REVISTA BRASILEIRA DE

São Paulo 2009

Diretoria Presidente Vice-presidente 1º Secretário 2º Secretária 1º Tesoureiro 2º Tesoureiro Conselho Fiscal

A B R A L I C 2009-2011 Marilene Weinhardt (UFPR) Luiz Carlos Santos Simon (UEL) Benito Martinez Rodriguez (UFPR) Silvana Oliveira (UEPG) Luís Gonçales Bueno de Camargo (UFPR) Maurício Mendonça Cardozo (UFPR) José Luís Jobim (UERJ, UFF) Lívia Reis (UFF) Sandra Margarida Nitrini (USP) Helena Bonito Couto Pereira (Universidade Mackenzie) Arnaldo Franco Junior (UNESP - S. J. do Rio Preto) Carlos Alexandre Baumgarten (FURG) Rogério Lima (UnB) Sueli Cavendish de Moura (UFPE)

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ABRALIC CNPJ 91.343.350/0001-06 Universidade Federal do Paraná Rua General Carneiro, 460, 11.o andar 80.430-050, Curitiba - PR E-mail: revista@abralic.org

REVISTA BRASILEIRA DE

ISSN 0103-6963 Rev. Bras. Liter. Comp. São Paulo n.15 p. 1-195 2009

entidade civil de caráter cultural que congrega professores universitários. 2009 ISSN 0103-6963 1. n. 1991v.2.1. sem permissão por escrito. Todos os direitos reservados. pesquisadores e estudiosos de Literatura Comparada.1 (1991) – Rio de Janeiro: Abralic.15. Associação Brasileira de Literatura Comparada. Nenhuma parte desta revista poderá ser reproduzida ou transmitida. Editor Organizador Comissão editorial Luís Bueno Maurício Mendonça Cardozo Luiz Carlos Santos Simon Benito Martinez Rodriguez Silvana Oliveira Luís Bueno Maurício Mendonça Cardozo Preparação/Revisão Diagramação Patrícia Domingues Ribas Rachel Cristina Pavim Revista Brasileira de Literatura Comparada / Associação Brasileira de Literatura Comparada – v. fundada em Porto Alegre. I. n. CDD 809. Literatura comparada – Periódicos. em 1986.091 (05) . sejam quais forem os meios empregados.005 CDU 82.0103-6963) é uma publicação semestral da Associação Brasileira de Literatura Comparada (Abralic).2008 Associação Brasileira de Literatura Comparada A Revista Brasileira de Literatura Comparada (ISSN.

Sumário Apresentação Luís Bueno Mauricio Cardozo 7 Artigos Os estudos de língua e literatura brasileiras no contexto dos estudos portugueses e latino-americanos na Alemanha Ligia Chiappini A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria Ferenc Pál Tempos e contextos da literatura brasileira na Argentina e no exterior Florencia Garramuño Ideia de literatura brasileira com propósito cosmopolita Abel Barros Baptista O ameríndio como personagem do Outro na literatura brasileira contemporânea: Órfãos do Eldorado e Nove noites Rita Olivieri-Godet Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate de nosso tempo Idelber Avelar O ensino de literatura brasileira por meio do Teatro do Oprimido: uma experiência na Carolina do Norte Érica Rodrigues Fontes 9 25 49 61 89 113 151 .

As alunas e os contos: a narrativa curta brasileira num curso de escrita criativa nos Estados Unidos Heloisa Pait 173 190 191 Pareceristas Normas da revista .

O segundo bloco é constituído por três trabalhos que privilegiam a dimensão da análise literária. organizados a partir da dimensão que privilegiam em sua discussão. No primeiro bloco. ao concentrar-se nas questões levantadas pelas leituras brasileira e estrangeira de Machado de Assis. Abel Barros Baptista. bem como de suas relações com o deslocamento da posição ocupada pelo Brasil no cenário político e econômico mundial nas duas últimas décadas. Respondendo a essa proposta inicial. da Universidade Nova de Lisboa.7 Apresentação Ao propor como tema os “Estudos de literatura brasileira no exterior”. O artigo de Lígia Chiapinni é o significativo balanço da experiência fundamental que representou a criação e rápida extinção da única Cátedra de Brasilianística de uma universidade alemã. o que se destaca é a dimensão por assim dizer institucional dos estudos brasileiros no exterior. Rita Cavalieri Godet. os artigos que compõem este número da Revista formam três blocos diferentes. Ferenc Pál e Florencia Garramuño. da . por sua vez. traçam amplos panoramas históricos – com um olhar atento ao futuro – dos estudos de literatura brasileira em dois países que se localizam a distâncias (não só geográficas) muito diferentes em relação ao Brasil: Hungria e Argentina. a Revista Brasileira de Literatura Comparada procurou abrir um espaço para a discussão dos diferentes lugares e dinâmicas de estudo da literatura brasileira fora do Brasil. vale-se do conceito de “hospitalidade” para discutir o estatuto do estudioso estrangeiro de literatura brasileira.

em princípio. Já Idelber Avelar. ao tomar partido de sua posição de professor brasileiro que atua nos Estados Unidos. lança seu olhar para a representação que a ficção brasileira contemporânea faz do ameríndio. ao realizar cuidadosa leitura de obras de Milton Hatoum e Bernardo Carvalho. da Universidade de Tulane. No artigo que fecha este número da Revista Brasileira de Literatura Comparada. Heloisa Pait conta como procurou superar as dificuldades de discussão de textos brasileiros em tradução no contexto de uma instituição que. Érica Rodrigues Fontes trata de sua proposta de utilização dos fundamentos do Teatro do Oprimido de Augusto Boal como instrumento de aproximação de uma realidade que. n.8 Revista Brasileira de Literatura Comparada. No primeiro deles. O bloco final nos traz dois relatos que investem na dimensão da experiência de professoras brasileiras nos Estados Unidos. 2009 Universidade de Rennes 2. Luís Bueno Mauricio Cardozo . é estranha ao aluno estrangeiro. enfrenta as dificuldades das pequenas faculdades americanas. convoca estudiosos tanto brasileiros como estrangeiros para retomar um tema fulcral da crítica: o do estabelecimento do valor. apesar de ter grande tradição.14.

do qual é co-fundadora. entre 1997 e 2010. A interrupção dessa experiência. The interruption of this experience in October 2010. abstract: The current status of the studies of Brazilian language. confirmaria uma tradicional contradição na Alemanha entre um grande interesse pelo Brasil e um quase desinteresse por sua literatura. * . keywords: teaching and research. literatura brasileira. não deveria ser lida somente como veículo de informações sobre o país. descrita a partir da experiência única da cátedra de Brasilianística que a autora ocupou por quase quinze anos na Universidade Livre de Berlim. que influenciam o diálogo entre o autor traduzido e o Professora catedrática de Literatura e Cultura Brasileiras do Instituto Latino-Americano da Universidade Livre de Berlim. a partir de 2010. do confirm a traditional contradiction in Germany between a great interest in Brazil and almost no interest in its literature. Atualmente trabalhando na orientação de teses no mesmo Instituto.9 Os estudos de língua e literatura brasileiras no contexto dos estudos portugueses e latino-americanos na Alemanha1 Ligia Chiappini* Situação atual dos estudos de língua. junto ao Centro de Pesquisas Brasileiras. literature and culture in Germany is described by the author who occupied the only Chair in Brasilianistik ever created in Germany for almost fifteen years at the Freie University of of Berlin. os clichês. Não é preciso acentuar que uma obra literária transmite muitos elementos procedentes de outra cultura na ficção e desperta para outras formas de viver e de pensar. closure chair A literatura proveniente da América Latina tem direito a ser considerada no mesmo nível que outras literaturas. Porém os preconceitos ou. 1 language. resumo: palavras-chave: ensino e pesquisa. Brazilian literature. digamos. bem como na pesquisa. literatura e cultura brasileiras na Alemanha. curriculum reform. Portuguese Em memória de Marlyse Meyer. reforma curricular. encerramento cátedra.língua portuguesa.

tais como a Germanistik. Na Universidade Livre de Berlim. última professora de Brasilianística da Alemanha. do cinema. difíceis de desaparecer na mente das pessoas.2 Brasilianistik. literatura e cultura brasileiras e de suas diferentes modalidades na Alemanha. até segunda ordem. em alemão. Esta ironia se esclarecerá no decorrer deste texto. muito complicado. (Ray-Güde Martin) Nos meios cultos da Alemanha. (Johann Jacob von Tschudi) O objetivo deste texto é resumir um pouco o percurso e a situação atual dos estudos de língua. ela se localizou na confluência do Departamento de Romanística com o Instituto de Estudos LatinoAmericanos. Auerbach. Adorno e Benjamin. ao que parece. que conheço melhor. propondo para nossa reflexão alguns problemas que pude identificar em quase quinze anos de trabalho na Universidade Livre de Berlim. 2009 seu leitor estrangeiro. pelo menos na terra de Spitzer.15. abrindo-se a outras linguagens. adotou o tratamento da literatura como manifestação cultural. na verdade. como a primeira. no texto “Literatura e cultura no contexto dos estudos brasileiros na Alemanha: a cátedra de Brasilianística” (Chiappini. por analogia a outras áreas desses estudos. pois esta não deve ser confundida com o estudo meramente formal dos textos em si mesmos. significa Literatura Brasileira ou Filologia Brasileira. de mais longa tradição acadêmica. a Anglizistik. n. das artes plásticas. da poesia e narrativa orais. única e. para citar apenas alguns dos grandes estudiosos de língua alemã que trataram dos textos em seus contextos e dos contextos nos textos. da música popular. 2005) 2 .10 Revista Brasileira de Literatura Comparada. da televisão. principalmente em Berlim. Para além da filologia mas com a filologia. a língua portuguesa fica quase tão desconhecida como o pérsico ou o sânscrito. nesse contexto. pois a literatura brasileira Por exemplo. Mas o que parece simples no enunciado acima é. que atualiza informações já divulgadas em algumas publicações anteriores. E. a Hispanistik. são.

vigorando “enfoques valorativos eurocêntricos e critérios preconceituosos” (Briesemeister. e por parte dos que provocaram. botânicos. 349). 2000. aliás. Entre aqueles e estas. geógrafos. 11 Critérios e preconceitos que. que ajuda a entender a situação presente. Em palestra realizada no primeiro simpósio internacional promovido pela Brasilianística. nos departamentos ou institutos latino-americanos. p. uma ignorância quanto à “participação individual do Brasil na cultura universal”. tornaram a vigorar. p. E aí também a situação piora dia a dia. e paralelamente. com o português fazendo parte de uma estrutura que privilegia o espanhol (2000. “Brasil: país do passado?”.3 Ainda segundo Briesemeister: Os estudos brasileiros. ou dos estudos hispanoamericanos. 3 ainda enfrenta dificuldades para ser reconhecida em sua autonomia (mesmo que relativa. mesmo. sempre foi um apêndice de Portugal. haveria um semidesconhecimento cultural e. sobre ele pesquisaram e escreveram. por parte dos que nunca quiseram a cátedra de Brasilianística na Universidade Livre de Berlim e retardaram ao máximo a sua criação. tensionada entre os Estudos de Literatura e Cultura Latino-Americanos – hoje identificados com os Estudos Culturais Norte-Americanos – e a Lusitanística. nos departamentos de Romanística das Universidades. que sempre por ele se interessaram.. sociólogos. no caso da literatura. Por outro lado.. 349). Começa constatando nesse percurso um permanente desequilíbrio na visão do Brasil pelos estudiosos na Alemanha. caso do nosso Instituto. do início do século XIX ao final da década de 90 do século XX.Os estudos de língua e literatura brasileiras no contexto. que se publicou posteriormente em livro com o mesmo título. Por um lado. O desconhecimento e o desinteresse não se manifestariam apenas na ausência ou invisibilidade da literatura. Dietrich Briesemeister (2000) faz um balanço dessa luta. seria esse País Tropical um paraíso para geólogos. depois de uma longa luta pela institucionalização da disciplina. apoiaram ou facilmente aceitaram a sua extinção quinze anos depois. mesmo em contextos nos quais se impôs como necessária. sendo ela frequentemente . como a de toda literatura). como parte da Romanística. processo que durou de 1988 a 1995. etnólogos. mas também na ignorância da dimensão que a própria língua portuguesa tem no mundo. ela perde espaço e visibilidade.

deixando as manifestações culturais sempre em segundo plano. O mesmo fenômeno nota Briesemeister nos livros sobre literaturas latino-americanas. O português entra em competição com o espanhol como “terceira língua”. principalmente.15. 2000. não se fez muito nos países de língua alemã a favor da pesquisa. 351). autor de Le Brésil Littéraire. 2000. como no contraexemplo do livro de Wilhelm Giese. 2009 comparada ao sânscrito e ao romeno.12 Revista Brasileira de Literatura Comparada.). Pelo contrário. até há pouco tempo. 350-351). Isso revelaria um grande desconhecimento tanto da dimensão quanto da qualidade desta. Lamenta que esse exemplo não tenha sido seguido como merecia e acusa mesmo um possível retrocesso: desde aquela obra singular de Wolf. 2000. de sua literatura. o ensino torna-se imperdoavelmente reduzido nas universidades alemãs. a maior parte dos quais. como línguas mais ou menos exóticas e minoritárias: Não obstante o número muito elevado e ainda o aumento da população mundial dos países lusófonos em quatro continentes (. como a posição do austríaco Ferdinand Wolf. p. constata-se até uma tendência regressiva em comparação com o posicionamento avançado do erudito austríaco (Briesemeister. 351). da valorização e da divulgação da literatura brasileira. O Brasil e a Alemanha: 1822-1922. Die Spanisch-amerikanische Literatur in Ihren Hautströmungen. de 1924 (Briesemeister. p. deixava de fora o Brasil: (O) Brasil continuou ausente das obras que tratavam da América Latina e.. ficando atrás em relação ao número de alunos (Briesemeister. Briesemeister reconhece algumas raras exceções a essa tendência ainda no século XIX. . n. publicado em 1863. em que a literatura é a grande ausente. p. como no livro de Max Leopold Wagner. A regra continuaria sendo o predomínio do interesse econômico..

finalmente. a fundação do primeiro Instituto Latino-Americano da Alemanha. da qual tiramos a epígrafe acima. o Centro Latino-Americano de Münster e. o Instituto Latino-Americano. 2000. o livro de Michi Strausfeld. Materialien zur lateinamerikanischen Literatur (1976). p. Criada em 1989 e somente em 1997. em Mettingen. ocupada pela autora deste texto. falava-se freqüentemente em América Latina. Ainda antes da segunda guerra. o Instituto Geográfico da Universidade de Tübingen. Destaca também novos centros. a cátedra mal completara um ano quando organizamos o simpósio internacional. p. mas quase sempre com referência exclusiva à América espanhola. Por exemplo.. ou seja. em 1912. que só 25 anos depois de criado. como o Instituto de Cultura Brasileira. Defendendo a necessidade dos estudos regionais e. pelo cônsul Heirich Schüler. dos Frades Franciscanos. a diversificação interdisciplinar. o mesmo autor resume “o largo caminho da institucionalização” (Briesemeister. o Instituto Ibero-Americano do Patrimônio Cultural Prussiano. em Berlim. ao mesmo tempo. a criação de três institutos que continuaram existindo depois dela: o Instituto de Pesquisas sobre Ibero-América da Universidade de Hamburgo.. só contém artigos dedicados a autores de língua espanhola (Briesemeister. 351-352). da Universidade Livre de Berlim. 351) dos estudos portugueses e brasileiros na Alemanha. bem como a de Ray Güde-Mertin. em Aachen. 353) Essa foi realmente uma conquista significativa. foi “dotado de uma cátedra (única no país) de literatura e cultura brasileiras. 2000.Os estudos de língua e literatura brasileiras no contexto. 2000. 13 Ainda nos anos 60 do século XX. . como primeiro centro de estudos interdisciplinares sobre América Latina numa universidade alemã. depois de muitos prós e contras. a partir de 1995.” (Briesemeister. p. o Instituto Português e Brasileiro da Universidade de Colônia. pontuando. no qual foi proferida essa conferência de Briesemeister.

ainda. artes e comunicações.15. tais como filmes.14 Revista Brasileira de Literatura Comparada. entre os quais. 5 . tanto como parte de uma hipotética Weltliteraturwissenschaft quanto da Romanística. n. valorizava com saudável distanciamento irônico os estudos culturais para além dos cânones literários. dedicandose. que. como quem inventa a roda. A Brasilianística concebeu-se. 2009 Considerando as lacunas apontadas por esses e outros estudiosos. da teoria e da história literárias com a linguística. Para tanto. arbitrário e puramente folclórico. o qual não podemos esquecer. Carlos Azevedo e Carlos Ladeira. novelas de televisão. encarregados de cursos de língua. mas tudo isso sem esquecer sua base nos estudos de literatura brasileira. mitos. hoje também leitora na FU. muito antes de os Cultural Studies se terem transformado em moda na América Latina. já nos anos 1970. que já constituem mais de dois séculos de um saber acumulado. entre outros. entre outros. de modo indiscriminado. sem desconhecer suas especificidades linguísticas e históricas. implicando um diálogo constante da crítica. como “Altos e baixos estudos”5 de literatura e cultura e não como Cultural Studies.4 Mas isso não significou tratar os textos isoladamente. a Brasilianística no LAI dedicou-se sobretudo ao estudo sistemático e à divulgação dos textos mais significativos da Literatura Brasileira. a economia. numa predisposição e abertura para a inter/pluri/transdisciplinaridade. bem como da Latino-americanística e em diálogo estreito com a Caribística. assim. ambos parcialmente financiados com auxílio do governo brasileiro. a começar por tudo o que o une à América Latina. porque estes muitas vezes tendem a confinar o estudo dos textos e a própria literatura nos países considerados periféricos a um conjunto de informações superficiais e até mesmo estereotipadas das produções culturais. 4 O termo se deve a Marlyse Meyer. a proposta sempre foi trabalhar com o Brasil sem deixar de levar em consideração a sua integração no mundo. embora ela tenha trabalhado também com textos não canônicos e com textos que só podem ser considerados literários em sentido amplo. contou com uma ótima base linguística dos estudantes. Por outro lado. da Literatura Comparada. a história e as ciências sociais. havendo um esforço permanente para relacioná-los com seus contextos. essa foi sempre a direção buscada. poesia oral. A Brasilianística concebeu-se. dos estudos de teatro. Zinka Ziebell. da Lusitanística. permitindo-se juntar num único seminário. que aprenderam português brasileiro com Berthold Zilly e outros excelentes mestres. a cada nova tendência teórica produzida nos centros universitários hegemônicos da Europa e Estados Unidos da América do Norte. aos estudos sobre cordel e folhetim.

.Os estudos de língua e literatura brasileiras no contexto. mesmo que bem intencionada. associação de brasilianistas dos Estados Unidos. como em qualquer parte do mundo. com esse cargo de titular para a Brasilianística criou-se a possibilidade de os estudos brasileiros escaparem à situação de apêndice dos estudos portugueses ou hispano-americanos. a Brasilianística sempre defendeu o espaço e a possibilidade de os escritores brasileiros escreverem e publicarem literatura.e redutoramente nas ciências sociais. Por outro lado.. . Guimarães Rosa. promover eventos. permitiu conquistar um espaço autônomo para os estudos de literatura e cultura. escravidão. o aprofundamento da pesquisa e do ensino específicos da literatura e da cultura brasileiras preservou. música popular brasileira e jeitinho brasileiro. como social e histórica. pois a literatura sempre foi estudada aí como parte da cultura e esta. onde a hierarquia universitária se mantém de modo muito rígido e conservador. impedindo que se dissolvessem conteudística. Para entender a importância disso – sobretudo porque no Brasil poucos percebem a diferença entre as condições de trabalho de um professor e de um assistente ou de um leitor. e mesmo intensificou. assinar convênios e gerenciálos. mais o contrato permanente de trabalho. O jornal chama-se Fagulha e no número de 1997 estampou esse programa como alternativa aos programas tradicionais de literatura e cultura brasileira. Como já foi dito. entendendo que negar essa possibilidade em nome da democracia. embora vinculando-se estreitamente a elas. como abertura para o não canônico. é preciso saber que na Alemanha. No caso da Brasilianística. Isso tudo. possibilita uma continuidade de produção teórica e prática no ensino e na pesquisa. para não falar dos professores horistas ou encarregados de cursos –. 6 aulas sobre descobrimentos.6 Finalmente. seria um efeito perverso da atitude libertária.. todo docente universitário com doutorado poderia fazer. tão importante na formação das novas gerações. um cargo de professor implica um espaço próprio e possibilidades bem maiores de fazer coisas que. o intercâmbio interdisciplinar com os estudos hispano-americanos de literatura e cultura. 15 Como defendeu um colega norte-americano no jornal da Brazilian Studies Association (Brasa). aparentemente. como permite o sistema brasileiro: desde orientar teses de doutoramento até coordenar projetos.

ou mesmo por causa delas.15. na Alemanha. com a introdução das reformas curriculares nas universidades alemãs e europeias. n. no sentido acordado em Bolonha: generalização dos cursos de Bachelor e Master e substituição dos cursos tradicionais de graduação. tanto na sua tradição. como no âmbito das reformas anunciadas para o futuro próximo (Briesemeister. ajuste esse que o autor antecipou e que logo iríamos começar a viver de modo vertiginoso. o que o levava a sugerir um tanto profeticamente que tudo tenderia a piorar: O que impede quase insuperavelmente a independentização dos estudos brasileiros nas condições precárias do momento atual são as estruturas administrativas organizatórias da universidade alemã. segundo ele. 354). p. Entretanto. parece ser o lugar institucional ideal para uma disciplina desse tipo. Tais entraves iriam reforçar. O experiente professor e pesquisador já pressentia nessa reforma novos entraves para os poucos progressos feitos na institucionalização dos estudos de língua e literatura brasileira. como a então recente criação da Brasilianística. 2000. como vimos. concorrendo para a integração da América Latina. e mesmo portuguesa. Nas Humanidades. prevendo a extinção de postos e áreas inteiras. 2009 É importante assinalar que o Instituto Latino-Americano. um ano antes do balanço pessimista mas realista de Briesemeister. quando a Universidade começava a ser pressionada para ajustar-se às reformas neoliberais. Apesar das várias realizações da Brasilianística – entre outras. E.16 Revista Brasileira de Literatura Comparada. pois permite não apenas aprofundar a interdisciplinaridade mas também desenvolver atividades que levem a superar culturalmente o tratado de Tordesilhas. realmente. a . uma das primeiras áreas atingidas foi o português. a Brasilianística começou a funcionar já num momento extremamente desfavorável. piorou. aqueles identificados no passado. a oferta de quatro a cinco cursos diferentes por semestre. A reforma universitária vinha junto com significativos cortes de orçamento. apesar de suas contradições.

a língua e a literatura brasileiras deslocaram-se para o departamento de Filologia Românica. Brasil no contexto global: literatura. a especialização é absolutamente necessária. p. a qualidade da pesquisa científica.7 seja no âmbito dos Estudos Culturais Latino-Americanos. Esse master começou em outubro de 2005. a assimilação de uma língua de quase 200. a organização de simpósios.. Como também previu Briesemeister. planejou-se e. 17 As recentes reformas implicaram o fechamento de departamentos inteiros de português em toda a Alemanha. o que significa. em face disso. América Latina no contexto global. Relações de gênero. Motivos? Ao que parece. Antropologia cultural. concretamente.. Ele enunciou. como os outros). o estabelecimento e gerenciamento de convênios internacionais com outras instituições dedicadas à cultura e à língua brasileiras no Brasil e na Europa –. em nível institucional. . então. em menos de cinco anos. Num segundo ano. com um BA de estudos brasileiros e portugueses (valendo 60 pontos e não 90. Os básicos são: Constituição da América Latina. formas de vida. 8 orientação de mestrados e doutorados. mais econômicos que científicos. cultura e sociedade. inevitável e urgente. ao nível do Master. transformações. 350). Não apenas a literatura brasileira se vê ameaçada. passou para o mesmo departamento. mas estranhamente assimilada ao BA de Filologia Espanhola. ciclo de palestras e publicações. o que significa menos carga horária. enquanto a disciplina de Latino-americanística. o português brasileiro. Poder e diferença. mas também para ajustar a formação profissional dos jovens universitários às exigências de hoje (Briesemeister. ao nível do BA. A Universidade Livre tem mais condições hoje de manter uma parte deles.000 de falantes. uma necessidade que estamos longe de preencher: Sem dúvida. menos disciplinas. Os “dilemas da institucionalização” ameaçam também a variante europeia da língua e os respectivos estudos literários e culturais específicos da lusitanística. uma formação mais superficial na área. mas o máximo que conseguiu foi fazê-los sobreviver como diploma complementar aos Bachalerados da Romanística. da qual fazia parte a Brasilianística como uma subárea. não só para garantir. os alunos podem optar entre cinco áreas de concentração: Transformação e desenvolvimento. com cinco módulos obrigatórios e alguns opcionais.8 Ao nível do Bacharelado. como parte do BA de Estudos portugueses e brasileiros. ao espanhol da América. além de um módulo para desenvolvimento de projetos. a Universidade Humboldt encerrou mais radicalmente esses estudos.. menos professores: ou seja. Conceitos e métodos da pesquisa sobre América Latina. 7 O Master do Instituto prevê um primeiro ano comum.Os estudos de língua e literatura brasileiras no contexto. a exclusão do Brasil da América Latina ou. decretou-se o seu desaparecimento no âmbito mais geral seja da Lusitanística. quando os novos bacharelados já haviam começado e hoje já se evidencia em ambos a necessidade urgente de serem repensados e reformulados.000. 2000). Literaturas nas dinâmicas culturais da América Latina. Em Berlim. “torna-se impossível conciliar as necessidades da diferenciação adequada com os critérios didáticos de aprendizagem e as relações histórico-culturais dos países do mundo lusófono” (2000.

que quase dez anos depois. para os quais a literatura é vista ora como uma joia supérflua. na variante europeia e nas demais. indo além do seu próprio gueto. 2009 A restrição da oferta no ensino de português.html>. há um paradoxo. No caso do Instituto Latino-Americano da Universidade Livre de Berlim. pelo menos. como queria o escritor brasileiro Afrânio Peixoto no início do século XX. como vimos. que continua a crescer. coerentemente com a tradição de que nos falava Briesemeister. justifica a criação de bacharelados disciplinares em que os estudos portugueses e Veja-se a lista das publicações. Trata-se. veio a ser.de/studium/disziplinen/ brasilianistik/index. só em 1989. ajudar a superar tanto uma suposta autonomia absoluta dos estudos filológicos quanto o preconceito de muitos brasilianistas das ciências sociais. quando expressivos resultados do trabalho aí desenvolvido começam a aparecer. E justamente agora. entretanto. em 1997.18 Revista Brasileira de Literatura Comparada. finalmente.fuberlin. cursos e projetos de pesquisa em nossa homepage: <http://www. mas está sendo canalizada. ora como seu equivalente ao contrário: puro documento.9 corta-se a sua continuidade.lai. eventos. após muitas idas e vindas. que eram contemplados normalmente no antigo currículo. recentemente. consiste em. do instituto mais importante na Alemanha dedicado aos estudos sobre a América Latina.15. Essa concepção ainda positivista da literatura e das artes embasa ou. que por si só a justifica. pela extinção do cargo após a aposentadoria da sua titular. para cursos destinados aos interessados das áreas consideradas mais úteis. Uma tarefa da Brasilianística. com tentativas de fechá-lo antes que começasse a funcionar e tendo funcionado dois anos com professores substitutos. ligadas aos negócios ou às chamadas ciências sociais. n. Existindo desde meados da década de 1970. com uma tradição respeitável de estudos sobre o Brasil e que. esse Instituto conseguiu abrir um cargo de titular em literatura e cultura brasileiras. como vimos. 9 . se propôs a criar um Centro de Pesquisas Brasileiras. não aos estudos de literatura e cultura ou aos estudos linguísticos. não foi acompanhada de uma diminuição da demanda. “sorriso da sociedade”. ocupado pela primeira colocada no concurso feito em 1990.

textos que constituem nosso objeto de estudo. 19 A cada ano. sem o domínio da língua e dos métodos de leitura desenvolvidos pelas teorias da literatura. mas não se sabe ainda muito bem o que fazer dos estudos da cultura quando esses ultrapassam as leituras meramente conteudísticas e passam a investigar o tratamento dado aos temas. perdendo sua especificidade. mas tampouco fazer tabula rasa do capital teórico e analítico aí acumulado. mas como concentração desses estudos em algumas universidades em detrimento de outras. o que tentamos. no nosso espaço cada vez mais restrito. foi resguardar o essencial. 10 Nesse conjunto. as diferentes disciplinas – Altamerikanistik (Antropologia e Arqueologia do continente americano). pelo predomínio da análise conteudística ou a abordagem das condições de produção ou de recepção dos textos. contra 90 nos bacharelados principais)10 e menos tempo ou nos Masters interdisciplinares. aí se procura articular em torno de certos temas.. Socio- . servida por apenas um cargo de titular.11 História. a Brasilianística voltou a fazer parte de uma só disciplina. a Associação dos Lusitanistas alemães faz um balanço do desmonte dos estudos de língua e literatura em língua portuguesa e constata que ele prossegue.Os estudos de língua e literatura brasileiras no contexto. como ocorria há quinze anos. que é a capacidade de trabalhar intensivamente. pelo menos desde Aristóteles. bem como a historicidade das formas. necessárias e esclarecedoras mas externas a eles e. começa-se a rediscutir as bases do nosso Master de Estudos Latino-Americanos que se quer interdisciplinar. e esta não se faz sem um domínio da linguagem em que se expressa cada texto como produção simbólica. Lateinamerikanistik/Brasilianistik (Literatura e Cultura Latinoamericanas). pois o que se ensina. é uma atitude analítica. 11 brasileiros têm menos pontos (60. considerados prioritários. um método para que cada um produza seu próprio método.. neste caso. que abrange toda a América Latina e o Caribe. embora uma avaliação menos pessimista não veja isso como desmonte. No caso da literatura. o que não significa utilizá-los de modo acrítico ou extemporâneo. De todo modo. o que importa aqui é a qualidade da formação. Atualmente. com profundidade. o que implica a desconsideração total da questão estética. a partir do semestre de inverno de 2010. o que configura necessariamente uma grande restrição. incapazes de dar conta da sua complexidade como objeto feito de palavras que são ao mesmo tempo coletivas e individuais. Mais que quantidade de informação. mais que uma série de informações sobre eles. em que a literatura e a cultura submergem nos chamados estudos de área. portanto. senão um lamentável retrocesso. Em meio a tantas mudanças.

A teoria e crítica literárias aí já nasceram comparadas. Essa excelência deriva de . com a Economia. 180). pode dizer muito mais sobre a vida. quando ela aparece na sua complexidade. Como devem ser abordados os objetos literários a partir da perspectiva dos estudos propriamente literários. a fim de que esse diálogo realmente seja um diálogo e não a submissão ou a diluição destes perante uma hegemonia das ciências sociais? Seja como for. “desde o formalismo jurídico até o senso humanitário”. ao mesmo tempo como criação estética e como documento. agora. Parece óbvio – mas nem sempre o óbvio é percebido como tal – que não é possível realizar um trabalho inter ou transdisciplinar sem respeitar os pressupostos epistemológicos e metodológicos próprios de cada disciplina. não é possível estudá-la sem relacioná-la intimamente com a História. Ao mesmo tempo. o que precisava ser compreendido. com a Política. o que implica a busca de padrões e categorias que permitem tratar adequadamente semelhanças e diferenças.15. mas dificilmente o é. é que. O desafio. n. 1989. em Berlim. p. mesmo que não quisessem sê-lo. Quem estuda literatura e cultura num país como o Brasil sabe que não é possível fazê-lo a não ser estabelecendo comparações. 2009 logia. No caso da literatura. onde. Ciências Políticas e Economia. nesse diálogo das disciplinas.20 Revista Brasileira de Literatura Comparada. é o de explicitar a comparação imanente. trata-se de um desafio que é o desafio de todo trabalho interdisciplinar. tudo foi historicamente permeado pela literatura. principalmente se tratando do Brasil e da América Latina. como reconheceu há muito Antonio Candido. chegando à “expressão dos sentimentos no âmbito familiar” (Candido. E num país onde a literatura se forma sob a pressão e a certeza de que se está gestando com ela também a nação. com a Antropologia. Mas é verdade que isso se fez muitas vezes de modo implícito. é preciso reconhecer que. incluindo a literatura e cultura. com a Sociologia. tivemos até quase o final de 2010 uma situação que se pode considerar de excelência na área dos estudos brasileiros.

teoria e história literárias. mas também num estudo de Walnice Nogueira Galvão e em informações divulgadas nos encontros bienais da Associação de Lusitanistas Alemães. dentro e fora da Alemanha. crítica. sem falar nos encarregados de cursos que ajudaram a ampliar e diversificar a oferta de cursos desde o início. volta a se fazer presente. o que chegou a ser lido como nostalgia. contávamos também com um leitor extremamente competente tanto no ensino da língua brasileira quanto na tradução. sob o mote de “Wir wollen Portugiesisch” (Nós queremos português). hoje se financiam novos leitorados para compensar algumas perdas ou se estabelecem convênios que permitem preservar sobretudo os cursos de língua que sobreviveram nos novos currículos. Eu mesma. Aqui e acolá há sinais de resistência que nos impedem de desanimar. A situação negativa que os estudos de literatura brasileira. vêm enfrentando nos últimos anos. como foi o caso do movimento iniciado pelos estudantes da Universidade de Jena.Os estudos de língua e literatura brasileiras no contexto. resumida ao longo deste texto. Quanto à variante europeia do português. graças à organização da comunidade científica dos Lusitanistas e Brasilianistas. Essa excelência precisa ser defendida e potencializada. Pelo lado brasileiro. mas que na verdade era realismo. no contexto dos estudos de português em geral.. financiando pelo menos parcialmente alguns leitorados. provocou periodicamente balanços extremamente negativos. se antes havia pouco incentivo. mas também graças à importância reconhecida do Brasil para as relações internacionais da Alemanha.. mas isso parece difícil de ser conseguido. Hoje em dia a situação começa a mudar. 21 que. como ocorre atualmente na Universidade . com base no texto citado de Briesemeister. o que foi previsto no processo de criação do Centro de Pesquisas Brasileiras acima referido. cujo apoio aos leitorados parecia ter-se enfraquecido. além de contarmos com uma professora para essa cátedra. o Instituto Camões. reforcei esse tom pessimista em outras publicações. caso não se venha a compensar de forma consistente a perda da Brasilianística.

objeto de estudos comparativos. pelo lado da literatura talvez o desafio Esse trabalho. 2009 Livre de Berlim e na Universidade Humboldt. em português brasileiro. estamos fazendo um trabalho desde 2007 no sentido de conceber cursos de cultura brasileira para além dos tradicionais e panorâmicos cursos de civilização. n.15. Assim. quanto outros mais complexos. desde o início da sua formação no bacharelado. coordenado por Ligia Chiappini e mediado pela Embaixada Brasileira. que vai de mapas a dados numéricos e históricos. eles terão oportunidade de desenvolver um conhecimento mais profundo e uma prática linguística mais ativa nos módulos mais avançados. Uma produção de material didático de caráter contrastivo do português brasileiro com o português de Portugal e de Angola. para ser usado no sistema do e-Learning.22 Revista Brasileira de Literatura Comparada. as outras variantes da língua são. também estamos produzindo um material contrastivo. como instrumento ágil para proporcionar aos estudantes de português. No que diz respeito à variante brasileira. vem sendo desenvolvido pelas Dras. de diferentes gêneros. desta vez com o espanhol.12 Se pelo lado do ensino da língua esses são o panorama e o desafio atuais. a partir dessa base. No caso do Master de Estudos Latino-Americanos. com ajuda da Embaixada Brasileira. já que a maior parte dos estudantes tem conhecimento dessa língua. é elemento de apoio básico nesse ensino. 12 . no Bacharelado de Estudos Portugueses e Brasileiros da Universidade Livre de Berlin. em que o português europeu é central. Zinka Ziebell e Rosa Henckel. a experiência da variante brasileira. num esforço de cooperar para vencer a tendência a concorrer e dividir. desde o início. produzindo e compilando tanto um material básico para iniciantes. em que se trabalha mais diretamente com o português do Brasil. que foi iniciado e prossegue no âmbito de um convênio com o Brasil. Também uma antologia de textos curtos e atuais. os diferentes registros da língua portuguesa e suas variantes regionais e nacionais passam a ser considerados riqueza comum e não instrumentos para reafirmar hierarquias e justificar discriminações. Assim. vem sendo preparada e sistematicamente atualizada. tais como textos de e sobre literatura e cultura. entre eles os que tratam das manifestações culturais afro-brasileiras ou dos povos indígenas. Isso tudo leva a juntar forças. Dessa forma.

Desconsidera-se aí aquilo que Antonio Candido definiu como contraveneno. menos ainda se valoriza o conhecimento da língua como matéria e forma da e na literatura. porque esta também só interessa. . dificilmente consegue ser republicado. Um exemplo disso é o caso de Guimarães Rosa.Os estudos de língua e literatura brasileiras no contexto. ainda não conseguimos despertar o interesse de colegas e estudantes de outros departamentos da mesma universidade. que implica um grau mais alto de elaboração linguística. E. que a boa literatura carrega junto com as suas dimensões ideológicas conservadoras. o quadro tampouco é positivo. termina seu texto de modo otimista. apesar do balanço negativo. que já em 1998 Ray Güde-Martin tematizava no trecho aqui escolhido como epígrafe. Mas. 2008. como documento ou como mercadoria. pois a Universidade e pareceristas externos a ela reconheceram a autonomia e a dimensão desta para comportar uma abordagem específica. 23 Alusão a um debate realizado no Instituto Iberoamericano de Berlim em parceria com o Instituto Goethe de São Paulo. 13 seja maior. Considerado muito difícil e tendo suas traduções em alemão esgotadas. como vimos. No Instituto Latino-Americano tivemos por quase 30 anos um cargo pleno de leitor para Português Brasileiro e. no caso do best-seller. coincidiu com um debate sobre a literatura brasileira como um mau negócio. que trabalham com clássicos da chamada literatura universal. simultânea e pioneiramente. ocidental.. citando o crescente interesse de um certo público e a presença maior dos escritores cineastas e artistas brasileiros em encontros. A literatura mais exigente. um posto de Professor para Literatura Brasileira. em março de 2008.. Mesmo assim. do ponto de vista editorial. O ano do seu jubileu. por quase 15 anos. é simplesmente demonizada ou ignorada. assim como Briesemeister. Pois se já poucos reconhecem a importância de estudar a língua portuguesa e suas variantes para a comunicação e outros usos meramente instrumentais. porque julgada elitista. expresso na representação espetacular do brutalismo nas favelas. branca.13 Constatava-se aí que a literatura de qualidade estaria perdendo terreno para a literatura meramente comercial e para uma espécie de novo exotismo.

colóquios. DIMAS. Brasil.). Ligia. 52. CHIAPPINI. Berthold (Orgs. mas continuamos apostando que o trabalho desenvolvido no espaço conquistado para a literatura brasileira no Instituto Latino-Americano da Universidade Livre de Berlim poderá ajudar a superar essa esquizofrenia. n. MartiusStaden-Jahrbuch. além das associações que ajudam a manter a vitalidade do setor. semanas culturais dedicadas ao Brasil.24 Revista Brasileira de Literatura Comparada. 251-263. Antonio. p. In: A educação pela noite e outros ensaios. rivalizante e paradoxal. 349-357. São Paulo: Ática. acreditar. Os estudos brasileiros na Alemanha. 354). In: CHIAPPINI. Literatura e cultura no contexto dos estudos brasileiros na Alemanha: a cátedra de Brasilianística. CANDIDO. podemos ainda.15. p. 2009 recitais. . Antonio. Ligia. Literatura de dois gumes. estudam. São Paulo. n. Referências BRIESEMEISTER. em certo modo esquizofrênica. 1989. muito do diagnóstico de Briesemeister ainda vale para o presente e a maioria dos brasilianistas alemães ainda “leva uma existência profissional acadêmica. país do passado? São Paulo: Boitempo. bem como a atuação de colegas que ensinam. Infelizmente. pelo reconhecimento das lacunas e a invenção de novos mecanismos que ajudem a preservar e a desenvolver o que já foi realizado.” (Briesemeister. 2000. 2005. mais de dez anos depois. p. ZILLY. traduzem e comentam o melhor da literatura brasileira. apesar de todas as lacunas e retrocessos. Dietrich. que a indiferença pela Literatura do Brasil e o seu desconhecimento podem ser superados na Alemanha. 2000.

Brasil e Hungria: primeiros contatos Os húngaros. doesn’t suit to. FL da ELTE (Faculdade de Letras da Universidade Eötvös Loránd) de Budapeste. se bem que de uma forma e em condições um pouco especiais. * . exotic. translated for serving private or political interests. so formed an image about Brazil what the literature. político e eminente militar da época. exclamou num libelo político as seguintes palavras contra a opressão turca: “Tenho notícias de que no Brasil há terras desertas em abundância. Tendo-se inteirado da existência do Brasil e obtido muitas informações deste país nos séculos XVII a XIX. escritor. façamos uma colônia tornando-nos cidadãos Departamento de Português. expectations. palavras-chave: imagem do Brasil. exótico. keywords: image of Brazil. reception of the literature. quando o autor da epopeia nacional húngara Szigeti Veszedelem (“Desgraça de Szigetvár”).25 A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria Ferenc Pál* resumo: O presente trabalho estuda as condições da recepção da literatura brasileira na Hungria. Instituto de Romanística. traduzida muitas vezes para servir interesses privados ou políticos. expectativas. Miklós Zrínyi. peçamos pois ao rei espanhol [sic!] uma província. inteiraram-se da existência do Brasil no século XVII. abstract: This study examines the reception of the Brazilian literature in Hungary. o público húngaro formou uma imagem do Brasil a que a literatura. The Hungarian (reading) public has got a lot of information about this country during the XVII-XIXth centuries. não correspondia. recepção da literatura.

que a partir de então o Brasil devia ou podia existir no subconsciente húngaro como um lugar particular. entre eles János Zakariás e Dávid Fáy. em especial sobre a consequência do trabalho dos jesuítas húngaros. Entre os primeiros emigrantes supostamente havia também húngaros cultos. n. o semanário de Budapeste Vasárnapi Újság informa. 17 set. distinto. em primeiro lugar. notícias interessantes. legyünk polgárrá. Além de seus aspectos exóticos. n. Em seu número 44. algumas vezes abordadas de forma científica. provoca má impressão aos viajantes europeus. as expectativas do público são bem ilustradas pelo mesmo semanário Vasárnapi Újság. Sinis. “Utazás a föld körül” (Viagem em torno da Terra). no entanto. as notícias também mostram o Brasil como parceiro comercial e cultural da Hungria. ou melhor o Império Austríaco. publicada no Rio de Janeiro. 4 jun. cujas páginas trazem. O Brasil e a Hungria. mas que. começou a difundir-se no século XIX. Nos jornais e revistas húngaros da segunda metade do século XIX podemos ler muitas informações sobre o Brasil. Vasárnapi Újság. que a Hungria integrava. que se iniciou depois da abolição do tráfico de escravos em 1850. de 30 de outubro de 1859. p. 243244. em Tyrnavae. sem nos atrevermos a tecer proposições freudianas. Nos séculos posteriores houve notícias esporádicas do Brasil. sobre a curiosa flora e fauna brasileiras. Ramirez. 1854. kérjünk spanyor királytul egy tartományt. 3 “Tejfa” (Árvore que dá leite) “ Um relato sobre a fauna do rio Amazonas e do Rio Negro. Nas notícias po- “Ugy hallom Braziliában elég puszta ország vagyon. que “numa antologia geral. 1661/2009). 1854. 29.1 Podemos supor. 1854-1860).2 Um conhecimento mais intenso. na seção “Tárház” (“Depósito”).15. versados na literatura.3 e nos meados dos Oitocentos já havia um contato regular entre os dois países. por Franciscum Szedlar e pela Sociedade de Jesus.5 informando que a região atrai os visitantes com a beleza da sua vegetação. na questão do urbanismo.26 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Cicincina. n. primeiramente por causa da emigração. Quanto à presença do Brasil e das coisas brasileiras no imaginário húngaro da época. 14. 1968. 2 Cf. Japone. 5 . 2009 [daquele país]”(Zrínyi. mantiveram contatos diplomáticos a partir de 1817.4 bem como relatos sobre viagens a esse país e nomeadamente ao Rio de Janeiro. Canada et Brasilia definitum. porque na década de 1850 já temos notícias do Brasil que dizem respeito a atividades de magiares. Hegeds. acham-se onze poemas húngaros” (Vasárnapi Újság.” 1 É em parte resultado do seu trabalho o livro Itinerarium peregrini philosophi. 4 Andersen – Dr. editado em 1720 na Universidade Arquiepiscopal. que participavam como missionários no levantamento topográfico e na descrição das terras brasileiras. csináljunk egy coloniát. Vasárnapi Újság.

informa que o imperador tinha em grande estima a obra de Mór Jókai. etc. 24 nov. n. Hírmondó. 1873). sobre o fato de que um comerciante húngaro transportou vinhos de Arad.A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria 27 Vasárnapi Újság. romancista romântico de fantasia profícua. no início da década de 1870: “[Mór Jókai] tem amigos soberanos. 1883. pitoresco. por exemplo. nos romances posteriores – para além de meras referências a um ou outro fenômeno curioso. Rio de Janeiro. Dom Pedro brazíliai császár (D. 27. em que se . 47. 274. aliás escritor favorito do imperador D. Dom Pedro.8 ou informações sobre a proclamação da República no Brasil e outros acontecimentos de política interior. hospedou-se intencionalmente no Hotel ‘Angol királyn’. pretendia-se satisfazer a curiosidade do público leitor em relação ao exotismo. 9 “A vizi boa-kigyó” (A jibóia – serpente da água). os personagens. morreu no Brasil. 17 out. Em um artigo no Vasárnapi Újság. para a capital do Brasil. Com estranhamento. “Egy magyar tengerész Brazíliában” (“Um marujo húngaro no Brasil”). imperador brasileiro). 17. Vasárnapi Újság. Gyula Szini fornece em “Jókai: Egy élet regénye” (“Jókai: Romance de uma vida”) a seguinte informação sobre a curiosa visita de D. 1857. o artigo de 1889 sobre a visita de Dom Pedro II à Hungria nos anos 1870. 49 a 52.6 também se informa que a cantora Lagrange cantou uma ária do compositor húngaro Ferenc Erkel no Teatro da Ópera do Rio de Janeiro. Esta duplicidade da imagem ou dicotomia da recepção do Brasil também se observa na obra de Mór Jókai. graças a um dono de barco brasileiro passam uma semana no Rio de Janeiro. No conto do escritor intitulado Tíz millió dollár (“Dez milhões de dólares”). inexistente em território húngaro. n. Essa demanda pelo estranho. envolvidos em aventuras rocambolescas. 12 demos ler informações sobre o cultivo e comércio do café. 1858. p. publicado no ano de 1928. 7 II.” 11 Vasárnapi Újság.9 Rthy Frigyes fala sobre o “povo estranho” que vive no Brasil. 1889. e não no apartamento oficial. o interessante imperador brasileiro. cidade do sul da Hungria de então. publicado no Hírmondó. Pedro a Budapeste. dez. prestigiosa revista literária de Budapeste da primeira metade do século XX. e que um aristocrata húngaro. referindo-se dessa maneira à população negra. 1857. como foi. exótico. O artigo intitulado “A vizi boa-kígyó” (A jibóia – serpente da água). no Castelo de Buda. a fim de poder ter um contacto mais íntimo e fácil com o seu parente espiritual. n. 6 set. n. 23. como em Az arany ember (O homem de ouro.11 em cujas obras as aventuras acontecidas no Brasil e certas peripécias econômicas andam de mãos dadas. condigno a um monarca. n.12 Mas. 10 Uma comunicação da revista literária Nyugat. 8 Vasárnapi Újság. No número 5 da revista. Pedro II. Pedro II. n. 29 abr.7 No enorme número de revistas e jornais que saíram na Hungria do último terço do século XIX.. 6 Vasárnapi Újság. também se fala na flora e fauna brasileiras. 1969.10 descreve alguns animais repulsivos do Brasil. juntamente com informações de caráter político. o bondoso Mór Jókai. satisfazem-na tanto os artigos publicados nos jornais como os livros publicados nessa época. László Alvinczy. 42.

