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AFINIDADE E DIFERENÇA

Ana Bénard da Costa (Org.)

ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA LISBOA, 6,7 E 8 DE ABRIL DE 2006

APRESENTAÇÃO

Entre 6 e 8 de Abril de 2006 decorreu em Lisboa, no Instituto de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE) e no Instituto de Ciências Sociais (ICS), o Terceiro Congresso da Associação Portuguesa de Antropologia. Este Congresso organizado em torno das temáticas abrangentes Afinidade e Diferença reuniu cerca de 250 participantes que expuseram e debateram as suas diversificadas comunicações em sessões plenárias, painéis temáticos, mesas redondas e posters. A temática proposta pelos coordenadores do Congresso, José Manuel Sobral e Cristiana Bastos, respectivamente o Presidente e a Vice-Presidente da então Direcção da Associação Portuguesa de Antropologia, invocava, como se refere no texto de apresentação, “uma tensão básica que percorre o nosso campo disciplinar, provocada simultaneamente pela identificação do que se julga ser comum e do que se julga ser específico em cada cultura”. Procurava-se, através desta proposta abrangente, acolher “todos os domínios de saber reconhecidos como Antropologia” e abrir um espaço para uma “reflexão sobre a sua situação actual, tanto no plano nacional como no internacional.”

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Dentro desta perspectiva, os promotores do evento assumiram a responsabilidade da organização das sessões plenárias e solicitaram aos sócios e potenciais interessados que apresentassem propostas de painéis temáticos. O acolhimento por parte da comunidade nacional e internacional de antropólogos e de ciências afins (sociólogos, economistas e outros) excedeu as expectativas. Numerosos investigadores propuseram painéis que abarcaram desde as grandes temáticas da antropologia clássica (cultura popular, religião) às novas problemáticas da actualidade (globalização, identidades, transnacionalismo), a temas transversais (cultura, metodologia) ou temas que se podem considerar geograficamente ou historicamente mais específicos (Timor, Caboverdianidade, colonialismo). Percorrendo o Programa que então foi editado, constata-se a enorme vitalidade que a antropologia em Portugal conhece actualmente. Não só, como já se mencionou, pela diversidade dos temas debatidos - emigração, crenças, saberes, saúde, educação, memórias, arte, história, economia, desenvolvimento, género, natureza, corpos ou afectos, para só enumerar alguns - como também pela variedade de escolas, centros de pesquisa e associações de investigação presentes. Importa ainda acrescentar que este Congresso demonstrou que a internacionalização da antropologia portuguesa é uma realidade: estiveram presentes vários antropólogos de outros países com trabalhos desenvolvidos em Portugal e noutras regiões do mundo e vários antropólogos portugueses que estudam outras realidades que não a portuguesa. A participação da Antropologia Visual (ciclo de cinema-documentários e debate) constituiu outro factor enriquecedor desta iniciativa. Mais de um ano decorreu desde que este Congresso se realizou e vários acontecimentos atrasaram a publicação das Actas: a Associação de Antropologia mudou de Direcção, questões burocráticas urgentes exigiram as atenções dos novos membros da Direcção e, quando foi possível a organização dos textos finais das comunicações, constatou-se que muitos dos participantes não os tinham enviado e que o “estado” dos painéis era muito variável: havia painéis completos, outros sem nenhum dos textos finais das comunicações apresentadas e outros, ainda, em que os textos eram em número insuficiente não justificando a “existência” do respectivo painel nas Actas. Perante esta situação, e porque a nova Direcção considerou de todo o interesse deixar um registo material exemplificativo da riqueza temática e teórica que marcou os debates no Congresso que cumpriu plenamente os objectivos propostos pelos organizadores de “realizar um Congresso onde sejam acolhidos todos os domínios de saber reconhecidos como Antropologia e que constitua um momento de reflexão sobre a sua situação actual, tanto no plano nacional como no internacional”, foi necessário tomar algumas opções que passamos a explicitar:

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-

Foram mantidos os painéis cujos números de textos finais das comunicações eram significativos;

-

Foram agrupados em capítulos novos, textos de comunicações de

diferentes painéis que partilhavam afinidades temáticas (os títulos desses capítulos foram inspirados nos títulos dos painéis originais).
-

Em cada um dos capítulos há uma nota que explica se este corresponde a um
painel apresentado no Congresso ou se é um capítulo que agrega comunicações de painéis diferentes, bem como uma referência aos organizadores dos painéis originais.

Acreditamos que este índice, a organização temática que o suporta e, no seu conjunto, esta publicação de Actas, não desvirtua o que de essencial o Terceiro Congresso da Associação Portuguesa de Antropologia revelou a todos os que nele participaram. Acreditamos, sobretudo, que a publicação destes textos possibilita, a todos aqueles que não puderam estar presentes no Congresso, a participação nesse debate que assim certamente irá continuar.

Ana Bénard da Costa Junho de 2007

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Coordenadores da Comissão Organizadora
José Manuel Sobral (Presidente da Direcção da APA), Cristiana Bastos (Vice-presidente da APA),

Comissão organizadora
Nuno Porto, Paulo Castro Seixas (Direcção da APA), Patrícia Alves de Matos, Cynthia Pereira, Teresa Bolas, Isabel Bajouco (FCSH, UNL), Daniel Seabra (U.F. Pessoa) , Ruy Blanes (ICS, UL), Antónia Pedroso de Lima (ISCTE), Clara Saraiva (FCSH, UNL)

Comissão Científica
João Pina Cabral - Instituto de Ciências Sociais, Universidade de Lisboa Raul Iturra, Jorge Freitas Branco, Clara Carvalho, Brian O’Neill - Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa Augusto Abade, Eugénia Cunha, Manuel Laranjeira - Faculdade de Ciências, Universidade de Coimbra Jill Dias, Jorge Crespo, Claudia Sousa - Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, U. Nova de Lisboa Luis Batalha, Narana Coissoró -Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, U. Téc Lisboa Maria Johanna Schouten - Universidade da Beira Interior, Francisco Ramos, da Universidade de Évora. Álvaro Campelo, Paula Mota Santos - Universidade Fernando Pessoa Jean Yves Durand, Manuela Palmeirim - Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho Fernando Bessa Ribeiro, Xerardo Pereiro - Universidade de Trás os Montes e Alto Douro Ricardo Vieira - Instituto Politécnico de Leiria José Orta - Instituto Politécnico de Beja Joaquim Pais de Brito - Museu de Etnologia Vítor Oliveira Jorge - Sociedade Portuguesa de Antropologia e Etnologia (SPAE) João Leal, Miguel Vale de Almeida, Carlos Simões Nuno - Associação Portuguesa de Antropologia (APA) Maria Cátedra - Universidade Complutense de Madrid Shawn Parkhurst -Universidade de Louisville, USA Miriam Grossi - Associação Brasileira de Antropologia

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Dorle Drackle - European Association for Social Anthropology (EASA) Gustavo Lins Ribeiro - World Council for Anthropological Associations

Coordenação dos Voluntários: Cynthia A. Pereira Voluntários: Fátima Almeida Filipa Soares José Fidalgo Marta Fragata, Marina Sousa, Teresa
Bolas,Elísio Jossias, Mª Fátima Gabriel, Ana Beatriz Boucinha, Vanessa Gonçalves, Rui Costa, Íris Rosa, Tiago Oliveira, Ana Rita Alves, Ana Mafalda Falcão

Secretário
Miguel Jorge Lopes Sousa Pinto

Patrocínios
O Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (ICS-UL) e o Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE) cederam graciosamente à APA as suas instalações para a realização do congresso.

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I – Capítulo Colonialismo

Textos de comunicações dos painéis:

O Saber colonial e o fim da colonização
Coordenação

Clara Carvalho
Departamento de Antropologia, ISCTE;

Raça, Eugenia, Nação e Império
Coordenação

José Manuel Sobral e Patrícia Ferraz de Matos
Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa

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Antropologia Colonial e a Produção de Conhecimento sobre Grupos Étnicos da Guiné Portuguesa
Reflexão em torno da Tese de Mário Humberto Ferreira Marques “Comportamento dos Mandingas da Guiné Portuguesa na Vida e na Morte” 1 ISCSPU, 1965

Ana Mafalda Abreu e Castro Menezes Falcão ISCTE ana.falcao@sapo.pt

A produção científica portuguesa respeitante ao período colonial foi fortemente condicionada por um poder político que pretendia manter a forma colonial existente, alheio às exigências de mudança provindas da conjuntura internacional. Muitos dos autores deste saber participaram activamente nos programas políticos do regime colonial, e mesmo do autoritário, revelando assim a natureza essencialmente política da esfera científica da época. Nesta comunicação pretende-se deixar explícito o entrosamento entre discurso antropológico e dominação colonial, vínculo exemplificado no conteúdo duma das teses de final de curso do ISCSPU. Estas teses exprimiam os níveis de conhecimento (antropológico) em que se inseriram as decisões de política colonial nas décadas de 60 e 70. As referências imediatas dos autores destes trabalhos, que aliás exibem uma consistente igualdade de pontos de vista sobre as sociedades tradicionais, eram constituídas pelos ensinamentos ministrados nas Escolas Coloniais e, como tal, nenhuma novidade sobressai das análises que elaboram. Trata-se, portanto, através de uma leitura da tese “O Comportamento dos Mandingas da Guiné Portuguesa na Vida e na Morte” revelar a estreita conexão entre o saber antropológico e a ideologia colonial portuguesa, plasmada por um lado na valorização dos usos e costumes nativos transformados em “riqueza de Portugal”, e, por outro, no dualismo que opõe a incivilidade desta etnia à tolerância que sobre ela, no suposto respeito por esses mesmos costumes, os portugueses cultivaram. Palavras-chave: Discurso antropológico, Dominação política, Ideologia colonial, Incivilidade, Tolerância.

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Comunicação apresentada no painel “O Saber colonial e o fim da colonização”( coord. Clara Carvalho, Departamento de Antropologia, ISCTE)

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1. Discurso Antropológico e Dominação Colonial

A produção científica portuguesa no que respeita às colónias, principalmente no domínio das Ciências Sociais, encontra-se muito condicionada por um poder político que pretendia manter a forma colonial existente, alheio às exigências de mudança provindas da conjuntura internacional. Muitos dos autores deste saber participaram formal e activamente nos programas políticos do regime colonial, e mesmo do autoritário, revelando assim a natureza essencialmente política da esfera científica na época. De facto, segundo Rui Pereira (1998), a afirmação institucional da antropologia portuguesa remonta à segunda metade do século XIX, e este desenvolvimento dos estudos etnográficos, em Portugal como noutros países Europeus, estava

manifestamente associado à busca de uma identidade nacional. Esta prolífica geração de intelectuais em permanente contacto com as escolas e teorias que então se desenvolviam em Inglaterra, França e Alemanha, contrastou com o anacronismo académico que assolou a antropologia entre as décadas de 1930 e 1970. Na sequência da Conferência de Berlim, Portugal demorou 70 anos a cumprir a exigência de ocupação efectiva das suas possessões coloniais, principal mandamento resultante do evento. Estabelecida a dominação política, económica e administrativa tratava-se de conhecer, de ocupar cientificamente o ultramar português, o que permitiu a elaboração de um plano, que servia ao “prestígio” e à “utilidade nacional”, por parte da Junta das Missões Geográficas e de Investigações Coloniais. Este plano para manter as colónias reivindicava um papel, a par de outras ciências, para uma Antropologia baseada em dados etnográficos existentes nos arquivos portugueses, reconhecendo-se, num mesmo movimento, a insipiência dos estudos elaborados sobre as colónias. A Junta de Investigações Científicas do Ultramar (J.I.U.), à qual se anexou mais tarde o Centro de Estudos Políticos e Sociais (C.E.P.S.), era expressão da ociosidade científica da altura. Porém, o CEPS viria dar vida a uma política de transformação do modelo colonial, organizando e coordenando as necessárias recolhas de dados. Adriano

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inútil ou pouco conveniente. A produção cultural da J. aliás. aliado a uma dose avultada de paternalismo. Nestas vemos perdurar a concepção ideológica que faz da imagem do negro enquanto “cidadão subalterno”. Moreira enfatizava a urgência de um exame da situação colonial que assentasse no desenvolver de estudos monográficos sobre a dinâmica do fenómeno colonial. Esta apreciação consubstancia-se na tónica conferida pelos antropólogos culturais aos aspectos esotéricos das religiões e cerimónias africanas. Pélissier. porque lhes bastava uma aparência de conhecimento” (GALLO. entre estes. poucos teriam sido realizados por antropólogos portugueses. Etnocentrismo que. No campo dos estudos sobre a conexão entre a antropologia e o colonialismo português. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Director do CEPS entre 1956 e 60. concentrando esforços na mera descrição de ritos tribais.. encontramos plasmado nas obras dos melhores antropólogos portugueses. autor que anos mais tarde se debruçou sobre a etnologia colonial portuguesa.I. e da necessidade de guiar as populações autóctones porque incapazes de se autodeterminarem. deste modo se reconhece a especificidade do colonialismo português do ponto de vista científico: “até então aos portugueses não interessava uma informação cientificamente válida. asseverava mesmo que “por definição a situação colonial que interessa à ciência política é uma situação dependente da intervenção do poder político”. 1988: 18-19). Isto porque seria. falando a partir de uma asserção de princípio que reafirmava o modelo cultural lusófono como ideologia da colonização. segundo R.3 Moreira. A aceitação do critério luso-tropicalista e a conjuntura favorável de que gozava o império Português no pós 2ª Guerra tornava possível tais projectos de delimitação de uma “área cultural lusófona. era. as bases dos novos modelos integrativos para as situações coloniais portuguesas. enquanto se delineava um clima de fraternidade humanitária que bem podia ser posto ao serviço das classes coloniais no poder” (GALLO.U. ainda que frequentemente apresentada do ponto de vista antropológico. escassa de trabalhos antropológicos e. situando as parcas obras de cientistas sociais que se ocuparam da ex-África lusófona “abaixo do limiar científico mínimo”. que todavia comportava elementos de discriminação em relação às populações autóctones. Donde concluiu a quase inexistência de uma antropologia colonial portuguesa. 1988: 20). no quadro de um colonialismo que reduz as populações autóctones a reservatórios de mão-de-obra. Alfredo Margarido afirma que a primeira foi mero instrumento na mudança das formas coloniais.

resultado de determinadas práticas científicas peculiares. Esta última instituição é produto das múltiplas reformas sofridas pela Escola Colonial desde a sua criação. funcionando nos momentos de normalidade da prática colonial. ainda que não praticada necessariamente pela mão de antropólogos.P. em 1906. esclarece ainda melhor o formato da presença ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . instaurando o consenso social interno. e as datas das reformas que antecederam a sua consolidação reflectem as transformações dominantes sobre a função dos quadros coloniais. até há alguns anos em Portugal não se formavam antropólogos a um nível académico. também Portugal construiu um saber colonial. Na verdade. assim. fragmentação e subalternidade da antropologia portuguesa. proposta da Sociedade de Geografia de Lisboa no sentido de produzir uma ciência colonial.S.S. e a pesquisa de campo constituiu o denominador comum entre eles.U. permitisse a continuidade do colonialismo evitando a contaminação das formas neocoloniais de territórios vizinhos. À semelhança das outras nações coloniais europeias. A finalidade principal do ISCSPU era a de formar quadros civis e militares capazes de fazer funcionar as estruturas da administração colonial. O argumento que daqui emana refere-se a uma especificidade do colonialismo português que. Era necessário elaborar uma estratégia que. mas a antropologia era uma cadeira das escolas de quadros coloniais. não é possível negar a existência concomitante de uma “antropologia aplicada”. ressalta a intencionalidade de imbuir os cursos dos quadros coloniais de cadeiras que acelerem a adaptação do conhecimento às formas de dominação. e do I. que institui uma Escola Colonial onde figuram disciplinas como geografia e história mas se pretere a etnologia geral em prol de uma geografia colonial. No decreto de 1906. A reforma de 1919. conjuntura internacional onde emergem renovadas acções dos capitalismos ocidentais face aos países desenvolvidos e.P.4 Contudo. agregou autonomamente um conjunto de saberes sobre as suas colónias. É precisamente no âmbito deste empreendimento contra as formas eversivas que se pode situar as produções do C.E.C. Analisar a produção colonial portuguesa de 1950 a 1975 implica primeiramente considerar a posição do País na década de 50. de que fazem parte “noções e conceitos confluentes no património do saber antropológico europeu” (GALLO. Os sistemas de investigação manejados por estes funcionários do regime foram os mais variados. 1988: 24). a despeito da pobreza. desde que permitidos pelo enquadramento colonial. se revelam os elementos de fraqueza e crise do império português.S.

