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Com base em seus estudos e em experincias pessoais, trs especialistas de formaes distintas relatam suas descobertas sobre essa

convivncia to estreita. Com base em seus estudos e em experincias pessoais, trs especialistas de formaes distintas relatam suas descobertas sobre essa convivncia to estreita. Yeda Pessoa de Castro Etnolingista e consultora tcnica de Lnguas Africanas do Museu da Lngua Portuguesa Falamos bantu sem saber Ainda hoje, os estudos lingsticos privilegiam o iorub. O que um equvoco, pois 75% dos africanos trazidos pra c eram bantu-falantes, oriundos de territrios situados atualmente nos dois Congos e em Angola. Em meados do sculo XVII, o contingente bantu era de tal ordem em Salvador que um padre, Pedro Dias, resolveu escrever uma gramtica para facilitar a catequese dos africanos. Vrias palavras bantu substituram as de sentido equivalente em portugus, como xingar por insultar, cochilar por dormitar, bunda por ndegas e cachaa por aguardente. Os sistemas lingsticos do bantu e do portugus arcaico so muito prximos, o que teria permitido uma aglutinao, uma mistura muito bem resolvida. E a mulher africana quem est na base de todo este entrosamento cultural, como uma espcie de porta-voz entre a casa-grande e a senzala. Ela participa da vida cotidiana do colonizador, servindolhe de mucama e de bab. Com ela os meninos brancos aprendem a falar. Assim africanizamos o portugus de Cames, numa verdadeira antropofagia lingstica. Por isso, no Brasil, onde est a maior populao de ascendncia negra fora da frica, no existe um crioulo como segunda lngua, ou mesmo como lngua nacional. Em Angola e Moambique tambm no, e pelo mesmo motivo. J em Guin, outra colnia portuguesa, diferente: l no se falava bantu, e o encontro com a lngua portuguesa foi mais conflituoso. Resultado: hoje falamos bantu sem saber. Caxumba, marimbondo, senzala, maconha, dengo, samba, quilombo, mucama...