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Observação:

Esse livro foi publicado inicialmente em


1987 no Brasil e se encontra esgotado já
faz alguns anos. Assim, divulgá-lo é tarefa
para quem reconhece a importância do
mesmo.

A formatação do texto foi, na medida do


possível, preservada.
Sendo assim, o número que consta em
cada página é, efetivamente, a página do
livro publicado, permitindo, assim, que se
faça a referência correta, em caso de se
utilizar algum trecho dessa obra como
elemento em outro texto.

Espero que aquele que ler esse texto por


ele se apaixone assim como eu o fiz!

Brasília, maio de 2008.


Wilhelm Jensen

GRADIVA
Uma fantasia pompeiana

Tradução: Ângela Melim

Jorge Zahar Editor


Rio de Janeiro
Copyright © 1987 da tradução: Jorge Zahar Editor Ltda. rua México
31 sobreloja 20031 Rio de Janeiro, RJ

Todos os direitos reservados.


A reprodução não-autorizada desta publicação, no todo ou em parte,
constitui violação do copyright. (Lei 5.988).

Produção editorial
Revisão: Cláudio Estrella (copy); Andréa Rodrigues, Nair Dametto,
Nanei Ribeiro (tip.);
Diagramação: Celso Bivar;
Composição e Arte-final: Linolivro
Composições Gráficas Ltda.;
Arte-final de capa: António Sampaio;
Impressão: Gráfica Pertinho Cavalcanti Ltda.
ISBN: 85-85061-80-4

COLEÇÃO: TRANSMISSÃO DA PSICANÁLISE


Diretores: Marco António Coutinho Jorge Octavio de Souza

Psicanálise - uma ciência?


Questão desde sempre respondida pela afirmativa, encontra
sua problematização no ensino de Jacques Lacan. Se a
transmissibilidade na ciência pode ser formulada através de
indicações técnicas intersubjetivamente testáveis, o particular
do caso a caso da clínica psicanalítica derroga de saída a
viabilidade do projeto.
Um transmissível que considere a perda de verdade inerente à
instalação do saber é o que requer do psicanalista a reinvenção
perene da própria psicanálise.
Prática de enunciação, cuja teoria - produzida a partir da
ignorância que aflige o ser falante face às questões cruciais da
morte, do sexo, do nascimento e da loucura, ganha cidadania
junto aos enunciados científicos.
É o testemunho desta intrusão virulenta do sujeito nos
pressupostos objetivantes da ciência que a coleção
Transmissão da Psicanálise quer trazer ao leitor.
GRADIVA
uma fantasia pompeiana

Publicado originalmente em 1903, Gradiva — uma fantasia


pompeiana, romance do escritor alemão Wilhelm Jensen (1837
—1911), tornou-se célebre a partir do estudo que Freud lhe
consagrou em 1907, Delírios e Sonhos na "Gradiva" de Jensen.

Segundo Lacan, Freud era ávido de literatura, pois ela "lhe


servira para franquear a via desta idéia do inconsciente" e,
com efeito, diante do romance de Jensen, ele se encontra face
a uma obra que lhe permite estabelecer, mais uma vez, um
paralelismo, que lhe era tão caro, entre o procedimento
arqueológico e o método psicanalítico: Gradiva narra a estória
de um jovem arqueólogo e de seu tortuoso reencontro com
uma musa de sua infância.

A figura de Gradiva tornou-se, além disso, uma espécie de


musa dos surrealistas (sempre atentos aos trabalhos de
Freud), que em sua imagem mítica aglutinaram as imagens da
mulher enquanto ideal. Foi pintada por Salvador Dali (que
chamava sua mulher de Gala Gradiva), por André Masson, e
tornou-se o nome de uma galeria surrealista inaugurada por
André Breton em Paris, em 1937. Em seu ensaio Gradiva,
Breton atribuiu a ela o epíteto "aquela que avança",
originalmente adscrito ao deus da guerra Mars Gradivus.
PRÓLOGO A Prática Freudiana
Marco António Coutinho Jorge
Psicanalista Membro do Colégio Freudiano do Rio de janeiro

Publica-se aqui pela primeira vez em nossa língua o romance


Gradiva — uma fantasia pompeiana do escritor alemão Wilhelm
Jensen (1837-1911). Publicado originalmente em 1903,
Gradiva tornou-se célebre a partir do estudo que Freud lhe
consagrou em 1907, Delírios e sonhos na "Gradiva" de Jensen.
(1)

Sendo a primeira análise sistemática de uma obra literária que


empreendeu — a outra é seu estudo sobre as Memórias de um
doente dos nervos, (2) de Daniel Paul Schreber —, o trabalho
de Freud sobre Gradiva ocupa um lugar particular em sua
obra, o qual se tentará aqui apenas indicar.

A importância que Freud atribuía à literatura é salientada por


Lacan que observa, numa entrevista com estudantes da
Universidade de Yale, que Freud era ávido de literatura, pois
ela “lhe servira para franquear a via desta idéia do
inconsciente”. (3) Para exemplificar a legitimidade de tal
avidez, basta simplesmente que se reconheça o lugar nuclear
do mito edipiano, tomado emprestado à tragédia de Sófocles,
na elaboração freudiana.

Considerando-se que a obra monumental de Freud se encadeia


através de passos exercidos em múltiplas direções, para situar
Gradiva no conjunto de seus escritos cabe a pergunta: qual o
passo que

5
Freud dá com esse texto? A resposta para tal questão, e
sobretudo em se tratando de Freud, não é certamente unívoca,
e variadas foram as tentativas de situar Gradiva em sua obra.

James Strachey, editor inglês da Edição Standard das Obras


Completas de Freud, ressalta o fascínio sempre exercido sobre
este pela arqueologia, em geral, e por Pompéia, em particular,
fascínio exercido pela "analogia existente entre o destino
histórico de Pompéia (o soterramento e a posterior escavação) e
os eventos mentais que lhe eram tão familiares: o soterramento
pelo recalcamento e a escavação pela análise".(4)

Com efeito, em muitas passagens, Freud estabelece um


verdadeiro paralelismo existente entre o procedimento do
arqueólogo e o método psicanalítico. Assim é que num dos
derradeiros ensaios que escreveu, Construções em análise,
Freud se vale dessa comparação. Afirma ele aí que o trabalho
de construção do analista, "ou, se se preferir, de reconstrução,
assemelha-se muito à escavação, feita por um arqueólogo, de
alguma morada que foi destruída e soterrada, ou de algum
antigo edifício".(5)

No entanto, se os dois processos são idênticos, Freud ressalta


uma diferença fundamental que os distingue, o fato de que
aquilo com que o analista trabalha "não é algo destruído, mas
algo que ainda está vivo".(6) Se por um lado o analista
"trabalha em condições mais favoráveis do que o arqueólogo, já
que dispõe de material que não pode ter correspondente nas
escavações, tal como as repetições de reações que datam da
tenra infância e tudo o que é indicado pela transferência em
conexão com essas repetições",(7) isso significa que ele se
defronta "regularmente com uma situação que, com o objeto
arqueológico, ocorre apenas em circunstâncias raras, tais
como as de Pompéia

6
ou da tumba de Tutancâmon. Todos os elementos essenciais
estão preservados; mesmo coisas que parecem completamente
esquecidas estão presentes, de alguma maneira e em algum
lugar, e simplesmente foram enterradas e tornadas
inacessíveis ao indivíduo. Na verdade, como sabemos, é
possível duvidar de que alguma estrutura psíquica possa
realmente ser vítima da destruição total. Depende
exclusivamente do trabalho analítico obtermos sucesso em
trazer à luz o que está completamente oculto".(8)

O fato decisivo, revelado pela experiência psicanalítica, de que


nada é destruído no psiquismo — tudo nele sendo preservado,
e o esquecimento não implicando de modo algum no total
desaparecimento, mas sendo, antes disso, efeito da ação do
recalcamento que a análise visa suplantar — é o que impõe,
pois, a Freud, os limites desta comparação entre a arqueologia
e a psicanálise.

Freud já tematizara este problema amplamente em O mal-estar


na civilização, onde ele afirma: "No domínio da mente, por sua
vez, o elemento primitivo se mostra tão comumente
preservado, ao lado da versão transformada que dele surgiu,
que se faz desnecessário fornecer exemplos como prova".(9)
Procedendo ainda aí a uma comparação com os achados
arqueológicos, e partindo da questão sobre o que teria restado
na Roma atual da Roma Antiga para abordar o esquecimento
de que se trata no processo do recalcamento, Freud postula
que "só na mente é possível a preservação de todas as etapas
anteriores, lado a lado com a forma final (...)".(10)

Vê-se, assim, o relevo dado por Freud à analogia da psicanálise


com a arqueologia. E, ao ter, segundo Ernest Jones, sua
atenção chamada por Jung para a obra de Jensen, Freud vai
se deparar precisamente

7
com a história de um arqueólogo cujo "esquecimento das
mulheres", por assim dizer, obterá sua cura exatamente em
Pompéia!

Voltemos, então, à pergunta que formulamos de início, para


dizer que com seu trabalho sobre Gradiva Freud dá mais um
lance em seu projeto de dimensionar amplamente o espectro
de ação de sua teoria do inconsciente, a qual ele quis, desde
seus primórdios — veja-se apenas, a esse respeito, sua
Psicopatologia da vida cotidiana, obra cujo título é um violento
escândalo para a tradicional oposição clínica entre o normal e
o patológico —, situar mais além do contexto restrito da
prática clínica com neuróticos.

Trata-se nesse ponto precisamente da extensão da intervenção


da psicanálise, de que falará Lacan em sua Proposição de 9 de
outubro de 1967", referência que tem sido retomada entre nós
de modo mais vigoroso pelo ensino de M. D. Magno, ao tratar
do que denomina de prática freudiana: "A prática freudiana
transcende os limites da chamada relação analítica. A prática
freudiana inclui não apenas a prática analítica enquanto tal,
como também a incidência e a interferência do discurso
psicanalítico nos mais diversos campos do saber".(12)

Ao considerar Gradiva como "um estudo psiquiátrico",(13)


Freud afirma que se trata nesta obra de "um caso clínico e [da]
história de uma cura que parecem concebidos para ressaltar
determinadas teorias fundamentais da psicologia médica".(14)
Ê nessa medida que Lacan afirma que Freud via "na arte uma
espécie de testemunho do inconsciente" (15) em seu trabalho
sobre Gradiva, Freud se encontra precisamente diante da
possibilidade de demonstrar sua teoria do inconsciente
ilustrando-a com a limpidez da qual é capaz uma narrativa
poética. Tratava-se aqui

8
para Freud, mais uma vez, de recolher os achados do escritor e
do poeta, achados cuja emergência na obra é tornada possível
pela especial aptidão do artista para se deixar perpassar pelos
elementos que, estruturados como uma linguagem — como
sabemos a partir de Lacan —, apontam para o inconsciente,
para a Outra Cena.

São tais elementos que desejamos com esta publicação trazer


ao leitor brasileiro, em geral, e ao psicanalista, em particular.

Rio de Janeiro, novembro de 1986

NOTAS:

1. .Freud, S., Delírios e sonhos na "Gradiva" de Jensen, Edição Standard Brasileira


das Obras Completas, Rio, Imago, 1976, vol IX, pp. 13-98.
2. Schreber, D. P., Memórias de um doente dos nervos, Rio, Graal, 1985.
3. Lacan, J., "Conférences et entretiens dans dês universités nord-américaines",
Scilicet 6/7, Paris, Seuil, 1976, p. 33.
4. Freud, S., Delírios e sonhos na "Gradiva" de Jensen, op. cit., Nota do editor inglês,
pp. 14-15.
5. Freud, S., Construções em análise, Edição Standard Brasileira das Obras
Completas, Rio, Imago, 1975, vol. XXIII, p. 293.
6. Freud, S., Construções em análise, op. cit., p. 293.
7. Freud, S., Construções em análise, op. cit., pp. 293-294.
8. Freud, S., Construções em análise, op. cit., p. 294.
9. Freud, S., O mal-estar na civilização, Edição Standard Brasileira das Obras
Completas, Rio, Imago, 1974, vol. XXI, p. 86.
10. Freud, S., O mal-estar na civilização, op. cit., p. 89.
íl. Lacan, J., "Proposition du 9 octobre 1967 sur lê psychanaliste
de 1'École", Scilicet l, Paris, Seuil, 1968, pp. 14-30.
12. Magno, M. D., "Alguns apontamentos sobre a garantia e o passe", Revisão l, Rio,
Aoutra, p. 161.
13. Freud, S., Delírios e sonhos na "Gradiva" de Jensen, op. cit., p. 48.
14. Freud, S., Delírios e sonhos na "Gradiva" de Jensen, op. cit., p. 50.
15. Lacan, J., "Conférences et entretiens dans dês universités nord-
américaines", op. cit., p. 21.

9
Ao visitar uma das grandes coleções romanas de antiguidades,
Norbert Hanold descobrira um baixo-relevo que o
impressionara excepcionalmente. Alegrou-se de poder
encontrar, na volta à Alemanha, uma excelente cópia dele.
Alguns anos depois, esta se encontrava em lugar privilegiado
em seu gabinete de trabalho, cujas paredes estavam quase que
inteiramente revestidas de prateleiras cobertas de livros; a luz
caía diretamente sobre o relevo, e o sol poente o iluminava
durante alguns instantes. A escultura representava, de pé,
uma mulher caminhando, mais ou menos num terço do seu
tamanho natural. Ela era jovem, não criança e, evidentemente,
ainda não mulher, porém uma virgem romana de cerca de
vinte anos. Em nada lembrava os baixos-relevos tão freqüentes
de Vênus, de Diana, ou de alguma outra divindade do Olimpo,
nem Psique ou outra Ninfa. Havia nela alguma coisa da
humanidade contemporânea — expressão que não é tomada
num sentido desfavorável — atual, de algum modo, como se o
artista, ao invés de lançar, como teria feito hoje, um croquis
sobre uma folha de papel, tivesse esboçado um modelo de
argila, na rua, passando rapidamente ao lado da própria vida.
O corpo era grande e esbelto, os cabelos frouxamente
ondulados e quase que

11
completamente cobertos por um xale. O rosto, um pouco
pequeno, não tinha fascínio especial, mas era evidente que não
buscava tal efeito. Seus traços finos exprimiam uma tranqüila
indiferença em relação aos acontecimentos externos, o olho,
que olhava reto para frente, testemunhava uma visão excelente
e intacta, e de um voltar-se pacífico dos pensamentos para si
mesmo. Essa jovem mulher, que não atraía pela beleza de suas
formas, possuía, no entanto, uma coisa rara nas esculturas da
antiguidade, o encanto simples e natural de uma moça,
encanto que parecia ser a inspiração de sua própria vida. Ele
se devia, sem dúvida, à postura em que ela era representada.
Com a cabeça ligeiramente inclinada, tinha recolhida na mão
esquerda uma parte do vestido extraordinariamente
pregueado, que lhe caía da nuca aos calcanhares, e descobria
assim seus pés nas sandálias. O pé esquerdo estava à frente, e
o direito, disposto a segui-lo, só tocava o chão com a ponta dos
artelhos, enquanto que a planta e o calcanhar elevavam-se
quase verticalmente. Esse movimento exprimia ao mesmo
tempo a leveza ágil de uma jovem caminhando e um repouso
seguro de si, o que lhe dava, ao combinar uma espécie de vôo
suspenso com um andar firme, aquele encanto particular.

De onde ela vinha? Para onde ia? O doutor Norbert Hanold,


professor de arqueologia, não encontrava, na verdade, do
ponto de vista da ciência que ensinava, nada de
particularmente notável naquele baixo-relevo. Não era uma
escultura da época áurea, mas antes um tableau de genre ao
gosto romano, e ele não conseguia explicar a si mesmo o que é
que tinha chamado tanto a sua atenção; mas alguma coisa o
havia atraído e ele ficou, desde o primeiro momento, com
aquela impressão. Para designar a escultura, lhe tinha dado o
nome, para si

12
mesmo, de Gradiva, aquela que avança. Esse prenome, que os
poetas antigos reservam para Mars Gradivus, para o deus da
guerra que vai à batalha, parecia a Norbert, entretanto, o mais
característico do movimento da jovem, ou, empregando uma
expressão contemporânea, da jovem dama, pois ela
evidentemente não era de origem da classe inferior, mas filha
de um nobre, pelo menos de um honesto loco ortus. Talvez,
como sua aparência o sugerisse involuntariamente, fosse filha
de um magistrado patrício que desempenhava suas funções
sob os auspícios de Ceres, e ia-se ela, para uma atividade
qualquer, rumo ao templo da Deusa.

Mas o jovem arqueólogo não conseguia imaginá-la no contexto


de Roma, aquela grande cidade cheia de barulho. Aquela
postura, aquele andamento calmo e plácido, pareciam-lhe
pertencer não àquela agitação múltipla onde ninguém presta
atenção no outro, mas a uma pequena aldeia, onde todos a
conheceriam, onde todos parariam para dizer ao
acompanhante: é Gradiva (não conseguia pôr aqui seu
verdadeiro nome), a filha de... Ela tem o andar mais bonito entre
todas as moças da nossa cidade.

Estas palavras se tinham fixado em seu espírito, como se de


fato as tivesse escutado e tinham transformado uma hipótese
numa quase convicção. Na ocasião de sua viagem à Itália, ele
ficou algumas semanas em Pompéia, para estudar as ruínas e,
de volta à Alemanha, de repente lhe pareceu, um dia, que a
mulher representada no baixo-relevo caminhava sobre as lajes
que foram descobertas, e que estavam dispostas especialmente
para os pedestres. Elas permitiam que se atravessasse a rua
com os pés secos, em tempo de chuva, ainda assim deixando
um intervalo para as rodas dos carros. Ele a via passando um
dos pés por sobre o intervalo que separa duas pe-

13
dras, enquanto que o outro se dispunha a segui-lo. Ao mesmo
tempo em que ele contemplava a menina andando, tudo aquilo
que o cercava, perto ou longe, se projetava na realidade diante
de sua imaginação. Graças a seu conhecimento de
antiguidades, aquela mulher fazia nascer nele a visão de uma
rua comprida, estendendo-se entre duas fileiras de casas a que
se misturavam os numerosos edifícios dos templos e dos
pórticos. O comércio e a indústria mostravam tabernae
offidnae cauponae, butiques, ateliês e tavernas. Os padeiros
exibiam seus pães, as ânforas de argila afundadas em mesas
de mármore ofereciam todo o tipo de coisa útil para o lar e a
cozinha; num canto de rua, uma mulher sentada oferecia aos
compradores legumes e frutas em cestos. Tinha tirado a casca
de meia dúzia de grandes nozes para atrair os fregueses,
mostrando que o interior de seus frutos era irrepreensível e
fresco. Em toda parte onde a vista pousava, descobria cores
vivas: as muralhas alegremente coloridas, as colunas com
capitéis vermelhos e amarelos, tons deslumbrantes e
resplandecentes sob o esplendor do sol de meio-dia. Mais
adiante, sobre um pedestal elevado, erguia-se uma estátua de
uma brancura gritante que, através das brumas de calor que
faziam tremer o ar, parecia contemplar o Vesúvio, que ainda
não tinha a forma de cone acastanhado e solitário que tem
hoje, mas estava recoberto, até o pico rude e despojado, por
uma vegetação de um verde ofuscante. Pela rua não passava
ninguém além de jovens que procuravam sombra. O calor
estival do meio-dia paralisava o tráfego em outras horas tão
intenso. No meio de tudo isso, Gradiva caminhava pelas lajes
espaçadas, fazendo fugir um lagarto verde e ouro.

Era assim que aquilo tudo revivia diante dos olhos de Norbert
Hanold; entretanto, a contempla-

14
cão diária daquele rosto havia feito nascer nele uma outra
hipótese. O ar geral de seus traços lhe parecia ser, cada vez
mais, não de raça latina ou romana, mas grega. E pouco a
pouco ele adquiria a certeza dessa origem helênica. A antiga
colonização do sul da Itália pela Grécia lhe fornecia uma série
de motivos suficientes, e ele daí deduzia uma nova série de
agradáveis suposições. A jovem domina talvez tivesse falado
grego em casa e fosse educada, nutrida, pela educação grega.
E seu rosto, bem examinado, o confirmava, pois sob a sua
modéstia se ocultava, sem dúvida, prudência e uma
inteligência fina e cheia de espírito.

Essas suposições e essas descobertas não podiam, no entanto,


bastar para motivar um real interesse arqueológico por aquela
pequena escultura, e Norbert reconhecia que era outra coisa
completamente diferente, à margem da ciência que ele
ensinava, que o levava a se ocupar dela com tanta freqüência.
Tratava-se, para ele, de chegar a um juízo crítico: o andar de
Gradiva, tal como o havia reproduzido o artista, estava de
acordo com a vida real?

Mas não conseguia tirar a limpo essa questão, e sua rica


coleção de obras de arte da antiguidade, nesse assunto, não
lhe trazia auxílio algum. A posição quase vertical do pé direito
lhe parecia exagerada. Toda vez que ele próprio fazia essa
experiência, o pé que ficava atrás durante seu movimento
encontrava-se sempre em posição menos vertical; formulando
matematicamente, durante o breve instante em que o pé
permanecia no lugar, o seu só fazia, em relação ao chão, um
semi-ângulo reto, o que lhe parecia ao mesmo tempo mais
natural e mais apropriado ao mecanismo do andar. Ele chegou
a se aproveitar, uma vez, da presença de um jovem anatomista
amigo seu, para lhe colocar a questão, mas este também foi

15
incapaz de resolvê-la definitivamente, porque nunca tinha feito
observações sobre o tema. Repetida a experiência, o amigo
chegou ao mesmo resultado, mas acrescentou que não saberia
dizer se o andar feminino se distinguia do masculino, e a
questão não foi solucionada.

