AFINIDADE E DIFERENÇA

Ana Bénard da Costa (Org.)

ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA LISBOA, 6,7 E 8 DE ABRIL DE 2006

APRESENTAÇÃO

Entre 6 e 8 de Abril de 2006 decorreu em Lisboa, no Instituto de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE) e no Instituto de Ciências Sociais (ICS), o Terceiro Congresso da Associação Portuguesa de Antropologia. Este Congresso organizado em torno das temáticas abrangentes Afinidade e Diferença reuniu cerca de 250 participantes que expuseram e debateram as suas diversificadas comunicações em sessões plenárias, painéis temáticos, mesas redondas e posters. A temática proposta pelos coordenadores do Congresso, José Manuel Sobral e Cristiana Bastos, respectivamente o Presidente e a Vice-Presidente da então Direcção da Associação Portuguesa de Antropologia, invocava, como se refere no texto de apresentação, “uma tensão básica que percorre o nosso campo disciplinar, provocada simultaneamente pela identificação do que se julga ser comum e do que se julga ser específico em cada cultura”. Procurava-se, através desta proposta abrangente, acolher “todos os domínios de saber reconhecidos como Antropologia” e abrir um espaço para uma “reflexão sobre a sua situação actual, tanto no plano nacional como no internacional.”

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Dentro desta perspectiva, os promotores do evento assumiram a responsabilidade da organização das sessões plenárias e solicitaram aos sócios e potenciais interessados que apresentassem propostas de painéis temáticos. O acolhimento por parte da comunidade nacional e internacional de antropólogos e de ciências afins (sociólogos, economistas e outros) excedeu as expectativas. Numerosos investigadores propuseram painéis que abarcaram desde as grandes temáticas da antropologia clássica (cultura popular, religião) às novas problemáticas da actualidade (globalização, identidades, transnacionalismo), a temas transversais (cultura, metodologia) ou temas que se podem considerar geograficamente ou historicamente mais específicos (Timor, Caboverdianidade, colonialismo). Percorrendo o Programa que então foi editado, constata-se a enorme vitalidade que a antropologia em Portugal conhece actualmente. Não só, como já se mencionou, pela diversidade dos temas debatidos - emigração, crenças, saberes, saúde, educação, memórias, arte, história, economia, desenvolvimento, género, natureza, corpos ou afectos, para só enumerar alguns - como também pela variedade de escolas, centros de pesquisa e associações de investigação presentes. Importa ainda acrescentar que este Congresso demonstrou que a internacionalização da antropologia portuguesa é uma realidade: estiveram presentes vários antropólogos de outros países com trabalhos desenvolvidos em Portugal e noutras regiões do mundo e vários antropólogos portugueses que estudam outras realidades que não a portuguesa. A participação da Antropologia Visual (ciclo de cinema-documentários e debate) constituiu outro factor enriquecedor desta iniciativa. Mais de um ano decorreu desde que este Congresso se realizou e vários acontecimentos atrasaram a publicação das Actas: a Associação de Antropologia mudou de Direcção, questões burocráticas urgentes exigiram as atenções dos novos membros da Direcção e, quando foi possível a organização dos textos finais das comunicações, constatou-se que muitos dos participantes não os tinham enviado e que o “estado” dos painéis era muito variável: havia painéis completos, outros sem nenhum dos textos finais das comunicações apresentadas e outros, ainda, em que os textos eram em número insuficiente não justificando a “existência” do respectivo painel nas Actas. Perante esta situação, e porque a nova Direcção considerou de todo o interesse deixar um registo material exemplificativo da riqueza temática e teórica que marcou os debates no Congresso que cumpriu plenamente os objectivos propostos pelos organizadores de “realizar um Congresso onde sejam acolhidos todos os domínios de saber reconhecidos como Antropologia e que constitua um momento de reflexão sobre a sua situação actual, tanto no plano nacional como no internacional”, foi necessário tomar algumas opções que passamos a explicitar:

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Foram mantidos os painéis cujos números de textos finais das comunicações eram significativos;

-

Foram agrupados em capítulos novos, textos de comunicações de

diferentes painéis que partilhavam afinidades temáticas (os títulos desses capítulos foram inspirados nos títulos dos painéis originais).
-

Em cada um dos capítulos há uma nota que explica se este corresponde a um
painel apresentado no Congresso ou se é um capítulo que agrega comunicações de painéis diferentes, bem como uma referência aos organizadores dos painéis originais.

Acreditamos que este índice, a organização temática que o suporta e, no seu conjunto, esta publicação de Actas, não desvirtua o que de essencial o Terceiro Congresso da Associação Portuguesa de Antropologia revelou a todos os que nele participaram. Acreditamos, sobretudo, que a publicação destes textos possibilita, a todos aqueles que não puderam estar presentes no Congresso, a participação nesse debate que assim certamente irá continuar.

Ana Bénard da Costa Junho de 2007

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Coordenadores da Comissão Organizadora
José Manuel Sobral (Presidente da Direcção da APA), Cristiana Bastos (Vice-presidente da APA),

Comissão organizadora
Nuno Porto, Paulo Castro Seixas (Direcção da APA), Patrícia Alves de Matos, Cynthia Pereira, Teresa Bolas, Isabel Bajouco (FCSH, UNL), Daniel Seabra (U.F. Pessoa) , Ruy Blanes (ICS, UL), Antónia Pedroso de Lima (ISCTE), Clara Saraiva (FCSH, UNL)

Comissão Científica
João Pina Cabral - Instituto de Ciências Sociais, Universidade de Lisboa Raul Iturra, Jorge Freitas Branco, Clara Carvalho, Brian O’Neill - Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa Augusto Abade, Eugénia Cunha, Manuel Laranjeira - Faculdade de Ciências, Universidade de Coimbra Jill Dias, Jorge Crespo, Claudia Sousa - Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, U. Nova de Lisboa Luis Batalha, Narana Coissoró -Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, U. Téc Lisboa Maria Johanna Schouten - Universidade da Beira Interior, Francisco Ramos, da Universidade de Évora. Álvaro Campelo, Paula Mota Santos - Universidade Fernando Pessoa Jean Yves Durand, Manuela Palmeirim - Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho Fernando Bessa Ribeiro, Xerardo Pereiro - Universidade de Trás os Montes e Alto Douro Ricardo Vieira - Instituto Politécnico de Leiria José Orta - Instituto Politécnico de Beja Joaquim Pais de Brito - Museu de Etnologia Vítor Oliveira Jorge - Sociedade Portuguesa de Antropologia e Etnologia (SPAE) João Leal, Miguel Vale de Almeida, Carlos Simões Nuno - Associação Portuguesa de Antropologia (APA) Maria Cátedra - Universidade Complutense de Madrid Shawn Parkhurst -Universidade de Louisville, USA Miriam Grossi - Associação Brasileira de Antropologia

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Dorle Drackle - European Association for Social Anthropology (EASA) Gustavo Lins Ribeiro - World Council for Anthropological Associations

Coordenação dos Voluntários: Cynthia A. Pereira Voluntários: Fátima Almeida Filipa Soares José Fidalgo Marta Fragata, Marina Sousa, Teresa
Bolas,Elísio Jossias, Mª Fátima Gabriel, Ana Beatriz Boucinha, Vanessa Gonçalves, Rui Costa, Íris Rosa, Tiago Oliveira, Ana Rita Alves, Ana Mafalda Falcão

Secretário
Miguel Jorge Lopes Sousa Pinto

Patrocínios
O Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (ICS-UL) e o Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE) cederam graciosamente à APA as suas instalações para a realização do congresso.

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I – Capítulo Colonialismo

Textos de comunicações dos painéis:

O Saber colonial e o fim da colonização
Coordenação

Clara Carvalho
Departamento de Antropologia, ISCTE;

Raça, Eugenia, Nação e Império
Coordenação

José Manuel Sobral e Patrícia Ferraz de Matos
Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa

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Antropologia Colonial e a Produção de Conhecimento sobre Grupos Étnicos da Guiné Portuguesa
Reflexão em torno da Tese de Mário Humberto Ferreira Marques “Comportamento dos Mandingas da Guiné Portuguesa na Vida e na Morte” 1 ISCSPU, 1965

Ana Mafalda Abreu e Castro Menezes Falcão ISCTE ana.falcao@sapo.pt

A produção científica portuguesa respeitante ao período colonial foi fortemente condicionada por um poder político que pretendia manter a forma colonial existente, alheio às exigências de mudança provindas da conjuntura internacional. Muitos dos autores deste saber participaram activamente nos programas políticos do regime colonial, e mesmo do autoritário, revelando assim a natureza essencialmente política da esfera científica da época. Nesta comunicação pretende-se deixar explícito o entrosamento entre discurso antropológico e dominação colonial, vínculo exemplificado no conteúdo duma das teses de final de curso do ISCSPU. Estas teses exprimiam os níveis de conhecimento (antropológico) em que se inseriram as decisões de política colonial nas décadas de 60 e 70. As referências imediatas dos autores destes trabalhos, que aliás exibem uma consistente igualdade de pontos de vista sobre as sociedades tradicionais, eram constituídas pelos ensinamentos ministrados nas Escolas Coloniais e, como tal, nenhuma novidade sobressai das análises que elaboram. Trata-se, portanto, através de uma leitura da tese “O Comportamento dos Mandingas da Guiné Portuguesa na Vida e na Morte” revelar a estreita conexão entre o saber antropológico e a ideologia colonial portuguesa, plasmada por um lado na valorização dos usos e costumes nativos transformados em “riqueza de Portugal”, e, por outro, no dualismo que opõe a incivilidade desta etnia à tolerância que sobre ela, no suposto respeito por esses mesmos costumes, os portugueses cultivaram. Palavras-chave: Discurso antropológico, Dominação política, Ideologia colonial, Incivilidade, Tolerância.

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Comunicação apresentada no painel “O Saber colonial e o fim da colonização”( coord. Clara Carvalho, Departamento de Antropologia, ISCTE)

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1. Discurso Antropológico e Dominação Colonial

A produção científica portuguesa no que respeita às colónias, principalmente no domínio das Ciências Sociais, encontra-se muito condicionada por um poder político que pretendia manter a forma colonial existente, alheio às exigências de mudança provindas da conjuntura internacional. Muitos dos autores deste saber participaram formal e activamente nos programas políticos do regime colonial, e mesmo do autoritário, revelando assim a natureza essencialmente política da esfera científica na época. De facto, segundo Rui Pereira (1998), a afirmação institucional da antropologia portuguesa remonta à segunda metade do século XIX, e este desenvolvimento dos estudos etnográficos, em Portugal como noutros países Europeus, estava

manifestamente associado à busca de uma identidade nacional. Esta prolífica geração de intelectuais em permanente contacto com as escolas e teorias que então se desenvolviam em Inglaterra, França e Alemanha, contrastou com o anacronismo académico que assolou a antropologia entre as décadas de 1930 e 1970. Na sequência da Conferência de Berlim, Portugal demorou 70 anos a cumprir a exigência de ocupação efectiva das suas possessões coloniais, principal mandamento resultante do evento. Estabelecida a dominação política, económica e administrativa tratava-se de conhecer, de ocupar cientificamente o ultramar português, o que permitiu a elaboração de um plano, que servia ao “prestígio” e à “utilidade nacional”, por parte da Junta das Missões Geográficas e de Investigações Coloniais. Este plano para manter as colónias reivindicava um papel, a par de outras ciências, para uma Antropologia baseada em dados etnográficos existentes nos arquivos portugueses, reconhecendo-se, num mesmo movimento, a insipiência dos estudos elaborados sobre as colónias. A Junta de Investigações Científicas do Ultramar (J.I.U.), à qual se anexou mais tarde o Centro de Estudos Políticos e Sociais (C.E.P.S.), era expressão da ociosidade científica da altura. Porém, o CEPS viria dar vida a uma política de transformação do modelo colonial, organizando e coordenando as necessárias recolhas de dados. Adriano

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poucos teriam sido realizados por antropólogos portugueses. que todavia comportava elementos de discriminação em relação às populações autóctones. Esta apreciação consubstancia-se na tónica conferida pelos antropólogos culturais aos aspectos esotéricos das religiões e cerimónias africanas. escassa de trabalhos antropológicos e. No campo dos estudos sobre a conexão entre a antropologia e o colonialismo português. no quadro de um colonialismo que reduz as populações autóctones a reservatórios de mão-de-obra.I. encontramos plasmado nas obras dos melhores antropólogos portugueses. falando a partir de uma asserção de princípio que reafirmava o modelo cultural lusófono como ideologia da colonização. inútil ou pouco conveniente. Alfredo Margarido afirma que a primeira foi mero instrumento na mudança das formas coloniais. Etnocentrismo que. Donde concluiu a quase inexistência de uma antropologia colonial portuguesa. asseverava mesmo que “por definição a situação colonial que interessa à ciência política é uma situação dependente da intervenção do poder político”. e da necessidade de guiar as populações autóctones porque incapazes de se autodeterminarem. aliado a uma dose avultada de paternalismo. Moreira enfatizava a urgência de um exame da situação colonial que assentasse no desenvolver de estudos monográficos sobre a dinâmica do fenómeno colonial. segundo R. situando as parcas obras de cientistas sociais que se ocuparam da ex-África lusófona “abaixo do limiar científico mínimo”. A aceitação do critério luso-tropicalista e a conjuntura favorável de que gozava o império Português no pós 2ª Guerra tornava possível tais projectos de delimitação de uma “área cultural lusófona. entre estes. enquanto se delineava um clima de fraternidade humanitária que bem podia ser posto ao serviço das classes coloniais no poder” (GALLO. Director do CEPS entre 1956 e 60. Pélissier. porque lhes bastava uma aparência de conhecimento” (GALLO. as bases dos novos modelos integrativos para as situações coloniais portuguesas. Isto porque seria.3 Moreira. concentrando esforços na mera descrição de ritos tribais.U. 1988: 20). era. 1988: 18-19).. deste modo se reconhece a especificidade do colonialismo português do ponto de vista científico: “até então aos portugueses não interessava uma informação cientificamente válida. aliás. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . ainda que frequentemente apresentada do ponto de vista antropológico. Nestas vemos perdurar a concepção ideológica que faz da imagem do negro enquanto “cidadão subalterno”. A produção cultural da J. autor que anos mais tarde se debruçou sobre a etnologia colonial portuguesa.

A reforma de 1919.S. Os sistemas de investigação manejados por estes funcionários do regime foram os mais variados. funcionando nos momentos de normalidade da prática colonial. se revelam os elementos de fraqueza e crise do império português. e a pesquisa de campo constituiu o denominador comum entre eles. Esta última instituição é produto das múltiplas reformas sofridas pela Escola Colonial desde a sua criação. É precisamente no âmbito deste empreendimento contra as formas eversivas que se pode situar as produções do C. e as datas das reformas que antecederam a sua consolidação reflectem as transformações dominantes sobre a função dos quadros coloniais. Na verdade.P. de que fazem parte “noções e conceitos confluentes no património do saber antropológico europeu” (GALLO. mas a antropologia era uma cadeira das escolas de quadros coloniais. também Portugal construiu um saber colonial. À semelhança das outras nações coloniais europeias.C. No decreto de 1906.4 Contudo.S. Analisar a produção colonial portuguesa de 1950 a 1975 implica primeiramente considerar a posição do País na década de 50. fragmentação e subalternidade da antropologia portuguesa. permitisse a continuidade do colonialismo evitando a contaminação das formas neocoloniais de territórios vizinhos. instaurando o consenso social interno. que institui uma Escola Colonial onde figuram disciplinas como geografia e história mas se pretere a etnologia geral em prol de uma geografia colonial. conjuntura internacional onde emergem renovadas acções dos capitalismos ocidentais face aos países desenvolvidos e. O argumento que daqui emana refere-se a uma especificidade do colonialismo português que. até há alguns anos em Portugal não se formavam antropólogos a um nível académico. assim. desde que permitidos pelo enquadramento colonial. em 1906. 1988: 24).P. resultado de determinadas práticas científicas peculiares. não é possível negar a existência concomitante de uma “antropologia aplicada”. ainda que não praticada necessariamente pela mão de antropólogos. e do I.U. Era necessário elaborar uma estratégia que. ressalta a intencionalidade de imbuir os cursos dos quadros coloniais de cadeiras que acelerem a adaptação do conhecimento às formas de dominação. agregou autonomamente um conjunto de saberes sobre as suas colónias. a despeito da pobreza. A finalidade principal do ISCSPU era a de formar quadros civis e militares capazes de fazer funcionar as estruturas da administração colonial.E. esclarece ainda melhor o formato da presença ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .S. proposta da Sociedade de Geografia de Lisboa no sentido de produzir uma ciência colonial.

de ora em diante com uma utilidade prática cada vez mais reconhecida. nomeadamente pela adopção de uma política assimilacionista. Em 1926. através de análises de tipo físico. se é verdade que se procedeu. através destas reformas.5 portuguesa nas colónias. uma vez que se introduzem elementos de teoria económica e de ciências das finanças. visando preparar os quadros teóricos do colonialismo. entendido como “um especialista do carácter físico. 1988: 31). fazendo sentido acrescentar as disciplinas de direito internacional. a uma actualização ideológica de Portugal. 1988: 29). No ano de 1946. “esta [actualização] não se fazia com o fim efectivo de uma transformação do sistema de domínio” (GALLO. pois que “a etnologia é a ciência que trata da formação e dos caracteres físicos das raças humanas” (GALLO. pondo fim à figura do administrador-etnógrafo na qual se baseavam as precedentes. Uma nova reviravolta na orientação destas formações ocorre em consequência da segunda guerra mundial que. a reforma de 1946. reconhece-se a necessidade de adaptar o sistema de conhecimento às novas exigências coloniais. modificando o posicionamento português no quadro internacional do capitalismo. biológico e comportamental do indivíduo. representando um momento de crescimento económico do colonialismo português. frente aos desígnios de domínio em curso. privado e público e ainda formação relativa a práticas judiciárias e notariais. Porém. mantendo a sua função de formar quadros coloniais. Em ambos os cursos constava a etnografia. 1988: idem). A etnologia praticada por esta nova figura permitia deduzir as leis gerais dos fenómenos das vidas dos povos. que. ano de uma nova reforma. disciplinas funcionais à formação dos administradores. biológico e comportamental das populações primitivas e não um especialista das sociedades primitivas então existentes” (GALLO. justifica o abandono de lógicas formativas anteriores. e cria-se uma segunda formação. Uma nova reforma. espelha o aumento do enfoque etnográfico ao introduzir a cadeira de antropologia cultural no Curso Complementar de Estudos Ultramarinos. em 1961. em Altos Estudos Coloniais. De facto. procede-se à reestruturação do antigo curso de Administração Colonial do ISCSPU. o punha a par de outras formas de colonialismo europeias. desde a sua origem até ao estado actual de civilização. A etnologia mantinha-se no currículo mas a sua aplicabilidade e utilidade prática era considerada de segundo plano. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . preconizava agora a intervenção de um antropólogo.

6 A aceitação destes princípios foi bastante simples dado que. de novos elementos naturais. onde vemos surgir a antropologia cultural nos cursos do ISCSPU. A recorrência a M. desencorajava a disciplina das categorias exclusivas da antropologia física. ou seja. paulatinamente. Corrêa é inevitável. Foi a época de força da antropobiologia. as primeiras acções em terreno colonial dignas de menção foram as famosas missões antropológicas. 1998: XVII). suplantando a simplista visão craneológica. Esta lógica corporiza-se nas reformas de 1946 e 61. Em 1918. foi-se somando. do outro a Etnologia. cuja designação trai desde logo “uma divisão fundadora no campo das ciências antropológicas em Portugal na primeira metade deste século: de um lado a Antropologia entendida como o estudo do homem físico. entendida como o estudo do homem cultural e social” (PEREIRA. Fundador da «Escola do Porto» este médico. preferindo. marcou decisivamente a orientação do pensamento antropológico português por toda a primeira metade do século. No âmbito de actividade desta escola. e portanto também possíveis. eram conjugáveis com a ideologia colonial e as suas exigências de domínio. Assim se subtrai à antropologia qualquer ligação às estruturas sociais dado que ela é apenas o principal elemento para o estudo do crânio humano. convertidas nas únicas investigações antropológicas úteis. o sentido antropobiologista reinante durante quase toda a primeira metade do século XX. por um lado confirmavam a tradição portuguesa que a partir de Mendes Corrêa foi sobretudo a da antropologia física e. partes de uma equação em que os segundos são produto de uma combinação complexa aprendida e das tendências genéticas de cada ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . As concepções contidas nos manuais desta disciplina apontavam para uma ligação entre cultura e comportamento dos indivíduos. vinculada a uma concepção científico-naturalista das ciências. geográficos e históricos que. doutorado em Antropologia física. tuteladas por Mendes Corrêa. a elaboração das respectivas cartas etnológicas” (PEREIRA. António Augusto Mendes Corrêa cria com Américo Pires de Lima a Sociedade Portuguesa de Antropologia e Etnologia. 1998: VII). ao abordarmos a vertente física da antropologia ou. da mensuração e da quantificação. Esta visão restritiva das disciplinas etno-antropológicas. por serem capazes de fornecer à administração colonial portuguesa os meios de reforçar a sua ocupação e incrementar a mobilização da força de trabalho indígena. que se dispunham “proceder ao conhecimento dos grupos étnicos de cada um dos nossos domínios ultramarinos. por outro.

tal como estes. consoante tratassem de movimentos associativos e minorias étnicas. na óptica de Donato Gallo. Alternando entre a fidelidade às ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .U. em fazer frente às pressões do colonialismo internacional e. elucidando também as dinâmicas culturais que favoreceram e regularam as diferentes funções da antropologia da época. resultavam cientificamente inaceitáveis. se esclarece a relação entre antropologia e colonialismo. por outro. detenhamo-nos no caso particular dos Relatórios Confidenciais. de entre estes. pretendessem licenças para elaborar a tese.7 um. Em termos temáticos podem ser classificados em três grupos. este tipo de produção não aparece senão no formato de teses de final de curso do ISCSPU. Existiam simultaneamente facilidades para os que. Esta visão ratificava as convicções portuguesas relativas aos povos africanos. que continuavam a ser “cidadãos de segunda”. Frequentemente alvos de censura e de modificações estratégicas. e fortes penalizações para quem desta quisesse eximir-se. redigidas pelos vários administradores coloniais que tinham frequentado o curso de Altos Estudos Coloniais. ou ainda do rendimento nacional do ultramar. É pela análise destas produções que. na procura das condições necessárias para uma racionalização eficaz da gestão colonial. pesquisas utilizáveis como fontes antropológicas. exprimiam os níveis de conhecimento em que se inseriram as decisões de política colonial do regime português nas décadas de 60 e 70. As teses de final de curso. podendo mesmo conter conclusões diametralmente opostas às da pesquisa original. sem se afastar de uma grelha interpretativa de carácter biológico e social. mas também revela “as duas directrizes principais da sua funcionalidade: a gestão dos momentos de transição da forma colonial e o uso ideológico para o interior de Portugal” (GALLO. resultados de missões a África e cujos principais objectivos se cifravam. Após a década de 50. O estudo dos relatórios e das teses serviu para atestar a sua argumentação em torno da existência de uma antropologia colonial portuguesa.. O entendimento ideológico do “outro” não era alterável.I. Retornado à produção cultural do CEPS. 1988: 38). privilegiavam o discurso ideológico do regime. É neste sentido que podemos afirmar. por um lado. quando publicadas pela J. excepto através de simulações que propusessem novamente a sua inferioridade ou subalternidade a um outro nível. sobre a acção das missões e razões da emigração para as cidades. que as teses aparecem como uma continuidade dos relatórios confidenciais e. seguindo o raciocínio de Gallo.

os autores destes trabalhos exibem uma consistente “igualdade de pontos de vista sobre as sociedades tradicionais. As suas referências imediatas eram constituídas pelos ensinamentos ministrados nas escolas coloniais e. ainda que tenha sido amiúde negada. porquanto estão condicionados “ao ponto de serem completamente acríticos em relação à própria visão escolar da realidade colonial” (GALLO. aferir que o domínio colonial português se serviu de um aparato cultural cuja finalidade. os aparatos coloniais deste colonialismo funcionaram à semelhança dos de outras potências coloniais. numa de duas modalidades possíveis: ou participando directamente nos aparatos coloniais ou dependendo deles para o financiamento das suas investigações. era a de “conhecer para melhor dominar”.8 práticas normativas e a curiosidade antropológica. 1988: 169). para além de podermos com alguma propriedade aferir a existência de uma antropologia colonial portuguesa. A presença destes mecanismos que submetiam a produção intelectual lusitana aos desígnios do império demonstra que “em Portugal o poder geria exclusivamente para os seus fins a necessidade. apesar de todas as indeléveis ligações ideológicas. controlava e até censurava o saber. com as respectivas diferenças que emanam da ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . O autor avança ainda que. verificando-a agora com base nas condições que a produziram: o único conhecimento permitido era o aplicado e aplicável e a posição objectiva do intelectual português era a de um prestador de serviços a quem se encomendava. É no seguimento destas asserções sobre o imbricamento entre antropologia e colonialismo que Gallo alerta para a precisão de revermos a acusação de acientificidade da produção cultural portuguesa ligada às colónias. com as mensagens ideológicas elaboradas pelo regime e com a ideologia das noções antropológicas do período da sua formação na escola de quadros coloniais” (GALLO. nenhuma novidade sobressai das análises que elaboram. 1988: idem). directamente funcional para a gestão do poder nas épocas de crise e de transformação do modelo de controlo colonial. O saber colonial português foi. então. 1988: 170). Ora. no que concerne as práticas antropológicas podemos. O condicionamento dos produtores deste saber devia-se essencialmente ao seu cometimento com o sistema de domínio. como tal. a possibilidade e o uso do saber colonial” (GALLO. Gerou uma intelectualidade capaz de produzir análises etno-antropológicas passíveis de apropriação para uso político sobre a população dominada e de cariz propagandístico na metrópole.

que passaremos a escalpelizar o conteúdo de uma das teses de final de curso do ISCSPU. um por um. no caso da produção antropológica colonial portuguesa ambos os ângulos de abordagem se afiguram pertinentes. de encarar as relações entre a Antropologia e a dominação colonial: (. cuja importância foi já referida no desenvolver da matriz teórica de Donato Gallo.9 especificidade de uma forma colonial subalterna e periférica ao sistema económico internacional. tendo bem presente o subjacente entrosamento entre discurso antropológico e dominação colonial demonstrado nas páginas precedentes. por um lado as necessidades coloniais ditaram a problematização científica – como no caso da relação entre medições antropométricas e a quantificação da força de trabalho indígena –. então. no prefácio que escreveu para a reedição do Macondes de Moçambique de Jorge Dias. que tal produção antropológica prestou à empresa colonial. por outro. (PEREIRA. os contributos directos ou simbólicos.. o levantamento etnográfico de determinadas culturas. se avaliam. Os Mandingas da Guiné Portuguesa: Confronto entre Incivilidade e Tolerância Em primeira instância cumpre ressalvar as particularidades desta tese de final de curso. a presente tese se insere no período considerado e surge na época da ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . mesmo servindo um intento de dominação colonial. É com base na articulação entre o poder heurístico destes dois vectores de análise da produção antropológica colonial. A este propósito. uma prestação académica e científica importante. visto que. Ora. e.. explícitos ou latentes. Se. representou. dez anos depois de Gallo. propõe duas perspectivas diferentes.) ou se considera o conjunto de problemas e temas questionados pela produção antropológica colonial como derivando das relações de força e das necessidades da própria situação colonial (…) ou. 2. também Rui Pereira. 1998: XLVII). mas complementares. por um lado. nalguns casos. que a distanciam de outras consideradas num mesmo olhar por Donato Gallo.

confessa a mágoa de. As sucessivas reformas que foram reconfigurando uma Escola Superior Colonial em ISCSPU trouxeram consigo. poderemos concluir que. depois da reforma de 1961. uma elaboração teórica desprovida de trabalho de campo. portanto. a defender (MARQUES. critério de constituição da “amostra” de Donato Gallo. Invoca. que sobre esta colónia versavam (1988: 95). O autor. algo que se lhe tornou possível. donde se infere a sua relativa marginalidade face a autores de destaque das ciências sociais comprometidas com o projecto colonial da época. em função dos seus deveres profissionais metropolitanos (Chefe de repartição do ensino liceal) “absorventes até ao esgotamento”. diplomado com o curso superior colonial. contudo que a motivação para a realização desta tese parte de uma lógica estatutária visto que o autor.10 extensão das lutas de independência iniciadas em Luanda a outras colónias portuguesas. a este respeito. curiosa dado que a Guiné na época “parecia não dar as mesmas preocupações que as outras colónias ao governo português”. assunção retirada por Gallo a partir do reduzido número de teses. se não havia hostilidade. não ter podido frequentar o curso de Altos Estudos do reformulado ISCSPU. a instauração de hierarquias estatutárias entre os antigos e novos alunos de cursos com uma origem comum. Ferreira Marques justifica a sua opção temática espacial por “ser a Guiné a nossa província ultramarina mais atingida pelo desvairamento negro da presente hora”. “a hostilidade que os diplomados da Escola Superior Colonial sentiram. aliás. se nos cingirmos apenas ao ambiente metropolitano. ainda que modestamente. desde que apresentasse uma dissertação. no mínimo. Decorrendo. por outro não foi elaborada por um aluno que tenha sido administrador colonial ou militar. donde escrever sobre ela serviria para. 1965: III). pelo menos indiferença” (MARQUES. consciente dessa realidade. Sobre o autor pouco se conseguiu averiguar. aspirava através dela obter a equivalência ao grau de licenciatura em Ciências Sociais e Política Ultramarina. destas circunstâncias particulares acresce ainda o facto da dissertação sobre o comportamento dos mandingas provir simplesmente da “conexão de elementos bebidos em fontes de várias origens” sendo. A escolha do tema é também. notava-se. durante muito tempo no ambiente ultramarino (…) e. a ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Sabe-se. No entanto. à medida que os cursos se ajustavam às realidades coloniais e se subdividiam para melhor se especializarem. entre 1961-1975. Ainda. 1965: II).

na compreensão do tipo de antropologia que se tentou pôr em prática neste estudo dos mandingas. passo a passo. Esta temática será esclarecida atempadamente no decurso da análise da tese. contudo. missão que “está agora polarizada na decifração do enigma economico-politico suscitado pelas reivindicações que nela pululam. e a uma mais vasta panóplia de autoria estrangeira. como veremos adiante. o grupo mandinga o mais aliciante pelo fundo histórico de haverem sido os portugueses os primeiros europeus a tomarem contacto com os mandingas no tempo das descobertas” (MARQUES. do ódio ao branco” (MARQUES. 1965: V). Apesar da manifesta ausência de pertinentes referências bibliográficas no texto. e o “pleno clima de confiança nos portugueses. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . dirigidos aos Drs. Mas o que interessa reter à primeira vista são simultaneamente as possibilidades eversivas do povo mandinga. no prefácio. criadas pelas correntes ideológicas ou só aparentemente ideológicas que se alicerçam na finalidade. tendo em conta o que se disse no capítulo anterior. atribuída a Duarte Pacheco Pereira. Cabe ressalvar também a presença. que são também as de uma escola. Fernando Rogado Quintino e ao Centro de Antropobiologia e Centro de Antropologia Cultural. Os agradecimentos.E. muitos destes ligados ao C. Marques refere-se a África como “o alvo da curiosidade mundial” instituído pelo desejo de “desvendar o seu mistério” e a “pretensão de civilizar as suas gentes”. Esta inexactidão de fontes e inferências teóricas pouco documentadas e actualizadas vai percorrer todo o conteúdo da dissertação. 1965: IV). fazendo especial menção à reduzida bibliografia de autores portugueses. portanto. isto é. 1965: idem). de uma temática que só no final da tese começamos a compreender do que realmente se trata. António Carreira. Para o confirmar. da Guiné Portuguesa.11 escolha da etnia mandinga se rege por critérios de ligação ao projecto lusitano: “ser. encoberta ou politicamente declarada. a referenciar bibliograficamente. lança mão de uma descrição da época. por enquanto interessa analisar. os diversos capítulos que a constituem. ajudam. facto ainda mais preocupante visto que é apenas de conexões teóricas que este se constitui. ameaçadoras para o domínio português. o autor faz no prefácio um elogio da excelência das obras em que se apoiou. de mútua compreensão” que norteou as relações entre povo colonizador e colonizado (MARQUES. do ISCSPU. sem. e na decifração das referências mais imediatas de um autor.

conforme a conversão. como veremos. e os primeiros. Mas este império acaba por sucumbir no despontar do século XV. perturbando a apropriação colonial de povos e territórios. e a consequente expansão do islamismo. assim. O acolhimento desta orda islâmica não foi de todo unânime. negros oceânicos da segunda invasão. seguindo-se a tomada do centro de África pelos árabes. “em adiantado estado de civilização”. tem o seu revés de benefício para os sudaneses visto que. este grupo subdivide-se. 1965: 2). Em meados do século XIII e sacudido o jugo dos Almoravidas. depois de estabelecidos. para refutar aos sudaneses a sua qualidade de autóctones da África. considerada como a sua pátria. que se pretende histórico. Inicialmente feiticistas. A aparição dos mandingas dá-se pela mestiçagem entre autóctones. talvez não conseguissem arranjar meia dúzia de adeptos” (MARQUES. lessem aos instigados os capítulos das suas histórias em que o ódio figura como causa principal no atraso e na ruína de muitas sociedades em evolução. Marques invoca a Doutrina de Monroe. difícil de precisar em termos temporais. Colonialismo e civilização dão as mãos numa relação inextrincável. os não convertidos permanecem com a designação de soninkés ou sarakolés enquanto os convertidos passam a nomear-se mandingas. os Mandingas constituem o seu império. aqueles que resistiam foram impelidos a rumar a Sul.12 Começando por um relato. e brancos do mediterrâneo. E foi dessas massas fugidias que se formaram os grupos étnicos que envolveram a Guiné Portuguesa. com o Norte de África dominado pelos árabes e as populações subjugadas. em vez das promessas fantasiosas. Destes cruzamentos conjugados às duas vagas de invasão de massas semitas. onde. foi. trataram de formar um grande estado que não se concretizou devido à ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . anterior à dos fulas-pretos feiticistas. todavia. o império do Mandén. que afirma a posição dos Estados Unidos contra o colonialismo europeu. a parcela convertida dos soninkés. o domínio português se legitima pela particular tolerância e compreensão reveladas no contacto com os povos que pretende subjugar/civilizar: “se os instigadores do ódio ao branco. se podem superiorizar face ao atraso dos verdadeiros autóctones: os negrilhos. da formação do grupo étnico. com a expansão do islamismo. A chegada dos mandingas à Guiné portuguesa. De facto. nascem os sarakolés ou soninkés. Numa lógica um pouco travessa Marques pretende deslegitimar esta pertença que. que sucederam ao desmembramento do império de Kumbi. nome que provém da região do Mandén.

13 dispersão que dificultava a unidade política. ainda. o grupo mandinga exigiu-lhes uma elevada tributação de ocupação de território que lhes valeria grandes dissabores futuros. À igreja católica caberia desempenhar o papel de instituição legitimadora do regime colonial e dos valores por ele veiculados (THOMAZ. numa proposta quase luso-tropical. O primeiro grande capítulo da tese sobre o comportamento dos Mandingas é dedicado aos caracteres somáticos desta etnia. impotentes. no seu estudo por meios antropológicos reproduzir hierarquicamente a desigualdade. dos portugueses. fingindo-se convertidos ao islamismo. outros revelam uma certa renitência: “é nos renitentes que se encontra a grande massa que no final do século XIX e nos primeiros anos do século XX deram trabalho às autoridades portuguesas para receber o sopro de Cristianização que sempre foi timbre de Portugal. Iniciou-se uma guerra sangrenta donde os mandingas saem vencidos dando origem à tirania dos Fula-Pretos e à tentativa de islamização dos dominados. Aquando da fixação dos fulas. que. Marques começa pela análise da estatura. Com o aumento das massas de fulas-pretos a fixar-se na Guiné. 1965: idem). 2002:119) e. Para tal convoca contributos de Alcide D’Orbigny. outros entram num sistema religioso misto e. elaborados num texto praticamente telegráfico que desvela a adesão a uma análise antropométrica dos povos. Segundo uma chave interpretativa baseada no pressuposto de que a diferença física se manifesta também enquanto diferença mental. Estes. e com isto assegurar a preservação do império (THOMAZ. “elemento indispensável à classificação dos vários grupos da humanidade”. Barrow. logo civilizadora. verificada a impotência para a rebeldia e as vantagens em aceitarem o domínio português. Eugene Pittard e do Prof. reconstruindo assim a homogeneidade através de uma abstracção ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . estes. os mandingas entraram numa fase de quietação” (MARQUES. António de Almeida. confere um carácter benevolente à colonização: “E. O intuito de análises assim esboçadas era o de garantir a preservação da diferença e. eivada de ideias de determinação biológica de tipo racial esgrimidas enquanto discurso científico. assim se divulga uma atitude doutrinária relativamente à qualidade evangelizadora e. uniram-se aos futa-fulas para se libertarem do domínio mandinga. 2002: 111). suportam a tirania e revelam diferentes posturas face à islamização: uns convertem-se. 1965: 17). todos baseados em cálculos da média de uma série de mensurações. ao contactar com os povos de todas as latitudes” (MARQUES.

Continuando a percorrer os caracteres que definiam o conceito abstracto de raça. Carreirra e Emília de Oliveira Mateus. como povo de alta estatura. A divisão em dolicocéfalos e braquicéfalos. e “conferindo uma nova aparência de cientificidade a uma classificação oriunda do senso comum” (RAMOS. esta última no quadro da missão antropológica da Guiné em 1946. Quanto aos mandingas. encontra valores médios elevados para os mandingas do sexo masculino e estaturas pequenas em indivíduos do sexo feminino. ao sabor dos cruzamentos havidos no decorrer do tempo” (MARQUES. realizara estudos tributários de um darwinismo social que pretendiam determinar biologicamente a imagem do negro colocando-o entre “o homem e o macaco” (GALLO. 2003). Recorrendo a textos apodados de uma cientificidade duvidosa e. como negros que são. espelha uma adesão a teorias de superioridade racial que pretendiam inferir do afastamento entre estádios de civilização dos povos. não isenta de polémica já na altura de realização da tese. Marques vai estabelecer uma equivalência entre a cor da pele do mandinga e as escalas cromáticas propostas pelos anteriores autores: “a cor da pele dos mandingas corresponde ao último destes tipos [preto]. Para o atestar recorre a António Carreira. Les Races et l’Histoire. nos grupos humanos. entre 9 e 12 cm”. o índice cefálico figurava como outro dos elementos científicos encontrados para a classificação dos grupos humanos. Marques vai forjando um entendimento antropológico dos mandingas.14 matemática. mas a negrura varia em intensidade. mesmo à época. vê a base desta noção na somatologia. a estatura do homem é sempre maior do que a da mulher. surgem também as outras categorias cefálicas. e o valor dessa diferença oscila. onde este administrador colonial e antropólogo ligado ao Centro de Estudos da Guiné Portuguesa. 1988: 159). na época director da escola de antropologia de Paris. Deniker insere-se igualmente nesta linhagem de autores que pretendiam ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . segundo Eugene Pittard. Baseando-se em Broca e Deniker. Deste modo permite-se afirmar que “esta diferença está absolutamente de acordo com a teoria científica de que. enquadrado por uma ciência das raças que. “Mandingas da Guiné Portuguesa”. tendo como base as anteriores “teorias científicas”. nas observações de A. 1965: 22) Paul Broca. já de certo modo datados. remetendo obviamente para Mendes Corrêa. são dolicocéfalos na sua maior percentagem mas. Os mandingas são considerados por Marques.

A psicologia do mandinga caracterizar-se-ia. “que acompanha todos os actos da vida do mandinga” e. vista e ouvidos as informações são escassas e inconclusivas. Esta última. o autor reproduziu de descrições lidas. Relativamente aos caracteres psicológicos. o seu carácter adaptativo pode ser encarado como ameaça a este mesmo domínio uma vez ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . as características são elencadas de forma breve e generalizadora. ironia e superstição. à falta de apreciação presencial. imputando-se aos negros. olhos. e através da antropometria. e pelo poder de observação demonstrado noutros trabalhos. as características morfológicas de um dado “tipo”. adaptação. Ora. ignorando a enorme diversidade racial no interior de cada grupo. e logo aos mandingas. pelo seu aturado contacto com os nossos mandingas. pelo sentimentalismo. uma etnia particularmente dócil na aceitação do jugo colonialista português. como apanágio do seu estádio inferior de civilização. 1965: 25). depois. “segundo conclusões tiradas por pessoas que. cabelo. porém não tão evidentes. pelo seu pacifismo e capacidade de adaptação. A face.15 classificar globalmente um povo com base nas observações somáticas e morfológicas da sua corporalidade. um prognatismo que correlaciona tipos morfológicos e atributos intelectuais. meras descrições que. isto é. ou o ângulo facial é considerado. os mandingas seriam então. sentido artístico. Assim. biotipologicamente. pacifismo. quanto maior a abertura do ângulo maior a superioridade intelectual. portanto. nas suas características funcionais de maneira a determinar os tipos constitucionais mais frequentes em cada um deles e. as modalidades mais características da sua fisiopsicologia” (RAMOS. 2003). nos merecem confiança” (MARQUES. Ademais. honradez. segundo A. Para o índice nasal sucede o mesmo processo de mensuração e de construção de equivalências automáticas. Sobre a boca. “e. resume a sua ideia religiosa. sem especificar se em virtude desta qualidade se podem tirar conclusões sobre a sua condição intelectual. como outro dos indicadores do grau de intelecto. criando esse quadro de homogeneidade tão precioso no delinear de estratégias de dominação colonial. não fora a proximidade de fontes subversivas e as doses avultadas de superstição que lhes estrutura o quotidiano. No caso dos mandingas o autor afirma apenas que estes são platirrinios. Carreira. Os estudos deste tipo aspiram a discriminar e analisar primeiramente. é fortemente vincada durante a descrição dos seus comportamentos na vida e na morte. invocando-se novamente teorias científicas que neste caso não possuem referência.

Casa. Partindo agora para uma análise do discurso sobre o comportamento mandinga. é-lhe exigido mais que isso. “de habitações dignas de serem ocupadas pelo ser humano que é o mandinga!”. para que tal receba esse apelido é preciso ser um sítio “a que nós [civilizados] associamos a ideia de conforto. Refere-se-lhe como um tegúrio. adverte que “os atrevidos são talvez em percentagem igual ou maior do que nas sociedades evoluídas”. verificamos. é o mesmo processo que. nas sociedades evoluídas. De facto. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . sobre a protecção das casas de mulheres. 1965: 106). não é onde se habita. Perante tal cenário clama. “por ela pouca ou nenhuma diferença fazer da que serve para recolher animais”. o tom jocoso. 2002: 281). são também os juízos de valor. que recordemos. se pensarmos que em 1965 estavam já acesas muitas das guerrilhas de libertação africanas. o autor refere-se frequentemente às sociedades evoluídas como contraponto de comportamentos supersticiosos que descreve: “salvas as devidas distâncias. 1965: 37). Não querendo alongar-me na enumeração de mais exemplos desta parcialidade de análise. arrecadação. não são mais do que reformulações das originais. da incivilidade desta etnia. justifica-se referir ainda as representações reveladas relativamente à produção artística mandinga. Se numa altura Marques lhes realça o sentido artístico. desde logo.16 que. noutra usa-o para imputar primitivismo: “têm alguma originalidade. contando histórias de lobisomens aos filhos família. que incapaz de se autodeterminar. como forma de os terem em sossego [algo que] nos povos atrasados ainda é desculpável porque obedece ao espírito supersticioso que eles têm” (MARQUES. os mandingas constituiriam um reduto de conformidade que o regime procurava a todo o custo perpetuar. assente sobre as bases da tolerância religiosa e cultural que “caracterizariam a obra portuguesa no mundo” (THOMAZ. e as comparações desniveladas que elabora: referindo-se a uma cerimónia de entronização ao papel de médico mandinga. justificava o domínio português. de segurança e de condições higiénicas” (MARQUES. empregam as criadas. Marques classifica de “exortação patética” as palavras dirigidas pelo Almami (padre muçulmano) ao novo profissional e. pela intensificação da construção. com notória indignação. uma estratégia dúbia de afirmação das características positivas e ao mesmo tempo. Sintoma da falta de cientificidade das descrições de Marques. com a maior urgência. Quando fala da casa mandinga fá-lo de forma flagrantemente etnocêntrica. aprisco. para o autor.

a dada altura. que “o desenvolvimento intelectual do mandinga encontrou muito cedo o seu termo. Ora. Marques esclarece. Apreciações de carácter ético que desvalorizam as particularidades culturais de determinado povo. 1965: 109). Neste aspecto particular se revelam as fraquezas de uma tolerância característica do português. não sabemos o que o leva ou em que documento se apoia para assumir tal coisa. e já tendo presente a especificidade antropológica da época. uma descrição detalhada das características fundamentais de dada etnia. o que o leva a fugir de tudo o que exija esforços mentais” (MARQUES. O que deveria estar em causa numa análise etnográfica. num processo que mediu pela bitola portuguesa todos os comportamentos que não se coadunavam com a mentalidade colonialista e autoritária do Estado Novo. nota-se hoje uma acentuada relutância das viúvas em aceitarem a união com os cunhados” (MARQUES. serviu ao regime para se posicionar discursivamente acima de qualquer negro. tido como objectivamente inferior.17 não há dúvida. É neste quadro de sentido que une Deus. Noutra zona do texto faz-se a apologia da influência da civilização portuguesa na mudança comportamental dos mandingas: “Pela evolução por que tem passado o mandinga no contacto com a nossa civilização. 1965: 66). porquanto esta só faz sentido numa determinada e bem restrita organização social dos significados. do que. 1965: 49). mas sente-se nelas um fundo musical de primitivismo” (MARQUES. A ocupação europeia de África é enfatizada por Marques como “sinónimo de pacificação”. Este etnocentrismo e paternalismo explícito nas produções antropológicas portuguesas era ainda de maior funcionalidade em períodos em que se temia a turbulência das lutas de libertação nas colónias. se pode classificar aspectos da vida mandinga como “actos do mais puro barbarismo”. M. ou próxima dela. são menos juízos éticos sobre a vida dos povos em questão. Pátria e Família. dada a psicologia gentílica” (MARQUES. mas este darwinismo social manifesto em produções que se queriam antropológicas. Voltamos a assistir a resquícios de uma tese sobre a inferioridade das raças quando se aborda a questão das actividades desportivas. 1965: 45). Só estando profundamente imbuído de uma crença na real superioridade de um povo sobre outro. que Marques faz uma ressalva ao “amor familiar” entre os mandingas: “esse amor tem de ser considerado num campo relativo. e como tal de civilização e progresso: “tornando possível a movimentação ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .

ao afirmar que “se não fora a intervenção das autoridades portuguesas. 1988: 43). A isto parece seguir logicamente um sentimento de dívida. principalmente quando se toca no aspecto político e religioso da etnia mandinga. De forma consentânea. A “acção lenta e pertinaz da colonização dos europeus”. sob a égide de reivindicações religiosas ou nacionalistas têm provocado uma “agitação negra quasi total”. afirma. que foi perdendo terreno com a emergência do nacionalismo africano. sabe-se que há “católicos civilizados de raça negra” (MARQUES. Alegando a fragilidade da organização política mandinga. Os movimentos religiosos eram nos relatórios retratados através de uma imagem em que reinava a incivilidade. e islamização. Marques revela-se preocupado com a série de movimentos eversivos que. demonstrando que “as origens destes movimentos estão nos estragos impostos pelo colonialismo às estruturas tradicionais” (GALLO. vemos em ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . 1965: 64). a sua “boa vontade” é sempre enfatizada nas considerações de Marques. com origem política ou religiosa. Em termos religiosos. revelada no rápido desmembramento do seu império e na submissão ao domínio fula depois da batalha de Turu-bã. 1965: 85). Marques aproveita para inserir mais uma das suas considerações propagandísticas da benevolência lusitana. porém. 1965: 82). existia uma atenção particularmente interessada em defender os interesses do colonialismo português. A história da submissão mandinga ao domínio fula reverteu-se num predomínio acentuado do islamismo nestas duas etnias. baseandose numa “autoridade em assuntos da Guiné” – Teixeira da Mota –. adoçando a prepotência dos dominadores [fulas]. nas zonas de transição e do interior. mais afincadamente sentiriam o erro” encerrado na modalidade da sua organização política (MARQUES. originou a criação de novas vias de comunicação e. de afeição pelo bom colonizador. na zona litoral e a norte do canal do Geba.18 com segurança. o desenvolvimento económico das regiões” (MARQUES. e esta só poderia ser superada através da conversão ao catolicismo. incompatível com a série de correntes ideológicas que promovem o ódio ao branco. postos em crise pelas tentativas de intromissão do capitalismo internacional. daí. que os mandingas se distribuem por duas formas religiosas principais: o animismo. É o caso dos relatórios de Silva Cunha em que este analisa os vários movimentos eversivos. Numa alusão clara ao pan-africanismo. Já na época dos relatórios confidenciais de que nos fala Gallo.

torna possível admitir a existência de uma profunda impregnação dessas doutrinas que ameaçam o domínio colonial português na Guiné.19 Marques uma mesma postura. colocando a salvo os elementos mandingas: “parece lógico admitir a existência de uma dívida de gratidão por parte dos mandingas da nossa Guiné para com Portugal. Sudão. No entanto. enceta uma revisão da história política dos mandingas. como já foi dito. admitir-se também a dificuldade da sua absorção pelas correntes de independência que volitam em seu redor” (MARQUES. o autor faz especial menção a outras circunstâncias que podem subverter o rumo lógico dos processos de manutenção do império. assim. “adoçou”a prepotência dos fulas. O equilíbrio é aqui corporizado na perpetuação da dominação colonial portuguesa. Mas. mais uma vez reificando o etnocentrismo e paternalismo que o guiaram durante toda a tese. A simples existência deste pólo atractivo não pode pôr-se de lado e. República da Guiné e do Gana. Na verdade. Com o intuito de deixar clara a dívida dos mandingas para com o civilizador português. 1965: idem). razão que faz o autor discorrer sobre “as características especiais e únicas do sistema de Portugal contactar com os povos que civilizou” e que permitem esperar deles reconhecimento e gratidão. o colonizador português. “sabido como é que no Mali e na Republica do Gana se agitam com mais intensidade as doutrinas de emancipação do continente negro”. a dispersão dos mandingas pelas terras do Mali. e as conexões ideológicas destas com os movimentos eversivos do poder colonial fá-lo recear as hipóteses de contaminação dos mandingas: “a situação geográfica de cada povo tem uma importância capital na determinação da maior ou menor facilidade de impregnação. dos próprios Mandingas. logo. 1965: 118). em nome de um sentimento de gratidão que. e no tom de alerta que faz desta tese um justo sucessor dos relatórios confidenciais. ainda ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . na qual. tal como avançado anteriormente. “a proximidade de repúblicas recém-nascidas põe os povos que nela habitam na iminência de serem influenciados pelas novas doutrinas do continente” (MARQUES. O que estiver mais perto da fonte donde jorram as ideias terá mais probabilidade de ser atingido” (MARQUES. este último diz mesmo que “os negros foram sempre propensos à continuação de sociedades secretas”. 1965: 120). Gâmbia. Este é precisamente o caso dos povos da Guiné portuguesa e. Senegal. e. o autor adverte para a necessidade de se lhe dar maior ênfase “quando o atraído não atingiu o grau cultural que lhe permitiria discernir com equilíbrio”.

2002: 277). pode não conseguir neutralizar as forças de sinal contrário trazidas pelas “reivindicações negras em ebulição”. assim. eivada de um cariz religioso e de forte carácter ideológico. no suposto respeito por esses mesmos costumes. à luz de uma antropologia que não é já aquela dos tempos coloniais. muito ainda ficou por dizer. Próximas oportunidades de repensar estas questões surgirão. embora associados e pertinentes. em virtude de constrangimentos de dimensão não puderam aqui ser desenvolvidos. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . apesar de se estar a analisar em primeira-mão material intocado. Ferreira Marques apela aos Céus para que guie no sentido certo um império que já era na época uma forma colonial em vias de extinção: No entanto. contemplando aspectos que. Mas. ser iniciados. numerosos autores de destaque por convocar e uma história do saber etnológico da Guiné por recordar. os portugueses alimentavam. e outros estudos poderão. encerramos esta dissertação na esperança de que Essa será a força que neutralizará todas as forças contrárias. Procurava-se dessa forma “perpetuar o império e a sua estrutura hierárquica e. a própria existência da nação portuguesa nos quatro cantos do mundo” (THOMAZ. indelevelmente revelador de uma ligação entre o saber antropológico e a ideologia colonial portuguesa. porque neste momento nos acode à imaginação a Cruz de Cristo. bem de alto a estrada percorrida por mais de quatro séculos por uma Nação que teve sempre como principal determinante da sua expansão no mundo a conquista de almas e não a de territórios. dominando. o volume de informação que poderíamos cruzar no espaço deste ensaio extrapola significativamente o que para a sua realização foi estipulado. e por outro de opor a sua incivilidade à tolerância que sobre ela.20 assim. garantir. A forma como se finaliza esta tese é a expressão mais finalizada do propósito último que levou à sua elaboração. Tratou-se neste documento. de por um lado valorizar os usos e costumes nativos e transformá-los em riqueza de Portugal. Numa passagem que se assemelha a uma prece. no gradualismo da «transfusão das almas». a partir de abordagens como esta. Não obstante o que se tentou demonstrar nestas páginas.

21 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .

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Agradeço aos colegas que fizeram parte deste painel e aos que participaram no debate final. nação.pt Nas primeiras décadas do século XX em Portugal tanto a ciência como o poder estatal pretendiam contribuir para o progresso da nação. inspirado nas teorias populacionais Comunicação apresentada no painel intitulado “Raça. coordenado por mim e por José Manuel Sobral. Posteriormente. Era necessário afastar os “incapazes” ou mais “fracos”. Este trabalho foi realizado com o apoio da Fundação para a Ciência e a Tecnologia. miscigenação. 1. Teoria da selecção natural e origens do pensamento eugénico Num contexto pré-darwiniano. neste sentido.Oximórons do Império: as buscas da perfeição ao serviço da nação 1 Patrícia Ferraz de Matos 2 Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa patricia_matos@ics. a miscigenação seria nefasta. Uma das formas de garantir a “pureza racial” era através da eugenia. e no qual participaram também José Manuel Sobral. influente nos EUA e na Europa. Eugenia. Nação e Império”. 2 Doutoranda em Antropologia Social e Cultural do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e Bolseira da Fundação para a Ciência e a Tecnologia. 1 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Assistiu-se então à procura de afirmação da superioridade biológica e racial dos portugueses. império. surgiram noções como “pureza da raça” e. Com este estudo pretendemos contribuir para uma melhor compreensão das sociedades contemporâneas e para uma reflexão sobre a história das ideias e do colonialismo português. pelo seu incentivo e pelo espaço de reflexão que ali foi possível criar. Clara Carvalho e Leonor Pires Martins. Ricardo Roque. as espécies eram consideradas imutáveis e os membros de cada uma delas eram detentores de uma essência que os diferenciava de todas as outras. pois contaminaria a “essência” que se julgava existir e se devia preservar. Tal projecto de “purificação” procurava garantir o poder e a soberania dos portugueses e alguns cientistas fundamentaram os perigos da mestiçagem daqueles com as populações autóctones dos territórios ultramarinos.ul. Palavras-chave: raça. Associadas a esta lógica. pois esses constituíam uma ameaça. eugenia. Gonçalo Duro dos Santos.

Inspira-se no darwinismo para elaborar em 1883. a teoria eugénica de “aperfeiçoamento da raça humana”. Galton procura provar. ou seja. criada na Inglaterra. Não fazia sentido.2 do pastor protestante Thomas Malthus 3 (1766-1834). na obra Inquires into Human Faculty and its development.. 16. enquanto a produção de bens alimentares cresce em proporção aritmética (1. emergiu a eugenia.). conhecido como o fundador da genética.. pondo assim em causa a reprodução daquela espécie. segundo o próprio. 2. na obra Hereditary genius. primo direito de Darwin. principalmente pelo controle social dos matrimónios. Ainda durante o século XIX. 5 Mendel cruzou pés de ervilhas e identificou algumas características: quando as ervilhas de casca enrugada eram cruzadas com as ervilhas de casca lisa. 4. pois esse gene era dominante. Ao transferir o resultado das descobertas de Mendel acerca do cruzamento de ervilhas para os humanos. um monge checo. falar na existência de “tipos” raciais permanentes.filho de Charles Darwin. os seres mais bem adaptados viviam durante mais tempo e deixavam uma maior descendência. 4 Em 1907 foi presidente da Sociedade para a Educação Eugénica.). tendo em vista um aperfeiçoamento das populações e a eliminação de características indesejáveis. Em 1869. 8. 4. Segundo ele.. o resultado tendia a ser ervilhas de casca enrugada. 2. através de um método estatístico e genealógico. autor do Ensaio sobre o Princípio da População (1798). 3 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . No entanto. que a capacidade humana era influenciada pela hereditariedade e não pelo meio e sugere as proibições dos casamentos inter-raciais. por isso. Segundo Malthus. o processo darwiniano de selecção natural já não operava sob as condições de uma vida “civilizada” e. O termo eugenia (eu . portanto. a primeira do género. Darwin (1809-1882) definiu o processo de “selecção natural” das espécies. a selecção natural actuava no sentido da preservação das diferenças e variações favoráveis e da eliminação das variações nocivas (Darwin 1968 [1859]: 84). Galton 4 inspirou-se ainda nas descobertas de Gregor Mendel 5 (1822-1884).geração) foi criado em 1883 pelo britânico Francis Galton (1822-1911). era necessário intervir activamente no desenvolvimento do homem. pois tal não permitia a actuação da selecção natural que eliminava os mais fracos. uma vez que as populações se adaptavam/ evoluíam ao longo do tempo. as espécies não eram imutáveis e evoluíam gradualmente. Malthus não defendia a ajuda aos mais necessitados.. Galton considerou necessário procurar manter as “raças” puras. a população cresce em proporção geométrica (1.boa. tendo-lhe sucedido no cargo Leonard Darwin . genus . Alguns eugenistas interpretaram estas experiências de um modo que reconhecia as ervilhas de casca enrugada como uma degeneração (e não como uma variação genética apenas). 3. e paralelamente ao evolucionismo. uma prática que procurava alcançar a melhoria das qualidades físicas e morais de gerações futuras. podendo tal conduzir a uma catástrofe.

por exemplo. destituída de uma base étnica individualizada”. a ideia de “nação” estava no centro das preocupações dos intelectuais (Mattoso 1998). pois esta permitiria obter combinações incontroláveis. Porém. como observou José Manuel Sobral. como Alcácer do Sal. económicos e políticos das nações mais progressivas da Europa.3 A eugenia veio a suscitar o interesse de cientistas. tanto para Antero de Quental. especialistas legais e higienistas mentais. Por seu turno. Para impedi-la promoveu-se a segregação de alguns grupos. resultou da “vontade política e das instituições e não de uma raça entendida como um tipo nacional” (Matos 1998: 329). “a nação portuguesa. e com os avanços técnicos. 279). Alguns autores vão então procurar encontrar uma matriz rácica para explicar a decadência de finais do século XIX (Sobral 2004: 259). ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . mas as superiores sairiam desfavorecidas. uma grande parte dos autores da geração de 1870 debruçou-se sobre a constatação do atraso português de então comparado com os feitos heróicos nacionais que ocorreram nos séculos XV e XVI. por outro. tendo como resultado a sua degenerescência. Nesta altura. Por outro lado. “o sentido unitário – mas polissémico e ambíguo – de nação” (idem. Teorias nacionalistas e influência do pensamento eugénico em Portugal No contexto português de finais do século XIX. inclusivamente. médicos. Braga concluiu que os portugueses resultaram da mistura de vários grupos e tal era um exemplo de superioridade. a palavra “raça” tinha ainda. Teófilo Braga (1843-1924). como para Oliveira Martins. Já Leite de Vasconcelos (1858-1941) reconheceu que os portugueses resultaram da mistura de vários povos e. Alguns teóricos defenderam que as “raças” inferiores ficariam favorecidas. por um lado. Na obra O povo português nos seus costumes. crenças e tradições (1885). tomou a literatura como “expressão ou produto do meio social” e do “génio nacional” para. tinham uma influência africana evidente (Vasconcelos 1895). o isolamento dos “inferiores” e até a sua exterminação. deduzir os caracteres de “uma raça fundadora” portuguesa (Matos 1998: 324). reconheceram a influência árabe. algumas zonas do país. Outros. T. 2. a partir dela. como Alexandre Herculano (1810-1847) na sua História de Portugal. levantaram-se questões relativas à miscigenação. p.

. Corrêa estava ainda preocupado com o facto de que. reconhece os “traços flagrantes” deixados pelo germano. hereditário. na qual o eugenista brasileiro condenou a mestiçagem (idem. cinco anos depois. sentiu-se a necessidade de realçar a hegemonia de uma nação colonial afastando elementos que pudessem sugerir degenerescência ou hibridação. nesse mesmo ano. Em 1927.. Nesse sentido referiu que era “urgente (. minora a influência dos semitas e não se refere a uma possível influência dos habitantes da África sub-sahariana. como António Sardinha (1887-1925) em O valor da raça (1915). para uma conferência no Porto. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . na Clínica Psiquiátrica da Faculdade de Medicina de Lisboa” (Pimentel 1998: 22). a inaptidão bio-social era um fenómeno constitucional-germinal e. M. da eugénica negativa (combatendo a procriação mórbida) e da eugénica preventiva (combatendo os factores degenerativos)” (Corrêa 1928: 1-7). mais de 50% dos homens sujeitos às inspecções para o recrutamento militar não foram apurados por falta de robustez física. Nessa mesma altura. o médico e antropólogo Mendes Corrêa. entre 1915 e 1921. nem a existência de sangue árabe consideravam. num texto de 1914-1915. Corrêa intervém no Congresso Nacional de Medicina defendendo que o desfalque humano suscitado pela emigração. Corrêa propôs a criação de um “arquivo genealógico dos doentes” que veio a ser “posto em prática. M. Foi neste contexto também que. altura ou saúde. pela tuberculose e pela ilegitimidade das crianças conduzia à necessidade de tomar medidas eugénicas.. no sentido de salvar a população portuguesa e manter genuinidade do carácter dos portugueses. assim como pela mortalidade. em 1931. No ano seguinte (1932) é convidado para organizar a secção do Porto da Sociedade Portuguesa de Estudos Eugénicos e.) os princípios racionais de eugénica positiva (favorecendo a procriação sã).4 Nos inícios do século XX. assistência social. promoção e proibição de casamentos. os integralistas lusitanos. começaram a surgir propostas de medidas de higiene. Para M. convida Renato Kehl. ou devido a deformidades físicas (Corrêa 1928). portanto.. Por outro lado.) pôr em prática (. presidente da organização brasileira de eugenia. M. Na I Semana Portuguesa de Higiene. ibidem). Corrêa. não sendo pois muito eficazes os meios higienistas.

de tão brilhante Passado.. 9 Entre os quais o alemão Eugen Fischer. na lição inaugural da Universidade de Coimbra. Vilhena. 10-12-1937). 8 A maioria dos presentes era constituída por professores da Faculdade de Medicina de Coimbra. 10 Estes pressupostos eram comuns aos defendidos pela Sociedade Portuguesa de Estudos Eugénicos. Embora não fazendo parte desta sociedade. como Bissaya-Barreto. João de Almeida (brigadeiro-médico) e Sobral Cid. de 23-10-1934 a 18-1-1936. onde as secções da sociedade eram dirigidas por M. combatendo tanto quanto possível. professor de Antropologia. necessitam (. Mas já anteriormente. desenvolvendo a nossa raça. os “homens de amanhã”. mentor de várias estruturas de apoio às crianças.) de desenvolver tôdas as fôrças e riquezas com que a Natureza as dotou. respectivamente. tornando-a vigorosa e forte. Bissaya-Barreto. no ano lectivo de 1934-35. Anselmo Ferraz de Carvalho ou Elísio de Moura. tinha a intenção de propagandear ideias de “valorização demográfica” e responder à “necessidade de se criar uma geração mais forte”. e realizou estudos que ilustram o seu interesse pela “raça”. Bissaya-Barreto esteve presente na sua inauguração. a Sociedade para a Educação Eugénica na Inglaterra (1907). defendeu em 1940. Tamagnini foi ministro do governo de Salazar. Tamagnini analisa a importância do estudo da população e destaca as medidas eugénicas já tomadas pela Alemanha: Podem discutir-se pormenores. para que possam manter o seu lugar ou conquistar melhor lugar na hierarquia dos Povos” (e isso só é possível) “aumentando a nossa população. que segundo ele permitiriam a continuidade dos valores da “nação” e da “raça”. pode discordar-se de certos processos. instruindo-a. E. director do Instituto de Antropologia de Kaiser Wilhelm de Berlim (Diário de Coimbra. que: As Nações novas e as velhas como a Nossa. Do Porto e Lisboa.. educando-a. participaram os médicos Joaquim Pires de Lima. cujos estatutos foram aprovados em 1934. o médico e antropólogo Eusébio Tamagnini 6 apresenta a proposta para a criação da Sociedade Portuguesa de Estudos Eugénicos 7 . Corrêa e H.5 Em 1933. podemos referir a criação da Sociedade Alemã para a Higiene Racial (1905). as variadas causas do seu enfraquecimento 10 (1940: 6). criada em Coimbra em 1937. Esta Sociedade. o Estado que devote os seus cuidados aos seus melhores elementos étnicos dominará um dia o Mundo’ (1934-35: 28). Rocha Brito. Foi inaugurada durante as Comemorações Centenárias da Universidade de Coimbra. mas o que ninguém pode contestar é a seguinte afirmação do Hitler: ‘Numa época em que as raças se estão intoxicando a si próprias. aperfeiçoando-a. com a presença 8 de representantes de vários países 9 e esteve em actividade até 1974. Por seu turno. a Sociedade Eugénica Francesa (1912) e a Sociedade Eugénica Americana (1921) que veio a aconselhar a esterilização de um décimo da população americana para evitar o “suicídio da raça branca”. no discurso para as festas comemorativas da cidade de Coimbra. 7 Em termos comparativos. 6 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . na Universidade de Coimbra.

No que respeita à esterilização. a Igreja foi-se mantendo vigilante no que diz respeito a uma excessiva intervenção do Estado no domínio privado e familiar. 11 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . no que diz respeito à regulamentação de casamentos e divórcios proposta por alguns médicos e à consequente necessidade de actualizar o Código Civil português. procurando assim impedir os excessos “negativos” da eugenia. 26). Em Portugal registou-se então a persistência dos valores humanistas. como sabemos que aconteceu nos EUA e na Alemanha. psicológicos e até jurídicos. A sua tese de licenciatura incidiu sobre “A Realidade Social do Aborto” e defendeu a legalização do aborto. os elementos sociológicos. houve em Portugal um certo consenso em a reprovar. De facto. Prémio Nobel de Medicina e Fisiologia (1949). embora as duas pudessem coexistir. membros do Partido Evolucionista (Bissaya-Barreto). medicina e farmácia) acabaria por prevalecer à via eugenista. com a intervenção da Igreja no Estado. Por outro lado.6 Em Portugal. Os católicos defenderam a eugenia “embora aprovassem medidas natalistas de aumento da população e condenassem as medidas limitativas da natalidade” (idem. Entre os grandes defensores da eugenia estiveram vários psiquiatras e pessoas de distintos quadrantes políticos: ex-nacionais-sindicalistas (E. e especificamente católica. os princípios da eugenia não foram levados até às últimas consequências e não se registou no país a ocorrência de extermínio ou genocídio. membros da União Nacional e opositores ao regime (como Álvaro Cunhal. Outro elemento interessante é que as discussões acerca da eugenia passaram a juntar aos argumentos biológicos. João de Almeida). uma medida no entanto restrita a casos clínicos mais especiais (Pereira 1999: 588). em parte devido à influência cristã. Tamagnini. propôs a esterilização para eliminar a hereditariedade mórbida. conservadores republicanos (Júlio Dantas). a via higienista (apoiada pelas descobertas da química. ou de esterilização como sucedeu na Suécia. agnósticos e ateus (Pimentel 1998). p. Sendo assim. Apenas Egas Moniz. encontram-se apologistas da eugenia com diferentes posturas relativamente à religião: católicos. que defendeu em 1940 a despenalização do aborto 11 ).

Este médico não apoiava a mestiçagem. este autor chama a atenção para a necessidade do desenvolvimento de estudos sobre os “problemas biológicos e sociais do mestiçamento” cuja “intensidade angustiosa e dramática” deveria preocupar os investigadores. o Peru. como o próprio Brasil. e defendeu uma política colonial “extremamente humanitária e rasgadamente liberal” para apelar à colaboração dos mestiços. por exemplo. Higiene racial e questão colonial Na primeira metade do século XX. 1934: 329. o médico Germano da Silva Correia criticou o povoamento colonial por condenados. podemos encontrar em M. Nas Comemorações de 1940. Apela ainda A questão da mistura racial não era única de Portugal. no I Congresso Nacional de Antropologia Colonial de 1934. 12 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . por um lado. Corrêa propósitos muito idênticos. por exemplo. desde a Família até ao Estado” (1934: 63). por outro (Correia. Já no âmbito científico. embora fossem a favor da “elevação social de pretos e mulatos”. 326). No Congresso de Antropologia Colonial (1934). e ainda o México. por outro. uma vez que um mestiço era “um sêr imprevisto no plano do mundo” (1934: 332). com a questão da miscigenação 12 . G. no entanto.7 3. Ela foi debatida em alguns países da América Latina. no discurso da Sessão Inaugural do Congresso Nacional de Ciências da População. como Norton de Matos ou Vicente Ferreira. enfatiza a sua linha de pensamento quanto à mestiçagem. Tamagnini. mas com um espírito um pouco diferente. não eram favoráveis à mestiçagem. inaceitáveis em “matéria da eugenésica interétnica”. governadores coloniais. refere a importância do “vigor” e da “pureza germinal da Raça” para a “continuidade histórica da Nação” (1940c: 20). ao defender o esforço para incutir nos portugueses o desejo de emigrarem para as colónias e aí se fixarem definitivamente. pois foram esquecidos desde os “tempos dourados em que o grande Afonso de Albuquerque favorecia o cruzamento de portugueses com as mulheres indígenas”. por um lado. estas discussões acerca do “aperfeiçoamento da raça” estiveram envolvidas também com a questão colonial (Matos 2006) e. No mesmo Congresso. Assim. Numa outra comunicação apresentada ao Congresso Colonial. Contemporaneamente a Tamagnini. e os científicos. alertou para os perigos da mestiçagem. salvaguardando. que estes constituíssem “grupos cuidadosamente separados” (Ribeiro 1981: 155). a Argentina e a Venezuela. envolvendo os meios políticos. referindo que esta era “um risco para tôdas as sociedades humanas. por essa razão. defendendo que: “de um mestiçamento não se pode esperar uma nova linha racial pura” (1940b).

embora influente. numa Comunicação apresentada à 22. 4. o que este autor acaba por destacar é a imprevisibilidade do mestiçamento (1940b) e não a sua fundamentação científica. Contudo.8 à “conveniência nacional de restringir os cruzamentos raciais” e termina referindo que: “nunca eles (os mestiços) deverão. Porém. Havia alguns que contrastavam com estes.) (1944: 3-4). professor na então Escola Superior Colonial.. em Lisboa.º Em tal caso deve procurar-se. procurando melhorar a situação daqueles que. Mendes Corrêa sustenta que: 1. uma selecção eugénica dos progenitores (. Ainda no âmbito daqueles congressos de 1940. fraterno..) muito excepcionais e improváveis” (1940b). como não devem os estrangeiros naturalizados. no entanto.). cuja existência vários autores tinham tentado demonstrar desde o século XIX. 3. aborda questões como o contacto da “raça portuguesa” com as “raças indígenas” e o contacto das “raças” nas colónias portuguesas e revela-se também contrário à existência de “mestiços” (1940: 20-21). pois poderia conduzir à dissolução de caracteres específicos dos portugueses. exercer postos superiores da política geral do país. um recurso a adoptar para exploração dalguns territórios (. dentro do possível.. Na sua apresentação integrada no Congresso Nacional de Ciências da População.º O mestiçamento em áreas de difícil aclimação dos europeus ou por virtude da escassez dos colonos provenientes da metrópole.. mas a questão de o factor degenerativo surgir era apenas uma possibilidade (1940a). não representa todos os discursos da época. Corrêa debruça-se sobre os “Factores degenerativos na população portuguesa e seu combate” e anuncia o mestiçamento como “possível factor degenerativo”. Dito de outra forma.) em casos (.º Deve dar-se aos mestiços do nosso Império um tratamento carinhoso. tanto quanto possível. M.º Não deve considerar-se o mestiçamento em larga escala como base da nossa política colonial. foram desfavorecidos por más condições sociais e educativas e promover..ª Sub-Secção do II Congresso da União Nacional. A mestiçagem era vista como uma ameaça. porventura. o mestiçamento levaria à diluição de caracteres (1940b).. no Congresso Colonial. a posição destes autores. que é a maior garantia da continuidade histórica da Pátria... ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . sobretudo mais tarde. 2. é. a sua colaboração com os mais prestimosos valores nacionais. Gonçalo de Santa-Rita (1891-1967). salvo (. humano. Quatro anos mais tarde (1944). pois isso implicaria a destruição dum património germinal. após a apropriação das teses luso-tropicalistas de Gilberto Freyre.

que encorajou os seus homens a casar com as mulheres de origem ariana convertidas ao cristianismo. românico e germânico. Ainda no âmbito dos congressos de 1940 foi apresentado um estudo sobre as populações indo-portuguesas. na história da colonização portuguesa. como é o caso de Afonso de Albuquerque 13 . houve gente que ascendeu à nobreza. vice-rei da Índia. 13 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Aires de Azevedo apresenta um trabalho no qual conclui que “a influência das raças coloniais (nomeadamente Hindu e Negra) na pureza bioquímica do povo português. negando outras influências (1940: 99). a Escola Médica de Goa era muito organizada. Por ocasião do Congresso Nacional de Ciências da População (1940). No âmbito deste mesmo congresso. Sampaio e Mello. que assistimos à produção de trabalhos visando provar a pureza do povo português. num texto sobre o índice nasal dos portugueses. 4. o seu desenvolvimento social e cultural era considerado superior ao dos africanos. professor da Escola Superior Colonial. Germano da Silva Correia refere que “não ocorreu nem degenerescência. Várias vezes foram lembradas as iniciativas de Albuquerque na Índia no que disse Aqui o processo de colonização ocorreu de um modo diferente do que aconteceu em África. domiciliada há mais de dois séculos nesta Colónia” e que a única diferença resultante do clima tropical é “o menor grau de robustez orgânica” (1940: 663-678). o médico Joaquim Pires de Lima defendeu que os portugueses resultavam da síntese entre os elementos lusitano. Os hindus impressionaram pelo seu desenvolvimento e organização social. a par das considerações contrárias à miscigenação. é pràticamente nula” (1940: 563). embora tenha enfatizado não querer que estes “casassem com as ‘mulheres negras’ de Malabar” (Boxer 1967: 98-9). Embora a sua religião fosse diferente. nem diversificação rácica na grei Luso-descendente. Tamagnini (1939) procurou demonstrar que os narizes dos portugueses eram muito diferentes e não tinham qualquer influência dos narizes dos africanos. Histórias de miscigenação na colonização portuguesa Apesar do que foi dito atrás. houve quem tenha defendido uma política de casamento misto. é nesta mesma altura. etc. No âmbito das Conferências de Alta Cultura Colonial (1936). O seu autor.9 Curiosamente. Quando os portugueses chegaram à Índia encontraram impérios imponentes. defende que os portugueses em contacto com outras populações se manteriam sempre portugueses e um bom exemplo disso era o Brasil (1936: 52). Por seu turno.

a obra de Freyre não teve receptividade em Portugal na década de 30. eu não tenho nenhuma. O “renascimento do império” estava imbuído de ideias raciais e. tal processo não terá sido pacífico. Na obra citada. um ex-funcionário administrativo nos anos 30 em Angola: J: . em entrevista. Freyre destaca a predisposição dos portugueses para o contacto fraterno com as populações tropicais. pode ser descrita como um “choque cultural”. na obra Casa Grande & Senzala do já referido Gilberto Freyre (1957 [1933]). vide Andrews (1991) e Castelo (1998).Sucedeu-me isso. o próprio soba não perceber como é que um monaqueca (rapaz novo) podia viver sem mulher. postas em prática no início do século XVI. As suas ideias de política colonial. De facto. Porém. como nos referiu. em 1933. um discípulo de Franz Boas. 14 Para um maior desenvolvimento sobre este assunto. você ou tem uma ou não pode ter muitas’. foram mesmo consideradas inspiradoras e precursoras das ideias que se quiseram pôr em prática nos territórios coloniais depois dos anos 40 do século XX.10 respeito à colonização. de adaptação ao ambiente. embora depois houvesse uma adaptação. mais tarde já não era… É uma questão de costume. Esta ideia parece ser predecessora da ideologia “luso-tropicalista” cujos fundamentos começam a ser lançados.Não senhor. devido ao seu passado étnico e cultural de “povo” indefinido entre a Europa e a África 14 . eu não me relaciono com pretas!’ (…) Eu tinha 18. G. como tal. 17 anos quando fui daqui. é relativamente comum considerar-se que os portugueses não estabeleciam barreiras raciais nas suas colónias e que a sua fácil miscigenação com outros povos lhes daria uma certa especificidade (Boxer 1967: 35). ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . quer dizer. não havia lugar para a visão culturalista de Freyre ou para o elogio do mestiço (Castelo 1998). aquilo para mim era um bicho. Todavia. rapaz. A sensação de estranheza do colono quando chegava aos territórios ultramarinos e tinha um primeiro contacto com as suas populações autóctones. e eu chegava lá e ver uma preta nua não me impressionava nada. E eu disse: ‘Ó senhor administrador. dizia: ‘. mas o administrador onde eu estava. eu não quero.

fraternidade e até de intimidade. é sobretudo no período pós-Segunda Guerra. e até ousadamente. declarava que: “nós continuamos a ouvir sempre repetir que os indígenas gostam mais dos portugueses que dos ingleses. Como resultado das pressões anti-coloniais. Ainda hoje. Ao mesmo tempo. é muito difícil para muitos acreditar na teoria luso-tropicalista. A Constituição de 1951 instituiu o regime de indigenato aos nativos de Angola. porque os autores em vez de procurarem verificar a exactidão das afirmações. Mas as concepções luso-tropicalistas de Gilberto Freyre receberam críticas. 15 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . A discriminação racial e as duras práticas administrativas coloniais existiam e persistiam. segundo a qual a colonização portuguesa teria sido diferente. que se verifica uma mudança na atitude dos políticos do regime face à ideologia de Freyre. harmonia. porque os tratamos com mais humanidade e nos interessamos pela vida deles.11 5. Em 1959. foi necessário proceder a uma reformulação da postura portuguesa face aos territórios ultramarinos e seus habitantes. Tanganhica e União Sul-Africana). só a visita ao “terreno” lhe concedeu uma visão crítica diferente das visões luso-tropicalistas que o regime apropriou. Angola. Reformulações trazidas pelo pós-guerra Embora a recepção inicial da teoria gilbertiana em Portugal tenha sido heterogénea e não lhe tenha sido dado um grande destaque nos anos 30 e 40. acham mais cómodo repetir aquilo que os outros disseram” (Dias e Guerreiro 1960: 21). criando as chamadas sociedades luso-tropicais. As ideias discriminatórias do Acto Colonial (criado em 1930) começam a ser abandonadas e o regime adopta a teoria “científica” de Freyre 15 . a expressão “colonização” passa a ser substituída gradualmente por “integração”. Índia Portuguesa e Macau” (Santos 1955: 159). E esta história vai-se repetindo. uma vez que os portugueses sempre tinham respeitado os valores das populações com as quais se relacionaram e com as quais mantiveram laços de tolerância. por exemplo. este autor. como certos erros que passam de uns manuais para os outros. um pouco inesperadamente. No caso de Jorge Dias. embora ela nunca tenha sido apoiada oficialmente (Castelo 1998). numa altura em que os países europeus já tinham concedido a independência às suas colónias. num Relatório de Campanha (Moçambique. Moçambique e Guiné pelo facto de considerar que estes ainda não tinham alcançado “o nível de cultura e o desenvolvimento social dos europeus” como possuíam os de “Cabo Verde.

Ou seja. mas depois assistimos ao entrecruzar dos discursos políticos com os discursos da Igreja. No âmbito do contexto colonial. a atribuição de um título nobiliárquico em Portugal. que não permitia o acesso à cidadania da maioria da população das colónias africanas. Portugal. por exemplo. era dado a ver como um país grande. com territórios espalhados por todo o mundo.12 6. e à influência da Igreja no próprio Estado. pois o potencial eugénico dos portugueses permitia que essa originalidade se mantivesse mesmo em contacto com populações “exóticas”. Em conclusão Escolhi a expressão “oximórons” para o título desta comunicação. essa mistura nem sempre foi reconhecida e alguns autores procuraram provar a sua “pureza racial”. um país pequeno. Um outro oximóron resulta da promoção da ideia de “pureza racial” dos portugueses e da argumentação simultânea de que os portugueses descendiam de vários povos (ao longo de séculos). não tinha tido quaisquer relações com negros. só era concedida se o indivíduo provasse que nunca tinha passado por África e. apesar da ascendência diversa dos portugueses. portanto. Curiosamente. imperial. porque um oximóron designa uma combinação engenhosa de palavras que. Os oximórons podem surgir também. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . se contradizem entre si. mas todos eles tinham características particulares que se tinham mantido inalteráveis. o processo de assimilação das populações autóctones dos territórios ultramarinos não parecia diluir a originalidade portuguesa. tendo o “estatuto” de “indígenas”. e constatamos que alguns discursos científicos afinal estão imbuídos de discursos também eles políticos e até de teor religioso. perdurado ainda até 1954. Outros consideravam que mesmo cruzando-se com outros povos. No âmbito do contexto nacional e colonial português analisado. nos séculos anteriores. Faz sentido também falar em oximóron quando nos estamos a referir ao texto da Constituição de 1951 que se refere ao processo de assimilar os nativos dos territórios sob administração portuguesa. cujos recursos não abundavam. nunca perderiam a sua essência individual que os caracterizaria. no fundo. encontrámos algumas dessas combinações. num contexto no qual à partida concebemos o Estado e a Igreja como separados. por exemplo.

“volvido quase meio século sobre a sua publicação”. segundo Sousa Santos. o que faz dela uma entidade “poliglota”. “continuam a projectar a sua sombra nas discussões contemporâneas acerca do que é ser português” (2000: 103). Os Elementos Fundamentais. S. não será também um oximóron a combinação sugerida por alguns entre ideias de “cultura de fronteira” (Boaventura Sousa Santos 1993) e a de que a cultura portuguesa se deixa contaminar pelo que lhe é exterior (Jorge Dias 1990 [1953]. e tendo sobrevivido ao período pós-independência das ex-colónias portuguesas. segundo J. “as buscas da perfeição ao serviço da nação”. atingindo o seu auge durante as décadas de 30 e 40 do século XX. com algumas das ideias acerca do nacionalismo português.13 Por outro lado. 16 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . nos quais se discute a superioridade biológica e cultural de uns indivíduos em relação a outros e se propõem medidas científicas e políticas com vista a penetrar nas esferas pessoais e sociais dos indivíduos? Poderemos nós prever isso. na expressão do nosso subtítulo. dado o contexto que se vive actualmente? Boaventura Sousa Santos (1993) caracterizou a cultura portuguesa como uma “cultura de fronteira” e defendeu ideias a propósito da capacidade de adaptação da cultura portuguesa. parece coadunar-se. segundo alguns historiadores como Valentim Alexandre (2000) e Cláudia Castelo (1998) e antropólogos como Miguel Vale de Almeida (2000) e Cristiana Bastos (1998).. Hoje. B. O que podemos então esperar dos antropólogos de hoje? Correr-se-á o risco de voltarmos a viver em contextos semelhantes aos aqui descritos. há autores que ainda recentemente se prenderam com essa questão 16 . Tanto um autor como outro abordaram a questão da cultura portuguesa se deixar contaminar pelo que lhe é exterior. da identidade nacional e da adaptação dos portugueses a diferentes territórios. Muitos dos autores que teceram considerações acerca da “raça” e da eugenia tinham currículos que. a ideia do luso-tropicalismo. estamos perante um oximóron quando nos lembramos da defesa das teses luso-tropicalistas aplicadas à caracterização da colonização portuguesa. na altura. Dias (1990: 156). há muito alvo de descrédito científico. Quanto à predisposição especial dos portugueses para a adaptabilidade.. Santos 1993) com a ideia de um “modo de ser português” facilmente identificável e transhistórico? Como vimos. Essas teses foram inicialmente desenvolvidas por Jorge Dias em Os Elementos Fundamentais da Cultura Portuguesa (1990 [1953]) e depois em O Carácter Nacional Português na Presente Conjuntura (1971 [1968]).. Como referiu João Leal. não permitiriam levantar qualquer suspeita. Contudo. emergiram no final do século XIX. atravessaram o período que precedeu o Estado Novo e reavivaram-se com este. ou marcada por uma grande “disponibilidade multicultural”. e outras obras (acrescentamos nós).

415-432. Oeiras. Tempo Brasileiro. CORRÊA. “O império e a ideia de raça (séculos XIX e XX)”. II Secção. O Modo Português de Estar no Mundo. “Festas comemorativas dos Centenários e da Rainha Santa”. CASTELO. ANDREWS. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .º Congresso Nacional de Antropologia Colonial. George Reid. Alberto Carlos Germano da Silva. em VALA. Dom Quixote. Celta. Edições da 1. Dezembro de 1944. 1991. bi-mensal de Higiene e Profilaxia Sociais. Brazil. de África Médica. 1998. Nº 12. Lisboa. Aires de. 300-330. 1940. Valentim. Tomo 1. Edição dos Congressos do Mundo Português. Cristiana.ª ed. porque distintas e distantes. 1415-1825. Relações Raciais no Império Colonial Português. Costa Carregal. Perspectivas Comparativas. BISSAYA-BARRETO. Porto. 663-678. 4-7. “Os Eurafricanos de Angola”. Charles. 33 (146-147). Rio de Janeiro. Mendes. Jorge (Coord. Alberto Carlos Germano da Silva. 1940. Ano X (229 e 230). VIII Congresso. Madison. Lisboa. em Congresso Nacional de Ciências da População. 133-144. Porto. BOXER. Mais vale prevenir do que remediar. sobre o receio da diluição dos caracteres seculares evocados por alguns autores? Inventariar-se-ão diferenças incomparáveis. Fernando. 1940. 1888-1988. em Sep. Novos Racismos. Tomo 1. crenças e tradições.ª Exposição Colonial Portuguesa. 2000. em Trabalhos do 1.14 Estando Portugal a transformar-se cada vez mais num país de imigração e de acolhimento para muitos indivíduos poderemos vir a assistir novamente a discussões sobre os possíveis efeitos das misturas biológicas e culturais dos portugueses com outros grupos e. Porto. “O mestiçamento nas colónias portuguesas”. 1985-1986 [1885]. CORREIA. 1998. O povo português nos seus costumes. 1.ª Parte. BASTOS. 551-564. ou será que é porque existem semelhanças que se poderão facilmente continuar a compará-los? Por outras palavras. II Secção.º.). 1934. Edição dos Congressos do Mundo Português. Análise Social. “A pureza bioquímica do Povo Português”. Cláudia. BRAGA. Volume I. Afrontamento.º. em Congresso da História da Actividade Científica Portuguesa. “Antropologia na Índia portuguesa”. O luso-tropicalismo e a ideologia colonial portuguesa (1933-1961). 1944. consequentemente. A Saúde. The University of Wisconsin Press. Teófilo. não será apenas onde existem afinidades que podemos encontrar diferenças? Referências bibliográficas ALEXANDRE. Jornal popular. 1967. Blacks & Whites in São Paulo. CORREIA. AZEVEDO. Lisboa. “Tristes trópicos e alegres luso-tropicalismos: das notas de viagem em Lévi-Strauss e Gilberto Freyre”. 1.

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redigido por Américo Pires de Lima (1886-1966). o médico Américo Pires de Lima integrou uma expedição militar ao norte de Moçambique. foi Este texto é uma transcrição fiel da comunicação que foi apresentada no painel intitulado “Raça. este texto pretende recuperar a sua experiência no litoral norte de Moçambique em 1916-1917 e reflectir sobre os interesses do médico pelas “raças” moçambicanas à luz das práticas antropológicas suas contemporâneas. Uma versão mais desenvolvida e trabalhada foi posteriormente publicada (vd. Nação e Império”. Utilizando diversas fontes literárias de natureza autobiográfica. Em 1918 a revista Anais Científicos da Faculdade de Medicina do Porto publicou um artigo com o título de “Contribuição para um estudo antropológico dos indígenas de Moçambique” que revelava interesses no domínio da antropologia física e biológica. representava um esforço de sistematização das observações e mensurações antropométricas de populações locais realizadas pelo jovem médico durante o período em que integrou terceira expedição militar ao norte de Moçambique (Lima 1918a). memorialística e técnica da autoria de Pires Lima. O interesse pela aplicação de práticas de natureza antropométrica. Este texto. a que não estava obrigado pela sua participação na campanha.piresmartins@gmail. Moçambique.Ossos do ofício: um caso de práticas antropométricas no norte de Moçambique (1916-1917) 1 Leonor Pires Martins Doutoranda em Antropologia. Colonialismo. Eugenia. Martins 2006). Palavras-chave: Antropologia física. recolhendo espécimens botânicos. ISTCE leonor. zoológicos e diversos artefactos. Aproveitando a estada naquela antiga colónia portuguesa o jovem médico ocupou o tempo livre com o estudo da flora.com Por ocasião da I Guerra Mundial. fauna e antropologia indígenas. Fazendo uso da técnica da antropometria realizou ainda mensurações em mais de uma centena e meia de nativos moçambicanos e procedeu à descrição dos seus caracteres fisionómicos. 1 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . I Guerra Mundial 1.

sendo notório o espírito cumulativo com que procedeu à recolha de informação. o médico português ocupou o tempo que sobrava da actividade clínica recolhendo “todos os elementos possíveis para o estudo da flora. desenvolvendo uma actividade paralela à assistência médica prestada às tropas expedicionárias portuguesas ali estacionadas. como recordou em 1943 no prefácio de um volume que reunia os textos decorrentes daquela experiência em África (Lima 1943: vii). Em larga medida. Nessa altura. técnicos. da fauna e antropologia indígenas”. sobretudo) e um pequeno número de artefactos. Mais adiante. designadamente pela oportunidade de serem estabelecidas comparações entre diferentes grupos humanos. Américo Pires de Lima embarcou no início de Junho de 1916. embora as acções do exército português nesse conflito se tivessem iniciado bastante antes no continente africano. desde o final de 1914 que essas intervenções militares ocorriam em Angola e em Moçambique. Assim. A missão contou com aprovação ministerial e o apoio das autoridades locais. exemplares da flora (plantas e líquenes. Portugal era formalmente. desde Março desse ano. a missão de estudos de Pires de Lima – ainda que condicionada pela modéstia dos recursos logísticos. recolheu espécimes zoológicos. provavelmente as peças etnográficas mais importantes que adquiriu no norte de Moçambique (Afaa 1989. Lima 1918b). a variedade desses interesses pode ser ilustrada através do destino dado aos resultados da recolha de Pires de Lima. entre os quais. colónias que confinavam com territórios então sob administração colonial alemã (Arrifes 2004).2 principalmente devido ao incentivo de dois colegas da Faculdade de Ciências do Porto. Na realidade. e também ao enquadramento específico do desempenho das suas funções naquele território. uma nação beligerante no contexto da I Guerra Mundial (1914-1918). no seu regresso a Portugal em 1917. Pires de Lima. Na tradição das expedições e viagens científicas setecentistas e oitocentistas. Durante a sua permanência em Moçambique. materiais e humanos disponíveis para o exercício de averiguações científicas – compreendeu uma importante diversidade de interesses. instituição onde leccionava ciências biológicas. veremos que este conflito proporcionou a Pires de Lima condições particularmente favoráveis à realização de estudos de antropometria. Estes tiveram como destino diferentes secções museológicas da Faculdade de Ciências do Porto e ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . quatro estatuetas maconde.

Durante a sua estada em Palma e Mocímboa da Praia. Deste modo. No estudo de Pires de Lima não é identificável um propósito prevalecente de associação de traços psicológicos e comportamentais a traços físicos particulares. no final da década de 1930. todos adultos e do sexo masculino. colega de curso de Pires de Lima na Escola Médica do Porto. os seus índices cefálico. à forma do nariz e dos lábios. classificou várias dezenas de novos líquenes e outros espécimes vegetais recolhidos pelo médico português. Vainio) que. Por sua vez. Parece-me. Broca e Paul Topinard que o médico português perfilhava. facial e nasal. em virtude das precárias condições de armazenamento e de conservação de que dispunha – foram oferecidas ao Museu de Zoologia da sua faculdade e também a um entomologista espanhol. entre outros indicadores – exigiram o manuseamento de diversos ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . os artefactos trazidos de Moçambique foram depositados no acervo do Museu e Laboratório Antropológico daquela mesma faculdade. a observação e a descrição dos seus caracteres físicos e. 2. O exercício de classificação fisionómica e racial de indivíduos – em que se inscrevem os levantamentos antropométricos realizados pelo médico expedicionário – compreendia o estudo anatómico e metrológico do corpo humano: isto é. Já as suas colheitas no campo da zoologia – apesar do facto de muitos dos exemplares se terem deteriorado. quer o exercício de mensuração do corpo humano – por forma à obtenção de valores médios relativos à estatura dos indivíduos observados. que a actividade antropométrica exercida por Pires de Lima foi sobretudo orientada para a acumulação de dados sobre características fisionómicas por forma a contribuir para a elaboração do imenso arquivo da diversidade humana ambicionado pelo projecto antropológico de Pierre P. ao aspecto do cabelo e da dentição. uma parte significativa da sua colecção de botânica foi doada a um liquenólogo finlandês (Edvard A. de outra parte. Quer a actividade descritiva – atenta à cor da pele dos indivíduos.3 outras entidades estrangeiras ligadas ao ensino e à investigação. criado em 1914 por António Mendes Correia (1888-1960). ao invés. a aplicação da técnica da antropometria. às tatuagens e outros sinais corporais particulares –. de uma parte. Pires de Lima reuniu ainda dados sobre os caracteres fisionómicos de 170 indígenas moçambicanos.

são várias as questões que ficam sem esclarecimento. a improvisação e a criatividade supriram a inexistência de outros instrumentos necessários à prática antropométrica. em virtude da prática rotineira da inspecção de corpos humanos nas actividades clínicas. De uma porta de madeira. julgada excessivamente sensorial e imprecisa. sem o auxílio visual daquela ferramenta. ainda que constitua um importante repositório de informação sobre a sua experiência biográfica no norte de Moçambique durante a Grande Guerra. Desta forma. uma vez que apenas conseguira transportar consigo três instrumentos que lhe tinham sido cedidos por um colega da Faculdade de Medicina de Lisboa: uma fita métrica. Pires de Lima ressentia a impossibilidade de utilizar uma escala de cores no decurso das suas observações. Na verdade. No entanto. entendia ser limitada em precisão a classificação dos grupos humanos observados em função da cor da pele. Na realidade.4 instrumentos e aparelhos. os profissionais da medicina seriam particularmente aptos para o exercício da antropologia física e da antropometria. a literatura de cariz técnico e memorialista deixada por Pires de Lima. Por outro lado. designadamente sobre as condições logísticas e técnicas em que o médico militar efectuou as observações (no espaço da enfermaria? num laboratório propositadamente montado para aquele fim? foi auxiliado por alguém? em quanto tempo realizou as mensurações?). eram extremamente limitados os recursos de que dispunha. porquanto. não clarifica todos os aspectos que rodearam a sua actividade no campo da antropometria. por exemplo. Ao fim e ao cabo. e como fica sugerido num passo do seu artigo. os diversos instrumentos antropométricos tinham por função aperfeiçoar a percepção dos praticantes da antropometria. gravando nela a escala com o auxílio da fita métrica (Lima 1918a: 23-4). procurando evitar estimativas produzidas a partir da observação a olho nu. Pires de Lima não dispunha de uma vasta aparelhagem antropométrica. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . o médico expedicionário fez uma craveira. um compasso de espessura e um outro de corrediça. Relativamente às circunstâncias específicas em que o estudo de antropometria realizado por Pires de Lima foi desenvolvido. No fundo. a utilização daqueles aparelhos visava disciplinar os sentidos do observador e atenuar a interferência da sua subjectividade na produção de resultados (Dias 1996: 33-4).

oportunamente aproveitadas por Pires de Lima. Por outro lado. Em vez de ter sido um obstáculo à realização do seu “estudo antropológico”. Quelimane. No caso particular de Pires de Lima. As observações antropométricas de Pires de Lima aconteceram. contudo. no norte da província. outros como soldados das companhias indígenas. depois.).” (Lima 1918a: 5). a colaboração entre a estrutura militar e a esfera académica (a Faculdade de Ciências do Porto) foi formalizada através de um despacho ministerial datado de 31 de Maio de 1916.5 Conhecemos. É o próprio médico quem o sugere logo no início daquele seu texto de 1918: As circunstâncias derivadas da guerra contra a Deutsch Ost Afrika provocaram a concentração. em Mocímboa da Praia) pôde observar indígenas provenientes de diferentes regiões do território (de Tete. já que nos locais onde esteve estacionado (primeiro em Palma e. é notório que o conflito no norte de Moçambique proporcionou circunstâncias extraordinárias de pesquisa ao médico português. Assim. não deve ser menosprezado. teve um papel determinante no que respeita à configuração da amostra do estudo de antropologia física de Pires de Lima. havendo notícia de alguns trabalhos de antropometria realizados entre recrutas do exército português (Roque 2001: 261-2). e como já tive ocasião ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . num ambiente militarizado e com o recurso a nativos moçambicanos que integravam a sua expedição. De alguma maneira. estamos perante um caso em que a instituição militar foi parte importante no processo de produção de conhecimento sobre as populações locais daquele território sob administração colonial portuguesa. de grande número de indígenas de toda a colónia – uns recrutados como carregadores. em meu entender. portanto. Reporto-me à situação de conflito vivida no norte de Moçambique por altura da permanência do médico português na região. um aspecto muito importante que. contrariamente àquilo que poderia supor-se. Inhambane. etc. Na presença do excerto citado. as quais me servem de base a este estudo. facto que motivou o seu recrutamento e que. tive a possibilidade de reunir mensurações antropométricas (…) de várias raças de Moçambique. Assinale-se que no espaço geográfico da “metrópole” a colaboração entre a estrutura militar e a comunidade científica tinha já produzido alguns resultados desde os anos finais do século XIX. sem sair do Niassa. a guerra gerou condições particulares de pesquisa.

Para terminar. Art Makondé: Tradition et Modernité. será somente em meados da década de 1930. 1996. Nélia. Edições Cosmos. 2004. Contudo. em pleno regime do Estado Novo. que a antropologia portuguesa. Miguel Vale de (org. Instituto de Defesa Nacional. em ALMEIDA. na sua vertente física e biológica.6 de referir. circunstanciais e episódicos – como. Marco Fortunato. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Oeiras. esta constatação não lhe retirará o carácter precursor dos seus levantamentos antropométricos no norte de Moçambique. se implantará de forma mais sistemática e continuada no terreno colonial através das “missões antropológicas” que foram dirigidas por Joaquim Rodrigues dos Santos Júnior (1901-1990) em território moçambicano (Pereira 1998). A Primeira Grande Guerra na África Portuguesa. penso que deverá ser encarado o estudo de Pires de Lima. 3. 23-44. facto que é assinalado por Rui Pereira na introdução à reedição do primeiro volume de Os Macondes de Moçambique de António Jorge Dias (Pereira 1998). ARRIFES. não chegando a institucionalizarem-se em Portugal. se nos reportarmos à segunda década do século XX. gostaria de acrescentar que. Celta. Corpo Presente. “O corpo e a visibilidade da diferença”. Angola e Moçambique (1914-1918). Paris. são raros os estudos de antropologia física apoiados na aplicação da técnica da antropometria a populações do “império” português que poderão ser referenciados. tiveram expressão em alguns trabalhos esporádicos. a observação de indivíduos em situação de recrutamento – de soldados e carregadores indígenas que se encontravam ao serviço das tropas expedicionárias portuguesas – possibilita uma associação imediata do seu estudo ao universo dos projectos de antropometria militar que. DIAS. 1989. no meu ver. Referências Bibliográficas AFAA. Os casos existentes são.). De facto. Treze Reflexões Antropológicas sobre o Corpo. Lisboa. de resto. ADEIAO.

1943. “Introdução à reedição de 1998”. Aspectos Históricos e Económicos. MARTINS. 113-139. Anais Científicos da Faculdade de Medicina do Porto. 1998. 2001. _____. ROQUE. “Contribuição para o estudo antropológico dos indígenas de Moçambique”. IV (2). Explorações em Moçambique. Lisboa. Contar o “Império” na Pós-colonialidade. Manuela Ribeiro (org. V-LII. Gaia. Na Costa d’ África. I. “Ossos do ofício: antropometria e etnografia no norte de Moçambique (1916-1917)”. IV (3). 341-361. 1918a. Lisboa. Edições Pátria. Antropologia e Império: Fonseca Cardoso e a Expedição à Índia em 1895.). “Portugal não é um País Pequeno”. Ricardo. Os Macondes de Moçambique. _____. em SANCHES. Lisboa. Leonor Pires. Rui. Anais Científicos da Faculdade de Medicina do Porto. _____.7 LIMA. Américo Pires de. Agência Geral das Colónias. Lisboa. Memórias de um Médico Expedicionário a Moçambique. em DIAS. 1-100. Instituto de Ciências Sociais. 1918b. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . 1933. 2006. PEREIRA. Cotovia. CNDP/IICT. “Notas etnográficas do norte de Moçambique”. Jorge.

