundamentos das escolhas valorativas permaneçam sem discussão. O projeto de descrever cientificamente a linguagem poética os levou a estabelecer a noção de estranhamento (ostraneniye) como o mais próprio da literatura. O estranhamento possibilitaria uma renovação de uma experiência do mundo caracterizada por uma percepção já automatizada. 2 qualquer tentativa de explicar essa obviedade está fadada a ser parte da história do gosto. fruto da repetição constante.. mesmo que reconheçamos que a atividade crítica depende de escolhas valorativas. Preso num discurso que postula a separabilidade da crítica ante a história do gosto. 3) já que a valoração é definida como parte de uma história do gosto externa à crítica. mas tropeça na constante interferência desta sobre aquela. Shklóvski definiu o conceito como o processo por meio do qual a novidade das operações poéticas sobre a linguagem prolongaria a percepção.Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. Numa futura história dos métodos formais no século XX. No caso do formalismo russo. ver o notável trabalho de história intelectual já feito por François Dosse (1991-92). não da crítica.

mas passemos ao extremo oposto. de que as vanguardas realizam a vocação da literatura de uma maneira que os parnasianos não fazem. Muito ainda poderia ser dito aqui. mais valor. 2009 história literária. A sofisticação do aparato teórico dos formalistas os levou do imanentismo textualista a uma incipiente teoria da história literária. Apesar de que as observações feitas acima sobre Frye não se aplicam aos formalistas. Mas reconhecer sua existência – mesmo que implícita – é indício adicional de que até nas empreitadas mais cientificistas da crítica literária impõe-se a inevitabilidade valorativa. Não há nada de condenável nessa axiologia. pelo estranhamento imposto a formas literárias automatizadas pelo uso excessivo.118 Revista Brasileira de Literatura Comparada. uma operação paródica tenderia a surgir. O edifício teórico dos formalistas nos leva à conclusão ineludível de que Dom Quixote tem um valor que Amadis de Gaula não apresenta. eles tampouco se dedicaram a tematizar explicitamente o problema do valor. Sempre que um procedimento passasse a ser parte do repertório de práticas já esperadas. n. tornando visível a automatização anterior. às correntes críticas que explicitamente reivindicam a valoração como elemento constitutivo da ati- . Para Tinianov. ajuda a explicar a relação multifacetada que os formalistas mantiveram com o tema do valor. interrompida pela consolidação do poder burocrático na União Soviética. e assim por diante. Um exemplo clássico é o que Dom Quixote fez aos romances de cavalaria. ou seja. As conhecidas afinidades entre o formalismo e o futurismo russos emprestam credibilidade a essa tese. a literatura evoluiria por meio da paródia. A insistência na função descritiva da teoria literária. é claro. parece inescapável a conclusão de que o valor está acoplado à realização desse programa: quanto mais estranhamento e mais ruptura paródica com as formas anteriores. A partir das premissas de que o estranhamento é mais próprio à literatura e de que a história literária evolui pela operação paródica sobre formas anteriores congeladas. expondo a artificialidade de suas convenções. combinada à condenação ao impressionismo dos simbolistas.15.

que provocaria uma “série de efeitos no ‘caráter’”. ao continuar tomando esses valores como intrínsecos. seria a defesa daqueles valores sobre outros. que valeriam “menos”. 119 vidade crítico-literária. Qualquer tentativa de sustentar este último postulado – de que algumas ficções realmente valem mais que outras – só poderia “respeitar a variedade” interrogandose sobre os processos históricos por meio dos quais certos valores foram conferidos àquelas ficções. Na tentativa de esclarecer os valores que subjazem às análises estéticas. o Bem ou o Mal .. Booth abraça o projeto humanista de ilustração por meio das letras. Consciente de que as condenações moralizantes de uma tradição que vai de Platão a Leavis deram à crítica ética uma má fama. com seu The company we keep. Se não. a saber. crítica ética e falácia igualitária Wayne Booth. Posição de destaque nessa vertente cabe aos críticos que se ocupam das relações entre ética e literatura. ix). um debate cujas origens podem ser remetidas aos Livros III e X da República de Platão. Como se verá.Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. 36). necessária. a conclusão lógica. Booth coloca a pergunta: “Poderemos esperar encontrar uma crítica que respeite a variedade e ofereça um saber acerca de por que algumas ficções valem [are worth] mais que outras?” (1988. ou seja. p.. O desafio que Booth se coloca é manter algumas das premissas da teoria contemporânea (acerca da variabilidade histórica do sentido ou da impossibilidade de uma medida transcendental de valor). Booth tenta resgatar essa função humanista sem reduzi-la a um conjunto de normas. que ele define como uma “Conversa celebrando as muitas maneiras em que as narrativas podem ser boas para você – com vislumbres de como evitar seus poderes para o mal” (p. ao mesmo tempo em que continua se agarrando a um conceito de literatura como fonte singular de um “mergulho em outras mentes” (p. a tarefa não é fácil. ocupa um lugar central no chamado ressurgimento da crítica ética nos EUA. 142).

A necessidade de caminhar sobre a corda bamba que separa o reconhecimento das contingências históricas do compromisso humanista leva Booth a fazer uma série de gestos na direção do relativismo: o que é bom cá não é bom lá. uma dose excessiva de qualquer valor (seja a ironia.15. qualquer virtude levada ao extremo pode destruir as outras. como o contraste entre King Lear. n. portanto todas as obras que apresentem X. etc. a abertura formal ou qualquer outro) pode ser prejudicial em vez de positiva. termina sempre transcendendo os conflitos da valoração social. A reductio ad absurdum será uma das estratégias retóricas favoritas dos que mantêm a referência ao valor estético como propriedade intrínseca e resistem ao argumento de que o valor só pode ser entendido por meio da remissão ao seu solo social. aquela área cinza que permitiria ao crítico evitar qualquer “silogismo universal” (esta obra é boa porque apresenta X. No momento em que a teoria não consegue .. Depois de superar essas caricaturas. Daí sua busca do meio do caminho. O objetivo é evitar os “riscos” de “fechamento” ou “abertura” excessiva. 2009 aos quais o prefácio alude. Booth quer aceitar o pluralismo hermenêutico da teoria literária contemporânea sem abrir mão do absolutismo da filosofia moral. e um exemplar da revista pornográfica Hustler.) sem renunciar à premissa de um valor ético intrínseco à literatura e a algumas obras literárias mais que a outras. A solução moderada busca um pluralismo que mantenha a referência a um valor intrínseco o qual. uma minuciosa tentativa de aceitar a variabilidade de interpretações sem deslocar a discussão do terreno do valor intrínseco ao campo da valoração social. então. a grande literatura emerge intacta. com sua insubstituível função moral reassegurada.. ou entre um poema de Yeats e uma brincadeira improvisada em verso. por mais variável que se conceda que ele seja. pode ser bom para você mas não para mim. Company é. de Shakespeare. Booth “realiza” essa tarefa por meio de uma série de exercícios de reductio ad absurdum.120 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Os tropeços da crítica ética seriam explicáveis por sua tentação especial de “sobre-generalizar”.

compare-se a Divina comédia com um exemplar da Revista Veja. seu pluralismo não é radical. 121 fundamentar essa transcendência. Afirmar que a valoração é socialmente contingente não significa dizer que todos os agentes valoradores são igualmente competentes. Sempre que se remete um problema à “tentação de sobre-generalizar”. Booth afirma que “a ênfase na variedade de interpretações nos diz pouco sobre o valor real das obras” (p. ou seja. Ao se referir à crítica contemporânea.Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. Essa mitologia da ponderação não deixa de operar na teoria. ela pressupõe uma recusa a considerar o argumento de que todo valor é produto do choque de valorações contingentes e historicamente variáveis. mas que somente são valoradas” (p.. não. Mas Booth parece ter entendido mal a teoria da contingência. constate-se a óbvia diferença entre os valores intrínsecos e o problema está “resolvido”. Essa afirmação repousa sobre a premissa de que o valor é uma espécie de propriedade inerente ou essência eterna. A equação imaginária entre a contingência social do valor e uma suposta igualdade entre os agentes valoradores é o que Barbara Herrnstein Smith denominou a falácia igualitária. o terreno está preparado para que o liberal sensível procure a conciliação razoável. e que seu próprio conteúdo só pode ser compreendido com referência ao contexto particular em que algumas habilidades contam como competência e outras. Significa que “competência” não é um significante com sentido unívoco e eterno. Ao contrário do que argumenta Booth. 84). “a recorrente ansiedade / acusação / reclamação de que a menos que se possa demonstrar que um juízo é mais ‘válido’ que outro. posição que Booth descarta como “subjetivista” (p. ou seja. e sim liberal. todos os juízos devem . 85).. Os ataques ao “subjetivismo” do ponto de vista de uma ética humanista são bem conhecidos e Booth os repete em seu livro: “pressupõe-se claramente uma completa equivalência na competência de todos os intérpretes no argumento de que as obras não possuem ou exercem valor inerente. 73).

não teriam a mesma pertinência para o “nosso” discurso.15. de alguma forma. se a compreensão do conceito de valor se deslocou de uma imanência dormente a uma rede de relações sociais. É exatamente por causa do fato de que as valorações não são nem válidas da mesma forma nem identicamente posicionadas nas relações sociais que elas jamais são intercambiáveis. idênticos a si mesmos. progresso do espírito. a crítica humanista. os valores ficaram. padece da impossibilidade de fundamentá-los mais além da tautologia. idênticos uns aos outros. Como a desconstrução e o marxismo nos ensinaram de diferentes formas. p. digamos. A falácia é que. 98). obviamente. por definição. por mais que se queiram descritivos. A falácia igualitária confunde uma posição social construtivista com uma posição moral e estética relativista. mergulho na alma humana. nos romances de Faulkner. Se os imanentismos formais não escapam da axiologia. suas opiniões sejam tão pertinentes a nosso discurso sobre Faulkner como as opiniões de leitores experientes” (p. renovação da linguagem. 2009 ser ‘iguais’ ou ‘igualmente válidos’” (Smith. Na verdade. Eis aí a falácia da ansiedade essencialista que preconiza que. e sim articulados por meio de conflitos sociais. A falácia igualitária se sustenta no que Marx chamava de “robinsonada”. que não esconde seu compromisso com a noção de que a literatura deve defender valores éticos. é precisamente porque os juízos não são igualmente válidos que os valores nunca são intrínsecos. Com efeito. n. 85). 1988. uma espécie de grau zero da axiologia que replica a ilha de Daniel Defoe. Note-se um exemplo em Booth: “me parece difícil acreditar que se uma pessoa de nossa cultura que é completamente inexperiente em literatura não vê absolutamente nenhum valor.122 Revista Brasileira de Literatura Comparada. . diferentes vertentes da crítica prescritiva arrolaram fundamentos transcendentais a partir dos quais a literatura deveria ser julgada: formação do caráter. uma pessoa inexperiente em literatura não poderia pertencer à mesma cultura e suas opiniões. sempre há que se perguntar qual sujeito da enunciação se esconde por trás de um pronome de primeira pessoa do plural.

Ela dispara.. 20). é inevitável. É o que vemos nas críticas estéticas de Harold Bloom. podemos censurar qualquer coisa. no Brasil. 20) e proclama “a abertura do Cânone” (termo que Bloom insiste em grafar com maiúscula) para a incorporação de obras que “não devem e não podem ser relidas. lacanianos. neo-historicistas e afrocêntricos seriam os agentes contemporâneos de uma “Escola do Ressentimento” que “nega a Shakespeare sua palpável supremacia estética” (1994. 123 defesa do legado ocidental. desconstrucionistas. crítica estética e pânico ocidentalista Para Harold Bloom. A pergunta: “por que deve ser este o valor a partir do qual julgar a literatura?” não pode ser respondida imanentemente. 30).. em alguém que responsabiliza a Escola do Ressentimento pelo fato de viver “no que considero a pior de todas as épocas para a crítica literária” (p. Para quem experimenta uma contingência como se esta fosse uma não-contingência. exceto não ter tornado bem visível o seu próprio ressentimento. como “o radicalismo acadêmico chega ao ponto de sugerir que as obras se incorporam ao Cânone por causa de propagandas [advertising] bem-sucedidas e campanhas de doutrinação [propaganda]” (p. uma alteração da ordem vigente provocará a sensação de que qualquer ordem está se tornando impossível. de Leyla Perrone-Moisés. A fundamentação do valor na estética teria. Diante de certas frases de Bloom. em seu O cânone ocidental e. Vários “defensores do cânone ocidental” reagem nervosamente à demonstração da impossibilidade de autofundamentação imanente do valor estético. p. em seu Altas literaturas. a única resposta possível é: quem ja- . 22). uma estrutura abismal. Ironicamente.Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. emancipação do proletariado. Mas nenhum desses fundamentos se sustenta como base de uma estética sem remissão a outro valor que o justificaria. assim. feministas. porque sua contribuição ao progresso social é a generosidade de se oferecer para rápida ingestão e descarte” (p. um processo de regressão infinita. marxistas.

menor será sua capacidade de entrar em genuíno debate com a força emergente que aponta o caráter contingente desse valor. ou de um ponto de vista afro. 40) – e é ubíqua sua afirmativa de que Shakespeare é o pai de todos –. um crítico associado à direita mais conservadora – passou. Se Bloom insiste com tanta ênfase em afirmar que “Shakespeare inventou a todos nós” (p. certamente não encontramos nenhuma equação entre a construção do cânone e a propaganda. Da leitura de Bloom. e o livro de Bloom não ajuda. Nas obras que se dedicaram a revisar o cânone a partir de uma perspectiva feminista. de Sandra Gilbert e Susan Gubar. É verdade . Mais que atacar Bloom. n. 2009 mais disse isso? Qual feminista ou “afrocêntrico” de relevo disse algum dia que a incorporação de uma obra ao cânone se deve ao advertising e à propaganda? Desconhece-se. a ser representada no Brasil por Leyla Perrone-Moisés. seria difícil encontrar um estudo sério defendendo algo que vagamente lembrasse a caricatura apresentada por Bloom. trata-se aqui de assinalar um paradoxo bem curioso que veremos reiterado no lamento contra os estudos culturais. ele não nomeia seus supostos integrantes. mesmo perfeito. é impossível não se perguntar que pai é esse que. pois nas centenas de páginas de queixas ressentidas contra a tal Escola de Ressentimento. Se é correto afirmar que parte da crítica contemporânea se dedica a questionar o processo de emergência dos cânones. quando mais socialmente precário seja seu fundamento. ensaísta que não tem nenhum histórico de associação com o conservadorismo político. que talvez seja a mais ilustre barthesiana da América Latina e cujos primeiros livros foram escritos na mais absoluta alegria e afirmação. como The madwoman in the attic. de Henry Louis Gates. como The signifying monkey. há uma década e meia. retiremos mais um axioma: quanto mais ameaçados se sintam os guardiães da suposta universalidade de um determinado valor.15.124 Revista Brasileira de Literatura Comparada. produz filhos tão bárbaros como os desprezíveis afrocêntricos e feministas. O mais surpreendente é que essa posição – defendida nos EUA por Harold Bloom.

de sujeitos ocultos e de sintagmas como “alguns grupos”. p. Bhabha.. 192). Parecem não ter obra.. Jamais sabemos quem são eles. Lefort etc. acrescido do altamente antiantropofágico medo de que o Brasil se contamine pela influência norte-americana: “o lamentável de tudo isso é que muitos universitários brasileiros estejam recebendo essas tendências norte-americanas sem o menor espírito crítico” (Perrone-Moisés 1998. foi posto sob suspeita”. p. Também é bastante irônico . p.3 Tomemos o diagnóstico da ensaísta brasileira sobre as raízes da perda de relevância social da literatura e da daninha influência norte-americana: Um curso de humanidades baseado na leitura de ‘grandes obras’ do Ocidente. no capítulo 5 de Altas literaturas. 1998. Reencontramos em Altas literaturas o mesmo procedimento de Bloom: o ataque a um adversário cujos representantes não são nomeados e ao quais não se concede a generosidade da citação. p. gerando a dúvida sobre se ela realmente os terá lido. colheu suas referências principais em Derrida. posto que todo o livro de Smith é uma análise do porquê dos juízos de valor serem inevitáveis.Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. “as feministas norte-americanas”. “a formação desse cânone foi examinada do ângulo ideológico”. “os anti-canônicos”. “os particularistas”. 1998. Na Universidade de Stanford. Foucault. 196). O turco Homi K. Kristeva. mas o diagnóstico do que teria acontecido a partir da chegada dos estudos culturais é fundamentalmente o mesmo.. a palavra ocidental foi suprimida na denominação dos cursos sobre cultura (Perrone-Moisés. ela lhes atribui posições diametralmente opostas às que defendem em seus livros. 125 Minha primeira reação. 3 que a ensaísta brasileira se diferencia de Bloom. ao ler que Barbara Herrnstein Smith “considera que o juízo de valor é indesejável” (Perrone-Moisés.. Observe-se. foi achar que se tratava de um erro tipográfico. Nos momentos em que Leyla Perrone nomeia duas figuras envolvidas com o debate sobre o cânone nos EUA – John Guillory e Barbara Herrnstein Smith –. como aquele que foi ministrado em 1936 na Universidade Columbia por Lionel Trilling e outros. por pressão dos grupos particularistas. a abundância de vozes passivas (“o cânone ocidental . introdutor dos estudos “póscoloniais”. 230). seria hoje impensável nos Estados Unidos. 195). dedicado ao diagnóstico do presente.