Apesar disso, essa discussão não foi infrutífera, na verdade


levou Norbert Hanold a uma coisa que ainda não lhe tinha
ocorrido: decidir fazer ele próprio observações junto à
natureza, a fim de esclarecer o caso. Mas isso o obrigava a
uma ação que lhe era totalmente estranha. O sexo feminino
não existia até aqui para ele, a não ser nas espécies do bronze
ou do mármore, e ele nunca tinha dado a menor atenção a
suas representantes contemporâneas. Mas seu desejo de
conhecer lhe inspirava um tal ardor científico que ele se
entregou a essa observação específica, reconhecida como
indispensável. Numerosas dificuldades se interpunham na
multidão da grande cidade e não o faziam esperar resultado, a
não ser indo às ruas pouco freqüentadas. Aí também, na maior
parte dos casos, os vestidos longos tornavam o
empreendimento completamente impossível, ainda mais
porque somente as domésticas tinham saias curtas e os
sapatos grosseiros que elas usavam, na maioria, não
permitiam que entrassem em consideração para a solução do
problema. Entretanto, ele continuou com perseverança suas
observações, em tempo seco assim como em tempo úmido.
Percebeu que este último lhe era mais propício, pois obrigava
as damas a levantar a barra das saias. O modo como ele
examinava os pés delas devia inevitavelmente desagradar
algumas mulheres; às vezes, a fisionomia contrariada de uma
das que ele assim olhava mostrava que se tomava o seu
comportamento como uma audácia ou uma grosseria; às vezes
também, sendo Norbert um moço

16
de aspecto bastante sedutor, uma espécie de encorajamento se
lia em alguns olhos; mas ele não compreendia o sentido desses
olhares. Pouco a pouco, sua perseverança ia sendo
recompensada. Colecionava um número considerável de
observações e encontrava entre elas numerosas diferenças. A
maioria das mulheres deixava escorregar a planta do pé quase
sobre o chão, e havia poucas que a erguiam obliquamente
numa posição mais graciosa. Mas nenhuma delas tinha o
andar de Gradiva, o que o satisfez bastante: ele não se tinha
enganado em seu exame do baixo-relevo, do ponto de vista
arqueológico. Mas, suas observações o contrariaram, porque
ele achava bonita a posição vertical do pé suspenso e
lamentava que ela apenas tivesse sido obra da imaginação e da
vontade do escultor e não correspondesse à realidade.

Pouco tempo depois de suas observações do pé feminino o


terem levado a essa conclusão, ele teve, uma noite, um sonho
horroroso e aterrador. Estava na antiga Pompéia, precisamente
no dia 24 de agosto de 79, o ano da terrível erupção do
Vesúvio. O céu envolvia a cidade, destinada à destruição, com
um sombrio manto de fumaça. As chamas ardentes da cratera
apenas permitiam que se percebesse qualquer objeto numa luz
vermelho-sangue; todos os habitantes, presas de um terror
desconhecido, apavorados, buscavam salvação na fuga,
sozinhos ou em grupos confusos. Os lapilli e a chuva de cinza
se abatiam em torno de Norbert, mas como acontece
milagrosamente nos sonhos, ele não era atingido e, do mesmo
modo, sentia no ar a fumaça mortal do enxofre, sem ser por
isso impedido de respirar. Ele se encontrava na orla do Fórum,
perto do templo de Júpiter, quando de repente percebe Gradiva
à sua frente, a pouca distância. Até esse momento, o
pensamento de que

17
ela pudesse estar presente nem sequer lhe tinha aflorado,
agora, essa idéia surgia e lhe parecia completamente natural!
Gradiva era pompeiana, morava em sua cidade natal e, com
toda certeza, na mesma época que ele. Ele a reconhecia ao
primeiro olhar, a visão que tinha dela era perfeitamente exata,
até o mínimo detalhe, mesmo o seu andar, que ele designava
com a expressão lente festinans. Ela atravessava assim, com o
seu andar macio e tranqüilo, o lajeado do Fórum e se dirigia ao
templo de Apolo, em tranqüila indiferença para com tudo o que
a cercava, indiferença que lhe era característica. Parecia que
ela não se apercebia do destino que se abatia sobre a cidade,
absorvida unicamente em seus pensamentos; ele o esquecia
também, pelo menos por alguns momentos, o terrível
acontecimento, e procurava, ao pensamento de que a viva
realidade da moça fosse desaparecer em breve, gravar o mais
profundamente possível a sua imagem na memória. Mas a todo
momento lhe vinha à mente que se ela não fugisse
rapidamente, tornar-se-ia vítima da catástrofe geral, e um
terror violento arrancou dele um grito de aviso. Ela o ouviu,
pois voltou a cabeça em sua direção, de tal modo que ele viu o
rosto um tanto de lado, mas expressando uma incompreensão
total; sem mais prestar atenção, ela retomou o caminho no
mesmo rumo anterior. Seu rosto descoloriu-se como se ela se
tivesse transformado em mármore; ela continuou ainda seu
caminho até o pórtico do templo, mas, aí chegando, sentou-se
entre as colunas, sobre um degrau onde lentamente encostou
a cabeça. Agora, os lapilli caíam em tal número que se
pareciam com uma cortina completamente opaca. Apressando-
se na direção dela, ele encontrou o caminho do local onde ela
havia desaparecido de sua vista, e lá estava ela deitada, sobre
o grande degrau, protegida pela sa-

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liência do telhado. Parecia dormir, estendida, mas não
respirava mais; os vapores do enxofre evidentemente a tinham
sufocado.

Vindo do Vesúvio, um reflexo vermelho pairava sobre seu rosto


que, as pálpebras fechadas, em tudo se assemelhava ao de
uma bela escultura. Seus traços não eram perturbados nem
pelo medo, nem por qualquer contorção: exprimiam uma
calma sobrenatural que se resignava com tranqüilidade com o
irreversível. Mas eles logo tornaram-se mais indistintos,
porque agora o vento ali levava a chuva de cinza, que se
estendia sobre eles como um véu de gaze cinzenta para em
seguida fazer desaparecerem os últimos vestígios do rosto, e
que terminava, como uma tempestade de neve nas regiões do
norte, por cobrir todo o corpo com um manto uniforme. De
ambos os lados erguiam-se as colunas do templo de Apolo,
mas a chuva de cinza que rapidamente se acumulava perto
delas logo as envolveu até à metade.

Quando o doutor Norbert Hanold despertou, ainda tinha nos


ouvidos os gritos perturbados dos habitantes de Pompéia e o
zunido surdo das vagas do mar agitado se despedaçando. Em
seguida, retomou a consciência; o sol lançava sobre sua cama
uma brilhante faixa dourada. Era uma manhã de abril e o
barulho múltiplo da cidade grande, os gritos dos comerciantes
e o ruído dos carros subiam até o andar em que ele morava.
Apesar de tudo, o quadro do sonho, com todos os detalhes,
ainda se encontrava diante de seus olhos abertos, e da forma
mais nítida. Foi preciso algum tempo para que pudesse
libertar os sentidos de um semitorpor e se desse conta de que,
na realidade, não tinha participado na noite anterior da
catástrofe ocorrida cerca de dois mil anos antes no golfo de
Nápoles. Um pouco antes de se vestir, ele havia se livrado mais
ou menos da obses-

19
são, mas não conseguia, fazendo uso da razão, evitar a idéia de
que Gradiva tinha vivido em Pompéia e lá fora sepultada no
ano de 79. Sua primeira hipótese se transformava, ao
contrário, em convicção, e esta se unia aos precedentes. Ele
olhava melancolicamente, na parede do quarto, o antigo baixo-
relevo, que tinha ganhado para ele uma nova importância. Era,
em certa medida, um monumento funerário, no qual o artista
havia conservado para a posteridade a imagem da mulher que
tinha deixado a existência numa idade tão jovem. Mas quando
a olhava com o espírito bem desperto, a expressão de toda sua
atitude não deixava nenhuma dúvida: de fato ela tinha se
deitado, na noite fatal, para morrer, com uma calma
semelhante à que demonstrara no sonho. De acordo com o
antigo provérbio, os favoritos dos deuses são aqueles que eles
fazem com que deixem a terra na flor da idade.

Norbert, vestido ainda com o roupão leve da manhã, de


chinelos, estava de pé diante da janela aberta e olhava para
fora. A primavera, afinal chegada às regiões do norte, estendia-
se lá fora, não se manifestando, na grande cidade de pedra, a
não ser pela leveza do ar e o azul do céu, mas um prenúncio
avisava os sentidos, despertava a necessidade de lonjuras
radiantes, de verdura, de folhas, de perfume do campo e de
canto de passarinhos. O reflexo dela chegava até aqui. As
mulheres do mercado, na rua, tinham enfeitado suas cestas
com flores do prado e, numa janela entreaberta, um canário
fazia ressoar seus cantos. O pobre rapaz se emocionara; ele
adivinhava por trás dos gritos claros do pássaro, apesar de seu
tom de triunfo, o desejo ardente da liberdade, do ar puro e das
distâncias.

Mas os pensamentos do jovem arqueólogo não estacionaram aí


senão por um pequeno espaço de

20
tempo: outra coisa os solicitava. Ele percebia agora apenas que
não tinha notado, em particular, se Gradiva, viva, andava
assim como a representava o baixo-relevo e, pelo menos, se
andava de modo diferente das mulheres de hoje. Isso era bem
surpreendente, já que era a origem do interesse científico que
ele tinha pelo baixo-relevo, mas se explicava, por outro lado,
pela emoção que sentira diante do perigo de morte que a
ameaçava.

Nesse momento, alguma coisa o tocou bruscamente e, na hora,


ele não pôde discernir de onde vinha o choque. Mas logo
reconheceu a origem. Embaixo, na rua, de costas para ele,
andava num passo largo uma mulher, uma jovem dama, a
julgar por seu aspecto e vestuário. Na mão esquerda segurava
a saia ligeiramente suspensa, que só lhe chegava aos
calcanhares, e ele teve de repente a impressão de que, durante
o caminhar, a planta daquele pé fino que havia ficado para
trás erguia-se verticalmente durante um breve instante, a
ponta roçando a superfície do solo; parecia, pelo menos, que
era assim, pois a olhando de tão alto e de uma tal distância,
não podia ter certeza.

De repente, Norbert Hanold se encontrava na rua, sem saber


bem como chegara ali. Tinha se precipitado como um menino
desliza pelo corrimão para descer a escada, e corria entre as
charretes, os carros e os passantes. Estes últimos o olhavam
com espanto e alguns deixavam escapar exclamações meio
debochadas, meio engraçadas. Ele nem procurava saber que
era com ele que falavam, buscava a jovem com o olhar e
pensou distinguir o vestido dela a algumas dúzias de passos,
mas não pôde perceber que a parte superior, a metade inferior
e os pés estavam ocultos pela multidão apressada na calçada.
Nesse momento, uma velha vendedora de legumes,

21
obesa, puxou-o pela manga e, fazendo-o parar, disse-lhe, meio
rindo:

— Diga, filhinho, encheu a cara esta noite e agora está


procurando a cama na rua. Faria melhor se voltasse para casa
e se olhasse no espelho.

O riso que estourou à sua volta lhe confirmou que não estava
em trajes dignos de se apresentar em público e o convenceu de
que tinha se dirigido para fora do quarto sem considerações.
Isso o atemorizou, porque se preocupava com a aparência e,
abandonando seus projetos, voltou rapidamente para o
apartamento. Os sentidos perturbados pelo sonho eram ainda,
evidentemente, joguete de falsas aparências, pois a última
coisa que ele notou foi que os risos e gritos por um instante
fizeram a jovem voltar a cabeça e ele jurava ter visto, não um
rosto desconhecido, mas aquele mesmo que Gradiva mostrara
quando o tinha olhado no sonho.

O doutor Norbert Hanold encontrava-se na agradável situação


de, estando à frente de uma fortuna considerável, ser dono
soberano de seus feitos e gestos, e se algum gosto se revelava
nele, não tinha necessidade de que fosse aprovado por
nenhuma outra autoridade além de si mesmo. Nisso se
distinguia muito favoravelmente do canário, que só podia
exprimir em vão, através de seus gritos, sua necessidade
natural de deixar a gaiola pelas alturas ensolaradas; no
entanto, não deixava de compartilhar semelhanças com

22
o pássaro. Com efeito, o jovem arqueólogo não tinha nascido
na liberdade da natureza nem tinha sido criado nela, mas ao
contrário, desde seu nascimento tinha sido fechado pelas
grades da gaiola com a qual o cercara a tradição familiar, a
boa educação e as disposições elaboradas pelos outros em
relação a ele. Desde a tenra infância, não havia dúvida, na
casa de seus pais, enquanto filho único de um professor de
universidade que tinha feito descobertas relativas à
antiguidade, tinha sido destinado a conservar, e se possível
aumentar, o lustro do nome de seu pai, seguindo o mesmo
caminho, e via a sucessão nessa carreira como tarefa evidente
para o seu futuro. Tendo ficado só após a morte dos pais,
ateve-se fielmente a essa idéia; fez a viagem obrigatória à Itália
depois de passar por excelentes exames de filologia e
abundantemente contemplar os originais das obras-primas da
escultura antiga, das quais até então tinha visto apenas
reproduções. Em nenhum outro lugar poderia encontrar algo
mais instrutivo que as coleções de Roma, Nápoles e Florença, e
podia felicitar-se por ter utilizado o tempo de sua estada
tirando o maior proveito para a sua ciência. Voltou ao seu país
inteiramente satisfeito, para mergulhar nos estudos com as
novas aquisições. Não lhe ocorria senão vagamente que afora
os objetos que testemunhavam um passado longínquo,
pudesse existir um presente em torno dele. O mármore e o
bronze não eram para ele matérias mortas, mas a única coisa
realmente viva, a que exprimia o valor e a razão de ser da
existência humana. Assim ele se mantinha entre suas paredes
cobertas de livros e de quadros, sem necessidade de qualquer
relacionamento com os outros homens, pelo contrário,
evitando-os, como se constituíssem uma pura perda de tempo,
resignando-se, no máximo, contra a sua vontade, ao tributo
inevi-

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tável de algumas obrigações mundanas, às quais era
constrangido pelas antigas relações de sua família. Mas se
sabia que ele freqüentava esse tipo de reunião sem ver e sem
ouvir o que se passava à sua volta, que ele ia embora a
qualquer pretexto, logo depois do almoço ou do jantar, se fosse
possível, e que jamais cumprimentava na rua uma pessoa que
tivesse estado à mesma mesa com ele. Tudo isso não permitia
que ele fosse visto sob prisma muito favorável, sobretudo pelas
jovens mulheres, pois se acontecia de encontrar-se com uma
delas, mesmo que, por exceção, tivesse trocado com ela
algumas palavras, ele a olhava como uma estranha figura
desconhecida e não a cumprimentava.

Sendo a própria arqueologia uma ciência um tanto bizarra, ao


aliar-se com o comportamento de Norbert Hanold produzira
uma curiosa mistura e não lhe granjeou grande simpatia da
parte dos outros, coisa que em nada lhe havia ajudado a
usufruir da existência, hábito tão próprio da juventude. Mas,
por uma espécie de vigilante atenção, a natureza lhe tinha
posto no sangue, como uma compensação e como, de certa
forma, um corretivo de tipo completamente oposto à ciência,
uma imaginação muito viva, e que se expressava nele não só
em sonho, mas muitas vezes em estado de vigília, o que, na
realidade, não predestinava particularmente o seu espírito a
um método grave e severo de meditação. Esse dom era outro
ponto de semelhança em relação ao canário. Aquele canário,
na realidade, se encontrava no cativeiro e jamais tinha
conhecido outra coisa além da gaiola que o aprisionava, mas
levava consigo, apesar disso, o sentimento de que alguma
coisa lhe faltava e exprimia essa necessidade do desconhecido
por meio da garganta. Também Norbert Hanold compreendia
aquele pássaro e, de volta a seu quarto, outra vez se

24
condoía dele, acudindo de novo à janela. Era ao mesmo tempo
afetado pelo sentimento de que também a ele faltava qualquer
coisa, sem que pudesse dizer com certeza o que era: meditar
sobre este último ponto de nada lhe servia; o ar leve da
primavera, os raios do sol, o espaço perfumado lhe punham no
espírito um sentimento vago e o conduziam à comparação —
também ele se encontrava entre as grades de uma gaiola. Mas
logo lhe veio à mente uma idéia que o consolou, que sua
situação era infinitamente melhor que a do canário, pois
possuía asas que nada impedia de voarem rumo à liberdade
quando tivesse vontade.

Poder-se-ia, entretanto, meditar mais tempo sobre essa idéia.


Norbert se dedicava a ela por instantes, mas não ia além do
tempo necessário a se decidir a fazer uma viagem naquela
primavera. Intenção que pôs em execução no mesmo dia. Fez
uma mala pequena e, no início da noite, deitava um último
olhar de pena sobre a Gradiva que, iluminada pelos últimos
raios do sol, parecia andar mais levemente que nunca sobre as
lajes invisíveis. Tomou o trem noturno para o Midi. Embora
tivesse sido empurrado para essa viagem por um sentimento
indefinível, a reflexão posterior lhe sugeriu que o deslocamento
devia servir a fins científicos. Notou que tinha esquecido de
decifrar importantes questões relativas a estátuas preservadas
em Roma, e foi para lá que rumou diretamente, sem parar no
caminho, fazendo uma viagem de um dia e meio.

25
Pouca gente tem a experiência de, sendo jovem, rica e
independente, ir da Alemanha à Itália, pois as pessoas que
possuem esses três privilégios nem sempre têm acesso ao
sentimento de tal beleza. Principalmente porque tais pessoas, e
infelizmente é o que ocorre na maioria dos casos, fazem essa
viagem a dois durante os dias e as semanas que se seguem a
seus casamentos; elas não permitem que nada passe por seus
olhos sem expressar seu contentamento através de inúmeros
epítetos superlativos, mas, no final das contas, nada trazem de
volta além do que poderiam ter descoberto, sentido e
saboreado se tivessem ficado em casa. Esses casais têm o
hábito de voar por sobre os Alpes na direção contrária à dos
pássaros migradores.

Norbert Hanold foi, durante a viagem, cercado de adejos e


arrulhos, como se se encontrasse num pombal ambulante, e
foi assim, pela primeira vez na vida, obrigado a prestar
atenção, com o olho e o ouvido, nas criaturas humanas que o
cercavam. Embora essas pessoas fossem em sua maioria, a
julgar pela língua que falavam, alemães, compatriotas seus, ele
não sentia nenhum orgulho pelo fato de eles pertencerem à
sua raça, mas experimentava, antes, o sentimento contrário
pois, com razão, até aqui ele não tinha tentado pensar no
Homo Sapiens — segundo a classificação de Lineu — a não ser
o mínimo possível. Levou em consideração, em primeiro lugar,
a parte feminina dessa espécie zoológica. Era, aliás, a primeira
vez que ele via de tão perto criaturas como aquelas associadas
pelo instinto da aproximação e era incapaz de imaginar o que é
que poderia ocasionar aquela proximidade recíproca. A razão
pela qual as mulheres podiam ter escolhido homens como
aqueles lhe parecia incompreensível, mas o motivo por que os
homens tinham feito sua opção por mulheres

26
como aquelas lhe parecia ainda mais misterioso. Cada vez que
erguia a cabeça era obrigado a deixar seu olhar cair sobre o
rosto de uma delas e não encontrava nenhum detalhe que
desse prazer ao olho por sua forma agradável ou que
exprimisse uma alma terna ou espirituosa. Com certeza lhe
faltava algum padrão para avaliá-los, pois não se pode
comparar o sexo feminino contemporâneo com a sublime
beleza das obras antigas, mas ele tinha a vaga sensação de
que não era responsável pela injustiça desse método e de que
esses rostos não possuíam algo que ele tinha o direito de exigir
no dia-a-dia. Também refletiu durante algumas horas acerca
da atitude extraordinária dos homens e chegou à conclusão de
que, se dentre todas as loucuras humanas, o primeiro lugar
cabe sempre ao casamento, como a maior e a mais
inconcebível, conviria, no entanto, reservar o cetro da loucura
a essas absurdas viagens de lua-de-mel à Itália.

Mais uma vez se recordou do canário que tinha deixado na


prisão, pois ele estava também numa gaiola, e em torno dele
passavam apressados os rostos dos jovens casais, tão felizes
quanto vazios de expressão, e entre eles somente de quando
em quando conseguia olhar pela janela. Aquilo que desfilava
no exterior, diante de seus olhos, lhe provocava uma
impressão completamente diferente da que recebera alguns
anos antes, o que podia muito bem se explicar pela situação
na qual se encontrava. A folhagem das oliveiras o deslumbrava
com maior esplendor, os ciprestes e os pinheiros isolados que
se recortavam aqui e ali no céu lhe mostravam contornos ao
mesmo tempo mais belos e mais curiosos, as aldeias
inclinadas pelas montanhas lhe pareciam mais encantadoras e
cada uma delas, como uma pessoa, parecia ter uma fisionomia
diferente. Ele viu no lago Trasi-

27
mene um azul úmido que nunca tinha notado na superfície de
água nenhuma. Veio-lhe à mente que a estrada estava cercada
dos dois lados por uma natureza que lhe era estranha, como
se tivesse sido obrigado a atravessá-la na luz de um
crepúsculo perpétuo ou durante uma chuva cinzenta e a visse
pela primeira vez sob cores opulentas douradas pelo sol. Às
vezes, se surpreendia com um desejo do qual não havia
suspeitado até então; o de descer e poder encontrar o caminho
que deveria fazer a pé, para tal ou tal lugar, porque lhe parecia
que alguma coisa particular e de certa forma misteriosa ali se
ocultava. Mas não se deixava seduzir por sugestões tão loucas,
o direitíssimo o conduzia direto a Roma, onde o acolheu,
mesmo antes de sua chegada, todo o mundo antigo, com as
ruínas do templo da Minerva Medica. Tendo deixado a gaiola
cheia de obstáculos e atingido a liberdade, estabeleceu-se
primeiramente num hotel que já conhecia, a fim de poder
procurar sem pressa um apartamento particular a seu gosto.