II – Capítulo Caboverdianidade e Crioulidade Textos de comunicações do painel Caboverdianidade e Crioulidade Coordenação Wilson Trajano Filho Departamento de Antropologia da Universidade de Brasília e Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa João Vasconcelos Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .

Lisboa Nas suas memórias e auto-caracterizações. onde a designação segundos europeus aflorou em testemunhos dos ex-contratados. alguns descreveram-se como segundos europeus. Refiro-me a idosos. Tomé e Príncipe nunca se referem a si mesmos como crioulos. consideraremos o uso desta denominação pelos ex-serviçais que se quedaram por S. e serve para se situarem perante as mudanças políticas e sociais assaz adversas sobrevindas no S. Devido à percepção das dificuldades na sua terra e às mudanças nos Este texto socorre-se igualmente do trabalho de campo em S. Contudo. Esses cabo-verdianos contrataram-se como serviçais. Afinal. na sua maioria voluntariamente ainda que sem escolha. eram debatidos pela intelectualidade cabo-verdiana. ao tempo do seu êxodo para S. aparentemente um traço adicional da sua identidade. Tomé e Príncipe. No decurso de entrevistas não estruturadas. aventaríamos a de que tal expressão traduz um alheamento em relação às inquietações e aos temas que. nem por isso ela deixa de traduzir uma dada consciência da sua especificidade enquanto cabo-verdianos. intenta-se contextualizar o uso esta designação. 1 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Vicente em 2004. Introdução Este trabalho aborda um peculiar processo de identificação de ex-serviçais caboverdianos em S. Descrevem-se antes como cabo-verdianos e. à primeira vista tributária do ideário colonial. Tomé. a classificação subjacente à denominação de segundos europeus. Tomé e Príncipe: os contornos da consciência de segundos europeus Augusto Nascimento Instituto de Investigação Científica Tropical. Mas. identidade cabo-verdiana. a viver naquele arquipélago há cerca de meio século.Cabo-verdianos em S. eles reiteraram de forma enfática a sua condição de caboverdianos 1 . sua e dos outros. efectuadas entre 2001 e 2003. os cabo-verdianos que se quedaram por S. comporta um juízo sobre a civilização. Tomé e Príncipe independente. nem sempre ligada a uma visão instrumental dos testemunhos que eles fornecem sobre a sua presente condição social e política. Entre as várias hipóteses explicativas. Palavras-chave: ideário colonial. Nesta comunicação. com alguma frequência. Tomé e Príncipe. Cumulativamente. “segundos europeus”. como segundos europeus.

Ainda assim. particularmente sentida pelos ex-serviçais cabo-verdianos. com que se conformaram em vista das promessas políticas. acabaram por permanecer nas roças ou. uma experiência de privações difíceis de suportar. ela não parece passível de redução a algo de meramente instrumental. Dadas a pobreza e a solidão a que estão confinados. desde então. de uma identidade cabo-verdiana política e culturalmente útil à projecção internacional do país e à obtenção de vantagens no mundo globalizado. Para além de um ambiente avesso à sua afirmação grupal – no geral. os cabo-verdianos contam-se entre as principais vítimas do empobrecimento de S. a expressão emergiu sem indagações prévias a tal respeito. É lícito supor que essa expressão condensa um desabafo acerca da marginalidade social. A independência representou para eles um momento difícil. os cabo-verdianos somaram. Mas. Nos discursos sobre a nacionalidade cabo-verdiana patenteia-se o orgulho nas cultura e identidade historicamente fundadas. Tal indiciará o curso dessa expressão nos terreiros das roças. À vida espinhosa antes de 1975. é notório o esforço de construção de uma nação diaspórica e. serão raríssimas as ocasiões para um tal desabafo que.. Neste texto. correlatamente. 3 Os cabo-verdianos não têm qualquer capacidade de luta política e social. adquire o tom de apelo à acção justiceira de quem tenha poder para o efeito 2 .2 moldes de trabalho e nas relações sociais nos anos finais do colonialismo. a classificação de segundos europeus caminha ao arrepio das redefinições identitárias ainda algo politizadas por relação ao colonialismo. a representação de segundos europeus como que cinge os cabo-verdianos a metas 2 A designação segundos europeus foi recorrentemente usada pelos mais idosos em contactos espaçados ao longo de anos. e sem futuro (político) visível 3 . mesmo admitindo que a presença de um português a possa lembrar. quando saíram destas.. Em que circunstâncias a ideia de segundos europeus será. expor perplexidades a propósito de uma caracterização identitária algo inesperada. também a decrescente valia política de uma tal expressão vai de par com o fim da vida predito para breve. Em primeiro lugar. pretendemos enunciar hipóteses ou. Durante as entrevistas surgiu a expressão segundos europeus. hoje falidas e fisicamente degradadas. Tomé e Príncipe. por um lado. descrêem e alheiam-se de práticas associativas –. seja na criação da sua terra e de um destino próprio contra a adversidade natural. seja na luta contra a opressão colonial. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . assim. Tomé e Príncipe. Ora. assim como das pretextadas dificuldades do seu repatriamento e do recomeço da vida no seu pobre país. por outro. veiculada? Usá-la-ão quando não estão presentes interlocutores europeus? É difícil ser taxativo. ou não. Hoje. por se fixar em S. devemos questionar-nos acerca da sua faceta instrumental. Apesar da presença de um interlocutor português a poder induzir. por outra. Entre cabo-verdianos.

4 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . lembre-se a pluralidade dessa identidade nos mais variados contextos. Vicente e. Politicamente. não tem sentido do ponto de vista político ou sequer ideológico e cultural. cuja memória se afigura errática e avessa à perspectiva institucional da diacronia e do discurso histórico. Parecendo uma reivindicação identitária passadista e anacrónica. conquanto nela possam ecoar os debates em curso em Cabo Verde ao tempo em que os ex-serviçais daí largaram para S. De outra perspectiva. Como veremos. permite-lhes uma reordenação simbólica deste mundo. Tomé e Príncipe avultam preocupações arredias das dos arautos da identidade caboverdiana. Só uma investigação profunda permitiria validar esta hipótese. tão pouco para o reconhecimento político e social das minorias. 5 Tal hipótese assenta em indícios escassos. noutras ilhas. das motivações de quem os procura para redigir histórias de vida. também entre os cabo-verdianos de S. tal designação comporta uma sugestão de hierarquização social que. decerto. Outros motivos aconselham a evitar um tal enfoque redutor. tão pouco parece servir a concepção de nação diasporizada 4 . trata-se de uma caracterização sem futuro. E. Em segundo lugar. Ainda assim. A noção de segundos europeus não contribui para a valorização dos referentes identitários cabo-verdianos no mercado de bens culturais. uma abordagem pressurosamente condenatória da alienação subjacente à designação de segundos europeus. igualmente baseada na interpretação de gestos e dizeres dos ex-serviçais cabo-verdianos.3 coloniais. Tal abrange igualmente os valores de há meio Como frequentemente sucede em narrações de indivíduos de grupos subalternizados. a designação de segundos europeus não participa da reflexividade das elaborações identitárias dos cabo-verdianos. entre eles. Em suma. Todavia. abdicaria de tentar explicar o curso e o significado social e político dessa designação corrente entre os ex-serviçais cabo-verdianos. Dadas as características sociais e culturais do arquipélago equatorial e o veio essencialista da afirmação são-tomense. do mestiço – como construtor do Cabo Verde independente. a porosidade observável entre um discurso mais erudito e o discurso popular em S. talvez a qualificação de segundos europeus tenha sentido para aqueles que a evocam. nessa medida contrariando a exaltação do cabo-verdiano – outrora. Tomé 5 . que a filiasse apenas na ideologia colonial e racista. os exserviçais cabo-verdianos estão irremediavelmente condenados à subalternidade. do grupo e do arquipélago. tal caracterização suscitará estranheza e. aversão. até. atento o contexto político são-tomense. também. dada a sua situação e a do país em que se encontram. não há lugar para a negociação política a partir da consideração de identidades. Contra uma visão sub-repticiamente normativa da identidade cabo-verdiana.

O termo crioulo foi adoptado por são-tomenses em textos científicos e ensaísticos sobre asua etnogénese. discussão sem paralelo em S. em tempos orgulhosamente reclamada pela elite dos nativos. os cabo-verdianos aludem à sua miséria em S. assim como ao facto de não beneficiarem em nada dos êxitos económicos na terra natal e do sucesso dos seus conterrâneos nos países mais ricos. que não evidencia senão a insensibilidade dos que a veiculam relativamente ao impróprio de uma classificação eurocêntrica 7 . dar-se-ia razão aos lamentos dos cabo-verdianos em S. são cabo-verdianos. miscigenação. também não completamente voluntária. No fundo. pois que. Rejeitando-se esta parcela da vivência cabo-verdiana. Porém. 8 A afirmação relativa à condição de segundos europeus não foi partilhada por todos. Prontamente se sentenciará que a asserção relativa à europeização é enviesada e extemporânea e. a génese e o curso da designação de segundos europeus. Assim. Tomé e Príncipe. a noção de segundos europeus tem uma história relacionada quer com o contrato nas roças coloniais. De resto. alegam eles. Mas tal enunciação provém de sujeitos que. para os ex-contratados. então. 7 Diga-se. 6 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Tomé e Príncipe sobre o abandono em que se acham. patente. Tomé e Príncipe. Não obstante as mutações de significado social e político ao longo de sucessivas conjunturas.4 século. Concretamente. cumpre contextualizar o seu uso 8 para a interpretação de um arquipélago que. quer com a sua permanência. Com a menção ao abandono. um inquérito talvez produzisse resultados inesperados e contraditórios. ou não. a qualificação de segundos europeus surge à margem da discussão relativa à origem e ao conteúdo de uma identidade crioula em Cabo Verde. Tomé e Príncipe (MAINO 1999:135). Ora. alguns dos que asseveram com sentimento serem segundos europeus talvez não se mostrassem tão seguros dessa classificação. este termo tem vindo a perder lugar no discurso dos são-tomenses. que os ex-serviçais ainda hoje têm por crivo de definição dos cabo-verdianos. Olhemos. embora marginalizados. vai deixando de ser uma marca local. Tomé e Príncipe independente. tal designação padecerá de um paternalismo retrógrado. a ser enunciada por outrem. no foco dos governantes do seu país na diáspora dos países ricos 6 . se solicitados a opinar formalmente. para além de aplicado num sentido lato e de fraco valor descritivo ou interpretativo. a identidade caboverdiana. ao invés de classificar a designação de segundos europeus à luz do (nosso) mundo globalizado. se tornou o seu mundo. Ademais. noções como mestiçagem. de alguma forma perseguida pelos cabo-verdianos ao longo de cerca de meio século de vida no arquipélago equatorial. essa designação comportou (e comporta) uma afirmação social. tivesse a crítica sentido. no S. onde a europeização. decidir-se-ia arbitrariamente o que comporia. crioulidade ou processo de crioulização não constituem tópicos de debate em S. importa reportá-la à evolução do arquipélago. Sem dúvida.

Esta política fez esquecer aquele desígnio político e social que alguns voluntaristas tinham gizado para os cabo-verdianos. a sua resistência à opressão excessiva nas roças. após o sangrento episódio de Batepá e face à ofensiva anti-colonial nos círculos internacionais. É concebível o cepticismo quanto à possibilidade de no termo segundos europeus ainda ecoarem mensagens acerca da mestiçagem como expressão. Em S. da lusitanidade cultural do caboverdiano ou de Cabo Verde como um regionalismo português (cf. Face ao espanto. S. dos cabo-verdianos e da sua “civilização”. Bastaria tão só que a sua socialização nos terreiros das roças tivesse ajudado a alicerçar as relações entre os cabo-verdianos e. esses ecos não precisam de ser coerentes. para que tais ecos viessem a ser recriados para afirmar a indignação contra a miséria a que acabaram condenados no S. nunca o senhor ouvir? Outra exserviçal aventou Cabo Verde com Portugal é perto. ganhando aí novos significados. Tomé e Príncipe independente. de caminho. 10 Consulte-se uma resenha destes debates em ALMEIDA 2004:255 e ss. mormente aos elementos das famílias ditas tradicionais. Uma hipótese tem-na como um eco longínquo da difusão no meio cabo-verdiano dos discursos sobre a etnogénese do povo cabo-verdiano 9 . asserção que não terá. Assim. o poder ensaiou uma aproximação aos são-tomenses. por ALMEIDA 2004:284). um mero conteúdo geográfico. não é de todo impossível que estas e outras descrições de Cabo Verde. tenham viajado com os contratados. Porém. Tendo em mente as inquietações e os temas debatidos nos anos 50 pela intelectualidade cabo-verdiana 10 . Conquanto sujeita a refracções múltiplas. cantarolou um verso de uma modinha da sua juventude. por exemplo. 9 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Vicente pequenino é um pedacinho do Brasil. nos derradeiros anos do colonialismo. uma noção relativa à miscigenação ou à mestiçagem como matriz da génese dos cabo-verdianos poderá ter sido levada para S. FERNANDES cit. quanto até das inconsequentes intenções de instrumentalização política e social dos cabo-verdianos por autoridades coloniais 11 . Tomé e Príncipe foram sendo reelaboradas ao sabor tanto da evolução das relações laborais e sociais nas roças. Tomé e Príncipe. citemos a descrição de S.5 Génese da expressão segundos europeus A primeira dificuldade reside na datação desta noção. Entre as reminiscentes percepções da mestiçagem constitutiva dos cabo-verdianos. Vicente por uma ex-serviçal dessa ilha. Expressando o desejo de que Deus olhasse para ela e a levasse a morrer na sua terra. a conquista da fidelidade política dos nativos tornou-se o objectivo prioritário. Ora. 11 Algumas autoridades coloniais pensaram em usar cabo-verdianos como factor de aportuguesamento do arquipélago. presumimos.

Neste quadro. por vezes. por várias vezes a proximidade racial – por exemplo. a reiteração da qualidade de segundos europeus poderia afigurarse um atrevimento por ameaçadora das barreiras sociais – tão só por implicar um juízo implícito sobre estas –. a preservação das propriedades em caso de turbulência política e de reivindicações de distribuição de terras. tão-somente criaturas humanas – não seria uma afirmação fácil. o mais das vezes. dizerem-se segundos europeus – e. Até meados do século XX. os roceiros tenham feito por avivar a disjunção entre os das roças e os nativos. bem como de identificação com as roças e os roceiros. pelas clivagens entre as roças e os nativos. Por seu turno. Mais tarde. por exemplo. entre outros factores. fosse quando denotava uma adesão ao colonizador. Logo. esta adesão pode ter sido induzida.6 Ao tempo. tal pretensão terá tido importância. a vida nas roças era marcada pela rispidez. tendo em vista. esta vertente conflitual parece esquecida pelos cabo-verdianos. Por exemplo. a aptidão do trabalho incluía o acatamento incondicional das suas ordens. Noutros termos. fosse quando insinuava uma competição civilizacional. Para os europeus. podendo suscitar quezílias ao invés de apaziguamento. hoje. em razão da aptidão para o trabalho. A alegada civilização ou a reivindicada semelhança fenotípica com o europeu podiam desencadear efeitos contraditórios. quando não era da autoria destes. por exemplo. Deixe-se dito. a designação segundos europeus pode ter passado a compor mecanismos de acomodação. o quotidiano era emoldurado por um racismo difuso e pelo ideário colonialista sobre a hierarquização dos vários segmentos populacionais 12 . tal deveu-se aos roceiros. traduzida. no tocante à alfabetização – causou crispações entre empregados europeus subalternos e cabo-verdianos. alguns dos quais asseveraram que a designação de segundos europeus tinha o reconhecimento dos colonos. É provável que. A criação de um tecido social nas roças deveria afigurar-se o melhor dos antídotos contra tais reivindicações. com a indigenização da mão-de-obra a pautar as condições de trabalho. 12 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . por entre desencontradas intuições sobre o futuro político do arquipélago. num tratamento diferente do dispensado a moçambicanos e a angolanos. Em todo o caso. no que nem sempre os cabo-verdianos eram os mais apreciados. a ter acompanhado as mudanças dos derradeiros anos do colonialismo. 13 Em parte. uma tal designação deveria ter um curso contido ou carecer do beneplácito do europeu. ao que nem sempre os cabo-verdianos se mostravam prontos. Amiúde barrada pelas assimetrias sociais nas roças. que as mutações políticas e sociais do colonialismo tardio não dissolviam por completo 13 . mormente na negociação informal de uma diferenciação social.

Segundos europeus ou o juízo do pós-independência Na ausência de tal equação política. Podemo-nos interrogar acerca das razões pelas quais dizem segundos europeus e não segundos brancos. foram os próprios europeus a usar essa expressão 14 . Em todo o caso. Tomé e Príncipe ou com uma visão muito esbatida da evolução deste arquipélago após a sua saída. veja-se NAVE 1990:29). temos de equacionar a hipótese de estarmos perante um expediente – de alguma forma. Mas a expressão europeus pode ter sido induzida no tempo colonial. Assistiu-se a alguma personalização das relações laborais. “no tempo do colono”) ou “o branco fez…” –. apesar de branco ser um termo corrente nas narrativas do passado – sendo comum ouvir dizer “no tempo do branco” (em alternativa. tenham asseverado que a designação segundos europeus 16 não tinha curso na era colonial. no final do colonialismo. é possível que a designação possa ter sido (re)criada no tempo colonial. iniciando-se em manifestações de paternalismo 15 . nos derradeiros anos do colonialismo associado a uma maior contiguidade nas roças. pode pensar-se que a noção de segundos europeus conterá implicitamente uma reivindicação social inspirada na valorização das garantias de vida e no papel do paternalismo. convida a imaginar recriações dessa expressão já depois da independência para efeitos de interpretação da evolução política do arquipélago equatorial. prescindindo-se. a rarefacção de braços obrigava à racionalização das tarefas. nos testemunhos dos cabo-verdianos. tal induz a supor que. da ocupação do tempo como princípio de organização de trabalho. Por outro. ter sido transportada desde Cabo Verde. Portanto. Por um lado. da designação “branco”. 16 Sem prejuízo da necessidade de pesquisas ulteriores. tal poderia advir da cautela induzida pela carga racial. Ou. Vicente ainda no tempo colonial. Tal processo prosseguiria no pós-independência.7 Dissemo-lo. conhecendo sucessivas adaptações conformes às mudanças de políticas e no dia-a-dia das roças. A par disso. os roceiros tinham uma atitude oposta à das décadas precedentes. 15 Nalguns administradores notavam-se sinais de uma emergente consciência social que como que visava reparar as fissuras causadas pela agressividade e a rudeza de trato inspiradas pelo ideário colonialista imperante até meados de Novecentos. tributário de reminiscências da ideologia colonial – para avalizar a interpelação implicitamente contida na apresentação de si mesmos como segundos europeus a quem chega de fora. combinando-se a reiteração das diferenças sociais com a proximidade assente no reconhecimento da valia dos indivíduos (em termos comparativos. 14 Neste particular. talvez. mas a “europeu”. Por existir uma primazia do aspecto civilizacional – mais conforme à sua ideia de cabo-verdianos – sobre o referente racial? Não o saberíamos dizer. Embora pessoas. o critério da civilização parece sobrepujar o da coloração epidérmica. a crer nalguns ex-serviçais. não a “branco”. Justamente. alguma proximidade dos administradores das roças com o pessoal terá servido para obter uma prestação produtiva a contento num tempo em que se tornara impossível extorqui-la pela coacção. por exemplo. que não ex-serviçais. actualmente menos aceitável. os cabo-verdianos recorrem. ela foi utilizada por ex-serviçais regressados a S. parte deles sem contactos com S. observa-se que. Eventualmente. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .

para eles. indubitavelmente. entre os quais. apelam ao mais poderoso dos argumentos. daí. desenhou-se uma clivagem assente na raça – que congregava são-tomenses. na diferença de natureza encontra-se. traduzida pelo fenótipo. Há anos a passar por privações incontáveis e a caminho do fim de suas vidas. a designação segundos europeus pode interpretada como uma reacção dos ex-serviçais à africanização da terra e das gentes. Vejamos como. a lida do mundo e uma dada ética de trabalho 18 . foi com base na clivagem racial que se legitimaram os que acederam ao poder em 1975. Simultaneamente – por um processo de identificação (alienada que seja) com o colono e de oposição aos mandantes em S. é também adoptada por são-tomenses que encontram na natureza do africano ou do negro – isto é. nalgumas circunstâncias. a esperteza.8 Actualmente. 18 Tal não invalida que. 17 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Tomé e Príncipe 17 . Sem embargo das roupagens progressistas do ideário independentista. Tal como no colonialismo. preterindo os slogans políticos pela racialização das condutas – entre elas. O seu discurso reporta-se a marcas corporais. após o 25 de Abril as considerações de teor racial continuaram como um instrumento de análise do rumo da história e um móbil de acção. a inteligência demonstrada na compreensão da condição humana. a visão do mundo dos cabo-verdianos tende a enquistar. caboverdianos e outros contra os colonos –. a A racialização. atribuíram o empobrecimento do país à natureza de quem passara a governar S. entrementes tornada uma deriva identitária com que os são-tomenses ensaiam racionalizar o processo de perda económica e social por que passa o seu país. estes. É disso que os ex-serviçais cabo-verdianos se distanciam. Ao tempo. Como? A noção de segundos europeus aponta para uma característica irredutível. embora o lema fosse o da luta contra a exploração do homem pelo homem. provas irrefutáveis da sua natureza. do fracasso do país. o da dissemelhança entre a epiderme e o fenótipo deles e os dos demais africanos habitantes e senhores da terra. segundos europeus remete para supostos atributos de cabo-verdianos. como explicação dos comportamentos e. Para os exserviçais cabo-verdianos. em virtude do percurso pós-independência. a intrepidez ou a esperteza – tenham conflituado com a boçalidade dos europeus. quando a miséria se abateu sobre os trabalhadores das roças. Anos depois. a capacidade de afrontamento das adversidades. Tomé e Príncipe –. as lesivas do património das roças –. supostos traços da sua personalidade – por exemplo. Por outras palavras. a designação segundos europeus readquiriu sentido para os que dela se reivindicam. deles – o mais contundente dos argumentos para contestar o status quo e as assimetrias sociais.

a noção de segundos europeus tem um valor interpretativo evidente: o de que o desajustamento entre a actual posição hegemónica dos são-tomenses e a respectiva natureza não pode senão desembocar em comportamentos anti-sociais conducentes à ruína dos empreendimentos dos homens. e. Por um lado. ex-trabalhadores das roças. era este padrão de evolução que os cabo-verdianos (e. quando não aceitável 19 . estes derrogaram a ideologia igualitarista com que aliciaram os cabo-verdianos. decerto. Tal noção de um mundo fatalmente injusto não os torna nem passivos nem acríticos relativamente às desigualdades sociais. enquanto o alinhamento de contornos raciais – brancos. Atenhamo-nos. como. A noção de segundos europeus traduz um ressentimento e hoje – irremediavelmente traçado que está o seu destino – ela pode ser lida como a denegação da solidariedade racial que cimentou o bloco político-social contra os colonos na transição para a independência. não se legitimam por uma prática justa. também os sãotomenses) esperavam ver prosseguido após a independência. a esta distância. Tomé e Príncipe. a hierarquização social subjacente a essa denominação comporta um juízo sobre a sua civilização comparada com a dos outros. então. incluindo a terra natal. a noção anacrónica de segundos europeus condensa uma leitura da evolução do (seu) mundo. o actual ordenamento social favorável aos são-tomenses afigura-se-lhes contra-natura. Agora. cabo-verdianos.9 explicação da trajectória de perda de S. por outro. no final. os são-tomenses. vinham intentando fazer os patrões brancos. No mínimo. são as maiores vítimas. de que eles. Serve igualmente para se situarem perante as danosas mudanças políticas e económicas desfavoráveis sobrevindas no pósindependência. Os cabo-verdianos detêm uma visão acerca das desigualdades humanas como princípio perene da ordenação do mundo. do racismo. Apesar de enviesada pela resiliência do ideário colonial ou. Portanto. Afinal. rejeita-se a afinidade racial apregoada para efeito da mobilização anti-colonial nessa época. à crítica da presente situação em S. nativos e outros – do tempo colonial parece. Tomé e Príncipe. Mas umas são mais toleráveis do que outras. mesmo. menos gravoso. 19 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . A perda económica e social A reavaliação e o matizar das críticas ao tempo do colono resulta da apreciação dos políticos sãotomenses. Conquanto tributária do ideário colonial.

os caboverdianos desqualificam os são-tomenses. Tomé e Príncipe. uma vez dobrada a fase das maiores agruras de trabalho e de vida dos anos 50. Mas também é natural que. Em S. deixando implicitamente entendido que a desmerecem. as diferenças eram constitutivas do mundo. se subsiste. alguns chegam a classificar-se como escravos dos são-tomenses em cujo quintal são obrigados a trabalhar. justamente a evolução que os levou a ficar por S.10 No tempo colonial. mas. Não se pode descartar o uso do termo gabão. Retratando-se como segundos europeus. os europeus reconheciam a índole diferente dos cabo-verdianos. pese embora o eventual orgulho na identificação com o veio de filhos da terra ou de forros. Tomé. não apenas esquecendo as promessas políticas do advento da independência. o termo segundos europeus escorou as queixas e protestos contra a indigenização a que estavam obrigados pelos ditames dos roceiros. a reivindicação de civilização subjacente à ideia de segundos europeus compôs variadas contestações ao labor e à vida nas roças. porquanto diminui o argumento de que os são-tomenses estão na sua terra. Os nativos passaram a mandar na terra e subalternizaram-nos. Esta alegação poderá não corresponder fielmente à realidade. para eles. A designação de segundos europeus tem um valor político. Na era colonial. as clivagens étnicas não são encorajadas. Noutros termos. nunca vi responsáveis políticos incentivar o uso de linguagem pejorativa para com os exserviçais. Enfatizando a sua desventura. o ressentimento advirá da derrogação da superioridade simbólica de outrora. a quem tinham de obedecer por terem escolhido o contrato). a afirmação da qualidade de segundos europeus comporta uma acusação quanto às provações por que passam e denuncia a contradição entre a sua situação social e a sua imaginada natureza. Esse reconhecimento não anulava as assimetrias sociais. A distinção social dos poderosos e dos governantes socorre-se de outros meios e. como voltando a invectivá-los com o termo gabão 20 . queda por comprovar com que intensidade subsiste. não obstante a pobreza da sua terra os ter impelido para o contrato. Hoje. 20 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . dissemo-lo. O reconhecimento da sua idiossincrasia pelos roceiros foi um passo na melhoria do ambiente social. invertendo simbolicamente a actual subalternidade relativamente a estes. esta prática de rebaixamento dos serviçais com que outrora os nativos se procuravam demarcar das roças. eles deviam sentir-se acima dos nativos (e até de europeus boçais. Outrora. os cabo-verdianos lembrem agravos antigos para explicar compreensivamente a sua situação actual. nome de escravizados e de desqualificados coagidos aos ditames das roças. em perda. Presentemente. pelo menos ao nível retórico. Com efeito.

hoje nula. em trapos. não necessariamente devido a uma ideologia segregacionista quanto ao peso dos laços familiares e clientelares na modelação da sociedade são. alguns dos quais se percebem como genuínos enquanto descendentes de progenitores de diferentes raças. Neste contexto. Reina a desolação que não advém apenas da pobreza mas igualmente da perda da valia individual e da condição de cabo-verdianos. Ou mesmo de uma noção de mestiçagem 22 . em escravos. Devido à evolução pós-1975. os termos em que os cabo-verdianos interpretam a sua situação implicam a O crivo étnico deve ter várias vezes barrado a trajectória ascensional de descendentes de caboverdianos. eles descrevem a sua situação falando em abandono. os ex-serviçais estão acantonados nas roças. como e para que fins denunciá-la? Quando momentaneamente se rompe a solidão e têm oportunidade de falar. 22 A ideia de mestiçagem corre entre os cabo-verdianos. Justamente. 21 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Segundos europeus. tem a ver com o enraizamento popular de ecos de ideias do tempo colonial. essa crítica faz-se a partir da racialização de comportamentos. realçando. de outro modo. um artifício retórico de alguma ressonância política. uma face da identidade cabo-verdiana Situamo-nos. nos antípodas das (nossas) noções de crioulização e das perspectivas do mundo a ela associadas. Esta valorização da mestiçagem entre os cabo-verdianos não se prende com a sua valia política. há anos. com a mestiçagem visava-se o embranquecimento das sociedades ou. terem sido impedidos pelo fechamento da sociedade são-tomense à competição e à mobilidade social de usar as suas aptidões e a sua identidade para ascenderem económica e socialmente. Possivelmente. supostamente constitutiva do povo cabo-verdiano.tomense. pois. Empobrecidos. tal fito comportava uma esconsa negação do negro. resumem-se à crítica da apropriação indevida de bens das roças pelos responsáveis nomeados após 1975. Aventaríamos que hoje a designação de segundos europeus sublinha esta negação. Têm consciência da marginalização – a que aludem subliminarmente com a palavra abandono – embora não a classifiquem de premeditada 21 . a qualidade de segundos europeus sentencia o seu distanciamento de tais práticas. os mandantes de uma terra tornada estranha não lhes reconhecem nada. De fundo ético. desse modo. o contra-senso entre a sua condição de segundos europeus e a de escravos. depois de.11 Hoje. No passado. Logo. sem outro horizonte além da morte.

para os cabo-verdianos. Entre os cabo-verdianos. Por exemplo. outrora imediatamente inerente a esse binómio. apartam-se da africanização dos nativos. Enfatizando a dimensão civilizacional da sua condição de segundos europeus. A dimensão da alienação será notada pelo observador exterior. Esta é a posição dos cabo-verdianos que. reelaboram a sua identidade pela reafirmação da ética aprendida no torrão natal a que se afirmam incondicionalmente fiéis. Em época de prosperidade devida ao cacau. seguindo as pisadas de seus pais.. Já os caboverdianos apontam a injustiça da sua perda social. por exemplo.. hoje. a quem responsabilizam pela sua desgraça. parece comprovado pela degradação social em S. Mais. raça e cultura não se afiguram suficientemente distintas. ou de uma herança europeia. não podiam aspirar. os são-tomenses não a poderão reivindicar. o determinismo. E. E relatam. na ausência de qualquer perspectiva para safar a o dia-a-dia após décadas de trabalho massacrante. contratados para cargos intermédios nas roças. nem sempre serão totalmente arbitrários.) os estrangeiros veio ensinar a vocês [são-tomenses] trabalhar e a falar… A denominação segundos europeus comporta uma faceta instrumental. que a usam para rebater o epíteto de gabão e estabelecer uma demarcação social inversa. No final de suas vidas. o que reforça o impulso a sublinhar a condição de segundos europeus. a miséria e a marginalização que não têm hipótese de combater? Independentemente dos processos de identificação acorrerem às oportunidades políticas. Tomé e Príncipe –. 23 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . não tem sido reclamada por são-tomenses em tempos recentes 23 . chamam a nós estrangeiros (. na Apesar de nos primórdios do século XX. Apregoando a sua civilização. Tomé e Príncipe. é com noções aparentadas com a de segundos europeus que interpretam o mundo e a sua vida. ao menos simbolicamente. a ideia de segundos europeus. Ao invés. estes terem reivindicado comungar de mais elevados patamares de civilização europeia. que resta senão procurar uma demarcação que contrabalance. os seus ascendentes ostentavam um refinamento de gostos a que europeus rústicos. dizem nós podemos acompanhar branco. marginalizados e sem razões para aspirar à integração numa sociedade drasticamente empobrecida. valiosa porque vivamente sentida e consciencializada por alguns dos cabo-verdianos.12 rejeição liminar de um negro em particular – daquele que tomou o poder em S.

Tomé e Príncipe independente que reside a explicação do uso da noção de segundos europeus. é pela afirmação da sua diferença que se reconciliam com as partidas que o destino e a evolução política em S. No entanto. talvez por isso. verbal e gestualmente. quer com valores que actualmente plasmam a pesquisa social. Evidentemente. Seja como for. é na vivência no S. a consciência de serem cabo-verdianos. Para eles. ainda seria mais abraçado. aqui e além propensos a expressar. pouco conhecimento do mundo. Concomitantemente. pois. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . as piruetas da vida ensinaram aos cabo-verdianos o escusado do apego a sentimentos de outrora que – sabem-no bem – não têm mais sentido. Na realidade. sentimentos passíveis de confusão com a aceitação da inferioridade face aos europeus. recorrem para reagir simbolicamente à subalternidade em que se acham. como é próprio da experiência humana. reafirmando uma justeza (cabo-verdiana) de princípios que. A expressão de tais ideias revelaria. ainda entendido à luz do imobilismo social do S. Se o rótulo de segundos europeus proporcionasse ganhos reais. como outrora.13 procura de vida. nem sempre encontra realização neste mundo. Notas conclusivas Segundos europeus afigura-se uma etiqueta de indivíduos de vidas corridas em horizontes fechados e. Mas não tendo os olhos fechados – assim o pretextam –. a que se presta tal designação. Tomé lhes pregaram. pouco ou nada porá em causa a sua leitura do mundo. a que. A ênfase dos testemunhos valida a sua verdade e autentica o seu sentimento de revolta sofrida e contida. Tomé e Príncipe colonial. através da qual tentam uma compreensão do que lhe sucedeu. mesmo se enviesada. porque insistiriam os ex-serviçais cabo-verdianos numa tal formulação? A explicação pode ser encontrada na compensação simbólica e na denúncia política. o isolamento e a privação extrema vincam ainda mais. se porventura isso é imaginável. tal afigura-se pouco consentâneo quer com os sentimentos do comum dos cabo-verdianos. na falta da canga do destino ou da graça de Deus.

Rio de Janeiro. Deirdre. Um mar da cor da terra. CEA-UP MEINTEL. and portuguese colonialism in Cabo Verde. Ph. 1994. Paul. 2004. Yale University FENTRESS.14 Seria risível taxar os ex-serviçais cabo-verdianos. com quem me sinto emocionalmente implicado. Editora Guanabara MAINO. 1993] Como as sociedades recordam. Clifford. Raça. Celta ALMEIDA. cultura e política de identidade. dissertation. Pablo. 1989. 1983 [1977]. James e WICHAM. Margarida. Uma abordagem antropológica através da literatura de ficção. Termino de outro modo: ao cabo de décadas de vida assaz sofrida. West Africa. 1986. Oeiras. Lisboa. começa a ser reconhecido. António. Oeiras. Celta EYZAGUIRRE. culture. Lisboa. Nova Vega GEERTZ. 1999. Elisabetta. mesmo se nos seus testemunhos aflora uma noção de um veio singular que dimanaria das suas ilhas 24 . previsivelmente. Miguel Vale de. Hora di bai. Ensaios de antropologia e de cidadania. Migrações nas ilhas de Cabo Verde. 24 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Instituto Caboverdeano do Livro CONNERTON. A interpretação das culturas. não corroboro. quem lhes dirá que não viveram de acordo com o que os seus pais lhes legaram como sendo valores cabo-verdianos? Referências Bibliográficas ALMEIDA. noutras circunstâncias sociais sugere o enquistamento do discurso identitário ou o reveste de tons marcadamente auto-encomiásticos atinentes à exaltação do cabo-verdiano. Memória social. 1984. “A identidade santomense em gestão: desde a heterogeneidade do estatuto de trabalhador até à homogeneidade do estatuto de cidadão” in Africana Studia nº2. Campo das Letras CARREIRA. Race. Chris. 2004. Small Farmers and Estates in Sao Tome. ideia que. Syracuse University E que. de essencialistas ou de coisa que o valha. Porto. 2000. Porto. Os cabo-verdianos e a morte. 1999 [1ª ed. Miguel Vale de. Outros destinos. D. Teorema FERNANDES.

1987. Nova Yorque. Tomé. Tomé NASCIMENTO. Instituto Camões / Centro Cultural Português NASCIMENTO. Lisboa. S. O sul da diáspora. Poderes e quotidiano nas roças de S. Vidas de S.15 MOORE. 2003. Universidade de Leiden SILVA. Power and Social Segmentation in Colonial Society. Tomé e Príncipe de finais de Oitocentos a meados de Novecentos. Race. Guyana After Slavery 1838-1891. 2002. Lisboa. Gerhard. Tomé. Socialism and Democratization in São Tomé and Príncipe. Augusto. 2006. Tomé e Príncipe e de Moçambique. Augusto. O fim do ‘caminhu longi’ [para publicação] NAVE. Joaquim Gil. Edição da Presidência da República de Cabo Verde NASCIMENTO. Cabo-verdianos nas plantações de S. Augusto. 2002. 1990.. Clients and Cousins. Leiden. Tomé segundo vozes de Soncente [para publicação] NASCIMENTO. Órfãos da Raça: Europeus entre a fortuna e a desventura no S. Francisco. Junta de Investigações do Ultramar ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Augusto. Colonialism. Um estudo de caso. Identidade social e ética do trabalho nos assalariados agrícolas do Alentejo – a empresa colectiva e a comunidade local no espaço rural pós-latifundista. Brian L. ISCTE SEIBERT. António Leão Correia e. Gordon and Breach NASCIMENTO. 2005. Spleen Edições TENREIRO. A ilha de S. 2003. Praia. Combates pela história. Tomé e Príncipe colonial. Comrades. 1961. 1999. Augusto. Praia. S.

identidade social. reconstrói a dinâmica das discussões sobre a origem da morna (gênero musical tomado como um dos símbolos da nação cabo-verdiana). Mais precisamente. indicando como essa polêmica reflete a pluralidade de concepções acerca do sentido de ser “crioulo”. Discorrer sobre uma coletividade. empenhada no projeto ideológico de construção da identidade nacional. A morna é mesmo uma criação dos cabo-verdianos? Que matrizes culturais exerceram influência na sua origem? Quais acontecimentos e sentimentos inspiraram a criação desse gênero musical? Não procuro trazer respostas definitivas a essas questões. assinalando seus limites internos e externos. e as discussões em torno daquilo que singulariza este povo. a sociedade cabo-verdiana. mostro como membros de variados setores da população cabo-verdiana. nunca foi um trabalho simples. portadoras de uma riqueza simbólica capaz de revelar diferentes construções. Tão somente. Os próprios membros constituintes de qualquer totalidade apresentam idéias divergentes a respeito daquilo que os define. mas sobre a própria cultura cabo-verdiana.A ORIGEM DA MORNA E A ORIGINALIDADE CABO-VERDIANA Juliana Braz Dias Departamento de Antropologia. presentes em diferentes projetos identitários. procuraram responder tais perguntas. Palavras-chave: cabo-verdianidade. Neste trabalho procuro abordar uma coletividade específica. Como em qualquer processo social de identificação. imutáveis. as construções dos caboverdianos acerca da nação a qual pertencem não são fixas. e que alcançam cada setor dessa sociedade. São diversas hipóteses sobre a origem da morna. em diferentes momentos da história daquele país. A pluralidade de opiniões dos cabo-verdianos sobre eles próprios e sobre o sentido de ser “crioulo” conforma um rico campo de debate. não apenas sobre esse fenômeno musical. São discussões que ultrapassam os limites de uma elite intelectual. nas suas mais diversas formas de expressão. fruto de consenso. bem como suas características mais notáveis. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . morna. Universidade Federal de Mato Grosso Este trabalho aborda parte do debate realizado no arquipélago de Cabo Verde em torno do significado cultural da cabo-verdianidade.

procura-se reconstruir a dinâmica das discussões sobre a origem do gênero musical cabo-verdiano denominado morna. aparentemente. pesquisadora. soube que não cabia a mim. 1 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . mas sobre a própria cultura cabo-verdiana. dar esta resposta. a necessidade de uma resposta definitiva. tomado hoje como um dos símbolos da nação cabo-verdiana. procuro indicar como as diferentes versões sobre a origem da morna são todas elas portadoras de uma verdade. Em grande parte dos casos. impondo. também a morna surge como resultado desse cruzamento de culturas diversas.2 As reflexões a seguir abarcam parte do debate realizado em Cabo Verde em torno do significado cultural da cabo-verdianidade. Muito antes. Este trabalho é uma versão resumida de parte do argumento apresentado na tese de doutoramento Mornas e Coladeiras de Cabo Verde: versões musicais de uma nação. 1 A pergunta “qual a origem da morna?” tem sido insistentemente levantada pelos cabo-verdianos. Mais precisamente. com a discussão sobre a formação da sociedade cabo-verdiana. produto do encontro entre Portugal e África. Assim como o homem cabo-verdiano é apresentado como um mestiço. muito menos discutir qual das diversas hipóteses sobre a origem da morna aproxima-se mais da verdadeira trajetória percorrida por essa manifestação da cultura popular cabo-verdiana. Exemplo disso é o discurso seguinte. Desde o início das atividades de investigação que fundamentam a presente discussão. levanta inevitavelmente uma série de questões: a morna é mesmo uma criação dos cabo-verdianos? que matrizes culturais exerceram influência na sua origem? quais acontecimentos e sentimentos inspiraram a criação desse gênero musical? Repito que não pretendo aqui responder a essas questões. a discussão sobre a história da morna tem-se confundido. Cada um desses atores. era analisar o significado das diversas hipóteses construídas sobre o nascimento desse gênero musical. indicando como a polêmica criada acerca do surgimento desse fenômeno musical reflete a pluralidade de concepções acerca do sentido de ser “crioulo”. visto que apresentam uma riqueza simbólica capaz de revelar diversas construções. sob uma perspectiva antropológica. Baseia-se. explícita ou implicitamente. da mesma autora. ao refletir e opinar sobre o assunto. não apenas sobre esse fenômeno musical. Muito mais interessante. Essas diversas versões para a origem da morna têm percorrido diferentes momentos da história de Cabo Verde e envolvem membros de diferentes setores da população cabo-verdiana.

em Lisboa (Portugal) e Mindelo (Cabo Verde). há as dolências africanas. no seu sangue e nos seus hábitos. o povo caboverdeano. a preceito. Mas o africano. 1939: 301) O homem cabo-verdiano é apresentado como o produto original de um encontro intersocietário. Mas se a morna é descrita como a melhor testemunha da mestiçagem étnica. as duas matrizes culturais que participam desse encontro quase nunca se apresentam em posição de igualdade. Ele não é português nem africano. com base na idéia de mestiçagem. de um jogo de forças entre as heranças culturais portuguesa e africana. em A Aventura Crioula.3 onde o português Afonso Correia descreve. sem qualquer nota de influências lusas. Nas narrativas sobre o processo histórico que deu origem ao cabo-verdiano. possue música pobre. Está. O artigo de Sarrautte passou a ser amplamente citado. Em 1961. muitas vezes. em atividades de investigação realizadas entre os anos de 2001 e 2002. e suas contribuições para a formação da sociedade cabo-verdiana são continuamente discutidas. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . é simplesmente “crioulo”. conforme os interesses em questão. Os portugueses teriam sido peça fundamental na formação desse novo estilo musical. na sua morna. E a morna apresenta-se como um símbolo dessa síntese sui generis. Caiu como uma luva no discurso daqueles que participavam do processo de construção da nação cabo-verdiana como uma organização sócio-cultural distanciada de suas raízes africanas. capaz de gerar. o musicólogo Jean-Paul Sarrautte publicou em Cabo Verde um artigo onde procurava demonstrar a maior intensidade da influência metropolitana na origem da morna. “uma personalidade própria”. É assim que o debate sobre a origem da morna acaba tomando a forma. neste caso. onde há gemidos dolentes. Elas são valoradas. devidamente influenciado pelo português. utiliza-se da autoridade do referido musicólogo para argumentar sobre “a importância da presença europeia na origem e desenvolvimento fundamentalmente. é preciso maior cuidado na análise da maneira como esse processo de miscigenação é apresentado. criou uma personalidade própria que os mais pequenos nadas tornam evidente. espiritual e cultural do cabo-verdiano. as dolências e as alegrias portuguesas. vibrados no sofrimento duma fatalidade étnica que os tempos não destroem. nesse povo. (Correia. o processo de criação da morna cabo-verdiana: O indígena africano. Manuel Ferreira. Preponderando nêle os elementos mestiços. na sua música.

tem sido amplamente contestada. Ainda em 1954. maestro e professor do liceu Gil Eanes de São Vicente. Sugere que sua procedência pode ser encontrada no ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Mais do que meras semelhanças. com proximidades muito pouco significativas do mundo africano. com o surgimento de críticas que denunciaram sua ligação ao regime de Salazar (ver Carvalho. E no calor dessa polêmica. que tem sido alvo de longo e acirrado debate em Portugal. Nessa asserção percebe-se claramente o intuito de reforçar o caráter singular. exclusivamente cabo-verdiano. António Germano Lima propõe uma nova versão para a polêmica origem da morna. Pouco a pouco o debate sobre o nascimento da morna caminhou no sentido de romper (ou pelo menos minimizar) possíveis associações entre esse e outros gêneros musicais e de enfatizar a originalidade daquela que vinha sendo construída como a canção nacional cabo-verdiana. Com isso. Durante a vigência do Estado Novo. porém. Vale de Almeida. o caráter ideológico do fado tornou-se evidente. afastou a morna (e com ela todo o arquipélago cabo-verdiano) de seus vínculos históricos com a África: Europeia pela tonalidade. Alguns. Tal hipótese. de tal forma que a relação entre os dois gêneros musicais adquirisse o caráter de uma filiação direta. afirmou que “não é fácil encontrar no folclore português ou outro estrangeiro qualquer das características das formas musicais das mornas” (Reis. alegam simplesmente que o fado não poderia ter influenciado a morna.) a morna. O que precisa ser lembrado é a polêmica que envolve o próprio fado. as ligações entre o fado e a morna viram-se cada vez mais questionadas pela intelectualidade em Cabo Verde. para a entendermos na sua mais íntima estrutura e figuração tem de ser estudada essencialmente nos seus apports europeus. (ibid: 207-208) O fado. muitas vezes.. da morna.4 orgânico da morna” (Ferreira.. 1984: 11). e sem dúvida nenhuma que pela natureza das suas letras e pela atmosfera lírica e sentimental que a envolve. o cabo-verdiano José Alves dos Reis. (. possivelmente até pela síncope. como Manuel Ferreira (ibid: 185). 1995: 5-8). Já na atualidade. uma vez que se supõe ser a segunda mais antiga que o primeiro. 1999: 83-88. ganhou destaque em narrativas sobre a história da morna. diversos autores enxergaram na canção portuguesa a mais provável explicação para a origem da morna. 1985: 205). tudo concorre para a encararmos indiscutivelmente como uma criação do CaboVerdiano.

5 “substrato sócio-cultural de origem afro-negra” da Ilha da Boavista (Cabo Verde). em oposição a ela.. E é essa hipótese que tem ganhado força em outros estratos nãointelectualizados da população cabo-verdiana.. Cito aqui um trecho da entrevista realizada com uma senhora de 75 anos. no tempo dos escravos. Percebemos na análise dessa versão para a origem da morna uma mudança radical de direcionamento. quando vieram da África. dançante. em vez de cantar aquelas músicas africanas mais “mexidas”. em “linguagens e gestos imperceptíveis para os colonizadores mas sempre na forma de cantos e danças” (Lima. de outro lado. o que permite que elas se aproximem muito do sentido que a morna carrega nos dias de hoje. alegre. assim eram também as mornas da Boavista.. A grande mudança nesse jogo de forças que se dá agora com um enfoque quase que exclusivo na população cabo-verdiana de origem africana reflete um novo momento no debate. 2001: 247). tinham um trabalho muito duro e. irônica e satírica. Daquele som. os escravos africanos e seus descendentes são apresentados como os principais personagens da história da morna. expressos. que escreve no começo do século XXI. daquele gemido. criaram a morna. a ênfase na participação de elementos culturais portugueses nesse processo.. de um lado. natural da Ilha da Boavista: Dizem que a morna foi criada na Boavista no tempo da escravidão. A experiência histórica da escravidão torna-se a peça chave para a compreensão dessa hipótese. Por diversas vezes. as mãos. Nas hipóteses anteriores notamos. segundo o autor. o luto. aquele gemido. É importante perceber que a força dessas narrativas está justamente no destaque que dão ao sofrimento vinculado à escravidão. Com António Germano Lima.. outro importante estilo da música popular cabo-verdiana. vem ocupando o espaço da música “mexida”. a morna identifica-se quase que exclusivamente com valores como o sofrimento. porque. é que eles inventaram a morna. o ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . nos “queixumes” e nas “lamentações” dos escravos. conforme eles algemavam os escravos. Enquanto a coladeira.. a saudade. por isso. aquela dor. aquele gemido escravo. a preocupação em afirmar a origem genuinamente cabo-verdiana desse gênero musical e. Diziam que os escravos cantavam a morna no lugar de chorar. daquela tristeza. a dor. ouvi cabo-verdianos ressaltando que os escravos. António Germano Lima vai buscar o processo de criação da morna na “dor”. no tempo dos escravos.

Cabo Verde é produto direto da expansão européia e do sistema econômico implantado nesse contexto. a dor na sua expressão máxima. 1985: 49). a exclusividade cabo-verdiana nesse processo. por exemplo. Não podemos concluir a discussão sem observar que. ora distanciando-o dos dois continentes. podemos perceber o poder de uma narrativa que a identifica com a dor escrava. assim. bem como uma possível participação árabe no desenvolvimento da canção cabo-verdiana. outras matrizes culturais têm sido destacadas pelos cabo-verdianos nas reflexões sobre sua história social. se o debate sobre a identidade cabo-verdiana tem sido muitas vezes retratado como um dilema que coloca o arquipélago entre a Europa e a África Negra. como em várias outras narrativas. Mesmo que procedente de uma população “de origem afro-negra”. Contudo.. todo ele. através da ênfase. A influência brasileira sobre a morna aparece em algumas narrativas. além da participação de portugueses e africanos no encontro que gerou a sociedade cabo-verdiana e. ela não deixa de carregar as marcas da cabo-verdianidade. dentro da narrativa. ora aproximando-o. Gostaria de comentar especialmente que essas hipóteses não deixam de enfatizar. e são tais particularidades da história social cabo-verdiana que são assimiladas por esta última versão sobre a origem da morna. como afirmam. E é a partir disso que podemos compreender o caráter particular que assume aqui a afirmação da africanidade. no arquipélago de Cabo Verde. a morna. O músico e compositor Jorge Monteiro. como linguagem para falar das tristezas e amarguras vividas pelo povo cabo-verdiano. Esse é um ponto muito importante para as freqüentes afirmações sobre a morna como símbolo da identidade nacional cabo-verdiana. na experiência da escravidão e no sofrimento a ela vinculado. Martins. por exemplo. atribui à morna origem argelina (ver sua entrevista em Duarte. 1989: 20-21). a discussão sobre a ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . o processo de criação da morna ocorre. A população negra não aparece como contribuinte para a criação da morna enquanto “africana”. É a junção da cultura africana com as particularidades da história e da geografia cabo-verdiana que possibilita o nascimento da morna. A morna surge. e sim enquanto “escrava”. a lamentação e a melancolia. Se no atual momento a africanidade é enfatizada.6 choro. Partindo desse significado da morna. em particular. Seu argumento não tem recebido muito apoio (cf. o que interessa é observar que.

nunca é definitiva.. as notas plangentes que se perdem na imensidade do espaço e são a própria alma do oceano. o caboverdeano volveu os olhos para o mar. assim. não eliminam umas às outras. Cada uma das versões da gênese da morna faz parte de um projeto específico de construção da unidade nacional cabo-verdiana e. O mar surge aqui como um valor. e o mar enamorou-se dele. do murmúrio da brisa. dedilhando o violão. E. esculpindo na sua sensibilidade o ritmo das ondas. tão grato aos ouvidos dos mareantes. Assim como versões de um mito que. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Nem arvoredos bastos crescidos ao acaso pela mão da natureza. o que..7 origem da morna vem tornar mais complexo esse quadro através de narrativas que acrescentam novos elementos na composição dessa sociedade crioula. Noto também a existência de hipóteses para o surgimento da morna que colocam em evidência um conteúdo bem diferenciado. E porque a terra se recusou à fecundação. funcionário da administração colonial e escritor cabo-verdiano que representou o arquipélago na 1ª Exposição Colonial Portuguesa. o símbolo máximo da fusão do caboverdiano com o Atlântico que o circunda. atraiu-o. afirmando: Cabo Verde é a transição. nem culturas geométricas. É do mar e suas ondas que vem o ritmo da morna. acalentou-o. (Duarte. sua melodia. E o espaço permanece aberto às possibilidades mais diversas. Como no lirismo rebuscado de Fausto Duarte. compôs a primeira “morna”: dolência. talvez. Sob as velas enfunadas que se deleitam na luz flava e recolhem o murmúrio da brisa. uma determinada construção sobre essa formação sócio-cultural. 1934: 10-11). seja mesmo a característica dessa sociedade crioula. segundo interesses cambiantes.. Numa relação metonímica.. essas inúmeras hipóteses se somam ao contar a história de um fenômeno musical e do povo que o criou. cada hipótese sobre a origem da morna sugere um “mito de origem” de Cabo Verde. sofrimento e harmonia – virtudes da alma do povo ilhéu que se inspirou directamente na mágoa dolorosa do Atlântico. em 1934. embora contraditórias. E é com essa narrativa que Fausto Duarte apresenta a morna como a síntese. o caboverdeano escutou os queixumes. mas também a própria “alma do oceano”. A melodia nascente não é apenas a “alma do povo ilhéu”. que não se fecha em si mesma e participa de um contínuo movimento de reformulação.

E mesmo a morna toma agora nova feição. o debate sofre uma mudança radical. Com o processo de independência vivido pelos cabo-verdianos. por um lado. com caráter nacionalista e centralizador. sem no entanto deixar de enfatizar a força da influência portuguesa sobre esse gênero musical. Ele é ainda um importante símbolo da ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . as versões para a gênese da morna então articuladas apresentam-se imersas nesse processo político. agora estas últimas posicionam-se no centro da agenda política de Cabo Verde. por outro. delineiam um padrão. e o controle sobre as colônias é reforçado. que tem no tempo o seu critério orientador. O batuku. porém. que marcou o período salazarista. Cada uma dessas narrativas tem sentido em si. entre outros. É nessa fase que se instaura em Portugal o Estado Novo. revela um momento histórico em que a lusitanidade é apresentada como um valor. Já num outro período. E a imensidão de estudos sobre a morna. tanto por intelectuais cabo-verdianos quanto portugueses. o funaná e a tabanka. este último gênero musical deixa de ser expressão da lusitanidade para se tornar índice de africanidade. A morna deixa de ser praticamente a única manifestação da cultura popular trabalhada em projetos de construção da nacionalidade cabo-verdiana. passam a figurar nos círculos da intelectualidade local. começa a dar lugar a novos debates envolvendo outras manifestações da cultura popular cabo-verdiana. Entre as décadas de 1930 e 1960. e a Metrópole se mantém como o referencial de civilidade. quando têm início os movimentos de libertação nacional nas colônias. Como não poderia deixar de ser. ainda que claramente marcadas pela disparidade entre elas. O Império é recriado. a importância que adquiria a construção da singularidade cabo-verdiana frente ao Império Colonial naquela época. Afirmam sua originalidade. seguem a mesma tendência de construção da morna – e. concentra-se a grande maioria das narrativas sobre a origem da morna. Essa dupla tendência indica. em detrimento das relações com a África continental. É possível observar que as narrativas elaboradas nesse período. é preciso observar que as narrativas aqui analisadas. acarretando importantes alterações na política colonial.8 À guisa de conclusão. de Cabo Verde. mas também deve ser compreendida como parte de uma estrutura que lhe abrange. conseqüentemente. Se até então a proximidade em relação à Metrópole era valorada positivamente. especialmente aquelas onde a herança africana pode ser mais facilmente percebida.

havia problema... ‘você’. sem palavras. portadora de admirável riqueza simbólica.. antes mesmo de perguntado sobre o assunto. O barco encalhou e as pessoas salvaram-se ou foram salvas. logo se disponibilizou para contar sua versão sobre a gênese da morna.. nessa versão a explicação para a gênese da morna tem início com a referência ao encalhe de uma embarcação ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . uma forma de religação ao antigo Império Colonial. Em primeiro lugar. hoje comunidade lusófona. mas só com melodia. tem muito a ver com alguma influência da língua brasileira. quando procurado por mim para conversar sobre suas experiências com a música local. mas é ao mesmo tempo um instrumento para a recriação do vínculo com o continente africano. e estavam acorrentados..... Mas a referência ao Brasil representa. (. não havia comunicação naquele tempo...9 originalidade cabo-verdiana. ‘bocê’.. de saudade ou de sofrimento. a tristeza. sem a letra.. de solidão. E então ficaram em João Galego. de sofrimento dos escravos brasileiros aqui na Boavista e alguém pegou. o sofrimento e a própria imagem do escravo acorrentado. Até por causa do sotaque que ainda existe naquele povoado. mas acrescenta à narrativa novos elementos.. nós teríamos. comer ou ir para um outro sítio. como a escravidão. nós temos essa informação oral de que a morna terá nascido daquele ambiente de tristeza. Então começaram a pôr letra nas mornas (.. porque lá fala muito de ‘bocê’. O que segue abaixo é a sua narrativa: Teria encalhado no norte da ilha [Boavista] um barco brasileiro que tinha escravos a bordo. Essas referências têm caráter um tanto ambíguo.. noto que também nesse período são relativamente freqüentes as referências ao Brasil nas narrativas sobre a gênese da morna. Quase sempre o Brasil assume a forma de uma ligação entre Cabo Verde e a África. ao mesmo tempo. sem que para tal seja necessário fazer referência direta à ex-Metrópole. funcionário público e músico cabo-verdiano.. Então...). nós pensamos que teria sido. eles tinham uma melodia que eles iam interpretando. ‘você’ e que.. onde nós temos convicção de que lá é que nasceu a morna... porque aqui esses escravos ficaram lá durante muito tempo. Então quando se deslocavam de um sítio a outro. mas que dava um sentido de tristeza. Encerro a presente discussão com mais uma das inúmeras narrativas sobre a origem da morna. Por fim.. Nuno.) é a primeira povoação do norte. natural da Ilha da Boavista. alguém de há muito pegou nessa melodia que eles iam cantando assim... Nuno retoma alguns pontos já levantados nos discursos aqui analisados.

e sim do Brasil. uma vez que não vinham da África. curiosamente. João Galego é também conhecida entre os boavistenses por ter sido fundada por “escravos-galegos”. VI. Tal caráter ambíguo pode mesmo ser apontado como um dos traços marcantes da “crioulidade”. O reconhecimento da participação dos escravos na criação da morna não representa. Nuno cita a povoação para reforçar seu argumento sobre a influência brasileira na origem da morna. também resultado do encontro dessas duas matrizes culturais. passando antes pela mediação realizada pelo Brasil. ao menos não diretamente. 301-304. Porém. 1939. é compreensível a sugestão de que ela tenha nascido em uma povoação marcada por tamanha ambigüidade. E no lugar da habitual disputa entre as heranças portuguesa e africana. Diante da complexidade do debate em que está inserida a busca pelas raízes da morna. escravos brancos provenientes da Europa (Lima. 2002: 196). CORREIA. Portanto. p. 68. “A música africana como a vê a sensibilidade dum europeu”. Em segundo lugar. Referências bibliográficas CARVALHO. Amadora: Ediclube. há a identificação com um terceiro. não apenas a escravidão. mas se trata de escravos muito especiais. Afonso. Por fim. O Mundo Português. pela via de uma rota na contracorrente do tráfico negro. mas também nuanças da história local são contempladas na narrativa. construída metaforicamente através de uma etno-história musical. 1999. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . A aproximação construída entre Cabo Verde e Brasil é a base sobre a qual se desenrola a narrativa. evento que durante séculos foi relativamente comum na referida ilha. Um Século de Fado. uma identificação com o continente africano. n. a referência à povoação de João Galego como o local onde nasceu a morna enriquece ainda mais o relato. todo o discurso de Nuno aponta os escravos como criadores da melodia que veio a dar origem à morna tal qual conhecemos. portanto. Ruben de. como de costume.10 ocorrido na costa norte da Boavista. baseando-se para tal no sotaque que ainda hoje existe no local. vol.

FERREIRA. António. ______ Boavista. n. “Morna: o doce lamento do Atlântico”. 1. ano XII. Jean-Paul. DUARTE. Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social. p. 184. Portugal Cooperação. 2002. n. 2001. 6. “A morna: síntese da espiritualidade do povo cabo-verdiano”. n. Série Antropologia. Praia: Instituto Superior de Educação. Cabo Verde: Boletim de Propaganda e Informação. DUARTE. Fausto. 2004. n. Juliana Braz. Universidade de Brasília. Manuel. p. Praia: Instituto Caboverdiano do Livro e do Disco. 21. VALE DE ALMEIDA. Lisboa: Plátano.II . Africana. MARTINS. “Marialvismo: A Moral Discourse in the Portuguese Transition to Modernity”. 7-10. a morna e o mandó . A Música Tradicional Cabo-Verdiana .11 DIAS. 1985.I (A Morna). António Germano. p. Miguel. 1961. REIS. Tese (Doutoramento em Antropologia). Porto: Edições da 1ª Exposição Colonial Portuguesa. 1934. Raízes. 239-267. Ilha da Morna e do Landú. p. Vasco. A Aventura Crioula. José Alves dos. “Três formas de influência portuguesa na música popular do ultramar: o samba. Mornas e Coladeiras de Cabo Verde: versões musicais de uma nação. 138.A morna”. LIMA. SARRAUTTE. esp. n. 9-18. 1989. 1984. “Da literatura colonial e da ‘morna’ de Cabo Verde”. 4853. 1985 [1ª edição: 1967]. “Subsídios para o estudo da Morna”. 1995. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .

Em Cabo Verde. regionais e de classe. “Crioulo” e “cabo-verdiano” são sinónimos portanto. nos países de emigração. Não obstante as suas importantes variações locais. Universidade de Lisboa joao. Cabo Verde. “Crioulo” é também o nome corrente da língua cabo-verdiana. o substantivo “crioulo” designa um indivíduo cabo-verdiano. Palavras-chave: crioulidade.vasconcelos@ics. O peso relativo atribuído a cada um deles varia consoante os contextos de interacção social. Argumento que a definição emic da crioulidade cabo-verdiana recorre a marcadores de vária ordem: não apenas genealógicos e fenotípicos. identidade performativa. ou Lamarck em Cabo Verde João Vasconcelos Instituto de Ciências Sociais. O propósito deste texto é mapear o campo semântico e afectivo associado à palavra “crioulo” tal como ela é usada correntemente em Cabo Verde. onde o termo significa essencialmente ideias de mestiçagem e hibridez. Circunscrevo assim a minha abordagem às vivências e aos sentidos que andam atrelados ao termo no ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . transportam ou cultivam uma identidade cabo-verdiana. identidades lamarckianas e mendelianas. Ambos os termos podem ser trocados na maioria dos contextos de fala sem que isso afecte o sentido dos enunciados. A compreensão etnográfica da crioulidade cabo-verdiana levanta-me reservas em relação aos usos generalistas da noção e leva-me a defender em vez disso um uso ad hoc. atento aos sentidos que ela possui nos diferentes espaços e tempos em que é empregada pelos agentes sociais. identidade cultural. Como adjectivo.pt Este texto pretende mapear o campo semântico e afectivo associado à palavra “crioulo” tal como ela é usada correntemente em Cabo Verde. a palavra significa qualquer coisa que diga respeito a Cabo Verde ou aos cabo-verdianos. mas também comportamentais ou performativos.Filhos da terra. o crioulo é a língua materna de todos aqueles que nascem no arquipélago e é uma língua falada por quase todos os cabo-verdianos e seus descendentes que.ul. A etnografia caboverdiana desafia a acepção de “crioulidade” corrente na literatura antropológica.

posteriormente.º Congresso da Associação Portuguesa de Antropologia (Lisboa. 6-8 de Abril de 2006). que tratou de outros assuntos. A primeira é moeda corrente naquilo a que chamarei os estudos pós e os estudos trans (traduzindo livremente duas expressões provocativas lançadas respectivamente por Marshall Sahlins e Jonathan Friedman). me pareceu uma ocasião adequada para reflectir acerca de lógicas culturais de identificação e diferenciação. ou os cabo-verdianos estão errados quando se dizem crioulos.2 arquipélago – ou. os caboverdianos se afirmassem uma raça superior e justificassem dessa maneira qualquer forma de tirania sobre outros povos. mas parecem-me ser as mais difundidas no senso comum dos antropólogos contemporâneos. à noção de crioulo enquanto categoria emic. Esta primeira revisão procura endereçar alguns comentários que me foram dirigidos naquela ocasião e. A primeira hipótese é admissível. a quem manifesto a minha gratidão. Principiarei por identificar duas concepções de crioulidade e crioulização em uso na literatura antropológica recente. Jorge Rivera e Ramon Sarró. por João de Pina Cabral. e é também um working paper. um texto em construção. Pode haver três razões para este desajuste. Recorro para esse efeito a materiais etnográficos que reuni em 2000 e 2001. Ou a minha percepção etnográfica está completamente equivocada. Estas duas concepções não são as únicas. A segunda é absurda: se os cabo-verdianos se dizem crioulos. para usar linguagem de antropólogo. cujo lema era “afinidade e diferença”. ou então a crioulidade caboverdiana possui realmente alguns traços distintos daqueles que são veiculados na crioulidade da vulgata antropológica. por mera hipótese académica. o trabalho do etnógrafo é tentar perceber o que querem eles dizer com isso. coordenado por Wilson Trajano Filho e por mim. mencionando que foi buscar aquela expressão a um 1 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . ainda bastante incipiente. (É claro que as coisas seriam diferentes se. no decurso de trabalho de campo prolongado na ilha de São Vicente. 1 Depois porque nos últimos anos tenho lido vários trabalhos antropológicos que falam de “crioulidade” e “crioulização” em termos que me parecem ser apenas parcialmente transponíveis para Cabo Verde. Porque é que me abalancei a escrevê-lo? Primeiro porque o congresso onde o apresentei. 2 Sahlins (1999a) fala de “afterological studies” para designar os autodenominados estudos pósmodernistas. no painel “Caboverdianidade e Crioulidade”. Este texto é um produto lateral da minha pesquisa de doutoramento. e não decretar se estão certos ou errados. pós-estruturalistas e pós-coloniais. 2 A segunda circula em estudos com alicerces Uma versão ligeiramente diferente deste trabalho foi apresentada no 3.) A terceira hipótese é aquela que irei defender e explicitar aqui.

procurarei demonstrar que a crioulidade cabo-verdiana. Friedman (2002) fala do “trans-X discourse” como uma agenda ideológica que permeia os estudos sobre translocalismo. * Ataquemos para já a crioulidade dos estudos pós e trans. transculturalismo e transnacionalismo. nas livrarias missionárias. 4 Este mundo de importações e misturas. Na Nigéria. região que corporiza o protótipo da crioulidade nos imaginários anglófono e francófono. fiquei fascinado com aqueles modos de vida e de pensar que vão emergindo da interacção entre culturas importadas e indígenas. Todo o artigo é uma celebração deslumbrada do movimento e da mistura. 5 trabalho inédito de Jacqueline Mraz. A noção de cultura. nos bairros de lata. é “um mundo em crioulização”. Sunny Ade ou Victor Uwaifo”. muito embora partilhe várias características da crioulidade caraíba. no final dos anos 1950. São as culturas em exibição nos mercados. nas discotecas.3 etnográficos nas Caraíbas. Um dos primeiros antropólogos a formulá-la foi Ulf Hannerz. No final desta apresentação. escreve Hannerz. “Michael Jackson. início dos anos 1960. 5 Hannerz 1987: 551 – tradução minha. 4 Hannerz 1987: 555 – tradução minha. nas salas de espera das estações de comboio. nos jornais e nas estações de televisão. 3 O país do Terceiro Mundo de que o antropólogo fala é a Nigéria. nas cervejarias. Esse texto começa assim: Desde que me embrenhei pela primeira vez no Terceiro Mundo. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . nos colégios internos. históricos e culturais. e o antropólogo é sueco. no artigo “The world in creolisation”. 3 Hannerz 1987: 546 – tradução minha. afirma Hannerz. comunga também aspectos de uma lógica de formação de identidades que tem sido registada noutros espaços insulares bem mais afastados em termos geográficos. os Abba e Jimmy Cliff não destruíram o mercado da música popular de Fela Anikulapo-Kuti. publicado em 1987 na revista Africa. e o conceito de cultura crioula é a “metáfora mais promissora” para o descrever. Refiro-me especialmente às ilhas do Pacífico. não tem de designar algo homogéneo nem sequer particularmente coerente. Os elementos culturais importados não abafam necessariamente os elementos indígenas.

Hannerz 1997: 26. que “as culturas crioulas não são apenas necessariamente as culturas coloniais e pós-coloniais”. transculturação. Ver também Friedman 1994: 209-210. montagem. colagem. misturadas. então somos todos crioulos – coisa que não me repudia de todo. Friedman 2002: 32-33 – tradução minha. “a chamada hibridez é no fim de contas uma observação genealógica. do que da emergência de uma nova realidade global. Mais de noventa e oito por cento da população mundial permanece toda a sua vida no país onde nasceu e a maioria não tem acesso à Internet. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . bricolage […]. mestiçagem. Arjun Appadurai. imagine-se. miscigenação. Os discursos do mundo em crioulização e do transnacionalismo “constituem uma agenda ideológica e não uma descoberta científica”: “um programa elitista imposto de cima para baixo e baseado na experiência de viajar de avião”. Hannerz conclui (com uma candura que não chego a perceber se é retórica ou genuína). e que. e não uma determinação estrutural – talvez apropriada apenas para os intelectuais cosmopolitas que fabricam estas teorias culturais a partir da sua posição de exterioridade”. retomada por Hannerz em trabalhos posteriores. mistas. mélange. 10 * 6 7 8 9 10 Hannerz 1987: 557 – tradução minha. No final do seu artigo. sinergia. miscelânea. Leia-se a este respeito Sarró 1999. E acrescenta que o fascínio contemporâneo de intelectuais como Hannerz. sincretismo. mas que também não me parece poder constituir ponto de partida útil para um empreendimento analítico capaz de esclarecer o que quer que seja. 9 Friedman argumenta no mesmo sentido. Homi Bhabbha ou James Clifford pelas viagens e pelo hibridismo decorre mais da forma de vida dos académicos e das suas próprias preocupações políticas paroquiais (como por exemplo o multiculturalismo nas grandes metrópoles). Ver também Hannerz 1996. 6 Esta concepção da crioulização como sinónimo de “hibridez.4 As culturas crioulas são culturas híbridas. 8 Mais ainda. 7 Se a crioulização significa isto. até os suecos são crioulos. terceiras culturas e outros termos”. Sahlins 1999b: xi – tradução minha. como escreve Sahlins. parece-me francamente débil como formulação conceptual.

fiando-se no aspecto da pessoa com quem trava contacto. visto encontrar-se em estudos baseados em trabalho de campo prolongado. Esse traço comum é a importância que as categorias étnicas e raciais ali assumem na organização das relações sociais e no pensamento sobre a sociedade. a escravatura. de acordo com a proveniência dos grupos que real ou presumidamente os introduziram. asiáticos e europeus) em diferentes tempos. São também estudos muito diferentes no tocante às suas perspectivas teóricas de partida. outro ainda que ele julgava negro é rotulado de mulato. Os estudos a que aludirei concentram-se nas sociedades das Caraíbas. Estes trabalhos cobrem um período bastante longo: o livro de Leiris baseia-se em missões etnológicas realizadas em 1948 e 1952 e o de Miller em trabalho de campo do final dos anos 1980. um influente artigo de Lee Drummond (1980) sobre a Guiana. que merece outra atenção. a deslocação mais ou menos forçada de populações de origens diversas (africanos. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . que parece demonstrar a existência de um traço bem saliente na crioulidade das Caraíbas. Não vou aqui resumi-los. As classificações étnicas e raciais utilizadas nem sempre coincidem com aquelas que os observadores exteriores aprenderam nos seus países de origem.5 Passemos à segunda concepção de crioulidade e crioulização. 11 11 Leiris 1955: 160-161 – tradução minha. Os três estudos retratam sociedades cujos membros designam “crioulas” e vêem como resultado de uma mistura de ingredientes de origens diversas. Como escreve Leiris. o observador estrangeiro que chega à Martinica ou a Guadalupe é forçado a constatar que o seu discernimento falha frequentemente quando julga saber. e nas quais as pessoas. sociedades formadas através de processos históricos que envolveram o desenvolvimento de economias de plantação. qual a categoria racial em que ela é colocada localmente: um indivíduo que ele vê como um branco é afinal classificado como mulato. um outro que ele toma por mulato é afinal um branco crioulo. Tomarei como amostra três estudos sobre quatro sociedades caraíbas: a monografia de Michel Leiris (1955) sobre a Martinica e Guadalupe. e a manutenção durante séculos de um domínio colonial centrado em metrópoles europeias. e a etnografia mais recente de Daniel Miller (1994) sobre a Trinidad. Vou somente identificar um denominador comum a todos eles. os costumes e os objectos são classificados de forma quase obsessiva em termos étnicos ou raciais.

e classificações como “whiteman” e “blackman” podem assumir conotações positivas. Mais ainda. “potuguee” (português. além disso. Segundo Miller. 12 Escrevendo sobre a Guiana. por fim. que não só evidencia a existência de diferentes tipos de formação racial e de racismo. e às vezes nem sequer sua real disseminação entre os grupos étnicos correspondentes. cujos pólos são os “africanos” e os “indianos”. implícito na maioria dos estudos sociais sobre “raça”. Leia-se a este respeito Wade 2002. em qualquer classificação racial. “black” (negro). dentro do pluralismo étnico e das formas de categorização social que se baseiam nele. como também denuncia o pressuposto. Drummond acrescenta que a primeira manifesta uma variação à primeira vista desconcertante. Sobre os potuguees da Trinidad. que não equivale a “branco” no sistema guianense). 12 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . na ilha de Trinidad. digamos. argumenta Miller. A etnografia de Miller sobre a Trinidad. 13 Além de reconhecer a inexistência de isomorfismo entre a classificação guianense e. acrescenta algo às observações de Leiris e Drummond. Aqui. ele mostra que não só a classificação varia situacionalmente. ver Vale de Almeida 1997. a inglesa. da qualidade dos cabelos e também da genealogia das pessoas e do seu estrato social que são aprendidos desde a infância e cujo domínio competente se torna. Um branco num determinado contexto pode ser um mulato noutro.6 A questão é que na classificação racial. a forma modelar do racialismo. sobressai um padrão classificatório dualista. a atribuição de africanidade e indianidade a determinados usos e costumes nem sempre reflecte a real origem cultural dos mesmos. Através de vários exemplos etnográficos. dois estereótipos associados a valores em larga medida opostos. São. “buck” (ameríndio). portanto. que as pessoas da Trinidad usam para pensar sobre a sua sociedade. de que o tipo de classificação racial estabelecido há cerca de cem anos nos Estados Unidos da América e nalguns países do norte da Europa constituiria por assim dizer o tipo padrão. Drummond afirma que também nesta sociedade as diferenças entre pessoas e formas de vida são expressas de forma explícita em termos de categorias raciais ou étnicas. como varia também o valor atribuído aos estereótipos étnicos e raciais. na interpretação do autor. da fisionomia. “chinee” (chinês) e “white” ou “english” (branco ou inglês). as categorias primárias são “coolie” (indiano). não são apenas atributos de dois grupos étnicos. A africanidade e a indianidade. 13 Drummond 1980: 356. muito difícil a um indivíduo naturalizado noutro esquema classificatório e ignorante da pequena história local. entram em jogo modos de percepção e apreciação da cor da pele. consoante a situação em que são utilizadas. negativas ou neutras.

por experiência própria ou através de leituras. Ver Vasconcelos 2004: 170-187. madeirenses. 17 Não me parece adequado falar de grupos étnicos em Cabo Verde. ao longo do século XX. segundo Glissant. Noutro trabalho tive ocasião de argumentar que. confrontamo-nos com um contexto social crioulo no sentido que Édouard Glissant. por isso mesmo. tal como nas Caraíbas. o dualismo cultural entranhado na Trinidad não resulta da diferença étnica. a identidade cabo-verdiana foi sistematicamente definida pela mistura e que. Há que esperar para ver o que acontecerá com as 14 15 16 17 Miller 1994: 15 – tradução minha. 14 Essa raiz. Passar-se-á antes o contrário: “muito do conteúdo específico da estereotipagem étnica e da experiência contemporânea da etnicidade resulta do uso de grupos étnicos para objectivar um dualismo cuja raiz se encontra noutro lugar”. intelectual natural da Martinica. deportados políticos da antiga metrópole e judeus de Gibraltar. Estamos a falar de sociedades concretas nas quais as pessoas se vêem a si próprias como mistas ou misturadas e usam o vocabulário das “categorias puras” que compõem a mistura para se pensarem e se classificarem.7 Para Miller. e 15 da “transiência” ou efemeridade (corporizada nos valores * Muito disto será familiar para quem conheça um pouco. Muito embora o arquipélago tenha conhecido em diversos momentos da sua história várias vagas migratórias (de escravos da costa ocidental africana. nenhum destes grupos construiu identidades étnicas de longa duração vinculadas às respectivas origens. alentejanos e algarvios. Em Cabo Verde. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . por exemplo). o discurso da crioulidade nunca deixou de reproduzir as “categorias puras” que pretendia dissolver. encontra-a Miller na “natureza fundamental da modernidade”: na contradição entre a valorização simultânea da “transcendência” ou continuidade (corporizada nos valores da indianidade) africanidade). A crioulidade. Miller 1994: 132-133. Glissant 1981. é “uma mestiçagem consciente de si própria”. a sociedade cabo-verdiana do século XX e dos dias de hoje. 16 Não estamos portanto a falar do vago e vasto “mundo em crioulização” de Hannerz e outros. dá ao termo.

e que resultam de processos de formação social bastante distintos e desfasados no tempo. ora “África”. E são. tal como nas Caraíbas. dois estereótipos fortes. à semelhança do que acontece nas Caraíbas. Revelam. Os debates acerca da cultura cabo-verdiana são quase sempre debates acerca de origens culturais. A Europa de Cabo Verde é a ilha de São Vicente. personificada no literato claro do Mindelo. existe em Cabo Verde a ideia de que ser crioulo é ser misturado. estes estereótipos não são étnicos. nos botequins. Consoante as conjunturas político-ideológicas. o camponês escuro e iletrado do interior que vibra ao som do batuque. observam-se estratégias de classificação e distinção social que põem em prática a ideologia subjacente dos “tipos puros”. A África cabo-verdiana é a ilha de Santiago.8 migrações mais recentes de vendedores ambulantes da África Ocidental e de comerciantes chineses. a maioria dos cabo-verdianos vê-se como gente com sangue mais africano que português e com espírito mais português que africano. mas ambos estiveram sempre presentes na consciência da caboverdianidade. e “hibridez” (nos neo-liberais anos 1990). em vez disso. Duas jovens mindelenses perfumadas e de cabelo alisado que passam descaradamente à frente de um rapaz de Santo Antão de aspecto pobre na fila da bilheteira do cinema Éden Park são descompostas por uma rabidante que vende drops. a operação de critérios de identificação insular. “Portugal”). Em vez de grupos étnicos. “África” e “Europa” (ou. esta crença tem recebido os nomes de “civilização” (no período republicano). nos mercados. nas esquinas da Rua de Lisboa e em casa. mais modestamente. os estereótipos que fazem a mistura crioula caboverdiana são as nove micro-sociedades insulares que constituem o arquipélago. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . “África” e “Europa” foram internalizadas em Cabo Verde. o estereótipo positivamente valorado foi ora “Portugal”. “aristocratização cultural” (no período da Claridade). E. “alienação cultural” (no período da guerra colonial e dos anos pós-independência). Diferentemente das Caraíbas. Além disso. No decurso das transformações políticas que marcaram o século XX. Mais ainda. De onde veio a morna? E o machismo? E a família matrifocal? E o gosto pelo desporto? Não são apenas debates de intelectuais. são conversas que se ouvem nos cafés. no passado tal como no presente. empregado de escritório ou funcionário público nas horas vagas. racial e classista. Em suma. sobretudo. personificada na figura do badio.

que viviam na ilha há bastante tempo e que se comportavam e eram tratados como filhos da terra. a vestir-me à moda local (tirando o uso de sandálias. a partir do momento que fiz questão de falar crioulo sempre que as circunstâncias não aconselhavam o uso do português. militante do PAICV. mas também alguns negros e um chinês). e creio que não se trata de uma percepção puramente subjectiva. conserva ainda muita actualidade. Quando é O estudo de Deirdre Meintel (1984) sobre a classificação e a discriminação raciais em Cabo Verde. Foi um processo gradual. em que comecei a frequentar espaços públicos locais. Eu próprio. e um amigo meu. a ter a minha cachupa preparada em casa todos os sábados ou a ir comê-la a casa de outros. Não só existe racismo em Cabo Verde como ele é além do mais consciencializado e verbalizado. que lhes grita: “tempo de escravatura acabá!” Assisto no noticiário das oito a uma reportagem sobre um assalto em Lisboa a uma actriz de teatro. a frequentar as tocatinas que se organizavam aqui e ali. mas bastante escuro e de cabelo encarapinhado. 18 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . que evidenciam o funcionamento paralelo de uma outra lógica de formação de identidades. para concluir. a tomar uns grogues e uns pastelinhos nas vendas dos subúrbios e nos botequins da cidade.9 mancarra e cigarros no seu balaio em frente à escadaria. comenta logo: “Aquilo são badios da Praia. Sem negar que a ideia de que se é “misturado” e as práticas de discriminação que só superficialmente a contradizem constituem componentes característicos da caboverdianidade enquanto forma de vida. sempre a armar afronta!” Acompanho o drama de uma rapariga de boas famílias cujos parentes tentam por todos os meios pôr fim ao seu namoro com um rapaz também de boas famílias e até com estudos universitários. que identifica os assaltantes como cabo-verdianos. assente em trabalho de campo realizado no começo dos anos 1970. 18 Mas quero agora. gostaria de sugerir que estes componentes coexistem com outros. Andam sempre com faca. Os homens e rapazes com quem convivia foram-se tornando cada vez mais indiscretos e insistentes acerca das minhas relações com as raparigas da terra. Os filhos destas pessoas que nasceram ou foram criados desde pequenos na ilha em nada se distinguiam das crianças e dos jovens dos estratos sociais correspondentes. chamar a atenção para uma outra característica bem diferente da crioulidade cabo-verdiana. Conheci em São Vicente alguns estrangeiros (brancos a maioria. comecei a sentir-me parte da pequena cidade com cerca de setenta mil habitantes. que naquele tempo me incomodava) e a ganhar um tom moreno.

Pode haver aqui algum romantismo de going native da minha parte. por muito que se esforcem por se comportar como portugueses. A minha experiência pessoal e o meu universo de observação podem implicar muitos enviesamentos.10 que eu arranjava uma pequena? Quando é que eu tinha lá um filho? As raparigas foramse tornando cada vez mais atrevidas nos jogos de sedução – ou então fui eu que comecei a percebê-los melhor. julgo que com sinceridade. ao cabo de uma semana em Cabo Verde. e quase todos os estrangeiros que conheci que estavam mais crioulizados que eu eram homens também. desde que o outro estivesse disposto a isso. antes de abrirem a boca e falarem em crioulo. conheci um jovem turista mulato da Martinica que. Não que ele seja muito bom. estava afrontado porque toda a gente presumia que ele era cabo-verdiano com base na sua aparência física e lhe falava em crioulo. Pelo contrário. Tenho amigos mindelenses que até em Portugal seriam brancos e que eram tomados por estrangeiros pelos raros camponeses com quem nos cruzávamos nos nossos passeios de domingo pelo interior da ilha – isto. Eu sou homem e sou branco. de ir nadar à praia da Lajinha pela manhã. de comer o mesmo que as pessoas da terra. havia ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . por serem afro. de fazer as minhas compras no supermercado. Por outro lado. Os meus amigos mais chegados dizem. que eu falo como os filhos dos caboverdianos que nasceram em Portugal. embora três deles não fossem brancos. Todos apreciavam o facto de eu não ser esquisito com a comida. de se ter pais ou avós cabo-verdianos) e fenotípicos. exactamente pela sua diferença. aquilo que quero sugerir é que a crioulidade é uma classificação identitária que contempla não apenas elementos genealógicos (o facto de se ter nascido na terra. É verdade que há uma espécie de fenótipo cabo-verdiano modal. Quando ele tentava explicar em francês ou em inglês que não era cabo-verdiano. O meu domínio do crioulo foi talvez o feito mais apreciado. é claro. em certos contextos. são apreciados. Em todo o caso. E noutros contextos são depreciados pelo mesmo motivo. Será a que a antropofagia cultural mindelense manifesta igual apetite por homens e mulheres. Aquilo que experimentei e que observei na interacção dos mindelenses comigo e com outros estrangeiros foi uma grande abertura da parte deles à assimilação do outro (para usar uma palavra politicamente incorrecta). mas também elementos performativos. negros e brancos? Não sei. Mas sei que os meus amigos cabo-verdianos não são tratados desta forma em Portugal.

20 19 20 Ver Pina Cabral e Lourenço 1993: 53-72. Portanto. no mesmo sentido em que se diz que uma criança é feita da substância de seus pais. entre outras coisas. pior. A palavra “crioulo” tem a sua raiz etimológica no verbo “criar” e começou a ser utilizada em sítios como Cabo Verde e as colónias de povoamento das Américas. Naquele enclave português na China. tal como interessa quando se trata de diferenciar internamente os cabo-verdianos. a “raça” interessa. o facto de uma pessoa viver numa determinada terra e se alimentar do que ela dá fá-la da mesma substância que a terra. mas também chineses e gente de outras proveniências que adoptavam a língua e a cultura locais. não apenas os filhos de naturais do território. mediante acção adequada. ser-se crioulo é. que se envergonham delas. quando se trata de classificar as pessoas como cabo-verdianas ou não. ou “filhos da terra”. Brancos. ser-se di terra. Sahlins 1985: xi-xii – tradução minha. pretos e mestiços. termo que não está exclusivamente reservado aos nascidos no lugar. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .11 quem não acreditasse e achasse que ele era um desses emigrantes cheios de inchadura que perderam as raízes ou. pretos e mestiços são todos crioulos sem que deixem com isso de ser brancos. Mas não é o único critério em jogo. Depois de residir um certo tempo na comunidade. Há também uma outra crioulidade que obedece a uma lógica identitária que tem subjacente a ideia de que aquilo que se faz é uma parte importante daquilo que se é. Um estrangeiro. até os estrangeiros se tornam “filhos da terra” (kama’àina). para diferenciar os brancos europeus ou reinóis dos brancos da terra e os pretos africanos dos pretos da terra. independentemente da sua aparência física. Marshall Sahlins. 19 Outros trabalhos etnográficos recentes realizados noutras regiões do Pacífico descrevem a operação de lógicas de formação de identidade semelhantes. por exemplo. se comer as comidas da terra. As classificações raciais e classistas que os diferenciam em certas situações coexistem com uma outra que os irmana. diz-nos que no Havai uma pessoa pode tornar-se “nativa”. Em Cabo Verde. se cantar ou dançar a música da terra. Esta realidade tem muito em comum com aquela que João de Pina Cabral e Nelson Lourenço encontraram em Macau no início dos anos 1990. eram considerados macaenses. […] Para os havaianos. pode tornar-se crioulo se falar a língua da terra. se acamaradar e eventualmente procriar com gente da terra.

A conceptualização de Watson foi depois aplicada por outros autores a diversas sociedades oceânicas. Creio que a crioulidade cabo-verdiana congrega ambas as lógicas de formação identitária. um grupo da costa oeste. como ainda daquilo que se faz. 23 Identidades mendelianas e lamarckianas podem ser concebidas como dois pólos de um continuum de produção de semelhanças e diferenças entre os seres humanos. por se enraizar na ordem imutável da descendência e ser por ela determinada”. “adquire-se através de actividades realizadas no presente” e possui “traços caracteristicamente austronésios. A segunda é vista “como uma essência herdada do passado”. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Astuti 1995: 1 – tradução minha. que enfatizam a preeminência dos traços herdados na constituição do ser. com base na acção. na sua monografia sobre os tairora das terras altas da Nova Guiné. introduziu a expressão “identidades lamarckianas” para designar este tipo de classificações performativas. como de traços corporais herdados e adquiridos socialmente. mas é igualmente possível que uma pessoa se faça crioula pela acção adequada. Ver por exemplo Linnekin e Poyer (eds. na prática quotidiana. O peso relativo atribuído a marcadores genealógicos. Num extremo estão as semelhanças e diferenças estabelecidas a partir de reais ou supostas heranças genealógicas. o recurso a duas formas de identificação idênticas às identidades lamarckiana e mendeliana de Watson: uma identidade “performativa” e uma identidade “étnica”. as “identidades lamarckianas” baseiam-se na crença de que o comportamento constitui o ser. de que se é aquilo que se faz. 21 Diferentemente das “identidades mendelianas”. e “possui um forte cunho africano. É-se reconhecido como crioulo em virtude tanto da ascendência familiar. escreve a autora. que provavelmente se poderão encontrar em qualquer parte do mundo. A primeira.) 1990 e Hoëm e Roalkvam (eds. fenotípicos e comportamentais varia consoante os contextos de interacção social.) 2003. por ser transformativa. em doses e com matizes diferentes. no outro as semelhanças e diferenças reconhecidas nos modos de vida. 22 Na ilha índica de Madagáscar. não primordialista e não essencialista”. Este entendimento da crioulidade cabo-verdiana levantame reservas em relação a qualquer uso generalista da noção e leva-me a defender em 21 22 23 Ver Watson 1983: 276-280. Um filho de crioulos é crioulo pelo nascimento. Rita Astuti identificou também entre os vezo.12 James Watson.

Maxwell School of Citizenship and Public Affairs.”) Este é o meu ponto de interrogação final. 1990. Le discours antillais. Honolulu. e Sidsel Roalkvam (eds. Paris. Ulf. híbridos: palavras-chave da antropologia transnacional”. e Lin Poyer (eds. 1994. 1987. HOËM. Termino com uma hipótese. Ulf. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Paris. 1997. “Fluxos. LINNEKIN. 2002. 1996. 1980. “From roots to routes: tropes for trippers”. Michel. “The cultural continuum: a theory of inter-systems”. Rita. FRIEDMAN. Seuil.). fronteiras. Thousand Oaks e Nova Deli. Jonathan. Deirdre. Oxford e Nova Iorque. 1981. Transnational Connections: Culture. Places. 1984. Bibliografia ASTUTI. DRUMMOND. 2 (1): 21-36.). tão belamente expresso na morna mais conhecida de Cesária Évora: “Si bô escrevê’m um ta escrevê’b. Race. se me esqueceres eu vou esquecer-te. Routledge. Cultural Identity and Ethnicity in the Pacific. 2003. Africa. mais uma. atento aos sentidos que ela possui nos diferentes espaços e tempos em que é empregada pelos agentes sociais. Syracuse University. FRIEDMAN. HANNERZ. Édouard. People of the Sea: Identity and Descent among the Vezo of Madagascar. Man (N. ligado por sua vez à experiência do trânsito migratório e da transitoriedade das relações. Lee. Syracuse. Culture. People.). Jocelyn. Ingjerd. Londres. 57 (4): 546-559. 1995. Sage. Cambridge. University of Hawai’i Press. Cultural Identity and Global Process. GLISSANT.13 vez disso um uso ad hoc. Anthropological Theory. HANNERZ. Londres e Nova Iorque. Berghahn Books. Cambridge University Press. Ulf. MEINTEL. HANNERZ. and Portuguese Colonialism in Cabo Verde. LEIRIS. 1955. 15 (2): 352-374. até dia que bô voltá”? (“Se me escreveres eu vou escrever-te.S. Contacts de civilisations en Martinique et en Guadeloupe. Gallimard. Oceanic Socialities and Cultural Forms: Ethnographies of Experience. Não estará a crioulidade enquanto identidade performativa estreitamente relacionada com aquilo a que poderíamos chamar o presentismo cabo-verdiano. Jonathan. si bô esquecê’m um ta esquecê’b. “The world in creolisation”. até ao dia em que tu voltares. Mana. 3 (1): 7-39.

Instituto Cultural de Macau. 5 (3): 399-421. Ramon. subjectividade e poder”. Seattle e Londres. “Two or three things that I know about culture”. Marshall.14 MILLER. “Espíritos lusófonos numa ilha crioula: língua. WATSON. 27: 13-14. 1994. SAHLINS. Nature and Culture: An Anthropological Perspective. “Ser português na Trinidad: etnicidade. 1999a. Macau. Pluto Press. Tairora Culture: Contingency and Pragmatism. A Persistência da História: Passado e Contemporaneidade em África. Lisboa. Oxford e Providence. Daniel. em CARVALHO. Imprensa de Ciências Sociais. 1983. VASCONCELOS. Clara. SAHLINS. VALE DE ALMEIDA. Berg. 1999. PINA CABRAL. Race. Marshall. João. The Journal of the Royal Anthropological Institute. e Nelson Lourenço. Chicago e Londres. Annual Review of Anthropology. 1997. Marshall. SAHLINS. João de. 1999b. Londres e Sterling. 149-190. 2002. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . “What is anthropological enlightenment? Some lessons of the twentieth century”. 1985.). “Cultura y metacultura: más allá de la diversidad y de la homogeneización”. Modernity – An Ethnographic Approach: Dualism and Mass Consumption in Trinidad. Revista de Libros. 2004. Peter. 1993. SARRÓ. Islands of History. Em Terra de Tufões: Dinâmicas da Etnicidade Macaense. Miguel. WADE. 1 (1): 9-31. Etnográfica. e João de Pina Cabral (orgs. poder e identidade em São Vicente de Cabo Verde”. James B. 28: i-xxiii. University of Chicago Press.. University of Washington Press.

ISCTE ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .III – Capítulo Identidades migrantes: afinidades e diferenças como processos sociais Textos de comunicações do painel Identidades migrantes: afinidades e diferenças como processos sociais Coordenação Lorenzo Bordonaro Chiara Pussetti Centro de Estudos de Antropologia Social .

sobretudo nas disciplinas que se confrontam com as vivências emocionais dos migrantes – ou seja a antropologia e a psicologia transcultural -. ligados mais à memória filogenética que não à aprendizagem ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . etnopsiquiatria. Infelizmente. inatas e geneticamente determinadas: fenómenos biológicos interiores passivos e involuntários. “genes/ambiente”. Temos assistido nos últimos vinte anos a manifestações de um interesse académico renovado pelas emoções em campos disciplinares diferentes. a sociologia. assim. Podemos.it Temos assistido nos últimos vinte anos a manifestações de um interesse académico renovado pelas emoções em campos disciplinares diferentes. considerando como as afinidades e diferenças emocionais são estrategicamente realçadas. herdadas pelo pensamento do século XIX. a psicologia. de carácter não cognitivo.Emoções migrantes: afinidades e diferencias como factos políticos Chiara Pussetti CEAS/ISCTE chiara_pussetti@hotmail. sobretudo nas disciplinas que se confrontam com as vivências emocionais dos migrantes – ou seja a antropologia e a psicologia transcultural os debates recentes continuam a reproduzir dicotomias como “natureza/cultura”. psiquiatria transcultural. “genes/ambiente”. a filosofia. Os biologistas sustentam que as emoções são essências universais. a reproduzir dicotomias como “natureza/cultura”. salvo raras excepções. Entre estes a antropologia. herdadas pelo pensamento do século XIX. Questionando quer as posições biologizantes quer as radicalmente relativistas. o convite é de repensar o conceito de identidade pessoal. Palavras-chave:Antropologia das emoções. os debates recentes continuam. a neurobiologia e a história. reconstruídas ou inventadas pelos diferentes actores sociais. Infelizmente. Definir o que é comum a todos os seres humanos e o que é específico de cada cultura torna-se assim um assunto politicamente relevante e potencialmente discriminante. reconduzir a maior parte dos estudos produzidos nas últimas décadas sobre as emoções a dois ramos teóricos opostos: os biologistas e os construcionistas sociais. migrantes.

é a teoria do “processo evolutivo na 1 Entre os pensadores que inauguraram a concepção científica das emoções Charles Darwin. universais e inatos.2 individual. desinteressantes e inacessíveis portanto aos métodos da análise cultural 1 . descuidando o ponto de vista dos locais. como o sinal da limitação das capacidades introspectivas e de averbamento emocional de alguns grupos humanos (nomeadamente os africanos e os negros americanos). 1984) 2 . a um agregado restrito de pessoas. segundo critérios apriorísticos. O conceito de unidade psíquica dos seres humanos justificava ao nível teórico a possibilidade de compreensão imediata entre pessoas de culturas diferentes: antropólogos e psicólogos poderiam assim entender empaticamente as emoções dos outros enquanto idênticas às próprias e utilizar sem problemas as próprias categorias para descrever as vivências afectivas dos outros. É nesta posição que se coloca a psiquiatria transcultural norte-americana de derivação kraepeliniana. O que em síntese une a posição destes teóricos é uma visão das emoções como fenómenos não cognitivos e involuntários. William James. Um exemplo clássico desta postura teórica. ou seja a um exercício de tradução imediata entre as palavras de uma língua às palavras de uma outra língua. algo de interno aos indivíduos e conexo a uma base genética hereditária e universal. As teorias universalistas ou inatistas. mas. Durante muito tempo. as emoções foram consideradas também pelos antropólogos como fenómenos naturais. A compreensão. Walter Cannon e Sigmund Freud podem ser considerados pais fundadores da moderna pesquisa sobre as emoções. 2 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . censurando-os de terem seleccionado artificialmente algumas emoções “purificadas”. têm dominado há muitos anos o campo das pesquisas psicológicas e são representadas de maneira emblemática pelos estudos neuroculturais de Paul Ekman sobre a expressão facial das emoções (Ekman 1980a. de se terem baseado numa identificação mecanicista entre movimento muscular e emoção propriamente dita. nesta perspectiva. nas atitudes e nos preconceitos de muitos dos técnicos dos serviços de saúde que se confrontam com migrantes. Nestes trabalhos Ekman tentou identificar a correlação entre um grupo limitado de expressões faciais universais e um conjunto definido de “emoções básicas”. melhor. abstraídas de qualquer contexto. reduz-se à classificação das experiências e das narrativas dos outros no próprio horizonte lexical e categorial. e no final de terem fornecido uma tradução não critica dos termos emocionais ingleses em outras línguas. 1980b. idade e posição social. sem terem em conta as eventuais diferenças de género. o contexto e as circunstâncias da experiência emotiva. presente ainda hoje nas expectativas. não é interpretada como uma contradição da tese da universalidade das emoções. de terem submetido desenhos estilizados ou fotografias de caras. que baseia as suas pretensões de eficácia transcultural no pressuposto da unidade biopsíquica dos seres humanos. A falta de correspondência linguística directa. caracterizadas por influências de tipo etológico e neurobiológico. Os antropólogos culturais criticaram duramente a metodologia utilizada por Ekman e pelos pesquisadores que partilharam a sua opinião e a sua orientação teórica.

a teoria de Leff é ainda considerada absolutamente válida 4 .3 elaboração emocional” do psiquiatra cultural Julian Leff (1981: 66). idênticas através das culturas e através do tempo. Podemos distinguir na teoria de Leff a presença de um modelo antropológico evolucionista. Beneduce 1996. que todavia não têm um valor puramente somático. presente ainda hoje nos assuntos e nas práticas das ciências psicológicas ocidentais 3 . marcados por confins precisos e imóveis no tempo. pelo contrário. de uma modalidade e uma expressão somática (própria das culturas menos desenvolvidas) a um léxico psicológico (próprio das culturas ocidentais). A maioria dos antropólogos construcionistas tem assim descrito comportamentos emocionais culturalmente específicos em contextos etnográficos apresentados como terrenos puros e coerentes. Vejam-se Bibeau 1978. Os relativistas culturais. posso afirmar que. enquanto que. Devisch 1990. Ots 1990. através de expressões referidas a partes do corpo.seria assim expressão de uma maior capacidade de introspecção e de uma melhor gestão do próprio vivido interior. ainda que. o prevalecer de um código somático indicaria um nível mais arcaico de expressão e elaboração emocional. 1979. A verbalização emocional típica dos ocidentais – salientam as minhas entrevistas . salvo raras excepções. as emoções são consideradas como construções sociais. Dirven e Niemeier 1997. sistemas de representações relativamente homogéneos. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . variáveis como qualquer outro fenómeno cultural: não faz sentido portanto falar de emoções inatas e universais. âmbitos de significados articulados logicamente e sem contradições internas. pelo contrário. 5 No meu trabalho de terreno dedicado ao vivido emocional entre os Bijagós da Ilha de Bubaque (Pussetti 2005). depende da dificuldade de encarar e compreender questões sobre as quais se reflecte localmente utilizando categorias muito diversas das nossas. Desjarlais 1992. encontrei um vocabulário das emoções muito complexo e uma requintada capacidade de comunicar os próprios estados interiores. Na base das minhas entrevistas em hospitais e centros de saúde vários em Itália como em Portugal. Se para os 3 4 Veja-se Lilltewood e Lipsedge [1982] 1997. às vezes. Neste sentido. ou seja de um processo de atribuição de sentido e valor historica e culturalmente específico. Segundo esta teoria. O facto que esta modalidade de expressão emocional possa ser interpretada pelo psiquiatras ocidentais como sinal de um arcaísmo do grau de elaboração do próprio vivido interior. Heelas 1996. típico por exemplo dos africanos 5 . para o que concerne a experiência emocional. um evidente continuum caracterizaria a evolução do tradicional para o moderno e. Nas palavras de Leff : “as pessoas de países desenvolvidos apresentam uma bem maior diferenciação de estados emocionais em relação às pessoas que provêm de países em desenvolvimento” (Leff 1973: 305 – tradução minha). afirmam que as emoções derivam da interpretação e da avaliação de um estímulo.

o primeiro ambulatório de etnopsiquiatria em França. Se a emoção não é independente da cultura. no Hospital Avicenne. em 1979. as antropólogas Benedicte Grima. Os filósofos Robert Solomon e Claire Armon-Jones por exemplo afirmam que “a emoção não é um sensação mas é essencialmente uma interpretação” (Solomon 1984: 248 – tradução minha) e que “cada emoção é um produto sociocultural único e irreduzível” (ArmonJones 1986: 37 – tradução minha). AbuLughod e Lutz chegam até a propor uma concepção das emoções como algo que “pertençe à vida social e não a estados interiores” (Abu-Lughod e Lutz 1990: 2 – tradução minha). “performance sociais” culturalmente específicas (Abu-Lughod e Lutz 1990 – tradução minha). 12 – tradução minha). nas palavras de Beneduce. Nesta visão. do mesmo modo as suas perturbações não podem ser consideradas como objectivas e value-free. só pode desempenhar o papel de “tradutor”. observa Catherine Lutz (1988: 8). para os construcionistas radicais o trabalho de terreno sobre as emoções dos outros acaba paradoxalmente por se tornar uma confirmação da incomensurabilidade da experiência humana. Em 1993. discípulo do Georges Devereux. constituída por modelos de experiência adquiridos. sugerindo aos antropólogos de “trabalhar para libertá-las da psicobiologia” (Abu-Lughod e Lutz 1990: 10. “práticas discursivas”. Lila Abu-Lughod e Catherine Lutz sustentam que “a emoção é só cultura” (Grima 1992: 6 – tradução minha) e que “longe do ser entidades psicobiológicas internas”. centro clínico-académico de investigação e apoio psicológico às famílias imigrantes. na posição construcionista radical podemos colocar a etnopsiquiatria francesa à la Tobie Nathan 6 . mas antes. colocamos a psiquiatria transcultural clássica no filão teórico dos biologistas. No encontro com os próprios interlocutores. antes pelo contrário. já que não existe um terreno bio-psíquico comum de compreensão humana. Se pensando as formas de acompanhamento psicológico dos migrantes. historicamente situados e continuamente modificados pelas experiências diferentes e pelos discursos polivalentes que se encontram em cada indivíduo. o antropólogo. fundou o “Centre Georges Devereux”.4 biologistas a empatia é o instrumento privilegiado de compreensão transcultural – em virtude da comum humanidade -. examinar a dimensão cultural torna-se um passo fundamental para compreender as dimensões de significado que os modelos biológicos não conseguem colher e explicar. mas é. “estilos culturais”. 6 Psicólogo e psicanalista. Aderindo a esta forma de construcionismo radical muitos cientistas sociais têm produzido afirmações discutíveis. as emoções são antes “construções socioculturais”. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Tobie Nathan criou.

uma forma de imperialismo ocidental sobre as emoções dos outros” (Lynch 1990: 17 – tradução minha). por exemplo. as abluções rituais dos muçulmanos praticantes uma forma de distúrbio obsessivo-compulsivo. Se as emoções são exactamente as mesmas em cada lugar. é definida como “experiência esquizofrénica dissociativa” e considerada. objectiva e portanto culture-free. Esta colonização cultural da psiquiatria estadunidense. permitindo “instituir . as interpretações não ocidentais da doença. ligada a temáticas religiosas e a crenças culturais (Ndetei 1988). e em particular sobre as atitudes interpretadas como perturbações do comportamento emocional. metáforas. portanto. ou ainda uma forma de controlo sanitário e moral sobre os outros. e a psiquiatria conseguiu identificá-las de forma cientifica. Nesta visão. É neste sentido que. a possessão espírita seria uma perturbação dissociativa mascarada por crenças e práticas religiosas. baseada no pressuposto da universalidade das emoções. no Diagnóstic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM-IV) da American Psychiatric Association (1994) a possessão zar. o xamanismo uma esquizofrenia disfarçada por superstições culturais. as distinções alternativas entre ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . significados. então a cultura nesta perspectiva só pode condicionar a interpretação destas mesmas experiências universais através dos óculos opacos das crenças locais.5 como “um conjunto de conotações. independentemente das maneiras através das quais os homens as avaliam intelectualmente e as vivem somaticamente. parece-me que quer as posições biologizantes quer as radicalmente relativistas acabam para se tornar muito problemáticas. Ou que a linguagem da feitiçaria é interpretada num registro exclusivamente psicopatológico como psicose aguda de natureza persecutória com alucinações auditivas e visuais. Trabalhando como antropóloga na área da saúde mental dos migrantes. Assim. portanto. relações assimétricas de poder. estudada já no 1958 pelo antropólogo Michel Leiris que trabalhou entre os Etíopes de Gondar. as outras representações da pessoa e dos seus limites. dissimulado pelas prescrições locais.nas palavras de Owen Lynch . No primeiro caso a tese da universalidade da vivência emocional justifica as pretensões hegemónicas das categorias diagnósticas e dos modelos interpretativos da psiquiatria euroamericana. valores e ideologias” (Beneduce 1995: 17 – tradução minha). patologia psiquiátrica. revela. de forma evidente. afirmam os etnopsiquiatras italianos Roberto Beneduce (2001) e Salvatore Inglese (2002).