[. Fica difícil realizar um debate a partir de tantos erros factuais. 198-199). porque eram escravagistas. 2) Bhabha não é o “introdutor” dos estudos pós-coloniais. n. bem europeia e humanista.] há um contra-senso histórico no desejo de modificar o cânone passado. 3) Não se sabe quais seriam esses teóricos pós-coloniais que se insurgem contra “o que chamam genericamente de ‘ideologia ocidental’”. aliás.. seja na pós-graduação em literatura. no máximo.]. porque era caçador e machista.. (p. causa estupefação a afirmativa de que é hoje “impensável” um “curso de huma- . sem citações. mas é sabido que a noção de ideologia tem pouca circulação nos teóricos pós-coloniais. Excluir do cânone um Dante. que herdam de Foucault a suspeita ante o conceito.. Corrijamos alguns: 1) Homi Bhabha não é “turco”. As exclusões ideológicas têm tido um efeito imediato e lamentável nos currículos norte-americanos: Mark Twain e Faulkner. palestino-americano de formação. Melville e Hemingway do currículo. munidos de argumentos iluministas historicamente tão ocidentais quanto o repudiado imperialismo (p. campo de estudos cujas genealogias unanimemente (Desai e Nair. para nele incluir os então excluídos [.. Hemingway. 194-195). Melville.15. já que Leyla Perrone os caracteriza genericamente. uma vingança extemporânea [. e sim indiano.. 2009 que os “pós-coloniais” se insurjam contra o que chamam genericamente de “ideologia ocidental”. uma rápida busca nos sistemas das cento e três instituições catalogadas pela Carnegie Mellon como Research universities demonstra que esses quatro autores continuam abundantemente presentes em cursos..]. 2005) apontam como momento inaugural a publicação de Orientalismo (1978). 5) Para qualquer conhecedor do sistema universitário norte-americano. Faulkner. seja na licenciatura em inglês. para colocar em seu lugar alguma mulher medieval que porventura tenha conseguido escrever alguns versos não seria ato de justiça. de Edward Said. seria. 4) Desconhece-se universidade estadunidense que tenha excluído Mark Twain. exames e teses. porque antiecológico etc.126 Revista Brasileira de Literatura Comparada.

cito o que está sendo ministrado na minha própria. Tulane. Dostoiévski. Em março de 1988. os currículos universitários norte-americanos incluem um curso de obras-primas ocidentais que percorre. Marx. num debate já informado por . embora esses autores também sejam lidos numa série de cursos que. em geral. 4 nidades baseado na leitura das grandes obras do Ocidente”. 2001. asp?id=Courses>. por um curso intitulado “Culturas e valores”. inclui Dante. Newsweek e Wall Street Journal acerca da polêmica em Stanford que desatou as chamadas “guerras culturais” nos EUA. um trajeto que vai de Homero (ou Platão) a Nietzsche.. no primeiro semestre de 2010: a lista de leituras consiste em Maquiavel. Dentro de Stanford. Uma breve consulta à bibliografia séria acerca do incidente (Pratt. Rousseau. o Senado de Stanford decidiu aprovar uma proposta de substituição de um desses cursos de “cultura ocidental”. 127 A lista de leituras está disponível em: <http://honors. Stendhal. tulane. O curso que costuma atender pelo nome de Great Books é um dos mais comuns em qualquer grade curricular de qualquer boa universidade estadunidense. Freud. Casement.Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. e nele não há sombra de “alguma mulher medieval que porventura tenha conseguido escrever alguns versos”. 1993) teria sido suficiente para evitar o erro. a implantação do novo currículo foi absolutamente tranquila. Nietzsche. Fanon e Coetzee. Como exemplo.edu/web/default. em Stanford. Como sabem quase todos. Hobbes.. Cervantes. É lamentável que uma ensaísta que dedica páginas a criticar as simplificações da cultura de massas e da mídia reproduza a distorção veiculada por Time. 6) A incrível afirmação de que em Stanford “a palavra ocidental foi suprimida na denominação dos cursos sobre cultura” merece parágrafos à parte. O curso do segundo semestre cobre da Antiguidade até a Idade Média. Graff. 1996.4 Não é exatamente uma seleção escalada por uma afrofeminista radical. são parte de oito grades dentro das quais o aluno pode cumprir os requisitos de humanas. em uma das grades. onde se incluíam textos “não-ocidentais” como os de Frantz Fanon e Rigoberta Menchú. Virginia Woolf. Primo Levi. de cunho comparativo.

Investiram-se milhões de dólares na construção de think tanks como a Heritage Foundation. estava pronta para presenciar a queda do comunismo e identificava na cultura a nova guerra que deveria vencer. um think tank de direita). acabava de estrangular a revolução centro-americana. a queda de Nixon e a consequente desmoralização da direita americana.128 Revista Brasileira de Literatura Comparada. autor de The closing of the American mind. n. que aprendeu espanhol já adulta. ao “assassinato de Shakespeare e Platão” e à “intimidação de ativistas estudantis”. as forças conservadoras do país passaram a dedicar intenso esforço à vitória na luta cultural. exceto por um detalhe: as principais fundações da direita norte-americana. 2009 anos de reflexão sobre a necessidade de oferecer outras versões sobre a modernidade. O livro de D’Souza atacava especialmente a incorporação ao currículo do testemunho de Rigoberta Menchú. mas tudo correu dentro da normalidade que se espera de uma revisão curricular como qualquer outra. a direita republicana concluía oito anos de controle sobre a Casa Branca. e Dinesh D’Souza. autor do best-seller Illiberal education. Desde Watergate. ver o belo livro de Yúdice. passariam a acusar Stanford de jogar no lixo a cultura ocidental. grupos religiosos e o Partido Republicano acompanhavam o debate de perto. Allan Bloom. 2004. de Sobre o caráter ubíquo que tem adquirido a cultura como terreno onde se jogam os antagonismos políticos. William Bennett (ex-secretário de educação no governo Reagan). 5 . A defesa do projeto foi ligeiramente politizada por grupos de estudantes. Estavam lançadas as sementes do que se conheceria depois como “as guerras culturais”. Herbert London (fundador do Hudson Institute. Os neoconservadores sabiam que era no terreno da cultura que se jogaria a cartada decisiva.15. A grande imprensa passou a dedicar blocos de seus programas à “eliminação da cultura ocidental no currículo das universidades americanas”.5 Em 1988. entre outras generalizações provocadoras de pânico. A votação no Senado foi normal. narrou verbalmente sua história de vida à antropóloga Elizabeth Burgos. O relato é indissociável das atrocidades cometidas na guerra civil da Guatemala nos anos 1970 e 1980. Menchú. ativista guatemalteca de etnia maiaquiché.

ou que não exista nada a se criticar nos estudos culturais e nas plataformas feministas ou étnicas de revisão do cânone – simplesmente é melhor fazer os balanços disciplinares com base em fatos e bibliografia. Dito de outra forma: o conceito de valor abre um horizonte riquíssimo . 129 responsabilidade de uma ditadura financiada pelos EUA.Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. Apesar das aparências. A estas alturas. jamais esteve em perigo. os cânones brasileiro. 202) e reagir com pânico no momento em que se extrai uma mínima consequência prática da profunda e radical verdade desse axioma. latino-americano e ocidental têm se transformado de maneira lenta e modesta.. O livro dizia: o ocidente é isto aqui também. valor literário e apocalipse Daí não se conclua que tudo vai bem com o ensino de literatura nos EUA.. Proponho desenvolver aqui uma ideia que parecerá estranha aos que acompanham as discussões sobre o valor. p. bem menos dramática do que seria de se imaginar por intervenções apocalípticas (“estão assassinando Platão e Shakespeare”) ou triunfantes (“estamos conquistando espaço para os excluídos”). 1998. O que enfurecia no testemunho de Menchú era que. Os exemplos citados acima ilustram algo que é frequentemente esquecido por ambos os lados no debate sobre o valor. é atrocidade também. ao ser incluído num currículo universitário de culturas ocidentais. ele dava uma resposta implícita aos que idealizam o Ocidente ou “os valores ocidentais” como cavalos de batalha morais. É incoerente citar o axioma benjaminiano acerca da inseparabilidade entre documento de cultura e documento de barbárie (Perrone-Moisés. não em projeções fantasmáticas. em incontáveis cursos de Stanford ou de qualquer outra boa universidade norte-americana. especialmente aquelas marcadas por ansiedades quanto aos estudos culturais: a rentabilidade do debate sobre o valor estético costuma ser inversamente proporcional à sua acoplagem ao problema do cânone. creio ser desnecessário confirmar que a presença do termo “ocidental”.

escritura e Falência da crítica em minha própria entrada na profissão e. continuo tomando Altas literaturas como interlocutor privilegiado. Essa extrema honestidade intelectual me fascina em Altas literaturas. que insistia que os críticos literários deveriam escrever sempre sobre aquilo de que gostam. há uma diferença nítida com Bloom. Dificilmente encontraremos uma síntese tão exata dos valores que balizam a prática literária moderna. Aqui. Pode-se criticar qualquer coisa na defesa que faz Leyla Perrone do cânone moderno.130 Revista Brasileira de Literatura Comparada. sim. utilidade. crítica. Perdido nesse debate fica o fato óbvio. intensidade. visualidade e sonoridade. Paz. que teria sido mais um magnífico livro de Leyla Perrone caso ela o tivesse interrompido na página 173. acima de tudo. A paixão e a erudição com que a autora escreve os capítulos sobre Eliot. pela estatura intelectual inegável de sua autora. universalidade e novidade. O contraste me fez recordar a observação de uma saudosa professora.15. 2009 para a crítica literária. exatidão. Butor. “ocidentalistas” e “particularistas”. sobre a suposta barbárie que ela vê nos tempos atuais. por sua importância no debate crítico brasileiro. pelo papel que cumpriu a beleza cintilante de livros como Texto. Essa redução une esteticistas e culturalistas. menos a falta de explicitação dos valores que a orientam. Depois de mapear os paideumas dos escritores-críticos modernos. Leyla Perrone encontra alguns valores que seriam comuns a todos. impessoalidade. concisão. atenta ao fato de que esses valores podem estar . de que o conceito de valor não se reduz a suas consequências para o cânone. que defende seu cânone com base numa naturalização muito menos reflexiva. Calvino. n. Haroldo de Campos e Sollers contrastam nitidamente com a desinformação do capítulo final. completude e fragmentação. São eles: maestria técnica. inclusive. mas pouco analisado. que só é obscurecido se o reduzimos ao problema de quais autores farão parte do panteão de leituras obrigatórias. Leyla Perrone está. Aqui. intransitividade. pelo fato de que a obra não esconde os seus pressupostos axiológicos. Pound. Borges.

164) – ou seja. permaneça inconteste o valor estético de obras escritas a partir de pautas diferentes e muitas vezes contraditórias com aquelas privilegiadas em suas próprias práticas? Em outras palavras. não é contraditória com o ideal da obra aberta (p.Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. O mesmo se aplica à aparente contradição entre fragmentação e completude. como fundamentar um conceito transhistórico de valor estético? Leyla Perrone não se furta a encarar o problema. Supondo-se que esses traços são distintivos da modernidade crítica. mas que isso não impede Eliot de ver a utilidade da literatura na “preservação do idioma” ou Sollers de associar “transgressão poética e subversão política” (p. mas ainda não diz nada sobre o valor estético como tal. alargar e valorizar nossa experiência do mundo. mas a literatura como tal –. ela mostra que os modernos coincidem na “independência do objeto estético” (p. para os modernos. Em resposta à pergunta “para que serve a literatura?” – ou seja. Seria a Divina comédia um poema “fragmentado”? Teria a Odisseia o dom da “concisão”? Como explicar o fato de que. a intransitividade –. a ensaísta brasileira afirma: Se nós acreditamos que a literatura tem a alta utilidade de esclarecer. 160-163). .. a ficção e o ensaísmo da modernidade crítica pós-romântica. a lista de características privilegiadas por oito escritores-críticos que produziram o fundamental de suas obras num brevíssimo intervalo de tempo (pouco mais de meio século) pode balizar a compreensão do que a modernidade literária pós-romântica privilegiou na sua prática. já não a poesia.. ainda restaria a pergunta acerca do que fundamenta o valor estético encontrado por todos eles em obras que não pertencem à modernidade e que foram escritas de acordo com outras pautas. não seria a utilidade o oposto da intransitividade? Como conciliar fragmentação e completude? Tecendo uma série de refinadas distinções. No entanto. Esta última. 131 em contradição uns com os outros: afinal. 165). entendida como coerência interna.

é o nosso objetivo. Algum aluno impertinente poderia encontrar uma contradição entre essa definição de literatura e o cânone defendido pelo livro. No entanto. perfeitamente plausível para alguém que trabalhe com uma definição historicizada e agnóstica de valor literário. poderíamos perguntar: Quem é o “nós” sujeito do verbo “acreditar” nesse trecho? Estamos todos os consumidores de literatura incluídos nele? Será mesmo tão impossível imaginar uma comunidade de leitores para os quais a “utilidade” da literatura seria justamente a oposta. 2009 admitiremos que a história do conjunto de suas realizações maximiza o proveito que podemos tirar do contato com cada realização particular. Kafka é pilar central do cânone estético defendido por Altas literaturas.15. Afinal de contas. qualquer resposta essencialista à pergunta sobre sua natureza. seria difícil não escolher. E se a fruição da literatura. seremos levados a defender um certo tipo de história literária: aquela que otimiza a fruição das obras (p. Partindo-se do pressuposto de que a literatura. Jorge Amado sobre. mas exemplificar um postulado teórico que se desprende da leitura de uma de nossas mais sofisticadas ensaístas: qualquer definição trans-histórica de literatura. . digamos. a “experiência humana” que retrata a obra deste último é uma repetição infinita de uma alienante brutalidade incognoscível para o sujeito. alargar e valorizar nossa experiência do mundo” é o tema mesmo da obra kafkiana.132 Revista Brasileira de Literatura Comparada. 21-22). certamente seria rejeitada em termos categóricos pela autora. O objetivo aqui não é caçar contradições no discurso alheio. não seria absurdo dizer que a impossibilidade de “esclarecer. como tal. No limite. Muito pouco se “esclarece” ali. Kafka. n. e a afirmação de que Jorge Amado lhe é superior. serve para valorizar a experiência humana. Atendonos à definição que oferece Leyla Perrone para o que “serve” a literatura. no seu mais alto sentido de conhecimento e valorização da experiência humana. digamos. qualquer tentativa de defini-la em termos puramente imanentes fracassará no teste da falsificabilidade.

1991. 571). prefiro ficar com Walter Benjamin. “Não há períodos de declínio” (Benjamin. passaram a ser designados como “literatura”.] recolheu-se a um canto” (Perrone-Moisés. em abstrato. o grande romance argentino da década e. O apocalíptico e o otimista progressivo representam duas faces da mesma moeda.. Nos últimos anos.... sem referência aos conflitos e pactos sociais que presidem a circulação dos artefatos verbais que. como essência do texto literário. A extrema erudição e extensão do romance não o impediram de tornar-se um bem-sucedido filme em mãos de Héctor Babenco. 178). segundo o Le Monde. o grande romance de amor do novo século –.. mas embaçar a experiência do mundo. “os livros de ficção se tornaram mais curtos e mais leves” (p. desenvolve em mais de 500 páginas recheadas de um vasto saber psicanalítico e cinematográfico uma história de amor marcada por uma essencial e deliciosa assimetria: Rímini. não valorizá-la. apontava que a crença nos períodos de declínio é coextensiva à crença entorpecida no progresso. 2666. 179).. A universalização. Sofia. a literatura latino-americana ofereceu abundantes contraexemplos à percepção de que a ficção se encaminhava necessariamente na direção do mais breve e light. “o desafeto progressivo pela leitura é um fenômeno internacionalmente reconhecido” (p. exibem esse valor em medida superior aos demais. Não há respostas imanentes às perguntas acerca de qual é o valor desses artefatos e quais. p.. El pasado (2003). num momento muito recente – o século XVIII –. o romance póstumo do . “os novos escritores [. “a literatura [. de Alan Pauls – segundo muitos. Aqui. entre eles. 178). apaixonado por Sofia. apaixonada por seu amor por Rímini.. que. mas desvelar-lhe a miséria? “Para que serve” a literatura é uma pergunta para a qual não há resposta de antemão. p.] publicam livros light” (p. 178).] está muito ameaçada” (p. 1998. de um conjunto de postulados próprios a uma região e um momento histórico só pode levar à incapacidade de ler o presente a não ser como queda: “a literatura [. 133 não “esclarecer”. no Passagen-Werk. 178).Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate.

em mais de 900 páginas. por sua vez. Desde quando se diz isso? Minha hipótese inicial. como Francisco Alves. uma saga narrada por uma escrava. Estupefato. numa narrativa que mescla testemunho. especialmente no caso deste último. foi contradita por inúmeras ocorrências anteriores dessa retórica. Alan Pauls e Roberto Bolaño são bem mais numerosos que nos fariam crer os apocalípticos. ainda no contexto da Rádio Nacional. oferece. da mineira Ana Maria Gonçalves. contradita pela sua aparição durante a compra dos sambas dos compositores negros do morro por intérpretes brancos de classe média.134 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Em meu trabalho sobre música popular. pelo jornalista Vagalume. cujo refinamento não impediu que ele se transformasse em fenômeno editorial. A hipótese de que a percepção de uma decadência no samba datava dos anos 1940 foi. descobri que a afirmação de que já não se faz samba como antes aparece no primeiro livro escrito sobre o samba. em mais de 800 páginas. encontrei outras instâncias na época do sambaexaltação e da sobreorquestração do gênero no molde das big bands norte-americanas. a de que o discurso coincidia com o início da apropriação bossanovista do samba de morro nos anos 1960. interessou-me em certo momento a origem do discurso sobre a decadência do samba: “Já não se faz mais samba como antigamente”.15. Esses leitores com frequência testemunham que a sofisticação dos textos não é contraditória com o interesse gerado pela peripécia. que compra sua liberdade e percorre oito décadas de história brasileira e africana no século XIX. 2009 chileno Roberto Bolaño. Voltando ainda mais. um relato que conjuga os horrores dos assassinatos de mulheres na fronteira mexicano-americana com um estudo da frivolidade cúmplice que Bolaño via como característica das cliques acadêmicas e literárias. O discurso de que o samba corre risco de morte tem a exata . n. Um defeito de cor (2006). nos anos 1950. nos anos 1930. historiografia e ficção sem nenhuma concessão ao naturalismo fácil. em 1933. Os leitores das obras de Ana Maria Gonçalves. apresenta. Luisa Mahin ou Kehinde – possivelmente a mãe do poeta Luiz Gama –.