1988: 29). representando um momento de crescimento económico do colonialismo português. 1988: 31). justifica o abandono de lógicas formativas anteriores. fazendo sentido acrescentar as disciplinas de direito internacional. que. mantendo a sua função de formar quadros coloniais. em Altos Estudos Coloniais. de ora em diante com uma utilidade prática cada vez mais reconhecida. No ano de 1946. o punha a par de outras formas de colonialismo europeias. através de análises de tipo físico. ano de uma nova reforma. A etnologia praticada por esta nova figura permitia deduzir as leis gerais dos fenómenos das vidas dos povos. pondo fim à figura do administrador-etnógrafo na qual se baseavam as precedentes. biológico e comportamental do indivíduo. disciplinas funcionais à formação dos administradores. através destas reformas. em 1961. A etnologia mantinha-se no currículo mas a sua aplicabilidade e utilidade prática era considerada de segundo plano. pois que “a etnologia é a ciência que trata da formação e dos caracteres físicos das raças humanas” (GALLO. preconizava agora a intervenção de um antropólogo. se é verdade que se procedeu. Porém. a reforma de 1946. “esta [actualização] não se fazia com o fim efectivo de uma transformação do sistema de domínio” (GALLO. Em 1926. espelha o aumento do enfoque etnográfico ao introduzir a cadeira de antropologia cultural no Curso Complementar de Estudos Ultramarinos. frente aos desígnios de domínio em curso. nomeadamente pela adopção de uma política assimilacionista. a uma actualização ideológica de Portugal. visando preparar os quadros teóricos do colonialismo. 1988: idem). modificando o posicionamento português no quadro internacional do capitalismo.5 portuguesa nas colónias. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . uma vez que se introduzem elementos de teoria económica e de ciências das finanças. e cria-se uma segunda formação. De facto. entendido como “um especialista do carácter físico. reconhece-se a necessidade de adaptar o sistema de conhecimento às novas exigências coloniais. desde a sua origem até ao estado actual de civilização. Uma nova reforma. Em ambos os cursos constava a etnografia. biológico e comportamental das populações primitivas e não um especialista das sociedades primitivas então existentes” (GALLO. Uma nova reviravolta na orientação destas formações ocorre em consequência da segunda guerra mundial que. procede-se à reestruturação do antigo curso de Administração Colonial do ISCSPU. privado e público e ainda formação relativa a práticas judiciárias e notariais.

preferindo. as primeiras acções em terreno colonial dignas de menção foram as famosas missões antropológicas. Esta lógica corporiza-se nas reformas de 1946 e 61. foi-se somando. paulatinamente. A recorrência a M. ao abordarmos a vertente física da antropologia ou. partes de uma equação em que os segundos são produto de uma combinação complexa aprendida e das tendências genéticas de cada ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . 1998: VII). Assim se subtrai à antropologia qualquer ligação às estruturas sociais dado que ela é apenas o principal elemento para o estudo do crânio humano. entendida como o estudo do homem cultural e social” (PEREIRA. Foi a época de força da antropobiologia. eram conjugáveis com a ideologia colonial e as suas exigências de domínio. 1998: XVII). por serem capazes de fornecer à administração colonial portuguesa os meios de reforçar a sua ocupação e incrementar a mobilização da força de trabalho indígena.6 A aceitação destes princípios foi bastante simples dado que. No âmbito de actividade desta escola. geográficos e históricos que. do outro a Etnologia. Em 1918. a elaboração das respectivas cartas etnológicas” (PEREIRA. Fundador da «Escola do Porto» este médico. António Augusto Mendes Corrêa cria com Américo Pires de Lima a Sociedade Portuguesa de Antropologia e Etnologia. tuteladas por Mendes Corrêa. doutorado em Antropologia física. marcou decisivamente a orientação do pensamento antropológico português por toda a primeira metade do século. que se dispunham “proceder ao conhecimento dos grupos étnicos de cada um dos nossos domínios ultramarinos. da mensuração e da quantificação. cuja designação trai desde logo “uma divisão fundadora no campo das ciências antropológicas em Portugal na primeira metade deste século: de um lado a Antropologia entendida como o estudo do homem físico. o sentido antropobiologista reinante durante quase toda a primeira metade do século XX. de novos elementos naturais. desencorajava a disciplina das categorias exclusivas da antropologia física. Corrêa é inevitável. ou seja. Esta visão restritiva das disciplinas etno-antropológicas. convertidas nas únicas investigações antropológicas úteis. suplantando a simplista visão craneológica. onde vemos surgir a antropologia cultural nos cursos do ISCSPU. por um lado confirmavam a tradição portuguesa que a partir de Mendes Corrêa foi sobretudo a da antropologia física e. por outro. e portanto também possíveis. vinculada a uma concepção científico-naturalista das ciências. As concepções contidas nos manuais desta disciplina apontavam para uma ligação entre cultura e comportamento dos indivíduos.

na óptica de Donato Gallo. Em termos temáticos podem ser classificados em três grupos. detenhamo-nos no caso particular dos Relatórios Confidenciais. Após a década de 50. consoante tratassem de movimentos associativos e minorias étnicas.I. pesquisas utilizáveis como fontes antropológicas. resultavam cientificamente inaceitáveis. que continuavam a ser “cidadãos de segunda”. As teses de final de curso.U. O entendimento ideológico do “outro” não era alterável. 1988: 38). podendo mesmo conter conclusões diametralmente opostas às da pesquisa original. de entre estes. e fortes penalizações para quem desta quisesse eximir-se. redigidas pelos vários administradores coloniais que tinham frequentado o curso de Altos Estudos Coloniais. O estudo dos relatórios e das teses serviu para atestar a sua argumentação em torno da existência de uma antropologia colonial portuguesa. Alternando entre a fidelidade às ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Frequentemente alvos de censura e de modificações estratégicas.7 um. quando publicadas pela J. por um lado.. resultados de missões a África e cujos principais objectivos se cifravam. ou ainda do rendimento nacional do ultramar. excepto através de simulações que propusessem novamente a sua inferioridade ou subalternidade a um outro nível. este tipo de produção não aparece senão no formato de teses de final de curso do ISCSPU. seguindo o raciocínio de Gallo. exprimiam os níveis de conhecimento em que se inseriram as decisões de política colonial do regime português nas décadas de 60 e 70. na procura das condições necessárias para uma racionalização eficaz da gestão colonial. Esta visão ratificava as convicções portuguesas relativas aos povos africanos. em fazer frente às pressões do colonialismo internacional e. que as teses aparecem como uma continuidade dos relatórios confidenciais e. sobre a acção das missões e razões da emigração para as cidades. sem se afastar de uma grelha interpretativa de carácter biológico e social. por outro. mas também revela “as duas directrizes principais da sua funcionalidade: a gestão dos momentos de transição da forma colonial e o uso ideológico para o interior de Portugal” (GALLO. Retornado à produção cultural do CEPS. É neste sentido que podemos afirmar. elucidando também as dinâmicas culturais que favoreceram e regularam as diferentes funções da antropologia da época. tal como estes. Existiam simultaneamente facilidades para os que. pretendessem licenças para elaborar a tese. se esclarece a relação entre antropologia e colonialismo. É pela análise destas produções que. privilegiavam o discurso ideológico do regime.

Gerou uma intelectualidade capaz de produzir análises etno-antropológicas passíveis de apropriação para uso político sobre a população dominada e de cariz propagandístico na metrópole. aferir que o domínio colonial português se serviu de um aparato cultural cuja finalidade.8 práticas normativas e a curiosidade antropológica. 1988: 170). directamente funcional para a gestão do poder nas épocas de crise e de transformação do modelo de controlo colonial. O condicionamento dos produtores deste saber devia-se essencialmente ao seu cometimento com o sistema de domínio. nenhuma novidade sobressai das análises que elaboram. O autor avança ainda que. controlava e até censurava o saber. O saber colonial português foi. os aparatos coloniais deste colonialismo funcionaram à semelhança dos de outras potências coloniais. a possibilidade e o uso do saber colonial” (GALLO. 1988: 169). 1988: idem). numa de duas modalidades possíveis: ou participando directamente nos aparatos coloniais ou dependendo deles para o financiamento das suas investigações. com as respectivas diferenças que emanam da ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . para além de podermos com alguma propriedade aferir a existência de uma antropologia colonial portuguesa. então. A presença destes mecanismos que submetiam a produção intelectual lusitana aos desígnios do império demonstra que “em Portugal o poder geria exclusivamente para os seus fins a necessidade. ainda que tenha sido amiúde negada. os autores destes trabalhos exibem uma consistente “igualdade de pontos de vista sobre as sociedades tradicionais. no que concerne as práticas antropológicas podemos. apesar de todas as indeléveis ligações ideológicas. era a de “conhecer para melhor dominar”. verificando-a agora com base nas condições que a produziram: o único conhecimento permitido era o aplicado e aplicável e a posição objectiva do intelectual português era a de um prestador de serviços a quem se encomendava. porquanto estão condicionados “ao ponto de serem completamente acríticos em relação à própria visão escolar da realidade colonial” (GALLO. como tal. com as mensagens ideológicas elaboradas pelo regime e com a ideologia das noções antropológicas do período da sua formação na escola de quadros coloniais” (GALLO. As suas referências imediatas eram constituídas pelos ensinamentos ministrados nas escolas coloniais e. É no seguimento destas asserções sobre o imbricamento entre antropologia e colonialismo que Gallo alerta para a precisão de revermos a acusação de acientificidade da produção cultural portuguesa ligada às colónias. Ora.

também Rui Pereira. propõe duas perspectivas diferentes. 1998: XLVII).9 especificidade de uma forma colonial subalterna e periférica ao sistema económico internacional. e. A este propósito. nalguns casos.. no caso da produção antropológica colonial portuguesa ambos os ângulos de abordagem se afiguram pertinentes. os contributos directos ou simbólicos.) ou se considera o conjunto de problemas e temas questionados pela produção antropológica colonial como derivando das relações de força e das necessidades da própria situação colonial (…) ou. a presente tese se insere no período considerado e surge na época da ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . 2. então. por um lado as necessidades coloniais ditaram a problematização científica – como no caso da relação entre medições antropométricas e a quantificação da força de trabalho indígena –. o levantamento etnográfico de determinadas culturas. Ora. cuja importância foi já referida no desenvolver da matriz teórica de Donato Gallo. mas complementares. Se. explícitos ou latentes. por outro. É com base na articulação entre o poder heurístico destes dois vectores de análise da produção antropológica colonial. se avaliam. representou. no prefácio que escreveu para a reedição do Macondes de Moçambique de Jorge Dias. visto que. Os Mandingas da Guiné Portuguesa: Confronto entre Incivilidade e Tolerância Em primeira instância cumpre ressalvar as particularidades desta tese de final de curso. de encarar as relações entre a Antropologia e a dominação colonial: (. um por um. dez anos depois de Gallo. tendo bem presente o subjacente entrosamento entre discurso antropológico e dominação colonial demonstrado nas páginas precedentes. por um lado. que a distanciam de outras consideradas num mesmo olhar por Donato Gallo. mesmo servindo um intento de dominação colonial. uma prestação académica e científica importante. que tal produção antropológica prestou à empresa colonial.. (PEREIRA. que passaremos a escalpelizar o conteúdo de uma das teses de final de curso do ISCSPU.

aspirava através dela obter a equivalência ao grau de licenciatura em Ciências Sociais e Política Ultramarina. ainda que modestamente. portanto. no mínimo. por outro não foi elaborada por um aluno que tenha sido administrador colonial ou militar. Decorrendo. donde escrever sobre ela serviria para. depois da reforma de 1961. curiosa dado que a Guiné na época “parecia não dar as mesmas preocupações que as outras colónias ao governo português”. Ainda. critério de constituição da “amostra” de Donato Gallo. 1965: III). diplomado com o curso superior colonial. à medida que os cursos se ajustavam às realidades coloniais e se subdividiam para melhor se especializarem.10 extensão das lutas de independência iniciadas em Luanda a outras colónias portuguesas. 1965: II). Invoca. contudo que a motivação para a realização desta tese parte de uma lógica estatutária visto que o autor. a este respeito. entre 1961-1975. “a hostilidade que os diplomados da Escola Superior Colonial sentiram. pelo menos indiferença” (MARQUES. No entanto. notava-se. aliás. consciente dessa realidade. uma elaboração teórica desprovida de trabalho de campo. destas circunstâncias particulares acresce ainda o facto da dissertação sobre o comportamento dos mandingas provir simplesmente da “conexão de elementos bebidos em fontes de várias origens” sendo. se nos cingirmos apenas ao ambiente metropolitano. confessa a mágoa de. Sabe-se. que sobre esta colónia versavam (1988: 95). a instauração de hierarquias estatutárias entre os antigos e novos alunos de cursos com uma origem comum. em função dos seus deveres profissionais metropolitanos (Chefe de repartição do ensino liceal) “absorventes até ao esgotamento”. Sobre o autor pouco se conseguiu averiguar. A escolha do tema é também. desde que apresentasse uma dissertação. não ter podido frequentar o curso de Altos Estudos do reformulado ISCSPU. a defender (MARQUES. poderemos concluir que. As sucessivas reformas que foram reconfigurando uma Escola Superior Colonial em ISCSPU trouxeram consigo. O autor. durante muito tempo no ambiente ultramarino (…) e. algo que se lhe tornou possível. Ferreira Marques justifica a sua opção temática espacial por “ser a Guiné a nossa província ultramarina mais atingida pelo desvairamento negro da presente hora”. se não havia hostilidade. assunção retirada por Gallo a partir do reduzido número de teses. a ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . donde se infere a sua relativa marginalidade face a autores de destaque das ciências sociais comprometidas com o projecto colonial da época.

ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Cabe ressalvar também a presença. na compreensão do tipo de antropologia que se tentou pôr em prática neste estudo dos mandingas. 1965: V). e na decifração das referências mais imediatas de um autor. de uma temática que só no final da tese começamos a compreender do que realmente se trata. facto ainda mais preocupante visto que é apenas de conexões teóricas que este se constitui. muitos destes ligados ao C. António Carreira.11 escolha da etnia mandinga se rege por critérios de ligação ao projecto lusitano: “ser. fazendo especial menção à reduzida bibliografia de autores portugueses. Fernando Rogado Quintino e ao Centro de Antropobiologia e Centro de Antropologia Cultural. Marques refere-se a África como “o alvo da curiosidade mundial” instituído pelo desejo de “desvendar o seu mistério” e a “pretensão de civilizar as suas gentes”. missão que “está agora polarizada na decifração do enigma economico-politico suscitado pelas reivindicações que nela pululam. por enquanto interessa analisar. os diversos capítulos que a constituem. da Guiné Portuguesa. Os agradecimentos. passo a passo. contudo. o grupo mandinga o mais aliciante pelo fundo histórico de haverem sido os portugueses os primeiros europeus a tomarem contacto com os mandingas no tempo das descobertas” (MARQUES. Esta inexactidão de fontes e inferências teóricas pouco documentadas e actualizadas vai percorrer todo o conteúdo da dissertação. Apesar da manifesta ausência de pertinentes referências bibliográficas no texto. sem. criadas pelas correntes ideológicas ou só aparentemente ideológicas que se alicerçam na finalidade. tendo em conta o que se disse no capítulo anterior. lança mão de uma descrição da época. 1965: IV). de mútua compreensão” que norteou as relações entre povo colonizador e colonizado (MARQUES. a referenciar bibliograficamente. ajudam. como veremos adiante. 1965: idem). que são também as de uma escola. do ISCSPU.E. dirigidos aos Drs. do ódio ao branco” (MARQUES. e o “pleno clima de confiança nos portugueses. atribuída a Duarte Pacheco Pereira. Esta temática será esclarecida atempadamente no decurso da análise da tese. ameaçadoras para o domínio português. portanto. Mas o que interessa reter à primeira vista são simultaneamente as possibilidades eversivas do povo mandinga. Para o confirmar. no prefácio. o autor faz no prefácio um elogio da excelência das obras em que se apoiou. e a uma mais vasta panóplia de autoria estrangeira. isto é. encoberta ou politicamente declarada.

para refutar aos sudaneses a sua qualidade de autóctones da África. a parcela convertida dos soninkés. A chegada dos mandingas à Guiné portuguesa. nome que provém da região do Mandén. tem o seu revés de benefício para os sudaneses visto que. trataram de formar um grande estado que não se concretizou devido à ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . seguindo-se a tomada do centro de África pelos árabes. com a expansão do islamismo. que se pretende histórico. Destes cruzamentos conjugados às duas vagas de invasão de massas semitas.12 Começando por um relato. foi. Inicialmente feiticistas. assim. se podem superiorizar face ao atraso dos verdadeiros autóctones: os negrilhos. aqueles que resistiam foram impelidos a rumar a Sul. Marques invoca a Doutrina de Monroe. este grupo subdivide-se. talvez não conseguissem arranjar meia dúzia de adeptos” (MARQUES. o império do Mandén. difícil de precisar em termos temporais. Mas este império acaba por sucumbir no despontar do século XV. nascem os sarakolés ou soninkés. e a consequente expansão do islamismo. e brancos do mediterrâneo. todavia. o domínio português se legitima pela particular tolerância e compreensão reveladas no contacto com os povos que pretende subjugar/civilizar: “se os instigadores do ódio ao branco. que afirma a posição dos Estados Unidos contra o colonialismo europeu. e os primeiros. A aparição dos mandingas dá-se pela mestiçagem entre autóctones. com o Norte de África dominado pelos árabes e as populações subjugadas. depois de estabelecidos. E foi dessas massas fugidias que se formaram os grupos étnicos que envolveram a Guiné Portuguesa. conforme a conversão. negros oceânicos da segunda invasão. os Mandingas constituem o seu império. em vez das promessas fantasiosas. onde. lessem aos instigados os capítulos das suas histórias em que o ódio figura como causa principal no atraso e na ruína de muitas sociedades em evolução. O acolhimento desta orda islâmica não foi de todo unânime. Colonialismo e civilização dão as mãos numa relação inextrincável. Em meados do século XIII e sacudido o jugo dos Almoravidas. perturbando a apropriação colonial de povos e territórios. Numa lógica um pouco travessa Marques pretende deslegitimar esta pertença que. os não convertidos permanecem com a designação de soninkés ou sarakolés enquanto os convertidos passam a nomear-se mandingas. considerada como a sua pátria. 1965: 2). anterior à dos fulas-pretos feiticistas. da formação do grupo étnico. como veremos. “em adiantado estado de civilização”. De facto. que sucederam ao desmembramento do império de Kumbi.

António de Almeida. Com o aumento das massas de fulas-pretos a fixar-se na Guiné. dos portugueses. uniram-se aos futa-fulas para se libertarem do domínio mandinga. O intuito de análises assim esboçadas era o de garantir a preservação da diferença e. estes. todos baseados em cálculos da média de uma série de mensurações. 2002:119) e. os mandingas entraram numa fase de quietação” (MARQUES. Estes. Iniciou-se uma guerra sangrenta donde os mandingas saem vencidos dando origem à tirania dos Fula-Pretos e à tentativa de islamização dos dominados. 2002: 111).13 dispersão que dificultava a unidade política. O primeiro grande capítulo da tese sobre o comportamento dos Mandingas é dedicado aos caracteres somáticos desta etnia. eivada de ideias de determinação biológica de tipo racial esgrimidas enquanto discurso científico. À igreja católica caberia desempenhar o papel de instituição legitimadora do regime colonial e dos valores por ele veiculados (THOMAZ. elaborados num texto praticamente telegráfico que desvela a adesão a uma análise antropométrica dos povos. outros entram num sistema religioso misto e. numa proposta quase luso-tropical. e com isto assegurar a preservação do império (THOMAZ. reconstruindo assim a homogeneidade através de uma abstracção ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . fingindo-se convertidos ao islamismo. no seu estudo por meios antropológicos reproduzir hierarquicamente a desigualdade. Segundo uma chave interpretativa baseada no pressuposto de que a diferença física se manifesta também enquanto diferença mental. verificada a impotência para a rebeldia e as vantagens em aceitarem o domínio português. que. 1965: idem). impotentes. ainda. confere um carácter benevolente à colonização: “E. 1965: 17). outros revelam uma certa renitência: “é nos renitentes que se encontra a grande massa que no final do século XIX e nos primeiros anos do século XX deram trabalho às autoridades portuguesas para receber o sopro de Cristianização que sempre foi timbre de Portugal. “elemento indispensável à classificação dos vários grupos da humanidade”. Marques começa pela análise da estatura. Barrow. o grupo mandinga exigiu-lhes uma elevada tributação de ocupação de território que lhes valeria grandes dissabores futuros. Eugene Pittard e do Prof. Aquando da fixação dos fulas. ao contactar com os povos de todas as latitudes” (MARQUES. Para tal convoca contributos de Alcide D’Orbigny. suportam a tirania e revelam diferentes posturas face à islamização: uns convertem-se. assim se divulga uma atitude doutrinária relativamente à qualidade evangelizadora e. logo civilizadora.