6 “normalidade” e “anomalia” são consideradas como maneiras culturalmente impróprias de interpretar a experiência humana (Fernando 2003). assim. o risco de cair em derivas relativísticas: em vez de procurar ou inventar espaços originais de diálogo. psicologias culture-bound. reproduzindo assim o risco de guetizar os imigrados. intraduzíveis e incompatíveis entre elas. pode assim acontecer que se reproduzam formas de racismo cultural. realçam todavia que também as perspectivas construcionistas ou relativistas podem revelar-se muito perigosas e politicamente discriminatórias. Neste sentido. podem relegar os outros saberes e práticas para a categoria de psicologias folk. as ciências da psique ocidentais . situações que têm também outras raízes. que podem ser ligadas a “crenças erradas e superstições mórbidas culturalmente específicas”. Este uso da noção de cultura – que postula a incomensurabilidade de mundos culturais diversos . o psiquiatra Andrew Cheng (2001) chegue a afirmar que além da interpretação. a perspectiva relativista acaba. a expressão mesma das suas necessidades. Na base das ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Em contextos quentes como os das políticas directas aos migrantes. os conceitos de cultura e de diferença cultural foram empregues de maneira ambígua. lugares singulares de pesquisa. realçou os riscos gerados pela reificação do conceito de cultura e por uma culturalização excessiva dos instrumentos e das estratégias metodológicas dos antropólogos e dos psiquiatras que querem indagar as emoções humanas. por se tornar um instrumento de ratificação da incomensurabilidade da experiência humana. etnopsicologias. nos quais elaborar práticas clínicas inovadoras. de mediação e de confrontação.confina os outros numa “diversidade” fechada em si mesma e autónoma. “primitivas”. uma das principais revistas psiquiátricas. há questões objectivas. Corre-se.por definição construídas ao redor de presumíveis universais -. ou seja. dissimulando como questões culturais conflitos. propondo-se como as únicas com validade científica. não é de admirar que no British Journal of Psychiatry. considerar as culturas como irredutivelmente distintas. As minhas investigações nos serviços de saúde mental específicos para migrantes. Muitas vezes. psicologias indígenas. da expressão e da experiência emocional individual. Na sua opinião é evidente que as sociedades “menos desenvolvidas”. comportamentos. o médico e sociólogo Didier Fassin (2000). de facto. A este respeito. reais e universais que só a psiquiatria ocidental conseguiu identificar. com inteligência escassa só podem ter um conhecimento limitado dos problemas mentais. Assim. afirma Fassin. cientificas.

A asserção da coerência das estruturas referenciais baseada numa abordagem essencialista da cultura. continua Nathan. assumindo uma posição rigidamente relativistica. Como na sua visão é a mestiçagem ou o encontro cultural que gera patologias psíquicas. Muitos autores realçaram como a frequente sobreposição das noções de biologia e cultura nos programas terapêuticos para migrantes acaba para “naturalizar” as diferenças entre grupos (Lee. fechada. que dissocia os cenários locais do sistema mundial assumindo frequentemente posições de relativismo absoluto. o fantasma da Raça disfarçado de Cultura. torna. e de procurar nesta “cultura” a origem e os remédios dos mal-estares dos outros. ocultando-o.7 minhas experiências de trabalho em três centros de etnopsiquiatria clinica posso também salientar que é precisamente nestes serviços específicos para migrantes que muitas vezes se utilizam noções estereotipadas. de facto. como um Bambara com um bambara. as instituições francesas deveriam “favorecer os guetos para nunca constranger uma família a abandonar o seu próprio sistema cultural” (Nathan 1994: 216 – tradução minha). Por esta razão. qualquer seja a sua história pessoal. constituiu uma das práticas e teorias etnopsiquiátricas mais originais – acusando-o de considerar a “cultura” como uma entidade definida. “um Dogon será sempre um Dogon e um Bozo um Bozo” (Nathan 1994: 219 – tradução minha). conceptualmente e metodologicamente difícil compreender a heterogeneidade e a indeterminação interna dos sistemas de representações que os indivíduos utilizam para construir criativamente e estrategicamente a própria identidade e as próprias emoções. sem considerar as dinâmicas sociais. delimitada por confins que tornam impossível a compreensão recíproca. do género “é necessário fazer o possível para agir como um Soninké com um paciente soninké. Nathan utiliza afirmações bastante criticáveis. antes em Bobigny e depois no Centre Devereux. Mountain e Koenig 2001. Nathan. como um Kabyle com um kabyle” (Nathan 1994: 24 – tradução minha) tendo sempre em conta a identidade étnica dos migrantes. essencializadas e biologizantes de “cultura” e “etnia”. ataca abertamente Tobie Nathan – o etnopsiquiatria francês aluno de Devereux que. confundindo de facto “cultura” com “raça”. Fernando 2003). históricas e políticas mais amplas. Para descrever a ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . em particular. no seu texto principal (L'influence qui guérit 1994). De facto. postula a reprodução das culturas especificas em guetos fechados em si mesmos e autónomos. Fassin. Na palavras de Fassin esta atitude comporta. porque.

em particular. que ofereça espaços de autonomia e de liberdade ao indivíduo. os paradoxos. as ambiguidades e as incongruências que são partes constitutivas dos sistemas de significado. Os antropólogos que se confrontam com migrantes. móveis e mutáveis. conflitual. poder. familiares. observando com mais atenção os interstícios. É neste panorama complexo.8 complexidade e as mutações da vida social e da experiência individual. conflituais. as suas experiências do mal estar. sociais. ambiguidades. é necessário imaginar uma abordagem diferente. políticos e económicos. constroem a sua experiência interior combinando os códigos fundamentais das multíplices visões do mundo às quais aderem. realçaram a importância de repensar as minhas ferramentas de trabalho para apreciar melhor a heterogeneidade interna dos sistemas de representação que os indivíduos utilizam para construir o próprio self. já não podem assumir que os indivíduos habitam mundos circunscritos de experiências e significados que dão forma às suas respostas emocionais: os indivíduos. encontramos panoramas complexos. rejeitando quer o determinismo psicobiológico quer o sociocultural. O convite é de trabalhar bem conscientes das relações entre conhecimento. sobrepondo-se à obrigação de pôr as traduções como um problema que é preciso enfrentar e não com uma solução tão rápida quanto superficial. As minhas experiências de investigação na área da antropologia das emoções na Guiné Bissau e da saúde mental dos migrantes em Itália como em Portugal. memórias. pelo contrário. os margens. O confronto quotidiano com os migrantes. esperanças. Os indivíduos e as sociedades do mundo contemporâneo parecem ser sempre mais envolvidos em uma transição permanente: em lugar de horizontes culturais bem definidos. com elementos periféricos marginais que invadiram os seus sistemas de representação. autoridade e hegemonia. móvel e mutável. as suas interpretações. emoções. híbridos. como o psiquiatra cultural. e em particular com o mal-estar dos migrantes. com as suas crises existenciais. as próprias emoções e a própria experiência do mundo. além de culturais) e bem concentrados sobre os indivíduos em si. as suas representações. tem que se mexer. obrigou-me a repensar também o conceito de identidade pessoal e as suas relações com as multíplices ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . da multiplicidade dos factores em jogo (sociais. no qual múltiplos discursos coexistentes entram em contradição entre eles e os problemas sociais podem tornar-se sintomas. que o antropólogo.

utilizando o conjunto amplo e híbrido de representações ou modelos culturais do self. assim também em cada indivíduo coexistem sujeitos diferentes: nas palavras de Bibeau. revelou-se na minha experiência de investigação um método mais eficaz para compreender como cada indivíduo constrói relações originais com o próprio contexto de origem e com as suas identidades diferentes. selfexploration e self-alteration (Reddy 2001: 32).não apenas da vida individual. do presente como do passado e das mais amplas constrições políticas. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . que fazem de facto referência a esquemas que inevitavelmente produzem quebra-cabeças. participando de relações nas quais outros grupos e culturas são encontrados. Reconstruir as histórias de vida dos migrantes através das suas narrativas.9 comunidades às quais as pessoas pertencem simultaneamente. atravessados. conexas a metanarrativas fragmentárias e a sistemas de referência flexíveis (Bibeau 1997: 57). Esta abordagem permite de facto reconstruir os percursos de significação individuais e os processos de construção de e de negociação entre as identidades múltiplas das quais todos somos portadores. contraditória. espaços vazios. Outra vez um panorama instável e contraditório com o qual antropólogos e psiquiatras têm que se confrontar: o mundo interior dos indivíduos. a códigos centrais de referência que geram estruturas de representações e cenários pragmáticos que podem ser amplamente caracterizados como móveis. contradições e sobreposições de valores. A narração . sociais e económicas que ontem os obrigaram a migrar e hoje os bloqueiam nas margens da sociedade -. na perspectiva metodológica da person-centered ethnography. Castillo 1997. 57 – tradução minha) 7 . William Reddy fala a este respeito de processos de self-making. permite aos meus interlocutores procurar o sentido do próprio percurso. muitas vozes falam nos indivíduos. mas também da memória familiar e colectiva. que se encontra à sua disposição. por um lado. instáveis e transitórios (Bibeau 1997: 55. interpretam e transformam continuamente a própria identidade. gerir as ligações contraditórias 7 Muitos autores salientaram a importância de uma abordagem centrada sobre o paciente (entre os outros. explorados e outras redes sociais percorridas e construídas. Neste processo de auto-narração os indivíduos reconstroem. Se cada cultura possui uma alma multíplice. Hollan 1997). anomalias.

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com a própria família e a própria terra de origem e estabelecer relações originais entre as próprias identidades, por outro, revela-se como um acesso privilegiado para reconhecer dimensões “ocultas”, estratégias e interesses políticos e económicos, muitas vezes intencionalmente omitidos ou dissimulados na literatura sobre o argumento, mas importantes para compreender o que acontece quando se passa uma fronteira.

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Antigas afinidades na construção da diferença na diáspora: emigração e o resgate da herança cripto-judaica transmontana 1

Elsa Lechner CEAS, ISCTE elsa.lechner@iscte.pt

Trás-os-Montes é considerada uma região clássica de judeus convertidos, onde, ainda hoje, se encontra viva a memória dessa herança histórica perdida. Entre emigrantes transmontanos em França no final dos anos noventa, a identidade secreta dos judeus convertidos parece ter encontrado um contexto favorável de publicização que ganha reconhecimento crescente. Analisando a alteridade particular existente entre “judeus” e “lavradores” transmontanos, bem como a posição de Outro que os “judeus” ocupam nas comunidades a que pertencem, este texto identifica os factores distintivos das duas categorias sociais que separam uns transmontanos de outros. Visa-se assim compreender a reivindicação de uma origem judaica e os movimentos de resgate de uma identidade de descendente de judeus convertidos.

Palavras-chave: diferença.

Identidade,

migração,

memória,

alteridade,

Entre emigrantes transmontanos em Paris contactados no final dos anos noventa no âmbito de uma pesquisa sobre reconstrução da identidade em situação de emigração 2 , constatámos a presença de uma distinção, nas narrativas de alguns entrevistados, entre transmontanos “judeus” e transmontanos lavradores ou cristãos velhos. O tema dos judeus convertidos apareceu nas entrevistas como um discurso calado mantendo em silêncio, ao longo das gerações, uma distinção identitária pronta a revelar-se no contexto migratório. Comecemos com uma vinheta etnográfica retirada de uma das nossas entrevistas neste terreno:
Quando o barbeiro da minha aldeia morreu, ficámos todos espantados em ver que na sua campa no cemitério, a mulher e
Partes deste texto foram publicadas no artigo “Memória das origens e identidade social. Análise a partir de um caso português” in Encontro de Saberes, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa 2006, pp. 67-83. 2 Tese de Doutoramento defendida pela autora na EHESS, Paris 2003.
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as filhas puseram uma estrela de David em vez da cruz de Cristo. Eu não sabia que eles eram judeus… na minha altura não se falava no assunto…pronto, sabíamos que havia judeus em Trás-os-Montes mas não se falava nisso. Foi aqui em França que descobri muita coisa e segundo o meu primo nós também somos da raça dos judeus. (empresário transmontano em Paris, 1998).

Este excerto de conversa ilustra um facto recorrente entre alguns transmontanos que se dizem judeus por referência a uma “memória das origens” de antepassados convertidos à força ao catolicismo. Refugiados desde os finais do século XVI nas montanhas do nordeste português, estes “judeus” não estão organizados numa comunidade voluntária com um projecto étnico, nem têm uma cultura judaica consolidada. No entanto, e apesar das contingências adversas da história, muitos guardam vestígios e memórias de uma pertença presumidamente judaica que acompanha uma condição de alteridade e diferença nas comunidades a que pertencem. Esta, manifesta-se tanto nas formas de nomeação destes descendentes de convertidos, como na sua posição social, e também num sentimento de si que suscita movimentos de resgate da sua história colectiva e herança identitária. Mais do que “judeus secretos” de Trás-os-Montes”, estes descendentes de cristãos-novos são os guardiães de vestígios históricos herdados em silêncio e a expressão social de uma alteridade que remete os seus protagonistas para uma condição de Outro no seio da comunidade local. A herança do segredo confere-lhes uma consciência de grupo distintiva no meio social em que se inserem, e hoje suscita processos de construção ou reinvenção da identidade que conduzem à tentativa de recuperar sentidos históricos longínquos. Este processo de atribuição de sentido a uma herança perdida origina um diálogo entre identidade e memória exercido em contextos existenciais e políticos concretos que consubstanciam a identidade social dos “judeus” transmontanos.

Alteridade e diferença: nomes, pessoas e “animais analógicos”

Considerada pelos especialistas da história da Península Ibérica como uma região clássica de assentamento de “marranos” (Révah 1959), Trás-os-Montes é actualmente, do ponto de vista etnográfico, ainda o reduto de um passado histórico

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marcado pela presença de judeus refugiados de Espanha após o édito de expulsão de 1492, pelos reis Fernando e Isabel de Castela. Entre um sentido mais erudito e propriamente historiográfico da presença de judeus convertidos no território transmontano, e o significado antropológico da persistência de uma diferenciação de um grupo reportado a uma origem étnica judaica, os diversos termos utilizados para designar os “judeus” transmontanos, traduzem nuances conceptuais relevantes para a análise percorrida aqui. O termo marrano confunde-se com a raiz antropológica da identidade dos judeus convertidos e remete-os para uma condição de alteridade particular. Segundo o estudo clássico de Arturo Farinelli (1925), encontra-se no vocabulário espanhol de quinhentos e corresponde a um termo ofensivo (significando porco, em português) adaptado para denegrir, na época, os cristãos-novos de Espanha e de Portugal. O seu significado de origem parece não se referir à relutância dos judeus em comer carne de porco, mas antes exprimir um sentimento de desprezo com que é conotada aquela palavra também noutras várias línguas. 3 O significado que adquiriu posteriormente configura a adaptação a um contexto histórico que se tornou hostil à presença judaica na Península Ibérica. Forçados a converterem-se à religião católica desde que a Inquisição foi instituída em 1536, muitos judeus foram acusados de práticas de um judaísmo secreto. Vários autores utilizam a expressão “cripto-judeu” para designar membros de comunidades rurais portuguesas nas quais foram identificadas práticas de um judaísmo sujeito a forte erosão pela história de conversão dos seus antepassados. 4 Em Trás-os-Montes, e mais especificamente no Distrito de Bragança, os descendentes de judeus convertidos são apelidados de perro (cão, em português), ilustrando um facto antropológico identificado por Edmund Leach (1964) segundo o qual o uso recorrente de nomes de animais como injúria, cumpre uma função social de imposição de distância entre pessoas próximas. Claude Lévi-Strauss já havia pensado na utilização de nomes de animais entre os humanos, referindo que “… aos cães não damos um nome humano sem provocar um sentimento de mal estar, ou mesmo de pequeno escândalo […] Como animais “domésticos”, eles fazem parte da sociedade humana, mas ocupando uma posição tão baixa que não sonharíamos, seguindo o exemplo de
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Encyclopaedia Judaica, entrada « Marrano », Vol. 11, Jerusalém, p. 1018. Ver nomeadamente, Samuel Schwarz Os Cristãos Novos em Portugal no Século XX, Instituto de Sociologia e Etnologia das Religiões, Universidade Nova de Lisboa, 2000 [1925].

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alguns australianos e ameríndios, em chamá-los como se fossem humanos (…)” 5 (LéviStrauss 1962: 272). Nas aldeias e vilas do concelho de Vimioso, distrito de Bragança, onde coexistem estes dois grupos, mantém-se até hoje o distintivo de “terras de judeus”, aplicado quando se trata de espaços onde se concentraram ao longo do tempo grupos dedicados ao comércio e à indústria artesanal de curtumes (as pelicarias). Na descrição dos próprios sobre as especificidades destes ditos “judeus”, relatam-se as suas viagens pelos montes, montados numa mula, vendendo produtos alimentares e bens essenciais que os lavradores não produziam. Os homens perros eram também artesãos, sapateiros, latoeiros, carpinteiros ou alfaiates, enquanto as mulheres trabalhavam como tecedeiras. Em geral eram letrados e escolarizavam os filhos, ao contrário dos lavradores mais necessitados da mão-de-obra dos seus descendentes nos campos. No final dos anos 90 do século XX, observava-se ainda uma compartimentação no espaço físico da aldeia de Carção, com os comerciantes instalados no centro, na praça, perto da fonte e da rua principal, e os lavradores sobretudo na periferia do burgo, perto dos campos que cultivavam. A organização urbana e a economia política locais exprimem assim uma alteridade em que se foram reproduzindo e perpetuando as posições ocupadas pelos dois grupos de oficiais e lavradores economicamente interdependentes. A par desta estratificação sócio-económica, a população local refere estereótipos físicos e comportamentais que contribuem para reforçar a divisão criada. Os dois grupos auto-distinguem-se atribuindo-se características fenotípicas específicas, sendo a aparência física dos “judeus” associada a cabelos ruivos, pele sardenta e olhos claros. Este estereótipo coincide com a imagem clássica do “judeu vermelho”ou “judeuruivo”, analisada na tradição cristã europeia por Claudine Fabre-Vassas (1994). Eles são o Outro mais diferente dos outros, ou seja uma figura de alteridade extrema, remetida para um limiar de aceitação na fronteira com o animal. Assim, tal como o termo perro constitui uma rejeição linguística daquele que é designado literalmente de “cão espanhol”, o estereótipo físico do “judeu ruivo” traduz a condição de Outro, próximo do animal, a que a tradição cristã sempre tendeu a remeter os judeus. Esta iconografia

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« Comme animaux domestiques, ils font partie de la société humaine, tout en y occupant une place si humble que nous ne songerions pas, suivant l’exemple de certains Australiens et Amérindiens, à les appeler comme des humains… »

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surgiu na Europa medieval expandindo-se numa imagética popular e médica que diagnosticava um laço “de natureza” entre “a raça maldita” e o animal porco. Nos dados etnográficos recolhidos junto de transmontanos, encontra-se este saber estereotipado sobre si próprios utilizado como forma de afirmação identitária e de demarcação. Mas esta não corresponde a uma cultura judaica, fazendo com que o que caracteriza a diferença destes ditos “judeus” é a referência às origens étnicas herdada ao longo das gerações em silêncio. Ou seja, a insistência na demarcação identitária participa aqui do carácter do segredo, que é um saber à parte, de que as novas gerações são depositárias sem conhecer os respectivos conteúdos culturais. O que os interlocutores entrevistados no terreno dizem sobre si é um saber marcado pela dispersão e pela fragmentação de referências ao judaísmo dos seus antepassados. A maior parte fala da sua cultura de converso na terceira pessoa do plural “eles”, para depois dizer, em tom de aceitação ou revelação que “nós também somos judeus” (Lechner 2002). Os mais idosos relatam costumes dos membros “da família de Moisés” como os bradórios ou velórios de quatro e cinco dias consecutivos, em que se acendiam velas em torno do morto, se faziam rezas próprias e se colocavam pedaços de pão sobre os cantos das mesas. Tudo era feito às escondidas dos vizinhos, na mesma lógica de segredo que deu origem à bola tosca e às alheiras transmontanas. O isolamento das montanhas transmontanas, permitiu aos judeus convertidos conservar e transmitir estes vestígios de um passado escondido que reaparece através de rastos e fragmentos etnográficos quase crípticos. Mas a herança do segredo histórico como factor constitutivo de uma identidade social de “judeu”, suscita ainda processos de reconstrução da identidade em forma de identificações com parentescos intelectuais, espirituais, e com novos laços de casamento ou de amizade, para os quais a emigração contribui de forma decisiva. De forma consciente ou inconsciente as novas gerações criam as condições de possibilidade de reconstituição e publicitação deste aspecto importante da cultura transmontana e portuguesa. À semelhança do que mostra Frédéric Brenner no seu documentário “Les Derniers Marranes” realizado em Belmonte em 1990, o que resta desta memória identitária é o segredo histórico transformado em práticas residuais que persistem em segregar o grupo da comunidade. Este efeito de segregação não resulta do facto de se ter tratado de práticas judaicas ou “judaizantes”, num passado longínquo, mas sim da

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a diferenças categorizadas. que havia frequentado a Sinagoga inaugurada nos anos 1930 pelo Capitão Barros Basto (“O Apóstolo dos Marranos”) e que havia convivido de perto com o rabino.6 persistência das manifestações de um segredo herdado que funciona como marca identitária. herdaram da sua perda histórica O que se encontra hoje no distrito de Bragança. A sugestão deste transmontano de que o futuro da sua cultura está comprometido. sublinha o facto de que a memória histórica é aqui quase fantasmagórica. As formas sociais e os conteúdos culturais que determinam identidades humanas são complexas e radicam na dimensão temporal. são vestígios e memórias de uma pertença identitária reinventada de forma pontual a partir de fontes dispersas. que a emigração potencia. Origens e identidade social: vestígios e memórias de uma pertença Qualquer identidade é necessariamente construída por referência a uma alteridade. Essa a razão pela qual uma reconversão ao judaísmo não é sequer procurada ou desejava pelos que. ao mesmo tempo. se encontram obliteradas no caso dos descendentes de marranos de Trás-os-Montes enquanto “judeus”. relatou de forma evasiva os costumes da sua herança afirmando. ou entre transmontanos da diáspora. como em Trás-os-Montes. mais do que de um saber à parte. que na realidade se perdeu para a maioria do grupo. “do passado já não me lembro e o futuro já passou”. a percepção e a memória conservam uma função ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . De um ponto de vista antropológico. Trata-se de uma marca de seres à parte. Neste caso é a obliteração identitária que é incorporada como traço distintivo dos auto-denominados “judeus de Trás-os-Montes” como ilustra um episódio ocorrido durante o meu trabalho de campo em Bragança onde um entrevistado que me havia sido apresentado como sendo “a pessoa” que conhecia as ladainhas marranas. apenas recuperável na pesquisa historiográfica e/ou num trabalho de arqueologia identitária. culturais e políticos específicos. Em função de contextos históricos. a afirmação de uma identidade assenta em identificações continuadas que. diferentes tipos de identidade ressaltam tipos distintos de diferenças e de diferenciações entre o Eu e o Outro. nestes territórios. também ela dinâmica. Mas mesmo quando registadas pela negativa. de forma evidente.

O comentário em voz off da herança de um passado enterrado no tempo transforma os testemunhos privados de muitos transmontanos numa reapropriação articulada da história que permite a transmissão lúcida no seio da comunidade. que define esta forma particular de ser “judeu”. jornalistas. no seio da própria comunidade a que se pertence. O facto de um importante número de transmontanos assumir uma identidade social a partir da crença numa origem étnica judaica. torna-se pois necessário compreender o sentido desta persistência de uma reivindicação codificada por referência a uma herança histórica perdida.7 identitária que não pode deixar de ser tomada em conta num estudo antropológico. torna-se relevante para que a questão das origens possa ser considerada decisiva na definição da respectiva identidade. Se o que resta aos descendentes de judeus convertidos de Trás-os-Montes é o rasto de uma pertença étnica judaica que se mantém todavia presente na definição da sua identidade social. É importante notar que a imaterialidade da herança dos descendentes de judeus convertidos não é desobjectivada e não deixa de fazer parte da construção identitária dos seus depositários. em função dos interesses de quem detém algum poder de publicitação: intelectuais. ou a comunidade de emigrantes transmontanos da região de Paris. É justamente a falta de referenciais tangíveis. Esta faz-se de forma personalizada e potencialmente politizada. É importante. Esta última podendo ser a pequena aldeia transmontana de peliqueiros onde o “judeu” é o perro. porém. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . aqui ressalvar a diferença entre a auto-referência destes transmontanos à origem étnica como fundadora da sua identidade. artistas. a par da ausência de uma transmissão transgeracional articulada e continuada. personalidades carismáticas. Não é porque os contextos de vivência das pessoas possam ser surdos ou impermeáveis à experiência privada. que as vozes singulares (ou com ressonância plural) estão impedidas de agir socialmente e de ter consequências práticas na construção da memória no presente. Rejeitando uma visão essencialista da etnicidade. ou de ser o Outro. segundo a qual a identidade étnica se baseia na crença numa origem comum. podemos apoiar-nos na definição proposta por Max Weber (1956). onde outros se descobrem ou reinventam “descendentes de judeus convertidos”. a intelligentsia bragançana onde muitos se dizem algo “judeus”. e um entendimento da etnicidade como categoria de definição identitária impermeável ao tempo e à história. políticos.

por referência a uma origem absolutamente identificada nos judeus vindos de Espanha depois de 1492. ou crise existencial. então.8 Em Trás-os-Montes. O presente da memória: tecer os laços desfeitos O longo movimento histórico que se iniciou com as descobertas do século XVI. O deficit de capital cultural judaico destes judeus baptizados e convertidos ao catolicismo remete. é de notar também que o impacto cultural e económico da emigração. Movidos por uma consciência agudizada em contextos de ruptura biográfica como a emigração. passou-se para um domínio público de visibilidade de uma herança colectiva. a questão das origens para o domínio daquilo a que chamamos “memórias de uma pertença”. desembocaram numa modernidade que estabeleceu o princípio da subjectividade como estrutura da relação dos sujeitos com o mundo e consigo próprios (Giddens 1991). a vivência de um luto. estes escultores do presente. com a preocupação de se tornarem “eles mesmos” num projecto. Os mesmos 500 anos que separaram os judeus convertidos da tradição dos seus antepassados. as estratégias de preservação da diferença assentaram em acordos tácitos reproduzidos ao longo das gerações. contemporâneas da expulsão dos judeus de Espanha. Mas a este propósito. coincidiram com a emergência de discursos públicos regionais. de reconstrução da identidade. e mesmo nacionais. em que alguns se lançam ao trabalho de tecer os laços desfeitos do passado. Os casamentos mistos apenas surgiram com as transformações sociais resultantes da emigração. interrogam-se sobre a descontinuidade que os habita tornando-se assim agentes activos do seu ser no mundo. Este passou a ser palco de uma crescente autonomização das consciências individuais e de uma ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . os perros dizem ser “da raça dos judeus”. oferecendo à análise uma categoria que na realidade encobre o que realmente os define como “judeus” e que assenta num complexo jogo cruzado entre identidades históricas e interesses sociais e pessoais. produziu no Ocidente uma nova maneira de conceber e de pensar a identidade humana. Nomeadamente em Carção e Argoselo. bem como os efeitos da implementação da democracia em Portugal. Do espaço privado das memórias familiares. dando voz à herança histórica marrana. muitas vezes isolado.

Também desde os anos 1990 se observa o surgir de associações internacionais de estudos cripto-judaicos. é em função dos novos contextos multi-referenciais dos nossos dias que a identidade dos descendentes de judeus convertidos se define. No sentido de “consciência incorporada” de um corpo-sujeito. À procura de um sentimento de si enraizado numa história familiar herdada com falhas. de tal modo que. bem como congressos anuais onde procuram construir o presente. com vista a garantir o futuro da sua família simbólica. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . É nesta dimensão subjectiva da reinvenção de si. se torne necessário todo um trabalho de reelaboração.org criado por uma descendente de portugueses cristãos-novos emigrados na África do Sul. em situações de ruptura como a conversão religiosa do passado ou a imigração dos nossos dias. e a experiência generalizada de ruptura com tradições.9 secularização da vida humana incorporando a aceleração de criação de novidades no quotidiano. Estes são espaços tanto virtuais como reais de estudo e troca de informações entre pessoas que se identificam com a problemática da reconstrução de uma identidade de descendentes de judeus convertidos. e de história do judaísmo na Península Ibérica. como o site www. na emigração e em Trás-os-Montes. Não conta para os descendentes de judeus convertidos de Trás-osMontes o facto de não se constituírem como uma comunidade voluntária assente numa cultura específica. ou da criação de uma identidade edificada pela palavra – no sentido lacaniano de parole 6 – e pelo gesto – como sugeriu Merleau-Ponty 7 –. que reaproxime as distâncias criadas. e porque a identidade é uma relação processual e não uma coisa em si ou uma qualidade fixa de alguém ou de um grupo. Num movimento de retorno ao passado e ao mesmo tempo de descoberta de si. muitos se reúnem em fóruns electrónicos de encontro e partilha de experiências.saudades. As fronteiras da identidade e da memória definem uma dimensão quase “natural” dos contextos de pertença dos indivíduos. que o sentimento de pertença identitária se consubstancia. A persistência da sua crença numa pertença étnica judaica contrasta com a descontinuidade entre uma presumida origem “natural” judaica e uma cultura cristã imposta pela história. Neste contexto. Sob 6 7 Acto de simbolização subjectiva. que caracterizam os grandes desafios actuais das identidades juntamente com a crioulização global das humanidades contemporâneas (Glissant 1996). organizam viagens a Portugal e a Espanha.

Claudine. a descontinuidade que atinge os “órfãos de cultura própria”. 1958. Os Contextos da Antropologia. La Bête Singulière: les juifs. p. Paris. Gallimard. RÉVAH. LACAN. 1996. 1959. « Pleins Silences ». Firenze. 1925. 1945. PINA CABRAL. Maurice. 1993. Encyclopaedia Judaica. Le Seuil. 1989. WEBER. Elsa. 1925. La Pensée Sauvage. SCHWARZ. Vol. Gallimard. Paris. Macau. Cambridge. Claude. Em Terra de Tufões: dinâmicas da etnicidade macaense. Sigila. Edmund. Jacques. pode-se “retornar a casa”. Difel. FABRE-VASSAS. Paris. Lisboa. Universidade Nova de Lisboa. MERLEAU-PONTY. pp. 2002. Gallimard. Instituto Cultural de Macau. Modernity and Self-Identity: self and society in the late modern age.Os Cristãos Novos em Portugal no Século XX. les chrétiens et le cochon. entrada « Marrano ». Anthony. CXVIII/1. L’unité de l’homme et autres essais. Paris. Arturo. Écrits. João e Nelson Lourenço.10 o risco de uma condição humana “descosida” de si. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Paris. Num outro tempo. Gallimard. 1966. Referências Bibliográficas ARENDT. Paris. Max. Samuel. 11. 1992. pp. Polity Press. vol. Jerusalém. 1956 [1971]. Hanna. Introduction à une poétique du divers. Paris. não deixa indiferente quem assim descobre poder ser o autor de si mesmo e nascer para uma condição humana que ultrapasse o acidente biológico. Gris. pp. 1980 [1964]. GLISSANT Edouart. 1962. 1994. num outro lugar. « Les Marranes ». 2000 [1925]. Les Gardiens du Secret. 17-27. GIDDENS. The University of Chicago Press. LECHNER. Economie et société. 1018. TheHuman Condition. João. Isaac. Paris. LÉVI-STRAUSS. Paris. Revue des Etudes Juives. Plon. 321361. Instituto de Sociologia e Etnologia das Religiões. “Fonction et champ de la parole et du langage”. mesmo que esta última seja uma ruína e o retorno uma viagem. LEACH. FARINELLI. Marrano : storia di un vituperio. 29-77. Plon. Phénoménologie de la Perception.9. PINA CABRA.

religião. para a aparição inesperada de regularizados de nacionalidade marroquina. Tentaremos compreender se. ° ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Vol. Palavras-chave: integração. XIV (1). mais que constatar dados. marroquinos. Portugal pode constituir uma alternativa considerando alguns elementos sociais. “Islam en lusophonie” (2007) com o título “Marroquinos em Portugal: imigração. O trabalho que hoje apresento integra-se numa investigação em curso sobre a integração de Portugal na rede transnacional de imigração marroquina e sobre a permeabilidade da fronteira luso-espanhola por parte destes sujeitos migrantes. O interesse pela investigação do fenómeno da imigração marroquina para Portugal surge pela possibilidade de completar o quadro visual sobre Uma versão desenvolvida desta conferência poderá encontrar-se na revista Lusotopie (Brill). ∗ Esta conferência integra-se numa investigação em curso no âmbito da pesquisa de doutoramento em realização na Universidad Autónoma de Madrid financiada pela Fundação para a Ciência.gomesfaria@uam. Muito bom dia. imigração.Participação marroquina na construção da comunidade muçulmana em Portugal ° Rita Gomes Faria Universidad Autónoma de Madrid ∗ rita. Tecnologia e Ensino Superior (Portugal). venho referir hipóteses num momento concreto da investigação. num momento de saturação dos países que tradicionalmente recebem imigrantes marroquinos. Assim. Nina Clara Tiesler pela possibilidade de participar neste Congresso.es Nesta comunicação aproximar-nos-emos. históricos e religiosos que funcionariam como factores de integração. antes de começar gostaria de agradecer à Associação Portuguesa de Antropologia e principalmente à Prof. ao fenómeno da imigração marroquina em Portugal. de forma muito sucinta. comunidade. A análise dos resultados da regularização extraordinária de imigrantes realizada em Portugal no ano de 1996. levou a que diferentes investigadores chamassem a atenção. ainda que subtilmente. religião e comunidade”.

em Portugal a questão da imigração marroquina constitui uma novidade. mas também pelo facto de Portugal não constituir um destino final do processo migratório.2 imigração marroquina na Europa mas também. principalmente de Marrocos. o Ministère des Affaires Étrangères et de la Coopération marroquina contabiliza 2866 marroquinos a viver em Portugal. também Portugal parecia ser a alternativa lógica a uma certa saturação do mercado espanhol 1 . Bélgica e a Alemanha fecham as suas fronteiras à imigração. por nos parecer que Portugal poderia ser a sequência directa da evolução do fenómeno – tal como Espanha e Itália vão estabelecer-se como destinos para estes migrantes no momento em que países como a França. Como sabemos. e por outro a aparição e crescimento (constante mas discreto) de pessoas provenientes do norte de África. Pela existência de uma relevante bolsa de imigrantes marroquinos irregulares que não se encontram contabilizados pelas instituições oficiais. Discutindo a questão com alguns dos informantes desta investigação eles próprios se negam a acreditar na sua validade. Marroquinos em Portugal Ainda que se encontre relativamente perto de Marrocos e que no seu principal país vizinho. a população marroquina seja uma das mais importantes dentro da comunidade imigrante. dos quais 778 estão contabilizados pelo Serviço de Estrangeiros e Fronteiras português como detentores de uma autorização de residência e os restantes de autorizações de permanência. No relatório sobre as migrações mediterrâneas publicado pela Comissão Europeia (Fargues 2005). Holanda. observando desde a perspectiva espanhola. Espanha. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Segundo os próprios sujeitos. os imigrantes que tradicionalmente se dirigem para Portugal são originários dos chamados PALOP e do Brasil. mas as regularizações extraordinárias dos anos 90 apontam para um fenómeno que posteriormente se confirmou com o processo de pedidos de autorizações de permanência do ano 2001: por um lado a nova presença massiva em Portugal de cidadãos oriundos de países do Leste da Europa. o acesso a um documento oficial que lhes permita uma residência legal em Portugal (inclusive para aqueles que esperaram os dez anos necessários para receber a 1 A única investigação até agora realizada sobre o tema encontra-se publicada: CABRAL 2003.

e por outro o aumento das entradas irregulares. de assentamento e de diversificação de destinos.de recepção de imigrantes muito limitada). Como alternativa os trabalhadores marroquinos dirigem-se então para países como a Líbia e a Arábia Saudita (com uma capacidade . o que levou ao seguimento dos trabalhadores rifenhos para o território francês. Por essa altura dirigiam-se a países do Médio Oriente e da África ocidental. A imigração marroquina na Europa Os movimentos migratórios marroquinos remontam a épocas anteriores ao período colonial. Os primeiros marroquinos que chegam à Europa são comerciantes que se instalam em França e em Inglaterra pela metade do século XIX. pais onde a maioria tem família já instalada. C) mas as principais saídas são provocadas pela assinatura dos primeiros acordos de mão de obra entre países como a França. Marrocos vive um momento de explosão demográfica o que acentua um certo desequilíbrio entre a população e os recursos naturais e económicos do país. vários são os acontecimentos (simultâneos) que “empurram” os nacionais marroquinos para os países europeus: A) a guerra de independência argelina provocou o regresso a França das empresas instaladas na região norte da Argélia. Já no século XX. atrás dos seus empregadores. B) durante a mesma época.de recursos e de interesse político . Alemanha. e para Espanha e Itália que demonstram ser regiões nas quais era possível (principalmente devido à inexistência de uma legislação relativa aos movimentos de imigração) a permanência daqueles que não conseguiram passar as fronteiras do norte ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . a Holanda e a Bélgica. Os países do norte e centro da Europa mantêm um único canal de imigração aberto através do reagrupamento familiar (primário e secundário) o que provoca por um lado uma estabilização das populações. e principalmente a partir do boom económico do pós-II Guerra Mundial. Holanda. a Alemanha. Os anos 70 do século XX assistem à grave crise de petróleo que provoca o fecho das fronteiras europeias e o inicio da chamada “imigração zero”. que vão abrir os primeiros canais de imigração (pendular) massivos. O fenómeno entra numa segunda fase.3 nacionalidade) permite-lhes atingir o seu objectivo final que é a “verdadeira Europa” – França.

D) e por último a forma como os últimos governos portugueses têm tentado recuperar estas distintas tradições para a construção de um papel de mediador politico entre a Europa e o mundo árabe. Público. inicialmente que Portugal poderia (potencialmente) como um destino alternativo baseando-nos em alguns supostos que poderiam funcionar como meios de integração positiva dos marroquinos por parte dos portugueses: A) uma certa construção da identidade nacional baseada na capacidade de adaptação ao outro resultante da experiência histórica do contacto cultural (na boa tradição do luso-tropicalismo). 2 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Cardeira da Silva recorda numa publicação recente (Cardeira da Silva 2005). 1993. como David Lopes (responsável pela institucionalização do arabismo em Portugal) No caso espanhol os primeiros assentamentos de marroquinos realizam-se na Catalunha.4 economicamente mais vantajoso (Teim 1996) 2 . Nestes anos 70 e 80 Portugal ainda não era considerado um destino mas a crescente politização e mediatização (além do tratamento negativista do tema que os media espanhóis estão a desenvolver e da preferência pela imigração originária da América do sul e de países do leste europeu) da questão migratória que verificamos a partir dos anos 90 em Espanha 3 . página 24. Ver TEIM 1996. “Portugal e Marrocos inauguram cimeira anual” edição de 30-05-1994. B) a tradição do arabismo português que procura aproximar-se da academia europeia orientalizando parte do próprio território português. página 2-3. também. consideramos. como por exemplo a pesca. tendo o governo marroquino como interlocutor do outro lado do mediterrâneo 4 . A imigração foi muito utilizada pelo PP como instrumento n luta económica e politica com o governo do Reino de Marrocos em debates sobre distintas temas. “MAI de Marrocos em Lisboa” edição de 17-05-1997. Ver também o jornal Público nos dias posteriores aos atentados de Madrid de 10 de Março de 2004. 3 Visível principalmente durante o governo do Partido Popular que assumiu a luta contra a imigração irregular como um dos seus principais papéis ante a União Europeia e para tal a imagem da patera como metáfora dessa irregularidade. edição de 26-01-1993. 1997. 4 Ver por exemplo Público. O potencial integrador Por outro lado. levou-nos a pensar que Portugal poderia ser o próximo passo. 1994. formam-se claramente por indivíduos que não ultrapassaram a fronteira com França e que ficaram a trabalhar na Catalunha (que no final dos anos 70 indicava um aumento da industrialização e que por isso agradecia estes novos trabalhadores). Público. “Acordos com Marrocos”. página 9. C) a recuperação da presença “árabe” no território e identidade portugueses através da redignificação dos espaços arqueológicos do Al-Andalus.

associam a redignificação da imagem dos árabes na história e identidade nacionais servindo por um lado uma folclorizaçao e reinvenção da memória. E a nível nacional diversos governos portugueses. Mértola abriu caminho para que as regiões norte e sul do país se apercebessem das vantagens da reabilitação de material arqueológico sempre sustentado por uma promoção turística do mesmo através da escenificaçao da vida quotidiana em feiras e mercados da época do Al-Andalus. de ponte de diálogo que a proclamada genética diversa (árabe. mas também uma dimensão política de encontro com os países árabes do mediterrâneo 5 .5 definiu o Portugal histórico através de três dimensões “paranacionais”: a presença dos árabes na Península. procuraram personificar o papel do mediador de conflitos. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Cacela Velha. uma nova fase de imigração caracterizada por novos padrões de imigração independentes do passado colonial. exteriores ao mundo lusófono e integrados em trajectórias migratórias globalizadas. Castro Marim. Até que ponto esta recuperação da essência árabe na identidade nacional leva a uma real facilidade de integração dos árabes (marroquinos) contemporâneos que escolhem este pais para residir? O contexto de integração Os imigrantes marroquinos que se encontram em Portugal enquadram-se perfeitamente como sujeitos do que Tiesler (2005) chamou a pós-descolonização. 5 Fez e Marraquexe transformam-se nas cidades guardiãs de uma identidade que pode ser explorada economicamente para aproximar-se do ideal imaginário dos portugueses. nessa encruzilhada entre a Europa e os países árabes. judaica e crista. num multiculturalismo tolerante que ascende à idade média) permite. Castro Verde. A nível local. E como no pós-25 de Abril de 1974 o processo de reconstrução nacional e de desenvolvimento económico regional passou por uma exploração do potencial turístico e económico que os vestígios e a herança árabes poderiam implicar. a presença dos próprios portugueses em Marrocos e a presença dos portugueses no Oriente. Mértola. Aí se encontra o stock identitário tradicional que se pode conjugar com o imaginário do exotismo árabe economicamente operacional. Silves. Lagos e Sintra.

No entanto.numa adaptação à nova realidade através de subalternização da etnicidade. e em muitos casos o seu próprio percurso individual é marcado pela transnacionalidade. Participação na comunidade islâmica Quando os marroquinos chegam a Portugal encontra-se já constituída a Comunidade Islâmica de Lisboa. uma instituição constituída principalmente por indivíduos oriundos das antigas colónias portuguesas que se esforçaram desde o inicio na construção de uma relação positiva e apolítica com o Estado e com a sociedade de acolhimento(Tiesler 2000). principalmente pela Europa. As trajectórias da maioria dos informantes caracteriza-se por uma forte mobilidade e em geral a sua presença em Portugal está marcada por uma temporalidade associada a um objectivo.que em muitos casos desenvolvem paralelamente actividades económicas (Freire 1999). Os anos 90 observam uma diversificação das origens dos imigrantes muçulmanos mas estes “pioneiros” permanecem como porta-voz da comunidade. As relações que os nossos informantes constituem no pais de acolhimento são circunstanciais partilham elementos étnico-culturais que contextualmente os afirmam a todos como marroquinos mas existem numa distância já que entre os diferentes indivíduos ou colectivos não se criam tecidos que os unam a todos como comunidade em Portugal.6 O colectivo com o qual trabalhamos nesta investigação é constituído por pessoas que seguem um padrão de imigração por imperativos económicos. os imigrantes económicos irregulares e os estudantes . este Islão como fenómeno mundializado encontra-se sujeito a fenómenos como a individualização da relação com a religião e a comunitarização do grupo religioso. o circuito da imigração e a forte mobilidade vivida por todos os sujeitos levamnos a participar da comunidade transnacional marroquina – quase todos têm membros da unidade familiar dispersos pelo mundo. Estes grupos não são uniformes. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . elaborando agora um discurso universalizante do Islão e integrador dos distintos membros da umma (Mapril 2005) . No entanto. Dentro do universo dos marroquinos que vivem em Portugal podemos encontrar distintas categorias: os imigrantes económicos regularizados. como Roy (2003) afirmou.

para o caso da mulheres marroquinas em Espanha. O lenço é instrumentalizado por algumas destas mulheres de múltiplas formas numa estratégia de integração na sociedade de acolhimento mas também de manutenção de direitos e de um determinado estatuto num contexto diverso ao da sua sociedade original. em pequenos locais de culto nos arredores de Lisboa (como no caso do local de culto de Forte da Casa) ou noutras regiões do país é mais activa (como é o caso do local de culto de Faro para cuja criação há cerca de quatro anos diversos imigrantes marroquinos participaram activamente 6 ). distinta e imediatamente associável à religião islâmica. como o contexto de saída condiciona uma situação determinada da mulher no país de imigração. O facto de representarem uma diferença em relação aos representantes dos muçulmanos em Portugal.7 A vivência dos marroquinos em Portugal provoca uma transformação na sua religiosidade – na forma como estes indivíduos vivem a sua relação com a religião (Roy 2005). O espaço da mesquita de Lisboa não se traduz num elemento catalizador das sociabilidades e configurações identitárias destes marroquinos que vivem em Lisboa. Existe uma dissociação para com as actividades da mesquita central e para com o culto o que impede uma prática religiosa quotidiana. Os sujeitos elaboram um discurso politico sobre a realidade da mesquita central que é o local de reunião de africanos e indianos e não de árabes ou magrebinos. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Ramírez (1998) refere. O sistema de estratificação de género em Marrocos define que o projecto de vida feminino é dependente do masculino 6 No Verão do ano 2005 a Comunidade Islâmica de Lisboa não tinha sequer informação da sua existência. principalmente feminina. Visibilidade e religiosidade feminina Segundo os próprios informantes há um outro elemento que os distancia da comunidade islâmica portuguesa: uma imagem exterior. não impede a sua integração na comunidade a nível local. Observa-se um distanciamento do principal protagonista do Islão em Portugal – a Mesquita Central e a Comunidade Islâmica de Lisboa (com cuja identidade e discurso não se sentem identificados) – e uma privatização do Islão ou uma participação em comunidades religiosas particulares. Ainda que a participação na vida religiosa da Mesquita Central de Lisboa seja praticamente nula.

Este país continua a ser manipulado como um passo num ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . O reduzido número e a dispersão territorial dos nacionais marroquinos que vivem em Portugal dificulta a constituição do que se pode chamar uma comunidade de marroquinos no país. com o nascimento das primeiras crianças em Portugal e com a criação das primeiras associações de imigrantes marroquinos. Por outro lado Abranches (2005) observa em Portugal como as mulheres muçulmanas imigrantes utilizam as transformações características da sociedade ocidental na (re)construção das duas identidades.8 mas parece ser que a imigração permite uma adaptação da condição feminina e das restrições culturais à mobilidade feminina. No entanto estes sujeitos parecem mais interessados na participação na comunidade muçulmana transnacional do que na construção de uma comunidade em Portugal. agora transnacional. No entanto até há três anos atrás parecia que este fluxo estava a entrar numa segunda fase. podendo a condição feminina ser estrategicamente manipulada. a época da presença árabe em Portugal. e “mercadorizam”. numa tentativa de conjugar fidelidade às origens mas também modernidade e autonomia pessoal. com o inicio de processos de reagrupamento familiar. Algumas mulheres. instrumentalizam o papel da mulher muçulmana de forma a recuperar direitos que consideram que estão a perder em contexto imigratório. muitos deles em situação de irregularidade ante a legislação portuguesa. O lenço é então utilizado na luta pela recuperação de um papel dentro do espaço íntimo da casa familiar. Notas finais Portugal resulta ser um contexto difícil para a imigração marroquina. O colectivo de marroquinos que vive em Portugal ainda é maioritariamente constituído por homens. num contexto de incorporação ao mercado de trabalho (subalterno) referem como o lenço lhes permite participar e auxiliar a economia familiar. auto-orientalizam e personificam a imagem de árabo-muçulmanas nas festas “árabes” e nas feiras de artesanato oriental regionais que se realizam principalmente durante o Verão e que fazem reviver. por exemplo. principalmente as que não realizaram um trajecto imigratório individual e cuja presença no terreno da imigração resulta da reagrupamento familiar. Algumas destas mulheres. Outras.

2005. Vol. “O sentido dos árabes no nosso sentido. Uma informante dizia: (. FARGUES. ele é do Paquistão e na mesquita falam todos português.) se estás ao balcão numa loja que vende coisas árabes. é só sair à rua que ficam todos a olhar para mim. Alcinda (ed. 2003. XXXIX (Inverno).. 2005.... CARDEIRA DA SILVA. como me aconteceu lá em baixo na loja da Fátima [Olhão]. não querem saber do que dizem dos árabes. Nº 173. edições Universidade Fernando Pessoa.. ou se vais aquelas feiras onde ela vai com o marido. “Mulheres muçulmanas em Portugal: formas de adaptação entre múltiplas referencias” in SOS RACISMO Imigração e Etnicidade.. European University Institute y European Commission – Europe Aid Cooperation Office (Euromed). ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . países que constituem. Maria . Ao viver debaixo de uma consciência de temporalidade restrita.. SOS Racismo. CABRAL. [. não representa para estes indivíduos um colchão interessante de integração. Bibliografia: ABRANCHES. Migrations Méditerranéennes. (Loubna.[.] Aqui nem o imã da mesquita nos defende. 26 anos. Mas aqui no meu bairro [num polígono industrial em Carcavelos]. Uma vez com a Karima na rua uma senhora tirou a cabeça pela janela do carro e chamou-nos terroristas. ainda maioritariamente “portuguesa”. pp...).. Maria. 753-806. todos te perguntam de onde é que és. Rapport 2005. há três anos a viver em Portugal) Nesta transcrição podemos observar a distância que existe entre a recuperação da memória histórica do legendário passado árabe na identidade portuguesa e a dificuldade de integração da realidade dos marroquinos contemporâneos que vivem no país. E é que nem pensam que usas o lenço porque és muçulmana. Vivências e trajectórias de mulheres em Portugal. a “verdadeira” Europa. 149-179. segundo os informantes. pp. 2005. Dos estudos sobre árabes e sobre muçulmanos em Portugal” in Análise Social. Sabes. Europa e Islão. Lisboa. Imigração Marroquina. Porto. a comunidade islâmica.] Eu quero é ir para casa da minha cunhada [França].9 projecto migratório que se quer terminar em França ou na Holanda. Philippe (ed.). Também esta reanimação do árabe em Portugal parece não servir realmente como aproximação aos árabes contemporâneos que vivem no país.

“Muçulmanos na margem: a nova presença islâmica em Portugal” in Sociologia – Problemas e Práticas. Fernando Luís.) L’Europe du Sud face à l’Immigration. Ángeles. 1997.) A Imigração em Portugal. Francisco. 2005. Europa e Islão. Olivier. “Contornos e especificidades da imigração em Portugal” em Sociologia – Problemas e Práticas. 2004. Ediciones Bellaterra. Nuno Dias e José Mapril. Público. policopiado. FREIRE. El Islam Mundializado. TIESLER. 2002. José Gabriel e Susana Pereira Bastos. página 23. nº 24. “Novidades no terreno: muçulmanos na Europa e o caso português” in Análise Social – Europa e Islão. Politique de l’étranger.) New Waves: migration from eastern to southern Europe. Barcelona. “’Bangla masdjid’: Islão e bengalidade entre os bangladeshianos em Lisboa” in Análise Social. Transcrição editada da Conferência realizado no FRIDE. 2005. ROY. pp. pp. Público. 149-183. Itinerários para a construção de uma masculinidade. pp. página 24. Nº 173. 2000. João Alegria e Alexandra Nunes. SOS Racismo. policopiado. « Le ‘retour des caravelles’ au Portugal: de l’exclusion des immigrés à l’inclusion des lusophones ? » in RITAINE. edição de 26-01-1993. Monografia de licenciatura em Antropologia. Maria Lucinda. pp. Lisboa. 1999) Do Yemen ao Dafundo. Migraciones. “Acordos com Marrocos”. 1994. 851-873. FCSH-UNL. MARQUES. MACHADO. “MAI de Marrocos em Lisboa” edição de 17-05-1997. Olivier. TIESLER. 1993. Luso-American Foundation. nº 173. Ana Rita. Os movimentos humanos e culturais em Portugal. Nina Clara. 273-288. Maria Margarida. FCSH-UNL. Universidad Autónoma de Madrid Ediciones. Nina Clara. minorias étnicas e minorias nacionais em Portugal. 1998. XXXIX (Inverno). Género e Islam. MAPRIL. vol. José. Maria Ioannis e Maria Lucinda Fonseca (eds. Los musulmanes en la era de la globalización. Mujeres marroquíes en España. hoje: da exclusão social e identitária ao multiculturalismo?” em SOS RACISMO (ed. RAMÍREZ. Práticas e Instituições do Arabismo Português. pp. 827-849. 2005. 2000. Vol. 1996. 91-118. MOREIRA. página 9. TEIM. “Portugal e Marrocos inauguram cimeira anual” edição de 30-05-1994. Madrid. “Immigration to medium sized cities and rural areas: the case of eastern Europeans in the Évora region (southern Portugal)” em BAGANHA. PEREIRA BASTOS. Madrid. nº 34 (Dezembro). 1997. PUF. 117-144. Atlas de la Inmigración Magrebí en España. Madrid.. Ideias. Lisboa. 2005. XXXIX (Inverno). ROY. Agencia Española de Cooperación Internacional. Monografia de licenciatura em Antropologia. 9-44. El Islam en occidente: ¿La occidentalización del Islam?. Paris. Évelyne (dir. 2003. “Imigrantes. pp. Artigos de jornais: Público.10 FONSECA. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .

quando se pretende intervir em áreas como a acessibilidades dos imigrantes ao Serviço Nacional de Saúde. Saúde. se propõe desenhar projectos de intervenção na área da saúde. a Mutilação Genital Feminina ou a gravidez prematura? No campo da saúde. étnica. uma das áreas mais sensíveis na condição de imigrante economicamente desfavorecido. a prevenção do HIV–SIDA. técnica na Câmara Municipal de Loures Quais os desafios que se colocam ao Antropólogo quando. cultural e religiosa da população imigrante residente actualmente em Portugal. como cruzar saberes institucionalizados e hegemónicos com saberes ancestrais explicadores de uma determinada visão do mundo? Palavras chave: Trabalho autárquico. Partindo do princípio de que em grande parte dos países de origem dos imigrantes – com particular expressão para os países africanos de expressão portuguesa ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . orientados para as populações imigrantes residentes num determinado concelho? Qual a importância do trabalho em parceria. foi alvo de uma alteração profunda na sua morfologia social nas décadas mais recentes. diversos de vida e inclusive diferentes sistemas de organização política e administrativa que. tenha a responsabilidade de dar uma resposta eficaz às suas diversas necessidades. no contexto do seu trabalho como técnico de uma autarquia. Vulnerabilidade. em particular no campo da saúde. Imigrantes. a par da expressividade idiossincrática e das histórias de vida particulares de cada indivíduo. obrigam a reflectir sobre novas formas de encarar o mundo e soluções mais ajustadas a uma sociedade multicultural. faz com que o país receptor. Particularidades Culturais e Abordagens específicas no Campo da Saúde Maria Cristina Santinho Antropóloga. A diversidade social. em particular pela coexistência de populações nacionais e estrangeiras com diferentes origens geográficas.Contextos Migratórios. Portugal e em particular a área metropolitana de Lisboa.

culturais. psicólogos. sem tomar grandemente em conta os padrões culturais específicos de cada grupo cultural. sem esquecer as mulheres da comunidade e os líderes religiosos. tem as suas próprias crenças e práticas únicas no referente à saúde. É necessário que haja uma acção concertada entre todos. a intervenção médica de modelo ocidental. enquanto abordagem no domínio da promoção da saúde e prevenção da doença. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . e interculturalidade. importa-nos aprofundar outros modelos alternativos neste campo. Cada etnia. salvaguardando as suas particularidades identitárias e. promoção da saúde. assim como os seus recursos comunitários para a prevenção de certas doenças e cura de males comuns. religiosas e cívicas que fragilizam o seu estado físico e psíquico. eram (e em muitos casos ainda são) praticamente inexistentes. é uma abordagem localizada. sociólogos. Por conseguinte uma das abordagens que se pode e deve fazer. face à nova realidade que estão a viver. confundindo frequentemente conceitos fundamentais como nacionalidade e origem étnica e prejudicando assim a comunicação em termos de eficácia de utilização dos serviços de saúde. cada grupo. pelos técnicos que intervêm em programas e projectos comunitários (desde logo antropólogos. económicas. formação esta que também deve ser partilhada por cada um destes actores culturais. animadores sócio-culturais). A questão da saúde dos imigrantes tem sido encarada de uma forma geral.2 – os sistemas de saúde de modelo ocidental. é necessária uma formação adequada em direitos de cidadania. surge do facto destas populações estarem sujeitas a muitas desigualdades sociais. A promoção da saúde deverá por conseguinte ser levada a cabo não só pelos profissionais de saúde – médicos e enfermeiros – mas também de forma concertada e em parceria. pelos mediadores de saúde que fazem uma ponte entre a sua comunidade de origem e a sociedade de acolhimento – escola ou trabalho. num contexto mais global da exclusão social. nalguns casos. pelos líderes das associações de imigrantes locais. A necessidade de se promover uma abordagem específica no campo da saúde das comunidades imigrantes. que estabeleçam a ponte entre a necessidade de apoio sentida pelos imigrantes no campo concreto da saúde. tendo em conta as idiossincrasias de cada grupo e os seus problemas relativos às desigualdades no acesso à saúde e outros serviços básicos.

Infelizmente a formação cruzada ou mesmo a investigação sobre as características específicas em termos de saúde e doença entre as diferentes comunidades imigrantes ainda não está trabalhada nem sequer ao nível dos simples dados estatísticos. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . conseguir consulta no médico. gravidez prematura. é procurar noutro país melhores condições de vida. técnicos de saúde ou investigadores que dedicam a sua atenção a casos particulares de bairros onde residem imigrantes. Quase inevitavelmente manifestada através de numa crónica acumulação de desvantagens sociais. que conduzem estas populações a circuitos de exclusão e que se vão manifestando mais cedo ou mais tarde em frustração. manifestadas através de uma maior dificuldade em arranjar emprego de acordo com as suas necessidades. dependência do álcool ou alucinogéneos. pois o nosso contributo poderá de facto vir a influenciar a maneira como outros técnicos de saúde percepcionam o contexto cultural dos imigrantes. Assim sendo. sabemos que uma das características comuns de grande parte da população imigrante é a sua vulnerabilidade. tomando o papel de facilitadores entre estas comunidades e os médicos e enfermeiros. sentimentos de revolta. traduzindo a importância dos valores e práticas culturais. natalidade. mental. desadaptação. Por outro lado. e não apenas a ausência de enfermidade ou doença”.A principal razão que leva um indivíduo ou uma família a emigrar. Factores como o índice de morbilidade.3 Como antropólogos. ou incidência de determinadas doenças específicas de certos grupos. teremos que analisar se intimamente estamos dispostos a intervir com acções concretas e pragmáticas. em suma: uma fragilidade perigosamente manifestada em quase todos os indicadores dos condicionantes sociais da saúde. Tomando como ponto de partida a definição da Organização Mundial de Saúde. segundo a qual: “A saúde é um estado de completo bem-estar físico. partimos dos seguintes pressupostos relativamente à população imigrante: . violência. mortalidade. sociais. somos levados a ter em conta as circunstancias que pautam a vida da maioria da população imigrante e consequentemente condicionam a sua saúde. religiosas e simbólicas próprios de cada comunidade. ainda estão no domínio dos dados empíricos ou do conhecimento de alguns estudantes. distúrbios mentais. ter boas notas na escola. social e espiritual.

trabalhos de alto risco. mas antes sobretudo de forma holística. a dificuldade no domínio da língua ou a inexistência de certificação de competências. pois o contexto em que os imigrantes se inserem irá condicionar a sua própria relação com a saúde e com a doença. ou seja: compromete perigosamente todos os projectos e aspirações a uma vida melhor que o levaram em primeira instância a emigrar. habitacional. com horários violentos. em relação à forma como se encara o “Fanado. por vezes propensos a acidentes graves. sem seguros de risco. em particular muçulmanos.A reduzida formação académica. etc. Esta prática cultural que tem sido alvo da atenção de muitos meios ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . condicionam também a atitude dos indivíduos perante os diversos conceitos de saúde e de doença. culturais e políticos dos países de origem dos imigrantes.Neste contexto. será necessário abordar cada aspecto.. mas também tomando em linha de conta que os próprios imigrantes terão em determinados contextos étnicos. condicionando assim a sua relação com o bom ou o mau desempenho profissional – a pessoa doente não pode trabalhar (se falta ao trabalho é imediatamente despedida por não estar abrangida na maior parte dos casos pelos sistemas de saúde e segurança social).4 . entre alguns grupos étnicos guineenses. Esta premissa pode-se verificar por exemplo. instáveis. muitas vezes dependentes da má índole dos empregadores que preferem não regularizar os contratos de trabalho. de grande parte dos imigrantes constituídos como população alvo de alguns projectos levados a cabo pelos Centros de Saúde locais e autarquias. o corpo é usado como principal ferramenta de trabalho. No desenrolar de cada projecto de saúde a levar a cabo eventualmente por uma parceria técnica de intervenção. práticas tradicionais de saúde eficazes para o contexto cultural que as produziu e que obviamente devem ser tomadas em conta pela medicina ocidental. remetendo-os para actividades pouco valorizadas socialmente. profissional. religioso. se é despedida não tem capacidade para sustentar a sua por vezes numerosa família. que implica a relação do corpo com vários contextos: familiar. . nem tem dinheiro para os medicamentos. O conceito de saúde e de doença tem uma enorme abrangência e portanto a doença do indivíduo não se pode observar só numa perspectiva clínica ocidental. com certeza diferente do país de acolhimento. Os contextos sociais. limita as suas opções de trabalho.” ritual inclusivo da prática da Mutilação Genital Feminina. mal remunerados.

porque se levantam questões tão delicadas como a sexualidade. a ausência de Sistemas Nacionais de Saúde por vários motivos como a guerra. colocando ainda em risco de vida as crianças e mulheres que a ela voluntariamente ou involuntariamente se submetem. em território português. É ainda importante mencionar. como já referimos. envolta em mitos. existem por exemplo. por outro lado. crenças e tabús que é necessário entender e contextualizar no ponto de vista antropológico. com especial destaque para as enfermidades do foro psíquico. dados constantes dos ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . que chegou a adquirir forma de projecto-lei e que. residente no bairro da Quinta da Vitória .Portela. Por outro lado. No que diz respeito à população hindú proveniente do Gujarati. tendo em conta a importância do trabalho em parceria com as associações de imigrantes e seus lideres religiosos. relativizando o próprio relativismo cultural. levando a medicina ocidental a integrar o valor da medicina tradicional. a pobreza ou as políticas governamentais. é necessário ter em conta a importância das curas tradicionais praticadas pelos curandeiros. sobretudo nos países africanos. que existem de facto fragilidades de saúde directamente relacionadas com as comunidades imigrantes. infelizmente tem estigmatizado grande parte da população guineense residente em Portugal. tanto pela importância que estes indivíduos têm no universo simbólico dos contextos etnográficos. deve ser alvo de uma apreciação profunda por parte dos antropólogos. Do ponto de vista cultural. condicionam as atitudes dos imigrantes perante a doença. pois se por um lado. a Mutilação Genital não deve ser analisada fora de todo o contexto cultural e ritual que a justifica. deverá ser abordada como uma prática que põe em causa a própria saúde sexual e reprodutiva da mulher. Passamos a referir apenas algumas: no caso da população de origem africana. reconhecendo a profunda sabedoria que os curandeiros possuem sobre o uso das plantas para fins terapêuticos. É pois necessário abrir o leque de conhecimentos e de práticas médicas. a ausência de hábitos de prevenção da doença. sabemos da relevância da tuberculose (muito associada a situações de pobreza e carências alimentares por exemplo) e do HIV – Sida e da necessidade de combater esta pandemia. como pelo facto de muitas vezes serem estes os únicos detentores do poder da cura reconhecidos pela comunidade. levando-os a interagir com a medicina ocidental apenas em situações de emergência.5 de comunicação social pelas razões mais perversas.

visa o combate determinado da gravidez na adolescência. Segundo os médicos que ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . originam problemas cardíacos. considerado pelos especialistas da medicina ocidental como um indicador que é imperioso combater. promover de forma sistematizada investigação aprofundada do ponto de vista da antropologia da saúde. como se relacionam entre si. Um dos vários objectivos no campo quer da intervenção clínica. Onde se localizam. seria interessante promover a investigação voltada para os seus hábitos de saúde relacionados com as práticas das terapias orientais e obviamente. como são as suas estruturas familiares. e álcool em excesso. Condições de habitabilidade deficientes. as suas práticas relativas à saúde e à doença e a sua expectativa de vida aqui em Portugal. com quartos de pensão sobrelotados. metodologias e estratégias de intervenção comunitária. tendo em conta a chegada de novos imigrantes com características sociais e culturais diferenciadas. sobre o modo de vida destas comunidades em território nacional. ou de dependência das mafias. presente em todas as cerimónias e rituais praticados frequentemente por aquela comunidade (o açúcar é associado simbolicamente à fertilidade e abundância). gratuita para toda a população.6 estudos da morbilidade efectuados pelo Centro de Saúde de Sacavém que dão conta de uma alta incidência de diabetes naquela população. problemas dentários. esta doença é devida ao consumo excessivo de açúcares. Relativamente aos imigrantes de origem oriental. Contudo. havia muito pouco trabalho desenvolvido na promoção de estilos de vida saudáveis. alerta para a necessidade de se constituírem equipas multidisciplinares sempre que se definam objectivos. Em parte. tabaco. Apesar de sabermos que as ex repúblicas soviéticas tinham uma política generalizada na cobertura da saúde. Quanto aos imigrantes oriundos de leste. Sabemos através de resultados empíricos realizados por técnicos de saúde das autarquias que. os seus referentes culturais e em particular. em condições promíscuas e pouco higiénicas. colesterol elevado. ainda muito pouco se aprofundou sobre as práticas e o estado de saúde destas populações. mais próximo do campo específico da saúde. tensão alta. muitas vezes indocumentados. distúrbios mentais. a fragilidade no campo da saúde está sobretudo relacionada com o stress provocado pela sua condição de imigrantes. quer nos projectos de educação para a saúde que envolvam adolescentes imigrantes de origem africana. será necessário realizar outras investigações para o desenvolvimento e implementação de projectos científicos adequados. Ainda um outro exemplo.

Preferencialmente. São elas: tuberculose. fazendo uso de uma linguagem comum e dos mesmos referentes simbólicos. deverão também ser elaborados em parceria com homens e mulheres da comunidade.7 intervêm nesta área. Para perceber este ou outro fenómeno da mesma natureza. hepatite. (homens ou mulheres) e eventualmente os líderes religiosos. é necessário contextualizar a saúde e a doença no campo cultural. hipertensão. ou quando a opção por engravidar está mais relacionada com uma estratégia de sobrevivência afectiva num contexto de exclusão social. em segundo lugar a participação de cientistas sociais em particular de antropólogos e obviamente dos próprios profissionais de saúde – médicos e enfermeiros. é contribuir ainda mais para a desestruturação social e psicológica das comunidades e dos indivíduos de origens etnográficas diferentes. Há pois que saber distinguir as diferentes situações. violência doméstica. pode surgir quando a constituição física da jovem ainda não atingiu a maturidade biológica que lhe permita ter filhos sem por em risco a sua própria saúde física e mental. dentro destas ainda se podem destacar os anciãos. etc. sida. sobre auto-estima. a participação de representantes das próprias comunidades locais – aqui as associações de imigrantes têm um papel fundamental quando existem. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . doenças do foro mental. Não é de estranhar que nos bairros de imigrantes onde se faz intervenção comunitária. são sempre diagnosticadas características recorrentes. é necessário contar com a contribuição de diversos especialistas: em primeiro lugar. hemoglobinopatias. a gravidez na adolescência pode não ser um problema para diversos contextos culturais onde os sistemas de parentesco estão dependentes de alianças em que a rapariga assume desde muito jovem o compromisso de procriação. integrando saberes diferentes e envolvendo-os nos projectos de saúde institucionais porque. diabetes. são muito raros os casos que se podem considerar de sucesso. consumo de droga e. referentes às doenças com maior incidência. alcoolismo. A verdade é que em concreto. de informação sobre saúde. esclarecendo também eventuais estereótipos criados pela sociedade ocidental que podem colocar em risco projectos de promoção da saúde sexual e reprodutiva. anti-concepção. O problema contudo. estes projectos orientados para a intervenção directa no campo da saúde. impor a alteração de padrões culturais e de normas de comportamento de forma desajustada. adaptando-os a novas realidades. tinha. Para além de uma abordagem no campo social.

Porquê? Em primeiro lugar porque o crioulo não é por enquanto. mas também a procura de estilos de vida alternativos como possível resposta às novas (velhas) angústias. A população crioula letrada. numa sociedade que também ela atravessa uma profunda crise de valores identitários? Podemos ainda acreditar na justiça? E na educação? E na saúde? Como poderemos exigir às populações imigrantes que assimilem e adeqúem comportamentos e atitudes sociais nos quais uma grande parte dos portugueses tem dificuldade em acreditar? Entre a população portuguesa. um folheto em crioulo para alertar a população africana em geral. sobre os perigos da sida e a forma de evitar comportamentos sexuais de risco.8 O que dizer do surgimento excessivo de perturbações mentais entre os imigrantes e refugiados. ONG’s e IPSS’s de forma a adequar as intervenções e projectos de saúde directamente dirigidos às populações imigrantes. É em português ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . a sua aceitação foi quase nula. tendo em conta os conhecimentos adquiridos com base no trabalho de campo e observação participante realizada junto às diferentes nacionalidades e particularidades étnicas. ou. tornando-os ainda mais vulneráveis? Como estranhar o comportamento agressivo e os actos de vandalismo de alguns jovens de origem africana mas frequentemente já nascidos em Portugal? Não terão eles também perdido a sua própria identidade. Ainda apelando à necessidade de enquadramento de Antropólogos em Autarquias. No entanto. entre a população alvo. Centros de Saúde. com as suas próprias hierarquias e sistemas de valor simbólicos. aumentam também cada vez mais as depressões. escreve e lê em português. sabendo que muitos indivíduos provêem por vezes de países em guerra prolongada e pobreza extrema. pior ainda: será que alguma vez a tiveram. Darei um exemplo: – Aqui há alguns anos. espartilhados por uma África que nem conheceram e um Portugal que nada lhes diz e que lhes recusa a nacionalidade portuguesa apesar de terem cá nascido? Porquê a existência de gangs? Não será eventualmente esta a resposta a uma necessidade de identificação grupal. ou de comportamentos aditivos com recurso ao álcool ou a alucinogéneos. As intenções de dito folheto eram de facto as melhores e o mesmo teve bastante aceitação tendo sido considerado muito original – sobretudo pelos outros técnicos envolvidos na divulgação do referido folheto. foi feito numa Câmara Municipal. os cancros. uma língua que se escreva ou que se leia com frequência.

Em segundo lugar. ainda que seja médico. Aprofundando mais as razões que levaram a essa situação e contactando mais de perto com as famílias e com indivíduos dessas comunidades culturais. interiorizadas. tendo em conta que os seus percursos identitários são mutáveis e bem ou mal. vindos dos países africanos que. porque existe uma grande variedade de crioulos. No entanto. quando transpostas para a necessidade de sobrevivência dos indivíduos imigrantes. Logo. Frequentemente. não dá legitimidade a um estranho à família. Outro caso. considero imprescindível valorizar os códigos culturais próprios de cada grupo. ficam diluídas. para que cuide de si e muito menos que invada a intimidade do seu próprio corpo. veio-se a constatar que as razões para essa recusa. residiam precisamente nos tabus do corpo. ficavam a residir em casa dos seus filhos e aí permaneciam todo o dia sozinhos. estavam a chegar cada vez mais idosos. É por estas razões que acabei de expor que. Mas também considero importante que os Antropólogos olhem urgentemente para as realidades dos imigrantes aqui residentes. integrando os saberes destas comunidades e envolvendo-os nos projectos de saúde institucionais. surgiu uma Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS) que tinha a valência de Centro de Dia para idosos. e apesar da oferta insistente dessa instituição na comunidade. esse folheto só atingiu uma minoria insignificante de população que teria entendido perfeitamente a mensagem em português. Apesar de normalmente a população desse bairro ser maioritariamente jovem. agora relacionado com os tabus do corpo: Num dos bairros de realojamento de imigrantes em Loures.9 que se escrevem as cartas para a tia ou para a avó que ficou em Cabo-Verde. as características culturais de uma determinada etnia em Angola ou na Guiné. rapidamente adaptáveis às condicionantes impostas pela sociedade receptora. no contexto de um bairro de realojamento e face à pressão exercida pelas instituições portuguesas. e com grandes carências e fragilidades na saúde. relegadas para a privacidade do espaço doméstico ou religioso. Esta necessidade tinha sido de facto identificada nas reuniões do Projecto de Intervenção Comunitária que se realizavam no bairro. de cada etnia. em que cerca de 90% da população é de origem africana. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . os serviços eram sistematicamente recusados. que disponibilizava técnicos especializados para prestar assistência domiciliária. Um idoso ou idosa africana.

Exclusão Social. Lisboa. Coimbra. Jorge Macaísta. Celta. Fernando. all). Integração e a Dimensão Política da Cultura. Colibri. 1996. CARMO. José Machado (et all).Ed. sabendo contudo que não basta nem OBSERVAR. Rotas de Intervenção. Lisboa. Marc. racismos. Universidade Autónoma Metropolitana. 2006. all). 1996. Introdução a uma Antropologia da Sobremodernidade. para poder PARTICIPAR e INTERVIR de forma útil na melhoria da qualidade de vida e em particular da saúde das várias comunidades de imigrantes residentes em Portugal. decidir se está disposto a intervir nestes contextos migratórios. nem submeter-se pacificamente às regras. 1998. KHADIYATOULAB. México. Champ Multiculturel. ao Antropólogo. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . 90º (ed. Imigrantes na Região de Lisboa. VERMEULEN. Manuel Villaverde e Pais. Direcção Geral de Saúde. 2005. Lisboa. Rocio Gil Martínez de. Poder local e Exclusão Social. 2004. 2000. Não Lugares. 2005.. Hacia la Construcción del Bienestar y del Desarrollo Comunitário Transnacional. ISCSP.) BARRETO. Hans. Ministério da Saúde.10 Cabe a ainda a meu ver. os Anos da Mudança. Globalização e Migrações. ou paternalismos das instituições onde se enquadra profissionalmente. burocracias e estereótipos. Lisboa. Plano Nacional de Saúde. Práticas Culturais e Atitudes Perante o Corpo. L’Harmattan. Lisboa. Edições Colibri. Hermano (et. Fronteras de Pertenencia. 2003. Transactions Interculturelles. Socinova . Paris. Condutas de Risco. Fall. Referências Bibliográficas: AUGÉ. ESCOBAR. Quarteto Editora. Imprensa das Ciências Sociais. CABRAL. Imigração. Universidade Técnica de Lisboa. MALHEIROS. RUIVO. Lisboa. António (et. 2001.

não produz homogeneização.com Porque é que os jovens Bijagós do centro urbano de Bubaque acham cool andar de gangas. Consumo. Guiné Bissau. mais especificadamente no único pequeno centro urbano do Arquipélago. viso contribuir ao debate sobre as dinâmicas entre local e global. óculos de sol e estilos. Palavras-chave: Globalização. esquecendo a preocupação com uma fictícia autenticidade e negando uma formulação rígida da identidade e do sujeito. ultrapassando a dialéctica entre resistência e homogeneização. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . a Praça funciona . com mais o menos 2000 habitantes permanentes. mas pelo contrario é utilizada nos contextos locais para produzir novas diferencias e distinções. chapéu de baseball e ténis? A partir destas questões da minha experiência de pesquisa na Guiné-Bissau. roupas. com jovens rapazes. Estas reflexões têm a sua origem em uma pesquisa efectuada na ilha de Bubaque. onde não só Europeus e Bijagós se encontraram e se encontram. sede da administração colonial da Região: é uma zona de contacto. Sem negar as estratégias geopoliticas e as relações de dominação. Bijagós.Valores e ícones da cultura juvenil na Guiné-Bissau: uma abordagem individualista e não-essencialista à dinâmica local/global Lorenzo I. Bordonaro CEAS – Centro de Estudos de Antropologia Social. Jovens. explorar as conexões entre local e global significa na prática etnográfica considerar as ligações que os indivíduos em contextos específicos estabelecem com os significados e os produtos que o seu habitat cultural lhes oferece e que podem escapar uma delimitação espacial precisa. Guiné Bissau. Bem que seja um pequeno centro. segundo dinâmicas de migração rural/urbana bem conhecidas 1 Originalmente tratava-se de um posto construído pelos Portugueses. mas também onde Guineenses de outras regiões e comerciantes de diferentes nacionalidades exercem as suas actividades.no âmbito restrito do Arquipélago . A minha intenção nesta comunicação é a de explorar a relevância e a pertinência do conceito de ‘estilo cultural’ (um noção que pertence mais aos Cultural Studies do que à antropologia) para descrever a cultura juvenil urbana em África ocidental. chamado familiarmente Praça 1 . salientando como a circulação de modas. Lisboa lo_bordonaro@hotmail. Arquipélago dos Bijagós.como um íman para os jovens das ilhas.

ténis de marca. Ora bem. Em termo gerais.2 em África. Ser cool não é só vestir gangas. Um dos aspectos mais sobressaliente dos jovens que vivem neste espaço são as suas narrativas modernistas. e das práticas de consumo em geral. caracterizadas pelas oposições próprias da ideologia da modernidade. as roupas. ficaria surpreendido para o cuidado com quem rapazes e raparigas se vestem. Definindo-se a si mesmos como “desenvolvidos”. os jovens da Praça contrapõem-se ao mundo das aldeias. as mais recentes leituras antropológicas interpretam a moda como uma prática social que visa à formulação e a expressão da identidade e a significação de diferenças sociais. todos respondem a uma estética. como também um lugar de acção social e política. A relevância dos hábitos. se adornam: as atitudes. considerado com desprezo como atrasado. os corte de cabelo. um estilo que os rapazes chamam cool. Em particular. urbanos. De facto a Praça tem atraído nos últimos anos muitos jovens que queriam abandonar o sistema tradicional de produção da aldeia. Paralelamente ao que acontece em outros lugares em África (Larkin 2000. para o cuidado do seu aspecto segundo cânones que se referem à uma circulação mais ampla de estéticas e atitudes. como temos que interpretar estes aspectos da cultura material? A antropologia já salientou muitas vezes nos últimos anos como estes traços não podem ser facilmente considerados aspectos de um processo de homogeneização devido à ‘globalização cultural’. muitas vezes como primeira etapa de uma deslocação mais definitiva para Bissau. chapéu de baseball e absurdos óculos de sol nas escuras noites de Bubaque. para a constituição e como ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . a estética do cool em Bubaque tem muito a ver com ícones de sucesso global da cultura negro-americana. de falar. criativa e crioula. de tratar com as meninas. nomeadamente a cultura do hip-hop. quem desse um passeio na Praça de Bubaque no Sábado a noite. educados. mediada e reinterpretada por os artistas da cena musical Africana e Lúso-Africana em particular. Weiss 2002). Estas interpretações tristo-tropicalistas baseiam-se sobre uma ideia de imobilidade e autenticidade das culturas que a antropologia recusou em nome de uma imagem mais dinâmica. a capital do país. Uma das modalidades mais espectaculares de expressão desta diferença. É também uma maneira de andar. é a atenção que os jovens demonstram pela moda. de cumprimentar os amigos. Estas aproximações consideram o vestuário como sinal e como objecto de consumo: um campo de representação social onde identidades individuais e sociais são criadas. primitivo e não civilizado.

adquire um valor especifico e profundamente local. pode ser de facto interpretado como mais um signo de distinção do mundo rural da aldeia que os homens jovens querem exibir no contexto urbano. a subordinação dos jovens aos velhos é um elemento essencial da organização social: tornar-se ancião é um processo complexo que exige a passagem através vários graus de idade e o pagamento contínuo aos membros das classes de idade superiores. conferindo voz e descrevendo em termos reconhecidos uma dialéctica generacional. As roupas são também um sinal de 'civilização' e de 'desenvolvimento'. são compreendidas melhor como praticas de distinção do mundo das aldeias e como afirmação de uma identidade urbana e moderna 2 . acho que podemos considerar a pratica do vestir cool em Bubaque como uma forma de apropriação de produtos e imagens com circulação transnacional. rejeitando firmemente o paradigma da homogeneização global. Sem esquecer as geografias ocultas de produção que também fazem parte das relações sociais de consumo. Os rapazes que abandonaram as aldeias para viver na Praça criticam as normas éticas e as instituições “tradicionais” e tentam subtrair-se a estas relações de poder. a cultura da modernidade dos jovens da praça não pode ser compreendida sem referencia à estrutura social das aldeias. As suas críticas baseiam-se na contraposição entre dois termos chave: desenvolvimento por um lado e cultura do outro. à moda.3 marca de identidade. A iniciação divide a população masculina em dois grupos opostos: os que já adquiriram o estatuto de homem adulto e os que ainda são “crianças”. as características da cultural juvenil que temos salientado. A contraposição ideológica entre “tradição” e “modernidade”. de autonomia e de autenticidade. De facto. Neste contexto. O cuidado pela moda. e movendo para o um paradigma da crioulização. foi também considerada produtivamente pela antropologia do consumo. nós denegrimos as capacidades criativas e expressivas das pessoas de apropriar-se e de usar bens estrangeiros para o próprio propósito. evidente nas palavras dos jovens. 2 Mas para perceber melhor é preciso dar alguns detalhes sobre o conflito generacional que opões jovens e anciãos. e portanto não têm acesso à terra e às mulheres. Um dos méritos fundamentais desta abordagem. Segundo esta abordagem. Para a maioria deles a Praça é o lugar onde alguém tem que se vestir correctamente. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . em acordo com estratégias locais de identidade e de distinção social. é que supera a retórica modernista que condena o consumo de produtos globais ou estrangeiros em contextos locais como perca de identidade. de facto. No interior das dinâmicas modernistas. que visa a considerar esta actividade como uma forma de produção cultural e de construção de identidade. manifestando ao mesmo tempo proximidade com o ambiente moderno da Praça. Em particular o conceito de distinção pode dar nos umas pistas importantes. eficaz para marcar o distanciamento dos valores e hábitos da aldeia. é verdade que se nos condenamos o consumo como emulação ou imitação. quase um palco da modernidade.

o que eu quero propor aqui é a possibilidade de uma interpretação original deste tipo de características culturais. Sem fazer referências aqui aos que salientaram a função de distinção de algumas prática de consumo (nomeadamente Veblen 1998 e Bourdieu 1979). A noção de estilo cultural pode então oferecer uma solução original ao problema da definição de modernidade local e nesta direcção já foi utilizado por James Ferguson na Zambia (Ferguson 1999). mas produzida por essas mesmas práticas em um contexto social. O texto fundamental desta abordagem é Subculture: the meaning of style do Dick Hebdige (1979). Eu percebi que esta coisa é ma. uma aproximação sociológica à moda e às práticas de consumo que realça a sua relevância quer para marcar e elaborar um estilo de vida distinto. Assim foi à Praça. alguém fica na rua com o traseiro de fora. Segundo esta abordagem. E vi algumas pessoas. De facto. não tem a ver nem com o fim da tradição face ao avançar da modernidade. onde a noção de estilo como ‘prática significante’ 3 é proposta para explicar como a diferença é activamente produzida e utilizada em uma sociedade. Comprei a minha roupa. colegas. em direcção de uma aproximação performativa e prática às identidades sociais. como eles se vestiam… as vezes na aldeia. foi proposto nos anos Setenta pelo Center for Contemporary Cultural Studies na análise das sub-culturas juvenis no Reino Unido. bem como para a construção da diferença e a produção de identidade. vender mangas. Eu percebi que não é uma vida boa porque eu vim na Praça. um rapaz de 17 anos que entrevistei em Bubaque.4 Xarife. no seu significado local. a noção de estilo como prática significante pode também nos oferecer explicações alternativas e não-essencialistas sobre como a diferença não só é significada e marcada. se utilizarmos um conceito que não é propriamente antropológico: o de ‘estilo cultural’. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . voltei para a aldeia. deu-me um relato extremamente significativo neste sentido: Mas ao final eu percebi que aquela vida [na aldeia] não é uma boa vida. então fui para a aldeia e percebi que não era possível viver assim para um ser humano. realizadas (enacted) 3 The notion of signifying practice was initially elaborated in France by the Tel Quel group. como eles se vestiam (é ta bisti). o contraste entre ‘moderno’ e ‘tradicional’. e eles olhavam para mi com admiração. vi os meus colegas. nem com a imitação de uma cultura hegemónica. vesti os meus vestidos na aldeia em frente dos meus colegas. são duas práticas simbólicas socialmente posicionadas. Moderno e tradicional. Vim na Praça. Aliás.

É uma competência performativa que tem que ser aprendida e interiorizada: é uma estratégia de sobrevivência em uma situação de poder tensa. um processo motivado de auto-construção: é neste sentido que poderíamos utilizar uma ideia de cultivação de estilo. no horizonte. enfatizando o caractere consciente. que vê por um lado os anciãos na aldeia. As pessoas sempre vivem naquela área posicionada entre a lógica microsociológica da situação social e as estruturas globais e regionais da economia política. Os jovens do Praça não eram actores que ao fim do espectáculo tiravam os seus chapéus de baseball. E é em relação a estes fantasmas que. e os ténis Nike para voltar a vestir uma máscara cornuda e tornar-se novamente 'verdadeiros' Bijagós de aldeia.no sentido que nós geralmente damos a este termo . executadas com êxito’ (Ferguson 1999: 98). os fantasmas da Europa e do Ocidente. um estilo é claramente pelo menos em parte uma actividade. um aspecto importante da cultura material dos jovens. O estilo cultural é uma capacidade de utilizar e manifestar signos em uma maneira que posiciona o actor em relação a categorias sociais relevante. os óculos de sol. um processo em parte consciente como também inconsciente. que envolve quer uma deliberada auto-construção quer determinações estruturais. mas que se trata de ‘práticas encarnadas.5 em uma conjuntura social e político-económica específica. deixando espaço para identidades mais autênticas. construído e cultivado dessas práticas. A atitude cool dos jovens. Afirmar que modernidade é uma questão de estilo não significa dizer que é uma questão de possuir um certo tipo de vestidos. na qual as pessoas improvisam estratégias duráveis e motivadas de auto-construção e apresentação.e que o seu teatro terminava ao fim do dia. por outro o Estado pós-colonial. pode bem ser considerada como um aspecto de um ‘estilo cultural’ em quanto conjunto de práticas que significam diferenças e alianças entre as categorias sociais. não podem não ser ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Isto não significa claro que os jovens recitavam . Ser cool para os jovens em Bubaque não é simplesmente um estilo que se pode mudar ou adoptar ao acaso. em conclusão. Embora seja verdade que um estilo não é o resultado exclusivo de escolhas individuais e que as pessoas também são limitadas em parte por condicionamentos económicos e sociais. e. Não se trata de manter que os indivíduos flutuam livremente num oceano de signos que eles podem apropriar e utilizar a vontade para se construir uma identidade ad hoc. da qual as roupas também fazem parte.

Methuen. um aspecto que nos permite de adicionar mais uma perspectiva à puramente semiótica até agora salientada. Thorstein. La distinction. Brad (2002). London. Prometheus. questionar e investigar a origem do valor destes aspectos da cultura material. 1979. fascinados e seduzidos pela materialidade das coisas. Les éditions de minuit. 1. Amherst (NY). Myths and Meanings of Urban Life on the Zambian Copperbelt. HEBDIGE. Expectations of Modernity. que a investigação sobre a cultura material tem que focar a sua atenção.6 salientado. 1999. The Theory of the Leisure Class. VEBLEN. Cultural Anthropology 17(1). Cahiers d’Études Africaines. Pessoas com um gosto. um sentido da beleza. Critique sociale du Jugement. University of California Press. LARKIN. “Bandiri Music. Referências bibliográficas BOURDIEU. Subculture: The Meaning of Style. Paris. James. com a qualidade material das coisas em si. 93-124. 168 (XLII-4): 739-762. 2000. “Thug realism: inhabiting fantasy in urban Tanzania”. WEISS. 1998 [1899]. mais criticamente. pelo seu caracter estético. 1979. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Esta abordagem nos permite por um lado dar uma imagem mais concreta e realística dos jovens. mas tem também a ver com fascinação e sedução. questão que não acaba de suscitar debates. na articulação e na dialéctica entre apropriação e sedução. Brian. FERGUSON. Berkeley. Globalization and Urban Experience in Nigeria”. A relação que os jovens têm com a materialidade das coisas não é só puramente semiótica. Dick. Por outro lado nos permite. que não são só actores sociais cientemente utilizando signos de distinção. Pierre. Acho que é exactamente neste ponto. mas indivíduos vivos.

Universidade Fernando Pessoa.IV – Capítulo Processos de Integração Social e Económica de Imigrantes Textos de comunicações do painel: Processos de Integração Social e Económica de Imigrantes Alcinda Cabral. Centro de Estudos de Antropologia Aplicada. Porto ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .

éticos. sociedade. Neste contexto. Fusões. Most of these changes are related with deep modifications in the value systens. para tanto. encompassing the integration of all activitis related to the social vlue system. In the last years the world economy has been changing deeply. A busca da competitividade relaciona-se cada vez mais com a busca do ótimo sistêmico das fronteiras da cidadania. affecting all society. Antropologia Jurídica. Introdução Pertinente aos imigrantes brasileiros em Portugal. a sociedade que o acolhia não solicitava a adesão a seus valores.Porto Portugal carlosluizjr@terra. Palavras-chave: Antropologia. Fusions. envolvendo a integração de todas as atividades ao longo cadeia de valores sociais. De inicio a figura do imigrante encontrava-se relacionada à figura de trabalhador. importante traçar-se panorama deste individuo pertencente a este coletivo com o intuito de se proteger com políticas públicas efetivas a devida integração na sociedade que o acolhe sob vários enfoques. as ciências humanas ganham nova dimensão.br Nos últimos anos a economia mundial tem sofrido mudanças importantes. Parte considerável destas mudanças relaciona-se com profundas alterações nos sistemas de valores de todos os segmentos sociais. Imigração. The search for competitiveness is more and more concerned with the search for the optimal systemic beyond citizenship frontiers. ethical. não integrando de forma plena e efetiva aquele ser humano oriundo ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . em especial ao que tange a função desempenhada por este cidadão no mercado laboral. aquisições e alianças estratégicas têm se multiplicado. jurídicos e comunitários. juridique and with your community. Por este motivo.com.Centro de Estudos em Antropologia Aplicada .Cidadania e o Homem: construção de uma sociedade integrativa Carlos Luiz Cerqueira Junior CEAA . Cidadania. the human sciences gains a new dimension. Existia. a convicção de que voltaria ao seu país de origem uma vez que sua atividade laboral se findasse. Within this context. acquistions and strategic alliances are multiplying everywhere.

Diante de tais fatos. equânime e legal do Estado e da sociedade acolhedora.2 de outra cultura. económicos e financeiras não esgotam a pluralidade de motivos propulsores do evento migratório. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . reduzido e heterogêneo. assim como delinear seu estado cidadão. qual seja. Nas sociedades modernas tem-se obtido relevo a questão associada aos fluxos migratórios da humanidade. I. deseja-se demonstrar o perfil do imigrante brasileiro em terras portuguesas. cujos factores sociais. em especial àquela migração evidenciada no sentido sul-norte. Assim. interagindo com a sua comunidade no intuito claro de trazer-lhe melhoras e benfeitorias. vai se convertendo em definitiva. Esses fluxos têm-se alterado em dimensão e direção de acordo com as fases de transição económicas. da nacionalidade e do estrangeiro. relacionando os factores endógenos do país de origem em face da perspectiva de construção de vida digna e construtiva. imprescindível situarmos a questão relativa à política migratória travada entre Portugal e Brasil nos últimos anos. o Estrangeiro e sua Política de Integração Diante do panorama atual. que invariavelmente desenvolvia atividades para aquela comunidade receptora. traduzindo a função social e política do homem – a esta função se atribui o caráter necessário da delimitação da importância da cidadania como fonte primária desta pretendida estabilidade a que o homem pretende e deseja. seus modos e seus projetos de inserção nesta comunidade tão parecida e ao mesmo tempo tão distante dos hábitos imigrantes. onde se inclui a discussão da ciência em proveito do desenvolvimento social e humanitário. e sobretudo da discussão acerca da cidadania. fundamentalmente. ou seja. Todavia. enquanto fator propulsor de desenvolvimento local. aos quais se refere como transição migratória histórica à demográfica econômica. desde o momento que sua permanência no país recorrido. Este primeiro grupo que emigra era. em particular ao nosso estudo Portugal. A Cidadania. a aceitação do outro sob o olhar justo. encontrando respostas para o dilema hoje vivenciado na antropologia jurídica. Brasil-Portugal. imprescindível saber o efetivo conceito da importância do ser humano.

uma política dualista. a procura de profissionais cuja qualificação se amolda aos padrões internacionais. A isto se deu pelo fato da crescente isenção estatal em desenvolver políticas determinadas de identidade cultural e social do seu povo. em face dos acontecimentos políticos e sociais à época evidenciados. com políticas de identidade cultural. permitindo a aproximação cada vez mais freqüente da cultura local com o estrangeiro. através dos quais quase um milhão e meio de pessoas (IBGE:2004) estão chegando anualmente à Europa e América do Norte. cabendo ao país receptor (Portugal) analisar as questões pertinentes ao grau de escolaridade. em busca de atividades acadêmicas enriquecedoras. ao passo que evidenciamos a ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . cujo país submergia em profunda crise política junto ao uma falta de perspectiva de crescimento sócio-económico. leva-se em consideração a clara aparência de culturas. muitas vezes opondo-se aquela a esta. social e educacional em franco declínio no país. região escolhida para fixar residências e outros critérios de aderência do imigrante. Observa-se. Tais estudos deram inicio na década de 40 (quarenta) quando se efetivou a corrente migratória a Europa. outros recursos não restaram aos cidadãos senão buscar no estrangeiro à sustentação financeira.3 O aparente paradoxo dos fluxos migratórios mais recentes. cujo contexto de crise de estrutural nos países de destino impulsiona à procura por outras culturas. demonstrando determinado enfraquecimento da conjuntura educacional interna brasileira. Diante deste cenário. língua e identidade antropológica referente ao caminho sul-norte. Após o advento da II Guerra Mundial. notadamente o Brasil. o Brasil ingressa no circuito das migrações internacionais. justificando a imigração sempre temporária. se não poderia o estado criar e sustentar vias de acesso à manutenção da ordem interna. a ruptura do conjunto econômico-social na Europa estimulou a imigração de mão-de-obra menos qualificada. corroborada pela falta de perspectiva de desenvolvimento sustentável nos países de emigração. qual seja. diversos estudos foram realizados em Portugal e em Brasil. Acerca dos assuntos. portanto. sempre em busca de melhor avaliar as correntes migratórias firmadas entre os dois países. aqueles na direção SulNorte. apresenta-se por fator determinante o aspecto social e econômico.