inclusive. Significa que a existência de profetas da queda do valor literário é tão antiga como a literatura mesma. objetivo e motivado. 179). Bastaria pensar no considerável poder de tração de valores como o mester de clerecía (a técnica aprendida na tradição) na literatura tardo-medieval hispânica. 1988. um dos elementos constitutivos da comunidade mesma. A coincidência de contingências que conferem inteligibilidade a um valor pode ser. 30-53). esse valor contingente tenderá a aparecer aos membros da comunidade interpretativa como uma não-contingência. absoluto (posto que não relativizável dentro de tal comunidade) e motivado (no sentido de que sua origem não é produto de uma eleição puramente arbitrária). Nada disso mudaria seu caráter contingente. p. o fato de que em 1964 o poeta mexicano Octavio Paz tenha reunido uma lista de sinais de decadência da literatura não quer dizer que “a situação em que hoje vivemos foi claramente prevista” por ele (Perrone-Moisés.. um valor pode ser absoluto. relativismo e contingência O axioma da filósofa Barbara Herrnstein Smith é um achado mais complexo e frutífero do que parece à primeira vista: o valor é sempre e necessariamente contingente (Smith. Um determinado valor ou sistema de valores pode perfeitamente ser objetivo (na medida em que ele independe da subjetividade particular de qualquer membro da comunidade interpretativa). 135 idade do samba. p. No espaço circunscrito da comunidade interpretativa em questão. uma vez consolidado. 1998. Um valor é sempre o resultado de uma luta mas. Da mesma forma. é bom esclarecer que “contingente” não quer dizer “subjetivo” nem “relativo” nem “arbitrário”. é “dentro da comunidade”. claro.Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. um dos fundamentos que presidem a emergência da própria comunidade. a adequação aos modelos da Antiguidade na literatura . axiologia.. e continuaria sendo contingente. Antes que a patrulha antirrelativista afie suas garras. A expressão-chave aqui.

no Brasil. com Cem anos de solidão. Os juízos discordantes tenderão a ser lidos como deficiência ou falta de cultura do sujeito valorador. O grau de estabilidade de um determinado sistema de valores em sua respectiva comunidade não diz nada sobre sua suposta obviedade. Tomemos um exemplo latino-americano: é amplamente hegemônica a percepção de que. 2009 neoclássica do século XVIII. a justificativa de um valor contingente fez uso de um vocabulário da nãocontingência. É claro que é possível questionar essa valoração (e já encontrei vários leitores. que afirmavam que o melodrama de Allende lhes falava à experiência de uma forma que a saga de García Márquez não fazia). seja qual for a crítica que se possa ter à estética do realismo mágico. sua versão original. no entanto. n. digamos. Um exemplo análogo. nem sobre as propriedades intrínsecas do objeto valorado. particularmente leitoras.136 Revista Brasileira de Literatura Comparada. A casa dos espíritos. de Gabriel García Márquez. realizou uma transcendentalização de um processo que era imanente à comunidade valorativa em questão. Em cada um desses casos. de Isabel Allende. ou a inovação e a ruptura nas vanguardas de princípios do século XX. especialmente na França. A afirmação não está na esfera do indizível. mas ela não . mas expressa a naturalização do pacto valorativo. desfruta de um valor ausente em. mas ela não é uma teoria da literatura e do valor estético como tais. A transcendentalização dos resultados de um pacto particular é uma estratégia comum e recorrente nas querelas entre escolas e estilos literários. Os juízos que se adéquam ao pacto valorativo dominante tenderão a ser lidos como confirmação da obviedade e naturalidade dos valores implícitos no pacto. a não ser como sinédoque cega a suas próprias condições de produção. seria o hipotético leitor que adentrasse as comunidades interpretativas dentro das quais circula o romance dos anos 1930 para propor a tese de que Jorge Amado é superior a Graciliano Ramos. não pode ocorrer sem que o sujeito se instale em posição exterior a um consenso crítico que preside as comunidades interpretativas nas quais circulam esses textos. ou seja. Esse questionamento.15.

um relativista. que insiste em igualar desconstrução e relativismo). 137 pode ser acomodada nos pactos valorativos dentro dos quais circulam os romances desses dois autores. de forma alguma. mais baixos.. o neokantismo de princípios do século XX leu como “relativistas” afirmações do tipo “falar de justiça e injustiça em si carece de todo sentido” (Nietzsche. daninhos à afirmação da vida. 312). que não há “justiça” até o momento em que o mais forte estabeleça sua lei. a acusação de relativismo invariavelmente remete a uma suposta tendência dos estudos culturais – ou das demonizadas feministas e afrocêntricos . Ao questionar a obviedade de valores como “bondade”. valores de escravo. A acusação de relativismo tenderá a se repetir quando. Os defensores da naturalidade do pacto valorativo em geral replicarão com a falácia desenvolvimentista: o argumento de que a percepção minoritária é produto de uma deficiência do sujeito valorador e que. Nietzsche ensinou algo acerca de como funcionam as operações de naturalização. ou seja.Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. todos reconhecerão que não há como negar a superioridade estética de García Márquez sobre Allende. Nietzsche não foi. com frequência. 1967-77. claro. Nietzsche sugeria. é o filósofo e poeta Antonio Cicero. for exposta a contingência que sustenta um valor supostamente absoluto.. que “daria tudo na mesma” (um dos expoentes dessa desleitura. não por acaso. A posição que apresento aqui é. Com esse axioma. confundida com o bicho-papão do relativismo. no interior de uma comunidade interpretativa. Mas. A única possibilidade que restaria a esse hipotético leitor seria desvendar a natureza contingente da aparente naturalidade da valoração anterior. dê uma olhada no absolutismo de quem acusa. Nessas polêmicas. p. uma vez que os leitores sejam educados direitinho. para usar a fórmula popular. que afirmaria que todos os valores seriam igualmente válidos ou. Ele afirmou taxativamente que os valores socrático-cristãos são piores. vale sempre a regrinha: ao ver alguém ser acusado de relativista. no Brasil. questionar a totalidade do pacto valorativo. No caso do valor estético. “piedade” e “humildade”.

409). multifacetadas ou especializadas que aquelas feitas pelos ouvintes do heterogêneo corpus de peças europeias modernas que. vocalização. menos complexas. tal “irregularidade” provinha do fato de que a teoria ocidental prevê compassos simples (binários: 2/4. 4/4) e compostos (ternários: 6/8. por exemplo. mas não prevê compassos que misturem de forma sistemática agrupamentos dos dois tipos. Recorro à etnomusicologia.138 Revista Brasileira de Literatura Comparada. n.15. 2009 – de não aceitar a “óbvia” diferença de “qualidade” entre os grandes monumentos da modernidade e as formas estéticas mais populares ou massivas. a acusação de relativismo costuma pressupor que. imanente entre o valor das obras agrupadas sob a rubrica da arte erudita e o valor daquelas que convencionamos chamar de populares ou massivas. na qual me parece que o conceito de valor está colocado em terreno mais sólido. que as distinções valorativas realizadas pelos fãs de música popular não são. 1996). Aceitar essa diferença seria um pré-requisito para qualquer discriminação de valor. passou a ser agrupado sob o rótulo de “música clássica”. Qualquer consumidor de música popular que acompanhe. com pesquisa formal e etnográfica (Frith. Para seguir com a analogia musical: durante décadas. 3/4. absolutamente. Ora. os estudos de música brasileira trabalharam com a noção de síncope como “irregularidade” essencialmente africana. volume. grau de distorção. se essa distinção de valor não é aceita. performance. p. Ou seja. timbre ou padrão rítmico – distinções incompreensíveis e ilegíveis para aqueles situados fora do pacto valorativo que preside o consumo do gênero. instrumentação. poderá testemunhar acerca da miríade de distinções de subgêneros baseadas em andamento. O próprio Mário de Andrade faz referência a ela como característica “tida em geral como provinda da Africa” (1987. Está demonstrado. rigorosas. Carece de qualquer fundamentação filosófica a ideia de que a viabilidade do conceito de valor estético dependa da aceitação de uma diferença essencial. o heavy metal. 9/8). a partir do século XX. temática das letras. exatamente a mistura que . nenhuma distinção de valor é possível.

139 é uma das marcas da música da África subsaariana. para sua correta execução. mas não muita coisa mais. A chamada “irregularidade africana” não era senão a impossibilidade de que a partitura ocidental descrevesse apropriadamente o novo objeto. uma “perfumaria free tax de aeroporto” (Abraham. evidentemente. nos últimos trinta anos. Dois exemplos. 26). é hoje invariavelmente visto como “escritor para adolescentes” (Aira. Na Argentina. O resultado é que “ritmos desse tipo apareceram nas partituras como deslocados. 39). “depois de Todos los fuegos el fuego já não escreveu mais.. 2001) que. p. Na Argentina. étnicas e pós-coloniais do cânone. de Bestiario. a avaliação mais recorrente de Cortázar é que se trata de um escritor em cuja obra talvez se salvem os primeiros contos. O fato é que hoje . anormais. 2008) e “está escrito para candidatos de agência de turismo cultural”. Uma determinada conjunção de fatores estéticos e políticos criou as condições para uma leitura celebratória de Cortázar nos anos 1960. 85). p. nota-se uma acentuadíssima queda no capital cultural de um escritor que chegou a ser considerado um dos maiores do continente. incluindose um que ilustra minhas críticas às revisões feministas. Incontáveis são juízos contemporâneos que veem O jogo de amarelinha como romance que “sofreu enormemente a passagem do tempo” (Sarlo. ajudarão a encaminhar a conclusão teórica. p. o recurso gráfico da ligadura e o recurso analítico da contagem) – em uma palavra. dedicando-se exclusivamente a repetir seus velhos clichês e a responder às exigências estereotipadas de seu público” (Piglia. O valor rítmico contramétrico era ilegível numa notação construída para descrever e privilegiar a harmonia. que inspirou uma geração de neovanguardistas estéticos e revolucionários políticos. 2001. Julio Cortázar.Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. 2006. que não possa vir a fazê-lo num momento futuro). como síncopes” (Sandroni. irregulares (exigindo. Os pactos valorativos na estética se tornarão visíveis em proporção direta à exposição do caráter contingente dos fundamentos que os sustentam. 1993. A obra não parece ter renovado sua legibilidade depois daquele contexto (o que não quer dizer..

resultado de 25 horas de gravações realizadas pela antropóloga franco-venezuelana Elisabeth Burgos. como demonstra uma pesquisa nos bancos de dados da disciplina. 2009 seria bastante difícil encontrar um estudioso de literatura na Argentina que colocasse Cortázar no mesmo patamar de. publicou-se o testemunho de Rigoberta Menchú. Um outro episódio de valoração. Juan José Saer. comuns nos anos 1960. mesmo no caso das obras mais politizadas. na Espanha e talvez nos EUA. também latino-americano. As comparações com Jorge Luis Borges. não quero me limitar a ilustrar o óbvio. por exemplo. e a história de Menchú. uma vantagem do gênero em relação à literatura na representação dos excluídos. Seguindo-se à Agradeço a Mariano Siskind pela interlocução sobre a perda de capital cultural de Julio Cortázar na Argentina e também pela citação de Beatriz Sarlo. étnica e pós-colonial do cânone ainda não refletiram o suficiente: a incontornável descontinuidade entre valor estético e resultado político. que o valor dos escritores na Bolsa Literária (segundo a feliz expressão de Leyla Perrone-Moisés) muda no tempo e no espaço. Era o auge dos movimentos de solidariedade à revolução centro-americana. hoje soariam risíveis aos ouvidos dos que circulamos no interior dos pactos valorativos que presidem a circulação desses textos. Uma tese que se propusesse a comparar “o fantástico em Borges e Cortázar” é imaginável no Brasil. A publicação de Biografía de un cimarrón. n. como a de Cortázar. gerou comentários acerca de uma suposta transparência da voz testemunhal. Há uma lição menos óbvia a se extrair daí. quando Casa de las Américas criou uma categoria especial para o gênero em seu prestigioso prêmio.140 Revista Brasileira de Literatura Comparada. de Miguel Barnet. O testemunho havia recebido um primeiro reconhecimento em 1967. oferece algo a ser pensado pelos dois polos do atual debate: a entrada do testemunho ao cânone literário.6 Com o exemplo de Cortázar. Em 1983. sobre a qual as revisões feminista. formada na luta contra os horrores do regime guatemalteco. 6 .15. comoveu uma série de críticos de esquerda que buscavam alternativas a uma política literária herdada do boom. Mas na Argentina ela seria recebida como uma junção de termos incomensuráveis.

20) ao testemunho como “expressão de uma consciência liberada de tal elitismo” (p. . A incorporação de depoimentos dos subalternos ao cânone não representou nem um assassinato de Cervantes e Borges pela barbárie iletrada. 1992). p.. em geral um antropólogo) levou a própria crítica a matizar a euforia do primeiro momento. como chegaram a lamentar Roberto González Echevarría e outros expoentes da direita crítica latino-americana. a ênfase nas mediações por meio das quais a voz testemunhal se registra na escrita e a análise da descontinuidade entre a posição do depoente (um subalterno. como chegaram a celebrar John Beverley e George Yúdice. homossexuais.Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. patriarcal e ‘letrado’. 141 publicação do testemunho de Menchú. 2001) ou no papel do testemunho como recuperação imaginária de uma vocação política perdida na literatura (Avelar. branco. Entretanto. camponês ou imigrante) e a posição do mediador (um intelectual. 2003. masculino. Estudos fundamentados no problema da mediação (Sklodowska. o testemunho permite a emergência – mesmo que mediada – de identidades femininas. nem um golpe ao poder “elitista” da literatura. na aura de autenticidade da voz do subalterno (Moreiras. 51-104) relativizaram a “revolução” testemunhal que parte da esquerda anunciara nos anos 1980. A euforia levava a declarações como a de John Beverley. logo absorvido pelo pacto valorativo que preside a leitura do corpus latino-americano. indígenas e proletárias” (1993. Tanto esteticistas como culturalistas sobrestimam as consequências da revisão de uma lista de leituras. O saldo do episódio da canonização do testemunho foi que o texto de Rigoberta Menchú produziu um impacto importante. ela funciona como explicação simples para o complexo quadro de perda de capital cultural da literatura. 26). no interior dos estudos sobre o testemunho. p. em geral indígena. George Yúdice opôs a literatura como “portadora privilegiada da identidade nacional” (1991. de que enquanto a literatura na América Latina “tem sido (principalmente) um veículo para engendrar um sujeito adulto. p. 98).. Para os primeiros. mas limitado.

dedicado à comparação entre as várias belas artes (segundo Kant.] um poema bom. Kant faz. A grande tarefa da teoria não seria. então. referências ao valor de um ato (§91). Recorde-se que. o conceito de valor [Wert] não aparece no contexto do estabelecimento da estética. para Kant. como se toda estética pressupusesse a noção de valor. Ou seja. A única menção ao valor num contexto estético ocorre em §53.. n. sugiro rotas de dissociação entre esses conceitos. todas essas ocorrências se referem a uma esfera extraestética. Este é um fato filológico tão banal quanto regularmente esquecido: na origem da estética.142 Revista Brasileira de Literatura Comparada. 2009 Para os segundos. então. a estética seria a esfera da experiência Que Antonio Cicero decrete que “quando digo que um texto é [. ao valor da existência humana (§4) e à necessidade do postulado da existência de seres racionais para que o mundo seja dotado de valor (§87). não estou dizendo meramente que gosto dele. o sexismo. Mas não há. Ambos trabalham com o cânone. na Crítica do juízo. ou como se valorar obras de arte sempre implicasse que o juízo em questão fosse estético. funciona como mecanismo compensatório que permite a apresentação de novas listas de leitura. na Crítica do juízo kantiana. o valor e a estética de forma a não permitir nenhuma descontinuidade entre os três termos. mas que todo mundo que o 7 . mas introduzir algum espaço de respiração na interseção entre esses três conceitos. Como se sabe. com observações acerca do que denomino uma concepção agnóstica de valor literário. como se estas representassem uma vitória política real contra o racismo. no sentido mensurável.. o etnocentrismo e a opressão de classe. não há conceito de valor. mais inclusivas. salvar a literatura ou democratizar o cânone. Para uma genealogia do conceito de valor estético Os conceitos de valor e de estética terminaram. nenhuma hierarquia do belo. sim. quantitativo que é próprio do conceito.15. a mais alta seria a poesia). nenhuma atribuição de valor à beleza. sendo vistos como contíguos entre si por esteticistas e culturalistas. Para concluir.

