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Racionalidade Comunicativa: A importância da teoria de Jürgen Habermas para o Relações Públicas

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Racionalidade Comunicativa: A importância da teoria de Jürgen Habermas para o Relações Públicas

Milena Sayuri Martinez Shoji1

Resumo Importante filósofo alemão, Jürgen Habermas colaborou com grandes teorias para a área da comunicação. Trouxe à tona questões como o ato da fala, a pragmática universal e a racionalidade comunicativa, que será o objeto de estudo deste trabalho. Além de trazer características sobre essa teoria, o artigo apresentará uma relação com o profissional de relações públicas, enfatizando a importância dos pensamentos desse filósofo para o dia a dia do comunicador. Palavras-chave: comunicação, racional, Habermas, relações públicas. Abstract Important German philosopher, Jürgen Habermas has collaborated with great theories in the area of communication. Brought up issues such as the act of speech, universal pragmatics and communicative rationality, which is the object of this study. Besides bringing features on this theory, the article will present a relation with the professional of public relations, emphasizing the importance of the thoughts of this philosopher for the everyday of a communicator. Key words: communication, rational, Habermas, public relations.

Introdução

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Graduanda no curso de Comunicação Social, habilitação em Relações Públicas, na UNESPBauru.

2 Atualmente, o mundo encontra-se em um processo de globalização muito intenso, ou seja, as relações comerciais, tecnológicas, culturais e financeiras passarem a ser um fator determinante para a integração entre países. Devido a esse fato, as sociedades e suas culturas realizam trocas a todo momento. E é nesse momento que surge a Aldeia Global, teoria de Marshall McLuhan que traz as novas tecnologias da comunicação e de informação como geradoras de uma nova visão do mundo, e com suas conexões em rede que são capazes de diminuir distâncias, facilitando todo o processo globalização. Neste cenário surge o Relações Públicas, que possui como uma de suas principais atividades, desenvolver todo o processo comunicacional de uma organização, seja ela pública ou privada, tendo como objetivo o sucesso da integração com os stakeholders2 ou com seus próprios funcionários, no caso da comunicação interna. Sendo assim, o profissional de Relações Públicas tem a necessidade de saber quais os passos importantes ele deve seguir para que a sua empresa concretize a meta de atingir o maior público possível. Para que todo esse processo realmente traga resultados positivos, é necessário que se explore cada ponto abordado por Jürgen Habermas, em sua teoria comunicativa. Sendo um dos filósofos alemães mais importantes do século XX, seus ideais sobre comunicação abordam questões como membros de uma sociedade se relacionam com outra, e como isso pode gerar desentendimentos e entendimentos. Apesar de todos os fatores citados pelo filósofo apresentarem extrema importância, neste artigo será abordado o tema “racionalidade comunicativa”, um ramo da teoria habermasiana que pode auxiliar a ação de um relações públicas. A História

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Stakeholders: qualquer pessoa ou organização que tenha interesse, ou seja afetado,

pelas ações da organização em questão

3 Jürgen Habermas nasceu em Dusseldorf, em 18 de junho de 1929. Filósofo, sociólogo, jornalista e professor universitário, e continua sendo um dos maiores pensadores da atualidade. Licenciou-se em 1954, na Universidade de Bonn, na Alemanha. Tem em sua história passagem pelo Instituto de Pesquisa Social de Frankfurt, onde esteve como assistente de Theodor Adorno. Habermas é considerado o herdeiro dos seus mestres, por vários aspectos, como valorização da opinião pública e da razão. Habermas viu a necessidade de se refletir sobre a ação comunicativa, e redigiu vários textos sobre o assunto, dentre eles, um dos mais recentes traz a teoria da racionalidade comunicativa como tema: “Alguns Esclarecimentos Suplementares sobre o Conceito de Racionalidade Comunicativa” (1996). Com a evolução dos meios de comunicação, as novas mídias sociais, e todos esses novos desafios que são colocados na frente do relações públicas todos os dias, manter a credibilidade do seu trabalho e a garantia de um bom resultado vai muito além de conhecimento cibernético ou boa oratória. Para que o profissional realmente obtenha êxito no que faz ele precisa ser racional. Porém, a racionalidade vai muito além do conceito do dicionário Aurélio, por exemplo, que aborda o assunto como “caráter do que é racional: a racionalidade de um fato científico. Conformidade Jürgen com a razão.” trata o Quando assunto se trata com de mais racionalidade, Habermas

aprofundamento e, justamente por relacionar com a comunicação, esse assunto é tão importante para um relações públicas.