A saber. vejamos. Estudos recentes realizados pelos dois países demonstram duas categorias efetivas de migração. levando-se em consideração os diversos fatores externos que influenciam na reestruturação destes estatutos. Passados alguns anos. programas e estatutos que evidenciam a esta política humanitária. cujo efeito imediato foi o reexame das políticas bilaterais com o Brasil visando à adequação da legislação lusitana àquelas impostas pelo pacto comunitário europeu. mesclando seu conhecimento adquirido com a vivencia em novas culturas. havendo clara formulação de estudos. Todavia.4 procura especial por Portugal pelos menos qualificados. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . referente aos profissionais de formação técnica e científica. duas correntes diferentes. primeira. observamos a existência de dois mundos distintos e paradoxais. perspectivas laborais e inclusão social. modernamente se tem um espelho efetivo das correntes migratórias entre Brasil e Portugal. cujas causas e razões estimulantes à migração se distanciam de forma latente. em especial a inclusão do cidadão e do estrangeiro frente à nova ordem mundial – a globalização e os mercados comunitários. cujo interesse nos países desenvolvidos se amoldam na busca de qualificação profissional e acadêmica. em face dos constantes estudos realizados. Assim. consubstanciando a sua migração em busca de novos mercados. em face da semelhança de cultura. ainda continua reflexo da irmandade cultural. embora se tenha em mente as adversidades tratadas. não podemos deixar de citar aquelas pertinentes a OPLP (Organização dos Paises de Língua Portuguesa) com significativos contributos na formação de medidas de acolhimento do colectivo imaginário desta comunidade lingüística. sempre em busca de equilíbrio das políticas migratórias. a exemplo da própria inclusão de Portugal na União Européia. A segunda. referente às pessoas sem grau de escolaridade e ou econômico satisfatório. vários foram – e ainda são – os Tratados e Acordos bilaterais chancelados entre os citados Estados. língua e costumes colonizadores. racial e lingüística a migração de brasileiros para terras Portuguesas.

importante que se observe o cenário económico e as perspectivas sociais existentes no Brasil. A nível europeu. cite-se a excelente lição oferecida pela ACIME – Alto Comissariado para a Imigração e Minorias Étnicas.5 Pertinente à primeira situação. identificando-se com o país em face da identidade lingüística. acreditando realizar em um novo país as perspectivas frustradas na sua pátria de origem. cujo intuito é diminuir o sofrimento dos imigrantes que partem deixando sua família no Brasil. A isso se dá em face da completa exclusão social do ser humano (do indivíduo) na realidade que o cerca no Brasil. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . palestras. Mesmo diante de situações adversas na política internacional. não lhe restando alternativa senão vender de forma irresponsável a sua força de trabalho em países em troca de tratamento sério e digno as condição de cidadão. natos) e cultural (sociedade diversificada com perspectivas de aberturas de mercado). não se pode deixar de ressaltar o papel das entidades de acolhimento aos imigrantes no esforço em fazer cumprir em território português a legislação comunitária pertinente ao reagrupamento familiar. cujo trabalho realizado orienta com cartilhas. cor e escolaridade. leva o cidadão a busca de novas fronteiras. levando-se em conta. Cabe ressaltar que nem sempre se encontra no país receptor tais políticas dignas e de recepção ao imigrante. ademais. demográfica (povoamento de locais não desejados pelos habitantes locais. buscando a inclusão menos traumática para este individuo na cultua local. Estudo realizado por tal entidade revelou que os imigrantes influenciam e enriquecem a pátria portuguesa frente às questões de ordem financeira (65 mil contos investidos no país. a política de acolhimento do imigrante sem os freqüentes questionamentos de raça. centro de acolhimento e frentes próprias de trabalho e inclusão social. o Estado Português em busca de novas tendências de inclusão local do imigrante tem desenvolvido políticas próprias e sérias para o enquadramento da imigração legal. encontra-se o país envolvido em grave crise de inclusão social ao longo das última duas décadas. A exemplo de tais assertivas. ano base 2004). seguridade social e saúde pública. cujo afastamento das classes menos favorecidas ao acesso dos meios justos e honestos de emprego.

6 Com efetividade a este programa. Diante de tais fatos. não mais deixando na marginalidade os agregados da imigração. emprego e exercício do direito de integração entre os nacionais e os imigrantes. havendo o favorecimento ao imigrante legal que traga ao seio da sociedade acolhedora aqueles entes familiares (cônjuges e filhos) para a formação da entidade familiar. somente no Brasil encontram-se os investimentos portugueses na ordem de bilhões de euros. retribuindo-lhe com o reconhecimento prático da sua força de trabalho. não havendo dessa forma qualquer vínculo e ou relação direta entre a elevação das taxas de desemprego com a corrente migratória evidenciada. buscando na fonte as novas técnicas e meios científicos. eis que as causas de sua busca migratória e a retórica desenvolvimentista. pois. inclusive com investimentos sólidos e altos nos países em desenvolvimento. aqueles que migram em busca de melhores condições profissionais e ou em face do melhor aproveitamento acadêmico em Portugal. De forma distinta. desejando realizar em Portugal trabalhos de aprendizado. qual seja. demonstra-se a urgente necessidade de se delinear o efetivo papel do Estado nas políticas migratórias quando se tem por objeto o imigrante sem qualificação social. buscam os profissionais brasileiros qualificados e ou em vias de qualificação um melhor aproveitamento desta política de investimentos e desenvolvimento econômico. Frise-se que as condições profissionais portuguesas após a sua inclusão no mercado comum europeu se deu de forma alarmante. financeiras e sociais cuja economia local alcançou níveis altíssimos. a ruptura entre desemprego. necessidade de se incluir em uma sociedade plural justa. contribuindo de forma clara na agregação deste ser na comunidade acolhedora. é. colocando Portugal na segunda posição de investimentos internos no Brasil nos últimos cinco anos. que respeita as condições humanas. Outro fator de observação importante na consideração dos imigrantes são aqueles apontados por pesquisas recentes demonstrando a desvinculação entre os índices de violência. com a inclusão de novas perspectivas econômicas. quais sejam. Destarte. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . encontram-se os imigrantes integrantes da segunda categoria ou gênero. violência e usurpação de postos de trabalhos locais pelo imigrante brasileiro. trata-se de questão humanitária de fiel recepção dos familiares. cultural e ou econômica.

adquiridos ou natos. convertendo seu conhecimento em garantias de melhores condições de empregabilidade e inclusão profissional. eis que a sua satisfação migratória se deu em face da necessidade em melhor aparelhar seus currículos e estudos no exterior. próxima dos grandes centros internacionais e integrante do maior e mais rico continente do globo. Posta tais questões. buscando a atualização profissional a ser aplicada no seu país de origem. a exemplo da Constituição Européia que assim o deseja. novas perspectivas em uma pátria rica. desenvolvida e próspera. como são conhecidos nos centros de estudos migratórios. pois estes são inerente dos nacionais. sendo o cidadão aquele ser humano que possui o exercício e gozo dos direitos civis. eis que não possuindo grau de instrução e ou condições próprias necessárias para se fazer incluir em mercado de trabalho ríspido no Brasil buscam em Portugal uma fonte de nova vida. diametralmente oposta encontram-se aquel’outros que migram frente a necessidade de melhorar suas condições humanitárias. a Europa. Vislumbra-se que tais pessoas retornam na sua maioria ao seu país de origem. Assim. ou seja. em face da sua inclusão na sociedade. inobstante a categoria que possa vir a integrar-se. em face da concentração secular de boas escolas e centro de estudo. econômica e laboral do estrangeiro. quer se enquadrem no gênero de imigrante sem a devida escolaridade ou integrante do grande sistema de inclusão social no país emigrante (Brasil).7 De igual sorte encontram-se os profissionais em busca de novas perspectivas acadêmicas. necessário se faz a reflexão sobre a necessidade de se admitir a inclusão social. exceto quanto aos direitos políticos. ai se incluem aqueles que buscam na pátria acolhedora o fortalecimento dos conhecimentos científicos e acadêmicos. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . civil. Sendo o ser humano aquele capaz de lançar-se em busca de novas perspectivas vitais. peculiar interesse têm em desenvolver técnicas de aprendizado e melhor aproveitamento das teses e conhecimentos do velho mundo. do estrangeiro e do individuo. Com referência aos imigrantes acadêmicos. volta-se a se a realizar as constantes indagações acerca da urgente e necessária diretiva acerca da cidadania. consolidando-se como o grande coletivo de imigrantes que povoa o território português. tem a comunidade de imigrantes brasileiros constituído-se naquela que mais cresceu desde o final da década de noventa até os dias atuais.

eis que somente a adoção de políticas adequadas ao reconhecimento da força ativa em proveito da construção da sociedade que o acolhe o cidadão imigrante poderá sentir-se fortalecido o suficiente para aceitar a integração plena. quer na qualidade de vetor imprescindível a este desenvolvimento. trazendo para o conjunto de análises da constituição de uma sociedade integrada o respeito na elaboração de políticas públicas exigíveis no plano da migração. não se pode deixar de auferir que a cidadania é elemento constitutivo da sociedade devidamente instituída e legalmente formada. muitas vezes arrasadores na aceitação do coletivo ante a nova perspectiva de vida por ele sonhada ao chegar na sociedade que o acolhe. buscando no país receptor (Portugal) a pátria que poderá conceder melhor perspectiva de engrandecimento intelecto-social. quer como elemento de desenvolvimento social. em especial a necessidade de cobrança da atuação efetiva e proactiva do Estado e das demais Instituições em favor da formação do Homem? Desta forma. posto que o retrato da democracia nestes países assolados pela falta de investimentos de base e total desrespeito ao homem e a cidadania. sem fazer delinear para com os seus novos compatriotas as diferenças. faz-se indagar: é fundamental diminuir a influência do estado na construção de uma nova acepção sobre as estruturas de um novo regime democrático. ao que tange à formação de uma consciência política e social. Conclusão Tais questionamentos refletem a ligação do homem como reflexo da sociedade na qual se encontrar engajado. Em conclusão. reconhecendo o efetivo ajuste desta sociedade sob ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . atendendo-se aos anseios da cidadania? Qual o retorno. a cidadania do imigrante somente poderá se efetivar quando o Estado reconhecer a necessidade de se desenvolver políticas publicas adequadas à inserção deste coletivo sob o prisma do reconhecimento social via inserção laboral.8 quer sejam aqueles que buscam um aperfeiçoamento no seu grau de enriquecimento humano. democrática. do esforço de se alertar as novas gerações sobre tais questões que preocupam a sociedade moderna. os diminutivos culturais e o temido choque de costumes.

São Paulo. _______ Imigração: os mitos e os factos. Makron Books e PUC – RIO. traçando um panorama plausível na elaboração de meios reais para melhor acolher o imigrante brasileiro em Portugal. Madrid. (1998). ACIME – Alto comissariado para a Imigração e Minorias Étnicas. Los sistemas perversos y la corrupcion institucionalizada. (1986).9 o ângulo do imigrante que se insere na comunidade que o acolhe. Jorge. levando-se em consideração os conceitos básicos de similitude de cultura. ed. Coimbra. (1996). (1997). Coimbra editora. Laércio Dias. Paulos. nomos. edição 2005. Solange. VERGINIÈRES. La doble moral de las organizaciones. Ética. Ética e Política em Aristóteles: physis. VASQUEZ. Referências Bibliográficas ETKIN. MacGrawhill. Rio de Janeiro. RAMOS. Construindo a cidadania. Da Comunidade Internacional e do seu Direito. (1996). Civilização Brasileira. assim como analisando de forma plena as políticas de acolhimento. São Paulo. Rui Manual Gens de Moura. língua e hábitos similares entre tais coletivos. Adolfo. MOURA. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Ethos.

Palavras-chave: imigração.pt Universidade Fernando Pessoa . aborda o modo como o discurso político constrói a integração de imigrantes. Estrutura-se em torno de três itens fundamentais: uma abordagem breve à análise de discurso. as linhas estruturantes das posiçõestipo assumidas em matéria de imigração pelas diferentes forças políticas em presença. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .Porto cramos@ufp O presente texto apresenta o ponto de partida metodológico e as linhas gerais da operacionalização de um estudo decorrente sobre discurso político parlamentar e integração de imigrantes. o projecto procura identificar. uma apresentação de ideias emergentes de trabalhos recentes de análise do discurso parlamentar. Com particular recurso aos debates plenários. integração. Centrando-se no discurso político parlamentar. mas atendendo também ao enquadramento do processo legislativo. nas ciências sociais e política. de forma diacrónica. uma explicitação do plano e pressupostos da pesquisa em curso. discurso político. O presente trabalho.Discurso político e integração de imigrantes: uma análise do discurso parlamentar Cláudia Toriz Ramos Centro de Estudos de Antropologia Aplicada . mas também a forma como essa dimensão se cruza com o pragmatismo político-institucional. análise de discurso. no actual contexto político português. o trabalho abordará não apenas a dimensão da construção ideológica associada ao discurso de cada uma das forças políticas representadas no Parlamento português. parlamento. nomeadamente nas vertentes da discussão e tomada de decisão legislativa e do controlo da execução de políticas. a decorrer no âmbito do projecto Processos de integração social e económica de imigrantes do Centro de Estudos de Antropologia Aplicada da Universidade Fernando Pessoa.

tais abordagens subdividem-se numa pluralidade de práticas investigativas. 2001. Daí decorre também a análise das interacções inerentes ao diálogo entre os falantes e. não necessariamente contínuas entre si (Wetherell. 2001.2 Esta comunicação corresponde a uma notícia preambular sobre essa perspectiva de abordagem à problemática da imigração. Se abordados os suportes teóricos e filosóficos dos diversos modos de análise do discurso encontra-se também uma pluralidade de posicionamentos. deve ser colocada. Ao presente. terão a acepção de que o discurso é parte da acção social e como tal pode ser estudado. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . por relação com o âmbito teórico e temático da antropologia. o terceiro. no quadro teórico e metodológico das ciências sociais e política. para os objectivos do presente trabalho. 2001a). a linguística. Em comum. a psicologia social. que não caberá. referir. no âmbito dos estudos de ciência política sobre discurso político parlamentar. mas sim o plano que para ela foi gizado e a sua razão de ser. o segundo. não se pretende apresentar resultados. uma explicitação do modo de operacionalização da presente pesquisa. sobremaneira. centrada no modo como o discurso político parlamentar constrói a integração de imigrantes. 2001a). Taylor e Yates. a antropologia. mas também a sociologia. de forma mais lata. para o contexto parlamentar português e para o tema da imigração. corresponde a um vasto campo de estudo que toma o discurso – oral e/ou escrito – como objecto. A análise do discurso político A análise de discurso. uma apresentação de ideias emergentes de trabalhos recentes de análise do discurso parlamentar. a ciência política e as ciências da comunicação usam de forma recorrente a análise de discurso. um breve apontamento acerca da análise de discurso. Estando esta abordagem na sua fase inicial. Esta linha de estudo. Taylor e Yates. Do ponto de vista metodológico. sendo assim este um contributo transdisciplinar. do contexto social do discurso (Wetherell. O texto que se segue estrutura-se em torno de três itens fundamentais: o primeiro. do ponto de vista disciplinar. encarada na perspectiva das metodologias de investigação das ciências sociais.

Ver. porque. enquanto construção mental ou realidade ideada. 2002). em diversos âmbitos da ciência política. a abordagem ao discurso é entendida essencialmente como uma metodologia. 1997. Rosamond. Neste sentido. na tomada de posições públicas. Poder-se-ia dizer que a política democrática começa no discurso e por vezes mesmo nele se finda (Chilton. Definem-se. Diez. 2001. Isto é. traduzido). no entanto. Em alguns casos. as percepções e as crenças dos sujeitos.3 A análise do discurso político é. Hansen. numa perspectiva ligeiramente diferente. em sentido lato. também uma abordagem em expansão. independentemente de referenciais de verdade ou falsidade. 1 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Por outro porque. na captação de adesões. 1992) específicas do âmbito da política. construídas através do discurso. As abordagens ditas cognitivistas tenderão a procurar aplicar parâmetros de verdade ou falsidade ao discurso. 2001. a acção política é o próprio discurso (Chilton. em declarações públicas as estruturas e os padrões que regulam o debate político fazendo com que algumas coisas possam ser ditas enquanto outras seriam sem sentido ou menos fortes. Chilton (2004: 21). Todavia. a palavra assume um papel nuclear na explicitação de ideias. e ao contrário do que o senso comum frequentemente afirmará sobre o mesmo. Hansen. considerando-o interessante por si próprio. Waever. nos planos teórico e metodológico. 2006). 2004: 6. ressalvando-se a sua maleabilidade a diferentes abordagens teóricas de fundo. Por um lado. considerando-o circunstancial ou mesmo Também em Waever: «…a linguagem é um sistema e podemos estudar a sua estrutura como um estrato separado da realidade» (2002: 29). Outro aspecto salientado pelo autor é o das características de sistematicidade e coerência do discurso político. cujas características cabe analisar. a análise de discurso pode centrar-se “apenas” neste. 2004: 6). na argumentação e contra-argumentação de causas. nos paradigmas construtivistas e pós-estruturalistas aplicados à ciência política (Adler. por relação com o pensamento. É corrente que tais análises se centrem no estudo das “estruturas de sentido”. assim. no contexto da política democrática contemporânea. ou pouco razoáveis (2004: 199. 2006. “comunidades de discurso” (Porter. Waever afirma 1 : A análise de discurso procura identificar. Muitos dos estudos recentes baseados nesta abordagem filiam-se.

1995. 2001: 19-20) 2 . que procuram identificar padrões de conjunto do quadro conceptual do discurso político. entre outros: os de Siegfried Jäger. da retórica. em cada domínio. da gramática. embora com terminologia algo diferente. traduzido). Veja-se por exemplo a afirmação de van Dijk: Para lá da descrição ou de aplicações superficiais. sobre os discursos de extrema direita na Alemanha (2001: 32). em associação com a ideologia e as relações de poder (Fairclough. os de Reisigl e Ruth Wodak (2000. Tirar daí consequências para a acção política é assim intenção expressa. Em vez de focar problemas puramente académicos ou problemas teóricos. este revela uma estruturação interna sólida e continuada. por enquadrar técnicas de análise linguística. mas também uma larga análise de contexto. Wodak e Meyer. 2004: 201). Esta escola tem desenvolvido o seu trabalho com relação com a “teoria crítica” e assume posicionamentos normativos. São exemplos de estudos desenvolvidos nesta perspectiva. nomeadamente do político. procuram descrever e explicar o padrão específico dos sistemas de linguagem e da comunicação verbal» (2001: 19-20. e os que têm os meios e a oportunidade de resolver esses problemas (cit. centradas em técnicas linguísticas de análise detalhada do texto (Waever. O autor contrapõe abordagens “macro”.4 errático. O autor afirma: “Os analistas do discurso estarão mais frequentemente interessados em perceber como um político argumenta do que estarão interessados no que ele diz. Uma outra linha de abordagem define-se no quadro da chamada “análise crítica do discurso” a qual conjugará ambas as dimensões. Meyer afirma: «As teorias do discurso visam a conceptualização do discurso enquanto fenómeno social e procuram explicar a sua génese e a sua estrutura. Do ponto de vista metodológico este modelo de abordagem releva mais da hermenêutica do que dos métodos analítico-dedutivos. a ciência crítica formula. traduzido). e analisa criticamente os que estão no poder.» (Waever. M. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA ./ As teorias linguísticas. parte de problemas sociais prementes e consequentemente opta pela perspectiva dos que mais sofrem. a abordagens “micro”. por exemplo. ao distinguir teorias do discurso de teorias linguísticas (Meyer. os que são responsáveis. 2001:1. dos interesses ou da ideologia. 2002: 30. tias como as da responsabilidade. outras questões. 2001) que publicaram «The semiotics of racism» e 2 A este propósito. 2001). Um terceiro aspecto prende-se com os tipos de análise de discurso em presença. Esta distinção é também utilizada por Meyer. teorias da argumentação. traduzido). in Wodak.

se enquadrada nos enfoques de análise do discurso acima referidos. Waever apresenta a tarefa do investigador como «a procura de pequenas constelações de conceitos que produzem um núcleo de sentido. cuja aparência de alguma desestruturação interna se dissolve quando se identificam os núcleos de sentido recorrentes que ele comporta (Waever. Tal análise visou justamente identificar e interpretar as posições chave estruturantes do ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . s. não procura chegar ao pensamento ou aos motivos dos actores. Em parte. 2005. no discurso político e parlamentar. às suas intenções secretas ou aos seus planos. pela autora do presente texto (Ramos. ganha todavia novas perspectivas. Este último aborda o discurso do anti-semitismo. não sendo um exercício novo. o autor chama a atenção para a coerência das representações evidenciadas no discurso parlamentar. traduzido). Suécia. para os casos dos quatro países escandinavos – Dinamarca. 2002: 26. respectivamente sobre identidade nacional e integração europeia e sobre construção do Estado. em matéria de investigação politológica. Rhetorics of racism and antisemitism». Afirma ainda: A análise de discurso trabalha sobre textos públicos. de estado e de Europa. o modelo desenhado por Waever foi já aplicado ao discurso parlamentar português. O discurso parlamentar A análise do discurso político parlamentar.d.). Numa óptica que se reclama do pós-estruturalismo. Os autores basearam-se substancialmente numa análise da construção das ideias de nação. um bom exemplo é a obra editada por Waever e Hansen (2002) sobre identidades nacionais no contexto da integração europeia. o discurso populista e o discurso racista. 2002: 42). a lógica dos seus argumentos torna-se muito mais clara (Waever. Desse ponto de vista.5 «Discourse and discrimination. (…) Se nos limitamos ao nível do discurso. Do ponto de vista metodológico. a partir do qual muito do discurso nacional poderá ser gerado» (2002: 24). Finlândia e Noruega.

para os temas mencionados. por uma sociedade tradicionalmente de emigração e com episódios muito recentes de fortes fluxos emigratórios. e bem assim o contexto em que as questões surgem (nomeadamente. Estão. agenda política. de acordo com a agenda política e parlamentar. Porque a questão é histórica e sociologicamente premente para a sociedade portuguesa. centrando-se no parlamento britânico e em particular nas sessões de perguntas e respostas (“question time”).6 discurso parlamentar. o presente projecto de investigação decorre do cruzamento do projecto «Processos de integração social e económica de imigrantes» com a perspectiva de investigação sobre estruturas discursivas do debate parlamentar português. A ideia de fundo é identificar no debate parlamentar as posições chave assumidas pelos diferentes partidos políticos e governo relativamente à questão da imigração. procurando a sua correlação com o contexto político e com os posicionamentos político-partidários. Chilton (2004: 92-109) apresenta ainda uma outra abordagem ao discurso parlamentar. debate corrente nos media). Discurso parlamentar português e imigração Como foi anteriormente explicitado. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Deste trabalho parece ressaltar. são também identificadas e analisadas as alusões à emigração portuguesa. a cidadania. entre outras. eventualmente positiva. Temas circunvizinhos como a nacionalidade. preparação prévia. o emprego. o espaço de liberdade. o que poderá vir a permitir uma análise comparativa entre os discursos de imigração e de emigração. observando detalhadamente a estrutura das interacções (inclusivamente as não verbais) estabelecidas na arena parlamentar. segurança e justiça e o discurso de direitos serão também analisados. a ser isolados e analisados os debates em que o tema é abordado. a necessidade de estudar cuidadosamente as estruturas regimentais e informais de enquadramento do discurso parlamentar. Esta análise disseca o discurso parlamentar num nível “micro”. A ideia de que a questão da integração de imigrantes possa ser vista de uma forma particular. por isso. constitui uma hipótese de trabalho interessante mas carece de comprovação.

A análise micro. Entende-se que a análise diacrónica poderá acrescer à interpretação desta documentação. Por sua vez.7 O estudo pretende-se longitudinal. revelar-se de alguma utilidade. a legislação relevante sobre os temas enunciados acima produzida no Parlamento. todo o processo político associado à integração europeia é relevante para a compreensão do objecto. em posteriores rondas de recolha de material. Por sua vez. Encarado o Parlamento no seu interior. utilizam-se também materiais complementares do debate público nos media e. no seu tudo. A documentação em análise é constituída pelo registo escrito dos debates plenários parlamentares. embora se admita que. económico e político da União Europeia. O procedimento que tem vindo a ser seguido filia-se nas linhas gerais da orientação para a aplicação da análise de discurso às ciências políticas como a apresenta Ole Waever (detecção de estruturas de sentido. permitindo assim a detecção dos temas que ditam ou condicionam a actividade parlamentar. e uma vez que o fenómeno da imigração em Portugal tem uma forte correlação com a integração de Portugal no espaço territorial. que ainda não foi ensaiada. para a história da democracia portuguesa. enunciada acima. supracitada). como não poderia deixar de ser. na evolução nacional e internacional da imigração. isto é. os insights da análise crítica do discurso levantam um conjunto de questões que permitem reconduzir a análise do discurso à temática de partida do projecto de investigação. Para a análise de contexto. mas é antecedido por toda uma preparação política e legislativa de que os debates parlamentares fazem eco e parte constituinte. A análise de contexto carece ainda de uma análise cuidadosa da agenda política concomitante com as iniciativas legislativas e debates parlamentares. nomeadamente no que respeita à hipótese sustentada numa análise comparativa. balizando-se entre 1976 e a actualidade. marcam os pontos de referência necessários a uma análise diacrónica. à questão das atitudes sociais e políticas condicionantes da integração dos migrantes e ao debate sobre os modos da ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . poderá. Por outro lado. é ainda relevante para a contextualização um estudo sistemático das condicionantes regimentais e do modus faciendi próprio do Parlamento português. lhe possam vir a ser acrescentados documentos resultantes de trabalhos em comissão (e eventualmente registos vídeo de uns de outros). em fase posterior. Este desenvolve-se a partir de 1986. o contexto económico e social de fundo e a identificação dos momentos-chave (“critical junctures”).

Thomas. DIEZ. a tendência dominante seja a da afirmação da necessidade da integração. HANSEN. o discurso parlamentar ganhará certamente acrescidas potencialidades de leitura. De outro modo dito.). “Between theory. Londres. Taylor & Francis. 1995. Security as Practice: Discourse Analysis and the Bosnian War. The Social Construction of Europe. Michael. No quadro da análise dos posicionamentos ideológicos e das relações de poder. CHRISTIANSEN. maior normatividade do que aquela que é inerente a todo o acto de investigação científica. Londres. Londres. Londres. 14-31. 3 (3): 319-363. Londres. Methods of Critical Discourse Analysis. Knud e Wiener. JORGENSEN. Sage. CHILTON. Ainda assim. “Discourse and knowledge: theoretical and methodological aspects of a critical discourse and dispositive analysis” in Wodak. 2001. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . no discurso político sobre imigração. Antje (eds. The Social Construction of Europe. Lene.) 2002. Michael (eds. Antje (eds.). European Integration and National Identity. Lene e WAEVER. Thomas. Ruth e MEYER. Sage. Critical Discourse Analysis: The Critical Study of Language.8 operacionalização de tal integração. nas finalidades deste trabalho. Londres. “Seizing the Middle Ground: Constructivism in World Politics” in European Journal of International Relations. JÄGER. não é também de excluir a hipótese de que a desconstrução desses discursos possa evidenciar atitudes bem mais reticentes do que as que aparentemente emergem da letra do discurso político. 2001. sendo hipótese plausível à partida que. 2001. Emmanuel. Jorgensen. 2006. 85-100. Longman. MEYER. Referências Bibliográficas ADLER. Sage. Sage. Ole (eds. 32-62. Norman.) 2001. Ruth e Meyer. Thomas. Paul. method and politics: positioning of the approaches to CDA” in WODAK. HANSEN. Siegfried. The challenge of the Nordic states.). FAIRCLOUGH. Londres. 2004. Routledge. Analysing Political Discourse: Theory and Practice. Methods of Critical Discourse Analysis. “Speaking ‘Europe’: The Politics of Integration Discourse” in Christiansen. 1997. Londres. Routledge. não se assume. Knud e WIENER. Michael (eds.

9 PORTER. Discourse as Data: a Guide for Analysis. “What CDA is about – a summary of its history. Methods of Critical Discourse Analysis. Ben. WAEVER. Londres. European Integration and National Identity. Pamplona. Ole. Discourse Theory and Practice: a reader. The Social Construction of Europe. Michael e WODAK. 158-173. “Discourses of Globalization and European Identities” in CHRISTIANSEN. Thomas (eds. Audience and Rhetoric: An Archaeological Composition of the Discourse Community. 9: 67-96. Londres. 2001. Margaret.). 1-13. Antje (eds. “Discurso parlamentar português e construção da identidade política no contexto da integração europeia” in Antropológicas. “Identity. RAMOS. Vienna. Knud e WIENER. Sage. The challenge of the Nordic states. p. WAEVER. Lene e WAEVER. WETHERELL.). Discourse and discrimination. Michael (eds. WODAK.d. REISIGL. Sage. Stephanie e YATES. Rhetorics of racism and anti-Semitism. Oxford U. Michael (eds. 2001. Londres. Londres.) 2000. ROSAMOND. Ruth (eds. Thomas (eds. Simeon (eds. Thomas. “Is Portugal a “strong state”? An analysis of Portuguese political discourse on the state of the state. Joseph. Stephanie e YATES. Londres. communities and foreign policy: discourse analysis as foreign policy theory” in HANSEN.) 2001. Oxford. Passagen Verlag. New Jersey. Oxford.). Ole. 2004. The semiotics of racism. important concepts and its developments” in WODAK. JORGENSEN. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Antje e DIEZ. Prentice Hall. 1992. RAMOS. Antje e DIEZ. Sage. in a context of transnationalisation” in VIII Congreso de Cultura Europea.P. Sage. WIENER. Ruth e MEYER. 20-49. Sage. Margaret.). 2005.).). Michael e WODAK Ruth. WODAK. Ruth. TAYLOR. Simeon (eds. European Integration Theory. s. Routledge.) 2001a. Methods of Critical Discourse Analysis.. Navarra [prelo].P. 2001. Ole (eds. Cláudia. Routledge. Ruth e MEYER. 2002. “Discursive Approaches” in WIENER. TAYLOR. Univ. 2001. Londres. Londres. European Integration Theory. REISIGL. Cláudia. Oxford U. WETHERELL.

descreve-se o que ela opina e percepciona sobre a imigração e os imigrantes. para a necessidade premente de se fixar um Livro Branco para a imigração em Portugal. sobretudo. o texto propõe um modelo possível de integração social e económica de imigrantes. com capacidade executiva e legislativa. para além do número. encontrarem respostas satisfatórias à instituição de uma política estratégica capaz de servir. pensam e querem o conjunto de respondentes a um questionário construído para o efeito. nele se radicam. e releva. o perfil tipo do imigrante em favor da sociedade receptora deve conduzir à reflexão alargada muito para além do que julgam e podem ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . a partir do que sabem. isto é. fundadas em percepções e em interesses parciais e não com base em conhecimentos sustentados sobre o que as populações pensam da imigração e dos imigrantes. com sentido prospectivo. e. sociais e culturais de integração daqueles que a representam e não cabe em exclusivo aos decisores. Mas a norma tem sido a de fixação de “políticas” de imigração “de cima para baixo”. Pressupõe a existência de condições económicas. No pressuposto de que a sociedade civil. Apresenta-se aqui um conjunto de opiniões e de percepções sobre a imigração e. em forma de reflexão. as tipologias de políticas de imigração que advoga em relação com os espaços sociais com que se identificam as “categorias” dos respondentes. vindos do estrangeiro.OPINIÕES E PERCEPÇÕES SOBRE A IMIGRAÇÃO: CONTRIBUTO PARA A DEFINIÇÃO DE UMA POLÍTICA DE IMIGRAÇÃO PARA PORTUGAL Rui Leandro Maia Centro de Estudos de Antropologia Aplicada Universidade Fernando Pessoa – Porto A partir do tratamento de um vasto conjunto de informações provenientes da aplicação de um inquérito por questionário a uma amostra da população portuguesa de maior idade. procura-se desenhar perspectivas sobre a imigração “de baixo para cima”. é referência para a fixação de qualquer contrato social. Introdução A imigração constitui uma matéria de enquadramento legal particularmente delicada. o País e os que. mutuamente. pluralista e dinâmica. A ausência de uma política de imigração que considere.

3 por cento do total dos respondentes. e os restantes 97.6 por cento. sendo residuais os valores referentes a outras categorias possíveis de estado civil. todos universitários de cursos de licenciatura em regime diurno ou em regime nocturno. de outras confissões. 43.4 por cento. Estão sobretudo adstritos a actividades relacionadas com o comércio e os serviços.9 por cento.3 por cento do total. e a idade média dos elementos dos 202 elementos do século feminino é de 23. E essa só se alcança com aceitação e participação social alargada.8 por cento dos alunos.7 por cento. em consequência de aqui estarem radicados muitos respondentes por estarem a estudar. com 5. valor elevado e compreensível tendo em conta o estado da economia nacional e internacional e as baixas oportunidades de emprego.3 anos. valores que correspondem à oscilação esperada para os alunos que frequentam o ensino superior em geral.5 anos.3 por cento. Os solteiros representam 86. A preocupação em relação à situação económica é manifesta por 78. com um intervalo de amplitude de 46 anos. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . com um intervalo de amplitude de 40 anos. As origens geográficas dos alunos estão essencialmente concentradas pelo Norte do País. 63. com o distrito do Porto em evidência. com 10. e do de Viana do Castelo. com estratégia. carece de ampla participação cívica na perspectiva de. uma minoria. com 12. é significativo. 2. com o distrito do Porto em maior evidência. ao invés.8 por cento. Os distritos onde residem estão também essencialmente concentrados pelo Norte do País. considerando os do ensino pré-universitário. seguido do de Braga.2 por cento.2 aqueles que estão transitoriamente mandatados e. respectivamente. O número de alunos que exerce ocupação / profissão. seguido do de Braga.3 por cento. 82. 2. e do de Viana do Castelo.3 por cento. sobretudo em relação ao mercado de trabalho capaz de absorver mão-de-obra possuidora de formação superior.3 por cento. 25. A idade média dos 98 elementos do sexo masculino inquiridos é de 25. Os alunos nascidos no distrito de Aveiro representam 17. os casados e os que estão a viver maritalmente 9.1 por cento de respostas referentes à não filiação em qualquer credo e.5 por cento. se associar ao processo imigratório uma política de integração. São sobretudo de religião católica.7 por cento. Os respondentes nascidos no estrangeiro representam 7.0 por cento. com 15. com 7.3 por cento e 2.

ou seja.4 por cento. por isso. 68. Metodologia Esta proposta assenta no princípio de que a sociedade civil deve ser auscultada. respectivamente a extrema-direita.3 por cento contacta com imigrantes em casa.9 por cento manifesta não saber ou não responder sobre a orientação política que os norteia. considerando.7 por cento. exploram-se sobretudo questões relacionadas com algumas perspectivas sobre a imigração.3 Quanto à orientação política. Tem por base empírica a recolha de informações por um inquérito por questionário que. uma divisão dicotómica coloca os indivíduos situados à direita e em minoria. em relação à imigração e à integração de imigrantes. o centro-direita com 9.5 por cento. simultaneamente. Mas é de relevar que. após validação. dos respondentes não tem contactos frequentes com imigrantes. 21. As opiniões dos respondentes são aqui literalmente transcritas. as que estão representadas entre nós com maior acuidade e as demais que. descreve que eles ocorrem no dia-a-dia. as percepções e as perspectivas sobre a imigração se relacionam e diferenciam em função e consoante as regiões de origem dos imigrantes. a maioria.0 por cento. a direita com 21. descreve-se o que querem os respondentes da imigração e dos imigrantes para Portugal em matéria de impedimentos. foi lançado na primeira quinzena do mês de Março de 2006 a um público específico. frequentador habitual das bibliotecas da Universidade Fernando Pessoa – Porto. com 0. Dos que referem ter. Um pouco mais de dois terços. dos 300 indivíduos respondentes.9 por cento. em espaços públicos. com vista à fixação de uma política estratégica. Para além dos elementos referentes à caracterização sócio-demográfica da amostra não representativa colhida.6 por cento e a esquerda com 19. O posicionamento manifesto no texto parte do princípio de que as opiniões.4 por cento. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .7 por cento refere contactar com imigrantes nas terras onde residem quando não estão no Porto e 8. apresentados os extremos valores residuais. não estando tão presentes. e a extrema-esquerda. em número de trezentos. de autorizações e de qualidades relacionadas com escolaridade e com experiência de trabalho.1 por cento e o centro-esquerda com 7. 39. com 1. 70. em ambiente de estudo. no trabalho.

58.0 por cento.3 por cento. uma vez que a investigação de conjunto está ainda em desenvolvimento e terá conclusão prevista até ao final do ano de 2007. e dos que têm mais de 50 anos.7 por cento.5 por cento. A maior parte dos respondentes considera que ela deve situara-se nos que têm entre os 20 e os 29 anos. Os dados apresentados são ainda de nível exploratório primário. dos imigrantes. Discussão de resultados A maior parte dos inquiridos. de qualquer forma. Conquanto não exista qualquer manifestação de preferência de fixação dos imigrantes no nosso País pelo seu sexo. seguidos dos que aceitam a imigração em qualquer idade.2 por cento. acham que o Estado não deve seleccionar. por entender ser melhor. dos que estão entre os 30 e os 39 anos. configuram explicações reveladoras de preferências por uma imigração condicionada à existência de um a série de requisitos. 11. face às questões que aqui foram consideradas para tratamento e análise.5 por cento. Essas preferências remetem para a existência de uma consciência sobre a imigração e a necessidade de se adoptarem políticas estratégicas para o País e é sobre elas que este texto reflecte. dos que têm entre os 15 e os 19 anos. para cada uma das opções tomadas. permite entender como se posicionam em relação à imigração e ao que pretendem. 1. há uma manifestação dispersa pelas categorias consideradas sobre se a imigração deve corresponder a determinada faixa etária.7 por cento. dos que têm menos de 15 anos. Para os que entendem que os imigrantes devem vir para Portugal entre os 20 e os 29 anos os discursos podem dividir-se em três grupos: ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Uma análise dos discursos dos respondentes. 7. Mas os restantes 40.4 também induzam à tomada de posições relativamente ao conjunto de questões contempladas. os estrangeiros que querem vir para Portugal. 37. 19. 20. dos que dizem não saberem ou não responderem.5 por cento. fundamentalmente variável a variável.7 por cento. 2.

à partida.3 por cento das explicações aduzidas: ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . podendo contribuir para o crescimento sócio-económico. A entrada de imigrantes jovens e com formação superior e conhecimentos é uma mais-valia para o País. para trabalhar e não para ter qualquer tipo de ajuda. que querem ganhar dinheiro. O que justifica a idade. Contribuir para o desenvolvimento do País. São pessoas em início de vida. 3. E o que apresenta motivos essencialmente associados à vida dos imigrantes.0 por cento das justificações aduzidas: • • • • • • • • • • • • • • A população portuguesa está a ficar envelhecida. representando 50. relativamente jovem. representando 39. dos imigrantes a admitir no País por motivos económicos e sociais essencialmente. às suas realizações pessoais.1. 2. Pessoas com ambição e com vontade de trabalhar. supostamente. Pessoas mais novas. e vêm para o País trabalhar e não beneficiar de ajudas. São os mais produtivos. já adquiriram um nível de educação superior à média. Física e psicologicamente mais preparados para o trabalho. com capacidade. O que justifica a idade por motivos educacionais. Idade onde eles podem contribuir para o desenvolvimento do País mais activamente. representando 7. Trata-se de uma idade em que a adaptação é mais fácil.5 1. Porque são jovens adultos. A formação de um aluno fica cara ao Estado. com espírito de trabalho e disponibilidade. Fase de maior capacidade física e psicológica. às suas expectativas e ambições. Porque já possuem alguma escolaridade e já são maiores de idade. como é o caso dos idosos. Porque se encontra em idade de produção. por cento das explicações aduzidas: • • De preferência. Porque são idades em que o rendimento/ produtividade no trabalho é maior. daí trabalharem e serem importantes para o desenvolvimento económico do nosso País.

a conhecer locais novos. É necessário ter em conta a fase de integração que é muito importante. representando 22. Sendo menor. E esta integração. 2. mas que venham para trabalhar. Idade propícia a uma integração mais rápida e ainda com possibilidade de formação ideal. Estão numa idade de procurar uma vida melhor. e por estarem num nível etário em que precisam de trabalho para serem alguém na vida. não custa tanto nesta idade.. representando 44. Idade com melhor integração na comunidade. Porque é a idade onde começa uma nova vida e há mais perspectivas futuras.2 por cento das justificações aduzidas: • • • Porque qualquer pessoa tem direito a tentar melhorar a vida. O que justifica a admissão dos imigrantes por motivos económicos e sociais essencialmente. Para os que entendem que os imigrantes podem vir para Portugal em qualquer idade os discursos podem dividir-se em quatro grupos: 1. se calhar. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Mais expectativas nestas idades. • • • • • • • • • Encontram-se numa boa idade para começar a delinear livremente a sua vida.4 por cento das justificações aduzidas: • • • • A população deve ser controlada de modo a que não haja injustiças sociais Desde que queira trabalhar e não cause desemprego para os de Portugal. Pelo facto de não serem menores.. Poucas. Jovens. até porque é nesta idade que está patente a aventura. Por serem maiores de idade para poderem ter mais condições de vida. caso não a tenha no seu país de origem. Todos somos iguais. O que justifica a admissão dos imigrantes por motivos pessoais. a sua sobrevivência tem que ser assegurada pelos pais ou familiares.6 • • A vontade de "crescer na vida" aumenta neste escalão etário.

por cento das razões aduzidas: • Importância na aprendizagem da língua. em consonância com a opção de resposta. Para os que entendem que os imigrantes devem vir para Portugal entre os 30 e os 39 anos os discursos podem dividir-se em dois grupos: 1. alguma maturidade e. Não faz sentido falar em idade para a imigração ou emigração. provavelmente. Melhor [por] estarem dentro da idade para trabalharem. • • • Idade intermédia – aptos para trabalharem. Embora os que referem não saber ou não responder não apontem qualquer grupo de idades. Penso que a idade não é determinante mas sim a motivação e os objectivos dos imigrantes. representando 11. sem vícios de trabalho. O que justifica a idade dos imigrantes a admitir no País por motivos económicos e sociais essencialmente. com o seu contributo profissional. ajudarem a economia do País.7 por cento das justificações aduzidas: • • Aumenta o número de pessoas aptas para trabalharem e assim contribuem para o desenvolvimento económico do País. E o que. Relativamente novos – para. são três as justificações avançadas: • • • A idade implica que estes tenham maturidade suficiente e valores definidos. O que justifica a admissão de imigrantes por motivos educacionais. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . entender a língua portuguesa. Só se for para trabalhar seriamente. não dão quaisquer motivos específicos para associar a idade ao acto de imigrar. representando 22.1. adaptarse a uma nova cultura. representando 85.7 3. Maior aptidão para o trabalho.2 por cento das justificações aduzidas: • • Não há idade determinada para se poder imigrar para qualquer país. 4. Idade adulta – mais responsáveis/ maduros/ com objectivos construídos.

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Porque já são pessoas com experiência e a integração num novo país não vai ser tão dificultada.

2. E o que apresenta motivos associados à vida dos imigrantes, às suas realizações pessoais, às suas expectativas e ambições, representando 14.3 por cento das explicações aduzidas: • Porque terão uma idade mais madura para fazerem essa opção.

Para os que entendem que os imigrantes devem vir para com idade inferior a 15 anos os discursos referem-se a motivos de natureza social e económica: • • • Adaptação. Há uma melhor inserção no País de escolha. Não deveria haver imigração, mas, a haver, os imigrantes devem ser o mais possível novos: integram-se melhor. A existência de imigrantes é o oportunismo de alguns. • Pois seriam portugueses, pois iriam contribuir para o País como portugueses, desde terem a escolaridade obrigatória e mais tarde terem direito a uma reforma porque contribuíram para o Estado. • São criadas normas de ensino e saber estar num país que não é o deles. Logo, conseguem adaptar-se melhor.

Para os que entendem que os imigrantes devem vir com idades entre os 15 e os 19 anos, os discursos referem-se a motivos económicos e sociais: • • É a idade adequada para se adaptarem a quase tudo, têm maior independência e maior autonomia. Podem assegurar vários tipos de trabalho. Pois são pessoas ainda jovens que podem vir a realizar o trabalho que cá ninguém quer fazer, normalmente trabalhos mais forçados

Dos que entendem que os imigrantes devem vir para Portugal com mais de 50 anos nenhum respondente avançou explicações. A associação entre requisitos educacionais prévios e imigração identifica a prioridade para as pessoas que tenham realizado estudos, com 19,3 por cento e 26,9 por

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cento das manifestações para os adeptos de que os imigrantes devem, respectivamente, possuir a escolaridade equivalente ao nosso ensino secundário e ao nosso ensino superior. Os adeptos do primeiro e do segundo ciclos do ensino básico são em igual valor percentual, 2,5, e do terceiro ciclo do ensino básico são 5,9 por cento. No entanto, 6,7 por cento dos respondentes optam pela não exigência de qualquer frequência escolar para os imigrantes e 36,1 por cento não sabe ou não responde. A imigração por fases colhe 69,7 de respostas favoráveis, 6,7 de respostas não e 23,5 por cento de não respostas, não sabe ou não responde. O sim foi mais expressivo, 90,8 por cento, na questão do estabelecimento de um número máximo de pessoas a admitir por ano como imigrantes, ficando o não pelos 4,2 por cento e o não sabe não responde pelos 5,0 por cento. A maior parte dos respondentes considera que deve existir algum grau de restrição à entrada de imigrantes, com maior expressão para os que pensam que ela deve ser elevada e moderada, 25,0 por cento cada, seguidas de perto pelos que pensam que ela deve ser baixa, 20,0 por cento, e, a alguma distancia, muito baixa, 8,3 por cento. Apenas 12,5 por cento consideram que não deve existir qualquer restrição à imigração e 8,3 por cento não sabem ou não respondem. A manifesta restrição à entrada de imigrantes, para as três regiões mais expressivas, é revelada em relação à China, com 17,1 por cento, a Outros Países de África, com 11,2 por cento, e aos PALOP, com 10,3 por cento na categoria “muito elevada”; é de 21,4 por cento para a Europa de Leste e repete-se para Outros Países de África, com 19,8 por cento, e para os PALOP, com 18,8 por cento na categoria “elevada”. As manifestas exigências de grau de escolaridade dos imigrantes são maioritárias na categoria “moderado”, com 50,4 por cento, “elevado”, com 33,1 por cento, “muito elevado”, com 3,3 por cento, “muito baixo”, com 1,7 por cento, “baixo”, com 0,8 por cento. 10,7 por cento, não sabe ou não respondem. As maiores exigências em relação ao grau de escolaridade colocam-se, naturalmente, em relação a quadros superiores, 45,5 por cento “muito elevada”, e em relação a técnicos profissionais intermédios, 57,0 por cento “muito elevada”. Para as profissões e ocupações de menores exigências habilitacionais a expressão de requisitos escolares é dominada pelas categorias “moderada” e “baixa”.

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Da mesma forma em relação às maiores exigências em relação ao grau de experiência profissional para os quadros superiores, 44,2 por cento “muito elevada”, e em relação a técnicos profissionais intermédios, 45,0 por cento “muito elevada”. Para as profissões e ocupações de especialização a expressão do requisito experiência é dominada pelas categorias “elevada” e moderada”.

Nota de conclusão A posição de que ao Estado não cabe seleccionar, de qualquer forma, os estrangeiros que querem vir para Portugal é reveladora, na expressão maioritária que tem e tendo em conta as características dos respondentes – pessoas com um nível educacional acima da média – da ausência de uma consciência cívica estratégica para a imigração e para os imigrantes. É de assinalar que 58,7 por cento dos respondentes acham que o Estado não deve seleccionar os imigrantes. E para os restantes regista-se que: • Apesar de 37,5 por cento entender que os imigrantes devem vir para Portugal entre os 20 e os 29 anos, não há uma definição marcante de idade ideal. • As justificações sobre as opções de idades de imigração são, fundamentalmente, de carácter económico e social, seguidas das relacionadas com as competências educacionais e das relacionadas com os interesses e as expectativas dos imigrantes, numa distinção que nem sempre é clara pelas categorias de análise expostas. Há uma manifesta tendência pelas respostas justificativas da imigração como um todo por aquilo que a mesma representa de vantajoso para o País e não para as pessoas. • Há uma assunção clara pela aceitação de imigrantes com formação média e superior, uma associação entre as competências educacionais de base e as competências exigidas para o trabalho a desenvolver em Portugal, bem como destas em relação à experiência profissional de base.

Parece consensual que não é possível nem é desejável, no quadro geoeconómico em que se insere Portugal, parar a imigração. É possível geri-la de modo a que responda ao desafio, quase utópico, de contribuir para um benefício triplo: entre os países que nela se envolvem e para os actores que a sustentam. E isso implica um conhecimento

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profundo do que a imigração e os imigrantes representam, em si e para a sociedade civil que com eles interage. O que se afirma é tanto mais importante quando a definição de uma política de imigração, para além do número, implica a preparação e a definição de uma política de integração de imigrantes, o que só se consegue com a colaboração da sociedade civil. O projecto a que este texto se associa pretende dar corpo a essa preocupação de auscultar o entendimento da sociedade civil, em forma de Livro Branco, sobre a imigração e os imigrantes. Ao que ele esboça, parece não existir um sentimento formado sobre o lugar da imigração e dos imigrantes na construção da nossa sociedade e, muito menos, sobre uma estratégia imigratória para o País.

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Este questionário destina-se a recolher informações junto de cidadãos portugueses de maior idade sobre a imigração e os imigrantes, ou seja, sobre aqueles que, sendo estrangeiros, fixaram residência em Portugal. Está dividido em três partes cada qual com a sua função: a primeira, de carácter identificativo, visa caracterizar os respondentes; a segunda, de carácter valorativo, visa perceber o que opinam e percepcionam os respondentes sobre a imigração e os imigrantes; a terceira, de carácter prospectivo, visa perceber que tipos de imigração defendem os respondentes. A sua participação, com resposta a todas as questões, é muito importante. I – Caracterização sócio-demográfica 1. Idade Anos 2. Sexo Masculi Femini no no

Solteiro(a)

Casado(a)

3. Estado Civil A viver maritalme Divorciado Separado(a nte (a) )

Viúvo(a)

Outra situação

4. Tem filhos? Sim Quantos ? Não

5. Qual é o grau de escolaridade mais elevado que frequenta ou frequentou? 1º Ciclo ou 2º Ciclo ou 3º Ciclo ou Ensino Nenhuma Ensino Ensino Ensino Ensino Secundário, frequência Primário, 1ª, Superior Preparatório Médio, 7, 8º 10º, 11º e 12º escolar 2ª, 3ª e 4ª , 5º e 6º anos e 9º anos anos classes

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6. Trabalha? Sim Se sim, em que trabalha? Não

7. Está preocupado(a) com a sua situação económica? Sim Não

8. Refira o distrito, o concelho e a freguesia onde nasceu Distrito Concelho Freguesia 9. Refira o distrito, o concelho e a freguesia onde vive habitualmente Distrito Concelho Freguesia

Nenhuma

10. Qual é a sua opção religiosa? Católica

Outra Qual?

11. Qual é a sua orientação política? Extrema direita Direita Centro direita Centro esquerda Esquerda Extrema esquerda Não Sabe/ Não responde

II – Opiniões e percepções sobre a imigração 12. Contacta frequentemente com imigrantes? Sim Não Onde? 13. Assinale o grau de simpatia que tem em relação aos imigrantes das seguintes regiões: Não Muito sabe/ Eleva Mode Muito Nenh Eleva Baixa Não da rada Baixa uma da respo nde União Europeia Europa de Leste Países Africanos de Língua

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Oficial Portuguesa Outros países de África América do Norte Brasil Outros países da América Central e do Sul China Outros países da Ásia Oceânia 14. Assinale o grau de importância que os imigrantes dão ao trabalho, segundo as seguintes regiões: União Europeia Europa de Leste Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa Outros países de África América do Norte Brasil Outros países da América Central e do Sul China Outros países da Ásia Oceânia 15. A impressão que os imigrantes têm e a forma como agem com os portugueses é: Não sabe/ Muito Modera Muito Boa Má Não boa da má respond e União Europeia Europa de Leste Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa Outros países de África América do Norte Brasil Outros países da América Central e do Sul China Outros países da Ásia Oceânia 16. A impressão que os portugueses têm e a forma como agem com os imigrantes é: União Europeia Europa de Leste Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa

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Outros países de África América do Norte Brasil Outros países da América Central e do Sul China Outros países da Ásia Oceânia 17. A presença de imigrantes influencia o número de crimes registados no País? Sim, eles Sim, eles são Sim, eles vítimas do são Não cometem Não Sabe/ vítimas do crime e o crime Não crime cometem Responde o crime União Europeia Europa de Leste Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa Outros países de África América do Norte Brasil Outros países da América Central e do Sul China Outros países da Ásia Oceânia 18. Trabalho e legislação. Os imigrantes: Sim Tiram o trabalho aos portugueses? Os que estão ilegais devem ter direito a trabalhar? São regidos por legislação adequada? Contribuem para o nosso desenvolvimento económico? Pagam os impostos que devem? E beneficiam desses impostos? 19. É função do Estado: Adoptar políticas de actuação específicas para os imigrantes Assegurar igualdade de tratamento entre nacionais e imigrantes Assegurar maior ajuda aos imigrantes Não Não Sabe/ Não Responde

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O Estado deve dar preferência à entrada de imigrantes do sexo: Masculino Feminino Sem preferência 23. Indique a melhor idade para os imigrantes virem para Portugal (assinale apenas uma opção): Menos Dos 20 Dos 30 Dos 40 Não sabe/ Dos 15 aos Mais de Qualquer de 15 aos 29 aos 39 aos 49 Não 19 anos 50 anos idade anos anos anos anos responde Justifique a sua escolha 24. . o questionário termina aqui. 22. o Estado deve dar prioridade a imigrantes com (assinale apenas uma opção): 1º Ciclo ou 2º Ciclo ou 3º Ciclo ou Ensino Nenhuma Ensino Ensino Não Ensino Secundário Ensino frequência Primário.16 Expulsar os imigrantes ilegais. 2ª. Sobre a escolaridade. 3ª e io. 5º e 6º responde 8º e 9º anos 12º anos 4ª classes anos ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . 10º. 7. Aceitaria ter como imigrantes: Membros da sua família? Seus amigos? Seus vizinhos? Seus colegas de trabalho? Residentes nas imediações ao espaço onde você vive? Residentes no espaço onde você vive? III – Perspectivas sobre a imigração 21. 11º e Superior escolar 1ª. O Estado deve seleccionar os imigrantes que querem vir para Portugal? Sim Não ⇒ para si. sem tentar promover a sua inserção? 20. Preparatór Sabe/ Não Médio.

ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Assinale o grau de escolaridade que os imigrantes devem ter para poderem desempenhar as seguintes profissões: Não Muito sabe/ Eleva Mode Muito Nenh elevad Baixo Não do rado Baixo um o respo nde Quadros Superiores da Administração Pública. Outros países da Ásia Oceânia 28.17 Justifique a sua escolha 25. indique o grau de restrição de entrada que lhes atribui: Não Muito sabe/ Elevad Moder Muito Nenhu Elevad Baixo Não o ado Baixo m o respon de União Europeia Europa de Leste Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa Outros países de África América do Norte Brasil Outros países da América Central e do Sul China. Das seguintes regiões de origem dos imigrantes. A integração dos imigrantes deve ser feita por fases? Sim Não Não sabe/ Não Responde 26. O Estado deve estabelecer o número máximo de imigrantes a entrar em cada ano? Sim Não Não sabe/ Não responde 27.

A sua colaboração foi muito importante. Dirigentes e Quadros Superiores de Empresas Especialistas das Profissões Intelectuais e Científicas Técnicos e Profissionais de Nível Intermédio Pessoal Administrativo e Similares Pessoal dos Serviços e Vendedores Agricultores e Trabalhadores Qualificados da Agricultura e Pescas Operários.18 Dirigentes e Quadros Superiores de Empresas Especialistas das Profissões Intelectuais e Científicas Técnicos e Profissionais de Nível Intermédio Pessoal Administrativo e Similares Pessoal dos Serviços e Vendedores Agricultores e Trabalhadores Qualificados da Agricultura e Pescas Operários. Assinale o grau de experiência profissional que os imigrantes devem ter no seu país de origem para poderem desempenhar as seguintes profissões em Portugal: Quadros Superiores da Administração Pública. Artífices e Trabalhadores Similares Operadores de Instalações e Máquinas e Trabalhadores da Montagem Trabalhadores Não Qualificados 29. Artífices e Trabalhadores Similares Operadores de Instalações e Máquinas e Trabalhadores da Montagem Trabalhadores Não Qualificados O questionário termina aqui. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .

n.º do questionário: Responsável pela administração: Data e hora: Local de realização e contacto do respondente: Av. / Rua.19 Ficha Técnica do questionário N.facultativo: ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .º : Telefone de contacto .

à escolarização dos filhos. duas atitudes que podem parecer antagónicas. enfim. ao reagrupamento familiar. ao trabalho. esse vigor. buscar apoios materiais afectivos ou de outra índole e conceber espaços de segurança. necessidades. mas que na realidade se revelam complementares. as associações cobrem objectivos de recriação dos modelos de origem. funcionando também como redes sociais de encontro. sobretudo nos momentos chave da vida. de ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . em que urge partilhar experiências. de perpetuação da cultura de partida. as associações organizam-se no sentido de agir socialmente e politicamente a fim de que os seus membros possam ter acesso no lugar de chegada aos direitos elementares relativos à permanência e residência. o que permite colmatar os constrangimentos resultantes das diferenças ao nível das normas sociais e dos padrões culturais da sociedade de chegada. Todavia. O facto de se tratar de comunidades numerosas justifica. aos cuidados de saúde. em parte. elas vão actuar no sentido de integrar o seu modo de vida. A nossa proposta de comunicação centrar-se-á nesse desígnio. Enquanto elemento dinamizador da presença e do enquadramento legal e profissional dos seus concidadãos. outras razões poderão ajudar a explicar este fenómeno. que aportam aos seus membros um pouco do lugar que deixaram.A integração dos imigrantes deve ser feita por fases? As associações de imigrantes latino-americanos na Península Ibérica Alcinda Cabral Centro de Estudos de Antropologia Aplicada Universidade Fernando Pessoa e M. à segurança social. no sentido de acederem aos recursos e aos direitos existentes na sociedade receptora. o mesmo acontecendo com os diferentes grupos de sul-americanos em Espanha. à legalização. Com o tempo e a inevitável aculturação. de diversão. Dolores Vargas Llovera Centro de Estudos de Antropologia Aplicada Universidade de Alicante As associações de imigrantes constituem uma estratégia clássica de ligação à origem e de luta pela integração no destino. Uma das comunidades imigradas em Portugal que mais tem dinamizado o seu movimento associativo é a brasileira. Enquanto elemento coesionador do grupo estrangeiro. Introdução O associacionismo é uma necessidade vital do ser humano. ajustando-o ao novo ambiente social.

As associações dinamizam actividades próprias na base das estruturas que criaram. as suas actuações e a sua cosmovisão chocam frontalmente com os esquemas de uma sociedade que culturalmente não é igual. A formação e a importância dada às associações demonstra que os indivíduos se envolvem em acções recíprocas e em contactos entre os que buscam o mesmo fim. porque os apercebem unicamente como reproduções das diferentes culturas de origem. estas não vêem com bons olhos a criação desses espaços. como guetos ou nichos socio-culturais. sejam locais. que fomentam a divisão da sociedade e que não favorecem a integração. como um mundo que não pertence a ela. o intercâmbio de experiências. económicas e políticas. Ao mesmo tempo fomentam a solidariedade. não só com a sociedade civil. A sua estética. apresentando-se como lugares delimitados no interior da sociedade de recepção.2 ideias. regionais ou nacionais. geram iniciativas de actuação para o fortalecimento das suas ideias associativas. procurarem junto dos companheiros a coerência das suas ideias e não actuarem isoladamente. de crenças. na mira de uma eficácia dos seus propósitos. actuam como grupos de pressão de reivindicações sociais. mantêm identidades e são um núcleo de informação necessária. É certo que as associações de imigrantes recriam os esquemas das suas sociedades de origem. Ante a grande eclosão de associações de imigrantes que se formam nas actuais sociedades receptoras. não coincide com o ritmo do reconhecimento social. culturais. mas este reconhecimento oficial que vão adquirindo paulatinamente. que encontram todo o tipo de carências. bem como romper com as fronteiras sociais que a sociedade civil pretende ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . de manter identidades e tudo o que implica a afirmação socio-cultural própria do ser humano. O grande objectivo é o de. particularmente em momentos difíceis. sobretudo nas primeiras etapas da imigração. Pode afirmar-se que as associações de imigrantes terão que continuar a lutar para ultrapassar os muitos entraves que as instâncias oficiais lhes apresentam. provocando tensões. Por isso é de grande importância ter em conta que o actual dinamismo associativo dos imigrantes teve que ultrapassar grandes impedimentos para consolidar a sua realidade social e para ganhar o respeito fundamental das instituições oficiais. a sua música. como é o caso dos imigrantes. mas também com os poderes estabelecidos. Desta maneira. e são fundamentais para a assistência das pessoas. o fim primordial de uma associação é o de partilhar metas e o de formar espaços que rompam com o isolamento social e cultural.

Este tipo de classificação baseia-se sempre na instalação na sociedade de acolhimento. que é na verdade uma faceta da sua realidade. com pessoas da mesma etnia ou de várias. dirigidos aos colectivos recém-chegados. de programas de ajuda e de acolhimento. encontram-se ante duas dificuldades: por um lado levam a cabo. Sem dúvida. Tem havido tentativas de classificação segundo as tendências manifestadas pelas associações de imigrantes: umas orientadas para o país de origem e outras para o país de residência. actividades destinadas ao acolhimento e à integração dos imigrantes. Certo é que se tem constatado que as associações de imigrantes. distinguindo entre a temporalidade e a permanência definitiva. Apesar do esforço que fazem as associações de imigrantes para serem reconhecidas e aceites como centros de integração. através de actividades. ao afirmarem que as associações de imigrantes são uma manifestação necessária para a sua instalação nas novas sociedades. estão tentando de cada vez mais incrementar a integração no espaço de acolhimento. longe de dificultarem a integração. estas associações. e outros. As associações deste cariz revelam constituir um processo de socialização. na Península Ibérica e segundo as aportações de Martín (2004). tal como sustentam Castels e Millar (1994). Morán (2001) distingue as associações de imigrantes que têm uma predominância de relações com a sociedade de partida e as que têm uma predominância relacional com a sociedade de chegada.3 estabelecer. e por outro lado. embora não rompam os laços com a origem. e simultaneamente como plataformas de reivindicação dos seus direitos como trabalhadores e como seres humanos. o associacionismo migratório constitui actualmente uma força importante nas sociedades receptoras. conselhos de carácter burocrático. desempenham um papel muito importante no conjunto das práticas que integram a ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . com ou sem ajudas de fundos públicos. Sobre estes dois pontos de vista. através do qual criam. facilitam a negociação da sua participação social e da sua incorporação efectiva. uma vinculação de ajuda dirigida fundamentalmente ao conhecimento das vivências de origem. a fim de conseguirem convencer umas e outras de que o maior anseio dos seus dirigentes e membros é a inserção da sua comunidade na sociedade receptora. com o fim de afrontarem a vulnerabilidade social em que os imigrantes se encontram. e não como centros de realidades culturais fechadas. pelo que.

Desenvolvimento A Espanha encontra-se com um número importante de associações de imigrantes registadas no Ministério do Interior. pelo que se revela difícil individualizá-las por países. renunciando frequentemente aos seus princípios. Em todas as zonas onde haja um número considerável de imigrantes com essa proveniência. Perante tal situação. Se optarem pela primeira possibilidade. a partir dos quais recenseamos os seus pontos de partida: * Abordar o fenómeno da imigração em todos os seus aspectos. as associações encontram-se perante a seguinte alternativa: ou servem as políticas públicas. ultrapassam um milhar. de cidades grandes ou pequenas. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Por outro lado. As suas estruturas passam por registos oficiais. A sua formação obedece a um leque comum de objectivos gerais. às associações de imigrantes não é concedida a participação na tomada de decisões políticas em nenhum âmbito oficial. quer se trate de capitais de província. a maior parte delas adoptam uma postura intermédia (Martín. se formam associações. Se elegem a via reivindicativa. na medida em que as acções que desenvolvem são o resultado. as associações funcionam como entidades prestadoras de serviços do Estado. quando pertencem ao conjunto das financiadas. quer da ausência de acção dos poderes públicos. arriscam-se a ver impossibilitada a execução das suas actividades. arriscando a perda do financiamento público. No que respeita às da América Latina. independentemente dos membros que as constituem. Todavia. * Elaborar projectos de acção social e de cooperação internacional. ou introduzem soluções inovadoras para o tratamento dos problemas derivados da integração dos imigrantes. * Assessorar a população imigrante nas áreas que favoreçam a sua integração. 2004: 123).4 política de imigração. apesar da sua posição destacada nas práticas de integração. quer da delegação de competências através do financiamento de projectos de ajuda social. agrupando os colectivos dos diferentes países que formam a América do Sul.

* Promocionar individual e colectivamente os imigrantes nos seus lugares de residência. ou ainda indivíduos oriundos do mesmo local de origem. outras dirigem-se a populações específicas. que conduzam a mudanças sociais. as associações de imigrantes brasileiros em Portugal apresentam fins distintos. * Participar em campanhas contra o racismo e a xenofobia. caracterizando-se pelo ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . de acordo com as necessidades sentidas pelos próprios. tais como imigrantes vinculados a uma universidade. pelo que o número de associações deste tipo é mais reduzido e muito mais específico quanto à origem geográfica e nacional dos seus sócios. dada a pequenez do seu território e dos seus recursos. * Promover um diálogo construtivo com as autoridades e a sociedade acolhedora. De facto. Enquanto umas têm um carácter mais geral de apoio ao público imigrante. uma inserção o menos traumática possível. * Defender estas populações junto das autoridades administrativas e outras. No que respeita a Portugal. * Colaborar com outros colectivos. em alguns casos mais especificados quando se trata de promover a identidade cultural dos imigrantes. formam o núcleo central de todas as associações de imigrantes latino-americanos em Espanha. * Potenciar o respeito pelos direitos humanos. os seus objectivos são orientados para o seu público alvo. tentando proporcionar aos seus concidadãos. Desta forma. * Fomentar a convivência e a integração social e educativa dos imigrantes. também as suas necessidades de mão de obra e os seus factores de atracção para a instalação destas populações são mais raros.5 * Desenvolver campanhas de sensibilização em relação a estas populações e às suas culturas. ou parceiros profissionais. Estes pontos. * Facilitar a participação das pessoas em actividades laborais. organizações. e mesmo a imigrantes de outras origens. * Associar-se a projectos com associações e entidades das zonas onde vivem. que tantas vezes dificultam a vida destas pessoas. entidades e instituições especialmente relacionadas com a imigração. sociais e políticas.

abop.org/aacilus/).aacilus. da Associação dos Brasileiros na Universidade de Aveiro (www. Imigrantes do Brasil e de países africanos de língua oficial portuguesa (http://www. da Associação de Amizade Cabo Verde – Brasil (www.casadobrasil.angelfire.up. da Associação de Pesquisadores e Estudantes Brasileiros em Coimbra (http://geocities.torcidabrasil.com.pt) e da Associação Luso-Brasileira de Juristas do Trabalho (www. 1 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .pt).com/bc/sscb/aacb.yahoo.6 desenvolvimento de actividades específicas.pt).pt/).asp?sidc=478&idc=22393). da Associação de Imigração em Portugal.php).html) e da Torcida Brasil (www. da Associação de Cidadãos Brasileiros na Universidade do Porto (http://brasup.ua.br/apebcoimbra/). da Associação Mais Brasil (www.pt/distritais/genericos/detalheArtigo.net/torcida. da Associação Luso-Brasileira de Saúde Oral – Portugal (www.oa. como poderemos verificar no quadro que segue 1 : Fonte: Site da Casa do Brasil (www.ca.pt/abruna/).maisbrasil.

Associações de Amizade entre Países • • Coimbra 2004 Associação de Amizade Cabo Verde – Brasil (AACB) Associação de Imigração em Portugal. social e jurídico.Associações de Profissionais Brasileiros • • Associação Luso Brasileira de Saúde Oral (ABOP) Associação Luso-Brasileira de Juristas do Trabalho (ALBJT) III .Associações Lúdicas Brasileiras • Torcida Brasil (TB) 1994 No que respeita às Associações Generalistas.7 Tipologia da Associação I . estas têm como objectivo prioritário o apoio aos imigrantes a nível moral.Associações Generalistas de Brasileiros • • Casa do Brasil de Lisboa (CBL) Associação Mais Brasil (AMB) Localização Sede da Ano em que foi fundada Lisboa Porto 1992 II .Associações Académicas de Brasileiros • • • Associação dos Brasileiros na Universidade de Aveiro (ABRUNA) Associação de Cidadãos Brasileiros na Porto 2003 Aveiro 2001 Coimbra 2004 Porto 1999 Universidade do Porto (BRASUP) Associação de Pesquisadores e Estudantes Brasileiros em Coimbra (APEBC) IV . 2004 Imigrantes do Brasil e de países africanos de Porto língua oficial portuguesa (AACILUS) 1997 • V . ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .

As Associações de amizade entre indivíduos brasileiros e de outros países definem-se pelo apoio prestado às comunidades imigrantes em questão e pela promoção de actividades recreativas num espaço de partilha cultural. principalmente para formar uma “claque” para dar apoio às equipas brasileiras nos torneios mundiais de futebol. também se detectaram. Os objectivos e actividades das Associações Académicas orientam-se principalmente no sentido de apoiar a integração de estudantes brasileiros e de promover eventos culturais e científicos que possibilitem a valorização da identidade brasileira no seio da comunidade portuguesa. nomeadamente a constituição formal da associação em si. que é a sua condição de imigrantes. mas também ao nível dos objectivos traçados e das actividades. muitas similitudes entre elas. objectivos e actividades muito específicos. nomeadamente de apoio às equipas brasileiras em eventos desportivos. Ao pretender-se encontrar os traços distintivos de cada uma destas 5 tipologias de Associações de Brasileiros em Portugal. começou a desenvolver outras actividades recreativas e culturais para os seus sócios. Estas associações de imigrantes brasileiros foram criadas por estes e por portugueses que os apoiaram. A partir daqui. procurando ser uma mais valia nos ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Conclusão Todo o esforço das associações tem como finalidade a melhoria das condições das comunidades imigrantes que representam. Foi criada por imigrantes brasileiros. A Torcida Brasil apresenta uma população alvo. no sentido de colmatarem lacunas na organização da sociedade civil e nas dificuldades sentidas pelos imigrantes para se integrarem na comunidade portuguesa. naturalmente. As principais semelhanças encontram-se ao nível dos seus estatutos.8 As Associações de Profissionais visam a defesa das suas profissões e sobretudo dos seus profissionais. ou ainda para organizarem um movimento que fortalecesse a posição da população imigrante face às instituições oficiais da sociedade acolhedora e no diálogo com as mesmas. devidas ao traço comum que une os seus filiados. muitas vezes opondo-se a alguma discriminação que encontram no mesmo meio profissional português.

A. ao mesmo tempo. Revista electrónica de estudios culturales. G. Nexo. Un estudio internacional sobre las sociedades y el sentido comunitario. Barcelona: Galaxia Gutemberg. As associações de imigrantes constituem um meio de institucionalização das vias necessárias para a defesa dos seus interesses e. R. no entanto podem participar através das associações na tomada de decisões sobre alguns dos aspectos que os afectam. http://fuentes. S. y MILLER. (ed.csh. L.mx/CUCSH/Sincrinia/ PUTNAM. The age of migration. através de estratégias que valorizem a sua identidade cultural de pertença. pelas implicações pessoais e nacionais. Madrid. Macmillan. D. Internacional population movements in the modern world. para lhes proporcionar os meios condutores a fim de que se incorporem paulatinamente na sociedade de chegada. Cremos que estamos perante um desenrolar de participação que implica novas formas de cidadania: os estrangeiros continuam privados de direitos políticos. Universidad de Guadalajara. y GARCÍA.) 2003 El declive del capital social. M. 2001 “Las asociaciones de extranjeros y su origen: algunos comentarios para el caso de Alemania” Sincronía. 1995. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . MORÁN. Londres MARTÍN. 1994. bem como nos contactos informais com a comunidade anfitriã em si. numa perspectiva da possível inclusão na sociedade de acolhida.9 contactos formais com as instituições oficiais da sociedade acolhedora. Universidad Pontificia de Comillas.udg. Referências Bibliográficas ALONSO. CASTLES. 2004 “ Las asociaciones de inmigrantes en el debate sobre nuevas formas de participación política y de ciudadanía: reflexiones sobre algunas experiencias en España” Migraciones. tal como referem Alonso e Garcia (1995) quando dizem que os reptos aos quais devem fazer face as associações de imigrantes visam veicular a sua integração social e económica no país que escolheram para trabalhar e viver e daí a importância de que se reveste o tecido associativo desta natureza. R.J. Madrid. V. Estudio sobre la situación actual y capacidad institucional de las asociaciones de inmigrantes en España. a nível dos dois países implicados.

pt/) Associação de Imigração em Portugal.aacilus.asp?sidc=478&idc=22393) Associação Luso-Brasileira de Saúde Oral – Portugal (www.com/bc/sscb/aacb.ca.abop.maisbrasil.ua.pt) Torcida Brasil (www.php) ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .oa. Imigrantes do Brasil e de países africanos de língua oficial portuguesa (http://www.casadobrasil.10 Sites Consultados Associação de Amizade Cabo Verde – Brasil (www.com.html) Associação dos Brasileiros na Universidade de Aveiro (www.pt) Associação de Pesquisadores e Estudantes Brasileiros em Coimbra (http://geocities.pt/distritais/genericos/detalheArtigo.net/torcida.angelfire.yahoo.pt) Associação Mais Brasil (www.org/aacilus/) Associação Luso-Brasileira de Juristas do Trabalho (www.br/apebcoimbra/) Casa do Brasil (www.torcidabrasil.pt/abruna/) Associação de Cidadãos Brasileiros na Universidade do Porto (http://brasup.up.

Palavras-chave: imigrantes. o que é bom e o que é mau” (Trindade 1995: 381). aquilo a que vulgarmente se chama valores e que pode ser definido como um “conjunto de ideias partilhadas por indivíduos sobre o que é desejável. corroboradas.Porto blepl@netcabo. acreditado pela FCT (Fundação para a Ciência e a Tecnologia). A sua localização enquanto porta de entrada para a Europa – continente que ainda hoje exerce o seu fascínio sobre os povos mais recentes – e a lusofonia são. o país escolhido como pátria de adopção de imigrantes brasileiros.Modos e modas de integração de imigrantes (o papel do jornal Sabiá) 1 Isabel Ponce de Leão Centro de Estudos de Antropologia Aplicada Universidade Fernando Pessoa . pela aplicação da Convenção sobre a Igualdade de Direitos e Deveres entre Brasileiros e portugueses.pt O presente texto faz uma reflexão sobre a imprensa enquanto modo de integração de imigrantes. motivos determinantes para essa escolha. construída ao longo de séculos de convivência entre os povos de Portugal e das suas Desenvolvimento do Projecto CEAA/0013/ALC "Processos de integração social e económica de imigrantes"integrado no Centro de Estudos de Antropologia Aplicada da Universidade Fernando Pessoa. aquelas. imprensa. 1 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . integração. alguns estudos demonstram que os brasileiros são os imigrantes que têm em Portugal maior grau de aceitação “assente na ideia de uma identidade lusófona. as práticas religiosas e os comportamentos sexuais. Trata-se com especial acuidade o jornal Sabiá publicado pela Casa do Brasil de Lisboa. De facto. como sejam a forma como educam os filhos. vendo-se de que forma ele contribui para a inserção dos brasileiros em Portugal. Sabiá Portugal é. brasileiros. talvez. Acresce a isto a semelhança de procedimentos entre portugueses e brasileiros em certos usos e costumes. consabidamente. datada de 29 de Dezembro de 1971.

reflectindo o desejo da preservação de laços históricos. logo actuando como factor de integração. pretenda ignorar os da pátria de origem. o referido formato dá lugar a um jornal Entendemos integração enquanto ajustamento dos imigrantes a um novo dependente de dois conjuntos de factores: “os que dizem respeito às características individuais dos migrantes e os que se relacionam com características fundamentais dos países de origem e de destino entre os quais se processa a transferência de recursos humanos”. junta-se uma boa adaptação vista esta enquanto “fenómeno multidimensional que compreende aspectos tais como a satisfação. No caso dos brasileiros assiste-se. A essa boa aceitação por parte do país de acolhimento. um desenraizado que luta.colónias” (AA. quer dizer. 2003: 51). pela integração 2 e pela socialização aprendendo padrões de cultura e modos de vida da sociedade de acolhimento. em Portugal. por tal. Seja como for. nem sempre de modo bem sucedido. e por mais que o país de acolhimento assuma uma postura fraternal. (Trindade 1995: 102) 2 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . primeira publicação destinada aos brasileiros residentes em Portugal. VV. Uma delas é a produção de uma imprensa própria. sem que. tinha uma periodicidade irregular. O primeiro número foi publicado em Maio de 1992 em formato de boletim de folhas A4 e. por outro lado. está disponível na CBL. a integração social e a identidade cultural” (Trindade 1995: 358). ligada ao país de origem. assazmente. a aculturação linguística. ao curioso fenómeno da aculturação. minimizadora da discriminação e da intolerância. Um caso paradigmático é o Sabiá. no Consulado do Brasil e noutros locais consabidamente frequentados por brasileiros. e de gizar estratégias de integração. o contacto entre portugueses e brasileiros origina “alterações nos padrões culturais originais” (Trindade 1995: 357) de ambos os povos o que deixa prever um intenso diálogo. Distribuído gratuitamente. o tipo de desempenho económico. ainda que se anunciasse mensal. reitera “os laços de amizade e cooperação com os países lusófonos”. A própria Constituição da República Portuguesa. jornal editado pela Casa do Brasil de Lisboa. no seu artigo 74. (CBL). lançado em Abril de 2003. bem como nas instalações dos seus anunciantes. Apesar desta reciprocidade de aceitação. têm necessidade de criar elos de identidade. a verdade é que um imigrante é. A partir do número 53. os brasileiros radicados em Portugal não deixam de constituir uma minoria e.

difunde serviços prestados por brasileiros em Portugal: restaurantes. XIIº ano da sua publicação.500 7. aumenta e a sua periodicidade anuncia-se mensal.º Para além de publicidade que. Os números publicados em 2005.º Mês Tiragem pp. composto por 4 a 8 páginas. estes números tratam de assuntos diversificados. lojas de comércio….500 8 4 4 4 N. que até aí era de 2 mil exemplares. constituem o corpus em análise e foram em número de 4. como se pode verificar pela leitura do seguinte quadro que abarca os 4 números saídos em 2005: Assuntos Política nacional (Portugal) Política nacional (Brasil) Política internacional Educação Saúde Habitação Economia Emigração Cultura Desporto Sociedade 3 1 4 2 2 4 5 2 5 4 Quantidade 19 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . clínicas médicas. 66 67 68 69 Março Junho Julho Novembro 5. de uma maneira geral.tablóide. Verificar-se-ia depois que essa periodicidade não viria a ser respeitada o que é perfeitamente compreensível neste tipo de publicações por constrangimentos de ordem vária que aqui nos dispensamos de escalpelizar.500 7. discotecas. bares. A tiragem. a saber: N. bancos. agências de viagens.000 7.

Os números. Seria de esperar.Lazer 2 Este quadro traz-nos algumas surpresas relativamente à imagem empírica que temos dos imigrantes brasileiros. não se torna difícil a identificação do público-alvo: Alcance / Público-alvo Público em geral Grupos étnicos / minorias Quantidade 40 12 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . são sempre chamados em destaque à 1. ainda que em número reduzido. são cegos. sendo essa preocupação menor relativamente ao país de origem. e uma leitura dos artigos. naturalmente. por exemplo. que não se faz por extrapolar o âmbito deste trabalho. Por tal. contudo os interesses parecem estar virados para o que se passa em Portugal. uma maior abundância de artigos relacionados com desporto e lazer. Reveladoras de certas preocupações são igualmente as chamadas à 1.ª página Quan tidade Política Nacional (Portugal) Política Nacional (Brasil) Política Internacional Habitação Cultura Desporto Sociedade 1 3 1 2 1 1 13 Uma leitura comparativa dos dois quadros descobre um jornal intensamente preocupado com os acontecimentos políticos do país de adopção dos seus leitores. evidencia preocupações de índole cultural e uma atenção especial para a política internacional cujos artigos constantes.ª página. mostra bastante superficialidade quer no tratamento quer nas opções conteudísticas. numa manifesta vontade de interagir com o país de acolhimento. Por outro lado.ª página: Chamadas à 1.

Brasil Expectativas na política de imigração do Títulos dos artigos Imigrantes vão às ruas exigir a regularização Regularização para todos Moção exige políticas de integração Duzentos mil pediram regularização em ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . o jornal dirige-se.º 67 N. muitos têm escolarização secundária e superior e querem ser o elo de união entre Portugal e o Brasil. prioritariamente ao público em geral.º 69 3 N. Não se sentem vítimas de tratamentos discriminatórios. são vários os artigos do Sabiá que se prefiguram como factores de aglutinação e inserção aos níveis social. logo não se assumem como minoria. ainda que não quebrem a sua ligação ao país de origem. cultural e profissional e encontram-se assim distribuídos pelos 4 números saídos em 2005: Artigos 66 Inserção social Inserção política Inserção cultural Inserção profissional 1 1 1 3 4 2 6 6 5 6 5 22 1 N.º 66 • • • • Espanha • novo governo PS • Na ponte aérea Portugal. político. grande parte dos artigos. cujos títulos aparecem em baixo: N. de forma quase obsessiva. Apesar desta visão optimista.º Total A observação deste quadro mostra que o desejo de inserção em termos políticos ocupa.Não esquecendo embora os imigrantes.º 68 2 N. Isto tem a sua explicação no facto do perfil sócio-económico dos imigrantes brasileiros ser extremamente diversificado.

neste ano de 2005 a grande preocupação do jornal enquanto elemento de inserção política. completados pelos conteúdos que conhecemos mas que extrapolam o âmbito deste trabalho.67 • • • • • O direito de ser português Eleições em Portugal e no Brasil Lei da Nacionalidade – Alterações à vista Governo promete mudar a lei Quem pode ser português Burocratices Brasileiro tem nova chance de conseguir o 68 • • visto • maioria de fora • • • Lei da nacionalidade do governo deixa Foi bonita a festa. De uma forma geral lamentam a morosidade processual e pugnam por uma cidadania activa. É sem dúvida. De facto. outrossim com a legalização obviadora da segurança que permita a construção do seu futuro em Portugal. outros ainda onde uma leve ironia esconde uma crítica profunda. Por isso surgem mesmo títulos incentivando à luta. pá Dois anos depois. – dupla nacionalidade. nos dão a noção clara das pretensões dos imigrantes brasileiros em Portugal e que são: – legalização e integração. o Sabiá corrobora a ideia de que o grande problema dos brasileiros em Portugal não tem a ver com a adaptação. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . só 14 mil legalizados Opiniões divergem na avaliação do acordo Casa do Brasil convoca acto público pela 69 • legalização • • • • Nacionalidade: o que vai mudar Mobilização já! Muito barulho por nada Governo admite nova lei de estrangeiros mas recusa debate Só a leitura dos títulos destes artigos. – igualdade de direitos. outro com mero carácter informativo. olhando com alguma apreensão o empenhamento dos governantes portugueses e brasileiros na resolução dos conflitos.

No que diz respeito à inserção social temos os seguintes artigos: N. a tentativa de inserção cultural atravessa também as páginas do jornal através dos seguintes artigos: N. O poeta do absurdo ou Títulos dos artigos O significado da palavra associação Primavera relança actividades na Sendo.Ainda que bastante distanciada. fazem perceber a necessidade dos imigrantes brasileiros interagirem com os portugueses quer no que diz respeito a actividades lúdicas quer na procura de uma forma de estar semelhante. Para além disso há uma preocupação por práticas interculturais. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . respeitando-se. naturalmente as idiossincrasias de cada povo. a maior parte dos artigos que privilegiam a inserção cultural assentam em iniciativas desta associação que através dele as promove e as divulga.º 66 Títulos dos artigos • casa própria 68 • • na Caparica Mais Brasil Torcida premiada Como adquirir a Ainda que escassos. o Sabiá propriedade da Casa do Brasil. como é.º 66 • • CBL • • o Dali do Sertão 67 • • Era uma vez na América As sombras das coisas Mulheres de Morte Zé-Limeira. quer dizer uma divulgação das literaturas e das artes portuguesas e brasileiras bem como das suas respectivas afinidades.

mesmo assim. que ter capacidade de resposta para muitas situações logo não pode canalizar toda a sua atenção para um jornal que. por outro sobre o papel que ele tem na integração destas minorias. configuram uma publicação que se debate com problemas económicos como é comum neste tipo de imprensa de imigrantes. fundamentalmente. é eco das preocupações dos potenciais leitores. há uma certa tendência para que esta se faça no âmbito da restauração e. Da sua leitura depreende-se que essas preocupações se prendem. Esta observação dos números do jornal Sabiá saídos em 2005 permitem-nos tirar conclusões por um lado sobre as características de um jornal feito por brasileiros e para brasileiros fisicamente distanciados da sua pátria. Curiosamente o jornal é policromático. Sushi do jeito que o futebol e churrasco 69 • Restauração Os seus títulos demonstram que não sendo grande a preocupação em termos de inserção profissional. Os problemas de natureza cultural são também tratados recorrentemente ainda que a sua superficialidade configure um público-alvo minoritário ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .Em termos de inserção profissional. a tiragem reduzida e o escasso número de páginas onde. com o que se passa no país de adopção. sobretudo uma particular acuidade pela actualização dos imigrantes de forma a acompanharem a evolução da Europa. a publicidade é abundante. o que o torna naturalmente mais dispendioso mas também mais consentâneo com as características do público que quer atingir. mesmo assim. naturalmente. Este interesse é já a primeira manifestação de tentativa de inserção e aparece em artigos quase sempre com chamadas à primeira página. encontrámos os seguintes artigos: N. A periodização irregular.º 66 Títulos dos artigos • povo gosta 67 • Informática. A instituição sua proprietária – Casa do Brasil de Lisboa – tem.

com uma formação cultural de nível médio / inferior o que nem sempre corresponde ao perfil dos brasileiros residentes em Portugal (AA. VV. 2003. 87). Isto leva-nos a crer que, dadas as similaridades linguísticas, a maior parte dos imigrantes brasileiros recorre à leitura da imprensa portuguesa, sendo o Sabiá tão só uma forma de matar as saudades pátrias. A sua periodicidade irregular poderá também gerar esta situação. De qualquer forma, o Sabiá cumpre o seu papel integrador da comunidade brasileira. A integração faz-se aos níveis social, político, cultural e profissional ainda que nos artigos nele inseridos, e que tentámos dissociar, se torne difícil separar estes tipos de integração uma vez que aparecem assiduamente em simultâneo. Mesmo assim tentámos ver a predominância de cada um deles. O único número que remete para os quatro tipos de inserção acima referenciados é o 66. De facto é o maior – 8 páginas enquanto os outros números têm apenas 4 – logo aquele que pode mostrar interesses diversificados. Apenas a inserção política é contemplada e tratada de forma obsessiva em todos os números. Isto é facilmente explicável. Dissemos, no início, que vários eram os factores optimizadores da inserção dos brasileiros em Portugal. Assim sendo, por aquilo que aduzimos, constata-se que desde que se encontrem numa situação legal, seja, politicamente inseridos, a inserção cultural, social e profissional são praticamente automáticas. Por um lado, a maioria dos brasileiros têm em Portugal um emprego estável (AA. VV. 2003: 86), por outro, convém não esquecer que não só, mas também através da comunidade imigrante, o nosso país assimilou muitos traços da cultura brasileira fazendo, muitas vezes, dela um modelo. A forma extrovertida de ser deste povo coadjuvada pela comunhão linguística viabilizam a rápida inserção social. Há, contudo, outra explicação para o tratamento obsessivo da problemática da inserção política nestes 4 números do periódico. Eles saíram em 2005, quando o governo português introduziu alterações à lei da imigração. Fazendo, como faz, o Sabiá, eco das preocupações dos imigrantes brasileiros não admira que dê voz à sua luta pela conquista de determinadas regalias.

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Assim sendo, e apesar dos constrangimentos vivenciados por este tipo de associações e publicações, o Sabiá erige-se como factor de integração, ponto de encontro e também de partida para aqueles que pretendem estabilizar numa segunda pátria.

Referências Bibliográficas
AA. VV., 2000, Dicionário de Ciências da Comunicação. Porto, Porto Editora. AA. VV., 2003, Atitudes e valores perante a imigração. Lisboa, ACIME. Chaliand, G., 1991, Atles des Diáspores. Paris, ed. Odile Jacob. Elias, N., 1980, Introdução à Sociologia. Lisboa, Edições 70. Escarpit, R., 1991, L’information et la Communication. Théorie Générale. Paris, Hachette. Esteves, M. C. (org), 1991, Portugal, país de Imigração. Lisboa, I. E. D. Jackson, J., 1991, Migrações. Lisboa, Escher. Leitão, J., 1991, A situação dos Emigrantes e das Minorias Étnicas na Imprensa. Lisboa, I.E.D. Mauss, M., 1991, Sociologie et Antropologie. Paris, Quadrige / puf. Neno, P., 1989, Morrer no Brasil. Lisboa, Veja. Neto, F., 1993, Psicologia da Migração Portuguesa. Lisboa, Universidade Aberta. Trindade, B R., 1995, Sociologia das migrações. Lisboa, Universidade Aberta. Sabiá, n.º 66, 67, 68 e 69 (2005). Lisboa, Casa do Brasil.

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V – Capítulo

Educação e formação

Textos de comunicações dos painéis:

Transnacionalismo, identidade, desenvolvimento
Coordenação

Miguel Moniz
Instituto de Ciências Sociais - Universidade de Lisboa

Percursos e testemunhos em Antropologia da Educação –
Coordenação

Telmo Caria, Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro - UTAD

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Sistema de Ensino, Transição Societal e Práticas Educativas Estratégicas dos Actores Sociais
Virgílio Correia Escola Superior de Educação de Coimbra (ESEC) vcorreia@esec.pt

Este texto pretende contribuir para o esforço de compreensão da realidade social angolana na actual fase de transição política, económica e social. Trata-se de uma análise da realidade, tentando captar as dinâmicas sociais resultantes das práticas educativas estratégicas dos actores sociais no quadro da transição e veiculadas pelo Sistema de Ensino. Estas práticas educativas estratégicas são analisadas enquanto respostas sociais a uma política educativa e enquanto mecanismo social que reflecte e reforça a dinâmica societal. Abordando três períodos do Estado pós-colonial (1975-1991/1992, 1992-2002 e 2002 até ao presente), propõe-se demonstrar que essas três conjunturas correspondem a dinâmicas de ensino que são função das políticas de ensino ‘praticadas’ pelo Estado e das respostas dos actores sociais a essas mesmas políticas. Palavras-chave: sistema de ensino, práticas educativas estratégicas, actores sociais, Estado pós-colonial, Angola.

Não constituindo objectivo desta comunicação apresentar resultados definitivos, deixam-se aqui algumas notas que permitem apreender e compreender a prática e o sentido das estratégicas educativas dos actores sociais no âmbito do processo de transição política, económica e social em Angola. A estrutura expositiva da comunicação obedece o seguinte percurso: num primeiro momento debruça-se sobre o processo de constituição e desenvolvimento da estrutura social angolana e o papel societal do sistema de ensino no mesmo. Esta incursão ao passado é fundamental para se perceber o processo de transição que Angola vem experimentando de forma particular desde o princípio da década de 90. A seguir aborda-se o processo de transição angolano no quadro do movimento global dos processos de transição que têm vindo a atravessar vários países da África ao Sul do Saara (ASS). Esta tarefa é completada com uma explicitação sucinta das principais perspectivas analíticas do processo de transição, proporcionando assim um elemento indispensável para se perceber a especificidade do caso angolano. Finalmente, no terceiro e último ponto, faz-se uma aproximação à questão central desta pesquisa: as estratégias educativas dos actores sociais no processo de transição em

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Angola. Nesta fase do trabalho não só é possível identificar os protagonistas (segmentos sociais) como também percepcionar os sentidos das suas acções.

Sistema de ensino e formação da estrutura social angolana

O objectivo que move o presente trabalho é o de proceder a uma análise crítica da realidade angolana do presente e captar as dinâmicas sociais resultantes das práticas estratégias dos actores sociais associadas ao sistema de ensino, no quadro do processo de transição política, económica e social iniciado em 1991/92. Semelhante empresa não dispensa uma perspectiva analítica socio-histórica. Muito pelo contrário, a análise do passado, sobretudo do passado recente, que coincide grosso modo com as décadas de 60 e 70, é fundamental para se perceber o momento actual. Esse período da história angolana, particularmente no que se refere às políticas e práticas educativas coloniais, marca decisivamente o Estado pós-colonial pela possibilidade de (re)estruturação societal que então permitiu e que haveria de permitir mais tarde, nos primeiros momentos após a independência. Os períodos que precederam e seguiram a independência foram importantes para a definição das posições e dos protagonistas na estrutura social angolana. Com a independência, e a consequente saída de grande maioria dos portugueses, era preciso ocupar os lugares deixados vagos, criar novos e eliminar outros. Neste processo era preciso fazer uma triagem, saber quem entrava, quem saía, e quem se mantinha. No entanto, o processo de formação social angolana vem de períodos mais recuados. Se é verdade que na época pré-colonial uma população pré-banta — constituída por pequenas sociedades, pouco diferenciadas e com baixo nível tecnológico — cobria de um modo escasso e intermitente o actual território angolano, no decurso de uma penetração lenta, 1 já nos quatro séculos de presença portuguesa no litoral angolano (iniciada no fim do século XV e prosseguida até meados do século XIX), sobretudo na sua fase final, verificava-se a coexistência de duas sociedades estratificadas, cujo
No Norte formou-se a sociedade Kongo, tendo alcançado extensão apreciável e alguma complexidade e maturidade, mas não atingindo o nível de certas sociedades políticas que naquela época (século XX) já existiam noutras partes de África. No Leste a penetração, até o século XV, não levou à formação de unidades sociais maiores. E no Sul (e Oeste) do Cuanza a cobertura demográfica continuara fraca e intermitente.
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«centro» era formado por um núcleo pequeno de europeus e «assimilados» (isto é, os que se encontravam próximos dos europeus, não no sentido legal que viria a ter mais tarde) e O período seguinte, isto é, a fase da ocupação colonial, que coincide com as últimas décadas do século XIX, corresponde ao momento em que Portugal redobrou o seu esforço de conquista do «interior de Angola», numa clara tentativa de antecipação e reforço da sua presença em África, em consequência da crescente concorrência de outros países europeus empenhados na «corrida para a África». Nesta fase consolidou-se um sistema eco-cultural colonial integrado, 2 composto por um «centro» e uma «periferia». O «centro» era constituído por uma imigração portuguesa cada vez mais importante, um número limitado de africanos «assimilados» e um número algo maior de mestiços. A «periferia» era composta por um número crescente de africanos, que constituiriam a mão-de-obra não qualificada (ou pouco qualificada) de que o sistema precisava para o seu funcionamento. Esta situação de dominação do «sistema central» sobre a «periferia» ou «sistemas tributários» manteve-se mesmo depois de algumas transformações posteriores a 1961, como são exemplos o surgimento de disposições legais abolindo a distinção entre «núcleo» e «periferia» no «sistema central», e entre «sistema central» e «sistemas tributários»; a supressão do trabalho obrigatório e da coacção para aceitar contratação de trabalho; a imposição de culturas obrigatórias, etc. Por conseguinte, essas alterações não passavam de estratégias da metrópole portuguesa para manter o seu domínio colonial sobre Angola, recorrendo à situação militar e à introdução de algumas modificações no status quo. Uma análise do papel societal do ensino na formação e desenvolvimento da estrutura social angolana de então permite constatar que, em cada um daqueles momentos históricos, o sistema de ensino teria não só servido como mecanismo de consolidação do modelo societal vigente, mas também contribuído para a passagem de um modelo para outro e para produzir modificações parciais em cada um dos modelos (Heimer 1973: 639). 3 Assim, nos primeiros quatro séculos da presença portuguesa, as sociedades
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Sobre a teoria dos ecossistemas eco-culturais cf. Silva e Morais 1973: 93-109. Conclusões globais de vários estudos levados a cabo nas ciências sociais sobre o papel societal da «educação formal» (ensino escolar) apontam no sentido da confirmação da hipótese segundo a qual o impacto da educação tende a reforçar a dinâmica societal prevalecente (cf. Bourdieu e Passeron s.d.).
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africanas e as «micro-sociedades coloniais» desenvolveram os seus mecanismos próprios de educação. Aquelas dispunham dos seus mecanismos de educação das novas gerações e estas últimas desenvolveram um pequeno número de instituições escolares que viriam a complementar a educação «informal». Relativamente às instituições escolares das «micro-sociedades coloniais», umas serviam os «núcleos» da população urbana e outras a parcela da população africana situada na faixa do território anexa a Luanda. Se as primeiras contribuíam para a consolidação do «centro» das micro-sociedades coloniais as segundas serviam para a consolidação do domínio do «centro» sobre a sua «periferia». Na fase da ocupação colonial, o estabelecimento de uma rede escolar estatal contribuiu para a consolidação do «centro» do sistema colonial, enquanto que uma rede escolar paralela estabelecida pela penetração missionária nas sociedades africanas (iniciada de forma sistemática na segunda metade do século XIX) viria a cobrir o conjunto do território. Tendo atingido uma ínfima parte das sociedades rurais africanas, o ensino missionário (chamado «ensino rudimentar») ajudou, por um lado, a consolidar, em termos de «superestrutura» ideológico-cultural, o domínio do «núcleo» sobre a «periferia» do «sistema central» e do «sistema central» sobre os «sistemas tributários» e, por outro lado, a mobilizar um certo número de africanos de que o «sistema central» precisava para o seu funcionamento. No período de transformação posterior a 1961 um balanço global da situação aponta no sentido de que as prioridades relativas tanto ao ensino primário como ao ensino pós-primário foram dadas ao «sistema central», pelo que o ensino constituiu um poderoso mecanismo de «integração» e de diversificação. Quanto aos «sistemas tributários», a expansão do ensino pouco ou nada contribuiu para o seu desenvolvimento; continuou, isso sim, a constituir um mecanismo de «domesticação» ideológico-cultural dos «sistemas tributários» pelo «sistema central», um mecanismo de drenagem de elementos dos «sistemas tributários» para o «sistema central» (Heimer 1973: 643). Essas transformações da década de 60 foram o culminar de uma estratégia iniciada na década anterior. Em 1951, quando o ensino «rudimentar» passou a chamar-se «ensino de adaptação», havia a intenção de facilitar (de forma restrita, é claro) a passagem de alunos deste tipo de ensino para o estatal; a partir de 1954/55, em certas zonas urbanas ou mesmo rurais praticava-se uma admissão «tácita» em escolas estatais de

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crianças africanas oriundas de famílias consideradas «indígenas»; a reforma do ensino primário de 1961, sancionada por lei em 1964 e continuada por outras tantas medidas subsequentes, foram importantes em termos estruturais (cf. Ministério do Ultramar 1964). Os aspectos mais importantes desta mudança foram a abolição da distinção de princípio entre duas redes de ensino primário, com status diferentes; o alargamento da actuação do Estado, implicando o estabelecimento de postos escolares rurais e «suburbanos»; a «oficialização» do ensino missionário católico (cujos professores ficaram a depender, financeira e pedagogicamente do Estado); a manutenção das escolas das missões protestantes, sem subsídios estatais, mas seguindo os modos de actuação das escolas estatais; a generalização de um tipo de escola inspirada nos parâmetros culturais vigentes em Portugal, com modificações apenas destinadas a facilitar a transição da criança africana «não-assimilada» para este tipo de ensino; a introdução de dois novos tipos de agentes de ensino: o monitor, elemento africano, com «habilitações literárias» elementares e precária formação profissional, e o professor de posto, não diplomado, com «habilitações literárias» equivalentes ao ensino preparatório; a aceleração da expansão escolar (ensino primário) beneficiando sobretudo efectivos das áreas rurais; a introdução da escola preparatória do ensino secundário (1968); a expansão do ensino liceal técnico; e a criação do ensino universitário. Independentemente das razões que se prendem com as estratégias políticas de fundo, essa mudança na política educacional proporcionou, por um lado, à sociedade central em expansão uma mão-de-obra mais qualificada e numerosa e, por outro, contribuiu para uma maior corrosão e incorporação das sociedades periféricas; isto é, a educação foi um factor decisivo para o avanço maciço dos não brancos em posições de classe média, que durante muito tempo foram domínio quase exclusivo dos brancos. 4 Assim, com a independência e a correspondente saída dos portugueses, os lugares deixados vagos foram ocupados por esse grupo que viria a constituir a classe dirigente e burguesia técnica executante, o gérmen da classe-Estado pós-colonial. Com efeito, o
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Esta explicação não invalida, no entanto, as interpretações dessas mudanças que vão no sentido de explicar estas últimas como uma estratégia de «contra-subversão», isto é, uma tentativa da metrópole assinalar o fim da discriminação social/racial e manifestar preocupação com o «bem-estar das populações», dando resposta a uma procura da educação por parte dos «indígenas»; como uma preocupação de valorização da Província (mais tarde Estado) de Angola face à metrópole, africanizando, em certa medida, os manuais escolares e tentando criar uma afiliação cultural e uma identificação forte e generalizada com Portugal e, deste modo, minar a base de uma contestação anti-colonial inspirada na ideia de uma identidade nacional angolana (cf. Silva 1969; citado por Heimer 1973: 641).