entre 9 e 12 cm”. 1965: 22) Paul Broca. Continuando a percorrer os caracteres que definiam o conceito abstracto de raça. vê a base desta noção na somatologia. realizara estudos tributários de um darwinismo social que pretendiam determinar biologicamente a imagem do negro colocando-o entre “o homem e o macaco” (GALLO. mas a negrura varia em intensidade. ao sabor dos cruzamentos havidos no decorrer do tempo” (MARQUES. espelha uma adesão a teorias de superioridade racial que pretendiam inferir do afastamento entre estádios de civilização dos povos. Para o atestar recorre a António Carreira. Os mandingas são considerados por Marques. nas observações de A. já de certo modo datados. Deste modo permite-se afirmar que “esta diferença está absolutamente de acordo com a teoria científica de que. segundo Eugene Pittard. Deniker insere-se igualmente nesta linhagem de autores que pretendiam ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . e “conferindo uma nova aparência de cientificidade a uma classificação oriunda do senso comum” (RAMOS. enquadrado por uma ciência das raças que. e o valor dessa diferença oscila. onde este administrador colonial e antropólogo ligado ao Centro de Estudos da Guiné Portuguesa. esta última no quadro da missão antropológica da Guiné em 1946. Marques vai forjando um entendimento antropológico dos mandingas. como negros que são. Carreirra e Emília de Oliveira Mateus. nos grupos humanos. são dolicocéfalos na sua maior percentagem mas. como povo de alta estatura. Baseando-se em Broca e Deniker. Marques vai estabelecer uma equivalência entre a cor da pele do mandinga e as escalas cromáticas propostas pelos anteriores autores: “a cor da pele dos mandingas corresponde ao último destes tipos [preto].14 matemática. Les Races et l’Histoire. Quanto aos mandingas. “Mandingas da Guiné Portuguesa”. a estatura do homem é sempre maior do que a da mulher. não isenta de polémica já na altura de realização da tese. 1988: 159). Recorrendo a textos apodados de uma cientificidade duvidosa e. remetendo obviamente para Mendes Corrêa. A divisão em dolicocéfalos e braquicéfalos. encontra valores médios elevados para os mandingas do sexo masculino e estaturas pequenas em indivíduos do sexo feminino. o índice cefálico figurava como outro dos elementos científicos encontrados para a classificação dos grupos humanos. tendo como base as anteriores “teorias científicas”. surgem também as outras categorias cefálicas. na época director da escola de antropologia de Paris. mesmo à época. 2003).

o seu carácter adaptativo pode ser encarado como ameaça a este mesmo domínio uma vez ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . porém não tão evidentes. e através da antropometria. um prognatismo que correlaciona tipos morfológicos e atributos intelectuais. “que acompanha todos os actos da vida do mandinga” e. as características são elencadas de forma breve e generalizadora. como apanágio do seu estádio inferior de civilização. pelo seu pacifismo e capacidade de adaptação.15 classificar globalmente um povo com base nas observações somáticas e morfológicas da sua corporalidade. como outro dos indicadores do grau de intelecto. nas suas características funcionais de maneira a determinar os tipos constitucionais mais frequentes em cada um deles e. as modalidades mais características da sua fisiopsicologia” (RAMOS. não fora a proximidade de fontes subversivas e as doses avultadas de superstição que lhes estrutura o quotidiano. imputando-se aos negros. depois. pelo sentimentalismo. o autor reproduziu de descrições lidas. “e. 2003). os mandingas seriam então. invocando-se novamente teorias científicas que neste caso não possuem referência. honradez. criando esse quadro de homogeneidade tão precioso no delinear de estratégias de dominação colonial. A psicologia do mandinga caracterizar-se-ia. portanto. nos merecem confiança” (MARQUES. 1965: 25). meras descrições que. quanto maior a abertura do ângulo maior a superioridade intelectual. ignorando a enorme diversidade racial no interior de cada grupo. A face. pacifismo. Ora. ironia e superstição. sem especificar se em virtude desta qualidade se podem tirar conclusões sobre a sua condição intelectual. e pelo poder de observação demonstrado noutros trabalhos. segundo A. Esta última. ou o ângulo facial é considerado. à falta de apreciação presencial. pelo seu aturado contacto com os nossos mandingas. adaptação. biotipologicamente. Para o índice nasal sucede o mesmo processo de mensuração e de construção de equivalências automáticas. e logo aos mandingas. é fortemente vincada durante a descrição dos seus comportamentos na vida e na morte. uma etnia particularmente dócil na aceitação do jugo colonialista português. olhos. as características morfológicas de um dado “tipo”. Sobre a boca. cabelo. Os estudos deste tipo aspiram a discriminar e analisar primeiramente. Carreira. resume a sua ideia religiosa. Relativamente aos caracteres psicológicos. vista e ouvidos as informações são escassas e inconclusivas. Ademais. isto é. sentido artístico. No caso dos mandingas o autor afirma apenas que estes são platirrinios. “segundo conclusões tiradas por pessoas que. Assim.

Refere-se-lhe como um tegúrio. é-lhe exigido mais que isso. justifica-se referir ainda as representações reveladas relativamente à produção artística mandinga. Sintoma da falta de cientificidade das descrições de Marques. e as comparações desniveladas que elabora: referindo-se a uma cerimónia de entronização ao papel de médico mandinga. “por ela pouca ou nenhuma diferença fazer da que serve para recolher animais”. para o autor. Perante tal cenário clama. não é onde se habita. uma estratégia dúbia de afirmação das características positivas e ao mesmo tempo. aprisco. o tom jocoso. sobre a protecção das casas de mulheres. se pensarmos que em 1965 estavam já acesas muitas das guerrilhas de libertação africanas. de segurança e de condições higiénicas” (MARQUES. que incapaz de se autodeterminar. pela intensificação da construção. como forma de os terem em sossego [algo que] nos povos atrasados ainda é desculpável porque obedece ao espírito supersticioso que eles têm” (MARQUES. noutra usa-o para imputar primitivismo: “têm alguma originalidade. Casa. o autor refere-se frequentemente às sociedades evoluídas como contraponto de comportamentos supersticiosos que descreve: “salvas as devidas distâncias. arrecadação. são também os juízos de valor. empregam as criadas. justificava o domínio português. 1965: 37). “de habitações dignas de serem ocupadas pelo ser humano que é o mandinga!”. contando histórias de lobisomens aos filhos família. Quando fala da casa mandinga fá-lo de forma flagrantemente etnocêntrica. nas sociedades evoluídas. Não querendo alongar-me na enumeração de mais exemplos desta parcialidade de análise. verificamos. Se numa altura Marques lhes realça o sentido artístico. assente sobre as bases da tolerância religiosa e cultural que “caracterizariam a obra portuguesa no mundo” (THOMAZ. Marques classifica de “exortação patética” as palavras dirigidas pelo Almami (padre muçulmano) ao novo profissional e. De facto.16 que. 2002: 281). da incivilidade desta etnia. Partindo agora para uma análise do discurso sobre o comportamento mandinga. adverte que “os atrevidos são talvez em percentagem igual ou maior do que nas sociedades evoluídas”. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . não são mais do que reformulações das originais. com notória indignação. 1965: 106). que recordemos. desde logo. com a maior urgência. os mandingas constituiriam um reduto de conformidade que o regime procurava a todo o custo perpetuar. é o mesmo processo que. para que tal receba esse apelido é preciso ser um sítio “a que nós [civilizados] associamos a ideia de conforto.

É neste quadro de sentido que une Deus. porquanto esta só faz sentido numa determinada e bem restrita organização social dos significados. Apreciações de carácter ético que desvalorizam as particularidades culturais de determinado povo. ou próxima dela. e já tendo presente a especificidade antropológica da época. 1965: 45). Pátria e Família. serviu ao regime para se posicionar discursivamente acima de qualquer negro. mas este darwinismo social manifesto em produções que se queriam antropológicas. dada a psicologia gentílica” (MARQUES. uma descrição detalhada das características fundamentais de dada etnia. 1965: 49). são menos juízos éticos sobre a vida dos povos em questão. não sabemos o que o leva ou em que documento se apoia para assumir tal coisa. e como tal de civilização e progresso: “tornando possível a movimentação ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . o que o leva a fugir de tudo o que exija esforços mentais” (MARQUES.17 não há dúvida. mas sente-se nelas um fundo musical de primitivismo” (MARQUES. Neste aspecto particular se revelam as fraquezas de uma tolerância característica do português. Este etnocentrismo e paternalismo explícito nas produções antropológicas portuguesas era ainda de maior funcionalidade em períodos em que se temia a turbulência das lutas de libertação nas colónias. a dada altura. M. que “o desenvolvimento intelectual do mandinga encontrou muito cedo o seu termo. do que. A ocupação europeia de África é enfatizada por Marques como “sinónimo de pacificação”. O que deveria estar em causa numa análise etnográfica. Só estando profundamente imbuído de uma crença na real superioridade de um povo sobre outro. tido como objectivamente inferior. se pode classificar aspectos da vida mandinga como “actos do mais puro barbarismo”. 1965: 109). Marques esclarece. Voltamos a assistir a resquícios de uma tese sobre a inferioridade das raças quando se aborda a questão das actividades desportivas. num processo que mediu pela bitola portuguesa todos os comportamentos que não se coadunavam com a mentalidade colonialista e autoritária do Estado Novo. nota-se hoje uma acentuada relutância das viúvas em aceitarem a união com os cunhados” (MARQUES. que Marques faz uma ressalva ao “amor familiar” entre os mandingas: “esse amor tem de ser considerado num campo relativo. Ora. 1965: 66). Noutra zona do texto faz-se a apologia da influência da civilização portuguesa na mudança comportamental dos mandingas: “Pela evolução por que tem passado o mandinga no contacto com a nossa civilização.

sabe-se que há “católicos civilizados de raça negra” (MARQUES. incompatível com a série de correntes ideológicas que promovem o ódio ao branco. 1988: 43). Os movimentos religiosos eram nos relatórios retratados através de uma imagem em que reinava a incivilidade. De forma consentânea. com origem política ou religiosa. Alegando a fragilidade da organização política mandinga. de afeição pelo bom colonizador. Marques aproveita para inserir mais uma das suas considerações propagandísticas da benevolência lusitana. na zona litoral e a norte do canal do Geba. que os mandingas se distribuem por duas formas religiosas principais: o animismo. É o caso dos relatórios de Silva Cunha em que este analisa os vários movimentos eversivos. sob a égide de reivindicações religiosas ou nacionalistas têm provocado uma “agitação negra quasi total”. Marques revela-se preocupado com a série de movimentos eversivos que. e islamização. o desenvolvimento económico das regiões” (MARQUES. ao afirmar que “se não fora a intervenção das autoridades portuguesas. A “acção lenta e pertinaz da colonização dos europeus”.18 com segurança. a sua “boa vontade” é sempre enfatizada nas considerações de Marques. postos em crise pelas tentativas de intromissão do capitalismo internacional. que foi perdendo terreno com a emergência do nacionalismo africano. adoçando a prepotência dos dominadores [fulas]. Já na época dos relatórios confidenciais de que nos fala Gallo. principalmente quando se toca no aspecto político e religioso da etnia mandinga. daí. A história da submissão mandinga ao domínio fula reverteu-se num predomínio acentuado do islamismo nestas duas etnias. 1965: 82). Em termos religiosos. originou a criação de novas vias de comunicação e. 1965: 85). vemos em ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . e esta só poderia ser superada através da conversão ao catolicismo. 1965: 64). revelada no rápido desmembramento do seu império e na submissão ao domínio fula depois da batalha de Turu-bã. porém. afirma. Numa alusão clara ao pan-africanismo. A isto parece seguir logicamente um sentimento de dívida. nas zonas de transição e do interior. existia uma atenção particularmente interessada em defender os interesses do colonialismo português. demonstrando que “as origens destes movimentos estão nos estragos impostos pelo colonialismo às estruturas tradicionais” (GALLO. mais afincadamente sentiriam o erro” encerrado na modalidade da sua organização política (MARQUES. baseandose numa “autoridade em assuntos da Guiné” – Teixeira da Mota –.

razão que faz o autor discorrer sobre “as características especiais e únicas do sistema de Portugal contactar com os povos que civilizou” e que permitem esperar deles reconhecimento e gratidão. logo. tal como avançado anteriormente. este último diz mesmo que “os negros foram sempre propensos à continuação de sociedades secretas”. Com o intuito de deixar clara a dívida dos mandingas para com o civilizador português. Sudão. o autor adverte para a necessidade de se lhe dar maior ênfase “quando o atraído não atingiu o grau cultural que lhe permitiria discernir com equilíbrio”. 1965: 118). 1965: 120). Gâmbia. enceta uma revisão da história política dos mandingas. “sabido como é que no Mali e na Republica do Gana se agitam com mais intensidade as doutrinas de emancipação do continente negro”. O que estiver mais perto da fonte donde jorram as ideias terá mais probabilidade de ser atingido” (MARQUES. “a proximidade de repúblicas recém-nascidas põe os povos que nela habitam na iminência de serem influenciados pelas novas doutrinas do continente” (MARQUES. como já foi dito. o colonizador português. em nome de um sentimento de gratidão que. admitir-se também a dificuldade da sua absorção pelas correntes de independência que volitam em seu redor” (MARQUES. torna possível admitir a existência de uma profunda impregnação dessas doutrinas que ameaçam o domínio colonial português na Guiné. ainda ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . mais uma vez reificando o etnocentrismo e paternalismo que o guiaram durante toda a tese. dos próprios Mandingas. Este é precisamente o caso dos povos da Guiné portuguesa e. o autor faz especial menção a outras circunstâncias que podem subverter o rumo lógico dos processos de manutenção do império. e. a dispersão dos mandingas pelas terras do Mali. colocando a salvo os elementos mandingas: “parece lógico admitir a existência de uma dívida de gratidão por parte dos mandingas da nossa Guiné para com Portugal. e as conexões ideológicas destas com os movimentos eversivos do poder colonial fá-lo recear as hipóteses de contaminação dos mandingas: “a situação geográfica de cada povo tem uma importância capital na determinação da maior ou menor facilidade de impregnação. No entanto. na qual. República da Guiné e do Gana. assim. “adoçou”a prepotência dos fulas. Mas. Senegal. O equilíbrio é aqui corporizado na perpetuação da dominação colonial portuguesa. 1965: idem). e no tom de alerta que faz desta tese um justo sucessor dos relatórios confidenciais.19 Marques uma mesma postura. A simples existência deste pólo atractivo não pode pôr-se de lado e. Na verdade.

a partir de abordagens como esta. numerosos autores de destaque por convocar e uma história do saber etnológico da Guiné por recordar. Procurava-se dessa forma “perpetuar o império e a sua estrutura hierárquica e. à luz de uma antropologia que não é já aquela dos tempos coloniais. porque neste momento nos acode à imaginação a Cruz de Cristo. e por outro de opor a sua incivilidade à tolerância que sobre ela. contemplando aspectos que. indelevelmente revelador de uma ligação entre o saber antropológico e a ideologia colonial portuguesa. embora associados e pertinentes. ser iniciados. de por um lado valorizar os usos e costumes nativos e transformá-los em riqueza de Portugal. Tratou-se neste documento. em virtude de constrangimentos de dimensão não puderam aqui ser desenvolvidos. A forma como se finaliza esta tese é a expressão mais finalizada do propósito último que levou à sua elaboração. 2002: 277). ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . assim. pode não conseguir neutralizar as forças de sinal contrário trazidas pelas “reivindicações negras em ebulição”. no gradualismo da «transfusão das almas». apesar de se estar a analisar em primeira-mão material intocado. dominando. eivada de um cariz religioso e de forte carácter ideológico. Mas. a própria existência da nação portuguesa nos quatro cantos do mundo” (THOMAZ. Não obstante o que se tentou demonstrar nestas páginas. Próximas oportunidades de repensar estas questões surgirão. muito ainda ficou por dizer. bem de alto a estrada percorrida por mais de quatro séculos por uma Nação que teve sempre como principal determinante da sua expansão no mundo a conquista de almas e não a de territórios.20 assim. os portugueses alimentavam. no suposto respeito por esses mesmos costumes. garantir. e outros estudos poderão. Ferreira Marques apela aos Céus para que guie no sentido certo um império que já era na época uma forma colonial em vias de extinção: No entanto. o volume de informação que poderíamos cruzar no espaço deste ensaio extrapola significativamente o que para a sua realização foi estipulado. encerramos esta dissertação na esperança de que Essa será a força que neutralizará todas as forças contrárias. Numa passagem que se assemelha a uma prece.

21 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .

“Antropologia da Guiné-Bissau” in Dicionário Temático da Lusofonia.doc.10. Gérald (dir.up. Rio de Janeiro (http://www. in MARQUES. Texto Editores. Comportamento dos Mandingas da Guiné Portuguesa na Vida e na Morte. ISCSPU. Jorge. “Ciência e racismo: uma leitura crítica de Raça e assimilação em Oliveira Vianna” in História. “Factos e teorias históricas (sociais)”. Clara. nº.pt/revistas/documentos/revista_49/artigo4551. www. MACEDO. Ciências e Saúde.2. Jair de Souza. Omar Ribeiro.letras. O Saber Português.1. 64-86. Lisboa. 1965. “Introdução à reedição de 1998” in DIAS. Lisboa. pp. Donato. 2005. Rui. 1998.). Os Macondes de Moçambique.539-577. Rio de Janeiro. L’Harmattan. 2002. 1920. pp. Migrations Anciennes et Peuplemente Actuel des Côtes Guinéenes.br/). PEREIRA.22 Referências Bibliográficas CARVALHO. THOMAZ. GALLO.ler. Lisboa. GAILLARD. “Brève évocation d’une histoire de la constitution du savoir ethnologique relatif à la Guinée Bissau” in GAILLARD. Vol. 2003. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . editora UFRJ. Gérald. RAMOS. ER. Mário Humberto Ferreira. Ecos do Atlântico Sul. Vol. Newton de. CNCDP e IICT.scielo. 1988. Antropologia e Colonialismo. 2000. Lisboa. Paris.