1950). Ahol a pénz nem isten (Onde o dinheiro não é deus. o romancista fala largamente sobre as relações comerciais entre a Austro-Hungria e o Brasil. s/d). p.. Zoltán Nyisztor: Felhkarcolók. s/d). 1934). Budapeste. “A brazil nép lelkesen támogatja a békeegyezmény megkötését követel felhívást” (O povo brasileiro apoia com entusiasmo o apelo por celebrar o acordo pela paz. como afirmavam muitos livros de não ficção dessa época. Tartós Békéért. o Brasil. por exemplo. n. 11 jun. na década de 1950.. ott vannak a leghíresebb gyémántbányák” (Jókai. Vasárnap. tornou-se terreno de lutas políticas das forças populares contra o imperialismo e pela paz. Budapeste. tornou-se um cenário real.17 Depois da Segunda Guerra Mundial. s/d).14 Na ficção fantástica A jöv század regénye (O romance do século vindouro. alvo da emigração húngara. aparece a frase: “A farinha era um produto húngaro. 1870). s/d). e com um contingente grande de emigrantes na primeira metade do século XX. 4.. p. escreve que “os peruanos e os brasileiros sempre pagam com prata”. apátridos.. 23. foi o paquete Adria que a transportou até o Rio de Janeiro”. como A brazíliai fenevad Segunda parte: “[. 18 . 16 Dezs Migend: A brazíliai aranyhegyek árnyékában (Sob a sombra das montanhas de ouro brasileiras. 15 “A liszt magyarországi termény volt.. n.”15 Em seu último romance.. Onnan hozzák a gyapotot meg a dohányt. No romance Fekete gyémántok (Diamantes pretos. onde as condições de vida e de trabalho eram semelhantes às da Hungria. 13 Primeira parte: “A senki szigete” (“Ilha de ninguém”): “Brazília fvárosa Rio de Janeiro. 23. 14 Primeira parte: “Amíg nem terjeszkedünk többre.] a peruiak. do algodão e do petróleo [.15. 1935) e Lajos Wild: Tizenöt év Brazíliában (Quinze anos no Brasil.. a exigência ou a ânsia do exótico continuava a existir por parte do público.] às vezes tão alto que sua voz suplanta a dos cantores e da orquestra na ópera” (Jókai... Békéscsaba. Ao menos era assim que os órgãos políticos húngaros informavam seus leitores.. Rio de Janeiroig Adria gzös szállította” (Jókai. 1926). gyapot és kolaj behozatalára [. Arad. [. n.18 Contudo. na ficção húngara de temática brasileira se registram ainda muitos elementos exóticos. 1936).] Kína [.28 Revista Brasileira de Literatura Comparada. É de lá que transportam para cá o algodão e o tabaco. hazátlanok (Arranha-céus.] o Japão e o Brasil. 2009 lê sobre um sapo luminoso que “irradia uma luz fosforescente” e “canta de noite nos interiores. quando na Hungria aconteceu um câmbio de paradigma político. brazíliaiak mind csupa ezüsttel fizetnek. mint kávé.. 17 Sobre a situação interna do Brasil saíram artigos com títulos: “Brazília vezet személyiségei az atomfegyver betiltásáért” (Principais personalidades do Brasil defendem proibição de armas nucleares. lá estão as minas de diamantes mais famosas”.13 E mesmo em Az arany ember informa que “A capital do Brasil é o Rio de Janeiro.. Béla Bangha: Dél-Keresztje alatt (Sob a cruz do sul. selvas. 1872) também se leem divagações de teor econômico: “Até não querermos mais do que a importação do café.. Nos anos 1930 e 1940.] Japán és Brazília befoglalásával” (Jókai. quando por causa do enorme número de emigrantes húngaros o Brasil entrava no dia a dia húngaro19 como um país “normal”. Romances que se movem no universo das obras da literatura de cordel.. Tartós Békéért..] incluindo a China [.. no que dizia respeito ao Brasil. s/d) –.” (Jókai. serdk.16 O Brasil. 2. 1905).

e em especial no século XIX. intitulado Kalandok a brazíliai serdben (“Aventuras na selva brasileira”). jan. mescla do relato de experiências pretensamente vividas e de histórias imaginadas. o Brasil estava mais representado na imprensa húngara do que Portugal. lentamente passava-se a ter condições de formar do Brasil uma imagem diversificada e verídica que correspondesse à realidade do país.21 e o Brazíliai nagybácsi (O tio brasileiro). regressou à Hungria e começou a escrever ficção. 19 20 21 Budapeste.25 citando palavras de Simone Beauvoir. Cf. essas experiências colhidas da realidade ficavam em segundo plano.. p. Cf. O primeiro livro dele. o erotismo desenfreado ou requintado. por meio da obra e figura de Camões e de Pessoa. 24 25 26 Cf. 2004c.20 o livro de contos Villanó fények az serd mélyén (Luzes cintilantes no fundo da selva). 1951). “A brazíliai Kommunista Ifjúsági Szövetség újjászervezése” (A reorganização das Juventudes Comunistas brasileiras. 1996.A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria 29 10 jun. que em 1930 viajou à selva amazônica e. 19-33 e Pál. Em húngaro: A kor hatalma. 23 Presença da literatura brasileira na Hungria Podemos deduzir. de Tibor Magyar. etc. Nesse livro e nalguns outros que o seguiram ele não fez senão relatar o que tinha experimentado e visto naqueles dois anos que viveu no Brasil. 1940. apesar de que alguns momentos da literatura portuguesa. Budapeste: FerencesVilágmisszió kiadása. Tartós Békéért. parece que há determinadas expectativas. 22 (A fera brasileira). p. Se dissemos em outra ocasião. Outro Brasil. para quem “a literatura é a melhor via para se conhecer um país estrangeiro”. 11-37. O autor foi cônsul húngaro no Brasil entre 1928 e 1942. Pál. Pál. Budapeste: Európa..22 de um tal László György. n. . 2004b. 121. Cf.24 Assim. p. 1951). que prefere relacionar o Brasil com o exótico. p.23 que o público húngaro havia muito tempo tinha tomado conhecimento do Brasil e que esse país ocupava um lugar privilegiado na consciência húngara. 1942. de Mihály Witte. as liberdades do carnaval e das praias do Rio de Janeiro. 3. La force de l’âge. 161-171. Mas. 11. p. tenham um maior halo de conotações na Hungria. Pál. Budapeste: Nemzeti Figyel. Contudo. se desenha nos romances do ex-naturalista Gábor Molnár. podemos mencionar que tradicionalmente. têm muito desse exotismo. 1997. com o tempo. depois de perder a vista num acidente. 1944. e o fez num estilo vivo e vigoroso.26 no caso do Fazendo referência à “rivalidade” de Portugal e do Brasil. 2004a. que sempre nos instiga a fazer cotejamentos. saiu em 1940. do panorama histórico acima traçado. de aventuras na selva. 1965. aventuras entre os índios e na selva. Boglár Lajos. preconceitos ou ideias fixas que orientavam e orientam o gosto do público. e o ambiente brasileiro de pequenas povoações à beira da selva e dentro da selva amazônica passou a ser palco de histórias movimentadas.

da Révai Nagy Lexikona (Grande enciclopédia de Révai) já se encontra um verbete em separado sobre a “literatura brasiliana” rezando que “a literatura brasiliana durante muito tempo foi apenas um ramo da literatura portuguesa e só nos últimos tempos começou a se desenvolver em rumo diferente” (Révai Nagy Lexikona. das obras traduzidas da literatura brasileira. de 1911. se queremos ultrapassar uma simples enumeração. Bernardo Guimarães. 2009 Brasil havemos de acrescentar que. 3.30 Revista Brasileira de Literatura Comparada.). n. à maneira positivista. independentemente do valor da obra e das intenções dos editores. em especial nas enciclopédias de literatura universal. partindo das ideias de Ricoeur.15. 1911). v. etc. Esse critério talvez seja muito rigoroso e restritivo mas. Em A Pallas Nagy Lexikona (A grande enciclopédia da [Editora] Pallas) ainda não se encontra uma informação sobre a literatura do país no verbete Brazília. No volume 3. .27 mas a alguns poetas destacados (como Gonçalves de Magalhães. como Macedo. Nessa enciclopédia já é maior o número de autores com verbete autônomo (encontramos verbetes sobre os autores mais importantes ou renomados do Romantismo. Gadamer ou outros teóricos que supõem alguma identificação conotativa com uma obra para fazê-la sair do âmbito do simples terreno denotativo. publicada 27 A Pallasz Nagy Lexikona. encontramos informações cada vez mais sofisticadas sobre a literatura brasileira. só foram aceitas pelo público e tiveram êxito na Hungria as obras brasileiras que satisfizeram as expectativas acima enumeradas. que representam uma matéria morta. As primeiras informações da literatura brasileira chegaram por via dos verbetes das enciclopédias editadas na viragem dos séculos XIX e XX. Álvares de Azevedo. na iniciativa de grande envergadura da Világirodalmi Lexikon (“Enciclopédia da literatura universal”). temos de estudar a recepção das obras brasileiras e ver quais delas tiveram impacto no meio húngaro. até que. existente mas sem influência. Gonçalves Dias e Tomás António de Gonzaga) a obra já dedica verbetes autônomos. Nas enciclopédias posteriores.

além dos verbetes sobre a literatura brasileira e fenômenos literários ligados com o Brasil (como. nem encontramos em nosso trabalho de pesquisa nenhuma outra menção de obras traduzidas desse país.A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria 31 “Az ápoló” (“O enfermeiro”). ano III. 46. 1-2. publicado no (suposto) número 1 da revista intitulada Új Hang. não se traduzira obra brasileira alguma para o húngaro. até a publicação dos primeiros volumes da “Grande Enciclopédia de Révai”. p. publicado em 1912 no jornal Világ de Budapeste. sem indicação do nome do tradutor. 1912. que ainda não se fazia acompanhar de traduções de obras para efetivo conhecimento por parte do público húngaro. p. até os anos 1910. o Modernismo). quer dizer. na realidade. de forma que não temos informação sobre qual dos contos do autor figura na revista. Por outro lado. 1. 29 entre 1970 e meados de 1990. 1090. n. 28 Világirodalmi Lexikon. figuram. verbetes sobre 228 escritores brasileiros. foi um conto de Machado de Assis. 23 fev. Assim. incerto quanto aos dados bibliográficos: é um conto de Ottavio Brandão. Na seção de folhetim.29 Infelizmente. Parece-nos mais ou menos evidente que. não são mais do que informações gerais dessa literatura. por exemplo. com relação ao modo como as letras brasileiras tornam-se de fato conhecidas na Hungria é bastante difícil identificar os fatores determinantes da expansão desse conhecimento: por um lado temos as primeiras notícias informativas. e após esse conhecimento geral surgem ou podem surgir as obras com as quais o público leitor tem já um contato mais familiar. em seguida surgem as primeiras publicações de traduções que. segundo podemos afirmar hoje. Essa informação aparece na “Enciclopédia da Literatura Universal”. Világ. dado que nessa enciclopédia não há referências a obras brasileiras publicadas em húngaro. Tratava-se de mera informação sobre as letras brasileiras. de 1931. o número mencionado do periódico. com o título Az ápoló. até o momento da redação deste artigo. v. uma revista político-literária publicada em Moscou. não foi possível consultar. há informações a respeito de um conto de Monteiro Lobato que saiu na revista ilustrada de lite- . A primeira obra brasileira traduzida para o húngaro.28 Temos outro texto brasileiro traduzido para o húngaro.

. 24 ago. n. no prefácio do livro. 1930. Assim. crítico e historiador de literatura. 31 . contudo eles contêm uma cintilação tropical indefinida” (Rónai. 391-393. um pouco frios. e.15. In: Pásztortz (Kolozsvár/Cluj). é uma publicação que lança os alicerces para um conhecimento ulterior. relegando ao segundo plano aqueles que em versos Az élcfaragó. informamos que Paulo Rónai (1907-1992) é um literato húngaro que em 1940 trasladou-se para o Brasil como bolsista do governo brasileiro e nesta sua nova pátria desenvolveu variada atividade como tradutor. Nos poemas da antologia prevalece um certo gosto ou “ar” parnasiano.31 Este livrinho. p. revelar as enfermidades da alma brasileira. traduzida por Paulo Rónai. p. 391). é num parecer bastante generalizado que um livro de poemas.” (Pásztortz. 17. 8). o tradutor afirma: “Nos seus versos muito burilados. rejeitando satisfazer um gosto pelo exótico ou movido por um interesse folclórico. de saída. que tem poemas de 25 poetas brasileiros da primeira metade do século XX. 1939. 1930. que reunia uma série de escritores da Transilvânia da época. indicado apenas com a abreviação: Szys. enérgico e em vias de desenvolvimento. 1939. p. 2009 ratura e artes intitulada Pásztortz (Fogueira de Pastores).32 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Paulo Rónai. universalizantes. não obstante passar quase despercebido. editada na Transilvânia. oferecia uma avaliação ponderada do autor: “Monteiro Lobato é o criador da moderna literatura nacional no Brasil. Afinal. p. e foi acompanhado de uma nota que. Trata-se da seleção intitulada Brazília üzen (“Mensagem do Brasil”). A seleção deu preferência aos poemas de alto quilate poético. n. ano XVI. publicado em 1939. A apresentação avaliativa do autor faz-nos supor que é trabalho de uma pessoa conhecedora da literatura brasileira e mostra a seriedade daquela revista.30 O conto Az élcfaragó (Fabricante de piadas) saiu na seção “Narradores Estrangeiros”. acompanhados de uma introdução que esboça o panorama da literatura (ou antes: da poesia) brasileira. Sobre a poesia de Olavo Bilac. apresenta a poesia brasileira como manifestação “de um jovem povo com cultura. os critérios da seleção dos textos já contavam. falta o couleur locale. Sem nome completo do tradutor. Tem por objetivo fazer um contraponto à literatura francesa. indica o primeiro momento da difusão mais abrangente da literatura brasileira na Hungria. com um círculo reduzido de leitores. experimentando uma vida intelectual cada vez mais profunda” (Rónai. além dos dados biográficos. 8). ao mesmo tempo. 30 Para os poucos que não conheçam seu nome..

34 escrito depois da leitura. p. parece. afinal. Brazíliai regény (Romance brasileiro). dizendo que estão de guarda. Suas palavras novamente refletem . 1939a. negros. por exemplo. que ele apresenta como romance por excelência. dos 33 poemas do livro. índios e mestiços causaas também aos franceses ou húngaros. assinalamos que o publicista pôde ler as traduções de Paulo Rónai antes da publicação do livro Mensagem do Brasil. que se frisa na recensão informativo-crítica do publicista György Bálint. reunidos em quatro pequenos ciclos. contudo. escrita alguns meses depois da publicação do livro de poemas de Paulo Rónai. suas palavras sobre a poesia brasileira têm uma mensagem política para a atualidade de então. de que os brasileiros são gente feliz porque têm preferência pela literatura pura. e da Europa maltratada bate-se a resposta: ‘Obrigado!’” (Bálint. por exemplo. não aparecem os representantes da poesia concreta. Nessas palavras do jornalista. pode-se dizer que tal princípio de escolha e apresentação dos poemas resultou do gosto intelectual urbano daquele momento. segundo ele mesmo diz. porque o tradutor publicara algumas delas em diferentes revistas. alheia aos trágicos problemas nacionais. O jornalista que.32 Assim. já sabemos. Não sejamos. Assim. no entanto os poetas informam sobre o essencial. por exemplo. Para os leitores mais sagazes. 32 desiguais e livres apresentavam cores e tons mais ásperos. por outro lado. 1939b. Esse essencial.. É essa mesma voz universal. mãos brancas ou negras batem o sinal tranqüilizador. injustos com Paulo Rónai: em seu prefácio.33 Essa mesma posição se reflete num outro texto dele. ele fala sobre as dificuldades de obter livros do Brasil: pode ser que simplesmente não tivesse à mão todas as obras necessárias para uma antologia equilibrada. [. que. percebe-se também uma preocupação com os valores da cultura ameaçados.. Os livros de viagens ou os folhetos turísticos mostram só o exotismo. falsa). a mesma coisa que causa dor ou alegria aos poetas crioulos. quase instituição nacional... Essa mesma antipatia pela literatura da vanguarda e/ou experimental também se nota. que pensam descobrir uma incongruência de datas.] Todos os poetas são aparentados. p. muito mais tarde. em francês. 7) É com estas palavras que o texto termina: “Agora desde escrivaninhas brasileiras. se familiarizara com o Brasil pela leitura das traduções de Paulo Rónai35 chega à conclusão. com a literatura húngara. não correspondiam ao gosto do selecionador. em agosto de 1939. do Dom Casmurro de Machado de Assis. (Bálint. 1939. Julgando-se objetivamente. escritas na véspera da Segunda Guerra Mundial. etc. ao contrário do que ocorre. como. na qual. mais modernos. só oito do ciclo “Descobrimento do Brasil” evocam ambientes tipicamente brasileiros. Suas vozes são afins e universais. na sua colaboração para a Enciclopédia da literatura universal. esse “outro Brasil”. 7) 33 34 35 Bálint. nós o encontramos nesse livro de traduções novo e belo. uma falta total de poemas da primeira fase do movimento modernista. anteriormente. um pouco precipitada (e. e não as peculiaridades exóticas. 31. p. os que Ronald de Carvalho escreveu a respeito do Brasil.A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria 33 Notamos.

2009 uma perspectiva universalizante. E justifica-se: “além dos poemas de costume. por meio dos escritores do boom. tempos depois. em 1940.34 Revista Brasileira de Literatura Comparada. 1939). que se manifestava tão intensamente nas obras de ficção de temática brasileira dos escritores húngaros acima mencionados. encontramos. 1939. o autor escreve: “não procuremos um exotismo exterior na poesia”. a visão da geração que travou contato amplo e profundo com as letras latino-americanas. O estranho não se diz com respeito ao couleur locale. Como já mencionamos. p.. Gabriel García Márquez. em outra resenha crítica a respeito de Brazília üzen (Mensagem do Brasil). porque ele sublinha que o maior mérito desse livro é que não é “nada brasileiro”: “Nada tem de exótico. povos mais novos e mais felizes irão retomá-lo na América” (Bálint. p. uma seleção de . 31). Os poemas caracteristicamente brasileiros passam quase despercebidos para o crítico. neste livro. que deixam entrever uma influência francesa. 1939b. publicada na revista literária Nyugat (Ocidente). também deformou a visão dos intelectuais (e de seu público) de então.” (Nagy. notadamente Alejo Carpentier. etc. Rómulo Gallegos. Juan Rulfo. Nesses anos aparecem mais duas obras literárias brasileiras: Paulo Rónai publica. essa atitude fundada no eurocentrismo e afastada do gosto geral do público leitor. aspectos que tanto marcaram. quando já não existir na Europa. nos intelectuais que formavam o gosto literário daquela época.” (Bálint. que continuava interessado pelos momentos exóticos do Brasil. ou ao menos diante dos problemas específicos do Brasil. Assim. que não podiam ou não queriam observar da literatura brasileira senão aquelas obras que “demonstram que o espírito europeu não conhece fronteiras e num tempo futuro. a não ser que os criados sejam negros e um dos amigos do personagem principal sofra de hanseníase. incluindo as brasileiras. alguns poemas de pompa estranha e surpreendentes. a falta de sensibilidade diante do exotismo brasileiro.15. 31) É curioso observar.. n.

em aparência. desde o n. In Népszava (Budapeste). Esta edição de 1944 do romance de Azevedo (Budapeste: Anonymus) teve uma pequena edição fac-similada de 30 exemplares: Azevedo. Dessa forma. Por essa razão. com o título de Santosi Versek (Poemas de Santos).39 Sobre esses livros . Estados Unidos. até o n. Inglaterra. mais independente em relação aos Estados Unidos do que os outros países latino-americanos. seis nos anos 1960 e três nos anos 1970. os romances do primeiro período de Jorge Amado são publicados na Hungria e o autor. 1970. Entre 1947 e 1976 saíram quinze livros de Jorge Amado (dois no final dos anos 1940. em 1970. pode escrever com plena razão. cabe ao Brasil um lugar privilegiado.) é considerada arte decadente e o lugar dela. o Brasil torna-se um alvo privilegiado na luta contra o imperialismo ocidental. o tradutor de Dona Flor e seus dois maridos. Trad. 499). Por isso. no posfácio desse livro: “Dez ou quinze anos atrás talvez fosse supérfluo este posfácio. Jorge Amado foi o escritor estrangeiro mais conhecido e mais popular na Hungria” (Benyhe. senão uma resposta mais ou menos imediata à realidade circundante. torna-se um escritor de presença contínua na imprensa.A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria 35 36 37 Budapeste: Officina. já não se procuram nela valores universais e eternos. parte ocidental da Alemanha. cinco nos anos 1950. Sendo. não contando as inúmeras reedições). de 1940. de 1941. 1940. essa tradução é publicada em forma de livro. com o título Hangyaboly (Formigueiro). “Egy brazil bérház”. 38 poemas de Ribeiro Couto. em primeiro lugar a da União Soviética. indicam uma mudança de concepção na recepção e interpretação da literatura em geral e da literatura brasileira em particular. com o título Egy brazil bérház (Um prédio brasileiro). 233. János Benyhe. Aluizio.38 A Segunda Guerra Mundial e o estabelecimento de um novo sistema político na Hungria. África e Ásia.37 Depois. Nesse novo horizonte cultural-literário. Alteram-se também os horizontes da orientação literária: a literatura do “ocidente culto” (França. Hangyaboly. 20. por Henrik Horváth. que circula entre Praga e a União Soviética. dos países socialistas e a literatura progressista dos países das Américas. A literatura passa a ser uma arma da luta ideológica. p.36 e o jornal Népszava publica em folhetins O cortiço. ocupa-o a literatura socialista. a “construção do socialismo”. em 1944. de Aluísio Azevedo. Budapeste: Íbisz. etc. 2002.

mas sim a violenta luta de classes simbolizada pela batalha entre os coroneis do cacau e seus escravos. Cacau (Arany gyümölcsök földje).41 Com a profusão com que os romances de Jorge Amado circulavam na Hungria (com tiragens de 40 a 80 mil exemplares). Társadalmi Szemle (Revista Social). um dos historiadores de literatura daquele Oferecemos uma lista completa das edições das obras de Jorge Amado em húngaro (entre parênteses indicamos as edições posteriores): Terras do sem fim (Szenvedélyek földje). um dos primeiros escritos é uma recensão crítica de Terras do sem fim. Jubiabá (Zsubiabá). Os pastôres da noite (Az éjszaka pásztorai). szegf és fahéj). Sobre Jorge Amado. mas as recensões publicadas nas revistas literárias também incorrem nesse tom politizado em que não há lugar para análises estético-literárias. 1960. Sándor Tavaszy. 1961 (segunda edição: idem. terceira edição: idem. 1949 (segunda edição: Európa. cravo e canela (Gabriela. da Associação Húngara de Escritores. 1950). p.36 Revista Brasileira de Literatura Comparada. 1963. Na revista literária intitulada Csillag. o cavaleiro da esperança (A reménység lovagja. Emil Hartai..] mostram uma nova cara da América Latina. 1951. que estabelece as forçosamente necessárias linhas de interpretação dessa obra – válidas. János Benyhe. Tanto mais porque Jorge Amado foi o escritor brasileiro cujas obras satisfaziam as expectativas do público leitor com o seu latente erotismo. e a pintura do mundo colorido e exótico da Bahia. Vida de Luís Carlos Prestes. Emil Hartai. Budapeste: Szikra. 1952.. Trad. Budapeste: Révai. Sándor Szalay. Budapeste: Szikra. Trad. Dona Flor e seus dois 39 . Trad. Capitão de Longo Curso (A vén tengerész). 1950. Não é o exotismo. como: “Os eminentes soldados da paz: Jorge Amado” ou “Jorge Amado sobre o movimento da paz brasileiro e sobre seu novo romance”. publicada na revista científico-ideológica do partido comunista. A morte e a morte de Quincas Berro Dagua (Vízordító három halála).15. Budapeste: Szépirodalmi. Trad. 1961. indiretamente. Budapeste: Kossuth. Budapeste: Európa. A completa verdade sôbre as discutidas aventuras do Comandante Vasco Moscoso de Aragão. Életrajzi regény Luis Carlos Prestesrl). Trad. 1975). para os outros romances do mesmo autor: Jorge Amado. Gabriela. n. Marcell Benedek. não é de estranhar que até hoje o Brasil apareça-nos tal como o escritor baiano o pintou. Trad. Budapeste: Kossuth. ou a imagem das selvas sem fim que prevalece em suas obras.40 Mas o que mais demonstra a difusão da imagem de Amado como escritor politicamente comprometido e como “zoon políticon” é o grande número de escritos sobre a sua pessoa. 1961. Trad. 1950. Pablo Neruda e os outros escritores eminentes [. Trad. -l. (-z. Trad. (segunda edição: idem. János Benyhe. Attila Orbók. Sándor Szalay. 1967. Emil Hartai. 1975). 2009 foram publicadas 26 recensões críticas. Budapeste: Szépirodalmi. e muitos com títulos altissonantes. Seara vermelha (Vörös vetés). Trad. Mar Morto (Holt tenger). Lajos Boglár. Budapeste: Káldor. Trad. 1973). Entre 1953 e 1975 saíram 16 artigos que diziam respeito a ele. Budapeste: Európa. em especial a partir de Dona Flor e seus dois maridos. 1947 (uma segunda edição com o título húngaro Végtelen földek. Budapeste: Európa. 834) Compreende-se este tom altamente engajado porque se trata de um artigo de teor informativo que saiu numa revista teórica.

61) “A béke kiváló harcosai: Amado Jorge”. como na recensão sobre Seara vermelha. 1950. 1173-1174. fala-se sobre o Brasil. 1951) Ao final da década de 1950.. depois de assistir ao congresso do PEN Clube no Rio de Janeiro. 18 dez. entre eles. 1961. saído do povo e lutando contra os horrores do mundo imperialista: o homem comunista. já se encontra um tom mais equilibrado. p.] A apresentação dessa podridão não desce ao naturalismo. 42 Essa imagem estreita. 30 maio 1953. 1971. 729) . 1953. Assim saíram dois poemas de Jorge de Lima na revista de literatura mundial. vêm aparecendo outros escritores e. Para ele. é o reflexo verídico desta sociedade que requer amostras fidelíssimas da macabra dança do capitalismo. 8. pois “até aos operários miseráveis chegou a esperança que estimula a viver: a esperança da nova vida. Algumas vezes o discurso ganha tons de hino. 1970. Irodalmi Újság (“Jornal Literário”). 41 Nagyvilág (Budapeste). Budapeste: Kozmosz Könyvek. Népszava (Budapeste). 1959. Além de Jorge Amado.” (Stér. em 1951: “Seara vermelha mostra o Brasil levantando-se”. de cuja beleza e intimidade gostei tanto quanto da sua rica fantasia e das suas múltiplas cores decorativas. do socialismo” (L. comunista. Ano IV.42 E nas notas de viagens de um literato húngaro que em 1961 publicou as suas Impressões do Brasil. András Gulyás. János Benyhe.. Sándor Tavaszy. essa imagem deformada do Brasil e de sua literatura começa a se matizar com diferentes tons. escreveram-se entre maio e outubro daquele ano seis recensões informativas nos mais diversos órgãos de imprensa. Seus heróis verdadeiros são o povo e o homem de novo quilate. p. [. Capitães da areia (A kiköt rémei). subordinada a fins eminentemente políticos é a que se apresenta quando. Trad. Nagyvilág (fundada na época do “abrandamento” do poder totalitário). 1976. ago. unilateral. n. “Jorge Amado a brazil békemozgalomról és új regényérl”. 40 37 período assim descreveu os fundamentos de “A terra de frutos de ouro”: O romance de Amado é um escrito combativo. (Koczkás. saído em 1963. a pretexto dos romances de Jorge Amado. I. intitulado em húngaro A vén tengerész (“O velho marinheiro”). alguns cuja obra tem outros valores. que saiu num semanário de literatura. Trad. p.A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria maridos (Flor asszony két férje). a obra de Jorge Amado é uma fonte de informação antes sensorial que exclusivamente politizada sobre “esse peculiar mundo popular. Budapeste: Európa. Tenda dos Milagres (Csodabazár). não apenas políticos. Szabad Nép (Budapeste). Budapeste: Európa. Trad. Queremos notar como curiosidade que do romance A completa verdade sôbre as discutidas aventuras do Comandante Vasco Moscoso Aragão. Capitão de Longo Curso.

2009 Em suas andanças pelo mundo brasileiro. 43 A zöld pokol. Finalmente. estimulando. o viajante atreve-se a dizer aos húngaros que o Brasil não deve ser entrevisto como um mero panorama ou cenário de fundo político. Com essa relativa abertura nos pontos de vista que começava a prevalecer lentamente a partir do início dos anos 1960 na política cultural e literária húngaras. de Erich Wustmann. Budapeste: Táncsics. Após os anos da ditadura forte e o total encerramento do país. surge uma exigência por bens culturais anteriormente vedados.15. ou o carnaval e seu simbolismo popular. assim. apresentam o Brasil dos trópicos. os romances mais divertidos dele. sublinhados aqueles que o distinguem da Europa. exigência que se vê satisfeita. o interesse por outros aspectos desse país. o guia desse literato húngaro é a monografia intitulada Geografia da fome. n. começa a diversificar-se a edição de livros e enriquecer-se a divulgação da literatura brasileira. Budapeste: Táncsics. que cativam o público.43 O inferno verde. de Josué de Castro. do diretor francês Marcel Camus. e que aos intelectuais compete a tarefa e a responsabilidade de formar a consciência do grande público.38 Revista Brasileira de Literatura Comparada. 44 . obras como Trópusi Indiánok között. mesmo que um pouco contraditoriamente. da selva e dos índios. O público requer já cada vez mais abertamente uma recepção cultural mais sofisticada e diversificada. multifacetado. de Richard Katz. Notas de viagem do Brasil). do etnólogo húngaro Lajos Boglár.44 Sob outro prisma. 1958. entre eles a música popular brasileira e a sua melancólica melodia. também em húngaro. mas em harmonia com a renovada temática da sua obra aparecem. que Stér interpreta sob a influência do filme Orfeu negro. Será essa Riói Képek. motivado pela Guerra Fria. 1959. Essa nova forma de recepção do Brasil fora previamente preparada por livros publicados a partir dos últimos anos da década de 1950: As imagens do Rio. O autor mais divulgado ainda é Jorge Amado. Mas Stér tem bastante sensibilidade para ver e descobrir um Brasil excêntrico. Brazíliai útijegyzetek (Entre índios do trópico. de componentes culturais e étnicos múltiplos e amalgamados.

A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria

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Aki átment a szivárvány alatt. Budapeste: Kossuth, 1964.
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Emberek és rákok. Budapeste: Kossuth, 1968.
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Emberfarkas. Budapeste: Európa, 1962. Aszály. Budapeste: Európa, 1967.
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A többi néma csend. Budapeste: Európa, 1967.
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Máglyák az serdben. Budapeste: Móra, 1970.
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busca do diferente, do exótico que marcará e determinará o interesse pelo Brasil nos anos subsequentes. Entretanto, publicam-se obras de autores comprometidos, como as de Jorge Amado, já mencionadas: Quarto de despejo, de Carolina Maria de Jesus,45 O ciclo do caranguejo, de Josué de Castro,46 São Bernardo e Vidas secas, de Graciliano Ramos,47 e ao lado deles saem romances como O resto é silêncio, de Érico Veríssimo48 e O Guarani, de José de Alencar, embora este seja transposto para o húngaro em versão condensada, em uma edição para jovens.49 Por outro lado, e de forma menos manifesta, aparecem obras das mais diversas naturezas, mormente direcionadas aos intelectuais. Essa forma de publicação “velada”, um pouco contrária à política cultural oficial, caracteriza em primeiro lugar a revista de literatura mundial Nagyvilág e algumas antologias de poesia e de prosa. Destinadas a um público seleto, surgem nessas publicações, de forma esporádica, muitos autores de valor da literatura brasileira. Publicações como Dél keresztje (Cruzeiro do Sul, 1957), Kígyóöl ének (Canto de matar cobras, 1973), Hesperidák kertje (Jardim das Hespérides, 1971), Járom és csillag (Jugo e estrela, 1984) divulgam a poesia latino-americana. Os poemas são acompanhados de notas biográficas e bibliográficas; dessa forma, em torno de 40 grandes poetas brasileiros são publicados na Hungria. Essas antologias seguem o princípio da antologia de Paulo Rónai, ou seja, selecionam os poemas apenas pelo seu valor poético e estético e não demonstram o menor interesse em ilustrar o desenvolvimento da história literária brasileira. Fazem falta, por exemplo, poemas que caracterizem os primeiros anos do Modernismo, ou do Concretismo e de outras tendências experimentalistas. Nesse mesmo contexto, publicaram-se contos de Graciliano Ramos, João Guimarães Rosa e Jorge Amado em antologias de prosa latino-americana: Ördögszakadék (Abismo de diabo, 1966), Dél-amerikai elbeszélk (Narradores latino-americanos, 1970), Az üldöz (O perseguidor, novelas latino-americanas, 1972).

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Revista Brasileira de Literatura Comparada, n.15, 2009

Um dos grandes méritos da revista de literatura mundial Nagyvilág é a apresentação de autores e obras, de tendências e fenômenos literários, com base em critérios puramente poéticos ou estéticos. Em 1961, a revista traz informações sobre as atividades de Paulo Rónai no Brasil, frisando a importância do seu trabalho no conhecimento mútuo entre o Brasil e a Hungria (Gyergyai, 1961, p. 1566-1567). E é naquelas páginas que, em 1962, aparece um estudo sobre o romance brasileiro contemporâneo (Tavaszy, 1962, p. 1388-1391), assim como, em 1969, um ensaio sobre o desenvolvimento da literatura latinoamericana (Benyhe, 1969, p. 1723-1731). Mencionamos também certas resenhas sobre os livros de Jorge Amado, sobre romances como O tempo e o vento, de Érico Veríssimo, e Irmão Juazeiro, de Francisco Julião. O texto de recepção mais característico dessa época é o necrológio de Guimarães Rosa que Nagyvilág publicou em 1968. Nele se fala na “síntese dos mágicos elementos primitivos de mundos diferentes”, em “mitos de valor universal de conteúdo filosófico” (Rónai, 1968, p. 338-339) e a linguagem engenhosa e estranha que o escritor compilou para si e que se parece muito com a linguagem de James Joyce. Tal análise da obra de Guimarães Rosa só se tornou possível graças à mudança de tom que marcou a imprensa política, única e oficial na Hungria de então. Assim, na recensão informativa que a revista teórica Társadalmi Szemle publicou sobre Vidas secas, de Graciliano Ramos (Szllsy, 1967, p. 137), já se comenta a “exatidão sociológica” ao lado dos valores estéticos da obra, numa análise mais flexível e sutil do que se fazia nos anos precedentes. A partir de meados dos anos 1970, sob a influência do boom da literatura latino-americana em espanhol, relega-se para o segundo plano a literatura brasileira, e em especial a literatura chamada progressista. Na realidade, diminui o interesse do público pelas obras brasileiras que tratavam de uma forma direta os problemas políticos e sociais. O exotismo dos autores do realismo mágico, a forte carga intelectual dos pós-modernos como Julio Cortázar e Jorge

A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria

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Luis Borges, e a urdidura complexa dos romances políticos de autores peruanos ou mexicanos, tudo isso atrai mais o interesse dos leitores húngaros. Só obras de Jorge Amado, tais como Dona Flor e seus dois maridos ou Gabriela cravo e canela, continuam cativando novas e novas gerações de leitores.

Novos aspectos da presença literária brasileira na cena húngara
Entretanto, surge, enquanto isso, uma nova geração de divulgadores das letras brasileiras, marcados por um gosto literário renovado e pelo objetivo de revelar aos leitores húngaros os traços característicos e essenciais da literatura brasileira. Assim, entre 1983 e 1986, a Rádio Nacional Húngara realizou uma série de emissões, de meia hora cada uma, com o título Latin Amerika Irodalma (Literatura da América Latina). Essa série apresentou uma visão panorâmica das literaturas do século XX naquele continente, com os fenômenos novos e característicos da literatura brasileira: o Pré-modernismo e o Modernismo, a poesia concreta, a moderna prosa experimental e a da grande urbe, fazendo conhecer ao público nomes que nunca haviam sido mencionados antes, como Oswald de Andrade, Haroldo de Campos, Rubem Fonseca, Dalton Trevisan e Ignácio de Loyola Brandão, que com sua obra despertaram o interesse da elite intelectual. Nessa época, transcorreu uma significativa etapa do processo de divulgação da literatura brasileira na Hungria: a publicação do Macunaíma, de Mário de Andrade. A tradução dessa obra conheceu um verdadeiro êxito editorial, pois em poucos meses esgotou-se uma tiragem de dez mil exemplares. O público, ávido do exotismo – até então condenado –, devorava o livro, que foi apresentado como um grande acontecimento cultural tanto pelos programas culturais de rádio e tevê quanto pelas recensões críticas.50 Nessa perspectiva, em resenha cujo título menciona a cé-

Szalontai, 1984. Bodor, 1984. Cserti, 1984.
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como referência. Essas palavras do literato e tradutor János Benyhe novamente aludem às contradições da “oferta e da procura” da literatura brasileira na Hungria. prefácio e notas por János Benyhe. Judit Xantus. que se mantém quase intacto desde a antologia de 1939. segundo ele. o elemento exótico. seleção. Budapest: Európa.52 a maior antologia húngara da poesia latino-americana publicada até os dias de hoje. a força primitiva da obra comentada: Macunaíma é conseqüência da capitalização latino-americana irregular e tormentosa. Vinícius de Morais. por Jorge Amado e Guimarães Rosa. Luís Delfino. Sebastião Cínero dos Guimarãens Passos. 1984. Augusto Frederico Schmidt. p. Vicente de Carvalho. 1985. Tal princípio distintivo. ilustre estudioso e tradutor. 2009 lebre epopeia finlandesa e que qualifica Macunaíma como “Kalevala artificial da zona tórrida”. n. que se cultiva nos recantos ocultos do Brasil e que conserva valores eternos. Ascenso Ferreira. 52 . predomina igualmente numa antologia de 1984. lamentando que “os enérgicos elementos linguísticos deste último faltem na obra de Osman Lins” (Benyhe. um representante da velha estirpe pôs em confronto com a literatura de fortes cores brasileiras uma literatura classicizante. Bernardino da Costa Lopes. representado. Carlos Drummond de Andrade. um tanto indeciso. Cecília Meireles. Kilenc és kilenced. Num debate transmitido pela rádio. Antônio de Castro Alves. Trad. neste caso. 211). o crítico Pál Bodor frisa com entusiasmo a mistura feliz de elementos intelectuais e populares.51 revela certa perplexidade provocada por este câmbio de paradigma no gosto dos divulgadores. evoca. Raimundo Correia. novena. João da Cruz e Sousa. Raúl Bopp e Vinícius de Morais são os nomes novos) e assim mesmo há muitas coincidências na escolha dos poemas. Ronald de Carvalho. Rui Ribeiro Couto. Manuel Bandeira. A edição de Nove. Teófilo Dias. Aqui aparece novamente. Augusto dos Anjos. 1985. pastoril. O autor do posfácio. Olavo Bilac. Gregório de Matos. 51 Járom és csillag (Jugo e estrela). da americanização que abraça aplastando a versatilidade étnica (lingüística.15. Joaquim Maria Machado de Assis. a ambientação sulista de Verissimo e as fortes cores mineiras de Guimarães Rosa. Antônio Cândido Gonçalves Crespo. Budapeste: Kozmosz. O que surpreende é que a lista dos poetas modernos é quase igual à da seleção de meio século atrás (apenas Ascenso Ferreira. Raul Bopp. a obra nordestina de Jorge Amado.42 Revista Brasileira de Literatura Comparada. 1984). folclórica e etnográfica) de múltiplas cores e raízes e dos excessos intelectuais amotinados e revoltosos (Bodor. Na antologia aparecem poemas de Mário de Andrade. Alberto de Oliveira. Francisco Antônio de Carvalho Júnior. Luís José Junqueira Freire. de Osman Lins. Jorge de Lima. Geir Campos. Alphonsus de Guimaraens. Mensagem do Brasil.

situando-se entre o passado e o presente. o curioso e célebre episódio em que telespectadores húngaros de A escrava Isaura. no entanto. Budapeste: Európa. István Bárczy. suscitado pela telenovela feita com base no romance de Bernardo Guimarães. os hábitos de leitura e o gosto do público húngaro. outrora leitor ávido dos romances de Jorge Amado. A terceira margem do rio. Tóth. 55 Outro livro dessa natureza. p. Oto Lara Resende: O retrato na gaveta. e passou a ler obras de Paulo Coelho. de Clarice Lispector. Trad. houve possibilidade de publicar autores mais sofisticados. 54 Zero. a rabszolgalány. de Ignácio de Loyola Brandão. Mário de Andrade: O peru de Natal. Luís Jardim: Paisagem perdida. O grande público. Trad. saiu em 1990 o Zero. inventada por Bernardo Guimarães havia mais de um século. 5). Lygia Fagundes Telles: Venha ver o pôr do sol. Lima Barreto: O homem que sabia javanês. Budapeste: Európa. A seleção criteriosa. 53 Isaura. ou seja. Eszter S. até Feliz aniversário.54 quer dizer. Monteiro Lobato: O comprador de fazendas. Clarice Lispector: Feliz aniversário. uma coletânea de contos53 que reunia desde Pai contra mãe. Ao se reler a resenha dessas duas obras. de Machado: O ascensorista. 1991. 1990. Ervin Székely. Marques Rebelo: Caprichoso da Tijuca. João Guimarães Rosa. Trad. e notas de Paulo Rónai. Paulo Rónai. O grifado é nosso. um país de tempo estancado. porque novamente se faz referência à imagem de um país exótico. talvez porque saísse ao mesmo tempo em que a edição em húngaro de A escrava Isaura. 1986. de 1986. A partir do final da década de 1980 mudaram. Ferenc Pál.A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria 43 Boszorkányszombat (Mistério de sábado). foi a antologia Boszorkányszombat. Rui Ribeiro Couto: Mistério de sábado. Na antologia se encontram contos de Machado de Assis: Pai contra mãe. talvez. Aníbal M. afastou-se da literatura de valor. com a liberalização da edição e do mercado de livro. 1987. e as séries televisivas ocuparam lentamente o lugar dos livros e da leitura. sel. de Machado de Assis.55 que a crítica recebeu como fonte de informação privilegiada a respeito de um mundo caoticamente moderno (apud Wirth. anciãos de um pequeno vilarejo do interior do país. que atualmente é o autor brasileiro mais popular (e quase exclusivo) na Hungria. Éva Faragó. acompanhada de notas bibliográficas. Rachel de Queirós: A donzela e a moura torta.” (Magyar Hírlap. Nestas últimas duas décadas. Orígenes Lessa: Roteiro de Fortaleza. Alcântara Machado: As cinco panelas de oiro. Ferenc Pál. István Bárczy. estagnado em cerimônias. Com essa atitude pode-se explicar. vale a pena meditar sobre a seguinte asserção: “A maioria dos contos mostra gente lutando com seu fado. no auge do interesse do público pelo Brasil. num mundo de senzalas e casas grandes. 1987. . foi recebida com entusiasmo da parte dos críticos. Carlos Drummond de Andrade: Beira-rio. João Alphonsus de Guimaraens: Eis a noite!. Aurélio Buarque de Holanda: O chapéu de meu pai. Budapeste: Európa. Dessa forma. a imagem do Brasil tal como vive no (sub)consciente das pessoas na Hungria. reuniram uma importante soma a fim de remir da escravatura aquela bela e talentosa jovem. gente que quase nunca triunfa.

Antônio Fraga. 4). n. Ingácio de Loyola Brandão. Trad. a importância dessas duas antologias reside na demonstração de que a literatura brasileira tornou-se independente. Décio Pignatari: Vers-gyakorlatok (Exercícios de poesia). 56 Para além do material poético. com introdução e apresentações dos autores pelo diplomata. Márcio Souza. No presente momento. 8). Endre Szkárosi. 14). 57 De Antônio de Alcântara Machado. Trad.56 Nesse sentido. Autran Dourado. Mais tarde saíram obras de outros escritores que descreviam a vida de grandes centros urbanos. de Victor Giudice. 1997. Seleção. selecionada pelo embaixador José A. representa na Hungria a literatura brasileira. e se pode dizer que seus motivos regionalistas já se manifestam sob forma universalizante. Lindgren Alves. Ligia Fagundes Telles. Raduan Nassar. foram traduzidos para um seletíssimo público-leitor poemas de dois representantes da poesia concreta.] poesia concreta no início dos anos cinqüenta não é o primeiro exemplo de que nas circunjacências da zona cultural euro-americana criam-se uma nova linguagem e uma expressão autêntica que correspondem às demandas intelectuais desta região (Szkárosi. Márcia Denser. como a revista Nagyvilág. passaram a conceder mais espaço à atual literatura brasileira. 58 . Moacyr Scliar. No número de agosto de 1992 (ano XXXVII. Seleção.58 dos quais as resenhas destacam Autran Dourado. n. 11). 2009 p. 2008).. Guimarães Rosa. András Petcz e Ferenc Pál. prefácio e notas de Ferenc Pál. András Petcz e Ferenc Pál. segundo afirma um dos críticos do livro (Urfi. Clarice Lispector. p. Com a mudança do gosto literário. Na antologia figuram contos de dezessete autores.57 Esses livros de poemas obtiveram. Haroldo de Campos e Décio Pignatari. os foros mais exigentes da literatura. n. no seu número de abril de 1991 (ano XXXVI. publicada por iniciativa da Embaixada do Brasil e com o apoio do Ministério das Relações Exteriores. Rubem Fonseca. 1997. 1999. prefácio e notas de Ferenc Pál. uma antologia bilíngue. publicaram-se dois contos de Dalton Trevisan. com o conto Duelo. Fernando Sabino. é um bom manual para conhecer a prosa brasileira do século XX. como contos de Dalton Trevisan e de Rubem Fonseca. Budapeste: Íbisz. A modern brazil elbeszélés – Antologia do moderno conto brasileiro. Rachel de Queiroz.. Esta revista publicou. Budapeste: Íbisz. o conto “Bolívar”. Otto Lara Resende. Dalton Trevisan. no qual ficou consignado o reconhecimento da independência criativa dos autores desse país dos trópicos: A formação da [. em revistas literárias. e muito especialmente Guimarães Rosa.15. de um conhecido poeta experimental. pois Haroldo de Campos: Konkrét versek (Poemas concretos). um parecer crítico. Rubem Fonseca.44 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Adélia Prado.

existem enciclopédias. Ferenc Pál. Referências A Pallas Nagy Lexikona. 225. Budapeste: Atheneum. antologias de poesia e de contos que informam detalhadamente sobre autores. que formou uma imagem do Brasil a partir das informações obtidas dos livros de viagens. 1972. 2008). Budapeste: Pallas. Budapeste: Európa. 1893-1900. de Mário de Andrade. tendências literárias. Esse fato explica o êxito das obras de Jorge Amado e o êxito isolado de Macunaíma. podemos dizer que neste momento a literatura brasileira está relativamente bem representada na Hungria. falta um vivo contato com as letras brasileiras – as primeiras obras literárias apareceram relativamente tarde e só raras vezes corresponderam às expectativas do público. com o romance Budapeste.A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria 45 Budapeste. além de Paulo Coelho. . György. BALINT. que correspondem aos cânones universais. o nome de Chico Buarque de Holanda. 59 este é o único conto em que aparece o elemento exótico (apud Galamb. Az üldöz. 1-18. Contudo. p. Budapeste. e tacitamente sempre esperou que a literatura correspondesse a esses estereótipos decorrentes de “preconceitos” devidos a circunstâncias históricas diversas. tanto nos temas elaborados como nos recursos artísticos de que lançam mão. 1939a. Isso distingue o conto de Rosa dos demais textos. da imprensa e da mídia. n. 2000. Brazília üzen. Trad. Havemos de mencionar. cujas obras inundam as livrarias. Contudo.59 também está disponível nas estantes. que. e de certa forma a dificuldade da divulgação de autores modernos cuja obra se afasta de uma imagem tradicional do Brasil. 7. neste caso o fato de o escritor/cantor ter escrito um romance cuja ação decorre em parte em Budapeste é muito mais importante para os leitores húngaros do que os valores estéticos do livro. 2005. e assim podem informar e orientar os interessados. Magyarország. Resumindo.