Não encontrou um que lhe conviesse durante todo o dia


seguinte e teve de voltar a seu albergo e deitar-se, cansado que
estava do ar italiano, ao qual não estava acostumado, da
vivacidade do sol, da longa caminhada e do barulho da rua. Já
começava a perder a consciência e dormir quando a entrada
no quarto vizinho de dois viajantes que o tinham alugado
naquela mesma manhã o tirou do sono. O quarto se
comunicava com o de Norbert através de uma porta, protegida
por um armário. As vozes que atravessavam a parede fina
eram as de um homem e uma mulher, que evidentemente
pertenciam à classe dos pássaros migradores da primavera, os
alemães com os quais viajara na véspera desde Florença. A
disposição dos dois parecia dar um aval muito favorável à
cozinha do hotel e era sem dúvida à boa qualidade

28
do vinho castelli romani que deviam, muito nitidamente, a
troca de sentimentos em alemão do norte.
— Meu adorável Augusto!
— Minha adorável Greta!
— Outra vez um para o outro!
— Sim, enfim sós!
_ Ainda devemos nos preocupar com amanhã? _ Veremos no
Baedeker à hora do café da manhã o que nos falta fazer.
— Meu Augusto querido, você me agrada mais que o Apolo do
Belvedere.
— Eu pensei a mesma coisa, minha doce Greta, você é muito
mais linda que a Vênus Capitolina.
_ O vulcão que vamos escalar fica perto daqui?
_ Não, para chegar lá, acho que teremos de fazer uma viagem
de trem de algumas horas.
— Se ele começasse a entrar em erupção exatamente no
momento em que nós estivéssemos no meio, o que você faria?
_ Não teria outra idéia senão a salvar e tomaria você nos
braços, assim.
— Não se fira com um alfinete!
_ Mas eu não posso imaginar coisa mais doce que derramar
sangue por você.
— Meu querido Augusto!
— Minha adorável Greta!

Assim terminou, no momento, a conversa. Norbert ainda ouviu


um barulho vago e o arrastar de cadeiras, depois voltou a
mergulhar em seu meio-sono. Este o conduziu a Pompéia no
momento da erupção do Vesúvio. Uma agitação preocupada
reinava em torno dele, homens em fuga apressavam-se dos
seus lados e de repente ele percebeu o Apolo do Belvedere
levando a Vênus Capitolina. Pegava-a e a colocava numa
sombra obscura que dissimulava um ob-

29
jeto qualquer. Devia ser um carro ou carroça no qual a iria
levar, pois dali provinha um rangido. Esse evento mitológico
não surpreendia muito o jovem arqueólogo, mas o que lhe
parecia digno de atenção era o fato de o casal não empregar o
grego, mas o alemão, e de ele os ouvir dizer um tempo depois,
quase retomando consciência:

— Minha adorável Greta!


— Meu querido Augusto!

As imagens oníricas em seguida se transformavam


completamente. Em torno do sonhador agora reinava um
pesado silêncio no lugar dos barulhos agitados e a fumaça e o
brilho das chamas foram substituídos pela luz quente e clara
do sol que iluminava as ruínas da cidade soterrada. Esta se
transformava aos poucos e se tornava um leito de lençóis
brancos iluminados por raios dourados que aos poucos
subiam até os olhos do adormecido. Norbert Hanold despertou
no meio do esplendor cintilante de uma jovem manhã romana.

Alguma coisa, com efeito, havia mudado nele, sem que ele
pudesse dizer o quê, pois de novo era presa daquele
sentimento particularmente angustiante de que estava preso
em uma gaiola que, desta vez, chamava-se Roma. Quando
abriu a janela, dúzias de mercadores lançaram a seu ouvido
gritos ainda mais agudos que em sua Alemanha natal. Ele
nada tinha feito além de vir de uma massa de pedras cheia de
barulho a outra, e uma apreensão inquietante e misteriosa o
afastava das coleções de antiguidades, onde desejava
reencontrar-se com o Apolo do Belvedere e a Vênus Capitolina.
Do mesmo modo, depois de uma breve deliberação, abandonou
seu projeto de procurar para si um apartamento, fez
rapidamente a mala e tomou o trem para ir adiante, mais para
o sul. Fez essa viagem, para evitar os casais insepará-

30
veis, na terceira classe, esperando, por outro lado, ter a
companhia daqueles tipos do povo italiano que antigamente
serviram de modelo às obras de arte, coisa de que tiraria
proveito para a ciência que estudava. Mas não viu nada além
da sujeira popular, o fedor assustador dos charutos da região,
uns homenzinhos tortos gesticulando braços e pernas e umas
mulheres perto das quais aquelas que viu emparelhadas com
seus compatriotas lhe pareciam, quando as revia na memória,
deusas do Olimpo.

Dois dias depois, Norbert Hanold estava vivendo num quarto


meio duvidoso, balizado de camera no Hotel Diomedes, na
frente do Ingresso, escavações de Pompéia guardadas por
eucaliptos. Tivera a intenção de passar um bom tempo em
Nápoles para aí estudar de novo com cuidado os afrescos e as
esculturas do Museo Nazionale, mas lhe ocorreu a mesma
coisa que em Roma. Na sala onde se reúnem os utensílios do
lar de Pompéia, viu-se no meio de uma nuvem de vestidos
femininos de viagem da última moda que, sem dúvida,
sucederam imediatamente a virginal auréola dos vestidos de
noiva em cetim, seda ou gaze. Cada uma das mulheres que os
vestia estava presa ao braço de um companheiro mais jovem
ou mais idoso que ela, de roupa igualmente impecável, e o
discernimento recentemente adquirido por Norbert, numa
espécie de ciência que ele havia até então ignorado, tornou-se
tal que ao primeiro olhar reco-

31
nheceu que todos eram Augusto e que todas eram Greta. Mas,
em pleno dia, o clima geral de sua conversa tinha se
modificado. A presença de ouvintes fazia-os acalmarem-se e
baixar o tom.

— Oh! Veja este aqui. Eram pessoas práticas; devíamos


comprar um escaldador como este.
— Sim, mas para a comida que a minha mulher vai fazer,
deveriam ser de prata!
— Será que o que vou preparar para você vai lhe agradar
tanto?

A pergunta vinha acompanhada de um olhar malicioso, mas


um dardo brilhante respondia à cintilação desse olhar:

— O que você servir, para mim só poderá ser delicioso.


— Mas olhe! Um dedal! Aquela gente já usava agulha.
— É o que parece. Mas não serviria para você. Ë grande
demais pro seu dedo.
— Você acha mesmo? E você prefere dedos finos aos grossos?
— Nem preciso ver os seus. Eu os descobriria na maior
escuridão, no meio de todos os dedos do mundo.
— Tudo isto é mesmo muito interessante. Precisamos mesmo
ir a Pompéia?
— Não, não vale a pena. Não tem nada lá além de um monte
de pedra velha. Tudo o que tinha valor, diz o Baedeker, foi
retirado. Além disso, temo que o sol lá seja forte demais para a
sua pele delicada, e isso eu não poderia me perdoar.
— E se de repente você tivesse uma mulher negra?
— Felizmente, a minha imaginação não vai tão longe assim,
mas uma mancha vermelha no seu narizinho já me deixaria
muito aborrecido. Se você qui-

32
ser, poderemos ir amanhã a Capri, meu amor. Dizem que é
tudo uma beleza, e na admirável luz da caverna azul enfim eu
conseguiria ver toda a perfeição do grande prêmio que tirei na
loteria da sorte.
— Olha, se alguém nos ouve, me dá vergonha. Mas onde você
me levar tudo estará bem e será sempre assim posto que você
estará do meu lado.

Perto de Augusto e Greta, um tanto sérios e moderados porque


eram ouvidos e vistos, Norbert Hanold tinha a impressão de
que haviam espalhado mel à sua volta e de que era obrigado a
engoli-lo gole por gole. Aquilo lhe fez mal e ele saiu do Museo
Nazionale para beber um copo de vermute na mais próxima
osteria. Dez vezes se perguntou: por que essas pessoas unidas
em pares, multiplicadas às centenas, enchem os museus de
Nápoles, Roma e Florença, ao invés de se preocuparem um com
o outro no seio da pátria alemã?

Mas uma parte dessas conversas e diálogos carinhosos lhe


ensinou, pelo menos, que a maioria desses casais de rolinhas
não ia se aninhar nas ruínas de Pompéia, porém considerava
mais conveniente voar para Capri. Isso fez com que se
decidisse rapidamente a fazer aquilo que eles não faziam. Isso
lhe dava, comparativamente, maior oportunidade de se evadir
do pelotão de frente daquela tropa de galinholas e de encontrar
aquilo que buscava sem sucesso naquele jardim das
Hespérides. Era também um casal, não um casal de jovens
noivos, mas um casal fraternal que não ficava arrulhando sem
parar, o Silêncio e o Saber, dois irmãos calmos, junto aos
quais se podia ter certeza de sempre encontrar um refúgio de
satisfação. O desejo que sentia por eles era algo que lhe tinha
sido até então desconhecido; poder-se-ia dar, a essa vontade,
se isso não constituísse um contra-senso, o epíteto de
"apaixonada" Uma hora mais tarde já

33
estava ele instalado em uma carozella que o levava
rapidamente através de Portici e Resina! Viajava por uma
estrada que parecia tão magnificamente ornada como a de um
conquistador da antiga Roma: à direita e à esquerda, em quase
toda casa, estendiam-se como que uns tapetes amarelos. Era,
suspensa, pasta da Napoli em abundância, chamada de
macaroni, vermicelli, spaghetti, canelloni e fidelini, conforme a
grossura, a iguaria nacional à qual a fumaça gordurosa das
tascas, as nuvens de poeira misturadas às moscas e pulgas, as
escamas de peixe que voavam no ar, o fumo das chaminés e os
outros fatores diurnos e noturnos davam todo o sabor de seu
gosto especial.

O cone do Vesúvio, bem próximo, dominava campos de lava. À


direita se estendia o golfo, de um azul cintilante e como que
mesclado de malaquita líquida ou lápis-lazúli. A pequena
casca de noz montada sobre rodas voava como se estivesse
sendo empurrada por uma terrível tempestade e cada um de
seus instantes, sobre o calçamento desigual de Torre dei Greco,
parecia ser o último. Ela fez tremer o de Torre dell'Annunziata,
e chegando ao casal de Dioscuros que parecem ser o Hotel
Suíço e o Hotel Diomedes, medindo numa luta incessante e
furiosa seus respectivos poderes de atração, parou diante
deste último, cujo nome, tirado da antiguidade, havia já ditado
a escolha do jovem arqueólogo, na ocasião de sua primeira
estada.

O moderno concorrente suíço olhava, entretanto, esse


acontecimento da porta, com a mais evidente tranqüilidade.
Tinha certeza de que, nas panelas do concorrente com nome
tirado da antiguidade, não se cozinhava com água diferente da
sua, e de que as maravilhosas antiguidades expostas na frente
não tinham, mais do que as suas, vindo à luz do dia de

34
pois de terem, permanecido dois mil anos numa mortalha de
cinzas.

Assim, Norbert Hanold havia se transportado em poucos dias,


inesperadamente e sem nenhuma intenção, do norte da
Alemanha a Pompéia. Não encontrou o Diomedes muito repleto
de seres humanos, mas já abundantemente povoado pela
mosca comum, a musca domestica communis. Ele jamais
soubera se sua sensibilidade era capaz de emoções ardorosas,
mas a mais fervilhante raiva se apossou dele contra esses
voadores... Considerava-os a pior invenção da natureza em sua
maldade; eram o motivo por que ele preferia o inverno ao
verão, como sendo a única estação que convinha à dignidade
humana e achava que as moscas eram uma prova irrefutável
da inexistência de uma harmonia racional no mundo. Elas o
acolhiam aqui e ele só seria jogado como presa a essa infâmia
alguns meses mais tarde na Alemanha. Elas se lançaram
imediatamente sobre ele às dúzias, como sobre uma vítima
esperada, voavam pelos seus olhos, zumbiam nos ouvidos,
prendiam-se nos cabelos e corriam-lhe pelo nariz, a testa e as
mãos, fazendo cócegas. Algumas lhe lembravam os casais em
viagem de núpcias, e deviam dizer-se provavelmente em sua
língua: Meu querido Augusto! e Minha adorável Greta! Assim
atormentado, ele desejava doentemente um scacciamosche,
uma espécie de palheta excelente para matar moscas,
semelhante à que havia visto no museu etrusco de Bolonha e
que tinha sido descoberta numa sepultura. Dessa forma,
aquela criatura imunda havia sido, desde a antiguidade, o
flagelo da humanidade, uma criatura mais irritante e
impiedosa que os escorpiões, as serpentes venenosas, os tigres
e os tubarões, que pelo menos não têm outro objetivo senão
ferir, rasgar e devorar o corpo humano e que são animais em
relação aos quais é possível se

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proteger através de uma atitude prudente. Mas, contra a
mosca comum, não havia nenhum meio de proteção e ela
aborrecia, ela paralisava, ela acabava, enfim, no homem, com
a inteligência, a capacidade de trabalho e de pensamento,
todos os impulsos superiores e todos os sentimentos sublimes.
Não era a necessidade de saciar sua fome, nem a sede da
chacina que a possuíam, mas apenas o desejo diabólico de
atormentar. Era a coisa em si na qual o mal absoluto havia
encontrado sua expressão e realização. Como o scacciamosche
etrusco — um tubo de madeira ao qual estava preso um feixe
de finas correias de couro — comprovava, elas haviam já
expelido da cabeça de Ésquilo os pensamentos poéticos mais
sublimes, haviam induzido Fídias a dar um golpe de martelo
mal dirigido e irreparável, haviam trotado sobre a fronte de
Zeus, sobre o peito de Afrodite e percorrido todos os deuses e
todas as deusas do Olimpo, da cabeça aos pés. Norbert
pensou, no mais profundo do seu ser, que era preciso, antes
de tudo, avaliar o mérito de um homem pelo número de
moscas que ele tivesse podido, ao longo de sua vida, a título de
vingador da raça humana desde os tempos mais remotos,
aniquilar, transpassar, queimar, e extinguir em hecatombes
cotidianas.

Mas aqui, para conquistar essa glória, a arma necessária lhe


faltava, e da mesma forma como o maior herói da antiguidade,
vendo-se só, não teria podido fazer outra coisa senão fugir
diante das vulgares adversárias, que lhe eram cem vezes
superiores em número, assim Norbert fugia, ou melhor,
deixava o seu quarto. Uma vez fora dele, se deu conta de que o
que havia se passado hoje aconteceria em maior escala
amanhã. Pompéia não era, ademais, o lugar tranqüilizante e
reconfortante que ele desejava. Além disso, a essa idéia se
associava vagamente uma

36
outra, a de que o seu descontentamento não era apenas
provocado pelo que o cercava, mas vinha também um pouco
dele mesmo. Os tormentos que as moscas lhe causavam
sempre lhe tinham sido insuportáveis, mas não o haviam
deixado, até então, num tal estado de furor. A viagem o havia,
incontestavelmente, excitado e deixado com os nervos à flor da
pele, estado cuja origem era, sem dúvida, devido à estafa e à
atmosfera fechada do inverno. Sentia-se de mau humor,
faltava-lhe algo que não podia compreender. E esse mau
humor ele o levava consigo aonde fosse. Os jovens casais e as
moscas que o haviam rodeado em massa não eram, nem uns,
nem outras, feitos para tornar a vida de ninguém agradável.
Todavia, se não queria se deixar envolver por uma nuvem
espessa de fatuidade, não podia dissimular a si próprio que se
conduzia como eles, sem quê nem porquê, surdo e cego, a torto
e a direito pela Itália, com uma faculdade de se distrair muito
menor. Sua companheira de viagem, a ciência, tinha muito, na
verdade, de uma velha trapista, não abria a boca senão
quando se dirigia a ela, e ele parecia estar bem perto de
esquecer com que língua havia podido comunicar-se com ela.

O dia já ia muito avançado para que ele pudesse entrar em


Pompéia pelo Ingresso. Norbert se lembrou de que a cidade era
rodeada por velhas fortificações e se pôs a procurar o caminho
por entre moitas e espinheiros. Caminhava assim um pouco
acima da cidade-túmulo. Ela se estendia à sua direita, sem um
movimento, sem um ruído. Parecia um campo de escombros
morto, de que a sombra recobria já grande parte. O sol poente
não estava mais quase nada afastado do mar tirreno mas por
todos os lados distribuía ainda, sobre os montes e as planícies,
o mágico esplendor da vida. Dourava o penacho de fuma-

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ca que se elevava da cratera do Vesúvio e revestia de púrpura
os cumes e os recortes do monte Sant'Ângelo. Soberbo e
solitário, o monte Epomeo se erguia por cima do mar azul e
cintilante onde faiscavam fagulhas de luz e de onde surgia,
como uma misteriosa construção titânica, a silhueta sombria
do cabo Misene. Onde quer que o olhar pousasse, descobria
um quadro maravilhoso em que o sublime se aliava à graça, o
passado distante ao alegre presente. Norbert Hanold tinha
acreditado aí encontrar aquele desconhecido para o qual o
impelia um desejo indistinto, mas não se encontrava com a
disposição de espírito que esperava. Não havia, no entanto,
sobre essas muralhas abandonadas, nem jovens casais, nem
moscas, para importuná-lo, mas a natureza mesma não estava
em condições de oferecer-lhe o que lhe faltava, quer dentro
dele quer fora. Passeou seus olhos com uma calma próxima da
apatia por sobre aquela profusão de beleza e não lamentou
nem um pouco quando o pôr do sol a fez empalidecer e se
apagar. Voltou ao Diomedes tão descontente como daí havia
partido.

Mas como tivesse sido, invita Minerva, aí levado pela sua falta
de reflexão, tomou a decisão, durante a noite, de ao menos
tirar algum proveito científico, ainda que por um dia, da
bobagem que tinha feito, e cedo, tão logo se abriu o Ingresso,
tomou o caminho obrigatório que leva a Pompéia. À sua frente

38
e atrás dele, os hóspedes eventuais dos dois hotéis avançavam
em pequenos grupos sob as ordens do inevitável guia, munidos
do Baedeker ou de suas imitações estrangeiras, ávidos de
meterem-se em escavações clandestinas. Tagarelices em inglês
ou anglo-saxônicas ressoavam no ar ainda puro da manhã
quase que exclusivamente. Os jovens casais alemães, lá longe,
por trás o monte Sant'Ângelo, se haviam sentado à mesa para
almoçar no seu quartel-general de Pagano, e se faziam
mutuamente felizes com uma doçura e um entusiasmo bem
alemães. Norbert sabia, por experiência própria, graças a
algumas palavras bem escolhidas e a uma gorjeta (de uma
manda), como se desembaraçar do guia, aquele pesadelo, a fim
de poder seguir livremente com suas intenções. Comprazia-se
com o fato de ter uma memória infalível; onde quer que seu
olhar caísse, encontrava um lugar exatamente semelhante
àquele cuja lembrança guardava, como se o tivesse gravado na
véspera em sua memória, depois de ampla contemplação. Essa
observação, que não cessava de fazer, o levava a pensar que
bem podia dispensar a ida a esses lugares; e assim, uma
notável apatia tomou sua vista e seu espírito, como já lhe
havia acontecido na tarde que havia passado sobre as
muralhas. Ainda que percebesse várias vezes, ao levantar os
olhos, o cone do Vesúvio e seu penacho de fumo se destacando
sobre o céu azul, não lhe veio sequer uma vez ao espírito, o
que não deixa de ser bastante singular, o sonho que ele havia
tido pouco tempo antes e no qual havia testemunhado o
sepultamento de Pompéia na erupção de 79. Depois de ter
caminhado durante horas, sentiu-se fatigado e meio sonolento,
mas não teve a impressão de se encontrar em um cenário de
sonho. Tinha ao seu redor apenas velhos pórticos, muros e
colunas do maior interesse arqueológico mas sem ne-

39
nhum sentido esotérico propriamente dito; não passavam de
um grande conjunto de ruínas devidamente mantidas, mas por
isso mesmo bastante insípidas. E embora a ciência e a fantasia
sejam normalmente bem antagônicas, hoje pareciam se ter
combinado para, de alguma maneira, privar Norbert Hanold de
sua ajuda, abandonando-o completamente ao curso de sua
ociosa caminhada.

Ele havia assim percorrido o caminho do Fórum ao anfiteatro,


da Porta di Stabia à Porta do Vesúvio, pela rua dos túmulos e
suas inumeráveis vias e, durante esse tempo, o sol havia
terminado o percurso que habitualmente faz todas as manhãs
e estava no ponto em que, chegado ao máximo de sua
trajetória, costuma abandonar sua ascensão por uma descida
mais confortável, do lado do mar. Indicava, assim, aos
americanos e aos ingleses dos dois sexos que aí haviam sido
conduzidos pela obrigação da viagem, que era tempo de
consagrar seus pensamentos ao grande prazer de estarem
confortavelmente sentados às mesas da sala de jantar de um
dos dois hotéis gêmeos, para grande satisfação dos guias, que
não haviam sido compreendidos, apesar de terem falado até o
enrouquecimento. Aliás, esses turistas tinham visto com seus
próprios olhos tudo o que é necessário conhecer para se
manter uma conversação do outro lado do oceano ou da
Mancha. Esses grupos empapados de antiguidade batiam pois
em retirada, de comum acordo, pela Via Marina, para não
correrem o risco de serem mal colocados nas mesas
contemporâneas — e que não se poderia chamar de luculianas
sem eufemismo — do Diomedes e do Suíço. Sem dúvida era
essa, de longe, a mais inteligente solução, se se considerasse
as circunstâncias interiores e exteriores, pois se o sol de meio-
dia tinha qualquer simpatia pelos lagartos e pelas borboletas,
pelos habitantes

40
alados ou rastejantes das. ruínas, ele exercia todo o seu ardor
vertical com menos amabilidade sobre a tez ocidental das
Misses e das Mistresses. E é preciso mesmo acreditar nessa
relação de causa e efeito pois durante a hora que acabava de
se passar, os Charming haviam diminuído consideravelmente,
os Shocking, aumentado igualmente, e os Oh! masculinos,
provenientes de duas carreiras de dentes ainda mais
divergentes do que anteriormente, se aproximavam de maneira
inquietante do bocejo.