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a estratégia de um Estado que. maior participação na classe-Estado ou dirigente). até 1982. à semelhança da quase totalidade dos Estados africanos. uma convivência harmoniosa entre os vários segmentos sociais ou etnias africanas estaria dependente de uma reconversão do referido modelo societal. possibilitando aos empresários europeus fixar um nível de remuneração mais baixo para a mão-de-obra assalariada. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Nessas circunstâncias. A prática desse Estado protector reflecte. Esta situação era ‘compensada’ por um cartão (o cartão do povo) que dava acesso às «Loja do Povo». a utilização do sistema de ‘cartão’ é um exemplo disso mesmo. em Luanda. ou conseguir combinações de ambas as modalidades. São exemplos os conflitos que envolveram geralmente os Ovimbundu que. Com os Bakongo. em detrimento de outros). Quando esta prática de funcionamento do Estado começou a dar mostras de fraqueza.6 Estado pós-colonial seguiu e ‘reproduziu’ o ‘modelo societal’ da época colonial. 5 Nas primeiras décadas de independência. melhores ‘razões de troca’ com a classe-Estado ou dirigente. algumas tensões inter-étnicas entretanto verificadas foram provocadas pela ‘situação colonial’. no Uíge. uma estrutura social heterogénea. reconversão essa que devia ser acompanhada de um maior desenvolvimento. ou mesmo cessou. também. Em Angola. os assalariados do Estado recebiam um salário nominal baixo. Com efeito. os conflitos resultaram na competição nos empregos oferecidos pelo «sistema central» (cf. consequentemente. os riscos mínimos de conflito associados aos vários segmentos sociais ou às etnias africanas foram em larga medida superados graças a um Estado protector. praticante de políticas sociais dirigidas aos grupos vulneráveis. criava as condições para competições individuais e colectivas que podiam assumir feição de concorrência inter-étnica. já que a manutenção do baixo nível médio de desenvolvimento. utilizando as mais diversas formas de compensação. estavam criadas as condições para o surgimento de conflitos diversos e. que esteve congelado durante muitos anos. tenta garantir a permanência do poder e a legitimação social. Heimer 1973: 648). os trabalhadores ovimbundu colaboraram na expansão do «sistema central». em tudo semelhante ao verificado nos «sistemas tributários» e na «periferia» do «sistema central». de práticas estratégicas de sobrevivência dos actores sociais. ou obter a seu favor uma mudança nos termos da heterogeneidade (por exemplo. isto é. aceitaram a sua utilização pelo «sistema central» entrando em disputas com outras etnias. Na luta por condições relativamente melhores (ou apenas menos más) podia dar-se o caso de determinadas etnias tentarem ou garantirem para si mesmas uma posição mais vantajosa na estrutura vigente (por exemplo. ao ver tolhida a sua base de subsistência. com os Akuwambundu. Nestas lojas vendiam-se produtos nacionais 5 Na época colonial.

o espaço de sobrevivência da quase maioria da população. entre outras (cf. 6 A restrição daquela prática de sobrevivência. Generalizaram-se as práticas de «corrupção». calculada ao câmbio oficial. O’Donnel e Schmitter 1986). e não satisfazer com as aberturas/soluções apresentadas. práticas essas que se mantiveram de forma sistemática até 1989. que exigirá sempre mais. absentismo. assim. postos em marcha pelo poder instituído. retém a sociedade civil como protagonista de desmantelamento dos regimes monopartidários (Mbondjo 1993). O cartão dava direito a um cabaz de compras em função do número de elementos do agregado familiar e/ou da qualificação profissional do detentor. segundo o qual a instituição da democracia em África se deveu a um processo de democratização progressiva. mais do que nunca. assumindo formas de nepotismo. Com efeito. em Angola a fraqueza do Estado e o ‘abandono’ das populações surgiram ligados ao processo de transição política. diferentemente das outras formas de mudança política baseadas na violência. isto é. a não ser sob graves riscos políticos (O’Donnel 1979. Kwanza. suborno. O processo de transição política. As medidas liberalizantes podem. as transições políticas tendem a surgir associadas aos processos de liberalização económica. ora valorizando a sociedade civil (‘política pela base’). mas depois pode levar as reformas até um ponto onde já não se pode parar. económica e social na África ao Sul do Saara (ASS) e o caso angolano À semelhança do que aconteceu na África subsaariana em geral. Fall 1993). decorrem na vigência de expectativas mais ou menos seguras. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . acumulação de cargos ou falta de decisões. precipitar um processo de expansão de expectativas de uma sociedade civil. permitindo no início apenas ‘aberturas’ controladas do espaço político. ao reforço da utilização do património do Estado em benefício próprio. em Abril de 1992.7 e importados em moeda nacional. Trata-se de processos de 6 Muitas empresas do Estado utilizavam também formas de pagamento em géneros aos seus trabalhadores. O sector informal da economia tornava-se. altura em que foi extinto o controlo dos preços. 7 Os processos africanos de transição têm sido explicados ora valorizando o sistema político (‘política pelo topo’). Um exemplo do modelo de explicação das transições pelo topo é o trabalho de Fall. realizado por vários regimes de partido único (cf. conduziu. sobretudo para os trabalhadores que mais precisavam dela. económica e social. 7 As medidas de liberalização tendem a introduzir uma significativa abertura do regime burocrático-autocrático em vigor. Pode dizer-se que os processos de transição. Pierre Moukoko Mbondjo representa o pólo oposto. Ennes 1994/95: 171-196).

muitos dos Estados africanos conhecem uma dinâmica económica regressiva desde então. Bayart 1985). em certa medida. na segunda metade dos anos 80. Efectivamente. as transições nunca chegam a caracterizar-se pela anomia. O Estado funciona. não como um agente do desenvolvimento. O abandono dos mecanismos de distribuição social dos rendimentos por parte do Estado e o alargamento das desigualdades. parece encontrar razões que as justifiquem. o fomento do aparecimento de empresas privadas. A aceitação deste paradigma causal das determinações económicas nos processos políticos africanos.8 mudança intencionalmente direccionada e parcialmente dominada pelos actores em presença.7%. na qual os recursos públicos são distribuídos segundo princípios clientelares. É neste contexto que uma grande maioria dos Estados africanos é sujeitos aos programas de estabilização impostos pelo Banco Mundial e pelo Fundo Monetário ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .5%. quase sempre. incentivar e acelerar esse mesmo processo de transição. de uma tendência acentuada e prolongada de degradação das condições económicas (Boudon 1990. neste sentido. Tocqueville 1989). o fim dos sistema de controlo de preços de bens e serviços essenciais. mas sim como mecanismo de predação dos recursos financeiros (Bayart 1989. iniciados nos anos 80. a partir de então experimenta a tendência para o abrandamento do ritmo de crescimento das suas economias: entre 1981-1989 o crescimento do PIB atinge os 0. A ideia base é que os processos de ruptura resultam. a hipótese segundo a qual a derrapagem económica sofrida pelo continente africano. tenha contribuído para desencadear. Esta fraqueza do Estado. resultam muitas vezes deste processo. com a consequente perca das fontes tradicionais de legitimidade. O Estado é objecto de apropriação por uma gestão neo-patrimonialista. Ou seja. Por todo o continente a desintegração institucional surge como uma das facetas mais importantes da crise. tais como a perca de certos monopólios. A nível económico. Ao contrário dos processos de ruptura. e que têm na democracia o fim último a atingir (Przeworski 1994). as medidas de liberalização acabam por abrir brechas nos fundamentos doutrinários. associada ao processo de transição. ao perder grande parte da sua legitimidade o poder político provoca fenómenos de descontentamento e insubordinação. Se entre 1960-1972 o continente regista um crescimento real do Produto Interno Bruto (PIB) na ordem de 2. etc. confirma.

que não existe uma correlação linear e directa entre fraqueza ou crise económica e os respectivos efeitos sociais (mais) dramáticos. Camarões e Gana). Botsuana e também Senegal). à fraqueza e à perca de alguma soberania real dos Estados tanto a nível externo como interno. na alienação das empresas. As medidas accionadas pelo PAE contribuem. Angola. Cabo Verde. na restrição do pacote de preços subsidiados de produtos essenciais. Ou seja. Congo e Mali). nomeadamente o respeito pelos Direitos Humanos e o engajamento do poder político no processo tendente à instauração do pluripartidarismo.9 Internacional. as ‘novas democracias’. etc. sem alternância de poderes (Costa do Marfim. manifestações diversas. a educação e a cultura. As reformas institucionais. São Tomé e Príncipe. No panorama da rápida evolução política propriamente dita ocorrida na ASS em direcção ao multipartidarismo é possível distinguir quatro categorias: as ‘velhas democracias’. resultantes de alternância de poderes (Benin. em muito. para a erosão da legitimidade do Estado. no entanto. a um tempo. A aplicação das medidas do PAE conduzem. jurídicas e políticas. perdendo em muitos casos o controlo sobre o processo social. mais marginalizados e mais pobres que enfrentaram a rejeição mais expressiva do regime monopartidário aí existente. são alguns exemplos. Gâmbia. na desvalorização da moeda. a aplicação das medidas do PAE parece estar na origem de greves. os regimes monopartidários não conseguem resistir às pressões externas e internas que apontam para o seu desmantelamento. traduzida na redução das despesas públicas e restrições das importações associadas ao despedimento de funcionários públicos considerados excedentários. Os governos perdem a capacidade autónoma de decisão em matéria estrita de política económica e bem assim nos aspectos que se prendem com o enquadramento legislativo e definição constitucional de competências. A adopção do Programa de Ajustamento Estrutural (PAE) coloca estes Estados na situação de dependência. motins. Neste quadro. nos cortes nos programas sociais que envolvem a saúde. 8 Um balanço do processo de transição democrática iniciado na ASS nos 80 dá conta de alguns resultados positivos mas também de muitos obstáculos. onde vigorava o multipartidarismo desde a independência (Ilhas Maurícias. países que proibiram o multipartidarismo ou que tendo aceite avançar com Deve notar-se. 8 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Zâmbia. não deixando aos responsáveis políticos africanos um espaço de manobra apreciável. e a mobilização política contra o poder monopartidário e sua penalização eleitoral. etc. No plano interno. não foram os países mais endividados. Gabão. as ‘novas democracias’.

pode dizer-se que as mudanças entretanto ocorridas não produziram efeitos significativos. o surgimento e o desenvolvimento de práticas democráticas. ao passado longínquo e recente da África nem às características do regime anterior. persistem dúvidas sobre uma «participação» que se reportava às formas de democracia da política tradicional africana (cf. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Buijtenhuijs e Rijnierse 1993: 18 e 19). Por outro lado.10 mudanças políticas tudo fizeram para minar esses acordos (Quénia. todas formas de organização política que não favoreciam. Autores há que são ainda mais pessimistas. noutros deparou-se com algumas dificuldades. ou classe dirigente. ainda. Quando da independência o poder foi apropriado pela elite política e. reconhecendo uma dimensão económica. jogando um papel central na formação das classes sociais. Tratando-se. a transição entrou numa fase de estagnação. caracterizados por Por outro lado. Bozenan 1976). vendo nela apenas um sistema multipartidário (cf. fundamentalmente. Este grupo inclui autores que encaram a democracia no seu sentido mais lato. um à direita e outro à esquerda (Buijtenhuijs e Rijnierse 1993: 1). Estes grupos eram constituídos sobretudo por altos funcionários competentes. mais tarde. a centralização e o paternalismo. aproveitava as suas posições para se munir de uma base económica própria pela criação de empresas públicas e privadas ou outras actividades económicas. a classe-Estado. se relativamente ao passado longínquo. em alguns países. pela classe política ou. Esta característica influenciou decisivamente a política africana e o processo de competição política. assim como autores que pensam a democracia de uma forma mais restrita. dirigentes de partidos e oficiais superiores. como sejam a oposição dos poderes instituídos e. dado que não havia uma burguesia local. de Estados que não tinham o controlo sobre os meios de produção. relativamente ao passado colonial é consensual a ideia de que a tradição política então praticada repousava sobre a autarcia. certamente. o funcionamento do Estado pós-colonial não favorece o desenvolvimento e a prática da democracia. e continua ainda a constituir. ex-Zaire e Malawi). Em alguns casos o processo foi bem sucedido. De qualquer modo. pela burguesia burocrática. Eles fundamentam as suas posições essencialmente nas imperfeições de algumas experiências já levadas a efeito. o processo de democratização em África não deixou de ser influenciado pela combinação de factores externos e internos e acontecimentos só foi 9 Os múltiplos obstáculos ao processo de democratização estão na origem do pouco optimismo de muitos autores relativamente ao futuro do continente africano. pré-colonial. O Estado pós-colonial em África constituiu. e o caso da Nigéria onde o governo militar autorizou dois partidos. o canal principal de crescimento económico. Com efeito. quer no plano político quer no plano económico. 9 Esta evolução não é estranha. e não favorecem.

surge também num contexto de crise económica e social que atravessa o país e num contexto de fortes pressões internas e externas que reivindicam para Angola mudanças rápidas e drásticas dos rumos que o país tem tomado. só assinou os Acordos de Bicesse porque estava convencida que sairia vencedora das eleições de 1992. demitindo-se progressivamente das funções sociais que anteriormente assumira. O MPLA. ao facto dos Acordos de paz de Bicesse destinados a pôr fim à guerra civil. além de não ter tomado a iniciativa de abertura democrática. Para esta autora. A UNITA. só cedendo sob pressões. Por isso mesmo. mas teve o mérito de possibilitar ‘alguma abertura política’ para manifestações sociais/laborais e económicas. «o papel da ‘comunidade internacional’ neste processo e sua responsabilidade política neste resultado foram consideráveis» (Messiant 1995: 48). Angola experimenta um processo de transição que enfrenta problemas graves. de negociações e de guerra intensificada. por seu lado. em larga medida. este fracasso fica a dever-se. terem sido mal conduzidos (Messiant 1995: 40-57). resistiu enquanto pôde. quando deu conta 10 É verdade que a abertura pré-eleitoral de 1991-92 não permitiu resolver as situações de guerra. Mas o processo angolano. Conforme Messiant. visto que o processo de pacificação foi limitado aos dois beligerantes: UNITA e MPLA. Para esta autora. um processo que até 2002 esteve bloqueado (Buijtenhuijs e Thiriot 1995: 26). com o início do processo de abertura política. o insucesso do processo de transição angolano fica a dever-se também ao facto de que os dois principais partidos angolanos. não estarem convencidos de que a democracia era o melhor sistema governamental. estavam lá e aproveitaram as circunstâncias para fazer ouvir a voz dos seus protestos. 10 Este abandono do Estado das suas funções sociais é agravado pela necessidade do governo do MPLA garantir a sua manutenção no poder na sequência da guerra civil vivida após as eleições de 1992. negociados sob auspícios internacionais. que apelavam para uma mudança. Enfim.11 possível porque as forças sociais internas. A partir de 1991. Em Angola o processo de transição assume características específicas. O insucesso do processo de transição em Angola tem certamente várias causas. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . associado a um processo liberalização económica. Esta especificidade deve-se sobretudo ao facto desse processo surgir num contexto de guerra civil em que o país está mergulhado há mais de três décadas. à semelhança da grande parte do resto do continente africano. o que não acontecia no sistema monopartidário vigente anteriormente. UNITA e MPLA. o Estado diminuiu o seu controlo sob todos os sectores da economia.

dependente de um contexto de guerra. Se os dirigentes ou ex-dirigentes candidatos a empresários encontram nos mecanismos de privatização um espaço para manter o status quo. a taxa de desemprego em Luanda era superior a 24%. demitem-se das suas funções ou ausentam-se do serviço para procurar sobrevivência na economia paralela. iniciado em 1991. Sommerville 1993: 51-77. Subempregados. responsável por 96. em 1993 a situação agravara-se: o ritmo de inflação mensal atingiu os 23%. e sobre a guerra civil angolana cf. O PIB cresceu na ordem dos 8. recorrendo sobretudo ao sector informal da economia. registou uma significativa recuperação. vão sobreviver nos círculos informais da economia. às divisas e ao crédito. uma possibilidade de manter a sua posição na primeira linha de hierarquia económica e social do país. que consagra grande parte dos artigos a . como é o caso do comércio grossista. os deslocados e outros afectados pela situação de guerra atingiam os três milhões de pessoas. 57. a situação económica e social em Angola não melhorou. Pycroft 1994: 241-262.2%. e a Revista Politique Africaine. Pereira 1994: 1-28. cerca de metade dos quais entre a população rural (cf. 5% das exportações de 1994. prejuízos avultados ao Estado. Até 1996 muitos funcionários do Estado. em 1994 a economia angolana. em relação ao ano de 1993 (mas não em relação ao de 1992). 12 As privatizações das empresas do sector público trazem. Na segunda metade de 1995 o governo perdeu de novo controlo da situação. são as preferidas pelo novo empresariado angolano.12 que os resultados eleitorais lhe eram desfavoráveis não hesitou em retomar a guerra. 11 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . 11 Nos anos que se seguiram esse período conturbado da vida angolana. na maioria dos casos. O segmento intermédio da classe-Estado. Banco de Portugal 1995 e Carvalho 1996). com a inflação a atingir valores elevadíssimos. confrontados com a falta de «cartões». É neste contexto de crise generalizada que as populações desenvolvem estratégias próprias de sobrevivência. que haveriam de formar uma pequena burguesia. Sobre as eleições abortadas de Setembro de 1992 cf. Por vezes mantêm as suas funções no aparelho de Estado. A estratégia da classe dirigente ou ex-classe dirigente é sobreviver na área económica sem perder a ligação aos círculos de influência. 12 os segmentos mais baixos da classe-Estado. desempregados e muitos empregados recorrem a esse sector como tábua de salvação. As actividades mais lucrativas no imediato.Angola. São eles que vão alimentar Luanda e outras cidades do país. devido sobretudo ao reforço da exportação de petróleo. aproveitando alguma segurança que a UNAVEM III proporciona. No entanto. Os indivíduos pertencentes aos níveis mais elevados da classe-Estado encontram no processo de privatização. Pelo contrário.

no período de transição. por exemplo.13 por sua vez. Apesar da educação ter sido eleita pelo Estado pós-colonial como uma via privilegiada para o desenvolvimento e para a transformação da estrutura social em Angola (à semelhança. que tendem a transitar do Estado/partido para o topo da hierarquia económica. a nível do sistema de ensino. Os segmentos sociais menos bem colocados tendem. evidentemente. Além da oferta de ensino não satisfazer a procura a sua qualidade era muito fraca. de todos os países africanos recém-independentes). reforçada ainda pelo facto de que o sector de educação surge. este sector defrontou-se desde sempre com grandes dificuldades. ao sector de segurança e defesa. a rentabilizar as funções que exercem usando a corrupção e o suborno para aumentar os seus rendimentos. a ponto de se tornar imprescindível o apoio das organizações internacionais com vista a uma nova reforma do sistema de educativo. aliás. levando consigo a propriedade do Estado. marginalizado e subordinado. tanto por parte do Ministério da Educação de Angola como das instituições ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . em Angola. cumulativamente ou não com a sua funções do sector público. mantém o seu emprego no Estado ou noutro organismo. que surge associado a um certo abandono das populações por parte do Estado. no quadro de transição. Realidades educativas angolanas e estratégias educativas dos actores sociais no processo de transição É justamente esta lógica estratégica de rentabilização de capital acumulado junto do aparelho do Estado que também prevalece. os diversos actores sociais tentam rentabilizar o capital político. por sua vez. Mas as dificuldades que afectavam e afectam a realidade educativa em Angola foram sempre muito mais graves. A degradação progressiva dos edifícios herdados da época colonial e a escassez de verbas orçamentais destinadas à educação revelam a grave crise do sector. Há também aqueles que aproveitam a abertura política para se dedicarem às actividades do sector privado. social e económico acumulado ao longo dos tempos junto do aparelho de Estado. O reconhecimento do baixo nível de preparação dos professores. acumulando frequentemente outras funções em empresas multinacionais. Os melhores colocados para exercer esse «poder» são. Em suma. as classes dirigentes ou classe-Estado.

14 internacionais. defrontavam-se sempre com um problema central que era o desconhecimento da realidade educativa de Angola. procuram outras formas de complementar os seus salários para assegurar uma sobrevivência condigna. Acrescente-se que o sector de educação angolano sofria de uma desarticulação a nível de coordenação de acções a nível nacional/regional ou local. a todo o custo. Os professores. associada a um projecto financiado pelo PNUD. As outras realidades. cientes de que os seus salários não lhes permitiam garantir a sua sobrevivência e da sua família. A Reforma educativa de 1994 orientava-se para uma realidade educacional concreta. com um estilo de vida urbano. estratégias próprias com vista à resolução dos seus problemas educativos específicos. a distribuição da frequência. doravante e mais do que nunca. Face à situação de instabilidade política em que o país vive. As orientações políticas e outras relativas ao sector são sacrificadas. em termos regionais. A frequência dos alunos nos níveis escolares mais avançados (II e III) continuava a ser fraca. as próprias populações. Muitas vezes conseguir um complemento salarial significa abandonar o posto de trabalho em qualquer momento. Rapport National de la République d’Angola par le Ministère de l’Éducation 1994). motivou a cooperação técnica da UNESCO. a da população que vive na cidade. por exemplo. a maioria dos professores continuava a ter entre quatro a seis anos de escolaridade. embora africano. como sejam das populações que chegam à cidade. associada à situação de guerra civil. a não ser que. ao sentirem-se abandonadas pelo Estado. reflectindo uma situação de litoralização (à medida que se afastava para o interior a frequência diminuía) e desfavorável aos elementos femininos. permanecia desigual. o funcionamento real da estrutura do sistema educativo angolano apresenta-se desfasada da estrutura «oficial». a uma situação em que o Governo eleito não controla parte significativa do território e à consequente subordinação do sector do ensino relativamente aos esforços e políticas estratégicos de defesa e segurança. O processo de transição/liberalização não trouxe alterações significativas ao sector de educação. mas que ainda não estão integradas. como foi o caso da Reforma de 1994. em 1979. sempre que surja ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . projecto este que visava elevar o nível académico de vinte mil professores com a 4ª classe para a 6ª classe. não são contempladas nas preocupações da reforma (cf. as tentativas de levar a cabo as reformas educativas. Nestas circunstâncias. desenvolvem.

Daí que os empreendimentos de maior importância surjam ligados à classe-Estado. Os ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . encontram nas diferentes comunidades religiosas um espaço de pertença e integração. que chegam à cidade fugindo à guerra ou em busca de melhores condições. exige das famílias um investimento significativo que não está ao alcance de toda a população. têm. este traduz. o arranque do ensino privado não se processa sem grandes dificuldades. por outro. na maioria das vezes. a incapacidade do Estado em responder à procura de educação e. que deixar de «mandar os filhos à escola» em favor de uma qualquer estratégia de ganha-pão no mercado informal/paralelo. As diligências da Igreja Católica permitiram-lhe. por um lado. os grupos favorecidos. Uma vez mais o jogo do poder e de influência política encontra um campo propício. receber de volta as suas antigas instalações escolares nacionalizadas com a chegada da independência. a classe-Estado. que chegam à cidade. e os perdedores também são sempre os mesmos. As populações mais carenciadas. Junto aos edifícios do culto religioso foram surgindo ‘espontaneamente’ as «escolas» em salas de aulas anexas. enquanto via de obtenção de interesses próprios. E porque a frequência de uma escola pública. sobretudo as «deslocadas». Aqui o que está em jogo é o poder de influência e ligação com o Poder político. Poucas pessoas ou instituições. As populações de origem rural. esta situação favorece o carácter reprodutor da educação. Todavia. a pressão exercida pela classe-Estado e pela burguesia emergente.15 uma oportunidade. os funcionários públicos e os pequenos empresários — que acaba por aproveitar as oportunidades de escolarização existentes. deste modo. A mesma lógica preside às estratégias de atribuição/acesso às bolsas de estudo reflectindo. os grupos desfavorecidos ou menos favorecidos. Quanto ao aparecimento do ensino privado. fugindo da guerra ou simplesmente à procura de melhores condições. teoricamente gratuita. uma situação em que a política de formação de quadros está ausente ou se encontra subordinada a um processo de manutenção/melhoria das condições de vida ou de sobrevivência. é apenas parte dela — mormente a pequena burguesia. desejosa de protagonizar dinâmicas próprias dos países capitalistas. conseguem a legalização e o funcionamento de escolas privadas sem grandes obstáculos. com excepção da Igreja Católica. em que os vencedores são sempre os mesmos. após 1992. Naturalmente.

BUIJTENHUIJS. a reconstrução de edifícios que no período colonial serviam funções similares. ENNES. L’État au Cameroun. 42. Centre d’Études Africaines. Paulo. 1990. Estas instituições tentam aproveitar as antigas instalações negociando. 1994/95. Jean-François. tratam-se de escolas de elite. BAYART. o seu poder de influência resulta do controlo do aparelho de Estado (incluindo ‘cunhas’. Política Internacional. Raymon. etc. BOUDON. Paris. os vários segmentos sociais desenvolvem estratégias próprias de acesso à educação. B.16 Colégios e Externatos surgem. 1995. 1995. 1 (10): 171-196. 1989. 1996. 1989-1992: Un aperçu de la littérature. Evolução das economias dos PALOP 1994. s. Jean-Claude. African Studies Centre. BOURDIEU. Gradiva. Démocratisation en Afrique au Sud du Sahara 1992-1995: un bilan de la littérature. A. Referências Bibliográficas BANCO DE PORTUGAL. 1993. por sua vez. investindo os seus recursos de modo a atingir os seus objectivos: a pequena burguesia do empresariado emergente socorre-se dos seus recursos provenientes do comércio informal. Em suma. Lisboa. «Esquisse d’une théorie de la transition: du monopartisme au ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . bastante acima da oferecida por outras instituições. Jean-François. Conflict in Africa: Concepts and Realities. Fayart. «O processo de privatização em Angola». BAYART. 1976. Leiden. as populações dos estratos mais baixos têm como recurso as comunidades religiosas (e/ou ONG).. Ferreira. Rob e THIRIOT. Princeton University Press. Editorial Vega. e a classe-Estado rentabiliza os recurso do próprio Estado em seu favor. Lisboa. CARVALHO. associados aos grupos com algum poder/interesse económico interessados em desenvolver projectos de ensino com uma qualidade razoável. geralmente com o Estado. Elly. L’État en Afrique: la politique du ventre.d. Paris. Leiden. corrupção. Pierre e PASSERON. Céline. O lugar da desordem. incluindo o Estado. A reprodução: elementos para uma teoria do sistema de ensino. FALL.). Revista Energia. FNSP. Princeton. Lisboa. BUIJTENHUIJS. 1985. 1993. Ibrahima. Démocratisation en Afrique au Sud du Sahara. «Hiperinflação em Angola». Rob e RIJNIERSE. BOZENAN..

Genève. SILVA. Pierre Moukoko. C. MESSIANT. O’DONNEL. Survival. Rio de Janeiro.l. 32 (1): 1-28. Paris. Democracia e mercado.. Jorge Vieira da e MORAIS.. «Angola — The Forgotten Tragedy». RAPPORT NATIONAL DE LA RÉPUBLIQUE D’ANGOLA PAR LE MINISTÈRE DE L’ÉDUCATION.. PYCROFT. 20 (2): 241-262. PRZEWORSKI. em L’Afrique vers le pluralisme politique. 1993. MBONDJO. em L’Afrique vers le pluralisme politique.17 multipartisme en Afrique». ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Estúdios CEDES. Lisboa. s. 1992-1993». A. Júlio Artur de. José Pinheiro da. John Hopkins University Press. Economica. TOCQUEVILLE. «Le retour au multipartisme au Cameroun». PEREIRA. SOMMERVILLE. O’DONNEL. Paris. 1979. em HEIMER. Relume e Dumará. W. Social Change in Angola. Franz-Wilhelm (ed. The Journal of Modern African Studies. Conférence Internationale de l’Éducation. C. 40: 621-655. Transitions from Authoritarian Rule: Tentative Conclusions about Uncertain Democraties. Guillermo e SCHMITTER. Journal of Southern African Studies. «Estrutura social e descolonização em Angola». Economica.?. 1973. SILVA. Munique. 57: 40-57. Editorial Fragmentos. Guillermo. 1994. «The Failure of Democratic Reform in Angola and Zaire».). «Développement de l’Éducation». 93-109. 1964. 1994. Politique Africaine. 1969. «MPLA et UNITA: processus de paix et logique de guerre». Luanda. 1993. Phillipe. Análise Social. «Ecological Conditions of Social Change in the Central Highlands of Angola». K. 1986. Adam. Alex. MINISTÉRIO DO ULTRAMAR. HEIMER. Lisboa. Toda educação aponta para a integração. «The Neglected Tragedy: The Return to War in Angola. 1994. 1989. «Notas para el estúdio de procesos y democratizacion a partir del estado burocrático-autoritário». A reforma do ensino primário no Ultramar. O Antigo Regime e a revolução. 1995. Franz-Wilhelm. 44èmme Session. 1973. 5.. 35 (3): 51-77. 1994.

Palavras-Chave: Formação Profissional. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . que neste encontro tem a sua primeira oportunidade de ser submetido ao escrutínio dos nossos pares. inseridas no quadro geral de um horizonte de acção comum. acordámos com a direcção da Instituição. em 2003. Assim. esta condicionante permitiu-nos estudar a vida quotidiana destes formandos nos espaços físicos onde existe maior flexibilidade de regras. de manifestação “livre” de condutas e atitudes. posteriores à apresentação. por motivos éticos. junto de um grupo de jovens (seis rapazes e uma rapariga). realizámos a avaliação etnográfica1 de um Centro de Formação Profissional. Assim. que. designámos como Instituto Global de Artes e Ofícios da Periferia. Insucesso Escolar.A. Mediação Cultural. com diferentes origens etno-culturais. 2 E que. procurámos compreender as relações sociais estabelecidas entre os formandos e o pessoal de enquadramento. radicamos os seus padrões de atitude e conduta na adesão a diferentes mentalidades culturais. que iríamos restringir o locus da pesquisa aos espaços de recreio e lazer. S. entre os 17 e os 18 anos. a realizar um curso técnico. Inserção Social. de uma monografia final de pósgraduação em Formação de Formadores que frequentámos no Instituto Superior de Psicologia Aplicada. sito na região da Grande Lisboa 2 . elaboradas sobre o fenómeno da educação/formação. logo. na compreensão da forma de relação destes jovens formandos com os formadores e os mediadores culturais que lidam com eles. face ao horizonte de acção. apesar de diversos entre si.Relações Sociais na Formação Profissional Especial: da(s) Cultura(s) às Pessoas Miguel Ângelo Granja Lobato FCSH-UNL miguellobato@sapo. aproveitando para estudar aquele grupo durante os seus tempos livres. deriva de um conjunto de desenvolvimentos e reflexões. defendemos a reabilitação da figura do agente social. Em suma. Na supracitada monografia. ao invés da tendencial “naturalização” dos fenómenos sócio-culturais das explicações etno-culturalistas. embora limitando o horizonte da investigação. ponderando o peso da agência pessoal e dos condicionantes estruturais. 1 Nesta investigação.pt Através do estudo de um grupo de jovens desfavorecidos. Mentalidade Cultural O presente trabalho.

partindo da pesquisa efectuada sobre a relação destes jovens formandos com os mediadores culturais. iremos apresentar uma breve reflexão sobre uma tese que preconiza o primado da agência pessoal. local onde o alcance da intervenção dos mediadores. também foi expulso. por norma. tinham percursos existenciais similares. Por motivos imprevistos. a acção teve um desdobramento curricular. estava legalmente regulamentado pelo Despacho Normativo n. e. mantendo todavia a carga horária total inicial. profissões desprestigiantes. desenvolvendo-se em três anos.2 tanto nos seus “fenótipos”. 5 O qual. consequentemente. 7 Já durante a nossa pesquisa. 6 Com quem nos envolvemos. visa antes de tudo. não produzir uma verdadeira etnografia. mas antes desenvolver algumas reflexões relativas à perspectiva do investigador (e. 4 Neste campo. antes de entrarmos nos aspectos mais substantivos desta comunicação. os problemas que motivaram a expulsão. oriundos de famílias com baixos níveis de escolaridade. procedeu sempre ao seu acompanhamento. mas antes avaliar uma realidade face a um referente. neste trabalho não pretendemos apresentar uma súmula da nossa pesquisa. estes jovens estavam ali a frequentar um curso de longa duração (2 anos 3 ) no domínio da construção civil 4 . de 6 de Julho. De facto. como nas suas “origens etno-culturais”. no presente trabalho. derivaram das condutas desenvolvidas no interior da sala de formação.º 140/93. social. era bastante reduzido. marcados pela exclusão escolar. com qualificação de nível II. refira-se que a maior parte da oferta formativa do IGAOP dirigia-se a áreas de formação tradicionalmente masculinas. ou de habitação social. visando a inclusão social dos jovens envolvidos. tanto quanto sabemos. que foram emergindo ao longo do tempo que passámos entre os formandos. laboral. convém referir que este grupo de formação 6 era o remanescente da “turma” inicial. Não obstante. Nesse sentido. parcos rendimentos. o dispositivo institucional. Assim sendo. dos quais quatro haviam sido expulsos. e. um dos formandos com que trabalhámos. e. habitando em bairros ou degradados. pese embora as características especiais desta formação. durante os últimos meses do segundo ano do curso. devemos relembrar que os resultados deste trabalho estão enformados pelo facto de emergirem de uma avaliação etnográfica. como forma de resolver a recorrente perturbação que provocava nas sessões de formação. (Fetterman 1984. 3 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . equivalência ao 9º ano. ao abrigo do programa da Formação Profissional Especial 5 . quando começou. Fetterman & Pitman 1986). o que é visível no escasso número de raparigas que o frequentavam. que era composta por dezasseis elementos. ou populares. avaliador). na época. tem um estatuto intelectualmente ambíguo. e outros quatro haviam desistido 7 . a qual. face aos Pelo menos de início. Porém. Ora. particularmente por intermédio dos mediadores culturais. Todavia. como se sabe. pois embora recorra a técnicas etnográficas.

pelo que.d. esperamos) existentes ao nível da agência pessoal dos intervenientes (Bourdieu s. mulheres. sexuais) que possam ser elaboradas sobre determinadas categorias de pessoas (pobres.3 condicionantes estruturais. minorias. na adesão (pessoal) dos agentes a diferentes configurações de mentalidades culturais. Todavia. etc). de entre a variedade de teorias disponíveis para abordar o terreno. como filosóficas (valorização e dignificação da pessoa humana). 8 Sobre este assunto. recorrer-se à “atomização” das estruturas sociais. enjeitando as teses mais “estruturalistas”. hic et nunc (aqui e agora). procurámos tratar cada um dos envolvidos nesta investigação como um sujeito. movem-se num lebenwelt (mundo da vida). elaborado no seio de uma avaliação etnográfica sobre os formandos de um curso de formação profissional especial. operando no âmago da dualidade da estrutura de que nos fala Anthony Giddens (Guiddens 2000). reflectidos em espelhos distintos. Por outras palavras. que. enquanto avaliadores etnográficos. balizado por preocupações. lendo os agentes envolvidos como hologramas societais. ou seja. pode consultar-se proveitosamente os estudos de David Fetterman (Fetterman 1984. Fetterman & Pitman 1986). económicas. familiares. este trabalho decorreu a uma escala micro-social. pessoas concretas.) ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . o nosso papel principal é a produção de conhecimentos para apoio à acção. no estudo de pequenos grupos (como é o caso de um meio escolar circunscrito). reconhecendo a distintividade e diversidade dos seus caminhos pessoais. raciais. mas antes das mais-valias heurísticas e hermenêuticas derivadas da opção consciente de. tanto pragmáticas (escolha de um quadro teórico com boa adesão aos fenómenos observados e relevância para a acção). ou seja. num processo decisório. sem prejuízo dos elementos que os unem entre si 9 . através do seu dasein (estar-aí). 9 Assim sendo. inscrevendo a diversidade dos padrões de atitude e conduta que observámos. do qual emergem simultaneamente como produtos e produtores. não vamos aqui falar da avaliação etnográfica em si 8 . a saber. e escolares. Nesse sentido. onde tentámos equilibrar horizontes de acção macro-estruturais e as possibilidades (realistas e/ou razoáveis. e. devemos ter a preocupação de recorrer a uma(s) que responda(m) às questões que urge resolver. rejeitando as sobredeterminações (sociais.

nesta pesquisa. e. Costa 1998). Ora. sem todavia negar a sua unidade. preconizando que «…the ethnographer enters the field with an open mind. particularmente no que concerne à identificação e filiação identitária (Nunes 1995. que pode assumir expressões diversas no interior de cada sociedade. 10 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . ainda que estes o ignorem ou neguem. a posição dos sujeitos na estrutura e organização da sociedade. Isto porque. Logo. preconiza que as culturas são tendencialmente fixistas e/ou essencialistas 11 . próprias de determinada civilização. raça. etc. etnia. hoje reconhecemos que o quadro teórico em que nos movimentámos na altura está um pouco desactualizado.» (Fetterman 1998. A título de exemplo. que visam reduzir o “lebenwelt” a uma tendência configuradora de um inequívoco e normativo padrão de ideias e condutas. Especialmente os estudos feitos sobre a égide de Luís Capucha e Alfredo Bruto da Costa (Capucha 1999. enjeitámos as teorias que elaboram instrumentais (modelos de dados e grelhas de leitura da realidade) centrados no primado de determinada variável (classe. e. Nesse sentido. opusemos uma teoria que considera o domínio cultural como uma rede constelacional. fruto dos processos dinâmicos (e. sexo. contra esta tese que – inclusive sob o signo do multiculturalismo –. Crehan 2004). reificam os indivíduos. encontram-se mesmo entre alguns antropólogos. vivem num regime de “esquizofrenia cultural”. classe social ou mesmo sub-cultura. por considerarmos que essas teses escondem escolhas ideológicas que enviesam as análises científicas. numa perspectiva próxima da teoria emergente (usualmente conhecida por grounded theory). transitória e em constante (re)produção. Fruto das aprendizagens posteriores. 11 As marcas mais ou menos camufladas deste tipo de teses. 1). desenvolvemos uma reflexão sobre a sociedade e a cultura. defendemos que é um erro (infelizmente comum) considerar que as “segundas gerações” de imigrantes. Assim. assente na desconstrução de visões homogeneizantes e intentos hegemónicos (oriundas tanto dos estratos dominantes como de grupos subalternos). salvo melhor opinião. que. enformando-as a visões políticas do mundo. e. razão pela qual procurámos deixar que os eventos em que participávamos fossem ajudando à emergência de uma hermenêutica do vivido. embora tenhamos explorado algumas teorizações bastante profícuas sobre a exclusão social 10 .4 Posto isto. a auto-vigilância do discurso é fulcral para evitar cair nesta dissimulada e recorrente armadilha do senso comum. bem como as teorizações ostensivamente psicologistas. descuram a importância da dimensão social e colectiva da vida humana. p. not an empty head. recusámos abordar o terreno com um quadro teórico “prontoa-vestir”.).

nem a apologia da hibridez cultural. em que usualmente são (re)produzidas. mais próxima do multiculturalismo celebratório (com que certos sujeitos se podem porventura identificar). Mas. nos mesmos parâmetros que identificamos o “Eu”. abrindo e explorando um feixe de modos de vida. seja de cariz laudatório. sociais.. Por outras palavras. entre diferentes “mundos de vida”. que. mas antes uma abertura intelectual. O reconhecimento de uma emergência miscigenada (que tanto se aplica a filhos de caboverdeanos em Portugal como à prole dos portugueses em França) não é a denúncia de uma alienação cultural (embora alguns o possam viver assim. possuir um núcleo de elementos transversais. i. Nesse sentido. saindo deste breve excurso. embora podendo. de tipo pejorativo. por parte do investigador. sentir e agir. mas antes segmentar. Efectivamente. Ou seja. que reflectem as novas modalidades societais de pensar. importa referir que. nestas pessoas (que podem ou não viver impregnadas em redes comunitaristas de identificação e sociabilidade). no quadro de um complexo socio-cultural que assenta numa lógica que não é monolítica.. étnicas. ao edificarem novas “sub-culturas”. devemos reconhecer o “Outro” (seja ele qual for). por vezes. não devemos apenas mudar as palavras. não só “miscigenizam” elementos de diferentes proveniências. foi através do enquadramento da investigação com um conjunto de noções operatórias. ou de género neutro. tanto têm de comum como de diverso. que o torne capaz de reconhecer que. como também respondem de forma plural e diversa a todo um conjunto de diferentes desafios. em que se revêem. o fulcro da nossa tese é a defesa que. enquanto ser singular – embora nunca perdendo a sua posição de sujeito cultural e socialmente situado – ao invés de ser discursivamente sobredeterminado por um conjunto de categorizações genéricas (nacionais.e. para lá da sua aparência.e. expectativas e/ou aspirações. etc). reelaboram-nos de formas particularmente distintas. i. expressam-se por códigos culturais emergentes. mas temos que redefinir também a sua semântica. um interlocutor tem o supremo direito de falar por si. reconhecendo a pluralidade das pessoas e dos seus modos de vida. numa identidade dilacerada). organizado segundo princípios policêntricos.5 amiúde ambíguos ou contraditórios) de socialização e endoculturação. por vezes ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . sexuais.

em tempo. por desenvolver uma reflexão emergente das fecundas contribuições do debate entre Thomas Khun e Karl Popper (Lakatos 1998. que permitimos que o terreno fosse gerando pistas para a sua própria interpretação. favorece a legibilidade das diferenças (por vezes profundas). monografia de Óscar Lewis sobre a biografia de uma família pobre da cidade do México. pelo que esperamos que o aparato teórico referido em epígrafe nos tenha apartado do senso comum. o que desenlevando a acção diferencial dos agentes sociais sob investigação. da profusão de dados observados. Esta última noção. e. com a existência de diferentes tipos de exclusão social. venha a ser refinado. matizam as visões hegemónicas que tendem sumariamente a associar e/ou justificar a pertença a determinada categoria social. mais que pugnar por uma tese. entre e no interior. no seio da qual os membros da linhagem. revelam como nas suas vidas. esperamos que o nosso insight ao ser aquilatado pelos nossos pares. pôde assentar no individualismo metodológico. Desta forma. exploraram distintos percursos existenciais.. 12 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . revelou trajectórias sociais e percursos biográficos diferenciados que. com um acento tónico no pólo da observação (e da escuta casual). foi para nós uma referência basilar. esta diversidade de modos de vida da pobreza e exclusão social é magistralmente ilustrada em “Os filhos de Sanchez”.6 contra-factuais (i. que separam as condutas consideradas dominantes. a qual. sem por isso cortar relações com o bom senso.e. refutado por uma perspectiva mais promissora 12 . expressos por percursos biográficos singulares – que se apresentam sob o conceito de “modo de vida”. Efectivamente. Lakatos 1999). Além disso. dos vários estratos sócioeconómicos ou comunidades etno-culturais. Porém. Imre Lakatos. devido a estudarmos um fenómeno restrito a um pequeno grupo de pessoas. se possam perspectivar diferentes padrões de conduta – enraizados em trajectórias sociais colectivas (culturalmente informadas) e. importa ainda referir que as nossas conclusões devem muito à estratégia de pesquisa mobilizada. No campo da epistemologia. o individualismo metodológico – se interpretado em termos culturalistas – permite-nos que. sintetizando mecanismos de ordem cultural e sócioeconómica. opostas à “naturalização” dos fenómenos e/ou à justificação e padronização da evolução das suas configurações societais).

na tentativa de escapar ao pântano intelectual em que muitas vezes caem os culturalistas. (re)constroem processos de regulação e legitimação das diversas formas de conduta social em presença. considerámos o terreiro de formação. de modo especial quando as actividades recreativas (como a conversa ou o pingue-pongue) em que estavam envolvidos. em contexto holandês (Vermeulen 2001). Face a tudo isto. umas vezes dando mostras de maior acatamento de normas de conduta instituídas. protagonizado por Consuelo até ao crime ocasional. se alguns formandos (principalmente jovens adultos. Efectivamente. enquanto em outras ocasiões. esse termo expressa simplesmente um sistema de referências colectivas. particularmente visível em comportamentos belicosos para com os seus pares. um bom estudo sobre alguns aspectos desta problemática. no seio do qual os indivíduos que dele partilham. optámos pelo recurso ao conceito de mentalidade cultural. 14 Expressos particularmente na resistência à imposição da pontualidade quanto aos tempos lectivos. decorriam em franca grande animação. embora a maioria dos sujeitos demonstra-se uma conduta intermédia. bem como os discursos e as práticas a ela associada – por vezes levados a extremos (Vasconcelos 1996) – mesmo que elaborados com intenções igualitárias. mesmo que com a mais benigna e igualitária das intenções. 13 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Assim sendo. Na mesma linha. com tudo isto.7 desde o prosseguimento dos estudos. a sua consequente redução ao nível do estereótipo ou das ideias feitas. outros havia que revelavam claro “desajuste”. como um terreiro de desiguais e permanentes negociações. estamos entre os que defendem que a reificação da diferença. tendiam a acentuar os actos de insubordinação e/ou desobediência 14 . de consequências incertas e equívocas 13 . maiores de idade) exprimiam atitudes mais “consentâneas” com o institucionalmente “desejável”. não quisemos fazer mais do que evitar a sobredeterminação das pessoas. era governado por um regime de Existe. conforme nos foi dado a observar. perpetrado por Roberto (Lewis 1979). Em suma. possuam atitudes e condutas comuns concordantes com essa percepção do mundo (Vieira 1995). e. pelo menos. o IGAOP. tanto mais que ao invés da difícil operacionalização da ideia de cultura. No entanto. enquanto comunidade de agentes institucionais e beneficiários da formação. nomeadamente no domínio sócio-educativo. correm o sério risco de enfraquecer e inquinar os laços sociais em prol de políticas comunitaristas. através das quais jovens formandos e agentes institucionais.

particularmente através dos mediadores/animadores culturais. necessárias ao institucionalmente desejável desenrolar da Formação Profissional. passando pela subordinação da formação à diversão). de modo ligeiro. remete o valor heurístico da causalidade fundada na categorização para um papel residual. não obstante haver muitos adeptos destas teorias. estes desenvolvem um papel decisivo na gestão da mudança. acabassem por ser irradiados do sistema. visam circunscrever grupos de pertença. os activistas de toda a espécie – especialmente os nacionalistas radicais – que lutam pela implementação efectiva deste tipo de programa de acção. como também. radicam modos de vida e mentalidades culturais em supostos ascendentes e/ou filiação em determinada cultura. Todavia. tomando-os como pessoas ao invés de especímenes de determinada categoria (social. excepto no caso de estarmos dispostos a acreditar nas vetustas “caracterologias” nacionais ou a preconizar que as culturas constituem súmulas sistematizadas e orgânicas bem delimitadas.8 mútua adaptação. nos espaços livres. Neste domínio. os projectos institucionalizados de regulação das atitudes e condutas 15 . especialmente pelo recurso a animadores/mediadores culturais. essas teses. e. Todavia. prevenindo conflitos. é ao explorar a descontinuidade entre os arquétipos do dever-ser. concluímos que a diversidade dos padrões de conduta observados. e. 15 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . que englobam não só uns quantos estudiosos. e. defendemos que. tinham o fulcro da sua actividade centrada na harmonização dos diferentes modos de vida e mentalidades culturais em presença. ao contrário da escola “tradicional”. ancorados numa posição de “charneira”. em última análise. verifica-se um efectivo esforço de inclusão social e combate à marginalidade. comprimido entre os esforços envidados por diferentes jovens em implementarem os seus distintos modos de vida (que iam do acatamento geral das regras à violência entre pares. Não obstante os elementos mais recalcitrantes ao respeito ou negociação de fórmulas de “convivência”. sexual ou cultural). devido ao amplo regime de autonomia organizacional e pedagógica. ao estudar os jovens envolvidos nesta formação. Conforme revelou a nossa pesquisa. Assim sendo. os quais. Isto é válido. Isto porque. mais que qualquer outros. entre os formandos e a organização. justificando os fenómenos com argumentos quasi-naturalistas. entramos em choque com aqueles que. racial. reificar os ethos. incentivando alterações de atitudes e condutas. no sentido dos padrões socialmente aceites. existente no Centro de Formação Profissional que estudámos.

através dos animadores/mediadores culturais. e. radicando-a numa pletora de modos de vida e mentalidades culturais. na qual se negoceiam formas de pensar e agir. como pela diversidade de trajectórias biográficas. foi o facto de enformarmos a nossa pesquisa por estes pressupostos. que encontramos esta pletora de modos de vida e de mentalidades culturais. que estes jovens adquirissem conhecimentos profissionais passíveis de lhes abrir as portas ao mercado de trabalho (quebrando assim o ciclo da pobreza e da exclusão profissional). particularmente em termos laborais.9 e. procurámos interpretar as mentalidades culturais. Ora. sem procurarmos “naturalizar” qualquer modalidade de organização do mundo humano. a realidade substantiva das modalidades concretas de padrões de atitude e comportamento. que não são redutíveis a causalidades unidimensionais. verifica-se que os jovens formandos trazidos à colação. tendo em vista uma maior adaptação destes jovens em risco de exclusão social no seio da sociedade envolvente. o que provoca leituras equívocas. afigurou-se que a Instituição. Neste sentido. inscritas no âmago dos sujeitos investigados. Posto isto. emergente de uma dinâmica de socialização secundária. Logo. nesta linha. concluímos pela vacuidade das teses que tendem a reduzir os jovens pobres ou socialmente excluídos a um grupo de comportamento homogéneo. desenvolvia um duplo labor. tanto mais que afigura-se que. em determinados modos de vida e mentalidades culturais. Deste modo. que acabámos por valorizar a diversidade interna entre os formandos. passíveis de lhes facultar uma melhor integração no seio das normas de conduta da sociedade envolvente e do mercado de trabalho. com vista a que estes jovens pudessem adquirir (quando necessário) competências sociais. informadas tanto por idiossincrasias pessoais. através dos formadores. Deste modo. proceder à "correcção" de comportamentos. bem ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . interessados em conhecer as diferentes expressões das atitudes e condutas dos formandos. releva da nossa pesquisa que estamos perante um processo de (re)produção social e cultural. esta visões derivam de um excessivo enfoque nos casos particularmente problemáticos. que moldaram a sua socialização primária. assumiam uma grande diversidade de formas de conduta. negligenciando as situações de marginalidade mais brandas. procurando. que erradamente tomam o todo pela parte. enquanto avaliadores etnográficos.

se a cultura (en)forma os sujeitos. 16 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . que há pessoas para lá das culturas. patentes nos modos de vida destes jovens. derivada ela própria. concluímos que estes jovens. e. reconhece-los como pessoas e tratá-los como sujeitos. que assumem funções de complementaridade. Efectivamente. as instituições culturais dotadas de superior legitimidade ou poderio (substantivo ou simbólico). não radicam a sua conduta em modos essencialmente determinados de relacionamento social.10 como as suas expressões societais. defendemos que. as pessoas operam sobre a cultura. fazemos votos para que. mesmo que discordem das suas linhas programáticas. Falámos pois de algumas reflexões sobre a prática e o terreno. concorrência e/ou antagonismo. Logo. corporizado nos cientistas sociais – tenhamos sempre em conta. secundários ou marginais. perspectivados no quadro de uma cultura segmentar. devemos. outros também possam vir a lucrar com as nossas teses. Em suma. seja de etnia ou de classe. não obstam à presença em cena de focos de poder alternativos. não entrámos em pormenores substantivos do empírico. tanto “tradicionais” como “modernas”16 . exprimem a diversidade das formas de conduta humana. pelo que ao invés de os reduzirmos a categorias. Posto isto. nenhum destes elementos é redutível ao outro. da dimensão policêntrica das culturas e sociedades. nem ficámos na especulação gratuita. mas antes. esperando que. reiterando o propósito desta comunicação. (bem como o inverso). Assim. antes de tudo o mais. fruto de uma determinada cultura. especialmente quando se estuda ou trabalha entre grupos desfavorecidos – que estão particularmente expostos ao olhar desse “Outro”.

LAKATOS. Teresa Maria Sena de. VERMEULEN. História da Ciência e suas Reconstruções Racionais. Lisboa. 2001.11 Bibliografia BORDIEU. Imre. Sociedade & Culturas. VASCONCELOS. Centro de Estudos Sociais. Escola e Pedagogia Intercultural”. Grupos Desfavorecidos Face ao Emprego. Oeiras.d. Edições 70. 2004. João Arriscado. Os Filhos de Sanchez. Edições 70. Beverly Hills. LAKATOS. Kate. 1995. LEWIS. Educação. Educação. 1984. NUNES. Reportórios. Sage Publications. Ethnography in theory. Genebra. Lisboa. Ethnography. 6: 23-46. Cristina Maria Paulo do Nascimento et al. Ricardo. 1996. Alfredo Bruto da. “Mentalidades. 1999. Lisboa. Exclusões Sociais. CREHAN. Integração e a Dimensão Política da Cultura. Lisboa. Moraes Editores. MILAGRE. 1998. Edições Colibri. 1995. CAPUCHA. Sage Publications.. Celta Editora. 1999. Sociedade & Culturas. Cultura e Antropologia. Identidade e Globalização. Perfis Emergentes. Sage Publications. 2000. Fundação Mário Soares/Gradiva Publicações. s. Imigração. Esquisse d’une Théorie de la Pratique. 1979. 4: 127-147. FETTERMAN. 1998. David e Mary Anne Pitman (eds. Librairie Droz. “Onde Pensas que Tu Vais? Senta-te! – Etnografia como Experiência Transformadora”. FETTERMAN. Imre. Campo da Comunicação. Beverly Hills. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Ethnography in Educational Evaluation. VIEIRA. Falsificação e Metodologia dos Programas de Investigação Científica. Luís Manuel Antunes (coord. Lisboa.). Configurações e Fronteiras: Sobre Cultura. Lisboa. David (ed. David M. Observatório do Emprego e Formação Profissional. 1986 Educational Evaluation. Dualidade da Estrutura. COSTA. FETTERMAN. Lisboa. Óscar. Coimbra.). GUIDDENS. Hans. 1998. Anthony. Gramsci. Instituto para a Inovação na Formação.).. Thousand Oaks.. 2002. practice and politics. Pierre. Lisboa.

Salienta-se. 1. Num artigo de 1985.pt Faz-se. Palavras-chave: Antropologia da Educação. tanto ao nível do trabalho ligado ao ensino da antropologia como à investigação em antropologia da educação produzida no ISCTE. currículo vitae que integra estas provas de agregação). o papel da FCSH-UNL. Manuel José Alves Viegas Tavares resumia assim a Antropologia da Educação: A Antropologia da Educação analisa as relações escola/comunidade e as suas implicações no processo de enculturação dos jovens.A ANTROPOLOGIA DA EDUCAÇÃO EM PORTUGAL Ricardo Vieira Centro de Investigação Identidade(s) e Diversidade(s) (CIID) Instituto Politécnico de Leiria (IPL) rvieira@esel.ipleiria. Histórias de Vida. Esboço Histórico No início dos anos 80. um pequeno esboço histórico sobre a Antropologia da Educação em Portugal. Setúbal e Leiria. Educação Intercultural. essencialmente. que acumulava a docência com a de quadro superior no Ministério da Educação. numa primeira instância. Aplicando os métodos de pesquisa e 1 No ano lectivo de 1983/84 eu próprio fui seu aluno e desenvolvi para avaliação final um pequeno trabalho de pesquisa etnográfica numa escola de Lisboa com o financiamento do Ministério da Educação (cf. a este propósito. também o papel da APA no desenvolvimento destas matérias. como são o caso da de Castelo Branco. realçando. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . do ISCTE e de algumas ESEs. Há um investimento maior na obra de Raul Iturra e sua equipa de investigação. a Licenciatura em Antropologia da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa tinha uma cadeira optativa de Antropologia da Educação 1 leccionada pelo professor Viegas Tavares.

Os professores de Antropologia Cultural. Antropologia Cultural. depois. e depois de 2 anos a ensinar Geografia e Antropologia no Ensino Secundário 3 . Fui convidado a construir o programa de Antropologia Cultural e fi-lo. Benito Martinez e João Lopes Filho. tendo deixado de ser leccionada em 1993/94” (Santos e Seixas. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . 3 Na área de Estudos Humanísticos. depois das noções operatórias básicas da Antropologia Geral e das 2 TAVARES. o jogo é um dos elementos mais importante na formação das personalidades. “Entretanto. 1985: 53).2 análise de ciências afins. 1999: 7). como ele próprio diz. sendo que os cursos de Educadores de Infância e Professores do 1º Ciclo do Ensino Básico tinham. a disciplina de Antropologia Cultural desapareceu com a nova reforma curricular. Paralelamente. os jogos integravam-se no complexo de cerimónias cíclicas através das quais as crianças e os jovens se apropriavam da cultura das suas comunidades. Professores do 2º Ciclo do Ensino Básico. obrigatoriamente. no domínio das relações com os outros. “tendo sido na sua generalidade. o Ensino Secundário os alunos tinham. do 10º ano. incluíam nos seus curricula a disciplina de Introdução às Ciências Sociais. De resto. em 1987. no 1º semestre do 2º ano. Lisboa: Piaget. O programa e o manual mais divulgado eram. vim a ingressar na Escola Superior de Educação de Leiria 4 que tinha iniciado a sua função docente há apenas um ano. Educadores de Infância. na altura. 1982: 52). Nas sociedades tradicionais. mas apenas por necessidade de complemento de horário. nos ciclos do Inverno e da Primavera. no 1º semestre. Todos os cursos de então 5 . não tinham habilitação própria nem formação específica em Antropologia. de cursar Antropologia. Em particular. Jorge Crespo desenvolvia também uma cadeira optativa de Antropologia do Jogo. da autoria de Augusto Mesquitela Lima. no processo cíclico de reestruturação do mundo. encarregues de a leccionar – o que nem sempre fazem com gosto. com uma 2ª parte que. variante de Português/Francês. destacam-se os jogos que constituíam experiências fundamentais da morte e da vida. ramo de Jornalismo e Turismo. Nestes casos. os professores de Geografia. pois o número de aulas de Antropologia não chega para formar um horário lectivo normal de 22 horas” (Souta. 1997: 116). 4 No ano lectivo de 1987/88 5 Poucos na altura: Formação de Professores para o 1º Ciclo. espaço e tempo da liberdade favorável à inovação e transformação da realidade (Crespo. Terminada a minha licenciatura. Manuel Viegas (1998). O insucesso escolar e as minorias étnicas em Portugal: uma abordagem antropológica da educação. visa contribuir para a solução de problemas da prática e da política educativa (Tavares. Viegas Tavares veio a fazer o seu doutoramento sobre o insucesso escolar e as minorias étnicas em Portugal 2 . mas centrando-se sempre no método etnográfico de observação participante na análise dos processos educacionais.

Os livros obrigatórios de então. na Universidade de Bordéus. Leiria: Escola Superior de Educação. os docentes que estão na origem das disciplinas de Análise Social da Educação. a 10. apontava para o estudo do processo educativo embora.3 Ciências Sociais. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . O corpo docente das emergentes Escolas Superiores de Educação foi alimentado. É preciso recordar que as Escolas Superiores de Educação (ESEs) nasceram a partir dos Magistérios Primários que. e os demais foram publicados nas Actas das I Jornadas de Antropologia e Etnologia Regional. na Universidade de Boston. 11 e 12 de Novembro de 1988. ora no Estados Unidos da América. que apresentou a conferência “A Antropologia e o Sistema Educativo 6 ”. traduzida em edição brasileira por “Introdução à Antropologia Cultural” em 3 tomos que basicamente constituíam o manual da disciplina. ora em França. tinham também nos currículos da formação de professores e de educadores de infância. Os que fizeram as suas especializações em Análise Social da Educação ou em Metodologia dos Estudos Sociais são. um pouco por todos os Magistérios do País. basicamente por todo o país. No ano de 1988. integrei a comissão organizadora das I Jornadas de Antropologia e Etnologia Regional. por professores que haviam feito os seus mestrados em Ciências da Educação. Os conferencistas convidados para esta sessão foram os professores Raul Iturra do ISCTE que apresentou a conferência “A passagem da oralidade à escrita na formação do saber: o mito do insucesso escolar” e Augusto Mesquitela Lima da FCSH – Universidade Nova de Lisboa. a disciplina de Antropologia Cultural muito desenvolvida em torno da obra de Herskovits “Man and his Works”. há já alguns anos. no ano de 1988. lembro-me. Sociologia da Educação e Antropologia da Educação dos currículos de formação das ESEs. financiados por um projecto do Banco de Portugal. Nalgumas escolas 6 Estes textos. era o célebre “Padrões de Cultura” de Ruth Benedict e “Os conflitos e Gerações” de Margaret Mead. A minha preocupação com o cruzamento da Antropologia com a educação era de tal forma já considerável na altura que consegui que a manhã do primeiro dia fosse inteiramente dedicada ao tema da Antropologia e Educação. dias 10. 11 e 12 de Novembro. provavelmente. na altura. numa tentativa de relativizar a mente dos futuros professores e educadores. não tivesse formação suficiente para ir além do Culturismo Americano e da escola de cultura e personalidade.

reuniu várias vezes com o Ministério da Educação a propósito da habilitação própria para leccionar no Ensino Secundário e de outras saídas profissionais dos Antropólogos no ensino: Área-Escola. iniciado em Vila Ruiva. coordenada por Luíza Cortesão (Cortesão. Na ESE de Setúbal foi criada a disciplina de Antropologia da Educação. Na ESE de Leiria surgiu a Antropologia da Educação como disciplina optativa dos cursos de Formação de Professores para o 1º Ciclo e de Educadores de Infância. com Filipe Reis. Rosa Madeira. Professor Coordenador da ESE de Setúbal. – Associação Portuguesa de Antropologia. é. sem qualquer grau em Ciências da Educação. leccionada por Luís Costa. 9 Ver a este propósito a obra “Nos Bastidores da Formação: Contributo para o Conhecimento da Situação Actual da Formação de Adultos para a Diversidade em Portugal”. presidida pelo professor Raul Iturra e da qual eu próprio fazia parte. professor da Escola Superior de Educação de Lisboa. inevitavelmente. e cuja coordenação tem sido assegurada por Luís Souta. É inegavelmente. embora não tendo especificamente Antropologia da Educação nos seus currículos. como é o caso de Castelo Branco. licenciado em Antropologia e. não podem/devem perder a experiência da Antropologia nessas matérias 9 . actualmente. Professor Catedrático do ISCTE. acabam por ter algumas disciplinas viradas para a questão da educação e diversidade cultural que. Aproveitavam o tempo livre Luís Souta. a secção de Antropologia da Educação da APA. que funcionou pela primeira vez no ano lectivo de 1988/89. Em 1987 Raul Iturra dava o grande pontapé de saída com o trabalho de campo com observação participante. a Raul Iturra que se deve o boom do desenvolvimento da Antropologia da Educação em Portugal.4 surgiu mesmo a disciplina de Sócio-Antropologia. desde muito cedo que orientou a Antropologia (licenciatura) para a questão da educação e da diversidade cultural e para a legitimação da Antropologia da Educação (tese de mestrado e de doutoramento) sob a orientação do Doutor Raul Iturra. no entanto. Entre 1993 e 1997. 7 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . definida como uma área curricular não disciplinar e os TEIP (Territórios Educativos de Intervenção Comunitária) criados pelo Despacho 147-B/ME/96. sob proposta de Ricardo Vieira 8 . 8 Ricardo Vieira. também ele Mestre em Ciências da Educação 7 pela Universidade de Boston. é notável sobre a questão da escola e das propostas inter/multiculturais. está a concluir o seu doutoramento em Antropologia da Educação no ISCTE. de Carlinda Leite. em 1992. Pulo Raposo. Nuno Porto e Berta Nunes. criada pelo Decreto-Lei 286/89. O trabalho de Carlos Cardoso. Outras Escolas Superiores de Educação e Universidades públicas e privadas. 2000). Rosa Nunes e Rui Trindade.

ainda que de uma forma mais interdisciplinar. 1990 e Iturra. Filipe Reis. na colecção “A aprendizagem para além da Escola”. conjuntamente com Telmo Caria e Ana Benavente. (cf. através da metodologia das genealogias. o aparecimento da revista “Educação. Assim. 11 Contudo. “A Construção Social do Insucesso Escolar: Memória e Aprendizagem em Vila Ruiva” de Raul Iturra (1990b). Esta revista. brincavam à família. 1997). papel e lápis e faziam com as crianças os trabalhos de casa. 1992). levava os alunos a pensar a sua história. a Razão. Sociedade e Culturas”. 1991). os animais etc 10 . “Corpos. Vieram a juntar-se a estas publicações a “Escola e Aprendizagem para o Trabalho num País da (Semi)periferia Europeia” de Stephen Stoer e Helena Araújo (Stoer e Araújo. 1991). “O Corpo. ao hospital. 1991). dirigida pelo professor Stephen Stoer e que. que tem Ver entrevista dada por Raul Iturra em 1999 a Ana Levy Aires. mais tarde. 2000).5 que a escola concedia às crianças para fazerem actividades com elas a fim de compreender as suas representações sociais e conhecimento local. à doença. É de assinalar aqui. o Coração: A Construção Social da Sexualidade em Vila Ruiva” de Nuno Porto (Porto. cientistas da educação e antropólogos (Raul Iturra desde o primeiro número 11 . o património dos pais. em 1994. Compravam cadernos. “O Saber Médico do Povo” de Berta Nunes (Nunes. Iturra e Reis. em termos de secretariado de redacção e conselho de redacção. Arados e Romarias: Entre a Fé e a Razão em Vila Ruiva” de Paulo Raposo (Raposo. Dessa investigação foram publicados. Ensino e Crescimento: O Jogo Infantil e a Aprendizagem do Cálculo Económico em Vila Ruiva” de Filipe Reis (Reis.º 6/7. n. e “Entre a Escola e o Lar: O Curriculum e os Saberes da Infância” de Ricardo Vieira (Vieira. Luís Souta e Amélia Frazão-Moreira). integra vários sociólogos. em particular com a Sociologia da Educação. Ana Felisbela Lavado e Paula Godinho para a revista Arquivos da Memória do Centro de Estudos de Etnologia Portuguesa da Universidade Nova de Lisboa. “Educação. Paulo Raposo. terras. 10 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Ricardo Vieira. etc. sobre a temática “sistemas de avaliação doa alunos do Ensino Básico”. ainda em termos do desenvolvimento da Antropologia da Educação em Portugal. 1992). propriedade da Associação de Sociologia e Antropologia da Educação. desde o segundo e. Ricardo Vieira colaborou na organizou da secção Diálogos sobre o Vivido. os seguintes livros: “Fugirás à Escola Para Trabalhar a Terra: Ensaios de Antropologia Social Sobre o Insucesso Escolar” de Raul Iturra (1990a). Iturra.

no artigo de Sérgio Grácio. 2. que vivem no que é denominada «uma situação de ghetto sóciocultural». Isso levou-me. ou o Nuno Porto. apresenta-nos uma reflexão crítica sobre o conceito e as teorias da mudança social. possivelmente “contra-hegemónia”. saiu. recusando uma visão linear e sucessiva de mudança. através do que é que pensam e como pensam as crianças acerca do que acontece na sua casa. Então. a meter-me por uma ideia feliz daquela equipa: como é a epistemologia do lar. A seguir. que fez comigo trabalho de campo. como tentativa de aceder a uma compreensão dos seus quotidianos. a partir das brincadeiras e jogos passámos a analisar. por insistência de Paulo Raposo. a epistemologia dos seres humanos. no seu primeiro número. (Stoer. Este objectivo de entender a racionalidade reprodutiva tem-me levado da Antropologia Económica à Antropologia da Educação. apresentamos dois artigos que estudam o processo de aprendizagem nas crianças como forma de produção e construção de novos saberes e poderes: enquanto o artigo de Raul Iturra ensaia ideias sobre a natureza do processo educativo. uma Antropologia Urbana.5). e. Antropologia do Género. As crianças vêem o mundo através dos olhos dos adultos. passando. […] Eu queria entender a racionalidade daquelas estratégias reprodutivas. inventámos os ATL. uma Antropologia do Turismo. começámos a brincar com as crianças. em conjunto com uma equipa que angariei enquanto colaborava na fundação do departamento do ISCTE. ou o Filipe Reis. Augusto Santos Silva. Na base de um conhecimento da evolução de instituições de ensino técnico. p. os tempos livres. Antropologia da Sexualidade.6 tido um forte pendor etnográfico. uma proposta para um modelo explicativo dos graus de autonomia ou de heteronomia nas relações das instituições de ensino com as instituições económicas o mercado de emprego. por criar. o artigo de Georges Augustin lança um olhar antropológico sobre o jogo de berlindes. Investigação e Ensino da Antropologia da Educação no ISCTE. porque a criança ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . encontramos. com seis artigos que abordam temas variados: O primeiro artigo [da autoria de Stephen Stoer] aborda a construção. do conceito do professor inter/multicultural através do campo da recontextualização pedagógica. Finalmente. pelo meio. editorial do primeiro número da revista. O artigo de Luiza Cortesão e colaboradores apresenta uma análise das histórias contadas por crianças luso-brancas e luso-ciganas.

emergiu no ISCTE pela mão de Raul Iturra que assim foi progredindo da Antropologia Económica para o estudo da aprendizagem e transmissão cultural para além da escola e para o estudo da mente cultural e da epistemologia da criança (Iturra. pela primeira vez. A propósito da primeira obra da colecção “A Aprendizagem Para Além da Escola”.º 6/7. ao estudar o grupo doméstico. numa recensão bibliográfica da obra atrás citada de Stoer e Araújo (Stoer e Araújo. p. no trabalho de campo em VilaTuxe. 13 Entrevista dada por Raul Iturra aos cadernos de Educação de Infância. passim). só que ninguém dá por isso” 13 . Abril/Maio/Junho de 2002. as crianças não entendem porquê mas são também seus inimigos 12 . “A criança não é o domínio de ninguém. tanto assim que os inimigos dos pais. se começou a interessar como se 12 Extracto de entrevista dada por Raul Iturra em 1999 a Ana Levy Aires. Trata-se de um pensamento radical. p. n. Raul Iturra reconhece 14 que.7 não tem ainda conceitos. mas foi precedida de muita investigação financiada pelo INIC e pela FCT e de muito debate no país e no estrangeiro. 1994: 186). 1992). corresponde ao espraiar do pensamento teórico do autor na perspectiva da afirmação de uma Antropologia da Educação. incluída na mesma. A Antropologia da Educação. A cultura está dividida em duas partes: a dos adultos e a da infância.º 62. em 23 de Julho de 2004. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . (Silva. em termos de investigação. um conjunto de ensaios. no ano lectivo de 1994/95. Já antes. que se debruça sobre a complexa relação entre o «saber letrado» (da escola) e a «mente cultural» (rural). 4. 1990a). 14 Dados apurados em entrevista com Raul Iturra. 129. é do domínio dela própria. trata mal os conceitos. em 1970 e em 1974. Pedro Silva. A leccionação em cadeira autónoma viria a acontecer no ISTE. elaborado numa linguagem não hermética. […] As crianças entendem o mundo da forma que os pais o entendem. Ana Felisbela Lavado e Paula Godinho para a revista Arquivos da Memória do Centro de Estudos de Etnologia Portuguesa da Universidade Nova de Lisboa. n. diz que O primeiro livro (Iturra.

professor de Antropologia da Educação na Escola Superior de Educação de Setúbal 15 . As suas filhas começaram a ir à escola em VilaTuxe onde falavam galego. à volta de temas como o insucesso escolar. considera os cinco autores dos textos que compõem este livro (Raul Iturra. Françoise Zonabend. A partir dos finais da década de 80. Monique de Saint Martin. a transgressão e a aprendizagem.8 aprendia a calcular na rua. Percebeu que as crianças eram educadas pela interacção dentro do grupo onde vivem (cf. Em casa as línguas eram o Castelhano e o Inglês. Porto. na economia doméstica etc. 1996). início de 90. Ricardo Vieira) como uma equipa pioneira que lançou em Portugal a Antropologia da Educação. procurando compreender os mecanismos da aprendizagem informal. num processo que conduz naturalmente ao reconhecimento e valorização desses saberes. a ideia da aprendizagem para além da escola foi emergindo e viria a despertar o seu interesse pela Antropologia da Educação. 1997a: 353). Na recensão da obra “O Saber das Crianças” (Iturra. não em torno de “problemas” mas na procura das virtualidades e potencialidades das crianças para aprenderem e entenderem o real. 1997 e 2001). 1997a e 1997b). etc. no jogo.) e em França (Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales e no Collège de France) com a participação de Maurice Godelier. diz que O Saber das Crianças «trilha outros caminhos. a etnopsicanálise. Marie Elizabeth Handman. Filipe Reis. François Bonvin e Bernard Lahire. em Portugal (Lisboa. A sua pesquisa faz-se por isso a montante do sistema educativo. 1993. (Souta. E toda esta diversidade levava Iturra a pensar nas descontinuidades entre a casa e a escola. Paulo Raposo. a oralidade e a escrita na aprendizagem. Luís Souta. Amélia Frazão Moreira. 15 Luís Souta tem dado um contibuto notável ao desenvolvimento da educação multicultural e da antropologia da educação em Portugal (1991. Pierre Bourdieu. 1992. etc. Comparando-a com os trabalhos de Antropologia da Educação americana que se tem preocupado com o sistema formal. Alfândega da Fé. Raul Iturra e a sua equipa de investigação iniciaram um conjunto de seminários fechados sobre Antropologia da Educação.. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Embora a pesquisa aí realizada fosse centrada na vida económica. Iturra. o jogo e a aprendizagem. Albergaria dos Doze.

Raul Iturra diz na Introdução ao livro “O Saber das Crianças”: Uma parte do grupo que comigo trabalha decidiu escrever sobre o saber das crianças.9 As pesquisas de Telmo Caria sobre culturas de escola e culturas profissionais. queríamos definir processos e actividades que permitam ao leitor entender o dito saber. ao longo do tempo. Assumindo essa consciência e essa responsabilidade. a partir de uma experiência de terreno. transmite saberes e contra saberes através das tarefas que constituem o trabalho doméstico (nutrição. e a de Amélia Frazão Moreira sobre as classificações das crianças apreendidas do mundo adulto (FrazãoMoreira. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . A disciplina de Antropologia da Educação tem-se mantido como optativa para as licenciaturas de Antropologia Social. e hoje sob a minha coordenação. arranjo doméstico. engrossam a latitude da Antropologia da Educação que este tem feito desenvolver em Portugal. esta análise é feita por meio de entrevistas e análises de histórias de vida de professores do ensino Básico. Amélia Frazão-Moreira […] analisa o processo de interacção que no interior de um grupo doméstico. ora em colaboração conjunta. Sob a minha orientação. etc. ambas orientadas por Raul Iturra e conducentes aos seus doutoramentos já terminados.). 2003). parte IV). e tem sido coordenada por Raul Iturra e leccionada por este. (Iturra. 2003). a continuidade histórica das pessoas sobre a terra […]. […] Filipe Reis […] analisa a forma como a escola introduz as crianças na cultura escrita. 1994. isto é. numa aldeia da serra da Estrela. Ricardo Vieira […] procura explicar como o adulto de hoje é resultado do jovem e da criança que antigamente foi. colectando dados a partir dos quais foi capaz de concluir que o real é representado e manipulado pela pequenada que estamos a estudar aí. 2000. […] Paulo Raposo […] regressou comigo à Beira Alta e observou os comportamentos rituais dos pequenos. bem como sobre o método etnográfico (Caria. Sociologia e Psicologia Social (cf. 1994 e sobre etnobotânica (Frazão-Moreira. ora separadamente em termos de docência. nas conversas sobre os amores e a afectividade. a emotividade do mais novo para assegurar a reprodução. Começo por abordar uma forma particular de interacção entre ascendente e descendente: aquela através da qual um grupo social contextualiza ou quer contextualizar. anexos. (de uma aldeia de Trásos-Montes). 1996:10 e 11). por Filipe Reis e por Paulo Raposo.

1997. Lisboa.histórias de vida e biografias. Luís Souta da ESE de Setúbal. Telmo Caria da UTAD. 1955. Não . BRUNER.10. Lisboa.Lugares. Introdução a uma Antropologia da Sobremodernidade. BASTIDE. é de assinalar. Bertrand. Amélia Frazão . Darlinda Moreira da Universidade Aberta. 9. coordenado por Raul Iturra. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .saberes secretos.problemas metodológicos e de investigação em contexto escolar. Luis Souta multiculturalismo e educação.etnicidade e identidade nacional. Luis Silva Pereira .. José Veiga . Ed. 8. Ricardo Vieira da ESE de Leiria e José Catarino da ESE de Setúbal). Lisboa. Ed. Roger. 1994. Referências bibliográficas AUGÉ. Anais XXXL Congresso Internacional de Americanistas. J..A análise do jogo . todos os programas abrangem o processo educativo na escola e fora da escola. Para além da disciplina que integra como optativa os currículos das licenciaturas do ISCTE já mencionadas. 70.10 De ano para ano. “Le Principe de Coupure et le Comportement Afro-Bresilien”. 2000. a criação do primeiro mestrado em Portugal de Antropologia da Educação (2003-2005).tradicional/moderno. J. 1: 493-503. a disciplina envolveu convidados exteriores ao ISCTE na leccionação das aulas nº 7. 11 e 12. grosso modo. com os seguintes docentes e respectivos temas: Teimo Caria . Ricardo Vieira . Actos de Significado. há algumas alterações pontuais em termos da ordem e da natureza das temáticas abordadas mas. BRUNER. como corolário de uma basta investigação e prática de ensino no ISCTE. No ano lectivo de 1995/96. São Paulo. 70. Cultura e Educação. Marc. e com a colaboração de docentes internos (Paulo Raposo e Miguel Vale de Almeida do Departamento de Antropologia Social do ISCTE) e externos (Amélia Frazão-Moreira da Universidade Nova de Lisboa.

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VI – Capítulo Diferenças e Semelhanças do Género Textos de comunicações do painel: Diferenças e Semelhanças do Género Coordenação Antónia Pedroso de Lima Centro de Estudos de Antropologia Social -ISCTE Susana Matos Viegas Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e Universidade de Coimbra ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .

Construindo Diferenças e Semelhanças no Recreio: uma Micro-Etnografia de Género e Poder em Contexto Escolar Maria do Mar Pereira Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE) maria. reflectir sobre os recursos (metodológicos. mas são abordados nessa reflexão de modos variáveis. pertencer a grupos separados. as diferenças de género identificadas na observação são configuradas pelas questões que colocamos e perspectivas de análise que adoptamos. Como descrever e problematizar. então. potencial heurístico e relevância etnográfica.do. saltam frequentemente à vista diferenças entre raparigas e rapazes – as/os jovens dos dois sexos parecem desempenhar actividades diferentes. estas diferenças e os processos sociais e culturais através dos quais são constituídas? Mais do que uma propriedade unívoca e “objectiva” das pessoas ou grupos em estudo. discursivos) que empregamos para descrever diferenças e semelhanças de género (bem como aquelas que estão associadas a outros eixos de diferenciação e desigualdade social) e discutir o ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . sala de convívio. Como tal. Estes conceitos podem ser definidos e medidos de formas distintas e as nossas opções teóricas e metodológicas sobre a utilização que lhes damos têm efeitos significativos nas análises que fazemos. como tal. Palavras-Chave: Género. Nesta comunicação. Importa. ter comportamentos distintos. ocupar o espaço de forma desigual. partindo de observações realizadas numa micro-etnografia com uma turma de 8º ano de uma escola em Lisboa. construídos na produção de conhecimento sobre esses contextos e as relações que aí se estabelecem.mar@netcabo. teóricos. cantina ou sala de aula de uma escola de 2º e 3º ciclo. em larga medida. Semelhança Quando entramos num recreio. Escola. orientando a atenção para certas dimensões dos fenómenos em estudo e deixando outras encobertas. Poder. Jovens. Diferença. pretende-se lançar pistas que contribuam para esse debate. Não são factos apenas dados pelos contextos empíricos mas. é fundamental problematizar o lugar do binómio diferença e/vs semelhança na investigação sobre género e debater o seu estatuto epistemológico.pt Os conceitos de diferença e semelhança são eixos estruturantes da reflexão sobre género.

et al 2003. Butler 1990 e 1993. Os conceitos de diferença e semelhança assumem-se. por exemplo. assim. No entanto. West e Zimmerman 1987). potencial heurístico e relevância etnográfica (por exemplo. Diferença e Semelhança na Investigação sobre Género Estudar género é analisar a construção social de diferenças e semelhanças. Cranny-Francis. ao mesmo tempo. Nesta comunicação. Eagly 1995.2 papel que esse processo de descrição desempenha na (re)produção e legitimação dessas diferenças e semelhanças. com uma turma de 8º ano de uma escola em Lisboa (Pereira 2006). De facto. geralmente orientando o olhar para ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . colocar no centro da análise as situações em que estas diferenças são minimizadas ou negadas. É problematizar os processos materiais e simbólicos através dos quais se representam e posicionam as mulheres como sendo diferentes dos homens e. se salientam as semelhanças entre homens (em especial no que diz respeito aos aspectos entendidos como características centrais e necessárias da masculinidade) e as semelhanças entre mulheres (em particular no que se refere aos elementos considerados distintivos e fundamentais da feminilidade). actualmente em curso. diversas/os autoras/es têm salientado a necessidade de problematizar o lugar do binómio diferença e/vs semelhança na investigação sobre género e de debater o seu estatuto epistemológico. Existem estudos que se centram nas diferenças entre mulheres e homens e outros que privilegiam a exploração de diferenças entre mulheres. Um estudo poderá focar os contextos em que as diferenças entre mulheres e homens são acentuadas e explicitadas ou. As opções teóricas e metodológicas sobre os modos como se usam os conceitos de diferença e semelhança de género e sobre o papel e estatuto que lhes é atribuído num dado estudo têm implicações nas observações feitas e conclusões formuladas. pretende-se lançar pistas que contribuam para esse debate. por outro lado. analisando deste modo a diversidade de performances de feminilidade. não têm um significado unívoco ou posição constante nessa reflexão: as diferenças e semelhanças de género podem ser (e são) definidas e medidas das mais variadas formas. tomando como ponto de partida observações efectuadas no âmbito de um trabalho de micro-etnografia. como eixos estruturadores da reflexão sobre género.

como mais uma prova de que mulheres e homens são. Maranta et al 2003. mesmo quando essa descrição assenta no pressuposto de que essas diferenças são o produto de experiências sociais distintas e não o resultado de características biológicas necessárias e universais. de forma activa e sistemática. directa ou indirectamente. Rosenberg 2005. exagerados ou mitificados) se tornam elementos integrantes de crenças e discursos generalizados sobre as diferenças entre mulheres e homens e sobre as implicações dessas diferenças ao nível dos papéis e posições sociais que devem corresponder a umas e outros. Laqueur 1990).” (1995: 1 – itálicos no original). uma descrição “científica” de diferenças entre mulheres e homens pode ser lida e usada como confirmação da existência de “essências” de feminilidade e masculinidade. “the knowledge yielded by the category «gender» about gender is one of the clearest examples of reflexive knowledge – by which I mean the social process of knowledge production which changes the knowing subjects and the conditions under which the phenomenon is produced.3 certas dimensões dos fenómenos em análise e deixando outras encobertas. nos últimos séculos os discursos científicos têm desempenhado um papel crucial como “narrativas de legitimação” (Foley e Faircloth 2003) da subordinação das mulheres (Amâncio 1994 e 1997. “demonstrando” as diferenças entre os sexos e a “natural” superioridade de um em relação ao outro. diferentes. Jacobus et al 1990. Como tal. na regulação dos significados e normas associados ao género1 . 1 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . As/os jovens com as/os quais convivi no âmbito do trabalho que aqui vou apresentar diziam com frequência que “está provado cientificamente que as raparigas amadurecem mais cedo do que os rapazes” ou que “há estudos que mostram que os homens têm muito mais força do que as mulheres”. Têm também implicações a outros níveis: influenciam. Esta é uma ilustração de como os discursos científicos sobre género (embora filtrados e muitas vezes adaptados. Ao analisar práticas. Thorlindsson e Vilhjalmsson 2003). aliás. a investigação científica (tanto no âmbito das ciências sociais. Enquanto instituição que produz discursos (diversos) sobre as diferenças e semelhanças entre mulheres e homens. de facto. À ciência é. Friedan 1965. Como tal. os próprios processos sociais de construção de diferenciações que analisam. como no das físico-naturais) intervém. devido ao seu estatuto (nas sociedades ocidentais contemporâneas) como forma mais “objectiva" de produção de conhecimento sobre o real (Bourdieu 2001. com base nos seus traços “biológicos”. conferida particular autoridade nesta regulação. relações e situações em função Como argumenta Gherardi.

4 da dicotomia feminino/masculino. a investigação em ciências sociais sobre género pode contribuir indirecta e inadvertidamente para a re-inscrição biológica dessa diferenciação e para a reprodução e legitimação de uma dicotomia que deve ser seu objectivo problematizar e desnaturalizar. necessária e dualista. todas as dimensões da vida na escola estão organizadas. Delamont (1990). Connell et al (1982). No entanto. instrumentos pedagógicos. Kessler et al (1985). rotinas. cultura organizacional. sistemas de regras. espaços e recursos. Stanworth (1981) e Wolpe (1988) foram alguns dos trabalhos pioneiros nesta área. sem lhes conferir uma existência concreta. discursos oficiais e não oficiais. Thorne (1993). ainda em curso. isto é. Diferenças e Semelhanças na Escola Desde inícios da década de 1980. recompensas e sanções. estratégias de gestão. actividades curriculares e extra-curriculares. gostaria de recorrer a observações e reflexões efectuadas no âmbito do meu trabalho de micro-etnografia. as escolas têm sido descritas e estudadas no âmbito das ciências sociais como espaços em que as questões de género estão presentes de forma transversal e estruturante. de forma mais ou menos explícita. para ilustrar e explorar as formas como estas questões se manifestam num contexto empírico particular. essencializar e dicotomizar as diferenças entre mulheres e homens. estável. sem reificar. Fernandes (1984). relações formais e informais. em suma. sobre negociação de masculinidades e feminilidades entre jovens de uma escola em Lisboa. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . em função de representações socialmente partilhadas sobre os significados e implicações da diferença 2 Arnot e Weiner (1987). Os vários estudos que têm problematizado as relações entre género e educação2 demonstram que as estruturas institucionais. e utilização de artefactos. Não há fórmulas já prontas e infalíveis para o fazer e não tenho quaisquer pretensões de apresentar aqui respostas e soluções a estas questões. construir vocabulários e modelos de análise que nos permitam dar conta das dinâmicas e efeitos da produção da diferenciação (e desigualdade) de género e descrever as múltiplas configurações dessa diferenciação (evidenciando o seu carácter variável e contextual). independente das suas manifestações situacionais. relações de poder e autoridade. então. O desafio é.

os rapazes não querem saber da vida das outras pessoas e dizem o que têm a dizer “na cara”. ouviam música em leitores de mp3. proponhome analisar as formas como jovens negoceiam género num contexto desse tipo. os grupos de amigas/os têm dimensões. por exemplo. Muito do que vemos parece confirmá-lo: frequentam espaços distintos. também fora dela). rapazes – as raparigas pareciam estar. têm comportamentos em sala de aula. Quando se realiza um trabalho de observação sobre género junto de jovens desta idade numa escola. integrei-me numa turma de 8º ano e acompanhei as/os jovens da turma (com idades compreendidas entre os 13 e os 15 anos) em todas as suas actividades (lectivas ou não) na escola (e. na sua quase totalidade. recreio. e as dinâmicas de poder e (auto e hetero) regulação através das quais certas performances de feminilidade e masculinidade são avaliadas e sancionadas como “naturais” (e portanto legítimas e desejáveis) e outras como desviantes e problemáticas. estar a prestar atenção ao que estava a ser dito. Para o fazer. um olhar atento revela que muitas das diferenças que observamos e que nos são relatadas pelas/os jovens são menos diferentes do que inicialmente pareciam. as raparigas gostam de fazer fofocas e são intriguistas. as raparigas demonstram maturidade e responsabilidade. atiravam canetas e outros objectos. os rapazes o inverso. etc. Esta diferença foi observada por várias/os autoras/es ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Os protagonistas deste tipo de comportamentos eram.5 entre mulheres e homens. Interessam-me em particular os modos como estas/es jovens definem e expressam o “ser mulher” e “ser homem”. mais quietas e atentas. noutras circulavam pela sala. No projecto de investigação no qual estou neste momento a trabalhar. no geral. No entanto. aparentando. A questão do comportamento na aula é um exemplo pertinente. diferentes. em geral. os rapazes barulhentos e irrequietos. uma escola pública em Lisboa. ao longo de seis semanas. estruturas e dinâmicas de interacção distintas. Os discursos que as/os jovens produzem reiteram e reforçam esta diferença. os rapazes adoram jogar futebol e outros desportos. as raparigas não sabem e não estão interessadas em jogar. a sensação inicial é a de que rapazes e raparigas são muito diferentes. A turma que observei tinha comportamentos bastante diferentes em cada disciplina – em algumas estavam caladas/os. por vezes. já que elas/es frequentemente falam de rapazes e raparigas através de dicotomias e oposições: as raparigas são bem comportadas. sem intrigas. faziam sons de animais.

manifestações de distracção e resistência. é raro ver raparigas jogar futebol nos campos principais. ver também Willis 1977) No entanto. apenas aparente. etc. importa proceder com cautela na observação. na medida em que podemos ser levadas/os a focar a atenção nas diferenças e dicotomias que. não só a nível simbólico mas também geográfico. mas sim elementos de processos recorrentes e contínuos de criação e negociação de fronteiras entre os espaços. enviar mensagens de telemóvel. por serem elementos centrais das representações colectivamente partilhadas sobre a masculinidade e feminilidade. Na véspera de um campeonato inter-turmas (no qual participavam equipas femininas e masculinas). descrição e análise de diferenças e semelhanças de género.6 em outros estudos. Estas práticas são menos visíveis e audíveis do que as dos rapazes e. Uma observação mais atenta e continuada do que acontece na escola demonstra também que as diferenças que se observam entre rapazes e raparigas não são diferenças já resolvidas e consolidadas. conversar e rir baixinho. também elas. tendo sido interpretada como um demonstração da postura significativamente diferente de rapazes e raparigas face à escola. traços. um grupo de nove raparigas decidiu praticar num dos campos principais. considerados adequados a rapazes e raparigas (Ferreira 2002). uma análise do comportamento das raparigas na turma que observei demonstra que esta “integração feminina” é. As/os jovens da turma atribuem-no ao facto de as raparigas não terem jeito ou interesse para o futebol. Mesmo quando parecem estar atentas. interiorizadas na infância. Como tal. muitas delas estão envolvidas em práticas que podem ser consideradas também como estratégias de disrupção da concentração em aula e que incluem. habitualmente formulada por meio da dicotomia “integração feminina / resistência masculina” (Abrantes 2003: 88. portanto. frequentemente. Na escola onde está a ser realizado este estudo. ler revistas. são mais visíveis e familiares para nós. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . que contrariam o dualismo rígido e simplista que é habitualmente usado para descrever comportamentos em aula e que tende a reforçar a tradicional dicotomia entre actividade masculina e passividade (e obediência) feminina. comportamentos. A relação das raparigas com o futebol e com os espaços onde este é praticado é um exemplo interessante da forma como se estabelecem e negoceiam fronteiras. mais dificilmente identificáveis pelo/a professor/a ou outro/a observador/a mas são. por exemplo. escrever e trocar recados em papel.

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Depois de jogarem durante alguns minutos, dois rapazes pediram-lhes que saíssem do campo, dizendo que eles e os colegas queriam jogar ali. Elas não acederam, declararam que tinham tanto direito à utilização do campo quanto eles, disseram que eles não lhes pediriam para sair do campo se elas fossem rapazes e chamaram-lhes machistas. Os rapazes insistiram e perante a recusa delas ameaçaram pontapear a sua bola na direcção delas, tiraram-lhes a bola com que elas estavam a jogar e as raparigas acabaram por sair do campo e ir jogar numa zona exígua do outro lado do recreio, sem condições para a prática do futebol. Mais tarde, uma das raparigas explicou-me que “muitas vezes nós tentamos ir jogar ali mas eles arranjam sempre desculpas para nos tirar de lá”. Como tal, a observação de que os campos de jogos são quase sempre ocupados por rapazes não é, necessariamente, uma demonstração de que as raparigas não se interessam (ou se interessam menos) pela prática desportiva e uma prova de que rapazes e raparigas são incontornavelmente diferentes a este nível, seja devido à socialização ou biologia. Pode estar associada a dinâmicas específicas de apropriação do espaço, também elas centrais para a análise da forma como se negoceia o género em contexto escolar. Além disso, nem todos os rapazes manifestam interesse pela prática do futebol, aspecto que por vezes fica camuflado pela tendência para focar a análise nas diferenças entre sexos, tendência que pode levar a sobrevalorizar as semelhanças que existem entre os rapazes e entre as raparigas e a negligenciar a heterogeneidade que caracteriza tanto um grupo como o outro. Neste episódio, como em vários outros que marcam o quotidiano de jovens na escola, as/os jovens recorrem a estratégias várias de (auto e hetero) monitorização e regulação (que incluem o gozo e o insulto ou o uso da força física, por exemplo) para marcar fronteiras (que não são sempre consensuais ou aceites passivamente), evitar que essas fronteiras sejam desrespeitadas e aplicar sanções quando isso acontece. Nesta e em muitas outras situações, a diferenciação de género não aparece como um facto dado e resolvido mas como uma construção que dá trabalho manter no quotidiano. De facto, essa diferenciação é algo que se faz todos os dias, e não algo que simplesmente existe na sequência de uma socialização que (re)produz identidades e papéis genderizados, profundamente enraízados e estáveis.

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Considerações Finais Não é possível sintetizar, numa comunicação de quinze minutos, a diversidade de observações que preencheram as seis semanas de trabalho de campo que aqui vos apresentei sumariamente ou a multiplicidade de interrogações e reflexões que elas têm suscitado. No entanto, mais do que descrever exaustivamente os modos como estas/es jovens vivem e fazem género nas suas relações em contexto escolar, o objectivo desta comunicação é contribuir para animar o debate sobre os conceitos de “diferença” e "semelhança”, por vezes utilizados de forma excessivamente rigída e potencialmente reificante no estudo do género, em particular, e nas ciências sociais, em geral. Pretendia-se, também, contribuir para a discussão do papel que a investigação científica sobre a diferenciação de género desempenha, directa ou indirectamente, na regulação social dessa diferenciação, demonstrando que não é só nos recreios que se constroem diferenças e semelhanças – os nossos próprios estudos, textos e comunicações são, também eles, agentes e espaços dessa construção.

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DIFERENÇAS DE GÉNERO E FAMÍLIAS HOMOPARENTAIS
Margarida Moz ISCTE margaridamoz@oniduo.pt

As famílias homoparentais parecem contrariar a noção de família, assente numa forte distinção de género, a que correspondem algumas atribuições ideais de papéis: mãe/mulher, pai/homem. A antropologia questionou já o carácter universal do parentesco mas pode-se também questionar a distinção masculino/feminino, pai/mãe associada à família. A par da contingência do parentesco e da sua “desnaturalização”, a ciência aumenta as possibilidades no domínio do parentesco, ao introduzir a escolha como critério de construção familiar. Em simultâneo, os governos de alguns países ajustam as leis para que se construam relações familiares não assentes nas distinções de género fundamentais. Nesta comunicação discute-se a relevância dos papéis de género numa família homoparental, com base nalguns estudos efectuados na Europa e na América do Norte. PALAVRAS-CHAVE: Género, Família, Parentesco, Homossexualidade, Homoparentalidade.

Quando falamos numa família homoparental estamos desde logo a entrar por uma via que, à partida, parece contrariar a própria noção de família, assente numa forte distinção de género, a que correspondem simbolicamente algumas atribuições: os papéis de mãe/mulher e de pai/homem. Se é certo que, aparentemente, estas distinções tendem a estar cada vez mais esbatidas, e que se espera que a responsabilidade na educação dos filhos seja dividida por igual entre os pais, continua a dar-se uma enorme importância às distinções de género no seio da família, consideradas como referências fundamentais. As distinções de que falamos pressupõem que a mulher é mãe e o homem pai, e que os dois coexistem numa relação parental (mesmo se uma das partes nunca participou de facto nesta relação) e esta é normalmente vista como a única e natural possibilidade numa relação que é, apesar de tudo, socialmente construída. A ideia de que para se ser pai é necessário ser-se homem está ligada àquela outra defendida por David

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Blankenhorn, autor do livro Fatherless América (1995) que causou um enorme debate ao afirmar que a própria masculinidade só se atinge plenamente com a paternidade:

A paternidade, mais do que qualquer outra actividade masculina, ajuda os homens a tornarem-se bons homens: mais propensos a obedecer às leis, a ser bons cidadãos, a pensar nas necessidades dos outros. (p.21 – tradução minha)

É certo que, para o autor, esta paternidade benévola é apanágio exclusivo dos pais biológicos ou adoptivos, sendo os padrastos excluídos desta propensão para o bem. Também na equação subjacente a este argumento existe a mãe/mulher, cuja presença é fundamental e necessária à existência deste pai/homem. Para lá do interesse em defender os valores da família tradicional americana, o autor está empenhado em reforçar, através da família, as distinções de género, absolutamente necessárias à conservação destes valores. Quando se fala em famílias homoparentais esta lógica familiar fica desde logo ameaçada e com ela o futuro da família pensada nestes termos. As justificações para a não-aceitação das famílias homoparentais são frequentemente as de que se trata de uma situação anormal, desviante, em que as crianças vão crescer confusas, destituídas de valores morais, em que serão provavelmente recrutadas para a homossexualidade. Esta ideia pode manifestar-se de várias formas e quase sempre é expressa em favor do “superior interesse da criança”. Em 2003 (a 31 de Julho), o Vaticano emitiu um documento de oposição ao casamento homossexual onde se lia: “Inserir crianças nas uniões homossexuais através da adopção significa, na realidade, praticar a violência sobre essas crianças, no sentido que se aproveita do seu estado de fraqueza para introduzi-las em ambientes que não favorecem o seu pleno desenvolvimento humano.” 1 Apesar das alegações da Igreja de que “o pleno desenvolvimento humano” das crianças que crescem nas famílias homossexuais está comprometido, o que parece estar de facto comprometido nesta possibilidade é mais a plena continuidade da família tradicional. Desde logo porque o referido documento trata de uma eventual autorização do casamento homossexual e da sua reprodução, ignorando a existência dos milhares de
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http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_con_cfaith_doc_20030731_homos exual-unions_po.html

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famílias que por todo o mundo, vivem já, e nalguns casos há muito, nessas condições sem que os estudos efectuados revelem qualquer deficit de humanidade nestes filhos, nestas crianças – ideia corroborada pela American Academy of Pediatrics que se posiciona publicamente em favor da adopção de crianças por casais do mesmo sexo. Antes do mais é preciso lembrar aos que acreditam que a adopção é a única forma de um casal homossexual ter filhos que não só a maioria dos indivíduos que compõem estes casais não é estéril como tão-pouco a reprodução é um acto exclusivamente natural. Ter filhos é um acto de vontade, uma vontade vista como um desejo natural, que a homossexualidade não inibe. O parentesco foi já “desnaturalizado” (Collier e Yanagisako, 1997), porquanto as evidências etnográficas esclarecem a sua pertença mais ao domínio da cultura que da natureza, uma vez que as associações genealógicas são sobretudo construídas. David Schneider (1984) foi dos antropólogos que mais se bateu contra o enraizamento biológico do parentesco que prevalece no pensamento ocidental onde, por definição, o parentesco é composto por relações baseadas na reprodução sexual. Sendo um dos primeiros grandes críticos do que designou por “Doutrina da Unidade Genealógica da Humanidade”, chamou a atenção para que o método não é mais que uma tentativa de generalização de uma noção ocidental assente na ideia de que o parentesco está ligado à partilha de uma substância comum, que aproxima e identifica as pessoas umas com as outras. No Ocidente, esta consubstancialidade está fortemente ligada à reprodução e ao pressuposto de que “o sangue é mais espesso que a água” (blood is thicker than water). Os estudos realizados em diversos contextos não ocidentais revelam, porém, que o valor atribuído à reprodução no Ocidente não é universal. Entre os Nuer do Sudão, por exemplo, a designação de pai estendia-se a demais membros da família, incluindo mesmo alguma irmã do pai, que por ser estéril passava, ao fim de alguns anos de não gestação, a constar do grupo dos homens e a ser chamada de pai (Héritier, 1996). E nas Ilhas Salomão, por exemplo, em que as crianças ficam com os pais não pela ordem natural das coisas mas porque os pais as desejam e são autorizados a fazê-lo pela comunidade, torna-se evidente o carácter frágil e condicional das relações entre pais e filhos (Holy, 1996). A par da evidência universal da contingência do parentesco e da sua “desnaturalização”, os desenvolvimentos tecnológicos aumentam as possibilidades no

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domínio do parentesco ao introduzir a escolha como critério de construção familiar. Marilyn Strathern (1996) chama a atenção para a forma como as possibilidades introduzidas pelas novas tecnologias reprodutivas, desenvolvidas para colmatar limitações biológicas, vão mais longe na requalificação do parentesco: ao criarem um vínculo natural por via artificial, como resultado da escolha de se ter filhos que naturalmente não se podem conceber, abrem caminho para que outros candidatos a pais, naturalmente impossibilitados, possam também satisfazer as suas pretensões. A ciência permite já situações que desafiam todas as noções de parentesco, como é o caso de mães virgens ou de duplas mães biológicas (no caso em que existe uma mãe hospedeira, que gera um embrião proveniente de uma combinação de óvulo/espermatozóide alheia). Mas não é apenas a ciência que dá passos na construção de relações familiares não assentes nas distinções de género fundamentais, os governos de alguns países, acompanham já estes desenvolvimentos ao permitirem aos casais homossexuais tanto a adopção plena de crianças, como a adopção do filho do companheiro por um parceiro do mesmo sexo. Nesta segunda forma, a mais frequente na Europa e em prática em países onde a adopção conjunta não é, ainda, permitida, trata-se de adaptar a legislação a uma realidade em que as famílias se vêem muitas vezes incapazes de gerir a sua situação familiar por falta de enquadramento legal (seja na relação dos filhos com a escola, seja na própria vivência quotidiana quando, por exemplo, o pai/mãe legal se ausenta e a criança é deixada com o companheiro/a. Mas há países que vão mesmo mais longe nesta adaptação às diversas formas de agrupamento familiar e aplicam a presunção de paternidade à parceira não parturiente de um casal de lésbicas que tenha um filho por inseminação artificial - é assim no Quebeque, no Canadá. Voltando à questão inicial da distinção pai/mãe, homem/mulher, importa desde logo chamar a atenção para o modo como a reprodução medicamente assistida introduz novas questões com forte ressonância no plano social e jurídico. Hoje em dia as famílias são cada vez mais diversificadas e pai/madrasta; mãe/padrasto, meio-irmão-materno, meio-irmão-paterno, irmão-filho-do-marido-da-mãe, etc. são realidades que não surpreendem ninguém. Para além destas famílias recompostas, as novas tecnologias evidenciam ainda outras distinções como “mãe genética”, “mãe biológica”, “mãe de aluguer”, etc. As realidades sociais há muito que transcendem as designações que existem e que são visivelmente insuficientes.