Apresentando a teoria de Habermas

Primeiramente, a teoria proposta pelo filósofo traz uma tentativa de englobar todas as manifestações do sujeito, racionais, e que ajam diretamente sobre o mundo nas mais variadas formas, ou nas expressões simbólicas que relacionam essas ações com o mundo. Para Habermas, todas as ações

4 poderiam ser consideradas racionais desde que fornecessem razões e fundamentos, ou seja, fossem suscetíveis a criticismo, prezando assim pelo conhecimento e partindo deste para qualquer questionamento filosófico. Antes de Habermas, a racionalidade era considerada apenas no aspecto cognitivoinstrumental das ações humanas; então, Habermas com o seu conceito trouxe uma nova visão, levando em conta outras formas de expressão do sujeito falante e agente, que não são somente guiadas por eficácia ou verdade. Dessa forma, só se pode perceber a diferença entre as duas formas de racionalidade quando o sujeito se apega ao aspecto descritivo do conhecimento, deixando de lado uma interpretação mais profunda que revele maior ou menor racionalidade das ações ou expressões, desde que apresentem justificativas.

“Aquilo que propõe contra a racionalidade discursiva não é apenas uma racionalidade (genericamente atribuída) da pessoa, identificável com a ajuda de expressões correspondentes, mas sim o ‘caráter reflexivo’ destas. É que, como é óbvio, aquilo que sabemos, fazemos e dizemos apenas será racional se estivermos pelo menos implicitamente cientes do porquê de as nossas crenças serem verdadeiras, as nossas acções certas e as nossas expressões lingüísticas válidas (...)” (HABERMAS, Jürgen. 1996, p. 184)

Para Habermas, o predicado ‘racional’ pode ser utilizado para descrever pessoas que têm um conhecimento que, mesmo com a possibilidade de falha, usam expressões válidas para a defesa contra críticas, em situações difíceis. Também pode ser utilizado para expressões simbólicas que dêem sentido ao conhecimento, por exemplo. A racionalidade de uma expressão é dada em função das relações entre o conteúdo semântico, a sua validade e as razões para a validade das afirmações ou eficácia das ações. Em sua obra “Racionalidade e Comunicação” (1996), Habermas cita a importância da auto-relação, ou seja, a relação da primeira pessoa com si mesma. Essa relação seria feita pelo sujeito, aquele que fala, atua e tem consciência de tudo isso. Para prosseguir o pensamento, o filósofo cita

5 Schnadelbach e seu o conceito de ‘relação refletida’, ou seja, todos os que são capazes de se enquadrar na primeira pessoa – seja no singular ou plural – e dizer o que são ou o que fazem, são racionais, e ainda expõe suas idéias dizendo que a própria atitude reflexiva depende dos outros participantes da conversa, da argumentação, quando se relacionam com a validade das nossas expressões. Sendo assim, conclui, utilizando um trecho de outro livro de sua própria autoria, que “A própria reflexão deve-se a uma relação dialógica prévia e não paira no vácuo de uma interioridade constituída isenta da comunicação” (HABERMAS, Jürgen. 1990, p. 204). O filósofo ainda prossegue:

“O trabalho de desconstrução, por mais entusiasta que seja, só pode ter consequências definíveis quando o paradigma da consciência de si, da auto-referencia de um sujeito que conhece e age isoladamente é substituído por outro, pelo paradigma da intercompreensão, isto é, da relação intersubjetiva dos indivíduos, que socializados através da comunicação, se reconhecem mutuamente.” (HABERMAS, Jürgen, 1990, p.288)