Era curioso constatar como tudo o que havia sido outrora a


vila de Pompéia tomava um outro aspecto, ao mesmo tempo
em que se operava esse êxodo. Não era, certamente, uma
cidade viva, mas nesse momento parecia se petrificar numa
rigidez cadavérica. No entanto, daí emanava qualquer coisa
que dava a impressão de que a morte se punha a falar, embora
não de uma maneira perceptível aos ouvidos humanos. Ê
verdade que aqui e ali ressoava uma espécie de murmúrio, que
parecia sair das pedras, só revelado pelo doce sussurro do
vento do sul, o antigo Atabulus, que dois mil anos antes tinha
assim zunido em volta do templo, dos mercados e das casas, e
que agora brincava levemente com as ervas verdes e brilhantes
que cresciam sobre as ruínas baixas das muralhas. Às vezes
esse vento, vindo da costa da África, se precipitava aqui
lançando a plenos pulmões um assovio louco. Ele hoje não
estava assim, e abanava com doçura seus velhos amigos de
volta à luz, mas continuava um filho do deserto e seu hálito
queimava, mesmo se soprava com extrema doçura, tudo o que
encontrava no caminho. O sol, seu pai, eternamente jovem, o
ajudava nessa tarefa, reforçando seu sopro ardente, o supria
nos lugares que ele não podia atingir, e derramava sobre todas
as coisas seu esplendor resplandecente, ofus-

41
cante e fremente. Ele havia retirado com uma lâmina de ouro a
pouca sombra desatada que subsistia rente às casas dos
semitae e dos crepidines via-rum — assim se chamavam
antigamente as calçadas. Jogava em profusão feixes de raios
em todos os vestibula, atria, peristyla e tablina, e lá onde um
telhado saliente impedia seu acesso, encontrava um jeito de
jogar por baixo dele raios esparsos. Mal conseguia algum canto
para proteger-se da onda de luz e obter uma penumbra
prateada. Cada rua se estendia entre as antigas paredes como
se aí tivessem posto para secar grandes peças de fazenda de
brancura resplendente E, sem exceção, tudo estava mudo e
calmo: os viajantes fanhosos e barulhentos enviados pela
América e pela Inglaterra desapareceram todos, até o último, e
mesmo o arremedo de vida que haviam emprestado até este
instante os lagartos e as borboletas, se dissipou. Pareciam ter
abandonado o silencioso campo das ruínas, o que em realidade
não havia, sem dúvida, acontecido, mas o olho não via mais
um só movimento. Assim também, antigamente, há milhares
de anos, acontecia com os animais seus ancestrais, os das
montanhas e os dos rochedos, era um costume, enquanto o
grande Pan repousava, eles também, para não incomodá-lo, se
estendiam sem moverem-se ou pousavam aqui e ali, fechando
as asas. E era como se se submetessem aqui, mais
rigorosamente ainda, à lei da calma tórrida e sagrada do meio-
dia, desta hora de espectros, quando a vida devia calar-se e
esconder-se porque os mortos, a esta hora, despertavam e
começavam a conversar na língua muda dos fantasmas. Não
era tanto a visão que ficava chocada com este novo aspecto
das coisas, mas o sentimento, ou um sexto sentido sem nome,
contudo este ficava tão fortemente impressionado e de uma
maneira tão decisiva, que a pessoa que o possuísse não
poderia

42
se subtrair ao efeito que ele causava. Na verdade, era pouco
provável que algum, ou alguma, dos honestos turistas, que já
se ocupavam em mergulhar na sopa a colher, no interior de
um dos dois hotéis situados perto do Ingresso, fosse dotado
desse sentimento, mas isso pouco importava, pois a natureza
havia sido pródiga em tal dom para Norbert Hanold, destinado
a sofrer seus efeitos. Sem dúvida, não o exercia por sua
própria vontade, pois não desejava senão uma coisa: poder
estar tranquilamente sentado no seu gabinete de trabalho, um
bom livro nas mãos, em vez de estar metido, sem razão, nessa
viagem de primavera. Entretanto, mal havia tido tempo de
penetrar no coração da cidade, ao voltar da porta de Hércules
pela Via dos Túmulos, tendo acabado de tomar, sem pensar,
um estreito vicolo à esquerda da Casa de Salusto, quando
aquele sexto sentido se manifestou nele. Ou melhor, não foi
bem assim, ele acabava de ser transportado, em função desse
sentido, a um estado de espírito estranhamente sonhador,
intermediário entre a consciência lúcida e a inconsciência. O
silêncio morto e inundado de luz estendia-se à volta dele, como
se o mistério se escondesse por toda parte sem um sopro, a tal
ponto que seu próprio peito não ousava respirar. Encontrava-
se no cruzamento do Vicolo di Mercúrio com a Strada di
Mercúrio. Essa avenida bastante larga que corta a ruela se
estendia a perder de vista à sua direita e à sua esquerda. Pelo
patronato do deus dos mercados, esse lugar deveria ter sido
outrora o local do comércio e da indústria, como testemunham
as esquinas mudas. Em diversos pontos, pelos lados, se
abriam tabernas, lojas guarnecidas de mesas cobertas com
mármore quebrado; aqui, a arrumação indicava uma padaria,
ali, muitos potes grandes, barrigudos, indicavam comércio de
óleo e farinha. Mais adiante, graciosas ânforas pre-

43
gadas às prateleiras de uma mesa indicavam que havia
funcionado uma venda de vinho na peça vizinha. Toda noite os
escravos e servidores das vizinhanças sem dúvida vinham ali
buscar a caupona, em suas bilhas, o vinho de seus senhores.
Via-se, com efeito, que uma multidão de passos havia gasto a
inscrição de pedrinhas de mosaicos incrustados na semita
diante da loja, tornando-a ilegível. Ela, sem dúvida, teria
cantado aos passantes o louvor de vini praecellentis. Sobre a
parede em frente, à altura da metade de um homem apenas,
um graffito, com certeza um rabisco de criança, com a unha ou
um prego, comentava esse anúncio, talvez ironicamente,
dizendo que o vinho do restaurante devia sua qualidade
incomparável à diluição em água, que não era mínima.

Aos olhos de Norbert Hanold, a palavra caupo parecia se


destacar da garatuja, mas talvez fosse ilusão, pois não poderia
afirmá-lo com certeza. Ele sabia decifrar com muita habilidade
esses graffiti tão difíceis de se ler, e tinha tido nesse ramo um
sucesso gloriosamente reconhecido, mas naquele momento,
sua destreza lhe recusava totalmente os serviços. Mais ainda,
levava consigo o sentimento de que não sabia uma palavra de
latim e de que era contra qualquer bom senso decifrar aquilo
que, dois mil anos antes, tinha rabiscado numa parede um
aluno de primário de Pompéia. Não só a sua ciência o tinha
abandonado, como ele tinha também perdido todo o desejo de
reencontrá-la; só se lembrava dela como uma coisa muito
longínqua e, em seu sentimento, ela tinha sido uma tia velha,
seca e aborrecida, em suma, a criatura mais árida e mais
supérflua da Terra. Tudo o que pudessem dizer seus lábios
enrugados, .num tom completamente pedante e apresentando-
se como sabedoria, tudo aquilo não passava de vã inutilidade,
algo que nada mostrava além da casca ressecada dos

44
da árvore da ciência, sem nada dar a perceber da essência e de
seu verdadeiro conteúdo, sem dar o prazer de sua íntima
compreensão. O que a ciência professava era uma visão
arqueológica sem sentido e o que ela falava, uma língua morta
para uso dos filólogos. Ela não permitia apreender com a alma,
sentimento, o coração, pouco importa o nome. Ao contrário,
aquele que aspirava a essa compreensão sofria, único ser vivo
no silêncio abrasado do meio-dia por permanecer aqui entre os
restos do passado, para não mais ver com os olhos do corpo,
para não mais ouvir com os ouvidos carnais. Nesse momento,
de repente parte disso surgia, sem fazer, porém, um
movimento, e começava a falar sem emitir um único som.
Nesse momento, o sol tirava de seu entorpecimento sobre as
pedras velhas, um arrepio abrasado as perseguia, os mortos
despertavam e Pompéia recomeçava viver.

Norbert Hanold não tinha em mente pensamento de blasfêmia,


mas era com um vago sentimento de que merecia inteiramente
essa qualificação que ele olhava, sem fazer qualquer
movimento, a Strada di Mercúrio, na direção das muralhas.

Os blocos de lava rochosa que a pavimentam, arrumados,


como no momento de seu sepultamento, eram, tomados
isoladamente, de cor cinza clara, mas uma claridade tão
radiosa caía sobre eles, que se estendiam como uma cortina
branca de prata no espaço ardente entre as ruínas mudas das
muralhas e os fragmentos de coluna.

Nesse momento, de repente...

Ele mantinha os olhos abertos e olhava a rua em toda sua


extensão, mas lhe parecia que sonhava. Diante dele,
repentinamente, alguma coisa acabava de sair da casa de
Castor e Pólux, e sobre as lajes

45
que se estendiam dessa casa ao outro lado da Strada di
Mercúrio avançava, no seu passo leve, Gradiva.

Sem dúvida nenhuma, era. ela mesma, e embora os raios de


sol cercassem sua forma numa espécie de véu de ouro, ele a
via, porém, distintamente, e ela se apresentava de perfil,
exatamente como no baixo-relevo. Ela inclinava ligeiramente a
cabeça para a frente, coberta por um pano que lhe caía sobre a
nuca, segurava na mão esquerda a saia extraordinariamente
plissada e que não ia abaixo dos calcanhares. Só se deixou
reconhecer claramente caminhando: o pé que ficava para trás
erguia-se por um instante sobre a ponta, o calcanhar quase
que vertical. Mas não se tratava de um ser de pedra monótono
e sem cor. O vestido era feito de um tecido extremamente mole
e macio que não tinha a branca frieza do mármore, mas um
tom quente, puxando para o amarelo. Os cabelos frouxamente
ondulados sobre o xale valorizavam, pelo brilho de seu
castanho dourado, o alabastro do rosto. Ao mesmo tempo em
que a percebeu, Norbert reencontrou num canto da memória a
imagem já vista ali mesmo, à noite, em sonho, quando ela se
deitou lá, perto do Fórum; sobre os degraus do templo de
Apolo, tão tranquilamente como se fosse dormir. E juntamente
com essa lembrança, um outro pensamento surgiu pela
primeira vez em sua consciência: sem compreender ele próprio
o seu impulso íntimo, tinha partido para a Itália, a tinha
atravessado até Pompéia, sem mesmo parar em Roma e
Nápoles, para ver se poderia voltar a encontrar ali o rastro de
Gradiva. E isto no sentido literal, tendo seu passo tão
particular deixado, com certeza, na cinza, uma pegada distinta
de todas as outras, na qual se leria a pressão de seus artelhos.
Era, de novo, uma figura de sonho em pleno meio-dia que se
movia diante dele e, no entanto, era

46
realidade. Isso se viu pelo efeito que fez ao se aproximar da
última laje, sobre a qual estava estendido, na luz quente do
sol, um grande lagarto, cujo corpo de ouro e malaquita
resplendia distintamente nos olhos de Norbert Hanold.
Quando os passos de Gradiva aproximaram-se do animal, ele
se precipitou de um só golpe para baixo da pedra e fugiu num
movimento ondulado e macio por entre o pavimento cintilante
da rua. Gradiva, após ter atravessado as lajes com tranqüila
agilidade, continuou o seu caminho. Norbert agora a via de
costas — na calçada da frente. Ela parecia se dirigir à casa de
Adónis, que se encontrava diante dela, mas, depois de uma
breve parada, continuou a caminhar, tendo sem dúvida
mudado de idéia, pela Strada di Mercúrio. Não havia mais,
nessa direção, outra residência célebre, a não ser, à esquerda,
a Casa di Apollo, assim chamada devido às numerosas figuras
de Apolo aí descobertas, e logo voltou à mente de Norbert, que
a observava, que ela já tinha elegido o pórtico do templo de
Apolo para abrigar seu sono eterno. Era, portanto, provável,
que um laço qualquer a unisse ao culto do deus do sol e que ia
à casa que lhe era consagrada. No entanto, ela logo parou
outra vez. Também aí as lajes iam de um lado a outro da rua e
ela passou de novo para a direita. Mostrou assim a Norbert a
outra face de seu perfil e lhe deu nesse momento uma
impressão diferente. Agora, escondia a mão esquerda, que
segurava o vestido, e mostrava o braço direito que, ao invés de
dobrar-se, pendia reto. Mas a essa distância pouco maior, a
faísca dos raios de sol a envolvia num véu mais denso, não
permitindo que se distinguisse onde ela poderia ter
desaparecido subitamente, ao passar diante da casa de
Meleagro.

Norbert Hanold ficou parado no lugar, sem poder se mexer.


Mas tinha nos olhos, nos do corpo

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desta vez, a visão de sua imagem que se distanciava. Retomou
profundamente a respiração pela primeira vez, pois até esse
momento seu peito esteve quase que paralisado. Entretanto,
ao mesmo tempo, seu sexto sentido, em detrimento de todos os
outros, o dominou completamente. Acabava de ver diante de si
uma criatura real ou um produto da imaginação? Não sabia se
sonhava ou se estava acordado, e em vão tentava descobrir.
Nesse momento um arrepio muito peculiar lhe percorreu
bruscamente a espinha. Não via nada, não entendia nada, mas
havia nele qualquer coisa misteriosa que o fazia sentir que
Pompéia em volta dele começava a reviver naquela hora
espectral do meio-dia e que Gradiva, ressuscitada acabava de
entrar na casa em que vivia antes daquele dia fatal em agosto
de 79.

Ele conhecia a Casa di Meleagro de uma viagem anterior, mas


desta vez ainda não a havia visitado. Tinha se contentado em
parar um tempo no Museo Nazionale de Nápoles diante do
afresco que representava Meleagro e sua companhia de caça, a
árcade Atalanta, afresco que deu o nome à casa da Via di
Mercúrio, onde foi descoberto. Mas quando se pôs novamente
em condições de se mover, dirigiu-se àquela casa, duvidando
de que seu nome viesse do assassino do javali caledônio.
Lembrou-se de repente de um poeta grego chamado Meleagro
que, na realidade, havia vivido mais ou menos um século antes
da destruição de Pompéia. Mas era possível que um de seus
descendentes tivesse emigrado e construído uma casa! A idéia,
ou melhor, a certeza que ele tinha da origem grega de Gradiva,
e da qual se lembrava agora, ligou-se a essa hipótese no
momento em que a descrição de Atalanta que Ovídio faz em
suas Metamorfoses lhe vinha à memória.

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O colchete polido fecha com o alfinete o alto de sua túnica.
Seus cabelos estão presos sem arte num único nó.

Não conseguia lembrar-se literalmente desses versos, mas seu


conteúdo e fundo estavam presentes para ele ao mesmo tempo
em que sua ciência lhe lembrava que a jovem esposa de
Meleagro, filha de Eneus, se chamava Cleópatra. Portanto, não
era dele que se tratava, segundo toda verossimilhança, mas do
poeta grego Meleagro. Era assim que, no calor solar do campo
napolitano, a mitologia, a literatura, a história e a arqueologia
se misturavam em sua cabeça.

Depois de ter passado pela casa de Castor e Pólux, e pela do


Centauro, ele se encontrava agora diante da Casa di Meleagro,
no pórtico da qual o acolhia, inscrita num mosaico ainda
legível, a saudação Have. Sobre as paredes do vestíbulo,
Mercúrio dava a Fortuna um saco de dinheiro, o que
provavelmente significava votos alegóricos de riqueza e outras
felicidades aos habitantes de outrora. Atrás se abria o átrio
cujo centro era ocupado por uma mesa de mármore apoiada
sobre três grifos.

O local em que acabara de penetrar estava vazio e silencioso,


lhe parecia completamente estranho e ele não se lembrava de
jamais o ter visitado. A memória lhe voltou, porém, porque o
interior dessa casa oferecia uma anomalia que não se
encontrava em nenhum dos outros edifícios descobertos na
cidade. O peristilo não estava localizado atrás do átrio, do
outro lado do tablinum, como de hábito, mas à esquerda, o que
provocava uma amplidão maior e uma disposição mais
magnificente que nos outros lugares de Pompéia. Um pórtico o
enquadrava, apoiado por duas dúzias de colunas, vermelhas
em suas metades inferiores e brancas nas superiores. Elas
davam àquela

49
sala grande e silenciosa algo de solene. Via-se no centro uma
piscina em forma de fonte, rodeada de um belo cenário. A
julgar, por todos esses detalhes, a casa devia ter sido domicílio
de um homem conhecido, de boa educação e apreciador das
belas-artes.

Norbert percorreu a moradia com os olhos e pôs de prontidão o


ouvido. Mas nada se mexia em lugar nenhum e ele não
escutava o menor barulho. Não havia mais, entre aquelas
pedras frias, respiração viva; se Gradiva tinha entrado na casa
de Meleagro, já se havia fundido com o nada.

Ao lado, atrás do peristilo, havia ainda uma sala, um oecus, a


antiga sala de festas, também cheia de colunas pintadas de
amarelo que, de longe, na luz viva, brilhavam como se fossem
de ouro. Mas ao pé dessas colunas se percebia uma cor
vermelha ainda mais violenta que a das muralhas e que não se
devia a nenhum pincel antigo, mas à jovem natureza de hoje,
revestida pelo sol. O piso de mosaico interior estava
completamente destruído e arruinado, e todo florido. Era o
mês de maio, que exercia ainda uma vez sua antiga força e que
cobria todo o oecus, como nessa época a maior parte das casas
da cidade morta, de papoulas vermelhas que o vento trouxera
e que se desenvolveram na cinza. Dir-se-ia uma maré espessa
e movediça de flores, embora na realidade permanecessem
imóveis, pois o Atabulus não soprava tão baixo e se contentava
com murmurar lentamente no cimo das muralhas. Mas o sol
projetava ali uma tal cintilação de esplendor que se tinha a
impressão de que ondas vermelhas balançavam, como num
tanque.

Norbert Hanold já tinha visto, sem prestar atenção, outras


casas em estado semelhante, mas este espetáculo provocava
nele um estranho arrepio. As flores do Sonho tinham crescido
nas margens do Lethé, e Hipnos se estendia no meio delas,
distri-

50
buindo os sucos colhidos à noite em seus cálices vermelhos e
que provocavam nos espíritos um sonho crepuscular. Esse
antigo conquistador dos deuses e dos homens parecia ter
tocado Norbert com a sua varinha invisível que dá sono. Ele
acabava de penetrar no oecus pelo pórtico do peristilo e entrou
não num pesado torpor, mas num sonho leve e amável que
envolvia vagamente a consciência. Permaneceu, no entanto,
senhor de seus passos. Andava ao longo das muralhas da
antiga sala de festas onde o olhavam velhos afrescos
representando Páris dando a maçã e um sátiro que, com uma
víbora na mão, assustava uma jovem bacante.

Mas o imprevisto surgiu outra vez diante de Norbert,


bruscamente. A cinco passos, no máximo, na sombra estreita
que projetava o único fragmento da arquitrave ainda
conservado do pórtico da sala, entre duas colunas amarelas,
sentada sobre degraus baixos, encontrava-se uma figura
feminina vestida de cores claras que, nesse momento,
levantava ligeiramente a cabeça. Com esse movimento,
apresentava seu rosto de frente a Norbert, que deve ter se
aproximado sem ter sido percebido e que, pelo barulho de seus
passos, deve ter sido notado naquele mesmo instante. O
aspecto daquela fisionomia despertava nele um sentimento
ambíguo, pois ela lhe parecia ao mesmo tempo estranha e
conhecida, já vivida, tal como ele a havia imaginado. Mas ao
estrangular-se a sua respiração, ao cessar de bater seu
coração, reconheceu sem erro a quem pertencia aquele rosto.
Tinha descoberto aquilo que procurava, aquilo que o havia
levado a Pompéia sem que ele soubesse: Gradiva continuava a
viver a sua vida aparente ao meio-dia, hora dos fantasmas, e
encontrava-se sentada diante dele como ele a havia visto em
sonho sentar-se sobre os degraus do Templo de Apolo. Ela
tinha

51
sobre os joelhos qualquer coisa branca que ele era incapaz de
distinguir, mas que lhe parecia ser uma folha de papiro, onde
se destacava o luar vermelho de uma papoula.

O rosto de Gradiva exprimia surpresa; sob a fronte de


alabastro e os esplêndidos cabelos castanhos, os olhos, que
brilhavam com o esplendor extraordinário das estrelas,
olhavam Norbert com uma surpresa cheia de interrogação. A
ele, no entanto, bastaram alguns instantes para reconhecer
naqueles traços os mesmos que tinha visto de perfil. Deviam
ser assim, de frente, e era por isso que nunca lhe foram
verdadeiramente estranhos, mesmo no primeiro olhar. De
perto, na roupa de Gradiva realçava ainda mais o amarelo,
sendo as cores mais quentes ainda. Era feita, evidentemente,
de um tecido de algodão muito fino e muito leve, o que
permitia aquelas pregas extremamente numerosas. O xale que
lhe cobria a cabeça era do mesmo tecido e deixava aparecer,
na nuca, uma parte dos cabelos brilhantes presos sem arte
num único nó. No pescoço, bem abaixo do queixo gracioso, um
pequeno colchete de ouro fechava o vestido.

Tudo isso apareceu a Norbert Hanold numa semi-


inconsciência. Ele pegou mecanicamente o chapéu-panamá,
tirou-o, e se pôs a dizer, em grego:

— És Atalanta, filha de Jasão, ou és da família do poeta


Meleagro?

Quando assim dirigiu a palavra a Gradiva, ela o olhou sem


responder, sem mudar a expressão calma e prudente dos
olhos. Dois pensamentos vieram ao mesmo tempo à mente de
Norbert. Ou ela não podia falar como ressuscitada ou então
não era de origem grega e ignorava a língua. Mudou então de
idioma e lhe perguntou em latim:

52
— Teu pai é um nobre cidadão de Pompéia, e de origem latina?