18. ano 20. 10. Csillag. Sándor. s/d. n. p. Budapeste. Budapeste. Kilenc és kilenced. Budapeste: Kossuth. Flor asszony két férje. Új Tükör. Járom és csillag. s/d.15. JÓKAI. Brazíliai útijegyzetek. ano II. . Budapeste: Szimbiozis. Hesperidák kertje. Budapeste. brazil elbeszélk – Isaura után. Budapeste: Kozmosz. NAGY. Budapeste: Gondolat. Trópusi indiánok között. Zoltán. János. Magyar Hírlap. 1957. Egy irodalmi legenda – digitálisan. p. 1997. KOCZKÁS. 31. 11. n. Budapeste. ano XIV. 1723-1731. NN. 1984. Nagyvilág. Pál. Cd-rom. Mór. Budapeste: Európa. Budapeste: Kozmosz. p. 1908-1941. GYERGYAI. 172. Nyugat. Budapeste: Európa. p. Arany gyümölcsök földje. Utószó. Budapeste. Mai brazil költk – Rónai Pál fordításai. n. 110. Latin-amerikai elbeszélk. _____. Boszorkányszombat. BENYHE. Kígyóöl ének. Utószó. 1984. p. 1966. BODOR. Irodalmi Újság.46 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Ördögszakadék. 1985. _____. 1566-1567. 1970 L. I. 5. 1970. Oszkár. 1971. CSERTI. Forróégövi m-Kalevala (Mário de Andrade Makunaíma-fordításáról). Budapeste: Arcanum. 1961. Pesti Napló. Budapeste: Európa Könyvkiadó. _____. 2009 _____. Budapeste: Európa. 1973. Latin-amerikai számvetés. Dél keresztje. p. 1939. 499. 61. Élet és Irodalom. Budapeste. 1939b. Brazíliai regény. n. n. Nagyvilág. CD-rom. Budapeste: Arcanum. 1950. Magyarok külföldön. 1969. Izgalmas üzenet. 211-217. Budapeste: Európa. n. 27. CD-rom. 1908-1941. Brazília üzen. Nyugat. Egy irodalmi legenda – digitálisan. 1987. Budapeste. p. Összes mvei. Albert. BOGLÁR. Seção Figyel. Vörös vetés. Lajos. 12. 1966. Magyar Világ Brazíliában. n. Nyugat. 1951. n. 1984. Makunaíma (Mário de Andrade regénye). ano VI.

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* keywords: Brazilian literature. Latin American literature. o modo como essa difusão. Uma primeira versão deste texto foi apresentada nesse evento. Agradeço a Claudiney Ferreira. Universidad de San Andrés/ Conicet. palavras-chave: literatura brasileira. regionalization. comparative literature. It seeks to think how today – in the era of the regionalization of cultures – a comparative literature perspective for the diffusion of Brazilian literature can help in the construction of new cultural communities. analyzing different historical and cultural contexts as conditions for the promotion of Brazilian Literature in Latin America. que marcou o lançamento da base de dados Conexões. 1 Em dezembro de 2009. literatura comparada. Felipe Lindoso e João Cezar de Castro Rocha o convite para participar do encontro. cujo objetivo é mapear e reunir um amplo e inédito número de profissionais estrangeiros que estudam ou pesquisam temas e autores da literatura brasileira. abstract: The article discusses particular moments in the diffusion of Brazilian Literature in Argentina. alicerçada numa perspectiva de literatura comparada. em São Paulo. o Instituto Itaú Cultural realizou o I Encontro Internacional Conexões Itaú Cultural – Mapeamento da Literatura Brasileira no Exterior.49 Tempos e contextos da literatura brasileira na Argentina e no exterior Florencia Garramuño* resumo: O artigo discute diferentes momentos da difusão da literatura brasileira na Argentina. poderia ajudar na construção de novas comunidades culturais.1 O evento estava destinado a mapear os brasilianistas que trabalham pelo mundo fora. Quais seriam os problemas e os impasses com . literatura latino-ameri- cana. regionalização. com o alvo de construir novos laços e conexões entre aqueles que trabalham sobre e com a literatura brasileira em universidades e diversas instituições estrangeiras e fazê-los refletir em conjunto sobre o estado atual da literatura brasileira no exterior. analisando os diferentes contextos históricos e culturais como condições para a promoção da literatura brasileira no modo de se pensar hoje – na era da regionalização das culturas –.

tradutores e editores. mas também convocou tradutores e editores de literatura brasileira no exterior. comunidades e preocupações que não teriam como não influir numa disciplina tão sensível à sociedade e à cultura como o é a dos estudos literários – ou de quaisquer dos diversos ramos da arte. dos documentos. dos arquivos. mas também em termos de difusão da literatura brasileira. tanto que muitas vezes duas. editor) reunidas no encontro encontravam-se numa mesma pessoa.50 Revista Brasileira de Literatura Comparada. a partir das quais é possível vislumbrar uma transformação em andamento de um conceito de literatura e de cultura brasileira que leva em conta sua colocação na paisagem transformada de um mundo contemporâneo no qual fronteiras e limites são redesenhados cotidianamente. rearranjando regiões. dos livros. assim como da própria cultura brasileira? O encontro não só congregou professores e pesquisadores de universidades de diferentes países (Argentina. já que condiz com muitas das características da literatura mais contemporânea com as quais a minha própria pesquisa vem lidando há algum tempo – é a da situação complexa da difusão de uma literatura brasileira contemporânea que já não parece poder ser contida nos . já que a partir dele se iniciaram muitos trabalhos em conjunto entre diversos pesquisadores. O encontro foi frutífero não só em termos profissionais e de contato – pelo fato de fazer se conhecerem pessoas que trabalham com problemas afins –. n. França.15. e até três das identidades profissionais (pesquisador. Uma dessas questões – e a que me parece mais premente. Alemanha e Japão. Do ponto de vista da pesquisa sobre a literatura brasileira. Estados Unidos. Inglaterra. entre outros). tradutor. Espanha. talvez o mais produtivo do encontro tenha sido a grande quantidade de perguntas teóricas que desabotoaram das discussões e debates. que abriram um diálogo fecundo sobre os dilemas da difusão da literatura brasileira em extrema coincidência com os debates que preocupam os pesquisadores. 2009 que os pesquisadores do Brasil se confrontam ao se encontrarem distantes do Brasil.

a própria noção de literatura como instituição nacional fortemente ligada a certos padrões de constituição de uma identidade nacional é talvez um dos limites mais evidentemente ultrapassados. habita um número cada vez maior de romances contemporâneos – brasileiros.Tempos e contextos da literatura brasileira na Argentina. 51 parâmetros que definiram a instituição literária no passado. Até que ponto esse extravasamento de problemáticas nacionais – “especificamente brasileiras” – deveria modificar também a forma de encarar as próprias ferramentas e conceitos para se pesquisar e ensinar a literatura brasileira no exterior? Se a literatura contemporânea já não se arrosta exclusivamente à discussão de uma identidade nacional e se. pelo contrário. traduzida. no entanto. vale a pena ressaltar. parece evidente que. aparece como o exemplo mais extremo desse afastamento da problemática do nacional na literatura brasileira contemporânea que. de Bernardo Carvalho (Carvalho. língua e nação –como proporia Giorgio Agambem (2001) –. embora não seja o único. para a difusão e promoção dessa literatura brasileira no estrangeiro... Entre esses parâmetros hoje extrapolados. 2009). ou não. novos problemas surgem – que a ideia mesma da difusão e promoção da literatura brasileira . fomentar e alicerçar uma discussão dessas novas “comunidades imaginadas” – para usar em um sentido mais complexo o conceito de Benedict Anderson (1983) – seriam estratégias mais sensíveis ao que essa nova literatura pareceria estar discutindo. E é nesse sentido também – uma vez que a literatura brasileira no exterior está sempre se relacionando com as formas da literatura dos países nos quais essa literatura está sendo difundida. parece se propor cada vez mais fortemente como imaginação de comunidades e coletividades que desconhecem a ferrenha ligação entre território. no contato com essa cultura diferente. Um grande número de textos brasileiros – assim como também de textos de outros países e regiões – põe em cena um extravasamento espantoso dos limites e fronteiras que tinham definido o literário como um tipo de discurso ancorado numa certa especificidade institucional. O filho da mãe. pesquisada e.

2009 no exterior compartilha muitos dos problemas que têm se associado nos últimos anos à discussão da literatura comparada. Na primeira etapa veem-se os vínculos estreitos entre diplomacia e tradução e resulta 3 . professor de University of Massachusetts Darthmouth.52 Revista Brasileira de Literatura Comparada. os “difusores” – da literatura brasileira no exterior noutros termos que já não só do ponto de vista de uma transmissão. n. 2 O livro de Sorá estuda quatro períodos importantes: o primeiro estende-se desde o século XIX até os anos 1930. p. mas também cultural – tem um papel fundamental no programa de uma “nova literatura comparada”. para esta possibilidade. que se aproveitaria dessa mesma migração e deslocamento como uma forma de produzir saberes “outros” que despontariam ao se confrontar a literatura brasileira com um contexto estrangeiro ao que essa literatura interpelaria de uma forma diferente. quando se cristaliza. e como. Seria uma forma de produzir um saber novo. apontou. divulgação ou propagação de uma literatura ou de um saber que existiria feito e pronto no Brasil e que os pesquisadores só transmitiríamos. Na proposta de Apter. Segundo ela. 243). também das culturas. global or wordly” (Spivak. a noção de tradução –linguística. com ela. Também Spivak tem elaborado algumas noções interessantes – e bem complexas – sobre o problema da literatura comparada na contemporaneidade. “in naming a transnational process constitutive of its disciplinary nomination comparative literature breaks the isomorphic fit between the name of a nation and the name of a language” (Apter. propondo uma colaboração entre os estudos de área (“area studies”) e a literatura comparada que poderia tentar “to figure themselves – imagine themselves – as planetary rather than continental. não só atender à difusão da literatura brasileira. com ela. 2003. no encontro Conexões. Outra das questões tem a ver com a possibilidade de se pensar a difusão – e. os seus problemas. da mão das políticas culturais do Estado Novo de Getúlio Vargas (1937-1945).15. mas também intervir na produção A apresentação de Victor Mendes. e as suas ferramentas – na era da regionalização da economia global e. diferente do já conhecido.2 E aí a pergunta que surgiu é a de se uma instituição como o Itaú poderia. 72). 2003. principalmente a partir de discussões como as elaboradas por Emily Apter em The translation zone ou Gayatri Spivak em Death of a discipline sobre os modos de se pensar a literatura comparada – a disciplina. p. deslocando-o em outros contextos. a ideia de uma “auténtica cultura nacional brasileña” que inicia o segundo período.

3 Mas a pesquisa demonstrou também outra consequência mais relevante – e lamentável – ainda para a história cultural da Argentina e do Brasil: a de que a efetiva tradução de autores brasileiros na Argentina não tem sempre ajudado a reduzir o mútuo desconhecimento entre os dois países. A pouca reedição e circulação desses livros é um dado incontestável: dos canônicos e importantíssimos livros brasileiros traduzidos pela Biblioteca La Nación – uma importante editora universalista – nas primeiras décadas do século XX. por exemplo (autores como os já na época afamados Machado de Assis. que Sorá denomina de internacionalização. José de Alencar ou Aluísio Azevedo). estava se produzindo gerado precisamente por aquele encontro. no caso. evidência de um intenso diálogo entre a literatura argentina e brasileira no período. assim como a criação de redes de pesquisadores e de contatos e fluxos de saberes é. O antropólogo Gustavo Sorá começou a pensar algumas dessas questões para o contexto da Argentina durante o século XX no seu importante livro Traducir el Brasil (2003). muito . no entanto. é importante analisar os tempos e contextos dessa difusão. Sorá demonstrou que a tradução de autores brasileiros tem sido muito mais importante e constante na Argentina – segundo algumas variáveis históricas – do que na maioria dos outros paises. quando as relações entre a cultura argentina e brasileira resultam em grande parte da mediação de intercâmbios internacionais nas feiras de Frankfurt. quando a tradução mostra seus vínculos com as políticas estatais e com as a alianças políticas e ideológicas de esquerda que nasceram do exílio na Argentina de Luiz Carlos Prestes e Jorge Amado. Barcelona. vai de 1945 a 1985 e exibe a hegemonia do mercado na seleção e produção da tradução.. principalmente durante os anos do Romantismo. Por último. por sua vez. nenhum deles teve reedição alguma. além do mapeamento quantitativo. A identificação dessas questões e a elaboração de respostas para elas. levando em conta as diferentes condições de possibilidade que esses tempos e contextos têm oferecido para o conhecimento da literatura brasileira em países estrangeiros. Partindo de uma pesquisa empírica sobre as traduções de escritores brasileiros para o espanhol realizadas na Argentina. que Sorá denomina mercantil. e dos circuitos construtores do mercado editorial internacional. em 1905. foi traduzido para o espanhol só um ano depois..Tempos e contextos da literatura brasileira na Argentina. como se pode concluir da relevância que os temas do desenvolvimento econômico e social adquiririam nesse momento. Fica claro que. Algumas dessas questões dizem respeito a um mapeamento qualitativo da literatura brasileira no exterior que seria bem interessante fazer. 53 de esse “saber outro” que. Caberia ressaltar a importância que nos anos sessenta adquirem questões ideológicas e o tipo de problemas para os quais os estudos sociais brasileiros vão ser tomados como modelos a observar. cuja primeira edição no Brasil é de 1904. um dos grandes ganhos de encontros daquela natureza em termos teóricos. além do fato pragmático – também importante – de facilitação dessa rede e desses contatos. sem dúvida. de Machado de Assis. um quarto período. inicia-se em 1985. por exemplo. É no segundo período. Um terceiro período. Essa sincronia é. surpreendente pela espantosa atualidade das traduções: Esaú e Jacob. ao se falar da difusão da literatura brasileira no exterior.

Era claro – a pesquisa demonstrava – que houve condições para uma tradução bem rica naquele momento. portanto. para “atualizar” e manter vivo o conhecimento do Brasil que esses livros traduzidos poderiam – e deveriam – ter acarretado. mas respondem a uma configuração internacional de redes de relações linguísticas. 2003. por outro lado. nem. p. quando a . fica evidente que essas traduções não fizeram com que a literatura argentina se alimentasse da brasileira nem que a brasileira se alimentasse da argentina. mas que na verdade ela não acarretou consequências de peso para o efetivo conhecimento da literatura brasileira na Argentina ou nos países de fala espanhola nos quais esses livros brasileiros poderiam passar. que o significado dos livros traduzidos em suas dimensões históricas depende das formas nas quais esses livros são recebidos e apropriados por seus leitores. que a literatura brasileira ficasse conhecida na Argentina fora do interesse de algumas pessoas específicas. tampouco. como diz Sorá. Se pensarmos na relação entre os escritores argentinos da época e a literatura brasileira. demonstrando. Fica claro a partir da leitura do importante livro de Gustavo Sorá. ou entre os críticos argentinos e a literatura brasileira.54 Revista Brasileira de Literatura Comparada. n. arquivos e instituições dedicadas ao desenvolvimento do conhecimento sobre o Brasil não contribuiu. que “las fuerzas de internacionalización de los mercados desde fines de los años ochenta remataron el distanciamiento entre dos ‘culturas nacionales’ cuya vigencia editorial es regulada en aduanas muy lejanas” (Sorá. A debilidade institucional da Argentina em termos de bibliotecas. a ser lidos. desde esse momento. 221). assim como das posições no campo intelectual dos agentes tradutores e dos pesquisadores. Um momento mais bem-sucedido dessa difusão foram – sem dúvida – os anos 60 e 70 do século XX. e que os problemas da tradução não dizem respeito só a duas culturas nacionais específicas.15. 2009 embora muitos dos títulos dessa mesma editora que provinham de diferentes tradições literárias europeias tenham sido reeditados ano após ano.

Antonio Candido disse sobre o prêmio: Para nós. 181). em 1972. 1972). tendo ele artigos como os de Antonio Candido. foi construído particularmente por uma editora de origem espanhola. É claro que. na época. Machado. com a Revolução Cubana e as instituições que iriam se criar. Chico Buarque ou Davi Arrigucci Jr. Antonio Houaiss. Clarice Lispector e tantos outros escritores brasileiros citados e analisados nesses textos (Moreno. Em depoimento em Havana. Casimiro de Abreu. Haroldo de Campos. brasileiros. Quando a Editorial Siglo XXI publica América latina en su literatura. colocam em relação a literatura hispano-americana e a brasileira referindo-se a autores como Alencar. É por esses anos que o que tinha sido conhecido até então como “Concurso literário hispano-americano” foi se denominar.. 1999. o contexto político da América Latina. a presença da literatura brasileira no volume é incontestável. tomou o nome de “Premio Casa de las Américas”. fez com que a difusão da literatura brasileira tivesse um impacto mais forte nas literaturas de língua espanhola.. com a entrada dos autores brasileiros. p. a Seix Barral – e compartilhou com ela o seu momento de fama internacional. logo em seguida. 55 literatura brasileira pegou carona no boom da literatura latino-americana – que. sem falar exclusivamente da literatura brasileira. ou de tantos outros que. e ao tecer uma rede fraternal que abraça o continente com suas possibilidades de compreensão e intercâmbio (apud Cabañas e Fornet. que premiou autores brasileiros e contou no júri com escritores e intelectuais brasileiros da talha de Antonio Candido. Cuba tem sido a grande mediadora. Guimarães Rosa. como “Concurso literário latino-americano” e. lembremos. . José Guilherme Merquior.Tempos e contextos da literatura brasileira na Argentina. ao criar a possibilidade de entendimento que se forma aqui e se desenvolve fora. geralmente tão separados dos irmãos de fala espanhola. ou Emir Rodríguez Monegal e outros críticos latino-americanos que fazem referência à literatura brasileira.

Soy loco por ti América. E essa América Latina grande não se preocuparia tanto com a questão da identidade nacional ou regional. Segundo Pablo Rocca. na época. que dançávamos e cantávamos com fervor nas festas da época.) A língua é minha pátria E eu não tenho pátria. que Caetano repetia gozoso: Flor do Lácio Sambódromo Lusamérica latim em pó O que quer? O que pode esta língua? Vamos atentar para a sintaxe dos paulistas E o falso inglês relax dos surfistas Sejamos imperialistas! Cadê? Sejamos imperialistas! (. 1982).. intensa. tenho mátria E quero frátria. é importante ressaltar é até que ponto essas condições. 4 O leque que uma história da difusão da literatura brasileira no exterior abre é bem complexo e não seria possível esgotar. perdurável. Caetano retoma uma frase famosa de Fernando Pessoa em “A minha pátria é a minha língua”. 2009 Para aqueles que. no fim da década de 1980. Basta lembrar o refrão de Língua para ouvir uma alusão leve a essa América Latina.56 Revista Brasileira de Literatura Comparada. em 1984. estudávamos literatura na universidade argentina. mas se assemelharia com a corrupção das unidades homogêneas que Caetano Veloso comemorava em Língua – canção que também dançávamos e cantávamos ainda com mais fervor. no entanto. “ningún crítico hispanoamericano coetáneo de la nacionalidad que fuere se encargó. aparece em Velô. colaboraram ou não para uma difusão efetiva. como Monegal o como Rama..15. n. Na canção. esse livro foi a descoberta de que a literatura brasileira existia numa sintonia de problemas com a literatura latino-americana e que ela própria podia se converter em um campo de estudo e pesquisa para nós. em um único artigo. se possível. composta por Caetano Veloso. 4 .. de Bernardo Soares (Pessoa. da literatura brasileira na América Latina. do Livro do desassossego. que víamos representada na canção de Gilberto Gil com letra de Capinam. em 1967. con tanto interés y persistencia de “Soy loco por ti América” foi composta sob o efeito da morte do Che Guevara e gravada em Tropicália. “Língua”. as discussões que um problema como esse abre. os latino-americanos que queríamos e pretendíamos construir uma América Latina grande. Uma questão que.

apesar do diálogo entre Rama e Candido e outras poucas honrosas exceções. o que é bem pouco para um campo de crítica latino-americana que tem sido bastante rico e produtivo. e. levando em conta as condições atuais da globalização. aprofundá-las. Ángel Rama. 2006a. que. Se esses tempos e contextos hoje são bem diferentes.5 Eu acrescentaria que tanto o trabalho de Rama como o de Rodríguez Monegal sobre a literatura brasileira talvez não tenham comparação. 20 5 la literatura brasileña” (Rocca. Emir Rodríguez Monegal y el Brasil. bastante pouco produtivo. O que também é evidente é que o diálogo entre críticos de fala espanhola e portuguesa também tem sido.. sobre as literaturas latinoamericanas. Montevideo: Ediciones de la Banda Oriental. 56). com a contribuição deles para a literatura latino-americana em espanhol. incorporam nesse estudo as .Tempos e contextos da literatura brasileira na Argentina. e como deveríamos fazer essa difusão? Hoje. p. tendo abandonado a preocupação pela identidade latino-americana. no campo intelectual latino-americano. possa se inserir no contexto contemporâneo para tirar desse processo as boas qualidades. como se deveria pensar a difusão da literatura brasileira na era da globalização e das culturas pós-nacionais ou transnacionais? Como as diversas instituições de pesquisa e ensino da literatura brasileira poderiam contribuir para uma discussão dessas questões que. em um sentido mais geral. e interromper aquelas outras propriedades que levam ao apagamento das diferenças e à imposição de lógicas homogeneizantes? Queremos continuar defendendo uma identidade da literatura brasileira ou pretendemos abrir esse conceito? Como poderíamos pensar e contribuir para a difusão da literatura brasileira no exterior partindo da inspiração do título da coletânea Nenhum Brasil existe (Rocha.. quando a palavra de ordem é a redução dos orçamentos no contexto da crise global. há evidência importante sobre a multiplicação dos estudos comparativos entre as literaturas e as culturas do Brasil e da Argentina. sobretudo o de Rama. 2003). tomado de empréstimo de um verso de Drummond? Qual seria a literatura brasileira desse Brasil nenhum que quereríamos difundir. 57 Um trabalho mais abrangente sobre as relações entre Emir Rodríguez Monegal e Angel Rama com o Brasil pode se encontrar no livro de Rocca.

tanto de ensaios. Hoje existe uma série dentro de uma editora argentina (a Corregidor) especialmente dedicada à publicação e tradução de literatura brasileira que vem. ou Literatura e vida literária. ou No se dice. publicando clássicos como Oswald de Andrade ou Graciliano Ramos e literatura mais contemporânea. como o Balanço da bossa. assim como outros muitos. hoje.15. como Ana Cristina Cesar ou Leminski.58 Revista Brasileira de Literatura Comparada. ou os vários romances de João Gilberto Noll e Adriana Hidalgo. um diálogo muito mais intenso entre a crítica argentina e a crítica brasileira. com muito mais frequência. traduzidos e não traduzidos. de Augusto de Campos. evidenciam-se numa escrita poética que se nutre desses contatos. autores brasileiros contemporâneos e clássicos: a nova edição que o Fondo de Cultura Econômica fez de um livro que era inencontrável nas livrarias argentinas. também está nutrindo os escritores brasileiros. como o caso do Sublunar. realizados tanto na Argentina como no Brasil. Mas não só. Tanto esses livros como o contato fluido dos poetas argentinos e brasileiros em festivais diversos. de Euclides da Cunha. de Clarice Lispector. demonstram uma presença cada vez maior da literatura brasileira no catálogo de editoras argentinas. há quase dez anos ininterruptos. Também grande parte das maiores editoras argentinas e multinacionais vem publicando em Buenos Aires. Os sertões. O caso da poesia contemporânea é muito significativo. de Marcos Siscar. A revista Tsé Tsé vem publicando uma série de livros e de poemas. Basta ler alguns poemas de Carlito . Mais importante do que o número de volumes publicados. de Flora Sussekind. de Carlito Azevedo. no entanto. 2009 culturas do Brasil sem os empecilhos do purismo linguístico ou historiográfico do passado. por sua vez. junto com livros como A descoberta do mundo. ou Um amor anarquista e os vários textos que Beatriz Viterbo vem publicando. E existe também. e lançando dentro de sua editora livros completos de alguns poetas brasileiros contemporâneos. é o fato de esses livros estarem hoje influenciando uma escrita literária argentina que tem se nutrido deles e que. n.

Giorgio. além de publicar o livro traduzido. talvez seja hoje uma estratégia para transformarmos. que desenham uma encruzilhada de fertilização cruzada. Pensar a difusão da literatura brasileira de uma perspectiva de literatura comparada transformada. o papel da literatura brasileira. em parceria com a Capes do Brasil. na cabeça dos leitores. mais importante ainda.. ANDERSON. Benedict. Imagined communities.. É importante. que já não esteja procurando as identidades de uma literatura como referentes de uma identidade nacional. tem financiado e continua financiando pesquisas desenvolvidas por universidades argentinas e brasileiras em conjunto. na medida de nossas fracas possibilidades.Tempos e contextos da literatura brasileira na Argentina. sobretudo na Secretaria de Ciência e Técnica do Ministério de Educação da Argentina. mas que. mas que é uma viagem de ida e volta. New York: Verso. Medios sin fin: notas sobre la política. . se fundamente na relação dessa literatura brasileira com as outras literaturas. e com ela o papel da literatura em geral – nesse novo mundo a cuja transformação estamos assistindo. 59 Azevedo ou Marília Garcia para ver que essas influências têm andado nas duas direções. e em várias direções. As verbas para projetos de cooperação internacional e para trabalhos comparativos têm aumentado exponencialmente na Argentina. Os livros da coleção Vereda Brasil têm instalado um conhecimento importante dos autores publicados. lembrar que difusão não implica um trajeto de uma só via. 1991. que. nesse contexto. pelo contrário. já que. 2001. Valencia: Pre-Textos. e que essa difusão acontece num contexto global de poder e conhecimento que influencia crucialmente a paisagem intelectual. Referências AGAMBEN. cada volume traz estudos preliminares e bibliografias que ajudam os livros traduzidos a se instalarem no mercado e.

Soy loco por ti América. _____. Rio de Janeiro: Universidade do Estado do Rio de Janeiro. O eixo e a roda. Una antropologia de la circulación internacional de ideas. CARVALHO. Rosa (la visión hispanoamericana de Emir Rodríguez Monegal y Ángel Rama). São Paulo: Companhia das Letras. Death of a discipline. LOPES DE ARAUJO. Gilberto. 2006. New York: Columbia University. Ángel Rama. (Recolha e transcrição dos textos de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha. Phillips. . VELOSO. Tropicália. v. Inés. Valdei. 1984. Lisboa: Ática. Gustavo. GIL. Emir Rodríguez Monegal y el Brasil: dos caras de un proyecto latinoamericano. Livro do desassossego. 2003. In: _____. SPIVAK. Bernardo de. FERNÁNDEZ MORENO. 2003. Traducir el Brasil. Buenos Aires: Libros Del Zorzal. Pablo. 2006b. La fisura regionalista de Graciliano a G. PESSOA. 1982. Montevideo: Ediciones de la Banda Oriental. Premio Casa de las Américas: memoria. 12. ROCCA. FORNET. O filho da mãe. n. Nenhum Brasil existe. 1999. 2009 APTER. César. Caetano. The translation zone. CABAÑAS. La Habana: Fondo Editorial Casa de las Américas. 1972.15. 2009. Gayatri. Jorge. A minha pátria é minha língua. 1960-1999. 2006a. Fernando. In: _____. 1967. SORÁ. Polygram. Princeton: Princeton University. Belo Horizonte. 2003. México: Siglo XXI. CAPINAM. Emily. Velô. Prefácio e Organização de Jacinto do Prado Coelho). América latina en su literatura.60 Revista Brasileira de Literatura Comparada.

literatura mundial. Arguing for an idea of literature superseding the language. KeywoRds: Brazilian literature. Partindo de uma noção que valoriza a literatura sobre a língua. inside of a dog. aBstRact: The essay aims at a revision of the problem of the relation between a national literature. A mais imediata será o sublinhado duma diferença dentro da língua: no português europeu. as a notion without nation. Outside of a dog. cosmopolitismo. regressa ao caso de Machado de Assis para intervir no debate sobre o conflito entre local e universal na sua obra e a respectiva recepção fora do Brasil. world literature. literary nationalism. as a way of exclusion. and the very idea of Literature. reviews the case of Machado de Assis in order to step into de debate on universal versus local and on the problem of the international reception of his work. Groucho Marx 1. cosmopolitism. Machado de Assis. Machado de Assis. nacionalismo literário. não deixa de envolver particularidades curiosas. a book is a man’s best friend.61 Ideia de Literatura Brasileira com propósito cosmopolita Abel Barros Baptista* Resumo: O ensaio procura rever o problema da relação da literatura brasileira com a noção de literatura e a literatura mundial. elemento de exclusão. it’s too dark to read. PalavRas-cHave: literatura brasileira. as it seems to be the Brazilian case. não ocorre essa acepção de “exterior” * Universidade Nova de Lisboa . Pedir a um português que escreva sobre os estudos de literatura brasileira em Portugal. e ademais como parte dos “estudos de literatura brasileira no exterior”.

Ou a versão da pilhagem que Roberto Schwarz ofereceu no ensaio a que mais adiante me referirei. Com efeito. 1993) tenha necessidade de esclarecer que a locução “deitar fora” não significa “dormir fora de casa” mas “jogar fora”. 2009 como conjunto de países constituído por todos os que não são o nosso. a frase talvez não pareça logo o absurdo que é: o que serão. propriamente falando. Ademais. pelo menos. deite no lixo! Não leve ao pé da letra. e diríamos “estudos de literatura portuguesa no estrangeiro”. Digamos que há sempre o “estrangeiro”. E é curioso que um dicionário on line de português para brasileiros (Prata. etc. a orientação do estrangeiro para o doméstico. Deitar fora é jogar fora. significa o que é de fora ou vem de fora. Também se usa em Portugal a locução “lá fora”. suspensa de uma referência que destrince exterior de interior. por seu lado.62 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Mas exterior excede estrangeiro e. por outro lado. que a pessoa vá dormir fora ou. Nada disto. no nacional. Daí que a modalidade portuguesa. estudos “estrangeiros”? Já a formulação “nem todos os estudos conduzidos no exterior são por isso exteriores” faz figura mais de problemática do que disparatada. parece mais pertinente delimitar “exteriores” do que “estrangeiros”. sem se aperceber de que “jogar fora”. no que é nosso. a interferência do exterior no interior. enfim. até pela etimologia. como todos. até estimule jogos de palavras fáceis: a formulação “nem todos os que vivem no estrangeiro são estrangeiros” resultaria em disparate se transposta mecanicamente para “nem todos os que vivem no exterior são exteriores”. marioprataonline. ao suspender a familiaridade. requer determinação.” Disponível em: <http://www. a alemã ou a italiana: como se houvesse uma substantivação de “o estrangeiro” que o “exterior” já não alcançou. Você verá várias placas em Portugal. no confronto com a brasileira. a determinação do interior como nacional. e sempre se sabe o que é: o “exterior”. Convenhamos que não há enorme diferença entre as duas palavras. tratando-se de estudos. “Leituras em competição”: uma “guarda 2 . promete alguma coisa pertinente. a mesma construção valendo. Mas talvez disséssemos “estudos de literatura brasileira no estrangeiro” mais depressa do que estudos de literatura brasileira “fora do Brasil” ou “no exterior do Brasil”. Por exemplo.1 Isto. O verbete completo diz isto: “Não significa.15. pode nem ser estrangeiro. Usamos “o estrangeiro”. Se dissermos que “nem todos os estudos de literatura portuguesa conduzidos no estrangeiro são estrangeiros”. dar uma deitadinha na casa de um amigo ou amiga. mormente as cínicas ou as que derivam do sublinhado de traços de degradação do ideal cosmopolita. já tratando-se de difusão de uma literatura nacional ou de estudos de uma literatura nacional. o jogo de palavras. 1 Claro que estão disponíveis várias descrições alternativas. do domínio do futebol. e que significa precisamente “jogar fora de casa” por ser o oposto de “jogar em casa”. absolutamente. atrai a atenção para a definição do exterior como estrangeiro. seja a inglesa. n. é também locução portuguesa. estrangeiro é exterior e. dizendo: Por favor. mas o advérbio indica registo coloquial e em regra requer um “fora” de referência para o nosso primitivismo pôr os olhos. a orientação do interior para o exterior.br/obra/ literatura/adulto/dicionario/ framegranda_a.htm>. aliás. sugerindo que académicos medíocres procuram longe escritores obscuros para fazerem carreira sem controlo nem concorrência. para outras literaturas.com. falando de cidadãos. permita.

Talvez se possa inferir do exemplo que os estudos. cheio de brasilianistas ou cheio de brasileiros. modalidade decerto muito inconveniente de prestar tributo ao princípio de nacionalidade em literatura. p. no sentido em que pertence a este ou àquele aglomerado nacional. e ainda querendo tê-lo muito fortemente. evidentemente não se tornam portugueses. aonde nunca foram. kantianamente guiados pelo ponto de vista filantrópico universal. residir nessa aspiração a razão última por que muitos académicos se dedicam a estudar a literatura de países onde não nasceram. mas mais quotidiano. e as universidades em princípio não confundem brasilianistas com brasileiros. sendo o menor. mas hóspedes. Isto. como cidadãos. ilustram este princípio estranho: as pessoas têm necessidade de viajar porque as ideias e os estudos. 187). o cosmopolita pode estar condenado à errância eterna. porque de algum modo se dedicam ao Brasil. mas estes. 4 talvez porque. aqueles que. literatura ou cultura portuguesa que no estrangeiro são conduzidos por não portugueses. esses académicos. e que provincianismo é ver o exterior só como exterior. em janeiro de 2009 (Wood. vai a “terras distantes” à procura do que a faz menos provinciana e por isso não se importa de ignorar a história e o contexto. sem universal em que se apoie. literal ou figuradamente.3 Note-se que. espaço doméstico. não podem nem precisam de viajar. desde que obtenha proventos fáceis (cf. o maior risco. Um “Instituto de Estudos Brasileiros”. A imediata consequência a extrair seria que o universal não existe. Certa tradição académica chama “portugueses” justamente àqueles estudos de língua. 3 63 Colho esta expressão na tradução para português da conferência proferida por Michael Wood num colóquio sobre Machado de Assis na Universidade de Princeton. A segunda consequência é que. vão de um país a outro por causa da literatura. 66). casa. Nesse sentido. que vale para as pessoas. onde não viveram. não acreditamos que os estudos possam ser domésticos ou nacionais sem ao menos aspirarem à condição universal. se deslocam sempre para o território que outros. quase cidadãos honorários. 2006. é provável que hoje pagássemos a Berlusconi para ler a Divina comédia. Paulo. por outro lado. p.2 Então. não como “o lar de outras pessoas”. aliás. em rigor não tem país. 2009.Ideia de literatura brasileira com propósito cosmopolita avançada” do “centro” pilha as obras da “periferia” para as incluir em repertórios internacionais. Dir-se-á. filantropos embora. ou que só visitaram justamente porque se interessaram pela respectiva literatura – talvez alguma convicção de que a literatura. sem eles. pela simples razão de que ninguém o pode habitar. são brasileiros sem serem brasileiros e que se chamam brasileiros precisamente na medida em que estão no exterior do Brasil e num interior que não se chama Brasil. tanto pode estar sediado em Roma como em S. tendo país. . o de se ver obrigado a esbarrar em regras que lhe são adversas ou a tolerar convicções que lhe repugnam. por sua vez. que estes que viajam. Schwarz. e em princípio hóspedes de honra. O mesmo se passa de resto com os brasileiros: um brasilianista é alguém que se dedica aos “estudos brasileiros”.4 Sem dúvida. nunca serão estrangeiros. Pode. não se prendendo a nenhum espaço delimitado por fronteiras. chamam interior. não parece valer para as organizações nem para os estudos. que viajam por causa da literatura que não se fez na sua terra. Estamos sempre em algum lugar – em algum local. é sempre pouco para quem vive neste ou naquele aglomerado nacional.

2009 Eis o dilema: aquele académico que viaja para outro lado por causa da literatura. e o reconhecimento do pesquisador ultrapassa já não apenas a nação. A impossibilidade do interior bem circunscrito decorre da dissolução da autonomia numa rede de instâncias por definição exteriores. o interior não é nacional senão depreciativamente. que ao brasilianista lhe paga essas viagens e esses estudos? E em nome de quê. esforçar-se por se manter exterior porque estrangeiro? Qualquer estudo implica legitimidade e reconhecimento. . fundações. que ou provêm do interior da instituição em que se trabalha ou do exterior dela. trabalhar no interior de um paradigma pode ser condição necessária para trabalhar no interior de uma disciplina e de uma instituição. editoras. e no propósito do estudo dela. numa rede tendencialmente tão diversificada no mapa como similar nos padrões e critérios de avaliação. de que padrões ou critérios. Trabalhar no exterior de um paradigma pode ser mais perturbador do que trabalhar no exterior de uma disciplina ou de uma instituição. outras universidades. desde logo. disciplinas ou paradigmas. não brasileira. agências governamentais. Exterior deixou de significar estrangeiro: no mundo universitário. Eis outra forma de dizer que o universal não existe: porque o local se tornou impossível. o interior tornou-se demasiado escuro para que se consiga ler nele com nitidez. da importância do seu estudo e da relevância da sua pesquisa. antes.64 Revista Brasileira de Literatura Comparada. deve pretender tornar-se interior apesar de estrangeiro ou. ou até de ambos: o reconhecimento decisivo do brasilianista. n. essa instituição o avalia? Acaso da capacidade de se tornar estrangeiro para não ser estrangeiro no país da literatura que estuda? Outra pertinência da distinção entre “exterior” e “estrangeiro” residiria então em que o “exterior” tem aptidão superior à de “estrangeiro” para referir situações que envolvem instituições. centros de pesquisa. há-de vir do exterior ou de algum interior do Brasil? Ou o factor decisivo estará antes nesse outro interior que é a instituição exterior.15. mas as próprias disciplinas. Em todo caso.

enfim. O artigo de Roberto Schwarz atrás citado. como a brasileira. pelo interesse da literatura brasileira pela realidade nacional brasileira? Que se torne porta-voz de uma literatura entendida como representação do Brasil. muito menos o melhor. Duas interrogações sobre Machado de Assis (Baptista. sendo uma reacção à fortuna crítica de Machado fora do Brasil e ao que ele chama “leitura internacional”. em negar a nacionalidade da literatura brasileira em nome de uma natureza intemporal e transcultural da literatura.5 . Filiando-se. noutras nações. antes. é suficiente para mostrar que se mantêm a actualidade crítica e a energia polémica da análise que propus do ensaio de Machado. O propósito cosmopolita leva em conta o desejo de criação de uma literatura a que os brasileiros possam chamar sua. O propósito cosmopolita não consiste. p. que o leitor interessado pode encontrar no meu livro A formação do nome. antes. antes. 21-111. estude e divulgue a razão de a literatura falar do Brasil? Que se interesse pela realidade nacional brasileira ou. delimitálo historicamente. para a conhecer. enfim. enquanto o primeiro a subordina a uma qualquer relação com o Brasil. edição portuguesa de 1991). uma literatura. que se representa hegemonicamente como construção que circunscreve o interior para que coincida com o nacional. portanto. Machado de Assis. supostamente em competição com a “leitura nacional”. inaugurou com o célebre “instinto de nacionalidade”. 5 Ora. tampouco em afirmá-la ou sequer reconhecê-la: consiste. sim. e a que voltarei mais adiante. aliás. em reconhecer o desejo de nacionalidade. E há-de ser particularmente sensível à presença do estrangeiro no seu interior – e sobretudo à projecção desse interior no exterior indeterminado do “estrangeiro”. 2003. ou.Ideia de literatura brasileira com propósito cosmopolita 65 O presente ensaio conclui um percurso de estudos machadianos inaugurado há mais de vinte anos com uma análise de “instinto de nacionalidade”. não podia senão ser muitíssimo sensível à diferença entre exterior e estrangeiro. O que se deve então legitimamente exigir ao brasilianista? Que estude e divulgue o Brasil de que a literatura brasileira fala ou. no sentido mimético e no diplomático. analise o processo por meio do qual no Brasil se procurou construir uma literatura entendida como representação do Brasil? Proponho designar cosmopolita a perspectiva que estabelece essas distinções e argumenta em favor do segundo termo da alternativa. desnaturalizá-lo e. na linhagem que o primeiro grande espírito cosmopolita do Brasil. que preserva a relação com a literatura. mas postula que tal desejo não se confunde com o que eles ou todos nós chamamos literatura brasileira – nem é o único guia. identificá-lo como uma das forças da literatura moderna em acção no Brasil. como.

Não cabendo aqui sequer tentar resumir o argumento que ocupa a parte central do ensaio. 1969. seria de um só golpe a realização e a supressão da própria noção de Weltliteratur. ou causar estranheza pelo desuso: o melhor bem? o bem comum? o bem supremo? E. àquilo que a cultura medieval pré-nacional já possuía: a noção de que o espírito não é nacional” (Auerbach. a formular certo programa de urgência: “devemos regressar. p. já não pode ser a nação” (Auerbach. está a diminuir e a perder diversidade. como se se tratasse de um programa político: o propósito cosmopolita consiste em reafirmar. 17). O colorido kantiano do meu título.15. p. é citar o desfecho dele. 2009 2. a Weltliteratur não se refere apenas ao que é genericamente comum e humano: antes considera que a humanidade é o produto das relações frutuosas entre os seus membros. 2) A dificuldade é manter a tarefa da filologia diante do processo de estandardização da vida humana à escala global. 1969. o meu propósito. na noção . e mais do que isso. o domínio da Weltliteratur. o modo como.66 Revista Brasileira de Literatura Comparada. n. em circunstâncias notoriamente diversas. sublinha. relacionando-o tanto com o passado quanto com o futuro e considerando o próprio estado do mundo: O nosso planeta. “Filologia e Weltliteratur” (1952). A pressuposição da Weltliteratur é uma felix culpa: a divisão da espécie humana em muitas culturas (Auerbach. ao convocá-lo. 17). que Auerbach detecta e cujo termo pleno. 1969. pode também desnortear. Auerbach perguntava num dos seus últimos ensaios. isto é. sem nenhum paradoxo. se é possível algum sentido para Weltliteratur mantendo o termo na visão de Goethe. há por aí qualquer coisa de urgentemente actual. num modo que sequer é propriamente paródico. No entanto. que apresento nesta formulação decerto precária. acaba a declarar que “a nossa casa filológica é o planeta. p. Espírito? Humanidade? O vocabulário não é seguramente de hoje: ou parece hoje muito pouco cosmopolita. no entanto.

mais restritos e nada essenciais – mas o espaço que se abstém de limitar e impor condições à entrada e estada do estrangeiro. a concepção visionária daquela felix culpa como abertura dum espaço de hospitalidade incondicional. não um espaço essencial de onde derivem e se deduzam todos os espaços. Nos estudos literários. Não um espaço superior e restrito. formando alguma espécie de cânone supranacional ou literatura internacional. sem fronteiras nem conflitos. não fosse o traço decisivo do carácter incondicional da hospitalidade. pela Unesco ou pelo sucesso comercial. mas uma ideia de literatura definida precisamente pelo propósito cosmopolita: digamos que o ensaio de propósito cosmopolita é o que se aproxima da literatura presumindo que o que a constitui é o propósito cosmopolita! Ou. que é a mesma não porque seja desde sempre e essencialmente a mesma. e designadamente dele espera a responsabilidade de circunscrever ele próprio a sua incompreensão e a sua ignorância. para onde alguns poucos afortunados são cooptados.Ideia de literatura brasileira com propósito cosmopolita 67 moderna de literatura. Essa concepção da literatura poderia receber outro nome – tradução –. aquele que não pode deixar de ser reconhecido e não pode deixar de se reconhecer como estrangeiro. O fundamento da hospitalidade não é a natureza humana nem alguma ideia genérica de humanidade. o que se aproxima da literatura animado da convicção de que o propósito cosmopolita é inerente à noção de literatura – um propósito constitutivo da literatura moderna. universal. o propósito cosmopolita define o princípio teórico e político que nos orienta a aproximação a qualquer texto com a ideia de que o que há de nobre e de emancipador na noção de literatura é o que nos anima a pressupor que cada texto foi escrito na previsão do estrangeiro que um dia o virá a ler e estará à altura de o ler precisamente na medida em que for capaz de circunscrever os limites da própria incompreensão sem perder de vista o privilégio de habitar a mesma casa. em termos menos circulares. Decerto é quase de tra- . não um espaço homogéneo. antes porque a caracteriza a hospitalidade incondicional. onde o espírito vagueia livre.

em que ela espera e depende do estrangeiro para se constituir –. força que cria unidades além deles e tensões por causa deles: unidades apesar das tensões. ou quando fala a nossa língua. o bem comum é o da literatura e da partilha da literatura. A ideia da literatura como hospitalidade incondicional recusa tanto o universalismo como morada última que apaga todas as línguas.15. ou do que com tanta facilidade se chama “a mesma língua”. A literatura é uma linha que passa entre esses dois polos. O sonho emancipador aqui seria. tensões não obstante as unidades. somos sempre estrangeiros diante de qualquer obra de literatura. quanto o nacionalismo da língua cioso do núcleo essencial insusceptível de tradução. A definição de literatura podia. mas nunca opera o transporte unívoco de um conteúdo prévio – e por isso a hospitalidade é incondicional. Como se o esperasse – e a melhor descrição de literatura é essa. A língua. ser esta: faz de quem dela se aproxima um estrangeiro e pelo mesmo gesto oferece-lhe todas as condições para que se instale à vontade. 3. que a literatura se constituísse morada de encontro. eis justamente o que separa: porque é a língua que permite reconhecer o estrangeiro como estrangeiro e sobretudo quando fala a mesma língua. 2009 dução que se trata. que a literatura unisse o que a língua separa. O espírito é o espírito da hospitalidade. aliás. n. de estada e exercício da hospitalidade sem condições. há um exemplo de . mas passando entre os polos extremos que a definem: a tradução visa necessariamente à inteligibilidade sem restos – e por isso a hospitalidade é possível –. desde sempre destinando-se ao mundo. como se compreende. E não há razão para que essa ideia não seja válida no quadro da mesma língua. Nas relações ou nos primórdios das relações entre a literatura portuguesa e a brasileira. de cruzamento. e nesse sentido.68 Revista Brasileira de Literatura Comparada. então.

ainda não teve. que se ergue para criar o novo. p. atolado no passado. o Brasil. define com outra palavra a sua condição relativa à nação brasileira. e surgiria apenas em 1947. Herculano escreveu uma longa carta a D. Pedro II lhe pedira. de Gonçalves de Magalhães. p. na 2.6 Este texto.Ideia de literatura brasileira com propósito cosmopolita 69 Trata-se de “Futuro literário de Portugal e do Brasil”. Não é imediatamente perceptível o que faz o “estrangeiro” na análise de Herculano. pela mão de Alcindo Sodré.7 Ora. porém. Duvido. M. originalmente publicado na Revista Universal Lisbonense. 2005. p.ª edição dos Cantos. tanto quanto sei. Escreve Herculano: V. de que nesta nossa época o poema épico seja possível na Europa. e muito. para dar a opinião sobre o poema que D. que viria a ser incluído. e retomado nos Opúsculos (Herculano. permaneceu inédita. . 199-204). trata das consequências para a literatura portuguesa do aparecimento da brasileira. 6 Permito-me remeter o leitor interessado para o comentário deste ensaio de Herculano que apresento em O livro agreste (Baptista. Anos antes. embaraçando o velho decrépito. Herculano. tornando-se por isso relativa em vez de absoluta. Pedro II sobre A Confederação dos Tamoios.). Um ensaio escrito por um português – e que o assume expressamente. mais do que da poesia de Gonçalves Dias: é um ensaio centrado na metáfora do jovem. o primeiro traço que distingue a carta é que Herculano. 25 et seq. estranhará talvez que eu comece por uma declaração de incredulidade que prejudica a crítica especial do poema ou pelo menos a subordina a considerações superiores. Herculano publicara um ensaio a propósito dos Primeiros cantos de Gonçalves Dias. e mais ainda que o seja na América. o de Alexandre Herculano. 1986. a servir de prólogo. I. 1986. a pedido do próprio Herculano. Hoje pode ler-se no volume da edição crítica dos Opúsculos dedicado aos assuntos de literatura (v. 213). Portugal. 212-221). Datada de 6 de dezembro de 1856. invocando-a até como fundamento da incredulidade que fere a capacidade crítica: estrangeiro. 1986. 7 propósito cosmopolita pouco conhecido. em 1947. p. Duvido também de que um estrangeiro possa avaliar sob todos os aspectos uma composição de semelhante natureza (Herculano. e a carta merece um estudo demorado que. no Anuário do Museu Imperial.

