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47910924 MOTA Carlos Guilherme Org Viagem a

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rios Guilherme Mota organizadc

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Formação: histórias

XPERIENCIA BRASILEIRA
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Os 500 Anos de Brasil são os inspiradores de Viagem incompleta. A experiência brasileira (1500-2000), coletânea de ensaios produzidos por mestres da nossa historiografia que, iluminando momentos do passado, lançam luz sobre o presente. Seu coordenador, o historiador Carlos Guilherme Mota, autor de importantes trabalhos individuais, foi o responsável por duas marcantes obras coletivas, Brasil em perspectiva (1968) e 1822: dimensões (1972). Neste primeiro volume, Viagem incompleta. Formação: histórias, ao qual se seguirá Viagem incompleta. A grande transação, os temas tratados vão da pré-história da América tropical à passagem da monarquia para a república. A Editora SENAC São Paulo e o SESC São Paulo, ao apresentar estas reflexões, estão certos de contribuir para os debates sobre os fundamentos de nossa cidadania e identidade cultural.
ISBN 85-7359-110-2

Co-edição:

S A O

P A U L O

V I A G E M INCOMPLETA
Carlos Guilherme Mota

Formação: htetórias
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Viagem incompleta. A experiência brasileira (1500-2000). Formação: histórias / Carlos Guilherme Mota (organizador). - São Paulo : Editora SENAC São Paulo, 2000. Vários autores. Bibliografia. "«^JSBN 85-7359-110-2 1. Brasil - Civilização 2. Brasil - História - 1500-2000 3. Cultura - Brasil 4. Raças - Brasil I. Mota, Carlos Guilherme, 1941. 99-5473 índices para catálogo sistemático: 1. 2. 3. 4. Brasil : Civilização Brasil : Cultura : Civilização : História Brasil: Formação histórica Brasil : História: 1500-2000 981 981 981 981 Go-edição: CDD-981

A EXPERIÊNCIA BRASILEIRA
senac

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SÃO PAULO

S Ã O

P A U L O

(jjr@sp. 127 Por que o Brasilfoidiferente? 0 contexto da independência Kenneth Maxwell. 45 Uma Nova Lusitânia Evaldo Cabral de Mello. Alexandre (ialexand@sp.senac. 197 Todos os direitos desta edição reservados à Editora SENAC São Paulo Rua Teixeira da Silva. 1999 "Nos achamos em campo a tratar da liberdade": a resistência negra no Brasil oitocentista João José Reis. Alves (vinicius@sp. Pimenta.senac. 531 . B.br Home page: http://www. 265 . Quartim de Moraes (quartim@sp.sp. da Nóbrega Pesquisa Iconográfico: Emporium Brasilis Memória e Produção Cultural Edição de Imagens e Legendas: Carlos Guilherme Mota e Vladimir Sacchetta Reproduções Fotográficas e Laboratório: Rangel Estúdio Capa: João Baptista da Costa Aguiar Editoração Eletrônica: Antônio Carlos De Ângelo Impressão e Acabamento: Hamburg Donnelley Gráfica Editora Gerência Comercial: Marcus Vinicius B. Pensando o Brasil: a construção de um povo Stuart B. i Nota do Co-Editor.br) Vendas: José Carlos de Souza Jr. 11 Incursões à pré-história da América tropical AzizNacibAb' Saber.ADMINISTRAÇÃO REGIONAL DO SENAC NO ESTADO DE SÃO PAULO Presidente do Conselho Regional: Abram Szajman Diretor do Departamento Regional: Luiz Francisco de Assis Salgado Superintendente de Operações: Darcio Sayad Maia EDITORA SENAC SÃO PAULO Conselho Editorial: Luiz Francisco de Assis Salgado Clairton Martins Décio Zanirato Júnior Darcio Sayad Maia A. 29 A gênese do Brasil Jorge Couto. 177 Idéias de Brasil: formação e problemas (1817-1850) Carlos Guilherme Mota.CEP 04002-032 Caixa Postal 3595 . Schwartz. Monteiro Márcio Delia Rosa Maristela S.senac.br) Administração: Márcio Tibiriçá (marcio. Groenitz Izilda de O.br) Coordenação de Produção Editorial: Antônio Roberto Bertelli (abertell@sp.br) Preparação de Texto: Luiza Elena Luchini Luiz Carlos Cardoso Revisão de Texto: Ivone P. 241 Olhares estrangeiros sobre o Brasil do século XIX Karen Macknow Lisboa. P.senac. P.São Paulo .CEP 01060-970 .senac. Quartim de Moraes Editor: A. (11) 884-8122 / 884-6575 / 889-9294 Fax(11)887-2136 E-mail: eds@sp.SP Tels. M. 103 Peças de um mosaico (ou apontamentos para o estudo da emergência da identidade nacional brasileira) István Jancsó e João Paulo G.senac. 9 Introdução Carlos Guilherme Mota. 71 "Gente da terra braziliense da nasção".tibirica@sp.senac.senac.br © Carlos Guilherme Mota.br) Sumário Nota do Editor. Pereira J.br) Coordenação de Prospecção Editorial: Isabel M.

foi o primeiro deles. aqui coordenados pelo saber de Carlos Guilherme Mota. a que se seguirá Viagem incompleta. 3 6 i . Este Viagem incompleta. Mas tem a admirável completude de uma série de estudos que honram seu grande tema: o Brasil. Formação: histórias. como este que se apresenta em dois volumes. coletânea de resenhas de livros fundamentais do país. a Editora SEN AC São Paulo já lançou três livros sobre o tema e prepara-se para outros mais. 329 Sobre os autores. A viagem é incompleta pelos motivos que o organizador do livro expõe adiante. É como se um olhar abrangente partisse de uma posição privilegiada. uma análise da "alma brasileira" pelo psicanalista Roberto Gambini em diálogo com a jornalista Lucy Dias.I O Brasil no espelho do Paraguai I Francisco Alambert. seguida por Outros 500. Estes 500 Anos de Brasil são inspiradores também porque encontram a inteligência do país em plenas condições para um balanço da trajetória. 301 Nota do Editor \ J r a n d e virtude dos aniversários "redondos" de eventos históricos é que eles convidam à reflexão sobre o período entre os dois pontos-limite. Por acreditar nisso. vale também como Introdução ao Brasil conduzida com competência por mestres da historiografia brasileira. organizada por Lourenço Dantas Mota. escrita por Paulo Markun. Um Brasil mestiço: raça e cultura na passagem da monarquia ò república I Roberto Ventura. A biografia da heroína brasileira Anita Garibaldi. e por Introdução ao Brasil . em um trabalho que é prova da maturidade alcançada pelos estudos históricos em nosso país. A grande transação.um banquete no trópico. num único lance distinguindo melhor alguns aspectos sem deixar de abarcar com segurança o conjunto.

relacionadas com nossa própria formação social. é uma condição permanente de todos aqueles que. construíram a organização social. Em segundo lugar. mas o recurso a modelos de interpretação que nascem das necessidades e formulações do presente. que serão de grande valia para a reflexão sobre a constituição de uma cidadania e identidade cultural. Em primeiro lugar. o olhar histórico é. O SESC . os 180 anos desde a fundação de um Estado Brasileiro. cumpre dois objetivos ao assumir a co-edição desta publicação. propõe-se contribuir para o debate das grandes questões que estão na origem da formação da nacionalidade brasileira. mais que uma tarefa. necessitam entender as raízes de nossas mazelas e virtudes. antes de tudo. com a sua capacidade de criação. num enfoque interdisciplinar. suas crenças e sua inserção no contexto internacional globalizado. para qualificar sua ação cotidiana. cuja reflexão se constitui em fundamento para a cidadania. Assim. na busca de uma pedagogia que estabeleça parâmetros para uma educação social e permanente. num processo contínuo de encontro da sociedade consigo mesma e. cuja missão é oferecer oportunidades de desenvolvimento pessoal e comunitário por meio do lazer sociocultural a seu público específico e à população em geral. seus costumes sociais.Serviço Social do Comércio. já que não se trata de um olhar objetivo sobre um passado encerrado. política e cultural com que lidamos a toda hora. propõe-se contribuir para o aperfeiçoamento dos modelos institucionais de ação cultural. A compreensão das condições atuais de nossa existência como sistema social será sempre um processo inacabado. Os 500 anos de Brasil e. Este primeiro volume apresenta uma visão renovada da história. políticos e econômicos. na verdade. segundo o organizador Carlos Guilherme Mota. portanto. um olhar para o presente e para a necessidade de se buscarem explicações para os fatos que conduzem ou condicionam nossas ações. mais precisamente.Nota do Co-Editor x V reflexão sobre nossa formação histórica. novas idéias de Brasil. Danilo Santos de Miranda Diretor Regional do SESC em São Paulo .

José Bonifácio OI RIPTI* v - i ^ -i v ^ . mas por isso mesmo perigoso. e abastardar os corações. por tirar todo nervo aos espíritos.Btf • /*r#f Introdução nt kCarlos Guilherme Mota 0 despotismo de certo país que conheço é açucarado e mole.

trata da gênese e consolidação de idéias de Brasil. de orientações intelectuais distintas. se constatarmos que muito . Antônio Carlos Jobim. A obra. "Espanha". concluiu: "No Brasil.como a triste "Bahia". De nossos modos de pensar e fazer história. planejada em dois volumes. ao comentar o encerramento de um longo ciclo histórico-cultural iniciado com a Semana de 22. até a articulação . o futuro já era". perquirem-se nestas páginas alguns significados de nossa formação e existência enquanto povo. num distante ano de 1986. reconstroem processos e aspectos menos óbvios do passado. vasto campo interdisciplinar. eis a temática geral da obra que o leitor tem sob seus olhos. o tom dominante dos escritos. Os dois volumes. obedecem a um plano geral.quase tudo. Idéias de "Brasil".ainda resta por fazer na Terra brasilis. de indagar. Trata-se. sob o título geral de "Formação: histórias". um de seus poetas-cantores. ao longo dos estudos e ensaios elaborados por especialistas convidados. porém particularmente incompleto. ao mesmo tempo que discutem com as historiografias clássica e contemporânea. O primeiro volume. primeiras viagens e projetos de uma "Nova Lusitânia" nos trópicos. Procurando escapar dos modismos da pós-modernidade periférica e do convencionalismo. Um longo processo. desde os pródromos. Terra sobre a qual. sobretudo no que se refere aos direitos e deveres da cidadania. exercitando a indagação interdisciplinar.quão dessemelhante . em que os autores. Daí. conforme a perspectiva . abarca cinco séculos daquilo que se poderia denominar "experiência brasileira". independentes.I -Ldéias de Brasil. aqui. enfim. Ou . inacabado como tudo em história. como "China". "Amazonas". dos sentidos da história do processo civilizador no Brasil.

de urbanização e de inserção na ordem internacional. nos quadros do neocolonialismo. o travo de nossa mal-ajambrada e improvável civilização que. Richard Graham. independência política e conflitos agudos. política e cultural. Richard Morse.três autores já consagrados que veriam suas biografias intelectuais intensificadas e politizadas no último quartel do século XX . o período da descolonização e a formação de um "Brasil mestiço". Warren Dean. passando pelos projetos da ditadura civil-militar que nos avassalou no período de 1964 a 1984. Os estudos aqui reunidos foram elaborados no apagar de luzes do século XX. retoma-se aqui a experiência de Brasil em perspectiva. John Wirth. Agora. para mencionarmos alguns intelectuais e pesquisadores de expressão. bem como de uma moderna organização institucional. Francisco Iglésias. com ênfase nas novas interpretações históricas. E pensando nas tarefas que nos aguardam na elaboração de nossa cidadania nacional e internacional no século XXI. se imagina "tropical". João José Reis. Boxer. O segundo volume é dedicado praticamente ao "longo" século XX. procurou-se evitar persistente visão linear e supostamente evolutiva da chamada história do Brasil. Leslie Bethell. Maria Yedda Linhares. políticos.ou melhor. Século de descobertas e inovações. do jurista e historiador Raymundo Faoro. orientadas no sentido da busca de um novo padrão social. pesquisadores. na teoria e na prática. marcou várias gerações de historiadores. o leitor encontra nestas páginas elementos para uma visão renovada da história . diplomatas. MI Nesta viagem transecular. à falta de melhor qualificação. impasses e resultados do que se poderia denominar pensamento brasileiro. Demais. como Manuel Correia de Andrade. com obras tão estimulantes como as de José Murilo de Carvalho. a continuação e aprofundamento crítico das obras de Florestan Fernandes e de Antônio Cândido . Nele. sugerem uma revitalização e ampliação notável dos estudos históricos entre nós. incorporando as experiências e descobertas de historiadores mais maduros. Desde o "Brasil mestiço" dos intelectuais da Primeira República até os impasses da esquerda nas últimas quatro décadas.14 Carlos Guilherme Mota Introdução 15 de uma ordem colonial escravista. Evaldo Cabral de Mello. fato não despiciendo para historiadores). hoje. de que história/histórias/estórias está-se falando? Numa visão atualizada. a pesquisa histórica adquiriu novos conteúdos. trazem eles indagações agônicas. Não se retrocederá . que. literárias sobre "nossas identidades".dos embates. dúvidas antigas. já no século XIX. sob o título geral "A grande transação". Com efeito. sociológicas. que as obras emblemáticas de Gilberto Freire e Caio Prado Júnior traduziriam exemplarmente. a reedição ampliada de Os donos do poder. alcançando. José Honório Rodrigues. Novais e tantos outros. Uma sociedade em que se misturavam valores da velha ordem estamental-escravista com os novos valores da sociedade de classes emergente. Ernani Silva Bruno. Fernando A. tornaram-se fundamentais em nossa historiografia as produções de Stanley e Bárbara Stein. no mundo contemporâneo? Na entrada de um novo século (e de um novo milênio. com mais de vinte reedições. quase sempre sem sucesso. Estes textos carregam o mal-estar de nosso tempo. na segunda metade do século. jornalistas. Joaquim Barradas de Carvalho. por oferecer abordagens inovadoras da história do Brasil. Até porque a historiografia brasileira se atualizou bastante. a partir dos anos 50. estudantes e leitores em geral. obra coletiva de 1968. Longo processo pontilhado por insurreições. qual o motivo dessa sensação de estranha inatualidade cultural e política que atravessa nossa cultura? Sobre quais bases materiais e éticas construímos nossas auto-imagens coletivas e nossas utopias? Em suma. histórias . durante o qual se consolidou. Como nos inserimos. Thomas Skidmore. entre muitos outros. que se encerra numa profunda crise mundial de valores. Charles R. perguntava num verso conhecido o poeta Carlos Drummond de Andrade. são tratadas as experiências de implantação de idéias republicanas e de conceitos contemporâneos de cultura e de Estado. em busca da especificidade de nossa formação. Nos anos 70. mas também de retrocessos e desencontros culturais. Joseph Love. II "Onde o Brasil?". Impossível deixar de registrar o papel crítico e solidário que desempenharam na resistência à última ditadura. Luís Henrique Dias Tavares. das produções intelectuais. uma sociedade por assim dizer nacional. religiosos e econômicos.. deixando seqüelas estruturais e imensa dívida social. Frédéric Mauro. o objetivo se amplia. Os estudos e ensaios aqui incluídos procuram desvendar essas idéias de Brasil.

ensaios. inclusive para se "re-situar" a trajetória do Brasil nessa nova era histórica. no mesmo passo em que a globalização impõe novos hábitos. com maior nitidez. No período em que se processou a colonização portuguesa. as novas tecnologias revolucionando as comunicações e o renascimento de religiões fundamentalistas abalaram os alicerces das interpretações históricas que definiam e aprisionavam os sentidos mais radicais da vida social.chega ao século XXI ostentando uma série de indicadores sociais. a educação e a habitação . Hipóteses de criação de centros de estudos avançados e de pesquisas históricas voltam a preocupar governantes responsáveis e lideranças universitárias. estudos. Portanto. Ao incorporarmos muitas das novas contribuições dessa historiografia que se consolida com todas as inquietações e impasses de nosso presente nesta obra. torna-se particularmente propício para tais reflexões. Não se trata apenas de lugar-comum dizer-se. lenta. ou muitos mais. vale grifar. Indicativa dessa situação é a coexistência de costumes. neste "longo amanhecer" . de remanescentes oligarquias imperiais e da Primeira República. a unificação européia. tantas são as camadas histórico-culturais socavadas nesse bloco. somente se afirmaria no período da independência. agudizase a consciência da necessidade de reconstrução histórico-cultural de nossas experiências coletivas e identidades.como percebeu Marx para outra época e contexto . valores. social. de crise internacional e nacional. quando se esboça uma historiografia "brasileira". a desagregação da União Soviética. Crise que se esclarece na confluência de duas ordens de acontecimentos.ou o conjunto de experiências coletivas a que generosa e espaçosamente denominamos "Brasil" .que não permitem entendêlo como país moderno. atitudes e paradigmas para se pensar o presente como história e aprofundar-se a crítica da cultura. relacionandose com novas frações de classe já orientadas no sentido da construção de uma moderna sociedade capitalista. O momento atual. econômicos e sobretudo culturais . de eterno recomeço. Em verdade. pensamos ter construído mais uma ponte para o futuro. portanto. numa conflituosa. em menor escala. à discussão de "um" Descobrimento. A história do Brasil propriamente. a atuação de filhos de remanescências coloniais.de "estamentos pretéritos com classes futuras" nessa região de pesada herança colonial. como . em que se revisita a própria idéia de América Latina. A segunda ordem de acontecimentos se refere à produção intelectual em (e sobre) nosso país. na atualidade. Nesse quadro. com a equivocada "História do Brasil Colonial". econômica e cultural contemporânea. ideológica. é surpreendente o florescimento de novas frentes historiográficas que. o Brasil passaria a existir somente após 1817-1831. na perspectiva do organizador. portanto. a dos acontecimentos que sinalizariam o colapso de uma série de mecanismos explicativos da História Contemporânea. de derrapagem permanente. econômica que ainda está por se esclarecer. de "sociedade brasileira". de "fim da história".a expressão é de Celso Furtado . De inatualidade. a que chamamos. diversas idéias de Brasil são procuradas ou revisitadas pelos autores destes estudos. nestes dois volumes. Os desencontros de formações de temporalidades tão distintas tornaram-se dramáticos.16 Carlos Guilherme Mofa Introduçõo „ 17 aqui. Numa região do planeta em que vários passados irresolvidos ainda se fazem presentes. economias. Eis. para simplificar. desde a última ditadura. a queda do Muro de Berlim. Com efeito. as novas experiências da China. política. que enfeixa e mescla interpretações clássicas e inéditas sobre as ambíguas identidades do Brasil após 500 anos de história luso-brasileira e 180 anos de busca de vida independente. imperiais. inquisitoriais. de contrato (ou. Com efeito. No caso de nosso país. provocando a sensação de desmobilização. CD-ROMs e artigos. obviamente não dissociadas. delineando-se então. filipinas. os embates em busca de um projeto para a futura nação. opaco e compacto. mais ou menos. sugerindo as dificuldades de convivência ainda hoje . de uma ordem socialista e mesmo anarcossindicalista). De nossos modos de viver e fazer a história. A primeira. Mas não trabalhamos. documentários. apenas.\"fim das ideologias". O Brasil . que aliás não existe. a "dois Brasis". complicada estruturação política. Nessa perspectiva. instituições e normas que se referem. a resposta ao desafio que nos foi proposto pelos editores.da democracia contemporânea. a hegemonia norte-americana e a globalização obrigam-nos a outra consideração histórico-historiográfica. dando a sensação de "fim de ci- cio". a exemplo do que ocorreu em outros países em conjunturas de crise.incluam-se aqui a saúde. muitas vezes o historiador vê-se obrigado a se transmudar em arqueólogo cultural. patriarcais e outras sugere o quanto resta ainda a se percorrer nesta Viagem incompleta. obrigando os pesquisadores a dar maior atenção aos estudos de história para formular um conceito mais eficiente e efetivo de democracia. vêm revelando inquietude discreta porém malcontida em páginas e páginas de teses. joaninas.

etc). Formação: histórias. Como se constata. "mestiça". já na passagem da monarquia à república. por assim dizer. visto que o colonialismo é um sistema . Nesta terra. relacionado a modos de ser. pensar. nossa "vocação" latino-americanista. ao longo de milênios. palavra com dimensão geográfica. em sindicatos. Procura ele estimular a reflexão do leitor sobre movimentos ancestrais de gentes no espaço no qual viria a se formar o conjunto a que hoje denomina-se "sociedade brasileira". adensado e razoavelmente auto-referido a partir do primeiro quartel do século XIX. sugeriuse aos autores acompanharem desde logo idéias. Nestes estudos. formas de participação social em empresas urbanas e rurais. pinturesca e mitológica. examinam-se algumas idéias mais remotas de Brasil até a consolidação de uma sociedade por assim dizer nacional. relativizam-se aqui. entretanto. ideólogos. István Jancsó e de outros. em busca de insuspeitada e polêmica história. não pode prescindir da discussão renovada sobre nosso passado coletivo. hipóteses e projetos de Brasil. permite supor não ser impossível alcançarmos o objetivo nesta nova e desafiadora empreitada. tornou-se com efeito tema de representações mentais fortíssimas. sugerindo-se a abertura de uma abordagem propriamente geo-histórica e civilizacional. IV No primeiro volume. Abre o volume estudo inquietante do professor Aziz Ab'Saber. Enfrentando a complexidade do tema. polarizam e incandescem de tempos em tempos a sensibilidade de intérpretes. medir a assustadora distância entre o atraso e a modernidade (em várias dimensões. a mais ancestral das disciplinas históricas. nutrido por um déficit histórico estrutural. no Brasil. agir. que o peso do passado colonial ainda está presente nos impedimentos e resistências aos esforços para se constituir a nova sociedade civil democrática. tenta-se por meio do referido estudo rastrear as vicissitudes de grupos que. fabricado. e assim por diante. não . numa três longue durée. possuem experiência reconhecida.onde se torna impossível distinguir "causas" de "efeitos". as questões de espaço/tempo e de formação étnica das sociedades plurais dessas partes do planeta. de Braudel . Preferiu-se adotar a noção de "gênese".18 Carlos Guilherme Mota Introdução * . na justiça do trabalho. como nos dizem reiteradamente os vigilantes professores Eric Hobsbawm. o Haiti poderia ter sido aqui. as estruturas político-administrativas.« nos anos 40-60. "Brasil". se deslocaram para este subcontinente. foram "descobertos" pelos europeus e logo expostos à pedagogia da sujeição. Tais estudiosos. Até porque a geografia humana é.. Nos quadros do neocolonialismo . social. Como ponto de partida comum. Alain Touraine. demora a se afirmar. Específico e. histórica.publicado em 1968 por Paul Monteil e prefaciado pelo saudoso professor João Cruz Costa. incorporando sons. acesso às novas tecnologias. livro coletivo da "génération qui monte" . de fato. Porque. estamos em dívida com a História Contemporânea. dando origem ao chamado gentio.como Frédéric Mauro registrou na revista Annales. diplomatas. Ignacy Sachs. que. aqui. eis a tarefa a que se propõem os pesquisadores. termo a um só tempo vago e concreto. região colonial e neocolonial em que a grande lavoura e suas elites continuavam a requerer braços de escravos negros. isto é. embora muitos personagens teimassem em viver fora de foco. professores. Velha história. teorias e instituições distintas. Sair desse impasse.. certamente. cores e valores a um só tempo carregados e animadores de um imaginário específico. Stanley Stein. na senda dos historiadores Jorge Couto.delinearam-se formas próprias de pensamento. "explicadores do Brasil" em busca de "nossas" raízes. Dilacerados entre formas agudas de provincianismo retrógrado e de cosmopolitismo elitista acendrado. Qual seja a de auxiliar na renovação dos estudos históricos e na compreensão de nosso complexo país. temerosos do haitianismo que poderia incendiar a lavoura e as almas com as fagulhas da revolução de ToussaintLouverture. o que permite esperar-se de seus trabalhos algum efeito duradouro nos estudos históricos entre nós. também não por acaso. Numa visão que a licença poética permite. radicalmente. de "nosso caráter". essa. desde os direitos mínimos de cidadania até educação superior. aos habitantes que. os quadros mentais e culturais aprimorados nos períodos imperial e republicano parecem reforçar o peso conservador e específico dessa história. a história estava no lugar. A já longínqua experiência do Brasil em perspectiva. Tentar desvendar e traduzir em linguagem renovada os mecanismos que geram as múltiplas ambigüidades que confundem em nosso país os espaços público e privado. entre outros. mais que oferecer elementos para o arranque em direção à contemporaneidade. e procurar responder às demandas de nosso tempo. Sem tais discussões e análises torna-se ínvia a construção do futuro. qual "novo objeto" para a velha História das Mentalidades e das representações mentais. com flutuações de época. não nos detivemos no tema das "origens". futuro espaço "brasileiro". escolhidos dentre gerações. juristas e historiadores que comparecem nesta publicação. Ou seja.

frouxamente equacionadas. Tese publicada em 1983 pela Fundação Calouste Gulbenkian em livro apresentado por Fernand Braudel. A corte portuguesa. Francisco Alambert. Companheiro de viagem de Cabral em 1500. até a constituição. mais elaborada e localizada no espaço. ampliava surpreendentemente a discussão sobre o que seria o Brasil. homem ilustrado para quem não era "das menores desgraças o viver em . também no Monte Brasil dos Açores. autor do provocativo Caráter nacional brasileiro. sob a lente da crítica de Roberto Ventura. Note-se que a idéia de Brasil do governante holandês. Estudar a história mas também procurar entender as "maneiras pelas quais os homens percepcionavam a história vivida". como testemunham as obras de religiosos e colonizadores da Nova Lusitânia. permitindo a emergência de outros interesses e visões no Novo Mundo. desde Lima Barreto a Dante Moreira Leite. Esses homens pensadores e de ação. o príncipe Maurício de Nassau.20 Carlos Guilherme Moto Introdução 21 sem resistência e levantes. "Onde o Brasil?". num intenso processo de motivações que Sérgio Buarque de Holanda inventariou em obra clássica. quando segmentos das elites que habitavam estas partes passam a refletir sobre os significados de suas próprias experiências e modos de povoar o continente.. sua biografia ganhou nova dimensão e sentido com a tese do professor Joaquim Barradas de Carvalho. Idéias de "Brasil" deitam suas raízes no universo medieval anglo-saxônico. Naquele século. mais notáveis entretanto seriam a ação e o trabalho escrito do padre Antônio Vieira. "Brasil". Interessa notar. e a razão que move os autores destes estudos e ensaios.". Essa idéia de Brasil. de colonização e descolonização. como o protestante calvinista Jean de Léry. Tema que hoje persiste. História de uma ideologia. de identidade. ao lado do professor Luís dos Santos Vilhena. Lisboa. nessas ambigüidades e tensões mal-resolvidas ("brancos quase negros. atiçaria a vigilância e animaria a mordacidade dos críticos da cultura contemporânea e das ideologias nacionais. merece ser revisitada no dealbar deste novo século. posteriormente. autor de Cultura e opulência do Brasil por suas drogas e minas (1711). da École des Hautes Études. significado e dimensão internacional. e prefaciado por Pierre Chaunu. descurou de sua ação colonial durante a União Ibérica. da Sorbonne. Franceses. de "contrato" (entre aspas).. Em 1970. no período em que a colônia portuguesa esteve sob o domínio habsburgo (1580-1640). das relações de trabalho e da utópica sociedade capitalista. Neste verso-pergunta que ainda ressoa no ar talvez resida o fulcro de nosso projeto coletivo. também ajudariam a delinear o perfil do novo mundo. e holandeses. quando lançou o verso contundente: "Que me quer o Brasil que me persegue?". sob o título À Ia recherche de Ia specificité de Ia renaissance portugaise. de um "Brasil mestiço". dentre os quais incluem-se o príncipe de Nassau e o pintor Frans Post. idéias de Brasil afirmam-se já no século XVQ. mulatos quase brancos"). que a inserção do Novo Mundo na geopolítica e economia da Modernidade provocaria elaborações notáveis. atormentaria no século XVII o poeta Gregório de Matos Guerra na Bahia. adquirindo então concretude no "fino brasil" de Duarte Pacheco Pereira. ao lado de modernos cientistas da natureza e outros observadores. Como se sabe. indicando sua natureza. examinam-se os diversos conceitos de "povo". que viveu exilado entre nós nos anos 60. percorre-se neste primeiro volume desde as primeiras experiências da Nova Lusitânia. No arco do tempo. Karen M. ganhando diminuto espaço em Tordesilhas. autor de Recopilação de notícias soteropolitanas e brasãicas. autor do Esmeraldo de Situ Orbis. István Jancsó e João Paulo Pimenta. Visões do Paraíso foram alimentadas a cada passo. ainda. resistência negra. Schwartz. Dir-se-ia que o Brasil começa a se descobrir Brasil. constitui outra das intenções destes capítulos. revisitada superiormente por Evaldo Cabral de Mello. escrita no fim do século XVIII em Salvador. em contrapartida. nas questões da propriedade. preocupado com a "situação colonial" de nossos povos. No percurso de quatro séculos. representação mental que. de uma obra como a do jesuíta toscano Antonil. em que descreve com rigor a estrutura e funcionamento da açucarocracia. que dariam projeção e sentido ao Brasil nos quadros da Modernidade. Carlos Guilherme Mota. ocupada com os problemas de sua sobrevivência na Europa. o principal estudioso da expansão portuguesa. João José Reis. inaugurando possibilidades outras para a definição de uma sociedade nova no mundo tropical. já no fim do século XIX. personagem renascentista e provável achador (se é que houve um) das terras da América do Sul em 1498. de Kenneth Maxwell. Difícil imaginar a produção. advertia ele: "nesse emaranhado de raízes está o cerne das resistências que hoje [portugueses e brasileiros] temos de vencer se não queremos apenas sobreviver como museus de resolutas eras mas sim afirmarmo-nos pela capacidade de construir um mundo em perpétua mudança. como propôs Vitorino Magalhães Godinho. na interpretação dos escritos críticos de Stuart B.

por meio de uma ação política mais abrangente e cosmopolita: Como o Brasil começava a civilizar-se no século XIX. econômico-administrativa e a organização da sociedade pós-colonial. Idéias de Brasil adquiriram nova dimensão histórica. Todavia. e física. Numa história estrutural prefigurada. cultural. Nas linhas da Ilustração européia.22 Carlos Guilherme Mota Introdução 23 colônias". nessa riquíssima viagem histórica. A "formação das almas". hoje em dia. mas também com oponentes a seu projeto de nação. expresso na defesa da liberdade de comércio. contextos e modas. na limitação do poder absoluto dos reis.passa a ter seu lugar histórico bem localizado no sistema mundial de dependências. homem da Ilustração e fundador da política externa brasileira. De fato. imaginava Bonifácio. do que por rupturas significativas. econômico e político. desde a insurreição de 1817 até a proclamação da república em 1889. mas imitador por ora. Tal foi o caso do Primeiro Reinado (1822-1831). as múltiplas características. do Período Regencial (1831-1840) ou da República Nova (1930-1937).a chamada "Revolução Pernambucana" de 6 de março . alimentando as linhas de força de um ("para dizer assim". todas possuindo forte significado social. a despeito do caráter regional ou mesmo local da maior parte delas. Até porque a tal idéia deformação repontou em diferentes períodos e fases do longo processo de ocupação e usos sociais do espaço que se foi definindo. um dos líderes do 7 de abril de 1831. com pequenos ajustes às novas necessidades. os variados modos de pensar e as contraditórias diretivas histórico-culturais desses diferentes "Brasis" que se foram tornando "Brasil". o conjunto dessas teorias. de pensamento que definiriam as pautas pelas quais se regeriam a vida política. como Cipriano Barata e o padre Diogo Antônio Feijó (ex-deputados às cortes de Lisboa). alcança-se o século XIX com uma idéia mais abrangente e universal do que pudesse vir a ser essa entidade abstrata denominada "Brasil". A identidade nacional passaria.1 O leitor notará que.e a "South America". plasmaram-se algumas matrizes José Bonifácio de Andrada e Silva. aqui como alhures. como "Brasil". contextos e situações. inscreveram-se em movimentos e vagas revolucionárias internacionais. ou o jornalista Evaristo da Veiga. além do impacto da ação antijesuítica severa do marquês de Pombal na colônia. cultural. na abertura de frentes e formas inovadoras de informação e instrução. tanto do ponto de vista geopolítico como lingüístico-cultural. processo mais marcado por continuidades. em casos raros. p. Pensamento. culminando com a Revolução Praieira (1848). geográfica. desenharam uma idéia geral de Brasil mais nítida e. A principal delas foi a da Independência. apropriando-se das outras nações o que convém melhor à sua situação política. e assim por diante. transformaram-se em teorias do Brasil. intensamente problemática. dos planos reacionários da Restauração ou dos projetos dos liberais anglo-saxônicos. pres- v Nessa história ocorreram entretanto algumas poucas rupturas. processo dramaticamente inacabado. . 1998). estadista da independência. a ser tema constante nas pautas revolucionárias. ao mesmo tempo que o reproduziriam indefinidamente. Com ele. social e política com o santista José Bonifácio. ponto de inflexão no século XIX brasileiro. política e social a que por vezes denominamos "nossa formação". Conhecem-se melhor. As lutas pela independência.autor de Conciliação e outras estratégias . embora mais freqüentemente como ideologia.chegaria até a sistematizar em "arquétipos". deve chamar e acolher todos os estrangeiros que lhe podem servir de mestres no ramo da instrução.daria o toque de despertar para uma série de movimentos sociais de porte que sinalizaram o processo de descolonização a que se assistiu na primeira metade do século XIX. a grande insurreição nordestina de 1817 . não por acaso denominada "Revolução" pelo historiador Caio Prado Júnior. Sinalizações e diretivas por vezes até antagônicas que. num figurino que pressupunha a sucessão de elites educadas que dele se alimentavam. organização de Míriam Dolhnikoff (São Paulo: Companhia das Letras. o Brasil . inconfidências e conspirações que marcaram o século XVIII. ou formas de pensamento específicas que um analista agudo como Michel Debrun . na expressão andradina) pensamento brasileiro. "nossa identidade" coletiva se delineava. Projetos para o Brasil. dele se utilizaram às vezes como utopia. Identidade a ser alcançada. para utilizarmos a expressão do historiador José Murilo de Carvalho. requereu a costura metódica do conceito de nacionalidade. privilegiaram-se certos momentos. ao mesmo tempo. Após diversos conflitos. desde então. e economia pública: deve não querer ser original. 173. Ao longo do processo de descolonização. articuladas numa possível história.

depois. no século XX. quase uma contrapartida do realismo mágico da literatura latinoamericana daquela época. que ainda está por fazer. tendências. cientistas políticos. o sociólogo Gilberto Freire (que inventaria um povo mestiço para a nova nação). que seriam objeto de críticas. os educadores-fundadores da Escola Nova centralizariam nos anos 30 uma notável rede de intérpretes do Brasil. Mário. entretanto. também se difundiria nos meios acadêmicos e políticos.de. Neste mesmo passo. as idéias fortes de Oliveira Viana marcariam o debate na primeira metade do século XX. ao qual se associava Mário de Andrade. o sociólogo Fernando de Azevedo (um dos criadores da Universidade de São Paulo). portanto. os ideólogos do reformismo desenvolvimentista. Milliet. teorias da . muitos intelectuais se afirmariam. empobrecendo a interpretação euclidiana: o país "atrasado". Rubens Borba. encontrou-se uma fórmula curiosa. se consolidaria como a viga mestra de todo um sistema político-cultural de longa duração. afirmou-se a noção de "Cultura Brasileira". Faoro. e em geral bem aceitas. o urbanista Lúcio Costa. que. a de Jacques Lambert. a CEPAL e as idéias de Raul Prebisch eram sinônimos de modernidade. na definição de um conceito nacional de patrimônio histórico. retardava a "integração" do Brasil "moderno" na contemporaneidade. o economista norte-americano Walt Whitman Rostow circulava em vôos rasantes pela América Latina ensinando as fórmulas da redenção a empresários e militares bisonhos. Buarque. inaugurando a visão dualista na História do Brasil.da qual o Congresso de Bandung em 1955 foi apenas um sinal -. capitalistas e neocapitalistas coordenaram então esforços para romper com o atraso a partir de um esperado take offáo capitalismo no Brasil: para isso. Uma História do Pensamento Brasileiro. das lutas da pequena burguesia urbana por reformas de base. Nesse grupo. menos incompleta. somando seus esforços às lideranças intelectuais de esquerda. idéias e projetos inovadores de Brasil se desenvolveram e expandiram. Transitava-se então. A essa altura. Cândido. Otávio Brandão e Mário Pedrosa. José Honório. uma curiosa mitologia dos "dois Brasis". sociólogos e historiadores dos anos 50 (Furtado. Na direita. provocando até mesmo a crítica de Gilberto Freire e José Honório Rodrigues. transplantado e remodelado durante o período colonial? Qual o significado da descolonização a que se assiste na passagem do século XVIII ao XIX? Como se construiu esse "Brasil mestiço". de quadrantes diversos. Com a aceleração do processo histórico mundial . Ao longo do percurso. encaixada no aparelho de Estado complexo e pesado. na esquerda. Bonfim. de uma ideologia que. Fora dessa constelação. pela Revista Civilização Brasileira (de Ênio Silveira e Moacir Félix) e Tempo Brasileiro (de Eduardo Portela). preocupadas com a "superação do subdesenvolvimento" a qualquer preço. Caio. Câmara Cascudo) e dos economistas.24 Carlos Guilherme Mota Introdução 25 supõe um rastreamento rigoroso. o geógrafo Delgado de Carvalho (cujos atlas e mapas desenhariam em nosso imaginário o lugar do "espaço brasileiro" no mundo). Ao lado das Ligas Camponesas. inscreve-se a figura ímpar de Carlos Drummond de Andrr. ainda nos anos 50 uma "terceira via" já era procurada. responsável por um novo conceito de cidade. É de notar. cobrindo desde o campo políticoeconômico ao educacional e filosófico. disseminando uma certa visão de Brasil por meio dos corais e cantos orfeônicos). "a gente da terra braziliense da nasção"? Como se forma a nação. o mapeamento das escolas. Sodré. Aos segmentos radicalizados das elites urbanas progressistas apresentavase então a alternativa clássica que a História costuma apresentar aos povos: reforma ou revolução. de uma educação democrática e da implantação da cultura do subdesenvolvimento. além de Rodrigo Melo Franco de Andrade. o compositor e musicólogo Heitor Villa-Lobos (que uniria a dimensão erudita à produção popular. na expressão do professor Antônio Cândido. Quem era "povo" nessas partes do Novo Mundo. com figuras estelares como Anísio Teixeira. com suas ideologias culturais e realidades étnicas? Como se cristalizaram as decantadas "heranças coloniais". histórias e atualizações por parte dos "redescobridores" do Brasil dos anos 30 (Freire. alguns temas e problemas repontam e persistem. Florestan. Nesse contexto. Em busca de uma política externa independente de Washington. seria o convite a uma outra viagem. Com efeito.fixariaem definitivo a idéia de Brasil contemporâneo. como Astrojildo Pereira. Sem maiores considerações de ordem histórica ou civilizacional. Nesse contexto. da consciência amena de atraso para a consciência de "país subdesenvolvido". pensavam Lambert e os dualistas. homem de ação e poesia. individualidades. setores da intelligentsia brasileira começariam a se descobrir terceiro-mundistas. Bastide)? O quadro se torna mais rico e complexo quando nos lembramos do papel desempenhado pelo Instituto Superior de Estudos Brasileiros (Iseb) e por revistas como Anhembi (de Paulo Duarte) e Revista Brasiliense (de Caio Prado Júnior) e. com o passar do tempo. Tal conjunto de intelectuais. fabricaram nos anos 60 as discutidas. ou seja. recorde-se que.

Grande desafio. convém evitar o tom finalista. entretanto. nos "quadros do capitalismo associado e dependente". quero me referir à atualidade de incontáveis formulações que indicam a existência de consciências críticas e muito agudas ao longo de toda nossa História. desvendado nos anos 70 pelo professor Florestan Fernandes em sua obra clássica A revolução burguesa no Brasil. publicadas no Tiphys Pernambucano a 15 de janeiro de 1824. amantes da pesquisa inspirados pelo velho Lucien Febvre. Experiência de uma cultura já miscigenada na Península Ibérica. e por isso nunca império. este. apontando para uma revisão profunda de nossa historiografia. a que muitos leitores e estudiosos.. o Caneca. sob o rótulo generoso. em contraposição à história dos brancos de frei Vicente do Salvador até Varnhagen e Pedro Calmon. com adesão e apoio de setores da pequena burguesia progressista radicalizada. a segunda. por Johan Huizinga e outros mestres ainda se obstinam em cultivar.26 Carlos Guilherme Mota Introdução 27 dependência. muito difundidas e discutíveis sobre a "adaptabilidade" dos portugueses nos trópicos. integrada ao novo capitalismo ocidental. nos horizontes da esquerda. a de implantação de uma ordem republicana reformista-desenvolvimentista e "modernizadora" (no sentido dos anos 50-60). cujos códigos mais profundos cumpre aos historiadores ir desvendando. fundamentando três possibilidades históricas então esboçadas. gerando interpretações inéditas. nunca. nem de outra ordem. Seja na vertente dos encontros e desencontros de civilizações autóctones e forâneas. De civilizações enfim. e. revelando a natureza e o sentido profundos desta história. sobretudo no que diz respeito à experiência particular afro-luso-brasileira. nada obstante muito real: a dos sem-história. viria realinhar o Brasil nos quadros da Guerra Fria. as possibilidades históricas de cada época se inscreviam e se inscrevem inescapavelmente nas estruturas de amplos conjuntos de variáveis e sistemas de valores. na feitura dessa outra História. de uma república socialista-sindicalista mobilizadora. E um império tal em que ordem deve ser colocado entre as potências? Será uma potência de primeira ordem? Será de segunda? Nem de uma. Finalmente. como escreveria Florestan Fernandes em 1981 é que "não enfrentamos como e enquanto tal a questão da descolonização". E que Império então vem a ser o Brasil? Império projetado. o modelo autocrático-burguês. condicionada por um modelo histórico-social de cunho fortemente autoritário. condutora de um projeto amplo de reformas de base. cinco séculos de História podem representar muito.. dos idosos. começam a surgir as sagas anônimas dos "índios". Para terminar. Ainda reboam no ar palavras como as de frei Joaquim do Amor Divino. que viria a predominar nessas partes do globo. na longue durée. vi Para concluir. Será potência nullius diocoeseos. porque até hoje é incógnita a ordem das potências projetadas. seja na reafirmação de uma história "dos de baixo". a terceira. a despeito de certas determinações dos processos de articulação dos sistemas coloniais da História Moderna. . transformando-se em projetos e políticas públicas. outras porém prosperaram. para utilizarmos o velho conceito. A primeira. O golpe civil-militar de 1964. de História das Mentalidades. considerada a História das civilizações americanas. com as teorias da contra-revolução preventiva. principal personagem de nossa história. amarelecido pelo tempo. uma hipotética república socialista de base popular operário-camponesa. das mulheres. Pois. finalmente. Uma outra idéia de Brasil despontava. poucos meses antes de sua prisão e fuzilamento: E quando teremos constituição feita pela Nação? Nunca. Cinco séculos que permitem. com destacada participação do país no plano internacional por meio de uma política externa independente. para além de todos. essa categoria imensa e silenciosa. E. dos pés descalços. indagar do sentido ou sentidos das Histórias plurais de nossas formações histórico-ideológicas. dos excluídos em geral. assim. dessa forma. com implicações políticoculturais de longa duração. nunca. pois. O problema. e que marcariam fundamente o pensamento no Brasil no século XX. Explicitava-se. um outro horizonte se apresenta. de inquietante atualidade. dos escravos negros e dos negros livres. Se algumas dessas visões de Brasil desapareceram. das crianças. e não Império constituído.

• > Incursões à pré-história da América tropical Aziz Nacib Ab'Sáber ** il ..

No decorrer do século. Uma propositura que ampliou e desdobrou as possibilidades temáticas da pesquisa historiográfica no Brasil. algumas reflexões sobre atributos essenciais do homem despertaram grande interesse cultural entre jovens pesquisadores voltados para as ciências humanas. na década de 20. Um fato. Razão pela qual a riqueza dos informes fragmentários — derivados dos estudos pré-históricos somados aos conhecimentos conseguidos na proto-história e nos esforços das etnociências .em um de seus momentos de grande clarividência intelectual quando teceu considerações comparativas entre os atributos das sociedades animais e as sociedades humanas. certamente fundamental. Mas a história da humanidade e da cultura nasceu há dezenas ou centenas de milhares de anos antes da história formal. Para tanto. por fim. referente à "Sociologie des Animaux".**»*. para o entendimento de acontecimentos tristes e dramáticos da história do Novo Mundo. Essas meditações nos obrigam a ampliar os procedimentos necessários para retraçar a história do ser humano. nos mais diferentes espaços ecológicos e conjunturas temporais. que corresponde ao fim do milênio. com a invenção do alfabeto: documentos básicos que forjaram a historiografia. e. . diante de representantes agressivos de sociedades mais complexas. Franz Boas. A Fernand Braudel ficamos devendo o postulado de que "a história é a história de todas as histórias". Bastide chegou à conclusão de que "o homem é o único ser vivo da face da Terra que é capaz de retraçar a trajetória da espécie. Vale dizer. envolvendo todos os tempos e todos os espaços".deve mere- J XüÉy. alguns homens privilegiados contaram com a sucessão das escritas. Tendo como ponto de partida o inigualável texto de Mareei Mauss. alertava para a letalidade dos contatos étnicos entre grupos de culturas primárias. Mas uma terceira meditação e reconhecimento ficamos devendo a Roger Bastide . muito antes que as relações de trocas de excedentes e antes mesmo do advento do mundo urbano das cidades-estados e vastos impérios.

como possível área de acesso dos caçadores da Eurásia e do Leste Europeu para o continente americano. sujeitas a glaciações rigorosas nos períodos muito frios do pleistoceno.é a grande tarefa do processo educacional. o negróide e o mongolóide . na história populacional do Brasil. Nisso tudo.caminhadas dos primeiros humanos para o Novo Mundo . enquanto as massas de gelo estocadas nos pólos e altas montanhas ampliavam-se no espaço. descendo de cordilheiras superglaciadas e estreitando espaços intermontanos. porém. enquanto pobres grupos negróides escravizados . mas que as culturas por eles elaboradas foram absolutamente autóctones. acantonaram-se em raras grutas e lapas. Mas que. de modo quase passivo e muito sofrido. seguiam para Oeste. a idéia não superada de que a humanidade se dividia em três estoques raciais básicos . aprendendo intuitivamente a se defender do frio. ao desenvolver suas rústicas e rotineiras atividades de sobrevivência.exímios caçadores. Os grupos humanos coletores-caçadores nômades e seminômades que perambularam por diferentes espaços ecológicos da Ásia dependiam quase exclusivamente dos atributos da biota regional ou sub-regional.atravessaram os largos espaços congelados ou em processo de congelamento J . inconscientes de seu destino. sofridas por grupos de caçadores coletores pré-históricos da Ásia do Leste. em compensação. muitos grupos migraram para áreas mais quentes. Isso não implica dizer que na transposição do paleoespaço de Beringhe todos os homens seguiram sempre atrás da caça para leste. participaram todos os estoques raciais do mundo. Na cultura primária e intuitiva do homo sapiens. a única lógica geográfica comanditária e orientadora residia nas disponibilidades de recursos naturais.na tarefa de socializar informes essenciais . Utilizando os interespaços existentes entre glaciários provenientes das montanhas e aqueles oriundos da expansão dos mantos de gelo das regiões polares.vieram de além-Atlântico (África). o mais longo período de tempo e a mais complexa trajetória de homens fica para os grupos ameríndios. Durante os períodos glaciais do pleistoceno o nível do mar recuava dezenas e dezenas de metros. recobertas por glaciações ditas continentais. Quando se fixou. Pablo Martinez Del Rio. vieram da Finisterra portuguesa da Europa. cresciam até ao exagero as possibilidades de se desenvolverem atividades de caçadores.. somente podem ser interpretadas como parte de uma arcaica história de longuíssima duração. os grupos humanos dependentes da fauna. Uma preferência marcante por uma vivência em terras baixas e corredores de fauna. Nas regiões mais gélidas desaparecia a possibilidade de se realizarem coletas da biodiversidade vegetal. Os paleoíndios mais arcaicos eram mongolóides do Leste Asiático.sujeitos a uma tenebrosa migração forçada e desumana . Muito mais tarde os caucásicos. Lentos deslocamentos e longas vivências em latitudes diferentes. Mas. nos anos 40. não mais pôde haver dúvida sobre a procedência asiática dos mais remotos grupos humanos que chegaram à América. cobrindo setores de mares subpolares. É possível que manadas outras. Não tem sido fácil divulgar para todos os homens a crônica e as etapas dos conhecimentos acumulados sobre sua própria espécie. no entremeio dos espaços glaciados em expansão. sentenciou que os homens que povoaram as Américas eram alóctones. suficientes para a sua alimentação. pequenos grupos de homens . fiscalizados por uma imaginação lógica. sem saber que estavam transpondo continentes. Esse é o caso da vigorosa pressuposição da região de Beringhe. fugindo sempre das encostas e cimeiras de cordilheiras.. E foi assim. em alguns momentos críticos da história climática quaternária do planeta.para o norte e para o sul . Aprimorar e persistir . Mas é quase certo que pequenos agrupamentos de homens permaneceram nos espaços colinosos.o caucásico. Uma espécie de préhistória longa (parafraseando Braudel) intercalada por rupturas radicais. Tanto na Europa quanto na Ásia alguns grupos humanosficaramencurralados entre altas montanhas glaciadas e planuras nórdicas. As adaptações obrigatórias. Uma história que possui maior profundidade de tempo quando estendida para a época ou épocas da passagem dos asiáticos para as Américas. E a pré-história humana não pode ser excluída dessa recuperação de trajetórias. que alguns pequenos grupos acabaram passando da Ásia para as terras hoje correspondentes ao Alasca e ao Canadá. Aliás esses estavam tão desorientados quanto os humanos. De tal forma que. Da territorialidade oeste-leste da Eurásia e da Ásia Oriental .32 AzJzNadbAb'Sáber Incursões ò pré-história da América tropical 33 cer um lugar especial na reconstrução dos eventos e conquistas culturais do homem. provenientes do Leste da Eurásia. através do uso de couros e peles de animais. A região de Beringhe tornou-se uma larga e maciça ponte de gelo (glacial landbridge) que escondia os estreitos e mares adjacentes. através de adaptações sofridas. em qualquer tentativa intelectual responsável. da flora e dos rios e riozinhos foram obrigados a se adaptar gradualmente a diversos sistemas ecológicos. Para entender as possíveis rotas e tempos da passagem . ao longo do século. de raízes mongolóides. colonizadores.. os pré-historiadores foram obrigados a alternar fatos e hipóteses.

Há que considerar ainda que. nível do mar mais baixo. ou pelo atropelo.000 * Antes do presente. Componentes da fauna pleistocênica da Eurásia não teriam passado para o continente americano se não existissem essas presumidas pontes de gelo. ou amadurecido.). Entretanto. limitação de espaços costeiros. Eram pequenos grupos de caçadores-coletores. à Colômbia e ao vasto continente tropical sul-americano. E. na faixa atual de fronteiras do Canadá e Estados Unidos. ao fim do último período glacial. predominantemente nômades e muito belicosos. Parece ter acontecido de tudo um pouco na trajetória que conduziu os grupos pré-históricos para o sudoeste dos Estados Unidos. na direção do Sul. além das montanhas ocidentais da América do Norte. para efeitos de cotejo com os sítios pré-históricos de datações obtidas pela técnica C14. Würm III (de 40. por vários flancos. Descendo por entre montanhas geladas e altiplanos ressequidos. numa proteção relativa.). entre 6. Tudo complicando as projeções dos homens para o Sul. deve ter sido muito complexa. também. Fato que provavelmente aconteceu ao sabor dos processos de (re)tropicalização do espaço total.parece ter se iniciado. Fato particularmente verdadeiro em relação aos homens que se acantonaram nas raras e disputadas cavernas de distritos cársticos brasileiros (São Raimundo Nonato. durante as horas de sono. elevou-se até 3 metros acima de seu nível de hoje. de sucessivos redutos florestais. ou por outros animais. e. as florestas estavam em recuo e climas mais secos tendiam a penetrar por imensas e alongadas depressões interplanálticas do grande planalto brasileiro. Nos últimos anos. porque inexistiambiotas vegetais regionais próximas para qualquer fornecimento de madeiras. Lutas pela conquista de espaços ecológicos mais favoráveis. que na época dessa miúda e extensa trajetória.encontraram "ilhas" de umidade no entremeio de terras ressequidas. durante as fases de sedentarização relativa de alguns grupos. pode-se pensar até mais longe.atingiram a América Central. Ou desde quando adquiriram o hábito cultural do sepultamento.conhecido genericamente por WürmWisconsin sofreu um detalhamento maior que conduziu os especialistas a subdividirem o aludido período em quatro estádios: Würm IV (de 22. os caçadores adaptados aos climas gélidos jamais teriam uma fonte tão rica para sua alimentação.perambulando pelas diferentes regiões do oeste americano . os primeiros homens que saíram das regiões glaciadas do noroeste americano através de adaptações sucessivas . dotados de uma certa fixidez locacional. finalmente. Würm II (de 62. e. arredores de Lagoa Santa. ocorriam fortes atividades de pulsação das línguas das geleiras norte-orientais.P. Conflitos intertribais arcaicos.000 a 26. climaticamente desarranjado pelas implicações das glaciações quaternárias. No que diz respeito à idade das glaciações quaternárias. dominado por águas frias. por meio de impensadas descobertas.. atingir espaços intertropicais das terras brasileiras. o período glacial do pleistoceno superior . nas margens de uma Amazônia contraída e biogeograficamente fragmentada.tomados apenas como referência .000 A.34 Aziz Nodb Ab'Sóber Incursões ò pré-história do Américo tropical 35 (Beringhe). sudoeste de Goiás).derivadas de condicionantes ecológicas regionais . Embarcações. no pleistoceno terminal. muito cedo descobriram o valor das cavernas como lugar de moradia. . eventualmente sedentarizáveis em grutas. A trajetória dos homens pré-históricos. instintivamente. Mas é possível que tenha havido condições para migrações oeste-leste. Além do que a existência do frio e do gelo ofertava um excelente ambiente de conservação das carnes obtidas nas caçadas mais rendosas. os amedrontava. porém sucessivamente mais cálidas. E. de faunas e de homens. forte glaciação de altitude. os quais alcançaram o seu máximo por ocasião do atimum climático. existem apenas duas a três correlações possíveis. Cumpre notar. após a transposição do espaço Beringhe . mais tarde. à América Central. e depois ao México. ou seja. porém. eram ofertas naturais complementares para os silentes habitantes das terras do frio. Grutas e lapas atenuavam periculosidades. não fossem as manadas faunísticas em migração pelas terras baixas da Eurásia.000 a 13. Trajetórias entrelaçadas. E somente a partir do México tiveram a oportunidade de encontrar e se aproveitar dos recursos naturais biodiversos. lapas ou beira de pequenos lagos. Aquelas mesmas que. em um ou mais tempos.* Um momento em que o nível do mar que tinha estado a -100 metros.P.P. A noite. Nesse sentido.000 e 5. Ao atingir o sudoeste dos Estados Unidos e o México . haveriam de construir os cenários dos grandes lagos regionais. nem falar. através de montanhas e depressões intermontanas de três alinhamentos cordilheiranos. que animais mortos pela fadiga. nessas duas ou mais épocas de paleoespaços glaciados. em escala sub-regional.500 anos A. em busca de outros recursos naturais. Não se sabe nada de quando teriam inventado ou recriado a importante arte de fazer fogo.000 anos A. até chegar ao território atual da Colômbia e Venezuela. A diferenciação de línguas e culturas .

e os mongolóides da Ásia. pois os mongolóides com . que abrange sobretudo Würm IV.000 anos A. Fato que não autoriza ninguém a pensar em nenhuma autoctonia. relacionado às datações de alguns componentes do jazigo pré-histórico de São Raimundo Nonato (Piauí). Ninguém sabe ao certo em que estádio ou interestádio os primeiros grupos de homo sapiens passaram do nordeste eurasiático para as Américas.000 A. está ligado às datações e pesquisas de Niede Guidon. no caso. Gottweig e Brorup Amersfort. Doutra banda. Würm III e Würm II. teria passado para o Alasca apenas em Würm IV. em Würm IV.ocorreram quatro macroperíodos glaciais: Riss. No nordeste da Ásia.P. Há que considerar sempre que "pontes de gelo" na região de Beringhe existiram em outros estádios de Würm . Muito antes. que existe no mínimo há 80. o homo sapiens moderno passou a existir desde Eemein. que pode introduzir modificações radicais nesse raciocínio. ou pouco mais.e.em termos médios e aproximados. que remontariam a 43. cruzando uma larga e maciça ponte de gelo. de 22.000 a 13.abaixo do interglaciário Eemein .000 A. Em busca de uma precisão relativa para se atingir uma idéia mais lógica sobre o tempo principal . caucasóides da Europa. através de arcos insulares exondados. o rebaixamento do nível do mar . porém. por caminhos e ambientes muito mais difíceis. como também na extremidade sul. Nesse conjunto todo de interestádios ou intergracionários.P.200. grupos humanos de caçadores atingiram o extremo nordeste da Ásia. descobriram-se alguns sinais da presença humana mais antiga na região. Ou seja. Gunz e Bibed.das migrações humanas oeste-leste. ou seja. com a gradual formação de uma gigantesca ponte de gelo (glacial landbridgé). Na realidade grupos humanos mongolóides caminharam para o sul-sudeste e para o norte-nordeste.000 a 70. grupos humanos arcaicos já haviam estado na Austrália.P. Mendel. . durante e entre os estádios glaciares do pleistoceno superior (WürmWisconsin).000 até 120. porém. no momento em que se processaram grandes migrações de pequenos grupos humanos ao longo da fachada pacífica da Ásia e Oceania. que ali existiu durante milhares de anos (Würm IV).) . Inesperadamente. que fazem recuar bastante a época das primeiras migrações de grupos humanos para as Américas. por Niede Guidon e sua equipe. para a passagem Austrália e Nova Zelândia. grosso modo. surgiram datações sobre a presença de homens pré-históricos na região de São Raimundo Nonato.P. assim como a idade relativa máxima de homo sapiens e sua possível diferenciação na categoria macroestoque racial. Até hoje. composta de brasileiros e franceses . O conhecimento sobre as profundidades de tempo do período quaternário . provavelmente. É certo que.é imprescindível para qualquer discussão séria sobre a chegada do homo sapiens das Américas.em geral de mais curta duração do que os tempos glaciados . da Eurásia Oriental para a América do Norte. porém. Trata-se de um espaço de tempo duas vezes maior.possibilitou outro quadro de trânsito préhistórico. segundo diversos autores.). Todos os subperíodos de Würm sendo separados por interestádios cálidos .000 até 13. em Riss. a tendência entre diversos cientistas reside em considerar a "passagem" ou a "chegada" do homem pré-histórico nas Américas como sendo.).muito bem conduzidas pelo grupo de Niede e sua equipe. Nosso problema. No entanto.000 anos A.000 A.000 a 80. conhecendo-se os intervalos de tempo do período glaciário de Würm-Wisconsin superior. onde caçadores não teriam chance de navegar de um continente para outro. no momento em que o nível dos mares desceu a pouco mais de uma centena de metros.época essencial para a história evolutiva da espécie humana . existe a necessidade de conhecer melhor os quatro estádios glaciais do período WürmWisconsin superior. O homo sapiens atingiu a Austrália e a Nova Zelândia através de espaços emersos criados pela emendação das ilhas dos chamados arcos insulares regionais. do que as datações feitas em jazigos da América do Norte e porção ocidental da América do Sul.ou os possíveis tempos . Teria sido assim no paleoespaço de Beringhe.em Würm IV .000 anos A. Um importante fato complicador. Estavam nesse pé as tendências para a aceitação científica da época de passagem e chegada de grupos mongolóides para a América do Norte e o continente australiano. O homo sapiens.000 anos antes do presente.P. ou em outros subperíodos "würmianos". De 2. no sul do Piauí. no máximo desde 100.000 A. quando surgiu um informe complicador..P. a partir de uma indefinida área de difusão migratória. fica restrito ao tempo pré-histórico do homo sapiens.designados respectivamente por Pardorf. ali chegando pela eventual coalescência dos "arcos insulares" regionais. Würm I (85. pode-se chegar à conclusão de que o período principal das transposições foi Würm TV (de 22.36 AazNadbAb'Sáber Incursões o pré-história do Américo tropical 37 a 46.P. já se haviam diferenciado os três macroestoques raciais da face da Terra: negróides da África. Por meio de pesquisas arqueológicas pré-históricas .

completamente à margem dos litorais.000 anos A. Para quem não saiba. Tudo indica que o recuo foi lento a princípio e bastante rápido . estuários ou lagamares. na condição de caçadores nômades.000 anos A.P Ao ensejo dessa tão importante regressão . Em termos de interdisciplinaridade tem grande importância para a préhistória brasileira saber que. mais antiga do que a época dos sambaquis?".000 e 12. determinando semiaridez costeira e faixas semi-áridas em compartimentos de relevo interiores.P. em grupos de caçadores-coletores. aumentavam substancialmente ariquezae a diversidade da biota aquática salobra. o nível do mar recuou pela plataforma continental adentro. existe garantia total que alguns grupos ocuparam preferencialmente setores da costa em áreas dotadas de lagunas.000 anos A. os pequenos grupos humanos chegados à América Tropical passaram a exercer atividades híbridas de coletores. as praias preexistentes recuaram por dezenas de quilômetros.P. ou mais.000 e 13.de tipo glácio-eustático . ao longo da rampa exondada da plataforma continental. ou quase tudo. Entretanto.000 anos A.P). O mar desceu e as correntes marítimas frias subiram até níveis de latitude mais baixos. As datações mais antigas têm sido encontradas em sítios de notável continentalidade. ou em margens de baías oriundas de ingressões marinhas. Um fato paradoxal. os diversos achados de São Raimundo Nonato representam o encontro de sítios de sedentarização. Se os blocos de pedras. existentes no chão das lapas de São Raimundo. constituem evidências concretas de que os seus habitantes mais antigos já sabiam fazer e manejar o fogo.500 anos A. encontrados nas proximidades dos "cinzeiros". .P. ao inverso. Tudo.geologicamente falando . caçadores e eventualmente pescadores. representadas pelos "cinzeiros" basais.P. aconteceu. sob o impacto da corrente fria em avanço sul-norte.P. Já ficou explicado que passando porflutuantesmantos de gelo.000 anos A. por vagas e vagas de pequenos grupos humanos que encontraram sua moradia natural em cavernas e seu entorno. para 25. foram detectados "cinzeiros" e blocos de pedras que fizeram remontar a idade dos sítios habitados por humanos para 43. Existem razões para se pensar que o processo transgressivo inicial foi relativamente lento. até chegar ao nível aproximadamente de 3 metros acima de seu nível atual. Além da semi-aridez da retroterra. Entretanto. Freqüentemente se pergunta "por que inexistem docu- mentos da presença ameríndia no litoral brasileiro. No estado atual das pesquisas. já que os mares em recuo. tetos e emboques das lapas. Em São Raimundo Nonato foram detectados registros concretos da presença humana através de ossadas de aproximadamente 10. restingas. De forma que. descendentes de remotos caçadores. com maior grau de certeza. mas que na realidade revela um certo conformismo com as questões enigmáticas. entre 23. em sua maioria. para arcaicos churrasqueamentos de produtos da caça. do que resultava uma grande impossibilidade de ocupação por parte de grupos humanos. "cinzeiros" na linguagem dos arqueólogos são cinzas de ancestrais fogueiras. atingindo o seu máximo de altura durante o otimum climático. forem alóctones em relação às paredes. tradicional e ancestralmente vinculados à caça e à coleta. relacionadas com o otimum climático (de 6. Desses fatos decorreram algumas indagações que. Os sinais de fogueiras. ficaram sem respostas. A transgressão responsável por tais processos dependeu da liberação de águas que estavam retidas nas geleiras dos pólos e altas montanhas. abaixo dos achados mais diretos.entre 15. as massas de areias dispostas em largas rampas pela regressão marinha em processo criavam um ambiente hostil e temporariamente não ecumênico. dependentes de pequenos recuos e avanços dos mares tropicais. Uma afirmação que tem apenas o valor de um lembrete. até menos de 100 ou 110 metros. quando a retomada da tropicalidade foi mais radical. não teria sido fácil deixar sinais marcantes de sua arcaica diáspora.000 e 3.38 Aziz Nodb Ab'Sáber Incursões à pré-história da América tropical 39 certeza vieram da Ásia. atomizava a umidade provinda do Atlântico. em uma fase flutuante posterior ao máximo alcançado no aludido otimum. Somente entre 6. As datações podem ocasionar controvérsias mas o significado arqueológico permanece com muita lógica. Uma das questões em aberto da pré-história dos grupos humanos mais antigos aqui chegados reside na inexistência de registros de uma ancestral caminhada pela faixa costeira do Brasil atlântico. Nesse contexto a secura da faixa costeira tornou-se marcante devido à atomização da umidade forçada pela presença de uma vigorosa corrente das águas frias (páleoMalvinas/Falkland). em relação ao nível de hoje.500 a 5. quando o mar tornou a subir no holoceno.000 anos A. Ou.. Um questionamento que às vezes se desdobra em sutis afirmações: "não existem registros concretos da presença de homens préhistóricos na região costeira porque os únicos registros arqueológicos devem estar abaixo das atuais águas costeiras!". A maior parte das restingas e lagunas da costa brasileira teve sua origem ou definição. seria mais verossímil no cenário dos velhos abrigos naturais dos mais antigos povoadores da região.

Um fato que significava uma diversificação de ofertas da natureza rústica. porque a maior parte da drenagem era ainda intermitente sazonária. tal como hoje no Nordeste Seco. ou entre serranias e chapadões interiores. a par com o importante acontecimento relacionado com a presença de moradias naturais. Durante a máxima acentuação da semi-aridez na América Tropical acontecida entre 15. os arqueólogos e pré-historiadores . Tudo induz à crença de que grupos humanos de culturas pré-históricas diferentes .para sobrevivência . grutas e lapas. relacionada com a presença de formações abertas em compartimento de relevo extremamente favoráveis a deslocamentos extensivos e progressivos. os grupos humanos mongolóides da Ásia até a América do Norte e Central entraram pelo território brasileiro adentro utilizando os amplos corredores e depressões colinosas.000 anos A. para complementação de alimentos. durante os últimos milênios do holoceno. Ao que se somaram o aumento progressivo e irregular do nível do mar. Em muitas áreas. assim como a perenização da drenagem. Tem-se a impressão de que os pequenos grupos de caçadores-coletores preferiam obrigatoriamente os corredores de formações abertas. No conjunto dessas tarefas para busca de sítios ecológicos . É importante assinalar que (à exceção do caso anômalo e controverso de São Raimundo Nonato) a ocupação das escassas cavernas processou-se entre 20. ocasionou mudanças ecológicas marcantes. cerrados e eventuais redutos florestais.000 e 9.através de duras pesquisas de campo conseguiram recuperar parte dos segredos de jazigos fragmentários. assim. no domínio ampliado das caatingas. onde ocorriam desvãos de blocos rochosos residuais superpostos. é o setor da costa brasileira que melhor documenta o feixe alternado de restingas elaborado ao sabor dos pequenos avanços e recuos do nível geral terminal dos oceanos. O fato de muitas lapas e cavernas estarem localizadas nos sopés de chapadas de calcários e arenitos tornava possível o encontro de dois ou três ecossistemas dotados de recursos naturais diferentes: caatingas e agrestes. a formação de solos aluviais argilosos em sedimentos transportados por rios triturados por massas de argilas em suspensão.000 anos A. précananeense) foi o capital básico de sedimentos (re)aproveitados para gerar os sucessivos terraços de construção marinha. de atividades de coleta e caça nas florestas biodiversas dos redutos de flora eventualmente ocorrentes. que antigos grupos de caçadores-coletores encontraram condições para viver mais próximos do mar. Vale dizer que assim se constituiu o grupo humano responsável pela construção dos sambaquis: os chamados "homens dos sambaquis". o retorno da tropicalidade após 12. traduzidas pela coalescência dos redutos florestais. por imensos tratos do território. Acrescidos de abrigos em lajedos.40 AzJzNadbAb'Sáber Incursões ò pré-história da América tropical 41 O litoral sul de São Paulo.000 e 12. Não existiam aproximações freqüentes em relação à beira-rio.. e um importante acréscimo de ofertas da natureza pela piscosidade dos rios que ficaram em franca e extensiva perenização.bem caracterizadas pelos arqueólogos brasileiros . transformando-se em pescadores-caçadores e criando uma nova cultura de marcante vinculação ecológica. encarceradores de lagunas piscosas.P. A massa fantástica de areias geradas durante a regressão pré-flandiana (ou. entre nós. Os "corredores" de terras baixas (lowlands).P. . As pesquisas arqueológicas na pilha de sedimentos antropogênicos do chão das lapas e cavernas revelam diferentes vagas de ocupação que se estenderam por milhares de anos a partir das descobertas iniciais. Foi nesse momento. Ou. -. a decomposição de rochas e argilização. que fez emendarflorestasna fachada atlântica e na Amazônia. mas vasculhavam com freqüência os rebordos úmidos de chapadas e serras. favoreceu uma preferência por sítios beiradeiros. desvendar complexos de culturas regionais dos ameríndios que se fixaram em diversos sítios e áreas de influência pretéritas. então existentes. e retrair caatingas para o contexto do atual Nordeste Seco. Era uma escolha preferencial. correspondiam ao eixo maior das depressões interplanálticas existentes entre chapadas descontínuas. sujeitos à ampliação da semi-aridez. designado corretamente de região lagunarestuarina de Cananéia-Iguape. descoberta da cerâmica.P. ainda. No que tange aos vastíssimos espaços da hinterlândia brasileira.700 anos A.utilizaram lapas e cavernas até aproximadamente a grande diáspora dos povos de línguas guaranis ou até as mudanças climáticas e ecológicas processadas no território pela (re)tropicalização plena. dispostos em mosaico. acabaram por descobrir e utilizar subáreas espaçadas de cavernas. e grotasflorestadasde mananciais. reduzir cerrados aos chapadões e altiplanos do Brasil Central. O aparecimento de sedimentos aluviais argilosos nas planícies de inundação. e em tais circunstâncias fisiográficas e ecológicas. Sobre eles existem numerosas informações em nossa rica bibliografia pré-histórica. Na verdade. Era uma época em que os pequenos grupos humanos dependiam da caça nas caatingas arbóreas e trechos de cerrados existentes nos rebordos de chapadas e chapadões. propiciadoras de sedentarização. ressalvado o caso do Nordeste Seco. E. ocorriam tratos de chão pedregosos e lajedos rasos.

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m U A gênese do Brasil - Jorge Couto .

daí resultando. João III a desencadear o processo A. ocorridas entre 1529 e 1548. seguindo-se. inserindo-se no contexto das opções estratégicas globais definidas pela corte de Lisboa nas três primeiras décadas de Quinhentos. viria a ser designado por Brasil. de imediato. A forma de integrar a possessão sul-americana no contexto do Império Português levou à adoção dos sistemas de arrendamento e. em abril de 1500. os ameríndios. desenvolveram um modelo de aproveitamento do ecossistema. . designadamente nos campos da geografia. as questões suscitadas pelo encontro de gentes tão diferentes das então conhecidas. na região ocidental do Atlântico Sul. posteriormente. O surto de expansão quatrocentista e quinhentista lusitano contribuiu decisivamente para o estabelecimento de ligações marítimas e comerciais entre todos os continentes. profundas repercussões na América do Sul. entre os mais relevantes. bem como para o surgimento de profundas mutações de natureza cultural. a modificação da concepção européia do mundo. A arribada dos portugueses provocou. posteriormente. na feliz expressão do historiador Capistrano de Abreu. As significativas alterações geopolíticas e econômicas. botânica e zoologia. ocuparam progressivamente o vasto espaço sul-americano. primitivos habitantes do território que. em outros Estados europeus. induziram o governo de d. Ilha ou terra firme? Eis a primeira interrogação que o "adiamento" colocou aos homens da esquadra de Cabral. divulgaram-se em Portugal e. aos mais diversos níveis. avultando. construíram uma civilização original e combateram ferozmente pela conquista dos nichos ecológicos mais favoráveis. de uma terra firme habitada por gentes desconhecidas. o "descobrimento sociológico do Brasil". subseqüentemente. notícias sobre o "adiamento". A partir dos contatos estabelecidos pelos homens da esquadra de Cabral com a terra e a gente brasílicas. de "capitanias de mar e terra".longo de milênios. assim.

devido ao regime de ventos que ocorre na região. Foi. Entre os dias 29 e 30. Vasco de Ataíde. 1. o capitão-mor alterou deliberadamente o rumo para oeste em busca de terra. Ilha ou terra firme? A 9 de março de 1500 zarpou de Lisboa a segunda armada da índia. para entabular relações com os indígenas que se encontravam na praia. A tenaz luta travada pelos portugueses para garantir a soberania sobre a fachada leste do continente sul-americano influenciou a formulação do projeto . da ampliação da área cultivada. Sancho de Tovar (que comandava a nau El-Rei. favorecendo a busca de terra. Gaspar de Lemos.que levou dez dias a transpor . lugar-tenente. três caravelas e uma naveta de mantimentos) capitaneadas por Pedro Álvares Cabral. constituída por 13 velas (nove naus. a horas de véspera [entre as 15 horas e o sol-posto]" tiveram "vista de terra. isto é.que sopra francamente de leste . a gente de guerra. decidido enviar um batei a terra. passando a frota a cerca de 210 milhas a ocidente do arquipélago de Fernando de Noronha. rumando muito provavelmente para sudoeste. seguidos pelos de maior tonelagem (naus).que deram origem a uma criação profundamente original e distinta de cada uma das suas componentes. um vigário e oito sacerdotes seculares. área em que o vento se aproxima bastante de leste. do crescimento dos espaços urbanos. Na terça-feira. os indianos que tinham sido levados para Lisboa por Vasco da Gama e alguns degredados. Tendo o Brasil resultado de um processo de construção empreendido pelos portugueses em cooperação ou conflito com outros grupos étnicos. Diogo Dias. dispor de vento favorável . fechando sempre sobre a costa. os navios mais ligeiros (caravelas). tendo.. primeiramente d'um grande monte. do incremento das atividades econômicas e da expansão do catolicismo levaram muitos a considerar a promissora província sul-americana uma Nova Lusitânia ou um Outro Portugal. Simão de Pina e Pero de Ataíde. pela manhã. ao longo desse período. Aires Gomes da Silva. J . No dia imediato (quinta-feira. os intérpretes. a armada fundeou a cerca de 6 léguas (19 milhas) da costa. e d'outras serras mais baixas a sul dele e de terra chã com grandes arvoredos. o feitor. ancoraram a cerca de meia légua (milha e meia) da foz do posteriormente denominado rio do Frade. segundo o testemunho do célebre escrivão cabralino. a esquadra encontrar-se-ia a 5 o N. a armada encontrar-se-ia na altura da baía de Todos os Santos (13° S). iniciando a penetração na zona das calmarias equatoriais . então. Os visíveis progressos alcançados em finais de Quinhentos nos domínios do controle do litoral. estando investido no cargo de sota-capitão. tendo a corrente equatorial sul afastado a sua rota cerca de noventa milhas para oeste. 23 de abril). tendo por missão substituir o capitão-mor em caso de impedimento deste).200 e 1. do aumento demográfico. a volta pelo largo em busca do alísio de sudeste.48 Jorge Couto A gênese do Brasil 49 de colonização do Brasil. pelo que a esquadra terá passado a navegar a um rumo próximo do sudoeste.] e. então. Nicolau Coelho. Luís Pires. 21. ao qual monte alto o capitão pôs nome o Monte Pascoal e à terra a Terra de Vera Cruz". por volta de 10 de abril. comandado por Nicolau Coelho. Apesar de. mui alto e redondo. os agentes comerciais e escrivães.de construir uma América Portuguesa do Amazonas ao Prata.. a armada passou ao largo do arquipélago das Canárias e a 22 alcançou as ilhas de Cabo Verde. A I o 1/4 a norte do equador. Por volta do dia 18. a rota terá sido corrigida para sul-sudoeste. de acordo com as recomendações de Vasco da Gama. A 22 de abril toparam. incluindo a tripulação. "com aves. a frota encontrou vento escasso. a que também chamam rabo d'asno". procedendo cautelosamente a operações de sondagem. nessa latitude (cerca de 17° S). iniciando.. Simão de Miranda de Azevedo. A esquadra transportava entre 1. ameríndios e africanos. a que chamam furabuchos [.para atingir mais rapidamente o seu objetivo prioritário que era o de alcançar a monção do Índico. tendo o capitão-mor optado por não se deter nessas ilhas para efetuar a aguada prevista nas instruções. o cosmógrafo mestre João. oito religiosos franciscanos.500 homens. experimentado sucessivamente três modelos institucionais distintos que levaram à elevação da Terra do Brasil à dignidade de Província de Santa Cruz. Bartolomeu Dias. A 14 desse mês. Ultrapassada a linha equinocial.consubstanciado na fórmula de Ilha Brasil . Após esse adiamento. Nuno Leitão da Cunha. os membros da tripulação encontraram alguns sinais de terra: "muita quantidade d'ervas compridas a que os marcantes chamam botelho e assim outras. ou seja. ou seja. destacam-se os aspectos relacionados com os intercâmbios civilizacionais euro-afro-americanos — da lingüística à zoologia e da gastronomia às epidemias .

no decurso dessa operação. no qual participaram portugueses e ameríndios. Terminada a reunião. à prossecução das tentativas para obter mais informações sobre os habitantes da terra e à criação de um clima de cordialidade com os tupiniquins. miúdas [. levou a que os capitães e os pilotos decidissem aproar a norte. com uma copazinha pequena de penas vermelhas e pardas. à conclusão do aprovisionamento de água e lenha. O cosmógrafo. muito bom e muito seguro [a baía Cabrália]. Na praia encontravam-se perto de duzentos homens armados com arcos e flechas. piloto do capitão-mor. aí fundeando. Concluídas as tarefas de marinharia. optando-se apenas por deixar dois degredados com a missão de aprender a língua e recolher informações. 25 de abril. ainda houve oportunidade para trocar um barrete vermelho. comparar os cálculos das léguas percorridas e estimar a distância a que se encontravam do cabo . tendo as naus fundeado a cerca de uma légua do recife. Nos dias imediatos procedeu-se à transferência da carga da naveta de mantimentos para as outras 11 embarcações.. um altar destinado à celebração da missa. uma carapuça de linho e um sombreiro preto por "um sombreiro de penas d'aves. No mesmo dia. uma forte ventania de "sudeste. alguns dos quais foram convidados a tomar refeições e a pernoitar nas naus. manilhas e guizos por arcos. por terem atingido o local pouco antes do pôr-do-sol. com a missão de a explorar mais detalhadamente na viagem de regresso. o capitão-mor foi efetuar um reconhecimento das margens do rio Mutari. que fez caçar [afastar do local onde estavam fundeadas] as naus. o capitão-mor mandou armar. guardião dos franciscanos. distante da praia. Depois de percorrerem cerca de 10 léguas (quase 32 milhas). o comandante reuniu em conselho na nau-capitânia todos os capitães da esquadra que concordaram com a sua proposta no sentido de mandar ao rei o navio auxiliar com a "nova do achamento" da Terra de Vera Cruz e. as embarcações de maior tonelagem penetraram na baía. ao som de gaita. Foi ainda deliberado que se não tomasse nenhum indígena para o enviar ao reino.]". sendo Nicolau Coelho e Bartolomeu Dias incumbidos pelo capitão-mor de devolver à liberdade. dissertando sobre o significado da quadra pascal e do descobrimento daquela terra. A partir de então começaram progressivamente a estabelecer-se relações cordiais entre os marinheiros lusos e os tupiniquins traduzidas em trocas de objetos (carapuças. flechas e adornos de penas) e na colaboração prestada pelos indígenas nas operações de abastecimento de água e lenha. capturado dois mancebos índios que se encontravam numa almadia. ao amanhecer. como de papagaio [.. bem como os pilotos das naus do capitão-mor e do sota-capitão. os pilotos ultrapassaram a barra do Buranhém. onde os nativos só tinham possibilidades de chegar a nado ou em canoa. A primeira cerimônia cristã no Brasil. especialmente a capitania".50 Jorge Couto A gênese do Brasil 51 Os primeiros contatos entre os tripulantes da pequena embarcação e o grupo de 18 a 20 ameríndios foram dificultados pelo barulho ensurdecedor provocado pela rebentação que impediu tentativas mais prolongadas de entendimento. também. encontraram "um arrecife [a Coroa Vermelha] com um porto dentro. foi presidida por frei Henrique de Coimbra. No sábado. Essa decisão foi tomada por Cabral como medida de segurança para evitar quaisquer hipóteses de ataques de surpresa de que. com uma mui larga entrada". por exemplo. compridas. que. Na tarde do mesmo dia. compelindo-o a regressar à armada.. Contudo. Afonso Lopes. tendo-os deposto a pedido dos seus companheiros que se encontravam nos batéis. aproveitaram a permanência em terra para armar na praia o grande astrolábio de pau mais confiável do que os pequenos astrolábios de latão utilizados a bordo com o objetivo de tomar a altura do sol ao meio-dia. No domingo.] e um ramal [colar] grande de continhas brancas. dia de Pascoela. no ilhéu da Coroa Vermelha. reuniram-se todos os comandantes na nau de Cabral. uma parte da tripulação foi folgar e pescar no ilhéu. com chuvaceiros. conduzindo-os à nau-capitânia com o objetivo de os interrogar. onde lançaram as âncoras. à construção de uma grande cruz. também se encarregou da pregação. sondou o porto. os dois nativos aprisionados na véspera e de desembarcar o degredado Afonso Ribeiro. tendo. num improvisado púlpito. onde pudessem verificar o estado de abastecimento da frota em água e lenha. em busca de um ancoradouro abrigado. Na noite de quinta para sexta-feira.. com presentes. com o objetivo de dispensar a aguada na costa da África. à qual assistiram a tripulação e cerca de duzentos tupiniquins que se encontravam na praia fronteiriça. Os ameríndios não permitiram que o degredado ficasse entre eles. Afonso Lopes e Pero Escobar. respectivamente. que tinha por missão obter informações mais detalhadas sobre os autóctones. autorizando a tripulação a folgar. circunstância que foi aproveitada por Diogo Dias para organizar um baile. os tripulantes das expedições de Dias e Gama tinham sido alvo na costa africana.

da vossa ilha da Vera Cruz. uma passagem em que informa o monarca dé que. 2 de maio. por conseguinte. do feitor. Na carta que enviou a d. do cosmógrafo e do escrivão sobre o "achamento da terra nova". Pero Vaz de Caminha considera-a uma ilha. Terra de Santa Cruz.identificado com o atual cabo de Santo Agostinho . refere que "[. enviando ao rei papagaios. foram. Essa referência a uma hipotética representação cartográfica da Terra do Brasil. 2. endereçando a sua missiva de "Vera Cruz no primeiro de maio de 500". tendo tido oportunidade. um reconhecimento do litoral brasílico compreendido entre Porto Seguro e o cabo de São Jorge . na viagem de retorno a Lisboa. na posse de Pero Vaz da Cunha. Esta última testemunha não ficou. na seqüência da expedição cabralina. deixando. o rei de Portugal tomou decisões conducentes a integrar funcionalmente os domínios do Novo Mundo no contexto do Império. porém não pudemos saber se era ilha ou terra firme". no prosseguimento da derrota rumo ao cabo da Boa Esperança. O cosmógrafo e físico régio acrescenta.. em que foram pregadas as armas e a divisa reais. sextafeira. efetuada a 27 de abril por aqueles três técnicos. todavia. Foi então organizada uma procissão que transportou a cruz. o comandante da expedição ordenou a partida para Lisboa da naveta de mantimentos.. situado nas proximidades da foz dorioMutari. bem como da existência no poente de uma grandiosa terrafirmeaustral que o monarca denominou de Terra de Santa Cruz. O bacharel mestre João.numa extensão superior a 150 léguas. uma legenda alusiva ao descobrimento. flechas e outros objetos fornecidos pelos tupiniquins. contudo. Manuel I recebeu. tendo. . uma margem de erro inferior a 40' por excesso. que não é visível do mar. inseridos no padrão cartográfico real. bem como as missivas dos capitães. "melhor ser vista". tomando conhecimento dos sucessos protagonizados pela segunda armada da índia até 1Q de maio inclusive. anterior a abril de 1500. além de recomendações de natureza náutica. "os quais começaram a chorar. A 1Q de maio. todavia. circunscrita ao litoral reconhecido até à baía Cabrália. o que permitiu obter a confirmação de que se tratava de um continente. No entanto. O autor da vulgarmente designada Relação do piloto anônimo aborda a questão de forma mais dubitativa. o capitão-mor procedeu à escolha do sítio onde deveria ser erguida a grande cruz construída em madeira da terra. não indicando se a terra era ou não habitada. bastaria consultar o mapamúndi que se encontrava em Lisboa. indicando que a terra era "grande.. para conhecer a localização da nova terra. comandada por Gaspar de Lemos.]". No sábado. onde a implantaram. em terra. onde a mesma estava desenhada. o Bisagudo.] quase entendemos por acenos que esta era ilha. e foram animados pelos naturais do país que mostravam ter piedade deles".52 Jorge Couto A gênese do Brasil 53 da Boa Esperança. ultrapassados diversos constrangimentos políticos e diplomáticos. de acordo com o escrivão cabralino. efetuou. primeiro dia de maio de 1500". provavelmente no decorrer de julho de 1500. por seu turno. A naveta de mantimentos. até ao local selecionado. procede à primeira descrição e a um esboço de representação da Cruz. Na previsão de que a nova descoberta pudesse suscitar a eclosão de disputas com Castela acerca da esfera de influência em que o novo domínio se situava. ou seja. Concluídas as cerimônias litúrgicas. adiantando. Manuel data-a de "Porto Seguro. dois grumetes que tinham desertado nas vésperas da partida e igual número de degredados. seguindo-se a celebração da segunda missa na Terra de Vera Cruz. comandada por Gaspar de Lemos. mestre João Faras. ainda. Não são concordantes as opiniões dos autores dos três relatos sobre o descobrimento do Brasil relativamente à natureza da terra achada. deu o resultado de 17° S. a esquadra cabralina zarpou do ancoradouro brasílico. de avistar mais uma parcela da orla marítima. ressalva que se tratava de uma carta antiga. No início de 1501. tem suscitado acesa polêmica devido às implicações decorrentes da sua interpretação apontarem ou não para a existência de precursores de Cabral naquela região brasílica. o rei decidiu manter segredo sobre o assunto até obter informações sobre os respectivos limites. os topônimos correspondentes às estremas atingidas. arcos. hoje. que se inclinava para a "última opinião pelo seu tamanho". uma vez que no encerramento da Carta a d. de forma a. e que de outra ilha vêm aqui almadias [. o que lhe permitiu adquirir uma visão mais próxima da realidade. O traçado geral da faixa costeira explorada. sendo que a do norte se encontra assinalada com uma bandeira das Quinas. sexta-feira. Terra dos Papagaios e Novo Mundo D. Gaspar de Lemos. A medição da latitude da baía Cabrália (que está atualmente fixada em 16° 21' S). e que eram quatro.. da constelação austral. Manuel I.

fato indiciado pela participação de dois destacados florentinos que se encontravam intimamente associados a empreendimentos marítimos e comerciais nas "índias de Castela". por volta dos 5 o S. cabo Frio. em que Ângelo Trevisano. em que atribui a descoberta feita por Cabral a um "milagre divino".cujas estremas setentrional e meridional eram desconhecidas . iniciando aí o reconhecimento da orla marítima que se estendeu até ligeiramente ao sul de Cananéia (25° 03' S). pertencente à sociedade constituída entre d. pondo em relevo o encontro de uma terra desconhecida. as missivas de italianos residentes em Portugal e Castela (Affaitadi. capitão-mor da terceira armada da índia. dirigindo-se a Bezeguiche (Senegal) para tomar refresco. redigida em linguagem muito cautelosa e ambígua. bem como os resultados das medições de latitude efetuadas em Porto Seguro. designadamente o cabo de São Roque (16 de agosto). "porque o rei impôs a pena de morte a quem a mandar para fora". todavia. comandada por Nuno Leitão da Cunha. afrotazarpou do Tejo na primeira quinzena de março. No final do mês encontraram ancoradas nesse porto duas naus da armada de Cabral que regressavam da índia.54 Jorge Couto A gênese do Brasil 55 A primeira consistiu em dar instruções a João da Nova. situandose.foi a de armar uma flotilha de três caravelas. Na noite de 23 para 24 de junho de 1501 chegou ao Tejo a nau Anunciada. Marchioni. No início de março de 1502. não transpiraram notícias sobre a descoberta efetuada pela esquadra de Cabral nas paragens ocidentais. No decurso da viagem foram descobertos e batizados importantes acidentes geográficos. para tornar refresco na Terra de Santa Cruz. Com efeito. cujo comando confiou a Gonçalo Coelho. O argumento de que a inexistência de informações sobre o assunto se deveria à pouca importância atribuída por d. informava o analista Malapiero que não tinha sido possível obter uma carta de marear da referida viagem. datada de 10 de agosto desse ano. o que revela a existência de um calendário político para a sua divulgação. a baía de Todos os Santos (1Q de novembro). d. Álvaro de Bragança e mercadores italianos. Ao receber as notícias sobre a descoberta da grande terrafirmeaustral . seguiu o rumo sudeste e efetuou uma . por navios lusos. O selo de secretismo com que o Venturoso rodeou os resultados náuticos da expedição de Cabral encontra-se bem patente numa missiva. a serra de São Tome (21 de dezembro). secretário do embaixador veneziano Domenico Pisani junto de Isabel e Fernando. Os monarcas castelhanos . É muito provável que entre os objetivos cometidos à expedição de 1501-1502 se encontrasse o de efetuar um levantamento das potencialidades econômicas da Terra de Santa Cruz. A segunda . com a missão de determinar os limites da terra firme descoberta por Cabral. iniciou a aproximação ao litoral brasílico por alturas do cabo de Santo Agostinho e efetuou a aguada na costa pernambucana. e não faz a mínima referência ao envio da expedição de Coelho que havia partido de Lisboa em maio. Manuel apercebeu-se que. Manuel I ao adiamento do Brasil é invalidado pela tomada das decisões já referidas que apontam no sentido contrário ao dessa hipótese. para além de ter vencido os reis católicos na corrida pela chegada ao Oriente (1499).designação que lhe foi atribuída por esses diplomatas e mercadores -. a flotilha afastou-se do litoral a partir aproximadamente dos 26° S. enviou-lhes uma missiva (28 de agosto de 1501). tendo-se efetuado importantes conciliábulos entre alguns membros de ambas as tripulações que permitiram a Vespúcio chegar à conclusão de que a Terra de Santa Cruz pertencia ao mesmo continente que ele havia visitado no decurso da expedição de Ojeda. a baía (Angra) dos Reis (6 de janeiro). na região meridional. o cabo de Santa Cruz (posteriormente designado de Santo Agostinho). a existência de populações caracterizadas pela nudez e a abundância e variedade de papagaios. Apesar de todas essas movimentações. a flotilha comandada por Gonçalo Coelho atingiu a costa brasílica no Rio Grande do Norte. Omite. No início de agosto de 1501.. de terras no poente que poderiam estar situadas no seu hemisfério de influência . pressionado pelo embaixador dos sogros. acabava de abrir uma nova frente de competição com Castela. todavia. sublinhando que a mesma era muito conveniente e necessária para a navegação da índia. numa extensão superior a 370 léguas. o porto de São Vicente (22 de janeiro) e a Cananéia (29 de fevereiro). dessa vez no hemisfério ocidental. Cretico.e mais importante . Pisani e Trevisano) vão aludir constantemente ao descobrimento da Terra dos Papagaios .alertados pelos rumores que circulavam sobre o achamento. o rio de São Francisco (4 de outubro).deram instruções ao seu representante em Portugal para que insistisse junto do "diletofilho"no sentido de lhes dar conta dos resultados obtidos pela segunda armada da índia. O soberano lusitano. os dados sobre a posição geográfica da Terra de Vera Cruz. primeira unidade da segunda armada da índia a regressar do Oriente. Os navios de Gonçalo Coelho zarparam de Lisboa entre 10 e 14 de maio de 1501. A partir de 26 desse mês.

provavelmente em 1503. ela já era empregada nos círculos portugueses desde 1501. da autoria de Duarte Pacheco Pereira (1505). Manuel I arrendou a Terra de Santa Cruz a uma associação de mercadores. foi falsificado de modo a impedir a revelação de que as terras situadas a partir daquele local pertenciam à coroa de Castela. como mostra o fato de. Uma das conseqüências da viagem de 1501-1502 consistiu em reforçar a noção de continentalidade da terrafirmeocidental que já ganhara consistência na corte manuelina no decurso de 1501.grande armador que em 1509 comandara pessoalmente uma nau de sua propriedade que partiu para a índia integrada na armada do marechal d. datada de 8 de junho de 1504. acabados de regressar da Terra Nova (Canadá). à data da redação do Esmeraldo de Situ Orbis. Contudo. o meridiano de Tordesilhas .do extremo setentrional (Terra Nova) à região austral (Cananéia) . A carta-portulano de Fano. d. tinha uma duração prevista de três anos. Manuel I procedeu à primeira doação efetuada pela monarquia portuguesa em território americano. contém. como acontecia com os territórios pertencentes ao Velho Mundo. As contrapartidas consistiam no pagamento anual do quarto e do dízimo dos rendimentos obtidos. em 18 de outubro desse ano. A afirmação de que "é achada esta terra não navegada pelos navios de Vossa Alteza e. um piloto português a serviço de Fernando. 3. Após o regresso a Lisboa. com a obrigação do beneficiário a povoar e aproveitar economicamente.56 Jorge Couto A gênese do Brasil 57 profunda incursão em águas austrais até cerca de 50°. pelo que a mesma não era freqüentada por embarcações regias. saído dos prelos a versão latina intitulada Mundus Novus (Veneza. Concedia o monopólio da exploração do território à sociedade encabeçada por Fernão de Loronha e vedava a importação do Oriente da variedade asiática do pau-brasil. a exploração geográfica e comercial do Brasil estava confiada à sociedade de mercadores chefiada por Fernão de Loronha. os dos vossos naturais" significa que. o traçado da costa brasílica desde Cananéia . O contrato. conforme comprova a seguinte passagem de uma carta remetida. com numerosas alterações introduzidas sem o conhecimento do autor. por Marchioni para Florença: "Este rei [d. mas sim pelas pertencentes aos respectivos arrendatários. pelo prazo de duas vidas. enfrentando violentas tempestades. Com efeito. mas é perigoso navegar no âmbito desses mares". Em 1513. Decorrido algum tempo sobre o arrendamento do Brasil. ou seja. a capitania da Ilha de São João (atual Fernando de Noronha) a Fernão de Loronha.encontra-se deslocado para oriente. Jorge Lopes Bixorda . por vosso mandado e licença. Terra do Brasil Em data anterior a 3 de outubro de 1502.local por onde passava. época em que João Dias de Sólis. 1504). a seguinte inscrição em dialeto genovês: Terá de Gonsalvo Coigo vocatur Santa Croxe. designação atribuída ao Brasil pelo cartografo Vesconte de Maiollo em homenagem ao navegador que comandara a expedição de reconhecimento de 1501-1502. Esse tipo de alteração intencional introduzida nas cartas-portulano por motivos políticos manteve-se até 1515-1516. em janeiro de 1504. A expressão divulgou-se rapidamente. ou seja. frio intenso e ilhas de gelo. Da valiosa produção cartográfica de 1502 somente se conserva o planisfério português anônimo. o rei concedeu. atestar que os homens da expedição de Gaspar Corte-Real. o famoso "Cantino". acreditavam na continuidade da "quarta parte" do mundo desde a região glacial até a Terra dos Papagaios. em julho desse ano. Manuel] descobriu nesta [viagem de 1500] um novo mundo. No entanto. tendo.detinha o exclusivo do comércio da árvore tintureira por prazo e em condições desconhecidos. conduziu uma expedição castelhana às terras austrais. Terra de Gonçalo Coelho que se chama Santa Cruz. excetuando as matériasprimas tintureiras. Fernando Coutinho . por conseguinte. pouco depois. passando a ser muito utilizada para nomear o continente austral recentemente descoberto pela armada de Cabral. ao sul. Regressou a Lisboa entre 22 de julho e 7 de setembro desse ano. d. A experiência proporcionada pela realização da viagem de 1501-1502 revelou que o aprovisionamento de pau-brasil efetuado no decurso da permanência dos navios nos ancoradouros tornava a operação muito demoradae. o Católico. Daí que se tenha chegado à conoíuslb O^ J/F "A U> u %° . na representação cartográfica do Novo Mundo austral. nas cartas padrão regias. Os resultados das explorações lusitanas nas paragens ocidentais . embaixador de Veneza. Pedro Pasqualigo. de acordo com as informações fornecidas por Pedro Rondinelli. Américo Vespúcio redigiu uma relação sumária da viagem de 1501-1502 que enviou a Lourenço di Pierfrancesco de' Mediei.foram incorporados. queficavamreservadas para a coroa. pouco lucrativa. Este primeiro documento impresso sobre o Brasil foi publicado em italiano na cidade de Paris. drogas e especiarias.