Ela também não respondeu, mas um movimento fugidio


passou por seus lábios delicadamente desenhados, como se
tentassem reprimir uma vontade de rir. O terror o tomou nesse
momento. Aquela que se encontrava diante dele como uma
imagem muda era, portanto, evidentemente, um fantasma,
incapaz de falar. Os traços de Norbert exprimiram claramente
o medo que essa idéia lhe deu.

Mas os lábios da mulher não puderam mais resistir à sua


vontade de rir e um verdadeiro sorriso apareceu neles,
enquanto diziam:
— Se o senhor quiser conversar comigo, tem que falar alemão.

Era muito curioso ouvi-lo de uma jovem pompeiana morta há


mais de dois mil anos, ou melhor, teria sido, para alguém que
a tivesse escutado em outro estado. Mas para Norbert, essa
bizarrice se eclipsava por dois sentimentos que se
entrecruzavam nele:, um, devido ao fato de Gradiva poder
falar, e outro emanado da impressão que sua voz tinha
deixado na alma dele. A voz de Gradiva era tão clara quanto o
seu olhar. Era bastante baixa e lembrava o timbre de um sino.
Ela ressoou pelo silêncio ensolarado sobre o campo de
papoulas. O jovem arqueólogo tomou consciência bruscamente
de que a tinha escutado nele mesmo, na sua própria
imaginação e disse involuntariamente em voz alta:
— Eu sabia que era esse o som de tua voz.

O rosto da jovem mostrava que ela procurava compreender


alguma coisa e não conseguia. Respondeu a esse último
comentário:
— Como é que o senhor sabe? Nós nunca nos falamos.

53
Já não lhe parecia nada curioso que ela falasse alemão e que
pronunciasse as vogais segundo o costume moderno. Como
agira dessa maneira ele estava persuadido de que não podia
ser de outro modo e respondeu rapidamente:
— Não, não nos falamos, mas eu te chamei quando te deitavas
para dormir, e fiquei perto de ti. Teu rosto estava calmo e belo
como o mármore. Oh! Peço-te, pousa-o outra vez no degrau
como então.

Enquanto ele falava, uma coisa curiosa aconteceu. Uma


borboleta dourada, ligeiramente pincelada de vermelho na
parte interna das asas de baixo, saiu das papoulas e voejou em
torno das colunas. Deu diversas voltas ao redor da cabeça de
Gradiva, depois pousou sobre seus cabelos castanhos
frouxamente ondulados, bem acima da testa. Mas nesse
mesmo momento ela endireitou o corpo flexível e esguio e
levantou-se num movimento calmo e rápido, lançando a
Norbert Hanold, sem nada dizer, um breve olhar que parecia
expressar que ela o tomava por um insensato. Em seguida,
avançando o pé, andou ao longo das colunas do velho pórtico,
com seu andar peculiar. Ainda ficou visível por um curto
instante, depois pareceu fundir-se no sol. Ele permaneceu ali,
sem poder respirar, como que loucamente, mas tinha
confusamente compreendido o que acabava de acontecer aos
seus olhos. Meio-dia, hora dos fantasmas, era agora passado, e
sob a forma de borboleta vinda dos campos de asfódelos do
Hades, tinha chegado um mensageiro alado encarregado de
lembrar à morta que devia voltar. A isso se associava, ainda
que indistintamente e de um modo confuso, uma outra idéia.
Ele sabia que chamavam aquela bela borboleta de Cleópatra e
que esse era o nome da jovem esposa de Meleagro de Calidon,
aquela cuja dor ao receber a notícia da morte

54
do esposo foi tamanha que ela própria se imolou aos deuses
subterrâneos.

No momento em que Gradiva se ia, um grito saiu da boca de


Norbert:

— Voltarás aqui amanhã ao meio-dia?

Mas ela não se voltou, não respondeu e desapareceu alguns


instantes depois por trás das colunas do canto do oecus. Ele
sentiu em seu ser como que um golpe e se pôs a segui-la
rapidamente. Mas não viu em parte alguma seu vestido claro,
a Casa di Meleagro se espalhava sozinha em torno dele, sob os
raios do sol ardente, sem que um movimento ou ruído a
animassem. Sozinha, voejava a cleópatra de asas cintilantes
vermelho e ouro, lentamente descrevendo círculos acima da
massa espessa de papoulas.

Norbert Hanold jamais se lembrou em que momento e de que


maneira voltou ao Ingresso. Lembrava-se apenas de que seu
estômago exigiu imperiosamente que fosse servido, numa hora
muito tardia, de qualquer coisa no Diomedes, e de que em
seguida caminhou sem destino e sem caminho. Terminou
chegando a uma praia no golfo, no norte de Castellamare;
sentou-se num bloco de lava e aí ficou enquanto o vento do
mar lhe soprava o rosto até o momento em que o sol se pôs,
mais ou menos a uma distância igual do monte Sant'Angelo,
abaixo de Sorrento, e do monte Epomeo, que domina Ischia.
Mas não tirou nenhum benefício dessa estada à beira da água,
que

55
tinha durado pelo menos algumas horas, e a frescura do ar
não teve nenhum efeito sobre o seu estado de espírito e seus
sentidos. Voltou ao hotel quase no mesmo estado em que o
deixou. Encontrou os outros hóspedes ocupados com a cena,
fez-se servir num canto de sua sala de jantar um fiaschetto de
vinho do Vesúvio e se pôs a observar o rosto dos comensais e a
ouvir suas conversas. Parecia indiscutível, de acordo com a
mímica e com a conversa deles, que nenhum tinha encontrado
uma pompeiana morta, ressuscitada ao meio-dia por um
instante, nem falado com ela. Aliás isso se poderia supor de
imediato pois, nesse momento, todos se encontravam no seu
pranzo. Pouco depois, sem motivo e sem saber por que, Norbert
foi ao concorrente do Diomedes, o Hotel Suíço, sentou-se do
mesmo modo num canto, e depois de ter pedido meia garrafa
de Vesúvio, porque era preciso pedir alguma coisa, entregou-se
às mesmas observações, ouvindo e observando. Elas lhe deram
o mesmo resultado, mas fizeram ao mesmo tempo com que
conhecesse de vista todos os turistas atualmente hospedados
em Pompéia. Aí estava um aumento dos seus conhecimentos
que ele, absolutamente, não podia considerar como
enriquecimento, mas tirava certa satisfação do fato de que não
havia mais nenhum hóspede dos dois hotéis com quem não
tivesse tido uma relação pessoal, ainda que unilateral, vendo e
ouvindo. Bem entendido, não lhe tinha vindo ao espírito a
hipótese absurda de que poderia muito bem ter encontrado
Gradiva num dos hotéis, mas ele podia jurar que nenhuma das
pessoas ali hospedadas tinha com ela a mínima parecença, por
mais longínqua que fosse. Enquanto fazia essas observações,
entornava de quando em quando o conteúdo de seu fiaschetto
no copo, bebendo aos golinhos. Quando a garrafa por fim se
esvaziou, levantou-se para voltar para o Dio-

56
medes. O céu estava agora semeado de uma infinidade de
estrelas cintilantes e deslumbrantes. Elas não estavam
ordenadas imovelmente, como de hábito; parecia a Norbert
Hanold que Perseu, Cassiopeu, Andrômeda e todos os vizinhos
e vizinhas se inclinavam ligeiramente aqui e ali, dançavam
lentamente em círculo. Do mesmo modo, no chão, lhe parecia
que as silhuetas negras dos cumes das árvores e dos edifícios
não ficavam completamente retas. Esse fenômeno, é verdade,
não tinha nada de assustador nessa região sempre abalada
desde as épocas mais remotas, pois o fogo subterrâneo que
espera por todos os lados com impaciência para fazer erupções
encontra uma saída pelas parreiras e pelos cachos de uvas
com que fazem o- Vesúvio, esse Vesúvio que não era uma das
bebidas habituais de Norbert Hanold todas as noites. Mas ele
se lembrava de que, ainda que atribuindo ao vinho um pouco
do torvelinho dos objetos em volta, tudo havia já girado em
torno dele ao meio-dia, e de que não era um fenômeno novo
para ele, mas a sequência natural do que havia acontecido
anteriormente. Subiu à sua camera e aí descansou algum
tempo, diante da janela aberta, a contemplar o cone do
Vesúvio, sobre o qual não se via, naquele momento, o penacho
de fumaça, mas que envolvia uma espécie de manto de
púrpura escura que parecia se agitar de um lado para outro.
Depois o jovem arqueólogo se despiu sem acender a luz e
procurou sua cama às apalpadelas. Mas quando aí se
estendeu, não era mais a cama do Diomedes, mas um campo
vermelho de papoulas que se fechava sobre ele como uma
almofada fofa e aquecida pelo sol. A Musca domestica
communis, sua adversária, chegava ao número de meia
centena sobre a muralha, por cima de sua cabeça, mas elas
estavam domadas pela obscuridade que as mergulhava numa
letargia embotada. Uma só dentre

57
elas, tirada da sonolência pela necessidade de atormentar, se
pôs a zumbir em volta do seu nariz. Mas ele não a identificou
com o mal absoluto, com o flagelo eterno que aflige a
humanidade há milénios, ele a tomou, os olhos fechados, por
uma cleópatra vermelha e dourada ocupada em adejar à volta
dele.

Quando de manhã o sol, com a ajuda ativa das moscas, o


despertou, ele não se lembrava das miraculosas metamorfoses
dignas de Ovídio que se haviam desenrolado ao redor da sua
cama. Mas, sem dúvida, algum ser místico havia passado toda
a noite ao seu lado, tecendo sonhos, pois sentiu a cabeça
pesada e vaga, como se tudo o que sabia aí estivesse
aprisionado sem poder sair, a não ser a única coisa da qual
tinha consciência: que devia estar outra vez ao meio-dia na
casa de Meleagro. Teve medo de que os guardas, se o olhassem
no rosto, não o deixassem entrar; em todo caso, não era
preciso que se expusesse ao julgamento desses homens. Para
quem conhecia Pompéia, havia meios de evitá-los. Eram
ilícitos, mas Norbert não estava em condições de considerar a
ordem estabelecida para decidir sobre a conduta a seguir.
Subiu, como no dia de sua chegada, aos velhos muros da
cidade, depois, havendo descrito um grande semicírculo em
volta das ruínas, atingiu a Porta ai Nola, que não era vigiada.
Daí não era difícil descer ao interior, o que ele fez, sem muito
preocupar a consciência pelo fato de que sua intrusão privava
a amministrazione de duas liras, que ele poderia, aliás, lhe
restituir de um modo ou de outro. Assim chegou sem ser
notado a um quarteirão da cidade sem interesse e que
ninguém frequentava, a maior parte das casas estavam ainda
enterradas. Sentou-se à sombra, numa espécie de esconderijo,
e deixou passar o tempo, consultando de vez em quando o
relógio. Percebeu de repente a alguma distância, nas ruínas,
uma

58
forma de um branco prateado brilhante, que sua vista,
bastante baixa, não permitia distinguir claramente. Mas ele se
dirigiu involuntariamente até o objeto e descobriu uma haste
de asfódelo inteiramente coberta de campânulas brancas. O
vento havia trazido a semente do exterior. Era a flor do mundo
subterrâneo e ele pensou que ela havia brotado num tal lugar
especialmente para ele. Colheu a elegante haste e voltou ao
lugar onde estava sentado. O sol de maio estava cada vez mais
ardente, se aproximava enfim do meio-dia. Tomou então a
longa Strada di Nola. Esta se estendia vazia num silêncio de
morte, como quase todas as outras. Lá embaixo, na direção do
oeste, todos os visitantes da manhã se apressavam já para a
Porta Marina e os pratos de sopa. O ar em movimento vibrava e
no seu esplendor, Norbert Hanold, seu galho de asfódelo na
mão, parecia a solitária aparição do Hermes Psicopompos,
vestido com uma roupa moderna e pronto para acompanhar ao
Hades a alma de um defunto.

Sem tomar consciência disso, obedecendo ao instinto, achou o


caminho da rua de Mercúrio, à qual seguiu pela Strada delia
fortuna, e chegou, virando à direita, à Casa di Meleagro. O
vestíbulo, o átrio e o peristilo, pouco animados como na
véspera, o acolheram. Entre as colunas deste último se podia
ver, flamejantes, as papoulas do oecus. Teria sido impossível
ao recém-chegado dizer se fora na véspera, ou dois mil anos
antes, que viera pedir ao proprietário da casa uma informação,
o que teria o mais alto interesse do ponto de vista
arqueológico. Ele não julgava esse interesse, e além disso,
pouco lhe importava, pois, ao contrário, a ciência da
antiguidade era para ele a coisa mais inútil e a mais
indiferente do mundo. Não compreendia que um homem
pudesse se ocupar dela, porque para ele existia apenas uma
coisa, para

59
a qual convergiam todos os pensamentos e todas as reflexões:
qual a essência da aparição corporal de um ser como Gr adiva,
ao mesmo tempo morta e viva, embora ela só se revestisse
desse último estado ao meio-dia, à hora dos fantasmas, ou
quem sabe somente ontem, ou ainda uma vez a cada século ou
a cada mil anos. De repente, sentiu-se certo de que sua visita
de hoje era inútil. Não encontraria aquela que procurava
porque não se permitiria a ela regressar senão em uma época
em que ele também não pertenceria mais ao mundo dos vivos e
estaria, depois de muito tempo, morto, enterrado e esquecido.
Mas quando caminhava ao longo da muralha onde estava
pintado Páris no momento de dar a maçã, percebeu Gradiva à
sua frente, com o mesmo vestido da véspera, sentada sobre o
mesmo degrau, entre as mesmas duas colunas amarelas. Ele
não se deixaria enganar por uma fantasia de sua imaginação,
sabia bem que era objeto de uma alucinação que compunha
outra vez como uma ilusão, diante dos seus olhos, o que
ontem ele havia visto na realidade. Mas não pôde se negar a
abandonar-se à vã aparência saída da imaginação. Ficou
pregado no lugar e gritou, sem mesmo se dar conta, num tom
queixoso:

— Oh! Tu não existes, tu não és viva!

Sua voz se extinguiu e o silêncio, que nem um sopro


perturbava, cobriu de novo as ruínas da antiga sala de festas.
Mas uma outra voz rompeu o silêncio vazio e lhe disse:

— Não queres sentar-te? Tens um ar fatigado.

O coração de Norbert Hanold parou uma vez mais. Juntou na


sua cabeça toda a razão que pôde: uma visão não podia falar,
mas talvez uma alucinação auditiva abusasse dele. Apolou-se
com uma das mãos a uma coluna, olhando-a fixamente.
60
A voz o questionava de novo, e era a voz que só Gradiva
possuía.
— Tu me trazes uma flor branca?

Uma tonteira tomou-o. Sentiu que seus pés não o


sustentavam mais. Teve que sentar-se e deixou-se escorregar
frente a ela, contra uma coluna, sobre o degrau de mármore.
Ela fixava no rosto dele seus olhos claros, mas a expressão
desse olhar era completamente diferente da que tinha na
véspera, quando se levantou bruscamente para partir.
Qualquer vestígio da possível expressão de aborrecimento ou
recusa havia desaparecido, como se ela houvesse mudado de
opinião e como se a curiosidade e o desejo de saber a tivessem
conduzido àquele lugar. Ela parecia também ter percebido que
tratá-lo cerimoniosamente não convinha nem à sua pessoa
nem às circunstâncias. Havia usado o "tu" que, para dizer a
verdade, vinha aos seus lábios como coisa muito natural. Mas
como ele havia ficado mudo, sem responder sua última
pergunta, ela tomou a palavra e disse:
— Tu me dizias ontem que me havias chamado quando eu me
dispunha a dormir e que havias ficado perto de mim e que
meu rosto se havia tornado parecido ao mármore. Quando é
que tudo isso se passou? Não consigo lembrar-me disso e
queria que me explicasses mais claramente.

Norbert, naquele momento, já tinha se recuperado o bastante


para poder dizer:
— Foi na noite em que tu te sentaste no Fórum, sobre os
degraus do templo de Apolo e a queda das cinzas do Vesúvio te
cobriu.
— Ah, sim, é isso. Justamente, eu não me lembrava mais.
Porém deveria ter pensado que se tratava de alguma coisa
assim. Quando me falaste ontem, foi verdadeiramente muito
imprevisto e eu não estava preparada. Mas isso se passou, se
me recordo

61
bem, mais ou menos há dois mil anos. Tu vivias já nessa
época? Tu me pareces mais jovem.

Ela falava muito seriamente, mas ao fim do discurso um


sorriso leve e gracioso apareceu no canto dos lábios. Ele se
sentiu indeciso e embaraçado e respondeu gaguejando um
pouco:
— Não, na realidade creio que eu não estava vivo ainda no ano
79. Talvez seja... sim, talvez seja essa disposição de espírito
que se chama sonho que me transportou ao tempo da
destruição de Pompéia... Mas te reconheci no primeiro olhar...

Sobre os traços da jovem mulher, que se encontrava apenas a


alguns passos de Norbert, apareceu uma viva surpresa e ela
repetiu com ar espantado:
— Tu me reconheceste em sonho? E como?
— Primeiramente pela tua maneira de andar, toda tua.
— Foi isso que te impressionou? Eu ando mesmo de uma
maneira diferente?

Sua surpresa parecia ainda maior e ele respondeu:


— Sim, tu o ignoras... Tens o caminhar mais gracioso que o de
qualquer outra, pelo menos que o de todas as que vivem hoje.
Mas outra coisa ainda me permitiu reconhecer-te: teu corpo e
teu rosto, tua postura e tua roupa, que correspondem em tudo
à maneira como estás representada no baixo-relevo de Roma.
— Ah, sim — replicou ela, da mesma maneira adotada antes
—, no meu baixo-relevo de Roma. Sim, não havia pensado
nisso, e mesmo agora, não compreendo... Como é ele? Tu o
viste?

Ele contou então como esse baixo-relevo o havia fascinado,


como havia ficado encantado de poder encontrar na Alemanha
uma cópia, que estava há anos pendurada na parede de seu
quarto. Ele a olhava todos os dias até que lhe surgiu a idéia de
que devia

62
representar uma jovem pompeiana caminhando pela sua
cidade natal, sobre as pedras de uma rua, e seu sonho
confirmara essa idéia. Sabia agora que era esse sonho que o
havia incitado a vir de novo à cidade morta para explorá-la e
incumbir-se de descobrir seus rastros. E ontem quando parara
na esquina da rua de Mercúrio, ela caminhava precisamente
como uma imagem bruscamente aparecida diante dele, sobre
as lajes. Parecia encaminhar-se à casa de Apolo. Mas refez seu
caminho e desapareceu em frente à casa de Meleagro.

Ela sacudiu a cabeça e disse:


— Sim, eu tinha intenção de visitar a casa de Apolo, mas fiquei
aqui. Ele prosseguiu:
— Foi por essa razão que me veio à memória o poeta grego
Meleagro, e pensei que fosses uma de suas descendentes,
voltando, quando te é permitido, à casa de teu pai. Mas
quando te falei em grego, não me compreendeste.
— Era grego? Não sabia, ou melhor, o havia esquecido... Mas
ao voltar hoje tu disseste algo que compreendi muito bem:
desejavas que alguém estivesse aqui e vivesse ainda. Mas não
compreendi de quem se tratava.

A estas palavras, Norbert respondeu que acreditara, ao vê-la,


que ela não estava verdadeiramente ali, que sua imaginação
abusava dele mostrando-lhe a imagem dela onde ele a havia
encontrado na véspera. Ela riu e retrucou:
— Realmente me parece que devias tomar cuidado com a tua
imaginação demasiado fértil, embora essa minha opinião não
provenha dos nossos encontros. — Interrompeu-se e
acrescentou: — O que é essa coisa diferente na minha maneira
de caminhar de que me falaste há pouco?

63
Era visível que o interesse dela a levava a esse ponto e ele se
pôs a dizer:
— Eu te peço, se tu queres...

Mas ele parou nesse instante, pois se lembrou com medo, de


repente, de que na véspera ela tinha se levantado bruscamente
para partir quando ele pediu que se deitasse sobre a laje para
dormir, como outrora fizera no templo de Apolo; e ele
vagamente associou, em seu espírito, essa lembrança com o
olhar que ela lhe havia lançado ao partir. Mas agora seus olhos
guardavam a mesma expressão calma e doce e ela disse, como
ele não acrescentasse mais nada:
— Foi gentil de tua parte dizer que teu desejo de que alguém
fosse vivo se aplicava a mim... E tu podes, por isso, me pedir o
que quiseres, eu o farei com prazer.

Essas palavras acalmaram os temores de Norbert e ele


respondeu:
— Eu ficaria feliz de te ver caminhar de muito perto, como no
teu retrato.

Ela se levantou sem dizer nada, pronta para realizar esse


desejo, e percorreu uma pequena distância entre a muralha e
as colunas. Tinha mesmo aquele passo calmo e flexível que ele
tinha gravado no espírito, em que a planta do pé se elevava
quase verticalmente, mas ele verificou pela primeira vez que
ela não tinha sandálias sob o vestido, que deixava ver seus
pés, mas finos calçados claros, cor de areia. Quando ela
retornou e se sentou sem dizer uma palavra, ele
involuntariamente levou a conversação para a diferença que
existia entre os sapatos que ela calçava e aqueles do baixo-
relevo. Ela respondeu:

— Tudo muda com o tempo e, para a época atual, as sandálias


não são cômodas. Ponho estes sapatos que protegem melhor
contra a poeira e a chuva.

64
Mas por que me pediste para caminhar diante de ti? Há
qualquer coisa de diferente no meu caminhar? Esse desejo de
saber isso, desejo que ela manifestava de novo, mostrava que
não era desprovida de curiosidade feminina. Ele respondeu
então que se tratava da posição particularmente vertical de
seu pé, que se demorava atrás, enquanto ela caminhava, e
acrescentou que havia tentado observar, na sua cidade natal,
a maneira de caminhar de suas contemporâneas durante
várias semanas. Mas suas observações haviam sido
frustrantes, exceto talvez uma só ocasião em que ele havia
acreditado perceber a mesma maneira de caminhar. Ele se
havia, sem dúvida, deixado levar, na confusão da multidão,
vítima de uma ilusão, pois havia pensado que os traços dessa
mulher se pareciam um pouco aos de Gradiva.