215). 2009 Limito-me aqui a observações rápidas que me conduzem ao meu ponto. uma completa negação da generosidade e do heroísmo da epopeia (Herculano. Herculano reputa impossível a epopeia – e sublinha que nenhum dos “sumos poetas contemporâneos” a tentou – em virtude das próprias exigências do género. não constituísse hoje duas nacionalidades distintas” (Herculano. que se sobrepõem às condições actuais em que o poeta eventualmente o tenta. porque as reputo insuperáveis. Em suma. 1986. entretanto. O que. o que seria adequado à epopeia não é nacional. mas os brasileiros são apenas europeus na América. n. considera-a Herculano insuperável: Duvido que o génio pudesse vencer estas repugnâncias. a um tempo . e os que traíram os interesses da sua gente e a religião dos seus antepassados para se aliarem com os conquistadores. razão fundamental por que “a poesia é hoje quase exclusivamente lírica e dramática”. são. “se uma raça outrora única. o “estrangeiro” não está onde se esperava. E o Brasil. apresenta certa especificidade que Herculano também não negligencia: diz ele que as eras heroicas e as gerações épicas do Brasil seriam as do primitivo Portugal. sob todos os aspectos. Esta dificuldade. poeticamente considerados. p.15. Não é. Claro que o argumento envolve um juízo sobre essas condições que não se confunde com a noção das exigências do género: “a nossa geração não é épica”. 1986. a sua civilização o mesmo que a nossa? Não se confunde a classe média do Brasil com a classe média da Europa. Por outro lado. sei de certo é que ele não poderia vencer a desarmonia do espírito público. e o que se tornou nacional é indigno da epopeia.70 Revista Brasileira de Literatura Comparada. p. a nacionalidade brasileira não pode encontrar nos índios um substituto para os primitivos portugueses: aqueles [chefes índios] que se conservaram fiéis às tradições da pátria americana não têm identidade nem unidade nacional com os brasileiros de hoje. Desde logo. O Brasil é um império novo. porém. 215).

o próprio exercício do juízo havia de mantê-lo na mesma casa daqueles que escreveriam essa epopeia. que seria impossível aqui? (Herculano. nesse juízo. há locuções que num país se tornaram plebeias. I. antipoéticas. a verdade descritiva de um poema? Creio que não. O aspecto decisivo é que. e que noutro são elevadas ou pelo menos toleráveis (Herculano. podendo não o ser para um brasileiro: exemplos de como Herculano. as comparações. p. Seguem-se exemplos de frases que a um ouvinte português pareceriam “baixas e triviais”. então. nesse . E sublinhe-se. Escreve Herculano: Pelo que respeita às formas externas do poema. Embora a língua seja idêntica entre dois povos. ainda que Herculano defendesse que a epopeia seria possível no Brasil. Pode sempre o estrangeiro avaliar bem a frase. 1986. o mesmo que dizer que desta não decorre nenhuma barreira que relativize ou desqualifique o juízo como juízo de estrangeiro. recai aí a outra dúvida de que no princípio falei a V. Isto não é o mesmo que dizer que a originalidade do Brasil está de antemão subordinada pela consideração das exigências do género épico: é. a barreira que define o estrangeiro? Aí deparamos com a surpresa: a barreira é a própria língua. que o juízo de Herculano sobre a epopeia não depende de ele ignorar ou recusar a originalidade brasileira. ou havia de trazer estes para a casa em que ele os avaliasse – ou seja. 218).Ideia de literatura brasileira com propósito cosmopolita 71 ardente nas suas paixões e céptica e fria nas suas opiniões e ideias? Como estabelecer aí uma harmonia entre o poeta épico e o público. a consideração da originalidade do Brasil não faria de Herculano um estrangeiro. Onde se constitui. mas justamente de a considerar e estar convicto de que a pode descrever com exactidão no que à epopeia diz respeito. por causa disto ou daquilo. antes. M. 215) Sublinhe-se que o “aqui” é a Europa. não apenas Portugal. acima de tudo. p. Desde logo na diferença de estilos. 1986.

Justamente a unidade poética do género circunscreve a área de incompetência ao mesmo tempo que a subordina: nem defesa da unidade intemporal e transnacional da língua para efeitos de epopeia. que forma o propósito cosmopolita. Herculano não precisa proceder a uma expedição etnográfica para responder à solicitação de Pedro II: chega-lhe o conhecimento da possibilidade de a mesma palavra não ser a mesma palavra. É isto. das imperfeições de metro. . 219). considera o seu juízo “portanto. Outro aspecto. apesar de transnacional. p. p. se torna nacional. n. que. nem condução do reconhecimento da diferença à renúncia a um princípio de avaliação inerente ao próprio género e portanto independente das particularidades locais. é decorrente da estipulação de uma unidade prioritária: “Há. incompetente”. Herculano não postula sequer a unidade poética da língua – como não postula nenhum princípio de relativização poética em função da diferença linguística. é também o que separa e o que pode separar sem deixar marca. Delimitar a barreira. 1986. das incorrecções gramaticais” (Herculano. 2009 particular. 1986. creio.15. nem fazer alastrar a incompetência à negação do juízo inteiro. porém. A incompetência. o paradigma do propósito cosmopolita na avaliação literária.72 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Contudo. já de antemão aberta à possibilidade da diferença local. circunscrever a área de incompetência e ponderar o conjunto: a própria definição da crítica podia ser dada nesta tríade. as comparações: “Das comparações tiradas de entidades privativas da América ainda a crítica da Europa está menos habilitada para ajuizar” (Herculano. O que cabe no seu propósito é não deixar que o juízo se torne absoluto quando tem áreas de incompetência. todavia. E não precisa rever a noção de epopeia. coisas em que a crítica da Europa e a da América tem de concordar. 218). A língua deixa o estrangeiro à porta: sendo a mesma. Numa palavra. a avaliação da epopeia defronta-se com a barreira da língua. quando é a mesma ou quando se presume a mesma. É acerca dos prosaísmos.

no seu Resumé. Repegando a antinomia de início. subordinada a uma ideia de Brasil. deve ter sido o primeiro a expor uma ideia de literatura brasileira do ponto de vista cosmopolita. subordinada a uma ideia de literatura. já enfaticamente presente no ensaio sobre Gonçalves Dias. de particularização. não há literatura moderna sem incompetência declarada do estrangeiro: é nela que se decide a possibilidade de a literatura se erguer acima das condições particulares em que surge. por isso. antigas ou modernas.Ideia de literatura brasileira com propósito cosmopolita 73 O propósito cosmopolita é a voluntária subordinação a alguma noção de literatura pela comunidade dos que se reclamam dela: é a aceitação da impossibilidade de nacionalização plena das formas literárias. O caso particular da Confederação dos Tamoios atesta-o bem. mas deixou eloquente exemplo de crítica literária em que o propósito cosmopolita nem sequer é incompatível com a instigação à “nacionalização” da poesia do Brasil. e aliás nem haveria necessidade de propósito cosmopolita sem reconhecimento da diferença. O reconhecimento da diferença local é inerente. quer dizer. Alexandre Herculano não foi apenas certeiro nas apreciações contidas na carta. é o reconhecimento da estabilidade e da transportabilidade das formas diante das modalidades de apropriação. Mais radicalmente. quer dizer. não no sentido superficial de ter . Já a repetição de Denis pelo grupo da Niterói inaugurou a ideia de literatura brasileira do ponto de vista brasileiro. E isto é válido ainda quando a literatura se define sobretudo como assunto nacional. ao propósito cosmopolita. de enraizamento. Gonçalves de Magalhães interiorizou Denis. A própria dependência da noção de literatura nacional em que Herculano escreve as suas apreciações do poema de Gonçalves Magalhães comprova que o propósito cosmopolita se caracteriza pela dependência de uma noção de literatura capaz de tornar globalmente partilhável a própria ideia de enraizamento no local nacional. É na incompetência reconhecida mas circunscrita do estrangeiro que a literatura finalmente se cumpre como literatura. Ferdinand Denis.

Num trabalho recente. p. 2006. ao menos dificultam a expressão do caráter nacional na produção letrada do país”. as formas e as técnicas da literatura europeia se não obstruem. a influência da realidade local. coincidissem num “gesto de afirmação nacional e política da nova nação” (Franchetti. Apesar da adopção da França como matriz cultural. Paulo Franchetti mostrou como o programa literário de Magalhães depende da ideia de que o Brasil estaria num segundo momento da sua história. de ter tornado dependente de uma pátria o que em si mesmo não tinha pátria – uma ideia de literatura. os dois postulados básicos de Magalhães. Franchetti mostra de forma convincente como a articulação desses postulados determinou decisivamente a historiografia e a crítica literária posterior (Franchetti. 115). Daí que a oposição antilusitana e anticlássica. para o ideal partilhável de uma literatura moderna formada pela livre agremiação das particularidades expressas em literaturas nacionais. mas no mais decisivo de ter tornado doméstico o que era cosmopolita. E pôde fazê-lo precisamente porque essa ideia era cosmopolita e se oferecia com a generosidade de quem trabalha para o bem comum. p. estruturam claramente uma posição anticosmopolita: o primeiro é o do “instinto oculto”. o segundo diz que “os temas. aquele em que “tomava consciência da sua especificidade e se constituía plenamente como nação”. que definem o romantismo de Magalhães. isto é. 2006. desde aí. em nome das ideias de liberdade e de universalidade. 2009 assimilado a lição do estrangeiro.74 Revista Brasileira de Literatura Comparada.15. que Franchetti identifica. determina a literatura consciente ou inconscientemente e de modo distintivo.). E de facto. sendo por virtude dessa influência uma inevitabilidade. a saber: a) a confusão que dissolve toda e qualquer diferenciação literária em “carácter nacional” e a redução de todos os factores de diferenciação a um único. 121 et seq. b) a crença em que a representação da realidade local. n. . a força com que a natureza da terra guiaria a transformação completa da literatura em literatura plenamente brasileira. estruturou-se um dispositivo anticosmopolita de equívocos.

projecto de afirmação política e de natureza prescritiva. “tradição afortunada” ou “formação”. que já Machado denunciou. literatura e sociedade. quaisquer que sejam as formas com que historicamente se reedita.Ideia de literatura brasileira com propósito cosmopolita 75 c) a confusão do local com o nacional. facilita outra confusão. Nesse sentido. O sintoma desse dispositivo de equívocos é a persistente oposição entre o local e o universal. modernidade artística e modernidade social. tornam-se polos em tensão de um mesmo processo da literatura em direcção ao nacional. d) a confusão do projecto de construção de uma literatura nacional. etc. na narrativa da “formação”. a do propósito cosmopolita com o pendor para o universal. a oposição do local ao universal sobrevive por meio da oposição do consciente ao inconsciente e do voluntário ao involuntário: aqueles escritores que se distanciam do projecto de nacionalização da lite- . cuja fortuna brasileira decorre do obscurecimento da diferença entre a noção de literatura como projecção subordinada a um ideal cosmopolita de literatura e a noção de literatura como projecto subordinado a um ideal nacional de país construindo-se dotado de literatura “própria”. f) enfim. a crença num processo contínuo e irreversível – “instinto oculto”. em direcção a uma etapa final de nacionalização definida pela harmonia entre literatura e terra. Mas a oposição do local ao universal é sobretudo um instrumento do projecto de circunscrição nacional da literatura. Daí o efeito decisivo da sua persistência: local e universal. Nesse preciso ponto. cultura e nação. mostrando que querer ostentar certa cor local e querer tornar nacional uma literatura não são projectos necessariamente coincidentes. do que está antes da literatura e que logo transforma o universal em mero repertório de temas e formas: é uma figura da oposição da realidade à literatura e da subordinação da literatura pelas representações naturalizadas da realidade. A estipulação do local por oposição ao universal representa sempre o privilégio do local. o processo pelo qual a nação se revela a si mesma pela sua literatura. consoante os vocabulários –. com a própria nacionalidade da literatura.

porém. mas ainda porque é a esse mesmo ideal que a grandeza de Machado remete o leitor cosmopolita. Mas. projectando-se para um horizonte indeterminado no tempo e no espaço. tarde ou cedo. de domínio de uma doxa interpretativa inimiga da diferença cosmopolita: confundindo o cosmopolita com o universal. há sempre uma linha de fuga por meio da qual Machado se torna escritor sem pátria.15. É impossível ignorar que o ideal de entendimento universal inerente ao sonho emancipador da literatura moderna ruiu há muito. onde não há lugar para o estrangeiro. 2009 ratura brasileira ou lhe permanecem indiferentes acabam. ou como nacionalistas involuntários ou como cultores de nacionalismo literário “mais profundo”. o mesmo é dizer. Acresce que qualquer dessas ideias acaba por tornar manifesto que o propósito final de uma e outra é subordinar a inteligibilidade e avaliação da obra machadiana à possibilidade de certa comunidade que se designa como brasileira a declarar “inteiramente brasileira”. Desde logo. dissolve-o num processo que não admite exterior. Mas como ler Machado sem levar em conta esse ideal.76 Revista Brasileira de Literatura Comparada. a ausência conspícua de empenhamento no local desafia a imaginação e acaba por torná-lo prisioneiro inevitável da ideia do “nacional mais profundo” ou do “nacional inconsciente”. onde não há efectiva alternativa para o nacional. por nele ser harmoniosamente integrados. quer dizer. n. de um modo ou de outro. . exigindo. Daí que Machado de Assis seja o óbvio. esquecendo-o ou desprezando-o? Também não é possível. 4. Eis como a oposição entre local e universal se revela instrumento de poder. o incontornável ponto de crise do paradigma hegemónico de autorrepresentação da literatura brasileira. não apenas porque a obra machadiana se estruturou e destinou no âmbito definido por esse ideal. a sua reformulação. ambas destinadas a bloquear a possibilidade de leitura cosmopolita da obra machadiana.

em vez dos nomes de . escreve que Machado “se embebeu meticulosamente da obra dos predecessores”. dir-se-ia que o mesmo Antonio Candido se muda para o lado adverso. v. Já não se estranhará. e quando precisa. que as descrições comparativas da página seguinte. o cosmopolita. na Formação da literatura brasileira. Antonio Candido não está apenas a situar Machado no quadro nacional. depois disso. Já quando fala de Machado nas Universidades da Flórida e do Wisconsin. 1981. Depois de dizer que “o que primeiro chama a atenção do crítico na ficção de Machado de Assis é a despreocupação com as modas dominantes e o aparente arcaísmo da técnica”. notando que o escritor “cultivou livremente o elíptico. o incompleto. que a “sua linha evolutiva mostra o escritor altamente consciente. precisamente porque estipula que a inteligibilidade e a originalidade de Machado decorrem do modo como ele próprio. e esta é uma das razões da sua grandeza” e “o segredo da sua independência em relação aos contemporâneos europeus. de definitivo. “altamente consciente”. limitando-o ao processo da “formação da literatura brasileira”: está a recusar o ponto de vista cosmopolita.Ideia de literatura brasileira com propósito cosmopolita 77 Veja-se o exemplo de Antonio Candido. a “formação” de Machado como escritor decorre essencialmente em ambiente doméstico e o estrangeiro não é mencionado senão para sublinhar o alheamento e recusa que o excluem do processo. o fragmentário”. que Machado “pressupõe a existência dos predecessores. 1995. se inseriu nesse processo. que compreendeu o que havia de certo. na vocação analítica de José de Alencar”. na orientação de Macedo para a descrição de costumes. 26). Nessa descrição. p. 2. no realismo sadio e colorido de Manuel Antônio de Almeida. isto é. do seu alheamento das modas literárias de Portugal e França” (Candido. acaba explicando que se tratava de uma forma de manter na segunda metade do século XIX “o tom caprichoso” de Sterne e de criar algum eco do “conte philosophique à maneira de Voltaire” (Candido. 117-118). p. logo a seguir. quase 10 anos depois da Formação. Quando.

Para o mesmo fenómeno – a distância de Machado das “modas literárias” do seu tempo –. A verdade. Como quer que seja.15. que o primeiro valoriza o local. a do romance europeu e da noção de literatura que representa. a da Formação. o que Candido faz não é diluir a originalidade de Machado de Assis tornando-o aceitável ou tolerável pelo estrangeiro ignorante das coisas brasileiras. Candido não apela a nomes familiares. convoquem Kafka. é que o segundo Candido não tem lugar para o primeiro. nem sequer Machado. ou seja.78 Revista Brasileira de Literatura Comparada. digamos assim. diante da sua obra. e este não admite o outro. não teria duvidado de que o seu auditório na Flórida ou no Wisconsin havia de permanecer razoavelmente indiferente se ele insistisse em explicar-lhes que a grandeza de Machado decorre de ter estudado Macedo e superado Alencar: não porque os desconhecesse. porém. que o dá consciente dos predecessores e a querer superá-lo. É aí que o propósito cosmopolita pode actuar. mas a uma tradição comum. que consiste em procurar tornar inteligível e apreciável um escritor a quem quer que se interesse por escritores e literatura. o universal. polos necessários de qualquer descrição rigorosa da obra machadiana. Decerto Antonio Candido. em fazer que o estrangeiro. Candido oferece duas descrições incompatíveis. nem valorizar o universal em detrimento estratégico do local: generosamente. etc. crítico inteligente e informado. deveríamos interpretar a diferença do segundo ensaio à luz de um princípio de filantropia literária. seria a narrativa da “formação da literatura brasileira” – a narrativa que precisamente os constitui estrangeiros diante de Machado. não depare com nenhuma barreira que torne absoluta a sua condição de estrangeiro. Em vez disso. O segundo Candido é melhor ou pior do que o primeiro? Dir-se-á que se complementam. Proust ou Faulkner. seja Sterne ou Voltaire. n. no “Esquema”. o segundo. que o dá a recu- . 2009 Alencar ou Macedo. e a do “Esquema”. Gide. mas porque o protagonista dessa explicação não seria nenhum deles. Dostoiévski. e por isso é aí que a incompatibilidade entre as duas perspectivas salta inexorável.

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perar uma linha do romance europeu que essas “modas” interromperam: a primeira desenha uma linha contínua, a segunda refere uma linha quebrada; a primeira postula uma evolução irreversível, a segunda acredita no resgate do anacrónico; a primeira está claramente circunscrita ao espaço nacional, como se essa linha contínua e irreversível se desenrolasse num compartimento estanque, ao passo que a segunda requer um espaço difuso de trocas e influências, não determinado nacionalmente. E, em cima de tudo, a primeira requer o conhecimento do processo da “formação” como condição da inteligibilidade de Machado, a segunda não só o dispensa como torna Machado um romancista muito mais relevante porque capaz de actuar criticamente sobre a tradição e a actualidade da situação literária europeia. A diferença em nada depende da oposição entre local e universal: em nenhum dos casos Machado é descrito pelo penchant para o universal ou para o local, é antes a mesma característica – o alheamento das “modas literárias” europeias – que num caso se define dotada de conteúdo nacional e no outro desprovida dele. A diferença entre os dois Machados é gerada pela diferença entre duas atitudes diante da situação e da tradição literária europeia, e na verdade expressão eloquente da diferença entre dois Candidos: o Antonio Candido da Formação é o crítico comprometido com a nação, empenhado em entregar aos brasileiros um Machado que os represente, por numerosos e sofisticados que sejam os mediadores dessa representação, enquanto o Antonio Candido do “Esquema” é o crítico comprometido com a literatura, na busca de um Machado que o estrangeiro possa chamar seu sem que o brasileiro se sinta espoliado.

5.
Que o primeiro Candido não pode desenvolver-se sem erradicar o segundo, e que o segundo apenas emerge na condição de destruir pressupostos básicos do paradigma crí-

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Revista Brasileira de Literatura Comparada, n.15, 2009

tico do primeiro – eis o que curiosamente se comprova com a peça final do edifício machadiano de Roberto Schwarz, o ensaio “Leituras em competição”: os dois géneros que Schwarz delimita, a “leitura nacional” e a “leitura internacional”, encontram afinal no próprio Antonio Candido exemplar praticante, senão mesmo o primeiro. De facto, para Schwarz, a “crítica internacional” define-se por ler Machado sem considerar a relação com a nação brasileira, mais propriamente, “crítica internacional” é toda a que se não ocupa de esclarecer a relação entre o carácter inconfundível da ficção machadiana e o carácter inconfundível da nação brasileira. Em contrapartida, “crítica nacional” não é a que se faz no Brasil, ainda menos a que é feita por brasileiros, mas a que tem nessa relação com a nação o centro de gravidade dos seus esforços, e que aliás Schwarz descreve ainda segundo o modelo da linha contínua, em progresso irreversível na direcção de uma meta, que se presume tenha sido atingida pelo desenhador da linha, seu principal praticante e intérprete, o mesmo Schwarz. Nenhuma surpresa, aliás. Isso basta para perceber por que motivo a “leitura nacional” é sempre referida no singular, ao passo que se sugere que a internacional poderia receber a designação alternativa de “várias não-nacionais” (Schwarz, 2006, p. 64). O ensaio é, na verdade, uma reacção a certa resenha publicada em Nova York e que, sem agressividade mas com assinalável contundência, danifica o sentido global do trabalho de Schwarz. Trata-se de “Master among the ruins”, de Michael Wood, professor de Princeton, que a New York Review of Books publicou por ocasião da publicação de novas traduções de Machado para inglês. Schwarz refere-se expressamente ao artigo, classifica-o de “resenha abrangente e consagradora do romance machadiano”, sublinha que apresenta questões difíceis e incontornáveis que definem a cena do debate entre a “leitura nacional” e a “leitura internacional”, e refere, numa proposição intercalada, quase despercebida, que Michael Wood “leva em conta a crítica brasileira”. Ora, sendo certo que a

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V. Wood, 2002. As novas traduções, publicadas pela Oxford University Press, incluem Memórias póstumas de Brás Cubas (1997) e Quincas Borba (1998), ambos por Gregory Rabassa, Dom Casmurro (1997), por John Gledson, e Esaú e Jacó (2000), por Elizabeth Powe. Outro livro incluído no rol dos resenhados é Machado de Assis: reflections on a Brazilian master writer (1999), organizado por Richard Graham, e que inclui contribuições de, entre outros, John Gledson e João Adolfo Hansen. Mas o ensaio efectivamente avaliado pela resenha é o de Schwarz.
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resenha dedica boa parte do seu espaço ao conjunto dos romances machadianos da segunda fase, não deixa de ser também uma resenha crítica da tradução inglesa do livro de Schwarz, Um mestre na periferia do capitalismo: e é essa a forma, porque não se encontra outra, de “levar em conta a crítica brasileira”.8 Para dizer logo tudo, aquilo que Schwarz apresenta sob a égide da distinção entre “leitura nacional” e “leitura internacional” são elaborações em resposta a observações críticas que Michael Wood coloca ao trabalho crítico de Roberto Schwarz, mais precisamente uma restrição fundamental, como já veremos. Por que então graduá-las em interpelação crítica da “leitura nacional”? Claro, já o deixei dito atrás, Schwarz considera-se o terminus ad quem de uma linha de leitura que, lenta mas progressivamente, devolveu o verdadeiro Machado ao Brasil, resgatando-o de décadas de fortuna crítica irrelevante. Mas há mais em jogo: na exacta medida em que a restrição de Wood não é periférica, nem acessória, mas fundamental, Schwarz não pode reparar o dano causado senão radicalizando a noção de “leitura nacional” ao ponto de fazer dela uma barreira preservativa contra o estrangeiro. Aí se confirma, então, e em pleno, como a ideia cosmopolita, indo além da oposição entre universal e local, é a única à altura da exigência de liberdade e de inteligência que a obra de Machado coloca aos leitores. Para o compreender, retenhamos a passagem em que Schwarz se refere à resenha:
A certa altura do seu ensaio, Wood, que leva em conta a crítica brasileira, propõe uma dissociação sutil. As relações com a vida local podem existir, tais como apontadas, sem entretanto esclarecer a ‘maestria e modernidade’ do escritor. Ou, noutro passo: seria preciso interessar-se pela realidade brasileira para apreciar a qualidade da ficção machadiana? Ou ainda, a peculiaridade de uma relação de classe, mesmo que fascinante para o historiador, não será ‘um tópico demasiado monótono para dar conta de uma obra-prima?’ (Schwarz, 2006, p. 64).

Com efeito. não se trata esta de uma pergunta qualquer. já agora parafraseando Brás Cubas: por que cómico. and writes repeatedly of the work’s comical and farcical effects.15. ecoa as palavras de Machado no prólogo da 4. logo a seguir: “Schwarz himself is clearly alert to the fun. 2002). 2009 Não é uma paráfrase inteiramente falsa. reitera Brás Cubas: “O que faz do meu Brás Cubas um autor particular é o que ele chama ‘rabugens de pessimismo’. Em primeiro lugar. no contexto da resenha de confronto do ensaio de Schwarz com a obra de Machado. o conteúdo dela e a especificidade da pergunta implícita na observação crítica. mas também não é inteiramente fiel à resenha. ou melhor. que está longe de vir dos seus modelos. Além disso. Perde-se sobretudo a direcção do comentário de Wood. completa-se com esta outra. e é a sua colocação diante da obra de Machado e diante do ensaio de Schwarz. por que sombrio. por mais risonho que pareça.82 Revista Brasileira de Literatura Comparada.” A observação. se cómico? Ora. de resto inteiramente certeira. que toca o cómico para o dissolver numa tese monótona. que lhe dá a importância decisiva que obrigou à reacção de Roberto Schwarz. que Schwarz oblitera: “What Schwarz´s book doesn’t tell us is why the novel [Memórias póstumas de Brás Cubas] is so funny as well as so bleak.” O passo é muito conhe- . Seria interessante. e que seria. mas ainda assim pouco relevante. ecoa nessa pergunta a questão de Brás Cubas perante o próprio livro: é a questão das rabugens de pessimismo e da possibilidade de a partir delas se distinguir a forma livre tal como praticada pelo autor defunto. essas observações e perguntas encontram-se no texto de Wood. E é depois disso que Michael Wood formula as interrogações que Schwarz cita e parafraseia. um sentimento amargo e áspero. mas são formuladas na dependência dessa consideração crítica. n. se sombrio. respondendo a Capristano de Abreu e Macedo Soares. But his thesis is a little grim and unrelieved. quando. O que se perde na paráfrase? Decerto a noção de que Wood pressente um crítico severo e carrancudo. Há na alma deste livro.ª edição. even when the subject is not slavery” (Wood.

onde se decide a originalidade das Memórias póstumas de Brás Cubas: e justamente na ligação. o romancista foi transformado de fenómeno solitário e inexplicável em continuador crítico e coroamento da tradição literária local”. 9 cido e. não se trata apenas de uma questão importante a que o livro de Schwarz não responde: é uma questão que o livro de Schwarz não consegue impedir que ressurja. retivermos a conclusão de que “passo a passo. p. e a textura do romance machadiano foram vistas como formalização artística de aspectos peculiares à ex-colônia”. a cadência. 331-337). ao menos para o crítico americano. as elites. o lugar primordial. para o que agora nos interessa. enfim. cansados de tanta apropriação historicista e sociologizante. a reiteração da questão do cómico só pode significar que. capazes de dar figura inteligente aos descompassos históricos da sociedade brasileira” – então. sobretudo. desde a recusa do “clássico nacional anódino” à deslocação do centro para “o processamento literário da realidade imediata”. por que sombrio. digamos assim. Se levarmos a sério a narrativa de Schwarz da “leitura nacional”. e a colocação provavelmente decide a competência de qualquer leitor: por que cómico. 2003. Hoje. sim.Ideia de literatura brasileira com propósito cosmopolita 83 Permito-me remeter o leitor interessado para a análise deste prólogo que levo a cabo em Autobibliografias (Baptista. aliás. A resenha. crucial para entender a relação de Machado com a figura de Brás Cubas. a escravidão. entre a forma livre e a filosofia. se. se cómico? Em segundo lugar. redunda em dizer: “Sim. inusitada. pode dizer-se que não há leitor competente que não saia da leitura colocando essa pergunta. em “idealizador de formas sob medida. todo esse processo é inteiramente irrelevante: não lhe resolve o problema da originalidade tal como o recebe da leitura do romance e tampouco o substitui por outro. Dir-se-ia que Brás Cubas e Machado. pois. se sombrio. muito in- . no tom de generosidade intelectual e até de concordância complacente que assume. galgaram o século e foram impelir um espírito americano desocupado a reformular a pergunta de sempre: como que a usá-lo para nos trazer a todos de volta ao decisivo.9 mas é. de resto. se considerarmos que a meta intermédia desse processo em curso é descrita como etapa em que “a composição.

mas afinal. pois. n. contínuo. homogéneo e irreversível que Schwarz agora definitivamente lhe imprimiu. como Schwarz. mas um crítico e comparatista às voltas com a latitude do presente”: é o mesmo que dizer que esse crítico é alguém de fora e que está por fora. dir-se-ia. o crítico estranho toca numa tradição. Por outras palavras.84 Revista Brasileira de Literatura Comparada. e então o crítico severo e carrancudo sai do recolhimento e explica. Dava-se dispersa.. sobretudo sem a intenção delineadora de um processo. num processo intelectual demorado – num país. estrangeiro que permanece duplamente no exterior: tocando num livro. também chamada “leitura nacional”. nem brasilianista. Talvez sem se aperceber disso. Não há nenhuma inocência na precisão com que Schwarz sublinha que Wood não é “especialista em Machado. é o principal meio de defesa contra a crítica que a põe em causa: é o meio de mostrar ao elemento hostil a dimensão e a força daquilo em que está a tocar. aqui e ali. lendo-o. Produzir a verdadeira e exacta história da crítica machadiana. irrelevante. que nem tem ideia de que tal coisa pudesse ser inventada. a bem dizer despiciendo. essa narrativa da evolução da crítica a que Schwarz procede não tinha ainda alcançado essa forma sintética e expressiva de narrativa teleológica. Por quê? A razão é óbvia: para armar a defesa. trabalha dentro de um paradigma que se define a partir dessa narrativa: ser declarado desnecessário.15. Não era. Mas a defesa tem a ambiguidade própria dos gestos em pleno desastre. fazendo o reparo de que não responde à questão do cómico sombrio. o procedimento de Schwarz consiste em formar e radicalizar a narrativa que percebe posta em causa por uma resenha que apenas implicava um livro. porque sombrio se cómico?” Ora. a essa narrativa que Wood colocava restrições.. diga-me. 2009 teressante. Mas a consequência não podia deixar de ser precisamente essa para quem. entrevistas ou resenhas. até. assim se defende. Justamente a necessidade de a armar . e brandamente repreendendo-o. além de deprimente e monótono. em passagens particulares. porque cómico se sombrio.

2009). p. propondo uma espécie de solução de compromisso em que o “leitor internacional” pudesse tornar-se o mais nacional possível e depois “proveitosamente voltar para casa e comparar”. Mas precariamente. Não há lugar. Não apenas a contundência da restrição que formula é inexorável. e americano de Princeton. Essa perspectiva. Na medida em que se trata de impor uma barreira que deixa o estrangeiro à porta. ocupando-o e governando-o legitimamente. 83). sem prejuízo de aprenderem ou receberem alguma coisa um do outro. mas americano. Esse compromisso redunda em “coexistência pacífica”. nessa distinção. no sentido diplomático do termo: cada um no seu território. há alguma eficácia argumentativa10 e até política: sempre se deu mais um passo para delimitar o “nosso” por oposição ao alheio. Daí a relevância de o estrangeiro não ser qualquer. a força e capacidade de atrair os outros ao espaço doméstico e principalmente representa .Ideia de literatura brasileira com propósito cosmopolita 85 Veja-se o modo complacente e um tanto defensivo como Michael Wood reagiu no artigo “Entre Paris e Itaguaí” (Wood. em particular. Essa condição é inconcebível para Schwarz. para barrar o acesso do estrangeiro ao “nosso”. e o “leitor nacional” tivesse um “toque de comparação extranacional” (Wood. porque incapaz de entender tudo o que está em causa. denuncia o carácter profundamente anticosmopolita e discriminatório da distinção: o estrangeiro que se integra no nacional é tão-só o que se sujeita às regras que definem o nacional. a sua fortuna no mundo de língua inglesa pode aumentar – o que implica inevitavelmente a desgraça da “leitura nacional”. recusa declarar que a posição de Roberto Schwarz é coerentemente incompatível com qualquer “leitura internacional” de Machado. criando por si só um estado de crise em todo o edifício da “leitura nacional”: esse estrangeiro representa um poder que suplanta as narrativas teleológicas para consumo doméstico. pela restrição das possibilidades da “internacional”. se a “leitura nacional” se definir. A precisão de que o “nacional” não tem de coincidir com o estrangeiro. 2009. Machado foi mais uma vez traduzido para inglês. porque “a cor do passaporte e o local de residência dos críticos não são determinantes”. O estrangeiro que se integrou na “leitura nacional” representa o êxito do paradigma nacional. como Schwarz a define. para o estrangeiro que se interessa por Machado mas não se interessa pelo Brasil. A defesa aberta da superioridade da “leitura nacional” é o melhor testemunho da incompatibilidade das interpretações centradas no problema nacional com a noção moderna de literatura e. com a dimensão emancipadora e a liberdade intelectual que lhe são inerentes. ao cabo. porque a própria condição em que a defesa é armada e usada decorre já num cenário exterior ao nacional e em que o nacional como valor próprio não tem sentido. 10 revela a vulnerabilidade da arma.

apenas aceita aqueles que derem garantias sólidas de não perturbarem a segurança interna. 2009 uma promessa de viabilidade de domínio sobre todos os que se interessam e venham a interessar-se por Machado. se cómico? Sem ignorar o espaço da sua incompetência. no Rio ou em Nova York.15. por que sombrio. as paixões. não obstante. East Lensing. os procedimentos e as razões daqueles que se dedicam à leitura. Philology and Weltliteratur. não abdica desse governo. n. se sombrio. ou é hospitaleira com muitíssimas condições: afinal. Eric. o inassimilável. são exemplos disso. a que ecoa o espaço primordial da originalidade das Memórias póstumas: por que cómico. Daí que o propósito cosmopolita seja aquele que. A questão do cómico sombrio. a competência do leitor cosmopolita reside na capacidade de perceber a relevância e a urgência dessa pergunta e fazer apelo à hospitalidade incondicional. Referências AUERBACH. 13. Autobibliografias. ou da ideia de certo governo: mas presume-o no texto mesmo de Machado. representa a total impossibilidade de governar os interesses. BAPTISTA. . Abel Barros. by Mary and Edward Said. winter 1969.86 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Transl. do exterior ou do interior. v. De um modo ou de outro. alguma força requer dos leitores a formulação da mesma pergunta. Campinas: Unicamp. Campinas: Unicamp. ao ensino e à divulgação da obra machadiana: não tanto aqueles que ameaçam a nacionalidade de Machado. The Centennial Review. O livro agreste. _____. n. 2005. mas aqueles que exemplificam que essa ameaça é não só inerente à obra machadiana como é por ela procurada desde o início. como a questão da epopeia para Herculano. 2003. O estranho estrangeiro. Pressupõe o governo do texto como promessa de inteligibilidade e prazer que o texto dirige à inteligência e à paixão do estrangeiro. 1. há um século ou hoje. A “leitura nacional” não é hospitaleira.

São José do Rio Preto. 75. SCHWARZ. Michael. Vários escritos. _____. Opúsculos. Paulo. Belo Horizonte: Itatiaia. Leituras em competição. Alexandre Herculano. In: _____. 2. Esquema de Machado de Assis. 2006. PRATA. ed. n. Master among the ruins. jul. FRANCHETTI. São Paulo. n. Schifaizfavoire – Dicionário de português. New York. ed. 1986.com. 46. Antonio. 83. . dez.htm>. São Paulo. WOOD. Organização. Entre Paris e Itaguaí. Mário. _____. v. V. 6. mar. 3. br/obra/literatura/adulto/dicionario/framegranda_a. Disponível em: <http://www. Revista de Letras. Lisboa: Editorial Presença. 2009. São Paulo: Duas Cidades.Ideia de literatura brasileira com propósito cosmopolita 87 CANDIDO. Edição crítica. Gonçalves de Magalhães e o Romantismo no Brasil.marioprataonline. 2006. HERCULANO. São Paulo: Globo. n. 1981. The New York Review of Books. 18/07/2002. Novos Estudos Cebrap. 1993. introdução e notas de Jorge Custódio e José Manuel Garcia. Formação da literatura brasileira. Roberto. Novos Estudos Cebrap. 1995.

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literatura brasileira contemporânea. A análise desses textos romanescos visa a discutir os elementos que fundamentam a figuração atual do ameríndio na literatura brasileira. França. scrutinizing the position that it occupies in the national space. keywords: alterity. ameríndio. de como instância de alteridade. Dialogues Université Rennes 2. contemporary Brazilian lit- terature. em relação a um grupo de referência que se inscreve no modelo da sociedade ocidental. in two contemporary brazilian novels: Orfãos do Eldorado (2008) written by Milton Hatoum and Nove Noites (2001) by Bernardo Carvalho. amerindian. Je crois que l’imaginaire a autant de réalité que le matériel Georges Duby et Guy Landreau. questionando o lugar que ele ocupa no espaço nacional. abstract: This work aims at the exploration of such representation.89 O ameríndio como personagem do Outro na literatura brasileira contemporânea: órfãos do Eldorado e Nove noites Rita Olivieri-Godet* resumo: Este trabalho propõe-se a examinar a representação do ameríndio e a relação entre identidade e alteridade que lhe é consubstancial a partir da leitura de dois romances contemporâneos brasileiros: Orfãos do Eldorado (2008). analyzing the relation between identity and alterity which is built-in. The analysis of these novels will discuss some elements which form the basis of contemporary figurations of the Amerindian in the Brazilian literature. palavras-chave: alteridade. in relation with a reference group which belongs to the occidental society model. These two stories choose the Amerindian as a subject of alterity. * .

32). 2004). Assim.1 Na dialética do “selvagem” e do “civilizado” que atravessa o processo de construção das identidades plurais e problemáticas das Américas. Francis Affergan. n. o fazem para questionar o lugar que nele ocupa o “estrangeiro de dentro”. temáticos e estéticos. 1991. a representação do ameríndio A esse respeito. crítica literária e teoria da cultura. quando se restringem ao espaço nacional. as narrativas que se inserem nessa poética da alteridade procuram alargar o imaginário nacional para além de suas fronteiras. ver a obra de Janet M. que nos ajuda a organizar nosso pensamento crítico (Hutcheon. mas antes de refletir sobre signos formais. Não se trata de procurar um invariante abstrato. Critiques anthropologiques A produção literária contemporânea. 2009 L ’Autre n’est pas un objet vide et indéterminé. p.90 Revista Brasileira de Literatura Comparada. abrindo-se a uma prática metadiscursiva que lhes permite fazer interagir criação. prêt à s’assujettir au regard et au traitement scientifique de l’observateur. inaugura novas linhas de força temáticas e formais. Meus trabalhos mais recentes refletem sobre uma “poética da alteridade” como uma das modalidades da ficção contemporânea brasileira. comuns a um conjunto de textos que participam da prática literária contemporânea e que tendem a exacerbar a confrontação com a alteridade. 1 . Utilizo o termo “poética” no sentido que lhe atribui Linda Hutcheon: uma estrutura teórica aberta. Il s’articule sur ses propres déterminations et s’accompagne toujours de ce qu’on pourrait appeler ses attributs. explorando uma geografia imaginária da diferença cultural.15. uma regra ou uma lei. como é o caso da representação do índio como instância de alteridade. E. Os mecanismos especiais que eles acionam para dizer nosso tempo induzem a uma espécie de arqueologia das culturas e da linguagem. Paterson (Paterson. plurilinguístico e multicultural de nossas sociedades urbanas atuais. gerada num contexto multiétnico. em mutação. 2007). ainda que esta vertente não se constitua numa exclusividade nacional (Godet.