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sob o argumento do princípio do bem-estar da criança. tanto acontece que mãe e pai sejam os biológicos ou legais. “madrasta”. e ela própria filha de pai gay. surgem termos como “a outra mãe”. era o seu pai. ao serviço de uma ficção de nascimento: veja-se as restrições no acesso à adopção e à reprodução assistida. “A que ramo de negócio é que eles se dedicam?” (Garner. “Bem” continuou “não é fantástico que o ‘partner’ do teu pai tenha vindo de tão longe com ele para assistir à cerimónia da tua graduação!”. Bissexuais e Transgender) – Families Like Mine (2004) –. Abigail Garner. mas nas referências à família fora do seio familiar. e em relação aos pais. Gays. e o outro. sublinhando assim uma vontade de formar uma família. Assim. porém. sendo que muitas vezes as condições exigidas jamais seriam satisfeitas pelas famílias que geram crianças sem ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . 2004: 139 – Tradução minha) – é que partner em inglês quer igualmente dizer sócio. de se afirmarem como pais. sobretudo quando as crianças vivem esta situação desde sempre. normalmente. autora de um importante estudo americano sobre os filhos de pais LGBT (Lésbicas. esta mesma necessidade: “Nota-se uma vontade muito nítida de utilizar um termo de parentesco e não apenas o nome próprio da pessoa em causa.” (Cadoret. Em relação ao casal é referido como “a minha mãe e a parceira”. seguido do primeiro nome que distingue cada um deles. etc. Esta dificuldade. na cerimónia de graduação da faculdade. não fossem estas estar. satisfeita por ela ter percebido e achado fantástico. Garner esclareceu que um era seu pai. 2000: 173 – Tradução minha). padrastos ou padrinhos. como também se opta por chamar pai/mãe a ambos os membros do casal. “O ‘partner’?” perguntou. uma colega lhe perguntou qual dos dois homens para quem apontou como sendo a família. “as minhas mães”. “tia” ou então opta-se pela utilização apenas do nome da pessoa em causa. “os meus pais”. Mas depois acrescentou. e os restantes. o parceiro dele (em inglês partner). As dificuldades relatadas não seriam provavelmente muito distintas das que existiriam para a adopção comum. conta que certa vez.5 Nas famílias homoparentais esta parece ser das situações mais difíceis de resolver e aceitar: assim. Eu sustive a respiração. A antropóloga Anne Cadoret (2000) observa no contexto francês. Respirei de alívio. não é tanto sentida no seio da família. A inexistência de nomes para as relações torna difícil fazer transparecer a importância destas pessoas na família quando se fala dela a estranhos.

o afectivo.6 recorrer a estes meios. (Cadoret. o social. como se isso fosse sinónimo de uma educação eficaz. Tanto para as famílias homossexuais quanto para as famílias heterossexuais trata-se de fazer a ‘bricolage’ da família a partir de diversos argumentos de parentesco: o biológico. Já quando uma mãe sozinha. As descobertas iam ao encontro dos receios da maioria heterossexual e homo-hesitante. nos Estados Unidos da América. no caso dos filhos resultantes de inseminação artificial esta questão torna-se mais difícil de resolver. os estudos sobre filhos de casais do mesmo sexo evidenciavam a necessidade de contrariar os argumentos homofóbicos e sublinhavam a existência de poucas diferenças entre as crianças educadas numa família homossexual face às que cresciam numa família heterossexual. Mas as famílias homossexuais fazem cair a nossa ilusão de um “parentesco natural”. estas famílias. ou um pai celibatário. o jurídico. 2000: 173 – Tradução minha) Para além disso. na maioria dos casos. ao reproduzir-se poderão estar a reproduzir o desajuste: que será dos filhos que crescem nestas famílias? Que homens e que mulheres serão? Que famílias irão eles construir? Nos anos 80. Por outro lado. de uma adequação do parentesco biológico ao parentesco social. O envolvimento de mais do que duas pessoas no processo de concepção dificulta a nomeação de cada um dos pais e privilegia um em detrimento do outro dos membros do casal. Como diz ainda Anne Cadoret (2000): A família sempre foi uma montagem. ou até um casal do mesmo sexo opta pela adopção. se as raparigas crescessem mais arrapazadas e os rapazes ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . está-se em geral consciente da ausência de um dos sexos nesta composição. Quase todos os estudos nesta área referem não ser difícil. e era até recorrente a indicação de que na sua grande maioria estas crianças na idade adulta tendiam para a heterossexualidade. o cultural. o histórico. a dificuldade em classificar os parentes parece residir mais na forma como se explicam as relações familiares em causa. e uma vez que esses receios se prendem normalmente com a hipótese de estas crianças apresentarem inconformidades de género. ou pelo casal do mesmo sexo. O termo escolhido deverá evidenciar a existência de uma relação de tipo familiar e a posição da pessoa face a quem a nomeia. Sejam quais forem os termos usados. situar o sexo ausente uma vez que a criança nasce de um casal heterossexual e é posteriormente adoptada por esta ou aquela pessoa.

sem que isso fosse. sinónimo de uma sexualidade mal resolvida – tanto para a homossexualidade quanto para a heterossexualidade. e resolvidos na sua sexualidade. Entre os jovens adultos com quem trabalhou. Biblarz. Ao mesmo tempo que se mostravam mais abertos. e concluíram que contrariamente ao que antes havia sido divulgado. No seu estudo. com as suas próprias referências. mas que os próprios consideram. o lugar dos homens e das mulheres na sociedade e na família? E quando é que o “problema” das famílias homoparentais passa a ser o ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . efectuados entre 1981 e 1998. os sociólogos americanos Judith Stacey e Timothy J. também se revelavam mais abertos à aceitação das relações homossexuais.7 efeminados. sobre filhos de casais do mesmo sexo. aliás. a que têm chegado quase todos os estudos nesta área. Em 2001. por vezes. ao igual desempenho de funções normalmente associadas a um dos sexos. no entanto. em geral. reexaminaram os dados utilizados nos estudos sobre os filhos das famílias do mesmo sexo. ser uma maisvalia. actualmente entre os 20 e os 30 anos. mas longe de considerarem isso uma falha no seu desenvolvimento pessoal. E se os próprios se sentem bem. Garner percebeu como muitos deles têm uma clara noção de que a sua identidade de género escapa. tal seria motivo para preocupação. A interpretação feita por estes autores sugere uma maior tendência dos filhos com pais do mesmo sexo para desafiar as ideias relativas aos papéis de género e à sexualidade. e integrados. estes filhos apresentavam algumas diferenças relativamente aos seus congéneres de famílias heterossexuais. acreditam que tal os valoriza no seu relacionamento com os outros e lhes dá uma maior abertura e capacidade de tolerância – conclusão. à rigidez dos padrões e não se coaduna exactamente com o que é ser homem e mulher. na medida em que lhes confere uma liberdade maior de comportamento ao poderem expressar livremente traços mais efeminados ou masculinos e ao serem abertamente afectuosos com alguém do mesmo sexo sem que isso os faça sentir esquisitos ou inseguros em relação à sua própria sexualidade. por que motivo se teme tanto pelo desenvolvimento destas crianças? Porque é que se diz ser no seu superior interesse que se impede a adopção por casais do mesmo sexo? Como é que se poderá viver com uma realidade familiar que parece não ensinar a distinguir. por exemplo. Abigail Garner verifica que por vezes estes filhos apresentam personalidades em cujas distinções de género são menos óbvias e em que os papéis são mais indistintos – um aspecto que os conservadores tomam como evidência de uma falha no desenvolvimento das crianças.

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A sua ausência da profissão permite que sejam as mulheres. as educadoras de infância a transmitir aos seus educandos o modelo feminino: o cuidar. de acordo com o seu género. a marcada diferenciação entre “trabalho de homem” e “trabalho de mulher” tem criado condições para que continuem a existir trabalhos maioritariamente desempenhados pelas mulheres. esta comunicação dará conta de uma forma de reprodução de poder assente na diferenciação de género. por exemplo. Apresentação Os estudos desenvolvidos em Portugal demonstram uma grande consensualidade no que diz respeito aos estereótipos do género.e nos veículos por ele utilizados . jardim-de-infância e ATL. apesar destas já terem uma participação importante no mercado de trabalho A sua chegada tardia ao mundo do trabalho remunerado contribuiu para as segregar em profissões onde a sua presença é fundamentada nos seus atributos «naturais». 1994). o tratar e o ensinar. 1. Palavras-chave: educadores de infância. o estereótipo feminino está associado à expressividade e à submissão (cf. em entrevistas semi-estruturadas realizadas a educadoras e alunos da licenciatura de educação de infância e também um inquérito realizado entre profissionais e futuros candidatos à profissão.as mulheres e as crianças.Educadoras de Infância: A fragilidade de uma maioria Manuela Raminhos Centro de Estudos de Antropologia Social ISCTE A profissão de Educadores de infância é em Portugal exercida quase em exclusividade por mulheres. enquanto que. reprodução. Elas estão em maioria e são poucos os homens que ultrapassam a barreira simbólica do género. O estereótipo masculino está associado aos domínios profissionais mais dinâmicos e independentes. Amâncio. isto é. género. Em Portugal. poder. A partir de um trabalho de observação empírica feito numa creche. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . O êxito da sua longevidade está no seu meio de reprodução – os pequenos domínios de relações sociais .

A profissão de Educadores de infância é em Portugal exercida quase em exclusividade por mulheres. o tratar e o ensinar. A sua ausência da profissão permite que sejam as mulheres. mas em contrapartida. em Portugal. Lisboa. Elas estão em maioria e são poucos os homens que ultrapassam a barreira simbólica do género. 2005). O Recenseamento Geral da População de 2001 regista um total de 20. Williams. Cardana.2 Em Portugal são poucas as profissões do domínio profissional que tradicionalmente está ligado ao mundo do trabalho feminino que empregam homens e são poucos os jovens do sexo masculino que escolhem licenciaturas em áreas comprometidas com o estereótipo feminino. Ministério da Ciência e do Ensino Superior. Como resultado. 2003 e 2004 foram frequentadas por cerca de 2 mil alunos nos cursos de educação de infância onde se estima que apenas 3% dos alunos sejam do sexo masculino 1 .a transmitir aos seus educandos o modelo feminino: o cuidar. A concentração por sexos quer a nível do ensino (licenciaturas e cursos profissionais) quer na actividade profissional é suportada por um discurso que alimenta a ideia que existem profissões masculinas e femininas. Mas porque é que a divisão do trabalho por género persiste? A primeira explicação centra-se nos estereótipos que passam através da ideologia do género e que 1 DGES. a partir da diferença sexual. Concurso Nacional de Acesso ao Ensino Superior. 1995). As várias escolas superiores de educação públicas entre 2002. sentimentos e comportamentos» (cf. 2005. 2002. Os homens tinham neste universo profissional um peso inferior a 1%.354 educadores de infância em Portugal. no entanto. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . os empregos do domínio feminino pouco têm mudado a sua composição sexual. Através de um forte dispositivo ideológico continuamos a assistir à naturalização do género que. colocando as mulheres em profissões menos prestigiantes socialmente e dificultando-lhes o acesso a funções de chefia tradicionalmente desempenhadas por homens. dos quais 161 do sexo masculino (INE: 2001). promove a desigualdade social. a presença das mulheres no domínio profissional masculino tem aumentado. que as jovens já escolhem com frequência cursos e profissões ligados com o estereótipo da masculinidade (cf. Nota-se. Como pano de fundo fica a ideia que existem profissões para as quais as mulheres possuem habilitações naturais dado crer-se «que os sexo tem consequências inevitáveis quando à forma de pensamento.2003 3 2004. as educadoras de infância .

mas como é que o género se torna poder? e qual é a sua natureza? A partir de um trabalho de observação empírica feito numa creche. São os estereótipos que fazem com que o trabalho. Thousand Oaks. como esperado. Os registos etnográficos que suportam este texto são: uma amostra baseada em 166 questionários.). Women and Men at Work. Londres e Nova Deli. Uma terceira explicação surge. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . entre os alunos das Escolas Superiores de Educação de Lisboa e do Porto. jardim-de-infância e ATL. Irene. Pine Forge Press (an imprint of Sage Publications. uma vez que têm demonstrado falta de estratégias de afastamento dos homens nas funções de liderança quando estes entram no seu domínio profissional. 3 2. com uma distribuição razoavelmente equitativa. 42-43. No grupo de educadores de infância não foi inquirido um único homem e no grupo de alunos de educação infantil apenas um. deixando-os construir a sua masculinidade e evidenciando a sua supremacia e poder. as mulheres não têm sido consistentes na consolidação dos seus privilégios profissionais.que ainda consegue preservar a sua vantagem localizando-os em esferas diferentes das da mulher. nos lugares de chefia e de decisão. 2ª edição. A amostra revelou uma distribuição por género fortemente feminizada. como por exemplo. e Barbara Reskin (2002).3 permitem aos indivíduos a partilha de um conjunto de ideias que naturalizam. Sociology for a new Century. 3 4 2 ID. 2 Uma segunda explicação para a para a divisão do trabalho é o facto desta divisão conceder privilégios ao grupo dominante proporcionando-lhe uma posição de controlo. em entrevistas semi-estruturadas realizadas a educadoras e alunos da licenciatura de educação de infância e também um inquérito realizado entre profissionais e futuros candidatos à profissão. col. da Licenciatura de educação de infância e a Educadores de Infância e exercerem a sua actividade em creches e jardins-de-infância de Lisboa e do Porto. pag. A imagem de si Dizem as feministas. esta comunicação tem como objectivo identificar a natureza do poder atribuído ao género. “género é poder”. um conjunto de comportamentos e atributos. “seja etiquetado como feminino e masculino”. 4 Padavic. Este controlo é exercido pelo sexo privilegiado .o masculino . São estes estereótipos que levam a que a profissão de educador de infância seja própria de mulher. por sexo. Inc.

prende-o à sua identidade que ele ou ela deve reconhecer e acreditar como reflexo do seu verdadeiro “eu”. O Género está de acordo com o seu sistema nervoso. O poder identifica o indivíduo. Como a fé aceita-se e não se discute. Isto significa que a feminização das profissões. apesar de sabermos que é uma construção social. porque se acredita nele. Acredita-se que é assim. segundo o género. E se esta verdade fizer parte de cada “verdadeiro eu” acredita-se nela. efeito do património biológico do indivíduo. Esta é a verdade. 1982:212). 1979). Um dos impedimentos à mudança social é a assunção da naturalidade das coisas. diferentes tipos de identidades. E é aqui que reside também um dos poderes do género. desejos e crenças. Porque? Porque o poder é produtivo: produz indivíduos. É este modelo que é reproduzido e assimilado pelas mulheres e pelos homens que ingressam em profissões que de acordo com o seu género. no seu carácter fixo. apesar de todo os projectos de transgressão e de rotura. É uma verdade que liga os indivíduos e que fortalece as estruturas de poder e dominação (cf. não está ao nível da sua composição sexual. actos. (Foucault. O género manifesta-se segundo a sua natureza biológica. modos de comportamento. Dizem: ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . o género justifica-se de acordo com um quadro biológico que suporta a ideia que divisão do trabalho. Foucault. Como o comportamento.4 Um dos maiores contributos de Foucault foi fazer a ligação entre o discurso dominante da verdade (ou a verdade de um grupo reflectida no discurso dominante) e a emergência do poder. mas na presença de um modelo de género institucionalizado. Contudo a verdade não existe por si só o que permite que o poder não se reduza somente às formas de dominação e não seja essencialmente repressão. formas de subjectividade. Nestes discursos o género tem qualquer coisa de fixo e permanente. Esta naturalidade está contida nos discursos científicos da biologia e da psicologia. Apesar de ser uma identidade plástica. No caso das educadoras de infância estas assumem que a profissão é feminina e que está de acordo com o seu património biológico. tornando o discurso ideológico coerente e permitindo também a continuidade do discurso do senso comum. controlando a massa crítica. é normal e natural. O poder perde o seu carácter dominante e deixa de ser repressivo. também o género é assumido como um fenómeno causal.

a ajudar a mãe dos meninos. No entanto através dos seus discursos. educadora. da tolerância. da paciência. A mulher biologicamente está preparada para isso. mas é simultaneamente a imagem da passividade.5 Somos só mulheres … penso que os homens não têm paciência … exercemos a nossa profissão com mais naturalidade é por isso que é uma profissão feminina. É verdade! Se calhar sem querer estava-me a ensinar-nos que cuidar de meninos era coisa de mulher! Mas a minha avó sim …que espectáculo. (aluna da licenciatura de Educação de Infância. aos médicos. mas é assim que eu penso. educadora de infância. Não aprendo isto na licencaitura. aos veterinários. Não tenho assim presente que fossemos muito rigorosos na divisão de tarefas. A tudo. como professoras. da dedicação. A naturalização do género é tão forte nas educadoras que apesar de no inquérito terem respondido que em crianças as profissões que gostariam de ter em adultas se situavam no universo das profissões femininas. aos escritórios. Lembro-me de brincar com os meus irmãos. A minha mãe não se ralava nada se o meu irmão brincasse com as bonecas e eu com os brinquedos dele. 21 anos) Nós sabemos que é uma profissão feminina. só te fica bem!». dentro dos parâmetros da verdade estabelecida. negando o papel que estes tiveram na sua aprendizagem do género. ao carinho. Até lhe dizia «assim é que é. 55 anos) As educadoras de infância deixaram transparecer que no decurso da sua actividade profissional o seu universo é feminino. 55 anos) os homens aparecem no ensino já quando «as nossas crianças estão prontas» para a mudança. são as flores do nosso jardim que nos primeiros tempos de vida precisam da nossa ajuda. porque está ligada ao cuidar. tão ligadas ao universo materno. da bondade. a tratar dos filhos. essa realidade é bem diferente. negam que tenham sido condicionadas pela família e pelos amigos na escolha da sua profissão. à paciência. Às casinhas. aos astronautas. Ou seja o seu género não acrescenta nada à profissão. Dizia a minha avó quando via o meu irmão a brincar com as minhas bonecas: Vê lá que ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Elas são como as flores. Em interacção com as crianças partilham com estas experiências ligadas ao universo da casa. mais fortes. (mulher. enfermeiras. consolidando a ideia de que esta ocorre com normalidade. (mulher. Ao mesmo tempo perante as crianças a educadora é a autoridade. Essa era implacável. Mais crescidas. No entanto dava-me bonecas a mim e carrinhos ao meu irmão.

Se atendermos a PARSONS. afirmar a sua masculinidade. influência. 5 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . perdendo. negando dessa forma a sua ligação ao mundo feminino e. O afastamento dos homens das profissões femininas ou a necessidade que estes têm de. Porto). Nova Iorque. afastando-se das brincadeiras das meninas. Berkley. pp. olha que as bonecas são para as meninas! (Aluna da ESE. 6 CHODOROW. Social Structure and Personality. «a sociedade vê a sua profissão como a profissionalização do trabalho doméstico» (Mulher. pode ser explicada através da teoria do sexo. 6 Como me disse uma educadora. que resulta desta intensidade do significado atribuído ao género. “The superego and the theory of social systems”. A criança. as escolhas profissionais são incentivadas ou condicionadas através da aprendizagem dos papéis do género no seio das solidariedades primárias. Uma forte identidade Como já dissemos. acaba por ser influenciada pelo modelo que lhe está mais próximo. enquanto que os homens.17-33. 3. The University of California Press. o modelo da paternidade (masculino) fica mais ausente. põem mais em causa a sua masculinidade. já na vida adulta. pp. Mais tarde. no seu processo de aprendizagem. Quando chegam à vida adulta os homens escolhem geralmente uma profissão do universo das profissões masculinas. o feminino e em muitos casos a figura da mãe ou da educadora. aparentemente. 5 Através da construção de uma identidade masculina pela negativa: “tu não fazes isso porque quem o faz são as mulheres!”. também o seu afastamento das profissões “apropriadas às mulheres”. os rapazes são pressionados para abandonar esta identificação com a mãe e assumirem a sua identidade de género masculino. The reproduction of mothering. A forte presença da mulher face ao afastamento da figura do pai nos primeiros anos de vida é pertinente para tentarmos compreender a necessidade que os rapazes têm em manifestar a sua masculinidade. Talcott. quando aí chegam. New York Free Press.174. 1970 (1952). 40 anos. exige uma assimetria dos papéis: A mulher pode fazer qualquer trabalho que não deixa por isso de ser feminina. em contrapartida. Nancy. Lisboa). mais tarde. a preocupação na construção da masculinidade profissional.6 desgostos que ainda queres dar ao teu pai. quando entram no campo profissional tradicionalmente conotado com o género feminino. 1978.

no seu local de trabalho – o infantário -. As educadoras continuam a cuidar. A sua actividade profissional demonstra que a passagem da casa para o trabalho continua a permitir que esta profissão consolide os estereótipos femininos. A feminilidade da profissão também é observável através das relações sociais que estas profissionais estabelecem no seu dia-a-dia com os seus interlocutores mais directos. e o profissional . Na sua sala. o quarto e até a garagem. numa atitude de conforto e de disponibilidade para com a sua tarefa. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . o seu prestígio.privado -. calçam sapatos baixos. como se fossem uma casa familiar. a sala.público -. Por outro lado. a educadora olha atentamente “pelos seus meninos”. 7 Entendemos que poder ou o exercício do poder por parte de pessoas ou de grupos sociais é a capacidade que estes têm em usar estratégias próprias que provocam obediência outras pessoas ou grupos. Entre o social. As salas estão decoradas. com os seus educandos a quem dispensam toda a sua atenção ao longo das muitas horas que estão com eles. usam roupas largas . preocupandose com o seu bem-estar. o justo das roupas passa a folgado. práticas e comportamentos domésticos e profissionais que alimenta a forte imagem feminina que estas profissionais têm de si mesmo. a biblioteca. onde surge a cozinha. pudemos verificar que algumas das suas tarefas são semelhantes às que as mulheres realizam no espaço privado. a vigiar. 49 anos. . Porto). a ensinar e a proteger as suas crianças. E até o espírito de poupança doméstica se reflecte nestas profissionais que promovem «as festinhas onde vendemos coisinhas feitas por eles para juntar dinheiro para a viagem dos finalistas» (Mulher. a arrumar. o seu poder de grupo privilegiado. Como no lar. normalmente. ensinandoos a arrumar a casa. também aqui as mulheres. os espaços em que interagem com as crianças estão carregados de simbolismo feminino. com as enfermeiras que prestam serviço no infantário. a apresentação destas mulheres muda e o significado que daí emerge permite sinalizar a semelhança entre o trabalho de casa e o trabalho que desempenham profissionalmente nos infantários.7 isso. em alguns estabelecimentos. O formal que trazem da rua passa a informal dentro do infantário. como por exemplo. ou a cuidar da sua higiene. 7 Através do trabalho de observação realizado junto de educadoras de infância. com os pais destes. compreendemos porque é que os homens não escolhem esta profissão. É esta simbiose perfeita entre objectos. Colocariam em causa a sua masculinidade.as batas – e. a quem se dirigem para saberem como devem actuar face a problemas de saúde das crianças.

40 anos. As educadoras sofrem e riem. Isso é uma injustiça e eu não quero que tu continues a alimentar essa injustiça. pp. com raiva ou com alegria.).. Sou educadora porque quis sê-lo e gosto da minha profissão. (Educadora. Social Construction. sabes porque é que não há homens nesta profissão? Porque nós somos socialmente vistas como “donas de casa” que trabalham fora de casa. Quer dizer que a emoção faz parte de um sistema de relações de poder e tem um papel fundamental na manutenção desse mesmo poder. uma vez que está associada. «mas não é só a mulher que consegue experimentar a angustia e reagir. Mary Gergen e Kenneth J. a reader. irracionalidade a tal ponto que pode gerar o caos. Disse-me uma Educadora. Emoção significa subjectividade. Segundo Catherine Lutz (2003) a aplicação do conceito emoção. face à alegria ou tristeza das crianças». pelas categorias do género. Envolvemonos e demonstramos. 20005 (2003). Londres.8 No entanto por detrás desta imagem estereotipada está a ideologia do género que através da divisão do trabalho por sexo atribui à mulher tarefas diferentes das que atribui ao homem. Sage. 8 Algumas educadoras de infância entrevistadas não escondem que para as mulheres é normal reagirem emocionalmente enquanto que se espera que os homens escondem as suas emoções. à mulher. Na prática. “Emotion: The universal and the local. permitindo desta forma a manutenção um sistema de estratificação profissional que atribui valor desigual ao trabalho segundo o género. Mas hoje se a minha filha escolhesse esta profissão eu iria contra a ideia dela. ao mesmo tempo que dizem. organização. a diferença é que nós conseguimos LUTZ. Porto) A emoção pode ser também entendida como uma representação do feminismo da profissão. Perguntar-lhe-ia. com paixão a determinadas situações. Gergen (Ed. a emoção opõe-se ao pensamento e muitas vezes é empregue para caracterizar a mulher negativamente reforçando a sua subordinação ao homem. racionalidade. 8 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .40. enquanto que o homem é caracterizado pela sua objectividade. Catherine. As educadoras fazem um trabalho valorizado socialmente mas em contrapartida com pouco realce e estatuto social de prestígio. ou o seu emprego como adjectivação de uma mulher serve fins ideológicos.

em muitos casos condição essencial para afastamento dos homens da profissão. dedicação Responsabilidade.5% 10.3% 16.1% 34. gosto Afectividade. «os poucos rapazes que aqui chegam não conseguem aguentar a carga emocional negativa que lhes é transmitida pelos média.8% 18. os possíveis candidatos homens desta profissão. Os afectos que manifestam também nas carícias que as crianças recebem dos educadores afasta.3% Aluno Lic. flexibilidade Sensibilidade.0% 12. Lisboa). afectividade.8% 25.1% 30.5% 18. segurança Observação.6% 19.9% 22.5% 13.2% 13. empatia. o carinho.1% 20.9% 25. humanismo Vocação.5% Total 41. amor.6% 24.4% 13.3% 33. carinho Empenho.4% 10.3% 32. Porto). a criatividade e a flexibilidade.4% 15.8% 32. a sensibilidade.9 manifesta-la.6% 32. 40 anos.3% Para as mulheres educadoras de infância os afectos fazem parte da sua prática profissional. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .9% 39.4% 37. a vocação e o gosto.0% 33.5% 14. No inquérito realizado embora de opinião bastante díspares os educadores revelam um leque alargado de características comportamentais na área da emoção e atribuídas à mulher pelas categorias do género feminino. assim como as denúncias de praticas pedófilas em estabelecimentos de ensino têm ultimamente afastado da licenciatura possíveis candidatos. Professora da ESE. Segundo uma professora da ESE do Porto. Educação Infância 44.7% 15.2% 12. simpatia 34. atenção Competência técnica e científica Capacidades profissionais Respeito. enquanto que eles a escondem!» (Educadora. Características de um bom educador Educador de infância Paciência.8% 32. educação Afabilidade. 54 anos. A paciência e a compreensão. Acabam por desistir» (Mulher.3% 25.1% 30. compreensão Criatividade.4% 11.7% 30. amor.

As crianças representam a pureza e a mulher conserva uma imagem menos perigosa. Esta aprendizagem condicionará o indivíduo que. Os inquiridos. O seu poder advém-lhe da sua forma de reprodução. os pais das crianças em idade de pré-escolar. Na verdade expressam a ideologia do género e os seus medos.10 Por outro lado. foi o que constatámos junto das Educadoras de Infância. As mulheres devem ficar junto das crianças. até pelo perigo que pode representar a presença de um homem nesta profissão. Aqui. Porém a sua natureza não passa de uma construção social. por tudo isto. neste universo. já na fase adulta. Isto quer dizer que até a sociabilização com os papéis atribuído ao género acontece dentro dos parâmetros naturais da ordem estabelecida. também manifestam que a profissão de educador de infância é própria para mulheres. Pelas práticas profissionais que lhes vemos ter. sem a necessidade de um “diferente por perto”. De facto. se sentirá mais atraído pelas profissões que estão de acordo com as características atribuídas ao seu género. têm características e apetências diferentes. 4. a imagem de feminilidade contida nesta profissão é forte e constrói-se sozinha. Conclusão O processo de aprendizagem das categorias do género iniciado através do processo de interacção desenvolvido no seio das solidariedades primárias. mais tarde. pelo meio em que estão inseridas. Segundo a ideologia do género os indivíduos. No seu processo de sociabilização a criança começa por copiar as atitudes daqueles que lhes estão mais próximos ou daqueles que sobre ela exerçam mais influência e que se encontram no universo das solidariedades primárias. amigos ou mesmo da escola no seu processo de sociabilização com as categorias do género. não reconhecem directamente a influência dos seus pais. segundo o sexo. pela a forma de comportamento que se espera delas. por exemplo. nem tão pouco se sentem que houve algum dia qualquer forma de influência que condicionasse a sua escolha. afastando deste universo os homens. a criança vai à procura do seu “outro” para o copiar ou simplesmente para o ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . mais dócil e o seu as suas carícias são consideradas normais.

54 anos. que a criança vê. O trabalho de observação empírica permitiu ver que as mulheres educadoras de infância desenvolvem um tipo de trabalho que as posiciona de acordo com o imaginário feminino. os objectos estão distribuídos como se de uma casa se tratasse. 41. Mais tarde. Estas profissionais actuam como frentes de consolidação do género feminino. esta transmite-lhe a ideia que cuidar das crianças é trabalho para mulher. precisamente para a falta de práticas conducentes a esse equilíbrio e equidade. Nos seus espaços de trabalho. copia e aprende a reproduzir os papéis sociais esperados para o homem e para a mulher. Apesar dos educadores de infância deixarem transparecer que o seu trabalho com as crianças é feito com o objectivo de os influenciar no sentido do equilíbrio e equidade entre géneros. Edições Afrontamento. Lígia. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . condicionando o leque das profissões disponíveis para os futuros homens e influenciando-os a escolher: «uma profissão que não envolva o cuidar dos filhos dos outros e ensiná-los brincando» (Educadora. pp. no seu estabelecimento todas as educadoras são mulheres. 1994. Porto. E aí está a perversidade desta profissão.11 identificar com determinado tipo de trabalho. É também neste universo. mas mais do que entanto a criança habitua-se a partilhar a sua vida com uma mulher que os ensina a divisão do trabalho por sexo. As crianças brincam e utilizam este espaço não tendo em conta o seu sexo. A construção Social da Diferença. 9 ID. Provadamente. Referências Bibliográficas AMÂNCIO. 9 É na família que. um número de factores e de práticas profissionais chama a nossa atenção. Através da interacção que se estabelece entre a criança e a sua educadora. no jardim-de-infância a criança começar por distinguir os papéis diferenciados do género. a criança aprende as categorias do género. “e todas as sociedade reconhecem os laços que cada criança tem com as pessoas envolvidas no planeamento e empreendimento do acto reprodutivo”. Lisboa). Masculino e Feminino. muitas vezes a brincar ao “faz de conta” sob os olhares da mãe ou da avó. as salas que recebem as crianças. Este processo de aprendizagem dos papéis do género é universal.

Peter. Isabel. “A Casa é para as raparigas. (Texto 14). João de. PARSONS. Robert. 42-43. “The superego and the theory of social systems”. STOLLER. SEGATO. Nova Iorque. Gower/European Science Foundation. MURRAY. 4 pp. Londres e Nova Deli. Catherine. The University of California Press.). Vintage. e Barbara Reskin. DREYFUS. Paul. http://www. New Identities in Europe. e Barbara Reskin (2002). No. 1995. WEINREICH. L. Pine Forge Press. Nova Iorque. Michel. a reader. Londres e Nova Deli. col. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . col. Em Terra de tufões: dinâmicas da etnicidade macaense. Cohen. Talcott. Rita Laura.. 18. Berkley. 1982. Universidad de Jaén (España). 2005. Sociology for a new Century. Social Construction. 2005.369.17-33. 2000. 1970 (1952). 1993. Vol 10. pp. CHODOROW. ICM. Londres. pp. Graça Alves. Padavic. Vol. Os percursos do género na antropologia e para além dela. Karmela Liebkin (Eds). PINA-CABRAL. Irene. Educação. Presentations of Gender. Universidade de Guadalajara. 174. Yale press University. e Nelson Lourenço. 1998. 2ª edição. Women and Men at Work. and RABINOW. Wheatsheaf.). nº 5. “Variations in Ethnic Identity: Structure Analysis”. Michel. Irene.ujaen. Subject and Power. PALENCIA. Brasília. FOUCAULT.es/huesped/rae. Hubert. 99-121. San Diego. Gergen (Ed. The reproduction of mothering. 1989. Nº 2. N. CA. “The gender division of labour: Keeping house and occupational Segregation in the United States”.2002. Revista de estúdios de género. Inc. Nancy. Sociology for a new Century. pp. os rapazes são para trabalhar fora: a diferenciação sexual do trabalho das crianças camponesas e a construção da identidade dos rapazes e raparigas”. Série Antropologia 236. Still a man’s World: men who do “women’s work”. Guadalajara. pp. 1996. Vermont. 2ª edição. 1985. “Espacios e Identidades: ingreso de profesores a preescolar”. pp. pp. 1999. Mercedes. Sage. “Emotion: The universal and the local. New York Free Press. Pine Forge Press (an imprint of Sage Publications. Berkeley. Social Structure and Personality. Hemel Hempsted. Michel Foucault beyond structuralism and hermeneutics. 52. Mary Gergen e Kenneth J. Sociedade e Culturas. 20005 (2003). La Ventana. “We all love Charles: men in Child Care and the Social construction of Gender”. PINTO. Women and Men at Work. Christine. FOUCAULT. University of California Press. 2004.40. pp. Susan. Thousand Oaks.12 CARDANA. Discipline and punish: the birth of the prision. 42. PHILIP. Thousand Oaks. LUTZ. 8. Padavic. (ed). Gender & Society. “Electrotecnia e Informática: Dinâmicas de Género em Ciência e Tecnologia”. Revista de Antropología Experimental. 1978. Gender and Society. 1979. pp. Academic Press. WILLIAMS. New Haven.

13 WILLIAMS. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .). Christine L.1993. (Ed. Nova Iorque. Doing «Woman’s work»: men in non-traditional occupations. Sage.

Lisboa anabenard@netcabo. Para a compreensão de todo este processo foi essencial o estudo das relações de género e poder que se processam no interior das famílias e nesta comunicação analisam-se os diferentes papéis desempenhados pelos homens e mulheres reflectindo-se sobre as 1 Uma versão desenvolvida desta comunicação foi publicada na revista Lusotopie (Costa 2005) ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . com as representações sociais e culturais e com a auto percepção que os membros da família têm do poder que exercem ou ao qual se submetem. Polana Caniço A e Hulene B na periferia de Maputo 2 . estratégias económicas. poder. Palavras-chave: Moçambique. de índices elevados de «pobreza» e desemprego formal.Há-de vir um senhor que é meu marido: relações de género na periferia de Maputo Ana Bénard da Costa Instituto de Investigação Científica e Tropical. Nesta análise discute-se se as transformações ocorridas nas relações de aliança e nas práticas desenvolvidas pelos membros das famílias para obtenção de rendimentos e/ou produtos terão contribuído (ou não) para uma modificação nos papeis de género e mais especificamente para um acréscimo do poder e autonomia das mulheres e para uma valorização do seu estatuto social. este artigo articula a avaliação da efectiva capacidade de controlo de recursos que os homens e mulheres da família exercem. Foi neste contexto de precariedade de infra-estruturas urbanas e de serviços sociais.pt Baseando-se numa investigação sobre estratégias de sobrevivência e reprodução social de famílias da periferia de Maputo. Introdução Esta comunicação 1 baseia-se em investigações que decorreram entre os anos de 1998 e 2002 junto de famílias dos bairros de Mafalala. que as investigações decorreu centrando-se na análise de estratégias de sobrevivência e reprodução social de famílias maioritariamente originárias do Sul de Moçambique. género. relações de aliança.

que pode ser repartida por tempos diferentes. entre outras coisas. 3. Estas práticas. pelo menos ao nível das representações.2 implicações que as mudanças ocorridas nas relações de aliança e nas estratégias económicas das famílias 3 têm (ou não) na sua transformação. E quando os actores sociais se afirmam «casados» podem referir-se a uniões formalizadas simultaneamente no Registo Civil. 5. e himbuya significa amantes. outros referiram que se casaram «muçulmanamente». 4. Mutchade significa casamento no registo civil . não só entre o casal e entre as duas famílias que assim se unem. há casais que só cumpriram parcialmente as diferentes cerimónias e prestações que o lobolo implica. O lobolo não é um acto ou uma cerimónia circunscrita a um momento. Formalizar de algum modo uma união implica. Uma informante referiu que existiam palavras diferentes em changana para designar os diferentes tipos de uniões conjugais. Não formalizar uma união num contexto onde se cruzam diferentes sistemas matrimoniais pode ter múltiplos significados. Uniões conjugais em transformação e questões de género Nestas famílias coexistem diferentes processos de formalização das uniões conjugais que não são exclusivos entre si. A presente análise baseia-se em investigações realizadas na periferia de Maputo entre 1999 e 2002 (Costa 2007 . envolvem múltiplas dimensões (social. Oppenheimer 2003). ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . em que cada uma das mulheres é casada de forma diferente com o marido e há «uniões de facto» que não envolveram qualquer formalização 5 . simbólica e económica) e diferentes tipos de recursos (humanos. kukandza ou avukate designam a mulher que não foi lobolada e não formalizou a união conjugal de nenhuma das formas possíveis e significam «estar no lar (mùntì » . há famílias poligâmicas. kutilhuva designa uma situação em que o homem sai de sua casa e vai viver para casa de outra mulher . A diversidade de tipos de uniões matrimoniais é significativa. nas igrejas Cristãs (Católica. Entende-se como estratégias económicas o conjunto de práticas articuladas através das quais os membros das famílias obtêm rendimentos e/ou produtos. é um processo que. kulovoliva designa o casamento com lobolo . sociais. culturais e naturais) que são articulados de forma dinâmica e relacional pelos actores sociais no quadro das estratégias económicas que desenvolvem. mas também entre estas e o(s) modelo(s) social (is) de onde emanam os ritos ou as leis através dos quais esse casamento se realiza. implica diferentes cerimónias e o pagamento de uma prestação matrimonial. uma intenção de compromisso. significar alterações substantivas nas relações de género e de poder que implicam rupturas profundas com os modelos 2. protestante ou de inspiração protestante) ou mesquitas Muçulmanas e através de lobolo 4 .

Foram entrevistadas 81 famílias e inquiridas 1 000 e foi realizado trabalho de terreno mais aprofundado com seis famílias do bairro Polana Caniço A.mujeresenred. 8. destaca-se o facto de o marido deixar de ser « automaticamente » o representante da família. A pluralidade de formas possíveis de formalizar uma união conjugal e o facto de existirem uniões de facto em que casal se considera e é considerado socialmente casado. o reconhecimento do casamento religioso e tradicional e das uniões de facto desde que estas últimas tenham mais de um ano de duração. Loforte e Pessoa 1991). em parte. Desta forma.). 11. http://www. sendo esta promulgada pelo Presidente Joaquim Chissano vários meses depois (a 25 de Agosto de 2004). nomeadamente no que se refere às uniões poligâmicas. Decorre. Se estas uniões se quebram o homem pode ser obrigado a contribuir com uma pensão para a sua ex-mulher e filhos. Entre outros aspectos inovadores que esta Lei consagra.doc 7. Este facto explica. entrevista radiodifundida pela Rádio Moçambique a 15 de Maio de 2002 às 10. pelo menos. Cf. dificulta a análise das diferentes situações. http://allafrica.html. possibilitando arbitragens permanentes entre vários referentes 10. A morosidade deste processo legislativo 8 e a polémica que à volta dele se desenvolveu 9 testemunha as contradições resultantes da coexistência de diferentes sistemas culturais que permitem uma dinâmica « normativa ». sendo uma das mais importantes a legal. desde 1991 (Casimiro. Depois de um longo debate o Parlamento aprovou em Dezembro de 2003 a nova Lei da Família. o facto de este processo legislativo decorrer pelo menos desde 1991 (Casimiro. e Pessoa 1991). Pretende-se que esta nova Lei da Família venha a ser um importante instrumento de mudança no conjunto de práticas sociais (consagradas na anterior Lei ainda do tempo colonial e imanentes dos diferentes sistemas de parentesco moçambicanos) que sustentam e promovem profundos desequilíbrios nas relações de género 6 . ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . deveres e obrigações dos diferentes membros da família.net/mozambique/Outras_voces-3Maio % 202003. As uniões poligâmicas não são reconhecidas (nem proibidas) e a lei estabelece que no caso de morte do marido a herança deste deve ser dividida em partes iguais pelas viúvas 7 .com/stories/200312090271. A proposta de lei e particularmente a questão da poligamia « inflamaram » os ânimos de alguns sectores da « sociedade civil moçambicana » (cf.3 matrimoniais prevalecentes e com os papéis que os respectivos cônjuges supostamente assumem dentro na união conjugal e várias implicações. Loforte. em que direitos. 10. Cf. sistemas de sucessão e herança e sistemas matrimoniais são interpretados de forma diversa. 9.30 TMG). embora em 24 % das famílias estudadas11 existissem relações 6.

família. antes […] eu caso. casa. transcrevem-se aqui as palavras de uma mulher. povoação. A família do marido leva todos os bens da senhora […] podem até levar os filhos […] e a mulher volta para casa dos pais […] e ela engravida outra vez. e assim sucessivamente […] e então chamamos de «mães solteiras». e a amante passa a ser a esposa do homem. A explicação dada para distinguir uma amante de uma segunda (ou terceira…) mulher «legítima» foi a seguinte : é-se amante quando se «namora fora do mùntì 12 » e quando a esposa «legítima» desconhece a situação. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . lar. não foi possível apurar se todas estas relações eram poligâmicas de tipo «tradicional» ou se eram casamentos monogâmicos onde havia uma «amante». 2. tem outro filho. então passam de amantes a casal. aldeia vila.4 entre um homem e duas ou mais mulheres. a mulher livre da actualidade. pois muitas mulheres (em regime de monogamia ou poligamia) consideram-se casadas mesmo sem terem sido loboladas. sede» (1996 : 132). De forma a compreender as transformações ocorridas ao nível das relações de aliança e de género. Mas qual é a verdadeira situação da mulher moçambicana em meio urbano ? A existência de um elevado número de mulheres «mães solteiras» tem sido apontada como espelhando tanto a crise social que se vive e a dissolução da família «tradicional» e dos laços familiares subjacentes a esta. No dicionário de Bento Sitoe pode ler-se o seguinte : «mùntì […] 1. Depois a Frelimo. Porque a mulher. como a libertação da mulher da 12. 3. Se o homem decidir sair definitivamente da sua casa. secretária da OMM (Organização da Mulher Moçambicana) no bairro de Hulene B : Minha mãe não quis casar com o cunhado e por isso mandaramna embora. com a independência deu a liberdade à mulher. cidade. quando morre o marido eles arrancam todas as coisas da mulher. Nestes excertos estão patentes as contradições entre uma «realidade» que ela descreve como composta de mães solteiras e mulheres abandonadas e as representações ideológicas que contrapõem à mulher submissa da sociedade tradicional. vou viver com aquela família definitivamente porque me lobolaram[…]. […] A mulher tem todos os direitos iguais aos do homem. Só que a diferença deve haver porque da mulher nasce bebé […]. Esta distinção é subtil e o lobolo não é o factor que introduz a diferença. […] faziam isso antigamente. instalações.

Actualmente. que o papel desempenhado pelo lobolo se relacione apenas com o estabelecimento de direitos e deveres de mulheres e maridos. por conseguinte. valores simbólicos e monetários. manutenção e desenvolvimento de redes de solidariedade entre diferentes grupos familiares. estruturante das estratégias matrimoniais que visavam antes de mais estabelecer uma cadeia de relações entre diferentes linhagens (Feliciano 1989a). mas sim as possibilidades (facilidades) que os rapazes e as famílias têm de os adquirir – e estas talvez fossem maiores no passado. o aumento (relativo) 13 do custo desta prestação matrimonial reflecte. Coexistem. Mas «a vida está cara». muitos dos bens transaccionados (roupa. o processo de deslocamento em que estas populações estiveram envolvidas nos últimos anos e que tornaram por vezes obsoletas as velhas alianças. Aparentemente esse aumento não é do interesse de nenhuma das partes : os rapazes querem cumprir a obrigação e não têm meios suficientes. O lobolo (ilustrando o pluralismo moral do contexto) é visto como um acto abominável através do qual mulheres são compradas e vendidas e simultaneamente como algo positivo que sanciona e dá estabilidade a uniões. que o dinheiro que assim vão receber pode contribuir para fazer face a outras despesas 13. obrigando à criação e ao desenvolvimento de novas cadeias de solidariedade. Segundo. na sociedade tsonga. a crise social e económica e as contradições internas das estratégias de reprodução social. Primeiro. entre outras coisas. Estas solidariedades. também. o noivo (e a família deste) não o pode pagar e que arrisca. as raparigas sentem que se «juntarem» sem lobolo não estão casadas . Se actualmente se verificam transformações estas reflectem. porque se trata de uma prestação matrimonial que envolve um sistema de trocas complexo onde a «lógica da dádiva» se articula com a «lógica de mercado». simultaneamente. Consideram. a família destas sabe que. e muitos disseram que o valor monetário do lobolo era calculado em função das despesas que haviam tido com a educação da filha. se exigir muito dinheiro. Esta prestação matrimonial era. por isso. podendo esta ser abandonada com mais facilidade do que aconteceria se fosse lobolada. porque no passado envolvia bens de prestígio com valor simbólico (vacas) mas aos quais não era estranho o valor material.5 tutela da família «tradicional» e das regras rígidas que a reduziam a um «ser menor». mas sobretudo com a criação. anel e dinheiro) ainda conservam essa conotação. porque o que importa aferir não é o valor monetário dos bens transaccionados. Não parece. É difícil fazer uma análise « objectiva » da evolução do «custo» do lobolo. no entanto. a que este e a sua filha vivam maritalmente. não passam necessariamente pelo casamento e pelo pagamento de prestações matrimoniais. Finalmente. Por outro lado. em meio urbano. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .

à semelhança das próprias uniões conjugais (o divórcio e a separação não são propriamente novidades). mesmo quando as situações indefinidas criadas ao nível das relações de aliança permitem à mulher uma maior liberdade e autonomia face às suas obrigações tradicionais. não sobrevivem se não desenvolverem práticas «egoístas» que lhes permitam satisfazer as suas necessidades materiais. Essa liberdade e autonomia. Por outras palavras. Por isso.6 essenciais (por exemplo. Porém. e como referem : «há-de cumprir-se». as transformações que se verificam em todo o processo cerimonial do lobolo não reflectem necessariamente mudanças qualitativas nas relações de género. simultaneamente. existe sempre a possibilidade de «circulação» entre redes de solidariedade e por isso é possível aos indivíduos e às famílias estabelecerem novas alianças com outras unidades sociais (novas uniões ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Nesse hipotético futuro se projectam actos e cerimónias como se de processos se tratasse. sendo a família uma das mais importantes . Concluindo. eventualmente. correndo o risco. são muitas vezes auto-percepcionadas como negativas e podem traduzirse num maior isolamento social das mulheres e consequentemente num decréscimo do seu poder e estatuto. ajudar um filho a pagar o lobolo que outra família exige). No entanto. as famílias) e por conseguinte quebram-se as alianças (neste caso. No entanto não é necessário que todos estes requisitos se cumpram para o casal se sentir «casado» e para a família de ambos os aceitar como tal. algo em permanente construção que se pode ir realizando ou protelando no tempo. A cerimónia de casamento é. matrimoniais) que tenderiam a perpetuar essas unidades sociais. os indivíduos para sobreviverem e se reproduzirem necessitam de estar inseridos em redes sociais de solidariedade. apesar de ambas as partes não considerarem que a formalização do acto de matrimonial se tenha cumprido na íntegra. num contexto onde a sobrevivência e a reprodução social dependem em grande medida do estabelecimento de redes familiares de entreajuda. escrevem a carta onde as exigências ficam expressas e esperam que. o rapaz e a família deste façam os sacrifícios necessários para as poder cumprir. Essas práticas podem gerar a quebra de alguns dos compromissos sociais em que se baseiam as referidas redes (neste caso. Essas transformações reflectem a dinâmica das estratégias de sobrevivência e reprodução social que articulam de forma ambígua valores contraditórios.

e referem : «eu não faço nada. as famílias desenvolvem uma estratégia pela qual tentam conciliar a instabilidade das relações de aliança com as necessidades de coesão interna. venda de produtos hortícolas e frutícolas.7 matrimoniais) e desenvolverem processos dinâmicos e versáteis de reprodução social. Para subsistir e fazer face às suas responsabilidades tradicionais de provedoras do sustento da família. as mulheres e os seus maridos não consideram as actividades que estas desenvolvem como «trabalho». O trabalho feminino nas estratégias económicas das famílias Em praticamente todas as famílias. Uma das soluções possíveis passa pela aceitação e criação de condições que transformem as cerimónias matrimoniais em processos em permanente construção que podem a qualquer altura ser interrompidos. estas mulheres tiveram de inserir-se nos circuitos do chamado mercado informal. Advém sim da forma particularmente dinâmica de que se revestem as articulações entre valores opostos. continuidade e reprodução social. venda de lenha. a flexibilidade desta unidade social permitiu o desenvolvimento de estratégias de reprodução social adaptadas a um contexto social e económico que exige uma grande versatilidade de práticas e a articulação permanente de valores opostos. contudo. Não obstante este facto e a dificuldade de apurar a importância da contribuição financeira das mulheres para os orçamentos familiares – a maioria das actividades não tem um rendimento constante e não é realizada de forma continuada –. a fragilidade dos laços matrimoniais não significou a desestruturação da família. executando aí um leque muito variado de actividades – confecção e venda de carvão. Pelo contrário. Desta forma. Concluindo. as mulheres exercem actividades geradoras de rendimentos ou produtos e as vendas são uma das tarefas principais em que se ocupam. foi possível concluir que em muitas famílias o número de mulheres que trabalham é igual ou superior ao número de homens que ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . só vendo» ou «aquilo que ela faz é para entreter». confecção e venda de alimentos ou revenda de produtos importados. Importa notar que. em alguns casos. A especificidade deste contexto social não lhe advém. desta articulação que é sentida por todos os homens independentemente da sociedade a que pertencem (Casal 2001: 123).

um acréscimo de trabalho e de responsabilidades. Rocha e Grinspun 2001). poder e estatuto. ou que ele tinha arranjado outra mulher e quando vinha dava uma quantia insignificante. para outras tal não acontece. segundas mulheres. Estas últimas. na ausência deste.8 trabalham. as mulheres afirmaram que eram elas que efectivamente sustentavam a família e que a contribuição financeira do marido para as despesas domésticas não era suficiente : «atirou toda a responsabilidade. Quem vai buscar água e comprar lenha. quem varre o chão e lava a roupa. Esta ideia tem sido contrariada por outros autores (Caplan 1995 e Campbell 1995. em meio urbano africano. ele não tem nada a ver com isso». a posição que a mulher ocupa dentro desta estrutura. Segundo alguns autores (Tripp 1989 . embora continuem a gerir as actividades domésticas. a relação afectiva e emocional com o cônjuge ou. as actividades que desenvolve e a importância relativa dos rendimentos daí resultantes no orçamento familiar. face às mulheres que não as desenvolvem. número de membros da família e distribuição por sexo). a situação do homem em termos de trabalho/rendimentos. têm a possibilidade de aceder a certas posições de poder e de conquistar uma certa visibilidade a nível do bairro que pode influenciar positivamente o seu estatuto na família e fora da família. pelo facto de obterem rendimentos monetários em actividades que exercem «fora de casa». as actividades geradoras de rendimentos representam um acréscimo de trabalho. Em alguns casos. os recursos materiais disponíveis e a capacidade da mulher para os mobilizar e rentabilizar em seu benefício. Destacam-se algumas: a estrutura familiar (tipo de família. Se o exercício de actividades geradoras de rendimentos monetários cria possibilidades para o aumento de autonomia e liberdade das mulheres. irmãs mais novas. que têm chamado a atenção para o facto de muitas mulheres que desenvolvem actividades geradoras de recursos financeiros terem. as mulheres. Loforte 1996). são as outras mulheres da família de estatuto inferior (noras. com outros elementos masculinos da família. não as realizam. as crianças e os jovens (incluindo rapazes). Se para muitas mulheres. sendo necessário relacionar inúmeras variáveis para compreender a posição das mulheres em termos de autonomia. quem vai às compras ou cozinha. O que esta investigação constatou foi que existiam situações muito diversas. esta pode gerar ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .

por isso às vezes a mulher faz sem dizer nada ao marido. Como exemplo destas situações apresenta-se aqui o testemunho de duas amigas da mesma idade que vivem situações muito diferentes. Cristina é professora na escola comunitária do bairro Polana Caniço A. tem um ordenado e casa própria. comprei o talhão sozinha e foi o meu irmão que fez a casa […]. Uma mulher sem filhos. […] Mas gostava mais de ter uma família. O estatuto do casamento e da maternidade constitui um factor de grande peso cultural e social. Os homens não tiram o dinheiro. ele é de três. estou à espera que ele venha para saber se fica comigo ou não. Prefiro assim. que por vezes atingem níveis dramáticos. Sou casada mas ainda não fui lobolada. Uma (Eva) é a terceira esposa de um casamento poligâmico e outra (Cristina) afirma-se casada. ele está na África do Sul e nunca mais veio. mas também não posso dizer que sou muito azarada em ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . A primeira trabalha na machamba da família e não obtém quaisquer rendimentos monetários com essa actividade. sou só eu e o meu irmãozinho de dez anos que vive comigo […].9 conflitos quando é concretizada – «há muita zanga entre os homens e as mulheres por causa do que hão-de fazer ao dinheiro. solteira e com uma situação económica que lhe permite possuir casa própria e usufruir de uma certa independência não se considera mais «valorizada» socialmente (embora seja certamente mais independente e tenha mais poder e autonomia sobre a sua vida) do que outra mulher inserida numa família poligâmica e sem rendimentos próprios. Eva (30 anos) : Não me considero uma mulher com sorte porque não tive o marido só para mim. do que esta situação de independente. apenas produz para o consumo da família. e a ausência de alternativas – uma mulher sem família é socialmente marginalizada – podem transformar a autonomia em sofrimento e a liberdade num pesadelo. sozinha. marido e filhos. é ela que dá ao marido» – ou rompimentos com redes familiares e de parentesco. A autonomia da mulher pode ainda traduzir-se numa capacidade limitada para mobilizar recursos (humanos e materiais) e num aumento consequente de responsabilidades face a si e aos seus filhos e num maior isolamento social. mas vive sozinha. não tenho quase despesas. Estas mulheres referem-se nos seguintes termos às suas situações : Cristina (29 anos) : Eu há dois anos que vivo numa casa que é só minha em Magoanine. O potencial de conflitos. nem registo nem nada.

uma transformação valorativa no estatuto das mulheres.10 relação à minha amiga. Esse contexto. No entanto. para mim basta. mas desde que o senhor Josué [marido] cuide de mim. E tal pode. é pleno de contradições e articula de forma complexa valores «tradicionais». efectivamente. estou num lar que já tinha lá duas mulheres. a afirmação de interesses individuais e a capacidade (e coragem) de certas mulheres tornam possível. é necessária prudência quando se tenta extrair conclusões sobre eventuais modificações nas relações de género e é difícil percepcionar as direcções para as quais tendem as transformações observadas. por exemplo no ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . No entanto. em certos casos. Neste complexo jogo e face às alternativas existentes. Da mesma forma o acesso aos rendimentos monetários não se traduziu numa maior visibilidade ou intervenção a nível do bairro. estas «conquistas» só adquirem «valor» quando têm significado e reconhecimento social dentro do contexto em que se efectivam. neste estudo de caso. Conclusão A análise demonstrou que as mulheres constituem um elemento essencial nas estratégias económicas. romper com fidelidades antigas que as subalternizavam. associações de bairro (excluindo aqui a Organização da Mulher Moçambicana) e grupos de entreajuda. A formação escolar. por si só. A participação das mulheres em ONG. que existem efectivamente mudanças no papel que a mulher desempenha dentro da família. interesses «modernos » e representações ideais de modernidade. pois esta era tradicionalmente a sua obrigação. Através deste exemplo é possível concluir. mas estas mudanças ocorrem em múltiplos sentidos. os ganhos monetários provenientes de diversas actividades. o exercício de profissões. porque esta aí ainda anda a tentar ver se consegue um lar […] agradeço a Deus o que me deu. A diferença reside nos rendimentos monetários que agora adquirem através do seu trabalho. esta mudança não significou. trate de mim. traduzir-se num aumento relativo do espaço de poder feminino face ao masculino. para além de estar profundamente marcado por relações de género que subalternizam o papel social da mulher face ao do homem. mas o facto de as mulheres terem a responsabilidade de prover ao sustento alimentar básico da sua família não constitui uma mudança.

as mulheres participam frequentemente em grupos religiosos (igrejas). não faz sentido falar de poder ou de autonomia sem os contextualizarmos dentro desta dinâmica relacional (Medick e Sabean 1988 : 18). a análise das questões de género constitui essencialmente uma análise relacional e o que está em jogo são fundamentalmente relações sociais entre os membros masculinos e femininos da família. «independência». embora a maioria dos crentes das igrejas ziones sejam mulheres. Da mesma forma. bem como significados que essas questões e conceitos têm no contexto cultural e social em observação. 1988 : 18). A compreensão destas questões pressupõe uma análise integrada onde intervêm diferentes significados e interpretações : o significado que o investigador dá a esses conceitos e que influencia as interpretações que faz da realidade social que analisa. 14 Seibert (2001: 5 e 15) acrescenta em relação às igrejas Zione. que as mulheres não podem ser membros desta Igreja sem autorização do seu parceiro. Simultaneamente. a hierarquia destas igrejas (incluindo o pastor. Refere ainda que. As informações empíricas disponíveis não permitem chegar a conclusões acerca de modificações nos papéis de género. Mas mesmo a vida religiosa da mulher está por vezes dependente da vontade do marido. ao nível das representações sociais e culturais no contexto em questão (como a sociedade em causa molda os papéis e os comportamentos de ambos os sexos) e em termos da auto-percepção que os membros da família têm do poder que exercem ou ao qual se submetem. Neste último caso. por outro. é reduzida. por um lado. a essência multidimensional das relações familiares implica que nessas mesmas relações sejam expressos diversos tipos e níveis de poder que não só podem não ser coincidentes como são dinâmicos e se alteram permanentemente sob a influência de inúmeros factores (Medick e Sabean. Pelo contrário. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . as relações de poder devem ser compreendidas em termos de avaliação da capacidade de controlo de recursos materiais e humanos por parte dos homens e mulheres da família. Neste sentido. Sendo assim. há ainda que ter em conta não só os múltiplos referentes em presença como as diferenças entre valores culturais e representações sociais. e as práticas concretas dos actores. «controlo» e «relações de poder» são extremamente complexas e têm de ser contextualizadas.11 «xitike». O que se verificou foi que questões relacionadas com «autonomia». o evangelista. os secretários e diáconos) é constituída exclusivamente por homens. Estas mudam frequentemente de culto quando se casam e passam a seguir a religião do marido 14 .

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Pretendo focar aqui alguns aspectos da conexão entre eles tal como aparece refractada na maior prisão feminina do país. Ministério da Justiça. permitirá dar conta das propriedades específicas que a intervenção das mulheres no tráfico assume em contextos portugueses. 1987-2000). o Estabelecimento Prisional de Tires. procurar-se-á examinar como se modula o tráfico segundo o género. em torno dessa velha e recorrente personagem designada por nova delinquente. como e quando são os narcomercados estratificados por este e outros critérios e quais as modalidades da participação feminina na economia da droga. pt Partindo da actual centralidade dos crimes de droga na condenação penal de mulheres e da assinalável reorganização das fileiras prisionais que ela veio indirectamente produzir.uminho. 1994. IDEMEC micunha@ics. bem como às ideologias de género que diversamente os caracterizam. Uma perspectiva comparativa atenta às variações na estrutura destes mercados ilegais. Não cabe dizer aqui como e porquê a economia retalhista da droga veio induzir uma reorganização sem precedentes nas fileiras prisionais. A esta posição destacada nos níveis gerais de reclusão acrescentava dois records no contexto europeu: a maior proporção de condenações por crimes de droga e a maior taxa de reclusão feminina (cerca de 10%). criminalidade feminina.000 habitantes (Estatísticas da Justiça. economia da droga. cf. 2 Entre 128 e 145 por 100. onde fiz trabalho de campo nos anos 80 e nos anos 90 (1986-87/1997. Cunha 2002). recentementemente exumada. estrutura dos narcomercados Em finais de século. Estes factos não são alheios entre si. Portugal situava-se regularmente no topo dos países da União Europeia com os maiores índices de encarceramento por 100 000 habitantes 2 .Os géneros do tráfico 1 Manuela Ivone P. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . esta especificidade pode também contribuir para reapreciar a uma outra luz a controvérsia criminológica. Reafirmando assim a importância de contextualizações precisas. pelas 1 Agradeço à Wenner-Gren Foundation for Anthropological Research (Gr. da Cunha Universidade do Minho. cujo aspecto mais fundamental. CEAS. 6099) o apoio prestado à investigação da que resulta este texto. Palavras-chave: ideologias de género. Cunha. tráfico a retalho.

E dado que os fenómenos que a configuram emergem também noutros contextos carcerais. Quer dizer. pode bem ser que por uma vez o estudo das instituições femininas contribua para estabelecer os termos do debate teórico sobre a prisão. Em termos proporcionais . Acontece que essa mutação é especialmente vincada na população prisional feminina. por exemplo. antes de mais. alheia ao género. tal prende-se. 46% dos reclusos estavam condenados por crimes contra o património e 34% por crimes de droga. enquanto a investigação sobre a feminina se desenrolava ao invés na base mesma do critério do género. amarrada a esse critério. o seu perfil penal é bastante mais homogéneo que o das populações de reclusos. No caso converso das mulheres. invertendo-se assim as assimetrias do passado: a reclusão masculina sempre enquadrou este debate de maneira universalista.implicações analíticas que tem para os estudos prisionais. no que respeita às reclusas).as mulheres são pois muito mais condenadas a penas de prisão por crimes de tráfico do que os homens. os contributos teóricos que ia gerando não eram exportados para lá do âmbito das prisões femininas. é o facto de agora a maior parte dessas fileiras se articular em redes de parentesco e vizinhança.não portanto em termos absolutos . quer dizer. mas de maneira mais diluída. repartem-se por eles de maneira mais equilibrada. que apesar de na sua maioria também se distribuírem por um leque pouco variado de crimes. com a extraordinária homogeneidade que a sociografia dos contingentes de reclusas agora apresenta. incapazes de alimentar de forma recíproca a produção global de conhecimento sobre a reclusão (um olhar rápido aos títulos das respectivas publicações é bastante ilustrativo: o género apenas é especificado quando a investigação em questão versa sobre uma prisão feminina). em núcleos mais ou menos vastos de presos que já tinham laços entre si antes da reclusão. Esta centralidade dos crimes de droga nas condenações de mulheres é também aquilo que melhor permite esclarecer a subida dos índices de encarceramento feminino. É ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . O problema era que permanecia confinada a ele. a concentração é comparativamente muito superior (em 1997. Se a mutação que referi ganha uma particular proeminência no contexto carceral feminino. contra 16% e 69%. 76% das reclusas estavam presas por tráfico. Na cadeia de Tires. respectivamente. Em todo o caso.

1988). poderiam investir. A questão então é a seguinte: dever-se-á às próprias características do tráfico o facto de ele se ter tornado a actividade ilegal de eleição entre as mulheres? Ou será antes que as mulheres conquistaram para si uma arena ilícita que até aí lhes estaria vedada. por exemplo. A tese da "nova delinquente". Mas a forte presença feminina recentemente constatada um pouco por toda a parte na economia da droga conduziu inevitavelmente à tentativa de reciclar a ideia.que estes são os crimes com maiores taxas de condenação e contam-se entre os crimes mais duramente sentenciados. do mesmo modo que conquistaram as mais variadas arenas lícitas? Por outras palavras. limitado a este tipo de mercado ilegal. de facto. 1993). Carlen. por exemplo. Que a proliferação vertiginosa dos mercados de droga expandiu as oportunidades ilegais é um facto consensual. mesmo as mais idosas. Simplesmente. Bourgois y Dunlap. E assim permaneceu. 1980. 1993. para especialmente intransigente (para retomar aqui os termos de uma velha controvérsia da criminologia em torno do eterno diferencial entre os índices carcerais femininos e masculinos) 3 .de "cavalheiresca". foi no entanto rebatida em tantas frentes que parecia definitivamente enterrada (cf. Chesney-Lind. Mas o tráfico parece na verdade ter atraído muitas mulheres e ter-se-lhes apresentado como uma estrutura de oportunidades onde elas. 1979. suponhamos. no que respeita à criminalidade em geral. É claro que não é de excluir a possível intervenção de várias filtragens deste e outros tipos ao longo do percurso que termina na constituição das populações prisionais. 1975). por exemplo. Wilson.. ainda que agora num âmbito mais restrito. sob pena de se tomar a nuvem por Juno. Simon. como ficou conhecida. 1986. Chapman.. Adler. E é também a partir daqui ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Quer isto dizer que a subida nestes índices de encarceramento não parece de facto dever-se a uma eventual mudança na atitude dos tribunais para com o género feminino .. tratar-se-á de uma repercussão ou até da reprodução no mundo do crime do mesmo movimento emancipatório que reivindica a igualdade de oportunidades? Ora. 1975. Smart. há que examinar a natureza desta presença. assim como o é o da maior presença de mulheres neles (cf. foi precisamente a propósito do tráfico que se assistiu à ressurreição de uma velha tese dos anos 70 segundo a qual um dos efeitos colaterais do feminismo teria sido o de libertar as mulheres também para o crime (cf.

A masculinidade hegemónica é com efeito reforçada pelo facto de os empregadores desta economia definirem os requisitos de empregabilidade no narco-comércio como algo de intrinsecamente masculino: às mulheres faltaria. onde a maioria das oportunidades se abriu às mulheres apenas nos segmentos mais baixos. assumem funções marginais como publicitação de drogas. a necessária ferocidade física e mental. Steffensmeier et al. a nova cornucópia não estaria ao alcance das mulheres. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Em primeiro lugar ao facto de se regerem por uma visão domesticizada das mulheres que as confina ideologicamente aos tradicionais papéis de género. a mudança seria afinal pura aparência. de resto gerando nela novos papéis. Pode até dizer-se que se trata mais propriamente de pequenos nichos que elas criaram nos interstícios desta economia. que nem sequer se encontravam inventariados nas anteriores tipologias dos actores deste mercado (veja-se Dunlap. etc. Johnson e Maher. 1997). 1997). precários e arriscados deste mercado (Maher. presença não quer dizer participação paritária. como sucede com mercados retalhistas norte-americanos.que as coisas divergem segundo os contextos. aluguer ou venda de parafernália acessória ao consumo. A forte estratificação destes mercados segundo o género levou a que alguns autores vissem mais continuidade do que propriamente mudança na participação feminina no tráfico (Maher e Daly. Não se pode no entanto dizer que estas barreiras ideológicas à participação feminina no tráfico sejam inéditas nos mercados retalhistas americanos. O que acontece é que elas se tornaram mais eficazes nos anos 90.que na verdade se mostra muito pouco sensível a veleidades emancipatórias encontra além disso um terreno especialmente propício na violência endémica que aí marca a economia retalhista da droga. por exemplo. A hierarquização sexual do trabalho ilegal deve-se nesses contextos à conjugação de vários factores. Na limitada medida em que nele podem participar (nomeadamente enquanto exército de reserva usado quando a mão-de-obra masculina escasseia ou na iminência do risco de uma intervenção policial). E as condições dessa eficácia foram proporcionadas 3 Veja-se. assistência na administração de drogas a terceiros. por exemplo. 1996). Em primeiro lugar. pelo que é imprescindível uma perspectiva comparativa. Ou seja. 1986) . (1993) ou Heidensohn (1997). Mas este "sexismo do sub-mundo" (Steffensmeier e Terry. ou a capacidade de intimidação necessária para vingar num meio violento.

1998. por exemplo.por uma mutação na estrutura dos narco-mercados retalhistas. uma forma tradicional de empréstimo informal e de entreajuda. com frequência obtendo drogas em regime de empréstimo ou à consignação através de redes de vizinhança e preparando elas próprias o produto para revenda. do chamado "crime em organização" (Ruggiero e South. que de resto se verificou não só nos EUA mas também em contextos europeus. 1997). além de esta estrutura de mercado que domina em Portugal representar uma estrutura de oportunidades bastante mais aberta (veja-se neste sentido Chaves. havia apesar de tudo maior latitude para as incursões das mulheres no tráfico. a sua própria estrutura free-lance fazia com que as barreiras à participação feminina fossem mais frágeis e ineficientes. Ora. Trata-se. fossem na prática mais permeáveis. como "crime em associação". Hamid e Sanabria. Com uma relativa facilidade. mesmo que mercados deste tipo se pautassem igualmente pela dominação masculina e por um ethos agressivo que à partida os tornava arenas desfavoráveis às mulheres. 1995). passou-se de um modelo empresarial para um modelo free-lance. Jacobs e Miller. desconcentrado. tendo-se até registado uma evolução de sentido contrário à que acabei de referir para contextos europeus e americanos: isto é. Morgan e Joe. amigas e vizinhas e não como assalariadas de uma organização que estes chefiariam. 1999) do ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Pode-se definir o seu perfil como marcadamente free-lance (veja-se a tipologia de Johnson. Sucede que é precisamente esta estrutura de mercado que prevalece actualmente no tráfico retalhista português. Até essa década o modelo que prevalecia era outro. quando e como vender (cf. assim como uma maior autonomia nas decisões que tomavam acerca de onde. Portanto. Outras vezes as mulheres limitaram-se a assessorar episodicamente parceiros masculinos numa ou noutra transacção. com muito pouca interdependência hierárquica e com uma fraca divisão funcional do trabalho. Ora. quanto muito. mas enquanto parentes. Aliás este modo de abastecimento segue muitas vezes os circuitos do fiado. com uma estrutura relativamente rígida. Tais mercados passaram por essa altura a assumir um perfil empresarial que se viria a traduzir em organizações hierarquizadas. se quisermos.. 1992) ou. muitas mulheres puderam lançar-se autonomamente no tráfico como free-lancers. em suma. Era bastante mais fluido. centralizada e envolvendo equipas de assalariados cuja margem de autonomia é praticamente nula.

quer dizer nos patamares mais baixos do patamar retalhista. é uma ideia desajustada. digamos. O narco-trabalho é aqui menos sexuado. 2000). Dito de outro modo. Primeiro. quando não está. questões estas que corresponderam propositamente a modos correntes de colocar o problema. por assim dizer. Aí. pois. mas como condição e estratégia de sobrevivência (veja-se neste sentido Cole. É que os obstáculos ideológicos à participação feminina no mundo do trabalho remunerado e no orçamento familiar são obstáculos de maneira geral débeis em Portugal. não é para este efeito pertinente falar em tráfico. ou "contra-hegemónica". já que as suas características não são essencializáveis ou dadas fora dos contextos sociais e históricos em que se desenvolve. Quanto à segunda questão: serão características inerentes ao tráfico que o tornam um tipo de crime particularmente acessível e atractivo para as mulheres. nem este é necessariamente considerado um desvio ao guião cultural feminino ou uma decorrência de um fracasso masculino. E é precisamente porque são tributárias desses mesmos contextos que tais características são variáveis. não enquanto opção "emancipatória". 1991 e Pina Cabral. isso em nada se deve a uma mudança ideológica nas definições culturais dos papéis de género. não sendo de facto exigido aos candidatos a traficantes especiais requisitos de virilidade. acontece também que o tráfico a retalho é aqui bastante menos violento do que noutras geografias. quando comparado com outras actividades ilegais? Sim e não. Não.uma tese reactivada a propósito da participação feminina no tráfico e que tem alguma popularidade nos meios judiciais -. ou. Recapitulo. As mulheres de baixos estratos sociais sempre investiram na esfera do trabalho. na forma de resposta às questões formuladas de início. traçar-lhe um perfil absoluto.que a empresarial. Mas não é só por isso que é menos operante a filtragem dos candidatos segundo o género. não lhes vedam o papel extra-doméstico de provedora de recursos. que seria uma espécie de sub-produto feminista espúrio . sendo esta debilidade especialmente acentuada nas chamadas classes populares. Contudo. porque não é possível caracterizar em abstracto o tráfico. as definições culturais dos papéis de género também remetem para as mulheres as responsabilidades familiares e domésticas. Começando pela tese da "nova delinquente". mas apenas ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . como é o caso em Portugal. porque ou essa participação permanece afinal acantonada nas margens da margem.

Questões de Identidade numa Prisão Feminina. Cadernos do Centro de Estudos Judiciários. 12 (1). CHAPMAN. CHAVES. como porventura nenhuma outra o foi antes. Princeton. Open University Press. e Eloise Dunlap. Nicholas. Lexington Books. Reformulada a questão nestes termos. Philippe. Lisboa. Traffickers. 1988. Lisa Maher. Lisboa. Jane 1980. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . em M. 1992. 1986. Nova Iorque. Milton Keynes. Miguel. BOURGOIS. RATNER (ed. Freda. CUNHA. Princeton University Press. 97-132. 7896. Manuela P. Drug Markets and Law Enforcement. COLE. Nova Iorque. 1975. NY. DUNLAP. Women & Criminal Justice. 2002. Fim de Século. Economic Realities and the Female Offender. Imprensa de Ciências Sociais. da. CARLEN. McGraw Hill. Londres. Sally. CHESNEY-LIND. Lexington Books. Em todo o caso.). Routledge. então sim. Meda. “Exorcising Sex for Crack: An Ethnographic Perspective from Harlem”. Signs. Women. 1993. 1997. 1994. da. Sisters in Crime. Eloise. nenhuma outra houvera mudado tão extensamente a paisagem carcerária. pode dizer-se que o tráfico em Portugal . 25-55.e evidentemente não faz qualquer sentido pressupor uma espécie de modelo-padrão em relação ao qual cada uma delas seria considerada mais ou menos conforme. "Women and Crime: The Female Offender". "Female Crack Sellers in New York City: Who They Are and What They Do". CUNHA. New Jersey. Referências Bibliográficas ADLER. 8 (4). Women of the Praia. Murji Karim. Work and Lives in a Portuguese Coastal Community. NY. Pat. Crime and Poverty. 1991. Crack Pipe as Pimp: An Ethnographic Investigation of Sex-For-Crack Exchanges. noutros contextos europeus e norte-americanos configura uma estrutura de oportunidades ilegais bastante inclusiva das mulheres. Entre o Bairro e a Prisão: Tráfico e Trajectos. Lexington. por exemplo. DORN. Manuela P. Nigel South. Casal Ventoso: Da Gandaia ao Narcotráfico. Malhas que a Reclusão Tece. Bruce Johnson. Lisboa.mas não.em versões do tráfico . 1999.

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ou seja. quão violentos seriam os Yanomamö descritos pelo estadunidense Napoleon Chagnon ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Como já tive oportunidade de demonstrar (Ramos 1995). os homens circulam em busca de esposas. O fenômeno da patrilinearidade combinada a uxolilocalidade ou vice-versa tem sido analisado de várias formas (por exemplo. pois enquanto a residência uxorilocal permanece onde quer que seja. à la Austin. Trato aqui. Por exemplo. espaço e tempo sanumá surgem como categorias básicas do entendimento. porém. desvela-se que a aparente fragilidade da condição supostamente de imanência feminina tem como contrapartida a real fragilidade da aparente transcendência masculina. Em linguagem antropológica. do subgrupo mais setentrional da família lingüística yanomami. Na família lingüística Yanomami os Sanumá são os únicos que exibem um inquestionável sistema desarmônico: as mulheres ficam em casa. convertendo relações de gênero e parentesco em ícones da dialética entre permanência e efemeridade. parecem existir apenas para dar aos seus homens a oportunidade de exibir machismo superlativo a platéias ocidentais em busca do exótico. a patrilinearidade pode evaporar-se nas vicissitudes do tempo. como produto de evolução materialista na visão de Robert Murphy sobre os Mundurucu). especificamente. interpretá-lo no contexto de outros componentes culturais. ressaltando-se como. mas por certos aspectos da vida social. os homens. é possível “fazer coisas sociais com outras coisas sociais”. uniformes e unitários. os Sanumá diferem bastante dos outros subgrupos não apenas pela língua (uma de quatro). aos olhos ocidentais. Por Yanomami entende-se comumente uma de suas metades. os autodenominados Sanumá com quem tenho convivido desde 1969. Pode-se. Assim.Tempo está para homens assim como espaço está para mulheres: por uma teoria do conhecimento sanumá Alcida Rita Ramos Universidade de Brasília (UnB) Sistemas desarmônicos em que descendência e residência seguem linhas opostas são hoje comuns na etnografia indígena da Amazônia. não existem. as mulheres. A outra metade. Poderíamos supor que parte das diferenças resultam dos próprios etnógrafos. Mas esses Yanomami.

Tomo aqui a questão de gênero como uma excelente oportunidade para observar a capacidade dos Sanumá para expor categorias-chave do seu entendimento e que nos dizem muito mais do que a simples diferença entre os sexos. Os Sanumá. exibem a conjunção de dois elementos: um sistema desarmônico entre descendência patrilinear e residência matrilocal. certos elementos da vida social. É. Refiro-me especificamente às noções de tempo e espaço. muito brevemente. no mundo das idéias. uma afinidade herdada e não apenas adquirida com o casamento. mas. como diz Louis Dumont (1953). Primeiro. ao contrário de outros subgrupos yanomami (Ramos e Albert 1977). essa dupla é uma cápsula da socialidade sanumá. entre nós e os outros. Em outras palavras. as diferenças de gênero no contexto etnográfico yanomami têm um interesse que vai muito além do tira-teimas entre etnógrafos ou de filigranas empíricas sobre o quão violenta deve ser a violência para caracterizar um povo inteiro como violento. não com palavras ou gestos. É como se os Sanumá dissessem e fizessem coisas. portanto. mesmo que não se casem.2 (1968) se fossem descritos por mim? Ou quão subjugadas seriam as mulheres sanumá se fossem descritas por Chagnon? Questões meramente acadêmicas? Pode ser. ao serem também afins dos filhos uns dos outros. à moda de um Austin ampliado. segundo o qual filhos de irmãos de sexos opostos (os ditos primos cruzados) podem casar-se entre si e. eles simbolizam a paradoxal co-existência entre intimidade e recato. são considerados afins. embora atados numa relação permanente de sangue. mas com algumas consequências epistemológicas. e o padrão de parentesco chamado dravidiano. inclusive no cognitivo. irmão e irmã. Para mim. Em grande medida. o que significa que a responsabilidade pela reprodução do grupo é mais deles do que de marido e mulher. com princípios axiológicos subentendidos. é preciso descrever. o encargo de fornecer cônjuges para a geração seguinte. Encarnam tanto os efeitos da dispersão como da permanência e marcam a manutenção da identidade no tempo e de vínculos no espaço. A complementaridade entre homens e mulheres aparece em vários planos. estão numa posição perfeitamente ambígua. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . vamos à relação entre irmão e irmã. Como consangüíneos que produzem afins. Como elas estão diretamente ligadas à organização social. A díade irmãoirmã tem.

este último matou um papagaio. mas a flecha ficou presa nos galhos das árvores. nada”. Voltando a casa. Veio e sentou-se à frente dela. Koshiloli. inserindo-o. Faz com que ele se sente do lado de fora da casa e faz de conta que lhe catas os piolhos. Aproximou-se da mulher e disse: “Corta a caça!”. ela cozinhou o fígado e deu-o para o filho comer. “É mesmo?”. Koshiloli. informou. respondeu ele. disse ela. sua mulher e um irmão desta viviam a alguma distância dos outros parentes dela. “Não. “Está certo. No caminho de volta. criarem uma narrativa sobre ele. Quando o cunhado desceu. como foi coletada por Marcus Colchester nos anos 70. vira-lhe a cara para trás. “Está bem”. Nela encontramos claramente as diferenças de lealdade entre irmãos e entre cônjuges e a tácita luta da consanguinidade com a afinidade. tendo pensado no assunto. enquanto a sua gente se aproximava. senta aqui! Vou te catar piolhos”. “É pesado”. O ideal da maternidade é ter um número equilibrado de filhos e filhas. ela começou a pranteá-lo. acompanhado do cão da mulher e do cunhado. “Meu marido matou meu irmão”. O cunhado subiu e conseguiu soltá-la dos galhos. “Vem cá. na sua teoria de sociedade. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . disse ela. Um dia Koshiloli foi caçar muito longe. respondeu ele. disseram os parentes. disse Koshiloli. Koshiloli esperava ao pé da árvore. Ela puxou-lhe a cabeça para trás de modo a ficar de frente para o sol. “Sobe lá e sacode a flecha”. furioso. de modo a encarar o sol” “Está bem!”. Vale a pena contar a história. pronta para o ataque. assim!. Os outros mataram-no com um golpe de terçado – ka! E assim morreu Koshiloli (Colchester 1981: 59-60). Entrou e jogou-o no chão. Ao ver o irmão morto no chão. matou-o a pauladas – to! to! to! to! Koshiloli voltou para casa carregando o morto. portanto. Assim que preparou a caça. Abriu-lhe a barriga e retirou as vísceras – wi! wi! wi! wi! “Não havia rastro?” ela perguntou a Koshiloli. ela foi ter com os seus parentes.3 Não é por acaso que as mães procuram os serviços de um xamã quando só têm prole do mesmo sexo. disse ela ao marido. Ela segurava a cabeça de Koshiloli virada para o sol. Esta análise poderia ser atribuída à imaginação da etnógrafa se não fosse pelo fato de os próprios Sanumá.

É por isso que as mulheres órfãs estão em franca desvantagem: faltam-lhes irmãos que as defendam dos maridos. afinal de contas. A duplicidade estrutural que envolve irmãos de sexos opostos. representa um artifício narrativo para enfatizar os antagonismos e lealdades presentes naquilo que para Lévi-Strauss é “a forma mais elementar do parentesco” (Lévi-Strauss 1963: 46). que é um mal necessário na vida dos homens sanumá. Esse trio etnograficamente improvável de marido. A narrativa sublinha a fragilidade do elo entre marido e mulher e a problemática afinidade. a moral da história – entre consangüíneos e afins. Muito pelo contrário. principalmente dos homens: a sogra e o pai que. Circulam com outras crianças pela aldeia. mulher e cunhado. Até pouco antes da puberdade. ao mesmo tempo. quando algum homem ameaça bater na esposa. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . pois se não fosse não se deixaria mandar tão facilmente pelo cunhado. mães contra filhos. mais novo. enchendo o ar com risadas. a lealdade que se espera dos consangüíneos. vivendo sozinhos. o que tem tudo isto a ver com espaço e tempo? Consideremos duas figuras centrais na vida sanumá.4 Esta história cria um arranjo residencial pouco comum: um homem casado que se esquiva de cumprir o regulamentar serviço da noiva. vive com a esposa e o irmão desta. mas afastados. ao que parece. sogras contra genros – mas nunca vi uma briga entre irmãos de sexos opostos. além de um filho não identificado. mas prontos para se defender mutuamente quando for necessário. fica-se sempre com os consangüíneos – talvez diga mais sobre os pares irmão-irmã e marido-mulher do que qualquer elaboração antropológica. Com uma criatividade hiperbólica. Mas. Durante minha convivência relativamente longa com os Sanumá. Essa rotina descontraída muda abruptamente quando meninos e meninas entram na adolescência. pelas roças. irmãos de ambos os sexos constituem um bando virtualmente indivisível. pelo rio. gerada pela combinação explosiva de consangüinidade (filhos dos mesmos pais) e afinidade (filhos de irmãos de sexos opostos) também está evidente na maneira como irmão e irmã se comportam. presenciei muitos incidentes entre homens e mulheres – maridos contra mulheres. O duplo assassinato sublinha a tensão permanente entre afins e. reservados. pela mata em volta. os irmãos desta correm imediatamente em defesa dela. Irmãos e irmãs deixam de brincar juntos e começam a ensaiar uma postura que terão pelo resto da vida: respeitosos. gritos e choros constantes.

A quintessência dos anos de chumbo de um marido sanumá é a sogra. essas mulheres desgarradas vivem como cidadãs de segunda ou terceira categoria à mercê do gênio dos seus maridos e demais afins. Não é mera coincidência que o símbolo maior do incesto é a díade sogra-genro. É nesse espaço de residência. A mensagem é clara: sem sogra. Viver como genro na casa dos outros sujeita um homem a uma condição de subalternidade ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . principalmente se ele é jovem. Com a residência matrilocal. Vivendo sob o mesmo texto. A sogra é mais um mal necessário na vida de um homem. a mulher se realiza. no lar dos pais. Enquanto os homens circulam. Até terem filhos e estes crescerem. Para a maioria dos homens. além de ser obrigado a prestar-lhe serviços e provisões. ele se vê só. Esta condição talvez fique mais clara em negativo.5 são. alvos fáceis de maus tratos. Com os homens algo semelhante acontece. Ela personifica a dispersão masculina que resulta da disparidade entre as normas de descendência e residência. ele tem que evitá-la a todo custo. a sogra é o foco da vida conjugal. Sendo as aldeias sanumá em geral pequenas (de 30 a 60 pessoas. preferencialmente. ele está à mercê de seus afins. enquanto as moças ficam com os pais. mas com outro viés e por outras razões. normalmente). não há esposa. de produção e reprodução que ela encontra a dimensão mais compatível com a feminilidade. Aí. Expressões faciais de absoluta repulsa geralmente acompanham a descrição dessa relação incestuosa cujo arquétipo mítico é o comportamento de um certo tipo de preguiça de gestos lânguidos a trepar pelas árvores em câmara lenta agarrada ao genro num abraço obsceno. Virtualmente indefeso. O casamento implica um longo período de serviço da noiva. insultos e brincadeiras de mau gosto. Se o rapaz se casa longe de casa. Algumas velhas me asseguraram que fulano não se casou na própria aldeia porque não havia sogras para ele. tornando-se seus consangüíneos protetores. irmãos entre si. Órfãs e viúvas que vivem na aldeia dos maridos são um triste espetáculo de vulnerabilidade. a maioria dos homens tem que deixar a casa e muitas vezes a aldeia dos pais à procura de esposa. as mulheres permanecem na casa materna. quando a mulher fica isolada de seus parentes. distante dos parentes que o apoiariam psicológica e politicamente. O resultado é que cada aldeia precisa exportar uma boa parte dos seus jovens. as opções de casamento endogâmico podem ser bastante reduzidas.

que se espalham pelo território sanumá. a que chamo sibs. Tanto homens como mulheres herdam dos pais a condição de membros e mantêm-na por toda a vida. de modo a poder formar-se um grupo agnaticamente bem definido. Alguns sofrem constantes abusos dos cunhados. a longo prazo. uma outra unidade mais localizada. como trabalhar duro no serviço da noiva. A força centrífuga da matrilocalidade produz a dispersão dos homens de uma mesma linhagem. Pode-se dizer que. outros. por ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . dependem da conjunção de uma série de circunstâncias favoráveis. ligados por filiação paterna. duas gerações. levam uma vida mais leve com os afins. co-habitar com gente com quem não pode falar ou interagir. que contribui para agravar o problema de homens agnatas. pelo menos. exogâmico. É no tempo que eles encontram a possibilidade de criar alguma coisa de importância social e de se projetar na posteridade. com um nome próprio e politicamente importante. da identidade grupal.6 que não difere muito da das órfãs e viúvas. A dimensão própria dos homens sanumá. um tipo de grupo patrilinear. Cada aldeia tem membros de várias unidades patrilineares. guardadas as devidas distinções inerentes à fisicalidade dos sexos. Os descendentes desses homens dispersos acabam. Onde quer que estejam. mesmo em circunstâncias amenas. para os homens adultos o espaço de residência envolve sacrifícios. para sobreviver. a que com algum desconforto chamo linhagens. A categoria tempo significa neste contexto a transmissão patrilinear. ter seus pertences desrespeitosamente afanados. ou seja. é preciso que grupos de irmãos se mantenham juntos depois do casamento por. há grandes variações sobre o tema do marido forasteiro. o tempo os une e prolonga. ou ser objeto de suspeitas até provar o contrário. homens e mulheres são identificados pelo nome da unidade do pai. Por que o tempo? Porque é através do tempo que os homens sanumá podem desenvolver plenamente o seu potencial. mais diplomáticos ou aguerridos. Enquanto o espaço os dispersa. não é o espaço. Esse sistema de identidade paterna é o mecanismo mais eficaz para garantir hospitalidade onde quer que vão as pessoas do mesmo sib. o que raramente ocorre. de uma geração a outra. porém. São grupos muito frágeis porque. Há. definitivamente. Naturalmente. Para que surjam esses grupos patrilineares localizados. quando enfrentam a dispersão causada pela residência matrilocal.

Por ironia da vida. Os homens podem criar grupos de descendência. a vida de uma linhagem depende da capacidade de um grupo de homens agnaticamente relacionados para controlar o espaço onde vivem durante um número mínimo de gerações. eles mesmos. Sua existência ou colapso é. perpetuando mecanicamente o casamento endogâmico entre primos cruzados. Para eles. muitas pessoas ficam sem afiliação de linhagem. nota 4). ausência de mulheres casáveis na mesma aldeia. por trás de um pai temporal há sempre uma sogra espacial. o resultado de duas forças em colisão: a força centrífuga da exogamia e a força centrípeta da transmissão agnática. Numa situação ideal. como ausência de filhos homens. O grau ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Se todos os homens pudessem casar-se na aldeia dos pais. Pude acompanhar ao longo de mais de uma década um caso concreto desse tipo. átomos sociais voltados para si mesmos. mas virtualmente impossível de sustentar. Na realidade. o esforço de homens e mulheres para alcançar a coincidência do tempo com o espaço. essas linhagens se esboroam até ao desaparecimento. longe de ser um dado incontestável. injetar harmonia no seu sistema desarmônico. mas não controlam o seu destino. haveria o risco de se criar mônadas residenciais. Fatores demográficos. é algo a ser conquistado.7 perder sua afiliação paterna por falta de foco residencial. um homem fica quase sempre dividido entre a lealdade para com o pai e o dever para com a sogra. ou seja. Nesse brotar e murchar de unidades patrilineares em sua trajetória diacrônica. esses grupos representam. Em suma. Efêmeros ao extremo. embora nunca percam a de sib. O resultado é que aqueles que conseguem a proeza de se manter juntos terão seus nomes perpetuados nas gerações seguintes numa escala de tempo que pode ser muito curta. portanto. no entanto. o espaço. sendo. com um desfecho tão melancólico como previsível: o grupo residencial em questão acabou por se desintegrar e seus remanescentes passaram à condição de apêndices dispersos por várias aldeias (Ramos 1995: 329. As linhagens sanumá não existem sem concentração no espaço e esta só pode ser alcançada na medida em que os homens conseguem superar a necessidade de casar fora. Sem a residência em comum. uma díade irmão-irmã. a figura do pai e da sogra teriam pesos iguais. ou uma epidemia devastadora podem dizimar uma linhagem em apenas uma geração. mas sempre mais longa do que as suas próprias vidas.

Alcida Rita. Marcus. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . RAMOS. 1968. Alcida Rita e Bruce Albert. 1953. LÉVI-STRAUSS. o tempo traz incertezas. Evocam noções de estabilidade. a complementaridade entre o espaço-mulher e o tempo-homem é uma marca que o pensamento teórico sanumá imprime na experiência vivida. O lar e as roças são os símbolos de espaço por excelência.8 de sucesso em se criar um grupo de descendência próprio reflete o jogo de influências entre essas duas figuras determinantes. Structural Anthropology. Sanumá Memories: Ethnic politics in Brazil. Madison: The University of Wisconsin Press. Juntos. DUMONT. 1963. Representa perda de raízes. Louis. Nova Iorque: Basic Books. Por contraste. Man 54: 34-39. idéias fundamentais que dão sentido ao mundo. insegurança e aventura. 1977. quando o único elemento de ligação entre comunidades em trânsito eram os elos patrilineares sempre por um fio (Ramos 1995: 17277). Nova Iorque: Holt. Myths and legends of the Sanema. Referências Bibliográficas CHAGNON. mulher e homem revelam-se metáforas da oscilação necessária entre repouso e movimento. Napoleon. Yanoama descent and affinity: the Sanumá/Yanomam contrast. arraigamento. The Dravidian kinship terminology as an expression of marriage. A exemplo da bruxaria zande. Claude. Paris: Société des Américanistes. RAMOS. COLCHESTER. 1990. 1981. instabilidade. Rinehart & Winston. como se pode perceber nas histórias sobre as migrações sanumá. Yanomamo: The Fierce People. Actes du XLIIe Congrès International dês Américanistes 2: 71-90. o fulcro da sociabilidade onde as mulheres estão à vontade e os homens gostariam de nunca deixar. confiabilidade. Antropológica 56: 25-126.

promovido por várias instituições ligadas ao desenvolvimento local. Amarante. assim como a sustentabilidade da actividade agrícola. ruralidade. foi realizado em parceria por várias instituições ligadas às áreas do desenvolvimento local. nomeadamente na conciliação família/trabalho. Palavras-chave: investigação-acção. Sever de Vouga. teatro e ensino/investigação. no Centro e Norte de Portugal. Articula-se a observação participante com “Oficinas-diagnóstico” no intuito de potenciar uma abordagem antropológica para a investigaçãoacção. no qual apresentámos uma proposta metodológica. decorrente de um projecto de investigaçãoacção realizado em 2005. revelam-se os resultados da investigação-acção realizada em 2005 no centro e norte de Portugal (Sever do Vouga e Amarante) onde se identificaram as desigualdades produzidas pelo género. que contemple as necessidades específicas e os interesses estratégicos de homens e mulheres em meio rural e se ajuste aos seus valores e experiências. e cujo objectivo central foi o da promoção da igualdade de género em meio rural. identificando-se com uma ruralidade que muitos sectores institucionais têm vindo a declarar extinta. Em ambos os contextos. igualdade de género. Elas são o ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . 1. teatro e ensino/investigação.com Com base no projecto “Iguais num Rural Diferente”.com ricardoseica@gmail. denominado de “Iguais num Rural Diferente”.Iguais num Rural Diferente: o papel da Antropologia na investigação-acção sobre género Ana Luísa Micaelo e Ricardo Seiça Salgado CEAS/ISCTE analuisamicaelo@gmail. os homens estão ausentes e são as mulheres que asseguram a vida social quotidiana. oficinas-diagnóstico. Apresenta-se uma proposta metodológica de diagnóstico. Este projecto. Introdução Este artigo refere-se à comunicação proferida no Terceiro Congresso da Associação Portuguesa de Antropologia. com vista a sistematizar um possível contributo da Antropologia na promoção da igualdade de género. realizado em Abril de 2006.

para que fosse possível o desenvolvimento de actividades futuras em conjunto. 1 A equipa técnica foi composta pelos autores e a coordenação científica ficou a cargo da Professora Doutora Susana de Matos Viegas. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . do Fundo Social Europeu (Ref. não faziam já parte da parceria. para o Terceiro Congresso da APA.. Para tal. a equipa técnica de antropólogos que elaborou este diagnóstico (de Sever de Vouga e de Amarante) guiou-se pela abordagem empírica que há muito tempo se consolidou na antropologia. Foi financiado pelo Programa de Iniciativa Comunitária EQUAL. O projecto realizou-se em três contextos rurais diferentes: Amarante. a candidatura à segunda fase. Sanjek 1990 e Davis 1999). o projecto identificou uma série de desigualdades que. sublinhamos que esta metodologia se refere àquela desenvolvida na primeira fase do projecto. incorporando a maior multiplicidade de técnicas de recolha de material possível. Com o objectivo de aferir a diversidade das realidades sociais. 2004/EQUAL/A2/IO/343). querendo envolvê-las no diagnóstico que fazíamos sobre as suas vidas e implicando-as no projecto. a APA – Associação dos Agricultores do Porto. os projectos são compostos de uma primeira fase. culturais e económicas – tal como elas são vividas pelos actores sociais – e contemplar as necessidades específicas e interesses estratégicos de homens e mulheres em meio rural. 2 De acordo com o modelo do Programa EQUAL. a ADRL – Associação de Desenvolvimento Rural de Lafões. A partir desta experiência de trabalho. nomeadamente no que diz respeito à conciliação do trabalho com a vida familiar. eram específicas a estes meios sociais rurais. a ACERT – Associação Cultural e Recreativa de Tondela e o ICE – Instituto das Comunidades Educativas. a Solidários – Fundação para o Desenvolvimento Cooperativo e Comunitário.2 Departamento de Antropologia Universidade de Coimbra 1 . sendo produzidas pelo género. em que se realiza o diagnóstico de necessidades e. que decorreu entre Janeiro e Junho de 2006. com a qual concluiu a licenciatura (cf. pretendia-se também promover uma abordagem participada e reflexiva (estratégia bottom-up) com estas populaçõesalvo. assim como o Departamento de Antropologia da U. numa altura em que o projecto estava já na sua segunda fase e os autores. Sever do Vouga e Vouzela – mas a comunicação e este artigo só se referem aos dois primeiros. A participação dos antropólogos no projecto teve como objectivo a realização de um Diagnóstico de Necessidades 2 destes contextos sobre a igualdade de género. na qual se realizarão as actividades planeadas anteriormente.C. a autora realizou ainda uma tese de investigação. Micaelo 2005b). a partir dele. Por outro lado. a observação participante (cf. Assim. Relembramos que a comunicação foi proferida em Abril de 2006.

trabalho e/ou ruralidade. Têm características semelhantes que passamos a enumerar: ambas são montanhosas e o povoamento é disperso pelas encostas.3 Para a elaboração do Diagnóstico de Necessidades – com base no qual se propuseram actividades concretas a realizar na Acção 2 do programa (2006/2007) – os procedimentos metodológicos qualitativos para este projecto assentaram no trabalho de campo e tinham por objectivo a criação de um Modelo de Oficina Diagnóstico para contextos de investigação-acção em meios rurais em que. Segue-se uma breve apresentação dos dois contextos onde se realizou este trabalho. pode participar na mudança das formas culturais. com algumas freguesias e populações muito ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . 2. Consideramos que estes dois territórios oferecem desafios diferentes. família. articulando a observação participante com as Oficinas Diagnóstico no intuito de potenciar uma abordagem antropológica para a investigação-acção. representações e relações hegemónicas de poder – sejam elas de género. Tomando a tipologia e dados recolhidos no Instituto Nacional de Estatística (Censos de 2001) estas regiões são denominadas como Predominantemente Rurais. uma outra forma de poder que. Neste artigo iremos apresentar as opções metodológicas que fizemos neste projecto. de discutir a integração profissionalizante da antropologia. mas igualmente marcantes para a criação de modelos de promoção da igualdade de género em meios rurais do Portugal contemporâneo. Aceitando um dos desafios deste congresso. Apresentação dos contextos Ambos os contextos onde decorreu o trabalho de campo correspondem ao território de actuação da respectiva entidade local – a APA em Amarante e a Solidários em Sever do Vouga. ela própria. se pretendia envolver a população-alvo na formulação das questões socialmente relevantes no âmbito das relações de género. devolvida à sociedade. propomo-nos assim tecer uma reflexão acerca do papel da Antropologia enquanto saberfazer específico e da maneira como a análise dos discursos de poder é. decorrente da sua experimentação em cada um dos referidos contextos-piloto.

como por uma Comissão de Compartes independente. em contraponto com a alta taxa de desemprego – sendo que todas estas características assumem maior relevo na população feminina. nomeadamente de natureza agrícola. Todas elas gerem baldios. A relação das pessoas em Amarante está marcada por um passado emigratório. o fraco empreendedorismo e um ainda baixo investimento turístico (algumas freguesias ainda não têm saneamento básico). sendo que a acessibilidade ao Predominantemente Urbano é maior e mais frequente que ao Rural. depois de terem voltado e do incêndio que devastou a Serra do Marão. São também baixos os níveis de escolaridade e qualificação profissional. cuja economia tem uma base rural e agrícola (não intensiva). após a retirada da possibilidade de gestão dos baldios e seus recursos pelo Estado salazarista e. o território-alvo do projecto corresponde à parte Este do concelho. Hoje. contribuíram para a escassez de relações entre as pessoas e as várias aldeias da região. dos anos 80. a quase inexistência de indústrias e alternativas de emprego na região. reflorestação. Em Amarante. muito feminizada. estes terrenos que desde o 25 de Abril passaram outra vez a ser geridos pelas comunidades locais. e têm direito ao uso e fruição do terreno baldio – para efeitos de apascentação de gado. Nestas regiões. de recolha de lenhas e de matos.4 isoladas. a perda de peso económico da agricultura não foi compensada com a criação de outras actividades económicas que pudessem absorver a mão-de-obra. silvo-pastoril. consequência de vários factores como o êxodo rural e os fluxos de emigração (anos 60 e anos 80). fracas vias de acesso e um sistema de transportes públicos entre as freguesias praticamente inexistente. O acesso à saúde é escasso e não há instituições capazes de dar resposta à dependência que as crianças e idosos têm para com a família. têm um potencial a desenvolver pelo projecto. Tal como em Amarante. Existe uma tendência para o declínio populacional e envelhecimento. a característica mais evidente do contexto de Sever do Vouga é a agricultura. de culturas e outras fruições. tanto por via da Junta de Freguesia. Face a uma divisão sexual do trabalho que leva os ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . apícola e turística. 7 freguesias que constituem as comunidades serranas do Marão. Os acontecimentos da década de 60. silvícola. apesar da existência de condições ambientais que permitem apostar na qualidade das produções agrícolas.