Gonçalo Duro dos Santos. miscigenação. Teoria da selecção natural e origens do pensamento eugénico Num contexto pré-darwiniano. e no qual participaram também José Manuel Sobral. nação. pois contaminaria a “essência” que se julgava existir e se devia preservar. Era necessário afastar os “incapazes” ou mais “fracos”. 1 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . a miscigenação seria nefasta. coordenado por mim e por José Manuel Sobral. neste sentido. Associadas a esta lógica. pois esses constituíam uma ameaça. inspirado nas teorias populacionais Comunicação apresentada no painel intitulado “Raça.ul. Palavras-chave: raça. Agradeço aos colegas que fizeram parte deste painel e aos que participaram no debate final. pelo seu incentivo e pelo espaço de reflexão que ali foi possível criar. 1. surgiram noções como “pureza da raça” e. as espécies eram consideradas imutáveis e os membros de cada uma delas eram detentores de uma essência que os diferenciava de todas as outras. Assistiu-se então à procura de afirmação da superioridade biológica e racial dos portugueses.pt Nas primeiras décadas do século XX em Portugal tanto a ciência como o poder estatal pretendiam contribuir para o progresso da nação. Ricardo Roque. Eugenia.Oximórons do Império: as buscas da perfeição ao serviço da nação 1 Patrícia Ferraz de Matos 2 Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa patricia_matos@ics. Uma das formas de garantir a “pureza racial” era através da eugenia. influente nos EUA e na Europa. Tal projecto de “purificação” procurava garantir o poder e a soberania dos portugueses e alguns cientistas fundamentaram os perigos da mestiçagem daqueles com as populações autóctones dos territórios ultramarinos. Clara Carvalho e Leonor Pires Martins. império. Nação e Império”. Com este estudo pretendemos contribuir para uma melhor compreensão das sociedades contemporâneas e para uma reflexão sobre a história das ideias e do colonialismo português. Posteriormente. 2 Doutoranda em Antropologia Social e Cultural do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e Bolseira da Fundação para a Ciência e a Tecnologia. Este trabalho foi realizado com o apoio da Fundação para a Ciência e a Tecnologia. eugenia.

autor do Ensaio sobre o Princípio da População (1798). pois tal não permitia a actuação da selecção natural que eliminava os mais fracos.). na obra Hereditary genius. tendo-lhe sucedido no cargo Leonard Darwin .geração) foi criado em 1883 pelo britânico Francis Galton (1822-1911). a primeira do género. Galton considerou necessário procurar manter as “raças” puras. Em 1869. conhecido como o fundador da genética. 2. 2. o resultado tendia a ser ervilhas de casca enrugada. Segundo ele.). Darwin (1809-1882) definiu o processo de “selecção natural” das espécies. No entanto. por isso.2 do pastor protestante Thomas Malthus 3 (1766-1834). 16. os seres mais bem adaptados viviam durante mais tempo e deixavam uma maior descendência. ou seja.. através de um método estatístico e genealógico. 4. genus . Alguns eugenistas interpretaram estas experiências de um modo que reconhecia as ervilhas de casca enrugada como uma degeneração (e não como uma variação genética apenas). Não fazia sentido. emergiu a eugenia. pondo assim em causa a reprodução daquela espécie. uma vez que as populações se adaptavam/ evoluíam ao longo do tempo. Galton procura provar. Malthus não defendia a ajuda aos mais necessitados.. 3. 3 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . O termo eugenia (eu . era necessário intervir activamente no desenvolvimento do homem. 4 Em 1907 foi presidente da Sociedade para a Educação Eugénica.. segundo o próprio. 5 Mendel cruzou pés de ervilhas e identificou algumas características: quando as ervilhas de casca enrugada eram cruzadas com as ervilhas de casca lisa.boa. a selecção natural actuava no sentido da preservação das diferenças e variações favoráveis e da eliminação das variações nocivas (Darwin 1968 [1859]: 84). a teoria eugénica de “aperfeiçoamento da raça humana”. principalmente pelo controle social dos matrimónios. 4. criada na Inglaterra. Galton 4 inspirou-se ainda nas descobertas de Gregor Mendel 5 (1822-1884). tendo em vista um aperfeiçoamento das populações e a eliminação de características indesejáveis. portanto. 8. Inspira-se no darwinismo para elaborar em 1883.. a população cresce em proporção geométrica (1. Ao transferir o resultado das descobertas de Mendel acerca do cruzamento de ervilhas para os humanos. uma prática que procurava alcançar a melhoria das qualidades físicas e morais de gerações futuras. Ainda durante o século XIX. e paralelamente ao evolucionismo. as espécies não eram imutáveis e evoluíam gradualmente. falar na existência de “tipos” raciais permanentes. que a capacidade humana era influenciada pela hereditariedade e não pelo meio e sugere as proibições dos casamentos inter-raciais. pois esse gene era dominante. o processo darwiniano de selecção natural já não operava sob as condições de uma vida “civilizada” e. enquanto a produção de bens alimentares cresce em proporção aritmética (1.filho de Charles Darwin. na obra Inquires into Human Faculty and its development. podendo tal conduzir a uma catástrofe. Segundo Malthus. um monge checo. primo direito de Darwin.

tomou a literatura como “expressão ou produto do meio social” e do “génio nacional” para.3 A eugenia veio a suscitar o interesse de cientistas. Outros. Para impedi-la promoveu-se a segregação de alguns grupos. Porém. Por outro lado. “a nação portuguesa. tanto para Antero de Quental. tendo como resultado a sua degenerescência. económicos e políticos das nações mais progressivas da Europa. destituída de uma base étnica individualizada”. tinham uma influência africana evidente (Vasconcelos 1895). Por seu turno. Braga concluiu que os portugueses resultaram da mistura de vários grupos e tal era um exemplo de superioridade. como Alcácer do Sal. resultou da “vontade política e das instituições e não de uma raça entendida como um tipo nacional” (Matos 1998: 329). p. como observou José Manuel Sobral. por outro. mas as superiores sairiam desfavorecidas. inclusivamente. levantaram-se questões relativas à miscigenação. a partir dela. deduzir os caracteres de “uma raça fundadora” portuguesa (Matos 1998: 324). “o sentido unitário – mas polissémico e ambíguo – de nação” (idem. pois esta permitiria obter combinações incontroláveis. por um lado. 279). Nesta altura. especialistas legais e higienistas mentais. como Alexandre Herculano (1810-1847) na sua História de Portugal. por exemplo. Alguns autores vão então procurar encontrar uma matriz rácica para explicar a decadência de finais do século XIX (Sobral 2004: 259). a palavra “raça” tinha ainda. reconheceram a influência árabe. T. Teorias nacionalistas e influência do pensamento eugénico em Portugal No contexto português de finais do século XIX. Já Leite de Vasconcelos (1858-1941) reconheceu que os portugueses resultaram da mistura de vários povos e. uma grande parte dos autores da geração de 1870 debruçou-se sobre a constatação do atraso português de então comparado com os feitos heróicos nacionais que ocorreram nos séculos XV e XVI. e com os avanços técnicos. Alguns teóricos defenderam que as “raças” inferiores ficariam favorecidas. como para Oliveira Martins. Na obra O povo português nos seus costumes. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . crenças e tradições (1885). Teófilo Braga (1843-1924). 2. a ideia de “nação” estava no centro das preocupações dos intelectuais (Mattoso 1998). médicos. algumas zonas do país. o isolamento dos “inferiores” e até a sua exterminação.

4 Nos inícios do século XX. Corrêa propôs a criação de um “arquivo genealógico dos doentes” que veio a ser “posto em prática.. cinco anos depois. na Clínica Psiquiátrica da Faculdade de Medicina de Lisboa” (Pimentel 1998: 22). sentiu-se a necessidade de realçar a hegemonia de uma nação colonial afastando elementos que pudessem sugerir degenerescência ou hibridação. Nesse sentido referiu que era “urgente (. convida Renato Kehl. em 1931. da eugénica negativa (combatendo a procriação mórbida) e da eugénica preventiva (combatendo os factores degenerativos)” (Corrêa 1928: 1-7). No ano seguinte (1932) é convidado para organizar a secção do Porto da Sociedade Portuguesa de Estudos Eugénicos e. nesse mesmo ano. M. Corrêa intervém no Congresso Nacional de Medicina defendendo que o desfalque humano suscitado pela emigração. Nessa mesma altura. ibidem). ou devido a deformidades físicas (Corrêa 1928). não sendo pois muito eficazes os meios higienistas. nem a existência de sangue árabe consideravam. pela tuberculose e pela ilegitimidade das crianças conduzia à necessidade de tomar medidas eugénicas.) pôr em prática (. o médico e antropólogo Mendes Corrêa. Foi neste contexto também que.. M. Em 1927.) os princípios racionais de eugénica positiva (favorecendo a procriação sã). M.. Na I Semana Portuguesa de Higiene. entre 1915 e 1921. Corrêa. na qual o eugenista brasileiro condenou a mestiçagem (idem. presidente da organização brasileira de eugenia. promoção e proibição de casamentos. no sentido de salvar a população portuguesa e manter genuinidade do carácter dos portugueses. minora a influência dos semitas e não se refere a uma possível influência dos habitantes da África sub-sahariana. como António Sardinha (1887-1925) em O valor da raça (1915). assistência social. assim como pela mortalidade. os integralistas lusitanos. começaram a surgir propostas de medidas de higiene.. Corrêa estava ainda preocupado com o facto de que. num texto de 1914-1915. hereditário. para uma conferência no Porto. reconhece os “traços flagrantes” deixados pelo germano. a inaptidão bio-social era um fenómeno constitucional-germinal e. Para M. Por outro lado. altura ou saúde. mais de 50% dos homens sujeitos às inspecções para o recrutamento militar não foram apurados por falta de robustez física. portanto. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .

na lição inaugural da Universidade de Coimbra. onde as secções da sociedade eram dirigidas por M. de 23-10-1934 a 18-1-1936. 7 Em termos comparativos. Foi inaugurada durante as Comemorações Centenárias da Universidade de Coimbra. 9 Entre os quais o alemão Eugen Fischer. tinha a intenção de propagandear ideias de “valorização demográfica” e responder à “necessidade de se criar uma geração mais forte”. como Bissaya-Barreto. Tamagnini analisa a importância do estudo da população e destaca as medidas eugénicas já tomadas pela Alemanha: Podem discutir-se pormenores. com a presença 8 de representantes de vários países 9 e esteve em actividade até 1974. as variadas causas do seu enfraquecimento 10 (1940: 6). instruindo-a. Anselmo Ferraz de Carvalho ou Elísio de Moura. Embora não fazendo parte desta sociedade. professor de Antropologia. Rocha Brito. Por seu turno. podemos referir a criação da Sociedade Alemã para a Higiene Racial (1905). defendeu em 1940. o Estado que devote os seus cuidados aos seus melhores elementos étnicos dominará um dia o Mundo’ (1934-35: 28). aperfeiçoando-a. E. director do Instituto de Antropologia de Kaiser Wilhelm de Berlim (Diário de Coimbra. no ano lectivo de 1934-35. Mas já anteriormente. Tamagnini foi ministro do governo de Salazar. necessitam (. desenvolvendo a nossa raça. mas o que ninguém pode contestar é a seguinte afirmação do Hitler: ‘Numa época em que as raças se estão intoxicando a si próprias. 10 Estes pressupostos eram comuns aos defendidos pela Sociedade Portuguesa de Estudos Eugénicos. Do Porto e Lisboa. Bissaya-Barreto. de tão brilhante Passado. João de Almeida (brigadeiro-médico) e Sobral Cid. Vilhena. para que possam manter o seu lugar ou conquistar melhor lugar na hierarquia dos Povos” (e isso só é possível) “aumentando a nossa população.5 Em 1933. o médico e antropólogo Eusébio Tamagnini 6 apresenta a proposta para a criação da Sociedade Portuguesa de Estudos Eugénicos 7 . mentor de várias estruturas de apoio às crianças. combatendo tanto quanto possível. Corrêa e H. que segundo ele permitiriam a continuidade dos valores da “nação” e da “raça”. cujos estatutos foram aprovados em 1934. 10-12-1937)..) de desenvolver tôdas as fôrças e riquezas com que a Natureza as dotou. a Sociedade Eugénica Francesa (1912) e a Sociedade Eugénica Americana (1921) que veio a aconselhar a esterilização de um décimo da população americana para evitar o “suicídio da raça branca”. participaram os médicos Joaquim Pires de Lima. a Sociedade para a Educação Eugénica na Inglaterra (1907). Esta Sociedade. na Universidade de Coimbra. Bissaya-Barreto esteve presente na sua inauguração. criada em Coimbra em 1937. pode discordar-se de certos processos. e realizou estudos que ilustram o seu interesse pela “raça”.. os “homens de amanhã”. 6 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . que: As Nações novas e as velhas como a Nossa. respectivamente. no discurso para as festas comemorativas da cidade de Coimbra. educando-a. 8 A maioria dos presentes era constituída por professores da Faculdade de Medicina de Coimbra. tornando-a vigorosa e forte.

agnósticos e ateus (Pimentel 1998). Em Portugal registou-se então a persistência dos valores humanistas. com a intervenção da Igreja no Estado. em parte devido à influência cristã. e especificamente católica. conservadores republicanos (Júlio Dantas). 11 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . A sua tese de licenciatura incidiu sobre “A Realidade Social do Aborto” e defendeu a legalização do aborto. que defendeu em 1940 a despenalização do aborto 11 ). Sendo assim. Tamagnini. embora as duas pudessem coexistir. No que respeita à esterilização. Entre os grandes defensores da eugenia estiveram vários psiquiatras e pessoas de distintos quadrantes políticos: ex-nacionais-sindicalistas (E. membros do Partido Evolucionista (Bissaya-Barreto). ou de esterilização como sucedeu na Suécia. a via higienista (apoiada pelas descobertas da química. medicina e farmácia) acabaria por prevalecer à via eugenista. João de Almeida). Prémio Nobel de Medicina e Fisiologia (1949). os elementos sociológicos.6 Em Portugal. como sabemos que aconteceu nos EUA e na Alemanha. uma medida no entanto restrita a casos clínicos mais especiais (Pereira 1999: 588). psicológicos e até jurídicos. propôs a esterilização para eliminar a hereditariedade mórbida. Os católicos defenderam a eugenia “embora aprovassem medidas natalistas de aumento da população e condenassem as medidas limitativas da natalidade” (idem. De facto. p. Apenas Egas Moniz. os princípios da eugenia não foram levados até às últimas consequências e não se registou no país a ocorrência de extermínio ou genocídio. houve em Portugal um certo consenso em a reprovar. procurando assim impedir os excessos “negativos” da eugenia. Outro elemento interessante é que as discussões acerca da eugenia passaram a juntar aos argumentos biológicos. Por outro lado. encontram-se apologistas da eugenia com diferentes posturas relativamente à religião: católicos. membros da União Nacional e opositores ao regime (como Álvaro Cunhal. no que diz respeito à regulamentação de casamentos e divórcios proposta por alguns médicos e à consequente necessidade de actualizar o Código Civil português. 26). a Igreja foi-se mantendo vigilante no que diz respeito a uma excessiva intervenção do Estado no domínio privado e familiar.

enfatiza a sua linha de pensamento quanto à mestiçagem. como o próprio Brasil. No mesmo Congresso. por um lado. e defendeu uma política colonial “extremamente humanitária e rasgadamente liberal” para apelar à colaboração dos mestiços. Este médico não apoiava a mestiçagem. que estes constituíssem “grupos cuidadosamente separados” (Ribeiro 1981: 155). pois foram esquecidos desde os “tempos dourados em que o grande Afonso de Albuquerque favorecia o cruzamento de portugueses com as mulheres indígenas”. podemos encontrar em M. estas discussões acerca do “aperfeiçoamento da raça” estiveram envolvidas também com a questão colonial (Matos 2006) e. por essa razão. por exemplo. ao defender o esforço para incutir nos portugueses o desejo de emigrarem para as colónias e aí se fixarem definitivamente. no entanto. Nas Comemorações de 1940. 326). com a questão da miscigenação 12 . este autor chama a atenção para a necessidade do desenvolvimento de estudos sobre os “problemas biológicos e sociais do mestiçamento” cuja “intensidade angustiosa e dramática” deveria preocupar os investigadores. Tamagnini.7 3. e ainda o México. por outro. uma vez que um mestiço era “um sêr imprevisto no plano do mundo” (1934: 332). como Norton de Matos ou Vicente Ferreira. governadores coloniais. Já no âmbito científico. No Congresso de Antropologia Colonial (1934). Numa outra comunicação apresentada ao Congresso Colonial. 1934: 329. alertou para os perigos da mestiçagem. por um lado. embora fossem a favor da “elevação social de pretos e mulatos”. no I Congresso Nacional de Antropologia Colonial de 1934. desde a Família até ao Estado” (1934: 63). o médico Germano da Silva Correia criticou o povoamento colonial por condenados. a Argentina e a Venezuela. por exemplo. por outro (Correia. Contemporaneamente a Tamagnini. Corrêa propósitos muito idênticos. Assim. refere a importância do “vigor” e da “pureza germinal da Raça” para a “continuidade histórica da Nação” (1940c: 20). inaceitáveis em “matéria da eugenésica interétnica”. Higiene racial e questão colonial Na primeira metade do século XX. no discurso da Sessão Inaugural do Congresso Nacional de Ciências da População. o Peru. 12 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . G. referindo que esta era “um risco para tôdas as sociedades humanas. Ela foi debatida em alguns países da América Latina. envolvendo os meios políticos. mas com um espírito um pouco diferente. salvaguardando. não eram favoráveis à mestiçagem. Apela ainda A questão da mistura racial não era única de Portugal. e os científicos. defendendo que: “de um mestiçamento não se pode esperar uma nova linha racial pura” (1940b).

º O mestiçamento em áreas de difícil aclimação dos europeus ou por virtude da escassez dos colonos provenientes da metrópole.).. no Congresso Colonial.º Não deve considerar-se o mestiçamento em larga escala como base da nossa política colonial. no entanto. procurando melhorar a situação daqueles que.. M. tanto quanto possível. Porém. embora influente. Corrêa debruça-se sobre os “Factores degenerativos na população portuguesa e seu combate” e anuncia o mestiçamento como “possível factor degenerativo”. Dito de outra forma. Na sua apresentação integrada no Congresso Nacional de Ciências da População. aborda questões como o contacto da “raça portuguesa” com as “raças indígenas” e o contacto das “raças” nas colónias portuguesas e revela-se também contrário à existência de “mestiços” (1940: 20-21). Contudo.. que é a maior garantia da continuidade histórica da Pátria.. dentro do possível. cuja existência vários autores tinham tentado demonstrar desde o século XIX. numa Comunicação apresentada à 22.. Mendes Corrêa sustenta que: 1. como não devem os estrangeiros naturalizados. humano. salvo (. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Gonçalo de Santa-Rita (1891-1967). após a apropriação das teses luso-tropicalistas de Gilberto Freyre. um recurso a adoptar para exploração dalguns territórios (. o que este autor acaba por destacar é a imprevisibilidade do mestiçamento (1940b) e não a sua fundamentação científica. 2. foram desfavorecidos por más condições sociais e educativas e promover.) (1944: 3-4).) em casos (. pois poderia conduzir à dissolução de caracteres específicos dos portugueses.º Em tal caso deve procurar-se.. 4.º Deve dar-se aos mestiços do nosso Império um tratamento carinhoso. porventura.) muito excepcionais e improváveis” (1940b). fraterno. é.. pois isso implicaria a destruição dum património germinal. Quatro anos mais tarde (1944). o mestiçamento levaria à diluição de caracteres (1940b). professor na então Escola Superior Colonial. A mestiçagem era vista como uma ameaça. exercer postos superiores da política geral do país. mas a questão de o factor degenerativo surgir era apenas uma possibilidade (1940a). não representa todos os discursos da época.. Havia alguns que contrastavam com estes.ª Sub-Secção do II Congresso da União Nacional. Ainda no âmbito daqueles congressos de 1940. a posição destes autores.8 à “conveniência nacional de restringir os cruzamentos raciais” e termina referindo que: “nunca eles (os mestiços) deverão. 3. em Lisboa. sobretudo mais tarde. a sua colaboração com os mais prestimosos valores nacionais. uma selecção eugénica dos progenitores (.