Esses elementos constitutivos dos textos fundadores das literaturas americanas. no contexto atual de nossas sociedades.. ver a excelente introdução de Jean Morency à sua obra Le mythe américain dans les fictions d’Amérique (Morency. Essas questões atravessam a produção literária recente no Brasil e nas Américas. . de Bernardo Carvalho. examino a questão numa perspectiva comparatista que inclui romances quebequenses e argentinos. Este trabalho pretende explorar essa representação e a relação entre identidade e alteridade que lhe é consubstancial a partir da leitura de dois romances contemporâneos brasileiros: Órfãos do Eldorado (2008). “La poétique de l’altérité et la représentation de l’Amérindien dans la fiction des Amériques”. baseado no mito da renovação. 1994). 91 Sobre o assunto. 3 ocupa um lugar central. no entanto.3 Orfãos do Eldorado: a alteridade ameríndia entre mito e história A obra de Milton Hatoum interroga as formas de interagir com o outro que conduzem a processos de hibridismo. atravessados por imaginários culturais diversos.. no qual imaginários “arcaicos” coexistem com imaginários planetários. A representação das relações identidade/alteridade a partir da escolha do ameríndio como personagem do Outro tem a ver com a experiência do espaço e a temática da errância. escamotear seus aspectos traumáticos. sem.O ameríndio como personagem do Outro na literatura. de Milton Hatoum. que se articula sobre valores antitéticos entre espírito europeu e mundo selvagem americano. 2 Num artigo ainda inédito. e Nove noites (2001). No entanto. Seus narradores investigam as construções identitárias do sujeito e da comunidade a partir do lugar fronteiriço que ocupam entre familiaridade e estranhamento. seria redutor se ater às questões de fronteiras culturais que os romances de Hatoum levantam sem considerar a relação com a experiência íntima da alteridade que elas implicam. cruzando experiência vivida e memória. autorizam certos críticos a postular a existência de um cenário mítico americano.2 O questionamento da figuração do ameríndio como “estranho estrangeiro de dentro” ajuda-nos a compreender o lugar que as sociedades urbanas modernas reservam a esses povos. que a produção contemporânea não cessa de revisitar.

marcado por referentes culturais libaneses. no seio da sociedade amazonense.92 Revista Brasileira de Literatura Comparada. examinando os efeitos de um projeto de modernidade. sustentado pelas elites. mas discreta. o autor aproxima o mito amazônico da Cidade Encantada do mito do Eldorado para interrogar o diálogo entre as culturas ameríndia e ocidental. 2009 praticando a passagem da etnicidade ao estranhamento. os restos da sociedade nativa entre ‘as roupagens civilizadoras’”. e terminam por ocupar um lugar cada vez mais central no universo fictício do autor. circulando entre os espaços da cidade e da floresta. de uma forma muito mais ostensiva. permitindo assim o alargamento a uma perspectiva subjetiva. Presença constante. Com a publicação de Orfãos do Eldorado. Cidade compósita. situado entre dois mundos: a memória do passado herdado da família. e o presente do país natal. 2000). Relato de um certo Oriente (1989) e Dois irmãos (2000). híbrida. Milton Hatoum continua a explorar as relações interculturais. A narrativa segue a trilha das . Essa estratégia confere uma dimensão universal à obra do autor amazonense e possibilita explorar as várias facetas de uma região emblemática. sobretudo nos seus dois primeiros romances. recentemente publicado. os personagens pobres e explorados dos ameríndios se tornam mais visíveis. “Em Manaus ainda hoje se encontram. escreve Hatoum. A partir de Cinzas do norte (2005).15. sem cair na armadilha de um regionalismo redutor. que colocam em cena o diálogo entre o mundo amazônico e a imigração libanesa. tematizada no quarto romance do autor. sondando principalmente o lugar fronteiriço dos narradores. Em Orfãos do Eldorado (2008). comentando cartas de Euclides da Cunha nas quais se refere a essa cidade (Hatoum. n. construída a partir de múltiplas interações culturais entre as quais se destacam elementos da problemática coabitação entre a cultura tapuia e a modernidade transplantada. dando destaque para a figura do ameríndio como instância da alteridade. Desde o início de sua produção. o imaginário ameríndio sempre fez parte do universo romanesco do escritor.

seja ele familiar. o processo de construção identitária do narrador-personagem se realiza por meio do confronto com a alteridade paterna e da atração pela alteridade ameríndia. impregnação. 93 anteriores. Orfãos do Eldorado questiona o lugar da cultura ameríndia no seio da sociedade brasileira a partir da experiência amazonense: fenômenos de imbricação mas também de depauperação culturais. mas do mesmo modo estiolamento. Entre alteridade rejeitada e alteridade desejada. a narrativa constrói as complexas relações de Arminto com o espaço. o relato de sua paixão por Dinaura e a reconstrução do passado de sua família têm como pano de fundo a história local (a guerra dos Cabanos) e mundial (as duas Grandes Guerras). durante o qual Arminto transita por um território cultural ambivalente. O lugar fronteiriço ocupado por Arminto permite explorar as relações de resistência ou de abertura ao Outro. Figuração que interroga as relações interculturais. . Em Órfãos do Eldorado... história e mito. 2005) por um sujeito atravessado por imaginários diversos. ele recusa-se a idealizar a relação com a alteridade ameríndia. Da mesma forma que o romance se afasta de uma representação idealizada do processo de mestiçagem cultural. uma busca inútil de um lugar habitável (Harel. Arminto Cordovil. trocas. levando em consideração tanto os processos de aculturação resultantes de políticas colonialistas quanto os cruzamentos culturais que possibilitam o renascimento de tradições em outros contextos. que entrelaça memória pessoal e coletiva. ao escolher se dedicar às complexas interações culturais pelo viés do drama íntimo de um narrador. sublinhando a complexidade das trocas entre culturas diferentes e evocando a história violenta de seus ganhos e perdas. na busca de si mesmo e do sentido da sua trajetória existencial.O ameríndio como personagem do Outro na literatura. cruzando história do indivíduo e da coletividade. Assim. examinando o sentimento de pertença de um sujeito desestabilizado. Revisitando o percurso da infância à idade adulta. a narrativa encena uma construção identitária sofrida. aculturação. urbano ou natural.

criando pontes entre a floresta e a cidade. Memória de uma vida. traduz para ele os mitos e as lendas contadas pelos índios. a do narrador-personagem Arminto Cordovil. Florita. questionando o processo de transmissão da tradição e da autodeterminação a partir de dois planos: o individual (que diz respeito à vida do narrador e da relação com seu pai) e o coletivo (que trata das marcas da presença da comunidade ameríndia e de sua relação com a sociedade amazonense). de origem e destino misteriosos: índia ou mestiça. Florita interpreta seus sonhos e desejos. história e memória. Lugar de troca por excelência. empregada que faz todo tipo de serviço. rico proprietário de cargueiros que transportavam mercadorias no rio Amazonas. n. o discurso literário reinventa mito. Arminto Cordovil. desta feita. O menino cresce rejeitando todo tipo de identificação com o universo do pai. A intriga romanesca está centrada na crônica da vida do narrador-personagem.94 Revista Brasileira de Literatura Comparada. aproxima-o das crianças indígenas da aldeia situada nas cercanias da cidade. no sentido amplo do termo. . que não conheceu sua mãe. história e memória. num posfácio no qual a voz autoral dá a conhecer sua fonte: o que lemos é uma história que lhe foi contada pelo seu avô. ele foi criado por uma outra índia. trata-se de uma questão de herança. Mas é por Dinaura que ele se apaixona loucamente. abrindo-lhe as portas à sensibilidade ameríndia. Ela introduz Arminto no universo ameríndio.15. morta ao dá-lo à luz. entre os quais o Eldorado. uma das moças pobres acolhidas pelo orfanato da cidade. As relações entre pai e filho são frias. convite à viagem. a que diz respeito à própria narrativa. Arminto tem a impressão de que seu pai o culpabiliza por essa morte. Amamentado por uma índia tapuia. 2009 A narrativa de Hatoum inspira-se no mito ameríndio da Cidade Encantada para tecer os fios entre mito. Este conta sua história a um interlocutor cuja identidade só é revelada no final. Mais uma vez. à qual ele é muito ligado e que o iniciará à cultura ameríndia e à vida sexual. Florita é uma tradutora. Desempenha um papel de mediadora.

p.. não cessa de ter visões e sonhar com ela.4 Mitos e culturas viajam e se entrecruzam. a mesma que eu tinha escutado na infância. era sinônimo de Eldorado. 106). a mansão branca de Vila Bela. 4 “Mitos que fazem parte da cultura indo-européia. Mas o mito indígena da Cidade Encantada é atemporal e persiste. 2008. 64). assim como culturas. a cidade prodigiosa que atiçava os sonhos febris dos navegantes e conquistadores europeus ao mesmo tempo que se furtava a todo esforço de localização”. confundindo-se com o mito do Eldorado: “Houve tempo em que Manaus.5 Contrastando com a miséria que assola a cidade real. Pertencem à História e à memória coletiva” (HATOUM. mas também da ameríndia e de muitas outras. que depois do seu desaparecimento se transformou em lenda para os habitantes da cidade. p. viajam e estão entrelaçados. região que alterna períodos de fausto e de declínio. 2008. ou Manoa. a utopia de um lugar ideal persiste no imaginário amazônico: A Cidade Encantada era uma lenda antiga. 2008. desaparece pouco tempo depois da morte de Amando. o grande curandeiro xamã de Maués.. 5 ela pode ser sua madrasta ou sua irmã. 64). Porque mitos. p. Surgia na mente de quase todo mundo. A crônica da decrepitude moral de Arminto e da decadência de uma família é também a da Amazônia. p. 95 Apresentação do romance pela editora (orelha do livro). como se a felicidade e a justiça estivessem escondidas num lugar encantado. obcecado pelo desejo por essa “mulher encantada”. que teve as plantações de cacau destruídas pelas pragas (Hatoum. Dinaura. Ele conhecia os segredos do fundo do rio e podia conversar com Uiara. o leitor não o saberá jamais. leitora de romances e igualmente sensível ao mito indígena da Cidade Encantada. Este último. chefes de todos os encantados que viviam na cidade submersa (Hatoum. Sugeriu que eu fosse atrás de dom Antelmo.O ameríndio como personagem do Outro na literatura. pai de Arminto. Arminto sonha com a mulher da mesma forma que a população pobre da cidade sonha com a Cidade Encantada. 2008. 67). O Eldorado naufraga. Ulisses Tupi queria que eu conversasse com um pajé: o espírito dele podia ir até o fundo das águas para quebrar o encanto e trazer Dinaura para o nosso mundo. a fazenda Boa Vida. Ver também p. . Arminto gasta a fortuna herdada do pai e vende todas as suas propriedades: a casa de Manaus. 99. “uma cidade que brilhava de tanto ouro e luz” (Hatoum.

a narrativa romanesca gera uma tensão entre a voz individual e a voz coletiva: discurso da utopia e contradiscurso. versões . nenhuma possibilidade de viagem. este poema desencantado está em consonância com a atmosfera desoladora que o romance instaura. do poema homérico aos de Konstantinos Kaváfis (além de “A cidade”. José de Alencar. 7). sonho e pesadelo. alimentando-se assim de fontes populares que fazem parte da memória coletiva.15. à deambulação). nem outros mares”. o romance projeta a errância de mitos e de textos. Não há portanto. Se o romance glosa. ele dialoga igualmente com a tradição literária que recria esses mitos (Mário de Andrade. Figurações da errância física e mental que o romance acolhe. passando pela figura descentrada de um certo cavaleiro que percorre as estradas da Mancha em busca de sua Dulcineia. existe um diálogo implícito com “Itaca” que. é um convite à viagem.96 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Escrito em palimpsesto. criando analogias com o próprio percurso do narrador-personagem./ Não há barco nem caminho para ti” (Kaváfis apud Hatoum. que se alimenta tanto de fontes populares quanto da tradição literária. citado na epígrafe. Retomado pelo texto como “o poema grego” que Estiliano está traduzindo. que é a negação mesmo de uma certa ideia da literatura como espaço liberador e de refúgio: “Não encontrarás novas terras. relatos e versões de mitos errantes que se misturam e que constituem o imbricado tecido narrativo do romance. n. 2008. p. mãe-d’água. Não esperes ir a outro lugar. em oposição ao anterior. num intenso trabalho intertextual que traz à tona a memória literária. nenhum “ailleurs”. Por meio da combinação de elementos heteróclitos na sua composição. nenhuma esperança: “Sempre chegarás a esta cidade. do ponto de vista do texto poético que paira sobre o romance. Homero). que lhe serve de epígrafe. sereia. 2009 Uiara. Um exemplo marcante da escrita em palimpsesto do romance é o reaproveitamento do poema de Konstantinos Kaváfis “A cidade” (1910). Poema que recusa todo tipo de promessa de um outro lugar possível.

espaço de representações memoriais. seguindo o modelo do capitalismo ocidental. até piranha frita” (Hatoum. 97 “O escritor puxava conversa com todo mundo: índios. pela violência. Arminto encontra-se impossibilitado de restabelecer os laços com o passado que povoou o imaginário de sua infância. No entanto.6 Hatoum fagocita e transforma elementos diversos. 2008. narrativa de busca e de perda. 86). artesãos e compositores de toadas. traduções “traidoras”. no qual a história destrói o mito.. em processo de plena degenerescência. sente dificuldade em encontrar seu lugar num mundo que está desaparecendo. No chão. da miragem à matéria do real. máscaras de rituais e cacos de urnas funerárias de tribos indígenas que já não existiam (Hatoum. pelas doenças. Quando passamos do mito à história. o narrador conduz o fio do discurso e é por meio do seu olhar desencantado que o leitor descobre o universo amazônico. Ele recusa a identificação à sua família. de diferentes visões de mundo. por outro lado. . a visão de um território faustuoso e cheio de promessas de felicidade transforma-se em ruínas. que representa o projeto de modernização do país baseado numa política de colonização (massacre e aculturação dos índios). E não se cansava de anotar o nome de plantas e bichos. 2008. p. Comia tudo. marcado pelo desregramento econômico e moral. articulação de diferentes práticas discursivas. tempo que deixa transparecer os sinais de enfraquecimento da cultura ameríndia: A sala parecia um museu pobre e improvisado. p. Sua narrativa fala de um desejo que não pode ser satisfeito. 39). no qual a realidade não cessa de desmentir as promessas de felicidade. peças de cerâmica. O naufrágio do navio Eldorado constitui-se num dos símbolos eloquentes do fracasso dessa política. fazendo-os coexistir no espaço do texto. autor que o romance homenageia fazendo alusão à célebre viagem do modernista à Amazônia. Na trilha de Mário de Andrade.. narrativa de uma impossível construção de plenitude identitária. Arminto é um dos numerosos órfãos do Eldorado aos quais o título do romance faz alusão.O ameríndio como personagem do Outro na literatura. 6 de mitos. caboclos. O tempo presente é o do sonho que se transforma rapidamente em pesadelo.

2009 Desse modo.98 Revista Brasileira de Literatura Comparada. vendidas ou trocadas por mercadorias para servir aos comerciantes de Manaus ou aos homens políticos (Hatoum. a caracterização dos personagens e a representação do espaço constroem uma visão violenta. A representação do espaço constrói um cenário mórbido por onde circulam personagens como Denísio cão. vítimas da miséria e da doença. acolhidas pelas famílias da cidade para servir de empregada doméstica. atraída por um ser encantado. Há ainda as ameríndias do orfanato que as freiras protegem do tráfico sexual. teria escolhido ir viver junto com ele no fundo do rio. próximo da morte de Florita. A violência é um dado consubstancial a essa realidade. Florita. tirânica e mórbida da sociedade e do território amazônico. outro grande escritor amazonense. órfãs na sua maioria. em alusão ao barqueiro infernal. Nela assiste-se ao suicídio por afogamento de uma jovem índia. mas que sofrem. A decadência do povo ameríndio está principalmente representada pelas personagens femininas. o romance denuncia a exploração sexual das mulheres e meninas ameríndias. deturpa suas últimas palavras. são encenadas pela narrativa. em Orfãos do Eldorado. A cena inaugural do romance é representativa das relações que estabelece entre o mito. 2008. um processo de aculturação que começa pela proibição de falar sua própria língua. para poupar o menino Arminto. Na verdade. num regime de semiescravidão. traduzindo-as por um relato perfeitamente integrado ao universo cultural e mítico ameríndio: a mulher. que a liberará de sua vida de miséria material e afetiva. é também o da confissão de sua imensa solidão. n. Outras formas de opressão. no entanto. mascaradas sob a aparência de proteção. p. moças sequestradas. 42).15. O momento dessa revelação. como Florita. Mesmo dissimulada. violentadas. Assim como na obra de Márcio Souza. a mulher se suicida por ter perdido seu marido e seus filhos vítimas da miséria e da doença. como as que sofrem as moças. que vem . suas possíveis interpretações e a realidade. o barqueiro. no final do romance. ela termina sempre por mostrar sua face.

Lá onde ficava a Aldeia. na beira do barranco. quase todos cegos pela defumação do látex. “Inferno e barbárie”7 são a outra face da floresta: O paraíso estava aqui. Ilha do Eldorado) e a realidade. E um novo bairro surgiu: Cegos do Paraíso (Hatoum. Aqui. era o que se dizia. Paraíso era também o nome do seringal situado às margens do rio Madeira. O que existiu. “Cegos do Paraíso”. 7 reforçar a onipresença da morte nesse território.O ameríndio como personagem do Outro na literatura. 2000. expulsos. 1993). 343-351). Imagens de um paraíso perdido.. episódio que fecha o romance do escritor português. mais uma vez. onde Ferreira de Castro. experiência que se encontra recriada no romance A selva. e eu não esqueci nunca. como no célebre romance A selva (1930). Trouxe dos seringais do Madeira mais de cem homens. . a beleza grandiosa e luxuriante da floresta esconde o regime de escravidão ao qual os seringueiros são submetidos. A imagem fala por ela mesma.. A leitura desse texto ajuda a esclarecer a percepção e a representação do espaço em Órfãos do Eldorado. trabalhou como seringueiro durante quatro anos. de Ferreira de Castro. foi o barco Paraíso. ocupam o lugar dos ameríndios. do seu amigo Alberto Rangel (Cunha. As novas vítimas da “modernidade na floresta” (Hardman. e Mad Maria. p. A podridão está dissimulada sob sua beleza luxuriante. p. o prefeito mandou derrubar a floresta para construir barracos. 1988). do escritor português Ferreira de Castro (1898-1974). Misturando referentes reais e ficcionais. 2008. de “uma sociedade que está morrendo”. no Amazonas. de Márcio Souza (Hatoum. que emigrou para o Brasil quando tinha doze anos. que nos remete ao incêndio do seringal Paraíso. 99 Título de um subcapítulo de um artigo de Milton Hatoum dedicado aos romances A selva. Atracou aí embaixo. do território que eles ocupavam nas proximidades da cidade. os imigrantes e migrantes nordestinos. A memória do texto de Ferreira de Castro se faz presente igualmente pela alusão a um incêndio num seringal. Boa Vida. para utilizar as palavras de Euclides da Cunha ao comentar a obra Inferno verde. 95). a narrativa romanesca expõe a oposição gritante entre os sentidos sugeridos pelos topônimos (Vila Bela. Mil e uma histórias que sobrevivem e se metamorfoseiam nos relatos literários.

2008. desde o início.. n.15. a alternância entre as descrições líricas e os sinais que maculam essa beleza da paisagem reforça a perspectiva antagonista da representação do espaço adotada pelo romance. Crianças caladas. onde.] Não era o lugar que me perturbava: era a lembrança do lugar. remetendo a uma relação disfórica que ele entretém com um espaço onde impera uma ordem social injusta. o texto não para de semear. Lugar lindo. Dinaura teria se refugiado. Durante a viagem de Arminto em busca do seu Eldorado. aqui e ali. recorrendo a uma descrição lírica da maravilhosa visão do lago do Eldorado.. Personagem decadente da história e do mito. p. pois. referente geográfico real. Trata-se de construir a visão de uma natureza que abriga um mundo doente. Senti um abafamento. 2008. o cheiro e o asco dos insetos me deram um suadouro. não há possibilidade de fusão harmoniosa com a natureza. me agachei e vi um ninho de baratas-cascudas. A ilha do Eldorado seria uma das ilhas do Arquipélago das Anavilhanas. Lá . [. doente. face que se revela desde o momento em que fazemos a experiência de penetrar nesse espaço: Um volume escuro tremia num canto. p. paisagem de beleza ímpar (Hatoum. sinais do mal-estar que Arminto manifesta. filhos de homens calados. repulsivo.100 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Os filhos dos empregados se aproximavam da varanda e paravam para observar a casa. Fui até lá. representada pela voz autoritária do pai: Eu me sentia mal na Boa Vida. 2009 A última viagem de Arminto (navegador de “viagens supérfluas” entre Manaus e Vila Bela) pelo rio Amazonas ganha um outro sentido. A narrativa evoca a beleza grandiosa da paisagem. nauseabundo. No entanto. com guarásvermelhos e jaçanãs no céu e nas árvores. 67-68). 102). Voz mesmo só a de Armando: voz para ser obedecida (Hatoum. um dos lugares célébres do ecoturismo da Amazônia. situado a 100 quilômetros de Manaus. Arminto parte na terceira classe de um navio velho e sujo em busca da ilha do Eldorado.

2000. assinalando o impasse do parâmetro do progresso como fundamento da civilização. solidão. mesmo que seja para dizer a impossibilidade da viagem. Essas imagens revelam um ponto de vista pessimista sobre o processo histórico marcado pelas injustiças. condenados a fazer viagens imaginárias que não tranquilizam mais ninguém. coloca o leitor perante a problemática condição humana. .. p. 101 fora. O lugar inaugurado pela criação literária está longe de corresponder ao de um refúgio protetor. 102). a imensidão do lago e da floresta. sublinha Simon Harel (2007. 322). múltiplos signos disfóricos para evocar esse encontro fracassado entre o mito e a história.O ameríndio como personagem do Outro na literatura. Podridão. Hatoum pertence à linhagem de escritores que produzem livros do desassossego: “é preciso aceitar que a literatura complica o mundo”. era habitado pela solidão (Hatoum. E silêncio. Aquele lugar tão bonito. O que se esconde sob as aparências da visão do paraíso? A distância entre o sonho e a realidade que essas imagens de um mundo em degeneração nos devolvem como um espelho invertido. “Não há barco nem caminho para ti”. A herança comum que o ameríndio compartilha com o homem ocidental é a de serem órfãos da civilização. prisioneiros de um mundo de cinzas. erigindo a literatura como um dos lugares possíveis de resistência.. ao afirmar que “O futuro prometido pela modernidade não tem futuro” (Santos. 2008. 12). p. ao contrário. p. anuncia o poema de Kaváfis. o Eldorado. A obra de Hatoum não produz sombras consoladoras. em consonância com o que escreve o sociólogo português Boaventura de Souza Santos. Essas cinzas do Norte dizem muito do estado de deriva dos mitos e dos relatos que resultam do esforço contínuo do sujeito na sua busca de imprimir um sentido à trajetória humana. morte. doença. pelas escolhas políticas autoritárias.

Desde então. o personagemnarrador Arminto Cordovil.8 que se constrói em torno do desaparecimento de um fotógrafo nos Montes Altai. da Universidade de Columbia. a intriga de Nove noites cruza várias versões e inscreve no seio da narrativa o personagem do escritor que procura de forma obsessiva preencher a precariedade do sentido. experiência vivida e ficção. trata-se de abolir uma representação realista do mundo. ex-aluno de Franz Boas. Assim como em Mongólia (2002). por Buell Quain data de 2001. O interesse do personagem-escritor. n. Misturando fatos históricos. ao ler no jornal um artigo do antropólogo que se suicidou em plena floresta.15. Nove noites tece sua trama em torno de um enigma: as razões que conduziram o antropólogo norte-americano Buell Quain. a representação do ameríndio é submetida a diferentes pontos de vista assumidos por múltiplos sujeitos do discurso. em Nove noites é a multiplicidade de vozes narrativas e a focalização que tornam a percepção do real problemática. Nos dois romances. Mas. de Bernardo Carvalho. 8 . aos 27 anos. a se suicidar no Brasil. narrador do romance. em 1939. instaurando o processo de mise en abyme do ato da escrita. 2009 alteridade invisível: o índio em Nove noites. por acaso. de Bernardo carvalho No romance de Milton Hatoum. 2007. ver Godet. enquanto em Orfãos do Eldorado a ambiguidade da narrativa decorre das interrelações entre mito e história e da complexa viagem ao passado por meio da memória do narrador. quando da sua estadia no Xingu com os índios krahô. de sua existência. Para essas narrativas. quando ele fica sabendo. só existem visões do real. Em Nove noites.102 Revista Brasileira de Literatura Comparada. encontrar a solução do enigma. a narrativa de Nove noites ultrapassa as fronteiras de gênero e situa-se a meio caminho entre autobiografia ficcional e documentário jornalístico romanceado. procura compreender o gesto brutal do an- Sobre Mongólia. a experiência da alteridade ameríndia gera uma espécie de fascinação pelo Outro no único sujeito da enunciação.

Todos esses elementos trazem indícios da angústia e do desespero do antropólogo. Os índios querem um pai. cujo mistério permanece velado. É a natureza inacessível do ser humano que é colocada em . A alternância de vozes narrativas é assinalada por caracteres tipográficos. Quain tinha relações complicadas com seu pai e ao mesmo tempo. justapõe a história do antropólogo à de seu próprio pai” (Moura). destacando as armadilhas de uma atividade interpretativa da subjetividade do outro. Numa entrevista. o narrador frequentou com seu pai a região do Xingu.. 103 tropólogo.O ameríndio como personagem do Outro na literatura. a refazer a viagem nessa região e permanecerá na mesma tribo de Buell Quain. amigo de Buell Quain. ele representa o papel de pai com os índios. sem no entanto esclarecer o mistério. igualmente. ele será levado. com a imagem do seu pai. Às vozes desses dois narradores acrescenta-se a voz de Quain. assim como testemunhos de diversas pessoas que conviveram com ele. com sua relação como cidadão brasileiro branco e urbano com o índio. As diferentes versões e visões acentuam o caráter polifônico do romance. pois de uma certa maneira são órfãos da civilização. O romance alterna a narrativa da investigação conduzida pelo narrador com o testemunho fictício deixado por Manoel Perna. que esfaqueou e mutilou seu corpo antes de se enforcar. Mais de trinta anos depois. a mais próxima da aldeia indígena. por causa de sua investigação. O narrador.. onde este último tinha comprado uma fazenda. Menino de seis anos. Pouco a pouco. engenheiro responsável pelo Serviço de Proteção dos Índios. por meio de cartas que ele deixa após sua morte. os elementos da investigação sobre Quain se imbricam com lembranças antigas do contato com os índios em companhia de seu pai. Bernardo Carvalho afirma que seu romance é uma interrogação sobre a paternidade: “Todo mundo está à procura de um pai. a quem ele teria feito confissões desesperadas durante nove noites passadas na cidade de Carolina. A razão da busca obstinada que leva o narrador a se interrogar sobre a morte do antropólogo só será revelada no final do romance: ela está relacionada com a infância.

. que em princípio se dedica a compreender e a fazer compreender o Outro. A narrativa nos fala dos laços indissolúveis entre a interrogação sobre a estranheza do outro e o rastro subjetivo do sujeito investigador: qualquer que seja o objeto da investigação. do departamento de antropologia de Columbia ao qual pertencia Buell Quain. quando encontramos o narrador adulto em visita aos índios Krahô. O trabalho de escrita que visa a constituir o outro só pode se fazer pelo imaginário “par ce va-et-vient entre soi et l’Autre [.15. Nove noites é. a imersão no mundo do outro é sempre uma incursão íntima. o índio é.] qui conditionne le sens. O que predomina é uma percepção negativa das marcas mais significativas da alteridade dos índios. que coloca em cena as lembranças da infância do narrador com seu pai. la compréhension. Em Nove noites. os europeus célebres como Lévi-Strauss e o suíço Alfred Métraux. Apesar dos diferentes períodos históricos aos quais o texto faz alusão. Três momentos precisos são evocados: o final dos anos 30. A figura do ameríndio em Nove noites está inscrita na temporalidade do século XX. p. sua comida. e o início do novo milênio. Mais uma vez. 171). 1991. Nove noites chama a atenção sobre . explorando as terras da Amazônia. como o grupo de Franz Boas. n. antes de tudo. seguindo a pista de Quain. a representação do índio permanece a mesma. 2009 evidência. seus ritos. O texto tomanesco lembra os inúmeros antropólogos estrangeiros que se dedicaram ao estudo dos povos indígenas do Brasil.. um romance sobre as relações de alteridade a partir de uma reflexão sobre o procedimento antropológico. a imagem. o final dos anos 60. em direção de suas singularidades radicais.104 Revista Brasileira de Literatura Comparada. em processo de desaparecimento. um objeto de estudo. seus laços de parentesco. antes de tudo. de um povo decadente. et l’interprétation” (Affergan. enfim. a recusa de ir em direção ao outro. Bernardo Carvalho elabora uma narrativa labiríntica que desconfia do poder da linguagem para elucidar o enigma do real. período no qual evolui o personagem Buell Quain no meio dos índios brasileiros.

dessa maneira. Mikhail Bakhtin lembra-nos que o objeto das ciências humanas é um sujeito e o método delas. não é um objeto vazio e indeterminado. interessou-se primeiramente pelos trumai. obcecado pela morte. disposto a se submeter ao olhar e ao tratamento científico do observador. Não se trata de desprezar as contribuições de grandes pesquisadores à compreensão desses sistemas culturais. Buell Quain. reduzidos à categoria de objeto de estudo. Foi expulso da tribo pelo Serviço de Proteção aos Índios. Ele encontrou aí um povo marcado pelo processo de autodestruição. como teria transmitido relatórios políticos ao governo americano. O romance alude a . alertando também para o fato de que os textos construídos pelas ciências humanas estão longe de serem neutros. que não somente teria vendido objetos que ele subtraía às tribos indígenas. 105 essa espécie de instrumentalização do outro.O ameríndio como personagem do Outro na literatura.. Ele se articula sobre suas próprias determinações e traz consigo o que poderíamos chamar de seus atributos (Affergan. contribuindo para que elas gozassem de um reconhecimento pleno. a interpretação. A questão levantada pelo texto de Nove noites tem sentido: até que ponto esses sujeitos realmente existiram como tais para todos esses cientistas? Até onde o diálogo pôde se realizar? A obra contempla uma preocupação que se faz presente na reflexão antropológica da atualidade. denunciando. Mas não se trata tampouco de deixar passar em silêncio um certo olhar dirigido a esse território e a seus habitantes que não são brancos. política e financeira. O romance revela o comportamento de certos antropólogos. O outro. a instrumentalização intelectual. O Brasil dos anos 1930 e 1940 tornou-se um país-fetiche dos antropólogos e sociólogos: o índio e o negro. sem que se conheça a razão dessa expulsão.. como assinala Francis Affergan. Antes de viver com os krahô. que habitavam um dos territórios mais inacessíveis da Amazônia. como o norte-americano William Lipkind. liberando-os das ideias pré-concebidas da época. objetos de culto da curiosidade científica deles. o personagem antropólogo do romance. 1991).

Além do mais. quando fez a primeira viagem a essa região. para ele. pelo bisavô de Bernardo Carvalho. vai elaborar: com os trumai. A convivência com os krahô também não o libera da solidão. p. Têm cortes de cabelo engraçados. 2001. 72). uma barreira intransponível. aliás. furam as orelhas e continuam sem usar roupas nas cidades. nas ilhas Fiji. Quain não compreende os índios. Para Quain. evocam um espetáculo deprimente. ao lembrar as orientações do Serviço de Proteção aos Índios. 2001. o sertanista amigo de Buell Quain. enfim. sua íntima decadência. foi criado em 1910. que proibia as relações sexuais com os índios (serviço que. o Xingu também é a imagem do inferno: “O Xingu ficou guardado na minha memória como a imagem do inferno” (Carvalho. a maneira como eles cortam o cabelo. p. existe o medo que a criança sente desse povo exótico e desse espaço selvagem: a casa solitária no meio . n. A construção desse personagem antropólogo questiona seu olhar etnocêntrico e sua atitude egocêntrica.106 Revista Brasileira de Literatura Comparada. os índios representando seu próprio papel para um público de brancos. 30). ele teria encontrado um povo cuja cultura refletia seu próprio desespero. O antropólogo americano confessa sua dificuldade em trabalhar sobre os índios brasileiros e rejeita parcialmente as marcas (consideradas desagradáveis) que as culturas indígenas imprimiram à cultura brasileira. o outro é sempre. ele os considera idiotas: “Encontrei um grupo de índios krahô e eles parecem pavorosamente obtusos. 163). Para o narrador. desesperado que o testemunho de Manoel Perna. denunciando a utilização que se faz do Outro para fins que não lhe dizem diretamente respeito (Carvalho. instável.15. Uma das pistas sutilmente levantadas pelo texto romanesco faz alusão a problemas de ordem sexual. Suas lembranças da infância. 2009 uma provável homossexualidade de Quain. É a imagem de um homem aterrorizado. 2001. o paraíso estaria em outro lugar. rejeita seus costumes. o célebre sertanista Cândido Rondon). sua nudez. O território brasileiro nada mais é para ele do que o inferno. p. O fato é que o antropólogo parecia muito afetado pela sua estadia na tribo dos trumai.” (Carvalho.

2001. os rituais. as brincadeiras. no entanto. e relembra o massacre que os índios krahô sofreram um ano após a morte de Buell Quain.O ameríndio como personagem do Outro na literatura. 100): a cena na qual um velho krahô entoa um canto em torno de uma fogueira numa noite de lua. um Forte Apache de plástico. índios que comem macarrão e arroz com feijão. O olhar do narrador recusa o paternalismo: se ele é sensível ao sofrimento dos índios. Uma só passagem no romance evoca a possibilidade de um encontro.. antítese da civilização. vestidos de short e calçando sandálias japonesas. perdida no tempo. em expor seus preconceitos. a floresta agredida e transformada pela violência de um desmatamento caótico imposto pela nova ordem civilizacional. imagem ancestral comum a todo ser humano. quando os fazendeiros mataram 26 deles. recusa de compartilhar a comida deles. Medo. mostrando o abismo existente entre seu universo de intelectual urbano e o dos povos autóctones. imagem depurada da história que o homem . seu pai lhe oferece um brinquedo. p.. no fim do mundo. mas também recusa da alteridade linguística. Um povo órfão. comportamental. marcado por um sentimento de trágica impotência. o narrador sublinha o processo de aculturação em marcha. 107 de lugar nenhum. abandonado. ele não hesita. A narrativa coloca em evidência o sofrimento de um povo empobrecido pela política governamental. o narrador retorna à região seguindo os rastros de Quain. ao qual ele se refere como “um dos espetáculos mais deslumbrantes da minha vida” (Carvalho. A harmonia dessa cena remete a uma imagem arcaica. Adulto. um povo que não quer ser esquecido pelos brancos. um só momento em que o narrador se mostra atraído pelo outro. mito deslocado significando o encontro abortado entre o brasileiro urbano e os povos autóctones do Brasil. Para amainar a decepção do seu primeiro contato com os índios. É sempre o mesmo medo que o acompanha diante dos ritos que ele não consegue compreender. símbolo estereotipado do índio selvagem. vítima de doenças e de comportamentos viciosos transmitidos pelo contato com os ocidentais. Ao mesmo tempo.

que defende uma comunicação “suficiente” mas não “excessiva” com as culturas ameaçadas de extinção. O narrador de Nove noites não compreende o papel que os índios lhe atribuem nos seus rituais. nem o olhar que eles lhe dirigem. a figuração do ameríndio como personagem do outro explora a distância com o grupo de referência ao qual pertence o personagem do escritor.108 Revista Brasileira de Literatura Comparada. sua recusa em construir laços. 2009 construiu. O raiar do dia expulsará a poesia e restabelecerá a incompreensão e o medo. percebido como indecifrável e ameaçador. um objeto de estudo. Para o narrador. Constatação de um encontro e de um diálogo frustrados. Tão bela quanto frágil e efêmera. como se a possibilidade de um diálogo entre o Brasil ocidental e urbano e o Brasil dos povos autóctones estivesse para sempre perdida. O que sobressai do efeito do outro sobre o sujeito do discurso é sua incapacidade de ir ao encontro do ameríndio. p. para melhor as proteger (Carvalho. o caminho escolhido pelo escritor coloca em evidência uma representação do lugar marginal que a sociedade brasileira reserva ao índio. O outro que o atrai não é o ameríndio. 2001. este é o sujeito da alteridade produtora de sentido que o aproxima de seu pai. distanciando-se de uma tradição literária que tende a idealizar a figura do índio. Qual o futuro para as relações interculturais entre uma civilização que tem seu declínio anunciado e uma outra que tem a expansão de sua dominação assinalada? O narrador refere-se ao ponto de vista de Lévi-Strauss. como o estrangeiro de dentro. o ameríndio é um tema enviesado. A figuração do ameríndio em Nove noites privilegia as diferenças como enfrentamento estéril. O índio surge. então. 52). mas o antropólogo norte-americano. o não-valor de sua cultura. n. a recusa em considerá-lo como sujeito autônomo. de sua infância e que o conduz a refazer a experiência na tribo indígena.15. para o antropólogo. sua tendência a se fechar sobre suas próprias referências. No romance de Bernardo Carvalho. submisso a uma consciência que o constrói. As teorias pós-modernas sobre as relações interculturais se afastam dessa perspectiva e .

ao fazê-lo. confere-lhe. 67). depois de uma estadia nos Estados Unidos. que lhe pergunta se ele vai ao Brasil para fazer turismo. país que visitou em 2001 na esperança de encontrar a família de Buell Quain. Milton Hatoum se inspira em uma realidade na qual a presença ameríndia é marcante. participando de um espaço urbano híbrido. p. a adoção do ponto de vista do brasileiro urbano.  Em Nove noites. 2004) ou de creolização (Glissant. Ao ser abordado pelo narrador. contraditoriamente. branco e letrado projeta a imagem do ameríndio como uma alteridade invisível e em via de desaparecimento. reproduzindo a imagem de um índio aculturado.O ameríndio como personagem do Outro na literatura. Mas. c’est établir relation et non pas consacrer exclusion.. Visão trágica que lhe retira a perdurabilidade. eles iniciam uma conversa no momento em que o avião está sobrevoando a região amazônica próximo ao local onde Quain se matou. decadente. na imprevisibilidade do mundo-caos. Sentado no avião ao lado de um jovem estudante americano. 109 insistem nos aspectos positivos do inevitável processo de hibridação (Canclini. uma visibilidade. O ponto de vista adotado é o do brasileiro que bebeu na fonte da cultura ameríndia e que é fascinado . Trata-se da viagem de volta do narrador. o romancista possa apenas registrar essa invisibilidade do “estrangeiro de dentro”. o jovem responde: “Eu vou estudar os índios do Brasil”. O texto de Nove noites não se inscreve em nenhuma dessas perspectivas.” afirma Edouard Glissant (1996. aliando-se a uma perspectiva comum a outros romances da produção literária das Américas. Talvez porque nas nossas sociedades cada vez mais compósitas. ele recusa qualquer possibilidade de contatos e trocas equilibrados e frutuosos e elabora uma visão trágica de uma civilização em via de extinção. Em relação à dialética do “selvagem” e do “civilizado”. reduzido a um objeto exótico ou a um objeto de estudo. A cena que fecha o romance é particularmente expressiva.. 1996) que caracteriza a contemporaneidade: “Vivre la totalité-monde à partir du lieu qui est le sien.

Mesmo reconhecendo o processo de mestiçagem cultural. o escritor se distancia de um discurso banal que se contenta em louvar as trocas culturais. CANCLINI. 1991. Referências AFFERGAN. Culturas híbridas.15. São Paulo: Companhia das Letras. Nove noites. Dessa forma. isoladamente. Paris: Presses de la Fondation Nationale des Sciences Politiques. transformando a escritura numa “zona de tensões” (Harel. n. Hatoum recusa uma visão reconciliadora do processo de mestiçagem. O autor não se deixa levar por uma ideologia da mestiçagem como elemento consubstancial à nação brasileira. Critiques anthropologiques. abrindo-se para a subjetivação da experiência da alteridade. abandonados à miséria e à orfandade. 2004. denunciando assim o papel marginal que a sociedade reserva ao índio. Um paraíso perdido: reunião de ensaios amazônicos. . Bernardo. desconsiderando os aspectos da necessária reconstrução de um “lugar habitável” para o sujeito. p. nem por isso o ameríndio escapa à condição subalterna e à visão trágica que o condena ao desaparecimento. deixa transparecer a ideia de que esse processo não é capaz de assegurar. Conselho Editorial. 2007. CUNHA. Adotando uma perspectiva complexa do processo de inter-relação de culturas e de imaginários. Euclides da. 108). 2000. como elemento que se abre à relação com o Outro. expondo suas fraturas. herdeiros de visões do paraíso. preferindo destacar a construção dramática desse espaço ambivalente. Néstor Garcia.110 Revista Brasileira de Literatura Comparada. 2009 por ela. Adota outro ponto de vista. México: Grijalbo. Brasília: Senado Federal. onde os conflitos herdados do colonialismo se fazem presentes. 2001. Estrategias para entrar y salir de la modernidad. Hatoum não o idealiza. Figurado como mediador do espaço e dos mitos entre a floresta e a cidade. a existência de uma sociedade mais justa e solidária nem para os ameríndios nem para os pobres brasileiros inseridos na sociedade urbana. CARVALHO. Francis.

1993. Disponível em: <http://www. Flávio. Québec: Éditions Nota Bene. Boaventura de Souza. Janet M. Teresa: revista de literatura brasileira. Salvador: Fundação Casa Jorge Amado. Poética do Pós-Modernismo. com. de Márcio Souza). 111 GLISSANT. São Paulo: Companhia das Letras. . HUTCHEON. _____. _____. 2000. 101-117. A dois passos do deserto: visões urbanas de Euclides na Amazônia. Brasília. Linda.. Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea. Montréal: XYZ. Simon. Québec: Les Presses de l’Université Laval.O ameríndio como personagem do Outro na literatura.-jun. 1996. Edouard. A utopia e os conflitos paradigmáticos. 2004. Les lieux de la précarité de la vie quotidienne. 2008. 2005. MOURA. Rio de Janeiro: Imago. Québec: Nuit Blanche. p. La poétique de l’altérité et la représentation de l’Amérindien dans la fiction des Amériques. jan. p. _____. Rita Olivieri. A natureza como ficção (Leitura do espaço nos romances A selva. L ’espace en perdition. Jean. _____. 1994. Francisco Foot. O espaço geográfico no romance brasileiro. 2007. Trem fantasma. Texto inédito. 34. Figures de l’Autre dans le roman québécois. 1988. a modernidade na selva. PATERSON. In: _____ et al. HATOUM. n. O social e o político na pós-modernidade. A trama traiçoeira de Nove noites. FFLCH-USP São . 2000. GODET.. Orfãos do Eldorado. 1. p. São Paulo: Cortez. HARDMAN. e Mad Maria. MORENCY. Les passages obligés de l’écriture migrante. Milton.php?op=resumos/docs/novenoites>. Paris: Gallimard. ed. HAREL. Introduction à une poétique du divers. n. 29. 2007. Le mythe américain dans les fictions d’Amérique. de Ferreira de Castro. Pela mão de Alice. 1991. São Paulo: Companhia das Letras. SANTOS. 185-194.portrasdasletras. Estranhos estrangeiros: poética da alteridade na narrativa contemporânea brasileira. In: _____. 233-252. Paulo.br/pdtl2/sub. entrevista de Bernardo Carvalho.

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I argue that canon-revising culturalists as well as aestheticists who defend the primacy of the Western canon share a number of premises. compartilham uma série de pressupostos. sugerem-se algumas pautas para o debate. . cânone e crítica formal Este ensaio parte da premissa de que não há crítica ou teoria literária. Understanding the contingent nature of aesthetic value and the impossibility of grounding it immanently. estética. aesthetics. por mais descritiva. canon. and canon. frequentemente ignorada. keywords: value.113 Cânone Literário e Valor Estético: notas sobre um debate de nosso tempo Idelber Avelar* resumo: Este ensaio se insere no debate contemporâneo acerca do valor estético. argumentando que culturalistas. This article is part of a contemporary debate on aesthetic value. revisores do cânone. I suggest a few possible routes for the debate. based on the often ignored discontinuity among the concepts of value. essa premissa é simultaneamente negada e aceita pelos dois polos de um debate que. na qual não esteja implícita uma posição sobre o valor. A partir de uma compreensão do caráter contingente do valor estético e da impossibilidade de fundamentá-lo de maneira imanente à obra. Como veremos. cânone. e esteticistas. contingência. aesthetics. é apresentado como uma polêmica entre defensores de um firme cânone * Tulane University. contingency. entre os conceitos de valor. defensores da primazia do cânone ocidental. baseadas na descontinuidade. com frequência. de estética e de cânone. palavras-chave: abstract: valor.

o New Criticism focalizou a valoração na diferença entre a literatura e a cultura de massas. optando por um projeto que tinha um caráter mais descritivo que valorativo. Cleanth Brooks – se . A insistência dos new critics no caráter desinteressado da literatura acabou sendo um gesto no qual se albergava um nítido interesse. este ensaio tenta demonstrar que a própria formulação do debate é problemática. Hegemônico durante décadas na crítica estadunidense. que fizesse desta o antídoto contra a vulgaridade massiva associada à racionalidade técnica moderna e à “dissociação da sensibilidade”. 2009 ocidental e culturalistas favoráveis a uma relativização ou abolição desse cânone. mesmo nos momentos de maior formalização do método. P Blackmur. discursos com fortes componentes axiológicos. e que o valor estético e o cânone literário podem e devem ser repensados em outros termos. O New Criticism surgiu. nos anos 1930. visível na batalha que eles livraram contra o establishment da filologia. O estruturalismo. os new critics – John Crowe Ransom. depois da progressiva ruptura com a formalização do estruturalismo. com seu afã científico e universalizante. Eliot. sabemos. n. embora seus principais teóricos. como Roland Barthes e Julia Kristeva. Allen Tate. Os textos de Roland Barthes em que a preocupação com o valor se torna explícita são aqueles escritos a partir do final dos anos 1960. R. Há correntes críticas do século XX.15. S. jamais tivessem escondido suas preferências literárias. mas no sentido classista . já numa fase de seu pensamento em que são visíveis as inspirações nietzscheana e lacaniana. que rejeitariam o pressuposto da inevitabilidade valorativa. Nas suas origens. Robert Penn Warren. conceito que herdaram de T. elaborou pouco sobre a questão do valor. Além de tomar algumas posições que não se alinham com nenhum dos dois polos. mas não em distinções efetuadas no interior da série literária. portanto.114 Revista Brasileira de Literatura Comparada. diferenciavam dos filólogos então dominantes ao conferir um papel edificante para a literatura. como intervenção numa polêmica culturalista – entendendo-se “cultura” não no sentido antropológico.

) e John Guillory (1993.. de maneira hegeliana. que era seu principal antagonista. no qual ele se distanciava tanto do New Criticism como da Escola de Chicago. onde não há fatos. o momento de triunfo do New Criticism na universidade e de consolidação da poesia modernista no currículo coincidiu com o arrefecimento dessa veia polêmica. o caráter sistematizador. p. Frye chegou a considerar “Poética estrutural” como um possível subtítulo para o livro. A consolidação do método como leitura hegemônica acabou acarretando a universalização dos traços que eles antes só viam nos autores do seu paideuma particular. nas quais invariavelmente encontrariam a ironia. e onde todas as verdades já foram.Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. ainda que fosse para negar sua pertinência para a prática crítica. No momento em que Northrop Frye publicou o hoje clássico Anatomia da crítica (1957). p. Mas como a história do gosto não tem vínculo . já se desenvolvia havia uma década com Lévi-Strauss. Tomo Frye como ponto de partida de uma demonstração do que considero o caráter aporético da discussão sobre o valor literário: Na história do gosto. 115 e aristocrático do termo. quebradas em meias-verdades …. a insistência no imanentismo e no caráter autossuficiente da crítica literária. a centralidade do conceito de mito. 155-175). sentimos talvez que o estudo da literatura é relativo e subjetivo demais para ter sentido consistente. na França. Os new critics se moveriam em direção à análise de estruturas internas dos textos. 145 et seq.. Como apontaram Gerald Graff (1987. e alguns dos eixos da obra revelavam nítido parentesco com o trabalho que o estruturalismo literário francês realizaria nos anos seguintes: as metáforas espaciais. uma apresentação explícita do problema da valoração já era inevitável. Uma das diferenças importantes é que Frye se dedicou longamente ao problema do valor literário. a ambiguidade e o paradoxo que eles antes reservavam aos modernos e aos poetas metafísicos ingleses do século XVII. Embora não fizesse ali nenhuma referência ao trabalho da antropologia estrutural que. o jogo de antinomias.

O curioso da analogia de Frye. que Milton é um poeta mais sugestivo e recompensador que Blackmore. 2009 orgânico com a crítica. n. 1957. ele afirmara que “a história do gosto não é parte da estrutura da crítica. p.1 Um pouco antes. 1957. mais válidas quando silenciosas. 18). portanto. Mas quanto mais óbvio se torne isso. por certo. 2) é “óbvio” que alguns poetas são melhores que outros. pode-se estar razoavelmente convicto de que tal separação é a coisa menos fácil que há. O leitor o percebe quando chega o espinhoso momento em que Frye tem de justificar suas escolhas.15. simultaneamente. e constantemente. assim como não é óbvio que a polêmica Marx-Ricardo não seja parte da “estrutura” da economia política. 18). 25). menos tempo ele desejará desperdiçar insistindo na questão. O crítico verá logo. São minhas as traduções de todas as citações de fontes em línguas estrangeiras.116 Revista Brasileira de Literatura Comparada. e não princípios expressos que guiam sua prática. ele lança mão de uma curiosa tese. 1 Anatomia da crítica sugere. À medida que o leitor percorre as páginas de Anatomia da crítica. a de que é preferível que os valores que subjazem às escolhas estéticas da crítica fiquem escondidos. p. pois explicitá-los terminaria fundamentando a crítica na história do gosto e. ela pode ser facilmente separada (Frye. é que está bem longe de ser uma verdade evidente que a polêmica Huxley-Wilberforce não seja parte da “estrutura da biologia” (seja lá o que for isso). dinamitando a separação que se havia proposto entre elas: As estimativas comparativas de valor são realmente inferências da prática crítica. 3) . que 1) a crítica é uma esfera separada da história do gosto. Porque insistir nela é tudo o que ele pode fazer: qualquer crítica motivada por um desejo de estabelecê-lo ou prová-lo será meramente mais um documento na história do gosto (Frye. vai se impondo uma conclusão: sempre que Frye diz que a crítica é “facilmente separável” do gosto e do juízo valorativo. Para isso. assim como o debate Huxley-Wilberforce não é parte da estrutura da ciência biológica” (p.

Shklóvski definiu o conceito como o processo por meio do qual a novidade das operações poéticas sobre a linguagem prolongaria a percepção. Numa futura história dos métodos formais no século XX. O estranhamento possibilitaria uma renovação de uma experiência do mundo caracterizada por uma percepção já automatizada..Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate.2 haveria que se dedicar especial atenção às maneiras como o desejo de cientificidade entrou em choque com a inevitabilidade valorativa. ver o notável trabalho de história intelectual já feito por François Dosse (1991-92).. mas tropeça na constante interferência desta sobre aquela. 3) já que a valoração é definida como parte de uma história do gosto externa à crítica. se sustenta sobre um tripé de premissas de visível precariedade: 1) a crítica e o gosto não se misturam. 2 qualquer tentativa de explicar essa obviedade está fadada a ser parte da história do gosto. Seria possível demonstrar que a aporia detectada em Frye se repete nos métodos interpretativos que tentaram fazer da crítica literária uma operação descritiva na qual não teria lugar o debate acerca das opções valorativas. esses dois eixos coexistiram com certa tensão. um dos livros de crítica literária mais influentes do século XX. No caso do formalismo russo. a consolidação do poder político nas mãos de Stálin os forçou ao exílio ou ao silêncio. não antes que Yuri Tinianov formulasse algumas pistas acerca do que poderia ter sido uma concepção formalista da . Frye não pode senão sugerir que os fundamentos das escolhas valorativas permaneçam sem discussão. 117 Para o estruturalismo. Preso num discurso que postula a separabilidade da crítica ante a história do gosto. não da crítica. sob o risco de que todo o edifício desmorone. teremos de esconder debaixo do tapete os critérios que subjazem a elas. 2) não se faz crítica sem uma escolha valorativa. Anatomia da crítica. O projeto de descrever cientificamente a linguagem poética os levou a estabelecer a noção de estranhamento (ostraneniye) como o mais próprio da literatura. aumentando-lhe a dificuldade. No momento mais frutífero do desenvolvimento das pesquisas dos formalistas. mesmo que reconheçamos que a atividade crítica depende de escolhas valorativas. fruto da repetição constante.