Ao enfrentar-se com a pergunta acerca de como se chegou a delimitar o terreno propriamente estético. econômico. ao propor a tese da contingência do valor. Sugiro. 230). “nem sequer se dá conta de que. não há outro vocabulário que não o da economia.. que o valor estético de Grande sertão: veredas possa ser deduzido do preço da mercadoria comercializada pela Editora Nova Fronteira. ela se limita a apresentar uma negativa. evidentemente. já amplamente criticada pela tradição (a começar pelo próprio Hegel). exatamente como ocorre com o gosto do abacate.. p. sendo sua maior ou menor presença em cada obra o critério para sua valoração. não sugiro. ao dizer tais coisas. não torna essa distinção verdadeira.. considere desinteressadamente deve reconhecer” esse suposto fato e que. apresentada como apreço que necessariamente demanda universalização. Caso se apresente a objeção de que a impossibilidade de submeter o belo a fórmulas comparativas contraria todo o senso comum que desenvolvemos como consumidores de arte. incorre em paradoxos que solapam suas próprias teses” (2009b. em negociação e em articulação. p. que esse valor se deduz num contexto eminentemente relacional. remete-se o interlocutor à existência de obras que exibem. Deixemos de lado o caráter escorregadio dessa premissa. 1998.7 Por isso. incontáveis leitores dizem que “No meio do caminho” é um bom poema e outros incontáveis leitores dizem o contrário. 8). Quando Cicero afirma que Barbara Herrnstein Smith. por outro lado. Todas as definições não econômicas de valor estético que tenham pretensões trans-históricas incorrem em versões mais ou menos sofisticadas de uma tautologia: define-se o valor como a presença de certos traços formais (sejam quais forem) ou a capacidade de produzir certas sensações.. “se digo ‘eu gosto de abacate’. Decretar que estes últimos são maus leitores não resolve o problema teórico. Quem afirma a contingência do valor não está conferindo ao objeto valorado um atributo que permaneceria no tempo. não há que se repreender Barbara Herrnstein Smith por remeter o valor estético ao terreno da economia (Perrone-Moisés. 143 desinteressada do belo. jamais de grau. não pretendo o mesmo” (2009a). ele parece não ter se dado conta de que há um capítulo inteiro de Contingencies of value dedicado a refutar a objeção de que supostamente não se poderia afirmar que o valor é sempre contingente sem cair em contradição. é pueril argumentar que não podemos afirmar que “o sentido não é eterno e unívoco” pelo fato de que essa frase supostamente teria um sentido eterno e unívoco. Na verdade. mediados por . concordância de todos. Os enunciados falsificáveis evidentemente não se submetem às mesmas regras de verificabilidade dos não falsificáveis. No mundo real. não custa lembrar que o próprio pilar da analítica kantiana do belo – a demanda de concordância universal sobre o juízo – também embute um patente contrassenso. sim. Esses traços ou potencialidades passarão a ser apresentados como característicos da experiência estética. Ao propor que não há conceito não tautológico de valor estético fora da economia. A frase não confere um atributo ao sentido. Em bom português: no debate entre agnósticos e crentes. Ou seja.Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. no qual atos de valoração socialmente situados entram em conflito. Basta ler a analítica do belo (§6 a §22) para constatar que Kant o entende como objeto de um juízo de tipo. o ônus da prova cabe a estes. aqueles traços inicialmente definidos como característicos do estético! Não é à toa que os alunos não aceitam isso facilmente.

Já está presente em Aristóteles a compreensão de uma diferença clara entre o valor de uso e o valor de troca: “todas as coisas que são trocadas devem ser de alguma forma comparáveis. As genealogias da economia política em geral conferem a Riqueza das nações. extrai sua origem do trabalho” (Foucault. 2009 instituições como a escola. 71). O conceito da comparabilidade universal precede. 269).144 Revista Brasileira de Literatura Comparada.15. 270). que serve de fundamento a todas as outras trocas: “o trabalho é a real medida do valor intercambiável de todas as mercadorias” (Smith. de rentabilidade limitada. O objetivo aqui não é traçar uma analogia entre o valor estético e o valor econômico. p. É o próprio Marx que. dá o crédito a Aristóteles como o “primeiro pesquisador a ter analisado a formavalor” (1952. na qual ele sempre teve sua morada mais sólida. com Ricardo. nas teorias imanentistas do valor estético. mas justamente notar que há uma operação analógica silenciosa. portanto. o mérito da ruptura com a natureza circular do debate anterior. ocorre não a partir do fato de que o “trabalho seja um valor fixo. no primeiro capítulo de Capital. p. a economia política em mais de dois milênios. o trabalho. É o trabalho que lhes confere valor e explica a possibilidade de equivalência entre duas mercadorias distintas. n. É para esse fim que se introduziu o dinheiro” (1133a). a imprensa e a crítica. A consolidação da teoria do valortrabalho. 1992. de Adam Smith. 1999. p. vale a pena refletir sobre como a economia política entendeu o valor. pressupõe um transcendental. qualquer que seja. O conceito de valor. 1992. entre fisiocratas e utilitaristas. pelo menos na economia política. p. Para compreender sua dinâmica. Smith escapa da circularidade da equivalência universal das mercadorias ao dotar um conceito de um papel transcendental. A economia . num processo que conforma um equilíbrio nunca completamente estável – o que venho chamando aqui de pacto valorativo. 581). dedicado à mercadoria. constante e permutável sob todos os céus e todos os tempos. que delimita uma região na qual a representação “não tem mais domínio” (Foucault. mas sim porque todo valor.

e pode assim realizar várias funções para nós (Smith.. Haveria que se estudar o que. que a lei do valor-trabalho se aplica a objetos reprodutíveis. 145 política sempre enfatizou. o trabalho. e portanto sua permanência no tempo não se explica imanentemente: A permanência de um autor clássico como Homero se deve não ao valor supostamente transcultural ou universal de suas obras mas. essa observação não é o fim. Na economia. essa altamente variável entidade à qual nos referimos como “Homero” recorrentemente entra na nossa experiência em relação com uma grande variedade de nossos interesses. produtos do que ele chamou de “infância da humanidade”. pelo contrário. Repetidamente citada e recitada. de que o mistério não era explicar que a arte grega emergiu como produto de circunstâncias históricas particulares próprias à sociedade helênica. traduzida. à continuidade de sua circulação numa cultura particular.. 1998.. Evidentemente. O trabalho que produz a obra de arte não é traduzível. 52-53). ainda nos fascinam e mantêm sua legibilidade.]. a teoria do valor depende de um transcendental. lecionada e imitada. p. claro. e que o cálculo do valor da mercadoria como quantidade de trabalho socialmente necessário para a sua produção não se aplica a objetos estéticos. a teoria do valor estético só pode definir o valor imanentemente a partir das operações circulares descritas acima. Atesta-o a célebre observação de Marx na introdução aos Grundrisse. e completamente inserida numa rede de intertextualidade que continuamente constitui a alta cultura [.Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. não muito diferentes das equivalências universais tautológicas dos economistas anteriores a Adam Smith. A manutenção do valor de uma mercadoria ao longo do tempo se explica pelo fato de que ali se aninha uma quantidade determinada de trabalho que mantém alguma tradutibilidade (com as naturais oscilações que serão fruto das próprias variações no valor do tipo de trabalho que se encontra ali congelado). mas o prolegômeno da pesquisa. mas entender como e por que os poemas homéricos. . Na ausência desse transcendental..

A história da profissionalização do escritor e das suas relações com a imprensa e com o mercado ainda nos oferece vastas zonas de pesquisa não realizada. 1990) ou as tecnologias da reprodução (1987). 2001). 2009 em cada situação e contexto. de Manuel Bandeira (1963) a Italo Moriconi (2000. escolas. a recuperação de facetas pouco exploradas dos escritores mais canônicos. 2001). a valiosa sequência de pesquisas feitas por Marisa Lajolo e Regina Zilberman sobre a história da leitura e do livro (Lajolo e Zilberman. para não mencionar mais que alguns exemplos. as pesquisas de Flora Süssekind sobre as relações da literatura com outros discursos. 1996. No caso do debate sobre o valor que tem se desenvolvido nos estudos de literatura brasileira e latino-americana.15. Acredito que ainda sabemos pouco sobre o papel das antologias.146 Revista Brasileira de Literatura Comparada. 1991. na conformação do sistema de valores literários brasileiros. o estudo de Roberto Ventura sobre as polêmicas literárias. O postulado da contingência essencial do valor só abre um espaço de relevância ainda maior para essas pesquisas. 1991). n. 2001). essas verdadeiras máquinas de produção e destruição de valor (Ventura. permitiu que cada obra realizasse as funções que os vários leitores. uma série de novos escritores faz uso das tecnologias de publicação online para circular seus textos e manufaturar concepções emergentes de valor literário. instituições. academias e intertextos lhe atribuíram ao longo dos anos. 2009) –. como os relatos de viagem (Süssekind. Para além do lamento de que a internet é responsável por uma queda na qualidade e na frequência da leitura das novas gerações – queixa jamais fundamentada com pesquisa empírica e agora patentemente desmentida (Castells. ganharíamos terreno se o dissociássemos da polêmica entre o culturalismo e os defensores do “cânone ocidental” e o remetêssemos a todo o vasto material que pode informar uma futura história da construção do valor literário no Brasil: o erudito mapa traçado por Raúl Antelo do ideário da transgressão na modernidade (Antelo. como a recente antologia de escritos de Machado de Assis sobre a afrodescendência realizada por Eduardo de Assis Duarte (2007). .

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de Nélida Piñon. de Augusto Boal. we intended to create an ideological relationship between the American students who took the course and not only the Brazilian literature but also the Brazilian context. These experiences were done with American Students from the University of North Carolina at Chapel Hill (UNC-CH). palavras-chave: literatura brasileira. de Clarice Lispector. Marina Colasanti’s little Girl in Red on her way to the moon and Clarice Lispector’s the Hour of the star. educação. pretendemos criar uma relação ideológica entre os alunos americanos e não só a literatura brasileira. abstract: This paper analyzes experiences with the teaching of Professora adjunta de língua inglesa (Graduação) e de literatura (Mestrado em Letras) da Universidade Federal do Piauí (UFPI). Teatro do Oprimido. By using a theater method based on the Augusto Boal’s Theater of the Oppressed. e a hora da estrela. de Marina Colasanti. Here I propose an evaluation of the exercises done based on the reading of Nélida Piñon I love my husband. especially texts written during the second half of the last century. menina de vermelho a caminho da lua. ∗ Brazilian literature. em especial textos escritos na segunda metade do século passado. Ao utilizarmos um método teatral baseado no Teatro do Oprimido. as a means of dealing more efficiently with some issues presented by our literature and which directly concern texts by women authors. .151 O ensino de literatura brasileira por meio do Teatro do Oprimido: uma experiência na Carolina do Norte Érica Rodrigues Fontes* resumo: Este trabalho analisa experiências no ensino de litera- tura brasileira realizadas com alunos estadunidenses da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill (UNC-CH). Aqui se propõe uma avaliação de exercícios a partir da leitura de I love my husband. mas o contexto brasileiro. de forma a lidar mais eficientemente com algumas questões apresentadas em nossa literatura e que concernem diretamente textos de autoria feminina.

n. pois. Como afirma Leonard Davis: “Novels do not depict life. percebi dois pontos de interesse comum das culturas e literaturas estadunidense e brasileira: as minorias políticas e as questões identitárias. Portanto. ao selecionar textos para leitura e debate em sala. p. Muito mais do que o ensino de movimentos literários. métrica ou outros assuntos de interesse da literatura. Depois de ensinar em cinco turmas de graduação a matéria Literatura Lusófona na Carolina do Norte. portanto. Theater of the Oppressed. embora neste país da América do Norte exista muita exposição à cultura de outros países. criar para os alunos possibilidades de interação com a mentalidade brasileira. 1 . 2009 Brazilian literature. como afirma Linda Hutcheon (1999). 24).15. a uma exposição sobre a história e política brasileiras. e por ater-me principalmente ao ensino das obras escritas no Brasil. Introdução Ensinar literatura brasileira no exterior (e para estrangeiros) está obrigatoriamente atrelado a uma experiência cultural. Nos Estados Unidos. procurei priorizar esses dois temas. they depict life as it is represented by ideology”1 (Davis. Assim. De fato. a ideologia é a própria representação da cultura. torna-se um compromisso do professor de literatura brasileira.152 keywords: Revista Brasileira de Literatura Comparada. Minha tradução. Houve. não há de fato acesso à perspectiva ideológica de outras nações. no contexto estadunidense. pois. é em sua temática que nossa literatura parece ser mais enriquecedora quando pertencente a um currículo estrangeiro. tal ligação se torna indispensável. education. uma preocupação com a criação de uma estratégia de relacionamento entre a nossa realidade e a realidade do país onde a nossa está Romances não mostram a vida. com a interpretação brasileira de mundo. os textos escolhidos foram considerados representativos da ideologia brasileira contemporânea com atenção para os temas supracitados. 1987. Eles mostram a vida como representada pela ideologia.

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sob estudo, pois, embora muitas vezes essa ideologia esteja clara para um nacional da literatura lida, para o estrangeiro ela precisa ser apontada. Como exemplo, cito um momento de debate sobre a personagem Macabéa do romance A hora da estrela, de Clarice Lispector. Para os alunos do curso, em sua maioria nascidos em um contexto rural como o da Carolina do Norte, era quase impossível entender a condição tragicômica dessa personagem, pois ela está inserida em um contexto urbano, onde mora longe de seu estado de origem, com pessoas desconhecidas. Os fatos engraçados que acontecem na vida de Macabéa são gerados pela sua estranheza, pela sua falta de adaptação à sociedade, sua marginalidade. Se nos EUA a principal razão para os jovens saírem de sua terra natal é estudar em uma boa instituição, no Brasil o principal motivo para o êxodo jovem tem razões muito diferentes: a fuga da fome, da miséria e da pobreza. Para os alunos norte-americanos, portanto, entender o comportamento de Macabéa tornava-se difícil. Eles consideravam-na simplesmente um ser humano desprovido de inteligência e, então, digno de risadas e deboche. Foi preciso comparar a situação dessa personagem com uma vítima da pobreza, fome e desastres naturais no estado do Mississippi (o mais pobre dos Estados Unidos) para que os alunos entendessem a tragicomicidade da obra. Muito provavelmente pela dificuldade de localizar pontos de interseção entre as duas culturas é que outros instrutores do curso supracitado haviam detectado que a participação dos alunos nas discussões era bastante inferior às suas expectativas e que as atividades, em muitos casos, eram desinteressantes para os discentes. Foi principalmente por causa do aparente desinteresse dos alunos pela disciplina que resolvi implementar em minha aula de literatura exercícios de teatro para posterior montagem teatral e um segundo momento de discussão. A metodologia escolhida foi a do Teatro do Oprimido, objeto de minha pesquisa de doutorado.

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O projeto relatado neste artigo teve por objetivo a melhor absorção de conteúdos literários pelos alunos de literatura de graduação de diversos cursos da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill (UNC-CH). Realizado de agosto de 2004 a julho de 2006, ele revela experiências ocorridas nas turmas de Português 40 (Introdução à Literatura Lusófona), das quais fui instrutora, enquanto aluna de mestrado e doutorado na UNC-CH. Neste artigo, analiso exercícios teatrais desenvolvidos a partir de três textos brasileiros de autoria feminina: I love my husband, de Nélida Piñon, Menina de vermelho a caminho da lua, de Marina Colasanti, e A hora da estrela, de Clarice Lispector. Os textos foram analisados e encenados a partir de traduções inglesas das obras, nos moldes do Teatro do Oprimido e principalmente do Teatro Fórum (técnica de Boal para discussão de problemas sociais no palco, a ser explicada a seguir, juntamente com sua adaptação para a aula de literatura). Por meio dessas técnicas e de sua adaptação para as aulas, os alunos se colocam no lugar de personagens brasileiros, discutem a resolução do seu problema e depois trazem algumas situações para o contexto estadunidense, ao debater ou analisar problemas equivalentes nas duas Américas ou, mais especificamente, nos dois países. Há pelo menos dois fatores que favorecem a utilização do método teatral de Boal nessa aula de literatura: a ideologia sob a qual os textos tratados foram escritos (condição subalterna da mulher e a sua necessidade de liberação) e o fato de o Teatro do Oprimido ser um tipo de teatro que tem como proposta final a discussão de problemas sociais. Esses textos traduzem opressões contemporâneas vivenciadas no Brasil e que têm equivalentes na sociedade norteamericana, ainda que estes não sejam divulgados. Assim, descreveremos como foi proporcionada essa ligação entre a identidade norte-americana e a identidade brasileira para o ensino de literatura brasileira, visando exclusivamente a um melhor aproveitamento literário e cultural dos alunos,

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originado por uma maior convivência com as obras, por meio do envolvimento teatro-lúdico. Neste artigo me concentrarei no resultado concernente ao trabalho desenvolvido com os textos supracitados. As duas últimas obras foram estudadas no final do semestre, indicando um envolvimento mais profundo dos alunos com a metodologia.
As observações descritas a seguir foram feitas a partir das experiências de sala de aula e baseadas nas ideias retiradas do livro Técnicas latino-americanas de teatro popular, de Augusto Boal. Os seus métodos teatrais, mais divulgados com a publicação do livro Teatro do Oprimido, ocorrida no início dos anos 1970, ficaram conhecidos em todo o mundo e priorizam uma participação mais ativa do espectador, que vai além do modelo observador e consciente apresentado pelo dramaturgo alemão Bertolt Brecht.2

Walter Benjamin explica que, no teatro épico de Brecht, priorizam-se a crítica social e a interrupção da ação dramática (os momentos narrativos são exemplo dessa interrupção) para reflexão sobre a crítica encenada. O público, porém, não participa do espetáculo ativamente. No teatro de Boal, diferentemente, o público pode interferir diretamente na ação, encenando suas sugestões, ainda que sob a supervisão e orientação de um diretor, o Curinga.
2

É no Teatro Fórum, uma das técnicas do Teatro do Oprimido, em que há o incentivo à discussão de problemas sociais, que a participação da plateia pode ser mais claramente notada. Neste modelo de teatro, a primeira parte de uma peça é tradicional (com a separação entre público e atores), se dá em aproximadamente 30 minutos e apresenta pelo menos um problema ou erro em cada cena. Por erro entende-se uma situação social de opressão, sendo o erro, portanto, cometido pelo opressor e também por uma falta de postura mais libertária do oprimido. Na segunda parte da peça, que é introduzida por um Curinga, espécie de diretor teatral, perito na metodologia de Boal, o objetivo do público é, então, tentar consertar ou remediar o erro. O Curinga indica para a plateia que as cenas poderão ser modificadas por meio da substituição do oprimido (de acordo com a ideologia do Teatro do Oprimido, somente o oprimido pode ser substituído), com quem a plateia é levada a se identificar. Muitas vezes ela (plateia) até tem uma história que já auxilia esse processo, visto que muitas das peças são apresentadas em edifícios públicos, tais

156 Revista Brasileira de Literatura Comparada. já que a plateia é inicialmente incentivada a identificar-se com o oprimido. As exceções com relação à substituição ocorrem somente no caso de o opressor tornar-se ainda mais cruel em sua opressão. não é a substituição do opressor que modificará ou ensaiará uma modificação social. Passemos então a um breve relato das experiências que. Além disso. Comecemos com I love my husband. a partir de então. consequentemente. a plateia tenta modificar uma postura sobre a qual não tem nenhuma influência no dia a dia. com protagonistas que querem mudar a sua história de vida. Nesse conto. tendem a permanecer iguais. Quando o opressor é modificado. pois estes. evita falar de amor com ele porque há. temos o retrato de uma mulher que é praticamente escrava de seu marido: faz para ele café todos os dias. deve mudar para que. Ou seja.15. feito por ele e mostrado para ele. o sistema social não testemunha uma frequente mudança na atitude de pessoas que fazem o papel de opressores. n. 2009 como escolas. na concepção deste. sugerir uma interpretação mais profunda destes. lentamente. muitos outros . não há muito que o oprimido possa fazer a respeito. que divide a sociedade no binário oprimidoopressor (equivalentes ao protagonista e antagonista. de acordo com o Teatro do Oprimido. serão perfeitas ilustrações de como a leitura de um conto ou outro tipo de texto literário pode ser enriquecida com este método. o teatro do oprimido em I love my husband Nas aulas mencionadas. e retratam os contextos socialmente carentes do espectador. prepara tortas de chocolate. o sistema mude a seu favor. por si só. usei a ideia geral do Teatro do Oprimido. pois não é esse o papel que faz e. ao substituir o opressor. hospitais e prisões. então. porém. postura justificada pelo fato de que o Teatro do Oprimido é do oprimido. respectivamente) para estudar as relações presentes nos textos e. A atitude daquele que é vítima de opressão.