— Que pena — disse ela —, pois uma tal constatação teria


sido, sem dúvida, de grande interesse científico e, se tu a
tivesses efetuado, terias poupado essa longa viagem até aqui.
Mas quem é a pessoa de que falas, quem é essa Gradiva?
— Foi .assim que eu chamei a tua imagem, pois que ignorava
até agora teu verdadeiro nome.

Ele acrescentou estas últimas palavras hesitando um pouco, e


a jovem mulher hesitou também antes de responder à
pergunta indireta que continha a última frase:
— Eu me chamo Zoe.

Ele exclamou num tom doloroso:


— Esse nome combina muito contigo, mas soa aos meus
ouvidos como uma amarga ironia, pois Zoe quer dizer a vida.
— Ë preciso se resignar com o que não se pode mudar —
respondeu ela — e há muito tempo já me habituei a estar
morta. Mas agora meu tempo já se

65
esgotou. Tu me trouxeste a flor dos túmulos para que ela me
mostre o caminho. Dá-ma, portanto.

Ao levantar-se, ela estendeu a mão e ele lhe entregou o ramo


de asfodelo, tomando cuidado para não lhe roçar os dedos.

Aceitando-o, ela disse:


— Eu te agradeço. A outras, mais privilegiadas, as rosas da
primavera; a mim, vinda de tua mão, só convém a flor do
esquecimento. Tenho permissão para vir aqui amanhã à
mesma hora. Se o teu caminho te conduzir uma vez mais à
casa de Meleagro, poderemos sentar-nos de novo à beira do
campo de papoulas. Sobre o umbral está gravada a palavra
Have, eu te digo, então, Have.

Ela se afastou e desapareceu, como na véspera, no canto do


pórtico parecendo se entranhar no chão. Tudo ficou de novo
vazio e mudo e, súbito, a pequena distância, retiniu um som
breve e claro, muito parecido com o grito ridente de um
pássaro que atravessou a cidade em ruínas. Norbert, sozinho,
contemplava os degraus, assento abandonado, em cuja parte
mais baixa percebeu alguma coisa branca e brilhante. Era a
folha de papiro que, na véspera, Gradiva tinha sobre os joelhos
e que hoje esquecera de levar. Ele estendeu a mão,
medrosamente, para colhê-lo e encontrou um pequeno
caderno com alguns esboços a lápis de diferentes casas
pompeianas. Sobre a penúltima página se via a mesa enfeitada
com os grifos do átrio da Casa di Meleagro, por trás da qual
havia começado a desenhar a fileira das colunas do peristilo e
as papoulas do oecus. O fato da morta desenhar num álbum
esboços de tipo totalmente moderno não era menos
surpreendente do que ela exprimir seus pensamentos em
alemão. Mas essas não passavam de pequenas coisas
acrescidas ao grande milagre da ressurreição e ela aproveitava,
evidentemente, ao meio-dia, de sua hora de lazer para
guardar, com extraor-

66
dinário talento artístico, a lembrança do ambiente em que ela
havia outrora vivido. Seus desenhos testemunhavam um
grande sentido de observação finamente desenvolvido, assim
como cada palavra sua mostrava capacidade de raciocínio e
idéias inteligentes. Ela deveria ter se sentado frequentemente
perto da mesa adornada com os grifos e essa era, sem dúvida,
para ela, uma recordação particularmente preciosa. Norbert,
segurando o caderno, atravessou mecanicamente o pórtico e
descobriu, no momento em que ia virar-se, uma estreita
abertura na muralha, suficientemente larga, no entanto, para
deixar passar um corpo de uma esbelteza fora do normal para
dentro do edifício contíguo, e, de lá, para o Vicolo dei Fauno, do
outro lado da casa. Parecia-lhe, ao mesmo tempo, muita
insensatez sua acreditar que Zoé-Gradiva se entranhasse pelo
solo. Não podia compreender como ele havia acreditado nisso.
Ela tomava o caminho que a levava a sua tumba. Esta devia
encontrar-se na rua dos Túmulos. Precipitou-se e seguiu
apressado a rua de Mercúrio até à porta de Hércules. Mas
quando chegou aí, era já muito tarde. A grande Stirada dei
Sepolcri se estendia vazia, inundada de luz. O máximo que se
podia distinguir, na sua extremidade, por trás da cortina
resplandecente dos raios do sol, era uma sombra ligeira que
parecia passar vagamente diante da casa de Diomedes.

Norbert teve, durante toda a segunda metade desse dia, a


sensação de que Pompéia estava toda enco-

67
berta, ou se encontrava, pelo menos, numa nuvem brumosa.
Esta não era, como habitualmente, cinza, morna e
melancólica, mas, para dizer a verdade, era mais uma nuvem
alegre, particularmente mesclada de azul, de vermelho, de
marrom, e sobretudo de um branco amarelado e de um branco
de alabastro, onde os raios do sol misturavam fios de ouro. A
nuvem tampouco diminuía a capacidade ótica do olho, ou a
capacidade auditiva do ouvido. Somente o pensamento não
conseguia atravessá-la, e era, no entanto, uma muralha de
nuvens cujo efeito podia ser comparado ao da mais densa
bruma. Ao jovem arqueólogo parecia que lhe administravam
todas as horas de uma maneira invisível e, ademais, mal
perceptível, que um fiaschetto di Vesuvio girava
incansavelmente no seu cérebro. Procurava libertar-se disso
aplicando a si mesmo o antídoto, bebendo muita água e
fazendo caminhadas tão longas quanto possível. Seus
conhecimentos médicos não eram muito extensos, mas o
faziam diagnosticar que seu estado estranho se devia a um
afluxo de sangue muito forte à cabeça, o que estaria
relacionado talvez com uma aceleração da atividade do
coração, pois sentia, por outro lado, algo até aqui totalmente
desconhecido: um choque rápido, de tempos em tempos,
contra a parede do peito. Além disso, seus pensamentos, se
não podiam se exteriorizar, não ficavam inativos no seu
interior, ou, mais exatamente, não havia no seu espírito senão
um pensamento, seu dono exclusivo, e cuja atividade era tal
que, mesmo sendo perpétuo, se tornava vão. Girava em torno
da questão de saber que invólucro físico tinha Zoé-Gradiva,
durante sua estada na casa de Meleagro, ou se, ao contrário,
ela não era senão a enganadora ilusão do que havia sido
anteriormente. O fato de que dispusesse de órgãos para falar,
de que pudesse manter um lápis entre os

68
dedos, parecia testemunhar em favor da primeira hipótese dos
pontos de vista da física, da fisiologia e da anatomia. Mas a
idéia dominante em Norbert era a de que, se ele a tocasse, se
ele tentasse pôr sua mão sobre a dela, não encontraria senão o
vazio. Um estranho instinto o impelia a procurar uma
certificação, enquanto uma não menor timidez o impedia, em
imaginação, pois ele sentia que a confirmação de qualquer
dessas duas possibilidades tinha alguma coisa de assustador.
A existência física dessa mão o teria amedrontado e a ausência
dessa existência lhe daria um grande desgosto. Esterilmente
absorvido por esse problema, que continuaria sem solução
pelo menos até que uma experiência científica fosse instituída,
Norbert foi conduzido pelo seu longo passeio até à montanha
que se eleva acima de Pompéia e que é o primeiro contraforte
da alta cadeia do monte Sant'Angelo. Aí encontrou, de maneira
bastante imprevista, um velho senhor de barba grisalha que, a
se julgar pelos apetrechos de toda sorte com que estava
munido, devia ser um zoólogo ou um botânico ocupado em
pesquisar sobre uma encosta ardentemente ensolarada. Virou
a cabeça para Norbert, no momento mesmo em que este quase
o tocava, olhou-o por um momento com surpresa e lhe disse:

— O senhor também se interessa pelo Faraglio-nensis? Eu mal


podia acreditar, mas me parece provável que ele não se
encontre somente no Faraglione, perto de Capri, mas também
aqui sobre terra firme, se se tiver paciência de procurá-lo. O
procedimento indicado por meu colega Fimer é
verdadeiramente bom e eu já o tenho aplicado várias vezes
com pleno sucesso. Por favor, não se mexa.

Parou de falar e depois de subir com prudência um pouco mais


alto, deitou-se no chão, e sem um movimento colocou uma
pequena alça, feita

69
com um talo de erva comprido, diante de uma estreita fresta
de rochedo onde se via a cabeça brilhante de um lagarto a
espiar. O zoólogo permaneceu assim, sem se mexer. Norbert
passou por trás dele sem fazer ruído e retomou o caminho pelo
qual tinha vindo. Parecia lembrar-se vagamente de já ter visto
a figura do caçador de lagartos, provavelmente num dos dois
hotéis, e a acolhida que ele lhe dera parecia confirmar isso. O
mínimo que se poderia dizer dos motivos que levavam as
pessoas a demorar em Pompéia é que eram extremamente
curiosas e incríveis. Feliz por ter podido se desembaraçar
rapidamente do armador de laços e voltar a pensar no
problema da existência ou da não-existência corporal, sentiu-
se no dever de retornar. Mas um atalho o levou na direção
errada, conduzindo-o à extremidade leste das muralhas da
cidade e não a oeste aonde deveria ir. Absorvido pelos
pensamentos, só percebeu seu erro quando chegou perto de
um edifício que não era nem o Diomedes nem o Hotel Suíço.
Entretanto, a construção tinha as indicações de um hotel.
Notou, na vizinhança, as ruínas do grande anfiteatro de
Pompéia e lhe veio à lembrança que existia perto do teatro um
outro hotel, o Albergo dei Sole, que por ser afastado da estação
não conseguia senão um número restrito de hóspedes e, que
por essa mesma razão, era pouco conhecido. Tinha sentido
calor durante o trajeto e sua cabeça não se havia liberado das
nuvens que a rodeavam. Entrou então pela porta aberta e
pediu o remédio que acreditava seria bom contra a congestão,
uma garrafa de água mineral. A peça estava vazia, não se
levando em conta as moscas, que se amontoavam em grande
número, e o proprietário, que não tendo o que fazer, aproveitou
a ocasião para puxar conversa e recomendar-lhe sua casa e as
maravilhas, retiradas das escavações, que

70
continha. Fez alusões bem pouco veladas às pessoas em casa
de quem não havia um só objeto autêntico entre os que
punham à venda, mas apenas falsos. Ele, que se contentava
com uma coleção menor, pelo menos não oferecia aos seus
clientes senão peças absolutamente autênticas. Não comprava
jamais objetos provenientes de escavações às quais não tivesse
ele mesmo assistido e, em seguida, de seu discurso se
depreendeu que ele estava presente quando se descobriu, nos
arredores do Fórum, um jovem casal de amantes que, na
expectativa da inevitável catástrofe, se havia estreitamente
enlaçado para esperar a morte. Norbert já havia ouvido essa
história antes, mas havia dado de ombros, considerando-a
uma fábula saída da imaginação particularmente fértil de um
contador de histórias. Fez de novo essa observação, mas o
proprietário lhe trouxe um broche de metal coberto de patina
que teria sido encontrado, sob os seus olhos, na cinza, ao lado
da jovem. Quando o hóspede do Albergo dei Sole teve a jóia em
suas mãos, sua imaginação dominou-o de tal forma que a
comprou ali mesmo, abandonando todo senso crítico, pelo
preço para inglês que lhe pediam, e deixou logo em seguida o
hotel com a sua compra. Ao virar-se para trás viu, à janela de
um dos andares, uma haste de flores brancas de asfódelos
suspensa, mergulhada num copo de água. Sem que nada de
lógico houvesse nisso tudo, a vista dessa flor dos túmulos lhe
pareceu uma confirmação da autenticidade de sua nova
aquisição. Tomou então o caminho que segue ao longo das
muralhas da cidade até a Porta Marina, olhando a jóia com
atenção e timidez, tomado por um duplo sentimento. Não era,
portanto, uma fábula; um casal de amantes fora exumado
perto do Fórum e tinha sido perto do templo de Apolo que ele
vira Gradiva se deitar para dormir o sono da morte. Mas ele a

71
tinha visto em sonho e estava certo agora de que, na realidade,
ela podia ter avançado alguns passos no Fórum e aí haver
encontrado com o homem com quem havia morrido.

Segurando aquele broche esverdeado entre os dedos, estava


possuído do sentimento de que pertencera a Zoé-Gradiva, e de
que havia fechado seu vestido na altura do pescoço. E ela
tinha sido a amante, a noiva, ou talvez a mulher daquele com
quem quisera morrer.

Norbert Hanold teve vontade de jogar fora o broche. Queimava-


lhe os dedos como se fosse de fogo. Ou melhor, lhe causava a
mesma dor que sentiria em sua imaginação, se quisesse colher
a mão de Gradiva na sua, e não encontrasse senão o vazio.

Mas a razão ainda era a dona do seu espírito e não deixava


reinar sem controle a imaginação. Faltava-lhe, de qualquer
maneira, uma prova irrefutável de que o broche pertencera a
Gradiva e de que fosse mesmo ela que houvessem encontrado
nos braços do jovem. Essa convicção teve para ele a força de
um sopro liberador e, quando chegou ao Diomedes, com o
crepúsculo que caía, seu passeio de algumas horas e sua boa
saúde lhe haviam proporcionado também a necessidade de se
alimentar. Comeu com bastante apetite a refeição espartana
que o Diomedes estava acostumado a servir, apesar de sua
origem ariana, e reparou em dois clientes novos chegados
naquela tarde. Pela postura, pela língua, via-se que eram
alemães. Eram um homem e uma mulher, tinham os dois
umas caras jovens, simpáticas e espirituosas. Não se podia
adivinhar que laços os uniam, mas Norbert deduziu por uma
certa semelhança que encontrou entre eles que deviam ser
irmão e irmã. No entanto, os cabelos louros do rapaz se
distinguiam da nuance castanho-clara dos de sua
companheira. Ela trazia no

72
peito uma rosa vermelha de Sorrento, cujo aspecto recordava
qualquer coisa àquele que a observava de um canto da sala,
sem que ele pudesse se lembrar o que era. Era o primeiro casal
que encontrava na viagem que lhe causava uma impressão
simpática. Eles se entretinham diante de um fiaschetto e
falavam num tom nem alto nem confidencial, sem dúvida de
coisas tanto sérias quanto alegres pois, de vez em quando, um
ligeiro sorriso lhes subia, nos dois ao mesmo tempo, aos
lábios, tornando-os gentis e dando vontade de tomar parte na
conversa deles ou, pelo menos, a Norbert veio esse desejo, se
ele os tivesse encontrado dois dias antes numa sala povoada
de ingleses e de americanos. Mas ele sentia que o que tinha na
cabeça estava em grande contradição com a atitude natural e
alegre do jovem casal que, evidentemente, não estava envolvido
em nenhuma nuvem, que não meditava, certamente não, sobre
a substância de que é feita uma mulher morta há dois mil
anos e que usufruía do momento presente e da vida, sem se
deixar perturbar por um problema repleto de enigmas. Não
correspondendo seu estado ao deles, ele achou que não
saberiam ser uns para os outros de nenhuma valia e, além
disso, tinha bastante medo de travar conhecimento com
aquelas pessoas naquelas condições, porque sentia um vago
pressentimento de que seus olhos claros poderiam penetrar
sua fronte, seus pensamentos e mostrar, pela sua expressão,
que eles pensavam não estar ele em toda a sua razão. Meteu-
se então no quarto e ficou, como na véspera, algum tempo
frente à janela, a contemplar o manto de púrpura que, à noite,
revestia o Vesúvio, depois se estirou para dormir. Muito
fatigado, adormeceu logo e teve um sonho estranhamente
absurdo: em algum lugar, sob o sol, Gradiva estava sentada e
fez de um talo de erva um nó escorregadio para prender

73
um lagarto dizendo: "Eu te peço, não te movas, minha colega tem
razão, o procedimento é verdadeiramente bom, e ela o tem
aplicado com pleno sucesso". No sonho, tudo isso pareceu
absolutamente louco a Norbert Hanold, e ele se agitou,
dormindo, a fim de libertar-se do seu sonho. E conseguiu, com
efeito, graças ao socorro de um pássaro que, soltando um grito
breve, semelhante a uma gargalhada, voou levando o lagarto
no bico. Então, tudo desapareceu.

Ao despertar, Norbert se lembrou de que durante a noite uma


voz lhe havia dito que as roseiras dão flor na primavera, ou
foram os olhos que o recordaram disso quando seu olhar, pela
janela, caiu sobre um arbusto coberto de deslumbrantes flores
vermelhas. Eram da mesma espécie da que tinha ao peito a
jovem mulher. Assim que chegou embaixo, Norbert colheu
algumas rosas e cheirou-as. As rosas de Sorrento deviam, com
efeito, ter qualquer coisa de peculiar, pois seu odor não lhe
pareceu apenas maravilhoso, mas também estranho e novo.
Parecia ter sobre o seu espírito um poder dissolvente. Pelo
menos, elas o fizeram perder o medo que ontem tivera dos
guardas do Ingresso e foi por esta via lícita que entrou em
Pompéia, pagando o dobro do preço da entrada sob o primeiro
pretexto que encontrou. Tomou rapidamente um caminho
onde se misturou à multidão dos visitantes. Havia trazido o
caderno de esboços da Casa di Meleagro, o broche esverdeado
e as rosas

74
vermelhas. Estas últimas o haviam feito esquecer de tomar o
café da manhã, e seus pensamentos não apontavam a hora
presente, mas o meio-dia. Como tinha ainda muito que esperar
até lá, devia encontrar como empregar o tempo e, com essa
intenção, penetrou numa casa, depois numa outra, onde lhe
parecia possível que, outrora, Gradiva tivesse entrado com
frequência, e que ela devesse, de tempos em tempos, visitar. A
opinião de que ela só podia sair ao meio-dia lhe pareceu menos
correta. Podia ser que lhe fosse permitido sair em outras horas
do dia e durante a noite, ao luar. As rosas confirmavam
miraculosamente essa opinião quando as tinha sob o nariz e
as cheirava. E a reflexão ela própria lhe vinha confirmar essa
maneira de ver. Ele podia, com efeito, se orgulhar de não
manter uma suposição a priori e, ao contrário, deixar o campo
livre a todas as hipóteses plausíveis e sua última hipótese não
só lhe parecia lógica, como ainda desejável. Mas então colocou
a questão de saber se os outros homens eram também capazes
de perceber o invólucro corporal de Gradiva ou se era o único a
possuir esse poder. Não pôde repelir a primeira destas
hipóteses que chegou a tomar, a seus olhos, alguma
verossimilhança, ainda que ele desejasse que fosse o contrário,
e ela o pôr num estado de instabilidade e aborrecimento. O
pensamento de que outros pudessem falar com Gradiva e
sentar-se perto dela para a entreter o chocava. Era um direito
que não pertencia senão a ele ou, pelo menos, tinha direito a
um tratamento mais favorável, pois fora ele quem a havia
reencontrado, a esta Gradiva, em quem ninguém pensava. Ele
a havia contemplado diariamente, ele a tinha presa nele
mesmo, ele tinha infundido nela, por assim dizer, sua própria
força vital, e lhe parecia, por isso, haver dado a ela uma vida
que ela não mais teria possuído sem ele.

75
Por tudo isso, segundo o seu sentimento, tinha adquirido um
direito ao qual podia pretender sozinho, e que podia recusar
dividir com quem quer que fosse.

O dia estava ainda mais quente que os dois precedentes, o sol


parecia alcançar um extraordinário recorde e fazia lamentar,
não só do ponto de vista arqueológico, mas ainda do ponto de
vista prático, que o aqueduto de Pompéia se encontrasse
interrompido e ressecado há dois mil anos. As fontes das ruas
guardavam aqui e ali uma lembrança e testemunhavam o fato
de que antigamente os passantes sedentos as haviam utilizado
sem cerimônia. Para se aproximarem de seus bocais, agora
desaparecidos, eles pousavam uma das mãos sobre as bordas
de mármore, e terminavam, da mesma maneira que a água
gasta a pedra, gota a gota, por aí deixar uma marca funda.
Norbert observava isso na esquina da Strada delia Fortuna e
lhe vinha também à idéia que a mão de Zoé-Gradiva outrora
teria igualmente se apoiado nesse lugar. Involuntariamente,
pôs a mão na pequena mossa mas abandonou em seguida
essa hipótese e chegou a ficar contrariado pelo fato de tal idéia
lhe ter vindo ao espírito. Não combinava com os modos e o
comportamento de uma jovem pompeiana de boa família.
Havia qualquer coisa de degradante na idéia de ela se inclinar
e pôr os lábios no bocal onde bebia a boca rude da plebe. Ele
nunca havia visto nada mais nobre ou distinto que os gestos e
a atitude de Gradiva. Aterrorizava-o que ela percebesse que ele
tivera essa idéia incrivelmente absurda. Com efeito, os olhos
dela tinham qualquer coisa de extraordinariamente penetrante
e às vezes aflorava nele o pensamento de que, durante os
encontros, eles procuravam saber o que se passava em sua
mente e a penetravam com sua sonda de aço claro. Por isso
precisava ter muito cui-

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dado para que eles não descobrissem nada de estúpido entre
os seus pensamentos.

Faltava ainda uma hora para chegar o meio-dia e, para passar


esta hora, atravessou a rua e entrou na Casa dei Fauno, a
maior e mais magnificente casa ali descoberta. À diferença de
todas as outras, possuía um átrio duplo, exibindo no centro do
implúvio o pedestal sobre o qual se encontrara a famosa
estátua do fauno dançando, que lhe havia dado o nome.