Os navegadores portugueses exploraram. nos seus baixios. o trecho do litoral compreendido entre Cananéia e o rio de Santa Maria (Prata). por João de Barros e por Pero de Magalhães de Gândavo.versão latina da coletânea de relações de viagens portuguesas e castelhanas. organizada por Fracanzano da Montalboddo. o fato de nas imediações da baía do Maranhão (2 o 1/3 S) surgir cartografado no atlas Homem-Reinéis umriodenominado "Joham de lixboa". na segunda metade do século XVI. abrangendo a "terra do Brasil. concluído por volta de 1514. Manuel I e no globo de Marini (1512). cuja guarnição deveria obter a colaboração dos indígenas para o abate e preparação das árvores no período em que se aguardava a chegada das naus. de João de Lisboa. por razões náuticas. Utopia (Louvain. provavelmente também da autoria daquele reputado piloto. daí resultando que uma das unidades descobriu. o cabo de Santa Maria (Punta dei Este. Esta obra inclui ainda a primeira menção conhecida de Cruzeiro do Sul. que tinha como um dos objetivos prioritários o de construir uma feitoria na terra do pau-brasil. 12 peças de artilharia. da autoria de Martin Fernández . no Regimento da declinação do sol. numa carta de Afonso de Albuquerque a d. foram impressas. sob o título Quatuor Navigationes e publicou-a na sua Cosmographiae Introdução (Saint-Dié. deixando o feitor João de Braga com uma guarnição de 24 homens. para sudeste. nas inevitáveis negociações que se seguiriam sobre a definição dos respectivos limites. por um lado. posteriormente rebatizada de Trindade (20° 30' S). Lorena. A substituição do símbolo da paixão e redenção cristãs por um "pau que tinge panos" seria duramente criticada. atribuindo-a a obra do demônio. de modo que estas. da banda do sul" a costa compreendida entre o "rio do arrecife" (2 o S) e o "cabo de Santa Maria" (35° S). concluída em Lisboa a 4 de setembro de 1504. em outubro. tendo regressado a Portugal a 18 de junho de 1504.58 Jorge Couto A gênese do Brasil çn de que a solução mais rentável consistiria em edificar uma feitoria. os direitos de Portugal aos territórios situados entre Cananéia e o rio da Prata. Foi a partir do ltinerarium Portugallensium (Milão. armas. logo que arribassem. "árvore vermelha" ou "pau cor de brasa") para identificar a terra austral. No início da segunda década de Quinhentos. situado na entrada do estuário daquele rio (34° 59' S). Lisboa procedeu. 1508) . pela primeira vez. designação que gradualmente suplantou a denominação oficial de Terra de Santa Cruz e as italianas de Terra dos Papagaios ou de Gonçalo Coelho. Uruguai). 1519). que rebatizou de São Lourenço. Os elementos fornecidos pelo Guia náutico de Évora foram incorporados na Suma de geographia (Sevilha. nesse mesmo dia. A 10 de junho de 1503 zarpou de Lisboa a segunda armada de Gonçalo Coelho. bem como o respectivo regimento para a determinação de latitudes. intitulada Paesi Novamente Retrovati (Vicenza. tendo a naucapitânia naufragado. fato que integrou na trama da sua célebre obra. na qual figuravam os textos vespucianos . 1516). impressa em Florença em 1505 ou 1506. Depois de refrescar nas ilhas de Cabo Verde.depois de os castelhanos terem chegado ao rio da Prata . A 10 de agosto a expedição encontrou a ilha de São João. após ter sido modificada e ampliada por um compilador. os navios de Vespúcio e de outro comandante cuja identidade se desconhece rumaram para sul a fim de cumprir uma das cláusulas do contrato de arrendamento: fundar um estabelecimento lusitano no Novo Mundo. foi. O cosmógrafo alemão Martim Waldseemuller traduziu-a para o latim. em seguida. Após terem aguardado inutilmente na baía de Todos os Santos .local de encontro fixado pelo regimento régio para o reagrupamento das armadas .que Thomas More tomou conhecimento do episódio referente à fundação da primeira feitoria portuguesa no Novo Mundo. onde apareceu pela primeira vez o neologismo América.a chegada do capitão-mor. 1507). que atribui àquele acidente geográfico a latitude de 35°. por outro. a medições de latitude de norte a sul do litoral da Terra de Santa Cruz. Manuel apressou-se a mandar publicá-los de forma a poder invocar. Por volta de 1516. ou seja. conforme demonstram. Durante cinco meses edificaram a feitoria-fortaleza numa ilha nas imediações do cabo Frio. a tábua incluída na sua obra que apresenta os primeiros topônimos e "alturas da costa do Brasil" para a região costeira sul-americana compreendida entre os 25 e 35° e. munições e mantimentos para seis meses. baseados na prioridade do descobrimento. designadamente a de 1503-1504. rumou. Devido a essa ocorrência. A divulgação desses dados até então ciosamente conservados em sigilo . o termo Brasil (tradução de ibirapitanga. 1507).revela uma mudança de estratégia da coroa portuguesa. Aliás. por ele criado. A Lettera dirigida a Pedro Soderini. d. pudessem ser rapidamente carregadas. constituída por seis navios. dirigindo-se. em que Américo Vespúcio descreve as viagens que efetuou. para sul-sudoeste. Desvendado o segredo de que o reino vizinho tinha direito a uma parcela das terras austrais. a esquadra dispersou-se. pela primeira vez. surgiu. na primeira vintena de Quinhentos. tábuas de latitudes das regiões situadas ao sul do equador. já aparece referenciado no Livro de marinharia. até 1514. a ilha da Ascensão.

a manutenção da autonomia dos grupos tribais. separada do planalto por linhas de escarpas abruptas com alturas superiores a 800 metros. com caráter permanente. insuficiente para atingir os objetivos pretendidos devido à desproporção existente entre as elevadas exigências materiais e humanas que a sua concretização implicava e as disponibilidades dos donatários (capitães-governadores) e também aos abusos a que dava ocasião a total ausência de fiscalização regia. Numa primeira fase (1500-1530). condicionando a forma de ocupação do território brasílico nos séculos XVI e XVII. o qual garantira. Os progressos verificados a partir da criação do governo geral foram tão significativos que um dos donatários. escreveu. simultaneamente. fomentar o crescimento econômico e aperfeiçoar o funcionamento das instituições.revelou-se. Pode-se afirmar que as características geográficas de várias regiões. submetia-as à inspeção de representantes diretamente nomeados pelo rei instalados no próprio território. d. constitui um importante elemento para a interpretação do processo quinhentista de colonização do Brasil. a coroa procurou assegurar com os seus próprios recursos tão ambiciosa tarefa. provocando dois tipos de reações distintas por parte das comunidades aborígines: aceitação pacífica ou resistência armada. dificultaram significativamente a penetração portuguesa no sertão. Este segundo modelo . por recorrer a particulares para quem transferiu na quase totalidade a iniciativa da colonização. três modelos diferentes para garantir o sucesso da empresa. João III (15211557) decidiu iniciar a colonização do Brasil.o sistema misto . de ataques internos e externos tendo permitido alcançar progressos significativos na ocupação da terra brasílica. em diversos pontos da costa brasílica pôs em causa o equilíbrio existente. tendo adotado. No fim de 1548. contudo. embora reduzindo substancialmente as suas atribuições iniciais. à criação de feitorias. O governo régio optou. Esta solução. defendendo-a. até então. Uma das conseqüências do avanço do processo colonizador residiu. com especial incidência no sudeste. arbitrando ao rio Maranon (Amazonas) a latitude de 7o 30' S. 4. devido às dificuldades em transpor as barreiras topográficas. em vários domínios (militar. contudo. embora expropriando os seus titulares de muitas das competências inicial- mente concedidas. ao longo do período compreendido entre 1530 e 1548. Através do primeiro modelo . Essa situação era agravada pela existência de um reduzido número de vales importantes entre os rios Doce (ao norte) e Jacuí (ao sul).60 Jorge Couto A gênese do Brasil 61 de Enciso. Além dos condicionalismos de ordem geográfica. localizadas a curta distância das terras baixas. econômico e judicial da coroa com a manutenção das capitanias-donatárias. a partir de 1534. articulava-as com o funcionamento de órgãos da administração regia estabelecidos na Província de Santa Cruz e. na Primeira década da Ásia: "E por honra de tão grande terra chamemos-lhe Província". No entanto. o humanista João de Barros. O isolamento do litoral. Província de Santa Cruz A partir de finais da década de 20 de Quinhentos.que articulava um forte empenhamento militar. o relacionamento entre portugueses e indígenas limitou-se à prática do escambo. representou um sério obstáculo para as ligações entre os sítios portuários da costa e os compartimentos do planalto de clima tropical de altitude. fatores de natureza socioeconômica e geopolítica encontram-se na origem da "colonização pon- .de exclusividade regia (1530-1533) -. concluiu que tal empresa exigia avultados recursos financeiros e demográficos de que não dispunha. judicial e fiscal). mas ao tratar da costa ao norte do primeiro topônimo é "incrivelmente errôneo". A paulatina fixação dos europeus. devido ao seu empenhamento em outras zonas geográficas do globo então consideradas prioritárias. em 1552. por conseguinte. consolidava a presença lusitana no Brasil. que ao descrever o litoral brasílico situado entre o cabo de Santo Agostinho e o cabo de Santa Maria fornece as latitudes corretas. A estreita faixa costeira. e às pouco frutuosas tentativas de missionação empreendidas por franciscanos. à fixação de um escasso número de "lançados" no Brasil. que conjugava recursos régios e particulares. em pouco tempo.de exclusividade particular (1534-1548) . pretendendo responder à tenaz resistência oposta por vários grupos tribais ameríndios à fixação de portugueses no seu território e às alterações verificadas nas vertentes geopolítica e econômica mundiais. na introdução de profundas modificações no quadro das relações entre tupis e portugueses. Adotou. d. João III resolveu experimentar uma terceira solução . resistir vitoriosamente às investidas francesas. um modelo misto que mantinha as capitanias-donatárias.

. segundo as palavras de um franciscano seiscentista. "Ilha Brasil" A coroa de Portugal nunca desistiu de ampliar os limites meridionais da América portuguesa até. Dispondo Portugal de reduzidos recursos demográficos no século XVI. O "modelo insular" de fixação no território brasílico foi sagazmente apreendido por frei Vicente do Salvador que escreveu. uma vez que aquela região sul-americana "é da minha conquista e cai debaixo da minha demarcação". gradualmente substituídos por cativos africanos. a fase da economia de escambo foi superada. daí resultando a criação de um eixo triangular: Metrópole-Brasil-África.o príncipe herdeiro de Castela (futuro Filipe II) . Essa concepção teve importantes repercussões nas cartas-portulano.no sentido de impedir a saída de uma expedição espanhola. por um lado. o seu representante na corte de Carlos V de efetuar diligências junto do sobrinho e genro . ou seja. consolidando-se a economia de produção em que a cultura da cana e o fabrico do açúcar . base estabelecida no planalto de Piratininga que constituía uma cunha para a penetração na região platina. como o "coração no meio do corpo. donde todas se socorressem e fossem governadas". 5. mercadores e artesãos). a ocupação apenas dos pontos estratégicos da orla costeira. em 1625. já que. num tripé: na escolha da Bahia . cidade que assegurava o domínio efetivo da baía da Guanabara. na fundação de São Paulo.em que o mapa de Bartolomeu Velho (1561) assumiu uma função paradigmática .região central na época quinhentista . do ponto de vista geopolítico. verificando-se a existência de um setor intermédio pouco numeroso (lavradores. sobretudo no século XVII. essencial. contentarem-se os portugueses em arranhar a costa como os caranguejos. o governo régio optou por concentrá-los na costa. as condições ideais para a cultura da cana sacarina e o fabrico de açúcar .62 Jorge Couto A gênese do Brasil 63 tual". localizado no interior .complementados por roças de mantimentos e criação de gado . Essa solução surgia como a única fórmula suscetível de conferir legitimidade às ambições lusitanas de estender as fronteiras da América portuguesa tão desmesuradamente para o sul da linha divisória. para manter a ligação entre as capitanias do Norte e do Sul e. originou uma estrutura fundiária caracterizada pela grande propriedade e pelo recurso intensivo a mão-de-obra escrava. em segundo lugar. a margem norte do rio da Prata.essenciais para viabilizar a empresa colonizadora . João III incumbiu. A estratégia lusitana de consolidação e ampliação da América portuguesa assentou.que encontra claro acolhimento na cartografia lusa a partir de meados de Quinhentos . separada da América Espanhola por "fronteiras naturais". As pretensões portuguesas de ampliar significativamente a extensão da Província de Santa Cruz estão bem patentes.que justificaria a inclusão de uma hipótese não prevista no articulado do Tratado de Tordesilhas. ocupando todas as baías e embocaduras de rios suscetíveis de permitir a ancoragem de navios gauleses e. D. A recepção do mito ameríndio da "Ilha Brasil" .para sede do governo geral. única que permitia integrar o Brasil na economia-mundo. francesas e italianas. Esse tipo de estrutura econômica gerou uma formação social dominada por um restrito número de membros (os senhores de engenho) em que a massa da população era constituída por escravos. na criação de São Sebastião do Janeiro. a sociedade colonial possuía um apreciável grau de mobilidade. desse modo.insere-se na estratégia portuguesa de desenvolver a teoria de que a Província de Santa Cruz seria uma ilha "rodeada pelo oceano e por dois grandes rios [o Amazonas e o Prata].se conjugarem nas proximidades da faixa marítima. logrando alcançar grande aceitação nas escolas cartográficas flamengas. primeiramente formada por indígenas que foram sendo. Em meados de Quinhentos. Apesar dessa configuração. com São Paulo. unidos por um lago". a segurança de ambas as povoações. funcionando. por outro. pelo menos. ou seja. a "lagoa Eupana".uma vez que o Brasil constituiria uma entidade territorial distinta. através do sertão. pelas duas principais bacias hidrográficas sul-americanas comunicantes através de um grande lago central. nela não penetrando decididamente como o tinham feito os espanhóis. a partir de meados do século XVI. em novembro-dezembro de 1553. finalmente. Tratava-se de utilizar um argumento de natureza geográfica .assumiram um papel primordial. em primeiro lugar. verificando-se que aquela visão fabulosa da geografia sul-americana se difundiu lentamente na Europa a partir de protótipos portugueses da segunda metade de Quinhentos . e. A opção pela agricultura de exportação. urgia enfrentar a ameaça francesa. que se aprestava para partir de Sevilha com destino ao rio da Prata. mesmo no período da Monar- . reforçando.

o jesuíta Fernão Cardim.64 Jorge Couto A gênese do Brasil 65 quia Dual (1580-1640). que viveu a maior parte da sua vida no Brasil. Os primeiros jesuítas dedicaram particular atenção à língua tupi. tratava-se de uma componente do império português que possuía características bem vincadas e que . contudo. "língua da terra" e. bem como sermões e avisos para a educação e instrução dos índios na Língua do Brasil. nomeado lente de Língua Brasílica no Colégio da Bahia. 6. iniciando-se. um jesuíta seiscentista português. um Dialogo da doctrina christãa. portugueses e africanos. no seguinte trecho. O primeiro Vocabulário na língua brasílica foi composto pelo padre Leonardo do Vale (c. o processo de aculturação foi enriquecido com o elemento africano. Simão de Vasconcelos. Um dos elementos fundamentais do contato interétnico foi a mulher indígena. sintetizou admiravelmente. os elementos das culturas européia e ameríndia. elaborada por volta de 1586. sermões. que "este Brasil é já outro Portugal". um papel fundamental no processo de aculturação entre índios. Funcionou. sobretudo. Até então era referida por "língua do Brasil". de cariz fortemente comparatista. a aculturação dos colonos. Um outro Portugal? No final de Quinhentos. estendendo-se a áreas de outras formações lingüísticas ameríndias. defendia que os limites da demarcação da coroa de Portugal na América do Sul se estendiam à ponta do Marco. Ou são como duas colunas de líquido cristal que a demarcam entre nós e Castela. somente começou a ser utilizada na segunda metade do século XVII. Porto Seguro e São Paulo. São como duas chaves de prata. lingüística e religiosa lusitana . Elaborou ainda uma Doutrina geral na língua do Brasil (1574). cantigas e outras obras em língua tupi. algumas obras sobre o tema. em 1587. designadamente com o latim. como uma verdadeira língua geral. representante das funções domésticas e principal força produtora no sustento do grupo tribal. 1538-1591) que viveu quase 40 anos entre os índios da Bahia. não só por parte do marítimo. no início da década de 1570. etc). Esta obra. a atividade missionária e o engenho desempenharam. O padre José de Anchieta redigiu a primeira Arte de grammatica da lingoa mais usada na costa do Brasil. ainda. bem ao sul do estuário platino. bem como numa importante descrição do Brasil que. desde os primórdios da construção do Brasil. de elementos da matriz cultural. Ainda em finais do século XVDI afirmava Alexandre Rodrigues Ferreira. numa obra de cariz náutico da autoria de Luís Teixeira. no mobiliário doméstico. Com efeito. numa primeira fase. um incansável pesquisador da fauna e da flora amazônicas. na prática. afirmava. o escambo. tendo merecido honras de impressão em Coimbra.apesar da prevalência. assim. estudando-a e elaborando. o que revela as marcas indeléveis que este projeto plasmou no imaginário luso-brasileiro. sobretudo nas áreas urbanas. a miscigenação. tendo sido. são dois portentos da natureza. provocando. os laços matrimoniais entre portugueses e mulheres índias contribuíram para que os primeiros adotassem muitos hábitos tupis (na alimentação. ainda em Quinhentos. a gradual simbiose entre as componentes euro-afro-americana que viria a moldar biológica e culturalmente a formação da sociedade brasileira. o projeto luso de construção de um grande Brasil: Estes dois rios. A língua tupi constituiu um veículo privilegiado de contato entre europeus e indígenas. . que fecham a terra do Brasil. "língua brasílica".. Ela constituiu. ou de ouro. através da gradual e crescente ligação com o europeu. um instrumento para a desorganização social e conseqüente transferência da propriedade dos meios de produção das sociedades nativas para a emergente sociedade colonial.não poderia. compreendida entre os rios Amazonas e da Prata". o das Amazonas e o da Prata. Além desse aspecto fundamental. que "pelo Brasil entendo aquela parte da América. que incluía a foz do rio da Prata no hemisfério português. Compôs. na obra Tratados da terra e gente do Brasil (1585). sintetizando. informalmente. mas também do terreno. "representa uma nova estratégia de abordagem das línguas exóticas que entram no colóquio universalizante do mundo descoberto". Os mestiços desempenharam um papel decisivo como agentes de aculturação. No entanto. em 1595.. poesias. nas formas de sociabilidade. desde o início do processo de colonização. transmitindo-os a grupos tribais que nunca tinham entrado em contato com os portugueses. princípio e fim desta costa. A partir da segunda metade de Quinhentos. que circulou manuscrita largo tempo. um Confessionário brasílico. ser automaticamente associada ao padrão metropolitano. então. designação que. na oficina de Antônio de Mariz.

nomeadamente. através da utilização de machados no abate de árvores. como arara. paca. As mulheres portuguesas preparavam diversas especialidades culinárias com base nos derivados da mandioca. posteriormente. táticas guerreiras aborígines. araçá. O embaixador gaulês Nicot conheceu o tabaco em Portugal. em substituição das pedras aguçadas.66 Jorge Couto A gênese do Brasil 57 Dos contatos luso-ameríndios resultaram. Verificou-se a rápida adoção pelos índios da tecnologia européia nos mais variados domínios. na pesca. técnicos. como abacaxi. Várias frutas. estilos de vida e. da caça e pesca à construção de habitações e à guerra. tendo-se divulgado. ou por preguiça. jenipapo. um senhor de engenho do Recôncavo Baiano. como os beijus. jibóia. e. e bolos amassados com leite e gema de ovos" e outras "mil invenções" que eram sobremaneira apreciadas. que concluiu em 1587 a redação da sua obra Notícia do Brasil. Com a carimã (farinha seca fina) aquecida faziam "muito bom pão. que fazem das amêndoas. eram enviadas para Portugal para tratar os enfermos. tatu. Os cruzamentos étnicos de portugueses com ameríndias e negras. ou zoológicas. de que fazem pinhoadas". . a "tapioca-molhada" ou "tapioca-de-coco". também os portugueses assimilaram produtos. eram também utilizadas para fazer conservas (ananás) e marmeladas (ibá. dentes ou espinhos. contribuíram para criar uma sociedade fortemente miscigenada. largamente utilizado nas sociedades indígenas com finalidades mágico-religiosas e medicinais. amendoim (da raiz tupi mindoim. cutia. açúcar e bordados de canela e. mediante o uso do anzol de metal . e imitando os índios gastam nisso dias e noites". como a das emboscadas. feitos com farinha e condimentados com leite de coco. de enxadas no cultivo da terra e de facas para cortar as ramas da mandioca. na confecção de alimentos. mas o incremento do clima de conflito provocou uma mudança nas estruturas dos assentamentos indígenas. capim. e o têm por vício. Essa prática divulgou-se de tal forma que o primeiro bispo do Brasil condenou publicamente o donatário do Espírito Santo. pipoca ou tapioca. como beiju. objetos. tucano e urubu. menduí ou outras variantes. E também os curam em peças delgadas e compridas. um jesuíta censurava grande parte dos portugueses que viviam no Brasil por "beberem este fumo. além de outros relacionados com a gastronomia. a partir da tapioca (fécula alimentícia da mandioca). depois. na França com a designação de "erva da rainha" e. surucucu. aipim. inicialmente. além de consumidas frescas. carimã. Vasco Fernandes Coutinho. religiosos. por praticar o rito gentílico de "beber fumo" como os plebeus. cipó. caju. Tendo-se revestido o processo de aculturação em terras brasílicas de um caracter recíproco. remeteu amostras a Catarina de Médicis com recomendações sobre as suas virtualidades medicinais. sagüim. piranha. passado a chamar-se "nicotina". toim. O hábito de fumar terá sido introduzido em Portugal por Luís de Góis. bolos semelhantes a filhos. pela introdução da chapa de ferro perfurada no ralador. maracujá e piaçaba. influenciadas pelo vocábulo amêndoa). A utilização de armas européias. aumentou a eficácia das expedições e alterou os padrões guerreiros. O conhecimento do cão . sobretudo ligados a espécies botânicas. na qual os intercâmbios lingüísticos. jararaca. um dos companheiros de Martim Afonso de Sousa na fundação de São Vicente e que veio. Segundo Gabriel Soares de Sousa. ainda. Um dos hábitos ameríndios que mais arraigadamente se entranharam nos costumes dos colonos foi o do consumo de tabaco.o pindaré ("anzol diferente") . maracanã. já em 1561. Saliente-se que a introdução de utensílios metálicos aumentou o rendimento das atividades indígenas: na agricultura. mas que era também fumado e mascado conforme o comprova a descoberta arqueológica de cachimbos. mangaba. ananás (do guarani naná). do ponto de vista biológico. e cortados os fazem de açúcar de mistura como os confeitos. a ingressar na Companhia de Jesus. até. contributos lingüísticos que se traduziram pela incorporação na língua portuguesa de vocábulos de origem tupi-guarani. tamanduá. mandioca. No decênio de 1580. generalizando-se a construção de paliçadas. Alguns autores suspeitam que a utilização de barro nas construções indígenas se deve também à influência lusitana. botânicos e zoológicos geraram uma cultura portadora de uma profunda originalidade. as mulheres portuguesas confeccionavam com amendoim "todas as coisas doces. mingau. bem como entre as diversas variantes possíveis. camuci e araçá) que. incluindo as de fogo.e de pontas de ferro nos arpões.utilizado pelos índios para perseguir os animais e forçá-los a abandonar os esconderijos — associado ao uso de armas de fogo facilitaram o esforço de caça. em homenagem àquele diplomata.

História da colonização portuguesa do Brasil. Portugal. Lisboa: Cosmos. 1943. 1989. Serafim. 1550-1835. 4. CUNHA. História dos índios no Brasil. o Brasil e o Atlântico (1570-1670). Gilberto. História da Companhia de Jesus no Brasil. 1955. 1938-1950. Afundação de São Paulo. 1989. ed. Rio de Janeiro: José Olympio. Segredos internos: engenhos e escravos na sociedade colonial. São Paulo: Difel. LEITE. portugueses e africanos no início do povoamento afinais de Quinhentos. 7. FREIRE. São Paulo: Companhia das Letras. Sérgio Buarque de (dir. Lisboa: Vega. Rio de Janeiro: Livros de Portugal. Manuela Carneiro da (org. 1988.A construção do Brasil. 1995. DIAS. GUEDES. Carlos Malheiro (ed.). 2 vols. capital geográfica do Brasil. História geral da civilização brasileira. Casa-grande & senzala. 10 vols. Frédéric. 2. São Paulo: Companhia das Letras. 2 vols.). 1992. Ameríndios. 1921-1926. ed.68 Jorge Couto Bibliografia selecionada CORTESÂO. Porto: Litografia Nacional. MAURO. Jaime. Lisboa: Estampa.). SCHWARTZ. . HOLANDA. Formação da família brasileira sob o regime de economia patriarcal. Lisboa-Rio de Janeiro: Portugalia/INL. Max Justo. ed. Couro. Jorge. Stuart B. 1985. O descobrimento do Brasil.

i ir * 01 Uma Nova Lusitânia Evaldo Cabral de Mello / #/ »nVK * i J É| r ? 1 ! 1 .

de uma sociedade paralela destinada a realizar. o que. Nova Galícia. empregava-se o . Nova França. asserção. frustradas pelo anglicanismo. o donatário Duarte Coelho não se apartou da praxe. Nova Lusitânia tampouco vingou. Gândavo. Dessa ambição de prolongar o Velho Mundo no Novo. vale dizer.V-^uriosamente. de Massachusetts. já descrevia o Brasil como uma "nova Lusitânia". como ocorrerá adiante. Ao designar de Nova Lusitânia a capitania que lhe doara d. A par de manifestação afetiva. "em termos sociais ou religiosos. igualmente válida para os estabelecimentos criados no hemisfério pelas demais nações européias. onde a rigorosa motivação religiosa dos colonos insuflou o projeto de uma nova Sion. a prática de apor-se às áreas conquistadas os nomes das regiões ou dos países donde eram originários os seus fundadores: Nova Espanha. Contudo. com exceção da Nova Inglaterra. O chamado foral que concedeu à vila de Olinda e suas cartas a el-rei são invariavelmente datadas d' "esta Nova Lusitânia". O fenômeno torna-se compreensível quando se tem em mente a perspicaz observação de Stuart B. o Brasil foi criado para reproduzir Portugal. na afirmação da originalidade da nova terra. da boca meridional do canal de Santa Cruz à foz do São Francisco. não para transformálo ou transcendê-lo". Schwartz segundo a qual. desse lado do Atlântico. aliás. jamais de Pernambuco. Nova Holanda. tais denominações exprimiam de forma abreviada um mesmo programa colonial. ausente das outras designações. as aspirações religiosas e políticas da Reforma. João III. por exemplo. Nova Granada. Ao menos desde os anos sessenta do século XVI. Nova Extremadura. emprestava ao adjetivo o significado de uma ruptura. o padre Cardim afiançava: "Este Brasil é já outro Portugal". a modalidade inicial que o sentimento nativista assume nas crônicas do primeiro século de colonização (1532-1630) não consiste. nesse caso. mas ao contrário no orgulho pela lusitanidade que já caracterizaria a vida cotidiana nos principais núcleos de povoamento.

onde se situara a feitoria de Cristóvão Jaques. o mesmo gosto literário que o levou a batizar sua capitania de Nova Lusitânia pode tê-lo induzido a designar a urbe fundada no ângulo do mar e do Beberibe com o nome de uma heroína de romance. portanto. comprometedoras da estabilidade da capitania. pois a de Brasil fora dada pelo "vulgo mal considerado". inclusive sob o aspecto de certa diversidade da produção exportável. Brites de Albuquerque. no primeiro donatário.segundo a qual ele teria nascido da exclamação de um criado de Duarte Coelho extasiado diante da beleza do sítio em que se ergueria a vila. que chamaram a madeira "Pernambuco hout". que concentrariam a etapa fabril e que moeriam a cana de uma classe média de agricultores. A correspondência dos cônsules venezianos em Lisboa menciona a "terra di Pernambuci". como ocorria na Madeira. Também protestou contra a mudança o autor dos Diálogos das grandezas do Brasil. como de "pau de Pernambuco". Donde informar certa feita haver agido .74 Evaldo Cabral de Mello Uma Nova Lusitânia 75 topônimo tupi. como fez Brito Freire. Nos anos imediatamente anteriores à sua chegada à terra. Só excepcionalmente Nova Lusitânia foi empregado para designar toda a América portuguesa. o que poderia reforçar uma das explicações aventadas para o nome de Olinda. e o autor da relação do naufrágio alude mesmo à "capitania de Pernambuco. que foi verdadeiramente o modelo da sua experiência brasileira. Lusitânia e lusitanijà eram vocábulos que circulavam nas obras de autores portugueses e estrangeiros. Tratar-se-ia. contudo. Quando se iniciava a colonização do Brasil. soando mais agradavelmente a ouvidos cristãos o nome de um lenho em que se realizara o mistério da Redenção e não o de uma madeira que servia apenas para tinturaria. Que Duarte Coelho não o fora. e o relato da expedição de James Lancaster fala sempre de "Fernambuck". Na Europa. Assim. de cujos inconvenientes ele teve plena consciência. A preterição sofrida pelo nome de Nova Lusitânia fora a mesma que já vitimara o de Santa Cruz. Falecido o primeiro donatário. Em conseqüência. já percebera havia muito o historiador Pedro de Azevedo. substituição muito criticada então por João de Barros e por Pedro de Mariz. O fato é que a escolha de Nova Lusitânia denota. caracterizando-se Olinda no Amadis pela qualidade de "mesurada". quinta ou burgo" cara a Duarte Coelho. A substituição de Nova Lusitânia por Pernambuco simboliza no plano da toponímia a mutação que viria a sofrer o programa colonial do primeiro donatário. d. no seu espírito a Nova Lusitânia deveria ser a chasse gardée não dos detentores do equipamento fabril mas de uma classe de médios e pequenos produtores que se valendo subsidiariamente da mão-de-obra servil. Rejeitando a versão. atividades eminentemente dispersivas do esforço colonizador. originalmente utilizado apenas para designar o ponto do litoral. Varnhagen sugeriu que ele adviria de "alguma casa. embora a viúva. novela de cavalaria então na moda. e do pau-brasil. Destarte. certo gosto das humanidades. que haviam identificado os portugueses aos lusitanos sublevados outrora contra a dominação romana. termo que já na "Prosopopéia" viria a adquirir travo literário e erudito. talvez por cautela de cristão-novo. adotou-se naturalmente o uso que se impusera na terra. resultavam do seu projeto de criação de uma colônia baseada na produção de açúcar por número reduzido de engenhos. Duarte Coelho servira como capitão-mor de armadas no Atlântico. sabido que o emprego de Lusitânia constituiu novidade dos fins do século XV trazida pelo renascimento dos estudos clássicos. ou de uma das personagens femininas do Amadis de Gaula. que chamara a atenção para sua inclinação a empregar expressões latinas na correspondência com el-rei. ainda intitula seus conterrâneos os baianos de "os da Bahia". que ali foi o vinho e entre nós o algodão. de maneira a evitar as distorções da monocultura da cana. teimasse. esperar. segundo a qual. Procurou-se também conciliar as denominações em "Pernambuco da Nova Lusitânia". ocasião em que terá podido conhecer o sistema agroindustrial da Madeira. já os denomina frei Vicente do Salvador. de comedida. na terra firme fronteira à ilha de Itamaracá. na sua história da guerra holandesa. Nas entrelinhas das suas cartas dá para perceber que sua resistência às pressões da coroa visando à busca de metais preciosos e sua oposição ao corte de pau-brasil. menos de uma Nova Lusitânia do que de uma Nova Madeira. a correspondência oficial consagrou o costume. em referir-se à Nova Lusitânia. encarregados do cultivo da cana. A designação de pernambucanos para os moradores e os naturais da capitania não se fez. no século subseqüente. que consideravaridícula. costume que seguirão os holandeses. das partes do Brasil da nova Lusitânia". topônimo posteriormente adotado para o ancoradouro da foz do Capibaribe-Beberibe. representaria a espinha dorsal da colônia. o qual. Gândavo insistiu no emprego da primitiva designação. provavelmente por fidelidade à memória do marido. ficaria afastada a objeção levantada por Sérgio Buarque de Holanda. portanto. Embora tenha solicitado licença regia para importar escravos da Guiné. como se vê do seu elogio da lavoura de subsistência. resultaria incompatível com as inclinações de povoadores rústicos. isto é. inicialmente conferido à América portuguesa. por conseguinte.

outros usam de navios que andam buscando mantimentos e tratando por terra conforme ao regimento que tenho posto. Mais tarde. que não se podiam evidentemente dar ao luxo de recorrer maciçamente ao trabalho escravo. 48-9). vigia na Madeira um sistema misto em que o açúcar desempenhava o papel hegemônico. Funchal. graças à presença da vinha e da cultura tritícola. Jerônimo de Albuquerque. outros são mestres de engenhos. Itapirema e Catuama mas. Essas condições. mediante a simples substituição da referência aos algodoais pela alusão à vinha e ao trigo: Entre todos os moradores e povoadores. A expansão territorial não foi obra do primeiro donatário. Se ao longo de Quinhentos. doméstico e artesanal. isto se deveu à 1 proximidade da costa africana e ao papel desempenhado pela ilha no devassamento dessa região. A grande maioria deles (89%) não possui mais de cinco e os que detêm maior número não dispõem de mais de 14. oleiros e oficiais de formas e sinos para os açúcares e outros oficiais. Como acentuou Alberto Vieira. a partir dos anos sessenta. Deu-se início à colonização da Paraíba.76 Evaldo Cabral de Mello Uma Nova Lusitânia 77 contra os "donos dos engenhos [que] queriam esfolar o povo". porém. A um número restrito de fábricas. e várzea do Capibaribe ao sul. "Escravos com e sem açúcar na Madeira". comerciantes. 1996. porém. mas não exclusivo. sua capitania era apenas a "ilha". O valor da mão-de-obra limita-se a 5% do investimento açucareiro. O regime da terra caracterizou-se. esse tipo de mão-de-obra concentrava-se no meio urbano. A. 93. J. pela várzea do Goiana. cuja técnica seus peritos trouxeram inclusive para nós. Embora os engenhos madeirenses o utilizassem subsidiariamente. sobretudo. isto é. que também é muito necessário para a terra. 102.1 Desde finais do século XV. que a pretexto da hostilidade do gentio encetaram. pela média e pequena propriedade. A descrição feita por Duarte Coelho da estrutura social da sua donatária poderia ter sido copiada da que existia na Madeira. onde os africanos adensavam-se tão somente em I^isboa e cidades principais. outros canaviais. à luz do sentido do período. sendo também empregados na exploração do sal. isto é. AbriuAlberto Vieira. pp. vale dizer. A leitura paleográfica deste trecho acrescenta: "amtes vou comtra o povo que comtra os donos dos enjenhos mas ha negra cobiça do mundo he tanta que turba o juizo aos homens para não comsederem no que é razão e justiça" (pp. Na Madeira dos primeiros decênios do século XVI. a comercialização achava-se sob o controle de florentinos. a Madeira não conheceu a simbiose entre o açúcar e o escravo que se verificou nas Canárias e sobretudo no Brasil e no Caribe. situavam-se as cinco fábricas de açúcar existentes. ferreiros. nela. Como assinalaram Virgínia Rau e Jorge Borges de Macedo. outros usam de pescar. Destarte. o engenho localizando-se à distância da matéria-prima indispensável às suas moendas. que é a principal e mais necessária coisa para a terra. outros algodoais. ela também causou o parcelamento intenso dos "poios". exceção da grande propriedade alentejana. terminarão por sedentarizar-se em proprietários de engenhos. ed. . uns fazem engenhos de açúcar porque são poderosos para isso. forjara-se ali uma paisagem agrária bem diversa da que o açúcar virá a criar nos espaços continentais do Brasil. Certa tonalidade democrática manifestase na presença de fidalgos. Quando Duarte Coelho faleceu (1654). É evidente.2 Cartas de Duarte Coelho a el-rei. pp. outros mestres de açúcares. 46-7. a conquista da área litorânea entre os montes Guararapes e a região de Porto Calvo. Essa Nova Madeira do projeto donatarial não sobreviverá ao derradeiro quartel do século XVI. apenas 16% dos produtores de açúcar são donos de escravos. que haviam originalmente predominado na ilha. mas dos seus filhos e do seu cunhado. fronteira à ilha homônima. compreendida entre Igaraçu ao norte. A topografia acidentada da Madeira favorecia a irrigação por meio das levadas. a exemplo do que acontecia no Portugal metropolitano. artesãos e funcionários da coroa entre os lavradores de cana. no sentido freiriano da expressão. Gonsalves de Mello e Cleonir Xavier de Albuquerque (Recife: 1967). dos terrenos agricultados. penetrando-se pelos vales do Araripe. Ao passo que a etapa produtiva tinha assim uma feição eminentemente lusitana. indício de uma escravatura de feitio mediterrâneo. os quais. ao boom açucareiro iniciado nos anos setenta mercê do avanço da fronteira agrícola pela mata pernambucana. fundou-se a vila de Natal (1599) e avançou-se pela metade meridional de Alagoas. o escriba donatarial escreveu por inadvertência "contra o povo" em lugar de "com o povo". em Atas do Seminário Internacional. ocupou-se a terra firme de Itamaracá. correspondia um número amplo de lavradores de cana. genoveses e flamengos. como também a própria tradição da agroindústria açucareira do Mediterrâneo. induziram a separação entre o cultivo da cana e o fabrico do açúcar. os lavradores que lhes forneciam a matéria-prima e os víveres. desvinculada do campo. portanto. mantimentos. carpinteiros. que. outros. via de regra os proprietários de fábricas não possuíam canaviais. devido às condições ecológicas e à disponibilidade limitada de terras aráveis. a presença africana aumentou.

onde se refugiaram os restos da mata atlântica. pela oferta de terras. a oeste. No rio Formoso e em Una. o que já não se verificará a partir do domínio neerlandês. de ver que as atividades agrícolas estavam terceirizadas. Na do Sirinhaém. Ao constituir-se em Brasil holandês. que tornava disponíveis terras mais planturosas. indígena e africana. o equipamento manufatureiro. do falecimento de Duarte Coelho ao final de Quinhentos. às várzeas fluviais e às encostas suaves. O Pernambuco pós-duartino foi em vários sentidos a prefiguração de Barbados. o que eqüivale a dizer que a propriedade do engenho correspondia freqüentemente ao comerciante olindense. que se situa no extremo oposto da madeirense. e a cristalina. separadas grosso modo pelo paralelo do Recife. embora ambas as zonas sofram a diminuição dos totais pluviométricos no sentido leste-oeste. do comércio e da vida urbana. podia ocorrer o que ocorreu a Diogo Fernandes. Se me detenho no caso pernambucano. e pela presença de população nativa. os canaviais cessavam na confluência com o Camaragibe. a penetração ainda não alcançara o ponto médio da bacia fluvial. Aí. Os geógrafos costumam distinguir a mata norte e a mata sul. onde a cartografia holandesa registrará os derradeiros topônimos. e se o domínio da grande lavoura não atingiu entre nós o ponto a que chegou naquela ilha do Caribe. graças a essa polarização. enquanto a mata norte engloba. e o de Nossa Senhora da Ajuda. quer no centro quer num dos ângulos da fachada. Naribeirado Capibaribe. na mata sul eles podiam caminhar desimpedidamente pela superfície de "meias laranjas". ajuda a compreender. As primeiras fábricas foram edificadas nos arredores de Olinda. Do ponto de vista climático. A cultura da cana teve de adaptarse a estas condições. o algodão e o anil. a Olinda ante bellum concentrou as funções urbanas do comércio de importação e exportação e de sede das autoridades civis e eclesiásticas. os colonos ingleses experimentaram sucessivamente. Enquanto na mata norte os canaviais ficaram circunscritos às várzeas quaternárias recortadas pelos tabuleiros. de vez que no rumo oeste a ocupação não ultrapassara os setenta quilômetros. fugindo das chãs e dos tabuleiros interflúvios. as varandas abertas e as escadas externas. elas se diferenciam graças ao fato de que. Como pressentiu Gilberto Freire. segundo Robert C. como na Madeira. sob o regime de engajamento (indentured service). Na várzea do Pirapama. prevalecendo um grau importante de integração das etapas comercial e industrial. poupando apenas. substituindo rapidamente o trabalho engajado pelo africano e promovendo uma concentração acelerada da propriedade da terra. levantado por Duarte Coelho. ela se faz sentir mais fortemente na mata norte do que na mata sul. os cimos das colinas. vale dizer. com o fumo. Mussurepe era o extremo dos canaviais. a liquidação do modelo madeirense pela continentalização. embora a fronteira de roçados e de currais se prolongasse até a altura de Lagoa do Carro ou Limoeiro. isto é. junto ao terraço litorâneo. a experiência barbadiana de meados de Seiscentos.78 Evoldo Cabral de Mello Uma Novo Lusitânia 79 se assim à iniciativa dos colonos toda a franja marítima do Rio Grande do Norte ao São Francisco. Por outro lado. essa região era predominantemente latitudinal. marcado "desde o Minho e Trás-osMontes e por toda a Beira Alta e a Beira Baixa" pelas mesmas características: "os mesmos esteios no andar térreo usado para depósito. uma subzona de tabuleiros sedimentares e. cujo engenho de Camaragibe foi destruído pela indiada hostil. isto é. com a insurreição pernambucana contra o domínio holandês. a ocupação agarrava-se ainda mais ao litoral. todos vitimados no curto prazo pela instabilidade do mercado internacional. mais nitidamente do que na Bahia ou no Rio. A quem inicialmente afoitou-se a construí-los a distância. e encorajando a monocultura. outra subzona cristalina. foi sobretudo graças ao contrapeso oferecido pela continentalidade brasileira. "uma transcrição quase literal do tipo mais comum das casas rurais da mãe-pátria". O engenho era sobretudo a fábrica. como o engenho do Salvador do Mundo. Do ponto de vista geológico. esta última estrutura é a que domina na superfície da mata sul. a poente. e os mesmos telhados de quatro águas e cumeeira do Pernambuco do século XVQ". características bem distintas das que dominarão no Pernambuco post bellum. erguido por seu cunhado. Em meados do século XVII. a mudança por que passou a Nova Lusitânia. O solo e a topografia do sul pernambucano prestavam-se à cultura extensiva da cana bem melhor que os do núcleo histórico duartino. As casas-grandes que pintou Franz Post eram. nos dois primeiros decênios. o açúcar deu-lhe finalmente a oportunidade de que necessitava. condições ambas inexistentes em Barbados. . para fornecimento de lenha aos engenhos. embora a utilização simultânea do critério estrutural introduza na mata norte a distinção entre a subzona sedimentar a leste. Daí que a mata norte e a mata sul também sejam designadas como mata seca e mata úmida. a cerca de 10 km da vila. Entre nós. o engenho de açúcar constituiu inicialmente a prolongação da loja. Fora sobretudo pela várzea do Capibaribe que se adentrara essa modesta ocupação e onde se verificara maior proporcionalidade entre a área de produção açucareira e a de subsistência. não é apenas pór conhecê-lo de perto. viabilizando o recurso maciço à mão-de-obra servil. mas também porque ele permite observar. Smith.

divulgado entre nós por publicações como O fazendeiro do Brasil e do Manual do agricultor brasileiro.80 Evaldo Cabral de Mello Uma Nova Lusitânia 81 Tipo de habitação que persistiu já entrado o século XIX. mesmo se na vida real ela era progressivamente abandonada. . transportado. Enquanto a primeira parece indicar a propriedade fundiária que extrapola a utilização açucareira. editados em fins de Setecentos e em meados da centúria seguinte. esse ordenamento assumiu moldes mais estáveis sob a forma de um pátio retangular. O primeiro é o nome do orago. armas e bagagens. seguiu-se ao longo de Quinhentos o costume madeirense de designar o engenho pelo nome do seu proprietário: "engenho de Pero Cardigo". fábrica e capela). Escusado assinalar que ambos critérios podiam ser usados para a mesma propriedade: Agostinho de Holanda preferia designar seu engenho por Santo Agostinho. sobretudo. Num texto oficial de meados de Seiscentos. o modelo de organização espacial do engenho de açúcar (casa-grande. insinuam-se os dois outros critérios que substituirão vinte. o costume de usar o nome do proprietário. isto é. único estudioso a ocupar-se competentemente do assunto. em decorrência da necessidade prática de controle das atividades e do imperativo simbólico de expressão de domínio. O mesmo pode ser dito acerca do "livro das urcas". cujo êxito dependia da prática de se dotar de capela o engenho de açúcar. Pernambuco e Bahia foram sistematicamente listados pelos nomes dos donos. mas a toponímia dos engenhos resiste a aderir aos nomes da terra. Nos paisagistas nassovianos. Quando se possui mais de um engenho. as fábricas de açúcar se levantam à beira dos cursos d'água. Embora esses edifícios desconhecessem originalmente uma disposição rígida entre si. servindo à criação de gado ou ao cultivo de subsistência. e muitas vezes sutilmente. usava-se a voz "terras" ("terras de Pero Dias da Fonseca") ou "fazenda" ("fazenda de Vicente Correia"). as sesmarias são generosamente concedidas. resistiu quanto pôde. em seus relatórios. Só muito depois. trinta anos depois. os partidos de cana se fundam pelas várzeas. ela transcorria entre a dupla residência da vila e do campo. critério também adotado por José Israel da Costa na sua relação de 1623. Recurso compreensível em vista de que essas listas foram elaboradas com base em documentos de natureza fiscal. os engenhos da Paraíba. devido à renovação substancial dos quadros açucarocráticos. sugeriu que pode ter resultado do exemplo das colônias açucareiras do Caribe. no passar do tempo. Na esteira da continentalização. documento alfandegário. Em Pernambuco ou na Bahia. Quando. embora passasse a ser construído com material nobre e se tornasse melhor acomodado às exigências de conforto de um grupo social que entrementes abandonara a vida urbana pela rural. que só muito posteriormente serão distinguidas pela denominação de moita. em que o relevante era o nome do contribuinte. a construção da casa-grande na parte mais elevada do terreno. pois mercê da modéstia das distâncias que prevalecia antes da continentalização. e. "engenho novo de Fernão Soares". na meia encosta. as casas-grandes na eminência próxima. A ambição de fundar uma Nova Lusitânia. mesmo quando esta designação já fora descartada. prática que então distava de ser geral: "engenho de São Brás". disposição que Geraldo Gomes. conotando a predominância do Sagrado. via de regra. Somente a partir de finais de Quinhentos. da Madeira para o Brasil. ao passo que seu feitor já o invoca pelo topônimo indígena. (Daí ter sido as autoridades batavas a adotar a prática. sem criação nossa. O segundo critério é o topônimo indígena: Araripe. e a ereção da capela ao mesmo nível da casa-grande ou mais acima. já se pode visualizar o decantado "triângulo rural". os engenhos ainda eram majoritariamente relacionados segundo os proprietários. Este primitivismo ante bellum tinha sua razão de ser inclusive no fato de que a existência cotidiana do grande proprietário rural ainda encontrava-se presa à vila. o nome do dono for abandonado. Em lugar da expressão "engenho". Mas nos documentos oficiais. Essa nomenclatura tornou-se insuficiente ao se acelerarem a tendência ao arrendamento e a transmissão por venda ou herança da propriedade açucareira. a iconografia holandesa já indica as linhas de força do seu assentamento em termos da ocupação dos níveis do terreno: a instalação da fábrica na proximidade do curso d'água de que depende para a força motriz e para outros usos. a distinção é cronológica: "engenho velho de Fernão Soares". a designação segundo o nome do proprietário resistiu por mais tempo. durante o período holandês. já expulsos os holandeses.) Como na Madeira. "fazenda" referia-se à parte agrícola do conjunto açucareiro. como ainda ocorrerá no século XLX. o termo "engenho" ainda não se havia generalizado para o conjunto da unidade produtiva. Subipema. mas aludia apenas às instalações fabris. de designar os engenhos segundo os oragos ou o topônimo indígena. Quando Diogo de Campos Moreno redigiu a primeira versão do "Livro que dá razão do Estado do Brasil". do nome do rio em cuja margem a fábrica se ergueu. a propriedade passará a chamar-se apenas de engenho Velho ou engenho Novo. no máximo adaptações às circunstâncias mais anchas da ecologia da mata.

já são freqüentes os que se estabelecem mais duradouramente. Fenômeno específico da nova terra? Nada disso. Este opinava que o gentio da terra devia proporcionar a principal mão-de-obra. uma das razões da sua presença rala. sem falar em que certas atividades subalternas eram monopolizadas por imigrantes portugueses do sexo masculino antes de serem relegadas no século XVII aos escravos ou à população mestiça mais livre de ambos os sexos. dos quais se necessitava de inverno a verão. no Cabo e em Jaboatão. isto é. contudo. E. para topar com o teor eminentemente reinol que ainda tinha o cotidiano colonial. o crescimento dariquezacolonial dela decorrente permitiu que. na documentação do Santo Ofício. No começo do século XVII. de modo a evitar "tanto negro de Guiné". dos de Portugal". A vila pertence aos reinóis e a seus descendentes. entre muitos. da persistência dos modelos de vida urbana dizia respeito à condição feminina. Basta percorrer as páginas da visitação inquisitorial. Ademais dos artesãos que se assoldadam por empreitada ou por curtos períodos. Veja-se também o caso dos artesãos. com o próprio governador-geral d. inclusive. Diogo de Meneses. moradores na vila. sua regulamentação só se processando ao longo de Quinhentos e de Seiscentos. indivíduos de origem rural. preso com ele em Olinda após a liquidação da presença francesa no Maranhão. a manutenção do equipamento fabril. a colônia pudesse entreter a ficção de ser o prolongamento americano de Portugal. A organização dos mesteres resumia-se à concentração urbana segundo as principais especialidades e à incorporação de confrarias religiosas que funcionavam como entidades de benemerência. estas últimas transplantadas para o Brasil. Deles necessitavam os engenhos para levantar a . o companheiro de La Ravardière. na altura em que ele escrevia completava-se. vinte e tantos anos antes. O Brasil estava deixando de ser a Nova Lusitânia para transformar-se na Nova Guiné. que virá a ser reprimida pela ruralização da vida colonial e pela conseqüente reclusão das mulheres dos grupos privilegiados. de uma independência maior do que virá a ocorrer. O autor dos Diálogos faz. É no cotidiano mesteiral que se pode melhor entrever a vigência do modelo de relações cidade-campo importado do reino. como na índia. à segregação da escravatura africana nos engenhos. como demonstrou Stuart Schwartz. Sua quase totalidade compunhase de reinóis. ei-lo trabalhando em Paratibe. praticamente nos mesmos termos em que o fizera Duarte Coelho setenta anos antes. E. Já Gilberto Freire havia percebido que "nos primeiros tempos de colonização [. entre muitos. e. cujas andanças em período relativamente breve podem ser reconstituídas. Mas se a longo prazo a ocupação de novos espaços condenara o projeto duartino. cujo serviço doméstico está freqüentemente a cargo de índias e mamelucas. Então. campeando a tolerância na aplicação das regras. Portugal desconheceu uma tradição gremial sólida e suas corporações de ofício datavam apenas de um século. Olinda ainda não possuía mercado de africanos. atendendo indiferentemente a clientela urbana e a rural. relativamente à grande propriedade. pois a instabilidade e a improvisação também caracterizavam os quadros corporativos no reino. Os artesãos residem em Olinda. incentivado pelo avanço da fronteira agrícola e pelos preços do açúcar. aliás. de que falava Brandônio. surgem de empreitada pelos engenhos. Não prevaleceu assim a rigidez institucional de outros países da Europa.82 Evatdo Cabral de Mello Uma Nova Lusitânia 83 aos efeitos da continentalização. O preto que se atrevesse a aparecer na vila por iniciativa própria corria o risco de ser delatado e recambiado para o meio rural. a leitura da documentação inquisitorial passa a impressão de certa autonomia feminina. o elogio da rede como meio de transporte sobre a cadeirinha. quando se efetuava o "apontamento". em costumes e hábitos. rebentos de lavradores pobres ou remediados para quem a atividade mesteiral representava uma promoção social. que se fazia naqueles andores de pau-dejangada a que se referiu Brandônio. os quais eram vendidos no porto do Recife. Além das obras feitas no telhado olindense de João Nunes. observava que "os descendentes dos primeiros conquistadores não diferem em nada. sobretudo. em redes. que resistirá inutilmente à continentalização.. como se vê no caso do pedreiro Pero da Silva. inclusive as restrições cria- das para o seu deslocamento. o processo de adoção do trabalho africano nos engenhos. Esses carpinas são particularmente numerosos na população mesteiral de Pernambuco de finais de Quinhentos. devido. causa do endividamento crescente dos colonos. O autor dos Diálogos das grandezas simplesmente ignorou a existência de escravidão ao descrever a estrutura social da capitania. preocupação que ele partilhava.] a mulher gozou de uma liberdade maior de ação". com efeito. gozando. Um exemplo.. Outros artífices independentes e nomádicos. como em Portugal. quase imperceptível. embora já se façam notar os primeiros efeitos da expansão territorial na tensão entre a liberdade da empreitada e a absorção da mão-de-obra mesteiral pelo engenho sob a forma de salário. que vive uma fase de acentuado crescimento econômico. e sobre o palanquim. no curto. inclusive na entressafra. sobretudo carpinteiros. inclusive no tocante ao grau de treinamento e de conhecimento da arte que se exigia do oficial que a praticava.

embora não requeresse a assiduidade do carpina. 1978). . para a feitura das moendas. muito demandado num sistema de produção em que o transporte da matéria-prima no interior do engenho e do açúcar encaixado para os trapiches estava a cargo dos carros de boi. homem arreliado de seu.84 Evaldo Cabral de Mello Uma Nova Lusitânia 85 casa-grande e os demais edifícios. a que se referiam com indisfarçada satisfação os cronistas do século XVI. o já mencionado companheiro de La Ravardière dirá: "o que faz as coisas mais agradáveis é que agora se encontra comumente no país o que lhe era exótico no passado. que ainda não avizinhavam povoações suficientemente importantes para atraí-los. o que na pena de uma batavo não é pequeno elogio. De Pernambuco.. É assim que a documentação inquisitorial identifica como moradores de engenho até mesmo um imaginário. o ofício possui sua hierarquia especializada. reconstituir o projeto colonial da Nova Lusitânia através da paisagem que os colonos procuraram implantar entre nós mediante a aclimatação de espécies vegetais do reino. O oleiro é outro ofício muito procurado no meio rural.. Mesmo quando não assalariava o artesão. "o melhor e o mais alegre que vi no Brasil". aliás. por enquanto. A coisa só mudava de figura nas fábricas sitas em freguesias apartadas. Caberia ainda deter-se em outros aspectos do feitio lusitano da existência.. isto é. tanto da Europa quanto da África". dos carros de boi e das embarcações. nos quais há de tudo". do Fogo morto. Ao invadir a capitania. um sapateiro.3 Olinda. 197. com a possibilidade de trabalhar para terceiros quando não fosse necessário. a de "carpinteiro de carro". Esse devaneio estético-utilitário será realizado anos depois pelo conde de Nassau no seu palácio de Friburgo. a demanda do engenho era esporádica. os holandeses encontrarão "em todos os lugares [.. Mas não havia que se fiar nesses artistas de beira de estrada. 3 Fernão Cardim. no outro extremo. aonde era um prazer merendar ao ar livre como no colégio de Olinda. Um século depois. segundo o padre Cardim. e de tais artesãos. que se tornavam muitas vezes tão impontuais e inconfiáveis quanto os da vila. os engenhos da várzea do Capibaribe ou de Igaraçu dispunham na vila. Que o dissesse o senhor do engenho do Meio. ainda que não é necessário para as laranjeiras. estava cingida por um cinturão de hortas em que se cultivava toda sorte de vegetais da metrópole. Fundamental foi a este respeito o papel dos jesuítas. figueiras de Portugal e outras frutas da terra. o qual. A nata era composta de "carpinteiros de engenho". só conseguiu tê-la de volta após invectivá-lo com expressões desrespeitosas a Deus e à Virgem Maria. com sua horta "muito grande. inclusive. herdeiro do locus amenus. Até mesmo os moradores de Natal. de José Lins do Rego. e dentro nela um jardim fechado com muitas ervas cheirosas e duas ruas de pilares de tijolo com parreiras e uma fruta que chamam maracujá". que lhe custariam um processo pelo Santo Ofício.] grandes e belos pomares e hortas. Também tem um poço. Para as demais tarefas. Nessa dificuldade bem como na do pagamento de salário estarão a longo prazo os incentivos ao treinamento de escravos. também chamados "mestres de fazer engenho". querendo todas as coisas na medida do seu gosto [. lembrava-se decerto do velho tópico do jardim de delícias. E tantos melões que não há [como] esgotá-los. que num caso excepcionalmente bem-sucedido. fonte e tanque. No Pernambuco de finais de Quinhentos. um ferreiro e um seleiro. pomares e hortas. leitor dos clássicos. para a confecção das caixas de açúcar. um grande romeiral de que colhem carros de romãs. As casas da Companhia de Jesus possuíam invariavelmente suas "cercas". nada ficando a dever aos de Portugal. o senhor de engenho de Quinhentos tinha todo interesse em tê-lo à mão e em evitar os inconvenientes da concorrência. e enfim para a renovação e reparação periódica de todo esse equipamento. quem observasse a semelhança entre o horto do colégio de Olinda e a cerca ideal imaginada pelo autor dos Diálogos. eram abastados de legumes de Portugal. pois os mesteres são monopolizados pelos filhos do reino e pelos naturais da terra. Já houve. para o que já se lhe começava a conferir o status de morador. o qual tendo entregue a um deles o conserto de uma caldeira. Tratados da terra e gente do Brasil (3. São Paulo: Nacional.] levou-os a transferir para ali muitas plantas estrangeiras. "pobremente acomodados nas vivendas das casas". como Salvador ou o Rio. um marceneiro. p. Pois que a curiosidade dos portugueses. ed. ascendeu à condição de senhor. eles ou já estarão substituídos pela mão-de-obra servil ou então definitivamente integrados ao salariado dos engenhos. inclusive diversas variedades de frutas de espinho. ainda não se pratica. este último antepassado distante do mestre José Amaro. com muitos pepinos e outras boas comodidades. Este. tanto assim que no tempo de Antonil ainda se debatia a necessidade da sua presença contínua no engenho. Pode-se. porque o céu as rega.

sendo utilizado como material de construção civil e até de construção naval. Markgraf. que privilegiavam seus próprios vegetais.4 Mas foi Nassau quem tirou todo o partido decorativo da árvore. "com o qual se cozinha arroz para iguaria". quase todos esses usos. e as cuias feitas da casca. o óleo tinha valor medicinal como laxativo e no combate ao reumatismo. de outro. ao passo que na índia seria necessário esperar vinte. de três ou quatro milhas de distância. vinagre e açúcar. . Ainda ao tempo de frei Vicente do Salvador. produzia ao cabo de cinco ou seis anos. consumiam-se-lhe a água e o miolo e fabricava-se o "copra".86 Evaldo Cabral de Mello Uma Nova Lusitânia 87 Já se insinuavam. que frei Calado comparou às famosas de Aranjuez. Contudo. pareciam insólitos às primeiras gerações de colonos portugueses. Esses primeiros coqueirais vieram. aliás. graças aos jesuítas que transplantaram inclusive o coqueiro. Ilhéus. pela retaguarda das falésias que rematavam os tabuleiros. o qual inicialmente só existia nas hortas e quintais. cobria-se de mato". circunscrevendo. tanto ele quanto Ambrósio Fernandes Brandão e frei Vicente manifestaram a queixa de que os colonos do Brasil não sabiam aproveitá-lo. aconselhando liricamente ao interlocutor: porque não suceda invejardes os alamos e choupos de nosso Portugal. a de criação de animais domésticos e os grandes viveiros. por J. ed. Os navegantes do primeiro século. como tantas outras espécies vegetais e animais. mal se vislumbra a verdadeira mutação da paisagem ao impor-se o coqueiro do Oriente ao cajueiro nativo. tendo-se resignado a ceder a linha de frente aos cenográficos coqueirais. O coqueiro tinha de enfrentar os hábitos da terra. como nas Maldivas. tão vinculado à alimentação e à cultura indígenas. No período ante bellum. mas não no de Olinda. aqui e ali. na realidade. Porto Seguro. mais explícito. despida de arvoredos e arbustos que. No caso de Pernambuco. com que se ornam grandemente semelhantes pomares e jardins. Sendo a ilha de Antônio Vaz. o tamarineiro e o ananás. Àquela altura. na descrição de Barléus. Há muito os cajueirais fazem figura de parente pobre. Gabriel Soares pretenderia que o coqueiro se adaptara tão facilmente que. através de Cabo Verde. menciona quanto ao Brasil apenas a água. Dele também se tiravam aguardente. No litoral da índia. A. uso. ed. "doce. num ou noutro ponto. que se tornaram um símbolo local. muitos dos quais septuagenários ou octogenários. só se admitira o maracujá. as diferenças. por estar desaproveitada. seu leite. porém. um processo lento que implicava vencer as inércias do cotidiano material. vegetais nativos particularmente estimados pelo sabor. setecentos pés. e. essencial. Por isso. tanto assim que só muito tempo decorrido da aclimatação do coqueiro começaram a contemplá-lo com olhos utilitários. vos quero dar em seu lugar crescidos e alevantados coqueiros. Essas alamedas. 1966). cujos terraços marítimos haviam sido o hábitat do cajueiro. os pomares. e só poderia triunfar depois de provar suas vantagens. as áreas internas em que este último se repartia: a área de recreação. e cortada. oferecendo um espaço de lazer aos habitantes. lamentando que não se fizesse o vinho de coco. a população fazia cuias de beber. de um lado. na alimentação. a única utilização do coco consistia em comer sua polpa e beber sua água. Quando Nassau ajardinou seu palácio de Friburgo. enxergavam apenas uma terra nonotonamente baixa. fria e clara". 146. E também se haviam adaptado vegetais africanos e asiáticos. como Pero Lopes de Sousa. uma "planície safara. a não ser a da chuva. mandou trazer em carros de boi. em áreas praieiras afastadas de água potável. Com esse fim. o conde resolveu sombrear seu palácio com avenidas de coqueiros. o biombo que oferecia ao viajante que vinha por mar a primeira visão da terra. p. o coqueiro era a base imemorial de um complexo econômico e ecológico. Da casca. Recife: Imprensa Universitária. entre nós. nem se lhe utilizasse o azeite e nem sequer a palha. donde se disseminou pela franja costeira. o que significa que as árvores datavam das décadas de 1560 e 1570. a área onde se ergueu o edifício e o próprio jardim. Gonsalves de Mello (2. tinham o papel de delimitar o espaço externo e interno. Gândavo ainda não menciona o coqueiro mas nos anos oitenta ele surge nos pomares dos colégios da Companhia de Jesus em Salvador. Pouco depois. Ambrósio Fernandes Brandão. O autor dos Diálogos das grandezas é. Diálogos das grandezas do Brasil. Enquanto. no jardim dos jesuítas. que não provocariam surpresa no futuro brasileiro. Brandônio dispunha-se a plantá-lo no seu jardim ideal. Por fim. ao referir às vantagens que se tiravam do coco na América hispânica e nas Filipinas. praticamente os mesmos que Garcia da Orta descrevera para a índia. Devido à escassez de documentação. a primeira função do coqueiro na América portuguesa foi meramente ornamental. que não menos zunido fazem com suas folhas açoitadas do vento. o azeite para os alimentos e para a iluminação. no de Brandônio já existiam a goiabeira. bem arborizada de bosques de cajueiros e dos manguezais da foz dos rios. é até possível datar os primeiros transplantes. a de serviço.

transcrito por J. Informa Anchieta que o pão de trigo era consumido sobretudo em Pernambuco e na Bahia. foi. plantara principalmente coqueiros. Uma gravura da vila da Conceição (ilha de Itamaracá) representa coqueiros nas elevações mas não nas terras baixas de um e outro lado do canal de Santa Cruz. O provável é que esta última correspondesse ao total de coqueiros plantados pelo conde em todo o Recife e não apenas em Friburgo. o uso da farinha de mandioca não foi tão universal quanto se pretendeu. os soldados se dessedentavam com laranjas. que afetou o suprimento de gêneros reinóis e reduziu o nível de renda da açucarocracia. no decurso de sua vida no Brasil. sem levar em conta a inércia dos hábitos alimentares dos habitantes. que não haviam jamais visto replantar uma árvore.000 ao todo. o que não seria possível caso eles já aí estivessem. referem os Diálogos das grandezas que "alguns e não poucos usam também de pão. vegetação rasteira e cajueiros. limitando-se aos núcleos de população e servindo de decoração a uma que outra casa-grande de engenho. limões e roletes de cana. pois muitos devem quanto têm) providas de todo o necessário".000 árvores de toda espécie. Trinta anos depois. posterior ao período holandês. com as folhas e os frutos. situado ao norte de Olinda. Uma gravura anterior ao incêndio de Olinda registra os coqueiros do horto dos jesuítas. sem falar numa quantidade inumerável das mais comuns". ainda com anterioridade ao boom açucareiro. de quem provavelmente a ouviu. o coqueiro ainda era bem raro. Na Paraíba. Pyrard de Lavai observou que o Brasil importava toda espécie de víveres não só de Portugal como das ilhas. espiando de trás das edificações que margeiam o rio. o então chamado "terreiro dos coqueiros". Richshoffer divisava a vila sobre as colinas. por conseguinte. E em começos do século XVII. Entre nós. mais altos e densos. que excluía a área ao norte do Forte Ernesto. rotineiramente carregadas daqueles artigos. vindo habitar nele. mostra claramente os dois hortos: o coqueiral mais denso sob a legenda "Mauritiopolis" e o coqueiral menor de Friburgo. ele criara um horto. no espaço entre sua residência e o Forte Ernesto (Convento de Santo Antônio). que passeou por elas. Pernambuco já era bem abastecido dos gêneros do reino. Por outro lado. Aí. A começar pelos hábitos alimentares. que comportou uma verdadeira revolução ecológica. era provavelmente uma mata de cajueiros. . O provável é que a aceitação dos produtos alternativos da terra pela gente de prol só se tenha generalizado a partir da guerra holandesa. A substituição maciça do cajueiro pelo coqueiro ao longo do nosso litoral. "mais de 40. principalmente desta espécie e tamanho. pois sendo "denso e intrincado" não poderia corresponder a um coqueiral. 1947). nesse primeiro século. O bosque. ao passo que a fachada marítima carece deles. da conclusão de Friburgo. Plantado o horto. A. no interior do chamado groot kwartier. do vinho e do azeite. atual praça da Independência. referido por Baers. na Alemanha e nos Países Baixos. dos coqueiros do jardim do palácio. Esse primeiro jardim nassoviano situava-se. Nassau abandonara a casa. Gonsalves de Mello. gabando-se de haver plantado. Nos anos sessenta. que mandam amassar e cozer em suas casas. Frei Vicente verá "as casas dos ricos (ainda que seja à custa alheia. inclusive da farinha de trigo trazida de Portugal ou de São Paulo. Em 1630. a situação não mudara. Marchando pela praia de Pau Amarelo. Nos primeiros decênios de sua aclimatação em Pernambuco.88 Evoldo Cabral de Mello Uma Nova Lusitânia 89 No fim da vida. como se conclui da carga das embarcações portuguesas apresadas pelos inimigos. quando da invasão holandesa. o estilo da existência material vigente no reino resiste tão brava quanto inutilmente ao impacto da continentalização e da ruralização. Nassau recordava suas experiências de jardinagem. esta da Boa Vista. portanto. e da ruralização dos modos de vida. cifra idêntica à de Nassau. existente na atual praça Dezessete.5 Barléus falou de setecentos coqueiros nas aléias de Friburgo. de Tempo dosflamengos(Rio de Janeiro: José Olympio. antes. onde veio a ser construído Friburgo. existia um pequeno coqueiral ao lado do forte da margem norte do rio. Outra gravura. sem que um só tenha morrido. mas frei Calado. Destarte. areiais. o que atribuía à produção insuficiente da colônia. como ao tempo de Pero Lopes de Sousa. Só no burgo ele e a soldadesca puderam ser providos de cocos. os famosos coqueirais das praias olindenses ainda não existiam. para admiração de todo o mundo e de todos os habitantes. Os grupos privilegiados mantêm-se fiéis à tríade canônica do trigo. Ao tempo da invasão holandesa. cerca de 2. feito de farinha que com- 5 "Mémoire". Uma gravura de Mauriciópolis permite distinguir esses coqueiros. Nassau aboletara-se inicialmente numa enorme casa de construção portuguesa. que o conflito previsivelmente apressou. 313-6. por conseguinte. quando das marchas pelo interior. vendo-se apenas terras baixas. de 60 e 70 pés de altura e da espessura de um tonei. Nesses núcleos urbanos de Quinhentos. mencionou nada menos de dois mil. pp. fenômeno de longo prazo.

isso evidentemente nos domingos e dias de festa. dos queijos e de outras coisas de comer. das azeitonas. e nisto se tratam com fausto. os luso-brasileiros transformaram o pão de trigo numa iguaria refinada. damascos. Anchieta notou que os colonos vestiam-se "de todas as sedas. é provável que a América espanhola se tenha antecipado à portuguesa. me acompanharam até o púlpito. os "criollos" convertiamse progressivamente ao milho. aliás. sem necessidade de ser guardada. o ananás em conserva. a grande maioria dos colonos apegava-se às modas do reino. veludos. . pois é Olinda da Nova Lusitânia". máxime as mulheres. aliás. de pertinas compridas" e freqüentassem a missa dominical em "roupões ou bernéus de cacheira sem capa". Brandônio criticava. a roupa de verão servia para o inverno. pois no reino como no Brasil o vestuário dos dias de semana é chão. onde a profissão era especialidade feminina. Só quando as estreitezas da guerra complicaram o abastecimento. que vestem muitas sedas e jóias e creio que levam nisto vantagem. Já se havia também descoberto as virtudes da água da Paraíba no tratamento das eólicas e da dor de pedra. embora não fizesse tanto efeito quanto o ananás verde. chegavam. de que o Brasil já convertia Portugal a vários dos seus costumes. enquanto os mazombos brasileiros. camueis e araçás. suas mulheres e filhas. inclusive por gente modesta. Importava-se até mesmo queijo de ovelha. Quanto aos religiosos. No interior das residências. que se não traja melhor nela do que se trajam no Brasil os senhores de engenho. os povoadores por não haverem ainda se aproveitado das raízes e ervas da terra. O fenômeno evidentemente é a conhecida manifestação de novo-riquismo. já é invenção da arte culinária das colonas. embora fossem poucos entre os primeiros os que sobreviviam à mudança de clima. mais resistentes ao transporte e ao calor. Mesmo quem. fazia parte do passado mesmo dos reinóis modestos. As exceções eram o Rio de Janeiro e São Vicente. bugios e papagaios. devido à falta de navios. Daí que os habitantes de Piratininga trajassem arcaicamente "de burel e pelotos pardos e azuis. A despeito do clima. devido à crise de meados do século XVI. embora no Rio Grande do Norte se fizessem queijos e requeijões à maneira de Lisboa. Quando Cardim foi pregar na matriz de Olinda. só querendo servir-se dela. e outros homens afazendados e mercadores". havia adotado a farinha de mandioca. ademais do vinho de Alvor. Do Algarve. como era o caso dos jesuítas. de quem os cronistas diziam maravilhas. O jacarandá já estava sendo empregado na fabricação de leitos e em outros fins. porque custam dinheiro". utilizando a matériaprima da terra à maneira de como se fazia em Portugal com a farinha de trigo na confecção de filhos mouriscas. excelentes contra as câimbras. fazendo dele "tanta questão que o cobrem de açúcar". muito apropriado à dor de pedra. estavam adstritos obviamente à obrigação de se vestirem como em Portugal. Como ali. confessava Cardim) e de em São Paulo fabricarem a bebida. Naquela. a marmelada de ibás.90 Evaldo Cabral de Mello Uma Nova Lusitânia 91 pram do Reino ou mandam buscar às casas das padeiras. a mandioca era preferencialmente ingerida sob a forma de beijus. aliás. Os primeiros cronistas já se gabavam. Do ponto de vista da adaptação alimentar. as parturientes guardavam-se do ar. "havendo por melhores as que vêm de Portugal já corruptas. E havia grande estima pelos sagüins. já se recorria a "diferentes estilos" de tratamento das enfermidades e já avançava a assimilação de vegetais nativos. por não serem tão nobres. no começo do século XVII. e não é muito achar-se esta polícia em Pernambuco. porque há muitas que vivem desse ofício". generalizava-se a aplicação nas feridas do azeite da copaúba. O beiju. razão pela qual a gente acaudalada de Pernambuco mandava buscá-la. com franjas de ouro e colchas da índia. Mas não eram apenas as ervas e frutas brasileiras que começavam a ser utilizadas na metrópole. os mordomos da confraria do Santíssimo Sacramento. Quanto às práticas médicas. rases e mais panos finos como em Portugal. não dispensava os outros gêneros da metrópole. Contudo. continuariam ainda dependentes do aprovisionamento de víveres metropolitanos. A despeito da quantidade de vinhas cultivadas na terra ("nunca vi em Portugal tantas uvas juntas. segundo Moreau. como o vinho e o azeite. como observou Braudel. O vinho. os colonos ainda davam preferência. A diferença em relação ao reino consistia em que. embora não guardassem tanto tempo o leito. estimados por mais saborosos e de digestão mais fácil. e a batata e os pinhões como purgativo. Ademais. Pela gente de prol. como o bálsamo da cabriúva. barbeiros e cirurgiões. às de Portugal". graças à prosperidade açucareira. o Brasil era sempre abastecido pelo produto do reino. devido à temperança do clima. sobretudo da Madeira e das Canárias. Brandônio assegurava ter ouvido "a homens mui experimentados na corte de Madri. como vi nestas vinhas". além do vinagre. a seda era o tecido mais buscado. passas e figos. como se verificava no reino. aos purgativos importados do reino e a médicos. à mandioca e a outros alimentos indígenas. Devido ao clima. o consumo conspícuo tomava a forma de serviços de prata e de camas ornadas de damasco. segundo Anchieta. como a batata e os pinhões muito utilizados nas purgas. "todos vestidos de veludo e damasco de várias cores.

que. o milho. entenda-se. Assim. mas tem muito mais fundo". vivendo nos rios. "se fará tão soberano que seja um dos Estados do mundo". que "não comiam no Brasil pão de trigo. As éguas baianas eram "tão formosas [. segundo Gândavo. Brandônio os imputa aos povoadores. havia canaviais na Bahia que davam havia trinta anos. mas já conta com evidentes superioridades sobre a metrópole. Mas é Gabriel Soares. Os bovinos são muito mais fecundos. devem prestar-se metrópole e colônia. A exceção era o peixe-boi. a que se tornará crescentemente sensível a colônia. e assim o fazem outras muitas pessoas". de lombo de porco ou veado). Até mesmo os nabos e rábanos. tendo o mesmo gosto da carne de vaca (ou. A carne de porco era tão sadia que fazia na terra as vezes da galinha na alimentação dos enfermos no reino. É certo que Gândavo já escrevera que os bolos de aipim excediam no sabor ao pão do reino e que o ananás era tão delicioso que não conhecia em Portugal fruta que lhe fizesse vantagem. a cana-de-açúcar não exigia irrigação ou estéreo. A água de laranjeira tinha "mais suave cheiro que a de Portugal". Os eqüinos multiplicam-se vertiginosamente. Alviano e Brandônio. portanto. o centeio e a cevada eram inferiores à mandioca. certo rio da Bahia era "tão formoso como o do Guadiana. do que em Alvalade. Enquanto na Madeira a planta só dava duas safras. de vez que o "trigo do mar". A beleza. pastava na terra. da fundação de "um grande império" no Brasil. o oposto da capivara. por trás dela. a ponto de seus preços haverem caído seis vezes em relação ao que custavam no começo. e já parem no segundo. ao cabo do primeiro ano. por se não acharem bem com ele. "davam-se melhor no Brasil que no Minho". tãoricae variada quanto a da Espanha. o qual. como haviam podido constatar os primeiros governadores-gerais. tendo em vista que seu hábitat eram as águas. e certo gênero delas "tem melhor sabor que as de Portugal". que. que exprimem duas atitudes distintas. sendo considerada. As limas e as cidreiras eram maiores e mais saborosas que as do reino. carne e não peixe. crescendo "tão compridas como lanças". A lavoura de mantimentos. A arquicitada lamentação de frei Vicente do Salvador sobre a tendência dos colonos a comportarem-se como caranguejos não tem outra inspiração. quintessência dos legumes metropolitanos. As figueiras não criavam bicho como em Portugal nem as atacavam as formigas. podendo ser ingerida ao longo do ano. O tema do "grande reino" surge inclusive em autores do reino. Em termos da dicotomia freiriana. que a compara e a seus produtos de maneira sistematicamente favorável.92 Evaldo Cabral de Mello Uma Novo Lusitânia 93 Somente em finais de Quinhentos e começos de Seiscentos é que começaram a se afirmar as modalidades do sentimento local que já não se contentavam em frisar o casticismo da América portuguesa. embora o toucinho não fosse tão gordo. cinco vezes e até mais. embora cá e lá fossem da mesma casta. surge a dicotomia da terra e do homem. as terras baixas não cansando jamais e as altas produzindo quatro. em caso de necessidade. . pois as novilhas já recebem o touro. As favas podiam ultrapassar as de Évora em tamanho. previa Gabriel Soares. ao menos desde a crônica de Gabriel Soares. "mais alto e forte que em Portugal". o tema.. Nesse sentido. o sabor e o cheiro do ananás levavam de vencida todas as outras frutas da Espanha. da península ibérica. para não mencionar o manjericão. Esse sonhado grande império já não é mais apenas o prolongamento ultramarino do reino. tinham muito melhor sabor. e que os peixes. O viço dos canaviais das várzeas era tal que o sumo das suas canas só coalhava quando misturado ao de canas velhas.. sobretudo porque o continente é a promessa de minas.] como as melhores de Espanha". Ao contrário da Madeira ou do Velho Mundo. acamavam. nossos primeiros cronistas foram também nossos primeiros ufanistas. radicado na terra. plantando-se até mesmo nos altos. As galinhas baianas "eram maiores e mais gordas" que as portuguesas. e a ilha. É sabido que os Diálogos das grandezas foram construídos com base na oposição entre os interlocutores. Os pepinos se davam melhor do que em Lisboa. que exprime o antagonismo do reinol recém-chegado e do colono estabelecido na terra. exultava Brandônio. ela já é uma clara opção pelo continente contra a ilha.] por ser de melhor digestão". ao passo que Alviano atribui à natureza brasileira os males da colonização. e as abóboras e as couves. sem necessidade de rega nem de estéreo. provocaria a calorosa querela teológica a que se referiu o autor dos Diálogos das grandezas. tinha ademais sobre esta a vantagem de custar menos trabalho.. o trabalho rotineiro da lavoura. Gabriel Soares ressalvava que a farinha de mandioca era "mais sadia e proveitosa [. a qual concluiu tratar-se verdadeiramente de um pescado. Assim. como Luís Mendes de Vasconcelos. são "quase setecentas léguas: terra bastantíssima para se poder situar nela grandes reinos e impérios". Na realidade. exceto em São Vicente e no Rio de Janeiro.. Sendo ainda de seis meses. em conexão com o argumento do apoio mútuo que. Mesmo admitindo a superioridade do bom trigo. Do Pará a São Vicente. não saindo a pastar fora delas. A farinha de mandioca só perdia em qualidade e sabor para o trigo de boa espécie.

importam-se de Portugal. e até aduz vantagens. ao contrário do trigo. o que também pode ser afirmado a respeito do queijo feito do leite do mesmo animal. graças à antropologia. fora de poucas". não vendo "nenhuma província ou reino dos que há na Europa. isto se deve a que não a acham "capaz de mais benefício". Manuel com os venezianos. a exemplo do que fizera d. Em lugar de se cultivar hortaliças. ademais de "outras muitas coisas". como em Portugal. constatando que ele se dava muito bem nas campinas mas não nas várzeas. pois se os colonos se empregam no cultivo da cana e no fabrico do açúcar. as potencialidades inexploradas da terra. sem quererem anadir outras novidades de novo. apenas insinuado. que propusera o plano de cultivar no Brasil as drogas da índia para destruir o comércio holandês das especiarias. tanto assim que "de alguns asnos cavalares que se mandaram vir do Reino se produziram maravilhosos machos e mulas". Ele mesmo. Ambrósio Fernandes Brandão podia tomar uma distância crítica vis-à-vis dos demais reinóis. j 6 Ambrósio Fernandes Brandão. mesmo que fosse apenas para "enchimento de colchões". carência fonética interpretada no sentido de que os indígenas eram destituídos de Fé. com lhes ser ele madre assaz benigna. afirmando a superioridade do produto nativo sobre o português. citando o exemplo do vocabulário do parentesco. Em vez de se aproveitarem da lã das ovelhas. Para o nosso franciscano. mas sua utilização deixou de ser praticada por pura inércia. de força hão de buscar alguma de novo de que lancem mão". julgando que semelhante falta de iniciativa seria remediada pelo crescimento demográfico. ao argumento muito usado de que o tupi desconhecia o F. mas não se usa dele. ainda que entendam claramente que se lhes há de conseguir do uso delas muita utilidade.6 Brandônio inventaria. mas também nos rios. assinalara a superioridade do produto reinol cultivado no Brasil sobre seu similar metropolitano. 142 e ss. bem se puderam escusar os que se trazem das Canárias e ilha da Madeira". À maneira dos antecessores. embora. que. ademais dos próprios. de vez que. sendo fértil de tudo. Os muares criavam-se facilmente no Brasil. "a terra é disposta para se haver de fazer nela todas as agriculturas do mundo". aliás. "com tantas sortes de vinhos [indígenas]. plantara e colhera trigo. não os havia apenas no mar. por exemplo. de maneira que se vêm a mostrar nisto serem todos padrastos do Brasil. as da mandioca e do aipim. o cronista acentua não existirem no Brasil piolhos e percevejos. Destarte. . Brandônio mostrara-se otimista. sabemos. o L e o R. op. com o que já não haveria "necessidade de coisa nenhuma das que trazem de Portugal. onde eram vítimas do gorgulho. da "pouca curiosidade e menos indústria dos que a habitam". o Brasil tinha o melhor dos dois mundos. negligência e pouca indústria de seus moradores". que. ser geralmente mais discriminador nas sociedades primitivas do que nas históricas. fizesse do Brasil o entreposto desses produtos. Ásia ou África que seja tão abundante". Como seus antecessores. A longo prazo. frei Vicente do Salvador fará todo um programa nativista. Uma réplica. de autarquia colonial. pp. O defeito não é da terra mas da "culpa.. Brandônio. porém. talvez. Tendo afirmado Alviano ter o Brasil na conta da terra "mais ruim do mundo". seguindo o exemplo da índia. os colonos preferem comprar a que vem do reino muito cara. porque nele se dão os mantimentos de todas as outras". Do ideal. o cronista franciscano preferirá a solução que. não consumiam as sementes na planta nem se recolhiam em celeiros. frei Vicente não se priva das comparações. o autor da História do Brasil vai além. Alviano mesmo admitira que. "é o Brasil mais abastado de mantimentos que quantas terras há no mundo. replica-lhe Brandônio tratar-se de "erro crasso". ao contrário de Brandônio. e quando a houvesse. Não experimentara nem centeio nem cevada mas o milho europeu se dá melhor e em mais quantidade do que se dá em Portugal. como na descrição das madeiras utilíssimas desconhecidas do outro lado do Atlântico. ao contrário. Ao passo que Gabriel Soares. como as das favas e feijões. Os camarões. e Brandônio aventara a conveniência de se escusar o próprio azeite do reino.94 Evaldo Cabral de Mello Uma Nova Lusitânia 95 Na sua condição de cristão-novo. de vez que "os que ficarem sem ocupação. embora nem mesmo um nativista enragé como ele ousasse negar a nocividade e o incômodo do bicho-de-pé. cit. porque a gente da terra se contenta somente com aquilo que os passados deixaram em uso. Frei Vicente incorre mesmo em grave ofensa às suscetibilidades reinóis quando assinala ser a língua geral mais rica de vocábulos que a língua portuguesa. a começar pelo "muito algodão que aqui se colhe" e de que se poderia fazer toda sorte de tecidos. de Lei e de Rei. pois não somente possuía uma flora mais rica como também assimilava a alheia em condições mais vantajosas que as do próprio lugar de origem. não sendo as pulgas tantas. que não criavam bicho nem tinham a casca tão dura como no reino. tirando partido da brevidade e segurança da navegação com o reino.

ed..] e isto não têm só os que de lá vieram mas ainda os que cá nasceram. E com isto está que tem os portos abertos e grandes barras e baías. O Destarte. Foi frei Vicente que concluiu a redação da sua história sob o impacto da ocupação holandesa de Salvador (1624-1625). aliás. Preso à sua cultura eclesiástica. História do Brasil (4.96 Evaldo Cabral de Mello Uma Nova Lusitânia 97 Escusado assinalar que a conotação autárquica desses tópicos acarretava potencialmente a contestação do monopólio colonial. São Paulo: Melhoramentos. ele acusa os monarcas portugueses de fazerem pouco caso do Brasil.. Se me disserem que não pode sustentar-se a terra que não tem pão de trigo e vinho de uvas para as missas. tudo pretendem levar a Portugal [. para quem o querrijo. embora contando com uma extensão continental.. elas fornecem uma resposta equívoca. Vinho? de açúcar se faz mui suave e. refugio e abrigo da gente portuguesa". pois este divino sacramento é nosso verdadeiro sustento. a história de frei Vicente já fere algumas teclas nativistas. João III. 7 Frei Vicente do Salvador. (Este já lamentara. Azeite? faz-se de cocos de palmeiras. Nem mesmo os povoadores escapam à crítica: "por mais arraigados que na terra estejam e mais ricos que sejam. pois "raramente se pagam". Daí que frei Vicente reserve avaramente seus elogios aos governadores-gerais que protegiam os colonos da usura mercantil. já ao tempo da fundação de Salvador e ao longo do reinado de d. que uns e outros usam da terra não como senhores mas como usufrutuários". tratando os mais [governadores] do que hão-de levar e guardar. devido à sua posição estratégica. que. louva também Jerusalém por ter tudo dentro de si. Francisco de Sousa. Ferro? muitas minas há dele. mas para isto basta o que se dá no mesmo Brasil em São Vicente e campo de São Paulo. para com Pero Coelho de Sousa e para com certo pró-homem baiano.. ao passo que "os moradores eram os que a conservavam e acrescentavam com seu trabalho e haviam conquistado à custa do seu sangue". Ora. que hospedara e banqueteara o almirante Diogo Valdez e seu séquito durante oito meses. p. cogitou-se.. Manuel que a terra que vinha recém-descoberta por Cabral haveria de tornar-se "uma opulenta província. Sal? cá se faz artificial e natural. uma delas o tratamento dispensado no reino à colônia. tinha o ônus da navegação demorada e perigosa. como d. já se hão despovoado alguns lugares e. único a sabê-la verdadeiramente estimar.] nem por isso vai em aumento. que os lucros do Brasil fossem todos para os reinóis. mas não há dúvida para que lado se inclina a argumentação do frade: pois primeiramente pode sustentar-se com seus portos fechados sem socorro de outras terras. superior à dos Açores. exceção de d. Os comerciantes reinóis eram acusados de só virem "a destruir a terra. "porque os naturais da terra se ocupam no granjeamento dos seus engenhos e no benefício de suas lavouras. da possibilidade de passarem-se el-rei e seus vassalos à América. ele coloca em termos das Escrituras a questão de se é preferível a autarcia ou seu contrário. sendo a terra tão grande e fértil [. O Brasil gozava de ambas vantagens.. para a eventualidade de invasão estrangeira do reino. Quanto à índia. Amêndoas? também se escusam com a castanha de caju. sem quererem tratar de mercancias.] que se começou a povoar. Pano? faz-se de algodão com menos trabalho do que lá se faz o de linho e de lã. "porque. vinho e outras ricas mercadorias. demasiado próximos. Brandônio refere haver previsto um astrólogo da corte de d. 71. pois se o salmista louva Sião por ter suas portas abertas a todos. Os serviços prestados no Brasil não eram recompensados. não pudera resistir às armas de Filipe II. a ponto de não lhe usarem o nome. ou quem. Após constatar que "com não haver hoje cem anos [. posto que alguns o fazem". as ilhas podiam ser facilmente conquistadas. Especiaria? há muitas espécies de pimenta e gengibre. porque debaixo do algodoeiro o pode a fiandeira estar colhendo efiando. levando dela em três ou quatro anos que cá estavam quanto podiam". já vigia também entre os colonos a crença no papel messiânico a ser desempenhado pelo Brasil nos destinos de Portugal. Neste século de Quinhentos. como se vira durante a tentativa independentista do prior do Crato. por onde cada dia lhe entram navios carregados de trigo. concedo. 1954). et sic de ceterís. como indicava o comportamento da coroa para com o primeiro donatário de Pernambuco. A condenação abrange indiferentemente os Avis lusitanos e os Habsburgo castelhanos. Frei Vicente pretenderá que. Senão pergunto eu: de Portugal vem farinha de trigo? a da terra basta. Devido a seu reduzido território. que deixam a troco das da terra. e da índia. demasiado distante. que só cuidam da América para receber seus rendimentos. e em São Vicente está um engenho onde se lavra finíssimo. a despeito do apoio naval francês e inglês. antes em diminuição". que proporcionaria a base ideal para a reconquista da mãe-pátria. preferindo se intitularem reis da Guiné "por uma caravelinha que lá vai e vem". como agora dissemos. argumento já esgrimido por Brandônio. tornara-se querido e respeitado.com o deixar ferver dois dias embebeda como de uvas.7 João III. ele só tratava do que havia de dar e gastar". quem formulou o primeiro programa nativista para o Brasil. que monopolizavam o comércio. .nem faltam tintas com que se tinja. sem que se lhe fizesse qualquer mercê.

Arqueológico e Geográphico da Paraíba. O tópico já se encontra em Gândavo. a Grande Mademoiselle. teve sua pré-história no reinado de d. o duque de Orléans. como eu as vi em Pernambuco. p. João III. conselheiro do conde de Nassau e protegido do vice-rei da Bahia. Quando da sua segunda missão a Paris (1646-1649). com a prima de Luís XIV. finalmente realizado no século XIX. Tanto assim que os colonos se mostravam mais largos que os habitantes do reino no comer e no vestir. O português a quem acontece decair de fortuna. a reconquista de Portugal pela Espanha]. assentando-se a mulher no mesmo estrado que a fidalga. cujo tratado destinava-se a propagandear "a fertilidade e abundância" da nova terra junto às "muitas pessoas que nestes Reinos vivem com pobreza e não duvidem escolhê-la para seu remédio". Pois a verdade é que o projeto de transmigração da família real para o Brasil. pois graças a sua j fartura ela era especialmente acolhedora. nem também os seus vassalos melhor e mais seguro refúgio do que o Brasil. pelo qual Carlos II prometeu apoiar militarmente Portugal. tão grande é a capacidade daquele país. a ser constituídos em reino autônomo. punido pelo seu bispo com a sentença irônica de que "vá degredado por três anos para o Brasil. "comendo todos a uma mesa. De Pernambuco. 32. No seu parecer sobre a compra do Nordeste aos holandeses. . o marquês de Niza foi instruído a negociar o casamento do herdeiro do trono. além de mais generosos nas doações pias.98 Evaldo Cabral de Mello Uma Nova Lusitânia 99 Brasil é que possuía todos os requisitos. Portugal não tem outra região mais fértil. recolocaria na ordem do dia a velha idéia do reinado de d. senhor de dois engenhos. ao passo que o monarca ficaria com o domínio dos Açores e do estado do Maranhão e Grão-Pará. Outrora deliberou-se em Portugal. 78. A idéia só foi definitivamente descartada graças à assinatura do tratado de aliança luso-britânico de 1661. que o retiveram em Belém. em cuja menoridade a regência seria exercida pelo almejado sogro. O "brasileiro" das novelas de Camilo Castelo Branco é a derradeira encarnação do mito da terra da árvore das patacas. a despeito de ser "a pior [terra] do Brasil". Esse papel messiânico do Brasil era visto igualmente em termos de promoção econômica e social da população do reino. d. Para Diogo de Campos Moreno.8 Ainda outro tema já presente nesses primeiros textos da história brasileira é o da superioridade da ação do Estado sobre a atividade privada. em Revista do Instituto Histórico. a restauração portuguesa. mesmo quando d. contrastando o florescimento das capitanias que "o braço real tomou mais à sua conta" com o atraso a que estariam relegadas as terras donatariais. lisboeta que chegara pobre a Pernambuco e aí se tornara homem rico e honrado. necessitasse deste último remédio". no caso em que algum sucesso adverso [isto é. onde foram tomar navio para se embarcarem". haviam voltado ricos a Portugal muitos que ali haviam aportado sem eira nem beira nem ramo de figueira. O indivíduo em questão fora mandado para o Rio Grande do Norte. conde de Montalvão. Do segundo projeto de retirada da família real para o Brasil no decurso da guerra da restauração. "tudo o que neste Estado [do Brasil] não for de Sua Majestade crescerá devagar e durará muito pouco". O que frei Vicente não podia prever é que. como consta de sua história. passeando ele ombro com ombro com o capitão. rubricado de sua real mão com três cruzes". Suas dimensões permitiriam abrigar toda a população do reino. indo para lá o Rei. elevar o Brasil a Reino. 1887. vol. e. isolando internacionalmente Portugal. d. tornando-se compadres do capitão-mor. com o que o tema do Brasil refúgio entroncava-se com o da construção do "grande império". João IV recomendara o projeto num papel encontrado após seu falecimento "em sua gaveta secreta. o que só não fez devido à revolta dos colonos paraenses. mais próxima nem mais freqüentada. recebeu a ordem de seguir para Pernambuco. frisava Gabriel Soares de Sousa. donde tornará rico e honrado". em cuja companhia retornaram ao reino. Mas a reação francesa foi negativa. onde. que então muito se temia. o príncipe d. Ainda segundo o jesuíta. decorrido pouco mais de um decênio da redação da sua obra. João IV propôs abdicar em favor do filho. é para lá que se dirige. signo da promoção social do casal. de modo que "com muita facilidade podem [os portugueses] cá vir e tornar quando quiserem ou ficar-se de morada". Ninguém mais autorizado para formular o tópico do que Gaspar Dias Ferreira. granjeou com a mulher dois mil ou três mil cruzados. que então se encontrava missionando no Maranhão. Teodósio. na menoridade] uma retirada segura. Afonso XI. Sua navegação era fácil. O cro8 "Papéis concernentes a Gaspar Dias Ferreira". segura e rápida. É conhecida a estória narrada por frei Vicente a respeito de certo homem de Leiria. Gaspar escrevia: Eu o [Brasil] chamo o jardim do Reino e a albergaria dos seus súditos. Luísa de Gusmão. sabe-se por uma carta do padre Antônio Vieira que a nomeação de Francisco de Brito Freire para o governo de Pernambuco (1661-1663) resultará da preocupação da rainha regente de "prevenir a seus filhos [inclusive d. Vieira. João IV e depois na regência da sua viúva.

pois. Tarcizio do Rego. a receita dos seus dízimos era insuficiente para cobrir as despesas com o aparato burocrático que o governo central aí instalara. as contas do Estado do Brasil apenas se equilibrariam. que o superávit obtido no rendimento dos dízimos do açúcar. 2. Recife: Fundação Gilberto Freire. 1979. 1997. Nova York: Cambridge University Press. "todas hoje de Sua Majestade. Sérgio Buarque de. ed. The Sugar Cane Industry. ele silencia ou não percebe algo essencial. Alberto. RAU. Recife: Imprensa Universitária. HOLANDA. as autoridades tinham todo interesse em promover o crescimento local. Bibliografia selecionada FREIRE. Malgrado ariquezada principal capitania regia. na expectativa de promoção no serviço público. 1989. 1962. Engenho & arquitetura. H. 1985. presídios e fortificações". Ruy. O açúcar da Madeira nosfinsdo século XV. "Escravos com e sem açúcar na Madeira". SCHWARTZ. Igrejas. casas e móveis. Sugar Plantations in the Formation ofBrazilian Society: Bahia 1550-1835. descontada essa contribuição. QUIRINO. Fed. Visão do paraíso. Virgínia & MACEDO. 1966. 1983. do Rio de Janeiro. Aspectos da influência da cana sobre a vida e a paisagem do Nordeste do Brasil. Jorge Borges de. da Paraíba e do Rio Grande do Norte. nas capitanias regias. An Historical Geographyfrom its Origin to 1914. Nova York: CambridgeUniversity Press. de vez que nestas capitanias "nunca se encontra pessoa ) respeitável no governo". 1996. Mesmo a exceção conspícua que era a prosperidade de Pernambuco. GALLOWAY. ao passo que. nas quais porque o são aumentam-se cada dia as povoações e crescem as fazendas". StuartB. A falta de ação donatarial estaria ligada à incapacidade dos seus agentes. VIEIRA. ele a explicava pelo auxílio que lhe dispensara a coroa sob a forma de "capitais. Gilberto. SMTTH. Daí que Campos Moreno advogasse a estatização das capitanias donatariais. era exclusivamente gerado pela capitania donatarial de Pernambuco. São Paulo: Nacional. que constituíam a fonte de recursos com que a coroa financiava suas despesas de gestão e defesa da América portuguesa. GOMES.100 Evaldo Cabral de Mello Uma Nova Lusitânia 101 nista invocava o exemplo da Bahia. Nordeste. São Paulo: Livraria Duas Cidades. 1969. a Bahia. ou seja. Na realidade. Lisboa: Funchal. 1985. de Pernambuco/IPHAN. Rio de Janeiro: José Olympio. Funchal. Atas do Seminário Internacional. . Engenho e tecnologia. RobertC. GUERRA. Recife: Univ. Os habitantes do Brasil no fim do século XVI. J. Geraldo.

OI "Gente da terra braziliense da nasção". Pensando o Brasil: a construção de um povo • Stuart B. Schwartz .

A definição | do "verdadeiro Brasil". essas diferentes concepções de Brasil tiveram de ser I reconciliadas de alguma forma. Significou coisas diferentes para pessoas diferentes e l o próprio termo tem sido redefinido e reinterpretado para refletir as diferenças e discrepâncias entre pessoas de variadas extrações e posições sociais.. em oposição ao Brasil do momento. Essas concepções diferentes dependiam. assim como uma projeção para o futuro. enquanto idéia. a habilidade em recapturar os conceitos variantes de Brasil sempre tem sido limitada pelo fato de que aquilo que conhecemos a respeito da mentalidade dos habitantes do Brasil colonial freqüentemente tem sido extraído dos escritos de um pequeno contingente da elite alfabetizada. e tentarei sugerir que o próprio conceito de povo passou por diversas transformações históricas no início da história moderna do Brasil. às vezes nacional ou até social. . inclusive. Essa definição dependia. O Brasil. se tornou um método de estratégia argumentativa e discursiva. em especial. onde.L / e s d e os primórdios de sua existência. Para os historiadores. em alguma medida. quando não o fazem em outros * Tradução de Adriana Lopez. de quem eram os "verdadeiros" brasileiros. De alguma forma. um povo que se via enquanto ] comunidade política. Neste breve estudo examinarei as dificuldades de se criar um conceito de povo dentro das malhas de uma sociedade escravista. o Brasil tem sido tanto uma I idéia quanto um lugar. sempre houve uma variedade de Brasis que se disputavam. das divisões sociais. Antes que pudessem existir os brasileiros. publicam seus trabalhos. às vezes geográfica. foi freqüentemente mais um projeto do que uma | realidade. a grande maioria deles educados em Portugal. quase sempre homens. embora a realização desse objetivo numa I sociedade multirracial e escravista tenha sido um processo extremamente I complexo. projetos diferentes para o que o Brasil deveria ser ou representar. das identidades e das expectativas da população colonial.