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problemas que merecem mais atenção, como, por exemplo, a situação econômica do país. Esta mulher, completamente submissa a seu marido, segue mecanicamente as ações que são esperadas dela como uma boa esposa: está feliz quando ele chega em casa às sete da noite e tenta reclamar cada vez menos do seu serviço de casa. No final do conto, relembra os votos de seu casamento e conclui que, sim, ama seu marido, embora o que ela relata seja digno do sentimento oposto. Após a leitura desta obra, houve um debate sobre a literatura de autoria feminina nos anos 1980 como reacionária à predominância de textos de autores masculinos até pouco tempo antes dessa década. Depois de traçarmos um breve painel sobre a liberação da mulher e sua repercussão na literatura, comentamos o conto propriamente dito. Com relação a esse texto, pedi aos alunos que fizessem um exercício anterior à identificação do opressor e oprimido da obra, normalmente o primeiro passo para aplicação da metodologia de Boal. A turma foi dividida em duplas e pedi a elas que escolhessem o momento que demonstrasse uma intensa emoção e que exagerassem essa emoção em uma cena teatral. Por termos pouco tempo para apresentar esse exercício, apenas três cenas foram mostradas para toda a turma, após um curto período de prática, e merecem atenção particular. Na primeira cena, uma aluna se comportou como uma guerreira, gritando e portando-se ferozmente. Revelou-se então sensual e bela durante a ausência de seu marido. Essa cena levou-nos a debater sobre o caráter frustrante do cárcere privado da esposa do conto, combatido em sua vida onírica. A segunda cena mostrou um marido mais agressivo do que o descrito no conto, o que exigiria uma postura mais firme de sua mulher para que esta pudesse ter uma vida mais digna. A última cena mostrou a esposa literalmente como uma escrava, absolutamente dominada pelo marido e impossibilitada de mover-se por si só. Depois desses exercícios, discutimos a natureza da opressão nesse conto e chegamos à conclusão de que ela

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é proveniente do machismo e da condição subalterna da mulher, muitas vezes aceita por ela mesma passivamente. No texto, a liberação dessa dona de casa acontece somente em um mundo fantasioso, quando ela se mostra uma amante selvagem, cercada por javalis e pelo Clark Gable. Posteriormente, as duplas definiram o opressor e o oprimido, encenando suas adaptações de I love my husband. Uma das duplas mudou o final do texto, sendo o marido vítima de homicídio. Nessa adaptação, a mulher se mostrou falsamente mais solícita e amável do que no conto, o marido se mostrou mais agressivo e inconformado com a mulher e o homicídio aparece como resolução óbvia, embora não seja esse o objetivo do Teatro do Oprimido, que quer fornecer para o público, por meio do teatro, os meios para que o problema seja examinado, e não sua resolução.

o teatro do oprimido em Menina de vermelho a caminho da lua
O segundo texto em questão, Menina de vermelho a caminho da lua, trata do universo infantil pervertido pela desigualdade social. O título alude à cor da roupa de uma menina de aproximadamente dez anos de idade que intenciona brincar em um parque de diversões, mesmo não tendo dinheiro para isso. A história inicia-se com a mãe de duas meninas contratando um narrador a partir de um anúncio de jornal para relatar o episódio do pseudoencontro entre ela e a menina de vermelho. Embora a mãe prefira uma mulher para narrar a história, tem de aceitar um homem, única pessoa que responde ao anúncio, requerendo que ele use roupa de mulher para ver se, de alguma forma, terá uma atitude mais feminina. Assim, o homem escreve todo o tempo vestindo uma saia rosa e um lenço na cabeça, e com pouquíssima autonomia, pois a mulher se declara detentora dos fatos, fazendo com que sejam narrados segundo a preferência dela.

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O conto narra a ida dessa mãe com suas duas filhas a um parque de diversões em um sábado e, principalmente, seu encontro com a realidade de uma menina de rua de dez anos de idade que, por não ter dinheiro para andar na mesma atração que suas filhas (uma bolha, espécie de pulapula), insinua-se sexualmente para o homem responsável pelo brinquedo para poder brincar de graça. O estilo do texto descreve o erotismo e a sexualidade precoces de uma pré-adolescente que usa seu corpo como meio de adquirir aquilo que ela não pode com dinheiro. Verbos que aludem à experiência sexual (“penetrar” e “perfurar”, por exemplo) são uma constante em todo o texto, usados mesmo quando não descrevem momentos sexuais. Quando acaba o sábado e essa menina descalça vai embora, sendo observada pela mãe das duas meninas, sua figura juvenil mancha o ar de vermelho (referência à cor de sua roupa), indicando, muito provavelmente, a perda da inocência e o ingresso em um mundo cruel para os desprovidos de bens materiais. Na discussão inicial, vários foram os pontos levantados a respeito desse conto. Nele, há uma menina que precisa utilizar-se de táticas sensuais e até sexuais para conseguir o que a falta de dinheiro não lhe proporciona, um homem sem voz e submisso a uma mulher (na figura do narrador) para quem trabalha e a discrepância social entre as filhas da mulher que contrata o narrador e a menina de vermelho no parque. Não podemos deixar de falar também da omissão dessa mulher em relação à situação da menina de vermelho e da literatura como canal de reação social, pois é ela o meio que a mulher usa para tornar a sua história pública e passível de crítica. Os alunos mostraram-se surpresos principalmente em relação à prostituição infantil que, nos EUA, não é tão visível ou noticiada quanto na América Latina. Como lemos uma tradução para o inglês intitulada Little girl in red on her way to the moon, o fato de a menina usar de artifícios sexuais se torna ainda mais desconcertante, porque ela não é apenas uma menina. Na tradução inglesa, ela é uma menininha, o que acentua ainda mais a pouca idade

no entanto. os alunos foram motivados a buscar informações a respeito do tópico e descobrir a situação desse crime em vários países. os alunos questionaram a sensualidade precoce da cultura latino-americana. chegou o momento de aplicar a metodologia de Boal ao texto. . de aproximadamente cinco componentes cada. que contrata um narrador para a sua história. Por conta da alusão da história à prostituição infantil. mas foi necessário indicar para eles a drástica diferença entre sensualidade e prostituição como meio de sobrevivência. o que independe da idade. onde há crianças de rua em maior quantidade. 2009 de um ser humano já iniciando na prostituição. Esse resultado confirmou a incidência da prostituição infantil nos países em desenvolvimento. normalmente temos acesso a diversas interpretações de uma mesma obra. Em alguns momentos. Após a discussão da obra literária e apresentação de sua crítica social. A turma foi dividida em seis grupos.15. principalmente nas regiões menos desenvolvidas. Há a opressão do homem contratado para narrar a história travestido de mulher e sem a possibilidade de expressar a sua voz. O primeiro passo para o trabalho em grupo foi definir onde havia a opressão no texto ou quem era o oprimido e estava lutando pelo seu lugar na sociedade. também existe prostituição infantil em grande quantidade nos EUA. pois esta é da mãe das meninas (uma inversão da opressão à qual normalmente as mulheres são submetidas). Para a surpresa de muitos. que muitas vezes assumem uma vida com hábitos adultos antes mesmo de chegarem à adolescência. exatamente para desabafar e se eximir da culpa de não ter feito nada para ajudar uma menina da idade de suas duas filhas. n. existem outras opressões: a opressão pela qual passa a mãe das duas meninas. Nesse ponto. O resultado dessa pesquisa foi apresentado individualmente na aula imediatamente posterior.160 Revista Brasileira de Literatura Comparada. comumente atingindo as crianças de rua. Embora tenhamos a menina de vermelho como protagonista e possivelmente a única apontada como oprimida na leitura inicial.

Um dos grupos acentuou a opressão à qual foi submetido o narrador. vimos que. E os últimos dois resolveram falar do homem como vítima da prostituição infantil. Nessa cidade universitária de uma área abastada dos Estados Unidos. Ao lidarmos com a metodologia de Boal. a opressão a ele não passou despercebida no conto. Outro grupo chamou atenção para a angústia da mãe ao narrar a história por meio desse homem. surpreendentemente. pois também nisso via-se uma falta de liberdade para que essa mulher expusesse seu ponto de vista livremente. como é o caso de Chapel Hill. uma situação encenada na aula (uma adaptação do texto original) por um desses dois últimos grupos demonstrou as agruras de um menino que fora expulso de um orfanato e começou a se prostituir como resultado do preconceito social. Esta é provavelmente uma das poucas casas comerciais que nunca fechou as portas nesta cidade. muitas vezes. uma discussão sobre quem sustenta a prostituição em países desenvolvidos e em cidades universitárias americanas. Houve. Depois de uma longa discussão a respeito da prostituição local. o sistema social .. Outros dois grupos preferiram falar da menina de vermelho e da precocidade de suas ações por conta de sua situação social. os objetivos são claros: identificar a opressão e criar meios para que o oprimido tenha voz para lutar contra ela. onde sempre se deve utilizar a porta traseira (conforme aviso fixado na porta). pois. os seis grupos mostraram diferentes facetas da opressão em Menina de vermelho a caminho da lua. onde esta discussão específica ocorreu. 161 Assim. Assim. porque ao sair do orfanato ninguém lhe deu emprego.. há um local que está aberto 24 horas por dia: o University Massage. As diversas interpretações da opressão mostradas no conto motivaram debates sobre a origem da opressão sexual e sobre o que favorece a sua proliferação dentro do sistema no qual vivemos. talvez aludindo ao que historicamente acompanhou (e muitas vezes ainda acompanha) a trajetória da mulher no Brasil.O ensino de literatura brasileira por meio do Teatro. como vimos. salientando o fato de que são oprimidos todos os que agem sem ter autonomia sobre suas ações.

Nessa obra. A personagem de Clarice em seu romance final é quase subumana. à semelhança de outros de seus contos e romances.162 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Lispector divaga sobre o poder do autor ao dar vida e matar. nome que remete aos revoltosos macabeus. Em vários momentos. seu namorado. Olímpico. pois reconhecem um no outro sua origem e trajetória de vida. esse romance pretende entender a própria existência. M. mas nem um pouco irreal para aqueles que conhecem a população brasileira. poder concedido por ela a Rodrigo S. n. A partir daí refletimos sobre o que pode ser feito para minimizar esse poder opressor. a autora deixa o universo da alta classe média para penetrar no mundo marginal e excluído do nordestino que se muda para o sudeste em busca de uma vida melhor. uma vida estranha. Mas o foco é mesmo a moça virgem que bebe coca-cola e tem um nome estranho. onde se veem quase como em um espelho. sendo esta mantida por pessoas instruídas e ricas. Juntamente com Um sopro de vida. um namorado estranho. sua extensão e diversidade temática explicam a preferência por estudá-lo no final do curso. Embora sua protagonista seja novamente uma mulher com o nome estranho de Macabéa. Clarice Lispector não mantém o foco em suas protagonistas donas de casa dominadas por um sistema que subjuga a mulher. Embora ele tenha sido escrito e publicado antes de Menina de vermelho a caminho da lua. colocando-as quase como um objeto em suas próprias residências. para dar início e fim a sua protagonista. Em A hora da estrela.15. 2009 sustenta a prostituição. coincidindo com o final da vida de Lispector. Isso se torna óbvio quando lemos a respeito do primeiro encontro dos dois. que é aludida quando a autora utiliza-se de questões de autoria no romance. em 1977. o teatro do oprimido e A hora da estrela O próximo texto em discussão foi o romance A hora da estrela. de Clarice Lispector. Talvez por isso a história de Macabéa seja mais trágica para . também é tão excluído quanto ela.

O mais interessante no relacionamento dos dois são os diálogos. namorado. Diz que Macabéa só faz perguntas tolas e. Olímpico afirma que ela pagará a diferença de preço. colega de trabalho de Macabéa. E. há um interesse maior nos tópicos relacionados à mulher. mas para os dois grupos a história sempre mantém seu quê de tragédia e comédia. Isso porque. Sua hora de brilhar só acontece mesmo no momento da morte. Olímpico a troca por Glória. as mulheres estão todas em uma situação de opressão social. se for o caso. recebe uma resposta grosseira. pois Olímpico se julga inteligente e vencedor. ele nunca assume sua ignorância em relação às respostas. a própria Glória sugere a Macabéa que vá à casa de Madame Carlota. O tratamento ao qual é submetida Macabéa pelo chefe. O título e seus vários subtítulos (A culpa é minha. Após uma breve exposição sobre o romance e a discussão inicial a respeito da obra com as turmas. desprovido de qualquer capacidade in- . E é Carlota que prevê um futuro brilhante para Macabéa. o que não ocorre em vida. Até quando ela pede que ele compre um café para ela. O direito de protestar e Uma saída discreta pela porta dos fundos. decreta o fim do relacionamento. sobre alguns questionamentos da moça. para ver o que a aguarda no futuro. afirma que as respostas não são apropriadas para uma moça virgem como ela. da protagonista às coadjuvantes. ex-prostituta e agora cartomante. 163 os que a leem no Brasil e mais engraçada para os que a leem fora do Brasil. colegas de quarto e de trabalho demonstra que ela é vista quase como um animal. A difícil convivência dos dois. Logo depois. ao pedir por açúcar. pois a protagonista morre em seguida. entre outros) indicam que a protagonista é uma vítima social. muito mais por parte de Olímpico do que de Macabéa. Seu namorado a trata mal do início ao fim do relacionamento.O ensino de literatura brasileira por meio do Teatro. pois esta sempre se desculpa por erros que ainda nem cometeu. mas nunca sabe as respostas para as perguntas de Macabéa... Na verdade. mulher mais encorpada do que a colega nordestina e também mais provocante e sensual.

Ao passarmos para a leitura da obra sob a perspectiva do Teatro do Oprimido. houve preferência para uma encenação do relacionamento entre Macabéa e Olímpico. a colega estenógrafa de Macabéa. Madame Carlota. pois quase não frequentou a escola. ouve ópera e escuta a informativa Rádio Relógio. ele se manteve como o político do futuro que venceria todo e qualquer obstáculo. pratica um trabalho mecânico (datilografia). A minha escolha se dá ao fato de que esses quatro grupos trataram de situações e de personagens diversos. embora exagerando a agressão verbal à protagonista. Sua sensualidade cultivada tem o único objetivo de fazer com que ela sempre seja admirada e amparada por um homem. é um objeto sexual. chamando-a de feia. 2009 telectual. pois os homens são agressivos e ela não está preparada para isso. Mas os personagens mantiveram a sua essência: enquanto Macabéa se achava a principal culpada pela impaciência de Olímpico e de tudo de errado que acontecia. como apontado por Peggy Phelan (1993). pois sempre indaga sobre aquilo que quer saber. que nunca fique só.164 Revista Brasileira de Literatura Comparada. o fato de que Macabéa gostaria de conhecer mais o mundo não pode ser negado. O primeiro grupo focou os diálogos de Olímpico e Macabéa. Glória. Esse exagero é muitas vezes necessário para que a opressão se torne visível. situação explicável pelo seu contexto. embora muitas vezes a capacidade intelectual da personagem não motive nenhuma pena ou simpatia. O segundo grupo mostrou Olímpico e Macabéa como pessoas quase semelhantes. agride Macabéa. sugere a Macabéa que se envolva com uma mulher. muito provavelmente pela clareza da opressão. que nem executa muito bem. Glória é o que é por causa do outro. por causa de sua preocupação com a aparência. E. outra mulher de destaque na obra. n.15. Os dois atores usaram maquiagem e figurino similares e os diálogos chamaram atenção . Como a turma fora dividida em dez grupos de três componentes cada. No entanto. procederei ao relato das experiências de apenas quatro grupos.