defende que os portugueses em contacto com outras populações se manteriam sempre portugueses e um bom exemplo disso era o Brasil (1936: 52). que encorajou os seus homens a casar com as mulheres de origem ariana convertidas ao cristianismo. Histórias de miscigenação na colonização portuguesa Apesar do que foi dito atrás. Os hindus impressionaram pelo seu desenvolvimento e organização social. Germano da Silva Correia refere que “não ocorreu nem degenerescência. a Escola Médica de Goa era muito organizada. Por ocasião do Congresso Nacional de Ciências da População (1940). que assistimos à produção de trabalhos visando provar a pureza do povo português. houve gente que ascendeu à nobreza. Por seu turno. Várias vezes foram lembradas as iniciativas de Albuquerque na Índia no que disse Aqui o processo de colonização ocorreu de um modo diferente do que aconteceu em África. No âmbito das Conferências de Alta Cultura Colonial (1936). houve quem tenha defendido uma política de casamento misto. Embora a sua religião fosse diferente. vice-rei da Índia. negando outras influências (1940: 99). a par das considerações contrárias à miscigenação. é nesta mesma altura. românico e germânico. O seu autor. domiciliada há mais de dois séculos nesta Colónia” e que a única diferença resultante do clima tropical é “o menor grau de robustez orgânica” (1940: 663-678). o médico Joaquim Pires de Lima defendeu que os portugueses resultavam da síntese entre os elementos lusitano. Aires de Azevedo apresenta um trabalho no qual conclui que “a influência das raças coloniais (nomeadamente Hindu e Negra) na pureza bioquímica do povo português. etc. como é o caso de Afonso de Albuquerque 13 . Ainda no âmbito dos congressos de 1940 foi apresentado um estudo sobre as populações indo-portuguesas. Quando os portugueses chegaram à Índia encontraram impérios imponentes. Tamagnini (1939) procurou demonstrar que os narizes dos portugueses eram muito diferentes e não tinham qualquer influência dos narizes dos africanos.9 Curiosamente. Sampaio e Mello. na história da colonização portuguesa. é pràticamente nula” (1940: 563). embora tenha enfatizado não querer que estes “casassem com as ‘mulheres negras’ de Malabar” (Boxer 1967: 98-9). o seu desenvolvimento social e cultural era considerado superior ao dos africanos. 4. num texto sobre o índice nasal dos portugueses. No âmbito deste mesmo congresso. professor da Escola Superior Colonial. nem diversificação rácica na grei Luso-descendente. 13 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .

e eu chegava lá e ver uma preta nua não me impressionava nada. tal processo não terá sido pacífico. De facto. eu não tenho nenhuma. eu não quero. quer dizer.Sucedeu-me isso. E eu disse: ‘Ó senhor administrador. 14 Para um maior desenvolvimento sobre este assunto. embora depois houvesse uma adaptação. Todavia. mas o administrador onde eu estava.10 respeito à colonização. A sensação de estranheza do colono quando chegava aos territórios ultramarinos e tinha um primeiro contacto com as suas populações autóctones. mais tarde já não era… É uma questão de costume. você ou tem uma ou não pode ter muitas’. Na obra citada. um discípulo de Franz Boas. rapaz. vide Andrews (1991) e Castelo (1998). aquilo para mim era um bicho. As suas ideias de política colonial. o próprio soba não perceber como é que um monaqueca (rapaz novo) podia viver sem mulher. em entrevista. não havia lugar para a visão culturalista de Freyre ou para o elogio do mestiço (Castelo 1998). devido ao seu passado étnico e cultural de “povo” indefinido entre a Europa e a África 14 . dizia: ‘. G. Freyre destaca a predisposição dos portugueses para o contacto fraterno com as populações tropicais. Esta ideia parece ser predecessora da ideologia “luso-tropicalista” cujos fundamentos começam a ser lançados. postas em prática no início do século XVI. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . foram mesmo consideradas inspiradoras e precursoras das ideias que se quiseram pôr em prática nos territórios coloniais depois dos anos 40 do século XX. como tal. de adaptação ao ambiente. Porém. em 1933. na obra Casa Grande & Senzala do já referido Gilberto Freyre (1957 [1933]). é relativamente comum considerar-se que os portugueses não estabeleciam barreiras raciais nas suas colónias e que a sua fácil miscigenação com outros povos lhes daria uma certa especificidade (Boxer 1967: 35). um ex-funcionário administrativo nos anos 30 em Angola: J: . 17 anos quando fui daqui. como nos referiu. a obra de Freyre não teve receptividade em Portugal na década de 30. O “renascimento do império” estava imbuído de ideias raciais e.Não senhor. eu não me relaciono com pretas!’ (…) Eu tinha 18. pode ser descrita como um “choque cultural”.

Em 1959. A discriminação racial e as duras práticas administrativas coloniais existiam e persistiam. Ainda hoje. porque os autores em vez de procurarem verificar a exactidão das afirmações. este autor. harmonia. a expressão “colonização” passa a ser substituída gradualmente por “integração”. 15 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Moçambique e Guiné pelo facto de considerar que estes ainda não tinham alcançado “o nível de cultura e o desenvolvimento social dos europeus” como possuíam os de “Cabo Verde. só a visita ao “terreno” lhe concedeu uma visão crítica diferente das visões luso-tropicalistas que o regime apropriou. Índia Portuguesa e Macau” (Santos 1955: 159). As ideias discriminatórias do Acto Colonial (criado em 1930) começam a ser abandonadas e o regime adopta a teoria “científica” de Freyre 15 . por exemplo. e até ousadamente. embora ela nunca tenha sido apoiada oficialmente (Castelo 1998). um pouco inesperadamente. declarava que: “nós continuamos a ouvir sempre repetir que os indígenas gostam mais dos portugueses que dos ingleses. Mas as concepções luso-tropicalistas de Gilberto Freyre receberam críticas. fraternidade e até de intimidade. foi necessário proceder a uma reformulação da postura portuguesa face aos territórios ultramarinos e seus habitantes. acham mais cómodo repetir aquilo que os outros disseram” (Dias e Guerreiro 1960: 21). E esta história vai-se repetindo. numa altura em que os países europeus já tinham concedido a independência às suas colónias. como certos erros que passam de uns manuais para os outros. Tanganhica e União Sul-Africana). No caso de Jorge Dias.11 5. porque os tratamos com mais humanidade e nos interessamos pela vida deles. criando as chamadas sociedades luso-tropicais. Como resultado das pressões anti-coloniais. Ao mesmo tempo. Angola. segundo a qual a colonização portuguesa teria sido diferente. é sobretudo no período pós-Segunda Guerra. A Constituição de 1951 instituiu o regime de indigenato aos nativos de Angola. uma vez que os portugueses sempre tinham respeitado os valores das populações com as quais se relacionaram e com as quais mantiveram laços de tolerância. é muito difícil para muitos acreditar na teoria luso-tropicalista. que se verifica uma mudança na atitude dos políticos do regime face à ideologia de Freyre. Reformulações trazidas pelo pós-guerra Embora a recepção inicial da teoria gilbertiana em Portugal tenha sido heterogénea e não lhe tenha sido dado um grande destaque nos anos 30 e 40. num Relatório de Campanha (Moçambique.

e à influência da Igreja no próprio Estado. num contexto no qual à partida concebemos o Estado e a Igreja como separados. era dado a ver como um país grande. com territórios espalhados por todo o mundo. No âmbito do contexto colonial. portanto. a atribuição de um título nobiliárquico em Portugal. Portugal. mas todos eles tinham características particulares que se tinham mantido inalteráveis. não tinha tido quaisquer relações com negros. perdurado ainda até 1954. No âmbito do contexto nacional e colonial português analisado. Em conclusão Escolhi a expressão “oximórons” para o título desta comunicação. nunca perderiam a sua essência individual que os caracterizaria. Um outro oximóron resulta da promoção da ideia de “pureza racial” dos portugueses e da argumentação simultânea de que os portugueses descendiam de vários povos (ao longo de séculos). mas depois assistimos ao entrecruzar dos discursos políticos com os discursos da Igreja. pois o potencial eugénico dos portugueses permitia que essa originalidade se mantivesse mesmo em contacto com populações “exóticas”. encontrámos algumas dessas combinações. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . se contradizem entre si. no fundo. apesar da ascendência diversa dos portugueses. e constatamos que alguns discursos científicos afinal estão imbuídos de discursos também eles políticos e até de teor religioso. Curiosamente. essa mistura nem sempre foi reconhecida e alguns autores procuraram provar a sua “pureza racial”. Ou seja. que não permitia o acesso à cidadania da maioria da população das colónias africanas. tendo o “estatuto” de “indígenas”. Outros consideravam que mesmo cruzando-se com outros povos. Faz sentido também falar em oximóron quando nos estamos a referir ao texto da Constituição de 1951 que se refere ao processo de assimilar os nativos dos territórios sob administração portuguesa. Os oximórons podem surgir também. por exemplo. porque um oximóron designa uma combinação engenhosa de palavras que. nos séculos anteriores. por exemplo. o processo de assimilação das populações autóctones dos territórios ultramarinos não parecia diluir a originalidade portuguesa. só era concedida se o indivíduo provasse que nunca tinha passado por África e.12 6. um país pequeno. cujos recursos não abundavam. imperial.

Como referiu João Leal.13 Por outro lado. Contudo. Muitos dos autores que teceram considerações acerca da “raça” e da eugenia tinham currículos que.. e tendo sobrevivido ao período pós-independência das ex-colónias portuguesas. o que faz dela uma entidade “poliglota”. há autores que ainda recentemente se prenderam com essa questão 16 . na expressão do nosso subtítulo. segundo alguns historiadores como Valentim Alexandre (2000) e Cláudia Castelo (1998) e antropólogos como Miguel Vale de Almeida (2000) e Cristiana Bastos (1998). não será também um oximóron a combinação sugerida por alguns entre ideias de “cultura de fronteira” (Boaventura Sousa Santos 1993) e a de que a cultura portuguesa se deixa contaminar pelo que lhe é exterior (Jorge Dias 1990 [1953]. Essas teses foram inicialmente desenvolvidas por Jorge Dias em Os Elementos Fundamentais da Cultura Portuguesa (1990 [1953]) e depois em O Carácter Nacional Português na Presente Conjuntura (1971 [1968]). Dias (1990: 156). “volvido quase meio século sobre a sua publicação”. “continuam a projectar a sua sombra nas discussões contemporâneas acerca do que é ser português” (2000: 103). Tanto um autor como outro abordaram a questão da cultura portuguesa se deixar contaminar pelo que lhe é exterior.. a ideia do luso-tropicalismo. Santos 1993) com a ideia de um “modo de ser português” facilmente identificável e transhistórico? Como vimos. estamos perante um oximóron quando nos lembramos da defesa das teses luso-tropicalistas aplicadas à caracterização da colonização portuguesa. segundo J. na altura. segundo Sousa Santos. “as buscas da perfeição ao serviço da nação”. dado o contexto que se vive actualmente? Boaventura Sousa Santos (1993) caracterizou a cultura portuguesa como uma “cultura de fronteira” e defendeu ideias a propósito da capacidade de adaptação da cultura portuguesa. da identidade nacional e da adaptação dos portugueses a diferentes territórios. Os Elementos Fundamentais. e outras obras (acrescentamos nós). emergiram no final do século XIX. atingindo o seu auge durante as décadas de 30 e 40 do século XX. ou marcada por uma grande “disponibilidade multicultural”. com algumas das ideias acerca do nacionalismo português.. 16 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . nos quais se discute a superioridade biológica e cultural de uns indivíduos em relação a outros e se propõem medidas científicas e políticas com vista a penetrar nas esferas pessoais e sociais dos indivíduos? Poderemos nós prever isso. S. não permitiriam levantar qualquer suspeita. parece coadunar-se. há muito alvo de descrédito científico. atravessaram o período que precedeu o Estado Novo e reavivaram-se com este. B. Quanto à predisposição especial dos portugueses para a adaptabilidade. Hoje. O que podemos então esperar dos antropólogos de hoje? Correr-se-á o risco de voltarmos a viver em contextos semelhantes aos aqui descritos.

Celta. Aires de. 1934. BRAGA. Tempo Brasileiro. Blacks & Whites in São Paulo. 415-432. Alberto Carlos Germano da Silva. bi-mensal de Higiene e Profilaxia Sociais. Mais vale prevenir do que remediar. de África Médica. Cláudia. CASTELO. BOXER. Valentim. “O mestiçamento nas colónias portuguesas”. 663-678. Edição dos Congressos do Mundo Português. CORREIA. ou será que é porque existem semelhanças que se poderão facilmente continuar a compará-los? Por outras palavras. II Secção. 1967. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .ª Exposição Colonial Portuguesa. 1888-1988. “Antropologia na Índia portuguesa”. Cristiana. 1940. Rio de Janeiro. Jorge (Coord. sobre o receio da diluição dos caracteres seculares evocados por alguns autores? Inventariar-se-ão diferenças incomparáveis. consequentemente. porque distintas e distantes.). 1. Análise Social. em Congresso da História da Actividade Científica Portuguesa. Perspectivas Comparativas. 1. II Secção. “A pureza bioquímica do Povo Português”. Alberto Carlos Germano da Silva.14 Estando Portugal a transformar-se cada vez mais num país de imigração e de acolhimento para muitos indivíduos poderemos vir a assistir novamente a discussões sobre os possíveis efeitos das misturas biológicas e culturais dos portugueses com outros grupos e. em Trabalhos do 1. Novos Racismos. Oeiras. “O império e a ideia de raça (séculos XIX e XX)”.º. Dezembro de 1944. Lisboa. Brazil. The University of Wisconsin Press. 2000. Volume I. Afrontamento. Edições da 1. 1998. Porto. 1944. em Sep. Madison. 1985-1986 [1885]. crenças e tradições.º. “Festas comemorativas dos Centenários e da Rainha Santa”. Lisboa. BISSAYA-BARRETO. em VALA. O povo português nos seus costumes. 1991. 1415-1825. Tomo 1. 1940. VIII Congresso. O Modo Português de Estar no Mundo. 300-330. em Congresso Nacional de Ciências da População.ª Parte. 133-144. AZEVEDO. ANDREWS. 33 (146-147). Teófilo. 551-564. Mendes. Nº 12. “Tristes trópicos e alegres luso-tropicalismos: das notas de viagem em Lévi-Strauss e Gilberto Freyre”. “Os Eurafricanos de Angola”. Fernando. CORREIA. Edição dos Congressos do Mundo Português. 1940. O luso-tropicalismo e a ideologia colonial portuguesa (1933-1961). A Saúde. Tomo 1.ª ed. Charles. 4-7. Ano X (229 e 230). Porto. Jornal popular.º Congresso Nacional de Antropologia Colonial. BASTOS. George Reid. Porto. não será apenas onde existem afinidades que podemos encontrar diferenças? Referências bibliográficas ALEXANDRE. Relações Raciais no Império Colonial Português. Lisboa. Dom Quixote. 1998. Costa Carregal. CORRÊA.

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Utilizando diversas fontes literárias de natureza autobiográfica. Em 1918 a revista Anais Científicos da Faculdade de Medicina do Porto publicou um artigo com o título de “Contribuição para um estudo antropológico dos indígenas de Moçambique” que revelava interesses no domínio da antropologia física e biológica. O interesse pela aplicação de práticas de natureza antropométrica. fauna e antropologia indígenas. Aproveitando a estada naquela antiga colónia portuguesa o jovem médico ocupou o tempo livre com o estudo da flora. zoológicos e diversos artefactos. Colonialismo. Moçambique.Ossos do ofício: um caso de práticas antropométricas no norte de Moçambique (1916-1917) 1 Leonor Pires Martins Doutoranda em Antropologia. Nação e Império”. Martins 2006). este texto pretende recuperar a sua experiência no litoral norte de Moçambique em 1916-1917 e reflectir sobre os interesses do médico pelas “raças” moçambicanas à luz das práticas antropológicas suas contemporâneas. representava um esforço de sistematização das observações e mensurações antropométricas de populações locais realizadas pelo jovem médico durante o período em que integrou terceira expedição militar ao norte de Moçambique (Lima 1918a). memorialística e técnica da autoria de Pires Lima. Fazendo uso da técnica da antropometria realizou ainda mensurações em mais de uma centena e meia de nativos moçambicanos e procedeu à descrição dos seus caracteres fisionómicos. ISTCE leonor.piresmartins@gmail. foi Este texto é uma transcrição fiel da comunicação que foi apresentada no painel intitulado “Raça. Palavras-chave: Antropologia física. redigido por Américo Pires de Lima (1886-1966). o médico Américo Pires de Lima integrou uma expedição militar ao norte de Moçambique. Eugenia. a que não estava obrigado pela sua participação na campanha.com Por ocasião da I Guerra Mundial. I Guerra Mundial 1. Uma versão mais desenvolvida e trabalhada foi posteriormente publicada (vd. Este texto. recolhendo espécimens botânicos. 1 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .

técnicos. materiais e humanos disponíveis para o exercício de averiguações científicas – compreendeu uma importante diversidade de interesses. Estes tiveram como destino diferentes secções museológicas da Faculdade de Ciências do Porto e ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Pires de Lima. Na tradição das expedições e viagens científicas setecentistas e oitocentistas. sobretudo) e um pequeno número de artefactos. Em larga medida. Américo Pires de Lima embarcou no início de Junho de 1916. embora as acções do exército português nesse conflito se tivessem iniciado bastante antes no continente africano.2 principalmente devido ao incentivo de dois colegas da Faculdade de Ciências do Porto. como recordou em 1943 no prefácio de um volume que reunia os textos decorrentes daquela experiência em África (Lima 1943: vii). exemplares da flora (plantas e líquenes. veremos que este conflito proporcionou a Pires de Lima condições particularmente favoráveis à realização de estudos de antropometria. a variedade desses interesses pode ser ilustrada através do destino dado aos resultados da recolha de Pires de Lima. Na realidade. entre os quais. recolheu espécimes zoológicos. e também ao enquadramento específico do desempenho das suas funções naquele território. Portugal era formalmente. o médico português ocupou o tempo que sobrava da actividade clínica recolhendo “todos os elementos possíveis para o estudo da flora. Nessa altura. desde Março desse ano. colónias que confinavam com territórios então sob administração colonial alemã (Arrifes 2004). no seu regresso a Portugal em 1917. Lima 1918b). instituição onde leccionava ciências biológicas. provavelmente as peças etnográficas mais importantes que adquiriu no norte de Moçambique (Afaa 1989. uma nação beligerante no contexto da I Guerra Mundial (1914-1918). sendo notório o espírito cumulativo com que procedeu à recolha de informação. A missão contou com aprovação ministerial e o apoio das autoridades locais. da fauna e antropologia indígenas”. designadamente pela oportunidade de serem estabelecidas comparações entre diferentes grupos humanos. desde o final de 1914 que essas intervenções militares ocorriam em Angola e em Moçambique. desenvolvendo uma actividade paralela à assistência médica prestada às tropas expedicionárias portuguesas ali estacionadas. Assim. Mais adiante. a missão de estudos de Pires de Lima – ainda que condicionada pela modéstia dos recursos logísticos. Durante a sua permanência em Moçambique. quatro estatuetas maconde.