Tome de Sousa. mas a reevocação de suas idéias apresenta dificuldades. 146. . 1959).1 Se as diferenciações entre a elite e o "povo" são tratadas enquanto pertencentes à classe ou à cultura. Em 1608. utilizando. havia manifestado expectativas de que o Brasil pudesse tornar-se "um outro Peru". as primeiras avaliações a respeito do Brasil estavam relativamente livres dessas definições. Visão do paraíso (Rio de Janeiro: José Olympio. que gerou fantasias utópicas de riqueza. 1500-1800 (Princeton: Princeton University Press. Canny & A. com a qual Cabral batizara o novo litoral. "The Formation of a Colonial Identity in Brazil". realizou-se uma tentativa para alcançar esse objetivo. Tampouco podemos afirmar se a madeira recebeu o nome devido à terra ou se a terra adotou o nome da madeira. Francisco Adolfo de Varnhagen. portanto. já que eles encontraram poucos meios para expressá-las. contrariado pela diminuição de autoridade que o desmembramento do Sul representava. em N. Apesar de comentários ocasionais que davam a entender que a proximidade entre o Brasil e o Peru prometia acesso àriquezados metais e apesar dos recorrentes rumores e expectativas. mas as referências ao status econômico e jurídico desses eram muito mais populares. a "terra dos lençóis".). Assim. prático e raramente edênico. O governador-geral na Bahia. Diogo de Meneses. II. Pagden (orgs. a não ser. o açúcar dava à colônia 2 Já discuti esse problema em detalhe em Stuart B. os termos "negro da terra" e "índios" eram utilizados com mais freqüência do que qualquer outro para designar os indígenas enquanto verdadeiros habitantes da terra.106 Stuait B. o significado foi. 1952). especialmente no que diz respeito a formas que possam ser recapturadas pelos historiadores. que as verdadeiras minas do Brasil são açúcar e pau-brasil de que V. A questão da adoção do nome Brasil e sua preferência sobre o de Terra de Santa Cruz é discutida por Pero de Magalhães Gândavo. no final do século XVI.2 Considerações de ordem econômica também desempenharam um papel na designação dos habitantes da terra. Schwartz "Gente do terra braziliense da nasção". p.4 As declarações de Meneses colocam em relevo uma realidade. sob o olhar vigilante da Igreja e do Estado. A designação original. Documentos do século XVI algumas vezes se referem aos habitantes indígenas como "os brasis". disputou a primazia durante um breve período com o termo descritivo de "terra dos papagaios" e com a designação dada pelos marinheiros. 15-50. manifestadas nas primeiras crônicas. as capitanias do Sul foram desmembradas visando a formação de uma colônia distinta. História geral do Brasil (São Paulo: Melhoramentos. 1989). Assim. sua relação com a madeira tintorial vermelha (pau-brasil). tem tanto proveito sem lhe custar de sua fazenda um só vintém". 3 4 Sérgio Buarque de Holanda. 1576). A etimologia do termo Brasil também pode ser questionada. em reconhecimento aos longos trechos de praias de areia que. Terra de Santa Cruz. pareciam a distância como lençóis. especialmente aqueles de origem africana. e pia. Essas pessoas eram menos apegadas a Portugal do que os letrados e os clérigos. escreveu à coroa: "crea-me V. por insistência do ex-governador Francisco de Sousa. Uma vez que o nome da terra se consolidou devido ao uso contínuo. indígena ou mestiça. ocasionalmente no século XVII. vol. mas o que deveria significar ou representar. História da província Santa Cruz a que vulgarmente chamamos Brasil (Lisboa: Biblioteca Nacional. inclusive. No caso do Brasil. Devido à ausência de uma universidade ou mesmo da imprensa na colônia. e da possível vinculação do estabelecimento do governo geral na colônia em 1549 com a descoberta das minas de Potosí pelos espanhóis (1545). quase que exclusivamente brancos da classe superior. o termo "brasileiro" era a eles 1 aplicado. esses autores publicavam seus trabalhos na metrópole e para um público metropolitano. ou "gente brasília" e. o primeiro governador-geral do Brasil. "carneiros de carga" (llamas) para transportar a prata extraída. Pensando o Brasil: a construção de um povo 107 países da Europa. em grande medida. na medida em que procuravam definir tanto o território como a própria relação que mantinham com este. Francisco de Sousa havia de fato tentado convencer a coroa de que minas semelhantes às peruanas poderiam ser estabelecidas no Brasil. deixa claro que ao contrário do Peru. Schwartz. como nos Diálogos das grandezas do Brasil (1618). Colonial ldentity in the Atlantic World. Mas a sua visão do Brasil enquanto um Peru não era compartilhada por todos. a questão que surgia. Mg. elas não obstante enriquecem e complicam a questão do que o Brasil significava para seus habitantes. aqui como no caso de outras novas "descobertas". no início do século XVII. no caso de estudarmos suas ações. do convés dos navios. é claro. seus escritos não podem ser considerados como representativos do desenvolvimento de uma consciência de sua própria classe e muito menos da massa dos habitantes iletrados da colônia. De fato. pp. ao adotar-se o nome de Brasil para a nova conquista.3 As expectativas de encontrar riquezas em forma de metais preciosos. logo foram ultrapassadas por outras realidades econômicas. Mg. dado o precedente medieval da mitológica ilha Brasyl e da associação do nome à brasa e. não era como a terra e seus habitantes nativos deveriam ser chamados. e não suas palavras. A questão da definição do território e de seus habitantes surgiu durante o século XVI.

misericórdias e hospitais.ou. o Prior do Crato. No início do século XVIII. quando ariquezada colônia brasileira havia se tornado a pedra-de-toque do império português. 79. mas de muitos e bons portugueses que delia se servem. Luís da Cunha. p. prevaleceu. em 1578.Sdiwartz "Gente da terra braziliense da nasçõo". p. João V. escreveu ao rei em Madri a respeito das implicações calamitosas que adviriam da possível perda do Brasil: [. 293-293v. frei Antônio do Rosário escreveu que o Brasil se tornara a "verdadeira índia e Mina de Portugal". A sugestão de se transferir a corte de Lisboa para o Brasil. mas a realização de um projeto acalentado desde longa data e uma atitude que reconhecia o que o Brasil havia passado a significar para a corte portuguesa. 5 6 mais precisamente. porque sem Brazil. o governador de Portugal. porque a "índia já não he índia". conselheiro de d. sem falar da diferença dos climas. As cortes da Europa que lhe ofereceram ajuda . pp. Visão do paraíso.]8 Esse problema. o da terra sem um povo digno de sua riqueza. cit. nem situação em que se paguem os tribunais. e ministros e seus salários. Pensando o Brasil: a construção de um povo 109 um traço característico. Sebastião. chega a considerar a idéia de se estabelecer como rei no Brasil e esperava utilizar a colônia como base de suas futuras pretensões. portanto. dos quais a produção de açúcar dependia. D. como em Lisboa nos servimos de negros [. um lugar para enriquecer ou progredir na carreira. apenas tem os sentimentos de homens... também começou a servir de lugar de fuga ou sede alternativa de império para os monarcas europeus de grandes ambições ou esperanças limitadas. Antônio. E assim foi este golpe o mais universal que podia padecer o rei. e nesse aspecto o Brasil era considerado deficiente. surgida durante o século XVIII. nem cabo Verde. "Instruções inéditas" de d.. propor que hum Rey de Portugal trocasse a sua residência da Europa pela América. 1702).] porque o Brazil leva todo este reino trás de si. na concepção de Brasil que povoava a mente daqueles que governavam a colônia. quando o comércio de açúcar se torna menos lucrativo. quando a notícia da conquista de Salvador pelos holandeses chegou a Lisboa. O açúcar também transformou o Brasil na principal fonte de riqueza do Império português. enquanto fonte de riqueza. Frutas do Brasil numa nova e ascética monarquia consagrada à Santíssima Senhora do Rosário (Lisboa: Oficina de Antônio Pedrozo Garlam. Em Madri. . Ao chegarmos ao século XVIII. d. que tinham nas alfândegas situados os seus juros e suas tenças. as religiões. Em 1624. data do início do século XVII e persiste até o final daquele século.6 Na Europa de então. 53-5. eventualmente moldou a composição e a estrutura da sociedade. que as cidades do Brasil não são povoadas desta mizeravel gente. que queriam interferir na aquisição do Império português pretendida por Filipe II . 1952). não apenas um expediente imediatista. as rendas reais. cujos povos. 217. Antônio para justificar a invasão de Pernambuco persistiram até a década de 1620.. e dar vida a outros. mas até a sua defesa revelava o despeito com que eram tratados os nativos do Brasil: [. nem meio de que possam viver. uma visão que ressuscitou quando da descoberta do ouro. a questão do caráter dos habitantes do Brasil começa a emergir.também consideravam o Brasil como uma presa de valor. tentou superar o preconceito contra os habitantes da colônia. durante o século XVIII. que conserva toda a sua razão. A importação de africanos em massa. e o volume do comércio de açúcar deu ao Brasil a sua raison d'être. real ou potencial. este era visto pela maioria dos portugueses como um lugar de exílio e perigo. mas um lugar a ser evitado a qualquer custo. a nobreza. o conde de Basto.. Apesar do reconhecimento do potencial econômico do Brasil. o público e os particulares [. Luís da Cunha no sentido de se transferir a corte de Portugal para o Brasil estão em Visconde de Carnaxide. é claro. nem consulado. 1929). Luís da Cunha a Marco Antônio de Azevedo (Lisboa. Parece nítido que durante a luta pela sucessão ao trono de Portugal. Antônio na década de 1580. e as exigências desse cultivo haviam estabelecido uma base econômica e social diferente para a colônia.. Não bastava ser o soberano de uma terra opulenta.. 117. d. Frei Antônio do Rosário. era reiterada ocasionalmente por membros da corte e conselheiros políticos. uma vez que o Brasil havia adquirido seu status enquanto lugar de riqueza.]5 Esse reconhecimento do Brasil enquanto base econômica do sistema imperial português e seu caráter essencial. ff.. 8 As sugestões feitas por d.108 StuartB. nem portos secos. que se seguiu à morte de d.] pois não sabe como possa vir à cabeça de hum homem. ao que respondo. nem alfândegas. A chegada da corte em 1808 foi. a verdadeira grandeza exigia igualmente um grande povo. O irmão jesuíta Inácio Brandão escreveu para seus irmãos 7 ACA.7 Mesmo em meio a tais considerações políticas. A possibilidade ambicionada pela França de ter uma base no Brasil quase certamente motivou o auxílio concedido por Catarina de Médicis a d. Foi. cx. não há Angola. rumores de que os holandeses estabeleceriam um descendente de d.. João V e o Brasil (Lisboa: Serviços Culturais da Câmara Municipal. nem o pau que dali se traz. citado em Sérgio Buarque de Holanda.

comentava: "Este país o achei com pouco mais adiantamento que aquele que lhe estabeleceu Pedro Álvares Cabral quando fez a descoberta desta conquista".16 Os membros pertencentes à nobreza da terra se consideravam leais vassalos e 12 ANTT. ausente. Domingos Álvares Teles Brandão escreveu de Minas Gerais. rude e povoada por um excesso de negros. a iniciativa foi sumariamente rejeitada. pasta 28. 12 lv. o Brasil tinha uma população mas não tinha um "povo". esta não 9 funcionou muito bem nem chegou a durar muito tempo. n. que: [. por sua vez. 1989). The Lord Mayor ofLisbon. quizas porque elles forão e são da mesma molde [. Oficiais mecânicos na cidade do Salvador (Salvador: PMS. Schwartz. 14 "Leis acresentadas da Junta do Pombeiro" (20 agosto 1603). pp. 209-23. 10 Toda a questão da representação dos artesãos no Brasil ainda merece investigação. tanto quanto me é dado a entender. 1 ' Para um excelente estudo recente. essencialmente. Numa carta ao conde de Prado. 15-50.12 O conceito de "povo" enquanto terceiro estado na sociedade de ordens e na base de toda sociedade não chegou a se estabelecer na colônia. sendo a maior galhardia dos donos das fazendas proteger ladrões e matadores de que utilizão em seu serviço. me parece será inferno perpetuo [. Lavradio é. Padgen (orgs. em 1711. No próprio Brasil. o Brasil. 1988). 15 Aqui.. mas também o fato de que essas pessoas de origem mista eram definidas pelo lugar em que haviam nascido. As referências mais antigas falam de "pessoas de menor condição". Lavradio achava a colônia quente. talvez. MSSB.13 Esse era o problema central. Nenhum outro funcionário da coroa na colônia foi mais eficaz e menos apaixonado do que ele. quando membros da Ordem de São Bento propuseram admitir noviços pertencentes à "gente da terra braziliense de nasção". O imaginário da Restauração pernambucana. nenhuma instituição representativa ou corte era permitida na colônia. Pensando o Brasil: a construção de um povo 111 de ordem em Portugal. Em 1602. desenvolveram-se percepções alternadas..14 O que interessa neste episódio é. e que esse lugar estava sendo utilizado como critério para definir sua etnicidade. o termo "nação" ainda era utilizado enquanto denominador de um certo grupo.. Mesmo depois da Restauração. Rubro veio. em N. orgânica e constitucionalmente vinculado ao corpo da política e ao rei estava. e não se confiava muito nelas nem na sua capacidade. 13 Ver a discussão em Evaldo Cabral de Mello. ver Pedro Cardim.Sdiwortz "Gente da terra broziliense da nasção". em larga medida. 1500-1800. pp. pagãos e escravos? Nos cálculos coloniais.. porque no século XVII. no caso. pp.]". Representantes do povo foram proibidos de presenciar algumas discussões dos vereadores e foram por eles acusados de provocar a agitação popular durante os protestos da "Maneta". as pessoas que poderiam ser chamadas de população indígena ou nativa da colônia. Stuart B. "The Formation of a Colonial Identity in Brazil". 119. O imaginário da Restauração pernambucana (Rio de Janeiro: Nova Fronteira. Cartório dos Jesuítas. Ver Maria Helena Flexor. 1998).110 StuaitB. as tradições medievais portuguesas de representação dos artesãos no governo municipal (o juiz do povo e a casa de 24) nunca foram plenamente instituídas na colônia. escrita em 1768.. Em 1713. a desconfiança dos beneditinos nas habilidades dessa "gente". em primeiro lugar. em que se considera o fato de se ter nascido no Brasil como elemento que define a identidade e como elemento precursor da nacionalidade. Canny & A. Colonial Identity in the Atlantic World.. maço 70. e para os funcionários coloniais.11 Devido a uma variedade de motivos. Segredos internos (São Paulo: Companhia das Letras. aquele que poderia ser chamado de o povo brasileiro era formado. Os habitantes da colônia e o meio físico desafiavam as concepções européias. Harry Bernstein.' Funcionários régios ficavam frustrados e exasperados pela ausência de respeito às leis por parte de seus habitantes. Stuart B. não enviava representantes às cortes que eram convocadas em Portugal. João IV autorizou a representação popular na Câmara da Bahia. a posição de juiz do povo foi extinta e "ficava a Cidade Capital do Estado do Brasil igual amais humilde villa delle".. tal como a "nação cristão novo" ou "de nação Angola". e o Brasil. quando d. Cortes e cultura política no Portugal do antigo regime (Lisboa. pelas pessoas de origem mista.15 Este é o primeiro momento. Inicialmente. mas a idéia de um "povo".). Rubro veio. . 1974).] se possível for pondo em cada pau huma forca e em cada légua hum ministro porque so assim se sugeitarão de todo e se não obedientes porque de outra forma não he possível porque canalha semelhante não ha no mundo todo. 16 Evaldo Cabral de Mello. 1986). 10. Schwartz. Que tipo de comunidade podia existir onde tantos de seus habitantes eram culturalmente diferentes. ANTT. em 1640. falo em etnicidade em vez de nacionalidade. suja. "he certo que quem conhece Portugal e esperementa o Brasil com fundamentos pode dizer que deceu do ceu ao inferno e se Deus destas terras o levar a comtas. "moradores" e "povoadores". O surgimento do nativismo na colônia tem sido detectado por vários autores.]10 O marquês de Lavradio notou que os ministros reais vinham ao Brasil com a única esperança de concluir o mandato para retornar e "gozar o descanso de suas pátrias". Manuscritos do Brasil. cit. um caso que merece destaque. 158-9.. em 1736. cit. The Portuguese Tribune ofthe People and his 24 Guilds (Nova York: University Press of America. f.

embora as tentativas formais de se criar um governo à parte. e o eventual desenvolvimento de instituições européias civis e religiosas. de as "La Rochelle" do Brasil. onde haviam sido criadas colônias de exportação. e uma grande porcentagem das elites locais ainda era nascida na Europa ou estava estreitamente vinculada. Os ingleses tinham razão quando falavam. o exame dos escritos de um grupo limitado de intelectuais. isolado. é difícil recapturar a percepção que tinham de si mesmos e do Brasil que viviam. do Rio de Janeiro para o sul. a Portugal. Esses sentimentos provavelmente se alastraram mais rapidamente entre os mestiços. Na costa entre Pernambuco e Rio de Janeiro. Ligados às elites coloniais brancas e vinculados por laços familiares e de interesse a Portugal. operavam regularmente. Pensando o Brasil: a construção de um povo 113 também pensavam constituir a verdadeira população. Na medida em que a ameaça dos índios diminuiu. Essa divisão social das formas de percepção faz com que o método tradicional de abordagem desse tópico. a composição da sociedade e a estrutura de governo eram diferentes. esses intelectuais eram os menos aptos a desenvolver uma noção da diferença. a importância do papel desempenhado pelos mestiços. A mudança no status dos mestiços e dos mamelucos ocorreu devido à mudança no relacionamento entre portugueses e índios. conforme a época e o lugar. o meio-irmão do marquês de Pombal. pois havia de fato mais de uma colônia. uma colônia independente (1621-1777) com seu governador e seu bispo reportando diretamente a Lisboa. de origem mista. assim como a reprodução de hierarquias sociais baseadas em padrões europeus se consolidou. incentivava a correspondência entre cada capitania e a metrópole. Em meados do século XVIII. que visava limitar o poder do governador-geral e dos vice-reis. distante do resto do Brasil e mais próximo de Lisboa de navio do que do Rio de Janeiro. o papel desempenhado pelos mestiços tendia . baseada no açúcar. o status dos mestiços declinou. e a maioria de seus habitantes era de pessoas indígenas ou caboclas. os governadores residentes na Bahia tinham pouco controle sobre o Sul. Até essa época. nos séculos XVII e XVIII. que se sentiam pouco ligados a Portugal e os quais. as instituições reais e o governo local estavam presentes. Em meados do século XVII. apenas um. mas era constituído por uma série de colônias. Conventos se estabeleceram. e uma imensa massa de população servil importada constituía a principal força de trabalho. Isto é uma maneira de dizer que as divisões sociais e culturais que caracterizaram a sociedade brasileira tinham influência profunda em como os brasileiros se percebiam e como eles começaram a pensar a respeito de seu país dentro do contexto colonial. tivessem fracassado (1573-1578. a cronologia separava essas regiões do resto do Brasil. eclesiásticos e judiciais. tal como o estado do Maranhão. Ali. às vezes. proibia o estabelecimento de uma universidade na colônia e geralmente agia para coibir o desenvolvimento da unidade colonial. A promoção desses vínculos fazia parte da política colonial portuguesa. corpos de administradores. sob Francisco Xavier Mendonça Furtado. O Brasil não era. No interior e nas periferias da colônia. africanos e pessoas indígenas de origens diversas. pelo menos. em grande parte.112 StuarfB.1608-1612). na mineração e no cultivo do algodão se desenvolveu. em realidade. Embora nas duas regiões a adoção da cultura e da língua dos índios fosse comum. Nos lugares onde uma economia vibrante. no final do período colonial. também. Mas o Brasil sempre teve significados diferentes em momentos diferentes para pessoas diferentes. se tornou um vice-reinado virtualmente separado. então. a dimensão geográfica desse processo. Essas periferias desenvolveram uma reputação de obstinada independência e eram chamadas. apesar do fato de que nessas fronteiras a presença de missionários se dava numa escala que já havia desaparecido nas zonas de exportação. em vez de Salvador. o número de europeus fora de Belém ou São Luís muito pequeno. por interesse e experiência. a grande corrente de imigrantes forçados africanos. também diminuiu nas áreas mais povoadas das capitanias do litoral. a população era rarefeita. assim como variava o número relativo de europeus. As capitanias do Sul também haviam sido tratadas como uma região separada e. havia poucos escravos africanos. os modelos culturais e os estilos europeus predominavam. constituíam cerca de 40% da população da colônia. A organização social variava. e devido às transformações ocorridas dentro da própria sociedade colonial. Isso tinha um efeito particular na posição social das pessoas de origem mista. enquanto mediadores e tradutores. São Paulo permaneceu uma área rústica até bem avançado o século XVIII. mamelucos e mestiços. Nestas. e onde o fluxo constante de imigrantes europeus.Schwortz "Gente da terra braziliense da nasção". dado que esse segmento da população era. o estabelecimento de colonos europeus era intenso. grande quantidade de índios e uma grande proporção de pessoas de origem mista. seja um processo falho. É preciso considerar. os mamelucos e os pardos. dos "Brasis". a exploração destes enquanto fonte de mão-de-obra era intensa. analfabeto. Infelizmente. essas áreas pretendiam ser uma réplica da Europa. ou. a população de origem européia era pequena. essencialmen- te. O estado do Maranhão era. Nessas áreas.

Quando se sugeriu à Câmara de Salvador que se formassem companhias de índios. Correspondência.] he um homem cuya qualidade de sangre ainda se não sabia por não haver conhecimento delle. Na medida em que continuavam a ser reconhecidos como diferentes dos escravos africanos ou dos negros. A leve suspeita de antecedentes dessa natureza era suficiente para garantir a desqualificação. todas as pessoas de cor eram cada vez mais identificadas como iguais. 27 (24 fev. das irmandades leigas. Oliveira Marques (orgs. 82-3 ("Licenciado Antônio Pereira Porto por ser indigno de semelhante emprego porque [. A eleição de um certo homem para a Câmara de Cachoeira. no Rio Grande do Norte. uma tendência a outorgar um status comum a todas as pessoas de origem mista. 1986). mais do que contra os mestiços. com a finalidade de coibir o contrabando. 1730). mas eram vistos como uma força de trabalho necessária. Embora seja fácil detectar comentários negativos a respeito dos índios durante o século XVI. 19 ACMS. a quem se depreciava e das quais se desconfiava. 22 Marquês de Lavradio. separados e diferenciados da sociedade branca. o caráter da população brasileira havia se tornado nítido. em termos de suas características negativas. em 1723. não obstante. Estes não eram considerados enquanto parte da república. 34. de qualquer maneira. cabras e negros no sertão. caixa 3 (24 março 1724). Nova história da expansão portuguesa (Lisboa: Estampa. carijós (índios). porque os [que] lá chamam branco. Lavradio escreveu em 1768. Pensando o Brasil: a construção de um povo 115 a permanecer cada vez mais reduzido. 20 ..19 Em Minas Gerais.. a maior parte dos quais haviam nascido na África. da parte de gente pouco confiável. de certos comércios e profissões. na Bahia. p. em 1720.18 O preconceito contra as pessoas de origem mista se tornou cada vez mais agudo durante o século XVIII. e isso a despeito do fato de que tinha diploma universitário. 21 APB. 1986).). dessa forma transformando todas essas categorias em pessoas igualmente repreensíveis. papel avulso. Além disso. J. H. mulatos e negros". p. n. governador de Minas Gerais. as pessoas de origem mista. 224. Quem quer que tenha sugerido uma idéia desse tipo "no conhece a calidade dessa gente em quem por natureza se unio a inconstância e o interesse". e até as pessoas brancas casadas com elas. O conde de Sabugosa. cada vez mais. AHU. citado em Maria Beatriz Nizza da Silva (org. 124. Cartas da Bahia. foi contestada em 1748 porque "ele era um homem cuja qualidade de sangue ainda era desconhecida". Nas regulamentações emitidas pelo Mosteiro de São Bento na Bahia. pasta 28. Estes últimos eram considerados brancos apenas por padrões ditos brasileiros. Pernambuco e outras partes do Brasil. a força primária por trás dessas medidas era dirigida contra os mulatos. a câmara respondeu que pessoas desse tipo "abandonariam o comboio em troca de um barril de aguardente". e até por aqueles brancos que não tinham acesso ao status de elite e caíam na categoria dos mecânicos. reclamava. 1972). Essa situação começou a mudar. a nobreza da 17 18 Mosteiro de São Bento (Salvador). "Leis acresentadas da Junta do Pombeiro" (1602). esse tipo de avaliação negativa se tornou comum. mas ao entrar o século XVIII. Serrão e A. 1750-1822 (Lisboa: Estampa. O processo de mudança torna-se evidente a partir das avaliações feitas sobre o caráter destes. viii. a Ordem decidiu "que não se tome e recebão para Religiosos pessoa que tenha raça de mestiço nem outros que não forem de gente nobre ou de que se espera poder resultar sua entrada em proveito". fosse formada por pessoas de origem mista. 90v. esse tipo de atitude não era comum quando se tratava dos mestiços.114 StuortB.7. em 1724.21 No início do século XVIII. isto é. tal como haviam feito no passado.) v. 3 volumes publicados até a presente data. Um terço da população era formado por escravos. posto que a experiência tem mostrado que eles são menos capazes devido à inferioridade de suas pessoas e a sua natural inclinação à perturbação e sublevação da república". passam entre nós com muito favor por mulatos". 1-1-36. porque "o número de brancos aumentou. Essa mudança constituiu um segundo estágio no processo de integração dos mestiços à sociedade colonial. e alem desto he de exercício mecânico porque vive de curar feridas"). "foi-me grandíssimo trabalho o descobrir algum branco.17 No século XVIII. do clero. desnecessário. as pessoas comuns. que "os mamelucos são a pior casta de gente de todo o Brasil". tornando esse serviço. ACC. A câmara tentou proibir os mestiços de ocuparem o cargo de vereador.22 Embora já por essa época tivessem começado a emergir um discurso e um sentimento nativista entre as elites coloniais. inimigos internos e uma ameaça em potencial. dos crimes cometidos constantemente pelos "bastardos (mestiços).20 Freqüentemente. O processo de transição na avaliação se tornou mais nítido graças às ações do Senado da Câmara de Natal. ff. O Império luso-brasileiro. os mestiços passaram a ser. Ordens regias 27.Schwartz "Gente da terra brazíliense da nasção". Um funcionário colonial escreveu no Ceará. 1768-1769 (Rio de Janeiro: Arquivo Nacional. que verdadeiramente o fosse. Rio Grande do Norte. Talvez 40% da população. havia. eram excluídas do governo municipal. f.

141. especialmente do tipo que poderiam unir classes nitidamente opostas. mulatos. coleção Conde de Arcos. o governo se sentiu mais chocado do que ameaçado pelo incidente. a distância "da cabeça e do coração da monarquia". fato reconhecido pela criação do título de "Príncipe do Brasil" dado ao herdeiro do trono. 11-2. códice 32. e outros vadios criminozos e os índios das Aldeaas do Palmar". que merece mais atenção do que aqui lhe podemos dedicar. 478v-479. Histórico e Geográfico Pernambucano. João Gomes Ayala (Bahia.. havia causado tumulto no interior. Recife.]24 Por trás desse jovem aventureiro havia um padre de intenções duvidosas. entre os quais havia "muitos negros. um certo Eusébio Dias Lassos. mas representativo da reação nervosa do governo colonial face à instabilidade potencial da população brasileira.23 Já era suficientemente ruim que um grande contingente de escravos minasse a estabilidade da colônia. em Revista do Instituto Arqueológico. 5 de julho de 1733).. Em outubro de 1733. mas o número crescente de pessoas de antecedentes mistos também ocupava a atenção dos administradores coloniais. . AUC. de onde ele era. A coroa desejava descobrir se o jovem aventureiro era português. quando se tornou aparente que um número significativo de pessoas poderosas e bem relacionadas o haviam apoiado. o Brasil havia-se tomado a jóia da coroa do império português. mas além disso havia uma profunda desconfiança para com a maioria da população. O conde de Sabugosa havia ordenado: "o siga ate com effeito o prender em outra qualquer parte porque convém muito ao sossego deste estado que seja 23 24 25 Consulta de Conselho Ultramarino (1716). Era este um movimento no sertão do sul de Pernambuco que havia unido os ricos e poderosos. o "Príncipe do Brasil" passou para a história.. conhecido como o homem que havia reduzido os índios orizes à autoridade colonial. governador da Bahia. São Paulo e Minas Gerais. Ordens regias 153. um estranho jovem que se autodenominava "o Sereníssimo Príncipe do Brasil". assim como a "plebe". e quem o havia convencido a ir para o Brasil..] que muitos o Reconhecião e veneravão pelo império e soberania com que se tratava passando a sua barbaridade e locura ao excesso de fazerem com elle grossas despezas. mas que também ganhara fama indisputável de arruaceiro. 1713-1738". p. APB. mas o que ele representou para aqueles que o seguiram e que alternativa para o Brasil ele projetava eram motivo de preocupação para as autoridades da época e provocam nosso interesse no presente.25 Havia já notícia de que esse "Príncipe do Brasil" criara distúrbios similares na Paraíba. [José Freire de Montarroio Mascarenhas]. ff. 10 de agosto de 1734).. senão também pelas mercês que fez a muitos o titulo de Condes e Marquezes [. Agradeço a Evaldo Cabral de Mello por esta referência. em Alagoas. 26 Conde de Sabugosa ao ouvidor de Alagoas. Mas. ampliou seu elenco de seguidores. No início do século XVIII. "Nobres e mascates na Câmara do Recife. mas a criação de alternativas políticas e sociais. Em 1733. Diziam que Dias Lassos havia outorgado uma falsa patente de coronel da Capitania de Sergipe a seu tio Manuel Curvelho. A partir desse ponto. 53. e que o governador de Pernambuco havia tomado providências para prendê-lo. se havia estado em algum "reino estrangeiro". em clara oposição à soberania do rei de Portugal. ordens regias 29. 1716). não só por aquella rezão. a vasta maioria da população era considerada por essa elite e pelo regime colonial como desmerecedora de seu status enquanto povo da colônia. O governador de Pernambuco. relatou à coroa que. Duarte Sodré Pereira. citado em José Antônio Gonsalves de Mello.116 Stuart B. era considerada um perigo verdadeiro. APB. uma preocupação política começou a se delinear. ff. Menciono aqui apenas um único incidente.]26 Inicialmente. Conhecemos pouco a respeito do programa. e a "pouca sujeição e obediência" de seus habitantes eram todos motivos de preocupação. Os Orizes conquistados ou noticia da conversam dos indomnitos Orizes Procazes (Lisboa. Schwartz "Gente da terra braziliense da nasção". Sua riqueza. e tratado com tal grande discomodo de suas pessoas e prejuizo da sua fazenda ambisiosos das honras e mercês com que lhes prometia Remunerar aquelle obséquio a seu tempo [. o conde de Sabugosa. criado condes e marqueses. no sul de Pernambuco. Pensando o Brasil: a construção de um povo 117 terra. alertando-os da possível chegada desse príncipe. emitiu a ordem de prisão em Alagoas de "um peralvilho que dava a entender ser príncipe". Quando ele passou pela região de Garanhuns.141. Conde de Sabugosa ao rei (Bahia. n. e o governo estava ficando preocupado com isso: com tais quimeras e demonstrações que consiguio da barbaridade e cegueira de muytos moradores delia ser reconhecido e servido. a preocupação com o incidente era tamanha que o conde de Sabugosa havia escrito para os governadores do Rio de Janeiro.. Muitas pessoas haviam aderido à sua causa: [. Havia motivos de sobra que obrigavam a coroa a se preocupar com sua colônia. mamalucos.

A primeira revolução social brasileira. 32 . p. Autores como Fernão Lopes preferiam falar do "comum povo livre e não sujeito" ou. no auge de sua revolução e estado de cidadania jamais chegou a esse ponto. 3 ' Governador da Bahia Manuel da Cunha Meneses a Martinho de Melo e Castro (16 de outubro de 1775) em ABNRJ. sem nenhua outra cousa mais que adeverem quartada a grande liberdade com que vivem". O sistema não fica nisso.1. Arquivo 1. raramente havia sido utilizado no século XVI. ver Laura de Mello e Souza. 32 (1910).0 jovem foi preso e enviado a Portugal. ordens regias 29. e tergiversar no cumprimento delas. Comparem-se esses comentários com aqueles de 1798. nas décadas de 1750 e 1760 o esforço dos governos para obrigar os ciganos. cantando e pedindo dinheiro sob a direção de um "imperador". pp. A Relation ofa Voyage Made in the Years 1695. precisamente. quando afirmou que "a gente comum é insolente ao extremo".1. 37. entretanto.. 33. Os desclassificados do ouro. discutir suas ordens. 1951). mas formada por negros. 34 Officio do governo interino para o conde de Oeiras (1765). cit. que freqüentemente consente. Durante os preparativos para a festa do Espírito Santo. Arquivo 1. ff. Aqui pode-se ver o criado branco conversando com seu senhor de igual para igual e. 1696.19. IHGB.. Por exemplo. ver APB. que viam os habitantes do Brasil como crianças desobedientes e irresponsáveis. os termos utilizados pelo governador da Bahia para descrever as condições que ele tentava controlar em 1765. Ordens regias 30.. 68-69. geralmente de forma pejorativa. o termo "plebe" começou a ser utilizado com mais freqüência.118 StuartB. além de demonstrarem relutância no serviço ao rei. mas a visão mais enfática a esse respeito talvez tenha sido a do inglês Thomas Lindely. O rei se queixava. 28 Sobre a questão de se considerar a vadiagem equivalente aos mulatos e outras pessoas de cor em Minas Gerais. e essa desconfiança se refletia na transformação do terceiro estado. Esses eram.28 Tentativas para controlar essa população tiveram escasso sucesso.1697 on the coasts of África (Londres: M. cf. no século XVIII o termo "plebe" começou a aparecer cada vez mais enquanto descrição pejorativa da população brasileira. 29 Sobre "sítios volantes".o que é bem aceito pelo senhor. Embora o termo "plebeu" tivesse raízes clássicas.33 O conceito de "plebe". vadios e outros elementos instáveis das populações do sertão a fixar residência não obteve o resultado esperado. 169v-174. ff. 1698). ao limitar os festejos de rua da Irmandade do Espírito Santo.]32 Pouco se esperava dessa população tão insubordinada. 1805). foi exacerbado no contexto colonial. ver o rei ao conde de Azambuja (junho de 1766). Os habitantes do Brasil haviam adquirido a reputação de viverem sob liberdade descontrolada. Johnson. se forem contrárias à sua opinião .34 O governador tentou limitar as atividades da irmandade aos domingos e dias santos "por não andarem tanta 27 Conde de Sabugosa ao rei (Bahia. Isto também pode ser visto em IHGB. nesse aspecto. 43.25.32. com as conotações negativas que tinha para os portugueses e brasileiros das classes superiores. do mais abjecto.19.Schwortz "Gente da terra braziliense da nasção". da "arraia-miúda". APB. 97. 122-123. APB. mamelucos e vadios haviam se tornado termos equivalentes para falar de uma população problemática. 148.. Pensando o Brasil: a construção de um povo 119 rigorosamente castigado o atrevimento deste aventureiro e de todos os que barbara e imprudentemente o seguem [. 33 O autor deseja agradecer à medievalista Rita Gomes pelas suas sugestões a este respeito. com mais facilidade irão para o patíbulo de que servir ainda uma Duquesa. os membros da irmandade costumavam sair às ruas fantasiados. Se durante o século XVI.30 Reclamações semelhantes foram feitas durante todo o século pelos governadores. em 1726: "é incrível a repugnância que tem os filhos do Brasil a ocupação e exercício de soldados. Cf. se na terra houvesse". 2 de outubro de 1733). 319.27 O caso do "Príncipe do Brasil" revela uma crescente desconfiança a respeito da gente comum na cabeça dos administradores coloniais. Sobre os ciganos. mulatos.29 Os administradores coloniais tampouco podiam contar com a população para prestar o serviço militar voluntariamente. n. mulatos e mestiços.31 O que talvez causasse mais irritação às autoridades metropolitanas era a insubordinação das pessoas de condição mais baixa. O padre Dias Lassos escapou. Vemos como negros. de forma amigável. 32 (1910). a representação do "povo" era freqüentemente positiva e a posição política do terceiro estado era codificada por meio de sua participação nas cortes e reconhecida em expressões tais como a "câmara e povo". Ordens regias 59. ABNRJ.]". BNRJ. qualidades potenciais para causar problemas. Vários observadores notaram essa atitude. a mais desamparada mulatinha forra. n. Ver Affonso Ruy. 1798 (Salvador. Gillyflower. conforme atestou em 1805: É chocante ver quão pouca subordinação à hierarquia é conhecida neste país: a França. onde a maioria da população era não apenas pobre. No século XVIII. quando se tratava dos mais miseráveis. 30 O rei a Vasco Fernandes César de Meneses (18 de março de 1726). Thomas Lindley. mas essa atitude se estende aos mulatos e até aos negros [. Narrative of a Voyage to Brazil (Lisboa: J. com excessiva mobilidade. citados por Affonso Ruy: "As filhas do país têm um timbre tal que a filha do homem mais pobre. governador da Bahia ao Conselho Ultramarino (25 de setembro de 1761). que de "povo" passa a ser "plebe" no discurso da época. Cartas do Senado 132 (5 de julho de 1755). O viajante francês Froger fez uma observação semelhante em 1698.

o manuscrito de um trabalho extraordinário chamado Desagrados do Brasil e glórias de Pernambuco?5 Esse trabalho de "nacionalismo crioulo" é essencialmente uma defesa do caráter. Ele lembrou ao ministro colonial em Lisboa que "a plebe é formada pelos homens brancos criados no temor e no respeito às leis e à cristandade". na carneirada. e muitos deles famintos?". pp. conforme atestam as afirmações de Luís dos Santos Vilhena em suas Notícias soteropolitanas (1798). ele se debruça sobre o problema colonial: Não é fácil determinar nestas Províncias quaes sejão os homens da Plebe. 38 Loreto Couto. 1986). 910. Ver também José Antônio Gonsalves de Mello. "imensas matas" e riquezas minerais. e adverte que a plebe era. cit. assim como num rebanho de ovelhas. sua visão da gente comum é uma daquelas em que as divisões de raça e.. / ^ **£ . ed. Excetuando os senhores de engenho. Diretoria de Assuntos Culturais. ficaria com quarenta milhões de habitantes tão povoado como Portugal se acha com os que de presente tem. Como era. (Salvador: Itapuã. Mas o governo estava mais preocupado com o fato de que apenas um quarto da população da cidade era branca. e de desespero e frustração com sua situação social. Estudos pernambucanos: crítica e problemas de algumas fontes da história de Pernambuco (Recife: Fundarpe. causavam desordens contínuas. alguns poucos comerciantes e lavradores. enquanto a nobreza é sua alma. seguem o pastor.] O vulgo da cor parda. Apesar da infertilidade de boa parte dos solos. mas capaz de ser mobilizada pelos ventos. Pensando o Brasil: a construção de um povo 121 gente como vadia a semana inteira". Cipião e Catão. sua visão de Brasil combina um certo orgulho e expectativa de grandeza. poucos em número. 1967). negros. também. vemos como as concepções clássicas sobre a gente comum são alteradas devido à situação colonial. o animal sozinho não obedece a nenhuma delas. (Recife: Fundação de Cultura Cidade do Recife. enquanto súditos leais da coroa. 1981). O frade carmelita Domingos de Loreto Couto enviou... entende estar fora da esfera vulgar. a maior parte pobres. fecundo por natureza. Aqui vemos claramente a maneira como a raça havia exacerbado as distinções de classe. Ideologia e colonialismo (Rio de Janeiro: Forense Universitária. então. 3 vols. Embora o autor compartilhasse dos preconceitos e das pressuposições raciais de sua classe.36 Embora Loreto Couto reconheça que os pardos e os pretos poderiam realizar contribuições positivas ao corpo social da colônia.. Carlos Guilherme Mota. rios grandiosos. Faltava ao Brasil um "povo". das virtudes e contribuições dos pernambucanos. o potencial para se sustentar uma grande população era imenso. /^\~ &Q^ Santos Vilhena.120 StuartB. Tomando como referência Platão. Era "uma congre- 36 37 Domingos Loreto Couto. Essa interseção entre raça e posição social pode ser vista com mais nitidez ainda nos trabalhos de um dos autores mais curiosos do século XVIII. imóvel.. Utilizei a edição de Braz do Amaral. segundo Santos Vilhena. Na sua opinião o mesmo he ser alvo.Schworb "Gente da terra braziliense da nasção". cuida que nada mais lhe falta para ser como os brancos. pardos e até mulheres. se perguntava Santos Vilhena. em 1757. por implicação. cit.. 226-227. pp.. Desagravos. Sobre Santos Vilhena ver. mas na Bahia esse não era o caso. com o immoderado desejo das honras de que o priva não tanto o accidente. Santos argumenta: se Portugal com a falta de população que todos lhe conhecem. sob os efeitos do vinho e sob a direção de seu "Imperador". e a explicação para esse estado de coisas era a escravidão e seus efeitos. e que a "mais baixa plebe da Bahia é composta por mulatos insolentes e negros brutos" que. 195-224. Na discussão a respeito da "plebe". O da cor preta tanto que se vê com a liberdade. 1969). levando em consideração o potencial geográfico do país. ao então conde de Oeiras (posteriormente marquês de Pombal). p. setecentos mil e tantos habitantes. 1985). "uma colônia que possa competir com as melhores que se conheçam em qualquer parte do mundo". Leopoldo Jobim. porque todo aquelle que he branco na cor.. Esse tipo de percepção encontra expressão em termos muito mais negativos no final do século. mas vivendo há muito na colônia. o resto da população era "ignorante e semibárbara". mas juntas. José Antônio Gonsalves de Mello. e riquíssimo. que ser nobre. é habitado por colonos. inclui em si três milhões.38 Aqui estava um país de terras extensas. de escravidão complicam a definição do que constituiria o vulgo ou a plebe. "Carta 24". Depois. em A Bahia.. Loreto Couto percebe as pessoas comuns como o "corpo" da república. Atitudes de inovação no Brasil. nem porque exercitam officios mecânicos perdem esta presumpção [. por natureza. como a substancia. o que chama a atenção é o fato de que Loreto Couto elogia não apenas os membros da elite colonial mas também índios. que "um país extensíssimo. A Bahia no século XVIII. o potencial para estabelecer "um poderoso e rico império" e. mal se accomoda com as 35 diferenças. 17891801 (Lisboa: Livros Horizonte. 37 Português de nascimento. olhando proporcionalmente. Desagravos do Brasil e glórias de Pernambuco. o Brasil descoberto sem aqueles obstáculos..

As lições e o vocabulário da Ilustração e da Revolução Francesa não desapareceram entre alguns setores da população colonial.. em "as nossas colônias do Brasil". 42 Ibid. terei menos inimigos. o que desejavam era pôr as carapuas na cabeça e.]".4! Os jovens que participaram desse movimento começavam a se considerar brasileiros e a conceber um Brasil de outro tipo. 53. enquanto na Europa o trabalhador se dispunha a trabalhar em troca de seu sustento. pp. p. 1. vol. para o bem do povo. quatro anos depois.. e neste litígio sucumbe de ordinário o contendor mais débil.. depois de reis.122 StuartB. Santos Vilhena.. como é seu trabalho. . pois que eles recebiam o poder dos povos e que o rei que era tirano devia padecer na forca assim como outro qualquer malfeitor. apesar de maior em número. na Bahia. que sem homens não há sociedade. 43 Ibid. Ver também Carlos Guilherme Mota. Como outros de sua classe. aqueles são infinitamente menos em número.39 No Brasil. o que inibia o crescimento da população. Pretende o proprietário comprar pelo menor preço possível.]". com um novo significado inclusive Nesse aspecto. Manuel José Novais de Almeida havia escrito pedindo que libertassem seus escravos no Brasil. do que estes. que haja cristãos cativos". 53.40 Santos Vilhena. mais sim dos filhos do Brasil [. p. mas agora sob a influência da Revolução Francesa. A Bahia. 117-9. Vários membros da sociedade colonial começaram a reivindicar o lugar de "filhos da terra" e a constituir o "povo" do Brasil. Na formulação clássica. Mas. "É axioma inegável.. diziam os procuradores reais. 1794 (Niterói: Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro. p. um bacharel de Coimbra que alegava ter sido preso exclusivamente devido à animosidade de um certo frei Raimundo "porquanto este era inimigo dos brasileiros. Isso eram sonhos. Santos Vilhena se opunha à escravidão não pelo que tinha feito com os escravos. porque enquanto príncipes. Pensando o Brasil: a construção de um povo 123 gação de pobres". "Quem gera o cidadão é a propriedade. isso não acontecia.42 Essas idéias produziram um esquema utópico que.43 Alguns dos envolvidos também foram capazes de pensar um Brasil sem escravos. no ano de 2440. que havia se convencido de que a agricultura era "trabalho de negros" e que se negava a cultivar a terra ou praticar outros ofícios. ou jornaleiro. os autos da devassa do fracassado movimento de 1794 no Rio de Janeiro são instrutivos. na sua maioria. 1994). "e servi-vos com gente forra e livre. Autos da devassa -prisão dos letrados do Rio de Janeiro. As discussões de Silva Alvarenga e outros ampliaram o foco das atenções a respeito da forma republicana de governo e a rejeição dos ditames da Igreja e do Estado. nas quais os direitos dos homens seriam respeitados.. o único do não proprietário.. ele escreveu: A sociedade política compõem-se de proprietários. e ele expressava pouca simpatia por aqueles descendentes de escravos que haviam se juntado às fileiras da população livre. imaginava um Brasil de grandes potencialidades. O artesão Inácio do Amaral havia dito: "que matar aos reis não era pecado. Santos Vilhena acreditava que a solução para o problema estava na terra. 46.]" Mas. às elites coloniais. e os mulatos ricos que desejavam ser fidalgos. e sem meios de subsistência não pode haver homens [. e até a distribuição de terras não resolveria o problema enquanto existisse a escravidão. e representavam "o ódio da nobreza do estado monacal". mas parece ter sido uma questão de autocriação e autodefinição. porque entre cristãos. A Bahia. ao qual o legado da escravidão havia privado de um povo e lhe legara uma plebe. Como então o Brasil finalmente chegou a ter um "povo"? A pergunta ainda merece ser estudada. 919. uma no Norte e outra no Sul. não parece bem aos olhos da boa filosofia. Só a eliminação. e dos que não o são. os morgados. 157. op. Tomemos por exemplo o depoimento do jovem carioca Mariano José Pereira.. pp. de sorte que constava haver dito ao atual vice-rei deste estado que se não receasse dos franceses. resultaria na formação de duas grandes repúblicas americanas. e arranjos similares haviam criado uma população sem terra e coibiam o surgimento de famílias com base econômica sólida. de uma vez por todas. dos escravos da população convenceria a gente comum do erro de acreditarem que "cavar e lavar é só da repartição daqueles miseráveis [escravos]". êle porém se esforça pelo vender pelo mais que pode. cit.. em grande medida. o que é sabido. Auto de perguntas feitas ao preso Jacinto José da Silva." Muito antes do que Marx. mas por causa do que havia feito com o "povo". uma conspiração 41 39 40 Santos Vilhena. cit. Outros depoimentos revelaram que a animosidade de frei Raimundo se baseava em sua crença de que os brasileiros eram ultramontanos e apoiavam a autoridade do Papa sobre a da coroa. pp. enquanto os conspiradores do Rio de Janeiro pertenciam. flagelavam e atropelavam o povo [.. ele detestava os mulatos e crioulos que se recusavam a respeitar os brancos. ibid. as grandes extensões de terra subutilizadas.Schwartz "Gente da terra braziliense da nasção". cit. 160-1. 183. que se baseavam na "quimérica igualdade dos homens". no seu papel de brilhante colonialista.

A outra história: ideologia e protesto popularnos séculosXVIIa XIX. MOTA. István Jancsó. Abreviaturas ACA . Anthony. Luís Henrique Dias. os portos abertos.Arquivo da Universidade de Coimbra BNRJ . 1998.). um no qual a escravidão seria abolida. GODINHO. Katia M. "The Formation of a Colonial Identity in Brazil". São Paulo: Pioneira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. Lisboa: Livros Horizonte.Arquivo da Câmara Municipal de Salvador AHU .Arquivo Histórico Ultramarino (Lisboa) ANRJ .124 Stuart B. José Antônio Gonsalves (ed. não havia dúvida de que o Brasil tinha um povo. em KRANTZ. Os desclassificados do ouro. Na Bahia. 1975). Evaldo Cabral de. Autos da devassa da conspiração dos alfaiates. e para muitos brasileiros do início do século XIX. Pensando o Brasil: a construção de um povo 125 de artesãos e escravos. Princeton: Princeton University Press. contra o império: história do ensaio de sedição de 1798 (São Paulo/Bahia: Hucitec/EDUFBA. Salvador: PMS. Lisboa: Arcádia. 1969. e. O imaginário da restauração pernambucana. Atitudes de inovação no Brasil. A primeira revolução social brasileira. brancos. (Ed. A Bahia no século XVIII.44 Essas declarações foram feitas em nome do Povo Bahinense Republicano. Cortes e cultura política no Portugal do antigo regime. Como afirmava um de seus pasquins: "Animai-vos Povo bahinense que está para chegar o tempo feliz da nossa Liberdade: o tempo em que todos seremos irmãos.1990. Vitorino Magalhães. Stuart B. 1981. Oficiais mecânicos na cidade do Salvador. Hnx. Salvador: Arquivo Público do Estado da Bahia. Domingos de Loreto. 1969. Rubro veio. APEB. mais recentemente. Cristopher. Luís dos Santos. História da sedição intentada na Bahia em 1798: a conspiração dos alfaiates (São Paulo: Pioneira. Colonial Identity in the Atlantic World 1500-1800. 1982. 1969). Luís Henrique Dias Tavares. Rio de Janeiro: Graal.Arquivo Nacional da Torre do Tombo (Lisboa) APB .). em CANNY. Ruy. 1967. FLEXOR. CARDIM. Salvador: editora. 1798. as distinções de cor eliminadas. 2 vols. 1798. cit. o tempo em que todos seremos iguais". Carlos Guilherme.Rio de Janeiro: Jorge Zahar. Laura de Mello e. Salvador: Itapuã.Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro MSSB . 1971.Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro IHGB .. F. 1789-1801. Braz do Amaral (ed. Bibliografia selecionada AFFONSO. pardos e negros também formulou idéias semelhantes. 1987). Presença francesa no movimento democrático baiano de 1798 (Salvador: Itapuã. VILHENA.Arquivo da Casa de Alba (Madri) ACC .). O papel que este desempenharia na formação da nova nação e como superaria o fardo da escravidão e das definições raciais são questões que ainda merecem ser determinadas. SOUZA. 1996). A primeira revolução social brasileira. Lisboa. . Recife: Fundação de Cultura Cidade do Recife. Nicholas & PAGDEN. A estrutura na antiga sociedade portuguesa. "Os pobres e o povo na Inglaterra do século XVII". e a igualdade de hierarquia e de oportunidade estabelecida. SCHWARTZ. Schwartz "Gente da terra braziliense da nasção". Maria Helena. MELLO. 3 vols. 1986. História da sedição intentada na Bahia em 1798: a conspiração dos alfaiates. 1974.Mosteiro de São Bento (Salvador) 44 Os relatos clássicos estão em Affonso Ruy.Arquivo Público do Estado da Bahia AUC . Para eles. Pedro. de Queirós Mattoso. Também eles podiam imaginar um Brasil diferente. TAVARES.Arquivo da Câmara de Cachoeira (Bahia) ACMS . Couro. 1951. Desagravos do Brasil e glórias de Pernambuco. 1975.Arquivo Nacional (Rio de Janeiro) ANTT .

Pimenta .Peças de um mosaico (ou apontamentos para o estudo da emergência da identidade nacional brasileira) István Jancsó João Paulo G.

Tomaz. Berbel. Em 6 de outubro divulgava-se em Lisboa a fuga dos sete deputados para Falmouth. a reger os destinos da nação portuguesa. A nação como artefato: deputados do Brasil nas Cortes portuguesas. 1993) e Fernando P. . F. um datado de 20 de outubro. Sobre a participação dos deputados brasileiros. Márcia R. O primeiro trazia as assinaturas de Antônio Carlos Ribeiro de Andrada Machado e Silva e José Ricardo da Costa Aguiar e Andrada. op. o Correio Braziliense publicou dois manifestos de deputados de províncias brasileiras às Cortes Gerais Extraordinárias e Constituintes da Nação Portuguesa. Geografia e economia da Revolução de 1820 (Lisboa: Europa-América. Santos. ver Márcia R. o outro. "Brasileiros nas Cortes Constituintes de 1821-1822". mas não obteve resposta. Francisco Agostinho Gomes e José Lino Coutinho. No dia 12 do mesmo mês. 1972). Os sentidos do Império: questão nacional e questão colonial na crise do Antigo Regime português (Porto: Afrontamento. Antônio Carlos solicitou autorização para que lhe fosse permitido retirar-se de Portugal. cit. utilizando-se de um barco inglês. Sobre o vintismo.). 1821-1822 (São Paulo: Hucitec/ Fapesp. e de Antônio Manuel da Silva Bueno e Diogo Antônio Feijó. 193. Ambos foram redigidos em Falmouth. 1822: dimensões (São Paulo: Perspectiva.-E/m novembro de 1822. ver Valentim Alexandre. Berbel. 1999). 1980). na perspectiva original do vintismo.2 1 2 Os sete embarcaram sem a devida autorização das cortes. Nos dois casos os subscritores ofereciam ao público os motivos que os levaram a dar por encerrada sua participação na elaboração da Constituição que daria forma ao novo pacto político destinado. p.. A 2 de outubro. representantes da Província de São Paulo. eleitos por São Paulo. o que não ocorreu sem bons motivos. Mota (org. deputados pela Bahia. e desprovidos dos necessários passaportes. a Intendência Geral de Polícia informou que nenhum deles havia solicitado passaporte (cf. o outro de 22 do mesmo mês de 1822. as de Cipriano José Barata de Almeida. assim como outros já o haviam feito antes. tornando públicas as razões que os levaram a abandonar Lisboa de modo irregular1 e buscar refugio na Inglaterra. em Carlos G.

em Correio Braziliense. para o qual as cortes de Portugal estimularam os cidadãos do outro lado do Atlântico. dez. portanto. "para prevenir qualquer suspeita alheia de verdade que possa ocasionar sua inesperada retirada de Lisboa". 1822. Pátria coroada: o Brasil como corpo político autônomo (São Paulo: Ed. n. já que pátria e país não encontram equivalência na abrangência que lhe corresponda. 10 Correio Braziliense. 157. lbid. 24 set. Souza. Iara L. 175. XXIX. n. 1822". . abaixo assignados". por seu turno.3 os mesmos deputados portugueses que apontavam como os responsáveis pela desunião. Essa mesma percepção perpassa o documento dos dois representantes de São Paulo. vol. Pedro I". 1822. 256 e ss. país e nação. nov. Antônio Carlos e Costa Aguiar são enfáticos quanto a ter se empenhado "quanto neles esteve por arredar a nação portuguesa" do rumo que lhes parecia ser da desonra. dando forma ao rompimento político com o reino europeu. dentre os quais o de atribuir aos eleitos por Portugal a responsabilidade pelo rompimento da unidade da nação portuguesa.. reconhecendo nesta iniciativa o "único modo de vincular a Nação em laços mais estáveis e duradouros". expressão ajustada ao novo contexto vivido pelo império em fase acelerada de dissolução e. e ao mundo inteiro. "exposição circunstanciada [. A nação.] dos diferentes acontecimentos [havidos] durante o tempo de sua missão". 8 "Descrição dos festejos no Rio de Janeiro por conta da aclamação de D.130 Istvón Jancsó e João Paulo G. o Brasil é o seu país. 18. em Revérbero Constitucional Fluminense (RCF) n. 1822. decidiram. 15 out. quando para aí regressassem. n. Os redatores do Revérbero anunciam que. n. uma carta cujo autor vê na iniciativa da convocação de uma Constituinte no Brasil "o único modo de salvar a Nação de um e outro hemisfério".4 Em meio à emocionada exposição do que era descrito como inevitável desastre político. que de Lisboa se passaram à Inglaterra". já que no próprio epicentro americano da ruptura política a mesma dissonância perpassa as expressões de identidade política coletiva. "apesar dos desejos de união daqueles povos. quisesse "o mau destino de Portugal que vencessem os facciosos". n. 174. em Correio Braziliense ou Armazém Literário (CB). servindo-se. 19 out. quando se referem ao corpo político formado por seus representados. e a ela caberia julgar o "merecimento de sua conduta". lamentando que. dotada de maior atualidade política. Pimenta Peças de um mosaico (ou apontamentos para o estudo da emergência da identidade nadonal brasileira) 131 Ainda que diferentes em extensão e detalhado de seu arrazoado. 1822.6 Mas logo se percebe que se trata de algo mais entranhado. nov. e os que na América aclamam o imperador são "portugueses do Brasil".. do Brasil e da Nação em geral". Este é inequivocamente o Brasil ao qual os eleitos por Portugal querem impor uma "Constituição onde se encontram tantos artigos humilhantes e injuriosos". em Correio do Rio de Janeiro (CRJ). 1822. desloca-se para outra esfera. Pedro como monarca do império brasileiro. 174.8 mesmo que nem todos pensem da mesma forma. vol.10 A análise atenta da documentação revela que a instauração do Estado brasileiro se dá em meio à coexistência. o teor das exposições tem muitos pontos em comum. dentre as quais ganham relevância as de pátria. nas Cortes de Portugal. e constituírem-se em nação separada de Portugal". suspendiam a publicação do periódico já que o país "é nação. os dois textos contêm várias idéias-chave.7 A nação à qual ele se refere é a portuguesa. 1822. ainda que estes não recorram ao termo pátria. mas como seus esforços malograram e chegaram a ser tomados por "atentados contra a mesma Nação". da Unesp. A mesma fórmula é usada pelo Correio Braziliense. no interior do que fora anteriormente 6 3 4 5 "Protesto dos deputados de São Paulo. pp. 1999). XXIX. pátria é o lugar de origem. onde desde o começo de outubro estavam em curso os preparativos para a coroação de d. C. em seu número de 24 de setembro. O Revérbero Constitucional Fluminense publica. Cipriano Barata e seus companheiros das províncias da Bahia e de São Paulo também cuidavam de esclarecer que "desde que tomaram assento no Congresso de Portugal [fizeram-no para lutar] pelos interesses de sua Pátria. declarar "à Nação Portuguesa. 7 "Carta do desembargador Bernardo José da Gama de 19 jun. como a sua Província. e Nação livre".à distância que separava esses homens do cenário político americano. 9 Correio do Rio de Janeiro. o da comunidade que os elegeu para representá-la nas cortes. 153. ao final e ao cabo. a declararem a sua total independência.9 com o que têm por encerrada sua missão. Na "Declaração" assinada por Cipriano Barata.5 Para eles. pátria não se confunde com país. mas a nação à qual pertencem é a portuguesa. os motivos que os obrigaram a assim obrar". É grande a tentação de atribuir a aparente dissonância dos conceitos em especial naquilo que toca à identificação da nação à qual se sentiam todos pertencentes como sendo a portuguesa . XXIX. vol. Bahia e São Paulo são suas pátrias. É a ela que fariam. dada a proclamação da independência. "Declaração de alguns deputados do Brasil.

veremos que o resultado de uma hipotética consulta realizada dentro das fronteiras do nascente império brasileiro nos termos sugeridos por Renan . o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. de Florentino. I. ou antes. 64-125. História econômica da Independência e do Império (São Paulo: Hucitec.11 cada qual expressando trajetórias coletivas que. Isso está nitidamente explicitado em Homens de grossa ventura: acumulação e hierarquia na praça mercantil do Rio de Janeiro. para quem "o final da cena. Press.. em seu interior. dele em co-autoria com Florentino. cit. das Letras. deve-se a Fernando A. Esboço tentativo de uma síntese dessas proposições está em Maria Odila da Silva Dias. da UnB. 1968). Ainda que numa perspectiva diferente. mas numa análise relativa à história então em curso na América tem pontos frágeis que desequilibram a arquitetura da obra. 3a série. 1989.. 1960).sua desagregação". caso particular do capítulo dedicado às "Inconfidências" do final do século XVIII. Jancsó. 1988).leva forçosamente à reabertura da discussão de questões de fundo no tocante à formação da nação brasileira.). e durante todo o século XIX. 1989). Brazil: The Forging ofa Nation (1798-1852) (Stanford: Stanford Univ. Este tem como protagonistas historiadores do porte de Valentim Alexandre (cf. balizam alternativas de seu futuro. aboliu definitivamente a dicotomia "brasileiros" versus "portugueses" como fundamento do processo de emancipação. 1997). das Letras. Novais a percepção e a demonstração da importância interpretativa do conceito de crise. reconhecendo-se particulares. criado em 1838. 1996). Os sentidos do Império: questão nacional e questão colonial na crise do Antigo Regime português. 1996). 1993). de múltiplas identidades políticas. e Emília Viotti da Costa. Buenos Aires. O primeiro centra-se na idéia de crise do Antigo Regime e. representam um avanço importante no conhecimento do período mas. Pimento Pejas de um mosaico (ou apontamentos para o estudo da emergência da identidade nadonal brasileira) 133 a América portuguesa. "As dimensões da independência". nem está 'imanente' no passado. já buscando novos enfoques. cada qual referia-se a alguma realidade e a algum projeto de tipo nacional. a verticalização do . uma construção historiográfica foi adquirindo consistência. 12 Ernest Renan. ele será apenas a resultante de um concurso ocasional de forças que estão longe. 1942). Barman. 147-59. Brasil em perspectiva (São Paulo: Difel. Mas este final não existe antes dela. Afirmar que a formação do Estado brasileiro foi um processo de grande complexidade não apresenta nenhuma novidade.14 assim como o é o reconhecimento de que o nexo entre a emergência desse Estado com a da nação em cujo nome ele foi instituído é uma das questões mais controversas da nossa historiografia. 1987). Nesse sentido. e do conceito de crise que adota (cf. 13 A ênfase na multiplicidade de possibilidades inscritas na transição da colônia para o império deve-se a Caio Prado Jr. em seu rastro. Essas identidades políticas coletivas sintetizavam.132 István Jancsó e João Paulo G. pp. tomo II. João Luís Ribeiro Fragoso e Manolo Florentino têmse destacado na crítica às proposições de Novais e. de Fragoso.). 1993). A política imperial (São Paulo/ Rio de Janeiro: Vértice/Iuperj. A construção da ordem. e a historiografia recente tem revelado razoável consenso quanto a evitar o equívoco de reduzi-lo à ruptura unilateral do pacto político que integrava as partes da América no império português. 1870-1930 (São Paulo: Cia. enriquecidos com a publicação de Em costas negras. a independência política da colônia. não há dúvida. Raymundo Faoro. estudos valiosos têm dado continuidade ao debate. 1992). cit.13 Hoje é assente que não se deve tomar a declaração da 1 vontade de emancipação política como equivalente da constituição do Estado nacional brasileiro. Apenas para pontuar algumas de maior impacto. com seu Os donos do poder: formação do patronato político brasileiro (Porto Alegre: Globo. O espetáculo das raças: cientistas. em Jornal de Resenhas. em Carlos Guilherme Mota (org.). "A economia mercantil escravista nacional e o processo de construção do Estado do Brasil (1808-1850)". O Brasil monárquico (São Paulo: Difel. de Wilma Peres Costa.para quem a nação é um plebiscito diário12 . iQué es una nación? (Madri: CEC. e. de José Murilo de Carvalho. 1. Sérgio Buarque de Holanda. 1958). Se atentarmos para as manifestações dos contemporâneos expressando sentimentos de pertencimento a uma nação. para além dele.). cujas organicidades expressavam e cujos futuros projetavam. 1790-1830 (Rio de Janeiro: Arquivo Nacional. 160-84. já desdobrando questões postas. do Antigo Sistema Colonial. em Tamás Szmrecsányi & José Roberto do Amaral Lapa (orgs. todas elas. cabe lembrar as obras de limar Rohloff de Mattos. Sobre essas questões. que rejeita a análise de Novais (e de toda a linhagem que remonta a Caio Prado Jr. cada qual à sua maneira. O segundo organiza-se em torno do que se pode chamar de arqueologia da nação. O tempo saquarema. em Boletín dei Instituto de Historia Argentina y Americana "Dr. Novais. 1777-1808 (São Paulo: Hucitec. o presente e o futuro das comunidades humanas em cujo interior eram engendradas. em História geral da civilização brasileira. Emilio Ravignani".). p. 1822: dimensões. Mercado atlântico. pp. obra que permanece no centro do debate. enriqueceram a percepção da complexidade do processo em pauta. Uma história do tráfico atlântico de escravos entre África e Rio de Janeiro. O enquadramento macro-histórico da questão recebeu impulso renovado com Fernando A. contribuíram de maneira decisiva para a longevidade dessa visão de história. 15-26. o passado. No Brasil. A formação do Estado imperial (São Paulo: Hucitec.. Mota (org. sociedade agrária e elite mercantil no Rio de Janeiro (Rio de Janeiro: Diadorim. paradoxalmente. cit. 1988). séculos XVIII e XIX (São Paulo: Cia. "A herança colonial . "O fim do Império". "A interiorização da metrópole (1808-1853)". Relativamente à primeira questão. 38 (conferência pronunciada na Sorbonne em 1882). Mota (org. {Formação do Brasil contemporâneo: colônia (São Paulo: Brasiliense. Resultou disso atribuir-se ao rompimento do Brasil com Portugal um sentido de "fundação" tanto do Estado como também da nação brasileiros. Schwarcz.). o primeiro grande acontecimento de conjunto que vamos presenciar será. A elite política imperial (Rio de Janeiro/Brasília: Campus/Ed. e perpassa menos enfaticamente O arcaísmo como projeto. n.15 ' Os conceitos aqui utilizados têm muito a ver com os utilizados por José Carlos Chiaramonte em "Formas de identidad política en ei Rio de Ia Plata luego de 1810". >}5 Essa questão tem dois divisores de águas. em Carlos G. para aquele fim".) com base em ampla pesquisa documental. cada qual só por si. 1982). Nessa tarefa. pp. e Lilia M. 8 mar. Posteriormente. de tenderem. a obra de Francisco Adolfo de Varnhagen. 1979). Os estudos desses historiadores. 12. ver Arno Wehling (coord. n. Mais recentemente. pp. com seu fundamental Portugal e Brasil na crise do Antigo Sistema Colonial. Seu objetivo: conferir ao Estado imperial que se consolidava em meio a resistências uma base de sustentação no constituído de tradições e de uma visão organizada do que seria o seu passado. em Carlos G. da tradição historiográfica na qual este se situa. / u Nos anos que se seguiram à independência. instituições e questão racial no Brasil. e retomados em outros de seus estudos referidos a seguir. 1980) e Teatro de sombras. com "Introdução ao estudo da emancipação política do Brasil". de Roderick J. Origens do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro: idéias filosóficas e sociais e estruturas de poder no Segundo Reinado (Rio de Janeiro: IHGB. 1822: dimensões.

1993). pp. as normas que configuram o Estado. em Revista Brasileira de História. Maria Fernanda B. das Letras. Numa outra vertente. no recém-editado Honra e pátria (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. 1996). J. cf. das Letras. 1998. Mas é preciso lembrar que nativismo tem quase tantos significados quantos são os historiadores que dele lançam mão. Pueblo y poderes en Ia historia de Espaha (Barcelona: Crítica. Fiscais e meirinhos: a administração no Brasil colonial (Rio de Janeiro: Nova Fronteira. 19 Fernando A. vale a pena dedicar mais atenção ao outro termo dessa equação . n. 1998). FFLCH-USP. entretanto. entre outros. ambos em História da vida privada no Brasil: cotidiano e vida privada na América portuguesa (São Paulo: Cia. caso de A. pois é dessa ordem o período da emergência dos novos Estados nacionais latino-americanos. tese de doutorado. Eric J.18 Em segundo lugar. "A sedução da liberdade: cotidiano e contestação política no final do século XVII". O corpo da pátria: imaginação geográfica e política externa no Brasil. em texto recente. 1998). Olinda restaurada (Rio de Janeiro/São Paulo: Forense-Universitária/Edusp. e de Carlos Real de Azúa. Nações e nacionalismo (Lisboa: Gradiva. 1808-1912 (São Paulo: Edunesp. Como a inferência tem eficácia investigativa sabidamente reduzida. geral por inferência).. Estado e nação na crise dos . 1997). 1808-1828 (São Paulo. onde merecem indiscutível destaque os estudos de José Carlos Chiaramonte. fiscalidade e identidade colonial na América portuguesa. Trajetória política do Brasil. 1982). Bahia e Minas Gerais. Las teorias dei nacionalismo (Barcelona: Península. pelo que é preciso reconhecê-las como variáveis importantes da inteligibilidade dos fenômenos de ordem política. mestrado. Na Bahia.de identidades políticas coletivas engendradas em condições coloniais. 18 A esse respeito. 1790-1822". Atitudes de inovação no Brasil. admitido como nacional. de István Jancsó. Os estudos têm privilegiado a formação do Estado. pelo que não se deve confundir o uso que dele faz Evaldo Cabral de Mello. vol. José Ramón Recalde.d. Hobsbawm. 1640-1761 (São Paulo: USP. antes de fazê-lo. A cidade e o Império: o Rio de Janeiro na dinâmica colonial portuguesa. n. não resolve o problema posto pela evidente objetivação dessas expressões da subjetividade mediante práticas políticas com poderosa interferência na definição dos objetivos que os homens se propõem a alcançar.a nação . 18. cf. 1997). deve-se ter clara consciência da extraordinária provisoriedade das formas e significados que caracterizam as situações de crise. autor que dele lança mão como instrumento de expressão de uma especificidade histórica pernambucana. Pernambuco 1666-1715 (São Paulo: Cia. 1991). estão estudos visando a desvendar as dimensões e os limites . Francisco Iglésias. cf "Centros e periferias no mundo luso-brasileiro. Pimenta. o que se estende tanto à noção de Estado quanto à de nação. Buenos Aires. de Demétrio Magnoli. Afronda dos mazombos. 17 Para ilustrar o intrincado dessa questão. Em primeiro lugar. 1997). realidade (Rio de Janeiro: Paz e Terra. em Hidalgos. "Condições da privacidade na colônia".17 casos da idéia de nação ou de identidade nacional. com o que dele faz. Estado e nação na crise dos impérios ibéricos no Prata. para quem o mesmo nativismo pernambucano seria um esboço de uma "consciência nacional brasileira". Gouvêa. desenha-se uma tendência que visa a romper com a idéia de já ter existido. Benedict Anderson. 18. tese de doutorado. esse mito assume formas diversas.134 Istvón Jancsó e João Poulo G. Pimenta Pejas de um mosaico (ou apontamentos para o estudo da emergência do identidade nadonal brasileiro) 135 São agudas as divergências de interpretação quanto à interface dessas duas dimensões da realidade: Estado e nação. 36. nos séculos que antecederam a emancipação política. econômicos e sociais dos colonos dentro do conjunto do império. 1975). s. Nobres contra mascates. 1990). A dificuldade em lidar com a intersecção de fenômenos com abrangências distintas (dentre os quais os de caráter nacional e regional numa perspectiva teleológica) perpassa obras de historiadores de inegável importância. pp. os projetos de sua radical subversão). "El mito de los orígenes en Ia historiografia latinoamericana". Los orígenes de Ia nacionalidad uruguaya (Montevidéu: Arca. Colônia e nativismo: a história como "biografia da nação" (São Paulo: Hucitec. em Revista Brasileira de História. Mota. 1982). uma identidade "brasileira" ou mesmo uma "consciência nacional" dos colonos. 36. La construcción de Ias naciones (Madri: Siglo XXI. mito. 1990). João Paulo G.16 reconhecido como brasileiro e. 1976). em Cuadernos dei Instituto Ravignani. nos ajustes de relações entre centros e periferias ocorridas no século XVIII dentro do império português. Bicalho. "Redes de poder na América Portuguesa: o caso dos homens bons do Rio de Janeiro. Quanto à arqueologia da nação. USP. Eludir essa questão. s. que. conforme revelado por estudos recentes como os de Rogério Forastieri da Silva. Nação e consciência nacional (São Paulo: Ática. das Letras. "Reflexiones sobre los fundamentos de Ias estructuras nacionales". a partir daí (em conhecimento da complexidade da formação social e dos mecanismos econômicos que lhes correspondem acaba por corroborar as teses que são objeto de sua crítica. n. em especial na esfera americana. Figueiredo. 297-330. do sentimento e da emoção (em algum grau partilhadas pelo próprio historiador). avançar no entendimento da complexa relação entre ambos. 1500-1964 (São Paulo: Cia. Nações e nacionalismos desde 1780: programa.).19 Para os homens que viveram a dissolução do império português O avanço que já se faz notar nesse profícuo campo de estudos poderá contribuir para um posicionamento cada vez mais correto dos interesses políticos. 1996).). 187-249. apontar para duas preliminares. Maria de Fátima S. vale a pena recorrer à análise/testemunho de Lucien Febvre. dissert. vê. Russel-Wood. incluindo-se aí. Sem dúvida parece mais fácil lidar com variáveis nitidamente objetivadas (como o são. e István Jancsó. vol. tais como o de Carlos G. deve-se ter em mente que não é obra do acaso a tradicional preferência dos estudiosos pelo Estado e os fatos a ele imediatamente conexos. Ver também uma abordagem da questão para as primeiras décadas do século XIX em conjunto com a América espanhola.d. questão que ganha densidade no interior do debate historiográfico. amotinados y guerrilleros. Novais. 1983). pp. 2. a formação de um "senso de brasilidade" que teria obrigado a metrópole a "considerar o Brasil sob uma perspectiva mais brasileira do que portuguesa". 1989). contra o Império: história do ensaio de sedição de 1798 (São Paulo: Hucitec. Pimenta. por exemplo. Mas convém. 1998. 16 Estudos recentes sobre os mecanismos de funcionamento do aparato estatal imperial. que analisa a questão em comparação com as historiografias argentina e uruguaia. 1997). 1789-1801 (Lisboa: Horizonte. Séculos XVII e XVIII (São Paulo. além de João Paulo G. Revoltas. 1995). ou de Luciano de A.para. Eraest Gellner. de longa tradição e nenhuma precisão conceituai. Anthony Smith. em situações-limite. Uma de suas vertentes é aquela que se serve da idéia de nativismo. Rio de Janeiro. 279-306. do que fazê-lo com dimensões da realidade confinadas (desdenhosamente) ao universo da subjetividade. a partir daí. Profundamente enraizado tanto na memória coletiva quanto na historiografia que lhe serve de paradigma erudito. têm revelado dimensões até então pouco conhecidas: Graça Salgado (coord. ver Pierre Vilar. 1500-1808".

já agora desdobramento de uma trajetória coletiva instituidora de sua legitimidade e ancestralidade. . expressando irredutibilidades portadoras de alto potencial de conflito. pernambucano ou baiense significava ser português. Portanto. aqueles que são americanos dos que não partilham essa condição. entre os portugueses. Novais. percebe-se desde os tempos de 20 21 impérios ibéricos no Prata. por aqueles outros dos domínios do rei de Espanha com quem se defrontavam. 23 Fernand Braudel. 1808-1828. aqui. é a concomitante emergência de três diferenças. padrões de lealdade e critérios de adesão. Isso se deu. e era assim que se sabiam diante dos espanhóis. e ao mesmo tempo. em algum momento. mas também à nação e às correspondentes identidades políticas coletivas. ser paulista. cidadania. Pimento na América.22 convém verificar de que maneira os problemas da vida vivida encontravam os meios de seu ordenamento e. Na América portuguesa. O que interessa ressaltar. franceses. C. se distinguiam dos modelos metropolitanos. Isso era válido tanto para o todo do império luso quanto para cada uma das suas dependências americanas. à incorporação de novos territórios ao controle efetivo da coroa (a jurisdição. estruturas operacionais e tramitações que. quando este se percebe não somente como agente da expansão dos domínios do rei de Portugal (e por esta via. como regra geral./ A conquista e colonização da América em cada um de seus quadrantes desdobrou-se. Cultura e opulência do Brasil (São Paulo: Nacional. já que não se deve esquecer que as identidades coletivas são sempre reflexas. A primeira é aquela que distinguia um português da América (por exemplo. ainda que se tratasse de uma forma diferenciada de sê-lo. o esboço da comunidade humana cujo futuro projetavam. com grande importância para as condições coloniais do período. eventualmente reveladoras de tendências à harmonização entre si ou. É evidente que todos os caminhos do universo colonial centravam-se em Lisboa. também há especificidades. no caso da América portuguesa. antes de tudo.23 A leitura dos autores contemporâneos é altamente elucidativa a esse respeito. conforme o padrão estrutural proposto pory Braudel. Civilização material. Chiaramonte.21 Como a questão está agora centrada na dimensão política (uma dentre outras) desse processo de emergência de identidades coletivas. mas também. uma terceira diferença é a que distingue. 22 A esse respeito. como agente da reiteração ampliada de uma formação societária particular informadora dos objetivos de sua ação. com sua implementação. 1995). quando não. ver F. preexistindo à ocupação efetiva). numa viragem: aquela mediante a qual o conquistador/colonizador tornou-se colono. com o que das diferentes percepções resultaram múltiplos projetos políticos. como portugueses. Andreoni (André João Antonil). a partir daí. 23 e ss. condições de inclusão e exclusão. nunca se deve esquecer que a provisoriedade característica do período traduziu-se na coexistência não apenas de idéias relativas ao Estado. e ao conseqüente manejo econômico e político destes.20 Finalmente. cada qual expondo. ver J. espanhóis). de sua representação. para o universo platino.. Essa concomitância de formas de expressar a diversidade era perfeitamente compatível com os padrões do Antigo Regime português. correndo em paralelo na conformidade dos trâmites do ordenamento formal do Estado. No que se refere a Salvador. A. simultânea com a anterior. A esse respeito. correspondia o fortalecimento de centros de convergência com feição de pólos articuladores dos múltiplos espaços sociais criados . 1936). pp. um baiense) de todos que não fossem portugueses (holandeses. Vem daí que aos projetos de futuro contrapostos corresponderam outras tantas definições de Estado. de outros portugueses (por exemplo. economia e capitalismo. "Formas de identidad política en ei Rio de Ia Plata luego de 1810". mas. sempre conformadas pela confrontação de cada qual com outras de similar conteúdo. Essa foi a matriz das novas identidades coletivas emergentes no universo colonial. tal qual o senhor de engenho de Antonil não se confundia com os fidalgos do reino. cit. Assim é que os colonos de São Paulo reconheceram-se como paulistas. da cristandade).sempre uma grande cidade. com maior ou menor nitidez.136 István Jancsó e João Paulo 6. "Condições de privacidade na colônia". a percepção da crise não se deu de modo uniforme. 1967). eram percebidos. do paulista). J. A segunda. cit. cit. A. ainda que a organização política do absolutismo em colônia resultasse em práticas. Mas quanto a estas. A questão da provisoriedade como característica das colonizações portuguesa e espanhola já tinha sido anteriormente destacada por Sérgio Buarque de Holanda em seu clássico Raízes do Brasil (Rio de Janeiro: José Olympio. do reinol. cada qual descrevendo elementos do pacto tido como adequado para transformar comunidades em nação* Dessa forma. é a que lhe permitia distinguir-se. séculos XV-XVII: o jogo das trocas (São Paulo: Martins Fontes. ao baiense.

C. conspirador nas Minas em 1789. os arrematadores dos muitos contratos [. 101-38. "América" referia-se à Capitania de Minas. cit. vereadores da Câmara de Vila Rica solicitaram ao trono que "filhos de Portugal" (era o seu caso) tivessem preferência sobre os "naturais da terra" no acesso aos cargos. A terra era o "País de Minas".. em permanente expansão. e "comerciado todas as fazendas do Rio de Janeiro para as Minas. Caldas. Les mots de Ia nation (Lion: PUL. p. sendo possível notar esse seu uso pelo contexto do discurso em que as frases estão inseridas. Beneditina. no limite. op. também. [São de Portugal].30 E é de notar que o sucesso de cada situação particular (regional) dos quais se nutria o projeto colonizador luso em seu conjunto estabelecia. 24 23 Autos da devassa da Inconfidência Mineira (ADIM). Os "filhos de Minas" viam-se. Em março de 1763. 27 J. 1958. as condições para a emergência de sua múltipla negatividade. Notícias soteropolitanas e brasílicas. 2 vols. A dialética da colonização (São Paulo: Cia. negadora daquela. edição de Laura de Mello e Souza (Belo Horizonte: Fundação João Pinheiro. traziam como argumento serem eles e seus iguais os verdadeiros artífices da grandeza e prosperidade dos domínios do monarca. Para a importância dos cuidados no trato do vocabulário político para evitarem-se anacronismos. mas com as quais não se confundia.31 tornada com o correr do tempo referência de uma ancestralidade contraposta à portuguesa e. seja de moeda para pagamentos devidos. A devassa da devassa. prioridades contrastantes na alocação de recursos escassos. Notícia geral de toda esta Capitania da Bahia desde o seu descobrimento até o presente ano de 1769 (Salvador: Tip. edição fac-similar. passando por Rocha Pita. de Roberta Giannubilo Stumpf. estabeleceu marcos das identidades coletivas no universo luso-americano. 1750-1808 (2. estabelecendo fazendas. aqueles que os têm povoado. pp. como "filhos da América". uma dentre outras com as quais in agia. cit. o que se expressa em disputas entre governadores.29 que cada qual destacava a existência. Essa construção de territórios (e da sua conseqüente representação). e ocupando imensas e copiosas fábricas na agricultura e lavoura do ouro.35 32 Ver Alfredo Bosi. sem sujeição à Europa". 34 É conveniente lembrar que em documentação da época "mineiro" significa estritamente o envolvido na atividade mineradora.32 Lendo atentamente os Autos da devassa da Inconfidência Mineira. na reação dos paulistas despojados do que tinham por seu bom direito com o advento do controle político sobre a região das Minas Gerais com o conde de Assumar. A. Francisco C. pontos nodais de uma trama que configurava a Capitania da Bahia.26 por Caldas. "Carta a Domingos Vandelli (18 out. aí. A inconfidência mineira: Brasil e Portugal. Essa trama. 35 As considerações têm-se centrado no colono. os diversos sertões e suas vilas). e não os naturais .d. além de Chiaramonte. enfim. pp. "naturais de Minas". 25-76. convergindo para esta cidade. Obviamente a expressão "nacionais" designa.). das Letras. em Anais da Biblioteca Nacional. Pueblo y poderes en Ia historia de Espana. por exemplo. 1978). evidentemente. Das cerca de 74 ocorrências da palavra "América" nos Autos. das primeiras da terra. É esse o significado do sentimento de familiares de Inácio da Silva Alvarenga. mas nunca se deve esquecer que este coexistia com o colonizador. "El mito de los orígenes en Ia historiografia latinoamericana". 33 Os dados e quantificações estão em As identidades políticas coletivas na Capitania de Minas Gerais no final do Século XVIII. (Salvador: Imprensa Oficial do Estado. A seu favor. n.27 em parte por José da Silva Lisboa28 ou por Vilhena. quanto os confrontantes nos quais essas identidades se espelhavam. J. e Sylvianne RémiGiraud & Pierre Retat (dir. 26 Sebastião da Rocha Pita. Rio de Janeiro. de farinha da qual endemicamente se carecia. Rio de Janeiro: Paz e Terra. inédito.138 Istvón Jancsó e João Paulo G. vol.. ver. penetrando as entradas da terra para a extração do ouro para o Real Quinto e [o] bem comum. 1922). Hidalgos. em Cuadernos dei Instituto Ravignani.] nestas Minas.34 a americana (expressão da relação de alteridade com os metropolitanos. no tocante às identidades coletivas tendencialmente politizadas. 1996). apenas naturalidade.33 Eis as identidades políticas coletivas: a mineira (expressão do específico regional). dotados de tessituras sociais próprias pressupondo precisa territorialidade. s. ou de soldados para fazer face a problemas que os requeriam. 3 ' Discurso histórico e político sobre a sublevação que nas Minas houve no ano de 1720. Chiaramonte. tanto definindo (recorrendo à expressão de Anderson) as rotas de peregrinação. denota a complexidade crescente do sistema e do seu manejo político. amotinados y guerrilleros. 1781)". ao proclamarem que sua família era. 29 Luís dos Santos Vilhena. é preciso lembrar. e muitas outras manifestações de estranhamento. ibid. 42. Pimenta Peças de um mosaico (ou apontamentos para o estudo da emergência da identidade nadonal brasileira) 139 / / \ \ Gregório de Matos24 e Antonil25. rotas de contrabando interno. onde ademais encontra-se também Maria Lúcia Montes. 1994). UBA. Falcon.. 124.. I. "1789: a idéia republicana e o imaginário das Luzes". Andreoni. "por antigüidade dos paulistas". Pense-se. 1992). 30 Uma crítica às proposições de Anderson em relação à América está em J. 1994). A. de rotas que integravam espaços hierarquicamente ordenados (o Recôncavo e suas cidades. História da América portuguesa (Belo Horizonte/São Paulo: Itatiaia/ Edusp. ideando engenhos de minerar. 1976). ed. percebido como "continente" ou como capitania. o que encontramos? Os envolvidos são "filhos de Minas". Para a inconfidência mineira: Kenneth Maxwell. Pierre Vilar. Buenos Aires. vol. 28 José da Silva Lisboa. os europeus) e. distintos mas complementares. em Seminário Tiradentes Hoje: imaginário e política na república brasileira (Belo Horizonte: Fundação João Pinheiro. "O imaginário republicano do século XVIII e Tiradentes". 1951). a portuguesa. em pouco menos da metade dos casos esta designava o todo da América portuguesa. ao que corresponderiam vantagens quando "esse continente viesse a ser governado por nacionais. 2. Mas em outros momentos.

cf. Vilhena. cit. Na verdade. Reis (org. o ordenamento estamental da sociedade erigia-se como fundamento da boa ordem baseada na natural e necessária desigualdade entre os homens. J. para tanto. Florestan Fernandes. 39 Afonso M. 1988). 37 Ibid.140 Istvón Joncsó e João Paulo 6. a quem os autores agradecem. dos Santos.os escravos . Ou de "brasilienses" ou "brasilianos" que poderiam eventualmente ser tomados por equivalentes. quer se trate de escravos. mas para pontuar a importância do escravismo. R. que essa coexistência de colono e colonizador enquanto expressões de referências conflitantes. As sociedades escravistas coloniais repousavam ^ sobre a exclusão de um segmento fundamental . e isto é de absoluta relevância. mineiros e sujeitos estabelecidos na terra" os interesses do real erário foram criteriosamente observados. Ainda que passando ao largo dos múltiplos problemas que merecem atenção. G. Pimenta Peças de um mosaico (ou apontamentos para o estudo da emergência da identidade nadonal brasileira) 141 Para designar o todo da América portuguesa.e que eram vitais para a sua existência: as relações de trabalho. e de suas estratégias particulares de reiteração.41 ainda que estes fossem extremamente zelosos na ostentação das exterioridades de sua condição. o termo que se segue. ainda. No rascunho da nação: inconfidência no Rio de Janeiro (Rio de Janeiro: Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro. cit. É de notar. sobre suas condições de politização num contexto no qual a clivagem racial como linha de demarcação das exterioridades que permitiam distinguir homens livres de escravos tendia à diluição. E não deixavam de lembrar que durante o tempo em que se "compôs a câmara de filhos de Portugal. Eis o colonizador. excluídos os que integravam o aparato administrativo metropolitano. Nada de brasileiros?6 nenhuma identidade política coletiva ultrapassando o regional. é de notar que os estudos de Stuart Schwartz e João José Reis sugerem a hipótese de que as aspirações de padrão estamental (busca da diferenciação formal das condições individuais) tinham largo curso entre a população escrava. confrontado com o colono que não apenas disputava primazias com base em direitos advindos de uma ancestralidade específica contraposta à genérica portuguesa. Lisboa. não utilizam o vocábulo Brasil para designar a territorialidade subjacente à identidade política coletiva que querem designar.inclusive os escravos . tanto no que lhe é geral. A carta está no Arquivo Histórico Ultramarino (cx. 42 J. escudados tão-somente "na naturalidade da terra". e o continente do Brasil representava. passaram a empolgar as posições disputadas. aquele que "tem dilatado este Império de Vossa Magestade". 141. Ver. para os coloniais. J. op.42 E é evidente que tudo isso tem poderoso impacto sobre a configuração das identidades coletivas e. com outros mais opróbros". Circuito fechado: quatro ensaios sobre o "poder institucional" (São Paulo: Hucitec. que a generalização do escravismo resultava na erosão do sistema estamental. conforme o registro mordaz de Silva Lisboa. 136. deve-se lembrar dela". 38 36 que. Stumpf. 41 Ibid. dos S. O escravismo subvertia o modelo.. posto que o escravismo inviabilizava a participação do portador desta condição na complexa tessitura de liberdades desiguais cuja trama tinha por pressuposto o exercício de algum direito.40 quer dos poderosos da terra. em número de ocorrências. p.. Estudos sobre o negro no Brasil (São Paulo: Brasiliense. Stumpf. doe. 1. A força coesiva do conjunto luso-americano era indiscutivelmente a Metrópole. o mais freqüentemente é encontrá-la no mesmo personagem que oscila entre um e outro. De resto Tomás Antônio Gonzaga é o único a utilizar a expressão "povos do Brasil". a unidade cujo manejo impunha esta percepção. configurando poderoso instrumento de acomodação de tensões. enquanto para a Metrópole se tratava ^ de algo muito concreto. cf. e que definiam a sua feição. E isso implica reconhecer no ^scravismo uma das variáveis ordenadoras do sistema. 1976). 16) e foi localizada por Roberta G.38 O reconhecimento da diversidade das identidades coletivas no universo colonial a partir do desdobramento das trajetórias das formações societárias envolvidas somente pode ajudar na compreensão da politização dessas identidades se consideradas as características básicas dessas sociedades. O caráter cumulativo do resultado das múltiplas modalidades de obtenção da alforria resultou no aumento do número de homens livres com origem africana. Escravidão e invenção da liberdade. mais ainda. é Brasil. fossem negros ou pardos. da S.das relações que em seu interior eram pactadas. mas que atribuía a esta uma qualidade tal que lhe autorizava ver "a todos os de Portugal [como] homens comuns. p.39 Mas essas relações pactadas se efetivavam na concomitante prática de outras relações muito concretas. Mas atenção: naturais da terra inquiridos. já agora envolvendo a totalidade dos membros dessas sociedades . o que deixou de ocorrer quando outros.37 É por isso que é correto afirmar que a "apreensão de conjunto das partes a que 'genericamente' se chamou de Brasil" estava "no interior da burocracia estatal portuguesa". no qual não cabia boa parcela dos homens livres que tinham nesta condição a origem de sua linhagem. pouco mais que uma abstração. Ocorre. isso não é de surpreender. op. . vol. Essa fratura de grande poder dissolvente do paradigma original (peninsular) das sociabilidades é poderosamente ilustrada pela indignação de Vilhena diante do pouco apreço dos naturais da Bahia pelo respeito às condições distintivas típicas da sociedade do Antigo Regime. op. para os colonos. 1992). quanto no respeitante a cada um de seus desdobramentos particulares. Quanto a essa questão. 81. 40 L. cit. Não é difícil perceber que os homens de então se viam diante de uma fratura entre a realidade objetiva da vida social e a sua representação. 108. p.).

remete a outra. deste continente do Brasil como era chamado. 1982). construindo redes de lealdade que poderiam transbordar para a esfera política. Relações de mercado e projetos políticos no Rio de Janeiro. A carta de d. fossem esses de caráter religioso. E também não há como deixar de reconhecer que é dessas transformações que as negatividades inscritas nas identidades coletivas derivadas do sucesso do empreendimento colonizador se alimentavam. 1988). Fernando José de Portugal percebia o potencial explosivo desse fenômeno ao informar a corte de que pouco havia a temer quanto às simpatias de membros da elite baiana por idéias subversivas. História do ensaio de sedição de 1798 (São Paulo: Hucitec. 151-74. sob formas mutantes. que percebiam como ameaçada e forcejavam em manter. ver Alcir Lenharo. 49 Ibid.. 1790-1830 (Rio de Janeiro: Arquivo Nacional. Todo projeto de mudança supõe. E todo projeto de uma nova ordem implica o esboço mais ou menos preciso da comunidade que partilhará. J. Jancsó. de Alencastro. um processo errático. 1988). Ser escravo no Brasil (São Paulo: Brasiliense. da UFMG.. Esta afirmação.] Liberdade". mas como percepção da perda de operacionalidade das formas consagradas de reiteração da vida social. Para os seus autores.45 E ao fazê-lo. Fernando está em Inácio Accioli de C. Mary C.50 impõe. 1969). 1999). 150. rio final do século XVIII. .. Trata-se do "Povo Baiense". dando forma ao temor de que. Memórias históricas e políticas da Província da Bahia (Salvador: Imprensa Oficial do Estado. instauradora da "liberdade.43 De resto. 1808-1842 (2. Homens de grossa aventura: acumulação e hierarquia na praça mercantil do Rio de Janeiro. inscrito nas mentes e nas práticas dos homens que em seu interior se defrontavam na busca de alternativas para uma situação que não lhes parecia conveniente preservar ou. Pimenta Peças de um mosaico (ou apontamentos para o estudo da emergência da identidade nacional brasileira) 143 o que tendia a reforçar o apego da elite (ou dos aspirantes a pertencer a ela) à identidade portuguesa. então. Paris. O feitor ausente. tese de doutorado. 134. que se faça uma revolução "nesta cidade e seu 45 LuísF. p.. e também Norma e conflito: aspectos da história de Minas no século XVIII (Belo Horizonte: Ed. 1992). 50 lbid. 1996). é na generalização da busca de alternativas que a crise se manifesta. Em outras palavras. igualdade e fraternidade". vale dizer. Kátia de Q.. a urgência de sua superação desdobra-se no reordenamento das referências. a trajetória comum que levará à nova. seria constitutivo das relações raciais. de parentesco. 1985. Presença francesa no movimento democrático baiano de 1798 (Salvador: Itapuã. Florentino. Slave Life in Rio de Janeiro.1840 (Rio de Janeiro: Diadorim. 1790-1890 (Salvador/Brasília: Corrupio/CNPq. sociais e políticas do período subseqüente. a instauração da ordem no lugar do que é percebido como desordem. Esse foi. p. das quais o fluxo conectava mercados regionais crescentemente dinâmicos. econômico. 1993). não há como ignorar que esses mercados atravessavam uma conjuntura de profundas transformações. condição da necessária "pureza de sangue" para quem almejasse galgar a escada social do Antigo Regime. Karasch. de Q.44 a diversidade gerando a possibilidade de integração. 148. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura. III. partilhavam padrões de sociabilidade semelhantes. 152.49 Essa futura nova ordem. a desordem revolucionária penetrava em todos os seus poros. p. Sobre essas relações horizontais na esfera dos estratos inferiores das sociedades coloniais. 47 Cf. p. o mercado africano (tanto de escravos quanto de produtos Mas essa diluição da concomitância de predicado racial e estatuto jurídico de seu portador tinha como contrapartida fazer com que homens livres de baixa condição econômica e escravos acabassem por se amalgamar num conjunto que. Press. Fragoso. 1808-1850 (Princeton: Princeton Univ. A segunda abrangência a ser considerada é aquela do locus de realização das mercadorias coloniais: o mercado europeu ou. o contorno da comunidade que partilhará dessa nova ordem é definido com clareza. e Silva. 1992). 203. 1931). sociedade agrária e elite mercantil no Rio de Janeiro C. A astúcia liberal. Mattoso. aquela "boa ordem que para este fim se tem pensado". Na Bahia contra o Império. ao fim e ao cabo. e do mesmo autor e M. O liberto: o seu mundo e os outros. sobre coartação. Desclassificados do ouro (Rio de Janeiro: Graal. 1820-1824 (Bragança Paulista: Edusf/ícone. e de como deverá fazê-lo. O arcaísmo como projeto: mercado atlântico. Estudo sobre a escravidão urbana no Rio de Janeiro (Petrópolis: Vozes. especificamente. 44 Para o estudo desse fenômeno na área de influência do Rio de Janeiro.46 Numa situação de crise. apolitização dessas identidades coletivas que então emergem e definem seus contornos se dá num contexto no qual a crescente complexidade da vida econômica instaura novas abrangências que exigem atenção. 48 Md. 157. K. As tropas da moderação: o abastecimento da Corte na formação política do Brasil. que beira a obviedade. 46 1. ver. vol. no presente. Cecília Helena de Salles Oliveira. A primeira destas é a da América portuguesa. a instauração de formas previsíveis de vida social. 1999).Lecommercedesvivants: traited'esclaveset "paxlusitana"dansVAtlantique Sud.47 nos termos de um dos pasquins remanescentes dentre os afixados na Bahia em 12 de agosto de 1798. para além da reiteração das condições sociais de existência. Maria Inês Cortes de Oliveira. de Laura de Mello e Souza. tornando o processo ainda mais complexo. pp. já que a sua lealdade ao trono decorria.142 Istvón Jancsó e João Paulo G. entre outros fatores. 1982). p. 43 americanos). Mattoso. mesmo porque.1790-C. esboçando novas conexões na esteira das rotas das mercadorias. Leila Mezan Algranti. R. nas grandes cidades principalmente. do risco de uma insurreição de escravos que tinham por inimigos os seus senhores. já que os homens buscam. D. 1987). e nem poderia deixar de ser dessa maneira. já menos evidente: a crise não aparece à consciência dos homens como modelo em via de esgotamento. ed. p.48 para o qual "está para chegar o tempo feliz da [. L.

p. quanto são mais diversas as línguas. a nação era una e indivisível[na^e^ttema diversidade de suas partes. que é o Papa. pp. das diversas identidades políticas coletivas. 1800. 152. Ora. 1. em M.. 2. ao fim e ao cabo.55 Afinal. a nação pensável. Diversas regiões são as de Roma. dos interesses. S J. conforme se pode ver pelo termo de comparação. esse deixar de fazê-lo vem de que era por demais evidente que a supressão dos vínculos coloniais. 54 Ibid.54 dá cabal conta da questão. centro do projeto político da revolução mediante a qual tornar-se-ia possível adotar "a total Liberdade Nacional". Arquivo Nacional-Fundo Marquês de Aguiar. Atendendo a solicitação da Secretaria de Estado (o ano é de 1798) para que opinasse sobre a conveniência de se modificarem normas referentes ao transporte de escravos. mascates. palpáveis e sobretudo díspares. sendo o exclusivo mecanismo (um dentre outros) da dominação metropolitana. tabacos. assim como várias identidades políticas coletivas. Diverso príncipe é o dos romanos. "a nação portuguesa se tem diversa da castelhana. 155. 52 51 151. o que tem inegável importância operativa. suprime-se ipsofacto seu instrumento (o exclusivo). O intendente Câmara (Rio de Janeiro: Imprensa Nacional.] a que tem a fortuna de pertencer". que em seu interior o capitalismo mercantil engendrou. 57 Compare-se esta idéia de nação com outra vigente no século anterior. portanto. porque tem diversas línguas umas das outras. à monarquia. p. (I a edição de 1663). mercador. 53 Ibid. Simão de Vasconcelos. inclusive as de tipo nacional. Para frei Simão de Vasconcelos. a temporalidade diversa a referir os projetos (passado ou futuro) não suprime a contemporaneidade das práticas.51 Isso não deve surpreender. Ibid. o próprio d. e Siciliana". 270. d. " Na Bahia do final do século XVIII coexistiam diferentes projetos de futuro. e sobre capelão". é uma só nação. Indivíduos e grupos com os mesmos interesses objetivos podem ver na restauração da ordem perdida ou. Este é o povo que configura a comunidade imaginada.52 E tudo isso se fará para que "qualquer comissário. opondo-se ou aliando-se a outras nações de acordo com os seus interesses. hajam de ter o direito sobre as suas fazendas". E ainda que os pasquins não mencionem expressamente a extinção do exclusivo colonial como objetivo central do "povo baiense republicano". . contudo porque os homens delas falam uma só língua. Crônica da Companhia de Jesus (Petrópolis/Brasília: Vozes/INL. Não que passassem ao largo da diversidade. 1977). etc. C.. bastando. para quem "o português nascido nas quatro partes do mundo" o é porque participa de um Estado "cujo sacrossanto princípio da unidade [é] a Monar-\r quia [. e tanto mais diversas são as nações. A nação é a portuguesa.110 e ss. nos termos do Antigo Regime e do sistema colonial.51 para que finde "para sempre o péssimo jugo ruinável da Europa". mas a referência é o Estado. n. conflitantes entre si.. podem resultar em projetos referidos a temporalidades diversas. 58 "Memória sobre o melhoramento dos domínios da América".. afinal a nova ordem desejada estava sendo esboçada com base em interesses individuais e coletivos muito reais. entre outros. da holandesa. que é o rei de Espanha: contudo essa diversidade não faz diversa a nação Romana. a nação portuguesa. na medida em que essa concepção está em estrita conformidade com o que pensa.] evitar"56 a condenável e irracional desumanidade das condições deste transporte.53 Nos termos dos pasquins o povo é o baiense. afinal viam com clareza a nação 56 Ibid.... of. onde a Grã-Bretanha é tomada por nação. no qual "responde-se largamente a carta regia de 22 ago. Fernando é taxativo quanto à conveniência de alterá-las. suprimida a condição de sua vigência (a da dominação metropolitana).58 Para esses homens a única > identidade nacional era aquela que remetia ao Estado e. pelo que portugueses eram os fiéis vassalos dos Braganças. o melhor caminho para a superação da desordem.144 István Joncsó e João Paulo G.. fabricantes de açúcar. dada a natureza da crise. Tudo isso obviamente não é linear ou transparente. na destruição final das sobrevivências daquela. fr. governador da capitania e integrante da elite política reformista cujo expoente maior era o conde de Linhares. p. vol. cf. além de (retornando ao terreno da obviedade). mas estes. lavradores de mandioca. para além da "Nação portuguesa que procurou remediar estes males. de 4 jul. f. pelo contrário. ainda que envolvam indivíduos ou grupos sociais que tenham por base os mesmos interesses objetivos. p. mesmo porque. outras Nações como a Grã-Bretanha têm também dado providência para [. de Mendonça. esta da biscainha. e o dos sicilianos. 1799 que trata do regimento das Arquiações (de 1684) da obrigação de tocarem as embarcações destinadas ao comércio da escravatura nas ilhas de São Thomé e Príncipe. 121. e da Sicília. pelo que é inútil procurar o brasileiro. Pimenta' Peças de um mosaico (ou apontamentos para o estudo da emergência da identidade nacional brasileira) 145 termo". 155. p. dos conflitos e. esclarecer de público que "aqui virão todos os estrangeiros tendo porto aberto". reconhecidamente exigindo reformas. Fernando José de Portugal. por essa via. Para d. Rodrigo de Sousa Coutinho. a biscainha da francesa. 55 lbidem. A urgência na instauração da ordem encerra grande potencial gerador de conflitos. 1933).