Mesmo que uma personagem não oprima a outra. além de não ser uma boa datilógrafa. . Macabéa tem de aguentar os desaforos de seu chefe. que necessitam trabalhar sua sensualidade de acordo com o que é esperado pelos homens para se sentirem incluídas na sociedade. Para todas as obras descritas acima. pois. embora esses problemas não sejam exclusivos do Brasil. no preconceito regional e no machismo da sociedade. ela quer ser estrela de cinema) e a exclusão social na qual vivem. expectativas (se ele quer ser político. Semelhantemente às peças do Teatro Fórum. suas roupas são bregas e seus namorados são todos do naipe de Olímpico. há na América Latina uma tendência cultural ao subjugo do feminino pelo masculino e o machismo é muitas vezes também percebido em mulheres como Glória. embora vítimas de opressões de naturezas diferentes.. embora na história Glória seja mais desejada pelos homens do que sua colega nordestina. estilo de vida. pois são nordestinos morando na zona mais nobre do Rio de Janeiro.O ensino de literatura brasileira por meio do Teatro. ela está muito longe de atingir o padrão de beleza da mídia: a cor de seu cabelo é falsa. os passos seguidos foram escrever e encenar trechos das obras literárias sem. É ela quem faz soar a voz que exclui os feios. O próximo grupo salientou a esdrúxula competição de Glória com Macabéa porque. apresentar uma solução ao adaptá-las. Os debates que se seguiram focalizaram principalmente na mulher como objeto sexual. sendo as duas consideradas oprimidas socialmente. 165 para os pontos em comum que já aparecem no romance: origem. pobres e marginalizados. o objetivo das encenações na sala de aula era o clímax do conflito. na encenação Madame Carlota foi mostrada como a voz social que indica a pouca esperança para jovens como Macabéa. Vimos que. no entanto. O último grupo do qual falaremos ateve-se à relação de Madame Carlota e Macabéa.. Enquanto Madame Carlota teve de se prostituir para sobreviver quando jovem. dificilmente conseguirá outro emprego que sustente as suas já tão básicas necessidades.

as várias percepções interpretativas ocorrem exatamente nesta terceira parte. sempre que um trabalho de arte é recebido por um leitor ou espectador. 2009 que convida à intervenção e discussão de assuntos interessantes dos materiais lidos. além da recepção. a percepção de quem oprime e de quem é o oprimido pode mudar dependendo de quem lê a obra ou assiste à sua encenação.166 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Nessa re-performance. uma re-performance deste. Antes desse estágio. Normalmente.Como tal personagem deve agir para se libertar desse contexto opressor? o texto aberto O processo pelo qual passam as obras literárias acima descritas é definido por Umberto Eco (1979) em sua teoria “A poética da obra aberta” do livro O papel do leitor. pois o Teatro do Oprimido só coopera com os meios para que isso ocorra socialmente. n. mesmo que encenado. nunca nos preocupamos com a resolução do conflito. há. Para que essa re-performance seja útil para a discussão de uma obra. é necessário que haja uma teatralização delas. Inclusive como já visto acima. no Teatro do Oprimido tal fato é quase uma exigência: após a divisão das relações de opressão do texto. mas em responder a perguntas tais como: 1. De fato. .O que motiva tal personagem a agir desse jeito? 3. Eco afirma que. a crise nunca deve ser totalmente resolvida.O que você faria se estivesse no lugar de tal personagem? 2. muitas vezes é difícil para o aluno entender os textos de literatura brasileira. Isso pode ser percebido em cada uma das adaptações demonstradas pelos grupos. Por isso. De fato. trazendo à tona o que gera a opressão e propiciando uma discussão cênica do problema. nesse ponto do curso não houve interesse em favorecer a substituição dos personagens. Assim. sua visualização se torna primordial. uma nova percepção do trabalho acontece.15.Tal personagem é o oprimido? 4.

167 Várias vezes eles julgam os textos de nossa literatura como negativos ou deprimentes. Em um primeiro momento. Acham que não há nada que justifique a prostituição de uma criança. nenhum estadunidense entende o que leva essa jovem menina a se prostituir. ser personificado em personagens como Olímpico. quando a protagonista relembra o início da união. a opressão está numa esfera invisível. no entanto. O mundo opressor pode.. No entanto. muitas vezes os alunos não conseguem entender Macabéa e suas motivações. Em I love my husband. sem dar a ela o carinho e a afeição esperados.. os alunos passam a entender a tragédia na vida dessa personagem. exagerada e seus problemas parecem não ter fundamento. Essa interpretação inicial inesperada também ocorre quando da leitura de Menina de vermelho a caminho da lua.O ensino de literatura brasileira por meio do Teatro. É necessário conviverem com essa personagem para entenderem que essa repetição da frase “Amo meu marido” é muito mais para resultar em algo positivo do que para retratar algo positivo. o caso muda de figura. Até mesmo no final. Acham-na ridícula. tão nordestino quanto Macabéa. o mundo que cerca Macabéa passa a ser o que a oprime e ela passa a ser a vítima. além disso. Como em todas as outras obras. Acham que o fato de ela repetir que o ama indica que está conformada com a situação. quando procedemos à análise do contexto social e econômico latino-americano. Mas. A partir dessa conclusão. quando citamos a semelhança do seu universo com o de personagens de regiões mais pobres dos Estados Unidos. mas que a recrimina e detesta quase como se esta fosse um ser de outro mundo. social e politicamente apresentada. Quando fazemos. Em A hora da estrela. ela parece conformar-se com toda a sua vida em comum com esse homem. muitas vezes os alunos não conseguem compreender a postura irônica da protagonista ao descrever sua rotina submissa e afirmar que ama o homem que mais faz com que ela trabalhe sem parar. uma comparação entre a realidade da América do Sul e as semelhanças entre essa região e as regiões economicamente menos favorecidas dos Estados .

Todas as histórias narradas almejam. percebemos que as diferenças são ínfimas. não vivem com suas famílias e estão à margem da sociedade. Os três textos têm. portanto. ao implicitamente indicar o desejo de mudança com relação à situação das vítimas de opressão sexual. o fim do subjugo das suas protagonistas. 2009 Unidos. por exemplo. pretendem fazê-lo visível. a turma chegou à conclusão de que a opressão não era o que tinha sido inicialmente pensado. uma natureza muito mais positiva do que negativa. portanto. Nas duas obras. a pobreza apresenta a maior . se pensamos na natureza opressora dos dois. o opressor mais forte só será achado depois que a cena (simples diálogo que precisa inicialmente detectar a situação-crise do oprimido. essa opressão é traduzida de duas maneiras pela mãe que detém a história: ao se omitir com relação à menina e ao subjugar o homem que narra a história. As histórias narram as adversidades na vida de duas jovens que são vítimas da pobreza. só depois que diferentes cenas sobre diferentes questões foram montadas e algumas pseudossubstituições ocorreram. Muitas vezes. econômica e social. Se a vida da menina que protagoniza a história é resultado de um descaso histórico com a situação da população pertencente à classe baixa e os meninos e meninas de rua. ao escrever sobre a história. o que a mãe realmente deseja é pôr um fim na dor que sentiu ao compartilhar a situação da menina e esperar que a história não se repita. Os temas de A hora de estrela e Menina de vermelho a caminho da lua são bastante similares.15. para que possa ser mais facilmente combatido. pois.168 Revista Brasileira de Literatura Comparada. retratando um universo afeiçoado à opressão. situação esta da qual ele quer sair) for montada e que outros (membros da plateia) puderem cooperar para o desenvolvimento da resolução da crise do protagonista. n. conclusão Embora exista campo para divergência quanto à natureza da opressão de uma história. E é importante vermos que.

o que é exemplificado com o exercício aplicado em I love my husband. que não louva as vítimas ou os indivíduos que não sabem lutar pelos seus direitos. participando da vida dos personagens como se fosse a sua própria. pelas experiências vistas até a presente data. pelo menos aparentemente. Talvez por isso ela seja completamente desassistida pela sociedade na qual está inserida e inicialmente indigna de compaixão na sociedade norte-americana. Foi o sucesso dessas primeiras experiências que me motivou a prosseguir com a aplicação dos exercícios do Teatro do Oprimido em outros textos. pois sua força está além de um extermínio imediato. Menina de vermelho a caminho da lua e A hora da estrela.. pois são personagens cabisbaixas que se comportam de forma oposta ao que nos leva a pensar. ela prefere calar-se a ofendê-lo também. Macabéa não reage nem se irrita nunca. 169 fonte de depressão das personagens. Macabéa se desculpa até mesmo pelos erros alheios.. que muitas dessas questões jamais seriam tratadas se não dessa forma. Da mesma forma. A utilização do método do Teatro do Oprimido fez-me perceber. como plateia participativa. respectivamente. Talvez Macabéa e a esposa de I love my husband tenham sido as personagens mais difíceis de encenar segundo as técnicas do Teatro do Oprimido. percebo que a literatura só se torna objeto de intensa discussão se o aluno puder entrar no contexto do livro. Combatê-la está fora do alcance dos protagonistas e do nosso próprio. com perguntas direcionadas. Se houvéssemos apenas feito uma discussão. A esposa também não. possivelmente teríamos chegado apenas aos dois primeiros níveis de interpretação supracitados. Para Boal. Quando Olímpico a ofende e termina o namoro com ela. o teatro só pode ser do oprimido se ele participar do seu processo. A discussão também é motivada pela transferência do contexto da obra para o . um nome de guerreira e uma vida fantasiosa de guerreira.O ensino de literatura brasileira por meio do Teatro. desde o primeiro dia de aula. Mas a essa conclusão só chegamos depois de experimentar possibilidades com o texto e ver quem ou o que oprimia mais certo personagem.

Bloomington: Indiana University. 1984. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. 1992. Giovanni Pontiero. Lennard. ECO. 2009 contexto do leitor ou espectador. The hour of the star. PHELAN. DAVIS. Teatro do oprimido e outras poéticas políticas. BOAL. In: DENSER. Ítalo (Org. In: SADLIER.170 Revista Brasileira de Literatura Comparada. relacionando-a com suas próprias questões e fazendo-a parte da sua vida. 1982. Somente a partir de um profundo envolvimento com a obra literária. 1989. Rio de Janeiro: Francisco Alves. Resisting novels: ideology and fiction. 1979. Augusto. The role of the reader: explorations in the semiotics of texts. Muito prazer: contos eróticos. 1966. _____. Peggy. Técnicas latino-americanas de teatro popular: uma revolução copernicana ao contrário. ed. _____. Umberto. 195-203. One hundred years after tomorrow: Brazilian women’s fiction in the 20th Century. London: Routledge. New York: Routledge. o aluno contribuirá com um avanço no campo interpretativo da obra. Walter. The politics of postmodernism. New York: New Directions. Referências BENJAMIN. 2. pela sua imaginação. 1995.). New York and London: Methuen. 1987. _____. Nélida. Frankfurt am Main: Suhrkamp. A hora da estrela. aplicando uma realidade literária a uma realidade social. .). p. Unmarked: the politics of performance. I love my husband. Indianapolis: Indiana University. LISPECTOR. Marina. Little girl in red on her way to the moon. COLASANTI. Clarice. tal como visto nas análises acima. n. Versuche über Brecht. Linda. 1980. Darlene (Org. Márcia (Org. Rio de Janeiro: Record.). São Paulo: Hucitec. _____. 1993. 2. Entrevista pessoal. 16 de julho de 2003. ed. 1992. Menina de vermelho a caminho da lua. In: MORICONI. PINON.15. Trad. HUTCHEON.

11-18. In: SZOKA. Mady (Org.).. . 1994. p. London: Routledge. Playing Boal: theatre. activism. Rio de Janeiro: Objetiva. Austin: Host Publications. 2001. Fourteen female voices from Brazil: interviews and works. I love my husband. therapy. _____. 2002. 451-456. p.O ensino de literatura brasileira por meio do Teatro. SCHUTZMAN. Elzbieta.. 171 Os cem melhores contos brasileiros do século.

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chronicles. * Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp . “Ninguém veio falar comigo. perguntei. Também é relatado no artigo o crescente interesse dos alunos pela literatura brasileira e pelos gêneros apresentados. Conclui-se que a riqueza do conto e da crônica brasileiras de fato serviu de ponte para o diálogo intercultural almejado. estranhei o vazio do campus. os professores ainda não voltaram do verão”. teaching.173 As alunas e os contos: a narrativa curta brasileira num curso de escrita criativa nos Estados Unidos Heloisa Pait* resumo: Este artigo relata uma experiência de ensino num curso de pós-graduação lato sensu em escrita criativa nos Estados Unidos.Araraquara). o que será?”. até liguei para meu irmão. no qual se buscou apresentar os principais autores brasileiros do conto e da crônica. Estados Unidos. Mas veio o outono. United States. The main challenges involved in the teaching of Brazilian literature in translation are examined. palavras-chave: literatura brasileira. such as the lack of basic information about Brazil and the institutional context. Quando cheguei lá. uma estação linda nos Estados Unidos. Students’ increasing interest in Brazilian literature and in the genres presented is also examined. tais como a falta de informação inicial sobre o Brasil e o contexto institucional. São examinados os principais desafios para o ensino de literatura brasileira em tradução para o inglês. abstract: This article narrates a teaching experience in a graduate program in creative writing in the United States which introduced the main Brazilian short story and chronicle authors. ele disse. . keywords: Brazilian literature. ensino. short stories. “É normal. contos. o céu azul. sem se preocupar. The article sustains that the richness of the Brazilian short narrative made possible the desired intercultural dialogue. crônicas.

para manter o impecável imenso jardim e os prédios centenários e amortizar a recente construção do ginásio. Só não veio aquele diálogo intelectual que eu esperava. era de uma riqueza intelectual inesgotável. Eu costumava dizer: isso aqui é divertido como voltar ao Pequeno Príncipe na Rua Avaré. O nosso cotidiano de estudantes de pósgraduação. mas num lugar muito particular que refletia os problemas das pequenas faculdades americanas. conhecia uma fatia do ensino superior americano muito estreita. como a evasão e a busca permanente de alunos para cobrir custos relativamente fixos. vejo agora. Ao longo do século XIX.174 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Minha cunhada estudou no intelectual Swarthmore College. e lecionado no questionador Lang College. alguns bons alunos num curso introdutório sobre o Brasil. primordialmente entre os alunos europeus e latino-americanos e com os professores novaiorquinos. que poderia ser bem interessante. universidade visitada por Habermas e Derrida. Também conhecia as Faculdades de Artes Liberais.15. desta forma dando acesso ao ensino superior a um grande nú- . além da solidão e de uma grande confusão quanto aos objetivos da instituição. É que eu conhecia a universidade americana por meio da muito particular New School for Social Research. Eu havia dado uma palestra no hippie Hampshire College. A instituição era uma das poucas faculdades americanas que ainda se dedicavam exclusivamente ao ensino de mulheres. Rorty e Melucci. e no oeste as novas faculdades já eram criadas para os dois grupos. no primeiro semestre. Corrijo-me: tive algumas boas alunas. discutindo sobre a política. complementando as faculdades para homens. a das instituições progressistas e disputadas. Então. com seus valores sólidos. a linguagem e a vida em Nova York. Pois. n. Tive. Críticas e rigorosas. era mesmo preciso um bom dinheiro. que já tinha tido no corpo docente Hannah Arendt e outros. E pulei no que as pessoas se referem como “Real America” – não numa América Real qualquer. e sua self-reliance. 2009 o ar fresco. muitas delas foram criadas na costa leste.

Aquele era o ano do Brasil. eu estaria ali para isso. no outono tive algumas alunas muito boas. acho o . mas pouco conhecido tanto no Brasil como nas pesquisas no exterior. mas. no qual a cada ano um país determinado era escolhido. Eu. uma das mais concorridas faculdade americanas. um professor visitante era chamado e.. 175 mero de mulheres. a maioria dos alunos eram mulheres. Na segunda metade do século XX.. a justificativa para continuar mantendo o ensino separado era que as mulheres teriam melhores condições de ensino caso não tivessem de disputar a atenção dos professores com os homens em sala de aula. Ainda assim. abertos aos homens. havia palestras e eventos sobre o país e a região. A instituição tinha um programa já antigo. como as tentativas de reforma do ensino médio ou sobre a participação de jovens artistas plásticos em comunidades na internet. entre os professores detectei também uma falta de curiosidade sobre o Brasil. eu estava dando aulas numa instituição que havia escolhido manter a tradição. que se juntou a Harvard College. de qualquer modo. talvez pela natureza dos cursos ou pela tradição. O trabalho que mais me chamou a atenção foi sobre um assunto que eu mesma desconhecia: a existência de um cinema mudo brasileiro muito ligado com tendências europeias da época. obviamente com exceções. para trazer um pouco do Brasil para o campus. Como disse. Mas o modo como a instituição conseguia financiar a tradição era abrindo uma série de cursos de pós-graduação lato sensu em áreas mais aplicadas. Não eram as únicas. mas outras continuam admitindo apenas mulheres. uma certa apatia na sala de aula e desinteresse sobre o mundo. Era um argumento de peso decrescente. grande parte tinha dificuldades com a leitura e a escrita e.As alunas e os contos: a narrativa curta brasileira. Afinal. A maioria dessas instituições tornou-se mista ao longo do século XX. que escolheram escrever sobre aspectos muito interessantes da cultura brasileira. como Smith College. além disso. tais como Radcliffe College. diferentemente de nossos alunos. Mas as alunas capazes de produzir trabalhos autônomos eram poucas. particularmente.