ao aspecto do cabelo e da dentição. à forma do nariz e dos lábios. em virtude das precárias condições de armazenamento e de conservação de que dispunha – foram oferecidas ao Museu de Zoologia da sua faculdade e também a um entomologista espanhol. colega de curso de Pires de Lima na Escola Médica do Porto. Já as suas colheitas no campo da zoologia – apesar do facto de muitos dos exemplares se terem deteriorado. Parece-me. que a actividade antropométrica exercida por Pires de Lima foi sobretudo orientada para a acumulação de dados sobre características fisionómicas por forma a contribuir para a elaboração do imenso arquivo da diversidade humana ambicionado pelo projecto antropológico de Pierre P. uma parte significativa da sua colecção de botânica foi doada a um liquenólogo finlandês (Edvard A. quer o exercício de mensuração do corpo humano – por forma à obtenção de valores médios relativos à estatura dos indivíduos observados. criado em 1914 por António Mendes Correia (1888-1960). No estudo de Pires de Lima não é identificável um propósito prevalecente de associação de traços psicológicos e comportamentais a traços físicos particulares. os seus índices cefálico. Por sua vez. Vainio) que. classificou várias dezenas de novos líquenes e outros espécimes vegetais recolhidos pelo médico português. de outra parte. de uma parte. ao invés. no final da década de 1930. facial e nasal. Durante a sua estada em Palma e Mocímboa da Praia. os artefactos trazidos de Moçambique foram depositados no acervo do Museu e Laboratório Antropológico daquela mesma faculdade. 2.3 outras entidades estrangeiras ligadas ao ensino e à investigação. Quer a actividade descritiva – atenta à cor da pele dos indivíduos. Broca e Paul Topinard que o médico português perfilhava. todos adultos e do sexo masculino. entre outros indicadores – exigiram o manuseamento de diversos ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Pires de Lima reuniu ainda dados sobre os caracteres fisionómicos de 170 indígenas moçambicanos. O exercício de classificação fisionómica e racial de indivíduos – em que se inscrevem os levantamentos antropométricos realizados pelo médico expedicionário – compreendia o estudo anatómico e metrológico do corpo humano: isto é. Deste modo. a observação e a descrição dos seus caracteres físicos e. às tatuagens e outros sinais corporais particulares –. a aplicação da técnica da antropometria.

por exemplo. Pires de Lima ressentia a impossibilidade de utilizar uma escala de cores no decurso das suas observações. sem o auxílio visual daquela ferramenta. e como fica sugerido num passo do seu artigo. Por outro lado.4 instrumentos e aparelhos. a improvisação e a criatividade supriram a inexistência de outros instrumentos necessários à prática antropométrica. Relativamente às circunstâncias específicas em que o estudo de antropometria realizado por Pires de Lima foi desenvolvido. Na verdade. os profissionais da medicina seriam particularmente aptos para o exercício da antropologia física e da antropometria. julgada excessivamente sensorial e imprecisa. De uma porta de madeira. o médico expedicionário fez uma craveira. os diversos instrumentos antropométricos tinham por função aperfeiçoar a percepção dos praticantes da antropometria. Pires de Lima não dispunha de uma vasta aparelhagem antropométrica. um compasso de espessura e um outro de corrediça. No entanto. gravando nela a escala com o auxílio da fita métrica (Lima 1918a: 23-4). entendia ser limitada em precisão a classificação dos grupos humanos observados em função da cor da pele. a utilização daqueles aparelhos visava disciplinar os sentidos do observador e atenuar a interferência da sua subjectividade na produção de resultados (Dias 1996: 33-4). são várias as questões que ficam sem esclarecimento. Ao fim e ao cabo. uma vez que apenas conseguira transportar consigo três instrumentos que lhe tinham sido cedidos por um colega da Faculdade de Medicina de Lisboa: uma fita métrica. designadamente sobre as condições logísticas e técnicas em que o médico militar efectuou as observações (no espaço da enfermaria? num laboratório propositadamente montado para aquele fim? foi auxiliado por alguém? em quanto tempo realizou as mensurações?). ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . não clarifica todos os aspectos que rodearam a sua actividade no campo da antropometria. eram extremamente limitados os recursos de que dispunha. Desta forma. procurando evitar estimativas produzidas a partir da observação a olho nu. Na realidade. porquanto. a literatura de cariz técnico e memorialista deixada por Pires de Lima. No fundo. em virtude da prática rotineira da inspecção de corpos humanos nas actividades clínicas. ainda que constitua um importante repositório de informação sobre a sua experiência biográfica no norte de Moçambique durante a Grande Guerra.

). Por outro lado. De alguma maneira. é notório que o conflito no norte de Moçambique proporcionou circunstâncias extraordinárias de pesquisa ao médico português. facto que motivou o seu recrutamento e que. teve um papel determinante no que respeita à configuração da amostra do estudo de antropologia física de Pires de Lima. estamos perante um caso em que a instituição militar foi parte importante no processo de produção de conhecimento sobre as populações locais daquele território sob administração colonial portuguesa. portanto. contrariamente àquilo que poderia supor-se. as quais me servem de base a este estudo. não deve ser menosprezado. depois. a guerra gerou condições particulares de pesquisa.5 Conhecemos. num ambiente militarizado e com o recurso a nativos moçambicanos que integravam a sua expedição. já que nos locais onde esteve estacionado (primeiro em Palma e. As observações antropométricas de Pires de Lima aconteceram. etc. em Mocímboa da Praia) pôde observar indígenas provenientes de diferentes regiões do território (de Tete. um aspecto muito importante que. de grande número de indígenas de toda a colónia – uns recrutados como carregadores. Assim. e como já tive ocasião ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . É o próprio médico quem o sugere logo no início daquele seu texto de 1918: As circunstâncias derivadas da guerra contra a Deutsch Ost Afrika provocaram a concentração.” (Lima 1918a: 5). contudo. Reporto-me à situação de conflito vivida no norte de Moçambique por altura da permanência do médico português na região. em meu entender. Em vez de ter sido um obstáculo à realização do seu “estudo antropológico”. Assinale-se que no espaço geográfico da “metrópole” a colaboração entre a estrutura militar e a comunidade científica tinha já produzido alguns resultados desde os anos finais do século XIX. havendo notícia de alguns trabalhos de antropometria realizados entre recrutas do exército português (Roque 2001: 261-2). Na presença do excerto citado. a colaboração entre a estrutura militar e a esfera académica (a Faculdade de Ciências do Porto) foi formalizada através de um despacho ministerial datado de 31 de Maio de 1916. Inhambane. oportunamente aproveitadas por Pires de Lima. tive a possibilidade de reunir mensurações antropométricas (…) de várias raças de Moçambique. sem sair do Niassa. Quelimane. No caso particular de Pires de Lima. outros como soldados das companhias indígenas. no norte da província.

“O corpo e a visibilidade da diferença”. se nos reportarmos à segunda década do século XX. 1996. Contudo. esta constatação não lhe retirará o carácter precursor dos seus levantamentos antropométricos no norte de Moçambique. se implantará de forma mais sistemática e continuada no terreno colonial através das “missões antropológicas” que foram dirigidas por Joaquim Rodrigues dos Santos Júnior (1901-1990) em território moçambicano (Pereira 1998). em pleno regime do Estado Novo. Oeiras. 1989. de resto. ARRIFES. que a antropologia portuguesa. Corpo Presente. em ALMEIDA. Nélia. 3. Os casos existentes são. no meu ver. facto que é assinalado por Rui Pereira na introdução à reedição do primeiro volume de Os Macondes de Moçambique de António Jorge Dias (Pereira 1998). Paris. gostaria de acrescentar que. será somente em meados da década de 1930. 2004. tiveram expressão em alguns trabalhos esporádicos. Lisboa. Instituto de Defesa Nacional. Celta.). A Primeira Grande Guerra na África Portuguesa. 23-44. Para terminar. na sua vertente física e biológica. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Art Makondé: Tradition et Modernité. Referências Bibliográficas AFAA. Miguel Vale de (org. DIAS. são raros os estudos de antropologia física apoiados na aplicação da técnica da antropometria a populações do “império” português que poderão ser referenciados. circunstanciais e episódicos – como. ADEIAO. Angola e Moçambique (1914-1918). não chegando a institucionalizarem-se em Portugal.6 de referir. Edições Cosmos. penso que deverá ser encarado o estudo de Pires de Lima. De facto. a observação de indivíduos em situação de recrutamento – de soldados e carregadores indígenas que se encontravam ao serviço das tropas expedicionárias portuguesas – possibilita uma associação imediata do seu estudo ao universo dos projectos de antropometria militar que. Treze Reflexões Antropológicas sobre o Corpo. Marco Fortunato.

IV (2). “Ossos do ofício: antropometria e etnografia no norte de Moçambique (1916-1917)”. 1-100.).7 LIMA. “Contribuição para o estudo antropológico dos indígenas de Moçambique”. 1918b. Rui. em DIAS. “Portugal não é um País Pequeno”. Jorge. Aspectos Históricos e Económicos. Instituto de Ciências Sociais. “Introdução à reedição de 1998”. Ricardo. ROQUE. Anais Científicos da Faculdade de Medicina do Porto. Américo Pires de. “Notas etnográficas do norte de Moçambique”. Contar o “Império” na Pós-colonialidade. _____. Lisboa. PEREIRA. 1933. Memórias de um Médico Expedicionário a Moçambique. 2001. _____. Leonor Pires. Antropologia e Império: Fonseca Cardoso e a Expedição à Índia em 1895. V-LII. Anais Científicos da Faculdade de Medicina do Porto. 2006. Na Costa d’ África. Agência Geral das Colónias. 1943. Os Macondes de Moçambique. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . _____. Lisboa. Explorações em Moçambique. CNDP/IICT. Edições Pátria. 1918a. em SANCHES. MARTINS. 113-139. Gaia. Lisboa. 341-361. Cotovia. Lisboa. IV (3). 1998. I. Manuela Ribeiro (org.

II – Capítulo Caboverdianidade e Crioulidade Textos de comunicações do painel Caboverdianidade e Crioulidade Coordenação Wilson Trajano Filho Departamento de Antropologia da Universidade de Brasília e Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa João Vasconcelos Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .

na sua maioria voluntariamente ainda que sem escolha. intenta-se contextualizar o uso esta designação. comporta um juízo sobre a civilização. Lisboa Nas suas memórias e auto-caracterizações. identidade cabo-verdiana. No decurso de entrevistas não estruturadas. Tomé e Príncipe independente. como segundos europeus. Devido à percepção das dificuldades na sua terra e às mudanças nos Este texto socorre-se igualmente do trabalho de campo em S. “segundos europeus”. Refiro-me a idosos. Tomé e Príncipe. Entre as várias hipóteses explicativas. a classificação subjacente à denominação de segundos europeus. com alguma frequência. sua e dos outros. Vicente em 2004. eram debatidos pela intelectualidade cabo-verdiana. nem por isso ela deixa de traduzir uma dada consciência da sua especificidade enquanto cabo-verdianos. Palavras-chave: ideário colonial. Afinal. a viver naquele arquipélago há cerca de meio século. Tomé. ao tempo do seu êxodo para S. Cumulativamente. Contudo. e serve para se situarem perante as mudanças políticas e sociais assaz adversas sobrevindas no S. 1 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . nem sempre ligada a uma visão instrumental dos testemunhos que eles fornecem sobre a sua presente condição social e política. Mas.Cabo-verdianos em S. os cabo-verdianos que se quedaram por S. Introdução Este trabalho aborda um peculiar processo de identificação de ex-serviçais caboverdianos em S. Tomé e Príncipe. Descrevem-se antes como cabo-verdianos e. à primeira vista tributária do ideário colonial. eles reiteraram de forma enfática a sua condição de caboverdianos 1 . consideraremos o uso desta denominação pelos ex-serviçais que se quedaram por S. onde a designação segundos europeus aflorou em testemunhos dos ex-contratados. Nesta comunicação. Esses cabo-verdianos contrataram-se como serviçais. aparentemente um traço adicional da sua identidade. Tomé e Príncipe: os contornos da consciência de segundos europeus Augusto Nascimento Instituto de Investigação Científica Tropical. aventaríamos a de que tal expressão traduz um alheamento em relação às inquietações e aos temas que. efectuadas entre 2001 e 2003. alguns descreveram-se como segundos europeus. Tomé e Príncipe nunca se referem a si mesmos como crioulos.

2 moldes de trabalho e nas relações sociais nos anos finais do colonialismo. assim. de uma identidade cabo-verdiana política e culturalmente útil à projecção internacional do país e à obtenção de vantagens no mundo globalizado. é notório o esforço de construção de uma nação diaspórica e. Nos discursos sobre a nacionalidade cabo-verdiana patenteia-se o orgulho nas cultura e identidade historicamente fundadas. descrêem e alheiam-se de práticas associativas –. ela não parece passível de redução a algo de meramente instrumental. expor perplexidades a propósito de uma caracterização identitária algo inesperada. particularmente sentida pelos ex-serviçais cabo-verdianos. por um lado. Entre cabo-verdianos. Apesar da presença de um interlocutor português a poder induzir. por outro. Tomé e Príncipe. também a decrescente valia política de uma tal expressão vai de par com o fim da vida predito para breve. A independência representou para eles um momento difícil. seja na luta contra a opressão colonial. À vida espinhosa antes de 1975. acabaram por permanecer nas roças ou. os cabo-verdianos contam-se entre as principais vítimas do empobrecimento de S. com que se conformaram em vista das promessas políticas. Neste texto. mesmo admitindo que a presença de um português a possa lembrar. serão raríssimas as ocasiões para um tal desabafo que. Em primeiro lugar. a classificação de segundos europeus caminha ao arrepio das redefinições identitárias ainda algo politizadas por relação ao colonialismo. pretendemos enunciar hipóteses ou. 3 Os cabo-verdianos não têm qualquer capacidade de luta política e social.. correlatamente. os cabo-verdianos somaram. Ora. Para além de um ambiente avesso à sua afirmação grupal – no geral. desde então. devemos questionar-nos acerca da sua faceta instrumental. assim como das pretextadas dificuldades do seu repatriamento e do recomeço da vida no seu pobre país. Hoje.. e sem futuro (político) visível 3 . Durante as entrevistas surgiu a expressão segundos europeus. Tomé e Príncipe. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . por outra. adquire o tom de apelo à acção justiceira de quem tenha poder para o efeito 2 . Ainda assim. a representação de segundos europeus como que cinge os cabo-verdianos a metas 2 A designação segundos europeus foi recorrentemente usada pelos mais idosos em contactos espaçados ao longo de anos. quando saíram destas. veiculada? Usá-la-ão quando não estão presentes interlocutores europeus? É difícil ser taxativo. ou não. a expressão emergiu sem indagações prévias a tal respeito. Em que circunstâncias a ideia de segundos europeus será. Tal indiciará o curso dessa expressão nos terreiros das roças. uma experiência de privações difíceis de suportar. seja na criação da sua terra e de um destino próprio contra a adversidade natural. por se fixar em S. Dadas a pobreza e a solidão a que estão confinados. hoje falidas e fisicamente degradadas. Mas. É lícito supor que essa expressão condensa um desabafo acerca da marginalidade social.

Em segundo lugar. das motivações de quem os procura para redigir histórias de vida. 5 Tal hipótese assenta em indícios escassos. tão pouco para o reconhecimento político e social das minorias. permite-lhes uma reordenação simbólica deste mundo. Tomé 5 . não há lugar para a negociação política a partir da consideração de identidades. que a filiasse apenas na ideologia colonial e racista. nessa medida contrariando a exaltação do cabo-verdiano – outrora. conquanto nela possam ecoar os debates em curso em Cabo Verde ao tempo em que os ex-serviçais daí largaram para S. 4 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . a porosidade observável entre um discurso mais erudito e o discurso popular em S. a designação de segundos europeus não participa da reflexividade das elaborações identitárias dos cabo-verdianos. tão pouco parece servir a concepção de nação diasporizada 4 . não tem sentido do ponto de vista político ou sequer ideológico e cultural. Contra uma visão sub-repticiamente normativa da identidade cabo-verdiana. Só uma investigação profunda permitiria validar esta hipótese. Parecendo uma reivindicação identitária passadista e anacrónica. Dadas as características sociais e culturais do arquipélago equatorial e o veio essencialista da afirmação são-tomense. os exserviçais cabo-verdianos estão irremediavelmente condenados à subalternidade. A noção de segundos europeus não contribui para a valorização dos referentes identitários cabo-verdianos no mercado de bens culturais. aversão. do grupo e do arquipélago. Como veremos. De outra perspectiva. igualmente baseada na interpretação de gestos e dizeres dos ex-serviçais cabo-verdianos. abdicaria de tentar explicar o curso e o significado social e político dessa designação corrente entre os ex-serviçais cabo-verdianos. noutras ilhas. cuja memória se afigura errática e avessa à perspectiva institucional da diacronia e do discurso histórico. Em suma. dada a sua situação e a do país em que se encontram. do mestiço – como construtor do Cabo Verde independente. talvez a qualificação de segundos europeus tenha sentido para aqueles que a evocam. até. tal designação comporta uma sugestão de hierarquização social que. uma abordagem pressurosamente condenatória da alienação subjacente à designação de segundos europeus. Outros motivos aconselham a evitar um tal enfoque redutor. decerto. atento o contexto político são-tomense. Todavia. tal caracterização suscitará estranheza e. Politicamente. Tal abrange igualmente os valores de há meio Como frequentemente sucede em narrações de indivíduos de grupos subalternizados. trata-se de uma caracterização sem futuro. Tomé e Príncipe avultam preocupações arredias das dos arautos da identidade caboverdiana. Vicente e. também entre os cabo-verdianos de S. entre eles.3 coloniais. E. Ainda assim. também. lembre-se a pluralidade dessa identidade nos mais variados contextos.

Tomé e Príncipe independente. importa reportá-la à evolução do arquipélago. 8 A afirmação relativa à condição de segundos europeus não foi partilhada por todos. Prontamente se sentenciará que a asserção relativa à europeização é enviesada e extemporânea e. Sem dúvida. Tomé e Príncipe (MAINO 1999:135). a ser enunciada por outrem. No fundo. um inquérito talvez produzisse resultados inesperados e contraditórios. essa designação comportou (e comporta) uma afirmação social. miscigenação. a identidade caboverdiana. noções como mestiçagem. Assim.4 século. patente. decidir-se-ia arbitrariamente o que comporia. então. Com a menção ao abandono. para os ex-contratados. de alguma forma perseguida pelos cabo-verdianos ao longo de cerca de meio século de vida no arquipélago equatorial. Tomé e Príncipe. embora marginalizados. Mas tal enunciação provém de sujeitos que. ou não. assim como ao facto de não beneficiarem em nada dos êxitos económicos na terra natal e do sucesso dos seus conterrâneos nos países mais ricos. 7 Diga-se. Ora. Olhemos. alguns dos que asseveram com sentimento serem segundos europeus talvez não se mostrassem tão seguros dessa classificação. se tornou o seu mundo. a noção de segundos europeus tem uma história relacionada quer com o contrato nas roças coloniais. ao invés de classificar a designação de segundos europeus à luz do (nosso) mundo globalizado. De resto. vai deixando de ser uma marca local. onde a europeização. crioulidade ou processo de crioulização não constituem tópicos de debate em S. quer com a sua permanência. cumpre contextualizar o seu uso 8 para a interpretação de um arquipélago que. Ademais. Não obstante as mutações de significado social e político ao longo de sucessivas conjunturas. alegam eles. a génese e o curso da designação de segundos europeus. no S. tivesse a crítica sentido. tal designação padecerá de um paternalismo retrógrado. no foco dos governantes do seu país na diáspora dos países ricos 6 . O termo crioulo foi adoptado por são-tomenses em textos científicos e ensaísticos sobre asua etnogénese. para além de aplicado num sentido lato e de fraco valor descritivo ou interpretativo. em tempos orgulhosamente reclamada pela elite dos nativos. os cabo-verdianos aludem à sua miséria em S. discussão sem paralelo em S. pois que. Tomé e Príncipe. também não completamente voluntária. Concretamente. que não evidencia senão a insensibilidade dos que a veiculam relativamente ao impróprio de uma classificação eurocêntrica 7 . são cabo-verdianos. a qualificação de segundos europeus surge à margem da discussão relativa à origem e ao conteúdo de uma identidade crioula em Cabo Verde. dar-se-ia razão aos lamentos dos cabo-verdianos em S. Porém. este termo tem vindo a perder lugar no discurso dos são-tomenses. 6 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . que os ex-serviçais ainda hoje têm por crivo de definição dos cabo-verdianos. Tomé e Príncipe sobre o abandono em que se acham. Rejeitando-se esta parcela da vivência cabo-verdiana. se solicitados a opinar formalmente.