3. 223. Mattoso. mediante um pacto político instituísse o Estado que lhe desse forma.] todos serão iguais"64 não politizou apenas a questão social mas também a questão racial. p. de resto. mas porque o ingresso na sociedade política de homens egressos dessa condição. Na Bahia contra o Império. 163 e ss. mas à qual era preciso reformar por exigência das Luzes. Jancsó.146 Istvón Jancsó e João Paulo G.. São Paulo. na Bahia de então. propuseram o rompimento com o trono era o dos homens do século XVIII. A assimilação dessas na esfera do poder.] felizes" a não ser "na reunião de um só todo"60 amalgamado pela monarquia. fossem livres ou escravos. condição necessária do novo pacto político instituidor do Estado e da nação. tida por incompatível com o racional manejo político do império. cujas partes "jamais poderão ser [.. Ibidem. mas para que viesse a constituir-se em nação seria preciso que. ao contrário das outras situações de contestação política na América portuguesa. vol. O nacional dos autores dos panfletos sediciosos distingue-se daquele da ilustração quanto ao fundamento que lhe é subjacente. Cultura política e identidades coletivas na Bahia de 1798. fortemente marcado pela condição colonial.65 O inimigo do povo não tinha uma configuração nacional. O confronto delineado em 1798 na Bahia colocava frente a frente a monarquia absoluta e uma comunidade que afirmava ter configuração específica. Este era o baiense. Pimenta Peças de um mosaico (ou apontamentos para o estudo da emergência da identidade nadonal brasileira) 147 constituindo "um só todo composto de partes tão diferentes". ao contrário do que se deu nas Minas Gerais (1789). É por isso que a idéia de nação presente nos pasquins apenas aparentemente segue o modelo ilustrado de d. 62 F. ou no instrumento (o exclusivo).63 Convém lembrar que a maior radicalidade social da violência revolucionária francesa deu-se em São Domingos. passa por desdobramentos que aceleram o rompimento dos limites definidos de antemão. situação colonial e periférica. apontando para uma contradição inerente à cultura política à qual se referia.62 o que. aqueles "baianos [que quando] longe de si lançarem mil despóticos tiranos. Sendo o escravo propriedade. cit. 63 Essas manifestações de crise em áreas periféricas de Estados absolutistas do final do século XVIII estão apontadas em I. Desse modo. e o caminho de sua instauração é a revolução. felizes e soberanos nas suas terras serão".. Vem daí que é inútil procurar alguma ideologia nacionalista entre os sediciosos baianos de 1798. 60 59 uma nova ordem na qual os "homens pardos e pretos [. 35.59 Apenas que a cultura política do absolutismo ilustrado recusava o reconhecimento da politização dessa diversidade. ultrapassou os limites do que poderia ser assimilado pelas classes dominantes no interior das formações sociais resultantes da colonização portuguesa na América. e cuja base repousava sobre a igualdade jurídica dos cidadãos e no respeito integral ao direito de propriedade.. que são criadas as condições para que sejam ultrapassados os limites que para a metrópole eram sua própria salvaguarda: somente na colônia poder-se-ia vislumbrar a alternativa da ruptura política. A exigência programática de Ibidem. pp. O que ocorreu na Bahia de 1798. com o que o discurso se radicalizou. local da máxima opressão. e todos o sabiam. Não era assim que a dominação era reconhecida. A nova ordem que propugnavam não buscava sua legitimidade em direitos históricos ou em ancestral trajetória comum. Este era reconhecido como o supressor da liberdade por via do Estado que lhe servia de suporte e com o qual se identificava. cit. é no espaço da colônia. mas ao trono. A. cit. Anais do Arquivo Público da Bahia (AAPB) (Salvador.. 157. inédito. 1998. o que. do que os contemporâneos bem sabiam e bem temiam. na prática. não é uma particularidade do Antigo Regime português. o povo baiense instituidor potencial de um novo Estado que viria a ser nacional mediante um pacto de cidadãos. 61 Débora Pupo. Novais. Não porque sua abolição fizesse parte do projeto revolucionário explicitado nos pasquins. . é que o projeto que lhe era subjacente não tocou somente na condição (a dominação política). de Q. sempre atendendo à lógica da preservação do sistema imperial e de seus fundamentos sociais e políticos. da integração subordinada das colônias no império luso. Portugal e Brasil na crise do Antigo Sistema Colonial. afastando-se deste radicalmente pois se fundamenta na vontade dos povos e não no papel coesivo do trono. Nunca devemos esquecer que o universo mental dos que. a opressão não era percebida como a de uma nação estrangeira. Dessa feita. E no que diz respeito à questão 64 65 K. pois a privação da liberdade do povo baiense não advinha da sujeição à nação portuguesa. p. típicos dos nacionalismos europeus emergentes no século XVIII... erode a legitimidade do poder absoluto do soberano. op. a sua simples existência criava um impasse para a soldagem dos interesses dos diversos estratos contra os inimigos do povo.61 cuja cabeça rolou na França. Fernando (nação = Estado). Imprensa Oficial da Bahia. 1959). a sedição avançou sobre a sua decorrência: o escravismo. cap.

século XIX. entretanto. Por outro. conforme já se viu. IV. 2. cap. a política e o Estado moderno. e ainda mais se devem evitar as perniciosas conseqüências que desses errados nomes se seguem. XVI. 3. por maior relevância que essas dimensões da vida política assumissem na época. liberadas dos constrangimentos do exclusivo colonial. cit. eram adventícios nesse quadrante e sentiam-se vivendo sob o signo da provisoriedade. o Algarve. Pimenta. mas com repercussões nos grandes centros de convergência dos domínios luso-americanos. agora contrapostas. A que comunidade politicamente instituída os baianos expressavam seu pertencimento? Temos aí pelo menos duas variantes. antes de tudo. traduzido para o português pelo professor dr. o que eqüivalia dizer. Que tudo isso se tenha dado mediante a combinação de elementos de permanência e mudança é quase redundante em se tratando de acontecimentos que não estavam inscritos na lógica da trajetória precedente do império. 68 Não se tratava. processo magnificado no Rio de Janeiro. J.. p.] que modela rigorosamente todos os indivíduos no interior do seu quadro [.. insistindo em saber sabido. em sua maioria. o nacional mal começava a assumir nítido contorno político. 1992). e menos ainda traduzir-se em ideologia política. se confrontado o quadro emergente do 1808 com aquele prevalecente anteriormente a essa data. abr. P. e província de seus Estados. E se Lucien Febvre tem razão ao afirmar que a nação é "uma realidade psicológica profunda [. de Capitanias e Províncias. de Q. 16. A instalação do aparelho central de poder incrustou na América uma elite política cujos membros. resida a corte onde residir.. Febvre.66 o que se percebe nessa Bahia de final do século não se aproxima da sua proposição. como é o Soberano de Portugal. op. Não é necessário insistir no fato de que a realidade prevaleceu sobre as intenções. alertou para o problema ao ponderar que um Monarca. cit. não deve fazer distinção entre província.. conferir uma inteligibilidade que acomodasse não apenas as experiências políticas já acumuladas. estão os que se têm por portugueses. viviam o encerramento de uma modalidade multissecular de dependência. paradoxalmente. número temático "La Nation" (Paris: Gallimard/Le Seuil. op. n. aqueles que constituíam os pontos nodais da estrutura imperial. Correio Braziliense. . Tornou-se patente. Em ambos os casos se trata dos que têm por pátria a Bahia.68 mas aos quais era imperativo. 1798-1822. protagonistas de uma ruptura histórica que reconheciam como pro66 67 L. A Beira. A utopia do poderoso império. Para o simultâneo processo em curso na América espanhola. não há como deixar de reconhecer que ela derivou da imposição de circunstâncias que tornaram-na a única alternativa tida então por exeqüível para a sobrevivência da dinastia. O Correio Braziliense. que as partes da América. Bahia. e por K. Ainda que a arqueologia dessa alternativa afinal prevalecente seja sugestiva. Maquiavel. M. de questões de forma ou precedência. mesmo no centro revolucionado do Antigo Regime europeu.. Marco Morei.148 Istvón Jancsó e João Paulo G. estão os que se têm por baienses. 23. mas também os projetos de futuro que delas derivavam. 1995). Por um lado. de Carvalho. G. assegurar a perfeita continuidade das ações de governo nas novas condições. a índia devem todos ser considerados como partes integrantes do Império. e autor e leitores sabiam disso. com o que afastamo-nos da idéia de "elite política" tal qual utilizada por J. 1810. Portugal e Brasil: bastidores da política. publicado originalmente em La Pensée Politique. com o que a ilusão da perfeita continuidade traduziu-se numa série de acomodações cuja história é a da crise do Antigo Regime português. cit. traça o nexo histórico da peculiar lógica da instalação da sede da monarquia no Brasil. da soberania do estado português. que possui tão extensos domínios. devem evitar-se as odiosas diferenças de nome. vol. Pimenta Peças de um mosaico (ou apontamentos para o estudo da emergência da identidade nacional brasileira) 149 nacional.48. Não eram colonizadores ou delegados da coroa.. especialmente pp. Mattoso. atento a essa situação. no estrito sentido de fiéis vassalos de sua majestade. uma pátria que ainda não engendrou um patriotismo político a ela referido. O que é de destacar é que na nova situação ampliou-se grandemente o número de personagens que formavam a sociedade política69 na América portuguesa. n. imprimindo-lhes sua marca. "A nação na América espanhola: a questão das origens". 2a parte. cabendo-lhes. op. na situação advinda. o Brasil. constrangidos a isso por obra das circunstâncias da grande política européia. detentora de um patrimônio cultural do qual participam todos os seus membros". 69 O conceito de "sociedade política" aqui adotado remete a Antônio Gramsci. e em cujo interior identidades políticas distintas coexistiam e se confrontavam na gestação histórica de alternativas de futuro cujas formas apenas se esboçavam.. chamar a atenção para a alteração na configuração da sociedade que a ela tinha acesso. ver François-Xavier Guerra. A instalação da corte bragantina no Rio de Janeiro produziu enorme impacto sobre a percepção que os homens da época tinham da adequação do Estado português ao novo equilíbrio entre as suas diferentes partes. eram exilados ainda que em domínios de seu rei. No plano da vida política convém. O estudo de Maria de Lourdes Viana Lyra.]. eventualmente republicanos. especialmente o cap. é bom lembrar que.67 funda e cujos desdobramentos eram imprevisíveis. 230. Uma Província no Império (Rio de Janeiro: Nova Fronteira.

70 Essa devassa é uma peça rara. dava suporte à ilusão dos reinóis de que os padrões de sociabilidade assimilados em Portugal poderiam ter plena vigência nas partes do Brasil. Ele propõe-se a implantar uma fábrica de cordas valendo-se de técnica desconhecida nos domínios lusos. oficial da Secretaria de Estado dos Negócios da Marinha e Domínios Ultramarinos.o empreendedor moderno . no limite. é revelador de uma variante de cultura política que se espraiava pela corte. oficial da Secretaria de Estado dos Negócios da Marinha e Domínios Ultramarinos. ambos peninsulares. Ilhéus e Rio de Janeiro. sob a feição de uma aparente comédia de erros. o que. Ao final. acesso a cargos de maior importância na administração). que passou desde então a incorporar ingredientes que antes eram tipicamente peninsulares. privilégios relativamente ao mercado dos produtos de sua manufatura.pondo em prática o que Rodrigues de Brito e seus companheiros na Bahia desejavam. a curiosa concordância dos envolvidos quanto a ter sido proferidas expressões indicativas de desapreço ao poder acaba por revelar. ainda que já praticada na índia inglesa. Jancsó. isto é. Manuel Luís da Veiga surge como um homem dos novos tempos . em 1807. 1998. com o que pleiteava-se a sua revisão. paper apresentado no XIV Encontro Regional de História . Com o correr dos interrogatórios abandonou-se a busca de eventuais nexos da suposta trama subversiva. pois revelou-se impossível esclarecer a quem era justo atribuir intenções de teor sedicioso. PUC. Mas não eram somente as gentes da corte os novos atores políticos que buscavam fazer valer seus interesses.150 Istvón Jancsó e João Paulo G. quando um punhado de letrados debruçou-se sobre o estado vigente e as perspectivas de futuro da economia da Bahia. Naquele quadrante. corpo doutrinário informe e tendente a fissuras e à diversificação.72 que os termos do debate se alteraram radicalmente no Brasil. e viam no domínio dosritospeninsulares (sociais. dar-lhe feição européia. e Manuel Luís da Veiga. José Diogo Ferrão Castelo Branco e Joaquim Inácio de Cerqueira Bulcão foram editados por F. conforme revela uma devassa que teve lugar em 1810 no Rio de Janeiro. pessoas que desconheciam na maior parte os padrões de sociabilidade vigentes na América. Trata-se de idéias constantes dos autos. as autoridades acabaram por admitir a hipótese de que tudo não passava de condenáveis excessos verbais. Os pareceres elaborados por João Rodrigues de Brito. Ainda que o projeto subversivo seja por tudo inverossímil. homem de cabedias radicado em Pernambuco. As autoridades foram levadas a abri-la por temor de preparação de uma ação subversiva. "Uma análise da sociabilidade política no Império português: uma Devassa em 1810 no Rio de Janeiro". aquelas mesmas cuja notícia deflagrou o processo. versão ampliada do que já estava em curso durante o fim do período colonial.Auto de perguntas feitas a Manuel Luís da Veiga e a Francisco Xavier de Noronha Torrezão. essa Devassa de 1810 expõe. avaliada e tida 70 como instrumento de pressão política objetivando a revisão de medidas específicas (no caso em pauta: o Tratado com a Inglaterra) ou. no limite revolucionária. caixa 2. Detiveram como suspeitos a Francisco Xavier de Noronha Torrezão. as normas do pacto colonial eram apontadas como o grande obstáculo para a expansão das atividades econômicas. Percebe-se. Calmon. o fato de que a eventualidade de desordens políticas envolvendo a plebe urbana era cogitada. Pimenta Peças de um mosaico (ou apontamentos para o estudo da emergência da identidade nacional brasileira) 151 Em primeiro lugar.754. cit. de sua superioridade) em relação aos da terra. Com a supressão do exclusivo abriu-se uma nova conjuntura impondo outros parâmetros para o debate político. a tão temida revolução. 1* edição publicada em Lisboa. os meandros da relação entre cultura política e interesses práticos no interior da sociedade política na América. o conhecimento dos mercados. 1821. para Torrezão. São Paulo. Coleção Devassas. Move-lhe. bastava para justificar tanto a sua ação quanto o constrangimento ao qual foram submetidos os envolvidos.71 Com tudo isso. além da de Pernambuco. Manuel Ferreira da Câmara. M. e seu curso em meio a conversações contemplando assuntos de interesse dos envolvidos (para Veiga. 1923). . A economia brasileira no alvorecer do século XIX (Salvador: Progresso. tanto daquele comprador (tem contatos nas praças de Salvador. 7 72 ' Ver I. econômicos.Sujeito na História: práticas e representações. Este documento foi analisado por Andréa Slemian. de G. poucos anos tendo se passado desde o inquérito promovido pelo Senado da Câmara da cidade de Salvador por solicitação do conde da Ponte. condição da liberação dos proprietários para fazer o melhor uso de seus capitais. a sociedade política foi grandemente alargada com a instalação da corte e da nata da administração imperial (e sua clientela). "A sedução da liberdade". Arquivo Nacional (AN). A instalação da corte no Rio de Janeiro em meio aos esforços para dotar a cidade das características compatíveis com a sua nova condição. à parte o natural desejo de lucro. de resto. isto é. mantendo-os presos por algo como cinco meses. se não a existência de alguma trama revolucionária em curso. culturais ou políticos) instrumento de afirmação de sua diferenciação (quando não. Devassa de 1810 . do ordenamento político da sociedade.

A devassa expõe. Pouco importa. Tem consciência da importância do empreendimento.se bem com o sinal invertido . por esta via. P. Pimenta. a adesão entusiasmada à nova ordem deu-se por toda parte. 1991). de momento. ambos buscando a satisfação de interesses particulares junto a ele. em sua maioria. comparativamente ao período pré-joanino. G. engendrando um surto daquilo que François-Xavier Guerra designa. o que veio buscar no Rio de Janeiro? A resposta é clara: obter privilégios extensivos ao império. Já João José Reis estima valor semelhante para a média do total de riqueza de um senhor de engenho de Salvador entre 1800 e 1850: 82 contos e 980 mil-réis (A morte é uma festa. O que é notável é que os dois projetos fundem-se em práticas de idêntica natureza quando adentram a esfera do Estado e. de que na nova situação ampliar-se-ia a sua participação na gestão da coisa pública com a maior proximidade do centro do poder. no plano das identidades coletivas. o que. às iniciativas que conferiam visibilidade à liquidação da condição colonial. 21. . o impacto da instalação da corte na América foi tão profundo . Mas o episódio mostra também que esse Estado chamado a redefinir seu papel continua operando mediante os ritos tradicionais do Antigo Regime. o deslocamento. caso da Bahia onde a ação do conde dos Arcos valeu-se desse estado de ânimo. cit.74 e não apenas à Capitania de Pernambuco como lhe havia sido concedido. Pimenta Peças de um mosaico (ou apontamentos para o estudo da emergência da identidade nacional brasileira) 153 onde pretendia instalar a empresa). apontando para alguns dos impasses criados pela abertura dos portos e a concomitante supremacia inglesa. A companhia à cuja testa está (e que reúne sócios ingleses) dispunha de fundos da ordem de 120 contos de réis (o valor de um bom engenho de açúcar em operação orçado. esta insere-se numa mais ampla que. Guerra. nos dois casos. crise já instaurada como a sua natureza. abundante no litoral. 38. e é conforme as prescrições deste que se organizam os contatos entre Veiga e Torrezão . entretanto.quanto aquele que afetava os recém-chegados. entre as elites locais. transformava os produtos ingleses em adversários formidáveis das manufaturas nacionais. por volta de 80 contos de réis). centrandose. da historiografia contemplando o significado de José da Silva Lisboa. traduziu-se no reforço de sua adesão aportuguesa. ou mais clara73 É este o valor estimado do engenho constante do inventário dos bens de João de Saldanha da Gama Melo Torres Guedes de Brito. diante da recusa. 75 Sobre José da Silva Lisboa. no confronto entre partidários do livre comércio e os do protecionismo agora nos termos da nova ordem.o empreendedor capitalista e o funcionário graduado. Sobre as elites das partes americanas do império. o que se traduziu. PUC. 74 A esse respeito ver Nícia V.. Havia a percepção. as desventuras de Veiga e Torrezão iluminam a própria crise do Antigo Regime português. Jancsó. cit. por seu turno. 1945). lembrar que se trata. de projetos radicados em temporalidades distintas. A luta pela industrialização no Brasil (2. "A prática da contestação no Correio Braziliense"'. Ao fim e ao cabo. "A percepção da mudança". do que resultou ter recebido o apoio às suas iniciativas administrativas de pessoas com larga tradição de crítica ao absolutismo luso.152 Istvón Jancsó e João Paulo G. no limite. na forma como estava regulamentado. Para muito além da cessão de moradias e outras facilitações para a instalação dos recém-chegados (fenômeno fundamentalmente centrado no Rio de Janeiro). A quem supunha estar por trás de suas dificuldades? José da Silva Lisboa75 e. p. com o que estamos diante do confronto de um "industrialista" típico da época. mente. todos papers apresentados no XIV Encontro Regional de História . Luz. ver Antônio Penalves Rocha. Ritos fúnebres e revolta popular no Brasil do século XIX (São Paulo: Cia. op. 41-75. e foi analisada por Slemian. A economia política na sociedade escravista. a nova situação despertou grandes e positivas expectativas entre as elites das diversas partes do Brasil. portanto. Este não se polariza mais entre defensores do exclusivo e os do livre comércio. com Torrezão enredado num diálogo do presente com o passado. analisando o processo então em curso na América espanhola. envolvia figura do porte de Hipólito José da Costa. o defensor do livre comércio à outrance. de imediato. então. cuja escala não era irrelevante. em Anais do Arquivo da Bahia (Salvador: Imprensa Oficial do Estado. esbarraram na alteração substanF. 76 Partindo das análises de Antônio Penalves Rocha. é incompatível com os fundamentos e a natureza absolutistas desse mesmo Estado. na adesão dessas. Quem obstaculizava suas pretensões? A Junta de Comércio. o livre comércio que. cit. J. então. 1975). Diante do sentimento de perda dos peninsulares. 1998. São Paulo: AlfaOmega. como patriotismo imperial. caso de Veiga. expressam a insatisfação recorrendo a expressões que remetem a uma cultura política que. quanto do mercado fornecedor de matéria-prima (afibrade coco). Quanto à polêmica entre Veiga e José da Silva Lisboa. Dotado de meios materiais para o empreendimento.77 Essas expectativas. op. ed. 1996). agora. de um dos eixos do debate político. p. num do presente com o futuro.76 revelando a urgência na redefinição do papel do Estado no tocante à vida econômica. São Paulo. História-USP/Hucitec. A economia política na sociedade escravista (São Paulo: Dep. p. X. das Letras.73 e Veiga estimava em 400 contos de réis o valor da matéria-prima a ser beneficiada.Sujeito na história: práticas e representações. não é descabida a hipótese de que a devassa e documentação conexa informam sobre um momento do confronto entre os interesses da grande lavoura e os da emergente burguesia manufatureira na América. e I. e Veiga. o conde da Ponte. riquíssimo senhor de escravos e de terras falecido em maio de 1809 ("Cópia do inventário do conde da Ponte". colidindo com José da Silva Lisboa.

cit. Uma tentativa de síntese panorâmica desses processos no interior do império português a partir de outros referenciais teóricos (a relação centro-periferia) foi recentemente empreendida por Russel-Wood. tinha imediato sentido prático. mesmo que no tocante à trajetória das identidades políticas no universo americano as Esses centros de convergência poderiam articular mais de uma capitania dado seu peso mercantil. cada qual à sua maneira. circunscrevendo a importância da elevação do Brasil à condição de Reino Unido ao universo da alta diplomacia. Ainda que isso se desse mediante a trama de outras "redes" que interligavam as regiões coloniais entre si. seus significados tornaram-se passíveis de alteração substantiva. p. subordinando as outras regiões ao Rio de Janeiro. eram de tal forma ligadas às da Bahia e Pernambuco. 1995). integrantes de uma mesma nação... Na nova situação criada com a instalação da corte no Rio de Janeiro esse quadro foi radicalmente subvertido. o que identificava-os como portugueses. as práticas administrativas. "Formas de identidad política en ei Rio de ia Plata luego de 1810". cit. A partir de então a anterior identidade \uso-americana poderia tornar-se brasileira e como tal se autonomizar. e J. O novo reino transformara. entre os grandes centros de convergência do espaço luso-americano. em especial os provenientes de tarifas de exportação. cit. respectivamente. Mas revelam também. não se deu de modo linear e uniforme.que definia seus contornos como uma comunidade politicamente imaginável. Chiaramonte. cit. onde se realizava a unidade do todo por eles formado. como lembrou mais tarde Silvestre Pinheiro Ferreira. prestavam lealdade a um mesmo monarca. 79 A resistência de províncias que relutavam em enviar ao novo centro recursos financeiros. A condição americana.. C. Da mesma forma. ainda que apenas no plano simbólico.István Jancsó e João Paulo G. mais exatamente.. A alteração na direção das tradicionais rotas de peregrinação no interior do império português se fez sentir de modo desigual na vida dos homens que dele faziam parte. inovou na definição dos referenciais políticos. todos os súditos do monarca português. 1500-1808". . ed. em Revista do Departamento de Geografia (São Paulo: FFLCH-USP. alteração que. Era por dirigirem-se para a mesma metrópole que as múltiplas administrações africanas. O tradicional equilíbrio político entre as capitanias ou. vol. Rio de Janeiro: Topbooks.em especial suas capitais . e por J. op. Pimenta Peças de um mosaico (ou apontamentos para o estudo da emergência do identidade nacional brasileira) 155 ciai do tradicional equilíbrio entre as partes do continente do Brasil. por exemplo. em Annaes da Bibliotheca Nacional do Rio de Janeiro (ABN) . op. ver também Paulo Pedro Perides. asiáticas e americanas identificavam-se como partes de um mesmo conjunto.81 um conglomerado de capitanias atadas pela subordinação ao poder de um mesmo príncipe numa entidade política dotada de precisa territorialidade e de um centro de gravidade que.. As capitanias de Sergipe e Paraíba. era-o também de todo o império.82 A partir daí. 78 variantes anteriormente apontadas tenham se mantido. 9. carta XXII".constituíamse em centros de convergência para aquelas. com aquelas que as outras encerravam. retornando novamente aos termos de Benedict Anderson. Halperin-Donghi. P. os fluxos de comunicação. G. "Centros e periferias no mundo luso-brasileiro. 1996). a nação brasileira tornava-se pensável se referida ao Estado — o Reino do Brasil . vol. 82 Trata-se da variante brasileira do processo que para a região platina foi descrito com profundidade por T. que os processos têm marcada especificidade derivada das condições particulares que eram diferentes nos dois casos.a portuguesa e as outras ancoradas em trajetórias instauradas pela colonização. que no período anterior expressava apenas um predicado genérico que distinguia portugueses da Bahia ou de São Paulo dos de Portugal. encontrou no recém-criado Reino do Brasil a referência palpável da sua politização. 1877-1878. foi bruscamente substituído por outro que instaurava uma hierarquia entre espaços sociais que anteriormente relacionavam-se horizontalmente. entretanto. ou seja. Portanto. as referências de vassalagem que informavam as relações entre colônias e metrópole tinham em Lisboa o ponto natural de sua convergência. que estas . Tudo isso.. Todos eles revelam que os processos em curso têm pontos em comum já que a crise geral que afetava os impérios ibéricos tinha a mesma matriz.78 cada qual ligado a Lisboa. fenômeno carregado de grande potencial de conflito. 3. "A organização político-administrativa e o processo de regionalização do território colonial brasileiro". quando integrada no vocabulário político do Antigo Regime. 80 Silvestre Pinheiro Ferreira.77-91. 8 ' Em termos práticos as implicações da mudança foram irrelevantes. Estado e nação na crise dos impérios ibéricos no Prata. somando-se ao elenco de identidades políticas que já então coexistiam . 156. não somente porque o centro do poder tenha-se transferido para a América.79 Em meio a esse jogo de "perde e ganha" envolvendo regiões e setores das elites. cit. era esse o movimento predominante que organizava o conjunto e lhe conferia inteligibilidade. "Memórias e cartas biográphicas. João VI no Brasil (3. cultural ou político. 184. a que "o vulgo considerou de insignificante formalidade"80. além de sê-lo do novo reino. Desde os primórdios da colonização. 1808-1828. onde quer que residissem. a ponto de Oliveira Lima não dedicar uma única linha a questões dessa ordem no capítulo de seu D. conforme já se viu. a elevação do Brasil à condição de Reino Unido a Portugal e Algarve.. no limite. Pimenta. numa perspectiva envolvendo América hispânica e portuguesa (estes dois mais diretamente centrados na compreensão da conformação das identidades políticas coletivas). p. cada qual expressando uma possibilidade de projeto de nação incompatível. p. palavra carregada de significados específicos. é apontada por Wilma Peres Costa.

Mota. G. no que nada há de surpreendente. 85 Ver C. a ancestral identidade portuguesa tendia a colidir com a pernambucana. Essa visão dos acontecimentos estava em flagrante oposição com a interpretação oficial veiculada pela Gazeta do Rio de Janeiro.87 Mas a nitidez na apreensão do significado dos eventos revelada por Hipólito José da Costa. tão distinta pelos testemunhos de amor. 1817. do que haviam conjuntamente concedido todos os Monarcas da casa de Bragança seus predecessores". G. 101. segundo a qual o movimento em curso era pontual desvio de norma. 89 Apud C. Conclamando "os nascidos em Portugal" e "os nascidos no Brasil" à harmonia com o argumento de serem. P.88 A ênfase na circunscrição da linhagem legitimadora dos agentes da ruptura política. 88 Documentos históricos (DH). op. Aos seus olhos. entre um povo que ainda reverenciava as suas antigas instituições" (João Armitage. o bispado local definiu o perfil dos que poderiam reivindicar legitimamente a condição de pernambucanos.. e brancos pretos". 112 e ss. João] a uma profusa distribuição de títulos honoríficos" de modo que "durante o período da sua administração concedeu maior número de insígnias. XIX. p. cit. que apontou para o fato de ser "a comoção no Brasil [. ainda que repudiando-a. dignidades e honrarias tornou-se amplamente acessível aos portugueses do Brasil. 110. Mota. Os reinais de antes (com toda a conotação hierárquica envolvida neste recurso classificatório que sé sabia repousar sobre formas de subordinação muito precisas) não eram mais metropolitanos. 9). O antigo nexo estava em acelerado processo de erosão.152 e ss. 83 maquinações de alguns indivíduos". G. 1972). Biblioteca Nacional/Divisão de Obras Raras e Publicações. em Londres.83 Foi nessa direção que a alteração do estatuto do Brasil. reduzindo a eficácia da velha fórmula usada pelo governador Caetano Pinto de Miranda Montenegro ao tentar apaziguar os ânimos exaltados no Recife pré-revolucionário em 1817. cit. de 14 maio 1817.86 expondo. todos concidadãos do mesmo reino unido". n. (a I a edição é de 1840). pp. Pimenta. todos vassalos do mesmo soberano.85 Isso foi de pronto reconhecido pela argúcia do Correio Brazüiense. Para estes. que os vassalos desta nação consagram ao seu Soberano". os da cidade. Rio de Janeiro. que instaurou por breve tempo um governo republicano no Nordeste do Brasil. revelando o crescente desconforto de uma concomitância de cuja vigência demonstravam enorme dificuldade em se desvencilhar. estes eram as "fiéis ovelhas Pernambucanas do Governo Espiritual deste Bispado". era mais difícil de ser alcançada pelos envolvidos pela vertigem revolucionária desatada no Nordeste brasileiro. cit. vol. n. o que trazia em si a temida perspectiva de uma situação na qual "pretos comandam brancos. Pimenta. o recurso cada vez mais freqüente ao conceito de império no vocabulário político dessa época revela a necessidade de uma fórmula que expressasse a nova configuração do Estado bragantino cuja sede do poder deixava de ser equivalente à condição de metrópole. 1969). 39. Numa proclamação de apoio ao Governo Patriótico que se assenhoreou do poder no Recife. 9. Senão. Tavares. Conclui o cronista que com isso. Pimento Peças de um mosaico (ou apontamentos para o estudo da emergência da identidade nadonal brasileira) 157 mas porque o próprio conceito de metrópole foi esvaziado de qualquer sentido com o colapso do antigo sistema colonial. de um "desacato à lealdade Portuguesa" no qual "não teve parte a maioridade de seus habitantes". Nordeste 1817: estruturas e argumentos. com o que se suprimia o conteúdo hierarquizante da diferenciação entre portugueses de um ou de outro lado do Atlântico. Armitage nos informa que "achando-se as finanças em estado de apuro. pp. problemas que diziam respeito à nação. Nordeste 1817: estruturas e argumentos (São Paulo: Perspectiva. 148. 87 j . mostra qual era o cerne da dificuldade. 142-62. e não por Convém lembrar que o acesso a títulos. a existência de uma nova linha de corte (a palavra-chave neste caso é "concidadão") em torno do qual se organizava a polarização da política local. eram desde então apenas europeus. Gazeta do Rio de Janeiro. 1972). Sem dizê-lo. subordinadora de um vasto leque de colônias díspares na América. "todos portugueses. pertencentes "à espécie branca [que] é toda européia. ancorada numa linha de continuidade radicalmente excludente em termos raciais (o que eqüivalia a dizer sociais). e respeito. recorreu [D. Por outro lado. destacando em especial serem estes últimos "brasileiros [que] têm muito amor. ou descendente dos europeus". p. J.. vejamos. aferro e respeito aos seus progenitores". vol. G. os prelados revelavam ser inerente ao abrir mão da identidade portuguesa o grave risco da indiferenciação da elite branca com os homens negros e pardos que compunham a maior parcela dos habitantes do país. portanto.156 Istvón Jancsó e João Paulo G. veio dar forma a uma nova diferenciação interna à identidade portuguesa. p. Francisco M. op. História do Brasil (São Paulo: Martins.. 84 Cf. e o movimento revolucionário de Pernambuco de 1817.] motivada por um descontentamento geral.84 o governador mostrava.. agora reino equiparado ao de Portugal. conferiu inquestionável visibilidade à instabilidade dos novos tempos. pp. História da revolução de Pernambuco de 1817 (Recife: Governo do Estado. jul. apenas uma "mancha" nas "páginas da História Portuguesa. Sobre a questão do escravismo. "não podia deixar de ser grande o entusiasmo suscitado por esta distribuição de honras. J. P.89 o que veio depois a ocor- 86 Correio Brazüiense.

pois portugueses. fórmula que expressava a "perfeita igualdade de cada [um] a respeito dos outros". X. valores. 15 92 "Decreto do Governo Provisório da República de Pernambuco regulamentando a Constituição". 95 Documenos históricos. ambos comuns aos membros da nação. Paris: Aubier. G. essa idéia sempre contemplava duas variáveis definidoras da comunidade cuja natureza pretendia expressar: uma herança (memória e história) e um território. Cl. cit. p. e na urgência da superação da "fatal indisposição entre europeus e brasileiros". Ensayos sobre Ias revoluciones hispânicas (México: FCE. É preciso ter em mente que nas primeiras décadas do século XIX o conceito de nação. Ibid. a marca distintiva de seu discurso.91 O confronto dos dizeres da Gazeta do Rio de Janeiro com os termos dos proclamas do bispado e do governo revolucionário revela uma clara concordância quanto à natureza da trajetória coletiva comum que ambos assumiam como sua. No discurso da Revolução de 1817 constata-se uma enorme ambigüidade quanto a esses pontos. viesse de onde viesse (em termos espaciais) essa adesão. Os revolucionários não recorrem à valorização de um passado que lhes é específico (e como tal distintivo de outros) ao justificar suas ações. em pátria (nos termos que já se viu ser os dos deputados que escreveram os manifestos de Falmouth). p.90 expondo um dos limites que tolhiam a clara identificação dos atributos que deveriam abrir as portas da inclusão de seu portador na "comunidade política imaginada". C. na nação (ainda que virtual no caso do 1817 pernambucano). Cf. aberto à adesão de todos que aceitassem. Enquanto os revolucionários eram movidos pela perspectiva de nova ordem social e política que emergiria (pela via da revolução) da vontade popular. falam cm povo (fonte e sustentáculo do poder nos termos da nova ordem). vol. E é bom lembrar que essa dificuldade não pode ser debitada à prudência de prelados. ordens religiosas. Cl. 1983). instituições e símbolos (de vigência efetiva ou virtual) que lhe confeririam visibilidade. 1993). mas nos de outra matriz cuja origem está na revolução burguesa. fossem de outras capitanias do Nordeste. individual ou coletivamente. tudo isso fundindo-se em patriota. 94 Jacques Godechot. em Pernambuco e sua área de influência) em alternativa política de tipo nacional. Guerra. vol. ainda que carregado de enorme fluidez.. op. em quem ela só reside"-92 foram curtos para que o Estado emergente da revolução assumisse uma conformação estável e dotada do necessário conjunto de referências que pudessem autonomizar identi- dades políticas coletivas de tipo nacional a elas referidas.93 a revolução não chegou a liberar as forças que poderiam transformar a tendência centrífuga latente nas diversas partes do sistema imperial na América (neste caso.95 e que acabou tornando-se. p. o que torna perfeitamente compreensível a ausência quase absoluta do termo nação do seu vocabulário político. fossem da Capitania de Pernambuco. Com isso. ed. câmaras municipais). agora não mais pensada nos termos do Antigo Regime português.. Nos dois casos os protagonistas dos eventos de 1817 reconheciam-se como galhos de um mesmo tronco. A distinção deslocou-se para outro patamar. alternativa sempre referida a um território (real ou virtual) e a um conjunto de normas."revestida da soberania pelo Povo. para o bem e para o mal. 34. Nordeste 1817: estruturas e argumentos. Era este o alcance da questão subjacente aos cuidadosos termos da proclamação quando insistia na imperativa necessidade da união dos brancos. vol. Pierre Vilar. em Documentos históricos. 9. independentemente do partido que tenham tomado durante os conflitos.. Modernidade independências.p. Apelando aos "habitantes de Pernambuco". os defensores do status quo mobilizaram-se em defesa dos pactos que se materializavam na monarquia absoluta. os homens do governo dirigiram-se a eles com o argumento de serem todos "seus filhos [. Os três meses de vida da República Pernambucana . não se diferenciando quanto a isso a não ser na medida em que um galho diferia de outro. Vexpansion révolutionnaire de Ia France dons le monde de 1789 a 1799 (2. Pimenta Peças de um mosaico (ou apontamentos para o estudo da emergência da identidade nacional brasileira) 159 rer. como já ocorrera em 1798 na Bahia. .] descendentes dos valorosos lusos. Por outro lado. já que o discurso do próprio governo revolucionário vinha pautado pelo mesmo diapasão. e F. Os revolucionários aceitavam a adesão tanto de indivíduos quanto de organizações coletivas (corporações militares. 16. sois americanos. CIV. o recurso à idéia de nação reforça-se como parte 93 90 9l Documentos históricos. Mota.. cit. Os rebeldes. deslocando-se para o centro dos ideários políticos. La Grande Nation. a abrangência espacial do movimento chegou a atingir praticamente toda a região desde a Bahia até o Ceará. sois brasileiros. como tal. aquele da natureza dos pactos social e político que fundamentavam a unidade da nação portuguesa reconhecida como comum a todos. Pelo fato de o movimento de 1817 ter sido contido nos limites de uma ação de recorte partidário e. para que se unissem à causa da "Pátria [que é] nossa mãe comum". espalhava-se rapidamente pelo universo atlântico.Istvón Jancsó e João Paulo G. sois pernambucanos". seu programa.94 Ainda que comportando grandes variações de conteúdo.

É sabido que foi na porção européia do império que irromperam em revolução as tensões geradas pelas contradições acumuladas em seu interior. tem merecido renovado interesse dos historiadores. 1992). além dos trabalhos de Dênis de Antônio de Mendonça Bernardes. 1820-1822 (São Paulo: FFLCH-USP. A imprensa liberal no Pará de 1822 (Belém: Cejup. De fato. A independência do Brasil na Bahia (2. n. nação (entendida como depositária de uma herança comum a ser preservada) -. Silvestre Pinheiro Ferreira. chegou a vaticinar que "decidiu-se a sorte do Brasil: quebrou-se o nexo que unia suas províncias ao centro comum: e com a dissolução do Brasil se consumou a dissolução da Monarquia [. ainda que alimentando alternativas diferentes para o Antigo Regime português na América. na nova situação advinda. a quem desejam estar perpetuamente unidos. quanto ao núcleo central do poder imperial. 1877-1878. com o que. O movimento autonomista no Brasil. mas porque. Tendências políticas na Bahia na crise do Império português (inédito).98 96 Para seu impacto na Província do Rio de Janeiro. teses de doutorado. vol. para o caso de Pernambuco. sendo de esperar que "as outras províncias segui-las-hão de perto". acrescentou o ministro de d.o caso do Nordeste (18081824). João VI. originados do receio do povo de que sejam frustrados os desejos que tem manifestado de aderir aos votos de seus irmãos de Portugal. e participar com eles dos benefícios da constituição liberal que ora se faz em Lisboa. não somente porque. Marcus J. vista a distância. trabalho apresentado no VII Congresso da AHILA. sempre carregada de referências ao passado. 1949). e por Thomas Wisiak. 371). 1982). que este poder vacilava diante das imposições do novo tempo. e deste na América. Paraíba ou qualquer outra). de Carvalho. 3. p. as Cortes Constituintes em Lisboa assumiram o papel de centro de poder e de articulação política do império. que infelizmente podia resultar em motins. antagônicos nem excludentes. condição da sua impotência. "provavelmente a esta hora tem feito outro tanto Pará. 18171824". Beneditina.. Oberacker Jr. 331-65. juntamente com o conjunto articulado em torno da corte (Rio de Janeiro.160 Istvón Jancsó e João Paulo 6. São Paulo e Minas Gerais).. demagogos e dissidentes. interesse traduzido em estudos pontuais contemplando a diversidade de seus desdobramentos nos dois hemisférios e revelando o turbilhão de forças centrífugas que então foi ativado no espaço americano.97 o que resultou em fundados temores dos ministros. pp. esses conceitos já despontavam como portadores parciais. entrementes. dos elementos constitutivos de uma terceira alternativa para o enfrentamento de uma crise cuja superação crescia em urgência. ainda que a sua síntese não se tivesse completado no 1817 nordestino. com seu uso revelando. que desde antes já vira com grande preocupação o potencial disruptivo da diversidade englobada no novo Reino Unido. até então um dos fundamentos de seu poder. radicalmente contrapostas em 1817. esta província desempenhara importante papel estratégico na liquidação do movimento revolucionário pernambucano. ainda que carregada de tensões. Florença. Geraldo Mártires Coelho. Tip. finalmente. Carlos H. povo (como fonte e agente do pacto político) e. A fragilidade desse consenso é expressa na Resolução do conselho militar de 10 fev. "O processo de independência. Pelo contrário. tornara-se. entretanto. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.. pouco antes (em 1817). 97 . 1977). como por exemplo. A província de São Paulo de 1819 a 1823 (Lisboa: Cosmos. em Revista Brasileira de História.96 Os contemporâneos reconheceram imediatamente a intensidade das mudanças em curso e. ed. foi em meio ao torvelinho que este se deu conta de que a diversidade constitutiva do império. Maranhão e Pernambuco". a adesão da Bahia à revolução liberal foi.) Que o dia de hoje seja de reconciliação geral entre os habitantes desta província... A Bahia acaba de desligar-se da obediência de Sua Magestade com o pretexto de aderir ao sistema das Cortes de Lisboa". para São Paulo. Cecília Helena de S. resolveram o seguinte (. A revolução liberal de 1820. tratava-se. 18. Anarquistas. "Cavalcantis e Cavalgados: a formação das alianças políticas em Pernambuco. iniciada no Porto e rapidamente espalhada pelo império. cada qual à sua maneira. vacilantes quanto aos rumos a seguir diante dos acontecimentos.. que por qualquer diferença de opinião política estejam discordes até agora" (apud Affonso Ruy. Corcundas. 98 Anais da Biblioteca Nacional (ABN). com a vitória dos liberais no reino europeu. p. 260. Para a Bahia. cit. quiseram de comum acordo impedir efusão de sangue. constitucionais e pés de chumbo: a cultura política da independência. aparentemente consensual. Pimenta Peças de um mosaico (ou apontamentos para o estudo da emergênda da identidade nadonal brasileira) 161 orgânica da fala do poder. Pereira das Neves. quase imediata e. 1993). da mais rica das partes do Reino do Brasil. vol.]. carta IV. desencadeando uma sucessão de eventos que destroçaram seu formato longamente maturado. Assim que chegou a notícia da nova ordem instaurada em Lisboa. Oliveira. no seu caso. M. e Lúcia Maria B. Esses componentes da cultura política que se adensava no continente americano -pátria (fosse ela Pernambuco. 1821: "os comandantes e oficiais das tropas de linha da guarnição da cidade da Bahia em presença do governador e capitão-geral conde de Palma. História política e administrativa da cidade do Salvador (Salvador. não eram. 36. e foram assim reconhecidas. para o Pará. 1998. a formação do Estado nacional e a questão regional no Brasil . 1985. O que ocorreu na Bahia é exemplar quanto a esse ponto. a questão é trabalhada por Luís Henrique Dias Tavares. op.

. Francisco Antônio Filgueiras e José Antônio Rodrigues Viana. foram propostos. 40-52. ver José Tengarrínha.162 István Jancsó e João Paulo G. cada qual apontando para diferentes projetos de organização política que iam desde a subordinação incondicional ao governo português até a ruptura com plena autonomia provincial ("Idéias gerais sobre a revolução no Brasil". pulverizou o contorno até então imposto à sociedade política. apud Inácio A. . alargando-a tanto no tocante aos interesses objetivos que em seu interior se confrontavam. V. Essa experiência. identificou três "partidos": "Europeu". pode-se apontar para a emergência de três vertentes básicas quanto à futura forma de organização do Estado no âmbito da província. cap. p. parte 1. o desembargador Luís Manuel de Moura Cabral. independentistas e independentistas republicanos disputando o controle da província (op. "Teoria e prática da contestação na colônia". Na Bahia. vol. cit. pp. p. pela milícia. Proclamando lealdade ao soberano e dizendo agir em seu nome para evitar "o derramamento de sangue de seus fiéis vassalos". num dos instrumentais ao qual recorre99 100 101 Caio Prado Jr. E com essa opção uma longa tradição oposicionista. Pimenta Peças de um mosaico (ou apontamentos para o estudo da emergência da identidade nodonal brasileira) 163 Os fatos confirmaram esses temores. classes. corporações e personalidades (com suas clientelas). em Evolução política do Brasil e outros estudos (10. Outra testemunha da época. cit.102 Essa opção por um critério arcaizante para a sua composição obstava que os recortes políticos de tipo partidário viessem a servir de base para a representatividade da Junta. partidos. Decreto de 4 jul. O procedimento para a constituição da Junta Provisional seguiu o modelo já antes adotado na América espanhola no período que se abriu em 1810. Francisco de Sierra y Mariscai. Tratando-se do caso da Bahia. por obra da revolução liberal. o deão José Fernandes da Silva Freire. eventualmente de conteúdo revolucionário.99 Esse processo. Paulo José de Melo de Azevedo e Brito. ordens. o que provocou reações violentas. do Estado português com o qual se identificavam com renovado entusiasmo na nova conjuntura. 6). de cujos portadores o traço comum era bem mais político-ideológico do que sociológico (fato novo emergindo naqueles momentos de desmantelamento da velha ordem).. em que se fazem referências a grupos constitucionais. op. e ignorando a rapidez com que alianças eram feitas e desfeitas no acelerado aprendizado do fazer política num contexto no qual as velhas normas haviam perdido vigência e as novas ainda não haviam sido estabelecidas. 1821. 272. Da liberdade mitificada à liberdade subvertida. 1977). ram as elites da Bahia para conformarem a nova ordem. cit. já notava que nas províncias do Nordeste a revolução teve um impacto diverso com relação às do Centro-Sul. assim como o foi o tenente-coronel Manuel Pedro de Freitas Guimarães para o Governo de Armas. disputando no plano mental a hegemonia com as outras que remontavam a diversa tradição: a do reformismo ilustrado. Uma exploração no interior da repressão à imprensa periódica de 1820 a 1828 (Lisboa: Colibri. Luís H. antes contidos na esfera da política local. Ata da Câmara Municipal de Salvador de 10 fev. de C. até então represada. D. Para secretários foram aclamados o desembargador José Caetano de Paiva e o bacharel José Lino dos Santos Coutinho. 180). A complexidade do quadro político baiano emergente da adesão da província às Cortes Constituintes revela que um quarto de século de experiência política acumulada no enfrentamento da crise do Antigo Regime português. quanto ao que se refere às culturas políticas e formações de tipo partidário que os expressavam. estava profundamente enraizada na mente dos homens que aí viviam. Passando ao largo de matizes importantes em se tratando de um quadro de extrema fluidez política. pelo comércio.100 Essa medida. pelo clero. pela acolhida que teve. 27). e em cuja eficácia confiavam. São Paulo: Brasiliense. 1920. de aclamação por cabildo abierto. disputando posições que lhes permitissem influir no desenho da nova ordem que viria a emergir com a re-fundação. viu-se afastada dos centros de decisão. aceleração magnificada com a decretação da liberdade de imprensa pelas cortes. pela agricultura.. p. com grupos. os tenentes-coronéis Francisco de Paula Oliveira e Francisco José Pereira. cmABN. ed. formalizando a adesão da Bahia à nova ordem liberal. A constituição da primeira Junta de Governo. Tavares lembrou das cartas do então governador das armas coronel Luís Inácio Madeira de Melo. Jancsó. Ver I. especialmente cap. com o espaço da coisa pública alargada em tal escala e profundidade. com cada um dos grupos funcionais (cuja natureza era corporativa) detentores de reconhecido poder indicando seu representante. 43. passou a constituir-se. que o temor da perda do controle do processo político e da conseqüente desordem social levou-as a lançar mão dos mecanismos políticos que lhes eram familiares. As diversas províncias do reino americano tornaram-se cenários de intensa atividade política abertamente contraposta às regras até então vigentes. 1993). que essas elites baianas viam-se diante de uma situação totalmente nova. refletiu esse reflexo conservador. e Silva. exaltada como regeneração. "Democrata" e "Aristocrata". contra o império. traduziu-se em acentuada aceleração dos ritmos da vida política. sob risco de passar ao largo das proporções dessa dimensão da conflagração política em curso tendo por cenário principal (mas não exclusivo) o universo das classes dominantes. Para uma análise de seus desdobramentos em Portugal. que vinha carregado de antagonismos de vários tipos. 1821. a começar devido às diferentes formas com que essas regiões perceberam a presença da corte no Brasil desde 1808 ("O tamoio e a política dos Andradas na independência do Brasil".101 e que foi até então contida fora dos limites do espaço público quando derivava de práticas contrapostas ao absolutismo. e pela cidade. Não se pode perder de vista.

povo e pátria. . entretanto. Camillo de Lellis Masson & C . Com tudo isso. 267). Mas neste hemisfério os significados eram nuançadamente diferentes. em Revista do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia. L. onde se urdiam alianças esboçando convergências de maior abrangência política tendo em vista as eleições que vieram a polarizar o debate político e.106 Tudo isso. inédito. cap. É o caso dos já referidos Cipriano Barata e João Ladislau e Melo. Expressavam essa tendência. em carta de 17 jan. 1821-22". 456). que também prestava solidariedade aos presos e comandava reuniões que precederam o dia 10 de fevereiro de 1821 (Evaristo Ladislau e Silva. se absolutista ou constitucional.104 A segunda vertente. Os deputados (na proporção de um para cada 30 mil moradores) eram escolhidos por via indireta: compromissários escolhidos em suas freguesias indicavam os eleitores paroquiais que elegeriam os eleitores de fato. de C. já se vê. Este recebia visitas e até mudas de roupa de João Ladislau de Figueiredo e Melo. F. o caminho para o enfrentamento das dificuldades geradas pela crescente preponderância estrangeira. 1821). cada qual encerrando projetos de Estado e de nação que se contrapunham umas a outras. lojas maçônicas. 13. especialmente p. as eleições provinciais no Brasil ocorreram ao longo do segundo semestre daquele ano. cit. de Alencastro. cit.) e Ladislau. Vicente Antônio da Silva Corrêa [assinada na Bahia. residências particulares. Isso é perceptível na ação dos independentistas. agora pela via constitucional. para fazer face à radicalização política em contexto de confrontação armada quando da guerra da independência na Bahia. 1923. 1821. Não são poucas as referências acerca das intenções do marechal Felisberto Gomes Caldeira Brant e seu subordinado major Hermógenes de Aguilar Pantoja na resistência à adesão da Bahia à revolução do Porto. 1866). corpo político dotado de feição própria a ser integrado no império português em igualdade de condições como todas as suas outras partes. A nação partida ao meio: tendências políticas na Bahia na crise do Império português. Esse quadro movediço gerou um vocabulário político com ingredientes novos. assim como o era a natureza do reencontro de seus presumidos herdeiros com o passado. o marechal Brant "deu repetidas mostras de que não queria comunicação com Portugal" (n. 48. Para o periódico baiano Idade d'Ouro do Brasil. da Viúva Serva e Carvalho. ambos afastados da organização do governo provisional. este último era "homem aferradamente inimigo de Portugal e de Portugueses" ("Recordações patrióticas. 19 fev. e Silva. VIII. testemunha do movimento. refletindo a terminologia em voga entre os liberais europeus. defendia-se dos rótulos de "francês" e "pedreiro livre" que se lhe atribuíram nas cortes de Lisboa (João Ladislau de Figueiredo e Melo. cit. Condições tanto mais ameaçadas na medida em que crescia a pressão inglesa contra a manutenção do tráfico. independentemente da ordem política ali prevalecente. herdeira da tradição republicana que emergiu em 1798 e permeou a solidariedade de baianos aos presos políticos que. subsistia.. 17. Para os vintistas portugueses. a sua revolução. fossem européias ou americanas. É isso que está presente nas manifestações dos deputados que a província elegeu para representá-la nas Cortes Constituintes de Lisboa.). Carta ao ilustríssimo e excelentíssimo Sr. p. 1822). op. mas o é também em meio à adesão ao vintismo e à identidade nacional portuguesa que este representava.. desdobrada em variantes marcadas por referenciais ideológicos conflitantes. após a derr rota da revolução pernambucana. a seguir. Sabe-se que esses presos receberam liberdade no dia da adesão da Bahia à revolução portuguesa e que entre eles encontrava-se o paulista Antônio Carlos de Andrada. na Bahia a diversidade política.105 A terceira vertente.e das identidades políticas coletivas que as sintetizavam . cit. Para Pereira Rebouças. op. e Inácio A. ameaçando tanto interesses mercantis ancorados na velha ordem. como um sans-culotte por Francisco de Sierra y Mariscai (op. mas que naqueles anos de 1820 inclinavam-se a apoiar uma proposta monarquista constitucional. Recordações biográficas do coronel João Ladislau de Figueiredo e Mello (Salvador: Tip. tratou-se de uma experiência ímpar na América portuguesa. via na restauração da combalida unidade do império.. vinha explodindo em iniciativas isoladas. entre outros. num cenário formado por efêmeros clubs. e o debate político na América fazia eco às suas palavras. na fala dos que estavam empenhados em dar forma ao projeto constitucional. cuja precipitação alijou-os da luta política efetiva. 1821-1822. aqueles a quem caberia a escolha dos deputados representantes da província. ao derrotar o despotismo. Márcia R. alimentando o antagonismo entre trajetórias coletivas contrapostas . n. A nação como artefato: deputados do Brasil nas Cortes portuguesas. via na adesão ao sistema constitucional o caminho para a afirmação da autonomia da província. ainda em 1821. na medida em que foi o seu primeiro processo eleitoral supra-municipal (Thomas Wisiak. assim como fazê-lo quanto às condições de reiteração ampliada da ordem social escravista que esta havia engendrado e dá qual se alimentava. um dos responsáveis pelo início do levante baiano e colega de Cipriano Barata.103 orientava-se pela ruptura total com Portugal. Berbel. indivíduos também oriundos daquela tradição emergente em 1798. boticas. p. para os quais não havia contradição entre nação. em 17 jan. abria as portas para o reencontro da nação consigo mesma. Dela faziam parte representantes da melhor tradição agrária baiana com experiência nas coisas do Estado na esfera local. Mesmo assim. praças e ruas. adros de igrejas. ou seja. 1822] (Salvador: Tip. Barata chegou a ser identificado. enfim.107 A bancada eleita contava com personalidades de considerável peso intelectual e era portadora de múltiplas referências políticas. Dada a sua trajetória radical. Pimenta Peças de um mosaico (ou apontamentos para o estudo da emergência da identidade nacional brasileira) 165 A primeira delas. aí amargavam o cativeiro.164 Istvón Jancsó e João Paulo G. caso de Ferrão Castelo Branco e Pedro Rodrigues Seguindo-se as instruções do decreto de 18 abr. 1822.

131. 1986). em Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Quando de sua chegada a Lisboa.110 Mas o que era isso de Brasil para esses homens? A leitura de suas falas durante os trabalhos da Constituinte permite afirmar que viam no Brasil uma construção política recente. O panfletário da independência (São Paulo: Brasiliense. 1985.108 Tinham em comum sólida formação intelectual. liberais de feição cosmopolita com profundo conhecimento do cenário político europeu. ver Luís Henrique D. o localismo de origem cedia lugar à ampliação de horizontes. de algum tipo de patriotismo a ele referido. Rio de Janeiro. Conforme os trabalhos das cortes confrontassem em termos práticos as especiflcidades americana e européia na busca de claras definições constitucionais (com a evidente referência aos concomitantes sucessos políticos no além-mar).da Uerj. esta que se acha espalhada mais que outra alguma em todo o universo". Tavares. 1822. 1980).166 Istvón Jancsó e João Poulo 6. João VI". sobre Cipriano Barata. 1975). mas essa identidade atribuída e assumida não os vinculava ao Reino do Brasil. [que] são outros tantos reinos que não têm ligação uns com os outros. mais próximos de si que os europeus. op. sabiam ter por tarefa "fazer uma Constituição para a nação portuguesa. o que tendeu a conferir maior concreção à idéia de Brasil. cit.0 1u Para elementos biográficos dos representantes baianos.109 levando às cortes a vontade dos povos de uma das partes de um Brasil entendido. Cipriano Barata. 1822. cit. como Domingos Borges de Barros. T. Em sessão de 3 jul. indicando tão-somente terem sido eleitos no além-mar. Esse deslocamento acelerou-se com a chegada da bancada de São Paulo. entretanto. Sobre Agostinho Gomes. Mas sua percepção quanto a esse ponto sofreu mutações com o correr do tempo. como "verdadeiramente uma continuação de Portugal". cit.113 revelando o desconforto de uma elite ciosa de sua riqueza e poder diante de uma subordinação que jamais foi aceita de bom grado desde a transferência da sede dos vice-reis em 1763. Caio Prado Jr. cf. cf. militar devotado à casa de Bragança com destacado papel na vitória das forças legalistas sobre os revolucionários pernambucanos de 1817. I. uma criação que. As crescentes dificuldades na harmonização dos interesses representados pelas delegações européias e americanas. e José Lino Coutinho. op. Berbel. cit. Jancsó. da França. um agregado de "Províncias 108 109 1. jovem político de discurso radicalizante. fosse pela imprensa local ou por seus pares europeus nas cortes. não conhecem necessidades gerais. membro proeminente do clero local. e Marco Morei.. ver Thomas Wisiak. Ao lado destes estavam Luís Paulino de Oliveira Pinto da França. Cartas baianas. Na verdade. A "conspiração dos alfaiates" (São Paulo: Pioneira. o Brasil era tido por um conjunto disperso. Tavares. vol. ver Antônio d'01iveira P. da perspectiva provincial para outro patamar: o brasileiro. Em sessão de 1« jul. Os deputados baianos (e não somente estes) deram-se conta de que os objetivos que tinham por seus impunham o estabelecimento de alianças com representantes de outras províncias americanas. entendendo por isso "nivelar a antiga Corte do Rio de Janeiro com todas as mais províncias do Brasil". os baianos anteviam na reorganização do Estado português uma oportunidade para a liquidação da supremacia política do Sudeste no espaço político americano. cf. o padre Marcos Antônio de Sousa.. Pimenta Peças de um mosaico (ou apontamentos para o estudo da emergência da identidade nacional brasileira) 167 Bandeira.112 Esses deputados. 347. cit. p. Os paulistas vinham munidos de uma proposta política cujos termos contemplavam o geral desejo de união da nação portuguesa (sentimento partilhado por todos). cujo prestígio já se notou com sua indicação para secretário da Junta Provisional de Governo que deu uma primeira forma à nova ordem política em fevereiro de 1821.. nos termos de Luís Paulino. 1821-1824. Mais do que tudo. . tenderam a deslocar o eixo dos posicionamentos da bancada. op. 1822. subordinando entretanto essa união ao respeito à 1. Palavras de Lino Coutinho na sessão de 29 dez. 1821. op. Na Bahia. Wisiak. Palavras de Domingos Borges de Barros na sessão de 25 jul. eram em geral designados como brasileiros em Lisboa. e assim se reconheciam. sem suprimir as diferenças políticas entre seus membros. casos de Agostinho Gomes e Cipriano Barata. o fato de serem naturais da província e de contarem com a confiança de segmentos importantes do eleitorado.111 sem tradição particularmente valorizada a diferenciá-la no interior do Estado português. eles sabiam-se representantes de suas províncias de origem. depositários da tradição revolucionária antiabsolutista que remonta a 1798 e reafirmada em 1817. Isso se deu por etapas. sobre Luís Paulino da França. Luís Henrique D. contra o Império. Evolução política do Brasil e outros estudos. Tratava-se de uma entidade política emergente que ainda não era depositária de adesão emocional. suas pátrias conforme já se mostrou anteriormente. Refletindo o sentimento dos que os elegeram. Subsídios para o estudo dos problemas da opção na independência brasileira (São Paulo/Rio de Janeiro: Nacional/Ed. "liberalmente foi concebido pelo imortal D.2 113 Palavras de Lino Coutinho na sessão de 6 mar. cada uma [governando-se] por leis particulares de municipalidade". T. 1822.. nas palavras de Lino Coutinho. Cipriano Barata de Almeida. História da sedição intentada na Bahia em 1798. Wisiak. cit. e os mais que representavam províncias americanas.

"América Latina colonial" (São Paulo/Brasília: Edusp/Funag.d. 118 Cf. comunicação apresentada no IV Congresso de História da Bahia.450 para o ano de 1821.168 István Jancsó e Joõo Paulo G. em José Mattoso (dir. (Lisboa: Estampa. V.6 Ibid.118 O escravismo não chegou a tornar-se objeto de deliberação substantiva das cortes. apud Hendrik Kraay.389) de escravos. 1963). A leitura das "Lembranças e apontamentos do Governo Provisório para os senhores deputados da Província de São Paulo"114 revela com perfeita nitidez que seus autores reconheciam no escravismo o núcleo forte das diferenças entre americanos e peninsulares. como de resto por toda a América. a 1° out. " Carta de Felisberto Caldeira Brant ao conde de Palmela (21 dez.). Não se tratava. J. cit. ver. cit. segundo os autores do documento. cit. excetuando-se índios) ser superior à de Portugal (em torno de 3. 338. caberia aos deputados paulistas evitar que "a diversidade de costumes [. e sabe Deus que caráter desenvolverá ela em um país de tantos negros e mulatos!". e pessoas umas livres e outras escravas". s. mas depois da revolução tudo parece necessidade. 1999. 98 A esse respeito é útil a leitura de Antônio P.120 e o Idade d'Ouro do Brasil sinalizava nela reconhecer previsível fator de discórdia ou. em fins de 1820 o comandante da guarnição da capitania.. no limite. De fato.7 Estimativas demográficas para o ano de 1819 apontam que não obstante a população total do Brasil (em torno de 3. Pimenta Peças de um mosaico (ou apontamentos para o estudo da emergência da identidade nacional brasileira) 169 especificidade das condições reais de existência das elites americanas. aquele possuía a alta porcentagem de 30% (ou seja. com o que estabeleciam o poderoso nexo que conferia unidade ao Reino do Brasil. o que certamente se faria já que. os de Portugal por Rui Cascão. 1821. e Silva. já que fundamentava o princípio da diversidade que este Estado deveria abrigar.. História de Portugal. e tinham nesta a questão em relação à qual não havia o que transigir em Lisboa. p. "os Deputados das Cortes são porventura nécios para não terem em vista providências que tal artigo exige?". Antes mesmo da adesão da província à nova ordem. 425. Edgard de Cerqueira Falcão (org.5 Ibid.119 Com o avançar dos acontecimentos. em J. de João José Reis. Obras científicas. argüindo professarem alguns na província a idéia de que "a raça africana torna perigosa a Constituição". vol. p. p. vol. políticas e sociais de José Bonifácio de Andrada e Silva (Santos. 93-102. pp. aflorou pela via da crítica retórica aos excessos das práticas escravistas. em Leslie Bethell (org. pp. "A população do Brasil colonial". o debate político era inevitavelmente permeado por esta variável fundamental da realidade. temendo as indecisões da corte do Rio de Janeiro. de C.596. op. op. tanto no que significava em si mesma (relações escravistas). marechal Felisberto Caldeira Brant Pontes. 1807-1890". diferenciando-o nos seus fundamentos sociais se confrontado com o Reino de Portugal. quanto no que remetia para a dela derivada diversidade racial da população.. p.. sugeriu que aí se tomassem iniciativas no rumo de necessárias mudanças pois "qualquer favor concedido antes da revolução será recebido com entusiasmo. entretanto. em Inácio A. "O jogo duro do Dois de Julho: o 'Partido Negro' na independência da Bahia". 1823-1838. a Junta de São Paulo eliminava qualquer hipótese de alteração no status quo escravista ao localizar na eventualidade de uma precipitada extensão de atributos civis aos "miseráveis escravos" a perspectiva de virem estes a reclamar "direitos com tumultos e insurreições. excetuando-se as ilhas atlânticas). que podem trazer cenas de sangue e de horrores". Os dados para o Brasil são fornecidos por Maria Luiza Marcílio.117 em evidente contradição com o princípio de cidadania em nome do qual as cortes agiam. Rocha. História da América Latina. A política racial nas forças armadas.. Para melhor visão dessa questão. O argumento esgrimido para sustentar a legitimidade da reivindicação era familiar a todos: o risco da ruptura da ordem social. 1. de buscar a reorganização política de partes iguais (as várias províncias representadas).121 1 1 4 ' Ver Edgard de Cerqueira Falcão (org. mas o documento dos paulistas deslocou-o para a centro da proposta de organização do Estado português que traziam. em março de 1821 a Junta de Governo qualificou "a escravidão doméstica dos naturais da África" como "cancro". II. "Demografia e sociedade".).). De fato. 1820). p. op.. Não estava. 96 1. 1999). 1.026.). no simples trato do escravismo a inovação que veio de São Paulo.116 Que essa circunstância colidisse com os princípios em nome dos quais a regenedora revolução da nação portuguesa se fazia. de ameaça à boa ordem. Reis e Eduardo Silva .] e das circunstâncias estatísticas"115 fosse ignorada quando das definições constitucionais respeitantes à igualdade dos direitos civis e políticos. vol. perguntou-se o articulista. mas sim de buscar a unidade entre duas formações sociais distintas na sua base. 120 O termo encontra-se na "Reclamação da Junta da Bahia aos Habitantes da Província".). "O liberalismo. Também na Bahia. 284-5.132. II. Salvador. 98 1. eufemismo desfeito com meridiana precisão com a afirmação de que esta "diversidade de circunstâncias" advinha de ser "composta [a população] no Brasil de classes de diversas cores. 27 set. e todos os bons se deitarão nos braços de Sua Majestade.107. sem tornar-se impedimento para a reivindicação de paridade nos órgãos decisórios que regeriam os destinos da nação. 12 > Número 47 de 23 mar. ainda que relativizando a importância política do problema ao remetê-lo à pauta das definições normativas.

1822. publicadas em Luís H. numa escala mais ampla. como de resto todos os portugueses da América e. e desgraçados daqueles que tentarem contra a sua categoria e grandeza. A independência do Brasil na Bahia. ver M. mas principalmente como diferencial a forjar identidades políticas distintas e incompatíveis entre si. Negociação e conflito: a resistência negra no Brasil escravista (São Paulo: Cia. o Pacífico Oriental de Montevideo (POM). é poderosamente ilustrativa desse jogo de espelhos. quando de sua chegada a Lisboa. op. as exigências dessa reiteração. Campagna Caballero. D. "às avessas". É evidente que o correr dos acontecimentos políticos no alémmar. cf.122 revelando admitir que o reino americano era dotado de um centro de gravidade próprio. quando das sessões das cortes dedicadas ao debate da extensão dos direitos de cidadania aos libertos. por aqueles que. Sessão de 17 abr. os deputados baianos estavam enredados pelo caráter escravista da elite que representavam. fato gerador de desconforto para alguns. Entre Ia honra y ei desorden. Pimenta Peças de um mosaico (ou apontamentos para o estudo da emergência da identidade nadonal brasileira) 171 A novidade que veio na bagagem da bancada paulista foi a clara exposição de que a forma de organização do Estado português deveria subordinar-se diretamente às condições de reiteração do sistema escravista na América ou. 1822. dentre os quais Lino Coutinho. que "o Brasil é um reino bem como Portugal.. pp. Em um comentário sobre os inconvenientes "que nos resultam de perpetuar o vergonhoso tráfico de nossos irmãos os africanos". Historias de Ia vida privada en ei Uruguay. Pimenta. e cuja supremacia.). 174 e ss. Coube ao próprio Lino Coutinho. que a forma de organização do Estado deveria refletir.74-5. constrangido a proclamar. posto que colocavam sua extinção como garantia da ordem social. emflagrantecontradição com os princípios liberais que referiam a feitura da constituição. o editor lembra o exemplo "sangrento" de Santo Domingo (Haiti) como demonstração dos perigos de se adotar tal tipo de mão-de-obra. e n. A percepção dessa dimensão do problema alterou a prioridade que a bancada baiana atribuía às relações de sua província com o centro articulador do espaço político brasileiro (o Rio de Janeiro). op.124 Os baianos tinham atada à sua imagem a condição escravocrata. os portugueses em geral. Obes redigiu a defesa em forma de um verdadeiro manifesto pela abolição do tráfico (o episódio foi trazido à tona por Anibal Bardos Pinto. Os receios do Pacífico tinham fundamento. a população de Montevidéu contou com um contingente de escravos africanos que beirava a cifra de 30% que. proclamar. esta análise encontrase em João Paulo G. Berbel. pp. é significativo que ao tratar da questão da escravidão africana.123 alimentava poderosamente a sua crescente antagonização com os representantes do reino peninsular. "Historias privadas de Ia esclavitud: un proceso criminal en tiempo de Ia Cisplatina". os mesmos setores da sociedade oriental que apoiavam a incorporação da região ao Brasil como "Província Cisplatina" estavam entre os mais ardorosos defensores do fim da escravidão africana no Prata. cit.). Pimenta. desejara suprimir. A análise do periodismo da região da Banda Oriental do Uruguai. Tavares.. pp.. uma rica senhora montevideana. Assim. sete meses mais tarde. 1822.125 Mas na construção de sua auto-imagem (de liberais) isso era subsumido como conseqüência de "circunstância" derivada 124 125 (orgs. sua demografia histórica urbana. esta situação. portadores de outra identidade de tipo nacional. 122 123 Sessão de 3 jul. São Paulo. que em dezembro do ano anterior forcejava pela supressão da função centralizadora da sede da corte. e sabiam que esta condição projetava sua sombra sobre a identidade da comunidade imaginada à qual pertenciam. independentemente de sua origem. Ainda que isso não fosse dito. dentro do império português (João Paulo G. cit. Pesquisas recentes mostram que entre os anos 1810 e 1823. A população de Montevidéu. Vem daí que. associada com governos "despóticos" e "arbitrários" contrários às idéias de "liberdade" (traduzidos do POM. . pp. que sempre tive horror à escravidão. 1996). os habitantes de suas províncias). ele é indivisível. tampouco inclui-os na "pátria" ou "nação portuguesa". é a mais alta de toda a história da cidade (Ernesto M. 1987. viam na união das províncias americanas a alternativa que se deveria priorizar. a paridade das representações do Brasil e de Portugal nos organismos diretivos do Estado passou a subordinar todos os outros objetivos dos deputados da Bahia. tese de doutorado). Sabiam-no perfeitamente porque assim eram vistos. 16. na prática. n.7 jun. 1780-1870 (Montevidéu: Taurus. Assim. As críticas orientais à escravidão africana no Brasil testemunham. ser "preciso que eu faça um mani- festo neste Congresso.170 Istvón Jancsó e João Paulo 6. A esse respeito. o Pacífico exponha esta diferenciação adquirindo contornos de incompatibilidade e de ameaça ao sucesso da incorporação da Cisplatina com o Brasil. 1822. sinônimos). 245-6). vale destacar que o representante escolhido pela Cisplatina para atuar junto às Cortes da Nação Portuguesa foi Lucas José Obes. colocada não apenas como fator limitador da incorporação. e vem a ser. em José Pedro Barrán/Gerardo Caetano/Teresa Porzecanski (orgs. Por último. mais claramente. 1726-1852. levando-os a reforçar alianças com todos que. das Letras.). Estado e nação na crise dos impérios ibéricos no Prata. 1989). à época integrada como Província Cisplatina ao Reino do Brasil. do que mantinham-se informados. desmembrando suas províncias para [aniquilá-lo]". Departamento de História/USP. 5 abr. que são sempre referidas a terceiros (os habitantes do Brasil. com crescente intensidade. periódico de Montevidéu que veio à luz em dezembro de 1821 com a tarefa principal de defender as vantagens proporcionadas pela proteção oferecida pelo império português (liberdade política e segurança na atividade comercial que encontrava-se debilitada na região desde 1810: a desejada boa ordem) em nenhum momento equipara os "orientais" a "portugueses americanos" ou "brasileiros" (estes sim. 172-95. nota 117). apesar de ser Brasileiro". advogado que pouco tempo depois se encarregaria da defesa de duas escravas responsáveis pela morte de sua proprietária. cit. e sabiam perfeitamente disso. 25. Nesta ocasião. construíam-na pelo reflexo diferenciado da que tinham por sua naquela que atribuíam aos portugueses. É o que atestam as "Instruções" do governo baiano datadas de março de 1822 recebidas pelos deputados. cit. ainda que correspondesse à média do Brasil (cf. malgrado a desproporção entre o número de cidadãos do reino americano que nas Cortes Constituintes se faziam representar.

indistintamente. No extremo norte. Anarquistas.. José Bonifácio de Andrada e Silva. afirmando reconhecer em todos. Poder-se-iam multiplicar os exemplos. fossem eles "filhos de portugueses. "gente todas nossas [que] são portugueses e cidadãos muito honrados e valorosos". Soam quase patéticas as manifestações. e crioulos. n. eludiram esta questão. na mente de Barata e malgrado sua intenção expressa. da diferença entre os originários da África e os que ele tem por brasileiros. Todos. políticas e sociais de José Bonifácio de Andrada e Silva. no que tange às identidades políticas coletivas. Com a independência do Brasil viam-se. E com o escravismo subsumido pelo seu inverso. e mestiços". Sessão de 13 ago. cit.127 E eis que do discurso libertário emerge. 32. ou de brasileiros. onde. e mesmo todos os crioulos e libertos". cuidemos pois desde já em combinar sabiamente tantos elementos discordes e contrários. perpassam muitas das manifestações políticas da época. que "no meio mesmo do Labirinto de opiniões de Províncias inteiras e Povos. 57. que não sabe fazer distinção de cores. além do que revelam sobre o significado de pátria. demagogos e dissidentes. sem exceção. oferece o elenco da diversidade cromática da sociedade americana formada por "mulatos [. proclamações oficiais ou cartas privadas desenha-se um quadro de amarga perplexidade diante do fracasso das cortes na sua tarefa de consolidar a união da nação portuguesa. Da leitura de jornais. 1979). p. caberia à Constituição reconhecê-los como iguais. 7 set. 1822. 126. O Paraense. em E. ainda não apareceu uma que encaminhasse a quebrar a indivisibilidade da união da Monarquia. II. não se deve esquecer que os manifestos de Falmouth. porventura sinceras em alguns casos individuais. j . das Letras. ver o estudo introdutório em Miriam Dolhnikoff (org. que se não esfarele ao pequeno toque de qualquer nova convulsão política.128 Barata chegou a atracar-se fisicamente. "Representação à Assembléia Geral Constituinte e Legislativa do Império do Brasil sobre a escravatura". Projetos para o Brasil (São Paulo: Cia. e em amalgamar tantos metais diversos. Cipriano Barata. os índios. e todos eles revelariam a onipresença do escravismo como variável a determinar o horizonte mental desses homens. por extensão. igualando-os quanto a esse ponto. das audiências às quais eram dirigidas. Na sua opinião. tido por radical sanscolote126 (sic). eu sei fazer essas distinções. de repúdio às distinções raciais a qualificar homens livres. ademais. senhor de engenho e de muitos escravos com quem. país e nação na construção da identidade política de seus autores e.. nascidos no reino do Brasil. 311-4. entre os dois Reinos Irmãos". pp. Não era simples para as elites luso-americanas despirem-se de algo tão profundamente arraigado como a identidade portuguesa. proclamava. Manuel Emílio Gomes de Carvalho. Luís Paulino Pinto da França. expressão sintética de sua diferença e superioridade diante dos muitos para quem essa condição estava fora do alcance. p.129 perseverando na defesa de uma possibilidade que já estava perdida. 1998). de qualquer cor ou qualidade.. de resto.]. o que não sei fazer é distinção do merecimento quando ele está no branco.). cit. pôde fluir com plena desenvoltura a retórica liberal dos representantes das elites baianas e das de todas as outras partes do Reino do Brasil. Pimenta Peças de um mosaico (ou apontamentos para o estudo da emergência da identidade nadonal brasileira) 173 do que era aceito como inevitável ordem das coisas. de Cerqueira Falcão (org. 181. sobre a qual. desqualificando o problema do escravismo como variável política a ser contemplada pelas cortes. vol. usando argumentos que já se viu serem os do Revérbero Constitucional Fluminense ou do Correio do Rio de Janeiro. a escravidão é tratada novamente por "cancro" (grifos originais). Obras científicas. a profundidade do enraizamento. panfletos. Os deputados brasileiros nas Cortes de Lisboa (Brasília: Senado Federal. para além das diferenças de visão de futuro e da cultura política que professassem.172 Istvén Joncsó e Joõo Paulo G. O Paraense. no negro ou no pardo". Por fim. p. coincidentemente no dia 7 de setembro de 1822. fazendo-o mediante o artifício de tê-lo presente pelo seu contrário: a questão da cidadania.130 129 130 126 127 128 Segundo Francisco de Sierra y Menescal.. por motivo de áspera divergência e para escândalo e escárnio da assembléia. Para uma abordagem atualizada do pensamento político do Andrada. cabras. A imprensa liberal no Pará de 1822. 1822. Saberem-se portugueses constituía o cerne da memória que esclarecia a natureza das relações que mantinham com o restante do corpo social nas suas pátrias particulares. Ele não estava "pelo que disse um ilustre Deputado. publicado por Geraldo Mártires Coelho. Seu colega de bancada. de repente. ainda que ilegítimos. diante de uma tarefa cuja complexidade foi enunciada com desalentada precisão de metalurgista por José Bonifácio de Andrada e Silva: É da maior necessidade ir acabando tanta heterogeneidade física e civil.). op. mamelucos. também manifestou-se na ocasião. para que saia um Todo homogêneo e compacto. aquela massa de gente de outras origens com a qual. ou contra a qual caberia organizar o novo corpo político. cit. documentam sentimentos de frustração e perda que.

por seu turno. debatiam-se com o mesmo paradoxo que paralisara os revolucionários de 1817. E nesse quadro de contradições. Fernando Antônio. São Paulo: Hucitec. D. das Letras. Idéia de revolução no Brasil. MELLO. Cotidiano e vida privada na América portuguesa. Acresce que. . e fazia os maranhenses saberem-se diferentes dos baianos. ver. cujas peças mal se acomodavam no império emergente do rompimento com Portugal. A independência política do Brasil. Caio. 1954. Dublin. locais de reiteração de trajetórias particulares engendradoras dos "Povos" e de suas identidades coletivas.).174 István Jancsó e João Paulo G.). II.. São Paulo: Cortez. 1998. 1500-1800. j . Rio de Janeiro: Toopbooks. O plural do periodista tanto remete a um linguajar ancien regime. é o país. PRADO JR. p. "multiplicando cada vez mais o número de nossos inimigos domésticos. Rio de Janeiro: José Olympio. ed. 1957. e antes disso já se anunciara no 1798 baiano: a impossível equivalência entre corpo social e nação em contexto escravista. 1999. História geral da civilização brasileira. ed. São Paulo: Difel. 6. antes tudo que esperar de alguma revolução como a de S. não parece ser irrelevante destacar que a identidade nacional brasileira emergiu para expressar a adesão a uma nação que deliberadamente rejeitava identificar-se com todo o corpo social do país.3. enorme mosaico de diferenças. Fernando. LIMA. algumas diretamente derivadas da crise que tudo penetrava. Domingos". Laura de (org. São Paulo: Brasiliense. Capistrano de. o texto d'O Paraense é claro: estas são as províncias. 156-7). "Idéias antiescravistas na sociedade escravista brasileira dos princípios do século XIX".. e sua geração. outras resultantes das respostas que os homens produziam para a sua superação. 5. 1789-1801. Carlos Guilherme. João VI no Brasil. cit. ed. São Paulo: Cia. que nada têm que perder. Formação do Brasil contemporâneo. de Antônio Penalves Rocha. HOLANDA. de Oliveira. NOVAIS.\ol. ed. Rio de Janeiro: Briguiet. Portugal e Brasil na crise do antigo sistema colonial. Capítulos de história colonial. Raízes do Brasil. 131 Segundo Bonifácio. desses vis escravos. na mesma "Representação" (op. & NOVAE. quanto das que distinguiam o Pará de Pernambuco ou Minas Gerais da Cisplatina. a partir de então "pátria mãe" e não mais "reino irmão". Rubro veio—o imaginário da restauração pernambucana. Quanto a pátrias.4. 1966. e d São Paulo: Hucitec. quanto demarca a multiplicidade dos âmbitos reais. tanto aquelas às quais se referia José Bonifácio. Evaldo Cabral de. 1985. 24. paper apresentado no X Congresso Internacional sobre a Ilustração. Rio de Janeiro: Toopbooks. MOTA. rompida a "indivisibilidade da união da Monarquia". M. da difícil "amalgamação" das diferenças. "A dissolução da herança colonial". 1777-1808. e dotou-se para tanto de um Estado para manter sob controle o inimigo interno. 1989. Pimenta Peças de um mosaico (ou apontamentos para o estudo da emergência da identidade nacional brasileira) 175 Os termos enunciados pelo Andrada revelam que este. 1997. 1997. Sérgio Buarque de. Sobre o antiescravismo do Andrada. conceitos distintos mas reciprocamente referidos. mudança de significado que estabeleceu a precisa alteridade na qual pôde se refletir a identidade nacional brasileira. 1992. alteraram-se os significados de pátria e país.131 Bibliografia selecionada ABREU. concretos. MELLO E SOUZA. O Brasil. em (org. 1996.

Por que o Brasil foi diferente? 0 contexto da independência Kenneth Maxwell I I Li I .

até 1825. Portugal e Brasil faziam parte formal e institucional de um "Reino Unido". a invasão de Portugal pelo general Junot obriga a corte portuguesa a buscar refugio no Brasil . os eventos que se desenrolaram nos dois lados do Atlântico estavam intimamente vinculados e não podem ser explicados sem se compreender o que os conectava. Menos atenção ainda tem sido devotada ao estudo sobre o impacto que a descolonização do vasto império português na América do Sul teve sobre a própria metrópole. surpreendentemente. no fim de 1807. analisarei a história * Tradução de Adriana Lopez. examinarei alguns problemas teóricos e práticos a respeito do estudo da independência do Brasil. Para finalizar. ainda que rudimentar. em segundo lugar. delinearei alguns aspectos-chave do contexto internacional no qual se desenrolou a independência. e historiadores brasileiros freqüentemente ignoram a importante dimensão transatlântica dos conflitos políticos internos e das limitações econômicas do Brasil. Apesar disso. A interpretação dos problemas políticos e econômicos do Brasil e de Portugal foi extensa. e assim continuou até pelo menos meados do século XIX.a* -L ^1 a última metade do século XX. . Em primeiro lugar.quando. entre 1815el821. A história do período que transcorre das Guerras Napoleônicas . de forma preliminar. De fato. dar uma nova visão do movimento de independência do Brasil no contexto comparativo atlântico. em terceiro. Meu objetivo é. quando Portugal e as grandes potências européias reconhecem a independência do Brasil se ressente da falta de um esboço interpretativo. Historiadores portugueses ainda por vezes escrevem como se o Brasil nunca tivesse sido uma colônia de Portugal. o processo de "descolonização". poucos trabalhos acadêmicos a respeito da independência do Brasil. publicaram-se.

a reconciliação (ou pelo menos uma aceitação formal do pedido de separação). Menciono isto apenas para indicar o quanto nossa visão sobre a independência e a descolonização pode ser subjetiva. entretanto. sobre outras sociedades mais antigas do Oriente Médio até a China. que geralmente significa a assinatura de um tratado internacional com a ex-metrópole. como criar bancos e como impor tarifas ou negociar tratados comerciais e como criar uma moeda factível. consideramos um movimento de independência como uma "coisa ruim". não depende apenas de fatores internos: o reconhecimento do novo status de nação pelas outras nações é essencial. estamos pensando na emancipação política do status de colônia. da reação sobre o liberalismo. Preliminarmente. assim como questões que envolvem a política das grandes potências. onde as populações. portanto. Se " considerarmos que as nações independentes da América Latina emergiram " após três séculos de dominação ibérica. mais permanente do que foi o impacto dos europeus que se impuseram. como inevitáveis. Apesar disso. esperamos ver a derrota do despotismo e a emergência de algum tipo de fórmula institucional que expresse a vontade popular. como uma regressão. Apesar disso. assim como o é. também se pressupõe que ocorreu uma certa democratização da política interna ou. A nova nação também deve cumprir com obrigações no plano internacional: contrair empréstimos. e em marcos constitucionais. realizar e financiar transações comerciais. idéias e ações. a sua liberalização. portanto. organizar a vida econômica e financeira. Da mesma forma do que em outros momentos na vida da história de uma nação. essencial para garantir a legitimidade de qualquer Estado novo. eventualmente. Questões geopolíticas surgem. da "escravidão" sobre a "liberdade". O Brasil tinha. O impacto provocado pela Espanha e Portugal nas Américas v havia sido muito mais profundo e. e. vale notar. mas assistindo à transformação dessas idéias em estratagemas institucionais e sociais. um triunfo do "despotismo" sobre a "liberdade". africanos e asiáticos alcançaram a independência formal negociando a retirada ou tomando em armas e expulsando um punhado de soldados. no ano 2000 sua experiência enquanto nação independente da dominação formal européia ainda será mais curta do que o período em que esteve sob dominação colonial. a persistência da herança colonial se tornou uma questão premente. da oligarquia sobre a democracia. no momento de sua independência de Portugal. a disposição destas em intervir ou não. ao menos. conforme a situação. Essas decisões podem envolver questões profundas que dizem respeito a vários aspectos da vida nacional: a organização das esferas social e econômica. ^ O Brasil. eventualmente pagar indenizações ou assumir o compromisso de quitar débitos coloniais. por exemplo. evidentemente. É claro que a natureza explícita da multiplicidade de problemas e decisões a serem tomadas transforma tais momentos em temas fasci- nantes para a investigação histórica. não estava só ao enfrentar esse dilema. as religiões. vista a partir das grandes continuidades entre os períodos colonial e nacional reivindicados pela atual literatura que diz respeito ao Brasil. capatazes e administradores europeus que expulsaram os representantes das coroas de Espanha e Portugal . talvez seja mais importante nesse momento do que em qualquer outra época da história de uma nação. A legitimidade. capatazes e administradores brancos. temporariamente. assim como de fato foram feitas na época. Temos a tendência de pressupor que todas essas mudanças ocorrem para o melhor. questões de organização. no caso da independência do Brasil. Na Améri-y ca Latina foram precisamente os soldados. particularmente onde não havia uma grande população de colonos brancos para complicar a transição. por exemplo. A constelação das forças externas. Depois da Segunda Guerra Mundial. todas essas acusações podem ser imputadas ao novo regime. de um regime "imposto" sobre um regime "representativo". desta forma. a "persistência colonial" das nações da América \ Latina era diferente daquela herdada pelos Estados pós-coloniais que emergiram dos impérios europeus na Ásia e na África a partir de meados do século XX. e das grandes descontinuidades que dizem respeito a Portugal. não estamos especulando a respeito das conexões entre percepções. i Iniciaremos o estudo do estabelecimento de novas nações a partir de velhos impérios com uma certa expectativa e algumas pressuposições. as estruturas sociais e os padrões de comportamento nunca foram desenraizados ou destruídos da maneira catastrófica como foram nas antigas civilizações da América pré-colombiana. decisões fundamentais de natureza fundadora se fazem necessárias no momento da independência.180 Kenneth Maxwell Por que o Brasil foi diferente? 0 contexto da independência 181 social e econômica da independência do Brasil. desta vez. 322 anos de existência. questões institucionais a respeito das estruturas constitucionais. Raramente.

os interesses britânicos em Portugal e no Brasil não eram. Mas a teoria da dependência tende a homogeneizar a experiência da América Latina num modelo explicativo mundial. bastante enamorados dessa construção teórica e desempenharam um papel importante em sua evolução. de fato. de fato. o Brasil era. Até 1818. Por outro lado. A profundidade extraordinária do impacto da colonização espanhola e portuguesa no hemisfério ocidental foi de tal ordem que o processo Yde construção nacional se tornou um assunto intrinsecamente incestuoso. esse grupo recebia do Nordeste do Brasil uma grande porcentagem da matéria-prima utilizada em suas manufaturas. depois da fuga de Lisboa. Apesar disso. africana ou nativa tornou-se de tal maneira miscigenada que não pôde ser outra vez segregada facilmente. muitos competidores europeus. Os interesses da indústria têxtil de algodão na Grã Bretanha e seus apologistas certamente acreditavam que suas vantagens relativas permitiriam que seus produtos rompessem as barreiras tarifárias mercantilistas dos países ibéricos. com efeito. tinham interesse no livre comércio. não sobrevalorizar o poder das forças puramente econômicas ou estimar em demasia a inevitabilidade dessas mudanças mais amplas. em franca expansão. A abertura dos portos \do Brasil. Nesse sentido. Eles não tinham nenhum interesse em perpetuar a dominação política e econômica de Portugal sobre o Brasil. e as conseqüentes mudanças que essa passagem ocasionou no sistema econômico internacional. Dois anos depois da abertura dos portos. que se desenvolveram a partir do final do século XVIII. essa abordagem freqüentemente tem negado autonomia às forças sociais e econômicas em jogo nas chamadas regiões "periféricas". A América Latina não pode ser compreendida em sua totalidade se enxergada apenas pela ótica do contexto das nações do 'Terceiro Mundo" que passaram a existir a partir do colapso dos impérios coloniais francês. Em tais circunstâncias favoráveis. um "Novo Mundo nos trópicos". Tanto a professora Emflia Viotti da Costa como Fernando Novais. é claro. foi essencialmente pragmática e se tornou inevitável a partir do momento em que a França mostrou determinação em incorporar os portos de Portugal ao bloqueio continental contra a Grã Bretanha. britânico e holandês entre 1945 e 1965. li Na década de 1820. portanto. Tal quadro criou uma enorme empecilho no caso da América Latina colonial. monolíticos. ficaram temporariamente fora da jogada. desincentivava a investigação do processo. O Tratado Anglo-Brasileiro . onde a maioria da população era formada por escravos e não por consumidores livres. dois lobbies ou grupos de interesses distintos mantinham relações econômicas com Portugal no século que antecede a independência do Brasil: os comerciantes importadores de vinhos e os exportadores de produtos têxteis de lã tinham forte interesse em manter o velho regime de tarifas que os favoreciam e tendiam a privilegiar seus direitos extraterritoriais em Portugal. A teoria da dependência sublimava qualquer investigação a respeito de como a preeminência européia havia sido alcançada e limitava as explicações sobre as grandes mudanças de sistemas (o fim do feudalismo. Estudiosos brasileiros estavam. o surgimento do capitalismo e assim por diante) à dinâmica interna das sociedades européias. foi a primeira ação adotada pela recém-chegada corte portuguesa. No que diz respeito aos interesses dos comerciantes britânicos no Brasil. cujo controle havia sido desde o começo dos tempos modernos um componente essencial na construção de uma ordem de dominação mundial européia. que beneficiavam seus empreendimentos desde meados do século XVII. situavam a emergência do Brasil enquanto nação independente dentro do contexto da passagem do capitalismo mercantil para o capitalismo industrial na Europa. mas também pressionaram para que essas barreiras fossem removidas por meio da intervenção governamental. uma sociedade de colonos que se implantou no Novo Mundo e onde a população . por exem- pio. em 1808.182 Kenneth Maxwell Por que o Brasil foi diferente? 0 contexto do independência 183 e a uma só vez usurparam a soberania de uma grande massa de população indígena e de escravos africanos.fosse ela européia. as causas e a dinâmica da mudança. os agressivos manufatureiros de tecidos de algodão de Lancashire. o Brasil negociava seu relacionamento com o mundo externo dentro das pesadas limitações impostas pela história. Até recentemente. a interpretação desse período crítico tem sido fortemente influenciada pela teoria da dependência. os comerciantes britânicos rapidamente saturaram os mercados consumidores do Brasil. Embora essa ação tivesse como base motivações ideológicas. entre os quais os próprios franceses. É importante. não é de surpreender que os britânicos reivindicassem privilégios especiais. como disse uma vez Gilberto Freire. pela geografia e por sua experiência colonial. Acima de tudo. Sob forte influência dos movimentos de descolonização da África e da Ásia do século XX.

ao mesmo tempo. e ao criar. Aqui. apareceram em 1811 e 1812 no Rio de Janeiro e na Bahia. datados de 1810. como que para recordar aos britânicos (e para relembrar aos brasileiros. a resistência aos argumentos antiescravistas no Brasil foi provavelmente mais fraca durante o período da independência do que em qualquer outro momento. Foram também os comerciantes de Nova York. respectivamente. De fato. Obras científicas. E não eram apenas os comerciantes do Rio de Janeiro e da Bahia que financiavam o tráfico ilegal de escravos ou o comércio legal de algodão. aos brasileiros em seu manifesto a favor da abolição da escravidão e de suas propostas de reforma agrária em 1822: "A experiência e a razão demonstram què a riqueza reina onde há liberdade e justiça e não onde há cativos e corrupção". Sidney Minz tem argumentado que a revolução industrial na Inglaterra. Isso foi.184 Kenneth Maxwell Por que o Brasil foi diferente? 0 contexto da independência 185 de 1810 impunha. logo no início da independência nacional. . Londres e Liverpool. mais tarde. o que o levou a fazer um apelo corajoso. É irônico notar que a primeira e a segunda edição da Riqueza das nações. ao criar um vasto mercado consumidor urbano para produtos tais como o café e o açúcar. quando advertia seus contemporâneos. o que José Bonifácio de Andrada e Silva havia antevisto. mas em vão. < A pressão comercial britânica foi também algumas vezes contraproducente no que concerne aos interesses políticos de mais longo alcance. com certeza) que as potências hegemônicas nem sempre praticam aquilo que apregoam. restringiam o ritmo do crescimento no resto da economia. uma enorme demanda de suprimentos de algodão cru para abastecer os teares da velha e da nova Inglaterra. no Brasil. diplomáticas efilantrópicasda Grã Bretanha. de Adam Smith. café e açúcar. à diplomacia da Armada britânica. \ publicadas no Brasil. não cresceremos". completando: "Se este mal persiste. intrínsecas ao trabalho escravo. e a ambigüidade da passagem do Brasil de colônia para nação independente é melhor exemplificada na enigmática pessoa de d. antes ou depois. Pedro e dos abortados planos de 1 José Bonifácio de Andrada e Silva. durante mais de quarenta anos. onde as baixas rendas e a demanda inelástica. pp. 3 vols. A expansão do mercado consumidor de café na Europa e na América do Norte teve como conseqüência uma retomada intensiva do tráfico de escravos para o Rio de Janeiro e a expansão do trabalho escravo no Vale do Paraíba e em São Paulo. O preço pelo reconhecimento da independência em 1825 foi esse. coligidos e reproduzidos por Edgard de Cerqueira Falcão (Santos. ^Ironicamente. uma região crítica em termos de oposição política organizada contra Lisboa na década de 1820. Na década de 182130. tarifas mais altas aos portugueses do que aos próprios britânicos. sentava um severo golpe às já frágeis chances de reconciliar Portugal com o Brasil e seu novo status enquanto sede da monarquia. as exportações de café totalizavam apenas 19% do total exportado pelo Brasil.1 III O quadro político e institucional da independência do Brasil não é menos conturbado e contraditório do que foi a transição econômica. sucumbindo a um relacionamento neocolonial com a maior potência industrial da época. políticas e sociais. Apesar dos compromissos assumidos em tratados firmados entre o Brasil e a Grã Bretanha para abolir o tráfico. essa participação chegou a 63% do total. especialmente em São Paulo. o peso da economia britânica se opunha freqüentemente aos propósitos das iniciativas políticas. na medida em que estes se chocavam de frente com interesses fortemente consolidados no Brasil.. uma imposição que discriminava a "mãe pátria" e repre-. a potência naval e econômica dominante. especialmente no que diz respeito ao relacionamento com a Grã Bretanha. na primeira metade do século XIX. Portugal e. que dependiam do trabalho escravo. Esse foi o caso da questão do tráfico de escravos. o Brasil. No Sul do país. mas nas duas décadas seguintes. argumentava José Bonifácio. assim como em meados do século XVII. 1965). Nathaniel Leff argumenta que o motivo principal das baixas taxas de crescimento econômico do Brasil durante o século XIX era o setor agrícola. a produção de café em larga escala só se desenvolveu depois que a independência foi alcançada. precisamente. mais uma vez. a influência dos proprietários de terras e os interesses dos traficantes no Brasil eram suficientemente fortes para resistir. se viram obrigados a equilibrar a necessidade de autonomia e a necessidade de apoio político e militar. e assim sacrificar suas perspectivas econômicas. e nos estados do nordeste da América do Norte ajudou a reavivar o escravismo nas Américas. 115-58. sobre os efeitos negativos de longo prazo que o fracasso em lidar com a questão da escravidão e da reforma agrária traria para o futuro do Brasil.

gritou "Independência ou morte". \> Ele era um rei demasiado "liberal" para os padrões da Santa Aliança na Europa. África e Ásia voltavam o olhar em busca de liderança. uma grande preocupação na Europa. enquanto desempenhava o papel de centro do Império Luso-Brasileiro. nas margens do Ipiranga. nos arredores de São Paulo. a mãe pátria numa Dependência de fato. o Brasil era estritamente uma colônia. A preservação da monarquia numa parte da América é objetivo de vital importância para o Velho Mundo. É vital reconhecer. como o eram o México. mas muito "despótico" para muitos brasileiros.que todas as colônias espanholas progrediram apesar da mãe pátria.4 A questão importante a respeito do Brasil é.]. que ele se tornou V econômica e politicamente independente entre 1808 e 1820. no Brasil. para Xtodas as intenções e propósitos. ao invés de dependência colonial. pelos atos políticos do soberano comum de Portugal e Brasil. Webster (org. uma imagem totalmente incompatível com aquela traçada pela historiografia brasileira. Evitar a revolução no Brasil era.. deploráveis em si e causadores da miséria de seus vizinhos. 240-1. o governo de Londres sempre havia. Tornou-se "independente" em 1822 apenas depois do fracasso da experiência de "centro imperial".tinham idéias claras a esse respeito. independente de Portugal. não era certamente a "morte" e. em 1822.). Henry Chamberlain. pp. preocupava-se constantemente que as agitações sob a superfície.] uma chama [. conforme o perfil traçado pela historiografia portuguesa. no prazo de uma década voltou para Portugal para lutar na guerra civil contra seu irmão. 236.. portanto. é o de um defensor do "constitucionalismo". desde 16 de dezembro de 1815o Brasil fazia parte de um reino unido.3X Desde o estabelecimento da corte portuguesa no Rio de Janeiro em 1808. Pedro era. 265-6 . ao qual os súditos da monarquia portuguesa na Europa. Seu papel. de fato. Ibid. que gradualmente exaltaram a condição do Brasil e quase inverteram suas relações com Portugal para transformar. p. 1812-1830: Select Documents from the Foreign Office Archives. durante a residência de Sua Mais Fiel Majestade no Brasil. D. quando escreve para Sir Charles Stuarteml825: Não podemos deixar de lembrar que a diferença entre a relação de Portugal com o Brasil e aquela da Espanha com suas Américas nada mais é do que esta . ou o Peru ou Buenos Aires. o herói que havia emancipado o Brasil de Portugal e o governante temporário que. talvez. 2 vols. primeiro começou uma série de relaxamentos e. Canning enfatiza o contraste entre essas situações.186 Kenneth Maxwell Por que o Brasil foi diferente? 0 contexto da independendo 187 reforma propostos por José Bonifácio. Britain and the Independence ofLatin America. e que pode acabar. depois.. continuidade e integridade territorial do que xde revolução colonial.2 Os grandes aliados europeus de Portugal .] que não será possível controlar.. Essa circunstância pouco comum explica por que em 1820 foi Portugal que declarou sua "independência" do Brasil. tal como temos testemunhado nas colônias da América espanhola em nossa vizinhança. apenas indiretamente. estava exagerando. estabilidade. assegurando assim que sua filha se tornasse a rainha de Portugal.. o Brasil declarou sua "independência" j 2 Charles K. Até o momento da emigração da Família Real para o Brasil. mais evidentes nas ruas e na Assembléia Constituinte no Rio. mas que o Brasil tem sido elevado ao estatuto de reino irmão. em setembro de 1822.. será uma monarquia ou uma república [. portanto. 1938). onde ele foi o governante que rejeitou a constituição e demitiu José Bonifácio e seus irmãos. que no 7 de setembro de 1822. sobretudo para os republicanos de Pernambuco que se insurgiram em duas ocasiões para repudiá-lo. também..tanto a Grã Bretanha como os membros da Santa Aliança . a concessão de privilégios. o secretário de Assuntos Estrangeiros britânico escreveu sucintamente em 1823: A única questão é se o Brasil. líderes da pequena minoria de brasileiros que queriam reformas fundamentais. desde 1808. (Londres/Nova York: Oxford University Press. 3 4 Ibid. e só depois. O que estava em jogo no início da década de 1820 era mais uma questão de monarquia. O Brasil havia sido independente. A partir daquele momento. a "independência". com a destruição do governo imperial e a divisão do país numa variedade de pequenos estados republicanos independentes. vol. I. feito uma clara distinção x entre as circunstâncias do Brasil e aquelas da América espanhola. quando Dom Pedro. a uma só vez.. poderiam acender [. conforme George Canning. A questão. pp. em pé de igualdade com Portugal. herdeiro do trono português. o ministro britânico no Rio de Janeiro em 1824.

aflige profundamente todos aqueles cidadãos que ainda conservam o sentimento de dignidade nacional. O sistema da monarquia centralizada havia estabelecido uma forte presença institucional desde 1808. e o motivo disso é que o movimento a favor da continuidade era mais forte no Brasil do que em Portugal que. em particular. a base social^ predisposta a enfrentar mudanças radicais era mais forte em Portugal. especialmente entre a dos proprietários de terras.. e tenderam a produzir uma maior coalizão dentro da elite. 233. A idéia do status de colônia ao qual Portugal tem sido com efeito reduzido. A justiça é administrada a partir do Brasil para os povos leais da Europa. provavelmente.6 Sr^r^rrzr Souvera. tratando-se do caso do Brasil. O "Manifesto da Nação Portuguesa aos soberanos e povos da Europa". ou ao menos poderiam ser. não aboliram o trabalho escravo em suas próprias colônias até meados da década de 1830. . certamente levantaria problemas fundamentais numa sociedade hierarquizada em termos raciais e sociais. o Brasil apresenta ambigüidades. Henry Chamberlain assim disse a George Canning: Não há dez pessoas em todo o Império que considerem o tráfico um crime. como também se sujeitara a invasões. e em 1817 em Pernambuco. o temor de uma revolução social não foi argumento suficiente para obrigar os poderosos a desafiar seus interesses materiais mais imediatos e a embarcar no caminho da reforma do sistema de produção baseado no trabalho escravo. que foi promulgado pelos rebeldes do Porto em 1820. Mas no Brasil. que apesar de muito falarem. as ameaças à ordem social depois de 1790 ficaram estreitamente associadas ao republicanismo. a resposta às perguntas acima formuladas é. vol. e esse fator foi crítico para determinar o sucesso de d. Webster. cit. na década de 1820. e a "liberdade". e não por rebeldes de algum porto colonial da América.ns aux - **" *'— *•*»» 6 Charles K. uma mera especulação mercantil que deve ter prosseguimento enquanto for vantajosa. ou que o enxerguem sob qualquer outro ponto de vista a não ser aquele do lucro ou do prejuízo. soava como muitas outras declarações de independência dos estados coloniais e continha muitas das mesmas queixas. a força dos interesses dos proprietários de escravos. como os que haviam ocorrido na América do Norte e em boa parte da América espanhola. "não". Mais uma vez. a despeito da eclosão de uma série de revoltas de escravos na Bahia durante esse período.188 Kenneth Maxwell Por que o Brasil foi diferente? 0 contexto da independência 189 de Portugal. à guerra e a um protetorado britânico de fato. op. Em outras palavras. O manifesto do Porto declarava: Os portugueses começam a perder as esperanças para com o único recurso e meio de salvação que lhes foi deixado em meio à ruína que quase consumiu sua querida terra natal.é preciso recordar que o republicanismo havia sido a principal corrente ideológica entre os conspiradores de Minas Gerais em 1788-89. Até os britânicos. havia perdido não só a monarquia. dos alfaiates baianos em 1789. o que implica numa distância de duzentas léguas e excessivo custo e demora [. as perguntas interessantes. Pedro na proteção de seu novo império aos desafios impostos pelos republicanos. é que todos esses movimentos republicanos foram. O problema.. e que haviam rejeitado tanto a monarquia como a dominação européia? Essas perguntas não são apenas teóricas .]5 IV Mas se a revolução "anticolonial" ocorreu no Porto e não no Rio de Janeiro. em 1808. reconheciam. do que no Brasil. Portanto. o sentimento antimonarquista no Brasil era suficientemente forte para provocar um movimento republicano. o medo do contágio da revolta de escravos do Haiti estava sempre presente nas mentes. no Brasil. interpretados como revoltas regionais ^contra a autoridade centralizada e uma ameaça à integridade territorial da América portuguesa. já que uma das reações à ameaça vinda de baixo foi a de se propor a eliminação do trabalho escravo e a substituição deste por trabalhadores livres. Enquanto isso. na perspectiva do Brasil. assim como durante a década de 1820. Aqui. se também chegasse a implicar em "igualdade". são as seguintes: o desejo de independência no Brasil era suficientemente forte para que o desenlace resultasse na independência se as Cortes não tivessem obrigado o rei a voltar para a Europa. I. a única diferença era que esse manifesto fora promulgado por rebeldes de uma cidade na Europa. p..