Todos temos um pouco disso. por exemplo.176 Revista Brasileira de Literatura Comparada. ainda se reflete no cotidiano difícil de populações inteiras. eu não sabia exatamente onde estava. A desindustrialização trouxe para a região problemas sociais enormes. aliado a tensões raciais e erros crassos de planejamento urbano. e como já virou clichê falar de experiência kafkiana. no verão do hemisfério norte. mas a verdade é que eu estava bem perdida. não entendia bem a falta de interesse sobre o meu país. n. em nível de pós-graduação. eu daria aulas apenas para alunos do programa de escrita criativa. Os programas de intercâmbio são marca registrada das universidades americanas. vou evitá-lo. região americana do meio-oeste que sofreu com o colapso da indústria pesada ocorrido na segunda metade do século XX. passar duas semanas no Brasil. os paulistanos com sua cidade que não é da garoa ou os cariocas com sua cidade que não é capital. ao fim do semestre. E só conseguia me localizar novamente quando viajava pelo país e encontrava pontos de referência antigos ou explorava novos. numa viagem patrocinada pela escola e organizada por uma instituição brasileira reconhecida. Foi nessa situação de deslocamento urbano e isolamento intelectual que o semestre da primavera começou. especializada nesse turismo acadêmico. Então. Em Detroit. A cidade onde a faculdade se localizava era parte do que os americanos chamam de Rust Belt. Eu assuntava: por que escolheram o Brasil? Como esse programa de estudos internacionais se coaduna com os objetivos educacionais dirigidos a esse corpo discente? Não tinham respostas. têm a duração de um . e acho que nisso tenho vasta companhia além das fronteiras nacionais. em certa medida eu vivi essa indefinição como deslocamento. Alguns são bem rigorosos. ou “a cidade que não é do aço” são títulos difíceis de se portar. Mas redefinir a identidade de uma cidade é importante.15. 2009 Brasil bem interessante. o Cinturão da Ferrugem. Algumas alunas iriam. esse processo econômico. Mas há também o problema simbólico: como construir uma identidade urbana a partir de uma não identidade? “A cidade que não é do automóvel”.

Zé Carioca e Carmen Miranda. Além disso. do que uma área da cultura na qual nós temos uma certa “vantagem comparativa”. e assim por diante. 177 semestre e são precedidos por estudos de línguas e cursos preparatórios e envolvem cursos regulares ou estágios em países estrangeiros. literatura de viagens. pois dividia o curso com outra professora. Sobre os cursos de escrita criativa.As alunas e os contos: a narrativa curta brasileira. Depois há os novos. tanto na graduação como na pós. com contribuições à cultura mundial. Esse me pareceu ser um turismo cultural inteligente para alunos com interesse em expandir seus horizontes mas sem o tempo de preparo anterior na língua e história do país. escrevo contos eu mesma.. sua ausência. Então. a maior parte dos alunos estava em momentos de transição e buscou o mestrado como forma de se rearticular. que queria dar uma visão mais abrangente da cultura brasileira. na verdade. Brasil do desma- . pensei. a história e a literatura. Tive de negociar o conteúdo do curso a cada aula. que temos acesso a elas nos jornais e revistas. Os alunos podem aí se especializar em literatura infantil. Ela se alimenta e faz parte de nosso cotidiano. e sou fascinada pela narrativa curta que fica em nossas mentes muito depois de terminada a história.. Propus um curso sobre contos e crônicas. como é o caso da narrativa curta brasileira. que incluem literatura mas que têm um sentido mais prático que analítico. Pela turma que peguei. São cursos para quem quer escrever ficção ou não-ficção. A dificuldade na graduação foi. Todos nós conhecemos os estereótipos antigos. Queria mostrar por meio deles alguma coisa do que somos. Não que houvesse estereótipos nas salas de aula. Ao longo de minha estada nos Estados Unidos. que fosse além dos estereótipos tropicais. a política. não pude descobrir exatamente o objetivo profissional do curso. são também comuns nos Estados Unidos. a narrativa curta brasileira tem um lugar muito especial para nós leitores brasileiros. nada melhor. Eu queria falar dos contos. incluindo o cinema. eu quis obviamente mostrar um Brasil verdadeiro. Outros são apenas passeios pelo Caribe.

Montei o curso de modo muito tradicional. Tudo o que eu falasse era novidade. Entre as esquerdas. 2009 tamento e dos meninos de rua. que língua mesmo falavam ali? No curso de pós. que encontrei em outras traduções (Sadlier. Clarice Lispector. entretanto. Enfim. n. mas parciais. Mas lá naquela faculdade eu vi a ausência de informações sobre o Brasil. As crônicas são maravilhosas. Moacyr Scliar. 1992). havia referências poucas mas queridas que fizeram aqueles alunos se inscreverem em meu curso. Na primeira aula. então. 2006). diferem muito. Guimarães Rosa. Reais todos. há também a construção mítica do presidente socialista que se contrapôs à ordem neoliberal. Milton Hatoum e tantos outros. Nosso elo. notei que quase nenhum aluno tinha interesse específico sobre o conto ou a crônica. Senti falta de Márcia Denser apenas. que estão. Um bom apanhado dos contos está numa antologia da Oxford University Press (Jackson. maior que a Venezuela. Havia a presença de uma comunidade negra importante. 1992). havia a Clarice Lispector. Estão ali Machado de Assis. Há também crônicas de Clarice Lispector em “Foreign legion” (Lispector. havia informações dispersas prévias. diziam. mas. O que impressionava era que o Brasil fosse tão grande. mal-entendidos. para falar das crônicas havia um obstáculo muito concreto. apresentando cronologicamente os principais autores da narrativa curta brasileira. não há antologias de crônicas que reúnam vários autores.178 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Então. traduzidos.15. era o interesse difuso naquele país latino-americano desconhecido e uma vaga curiosidade sobre o conto e a crônica. As crônicas de “Life as it is”. em sua maioria. Já nas crônicas é diferente. de Nelson Rodrigues (2008). incompletos. por exemplo. não são representativas do gênero. Hilda Hilst. das crônicas de Ignácio de Loyola Brandão que lemos às quintas no Estadão. que reúne contos de “A legião estrangeira” e crônicas de “Para não esquecer”. talvez. assim como no caso anterior. pois o Brasil praticamente não existia no imaginário de muitos alunos. Havia o Paulo Coelho. são espetaculares nos dois sentidos. . recentemente publicadas.

Tínhamos acabado de ver o filme “Vidas secas”. Machado de Assis. E os contos ali tinham.. etc. uma aluna perguntou se era tudo assim pesado na literatura brasileira. Então. eu dava preferência aos contos da antologia.As alunas e os contos: a narrativa curta brasileira. cadeiras extras. lemos o triste “Piá não sofre? Sofre”. nos romances e também nos contos. . ao final de minha estada. se qualificavam melhor para a tradução que o cômico e o banal. Fiz a couve e a feijoada. E nós brasileiros não fazemos desse banal a nossa melhor poesia? A uma certa altura.. mais “profundos”. Clarice Lispector e Moacyr Scliar estão bem traduzidos. pois um dos meus melhores amigos na faculdade era muçulmano. Guimarães Rosa. acredito. um tom sério e pesado que não trazia a leveza da prosa brasileira. ou seja. por sugestão da outra professora. mas isso me motivou a continuar tentando. Mas. uma sem carne suína. de jeito nenhum. Já adianto ao leitor. e outra com joelho de porco e costelas. em geral. Avisei que o horário era o brasileiro. os pratos. e não pontualmente nesse horário. pois não sou muito de suspenses. que a última feijoada. a biblioteca tinha poucos recursos e era preciso fazer escolhas. Parecia que os textos mais densos. que vieram polidamente. depois das caipirinhas. conversaram sobre a faculdade e foram embora sem me deixar com a sensação de plenitude que tenho depois de cozinhar para amigos e conhecidos no Brasil ou no exterior. em volta dos convidados aboletados no apartamento pequeno. foi bem diferente. Tentando o quê? Tentando. 179 A respeito dos contos. em três panelas distintas: uma para os vegetarianos. a dificuldade era de natureza distinta. pedia que chegassem a partir da 1 da tarde. comeram. Lembro que numa das primeiras semanas na cidade fiz uma feijoada para algumas pessoas. Uma colega me disse. E para cada um eu pedi que trouxesse uma coisa: o arroz. que fiz por ocasião de meu aniversário. forjar alguma comunicação real que havia me escapado nos meses anteriores. por razões práticas. por exemplo. Eu disse que não. de Mário de Andrade. Os principais autores estavam presentes na antologia da Oxford e também em inúmeras outras traduções.

Machado os surpreendeu. Mas. desafios e desfechos. A outra professora notou a ausência dos negros e pobres na narrativa. Não são contos nem crônicas. Eu fiquei lavando os pratos de uma feijoada sem festa. com leis. Buscava um elo. . mas quem é que vai dizer que não são boas crônicas imaginadas? E havia tradução. e eu ainda me adaptava ao curso a quatro mãos. ou com a professora. Notei ali o tanto de esforço que há em nossa descontração. sobre seus recursos. eu também queria ver no papel as minhas próprias emoções. Mas acho que o texto de Manuel Antônio de Almeida fez tanto sentido aos alunos como a primeira feijoada que ofereci aos colegas. nessas alturas. Ficou espremido. Claro. é na verdade um romance escrito em capítulos publicados em série. ainda se familiarizando com a narrativa. O resultado foi maravilhoso: imigrantes brasileiros discriminados que falavam palavrão. advogados. deveria conter um encontro entre um brasileiro e um morador local. e também que por meio do conto começassem a pensar sobre as diferenças entre as culturas americana e brasileira. eu deveria ter dado destaque. Queria que eles se sentissem confortáveis no gênero. encontros. choques. Era no começo do semestre. o maravilhoso “Memórias de um sargento de milícias” (Almeida. as tantas violências domésticas que pipocam no tempo do Rei. a partir de Bosi (1994) e Piglia (2000). e poderia estar no fim ou no início da narrativa. Pedi aos alunos que escrevessem um conto. E encontrei um primeiro elo. mulheres reflexivas. 2009 que nunca havia se sentido tão à vontade. Pareceu à classe que o autor ria de algo que não deveria ser piada. n. pensar o conto era uma viagem minha.15. O encontro deveria ter algo de erótico e de conflituoso. Discutimos um pouco a natureza do conto. num dia importante para a cidade. americanos que de repente se lembravam das comidas e cheiros brasileiros. que acredito pouco interessava aos alunos.180 Revista Brasileira de Literatura Comparada. 2000). pela literatura e também pela modernidade de um Brasil antigo. interessada nas relações entre a realidade social e o caráter político da arte brasileira.

eu contava. Pois o conto não traz. um diálogo com a tradição oral? Então por que não simplesmente contar as histórias de que eu gostava mais? Por que me prender a traduções selecionadas? Quando havia coisas que eu queria dar. que não achei traduzido. E rimos com a cena final de “Amor”. O perigo de Clarice é cairmos numa deferência exagerada à poesia e virtuosidade da autora. Eles toparam. tinha uma coletânea de contos regionais maravilhosa. depois.. 1963) que tinham jeito de conto. mas não havia tradução. e apresentá-los com paixão (Lispector. ao final de uma das aulas sobre a autora. 2006). Todos adoraram. explorando o olhar perscrutador de Clarice e o modo sutil como ela define os ambientes externos e a vida interior dos personagens. não só pelo uso particular que faz da linguagem. Eu conseguiria trazer o . Fiquei animada. Duas alunas em particular usaram o texto de Clarice para uma jornada de descoberta que encantou a todos. Uma delícia. mas também pela musicalidade do texto (Pessôa. organizada por Graciliano Ramos (1966). com o marido atordoado sem compreender a fuga da esposa etérea. contei. Então. cobriam muita coisa.As alunas e os contos: a narrativa curta brasileira. era um desafio. interpretada por uma aluna em quem eu via algo da própria autora. por exemplo. 1984). Sim. Algo se perde na tradução do autor. apropriando-nos da humanidade daqueles personagens intensos da autora. Isso queria dizer que eu podia escolher meus contos favoritos. e contei para eles “A hora e a vez de Augusto Matraga”. Assim como com Machado. As traduções eram boas. que falava à alma. junto a sua modernidade. Recortei alguns trechos de “Grande sertão: veredas” (Rosa. Rimos com outras cenas também. passei tardes lendo as histórias e escolhi algumas para recontar. pedi que formassem pequenos grupos. Tensa também. Achei Guimarães Rosa difícil de apresentar. escolhessem um pequeno trecho de um dos contos discutidos e elaborassem uma pequena cena. A biblioteca da universidade estadual local. 181 Clarice foi fácil. a surpresa de uma escrita sofisticada. quebrando a solenidade do texto.. Então.

emocionei. sem eles. E isso me tocava profundamente. me entusiasmei. a Scliar e Machado. mas agradeço agora a Clarice e Rosa. Muitas tristes. Talvez por uma turma aberta e interessada. éramos sem graça. não era gente. 2009 texto para a sala de aula? Recontar em inglês uma história querida? Com alguns. com eles. quando dela somos privados. Então. O risco que eu havia corrido era de ter virado naquela sala de aula uma simples nativa que conhecia os hábitos vigentes. além das de Clarice e de Nelson Rodrigues. Mas a partir do conto e da crônica brasileira. 2005). todos eles lá. claro. não. talvez por mim. No fim do curso agradeci aos alunos. n. eu o via sendo construído. Aquele elo que eu buscava. agradeço. falando para uma audiência interessada de um lugar que eu já havia visitado. viramos personagens fascinantes de um teatro próprio. Sem eles. aquele diálogo em qualquer forma que fosse. eu. como sempre quando falo do Brasil. Mas as perguntas foram sobre aspectos corriqueiros da .182 Revista Brasileira de Literatura Comparada. numa reunião de preparação para a viagem ao Brasil. mas acima de tudo frustrante. por exemplo. me chamaram para conversar com os alunos. alguns dos quais estavam matriculados em meu curso. o que havia acontecido em outros ambientes da faculdade anteriormente. também escolhi algumas da coletânea “Cem melhores crônicas brasileiras do século” (Santos. expressa por meio de atos cotidianos às vezes até singelos. algumas cômicas. eu voltava à minha humanidade normal de quem fala e escuta. Mas tudo é questão de treino. E recontei. sem dúvida conscientes de serem pontes precárias nesse importante diálogo entre as gentes.15. sugeri a leitura de alguns livros para quem quisesse se aprofundar e. Falei sobre a história política recente. é impossível descrever o valor que passamos a dar à comunicação humana. com eles nos conhecemos. Com eles. consegui. Sem eles. ao menos. com outros. fiz rir. Naquela classe – fazendo rir e chorar com histórias –. Estavam todos eles ali presentes nas aulas. quanto mais professora. éramos estranhos. Era um pouco ofensivo. virei professora de novo. Para as crônicas. a Denser e Ângelo. Agradeço aos tradutores e editores também.

eu esperava. Uma literatura que anda de chinelo. Pode ser violenta. Quando dei as aulas sobre as crônicas.As alunas e os contos: a narrativa curta brasileira. os alunos se matricularam num curso de uma brasileira. da melhor forma possível.. Algo que me encanta na literatura brasileira é o texto macio. entenderam que ali havia um diferencial. lembrem disso. eu não teria podido falar dessa literatura de que eu gosto e que é minha. mas tem uma maciez que você não encontra na literatura americana. na metade do semestre. Quando. o texto sem asperezas. e daí talvez as escolhas. que me pareciam mais leituras neutras comentadas que exercícios . os alunos apresentaram os projetos de seus trabalhos. Sou naturalmente uma professora crítica. Então eu sentia que era eu que devia tentar explicar isso. A palavra que eu usava em aula é essa: nossa cultura é soft. tem aquele amor ao detalhe. que tragam o drama pesado ou político. Mas. e nesse caso em particular eu via muitos problemas nos trabalhos. uma seleção de chorinhos que. Mesmo o texto filosófico de Clarice reforça o lado banal das grandes questões humanas. crítica de tudo. Os alunos se encantaram com uma literatura sobre e também disponível no cotidiano dos leitores de jornais. a uma certa delicadeza textual.” eu disse. as pessoas jantam tarde?” Respondi que jantávamos no horário normal. “aqui é que jantam um pouco cedo. inconscientemente familiar a minha própria cultura. pretensiosa. fazendo barulho. irônica. Mas isso pode se perder na tradução. Quanto ao meu curso. uma dinâmica em que eu fosse a nativa e ela a antropóloga podia ter se instaurado.. E desse lugar de nativa. Mas eu também trouxe. não sei mais. pode ser mordaz. É algo intangível. 183 cultura nacional: “No Brasil. trouxessem a musicalidade de nossa língua e de nosso texto que a tradução nunca poderia trazer. quando a outra professora se juntou ao curso – bem.. Mesmo Márcia Denser. Com a capacidade de olhar o cotidiano de um jeito rico – ou com a riqueza de nosso cotidiano.. e não de salto alto. um pouco disso ficou evidente. pelos textos que não se calquem apenas nessa leveza. me vi num dilema. numa aula. pelos editores.