15. A insistência na função descritiva da teoria literária. Não há nada de condenável nessa axiologia. ajuda a explicar a relação multifacetada que os formalistas mantiveram com o tema do valor. é claro. Muito ainda poderia ser dito aqui. O edifício teórico dos formalistas nos leva à conclusão ineludível de que Dom Quixote tem um valor que Amadis de Gaula não apresenta. combinada à condenação ao impressionismo dos simbolistas. interrompida pela consolidação do poder burocrático na União Soviética. Sempre que um procedimento passasse a ser parte do repertório de práticas já esperadas. A sofisticação do aparato teórico dos formalistas os levou do imanentismo textualista a uma incipiente teoria da história literária. A partir das premissas de que o estranhamento é mais próprio à literatura e de que a história literária evolui pela operação paródica sobre formas anteriores congeladas. uma operação paródica tenderia a surgir. às correntes críticas que explicitamente reivindicam a valoração como elemento constitutivo da ati- . e assim por diante. Apesar de que as observações feitas acima sobre Frye não se aplicam aos formalistas. As conhecidas afinidades entre o formalismo e o futurismo russos emprestam credibilidade a essa tese. mas passemos ao extremo oposto. ou seja. eles tampouco se dedicaram a tematizar explicitamente o problema do valor. n. de que as vanguardas realizam a vocação da literatura de uma maneira que os parnasianos não fazem. parece inescapável a conclusão de que o valor está acoplado à realização desse programa: quanto mais estranhamento e mais ruptura paródica com as formas anteriores. pelo estranhamento imposto a formas literárias automatizadas pelo uso excessivo. mais valor. Para Tinianov. Mas reconhecer sua existência – mesmo que implícita – é indício adicional de que até nas empreitadas mais cientificistas da crítica literária impõe-se a inevitabilidade valorativa. expondo a artificialidade de suas convenções. 2009 história literária. Um exemplo clássico é o que Dom Quixote fez aos romances de cavalaria. tornando visível a automatização anterior.118 Revista Brasileira de Literatura Comparada. a literatura evoluiria por meio da paródia.

. ao mesmo tempo em que continua se agarrando a um conceito de literatura como fonte singular de um “mergulho em outras mentes” (p. ao continuar tomando esses valores como intrínsecos. seria a defesa daqueles valores sobre outros. Booth abraça o projeto humanista de ilustração por meio das letras. Booth coloca a pergunta: “Poderemos esperar encontrar uma crítica que respeite a variedade e ofereça um saber acerca de por que algumas ficções valem [are worth] mais que outras?” (1988. 119 vidade crítico-literária. Booth tenta resgatar essa função humanista sem reduzi-la a um conjunto de normas. um debate cujas origens podem ser remetidas aos Livros III e X da República de Platão. a saber. Qualquer tentativa de sustentar este último postulado – de que algumas ficções realmente valem mais que outras – só poderia “respeitar a variedade” interrogandose sobre os processos históricos por meio dos quais certos valores foram conferidos àquelas ficções. O desafio que Booth se coloca é manter algumas das premissas da teoria contemporânea (acerca da variabilidade histórica do sentido ou da impossibilidade de uma medida transcendental de valor). Como se verá. Posição de destaque nessa vertente cabe aos críticos que se ocupam das relações entre ética e literatura.Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. Consciente de que as condenações moralizantes de uma tradição que vai de Platão a Leavis deram à crítica ética uma má fama.. com seu The company we keep. 142). ou seja. Se não. ocupa um lugar central no chamado ressurgimento da crítica ética nos EUA. que provocaria uma “série de efeitos no ‘caráter’”. a tarefa não é fácil. ix). necessária. Na tentativa de esclarecer os valores que subjazem às análises estéticas. que valeriam “menos”. crítica ética e falácia igualitária Wayne Booth. que ele define como uma “Conversa celebrando as muitas maneiras em que as narrativas podem ser boas para você – com vislumbres de como evitar seus poderes para o mal” (p. 36). a conclusão lógica. p. o Bem ou o Mal .

Booth “realiza” essa tarefa por meio de uma série de exercícios de reductio ad absurdum. Company é. uma minuciosa tentativa de aceitar a variabilidade de interpretações sem deslocar a discussão do terreno do valor intrínseco ao campo da valoração social. n. ou entre um poema de Yeats e uma brincadeira improvisada em verso. No momento em que a teoria não consegue . Os tropeços da crítica ética seriam explicáveis por sua tentação especial de “sobre-generalizar”.. A solução moderada busca um pluralismo que mantenha a referência a um valor intrínseco o qual. Daí sua busca do meio do caminho. A necessidade de caminhar sobre a corda bamba que separa o reconhecimento das contingências históricas do compromisso humanista leva Booth a fazer uma série de gestos na direção do relativismo: o que é bom cá não é bom lá. Depois de superar essas caricaturas. qualquer virtude levada ao extremo pode destruir as outras. uma dose excessiva de qualquer valor (seja a ironia. O objetivo é evitar os “riscos” de “fechamento” ou “abertura” excessiva.. termina sempre transcendendo os conflitos da valoração social. 2009 aos quais o prefácio alude. por mais variável que se conceda que ele seja. Booth quer aceitar o pluralismo hermenêutico da teoria literária contemporânea sem abrir mão do absolutismo da filosofia moral. então. aquela área cinza que permitiria ao crítico evitar qualquer “silogismo universal” (esta obra é boa porque apresenta X.) sem renunciar à premissa de um valor ético intrínseco à literatura e a algumas obras literárias mais que a outras. etc. A reductio ad absurdum será uma das estratégias retóricas favoritas dos que mantêm a referência ao valor estético como propriedade intrínseca e resistem ao argumento de que o valor só pode ser entendido por meio da remissão ao seu solo social. a grande literatura emerge intacta. como o contraste entre King Lear. de Shakespeare. portanto todas as obras que apresentem X. pode ser bom para você mas não para mim.15. com sua insubstituível função moral reassegurada.120 Revista Brasileira de Literatura Comparada. a abertura formal ou qualquer outro) pode ser prejudicial em vez de positiva. e um exemplar da revista pornográfica Hustler.

constate-se a óbvia diferença entre os valores intrínsecos e o problema está “resolvido”. Ao contrário do que argumenta Booth.. e que seu próprio conteúdo só pode ser compreendido com referência ao contexto particular em que algumas habilidades contam como competência e outras. 85). Sempre que se remete um problema à “tentação de sobre-generalizar”.. todos os juízos devem . A equação imaginária entre a contingência social do valor e uma suposta igualdade entre os agentes valoradores é o que Barbara Herrnstein Smith denominou a falácia igualitária. o terreno está preparado para que o liberal sensível procure a conciliação razoável. Afirmar que a valoração é socialmente contingente não significa dizer que todos os agentes valoradores são igualmente competentes. mas que somente são valoradas” (p. seu pluralismo não é radical. e sim liberal. ou seja. 73).Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. Essa afirmação repousa sobre a premissa de que o valor é uma espécie de propriedade inerente ou essência eterna. “a recorrente ansiedade / acusação / reclamação de que a menos que se possa demonstrar que um juízo é mais ‘válido’ que outro. não. Os ataques ao “subjetivismo” do ponto de vista de uma ética humanista são bem conhecidos e Booth os repete em seu livro: “pressupõe-se claramente uma completa equivalência na competência de todos os intérpretes no argumento de que as obras não possuem ou exercem valor inerente. Booth afirma que “a ênfase na variedade de interpretações nos diz pouco sobre o valor real das obras” (p. Essa mitologia da ponderação não deixa de operar na teoria. ela pressupõe uma recusa a considerar o argumento de que todo valor é produto do choque de valorações contingentes e historicamente variáveis. Ao se referir à crítica contemporânea. compare-se a Divina comédia com um exemplar da Revista Veja. 84). Significa que “competência” não é um significante com sentido unívoco e eterno. posição que Booth descarta como “subjetivista” (p. Mas Booth parece ter entendido mal a teoria da contingência. 121 fundamentar essa transcendência. ou seja.

Como a desconstrução e o marxismo nos ensinaram de diferentes formas. 2009 ser ‘iguais’ ou ‘igualmente válidos’” (Smith. p. a crítica humanista. é precisamente porque os juízos não são igualmente válidos que os valores nunca são intrínsecos. que não esconde seu compromisso com a noção de que a literatura deve defender valores éticos. Na verdade. A falácia igualitária se sustenta no que Marx chamava de “robinsonada”. por definição. 1988.122 Revista Brasileira de Literatura Comparada. digamos. idênticos uns aos outros. suas opiniões sejam tão pertinentes a nosso discurso sobre Faulkner como as opiniões de leitores experientes” (p. . os valores ficaram. A falácia igualitária confunde uma posição social construtivista com uma posição moral e estética relativista. e sim articulados por meio de conflitos sociais. não teriam a mesma pertinência para o “nosso” discurso. diferentes vertentes da crítica prescritiva arrolaram fundamentos transcendentais a partir dos quais a literatura deveria ser julgada: formação do caráter. n. Eis aí a falácia da ansiedade essencialista que preconiza que. se a compreensão do conceito de valor se deslocou de uma imanência dormente a uma rede de relações sociais. 98). uma espécie de grau zero da axiologia que replica a ilha de Daniel Defoe. sempre há que se perguntar qual sujeito da enunciação se esconde por trás de um pronome de primeira pessoa do plural. renovação da linguagem. mergulho na alma humana. nos romances de Faulkner. Com efeito. de alguma forma. É exatamente por causa do fato de que as valorações não são nem válidas da mesma forma nem identicamente posicionadas nas relações sociais que elas jamais são intercambiáveis. A falácia é que. progresso do espírito. padece da impossibilidade de fundamentá-los mais além da tautologia. obviamente. uma pessoa inexperiente em literatura não poderia pertencer à mesma cultura e suas opiniões. Se os imanentismos formais não escapam da axiologia.15. idênticos a si mesmos. Note-se um exemplo em Booth: “me parece difícil acreditar que se uma pessoa de nossa cultura que é completamente inexperiente em literatura não vê absolutamente nenhum valor. 85). por mais que se queiram descritivos.

uma alteração da ordem vigente provocará a sensação de que qualquer ordem está se tornando impossível. crítica estética e pânico ocidentalista Para Harold Bloom. A fundamentação do valor na estética teria. lacanianos. no Brasil. 123 defesa do legado ocidental.. é inevitável. feministas. assim. p. em seu O cânone ocidental e. Vários “defensores do cânone ocidental” reagem nervosamente à demonstração da impossibilidade de autofundamentação imanente do valor estético. em seu Altas literaturas. uma estrutura abismal.Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. 22). marxistas. Mas nenhum desses fundamentos se sustenta como base de uma estética sem remissão a outro valor que o justificaria. podemos censurar qualquer coisa. Ironicamente.. emancipação do proletariado. Diante de certas frases de Bloom. em alguém que responsabiliza a Escola do Ressentimento pelo fato de viver “no que considero a pior de todas as épocas para a crítica literária” (p. É o que vemos nas críticas estéticas de Harold Bloom. A pergunta: “por que deve ser este o valor a partir do qual julgar a literatura?” não pode ser respondida imanentemente. exceto não ter tornado bem visível o seu próprio ressentimento. Ela dispara. como “o radicalismo acadêmico chega ao ponto de sugerir que as obras se incorporam ao Cânone por causa de propagandas [advertising] bem-sucedidas e campanhas de doutrinação [propaganda]” (p. um processo de regressão infinita. de Leyla Perrone-Moisés. neo-historicistas e afrocêntricos seriam os agentes contemporâneos de uma “Escola do Ressentimento” que “nega a Shakespeare sua palpável supremacia estética” (1994. porque sua contribuição ao progresso social é a generosidade de se oferecer para rápida ingestão e descarte” (p. desconstrucionistas. 20). a única resposta possível é: quem ja- . 20) e proclama “a abertura do Cânone” (termo que Bloom insiste em grafar com maiúscula) para a incorporação de obras que “não devem e não podem ser relidas. 30). Para quem experimenta uma contingência como se esta fosse uma não-contingência.

e o livro de Bloom não ajuda. ele não nomeia seus supostos integrantes. Nas obras que se dedicaram a revisar o cânone a partir de uma perspectiva feminista. produz filhos tão bárbaros como os desprezíveis afrocêntricos e feministas. de Henry Louis Gates. ensaísta que não tem nenhum histórico de associação com o conservadorismo político. Se Bloom insiste com tanta ênfase em afirmar que “Shakespeare inventou a todos nós” (p. ou de um ponto de vista afro. Se é correto afirmar que parte da crítica contemporânea se dedica a questionar o processo de emergência dos cânones.15. 40) – e é ubíqua sua afirmativa de que Shakespeare é o pai de todos –. Mais que atacar Bloom. mesmo perfeito. que talvez seja a mais ilustre barthesiana da América Latina e cujos primeiros livros foram escritos na mais absoluta alegria e afirmação. retiremos mais um axioma: quanto mais ameaçados se sintam os guardiães da suposta universalidade de um determinado valor. 2009 mais disse isso? Qual feminista ou “afrocêntrico” de relevo disse algum dia que a incorporação de uma obra ao cânone se deve ao advertising e à propaganda? Desconhece-se.124 Revista Brasileira de Literatura Comparada. como The signifying monkey. trata-se aqui de assinalar um paradoxo bem curioso que veremos reiterado no lamento contra os estudos culturais. menor será sua capacidade de entrar em genuíno debate com a força emergente que aponta o caráter contingente desse valor. seria difícil encontrar um estudo sério defendendo algo que vagamente lembrasse a caricatura apresentada por Bloom. como The madwoman in the attic. certamente não encontramos nenhuma equação entre a construção do cânone e a propaganda. É verdade . um crítico associado à direita mais conservadora – passou. n. Da leitura de Bloom. pois nas centenas de páginas de queixas ressentidas contra a tal Escola de Ressentimento. O mais surpreendente é que essa posição – defendida nos EUA por Harold Bloom. há uma década e meia. quando mais socialmente precário seja seu fundamento. é impossível não se perguntar que pai é esse que. a ser representada no Brasil por Leyla Perrone-Moisés. de Sandra Gilbert e Susan Gubar.

Observe-se... por pressão dos grupos particularistas. “os anti-canônicos”. foi achar que se tratava de um erro tipográfico. Parecem não ter obra. Bhabha. ao ler que Barbara Herrnstein Smith “considera que o juízo de valor é indesejável” (Perrone-Moisés. p. seria hoje impensável nos Estados Unidos. 1998.Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. introdutor dos estudos “póscoloniais”. Também é bastante irônico . Kristeva. “os particularistas”. p. como aquele que foi ministrado em 1936 na Universidade Columbia por Lionel Trilling e outros. O turco Homi K. Jamais sabemos quem são eles. gerando a dúvida sobre se ela realmente os terá lido. p. acrescido do altamente antiantropofágico medo de que o Brasil se contamine pela influência norte-americana: “o lamentável de tudo isso é que muitos universitários brasileiros estejam recebendo essas tendências norte-americanas sem o menor espírito crítico” (Perrone-Moisés 1998. “as feministas norte-americanas”. Foucault. no capítulo 5 de Altas literaturas. a abundância de vozes passivas (“o cânone ocidental . Na Universidade de Stanford. a palavra ocidental foi suprimida na denominação dos cursos sobre cultura (Perrone-Moisés.. 230).3 Tomemos o diagnóstico da ensaísta brasileira sobre as raízes da perda de relevância social da literatura e da daninha influência norte-americana: Um curso de humanidades baseado na leitura de ‘grandes obras’ do Ocidente. dedicado ao diagnóstico do presente. Nos momentos em que Leyla Perrone nomeia duas figuras envolvidas com o debate sobre o cânone nos EUA – John Guillory e Barbara Herrnstein Smith –. Lefort etc. mas o diagnóstico do que teria acontecido a partir da chegada dos estudos culturais é fundamentalmente o mesmo. 125 Minha primeira reação.. ela lhes atribui posições diametralmente opostas às que defendem em seus livros. 196). 1998. colheu suas referências principais em Derrida. 192). p. 195). Reencontramos em Altas literaturas o mesmo procedimento de Bloom: o ataque a um adversário cujos representantes não são nomeados e ao quais não se concede a generosidade da citação. foi posto sob suspeita”. de sujeitos ocultos e de sintagmas como “alguns grupos”. 3 que a ensaísta brasileira se diferencia de Bloom. posto que todo o livro de Smith é uma análise do porquê dos juízos de valor serem inevitáveis. “a formação desse cânone foi examinada do ângulo ideológico”.

.. causa estupefação a afirmativa de que é hoje “impensável” um “curso de huma- . n. 198-199). já que Leyla Perrone os caracteriza genericamente. 2009 que os “pós-coloniais” se insurjam contra o que chamam genericamente de “ideologia ocidental”. 2005) apontam como momento inaugural a publicação de Orientalismo (1978). seja na licenciatura em inglês. uma rápida busca nos sistemas das cento e três instituições catalogadas pela Carnegie Mellon como Research universities demonstra que esses quatro autores continuam abundantemente presentes em cursos. uma vingança extemporânea [. Melville. porque eram escravagistas. e sim indiano. 5) Para qualquer conhecedor do sistema universitário norte-americano. Faulkner. para nele incluir os então excluídos [. 4) Desconhece-se universidade estadunidense que tenha excluído Mark Twain. 194-195). Hemingway. no máximo. para colocar em seu lugar alguma mulher medieval que porventura tenha conseguido escrever alguns versos não seria ato de justiça. Fica difícil realizar um debate a partir de tantos erros factuais. de Edward Said. [. aliás.] há um contra-senso histórico no desejo de modificar o cânone passado.]. 3) Não se sabe quais seriam esses teóricos pós-coloniais que se insurgem contra “o que chamam genericamente de ‘ideologia ocidental’”. seria. exames e teses. 2) Bhabha não é o “introdutor” dos estudos pós-coloniais. (p.. palestino-americano de formação. campo de estudos cujas genealogias unanimemente (Desai e Nair. porque era caçador e machista.15. Melville e Hemingway do currículo..]. munidos de argumentos iluministas historicamente tão ocidentais quanto o repudiado imperialismo (p.. Excluir do cânone um Dante. As exclusões ideológicas têm tido um efeito imediato e lamentável nos currículos norte-americanos: Mark Twain e Faulkner.. que herdam de Foucault a suspeita ante o conceito. sem citações. Corrijamos alguns: 1) Homi Bhabha não é “turco”. porque antiecológico etc.126 Revista Brasileira de Literatura Comparada. seja na pós-graduação em literatura. mas é sabido que a noção de ideologia tem pouca circulação nos teóricos pós-coloniais. bem europeia e humanista.

Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. de cunho comparativo. 2001. e nele não há sombra de “alguma mulher medieval que porventura tenha conseguido escrever alguns versos”. em Stanford. em geral. Marx. cito o que está sendo ministrado na minha própria. 6) A incrível afirmação de que em Stanford “a palavra ocidental foi suprimida na denominação dos cursos sobre cultura” merece parágrafos à parte. um trajeto que vai de Homero (ou Platão) a Nietzsche. a implantação do novo currículo foi absolutamente tranquila. o Senado de Stanford decidiu aprovar uma proposta de substituição de um desses cursos de “cultura ocidental”. asp?id=Courses>. Hobbes. Em março de 1988. Dentro de Stanford. Graff. Rousseau.. Tulane.edu/web/default. Casement. 1996. O curso do segundo semestre cobre da Antiguidade até a Idade Média. num debate já informado por . por um curso intitulado “Culturas e valores”. inclui Dante. Uma breve consulta à bibliografia séria acerca do incidente (Pratt. são parte de oito grades dentro das quais o aluno pode cumprir os requisitos de humanas. embora esses autores também sejam lidos numa série de cursos que. no primeiro semestre de 2010: a lista de leituras consiste em Maquiavel. Como exemplo.. tulane. Como sabem quase todos. Stendhal. onde se incluíam textos “não-ocidentais” como os de Frantz Fanon e Rigoberta Menchú. 1993) teria sido suficiente para evitar o erro.4 Não é exatamente uma seleção escalada por uma afrofeminista radical. Freud. em uma das grades. Newsweek e Wall Street Journal acerca da polêmica em Stanford que desatou as chamadas “guerras culturais” nos EUA. 4 nidades baseado na leitura das grandes obras do Ocidente”. É lamentável que uma ensaísta que dedica páginas a criticar as simplificações da cultura de massas e da mídia reproduza a distorção veiculada por Time. Fanon e Coetzee. Nietzsche. O curso que costuma atender pelo nome de Great Books é um dos mais comuns em qualquer grade curricular de qualquer boa universidade estadunidense. 127 A lista de leituras está disponível em: <http://honors. os currículos universitários norte-americanos incluem um curso de obras-primas ocidentais que percorre. Dostoiévski. Cervantes. Primo Levi. Virginia Woolf.

ver o belo livro de Yúdice. grupos religiosos e o Partido Republicano acompanhavam o debate de perto. exceto por um detalhe: as principais fundações da direita norte-americana. O livro de D’Souza atacava especialmente a incorporação ao currículo do testemunho de Rigoberta Menchú. Herbert London (fundador do Hudson Institute. ativista guatemalteca de etnia maiaquiché.128 Revista Brasileira de Literatura Comparada. William Bennett (ex-secretário de educação no governo Reagan). Os neoconservadores sabiam que era no terreno da cultura que se jogaria a cartada decisiva. Estavam lançadas as sementes do que se conheceria depois como “as guerras culturais”. Desde Watergate. n. um think tank de direita). 2004. as forças conservadoras do país passaram a dedicar intenso esforço à vitória na luta cultural. de Sobre o caráter ubíquo que tem adquirido a cultura como terreno onde se jogam os antagonismos políticos. 5 . entre outras generalizações provocadoras de pânico. estava pronta para presenciar a queda do comunismo e identificava na cultura a nova guerra que deveria vencer. A defesa do projeto foi ligeiramente politizada por grupos de estudantes. que aprendeu espanhol já adulta.15. Investiram-se milhões de dólares na construção de think tanks como a Heritage Foundation. Menchú. ao “assassinato de Shakespeare e Platão” e à “intimidação de ativistas estudantis”. 2009 anos de reflexão sobre a necessidade de oferecer outras versões sobre a modernidade. A grande imprensa passou a dedicar blocos de seus programas à “eliminação da cultura ocidental no currículo das universidades americanas”. a queda de Nixon e a consequente desmoralização da direita americana. acabava de estrangular a revolução centro-americana. autor do best-seller Illiberal education. e Dinesh D’Souza. autor de The closing of the American mind. passariam a acusar Stanford de jogar no lixo a cultura ocidental. a direita republicana concluía oito anos de controle sobre a Casa Branca. narrou verbalmente sua história de vida à antropóloga Elizabeth Burgos. A votação no Senado foi normal.5 Em 1988. Allan Bloom. O relato é indissociável das atrocidades cometidas na guerra civil da Guatemala nos anos 1970 e 1980. mas tudo correu dentro da normalidade que se espera de uma revisão curricular como qualquer outra.

O livro dizia: o ocidente é isto aqui também. é atrocidade também. não em projeções fantasmáticas.. valor literário e apocalipse Daí não se conclua que tudo vai bem com o ensino de literatura nos EUA. O que enfurecia no testemunho de Menchú era que. É incoerente citar o axioma benjaminiano acerca da inseparabilidade entre documento de cultura e documento de barbárie (Perrone-Moisés. A estas alturas.. Dito de outra forma: o conceito de valor abre um horizonte riquíssimo . ou que não exista nada a se criticar nos estudos culturais e nas plataformas feministas ou étnicas de revisão do cânone – simplesmente é melhor fazer os balanços disciplinares com base em fatos e bibliografia. ao ser incluído num currículo universitário de culturas ocidentais. em incontáveis cursos de Stanford ou de qualquer outra boa universidade norte-americana. Apesar das aparências. 202) e reagir com pânico no momento em que se extrai uma mínima consequência prática da profunda e radical verdade desse axioma. p. Os exemplos citados acima ilustram algo que é frequentemente esquecido por ambos os lados no debate sobre o valor. especialmente aquelas marcadas por ansiedades quanto aos estudos culturais: a rentabilidade do debate sobre o valor estético costuma ser inversamente proporcional à sua acoplagem ao problema do cânone.Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. os cânones brasileiro. jamais esteve em perigo. Proponho desenvolver aqui uma ideia que parecerá estranha aos que acompanham as discussões sobre o valor. ele dava uma resposta implícita aos que idealizam o Ocidente ou “os valores ocidentais” como cavalos de batalha morais. 129 responsabilidade de uma ditadura financiada pelos EUA. bem menos dramática do que seria de se imaginar por intervenções apocalípticas (“estão assassinando Platão e Shakespeare”) ou triunfantes (“estamos conquistando espaço para os excluídos”). 1998. creio ser desnecessário confirmar que a presença do termo “ocidental”. latino-americano e ocidental têm se transformado de maneira lenta e modesta.

acima de tudo. escritura e Falência da crítica em minha própria entrada na profissão e. impessoalidade. A paixão e a erudição com que a autora escreve os capítulos sobre Eliot. completude e fragmentação. há uma diferença nítida com Bloom. Essa redução une esteticistas e culturalistas. visualidade e sonoridade. São eles: maestria técnica. Perdido nesse debate fica o fato óbvio. 2009 para a crítica literária. que teria sido mais um magnífico livro de Leyla Perrone caso ela o tivesse interrompido na página 173. Leyla Perrone está. Dificilmente encontraremos uma síntese tão exata dos valores que balizam a prática literária moderna. mas pouco analisado. “ocidentalistas” e “particularistas”. Borges. Calvino. utilidade. inclusive. que defende seu cânone com base numa naturalização muito menos reflexiva. continuo tomando Altas literaturas como interlocutor privilegiado. Depois de mapear os paideumas dos escritores-críticos modernos. que só é obscurecido se o reduzimos ao problema de quais autores farão parte do panteão de leituras obrigatórias. O contraste me fez recordar a observação de uma saudosa professora. sim. Essa extrema honestidade intelectual me fascina em Altas literaturas. Paz. exatidão. Butor. por sua importância no debate crítico brasileiro. intransitividade. pelo fato de que a obra não esconde os seus pressupostos axiológicos. Pound. menos a falta de explicitação dos valores que a orientam. que insistia que os críticos literários deveriam escrever sempre sobre aquilo de que gostam. Leyla Perrone encontra alguns valores que seriam comuns a todos. Aqui. Aqui. pela estatura intelectual inegável de sua autora. Haroldo de Campos e Sollers contrastam nitidamente com a desinformação do capítulo final. crítica.15. sobre a suposta barbárie que ela vê nos tempos atuais. pelo papel que cumpriu a beleza cintilante de livros como Texto. universalidade e novidade. concisão.130 Revista Brasileira de Literatura Comparada. de que o conceito de valor não se reduz a suas consequências para o cânone. atenta ao fato de que esses valores podem estar . Pode-se criticar qualquer coisa na defesa que faz Leyla Perrone do cânone moderno. n. intensidade.

mas a literatura como tal –. não é contraditória com o ideal da obra aberta (p. mas que isso não impede Eliot de ver a utilidade da literatura na “preservação do idioma” ou Sollers de associar “transgressão poética e subversão política” (p. Em resposta à pergunta “para que serve a literatura?” – ou seja. a ficção e o ensaísmo da modernidade crítica pós-romântica. a ensaísta brasileira afirma: Se nós acreditamos que a literatura tem a alta utilidade de esclarecer. 165). ainda restaria a pergunta acerca do que fundamenta o valor estético encontrado por todos eles em obras que não pertencem à modernidade e que foram escritas de acordo com outras pautas.. a lista de características privilegiadas por oito escritores-críticos que produziram o fundamental de suas obras num brevíssimo intervalo de tempo (pouco mais de meio século) pode balizar a compreensão do que a modernidade literária pós-romântica privilegiou na sua prática. permaneça inconteste o valor estético de obras escritas a partir de pautas diferentes e muitas vezes contraditórias com aquelas privilegiadas em suas próprias práticas? Em outras palavras. Supondo-se que esses traços são distintivos da modernidade crítica. não seria a utilidade o oposto da intransitividade? Como conciliar fragmentação e completude? Tecendo uma série de refinadas distinções.. a intransitividade –. No entanto. . 164) – ou seja.Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. como fundamentar um conceito transhistórico de valor estético? Leyla Perrone não se furta a encarar o problema. 160-163). alargar e valorizar nossa experiência do mundo. ela mostra que os modernos coincidem na “independência do objeto estético” (p. O mesmo se aplica à aparente contradição entre fragmentação e completude. Esta última. para os modernos. Seria a Divina comédia um poema “fragmentado”? Teria a Odisseia o dom da “concisão”? Como explicar o fato de que. entendida como coerência interna. mas ainda não diz nada sobre o valor estético como tal. já não a poesia. 131 em contradição uns com os outros: afinal.

digamos. seremos levados a defender um certo tipo de história literária: aquela que otimiza a fruição das obras (p. qualquer resposta essencialista à pergunta sobre sua natureza. como tal. serve para valorizar a experiência humana. não seria absurdo dizer que a impossibilidade de “esclarecer. e a afirmação de que Jorge Amado lhe é superior. Kafka é pilar central do cânone estético defendido por Altas literaturas.15. Atendonos à definição que oferece Leyla Perrone para o que “serve” a literatura. a “experiência humana” que retrata a obra deste último é uma repetição infinita de uma alienante brutalidade incognoscível para o sujeito. Algum aluno impertinente poderia encontrar uma contradição entre essa definição de literatura e o cânone defendido pelo livro. seria difícil não escolher. certamente seria rejeitada em termos categóricos pela autora. Jorge Amado sobre. E se a fruição da literatura. 21-22). é o nosso objetivo. Afinal de contas. No entanto. . Partindo-se do pressuposto de que a literatura. digamos. alargar e valorizar nossa experiência do mundo” é o tema mesmo da obra kafkiana. n. no seu mais alto sentido de conhecimento e valorização da experiência humana. Kafka.132 Revista Brasileira de Literatura Comparada. perfeitamente plausível para alguém que trabalhe com uma definição historicizada e agnóstica de valor literário. No limite. 2009 admitiremos que a história do conjunto de suas realizações maximiza o proveito que podemos tirar do contato com cada realização particular. qualquer tentativa de defini-la em termos puramente imanentes fracassará no teste da falsificabilidade. O objetivo aqui não é caçar contradições no discurso alheio. Muito pouco se “esclarece” ali. mas exemplificar um postulado teórico que se desprende da leitura de uma de nossas mais sofisticadas ensaístas: qualquer definição trans-histórica de literatura. poderíamos perguntar: Quem é o “nós” sujeito do verbo “acreditar” nesse trecho? Estamos todos os consumidores de literatura incluídos nele? Será mesmo tão impossível imaginar uma comunidade de leitores para os quais a “utilidade” da literatura seria justamente a oposta.

Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. 1991. entre eles. 178). prefiro ficar com Walter Benjamin. p. Nos últimos anos. 179). de um conjunto de postulados próprios a uma região e um momento histórico só pode levar à incapacidade de ler o presente a não ser como queda: “a literatura [. mas desvelar-lhe a miséria? “Para que serve” a literatura é uma pergunta para a qual não há resposta de antemão. exibem esse valor em medida superior aos demais. o romance póstumo do . que.. a literatura latino-americana ofereceu abundantes contraexemplos à percepção de que a ficção se encaminhava necessariamente na direção do mais breve e light. “Não há períodos de declínio” (Benjamin. 2666. passaram a ser designados como “literatura”.. 178). o grande romance argentino da década e.. 178). num momento muito recente – o século XVIII –.] está muito ameaçada” (p.] publicam livros light” (p. em abstrato. 571). apaixonada por seu amor por Rímini. Não há respostas imanentes às perguntas acerca de qual é o valor desses artefatos e quais. 133 não “esclarecer”. apaixonado por Sofia.. mas embaçar a experiência do mundo.. “os livros de ficção se tornaram mais curtos e mais leves” (p. Sofia. O apocalíptico e o otimista progressivo representam duas faces da mesma moeda. 178). apontava que a crença nos períodos de declínio é coextensiva à crença entorpecida no progresso. Aqui. no Passagen-Werk. 1998. segundo o Le Monde. A extrema erudição e extensão do romance não o impediram de tornar-se um bem-sucedido filme em mãos de Héctor Babenco.] recolheu-se a um canto” (Perrone-Moisés.. de Alan Pauls – segundo muitos. como essência do texto literário. não valorizá-la. “a literatura [. “os novos escritores [. p.. o grande romance de amor do novo século –. desenvolve em mais de 500 páginas recheadas de um vasto saber psicanalítico e cinematográfico uma história de amor marcada por uma essencial e deliciosa assimetria: Rímini. sem referência aos conflitos e pactos sociais que presidem a circulação dos artefatos verbais que. “o desafeto progressivo pela leitura é um fenômeno internacionalmente reconhecido” (p. El pasado (2003).. A universalização.

que compra sua liberdade e percorre oito décadas de história brasileira e africana no século XIX. contradita pela sua aparição durante a compra dos sambas dos compositores negros do morro por intérpretes brancos de classe média. 2009 chileno Roberto Bolaño. foi contradita por inúmeras ocorrências anteriores dessa retórica. oferece. Desde quando se diz isso? Minha hipótese inicial. da mineira Ana Maria Gonçalves. em mais de 800 páginas. Um defeito de cor (2006). especialmente no caso deste último. por sua vez. descobri que a afirmação de que já não se faz samba como antes aparece no primeiro livro escrito sobre o samba. Em meu trabalho sobre música popular. O discurso de que o samba corre risco de morte tem a exata . A hipótese de que a percepção de uma decadência no samba datava dos anos 1940 foi. Alan Pauls e Roberto Bolaño são bem mais numerosos que nos fariam crer os apocalípticos. pelo jornalista Vagalume. Esses leitores com frequência testemunham que a sofisticação dos textos não é contraditória com o interesse gerado pela peripécia. em mais de 900 páginas. interessou-me em certo momento a origem do discurso sobre a decadência do samba: “Já não se faz mais samba como antigamente”.134 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Voltando ainda mais. nos anos 1950. em 1933. encontrei outras instâncias na época do sambaexaltação e da sobreorquestração do gênero no molde das big bands norte-americanas. Os leitores das obras de Ana Maria Gonçalves. numa narrativa que mescla testemunho. ainda no contexto da Rádio Nacional. Luisa Mahin ou Kehinde – possivelmente a mãe do poeta Luiz Gama –. Estupefato. historiografia e ficção sem nenhuma concessão ao naturalismo fácil. nos anos 1930. uma saga narrada por uma escrava.15. cujo refinamento não impediu que ele se transformasse em fenômeno editorial. um relato que conjuga os horrores dos assassinatos de mulheres na fronteira mexicano-americana com um estudo da frivolidade cúmplice que Bolaño via como característica das cliques acadêmicas e literárias. a de que o discurso coincidia com o início da apropriação bossanovista do samba de morro nos anos 1960. n. apresenta. como Francisco Alves.

A coincidência de contingências que conferem inteligibilidade a um valor pode ser.Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. No espaço circunscrito da comunidade interpretativa em questão. Bastaria pensar no considerável poder de tração de valores como o mester de clerecía (a técnica aprendida na tradição) na literatura tardo-medieval hispânica. um dos elementos constitutivos da comunidade mesma. Significa que a existência de profetas da queda do valor literário é tão antiga como a literatura mesma. 179). um dos fundamentos que presidem a emergência da própria comunidade. objetivo e motivado. Um valor é sempre o resultado de uma luta mas. axiologia. e continuaria sendo contingente. claro. 1998. 30-53). relativismo e contingência O axioma da filósofa Barbara Herrnstein Smith é um achado mais complexo e frutífero do que parece à primeira vista: o valor é sempre e necessariamente contingente (Smith. p. p. absoluto (posto que não relativizável dentro de tal comunidade) e motivado (no sentido de que sua origem não é produto de uma eleição puramente arbitrária). a adequação aos modelos da Antiguidade na literatura . 1988. esse valor contingente tenderá a aparecer aos membros da comunidade interpretativa como uma não-contingência. Nada disso mudaria seu caráter contingente.. é “dentro da comunidade”. uma vez consolidado.. Um determinado valor ou sistema de valores pode perfeitamente ser objetivo (na medida em que ele independe da subjetividade particular de qualquer membro da comunidade interpretativa). Da mesma forma. A expressão-chave aqui. é bom esclarecer que “contingente” não quer dizer “subjetivo” nem “relativo” nem “arbitrário”. um valor pode ser absoluto. Antes que a patrulha antirrelativista afie suas garras. 135 idade do samba. inclusive. o fato de que em 1964 o poeta mexicano Octavio Paz tenha reunido uma lista de sinais de decadência da literatura não quer dizer que “a situação em que hoje vivemos foi claramente prevista” por ele (Perrone-Moisés.

que afirmavam que o melodrama de Allende lhes falava à experiência de uma forma que a saga de García Márquez não fazia). digamos. n. A casa dos espíritos. sua versão original. Os juízos discordantes tenderão a ser lidos como deficiência ou falta de cultura do sujeito valorador. não pode ocorrer sem que o sujeito se instale em posição exterior a um consenso crítico que preside as comunidades interpretativas nas quais circulam esses textos. de Gabriel García Márquez. A afirmação não está na esfera do indizível. Em cada um desses casos. de Isabel Allende. O grau de estabilidade de um determinado sistema de valores em sua respectiva comunidade não diz nada sobre sua suposta obviedade. Um exemplo análogo. ou a inovação e a ruptura nas vanguardas de princípios do século XX. particularmente leitoras.15. mas expressa a naturalização do pacto valorativo. 2009 neoclássica do século XVIII. ou seja. É claro que é possível questionar essa valoração (e já encontrei vários leitores. no entanto.136 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Esse questionamento. Tomemos um exemplo latino-americano: é amplamente hegemônica a percepção de que. nem sobre as propriedades intrínsecas do objeto valorado. seja qual for a crítica que se possa ter à estética do realismo mágico. especialmente na França. realizou uma transcendentalização de um processo que era imanente à comunidade valorativa em questão. mas ela não . seria o hipotético leitor que adentrasse as comunidades interpretativas dentro das quais circula o romance dos anos 1930 para propor a tese de que Jorge Amado é superior a Graciliano Ramos. A transcendentalização dos resultados de um pacto particular é uma estratégia comum e recorrente nas querelas entre escolas e estilos literários. mas ela não é uma teoria da literatura e do valor estético como tais. a justificativa de um valor contingente fez uso de um vocabulário da nãocontingência. no Brasil. desfruta de um valor ausente em. com Cem anos de solidão. a não ser como sinédoque cega a suas próprias condições de produção. Os juízos que se adéquam ao pacto valorativo dominante tenderão a ser lidos como confirmação da obviedade e naturalidade dos valores implícitos no pacto.

que afirmaria que todos os valores seriam igualmente válidos ou. no interior de uma comunidade interpretativa. que não há “justiça” até o momento em que o mais forte estabeleça sua lei. valores de escravo. dê uma olhada no absolutismo de quem acusa.. o neokantismo de princípios do século XX leu como “relativistas” afirmações do tipo “falar de justiça e injustiça em si carece de todo sentido” (Nietzsche. Com esse axioma. 1967-77. todos reconhecerão que não há como negar a superioridade estética de García Márquez sobre Allende. A posição que apresento aqui é. Nietzsche não foi. 312). Nietzsche ensinou algo acerca de como funcionam as operações de naturalização. de forma alguma. ou seja.. vale sempre a regrinha: ao ver alguém ser acusado de relativista. Ao questionar a obviedade de valores como “bondade”.Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. uma vez que os leitores sejam educados direitinho. Os defensores da naturalidade do pacto valorativo em geral replicarão com a falácia desenvolvimentista: o argumento de que a percepção minoritária é produto de uma deficiência do sujeito valorador e que. confundida com o bicho-papão do relativismo. que “daria tudo na mesma” (um dos expoentes dessa desleitura. é o filósofo e poeta Antonio Cicero. mais baixos. a acusação de relativismo invariavelmente remete a uma suposta tendência dos estudos culturais – ou das demonizadas feministas e afrocêntricos . No caso do valor estético. Nessas polêmicas. um relativista. 137 pode ser acomodada nos pactos valorativos dentro dos quais circulam os romances desses dois autores. não por acaso. p. Nietzsche sugeria. “piedade” e “humildade”. com frequência. for exposta a contingência que sustenta um valor supostamente absoluto. daninhos à afirmação da vida. Mas. A acusação de relativismo tenderá a se repetir quando. questionar a totalidade do pacto valorativo. no Brasil. para usar a fórmula popular. A única possibilidade que restaria a esse hipotético leitor seria desvendar a natureza contingente da aparente naturalidade da valoração anterior. que insiste em igualar desconstrução e relativismo). Ele afirmou taxativamente que os valores socrático-cristãos são piores. claro.

