susana fuentes

luzia

a pergunta no ar
É o que sua mãe diria, mas não adianta, Luzia, você tem que aprender por si mesma. Talvez não se dê tanta importância a ponto de se sentir amada por alguém. De vez em quando faz que desiste do amor e se liberta. Aí prefere o cuidado com um pensamento, uma ideia. Sente-se capaz de roubar o fogo dos deuses. Como tantos, celebrar as musas e com elas gerar outras humanidades. Para em seguida sofrer todo o amor pelas criaturas, este amor que é puro espanto: ver a pedra, a folha, o galho pela primeira vez, é criar o mundo, a rosa, a roda, o trovão. Atirar raios lá de cima. De qualquer modo, agora iria dar a volta por cima. Só dependia de si mesma, haveria de tomar pé na vida, a sua vida, afinal. Finalmente se desprendia daquilo de que não queria abrir mão – o orgulho. Depois daquela noite com Joaquim Marino estava extinta a raiva. Acabou. E vinha também o perdão, a humildade de não querer acertar sempre. De não ser do jeito perfeito. Uma noite com alguém, foi uma aposta no destino, Joaquim Marino, uma noite apenas.

da ilha de maraberto
Debaixo do travesseiro, o cartão azul de neve: reflexos do fogo atravessam a janela e borram o azul do velho cartão de Natal. Luzia imagina-se dentro daquela casa, à lareira, no aconchego da casa. De novo toma o caderno, tira agora outro cartão postal. Trazia da Ilha de Maraberto um novo desenho, um novo azul, para colocar debaixo do travesseiro. Esperanza. Na pequena cidade, a casa amarela em frente ao mar azul. Poderia morar ali também, sua nova casa dos sonhos. Em Esperanza, junto ao mar. “Para se lembrar, sempre”. No cartão novo, a água picotada de barquinhos, o azul com pontos brancos. No bilhete improvisado, a letra pequenina assinava: Joaquim... Luzia apanha o envelope 27

e ri: Joaquim Marino, seu diretor do filme em Maraberto. Lê, ri, apoia a gravura na barriga. Fecha os olhos e vê: o azul da neve, depois que abre um livro e leu sobre a neve. De novo, Luzia abre e fecha os olhos e vê: o azul do mar, depois que abre outro livro e leu sobre o mar. Chegar de viagem é assim. A nova paisagem acolhe os rastros de onde você veio, confabula com a paisagem da partida. Luzia olha para a gravura e entra na mesma paisagem duas vezes. A cada vez, parte de outro lugar. De um lado, a infância triste, esquecida. E de outro, a coragem nascida nos palcos, de tomar a vida pelas mãos e inventar-se gente. Para ter coragem de viver Luzia fez três coisas: leu, escreveu, atuou. É assim que anda a enganar a vida: arrisca uma coisa e outra no palco e no papel.

montanha e mar
No Rio, até então sua cidade era de montanhas. Mas no Rio da volta de Maraberto, já começava a ver o mar. Encostou na parede o cartão da neve, sobre a escrivaninha. Nele, o fogo na janela da casa riscava a colina azul. Aquela visão tinha sido por tanto tempo seu refúgio. Mas agora com o cartão da ilha era assim também. Na escrivaninha, dois cartões, dois artistas, dois desenhos. Um mestre palhaço havia dito: “se você não cabe no mundo, invente um mundo no qual você caiba”. Luzia pensa nisso, com o mar diante de si. Levanta-se da cama, vai até a moldura à espera de um novo cartão, retira o vidro e encaixa o cartão no centro do passe-partout. Em seguida, encosta o quadro na parede. A colina azul e o amarelo-fogo ainda iluminam o interior da casa, mas Luzia guarda esse desenho de volta em seu caderno, janela de seus dois mundos. O mundo assombrado pela falta de sua irmã, Dora. Também o mundo assombrado ora pelo desejo, ora pelo medo de viver.

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