mas minha experiência no semestre anterior tinha me revelado uma falta de familiaridade com a investigação intelectual que eu não associava com o ambiente universitário. Então me surpreendi. sobre o que os contos e crônicas realmente haviam falado para eles. que queria saber mais sobre as leituras dos alunos sobre os textos. antes do curso. que estava sendo produzida naquela sala de aula daquela faculdade daquela cidade do Cinturão Enferrujado americano? Que esquecessem a Clarice que eles achavam que os professores achariam a correta. que os alunos de pós tinham dificuldades de leitura e escrita comparáveis às dos de graduação. Alguns tinham já familiaridade com estudos culturais e feminismo. Sobre a produção de sentido no jogo simbólico. E lasquei uma boa aula sobre a noção de interpretação de Peirce. 2009 de interpretação que trouxessem novos aspectos dos textos e autores lidos. Quem era aquela Clarice ali. nessa classe dada em colaboração? E será que os alunos me escutariam. pois cada texto diz uma coisa para cada leitor. sobre interpretações corajosas. os alunos mesmos – eu tinha na verdade um aluno e o restante da pequena classe formado por alunas – trouxeram tudo o que tinham pensado em escrever mas não consideraram acadêmico o suficiente. Haviam me dito. como disse anteriormente.. Ali estava uma turma que queria usar os textos de Clarice para compreender o existencialismo. Na aula seguinte. indiretamente. mas para outros alunos aquele curso abriu as . quando comentamos os projetos propriamente ditos. ou me viam apenas. Mas será que eu tinha autoridade para criticar os trabalhos.184 Revista Brasileira de Literatura Comparada.. e de Machado para entender a relação entre a racionalidade e as crenças populares no Brasil do século XIX. e isso não é mau. Pois meu espírito crítico teve de ser controlado. foi muito produtivo. paradoxalmente. dos projetos. Falei. Eles assentiram. Sou sempre otimista quanto aos alunos. como a nativa de plantão? Esse receio. Não falei dos trabalhos. Comecei a aula perguntando se eles gostariam de ter minhas críticas. Uma coisa que me surpreendeu na classe foi a curiosidade sobre a filosofia da linguagem e as teorias sociais. n.15.

mas o tema geral da situação da mulher negra nas Américas era de conhecimento de todos. árabe. obviamente. Ao final do curso. foram aqueles nossos autores brasileiros. e com pontes indo também a lugares mil. recebendo influências mil. A ponte. e isso foi bom: saímos então do lugar chamado Brasil para situarmos o Brasil no mundo. a discussão foi rica e acalorada. 2004). os alunos apresentaram os trabalhos para a classe.. a poeta amazonense Astrid Cabral. cotidianos e complexos. como parte dos eventos do Ano do Brasil. mas sim para introduzi-los e esperar que aquele se constituísse num primeiro contato com essa nossa literatura. na qual também víamos escritores de origem árabe. mesmo quando em tensão. novamente. mesmo com pouco material. Os alunos ficaram encantados com aquelas influências literárias antigas que entraram no Brasil mas também na literatura europeia e americana. Então. penso que sim. brasileira. trabalhos que de um modo ou outro já conhecíamos a partir de lei- . cuja palestra algumas alunas haviam visto. Simmel e outros pensadores bastante sofisticados. Resolvi dar uma aula sobre a literatura judaica no Brasil (Waldman. banais e sofisticados: falar da existência humana a partir de um ovo que se quebra dentro da rede. pois nos dois países as identidades se enriquecem. no semestre anterior. A faculdade havia convidado. mostrando o caráter diaspórico da literatura brasileira. e aí o processo foi inverso. africana. mas fazendo pontes com as literaturas de outros países também. E isso serviu de ponte para falar de Milton Hatoum e de sua Manaus misturada. Foi uma aula já ao final do curso. ao final do curso não havia mais tempo para se aprofundar nos autores. Enfim. indígena.. Também ao final do curso. Funcionou? No todo. japonesa e. 2003). Havia apenas uma coletânea disponível (Alvares e Lima.As alunas e os contos: a narrativa curta brasileira. mas não opostos. 185 portas para Merleau-Ponty. examinamos a literatura escrita por mulheres negras. era tudo novidade. Discutimos como no Brasil e nos Estados Unidos as identidades nacional e étnica aparecem na literatura de modos distintos.

Uma excelente aluna de graduação que se matriculou no curso escreveu sobre os dilemas de gênero que apareciam em Machado e também em Nelson Rodrigues. e às vezes deixavam de lado algumas gemas. Mas estavam lá na sala de aula. que procurou refletir sobre sua própria cultura repleta de misticismos a partir do conto de Machado “A cartomante”. no conto “Amor”. Sem alguma referência inicial. como foi o caso desse curso de literatura. Mas estavam lá comigo não apenas os autores que fizeram a nossa literatura. O que ficou dessa experiência? Que ensinar literatura brasileira no exterior é um trabalho coletivo. o compartilhar de experiências. é certo. A outra. me ajudando a construir essa ponte que é um dos motores da literatura.15. Além disso. a partir de conversas com leitores de seu círculo de amizades.186 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Uma escreveu sobre uma experiência de infância que se assemelhava ao olhar de estranhamento de Ana. Todo o material apresentado era colocado no ambiente educacional virtual Moodle. como também seus editores e tradutores na língua inglesa. procurou investigar que tipo de reflexão os textos de Clarice evocavam. mesmo que inconsistente. o que permitia essa troca de modo fácil e intuitivo. mas talvez não o coletivo. Foram aulas de troca intensa. Tinham certamente um olhar distinto do meu. que a leitura de Clarice evocou. pois a essa altura todos se sentiam um pouco autores uns dos trabalhos dos outros. é difícil tocar adiante o projeto educacional. é possível ir adiante. de Lispector. Também aprendi que o contexto no qual esse ensino se dá é importantíssimo. Em outras. elaborar. avançar. viam valor em textos que não me chamavam a atenção. é possível o aprendizado individual. 2009 turas e discussões anteriores. Duas alunas escreveram também sobre a autora. n. Um aluno fez uma análise filosófica de “O ovo e a galinha”. Na classe em que havia ideias iniciais sobre o Brasil. Eu tinha a sensação de uma profunda solidão. Um trabalho que debatemos muito em aula foi escrito por uma aluna caribenha. há . Não consigo terminar este artigo antes de falar brevemente dos trabalhos.

Alguns alunos faziam um curso bem introdutório. li o poema imitando o sotaque baiano. 187 também as ideias iniciais da instituição e dos colegas sobre o Brasil. fugir do exame desigual . E até tentei uma imitação de carioca. o que esperavam de mim? Como imaginavam um professor brasileiro? Lembro-me que. de conversação. E aí começou a brincadeira: li o poema em português. dei umas mexidas e pronto. Essas expectativas todas entram na sala de aula. para que eles compreendessem o significado. mostrei a um poeta novaiorquino com quem tenho um ótimo diálogo literário e pessoal. a produção literária brasileira. uma colega fez um aposto para explicar quem era Keynes. Fiz um primeiro esboço. Depois. também cantava na ópera e lecionava voz. em uma conversa sobre a crise econômica. Fiquei me perguntando qual era o Brasil que ela imaginava. mas sim ir sutilmente as aceitando e subvertendo. mas numa aula também coloquei o próprio Drummond declamando o poema. A professora com quem dividi o curso queria apresentar um panorama geral sobre a cultura brasileira. Depois li o poema em inglês. não estava tirando sarro dela nas aulas com aquela entonação vagarosa. onde professores universitários da área de ciências humanas não conheciam Keynes. obviamente em português. que não funcionou tão bem. e acredito que bater de frente com elas não seja a melhor alternativa. de Drummond. Mas a maioria não conhecia nada da língua. Pois por que não às vezes ser um pouco a brasileira palhaça. e eu queria examinar o conto. musicada. José?”. Uma até confessou que agora se dava conta que seu professor de capoeira falava mesmo daquele jeito.As alunas e os contos: a narrativa curta brasileira.. nada mais. Coloquei o poema em nosso site na internet. claro que explicando que era apenas uma imitação de paulista. estereotipada? Num belo dia resolvi traduzir o poema “E agora. Os alunos riram.. para que eles se familiarizassem com a língua. além de dar aulas de línguas. Ou qual era o mundo. com uma brasileira que morava na cidade e. pois acredito que a partir de nossas realizações é que podemos nos reconhecer como iguais.

188 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Referências ALMEIDA. Muitos alunos disseram se surpreender com a forma sintética e evocativa que nós dominamos tão bem. Sei que. de sentir. o sotaque. _____. Austin: University of Texas. Consegui dar um curso sobre o conto como forma literária? Isso fica em aberto. Mas de certo modo eu também apresentei esse panorama geral.. Manuel Antonio de. Mas não sei se afirmo que realmente investigamos a forma. Vieram em maio ao Brasil.15. Clarice. ALVARES. Foreign legion: stories and chronicles. os meus próprios contos. de viver. as vozes de nossos escritores estavam com eles. digamos. Uma poética da musicalidade na obra de João Guimarães Rosa. Oxford: Oxford University. trazendo a música. De certo modo. 2006. Family ties. André Vinicius. 1984. 2000. O conto disse para eles que há outras formas de pensar. O romance sempre seria comparado ao que os alunos já conheciam da literatura inglesa e americana. Uma nativa de óculos. David. Acho que ela serviu de elo entre nós. Dissertação (Mestrado) .. Mango Publishing. BOSI. São Paulo: Cultrix. K. de um modo que outra forma talvez não o fizesse. Miriam. LISPECTOR. Rio de Janeiro. O conto brasileiro contemporâneo. 1992. eu fui um pouco a nativa. onde quer que tenham ido. O que viram? Com quem conversaram? Como se sentiram? Não sei. LIMA. PESSÔA. 2004. 2006. Memoirs of a militia sergeant. O conto brasileiro talvez tenha sido porta de entrada para uma sensibilidade distinta – e para uma sociabilidade distinta também. as minhas histórias pessoais e a minha vivência. 1994. Oxford anthology of the Brazilian short story. Maria Helena. 2009 de um povo sobre o outro. New Directions Publishing Corporation. Alfredo. Women righting: afroBrazilian women’s short fiction. para os alunos que fizeram esse curso. JACKSON. Oxford University. n.

Seleção de contos brasileiros. As cem melhores crônicas brasileiras. WALDMAN. SADLIER. RAMOS. Barcelona: Anagrama. 2003. 2000. ROSA. Darlene J. Entre passos e rastros. Berta. Ricardo.. SANTOS. Joaquim Ferreira dos. PIGLIA. João Guimarães. Indiana University. 2008. São Paulo: Perspectiva. 1966. Rio de Janeiro: Edições de Ouro. Knopf. RODRIGUES.As alunas e os contos: a narrativa curta brasileira.. Host Publications. 1992. One hundred years after tomorrow: Brazilian women’s fiction in the 20th century. Life as it is. 2005. 1963. Graciliano. Nelson. Rio de Janeiro: Objetiva. Formas breves. The devil to pay in the Backlands. 189 – Universidade Federal do Rio de Janeiro. .

Pareceristas Arnaldo Franco Junior Benito Martines Rodriguez Clarissa Jordão Eurídice Figueiredo Isabel Jasinski Luís Bueno Luiz Carlos Simon Mauricio Mendonça Cardozo Marilene Weinhardt Paulo Soethe Renata Telles Silvana Oliveira Susana Scramin .

br •  Os artigos podem ser apresentados em português ou em  outro idioma. telefone (com prefixo). Devem ser produzidos em MSWord 2007 (ou versão superior). •  O espaço para publicação é exclusivo para pesquisadores  doutores. •  Após a folha de identificação. no mínimo. poderá ser aceito trabalho de não doutor. no máximo. espaço simples.org. com uma folha de rosto onde constem os dados de identificação do autor: nome. duas linhas abaixo do título. . seguido da sigla.Nome(s) do(s) autor(es) – à direita da página (sem negrito nem grifo). A extensão do texto deve ser de.título – centralizado. indicando a instituição à qual está vinculado(a). 10 páginas e. em maiúsculas e negrito (sem grifos). endereço para correspondência (com o CEP). o trabalho deve obedecer  à seguinte sequência: . e-mail. Eventualmente.191 Normas da revista Normas para apresentação de artigos • só serão aceitos trabalhos enviados pela internet para o endereço: revista@abralic. desde que a convite da comissão editorial – casos de colaborações de escritores. Usar asterisco para nota de rodapé. 20. Todos os trabalhos devem apresentar também Abstract e Keywords. com maiúscula só para as letras iniciais. por exemplo. título e temática escolhida. instituição. O nome da instituição deve estar por extenso. .

corpo menor (fonte 11). sem aspas.Ênfase ou destaque no corpo do texto – negrito. desenhos.Parágrafos – usar adentramento 1 (um). Máximo: 5 palavras-chave. gráficos etc. n. seguidas das seguintes informações entre parênteses: sobrenome do autor (só a primeira letra em maiúscula). . itálico e maiúsculas. vêm com recuo de 4 cm na margem esquerda. 2009 . Usar espaçamento duplo entre o corpo do texto e subitens. Corpo 10. itálico e maiúsculas. ano de publicação e página(s). .) – devem vir prontas para serem impressas. . sem numeração. ilustrações e tabelas. A expressão palavras-chave deverá estar em negrito.192 Revista Brasileira de Literatura Comparada. . O texto-resumo deverá ser apresentado em itálico.15.tabelas e ilustrações (fotografias. corpo 10.citações de até três linhas vêm entre aspas (sem itálico). O resumo deve ter no mínimo 3 linhas e no máximo 10. corpo 12. . seguida de dois pontos. .Notas – devem aparecer ao pé da página. . Espaçamento simples entre linhas e parágrafos. Corpo de texto 10.subtítulos – sem adentramento. . com recuo de dois centímetros de margem direita e esquerda. Com mais de 3 linhas.texto – em Times New Roman. só com a primeira letra em maiúscula. seguida de dois pontos. numeradas de acordo com a ordem de aparecimento.Palavras-chave – dar um espaço em branco após o resumo e alinhar com as mesmas margens. . duas linhas abaixo do nome do autor. . dentro do padrão geral do texto e no espaço a elas destinados pelo autor. negrito. quando houver.Keywords – mesmas observações sobre as palavraschave.abstract – mesmas observações sobre o Resumo.Resumo – a palavra Resumo em corpo 10. Palavras em língua estrangeira – itálico. sem itálico e também seguidas do sobre- . em negrito.

Borges. 1998. ao contrário. caso existam.Normas da revista 193 nome do autor (só a primeira letra em maiúscula). o único testemunho de nossa realidade. 1969) • citação de várias obras do mesmo autor As construções metafóricas da linguagem. 1991. “As fronteiras entre objeto e sujeito mostram-se particularmente indecisas.Referências – devem ser apenas aquelas referentes aos textos citados no trabalho. A palavra REFERÊNCIAS deve estar em maiúsculas.” (PAZ.. p. em maiúsculas e negrito. 37) • citação indireta [. negrito. Somos feitos de palavras. 1982. devem ser colocados antes das referências. Eliot. teóricos e críticos da literatura (Pound. a presença da ironia e da sátira.. Quando constituírem textos já publicados. 1991. . não há qualquer reivindicação de possíveis influências ou contágio. Elas são nossa única realidade. duas linhas antes da primeira entrada. bem como permissão dos editores para publicação. precedidos da palavra ANEXO. A palavra é o próprio homem.] entre as advertências de Haroldo de Campos (1992).anexos. • citação de vários autores Sobre a questão. pode-se recorrer a vários poetas.] conforme Octavio Paz. sem adentramento e sem numeração. ou pelo menos. 1977. .As citações em língua estrangeira devem vir em itálico e traduzidas em nota de rodapé. Recomenda-se que anexos sejam utilizados apenas quando absolutamente necessários.. o enfoque das personagens . foi antes a poesia concreta que assumiu as conseqüências de certas linhas da poética drummoniana. alguns exemplos de citações • citação direta com três linhas ou menos [. as indefinições. devem incluir referência completa. sem adentramento.. Valéry. Campos. evidenciando um confronto entre o sagrado e o profano. ano de publicação e página(s).

] (FREIRE. Itinerários. nacionalismo. 2009 em diálogo dúbio entre seus papéis principais e secundários são todos componentes de um caleidoscópio que põe em destaque o valor estético da obra de Saramago (1980. M. • artigo de periódico GOBBI. tira ele e forma uma imagem que antes não havia. Leyla. veja-se um trecho do capítulo XV da Arte Poética de Freire: Vê. p. Paradoxos do nacionalismo literário. 1992) • citação de citação e citação com mais de três linhas Para servir de fundamento ao que se afirma. Relações entre ficção e história: uma breve revisão teórica. Tese (Doutorado) – Faculdade de Filosofia. 87 apud TEIXEIRA. 1999. Z. Zilá. n. (Org. 22. p. . que faz? Ajunta-as e. 2004. 1759.. São Paulo: Companhia das Letras. concebendo que todo o homem tem potência de rir [. 2006. Letras e Ciências Humanas. São Paulo.] o nosso entendimento que a fantasia aprendera e formara em si muitas imagens de homens. o nacional. Perspectivas comparadas trans-americanas. [. 1991. Universidade de São Paulo. • capítulo de livro BERND.. 2004. V. o regional. Claudia Pastore. n. In: JOBIM..). p. Lugares dos discursos literários e culturais – o local.57. o planetário.194 Revista Brasileira de Literatura Comparada.122-33. 148) alguns exemplos de referências • livro PERRONE-MOISÉS. • dissertação e tese PARMAGNANI. Araraquara. Niterói: EdUFF. 1988. Vira e mexe.15. de tantas imagens particulares que recolhera a apreensiva inferior [fantasia].. o internacional. p. O erotismo na produção poética de Paula Tavares e Olga Savary. José Luís et al. 2007. 37.

/jun. Os artigos recusados não serão devolvidos ao(s) autor(es). v. 2008. Disponível em: <http://www. 1990. In: II CONGRESSO ABRALIC – Literatura e Memória Cultural. 85-95.scielo. 8 abr. n. Folha de S. A intermediação da memória: Otto Maria Carpeaux. São Paulo. Rio de Janeiro. Alea: Estudos Neolatinos. p. Ettore. Jornal de Resenhas. 10. Acesso em: 6 fev... jan.Normas da revista 195 • artigo de jornal TEIXEIRA.Paulo. Belo Horizonte. p. I. .php?pid= S1517106X2008000100005&script=sci_arttext>. O comum e o disperso: história (e geografia) literária na Itália contemporânea. • trabalho publicado em anais CARVALHAL. 2009. Anais. • Publicação on-line – Internet FINAZZI-AGRÒ. 1. observação final: A desconsideração das normas implica a não aceitação do trabalho. 2000. Gramática do louvor. 4. T. F.br/scielo.

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