2009 – de não aceitar a “óbvia” diferença de “qualidade” entre os grandes monumentos da modernidade e as formas estéticas mais populares ou massivas.138 Revista Brasileira de Literatura Comparada. o heavy metal. temática das letras. mas não prevê compassos que misturem de forma sistemática agrupamentos dos dois tipos. instrumentação. exatamente a mistura que . a partir do século XX. Qualquer consumidor de música popular que acompanhe. Está demonstrado. 4/4) e compostos (ternários: 6/8. Para seguir com a analogia musical: durante décadas. os estudos de música brasileira trabalharam com a noção de síncope como “irregularidade” essencialmente africana. 1996). performance. p. volume. com pesquisa formal e etnográfica (Frith. que as distinções valorativas realizadas pelos fãs de música popular não são. n. nenhuma distinção de valor é possível. poderá testemunhar acerca da miríade de distinções de subgêneros baseadas em andamento. Carece de qualquer fundamentação filosófica a ideia de que a viabilidade do conceito de valor estético dependa da aceitação de uma diferença essencial. Ora. menos complexas. grau de distorção. timbre ou padrão rítmico – distinções incompreensíveis e ilegíveis para aqueles situados fora do pacto valorativo que preside o consumo do gênero. rigorosas. imanente entre o valor das obras agrupadas sob a rubrica da arte erudita e o valor daquelas que convencionamos chamar de populares ou massivas. Recorro à etnomusicologia. 9/8). absolutamente. a acusação de relativismo costuma pressupor que. multifacetadas ou especializadas que aquelas feitas pelos ouvintes do heterogêneo corpus de peças europeias modernas que. O próprio Mário de Andrade faz referência a ela como característica “tida em geral como provinda da Africa” (1987. tal “irregularidade” provinha do fato de que a teoria ocidental prevê compassos simples (binários: 2/4. passou a ser agrupado sob o rótulo de “música clássica”. 3/4. Aceitar essa diferença seria um pré-requisito para qualquer discriminação de valor. vocalização. Ou seja. se essa distinção de valor não é aceita.15. 409). por exemplo. na qual me parece que o conceito de valor está colocado em terreno mais sólido.

p. 39). Incontáveis são juízos contemporâneos que veem O jogo de amarelinha como romance que “sofreu enormemente a passagem do tempo” (Sarlo. O valor rítmico contramétrico era ilegível numa notação construída para descrever e privilegiar a harmonia. 26). O resultado é que “ritmos desse tipo apareceram nas partituras como deslocados. Os pactos valorativos na estética se tornarão visíveis em proporção direta à exposição do caráter contingente dos fundamentos que os sustentam. A obra não parece ter renovado sua legibilidade depois daquele contexto (o que não quer dizer. 2001. p. A chamada “irregularidade africana” não era senão a impossibilidade de que a partitura ocidental descrevesse apropriadamente o novo objeto.Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. 2006. ajudarão a encaminhar a conclusão teórica. Dois exemplos. anormais. Na Argentina. é hoje invariavelmente visto como “escritor para adolescentes” (Aira. que não possa vir a fazê-lo num momento futuro). como síncopes” (Sandroni. o recurso gráfico da ligadura e o recurso analítico da contagem) – em uma palavra.. de Bestiario. irregulares (exigindo. Julio Cortázar. uma “perfumaria free tax de aeroporto” (Abraham. dedicando-se exclusivamente a repetir seus velhos clichês e a responder às exigências estereotipadas de seu público” (Piglia. “depois de Todos los fuegos el fuego já não escreveu mais. que inspirou uma geração de neovanguardistas estéticos e revolucionários políticos. O fato é que hoje . nos últimos trinta anos. para sua correta execução. evidentemente. 2008) e “está escrito para candidatos de agência de turismo cultural”.. étnicas e pós-coloniais do cânone. Na Argentina. nota-se uma acentuadíssima queda no capital cultural de um escritor que chegou a ser considerado um dos maiores do continente. 139 é uma das marcas da música da África subsaariana. a avaliação mais recorrente de Cortázar é que se trata de um escritor em cuja obra talvez se salvem os primeiros contos. 2001) que. 1993. mas não muita coisa mais. 85). incluindose um que ilustra minhas críticas às revisões feministas. p. Uma determinada conjunção de fatores estéticos e políticos criou as condições para uma leitura celebratória de Cortázar nos anos 1960.

hoje soariam risíveis aos ouvidos dos que circulamos no interior dos pactos valorativos que presidem a circulação desses textos. oferece algo a ser pensado pelos dois polos do atual debate: a entrada do testemunho ao cânone literário. Mas na Argentina ela seria recebida como uma junção de termos incomensuráveis. uma vantagem do gênero em relação à literatura na representação dos excluídos. resultado de 25 horas de gravações realizadas pela antropóloga franco-venezuelana Elisabeth Burgos. As comparações com Jorge Luis Borges. formada na luta contra os horrores do regime guatemalteco. como a de Cortázar. na Espanha e talvez nos EUA. 6 . e a história de Menchú. quando Casa de las Américas criou uma categoria especial para o gênero em seu prestigioso prêmio. comuns nos anos 1960. também latino-americano. n. como demonstra uma pesquisa nos bancos de dados da disciplina. Em 1983. comoveu uma série de críticos de esquerda que buscavam alternativas a uma política literária herdada do boom. Uma tese que se propusesse a comparar “o fantástico em Borges e Cortázar” é imaginável no Brasil. Juan José Saer.6 Com o exemplo de Cortázar. que o valor dos escritores na Bolsa Literária (segundo a feliz expressão de Leyla Perrone-Moisés) muda no tempo e no espaço.15. Era o auge dos movimentos de solidariedade à revolução centro-americana. Seguindo-se à Agradeço a Mariano Siskind pela interlocução sobre a perda de capital cultural de Julio Cortázar na Argentina e também pela citação de Beatriz Sarlo. mesmo no caso das obras mais politizadas. publicou-se o testemunho de Rigoberta Menchú. Um outro episódio de valoração. de Miguel Barnet. 2009 seria bastante difícil encontrar um estudioso de literatura na Argentina que colocasse Cortázar no mesmo patamar de. A publicação de Biografía de un cimarrón. étnica e pós-colonial do cânone ainda não refletiram o suficiente: a incontornável descontinuidade entre valor estético e resultado político. O testemunho havia recebido um primeiro reconhecimento em 1967. não quero me limitar a ilustrar o óbvio. gerou comentários acerca de uma suposta transparência da voz testemunhal. sobre a qual as revisões feminista. por exemplo. Há uma lição menos óbvia a se extrair daí.140 Revista Brasileira de Literatura Comparada.

mas limitado. logo absorvido pelo pacto valorativo que preside a leitura do corpus latino-americano. masculino. 1992).. George Yúdice opôs a literatura como “portadora privilegiada da identidade nacional” (1991. p. em geral indígena.Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. 26). ela funciona como explicação simples para o complexo quadro de perda de capital cultural da literatura. 141 publicação do testemunho de Menchú. no interior dos estudos sobre o testemunho. de que enquanto a literatura na América Latina “tem sido (principalmente) um veículo para engendrar um sujeito adulto. camponês ou imigrante) e a posição do mediador (um intelectual. 2003. patriarcal e ‘letrado’. o testemunho permite a emergência – mesmo que mediada – de identidades femininas. como chegaram a celebrar John Beverley e George Yúdice. 51-104) relativizaram a “revolução” testemunhal que parte da esquerda anunciara nos anos 1980. indígenas e proletárias” (1993. Estudos fundamentados no problema da mediação (Sklodowska. Para os primeiros. na aura de autenticidade da voz do subalterno (Moreiras. nem um golpe ao poder “elitista” da literatura. O saldo do episódio da canonização do testemunho foi que o texto de Rigoberta Menchú produziu um impacto importante. p. Tanto esteticistas como culturalistas sobrestimam as consequências da revisão de uma lista de leituras. branco.. Entretanto. como chegaram a lamentar Roberto González Echevarría e outros expoentes da direita crítica latino-americana. p. A incorporação de depoimentos dos subalternos ao cânone não representou nem um assassinato de Cervantes e Borges pela barbárie iletrada. 98). a ênfase nas mediações por meio das quais a voz testemunhal se registra na escrita e a análise da descontinuidade entre a posição do depoente (um subalterno. A euforia levava a declarações como a de John Beverley. . em geral um antropólogo) levou a própria crítica a matizar a euforia do primeiro momento. homossexuais. 2001) ou no papel do testemunho como recuperação imaginária de uma vocação política perdida na literatura (Avelar. 20) ao testemunho como “expressão de uma consciência liberada de tal elitismo” (p.

nenhuma hierarquia do belo. Kant faz. sim. não estou dizendo meramente que gosto dele. Ambos trabalham com o cânone. no sentido mensurável. Recorde-se que. Ou seja. n. A grande tarefa da teoria não seria. na Crítica do juízo kantiana. o conceito de valor [Wert] não aparece no contexto do estabelecimento da estética.] um poema bom. referências ao valor de um ato (§91). mas introduzir algum espaço de respiração na interseção entre esses três conceitos. todas essas ocorrências se referem a uma esfera extraestética. a mais alta seria a poesia). dedicado à comparação entre as várias belas artes (segundo Kant. nenhuma atribuição de valor à beleza. ou como se valorar obras de arte sempre implicasse que o juízo em questão fosse estético. A única menção ao valor num contexto estético ocorre em §53.15. salvar a literatura ou democratizar o cânone. sugiro rotas de dissociação entre esses conceitos. ao valor da existência humana (§4) e à necessidade do postulado da existência de seres racionais para que o mundo seja dotado de valor (§87). Mas não há. como se toda estética pressupusesse a noção de valor.. quantitativo que é próprio do conceito. sendo vistos como contíguos entre si por esteticistas e culturalistas. Como se sabe.. o etnocentrismo e a opressão de classe. Este é um fato filológico tão banal quanto regularmente esquecido: na origem da estética. com observações acerca do que denomino uma concepção agnóstica de valor literário. para Kant. então. funciona como mecanismo compensatório que permite a apresentação de novas listas de leitura. Para uma genealogia do conceito de valor estético Os conceitos de valor e de estética terminaram. então. mais inclusivas. mas que todo mundo que o 7 . o valor e a estética de forma a não permitir nenhuma descontinuidade entre os três termos. o sexismo. Para concluir. como se estas representassem uma vitória política real contra o racismo.142 Revista Brasileira de Literatura Comparada. 2009 Para os segundos. a estética seria a esfera da experiência Que Antonio Cicero decrete que “quando digo que um texto é [. não há conceito de valor. na Crítica do juízo.

que esse valor se deduz num contexto eminentemente relacional. jamais de grau. incorre em paradoxos que solapam suas próprias teses” (2009b. ela se limita a apresentar uma negativa. no qual atos de valoração socialmente situados entram em conflito. exatamente como ocorre com o gosto do abacate. evidentemente.. Decretar que estes últimos são maus leitores não resolve o problema teórico.. Todas as definições não econômicas de valor estético que tenham pretensões trans-históricas incorrem em versões mais ou menos sofisticadas de uma tautologia: define-se o valor como a presença de certos traços formais (sejam quais forem) ou a capacidade de produzir certas sensações. Ao propor que não há conceito não tautológico de valor estético fora da economia. Deixemos de lado o caráter escorregadio dessa premissa. ao propor a tese da contingência do valor. aqueles traços inicialmente definidos como característicos do estético! Não é à toa que os alunos não aceitam isso facilmente.. já amplamente criticada pela tradição (a começar pelo próprio Hegel). remete-se o interlocutor à existência de obras que exibem. Em bom português: no debate entre agnósticos e crentes. “nem sequer se dá conta de que. 8). sendo sua maior ou menor presença em cada obra o critério para sua valoração. Na verdade. Ou seja. mediados por .7 Por isso. não custa lembrar que o próprio pilar da analítica kantiana do belo – a demanda de concordância universal sobre o juízo – também embute um patente contrassenso. não sugiro. concordância de todos. não há outro vocabulário que não o da economia. Esses traços ou potencialidades passarão a ser apresentados como característicos da experiência estética. não há que se repreender Barbara Herrnstein Smith por remeter o valor estético ao terreno da economia (Perrone-Moisés. em negociação e em articulação. não torna essa distinção verdadeira. Quando Cicero afirma que Barbara Herrnstein Smith. No mundo real. ao dizer tais coisas. por outro lado. A frase não confere um atributo ao sentido. p. é pueril argumentar que não podemos afirmar que “o sentido não é eterno e unívoco” pelo fato de que essa frase supostamente teria um sentido eterno e unívoco. Basta ler a analítica do belo (§6 a §22) para constatar que Kant o entende como objeto de um juízo de tipo. Sugiro. “se digo ‘eu gosto de abacate’.Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate.. Caso se apresente a objeção de que a impossibilidade de submeter o belo a fórmulas comparativas contraria todo o senso comum que desenvolvemos como consumidores de arte. ele parece não ter se dado conta de que há um capítulo inteiro de Contingencies of value dedicado a refutar a objeção de que supostamente não se poderia afirmar que o valor é sempre contingente sem cair em contradição. Os enunciados falsificáveis evidentemente não se submetem às mesmas regras de verificabilidade dos não falsificáveis. considere desinteressadamente deve reconhecer” esse suposto fato e que. incontáveis leitores dizem que “No meio do caminho” é um bom poema e outros incontáveis leitores dizem o contrário. que o valor estético de Grande sertão: veredas possa ser deduzido do preço da mercadoria comercializada pela Editora Nova Fronteira. apresentada como apreço que necessariamente demanda universalização. p. 230). Ao enfrentar-se com a pergunta acerca de como se chegou a delimitar o terreno propriamente estético. econômico. 1998. sim. 143 desinteressada do belo. o ônus da prova cabe a estes. não pretendo o mesmo” (2009a). Quem afirma a contingência do valor não está conferindo ao objeto valorado um atributo que permaneceria no tempo.

2009 instituições como a escola. p. mas sim porque todo valor. de Adam Smith. nas teorias imanentistas do valor estético. Já está presente em Aristóteles a compreensão de uma diferença clara entre o valor de uso e o valor de troca: “todas as coisas que são trocadas devem ser de alguma forma comparáveis. a imprensa e a crítica. As genealogias da economia política em geral conferem a Riqueza das nações. extrai sua origem do trabalho” (Foucault. 1999. 1992. p.144 Revista Brasileira de Literatura Comparada. p. o trabalho. de rentabilidade limitada. 270). pelo menos na economia política. qualquer que seja. que delimita uma região na qual a representação “não tem mais domínio” (Foucault. que serve de fundamento a todas as outras trocas: “o trabalho é a real medida do valor intercambiável de todas as mercadorias” (Smith. É para esse fim que se introduziu o dinheiro” (1133a). O conceito da comparabilidade universal precede. Smith escapa da circularidade da equivalência universal das mercadorias ao dotar um conceito de um papel transcendental. constante e permutável sob todos os céus e todos os tempos. vale a pena refletir sobre como a economia política entendeu o valor. A economia . portanto. no primeiro capítulo de Capital. mas justamente notar que há uma operação analógica silenciosa. o mérito da ruptura com a natureza circular do debate anterior. p. entre fisiocratas e utilitaristas. É o trabalho que lhes confere valor e explica a possibilidade de equivalência entre duas mercadorias distintas. num processo que conforma um equilíbrio nunca completamente estável – o que venho chamando aqui de pacto valorativo. pressupõe um transcendental. É o próprio Marx que. com Ricardo. 269). dá o crédito a Aristóteles como o “primeiro pesquisador a ter analisado a formavalor” (1952. 71). a economia política em mais de dois milênios. 581).15. n. O objetivo aqui não é traçar uma analogia entre o valor estético e o valor econômico. O conceito de valor. na qual ele sempre teve sua morada mais sólida. dedicado à mercadoria. Para compreender sua dinâmica. ocorre não a partir do fato de que o “trabalho seja um valor fixo. 1992. A consolidação da teoria do valortrabalho.

Atesta-o a célebre observação de Marx na introdução aos Grundrisse. de que o mistério não era explicar que a arte grega emergiu como produto de circunstâncias históricas particulares próprias à sociedade helênica. à continuidade de sua circulação numa cultura particular. claro.. e que o cálculo do valor da mercadoria como quantidade de trabalho socialmente necessário para a sua produção não se aplica a objetos estéticos. ainda nos fascinam e mantêm sua legibilidade. mas o prolegômeno da pesquisa. não muito diferentes das equivalências universais tautológicas dos economistas anteriores a Adam Smith.. . o trabalho. e pode assim realizar várias funções para nós (Smith. Evidentemente. O trabalho que produz a obra de arte não é traduzível. a teoria do valor depende de um transcendental. essa altamente variável entidade à qual nos referimos como “Homero” recorrentemente entra na nossa experiência em relação com uma grande variedade de nossos interesses. p. Na economia.. 1998. lecionada e imitada. pelo contrário. que a lei do valor-trabalho se aplica a objetos reprodutíveis. traduzida. mas entender como e por que os poemas homéricos. produtos do que ele chamou de “infância da humanidade”. a teoria do valor estético só pode definir o valor imanentemente a partir das operações circulares descritas acima. Na ausência desse transcendental. A manutenção do valor de uma mercadoria ao longo do tempo se explica pelo fato de que ali se aninha uma quantidade determinada de trabalho que mantém alguma tradutibilidade (com as naturais oscilações que serão fruto das próprias variações no valor do tipo de trabalho que se encontra ali congelado). Repetidamente citada e recitada.].. 145 política sempre enfatizou. e completamente inserida numa rede de intertextualidade que continuamente constitui a alta cultura [. 52-53).Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. essa observação não é o fim. Haveria que se estudar o que. e portanto sua permanência no tempo não se explica imanentemente: A permanência de um autor clássico como Homero se deve não ao valor supostamente transcultural ou universal de suas obras mas.

de Manuel Bandeira (1963) a Italo Moriconi (2000. 2001). a valiosa sequência de pesquisas feitas por Marisa Lajolo e Regina Zilberman sobre a história da leitura e do livro (Lajolo e Zilberman. instituições. na conformação do sistema de valores literários brasileiros. como os relatos de viagem (Süssekind. 1990) ou as tecnologias da reprodução (1987). 1991). Para além do lamento de que a internet é responsável por uma queda na qualidade e na frequência da leitura das novas gerações – queixa jamais fundamentada com pesquisa empírica e agora patentemente desmentida (Castells. 2009) –. as pesquisas de Flora Süssekind sobre as relações da literatura com outros discursos. No caso do debate sobre o valor que tem se desenvolvido nos estudos de literatura brasileira e latino-americana. 2009 em cada situação e contexto. A história da profissionalização do escritor e das suas relações com a imprensa e com o mercado ainda nos oferece vastas zonas de pesquisa não realizada.15. n. 1991. como a recente antologia de escritos de Machado de Assis sobre a afrodescendência realizada por Eduardo de Assis Duarte (2007). 1996. 2001). a recuperação de facetas pouco exploradas dos escritores mais canônicos. essas verdadeiras máquinas de produção e destruição de valor (Ventura. 2001). o estudo de Roberto Ventura sobre as polêmicas literárias. . para não mencionar mais que alguns exemplos. academias e intertextos lhe atribuíram ao longo dos anos.146 Revista Brasileira de Literatura Comparada. uma série de novos escritores faz uso das tecnologias de publicação online para circular seus textos e manufaturar concepções emergentes de valor literário. permitiu que cada obra realizasse as funções que os vários leitores. Acredito que ainda sabemos pouco sobre o papel das antologias. ganharíamos terreno se o dissociássemos da polêmica entre o culturalismo e os defensores do “cânone ocidental” e o remetêssemos a todo o vasto material que pode informar uma futura história da construção do valor literário no Brasil: o erudito mapa traçado por Raúl Antelo do ideário da transgressão na modernidade (Antelo. O postulado da contingência essencial do valor só abre um espaço de relevância ainda maior para essas pesquisas. escolas.

. BEVERLEY. 2003. Nicomachean ethics. César. 927-1112.). 2666. Significa que não se confundirão esses juízos com uma teoria geral do valor. Harold. The basic works of Aristotle. São Paulo: Martins. as querelas sobre o cânone ocidental talvez não passem de uma nota ao pé de página. AVELAR. D. jul. Entrevista de Francisco Ángeles a César Aira. AIRA. Richard (Ed.. Acesso em: 15 dez. 673-674. W. p. Belo Horizonte: UFMG.Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate. BENJAMIN. Gesammelte Schriften. Nova York: Random House. 147 Estabelecer com a valoração uma relação menos essencialista e mais agnóstica não implica que o crítico deixará. de exercitar os juízos de valor que são uma inevitabilidade da própria prática crítica. n. Rolf Tiedemann e Hermann Schweppenhiuser. Mário de.-ago. The Western canon: the books and school of the ages. Alegorias da derrota: a ficção pós-ditatorial e o trabalho do luto na América Latina. 1987. 2004. 1993. Impresiones de los autores que se fueron. Raúl. . 2009. ANDRADE. p.). 37-45. BLOOM. 2001. A melodia do boi e outras peças. BOLAÑO. Manuel (Org. 1 e 2. Passagen-Werk. Cuadernos Hispanoamericanos. Transgressão e modernidade. John. No horizonte imenso aberto por esta última. Walter. 1994.metacafe. Poesia do Brasil. Roberto. Tomás. Idelber. 1963. Against literature. Ponta Grossa: UEPG. Referências ABRAHAM. ANTELO. 1972-1989. Ed. Minneapolis e Londres: University of Minnesota. Porto Alegre: Editora do Autor. 1941. 2006. San Diego e Londres: Harcourt Brace. Ross. em situações e contextos específicos.com/watch/3437882/ entrevista_a_c_sar_aira_1_de_2/>. Trad. BANDEIRA. Nova York. v. In: MCKEON. Disponível em: <http://www. Frankfurt am Main: Suhrkamp. Barcelona: Anagrama. ARISTÓTELES.

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e a hora da estrela. Ao utilizarmos um método teatral baseado no Teatro do Oprimido. we intended to create an ideological relationship between the American students who took the course and not only the Brazilian literature but also the Brazilian context. Teatro do Oprimido. as a means of dealing more efficiently with some issues presented by our literature and which directly concern texts by women authors. em especial textos escritos na segunda metade do século passado. especially texts written during the second half of the last century. abstract: This paper analyzes experiences with the teaching of Professora adjunta de língua inglesa (Graduação) e de literatura (Mestrado em Letras) da Universidade Federal do Piauí (UFPI). de Clarice Lispector. de forma a lidar mais eficientemente com algumas questões apresentadas em nossa literatura e que concernem diretamente textos de autoria feminina. de Nélida Piñon. de Marina Colasanti. menina de vermelho a caminho da lua. Marina Colasanti’s little Girl in Red on her way to the moon and Clarice Lispector’s the Hour of the star. de Augusto Boal. . palavras-chave: literatura brasileira. Here I propose an evaluation of the exercises done based on the reading of Nélida Piñon I love my husband.151 O ensino de literatura brasileira por meio do Teatro do Oprimido: uma experiência na Carolina do Norte Érica Rodrigues Fontes* resumo: Este trabalho analisa experiências no ensino de litera- tura brasileira realizadas com alunos estadunidenses da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill (UNC-CH). These experiences were done with American Students from the University of North Carolina at Chapel Hill (UNC-CH). educação. ∗ Brazilian literature. pretendemos criar uma relação ideológica entre os alunos americanos e não só a literatura brasileira. By using a theater method based on the Augusto Boal’s Theater of the Oppressed. Aqui se propõe uma avaliação de exercícios a partir da leitura de I love my husband. mas o contexto brasileiro.

a ideologia é a própria representação da cultura. os textos escolhidos foram considerados representativos da ideologia brasileira contemporânea com atenção para os temas supracitados. education. Assim. Minha tradução. p. Houve. portanto. com a interpretação brasileira de mundo. procurei priorizar esses dois temas. tal ligação se torna indispensável. percebi dois pontos de interesse comum das culturas e literaturas estadunidense e brasileira: as minorias políticas e as questões identitárias. criar para os alunos possibilidades de interação com a mentalidade brasileira. 1987. n. métrica ou outros assuntos de interesse da literatura. Portanto. they depict life as it is represented by ideology”1 (Davis. Como afirma Leonard Davis: “Novels do not depict life. ao selecionar textos para leitura e debate em sala. uma preocupação com a criação de uma estratégia de relacionamento entre a nossa realidade e a realidade do país onde a nossa está Romances não mostram a vida. Theater of the Oppressed. como afirma Linda Hutcheon (1999). 2009 Brazilian literature. De fato. Depois de ensinar em cinco turmas de graduação a matéria Literatura Lusófona na Carolina do Norte. Muito mais do que o ensino de movimentos literários. Eles mostram a vida como representada pela ideologia.152 keywords: Revista Brasileira de Literatura Comparada. no contexto estadunidense. é em sua temática que nossa literatura parece ser mais enriquecedora quando pertencente a um currículo estrangeiro. embora neste país da América do Norte exista muita exposição à cultura de outros países. torna-se um compromisso do professor de literatura brasileira. 24). e por ater-me principalmente ao ensino das obras escritas no Brasil. 1 . pois.15. não há de fato acesso à perspectiva ideológica de outras nações. a uma exposição sobre a história e política brasileiras. Introdução Ensinar literatura brasileira no exterior (e para estrangeiros) está obrigatoriamente atrelado a uma experiência cultural. pois. Nos Estados Unidos.

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sob estudo, pois, embora muitas vezes essa ideologia esteja clara para um nacional da literatura lida, para o estrangeiro ela precisa ser apontada. Como exemplo, cito um momento de debate sobre a personagem Macabéa do romance A hora da estrela, de Clarice Lispector. Para os alunos do curso, em sua maioria nascidos em um contexto rural como o da Carolina do Norte, era quase impossível entender a condição tragicômica dessa personagem, pois ela está inserida em um contexto urbano, onde mora longe de seu estado de origem, com pessoas desconhecidas. Os fatos engraçados que acontecem na vida de Macabéa são gerados pela sua estranheza, pela sua falta de adaptação à sociedade, sua marginalidade. Se nos EUA a principal razão para os jovens saírem de sua terra natal é estudar em uma boa instituição, no Brasil o principal motivo para o êxodo jovem tem razões muito diferentes: a fuga da fome, da miséria e da pobreza. Para os alunos norte-americanos, portanto, entender o comportamento de Macabéa tornava-se difícil. Eles consideravam-na simplesmente um ser humano desprovido de inteligência e, então, digno de risadas e deboche. Foi preciso comparar a situação dessa personagem com uma vítima da pobreza, fome e desastres naturais no estado do Mississippi (o mais pobre dos Estados Unidos) para que os alunos entendessem a tragicomicidade da obra. Muito provavelmente pela dificuldade de localizar pontos de interseção entre as duas culturas é que outros instrutores do curso supracitado haviam detectado que a participação dos alunos nas discussões era bastante inferior às suas expectativas e que as atividades, em muitos casos, eram desinteressantes para os discentes. Foi principalmente por causa do aparente desinteresse dos alunos pela disciplina que resolvi implementar em minha aula de literatura exercícios de teatro para posterior montagem teatral e um segundo momento de discussão. A metodologia escolhida foi a do Teatro do Oprimido, objeto de minha pesquisa de doutorado.

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O projeto relatado neste artigo teve por objetivo a melhor absorção de conteúdos literários pelos alunos de literatura de graduação de diversos cursos da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill (UNC-CH). Realizado de agosto de 2004 a julho de 2006, ele revela experiências ocorridas nas turmas de Português 40 (Introdução à Literatura Lusófona), das quais fui instrutora, enquanto aluna de mestrado e doutorado na UNC-CH. Neste artigo, analiso exercícios teatrais desenvolvidos a partir de três textos brasileiros de autoria feminina: I love my husband, de Nélida Piñon, Menina de vermelho a caminho da lua, de Marina Colasanti, e A hora da estrela, de Clarice Lispector. Os textos foram analisados e encenados a partir de traduções inglesas das obras, nos moldes do Teatro do Oprimido e principalmente do Teatro Fórum (técnica de Boal para discussão de problemas sociais no palco, a ser explicada a seguir, juntamente com sua adaptação para a aula de literatura). Por meio dessas técnicas e de sua adaptação para as aulas, os alunos se colocam no lugar de personagens brasileiros, discutem a resolução do seu problema e depois trazem algumas situações para o contexto estadunidense, ao debater ou analisar problemas equivalentes nas duas Américas ou, mais especificamente, nos dois países. Há pelo menos dois fatores que favorecem a utilização do método teatral de Boal nessa aula de literatura: a ideologia sob a qual os textos tratados foram escritos (condição subalterna da mulher e a sua necessidade de liberação) e o fato de o Teatro do Oprimido ser um tipo de teatro que tem como proposta final a discussão de problemas sociais. Esses textos traduzem opressões contemporâneas vivenciadas no Brasil e que têm equivalentes na sociedade norteamericana, ainda que estes não sejam divulgados. Assim, descreveremos como foi proporcionada essa ligação entre a identidade norte-americana e a identidade brasileira para o ensino de literatura brasileira, visando exclusivamente a um melhor aproveitamento literário e cultural dos alunos,

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originado por uma maior convivência com as obras, por meio do envolvimento teatro-lúdico. Neste artigo me concentrarei no resultado concernente ao trabalho desenvolvido com os textos supracitados. As duas últimas obras foram estudadas no final do semestre, indicando um envolvimento mais profundo dos alunos com a metodologia.
As observações descritas a seguir foram feitas a partir das experiências de sala de aula e baseadas nas ideias retiradas do livro Técnicas latino-americanas de teatro popular, de Augusto Boal. Os seus métodos teatrais, mais divulgados com a publicação do livro Teatro do Oprimido, ocorrida no início dos anos 1970, ficaram conhecidos em todo o mundo e priorizam uma participação mais ativa do espectador, que vai além do modelo observador e consciente apresentado pelo dramaturgo alemão Bertolt Brecht.2

Walter Benjamin explica que, no teatro épico de Brecht, priorizam-se a crítica social e a interrupção da ação dramática (os momentos narrativos são exemplo dessa interrupção) para reflexão sobre a crítica encenada. O público, porém, não participa do espetáculo ativamente. No teatro de Boal, diferentemente, o público pode interferir diretamente na ação, encenando suas sugestões, ainda que sob a supervisão e orientação de um diretor, o Curinga.
2

É no Teatro Fórum, uma das técnicas do Teatro do Oprimido, em que há o incentivo à discussão de problemas sociais, que a participação da plateia pode ser mais claramente notada. Neste modelo de teatro, a primeira parte de uma peça é tradicional (com a separação entre público e atores), se dá em aproximadamente 30 minutos e apresenta pelo menos um problema ou erro em cada cena. Por erro entende-se uma situação social de opressão, sendo o erro, portanto, cometido pelo opressor e também por uma falta de postura mais libertária do oprimido. Na segunda parte da peça, que é introduzida por um Curinga, espécie de diretor teatral, perito na metodologia de Boal, o objetivo do público é, então, tentar consertar ou remediar o erro. O Curinga indica para a plateia que as cenas poderão ser modificadas por meio da substituição do oprimido (de acordo com a ideologia do Teatro do Oprimido, somente o oprimido pode ser substituído), com quem a plateia é levada a se identificar. Muitas vezes ela (plateia) até tem uma história que já auxilia esse processo, visto que muitas das peças são apresentadas em edifícios públicos, tais

o teatro do oprimido em I love my husband Nas aulas mencionadas. o sistema social não testemunha uma frequente mudança na atitude de pessoas que fazem o papel de opressores. deve mudar para que. na concepção deste. serão perfeitas ilustrações de como a leitura de um conto ou outro tipo de texto literário pode ser enriquecida com este método. Comecemos com I love my husband. n. não é a substituição do opressor que modificará ou ensaiará uma modificação social. usei a ideia geral do Teatro do Oprimido. feito por ele e mostrado para ele. ao substituir o opressor. por si só. o sistema mude a seu favor. sugerir uma interpretação mais profunda destes. hospitais e prisões. Passemos então a um breve relato das experiências que.15. tendem a permanecer iguais. porém. postura justificada pelo fato de que o Teatro do Oprimido é do oprimido.156 Revista Brasileira de Literatura Comparada. lentamente. evita falar de amor com ele porque há. não há muito que o oprimido possa fazer a respeito. já que a plateia é inicialmente incentivada a identificar-se com o oprimido. de acordo com o Teatro do Oprimido. temos o retrato de uma mulher que é praticamente escrava de seu marido: faz para ele café todos os dias. e retratam os contextos socialmente carentes do espectador. muitos outros . então. Nesse conto. Quando o opressor é modificado. As exceções com relação à substituição ocorrem somente no caso de o opressor tornar-se ainda mais cruel em sua opressão. A atitude daquele que é vítima de opressão. Além disso. pois não é esse o papel que faz e. Ou seja. a partir de então. 2009 como escolas. a plateia tenta modificar uma postura sobre a qual não tem nenhuma influência no dia a dia. que divide a sociedade no binário oprimidoopressor (equivalentes ao protagonista e antagonista. com protagonistas que querem mudar a sua história de vida. prepara tortas de chocolate. respectivamente) para estudar as relações presentes nos textos e. consequentemente. pois estes.

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problemas que merecem mais atenção, como, por exemplo, a situação econômica do país. Esta mulher, completamente submissa a seu marido, segue mecanicamente as ações que são esperadas dela como uma boa esposa: está feliz quando ele chega em casa às sete da noite e tenta reclamar cada vez menos do seu serviço de casa. No final do conto, relembra os votos de seu casamento e conclui que, sim, ama seu marido, embora o que ela relata seja digno do sentimento oposto. Após a leitura desta obra, houve um debate sobre a literatura de autoria feminina nos anos 1980 como reacionária à predominância de textos de autores masculinos até pouco tempo antes dessa década. Depois de traçarmos um breve painel sobre a liberação da mulher e sua repercussão na literatura, comentamos o conto propriamente dito. Com relação a esse texto, pedi aos alunos que fizessem um exercício anterior à identificação do opressor e oprimido da obra, normalmente o primeiro passo para aplicação da metodologia de Boal. A turma foi dividida em duplas e pedi a elas que escolhessem o momento que demonstrasse uma intensa emoção e que exagerassem essa emoção em uma cena teatral. Por termos pouco tempo para apresentar esse exercício, apenas três cenas foram mostradas para toda a turma, após um curto período de prática, e merecem atenção particular. Na primeira cena, uma aluna se comportou como uma guerreira, gritando e portando-se ferozmente. Revelou-se então sensual e bela durante a ausência de seu marido. Essa cena levou-nos a debater sobre o caráter frustrante do cárcere privado da esposa do conto, combatido em sua vida onírica. A segunda cena mostrou um marido mais agressivo do que o descrito no conto, o que exigiria uma postura mais firme de sua mulher para que esta pudesse ter uma vida mais digna. A última cena mostrou a esposa literalmente como uma escrava, absolutamente dominada pelo marido e impossibilitada de mover-se por si só. Depois desses exercícios, discutimos a natureza da opressão nesse conto e chegamos à conclusão de que ela

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é proveniente do machismo e da condição subalterna da mulher, muitas vezes aceita por ela mesma passivamente. No texto, a liberação dessa dona de casa acontece somente em um mundo fantasioso, quando ela se mostra uma amante selvagem, cercada por javalis e pelo Clark Gable. Posteriormente, as duplas definiram o opressor e o oprimido, encenando suas adaptações de I love my husband. Uma das duplas mudou o final do texto, sendo o marido vítima de homicídio. Nessa adaptação, a mulher se mostrou falsamente mais solícita e amável do que no conto, o marido se mostrou mais agressivo e inconformado com a mulher e o homicídio aparece como resolução óbvia, embora não seja esse o objetivo do Teatro do Oprimido, que quer fornecer para o público, por meio do teatro, os meios para que o problema seja examinado, e não sua resolução.

o teatro do oprimido em Menina de vermelho a caminho da lua
O segundo texto em questão, Menina de vermelho a caminho da lua, trata do universo infantil pervertido pela desigualdade social. O título alude à cor da roupa de uma menina de aproximadamente dez anos de idade que intenciona brincar em um parque de diversões, mesmo não tendo dinheiro para isso. A história inicia-se com a mãe de duas meninas contratando um narrador a partir de um anúncio de jornal para relatar o episódio do pseudoencontro entre ela e a menina de vermelho. Embora a mãe prefira uma mulher para narrar a história, tem de aceitar um homem, única pessoa que responde ao anúncio, requerendo que ele use roupa de mulher para ver se, de alguma forma, terá uma atitude mais feminina. Assim, o homem escreve todo o tempo vestindo uma saia rosa e um lenço na cabeça, e com pouquíssima autonomia, pois a mulher se declara detentora dos fatos, fazendo com que sejam narrados segundo a preferência dela.

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O conto narra a ida dessa mãe com suas duas filhas a um parque de diversões em um sábado e, principalmente, seu encontro com a realidade de uma menina de rua de dez anos de idade que, por não ter dinheiro para andar na mesma atração que suas filhas (uma bolha, espécie de pulapula), insinua-se sexualmente para o homem responsável pelo brinquedo para poder brincar de graça. O estilo do texto descreve o erotismo e a sexualidade precoces de uma pré-adolescente que usa seu corpo como meio de adquirir aquilo que ela não pode com dinheiro. Verbos que aludem à experiência sexual (“penetrar” e “perfurar”, por exemplo) são uma constante em todo o texto, usados mesmo quando não descrevem momentos sexuais. Quando acaba o sábado e essa menina descalça vai embora, sendo observada pela mãe das duas meninas, sua figura juvenil mancha o ar de vermelho (referência à cor de sua roupa), indicando, muito provavelmente, a perda da inocência e o ingresso em um mundo cruel para os desprovidos de bens materiais. Na discussão inicial, vários foram os pontos levantados a respeito desse conto. Nele, há uma menina que precisa utilizar-se de táticas sensuais e até sexuais para conseguir o que a falta de dinheiro não lhe proporciona, um homem sem voz e submisso a uma mulher (na figura do narrador) para quem trabalha e a discrepância social entre as filhas da mulher que contrata o narrador e a menina de vermelho no parque. Não podemos deixar de falar também da omissão dessa mulher em relação à situação da menina de vermelho e da literatura como canal de reação social, pois é ela o meio que a mulher usa para tornar a sua história pública e passível de crítica. Os alunos mostraram-se surpresos principalmente em relação à prostituição infantil que, nos EUA, não é tão visível ou noticiada quanto na América Latina. Como lemos uma tradução para o inglês intitulada Little girl in red on her way to the moon, o fato de a menina usar de artifícios sexuais se torna ainda mais desconcertante, porque ela não é apenas uma menina. Na tradução inglesa, ela é uma menininha, o que acentua ainda mais a pouca idade

pois esta é da mãe das meninas (uma inversão da opressão à qual normalmente as mulheres são submetidas). onde há crianças de rua em maior quantidade. de aproximadamente cinco componentes cada. o que independe da idade.15. os alunos foram motivados a buscar informações a respeito do tópico e descobrir a situação desse crime em vários países. que contrata um narrador para a sua história. Nesse ponto. Em alguns momentos. exatamente para desabafar e se eximir da culpa de não ter feito nada para ajudar uma menina da idade de suas duas filhas. no entanto. os alunos questionaram a sensualidade precoce da cultura latino-americana. 2009 de um ser humano já iniciando na prostituição. A turma foi dividida em seis grupos. Há a opressão do homem contratado para narrar a história travestido de mulher e sem a possibilidade de expressar a sua voz. . normalmente temos acesso a diversas interpretações de uma mesma obra. principalmente nas regiões menos desenvolvidas. que muitas vezes assumem uma vida com hábitos adultos antes mesmo de chegarem à adolescência. chegou o momento de aplicar a metodologia de Boal ao texto. Por conta da alusão da história à prostituição infantil. Após a discussão da obra literária e apresentação de sua crítica social. Para a surpresa de muitos. mas foi necessário indicar para eles a drástica diferença entre sensualidade e prostituição como meio de sobrevivência. O resultado dessa pesquisa foi apresentado individualmente na aula imediatamente posterior. existem outras opressões: a opressão pela qual passa a mãe das duas meninas. n. Embora tenhamos a menina de vermelho como protagonista e possivelmente a única apontada como oprimida na leitura inicial. O primeiro passo para o trabalho em grupo foi definir onde havia a opressão no texto ou quem era o oprimido e estava lutando pelo seu lugar na sociedade.160 Revista Brasileira de Literatura Comparada. comumente atingindo as crianças de rua. Esse resultado confirmou a incidência da prostituição infantil nos países em desenvolvimento. também existe prostituição infantil em grande quantidade nos EUA.

. pois também nisso via-se uma falta de liberdade para que essa mulher expusesse seu ponto de vista livremente. Esta é provavelmente uma das poucas casas comerciais que nunca fechou as portas nesta cidade. As diversas interpretações da opressão mostradas no conto motivaram debates sobre a origem da opressão sexual e sobre o que favorece a sua proliferação dentro do sistema no qual vivemos. Outro grupo chamou atenção para a angústia da mãe ao narrar a história por meio desse homem. E os últimos dois resolveram falar do homem como vítima da prostituição infantil. talvez aludindo ao que historicamente acompanhou (e muitas vezes ainda acompanha) a trajetória da mulher no Brasil. Depois de uma longa discussão a respeito da prostituição local. há um local que está aberto 24 horas por dia: o University Massage. como é o caso de Chapel Hill. uma situação encenada na aula (uma adaptação do texto original) por um desses dois últimos grupos demonstrou as agruras de um menino que fora expulso de um orfanato e começou a se prostituir como resultado do preconceito social. a opressão a ele não passou despercebida no conto. 161 Assim.. Nessa cidade universitária de uma área abastada dos Estados Unidos. pois. onde sempre se deve utilizar a porta traseira (conforme aviso fixado na porta). onde esta discussão específica ocorreu. os objetivos são claros: identificar a opressão e criar meios para que o oprimido tenha voz para lutar contra ela. Um dos grupos acentuou a opressão à qual foi submetido o narrador. salientando o fato de que são oprimidos todos os que agem sem ter autonomia sobre suas ações. Assim. os seis grupos mostraram diferentes facetas da opressão em Menina de vermelho a caminho da lua.O ensino de literatura brasileira por meio do Teatro. uma discussão sobre quem sustenta a prostituição em países desenvolvidos e em cidades universitárias americanas. Outros dois grupos preferiram falar da menina de vermelho e da precocidade de suas ações por conta de sua situação social. Ao lidarmos com a metodologia de Boal. surpreendentemente. muitas vezes. porque ao sair do orfanato ninguém lhe deu emprego. vimos que. o sistema social . Houve. como vimos.

uma vida estranha. Lispector divaga sobre o poder do autor ao dar vida e matar. n. A partir daí refletimos sobre o que pode ser feito para minimizar esse poder opressor. Juntamente com Um sopro de vida. seu namorado. esse romance pretende entender a própria existência.162 Revista Brasileira de Literatura Comparada. M. à semelhança de outros de seus contos e romances. Isso se torna óbvio quando lemos a respeito do primeiro encontro dos dois.15. que é aludida quando a autora utiliza-se de questões de autoria no romance. sendo esta mantida por pessoas instruídas e ricas. para dar início e fim a sua protagonista. Em A hora da estrela. de Clarice Lispector. em 1977. um namorado estranho. Mas o foco é mesmo a moça virgem que bebe coca-cola e tem um nome estranho. nome que remete aos revoltosos macabeus. A personagem de Clarice em seu romance final é quase subumana. onde se veem quase como em um espelho. a autora deixa o universo da alta classe média para penetrar no mundo marginal e excluído do nordestino que se muda para o sudeste em busca de uma vida melhor. Talvez por isso a história de Macabéa seja mais trágica para . Nessa obra. poder concedido por ela a Rodrigo S. Em vários momentos. mas nem um pouco irreal para aqueles que conhecem a população brasileira. colocando-as quase como um objeto em suas próprias residências. pois reconhecem um no outro sua origem e trajetória de vida. Embora ele tenha sido escrito e publicado antes de Menina de vermelho a caminho da lua. Embora sua protagonista seja novamente uma mulher com o nome estranho de Macabéa. coincidindo com o final da vida de Lispector. sua extensão e diversidade temática explicam a preferência por estudá-lo no final do curso. 2009 sustenta a prostituição. Olímpico. também é tão excluído quanto ela. Clarice Lispector não mantém o foco em suas protagonistas donas de casa dominadas por um sistema que subjuga a mulher. o teatro do oprimido e A hora da estrela O próximo texto em discussão foi o romance A hora da estrela.

Seu namorado a trata mal do início ao fim do relacionamento. há um interesse maior nos tópicos relacionados à mulher. pois esta sempre se desculpa por erros que ainda nem cometeu. para ver o que a aguarda no futuro. desprovido de qualquer capacidade in- . a própria Glória sugere a Macabéa que vá à casa de Madame Carlota. da protagonista às coadjuvantes. O tratamento ao qual é submetida Macabéa pelo chefe. mas para os dois grupos a história sempre mantém seu quê de tragédia e comédia. mas nunca sabe as respostas para as perguntas de Macabéa. Até quando ela pede que ele compre um café para ela. ao pedir por açúcar. 163 os que a leem no Brasil e mais engraçada para os que a leem fora do Brasil. muito mais por parte de Olímpico do que de Macabéa. sobre alguns questionamentos da moça. colega de trabalho de Macabéa.O ensino de literatura brasileira por meio do Teatro. namorado. decreta o fim do relacionamento. A difícil convivência dos dois. Após uma breve exposição sobre o romance e a discussão inicial a respeito da obra com as turmas. afirma que as respostas não são apropriadas para uma moça virgem como ela. Olímpico afirma que ela pagará a diferença de preço. colegas de quarto e de trabalho demonstra que ela é vista quase como um animal. o que não ocorre em vida. recebe uma resposta grosseira. Logo depois. E é Carlota que prevê um futuro brilhante para Macabéa. Diz que Macabéa só faz perguntas tolas e. O título e seus vários subtítulos (A culpa é minha. Sua hora de brilhar só acontece mesmo no momento da morte. as mulheres estão todas em uma situação de opressão social. O mais interessante no relacionamento dos dois são os diálogos. pois a protagonista morre em seguida. se for o caso.. entre outros) indicam que a protagonista é uma vítima social. E. ex-prostituta e agora cartomante. mulher mais encorpada do que a colega nordestina e também mais provocante e sensual. O direito de protestar e Uma saída discreta pela porta dos fundos. Olímpico a troca por Glória. Na verdade.. pois Olímpico se julga inteligente e vencedor. ele nunca assume sua ignorância em relação às respostas. Isso porque.

por causa de sua preocupação com a aparência. pois quase não frequentou a escola. Ao passarmos para a leitura da obra sob a perspectiva do Teatro do Oprimido. muito provavelmente pela clareza da opressão. O primeiro grupo focou os diálogos de Olímpico e Macabéa. A minha escolha se dá ao fato de que esses quatro grupos trataram de situações e de personagens diversos. pratica um trabalho mecânico (datilografia). chamando-a de feia. Os dois atores usaram maquiagem e figurino similares e os diálogos chamaram atenção . que nunca fique só. outra mulher de destaque na obra. agride Macabéa. é um objeto sexual.164 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Esse exagero é muitas vezes necessário para que a opressão se torne visível. procederei ao relato das experiências de apenas quatro grupos. embora exagerando a agressão verbal à protagonista. houve preferência para uma encenação do relacionamento entre Macabéa e Olímpico. a colega estenógrafa de Macabéa. embora muitas vezes a capacidade intelectual da personagem não motive nenhuma pena ou simpatia.15. Madame Carlota. pois os homens são agressivos e ela não está preparada para isso. 2009 telectual. E. Sua sensualidade cultivada tem o único objetivo de fazer com que ela sempre seja admirada e amparada por um homem. que nem executa muito bem. O segundo grupo mostrou Olímpico e Macabéa como pessoas quase semelhantes. Mas os personagens mantiveram a sua essência: enquanto Macabéa se achava a principal culpada pela impaciência de Olímpico e de tudo de errado que acontecia. sugere a Macabéa que se envolva com uma mulher. n. pois sempre indaga sobre aquilo que quer saber. o fato de que Macabéa gostaria de conhecer mais o mundo não pode ser negado. Como a turma fora dividida em dez grupos de três componentes cada. ouve ópera e escuta a informativa Rádio Relógio. No entanto. ele se manteve como o político do futuro que venceria todo e qualquer obstáculo. situação explicável pelo seu contexto. Glória é o que é por causa do outro. como apontado por Peggy Phelan (1993). Glória.

que necessitam trabalhar sua sensualidade de acordo com o que é esperado pelos homens para se sentirem incluídas na sociedade. Para todas as obras descritas acima. apresentar uma solução ao adaptá-las. os passos seguidos foram escrever e encenar trechos das obras literárias sem. O último grupo do qual falaremos ateve-se à relação de Madame Carlota e Macabéa. no entanto. o objetivo das encenações na sala de aula era o clímax do conflito. Os debates que se seguiram focalizaram principalmente na mulher como objeto sexual. ela quer ser estrela de cinema) e a exclusão social na qual vivem. embora esses problemas não sejam exclusivos do Brasil. ela está muito longe de atingir o padrão de beleza da mídia: a cor de seu cabelo é falsa. estilo de vida. Mesmo que uma personagem não oprima a outra. Enquanto Madame Carlota teve de se prostituir para sobreviver quando jovem. Vimos que. sendo as duas consideradas oprimidas socialmente. O próximo grupo salientou a esdrúxula competição de Glória com Macabéa porque. suas roupas são bregas e seus namorados são todos do naipe de Olímpico. embora vítimas de opressões de naturezas diferentes. no preconceito regional e no machismo da sociedade. Semelhantemente às peças do Teatro Fórum. 165 para os pontos em comum que já aparecem no romance: origem. . pois. dificilmente conseguirá outro emprego que sustente as suas já tão básicas necessidades. É ela quem faz soar a voz que exclui os feios. além de não ser uma boa datilógrafa. pobres e marginalizados..O ensino de literatura brasileira por meio do Teatro. expectativas (se ele quer ser político. pois são nordestinos morando na zona mais nobre do Rio de Janeiro. na encenação Madame Carlota foi mostrada como a voz social que indica a pouca esperança para jovens como Macabéa. Macabéa tem de aguentar os desaforos de seu chefe. há na América Latina uma tendência cultural ao subjugo do feminino pelo masculino e o machismo é muitas vezes também percebido em mulheres como Glória.. embora na história Glória seja mais desejada pelos homens do que sua colega nordestina.

sua visualização se torna primordial.O que motiva tal personagem a agir desse jeito? 3. a crise nunca deve ser totalmente resolvida. uma nova percepção do trabalho acontece. as várias percepções interpretativas ocorrem exatamente nesta terceira parte. muitas vezes é difícil para o aluno entender os textos de literatura brasileira.Como tal personagem deve agir para se libertar desse contexto opressor? o texto aberto O processo pelo qual passam as obras literárias acima descritas é definido por Umberto Eco (1979) em sua teoria “A poética da obra aberta” do livro O papel do leitor. Normalmente. Antes desse estágio.O que você faria se estivesse no lugar de tal personagem? 2. Eco afirma que.15. é necessário que haja uma teatralização delas. mas em responder a perguntas tais como: 1. Nessa re-performance. uma re-performance deste. pois o Teatro do Oprimido só coopera com os meios para que isso ocorra socialmente. mesmo que encenado. n.166 Revista Brasileira de Literatura Comparada. há. .Tal personagem é o oprimido? 4. a percepção de quem oprime e de quem é o oprimido pode mudar dependendo de quem lê a obra ou assiste à sua encenação. 2009 que convida à intervenção e discussão de assuntos interessantes dos materiais lidos. Para que essa re-performance seja útil para a discussão de uma obra. De fato. trazendo à tona o que gera a opressão e propiciando uma discussão cênica do problema. além da recepção. Inclusive como já visto acima. De fato. nesse ponto do curso não houve interesse em favorecer a substituição dos personagens. nunca nos preocupamos com a resolução do conflito. Assim. Por isso. sempre que um trabalho de arte é recebido por um leitor ou espectador. Isso pode ser percebido em cada uma das adaptações demonstradas pelos grupos. no Teatro do Oprimido tal fato é quase uma exigência: após a divisão das relações de opressão do texto.

mas que a recrimina e detesta quase como se esta fosse um ser de outro mundo. Em um primeiro momento. No entanto. quando citamos a semelhança do seu universo com o de personagens de regiões mais pobres dos Estados Unidos. muitas vezes os alunos não conseguem compreender a postura irônica da protagonista ao descrever sua rotina submissa e afirmar que ama o homem que mais faz com que ela trabalhe sem parar. ela parece conformar-se com toda a sua vida em comum com esse homem. Até mesmo no final. Como em todas as outras obras. Mas. É necessário conviverem com essa personagem para entenderem que essa repetição da frase “Amo meu marido” é muito mais para resultar em algo positivo do que para retratar algo positivo. a opressão está numa esfera invisível. nenhum estadunidense entende o que leva essa jovem menina a se prostituir. Em A hora da estrela. ser personificado em personagens como Olímpico. A partir dessa conclusão. além disso. Acham que não há nada que justifique a prostituição de uma criança. Quando fazemos. Essa interpretação inicial inesperada também ocorre quando da leitura de Menina de vermelho a caminho da lua. Acham-na ridícula.. O mundo opressor pode. social e politicamente apresentada. os alunos passam a entender a tragédia na vida dessa personagem. quando a protagonista relembra o início da união. quando procedemos à análise do contexto social e econômico latino-americano. Acham que o fato de ela repetir que o ama indica que está conformada com a situação. exagerada e seus problemas parecem não ter fundamento.. Em I love my husband.O ensino de literatura brasileira por meio do Teatro. o caso muda de figura. 167 Várias vezes eles julgam os textos de nossa literatura como negativos ou deprimentes. muitas vezes os alunos não conseguem entender Macabéa e suas motivações. sem dar a ela o carinho e a afeição esperados. o mundo que cerca Macabéa passa a ser o que a oprime e ela passa a ser a vítima. no entanto. tão nordestino quanto Macabéa. uma comparação entre a realidade da América do Sul e as semelhanças entre essa região e as regiões economicamente menos favorecidas dos Estados .

econômica e social. só depois que diferentes cenas sobre diferentes questões foram montadas e algumas pseudossubstituições ocorreram. n. o que a mãe realmente deseja é pôr um fim na dor que sentiu ao compartilhar a situação da menina e esperar que a história não se repita. uma natureza muito mais positiva do que negativa. Nas duas obras. retratando um universo afeiçoado à opressão. 2009 Unidos. a pobreza apresenta a maior . conclusão Embora exista campo para divergência quanto à natureza da opressão de uma história. para que possa ser mais facilmente combatido. Os temas de A hora de estrela e Menina de vermelho a caminho da lua são bastante similares. o fim do subjugo das suas protagonistas. As histórias narram as adversidades na vida de duas jovens que são vítimas da pobreza. percebemos que as diferenças são ínfimas. pretendem fazê-lo visível. Se a vida da menina que protagoniza a história é resultado de um descaso histórico com a situação da população pertencente à classe baixa e os meninos e meninas de rua.168 Revista Brasileira de Literatura Comparada. ao implicitamente indicar o desejo de mudança com relação à situação das vítimas de opressão sexual. se pensamos na natureza opressora dos dois. situação esta da qual ele quer sair) for montada e que outros (membros da plateia) puderem cooperar para o desenvolvimento da resolução da crise do protagonista. portanto. essa opressão é traduzida de duas maneiras pela mãe que detém a história: ao se omitir com relação à menina e ao subjugar o homem que narra a história. pois. portanto. ao escrever sobre a história. por exemplo. E é importante vermos que. não vivem com suas famílias e estão à margem da sociedade. Os três textos têm. o opressor mais forte só será achado depois que a cena (simples diálogo que precisa inicialmente detectar a situação-crise do oprimido. Todas as histórias narradas almejam. Muitas vezes.15. a turma chegou à conclusão de que a opressão não era o que tinha sido inicialmente pensado.