Aqueles que eram os mais ardorosos defensores do laissezfaire. Aqueles poucos que pregavam a eventual emancipação dos 7 escravos. pouco trabalho fazem. ao enviado britânico Henry Chamberlain em abril de 1823: Estamos totalmente convencidos da inadequação do tráfico de escravos [.] esperamos adotar medidas para atrair imigrantes europeus para cá sem perda de tempo. Outros consideravam a escravidão como essencial à prosperidade do Brasil.. Uns viam a população escrava como o inimigo interno e. Estado.. eram também os que mais se opunham ao tráfico de escravos e à escravidão. 222-3. Poderíamos enfrentar a crise e a oposição daqueles que se dedicam ao tráfico. Rio de Janeiro. argumentava. Os ideólogos do "livre comércio" no Brasil também adotaram essa postura essencialmente racista. a necessidade do fornecimento de braços africanos diminuirá gradativamente. que havia clamado pela abertura dos portos ao príncipe regente e m 1808. a lavoura diminuirá. o celeiro do Brasil. Memória dos benefícios políticos do governo de el-rey nosso senhor d. João VI. mas não podemos. que o progresso de São Paulo se devia "à extraordinária preponderância [lá] da raça branca". para que as lavouras do país possam continuar produzindo. Sabemos que. particularmente no tocante ao controle de preços e à garantia do abastecimento de produtos de subsistência para a população. havia sido... e nossa população não será significativa e. o Brasil deve evitar se tornar uma "Negrolândia". quase sempre eram aqueles que estavam mais comprometidos com o tráfico de escravos e a escravidão. mas porque desejavam eliminar os negros.. Aqueles que apoiavam a interferência do governo. a raça não diminui e declina. questionava.] A segunda consideração diz respeito à conveniência política. se possível fosse. não eram tanto o resultado de sentimentos de ordem "humanitária" ou "filantrópicos". Se a abolição viesse para eles antes que estivessem preparados.] mas devo frisar candidamente que a abolição não pode ser imediata. a estabilidade do governo. sem um grau de risco que nenhum homem em sã consciência possa pensar em correr. portanto.. com o fim do suprimento de negros. quando isso significava a remoção das funções reguladoras do Estado. e eu espero que em alguns poucos anos se coloque um pontofinalno tráfico para sempre [. de uma ponta até a outra. estamos tão profundamente convencidos destas verdades que. mas uma resposta aos problemas postos por uma sociedade em que as principais lideranças intelectuais acreditavam que o equilíbrio racial da população era perigosamente instável. problemas que eram fundamentais para se estabelecer o tipo de sociedade. a outra de ordem política. Para evitar "o horrível espetáculo da catástrofe que reduziu a rainha das Antilhas a uma Madagascar". Aqueles que atacavam o laissezfaire quando este exigia a remoção daquilo que consideravam controles governamentais ajuizados. Tomando como exemplo a Ilha da Madeira. caso contrário. " A melhor área da América será povoada por rebentos da África ou da Europa?". com grande realismo. sistema legal e governo que o Brasil. tal como José da Silva Lisboa e José Bonifácio. mas se torna melhor e mais branca [. aboliríamos a ambos. enquanto isso persistir e o estado de escravidão tiver continuidade no país.. O Rio Grande do Sul. contudo. na medida em que afeta a popularidade e. talvez até.. 1818. e m 1818. Assim que estes começarem a produzir esse efeito. 8 A questão da escravidão levantava assim problemas fundamentais sobre qual seria o caminho desejável para o desenvolvimento do Brasil. José da Silva Lisboa. causando grandes transtornos [.. todo o país entraria em convulsão. e não há como calcular as conseqüências para o governo ou para o próprio país. tentar no momento presente propor uma medida que iria indispor a totalidade da população do interior [. deixo que vossa mercê faça julgamento do efeito que isso teria sobre essa classe de gente desinformada e pouco ilustrada. tal como José Bonifácio. Era u m a questão que dividia os homens "esclarecidos". colonizado "pela raça portuguesa.] A quase totalidade de nossa agricultura é feita por negros e escravos. 8 José da Silva Lisboa. a verdadeira e sólida indústria não pode se enraizar. Os brancos. infelizmente.]" Ele desejava ver o câncer da escravidão eliminado desde o rio da Prata até o Amazonas. e não pela população da Etiópia". iria adotar.7 Estas objeções à escravidão. . e eu explicarei as duas principais considerações que nos levam a essa determinação..190 Kennerh Maxwell Por que o Brasil foi diferente? 0 contexto da independência 191 O próprio José Bonifácio descreveu a situação tal como a viu. a prosperidade vigorosa não pode existir. enquanto estado independente. ele garantia que "a experiência tem mostrado que uma vez que se estanca o suprimento de africanos. eram os mais favoráveis ao livre comércio Ibid. na impressão regia. pp. igualmente. o faziam não por causa da humanidade dos escravos. e se os proprietários rurais tivessem seu suprimento de trabalhadores repentinamente cortado.. acreditavam que o Brasil não se desenvolveria sem a criação de uma força de trabalho livre e da europeização ou do branqueamento da população. A primeira se baseia na absoluta necessidade de tomarmos medidas para garantir um aumento da população branca antes da abolição. Uma é de ordem econômica.

como José Bonifácio. Podiam abraçar o liberalismo. colocaria em risco a existência do governo. De fato.] Com relação às Colônias ou à Costa da África. PIAUÍ. (Fundação . nada queremos lá ou em qualquer outra parte. PlAUÍ. se tentarmos fazê-lo repentinamente. a monarquia e a continuidade eram fundamentais.A NA AMÉRICA TROPICAL. nos quadros do sistema atlântico do século XIX . à proteção da propriedade e a garantias de que as dívidas seriam pagas. que criou condições hostis às suas propostas. embora isso não possa ser feito imediatamente.inclusive da abolição da escravidão e do tráfico de escravos . e até que seja feito. SÃO RAIMUNDO NONATO. A TRAÇO DE UMA DAS MUITAS CIVILIZAÇÕES QUE ANTECEDERAM A PRESENÇA EUROPÉ. A própria abolição é uma das principais medidas que desejo apresentar à Assembléia sem falta. traficantes e patriotas brasileiros. longe de concordarem a respeito deste tema central. O Brasil é suficientemente grande e produtivo para nós. PINTURA RUPESTRE. Aqueles que assim fizeram. (Claus C. Intelectuais. MeyerAyba) PINTURA RUPESTRE.. em conversas secretas mantidas com Henry Chamberlain..foi uma dupla vítima. foram logo descartados. SÃO RAIMUNDO NONATO. A escravidão e o capitalismo industrial provaram ser compatíveis. PARQUE NACIONAL SERRA DA Museu do Homem Americano . Desejaria que seus navios de patrulha tomassem todos os navios negreiros que encontrassem no mar. eles são a gangrena de nossa prosperidade. em abril de 1823. mas seu zelo "revolucionário" ficava estritamente limitado a um desejo de acesso aos mercados. detesto o tráfico de escravos. o quanto desejo a sua total cessação. e um dos mais ardorosos defensores de mudanças estruturais .FUMDHAM) CAPIVARA. Os "patriotas" do Brasil eram realistas e não podiam ir além da sua base de apoio social. Não foi apenas o próprio sistema econômico. ele também foi vítima das políticas adotadas pela Grã Bretanha. porque o livre comércio prometia estimular a imigração de europeus e oferecia a possibilidade de uma aliança com a Grã Bretanha contra o tráfico de escravos. estavam amargamente divididos quando se tratava de abolir ou não a escravidão. sinceramente. José Bonifácio de Andrada e Silva. mas isso deve ser bem administrado e não podemos ter pressa [. o centralismo. Nesse contexto. e estamos satisfeitos com o que a Providência nos deu. cuja excessiva pressão ajudou a minar a única administração que tinha um verdadeiro compromisso com o fim da escravidão e do tráfico de escravos. em suma. o quanto acredito ser ele prejudicial ao país. Nesse quadro. de fato. o "patriarca" do movimento da independência. tanto o interno quanto o de dimensão atlântica. As pessoas não estão preparadas para isso.192 Kenneth Maxwell internacional.o capitalismo industrial vicejou graças ao algodão e ao café produzidos por escravos tanto quanto o capitalismo comercial havia vicejado com o açúcar produzido por escravos. José Bonifácio alertou os britânicos a não pressionarem demais ou andarem rápido demais: Você sabe o quanto eu. Não quero mais vê-los.

D.K(rAN'!E(ORft CAÓ pENfiGIRI. NOS ANOS SETENTA DO SÉCULO XX. 1733. DOMINGOS DE VAQUAL PUBLICOU \WA í. SELEMNJSIMAPRO CliíAÓ QUE MANDOU FAZER PARA ESTE FIM D£ .:i. tf RUI <pS QUE FESNAQUElLl' . (Biblioteca Mário de Andrade. NAVEGADOR E AUTOR DE ESMERALDO DE SLTU ORBIS (ESCRITO DE 1505 A 1508). A HIPÓTESE DE DUARTE PACHECO SER O VERDADEIRO "DESCOBRIDOR" DO BRASIL JÁ EM 1498. São Paulo) O HISTORIADOR PORTUGUÊS JOAQUIM BARRADAS DE CARVALHO LEVANTOU. TALHO-DOCE POR LAFITAU. 30MALAÜARNAJNDIA. (Iconographia) PORTO DE LISBOA E A FROTA DAS ÍNDIAS. PARIS. NOBRE PORTUGUÊS.CÀ icosoBrsPom ^ ^ ^ ^ ^ ^ de " O FINO B R A S I L " DUARTE PACHECO PEREIRA (1480-1533). DOIS ANOS ANTES DA EXPEDIÇÃO DE PEDRO ÁLVARES CABRAL. VICEREÍEGOUERNADOR.MANOEL O C N U I O D ZR -:M TRIUNFO AO SEU LADO DI REITO DEBAIXO RO PALIO •:ri HM. (Arquivo C. G. (Iconographia) DUARTE PACHECO PEREIRA. ESPECIALISTA EM QUESTÕES DE GEOGRAFIA E COSMOGRAFIA. J £LLOJ5EU5 RELEUANTEf. O Í R A N D E CAPITÃO GENERAL DA ARMADADE CALE. Mota) .\ cvr. ME S.ESTALEIRO DA RIBEIRA DAS NAUS.ONTINENTEALCANÇÓU NO A>BRAZAO DE ARMAS EME: r íECEO A SINGULARONRADfi ELRE1.

C. Rio de Janeiro) 1550. ILUSTRAÇÃO DO LIVRO DUAS VIAGENS AO BRASIL. 1692. 557. 1647. São Paulo) . TAPEÇARIA GoBELIN. (Iconographia) "Estou chegando eu. BARLEUS.I | COSTUMES DOS ÍNDIOS. DE FRANS POST. DE SUA AUTORIA. (MASP. G. GRAVURA DO LIVRO UNE FÊTE BRÉS1L1ENNE CÉLÉBRÉE À ROUEN EN HOLANDESES E ÍNDIOS ALIADOS. (Biblioteca Nacional. Rio de Janeiro) O ÍNDIO CAÇADOR. PORMENOR DA PRANCHA "PARAHYBA E RIO GRANDE". vossa comida." Hans Staden HANS STADEN. (Biblioteca Nacional. MARBURG.

1821. CONDE DE LINHARES. C. AQUARELA SOBRE PAPEL.RODRIGO DE SOUSA COUTINHO. (MASP. (Col. I I CEGO GUIADO POR UM PRETO. LITOGRAFIA DE CAGGINI. MIGUEL DUTRA. JEAN FERDINAND DENIS. JAMES HENDERSON. São Paulo) Biblioteca Mário de Andrade. LITOGRAFIA AQUARELADA. Pedro Corrêa do Lago) MARQUÊS DE POMBAL. 1846. Rio de Janeiro) PAULISTA E MENDIGO BRASILEIRO. GRAVURA DE LEMAÍTRE. 1 8 4 5 . 1843. São Paulo) . (Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.

JOSÉ CLEMENTE PEREIRA. ou para o despotis mo . (Biblioteca Nacional. MANUEL ANTÔNIO FARINHA E LUÍS PEREIRA NÓBREGA . São Paulo) SESSÃO DO CONSELHO DE 2 DE SETEMBRO DE 1 8 2 2 . À DIREITA. ClPRIANO BARATA. DE OSCAR PEREIRA DA SILVA. São Paulo) CAETANO MIRANDA MONTENEGRO. NESSA REUNIÃO . ou leão tal que. se o soltarmos. (Museu Paulista. mostre-se que ainda temos um cão de fila. "SESSÃO DAS CORTES DE LISBOA". em Projetos porá o Brasil CIPRIANO BARATA DE ALMEIDA.COM _ PARTICIPAÇÃO DA PRINCE- SA LEOPOLDINA. ao Rei e às autoridades constituídas no Brasil. GONÇALVES LEDO.SÃO TOMADAS AS PRIMEIRAS MEDIDAS PARA A PROCLAMAÇÃO DA INDEPENDÊNCIA. porém contra os facciosos rebeldes. sem crédito e sem riqueza? Que resta pois?" José Bonifácio. CIRURGIÃO FORMADO PELA V UNIVERSIDADE DE COIMBRA." Borges Carneiro.errei em querer dar-lhe uma monarquia constitucional. ANTÔNIO CARLOS DISCURSA. VERGUEIRO CONVERSA COM F E I J Ó . Rio de Janeiro) . Rio de Janeiro) JOSÉ BONIFÁCIO POR DEBRET (Biblioteca Mário de Andrade. ÓLEO DE GEORGINA DE ALBUQUERQUE. REVOLUCIONÁRIO BAIANO E \ DEPUTADO Às CORTES DE LISBOA. há-de trazê-los a obedecer às Cortes. Onde está uma aristocracia rica e instruída? Onde está um corpo de magistratura honrado e independente? E que pode um clero imoral e ignorante. JOSÉ BONIFÁCIO. MARTIM FRANCISCO. 22 de maio de 1822 "0 Brasil agora é feito para a democracia. ATRÁS."Mostre-se ao Brasil que não o queremos avassalar como os antigos déspotas. Avulsos. (Museu Histórico Nacional.

1823-1831." Otávio Tarqüínio de Sousa. período de transação. ansiedade do futuro. PROFESSOR E JORNALISTA. C. frustrando os propósitos dos que a queriam levar às últimas conseqüências."E Evaristo apoderou-se da revolução no mesmo dia em que ela triunfou [7 de abril de 1831]. (Biblioteca Mário de Andrade. (Biblioteca Nacional. 1 8 5 9 . São Paulo) . KlDDER. (Biblioteca Mário de Andrade. (Biblioteca Nacional. Rio de Janei "De 1852 até hoje [1855]. LITOGRAFIA DE MARIN LAVIGNE. arrefecimento das paixões. LITOGRAFIA DE SlSSON. Evoristo da Veiga EVARISTO DA VEÍGA. LITOGRAFIA. reação e transação JUSTINIANO JOSÉ DA ROCHA. 1 8 6 6 ." Justiniano José da Rocha. SPIX & MARTIUS. Rio de Janeiro) FESTA DOS COROADOS (DETALHE). quietaçáo no presente. Açõo. São Paulo) PERNAMBUCO. 1 8 4 0 . C. LITOGRAFIA.

"Não seria justo que nos dessem tão bem a liberdade?" 0 escravo crioulo Francisco NEGRO COM FACÃO. LITOGRAFIA DE LUDWIG & BRIGGS. (Biblioteca Nacional. (Iconographia) . Rio de Janeiro) I MARIA RITA MARIGHELLA. 1827. 1838. LITOGRAFIA. JEAN FERDINAND DENIS. LÔWENSTERN. (Biblioteca Nacional. mmmm DESCENDENTE DE HAUSSÁS." Carlos Marighella. Rio de Janeiro) (Biblioteca Nacional. Rio de Janeiro) &S» "Minha ascendência por linha materna procede de negros haussás. VISTA DE SALVADOR. C. LITOGRAFIA DE GEORGE H. Por que resisti à prisão "NEGROS QUE VÃO LEVAR AÇOITES". escravos africanos trazidos do Sudão e afamados na história das sublevações baianas contra os escravistas. BAHIA.

Ó L E O DE P E D R O BRUNO. 1 8 7 0 . N. 4 8 5 . que tem visto o mundo—o execrando Francisco Solano Lopcz.. (Museu da República. SEMANA ILUSTRADA. 2 7 MAR. destruidor de sua própria pátria!.' ' P Á T R I A " . Rio de Janeiro) C H I C O D I A B O atravessando com uma lança o monstro mais bárbaro 6 hediondo. dconographia . Rio de Janeiro) SERTANEJAS DO ARRAIAL DE CANUDOS PRESAS PELO EXÉRCITO.. (Biblioteca Nacional.

entretanto. e só chegou ao fim uma década depois. com a relativa imobilidade administrativa. FRANCISCO IGLÉSIAS. depois. uma vez reunidos os constituintes. surgiram. Os ressentimentos e as dificuldades financeiras e econômicas que levaram à convocação das Cortes em Lisboa. eram uma tentativa de "recolonização" que faria o tempo voltar atrás nos treze anos em que o Rio havia sido a sede do governo. com o JOSÉ HONÓRIO RODRÍGUES TOMA POSSE NA ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS. As Cortes não só obrigaram d. e à formulação da constituição liberal. 222-3. 1970 população que queremos é branca. O período colonial e sua sobrevivência determinam todo o subdesenvolvimento posterior. os industriosos. G. (Arqui C. d. com um clima bom. aqui eles terão fartura. Pedro. eles são os colonos que queremos. devido à perda dos privilégios e monopólios de Portugal no comércio colonial." José Honório Rodrigues.Por que o Brasil foi diferente? 0 contexto da independência 193 "Não houve ruptura do regime colonial. em grande parte. João VI a retornar para Lisboa. portanto. Pedro desafiou as instruções das Cortes para que retornasse à Europa. 1822 e até 1831 são todos momentos importantes na afirmação dessa gradual separação e na definição da nacionalidade. 1969. e espero ver chegar logo da Europa os pobres. vol. que manteve sua continuidade ao longo do caminho. com certeza. uma coisa era evidente: o Brasil não preci-\ sava de Portugal. Os brasileiros viram que as medidas das Cortes de Lisboa. que sobreviveu com o absolutismo do regime imperial. Com esses acontecimentos como pano de fundo.9 Para alimentar esse sistema atlântico e para manter a organização econômica da produção. um longo e cumulativo processo. com a alienação das elites. com a legislação arcaica.. À DIREITA. Primeiro aceitou o título de "Defensor Perpétuo do Brasil" dado pelo Conselho Municipal do Rio de Janeiro no início de 1822 e. A guerra eclodiu com renovado vigor no Sul. d. aqui eles serão felizes. como ainda se puseram a legislar para colocar um fim aos poderes que ele havia cedido a seu filho mais velho. em 7 de setembro de 1822. as medidas das Cortes logo refletiram esses imperativos. Webster. com apoio total dos odiados comerciantes e imigrantes portugueses no Brasil. com a fragilidade da conjuntura e a estabilidade da estrutura. emitiu sua declaração de "independência" nas cercanias de São Paulo. O caminho teve momentos árduos. op. na fronteira da Banda Oriental. depois de longas negociações e da promessa de que o Brasil pagaria a Portugal uma grande indenização. 1816. pp. imutável e incapaz de atender às necessidades nacionais. 1808. A emancipação política do Brasil é. que havia sido deixado no Rio na condição de regente. os desditosos. I. Mota) 9 Charles K. e. . cit. em 1820. O reconhecimento internacional só veio em 1825.

José Luis. Durham: Duke University Press. Lisboa: Banco de Portugal. A Bahia e o extremo norte aderiram depois de bastante atividade militar. 1985. políticas e sociais.1982.). Sweetness and Power: The Place of Sugar in modern History. Londres/Boston: Allen&Unwin. ironicamente. 5 vols. Nathaniel H. 1993. Underdevelopment anddevelopment in Brazil. Lisboa: Estampa. revolução e contra-revolução. Alan M. 1998. 1997. Neill. François-Xavier. 10 vols. Porto: Afrontamento. o país não foi "nacionalizado" até ofimdo curto reinado de d. Londres/Nova York: Oxford University Press. "Economic and Institutional Trajectories in Nineteenth Century Latin America". Lisboa: Estampa.194 Kenneth Maxwell Por que o Brasil foi diferente? 0 contexto da independência 195 estabelecimento. 5 vols. 1790-1830. SILVA. Miriam (org. em terra e no mar. Homens de grossa aventura: acumulação e hierarquia na praça mercantil do Rio de Janeiro. 1812-1830: Select Documentsfrom the Foreign Office Archives. 1994. de Andrée Mansuy Diniz Silva. Charles K. (Vol. LUÍS Reis & ROQUE. 8 vols. Lisboa: Círculo de Leitores. Pedro. José Honório.). WEBSTER. João Luís Ribeiro. em 1831. Rio de Janeiro. Textos políticos. MATOSO. 1975-1976. y ^ Bibliografia selecionada ANNINO. WilliamR. LEFF. Estrutura industrial e mercado colonial: Portugal e Brasü(17801830). Os sentidos do império: questão nacional e questão colonial na crise do antigo regime português. Cambridge: Harvard University/David Rockefeller Center for Latin American Studies. RODRIGUES. 1998. 2 vols. 1925-[1926]. Mercado e privilégios: a indústria portuguesa entre 1750 e 1834. 5. Rio de Janeiro: Francisco Alves. E foi apenas na década de 1840 que as ações do duque de Caxias (um homem que. 1989. LETVA. São Paulo: Companhia das Letras. Nessas circunstâncias. sob o auspício britânico. História dosfundadores do império do Brasil. 1994. (org. 1960. 2 vols. Obras científicas. John & TAYLOR. Zaragoza: IberCaja. não chegou a se realizar e. (Vol. (orgs. no qual os imigrantes europeus e os trabalhadores livres substituiriam os escravos. Rio de Janeiro: José Olympio. Kirti (orgs.). . 1798-1834. 1997-1999. Francisco & CHAUDHURI. José (org. 1997. O modelo alternativo para o desenvolvimento do Brasil. do Estado-tampão independente do Uruguai. Independência. Nova York: PenguinBooks. em COATSWORTH. O liberalismo). Do Brasüpara África. Do ponto de vista administrativo. Projetos para o Brasil. Alexandre. 1938. CounNHO. SOUSA. Britain and the Independence of Latin America. COATSWORTH.). Org. Latin America and the World Economy since 1800. 1922. 5 vols. José Bonifácio de Andrada e. 3 vols. 4. do rico empresário que denunciou a conspiração de Minas às autoridades reais em 1789) colocaram um ponto final nas revoltas separatistas regionais. CARDOSO. O pensamento econômico em Portugal nos finais do século XVIII. Santos: 1965. John H. a monarquia ruiu junto com e l a . João (orgs. MACAULAY. TORGAL.). coligidos e reproduzidas por Edgard de Cerqueira Falcão. . PEDREIRA. 1986. Antônio. DOLHNTKOFF. História de Portugal. De los impérios a Ias naciones: Iberoamérica. Dom Pedro: the Strugglefor Liberty in Brazil and Portugal. o tráfico de escravos perdurou até a metade do século e a escravidão até a década de 1880/E também não é de surpreender que quando a escravidão ruiu. LUÍS Castro & GUERRA. 1808-1930). Nova York: Oxford University Press. MANNING. delineando no Sul umafronteiramenos ambiciosa do que aquela que havia sido pleiteada durante a colônia ou o reino unido. Jorge Miguel Viana. VALENTIM. ARQUIVOS DIPLOMÁTICOS DA INDEPENDÊNCIA. Lisboa: Estampa. BETHENOOURT. Lisboa: Difel. 19-54. pp. era sobrinho. 2 vols. 1993. Dom Rodrigo de Souza. (org. Nuno Luis. 3 vols. econômicos efinanceiros. FRAGOSO. MINTZ. não é de surpreender que qualquer tentativa de alterar a organização econômica do trabalho tenha falhado. 1998. Diplomatic Correspondence ofthe United States Concerningthe Independence ofthe Latín-American Nations. por casamento.). Otávio Tarqüínio de. Pernambuco tentou se emancipar mais uma vez em 1824. 17801808. como conseqüência. MADUREIRA. História da expansão portuguesa.).. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. Sidney W.

mas com prudência. e essa matriz dominante marca a consciência coletiva de cada sociedade.r m Idéias de Brasil: formação e problemas (1817-1850) Carlos Guilherme Mota Deve o Brasil olhar para trás. até o ponto atual de outras nações. para encher o vazio. que tem desde o ponto de que saiu. José Bonifácio Em cada país permanece uma matriz da História. preenchendo a série intermédia com brevidade. k AAarc Ferro * .

. mas já no compasso das revoluções liberais que varreriam o mundo a partir de 1820. dentre elas José Bonifácio e irmãos. mito e realidade (Rio de Janeiro: Paz e Terra. espe. Nações e nacionalismo desde 1780. marcada por avanços e recuos. nas Américas do Norte e do Sul. ver Eric J.«i cialmente o capítulo "A nação como novidade: da revolução ao liberalismo". Desenredando-se das malhas da Santa Aliança. tem início. como Evaristo da Veiga e Bernardo Pereira de Vasconcelos. o Brasil emerge em 1822-1823 como entidade política no cenário internacional.I N. 1 Para a discussão do conceito de nação e nacionalismo. sem ter resolvido. Hobsbawm. ou sequer equacionado. primeira metade do século XIX. Sufocado pelo clima político-ideológico da Restauração antibonapartista. primeiro ilustradas. quando se consolidaram estruturas de dominação da sociedade estamental-escravista e se adaptaram teorias sociais e culturais que embasariam o nascente modelo autocrático-burguês. Programa. os desafios da contemporaneidade se impunham às suas lideranças. Idéias de "Brazil" se adensaram naquele período decisivo compreendido aproximadamente entre 1817 e 1850. plasmam-se novas idéias de Brasil no mundo luso-afro-brasileiro. naqueles anos decisivos. na maré montante da revolução ocidental. de uma identidade propriamente nacional.1 Carregando um passado de três séculos de escravidão e pesada tradição clerical de base jesuítica. e depois revolucionárias liberais. Sem unidade constitucional ou cultural consolidada. com foco na república dos Estados Unidos e em algumas capitais européias. o processo de descolonização no Brasil ganha alento até 1848. 1990). posto que não era uma nação. na Europa. a longa caminhada do novo e malformado país-continente na busca. alguns de seus problemas básicos.

Stein. "entre meio-dia e três horas da tarde tinham afluído ao Campo de Santana cerca de duas mil pessoas. após 1822. "A sociedade escravista no Brasil". A vaga revolucionária liberal de 1820 é o pano de fundo da Independência política de 1822-1823. 1944). quando Pedro I é forçado a abdicar. 94-5 (Coleção História dos Fundadores do Império do Brasil). Evaristo da Veiga (Belo Horizonte/São Paulo: Itatiaia/Edusp. Reis (org. na obra de José Honório Rodrigues. Escravidão e invenção da liberdade. Formação histórica da nacionalidade brasileira (Rio de Janeiro: Leitura. com atuação da imprensa e surgimento de partidos ou facções. Historiografia que se definiria e se adensaria na vertente que vem de Abreu e Lima. de sensibilidade e dominação. prefácio de Carlos G. suas reverberações chegando aos nossos dias. do "viver em colônias". Da consciência amarga. na véspera da abdicação. Ver também de Barbara e Stanley J. 1975) e Circuito fechado (São Paulo: Hucitec. as manifestações envolviam coletividades maiores. o autor de Recopilação de notícias soteropolitanas e brasüicas. 1988). de auto-explicação histórico-geográfico-cultural. Sobre essas "outras" idéias de Brasil. ao assinalar também uma mudança de mentalidade. passou-se nessas partes da América do Sul por experiência histórica de grande profundidade. de Florestan Fernandes. Às cinco esse número dobrara". Colonial Heritage in Latin America (Nova York: Oxford University Press. forjou-se a "nacionalidade" como categoria histórica e. Ver. . 1976). pela Paz e Terra). o leitor poderá encontrar uma vasta gama de informações. uma "sociedade" mais ou menos homogênea. também liberal e nacional. individual. tendo como pilar a idéia de nação. 1991. Ver também a importante coletânea. a das revoluções de 1830. portanto.200 Carlos Guilherme Mota Idéias de Brasil: formação e problemas (1817-1850) 201 Modelo que definiria o padrão civilizatório consolidado ao longo do processo de formação econômico-social e político-cultural que marcaria os dois séculos seguintes. o estudo "O parlamentarismo no Brasil e seu retorno". mais nitidamente.. sobretudo a partir de seu estudo Rebelião escrava no Brasil. a sociedade "brasileira". Em José Honório Rodrigues. No processo. E se desdobrando.). A denominada Revolução da Independência foi o ponto de partida para a construção de um sistema ideológico consistente. M. que se desdobraria. A meu ver. até o manual História do Brasil. Independência: revolução e contra-revolução (Rio de Janeiro: Francisco Alves. completando-se. com seus modos de pensar. no bojo de outra vaga revolucionária internacional. na coletânea Ensaios livres. como ideologia política e cultural. J.4 Naquela encruzilhada histórica. Naquele contexto preciso. 1975). de Otávio Tarqüínio de Sousa em co-autoria com Sérgio Buarque de Holanda. Ou seja. à semelhança de outros Estados nacionais. Apuram-se. alimentada pela elaboração contínua de uma História nacional e. o historiador João José Reis vem oferecendo interpretações inovadoras desde 1982. com prefácios de Gilberto Freire. De fato. publicada postumamente por Leda Boechat Rodrigues (São Paulo: Imaginário. de uma historiografia que a cultivasse. não menos importante. Revolução e contra-revolução da Independência. do modelo político ideal. insurreições. pp. de produções "naturais" e identificadoras da nação emergente. A data da insurreição da tropa (comandada pelos irmãos Lima e Silva) e da manifestação popular no Campo de Santana contra o monarca fora marcada para o dia 6 de abril e. mobilizaram-se cerca de 600 cidadãos armados em 30 de março. dos índios. sintetizando a referida teoria da História do Brasil que tem origem na Independência. emergiram com vigor as temáticas da independência/dependência. modos de ser e tipos de comportamento social e político que passariam a ser progressivamente identificados como "nacionais". Oliveira Lima. mais recentemente. das formas de inserção do Brasil no sistema internacional. descrito na Bahia pelo professor Luís dos Santos Vilhena em 1801. Quando o movimento liberal-nacional de 1831 eclodiu no Rio de Janeiro. J. alcançando o estudo de Nelson Werneck Sodré. o 7 de abril de 1831. 1970). Caio Prado Júnior (sobretudo em suas obras Evolução política do Brasil e Formação do Brasil contemporâneo). e sobretudo após 1831. apropriação e usos do espaço que tipificariam o sistema social específico que se implantou naqueles anos decisivos de formação do Brasil contemporâneo.3 2 3 Para uma compreensão desse processo. estilos de comportamento. é de Manuel de Oliveira Lima. Com efeito. da construção da sociedade civil particularmente no tocante à questão dos escravos. então. algumas matrizes e formas de pensamento. 5 vols. tinha início a História do Brasil. Nação à qual deveria corresponder. do mesmo autor. torna-se uma data revolucionária nessa periodização. As razões da Independência.2 Delinearam-se então. 1988). assim como ideologias e modos de pensar que caracterizariam o perfil dessa entidade político-institucional abstrata denominada "Brasil". ver. especialmente o capítulo V (edição brasileira. golpes e acomodações. a obra que representa a culminância dessa linhagem. Martinenche e José Veríssimo. Estudos sobre o negro no Brasil (São Paulo: Brasiliense/CNPq. Constâncio. Capistrano. formas de sociabilidade. A revolução burguesa no Brasil (Rio de Janeiro: Zahar. pontilhado de conflitos. ao sentimento coletivo de "viver em nação independente". Mota). do contrato 4 Ver a descrição desses acontecimentos em Otávio Tarqüínio de Sousa. especialmente o capítulo 1.

os cidadãos dos Estados Unidos.bem como uma determinada idéia de Brasil . Nada de excessos. n. Como se sabe. Ibid. por tirar todo nervo aos espíritos. 477. incluído em Lourenço Dantas Mota (org. p. As três vagas revolucionárias européias de 1820. da identidade cultural. negociações. Em Nápoles. José Honório e Florestan. além de ensaios. Buarque. de 1830 ("o sol de julho") e de 1848 ("a primavera dos povos") mudariam a fisionomia do mundo. em sua "Representação à Assembléia Geral Constituinte e Legislativa do Império do Brasil sobre a escravatura". e o movimento da "Charbonnerie" se estende a Saumur. conflitos. Ver também as sínteses dos pensamentos de Nabuco. Thouars e Colmar. Alguns princípios que deveriam reger a sociedade nacional a ser construída surgiam explícitos nas mentes das principais lideranças reformistas ou revolucionárias. "Avulsos". se denominava "nação". Faoro. definiria o ponto "ideal" desse processo: Nada de jacobinismo de qualquer cor que seja. do sistema educacional e. aos quais se somam as 6 "A propriedade foi sancionada para o bem de todos". sobrinho do rei. Euclides. Um banquete no trópico (São Paulo: Editora SENAC São Paulo. garantidora da inviável "paz" do Segundo Império e da ordem escravista. outra figura dominante no cenário político e cultural da primeira metade do século XIX. n. e abastardar corações". com a morte do czar Alexandre I. Na vaga liberal de 1820. 1998). n.. organização de Miriam Dolhnikoff (São Paulo: Companhia das Letras. Mas que justiça tem um homem para roubar a liberdade de outro homem. 60. nos embates políticos sobretudo. tratados descritivos e traçados urbanísticos. Belfort. mas por isso mesmo perigoso. os estamentos senhoriais e as classes comerciais. o Brasil integrava-se no concerto das nações. 470. naquela conjuntura. de 9 de dezembro de 1829. e livre [. atemorizada com esses movimentos liberais. é então que seremos livres e dignos de rivalizar com os nossos conterrâneos e primogênitos da liberdade americana. sob o comando de Pepe. Capistrano. As citações de Evaristo acham-se na Aurora Fluminense. Caio. 250.] do dia 7 de abril de 1831 começou a nossa existência nacional. 276. dos filhos deste homem. teve caráter constitucionalista e foi prontamente reprimida por Metternich. A linha está traçada . exílios e sensibilidades desencontradas. "sem muito sangue. a democracia brasileira que se possa estabelecer. é assassinado. citados no presente capítulo. houve tentativa fracassada de se implantar um regime constitucional (insurreição decabrista. ver a síntese de seu pensamento em nosso estudo. o Brasil será dos Brasileiros. Tornar prática a Constituição que existe sobre o papel deve ser 5 Em meio a intensa internacionalização.7 Entretanto.marcadamente conservadores.] os homens sejam colocados dentro do quadro das doutrinas. 208-209. p.. ou governos dos sábios e honrados". enfim. desenharam-se variadas idéias de Brasil. Ver Otávio Tarqüínio de Sousa. sejam exemplos da regra e não a regra deles mesmos. Se José Bonifácio julgava que. cit.6 A revolução e a contra-revolução da Independência. Freire. militares de Cádiz. de acomodação entre as províncias e elites de variada extração. capítulos III. advertia mais adiante o deputado José Bonifácio de Andrada e Silva. obrigando o rei Fernando VII a restabelecer a Constituição de 1812. . Na Espanha. nunca se estabelecerá senão quando passar à aristocracia republicana. o que se consolidou foi um certo tipo de imaginário e de consciência propriamente nacional . Com a descolonização e a Independência. 1999).). sobretudo nos meios universitários. representada por Metternich e o czar. a começar pelo monarquista-constitucional José Bonifácio... de 1823 a 1841 ocorreram várias deportações. crítico do escravismo: A sociedade civil tem por base primeira a justiça. e o que é pior. o movimento carbonário impõe uma constituição. em 1821. organizados para combater os colonos revolucionários da América espanhola. faturas de pagamentos. em Projetos para o Brasil. os "carbonários". logo reprimidos todos pelas forças austríacas. Sobre a questão social. num processo que desembocaria na Conciliação de meados do século. seu antagonista o jornalista Evaristo da Veiga.. em fevereiro de 1820.. "Todo governo em revolução só faz descontentes". confluíram num processo reformista. em Projetos para o Brasil. e dos filhos destes filhos?5 o esforço dos liberais [. a primeira sublevação eclodiu na Alemanha. que o próprio patriarca já criticava: "O despotismo de certo país que conheço é açucarado e mole. se consideradas em seu resultado geral. Também na Rússia. e por fim principal a felicidade dos homens. IV e V. José Bonifácio. aquarelas e sonetos. no Piemonte. Introdução ao Brasil. de 11 de abril de 1831. em julho de 1820. 1825). sublevam-se em janeiro de 1820 sob o comando do tenente-coronel Riego. Na França. obrigaram o rei Ferdinando I a submeter-se a uma Constituição. de 27 de abril de 1831. Antônio Cândido. cit. restabelecendo-se o poder absoluto. respectivamente. que iriam caracterizar as formas de pensamento do que comumente.é a da Constituição. em Evaristo da Veiga. A Europa absolutista do Ancien Regime.202 Carlos Guilherme Moto Idéios de Brasil: formação e problemas (1817-1850) 203 de trabalho e da propriedade -. o duque de Berry. pp.

consolidou-se como eficiente "disfarce para ocultar a metamorfose dos laços de dependência. no plano ideológico.8 Nesses embates entre revolução e restauração. ao contrário. Não procuramos aqui "enunciar uma verdade histórica válida para todos e que seria tão absurda quanto imaginária". corresponderia um conjunto de formulações que poderiam ser enfeixadas sob o rótulo de pensamento "liberal". conceituação dialetizada e aprofundada por outro importante estudioso do período. criaram-se mecanismos e mores que definiriam e encaminhariam no plano propriamente político a longa história de conflitos.defensor da liberdade constitucional. que irão desembocar na "Questão nacional" a partir da segunda metade do século XIX. ou. entende-se por que "esse processo histórico-social que vinculou o destino da nação emergente ao neocolonialismo provocou conseqüências de enorme monta para a estruturação e a evolução do capitalismo dentro do país". desde Joa8 quim Nabuco. que definiu essa fase crucial de nossa história como de revolução e também de contra-revolução. pp.proclamava no seu jornal Cf. A problemática de "nossa identidade". os dois últimos conhecidos como "os nossos ingleses".-B. esboça-se um esforço para reconstruir algumas das determinações desse passado tal como foi vivido e percebido por essa sociedade que começava a se pensar "brasileira". 1970). Discurso que se realimenta de tempos em tempos. 1968). 34-6. e persiste em temáticas e visões ora exóticas e pitorescas. nessa perspectiva. ora alimentando projetos político-econômicos em que "nossa cultura" surge como notavelmente promissora. com a vitória do pensamento conservador. com desdobramentos. Caio Prado Júnior. A herança colonial da América Latina (Rio de Janeiro: Paz e Terra. quando menos. do sistema representativo e da liberdade de imprensa .ou. com uma elite que se educara no fino trato com os interesses europeus aqui implantados. segundo expressão de Stanley e Barbara Stein. Não por acaso o mais fecundo historiador brasileiro do século XX. importa notar que. Quando muito. A essa "estrutura neocolonial de predizíveis e inevitáveis conseqüências sociais". de Siéyès a Chateaubriand e Madame de Staôl. quando mais "avançadas". já na segunda metade do século. perpassando os quase dois séculos de nossa independência política. de suas vertentes ideológicas mais brandas. ora rebrotando em análises que consideram tal formação "tardia" e desatualizada. UEurope de 1815 à nos jours (Paris: PUF. nessa sociedade em que se reforçou o senhoriato escravista e se entranhou a ideologia cultural do escravismo. . Nos quadros desse novo colonialismo criado pelo imperialismo. com a vitória permanente da contra-revolução preventiva e fortalecimento do Estado. como adverte Marc Ferro. em seguida liberal-nacional. Duroselle. J. o resultado foi. o enraizamento histórico-social da doutrina e da ação conservadora da contra-revolução francesa ao longo do século XIX . 1976). 10-4. 114. Em conclusão. Tal nó aperta quando se constata que a idéia de "Brasil contemporâneo" (ou. pp. O liberalismo. O século XIX (1815-1914) (São Paulo: Cultrix. Idéia fundadora ligada à de nacionalidade que remanesce no discurso historiográfico-cultural nascente. a "Idade Moderna do Brasil") cristalizara-se já encravada no sistema mundial de dependências da época. pp. afirmar-se-iam algumas das melhores cabeças do país. 1964). sobretudo os do Período Regencial (1831-1840). Sociedade de classes e subdesenvolvimento (Rio de Janeiro: Zahar. com foco em Paris. Daí entender-se por que um liberal como Evaristo . já com registro jacobino no último quartel do século. Sérgio Corrêa da Costa. 96-7. Rui Barbosa e o senador Sousa Dantas. de "nossa nacionalidade" encontra sua raiz nessa determinada conjuntura histórica internacional e num contexto sociocultural específico. para racionalizar a persistência da escravidão e das formas correlatas de dominação patrimonialista". No ápice desse processo. crê assistir a um "complô jacobino". 1952). a dessa formação histórico-cultural abarcada pela idéia de "Brasil". Pedro I e Metternich (Rio de Janeiro: Editora A Noite. depois liberal. p. a formação dessa idéia de Brasil teve desdobramentos mais complexos.204 Carlos Guilherme Mota Idéias de Brasil: formação e problemas (1817-1850) 205 revoltas nacionais na Grécia e nas colônias ibéricas na América. No plano ideológico. não seria uma idéia fora do lugar. de Benjamin Constant. denominou esse período decisivo como sendo de "Revolução da Independência". na interpretação de Florestan Fernandes. e assim por diante.9 Numa visão de conjunto. nessa perspectiva. José Honório Rodrigues. Reside aí o nó histórico em que se enreda nossa ambígua contemporaneidade. ou melhor. Naquele contexto. enraízam-se os discursos reformista ilustrado. o Brasil nasce alinhado com os movimentos contemporâneos. segundo Florestan Fernandes. Ver também René Rémond. Os estudos clássicos do historiador Jacques Godechot permitem compreender que. Stanley e Barbara Stein. 9 Florestan Fernandes. conciliações e reformas que se prolongariam por todo o século. essa ideologia por assim dizer liberal cumpriria papel importante ao abrandar as relações de dominação do Ancien Regime geradas no período colonial.

206 Carlos Guilherme Moto Idéias de Brasil: formação e problemas (1817-1850) 207 Aurora Fluminense: "Faça-se tudo quanto é preciso. Florestan e mesmo Raymundo Faoro (para citarmos alguns clássicos do pensamento radical no Brasil): "Somos o único caso histórico de uma nacionalidade feita por uma teoria política [. pois nesse momento despontaram historiadores como Solano Constando e Abreu e Lima. No plano político-institucional.. A partir de fora.11 O país tomava forma sob a preeminência inglesa. abrindo um novo período de crítica para a construção da nova História das Mentalidades no Brasil. Fixava-se. Blackstone. obra publicada em 1902. No Rio de Janeiro. no Peru. volta a enternecer a nova historiografia pós-moderna. europeizante e colonialista que a de Martius ou Varnhagen. A força dessa ideologia mobilizadora da improvável "paz do Segundo Império" foi suavizada. por sintetizar todo o século XIX. em 8 volumes. em José Carlos Mariátegui. Ganilh. a retomada do movimento republicanista. de Ricardo. ver Mansa Lajolo e Regina Zilberman. uma consistente idéia de Brasil se consolidara por volta dos anos 1840-50.]". E essa temática torna-se atual nesta passagem de século.10 Em síntese. ao revelar indiretamente as mazelas da república. Após 1822 e a Constituinte. de vez que aquela visão conservadora. esquecida talvez das duras recomendações político-sociais que o pitoresco Bragança escreveu para sua sucessora. sob nova linguagem. Em 1827. Lisboa. ou ainda. mas não apagada completamente. tendo por balizas cronológicas 1808 e 1831. o Diário do Rio de Janeiro anunciava venda de livros em oito lojas. A formação da leitura no Brasil (São Paulo: Ática. com sinais diferentes. o Cours de politique constitutionelle. Sismondi. Manuel Bonfim. o estudo insuplantado de Euclides. nessa vertente e desse modo. com escritório na rua da Alfândega. nos projetos dos teóricos e educadores da Revolução Mexicana de 1910. de Constant. de Capistrano de Abreu a Florestan Fernandes. uma certa ideologia do "caráter nacional" brasileiro. somente alterada com o movimento republicanista. uma outra visão "nacional" da História do Brasil. Racine e Voltaire. à contra-revolução vencedora correspondeu a metodologia da conciliação a partir de meados do século XIX. Foy. a obra de John Armitage. a princesa Isabel. o principal dos quais era Jorge Dodsworth. Curioso tal comentário. 1997). sede da monarquia tropical. além das boas maneiras do imperador-sábio Pedro n. e livros sobre os Estados Unidos e sobre o México. Os sertões. de tudo fica um pouco. além de Constant e Bentham. pode ser considerado o sinalizador de uma nova era nos estudos históricos. ingleses). instalou-se no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. quando se observa que aquela por muitos considerada a primeira história "nacional" tenha sido escrita justamente por ele.condensada nessa síntese antológica constitui a matriz da qual partiriam os estudos posteriores de Caio. o número de leitores aumentou. esposa do conde francês D'Eu. . fundadora do quadro político-ideológico que seria dominante entre 1824 e 1889. A Nova Atlântida de Spix e Martius: natureza e civilização na Viagem pelo Brasil (1817-1820) (São Paulo: Hucitec/ Fapesp. Linhagens de pensamento assemelhadas às que em Cuba desaguariam nas posições de José Marti e. em 1821. Evaristo (pseudônimo arcádico. com a descoberta de um outro Brasil pelo republicanista radical Euclides da Cunha (1866-1909). Havia intensa atividade de leiloeiros (em geral. Para uma visão mais ampla do tema. porém com viva elaboração interna. se instituía e se estabilizava. Alterada. Broussais. Como escrevia ele na introdução de seu livro: "É possível que a história contemporânea possa. menos conservadora. José Honório Rodrigues. a abolição da escravatura. travestida em teoria da História. desde 1831 até 1850. 1 ° Lia-se. Em nossa perspectiva. e várias obras de Bentham. em alguns casos. não por acaso inglês. Apesar de seu tempero comtiano ("o mais robusto pensador do século"). também procedia ao julgamento da monarquia e do legado colonial. por exemplo. em áreas de passado colonial. E também de um certo modo de se contar nossa história. pois na história das formas de pensamento. de poeta aliás medíocre: Alcino) era leitor. pela ideologia regressista de liberais como Bernardo de Vasconcelos ("Fui liberal"). que seria combatida depois pela melhor tradição historiográfíca por assim dizer radical.com sua correspondente periodização . Uma nova edição de À margem da História. a Proclamação da República e a repressão a Canudos encerra-se uma certa visão de Brasil: assiste-se ao tournant decisivo. "Da Independência à República (esboço político)". 1996). entretanto. ser escrita com mais acerto por um estrangeiro". Em 1823. o vencedor da guerra contra o Paraguai. fica muito. abrigou-se nas teorias de Varnhagen e alimentou o substrato ideológico da contra-revolução vencedora. numa visão atualizada e crítica. o conceito de nação. 1 ' O estudo mais recente e crítico sobre essa visão é o de Karen M. Evaristo vendia em sua loja de livros. nas principais cidades do Brasil. Tal idéia conservadora de Brasil. em cujos compêndios se fabricava. Inserido naquele contexto econômico-cultural. Sismondi.. mas evite-se a revolução". correspondente comercial de Hipólito José da Costa. Say. a teoria da História do Brasil . publicado em 1900 e incluído em seu livro À margem da História. que anunciava a chegada de números do Correio Braziliense em navios que vinham de Liverpool. indicava em 1836 o nascimento de uma nação. Com a guerra contra o Paraguai. plasmou-se. ele vendia obras de Say. foi publicada pela Livraria Martins Fontes em 1999 (Coleção Temas Brasileiros). prefaciada por Miguel Reale.

1964). uma certa maneira esteticizada de olhar o mundo social brasileiro. onde já vinham se manifestando sentimentos e propostas de autonomização desde o século anterior. José Clemente Pereira. em especial os estudos de Jacques Godechot sobre a revolução do Ocidente. e de Carlos Guilherme Mota sobre os europeus no Brasil às vésperas da Independência. também no mundo jurídico. 1992). A Aliança inglesa. aventureiros e artistas estrangeiros .15 John Armitage. O conhecido texto de Carl Friedrich Phillip von Martius foi publicado na RHIGB. 13 Cf. seria um designativo desse tipo de comportamento ideológico e político-cultural. The modem world-system III. 290 e 292. Apesar das controvérsias sobre o ritmo do processo de emancipação em curso. n. Pedro Dutra. História do Brasil (São Paulo/Belo Horizonte: Itatiaia/Edusp. se internacionalizando e ocupando lugar de destaque no Atlântico Sul. "notadamente quando se trata do problema das origens". Carlos Guilherme Mota (org. Rio de Janeiro. da corte portuguesa e de numeroso contingente de altos e médios funcionários para o Rio de Janeiro. Alves Branco. Subsídios para seu estudo. estancando-se o lento processo de emancipação que se delineara desde o último quartel do século anterior. de Maria Odila S. tempo do mito e tempo da história. E também Alan Manchester.ejáno contexto da Restauração. 15 Marc Ferro. sobretudo no tocante à abolição da escravatura.dá conta dessa internacionalização que agrava o teor pré-revolucionário de vida e acelera os acontecimentos que abrem a fase brilhante de fundação da História propriamente nacional. prefácio de Miguel Reale. a chegada dos Braganças e sua corte trouxe novos elementos para a discussão dos projetos de emancipação. de Frédéric Mauro. Foi um impacto tremendo. quando se forjam as matrizes de pensamento referidas por Marc Ferro.13 II A nova imagem de Brasil toma vulto e se adensa na confluência de dois processos distintos. espiões. a partir da varanda. ver Immanuel Wallerstein. cientistas (ou naturalistas. de Emília Viotti da Costa sobre José Bonifácio. A manipulação da história no ensino e nos meios de comunicação (São Paulo: Ibrasa. na expressão da época). torna-se imperioso não se confundirem as diferentes temporalidades. em seu imperativo e categórico "Como se deve escrever a história do Brasil". tradução em português. sobretudo. de Fernando Tomaz sobre os brasileiros nas Cortes Constituintes de Lisboa. de afirmação na política européia e mundial e de construção de seu império informal garantiria. de internacionalização abrupta do mundo luso-brasileiro. quando se deu a famosa inversão colonial. de Antônio Carlos de Andrada. A tutela da Inglaterra. Carneiro de Campos e. The secondera ofgreat expansion ofthe capitalistworld-economy. dentre eles Machado e Nabuco. 1989). O primeiro. com reverberações na obra de Gilberto Freire. e o método de se escrever "nossa" história. aliás. No transcorrer desse processo de internacionalização é que se adensa o sentido e se define o momentum de nossa fundação. ao mesmo tempo. comerciantes. 1947). assistira à transmigração da família real. "Dos cursos jurídicos ao Código Comercial. da tradução.com freqüência exercendo combinadamente mais de um desses papéis . invadida por tropas de Napoleão Bonaparte. "Nabuquismo". começavam a avultar as figuras de Cairu. 24.208 Carlos Guilherme Mota Idéias de Brasil: formação e problemas (1817-1850) 209 um inglês. Literatura jurídica no Império (Rio de Janeiro: Topbooks. não somente a preeminência de seus interesses ao longo do período da formação nacional como. a monitoração e auditoria da vigilante e conservadora Santa Aliança nos negócios brasileiros. Dias sobre a interiorização da metrópole. escoltados pela armada inglesa. em que discute a autoria da obra. Entretanto. . definido por um alemão. 2 volumes (Lisboa: Imprensa Nacional. 1983). von Martius. mudou abruptamente de status. 18271850". ver especialmente capítulo V. potência em fase de acelerada revolução industrial. 1972). José Almada. Tais ambigüidades estarão na base da formação de uma certa linhagem de intelectuais prestigiosos e anglicizados.) 1822: Dimensões (São Paulo: Perspectiva. 1730-1840s (Nova York: Academic Press. 14 Para a compreensão do período.14 A Inglaterra exercia assim um duplo papel: era inovadora no tocante a relações de produção (contra o tráfico e o regime escravista) mas. janeiro de 1845. Assim colocado entre dois fogos. 13. dando novo contorno ao Estado e normas à sociedade nacional. funcionava como peça-chave desse braço diplomático da contra-revolução européia. ocorrido a partir de 1807-1808. pp. o Brasil. Com nota de Eugênio Egas. A metrópole portuguesa. e comenta a vida de Armitage. 1981). de Bernardo Pereira de Vasconcelos.12 Nessa altura. sobre a conjuntura atlântica e a Independência. o principal autor do Código Criminal de 1830. A presença de viajantes. a um só tempo antiescravistas e conservadores. nesta caracterização de uma identidade propriamente nacional. após 1815. British Pre-eminence in Brazil (Nova York: Octagon 12 Books.

em 1963. o levante nacionalista de Gomes Freire de Andrade em Portugal naquele ano.17 A descolonização. logo abalado pelos eventos de 1817 na excolônia e na metrópole e já engolfado na crise mundial que conduziu à vaga Revolução de 1820. forjaram-se as matrizes histórico-institucionais e culturais do Brasil contemporâneo. com os desdobramentos no período regencial. que aqui esteve naqueles anos. Pode-se apressar esta revolução determinando os grandes proprietários a educar seus filhos na Europa. Articulações que terão aliás desdobramentos significativos. G.). A luz parece estar reservada às gerações seguintes. bem como a grande insurreição do Nordeste brasileiro. é o de descolonização em que se enredara o Império português.) (o original. Ver pp. no Rio de Janeiro. o ponto de não-retorno e de aceleração do processo de descolonização que conduziu à Independência e à abdicação de Pedro I em 1831. iniciada na última quadra do século anterior. em seu clássico Evolução política do Brasil e outros estudos. . Nesse processo. deixava ele entrever por que estes últimos quase sempre levavam vantagem ao oferecer produtos industrializados e serviços a preço menor.. Com efeito. com o Brasil e o Algarve (1815). banhadas na ideologia da Restauração. apontando caminhos para que "os portugueses que moram no Brasil ousem libertar-se de sua tirania": Talvez os próprios preconceitos dos quais estão imbuídos.. ed. sobretudo os capítulos "Inventário da memória" e "A cultura histórica do nativismo". denominado O estabelecimento dos portugueses no Brasil. a Histoire philosophique et politique des établissements et du commerce des européens dons les deux Indes. tal processo já se vislumbrava na crise abrangente do antigo sistema colonial. ocorreria entretanto no sentido da integração do complexo lusobrasileiro ao novo sistema mundial de dependências: ensaiou-se primeiramente o equilíbrio paritário sob a fórmula de Reino Unido de Portugal. em C. Suas apreensões conservadoras. sugerem a profundidade da crise que antecede e anuncia a revolução liberal de 1820 em Portugal e a independência nacional do Brasil em 1822. em 1933. fazer uso dela ou negligenciá-la [. 1998. s. Brasil em Perspectiva (São Paulo: Difel. Rio de Janeiro: Topboòks. F.. Para o estudo de algumas raízes históricas do nativismo. ex-combatente na Revolução Francesa) são eloqüentes o bastante para sinalizar as articulações atlânticas naquela conjuntura pré-revolucionária. Mota (org.] A história dessa colônia não será mais sua sátira. quando se consolidou o Estado nacional. e que atingiu o mundo luso-brasileiro quando nele ainda tentavam suas elites ilustradas superar o descompasso histórico detectado anteriormente pelo marquês de Pombal. é de 1969). vivia-se.16 Examinado na longa duração. diversamente do peso que comumente se atribui às conjurações do século anterior. Tollenare.210 Carlos Guilherme Mota Idéias de Brasil: formação e problemas (1817-1850) 211 O segundo processo. reformando e aperfeiçoando a instituição pública em Portugal [. Da turbulência desse período.. foi publicado em português. pontas de lança que eram da Revolução Industrial. 1997). ed. nos dá conta um viajante-comerciante como o francês L. a chamada Revolução Pernambucana de 6 de março constitui. também no Brasil. em inglês. "O Brasil nos quadros do antigo sistema colonial". Em 1817. aumentavam quando vislumbrava o perigo de uma eclosão revolucionária de vulto no Brasil ("mais um pouco e teríamos visto aqui os sans-culottes"). sejam muito antigos em seus espíritos para serem arrancados. menos conjuntural. Indícios de encontros em Londres de Gomes Freire e do líder brasileiro Domingos José Martins (além do venezuelano Miranda. Arquivo Nacional/UnB. por uma educação viciosa e monástica. Não por acaso trechos da obra do abade Raynal (1713-1796). Como se nota. pela Oxford University Press) e O império marítimo português (1415-1825) (Lisboa: Edições 70. ed. e seus rebatimentos no mundo luso-brasileiro. Boxer em Relações raciais no império colonial português 1415-1825 (Porto: Afrontamento. em vários níveis e dimensões. o sistema luso-brasileiro trepida nos dois lados do Atlântico. As vicissitudes e a crise do sistema colonial foram analisadas por Charles R. Fernando A. como se sabe. veja-se Evaldo Cabral de Mello. Ao ressaltar a acirrada competição por mercado nos portos brasileiros. travada entre comerciantes franceses e ingleses.. Rubro veio: o imaginário da revolução pernambucana (2. 1968). pois alguns revolucionários derrotados e feitos prisioneiros em 16 A primeira análise crítica desse processo foi efetuada por Caio Prado Júnior. processo aprofundado a partir da insurreição nordestina de 1817. publicados em 1770. em favor desta. 1983). atraso nunca recuperado. Crise perceptível. 17 O livro nono. e Portugal e Brasil na crise do antigo sistema colonial (1777-1808) (2. o dealbar de uma disputa de potências européias por mercados mundiais e "zonas de influência" em partilhas que iriam se estender até as primeiras décadas do século XX. 144-155. Nessa perspectiva. O abade Raynal indicava a desproporção nas relações entre metrópole e colônia.. revista e aumentada. descrevendo esse contexto específico com riqueza de detalhes. São Paulo: Hucitec.d. eram sabidos de cor em Minas Gerais por inconfidentes. 1988) (1. Novais. processo no qual se afirmaram novas lideranças nativistas.] É possível acostumar os jovens a estimar sua razão ou a desprezá-la.

Souza. Foi uma experiência pré-nacionfcl. aprofundava-se a sensação de abertura para o mundo. terá sido o primeiro embrião de uma escola de pensamento propriamente nacional de altíssima qualidade. 1988). No decorrer da Revolução de 1820. presos. a Hungria e a Irlanda buscavam afirmar-se en- 18 Tal discussão aparece em "Um episódio da história da Revolução de 1817 na Província de Pernambuco. tendo os revolucionários presos chegado a discutir até mesmo o conceito de classe soriai. sensibilidades. Ver também de István Jancsó. símbolos. Press. 1997). estávamos compaginados. num momento em que também a Polônia. e Richard Granam. José Honório Rodrigues. 1975-1976). após a derroiajiias aulas informais no cárcere d^ Salvador. "pátria". Novais e Carlos Guilherme Mota. A astúcia liberal. completada. para além de simbólico. no Brasil. para usarmos um termo-chave. e o sentido inédito de ruptura. UFRJ. Brazil. 1780-1831 (São Paulo: Unesp. 1980). sem a análise daquele ponto de partida.1961). Constituição. O Brasil como corpo político autônomo. prefácio de Vitorino Magalhães Godinho. Confederação do Equador (Recife: Fundação Joaquim Nabuco/Massangana. A ideologia liberal no processo da Independência do Brasil. 1973). citem-se. 1999). Imaginação geográfica e política externa do Brasil 1808-1912 (São Paulo: Moderna/Unesp. dentre outros.. 1994). possuía um significado muito específico. Demétrio Magnoli. Na Bahia. 4. de Manuel Correia de Andrade (org. contra o Império. O "Ateneu". 20 Ver. mascaradas pela solução de compromisso do Reino Unido. nunca antes experimentado nestas partes. âlgtrnsrepresentantes de províncias distintas.momento decisivo na definição de nossa vaga "nacionalidade" e demarcação de diferenças . de onde acompanhavam os acontecimentos do mundo e estudavam) já eleitos deputados para representar o Brasil nas Cortes Constituintes em Lisboa. Cecília Helena de Salles Oliveira. não éramos portugueses. Ao reunir. vol. definitivamente. de Vicente Barretto. que comporiam o que se denominava civilização. Aí se localiza a primeira ruptura séria. desde a crise do sistema colonial até meados do século. relações de mercados e projetos políticos no Rio de Janeiro. alinhados com a Grécia. a cidadania. passado entre os prezos d'Estado na cadea da Bahia". A independência política do Brasil (São Paulo: Hucitec. ao definir essa "hora do advento das nações". Além dos livros clássicos de Fernando Piteira Santos. 1973). a importante análise de Roderick J. de transformação histórica. 1820-1824 (Bragança Paulista: Edusp/ícone Editora. C.19 Ou para um novo "amálgama". Essays on the Independence of Brazil (Baltimore: J. esclarecendo-se a ambígua consciência nacional nascente. Iara L. prático.18 Aos deputados brasileiros^as Cortes Liberais Constituintes de Lisboa terá sido de 'extrema valia a passagem pela "escola" revolucionária de 1817. e de A. de José Murilo de Carvalho. Deputados do Brasil nas Cortes portuguesas. 19 . Atitudes de inovação no Brasil (Lisboa: Horizonte. de formas de consciência nativista. Independência: revolução e contra-revolução. 1974). a propósito. rechaçados ao defender os interesses da ex-colônia. nos dois lados do Atlântico. entidades imaginárias em que se "amalgamavam" valores. de país independente. A construção da ordem (Rio de Janeiro: Campus. Barman. Esse episódio se insere no rastilho internacional do "despertar das nacionalidades". sendo obrigados a se exilar.20 Naquele contexto. 1997). em que examina as "matrizes da nação" e a formal configuração da Nação-Estado. quando se constatou. que analisamos em "Novos usos de velhas palavras: a noção de classe". Geografia e economia da Revolução de 1820 (Lisboa: Europa/América.212 Carlos Guilherme Mota Idéias de Brasil: formação e problemas (1817-1850) 213 1817. Márcia Regina Berbel. Russell-Wood (ed. 1996). a Itália e a Bélgica. The Forging ofa Nation 1798-1852 (Stanford: Stanford University Press. A utopia do poderoso império (Rio de Janeiro: Sette Letras. que. para uma consciência mais ampla. Na Constituinte portuguesa se discutiam a representação. gente com ótimo currículo e proveniente de diferentes regiões da excolônia. Maria de Lourdes Viana Lyra. Freqüentemente abafado ou apagado pela historiografia. A Assembléia Constituinte de 1823 (Petrópolis: Vozes. 1970). From Colony to Nation. e Carlos Guilherme Mota.). como Antônio Carlos ou Muniz Tavares. Hopkins Univ. o fim do sistema colonial. Vários estudos vêm aprofundando o conhecimento desse período. sobre "A liderança nacional" (Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves. independência passam a ter um valor. no calor dos debates das Cortes Constituintes em Lisboa . 1996). caro ao mineralogista José Bonifácio. "patriota". Fernando A. esse acontecimento acelera a viragem mental que já se vinha processando: transita-se então.). o defensor da unidade italiana. Nos principais centros urbanos brasileiros. em que se explicitaram as contradições efetivas entre metrópole e colônia. aliás percebido por Mazzini. Pátria coroada. 1988). difusas e vincadas por localismos. Clientelismo e política no Brasil do século XIX (Rio de Janeiro: Ed. 1999). no capítulo "As formas de pensamento revolucionárias". 1821-22 (São Paulo: Hucitec.T)ara analisarem o momento vivido. 1999). História do ensaio de sedição de 1798 (São Paulo: Hucitec/Edufba. 1972). de José Honório Rodrigues. remanescência de 1817. O corpo da pátria. três anos depois sairão diretamente do cárcere baiano (o célebre "Ateneu". vários de nossos deputados sairiam fugidos. "Nação". 17891824 (Brasília: Câmara dos Deputados. Afinal. A curva do processo é estudada passo a passo. em Nordeste 1817. sob vaias e até pedradas. A nação como artefato. Do mesmo modo. propiciou-lhes o primeiro desafio de uma possível unidade. Estruturas e argumentos (São Paulo: Perspectiva. não poderão ser compreendidas as trajetórias de personagens que avultarão na história do Império. usos e costumes próprios.

Àquela altura. em que se vislumbram vertentes de pensamento que se afirmariam ao longo da nascente "História do Brasil".21 O desafio mais complexo. e. Um conjunto de grandes críticos e grandes personagens surgiram naquele momento. ou seja. o Correio BrazMense. Feijó e José Bonifácio. Lino Coutinho e outros estão sendo analisadas em nosso livro Idéia de Brasil. de Cipriano Barata. em seu pequeno jornal Tifis Pernambucano. Liverpool. compara-se 1817 a 1793. Na Inglaterra. falido fraudulento. educação. Já na edição de lfl de junho de 1817.214 Carlos Guilherme Mota Idéias de Brasil: formação e problemas (1817-1850) 215 quanto nações. Os chefes do tumulto são todos homens desprezíveis. Ele não tem o talento nem a reputação necessária para desempenhar o papel de um chefe de governo. Ao analisar o período que nos interessa. os foundingfathers Benjamin Franklin. se adquiria a certeza de que o mundo acompanhava as transformações operadas no Brasil e na América do Sul. histórico e lingüístico. na América do Norte. A época é de reconstrução histórica. o Journal de Toulouse. o Journal du Commerce. numa ' Jacques Godechot.22 Apesar de muitas importações de idéias e teorias. em que se dá conta do achamento de Cabral em 1500: busca-se e define-se uma "origem" para ixBrasiLNasi&jirna "história". apesar da aceleração dos acontecimentos. o patriotismo passava a se nutrir da pesquisa. o momento em que a Revolução Francesa se aprofundou: As proclamações do governo provisório [de Pernambuco] não contêm senão repetições do estilo de 1793 a respeito do "monstro infernal da realeza". Naquele período. Marselha. ou "puras" linguagens de classe. Nesse ângulo. como em qualquer outro. das ações pode ser reduzido a determinações sociológicas de classe social. na América espanhola fossem. reflexão e da reconstrução do passado cultural. Frei Caneca. adverte o historiador James Epstein. visto que muitas formas de pensamento revolucionárias no Brasil também ocorreram durante a Revolução de 1820. Cipriano Barata ou Frei Caneca ou. a partir sobretudo da ação de Bolívar. Bordeaux. que publicou durante quatro meses notícias do Brasil em quase todos os seus números. reside todavia na definição de matrizes de pensamento. e portanto colocava franceses e brasileiros em guarda contra seus progressos". examinava passo a passo a vida brasileira. mas uma certa continuidade de tradições mentais consolidadas? Ou detectar aquelas formas que não são portuguesas. e da França e dos Estados Unidos chegavam repercussões das ações emancipadoras. que sofrerá avanços e "regressos" nos anos 30 e 40. La Quotidienne. acompanhava os acontecimentos do México e do Peru. Sociedade. em larga medida. do ponto de vista metodológico. como José Bonifácio. cit. Em contrapartida. também historiador. expressão da nova configuração social mais urbana e da nova mentalidade reformista. "com muita propriedade. dispensava particular atenção a esses períodos de transição em que. acompanhando a posição de Eric Hobsbawm. não houve movimentos "puros" de classe.expressão que adquiriu significado próprio. o órgão parisiense dos "ultras". no mundo das palavras. 22 As trajetórias desses personagens. o mais conhecido deles é Martinez [Domingos José Martins]. de pesquisa: o próprio Patriarca é unrestuoídso de Camões. as rotas comerciais mantinham contatos. este último. de uma nova maneira de abordar o mundo. Thomas Jefferson e Adams se alinhassem com a intelectualidade mais culta de seu tempo. das representações visuais. e vice-versa. dentre outros. inclusive em lideranças como Vergueiro. a seqüência americana da revolução que havia transformado a Europa.. Vale notar que Marx. pp. em que pese o fato de ter. Daí não surpreender que os libertadores . com portos como Barcelona. domingo. intelectuais de sólida formação. em Paris. "A independência do Brasil e a revolução do Ocidente". verdadeiros anarquistas. cultura e mentalidades (18171850) (em preparo). o que é mais difícil. A 5 de junho. num contexto de mndaçjovirações da elite colonial acreditam na possibilidade TJêsêTpoder acertar o passo da nascente História do Brasil com a História das Nações. Sabem os historiadores que nem tudo. 2 . notam-se em vários autores formulações que parecem genuínas e inovadoras.). 33-4. de Hipólito José da Costa. 1822: Dimensões. Como estudou Jacques Godechot. noticiavam os acontecimentos do Brasil o Journal des Débats. na província. permanecido preso à ideologia da Ilustração. Como detectar uma nova forma de pensamento. a primeira página inteira é dedicada ao Brasil: enxergou na insurreição. em Carlos Guilherme Mota (org. Demais. havia algo original nas falas e teorizações dos "nacionais". cultor da língua nacional e tradutor (inclusive de escritos de Humboldt). uma reflexão ou um texto que revele não a "influência" estrangeira imediata. "coexistiram e se combinaram historicamente estamentos pretéritos e classes futuras". Baltimore. fora do mundo luso-brasileiro. A noção revolucionária de "pátria" soava com timbre mais radical e persistente nas ex-colônias. Nesse contexto é que se "descobre" a própria Carta de Pero Vaz de Caminha (1817).

cidadania. The Royal Navy and Anglo-Jewry 1740-1820 (Londres. 1910). dentre outros intelectuais. onde se articulava o império "informal". Afinal. publicado em português em 1999. Salvador e Recife. ver o excelente livro de Mary Louise Pratt. Gilberto Freire. Há livros mais antigos. se transformou e por vezes se enriqueceu. History ofRoyal Navy (Nova York. acompanhavam a América meridional em seu movimento de libertação com discursos. a de espaço se expande. Manuel Diegues Júnior. por exemplo. e. as novas idéias ao lugar. The History ofthe Royal Navy (1983). Geoffrey Green.. comerciantes.25 Ao contrário da noção de tempo. Euclides. Sobressaem-se nesse panorama os eficientes. república. Ao saltar de seu leito. mais científica. A história do meio ambiente se amplia com uma plêiade de naturalistas europeus ligados a museus e centros de pesquisa. revolução. Com efeito. chegando a constituir uma "escola" de excelente formação. e a tradição da geo-histó23 ria ganha novo impulso nesses primeiros momentos do neocolonialismo. Political Language. se intensificou a dinâmica da vida cotidiana. atualizadora de uma compreensão de Brasil que deita suas raízes no período da Independência. 1790-1850 (Oxford: Oxford University Press. inclusive relativos à citada South American Station. 1968). A cidade passa a contar: ao sul do equador. de Stanford. de 1992. The Royal Navy and the Slave Trade (Londres. notava Florestan Fernandes. Ficase sabendo. Raymond Howell. and Symbol in England. 1969). 1969). Sobre a potência hegemônica nos mares. o professor Epstein indica como as noções de Estado. Imperial Eyes. Na perspectiva da História das Mentalidades. inauguram uma tradição de estudos geo-históricos. The Navy and the Slave Trade (Londres. convertendo-se numa variante do que deveria ser à luz dos modelos originais". Peter Kemp. do que o leitor seria levado a imaginar. mapear. Linhagem da qual o citado Caio Prado Júnior. que se afirmam com Aires do Casal e Daniel Pedro Müller. E uma série de estudos mais recentes. que também escreveu uma história do período: ele. homens de Estado amoldariam. Sociedade de classes e subdesenvolvimento. ganham nova respiração. Para uma reflexão mais atual sobre produção literária e imperialismo. O tempo como que encurta. não estaria indissociada do projeto que José Bonifácio elaborou para a Constituinte de 1823 a criação do Serviço de Proteção ao índio (1910) pelo coronel Cândido Rondon. o futuro visconde de Cairu. Nelson's Navy (1989).216 Carlos Guilherme Moto Idéios de Brasil: formação e problemas (1817-1850) 217 Inglaterra também convulsionada.23 Nessa perspectiva. 1971). em particular. eram utilizadas. em 1822. que setores do mundo do trabalho inglês. o grande historiador e expert nesta terra. J . em interpretações como as de Sílvio Romero. 14. The Navy in Transition 1814-1864 (Londres. a Inglaterra. Radical Expression. controlar o novo território americano. Christopher Lloyd. idéias de Brasil fervilhavam não somente no gabinete-biblioteca de Robert Southey. Letters ofthe English Seamen. adquirindo outras dimensões nas mentes das pessoas. revelando nessa abordagem uma "outra" Inglaterra. Mas a "civilização ocidental não se espraiou". The Age of Nelson 1793-1815 e The Royal Navy (Nova York. Michael A. depois com o vapor. uma série de estudos tomam boa parte de nossa atenção.1833-48) e de Esther Meynell. a história da expansão européia adquire novo sentido à luz da história das mentalidades. 1989). meticulosos almirantes ingleses da South American Station. etc. nessa época em que o governo central queria conhecer. 24 Florestan Fernandes. Geoffrey Marcus. com o aprimoramento das técnicas náuticas e das informações. a Geografia e a História.24 III Naqueles anos de aceleração histórica.. A geografia torna-se mais precisa. Lewis. ritos. em conexão direta com os principais políticos do parlamento inglês. a seu modo. projetos. O capitalismo comercial vive no Atlântico redefinições significativas. "como as águas de um rio que transborda". a História e a Historiografia. normas. adquirindo nova dimensão a desprezada "história dos costumes". 1994). receptoras do Liberalismo. Manuel Correia de Andrade e Aziz Ab'Saber fazem parte. cit. portanto. 1965). havia na Inglaterra mais atenção ao que acontecia nessas partes do Atlântico Sul. como os de Robert Southey. refaz-se assim o diálogo plurissecular entre o presente e o passado. tornando-se noção mais precisa e palpável. p. Do mesmo modo. em ebulição desde o início da Revolução Industrial. 1587-1808 (Londres. história. estudo de James A. como o de Antony Preston. com métodos.. ela "se corrompeu. The British Admirais (Londres. em que aliás nunca aportou. Ritual. não só a nova capital do Império pulsa e chama a atenção do mundo. indo desembocar no fim do século e se prolongando no século XX. da longa duração. As denominadas Corvgrafias. 23 Cf. 1987). vivas e brindes em tavernas e portos. como os antigos centros. Um dos agentes mais visíveis e citados foi José Maria Lisboa. The Royal Navy and the Slavers (Nova York. Epstein. William Ward. tendo produzido documentação fundamental para o conhecimento do Atlântico e do Pacífico naquele período. internacionalismo. Brian Lavery. encontrando-se nessas plagas antenas teóricas nativas.

a Balaiada (Maranhão. Quando José Bonifácio retornara ao Brasil. cheio de moléstias desconhecidas. de que era "brasileiro". igualdade nos impostos. marcado por violências ancestrais que a fuga da corte apenas agudizava. reacenderam antagonismos. São Paulo: Martins. conheceram outras terras e centros de pesquisa. Interessa aqui frisar que. 189. a da tutela inglesa.vergonha que transborda dramaticamente em diversas memórias e cartas dramáticas . dos Males (Bahia. essas novas elites dirigentes emergiam na cena política tendo como expoentes o radical Frei Caneca e o inquieto irmão de José Bonifácio.. os sabores. a temperatura. p. distante da Europa desarranjada pelas revoluções e por Napoleão. Nos trópicos.. ao não ser convidado a vir participar do ministério de João VI no Brasil. O novo imaginário se alimenta do impacto da transferência da corte e do prolongado choque cultural provocado por centenas de reinóis que jamais haviam pisado em território americano. pelo simples argumento. pouco edificante em termos de brio nacional do "poderoso império". cit. igualdade perante a justiça. impôs-se outra. dramático. deslocaram posições de mando. Imaginário em trans-formação. Sem passado nem futuro. A revolução trouxe um forte sentido de ruptura e fundação republicanista. Na revolução nordestina de 26 27 Cf. Boa parcela das lideranças que fizeram a independência e arquitetaram a nação tinha formação ligada às ciências naturais e aplicadas. verdadeira antecâmara do movimento de Independência de 22. a Sabinada (Bahia. adocicados. Tal fato fora sentido na pele pelo próprio José Bonifácio. desde as revoltas escravas de 1826 e. Igualdade no exercício dos direitos. porém internacionalizada. na expulsão de Pedro I em 1831 e na Revolução Praieira (1848). . 1855). Outros. 1835). aprofundara-se o "teor violento da vida". Otávio Tarquínio de Sousa . 1837-38). o advogado Antônio Carlos. esses reinóis vivem num mundo colonial convulsionado e atravessado pela insegurança. Notas sobre o Rio de Janeiro e partes meridionais do Brasil (2. em suas Notas sobre o Rio de Janeiro e partes meridionais do Brasil. abrindo o ciclo de movimentos liberais-constitucionais e nacionais. "Prefácio". o pacto consensual Brasil-Portugal já vinha se rompendo.218 Carlos Guilherme Mota Idéias de Brasil: formação e problemas (1817-1850) 219 "Redescobrem-se" temas relacionados com o peso da natureza nesse novo imaginário. e privilégios de indivíduos e de classes [. Processo marcado por movimentos insurrecionais que ocupariam toda a primeira metade do século XIX. Além da vergonha nacional configurada pela fuga dos Braganças . a mais notável. seus hábitos. nunca explicitado.J26 Em verdade. a exemplo de Abreu e Lima (o autor de O socialismo.. bem consideradas as coisas. para usarmos a expressão de Johan Huizinga. os cheiros mostravam-se diferentes. o movimento de 1817 fora a primeira e mais radical revolução anticolonialista no mundo luso-afro-brasileiro. agrestes. 1838-41). Como ele terá notado . a Cabanagem (Pará. há muito tempo boa parcela da elite ilustrada e liberal já não era portuguesa. até a Liberal (São Paulo-Minas.. Não há pois interesses. Sempre evocada. movimento em que se colocou a questão da emancipação dos escravos. e com raiva. valores e sotaque lusitanos ("sou português castiço") logo teriam de se adaptar aos modos e modas da ex-colônia tropical. 1951). permaneceria referencial e paradigmática no processo mais amplo de formação do Estado nacional. de tal forma que chegaria a escrever com ironia extremada: O Brasil é uma terra de igualdade. Descobria-se que a decantada "adaptação aos trópicos" não se daria assim tão facilmente. igualdade nas pretensões legais. possuir e transmitir a propriedade. uma das personalidades mais prestigiosas do mundo português. a Revolução de 1817. 1842). de José de Alencar. Cf. Mas não foi somente nesse segmento que ocorreram atitudes de inovação. a Revolução Farroupilha (Rio Grande do Sul. Liderada por setores da burguesia comercial nativa.de acordo com seu principal biógrafo. enfim. provocaram desconfortos. do clero e da administração. A natureza. 1835-40). depois na Confederação do Equador (1824).21 Como se enfatizou. 1835-45) e a Revolução Praieira (1848). a terra já entrara no "perigoso rodamoinho que ameaça levar o País ao vórtice da Revolução". Movimentos que teriam desdobramentos e seqüência em Recife em 1821-22. Sua reconversão à terra natal se processou muito rapidamente. muitas lideranças ou ideólogos do Império participaram ou tiveram ancestrais com um pé em 1817. e a questão social atenazava a consciência das elites nativas esclarecidas. ed. igualdade no modo de adquirir. Com a escravidão. como temia o comerciante inglês John Luccok. "politizaram" o debate. Ao "descobrir" o Novo Mundo sem fronteiras.que. tenso. direta ou indiretamente. ao retornar tardiamente ao Brasil em 1819. republicanista. já agora "brasileiro".. Mundo precário. Projetos para o Brasil. da família Andrada e Silva.