Norbert Hanold, no entanto, não sentiu o menor desgosto pelo


fato de essa obra de arte, tão estimada pelos sábios, ter sido,
juntamente com o mosaico da batalha de Alexandre,
transportada para o Museo Nazionale de Nápoles e não se
encontrar mais ali. Não tinha outra intenção ou desejo que
passar o tempo e, com esse propósito, passeava ao acaso pelo
grande edifício. Por trás do peristilo se abria uma peça
espaçosa, cercada de numerosas colunas, repetição do
peristilo ou jardim do prazer — Xisto — que a isso se parecia,
pois estava, como o oecus da Casa di Meleagro, inteiramente
recoberto de papoulas em flor. O visitante, com o pensamento
ausente, andava pelo espaço desolado e silencioso.

Hesitou subitamente e parou. Não estava sozinho aí. Acabava


de notar duas pessoas que, à primeira vista, lhe haviam dado
a impressão de ser uma só, de tal maneira estavam agarradas
uma à outra. Elas não o viam, não se ocupavam senão de si
mesmas, e se acreditavam mesmo invisíveis a todos,
dissimuladas como estavam, em um canto, escondidas pelas
colunas. Estavam abraçadas, misturavam seus lábios, e o
espectador imprevisto reconheceu, para sua grande surpresa,
o rapaz e a moça que, na véspera, à tarde, haviam sido os
primeiros a agradá-lo no curso de sua viagem. Mas, para um
irmão e uma irmã, seu

77
beijo e seu abraço pareciam realmente um pouco prolongados.
Era, pois, um casal de enamorados, provavelmente recém-
casados, uma Greta e um Augusto. Ê preciso notar que estes
dois personagens não vieram, desta vez, ao espírito de Norbert
e que este episódio não lhe pareceu de mau gosto ou ridículo,
ao contrário, aumentou a simpatia que sentia pelo casal. Como
o que faziam lhe parecia ao mesmo tempo natural e
perfeitamente compreensível, demorou-se a olhar o espetáculo
com seus dois olhos ainda mais abertos do que jamais haviam
estado para a contemplação da obra de arte mais admirada da
antiguidade e teria seguido nesta contemplação com prazer.
Mas tinha o sentimento de que havia penetrado sem nenhum
direito num recinto sagrado e de que estava perturbando as
práticas secretas de um culto. Também a idéia de que poderia
ser descoberto o encheu de terror e retirou-se apressado,
caminhando sem fazer nenhum ruído, na ponta dos pés. Tão
logo se viu a uma distância suficiente para não ser mais
ouvido precipitou-se para fora correndo, pelo Vicolo dei Fauno,
com o peito oprimido e o coração batendo.

Quando chegou diante da casa de Meleagro, não sabia se já


era meio-dia e sequer pensou em consultar o relógio. Parou
diante da porta, olhando com indecisão durante alguns
instantes o Have que lá estava inscrito. Um medo o impedia de
entrar e tinha, curio-

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samente, medo, ao mesmo tempo, de não encontrar Gradiva
no interior da casa e de a encontrar aí, pois lhe havia vindo à
cabeça, há alguns minutos que, no primeiro caso, ela estaria
em algum outro lugar com um rapaz e que, no outro, este
rapaz estaria com ela e lhe faria companhia, sentados os dois
nos degraus entre as colunas. Tinha, contra este último, um
ódio mais forte do que o que sentia por todas as moscas
reunidas e não teria acreditado que fosse capaz de sentir uma
emoção tão profunda e avassaladora. O duelo, que sempre lhe
parecera um ato estúpido, surgia de repente sob essa luz como
um direito natural e o único meio de um homem mortalmente
ofendido exercer uma vingança que o satisfizesse ou deixar
uma existência já então sem objetivo. Bruscamente dirigiu-se
para a entrada. Queria provocar aquela selvagem, queria, e
isso lhe vinha ainda com mais força, dizer àquela mulher que
ele a havia considerado melhor, mais nobre e incapaz de tal
comércio.

Estava a tal ponto transbordante nesses ensaios de revolta


que as palavras lhe vinham à boca, embora não tivesse para
isso nenhuma razão. Pois quando sua pressa o conduziu ao
oecus, gritou com impetuosidade:
— Estás só? — mesmo não tendo nenhuma dúvida de que
Gradiva, sentada nos degraus, estava tão sozinha como nas
vezes precedentes.

Ela o olhou com surpresa e respondeu:


— Quem poderia estar ainda aqui depois do meio-dia? Todo
mundo tem fome e está almoçando. Eu acho que a natureza
fez as coisas muito bem assim.

A excitação transbordante de Norbert não podia se acalmar


imediatamente e, apesar de sua consciência e vontade, era um
campo aberto às desconfianças que o haviam invadido lá fora
com a força

79
de uma certeza. E apesar de toda a realidade, não conseguia
chegar a pensar de outra forma. A mulher tinha os olhos fixos
nele, esperando que retomasse a palavra. Depois bateu com o
dedo na fronte e disse:
— Tu és... — Continuou: — Parece-me que já é bastante que
eu não me ausente, apesar de ter que esperar tua chegada.
Mas este lugar me agrada enormemente. Eu vejo que tu me
trouxeste o caderno de esboços que esqueci ontem. Agradeço
tua excelente intenção. Não queres mo dar?

Esta última pergunta se justificava pois Norbert não se


propunha a fazê-lo e continuava pregado no mesmo lugar, sem
um movimento. Vinha-lhe à mente que ele havia imaginado e
forjado uma enorme estupidez e que havia dito outra. Para
reparar isso tanto quanto possível, avançou rapidamente,
estendeu o caderno a Gradiva, e sentou-se maquinalmente no
degrau ao seu lado. Ela lançou um olhar sobre as mãos do
jovem e disse:
— Parece que tu és amigo das rosas.

A estas palavras, o motivo que o havia levado a colhê-las e a


trazê-las lhe voltou bruscamente e ele respondeu:
— Sim, mas elas não são para mim... Tu me disseste ontem...
e esta noite alguém me repetiu, que devem ser oferecidas na
primavera...

Ela refletiu um pouco, evidentemente, antes de responder:


— Ah! sim, me lembro! Disse que não se dava asfódelos às
outras, mas rosas. Que gentil de tua parte. Parece-me que a
opinião que tens de mim melhorou um pouco.

Ela adiantou a mão para segurar as flores vermelhas e ele deu-


lhas dizendo:
80
— Eu pensava, a princípio, que tu só podias estar aqui ao
mejo-dia, mas creio agora que tu podes vir também a outras
horas e estou feliz.
— E por que estás feliz?

O rosto da mulher exprimia incompreensão, mas seus lábios


tremiam de maneira quase imperceptível. Ele respondeu sem
jeito:
— Ê belo viver... eu nunca tinha me apercebido antes... Eu queria te
perguntar...

Procurou no bolso do seu jaquetão e concluiu, retirando o


objeto que havia, enfim, encontrado:
— Este broche te pertenceu outrora? Ela se aproximou
ligeiramente, mas sacudiu a cabeça.
— Não, não posso me lembrar. Pela sua antiguidade, isso não
me parece, contudo, impossível, pois ele provém, sem dúvida,
desse tempo. O encontraste com certeza no Sol. Me parece já
haver visto esta bela pátima verde.

Ele repetiu involuntariamente:


— No Sol, por que no Sol?
— Chama-se aqui o Sol ao que produz todas as coisas desta espécie.
Não é possível que este broche tenha pertencido a uma jovem que
morreu com um companheiro na região do Fórum, eu creio...
— Sim, ele a tinha em seus braços...
— Ah! sim...

Estas duas pequenas palavras saíram da boca de Gradiva


evidentemente como uma exclamação favorável e ela parou um
instante antes de continuar:
— Essa é a razão que te fez crer que eu o tinha usado e isso te
havia talvez... como me dizias ainda há pouco... feito infeliz?
Via-se que ele se sentia extraordinariamente aliviado e
assim demonstrou sua resposta:
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— Eu estou muito contente... O pensamento de que este
broche te houvesse pertencido me havia causado uma espécie
de... turbilhão na cabeça.
— Tua cabeça me parece propensa a isso. Esqueceste, talvez,
de comer esta manhã? Isso favorece ainda mais tais acessos.
Eu não sofro deles, mas trago provisões, porque gosto de estar
aqui ao meio-dia. Se queres que te ajude a dissipar um pouco
o estado de irritação em que te encontras, podemos reparti-las.

Tirou do bolso de seu vestido um pãozinho enrolado em papel


de seda, pôs a metade na mão dele e começou a comer a outra
metade com evidente apetite. Seus dentes,
extraordinariamente graciosos e regulares, não se contentavam
com aparecer entre os lábios e seduzir por seu esplendor, mas
faziam ainda, ao morder a crosta do pão, um ruído
ligeiramente crepitante que não dava absolutamente a
impressão de que fossem aparências sem consistência, mas
qualquer coisa de físico e de natural. Além disso, ela tinha
razão ao comentar sobre o café da manhã perdido. Ele comia,
também, maquinalmente e sentia um efeito favorável a
esclarecer seus pensamentos. Assim não falaram os dois
durante algum tempo. Entregaram-se à mesma ocupação útil,
até o momento em que Gradiva disse:
— Parece-me que há dois mil anos nós já partilhamos
igualmente o nosso pão. Não te lembras?

Ele não se lembrava, mas espantou-se por ela lhe falar de uma
época indefinidamente distante, pois o reforço de solidez
causado pela comida na sua cabeça havia tido como efeito
uma mudança no estado do seu cérebro. A idéia de que ela
pudesse ter se encontrado neste local de Pompéia há tão
remoto tempo não lhe parecia enquadrar-se com o são racio-

82
cínio. Tudo nela não lhe parecia agora ter mais que vinte anos.
A forma e a cor do rosto, os cabelos castanhos ondulados de
maneira particularmente encantadora, os dentes imaculados e
o vestido claro, que nem a menor mancha mostrava, não
podiam, sem flagrante contradição, ter estado enterrados
durante inumeráveis anos sob a cinza. Norbert se pôs a
duvidar de que estivesse verdadeiramente sentado ali,
acordado, e pensou que era mais certo que estivesse em seu
gabinete de trabalho e que, enquanto contemplava a imagem
de Gradiva, o sono o tivesse tomado. Ele teria então sonhado
que estava em Pompéia, que aí havia encontrado Gradiva
ainda viva e continuava a sonhar que se encontrava sentado
ao seu lado na Casa de Meleagro. Pois o fato de que ela ainda
estivesse viva e rediviva não podia verdadeiramente acontecer
senão em sonhos... As leis da natureza se opunham a isso.

O que ela acabava de dizer, no entanto, que já havia repartido


seu pão, dois mil anos antes, com ele, parecia estranho. Ele
nada sabia disso e, evidentemente, isso não podia lhe
acontecer em sonhos.

Ela havia pousado os dedos finos da mão esquerda sobre o


seu joelho, da mão que escondia a chave da revelação de um
milagre insolúvel.

O oecus da Casa di Meleagro não estava abrigado da


impertinência das moscas comuns. Norbert acabava de
perceber uma, sobre uma das colunas amarelas, em frente a
ele, que corria daqui para ali segundo o hábito idiota das
moscas. Sem razão, agora ela zumbia em torno do seu nariz.

Ele devia ter respondido à pergunta e dito que não se lembrava


de ter comido antigamente o pão com ela, mas
involuntariamente as palavras seguintes lhe saíram
bruscamente da boca:

83
— As moscas eram então já tão diabólicas quanto agora e te
atormentavam a ponto de te dar desgosto pela vida?

Ela o olhou com espanto e repetiu sem compreender:


— As moscas... Será que tens uma agora dentro da tua
cabeça?

O monstro negro havia pousado nesse momento sobre sua


mão e ela não exprimia senti-la sequer pelo menor movimento.
À essa visão, dois poderosos impulsos concorreram para
conduzir o jovem arqueólogo a um mesmo ato. Levantou
bruscamente a mão e deu um golpe sem nenhuma doçura
sobre a mosca e a mão da vizinha.

Tão logo o golpe foi dado, um grande embaraço tomou-o, ao


mesmo tempo que um terror cheio de alegria. Ele não tinha
golpeado no vazio, ele não tinha encontrado uma coisa fria e
entorpecida mas, sem dúvida alguma, uma verdadeira mão
humana, quente e viva, que ficou um instante sob a dele, sem
movimento, evidentemente siderada. Depois foi vivamente
retirada e a moça disse:
— Tu estás realmente louco, Norbert Hanold.

Este nome, que ele não havia dito a ninguém em Pompéia, lhe
vinha com tanta certeza, com tal decisão e sem nenhuma
hesitação, dos lábios de Gradiva, que aquele que o possuía
levantou-se, ainda mais assustado, do degrau onde havia
estado sentado. Nesse momento ressoaram passos entre as
colunas, passos que se haviam aproximado sem serem
notados e diante do olhar perturbado de Norbert Hanold
apareceram os rostos do casal de amantes simpáticos da Casa
dei Fauno. A jovem gritou, num tom da mais viva surpresa:

— Zoe, tu também aqui! E também em viagem de núpcias! Não


me havias escrito nada!

84
Norbert se viu do lado de fora da Casa de Meleagro, na Strada
di Mercúrio. Não tinha a menor noção de que maneira havia
chegado ali. Devia ter saído instintivamente ao perceber, num
súbito clarão, que era tudo o que lhe restava fazer se não
quisesse se encontrar na situação mais ridícula do mundo aos
olhos do jovem casal, mais ainda aos olhos daquela que lhe
havia chamado por seus dois nomes e que eles haviam
saudado tão amigavelmente, e sobretudo aos seus próprios
olhos. Pois embora não compreendesse nada do que lhe havia
ocorrido, alguma coisa lhe parecia incontestável. Gradiva, com
aquela mão que era humana, que não era sem consistência,
que era morna e realmente viva, havia expressado esta
incontestável verdade: ele havia se encontrado, nos dois
últimos dias, num estado de completa loucura e não era um
sonho estúpido, os olhos e os ouvidos que a natureza põe à
disposição da razão humana tinham estado despertos. Não
compreendia em absoluto — não mais, aliás, que todo o resto
— como tudo aquilo pudera acontecer. Além disso, tinha o
vago sentimento de que um sexto sentido teria tido um papel
muito importante nesse caso, a ponto de tê-lo feito tomar uma
coisa, preciosa talvez, pelo seu oposto. A fim de tirar algum
proveito dessas reflexões, precisava de um lugar silencioso e
solitário, distante, o que impulsionou Norbert Hanold a
afastar-se o mais rápido possível de olhos, ouvidos e outros
órgãos dos sentidos que utilizam seus talentos naturais, como
convém, aos fins a que são destinados.

85
Quanto à pessoa que possuía a mão morna, tinha ficado
também surpreendida pela visita inopinada e particularmente
imprevista ao meio-dia, e deduzindo-se da expressão inicial de
sua fisionomia, a surpresa não fora exclusivamente agradável.
Mas no instante seguinte não aparecia mais o menor traço
disso sobre seu rosto circunspeto; levantou-se rapidamente,
dirigiu-se à jovem mulher e lhe apertou a mão.

— É verdadeiramente um prazer, Gisa, o acaso tem mesmo de


vez em quando uma idéia agradável. Então o senhor é seu
marido há quinze dias? Estou encantada em conhecê-lo e não
é necessário, pelo ar que vejo em vocês, transformar as
felicitações em condolências. Casais que têm necessidade
desse tipo de cumprimento costumam vir almoçar em Pompéia
hoje em dia. Vocês devem estar hospedados perto do Ingresso.
Irei ver vocês esta tarde. Não, eu não escrevi e peço que você
não se zangue, pois, como você vê, minha mão não se regozija,
como a sua, do direito de usar uma aliança. O ar aqui tem
grande efeito sobre a imaginação, você é a prova disso, o que é
melhor do que se ele deixasse vocês muito sóbrios. O rapaz
que acaba de partir também está tecendo no cérebro uma teia
estranha, me parece que ele imagina uma mosca zumbindo na
cabeça; aliás, cada um não tem, mais ou menos, sua aranha
no teto? Eu tenho alguns conhecimentos de entomologia; sou,
portanto, de alguma utilidade em tais casos. Meu pai e eu
moramos no Sole, ele teve, também, um súbito acesso e, com
isso, a boa inspiração de trazer-me com ele sob a condição de
que eu me distraia só em Pompéia e de que não o aborreça. Eu
achava que mesmo sozinha acabaria desenterrando aqui
qualquer coisa interessante. Mas sobre o meu achado — quero
dizer, a oportunidade de encontrar você, Gisa — eu não tinha
ousado pensar. Mas não paro de fa-

86
lar, tagarelando como se faz com uma velha amiga. Nós não
somos, na verdade, velhas. Meu pai, às duas horas, deixa o sol
pela mesa dos hóspedes do Soleil e eu preciso ir fazer-lhe
companhia e tenho que renunciar, por agora, à de vocês. Vocês
podem, eu creio, admirar sem mim a Casa di Meleagro. Não
tenho certeza, mas suponho que sim. Favorisca signor! A
rivederci Gisetta! Já aprendi bastante italiano e não preciso
saber mais. Aquilo de que se necessita, se inventa. Com
licença, não, senza complimenti.

Este último pedido se dirigia ao jovem marido que, por polidez,


parecia querer acompanhá-la. Ela havia se expressado com
vivacidade, sem nenhum embaraço e de acordo com as
circunstâncias de seu encontro imprevisto com uma de suas
amigas íntimas. Mas havia falado excessivamente rápido, o
que demonstrava que, como dizia, lhe era mesmo impossível
ficar. Também só saiu da Casa de Meleagro para a Strada di
Mercúrio alguns minutos depois da partida precipitada de
Norbert Hanold. A rua, como de costume àquela hora do dia,
não continha nada de vivo, a não ser aqui e ali um lagarto que
remexia a cauda. Parou à soleira da porta, refletiu alguns
instantes, depois tomou o caminho mais curto até a porta de
Hércules, seguindo as lajes da encruzilhada do Vicolo di
Mercúrio e da Strada di Lallustio com seu macio andar de
Gradiva. Chegou, assim, rapidamente, às bases das ruínas das
muralhas da Porta Ercolanese. Por trás desta se estendia a
longa Via dos Túmulos, mas esta não tinha então o branco
resplendente que a havia revestido e feito toda faiscante de
raios, vinte e quatro horas antes, quando o jovem arqueólogo
aí buscava a moça com os olhos. O sol parecia convencido de
que já havia ultrapassado suas medidas pela manhã.
Dissimulava-se atrás de uma nuvem cinzenta, aparentemente
trabalhando ainda através de sua den-

87
sidade, e os ciprestes, de um lado e de outro da Strada dei
Sepolcri se erguiam, aqui e ali, em negro escuro sobre o céu.
Era um quadro muito diverso do da véspera. A claridade que
tornava todas as cores misteriosamente radiosas havia
desaparecido. Via-se com morna precisão a rua, que parecia
haver tomado um aspecto de acordo com sua denominação.
Essa impressão não se desmentia, mas aumentava devido a
alguma coisa que se via mover-se no outro extremo da rua,
nas proximidades da villa de Diomedes e que se assemelhavam
a uma sombra tentando encontrar sua tumba para
desaparecer dentro dela. Não era o caminho mais curto para ir
da Casa de Meleagro ao Albergo dei Sole, melhor dizendo, era a
direção oposta, no entanto, Zoé-Gradiva devia ter-se lembrado,
de repente, de que o tempo não a pressionava tanto para ir
almoçar, pois, em seguida, após uma pequena parada perto da
porta de Hércules, afastou-se de costas, levantando quase
verticalmente a sola dos pés sobre as lajes de lava da Rua dos
Túmulos.

A villa de Diomedes era assim denominada gratuitamente


pelos homens modernos porque um certo Líbertus Marcus
Arrius Diomedes, elevado ao cargo de chefe do bairro que
outrora se erguia nesse lugar, aí havia construído um túmulo,
primeiro para sua esposa e depois para si próprio e para os
filhos. Essa villa era um vasto edifício e oferecia um
testemunho autêntico e aterrador da história da destruição de

88
Pompéia. Todo prédio superior estava agora reduzido a um
grande amontoado de ruínas. Um pouco mais abaixo se
encontrava um jardim de dimensões excepcionalmente
extensas, inteiramente cercado por um pórtico cujos pilares
estavam bem conservados. No centro do jardim se
encontravam os magros resíduos de uma fonte e de um
pequeno templo. Um pouco mais abaixo ainda, duas escadas
conduziam a um subterrâneo abobadado que circundava o
jardim e era iluminado por uma claridade obscura e
crepuscular. A cinza do Vesúvio havia penetrado também aí,
onde foram descobertos os esqueletos de dezoito mulheres e
crianças. Haviam se refugiado com algumas provisões colhidas
às pressas nessa peça meio subterrânea e esse pretenso
refúgio se havia transformado em túmulo para todos os que
nele se haviam abrigado. Em outro local se encontrara o
suposto dono da casa que fora do mesmo modo asfixiado e
jazia sobre o solo. Havia querido fugir pela porta do jardim, da
qual tinha ainda a chave na mão. Ao seu lado encontrava-se
outro esqueleto contorcido, sem dúvida o de um de seus
serviçais, que trazia com ele considerável número de peças de
ouro e prata. A cinza endurecida conservara a forma dos
corpos que enterrara e assim se tirara moldes deles; no Museo
Nazionale de Nápoles se encontra, sob um vidro, o modelado
exato do pescoço, dos ombros e do belo busto de uma jovem
vestida num fino vestido de gaze.