Para continuar o pensamento, o filósofo resume o termo “racional” como ações, expressões linguísticas e crenças, já que nas estruturas teológica, do conhecimento e comunicativa, sempre encontramos variadas raízes de racionalidade, apesar de estas não possuírem raízes comuns, e que a estrutura do discurso estabelece uma relação entre as estruturas da racionalidade – teológica, da ação e do discurso – sendo elas uma união das raízes proposicional, comunicativa e teológica. Então, a racionalidade comunicativa em si tem um papel fundamental na integração dessas estruturas nucleares, e devido a essa relação, podemos concluir que a teoria de Habermas está presente no cotidiano de todos, e muito mais ainda do profissional de relações públicas. Racionalidade Comunicativa e sua explicação

6 O filósofo apresenta várias raízes da racionalidade: racionalidade discursiva e reflexão, racionalidade epistemológica, racionalidade teleológica e racionalidade comunicativa. Daremos destaque a última, já que é o objeto de trabalho. A racionalidade comunicativa não faz parte da comunicação, pois chega a quase ser a comunicação como um todo. Ela garante que todos possam de fato de comunicar, ou seja, ela unifica o discurso para que haja entendimento dos dois lados, tanto do falante como do ouvinte. Dessa forma, ambos os participantes do ato da comunicação podem se referir a mesma sentença, ao mesmo assunto, e olhar para a mesma direção. Ou seja, a racionalidade comunicativa não está presente na linguagem, e sim na forma como utilizamos as expressões lingüísticas, seja para mostrar as intenções do falante ou para falar sobre os fatos, de forma de garanta um entendimento do sujeito, tanto o ativo (falante) como o passivo (ouvinte), e estabelecendo ligações. Podemos então dividir a ação comunicativa em um sujeito agente, o ouvinte e sobre o que se fala. O último fator (sobre o que se fala) é exposto por expressões lingüísticas divididas então em outros três significados: o que se quer dizer, o que é dito e como é dito. A união de todos esses fatores visa o objetivo ilocutório, ou seja, visa uma comunicação bem sucedida, na qual o ouvinte compreende a fala e, se for possível, aceita. Sobre os elementos da fala, Habermas explana:

“Os atos elementares de fala apresentam uma estrutura na qual se combinam três elementos: a componente proposicional para a representação (ou menção) de estados de coisas, a componente elocutória para a admissão de relações interpessoais e, finalmente, as componentes lingüísticas que experimentam a intenção de quem fala.” (HABERMAS, Jürgen, 1990, p.289)

A racionalidade então é medida pelo sucesso da comunicação, ou seja, pela garantia de que o ouvinte realmente captou a mensagem transmitida pelo

7 emissor, lembrando que comunicação também não se limita ao ato da fala, e sim outro e qualquer meio que garanta um entendimento de ambas as partes. Quando se trata do objetivo ilocutório, é importante ressaltar três fatores: ele não pode ser definido, independente do meio; o falante não pode considerar o seu objetivo algo causal, já que a reação do ouvinte também será racional, e pode ser negativa; e por fim, ambos os participantes da comunicação, falante e ouvinte, devem ter consciência de que participam como primeira e segunda pessoa, e não como adversários, oponentes. É importante lembrar também que eles não estão isolados, ou seja, qualquer fator do ambiente onde se encontram pode causar interferência na comunicação, ou gerar qualquer tipo de influencia. A intenção do falante sempre será que o ouvinte entenda e aceite como válido aquilo que se diz, mesmo que seja preciso explanação sobre as razões do sujeito. Dessa forma, Habermas completa que podemos dividir o ato da comunicação em três partes: as condições que fazem com que o ato da fala seja válido, o falante se mostrar satisfeito por essas condições realmente contribuírem e uma garantia do falante de que, se for preciso, ele poderá explanar sobre a validade de sua fala. O filósofo, no livro “Racionalidade e Comunicação”, mantém sua linha de raciocínio abordando sobre as modalidades de utilização da linguagem: a utilização comunicativa da linguagem (visa a comunicação) e a não comunicativa (reflexão), a utilização da linguagem orientada para a concordância (participantes apenas aceitam a validade do assunto) e a orientada para o entendimento (um participante vê as razões do outro). Sobre a racionalidade comunicativa, Habermas diz:

“Essa racionalidade comunicativa exprime-se na força unificadora da fala orientada ao entendimento mútuo, discurso que assegura aos falantes envolvidos um mundo da vida intersubjetivamente partilhado e, ao mesmo tempo, o horizonte no interior do qual todos

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podem se referir a um único e mesmo mundo objetivo. (HABERMAS, Jürgen, 2004, p.107)

Habermas e o profissional de Relações Públicas Unindo toda essa teoria de Jürgen Habermas, podemos perceber o quão necessário é compreender sobre racionalidade comunicativa quando se está para ingressar, ou já se faz parte, no ramo de relações públicas. Para que seja possível esclarecer nossas convicções e nossas crenças, e provar o fundamento dessas, mostrando-se assim um sujeito racional, é necessário que se haja um ponto primordial para o relações públicas: a comunicação. O profissional de relações públicas deve ter uma base muito rígida para argumentar, questionar, e manter os seus objetivos em foco, sempre deixando clara a racionalidade de suas sentenças. Para que isso seja possível, ele deve também utilizar da comunicação para construir e expor suas teorias, analisálas, organizá-las, e assim, fundamentá-las. Quando Habermas une-se a Pierce, e complementa a racionalidade comunicativa com o pragmatismo, mostrando que para que todo esse ideal realmente seja concretizado, ele alerta que devemos também agir visando o sucesso, ou seja, colocar em aplicações práticas e aprender até com o que não obtiver sucesso. Porém, não são todos que concordam com isso. Conclusão Vera Haas, graduada em Comunicação Social pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) e em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), onde também realizou seu mestrado e atualmente atua como professora da primeira (Unisinos), não acredita que a teoria de Habermas possa auxiliar muito um profissional de relações públicas. De acordo com o relatório do III ABRAPCORP do ano de 2009, de Zilda Aparecida Freitas de Andrade, docente e pesquisadora do curso de Relações Públicas da UEL e doutoranda do Programa de Doutorado em Comunicação na ECA/USP, Haas diz que, apesar de muitos adotarem a teoria de Jürgen Habermas adequada para o cotidiano de um profissional de relações públicas, ela considera que a

9 teoria só é válida para sociedades homogêneas, não englobando as heterogêneas, já que ele não considera as diferenças individuais entre os participantes. Vera Haas acredita sim que a teoria possa contribuir na prática de um relações públicas, mas por possuir essa deficiência, por não abranger uma sociedade heterogênea, a teoria fica um pouco inviável. Para que seja possível chegar a uma conclusão sobre a viabilidade ou não da teoria de Jürgen Habermas é preciso colocá-la em prática, e observar seus resultados. Trata-se de uma teoria complexa e extensa, porém extremamente racional.

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Referências: HABERMAS, J. Racionalidade e Comunicação. Biblioteca de Filosofia Contemporânea, Lisboa, Portugal, 1996. ARAGÃO, Lucia Maria de C. Razão comunicativa e teoria social crítica em Jürgen Habermas. Tempo Brasileiro, Rio de Janeiro, 1992. HABERMAS, J. Consciência moral e agir comunicativo. 1929. Dicionário Aurélio Online (http://www.dicionariodoaurelio.com/). Acesso em 10/11/2010, às 21h40. Mauro. Racionalidade Comunicativa na Filosofia de Jürgen Habermas. (http://pensamentoextemporaneo.wordpress.com/2009/06/27/racionalidadecomunicativa-na-filosofia-de-jurgen-habermas/). Acesso em 10/11/2010, às 22h00. WOLFART, G. Uma originalidade que vem da especificidade. (http://www.ihuonline.unisinos.br/index.php? option=com_content&view=article&id=2852&secao=310). Acesso em 11/11/2010, às 23h30. ANDRADE, Zilda Aparecida F. Relações Públicas: construindo relacioname ntos éticos nas organizações. (http://www.abrapcorp.org.br/anais2009/pdf/GT 1_Zilda.pdf). Acesso em 12/11/2010, às 16h30.

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