29 IV Quando. revela-se o busílis. depois os sonhos nativistas-localistas dos inconfidentes e. em relação à metrópole portuguesa após a Revolução de 1820. em seguida. Pensamento brumoso. folgarei muito ir morrer na pátria e viver o resto de meus dias debaixo do meu natural Senhor [D. Mais ainda. se com o tempo e jeito não se procurar curar esse cancro. Revela-se. acompanhando a formação dessa ideologia . e que seria indicado para substituí-lo no ministério joanino. manifestava ao conde de Funchal. . Ideologia nacional nascente que deixa para trás o desenho da "Nova Lusitânia".] na razão inversa desde a nobreza até a plebe". Carlos Guilherme Mota. de projetos . que a razão e a ciência ganhem pés diariamente". cf. Peço um governilho. adeus um dia do Brasil. 163-72. João VI]. nas simplificações para manuais de História do Brasil. E que não se impeçam "os vôos espontâneos da atividade particular". pelo conde de Linhares. ou talvez mesmo na Inconfidência de Curvelo. Império sonhado também pelo próprio José Bonifácio que. mas se me quisessem dar algum governilho subalterno. para novos estabelecimentos de manteigas. Bonifácio propõe "que se removam os obstáculos à indústria. Aqui. "As formas de pensamento reformistas". criar pescarias e salgações e experimentar o meu projeto de civilizar a cristãos e índios. as utopias do "poderoso império".. tendo como resultado uma teoria social duramente antiescravista bastante avançada (vale sublinhar). A passagem da ideologia reformista ilustrada para a liberal pode ser acompanhada em personagens como o advogado Aragão e Vasconcelos. Criticando a "Nova China". Um pequeno país que me convinha era Santa Catarina.. o Patriarca. entretanto. cit. Pois as fronteiras de sua ideologia eram. criada a partir de relatos e projetos. "para evitar revoluções". Prefere-se todavia uma outra perspectiva. a historiografia mais recente vem cultivando a interpretação do processo de descolonização desde suas origens na Inconfidência Mineira (1789. em Nordeste 1817.28 Como se sabe. até a expulsão do imperador Pedro I (1831). defendeu em diversas ocasiões a educação física e científica. seis anos antes de voltar ao Brasil. pôr em administração regular os bosques. a instrução para as "diversas classes da nação [. sonhado. Os modos pelos quais se consolidaram essas idéias de "Brasil" na primeira metade do século XIX. ser e não ser no nascente imaginário social nacional (desde a poesia. difusas porém impregnadas de valores do sistema ideológico configurado naquele período decisivo. entre outros. o ensaio histórico e po- 28 29 "Carta ao conde de Funchal". ou o revolucionário Muniz Tavares. queijos. Rodrigo de Sousa Coutinho. nessa óptica. liberal e ao mesmo tempo recolonizadora. porém reagente às vanguardas mais liberais e republicanistas daquele tempo: Se já agora pudesse tomar a liberdade de lhe enviar por escrito idéias que me têm ocorrido sobre novas leis regulativas da escravatura inimiga política e amoral mais cruel que tem essa Nova China. depois consolidada em grandes interpretações e. não desejar morrer como mero desembargador. d. que amargurava alguns expoentes do reformismo ilustrado no mundo luso-brasileiro. as do reformismo ilustrado..vale dizer. Domingos Antônio. mas ter no Brasil um "governilho" pequeno e bem organizado para cuidar: Já estou velho e mal-acostumado para ser sabujo e galopim de ante-salas. pois sou português castiço. ajuntando-se-lhe os campos vizinhos de Curitiba. quando o país já dera passos decisivos na consolidação de uma custosa emancipação política. de literatura panfletária e viagens. o ensino da agricultura ("deve ser ambulatório") e a ginástica. irmão do conde de Linhares (seu protetor até falecer em 1812). porque detesto o ser desembargador de presente e de futuro. Quando começa essa História. em seu amplo projeto civilizatório.220 Carlos Guilherme Mota Idéias de Brasil: formação e problemas (1817-1850) 221 1817 prefiguram-se também as dificuldades que o Brasil viria a ter. em 1777). o Brasil se descobre Brasil? Vale refletir a propósito da imagem aparentemente "estabilizada" e harmoniosa de "nossa" História. pp. em 1813. a "Nova Guiné do Rio de Janeiro". a História do Brasil? Numa abordagem mais ampla. a combinação de uma ponta de utopismo arcaico com a visão moderna e ilustrada dos males do mundo colonial. trigos e farinhas. se me dessem e me deixassem de mãos livres. nessa permanência da velha idéia de Brasil como "Nova Lusitânia". como a de muitos de seus contemporâneos. Poderia nele. ir plantar as artes e agricultura européia. em seguida. em Projetos para o Brasil. mas não revolucionário. poucos anos depois. cit. 1813. Tudo porém dentro de certos limites.centrada na construção da nação independente após a grande insurreição nordestina.

dependendo da vertente historiográfica adotada. em seguida nas dificuldades para sua inserção no cenário internacional (monitorado pela Inglaterra) e.imperador que será também exilado meio século depois . Na curva do processo. como se sabe. mas deu o sinal para uma série de outras mobilizações regionais . Aprofundemos a questão. em 22 de maio de 1822: Mostre-se ao Brasil que o não queremos avassalar como os antigos déspotas. orientada pelo mesmo ilustrado Rodrigo de Sousa Coutinho: foram prontamente liquidados quatro modestos artesãos e muito mais gente perseguida. ao Rei e às autoridades constituídas no Brasil por aquelas e por este. era editor da revista O Progresso) e Abreu e Lima (o "general das massas"). como os conhecidos revolucionários pernambucanos Antônio Pedro de Figueiredo (o mulato "Cousin Fusco". No caso da História do Brasil em formação. sugere que as forças nacionais.e na República de 1824. de Victor Cousin. porém contra os facciosos rebeldes. dialética da colonização.define aos poucos sua fisionomia a partir dos conflitos com interesses monopolistas da ex-metrópole. ou mais propriamente. . observa-se como a identidade coletiva foi se desenhando. provocando seu exílio em Bordeaux). 221. quando se inicia a ruptura. Nessa perspectiva. A ex-colônia . a construção da nova ordem não pode deixar de traduzir a participação das diferentes regiões e interesses em jogo. econômico e político adensava idéias de revolução. quase consensual e aparentemente neutra. Toda periodização pressupõe entretanto uma teoria geral da História. a periodização de uma história que se autodenomine nacional só pode ter início em 1817.e entrou nas argumentações pró e contra independência. os negreiros. 6. de cima para 30 Diário das Cortes. Negociações como as que se processaram nas cortes de Lisboa e que terminaram com a ruptura. o quase-branco Tiradentes. A datação do início do processo de independência pode não ser nítida. Já na repressão aos "pardos alfaiates" baianos. o Brasil vai consolidar sua identidade propriamente nacional. no processo de definição de sua própria existência (visto que antes do Primeiro Reinado tal história era um nãoser).aliás aguardadas . na harmonização. ou leão tal que. Abandonado finalmente o paradigma das Ordenações Filipinas em 1830. sendo punido com a morte o mais modesto deles. é verdade. brutal e exemplar. mostre-se que ainda temos um cão de fila. apesar de suas diferenças e antagonismos. se o soltarmos. dentre muitos outros. nessa lentíssima. permanecem tema essencial para o historiador das mentalidades. A perda do poder pelo representante da Casa de Bragança nascido em Portugal e a ascensão de seu filho. no plano das formas de pensamento nem tudo é pacífico. a nação emergente precisará acionar um novo sistema jurídico-político. tanto na história concreta das lutas sociais quanto na historiografia. parte do Reino Unido e. já possuíam consistência para manter o Estado e a sociedade dentro de regras por elas criadas. e impõe ou informa negociações. depois nos embates com grupos que. tendo seqüência nas insurreições de 1817 . Em Pernambuco. das disparidades internas. demorada. p. Primeiro. deu-se contra os brancos insurretos ou suspeitos. A partir dos confrontos e negociações de projetos entre suas lideranças ilustradas. e duramente esmagada. A revolução foi regional. desdobrando-se pelos anos 30 e 40. sempre precária. perguntando: quando os Brasis se tornam Brasil! Se nos estudos geo-históricos. altamente burocratizada e ritualizada. Manuel Borges Carneiro e o Vintismo (Lisboa: Instituto Nacional de Investigação Científica. t. em Cultura e política. e logo depois acelerada. constitui outro plano não menos importante das lutas sociais. 1990). observa-se que a repressão à Inconfidência Mineira. Ao longo desse processo. Centro de História da Cultura da Universidade Nova de Lisboa. pois mobiliza e desmobiliza memória(s) coletiva(s). até a música. no Brasil.222 Carlos Guilherme Mota Idéias de Brasil: formação e problemas (1817-1850) 223 lítico e a literatura em geral. Historiografia que. 1831 representa o ponto de inflexão: marginalizado o poder central. como se constatou nas intervenções do prestigioso deputado português Borges Carneiro. finalmente. após 1822. representam o setor mais arcaico do Ancien Regime (nomeadamente. nos trabalhos sobre fronteiras e mapas a sinalização é clara. nação precariamente independente .. há-de trazê-los a obedecer às Cortes. o poder metropolitano contra-revolucionário foi exercido de modo rápido.primeiro. que vencerão José Bonifácio. liberais e conservadoras.30 Mas o 7 de abril de 1831 constitui acontecimento decisivo e nítido: f~ sublinha o fim do processo de ruptura e se consolida a independência política nacional. já brasileiro e controlado por / regentes que participaram das cortes de Lisboa . tradutor da História da filosofia. tomando forma e adquirindo sentido em oposição à metrópole. se destacariam agentes de uma vanguarda já nacional-radical. citado por Zília Osório de Castro. velha e sofisticada praça internacional onde o milieu cultural.ramificadas por todo o Nordeste . aliás já esboçado na intolerada Constituinte de 1823 e definido. a conspiração dos Suassunas (1801) foi abafada em face da importância e prestígio social dos envolvidos. o teatro).

o periodismo. Com efeito. pró-americana) e apaziguar os interesses envolvidos na região do Prata. depois José Bonifácio e seu grupo. Não por acaso esses redescobridores do Brasil das primeiras décadas do século XX buscaram. uma certa imagem do "tipo brasileiro" já estava consolidada. 1852 Em meados do século XIX. . como se constata em obras como A moreninha (1844). chama a atenção do observador a disparidade entre o colorido. tocando-se. como vimos. acabaram por ser chamadas de volta. Vale relembrar que. de Joaquim Manuel de Macedo. com o registro do novo tempo. as forças progressistas. razões principais e finais. John Armitage. e a opacidade das narrativas já dos meados do século XIX. Visto o Brasil em conjunto na primeira metade do Dezenove. memórias que deixaram. abominado pelo Andrada. traduzindo. já em 1836. exatamente um século depois. V Ora. fechavam o círculo dentro do qual se passavam os terríveis combates das citações. defensor do constitucionalismo. Lideranças das camadas médias urbanas já atuam no cenário. autores de Brazil and the Brazilians (1857). prender prolongadamente Cipriano Barata e muitos outros. considerado a primeira obra que dava conta do Brasil contemporâneo. não por acaso fora escrita por um inglês: tão grande era a proximidade entre os dois que se acreditou. É fato consabido que nada mais definitivo há do que a produção literária para sublinhar uma identidade. nos anos 20 e 30 daquela centúria difundia-se pelas elites a sensação de participarem de um momento fundador e de descobertas. ou seja. durante muito tempo. o Brasil. a crise de 29 e a Revolução de 1930. reelaboravam. Gonçalves de Magalhães escrevera seu famoso Discurso sobre a história da literatura brasileira. 1824. e não menos importante. pois. exiladas ou anuladas paulatinamente. e estes. porém. político e mesmo cultural. Aquele texto. o que se comprova nos registros. Para colocá-lo em prática. cuidando. e depois no Ato Adicional de 1834.. naturalistas e artistas que aportaram à ex-colônia. Antes. já se alterara substancialmente. articulado por José Bonifácio e mal administrado pelos sucessores. um grupo-geração de intelectuais brilhantes. à consolidação do reinado. reeditando. Muitos estrangeiros. "nossa formação". vivacidade e a qualidade das informações da grande maioria de viajantes. com a outorga da Constituição de 1824. recepções e desfiles em Londres e Paris. marcada por um olhar nacional. naquele mesmo ano de 1836. no Brasil. quando a nacionalidade é revista. provarás. no sentido de se criarem condições para uma visão de mundo mais urbana e internacionalizada. netos dessas elites oligarquizadas ao longo do século XIX. porém. garantindo-se um lugar liberal no panteão português. Não só as crônicas de viajantes e panfletos. Da Constituinte de 1823. e todos esses trejeitos judiciais que se chamava o processo. tornadas "clássicas". remapeando. também fixariam os traços da sociedade que se formava nestas partes da América do Sul. os extremos se tocam. revirando bibliotecas européias em busca de originais e do riquíssimo material deixado por aqueles personagens que certificaram o nascimento de uma nação. buscando "nossas raízes". desenhos. quanto mais em se tratando de uma reflexão histórica sobre essa literatura. Coroando o processo. irão procurar novas interpretações do Brasil. exilando Ledo e sua facção. após a Semana de 22. Não terá sido por acaso que. que traduziam a mediocrização da vida comum. seria necessário eliminar ou neutralizar as dissidências. de organizar a reação a seu irmão absolutista Miguel. Manuel Antônio de Almeida Memórios de um sofgento de milkios. indicando uma maneira de se pensar. de caráter muito avançado para o tempo. do já citado amigo de Evaristo da Veiga. ter sido ela elaborada pelo próprio Evaristo. um olhar externo também assinalava a construção de uma identidade brasileira. reprimir manifestações separatistas (como a avançada e republicanista Confederação do Equador. novos viajantes como os norte-americanos missionários protestantes Kidder e Fletcher. sobretudo em face da manutenção do regime escravista. a informação principal naquele período decisivo. ou nas Memórias de um sargento de milícias (1852). revelaria algum brilho em suas viagens. exilado. educadas nesse universo de sobrados e mucambos que dariam o tom à vida nacional no século XIX e parte do XX. Ou seja. surgia em Londres a famosa History of Brazil.224 Carlos Guilherme Moto Idéias de Brasil: formação e problemas (1817-1850) 225 baixo. de Manuel Antônio de Almeida. a problemática da "nacionalidade". mas o próprio Pedro I. tornouse imperioso agenciar um custoso reconhecimento diplomático internacional.. para a feitura de suas obras. e por essa razão abortada. O contexto social.

indicando o sentido geral da construção da contemporaneidade. Cria-se. Porto-Alegre tivera contato com o português Almeida Garrett em 1832. "mais vale um vôo arrojado deste gênio. nota-se. adquiriram consciência da necessidade de promoção de uma literatura autônoma. 34 Gonçalves de Magalhães. políticos. como analisou Antônio Cândido. Desse modo. p.32 Liderados por Gonçalves de Magalhães. 51. As revoluções burguesas de 1820. desse grupo. que a marcha reflectida e regular da servil imitação". e com uma "colônia" de gente franco-brasileira. não apenas uma literatura.34 31 Antônio Cândido. 32 . livreiros. Liderados por Gonçalves de Magalhães. estimulados pela liberdade de expressão pregada por seu inimigo Evaristo da Veiga e adeptos.um tanto inspirados por Chateaubriand. II. No plano do saber institucionalizado. 33 Antônio Cândido. 11. vendo-se obrigado a esquecer o que lá aprendeu para pensar o Brasil. homens de negócios. José Bonifácio. depois a sociologia. antes reforçava-a.diga-se . Manuel de Araújo Porto-Alegre.. Gonçalves de Magalhães. ex-estudantes. No Brasil. Formação da literatura brasileira. negociantes. p. o velho árcade Américo Elísio. Discurso sobre a história da literatura do Brasil (Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa. dada pelo romantismo. de vez que. p. a passagem do "tipo-ideal do intelectual esclarecedor. com foco em Paris entre 1833 e 1836. como concluía Magalhães em seu célebre Discurso. reformista ilustrado e universalizante para o do intelectual particularista alinhado na tarefa patriótica na construção nacional".. com suas maneiras pequeno-burguesas. e do Diário Fluminense (1830-31). empostando a voz das camadas médias urbanas emergentes..33 Tal grupo integrava-se nas correntes do romantismo e do nacionalismo da época. João Manuel Pereira da Silva. diversa.31 Até o ex-liberal Bernardo Pereira de Vasconcelos chegaria a dizer ter-se tornado "bárbaro" a partir dos estudos na Universidade de Coimbra. vol.. a biologia e a antropologia. adotavam teses que repudiavam a imitação. p. 12. mas sim com o fim de tirar úteis lições para o presente. ficaria marginalizado das novas tendências dominantes de seu tempo.226 Carlos Guilherme Mota Idéias de Brasil: formação e problemas (1817-1850) 227 Na primeira metade do século XIX. o nacionalismo literário e a busca de modelos novos. Discurso sobre a história da literatura do Brasil. firmam-se os estudos históricos e lingüísticos. davam um sentimento de libertação relativamente à mãe-pátria". introduzindo suas idéias a Magalhães. como se verifica nas conclusões do famoso Discurso sobre a história da literatura do Brasil (1836): Como não estudamos a história só com o únicofitode conhecer o passado. Nesse processo. Observando-se o perfil dos formadores da nacionalidade. cit. 1994). seguia com admiração a atividade jornalística de Evaristo da Veiga que. de vez que. com os temas do nativismo agora revestidos e adensados por forte sentimento patriótico. o ex-diretor do famoso Reverbero Constitucional Fluminense (1821-22). Na França mantinha contatos diretos e indiretos com Ferdinand Dénis. Esse grupo. Formação da literatura brasileira (São Paulo: Martins. o patriarca da independência. na política e cultivando os estudos históricos. mais os impulsos do capitalismo industrial nascente. com Januário da Cunha Barbosa. chegado no ano seguinte a Paris. nem clássicos nem portugueses. o mais combatente da independência. elaborava-se uma nova linguagem. lutava pela expressão de um país livre.1830 e 1848. embora . 1964). por sua vez. milhando na literatura. na busca do nacional idealizado. aprisionado nos quadros mentais do classicismo. E suas relações se estendiam a Portugal.. o que talvez explique a rápida e entusiasmada adesão deste ao romantismo. aparecendo o classicismo como manifestação do passado colonial. não abandonaria a problemática da independência. assim no estudo do que chamamos modelos não nos devemos limitar à sua reprodução imitativa. artistas e escritores. Ele e seus admiradores viam-se obrigados a ceder passo ao movimento de jovens que. Madame de Staêl e Garrett. 50. no diapasão do tempo. "uma literatura independente. A tônica. mobilizaram contingentes de pesquisadores.. com o projeto de articular "no plano da arte o que fora a Independência na vida política e social". cit. Pois. o movimento geral das idéias vinculava-se à formação dos novos Estados-nação e da expansão imperialista. e a despeito de serem muito marcados pela "Madama" de Staêl e outros. ainda nas palavras do autor da Formação da literatura brasileira. participavam desse grupo de Paris Francisco de Sales Torres Homem.

longevidade. até "expedicções nocturnas das quais o próprio imperador participou mascarado e com dois valentões". brasileira. Difícil entender-se como sua obra. P Aillaud. obrigando-nos em conseqüência a repensar a história das ideologias e mentalidades no Brasil do século XIX. do barão de Caxias. nos estudos historiográficos. quando foi reconhecida 35 No Quai Voltaire. permitindo fixar novos marcos na História da Historiografia no Brasil. ficou à sombra durante tantos anos. havia dez anos. na qual se destacavam figuras como Evaristo da Veiga e Bernardo Pereira de Vasconcelos. para além dessas "petites histoires". esboços . chegando a apeá-lo do poder. quando menos. ainda. dois marcos que indicam a abertura de um novo período na história do autoconhecimento. aparece sob variadas formas. escrito pelo general José Inácio de Abreu e Lima. A nosso ver.228 Carlos Guilherme Moto Idéias de Brasil: formação e problemas (1817-1850) 229 vi Mas a expressão mais forte e sistemática dessa consciência histórica e identidade nacional formulava-se na produção historiográfica. dando-se novo impulso à intensa atividade jornalística já existente. note-se). O tomo II abarca da morte de d. No primeiro volume. Em inúmeras obras de autores estrangeiros surpreende-se a existênciaou. Nada obstante. a consciência de nação somente se consolidaria plenamente quando se conseguiu elaborar uma história própria. inaugurando uma nova fase de conhecimentos sobre o Brasil. revelam perspectiva mais avançada e estimulante que os de Varnhagen. O ambiente conturbado do país pode ser apreendido em observações do livro de Solano Constâncio. abrangendo desde aspectos geográficos até informações sobre clima. situada na rue de Ia Vieille-Monnaie. Solano Constâncio organiza uma interpretação que revela por inteiro sua teoria da independência. as faculdades de Direito de São Paulo e de Olinda. pois "quando as luzes se apagaram ele recebeo uma forte contusão na testa". tema de História das Mentalidades. apareceu em 1839 editada em Paris pela Livraria Portugueza de J. Nessa perspectiva. fósseis. na introdução. Seguindo de perto os acontecimentos. Sua obra em dois volumes. . O resto é História. ficção e. para além dos registros. apresentandose de modo variado no quadro geral das representações mentais do período. tendo sido impressa pela famosa Typographie de Casimir. n° 12.35 A obra apresenta. por outro lado. e o conhecido Compêndio da história do Brasil. Constâncio julga que o limite natural da presente história deveria ser a separação definitiva do Brasil (já com s. o "general das massas". do Cousin Fusco. ou melhor. população. dentre os quais o referido Armitage talvez seja o mais importante. dois livros tornam-se desde logo fundamentais. Como e quando nasce tal identidade? Aqui nos deparamos com a questão central em nosso excurso: descrever e narrar. lideranças que tanto aborreceram Pedro I. escrever diários. um diagnóstico do Brasil em 1831. Vale notar que Constâncio e Abreu e Lima são contemporâneos de Feijó. de Francisco Solano Constâncio. Todavia. a História do Brasil de Francisco Solano Constâncio surpreende por sua qualidade de interpretação e argumentação consistente. com cerca de 60 páginas.de formulação e interpretação histórica sobre o que vinha a ser o "Brasil". etc. deixaram textos históricos de maior valor por revelarem a compreensão de História enquanto processo. e até contra mulheres solteiras e casadas". foi membro das Sociedades de Medicina e de História Natural de Edimburgo. em que menciona desde "attentados contra diversas pessoas. da ficção. somente pode ser captada na historiografia que se define no fim dos anos 30 e início dos anos 40. Tais livros aparecem num contexto em que a vida do país atravessava fase de grandes convulsões. Solano Constâncio. reino mineral. uma consciência propriamente nacional. na 11. apresentando relato ano por ano dentro de uma linha "analytica e chronológica" rigorosa. com quase 500 páginas. Ao localizá-los no contexto da época. Formavam-se as novas elites nacionais. João IV e regência da rainha d. autor do Dicionário crítico e etimológico da língua portuguesa. numa delas levando a pior. não se deve ainda perder de vista o fato de estarem já em funcionamento. Têm-se. produzir histórias não é a mesma coisa. em 1654. "Brazil". escravidão. de anuários e cronologias. Esses dois historiadores são também contemporâneos da fundação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (1838) e viveram no clima político da declaração da maioridade de Pedro II. Nessa perspectiva. trata desde o descobrimento até a expulsão "completa" dos holandeses do Brasil. memórias. dentre outros: a História do Brasil. doenças. Luísa às primeiras expedições para descobrir mina (1674-75) até a abdicação de 1831. Os ingleses. neles. médico. da definição de uma identidade histórica propriamente nacional. É ela que nos interessa nesse passo. Lineana de Nova York e Paris e.

o tinha levado o voto geral dos Brasileiros.] Essa contínua instabilidade. e quando não podia vencer a resistência. 4 ' Sobre o autor. 304. Rio de Janeiro: Nacional. Já Abreu e Lima é mais citado.41 Seu Compêndio. e Abreu e Lima demarca e periodiza a nova etapa: Uma nova era começou no 18 de julho de 1841. p.e aqui reside a importância da crítica e reconstrução historiográficas -. analisando a atuação diplomático-militar do Brasil no Rio da Prata. repontando. Compêndio de história do Brasil (Rio de Janeiro: Eduardo e Henrique Laemmert. preocupado em fixar e controlar as atitudes do Príncipe Regente. então recorria à astúcia [.39 Havia. em História e historiadores do Brasil (São Paulo: Fulgor. "recomendando as instituições da Federação Americana como modelo que se devia imitar". articulando uma nova periodização em que se enfatiza o processo de independência e a expulsão do imperador. revela-se positivo sobretudo quando descreve movimentos de insurreição como os de 1817 e 1824. podem [os novos tempos se] annunciar como muito lisongeiros debaixo do reinado do SEGUNDO PEDRO. pois pode ser reencontrada. Se o mau fado nos não persegue mais. Déspota por inclinação e hábito.230 Carlos Guilherme Mota Idéias de Brasil: formação e problemas (1817-1850) 231 sua independência pela Coroa de Portugal. o primeiro impulso de D. ou fala do fuzilamento de frei Joaquim Caneca. critica o desprezo do imperador pela "opinião publica" e o confronto com o ministro da Fazenda. 1978). ed. Ver o estudo introdutório de Barbosa Lima Sobrinho a O socialismo (2. "José Inácio de Abreu e Lima". nem perseverança para o seguir com firme resolução. teria dito o Patriarca). "homem ameno de variada cultura". cap.. o marquês de Barbacena. como até aqui. Pedro a descer de um throno onde... "A periodização na História do Brasil". Pedro a jornalistas e à liberdade de expressão. Ibid. quatro meses depois da coroação de Pedro II. tyrannicos senhores. Ele enfatiza o papel e a probidade de José Bonifácio. em outros historiadores que se lhe seguem. 1979).36 Após comentar a atuação de Pedro. p. contrapondo-se à visão bragantina e reacionária de Varnhagen. 40 Ibidem. ainda. Não somente tal interpretação. Uma maneira inovadora de entender-se o Bra36 37 Embora controverso. e o fato de ter recorrido in extremis a José Bonifácio ("De Vossa Magestade nem hum copo d'água aceitarei". que Caldeira Brant inseria em jornais republicanos artigos violentos contra o sistema monárquico. Trata-se. político e literário do Brasil. 414. já em meados do século XX. quando Brasil carecia de hum bom systema de administração adotado com madurez e seguido com constância.38 E perguntava o "General das Massas": "Quaes serão os futuros do Brasil?". ed. História do Brasil. p. Denuncia. quando ainda continuava a guerra civil no Rio Grande do Sul.37 sil e se interpretar a História destas partes na perspectiva da descolonização. não podia deixar de ter funestos resultados. e vis cortezãos. 3s . cit. publicado em 1835. ver José Honório Rodrigues. deve ter sido muito impactante e convincente.. nem sempre bem escrito. de fato. Retomando várias teses de seu famoso Bosquejo histórico. tão pouco tempo havia. pois revela uma certa simpatia por Pedro I e esperanças em Pedro II (a quem o livro é dedicado). criado entre míseros escravos. Historiando o insucesso na guerra contra Buenos Aires. Abreu e Lima. queria derrubar Pedro do trono. 415. rejeitado. nas interpretações de Otávio Tarquínio de Sousa. a nosso ver. 39 José Inácio de Abreu e Lima. Pedro foi sempre a violência. 1965) e Teoria da História do Brasil (5. com poucas alterações . embora não haja estudo aprofundado que o situe no contexto da historiografia nascente. 5. Rio de Janeiro: Paz e Terra. lutador da independência e ex-revolucionário internacional (combatera sob o comando de Bolívar).40 Solano menciona a perseguição de d. e do qual aagora descia sem que hum só indivíduo compadecesse de sua sorte. ele termina seu Compêndio de história do Brasil em 1841. como também o tipo de narrativa de Solano. produziu interpretação em geral progressista da História. 1943). começando-se então "uma nova épocha": Mas pareceo-nos acertado reservar para remate a Revolução que obrigou o Imperador D. que. muita expectativa no ar quanto aos destinos da nação. assim como dez annos antes tinha marcado a Providência um deccenio para o nosso purgatório. Ao criticar a atuação desastra- Francisco Solano Constâncio. do início de uma tradição historio gráfica que merece referência e atenção. conclui: Não tinha talento para meditar e coordenar hum plano.

um hino com uma letra fantástica. Pedro). seja na França de Charles Fourier e de Horace Say (o autor da Histoire des relations commerciales entre Ia France et le Brésil. menciona inclusive o trágico episódio em que morreram sufocados 254 insurretos no porão de um navio. A idéia contemporânea de Brasil se funda quando se consolida na historiografia uma idéia de nação. a dedicatória a Pedro II não invalida suas formulações mais duras e independentes ao longo do Compêndio. o Patriarca. dois outros marcos da denominada historiografia nacional. Sobretudo em relação à antiqüíssima História de Portugal. teve seu "embrião" na colônia. o "berço esplêndido").. uma intensa e prolongada "negociação" de sentidos. sábio e . dissolvendo e harmonizando as contradições internas. .quando não admiração . reforçando o paternalismo duro de Pedro e a "bondade" do avô Andrada. sobretudo com a tutela estrangeira (inglesa) e com a escravidão (de negros africanos). suavizada com o segundo Pedro. uma família com o avô liberal (d. Uma edição que facilitasse a "profícua instrucção que a Mocidade deve colher sobre a Historia pátria. para além da história convencional ou "oficial". a seu modo. uma interpretação dos conflitos. na construção de seu imaginário. lutas e ajustamentos. por seu aulicismo militante. uma mãe austríaca e sábia (d. lembrando a velha estória dos irmãos inimigos). general. depois. No caso de Abreu e Lima. Sua qualidade nada desprezível. como os editores informam na abertura. simpática em geral aos revolucionários. Apesar de tratar-se de interpretação cheia de altos e baixos. ela entretanto se sustenta numa perspectiva nitidamente nacional. muito ao contrário. que em época de crise volta a ser chamado para cuidar do netomenino Pedro II. elaborada por um homem de ação. um inimigo conspirador na família (d. tal história obviamente não era tampouco de quietação. como Almeida Garrett. Por certo Abreu e Lima. pois. embora não tenha se transformado em dominante. como demonstravam os movimentos e levantes políticos e sociais do período regencial. um lugar de nascimento (no riacho do Ipiranga. A construção de uma identidade nacional se dá formulando-se uma história própria. mais os traumas de nascimento. João VI). Os estudos e as pesquisas historiográficas vêm recuando no tempo no sentido e no esforço de se rastrearem os fragmentos de textos e relatos que permitam compreender a passagem da crônica e do memorialismo à interpretação histórica compendiada e "estabilizada". acontecimento que bastaria para pôr abaixo a interpretação oficial de uma história harmoniosa e incruenta. dos dois grossos volumes originais. ainda. Imaginário que se sustenta com a continuidade bragantina.a atuação de almirantes e comandantes em suas relações com subordinados. Mas ela tem altitude se situada no contexto da época. além do amigo boêmio Chalaça. publicada em Paris em 1839). E. Nação que. O volume em foco é uma edição abreviada. como se sabe. para se acertar uma visão histórica "equilibrada" do passado com o presente. De outra parte. completando o quadro. Tal passagem. Trata-se. 1830). Nesse sentido. Do contraste entre esses autores com Varnhagen ou Pereira da Silva. a permanência de dois monarcas da família dos Braganças à frente do Estado independente amorteceu o caráter revolucionário da descolonização. seja em relação a congêneres em Portugal. fantasma político do qual falava Abreu e Lima. e incorporando as diferenças ou sedições externas. Miguel. desigual. depois uma origem precisa entre 1817 e 1824. nos Estados Unidos. a fronteira mais problemática do território nacional. de vez que os Braganças continuavam no poder. sempre revelou uma visão hierárquica em suas atitudes. constitui importante indicador na longa trajetória de colônia a nação. Nesse momento em que a idéia de Brasil-nação se afirma em cada embate. uma certa idéia desse todo nacional. Já Varnhagen ficaria conhecido. jovem. que se prolongaram pelo Segundo Reinado. a marquesa de Santos. e a Cisplatina).. no caso vertente. houve até perigo de um retorno de Pedro I. uma guerra (em verdade duas: contra os portugueses de Avilez e Madeira. inclusive no tocante à Província Cisplatina. ele oferece informações por isso mesmo importantes. Claro que existem problemas. e criticado. tornando o livro mais manual". abreviando um pouco a leitura. a nosso ver. um pai jovem e impulsivo (o príncipe d. Visão que. Ou seja. Leopoldina). de interpretações. não poderia ser só de lutas. constata-se que uma historiografia propriamente nacional mais consistente e mais sofisticada antecedeu a visão "oficial" do Brasil. e por isso mesmo apreciava com certa complacência .232 Carlos Guilherme Mota Idéias de Brasil: formação e problemas (1817-1850) 233 da de Cochrane e Grenfeld no Maranhão. com notas e documentos e sete estampas "muito finas". Deu-se. de uma "edição mais adequada para os COLLEGIOS e para toda a Mocidade Brasileira que pelo volumoso não intimidasse os jovens leitores"..j á brasileiro. de William Lloyd Garrison. um povo. Construía. Domitila. o padrinho velho e sábio José Bonifácio. inventando-se um passado.sobretudo . cuja identidade se reitera e reconstrói a cada embate. o autor do importante ensaio sobre revolução e contra-revolução em Portugal na balança da Europa (Lisboa. a partir do conflito colônia-metrópole. revela a existência de bolsões de produção e reflexão intelectual que devem ser reavaliados. formato pequeno..

Nada obstante. "o conceito é falso [. as ambigüidades da escravidão em contraste com os desafios das inovações que emanavam dos principais centros do capitalismo. as pessoas sentiam mais em seu cotidiano o peso do mundo exterior.. inteligente e generosa. Mas também uma certa maneira de pensar. um modo de interpretar o mundo que envolve essa idéia essencialmente cultural que evoca a palavra "Brazil". Essas formas de pensamento contra-revolucionárias regressivas marcariam indelevelmente a mentalidade nascente da "Democracia coroada".. verá que em tudo e por tudo os caramurus de 1831 a 1836. conflitos e levantes de escravos sob a Regência. que nos dois últimos anos espreitavam somente a ocasião de dar com segurança o grande golpe. Secretário do Clube dos Amigos Unidos. a chegada da corte. Por volta de meados do século XIX. exdeputado junto às cortes e figura importante na Regência e nos anos 50. As usinas. prenhes de certezas quando se posicionavam para escrever sobre o Brasil. para Euclides da Cunha. 69. 43 Rio de Janeiro. reação. Ou. citado por Otávio T. 1855. a ideologia da contra-revolução logo se instaurou. Teófilo Otôni [.. como era o citado Evaristo da Veiga. em À margem da História. Independência. 1824 e 1831 que permitem detectar essa nova identidade nascente. Trata-se de uma elite liberal. do vapor.]".. surpreendem-se algumas formulações nas vozes de escritores e ex-participantes das revoluções de 1817. dos bacharéis. Deixava-se de viver em colônia. ed. Digamos melhor: umo situação de equilíbrio. 99.. e os liberais de 1841 a 1851 desempenharam o mesmo papel. temia-se a república. cit. os "anarquistas". instabilidades. no esforço de abafar a utopia republicana. eu vi com pesar os moderados ao leme da revolução [. das pontes de aço e das ferrovias. Essa transição foi percebida pelo professor e jornalista Justiniano José da Rocha (1812-1862). e sobretudo entre 1817 e 1850. 158 e 162. raramente revolucionária. ed.. Brasil. Euclides da Cunha e por essa razão os liberais avançados.. transação** onde conclui: O observador que desprevenido confrontar as épocas. depois as insurreições. Ou rígida e aborrecida. uma postura. 2. jurado sobre o sangue dos Canecas e Ratclifes. o movimento tinha por fim o estabelecimento do governo do povo por si mesmo.42 Em resposta às insurreições e levantes. Primeiro. cit. revoluções. mas não se sabia o que era viver em nação independente. na significação mais lata da palavra. sabedores (supunham eles e os áulicos do Segundo Reinado) do "véritable point de vue ou doit se placer tout historien du Brésil". de 1839 a 52. tendo escrito também uma biografia de Pedro I. cometeram os mesmos erros. Projetado por homens de idéias liberais muito avançadas.. 42 O julgamento sobre os rumos que tomou a "revolução" do 7 de abril de 1831 foi feito por Teófilo Otôni: "O 7 de abril foi uma verdadeira journée des dupes. pp. O mundo dos sobrados e das cidades. Mas.] eu vi com pesar os moderados ao leme da revolução.] O Brasil adquirira nova fisionomia. se cultivada na perspectiva de Martius. davam novo tom à vida. cf. reformista. marcada por supostas continuidades..234 Carlos Guilherme Mota Idéias de Brasil: formação e problemas (1817-1850) 235 O mito de uma história sem rupturas. cujas idéias podem ter o sentido de contraponto e finalização do processo da independência. Sobre a. na ordem liberal e pesadamente unitária. journée. 1901. viveu-se a maior mudança da história do subcontinente. Nem em cidades cosmopolitas.] 0 segundo império foi uma parada. com vertente mais tipo classe média (retiro esta expressão de Caio Prado Júnior e Paulo Mercadante). 1. fizeram os mesmos benefícios [. até então. Cronista e. p. com escravos. sobretudo. ao substituírem os velhos engenhos. fundou os jornais Atlante.. a voz do senador Nicolau Vergueiro. iniciado em outras reuniões secretas. Parte VII [. vem daí. escritores e publicistas abria outros horizontes mentais. Mas ficaria famoso pela autoria do definitivo documento-panfleto Ação. Circular. Carioca. numa vertente mais conservadora..] O que houve foi o caso vulgar das revoluções triunfantes [. Deputado. de Varnhagen e dos ideólogos da contra-revolução. de leitores de Constant e Bentham..] Estávamos como nos grandes dias da Convenção" ("Da Independência à República". p.. demarcando a passagem para uma nova fase. Justiniano José da Rocha estudou no Liceu Henri IV em Paris e se formou em direito em São Paulo. Desde 1808. se considerada na vertente que se desdobra de José Bonifácio a Machado de Assis e Gilberto Freire. médicos.. de Sousa em Evaristo da Veiga. engenheiros. 1822. foram alijados da história. J . solta.

Mary Louise. publicação em que. FAORO. com ele. ed. FERRAZ. 1994. 1822-1930. levantes e movimentos revolucionários. como se percebe pelo julgamento do jornalista. A formação da leitura no Brasil. Guerras civis em Pernambuco no século XIX. provocado pelos eventos de 1848". Ver também sua clássica História da sedição intentada na Bahia em 1798. é um dos momentos vivos do jacobinismo nativo. Recife: Fundação Joaquim Nábuco/Massangana. Socorro. o retorno dos "inimigos da Nacionalidade". FREIRE. Dois séculos de história. Arnaldo D. Formação do patronato político brasileiro. Sérgio Buarque de (org. Matizes do vocabulário político e social. denunciava a volta do "despotismo imperial" e. 1961. A nação estava constituída. BEIHELL. Sales Torres Homem. 1848-1868". ed. "Vida política. Regina. 1993. 1985. Liberais & liberais. Cambridge: Cambridge University Press. 1988. vol. História concisa da literatura brasileira. Manuel Correia de (org. Bauru: Edusc. João Luiz. a Farroupilha.). MARSON. A literatura brasileira. Homens de grossa aventura: acumulação e hierarquia na praça mercantil do Rio de Janeiro. formado em medicina no Rio e direito em Paris. Rio de janeiro: Editora da UJ^RJ/Relume-Durnará. Sobrados e mucambos. aplastados pelos mecanismos políticos e culturais criados nessa longa história de formação do patronato político brasileiro. sociedade agrária e elite mercantil no Rio de Janeiro. Manolo.] Sob o pregão do progresso conservador apareceu a época da transação. 1999. Ele. 1973. São Paulo: Difel. a reação colocou um elemento oposto [. No juízo do historiador mineiro Francisco Iglésias. mal esconderiam tumultos. 1987.. vol. 1979. como Euclides documentaria o fim de uma época. antiescravista. (1. José Aderaldo. Rio de Janeiro. 1982. mas havia a consciência desse processo de desmobilização nacional.) . Bibliografia selecionada ANDRADE. conflitos. em Sérgio Buarque de Holanda (org. Aspectos da influência britânica sobre a vida. Brasília: Centro de Documentação e Informação. Jeanne Berrance de. 1822-1842. Prefácio de Armando Souto Maior. Rio de Janeiro: José Olympio. Brazil: Empire andRepublic. 2. O Brasil monárquico. O arcaísmo como projeto: mercado atlântico. Recife: Editora Universitária da UFPe. 2 "Dispersão e unidade". que seriam.44 Concluindo. O "progresso conservador" vencera. radical. 1977. A milícia cidadã: a Guarda Nacional de 1831 a 1850.236 Carlos Guilherme Mota Idéias de Brasil: formação e problemas (1817-1850) 237 O trabalho da reação monárquica foi completo. Contribuição à história do Congresso Nacional do Brasil no período da monarquia. Ingleses no Brasil. 1996. A seu lado. ed. São Paulo: Pioneira. Os olhos do império. a "estabilidade" do Segundo Reinado e a consolidação de um Estado nacional dependente. 1840-1861. José Murilo de. 1948. vol. Relatos de viagem e transculturação. 1995. História geral da civilização Brasileira. São Paulo: Brasiliense. Gilberto. denso. Os donos do poder. 1790-c. Tomo II. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. Izabel Andrade. História geral da civilização brasileira (5. Rio de Janeiro: Diadorim. Bosi. Origens e unidade (1500-1960). 1989.) CONTER. Rio de Janeiro: José Olympio. São Paulo: Cultrix. (Coleção Brasiliana. c.). Liberais e conservadores assemelhavamse em sua visão de Brasil e. BANDEIRA. despontava também a dura crítica a. Mansa & ZILBERMAN. não estava só. a paisagem e a cultura do Brasil. RODRIGUES. CASTELLO. 1975. CARVALHO. 347. . 3. a Praieira. Luís Henrique Dias. Alfredo. "Timandro. Prefácio de Sérgio Buarque de Holanda. escrevera o Libelo do povo (sob o pseudônimo de "Timandro"). TAVARES. o contemporâneo Francisco de Sales Torres Homem (1812-1876). de 1936. & FLORENTINO. 1975. 14. 3 "Reações e transações". 1999. FRAGOSO. 359. 1 "O processo de emancipação".Confederação do Equador. com o Libelo do povo. porém. nos quadros do neocolonialismo. O diagnóstico demolidor de Justiniano José da Rocha encerrava um ciclo de reflexões sobre o Brasil. v. São Paulo: Ática. São Paulo: Nacional. HOLANDA. 3. do "grupo de Paris". unido. Leslie (ed). CASTRO. LAJOLO. Porto Alegre/São Paulo: Globo/Edusp. p. 1790-1830. tomo II. 1985). onde a democracia havia posto um elemento seu. meio século depois. como a Cabanada.. 1985. José Honório. 2 tomos. Moniz. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. PRATT. 44 Francisco Iglésias. O parlamento e a consolidação do império. São Paulo: Difel. ed. também ele. cada um a seu tempo. 1996. Petrópolis/Campinas: Vozes/Unicamp. e aum. A Revolução Praieira. Teatro de sombras: a política imperial. vol. O império do progresso. 1998. São Paulo: Edusp. detentor da idéia desmobilizadora e sufocante de um Brasil "estável". esse estado de coisas. 1840. vol. 2 vols. Decadência do patriarcado rural e desenvolvimento do urbano. rev.). Justiniano sinalizava o fim de um período. Presença dos Estados Unidos no Brasil. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Raymundo. Cipriano Barata de Almeida. Imprensa e ideologia em São Paulo. soldando as diferenças.

São Paulo: Difel. Antonia Fernanda P. Desafio americano à preponderância britânica no Brasil. de Almeida. Immanuel. 1808-1850. vol. 367.) I . (Col. Nova York: Academic Press. 1972. Fernando. The modem world-system III. Brasiliana.238 Carlos Guilherme Mota URICOCHEA. 1989. The second era ofgreat expansion ofthe capitalistworld-economy. I730-I840s. WRIGHT. 1978. São Paulo: Nacional. WALLERSTHN. O Minotauro imperial Burocratização e Estado patrimonial brasileiro no século XIX.

Nos achamos em campo a tratar da liberdade": a resistência negra no Brasil oitocentista

João José Reis

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J_-/urante a maior parte do século XIX, a escravidão no Brasil experimentou uma vigorosa expansão, associada ao incremento da lavoura de exportação, o crescimento das cidades, a intensificação do tráfico de escravos. Nos primeiros anos do século, a economia açucareira já havia se recuperado de um longo período de estagnação, aproveitando um mercado internacional que se tornara menos competitivo com a saída do Haiti, seu maior fornecedor até a revolução escrava que destruiu sua economia exportadora juntamente com o regime escravista. Os engenhos brasileiros prosperaram até que, a partir da década de 1830, tiveram que enfrentar o crescimento da produção do açúcar cubano e daquele extraído da beterraba. Também prosperaram os campos de algodão em diversas regiões, no Norte. Minas Gerais, apesar da decadência da mineração, tornou-se um fenômeno de utilização maciça e diversificada da mão-de-obra escrava, não só na nascente lavoura cafeeira, mas sobretudo naquela dedicada ao abastecimento interno, fazendas de gado, pequenas fundições, indústria têxtil, além do que restara da prospecção mineral. A escravidão ganhou também volume nas charqueadas e plantações de chá e cereais sulistas, no Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina. Foi entretanto nas lavouras de café onde o trabalho escravo mais vicejou durante o século XIX, após tentativas malsucedidas de utilização do trabalho de colonos imigrantes. Produzido em várias regiões do Brasil, seu cultivo se concentrou no Vale do Paraíba a partir da década de 1830 e posteriormente ocupou largas áreas do oeste paulista, fazendo dessas regiões o grande celeiro do escravismo na segunda metade do século. Entretanto, a escravidão envolveu praticamente todas as atividades produtivas, e não apenas aquelas ligadas ao setor exportador. Já mencionamos

* Este trabalho faz parte de um projeto mais amplo apoiado pelo CNPq.

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João José Reis

"Nos adiamos em campo a tratar da liberdade": a resistência negra no Brasil oitocentista

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o caso de Minas Gerais, a respeito do qual devemos acrescentar que a região chegou a ter a maior concentração regional de escravos não dedicados à agricultura exportadora. Mas em diversas outras regiões também observase a presença maciça de trabalhadores cativos nas lavouras de abastecimento interno, na plantação de cereais, da mandioca, de produtos hortifrutigranjeiros, na pesca, na caça, na coleta de madeiras, em pequenas indústrias. Registre-se, finalmente, a formação de grandes centros urbanos escravistas, como Recife, Salvador e sobretudo o Rio de Janeiro. O Rio chegou a representar a maior cidade no hemisfério em população escrava, que se aproximou de 80 mil em meados do século. Nas cidades desenvolveu-se um sistema peculiar de trabalho escravo ao ganho, abrangendo sobretudo os serviços de transporte de cargas e pessoas (em cadeiras de arruar), mas também o pequeno comércio ambulante, nos ofícios manuais e, é claro, o serviço doméstico, um setor numeroso e ocupado principalmente por escravas. A escravidão brasileira alcançaria seu ápice no século XIX, difundida como estava em todo o território nacional, os diversos setores da economia, conformando praticamente todas as instituições sociais, inclusive a família. Saliente-se também que a propriedade sobre escravos não se limitava a grandes senhores de engenho, fazendeiros e mineradores. Tanto no campo como na cidade era grande o número de pequenos escravistas, donos de um, dois, três escravos, trabalhadores na pequena lavoura, nos serviços de rua ou no de casa. Por todas essas características, os escravos marcaram em profundidade os costumes, o imaginário, a cultura e até, através de uma intensa miscigenação, o próprio perfil étnico-racial de nossa população. Tendo sido o Brasil o último país do hemisfério a abolir a escravidão, em 1888, pode-se dizer que a história do século XIX brasileiro, que viu esse imenso território formar-se enquanto nação independente, se confunde com a história do apogeu e queda do regime escravista. Nesse sentido, os números da demografia são eloqüentes. Foi durante o século XIX que o país mais recebeu escravos africanos, se contabilizados os quase três séculos de duração do tráfico de seres humanos. Como é sabido, apesar da proibição desse comércio em 1831, ele prosseguiu até 1850. Nessa primeira metade do século, estima-se que entraram no país cerca de um milhão e meio de africanos, principalmente através do porto do Rio de Janeiro, sem dúvida o maior terminal do tráfico no Atlântico. Segundo uma estimativa recente, entre 1790 e 1830, ali desembarcaram 697.945

escravos, 123.590 apenas nos três últimos anos do tráfico legal (1828-30).l Dessa forma, em quarenta anos o Rio importou o equivalente a mais de um terço da população cativa no Brasil em 1818, que era de 1.930.000 pessoas, e, ainda, o equivalente a cerca de 17% de todos os escravos importados para o Brasil enquanto durou o comércio negreiro. O tráfico se constituiu no mecanismo mais usado para repor a mão-deobra escrava ao longo da história do escravismo brasileiro. Com sua proibição definitiva em 1850, a população escrava declinaria, apesar de ainda crescer, durante as duas décadas seguintes, nas regiões cafeeiras mais prósperas, através do tráfico interno, sobretudo no sentido norte-nordeste para o sudeste. Em seu conjunto, os escravos no Brasil eram 1.715.000 em 1864, 1.540.829 em 1874, 1.240.806 em 1884 e apenas 723.419 em 1887, às vésperas da abolição.2 O revigoramento da escravidão, e seu eventual declínio, não se deu de forma tranqüila, dependente sempre da visão e dos desígnios das tradicionais classes dominantes brasileiras. Estas ganharam a independência do país, impuseram seu estilo na formação do Estado nacional, conciliaram discursos liberais e civilizatórios com a manutenção da escravidão. Mas não foi essa a única visão de Brasil disponível na época. Além de não estar sempre unidas, além dos desafios levantados por dissidências regionais amiúde com apelo popular, de enfrentar periodicamente a contestação do povo livre do campo e da cidade, sobretudo no conflagrado período regencial, as elites brasileiras e os escravistas de um modo geral tiveram de enfrentar a resistência dos cativos em cada lugar em que a escravidão floresceu. Essa resistência sugere que o projeto vencedor de um país escravocrata não foi desfrutado sem a contestação dos principais perdedores. As rebeliões representaram a mais direta e inequívoca forma de resistência escrava coletiva. Mas nem toda revolta previa a destruição do regime escravocrata ou mesmo a liberdade imediata dos escravos nela envolvidos. Muitas visavam apenas corrigir excessos de tirania, diminuir até um limite tolerável a opressão, reivindicando benefícios específicos - às vezes a reconquista de ganhos perdidos - ou punindo feitores particularmente cruéis. Eram levantes que alvejavam reformar a escravidão, não destruí-la. Em 1789,
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Manolo Florentino, Em costas negras (São Paulo: Companhia das Letras, 1997), pp. 50-1. Robert Conrad, The Destruction of Brazilian Slavery, 1850-1888 (Berkeley: Univers)t?3>Tr) > V U Califórnia Press, 1972), pp. 283-5. /> <?\

proibindo que se reunissem para batuques e outros folguedos que lhes dessem ocasião de conspirar. Ambos os grupos. . Exa. Ademais. bem sabe V. se na Bahia e outras regiões. eles se associaram. Bahia. os escravos nascidos na África parecem ter sido o principal agente de combustão. os escravos mataram o feitor e se adentraram nas matas com as ferramentas do engenho. O governo metropolitano instalado no Rio reconhecia essa situação e por isso exigiu..246 João José Reis "Nos achamos em campo a tratar da liberdade": a resistência negra no Brasil oitocentista 247 por exemplo. que há huma grande differença entre os Negros Angolas e Benguellas nesta Capital. ainda num período de tráfico aberto. em 1814. intrépidos e capazes de qualquer empreza. só encerrado vinte anos depois. não menos intrépidos nagôs. Onde os africanos natos constituíam a maioria dos escravos.. além disso. Naquele ano o marquês de Aguiar. em se tratando de escravos africanos. 22-3-1814. vol. cuja campanha rebelde culminou com a revolta dos males em 1835. em número superior a duas dezenas. que são muito mais resolutos. Já para o Rio de Janeiro seguiram nesse período africanos principalmente de origem banto. especificamente haussás e nagôs. e os [negros] dessa Cidade [Salvador]. até reaparecerem algum tempo depois com uma proposta de paz em que pediam melhores condições de trabalho. mais do que os africanos. muitos deles bastante jovens e sem experiência com a arte da guerra. Maranhão. favorecidas pela expansão das áreas dedicadas à agricultura comercial e a conseqüente intensificação do tráfico escravo. reforçava a identidade coletiva e estimulava a consciência de força diante das camadas livres nacionais. 3 4 Stuart Schwartz. facilidades para comercializar os excedentes dessas roças. Sergipe. Tratarei adiante sobre religião enquanto ideologia e linguagem da revolta escrava. da circulação de ideologias liberais e mais tarde abolicionistas. como os motins antilusos na Bahia. deve-se chamar a atenção para que alguns grupos étnicos se mostraram mais aguerridos do que outros.4 Mas. contavam com numeroso contingente muçulmano. como fora o caso no engenho Santana há pouco mencionado. Ordens regias. Sobre a pacificação da população escrava em decorrência de uma maior presença das redes familiares. de africanos do mesmo grupo étnico. Com o declínio da população escrava africana depois do fim do tráfico. os crioulos (negros nascidos no Brasil) não eram exatamente passivos. A paz das senzalas (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.3 As revoltas tornaram-se mais freqüentes exatamente a partir do final do século XVIII. entre estes. 69-81. entre as quais o envolvimento em conflitos ligados à expansão do Islã e guerras civis em território iorubá. Além de fugirem sistematicamente e formarem quilombos.5 Nessa época. foram promovidas por cativos de origem africana. a movimentos concebidos por outros setores sociais. Arquivo Público do Estado da Bahia (APEBa). "Resistance and Accommodation in Eighteenth-Century Brazil". acesso a roças de subsistência. especialmente nos últimos anos da escravidão. foi mais difícil para a classe senhorial controlar a senzala.] além de não ter havido [no Rio de Janeiro] até agora desordens. mesmo antes disso. direito de escolher seus feitores. 1997). pp. ou as revoltas regionais do período regencial na década de 1830. 57: 1 (1979). particularmente os de Nação Aussá. em Hispanic American Historical Review. em Pernambuco. e mais ainda. 89. um maior número de africanos. 116. africanos que vinham de experiências guerreiras recentes. encontravam dificuldade em constituir famílias (em decorrência da alta taxa de masculinidade nos planteis). cuja importância aliás declinaria com o fim do tráfico. 5 Marquês de Aguiar ao conde dos Arcos. que fez crescer a população cativa e em particular o seu contingente africano. João VI. ver recente trabalho de Manolo Florentino e José Roberto Góes. As revoltas escravas na Bahia na primeira metade do século XIX. há exemplos de levantes de planteis predominantemente crioulos. Que a Bahia tivesse sido o palco de muitas revoltas escravas deve-se ao fato de que para lá convergiram nagôs e haussás em grande número. já havia começado o ciclo de revoltas escravas baianas. depois substituídos pelos. ministro de d. licença para celebrar livremente suas festas. ou unidos aos. escreveu ao liberal conde dos Arcos: [. entre outras exigências. que o governador da capitania da Bahia melhor controlasse seus escravos. os crioulos responderiam pela formação de quilombos e a promoção de revoltas. Uma proporção alta de escravos na população e. Mas. doe. Além do fator africano. das revoltas regionais. no engenho Santana de Ilhéus. Essas primeiras revoltas foram realmente levadas a cabo sobretudo pelos "intrépidos" haussás. especialmente o primeiro. um ambiente francamente favorável à rebeldia escrava foi-se formando ao longo do século XIX em torno dos movimentos pela independência. e. Rio de Janeiro. entre 1821 e 1831.

Luiz Mott.d. inclusive no Brasil. "Hegemony and Rebellion in Pernambuco (Brazil). deram-se vivas ao "Rei do Haiti" e a "São Domingos. pp. logo após ter sido derrubado. em sua colônia antilhana senhores mulatos e brancos racharam na luta pelo poder. que assim sugeria um projeto revolucionário para o Brasil. 117-20. Henri-Christophe. Já na Bahia escravocrata.248 João José Reis "Nos achamos em campo a tratar da liberdade": a resistência negra no Brasil oitocentista 249 A onda de tranformações políticas e ideológicas que varreu o mundo atlântico. incluindo até. Na Bahia contra o império (São Paulo/Salvador: Hucitec/EDUFBA. James.6 A revolução francesa também estimulou a rebeldia negra no continente americano por vias indiretas. um lembrete de que era possível vencer a classe senhorial. p. diminuindo a importância dos "ideais democrático-burgueses". 1988). que em 18Í1 se proclamara rei Henri I do Haiti. quando foi assim saudado em 1824 em Pernambuco. como um pesadelo. Tavares. o Grande São Domingos". homossexualidade e demonologia (São Paulo: ícone. Sergipe. o Haiti penetrou.uma das denominações dos movimentos antilusos -. embora tendo à frente homens pardos livres e libertos. 257. 1975). que enfatiza a tradição quilombista dos cativos haitianos para o desenlace do movimento. em 1820. teses de doutorado. depois Haiti. revelaram aos cativos que os homens livres estavam divididos. Os debates em torno do direito dos homens e das nações à liberdade. na chamada era das revoluções. 10 Robin Blackburn. transformando-se num símbolo de resistência escrava em todo o hemisfério. os escravos falavam abertamente nas ruas sobre os sucessos nas antilhas francesas. Por uma dessas ironias da história. já havia cometido suicídio. pp. de inspiração francesa. Luís Henrique D. Uma interessante interpretação recente. insinuaram-se tendências mais radicais constituídas por pretos e mulatos interessados numa revolução social inspirada na que ocorrera na colônia francesa. Escravidão. influenciou a rebeldia negra nas Américas. de Queirós Mattoso. O Brasil não ficou de fora. Os escravos aproveitaram-se da situação e da retórica revolucionárias do dia para agir. Em 1805. episódio que ganha maior significado se lembrarmos que Dessalines era também militar. por uma revolta de seu próprio povo soberano. Talvez mais do que as senzalas e barracos. Atitudes de inovação no Brasil. contou com a participação de alguns escravos e incluiu em seu programa. principalmente artesãos e soldados. 1969). Nas conjunturas revolucionárias de 1817 e 1824 no Nordeste. é de Carolyn Fick. as casas senhoriais. ao lado da corrente anticolonialista liderada pelos proprietários rebeldes. de Carvalho. 1988). o fim da discriminação racial e da escravidão. A chamada Conspiração dos Alfaiates. e Carlos Guilherme Mota. seu retrato decorava medalhões pendurados dos pescoços de milicianos negros no Rio de Janeiro. Naquele momento em que a França se via ela própria dividida por uma revolução. A revolução haitiana destruiu uma das mais lucrativas colônias européias e criou um Estado negro nas Américas. os palácios governamentais e mesmo os clubs rebeldes brancos. em Laranjeiras. caso as divergências entre portugueses e brasileiros se Carlos Guilherme Mota. 18241835". entretanto. acrescentar István Jancsó. 1972). 1990). 1789-1801 (Lisboa: Horizonte. 11-8. um monarca negro. que conciliavam esses princípios com a escravidão. The Making of Haiti (Knoxville: The University of Tennessee Press. A única revolução escrava bem-sucedida no Novo Mundo aconteceu em Saint Domingue. em Pernambuco. University of Illinois Urbana-Champaign. além de desmascarar a hipocrisia dos brancos. 1989. em 1798 na Bahia. no início da década de 1790. Nova York: Vintage. 1776-1848 (Londres: Verso.8 No mesmo ano. em 1814. pp. s. L. o Haiti esteve na ordem do dia. 8 .7 O "haitianismo" se tornou a expressão que definiria a influência daquele movimento sobre a ação política de negros e mulatos. The Overthrow of Colonial Slavery. ed. The Black Jacobins (2. R. várias vozes ligadas à ordem advertiram sobre uma reprodução aqui do fenômeno haitiano..). durante a chamada Confederação do Equador. O estudo clássico sobre esta revolução é de C. 1996). A presença francesa no movimento democrático baiano de 1798 (Salvador: Itapoã. num jantar "mata-caiado" . escravos e livres nos quatro cantos do continente americano. Na revolução pernambucana de 1817. Nordeste 1817 (São Paulo: Perspectiva. o comandanteem-chefe das forças haitianas que derrotaram os exércitos de Napoleão en6 viados para recuperar a ilha e reintroduzir a escravidão. 66-7 e nota 86. 9 Marcus Joaquim M. soldados do batalhão de pardos saquearam lojas de portugueses e distribuíram pasquins contendo versos haitianistas: Qual eu Imito a Cristóvão Esse Imortal Haitiano Eia! Imitai ao seu povo Oh meu povo soberano!9 7 Katia M. apenas um ano após a proclamação da independência haitiana por JeanJacques Dessalines. quem sabe. Na conjuntura da descolonização no Brasil. Em 1824. o Cristóvão do verso.10 Mas permanecia "imortal" na poesia popular pernambucana. 1963). História da sedição intentada na Bahia em 1798 (São Paulo: Pioneira.

provavelmente exageravam sobre o potencial revolucionário da situação. em 1867. nem vis colonos". peticionou pela liberdade aos deputados da Bahia nas cortes. paus. Tramerim. mas os senhores e as autoridades ituanas e vizinhas insistiam em mantê-la. 1994). p. . etc". O fenômeno repetiu-se em vários lugares. Juizes de Paz. após falar em quebra de algemas e esmagamento de grilhões. por exemplo. fez José Garcês. 1867 (São Luís: Sioge. Mundinha Araújo. "Nas fronteiras da Independência". 129. dissertação de mestrado. Mota. mas a tradição oral escrava. 27-3-1831.250 João José Reis "Nos adiamos em campo a trator da liberdade": a resistência negro no Brasil oitocentista 251 aprofundassem. o que a fez concluir que "a bancada baiana não levou avante a petição. "O jogo duro". por exemplo. 13 Sobre a Bahia. os quais. Mas não estavam sozinhos. 258. Pátria coroada (São Paulo: Editora da Unesp.. As notícias sobre os conflitos luso-brasileiros chegadas a Portugal através de cartas de sua irmã em Salvador. concluía: "Oh! Brasileiros. a independência nos "libertaria" dos "grilhões" portugueses. João J. Alguns decidiram agir como verdadeiros cidadãos. Em 1821. Silva. nota 34). pp. havia dúvida) teriam proclamado o fim da escravidão. como por Decretos d'El Rei. 92. São Paulo. 90-91. Queimado e Pedra da Cruz se reunissem para ouvir do vigário a proclamação da liberdade. maço 2. manifesta na forma de rumores. caros compatriotas! Nunca mais sereis escravos. negros nascidos no Brasil. Em trabalho recente Iara Lis Carvalho Souza. 1989). onde escravos desceram do quilombo São Benedito para sublevar as senzalas das fazendas locais. da cultura escrita dos senhores. Durante os tumultos da independência na Bahia. Aproveitaram como puderam a nova conjuntura aberta pela revolução constitucional do Porto. resultando de medida tão malvada [. A iniciativa política escrava podia ir longe.284. Em 1822. 119. Unicamp. centro da produção açucareira. Em 1822. Reis. sobretudo os escravos crioulos. o português Inácio Luís Madeira de Melo. procurou mas não encontrou a petição dos crioulos de Cachoeira no Diário das Cortes. Tempos depois. refletir: "Se faltasse a tropa. 94. que seus senhores têm sonegado. opinião semelhante tiveram um cônsul e um almirante. Francisco Carinhanha para Joaquim Azevedo. 11 C. antes até da própria colônia haver se desvencilhado da metrópole. Segundo o comandante militar de Salvador em 1822. mas aparentemente estes não encaminharam o documento para discussão. pp. em maio de 1822.] acharem-se os Escravos de tal forma seduzidos. despresando a obediência. 1993.. 222-226. ainda persistia na Bahia e alhures expressões como "facção lusa escravizadora" para definir os seguidores de d. um escravo espalhara o aviso de que os escravos de Jacaraípe. da mesma forma que os patriotas diziam querer libertar o país da metafórica escravidão colonial. "e todos apareceram na ocasião da missa armados de armas de fogo. Pedro I. Insurreição de escravos em Viana. Reis. Na Bahia. uma autoridade do Maranhão se lembrou do Haiti em meio ao medo de que os brancos fossem massacrados durante uma revolta no município de Viana. Reis e E.12 Esse tipo de discurso foi comum em todo o Brasil. p. talvez traumatizados com o que ocorrera em sua colônia. No Espírito Santo. J. Magda Ricci. 1999). ambos franceses. correu entre os escravos de Itu o providencial boato de que as cortes (ou o rei de Portugal.13 Outros escravos já achavam ter conseguido a liberdade das cortes e do rei de Portugal. que se identificavam como brasileiros e apostavam na possibilidade de se libertarem da escravidão real. p. agitadores andavam infundindo nos Escravos as idéas mais Luciferinas para se sublevarem. revelando que muitos cativos se fizeram atores ativos no cenário da descolonização. que não era francês. Lembremos que a propaganda patriótica insistia na imagem da escravidão para definir retoricamente os laços que ligavam o Brasil a Portugal: o Brasil seria "escravo" de Portugal. Bem mais tarde. que promoveu a reunião das cortes em Lisboa. Caetité. esse episódio mostra que o haitianismo representou um temor de longa duração a sobressaitar a alma do escravismo brasileiro. "O jogo duro do Dois de Julho". o próprio discurso anticolonial serviu de argumento à rebelião negra.11 Na conjuntura da descolonização portuguesa no Brasil. APEBa. em J.. Por sua data avançada. cit. resolvida a independência. no Recôncavo baiano. os escravos acompanharam rumores que aparentemente não teriam nascido nas senzalas. Campinas. um grupo de escravos crioulos de Cachoeira. o ouvidor de Itu. as cortes portuguesas desejavam "escravizar" os brasileiros. Negociação e conflito (São Paulo: Cia. Esse temor foi usado junto aos proprietários como moeda de negociação pelo comandante das forças que combateram os revolucionários pernambucanos em 1817. cit.. Os escravos ouviam a tudo com atenção e muitos traduziram o falatório dos brancos em causa própria. das Letras. 12 Sobre Itu. Nordeste 1817. Una. que. J. que se achão libertos não só em virtude do systema Constitucional. inculcão no seu modo de proceder huma próxima sublevação. Aqui o instrumento não seria o da petição. eram outros São Domingos". 50. G. não se reconhecendo enquanto representante daqueles homens" (p. declarandolhes.

252 João José Reis "Nos adiamos em campo o tratar da liberdade": a resistência negra no Brasil oitocentista 253 E acrescentava que a Bahia estava próxima a repetir "o horroroso quadro. pp. as rebeliões federalistas. pp. 71-5.860 (Proclamação de Madeira de Mello. estes liderados pelo liberto cearense Cosme Bento das Chagas. 2 (São Paulo: Brasiliense. em APEBa. para recompensar os bons serviços dos escravos-soldados. favoreceram a rebeldia escrava. Escreve Marcus Carvalho: Não é possível entender a existência de negros rebeldes atacando os arredores do Recife sem referência as divisões políticas das elites em 1817. 96-102. "Quilombos maranhenses". Esse abolicionismo radical levou muitos rebeldes bem-te-vis a debandarem para o lado da legalidade. sobre o Espírito Santo. p. 225-30. 50v. em duas outras ocasiões. no entanto. quantos escravos teriam sido realmente beneficiados. O próprio Chagas foi condenado à morte e enforcado em setembro de 1842. cap.16 Rebeldes federalistas. "Nas fronteiras da Independência". que o governo temia fosse atiçada por inimigos políticos. alguns homens livres que conspiravam contra a corte foram acusados de querer levantar "os escravos do país". maço 2.14 Em toda parte.18 A guerra externa também podia enfraquecer o controle dos escravos. significando. os balaios não tinham um ideário abolicionista . Piccolo. Os quilombos de Mato Gros- 17 14 Magda Ricci. Foi o caso do conflito com o Paraguai. Com freqüência a rebelião escrava não passava de um perigo potencial. p. que vieram a formar o batalhão de Lanceiros Negros.1821-22.856. na decisiva batalha de Porongos. 1984). Em nenhum dos casos os escravos responderam positivamente a esse abolicionismo interesseiro e limitado. 16 Libelo acusatório. que obrigou o governo provincial a concentrar todo o seu aparato repressivo no outro lado da província. depois de devidamente indenizados). 258. 1832 e 1837.17 Os escravos do Maranhão participaram ativamente do movimento da independência. facilitando o papel repressor do mesmo Caxias que mais tarde sufocaria os farrapos e seus combatentes escravos. da Universidade. A Balaiada e a insurreição de escravos no Maranhão (São Paulo: Ática. os crioulos. no entanto.). ou bem-te-vis. Nessa ocasião. pp. constituíram revoltas diferentes que convergiram apenas na fasefinaldo conflito. 15 Marcus Carvalho. Em 1831. Posteriormente. APEBa. 76-82. Mathias Assunção. 1987). em J. cit. recrudesceu após a independência paralelamente aos mata-marotos. Vilma Almada. mas Chagas. os rebeldes liberais. contemplados pelo artigo 7 do Convênio de Ponte Verde. 18 Maria Januária V. que como na Bahia lá também foi cruento. 1998). uma vaga de medo varreu a província de que a "classe escrava" estava em pé de guerra. durante a Balaiada (1838-1841). ou ainda à Cabanada (1832-1835). Revolução.1824. Gomes (orgs. Reis e F. Liberdade por um fio (São Paulo: Companhia das Letras. Liberdade: rotinas e rupturas do escravismo (Recife: Editora Universitária UFPE. que apresenta a Ilha de São Domingos". e que não deve ser confundido com princípios abolicionistas. 7 (São Paulo: Brasiliense. 1986). chegaram perto de convocar a escravaria para sua causa em troca de alforria. os quilombolas instalados nas imediações de Recife costumavam aumentar suas fileiras e sua ousadia no ritmo das ondas que agitavam o universo dos homens livres. O escravo gaúcho (Porto Alegre: Ed. Rebelião escrava. e diminuía sua capacidade de retaliação militar. e os escravos. escreveu em 1840 que "a República é para não haver a escravidão". com freqüência promovendo perigosas alianças entre estes e homens livres pobres. e Helga I. quando já quase vencidos.15 Na Bahia. na fronteira com Alagoas. pp. Em Pernambuco. Lana Lage Lima. embora alguns tenham se bandeado para a Sabinada em 1838. assinado no ano seguinte entre os rebeldes e Caxias: "está garantida pelo governo imperial a liberdade dos escravos que tenham servido nas fileiras republicanas ou nelas existiam". f.1831. A desunião dos homens livres. Os sobreviventes negros foram. uma onda de revoltas escravas. 182. "A questão da escravidão na Revolução Farroupilha". iniciada no início do século XIX. em Anais da V Reunião da SBPH (São Paulo.embora existisse entre seus segmentos mais humildes uma certa identidade racial -. pp. que celebrou a paz. afrouxava sua vigilância individual e coletiva. brutal- mente massacrados por Luís Alves de Lima e Silva. 1981). as quarteladas. Ver também. A Sabinada. 1993). o líder dos escravos. L. favoreceu grandemente a rebelião escrava porque revelava aos cativos a debilidade política dos senhores. Santos.. Já os farroupilhas do Rio Grande do Sul alistaram escravos dos adversários (e os de simpatizantes. Bons serviços: este o mesmo princípio que orientava a concessão das cartas de alforria privadas. sobre a participação negra nos movimentos de homens livres. 222-6. Os líderes farroupilhas haviam exigido assim. Desconhecem-se. João Reis. Paulo César Souza. Como os farroupilhas. Mário Maestri. maço 2. em 1844. 433-65. em tese. 1983). os conflitos entre os homens livres. 1986). Rebeldia e abolicionismo (Rio de Janeiro: Achiamé. 1996). e dos movimentos antilusos que se seguiram. futuro duque de Caxias. como foi o caso da época da independência. Escravismo e transição (Rio de Janeiro: Graal. cap. que se intitulava "tutor e imperador da liberdade". pp. muito provavelmente. . 29-3-1822). 166.

186-97. Exemplos não faltam. Tratava-se do primeiro instru- 19 Luiza R. além de colocar os senhores à mercê de seus escravos.. os escravos insistiam na mesma tecla. indo de recolhida para o Sítio encontrando-se na sahida da villa. a lei de 1871 promoveu o desassossego entre os escravos.. Reis de Queiroz. lágrimas de sangue (São Paulo: Companhia das Letras. escreveu o presidente da província. segundo os vereadores da vila de Turiaçu. que teriam experimentado "incremento excessivo. entrando com elle em conversa. Emilia Viotti da Costa. 167-74. discutiam e agiam estimulados pelo noticiário sobre as coisas que lhes diziam respeito. Vilma Almada. Rebeldia negra e abolicionismo. p.20 No Brasil. embora não em termos de revolta coletiva. escrevendo em julho de 1867. A lei de 1831 proibindo o tráfico transatlântico de cativos foi interpretada como emancipadora por escravos da vila de Itapemirim. cit. Cativos do sertão (São Paulo/Cuiabá: Marco Zero/Universidade Federal de Mato Grosso. como resultado de uma leitura libertária feita pelos escravos da retórica e do noticiário abolicionistas. e por fim as campanhas da última década do regime.19 Entre as mudanças políticas do século. com Joaquim Ferreiro escravo do capitam Joaquim Teixeira. procuram obter [a liberdade] por meios violentos e criminosos". Insurreição de escravos. eles cuja presença no Brasil era decisiva para a reprodução do escravismo. não seria justo que nos dessem tão bem a liberdade?" ao que lhe respondera o Joaquim. se repetiu em outras áreas escravistas das Américas. Suas estratégias de liberdade constantemente se chocavam com a visão gradualista do abolicionismo oficial. como de criminosos e desertores". cit. p. a guerra também repercutiu nos quilombos locais. Lana Lage Lima. que alguma coisa disso há de acontecer. pp. e. que abolia definitivamente o comércio transatlântico de africanos. 135-8. 1998).do que imaginar que esse sistema de trabalho e modo de vida desaparecessem por aqui. autoridades. Tratava-se de uma reação à lei de 1850. de novo no Espírito Santo. o Maranhão. Em 1823. pp. Não se pode dizer que fossem politicamente ingênuos por interpretarem "erroneamente" o que se discutia no mundo dos brancos. Só depois da guerra as autoridades puderam deslanchar a repressão contra quilombolas e desertores. porque eles faziam suas próprias leituras. cit. Vinte anos depois. São Paulo. de cada conjuntura desfavorável à sobrevivência do sistema. não só de escravos.. os escravos da colônia inglesa de Demerara (parte da atual Guiana) também traduziram como abolicionistas leis metropolitanas que visavam tão-somente reformar a escravidão. 1993). província vizinha ao teatro da guerra. em 1832.254 João José Reis "Nos achamos em campo a tratar da liberdade": a resistência negra no Brasil oitocentista 255 so. A mesma lei também entrou na complexa malha de motivações dos escravos que conspiraram contra seus senhores no município cafeeiro de Campinas. Visto por um outro ângulo. Vilma Almada interpretou esse e outros episódios posteriores. por acreditarem que os senhores e o governo colonial se recusavam a adotá-las. se os negros passavam a ser livres na África. foi da maior importância para a agitação escrava a longa trajetória abolicionista. Mundinha Araújo. mas com desertores do exército e homens livres em fuga do recrutamento. Rio de Janeiro: os escravos se inquietaram porque interpretaram as discussões em torno daquela lei como sinal de abolição definitiva da escravidão.. elle Reo dicera "ora Tio Joaquim [.e mais "justo" . a propósito. supondo lhes ser ocultada pelos senhores. C. Escravismo e transição. O mesmo aconteceria em Campos. da desorganização e extinção do escravismo brasileiro. Depoimento de Francisco. Em seu depoimento. pp. 220. 1977). comerciantes e lavradores da região alegavam que o recrutamento de guardas nacionais para o Paraguai diminuíra a capacidade de combate aos quilombos. desde as leis que haviam proibido o tráfico. Coroas de glória. o abolicionismo como propriamente movimento social. e às vezes surpreendentemente. Correu o boato entre eles de que "a novíssima Lei de Repressão ao Tráfico os há libertado da escravidão que eles. Ao mesmo tempo. no Espírito Santo.. O fenômeno. se os africanos haviam deixado de ser capturados e transportados da África como escravos. pois o importante é que interpretavam de acordo com seus interesses. 84-5. Os escravos participaram ativamente. Nessa leitura.] os negros já não vem para o Brazil. mas esse depoimento demonstra que os escravos acompanhavam. . em particular a Lei do Ventre Livre em 1871. encetaram uma revolta de grande proporção em número de participantes. engrossaram suas fileiras não apenas com escravos fugidos. agora em São Mateus. sobre Demerara. Volpato. Num outro extremo do Brasil. por exemplo. A conspiração de Campinas foi descoberta e a revolta terminou por não acontecer. amiúde radicais. 79. nada mais lógico . 93. o escravo crioulo Francisco disse que no domingo. apud Suely R. até as que reformaram a escravidão. Escravidão negra em São Paulo (Rio de Janeiro: José Olympio. deveriam também sê-lo no Brasil.

1980). Resistência e superação do escravismo na província de São Paulo (São Paulo: IPE/USP. Os rebeldes de Viana já haviam perdido a paciência. alianças que antes eram ocasionais ou envolvendo interesses individuais res- 2 ' Sidney Chalhoub. ver.23 É importante observar. em Campinas. São inúmeros os estudos que os mostram levando seus senhores ao tribunal para garantir esses direitos através do instrumento legal da ação de liberdade. 1994). Visões da liberdade: uma história das últimas décadas da escravidão na Corte (São Paulo: Companhia das Letras. com ou sem o concurso de agentes abolicionistas. durante uma revolta em Viana. como por exemplo a posse de pecúlio e a alforria por valores arbitrados em juízo. e os escravos souberam aproveitar a nova situação acionando-o com bastante freqüência em seu favor. da circulação de boca em boca de informações sobre novas possibilidades de ruptura com o domínio senhorial. Nesse esforço contaram os cativos com a solidariedade de homens livres. EDUFRJ/Edusp.22 Mas os escravos não se detiveram na luta legal após 1871. 92-4. Sobre ações de liberdade. Keila Grinberg. 1994). vários movimentos escravos dos anos vinte e trinta. libertar somente os poucos escravos nele envolvidos ou fugir para formar quilombos. 73. e logo depois se entregavam pacificamente ao delegado local. Foram comuns os levantes pequenos. no Maranhão. regionalistas. no entanto. por exemplo. embora fossem na sua maioria movimentos localizados. já que todos aqueles trazidos para o país de contrabando eram considerados livres. segundo a historiadora Maria Helena Machado. a lei da ambigüidade (Rio de Janeiro: Relume-Dumará. e Eduardo Spiller Pena. 45-57. agora estava dividida em torno da questão específica da escravidão. castigando publicamente. o discurso abolicionista ganhava terreno entre homens e mulheres livres.256 João José Reis "Nos odiámos em campo a tratar da liberdade": a resistência negra no Brasil oitocentista 257 mento legal que estabelecia abertamente certos direitos dos escravos diante dos senhores.. através de canais informais.]". Em 1867. especialmente cap..e realmente mataram toda a família de um administrador da fazenda. inclusive o movimento abolicionista. Liberata. na feliz expressão do historiador Sidney Chalhoub. fugas em massa das fazendas de café. Mas houve também revoltas que. federalistas. pp. muitos escravos de origem africana.os conflitos lusobrasileiro. cresceram as alianças entre os escravos e essa gente. pp. Sobre resistência escrava e seu impacto sobre as populações livres. dos Santos. tiveram tanto o objetivo de punir essa gente como o de reivindicar a liberdade. medo branco (São Paulo: Paz e Terra. havia uma espécie de censura à imprensa que visa- va evitar pânico e incentivo adicional à rebeldia. de Azevedo. anteriormente dividida em torno de outras questões . que o tema da abolição nas revoltas escravas não teve de esperar o momento de maior agitação abolicionista para emergir. Insurreição de escravos. sem no entanto alcançarem a desejada liberdade. republicanos . a população livre. Maria Helena Machado. Durante a fase final da escravidão aconteceram levantes e a formação de quilombos em várias partes do país. pp. ver. 1999).21 Animados com a nova situação. inclusive membros da elite branca. pouco conhecidas na época porque. A lei. importados após 1831. inclusive crianças. moveriam ações contra seus senhores por se encontrarem ilegalmente escravizados. A diferença é que. os escravos da fazenda Castelo. 24 Apud Mundinha Araújo. Pela primeira vez o Estado se intrometia em profundidade nas relações escravistas. se rebelaram aos gritos de "Mata branco" e "Viva a liberdade" . promotor de dezenas de ações de liberdade em São Paulo. cujo andamento e resultados ele discutia na imprensa. quando era o caso. II e Célia Maria M.. incluíram a liberdade em seus programas. além do livro de Chalhoub acima. Ronaldo M. entre eles dedicados advogados abolicionistas como o negro baiano Luís Gama. Ou seja. além deste livro. o fenômeno não teria se generalizado sem alguma elaboração coletiva. em épocas anteriores nem todo levante visava apenas punir feitores. Com isso. em Padê (1989). reformar aspectos da escravidão. 22 Elciene Azevedo. Num dos lances do levante eles obrigaram o administrador de uma das fazendas conflagradas a escrever uma carta onde declaravam: "nos achamos em campo a tratar da Liberdade dos Cativos. embora logo sufocadas. cit. que assassinavam feitores e senhores. Orfeu de Carapinha (Campinas: Editora da Unicamp/Cecult. nos últimos anos da escravidão. Há notícias de muitas conspirações e revoltas em São Paulo.24 Antes disso.. pois a muito que esperamos por ella [. nos meses anteriores ao 13 de maio. Em 1882. 23 . Onda negra. 33-4. 1990). os quilombolas do mocambo de São Benedito ocuparam propriedades da região com um programa abolicionista. Embora a resistência legal dos escravos tivesse o teor de batalhas individuais. juizes que emperravam suas demandas ou as julgavam desfavoravelmente. 1987). O plano e o pânico (Rio de Janeiro/São Paulo. "Liberdades em arbítrio". em geral restritos a uma ou duas propriedades e. "politizou o cotidiano" das relações entre senhores e escravos. Se agora nem todo levante visava a liberdade definitiva. envolvendo apenas algumas dezenas de escravos. no próprio Maranhão e outras regiões do país.

durante o levante. Correspondência do Presidente. 136-55. o Islã africano também circulava no mundo atlântico como uma ideologia de transformação social. f. os quais principalmente no tempo do Natal fazem algumas desordens em razão de estarem mais folgados do serviço pelos dias santos". na era das revoluções burguesas e das independências americanas. cit. Ali se produzia um clima extraordinário de liberdade e de inversão ritual do mundo que os escravos rebeldes procuraram perpetuar na vida cotidiana. tida como propriedade do homem livre. sob cuja proteção acreditavam estar de corpo fechado contra as balas e espadas dos soldados. era chamado "pai" Manuel. aos quais forneciam produtos por eles cultivados ou roubados.e não trechos da Declaração dos Direitos do Homem . As revoltas eram planejadas para os dias festivos. haviam orientado a rebeldia negra. ou inspirou negros (sobretudo crioulos) e mulatos sob a forma indireta e africanizada do "haitianismo". Ou seja. é um dos levantes escravos de que se tem conhecimento em cuja devassa mais se mencionam feitiços. os escravos não costumavam romper com o universo senhorial sem a ajuda de seus deuses.. O historiador norte-americano Eugene Genovese chega a afirmar que. domingos e dias santos.25 Se no Brasil este último despertou os rebeldes de olho e ouvido na retórica do liberalismo.27 No contexto do folguedo escravo se verificavam experiências culturais bastante distantes de qualquer ideário "liberal". 140. 27 28 APEBa. a Noite da Glória. Por isso. 679. A própria revolta foi marcada para acontecer no final do mês sagrado do Ramadã daquele ano. Perguntado sobre o assunto. Na Bahia. ele acredita. teriam praticamente desaparecido os africanismos ideológicos e culturais que no período anterior. identidade e solidariedade coletivas eram potencializadas através de símbolos erituaisque reafirmavam os valores espirituais e étnicos do grupo. os rebeldes escravos freqüentemente se apropriaram da ideologia liberal. Grande parte da política escrava se celebrava num campo de poder localizado em algum lugar entre o cotidiano e outro mundo. Essa tese já foi refutada muitas vezes por historiadores de várias regiões e rebeliões nas Américas. além de mãode-obra muitas vezes. líder de uma revolta em Vassouras. e a transformaram em instrumento da liberdade escrava. esmagado em 1826 nas imediações de Salvador. From Rebellion to Revolution (Nova York: Vintage. Segundo esse registro do tempo. Na nova conjuntura aberta pelo avanço do abolicionista. Enfim. embora não imprimindo um sentido absolutamente novo. funcionava uma casa de candomblé. como de resto nas Américas.26 25 Para os escravos. Testing the Chains (Ithaca: Cornell University Press. A conspiração de Campinas. Manuel Congo. em 1832. mas mundo afora. em 1838. como foram as relações de quilombolas com taverneiros e lavradores. vol. o ataque à escravidão nem sempre acompanhava o calendário ou usava a linguagem da grande política secular. que coincidia com a popular festa católica de Nossa Senhora da Guia. Como vimos antes. desenvolvendo novas estratégias. 1982) e Carolyn Fick. a festa do Lailat al-Qadr. Isso nos leva a uma discussão importante sobre a resistência escrava no Brasil. 1979). Ali. muitas conspirações e revoltas escravas ocorreram exatamente nos períodos festivos. o campo político da atuação escrava se ampliaria. por exemplo. em Revista USP. O presidente da Bahia explicou em 1831 que em sua província eram "freqüentes as sublevações de escravos. cit. 28 (1995-96).. mestres muçulmanos formaram a liderança do movimento da revolta dos males em 1835 e. Com freqüência a melhor hora de atacar estava marcada no calendário da miúda política do cotidiano ou da misteriosa política do universo espiritual.258 João José Reis "Nos achamos em campo a tratar da liberdade": a resistência negra no Brasil oitocenrista 259 tritos. o senhor baixava a guarda nos períodos de festas. não só no Brasil. pp. não só porque seus líderes contavam com o relaxamento do controle senhorial. Entre seus muitos críticos. Rebelião escrava. 26 João Reis. potencializando o movimento escravo. Em meu artigo "Quilombos e revoltas escravas no Brasil". listo diversos casos de revoltas acontecidas ou planejadas para acontecer em dias festivos. The Making of Haiti. o escravo Felizardo disse que as "meizinhas era para amansar aos brancos Eugene Genovese. a formação dos quilombos. especialmente as noites festivas. pp. seus seguidores ocuparam as ruas usando vestimentas islâmicas e amuletos contendo passagens do Alcorão . No interior do quilombo do Urubu baiano. o mesmo momento aproveitado pelos escravos para celebrar seus deuses e deles adquirir força espiritual para mudar o mundo. mas porque contavam com a disposição de escravos possuídos por um espírito de liberdade amiúde cultivado no campo do divino. talvez com alguma conotação religiosa. 31-2. como.28 Muitos dos líderes rebeldes africanos foram também sacerdotes de religiões africanas. o mesmo não se pode dizer da corrente central das rebeliões escravas baianas e outros movimentos levados a cabo pelos africanos. os quais concluíram que nem os quilombos representaram um retorno a uma África perdida nem as ideologias africanas cederiam inteiramente lugar ao novo ideário democrático burguês em expansão. . Michael Craton.

2 (Rio de Janeiro. cuja igreja ajudaram penosamente a construir. O plano e o pânico. 1995). Um dos cabeças dessa conspiração. Suely R. àqueles do catolicismo popular e mesmo do espiritismo. como no caso de Manuel Congo. cit. Era tudo engano. 111.. Em 1836 escravos baianos se juntaram à plebe livre católica na destruição de um cemitério construído para fazer valer a proibição dos enterros nas igrejas. As "meizinhas" eram poções em geral feitas de raízes e vendidas pelos escravos congos da região. especialmente banto. Insurreição do Queimado (Vitória: Editora da Fundação Ceciliano Abel de Almeida. Histórias de quilombolas. o que depois veio a ser pai-de-santo. 111. já estavam reduzidos a minoria. Robert Slenes. Libertos e escravos associados a irmandades negras integraram esse movimento em defesa do direito de ocuparem sepulturas em espaço sagrado. A Balaiada. Reis de Queiroz.. Em 1849. santa popularíssima entre os negros brasileiros. 96-102. Tínhamos lá uma umbanda abolicionista. Santos. no Espírito Santo. era o escravo de nação rebolo Diogo. Sobre Campinas. p. 88. para cuja irmandade o liberto cearense recrutava seus combatentes. Ele mesmo escreveu. Insurreição negra e justiça (Rio de Janeiro: Expressão e Cultura/OAB. Sua presença aqui sugere que ideologias religiosas. era infamado de feiticeiro. pp. "entretinhão continuadamente os escravos da fazenda em sessões de feitiçaria. bantos e outros. poderiam atribuir tal poder ao padre. cap. 30 Afonso Cláudio. 32 31 . João Luiz Pinaud et alii. pp. especialmente capítulos II e III.32 Santo Antônio reapareceria em São Paulo na última década da escravidão. no episódio antes referido brevemente. em 1847. encarregado de distribuir as poções protetoras. "'Malungu' Ngoma Vem". Adiante chamava seu movimento de "partido sagrado dessa Irmandade".260 João José Reis "Nos adiamos em campo a tratar da liberdade": a resistência negra no Brasil oitocentista 261 para as armas dos mesmos não ofenderem a elles pretos e se levantarem afoitamente com os mesmos brancos. Sobre Bento das Chagas. no ano seguinte. não diretamente vinculado ao movimento. o papel da religião na revolta escrava não se limitou apenas a expressões de maior densidade africana. pp. provavelmente significando. em avançado estado de crioulização. Ele fora visto "conduzido em uma cadeira nos braços dos negros dando vivas à liberdade da escravatura [. 33 Maria Helena Machado. Maria Januária V. 64 e ss. num português tortuoso: "Toudos que quiserem dotarem a Lei Consedo a irmandade do Rosário onde tenho o meu isercio [exército]". em Campinas. 118-9. comandante dos escravos da Balaiada. Esses rebeldes buscaram a liberdade através de uma linguagem religiosa sincrética.. que combinava elementos do registro religioso africano. 216. Santos.. o escravo Elisiário. Cosme e seus liderados faziam uma viagem cultural própria. segundo o depoimento de um escravo. mas sugerem que só escravos católicos e devotos daquele santo. medida essencial para que lograssem a boa morte que os levaria à liberdade no outro mundo. cit.29 Como sugere o caso de Cosme. os rebeldes de Queimado. cit. durante a missa festiva. 3. ou "Pai Diogo". Os escravos vestiram suas melhores roupas e se dirigiram à igreja para ouvir do frade a boa nova. A Balaiada. e ficarem elles pretos todos forros".33 Sobre a revolta de Manuel Congo. da qual participariam escravos de origem banto espalhados por vários munícipios do Vale do Paraíba e sul de Minas Gerais. 132. 219. Robert Slenes suspeita da cumplicidade de Santo Antônio em uma vasta conspiração. Consta que Cosme Chagas era devoto de Nossa Senhora do Rosário. mas popular entre os escravos da região. Escravidão negra. e até messiânicas. uma complexa teia conspiratória envolvendo líderes que distribuíam "bebida preparada com raízes" para fechar o corpo. de que um missionário capuchinho iria persuadir seus senhores a alforriá-los no dia de São José. Foi o que aconteceu em 1882 na fazenda Castelo. cap. que nada tinha do racionalismo liberal. 12 (1991-92). podiam servir aos objetivos abolicionistas dos escravos melhor às vezes do que ideologias seculares. Metido numa revolta liberal. cit. Sufocada a rebelião descobriu-se. Outros escravos tocados pelo catolicismo preferiram não esperar a liberdade encontrada na morte.] em cuja procissão conduziam uma porção de imagens e paramentos da Igreja". Algo muito próximo do que se entende hoje como a umbanda paulista. 1979). como fora a Balaiada. o roubo e o assassinato de feitores e proprietários agrícolas". Os líderes.. mas consta que buscou sacralizar sua liderança com elementos do catolicismo popular. Até Cosme Bento das Chagas. quando os africanos. em Revista USP. As circunstâncias não são muito claras. São João. mata-los. ver Maria Januária V. escravos devotos de Santo Antônio teriam se envolvido numa conspiração com data marcada para o dia de um outro santo. Os escravos cristianizados criaram no Novo Mundo uma forma peculiar de catolicismo que às vezes os ajudou na revolta. 1987) e especialmente Flávio Gomes. Arquivo Nacional. São Paulo. tal como cinqüenta anos antes no mesmo município.30 29 Santos católicos estiveram envolvidos em outras lutas escravas. foram convencidos por seu líder. A imagem de Santo Antônio fazia parte dosrituaisde curandeirismo de um tal João Galdino Camargo.31 Em Vassouras. nas quais abertamente pregavão a desobediência aos senhores.

34 Estas. Minas Gerais: o caso Carrancas".262 João José Reis "Nos achomos em campo o trator da liberdade": o resistência negra no Brasil oitocentisto 263 O que discutimos até aqui se baseia numa historiografia da escravidão relativamente recente. O plano e o pânico: os movimentos sociais da década da abolição. mas com uma linguagem própria. os escravos se constituíram em força decisiva para a derrocada final do regime que os oprimia. e quando estes o fizeram o movimento escravo cresceu. Histórias de quüombolas: mocambos e comunidades de senzalas no Rio de Janeiro. 1999. 1983. São Paulo: Brasiliense. Embora fossem derrotados tantas vezes. 1998. Ao contrário do que um dia escreveu Fernando Henrique Cardoso. Liberdade por um fio: história dos quilombos no Brasil. Mundinha. Tivessem eles se adequado aos desígnios senhoriais. São Paulo: Companhia das Letras. 2. A Balaiada e a insurreição de escravos no Maranhão. 34 Fernando Henrique Cardoso. ed. 2. . Ática. no sentido de que a história não passou por eles incólume. pp. como tivemos oportunidade de demonstrar. n° 21-22. 1981. M. Lana Lage da Gama. ou ainda combinando elementos da cultura escrava com o discurso da elite liberal. CHALHOUB. 1988. LIMA. ARAÚJO. obviamente.). 2. Os escravos. foram muitas vezes usadas como instrumentos da revolta social. Flávio dos Santos (orgs. Porto Alegre: Mercado Aberto. não permitindo que a abolição se transformasse em um negócio apenas de brancos. Marcus J. Sujeitos políticos e por isso históricos. ed. emAfro-Ásia. 1995. Rio de Janeiro/São Paulo: Ed. . Visões da liberdade: uma história das últimas décadas da escravidão na Corte. de que foram capazes de desenvolver uma visão crítica da sociedade em que viviam e uma visão de futuro redimido. Liberdade: rotinas e rupturas do escravismo. os escravos identificaram rapidamente as brechas abertas pela legislação emancipacionista e freqüentemente levaram seus senhores aos tribunais em defesa de direitos garantidos em lei. 1994. Não fosse a ação dos escravos rebeldes. pois eles marcaram limites além dos quais seus opressores não seriam obedecidos. GOMES. Recife 1822-1850. Aproveitaram-se das divisões entre estes. mas não deixaram de assimilar com os mesmos objetivos muitos aspectos de ideologias seculares disponíveis nos diversos ambientes sociais em que circulavam. selecionaram temas que lhes interessavam do ideário liberal e anticolonial. ed. São Luís: Sioge. São Paulo: Companhia das Letras. . 1999. & SILVA. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional. São Paulo. mas não desconheciam o que se passava no mundo dos poderosos. Insurreição de escravos em Viana. Capitalismo e escravidão (São Paulo: Difel. Eduardo. MOURA. UFRJ/Edusp. Clóvis. dispunham de poucos recursos políticos. REÍS. João José Reis. 1962). Recife: Editora Universitária UFPE. 1986. 1994. ou com a linguagem do brancofiltradapor seus interesses. MACHADO. Rio de Janeiro: Achiamé. sua "consciência de revolta" não se esgotou "na fabulação e nas crenças religiosas". Flávio dos Santos. Rebelião negra e abolicionismo. o escravismo brasileiro talvez tivesse adentrado o século XX. 1867. que tem demonstrado ser possível entender os escravos como sujeitos históricos ativos. & GOMES. 1998-99. Rebelião escrava no Brasil: a história do levante dos males (1835). Maria Helena. Sidney. Maria Januária Vilela. CARVALHO. No Brasil da segunda metade do século XIX. 242-3. Fizeram da religião africana ou do catolicismo popular instrumentos de interpretação e transformação do mundo. 1998. Negociação e conflito: a resistência negra no Brasil escravista. traduziram e emprestaram significados próprios às reformas operadas no escravismo brasileiro ao longo do século XDC. 45-82. a escravidão teria sido um horror maior do que foi. Fizeram política sim. Rebeliões da senzala. 4. Bibliografia selecionada ANDRADE. São Paulo: Companhia das Letras. Marcos Ferreira de. Alguns de seus líderes tiveram posturas abolicionistas muito antes de o abolicionismo ser adotado por largos setores livres da sociedade. de. "Rebelião escrava na Comarca do Rio das Mortes. Salvador. pp. SANTOS. ed.

Olhares estrangeiros sobre o Brasil do século XIX „p. • Karen Macknow Lisboa .f -r. 0 fri 4 .JhiV* * 4E * ' .

p. aos principais centros da ex-colônia. Sérgio Buarque de Holanda refere-se a um "novo descobrimento do Brasil"1 empreitado por comerciantes. artistas. 1.. de um dos aspectos do processo de "internacionalização" pelo qual o Brasil estava passando. educadores vindos de diferentes regiões do Velho Mundo e dos Estados Unidos. os ingleses gozavam o direito de negociar. vilas. C. cit.). ver Ilka Boaventura Leite. São Paulo. . vol. Virgílio Noya Pinto. "Europeus no Brasil à época da independência". ed. entre os primeiros a lançar publicações sobre o Brasil no Velho Mundo.3 Apesar do predomínio inglês. um "caráter cosmopolita".13. Sobre a predominância inglesa relacionada à literatura de viagem e à história sobre o Brasil. em 1822: dimensões (São Paulo: Perspectiva.2 Entre os estrangeiros. São Paulo: Difel. "Balanço das transformações econômicas no século XIX". Século XIX. 60.. 120. em 1822: dimensões. naturalistas e artistas estrangeiros". naturalistas. tese de doutorado apresentada ao Departamento de Ciências Sociais da FFLCH-USP. vol. especialmente os portuários. 1975). São Paulo. tão promissora em riquezas naturais. em decorrência dos privilégios comerciais que desfrutavam no Brasil. diplomatas. 1. ocorre a derrocada do antigo sistema colonial. Mota (org. 1972). em História geral da civilização brasileira (4.). "A herança colonial: sua desagregação". 41-4. que se 1 2 3 Sérgio Buarque de Holanda (org. 133. chegando a emprestar. Brasil em perspectiva (6. tomo II.).. "Viajantes. inúmeros estrangeiros podem finalmente visitar a desconhecida terra. e também Carlos Oberacker. cit. p. Carlos Guilherme Mota (org. p. "Europeus no Brasil à época da independência".J-Jrni 1808 abrem-se os portos da colônia portuguesa na América do Sul e. tomo II.). portos e lugares do país. 1976). p. Trata-se. residir e estabelecer-se nas cidades. Pelo segundo artigo do Tratado de 1810. a presença dos ingleses é a mais expressiva. V. História geral da civilização brasileira. Difel.). conseqüentemente. nesse momento. desde o Tratado de 1810. em Sérgio Buarque de Holanda (org. estando. 1986. Superado o exclusivismo português. pp. G. mercenários. pois. mimeo. Negros e viajantes estrangeiros em Minas Gerais. imigrantes. em Carlos Guilherme Mota (org. ed. viajar. Não é difícil compreender que eles exerceram significativa influência tanto sobre a economia quanto sobre o campo das idéias. cap.

passando por regiões muito diversas. 83.268 Karen Macknow Lisboa Olhares estrangeiros sobre o Brasil do século XIX 269 estende ao longo do século. igualmente era possível fazer-se uma longa viagem. com notórios interesses comerciais manifestados por uma burguesia em franco fortalecimento. de produção. em menor escala. a fíccional . 1800-1899. particularmente. em Revista de Historia de América. focalizando a questão em torno dos dois aspectos que o particularizam no contexto da América e da Europa: primeiramente. Ilka Boaventura Leite.6 A literatura de viagem sobre o Brasil no século XIX é muito extensa. cit.-.. Os viajantes no Brasil. De comerciantes. Essa diferença reflete o perfil dos estrangeiros errantes no Brasil. 1977. vol. o fato de ter sido a única monarquia. que analisa as "imagens" que nas primeiras décadas do século XIX a literatura européia criou sobre o Brasil. a economia e as questões escravistas e indígenas. não se tem notícia de tantos comerciantes.que estavam para se firmar como nações unificadas . Esse grande afluxo forasteiro talvez se explique por razões muito práticas: em relação ao restante da América Latina.de autores que conheciam ou não o país . Rússia e os EUA estariam interessados na "exploração imediata". estatística. epístola. Ilka Boaventura Leite. diplomatas. sociais e naturais do país. E. observa-se a existência de dois grupos distintos representados por momentos político-expansionistas diferentes: Inglaterra. 40-63. a Áustria. artistas a 4 mercenários. 1817-1820 (São Paulo: Hucitec/Fapesp.ainda não estariam participando ostensivamente da corrida expansionista. a fauna e a flora. 209-10. op. compêndio.4 De um modo geral. pp. mineralogia. "Imagens do Brasil no Velho Mundo". obviamente. outras nacionalidades voltaram seus interesses ao país e deixaram igualmente importantes registros de suas viagens ou estadias em forma de relato. se comparados com Londres e Paris . razões menos práticas foram motivo de interesse. cit. como o estudo da natureza e a multiplicidade étnica que carateriza a nossa sociedade. pp. a ênfase nos assuntos é diferente. nas grandes expedições científicas. O Brasil não é longe daqui (São Paulo: Companhia das Letras. Salvo eventualmente o México. por sua vez. cap. por exemplo. tomo II. pois. mimeo. A melhora dos meios de transporte e de comunicação e a difusão de notícias acerca das riquezas e das possibilidades econômicas do país também motivaram a vinda de muitos estrangeiros. 1997). op. em decorrência de seu próprio status no continente europeu.ainda incipientes. diário e material iconográfico. dissertação de mestrado apresentada ao Departamento de História da FFLCH-USP. 1808-1822. . 84-6. além do apoio que muitos naturalistas e exploradores receberam de d. todos estudavam. a instalação de jardins botânicos e a ampliação de sociedades e academias científicas . tanto rural como urbana. 1981. Pedro II. ver (capítulos introdutórios) Elisabeth Mendes. Tomando por base alguns desses depoimentos de estrangeiros. Em suma. o interesse de explorar o país. viajar no Brasil era mais seguro devido à relativa estabilidade política e à presença de muitos estrangeiros. 1981) (Estudos Históricos). as viagens dos estrangeiros e a sua produção intelectual devem ser compreendidas no contexto da expansão capitalista e neocolonialista do século XIX. a ampliação e a manutenção de novos mercados e a coleta de amostras da natureza. seu lugar no processo de internacionalização do Brasil era mais periférico. dependendo dos objetivos da viagem. os recursos naturais. pp. sobretudo até meados do século. A pesquisa científica e as "descobertas" de novas espécies e matérias-primas não serviam meramente como contribuição para a montagem de museus. II. conferência. cit. 7 A respeito das tipologias de viajantes e características do gênero literatura de viagem. México. paleontologia. como ocorria entre os ingleses. op. desconsiderando-se o trágico episódio no México. pretendemos.). Pedro Moacyr Campos.. a Suécia e a Itália . "Brazil: Travei and Description. Nesse período.7 servindo de rico "laboratório" para os estudos sobre as diferentes "raças" e "culturas". meteorologia. Karen Macknow Lisboa.-jun. jan. Entre os alemães. aventureiros. ou seja. n.5 o que não excluía. Campos investiga tanto a literatura de viagem. A nova Atlântida de Spix e Martius: natureza e civilização na Viagem pelo Brasil.mas também implicavam um significativo retorno econômico e prestígio político. Flora Sussekind. astronomia. nos escritos desses forasteiros estão sendo avaliadas as potencialidades econômicas.). Alicia Tjarks. nenhum país exerceu tanta atração sobre os europeus e norte-americanos como o Brasil. investigavam as relações de trabalho. em Sérgio Buarque de Holanda (org. É evidente que os naturalistas. sem o transtorno de cruzar fronteiras. Míriam Moreira Leite (org. 1991). observavam a vida social. perscrutar as imagens criadas sobre o Brasil. São Paulo. aprofundaram os temas da história natural: botânica. zoologia. A Selected Bibliography". século XIX (São Paulo: Hucitec/Pró-memória/Edusp. contribuindo para a produção de imagens sobre o país e para a sua inserção no concerto das nações européias. 1. França e. cf. Em jogo estão a conquista. A condição feminina no Rio de Janeiro.. o qual se manifestou. para mencionar o mais importante. geografia. com maior ou menor afinco. Já a Alemanha. num continente formado por numerosas repúblicas independen- 6 5 Lembrando aqui Pedro Moacyr Campos.como a historiografia. Daí uma das razões da variedade temática que caracteriza a literatura de viagem.

ver Norbert Elias. examinaremos alguns aspectos dos complexos e controversos temas da escravidão. 10 Considerando o contexto da expansão do capitalismo. Para mais detalhes acerca dessa distinção. Vale ainda ressalvar que estamos lidando com "imagens" que os autores criaram a respeito do Brasil. ele servia apenas para países que tivessem um razoável território ou que estivessem em condições de expandir sua área. e sim posterior. considerando no mínimo um relato de viagem por década. Maria Célia Paoli. E. em segundo lugar. von Spix & C.. algo ainda inédito. e como modelo serviam a Inglaterra e a França. e. o fim do pacto colonial e do exclusivismo português serviu de ensejo para que dispensassem mais atenção ao assunto.] são exigências essenciais da nacionalidade". conforme Hobsbawm demonstra. 36-50. a visão de mundo desses viajantes se apoia nos conceitos complementares de civilização e barbárie. no início do século XIX. Nesse período. A relação que se estabelece entre a chegada da família real. a "selvageria americana". Carl Seidler. D. pp. pp. Anna Maria Quirino (Rio de Janeiro: Paz e Terra. I.11 Já para o comerciante inglês Luccock. a abertura dos portos e o comércio com nações de outras partes do mundo exerceram incalculável influência. em segundo lugar. ao menos na capital. a questão central é a imposição eurocêntrica de valores e crenças preconcebidos para se enxergar uma sociedade historicamente diferente. de Ramiz Galvão. não havia ainda uma teoria sobre o que seria a nação e os Estados-nações. conceitua uma idéia "liberal" de nação: a nação teria que ser de tamanho suficiente para formar uma unidade viável de desenvolvimento: "um território extenso e uma grande população. nota-se que os autores viajantes preocupavam-se com questões em torno da formação da nação. favorecendo o surgimento de um sentimento de patriotismo. econômicas e sociais decorrentes da transferência da corte portuguesa. Hobsbawm apura a existência de três critérios que permitiam a um povo ser classificado como nação. o que ajudava na conscientização do povo de sua existência coletiva. vol. acreditando na superioridade do europeu. como prova darwiniana do sucesso evolucionista como espécies sociais. a existência de uma elite cultural longamente estabelecida. embora as teorias a esse respeito ainda fossem incipientes. Leopoldina da Áustria: dois mundos heterogêneos celebram bodas .um mamute ressuscitado. a montagem do Estado e a fundação da nação evidencia-se em alguns relatos: o francês Alcide Orbigny comenta em sua obra que a formação do Estado se deu com a mudança da família real. p. em terceiro lugar. Esse esforço ultrapassaria os limites propostos a este trabalho. 1990). a expansão e domínio político. Hobsbawm. Ruy Jungmann (Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. 185 (grifos meus). A "escola histórica" dos economistas alemães. Eldorado e Alemanha. Viagem pelo Brasil. Basílio de Magalhães e Ernst Winkler (Belo Horizonte/São Paulo: Itatiaia/Edusp. F. econômico e cultural.8 Provavelmente 8 Vale lembrar que. 1825-1835 Nas primeiras três décadas do século XIX. 1990). num período em que predominava o trabalho livre. como herdeiros da Ilustração. em seguida. David Jardim (Belo Horizonte/São Paulo: Itatiaia/Edusp. 1981). na prática. 11 J. Viagem pitoresca através do Brasil. a partir de meados do século. trad. 47-8. E indagava-se quais das numerosas populações européias classificáveis como uma "nacionalidade" poderiam vir a ser um Estado e quais dos numerosos Estados estariam dotados de um caráter de "nação". a abertura dos portos é considerada o primeiro grande esforço para realizar a obra de unificação do terri- O império do Novo Mundo entra no concerto dos Estados europeus . Pedro desposa a princesa da casa de Habsburgo. fora removida pela "influência da civilização e cultura da velha e educada Europa". . trad. cuja voz não carece ser medida em léguas quadradas. recuperaremos algumas facetas da imagem de d. trad. P. De 1830 a 1880. bem como justificar. O processo civilizador. vindo a ser um império mais poderoso do que o reino europeu. por fim. Pedro II. desde 1780. sem a preocupação de conferir a sua veracidade. Para tanto. fomos obrigados a selecionar alguns autores. bem como servia. de ter mantido por mais tempo o escravismo. Nações e nacionalismo. Dez anos no Brasil. Esse "princípio da nacionalidade" era aceito por grande parte dos pensadores sérios a respeito do assunto. A despeito de suas variantes (o conceito franco-inglês de civilização e o conceito alemão de cultura). O "nascimento da nação" o próprio fato de testemunharem as mudanças políticas. 53 (grifos meus).10 E ponderam que a presença da corte real no Brasil.fantasia e diuturna realidade. da miscigenação e do projeto civilizador.9 Para os bávaros Spix e Martius. O conceito não é paralelo à própria formação dos Estados-nações na Europa. a provada capacidade para a conquista. 1976). veremos primeiramente como os estrangeiros registram o momento do "nascimento da nação" brasileira. von Martius. dotados de múltiplos recursos [.270 Karen Macknow Lisboa Olhares estrangeiros sobre o Brasil do século XIX 271 tes. Mas. nas páginas que se seguem. 9 Alcide Orbigny. B. Ver Eric J. na década de 1820. "que possuísse um vernáculo administrativo e literário escrito". Diante do enorme universo de escritores viajantes e da abrangência do período aqui tratado. trad. há somente um pequeno número de Estados-nações. cultura e selvageria. perfectibilidade e degeneração. desde que tivesse suficiente dimensão territorial: primeiramente era necessária a associação histórica entre o povo e o Estado ou um Estado de passado recente e razoavelmente durável. rev. é importante lembrar que. mantendo certa unidade nesse processo. Lúcia Furquim Lanmeyer..

ed. mas não evocou nenhum sentimento especial.14 O pintor alemão Rugendas notou que as classes abastadas tinham a obstinada mania de querer imitar os costumes ingleses. não fora a vinda da família real e abertura dos portos (Orbigny. em que. l3 Ibidem. em particular. Percebeu também 12 John Luccock. Ed. 38. é vista não como uma modificação da situação do Brasil. pp. Nacional. a unidade do território seria mantida e o poder centralizado na capital do novo reino. A emancipação. a independência assume relevância na história universal: era ela o "acontecimento memorável ante as nações civilizadas. Ao seu ver. foi sintetizada com a seguinte observação: "Pode-se dizer com muita razão. convicto de que o Brasil. apoiado pela Inglaterra. pp. ein Charaktergemalde aus Süd-Amerika (Basiléia: Chr. que progrediu em conseqüência das "inúmeras relações comerciais com as nações européias". Krüsi. sim. Quando a corte chegou. pp. 132-3. Assim.63. Civilização. o momento decisivo para a. Ver. São Paulo: Martins.. cap. H. que se manifestava abertamente. 1949). outros se queixam da preponderância inglesa. 1975). e não o Brasil de Portugal. vol. 23-5. trad. segundo o autor. Viagem ao Brasil (1820-21). um inglês extremamente arguto. Desde então. Viagem pitoresca através do Brasil. formação de um caráter e de sentimentos nacionais foi a elevação do Brasil a reino unido. 67. é 1808. E considera que os acontecimentos causadores da separação do Brasil de Portugal "influíram menos na situação interna" do país do que na "política geral".] pareceu sentir-se guindado à categoria mais elevada na escala dos seres humanos".272 Karen Macknow Lisboa Olhares estrangeiros sobre o Brasil do século XIX 273 tório. Paul Harro Harring. Poderia ser citada uma lista interminável de autores que fazem semelhantes observações. Finalmente. 376 (grifos meus). Spix e Martius. Rugendas) ou a elevação a reino unido (Luccock) que desperteram um "espírito que não havia ainda aparecido anteriormente". P. ainda seria considerado como uma das nações do mundo.17 Maria Graham. a convocação das cortes e o juramento da constituição. 134. deveria ser um reino centralizado com a capi- 15 Johann Moritz Rugendas. era necessário lembrar de que anteriormente as províncias eram quase "completamente desligadas umas das outras" e que talvez o único traço que elas tinham em comum era a "semelhança da língua". . na perspectiva de súdito britânico. e que entre as províncias havia mesmo interesses diferentes e rivalidades. Houve. 1981). O "povo [. que observou de perto a vida política do país. pp. trad. von Rango.. na verdade. Os interesses políticos e econômicos ingleses que motivaram a vinda da família real são notados por vários estrangeiros e. uma consciência própria de sua importância e a resolução de manter sua nova dignidade". O Rio de Janeiro visto por dois prussianos em 1819. Milton da Silva Rodrigues (Belo Horizonte/São Paulo: Itatiaia/Edusp. Beschreibung meiner Reise von Hamburg nach Brasilien im Juni 1824 nebst Nachrichten über Brasilien bis zum Sommer 1825 und über die Auswanderer dahin (Braunschweig: Friedrich Vieweg.15 Rugendas também acha que o marco inicial da história do Brasil e do Rio de Janeiro. p. Schumacher. que Portugal se desmembrou do Brasil do que o Brasil de Portugal". von Leithold & L. considera que não houve grandes "acontecimentos. aliás. 136. Edgar Sussekind de Mendonça e Flavio Poppe de Figueiredo (Belo Horizonte/São Paulo: Itatiaia/Edusp. mas sim os desdobramentos da Revolução do Porto. Fruto dessas transformações foram o "sentimento de independência. ver Maximilian Wied Neuwied. diz ele. comenta Luccock. 60-61. A inversão política. com jurisdição separada e suprema? Ou deveria voltar "à situação abjeta" e "degradante" de colônia? E se alcançada a independência. pp. Notas sobre o Rio de Janeiro e partes meridionais do Brasil. livro 3. p. trad.. que ocorria naquele tempo. relevantes mudanças no "estado intelectual e material da antiga colônia". 14 A título de exemplo. trad. e sim como a "conservação e a legalização de uma ordem de coisas" que existia havia muitos anos. o fato de receberem seus governadores da mesma corte e que se orientavam comercialmente para a mesma metrópole. e nos anais da história do mundo transatlântico".13 Se para Luccock. p. Deveria o Brasil permanecer parte da monarquia portuguesa. 1989). 1966). Dolores. teria se desmembrado do Brasil. As influências dessa preponderância sobre as instituições civis e a "marcha da civilização" ele prefere não analisar.12 Para compreender a extensão e importância desse "sentimento nacional". 7. História do Brasil (Belo Horizonte/São Paulo: Itatiaia/Edusp. 141. Sérgio Milliet (4. 1826). II. por exemplo: T. Joaquim de Sousa Leão Filho (São Paulo: Cia. a ameaça de desintegração da colônia fora evitada pela grande "habilidade do governo". 1859).16 Já para John Armitage. dependendo de sua nacionalidade e posição política. vitórias ou derrotas sangrentas". Portugal. 17 John Armitage. criticados. a atuação dos ingleses é entendida como uma ajuda na formação da unidade territorial e da formação da nação. 16 Ibid. que o idioma inglês havia se propagado com maior intensidade graças ao aumento do comércio. deixando de ser sacrificado aos interesses de outra nação". "no futuro. analisou com cuidado a emancipação: "A questão da independência começava a ser publicamente agitada e desta derivaram várias questões".