11 Algumas autoridades coloniais pensaram em usar cabo-verdianos como factor de aportuguesamento do arquipélago. a sua resistência à opressão excessiva nas roças. mormente aos elementos das famílias ditas tradicionais. Face ao espanto. citemos a descrição de S. Porém. ganhando aí novos significados. o poder ensaiou uma aproximação aos são-tomenses. Tendo em mente as inquietações e os temas debatidos nos anos 50 pela intelectualidade cabo-verdiana 10 .5 Génese da expressão segundos europeus A primeira dificuldade reside na datação desta noção. esses ecos não precisam de ser coerentes. Conquanto sujeita a refracções múltiplas. nunca o senhor ouvir? Outra exserviçal aventou Cabo Verde com Portugal é perto. não é de todo impossível que estas e outras descrições de Cabo Verde. tenham viajado com os contratados. Entre as reminiscentes percepções da mestiçagem constitutiva dos cabo-verdianos. FERNANDES cit. É concebível o cepticismo quanto à possibilidade de no termo segundos europeus ainda ecoarem mensagens acerca da mestiçagem como expressão. 9 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Bastaria tão só que a sua socialização nos terreiros das roças tivesse ajudado a alicerçar as relações entre os cabo-verdianos e. de caminho. Expressando o desejo de que Deus olhasse para ela e a levasse a morrer na sua terra. uma noção relativa à miscigenação ou à mestiçagem como matriz da génese dos cabo-verdianos poderá ter sido levada para S. S. Uma hipótese tem-na como um eco longínquo da difusão no meio cabo-verdiano dos discursos sobre a etnogénese do povo cabo-verdiano 9 . por exemplo. Vicente por uma ex-serviçal dessa ilha. após o sangrento episódio de Batepá e face à ofensiva anti-colonial nos círculos internacionais. Ora. Tomé e Príncipe. presumimos. asserção que não terá. nos derradeiros anos do colonialismo. 10 Consulte-se uma resenha destes debates em ALMEIDA 2004:255 e ss. por ALMEIDA 2004:284). Vicente pequenino é um pedacinho do Brasil. Tomé e Príncipe foram sendo reelaboradas ao sabor tanto da evolução das relações laborais e sociais nas roças. Tomé e Príncipe independente. cantarolou um verso de uma modinha da sua juventude. um mero conteúdo geográfico. dos cabo-verdianos e da sua “civilização”. Esta política fez esquecer aquele desígnio político e social que alguns voluntaristas tinham gizado para os cabo-verdianos. Assim. Em S. da lusitanidade cultural do caboverdiano ou de Cabo Verde como um regionalismo português (cf. para que tais ecos viessem a ser recriados para afirmar a indignação contra a miséria a que acabaram condenados no S. quanto até das inconsequentes intenções de instrumentalização política e social dos cabo-verdianos por autoridades coloniais 11 . a conquista da fidelidade política dos nativos tornou-se o objectivo prioritário.

tal pretensão terá tido importância. por exemplo. por vezes. com a indigenização da mão-de-obra a pautar as condições de trabalho. ao que nem sempre os cabo-verdianos se mostravam prontos. É provável que. uma tal designação deveria ter um curso contido ou carecer do beneplácito do europeu. Neste quadro. no que nem sempre os cabo-verdianos eram os mais apreciados. hoje. fosse quando insinuava uma competição civilizacional.6 Ao tempo. 12 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . em razão da aptidão para o trabalho. traduzida. Por seu turno. podendo suscitar quezílias ao invés de apaziguamento. entre outros factores. a designação segundos europeus pode ter passado a compor mecanismos de acomodação. os roceiros tenham feito por avivar a disjunção entre os das roças e os nativos. Deixe-se dito. Mais tarde. Por exemplo. a aptidão do trabalho incluía o acatamento incondicional das suas ordens. alguns dos quais asseveraram que a designação de segundos europeus tinha o reconhecimento dos colonos. esta adesão pode ter sido induzida. o quotidiano era emoldurado por um racismo difuso e pelo ideário colonialista sobre a hierarquização dos vários segmentos populacionais 12 . fosse quando denotava uma adesão ao colonizador. o mais das vezes. Para os europeus. tal deveu-se aos roceiros. tão-somente criaturas humanas – não seria uma afirmação fácil. A criação de um tecido social nas roças deveria afigurar-se o melhor dos antídotos contra tais reivindicações. tendo em vista. Até meados do século XX. a ter acompanhado as mudanças dos derradeiros anos do colonialismo. no tocante à alfabetização – causou crispações entre empregados europeus subalternos e cabo-verdianos. num tratamento diferente do dispensado a moçambicanos e a angolanos. Em todo o caso. a reiteração da qualidade de segundos europeus poderia afigurarse um atrevimento por ameaçadora das barreiras sociais – tão só por implicar um juízo implícito sobre estas –. dizerem-se segundos europeus – e. quando não era da autoria destes. a preservação das propriedades em caso de turbulência política e de reivindicações de distribuição de terras. 13 Em parte. Noutros termos. A alegada civilização ou a reivindicada semelhança fenotípica com o europeu podiam desencadear efeitos contraditórios. que as mutações políticas e sociais do colonialismo tardio não dissolviam por completo 13 . por exemplo. esta vertente conflitual parece esquecida pelos cabo-verdianos. por entre desencontradas intuições sobre o futuro político do arquipélago. bem como de identificação com as roças e os roceiros. Logo. mormente na negociação informal de uma diferenciação social. Amiúde barrada pelas assimetrias sociais nas roças. pelas clivagens entre as roças e os nativos. a vida nas roças era marcada pela rispidez. por várias vezes a proximidade racial – por exemplo.

mas a “europeu”. 15 Nalguns administradores notavam-se sinais de uma emergente consciência social que como que visava reparar as fissuras causadas pela agressividade e a rudeza de trato inspiradas pelo ideário colonialista imperante até meados de Novecentos. os roceiros tinham uma atitude oposta à das décadas precedentes. conhecendo sucessivas adaptações conformes às mudanças de políticas e no dia-a-dia das roças. Em todo o caso. Mas a expressão europeus pode ter sido induzida no tempo colonial. parte deles sem contactos com S. 14 Neste particular. temos de equacionar a hipótese de estarmos perante um expediente – de alguma forma. Eventualmente. actualmente menos aceitável. Embora pessoas. da designação “branco”. a crer nalguns ex-serviçais. observa-se que. Por outro. Vicente ainda no tempo colonial. “no tempo do colono”) ou “o branco fez…” –. tal poderia advir da cautela induzida pela carga racial. Assistiu-se a alguma personalização das relações laborais. por exemplo. Tal processo prosseguiria no pós-independência. apesar de branco ser um termo corrente nas narrativas do passado – sendo comum ouvir dizer “no tempo do branco” (em alternativa. talvez. tenham asseverado que a designação segundos europeus 16 não tinha curso na era colonial. alguma proximidade dos administradores das roças com o pessoal terá servido para obter uma prestação produtiva a contento num tempo em que se tornara impossível extorqui-la pela coacção. Por um lado. no final do colonialismo. nos testemunhos dos cabo-verdianos. A par disso. é possível que a designação possa ter sido (re)criada no tempo colonial. combinando-se a reiteração das diferenças sociais com a proximidade assente no reconhecimento da valia dos indivíduos (em termos comparativos. tal induz a supor que. tributário de reminiscências da ideologia colonial – para avalizar a interpelação implicitamente contida na apresentação de si mesmos como segundos europeus a quem chega de fora. Ou. o critério da civilização parece sobrepujar o da coloração epidérmica. a rarefacção de braços obrigava à racionalização das tarefas. Por existir uma primazia do aspecto civilizacional – mais conforme à sua ideia de cabo-verdianos – sobre o referente racial? Não o saberíamos dizer. foram os próprios europeus a usar essa expressão 14 . nos derradeiros anos do colonialismo associado a uma maior contiguidade nas roças. iniciando-se em manifestações de paternalismo 15 . Segundos europeus ou o juízo do pós-independência Na ausência de tal equação política. Podemo-nos interrogar acerca das razões pelas quais dizem segundos europeus e não segundos brancos. da ocupação do tempo como princípio de organização de trabalho. não a “branco”. pode pensar-se que a noção de segundos europeus conterá implicitamente uma reivindicação social inspirada na valorização das garantias de vida e no papel do paternalismo. ter sido transportada desde Cabo Verde. convida a imaginar recriações dessa expressão já depois da independência para efeitos de interpretação da evolução política do arquipélago equatorial. Portanto. veja-se NAVE 1990:29).7 Dissemo-lo. 16 Sem prejuízo da necessidade de pesquisas ulteriores. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Tomé e Príncipe ou com uma visão muito esbatida da evolução deste arquipélago após a sua saída. os cabo-verdianos recorrem. ela foi utilizada por ex-serviçais regressados a S. prescindindo-se. Justamente. que não ex-serviçais.

como explicação dos comportamentos e. a designação segundos europeus readquiriu sentido para os que dela se reivindicam. após o 25 de Abril as considerações de teor racial continuaram como um instrumento de análise do rumo da história e um móbil de acção. estes. embora o lema fosse o da luta contra a exploração do homem pelo homem. as lesivas do património das roças –. quando a miséria se abateu sobre os trabalhadores das roças. o da dissemelhança entre a epiderme e o fenótipo deles e os dos demais africanos habitantes e senhores da terra. Tomé e Príncipe 17 . preterindo os slogans políticos pela racialização das condutas – entre elas. do fracasso do país. 17 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . a esperteza. Anos depois. 18 Tal não invalida que. na diferença de natureza encontra-se. atribuíram o empobrecimento do país à natureza de quem passara a governar S. Vejamos como. Sem embargo das roupagens progressistas do ideário independentista. Tal como no colonialismo. segundos europeus remete para supostos atributos de cabo-verdianos. indubitavelmente. Por outras palavras. entrementes tornada uma deriva identitária com que os são-tomenses ensaiam racionalizar o processo de perda económica e social por que passa o seu país. supostos traços da sua personalidade – por exemplo. Como? A noção de segundos europeus aponta para uma característica irredutível. a inteligência demonstrada na compreensão da condição humana. é também adoptada por são-tomenses que encontram na natureza do africano ou do negro – isto é. entre os quais. em virtude do percurso pós-independência. Há anos a passar por privações incontáveis e a caminho do fim de suas vidas. traduzida pelo fenótipo. a lida do mundo e uma dada ética de trabalho 18 . Tomé e Príncipe –. a capacidade de afrontamento das adversidades. desenhou-se uma clivagem assente na raça – que congregava são-tomenses. a designação segundos europeus pode interpretada como uma reacção dos ex-serviçais à africanização da terra e das gentes.8 Actualmente. para eles. Simultaneamente – por um processo de identificação (alienada que seja) com o colono e de oposição aos mandantes em S. Ao tempo. foi com base na clivagem racial que se legitimaram os que acederam ao poder em 1975. nalgumas circunstâncias. É disso que os ex-serviçais cabo-verdianos se distanciam. apelam ao mais poderoso dos argumentos. deles – o mais contundente dos argumentos para contestar o status quo e as assimetrias sociais. Para os exserviçais cabo-verdianos. a intrepidez ou a esperteza – tenham conflituado com a boçalidade dos europeus. a visão do mundo dos cabo-verdianos tende a enquistar. caboverdianos e outros contra os colonos –. daí. a A racialização. provas irrefutáveis da sua natureza. O seu discurso reporta-se a marcas corporais.

então. mesmo. são as maiores vítimas. Tomé e Príncipe. cabo-verdianos. Agora. Atenhamo-nos. No mínimo. Mas umas são mais toleráveis do que outras. o actual ordenamento social favorável aos são-tomenses afigura-se-lhes contra-natura. nativos e outros – do tempo colonial parece. também os sãotomenses) esperavam ver prosseguido após a independência. quando não aceitável 19 . Apesar de enviesada pela resiliência do ideário colonial ou. à crítica da presente situação em S. a noção de segundos europeus tem um valor interpretativo evidente: o de que o desajustamento entre a actual posição hegemónica dos são-tomenses e a respectiva natureza não pode senão desembocar em comportamentos anti-sociais conducentes à ruína dos empreendimentos dos homens.9 explicação da trajectória de perda de S. Afinal. A noção de segundos europeus traduz um ressentimento e hoje – irremediavelmente traçado que está o seu destino – ela pode ser lida como a denegação da solidariedade racial que cimentou o bloco político-social contra os colonos na transição para a independência. menos gravoso. A perda económica e social A reavaliação e o matizar das críticas ao tempo do colono resulta da apreciação dos políticos sãotomenses. 19 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . incluindo a terra natal. por outro. como. os são-tomenses. não se legitimam por uma prática justa. Tal noção de um mundo fatalmente injusto não os torna nem passivos nem acríticos relativamente às desigualdades sociais. a noção anacrónica de segundos europeus condensa uma leitura da evolução do (seu) mundo. e. enquanto o alinhamento de contornos raciais – brancos. era este padrão de evolução que os cabo-verdianos (e. a esta distância. Por um lado. do racismo. vinham intentando fazer os patrões brancos. estes derrogaram a ideologia igualitarista com que aliciaram os cabo-verdianos. Tomé e Príncipe. ex-trabalhadores das roças. a hierarquização social subjacente a essa denominação comporta um juízo sobre a sua civilização comparada com a dos outros. Conquanto tributária do ideário colonial. no final. Serve igualmente para se situarem perante as danosas mudanças políticas e económicas desfavoráveis sobrevindas no pósindependência. rejeita-se a afinidade racial apregoada para efeito da mobilização anti-colonial nessa época. decerto. Os cabo-verdianos detêm uma visão acerca das desigualdades humanas como princípio perene da ordenação do mundo. Portanto. de que eles.

nunca vi responsáveis políticos incentivar o uso de linguagem pejorativa para com os exserviçais. o termo segundos europeus escorou as queixas e protestos contra a indigenização a que estavam obrigados pelos ditames dos roceiros. deixando implicitamente entendido que a desmerecem. pelo menos ao nível retórico. esta prática de rebaixamento dos serviçais com que outrora os nativos se procuravam demarcar das roças. Esta alegação poderá não corresponder fielmente à realidade. como voltando a invectivá-los com o termo gabão 20 . as clivagens étnicas não são encorajadas. Presentemente. alguns chegam a classificar-se como escravos dos são-tomenses em cujo quintal são obrigados a trabalhar. dissemo-lo. a reivindicação de civilização subjacente à ideia de segundos europeus compôs variadas contestações ao labor e à vida nas roças. A designação de segundos europeus tem um valor político. Os nativos passaram a mandar na terra e subalternizaram-nos. os europeus reconheciam a índole diferente dos cabo-verdianos. Tomé. mas. Mas também é natural que.10 No tempo colonial. uma vez dobrada a fase das maiores agruras de trabalho e de vida dos anos 50. para eles. invertendo simbolicamente a actual subalternidade relativamente a estes. em perda. Outrora. eles deviam sentir-se acima dos nativos (e até de europeus boçais. Tomé e Príncipe. Com efeito. porquanto diminui o argumento de que os são-tomenses estão na sua terra. Na era colonial. Hoje. 20 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . não apenas esquecendo as promessas políticas do advento da independência. Retratando-se como segundos europeus. Em S. pese embora o eventual orgulho na identificação com o veio de filhos da terra ou de forros. os cabo-verdianos lembrem agravos antigos para explicar compreensivamente a sua situação actual. não obstante a pobreza da sua terra os ter impelido para o contrato. A distinção social dos poderosos e dos governantes socorre-se de outros meios e. a afirmação da qualidade de segundos europeus comporta uma acusação quanto às provações por que passam e denuncia a contradição entre a sua situação social e a sua imaginada natureza. se subsiste. nome de escravizados e de desqualificados coagidos aos ditames das roças. O reconhecimento da sua idiossincrasia pelos roceiros foi um passo na melhoria do ambiente social. os caboverdianos desqualificam os são-tomenses. Enfatizando a sua desventura. Noutros termos. o ressentimento advirá da derrogação da superioridade simbólica de outrora. as diferenças eram constitutivas do mundo. justamente a evolução que os levou a ficar por S. queda por comprovar com que intensidade subsiste. Esse reconhecimento não anulava as assimetrias sociais. Não se pode descartar o uso do termo gabão. a quem tinham de obedecer por terem escolhido o contrato).