Assim sendo. aumento da autonomia destas mulheres e promoção de maior igualdade nas relações entre casais: reequilibra as formas de poder entre cônjuges. enquanto as mulheres se encarregam das tarefas domésticas. e também devido ao impacto do fenómeno migratório.5 homens a longos períodos de ausência (emigração e/ou trabalho temporário fora da região). dos idosos e de outras pessoas dependentes. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . bem como a reestruturação que ela permite das actividades laborais. em Sever de Vouga e Amarante a organização familiar está historicamente marcada pelo trabalho assalariado masculino fora da área de residência. seja este doméstico. Decorrente da divisão sexual do trabalho e das representações e concepções acerca da feminilidade e masculinidade. contribuindo para que os homens valorizem o papel da mulher na actividade económica local. a Solidários considera que em Sever de Vouga o incremento da agricultura segundo o modo de produção biológica. Por outro lado. ou também nas estruturas mais precárias do trabalho da indústria do calçado (Amarante). agrícola (Sever do Vouga) ou. assim como a sustentabilidade da actividade agrícola – que não deixou de ser muito importante para a economia familiar – sem que tenham com isso um reconhecimento do seu trabalho. constituindo como modelos familiares o que propomos chamar de “temporariamente monoparentais femininos”. os homens vão para fora e têm trabalho remunerado. sendo que o modelo hegemónico de género não reconhece simbolicamente o papel da mulher no trabalho. em ambos os contextos. das terras e animais e do cuidado dos filhos. se tem mostrado um meio eficaz de empoderamento (empowerment). São as mulheres que asseguram a vida social quotidiana. a ausência dos homens nas tarefas familiares reflecte uma grande disparidade de participação na vida familiar entre homens e mulheres. fixando as mulheres à terra. Esta situação resulta ainda numa dependência financeira das mulheres em relação ao marido. do trabalho assente em actividades artesanais. de igual modo.

Teve-se sempre em conta a necessidade de informar as pessoas acerca do projecto e dos seus objectivos. era condição necessária a consciência das pessoas em relação à sua participação e envolvimento no projecto. texto e paratexto. Metodologia 3. a posição e acção do investigador devem ser referidas como parte integrante da situação social estudada: “Quando o etnógrafo recorre ao método de estudo de caso. vivência no local de estudo. Utilizaram-se as variadas técnicas de observação participante (entrevista. directores associativos ou o padre. entrevista aberta. técnicos das instituições parceiras. condutor da conversa. que foram convidadas a participar nas Oficinas Diagnóstico. realizaram-se histórias de família e identificaram-se estudos de caso que vieram a servir para a selecção das pessoas com potencial representativo da população-alvo. Esta ideia é válida nos dois sentidos: por um lado. a sua própria relação com os eventos descritos é útil para a sua compreensão – e deve ser sempre especificada” (Pina Cabral 2003: 25). ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . O acesso aos informantes e o enquadramento no terreno não foi efectivamente restritivo na medida em que nunca os contactos interpessoais foram forçados ou veicularam a necessidade de uma reverência para com as instituições locais ou os informantes privilegiados. em períodos de cerca de quinze dias (a entrada no terreno tendo em vista a definição da população-alvo) e posteriormente. vivendo numa habitação local e integrando-se na vida quotidiana da população. conversa informal dirigida. Os investigadores permaneceram nos territórios-alvo respectivos. um mês (trabalho de campo e realização da Oficina Diagnóstico). em função do tempo que se dispunha pelo programa para a Acção I (4 meses). registo da informação e “notas de campo” e realização de diário de campo).1. do encontro estabelecido. os resultados desta investigação-acção reflectiram necessariamente a forma como ela foi conduzida. Primeira etapa metodológica: observação-participante O diagnóstico realizou-se a partir da recolha de material empírico em duas estadias de campo dos investigadores. Tendo em conta a escassez de tempo para executar os objectivos recorreu-se ainda a outros informantes privilegiados.6 3. por outro lado. Essa informação serviu sempre de subtexto. Assim. como o presidente da junta.

na investigação de terreno. A ideia de modelo operatório inicial da oficina foi proposto pela ACERT em conjunto com a Solidários. Segunda etapa metodológica: Oficinas Diagnóstico A Oficina Diagnóstico tem o seu modelo baseado em metodologias teatrais de modo a monitorizar a realidade social.2. O “relator” não deve ser um “participante” e o facto de já ter contactado as pessoas que participam na oficina. Os “relatores” são aqueles que vão ouvindo o processo de construção das histórias. Os conteúdos trabalhados nas oficinas provêm dos resultados analíticos da observação-participante no terreno. bem como do próprio drama a ser construído por cada grupo. Quem participa nas Oficinas? Cada oficina é constituída por três tipos de intervenientes: “os participantes”. valores e experiências de homens e mulheres na vida familiar e no trabalho. Para as oficinas de cada contexto seleccionaram-se temas e personagens consideradas prioritárias na identificação dos problemas e possíveis soluções ligadas à promoção da igualdade de género. “os relatores” e os “facilitadores”. Os “participantes” são todos aqueles que irão exercer as actividades desenvolvidas na oficina desde a elaboração das histórias à reflexão sobre elas.7 através do envolvimento das pessoas na procura das estratégias para o seu próprio “desenvolvimento”. foram sinalizados problemas e identificadas possibilidades de inovação. Consistiu em se fazer uma fotonovela em grupo. foram elaborados pelos investigadores e depois debatidos com os técnicos das associações. os participantes representam a população-alvo e foram identificados previamente pelo antropólogo no terreno. pode ser favorável e será ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . A sua atitude aproxima-se muito daquela que é assumida por um investigador a fazer trabalho de campo com observação participante. em função dos interesses. registando a interacção entre as pessoas e os comentários. Com elas e a partir delas. que já haviam experimentado em outras circunstâncias. 3. mobilizando a população-alvo para práticas de inovação social. Enquanto modelo de diagnóstico. motivações. Previamente fez-se uma simulação da oficina com os parceiros. na conciliação do trabalho com a vida familiar.

os facilitadores/relatores. Recomenda-se a filmagem da oficina por um elemento conhecedor do projecto. “sem ele monopolizase”. sobretudo para garantir a prossecução dos trabalhos. um facilitador e relator por grupo (investigador e membros da associação parceira). ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .8 fundamental num modelo mais consistente de utilização destas oficinas para diagnóstico. 2. Cada oficina teve cerca de 4 grupos com cinco participantes cada. O envolvimento de membros das associações que já têm contacto com as populações pode ser igualmente importante. Guião da Oficina 1. De uma forma completamente aleatória divide-se o colectivo em grupos. Solicita-se a construção da identidade de uma personagem (que consiste em preencher uma ficha com o nome. Os “facilitadores”: em cada grupo existe um facilitador que intervém no sentido de ajudar a desenhar um mapa de relações entre as personagens construídas e organizar a sequência de fotografias finais representativas da história. Um ou dois dos grupos ficam com tema livre. por exemplo. 4. abrindo espaço para a monitorização. Garante a existência de papéis sociais representativos da população-alvo e que. a situação familiar e profissional). uma vez que prepara as pessoas para os objectivos pretendidos. não tenha sido possível comparecerem. Recomenda-se que circulem pelos diferentes grupos para permitir momentos de liberdade e tornar a oficina mais dinâmica podendo. Atento. Deve deixar um espaço de liberdade criativa aos participantes durante todo este processo. Em cada grupo existem duas personagens predefinidas atribuídas ao acaso. deve provocar o debate com alguma ideia que conecte com a informação obtida e algum conflito passível de emergir da rede de relações produzida. os pesadelos. os sonhos. A personagem deve ser inspirada a partir do contexto em causa e induzida pelo tema do grupo. intervir também nos outros grupos. 3. de 5 ou 6 pessoas cada. A cada grupo é dado um tema sustentado pela informação empírica recolhida em trabalho de campo.

começando pela apresentação das personagens intervenientes (uma fotografia por personagem) e contando a história produzida em cada tema. seguiu-se um convívio que se transformou num concerto espontâneo de um grupo de bombos e de uma tuna da região. dando origem a um mapa de relações (nome. Em Amarante. com a sucessão das fotografias produzidas. Com recurso a um projector. O facilitador toma a iniciativa com uma questão observada e lança a discussão. 9. numa pequena série de fotografias. seu passado). A existência de iniciativas isoladas. Conclusão As conclusões a que se chegou nas Oficinas Diagnóstico mostraram. passa-se à construção de um drama possível. sob olhar do facilitador/relator. em torno das situações criadas na dramaturgia geral da história. Desenhado o mapa de relações. não se relacionam na promoção de resoluções conjuntas. havia sido identificada anteriormente pelo investigador como uma condição adversa à ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . tendo em conta a realidade da região.9 5. Também aqui se deixou espaço de liberdade para os participantes desenvolverem os argumentos. Em Sever de Vouga a teatralização e interpretação das personagens e enredos aconteceu espontaneamente. reforçando finalmente a presença dos homens. a história é conduzida a partir de um qualquer conflito. seus problemas e expectativas. Fotografam-se as personagens. A história deve ser conclusiva. tendo em conta as relações entre personagens. relação entre personagens. 7. apresentam-se as histórias por um “participante” do grupo. reunido à parte. em Amarante. encenam-se colectivamente quadros representativos da história produzida. 6. que as pessoas das diferentes freguesias. para futura apresentação. apesar de terem problemas comuns. 8. 4. uma a uma. Depois. Em cada grupo. Cada grupo. Os dirigentes das associações sociais e culturais locais não se conheciam sequer. vai inventando uma rede de relações sociais entre os personagens. representações e expectativas geradas). tendo em conta a relação de poderes criada entre personagens e recaindo também para a desigualdade de género. Discussão colectiva das histórias (os sentimentos.

Este aspecto remete-nos ainda para uma limitação sentida no início do trabalho de campo sobre “o género do próprio antropólogo” – como chegar também aos homens. apesar de terem sido convidados a participar. e a Oficina Diagnóstico assim o demonstrou. a realização da Oficina mostrou haver uma a dificuldade em envolver os homens. por estarem empregados. a produção de artesanato a partir dos recursos dos baldios. à já referida divisão sexual do trabalho.10 dinâmica para o desenvolvimento regional e estas oficinas permitiram essa consciencialização por parte dos participantes. de forma a reforçar a importância do trabalho feminino nos baldios e. Um outro factor. nomeadamente no que diz respeito aos espaços de sociabilidade. No nosso entender. por um lado. esta falta de comunicação entre as pessoas das diferentes aldeias. sobretudo nas possibilidades de trabalho auferidas pelos recursos dos baldios. em oposição à sociabilidade masculina com que se identifica localmente o espaço do café. também identificado durante o trabalho de campo. quiçá. que faz com que os homens. Micaelo 2005b). uma vez que não se trata apenas de resolver os problemas das mulheres. até porque identificámos uma grande diferenciação social de género no que diz respeito às ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . exponencia a desigualdade de género. não se conseguiu integrar estas iniciativas isoladas num projecto comum. Comissão Europeia 2004). A intervenção da APA. já que é com as mulheres e a feminilidade que este espaço passou a estar associado. não tenham muita disponibilidade de tempo. Esta intervenção teve um sucesso relativo em motivar. Contudo. por exemplo. promovendo cursos que desenvolvem aptidões potencialmente económicas às mulheres da região. no seu desenvolvimento associativo para uma actividade económica – o que iria ao encontro das intenções manifestadas por elas próprias na Oficina. Isto deve-se. quando a vida quotidiana é assegurada pelas mulheres e eles estão ausentes? A questão salienta a necessidade da integração da perspectiva de género (cf. Em Sever do Vouga. Os formandos dos cursos até aqui promovidos pela Solidários são maioritariamente mulheres. foi realizada pontualmente em cada aldeia e não com um conjunto integrado de mulheres das várias aldeias. prende-se com o facto de o espaço social de género ser muito segregado. fazendo com que o espaço onde actualmente se realizam estes cursos – e onde decorreu a Oficina Diagnóstico – tenha uma associação de género diametralmente oposta à do café (cf.

Em ambas as Oficinas. o construtor civil. consideramos que o modelo participativo das Oficinas Diagnóstico cria condições para a resolução dos problemas assinalados. isto é. investigadores. Concluindo. em resultado do espaço de reflexão e experimentação criativas dos participantes. para um potencial processo de mudança. à mobilidade e mesmo à forma como se constituem os modos de sociabilidade. assegurando que a comunidade seja agente das transformações propostas. e mesmo de outros meio rurais portugueses contemporâneos. Ele foi pensado de forma a garantir que os modelos de intervenção social na promoção da igualdade de género compreendam e se ajustem aos valores e experiências da população. as agricultoras. ao trabalho. Assim. tipicamente envelhecidos e despovoados – como o Alentejo – ou aqueles que têm uma relação mais dinâmica com a actividade industrial – como é o caso de Vouzela. por isso. Por outro lado. os estudantes deslocados. o político. o patrão. não podemos ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . os próprios mapas das relações entre os personagens mostram a construção de redes familiares do mesmo tipo que constatámos na realidade. como grande parte das regiões rurais de Portugal são classificadas. a situação profissional de todas as personagens coincide com a realidade socio-económica e antropológica da região estudada: os desempregados. agentes de intervenção e animadores culturais) reflectem sobre os seus problemas específicos no âmbito das desigualdades de género. O modelo de investigação-acção foi cientificamente informado e adaptado para comunidades rurais. cujo modo de vida e características de sociabilidade são melhor apreendidas por metodologias qualitativas. ao acesso ao dinheiro e ao poder. as domésticas. Por fim. através da consciencialização dos problemas-soluções apurados entre todos – contribuindo. os emigrantes. Este modelo parte do conhecimento empírico do terreno e da sua transformação em estudos de caso e conteúdos para a realização de oficinas teatrais onde os participantes (população-alvo.11 relações familiares. Este “modelo” de um mundo rural é diferente daquele que conhecíamos na década de 60 no norte do país. estes dados permitem-nos perceber melhor a categoria de Predominantemente Rural. consideramos ainda que contribuiu para o apuramento de práticas de intervenção que incorporem a participação efectiva das respectivas populações-alvo. uma organização familiar “temporariamente monoparental feminina”. pôr em causa a imagem de um mundo rural homogéneo e “tradicional”. Por sua vez. mas principalmente.

Projecto Iguais num Rural Diferente. Acção 1 – Programa de Iniciativa Comunitária EQUAL. Susana de Matos (coord. Em: VIEGAS.eu. Diagnóstico de Necessidades: Iguais num Rural Diferente. 2004.). Projecto Iguais num Rural Diferente. Referências Bibliográficas COMISSÃO EUROPEIA. SALGADO. do Fundo Social Europeu (Ref. “Diagnóstico de Necessidades para Sever do Vouga”. Lisboa. Roger (ed). Departamento de Antropologia da Universidade de Coimbra. Fieldnotes: The Making of Anthropology. Ricardo Seiça. um meio de estabelecer relação com as pessoas. 1999. VIEGAS. 2005. (policopiado). Charlotte Aull. do Fundo Social Europeu (Ref. Ana Luísa. 2004/EQUAL/A2/IO/343). MICAELO.). PINA CABRAL. João de. Susana de Matos (coord. Ithaca e Londres. 2004/EQUAL/A2/IO/343). trabalho e espaços de ruralidade: um estudo antropológico em Sever do Vouga. Projecto Iguais num Rural Diferente. Em: VIEGAS. Acção 1 – Programa de Iniciativa Comunitária EQUAL. 2003. Coimbra. Mulheres. “Diagnóstico de Necessidades para Amarante”. Cornell University Press. Diagnóstico de Necessidades: Iguais num Rural Diferente (policopiado). mas antes.). SANJEK. Ana Luísa. 2005. Imprensa do ICS. DAVIS. Reflexive Ethnography: a guide to researching selves and others. “Guia Equal sobre a Integração da Perspectiva de Género” [online]. Susana de Matos (coord. Londres e Nova Iorque. 2005b.12 deixar de sublinhar que considerámos o contributo da Antropologia não como uma oportunidade para “dar voz” aos seus objectos de estudo/informantes/população-alvo. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Acção 1 – Programa de Iniciativa Comunitária EQUAL. do Fundo Social Europeu (Ref.int/comm/equal> (acesso em 17-05-2005). 2005. a partir da abordagem etnográfica. Dissertação de Investigação I e II (policopiado). MICAELO. para aceder à sua realidade vivida. Routledge. Disponível em: <http://europa. O Homem na Família: cinco ensaios de Antropologia. 2004/EQUAL/A2/IO/343). Diagnóstico de Necessidades: Iguais num Rural Diferente (policopiado). 1990.

direitos e precariedade laboral ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Economia e Sociologia.VII – Capítulo Crenças e corpos Textos de comunicações dos painéis: Corpos. dinheiro e afecto Coordenação Fernando Bessa Ribeiro Dep. Universidade do Minho Pluralismo Religioso: novas abordagens etnográficas Coordenação Ramon Sarró Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa Estigma. Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro Manuel Carlos Silva Instituto de Ciências Sociais.

Altar do Mundo. se perante tão abrangente fenómeno social tem escasseado a atenção por parte dos cientistas sociais.  “Cada um anda ao seu ritmo” As práticas individuais nas peregrinações a pé a Fátima 1   Pedro Pereira* Escola Superior de Enfermagem – Instituto Politécnico de Viana do Castelo pedro. com breves alterações. em 1917 em Fátima. religião e Senhora de Fátima. o acto de caminhar até Fátima está fortemente condicionado pelas motivações que lhe subjazem. Contudo. concretamente no Painel Pluralismo Religioso: novas abordagens etnográficas. longe de fazerem parte de uma communitas.    INTRODUÇÃO    No início do mês de Maio. que estes peregrinos procuram pagar com o mínimo de sofrimento o grande sacrifício prometido. Professor Adjunto – Instituto Politécnico de Viana do Castelo – Escola Superior de Enfermagem. encher-se-ão de peregrinos.pereira@netcabo. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Recorrendo privilegiadamente a elementos etnográficos. tem sobejado o interesse por parte * Mestre em Antropologia (UM). peregrinação. até ao presente que todos os anos milhares de pessoas percorrem os caminhos que as levam até àquilo que nos meios católicos se chama. que os peregrinos caminhantes até Fátima.q. nesta comunicação procurar-se-á evidenciar. por outro. doutorando em Antropologia (ISCTE). tal como as páginas dos jornais e os principais noticiários dos canais de televisão portugueses. pt   Desde as Aparições da Virgem Maria. coordenado por Ramon Sarró. Tem-se escrito muito sobre Fátima. Todavia. e. uma promessa. revelam práticas profundamente individualizadas para realizar a peregrinação. as estradas que convergem para Fátima. Palavras-chave: Promessa. uma comunicação realizada no 3º Congresso da APA – Afinidade e Diferença (6-8 de Abril de 2006). por um lado. Agradeço ao Professor Doutor José Manuel Sobral as críticas e sugestões que fez ao trabalho. 1 Este texto recupera alguns elementos do trabalho de campo anteriormente realizado (Pereira. mas pouco sobre as práticas dos peregrinos desde o momento em que abandonam as suas casas e percorrem a pé a distância que os separa do Santuário de Fátima. e que são frequentemente. 2003) e reproduz. recorrentemente.

que caracteriza os lugares onde estão presentes. A partir deste dois postulados. a Fátima 3 . onde o poder da Senhora de Fátima pode ser invocado (ainda que neste caso à distância) para a resolução de problemas cruciais dos crentes. Perante este diagnóstico da situação. neste artigo propõe-se desconstruir os dois pressupostos anteriores. latente. tem sido mais este discurso. É de facto uma promessa que leva os crentes para a estrada e é ela que os impele a chegarem ao fim. as peregrinações a pé a Fátima não são o início de uma relação com a Senhora de Fátima. e a entidade a que prestam culto. ideais religiosos. invisível. a promessa apresenta-se como a parte oculta. Duas ideias aparecem recorrentemente expressas nestes dois discursos: por um lado.2 dos religiosos católicos. a par do outro discurso. frequentemente sensacionalista. em boa parte dos casos. intensamente. que tem contribuído de uma forma mais intensa para a maneira como se vão atribuindo significados às peregrinações a pé a Fátima. mas sim a consequência de uma motivação. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Em Fátima. De facto. dos meios de comunicação. o principal pilar que alicerça as práticas do acto de peregrinar 2 a pé da generalidade dos peregrinos que viajam até Fátima. por outro. a prática da peregrinação a pé é apresentada como um meio para solicitar alguma coisa à Senhora de Fátima. também católica. em segundo. que a redução dos motivos envolvidos nas peregrinações a pé a Fátima à teologia católica impede a efectiva compreensão das crenças e práticas dos peregrinos. sendo um lugar com grande magnetismo espiritual (Eade. que se expressa vulgarmente numa promessa. tentar-se-á avançar com elementos que contribuam para uma efectiva compreensão do significado da expressão “cada um anda ao ritmo” (que dá o título a este artigo) e consequentemente enunciar as estratégias individuais que cada peregrino encontra para chegar até Fátima com o menor sofrimento possível. apologético. 2 3 Deve entender-se por peregrinação uma viagem por devoção a um lugar considerado sagrado. 1991). os peregrinos podem encontrar aquilo que Alan Morinis chama ideais colectivos da cultura (1992-a: 4-5). mostrando que: em primeiro lugar. sendo os peregrinos católicos. então as crenças e práticas dos peregrinos são interpretadas em consonância com o sentido teológico católico do peregrinar. 1 – A PROMESSA DE PEREGRINAÇÃO   Efectivamente.

como me dizia um devoto: “concentro-me e mentalmente defino o que pretendo e o que estou disposto a fazer”. sendo estes uma expressão de uma relação muito pessoal entre o promitente e o ser espiritual a quem o primeiro se dirige”(Dubisch. uma promessa pode ser definida como uma troca entre um crente e a Senhora de Fátima 4 . O marido suspeita que a promessa se deveu ao facto de. nunca revelou a ninguém. será interessante recuperar a referência de Michel Meslin à proveniência latina da palavra voto que provém do latim votum e que “consistia na promessa de uma oferenda que se fazia a uma divindade. na Grécia. organiza-se em torno de três fases primordiais: uma declaração de compromisso. 2003-a). Este voto é tão pessoal que por vezes só é revelado à família poucos dias antes da partida – um elemento do meu grupo revelou à mulher que tinha feito uma promessa de ir a Fátima. ele continuar a fazer “vida de solteiro”. poucos dias antes da partida – outras vezes nem isso – outra pessoa do meu grupo. nos primeiros anos do casamento. normalmente dentro da própria pessoa. de igual modo. sendo portanto ele quem estabelece o que é simbolicamente equilibrado. nem mesmo ao marido que a acompanha. e de uma forma simples. uma contra-dádiva.   4 Partindo do pressuposto que a promessa é um voto. a promessa está sustentada numa clara racionalidade e.3 Neste contexto. Quando o crente constrói a declaração de compromisso está também a definir as condições da troca. é quase sempre assim que ela é concebida pelos crentes que prometem ir a pé a Fátima. que os votos são feitos dentro da própria pessoa. 1995: 89). com a condição de o homem obter dela um favor particular. o motivo da promessa. Só se o desejo se realizava é que o homem cumpria o que havia prometido”(1987: 1829). nem a mim. J.1– A declaração íntima de compromisso A declaração de compromisso é a enunciação da troca com a Senhora de Fátima. De facto. 5 Reportando-se às promessas de peregrinação a Tinos. De facto. a autonomia individual está bem presente na construção dos termos da troca. normalmente. que já vai há mais de vinte anos a pé a Fátima. mas é também visível quer na forma como o voto é feito.   1. quer pelo facto de o promitente (aquele que faz o voto) procurar manter sigilo da promessa até receber a graça ou dádiva 5 . Dubisch salienta. Veja-se um exemplo comum: “Se tu (Senhora de Fátima) curares o meu filho eu prometo ir a Fátima a pé”. há 15 anos atrás. uma dádiva. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Como já foi defendido noutro lugar (Pereira.

Mauss. visto que.2 – A troca simbólica Assim. a peregrinação a pé é um agradecimento. perante uma grande aflição promete-se um grande sacrifício pois.  6 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . pois atrai peregrinos dos mais diversos lugares do mundo. os crentes procuram re-equilibrar as suas relações com a Senhora de Fátima. a peregrinação a pé apresenta-se como a última fase deste processo. para em seguida retribuir com a peregrinação a pé. e não como uma dádiva. As marcas mais ou menos perenes no corpo dos peregrinos. 1988: 101). não visa uma recompensa. efectivamente. como uma contra-dádiva. 8  Se  o  critério  for  histórico. Porém. querendo isto dizer que. as pessoas dão-se com aquilo que dão 6 . mas também porque o que é dado nunca se separa de quem o deu. temos de considerar as peregrinações a pé. como é referido pelos crentes).  e  seguindo  a  tipologia  de  Edith  e  Victor  Turner  (1978). Por conseguinte. pelo contrário. Portanto. ou seja. disseram-me que eram católicos. seja ela escatológica ou terrena. as referências mais ou menos assíduas de que foi a Senhora de Fátima que salvou o filho ilustram bem que. como refere M. a comunhão e a aliança que elas estabelecem são relativamente indissolúveis”(Mauss. nesta situação de troca. Esta citação ilustra bem o sentido maussiano da dádiva. a peregrinação a Fátima situase na categoria internacional. a utilização do critério de filiação religiosa apresenta acentuadas fragilidades. como me dizia uma peregrina. “[as coisas trocadas] não estão nunca completamente desligadas dos seus agentes de troca. Esta filiação religiosa poder-se-ia apresentar como um critério mais interessante do que outros apresentados por outros autores como o geográfico 7 ou o histórico 8 .4 1.     2 – O CATOLICISMO E AS PEREGRINAÇÕES A PÉ  Todos os peregrinos com quem falei. 7 Atendendo às classificações de Jackowski (1987) e Victor Turner (1973). é o pagamento de algo que já foi recebido. o promitente espera pela dádiva da Senhora de Fátima (ou pela graça. não apenas porque uma dádiva implica uma contra-dádiva. “só se promete ir a Fátima a pé quando é uma aflição muito grande.  as  peregrinações a Fátima são modernas. porque custa muito ir até lá a pé”. através de uma troca simbolicamente equilibrada. depois da referida declaração de compromisso.

na realização de promessas o padre raramente é consultado e mesmo quando é consultado a sua opinião não é muito valorizada pelos promitentes (Sanchis. as peregrinações a pé a Fátima não satisfazem estas importantes directrizes daquilo que. como oferecimento a Deus. Rosso define algumas orientações para aquilo que se poderia chamar uma pastoral da peregrinação.1 – peregrinação como fenómeno liminóide   De facto. como refere P. 10 A Igreja Católica tenta utilizar estratégias que lhe permitam evangelizar as peregrinações quer durante o caminho. Pereira. normalmente. 9 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .     3 – A PEREGRINAÇÃO COMO FENÓMENO LIMINÓIDE E AS PRÁTICAS  INDIVIDUAIS NAS PEREGRINAÇÕES A PÉ A FÁTIMA     3. através da formação de guias do Santuário (cf. mas deve ser de tipo festivo”(1995: 1048). Contudo. entrando ativamente nas suas preocupações e na sua ação”(1995: 1048-1049). estando exposta na sua obra Image and Pilgrimage in Christian Culture. em que. a concepção católica da peregrinação a pé. Como se pôde notar ao longo do trabalho. 2003: 120-122) quer no santuário procurando fazer prevalecer o seu discurso na arena de discurso (Eade. e que a mesma prática. apresenta esta como uma “imitação da vida”. “a peregrinação não deve representar acréscimo de obrigações (pagar dívidas ou ‘comprar’ facilidades diante de Deus). tal não significa que as suas crenças e as suas práticas estejam em consonância com aquilo que é defendido pela teologia católica. apesar das dificuldades se pode chegar a um lugar mais sagrado que é o Céu. pelo menos na actualidade. “não pode haver peregrinação sem a celebração da eucaristia”(1995: 1048). “vai-se a Maria para chegar melhor e mais facilmente a Deus”(1995: 1046). Sanchis. Bastará tão-só recordar que as peregrinações a pé são uma relação que os crentes estabelecem com a Senhora de Fátima e não com Deus. ainda que os peregrinos que caminham até Fátima se autodefinam como católicos. salientando-se as seguintes: “A peregrinação deve orientar para o sentido de corresponder ao oferecimento que Deus nos faz da sua misericórdia e do seu amor”(1995: 1048). como privilegiar do despojamento que seria uma aproximação a Deus. ou como uma penitência (libertação de pecados) 9 . a peregrinação deve promover a “participação na vida da igreja. decorre de uma promessa nos termos anteriormente descritos 10 . a mais relevante teoria sobre as peregrinações deve-se a Edith e Victor Turner.5 De uma forma simples. Contudo. 1991: 2) evidente no Santuário (cf. 1992: 51-52). deve ser uma peregrinação cristã. 2003: 168-171). E tanto assim é que são diversas as actuações da igreja para orientar ou converter essas práticas que se afastam do ideal de peregrinação cristã. Estes autores recuperam alguns pressupostos anteriormente defendidos quer por Van O autor católico S. Pereira.

com particular ênfase para o conceito de fenómenos liminares que apresentam uma junção de submissão. homogeneidade e camaradagem. os peregrinos vão adquirir uma homogeneidade de status caracterizada de uma forma detalhada pelos autores: “simplicidade de vestes e comportamento. indiferenciação. que muda com o tempo contra o estático que representa a estrutura. mudança de um centro mundano para uma periferia sagrada que de repente se torna transitoriamente central para o indivíduo. a peregrinação 14 é um acto voluntário.6 Gennep 11 quer pelo próprio V. 15 Esta caracteriza-se pela igualdade.estrutura e anti-estrutura. pois apesar de ter características semelhantes aos ritos de iniciação das sociedades tribais 13 . 11 12 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Turner. com a peregrinação a Meca. Gennep. Não é muito frequente encontrarem-se peregrinos que fazem toda a peregrinação a pé sozinhos.2 – Da ilusória communitas às práticas individuais     Contudo. reflexão sobre o significado dos valores básicos religiosos e culturais. ‘communitas’. penitências.   3. santidade. 14 Os Turner salvaguardam a excepção do Islão. Petrópolis: Editora Vozes. a individualidade posta contra o meio institucionalizado. emersão da pessoa integral na multiplicidade da persona. a peregrinação apresentase como um fenómeno liminóide. Turner 12 . despojamento. realização ritualizada de correspondências entre paradigmas religiosos e experiências humanas partilhadas. pois normalmente os futuros peregrinos procuram um grupo para fazer a viagem. Victor (1974) O Processo Ritual . o próprio movimento. homogeneidade. os dados etnográficos não confirmam que as peregrinações a pé a Fátima possam ser consideradas como um fenómeno liminóide. Petrópolis: Editora Vozes. um axis mundi da fé. Assim. Deste modo. para os Turner. 13 Designação dos próprios autores. etc”(1978: 34)”. um símbolo da ‘communitas’. O objectivo da viagem em grupo decorre do facto de esta se constituir como uma estratégia mais eficaz para que o peregrino alcance o seu objectivo. 1974). Arnold Van (1978 [1908]) Os Ritos de Passagem. emergindo o individualismo de uma forma bem mais efectiva do que a ténue. libertando-se das estruturas mundanas. anomia (Turner. Este facto pode transmitir a ilusão da communitas. todavia a viagem em grupo não decorre de um eventual interesse dos peregrinos em partilhar com outros os valores espirituais da peregrinação. fortuita e por vezes ilusória communitas 15 .

ou seja. Note-se que depois deste momento a necessidade que cada peregrino tem do grupo é bem menor. Ainda que existam momentos de agregação dos peregrinos no seu grupo. sendo quase sempre um dos primeiros a chegar ao local de pernoita. independentemente daquilo que comesse. ele ia avançando. cada grupo vai-se desmembrando ao longo do dia. Ainda no meu grupo pude testemunhar outro exemplo da ilusão da communitas. Encontrei peregrinos que por fragilidades resultantes de esforço tão continuado (dores intensas num tornozelo ou num joelho) foram ficando para trás cada vez mais distantes do seu grupo. ele fazia a peregrinação com uma certa tranquilidade. por Em grupos coordenados por guias do santuário não é raro existirem conflitos decorrentes do interesse em cada um chegar o mais rapidamente possível ao fim e o interesse do guia do Santuário que é manter grupo todo junto. particularmente no fim da tarde. Ela ia ficando parada em diversos postos da Cruz Vermelha. e vai socializando os peregrinos neófitos como eu. como o almoço e particularmente a pernoita. sendo quase sempre uma das últimas a chegar ao local de pernoita. No meu grupo viajavam um irmão e uma irmã. aumentando de frequência com o passar dos dias de caminhada. Desde a primeira refeição que as pessoas que já tinham feito mais vezes a peregrinação sugeriram que as refeições de todo o grupo seriam pagas por uma pessoa. desde o primeiro dia. Ela desde o primeiro dia que apresentava imensas dificuldades. Da desocultação da ilusão da communitas emergem práticas individuais claramente ilustradas na expressão que dá o título a esta comunicação – “cada um anda ao seu ritmo” 16 . até que na última refeição do último dia. e especialmente já mais próximo de Fátima. Efectivamente esta locução foi-me repetida. 17 Deve notar-se que frequentemente os grupos procuram agregar os seus membros para entrarem em conjunto no Santuário.7 pague a sua promessa. A partir do momento em que se inicia a peregrinação podem-se construir novas estruturas relacionais que podem decorrer. cada um pagava a mesma quantia. constituindo um dos primeiros registos no meu diário de campo. Pude ver. Assim. diversos peregrinos a caminharem sozinhos 17 . passaram a ser manifestos e cada peregrino pagou a sua própria refeição. Mas desde a primeira situação que os conflitos foram ficando latentes. chegue a Fátima. 16 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . diversas vezes. que em seguida dividia o total por todos os elementos. que rapidamente vão assimilando este ideal. Claro que estas marcas de individualismo concorrem para infirmar a homogeneidade de status defendida pelos Turner.

na roupa que.8 exemplo. durmam pouco e em más condições. e comam. Cada vez mais os grupos aumentam o seu investimento na logística da viagem. conhecem melhor o caminho e podem gerir melhor o esforço acentuado que. quase sempre. Por outro lado. sendo bastante visível a diferenciação económica que permite. recorrendo aos diversos meios que tem ao seu alcance. por vezes emergem critérios sexuais (pessoas do mesmo sexo partilham o mesmo quarto e a mesma cama). longe de indiciar simplicidade. das bolhas que podem surgir nos pés e que condicionam profundamente o andar ou de uma indisposição ou ainda das consequências de uma queda. que aqueles que têm maior capacidade económica possam dormir numa cama mais cómoda ou comer comida de melhor qualidade num restaurante mais tranquilo. na acomodação dos corpos durante a pernoita onde. as peregrinações a pé a Fátima na actualidade tendem a ser cada vez menos incertas e cada vez mais seguras. procurando reduzir o potencial sofrimento e a incerteza resultante de uma viagem deste tipo. pelo afastamento de casa e da família. outras vezes critérios de aliança (duas pessoas casadas partilham um só quarto e uma só cama). codifica diferenças de estatuto sócio-económico. Porém. normalmente exige uma peregrinação deste tipo. recorrentemente. o mais provável é que andem cerca de 200 quilómetros. visível. é interessante notar que cada peregrino. estradas nacionais com muito trânsito e com elevado perigo19 . se tomarmos como exemplo peregrinos que partem do Porto até Fátima. Atentem-se. No entanto. e ao longo de cinco dias percorram. divididos em etapas de 40 quilómetros por dia. na referida locução.             sofrimento 3. “cada um andar ao seu ritmo”. por outro. por exemplo. mas expressando-se de diversas outras formas. vai procurar reduzir o mais possível o potencial sofrimento. desde logo. por um lado. Seria desta forma que o equilíbrio simbólico decorrente da promessa seria alcançado. 18 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . comida de qualidade duvidosa. do maior ou menor cansaço. a promessa que os peregrinos fizeram foi de grande sacrifício e este expressa-se num quadro geral que. 19 Ao contrário das peregrinações cristãs que se caracterizam pela insegurança. aqueles que detêm um capital de experiência de peregrinações anteriores. sendo um dos exemplos disso mesmo o seguro de vida realizado por um grupo para todos os seus membros (mais de 300 peregrinos).3 – Da promessa de grande sacrifício e à procura de redução do   De facto. pode também notar-se a existência de um prolongamento das estruturas sociais anteriores à peregrinação 18 . Uma boa parte dos peregrinos procura programar com detalhe a viagem.

23 ou mesmo injectáveis de substâncias também desconhecidas. Um crente propôs-se acrescentar dureza à já dura viagem de ir a pé a Fátima: prometeu ir descalço. No entanto. apenas andam com o guarda-chuva quando chove.9 essencialmente reservar com antecedência o lugar de pernoita. que serviam para se fazer entender com os membros do seu grupo e com as outras pessoas com as quais se cruzava. este crente encontrou outras formas de comunicação. num nos dias da peregrinação um massagista de beira de estrada deu-lhe uma pastilha que lhe permitiu caminhar durante todo o resto do dia sem dores. escrita e gestual. Por exemplo. três casos concretos em que emergem singulares estratégias individuais de redução do sofrimento. e que eram suficientes para cortejar elementos femininos do seu grupo. o carro permite que os peregrinos possam andar apenas com aquilo que precisam em cada momento. quer daquilo que está disposto a fazer. diversos peregrinos recorrem a medicamentos para realizar com menos custo a peregrinação. calçadas umas por cima das outras. De facto. caminhou parte da viagem com fortes dores num joelho. seja em pensões ou em casas particulares. Por fim. 2003: 134-135. Por fim. apenas andam com o casaco quando têm frio ou apenas andam com a garrafa de água quando têm sede 20 21 . mais detalhes em Pereira. 23 Um elemento do meu grupo. para além de não transportarem o saco com as suas pertenças. 22 Esta opção garantiu algum conforto ao próprio investigador. este sofrimento era atenuado pelo facto de ele usar diversos pares de meias. Contudo. de forma breve. O jovem português que veio de Inglaterra para caminhar a pé até Fátima. Isto significa que. Um dos aspectos mais relevantes na redução do sofrimento é o chamado carro de apoio. Alguns peregrinos caminham durante a noite. Sendo normalmente conduzido por um familiar de um dos elementos do grupo. pois as temperaturas estão mais amenas. no fim da peregrinação teve recorrer ao hospital para retirar líquido de um joelho. No dia seguinte as dores voltaram. pode ir desde o aproveitamento do capital de experiência de peregrinos que já fizeram muitas peregrinações e acolher a inócua sugestão para usar pensos higiénicos de tamanho grande dentro das sapatilhas 22 ou pode-se aproximar de algo que poderíamos chamar doping. prometeu que faria o percurso sem falar. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . pode valer a pena relatar. A diversidade das estratégias para reduzir o sofrimento varia em função quer das condições que cada um tem ao dispôr. desde um vulgar analgésico até pastilhas desconhecidas que ocultam intensas dores durante algumas horas. procurando assim evitar que o calor se alie à estrada como mais um obstáculo. Contudo. uma crente 20 21 Cf. que após se romperem eram sucessivamente substituídas por outras.

Ensaio sobre a Dádiva. and Politics at a Greek Island Shrine.10 prometeu ir a pé de Vila Nova de Gaia até Fátima. MAUSS. 1988 [1950]. come em grupo. 1991. p. Michel. GENNEP. Marcel.). da forma menos penosa possível. a peregrina fazia cerca de 20 quilómetros. 1-29. à frágil e pontual communitas. In a Different Place . pagar a sua contra-dádiva: chegar a Fátima. “Introduction” EADE. nº 33. John e SALNOW. Portanto. 422-429. Michael J.     CONCLUSÃO   O peregrino. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . (ed. P. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS   DUBISCH. não caminha para Deus. A. JACKOWSKI. MESLIN.).. Diccionario de las Religiones. pp. o cumprimento desta promessa foi feito em prestações. “Votum”. 1978 [1908]. sendo depois transportada de carro pelo marido de volta até casa. Petrópolis: Editora Vozes. “Geography of pilgrimage in Poland” in The National Geographic Journal of India.Pilgrimage. (dir. Todavia. 1829. 1987. mas que “anda ao seu ritmo” para. Contesting the Sacred: The Anthropology of Christian Pilgrimage. mas que só anulada no encontro com a Senhora de Fátima. 1987. sobrepõem-se os interesses do peregrino que parte em grupo. POUPARD. London: Routledge. Em cada Domingo. pp. No Domingo seguinte. Lisboa: Edições 70. EADE. 1995. Michael J.. Os Ritos de Passagem. John e SALNOW. de filiação católica. chegar a Fátima. dorme em grupo. Quando o promitente se metamorfoseia em peregrino transporta consigo não apenas o cansaço mas também o ónus de uma dívida que cada passo irá fazer diminuir. Barcelona: Editorial Herder. Gender. Princeton: University Press. partia do sítio onde tinha parado anteriormente e percorria mais 20 quilómetros até. não caminha como penitência para se libertar de pecados cometidos. deste modo. Jill. Arnold Van.

Alan. Pedro. Stefano e MEO. Dicionário de Mariologia. Sacred Journeys . 1978. S. Alan (ed.as romarias portuguesas. Petrópolis: Editora Vozes. 43 (fascs. TURNER. pp. SANCHIS. Pierre. 12. PEREIRA. 2003-b. ROSSO. 2003-a. 1031-1052. promessas e peregrinações: as promessas de peregrinação a pé a Fátima”. 1992. Pedro.). ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Trabalhos de Antropologia e Etnologia. “Peregrinações”.The Anthropology of Pilgrimage. Salvatore (dir. Oxford: Basil Blackwell. 1-28. History of Religions. PEREIRA. Edith. Lisboa: Piaget. Image and Pilgrimage in Christian Culture Anthropological Perspectives. 3-4). 1992-a.). TURNER. 2003. O Processo Ritual .. São Paulo: Paulus. DE FIORES. “Introduction: The Territory of the Anthropology of Pilgrimage”. Victor. Porto. MORINIS.estrutura e anti-estrutura. 1995. Vol. “The center out there: Pilgrim’s goal”. TURNER. London: Greenwood Press. 1973. Victor e TURNER. Lisboa: Dom Quixote. 191-230. Victor. “Doenças. Arraial: Festa de um Povo . 1974.11 MORINIS. Peregrinos – Um estudo antropológico das peregrinações a pé a Fátima. pp. pp.

a cegueira ficou objectificada como uma exterioridade da norma biomédica: um topos de desvio corporal onde o horizonte de restituição da normalidade está habitualmente ausente. Palavras chave: cegueira. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . pretendo aqui convocar algumas questões teóricas que se erigiram particularmente significativas à medida que fui sendo confrontado com os limites postos às formas convencionais de apreender a experiência nas ciências sociais. Num primeiro momento. há anos que venho realizando investigação em Portugal sobre questões relacionadas com o tema da deficiência.A Cegueira como Transgressão: dos corpos marcados aos corpos que marcam Bruno Sena Martins Faculdade de Economia. desde então. Partindo do meu itinerário etnográfico. deparei-me com dimensões da experiência humana onde a centralidade das emoções. Não obstante. importa denotar como as pessoas cegas estão sujeitas a fortíssimas condições de opressão social e estigmatização cultural. corpo. Respostas alojadas numa abordagem reabilitacional. experiência incorporada.com Com propósito central de compreender a complexa relação entre as representações culturais da cegueira e as vidas daqueles que a conhecem na carne. constrangendo. deficiência. enquanto referente. os movimentos normalizantes da medicina não cessaram de informar. centrada no indivíduo. a reflexão de Colin Barnes (et al. numa espécie de fracasso coreografado. Tentando inquirir o lugar díspar que o sofrimento ocupa.. ostensivamente negligente ao imperativo de transformações sociais mais amplas. 1999: 60): “o efeito da medicalização dos problemas sociais é a sua despolitização” (minha tradução). no achado parentesco com outras condições físicas e mentais. nas histórias de vida das pessoas cegas e nos valores dominantes acerca da cegueira. Universidade de Coimbra bsenamartins@gmail. respostas que vêm corroborando vivamente. do corpo e da imaginação se foi gradualmente insinuando. Estamos perante uma moldura de inteligibilidade social que muito deve ao modo como a modernidade reinventou a exclusão das pessoas cegas através do idioma da biomedicina. as respostas sociais que se vieram a dirigir às pessoas identificadas com a deficiência. Sob o conceito de deficiência.

barreiras arquitectónicas e comunicacionais. Ao centrar-me na cegueira. Estamos. Nas representações ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . perante uma “lógica de classificação” que tem operada como fiel pajem de uma “monocultura da naturalização das diferenças” (ibidem). Isto é tão mais problemático e perturbante quando sabemos que se conferidas as condições adequadas. inspirados pela agitação social do final da década anterior. a “experiência de deficiência” que elegi para recolher histórias de vida e para acompanhar vivências quotidianas e associativas. pude partir de uma condição que sintetiza de modo flagrante os valores incapacitantes com que a sociedade hegemonicamente se dirige para a experiência daqueles a que aprendemos a chamar deficientes. produtora de um estreitamento das vozes avalizadas e das práticas sociais pensáveis. insuficiência ou inadequação do apoio no sistema regular de educação. A própria emergência histórica do conceito de deficiência. 2002). Este mesmo estado de coisas começou a ser denunciado no início dos anos (19)70 quando os movimentos de pessoas com deficiência. Entendo que o elemento mais resistente na marginalização das pessoas com deficiência reside no modo como este processo social de exclusão se articula com o fatalismo dos valores culturais dominantes que encarceram a experiência das pessoas com deficiência nas ideia de tragédia e incapacidade. ausência. No que à deficiência diz respeito. obstáculos no acesso aos transportes. A situação social das pessoas com deficiência.2 Consequentemente. as nossas sociedades estão estruturadas para a integração social daqueles que Erving Goffman chamou de “heróis de adaptação” (Goffman 1990:37). pois. o sacro caminho para a integração social ― à luz dessoutra abordagem reabilitacional ― ganhou a consistência de uma miragem para a esmagadora maioria das pessoas com deficiência. apenas uma reduzida percentagem de pessoas com deficiência ficaria impedida de participar na vida económica e social. denunciaram um sistema discriminatório tenazmente vigiado por: valores e atitudes subalternizantes. O facto é que até este dia as pessoas com deficiência encontram na maioria das sociedades um quadro em que a desigualdade de oportunidades caminha de par em par com forte discriminação institucional e vigorosa estigmatização cultural. instiga de sobremaneira a uma “epistemologia das ausências”. marcada por exclusões e silenciamentos. critérios excludentes para a educação superior e para o emprego. etc. surge como óbvio produto de uma moderna “razão metonímica” (Santos.

Mas o que eu pretendo enfatizar é o modo como esta enunciação.3 culturais hegemónicas da cegueira esta condição está fortemente está fortemente cingida pelos conceitos de tragédia. a súbita cegueira de toda uma população emerge como uma riquíssima metáfora para simbolizar a desgraça humana. trocadas que foram pela imensidão de significados e ecos simbólicos que a história ocidental ligou à experiência de quem não vê. Recolho de Michael Oliver (1990) a “narrativa da tragédia pessoal”. viver num mundo onde se tenha acabado a esperança" (Saramago 1995: 204). numa tão sonante aparição mediática da cegueira. Charlie. o filme “Scent of a woman” . grosso modo. Estes mesmos valores estão presentes no “Ensaio sobre a Cegueira”. Neste romance. Podemos evocar. por exemplo. clamando a certa altura: ― Vá para a frente com a sua vida! ― Ao que Frank responde: ― Que vida?! Eu não tenho vida! Eu estou aqui na escuridão! Será que não percebes. Como o pude atestar nalgumas experiências de cegueira subitamente infligida. Significados que estão brilhantemente resumidos na voz de uma das personagens de Saramago: “a cegueira também é isto. de José Saramago. Construções que. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Uma tal conceptualização da cegueira está bem presente nos nossos artefactos culturais. onde Al Pacino desempenha o papel de Frank Slade. onde as narrativas e reflexões das pessoas cegas se encontram subsumidas pelas construções dominantes. Na verdade. O diálogo central do filme ocorre quando Frank Slade é surpreendido preparando o seu suicídio. a ignorância e a alienação. largamente reflecte os termos pelos quais esta condição é socialmente entendida: uma desgraça que assola o valor da própria vida. no “Ensaio sobre a Cegueira” as experiências das pessoas cegas estão ironicamente ausentes. minha ênfase). conceito central que mobilizo para explorar como as vidas e aspirações das pessoas com deficiência continuamente debatem com préconcepções fatalistas acerca da desgraça e do infortúnio. É esta mesma substituição que acontece na vida social. desgraça e incapacidade. a resposta gritada por Al Pacino pode obviamente expressar o sofrimento e dissolução sentidos por alguém que cegou recentemente num acidente. reiteram uma “narrativa da tragédia pessoal” enquanto gramática sócio-cultural na apreensão da experiência da deficiência. o rapaz que o acompanhou numa viagem a Boston. eu estou na escuridão! (minha tradução. procura detê-lo. um militar que ficou na reserva na sequência pelo rebentamento acidental de uma granada que o deixou cego.

que transgride as nossas referências na existência. não totalmente apreensível na sua relação com elementos sociais. as suas capacidades. eminentemente corporal. neste texto. este texto prenha da preocupação de que a desmobilização da “razão metonímica” (Santos 2002) tenha em conta outras densidades da experiência que poderiam ficar de fora de um pensamento contra-hegemónico. Uma perspectiva crítica nas nossas sociedades. Assim entendida. A angústia da transgressão corporal refere-se à vulnerabilidade na existência dada por um corpo que nos falha. Se. De facto. Refiro-me a experiências de sofrimento e privação mais directamente associadas ao facto corporal da cegueira. ou seja. e resistência para superar os muitos obstáculos postos à realização pessoal. eu chamo angústia da transgressão corporal. experiências de sofrimento. a assentar numa oposicionalidade estreita. que. os mais relevantes dados sociológicos derivam da identificação de perspectivas positivas e capacitantes sobre a cegueira. o corpo vivido e as emoções adquirem estatuto nobre ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . desafiar o modo como a razão metonímica se abateu sobre as pessoas com deficiência é também atentar em “racionalidades” embutidas nos corpos. nos sofrimentos ontológicos e na imaginação sensorial. contra sedimentada negligência. desde cedo emergiram evidentes. quero argumentar um tal enfoque nos poderá levar a desconsiderar outras dimensões da experiência. tanto como do reconhecimento dos valores fatalistas que se abatem sobre as pessoas com deficiência. No entanto. como referentes capitais. Por isso. confronta-nos com preciosas elaborações sócio-políticas capazes de reverter a pesada marginalização de que as pessoas com deficiência vêm sendo alvo. potencialidades. as nossas referências no modo de ser/estar-no-mundo. como mostrámos. sofrimento e ansiedade existencial onde. que amplamente fracassamos em apreender pelo crivo das construções culturais e das condições de opressão social. a apreensão das vidas e pensares das pessoas com deficiência marcadamente instrui no apagamento dos fatalismos trágicos. vontade de viver. informada pelas vozes das pessoas com deficiência. A esta dimensão do sofrimento pessoal. corre o risco de reproduzir o cânone da razão moderna: o velho espectro da reprodução noutros termos do que se procura superar. na investigação que venho realizando entre as pessoas cegas.4 Em cintilante contraste com os valores dominantes. leituras positivas da cegueira. a angústia da transgressão corporal concita-nos a reconhecer dimensões de dor. eminentemente fenomenológicas.

Assim investidos. Tal apologia constitui uma sensibilidade analítica recentemente surgida nas ciências sociais. Procurando seguir estas questões achei-me na esteira apologética da experiência incorporada enquanto relevante dimensão da experiência. Em segundo lugar. tradicionalmente pouco à vontade com tais campos da experiência humana. Em primeiro lugar. Os corpos sentem dor. Esta abordagem distancia-se. desde logo. uma perda. conforme ficou patente em muitas histórias de vida e no encontro com algumas experiências. Mas esta evasão ao idealismo não de oferece a uma reinstauração da narrativa da ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . do idealismo passível de ser sugerido por uma abordagem que procura explorar a cegueira e as suas implicações como correlato de condições sócio-históricas. nada disto pode ser desmobilizado como mera representação.5 nas reflexões antropológicas e sociológicas Na investigação que desenvolvi entre as pessoas cegas a centralidade da angústia da transgressão corporal emergiu de ― e permitiu apreender ― duas densidades fenomenológicas diferentes. De facto. mas são também condição da nossa existência no mundo e na cultura. e. sofrem doença e violência. pela importância que a visão detém para quem dela pode fazer uso a sua perda ser recebida como uma cataclismo onde o significado da cegueira e o significado da vida não raro dançam juntos. minha tradução). quando ele enuncia: “acreditar que as questões da representação são as únicas legítimas ou cientificamente interessantes é adoptar uma posição de idealismo em relação ao corpo” (1992: 41. a dar eco a Bryan Turner. gradual ou súbita. retornamos à angústia da transgressão corporal. de visão. É através dos nossos corpos que ganhamos acesso ao mundo e aos outros. nalgum momento das suas vidas. a angústia da transgressão corporal enceta diálogo com as ansiedades existenciais e corporais fundadas no modo como a cegueira é adivinhada na perspectiva de “corpos que vêem”. Obrigo-me. onde a noção de tragédia amiúde encontra guarida. como Judith Butler (1993: xi) afirma. Explorar o carácter incorporado da experiência implica respigar as consequências deste singelo facto: os nossos corpos ― pois de um vos escrevo ― não são apenas objectificados com significados culturais. Na primeira dimensão que acima enunciei somos convocados a reconhecer as experiências de sofrimento que podem estar fenomenologicamente associadas à cegueira. prazer. essa sensibilidade analítica recolhe da experiência de pessoas que confrontam. pois. ou confrontaram.

portanto. nem tão pouco um confronto com as coisas que se tornaram impossíveis de fazer. Não te preocupes. Uma inevitabilidade que soube aceitar e que já havia visitado o seu pai e a sua avó: “Pedir que não me anoiteçam os meus olhos seria uma loucura. aí se conta como no banco de um jardim. não há um mundo empobrecido naquilo que nele se pode apreender. nem a submissão a uma imperativa metamorfose no modus vivendi. Jorge Luís Borges evoca o encontro sonhado de si consigo mesmo. Numa curiosa fábula. Assim é. Verás a cor amarela e sombra e luzes. longe disso. directa ou indirectamente. A cegueira gradual não é coisa trágica. numa primeira instância. como o autor reitera noutro lugar: ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Não há. É como um lento entardecer de Verão. a possibilidade de antecipar a cegueira e a mansidão da sua chegada assomam nele como factores que fazem com que um tal evento não se assuma como algo de trágico. à cegueira que lhe sobreveio lentamente até lhe roubar a visão aos 55 anos. Um encontro dos diferentes tempos de uma vida em que profecias e memórias se cruzam. e onde a cegueira é tranquilamente revelada pela voz do ancião: “Quando atingires a minha idade terás perdido quase por completo a vista. Na verdade. Em segundo lugar. e na percepção das facilidades que a visão permite na apreensão de elementos da realidade e na execução de algumas tarefas. Evoco aqui a pena de Jorge Luis Borges pelo que a sua experiência tem de congruente com muitas histórias de que me tornei próximo. através de um lento anoitecer de muitos anos. justas ou sábias” (Borges 1998a: 394). É óbvio que as pessoas que já nasceram cegas têm uma noção do lapso que as separa de quem vê. tomou lugar o diálogo mágico de um Borges septuagenário com o seu jovem predecessor. junto ao rio. um lapso que é actualizado quotidianamente na comparação com os outros. a experiência de uma ruptura fenomenológica. não há um constrangimento em relação aos modos de realizar.” (Borges 1998b: 14). sei de milhares de pessoas que vêm e que não são particularmente felizes. como acontece com algumas patologias degenerativas. Apesar de Borges ter visto durante grande parte da sua vida. os sofrimentos mais directamente associados à dimensão física da cegueira estão ausentes. porque na vida de pessoas que nascerem cegas não existe uma experiência de perda. em muitas histórias de vida com que tomei contacto. O escritor alude em vários momentos da sua obra.6 tragédia pessoal. a experiência de ruptura fenomenológica inexiste igualmente em muitas biografias em que a cegueira surge.

Portanto. a assunção de um conjunto de experiências descritas pela ideia de angústia da transgressão corporal pretende conferir espaço de enunciação a determinadas dimensões do sofrimento pessoal dos sujeitos. Na investigação que venho realizando essa ponderação tem permitido apreender e valorizar o modo como os indivíduos suportam. Não sendo possível abraçar generalizações que aplanem o modo particular como os eventos são acolhidos pelos sujeitos. O que resulta irónico é perceber como o encontrado alento para viver em novos termos frequentemente se tem de confrontar com os valores fatalistas que visitam a experiência social das pessoas cegas. um lento crepúsculo que durou mais de meio século (Borges. 1998c: 289). estamos longe de sancionar a naturalização hegemónica da incapacidade e do infortúnio. mas no meu esse lento crepúsculo começou (essa lenta perda de vista) quando comecei a ver. Prolongou-se desde 1899 sem momentos dramáticos. O que este cuidado analítico de facto nos concede é a densidade de experiências que são a um tempo emocionais. De facto. e como bem sugere a reflexão de Borges.7 O meu caso não é especialmente dramático. sofrem e lidam com experiências de radical ruptura na sua relação sensorial com o mundo. ao explorar a transgressão implicada por um corpo que “falha” e “rouba” referências no modo de ser no mundo. Portanto. É fundamentalmente nessas histórias que encontramos fortes experiências de angústia que largamente escapam a uma perspectiva informada pelas condições de opressão social. corporais e sociais. Nessa ironia o que assoma como trágico é alguém ter que viver refém de valores que ousou superar. é nessas histórias fortemente marcadas por dolorosos períodos de luto apostos à experiência da cegueira. nesse sentido. É dramático o caso dos que perdem bruscamente a vista: trata-se de uma fulminação. de um eclipse. No entanto. rápida ou inesperada. a alusão a cegueiras congénitas ou lentamente adquiridas mais não pretende do que negar uma qualquer omnipresença biográfica da angústia da transgressão corporal nas vidas da cegueira. e dada a prevalência dos questionamentos políticos e sociais que o tema da deficiência justamente nos instiga. que também nos tornamos familiares com a capacidade dos sujeitos para a reconstrução pessoal: histórias órficas que nos são contadas por pessoas que relatam como morreram e voltaram a nascer. a angústia da transgressão corporal emerge essencialmente nas narrativas de perda de visão súbita. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .

jogara algumas vezes consigo mesmo. na adolescência. ao jogo do E se eu fosse cego. corporeamente informadas. que a tragédia associada à cegueira trafica com o modo como as pessoas usam os seus corpos para ensaiar a cegueira. à sistemática marginalização das vozes das pessoas com deficiência. a exploração de determinadas experiências através da angústia da transgressão corporal visa contornar o perigo atrás identificado. As conclusões advindas de uma tal relação empática são instrutivamente tocadas por José Saramago (1995:15) referindo-se a uma das personagens do Ensaio Sobre a Cegueira: Como toda a gente provavelmente o fez..8 Nesse sentido. que algumas condições tendem a incitar. nesses casos a mais ilustrativa enunciação ― esmagadoramente veiculada como lugar de um país que se fez distante ― fala da morte que um dia se desejou. enquanto evidência sociológica mais cintilante.. Mas. de que a cegueira. e chegara à conclusão. Na pesquisa entre as pessoas cegas isto tornou-se sobretudo manifesto nas narrativas de cegueira subitamente infligida. Alego. pois. ganha acrescida saliência à luz de itinerários marcados por experiências limite. Este poderoso postulado. É nessa persuasão que defendo que os valores hegemónicos associados à cegueira devem aos valores culturais e legados históricos. ao cabo de cinco minutos com os olhos fechados.) ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Como conceito mais vasto. experiências de perda de referentes fenomenológicos onde se torna dramaticamente expresso como a existência carece das fundações dadas pelos corpos. quero enfatizar como a centralidade dada à angústia da transgressão corporal nos permite compreender algo dos valores dominantes associados à cegueira. que vale para mais triviais experiências. (. a angústia da transgressão corporal curva-se à centralidade que experiências corporais detêm no significado da existência e na construção dos referentes pelos quais o mundo adquire sentido. mas também às ansiedades existenciais. Assim a angústia da transgressão acolhe experiências subjectivas de perda e vulnerabilidade corpórea tanto como sustenta que as nossas referências ontológicas são construídas ― e portanto podem ser perdidas ― através dos nossos corpos. o mesmo é dizer. pretende-se que o reconhecimento das condições de opressão social na vida das pessoas cegas. não retire espaço de enunciação às experiências subjectivas de sofrimento corporal. numa perspectiva diferente. sem dúvida alguma uma terrível desgraça.

nalguma medida. que labora para que as concepções hegemónicas da cegueira sejam. 1994). o produto das ansiedades com que ela é empaticamente percebida. Eu estava num campo de férias a trabalhar como voluntário junto da Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal (ACAPO) quando. assim cabe referir autores como Thomas Csordas (1990. não a sua recusa (Lakoff e Mark Johnson 1999: 93. e sensação de alívio: sonhei que tinha ficado cego. e como George Lakoff e Mark Johnson (1999). nós nunca estamos separados ou divorciados da realidade numa primeira instância. Tento. por via de projecções imaginativas em que o próprio corpo é feito um “tubo de ensaio” da cegueira. do quão terrível a ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . à medida que fui contactando mais e mais com pessoas cegas e com as suas experiências de vida. De mencionar trabalhos recentes em que estas abordagens têm conhecido solidificação teórica. isto é. despertei de madrugada perturbado por um terrível pesadelo. que resgatam a importância do corpo e das emoções para o campo das ciências cognitivas: Como criaturas imaginativas incorpóreas. como via para as relações empáticas com outros corpos Quando principiei o trabalho de campo entre as pessoas cegas tomou lugar um interessante evento. O que sempre permitiu a ciência é a nossa a incorporação e não a sua transcendência. a relevância dada à experiência incorporada e ao conhecimento incorporado. e é a nossa imaginação. pois. Apesar de uma funda negligência histórica nas ciências sociais. manifesta naquele sonho. A asserção. durante a primeira noite. e que damos carne aos conceitos através de metáforas e da imaginação. que trouxe para a Antropologia a herança fenomenológica de Maurice Merleau-Ponrty. minha tradução). tem recebido acrescida importância. conceder relevância a esse experimentalismo sensorial que a cegueira evoca nos corpos cuja construção do mundo ─ cosmovisão ou mundividência ─ é eminentemente visual. apesar de singela. não deixa de ser ilustrativa da minha iniciática resposta ansiosa perante o espectro da cegueira. conduznos precisamente ao reconhecimento das projecções imaginativas corpóreas como uma via para a produção de sentido acerca de outras posições estruturais.9 É esta forma de “ser no outro”. de que pensamos embutidos na carne. Esta experiência. sabiamente sustentada pelos autores. Acordei como uma intensa sensação de angústia. gradualmente passei por um apagamento dessa pré-concepção. Desde então.

a visão tende a ser um sentido crucial para quem dele pode fazer uso: na realização de actividades. nós usamos constantemente as projecções imaginativas para aceder às experiências do outro: Uma função central da mente incorporada é a empática. para intensamente imaginarmos ser outra pessoa. Ainda assim esta mais comum das experiências é uma forma de transcendência. ao falar com pessoas sobre o tema da minha pesquisa frequentemente a cegueira suscitava reflexões em termos que reiteradamente expressavam relacionamentos pessoais com o espectro dessa ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . na construção do mundo envolvente... essa transgressão é também conhecida por projecções corpóreas empáticas através das quais a cegueira é “trazida para casa”. Como consequência. vim gradualmente a compreender a importância crucial ocupada pelas ansiedades pessoais na consagração da teoria da tragédia pessoal como a narrativa cultural dominante acerca da cegueira. Deste modo. uma forma de estar no outro (1999: 565. como nos dizem Lakoff e Johnson. Através dela podemos experienciar algo próximo a “sair dos nossos corpos” ─ no entanto. a projecção imaginária da cegueira através de um corpo que “vive visualmente” vai forjar algo das ideias de prisão sensorial e incapacidade. Desde o nascimento nós temos a capacidade para imitar os outros. Não há nada de místico nela. De igual modo. De facto. Defendo que a relevância que a angústia da transgressão corporal assume nas representações da cegueira não é separável da sua congruência com um contexto onde as heranças simbólicas não poderiam ser menos favoráveis e onde as vozes das pessoas com deficiência se encontram silenciadas. ênfase no original). a angústia da transgressão corporal não é apenas algo vivenciado por alguém que fica cego. De facto. A capacidade para a projecção imaginativa é uma faculdade cognitiva vital. Alegar a relevância da angústia da transgressão corporal é sustentar as possibilidades criativas para o significado que resultam da imaginação empática de uma dissolução sensorial e fenomenológica. no sentido inverso. fazendo o que essa pessoa faz. apesar do centrismo visual em que vivemos ter um fortíssimo viés sóciohistórico. O papel desempenhado pelas imaginações ansiosas da cegueira foi-se insinuando ao longo do trabalho empírico: nas histórias que me foram sendo contadas pelas pessoas cegas e na observação das interacções sociais. minha tradução. Vivencialmente é uma forma de “transcendência”.10 cegueira deveria ser. Não obstante. experienciando o que essa pessoa experiencia. é uma capacidade eminentemente corporal.

Jorge Luís. Byron Good e Arthur Kleinman (orgs. GOFFMAN. Bodies That Matter: On the Discursive Limits of Sex. Arthur. O que se produz é. uma identificação empática parcial e errónea. Stigma: Notes on the Management of Spoiled Identity. BORGES. III. CSORDAS. Exploring Disability: a Sociological Introduction. 1990 (1963). Geof e Shakespeare.). Colin. 1999. III. A ruptura existencial que esta empatia sugere e exporta para os significados sociais toma parte na re-produção das representações culturais prevalecentes. Nova Iorque.Cambridge.11 condição. Londres. Thomas. Erving. Jorge Luís. Lisboa. Cambridge. CSORDAS.Obras Completas de Jorge Luis Borges 1975-1985 vol. em termos bem distantes das complexas experiências que as pessoas cegas vivem Referências Bibliográficas BARNES. finalmente. University Press. “acho que preferia matarme”. BUTLER. 1998c. Pain as Human Experience: An Anthropological Perspective. Paul Brodwin. não sendo raras frases como: “não sei conseguem”. e. elas também são mobilizadas como via de acesso à realidade das pessoas com deficiência visual. 18 (1): 5-47. A questão é que uma tal imaginação permite captar algo do eventual impacto de uma súbita perda de visão. Jorge Luís. Embodiment and Experience: The Existential Ground of Culture and Self. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Thomas (org. 1998a.Obras Completas de Jorge Luis Borges 19751985 vol. Lisboa. fracassa em conceber o mundo sem perda de alguém que nasceu cego. BORGES. “Embodiment as a Paradigm for Anthropology”. Ethos. Cambridge.). 1992. University of California Press. Teorema. Teorema. Judith. Routledge. Penguim Books. KLEINMAN. Tom. Berkeley. 1998b. Sete Noites . Estas imaginações projectivas não apenas produzem ansiedades pessoais acerca da cegueira. BORGES.Obras Completas de Jorge Luis Borges 1952-1972 vol II. 1993. “Pain and Resistance: the Delegitimation and Relegitimation of Local Worlds” in Mary-Jo Good. e Mercer. Lisboa. pois. O Livro da Areia . 1990. Polity Press. O Elogio da Sombra . Teorema. fracassa em apreender a adaptação permitida por uma cegueira que caminha gradualmente ao longo dos anos. etc. 1994. mas fracassa em perceber como a vida de alguém se pode vagarosamente reconstruir em novos termos sem a visão.

SARAMAGO. TURNER. 1995. OLIVER. Houndmills. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . “Para uma Sociologia das Ausências e uma Sociologia das Emergências”. SANTOS. José. Regulating Bodies: Essays in Medical Sociology. The Politics of Disablement. The Macmillan Press. Ensaio Sobre a Cegueira. 1992. 63: 237-280. 1999. Boaventura de Sousa. Londres. Basic Books. Lisboa. Routledge. Philosophy in the Flesh: The Embodied Mind and its Challenge to Western Tthought. George e Johnson. Mark. Bryan. Revista Crítica de Ciências Sociais. Nova Iorque. Michael. Círculo de Leitores. 2002.12 LAKOFF. 1990.

turismo 0.pt Este texto analisa as interacções entre os turistas europeus e as garotas de programa na cidade de Natal (Brasil). Turistas e locais participam em complexos jogos de poder. nas quais o turista é sistematicamente apresentado como o predador que apenas procura satisfação sexual e. por outro lado. sem capacidade de autodeterminação sobre o seu corpo e a sua sexualidade. com destaque para o dinheiro. D’Epinay 1991) – mais tardia no caso português (Arroteia 1994) – e. afectos. conduziram à incorporação sucessiva de novos destinos na geografia mundial das rotas turísticas. procura-se mostrar a densa teia de racionalidades que estruturam as práticas destes actores sociais. Palavras-chave: género. a mulher jovem local vista como vítima. por outro. o Estado do Rio Grande do Norte ocupa uma posição consolidada como ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . muito intensa a partir dos anos 60. interesse. Um dos mais recentes é o do Nordeste brasileiro. o corpo.A ilusão da conquista: Sexo. o próprio desenvolvimento do capitalismo na procura e invenção de novos mercados e produtos (Ribeiro e Portela 2002). Tal interpela as imagens “a preto e branco”. sexualidade. Tentando escapar aos discursos vulgares. Nesta vasta região. a performance sexual e as emoções. amor e interesse entre gringos e garotas em Natal (Brasil) Fernando Bessa Ribeiro e Octávio Sacramento Departamento de Economia e Sociologia Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro fbessa@utad. em boa medida impulsionado pela redução dos custos das viagens de avião intercontinentais proporcionada pelos avanços tecnológicos e organizativos no sector dos transportes aéreos (Urry 1990: 44-50).pt riosacra@portugalmail. Introdução A expansão do turismo de massas. Debié 1995. implicando a manipulação de recursos. com a consolidação do Estado-Providência (Santos 1993) nos países europeus centrais (Boissevain 1996.

ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . através da publicitação da 1 Dados disponibilizados pela Secretaria de Turismo do Estado do Rio Grande do Norte. Leheny necessariamente de modo intencional. cabendo aqui um especial realce para a sua capital.000.000 (24. a procura de sexo por parte dos turistas. pelo menos desde os anos 60. Truong 1989. De facto. 1 Deste vasto fluxo turístico passaram a fazer parte indivíduos de classes e grupos sociais até então apenas marginalmente envolvidos. muito em particular no sudeste asiático (Cohen 1982. assente no “papá. Saraceno e Naldini 2003) têm vindo a repercutir-se significativamente na configuração da procura turística. muitos deles solteiros ou transitoriamente sem parceira/o sexual. 92. amiúde. Singly 1993. elas são fortemente determinadas pelas imagens. fazendo com que entre os turistas se assista a uma presença crescente daqueles que escapam ao padrão dito tradicional. Hitchcock et al. depois de Fortaleza e de Salvador. as profundas alterações sociológicas no domínio da família experimentadas pelas sociedades europeias nas últimas décadas (Berry-Brazelton 1989. a cidade de Natal. que parece constituir uma motivação presente em numerosos europeus que visitam o nordeste brasileiro (Piscitelli 2004) e. não escapa a esta mercantilização.2 um dos principais destinos turísticos. Com um crescimento verdadeiramente impressionante nos últimos cinco anos. em particular. contribuindo assim para que o número total de turistas atingisse os 1. com um aumento vertiginoso dos provenientes do estrangeiro (282.2% superior a 2002).84% superior a 2002). impulsionado pelas entidades públicas ligadas à promoção turística no Brasil. cujas deslocações são. mamã e filhos”. Por outro lado. publicidade e consumismo que caracterizam as sociedades modernas (Baudrillard 1981). relacionado com a quantidade e a qualidade da experiência que oferecem. Por outras palavras. Considerando que na economia do turismo as commodities não possuem apenas valor de uso e de troca mas também um “valor-signo”. os voos charters internacionais passaram de cinco em 2002 para 17 por semana em 2004. motivadas por um conjunto de representações e expectativas ancoradas em imagens de erotismo e de acesso fácil à fruição sexual. Não sendo um fenómeno desconhecido noutras paragens. de origem operária ou trabalhando em actividades mal remuneradas do comércio e dos serviços. Natal é a cidade com maior número de visitantes estrangeiros no Nordeste brasileiro. Tal é particularmente evidente nos turistas jovens do sexo masculino que afluem ao Nordeste brasileiro. 1993. como os jovens e adultos pertencentes aos meios populares.700.

A designação garotas de programa. 2 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . do género e das emoções que exige uma reflexão sociológica densa e um conhecimento empírico aprofundado.3 imagem da mulata com bunda generosa. encontramos formas muito diversas de relacionamento sexual que se concretizam em diferentes contextos sociais. 2 Tentando escapar aos discursos vulgares. é um termo que no Brasil se aplica a qualquer estrangeiro. em determinados momentos. incluindo aquelas que se fundam no género. procuraremos reflectir sobre as relações sociais que os turistas. racionalidades e interacções que envolvem estes actores sociais. pertinente trabalhar sobre este interpelador campo social. incluindo os que se prendem com o sexo mercantil e o turismo. nas quais o turista é sistematicamente apresentado como o predador que Gringo. por sua vez. turistas e locais envolvem-se em complexos jogos de poder. Hoje em dia trata-se de uma realidade social incontornável e de grande impacto em Natal. Longe de existir apenas um único modo de a fruir. estabelecem com as garotas de programa. quer do ponto de vista económico quer do ponto de vista do imaginário colectivo e das representações dos actores sociais locais e dos turistas que visitam a cidade. Torna-se. Neste exercício é fundamental assumir-se que a sexualidade humana. é nosso objectivo central interpretar a densa teia de motivações. Em concreto. que marcam os intercâmbios entre o Norte e o Sul –. à procriação. não tendo necessariamente uma conotação pejorativa. é usada nos discursos sociais para fazer referência a mulheres que se prostituem ou que são tidas como sexualmente promíscuas (Gaspar 1985). o corpo. como notam Silva e Blanchette (2005). Partindo de perspectivas sócioantropológicas e explorando os elementos etnográficos que recolhemos durante o trabalho de campo realizado no Verão de 2005 na cidade de Natal. conhecidos localmente como gringos. que nos ajudam a desconstruir as imagens monolíticas. implicando a manipulação de recursos. Entre os turistas e as mulheres locais estabelece-se um intrincado jogo de relações sociais em torno da sexualidade. enunciados nomeadamente pelos media e pelo senso comum. suscitando a atenção dos media e das forças políticas do Estado. apesar de estar associada. com destaque para o dinheiro. a performance sexual e as emoções. a compreensão cabal desta teia densa de relações sociais exige que se tomem em consideração outros aspectos. se orienta para a procura doutras satisfações. portanto. Se é certo que não deixa de estar marcada pelas relações de poder entre os de fora e os locais – que nos remete para a problemática das desigualdades.

com numerosas residências e propriedades adquiridas quer por europeus quer por natalenses que aí decidiram fixar residência. Embora muito diferente em termos paisagísticos e a uma escala mais reduzida. com uma faixa de areia interrompendo a vegetação. 4 Por detrás da praia localiza-se a pequena vila de Ponta Negra. Os prédios altos. a praia é dominada pelo “morro do careca”. em troca de remuneração mercantil. pousadas. Mas não só. incluindo o da utilização para satisfação do prazer físico e emocional de outros. Em plena praia posicionam-se pequenos espaços de apoio aos veraneantes. oferecendo esteiras. situam-se precisamente por detrás da primeira linha de praia. Constituindo hoje um espaço-chave na “cidade do prazer” (Lopes Júnior 2000). A presença italiana faz-se notar através dos inúmeros anúncios escritos na língua de Leonardo da Vinci. a mulher jovem local vista como vítima. Vallentyne e Steiner. mulheres ou transgéneros. Trata-se da discussão sobre os limites do direito de cada um dispor do seu próprio corpo. 2000a e 2000b). amplamente discutido pelos filósofos libertários (Van Parijs 1997. realizando obras de ampliação e de melhoramento das habitações. 4 Ao longo dos cerca de dois quilómetros da estreita língua de areia que dá corpo à praia erguem-se hotéis. turismo sexual e sexo mercantil interpelam o princípio do chamado selfownership. melhor dito. situada no extremo sudoeste da cidade. Com o turismo e a expansão da cidade. no calçadão. desprovida de self-ownership sobre o seu corpo e a sua sexualidade.4 apenas procura satisfação sexual e. cultivando as suas terras férteis. a vila está hoje mergulhada num acelerado processo de gentrificação. uma encosta belíssima debruçada sobre o mar. homens. esta articulação entre turistas e sexo mercantil compreende outros aspectos. Durante séculos os seus habitantes viveram praticamente de costas voltadas para a praia. como o tipo de envolvimento emocional e a questão do poder no contexto das relações de género. guarda-sóis e serviço de bar. 3 1. nas esplanadas. por outro lado. nos bares e nas discotecas que gringos e garotas constroem relações sociais nas quais o corpo. os prédios que ficam na encosta da praia fazem lembrar alguns dos piores exercícios Em termos filosóficos. a sexualidade e o dinheiro aparecem como elementos estruturantes. pizzerias e outros negócios ligados ao turismo. aparthotéis. 3 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Um lugar dionisíaco e economicamente dinâmico: a praia de Ponta Negra Um dos principais cenários turísticos de Natal e com maior presença de garotas de programa é a praia de Ponta Negra. nomeadamente identificando ristorantes. É aqui. que dão um ar americanizado à cidade. restaurantes e bares.

com a ocupação de um litoral dunar muito sensível por um sem fim de hotéis e empreendimentos turísticos literalmente em cima do mar. encarregando-se também do seu transporte aos motéis e 5 Avançando pela estrada marginal. 5 Esta praia. directa ou indirectamente. Muitos destes “alternativos” falam hoje com saudade deste tempo em que a praia não estava bordejada pela urbanização avassaladora. as lojas de artesanato. distante da cidade e com acesso precário. construída nos anos 90 do século passado. nesta economia do prazer todas as demais actividades. os bares e as discotecas da avenida marginal. que liga a zona de Ponta Negra ao velho forte construído pelos portugueses no século XVI. vivem das dinâmicas económicas geradas. sempre repletas de trabalhadoras sexuais. um deles afirmou que “onde a civilização chega acaba com tudo”. como o transporte de passageiros em táxis. 6 Quer dizer. ao início da noite. pelas trocas sexuais de carácter mercantil. mais tarde Pipa. fastfood). o desenvolvimento do turismo. entre outros exemplos. os estupefacientes. fruta. os próprios agentes policiais. É assim que temos. A expansão da cidade e. primeiro Pirangi e Cotovelo. actualmente a praia mais cosmopolita do Rio Grande do Norte. que encontravam neste espaço paradisíaco. o comércio e serviços prestados pelas barracas do areal. era nos anos 60 e 70 do século passado um point de “alternativos”: jovens das classes mais privilegiadas de Natal.5 urbanísticos do Algarve e da costa andaluza espanhola. empurrou os alternativos para praias mais distantes. 6 Numa notícia saída no jornal “Tribuna do Norte”. CD e DVD. Relevando o seu sentimento de perda. a venda ambulante dos mais variados produtos (tabaco. Ponta Negra era qualificada como uma “praia de apelos sexuais” (Francisco 2004). ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . os taxistas a colaborar com as garotas. onde se acampava e se faziam fogueiras. da praia como um lugar idílico. sente-se o carácter predador do turismo. quinquilharia. presença obrigatória em todos os catálogos e brochuras de promoção turística editados pelo governo estadual e pelo município local. Todos os actores sociais envolvidos parecem saber com precisão o lugar ocupado nesta divisão social do trabalho do prazer. numa zona de paisagem protegida. em especial. Nesta praia tudo parece girar em torno do sexo mercantil. ao ponto de os habitantes locais até já a terem (re)baptizado com o nome de Puta Negra. transportando-as de suas casas para a praia. roupa. as condições suficientes para experiências sociais mal toleradas pela ordem político-moral dominante. muitos deles politicamente engajados nas lutas estudantis contra a ditadura militar. incluindo aquelas ligadas ao sexo e ao consumo de estupefacientes. De forma recorrente cooperam entre si para dinamizar os consumos por parte dos turistas.

frutas. Ao mesmo tempo disponibilizam a estes contactos de garotas anotados nos seus books – agendas ou pequenos cadernos de registo de contactos telefónicos –. 7 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . as políticas neoliberais empurraram milhões de brasileiros para o campo da economia informal. gelados.8 Durante o dia. CD e DVD. na escolha da parceira. Nada falta para o conforto de um tempo bem passado. todavia. amêndoa de caju. 7 os vendedores ambulantes percorrem a praia sem cessar. são transportados em carrinhos de mão apresentados de uma forma impecável. vendendo de tudo um pouco: roupa. mormente para Recife. durante o período diurno a praia é frequentada não só pelos turistas em busca de sexo mas também por outros tipos. os carrinhos de venda de CD e DVD fazem-se anunciar através de equipamento sonoro simples. Foi uma invenção dos mercadores sertanejos que viajavam desde o sertão nordestino para as cidades do litoral. de conviver com as garotas de programa. alguns com belas pinturas. Os barraqueiros alugam cadeiras e toldos. ora aproveitando para estabelecer novos contactos. bebidas. Além dos taxistas. por vezes. servem bebidas e refeições. com base na aplicação de um auto-rádio alimentado por uma pequena bateria e dois altifalantes de qualidade modesta parecendo quase sempre ligados na sua máxima potência. Marcada pela auto-exclusão quase geral dos natalenses das classes sociais mais privilegiadas. ora continuando a relação social já estabelecida. geralmente marcada por actividade sexual intensa e pelo consumo em grande quantidade de bebidas alcoólicas. os comerciantes informais podem conseguir por mês rendimentos entre dois a três salários mínimos (cerca de 750 a 1000 reais). como por exemplo o comerciante da barraca e algum dos seus empregados. Os produtos mais pesados. Estes são realizados quase sempre por iniciativa das jovens Um dos pratos mais populares é a paçoca: carne seca moída acompanhada de molho vinagrete e feijão. camarão. para aí venderem e comprarem mercadorias. Relevando o engenho dos seus proprietários e um certo sentido de negócio. nomeadamente o “familiar” e o de proveniência interna. não deixando. a mediação entre as garotas e os turistas pode envolver vários outros intervenientes. cremes solares. esta situação revela o papel social decisivo desempenhado actualmente pelas actividades informais no Brasil. Ainda que muito variável. O uso social da praia varia consideravelmente do dia para a noite. Incapazes de gerar emprego formal. muitos turistas aproveitam para recuperar da noite agitada. como as bebidas. num vai-e-vem aparentemente ininterrupto. 8 Não sendo relevante para a presente discussão.6 hotéis para as “transacções” com os turistas. Durante estas longas e fatigantes viagens tinham na “carne-sol” moída no pilão e misturada com farinha o seu principal alimento. crepes. aconselhando-os mesmo. única forma de garantir a sobrevivência e o acesso ao consumo mercantil.

7 nativas. estas discotecas funcionam em regime alternado. quer em posição fixa. a exposição para o turista e a interpelação que se segue é feita de forma mais ou menos subtil: através da postura corporal. Pertencendo ao mesmo proprietário. Aos restaurantes e bares fixos juntam-se cerca de meia dúzia de barracas móveis. como um dos nossos informantes relevou. Por norma. onde também existe animação nocturna. Depois de mais algumas cervejas. aliás. Maranhão. Se bem que exerçam um papel dissuasor da criminalidade. em cada noite podem ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . algumas provenientes de outros Estados brasileiros. extorquindo aos turistas que se deslocam em carros alugados pequenas quantias monetárias em troca do perdão de multas relativas a infracções reais ou imaginárias por eles cometidas. Pará e Amazonas – os mais distantes. estas “[…] aproximações adquirem características de uma paquera […] remetendo a padrões tradicionais de cortejo”. que “é raro pegar na discoteca alguma mulher que não seja de programa”. Pernambuco – os mais próximos –. Ceará. A noite começa invariavelmente por algum bar ou restaurante. montadas ao início da noite em pleno passeio mesmo em frente das duas discotecas da praia. ou talvez para um destino mais afastado. Daí segue-se para as barracas em frente das discotecas acima referidas. Assim que a noite se impõe. não raro com música ao vivo. Segundo o respectivo proprietário. quer circulando em viatura automóvel. da solicitação de um cigarro. Diga-se. o areal esvazia-se em favor do calçadão e dos estabelecimentos de restauração e de diversão alinhados ao longo da avenida que bordeja a praia. em virtude do movimento não justificar outra solução. Turistas e garotas vão chegando. Como nota Piscitelli (2006). a diversão continua sobretudo na discoteca da avenida da praia de serviço nessa noite. caipirinhas ou outras bebidas alcoólicas. outros transportados por táxis que estacionam na avenida. preparados para as corridas em direcção aos motéis ou aos hotéis onde eles se alojam. nomeadamente para a avenida que faz a ligação da praia ao centro da cidade. do sorriso. para onde converge a grande maioria das garotas de programa e dos turistas de Ponta Negra. do olhar. não deixam de ir retirando alguns benefícios desta economia do prazer. marcam também presença agentes da Polícia Militar. Para além destes actores sociais. como é o caso dos visitantes cujos hotéis se localizam na própria avenida da praia ou nas artérias adjacentes. ao mesmo tempo que tentam obter das garotas de programa alguns serviços sexuais gratuitos. como Paraíba. uns a pé. de nacionalidade italiana.

um turista típico no quadro do chamado turismo sexual. sobretudo. quase sempre motivados pelas representações sociais dominantes sobre a sexualidade da “mulher 9 O’Connell-Davidson (1995: 53). funcionários públicos. quando se diz que os turistas que vêm à procura de sexo são indivíduos sexualmente perturbados. Ainda que se encontrem as mais diversas posições de classe. normalmente viajando em grupo (3 a 6 elementos). referindo-se aos turistas ingleses que procuram sexo comercial na Tailândia. existem determinados elementos caracterizadores que sobressaem. É neste espaço que as interacções entre turistas e garotas atingem um nível elevado de erotismo e sedução. adverte que não existe nada de verdadeiramente particular ou distintivo nos seus comportamentos. na sua maioria jovens adultos (entre os 30 e os 40 anos). desejos e sexualidade. profissões. nomeadamente em termos de duração do possível relacionamento. idades. motivações. há uma certa preponderância dos indivíduos das classes populares (trabalhadores fabris) e. aferindo as expectativas de ambos. Buscando aventura. Tratam-se de interacções definidas por um jogo de sedução no qual o discurso. de que resulta a combinação de numerosos consumos sexuais de carácter mercantil. sexo e romance: os gringos Os turistas que frequentam a praia de Ponta Negra à procura de aventuras sexuais evidenciam uma considerável diversidade no que diz respeito aos seus países de origem.8 passar por lá cerca de 300 mulheres à procura de programas com gringos. Podendo prolongar-se por várias horas. dos diversos segmentos das classes médias urbanas (empregados do comércio e dos serviços. homens insatisfeitos com as relações de género nos seus contextos de origem. entre outros aspectos. 9 O seu comportamento deverá ser interpretado sobretudo por referência a condicionalismos de ordem sociológica. 2. com destaque para esta. Não há. perfis de masculinidade e estrato social. os actores envolvidos dão-se a conhecer. de um modo geral. como por vezes se sugere. Embora seja inadequado falar-se de um perfil-tipo de turista sexual. São. portanto. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . os gestos e o uso do corpo desempenham funções importantes. profissionais técnicos). preferências sexuais e recursos financeiros a mobilizar por parte do turista. Temos assim o predomínio de turistas de nacionalidade espanhola e italiana.

Referem-se às brasileiras como mulheres sexualmente “mais quentes e mais afectuosas”. mais conservadoras. especialmente válido para os turistas mais velhos. com 31 anos. também constatada por Piscitelli (2006) entre os turistas que visitam Fortaleza. A maior dificuldade de acesso às mulheres que os turistas gostariam de conquistar nos seus contextos de origem. mais snobes”. solteiro. a procura de recriação dos laços e das vivências masculinas que antecedem a rotina e as responsabilidades da vida adulta (Kruhse-Mountburton 1995). e o relativo constrangimento em conviver com uma feminilidade ocidental que continua a colocar algumas limitações às preferências e valores predominantes da masculinidade são dois elementos centrais a considerar para compreender o fenómeno do turismo sexual (O’Connell-Davidson 1995: 52). como veremos. eventualmente. são muitos os que admitem preferir casar com uma mulher do seu país em detrimento de uma brasileira. “a brasileira é boa para transar. Deste modo. de status ou de apresentação do eu. a italiana é boa para casar”. Alguns deles. classificam-nas como “mais simples”. Em contraponto. por razões que certamente se prendem com aspectos relacionados com a afinidade cultural e. em boa medida amplificadas pelos discursos mediáticos de impacto global e pelas narrativas dos amigos e conhecidos que se envolveram em experiências sexuais com brasileiras em viagens turísticas ao Brasil. ou seja. o turismo parece ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . A estes dois elementos junta-se um terceiro. destacam também que as garotas de programa têm um grande interesse pelo dinheiro. Considerando que não dão tanto valor à aparência do homem como na Europa. técnico administrativo no porto de Nápoles. que elas ligam muito à aparência e à capacidade económica do homem. Como dizia um italiano. num registo de certo modo paradoxal. Os turistas com quem falámos tendem a estabelecer uma diferenciação bastante vincada entre as mulheres brasileiras e as europeias. Apesar desta avaliação desfavorável à mulher europeia. para os grupos de gringos que visitam Ponta Negra. dizem que as europeias são “mais frias. que a dimensão afectiva não esteja presente. mais altivas. com os estereótipos da mulher brasileira como sexualmente libertina e promíscua. sublinhando. seja por motivos económicos.9 brasileira”. sobretudo os italianos. ainda que daqui não se possa afirmar. relacionado com as expectativas de revivalismo de experiências de homossociabilidade da juventude. no sentido de estarem disponíveis para um relacionamento menos atado à fase do enamoramento em favor de uma interacção sexual mais imediata e intensa.

explica porque é que turismo. aventura e fantasia. A sua estadia em Ponta Negra é marcada pelas constantes saídas em grupo para os bares e discotecas à procura das mulheres locais e pelo consumo desregrado de álcool e. a deslocação temporária do turista da sua vida quotidiana. de ruptura face às restrições sociais da vida quotidiana (O’Grady 1981) e de (re)constituição de um espírito de communitas masculina (Turner 1974). O turismo sexual constitui. os turistas que visitam Ponta Negra. parecem não manifestar qualquer tipo de preocupação ou constrangimento pelo facto de serem vistos na companhia de garotas de programa. sentir de novo o poder e o orgulho viril que a vida quotidiana. a diversão e o prazer como forma de ruptura com o quotidiano laboral. de estupefacientes. caracterizado pela liberdade face às normas sociais quotidianas – situação social anti-estrutural –. em virtude da distância que os separa dos seus contextos de origem. “a liminalidade. Santana 1997. assim. não raro. atenuou. essencialmente. que os turistas de Ponta Negra enveredam por um estilo de vida dionisíaco. É precisamente num ambiente de anonimato. de um modo geral. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . proposto por Cohen (1979) para designar os turistas que procuram. Delgado 2004). “o turismo sexual tem subjacente um potencial de rejuvenescimento […] o sentimento pessoal de conquista e poder que proporciona pode constituir uma compensação para um indivíduo que. Jafari 1987. pela festa e transgressão (Bataille 1962) e pelos excessos dionisíacos (Benedict 1950). o que nos permite incluí-los no tipo “hedonístico”. decorrente de uma experiência de transição espacial e social. Desta forma. perante os quais se procura (re)afirmar os atributos de masculinidade (muito em particular os que dizem respeito à capacidade de conquista sexual) e. sexo e romance se encontram tão interligados”. amor. ao dever e à obrigação […] e também a liberdade para a fantasia. ou seja. No entender de Bauer e McKercher (2003: xiv). uma expressão extrema da ruptura com a previsibilidade e os constrangimentos quotidianos que o turismo de massas ambiciona (MacCannell 1976. Neste contexto de excessos tem lugar um estreitamento dos laços homossociais entre os membros do grupo. como destaca Kruhse-MountBurton (1995: 197). imaginação e aventura”. na sua vida quotidiana. assim. Como nota Franklin (2003: 255). eventualmente. “viajar proporciona anonimato e evasão face ao controlo. Com efeito. é incapaz de manifestar qualquer tipo de autoridade efectiva”.10 assumir-se como uma experiência de liminaridade.

portanto. questionar alguns discursos teóricos. É precisamente tendo em conta este tipo de interesses que elas parecem não denotar grande preferência pelos portugueses. procurando. pelo contrário. concretizar as suas fantasias sexuais e afirmar a sua virilidade. mediáticos e do senso comum que. São. De igual modo. são eles próprios alvo de manipulação. consequentemente como uma manifestação “subordinada” de masculinidade (Connell 1995). Na construção desta ilusão. que fodem bem. para as garotas de programa como simples objectos de satisfação sexual. de acordo com os interesses económicos daquelas. parecem não nutrir grande simpatia pelo brasileiro. tendem a referir-se ao fenómeno do turismo sexual como um contexto no qual os homens poriam de lado as emoções e dariam livre curso à sexualidade. em muitos casos. Só assim se compreende o facto de muitos deles desenvolverem relações de longa duração com uma única mulher que. Isto porque muitos dos turistas não procuram apenas gratificação sexual mas também intimidade. associando-lhe uma imagem de pé rapado (sem capacidade económica) e de machista. um derivado da ilusão que as garotas de programa criam como estratégia comercial subjacente à sua actividade. nem tampouco exclusivamente. como veremos. assumindo-se.11 As conquistas sexuais que os turistas tanto procuram exercitar. elas preocupam-se não só com as questões mais directamente vinculadas à esfera da sexualidade. na maior parte dos casos. assim. Amiúde. mas pagam mal”. no essencial. de forma linear e acrítica. como também com vários outros aspectos que remetem para o domínio da afectividade. retomam nos períodos de férias seguintes. Dizem que os portugueses são “cafussú (querem comer [ter relações sexuais] de graça). A valorização dos afectos e das emoções por parte de muitos turistas constitui um traço identitário não enquadrável naquelas que são as expectativas sociais dominantes do que é ser homem. Os turistas não olham todos. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . da sua competência de sedução. envolvimento e conforto emocional. não resultam. Impõe-se.

As garotas de programa parecem ser especialmente entendidas nesta arte de sedução manipulatória. Idêntica situação é constatada por Oliveira no seu estudo sobre a prostituição de rua na cidade do Porto (Portugal). como uma forma de demarcação da fronteira entre a esfera profissional e a pessoal (Ribeiro et al. gringos e garotas. Fazendo intimidades e aspirando a uma outra vida: as motivações e os projectos das garotas de programa Mais ou menos conscientes de que a uma grande parte dos turistas não interessa apenas o sexo pelo sexo.12 3. o que nos permite Comportamento totalmente diferente têm as trabalhadoras sexuais que exercem a actividade na zona raiana de Portugal e Espanha. as quais. a que não é alheia a própria alteração da geografia internacional do turismo sexual. erótica e sexual da mulher brasileira que emergem nos discursos dos turistas com quem falámos e em muitos outros que partilham as suas experiências no ciberespaço. que deve ser entendido no contexto de uma representação do relacionamento como estando dentro da norma e do socialmente reconhecido como o namoro e o sexo monetariamente desinteressados. O beijar na boca constitui um dos principais componentes do simulacro da sua rendição emocional. 10 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . por norma. A ilusão é-lhe presenteada a troco de dinheiro” (2004: 177). 10 Neste processo estratégico de criação de uma “ilusão de ‘normalidade’” (Piscitelli 2006). elas encenam uma realidade em função daquilo que julgam ser as expectativas dos gringos. manipulando assim as suas impressões e fazendo-lhes acreditar na genuinidade da cena. Algo que foi também observado por Manita e Oliveira (2002) e Handman e Mossuz-Lavau (2005). recusam beijar os seus clientes. mas também romance e emoção. não tendo efectiva consciência de que elas estão apenas a desempenhar o seu “papel”. as garotas de programa constroem um simulacro (Baudrillard 1991) no qual se apresentam como completamente rendidas à capacidade de sedução e de conquista dos indivíduos que com elas interagem. Não são. para a disseminação de uma imagem (racializada) da mulher sul-americana altamente valorizada no mercado erótico. partilhada por ambos. Muitos dos turistas julgam mesmo como genuínas as atitudes e emoções das garotas de programa. como amplamente o demonstra Piscitelli (2005). portanto. mas está a fazer sexo sozinho. levando-a mesmo a referir-se às trabalhadoras sexuais como “vendedoras de ilusões”: o cliente “[…] pensa que está a fazer amor com uma mulher.. contribuindo. 2005). de estranhar as inúmeras construções acerca da competência emocional.

como também (e sobretudo) uma ilusão de conquista. na Tailândia. mas sim uma grande ambiguidade. um simulacro no qual ele parece sentir-se inebriado de poder. ser bancada (sustentada) por ele e. Cohen (2003: 66) mostra a frequente evolução e continuidade de uma relação comercial para uma relação matrimonial. No nordeste brasileiro é ainda bastante frequente o homem bancar a mulher. permitindo-lhe conquistar e fidelizar clientela e. No entanto. sendo que a vertente mercantil associada à sexualidade começa gradualmente a tornar-se menos explícita. de competência viril e crê ser um autêntico Don Juan. poderá até permitir-lhe a realização do sonho da maioria das jovens que fazem programas em Ponta Negra: casar com um gringo. vivem como ‘reis’ ou playboys. 11 Entra-se então aqui num contexto de “prostituição difusa”. A este propósito. geralmente. esta vertente mercantil não desaparece. em princípio em regime de exclusividade. ao ponto de se poder considerar o matrimónio com um estrangeiro como a consequência última do exercício do sexo comercial. aquilo que começou por ser uma relação meramente prostitucional – prestação de serviços sexuais a troco de dinheiro – evolui para uma relação de um certo envolvimento afectivo. O’Connell-Davidson (1995: 45) refere o seguinte: “[…] todos os turistas sexuais que entrevistei comentam o facto de que. mais tarde. estabelecer um relacionamento amoroso com um ou outro turista que a ajudará economicamente e que. 11 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . assumindo. tendo como contrapartida o seu trabalho em casa e o acesso. não raro. Debatendo a articulação entre a prostituição orientada para turistas na Tailândia e o fenómeno dos casamentos transnacionais entre nativas e estrangeiros. ou melhor. eventualmente. segundo o qual é obrigação do marido bancar a sua esposa. a que surge associada uma “[…] ilusão de ‘normalidade’ que possibilita aos visitantes não necessariamente se perceberem como clientes” (Piscitelli 2006). Nestes casos de relacionamento amoroso. configurações que fazem lembrar as obrigações que sustentam o tradicional contrato matrimonial patriarcal. aos seus serviços sexuais. ir para a Europa.” Esta é uma situação favorável à concretização dos interesses comerciais e/ou dos projectos de vida da garota de programa. destacando que não há uma fronteira nítida entre a prostituição e o casamento.13 dizer que o turista não compra apenas serviços sexuais.

500 euros). e na esteira do que é referido por Oppermann (1998. Nas situações em que as garotas de programa são bancadas por um gringo não há uma mercantilização directa e imediata da sexualidade. abrindo-lhes a porta para uma estilização da vida semelhante à fruída pelas classes mais privilegiadas. 12 a aquisição de móveis para a casa. a compra de serviços sexuais a troco de dinheiro. 4. pelo lado da procura. 2003). em regra e prioritariamente. isto é. poderá estar na origem do desconforto que as camadas sociais privilegiadas de Natal manifestam relativamente à prostituição em Ponta Negra. 12 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .000 reais (cerca de 1. ajudas pontuais à família dela ou aos filhos. São benefícios extremamente significativos atendendo a que a generalidade delas provem das camadas sociais mais desfavorecidas. 14 Face a isto. o pagamento da renda de casa. é forçoso sublinhar que o turismo sexual não se circunscreve necessariamente à prostituição. entre outros. bem como o facto de a maioria das garotas de programa ter um rendimento bastante considerável para a realidade brasileira. para satisfação ou prazer sexual. ao ponto de se auto-excluírem desse local. sem ele saber. esta ascensão social de mulheres jovens. começando já a destacar-se como um destino do chamado turismo sexual. entendida aqui numa acepção restrita: a disponibilização do corpo em troca de remuneração material (designadamente monetária) e. os ganhos mensais podem ser superiores a 4. presentes diversos. Considerações finais A praia de Ponta Negra faz parte das rotas turísticas globais. não há de facto prostituição. Podendo esta existir (e normalmente está presente) em contextos turísticos. 14 Ao colocar em causa a “ordem natural das coisas”. suspendendo a actividade somente quando o recebe de visita em Natal. 13 Com programas por noite raramente inferiores a 150 reais.14 Os benefícios que a garota de programa retira de uma situação em que é bancada pelo gringo podem incluir a mesada. Enquanto espaço de Uma garota de programa que entrevistámos confidenciou-nos receber do seu namorado italiano uma quantia mensal na ordem dos três salários mínimos (cerca de 1000 reais. continua a fazer programas. É precisamente tendo em conta estes benefícios. quantia equivalente a cerca de 300 euros) para abandonar a prostituição. 13 que parece pertinente admitir que o trabalho sexual lhes permite um relativo empowerment económico e social. No entanto. a fruição da sexualidade em tempo de férias não tem de estar estritamente a ela associada. 1999) e Cohen (1982. pobres e maioritariamente mestiças.

aproveitando criativamente em seu próprio benefício as emoções e os desejos mais profundos dos seus parceiros vindos do outro lado do Atlântico. por si só. à semelhança do que acontece em muitos outros destinos. a possibilidade de as mulheres locais deterem algum nível de autonomia. Deste modo. mas depende. à semelhança de Oppermann (1999). os interesses e os desejos dos turistas e das mulheres locais. presente também noutros contextos de trabalho sexual (Barry 1979. Como argumenta Foucault (1992). uma capitalização automática de poder. Quer dizer. incapazes de captar a densidade das relações sociais que envolvem turistas e garotas. nomeadamente sexuais. portanto. em contraste com a debilidade económica da generalidade das mulheres locais com quem eles sexualmente se relacionam.15 acolhimento deste tipo de turismo. as jovens locais são muitas vezes capazes de inverter as posições. não serão sempre os dominantes. Ao invés do sugerido pelos discursos do senso comum e outros. através do uso eficiente dos seus recursos. Admite-se. Se bem que as suas interacções sejam atravessadas por poderes assimétricos. as garotas colocam em campo os seus atributos físicos e recursos eróticos. questionamo-nos sobre quem explora quem na relação turista-garota de programa e encaramos com sérias reservas os discursos mais comuns que tendem a apresentar as trabalhadoras sexuais como a parte exclusiva e sistematicamente explorada. à partida favorecendo os gringos. nem pode ser vista como o único factor determinante na configuração dos processos relacionais entre estes actores sociais. o poder não está estruturalmente atribuído ad eternum aos indivíduos em concreto. de contingências várias presentes nos contextos em que ocorrem as suas interacções. Daqui decorre que os turistas. Hart 1998). nem aqueles que sempre “ganham”. impõe-se considerar que uns e outras estabelecem relações sociais permeadas por complexos jogos de poder. em boa medida. Em lugar das visões a “pretoe-branco”. não é possível qualificar os turistas como indivíduos sexualmente pervertidos. nomeadamente na esfera sexual. Enquanto que os turistas mobilizam sobretudo os seus recursos económicos. que lhes permite desafiar a desigualdade estrutural de género e os estereótipos dominantes que organizam a condição feminina. como tentámos mostrar através da mobilização dos elementos etnográficos recolhidos. Heyl 1979. não significa. vinculados a práticas de envolvimento sexual marcadas pela violência e o completo descomprometimento ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . nela se exprimem e articulam de modo muito próprio as motivações. a alegada supremacia económica dos turistas.