Depois. diante da conduta política de d. que é retomado por vários autores. 1980). Nota-se que a colonização portuguesa explica o atraso do Brasil. Le Brésil tel qu 'il est (Paris: Charlieu et Huiillery. durante os dez anos de sua administração. cada qual com seu governo supremo. mercenário alemão que veio ao Brasil para integrar as tropas imperiais. pp. cf. Ainda assim. I. deveria tender a unir os brasileiros e dar-lhes. de homens livres. Auguste de Saint-Hilaire. C. apura Granam. Brasil pitoresco. p. 1974). Charles Expilly. trad. cf. Apesar de defender as boas intenções do monarca. 128-32. Primeiramente. Apesar de. vol. de modo geral. Gastão Penalva (Belo Horizonte/São Paulo: Itatiaia/Edusp. 1856). Diário de uma viagem pelo Brasil. Para Stewart. Ferdinand Denis. de Sousa (Belo Horizonte/São Paulo: Itatiaia/Edusp. p. mal conhecia a cidade. transpira certa ambigüidade. ver a crítica que faz o naturalista inglês Charles Bunbury à Carta Constitucional e ao governo. trad. no período da regência. pp.274 Karen Macknow Lisboa Olhares estrangeiros sobre o Brasil do século XIX 275 tal no Rio ou deveria haver várias províncias sem ligação. e Carta Constitucional estabelecer princípios justos. D. Pedro". 96-7. pp. em Viagem pelo Distrito dos Diamantes e litoral do Brasil.19 O monarca não soube ser "homem do seu povo". e Harro Harring. cuja população oferecia um "amálgama estranho de americanos e portugueses. Daniel Parish Kidder.22 18 Maria Graham. contudo. cit. pois. 50 e ss. cf.. Carl Seidler. p. Pedro I em decorrência do golpe que deu na Assembléia Constituinte (1824). em caso de luta entre ambos. questiona o conteúdo da proposta do monarca por não ter "adivinhado todas as necessidades de um povo. trad. ela "nada tinha de brasileiro". Igualmente. S. Brasil. Bertholdo Klinger (Belo Horizonte/São Paulo: Itatiaia/Edusp. pois o Brasil. 1981). pp. Américo Jacobina Lacombe (Belo Horizonte/São Paulo: Itatiaia/Edusp. cit. pp. Viagem de um naturalista inglês ao Rio de Janeiro e Minas Gerais. 136-41. trad. "estimulado por sentimentos generosos". à instituição do gabinete secreto e ao protecionismo dos portugueses naturalizados geraram dúvidas no "povo" devido à lusofilia do monarca em detrimento dos interesses dos brasileiros. Ver também Ribeyrolles. Helena G. 37-8. a sociedade não existia. figura que para muitos autores. 163-4.do império de 1825 a 1835. XVI-XVII. no cômputo do processo. 1863). Também nunca soube ele conciliar a opinião pública com o seu governo. num momento posterior. advoga ele que a nova forma de governo deveria ter sido "adaptada a este triste estado de coisas. pp. 1990). de alforriados e cativos". 2 ' Cf. porém. não se cansa de explorar a imagem de Pedro I como déspota. trad. Charles Ribeyrolles. Nesse sentido. Stewart.21 levanta vários problemas que obstacularizavam o pacto proposto à "nação" e critica a sua desconexão com a realidade social.. John Armitage. op. 1980). mal conhecia o Rio. E conclui com Saint-Hilaire: "neste país. em que se encontram elementos os mais heterogêneos". 20 J . Pedro I. já o "Brasil unido sobrepujaria qualquer força que Portugal pudesse enviar contra ele". "Resumo histórico das revoluções do Brasil desde a chegada do rei d. faz referência à impopularidade de d. Putnam & Co. Diante dos acontecimentos. pp. Reminiscências de viagens e permanência nas Províncias do Sul do Brasil. e talvez conviesse tão bem ao México como ao Brasil. 213 (grifos meus). era necessário conhecer os habitantes. Brasil pitoresco. representante do atraso. ter ele expressado "sentimentos que deveriam lisonjear o espírito nascente de nacionalidade".20 Já num momento posterior à independência e às complicações em torno da elaboração da Constituição de 1824. por nunca "ter-se constituído verdadeiramente brasileiro". 49. ao tratado de independência. I. trad. Vasconcelos (Belo Horizonte/São Paulo: Itatiaia/Edusp. vol. Charles James Fox Bunbury. argumento. 22 Ferdinand Denis. à ingerência nos negócios de Portugal. P. citando e concordando com Saint-Hilaire. cit.18 Armitage também se refere à desconfiança do "povo". Moacir N. Pedro. à França ou à Alemanha. João Etienne Filho e Malta Lima (Belo Horizonte/São Paulo: Itatiaia/Edusp. "o povo" estaria "desconfiado de tudo". Para isso.. brancos e homens de cor. 1980). na época da independência. porém sem os louros da vitória. reforça a debilidade dos ex-colonizadores. 1980). responsável perante o rei e as cortes de Lisboa? Essa possibilidade era defendida pelos republicanos e pelos que temiam a separação. João VI à América até a abdicação do Imperador d. de algum modo. Brazil and Ia Plata: the Personal Record ofa Cruise (Nova York: G. 19 Ver também Charles Ribeyrolles. op. 87. Também Rugendas. É ele um dos personagens centrais do que o autor chamaria de uma "mogiganga tragi-heróica". As províncias separadas seriam mais facilmente dominadas por Portugal. o período colonial representaria um estado de "escuridão e ignorância" anterior ao da Idade Média. e com dificuldade se podiam descobrir alguns elementos de sociabilidade". trad. que reforça o papel modernizador do Brasil em oposição a Portugal. educação moral e política". profundamente. vol. em que são descritas as desventuras da Guerra Cisplatina e os acontecimentos. Dez anos no Brasil. teria feito "certamente mais progressos em inteligência do que nos três séculos decorridos desde a sua descoberta até a proclamação da Constituição Portuguesa em 1820". II. escusa ele os "erros do ex-imperador e de seus ministros". um Napoleão transatlântico. ao sublinhar a inversão dos papéis da metrópole com a colônia. cf. suas atitudes com relação à política externa. Carl Seidler. Leonam de Azeredo Penna (Belo Horizonte/São Paulo: Itatiaia/Edusp.

curiosamente. afinal. vol.. Apesar de atribuírem aos eventos históricos importância e significados nem sempre similares. op. 217. testemunha do período da regência. Harro Harring. a independência e a monarquia . I.não era exatamente feliz. relaciona a monarquia com a unidade do território. patriotismo e de uma nação civilizada. ao contrário dos outros viajantes aqui citados. O reverendo norte-americano Stewart também considera que "o traço monarquista do governo" é a única razão pela qual se justifica que o Brasil seja uma exceção na América do Sul.. p. esteja se desenvolvendo no país.a vinda da família real. Ou seja. Entre os autores viajantes há uma voz que distoa nesse coro conservador: é a do jornalista e pintor revolucionário teuto-dinamarquês Harro Harring. cit.26 Durante a Regência. pp. E esse 23 24 era o "sinal do poderio". Ribeyrolles. é de se supor que o texto seja dele mesmo e não de "um brasileiro". "já não havia mais aqui uma colônia mas um Império". retomadas por Denis. o que tem sido tão destrutivo para o avanço da liberdade e da civilização. devido à "heterogeneidade" da população. E a vinda da família real colaborou para a decadência moral e não para o processo civilizador. cônscio do dubioso passado do europeu colonizador. op.. o republicano. pois. Saint-Hilaire admite que o país tenha progredido não por esforços empreendidos pelo governo. bem como propiciar os "aperfeiçoamentos sociais". Stewart. 126. "Como se deve escrever a história do Brasil" (1845). op. o juramento da Constituição. Resta saber qual seria. p. o que é remarcável nas observações é a percepção de um sistema político. unidade. ver infra. cit. cit. III. Harring insere um breve ensaio intitulado "Fragmentos sobre o Brasil. que não consegue dar conta da complexa realidade social do país.27 Essas passagens ajudam a ilustrar como esses autores articulam os acontecimentos da história política e econômica . Para mais detalhes sobre esse texto. Ribeyrolles. Sua postura antimonarquista e antieuropéia pleiteia pela fundação da república do Brasil integrada aos "Estados Unidos da América do Sul". Como ele não atribui nenhuma autoria.276 Karen Macknow Lisboa Olhares estrangeiros sobre o Brasil do século XIX As sagazes observações de Saint-Hilaire. de modelo europeu. vol. 316. 110. com armas. dominada pela anarquia e derramamento de sangue. construindo um Estado e uma Igreja moralmente decaídos. Kidder. deixando entender que ao sul da linha do equador também os próprios preceitos políticos sofrem inversão. baseado em moralidade".. embora não exclua a existência de elementos de desordem. Crente de que as forças republicanas no Brasil seriam incombatíveis. cf. anunciando a decadência e lançando-se em sua própria cova. cit.23 A despeito dos preconceitos dos autores (a observação de que não havia "sociedade" e tampouco "sociabilidade"). 25 » . a ausência de uma "sociedade" obstaculiza o desenvolvimento de sentimentos de nacionalidade.com a formação da nação e do Estado. 50. p. considerações de um brasileiro". Saint-Hilaire. 222. op. em O Estado do direito entre os autóctones do Brasil (São Paulo: Edusp. cit. cit. retrospectivamente. pp.. cit. trad. 104-7. Armitage achava que a monarquia constitucional era o melhor instrumento para introduzir a "civilização". a Revolução do Porto. p. op. pp. 27 Em seu romance Dolores. referindo-se às numerosas revoltas que caracterizam o período. op. o que prevalece unânime. porém. o autor pleiteia um sistema que esteja mais de acordo com as especificidades da sociedade brasileira. pp. e sim por conta da liberdade das relações comerciais. critica ele a monarquia constitucional. Kidder.. Wilhelm Schüch. 26 C.. 271-2. Críticas à parte. op. esses estrangeiros introduzem conceitos àquele tempo inéditos para a criação de imagens sobre o Brasil: Saint-Hilaire. a ameaça de desintegração da unidade territorial e as revoltas e guerras civis são palco frutífero para projeções republicanas. porém "mais favorável". Ver também Spix e Martius. 1982). a ruptura com o exclusivismo português com a abertura dos portos e o aumento do comércio exterior. a elevação do Brasil a reino. Aos seus olhos. compartilhando uma visão comum entre estrangeiros. em seu tratado "Como se deve escrever a história do Brasil". cit. ao longo do século. é o apoio à monarquia. 57.em relação às demais colônias na América Latina . refere-se às guerras napoleônicas. considerando que a sorte do Brasil . II. 227-8. op.24 A comparação com as repúblicas sul-americanas corrobora o argumento: Saint-Hilaire chama a atenção para o perigo do federalismo e a conseqüente decadência econômica e social devido à desintegração territorial. que explorou inescrupulosamente aricanatureza e seu habitante autóctone.25 Martius.. p. nas entrelinhas dessas observações. Armitage. Mas isso não exclui que um "espírito de nacionalidade brasileira. regozija-se. apontam para um descompasso entre o sistema político e a realidade social. No entanto. expulsou várias vezes os deputados da câmara e atirou nos representantes do povo. vol. que. sublinha que a monarquia constitucional não somente é uma proteção ao perigo republicano mas também é o melhor sistema num país onde há "tão grande número de escravos". F. Graças à intervenção da Inglaterra e à presença da metrópole foi possível "guardar as jóias e as pessoas sagradas do reino". von Martius.

op. As passagens que se seguem mostram um monarca que representa a civilidade. Pedro I (1831).. apoiados também em datas e marcos fundadores. e de ser dotado de uma "filantropia esclarecida". 110-2. de uma sociedade coesa. Pedro II é tido como monarca que condenou o tráfico negreiro. por assim dizer. de unanimidade de sentimentos. de nacionalismo. Sobre a suposta limitação de atuação de Pedro II. XVII. de opinião pública. despontando como contraponto à sociedade de um país que ainda estaria no início de sua marcha para o progresso e a civilização. na história da civilização. pp. a cultura. muito "rara". que se traduz em "superstição". tal qual defende Expilly. 211. As barbas do imperador (São Paulo: Companhia das Letras. ou. assim enaltecem os autores. para a grande maioria. Expilly parece esquecer que o monarca dispunha do quarto poder. Pedro II.. e sim brasileiro. e porque um príncipe brasileiro" estava no poder. o que não impediu que escrevesse palavras acerca do herdeiro do trono: "Quanto ao Brasil. trad. op. Primeiramente. 29 Saint-Hilaire. op.em oposição ao sistema republicano era vista. assume ele um papel de destaque no processo de modernização do império. em nítida oposição ao seu pai. como uma força motriz para o processo civilizador. em uma palavra.que deixou uma nefasta herança no país. de um caráter nacional. e que revela interesse sincero pela ciência e literatura. o naturalista francês fixa duas imagens que se perpetuarão ao longo do século. cit. cit. cit. a ocupação do trono por d. Ver também Stewart. 302. Pedro II ou um "Saul em Israel" Muito provavelmente o que contribui para se considerar a monarquia constitucional como o melhor sistema para governar o Brasil foi. A paz do reino estaria garantida graças a um "conselho de regência brasileira.29 No entanto. assume o imperador uma posição de exclusividade. de destaque no contexto social e político do país. 221. "O espírito estreito. Mas entre os homens que dirigem a opinião pública. de ser um "mau" colonizador . que era contra a escravidão. p. 30 Lilia Moritz Schwarcz. e contra ele o Brasil teria que lutar. "imobilidade". o fato de d. op. p. 324.31 Na obra de Kidder e Fletcher. pp. "O infante nasceu brasileiro. Milton Amado (Belo Horizonte/São Paulo: Itatiaia/Edusp. cit. uma administração brasileira. 1998). O autor escusa a sua falta de tomada de decisão quanto à emancipação dos escravos em virtude da limitação de seus poderes conforme rezava a Constituição e não por falta de simpatia pela questão. o conhecimento.30 Além de ser um monarca por assim dizer humanitário. p. vol.. a ciência e a moralidade. 88. após o período da Regência. 31 Expilly. 143 (grifo no original). Mais uma vez retoma-se a imagem do atraso português. referindo-se a ele Expilly. que alimenta a vontade de se livrar dos entraves do passado e de caminhar com o século. p. e as crises cessaram". a ordem estaria. preservada. indolente e vaidoso da metrópole deixou marcas nos costumes e nas instituições". Em suas apreciações. como Ribeyrolles simplificaria anos mais tarde. seus destinos repousam atualmente sobre a cabeça de uma criança". Essa combinação seria na "história das nações". Pedro II. algumas páginas são dedicadas ao imperador.. I. cit. Foi proclamado. D. de exceção.. o poder moderador. não ser europeu. op. Ver também Stewart. O processo de formação do Estado-nação era. há um que desponta. XVI. pois..278 Karen Madcnow Üsboa Olhares estrangeiros sobre o Brasil do século XIX 279 formação de um sentimento de patriotismo. A ele é conferida uma "combinação" em que a legitimidade sangüínea se une a um caráter que respeita a Constituição. Stewart imprime ao imperador o papel de destaque e de fundador do império. referindo ao período turbulento de 1831 a 1840. Pedro II ser uma garantia para a unidade territorial diante das ameaças de desintegração ocorridas na Regência: "É uma criança que ainda une as províncias deste vasto império". 1975). D. op. "opressão". Viagem ao interior do Brasil (1836-1841). enfatiza o autor. George Gardner. É d. Saint-Hilaire não foi testemunha ocular da abdicação de d. Em segundo lugar. Evidencia-se também que a monarquia constitucional . de unidade territorial.28 28 De modo geral. os súditos. 319. de um espírito brasileiro. . pp.. "egoísmo". que justamente ampliava o seu campo de atuação.. cit. "preconceitos mesquinhos". considera Stewart que o poder do imperador era mais limitado que o poder do presidente dos EUA. de um sentimento de independência. p. a feliz realidade de Pedro II. segundo a qual tentaria conciliar os direitos sagrados dos homens com os direitos legais dos proprietários. A pátria adotou-o. Com isso. interpretado como um indicador do estágio na escalada dos seres humanos na evolução e no progresso social e na possibilidade de um "povo" e sua nação poderem ingressar na história da humanidade. Ribeyrolles. "ignorância".apesar de suas inegáveis conquistas .

. Pedro II fosse interpretado sob o sinal da debilidade.280 Karen Macknow Lisboa Olhares estrangeiros sobre o Brasil do século XIX 281 como sendo um "Saul em Israel" . apoiadas nos direitos civis defendidos na Constituição brasileira. adverte Ribeyrolles. humilde e simples. propiciando o fim do regime. vol. o imperador acaba sendo protegido pela sua sagrada aura da imunidade. cit. 77-8. 33 Ribeyrolles. pp. pp. e sim formadora de sua personalidade. terra e gente (1871). sua lentidão em tomar partido. Atrás dessa "paz aparente" ocultavam-se as "úlceras da escravidão". a conciliação. como queriam acreditar alguns viajantes. No entanto. ela não é mais garantia da unidade do território e da estabilidade da monarquia. opõem-se as imagens de um imperador 32 Daniel Parish Kidder & James Cooley Fletcher. "Mas antes de tudo era ele brasileiro na alma.. I. cit. Conclui o autor que a liberdade era o preceito máximo do indivíduo: "A alma é livre em todas as suas confidencias. criando descontentamento entre as várias facções políticas. No entanto.32 Ribeyrolles justapõe afigurado imperador e o governo com a sociedade escravocrata. avesso a inovações. O povo surge como massa coadjuvante. um edifício "mal construído". Cartas do Brasil. Além disso. Pedro II é monarca que honra a Constituição. Seria ele "conservador".33 Foi necessário cair a monarquia para que d."de ombros para cima sobressaía [ele] entre todos" . sendo responsável pelo próprio ocaso. o viajante não esquece dos escravos. à qual se juntava a falta de precisão nas idéias". que justamente estariam privados dessa liberdade e que não gozavam dos mesmos direitos por não ser considerados cidadãos. que. 34 35 Max Leclerc. centralizador e usurpador do poder. que teria que ser removida. Por isso mesmo. é outro autor que reforça a imagem de exclusividade do imperador Pedro II como sendo uma exceção na sociedade brasileira. "a monarquia não foi derrubada. razão do sofrimento das "almas elevadas". . Se antes a colonização portuguesa desvelava todo o atraso do país. dos "temperamentos delicados". 1954). evitando que ele e sua família sejam um peso para a nação. que goza de um lugar privilegiado no contexto social e político do país. "agastado por longos anos de um governo paternal e anárquico". cujo relato refere-se ao ano de 1871. Embora reitere a imagem do monarca que combateu a ameaça da anarquia republicana e fosse a força motriz para a pacificação e união do império após o sangrento e instável período da Regência. O Brasil e os brasileiros. respeitador da ordem constitucional. 269-72. A desatenção para com as coisas militares e a hesitação quanto ao processo da abolição e às tomadas de providência para proteger o setor produtivo foram os seus grandes erros. Canstatt. fazendo uma tímida alusão às contradições que caracterizavam o país: o estilo de governo do imperador reforçaria o "espírito geral" do reino. seriam traços "tipicamente brasileiros" e que influenciaram o seu governo. teria ele a vocação de harmonizar os partidos que se hostilizam reciprocamente no cenário da política brasileira. inovador e modernizador. brasileiro no caráter". a "indecisão de seu caráter. qualifícando-o como homem de inteligência e caráter. Ibid. apesar de ser republicano. Bourbons e Habsburgos: "afabilidade". dos "corações altivos". pp.. é econômico em relação aos seus gastos na corte.. Novamente. Oscar Canstatt. ela desmoronou por assim dizer". Além disso. e sim seria uma "doença social". p. é substituída por uma outra em que o monarca representa traços do "caráter nacional". o d. trad. 148. cujo desmoronamento se deu naturalmente. o que não era a regra no império. 134-41. "Em variedade de conhecimentos científicos e profundo saber não pode ser comparado com nenhum brasileiro." Sob o manto da superioridade aristocrática. assim sugere o jornalista francês Leclerc. sugere o autor. diz Leclerc. que visita o Brasil imediatamente após o 15 de novembro de 1889. "simplicidade nos trajes e maneiras. ressalva o autor. e o cidadão em todos os seus movimentos". Stewart. assistira passiva e ingenuamente à queda do regime. 1941). que sabe proteger o seu povo quando ameaçado (quando da Guerra do Paraguai). 1942). conciliador. Pedro II de Leclerc não preenche os quesitos de um monarca esclarecido. op. 294-7. Eduardo de Lima Castro (Rio de Janeiro: Pongetti. trad. Brasil. a sociabilidade". porém. Sérgio Milliet (São Paulo: Nacional. pp. sua instintiva desconfiança para com a novidade". cujos traços eram "a tolerância. que. O que significa que o meio brasileiro teria definido mais o seu caráter do que o sangue dos Braganças. dotado de conhecimentos literários e científicos e de uma exemplar conduta moral. vol. Elias Dolianti (São Paulo: Nacional. trad. pp.34 Também para Leclerc a brasilidade do monarca é o aspecto decisivo em sua conduta. pois o "crime" da escravidão não seria responsabilidade do monarca e tampouco do governo. tornando-se uma personalidade cujas características não se diferenciam dos demais brasileiros. 131-3. a "intermitente apatia e a mania de deixar tudo para o dia seguinte". I. op. agora é o império que é visto como instituição "caduca".35 Este breve panorama permite notar que a imagem de Pedro II.

Duas questões distintas. cit. Todos são [. uma "doença social". p. Obviamente. 250. Reise über England und Portugal nach Brasilien undden vereinigten Staaten des La Plata Stromes wahrendden Jahren 1823 bis 1827. op. cit. criada por notórios interesses econômicos e que se opõe à civilidade do império. vol. que se expressaria em comportamentos ainda mais bárbaros. todos os homens brancos. são iguais. vol. p. abrindo o campo para o racismo científico. cessa o tráfico. p. 38 Kidder & Fletcher. amenidade e brandura da nossa escravidão. 39 Richard Francis Burton.. p.] A sociedade só conhece duas divisões. p. de cada um desses observadores.] "tão nobres quanto o rei.. vol. autorizando a marinha inglesa a tratar os navios negreiros como navios piratas e submeter os envolvidos à justiça britânica. de modo que regiões economicamente em decadência tornam-se fornecedoras de mão-de-obra escrava para as lavouras de café e os centros urbanos no sudeste. inicia-se a controvertida questão do contrabando de cativos africanos. Evidentemente. Friedrich von Weech.40 Já o norte-americano Thomas Ewbank. Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho. argumentando que outros já o teriam feito. em conseqüência do aumento da pressão britânica sobre o Brasil.. cit. enquanto a miscigenação pode ser um fator para promover ou atrasar o processo civilizador. mas não tão ricos". Richard Burton A despeito das imagens que cultuaram a figura de Pedro II como um monarca que incorporou os mais altos valores e virtudes da cultura européia. David Jardim Júnior (Belo Horizonte/São Paulo: Itatiaia/Edusp. Segundo o diplomata.39 Outro aspecto que relativiza uma eventual crueldade ou injustiça da instituição é a certeza de que a escravidão contribuiria para o processo civilizador dos negros. Nas primeiras décadas do século XIX. porém se esquivava de falar dela profundamente. o escravismo no Brasil. 154. Finalmente. op. condicionaram essas construções tão contrastantes. 1976). portanto. 92. vol. Em meados do século.282 Karen Macknow Lisboa Olhares estrangeiros sobre o Brasil do século XIX 283 como representante mor da civilidade. Denis. para criticá-la quanto à sua frouxidão. Igualmente deve-se mencionar o processo abolicionista e as formas de protesto contra a instituição que se manifestam ao longo do século até a abolição.. porém complementares. sociais e políticas para se ajustar a elas e manter-se no poder. X. op. o mercado interno cresce. (Munique: Fr. Acreditava-se numa humanidade única (monogenismo). em 1850. Escravidão. como uma força motriz para conduzir o processo civilizador. homem livre ou escravo. 80. como sugere o diplomata inglês Richard Burton. cit. op. homem branco e homem negro.. com a convenção sobre a extinção do tráfico negreiro firmada entre o Brasil e a Inglaterra. não. Ou então.. ou as imagens degradantes. op. cujo potencial de mudança dependeria mais do meio e da formação do que de padrões biológicos e.38 A brandura servia de escudo para eventuais ataques à própria instituição. 148. p. A África é interpretada como o continente da barbárie e os africanos transportados para o Brasil. forjando alguns mitos que se perpetuarão ao longo dos séculos XIX e XX. cit. p. pp. sendo que a escravidão será entendida como contra-senso à civilidade do império. I... teriam mais chances de superar o seu estado de decadência graças ao convívio com o branco. I.. passou por várias transformações. Em 1826. a escravidão sempre é assunto e comumente repetese uma série de aspectos. no período de 1808 a 1888. 160. op. Seidler. e portanto uma grande "sorte" para um país em parte ainda tão bárbaro. uma "úlcera no organismo político". 155 e Ribeyrolles.37 embora fosse ela algo terrível. Weech. por exemplo. Observam-se três . II. baseada no "Bill Aberdeen" (1845). o que naturalmente muitos viajantes irão criticar. Apesar da falta de precisão nos relatos. cit. 233. sublinha a seriedade do tema e insurge-se contra muitos estrangeiros que se apropriam das informações de uma maneira irresponsável. op. 155. isso não excluía a idéia de que os europeus (a "raça branca") gozariam de uma superioridade intelectual e moral em relação às demais etnias. ainda que em condição de cativos. sendo um propulsor do processo civilizador. permaneciam ainda as espinhosas questões da escravidão e da miscigenação. Gardner. ou como sinônimos. considerado moral e intelectualmente superior ao negro.. cit. 37 Kidder & Fletcher. [. a notória benevolência dos senhores para com seus escravos provocaria ausência de respeito e temor dos últimos pelos primeiros. trad. 151. op... p. Gardner. I. tal qual Ribeyrolles timidamente apontou. 40 Spix & Martius. p. não é necessário dizer o quanto a visão de mundo e as ideologias que a delineiam. quando de sua estada no 36 Evidentemente. que caminharia para a civilização. os conceitos complementares de "perfectibilidade e degeneração" da Ilustração ainda servem como chave interpretativa para as diferentes "raças" e "culturas". miscigenação e projeto civilizador Neste "mais democrático dos impérios". p. 1831). e do monarca decaído que não percebeu as transformações econômicas. O mais significativo talvez seja o da docilidade. são formuladas as teorias raciais em que as diferenças seriam determinadas biologicamente. op. Em compensação. hereditários.36 Grande parte dos viajantes reconhecia a sua importância. nesta "república disfarçada em império". nesta "monarquia rodeada de instituições republicanas". 24-5. todos os homens livres. Denis. Vejamos primeiro o caso da escravidão. cit. social e politicamente. Auer. cit.

op. "em nossa civilizada Europa". 65-70. 233-4. sua alma e seu espírito entregues a quem pagasse mais. Os negros libertos gozam dos mesmos direitos dos brancos. utiliza-se do mesmo recurso para argumentar a favor da mobilidade social e concluir que. importantes vertentes: a escola etnológico-biológica. p. 233. questiona essa leitura otimista. dificultando a formação da cidadania. que. tendo as peles convertidas em cola e os ossos em marfim negro. "O desprezo de um lado e o sentimento de amargura do outro não são aqui tão grandes como entre os nossos irmãos do Norte". cit. 43-66. O que ainda reforçava a idéia da amenidade do sistema escravista era a crença na mobilidade e integração social do liberto. pp. lembrando-nos timidamente do "homem cordial".. 123. da igualdade de chances para "todos" os súditos. os autores recorrem à comparação com os EUA. Lamberg. p. cit. ao longo de um processo históricoevolutivo. 42-3. em que os mecanismos de exclusão são inerentes ao sistema. pp. Weech afirma que em todas as culturas houve a prática de castigos e que. [. cit.. Do pouco que pôde Ver. op. Ainda assim. Stocking. pp. do que padecer pela vida o que padecem. Ver também Burton. Para Denis.43 À deriva de dar conta da complexidade de uma sociedade escravista. Thomas Ewbank havia notado. a Constituição brasileira consagrava as garantias individuais.41 Um outro argumento para escusar a escravidão era. Moritz Lamberg.147. A vida no Brasil ou diário de uma visita à terra do cacaueiro e das palmeiras.. Ina von Binzer. segundo a qual. O naturalista e diplomata suíço Tschudi. que visita o Brasil de 1857 a 1859. ou seja. cit. "os direitos humanos são mais respeitados do que nos EUA". em 1845-1846. Land undLeute in ethischer. Raul de Sá Barbosa (Rio de Janeiro: Paz e Terra. p. A terceira vertente era a do darwinismo social. A educadora alemã Ina von Binzer considera o brasileiro mais bondoso do que o americano. a branca. 1899). No entanto. Sobre as principais teorias racistas no século XIX. com tudo que lhe pertence. pp. trad. os homens brancos ou mulatos. trad. 159-60. pp. se possuem energia e talento. ed. 55-7. Reisen durch Südamerika (Stuttgart: Brockhaus. portanto. Brasilien. Harring. 4 ' Thomas Ewbank. 1976). 1994). O espetáculo das raças (São Paulo: Companhia das Letras. cit. Jamil Almansur Haddad (Belo Horizonte/São Paulo: Itatiaia/Edusp.. II. Kidder & Fletcher. 325. 152. as raças "superiores". podem erguer-se às mais altas posições sociais.. das quais sua raça está excluída nos EUA". tanto que há numerosos professores. Assim vi pela primeira vez em minha vida os ossos e os músculos de um homem. p.que não "pegou" . deduz que a situação do escravo é "horrorosa". a população livre. 1993). p. 145. Ao assistir a um leilão de escravos. deputados e até ministros de "cor". De fato. cit. Em que sentido a vida destas pobres criaturas [escravos em fazendas] é melhor aqui do que fora na África nativa é coisa que não se pode conceber. Kidder e Fletcher lembram que a Constituição do período imperial não discrimina a cor como base para os direitos civis. Alice Rossi e Luisita da Gama Siqueira (Frankfurt: Teo Ferrer de Maquita. no Brasil. ou seja. Cidadão de fato livre somente se torna- 43 Denis. generaliza a viajante. de quem ele se torna propriedade particular. pp. postos à venda. Ver também Burton. 214. a possibilidade de os negros livres compartilharem os mesmos direitos dos brancos era tão real que explicava o fato de serem menos dispostos a se revoltar do que em todas as outras partes da América meridional. I. seguindo os preceitos da Declaração dos Direitos do Homem formulada na Revolução Francesa.. 42 Weech.] Do que eu vi. politischer undvolkswirtschafilicher Beziehung und Entwicklung (Leipzig: Hermann Zieger. compara a autora. mesmo após o embargo de 1865 . e seu corpo. Preto no branco. teriam predominado sobre as raças inferiores. vol. trad.. Esse não gozaria de melhores condições de vida que o cativo no Brasil. uma vez livres. que Sérgio Buarque de Holanda descreverá sessenta anos mais tarde. Para mais detalhes sobre o pensamento racial na Ilustração. a comparação com o trabalhador livre europeu. condenadas ao desaparecimento. queria provar — com base em diferenças físicas e. o homem livre recebe tratamento pior que o escravo nas propriedades e lares brasileiros. op. quando se forma uma classe de trabalhadores explorados e vivendo em condições marginalizadas. op. cit. p. ela somente era válida para os cidadãos. ver George W. desde que sejam livres. pautada no poligenismo. determinavam a história (arianismo). Victorian Anthropology (Nova York: The Free Press. choca-se com a frieza do tratamento.44 No entanto. "portanto.284 Karen Macknow Lisboa Olhares estrangeiros sobre o Brasil do século XIX 285 Brasil. Leid und Freud einer Erzieherin in Brasilien. sobretudo devido ao direito do senhor de revogar a alforria de seu cativo por motivo de ingratidão. associada à brandura. . pp. e Lilia Moritz Schwarcz. aliás. 1971). 1987).. ver Thomas Skidmore. 42. o que. 101. vol. mentais — a inferioridade dos negros e índios em relação aos brancos.42 Essa comparação fazia sentido no contexto da revolução industrial. para ajudar a construir o mito da democracia racial. artistas. op. 1976). sabe-se que o status legal do escravo liberto transpirava ambigüidade. op. op. penso que seria melhor para muitos terem sido sacrificados na mocidade. médicos.. 44 Johann Jakob von Tschudi. o cotejo peca por desconsiderar a questão da coisificação do escravo em relação ao senhor. Alegrias e tristezas de uma educadora alemã no Brasil. bilíngüe. A escola histórica (representada por Gobineau) preconizava que as raças superiores.

p. era identificado no imaginário da população.. de contradições e longe de revelar a complexidade social. defende o naturalista. História da vida privada. "os padrões de relações raciais elaborados sob a égide da escravidão e da dominação senhorial". Florestan Fernandes observa que. cf. entendendo-a como a "peculiaridade histórica do povo e da nação" brasileira. Ina von Binzer. Vale ressaltar que Martius escreveu o tratado no auge do tráfico negreiro (década de 1840). 2.). como escravo. Tanto o negro quanto o índio contribuíram para o "desenvolvimento da nacionalidade brasileira". quase metade da população era escrava. uma mistura tão grande de "raças". 50 Martius. No Rio de Janeiro. no mínimo. III. Segundo o censo de 1849. quando a população de africanos aumentava consideravelmente. op. 194. Spix & Martius. também percebe que muitos escravos quando libertos vivem na marginalidade. Luiz Felipe de Alencastro. pp. brancos e mulatos em posições antagônicas de luta. "Vida privada e ordem privada no Império". . na província fluminense. mas também para se indagar quais seriam os benefícios ou prejuízos de tal mistura racial. 316. E o censo de 1870 revela que 20% da população do país.uma visão que transpira ainda o humanismo da Ilustração. observam que nem Londres nem Paris apresentavam uma variedade. consciente e organizada. O legado da "raça branca" (São Paulo: Dominus/ Edusp. p. ver Karen Macknow Lisboa. Já Spix e Martius.que redundou na perpetuação do status quo ante". vol. vol.46 Não resta dúvida de que esses depoimentos contribuíram para a imagem de uma sociedade que. de Queirós Mattoso. Igreja e Estado estaria se firmando.. defendem timidamente que a mistura das raças é um benefício para a constituição de uma sociedade civilizada em que o tripé burguesia.. vol. como representantes da raça branca. A eles cabe absorver "os pequenos confluentes das raças índia e etiópica". cit. E quanto mais o debate sobre as teorias raciais. "índoles" e "classes". não se "formaram [. Em Niterói. sobretudo a partir de meados do século. Em síntese.. em 1818.. "sabiamente". cit. A integração do negro na sociedade de classes.. Pautados ainda em máximas do pensamento racial da Ilustração. p. graças à qual teria se formado uma sociedade tão heterogênea. cit. Em 1840. 152. Por paradoxal que pareça. seria preta e 38% mulata. quatro eram brancos. independentemente de seu status. 1965). Spix e Martius. não se esboçou nenhuma modalidade de resistência aberta. 178-84. 1982). de todos os continentes. Com certeza era esse um dos aspectos que mais lhes chamava a atenção. formem o "mais poderoso e essencial motor".49 Muito provavelmente nenhum viajante explorou de forma tão metódica a miscigenação. 246. de antemão.. ou seja. 83. op. embora os portugueses. de todos os gênios". na epígrafe desse tópico. em Fernando Novais (org.. no ano de 1833. na antevéspera da abolição. 59% da população de Campos era escrava. cit. que colocasse negros. em oposição às teorias racistas que vão tomando cada vez mais o espaço . Florestan Fernandes. em várias regiões. pp. evidentemente. Finalmente. não tinha preconceitos de "raça". quando de passagem por Salvador. expressam esse fenômeno prenhe. p. o que não era a regra. cit. não tendo nenhuma estrutura ou mecanismo que os integre dignamente na sociedade. foi a omissão do branco .47 A sociedade brasileira não somente era um rico manancial para se estudar diferentes "raças" e "culturas". 87-8. durante a fase de consolidação da ordem social competitiva em São Paulo. a questão da mobilidade social e integração do homem de "cor" nos conduz ao segundo grande assunto que ocupava a mente desses forasteiros: o da miscigenação. cf. II. A esse respeito. atestando a sua interpretação enganosa quanto aos dados demográficos. Ser escravo no Brasil (São Paulo: Brasiliense. Era como se mirassem num "espelho mágico" e vissem passar "representantes de todas as épocas. O "gênio da história". lançou mão da mescla das raças "para alcançar os mais sublimes fins".286 Karen Macknow Lisboa Olhares estrangeiros sobre o Brasil do século XIX 287 va o forro munido de carta sem restrição alguma. por outro vislumbra ele o desaparecimento desses 45 46 47 Katia M.] barreiras que visassem impedir a ascensão do 'negro'. acalentava os fóruns científicos. considerada intelectualmente superior às demais. pp. profetiza o autor. 48 49 Ibid. pp. em cada dez habitantes. op. Se ela faz referência à suposta mobilidade de nossa sociedade escravista. 180 e ss. I. Essa situação certamente condizia com a grande maioria da população e revelava nitidamente a "omissão" por parte das classes dirigentes e do governo diante do processo abolicionista. vol.48 Essa idéia Martius desenvolverá mais tarde em seu tratado Como se deve escrever a história do Brasil. justamente quando se leva em consideração que o negro ou mestiço (quanto mais escuro). dedicado ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) e que serviria de base metodológica para ulteriores estudos sobre a história do Brasil. no final da década. 24-30. mais polêmica se tornava a questão. embora escravista. op..e não a ação . nem se tomaram medidas para conjurar os riscos que a competição desse elemento racial pudesse acarretar para o 'branco'. As palavras de Burton. não teria ele notado que. a maioria da população não era branca?50 Se por um lado Martius sublinha a importância dos autóctones e dos africanos na construção da nação . quatro quintos da população o eram. Tendo viajado pelo país.45 A educadora observa a questão da escravidão no interior de São Paulo. na Viagem pelo Brasil.

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grupos, apostando num paulatino branqueamento da sociedade.51 Ou seja, na medida em que a miscigenação poderia propiciar o branqueamento da população e, assim, a homogeneização social, é ela interpretada positivamente como fator civilizatório e de formação nacional. Já uma diferente interpretação encontramos no republicano Ribeyrolles. Para ele, até aí concordando com o princípio de Martius, a fusão das raças seria um dos meios para se atingir a civilização. Contudo, a seu ver, os brancos, no Brasil, eram "débeis", devido ao calor e à ociosidade, e, portanto, ao contrário do que Martius advoga, não poderiam ser irradiadores da civilização. Grande esperança residiria nos mestiços, polemiza Ribeyrolles, atribuindo-lhes central importância na formação da sociedade burguesa. Nesse desenvolvimento, nem os escravos nem os índios teriam um papel decisivo. Embora os cativos, assim explica o autor, fossem a grande mão-de-obra nacional, não podiam eles dar conta da demanda de trabalho, devido a seu número exíguo. E os índios, carentes de educação, estavam inaptos para contribuir nesse processo. Os mestiços, pois, híbridos quanto à cor, teriam um "espírito ativo" e "fortes músculos", constituindo a grande força de trabalho e produção. Os melhores profissionais seriam os mulatos, formando a "verdadeira burguesia brasileira", defende o autor,52, opondo-se abertamente a uma forte tendência do período (final da década de 1860) em que se tentava, a qualquer preço, provar cientificamente a inferioridade dos mulatos. Queria-se demonstrar que os casamentos híbridos geravam descendentes degenerados e mais fracos, ou, no pior dos casos — por absurdo que seja - , até estéreis. Nesse contexto, evidentemente não faltariam vozes desconfiadas da mistura racial. Gardner pondera que as raças mistas eram uma ameaça repu' No meio político e intelectual brasileiro, a discussão do "branqueamento" da sociedade brasileira tomou enorme fôlego no período abolicionista, quando também o pensamento racista já fora sistematizado em várias vertentes. Segundo Thomas Skidmore, a tese do branqueamento baseava-se na suposição da superioridade branca e no uso dos "eufemismos raças 'mais adiantadas' e 'menos adiantadas'". Acreditava-se que por meio da miscigenação o negro desapareceria e a população ficaria progressivamente mais clara. Os miscigenados não seriam produto da degeneração, mas estariam aptos a produzir descendentes cada vez mais brancos. Isso se explicaria em parte pelo fato de o gene branco ser mais forte e em parte porque os parceiros brancos seriam mais procurados para procriação; cf. Thomas Skidmore, op. cit., p. 81. Vale notar que Martius não explica o fenômeno da mestiçagem e do decorrente branqueamento do ponto de vista biológico. Nesse sentido, suas idéias se pautam em conceitos filosóficos, em coerência com o "racismo da Ilustração" (Stocking). 52 Ribeyrolles, op. cit., vol. I, pp. 93, 156.
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blicana à monarquia e ao poder dos brancos. Também o interesse dos europeus pelas "bonitas" e "amáveis" mulatas, que aceitam permanecer numa "posição inferior" por consentir que esses homens não se casariam com elas, segundo observa Burmeister, contribuía para "baixar a moralidade do povo brasileiro, dando, assim, à raça de cor uma expansão cada vez maior". Stewart nota que a mistura se apresenta em todas as esferas da vida, "doméstica, social, civil, militar, no palácio imperial e diante dos altares da Igreja", o que não deixa de ser "revoltante", sobretudo por ele ser um visitante dos EUA, tal qual faz questão de mencionar. 'Terríveis" e "assustadores" mestiços formam a maioria da população, cujo desejo era de se tornar branca, conclui o missionário, apontando, despropositalmente, para o racismo que plasma as relações sociais. Por que querer ser branco se havia os mecanismos de ascensão e integração para a população de "cor", tal qual tantos estrangeiros enxergavam? E, por fim, o famoso naturalista Agassiz, representante da escola etnológico-biológica, que não tardou em radicalizar os males da miscigenação, declarando que os mestiços seriam um grupo degenerado.53 Em extensão à questão da miscigenação, voltaria a questão da nação. Vimos que, para Martius, tanto brancos quanto negros e índios constituíram a base da nação, emprestando à mistura racial a tarefa histórica na formação nacional, e que para Ribeyrolles os mestiços, sobretudo os mulatos, representam a "verdadeira burguesia". Trata-se de concepções que os defensores das teorias racistas obviamente não admitiriam. Esse é o caso do diplomata suíço Tschudi, que, levando às últimas conseqüências as mesmas preocupações de Denis e Saint-Hilaire quanto à heterogeneidade da população, asseverou que a miscigenação torna-se um empecilho para pensar o império como nação. Tschudi constata que a única ligação que existe entre os habitantes do império é a "forma de governo". Ao contrário das nações européias, onde, além dessa forma de ligação, a união se faz através da ascendência ou origem comum e, portanto, de um caráter, em suas linhas gerais, comum, essas nações formam um todo limitado pela sua ascendência, seu caráter, sua língua, sua história, suas necessidades. No Brasil, no entanto, observa-se uma ascendência miscigenada, impossibilitando assim a formação de um "tipo

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Gardner, op. cit., p. 26; Burmeister, op. cit, p. 71; e Stewart, op. cit, pp. 72-3; Louis & Elizabeth Agassiz, Viagem ao Brasil (1868) (Belo Horizonte/São Paulo: Itatiaia/Edusp, 1983). Sobre a recepção da obra de Agassiz no meio brasileiro, ver Skidmore, op. cit., p. 67.

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nacional" e de um "caráter brasileiro". O naturalista conclui que nos povos da Europa reina a nacionalidade, no Brasil a individualidade (grifo no original). Por fim, o autor tece observações para definir o "brasileiro". Sob esse termo não entende ele o total da população, mas somente a parte "mais inteligente", de origem preponderantemente branca.54 Pode-se repreendêlo, reconhece Tschudi, de ser aleatório e injusto, mas acredita ele ter justificado a sua postura. Ao descrever a vida intelectual, social e administrativa dos brasileiros, recusa-se a juntar o "indígena apático", o "caboclo preguiçoso", o "rude negro liberto", o "superficial mulato" aos descendentes de colonos civilizados, em sua maioria de origem latina.55 Em suma, no olhar desses forasteiros, essa "sociedade multicolorida, heterogênea, bizarra", como a adjetivou Expilly, teria que passar por transformações para evitar sua estagnação ou mesmo decadência para um estado de barbárie e desorganização social tanto quanto assegurar o seu caminho para tornar-se uma nação civilizada. O maior debate, certamente, gira em torno da questão da miscigenação e a dúvida que esta suscita quanto à viabilidade de o Brasil se tornar uma sociedade "civilizada" nos moldes europeus. A despeito dessa polêmica, ao longo do século, há uma certa unanimidade quanto às providências a ser tomadas, visando a constituição do Estado e do sistema monárquico-constitucional: moralizar as instituições públicas (governo, administração, Igreja, etc.) e privadas (família, casamento, etc), bem como o trabalho e as relações sociais de toda natureza; expandir e melhorar o ensino básico e médio, aumentar o comércio, incrementar os meios de transporte e comunicação, instalar indústrias e investir na produtividade agrícola. Alguns viajantes enfatizarão a necessidade de reformas morais e religiosas. Kidder acreditava que a formação de uma "grandeza nacional" dependia do combate ao vício, à ignorância, superstição e intolerância, cuja arma seria a "piedade" e o "poder do saber". O que mais precisava o Brasil era de "evangelizadores piedosos". Já Ewbank é mais extremo ao afirmar que o catolicismo era que impedia o progresso do país e, em geral, da América do Sul. Não bastariam "evangelizadores piedosos" para se alcançar al-

gum esclarecimento entre a população, mas sim precisava-se de reformadores, a exemplo de um Lutero ou Fenelon...56 No olhar providencial e (re)formador dos viajantes não resta dúvida, porém, de que o grande problema para o progresso do país estava na mãode-obra escrava, deixando entrever a contradição da ideologia liberal, que projetava no país a constituição de uma sociedade burguesa inserida no mundo capitalista e a prática da escravidão. O mito da brandura, do potencial civilizador da escravidão e da possível ascensão social do liberto não era suficiente para sustentar a instituição. Numerosos autores se opõem à escravidão por corromper moralmente a sociedade, afetando as relações humanas (licenciosidade, libertinagem sexual, exploração humana) e a disposição ao trabalho. Autores como Tschudi e Burton reforçaram a idéia de que o escravismo era o caminho mais certo para destruir economicamente o país. O diplomata inglês, munido de um transparente racismo, acusa diretamente o negro, concluindo que a "importação" do negro ("cativo, proscrito, criminoso") da África pode ter contribuído para a melhora da "raça", mas prejudicou a "raça superior" que o admitiu, no sentido moral e físico, sobretudo indispondo-o ao trabalho e, acima de tudo, ao melhor de todos os trabalhos em um país jovem: a agricultura. "Onde os negros trabalham, todo trabalho se torna servil, e, em conseqüência, o povo carece do 'altivo camponês, orgulho do País'". Também a educadora Ina von Binzer desmascara a desmoralização do trabalho provocado pela escravidão. No entanto, enfatiza ela que todo trabalho é realizado pelos negros, em contraste com a classe dos proprietários que, completamente dependente dos escravos, acostumouse ao ócio.57 Expilly, após observar por mais de dois anos a sociedade escravista na década de 1860, reconhecia que a corrupção agia reciprocamente. A escravidão oblitera o senso moral tanto dos opressores como dos oprimidos. E, em alguns casos, o vício do qual alguns escravos são acusados é resultado de senhores inebriados pelo poder absoluto que exercitam, tendo esquecido as noções mais simples de direito e justiça. Também encontramos visões mais lúcidas em Ribeyrolles. Nota ele que os negros escravos formavam a "mão-de-obra nacional", cuja produtividade, contudo, era limitada pela violência, suplício e opróbrio que caracterizavam a própria instituição. E mais:
56 57

54

Saint-Hilaire, que esteve em nossas paragens entre 1816 e 1822, se refere ao Brasil como sendo um país onde "não havia brasileiros", ou seja, não havia "homogeneidade" entre os habitantes, ou algo que lhes imprimia alguma identidade; cf. op. cit., p. 213. 55 Tschudi, op. cit., vol. I, pp. 119-20.

Kidder, op. cit., pp. 271-2; Ewbank, op. cit., p. 19. Tschudi, op. cit., vol. I, p. 116; Burton, op. cit., p. 230; Binzer, op. cit., p. 157.

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impede mesmo a formação do "povo", pois a escravidão representa a "morte da sociedade e das almas". O escravo não é integrado na sociedade por meio da lei, do direito e da família, que são as bases para se edificar um "povo", desmascarando a segregação que dominava as relações sociais.58 Desde as primeiras décadas do século compartilhava-se a opinião de que a população era numericamente exígua, moralmente decaída e culturalmente despreparada para enfrentar o desafio de explorar uma natureza tão pródiga.59 Com o término do tráfico (1850) e o avanço do abolicionionismo, o problema da mão-de-obra recrudesce, necessitando de soluções. Os muitos males que perduram no Brasil há séculos somente seriam remediados com o emprego da mão-de-obra livre em larga escala e a dedicação à agricultura, advertiria Burton, entre outros. E praticamente todos os autores estavam de acordo que a grande salvação estaria na imigração européia. Ribeyrolles insistia na necessidade de aumentar a população e educá-la, preparando-a para o trabalho, o que poderia ser auxiliado por meio da imigração européia e de um projeto colonizador oficial, organizado pelo governo. Ina von Binzer afirma categoricamente que "a gente preta é um peso para o Brasil, formando a escravidão uma verdadeira chaga, ainda pior para os senhores do que para os escravos; e isso mais se nota [...] nas vésperas de ser extinta". Comparando as condições de trabalho no Brasil com os EUA, deduz que a falta de moral aqui reinante impede que os ex-cativos sejam absorvidos no mercado. "O brasileiro [...] despreza o trabalho e o trabalhador." Portanto, "como esperar que o escravo, criado em animalesca ignorância, mas dentro dessa ordem de idéias, seja capaz de adquirir outras por si [...]"?, pergunta-se a educadora. E conclui: "Tenho a impressão de que o Brasil logo de início irá sofrer horrivelmente com a abolição da escravatura, porque não se decidiram aqui pela imigração européia, nem ofereceram aos mais úteis imigrantes - os germânicos - condições bastante favoráveis".60 Com exceção de Ribeyrolles, que deposita a esperança nos mestiços para impulsionar o processo civilizador - embora tivesse notado que esses pouco queriam dedicar-se à agricultura, o que era uma grande desvantagem

para a economia do país -, 61 a ênfase na vinda dos europeus - e não asiáticos, ou até, como explicita Ina von Binzer, de preferência germânicos - reitera a crença na vocação civilizatória do europeu nas ex-colônias, devolvendolhe o papel de fundador e formador da sociedade. É notório como alguns autores atribuirão ao imigrante a incumbência pedagógica de moralizar essa sociedade tida como tão corrupta e decaída, em todos os sentidos, como se pode acompanhar pelas palavras de Leclerc, sintetizando o que muitos viajantes expressaram anteriormente. Leclerc chega no Brasil, como vimos, imediatamente após a queda da monarquia e, portanto, mais de um ano após a abolição. O jornalista avalia que os últimos anos do império teriam sido anárquicos e que os males da escravidão ainda atormentavam o país. O autor resume:
O "commonwealth" brasileiro durante mais de um século baseou-se na escravidão; ao faltar esta encontrou-se sem alicerces [...] A sociedade brasileira trocou um sistema bárbaro e inumano pelo desconhecido; voltou ao estado inorgânico; é um protoplasma em que as células giram em busca de uma lei de agrupamento.62

O autor nota que o escravismo foi um fator de coesão e organização da sociedade e do Estado durante o império. Contudo, teria ele impedido a constituição da família, base para a formação da sociedade moderna. Portanto, com o fim do sistema escravista, instaura-se um período de absoluta instabilidade, já que, no seu entender, não havia uma malha social capaz de absorver os impactos de tamanha mudança. O Brasil de 1889 era um país em crise, adverte Leclerc. A herança do império foi a pior possível. A seu ver havia uma crise política, mas cujo desenlace se aproximaria, graças ao "bom senso do povo brasileiro", embora, como disse em outro lugar, as "massas" não obtiveram educação política de forma que o "espírito público" não se formou, lembrando-nos as observações de alguns estrangeiros sobre o Brasil do início dos Oitocentos. A isso se acrescentaria uma "crise social", cuja resolução seria mais difícil de se prever e que somente seria superada quando a disciplina fosse restabelecida no exército, na administração e no povo; e, por fim, a "crise econômica" devido à abolição da escravidão, que somente poderia ser remediada com uma imigração "bem conduzida". Com

58

Expilly, op. cit., pp. 289 e ss.; Ribeyrolles, op. cit., vol. I, p. 92 e vol. II, p. 91. Denis, op. cit., pp. 397-8; Spix & Martius, op. cit., vol. I, pp. 87,118 e vol. III, p. 316; Stewart, op. cit., p. 89. 60 Burton, op. cit., p. 231; Ribeyrolles, op. cit., vol. I, pp. 154-6; Binzer, op. cit., pp. 244-5.
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' Ribeyrolles, op. cit., vol. I, p. 93. Leclerc, op. cit., pp. 156-7.

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estas observações, o autor recupera a imagem de um Brasil caótico, em estado primevo, aguardando que uma nova ordem seja criada. Por isso.mesmo pleiteia ele, com urgência, a vinda de imigrantes europeus, que devem fundar suas famílias para servir de "exemplo" e mostrar "o valor da família pura, liberta de contatos aviltantes e corruptos com o elemento servil". Era pois necessário reabilitar o trabalho livre e a dignidade humana. Associada à crise da mão-de-obra, estaria o problema do latifúndio. A concentração de grandes propriedades por poucos e a falta de terra para ser distribuída aos imigrantes (salvo no sul do país) seriam uma das maiores mazelas, obstando o desenvolvimento social e econômico do país ou, em outras palavras, dificultando o projeto imigratório.63 Em suma, a notória insistência para a vinda de colonos europeus não somente deveria solucionar o caso da mão-de-obra, educando e disciplinando o trabalhador, mas, em última instância, também seriam eles úteis para acelerar o branqueamento da sociedade. Pois abolir a escravidão não resolvia o problema do grande contingente de mão-de-obra de origem escrava e tampouco a questão racial. A população continuaria negra e mestiça. E um caminho certo para branqueá-la seria por meio da introdução de famílias européias. Finalmente, as preocupações reveladas por esses forasteiros também tiveram os seus interlocutores brasileiros, quer no parlamento, quer nos movimentos e sociedades abolicionistas e imigrantistas, desvelando a angústia de nossas elites quanto à cor que a sociedade brasileira ia tomando.64 O Brasil imperial mostrou muitas caras aos viajantes estrangeiros. Longe de esgotar a multiplicidade de imagens que eles criaram a respeito de nossa sociedade, nosso governo, nossas instituições e nossa história, é notório que o Brasil de 1808 a 1889 desponta como grande terra prenhe de potenciais, mas que permanece num constante estado de formação, de ainda estar por fazer, pelo processo civilizador, um eufemismo para dominação de valores cunhados pelos europeus e transpostos ao Novo Mundo. Nossos autores identificaram que com a vinda da família real iniciou-se o processo de ruptura com o antigo sistema colonial e foram colocadas as bases para se

"Ibid., pp. 86-90, 157, 173. 64 Para uma interessante discussão a esse respeito, ver Célia Maria Marinho de Azevedo, Onda negra, medo branco: o negro no imaginário das elites, século XIX (São Paulo: Paz e Terra, 1987); Thomas Skidmore, op. cit.; e Roberto Ventura, Estilo tropical (São Paulo: Companhia das Letras, 1991).

pensar o país como nação. Sentimentos nacionais, espírito público, patriotismo, sentimento de independência sustentariam os primeiros passos de uma nação conduzida por um monarca constitucional. Mas apesar desses votos esperançosos, que procuravam equiparar o jovem reino às demais nações européias, restava o problema do escravismo, a maior herança do período colonial e que distanciava o Brasil das potências européias. Em oposição a essa instituição, que corrompia econômica e moralmente a sociedade, é construída a imagem de d. Pedro II, um ícone da cultura e civilização européia, emprestando estabilidade ao império ao longo de sua permanência por mais de quarenta anos no poder. No entanto, ele não foi capaz de sanar a "doença social" do escravismo. Igualmente a heterogeneidade da população - outra herança do período colonial - , que se manifestava na mistura entre negros, índios e brancos, imprimindo à sociedade brasileira um especial caráter, muito diferente do que ocorria na Europa e nos EUA, revela-se, no olhar dos nossos forasteiros, como um desafio para dar continuidade à formação de uma nação civilizada. Tratando-se justamente do século em que se procura provar cientificamente a absurda idéia da inferioridade de seres humanos que não fossem brancos e em que as teorias racistas se convertem em moeda corrente para explicar as diferenças culturais, a questão da miscigenação assume especial importância. Dependendo da filiação ideológica do autor, ela torna-se um empecilho para o progresso, acelerando a degeneração social. Por outra parte, essa discussão permitiu que muitos viajantes, como vimos, colocassem os fundamentos para a construção do mito da democracia racial, que os nossos intelectuais da década de 1930 - sobretudo Gilberto Freire - levarão adiante, configurando-lhe o papel de identidade nacional. No cômputo da polêmica, porém, e em correspondência com as ansiedades das nossas elites, a tendência geral era querer branquear o país, o que, finalmente, não se reduzia ao problema da "cor", mas obviamente ao da negação de uma cultura que não se encaixava nos modelos, por assim dizer, europeus. Na medida em que os imigrantes do Velho Mundo vão chegando, destinados, entretanto, somente a certas regiões, estatisticamente os dados demográficos vão mudando e, como num passe de mágica, a sociedade vai se "branqueando". Mas sabe-se que a segregação entre os grupos étnicos se acirrou, desmentindo o próprio mito da democracia racial; sabe-se que as diferenças econômicas entre as regiões do Brasil não foram superadas; sabe-se que as diferenças sociais entre as classes continuavam a produzir fossos intrans-

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poníveis, furtando de uma grande parte da população o direito da cidadania. Por fim, a despeito das amarras ideológicas dos nossos visitantes, que se traduziam em concepções racistas, classistas, eurocêntricas, colonizàdoras e na incapacidade de relativizar as diferenças do ponto de vista cultural, a leitura de seus textos nos conduz a temas de nossa longa duração.

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Glauber Rocha .O Brasil no espelho do Paraguai Francisco Alambert A revolução de 64 começou na Guerra do Paraguai.

"As idéias fora do lugar". Desse modo. a Argentina e o Paraguai). a ideologia liberal. seria impossível pensar qualquer conjunto de identidade "americana". Roberto Schwarz. No campo ideológico. 1981). No Brasil. . dentro do mundo sul-americano. num determinado momento do século XIX.A. contra o qual fizemos uma guerra que era uma luta por territórios. uma guerra pela identidade afetada pela iminente derrocada de nosso império escravista e seu modelo de "civilização". No campo geopolítico. diferenças exaltadas e violências consumadas. vista em oposição às "outras" nações americanas. conforme Roberto Schwarz escreveu em ensaio conhecido: "impugnada a todo instante pela escravidão. mas fundamentalmente diante de nossos vizinhos americanos. mas antes de tudo. por hegemonia. em Ao vencedor as batatas (São Paulo: Duas Cidades. que era a das jovens nações emancipadas da América. descarrilhava". Nosso liberalismo sonhava ser a diferença. Se a imagem que um país constrói de si está relacionada à diferença que impõe em relação a imagens de outras nações. 15. tanto ao norte (com a disputa pelo controle dos rios amazônicos) quanto ao sul (com a questão platina e os conflitos intermitentes com o Uruguai. as tensões se acirravam à medida que íamos definindo nossas fronteiras. as diferenças traduziam-se numa guerra de idéias assentada na defesa brasileira de sua "civilização" imperial e escravista. Mas. relações entre o Brasil e seus vizinhos sul-americanos ao longo do século XIX e início do século XX marcaram-se por tensões.1 Não éramos apenas uma "idéia fora do lugar" diante do modelo liberal europeu. p. a particularidade significativa diante do modelo liberal-revolucionário europeu que nossos "bárbaros" vizinhos meramente copiariam. então o "outro" do Brasil foi toda a América Latina. já então formalmente republicanas e antiescravistas. nosso "oposto" foi o Paraguai.

das representações e das identidades). A artista plástica Regina Silveira reconheceu e interpretou a questão em duas obras. Os motivos e as conseqüências que produziram a Guerra do Paraguai . mas sabemos. personagem e fundo da obra.304 Francisco AJombert 0 Brasil no espelho do Paraguai 305 A Guerra do Paraguai representou no campo da cultura (no sentido das ideologias. por onde começar a desatar os nós..a uma sombra projetada na parede da escultura que Brecheret.. dos Documentos. num momento ou noutro. serviria então para nos salvar de nossas próprias condições e definir a imagem civilizada que tanto buscávamos. Mas vencida a guerra contra as "crianças" guaranis. Quando lutávamos contra a "barbárie" paraguaia. nos legou. sob o crivo da ironia e da perplexidade questionadora. chega a todos que. autoritário. perpassa os anos. passado. Cf. mitos.. eu não sei o que é América Latina". da idéia de Brasil construída em oposição aos outros estados de herança colonial que lhe são contemporâneos. revelando-lhe justamente sua condição de civilização em estado de infância. Gilberto Freire. Numa obra de 1994 intitulada O paradoxo do santo. Sensibilidades que não se encontram entre historiadores e especialistas perceberam isso com imensa clareza na capacidade de propor problemas. elaborou uma espécie de painel intitulado to be continued.. Trata-se. No espelho do Paraguai . o momento em que o mundo imperial-escravista enfrentou sua mais forte crise externa e interna. mas convertia-se em "cultura". 1998. Gilberto Freire elaborou ampla pesquisa biográfica com pessoas nascidas entre 1850 e 1900. . justamente o que principia na Guerra do Paraguai. O presente ensaio organiza-se em torno da seguinte questão: como um evento histórico pôde funcionar ao mesmo tempo para demarcar o futuro das relações tensas entre o Brasil e o resto da América Latina e ainda servir como base fantasmagórica no processo de constituição da idéia de "cultura brasileira"? Uma das respostas possíveis seria que a busca da diferença diante da América do Sul foi um dos caminhos pelos quais desenhou-se a imagem do Brasil como cultura "originar. fez do duque de Caxias. incivilizado. O Paraguai. dito de outra forma. é a constatação da impossibilidade que a própria artista sintetiza: "Na verdade. Diante dela. parece que a idéia do "Brasil criança".3 Não vemos por onde puxar o fio da meada. Guerra do Paraguai e narrativa nacional. Sobre a república guarani foram atirados exércitos. Memórias de guerra..condicionaram (mais do que as diferenças "lingüísticas". e a artista também. éramos então um povo "adulto". atrasado aos olhos da cultura da corte. Em seu livro Ordem e progresso. Nessas brincadeiras. Na obra. a artista contrapõe uma pequena figura de Santiago a cavalo . para falar com Freud.usado como metáfora da situação latino-americana . bárbaro. 1962). Ordem e progresso (Rio de Janeiro: José Olympio. a Guerra do Paraguai entranha-se de maneira efetiva na composição ideológica nacional. Não há resposta à vista nem mesmo trilhas a seguir por entre o caos dos símbolos. sociais. das Interpretações que se lhe seguiram . 8 set. "culturais" ou relativas à colonização hispânica) a sombra que se projeta nas obscuras relações entre o Brasil e o resto da América Latina. passados muitos anos e muitas mudanças políticas. cantaram eu fui no Itororó." Entrevista ao jornal O Estado de S. nosso escultor modernista por excelência. Regina Silveira nos apresenta um desses nós. já que. apenas a constatação de uma impossibilidade que a própria história. também Ricardo Salles. de analisar as cons- 2 Cf. história. criava-se a idealização de soldados como heróis nacionais. a pergunta essencial aliás. "Caderno 2". emblemas e sinais característicos da história e da cultura de toda a América Latina são apresentados na forma de um quebra-cabeça.. A memória da guerra poderia não ser nomeada. 1997. do "país do futuro". ou. a única pergunta. para nossos ideólogos do Império. p. mimeo. o "mal-estar" de nossa "civilização".nada menos que o proclamado patrono da América espanhola . foi a que mais impregnou-se entre nós. portanto. É desnecessário comentar o impasse que o paradoxo e o jogo da sombra e da projeção instalam entre presente. econômicas.construiu-se um dos elementos de nossa "identidade nacional". memória e modernidade. 3 "Regina Silveira devora e subverte arquitetura e história.0 sociólogo descobriu que para a formação desses homens e mulheres foi importante a presença rotineira de brincadeiras infantis inspiradas na Guerra do Paraguai.2 Mais do que nossa historiografia possa ter pensado (pois de fato nunca pensou). mas também idéias e imagens que buscavam transferir ao outro as mazelas que nossa realidade nos impunha. uma das justificativas "civilizacionais" vinha da idéia de que faríamos um bem ao inimigo.a que aconteceu entre 1864 e 1870 e a Guerra das Letras. Paulo. Na primeira. A imagem das crianças e da infância atémse a ela. D12. uma montagem caótica onde figuras.

3. Brito Broca. É esse o pensamento de um epigrama publicado no último número da Semana Ilustrada: 'jogase agora no Prata. dependendo da ocasião. . prepara as manifestações públicas.6 Prontamente. a oposição radical entre a sonhada "civilização brasileira" e a cultura paraguaia ou latino-americana. exercício da honra. ainda mais dignas de uma resposta em armas. assim como outros escritores de sua época (destacando-se o visconde de Taunay). falalhes a linguagem da liberdade e do valor. Jackson Editores. Em suas primeiras crônicas de juventude. 1983). "Machado de Assis e a Guerra do Paraguai". Uma parte desse trabalho foi publicada em Maria Eduarda M. tão grande e ameaçadora era sua presença para que a identidade pudesse se ver livre. no final das contas. 299. 1998). História e cultura: representações culturais e projeções da Guerra do Paraguai nas crises do Segundo Reinado e da Primeira República (São Paulo: FFLCH-USP. Ninguém mais hesita. é quem vai decidir a sorte da contenda? Sua linguagem irônica e indignada. na 5 6 Machado de Assis. M. Fundação Pró-Memória. apelativa aos valores pátrios. Explorei mais detidamente esse tema em minha tese de doutoramento Civilização e barbárie. 1864. em suas crônicas.5 4 Cf. deixa de ser uma temeridade para se tornar orgulho. convocando uma particular "multidão" restrita ao mundo da corte. É esse o presente que o ditador bárbaro de uma bárbara nação sem imperador oferece aos seus: O cavaleiro paraguaio convoca as multidões. ainda que se demonstrasse. como o Paraguai era o "Outro" do Brasil. Passou a ser também um passeio da civilização. 1946). 24 jan. o discurso crítico dos positivistas../Um jogo dos menos maus:/0 López é o rei de copas/O Aguirre é o rei de paus"'. tudo aplaude. Marques (org. deveriam funcionar como um espelho invertido. 1865. contos e romances. do Segundo Reinado e suas conseqüências para a vida cultural brasileira posterior. na virada do século. o antiexemplo do caminho "liberalmonárquico" a ser trilhado. A mentira no poder inventa ações políticas que nosso cronista se esforça em ridicularizar para mostrá-las ainda mais ameaçadoras. Era melhor matá-lo logo. Observar a maneira com que nosso maior escritor acompanhou e refletiu sobre as questões da guerra permitenos compreender a formação de um ideário cujos traços principais são. a guerra. A Guerra do Paraguai. Tudo poderia ser muito simples. defesa da civilização contra a barbárie. não quer funcionar como "centelha" para inflamar nossos ânimos guerreiros? Seu desejo não é exatamente poder um dia dizer algo como: contribuí com minha parte de escritor. desejo escondido no inconsciente nacional. Ora. Tudo se extasia. publicada em 24 out. Machado.. C. ao lado da abolição da escravidão. que tudo tinha um ar de solenidade civilizatória e obrigação cívica. A guerra era desejo. A Guerra do Paraguai na obra de Machado dè Assis (João Pessoa: Departamento Cultural da Universidade Federal da Paraíba. poesias. Crônicas (1864-1867) (Rio de Janeiro: W. e a análise crítica esboçada pelo jovem Monteiro Lobato. um ajuste de contas que reporia no lugar as coisas que a América do Sul vinha confundindo. ou aquilo que se imaginava serem suas convicções. segundo Machado. Serão abordados três momentos em que se apontam as contradições desse processo: a obra de Machado de Assis. Mata-se o dois de paus e arma-se a cartada ao rei de copas. Raimundo Magalhães Jr. tudo era otimismo e possibilidade de redenção. em Machado de Assis desconhecido (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. contemporâneas ao conflito. mimeo. "A Guerra do Paraguai". Humberto Peregrino. podemos acompanhar também o início de uma reflexão crítica que apontará na saga bélica nacional os indícios das contradições que efetuaram a construção da idéia de Brasil que se erigiu nos anos posteriores.os homens o seu sangue. "Depois de Aguirre. Coleção Ensaios Contemporâneos. n. "ninguém mais hesita"? Não seria tão absurdo ver López como o seu "Outro". i O tema da Guerra do Paraguai na obra de Machado de Assis ainda é um campo quase inexplorado. 1995). no momento em que comenta ou encena questões ligadas à Guerra do Paraguai. uma centelha basta para inflamá-los. 1955). corre uma faísca elétrica por todos os peitos.306 Francisco Alambert 0 Brasil no espelho do Paraguai 307 truções e os artifícios ideológicos que estão no fundo do debate cultural e político ocasionado pelo mais decisivo momento. 1969). não é exatamente o mesmo que faz Machado no campo de cá? Suas crônicas não funcionam exatamente assim. da opinião que pesa e que. Mas como tudo se move ardilosamente na obra do escritor. as mulheres a sua honra. a princípio. 130 anos depois (Rio de Janeiro: Relume-Dumará. funciona como uma espécie de ideólogo do império. ibid. Francisco Solano López representa a negatividade total. neces- sidade. p. em Machado de Assis e a política (São Paulo/Brasília: Polis/INL. passa-se a López. Nesse sentido.). Suas atitudes. todos vão depor no altar da pátria o óbolo do seu dever .4 Ele se entranha na obra do autor.

ibid. Nossos escravocratas recebiam da pena poética o mais cobiçado presente: ganhavam o direito de ser os libertadores dos "escravos" dos outros ao mesmo tempo que podiam continuar a ser escravizadores em sua própria nação. 327. 298-9. A guerra é o fato que trabalha em todas as cabeças. Se o império é fogo. uma guerra contra a apatia. . a lírica seria o lugar mais apropriado: [. em uma de suas estrofes inflamadas. O transe marcial. Já vinha de antes essa pulsão patriótica em versos. como glorificação dos mais altos ideais civilizatórios. só próprio De almas livres!) então rompem-se os elos De homens a homens.10 O Paraguai. realinhando a reflexão para outros campos. a indecisão e a dúvida. Vença uma vez no campo. mas aclara. Faça-os homens.] Então (nobre espetáculo. Por um momento a guerra torna-se a religião da nação em comunhão e o escritor seu capelão. Os últimos versos funcionam como o tiro de misericórdia. 21 fev. vol. uma apologia do exército como instituição salvadora nacional.9 7 8 9 Era o golpe final.em fogo. p. ainda que esse personagem não lhe caísse bem. ibid. se fez contista ao mesmo tempo que a guerra chegava a seu fim. "A cólera do Império". 299.. ibid. que desperta todos os sentimentos nacionais".para alcançarem a "Justiça". outra nas almas. a guerra funciona como plano. Suas agruras se consubstanciam nos símbolos da força e do saber . Não lhe basta escrever uma vitória. p. dirigido certeiro no coração do problema brasileiro. tão bem retratado por Machado. diz: "Nação livre.. Agora. mortífero. que não pode ser represado: "Todos desejam a entrada das forças libertadoras"7. Mas o cronista Machado de Assis se encaminhou para a ficção. tão grande. 1865. 1997). da corte e deve também dizer bastante (esse é um assunto que os estudiosos do autor ainda estão por abordar mais firmemente) sobre a formação política e ideológica do grande escritor. que provoca todas as dedicações. deu-lhe o mote para exercer o papel de publicista do Império.] Basta isso? Ainda não. como quer Faoro. por exemplo (assim como no romance laia Garcia). seria o curativo de uma ferida aberta. O teatro de guerra compôs o palco ideal para que Machado lançasse.8 "Todos" juntos com "todos". "Um capitão de voluntários" trata de um homem que resolve partir para a guerra 24jan. agora mais do que antes. Uma batalha pela idéia do Brasil diferente e superior ao resto da América. idéias centrais para a formação do espírito bélico. III. mas certamente é uma defesa da guerra em nome de determinados ideais de "civilização".. Neles. o mais estranho dos países dessa estranha América que rodeava ao longe o mundo da rua do Ouvidor. a da pátria [. Lá onde a tirania oprime um povo. pp. em Obra completa (Rio de Janeiro: José Aguilar. Machado teria publicado um "Hino Patriótico". Também é luz: abrasa. o que no caso poderia não ser. contra qualquer resíduo de indecisão marcial: Quebre as duras algemas que roxeiam Pulsos de escravos. Coração. Seu "testemunho" distante dos casos e razões da guerra diz muito desse lugar onde repousava a "opinião pública" nacional . que. 1976). Era justamente a batalha das "almas" que estava em processo. Outra. Abafam-se. que trazem sutis inflexões à abordagem. O bom sono estava salvo com essa guerra redentora. Deixa um raio de nova liberdade. Onde levar a flama da justiça.. 327. fundo e situação importantes no quadro pintado pela narrativa. lhe desperta os brios.. identificado por J. Machado de Assis: a pirâmide e o trapézio (São Paulo: Nacional. família. Para a expressão de tais sentimentos. p.. Galante de Sousa.308 Francisco Alambert 0 Brasil no espelho do Paraguai 309 alma de homens e mulheres. é nossa glória/Rejeitar grilhão servilj/Pareça a nossa memória/Salva a honra do Brasil". ou resumisse. no "ventre das mães"... o tema da Guerra do Paraguai assume novos timbres. O fruir a guerra deve ser experimentado como êxtase coletivo. bem como essa representação do Brasil escravocrata como campeão da liberdade. em luz . Vejamos como o tema se apresenta agora em um desses contos. agora claramente extremados. Em contos como "Um capitão de voluntários" ou "Uma noite". Por ocasião da questão anglo-brasileira. "Todos os espíritos estão voltados para o sul. o desinteresse.vale dizer. 10 Raymundo Faoro. os súditos da corte escravista podiam tomar para si a tarefa de libertar os "escravos" paraguaios. 1865.. aniquilam-se: perdura Uma idéia. a "Liberdade".

no interesse da nossa gente. é ir à guerra -justo ele.Não.. em seu teatro de bons modos e hipocrisia. pp. separam-se. p.Eu não. Entretanto. Simão de Castro nos contará um episódio de sua vida. O amigo fica só com seus "remorsos". "Um capitão de voluntários". ao embarcar para a Europa. cit. No início. Tudo na vida da corte. O marido descobre tudo.13 Magalhães Júnior notou que essa posição crítica. por bondade ou por vergonha. "X" era seu melhor amigo (só na última linha do textoficamossabendo seu nome: Emílio).Também gosto deles. amores ilícitos. O esforço de guerra não é mais do que a máscara ideal para o destino das identidades em crise: "lá fora torno a ser o que sou. dá o tom particular. p. de certa forma. na campanha. serei o que devo ser".. proporcionando-nos tanto uma outra situação quanto uma posição diferenciada diante do evento.11 como se diz já no fim da narrativa. A princípio. pois nunca são claros seus motivos) do retorno do homem com quem viveu. das motivações que animaram o próprio escritor). olhe. Raimundo Magalhães Jr. .. É o que se vê num diálogo surpreendente entre "X" e seu amigo. não enfrenta nem o amigo traidor nem a mulher adúltera. Maria morre em Curitiba. até que. porém. "um modelo de graçasfinas".Eu. eu estive quase a alistar-me como voluntário da pátria. que acreditava ter sido melhor a aliança com López. este também um dos protagonistas da trama. A Guerra do Paraguai esta- 1 ' "Um capitão de voluntários". "alguma coisa mais particular que o patriotismo". A isso responde ceticamente "X"..15 Assim. quando regressava dos anos que passou no Rio Grande do Sul à espera (ou não. vai se operando uma transformação nas certezas quanto ao caráter civilizador do conflito .12 A princípio. o narrador nos insere nas circunstâncias das relações estreitas entre os três personagens. envolvemse. a par do conflito amoroso. cit. Também morrera uma filha que tivera antes de conhecer "X" (não sabemos ao certo em que circunstância). da apresentação de diferentes atitudes e opiniões sobre o conflito bélico.14 É uma explicação bastante convincente e. que logo se retirará. p. logo depois perdi a impressão. Um episódio que envolve amizade. compõe uma tragédia dissimulada. e que pode ser tomado como metáfora das causas e das resoluções da própria guerra (e. francamente. não entusiasma..mulher que "tinha em si o fogo e o gelo". Prefiro os argentinos. conduz a sorte do voluntariado e desmascara sutilmente a honra patriótica.310 Francisco Alambert 0 Brasil no espelho do Paraguai 311 quando se descobre traído pela mulher e pelo melhor amigo. declarando que tais ações não são mais que "fantasias" passageiras. anos depois de seu término. uma guerra não declarada. fiquei indignado. pp. as mudanças de atitude. e. era melhor ficar com López. mas palavra. t6 Ibidem. mas. p. . abandono. e agora. chora-se também a morte do império?). "a causa foi complexa". 685. nos dá notícia de que a história a seguir será um relato escrito por outro narrador. . . Nesse conto o tema da hesitação. obtendo as vantagens e nos deixando os ônus". poderia explicar-se pelas razões e conseqüências da guerra que. Não se revolta. Mais velho. deixa para outros os relatos do episódio terrível. "X" morre em combate.. que sucede aquela impressão de ceticismo: . 693. 55. guerra e morte. iJ Ibid. são ainda os temas íntimos e domésticos que surpreendem e dirigem os saltos narrativos. Antes. para todos e para si. Do ceticismo à dúvida. posta na boca de "X". podiam ser melhor balanceadas.] a Guerra do Paraguai. em Obra completa (Relíquias de casa velha). o tema da guerra é introduzido.. nem que me fizessem coronel não me alistaria. l2 Ibid. diz algo do sutil ceticismo que tomou nosso escritor nos anos posteriores àqueles em que escrevia seu evangelho bélico em versos e crônicas. como a posição da Argentina que "enriquecera com os fornecimentos ao nosso exército e à nossa esquadra. Entretanto.[. 690-1. "X" vivia maritalmente com Maria. não digo que não seja como todas as guerras. "Ibid. quando López tomou o "Marquês de Olinda". "Machado de Assis e a Guerra do Paraguai". sim. traição.até mesmo quanto à posição que o país deveria assumir diante de seus supostos aliados.. 15 14 .16 como diz o narrador numa passagem. um primeiro narrador. O amálgama histórico entre uma guerra de sentido duvidoso e os dilemas morais e regras subsumidas da ordem social brasileira formam o fundo de uma tela pintada com cores de tragédia. não se sabe se por amizade e amor. esse julgamento quase iconoclástico diante das antes sagradas razões do conflito. Vemos Maria dedicada a recolher donativos para a guerra. 688-9. acho que tínhamos feito muito melhor se nos aliássemos ao López contra os argentinos. O narrador e Maria aproximam-se. por extensão.. que logo formarão um trágico triângulo amoroso. cit. moral ambígua. "logo depois da proclamação da república"17 (seria um monarquista?. uma baiana que "fora educada no Rio Grande do Sul".. 694. Seu castigo.

"Introdução".como disse Alfredo Bosi comentando outro aspecto pouco conhecido da militância positivista . Já Reclus esboçou o projeto de uma federação na zona equatorial. A Semana: crônicas (1892-1893) (São Paulo: Hucitec. Duríssimo crítico da monarquia e do escravismo brasileiro."as trilhas que sulcam o processo civilizatório". a idealização do Brasil como nação original . Nessa visada. Ver do mesmo autor. 304. 15 out. "Le Brésil et Ia colonization. que se incorporaram à ideologia brasileira. Paris: tomo XXXIX. no Brasil. encenou discretamente a crítica desse mesmo processo que ajudou a iniciar. p. ou principalmente. Reclus. "Les republiques de 1'Amérique du Sud . 1866). 1862. No que se seguiu. E. Não era pouco. Machado contribuiu para criar imagens e estereótipos que vieram para ficar. nosso oposto metaforizado pela imagem demonizada do Paraguai cujo futuro posterior a guerra reforçou. pautado em seus princípios universalizantes. 20 Alfredo Bosi. 18 Cf. talvez tenham ensaiado abrir . Como em Machado.19 Assim. Com isso. De fato. mas também numa interpretação negativa do papel da guerra na constituição da nacionalidade brasileira. Expilly sonhava com a constituição de uma nova "civilização latina" que incluiria indígenas e africanos no sul da América do Sul a partir do Paraguai (para ele a mais progressista das nações latino-americanas). chamou de "idéias fora do lugar". A hipocrisia e a ilusão que o cronista e o poeta Machado de Assis viam no Paraguai era a mesma que o contista via inteira nos jogos da corte brasileira. 1996). Cf. à qual opunham seu projeto republicano de inspiração comtiana. tomo LXV. Afinal. unindo a região amazônica brasileira e andina. em Revue des Deux Mondes. 19 .18 Assim. a partir do conflito com o Paraguai. a guerra permaneceu como fantasmagoria. como a que professou o escritor francês Charles Expilly ou o geógrafo anarquista Elisée Reclus. escolher participar de um evento político nacional. Le Brésil. o sul. Expilly. a luta contra a herança da Guerra do Paraguai iniciou-se com eles. no qual "um grupo de moços exaltados" teria arrancado a bandeira brasileira do "Café Paulista". Machado parece problematizar a ausência efetiva.. 1866. John Gledson. colocaram em jogo uma outra visão do ideal civilizacional. de uma relação substanciosa entre os acontecimentos de caráter nacional e o engajamento político dos "cidadãos" (vale dizer. Machado parece encenar a questão do deslocamento do político para o privado. O teatro da guerra não era mais que uma extensão do teatro social. a Guerra do Paraguai e os conflitos inerentes à sua interpretação se fizeram presentes sempre que tivemos que nos defrontar com os impasses da "modernidade". as províncias argentinas. em todos os seus campos e sentidos. Aqui. além do Uruguai. No segundo. Ir ou não à guerra. o sudeste (até São Paulo) e o Mato Grosso. 1 1 Os ideólogos positivistas ligados à Igreja Positivista do Rio de Janeiro foram os mais duros críticos do envolvimento do Brasil na guerra e suas conseqüências. pensando a obra do escritor ao mesmo tempo que o movimento das idéias e sua efetivação no Brasil. é um tema que leva ao problema da decisão e seus motivos. em Dialética da colonização (São Paulo: Companhia das Letras. 1986). travando verdadeiras batalhas pelos jornais para denunciar a incúria do império.312 Francisco Alambert 0 Brasil no espelho do Paraguai 313 va aqui. iniciou também a crítica necessária para a compreensão do lugar e das conseqüências da Guerra do Paraguai na vida cultural brasileira. comenta um incidente ocorrido em 25 de maio de 1910. Dessa forma.e por isso. na qual caberia o Brasil inteiro.leurs guerres et leurs projets de civilization". tudo podia ser aceito. Se a Belle Époque européia terminou com uma guerra. resolver a questão pendente da guerra era fundamental para a efetiva retomada de um projeto republicano de integração latino-americana. Dentu. Raimundo Teixeira Mendes. a nossa começou com uma. C. 15 jun. na construção de nossa "modernidade". Os positivistas foram apóstolos dessa união.20 Em um artigo intitulado "Pela fraternidade sul-americana e especialmente Brazil-Argentina". e 15 jul. em Revue des Deux Mondes. unindo. Uma chave cujos desdobramentos poderiam ser contra-ideológicos. mesmo. a princípio. numa resolução bem típica daquilo que Roberto Schwarz. e as decisões políticas funcionam no terreno privado como um fim em si mesmas. "A arqueologia do Estado-Providência: sobre um enxerto de idéias de longa duração". diante da América Latina. Montevideo et le Paraguay devant Ia civilization (Paris: E. e a rigor. ao contrário de propostas integracionistas oriundas do século XIX. entre nós. I et II". É como se nos mostrasse que aqui não existe essa relação de substância. 1992). na cidade argentina de Rosário de Santa Fé. Cf. no primeiro momento. Por isso. Machado de Assis: ficção e história (Rio de Janeiro: Paz e Terra. o que nos permite supor que a transposição do esquema positivista para o Brasil produziu pelo menos um aspecto novo: o universalismo dos positivistas pensava a América Latina como um todo. as interpretações flutuaram entre essa possibilidade de reconhecimento do "país profundo" com seu contrário. Buenos Aires. em Machado de Assis. vice-diretor da Igreja Positivista do Rio de Janeiro. aqueles poucos a quem a cidadania era permitida).

1912. edição da manhã.]22 Procurando responder à guerra de fatos e contrafatos.. reparação direta alguma. um grupo de brasileiros atacou o consulado argentino no Rio Grande do Sul. Nesses artigos é formulada uma incisiva pergunta: "o que lucrou a Humanidade com a Guerra do Paraguai?". para submeter as questões de limites ao arbitramento. Entretanto. Raimundo Teixeira Mendes. uma vez que opôs "quatro povos irmanados biológica e sociologicamente". A resposta vem certeira: [. não comportaria. ressurgindo no presente como um trauma não resolvido: "o dia de hoje só poderá ser de regozijo para os brasileiros.p.a América.24 A "verdade histórica". quando a par com a escravidão da raça africana . Fazia-se necessário combater esses efeitos. dirige e desestabiliza o presente. impondo arbitrariamente os limites que quiseram à nossa irmã a República do Paraguai. como para a Humanidade. a Humanidade. agora. o Ocidente. Jornal do Comércio. 1912. pelo monstruoso aniquilamento da mais americana talvez das nações americanas [. Detectando o clima de violência e rivalidade entre os dois países. publicam uma série de artigos com o título "A confraternização Brasil-Argentina".. E conclui destacando o lugar chave da Guerra do Paraguai nesse clima. tão marcado pelo passado escravista. e nas desgraçadas condições em que o foi. e o emprego do termo "continente colombiano". pp.. respeitosamente lembrar que . Isso demonstra a ênfase na questão americana e na utopia da constituição de um campo comum de afinidades e interesses na América do Sul. a independência da nossa irmã a Rep. cujo objetivo era proclamar o silêncio pelos erros do império escravista em nome da unidade da pátria. Tal preocupação se justificava na medida em que eles acreditavam que as rivalidades entre Brasil e Argentina poderiam redundar em outro conflito23 derivado da questão da dívida paraguaia. seção "Ineditorial". Os quadros que tentam celebrá-la hão de despertar em nossos descendentes o horror que hoje nos acusaria a contemplação de uma cena de antropofagia ou de um navio negreiro! [. e o cancelamento da sacrttega dívida resultante para esta.rematarão as atrocidades praticadas contra as ingênuas tribos selvagens.314 Francisco Alambert 0 Brasil no espelho do Paraguai 315 Como resposta. 26 Ibid.há meio século . neste solene momento. 11. os positivistas afirmam que dentre todas as guerras "fratricidas". 1912. por um mais honroso "africano". além da referência à escravidão e da substituição do termo "negro". agora assume um sentido negativo. os supremos interesses da Humanidade não consentem que se pretenda anular o fato consumado há quase meio século. A confraternização Brasil-Argentina. aqui. O passado não exposto da guerra contra o Paraguai assombra. "Pela fraternidade universal". diz: [. da guerra fratricida entre ela e o Brasil (Rio de Janeiro: Sede Central da Igreja Positivista do Brasil. que fazia rondar fantasmagoricamente a hipótese de anexação do Paraguai pelo Brasil ou pela Argentina. porém. as coisas mudam defiguraquando se pensa em territórios e propriedades: Porém as mesmas reflexões demonstram que o erro cometido pelo Brasil e Argentina. Em "Paraguai-Argentina-Brasil".21 Os positivistas tocavam as feridas abertas e retomavam as críticas de. Por isso. em Jornal do Comércio. do Paraguai. usado repetidas vezes no lugar de América Latina.. sob todos os aspectos e especialmente sob o aspecto moral. quando ele [o Brasil] assimilar a cabal reparação do crime que a Guerra do Paraguai constitui".. Charles Expilly. o artigo positivista aproveita para atacar as "encenações militaristas". sutilmente provocando os "contemporâneos". 27-8.]25 Vale observar. ansiosamente aguardam a inauguração da realização dessas esperanças regeneradoras. É dessa guerra nefanda que data a recrudescência do espírito militante que tem perturbado até hoje a evolução pacífico-industrial do povo brasileiro e dos povos sul-americanos. mediante a sincera reparação dos maiores crimes e erros de nossos antepassados e contemporâneos. Com efeito. 25 .] cumpre-nos. 25 maio 1910. senhoras do continente colombiano. Em outro artigo. a Guerra do Paraguai teria um papel especial. 22 Jornal do Comércio.. O primeiro deles era a possibilidade sempre crescente de conflitos com a Argentina. 23 "Ainda pela fraternidade universal".] os prejuízos foram imensos. Jornal do Comércio. por exemplo. mortalmente vencida. os positivistas afirmam agora: "O verdadeiro culto dos antepassados prescreve a confissão de suas culpas e erros". infelizmente. e não mais a "verdade dos fatos" como antes. 25 set. com relação ao alto preço que pagaria o Brasil por ter mantido a escravidão.. 19 ago. 21 Tudo é dito em nome da moral e dos altos valores da humanidade: 'Toda a guerra provém sempre do atraso moral e mental dos beligerantes".26 24 Publicado no Jornal do Comércio. p. 18 set.. que se alastrou pelo século XDC. 4. caso não houvesse indenização. 1912)..

não compensada por glória militar equivalente. Para nossos fins e limites resta dizer que se pode encontrar. "desde que não é possível ressuscitar os aborígines e restituirlhes os territórios usurpados". citado em artigo publicado no Jornal do Comércio. p. que o nosso inimigo. indispõe-se com a saga guerreira nacional. positivistas. o discurso positivista conseguiu alcançar um tom ainda mais forte em suas críticas. e especialmente sul-americana: a propósito de mais uma comemoração da desgraçada guerra travada entre os quatro povos irmãos. machucada de saída por uma guerra de sentido obscuro. p.31 Seria necessária uma abordagem teórica incisiva para que se pudesse explicar efetivamente a situação do positivismo brasileiro diante desse projeto americanista esboçado. como se sabe.a escravidão. do qual. de outro (Rio de Janeiro: Typ. no mais das vezes meramente doutrinárias. uma ou duas vezes. Seus princípios. argentino. e especialmente sul-americana". Mas é certo também que tais perguntas eram muito melhores do que suas respostas.29 ou restritos aos críticos estrangeiros passam a fazer parte da edificação de uma espécie de contra-história do conflito sul-americano. Pela fraternidade universal. Vai ficando claro que a crítica positivista. José Bonifácio é recuperado como crítico de primeira hora da guerra. Autores e depoimentos antes silenciados. como o do deputado e escritor Cristiano Otôni. cuja glorificação descabida ocasiona estas linhas. o militarismo e a Guerra do Paraguai. . a ele López. Por tudo isso.. que substi- 30 31 Raimundo Teixeira Mendes. [. esteve disposto a negociar a paz [.. 4. independente de sua doutrinação. do Apostolado Positivista do Brasil. Com a autoridade do político imperial. 10 dez. desgastada pelos anos de abominação a que foi submetida pelo esforço em justificar a guerra é colocada em novos termos. brasileiro. Numa outra coleção de artigos.28 Um novo cânone de personagens históricos vai se formando com a cruzada positivista. como é sabido.316 Francisco Alambert 0 Brasil no espelho do Paraguai 317 Agora.. estipulada pelos aliados. A combalida imagem do Paraguai. Jornal do Comércio. Um de seus artigos conclui-se assim. 1910). Ainda na própria execranda guerra. 28 27 Como podemos ver. "Pela fraternidade universal. além de Benjamin Constant. em seguida a sérios reveses. Pela fraternidade universal. uruguaio.27 As fontes nacionais nas quais se baseiam as idéias positivistas sobre a situação da América são conhecidas. como é sabido. negra. no tempo. resta reocupar os territórios e as identidades arruinadas através dos princípios civilizados ocidentais. acabou por revisar fortemente uma parte da história que envolveu o fim da monarquia e o início de uma sociedade civil. em tom de pergunta inquietante: "a política sem ideais do Império fez com que fosse o Governo brasileiro o último a abolir a escravidão africana. 25 maio 1911.. fez-se sentir a influência da nefanda instituição.. 1906. ou seja.] A campanha nos foi uma enorme calamidade. Mas. por conseguinte. de um lado e paraguaio. momento-chave onde todas as distorções nacionais se irmanaram contra qualquer desejo de união americanista -. Raimundo Teixeira Mendes. amarela. 29 "Passou. Essa utopia integracionista seria o "progresso" e o futuro da "civilização". E quem se lembraria hoje de propor que se erigisse um monumento à escravidão como fator importante na constituição do povo brasileiro?30 Ibid. os positivistas faziam perguntas inconvenientes. legitima os sentimentos negativos em relação ao conflito e. cit. britânicas e germânicas. publicada em 1910. nem por aumento de segurança em nossa fronteira"..] tão ibérica como a argentina ou a brasileira". ainda antes de se iniciarem os "famosos anos vinte". Nesse processo. foram libertados escravos para servirem no exército. pelo menos. 14.] Foi com a escravidão que se elaborou o passado brasileiro. Outro momento que suscita a retomada do debate sobre a guerra e sua herança é a proposta de construção de um monumento em homenagem a Riachuelo: [. nesse caso específico pelo menos. por força das condições nacionais esboçadas anteriormente . 3. o Apostolado. a mesma política continuada pela República reserva ao Governo brasileiro a triste sorte de ser o último a abandonar o regime militar.. por certo. põe em questão até mesmo a glorificação do militarismo que se acoplou à república.. desconcerta a memória da nação vitoriosa.] E que a grande dificuldade era a pretensão de depôlo. os positivistas tiveram a capacidade de nos alertar para as dificuldades do caminho que o passado nos legou para que chegássemos a qualquer estágio considerável de "civilização" e "justiça". Pois. eram as idéias de Comte. termos que remontam à caracterização que dela faziam autores como Expilly e Reclus: a "República do Paraguai é a mais americana das nações ocidentais [... p. etc. que via a grandeza futura da humanidade como resultante da fusão da "raça branca" com as "raças" italianas e ibéricas. E a isso chama-se Pátria?". a imagem da nação estável e justa forjada em oposição à América Latina "bárbara" e retrógrada. os próprios positivistas foram adeptos. ou.