A Villa de Diomedes era, pelo menos uma vez, o inevitável final


de percurso para um visitante consciente de seu dever, mas
naquele momento, ao meio-dia, se podia supor com certeza
que, devido à localização afastada, não se encontrava ali
nenhum curioso; assim, ela pareceu a Norbert Hanold o
refúgio que melhor convinha à sua nova necessidade de
reflexão. Esta exigia imperiosamente uma solidão de

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tumba, um silêncio sem sopro e uma tranquilidade sem
movimento, mas uma inquietude poderosa crescia
energicamente no sistema arterial de Hanold contrariando essa
última pretensão. Tinha sido forçado a fazer entre as duas
reivindicações um acordo; a mente tentaria manter a sua,
permitindo, todavia, aos pés que contentassem seu desejo.
Assim, desde a chegada, passeava em volta do pórtico,
conseguindo manter o equilíbrio corporal e esforçando-se para
normalizar o de sua mente. Mas a realização se mostrava mais
difícil de atingir que a intenção; sem dúvida, Norbert via clara
e incontestavelmente que havia sido totalmente insensato ao
pensar que tinha se sentado ao lado de uma jovem pompeiana
ressuscitada e mais ou menos reencarnada, e esta idéia, bem
distinta da sua loucura, o levava incontestavelmente a um
progresso considerável no caminho de volta à razão. Mas sua
razão não retornara ainda ao estado normal, pois se lhe
parecera que Gradiva não era mais que uma figura de pedra
morta, estava da mesma forma fora de dúvida que ela vivia
ainda. Tinha disso uma prova irrefutável, ele não tinha sido o
único a vê-la, outros também o podiam fazer, sabiam que ela
se chamava Zoe e lhe falavam como a uma pessoa de sua
espécie. Por outro lado. Gradiva sabia o nome de Norbert
Hanold e isso só poderia dever-se a uma faculdade
sobrenatural do seu ser. Ora, essa dupla natureza continuava
igualmente indecifrável à luz da razão que começava a lhe
voltar. A essa contradição insolúvel se associava outra
parecida, que estava nele, pois se tinha o vivo desejo de se
enterrar com os outros na villa de Diomedes a fim de não
correr o risco de reencontrar Gradiva, ao mesmo tempo o
animava o sentimento extremamente alegre de que ela ainda
estava na vida e conseqüentemente ele podia reencontrá-la
outra vez. Isso girava na sua

90
cabeça, empregando uma comparação vulgar, mas exata,
como a roda de um moinho, e ele corria da mesma maneira ao
redor do longo pórtico, o que não dissipava suas contradições.
Muito ao contrário, tinha o vago sentimento de que tudo em
volta dele obscurecia sem cessar.

Foi então que, de súbito, recuou, quando virava um dos quatro


cantos da aléia bordejada de pilares. A alguns passos diante
dele, bem alto, sobre um trecho de muralha em ruínas estava
sentada uma jovem, uma das que foram encontradas mortas
aqui mesmo sob as cinzas.

Não, aí estava um desses absurdos dos quais já havia liberado


sua razão. Seus olhos, e qualquer coisa nele que não tem
nome, o reconheceram. Era Gradiva, ela estava sentada sobre
as pedras da ruína como antes sobre o degrau, mas como
estivesse bem mais alto, mostrava, sob a bainha do vestido, os
pés, até os graciosos tornozelos, pendendo livremente,
calçados nos sapatos cor de areia.

O primeiro movimento instintivo de Norbert Hanold foi fugir


correndo pelo jardim, entre dois pilares. Aquilo que mais temia
no mundo, na última meia hora, acabava de acontecer num
repente. Os olhos claros que o olhavam e os lábios abaixo
deles iam, achava ele, explodir num riso irônico. Mas nada
fizeram e uma voz conhecida ressoou tranquilamente: "Lá fora
vais te molhar."

Percebeu agora, pela primeira vez, que chovia; era por isso que
o tempo se havia tornado tão sombrio. Isso seria, sem dúvida,
do melhor proveito para a vegetação de Pompéia e seus
arredores, mas seria ridículo acreditar que um homem
pudesse tirar qualquer vantagem daquela chuva e nesse
momento Norbert Hanold temia muito mais o ridículo do que
um perigo de morte.

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Foi esta a razão por que abandonou, a contragosto, seu
desígnio, e ficou, todo sem graça, olhando os dois pés de
Gradiva que, agora, como que tomados de impaciência,
balançavam ligeiramente. E como isso não esclarecia
precisamente os pensamentos que pudesse estar exprimindo, a
proprietária dos pés graciosos tomou de novo a palavra:
— Nós fomos interrompidos... Querias dizer-me qualquer coisa
sobre as moscas... creio que fazias observações científicas ou
tinhas uma mosca dentro da cabeça... Conseguiste pegá-la
sobre a minha mão e matá-la?

Dizendo essas últimas palavras um sorriso lhe passou pelos


lábios, mas tão leve e gracioso que nada teve de terrível. Muito
ao contrário, devolveu a Norbert o que ele buscava, a
possibilidade de falar, mas com uma restrição: o jovem
arqueólogo não sabia mais, de repente, em que pessoa dirigir
sua resposta. Para escapar ao dilema, achou melhor não usar
nenhuma e respondeu:
— Eu tinha, como se diz, o cérebro um pouco confuso e peço
perdão de ter assim... essa mão... Não posso me explicar como
pude ser tão insensato; mas não estou, tampouco, no estado
de compreender como é que a dona dessa mão pode me
censurar pelo meu desatino me chamando pelo meu nome.

Os pés de Gradiva pararam o movimento e ela retomou seu


discurso na segunda pessoa do singular:
— Tua compreensão não está ainda bastante desenvolvida,
Norbert Hanold. Isso, aliás, não poderia me surpreender, pois
há muito tempo que estou acostumada com ela. Para renovar
essa experiência não me teria sido necessário vir a Pompéia,
poderias ter-me convencido, certamente, a uma centena de
léguas daqui.

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— A cem léguas daqui — repetiu ele sem compreender e meio
gaguejante —, onde isso?
— Em frente à tua casa, na diagonal, na casa da esquina, à
minha janela há uma gaiola com um canário.

Esta última palavra tocou aquele que a ouvia como a


recordação de um tempo longínquo, e ele repetiu:
— Um canário...

E acrescentou gaguejando ainda mais:


— Que... que canta?
— É o seu costume, sobretudo na primavera, quando o sol
começa a brilhar e a esquentar. Nessa casa mora meu pai,
Richard Bertgang, professor de zoologia.

Os olhos de Norbert Hanold se arregalaram tanto, a tal ponto,


como jamais haviam conseguido arregalar-se antes. Repetiu
uma vez mais:
— Bertgang... a senhorita é, então... a senhorita é a senhorita
Zoe Bertgang? Mas essa me parecia outra pessoa.

Os dois pés suspensos começaram a balançar e a senhorita


Zoe Bertgang disse:
— Se achas o tratamento cerimonioso mais conveniente
entre nós eu posso também empregá-lo, mas chamar-te de tu
me vinha mais naturalmente aos lábios. Eu não sei se no
passado, quando brincávamos amigavelmente todos os dias, e
de vez em quando trocávamos tapas e sopapos eu te aparecia
sob outra luz. Mas, se nestes últimos anos o senhor se desse o
trabalho de lançar os olhos sobre mim, as cascas talvez já
tivessem caído, e o senhor teria percebido que há algum tempo
sou assim. Não, agora chove muito, a cântaros, como se diz, o
senhor não ficaria com um fio seco.

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Não apenas os pés da jovem testemunhavam uma nova onda
de impaciência, mas também havia no tom da sua voz
qualquer coisa que parecia demonstrar que ela estava zangada
e de mau humor e Norbert tinha a impressão de desempenhar
o papel de um escolar repreendido, que leva um tapa na boca.
O que o fez procurar maquinalmente, mais uma vez, uma
saída entre os pilares, e ao movimento que expressava esse
desejo é que se referiam as últimas palavras que havia
acrescentado a senhorita Zoe Bertgang. E, para dizer a
verdade, eram incontestavelmente justas, pois para designar a
chuva que caía por fora do teto protetor a expressão chove
muito era bastante fraca. Uma tromba d'água tropical, de uma
espécie que raramente se abate, para benzê-los, sobre os
campos napolitanos, precipitava o mar Tirreno do alto do céu
sobre a villa de Diomedes e se erguia como uma firme muralha
composta de milhares de gotas da grossura de uma noz,
resplandecentes como pérolas. Essa circunstância tornava,
com efeito, impossível uma fuga ao ar livre e forçava Norbert
Hanold a permanecer na sala de aula que constituía o pórtico.
Sua jovem professora, de expressão fina e prudente,
aproveitava o aprisionamento para continuar, após curta
pausa, os esforços pedagógicos.
— Então, até essa idade em que, não sei bem por quê, nos
tratam de "Backfisch", eu, na verdade estranhamente, me
dediquei ao senhor, e acreditei jamais poder encontrar no
mundo amigo mais encantador. Eu não tinha mãe, nem irmão,
nem irmã, e quanto ao meu pai, a primeira cobra-de-vidro que
aparece, conservada no álcool, lhe parece muito mais
interessante do que eu; ora, é uma necessidade, necessidade
da mais absoluta para quem quer que seja, mesmo para uma
adolescente, ter com que ocupar seus pensamentos e tudo o
que daí se segue. Esse quê era,

94
então, o senhor, mas quando a ciência da antiguidade o
submergiu, eu fiz essa descoberta que tu — desculpe-me, mas
sua inovação protocolar parece tão insípida e pouco
apropriada ao que eu quero exprimir — eu queria dizer, então,
me pareceu que te havias transformado num homem
insuportável que, para mim pelo menos, não tinha mais olhos
na cara, língua na boca, lembranças no lugar em que eu
conservava intacta toda a nossa amizade de infância. Por isso,
sem dúvida, eu não tinha mais meu jeito de antes; pois
quando nós nos encontrávamos aqui ou ali no mundo, no
inverno passado ainda, tu não me vias, eu não ouvia o som da
tua voz, o que não me parecia, aliás, especial, pois fazias o
mesmo com todas as outras. Eu não era, para ti, senão o
vento, e com esse topete louro, que antigamente tantas vezes
eu despenteei, estavas também tão tedioso, seco e parco de
palavras como uma cacatua empalhada e com isso inchado de
importância como um arqueopterix (é bem o nome de pássaro
monstro, fóssil antedilu-viano). Mas que a tua mente
edificasse um fantasma assim tão monumental de me tomar
aqui, em Pompéia, como uma coisa qualquer exumada e
ressuscitada, eis o que eu não poderia ter esperado de ti e
quando surgiste de imprevisto diante de mim, foi com grande
esforço, primeiramente, que pude alcançar o que havia por
trás da incrível teia tecida pela imaginação no teu cérebro.
Depois comecei a me divertir e saboreei esse divertimento,
apesar do seu bolor de casa de loucos. Pois, como te dizia, não
esperava isso de tua parte.

Isso dizendo, a senhorita Zoe Bertgang havia terminado por


adoçar um pouco o tom de sua voz e sua expressão. Enquanto
fazia esse sermão severo, sem disfarce, circunstanciado e
instrutivo, se parecia, de maneira verdadeiramente notável, ao
baixo-relevo

95
Gradiva, não apenas pelos traços de seu rosto, pelo tamanho,
pela expressão séria dos olhos, os cabelos graciosamente
ondulados, a postura que ela havia tantas vezes manifestado,
mas ainda pelas vestes, o vestido e o xale de fina e macia
casimira creme, com numerosas pregas, que completavam a
extraordinária semelhança de toda a sua aparência.

Era loucura completa ter acreditado que uma pompeiana


enterrada aqui há dois mil anos pelo Vesúvio, pudesse de vez
em quando sair bem viva, falar, desenhar, comer pão. Mas
como a fé traz a felicidade, ela faz aceitar de contrapeso uma
quantidade de coisas inacreditáveis. Tudo bem considerado,
assim era, salvo algumas circunstâncias atenuantes
importantes, levando-se em conta o estado de espírito de
Norbert Hanold e a loucura que o havia feito tomar Gradiva,
durante dois dias, por uma Rediviva.

Embora ele estivesse bem no seco sob o telhado do pórtico, se


podia compará-lo a um cão molhado, sobre o qual acabavam
de derramar um balde cheio de água. Mas, para dizer a
verdade, a ducha fria lhe havia feito bem. Sem que soubesse
bem por quê, sentia o peito mais livre, a respiração mais fácil.
Essa leveza poderia ter sido facilitada pela mudança de tom do
fim do sermão — a pregadora estava, efetivamente, sentada
como sobre uma cátedra — e durante o sermão havia surgido
entre suas pálpebras o esplendor transfigurador que aparece
nos olhos dos visitantes de igrejas, em quem a fé e a esperança
despertam a perspectiva de um futuro bem-aventurado. Como
a reprimenda estivesse terminada, sem que se pudesse temer
que outra viesse a seguir, Norbert conseguiu dizer:
— Sim, eu te reconheço agora... Não, na verdade tu não
mudaste... és Zoe..., minha boa camarada, alegre e ajuizada, é
realmente muito estranho.

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— Que alguém tenha primeiro que morrer para encontrar a
vida. Mas isso sem dúvida é necessário na arqueologia...
— Não, eu quero falar de teu nome...
— Porque ele é. estranho?

O jovem arqueólogo se mostrava não apenas versado nas línguas


clássicas, mas também nos radicais germânicos, pois respondeu:
— Pois Bertgang e Gradiva têm o mesmo sentido e querem
dizer aquela que resplandece ao andar.

Os dois sapatos, espécie de sandálias, da senhorita Zoe


Bertgang pareciam naquele momento, pela sua mobilidade,
uma alvéloa a se agitar com impaciência, como a esperar
qualquer coisa, e aparentemente as meditações linguísticas
eram o que menos interessava à dona daqueles pés que
resplandeciam quando caminhavam. E, por sua expressão, ela
aspirava um desenlace rápido. Mas de novo se atravessou uma
observação de Norbert Hanold, que parecia moldada na mais
profunda convicção:
— Mas que sorte que tu não és Gradiva, mas sim aquela moça
tão simpática!

Estas palavras fizeram passar pelo rosto da moça uma espécie


de espanto, que disse:
— Quem é, em quem tu pensas?
— Naquela que falava contigo na casa de Meleagro.
— Tu a conheces?
— Sim, já a tinha visto, é a primeira vez que uma mulher me
agrada tanto.
— Ah! E onde a viste?
— Esta manhã, na casa do Fauno. Os dois estavam fazendo
uma coisa extraordinária.
— O que estavam fazendo?
— Não estavam me vendo e se beijavam.

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— Ë bem natural. Por que outra razão estariam em Pompéia
em viagem de núpcias?

A estas últimas palavras toda a perspectiva se transformou aos


olhos de Norbert Hanold, pois o trecho de muro que Zoe havia
escolhido para cátedra se encontrava vazio, a jovem havia
descido. Ou melhor, ela tinha voado, se lançando no ar com a
mobilidade oscilante da alvéloa e se encontrava já ereta sobre
os pés de Gradiva antes que o olhar tivesse podido tomar
consciência do seu vôo descendente.

Retomou imediatamente a conversação dizendo:


— A chuva agora passou. Os mestres severos demais não
duram muito tempo. Tudo voltou à razão, eu não menos que
os outros. Podes ir te encontrar com Gisa Hartleben, ou
qualquer outro nome que ela tenha, a fim de lhe ser
cientificamente útil durante sua estada em Pompéia. Eu
preciso regressar ao Albergo dei Sole, onde meu pai deve estar
me esperando para almoçar. Nós talvez nos reencontremos
pelo mundo, na Alemanha ou na lua... Adeus. Zoe Bertgang
falava no tom distinto, mas perfeitamente insignificante, de
uma jovem da melhor sociedade e se preparava para ir
embora, pousando, como era seu costume, o pé direito à
frente, enquanto a planta do esquerdo se mantinha quase
verticalmente. Como, além disso, dada a umidade do chão, ela
levantasse ligeiramente o vestido com a ajuda da mão
esquerda, a semelhança com Gradiva era perfeita e aquele que
estava afastado dela apenas o dobro do comprimento de um
braço, notou então pela primeira vez um detalhe na verdade
ínfimo que distinguia a viva do baixo-relevo. Faltava a este
último uma coisa que a outra possuía e que se mostrava
muito nitidamente nesse momento: era uma pequena covinha
na face, onde se passava qualquer coisa mínima e difícil de
determinar. Ela se pregueou então

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um pouquinho, o que poderia bem exprimir tanto um desafio
quanto um desejo de rir reprimido, talvez até as duas coisas
juntas. Norbert Hanold olhava essa covinha e, ainda que fosse
trazido à razão segundo o diploma que acabavam de conceder-
lhe, seus olhos devem ter se confundido por um erro de ótica.
Pois anunciou sua descoberta num tom particularmente
triunfante:
— Eis a mosca outra vez!

Era de tal maneira estranho que a ouvinte, sem compreender


estas palavras, não podendo verificar por si mesma, deixou
involuntariamente escapar:
— A mosca, onde?
— Aí, no teu rosto.

E, em resposta, Norbert enlaçou subitamente o pescoço da


jovem, tentando alcançar com os lábios o inseto que ele tanto
detestava e que imaginava ver na covinha. Evidentemente não
teve sucesso, pois exclamou logo em seguida:
— Não, ei-la agora sobre os teus lábios!

E nesse sentido dirigiu sua caçada com a rapidez do raio. Mas


dessa vez demorou tanto tempo que não deixou nenhuma
dúvida de que não vinha atrás do inseto. E, coisa
extraordinária, a Gradiva viva agora não o contrariava em
nada, e quando, por volta de um minuto mais tarde, foi
obrigada a retomar a respiração, não lhe disse, apesar de a
possibilidade de falar lhe ter sido restituída:
— És completamente louco, Norbert Hanold.

Mostrou, pelo contrário, com um sorriso encantador nos lábios


bem mais vermelhos que antes, que agora estava
perfeitamente convencida da total recuperação pelo
companheiro, da saúde e do juízo.
A villa de Diomedes tinha sido, há dois mil anos, numa hora
nefasta, testemunha de acontecimentos particularmente
lúgubres, mas durante uma

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hora não viu acontecer nada capaz de provocar terror. Nesse
momento, então, surgiu na senhorita Zoe uma reflexão sensata
e ela disse, na verdade contra a vontade:
— Mas realmente preciso ir agora. Meu pai vai morrer de fome.
Creio que por hoje podes renunciar à companhia de Gisa
Hartleben no almoço e te contentares com o Albergo dei Sole,
pois já não tens mais nada a aprender com a minha amiga.

Poder-se-ia concluir daí que durante a hora precedente se


havia tratado de uma coisa como outra qualquer, pois essas
propostas pareciam indicar que Norbert Hanold havia recebido
da jovem dama acima citada úteis lições. Ele não deu atenção
às palavras de exortação, mas pela primeira vez lhe veio à
mente algo que exprimiu assim:
— Mas teu pai, o que é que ele vai... A senhorita Zoe o
interrompeu sem manifestar qualquer inquietação:
— Oh! Nada, provavelmente. Eu não sou uma peça
indispensável à coleção zoológica dele. Se fosse, talvez meu
coração não se ligasse tão tolamente em ti. Aliás, já faz tempo
que descobri que uma mulher vale somente na medida em que
libera o homem das preocupações domésticas. Neste ponto,
podes ficar tranquilo em relação ao futuro, sempre poupo disso
o meu pai. Mas ele talvez tenha justamente nesse caso uma
opinião diferente da minha, e então arranjaremos as coisas da
maneira mais simples do mundo. Tu irás a Capri por alguns
dias e lá apanharás com um laço de capim — podes treinar
como se fez no meu dedinho — uma Lacerta Faraglionensis. Tu
a deixas aqui e a capturas outra vez à vista dele. Depois, o
fazes escolher entre o lagarto e eu. Sou eu que ele te
concederá, tenho tanta certeza que quase lamento por ti. Sou
muito ingrata, hoje sinto isso, para com seu co-

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lega Eimer, pois sem a invenção genial dele, relativa a
lagartos, eu com certeza não viria à casa de Meleagro, o que
teria sido uma pena, não só para ti mas também para mim.

Ela expressou essa opinião ao sair da villa de Diomedes, não


havendo, infelizmente, testemunha que pudesse nos trazer as
inflexões e o tom então presentes em sua voz. Embora
combinassem com o resto de sua pessoa, as inflexões de sua
voz tinham então, sem nenhuma dúvida, um encanto
extraordinariamente bonito e travesso.

De todo modo, Norbert Hanold ficou tão enlevado que gritou,


tomado por um impulso poético:
— Oh! Zoe, tu que és a vida amada e a presença amável,
faremos nossa viagem de núpcias na Itália e em Pompéia?

Isso confirmava de forma decisiva o fato de que a


transformação das circunstâncias traz também uma mudança
na alma do homem ao mesmo tempo que um enfraquecimento
da memória. Pois não lhe ocorria que ele e a companheira de
viagem estariam arriscados a receber da parte dos
companheiros de viagem misantropos e mal-humorados os
apelidos de Augusto e Greta. Pensava nisso tão pouco quanto
no fato de que iam juntos, de mãos dadas, pela rua dos
Túmulos de Pompéia. A bem da verdade, ela não merecia esse
nome no momento. Um céu deslumbrante e limpo sorria acima
dela. O sol cobria com um tapete dourado as antigas placas de
lava, o Vesúvio abria as asas de seu amplo penacho de fumaça
e toda a cidade parecia coberta, não de cinzas e de pedras-
pome, mas de pérolas e diamantes, graças ao efeito da chuva
benfazeja. Com essas jóias rivalizava o brilho da lua que estava
nos olhos da jovem filha do zoólogo, mas seus lábios prudentes
respondiam à vontade de viajar que o amigo de infância
demons-

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trava, ele próprio parecendo ter sido desenterrado de um
longo sepultamento:
— Acho que não há necessidade de quebrar a cabeça com
esse assunto hoje. Ê uma coisa que tem de ser seriamente
pensada e à qual dedicaremos nosso pensamento no futuro.
De minha parte, não me sinto ainda tão plenamente viva
para tomar tal decisão geográfica.

Isso demonstrava uma grande modéstia da parte de alguém


que julgava assim a própria capacidade de escrutinar coisas
sobre as quais ainda não tinha refletido. Nesse momento
tinham chegado à Porta de Hércules, naquele ponto em
que, no início da Strada Consolare, estão as lajes, através
da rua. Norbert Hanold parou diante das lajes e disse num
tom de voz muito peculiar:
— Passe aqui, à frente, por favor.

Um sorriso alegre e entendido passou pelos lábios da


companheira, e apanhando frouxamente o vestido com a
mão esquerda, Gradiva-Rediviva-Zoé Bertgang, envolvida
pelos olhares sonhadores de Norbert Hanold, no seu andar
macio e tranquilo, em pleno sol, sobre as lajes, passou para
o outro lado da rua.

FIM

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