Paris. 1989. BAUDRILLARD. portanto. o relacionamento sexual pode ser atravessado por afectos de grande intensidade que. aproveitando a receptividade de muitos turistas. pelo menos de forma directa e imediata.. Guiadas pelo sonho da vida na Europa. mais importante ainda. Livros do Brasil. empenham-se em estabelecer com eles relações de namoro. através de um envolvimento mais duradoiro que pode incluir o casamento com o gringo e a emigração para o seu respectivo país. não está monetariamente quantificado.16 afectivo. Assim. Ruth. O Turismo em Portugal: Subsídios para o seu Conhecimento. Love and Lust. BAUER. BENEDICT. Relógio d’Água. Walker. 1981. 1994. Kathleen. 1991. Edições 70. desde logo. entre um pólo em que ele é coincidente com a prostituição e o pólo oposto em que o relacionamento sexual entre o turista e a garota de programa tem subjacente um maior envolvimento emocional e. Lisboa. BAUDRILLARD. A Sociedade de Consumo. Nova Iorque. T. Universidade de Aveiro. Este tipo de situações implica. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Já as garotas guiam-se por desejos e projectos que não se esgotam na simples obtenção de um rendimento monetário em troca da disponibilização de serviços sexuais. Lisboa. Jorge. BARRY. Female Sexual Slavery. Haworth Press. bem como nos interesses que lhes são subjacentes. Stock. 1979. nas quais a componente mercantil acaba por se esbater de forma significativa. Nova Iorque. Simulacros e Simulação. Existe. Aveiro. algumas acabam por o conseguir. La Famille en Crise. 2003. não raro. 1962. BATAILLE. New Jersey. Lisboa. BERRY-BRAZELTON. Sex and Tourism: Journeys of Romance. Death and Sensuality: A Study of Eroticism and the Taboo. Como os discursos e as observações etnográficas registadas o testemunham. uma considerável heterogeneidade nas relações que se estabelecem entre os gringos e as garotas.). Georges. continuam para além do tempo rigorosamente fixado da permanência do turista na cidade. Thomas e Bob McKercher (orgs. Jean. Padrões de Cultura. que se olhe para o turismo sexual como um continuum (Piscitelli 2006). Avon Books. s/d [1934]. Referências bibliográficas ARROTEIA. Jean.

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um tema de grande relevância nas pesquisas sociológicas e antropológicas. turismo. entre prostitutas e gringos se relacionam com as novas formas de uso do espaço urbano. estabelecendo a cidade de Fortaleza como um pólo turístico. mediante incentivos fiscais. financeiras e afectivas. por meio de projetos de “requalificação” urbana e conseqüentes alterações nos usos do espaço. o diálogo entre diferentes formas de ocupação do espaço e novas representações. Para tanto foi implementada uma política de atração de investimentos para a indústria do turismo. Momento. por parte do governo estadual. desperta nos utentes do bairro. Uma nova imagem-síntese se constituiu associando-a ao lugar de prostitutas e gringos. Nos anos 2000. que há um interesse. capital do Estado do Ceará. pertença. Palavras-chave: requalificação urbana. povoa o imaginário dos fortalezenses como um bairro boémio. * Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal do Ceará/Brasil. tem sido as políticas de intervenções em áreas históricas. nos últimos anos. turismo sexual e prostituição. ou não usos. começou a ser difundido um discurso sobre o fim da Praia de Iracema. Ceará-Brasil. sentimentos relacionados a valores morais.Praia de Iracema como cenário de encontros de alcova Roselane Gomes Bezerra * Universidade Federal do Ceará A Praia de Iracema localizada na cidade de Fortaleza. É notável nos estudos urbanos que a “requalificação” de áreas históricas e/ou degradadas da cidade vem acarretando em uma ruptura dos seus usos. O uso social dos seus corpos. Os conflitos decorrentes das trocas sexuais. de “modernizar” o Estado do Ceará. a imagem de boémia. sentimento de pertença. descriminação e xenofobia. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . tem início na década de 1990. iniciaram-se outras formas de uso originando conflitos. No Brasil. Em Fortaleza. tradicionais e implementando nestes espaços públicos e/ou privados diferentes representações. Após a requalificação do bairro no início dos anos 1990. passou a ser associada ao turismo.

quando a imagem de boêmia passou a ser associada ao turismo. no inicio dos anos 1990. a representação do bairro como lugar de prostitutas e gringos se relaciona diretamente com as formas de uso do espaço urbano. O bairro Praia de Iracema passou a ser o cenário das políticas de requalificação em virtude das representações construídas ao longo de sua história. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . contribuindo para a expulsão e permuta de antigos moradores e freqüentadores. Ressalto ainda. Contudo. por meio das narrativas dos utilizadores da Praia de Iracema. Os utilizadores deste bairro reforçaram. sentimento de pertença e afetividade desse espaço da cidade de Fortaleza. ocorreu forte especulação imobiliária. O objetivo desses projetos de requalificação era transformar áreas “degradadas” em lugares de entretenimento. Chegaremos aos dias de hoje percebendo como e porque a Praia de Iracema se tornara um cenário para encontros de alcova. Veremos que. consumo cultural e turismo. Nesse sentido. uma nova representação se constituiu para defini-la. Como conseqüência desse fenômeno. uma disputa administrativa entre os governos estadual e municipal com interesse em atrair a atenção de moradores da cidade e de turistas para este bairro que se tornara a “vitrine” de suas políticas administrativas. Um breve passeio pela história da Praia de Iracema nos permite entender a constituição das representações. estas muitas vezes os orientam. as representações sobre Iracema resultam das práticas. assim como os processos simbólicos de inclusão e exclusão de seus utilizadores. associando-a ao lugar de prostitutas e gringos. por meio dos seus discursos e práticas. Foi notável. e assim. Neste momento. na década de 1990. a construção e reprodução de sua imagem como um bairro boêmio e bucólico. começou a ser difundido por meio de jornais locais um discurso sobre o fim da Praia de Iracema com ênfase à sua degradação e abandono. imagens e discursos dos utilizadores do bairro em diferentes momentos de sua história. que os usos que se fazem nesse espaço não estão separados das imagens. após essas intervenções. a mídia tornou públicos problemas referentes à degradação física de algumas áreas e a ocupação de certos lugares. No início dos anos 2000. surgiram dissensões quanto às formas de ocupações desse espaço.2 As políticas de “requalificação” urbana em Fortaleza tiveram lugar no bairro Praia de Iracema.

neste período. de frente para o mar. como o Praia Clube e o América. a mansão Vila Morena. inclusive no que se refere à sua denominação. está associado à “descoberta” do banho de mar como medida terapêutica e também como contemplação e lazer por parte da elite econômica da cidade nos anos de 1920. o primeiro à beira-mar. onde a um bar se agregava um local para troca de roupa. Devido as novas formas de apropriação desse espaço da cidade surgiu a necessidade de se forjar uma nova imagem para aquele lugar. elaborava-se uma imagem do bairro associada ao bucólico e aprazível. pelos novos moradores do bairro. Guanacés. Groaíras. tem início uma campanha. com a construção de casas alpendradas ou do tipo bungalow. antes denominado porto das Jangadas. ao então prefeito Godofredo Maciel. pequenas instalações comerciais. Em 1925. praia do Peixe ou Grauçá. Desta forma. inclusive por meio do epíteto Praia dos Amores. construída em 1925. Na época. que expressasse os novos hábitos e valores. e o Hotel Pacajus. ganharam fama o Jangada Clube. Houve também a instalação de clubes. “Um abaixo assinado é encaminhado.3 A origem da Praia de Iracema O surgimento do bairro Praia de Iracema. Tremembés. freqüentado pela boêmia de classe média e alta da cidade. fenômeno que “obrigou” os pescadores a mudaram-se para outras praias. A primeira manifestação pública que permite antever o futuro nome do bairro ocorre em 1924. a ser erigido na orla marítima. foi arrendada às tropas americanas e transformada em um ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Durante a Segunda Guerra Mundial.2001:37). Potiguaras. Esta elite intensificou a sua inserção na praia. solicitando ‘que mude a denominação imprópria e vulgar por que é conhecido aquelle encantador trecho de Fortaleza para a de Praia de Iracema’. quando a cronista social Adília de Albuquerque Morais lançou a idéia de que se construísse um monumento à heroína do romancista José de Alencar. residência da família Porto. apoiada pela imprensa local. As ruas do bairro ganharam nomes de tribos indígenas cearenses: Tabajaras. Como foi descrito por Schramm (2001). entre outras” (Schramm. foram inaugurados na Praia de Iracema os “balneários”. aluguel de calções de banho e guarda de pertences dos banhistas. para a oficialização da denominação Praia de Iracema.

2001. Praia de Iracema/Praia dos Amores que o mar carregou/Quando a lua te procura/Também sente saudades/Do tempo que passou/De um casal apaixonado/Entre beijos e abraços/Que tanta coisa jurou/Mas a causa do fracasso/Foi o mar enciumado/Que da praia se vingou». e ficou conhecido por suas noites com danças. O interior do bairro. pois se a maré próxima for impetuosa assistiremos à eliminação dos ‘bungalows’. Matérias do jornal O Povo lamentavam a sua destruição. passaram a chamar por coca-colas as freqüentadoras do cassino dos americanos. 1 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . como pode ser lido nos trechos abaixo: Nestes próximos dias. que se dirigiam ao local para namorar os oficiais americanos e beber o refrigerante coca-cola. os ricos ‘bungalows’ da nossa aristocrática praia. Essa prática foi responsável por gerar uma disputa simbólica entre os moradores da cidade e os visitantes. com prejuízos para a própria estética da cidade (O Povo. o que acarretou também significativa diminuição da faixa de praia. A transformação da paisagem obrigou a saída de antigos moradores e freqüentadores dando início a um discurso melancólico sobre a praia “que o mar carregou 1 ”.S. Destacam-se entre os prédios mais visados pela fúria do mar os de propriedade da família João Gentil.4 cassino pelos oficiais. tornando-se atrativo para as moças da cidade. (United States Organization). também viveu transformações. vindo a atingir. XVIII por Prainha. Parte do casario foi destruído em decorrência da alteração no movimento das correntes marítimas. do sr. grifos meus). A partir de meados da década de 1940. especialmente a área conhecida desde o início do séc.S. jogos e shows. associando o encanto do bairro à sua apropriação pela elite. a imprensa local começava a falar em decadência da Praia de Iracema. enciumados. Os rapazes da terra. principalmente no tocante às sociabilidades.) O fato é que estamos mais uma vez diante de uma situação difícil.. a maré investirá com grande violência. O compositor Luís Assunção contribui para a elaboração da imagem de afetividade da Praia de Iracema na cidade de Fortaleza. talvez. que ainda não era consumido na cidade. o lugar era quase exclusivo aos estrangeiros. o Porto do Mucuripe.O) e o do antigo ‘Ideal Clube’(. a antiga sede da United States Organization (U. a Praia de Iracema começou a apresentar um novo cenário em virtude do avanço do mar. adeus/Só o nome ficou/Adeus. Nesse período.O.. José Porto. 27 de abril de 1946 apud Schramm. Denominado U. através da seguinte canção: «Adeus. decorrente da construção de um novo porto da cidade.

ficando. Nick Bar. ocupantes do Estoril. intelectuais. em meio às residências da população de classe média e classe média baixa do bairro: Tonny’s Bar. uma inversão dos valores e normas de disciplina da cidade. Alguns bares surgiram nas ruas de toponímia indígena. Era palco de encontros culturais. Os donos do espaço. Nos tempos do regime militar entre 1964-1985. que havia sido arrendado a comerciantes portugueses. políticos e amorosos. A Praia de Iracema tornou-se reduto de artistas. como afirma um ex-freqüentador (O Povo. Estes se reuniam no Restaurante Estoril. Nesse período. contudo. militantes políticos e intelectuais. o bairro foi “descoberto” por novos freqüentadores e se tornou um ponto de encontro de militantes de esquerda. Os seus ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . transformando-se em prostíbulos. o Restaurante Estoril. assim. A partir desta década. que se encontrava em mau estado de conservação. foi inaugurado. que funcionava desde 1948. El Dourado. até os anos 70. como casa de pasto que reunia a elite fortalezense. o Restaurante Lido. “Na década de 1950. na antiga residência da família Porto. também. 2001). se consolida a imagem da Praia de Iracema como um bairro boêmio. Como nos mostra Schramm. que figurou. os armazéns e casas comerciais ligadas aos negócios de exportação foram fechados. a parte costeira do bairro ainda figurava como um lugar da elite econômica e intelectual. Eles compartilhavam o mesmo sentimento de pertença ou entendimento sobre o lugar e sobre os seus códigos culturais (Leite. se apropriaram também da Ponte dos Ingleses. defronte ao hotel. Iracema era apropriada por utilizadores “marginais” em relação aos valores sociais vigentes. para “ver e ‘fumar’ o pôr-dosol”. como pode ser visto nesse trecho de uma matéria publicada no jornal Tribuna do Ceará: “mesmo com as torturas rolando pelo país. Nos anos 1950. 09 de dezembro de 2004). a vida [no bairro] era uma festa” (15 de janeiro de 1996 apud SCHRAMM. Jangadeiro”(2001:47). Praticavam.5 Com a transferência do porto da Praia de Iracema para o Mucuripe. onde existia o cassino dos americanos. afamado o local de vida boêmia. 2001). profissionais liberais e músicos. era freqüentado por boêmios seresteiros. que se dirigiam ao lugar para cantar e namorar. Iracema era apropriada por: jornalistas.

uma imagem de bairro decadente. atraíram diversos freqüentadores para o bairro. O público que se dirigia ao Bar e Restaurante Estoril e Ponte dos Ingleses. era marginalizado por questões ideológicas. alguns bares temáticos. É importante ressaltar que Iracema vivenciou. porém. com adesão de artistas e intelectuais. como o La Trattoria. 1985 e 1986. Sob protestos. houve uma mobilização dos moradores e freqüentadores no sentido de sustar aquele processo e solicitar. Nesse período. o Cais Bar e o Pirata Bar. Assim é que. foi fundada a Associação de Moradores da Praia de Iracema/AMPI e houve grande movimento pela sua preservação.6 comportamentos. Esse fenômeno ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . uma mudança nas formas de uso e apropriação do espaço. mas. para os problemas causados pela especulação imobiliária. pois a pequena faixa de areia que restara recebia somente alguns poucos freqüentadores. respectivamente. antigos moradores mudaram-se do bairro. As transformações vivenciadas ali durante a década de 1980. além de algumas melhorias. os usos na Praia de Iracema. da Praia de Iracema. Durante a década de 1980. terminou com os moradores chamando atenção do poder público. Em 1984. inaugurados em 1981. Nesse período iniciava-se a edificação de prédios com mais de dez pavimentos. as tentativas de barrar as construções de edifícios verticais no bairro. ainda se restringiam aos intelectuais. assim como a instalação de uma diversidade de bares e restaurantes em imóveis supervalorizados. e havia uma ocupação irregular na margem da praia. artistas e universitários. entre meados dos anos 1960 e 1980. Contudo. eram legitimados e compartilhados entre os usuários da Praia de Iracema. mesmo fazendo parte de uma elite da cidade. deram inicio a uma “requalificação espontânea”. moradores e freqüentadores não aceitaram as transformações da sua arquitetura. sem um devido planejamento do poder público. Entendendo como uma “destradicionalização” daquele espaço da cidade. políticos. por meio dos jornais. a década de 1980. por meio da construção de casas de madeira ou papelão. ou seja. O banho de mar perdera sua atração. que a Praia de Iracema fosse reconhecida como Patrimônio Histórico e Cultural da cidade. não tiveram êxito. diante das possibilidades de mudanças na lei de uso e ocupação do solo no bairro. profissionais liberais. O bairro era habitado por famílias de classe média e baixa.

criou-se um clima de rivalidade entre os empresários estabelecidos e os recém-chegados. mas. Em meio à disputa pelo espaço de Iracema. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . graças ao seu passado boêmio. à abertura irregular de estabelecimentos comerciais e à especulação imobiliária. os moradores intensificaram suas lutas na defesa do bairro. restaurantes e para assistir ao pôr-do-sol na Ponte dos Ingleses. Nesse novo momento estavam na pauta das reivindicações dos moradores: o combate à poluição sonora. No cerne da polêmica. já não era prioridade a transformação do bairro em Patrimônio Histórico e Cultural. Devido as novas formas de ocupação desse espaço e suas novas representações. Como conseqüência dessa “requalificação espontânea” que estava transformando a paisagem do bairro desde meados dos anos 1980. o então prefeito de Fortaleza. juntamente com o arquiteto Paulo Simões. apresentaram para os moradores e comerciantes da Praia de Iracema um projeto de urbanização da sua parte costeira. empresários da noite se inseriram no bairro com uma grande oferta de bares e restaurantes. alguns gestores da cidade passaram a defender a tese de que a Praia de Iracema possuía uma “vocação natural para o lazer”. Impulsionados pela freqüência desses estabelecimentos e vislumbrando a Praia de Iracema como um novo mercado. a paisagem transformou-se rapidamente. ao desordenamento do trânsito. Assim. com a presença de grande diversidade de estabelecimentos comerciais. Juraci Magalhães. estava a questão de quem tinha direito ao bairro.7 que chamo de “espontâneo” foi incentivado pela tradição boêmia do bairro e pela movimentação dos diversos freqüentadores que se dirigiam para alguns bares. A partir de então. em junho de 1991. Outro problema que emergiu com as transformações na apropriação do espaço na Praia de Iracema foi a presença de pessoas que não tinham uma tradição boêmia.

o bairro já apresentava diversos sinais da “requalificação” urbana. esse espaço da cidade de Fortaleza passou a ser consumido por moradores de classe média e alta da cidade e também por turistas. boêmio. restaurantes. apareceram investimentos da iniciativa privada em bares. Falava-se em “Miamização de Iracema 2 ”. percebo um conflito na ocupação do espaço na Praia de Iracema. havia desmoronado. que em abril de 1994. Por meio de uma política de atração de investimentos. Havia um interesse político em estabelecer a cidade de Fortaleza como um pólo turístico. Na política de gentrification. 2001). há uma afirmação simbólica do poder. fala em “conservação inovadora do elemento tradicional”.2001). nacionais e internacionais. lugar de artistas e 2 Denominação dada por ex-freqüentadores e moradores do bairro. processo que tenta adequar as tradições locais às demandas globais do consumo cultural. hotéis. Em meados dos anos 1990. entre os governos estadual e municipal. o calçadão. como a construção do largo Luiz Assunção. Nesse novo contexto.8 A Praia de Iracema “requalificada” Em 1994. flats e pousadas. mediante suas práticas sociais e lembranças – baseadas na imagem de um bairro bucólico. Paralelamente as intervenções nos espaços públicos do bairro. Consolidouse a imagem do marketing turístico na Praia de Iracema. mediante incentivos fiscais e da estratégia de Place Marketing (Gondim. Transformando a arquitetura vernacular em paisagem. Neste sentido. por meio de obras da Prefeitura Municipal e do Governo do Estado. Alusão a Miame (EUA). As intervenções urbanísticas na Praia de Iracema podem ser associadas a uma disputa administrativa. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . a reforma da Ponte dos Ingleses e a reconstrução do Restaurante Estoril. Carlos Fortuna (1997). De um lado havia os usuários. que. essa política de reforma urbana na Praia de Iracema acarretou uma mudança nas práticas sociais e conseqüentemente foi proposta uma imagem do bairro. mediante inscrições arquitetônicas e urbanísticas que representem visualmente valores e visões de mundo de uma nova camada social que busca se apropriar de certos espaços da cidade (Leite. um calçadão a beira mar já fazia parte do novo cenário de Iracema. habitantes da cidade.

) não deviam ter liberado tantos alvarás pra tanta gente devia ter escolhido o que fazer em cada lugar. De outro. ou seja. não tinha proposta comercial dentro da Praia de Iracema (. Então você tinha três milhões de bares. onde moradores e freqüentadores antigos se tornam outsiders. Como a “requalificação” conduz ao “consumo do lugar” (Zukin. uma grande valorização dos imóveis e conseqüente aumento nos valores dos aluguéis e dos serviços e produtos ofertados. já que o novo desenho arquitetônico impôs um controle social. Na fala de um empresário. o processo de “requalificação” acarretou um choque de valores. uma “descoberta” do lugar para “novos freqüentadores”. ou seja. maravilhoso. Desta forma. ótimo. esse fenômeno contribuiu para o início da imagem da degradação da Praia de Iracema. está a política de gentrification. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . o modo como as práticas sociais criam seus nexos identitários com os lugares sociais colide muitas vezes com as formulações abrangentes das políticas oficiais da cultura. a Praia de Iracema se tornou um lugar de consumo para os novos utilizadores que passaram a ocupar aquele espaço. Foi vivenciado naquele bairro o que Carlos Fortuna (1999) chama de “sociabilidades efêmeras”. aí dá aquele inchaço onde toda casa por menor que ela fosse era um bar. não teve. ex-morador do bairro: “Os donos de bares daqui impõem um repertório na altura que querem e não se relacionam de modo democrático com sua vizinhança.9 intelectuais – forjaram um sentimento de pertença ao bairro. foi assim ao leu e então como não tinha nenhuma proposta desinchou a Praia de Iracema deixou de ser moda o fortalezense enjoou (Entrevista concedida em 27 de abril de 2005). incentivados por um marketing do lugar turístico. habitantes da cidade e turistas.. eu só tenho a parabenizar.. o que foi presenciado na Praia de Iracema foi uma supervalorização dos “produtos vendidos”. em segundo lugar todo mundo vendia a mesma coisa que era uma cerveja com petisco. O poder público chegou fez um calçadão superlegal. O maior conflito em relação às novas formas de apropriação era quanto à falta de harmonia entre os bares e as residências que ainda restavam. ou seja. Como anota Leite (2001). 3 de junho de 1995). É o que pode ser constatado nesse depoimento de Hélio Rôla. Esse processo desencadeou a monofuncionalidade com a predominância de bares e restaurantes no bairro. que transforma a tradição na city marketing. você nem andava pelo calçadão. É inevitável uma asfixia da Praia de Iracema” (O Povo.2000). não tinha proposta. ou seja.

com cinco prostitutas voltando da Itália (Entrevista concedida em 27 de abril de 2005). também passaram a incomodar alguns utilizadores do bairro. Este equipamento passou a oferecer teatro. onde havia antigos armazéns desativados. concorrendo para a construção da representação de bairro degradado e lugar de prostitutas e gringos. como assalto aos freqüentadores. Como parte da dinâmica de ocupação dos espaços da cidade. Nesse sentido. os poucos turistas [estrangeiros] que vieram pra cá foram vôos italianos e alemães e no início o vôo dos italianos foi péssimo conseguiram acabar com esse vôo tem pouco tempo atrás que era assim. os turistas internacionais e as “garotas de programa”. museus.10 Outro fenômeno a ser ressaltado é que a “política de controle social”. Adentravam o bairro atores sociais que não comungavam com os códigos da disciplina dos espaços “equalificados” como os hippies. passaram a existir bares. O Dragão do Mar projetou uma intervenção no bairro que se refletiu por toda a Praia de Iracema. Leiamos a fala de um empresário da Praia de Iracema: Essa imagem [da degradação] se dá porque no início não teve uma boa divulgação do turismo [internacional] aqui do Estado. como a expulsão dos hippies. A sua implementação não considerou os “trajetos” (Magnani. boates e casas de shows. Além dos hippies. E a Praia de Iracema “requalificada” começou a apresentar sérios problemas no tocante à ocupação do espaço e manutenção dos espaços reformados. mendigos. Iniciavam-se também as denúncias de violência. foi inaugurado o Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura. livraria. 300 machos vindo. café. típica dos processos de “requalificação”. que dava os seus primeiros passos rumo ao dissídio na ocupação daquele espaço. os freqüentadores da Praia de Iracema foram paulatinamente procurando outros lugares de lazer. os protestos dos moradores ganharam novos temas. Em 1999. não permitiu uma nítida visualização dos contra-usos. loja de artesanato e bares. turistas estrangeiros e prostitutas. auditório. além de praças. no final dos anos 1990. dando maior visibilidade aos hippies. cinemas. 2000) de ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . meninos em situação de rua. um planetário. sob a forma de uma arquitetura eclética e pós-moderna. No seu entorno. vendedores ambulantes.

pois os utilizadores da Praia de Iracema passaram a ser predominantemente. ele esclarece que o projeto original previa um “corredor” de ligação entre a parte costeira do bairro o Centro Dragão do Mar. Este fato contribuiu para enfatizar ainda mais a representação do bairro como lugar de prostitutas e gringos. construída nestes “lugares de consumo”. espaços praticados (Marc Augé. turistas estrangeiros. Os novos freqüentadores saíram em busca de novos lugares. como uma casa que favorecia a prostituição. A Ponte dos Ingleses ficou sem iluminação. Quando os espaços “requalificados” tornam-se “lugares”. No inicio dos anos 2000. instalado no bairro há quase vinte anos. Em janeiro de 2003 a pizzaria Geppo’s fechou. conhecida na cidade de Fortaleza. Um empresário. mendigos.11 seus utilizadores 3 . afirma que a nova representação surgiu a partir da instalação de uma boate. Fausto Nilo. Os bares e restaurantes gradativamente foram sendo fechados.2000) de lazer com sociabilidades e temporalidades distintas. ou seja. No ano de 2004. O calçadão apresentava muitos trechos com buracos e a grade de proteção quase toda quebrada. os problemas referentes à ocupação do espaço na Praia de Iracema se agravaram. 3 Em entrevista com um dos arquitetos do projeto do Centro Dragão do Mar. inclusive o tradicional restaurante La Trattoria e o Cais Bar. por intermédio do não-respeito aos códigos culturais do lugar ou da falta de um entendimento mínimo sobre o que eles representavam. Assim é que. prostitutas. a partir do inicio dos anos 2000. O Largo Luis Assunção deixou de ser ocupado por famílias nos finais de tarde. deixando um terreno baldio no meio da rua dos Tabajaras. Este fato produziu um conflito na apropriação do espaço daquele bairro. abrindo espaço para instalação de boates algumas com shows de striper. a harmonia superficial. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . ambulantes e meninos em situação de rua. pois grande parte do público freqüentador da parte costeira da Praia de Iracema passou a ocupar esse novo espaço. 1994). passando a ser ocupado predominantemente pelos hippies e meninos em situação de rua. e teve seus pontos comerciais e observatório de golfinhos desativados. a Praia de Iracema passou a abrigar duas “manchas” (Magnani. Esse fenômeno redesenhou a Praia de Iracema a partir dos seus usos e contra-usos. foi sendo cortada pelos contra-usos. mais da metade dos novos estabelecimentos já haviam sido fechados. contudo por falta de verbas a ligação não foi estabelecida. principal rua do bairro. hippies.

a tradição boêmia de Iracema foi comercializada por meio de uma política de incentivo ao turismo no Estado do Ceará. Esse fenômeno contribuiu para a saída da maioria dos moradores. poluição sonora e desordenamento do tráfego. contudo.. tornando visível a existência de ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . por parte do Poder Municipal. se vier um puteiro vem todos os puteiros da praia. sem um devido planejamento. Frente a este panorama que se estabeleceu na Praia de Iracema. Segundo. tendo como ícone o bairro Praia de Iracema. O cenário atual da Praia de Iracema Após essas intervenções arquitetônicas esse bairro se apresentou como um lugar turístico. ou seja. entendo que a nova representação é um reflexo das práticas sociais e das condições espaciais de algumas áreas do bairro.) Depois apareceu um português que era o maior trambiqueiro. Primeiro houve a execução das políticas de gentrification.) a gente fez toda uma campanha pro África’s não vir. ou seja. no dia que o África’s vier. Ocorreu uma intervenção no espaço urbano. a própria dinâmica da cidade e do turismo nacional e internacional foi determinando as novas faces de Iracema. que tentam adequar as tradições locais às demandas globais do consumo cultural (Carlos Fortuna. Nesse sentido. a fronteira para o lugar dos habitantes ficou muito tênue.. não existiu um respeito às demandas dos moradores do bairro. acarretando a monofuncionalidade do bairro. Como resultado desse processo. Este fenômeno gerou uma disputa pela ocupação do espaço urbano. houve ingerência quanto à ocupação do espaço...12 A deterioração começou por que? Porque em primeiro lugar deixaram construir o África’s [boate conhecida na cidade por shows de striper] (. e foi dito e feito. 1997). porque a gente pensava assim. Ele fazia o seguinte: montava um restaurante achava um investidor em Portugal e dizia olha eu tenho um restaurante maravilhoso pra você ele montava o restaurante pras pessoas ai o cara vinha de lá pra cá com o restaurante montado comprava o restaurante e achava que tinha um ponto super bem feito e vinha pra trabalhar quando chegava aqui ele tinha um puteiro. (. o cara muitas vezes vinha com boa fé tinha muita gente que vinha com boa fé e ficavam com um puteiro nos braços (Entrevista concedida em 27 de abril de 2005).

In Ganchos. sentimento de pertença. hippies e meninas freqüentadoras das boates. Lisboa: Ed Âmbar. turismo sexual e prostituição fazem parte dessa nova representação da Praia de Iracema. vendedores ambulantes. enleio. envolto ao espanto. Modelos de Autopercepción y de Vida entre Adolescentes Españoles. Aplicando a metodologia de análise de conteúdo que venho utilizando na apreciação dos dados apresentarei a seguir a análise de conteúdo das narrativas. o uso social dos corpos dos turistas estrangeiros. empresários. globalização. 1996. com quem andam e como se comportam. emerge nesse bairro. valores morais. sobressalto. El Presente de su Futuro. turistas estrangeiros e suas acompanhantes.13 conflitos simbólicos decorrentes do encontro entre alguns habitantes de Fortaleza. José. erosão no calçadão. estava a contribuir para uma reafirmação da representação do bairro como degradado e lugar de prostitutas e gringos. ex-moradores. Devido a essa simbologia negativa os habitantes do bairro estão buscando justificativas para a emergência dessa representação. bancos quebrados. Os moradores do bairro passaram a denunciar por meio de suas narrativas que. Estas levam a percepção de categorias definidoras do “mito fundador” da nova representação do bairro. A pesquisa etnográfica me permitiu perceber que existe um dissenso nas opiniões quanto à representação da degradação. a de estafeta. 5 Os entrevistados na pesquisa de terreno na Praia de Iracema foram: moradores. Outros falam em degradação social. entre alguns nativos e o turista. trabalho e futuro. 2005. Madrid. tema tão caro à produção antropológica. 4 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . análise sóciosemântica e análise interpretativa 4 . freqüentadores da Ponte Metálica. taxistas. No cerne da questão percebo que temas relacionados a “requalificação” urbana. proprietários de boates. entre outros problemas. Distribuindo pizas: vida estafada. Por meio deste modelo de análise de conteúdo está sendo possível identificar “expressões conceituais”. falta de iluminação. moradores do bairro Praia de Iracema. ou seja. turismo. e associam a representação atual à presença do turista estrangeiro e suas acompanhantes. segundo meus interlocutores 5 . o diferente. o que fazem. É perceptível uma admiração. Esta metodologia foi desenvolvida por: Captolina Díaz Martinez. Alguns utilizadores do bairro falam em degradação espacial. tachos e biscates – jovens. O encontro com o “outro”. A utilização deste modelo de análise de conteúdo segue o método de investigação adotado por: Machado Pais. Siglo Veintiuno de España Editores.

ou narrativas.14 Das expressões conceituais ao “mito fundador” da nova representação de Iracema Identifiquei as “expressões conceituais” aplicando o método de análise voltado para a percepção de “homologias conceituais”. depende do entendimento por parte do grupo pesquisado. a sua fala parece ininteligível se relatada em outro contexto: Quem vem aqui é o gringo. o qual conserva duas operações: 1) se seleciona dentre os textos. as quais devem ter um significado autônomo. uma série de unidades de significados. Assim como. todo inchado. vem com umas macacas que se você vê as macacas você corre. E “macacas” é uma expressão utilizada para se referir as garotas pobres. Seguindo este modelo de análise de conteúdo é importante ressaltar que a proposta da autora 6 é desenvolver um método de análise “não-redutivo”. que namoram ou fazem programa com os turistas estrangeiros. El Presente de su Futuro.. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . de quem as explicitaram. Neste modelo de análise o investigador deve “traduzir” a conceitos as “expressões lingüísticas”. entendem o significado dessa expressão. Estas têm um significado social. contudo a relação entre os conceitos e suas “expressões literais” não é unívoca: distintas expressões literais podem representar o mesmo conceito (sinonímia) e a mesma expressão literal pode representar distintos conceitos (homonímia).. dos sujeitos da pesquisa. a partir de sua obra de referência. Os conceitos estão encarnados em expressões literais. uma expressão pode incluir vários conceitos. aquele cheio de tatuagem.(1996). Assim. quando os membros do grupo. que reafirma a imagem da Praia de Iracema como lugar de prostitutas e gringos. Contudo. É importante ressaltar que o processo de “homologação conceitual” é próprio do pesquisador ao empregar suas habilidades de intuição lingüística e social. Contudo. o significado social das expressões. o entrevistado está a fazer uma analogia com o turista estrangeiro pobre identificado por alguns utilizadores do bairro como pessoas com emprego precário na Europa e com pouca qualificação escolar. as “expressões conceituais” são produzidas pelos sujeitos da pesquisa e não pelo pesquisador. Ao se referir ao gringo cheio de tatuagem e inchado. de pele morena. Apresento abaixo a fala de um empresário do bairro. 6 Estou fazendo alusão a Capitolina Martínez autora deste modelo de análise de conteúdo.

a nova representação do bairro. Assim. estas constituem as “categorias”. Para chegar a estas “categorias” selecionei diversas “expressões conceituais” dos meus entrevistados.15 parcialmente livre do contexto. o processo de “homologação conceitual” não só funciona a partir dos significados isolados das orações conceituais. extratos de quatro entrevistas que associam. que relatam as mudanças vivenciadas no bairro a partir dos anos 1980. os conceitos específicos definem reciprocamente os seus significados através da interação dos diversos conceitos. o que mantém é o fortalezense. prostituição e turistas estrangeiros que não é o bom turista. Assim. relacionadas à construção do “mito fundador” da representação da degradação e lugar de prostitutas e gringos. com a presença do turista estrangeiro. mas também por meio de palavras-chave. Como conseqüência. com os significados concorrentes de distintas orações conceituais. Narrativa dois: Os bares começaram a fechar porque encheu de gringo. A seguir apresento. Narrativa um: Hoje a Praia de Iracema é dominada por menores infratores. Por meio deste método proposto por Martínez (1996). Concedida em 02 de agosto de 2005). é o pessoal daqui ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . a lista de conceitos se estrutura em dois níveis. (Entrevista com um morador que reside há 32 na Praia de Iracema. Ao utilizar esse modelo de análise de conteúdo identifiquei “categorias” que caracterizam fases da história recente do bairro Praia de Iracema. A apreciação de uma lista de conceitos e palavras-chave permite ao pesquisador agrupar famílias de conceitos similares. uma “categoria” é um conceito geral que deriva de uma família de conceitos concretos por sua vez derivados de orações particulares. porque o que mantém um restaurante não é turista. e sua representação hoje. começou a chegar boates e o fortalezense deixou de andar aqui. não é bom para a capital é o turista que vem a procura de drogas e prostituição. 2) a especificação do significado das ditas unidades tem de ser redefinida observando seus contextos: uma unidade dada pode está localizada em distintos contextos e a interação entre esses contextos deve redefinir o significado da unidade em questão. Para isso coloca-se as unidades soltas (palavras-chave) frente às unidades complexas (orações conceituais) de que formam parte.

que sempre residiu na Praia de Iracema. é o modelo dos hotéis que estão destruindo as comunidades dos povos do mar. dessa coisa gostosa da beira da praia e tudo. que a Praia de Iracema é uma ponta de iceberg. (Entrevista com uma moradora. Começou a chegar boates e o fortalezense deixou de andar aqui. as pessoas não andam mais na Praia de Iracema. Narrativa três: Eu acho.. Narrativa quatro: O gringo traz o taxista.) tudo isso para dá a esse turista europeu. de 34 anos. (. Turista (estrangeiro) que vem a procura de drogas e prostituição. estão loteando as praias para fazer os resortes.. que não tem segurança. Residente há 25 anos na Praia de Iracema.. seria em primeiro lugar. A lista de palavras que tem significados relevantes é: Prostituição Turistas estrangeiros Drogas Boates A lista de conceitos contempla: A Praia de Iracema é dominada por menores infratores.. implementado no Estado. traz o menino de rua. o modelo de desenvolvimento. (O problema é) o modelo de turismo que a gente tem no Estado. Concedida em 23 de agosto de 2005). Gringo Taxista Vendedores ambulantes ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . não tem iluminação. prostituição e turistas estrangeiros. isso é o modelo de turismo que a gente tem aqui.. traz os vendedores ambulantes (.16 que vai com a família. traz a prostituta. os modelos de turismo que a gente tem no Estado. hoje em dia as pessoas não vem mais aqui porque ficam incomodadas com essa invasão de prostitutas e de gringos que tem aqui. não é pelo simples fato de que está quebrada. (. (Entrevista com um empresário. não é isso porque sempre foi dessa forma e as pessoas vinham. Concedida em 19 de maio de 2005). Os bares começaram a fechar porque encheu de gringo. mas as despesas do dia-a-dia são tiradas com o pessoal daqui. Concedida em 19 de maio de 2005). o turista melhora [o movimento]. as pessoas faziam questão de vir aqui pra usufruir a beleza do ambiente. esse turista qualquer que venha pra cá e manter as mulheres que eles quiserem.) (Entrevista com um morador.. fechar essas boates porque eu acho que elas é que trazem todos os outros problemas.) As soluções pra mim.

São Paulo: Papirus. Alguns utilizadores do bairro entendem que a chegada dos novos freqüentadores. O fortalezense abandona o bairro. a prostituta. Com o gringo veio o Surgimento de boates. Estudos Sociológicos de Cultura Urbana. gringos. Percursos. financeiras e afetivas entre os turistas estrangeiros e suas acompanhantes se relacionam diretamente com o uso e apropriação do espaço na Praia de Iracema. A análise de conteúdo das narrativas me permitiu identificar que a chegada do turista estrangeiro é considerado o “mito fundador”. gringo. e os vendedores ambulantes. Celta. Referencias Bibliográficas AUGÉ. o menino de rua. a O fortalezense abandona chegar o bairro. Fase do bairro Características Categorias “Mito fundador” de Chegada dos turistas Os bares começaram a Invasão de prostitutas e Presença estrangeiros – gringos. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . 1997. Oeiras. da representação do bairro como degradado e lugar de prostitutas e gringos. Cultura e Globalização: Ensaios de Sociologia. Fechamento de bares. Paisagens Culturais. Começaram boates. Neste sentido. taxista. fechar porque encheu de gringos. os conflitos decorrentes das trocas sexuais. FORTUNA. ___________. Oeiras: Celta Editora. Carlos (org. sem um sentimento de pertença ao bairro.) Cidade. Identidades. 1994.17 Quadro 1: A presença de gringos como um “mito fundador” da representação da degradação. contribuiu para sua identificação com um cenário de encontros de alcova. 1999. Marc. Não-Lugares.

ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Fortaleza. Fortaleza. Na metrópole: textos de antropologia urbana. Números ½. a Propósito da Praia de Iracema. Imagens da Cidade ou Imaginário Espacial? Reflexões sobre as relações entre Espaço.Fapesp. MAGNANI. Madrid: Siglo Veintiuno de España Editores.18 GONDIM. 03 de junho de 1995. Caderno Vida e Arte. Periódicos ARTE guarda memória da PI. impresso. In Revista de Ciências Sociais. TORRES. Ganchos. Lilian de Lucca (orgs). Sharon. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo. Captolina Díaz. 2001. Solange Maria de Oliveira.) O espaço da diferença. SCHRAMM. Modelos de Autopercepción y de Vida entre Adolescentes Españoles. Política e Cultura. Fortaleza. Universidade Estadual de Campinas. Lisboa: Ed Âmbar. LEITE. El Presente de su Futuro. 2001. 1996. Espaço público e política dos lugares: usos do patrimônio cultural na reinvenção contemporânea do Recife Antigo. tachos e biscates – jovens. 2ª Ed. 2001. Programa de PósGraduação em Sociologia. MARTINEZ. Airton. Campinas: Papirus. Território livre de Iracema: só o nome ficou? Memórias coletivas e a produção do Espaço na Praia de Iracema. 2000. Rogério Prença de Sousa. O POVO. José Machado. 09 de dezembro de 2004. O POVO. Campinas. trabalho e futuro. “Paisagens urbanas pós-modernas : mapeando cultura e poder” In Antônio Arantes (org. Vol. 2005. José Guilherme Cantor. Era uma vez a Praia de Iracema. 2000. Linda. 32. impresso. ZUKIN. MONTE. PAIS. Universidade Federal do Ceará.

A recente viagem deste barco que se propunha a realizar interrupções voluntárias da gravidez em águas de jurisdição internacional ― onde prevaleceria a lei holandesa ― de bandeira do barco. Women on Waves. Este processo que com diferentes momentos de intensidade vem animando o debate político na sociedade portuguesa esgrime questões tão instigantes como as representações ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . É a partir da minha experiência de activista neste processo. Portugal é dos únicos países da Europa com legislação fortemente restritiva à prática de interrupção voluntária da gravidez.uc. Este processo que com diferentes momentos de intensidade vem animando o debate político na sociedade portuguesa esgrime questões tão instigantes como as representações culturais da mulher. concitando ainda relevantes momentos de análise das dinâmicas democráticas sobre o direito e a transformação legislativa. foi um fenómeno singular na sociedade portuguesa: pelo aceso debate que suscitou na opinião publica. que pretendo formular nesta comunicação algumas reflexões sobre o momento cultural e político então criado Palavras-chave: direitos/género/cidadania/movimentos sociais 1. Malta e Polónia. pelo facto de se inscrever nas formas de acção política ditas radicais ao mesmo tempo que sustenta a sua acção no cumprimento da lei.pt A luta despenalização do aborto em Portugal constitui uma das aspirações mais emblemáticas na enunciação dos direitos das mulheres no contexto português.O Kula revisitado? A cultura dos direitos na luta pela despenalização do aborto Madalena Duarte Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra madalena@ces. juntamente com a Irlanda. Introdução A luta despenalização do aborto em Portugal constitui uma das aspirações mais emblemáticas na enunciação dos direitos das mulheres no contexto português. e pela circunstância de constituir uma forma de acção política sobre uma legislação nacional com um desenho exuberantemente transnacional. da maternidade e da vida. dado que. uma perspectiva de análise ao mesmo tempo privilegiada e problemática. O interesse deste quadro histórico não se restringe às nossas fronteiras. Elemento este que foi mobilizador para uma conciliação de esforços entre algumas organizações portuguesas e estrangeiras com vista a à vinda do célebre barco da organização holandesa.

O interesse deste quadro histórico não se restringe às nossas fronteiras. que pretendo formular nesta comunicação algumas reflexões sobre o momento cultural e político então criado e sobre as estratégias encetadas pelo movimento. à sua consulta. 1999. da maternidade e da vida. pois. pois. Women on Waves. e pela circunstância de constituir uma forma de acção política sobre uma legislação nacional com um desenho exuberantemente transnacional. 1 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Elemento este que foi mobilizador para uma conciliação de esforços entre algumas organizações portuguesas e estrangeiras com vista a à vinda do célebre barco da organização holandesa. A recente viagem deste barco que se propunha a realizar interrupções voluntárias da gravidez em águas de jurisdição internacional ― onde prevaleceria a lei holandesa ― de bandeira do barco. 1998 e 2003 e UMAR. foi um fenómeno singular na sociedade portuguesa: pelo aceso debate que suscitou na opinião publica. marcados por um esboçar daquela que viria a ser uma luta forte pelos direitos das mulheres nas décadas Neste ponto sigo de perto Tavares.2 culturais da mulher. A contextualização da luta 1 O direito da mulher à interrupção voluntária da sua gravidez não foi consagrado no conjunto de direitos das mulheres adquiridos após o 25 de Abril com a Constituição da República Portuguesa de 1976. uma perspectiva de análise ao mesmo tempo privilegiada e problemática. 2. Em ambas as publicações é feito um importante retrato histórico da luta pela despenalização do aborto em Portugal. Malta e Polónia. É a partir da minha experiência de activista neste processo. dado que. Uma análise mais detalhada desta análise cronológica obriga. juntamente com a Irlanda. Os finais da década de 70 são. pelo facto de se inscrever nas formas de acção política ditas radicais ao mesmo tempo que sustenta a sua acção no cumprimento da lei. concitando ainda relevantes momentos de análise das dinâmicas democráticas sobre o direito e a transformação legislativa. Portugal é dos únicos países da Europa com legislação fortemente restritiva à prática de interrupção voluntária da gravidez.

partidos políticos como o PS e PCP anunciam a preparação de propostas de lei sobre a despenalização do aborto. nomeadamente da UDP (1980) e do PCP (1982) para que a mulher possa interromper livremente a sua gravidez até às 12 semanas. Na década de 80 o aborto entra na agenda política. Estes projectos. Em simultâneo a Igreja Católica começa a firmar a sua posição publicamente. é a vez do PS apresentar um projecto-lei. é precisamente este projecto que vai ser aprovado em Janeiro de 1984. rapidamente chegam à imprensa internacional e. Estes julgamentos. entre outras). demonstrando uma total oposição a qualquer medida legislativa que autorize o aborto. em consequência. APF e MDM. o aborto clandestino em Portugal vai continuar a ser uma realidade. 2003). também. Nas galerias do ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . como os sindicatos começam a ter iniciativas neste domínio. Em 1983. entre elas a UMAR. que é considerado ainda mais restritivo do que o do PCP. são considerados algo limitativos no que concerne aos direitos da mulher (Tavares. 1999).3 seguintes. Em 8 de Março de 1977. consequência das acções do movimento feminista e dos julgamentos da década de 70. Os projectos-lei são chumbados em Assembleia da República e fica na história a imagem de 12 mulheres da CNAC nas galerias do parlamento envergando uma camisola com a inscrição “Nós abortámos”. contudo não deixam de representar um caminho no sentido da despenalização. entre eles o de uma jovem alentejana. Surgem projectos-lei. e partidos de esquerda tomam posições públicas contra este projecto-lei. a emergir associações e organizações feministas que têm a despenalização do aborto como bandeira e que o assumem publicamente (UMAR. com ele. Várias associações feministas. cria-se a Campanha Nacional pelo Aborto e Contracepção (CNC) que incorpora várias associações feministas e que se começa a mobilizar para mostrar solidariedade para com as mulheres julgadas por aborto. em 1979. Logo em 1975 é criado o Movimento para a Contracepção e Aborto Livre e Gratuito que exigia a despenalização do aborto em Portugal e a difusão e informação sobre contraceptivos em Portugal. sobretudo o do PCP. é entregue uma petição de 5 mil assinaturas na Assembleia da República exigindo a despenalização do aborto. Começam. Não obstante esta resistência e críticas. Não só os partidos políticos. E. uma vez que não prevê sequer razões económicas para uma mulher interromper a sua gravidez (UMAR. conhecendo algumas destas uma visibilidade social que as mantém ainda hoje como importantes actores nesta luta. porque consideram que.

começam a organizar-se novas iniciativas quer por parte da sociedade civil. em Fevereiro de 1997. Alguns dias mais tarde. se houver sério risco para a saúde física e mental da mãe (12 semanas). No mesmo mês. Após a aprovação da lei de 1984. 2 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . No entanto. na sua maioria. de 11 de Maio). a UMAR lança a Linha SOS-Aborto. artigos 140º e seguintes. A indignação e o mal-estar público levam a que algumas deputadas do PCP e do PS acusem os deputados que votaram contra os projectos-lei apresentados de contribuir em grande medida para situações como esta. se houver inviabilidade fetal (sem prazo). se a gravidez resultar de violação (16 semanas). a JS e o PCP apresentam dois projectos-lei de despenalização do aborto a pedido da mulher. no dia internacional da mulher. pela publicação de artigos. mas não são aprovados. morre uma mulher. em Portugal. deste modo. por exemplo. A luta continua”. assim que é aprovado o projecto. com 36 anos e três filhos. quer por parte dos partidos políticos (Tavares. também começa a ganhar força um contra-movimento. Foi. aos poucos. se a discussão parlamentar dos projectos-lei constitui um novo alento para o movimento pela despenalização que começa. longo e complexo o caminho que levou de novo à colocação do aborto na agenda pública e política. É esta a lei que está hoje em vigor 2 . Mas.4 parlamento. o aborto é um crime. a reerguer-se. se houver grave malformação do feto ou se o recém-nascido vier a sofrer. ligado à Igreja Católica. pois. O aborto não é punido apenas nos seguintes casos: se for o único meio de evitar a morte da mãe (sem prazo). Este crime está previsto e punido no Código Penal. produção de relatórios e realização de debates. vítima de aborto clandestino. 2003) e. o movimento anti-escolha. De acordo com esta lei (Lei nº 6/84. sendo que o da JS não é aprovado por um voto. a iniciada em Fevereiro de 1997 “Não matarás o zezinho”. em 1996. o movimento conheceu algum esmorecimento e durante vários anos a luta passou. as mulheres que se fazem abortar e as pessoas que realizam a intervenção estão a cometer um crime. que desenvolve campanhas ancoradas moralmente impactantes como. Os dois projectos-lei vão a votação na Assembleia da República. e como consequência de notícias na imprensa de que a PJ estaria a investigar 1200 mulheres que tinham abortado numa clínica clandestina em Lisboa. de forma incurável de doença grave (24 semanas). A década de 90 ficou marcada pelo referendo sobre o aborto e pelos julgamentos de mulheres. solta-se uma faixa que diz: “Lei do PS mantém aborto clandestino.

o “Movimento Sim Pela Tolerância”. Desde logo porque algumas associações feministas envolvidas entendiam que a JS não devia ter encurtado o prazo. assim. e a um cenário político partidário em que a direita se unia e o partido do governo se encontrava fragmentado e marcado pelo ideal católico de um PrimeiroMinistro que publicamente se mostrou contra a despenalização. Cria-se. com maiores recursos e capacidade de mobilização. profissionais de saúde. Por razões atribuídas ao fundamentalismo da posição do não. uma plataforma que integrava partidos políticos. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . porque nesse mesmo dia PS. era necessário criar um movimento forte que fizesse face aos movimentos associados à Igreja Católica. 2003). que desde cedo se pronunciou contra a mudança da lei. A campanha do referendo (que ocorreu de 15 a 26 de Junho de 1998) assumiu-se como um momento de intenso e polémico debate em que nem sempre os argumentos surgiram com a clareza necessária. uma vez que o prazo legal previsto para a interrupção voluntária da gravidez é reduzido para 10 semanas. o não ganhou. contra todas as sondagens. Para as pessoas envolvidas no movimento pela despenalização do aborto este foi um marco histórico (Tavares. os dois projectos são debatidos na Assembleia da República: o do PCP não é aprovado por 3 votos. Também o PCP apresenta um projecto-lei semelhante ao já proposto em 1997. que se encontrava no Governo. mas o projecto-lei da JS é aprovado. etc. Mas. deputados. artistas. António Guterres. à complexidade da questão referendada. e PSD celebram um acordo para a realização de um referendo nesta matéria. à indiferença e/ou à indecisão dos portugueses. Para tal não foi indiferente a posição do líder do PS. A 5 de Fevereiro de 1998. sobretudo.5 No início de 1998. em 28 de Junho de 1998. a vitória na luta estava longe de ser conseguida. O referendo não foi. e que depois se foi alargando a juristas. sindicatos. Perante um referendo imposto que muitos percepcionaram como uma expressão de uma instrumentalização política atentatória dos direitos de cidadania dos cidadãos e das cidadãs portuguesas. No entanto. associações de defesa dos direitos das mulheres. mais restritivo que o anterior. a JS apresenta um outro projecto-lei.

4 Uma das excepções a este desânimo surge com a discussão e aprovação da Lei 12/2001. O pós-referendo foi uma altura de grande desânimo 4 e de desvitalização de um movimento que se sentia impotente face à constituição da Assembleia da República e às demandas da democracia representativa. a discussão devia ter sido retomada e. pelo contrário.Acção Jovem para a Paz. consequentemente. não te prives e UMAR (União Mulheres Alternativa e Resposta) . já que. sobre a contracepção de emergência que assegura que a chamada pílula do dia seguinte pudesse ser vendida em Portugal e sem prescrição médica. coube aos agentes judiciários e aos tribunais garantirem a aplicação efectiva da lei em vigor e. 16. em 2004. Tendo como base um campo 3 De acordo com o artigo 115º da Constituição da República Portuguesa.5% a favor do não e 15. isto é. Portugal torna-se o único país da União Europeia que leva mulheres a julgamento por interromperem a sua gravidez.6 contudo. dos mais de 8 milhões de eleitores. referiu que nenhuma outra consulta nesta matéria seria realizada até ao final do mandato do seu governo. vinculativo 3 . líder do PSD. “O referendo só tem efeito vinculativo quando o número de votantes for superior a metade dos eleitores inscritos no recenseamento”. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Aveiro. foi ignorada. As manifestações do movimento pelo sim começam a cingir-se a presenças à porta dos tribunais. 5 O então Primeiro-ministro José Manuel Durão Barroso. 3. Com efeito. a artigos na imprensa e. Lisboa…). Clube Safo. à entrega de uma petição com 120 mil assinaturas na Assembleia da República para a realização de um novo referendo que se revelou infrutífera 5 . Setúbal. Neste cenário.5% a favor do sim. A campanha WOW: breve descrição É num cenário de um activismo institucionalizado e essencialmente reactivo que um conjunto de associações portuguesas . votaram menos de 3 milhões. assumindo-se o resultado no referendo como uma decisão final. começam a despoletar os julgamentos de mulheres (Maia. apenas 32% dos eleitores se pronunciaram.unem esforços e decidem convidar a organização holandesa Women on Waves (WOW) para vir a Portugal e desenvolver uma campanha pela despenalização do aborto.

a WOW desenvolve actividades mediáticas nos países onde o aborto é ainda criminalizado que visam chamar a atenção para as consequências nefastas dos abortos clandestinos e para a necessidade do aborto ser despenalizado. definindo-o como uma zona marítima contígua ao território do Estado costeiro e sobre a qual se estende a sua soberania. desde 2001 que a WOW é uma organização não governamental (ONG) devidamente autorizada pelo Ministério de Saúde holandês a interromper a gravidez de mulheres que assim o decidam até um prazo máximo de 6 semanas e meia. de 1982. Assim. debates com profissionais do direito. sessões de esclarecimento e sensibilização para a prevenção de doenças sexualmente transmissíveis e de gravidezes não desejadas. para tal. o limite exterior do mar territorial é fixado nas 12 milhas náuticas. que desejassem interromper a sua gravidez. A cronologia deste acontecimento consubstancia um exercício importante de reflexão sobre as opções dos movimentos sociais e dos constrangimentos políticos.7 de acção transnacional e usufruindo de um pluralismo jurídico a partir de cima. Tais iniciativas e a vinda do Borndiep foram cuidadosamente preparadas desde a vinda de Rebecca Gomperts a Portugal. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . através da pílula abortiva. onde. deslocando-as. certo é que o projecto WOW consistia em mais actividades. até águas internacionais 6 . propunha-se a ajudar as mulheres portuguesas. cerca de um ano antes. a WOW assenta a sua campanha na deslocação de um barco que traz consigo um contentor onde funciona uma clínica ginecológica e na qual é possível realizar abortos a pedido da mulher. Tal acção não expressa qualquer tipo de ilegalidade. Com efeito. Inspirada na ideia do barco da organização ambientalista Greenpeace. Esta componente do projecto aplica-se exclusivamente a águas internacionais. eventos culturais. com uma gravidez até seis semanas. uma equipa de médicas e enfermeiras devidamente autorizadas podem realizar abortos. o Borndiep. nome do barco utilizado na campanha da WOW em Portugal. jurídicos e culturais que os 6 De acordo com a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar. reuniões com partidos políticos. mas antes articula normas do direito nacional com normas do direito internacional. a bordo do barco que está sob jurisdição holandesa. Embora tivesse sido a faceta mais mediática e polémica da campanha. canalizando os ganhos mediáticos da campanha desenvolvida para a mudança da lei restritiva. designadamente workshops no âmbito da saúde sexual e reprodutiva.

devem ser surpreendidos. se assumiram como mais marcantes. Junho/ Julho de 2004: Recrutamento e Preparação de Voluntários Em 5 de Junho de 2004. bem como todas as informações relativas ao projecto são. Em Julho. os cerca de trinta voluntários. se encontravam a Rebecca Gomperts e Guinilla Kleivierda. Esta formação. quer para a opinião pública. Para além de promover o conhecimento e a sensibilização junto dos profissionais de saúde.8 condicionam. para angariar voluntários. pelo que o contacto com os media é reduzido ou mesmo nulo. a WOW navega novamente para um país onde o aborto é penalizado. do atendimento da hotline e ao nível jurídico. a esta altura. este seminário serviu. da relação com os media. activistas e outros para as campanhas da WOW e para a questão da despenalização do aborto como um problema de saúde pública. nomeadamente ao nível da segurança. quer internamente para o movimento constituído. em 2003. o que dizer. sempre dentro da legalidade. bem como o Governo. na prática. Agosto de 2004: a chegada do Borndiep e a acção do Governo português A 23 de Agosto é realizada. Desde cedo se percebe que os media. Depois da viagem em 2001 à Irlanda e. sócios das associações envolvidas e pessoas a título individual. ainda confidenciais. e da estratégia pensada para o projecto. entre os palestrantes. o barco pretende atracar no porto da Figueira da Foz. médica ginecologista da WOW. pelo que se referem de seguida algumas das datas que. à Polónia. na Holanda. Mais especificamente. Em cada uma destas áreas. receberam formação diversa para poderem participar na campanha. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . foi dito aos voluntários como agir. estando presentes na formação os advogados portugueses das associações envolvidas e da WOW. foi realizado em Coimbra um seminário sobre saúde reprodutiva onde. uma conferência de imprensa anunciada a partida do Borndiep rumo a Portugal.

violando-se um sem número de convenções e directivas europeias. mais de trinta voluntários portugueses e holandeses se encontram preparados. a sua soberania jurídica. imagens que rapidamente são divulgadas nacional e internacionalmente. informamos o seguinte: no que se refere ao pedido de autorização para a embarcação Borndiep entrar em águas territoriais portuguesas com destino ao Porto da Figueira da Foz. e a política. através dos media nacionais e internacionais. Mais tarde o Governo justifica a sua decisão afirmando que. na prática. publicitar e promover a prática de actos ilícitos em Portugal. de 1982. após tentativas falhadas de comunicação com as autoridades marítimas. O impacto mediático da campanha cresce a cada dia. O impacto mediático é extraordinário. e o direito português. efectivamente. nomeadamente os artigos 19 e 25. E. o que poderia colocar em causa a saúde pública (idem: 12). nomeadamente. teve conhecimento que a ONG holandesa WOW pretendia entrar em território português para: distribuir e publicitar produtos farmacêuticos não autorizados em Portugal. com a notícia a abrir vários serviços noticiosos televisivos. As arenas de eleição eram. mas não para a eventualidade da sua não chegada. através do recurso aos media. Pela primeira vez o barco era proibido de entrar em águas nacionais num país. inclusive a perseguição judicial. Neste momento nota-se. Estes argumentos serviram. a pública. Entre 26 e 27 de Agosto. através da equipa jurídica. a tripulação do Borndiep. três: a legal. constituída somente por membros da WOW. informamos que.9 onde numa casa especialmente arrendada para o efeito. agora. um certo desnorteamento. mediante o lobby exercido junto aos partidos políticos portugueses e Governo holandês. com várias equipes de reportagem estrangeiras a chegar à Figueira da Foz. como suporte ao argumento mais invocado: o de que esta campanha atentava contra a soberania do Estado português. recebe um fax no qual se pode ler: “Em nome das autoridades marítimas portuguesas. no seio dos activistas. A cautelosa formação a que se tinham submetido preparava-os para qualquer imprevisto e obstáculo após a chegada do Barco a águas territoriais. 2005: 11). desenvolver uma actividade numa infra-estrutura médica sem licença ou inspecção por parte das autoridades portuguesas competentes. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . ao abrigo da Secção III Parte II da Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar. começam a ouvir-se rumores de que o barco será impedido de entrar em águas territoriais. esse foi recusado” (WOW. sobretudo quando são destacadas duas covertas para vigiar o Borndiep.

Também o Governo e deputados holandeses iniciam esforços no sentido de ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . inícios de Setembro: entre a acção institucional. alugando uma pequena embarcação: se o Borndiep está impedido de vir junto dos portugueses. A discussão instala-se no seio do grupo de activistas: deve ou não o Borndiep regressar à Holanda? Que alternativas devem ser equacionadas para que toda a campanha não seja colocada em risco? Nesta altura há uma certa cisão no grupo. no dia seguinte. designadamente os activistas da WOW. pressionar politicamente o governo para que este levante a proibição. a acção foi pensada para ser desenvolvida sempre dentro dos limites da lei portuguesa e toda a formação dos activistas foi no sentido de cumprimento da lei pelo que a opção por uma acção ilegal podia traduzir-se em perdas de legitimidade do projecto globalmente considerado. estes não estão proibidos de ir até eles. Os activistas estavam preparados para serem detidos pela polícia. necessariamente. é a vez dos deputados parlamentares Francisco Louça (Bloco de Esquerda). quer para os activistas envolvidos. Entendendo-se que é ainda cedo para encerrar a campanha. é rentabilizado em termos mediáticos. também. Com a proibição à entrada do barco. porque a sua acção era legitima e legal. Se alguns. A campanha WOW foi a este nível paradigmática. mas não para ir contra a lei. os movimentos sociais caminham num permanente limbo entre a acção institucional e a acção radical que foge ao poder do Estado. mas. claramente. O objectivo agora é. alteradas. Este barco faz viagens para levar mantimentos à tripulação. irem ao Borndiep. o que não se vem a verificar. havendo viagens específicas para jornalistas e políticos: a JS realiza no Borndiep uma conferência de imprensa a 30 de Agosto e. Afinal. a acção radical e a acção ilegal Como refere Boaventura de Sousa Santos (2005). voluntários a conhecer o Borndiep. a WOW e as associações portuguesas envolvidas optam por contornar a situação inesperada. entendem que o barco deve forçar a entrada e avançar para águas territoriais portuguesas. as acções planeadas para os quinze dias de estadia são.10 Finais de Agosto. Odete Santos (PCP) e Jamila Madeira (Parlamento Europeu). outros consideram que tal acção constitui um risco grave quer para a tripulação.

que havia continuidade de actividade criminosa em território português. o Ministro dos Negócios Estrangeiros da Holanda. A seis de Setembro é conhecida a decisão do Tribunal Administrativo de Coimbra. assim como a viagem forçada do Borndiep a Espanha para se abastecer de combustível. Baseados no direito à liberdade de mobilidade. artistas e profissionais de saúde que ocorrem em terra e não a bordo do Borndiep como inicialmente se tinha previsto. Estes são momentos de uma nova atenção mediática. A dois de Setembro. Estas são acções moderadas e institucionais. por seu lado. em nome do Parlamento Holandês. Assim. e a divulgação pela Rebeca Gomperts. o Borndiep fez a viagem que muitas mulheres portuguesas fazem para abortar: vão a Espanha. Bernard Bot. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . do modo como a mulher portuguesa podia abortar usando Misoprostol. A juíza decidiu a favor do Governo dizendo que este tinha agido de acordo com o seu poder discricionário e não cabia a um juiz anulá-lo. designadamente aos workshops com políticos. Também a quatro de Setembro. Considerou. deputadas do Parlamento Holandês vêm a Portugal como forma de apoio à campanha WOW. que levante a interdição. que reuniu cerca de 250 pessoas junto da residência oficial do Primeiro-Ministro. Progressivamente a campanha começa a perder força e vitalidade e os media dão menos destaque às iniciativas. os advogados da WOW solicitaram ao tribunal que anulasse a decisão do Ministro Paulo Portas e permitisse ao barco entrar em águas portuguesas. já que tal operação foi proibida em Portugal. de informação. também. no programa SIC 10 Horas de 7 de Setembro. mas pede. Os advogados do governo argumentaram. que verdadeiramente podia haver continuação da actividade criminosa e que os direitos fundamentais invocados pela WOW não são absolutos e podem ser restringidos quando há interesses maiores em risco. mas o aborto ocorria em Portugal. argumento que foi contestado. assim como a acção judicial contra o Estado português Paralelamente a estas. há acções de confronto como a manifestação realizada a 1 de Setembro. uma vez que a pílula abortiva era administrada no barco. de reunião e de expressão. a colagem de faixas com a inscrição “Eu fiz um aborto” em diversos pontos da cidade de Lisboa. Julgamento.11 convencer o Governo Português a permitir a entrada do Borndiep. diz respeitar a decisão do Governo Português.

que está. mostrando que. por acções institucionais. 4. o chamado “Barco do Aborto” emerge como uma forma de acção colectiva nova que se inscreve nas formas de acção política ditas radicais. à Holanda e a campanha termina. Em primeiro lugar. tal pluralismo jurídico não só foi ignorado pelo Governo. o direito é político. aliás. notou-se uma diferença entre a agenda da WOW e a agenda das associações portuguesas. pelo contrário. Neste ponto. entendendo várias pessoas que Rebeca Gomperts não deveria ter divulgado como cada mulher podia fazer um aborto se assim o entendesse. o que de facto aconteceu após o programa SIC 10 Horas. um obstáculo a que a acção se radicalizasse. já que os direitos são instáveis. O Borndiep surge como uma “dádiva” provinda de outro país para a luta pela despenalização do aborto em Portugal ou. a 9 de Setembro. uma vez que os voluntários e algumas associações envolvidas queriam permanecer dentro da legalidade e evitar colocar em risco a legitimidade da acção.12 Sem qualquer esperança de que o Borndiep fosse ainda autorizado a entrar em Portugal e perante uma luta que se desmobilizava. no final. como defendem vários autores. essencialmente. na génese da criação da WOW. A primeira era mais imediata e procurava ajudar o maior ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . o recurso a um pluralismo jurídico que permite toda uma acção dentro da legalidade acabou por ser. 1984). o barco regressa. ambíguos e manipuláveis. podendo ser utilizados para justificar quase qualquer decisão judicial (Tushnet. Também a acção política do movimento foi constrangida. como a decisão do tribunal mostrou ser mais uma decisão política do que uma decisão judicial. O balanço da campanha obriga a uma reflexão deste tipo de estratégias não só na luta específica pela despenalização do aborto a pedido da mulher. O Borndiep como Kula? Numa sociedade marcada pela ausência de movimentos sociais fortes e por uma luta que se tem marcado. foi uma estratégia contraproducente? As acções usadas durante a campanha face à proibição da entrada do Barco foram adequadas? O grande trunfo da campanha. mas também na acção dos movimentos sociais generalizadamente considerados. ao mesmo tempo que sustenta a sua acção no cumprimento da lei.

Com efeito. ajudar efectivamente várias mulheres portuguesas. Em terceiro lugar. mais moderada. Finalmente. a segunda. permitiu reintroduzir na discussão pública um tema que parecia estar votado à marginalização das opções políticas. Esta possibilitou uma onda de apoio por parte de vários políticos. mostrou que 56% da população queria que o aborto fosse despenalizado imediatamente e 7% depois do Governo terminar mandato. como activista e socióloga. Uma outra sondagem. media e população em geral. Permitiu. realizada pelo Diario de Noticias e TSF. Desde logo. No entanto. ganhos mediáticos significativos. partido do Governo. mostrou que 79. foram várias as vozes que consideraram que uma questão da esfera íntima como é a da interrupção de uma gravidez. Certo é que o mediatismo conseguido por uma acção radical da sociedade civil sem precedentes em Portugal perdeu vitalidade e dinamismo quando enveredou por uma via mais institucional e moderada. Estes resultados e a reintrodução deste tema na opinião pública ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .9% dos inquiridos afirmavam querer um novo referendo e 60% defendiam que o aborto devia ser despenalizado. ainda que de uma forma mais indirecta do que a inicialmente prevista. a hotline esteve a funcionar durante toda a campanha. uma sondagem efectuada pelo jornal Público. inclusive do PSD. ainda. contribuiu para que os portugueses tivessem consciência do posicionamento de Portugal nesta matéria face aos restantes países da União Europeia. tinha objectivos definidos a médio-longo-prazo que passavam pela criação de um cenário propício à alteração da lei em vigor.13 número de mulheres portuguesas possível levando-as a bordo do Borndiep. levando ao repensar de conceitos como o de democracia. direitos e cidadania e a relacioná-los com a questão do aborto. Assim. questionando-se o grupo se esta foi uma opção eficaz. quer na televisão. A proibição da entrada do barco acabou por ter. durante a campanha. a derrota judicial conduziu a uma desmobilização final da luta. não deveria ser “espectacularizada” em iniciativas como o “Barco do Aborto”. De facto. no final. esta foi uma mobilização do movimento pela despenalização que fugiu ao carácter reactivo e pontual dos protestos dos últimos anos. Num outro aspecto. mesmo aqueles que eram contra a despenalização. e inclusive após a partida do Barco e houve informação disponibilizada quer na Internet. entendo que os ganhos desta campanha superaram as eventuais perdas.

Boaventura de Sousa (2005) Fórum Social Mundial: Manual de Uso. TAVARES. Mark (1984) “An Essay on Rights. UMAR. Referências Bibliográficas SANTOS.14 contribuiu. para que nas campanhas para as eleições legislativas que se iniciaram pouco tempo depois da campanha WOW. WOW (2005) Women on Waves – Portugal. após Abril de 1974. História do movimento pelo aborto e contracepção em Portugal. Porto: Edições Afrontamento. Manuela (1998) Movimentos de Mulheres em Portugal. 62:1363. WOW ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Lisboa: Livros Horizonte. a questão do aborto estivesse presente em todos os debates televisivos e nos programas eleitorais. na minha opinião. TAVARES. UMAR (1999) Aborto – decisão da mulher.” Texas Law Review. Lisboa: Universidade Aberta. TUSHNET. Dissertação de Mestrado em estudos sobre as mulheres. Manuela (2003) Aborto e Contracepção em Portugal.

O motivo da discórdia relaciona-se com diferentes versões daquilo que é o valor patrimonial do edifício. processos de tradução. mediação 1. adquiriu o espaço para a construção de apartamentos. a vontade de rentabilização do seu proprietário. A controvérsia propriamente dita diz respeito à discussão sobre o tipo de intervenção a dar ao edifício que. havendo diferentes posições relativamente ao seu destino e às suas possíveis funções. FEUC. de um caso que nos remete para uma concepção de património como uma construção social. em finais da década de 80. a outra reforça-o. que defende a sua aquisição pública ou expropriação e a devolução da sua função de espaço cultural. a Câmara Municipal de Coimbra que. em tempos. foi um dos mais importantes Cine-teatros de Coimbra. propondo como solução alternativa. Trata-se. portanto. por outro. em que o estatuto patrimonial do objecto analisado não está definido. Esta comunicação baseia-se em dissertação realizada no âmbito do programa de mestrado em sociologia “As Sociedades Nacionais Perante os Processos de Globalização”. mas sim em discussão. mas que desde há mais de uma década enfrenta um processo de degradação. alegando razões financeiras. originalmente com o título “Património em Contestação: o caso da controvérsia em torno do Teatro Sousa Bastos. O interesse do edifício não é consensual. Introdução Esta comunicação centra-se numa controvérsia patrimonial em torno de um antigo Teatro situado na Alta de Coimbra. um acordo com o proprietário. enquanto que uma posição nega o interesse patrimonial do edifício. um promotor imobiliário que. 1 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . A minha abordagem situa-se O presente texto corresponde à comunicação apresentada pela autora no 3º Congresso da APA. em Coimbra”. controvérsia. A transformação do título deve-se ao facto de esta se tratar de uma versão revista e mais detalhada. Assim. dado que o mesmo dá origem a duas versões contraditórias sobre o valor do edifício. espartilhado entre toda uma heterogeneidade de objectivos contraditórios: por um lado. e por fim. um movimento cívico em prol do Teatro. inviabiliza a última proposta.Uma controvérsia como objecto etnográfico1 Andrea Gaspar Palavras-chave: património.

altura em que foi aclamado Teatro D. Luís em homenagem ao monarca vigente. passando a incluir estes aspectos numa abordagem mais ampla que permite dar conta da construção praxiológica de um objecto patrimonial. mas no sentido em que há uma série de processos ou acções que são simultaneamente humanos e não humanos ou materiais – as mediações – as quais irão determinar esse estatuto do objecto em discussão. O ter estado atenta ao processo que antecede as suas consequências significou a consciência da problematicidade em separar um ponto de vista discursivo de um ponto de vista pragmático e material. importa sobretudo analisar as posições que a compõem enquanto processos contraditórios. que conduzem a dois produtos possíveis da controvérsia (património/não património). com o nome de Teatro Sousa Bastos. começou a sentir-se na década de 70. para uma Igreja Românica semelhante à Sé Velha. 2. 1999a. numa espécie de liminaridade patrimonial. a sua função de Teatro é bem mais antiga – remonta ao século XIX. Seguindo a perspectiva de Bruno Latour (1996. após instauração da República. 1999b). Pequeno apontamento histórico sobre o edifício Embora a fachada do edifício remonte à década de 1940. considero que este processo de patrimonialização se trata de uma construção social não apenas no sentido de algo que não está definido. de modo a ter um registo de todas as circunstâncias de que eles são feitos. Em todo o caso. da qual se supõe a existência de vestígios (cf. As origens do edifício. tendo sido reinaugurado em 1910. como algo exclusivamente humano). são ainda mais antigas: remetem para o século XII. a constatação de que eles fazem parte do mesmo processo. e sobretudo após 74. é importante salientar a tentativa de deslocação da análise de um ponto de vista meramente discursivo e ideológico. foi frequentado pela elite de Coimbra. mais precisamente. e portanto. desta vez em homenagem ao dramaturgo que era tio do então proprietário da casa de espectáculos (cf. Soares 1990-1992). por sua vez. no entanto. Não sendo o meu objectivo avaliar qual dos lados da controvérsia é que tem razão. altura em que foi remodelado ao estilo arte déco.precisamente na análise de todo o processo que leva à construção destes respectivos enunciados. como se de algo puramente “social” se tratasse (ou seja. Como Teatro. A sua decadência. Gambini 1999). tendo passado a ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .

1989). acabaria por ser adquirido por uma sociedade constituída entre um promotor imobiliário e um ex-presidente de Câmara de Coimbra (cf. consequentemente.funcionar exclusivamente como Cinema. preocupadas em reviver costumes e tradições de uma Alta passada. bem como o bairro mais antigo da cidade. A Alta de Coimbra Contextualizando um pouco a controvérsia. produto de um conjunto de tensões que provêm menos de uma real separação entre dois tipos de população (a população autóctone vs população flutuante). com o seu crescimento. tinha o intento de transformar o espaço num Centro Cultural. Instalou-se. fazendo do local uma zona marcada pelo envelhecimento e pela desertificação. ambição essa mal sucedida. a Alta de Coimbra é um espaço dotado de alguma ambiguidade. as quais são visíveis. Posteriormente. Há. do que dos discursos nos quais essa separação é produzida. não obstante as diversas tentativas por parte dessa Cooperativa que. devido à coexistência de população autóctone e de população universitária. e por outro lado. na Alta. mais “autêntica”. 3. uma vez que a própria Universidade. tem vindo a deslocar-se para zonas mais periféricas. a discórdia e. associações recreativas. uma vez que a posse pública do edifício nunca se chegou a concretizar. desde então. importa salientar o facto de o espaço se situar na Alta de Coimbra. foi a sede de uma Cooperativa de Teatro – a Bonifrates – que. Espaço de múltiplas vivências. por exemplo. Por essa razão. perante a degradação do edifício. centro de serviços). O edifício. um processo de ruína que tem durado até aos dias de hoje. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . a Alta é assim uma espécie de laboratório de representações múltiplas e ambíguas. ao espírito da época. altura em que foram sendo projectados filmes altamente lucrativos. entretanto. folclóricas e etnográficas). à semelhança da maioria dos centros históricos em Portugal. A Alta de Coimbra tem vindo a perder as suas funções de centro (centro habitacional. Diário de Coimbra. viria a trocar este espaço por outro. sobretudo westerns e filmes pornográficos. associações mais ligadas ao meio local (associações de moradores. que lhe fora oferecido com melhores condições. ao nível associativo. em inícios da década de 80. Uma das mais importantes características da Alta de Coimbra é o facto de se tratar simultaneamente da zona onde se situa a Universidade.

importa salientar que a ADDAC reproduz. altura em que a Cooperativa de Teatro Bonifrates abandonou o edifício. quando o proprietário apresentou um projecto de construção de apartamentos. para os quais funcionam como uma espécie de rituais de cidadania. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Formou-se então um Movimento Cívico composto por várias associações da Alta. remonta a 1989. contestando o localismo e o passadismo da visão das primeiras. 4. Breve contexto da controvérsia A controvérsia é longa. a ADDAC (Associação de Desenvolvimento da Alta de Coimbra) e as Repúblicas da Alta de Coimbra – o movimento Salvem o Sousa Bastos. representam-na como espaço em que o espírito de bairro e as relações sociais cedem lugar a uma objectificação e esteticização do centro histórico para consumo turístico – a perspectiva da mercantilização da cultura. Neste contexto de relações. No seguimento do que foi dito no ponto anterior. entre as principais. como algo que perdeu a sua centralidade e se desfuncionalizou. Estanque 2005). ou a semióforo. através dos seus discursos. a Alta é objecto politico de contestação. segundo o conceito de Kristoff Pomian (1984). por sua vez preocupadas em promover a participação cívica e o activismo social dos seus residentes (cf. que viria a ser aprovado pela Câmara Municipal. o que não raramente corresponde a uma visão idealizada do “espírito de bairro”. salientam a Alta como um espaço vivo de relações sociais. e do ponto de vista da musealização do espaço urbano. de reactualização de discursos e constante negociação de representações e divergências políticas acerca do que é e deve ser o espaço social do centro histórico de Coimbra. Este foi o primeiro momento da controvérsia.associações mais ligadas a um meio académico e político que. passando a significante. residências de estudantes autogeridas e organizadas em termos associativos. interpretar o Teatro Sousa Bastos. uma representação da Alta como um espaço pitoresco. e que por isso se situa numa espécie de liminaridade em que se discutem novas funcionalidades. por isso. o Sousa Bastos pode ser considerado como uma espécie de objecto de museu metonímico da própria Alta e dos discursos sobre ela produzidos. Tal é o caso das Repúblicas de estudantes. Poderemos. enquanto as Repúblicas. tal como a Alta. mas foi sobretudo em 1996 que se levantou a discórdia. Mais do que pano de fundo da controvérsia.

o projecto do proprietário ficou suspenso devido à obrigatoriedade de escavações arqueológicas. para as Repúblicas. que surgiu aquando da reunião de dois factores: por um lado. começava a ruir. com a contrapartida da cedência de algum espaço no rés-do-chão para construção de uma sala polivalente que servisse as actividades locais da população daquele bairro. que entretanto. E portanto. Entretanto. formando um único grupo. Tais negociações iam no sentido de permitir o projecto do construtor. No contexto das suas intenções. procurando com isso acompanhar o modo como essas duas versões sobre o interesse patrimonial do edifício estavam a ser construídas. Por seu lado. a aproximação de eleições municipais. enquanto processo (contestado) de patrimonialização em curso. com vista a resolver o problema do Teatro. com a ideia de recuperação do edifício. dado que ambos possuíam. implicando a restituição fiel da sua fachada bem como da sua função. tal não significava necessariamente um restauro do edifício. há aqui contextos de motivações políticas que divergem e que formam agregações de intencionalidades distintas. com um novo nome: o Movimento Sousa Bastos Vivo. para a ADDAC. na qual este edifício se insere. altura em que se reacendeu a discórdia. a reconstrução do edifício como Teatro. ambas se uniram num objectivo comum (lutar pela preservação do edifício como espaço cultural). por outro lado. a reuniões com a população. havendo por parte da Câmara Municipal. Esta associação de moradores manifesta uma preocupação com a degradação e crescente desertificação e desfuncionalização da Alta como espaço social. em 2003. a Comissão para a Coimbra Capital Nacional da Cultura. Houve um impasse até uma segunda fase da controvérsia. e este objectivo inseria-se num outro contexto de preocupações: a política cultural da cidade. ao longo da controvérsia. diferentes intenções à partida. Foi a partir deste segundo momento que tive a oportunidade de acompanhar a controvérsia à medida que ela se foi desenrolando: assistindo a debates. público na sua essência. O assunto do Teatro Sousa Bastos volta a ser colocado nas agendas políticas. a acções e a manifestações culturais. Mas o objectivo de recuperação do edifício como espaço cultural acabou por revelar. O movimento cívico veio discordar desta posição. a anunciação de negociações com o proprietário. Deu-se assim o ressurgimento do protesto. mantendo a defesa do edifício como espaço cultural. um significado diferente para ambos os grupos. Apesar das diferenças de sensibilidades e de motivações de partida. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .marcada por uma visão negativa e pessimista relativamente aos fenómenos de “musealização” do espaço urbano. um “espaço cultural” significava.

por seu lado. com outras intenções. não num Teatro. a transformação do Sousa Bastos num espaço cultural alternativo. que passou a ser a ser aliada da Câmara Municipal. também as agendas irão ser reformuladas. e que a Câmara não estava interessada em fazer mais um Teatro na cidade. e daí a constituição de acordos. e por isso. grupos e alianças. associa-se à ADDAC. a Câmara Municipal. Porém. que estão mais interessadas em defender um espaço cultural alternativo. que é mais representativa dos interesses dos moradores da Alta. o movimento cívico continuou a defender a necessidade da intervenção no antigo Teatro como espaço público. a partir do momento em que a Câmara Municipal anuncia um acordo com o proprietário. por um lado. a ADDAC declarou a sua desvinculação do movimento cívico. As Repúblicas. portanto. O argumento da recuperação do edifício como espaço cultural foi o denominador comum que agregou as Repúblicas e ADDAC no mesmo grupo. Reformularam-se assim os grupos de acção: Câmara e ADDAC. então apresentado como Movimento Sousa Bastos Vivo. Ao longo deste processo. pois permitia a ambos a concretização dos seus objectivos. marcada por novos protestos. Perante isto. A justificação da ADDAC pela divergência é a de que a anterior luta não revelou qualquer eficácia. por outro. e por não se identificar com a nova reivindicação. o qual consideram que serviria mais os artistas do que a população da Alta. Esta posição não veio a ser partilhada pela ADDAC. O que defendem é a importância de existência de espaços culturais ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . a concepção por detrás da ideia de “espaço cultural” foi revelando as divergências e diferentes motivações de partida. irão procurar convencer os artistas e grupos culturais de Coimbra. em nome de uma melhor política cultural na cidade. Perante isto. para atingir o seu objectivo (recuperar o edifício recorrendo à iniciativa do próprio proprietário). no sentido de avançar com um projecto misto.5. Perante isto. a sua aquisição pública ou expropriação. Movimento Sousa Bastos Vivo. Mas a principal objecção é dirigida à nova proposta do movimento. Esses objectivos de partida não são atingidos directamente. Processos de tradução A segunda fase da controvérsia foi. mas têm de ser mediados: são necessários outros. de modo a convencê-los de que essa é a opção “boa”.

é a que melhor representa a Alta. nível esse inseparável de um contexto praxiológico mais vasto. Os argumentos foram os de que uma sala polivalente para pequenas festas e para pequenos ensaios de peças de teatro ou de ranchos folclóricos serve melhor a população. Para além de debates. propondo para o Teatro Sousa Bastos a criação de um “Espaço Social e Performativo”. o Movimento Sousa Bastos Vivo foi organizando diversos debates públicos com a participação de convidados com algum destaque no meio cultural de Coimbra: artistas. Estamos. com o objectivo de envolver a população. assim. Para estas iniciativas. dando assim exemplos do que poderia ser a actividade cultural a desenvolver no “espaço social e performativo” (idem: 111). a síntese de uma crítica mais geral aos processos mercantilizantes da cultura e do património. e constitui. uma inauguração “fantasma” (simbólica) do novo Teatro. A ideia de um “Espaço Cultural e Performativo” permitiria. trabalhar com. o que significa que irá haver transformação no final do processo. ateliers com crianças e idosos da Alta. espectáculos. uma sessão de esclarecimento dos moradores. Por seu lado. professores universitários. do que um equipamento de grandes dimensões. foram convidados artistas a participar com criações originais. que formam o contexto no qual ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . o que significa que não faz sentido falar em discursos separadamente das estratégias: acções e de operações específicas. outras acções foram realizadas. organizou. para artistas. com o objectivo de convencer os respectivos públicos. tais como desfiles performativos. ambos os grupos foram realizando uma série de debates e de acções. Também estes procuram mostrar que defendem o que é “melhor” para a Alta (cf. Gaspar 2006: 170-176). e não para a população que ali vive. Importa com isto salientar que o mesmo objecto está a ser duplamente processado como património e como não património. intelectuais. contingentes e contextuais. em vez de mera consumidora de espectáculos. perante acções que ultrapassam o nível discursivo. como justificação para o investimento na criação desse espaço alternativo naquela contexto. em diferentes contextos e ocasiões: A Câmara. arquitectos. pelo movimento: diversas manifestações culturais. entre outras. em colaboração com a ADDAC. e constituídas as novas alianças. portanto. Reformuladas as devidas estratégias. A ideia de cidadania cultural permite entender a população da Alta como agente e participante nos processos culturais desenvolvidos. procurando mostrar que a proposta que apresentam.especificamente naquela zona da cidade. por sua vez inspirado numa concepção de cidadania cultural. por isso. sobretudo. agentes culturais. através do Gabinete para o Centro Histórico.

não conseguiram convencer os poderes autárquicos. enquanto que a ADDAC manifestava uma preocupação mais relacionada com a recuperação do edifício e das suas funções. e consequentemente. Os primeiros grupos autonomizados foram. Os segundos grupos. mas essas consequências são mais “duras” do que simples discursos. Nesse sentido. que era a recuperação do Teatro para fins culturais. após reformulação. a autonomização de grupos. No fundo. o outro que visa transformá-lo no enunciado oposto de “espaço sem interesse patrimonial”. que nos habituaram a uma concepção de sociedade como algo puramente humano. identifica-se como um desses passos ou operações. a ideia de que há uma série de passos até chegar ao enunciado final. na primeira fase da controvérsia. para uma abordagem material e praxiológica dos fenómenos sociais. É isto que tem marcado a passagem de uma abordagem simbólica da cultura. Os objectivos de ambos foram interrompidos. ou seja. pois. Estes interesses eram. no contexto de uma Alta concebida como espaço de habitação e de vivência social. por oposição a Movimento Sousa Bastos Vivo (Repúblicas em pareceria com agentes culturais). seguindo o conceito desenvolvido por Bruno Latour (1996). Pessoas e grupos com interesses heterogéneos uniram-se com um interesse comum. juntos. que têm consequências que não são meramente retóricas e discursivas. tão negligenciados ao longo das abordagens excessivamente humanistas e antropocêntricas das ciências sociais da modernidade. composto por várias associações. como leis científicas ou novos objectos materiais. em pareceria com o proprietário. desvio de percurso e reformulação de objectivos. que seguir caminhos ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . incluindo (ADDAC) e as Repúblicas de Coimbra. à partida. foram a parceria constituída entre Câmara ADDAC. que constituem dois processos de tradução distintos: um que visa transformá-lo no enunciado de que se trata de um “espaço patrimonial”. ou seja. pois as Repúblicas estariam mais interessadas na política cultural. os aspectos “objectivos” e materiais da realidade. trata-se de recolocar no âmbito da análise social. e consequentemente. são constituídos por uma série de acções ou operações. Neste caso. podemos considerar que o edifício está a ser duplamente processado por intenções opostas. segundo Latour.esses discursos são produzidos. reformuladas as estratégias. em termos de uma identidade e posição política acerca desta questão. Tiveram. A ideia de tradução. heterogéneos. Contudo. remete para um conjunto de acções que conduzem a transformações ontológicas e materiais. a Câmara Municipal. Os processos de tradução. por oposição ao primeiro movimento cívico.

histórico. numa segunda fase. ao mesmo tempo que o movimento mobiliza a retórica da política cultural da cidade. bem como com agentes culturais descontentes com a política cultural da cidade. Assim se transformam interesses heterogéneos em interesses comuns. mas que se tornaram aliados. em termos de mobilização retórica. novos aliados foram sendo mobilizados para a causa. e pela ausência de uma estratégia cultural por parte dos poderes autárquicos. aquilo que ele representa como Teatro naquele bairro. Esta operação. Fragmentado o movimento. bem como os discursos que lhe estão associados. passou progressivamente a ser a transformação do antigo Teatro num espaço alternativo para os grupos artísticos da cidade. bem como novas retóricas. significou seduzir para o mesmo objectivo grupos os pessoas que nada tinham a ver com o assunto. verifica-se na ligação entre a Câmara Municipal e a ADDAC. porém o movimento considera que não é o interesse do edifício que está em causa. etc. na altura em que houve negociação da Câmara com o proprietário. o Movimento Sousa Bastos Vivo. Ou seja. constituem o ponto fundamental que permite a constatação da observação de um fenómeno que ultrapassa o nível meramente linguístico. designada por processo de interessamento (Latour 1996). como já referi. chamando a atenção para a necessidade de criação de espaços para grupos culturais que não têm espaço. têm por base ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . mas a sua memória. o seu significado social. Um dos processos de interessamento que se verificou foi a associação com artistas da cidade que reclamam a falta de espaço cultural. e surgida uma oportunidade de aliança com agentes culturais da cidade. Seguiu-se uma fase de estagnação e posteriormente. cuja aliança permite reforçar o respectivo argumento ou enunciado. a Câmara. Outro dos processos de interessamento. que irá procurar associar-se a especialistas em urbanismo para reforçar e legitimar “tecnicamente” o enunciado pretendido. a Câmara considera que o edifício não tem interesse (arquitectónico.). A partir daqui. mobilizando argumentos técnicos e urbanísticos. Estas estratégias de acção. novos protestos.divergentes para atingir as suas finalidades. o objectivo do novo movimento. o qual irá determinar o destino do novo objecto resultante. chama a atenção para a impossibilidade de construção de um equipamento cultural adaptado às exigências contemporâneas num espaço com aquelas características (ruas íngremes e medievais). detalhadas na minha etnografia. também os processos de mobilização retórica envolvidos (outra das operações de tradução) são reformulados: por exemplo. Estas duas versões do interesse do edifício. Em suma.

não no edifício em si. em detrimento da transformação da Alta para turistas.tradições ideológicas distintas. vieram. impossível de concretizar não apenas devido a motivos económicos. conhecida por Teoria Crítica da Escola de Frankfurt. a “cidadania cultural” como crítica a essa tendência de mercantilização da cultura 3 . argumentam que o edifício não possui características que justifiquem a sua preservação: características estéticas. ou seja. mas também técnicos. a musealização do espaço urbano) e por outro. ou cultura de massas. a uma ideia de cultura como sujeito. arquitectónicas. só faz sentido como reacção ao extremo oposto desta concepção. marcado pelo confronto entre duas tendências: por um lado. promovendo a participação em detrimento do consumo e transformando consumidores em participantes num processo de produção cultural. Esta concepção de cultura e de património. 3 Insere-se nesta tendência a escola de pensamento dos anos 1970. a “mercantilização da cultura” ou as “indústrias culturais”2 (o turismo. aqui objectificado na posição da Câmara Municipal. os sujeitos em detrimentos dos objectos. O interesse do edifício. históricas. salientam a importância daquele espaço para os moradores. foge ao padrão dos edifícios que compõem o Centro Histórico. Com isto. para a memória social. defendem. que nos remetem para um velho debate sobre as questões da cultura na globalização. defendendo a interacção entre dinamizadores culturais e a comunidade local. realçando o aspecto social em detrimento do material. que reduz a proposta de um “espaço social e performativo” a um Teatro. no caminho para atingir o seu objectivo) precisamente esta segunda opção: a cultura como cidadania. num certo sentido. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . a ideia de que haver interesse patrimonial no edifício. o interesse do edifício para as pessoas. Deslocam. substituir a noção de cultura popular. Tal se verifica na acção de salientar um projecto alternativo para aquele espaço (proposta de Espaço Social e Performativo). urbanísticos (problemas de acessibilidade que têm a ver com a configuração das ruas). e uma concepção de património como algo social. que é também. sinónimo de um grande equipamento. na memória do espaço e no seu significado. ele só 2 As chamadas indústrias culturais. está nas pessoas. patrimoniais: argumentam que o edifício não é típico da zona onde está inserido. Abandonadas quaisquer pretensões vlorativas de acesso a uma verdade final. Isto é o que se poderá considerar uma concepção de cultura como cidadania. importa apenas salientar que o movimento cívico representa (no sentido em que mobiliza a retórica construída por esta tendência. e que por isso. Para além disso. e sobretudo. desta forma. no contexto das sociedades capitalistas modernas. e não sendo o âmbito desta discussão procurar saber qual das duas a mais válida.

ou criação de relações com o público. etc. Estratégias a nível de alianças ou processos de interesssamento.poderia estar inscrito no próprio edifício. Cabral 2004). Esta ideia. o outro. bem como as representações. em processos de representação. É. remete para uma concepção objectificante de património. para a qual este modelo de interpretação foi desenvolvido). que assentam todos os processos políticos (cf. sendo que a prova final do respectivo enunciado não é a verificação empírica (ao contrário da ciência. Ambas as concepções e processos de mobilização retórica podem ser entendidos como diferentes caminhos para atingir diferentes fins. de retóricas que servem esses objectivos. O que é importante salientar é que esta é a legitimação retórica que fundamenta cada uma das posições a realizar de uma série de acções com vista a convencer a população de que representa aquilo que ela quer: através de manifestações artísticas. Um dos lados representa a Alta como sujeito. como objecto. de uma perspectiva de relação entre oferta e procura. É a eficácia dessa representação. A representação é outra das operações. no sentido em que defende que representa mais fielmente aquilo que a população quer para o edifício. em que cada um dos lados desencadeia as suas acções com vista a atingir o seu objectivo. Neste caso. a Câmara Municipal defende que a população não precisa de um Teatro. estão envolvidos em muito maior detalhe. O Movimento Sousa Bastos Vivo defende que a população do bairro precisa de um espaço cultural. que não correspondem às expectativas em termos de público. pois. contrariamente à anterior. reformulação de grupos autonomizados. que por razoes obvias escapam aos ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . etc. através da conquista do consentimento dos representados (Gramsci 1974). bem como para uma noção de cultura que é mais próxima de uma ideia de cultura como mercadoria (em vez de cidadania). mas sim a representação política.). reformulação de objectivos e consequentemente. debates com a população. é outro dos passos no caminho. reuniões de moradores por intermédio de associações de moradores. Este é apenas o resumo das narrativas mobilizadas para esta questão ao longo do processo. tendo em conta que. caso contrário. pequenas peças de teatro. e consequentemente. mas sim de um espaço polivalente para as suas actividades (ranchos. cada lado da controvérsia considera que representa a população da Alta. seria mero “património psicológico”. para além dos já existentes. não fazem falta mais Teatros na cidade. o destino do edifício. que determinará o predomínio de um enunciado sobre o outro. um dos argumentos desta posição é a de que.

pois a noção de grupo que utilizo refere-se a um nível de sentido meramente formal. o novo objecto. Por outras palavras. mas refiro-me a grupos somente do ponto de vista das suas estratégias de acção. mas constituem-se mutuamente. que são os seus efeitos. ou no sentido de associações. interessou-me sobretudo analisar estes dois lados da controvérsia como dois processos de enunciação. dado que esse desfecho ainda não se conhece e a controvérsia ainda perdura (marcada por nova estagnação que durará. todo um trabalho artefactual de sucessivas mediações. interessou-me analisar como é que cada uma se constrói como “verdade”. ou qual é a “melhor”. através das acções referidas. O processo de tradução só é terminado assim que houver uma coesão entre esses elos: esse será o núcleo duro. há. a forma e o estatuto que o edifício irá assumir. pois. a identidade não foi o critério que utilizei para identificar e diferenciar grupos. fica no entanto ausente esta última fase deste processo de tradução. foi fundamental o trabalho de Bruno 4 Não se pretende com isto oferecer uma visão homogénea dos grupos em questão. ou seja. as consequências materiais propriamente ditas. portanto. é esse o elemento que permite analisar as duas posições enquanto grupos de intencionalidades distintas 4 . Para isso. a algo irreversível. Há. Havendo dois enunciados. quiçá. sendo isso que define o social. foram assim sendo criadas relações ou elos de ligação que não existiam antes – por exemplo: o Sousa Bastos como uma questão de política cultural da cidade. Desta forma se constata como o mundo discursivo e o mundo material não se sobrepõe. duas possibilidades de objectos diferentes. ou seja. São estas operações que permitem identificar os diferentes enunciados em causa. até novas eleições municipais). refiro-me a grupo não no sentido de identificação. no sentido latouriano.objectivos desta comunicação. trabalho esse que é feito e refeito em função das inúmeras contingências que surgem ao longo do processo. também. ou seja. Conclusão Perante estes dois paradigmas (subjectificação/objectificação). mas no sentido de agregação com fins pragmáticos e acções convergentes. após a controvérsia. mais do que procurar saber qual destas posições sobre o Teatro Sousa Bastos é a mais “verdadeira”. Porém. e mobilizados para a controvérsia. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Um destes enunciados terá maior eficácia sobre o outro e dará origem a um novo objecto. ou o Sousa Bastos como uma questão urbanística – mas que foram sendo criados ao longo do processo. as consequências materiais desse processo. Importa porém salientar que. 6. àquilo que fica para a história após a controvérsia.

mas que permitiu entender este caso de um ponto de vista processual: o conceito de tradução. a última fase do processo (património/não património).php FRIAS. que delegações. entre o passado e o presente”.ul.As Primeiras Décadas de História. 7. que caminhos mais longos irão ser tomados para lá chegar. Comissão de Coordenação da Região Centro. Coimbra ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . 2005. Paulo.Latour. A controvérsia é o que Latour chama de modalidade: é o lado contingente de um processo social. Paulo. 20-05-05. http://www. por isso. Elísio. “Esthetiques urbaines et jeux d’echelles: expressions graphiques étudiantes et images du patrimoine universitaire a Coimbra”.pdf GAMBINI. 2002. o que implica entender a controvérsia não como algo a eliminar. 21-05-04. as operações que transformam a modalidade em enunciação. “As Repúblicas de Coimbra. Aníbal e PEIXOTO. que desvios. “Patrimonialização” da Alta e da Praxe académica de Coimbra”. Por isso. 2001. Oficina do CES. Aníbal e PEIXOTO. sendo que a enunciação é o produto final. do ponto de vista da tradução.ics. nº 183.pt/corpocientifico/pinacabral/pdf/DemocraciaJPC3. Teatro Sousa Bastos . Actas do IV Congresso Português de Sociologia. 2004.fe. mas como parte constituinte desse mesmo processo: a controvérsia como processo de construção em si.uc. Junho de 2001 FRIAS.pt/publicacoes/oficina/162/162. é aquilo que faz a história. um instrumento de análise inicialmente concebido para controvérsias científicas. e “o Sousa Bastos não é património”. Dezembro de 2002 FRIAS. www.ces. trata-se de analisar os processos pelos quais a acção é mediada: que operações são levadas a cabo para atingir determinados objectivos. Aníbal. Processos de Racionalização e de Estetização do Património Urbano de Coimbra”. “Representação Imaginária da Cidade. é uma espécie de resíduo. 1999. Lígia Inês. O conceito de tradução remete para o processo de construção de novos factos ou de novos objectos. a observação etnográfica deste caso permitiu-me descrever e dar conta de dois processos de enunciação de verdade em confronto simultâneo: “o Sousa Bastos é património”. “Aprender a representar: democracia como prática local”.pt/opiniao/ee/001. é aquilo que não fica para a história. 2002. A ideia de tradução significa. 1806-05.ces.fe. João de Pina. No fundo. Oficina do CES. E a tradução é precisamente a passagem da controvérsia aos novos objectos ou factos objectivos: a passagem da contingência à necessidade. Bibliografia CABRAL.pdf ESTANQUE.uc. nº 162. Oeiras: Celta. www. Mas no fundo.

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