Para esse dia de culto cívico lembramos o 26 de janeiro.. fazia o temor da guerra voltar a assombrar o mundo dos vivos e o silêncio dos mortos.ou seja. frutos desse ataque revisionista. Ideologia da cultura brasileira (São Paulo: Ática. o que. representantes denodados das três raças constitutivas de nosso povo. substituindo o culto da guerra pela celebração do país das três raças irmanadas.] ofende aos intuitos e destoa dos ditames de uma sã política racional orientada para a confraternização dos povos [. III Do mesmo modo como Machado de Assis percebera que depois da Guerra do Paraguai os relógios andavam mais depressa . política e cultural brasileira quanto ele. Um documento como esse pode nos mostrar como de fato a batalha sobre os sentidos da guerra penetrou o século e permaneceu presente. Seja como for. Tadeu Chiarelli. seria possível "irmanar mais intimamente os membros das classes militares entre si".33 Porém. considerando um nobilíssimo dever cívico render homenagens aos que no passado souberam amar e sentir a Pátria Brasileira. Em 1921. pedimos designe o Governo da República um dia para que anualmente se prestem. O documento encontra-se na seção de manuscritos da Biblioteca Nacional. em todos os recantos do País. 1995). questionando a herança da guerra. cit. Machado de Assis. 35 O papel específico de Lobato. impresso com assinaturas autografadas. era lançado na Bahia um requerimento pedindo a abolição dos festejos de Tuiuti e Riachuelo. durante a construção do sentido da "cultura brasileira". 1893.). glorioso epílogo da luta defensiva sustentada durante 24 anos. do negro Henriques Dias e dos brancos André Vidal e Fernandes Vieira. O texto do requerimento.34 Monteiro Lobato parece ter percebido as transformações no tempo que a ordem do progresso sob o capitalismo impunha após o fim de outro conflito.] E. aqui reproduzido em parte. bem como "estreitar ainda mais os laços de fraternidade que os prendem às classes civis". Talvez nenhum outro intelectual de sua época tenha dado tanta atenção ao tema da modernização e aos impactos do progresso capitalista na estrutura econômica. Bahia. Tal proposição visava reavaliar a história de uma tragédia nacional (que no caso nasceu de uma vitória). 2f. formulando um novo mito que fala à memória e substitui a lembrança do belicismo escravista pela ideologia do caráter "cordial" brasileiro (que então se afirmava). Monteiro Lobato: furacão na Botocúndia (São Paulo: Editora SENAC São Paulo. na paz e na guerra. Antônio Costa Ferreira et alii... 21 jan. portanto. a Primeira Guerra Mundial de 1914-1918. 33 Penso aqui à maneira crítica de Carlos Guilherme Mota. quer nas outras esferas da atividade humana. A Semana: crônicas (1892-1893). Um jeca nos vernissages (São Paulo: Edusp. 1988). Azevedo. com seus avanços e ambigüidades. é o seguinte: Há mais de nove lustros que o Paraguai e o Brasil mantêm os mais amistosos desígnios nas suas relações internacionais. honraram o nome brasileiro. Lobato reúne vários escritos dispersos e Os autores sabiam bem o que pretendiam. São Félix.. o trauma histórico estaria resolvido a partir de sua substituição pela "ideologia da cultura brasileira". Carmen L. a Guerra do Paraguai era ainda um pesadelo de difícil despertar.. Cf. em prol da integridade do pátrio território. 1997). John Gledson (org. era também esse o momento em que os Institutos Históricos e a Revista do Brasil voltavam a se interessar pelo tema da Guerra do Paraguai. 6 ago. mesmo ano em que aparecem a novela Os negros e a coletânea de contos Cidades mortas. Em 21 de março de 1916. Requerimento ao presidente da República (Venceslau Brás) pedindo a abolição dos festejos comemorativos pela vitória brasileira nas batalhas de Tuiuti e Riachuelo. mais ou menos na mesma época em que os positivistas faziam sua pregação. bem como cria tensões dentro dessas mesmas classes..32 Especialmente. na formação intelectual moderna brasileira tem sido objeto de muitos estudos recentemente. . Relembrar. um trauma muito longe de ser equacionado no inconsciente da nação. as crises foram se sucedendo ao longo dos anos vinte e início dos trinta. a modernização batia definitivamente às portas do Brasil —. aniversário da "capitulação da Campina do Taborda". Landers.318 Francisco Alambert 0 Brasil no espelho do Paraguai 319 turram o binômio "civilização-barbárie" por "modernidade-brasilidade". esse drama que acomete as "classes militares" e as opõe "às classes civis". 29. como uma sombra. De Jeca a Macunaíma: Monteiro Lobato e o modernismo (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. Cf. públicos preitos de amor e gratidão aos que. vez por outra. em meio de públicas solenidades os atos de guerra havidos entre os dois povos irmãos [. Se a Primeira República durasse muito mais do que durou. pelos guerreiros heróicos do indígena Felippe Camarão. Assim. Vladimir Sacchetta. É como se os autores percebessem. quer nos campos de batalha. e propunham uma readequação do jogo da memória histórica. Mareia Camargos. 34 Gazeta de Notícias. e propusessem uma saída conciliadora para tentar esvaziar as contradições. o tema da Guerra do Paraguai não poderia deixar de aparecer em suas preocupações. p. Vasda B.35 Por isso mesmo. 1978). 1916.

38 Ibid. idealizá-la como um espetáculo exclusivo de nobreza. um mundo que se esforçava por sobreviver ao fim da era dos impérios. 53. encontramos surpreendentes abordagens do tema da Guerra do Paraguai e sua relação com a formação da sociedade brasileira. "O pai da guerra". Nele. analisando a presença da Guerra do Paraguai na fase dos anos 20 da Revista do Brasil. Lobato se aproxima da famosa interpretação de Walter Benjamin quanto ao caráter estetizante da guerra. se choca radicalmente com a maneira com que as heranças e conseqüências do conflito vinham sendo abordadas..320 Francisco Alambert 0 Brasil no espelho do Paraguai 321 reflexões e os publica no volume intitulado A onda verde. irá se pôr a refletir primeiramente sobre o papel da guerra no destino das civilizações. A Guerra do Paraguai. Civilização contra barbárie (São Paulo: Rossetti&Camara. Ele soube ver e aproximar desse quadro a grande tragédia européia de então: a Primeira Guerra Mundial. 95. que é creditada a montagem exclusiva desse circo de horrores: [. A idéia de pensar o episódio e sua importância para a sociedade brasileira foi sugerida a Lobato pela leitura de trechos do diário de André Rebouças. mentira italiana. A guerra era seu meio mais terrível de existência e perpetuação. o pai da guerra era o Estado. era nossa mentira ainda pulsando num mundo de muitas mentiras bélicas. como alguém mais afinado com a maquinaria da modernidade (em sua acepção fundadora: a bélica). dirigida por Lobato. Ibid.38 Trilhando esse caminho. 53-8.39 especialmente na forma que lhe deu o nazismo (que antes já havia promovido a estetização da política). Trata-se de uma reflexão que. era muito mais difícil para Rebouças enxergar a guerra como metáfora.36 Lobato soube ver melhor do que qualquer outro de seus contemporâneos os impasses nos quais o país transitava e sua íntima relação com um fato do passado. 37 Monteiro Lobato. responsável por sua permanência e reprodução: "a apoteose dos heróis. em Magia e técnica. mentira francesa de outro. Eles são vítimas da guerra. 57. São Paulo. 53. cit. a publicação de textos como: Mário Bulhões Ramos. . Um dos textos do livro apela a um problema freudiano. arte e política: Ensaios sobre literatura e história da cultura. Mentira alemã de um lado. coisa que pode ser notada se arrolarmos. E a porta de entrada na nossa Grande Guerra foi o episódio de Uruguaiana. Walter Benjamin. em A onda verde e o presidente negro (São Paulo: Brasiliense. pois se atem ao mundo na medida em que se constitui num infernal círculo vicioso onde tanto a vitória quanto a derrota não se diferenciam. O monstro empolga-os e a partir da escola organiza a mentira viva de que se alimenta e em que se rebolca. pp. a apresentação estética de todos os crimes. mantendo "vivida a mentalidade guerreira". O presente de Monteiro Lobato era o tempo da Primeira República e das conseqüências da modernização estimulada pelo café nos ritmos da vida nas franjas dos centros urbanos. ano 8. 1928). Antônio Batista Pereira. "A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica". "Teorias do fascismo alemão". a mentalidade bélica enfraquecida nos anos de paz". Por ora. com a aproximação da crise da Primeira República. Ele se pergunta: quem afinal é o "pai da guerra"?37 Para nosso liberal exaltadíssimo. A obra de Batista Pereira resume todos os argumentos favoráveis ao império brasileiro no momento em que a discussão sobre os sentidos da Guerra do Paraguai ganhou destaque nos anos 20. ou. impondo a "todas as almas uma idéia suprema de vingança".] pois os povos não fizeram a guerra. 24. que àquela época vinha sendo publicado por Yan de Almeida Prado na Revista do Brasil. revigoram. Uruguaiana foi tema de uma espécie de resenha incluída no livro. fica apenas indicada a particularidade do tema no ideário da revista. "O pai da guerra". A realidade lhe assolava as quimeras. pensada em oposição ao povo livre. 1951). mentira inglesa. o "parasita" que sugava as forças de liberdade que emanavam do povo. exemplos e soluções. 42 Todo um estudo ainda está por ser feito. Como era uma máquina de pensar paralelos.40 É à instituição estatal. além da publicação do Diário de Rebouças. p.42 O ressurgimento do diário de Rebouças teve um peso decisivo no debate sobre as conseqüências da guerra nos projetos civilizadores brasileiros.. 1920). pela editora da revista. sob todas as formas.41 A Primeira Guerra Mundial deu o mote para que Lobato colocasse o Brasil no rol das línguas dos Estados que mentem. em Revista do Brasil. Alfredo D'Escragnolle Taunay. p. vol. 1986). 1. 36 o exaltamento das virtudes guerreiras. mentira em todos os idiomas. pois não podem sanar as chagas criadas. 1923. nov. vol. 40 41 Monteiro Lobato. o embelezamento sistemático da carniçaria... a Grande Guerra do século XIX sul-americano. embora contemporânea de trabalhos como os de Batista Pereira ou dos ideólogos da guerra dos anos 20. porque são vítimas do monstro Estado. p. "O bailado sobre o cadáver de Solano López". Obras escolhidas de Walter Benjamin (São Paulo: Brasiliense. n. 39 Cf. agora. Como um observador menos preso do que Taunay aos "mistérios" da natureza. na vitória. Dias de guerra e de sertão (São Paulo: Edição da Revista do Brasil. fundada e dirigida por Lobato desde 1916.

Mas. Do ponto de vista humano. Que grande ciência. cit.seja o Estado monárquico de antes.. centrada no mundo urbano-industrial. E não é azul". Uruguaiana deveria ter sido um ponto final. rico de incidentes. fez uma República para uso e gosto dos militares. descasca-os dos realismos dolorosos. onde a idéia da estetização da guerra como fator de manipulação política e manutenção do estado de violência na sociedade. senhoreando-se da situação. "Monteiro Lobato. 47 Monteiro Lobato.. "Uruguaiana". entretanto. pronunciado pelo ancião como murmúrio em resposta às histórias do desenrolar da Grande Guerra. buscando o "colorido da grisalha suja das coisas contemporâneas". . Tem isso a história de generoso: estiliza os fatos. aos pinotes..322 Francisco AJambert 0 Brasil no espelho do Paraguai 323 O pesadelo de Rebouças fez Lobato acordar para as fantasmagorias da guerra e sua presença e peso na constituição do Brasil moderno.. em A onda verde e o presidente negro. seus veteranos ainda vivem por aí ao léu. para ele a maior ilusão da natureza. à porta dum casebre. a contra-história que ainda podia ser encontrada para ser consultada. precipício. ele era a memória semiviva. atentamente ouvia ler notícias da Grande Guerra a um menino descalço. simbolizada pelo colapso imposto à tradição e ao estilo de vida rural. O crítico da história deve proceder com a mesma aproximação destemida. mata híspida tramada de cipós e arranha-gato.47 Nesse ponto. 43 Monteiro Lobato. em A onda verde e o presidente negro.]43 como disse Marisa Lajolo. mas a um fato do passado que fantasmagoricamente reaparece no presente. 99.. Em "Voluntários da pátria". Ao ouvir o nome "Curupaiti". desenvolvida em "O pai da guerra". parece um fato de priscas eras . tão ao gosto naturalista de Lobato: Foi lá que vimos. 9. a ciência da pontuação! [. não são apenas essas as razões do quadro desolador. lembrando um quadro de Almeida Júnior ou de outro de nossos retratistas daquele mundo destroçado. 35. baseia-se numa crítica ao progresso compreendido como predador do modelo social erigido em torno da sociedade agrícola e provinciana. A narrativa se inicia através de uma cena de composição pictórica.tão rapidamente o Brasil evoluiu daí para cá. Representante de um passado que já então havia se tornado história oficial. esse velho cujo cadáver ali passa na rede com rumo ao cemitério. não está diretamente ligada às forças econômicas e ao rolo compressor do progresso. "Veteranos do Paraguai". 48 Ibid.. A montanha de longe pode evocar a estabilidade tranqüila do azul de safira. O fazê-la vírgula. a razão da decadência.45 O início desse "conto" é marcado pelo que já foi descrito em mais de uma oportunidade como a "obsessão" de Lobato com a idéia de "decadência". p. o qual. "as cidades moitas de Lobato não morreram de morte natural". Lobato aproxima-a da cor azul. negar o azul dos grandes homens e de seus feitos. perambeira. bem como do ponto de vista imperial. 1996). apenas "roendo a meia pataca do soldo".48 46 Marisa Lajolo. Seu nome era Pedro Alfaiate. seja o republicano de sua época. Uruguaiana está na história devidamente estilizada ao sabor do paladar patriótico.]". "Veteranos do Paraguai". às dezenas. 95-6. Para fixar a imagem dessa mentira. 3540.. na política. p. no entanto. p. bossoroca. sentado num mocho de três pernas. 43 Monteiro Lobato. Seus contos querem encenar em seu movimento a passagem de um Brasil précapitalista para uma ordem capitalista acelerada e implacável. Sua forma aproxima-o tanto da narrativa ficcional quanto da crônica ou da impressão de testemunho. prosseguir na guerra foi um desastre. levaram Lobato a esboçar uma violenta e satírica reflexão sobre história. ibid. "Cinco anos de guerra foram suficientes para desenvolver entre nós o germe do militarismo. 36. deu com o Império em terra. mas de perto é só "aspereza.. que vagava quase como mendigo. o narrador percebe estar diante de um veterano soldado da Guerra do Paraguai. De bruços num porretão de cego. cit.44 Esse projeto de "descolorir" a história é consubstanciado num esboço literário chamado "Voluntários da pátria". é retomada: Foi de ontem a Guerra do Paraguai. Uruguaiana e a Guerra do Paraguai. uma tarde. memória. É o meio da humanidade poder ver-se com bons olhos [. desfigura-os num sentido estético. de suas "cidades mortas". cit. de cócoras à soleira da porta. vistas pelo olhar ambíguo e doloroso de Rebouças. pp. pp. como um livro: "um velho soldado é sempre um livro interessante. 44 Nesse texto. pitoresco e não raro heróico". p. em Contos escolhidos (São Paulo: Brasiliense. simbolizada pelo velho cego. guerra e patriotismo. o texto e a fluência ensaística das idéias fazem o crítico de arte empedernido e mal-humorado se encontrar com um surpreendente crítico da história e das mentiras do Estado modernizador brasileiro .46 Na literatura adulta lobatiana esse processo de análise da decadência. o mal-amado do modernismo brasileiro".

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Em seu célebre ensaio sobre Nicolai Leskov, Walter Benjamin também relacionou a perda de experiências narráveis e transmissíveis aos horrores da Grande Guerra de 1914. Segundo Benjamin, o soldado que voltava das batalhas constitui um dos tipos arcaicos fundadores do "reino narrativo". Mas a guerra da técnica, que imita da esfera da produção de massas a capacidade industrial de matar, matou também no soldado sobrevivente aquelas experiências narráveis cujo caráter exemplar era o fundamento de sua sabedoria.49 O velho soldado narrador de Lobato pertence a essa categoria. Porém, sua experiência trágica de guerra antecede em décadas a experiência bélica da guerra total européia à qual Benjamin se refere como marco. Também nesse sentido a Guerra da Tríplice Aliança antecipa as guerras do século XX. Pedro Alfaiate tem muito o que contar, mas tudo o que pode narrar de sua experiência subordina-se a uma tragédia que se inscreve mais na ordem do inenarrável que na categoria das experiências exemplares. Por isso, a escassez de testemunhos, lendas e fábulas de homens comuns sobre a Guerra do Paraguai não deve ser creditada apenas ao fato concreto de que a imensa maioria das tropas era formada por analfabetos, escravos, etc. O fato de que um acontecimento de tal magnitude na vida de milhares de pessoas tenha deixado pouquíssimas marcas na memória coletiva é sintomático desse estado de empobrecimento e falta de sentido construtivo dessa experiência em nossa vida cotidiana desde então. De fato, é o horror que cerca tudo. Passado e presente, ligados pela aproximação da guerra que encerrou o século XIX brasileiro e da que iniciava o século XX, a saber: a Grande Guerra européia e sua conseqüência na América, em especial no mundo do interior, em guerra contra o progresso e a "modernidade" que engendrara ambos os conflitos. Por isso a aproximação da técnica da batalha do passado e do presente é apresentada como continuidade e paralelo. A descrição das trincheiras do Paraguai feita pelo veterano cego se aproxima assombrosamente das famosas lutas de trincheiras da Primeira Guerra Mundial. Deixar falar a memória do homem simples era a estratégia lobatiana para dinamitar os discursos da boa guerra e a força do heroísmo cívico a
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duras penas construídos desde a ironia cínica do primeiro Machado de Assis. Essa espécie de Jeca Tatu destroçado de Lobato era a contraprova da historiografia e da memória cívica nacional, o testemunho definitivo que os positivistas procuravam mas não podiam encontrar, pois seu olhar só via os documentos oficiais, os depoimentos solenes. A cantiga infantil do "Itororó", celebrizada na memória das crianças, como identificou Gilberto Freire, também é confrontada pela fala do velho cego, onde horror e tristeza se unem ao heroísmo inútil. Na lembrança do Alfaiate, tudo era "terrível" e "triste", fazendo com que a façanha fundadora da nacionalidade perdesse todo sentido. Nesse ponto, a história de Pedro Alfaiate é interrompida e a narrativa toma outro rumo. O narrador imparcial cede lugar a outro que apresenta sua defesa do "verdadeiro tipo do herói humilde, que o é sem saber". A ele contrapõe um outro personagem, de cuja identidade nada sabemos. Esse novo soldado é o oposto daquele porque escondia-se na enfermaria durante os combates, só sabia da guerra através da "janela do hospital". A covardia e o cinismo eram sua marca, por isso "era incapaz de dar às suas narrativas uma impressão belicosa". A anteposição entre o heroísmo do homem simples e desse outro, cuja facilidade em esconder-se dos conflitos pode significar tratar-se de alguém com certa patente e favores, é evidente e bastaria para encerrar a nota. Mas o herói e o desertor sobreviveram. O primeiro destroçado, o segundo sem demonstrar qualquer crise de consciência por seus atos "antipatrióticos". A "pátria", a "nação" pela qual lutou o voluntário verdadeiro abandonou-o na miséria das cidades mortas, também elas abandonadas, velhas e cegas aos olhos do progresso que fazia história empilhando seus derrotados. O velho soldado que Lobato flagrou vagando pelas cidades mortas seria a última esperança de negar a Guerra do Paraguai como ato de redenção que separaria a "civilização" brasileira da "barbárie" latino-americana simbolizada por Solano López. Seu destino mostrava que a "barbárie" estava entre nós mesmos. Entretanto, desde então a versão "heróica" do conflito seria contada pelo covarde sobrevivente. Sua figura tornar-se-ia responsável pela perpetuação do belicismo no interior da república. Através de seu discurso, a guerra seria definitivamente içada a símbolo do orgulho pátrio, a elemento de definição da idéia de Brasil que se inscreveria no século XX. Vimos que o debate sobre o significado da Guerra do Paraguai para a constituição do ideal do Brasil civilizado - a "Guerra das Letras" que antecedeu e ultrapassou a guerra do campo de batalha -, com suas contradições e

Walter Benjamin, "O narrador - Considerações sobre a obra de Nicolai Leskov", em Magia e técnica, arte e política: Ensaios sobre literatura e história da cultura. Obras Escolhidas de Walter Benjamin, cit., vol. 1, p. 198.

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ambigüidades,firma-separa além do momento em que nasce, sedimentandose como uma referência constante para a reflexão sobre o "caráter" brasileiro - e, por conseguinte, sua "cultura" própria - e sua relação com a América Latina, ao mesmo tempo que, mais ou menos explícito, perpassa diversos momentos em que se tentou pensar o Brasil e suas possibilidades civilizadas e civilizadoras. Do binômio antitético "civilização-barbárie" passamos, com a república e os projetos modernizadores, para outro binômio, agora ancorado nas oposições "moderno-passado", "progresso-atraso", sem que seus conteúdos tenham se modificado significativamente. Pois a violência, o cinismo ético, o preconceito, se associam, fazem parte dos despojos de nossos "bens culturais", no sentido de Benjamin,50 e, em larga medida, deram-nos o sentido de nosso caminho para a civilização, seja lá o que isso queira dizer entre nós. Monteiro Lobato via-se diante da ausência de acumulação de um legado crítico sobre as questões relativas à Guerra do Paraguai, na medida em que as formas de utilizá-la para justificar a formação da nação brasileira e de sua cultura, a forma dos interesses das classes dominantes, foi ela também vencedora de todas as batalhas de que participou.

Bibliografia selecionada
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"Todos os que até hoje venceram participam do cortejo triunfal, em que os dominadores de hoje espezinham os corpos dos que estão prostrados no chão. Os despojos são carregados no cortejo, como de praxe. Esses despojos são o que chamamos bens culturais [...] Nunca houve um monumento de cultura que não fosse também um monumento de barbárie", cf. Walter Benjamin, "Sobre o conceito da história", em Magia e técnica, arte e política: Ensaios sobre literatura e história da cultura. Obras Escolhidas de Walter Benjamin, cit., vol. 1, p. 225.

Um Brasil mestiço: raça e cultura na passagem da monarquia à república
Roberto Ventura

índios e mestiços? De quê forma manter a unidade de uma nação marcada por diferenças raciais. vindos de famílias da elite rural e política ou das camadas médias urbanas. políticos e cientistas repensaram a identidade cultural e política do Brasil em meio às transformações que levaram à extinção da escravidão em 13 de maio de 1888 e à implantação do regime republicano em 15 de novembro de 1889. .1 Os letrados se mostravam divididos entre a valorização dos aspectos originais do povo brasileiro e a meta de se construir uma sociedade branca de molde europeu. parecia imperativo colocar em discussão a organização do país. Observado por viajantes estrangeiros.. 1991). analisado com ceticismo por cientis- Abordei tal debate sobre raça e cultura em Estilo tropical: história cultural e polêmicas literárias no Brasil (São Paulo: Companhia das Letras. ex-escravos recém-libertos? Como garantir a vitória da civilização sobre a barbárie em uma terra povoada por uma maioria de negros.o s escritores. Adotavam teorias sobre a inferioridade das raças nãobrancas e das culturas não-européias. a queda da monarquia e os conflitos da nascente república trouxeram à tona dúvidas sobre o futuro do país. A adoção do trabalho assalariado. ao mesmo tempo que buscavam as raízes da identidade brasileira em manifestações compósitas e mestiças. se grande parte da população era analfabeta e inculta? Estas foram algumas das questões debatidas por intelectuais.que transformava todos em cidadãos . cujo atraso era atribuído à grande diversidade de sua população. e formados pelas faculdades de direito e medicina ou pelas escolas de engenharia. culturais e regionais de toda espécie? Como escolher os governantes pelo voto. Que lugar atribuir ao africano e a seus descendentes. Ante a liberdade prometida pela abolição e a igualdade oferecida pela nova Constituição .

publicado em 1902. com o fim da guerra. sob a liderança de Antônio Conselheiro. A comunidade se formara no nordeste da Bahia em 1893. trataram de Antônio Conselheiro. religião e cultura. fez um diagnóstico psiquiátrico do Conselheiro com base em artigos de jornal e nos relatórios da Igreja e do governo. Relatou. "Campanha de Canudos (O epílogo da guerra)" (9 out. O assunto mobilizou os escritores. Muitos. como o cético Machado de Assis. que investigou a contribuição dos povos e raças à formação do folclore. o cruzamento de raças era tomado como pista para explicar a possível inviabilidade do Brasil como nação. em sua coluna na Gazeta de Notícias. o conflito à revolta dos camponeses monarquistas e católicos da região da Vendéia contra a Revolução Francesa. e a formação no interior da raça e da cultura sertanejas. ocorrida em 1793. que publicaram artigos e crônicas sobre o conflito. o escravo e o mestiço foram incorporados ao discurso literário e cultural a partir da década de 1860. O médico Raimundo Nina Rodrigues. Arinos. tornada possível graças à instalação de linhas telegráficas. capaz de mobilizar milhares de seguidores. morto em ação. dominado por fanatismos e superstições. do Rio de Janeiro. cinco anos após o extermínio da comunidade. Com um enfoque mais amplo do que nos artigos de jornal. da Faculdade de Medicina da Bahia. 1897). das quais foram os primeiros intérpretes. Outros escritores e cientistas. "Crônica" (31 jan. vol. com o predomínio do mulato. que se estendeu por quase um ano. como correspondente. foi percebida como a síntese dos perigos e ameaças representados por um Brasil mestiço. 1897). Paulo. tendo recebido. A polêmica Alencar-Nabuco O negro. como a separação entre a Igreja e o Estado e a introdução do casamento civil.2 Mais de 12 jornais enviaram repórteres e fotógrafos a Canudos na primeira cobertura ao vivo de uma guerra no Brasil. já que pouco se sabia sobre a doutrina de seu líder. Por outro lado. que escreveu uma série de reportagens sobre as últimas semanas do conflito. Consideravam o Brasil como uma nação multiétnica ou uma "sociedade de raças cruzadas".e da literatura nacionais. que ligavam Salvador à base de operações do Exército em Monte Santo. o engenheiro Euclides da Cunha. 1897). fatos sobre os quais silenciara antes nas reportagens. em A semana (Rio de Janeiro: Jackson. O governo republicano se atirou em uma longa e sangrenta guerra. em artigo no Estado de S.332 Roberto Ventura Um Brasil mestiço:raçae cultura na passagem da monarquia à república 333 tas europeus e norte-americanos. Nina Rodrigues e Euclides da Cunha. por trazer riscos de degeneração ou esterilidade devido à fusão de raças díspares. Euclides denunciou a violência da campanha militar em Os sertões. Afonso Arinos. conheceu o líder religioso no interior de Sergipe na década de 1870 e registrou alguns poemas populares em sua homenagem. . como a degola dos prisioneiros e o comércio de mulheres e crianças. Quatro expedições militares foram enviadas até a completa destruição da cidade. de novembro de 1896 a outubro do ano seguinte. Seus seguidores foram acusados de fazer parte de uma conspiração internacional com o objetivo de restaurar a monarquia. para fazer o retrato do Conselheiro e colher a verdade sobre a seita. o seu crânio. explicou a guerra como o resultado do choque entre dois processos de mestiçagem: o cruzamento de raças no litoral. Euclides comparou. 3. O crescimento de Canudos mostraria porém que o poder público e os habitantes das grandes cidades seguiam ignorando o interior do país. Machado observou. o republicano Euclides da Cunha e o monarquista Afonso Arinos. caso único e singular de miscigenação extremada. O crítico Sílvio Romero. "A nossa Vendéia" (14 mar. que submeteu a exame científico. diretor de O Comércio de São Paulo. A rebelião de Canudos. em Canudos: diário de uma expedição (Rio de Janeiro: José Olympio. Paulo enviou. 1969). encaravam a mestiçagem como uma desvantagem evolutiva e uma ameaça à civilização. como afirmavam o governo e grande parte da imprensa. temido por boa parte das elites locais. como Sílvio Romero. Euclides da Cunha. em Obra completa (Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro. no livro. negava que o movimento tivesse uma orientação monárquica. no início da república. que Canudos apresentava uma feição de mistério. se voltaram para as formas sincréticas de literatura. que se opunha às leis seculares do novo regime. também interessados nos efeitos da mestiçagem. quando passaram a ser abordados 2 Machado de Assis. A campanha foi fotografada por Flávio de Barros e pelo espanhol Juan Gutiérrez. o que serviu de justificativa ao massacre da comunidade. na expressão de Romero. 1944). Propunha que fosse enviado um repórter a Canudos. 1943). O Estado de S. cuja população foi estimada entre 10 mil e 25 mil habitantes.

surgem nos poemas de Castro Alves e Fagundes Varela. As críticas de Nabuco não são. o mito do bom selvagem deixou de ter o que dizer: "Era um símbolo de outros tempos. para se encaminhar para as possíveis formulações de um projeto de civilização nacional. A medida de Alencar teve um efeito apenas cosmético. A Lei do Ventre Livre de 1871. 1. benevolente e civilizador. vol. 1992). no Rio de Janeiro. injusto e pouco rentável. que poderia colocar em risco a civilização brasileira. A substituição do trabalho escravo pelo assalariado se deu associada à percepção de uma sociedade dividida entre senhores indefesos. de modo a resguardar a imagem civilizada da capital do império. O cativeiro era. cuja manutenção se tornara inviável após a proibição do tráfico em 1850. Os efeitos da escravidão. O debate teve. com a "perversão" dos costumes. O projeto de abolição dos escravos se ligava a um programa de apoio à imigração européia. Nova Aguilar. isentas de contradição. . em Dialética da colonização (São Paulo: Companhia das Letras. como sua própria civilização. 4 José de Alencar. Tal interesse pelo afro-brasileiro surgiu no momento em que se discutia o futuro da agricultura e a necessidade de substituir a mãode-obra escrava. As vítimas algozes (1869). Tomando a arte como o retrato da sociedade ideal fundada no trabalho livre e na harmonia entre as raças. que concedeu liberdade aos descendentes de escravos. pois a emancipação prematura traria ameaças à agricultura e à estabilidade da monarquia. que sofrem nas mãos de senhores impiedosos e cruéis. pois as transações de compra e venda de cativos se mantiveram. em Alencar. p. forjado pela cultura da Independência. a contradição entre a sua posição de deputado do império. "Sob o signo de Cam". rejeitava o realismo de Alencar na tematização da escravidão. como símbolo de autonomia da ex-colônia frente à metrópole. ao se colocar contra a Lei do Ventre Livre em 1871. O indígena. Romances como A escrava Isaura (1875). de outro. contrário à intervenção do Estado no círculo familiar e na autoridade do patriarca a que. do Rio de Janeiro. a estréia da peça de Alencar. Darwin. antes tido como natural. marcada pelo tratamento sentimental dos escravos. a trilogia de Joaquim Manuel de Macedo. A escravidão passou a ser vista como problemática e se falava entre as elites de um "perigo negro". o escravo e o mestiço no centro das atenções. Spix e Martius registraram sua revolta com tais leilões e com os castigos físicos sofridos pelos escravos no Brasil. Debret. nos debates parlamentares e em artigos na imprensa. anunciava a derrocada de um sistema de trabalho há muito arraigado. em Obra completa (Rio de Janeiro.4 Alencar proibiu em 1869. que combateu com argumentos de liberal ortodoxo. como ministro da Justiça. como ponto de partida. resultado da pressão da Inglaterra. passou a ser denunciado como cruel. enquanto recordam uma África idílica e articulam planos de vingança. porém. concebido como "infecção" moral. não sendo mais feitas em mercado aberto. favorável à manutenção da escravidão. pertencia o escravo. 246. uma "linha negra" que limitava e comprometia não apenas o teatro do país. a venda de escravos em praça pública e extinguiu os leilões no mercado do Valongo. e que só poderia sobreviver como assunto de retórica escolar". p. oscilam entre a imagem nobre do negro e a afirmação de sua influência maléfica sobre as famílias brancas.059. que recebeu subvenção dos governos imperial e provincial no final da década de 1880. Nas Cartas de Erasmo (1865). para Nabuco. desapareceu como personagem ficcional ou assunto poético no último terço do século XIX.3 Escravos atormentados. Alencar julgou a escravidão um "fato social necessário". que tinha sido destacado por autores românticos. "Cartas de Erasmo" (1865). O cativeiro.334 Roberto Ventura Um Brasil mestiço: raça e cultura no passagem da monorquio à república 335 em poemas. ou O cortiço (1896). que só poderia ser abolido com a evolução da sociedade brasileira. Alfredo Bosi. como Gonçalves Dias e José de Alencar. só tendo sido retomado e revalorizado com o movimento modernista na década de 1920. O futuro líder abolicionista criticou. romances e peças teatrais. por direito de compra. concebia a arte como expressão idealizada da sociedade branca e cosmopolita. de Bernardo Guimarães. 1959-60). foram um dos temas recorrentes no pensamento abolicionista e nos textos literários que trataram do cativeiro. Apesar de lutar pela supressão do cativeiro. e escravos violentos. de Aluísio Azevedo. O jesuíta. de um lado. que causavam má impressão aos viajantes estrangeiros. Os votos de Alencar na Câmara dos Deputados mostrariam a fé profunda que tinha nos destinos dessa instituição. Como observou Alfredo Bosi. cujo domínio político e cultural seria a pré-condição para a civilização moderna. mostra essa mudança cultural que colocou o negro. e a sua visão literária do cativeiro. 1. 3 A polêmica que Joaquim Nabuco travou com José de Alencar em 1875 nas páginas de O Globo.

Nabuco ampliou a extensão do termo escravidão. » Cf. o realismo de Alencar inspirava a Nabuco aversão por não guardar as aparências. como o naturalismo. pp. o senador Nabuco de Araújo criticou. com personagens escravos e cenas de moralidade duvidosa. agregados e moradores até a camada dos proprietários. em desacordo com os padrões europeus: "Nabuco põe o dedo em fraquezas reais. O guarani. O teatro de Alencar. mas para escondê-las". e do desconhecimento da realidade dos "selvagens" brasileiros. em um famoso discurso.336 Roberto Ventura Um Brasil mestiço: roça e cultura na passagem da monarquia à repúblico 337 As críticas de Nabuco ao teatro de Alencar e a seus romances indianistas se relacionam à sua perspectiva cosmopolita. 1975). o poder autoritário da coroa. as batatas: forma literária e processo social nos inícios do romance brasileiro (São Paulo: Duas Cidades. 663. Divulgavam-se idéias filosóficas e científicas. como a escravidão e os indígenas. "vocação de todos". 1977). J. a eclosão da campanha abolicionista em 1879 coincidiu com a aparição de uma opinião pública autônoma e com o fortalecimento da imprensa. 1978). condenados a "uma dependência da qual só para os fortes não resulta a quebra do caráter". as eleições eram controladas pelos chefes locais e o sistema de produção oferecia poucos empregos fora da burocracia estatal. revelando aspectos da sociedade brasileira. Atribuindo o atraso brasileiro à manutenção do cativeiro. cuja influência maléfica se estenderia às diversas esferas sociais. ao servir de asilo para as fortunas desbaratadas pela escravidão.5 A posição de Nabuco aponta para a exclusão do escravo e do indígena da cena cultural por meio da abolição do cativeiro e da sua eliminação como tema literário. tornando possível a crítica à ordem estabelecida. Ao vencedor. como forma de dar início a uma revolução social e econômica. acusada de submeter a sociedade a uma espécie de cativeiro político. A polêmica Alencar-Nabuco (Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro. políticos e burocratas. A longa crise do Segundo Reinado. importantes fatores para a democratização do país. em que a terra se concentrava nas mãos dos grandes proprietários. para seu crítico. necessitando para tanto "desacreditar a sociedade brasileira. o capital e o trabalho. De modo semelhante aos agregados e moradores. o positivismo e o evolucionismo. a vida civilizada do nosso país". Para ele. 7 Joaquim Nabuco. Um estadista do Império (1897-9) (Rio de Janeiro: Nova Aguilar. que tomou como eixo de uma interpretação global da sociedade brasileira. A epidemia do funcionalismo. teve início com a demissão do gabinete liberal de Zacarias de Góis em 1868. que monopolizava a terra. seriam. gerado pela grande propriedade escravista. à reforma das bases do trabalho e à construção da nação sob a hegemonia dos grupos letrados. ao gerar uma estrutura arcaica. 0 abolicionismo O deputado Joaquim Nabuco retomou a questão da escravidão em O abolicionismo (1883).7 Para Nabuco. uma "falsa literatura tupi". pp. O baixo nível de vida da população resultaria do monopólio da terra. Os romances indianistas de Alencar. obra de propaganda política. 84. 31-2. que traziam a crença no progresso e na evolução. cujas bandeiras eram o estímulo à indústria e ao trabalho livre e a necessidade de reforma do sistema político com a introdução de eleições diretas. A escravidão impediria o influxo de novas idéias e a formação de opinião pública. estaria inspirado pela "idéia de fundar a literatura tupi". "um estado no Estado". que culminaria com a abolição e a república. .6 Nabuco relacionava a idéia de uma literatura nacional. p. os funcionários públicos seriam "servos da gleba do governo". pp. 1977).8 A revolta dos liberais levou à formação do Partido Liberal Radical em 1869 e 5 6 Afrânio Coutinho (org. D. ao corromper as instituições políticas: "As senzalas não podem ter representantes. O pai de Joaquim Nabuco. baseada na contribuição européia e na ação diferenciadora do meio. desde os cativos. determinação social básica. e a população assalariada e empobrecida não ousa tê-los". 209. a escravidão teria corrompido a nação. Tal campanha se ligou ao movimento intelectual progressista que chamou de "novo liberalismo". Nabuco. Como observou Roberto Schwarz. Iracema e Ubirajara. O abolicionismo (1883) (Petrópolis: Vozes. em que realizou uma das primeiras análises sociológicas do país. dependentes dos proprietários de terras. escrita a partir da imitação das obras estrangeiras. pregava a abolição imediata. de modo a obter uma maioria parlamentar conservadora e formar outro gabinete de mesma filiação partidária. 66 e ss. Roberto Schwarz. 113-4. seria outro dos efeitos do cativeiro. como as de Cooper e Chateaubriand. sem indenização aos senhores de escravos.). Pedro II dissolveu a Câmara e convocou eleições.

para os pequenos. . de outra forma. O movimento abolicionista não atingiu as reformas sociais pretendidas. quanto a redenção da consciência dos senhores. 341. Os abolicionistas reprovaram assim os grupos dissidentes que levaram a questão às senzalas. em Conferências e discursos abolicionistas (São Paulo: Instituto Progresso Editorial. Segundo Nabuco.o latifúndio. Política (São Paulo: Ática. é preciso destruir a obra da escravidão" . a ambigüidade e a omissão do movimento republicano em relação ao 1 9 Paula Beiguelman. José do Riba-Mar" (5 nov. "Apresentação do Ministério Ouro Preto" (11 jun. Essa restrição do âmbito do movimento foi formulada por Joaquim Nabuco por meio do modelo jurídico da delegação. me sobra consciência de que estou com o povo defendendo a monarquia. Afirmou. A partir do "mandato da raça negra". o movimento assumiu a representação da sociedade total e estabeleceu um programa político que. o movimento deveria se restringir ao âmbito das elites e das classes médias urbanas. é aos livres". com a criação de um imposto territorial antilatifundiário e a realização de reforma agrária.10 Segundo as suas lideranças. pp. com a missão de formar uma opinião pública. 1884). cit. ao afirmar que a "emancipação dos escravos" deveria vir junto com a "democratização do solo": "Uma é o complemento da outra. 10 J. pois parte de suas fileiras se aliara à grande propriedade contra a extensão das reformas sociais. Sua interpretação mostra. lugar para os analfabetos. em Discursos parlamentares (São Paulo: Instituto Progresso Editorial. na esperança de obter. liderado por Joaquim Nabuco. capaz de instituir a pequena propriedade e de fixar o exescravo à terra. Seus participantes se nomeavam "delegados" ou "advogados" da causa da abolição perante a massa escrava. em suas palavras. Nabuco. ao incluir a reforma agrária e a ampliação do voto. pp. Essa ameaça se insinuou na proposta de Nabuco e Rebouças de vincular o projeto de emancipação à questão da posse da terra. não teriam meios de reivindicar os seus direitos": os escravos e os ingênuos. que barrava a participação do escravo da agitação e da propaganda pela reforma das bases do trabalho. mas aos seus "algozes". promovendo fugas e levantes. uma "desforra do escravismo". porque não há. O abolicionismo apresentava modelo de exclusão. porém. que a agitação republicana era uma reação dos proprietários contra a lei de 13 de maio.11 A visão de Joaquim Nabuco sobre a república se relaciona à sua intransigente defesa da monarquia parlamentar. o "advogado gratuito de duas classes sociais que. levando-o a uma orientação antipopular: "A mim. em Joaquim Nabuco. "Discurso num meeting popular na Praça de S. "Joaquim Nabuco: teoria e práxis". 1949). Crescia o número de jornais diários e se ampliava o círculo de leitores com a politização trazida pelos movimentos republicano e abolicionista e com o processo de urbanização resultante da liberação de capitais após a proibição do tráfico. de forma irremediável. 373. incompatibilizado com a ordem monárquica.9 O movimento abolicionista se estendeu até 1888. Nabuco assumiu essa vinculação nos discursos de sua campanha ao parlamento em 1884.. em discursos parlamentares de 1888 e 1889. André Rebouças defendia que a propaganda não deveria se dirigir às "vítimas" do cativeiro. O abolicionismo colocava em pauta tanto a libertação dos escravos. 1949). Como afirmou Nabuco em O abolicionismo: "Não é aos escravos que falamos. na república. pp. o que poderia suscitar ódios e vinganças. Tavares Bastos e José do Patrocínio. o movimento teria se dispersado após a abolição. De modo a induzir o trono à extinção do cativeiro. na busca de uma solução pacífica. de modo a não trazer transtornos à ordem social. 71-5. Semelhante origem comprometeria. Acabar com a escravidão não nos basta. 285-6. que revela muito de sua formação como bacharel em direito pela Faculdade do Recife. sendo desarticulado quando ameaçou transbordar dos quadros de pensamento dominantes. 1889). pp. e organizado pela Sociedade Brasileira contra a Escravidão. ' J. abrigada à sombra da república. 1982). 1888). pelo remorso e arrependimento. Os abolicionistas representariam. em São Paulo. Nabuco.338 Roberto Ventura Um Brasil mestiço: raça e cultura na passagem da monarquia ò república 339 do Partido Republicano em 1870. o novo regime com a classe proprietária. "Agitação republicana no Exército" (5 nov. a reparação das injustiças. em que cidadãos livres expressavam suas idéias de modo independente da vontade do monarca. Surgiram assim as bases de uma opinião pública burguesa. capaz de atuar politicamente para pressioná-la. a propaganda abolicionista se dirigiu às camadas urbanas. 31 e ss. ainda que omisso quanto à questão do cativeiro. como o reunido em torno de Antônio Bento e do jornal Redenção. ultrapassava a própria emancipação. para os pobres". deliberada no interior da comunidade de cidadãos. O abolicionismo.

A abolição não foi causa da república. A lei abolicionista de 1871 e a de 1885. como tendências paralelas. sem que fossem criadas condições favorá- veis ao negro na transição entre o mundo servil e a sua nova existência de cidadão.. ministro da Fazenda do primeiro governo republicano. 15. 13 J. A integração do negro na sociedade de classes (São Paulo: Ática. nos malefícios econômicos do cativeiro. porque a moral e a lei te pedirão uma conta severa de tuas ações. na expectativa de conquistar a adesão ou a simpatia dos escravocratas descontentes. que determinou a queima dos registros públicos de escravos. concedeu alforria aos seus escravos. que o obrigava a absorver o programa emancipador. tornando-se responsável por sua pessoa e por seus dependentes. A aquisição da cidadania deveria transformar o escravo em pessoa.. O Partido Republicano nunca se mostrou partidário da abolição. a revolta dos senhores de escravos criou um ambiente propício ao levante militar. raciocinava o barão. porque as tuas faltas recairão unicamente sobre ti. A questão da escravidão e da abolição colocou o trono em um difícil equilíbrio entre duas facções. partilhada por Nabuco. expulso do aconchego patriarcal. "O demônio familiar" (1858). 135-6. por não admitir que o governo interviesse em seus bens. concebido como prejuízo a partir da premissa da maior rentabilidade do trabalho assalariado. A abolição contribuiu portanto para a marginalização do afro-brasileiro. Muito embora abolicionismo e republicanismo tenham se desenvolvido. foram adotadas medidas que beneficiaram os setores mais prósperos. como quem o amaldiçoa: Toma: é a tua carta de liberdade. não se pode identificar ambos os movimentos. ao barrar sua participação na esfera política e na nova ordem econômica. sem trair os compromissos com os senhores de escravos. embora não dispusesse de meios materiais e morais para realizar essa proeza nos quadros de uma economia competitiva. que concedia liberdade aos escravos com mais de sessenta anos. cit. ela será a tua punição de hoje em diante. deixaram os senhores de escravos bastante apreensivos quanto às garantias oferecidas pela coroa à manutenção de seu "patrimônio". pp. personagem do Memorial de Aires. A elevação dos preços dos escravos. sumária e abruptamente. sobretudo a cafeicultura paulista.. vol. o que foi comentado por Florestan Fernandes: O liberto viu-se convertido. a partir de 1870.340 Roberto Ventura Um Brasil mestiço: raça e cultura na passagem da monarquia à república 341 cativeiro. para reformar as bases do trabalho. em senhor de si mesmo. Mesmo não tendo sido determinante para a proclamação da república. aprovando a Lei Áurea no parlamento. em Obra completa. Com isso. 4. quando se deu a conversão do Partido Liberal. Livre. quando esta se tornou inevitável. pela concessão de subsídios à imigração qué asseguraram suprimento de mão-de-obra barata. Na peça de Alencar. Em compensação. cujos líderes se proclamavam representantes dos interesses da massa de cativos. como insinuou Nabuco. sentirás a necessidade do trabalho honesto e apreciarás os nobres sentimentos que hoje não compreendes. ante os rumores da abolição. com a proibição do tráfico. os escravos agradecidos talvez continuassem a trabalhar em suas propriedades após a emancipação. Quase 150 mil imigrantes chegaram ao país entre 1887 e 1888 e o seu fluxo aumentou com a república. e de livrar a família de um motivo permanente de confusões e desgostos. Eticamente. A extinção do cativeiro foi incluída nos programas dos partidos oficiais do império somente a partir de 1884. O demônio familiar (1858). até que os se12 Florestan Fernandes. Os poderes públicos aplicaram recursos oficiais no estímulo à imigração. O escravo foi excluído do movimento abolicionista. de Machado de Assis. a liberdade se transformou em ameaça para o negro entregue à própria sorte. p.13 A liberdade é concedida com a dupla função de punir o moleque intrigante. Sua indignação foi bem expressa pelo barão de Santa-Pia. de modo lento e gradual. de Alencar. gerou a crença.12 Longe de ser uma conquista merecida. 1978). . Mas a realização da emancipação sem indenização aos proprietários de escravos rompeu o equilíbrio mantido pela coroa entre os partidários e os adversários da medida. A esperança de obter indenização foi frustrada por Rui Barbosa. o abolicionismo irrompeu a partir da negação da representação do escravo como coisa e da percepção de sua condição de homem. o senhor Eduardo concede a alforria ao moleque Pedro. dotada de liberdade e habilitada a contratar-se no mercado. que. O Partido Conservador só admitiu a abolição em 1888. sendo bastante divergentes suas bases de sustentação. A consciência abolicionista se baseou na crítica ao escravismo em termos éticos e econômicos.

o índio. o meio físico e a influência estrangeira. da família. Explicou. se propôs a substituir o senhor na tutela dos escravos. os portugueses estariam incapacitados para a civilização. o "agente transformador por excelência". vol. voltados para o negro e o mestiço.342 Roberto Ventura Um Brasil mestiço: raça e cultura na passagem da monarquia à república 343 nhores. 216. levou à tentativa de se estabelecerem limites à sua participação na esfera política. formado a partir de cinco fatores: o português. O folclore brasileiro teria sido criado graças à atuação do mestiço. representadas pelo naturalismo e evolucionismo. 1902). Tal destaque da presença africana se prolongou na História da literatura brasileira (1888). libertos e ingênuos. vol. ainda que fosse favorável à emancipação lenta e espontânea. pela crescente autonomia frente às culturas portuguesa. A questão foi retomada no prólogo de sua história literária. em que aplicou às manifestações eruditas os mesmos critérios raciais dos estudos sobre a poesia popular. do município e da província. Denunciou. 4. 2.. História da literatura brasileira (1888) (Rio de Janeiro: Garnier. em que o negro era tido como superior ao indígena e o branco. Como povo de origem latina. escrito nos dias 18 e 19 de maio de 1888. Os portugueses são considerados povo inferior. "desafortunados que nos ajudaram a ter fortuna". ainda que de modo menos acentuado do que os negros e indígenas. "cativos que nos auxiliaram na conquista da liberdade". p. com sua consciência jurídica. Combateu o romantismo e fez propaganda do abolicionismo. no século XVII. corroídos pelo remorso e arrependimento. que dividia em diversos ramos: enquanto os germanos. a partir dessa concepção etnográfica. teria vingado o programa de abolição gradual. p. sem qualida14 Sílvio Romero. a dependência cultural como impulso psicológico ou tendência de caráter. capazes de fornecer critérios científicos para a análise da literatura e da cultura a partir do destaque dos fatores raciais e da influência do meio. deveriam ser transformados em "objeto de ciência". o negro.. Romero atribuía a ausência de estudos afro-brasileiros. desprovidas do impulso inventivo dos germanos e saxões. O bacharel letrado. Foi o maior divulgador do que chamou de "bando de idéias novas". Tendo como origem o canto dos mestiços no trabalho. como mais evoluído do que ambos. Romero definiu a cultura brasileira como mestiça. Sílvio Romero foi o autor da primeira história sistemática da literatura brasileira e de estudos inovadores sobre a poesia popular. a completa erradicação do cativeiro. Na sua opinião. A literatura e a arte nacionais teriam sido criadas pela fusão das raças e pela incorporação a uma expressão civilizada das "faculdades de imaginação e sentimento dos selvagens do continente americano e africano". apesar do ato do governo imperial que apenas teria apressado. eslavos e saxões caminhariam para o progresso. em três ou quatro anos. Adotando o ponto de vista arianista. xiii. 1. nos Estudos sobre a poesia popular no Brasil (1888). à idealização romântica do indígena e à questão da escravidão. estabeleceu distinções no interior da raça branca. O escravo e o liberto. A perspectiva anti-romântica e pró-abolicionista de Romero se relacionava ao seu projeto de investigação da contribuição cultural das raças. e relacionou o seu surgimento à ação do mestiço: "No dia em que o primeiro mestiço cantou a primeira quadrinha popular nos eitos dos engenhos. Fazia ainda um apelo à abolição dos escravos. Literatura e poesia popular Bacharel em direito pela Faculdade do Recife. a preguiça do índio e o gênio autoritário e tacanho do português produziram uma nação informe. Os colonizadores teriam trazido assim para o Brasil os males crônicos das raças atrasadas. cujo caráter específico dependeria da integração de elementos díspares. no Rio de Janeiro. encaminhassem a resolução da questão. A concessão do estatuto de cidadão ao ex-escravo. a partir do poeta Gregório de Matos. mostrariam sinais de decadência. nesse dia começou de originar-se a literatura brasileira". que apresentariam a impossibilidade orgânica de produzir por si. resultante da mistura de raças inferiores: "O servilismo do negro. até então vistos como "máquina econômica". Baseou-se em uma hierarquia étnica. tipo novo. tal desinteresse pela cultura afro-brasileira e abordou o papel das raças e da mestiçagem na criação do folclore. africana e indígena. durante as comemorações da Lei Áurea: "No momento em que traço estas linhas troa por toda a parte o ruído das festas da abolição".14 Atribuía a formação da literatura brasileira a esse vínculo entre a mestiçagem e a poesia popular. outros grupos. como os celtas e latinos. a literatura teria se afirmado. a cargo da livre iniciativa do indivíduo. realizado pela Constituição de 1891. professor de filosofia no Colégio Pedro II. resultante do cruzamento entre ibéricos e latinos. . Tomou a literatura como expressão da raça e do povo.

de forma pioneira. defensor da escravidão. História geral do Brasil (1855) (São Paulo: Melhoramentos. Tal mimetismo traria prejuízos à produção intelectual. os grupos. 355. p. Em sua peregrinação pelo interior do Nordeste. o negro ou o afro-brasileiro. Aproximava-se. 21-2. Valorizou a miscigenação como fator de adaptação das raças e culturas ao meio local. em que proibia o uso de chalés. realizou os primeiros estudos de etnologia afro-brasileira. que lançou a tese da fusão de raças como princípio formador da civilização brasileira.16 Mas o historiador abraçava. coberto por uma túnica de algodão azul. Estudos sobre a poesia popular do Brasil.. quando o Conselheiro passou pela cidade em 1874. investigando. mitologias.18 A etnologia afro-brasileira Enquanto Romero se voltava para a contribuição dos povos e raças à formação do folclore e da literatura. é próximo ao que Romero adotaria no estudo da literatura e das tradições populares. fazia-se acompanhar por um grupo de fiéis. precondição para a vitória do colonizador europeu nos trópicos. costumes. as quadras que ouviu no interior de Sergipe sobre Antônio Conselheiro. que alguns identificavam com Santo Antônio. a inferioridade das culturas africanas legitimava o tráfico de escravos para a América. o que faria com que os autores e escolas não procedessem uns dos outros. "Como se deve escrever a história do Brasil" (1845). de modo a estudar sua presença no Brasil. o futuro líder de Canudos. Previa assim o total branqueamento da população brasileira em três ou quatro séculos. . o projeto de uma civilização cristã. Médico e etnólogo. pp. 13 Sílvio Romero. Estudos sobre a poesia popular no Brasil (Rio de Janeiro: Laemmert. 1888). em que o trono assumia um papel central como princípio tutelar da nação. a esse respeito. por terem sempre que mudar de orientação a partir do influxo externo. cit. outros com o próprio Jesus Cristo: Do céu veio uma luz Que Jesus Cristo mandou. pentes e botinas. Seu enfoque histórico.15 A formação do povo a partir de três raças sem originalidade teria resultado na tendência à imitação do estrangeiro. para defendê-lo. 18 Sílvio Romero. 16 Francisco Adolfo de Varnhagen. melhorariam "de sorte". como antecedente. Com cabelos grandes e longas barbas.17 Sílvio Romero registrou. rezava terços e ladainhas e fazia pregações. e recomendava não se comer carnes e doces às sextas-feiras e aos sábados. Sua teoria da mestiçagem e do branqueamento partia de uma combinação de pressupostos racistas (existência de diferenças étnicas inatas) e evolucionistas (lei da concorrência vital e da sobrevivência do mais apto). na História geral do Brasil (1855). que deveriam adotar uma orientação etnográfica e abordar a ação dos fatores raciais em suas diversas manifestações: línguas. o ensaio do naturalista alemão Carl Friedrich von Martius. do monarquista Francisco Adolfo de Varnhagen. 224-5. Santo Antônio Aparecido Dos castigos nos livrou! Romero era promotor público em Estância. Martius estabeleceu as bases da historiografia naturalista de base racial no ensaio que apresentou em 1845 ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro: "Como se deve escrever a história do Brasil". 1982). em O estado do direito entre os autóctones do Brasil (Belo Horizonte/São Paulo: Itatiaia/Edusp. submetidos à influência benéfica da civilização. com base nas etnias e em seu cruzamento. O naturalista formulou um programa para os historiadores do Brasil. conhecimentos e superstições. em Sergipe. onde estes. que se mostravam dispostos a pegar em armas. Nina Rodrigues procurou delimitar um objeto. um dos autores de Reise in Brasilien (Viagem pelo Brasil) (1823-31). pp. 1978). Para Varnhagen. como a "falta de seriação nas idéias" e a "ausência de uma genética". 17 Carl Friedrich Philipp von Martius. ao contrário de Romero. e acreditava que o elemento branco seria vitorioso na "luta entre raças" devido à sua superioridade evolutiva. línguas e culturas negras e os fenômenos de sincretismo entre os cultos vindos da África e a religião católica.344 Roberto Ventura Um Brasil mestiço: raça e cultura na passagem da monarquia à repúblico 345 des fecundas e originais". 1. vol. caso fosse preciso. nos Estudos sobre a poesia popular no Brasil. Ambos tiveram. que se mostrara favorável. à miscigenação como forma de integrar os índios e negros à população branca. autor de obras como Os africanos no Brasil (1932) e As coletividades anormais (1939).

Já os médicos julgavam que só se poderia pensar num projeto nacional mediante o reconhecimento das diferenças e o estabelecimento de uma orientação científica capaz de assegurar a execução das leis e o progresso do país. o reforço dessas concepções. 1938). As raças humanas e a responsabilidade penal no Brasil (1894) (São Paulo: Nacional. Nina Rodrigues se destacou. de modo semelhante ao 9 Mariza Corrêa. adaptados às condições climáticas e raciais de cada uma das regiões do país. foram tomadas como obstáculos à implantação da democracia representativa e à universalização dos princípios liberais. a "evidência científica" da sua inferioridade . Para os juristas. procuravam desfazer as ilusões de igualdade política contidas na primeira Constituição republicana. nada teria em comum com a revoltante exploração realizada pelos escravistas. O mestiço também apresentaria alto grau de criminalidade em razão da degeneração resultante do cruzamento de raças díspares. Cesare Lombroso e Paul Broca. Assumia um novo papel. 219. A defesa da abolição não implicava o abandono da teoria das desigualdades étnicas que havia justificado o cativeiro. abolida a escravidão e proclamada a república. na crítica aos pressupostos liberais do regime republicano. em uma mesma sociedade. tenderia não só à loucura e à paranóia. como também ao crime devido à sobrevivência psíquica de caracteres retrógrados. Partiu dos métodos da frenologia e da antropometria. Propôs. Propôs assim que o negro. de 1894. de modo a se poder lidar com a "criminalidade étnica". p. favorável à escravidão. em razão dos cultos fetichistas e da ausência de monoteísmo. como sujeito. As ilusões da liberdade: a escola Nina Rodrigues e a antropologia no Brasil (Bragança Paulista: Ed. ameaçadas pela maré crescente da "negritude". na ordem liberal-republicana. Acreditando que cada raça se encontrava em estádios evolutivos distintos. os não-brancos ameaçariam a civilização por serem incapazes de ingressar. Seu enfoque mostra a compatibilidade entre a consciência abolicionista e as concepções racistas e escravocratas. que partia para a disputa de espaços políticos até então reservados aos bacharéis de direito e aos "homens da lei". Tais concepções negativas se mantiveram após a abolição. em As raças humanas e a responsabilidade penal no Brasil. índios e mestiços. "misto de médico com cientista social". uma total reformulação da legislação penal segundo as concepções dos criminalistas italianos e dos legistas franceses. que situava os africanos nos limites da noção de humanidade. Aproximava-se assim do historiador Varnhagen. tornando problemática a implantação de um sistema político baseado em eleições periódicas. A existência de raças não-brancas desmentiria princípios fundamentais ao liberalismo. não deveria impedir a ciência de abordar. Para Nina Rodrigues. apoiada na universalidade das idéias. O negro. com seu enfoque médico e etnológico. que transformara formalmente todos em cidadãos. 1999). que determinavam a capacidade humana a partir do tamanho e da proporção do cérebro dos diferentes povos. de povos ou raças em etapas evolutivas distintas. mas trazia. como o livre-arbítrio e a capacidade de discernimento. formadas de negros. Céticos com as promessas de igualdade trazidas pela abolição e pela república. São Francisco. entraria em contradição com a realidade do país. Muitos intelectuais. políticos e cientistas se perguntavam sobre as causas das diferenças entre os homens. em sua opinião. o índio e o mestiço tivessem responsabilidade penal reduzida e direitos de cidadania limitados. A loucura. a questão étnica. que dominava o país em razão da campanha abolicionista. o interesse pela raça negra. o de "médico político". resultante da coexistência. sobretudo os egressos das faculdades de direito e de medicina. apesar da "viva simpatia" que o negro brasileiro lhe inspirava. as superstições e os cultos de origem africana: "A civilização ariana está representada no Brasil por uma fraca minoria da raça branca a quem ficou o encargo de defendê-la". Defendia que a raça fosse considerada como atenuante da responsabilidade penal. propôs critérios diferenciados de cidadania e a divisão da legislação penal em vários códigos. que produziam uma população fraca e doente. que ainda não havia ultrapassado o estádio infantil da humanidade. era preciso criar um código em princípio igualitário que unificasse o país. quando as populações não-brancas. ao contrário.346 Roberto Ventura Um Brasil mestiço: raça e cultura na passagem da monarquia à república 347 Foi ainda o responsável pela criação da medicina legal no país. os escritores.20 A concepção liberal de justiça. Univ. tendo sido professor da disciplina na Faculdade de Medicina da Bahia de 1891 a 1906. . O atraso evolutivo dos negros e a degeneração psíquica dos mestiços colocavam em perigo as classes superiores. 0 Raimundo Nina Rodrigues. por adotarem os costumes. Proclamava. de forma "imparcial".evidência que. a criminalidade e a degeneração poderiam ser previstas e entendidas a partir dos cruzamentos raciais. desenvolvidos por André Retzius.19 Para Rodrigues. marcada pela heterogeneidade étnica.

nas fases de sua existência. enquanto o mestiço teria sua responsabilidade definida segundo o estrato a que pertencesse. de fato. teorias raciais baseadas na crença na inferioridade dos não-brancos. os aspectos de mal social gravíssimo. insuficiente ou incompleto". Caberia ao negro e ao indígena uma responsabilidade atenuada ou nula. Tal programa de expulsão das populações não-brancas do contrato social restabeleceria. mostrando-se contrário às tentativas de condenação dos cultos afro-brasileiros pelo clero ou à sua repressão pela polícia. Já os mestiços "degenerados" deveriam ser considerados total ou parcialmente isentos. condições favoráveis à propagação de seu delírio. já em seus momentos finais. já que sua população não se submetia às leis republicanas. na mesma situação jurídica do negro e do índio. resultante da fusão de raças e culturas desiguais. Paulo. Os sertões revisitados Euclides da Cunha retomou. na população mestiça à sua volta. a situação jurídica de exclusão da cidadania que o índio. que ganhou.348 Roberto Ventura Um Brasil mestiço: raça e cultura na passagem da monarquia à república 349 louco e à criança. p. 121.exceção feita aos indígenas. Viu o novo regime como obra dos maçons e de outros inimigos da religião e se rebelou contra atos de cobrança de impostos. Como elemento passivo e ativo da agitação que tomou o interior da Bahia. O Conselheiro teria achado. grande parte dos eleitores com a política dos governadores inaugurada pelo presidente Campos Sales (1898-1902). herdados de seus ancestrais indígenas. p. o que explicaria a surpreendente resistência armada que a população de Canudos ofereceu às expedições militares enviadas contra a comunidade. formados de brancos e índios. tidos como neurastênicos e desequilibrados pela mistura entre brancos e negros. resumindo. infantil e inculta. Por sua inferioridade evolutiva. Escrevendo em outubro de 1897 sobre a Guerra de Canudos. com o advento da república. e os mestiços do litoral. Explicou a guerra como o resultado do choque entre os curibocas do sertão. o enfoque médico e etnológico de Nina Rodrigues. . o liberto apresentavam à época da colônia e do império. dominado por uma população mestiça. "A loucura epidêmica de Canudos" (1897). ético e religioso. Nina Rodrigues opunha o litoral. cujos resultados eram previamente decididos em acordos de gabinete. reduto da civilização e dos grupos brancos. menos por ignorância.21 Mas a repressão se 21 justificaria apenas nos casos. o escravo e. em parte. 140. fez vibrar no jagunço. em As coletividades anormais (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. os mestiços "comuns" teriam sua responsabilidade reduzida. ao relatar a Guerra de Canudos. devido ao isolamento histórico e à ausência de componentes africanos. mantidos sob tutela estatal -. emitiu o seguinte juízo sobre os seguidores do Conselheiro: "Serão monarquistas como são fetichistas. que apresentaria vantagem sobre o mulato do litoral. Julgava que o líder da comunidade sofria de psicose progressiva ou de delírio sistematizado. O castigo e a violência poderiam contê-los. sob a tutela do Estado ou da família. 1932). Valorizou o mestiço do sertão. em que o representante concreto do poder é substituído por uma abstração: a lei. Rodrigues fez um diagnóstico de Antônio Conselheiro como vítima de um delírio de perseguição ou de uma psicose progressiva. Raimundo Nina Ribeiro. 1939). "a nota étnica dos instintos guerreiros. o Conselheiro teria sido capaz de sintetizar as superstições das populações sertanejas. Julgava ser necessária a intervenção armada em Canudos. Os mestiços seriam igualmente incapazes de compreender a passagem da monarquia à república. mal extintos". Enquanto os mestiços "superiores" seriam tidos como plenamente responsáveis. Os africanos no Brasil (São Paulo: Nacional. As elites civis de São Paulo e Minas Gerais passaram a se revezar no poder graças ao controle e à manipulação das eleições. que reviveram as tendências impulsivas das raças inferiores. Com sua pregação religiosa. se tivesse sido seguido. a elite da Primeira República segregou. a domesticação do índio e a submissão do negro seriam incapazes de transformá-los em homens civilizados. Sua loucura deveria ser interpretada em termos étnicos e sociológicos como o reflexo do meio em que viveu. condensadas no seu "misticismo feroz e extravagante". A partir de informações recebidas em Salvador. ao sertão. forma política tida como superior. que davam ares de ciência ao preconceito de cor. do que por um desenvolvimento intelectual. atávicos. assim como fora inevitável a extinção do quilombo de Palmares no século XVII. em Os sertões. como Nina Rodrigues. que o transformara de enviado divino no próprio filho de Deus. mas não os fariam adquirir consciência do direito e do dever. como Canudos e Palmares. Euclides seguia. Embora não tenha vingado sua proposta de restrição dos direitos civis e políticos da população brasileira. que presenciou como repórter de O Estado de S. de ameaça à ordem social. as proporções de uma epidemia coletiva. que teria representado "a maior das ameaças ao futuro povo brasileiro".

Criticava agora. Discutiu ainda a fundação da república por meio de um golpe militar e os problemas que tal origem trouxera ao novo regime. com o esmagamento inevitável dos fracos pelos fortes. em Populações meridionais do Brasil (1920). vítima das forças republicanas. em Os sertões. Paulo.350 Roberto Ventura Um Brasil mestiço: raça e cultura na passagem da monarquia à repúblico 351 que tornavam mais estável sua evolução racial e cultural. Ou progredimos. Sobre o Conselheiro. Paulo e da dissidência do Partido Republicano Paulista.22 Com base em teorias sobre uma suposta origem autóctone do homem americano. 105. por Oliveira Viana. atacando o imperador e a família real e pregando a revolução. O curiboca do sertão é tomado como o resultado da união entre os desbravadores vindos de São Paulo e os indígenas oriundos do continente americano. Imaginou o sertanejo como o resultado da confluência entre a bravura indígena e a ousadia dos bandeirantes paulistas. Canudos teria resultado da instabilidade dos primeiros anos de uma república. uma coleção de cabeças de bandidos e criminosos memoráveis. base sobre a qual se poderia criar o brasileiro do futuro. 71. em Os sertões. Alarmado com o avanço da cultura estrangeira. Do cruzamento entre brancos e índios teria resultado. Construiu uma teoria fatalista do Brasil. cujo caráter guerreiro e individualista lançou as bases da hegemonia de São Paulo.. para Euclides.23 Euclides ironizou. junto com o mito do sertanejo. contemporâneos e epígonos de Euclides da Cunha (São Paulo: Edusp.] a velha sociedade não teve energia para transformar a revolta feliz numa revolução fecunda". ou desaparecemos". à altura dos grandes heróis dos poemas épicos e dos romances de cavalaria. cf. quer o liberalismo artificial de uma Constituição que as elites civis desrespeitavam por meio de fraudes eleitorais. tendo sido expulso da Escola Militar em 1888 por ato de insubordinação. cuja história seria movida pelo choque entre etnias e culturas destinadas ao desaparecimento. lançou um brado de alerta em Os sertões: "Estamos condenados à civilização. que copiava os códigos europeus. 1998). a Revolta da Armada. de modo semelhante a um titã grego ou a um guerreiro antigo coberto por armadura. . A Guerra de Canudos prolongou. p. em História geral das bandeiras paulistas (1924-50). na Faculdade de Medicina da Bahia. nas páginas finais de Os sertões. para combater outra "desordem". com cultura própria e evolução autônoma garantidas pelo isolamento geográfico. Ao afirmar o caráter específico da miscigenação sertaneja. 131-2. uma outra representação análoga. Nina Rodrigues como o representante da ciência encarregada de dar a "última palavra" sobre Canudos pelo exame do crânio do Conselheiro. observou que apresentava o crânio "normal" de um mestiço. Aderia assim à denúncia da política dos governadores e à pregação pela revisão constitucional do deputado e jornalista Júlio de Mesquita e do grupo reunido. manuscrito de Os sertões." Elevou. a partir de 1901. expandindo o território da colônia portuguesa nos séculos XVII e XVIII. E. Chamou o sertanejo de "rocha viva" da nacionalidade. 1995). da Cunha. quer o militarismo dos primeiros governos dos marechais Deodoro da Fonseca (1889-1891) e Floriano Peixoto (1891-1 894). a "desordem" criada pelo marechal Floriano. e por Alfredo Ellis Júnior.. Paulo. expandiu a idéia de nação e valorizou o país interior em vez do litoral. em Raça de gigantes (1926). depois retomado por Afonso d'Escragnolle Taunay. em que a Marinha e o Exército se enfrentaram de 1893 a 1894 na capital da república. Euclides discutiu as origens do homem americano. que considerava a história guiada pelo conflito entre raças. Os sertões: campanha de Canudos (1902) (São Paulo: Ática. como militante republicano. um forte. Em trecho de Os sertões. "O sertanejo é. que penetraram pelos rios Tietê e São Francisco rumo ao interior. o homem do sertão. a formação racial do sertanejo e os malefícios da mestiçagem. sem traços de anomalia ou degeneração. criou uma imagem grandiosa do homem do sertão como ser autêntico. antes de tudo. Rodrigues mantinha. Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral. em 23 22 Euclides da Cunha. nos últimos anos da monarquia. Retratou-o como vaqueiro envolto em gibão de couro. Leopoldo Bernucci. 128. enviado ao etnólogo em Salvador. A imitação dos sentidos: prólogos. submetidas a estudos antropométricos. ligado a plano de rebelião para a derrubada da coroa. o mito do bandeirante. segundo Ellis Júnior. pp. que não foi incluído na versão final do livro. Difundiu. Recorreu às concepções do sociólogo austríaco Ludwig Gumplowicz. uma "sub-raça superior". enraizado no solo. Atuara antes. decretada de improviso e introduzida como "herança inesperada" ou "civilização de empréstimo". em torno do jornal O Estado de S. Não o foi [. observou que o novo regime fora incapaz de romper com o passado: "A República poderia ser a regeneração. que deu origem ao atual O Estado de S. Fizera ainda propaganda política no jornal A Província de S.

26 O racismo se ligava aos interesses de uma elite letrada em se diferenciar da massa popular. em busca dos traços físicos e anatômicos do crime ou do estilo. cujas formas de cultura e religião eram depreciadas como atrasadas ou degeneradas.27 As teorias racistas foram redefinidas e adaptadas às condições locais. cit. dando origem a modelos de pensamento. O antropólogo RoquettePinto observou que se tratava de um órgão notável pelariquezae complexidade das circunvoluções. cit. libertos e 24 25 26 R. O espetáculo das raças: cientistas. já que se articulavam aos grupos nacionais identificados à modernidade ocidental. O liberalismo foi fundamental na articulação de um discurso empenhado na construção da nação e da cidadania. Lilia Moritz Schwarcz. as faculdades de medicina de Salvador e do Rio de Janeiro. M. ao lado do discurso liberal. 25-32: 1-5. Politicamente. sua cidade natal.. Enquanto os modelos liberais regulamentavam as esferas públicas. enquanto tentativas de eliminar a contradição entre a realidade étnica. "Relações do cérebro com a inteligência". como a Faculdade de Direito do Recife. com grande participação de escravos. . por meio do qual a classe economicamente dominante assumiu o seu papel de grupo dirigente. Rodrigues.. o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. L. no Rio de Janeiro. o Museu Nacional.24 O médico Afrânio Peixoto retirou o cérebro de Euclides da Cunha após sua morte em agosto de 1909. constando das leis e das medidas de âmbito geral. Aceitando a premissa básica do racismo . O chamado racismo científico foi adotado por escritores. em Revista de Educação Pública (Rio de Janeiro). "A loucura das multidões". Bosi. apresentando-se como parlamentar face à coroa e como antidemocrata perante a vasta população escrava ou pobre. como a valorização da miscigenação e a ideologia do branqueamento. As concepções racistas se tornaram parte da identidade da classe senhorial e dos grupos dirigentes em uma sociedade hierarquizada e estamental. ganhou força.352 Roberto Ventura Um Brasil mestiço: raça e cultura na passagem da monarquia ò república 353 que se associavam os caracteres antropológicos de diferentes raças. 1993). 7. se fez presente nas relações pessoais e nas vivências cotidianas. os brancos eram considerados iguais enquanto cidadãos livres. o Museu Paraense Emílio Goeldi e o Museu Paulista. Para uma abordagem das instituições científicas que privilegiaram o modelo racial. políticos e cientistas e teve uma acolhida entusiasta nos órgãos de imprensa e nos estabelecimentos de ensino e pesquisa. cf. A. positivistas e evolucionistas. N. apenas interesses colonialistas e imperialistas. com o objetivo de restringir os pressupostos igualitários das revoluções burguesas e de limitar a participação dos não-brancos na esfera política. Schwarcz. junto com os ideários naturalistas. portanto. em As coletividades anormais. estando asseguradas a livre competição e a liberdade pessoal entre eles. que os adotaram junto com os modelos liberais de Estado. no período monárquico. pp. justificando hierarquias sociais e políticas com base em critérios biológicos.a superioridade da 27 Sobre esse enviesamento oligárquico e racial do liberalismo. Edgard Roquette-Pinto. cf. o racismo científico e o liberalismo progressista. O espetáculo das raças. o que só foi limitado sob pressão internacional. em Dialética da colonização. a visão racial. vol. Formou-se. um modelo racial.25 O crânio do messias e o cérebro do escritor despertaram o interesse dos legistas e antropólogos da época. Tal conclusão confirmaria o diagnóstico anterior de que a rebelião de Canudos teria resultado do contágio psíquico de uma população fetichista por um delirante crônico. 1870-1930 (São Paulo: Companhia das Letras. um liberalismo oligárquico. Com a eclosão da campanha abolicionista e do movimento republicano. sobretudo na zona que governa as faculdades de expressão. instituições e questão racial no Brasil. 0 sincretismo de raças e culturas A teoria das desigualdades raciais se difundiu no Brasil nas três últimas décadas do século XIX. cit. Recorria-se ao liberalismo para legitimar o cativeiro e defender o direito dos traficantes e dos senhores rurais de submeter o escravo mediante coação jurídica e de negociá-lo como mercadoria. 131-133. 1949-50. O cérebro ficou conservado em formol no Museu Nacional do Rio de Janeiro até 1983. imigrantes no trabalho produtivo. Não exprimiram. "A escravidão entre dois liberalismos". que se articulou com a prática escravista após a independência e com os modelos racistas a partir da abolição e da república. O dogma racial da desigualdade foi introduzido como princípio de naturalização de diferenças em uma sociedade formalmente liberal. quando foi enterrado em Cantagalo. formulada pelos intelectuais e divulgada pela imprensa e pelas instituições acadêmicas e científicas.

278-398. pela miscigenação. que estabelecia: "É inteiramente livre a entrada nos portos da República dos indivíduos válidos e aptos para o trabalho que não se acharem sujeitos à ação criminal do seu país". 1958-70). enquanto grupo superior. O ideal de branqueamento. como Sílvio Romero. integradas e extintas pela mistura progressiva. Nina Rodrigues. cujo principal objetivo era justificar a dominação de países e grupos sociais: "A ciência alegada pelos filósofos do massacre é a ciência adaptada à exploração". contido no programa imigrantista. que tomavam a condenação das raças não-brancas e da miscigenação como idéia "fundada para autorizar a expansão e justificar a expropriação dos povos sem esquadras". era ainda mais "otimista". uma saída brasileira para a questão étnica: fundir para extinguir as raças tidas como inferiores. Gobineau e Agassiz. 29 Thomas E. . Surgia. 3. de forma quase unânime. na expressão atual de Roberto Schwarz. excluindo os "indígenas da Ásia ou da África". porém. proclamaram o liberalismo. autor de A América Latina (1905). enviesando as idéias liberais. Sílvio Romero acreditava que o branqueamento levaria de três a quatro séculos para se completar. vol. O antropólogo João Batista de Lacerda. com o argumento de que os chineses corromperiam a formação racial no país.400. pp. escritores e cientistas. afirmavam seus ideólogos.d. A questão étnica se tornou central no momento de implantação do regime republicano e do trabalho assalariado. A imigração era concebida como processo de incorporação de elementos étnicos superiores. Mas a essa provisão liberal se acrescentava cláusula. produziria uma população cada vez mais "clara". que condenavam o Brasil ao atraso e à barbárie. O racismo científico foi adotado.28 Apesar das críticas de Araripe e Bonfim. p. ainda que parcialmente. A miscigenação. Euclides da Cunha e Oliveira Viana. A partir de critérios etnológicos. Preto no branco: raça e nacionalidade no pensamento brasileiro (Rio de Janeiro: Paz e Terra. o racismo científico se tornou moeda corrente no debate cultural e político brasileiro no último terço do século XIX. Romero propôs o "branqueamento" como saída para reabilitar as raças consideradas inferiores. 1976). O deputado Joaquim Nabuco foi uma das vozes que se ergueram contra a importação de asiáticos que levaria. A proclamada inferioridade dos não-brancos e a previsão de esterilidade dos mestiços feita por alguns naturalistas levantavam dúvidas sobre o porvir do país e colocavam um dilema para a elite brasileira. a partir de 1880. como o crítico literário Araripe Júnior e o historiador Manuel Bonfim. "Clóvis Beviláqua" (1899). A América Latina: males de origem (1905) (Rio de Janeiro/Paris: Garnier. Os censos demográficos do Brasil no século XX. que oscilava entre o liberalismo e o racismo. Enquanto Nina Rodrigues tomava a miscigenação como sinônimo de atraso e degeneração. 327. "idéia fora de lugar". proposto pelo visconde de Sinimbu no final da década de 1870. portanto. pois achava que a tríplice desaparição do negro. com isso. segundo ele. atacaram tais concepções. Até 1910 apenas intelectuais isolados. ao refrear suas tendências democráticas e dar argumentos para estruturas sociais e políticas autoritárias.. de origem européia. "Sílvio Romero polemista" (1898-99). do índio e do mestiço necessitaria de apenas um século. o que tornaria necessária a revisão do modelo político da Primeira República. de modo a escapar à armadilha determinista de autores europeus e norte-americanos. cuja população se tornou cada vez mais mestiça. pp. o processo de branqueamento. sem contestar.354 Roberto Ventura Um Brasil mestiço: raça e cultura na passagem da monarquia ò república 355 raça branca . s. acabaram por desmentir tais previsões de pureza racial. diretor do Museu Nacional do Rio de Janeiro. entre o pressuposto da igualdade formal entre os homens e o princípio racista da desigualdade inata. Sílvio Romero e Euclides da Cunha valorizaram a miscigenação como mecanismo de assimilação dos grupos inferiores. pois os brancos. Pôde pensar. Manuel Bonfim. predominariam na mistura. Skidmore. que acelerariam. 82. já que as leis evolutivas tornavam "inevitável" a vitória do branco. como Buckle. A valorização da mestiçagem e a ideologia do branqueamento foram contribuições originais que atenuaram.29 Ainda que não "Tristão de Alencar Araripe Júnior. os fundamentos do racismo. o racismo científico então dominante. à "mongolização" do país. que chamava de "sofisma abjeto do egoísmo humano" e "etnologia privativa das grandes nações salteadoras". que só deveriam ser admitidos com autorização do Congresso. uma "solução" para o dilema racial que escapava às previsões pessimistas sobre o futuro da civilização no Brasil. Araripe atribuía o racismo da ciência européia ao expansionismo das nações dominantes. em desacordo com a formação racial brasileira. Bonfim também criticava o pretenso caráter científico do racismo.). se revelou no decreto de 1890. O programa de imigração chinesa. em Obra crítica (Rio de Janeiro: Casa de Rui Barbosa. fora rejeitado no parlamento.

Os grupos asiáticos. O perfil interpretativo passou a ser moldado não mais pelos conceitos de raça e natureza. pois os povos cruzados seriam sempre inferiores às raças ditas puras: "populações que se mestiçaram — nunca mais deixam de ser mestiçadas". presentes em ambos.22 Freire observou. Carlos Guilherme Mota e Flora Süssekind abordaram essa mudança na literatura e no ensaio histórico-social. mas é em grande parte um mal". 1969). A difusão das teorias raciais e da crítica positivista ao modelo democrático deu origem a ideologias antiliberais. Ideologia da cultura brasileira (1933-1974): pontos de partida para uma revisão histórica (São Paulo: Ática. Seguindo as teses do francês Gobineau sobre a decadência da civilização a partir do abastardamento dos arianos. que se apropriaram de facetas distintas de sua obra: Oliveira Viana e Gilberto Freire. a partir da década de 1930. mais entusiástica a valorização da miscigenação como criação de uma identidade nacional a partir da síntese de raças e culturas. qual romance?: uma ideologia estética e sua história: o naturalismo (Rio de Janeiro: Achiamé. o branqueamento se converteu no cadinho de raças de uma sociedade multirracial. 1978). os mitos de identidade nacional baseados na fusão e integração de raças e culturas. Romero fundou. em Evolução do povo brasileiro (1923). ainda que rejeitasse o seu preconceito racial e a crença na inferioridade étnica. Rio de Janeiro. no cultural e no econômico. quando se mostrou cético quanto ao futuro branqueamento da população brasileira e passou a aceitar as teorias arianistas contrárias à mestiçagem. uma coisa fatal e irremediável. "Valorização do mestiço". que a ideologia da mestiçagem se manteve mesmo após a rejeição. em particular japoneses. que reflete a desilusão dos intelectuais com o modelo liberal da Primeira República. Romero passou a temer que o país viesse a ser dominado por raças inferiores ou cruzadas. Oliveira Viana. em Obrafilosófica(Rio de Janeiro: José Olympio. que marcariam a cultura brasileira moderna. do racismo científico e dos modelos evolucionistas. Sua confiança nas vantagens dos cruzamentos raciais foi abalada a partir de 1900. representados pela elite branca ou ariana. mas pelos de cultura e caráter. 1901). na obra de Sílvio Romero. foram propostos modelos políticos autoritários.356 Roberto Ventura Um Brasil mestiço: raça e cultura na passagem da monarquia à república 357 tenha sido aplicado. Martins Pena: ensaio crítico (Rio de Janeiro: Garnier. Com base no pressuposto das desigualdades étnicas.30 A teoria racial de Sílvio Romero marcou dois intérpretes do Brasil. A partir de 1930. "reduto imesclado de gente superior". por exemplo. com a ênfase no social. precondição para a articulação de um discurso antiliberal no Brasil. cuja mudança de posição em relação à mestiçagem trouxe à tona uma orientação antidemocrática. Essas concepções. 24 jul. Mota. G. observou sobre as misturas raciais: "Como a democracia é. C. o enfoque dos aspectos clânicos da sociedade brasileira e a defesa de um sistema político autoritário. só ingressaram no país a partir da primeira década do século XX. a valorização da miscigenação e o interesse pelo folclore e pelas tradições populares. em 1943. biológicos e climáticos produziu a ideologia do branqueamento como forma de ajuste do racismo europeu às condições brasileiras. p. se apoiou em aspectos da reflexão de Romero posterior a 1900. a crítica à miscigenação e à democracia. De 1870 a 1910. "Prefácio" (1913). capaz de manter acesa a chama do progresso e da civilização. apresentados como defesa dos valores da civilização. Freire considerou a teoria da mestiçagem um dos fundamentos do pensamento democrático moderno. que afirmavam a supremacia do Estado e de seus dirigentes sobre a sociedade. junto com Euclides da Cunha. tanto em Romero quanto em Viana. em Casa-grande & senzala (1933).31 O reajuste das teorias racistas adquiriu tal autonomia em relação às premissas iniciais. Gilberto Freire retomou. substituídos pela abordagem culturalista de Gilberto Freire e dos antropólogos Roquette-Pinto e Artur Ramos. quando a imigração européia se tornou problemática. no prefácio a Casa-grande & senzala. que 31 32 30 S. foram formuladas a partir da indagação sobre a especificidade da formação nacional. Tal Brasil. em A Manhã. Gilberto Freire. F. Considerava agora a mistura de raças uma "desvantagem". da terceira edição da História da literatura brasileira de Romero. 1984). o decreto mostra o modelo brancófilo do imigrantismo. Ao questionar o futuro branqueamento da população brasileira. pp. como a perspectiva arianista. Ao comentar a publicação. que antes rejeitara. Tal constatação aparece. Cf. 1943. o destaque dos fatores étnicos. 160-2. que substituiu o escravo pelo imigrante europeu. . ao contrário. A crítica ao liberalismo e a virada autoritária no pensamento brasileiro no início do século XX se deram a partir da constatação da divergência entre os modelos europeus e a formação racial brasileira. talvez. 201. Romero. Adotou idéias antiliberais de defesa da elite ariana. O abandono do racismo científico tornou. Por outro lado. Süssekind.

Bibliografia selecionada Bosi. reaparece nos romances de Jorge Amado. a distância entre a casa-grande e a senzala. Carlos Guilherme. 1991. Rio de Janeiro: Paz e Terra. A miscigenação corrigiu. GOMES. de modo a separar os fatores genéticos das influências sociais e culturais. Alfredo. elogios épicos à sensualidade da mulata. "Sob o signo de Cam". As ilusões da liberdade: a escola Nina Rodrigues e a antropologia no Brasil. 1976.358 Roberto Ventura Um Brasil mestiço: raça e cultura na passagem da monarquia ò república 359 seu ensaio se baseava na diferença entre raça e cultura. A ideologia da mestiçagem. Rio de Janeiro: Achiamé. Mariza. 1992. SCHWARCZ. 1993. instituições e questão racial no Brasil: 1870-1930. As marcas da escravidão: o negro e o discurso oitocentista no Brasil e nos Estados Unidos. SKIDMORE. CORRÊA. O espetáculo das raças: cientistas. São Paulo: Companhia das Letras. ao atribuírem valor psicológico às raças e glorificarem a formação de uma cultura sincrética a partir do seu cruzamento. Raça e corna literatura brasileira. São Paulo: Ática. Promessa reconfortante e utópica de uma futura unidade racial e cultural. A apologia da mestiçagem. capaz de reduzir e amortecer as tensões sociais e os antagonismos culturais. 1999. 1994. Rompendo com o pessimismo das teorias deterministas do século XLX. David T. 1984. Estilo tropical: história cultural epolêmicas literárias no Brasil. que entravam em conflito com a pretensa superação do paradigma étnico-biológico. como Gabriela. que marcou a cultura brasileira desde os seus primórdios. para Freire. Freire e Amado se mantiveram presos a concepções de etnicidade. ao criar o mestiço como elemento de mediação entre os dois mundos. capaz de aperfeiçoar o legado ocidental segundo padrões mais flexíveis. Preto no branco: raça e nacionalidade no pensamento brasileiro. São Paulo: Companhia das Letras. "A escravidão entre dois liberalismos". Heloísa Toller. 1983. BROOKSHAW. Lilia Moritz. Bragança Paulista: Ed. 1870-1914. Flora. Jeffrey D. UFRJ-Eduerj. em Dialética da colonização. NEEDELL. Cambridge: Cambridge University Press. Thomas E. VENTURA. cravo e canela (1958). se tornou elemento recorrente na cultura brasileira como traço específico ou marca de identidade nacional. Racial Identity and National Consciousness in Brazilian Literature. 1983. Tereza Batista cansada de guerra (1973) e Tieta do Agreste (1977). HABERLY. Rio de Janeiro: Ed. Ideologia da cultura brasileira (1933-1974): pontos de partida para uma revisão histórica. o sociólogo criou o mito da "democracia racial" ou do "novo mundo nos trópicos". Euclides da Cunha e Gilberto Freire revelam a tensão entre o projeto de integração à civilização e a construção diferenciada da idéia de nação. Tal Brasil. . presente no ensaio histórico-social de Gilberto Freire. Porto Alegre: Mercado Aberto. SÜSSEKIND. Univ. tal ideologia foi incorporada ao senso comum e se tornou parte integrante da representação do país. qual romance?: uma ideologia estética e sua história: o naturalismo. Three SadRaces. entre senhores e escravos. como fusão harmoniosa de raças e culturas. que proclamavam a inviabilidade da nação brasileira. as imagens de um Brasil mestiço propostas por Sílvio Romero. Roberto. MOTA. 1978. Formulada por escritores. 1993. São Francisco. políticos e cientistas do final do século XIX e início do século XX. São Paulo: Companhia das Letras. Tenda dos milagres (1969). São Paulo: Companhia das Letras. Belle Époque tropical: sociedade e cultura de elite no Rio de Janeiro na virada do século. David.

1871-1889 (2. Contributo para o estudo da desamortização no Brasil colonial (1759-1808). Ameríndios. Faculdade de Filosofia de Sorocaba). 1995). Faculdade Campineiras. do Ministério das Relações Exteriores. Faculdade de Filosofia da PUC . Afronda dos mazombos. Rio de Janeiro: Topbooks. É autor das teses O colégio dos jesuítas do Recife e o destino do seu patrimônio (1759-1777) e O patrimônio da Companhia de Jesus da Capitania-Geral de Pernambuco. desde 1986. Escola de Jornalismo "Casper Libero". em sua Faculdade de origem. Uma fraude genealógica no Pernambuco colonial (São Paulo: Companhia das Letras. 1998). iniciando a carreira diplomática em 1962. Mais conhecido como geomorfologista. ! i ! ! . diferenciou suas preocupações e escritos por todo um vasto leque de áreas científicas. 1997). no decorrer de 1945-46. Guerra e açúcar no Nordeste. ed. No campo do ensino uni versitário. Evoldo Cobrai de Mello Após estudos de Filosofia da História em Madri e Londres. leciona História do Brasil. é membro da Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses e representante do Ministério da Cultura na Comissão Mista Luso-Brasileira para as Comemorações do V Centenário do Descobrimento do Brasil. 1989). os Países Baixos e o Nordeste (Rio de Janeiro: Topbooks. Atual presidente do Instituto Camões (Portugal). 1992. É doutor em História por notório saber pela Universidade de São Paulo. portugueses e africanos. O nome e o sangue. O imaginário da restauração pernambucana (2. ambos na FFLCH/USP. em 1960. ed. 1995). 1998). Rio de Janeiro: Topbooks.São Paulo. do início do povoamento afinais de quinhentos (Lisboa: Cosmos. Entre 1979 e 1983 colaborou com a Unesp. A construção do Brasil. em 1998. O norte agrário e o Império. Nobres contra mascates. em São José do Rio Preto. ao longo de 50 anos de trabalho e pesquisas. Rio de Janeiro: Topbooks. onde fez Especialização em Geografia. na qualidade de Diretor do Ibille (Instituto Bio-Ciências e Ciências Exatas). ed. Defendeu tese de doutorado (1956) e livre-docência em Geografia (1965). Jorge Couto Docente na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa onde. e é professor honorário do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo. Rubro veio. atuou em diversas faculdades particulares do Estado de São Paulo (Faculdade de Filosofia "Sedes Sapientie". Publicou. Pernambuco.Sobre os autores AzizNacibAb'Sáber Bacharelou-se em 1943 e obteve o título de Licenciado em 1944. 1999). Foi presidente do Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico. 1630-1654 (2. [ i j j j . Publicou os livros: Olinda restaurada. Portugal. Artístico e Arqueológico do Estado de São Paulo (Condephaat). 1666-1715 (São Paulo: Companhia das Letras. O negócio do Brasil. ingressou no Instituto Rio Branco.

Coordenou. entre outros. Foi professor do Departamento de História da PUC-SP e da Universidade Federal Fluminense e do Departamento de Filosofia da Unesp-Marília. entre outros. possui outro mestrado e doutorado pela Universidade de Princeton. piratas e outros malandros: ensaios tropicais (1999). 1972). Princeton e Columbia e atuar por seis anos como diretor da Tinker Foundation. 1992) e Documentos de história do Brasil (São Paulo: Scipione. 1997). É pesquisador do Núcleo de Estudos da América Latina do Instituto de Estudos Avançados da USP. Fink. Publicou. na França. em co-autoria com Flora Süssekind. 1986). onde apresentou a dissertação "Estado e nação na crise dos impérios ibéricos no Prata (1808-1828)". Carlos Guilherme Mota Historiador. Arte e História da Cultura da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. 1993). professor titular (aposentado) de História Contemporânea da Faculdade de Filosofia. John's College e pela Universidade de Cambridge. Professor no programa de pós-graduação em Educação. 1997). 1817 (São Paulo: Perspectiva. como Slave rebellion in Brazil (Baltimore: Johns Hopkins University Press. Idéia de revolução no Brasil. 1991). Atualmente. Está preparando uma biografia de Euclides da Cunha. The Making ofPortuguese Democracy (1995). A morte é umafesta: ritos fúnebres e revolta popular no Brasil do século XIX (São Paulo: Companhia das Letras. dentre elas a Universidade de São Paulo. tendo sido o primeiro diretor do Instituto de Estudos Avançados da USP (1986-1988). Organizou. 1968) e 7522: dimensões (São Paulo: Perspectiva. UNIVERSIDADDES^^ANCA ••••••••••li ""6405132363 í i . Pombal: Paradox ofthe Enlightenment (1995). Atualmente leciona Estética e História da Arte no Instituto de Artes da Unesp. Escritores. também publicado em inglês. entre outros livros. foi professor visitante das universidades de Michigan. e The New Spain: From Isolation to Influence (1994). é professor do departamento de História da Faculdade de Filosofia. Ideologia da cultura brasileira (São Paulo: Ática. entre outros. revisto e ampliado. 1997). Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. É autor de História e dependência: cultura e sociedade em Manoel Bomfim (São Paulo: Moderna.362 Sobre os autores Sobre os autores 363 StuarfB. 1789-1801 (São Paulo: Cortez. Roberto Ventura Professor de Teoria Literária e Literatura Comparada na Universidade de São Paulo. Maxwell Fellow em Estudos Americanos e diretor de Estudos Latino-americanos do Instituto Nelson and David Rockefeller da Universidade de Harvard. e de estudos sobre o Brasil-colônia. 1979) e Segredos internos. é doutorando na mesma universidade. João José Reis Professor do Departamento de História da Universidade Federal da Bahia. 1984). KarenMocknowÜsboa Mestre e doutoranda em História Social pela Universidade de São Paulo. João Paulo G. KennethR. 1987). no Journal of Social History e na The Cambridge History ofLatin America. 1972). Liberdade por um fio: historio dos quilombos no Brasil (São Paulo: Companhia das Letras. do Texas e da Escola de Altos Estudos de Paris (1985) e Visiting Scholar da Universidade de Stanford (EUA). tendo sido professor visitante em várias universidades. Foi professor da Universidade Federal da Bahia e da Universidade de Nantes. com Flávio Gomes. assunto de seu mestrado e doutorado. Engenhos e escravos na sociedade colonial (São Paulo: Companhia das Letras. escravos e mestiços em um país tropical (Munique: W. Autor de Nordeste. Seus livros mais recentes incluem Chocolate. e Estilo tropical: história cultural e polêmicas literárias no Brasil (São Paulo: Companhia das Letras. é autor. É autor. de Burocracia e sociedade no Brasil colonial (São Paulo: Perspectiva. respectivamente. FrandscoAlambert Doutor em História pela Universidade de São Paulo.Schwartz Professor de História na Yale University (EUA). Princeton e Brandeis. IstvánJancsó Livre-docente pela Universidade Federal Fluminense. Ex-professor visitante das Universidades de Londres. em co-autoria. Pesquisa a literatura de viagem sobre o Brasil. 1989). Pimenta Mestre em História pela Universidade de São Paulo. a área de História Cultural do Instituto de Estudos Avançados da USP. 1998). Coordenador das obras coletivas Brasil em perspectiva (São Paulo: Difel. Doutor Honoris pela Universidade Federal da Bahia. Nos Estados Unidos. Ingressou no Conselho de Relações Internacionais após ter ensinado nas universidades de Yale. 1992). Bacharel e mestre pelo St. 1988). de 1993 a 1994. É autora de vários artigos e do livro A Nova Atlântida de Spix e Martius: natureza e civilização na "Viagem pelo Brasil (1817-1820)" (São Paulo: Hucitec/Fapesp. A Semana de 22 (São Paulo: Scipione. publicados na Hispanic American Historical Review. de Rebelião escrava no Brasil: a história do Levante dos Males (1835) (São Paulo: Brasiliense. na American Historical Review.

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