. o teatro só pode ser do oprimido se ele participar do seu processo. Talvez por isso ela seja completamente desassistida pela sociedade na qual está inserida e inicialmente indigna de compaixão na sociedade norte-americana. A discussão também é motivada pela transferência do contexto da obra para o . Menina de vermelho a caminho da lua e A hora da estrela. 169 fonte de depressão das personagens. o que é exemplificado com o exercício aplicado em I love my husband. Combatê-la está fora do alcance dos protagonistas e do nosso próprio. percebo que a literatura só se torna objeto de intensa discussão se o aluno puder entrar no contexto do livro. A utilização do método do Teatro do Oprimido fez-me perceber. participando da vida dos personagens como se fosse a sua própria. que muitas dessas questões jamais seriam tratadas se não dessa forma. pois são personagens cabisbaixas que se comportam de forma oposta ao que nos leva a pensar. possivelmente teríamos chegado apenas aos dois primeiros níveis de interpretação supracitados. Quando Olímpico a ofende e termina o namoro com ela.O ensino de literatura brasileira por meio do Teatro. Macabéa não reage nem se irrita nunca. Foi o sucesso dessas primeiras experiências que me motivou a prosseguir com a aplicação dos exercícios do Teatro do Oprimido em outros textos. como plateia participativa. Se houvéssemos apenas feito uma discussão. Da mesma forma. Para Boal. A esposa também não. pelo menos aparentemente. Talvez Macabéa e a esposa de I love my husband tenham sido as personagens mais difíceis de encenar segundo as técnicas do Teatro do Oprimido. pois sua força está além de um extermínio imediato. desde o primeiro dia de aula. com perguntas direcionadas. Macabéa se desculpa até mesmo pelos erros alheios.. ela prefere calar-se a ofendê-lo também. Mas a essa conclusão só chegamos depois de experimentar possibilidades com o texto e ver quem ou o que oprimia mais certo personagem. que não louva as vítimas ou os indivíduos que não sabem lutar pelos seus direitos. um nome de guerreira e uma vida fantasiosa de guerreira. pelas experiências vistas até a presente data. respectivamente.

1992. Lennard. _____. _____. Rio de Janeiro: Francisco Alves. Little girl in red on her way to the moon. Menina de vermelho a caminho da lua. . London: Routledge. 1989. Teatro do oprimido e outras poéticas políticas. n. LISPECTOR. DAVIS. Walter. Frankfurt am Main: Suhrkamp. Clarice. Referências BENJAMIN. Versuche über Brecht.). 1984. _____. New York: Routledge. 1995. New York and London: Methuen. Peggy. Unmarked: the politics of performance.170 Revista Brasileira de Literatura Comparada. 1987. PINON. BOAL. 1979. Resisting novels: ideology and fiction. The politics of postmodernism. Trad. In: SADLIER. 2.). São Paulo: Hucitec. 1992. Entrevista pessoal. Técnicas latino-americanas de teatro popular: uma revolução copernicana ao contrário.). Somente a partir de um profundo envolvimento com a obra literária. Rio de Janeiro: Record. New York: New Directions. pela sua imaginação. Augusto. Indianapolis: Indiana University. One hundred years after tomorrow: Brazilian women’s fiction in the 20th Century. 1980. 1966. I love my husband. 2. Ítalo (Org. PHELAN. Muito prazer: contos eróticos.15. tal como visto nas análises acima. Umberto. ed. Bloomington: Indiana University. In: MORICONI. 195-203. aplicando uma realidade literária a uma realidade social. Márcia (Org. Darlene (Org. HUTCHEON. A hora da estrela. 1993. 2009 contexto do leitor ou espectador. COLASANTI. _____. The hour of the star. Linda. Marina. 16 de julho de 2003. p. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. o aluno contribuirá com um avanço no campo interpretativo da obra. Nélida. ECO. The role of the reader: explorations in the semiotics of texts. Giovanni Pontiero. In: DENSER. 1982. relacionando-a com suas próprias questões e fazendo-a parte da sua vida. ed.

. Rio de Janeiro: Objetiva. 2001. activism. Playing Boal: theatre. SCHUTZMAN. Fourteen female voices from Brazil: interviews and works. Mady (Org. 451-456. Austin: Host Publications. I love my husband. _____. 2002.. 171 Os cem melhores contos brasileiros do século.O ensino de literatura brasileira por meio do Teatro. . In: SZOKA. p. 1994. Elzbieta. London: Routledge. 11-18.). p. therapy.

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* Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp .Araraquara). palavras-chave: literatura brasileira. . “Ninguém veio falar comigo. The article sustains that the richness of the Brazilian short narrative made possible the desired intercultural dialogue. ensino. such as the lack of basic information about Brazil and the institutional context. estranhei o vazio do campus. contos. tais como a falta de informação inicial sobre o Brasil e o contexto institucional. teaching. crônicas. perguntei. os professores ainda não voltaram do verão”. o que será?”. São examinados os principais desafios para o ensino de literatura brasileira em tradução para o inglês. “É normal. sem se preocupar.173 As alunas e os contos: a narrativa curta brasileira num curso de escrita criativa nos Estados Unidos Heloisa Pait* resumo: Este artigo relata uma experiência de ensino num curso de pós-graduação lato sensu em escrita criativa nos Estados Unidos. Conclui-se que a riqueza do conto e da crônica brasileiras de fato serviu de ponte para o diálogo intercultural almejado. até liguei para meu irmão. chronicles. United States. Mas veio o outono. ele disse. abstract: This article narrates a teaching experience in a graduate program in creative writing in the United States which introduced the main Brazilian short story and chronicle authors. Quando cheguei lá. Também é relatado no artigo o crescente interesse dos alunos pela literatura brasileira e pelos gêneros apresentados. keywords: Brazilian literature. short stories. uma estação linda nos Estados Unidos. no qual se buscou apresentar os principais autores brasileiros do conto e da crônica. Estados Unidos. o céu azul. The main challenges involved in the teaching of Brazilian literature in translation are examined. Students’ increasing interest in Brazilian literature and in the genres presented is also examined.

Minha cunhada estudou no intelectual Swarthmore College. era de uma riqueza intelectual inesgotável. É que eu conhecia a universidade americana por meio da muito particular New School for Social Research. Só não veio aquele diálogo intelectual que eu esperava.15. a das instituições progressistas e disputadas.174 Revista Brasileira de Literatura Comparada. vejo agora. Rorty e Melucci. discutindo sobre a política. para manter o impecável imenso jardim e os prédios centenários e amortizar a recente construção do ginásio. no primeiro semestre. Eu havia dado uma palestra no hippie Hampshire College. Críticas e rigorosas. que poderia ser bem interessante. com seus valores sólidos. muitas delas foram criadas na costa leste. como a evasão e a busca permanente de alunos para cobrir custos relativamente fixos. era mesmo preciso um bom dinheiro. Tive. Eu costumava dizer: isso aqui é divertido como voltar ao Pequeno Príncipe na Rua Avaré. Ao longo do século XIX. Também conhecia as Faculdades de Artes Liberais. e no oeste as novas faculdades já eram criadas para os dois grupos. e lecionado no questionador Lang College. desta forma dando acesso ao ensino superior a um grande nú- . 2009 o ar fresco. primordialmente entre os alunos europeus e latino-americanos e com os professores novaiorquinos. Então. conhecia uma fatia do ensino superior americano muito estreita. a linguagem e a vida em Nova York. Pois. mas num lugar muito particular que refletia os problemas das pequenas faculdades americanas. alguns bons alunos num curso introdutório sobre o Brasil. e sua self-reliance. que já tinha tido no corpo docente Hannah Arendt e outros. E pulei no que as pessoas se referem como “Real America” – não numa América Real qualquer. n. A instituição era uma das poucas faculdades americanas que ainda se dedicavam exclusivamente ao ensino de mulheres. universidade visitada por Habermas e Derrida. além da solidão e de uma grande confusão quanto aos objetivos da instituição. Corrijo-me: tive algumas boas alunas. O nosso cotidiano de estudantes de pósgraduação. complementando as faculdades para homens.

Não eram as únicas. Como disse. talvez pela natureza dos cursos ou pela tradição. acho o . Ainda assim. para trazer um pouco do Brasil para o campus. O trabalho que mais me chamou a atenção foi sobre um assunto que eu mesma desconhecia: a existência de um cinema mudo brasileiro muito ligado com tendências europeias da época. mas outras continuam admitindo apenas mulheres. 175 mero de mulheres. no outono tive algumas alunas muito boas. tais como Radcliffe College. eu estava dando aulas numa instituição que havia escolhido manter a tradição. particularmente. eu estaria ali para isso. a justificativa para continuar mantendo o ensino separado era que as mulheres teriam melhores condições de ensino caso não tivessem de disputar a atenção dos professores com os homens em sala de aula. Na segunda metade do século XX. que se juntou a Harvard College. Afinal. A instituição tinha um programa já antigo. grande parte tinha dificuldades com a leitura e a escrita e. mas pouco conhecido tanto no Brasil como nas pesquisas no exterior. Mas as alunas capazes de produzir trabalhos autônomos eram poucas. obviamente com exceções. Era um argumento de peso decrescente.. mas. como as tentativas de reforma do ensino médio ou sobre a participação de jovens artistas plásticos em comunidades na internet. de qualquer modo. além disso. Eu. Mas o modo como a instituição conseguia financiar a tradição era abrindo uma série de cursos de pós-graduação lato sensu em áreas mais aplicadas. A maioria dessas instituições tornou-se mista ao longo do século XX. a maioria dos alunos eram mulheres. um professor visitante era chamado e. como Smith College. que escolheram escrever sobre aspectos muito interessantes da cultura brasileira. havia palestras e eventos sobre o país e a região. abertos aos homens. diferentemente de nossos alunos. no qual a cada ano um país determinado era escolhido. Aquele era o ano do Brasil. uma certa apatia na sala de aula e desinteresse sobre o mundo. uma das mais concorridas faculdade americanas.. entre os professores detectei também uma falta de curiosidade sobre o Brasil.As alunas e os contos: a narrativa curta brasileira.

especializada nesse turismo acadêmico. não entendia bem a falta de interesse sobre o meu país. ou “a cidade que não é do aço” são títulos difíceis de se portar. A desindustrialização trouxe para a região problemas sociais enormes. em nível de pós-graduação. ao fim do semestre. 2009 Brasil bem interessante. no verão do hemisfério norte. mas a verdade é que eu estava bem perdida.176 Revista Brasileira de Literatura Comparada. E só conseguia me localizar novamente quando viajava pelo país e encontrava pontos de referência antigos ou explorava novos. o Cinturão da Ferrugem. Então. em certa medida eu vivi essa indefinição como deslocamento. vou evitá-lo. região americana do meio-oeste que sofreu com o colapso da indústria pesada ocorrido na segunda metade do século XX. e como já virou clichê falar de experiência kafkiana. passar duas semanas no Brasil. Foi nessa situação de deslocamento urbano e isolamento intelectual que o semestre da primavera começou.15. A cidade onde a faculdade se localizava era parte do que os americanos chamam de Rust Belt. Mas há também o problema simbólico: como construir uma identidade urbana a partir de uma não identidade? “A cidade que não é do automóvel”. os paulistanos com sua cidade que não é da garoa ou os cariocas com sua cidade que não é capital. aliado a tensões raciais e erros crassos de planejamento urbano. eu daria aulas apenas para alunos do programa de escrita criativa. Alguns são bem rigorosos. Eu assuntava: por que escolheram o Brasil? Como esse programa de estudos internacionais se coaduna com os objetivos educacionais dirigidos a esse corpo discente? Não tinham respostas. e acho que nisso tenho vasta companhia além das fronteiras nacionais. Mas redefinir a identidade de uma cidade é importante. Em Detroit. têm a duração de um . n. Todos temos um pouco disso. por exemplo. esse processo econômico. Algumas alunas iriam. Os programas de intercâmbio são marca registrada das universidades americanas. ainda se reflete no cotidiano difícil de populações inteiras. eu não sabia exatamente onde estava. numa viagem patrocinada pela escola e organizada por uma instituição brasileira reconhecida.

Pela turma que peguei. e sou fascinada pela narrativa curta que fica em nossas mentes muito depois de terminada a história. São cursos para quem quer escrever ficção ou não-ficção. Os alunos podem aí se especializar em literatura infantil.. eu quis obviamente mostrar um Brasil verdadeiro. sua ausência. Ao longo de minha estada nos Estados Unidos. do que uma área da cultura na qual nós temos uma certa “vantagem comparativa”. que temos acesso a elas nos jornais e revistas. na verdade.As alunas e os contos: a narrativa curta brasileira. Propus um curso sobre contos e crônicas. Queria mostrar por meio deles alguma coisa do que somos. que queria dar uma visão mais abrangente da cultura brasileira. A dificuldade na graduação foi. Não que houvesse estereótipos nas salas de aula. pensei. que incluem literatura mas que têm um sentido mais prático que analítico. pois dividia o curso com outra professora. incluindo o cinema. Ela se alimenta e faz parte de nosso cotidiano. a narrativa curta brasileira tem um lugar muito especial para nós leitores brasileiros. literatura de viagens. a maior parte dos alunos estava em momentos de transição e buscou o mestrado como forma de se rearticular. Eu queria falar dos contos. Esse me pareceu ser um turismo cultural inteligente para alunos com interesse em expandir seus horizontes mas sem o tempo de preparo anterior na língua e história do país. Zé Carioca e Carmen Miranda. Então. Sobre os cursos de escrita criativa. Outros são apenas passeios pelo Caribe. nada melhor. 177 semestre e são precedidos por estudos de línguas e cursos preparatórios e envolvem cursos regulares ou estágios em países estrangeiros. Tive de negociar o conteúdo do curso a cada aula. e assim por diante. Brasil do desma- . com contribuições à cultura mundial. Todos nós conhecemos os estereótipos antigos. tanto na graduação como na pós. que fosse além dos estereótipos tropicais.. escrevo contos eu mesma. não pude descobrir exatamente o objetivo profissional do curso. são também comuns nos Estados Unidos. como é o caso da narrativa curta brasileira. Depois há os novos. Além disso. a história e a literatura. a política.

são espetaculares nos dois sentidos. Senti falta de Márcia Denser apenas. não são representativas do gênero. Tudo o que eu falasse era novidade. que encontrei em outras traduções (Sadlier. Então. talvez. era o interesse difuso naquele país latino-americano desconhecido e uma vaga curiosidade sobre o conto e a crônica. que língua mesmo falavam ali? No curso de pós. mas parciais. mas. n. diziam. Milton Hatoum e tantos outros. há também a construção mítica do presidente socialista que se contrapôs à ordem neoliberal. maior que a Venezuela. Na primeira aula. traduzidos. As crônicas são maravilhosas. Já nas crônicas é diferente. em sua maioria. que reúne contos de “A legião estrangeira” e crônicas de “Para não esquecer”. O que impressionava era que o Brasil fosse tão grande. então. recentemente publicadas. havia informações dispersas prévias. mal-entendidos. Nosso elo. diferem muito. Hilda Hilst. assim como no caso anterior. das crônicas de Ignácio de Loyola Brandão que lemos às quintas no Estadão.178 Revista Brasileira de Literatura Comparada. pois o Brasil praticamente não existia no imaginário de muitos alunos. de Nelson Rodrigues (2008). 2006). para falar das crônicas havia um obstáculo muito concreto. . 1992). Há também crônicas de Clarice Lispector em “Foreign legion” (Lispector. As crônicas de “Life as it is”. 2009 tamento e dos meninos de rua. Um bom apanhado dos contos está numa antologia da Oxford University Press (Jackson. por exemplo. Montei o curso de modo muito tradicional. incompletos. Moacyr Scliar. Mas lá naquela faculdade eu vi a ausência de informações sobre o Brasil. Havia o Paulo Coelho. havia referências poucas mas queridas que fizeram aqueles alunos se inscreverem em meu curso. Havia a presença de uma comunidade negra importante. havia a Clarice Lispector. notei que quase nenhum aluno tinha interesse específico sobre o conto ou a crônica. que estão.15. Reais todos. 1992). Guimarães Rosa. não há antologias de crônicas que reúnam vários autores. apresentando cronologicamente os principais autores da narrativa curta brasileira. Clarice Lispector. Estão ali Machado de Assis. Enfim. Entre as esquerdas. entretanto.

Parecia que os textos mais densos. Tínhamos acabado de ver o filme “Vidas secas”. se qualificavam melhor para a tradução que o cômico e o banal. lemos o triste “Piá não sofre? Sofre”. por razões práticas. forjar alguma comunicação real que havia me escapado nos meses anteriores. 179 A respeito dos contos. pois um dos meus melhores amigos na faculdade era muçulmano. de jeito nenhum. de Mário de Andrade. E os contos ali tinham. nos romances e também nos contos. que a última feijoada. pois não sou muito de suspenses. que fiz por ocasião de meu aniversário. acredito. Avisei que o horário era o brasileiro.. pedia que chegassem a partir da 1 da tarde.As alunas e os contos: a narrativa curta brasileira. em geral. Eu disse que não. Os principais autores estavam presentes na antologia da Oxford e também em inúmeras outras traduções.. Tentando o quê? Tentando. Fiz a couve e a feijoada. a dificuldade era de natureza distinta. cadeiras extras. Machado de Assis. em três panelas distintas: uma para os vegetarianos. comeram. uma aluna perguntou se era tudo assim pesado na literatura brasileira. conversaram sobre a faculdade e foram embora sem me deixar com a sensação de plenitude que tenho depois de cozinhar para amigos e conhecidos no Brasil ou no exterior. mais “profundos”. ao final de minha estada. Guimarães Rosa. Lembro que numa das primeiras semanas na cidade fiz uma feijoada para algumas pessoas. Uma colega me disse. Já adianto ao leitor. ou seja. depois das caipirinhas. Então. mas isso me motivou a continuar tentando. eu dava preferência aos contos da antologia. . E nós brasileiros não fazemos desse banal a nossa melhor poesia? A uma certa altura. que vieram polidamente. Mas. foi bem diferente. uma sem carne suína. em volta dos convidados aboletados no apartamento pequeno. e não pontualmente nesse horário. E para cada um eu pedi que trouxesse uma coisa: o arroz. a biblioteca tinha poucos recursos e era preciso fazer escolhas. um tom sério e pesado que não trazia a leveza da prosa brasileira. Clarice Lispector e Moacyr Scliar estão bem traduzidos. e outra com joelho de porco e costelas. por exemplo. etc. os pratos. por sugestão da outra professora.

sobre seus recursos. . Queria que eles se sentissem confortáveis no gênero. é na verdade um romance escrito em capítulos publicados em série. num dia importante para a cidade. choques. nessas alturas. Notei ali o tanto de esforço que há em nossa descontração. encontros. Pedi aos alunos que escrevessem um conto. mas quem é que vai dizer que não são boas crônicas imaginadas? E havia tradução. deveria conter um encontro entre um brasileiro e um morador local. Buscava um elo. 2009 que nunca havia se sentido tão à vontade. e eu ainda me adaptava ao curso a quatro mãos. interessada nas relações entre a realidade social e o caráter político da arte brasileira. Era no começo do semestre. n. Claro.180 Revista Brasileira de Literatura Comparada. A outra professora notou a ausência dos negros e pobres na narrativa. Não são contos nem crônicas. Mas acho que o texto de Manuel Antônio de Almeida fez tanto sentido aos alunos como a primeira feijoada que ofereci aos colegas. eu deveria ter dado destaque. E encontrei um primeiro elo.15. Mas. as tantas violências domésticas que pipocam no tempo do Rei. 2000). Ficou espremido. o maravilhoso “Memórias de um sargento de milícias” (Almeida. americanos que de repente se lembravam das comidas e cheiros brasileiros. O resultado foi maravilhoso: imigrantes brasileiros discriminados que falavam palavrão. O encontro deveria ter algo de erótico e de conflituoso. Machado os surpreendeu. eu também queria ver no papel as minhas próprias emoções. Pareceu à classe que o autor ria de algo que não deveria ser piada. e poderia estar no fim ou no início da narrativa. a partir de Bosi (1994) e Piglia (2000). ou com a professora. desafios e desfechos. com leis. e também que por meio do conto começassem a pensar sobre as diferenças entre as culturas americana e brasileira. pensar o conto era uma viagem minha. advogados. pela literatura e também pela modernidade de um Brasil antigo. que acredito pouco interessava aos alunos. Eu fiquei lavando os pratos de uma feijoada sem festa. mulheres reflexivas. Discutimos um pouco a natureza do conto. ainda se familiarizando com a narrativa.

Recortei alguns trechos de “Grande sertão: veredas” (Rosa. 2006). com o marido atordoado sem compreender a fuga da esposa etérea. Algo se perde na tradução do autor. Eu conseguiria trazer o . a surpresa de uma escrita sofisticada. e apresentá-los com paixão (Lispector. 181 Clarice foi fácil.. cobriam muita coisa. explorando o olhar perscrutador de Clarice e o modo sutil como ela define os ambientes externos e a vida interior dos personagens. A biblioteca da universidade estadual local. Sim. que falava à alma. Então. 1984). era um desafio. interpretada por uma aluna em quem eu via algo da própria autora. Rimos com outras cenas também. Então. que não achei traduzido. O perigo de Clarice é cairmos numa deferência exagerada à poesia e virtuosidade da autora. quebrando a solenidade do texto. Duas alunas em particular usaram o texto de Clarice para uma jornada de descoberta que encantou a todos. Isso queria dizer que eu podia escolher meus contos favoritos. e contei para eles “A hora e a vez de Augusto Matraga”. contei. eu contava.As alunas e os contos: a narrativa curta brasileira. Todos adoraram. não só pelo uso particular que faz da linguagem. apropriando-nos da humanidade daqueles personagens intensos da autora. Assim como com Machado. Tensa também. depois. Pois o conto não traz. um diálogo com a tradição oral? Então por que não simplesmente contar as histórias de que eu gostava mais? Por que me prender a traduções selecionadas? Quando havia coisas que eu queria dar. E rimos com a cena final de “Amor”. Uma delícia. mas não havia tradução. ao final de uma das aulas sobre a autora. mas também pela musicalidade do texto (Pessôa. 1963) que tinham jeito de conto. escolhessem um pequeno trecho de um dos contos discutidos e elaborassem uma pequena cena. por exemplo.. pedi que formassem pequenos grupos. junto a sua modernidade. organizada por Graciliano Ramos (1966). As traduções eram boas. Achei Guimarães Rosa difícil de apresentar. tinha uma coletânea de contos regionais maravilhosa. Eles toparam. Fiquei animada. passei tardes lendo as histórias e escolhi algumas para recontar.

éramos sem graça. como sempre quando falo do Brasil. 2005). sem dúvida conscientes de serem pontes precárias nesse importante diálogo entre as gentes. n. claro. Mas tudo é questão de treino. algumas cômicas. além das de Clarice e de Nelson Rodrigues. Muitas tristes. alguns dos quais estavam matriculados em meu curso. consegui. quando dela somos privados. ao menos. talvez por mim. a Scliar e Machado. me entusiasmei. com eles nos conhecemos. todos eles lá. E isso me tocava profundamente. aquele diálogo em qualquer forma que fosse. é impossível descrever o valor que passamos a dar à comunicação humana. expressa por meio de atos cotidianos às vezes até singelos. numa reunião de preparação para a viagem ao Brasil. viramos personagens fascinantes de um teatro próprio. virei professora de novo. Era um pouco ofensivo. sem eles. Sem eles.15. falando para uma audiência interessada de um lugar que eu já havia visitado. a Denser e Ângelo. também escolhi algumas da coletânea “Cem melhores crônicas brasileiras do século” (Santos. fiz rir.182 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Agradeço aos tradutores e editores também. 2009 texto para a sala de aula? Recontar em inglês uma história querida? Com alguns. me chamaram para conversar com os alunos. mas agradeço agora a Clarice e Rosa. Aquele elo que eu buscava. Talvez por uma turma aberta e interessada. quanto mais professora. No fim do curso agradeci aos alunos. éramos estranhos. Para as crônicas. o que havia acontecido em outros ambientes da faculdade anteriormente. E recontei. O risco que eu havia corrido era de ter virado naquela sala de aula uma simples nativa que conhecia os hábitos vigentes. sugeri a leitura de alguns livros para quem quisesse se aprofundar e. Então. eu voltava à minha humanidade normal de quem fala e escuta. por exemplo. Sem eles. emocionei. mas acima de tudo frustrante. eu o via sendo construído. Mas as perguntas foram sobre aspectos corriqueiros da . Estavam todos eles ali presentes nas aulas. Naquela classe – fazendo rir e chorar com histórias –. Mas a partir do conto e da crônica brasileira. não. não era gente. com eles. com outros. eu. Com eles. Falei sobre a história política recente. agradeço.

. tem aquele amor ao detalhe. trouxessem a musicalidade de nossa língua e de nosso texto que a tradução nunca poderia trazer. E desse lugar de nativa. e daí talvez as escolhas. “aqui é que jantam um pouco cedo. numa aula. Quando. Mas eu também trouxe. Mesmo Márcia Denser. pelos editores. eu esperava. Mesmo o texto filosófico de Clarice reforça o lado banal das grandes questões humanas. entenderam que ali havia um diferencial.As alunas e os contos: a narrativa curta brasileira.” eu disse. me vi num dilema. as pessoas jantam tarde?” Respondi que jantávamos no horário normal. os alunos se matricularam num curso de uma brasileira. Então eu sentia que era eu que devia tentar explicar isso. eu não teria podido falar dessa literatura de que eu gosto e que é minha. Os alunos se encantaram com uma literatura sobre e também disponível no cotidiano dos leitores de jornais. pretensiosa. Mas isso pode se perder na tradução. pode ser mordaz. uma dinâmica em que eu fosse a nativa e ela a antropóloga podia ter se instaurado. irônica. lembrem disso. na metade do semestre. crítica de tudo. Com a capacidade de olhar o cotidiano de um jeito rico – ou com a riqueza de nosso cotidiano. a uma certa delicadeza textual. o texto sem asperezas. da melhor forma possível. Uma literatura que anda de chinelo. fazendo barulho.. e não de salto alto. A palavra que eu usava em aula é essa: nossa cultura é soft. Mas. que tragam o drama pesado ou político. um pouco disso ficou evidente. Sou naturalmente uma professora crítica. e nesse caso em particular eu via muitos problemas nos trabalhos. quando a outra professora se juntou ao curso – bem. pelos textos que não se calquem apenas nessa leveza. inconscientemente familiar a minha própria cultura. não sei mais. Quanto ao meu curso. os alunos apresentaram os projetos de seus trabalhos. Quando dei as aulas sobre as crônicas. uma seleção de chorinhos que. Pode ser violenta. que me pareciam mais leituras neutras comentadas que exercícios . É algo intangível.. mas tem uma maciez que você não encontra na literatura americana.. Algo que me encanta na literatura brasileira é o texto macio. 183 cultura nacional: “No Brasil.

e isso não é mau. como a nativa de plantão? Esse receio. sobre interpretações corajosas. que os alunos de pós tinham dificuldades de leitura e escrita comparáveis às dos de graduação. n. que queria saber mais sobre as leituras dos alunos sobre os textos. Não falei dos trabalhos. Ali estava uma turma que queria usar os textos de Clarice para compreender o existencialismo. os alunos mesmos – eu tinha na verdade um aluno e o restante da pequena classe formado por alunas – trouxeram tudo o que tinham pensado em escrever mas não consideraram acadêmico o suficiente. como disse anteriormente. Mas será que eu tinha autoridade para criticar os trabalhos. mas minha experiência no semestre anterior tinha me revelado uma falta de familiaridade com a investigação intelectual que eu não associava com o ambiente universitário. pois cada texto diz uma coisa para cada leitor. nessa classe dada em colaboração? E será que os alunos me escutariam. Sobre a produção de sentido no jogo simbólico. sobre o que os contos e crônicas realmente haviam falado para eles.. mas para outros alunos aquele curso abriu as . e de Machado para entender a relação entre a racionalidade e as crenças populares no Brasil do século XIX. Comecei a aula perguntando se eles gostariam de ter minhas críticas. ou me viam apenas. Eles assentiram. Então me surpreendi. que estava sendo produzida naquela sala de aula daquela faculdade daquela cidade do Cinturão Enferrujado americano? Que esquecessem a Clarice que eles achavam que os professores achariam a correta. Sou sempre otimista quanto aos alunos.15. E lasquei uma boa aula sobre a noção de interpretação de Peirce. 2009 de interpretação que trouxessem novos aspectos dos textos e autores lidos. dos projetos.. Quem era aquela Clarice ali. foi muito produtivo. Haviam me dito. antes do curso. Uma coisa que me surpreendeu na classe foi a curiosidade sobre a filosofia da linguagem e as teorias sociais. indiretamente. Falei. paradoxalmente.184 Revista Brasileira de Literatura Comparada. Na aula seguinte. Pois meu espírito crítico teve de ser controlado. quando comentamos os projetos propriamente ditos. Alguns tinham já familiaridade com estudos culturais e feminismo.

cuja palestra algumas alunas haviam visto. pois nos dois países as identidades se enriquecem. 2003). obviamente. na qual também víamos escritores de origem árabe. A faculdade havia convidado. Então. indígena. e isso foi bom: saímos então do lugar chamado Brasil para situarmos o Brasil no mundo. trabalhos que de um modo ou outro já conhecíamos a partir de lei- . a discussão foi rica e acalorada.. brasileira. 2004). ao final do curso não havia mais tempo para se aprofundar nos autores. Resolvi dar uma aula sobre a literatura judaica no Brasil (Waldman. Também ao final do curso. recebendo influências mil. foram aqueles nossos autores brasileiros. a poeta amazonense Astrid Cabral. mas o tema geral da situação da mulher negra nas Américas era de conhecimento de todos. africana. Simmel e outros pensadores bastante sofisticados. como parte dos eventos do Ano do Brasil. japonesa e. mas sim para introduzi-los e esperar que aquele se constituísse num primeiro contato com essa nossa literatura. mesmo com pouco material. mas não opostos. árabe. mostrando o caráter diaspórico da literatura brasileira.. 185 portas para Merleau-Ponty. E isso serviu de ponte para falar de Milton Hatoum e de sua Manaus misturada. A ponte. Foi uma aula já ao final do curso. no semestre anterior. novamente. cotidianos e complexos. penso que sim. examinamos a literatura escrita por mulheres negras. Funcionou? No todo. Discutimos como no Brasil e nos Estados Unidos as identidades nacional e étnica aparecem na literatura de modos distintos. mas fazendo pontes com as literaturas de outros países também.As alunas e os contos: a narrativa curta brasileira. e com pontes indo também a lugares mil. mesmo quando em tensão. os alunos apresentaram os trabalhos para a classe. Os alunos ficaram encantados com aquelas influências literárias antigas que entraram no Brasil mas também na literatura europeia e americana. banais e sofisticados: falar da existência humana a partir de um ovo que se quebra dentro da rede. Havia apenas uma coletânea disponível (Alvares e Lima. Ao final do curso. era tudo novidade. Enfim. e aí o processo foi inverso.

avançar. e às vezes deixavam de lado algumas gemas. Foram aulas de troca intensa. é possível o aprendizado individual. Uma escreveu sobre uma experiência de infância que se assemelhava ao olhar de estranhamento de Ana. que a leitura de Clarice evocou.186 Revista Brasileira de Literatura Comparada. é possível ir adiante. O que ficou dessa experiência? Que ensinar literatura brasileira no exterior é um trabalho coletivo. Um trabalho que debatemos muito em aula foi escrito por uma aluna caribenha. há . viam valor em textos que não me chamavam a atenção. procurou investigar que tipo de reflexão os textos de Clarice evocavam. Sem alguma referência inicial. me ajudando a construir essa ponte que é um dos motores da literatura. mesmo que inconsistente. Um aluno fez uma análise filosófica de “O ovo e a galinha”. no conto “Amor”. Em outras. n. mas talvez não o coletivo. o que permitia essa troca de modo fácil e intuitivo. Além disso. 2009 turas e discussões anteriores. como também seus editores e tradutores na língua inglesa. o compartilhar de experiências. elaborar. Tinham certamente um olhar distinto do meu. que procurou refletir sobre sua própria cultura repleta de misticismos a partir do conto de Machado “A cartomante”. Não consigo terminar este artigo antes de falar brevemente dos trabalhos. de Lispector. Mas estavam lá na sala de aula. é difícil tocar adiante o projeto educacional. A outra. Eu tinha a sensação de uma profunda solidão. Duas alunas escreveram também sobre a autora. como foi o caso desse curso de literatura. é certo.15. pois a essa altura todos se sentiam um pouco autores uns dos trabalhos dos outros. Uma excelente aluna de graduação que se matriculou no curso escreveu sobre os dilemas de gênero que apareciam em Machado e também em Nelson Rodrigues. Na classe em que havia ideias iniciais sobre o Brasil. Mas estavam lá comigo não apenas os autores que fizeram a nossa literatura. Também aprendi que o contexto no qual esse ensino se dá é importantíssimo. Todo o material apresentado era colocado no ambiente educacional virtual Moodle. a partir de conversas com leitores de seu círculo de amizades.

para que eles compreendessem o significado. a produção literária brasileira. de conversação. mas sim ir sutilmente as aceitando e subvertendo. Fiz um primeiro esboço. dei umas mexidas e pronto. mas numa aula também coloquei o próprio Drummond declamando o poema. Alguns alunos faziam um curso bem introdutório.As alunas e os contos: a narrativa curta brasileira. também cantava na ópera e lecionava voz. musicada. para que eles se familiarizassem com a língua. Mas a maioria não conhecia nada da língua. onde professores universitários da área de ciências humanas não conheciam Keynes. uma colega fez um aposto para explicar quem era Keynes. Os alunos riram. que não funcionou tão bem. 187 também as ideias iniciais da instituição e dos colegas sobre o Brasil. fugir do exame desigual . nada mais. em uma conversa sobre a crise econômica. Depois li o poema em inglês. além de dar aulas de línguas. E até tentei uma imitação de carioca. E aí começou a brincadeira: li o poema em português. e eu queria examinar o conto. e acredito que bater de frente com elas não seja a melhor alternativa. claro que explicando que era apenas uma imitação de paulista. obviamente em português. mostrei a um poeta novaiorquino com quem tenho um ótimo diálogo literário e pessoal. José?”. Depois. li o poema imitando o sotaque baiano.. Essas expectativas todas entram na sala de aula. Pois por que não às vezes ser um pouco a brasileira palhaça. estereotipada? Num belo dia resolvi traduzir o poema “E agora. com uma brasileira que morava na cidade e. não estava tirando sarro dela nas aulas com aquela entonação vagarosa. Fiquei me perguntando qual era o Brasil que ela imaginava. Ou qual era o mundo. A professora com quem dividi o curso queria apresentar um panorama geral sobre a cultura brasileira. o que esperavam de mim? Como imaginavam um professor brasileiro? Lembro-me que. de Drummond. Coloquei o poema em nosso site na internet. pois acredito que a partir de nossas realizações é que podemos nos reconhecer como iguais. Uma até confessou que agora se dava conta que seu professor de capoeira falava mesmo daquele jeito..

. Clarice.15. onde quer que tenham ido. JACKSON. BOSI. Family ties. Oxford University. O conto brasileiro contemporâneo. 1994. Miriam. Manuel Antonio de. 2006. Uma nativa de óculos. as vozes de nossos escritores estavam com eles. 1984. trazendo a música. de viver. _____. Mas não sei se afirmo que realmente investigamos a forma. O conto brasileiro talvez tenha sido porta de entrada para uma sensibilidade distinta – e para uma sociabilidade distinta também. Oxford: Oxford University. 2006. os meus próprios contos. O que viram? Com quem conversaram? Como se sentiram? Não sei.188 Revista Brasileira de Literatura Comparada. LISPECTOR. Mas de certo modo eu também apresentei esse panorama geral. 1992. O conto disse para eles que há outras formas de pensar. Consegui dar um curso sobre o conto como forma literária? Isso fica em aberto. Oxford anthology of the Brazilian short story.. ALVARES. Sei que. New Directions Publishing Corporation. Referências ALMEIDA. Memoirs of a militia sergeant. 2004. De certo modo. Mango Publishing. as minhas histórias pessoais e a minha vivência. Uma poética da musicalidade na obra de João Guimarães Rosa. LIMA. São Paulo: Cultrix. 2000. de sentir. o sotaque. eu fui um pouco a nativa. Austin: University of Texas. Alfredo. PESSÔA. Women righting: afroBrazilian women’s short fiction. Foreign legion: stories and chronicles. André Vinicius. K. Dissertação (Mestrado) . de um modo que outra forma talvez não o fizesse. Vieram em maio ao Brasil. para os alunos que fizeram esse curso. David. Rio de Janeiro. O romance sempre seria comparado ao que os alunos já conheciam da literatura inglesa e americana. n. digamos. Maria Helena. 2009 de um povo sobre o outro. Acho que ela serviu de elo entre nós. Muitos alunos disseram se surpreender com a forma sintética e evocativa que nós dominamos tão bem.

2005. Indiana University. 2008.. SADLIER. Rio de Janeiro: Edições de Ouro. The devil to pay in the Backlands. One hundred years after tomorrow: Brazilian women’s fiction in the 20th century. Knopf.. São Paulo: Perspectiva. Entre passos e rastros. Joaquim Ferreira dos. Nelson. Barcelona: Anagrama. ROSA. SANTOS. 1966. Berta. 189 – Universidade Federal do Rio de Janeiro. 2003. Seleção de contos brasileiros. WALDMAN. João Guimarães. 2000. Graciliano. Rio de Janeiro: Objetiva. RAMOS.As alunas e os contos: a narrativa curta brasileira. As cem melhores crônicas brasileiras. . Ricardo. Darlene J. Life as it is. PIGLIA. 1992. RODRIGUES. Host Publications. 1963. Formas breves.

Pareceristas Arnaldo Franco Junior Benito Martines Rodriguez Clarissa Jordão Eurídice Figueiredo Isabel Jasinski Luís Bueno Luiz Carlos Simon Mauricio Mendonça Cardozo Marilene Weinhardt Paulo Soethe Renata Telles Silvana Oliveira Susana Scramin .

em maiúsculas e negrito (sem grifos). 20. A extensão do texto deve ser de. com maiúscula só para as letras iniciais. título e temática escolhida.Nome(s) do(s) autor(es) – à direita da página (sem negrito nem grifo). Devem ser produzidos em MSWord 2007 (ou versão superior). e-mail. desde que a convite da comissão editorial – casos de colaborações de escritores.título – centralizado. seguido da sigla. O nome da instituição deve estar por extenso.org. instituição. telefone (com prefixo). 10 páginas e. no mínimo. Usar asterisco para nota de rodapé. espaço simples. o trabalho deve obedecer  à seguinte sequência: . por exemplo. indicando a instituição à qual está vinculado(a). Todos os trabalhos devem apresentar também Abstract e Keywords. no máximo. poderá ser aceito trabalho de não doutor. Eventualmente. •  O espaço para publicação é exclusivo para pesquisadores  doutores.191 Normas da revista Normas para apresentação de artigos • só serão aceitos trabalhos enviados pela internet para o endereço: revista@abralic. duas linhas abaixo do título. com uma folha de rosto onde constem os dados de identificação do autor: nome. endereço para correspondência (com o CEP).br •  Os artigos podem ser apresentados em português ou em  outro idioma. . •  Após a folha de identificação. .

Keywords – mesmas observações sobre as palavraschave. itálico e maiúsculas. dentro do padrão geral do texto e no espaço a elas destinados pelo autor. seguidas das seguintes informações entre parênteses: sobrenome do autor (só a primeira letra em maiúscula). gráficos etc. itálico e maiúsculas. sem itálico e também seguidas do sobre- . numeradas de acordo com a ordem de aparecimento. Com mais de 3 linhas.Ênfase ou destaque no corpo do texto – negrito. corpo 10. Palavras em língua estrangeira – itálico.tabelas e ilustrações (fotografias. duas linhas abaixo do nome do autor. Corpo 10. com recuo de dois centímetros de margem direita e esquerda.Resumo – a palavra Resumo em corpo 10. desenhos. corpo 12. 2009 . negrito.subtítulos – sem adentramento. . corpo menor (fonte 11). ano de publicação e página(s). quando houver. Corpo de texto 10. .abstract – mesmas observações sobre o Resumo.Palavras-chave – dar um espaço em branco após o resumo e alinhar com as mesmas margens. . seguida de dois pontos. n. Usar espaçamento duplo entre o corpo do texto e subitens. só com a primeira letra em maiúscula.Notas – devem aparecer ao pé da página. . seguida de dois pontos. .texto – em Times New Roman.15. O texto-resumo deverá ser apresentado em itálico. Máximo: 5 palavras-chave. . sem aspas.Parágrafos – usar adentramento 1 (um).citações de até três linhas vêm entre aspas (sem itálico). . A expressão palavras-chave deverá estar em negrito. sem numeração. O resumo deve ter no mínimo 3 linhas e no máximo 10. Espaçamento simples entre linhas e parágrafos. ilustrações e tabelas.) – devem vir prontas para serem impressas.192 Revista Brasileira de Literatura Comparada. . em negrito. vêm com recuo de 4 cm na margem esquerda. . .

não há qualquer reivindicação de possíveis influências ou contágio.As citações em língua estrangeira devem vir em itálico e traduzidas em nota de rodapé. Somos feitos de palavras.anexos. Campos. ao contrário.] entre as advertências de Haroldo de Campos (1992). devem ser colocados antes das referências.. o único testemunho de nossa realidade. duas linhas antes da primeira entrada. .. ano de publicação e página(s). A palavra é o próprio homem. p.Normas da revista 193 nome do autor (só a primeira letra em maiúscula). Eliot. Recomenda-se que anexos sejam utilizados apenas quando absolutamente necessários. • citação de vários autores Sobre a questão.” (PAZ. ou pelo menos.] conforme Octavio Paz. em maiúsculas e negrito. Quando constituírem textos já publicados. 1969) • citação de várias obras do mesmo autor As construções metafóricas da linguagem. Elas são nossa única realidade. “As fronteiras entre objeto e sujeito mostram-se particularmente indecisas. evidenciando um confronto entre o sagrado e o profano. as indefinições. 1991. devem incluir referência completa..Referências – devem ser apenas aquelas referentes aos textos citados no trabalho. 1998. sem adentramento. 1982. negrito. caso existam. foi antes a poesia concreta que assumiu as conseqüências de certas linhas da poética drummoniana. pode-se recorrer a vários poetas. Borges. teóricos e críticos da literatura (Pound.. o enfoque das personagens . Valéry. 37) • citação indireta [. bem como permissão dos editores para publicação. precedidos da palavra ANEXO. a presença da ironia e da sátira. 1991. A palavra REFERÊNCIAS deve estar em maiúsculas. alguns exemplos de citações • citação direta com três linhas ou menos [. sem adentramento e sem numeração. 1977. .

1999. p. Z. Universidade de São Paulo. Perspectivas comparadas trans-americanas. 22. Claudia Pastore.122-33.). 2009 em diálogo dúbio entre seus papéis principais e secundários são todos componentes de um caleidoscópio que põe em destaque o valor estético da obra de Saramago (1980. concebendo que todo o homem tem potência de rir [. Zilá. n. V.15. Letras e Ciências Humanas. In: JOBIM.. • capítulo de livro BERND. Vira e mexe. 1759. Relações entre ficção e história: uma breve revisão teórica.] (FREIRE. 1988. Itinerários. o planetário.57. 2006. o regional. • dissertação e tese PARMAGNANI. O erotismo na produção poética de Paula Tavares e Olga Savary. n. o internacional. p. .194 Revista Brasileira de Literatura Comparada. 1991.] o nosso entendimento que a fantasia aprendera e formara em si muitas imagens de homens. de tantas imagens particulares que recolhera a apreensiva inferior [fantasia]. (Org. Paradoxos do nacionalismo literário.. São Paulo: Companhia das Letras. José Luís et al.. [. tira ele e forma uma imagem que antes não havia. Tese (Doutorado) – Faculdade de Filosofia. 2004. 148) alguns exemplos de referências • livro PERRONE-MOISÉS. Araraquara. Niterói: EdUFF. Leyla. Lugares dos discursos literários e culturais – o local. 37. nacionalismo. o nacional. 2004. 87 apud TEIXEIRA. 1992) • citação de citação e citação com mais de três linhas Para servir de fundamento ao que se afirma. 2007. p. que faz? Ajunta-as e. São Paulo. p. M. veja-se um trecho do capítulo XV da Arte Poética de Freire: Vê.. • artigo de periódico GOBBI.

n. O comum e o disperso: história (e geografia) literária na Itália contemporânea. • Publicação on-line – Internet FINAZZI-AGRÒ. Rio de Janeiro. Belo Horizonte. 8 abr. Anais.. A intermediação da memória: Otto Maria Carpeaux. p. 2008. 10. I.scielo. p. Gramática do louvor. Acesso em: 6 fev./jun. T. 2009. São Paulo. Jornal de Resenhas. • trabalho publicado em anais CARVALHAL. F. .php?pid= S1517106X2008000100005&script=sci_arttext>.Paulo. jan. 2000. 1990. 1. In: II CONGRESSO ABRALIC – Literatura e Memória Cultural. Ettore. Os artigos recusados não serão devolvidos ao(s) autor(es).Normas da revista 195 • artigo de jornal TEIXEIRA. observação final: A desconsideração das normas implica a não aceitação do trabalho. Folha de S.. Alea: Estudos Neolatinos. 85-95. Disponível em: <http://www. 4. v.br/scielo.

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