De fundo ético. Justamente. como e para que fins denunciá-la? Quando momentaneamente se rompe a solidão e têm oportunidade de falar. resumem-se à crítica da apropriação indevida de bens das roças pelos responsáveis nomeados após 1975. a qualidade de segundos europeus sentencia o seu distanciamento de tais práticas. essa crítica faz-se a partir da racialização de comportamentos. terem sido impedidos pelo fechamento da sociedade são-tomense à competição e à mobilidade social de usar as suas aptidões e a sua identidade para ascenderem económica e socialmente. Possivelmente. uma face da identidade cabo-verdiana Situamo-nos. desse modo. sem outro horizonte além da morte. supostamente constitutiva do povo cabo-verdiano. não necessariamente devido a uma ideologia segregacionista quanto ao peso dos laços familiares e clientelares na modelação da sociedade são. Aventaríamos que hoje a designação de segundos europeus sublinha esta negação. um artifício retórico de alguma ressonância política. os termos em que os cabo-verdianos interpretam a sua situação implicam a O crivo étnico deve ter várias vezes barrado a trajectória ascensional de descendentes de caboverdianos. depois de. eles descrevem a sua situação falando em abandono. Devido à evolução pós-1975. pois. os ex-serviçais estão acantonados nas roças. alguns dos quais se percebem como genuínos enquanto descendentes de progenitores de diferentes raças. há anos. Logo. em trapos. 21 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Esta valorização da mestiçagem entre os cabo-verdianos não se prende com a sua valia política.tomense. com a mestiçagem visava-se o embranquecimento das sociedades ou. Neste contexto. No passado. Têm consciência da marginalização – a que aludem subliminarmente com a palavra abandono – embora não a classifiquem de premeditada 21 . tal fito comportava uma esconsa negação do negro. tem a ver com o enraizamento popular de ecos de ideias do tempo colonial. realçando. de outro modo. em escravos. nos antípodas das (nossas) noções de crioulização e das perspectivas do mundo a ela associadas. o contra-senso entre a sua condição de segundos europeus e a de escravos. Reina a desolação que não advém apenas da pobreza mas igualmente da perda da valia individual e da condição de cabo-verdianos. 22 A ideia de mestiçagem corre entre os cabo-verdianos. Ou mesmo de uma noção de mestiçagem 22 . Segundos europeus. os mandantes de uma terra tornada estranha não lhes reconhecem nada.11 Hoje. Empobrecidos. hoje nula.

para os cabo-verdianos.. Esta é a posição dos cabo-verdianos que. reelaboram a sua identidade pela reafirmação da ética aprendida no torrão natal a que se afirmam incondicionalmente fiéis. dizem nós podemos acompanhar branco. que a usam para rebater o epíteto de gabão e estabelecer uma demarcação social inversa. hoje. chamam a nós estrangeiros (. não podiam aspirar. não tem sido reclamada por são-tomenses em tempos recentes 23 . na ausência de qualquer perspectiva para safar a o dia-a-dia após décadas de trabalho massacrante. Tomé e Príncipe. Apregoando a sua civilização. 23 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Em época de prosperidade devida ao cacau. por exemplo.12 rejeição liminar de um negro em particular – daquele que tomou o poder em S. os são-tomenses não a poderão reivindicar. Já os caboverdianos apontam a injustiça da sua perda social. outrora imediatamente inerente a esse binómio. na Apesar de nos primórdios do século XX. estes terem reivindicado comungar de mais elevados patamares de civilização europeia. Mais. No final de suas vidas. Tomé e Príncipe –. Por exemplo. valiosa porque vivamente sentida e consciencializada por alguns dos cabo-verdianos. Entre os cabo-verdianos.. a ideia de segundos europeus. ou de uma herança europeia. ao menos simbolicamente. contratados para cargos intermédios nas roças. a quem responsabilizam pela sua desgraça. Ao invés. a miséria e a marginalização que não têm hipótese de combater? Independentemente dos processos de identificação acorrerem às oportunidades políticas. raça e cultura não se afiguram suficientemente distintas. os seus ascendentes ostentavam um refinamento de gostos a que europeus rústicos. parece comprovado pela degradação social em S. seguindo as pisadas de seus pais. A dimensão da alienação será notada pelo observador exterior. o determinismo. E. que resta senão procurar uma demarcação que contrabalance. Enfatizando a dimensão civilizacional da sua condição de segundos europeus.) os estrangeiros veio ensinar a vocês [são-tomenses] trabalhar e a falar… A denominação segundos europeus comporta uma faceta instrumental. nem sempre serão totalmente arbitrários. o que reforça o impulso a sublinhar a condição de segundos europeus. marginalizados e sem razões para aspirar à integração numa sociedade drasticamente empobrecida. é com noções aparentadas com a de segundos europeus que interpretam o mundo e a sua vida. E relatam. apartam-se da africanização dos nativos.

Seja como for. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . pouco conhecimento do mundo. reafirmando uma justeza (cabo-verdiana) de princípios que. o isolamento e a privação extrema vincam ainda mais. a que. Na realidade. ainda seria mais abraçado. nem sempre encontra realização neste mundo. aqui e além propensos a expressar. Mas não tendo os olhos fechados – assim o pretextam –. na falta da canga do destino ou da graça de Deus. porque insistiriam os ex-serviçais cabo-verdianos numa tal formulação? A explicação pode ser encontrada na compensação simbólica e na denúncia política. tal afigura-se pouco consentâneo quer com os sentimentos do comum dos cabo-verdianos. é na vivência no S. Se o rótulo de segundos europeus proporcionasse ganhos reais. recorrem para reagir simbolicamente à subalternidade em que se acham. como outrora. a que se presta tal designação. a consciência de serem cabo-verdianos. A ênfase dos testemunhos valida a sua verdade e autentica o seu sentimento de revolta sofrida e contida. talvez por isso. quer com valores que actualmente plasmam a pesquisa social. Para eles. Notas conclusivas Segundos europeus afigura-se uma etiqueta de indivíduos de vidas corridas em horizontes fechados e. verbal e gestualmente. Concomitantemente. Tomé e Príncipe colonial. sentimentos passíveis de confusão com a aceitação da inferioridade face aos europeus. as piruetas da vida ensinaram aos cabo-verdianos o escusado do apego a sentimentos de outrora que – sabem-no bem – não têm mais sentido. através da qual tentam uma compreensão do que lhe sucedeu. ainda entendido à luz do imobilismo social do S. é pela afirmação da sua diferença que se reconciliam com as partidas que o destino e a evolução política em S. pouco ou nada porá em causa a sua leitura do mundo. como é próprio da experiência humana.13 procura de vida. No entanto. Tomé lhes pregaram. Tomé e Príncipe independente que reside a explicação do uso da noção de segundos europeus. se porventura isso é imaginável. mesmo se enviesada. A expressão de tais ideias revelaria. pois. Evidentemente.

com quem me sinto emocionalmente implicado. noutras circunstâncias sociais sugere o enquistamento do discurso identitário ou o reveste de tons marcadamente auto-encomiásticos atinentes à exaltação do cabo-verdiano. CEA-UP MEINTEL. Um mar da cor da terra. Lisboa. Ph. Oeiras. Yale University FENTRESS. Nova Vega GEERTZ. Outros destinos. Campo das Letras CARREIRA. Oeiras. cultura e política de identidade. 1993] Como as sociedades recordam. 2004. Pablo. de essencialistas ou de coisa que o valha. Chris. quem lhes dirá que não viveram de acordo com o que os seus pais lhes legaram como sendo valores cabo-verdianos? Referências Bibliográficas ALMEIDA. Celta ALMEIDA. mesmo se nos seus testemunhos aflora uma noção de um veio singular que dimanaria das suas ilhas 24 . Miguel Vale de. Miguel Vale de. 1986. Instituto Caboverdeano do Livro CONNERTON. Os cabo-verdianos e a morte. Margarida. Small Farmers and Estates in Sao Tome. começa a ser reconhecido. D. 24 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . 1999 [1ª ed. Syracuse University E que. Ensaios de antropologia e de cidadania. dissertation. Hora di bai. Lisboa. and portuguese colonialism in Cabo Verde. James e WICHAM. 1994. Celta EYZAGUIRRE. Editora Guanabara MAINO. António. previsivelmente.14 Seria risível taxar os ex-serviçais cabo-verdianos. culture. Paul. Migrações nas ilhas de Cabo Verde. 1999. Porto. 1984. Uma abordagem antropológica através da literatura de ficção. Porto. 2000. A interpretação das culturas. Deirdre. Teorema FERNANDES. não corroboro. 1983 [1977]. Memória social. ideia que. Termino de outro modo: ao cabo de décadas de vida assaz sofrida. Raça. Rio de Janeiro. 1989. Race. West Africa. 2004. Clifford. “A identidade santomense em gestão: desde a heterogeneidade do estatuto de trabalhador até à homogeneidade do estatuto de cidadão” in Africana Studia nº2. Elisabetta.

2005. S. Cabo-verdianos nas plantações de S. Edição da Presidência da República de Cabo Verde NASCIMENTO. 1987. Tomé. Junta de Investigações do Ultramar ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . 1961. 2002. Lisboa. Identidade social e ética do trabalho nos assalariados agrícolas do Alentejo – a empresa colectiva e a comunidade local no espaço rural pós-latifundista. Colonialism. António Leão Correia e. 1999. Guyana After Slavery 1838-1891. Socialism and Democratization in São Tomé and Príncipe. 2006. Clients and Cousins.15 MOORE. Combates pela história. O sul da diáspora. 2003. Tomé NASCIMENTO. Nova Yorque. Augusto. Tomé segundo vozes de Soncente [para publicação] NASCIMENTO. O fim do ‘caminhu longi’ [para publicação] NAVE. Lisboa. Spleen Edições TENREIRO. Power and Social Segmentation in Colonial Society. Comrades. Race. Um estudo de caso. Órfãos da Raça: Europeus entre a fortuna e a desventura no S. S. Augusto. 2003. Augusto. A ilha de S. 2002. Tomé. Brian L. ISCTE SEIBERT. Joaquim Gil. Vidas de S. Universidade de Leiden SILVA. Praia. Praia. Leiden. Francisco. Gerhard. Augusto. Instituto Camões / Centro Cultural Português NASCIMENTO. 1990. Gordon and Breach NASCIMENTO. Tomé e Príncipe colonial. Augusto.. Tomé e Príncipe de finais de Oitocentos a meados de Novecentos. Poderes e quotidiano nas roças de S. Tomé e Príncipe e de Moçambique.

A pluralidade de opiniões dos cabo-verdianos sobre eles próprios e sobre o sentido de ser “crioulo” conforma um rico campo de debate. Discorrer sobre uma coletividade. a sociedade cabo-verdiana. nas suas mais diversas formas de expressão. em diferentes momentos da história daquele país. bem como suas características mais notáveis. mostro como membros de variados setores da população cabo-verdiana. procuraram responder tais perguntas. identidade social. fruto de consenso. morna. as construções dos caboverdianos acerca da nação a qual pertencem não são fixas. empenhada no projeto ideológico de construção da identidade nacional. Mais precisamente. portadoras de uma riqueza simbólica capaz de revelar diferentes construções. presentes em diferentes projetos identitários. Os próprios membros constituintes de qualquer totalidade apresentam idéias divergentes a respeito daquilo que os define. São diversas hipóteses sobre a origem da morna. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . assinalando seus limites internos e externos. Universidade Federal de Mato Grosso Este trabalho aborda parte do debate realizado no arquipélago de Cabo Verde em torno do significado cultural da cabo-verdianidade. nunca foi um trabalho simples. mas sobre a própria cultura cabo-verdiana. Como em qualquer processo social de identificação. imutáveis. e que alcançam cada setor dessa sociedade. Tão somente. não apenas sobre esse fenômeno musical. Palavras-chave: cabo-verdianidade. A morna é mesmo uma criação dos cabo-verdianos? Que matrizes culturais exerceram influência na sua origem? Quais acontecimentos e sentimentos inspiraram a criação desse gênero musical? Não procuro trazer respostas definitivas a essas questões.A ORIGEM DA MORNA E A ORIGINALIDADE CABO-VERDIANA Juliana Braz Dias Departamento de Antropologia. Neste trabalho procuro abordar uma coletividade específica. indicando como essa polêmica reflete a pluralidade de concepções acerca do sentido de ser “crioulo”. e as discussões em torno daquilo que singulariza este povo. reconstrói a dinâmica das discussões sobre a origem da morna (gênero musical tomado como um dos símbolos da nação cabo-verdiana). São discussões que ultrapassam os limites de uma elite intelectual.

a necessidade de uma resposta definitiva. da mesma autora. Baseia-se. Cada um desses atores. procura-se reconstruir a dinâmica das discussões sobre a origem do gênero musical cabo-verdiano denominado morna. levanta inevitavelmente uma série de questões: a morna é mesmo uma criação dos cabo-verdianos? que matrizes culturais exerceram influência na sua origem? quais acontecimentos e sentimentos inspiraram a criação desse gênero musical? Repito que não pretendo aqui responder a essas questões. indicando como a polêmica criada acerca do surgimento desse fenômeno musical reflete a pluralidade de concepções acerca do sentido de ser “crioulo”. com a discussão sobre a formação da sociedade cabo-verdiana. Muito antes. aparentemente. também a morna surge como resultado desse cruzamento de culturas diversas. visto que apresentam uma riqueza simbólica capaz de revelar diversas construções. 1 A pergunta “qual a origem da morna?” tem sido insistentemente levantada pelos cabo-verdianos. era analisar o significado das diversas hipóteses construídas sobre o nascimento desse gênero musical. Este trabalho é uma versão resumida de parte do argumento apresentado na tese de doutoramento Mornas e Coladeiras de Cabo Verde: versões musicais de uma nação. impondo. a discussão sobre a história da morna tem-se confundido. Desde o início das atividades de investigação que fundamentam a presente discussão. Exemplo disso é o discurso seguinte. produto do encontro entre Portugal e África. explícita ou implicitamente. tomado hoje como um dos símbolos da nação cabo-verdiana. Essas diversas versões para a origem da morna têm percorrido diferentes momentos da história de Cabo Verde e envolvem membros de diferentes setores da população cabo-verdiana. ao refletir e opinar sobre o assunto. Em grande parte dos casos. 1 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .2 As reflexões a seguir abarcam parte do debate realizado em Cabo Verde em torno do significado cultural da cabo-verdianidade. pesquisadora. Mais precisamente. muito menos discutir qual das diversas hipóteses sobre a origem da morna aproxima-se mais da verdadeira trajetória percorrida por essa manifestação da cultura popular cabo-verdiana. Assim como o homem cabo-verdiano é apresentado como um mestiço. dar esta resposta. soube que não cabia a mim. mas sobre a própria cultura cabo-verdiana. Muito mais interessante. procuro indicar como as diferentes versões sobre a origem da morna são todas elas portadoras de uma verdade. não apenas sobre esse fenômeno musical. sob uma perspectiva antropológica.

O artigo de Sarrautte passou a ser amplamente citado. em A Aventura Crioula. Em 1961. 1939: 301) O homem cabo-verdiano é apresentado como o produto original de um encontro intersocietário. muitas vezes. na sua música. capaz de gerar. Ele não é português nem africano. a preceito. é preciso maior cuidado na análise da maneira como esse processo de miscigenação é apresentado. o processo de criação da morna cabo-verdiana: O indígena africano. Os portugueses teriam sido peça fundamental na formação desse novo estilo musical. Mas se a morna é descrita como a melhor testemunha da mestiçagem étnica. Mas o africano. há as dolências africanas. Elas são valoradas. na sua morna. Está. conforme os interesses em questão. as duas matrizes culturais que participam desse encontro quase nunca se apresentam em posição de igualdade. Preponderando nêle os elementos mestiços. É assim que o debate sobre a origem da morna acaba tomando a forma. as dolências e as alegrias portuguesas. Nas narrativas sobre o processo histórico que deu origem ao cabo-verdiano. possue música pobre. o musicólogo Jean-Paul Sarrautte publicou em Cabo Verde um artigo onde procurava demonstrar a maior intensidade da influência metropolitana na origem da morna. criou uma personalidade própria que os mais pequenos nadas tornam evidente. neste caso. no seu sangue e nos seus hábitos. sem qualquer nota de influências lusas. vibrados no sofrimento duma fatalidade étnica que os tempos não destroem. “uma personalidade própria”. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Manuel Ferreira. e suas contribuições para a formação da sociedade cabo-verdiana são continuamente discutidas. utiliza-se da autoridade do referido musicólogo para argumentar sobre “a importância da presença europeia na origem e desenvolvimento fundamentalmente. em Lisboa (Portugal) e Mindelo (Cabo Verde). espiritual e cultural do cabo-verdiano. Caiu como uma luva no discurso daqueles que participavam do processo de construção da nação cabo-verdiana como uma organização sócio-cultural distanciada de suas raízes africanas. em atividades de investigação realizadas entre os anos de 2001 e 2002. E a morna apresenta-se como um símbolo dessa síntese sui generis. nesse povo.3 onde o português Afonso Correia descreve. o povo caboverdeano. onde há gemidos dolentes. com base na idéia de mestiçagem. é simplesmente “crioulo”. devidamente influenciado pelo português. (Correia. de um jogo de forças entre as heranças culturais portuguesa e africana.

1999: 83-88.) a morna. tudo concorre para a encararmos indiscutivelmente como uma criação do CaboVerdiano. Alguns. Durante a vigência do Estado Novo. Já na atualidade.. uma vez que se supõe ser a segunda mais antiga que o primeiro. maestro e professor do liceu Gil Eanes de São Vicente. e sem dúvida nenhuma que pela natureza das suas letras e pela atmosfera lírica e sentimental que a envolve. como Manuel Ferreira (ibid: 185). Vale de Almeida. porém. 1985: 205). E no calor dessa polêmica. o cabo-verdiano José Alves dos Reis. António Germano Lima propõe uma nova versão para a polêmica origem da morna. afirmou que “não é fácil encontrar no folclore português ou outro estrangeiro qualquer das características das formas musicais das mornas” (Reis. Mais do que meras semelhanças.. ganhou destaque em narrativas sobre a história da morna. de tal forma que a relação entre os dois gêneros musicais adquirisse o caráter de uma filiação direta.4 orgânico da morna” (Ferreira. diversos autores enxergaram na canção portuguesa a mais provável explicação para a origem da morna. da morna. para a entendermos na sua mais íntima estrutura e figuração tem de ser estudada essencialmente nos seus apports europeus. (. possivelmente até pela síncope. Sugere que sua procedência pode ser encontrada no ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . O que precisa ser lembrado é a polêmica que envolve o próprio fado. muitas vezes. Com isso. tem sido amplamente contestada. Nessa asserção percebe-se claramente o intuito de reforçar o caráter singular. o caráter ideológico do fado tornou-se evidente. alegam simplesmente que o fado não poderia ter influenciado a morna. Pouco a pouco o debate sobre o nascimento da morna caminhou no sentido de romper (ou pelo menos minimizar) possíveis associações entre esse e outros gêneros musicais e de enfatizar a originalidade daquela que vinha sendo construída como a canção nacional cabo-verdiana. que tem sido alvo de longo e acirrado debate em Portugal. Tal hipótese. 1984: 11). (ibid: 207-208) O fado. 1995: 5-8). afastou a morna (e com ela todo o arquipélago cabo-verdiano) de seus vínculos históricos com a África: Europeia pela tonalidade. as ligações entre o fado e a morna viram-se cada vez mais questionadas pela intelectualidade em Cabo Verde. com proximidades muito pouco significativas do mundo africano. Ainda em 1954. com o surgimento de críticas que denunciaram sua ligação ao regime de Salazar (ver Carvalho. exclusivamente cabo-verdiano.

expressos. o ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . que escreve no começo do século XXI. criaram a morna. A experiência histórica da escravidão torna-se a peça chave para a compreensão dessa hipótese. tinham um trabalho muito duro e.. é que eles inventaram a morna. aquela dor. em oposição a ela... daquela tristeza. ouvi cabo-verdianos ressaltando que os escravos. aquele gemido escravo. daquele gemido. É importante perceber que a força dessas narrativas está justamente no destaque que dão ao sofrimento vinculado à escravidão. vem ocupando o espaço da música “mexida”. Nas hipóteses anteriores notamos. Por diversas vezes. irônica e satírica. o luto.. quando vieram da África. Enquanto a coladeira.. 2001: 247). Diziam que os escravos cantavam a morna no lugar de chorar. a saudade. de um lado. Com António Germano Lima. os escravos africanos e seus descendentes são apresentados como os principais personagens da história da morna. de outro lado. as mãos. aquele gemido. no tempo dos escravos. no tempo dos escravos. nos “queixumes” e nas “lamentações” dos escravos. a dor. assim eram também as mornas da Boavista. outro importante estilo da música popular cabo-verdiana. em “linguagens e gestos imperceptíveis para os colonizadores mas sempre na forma de cantos e danças” (Lima. Daquele som. a morna identifica-se quase que exclusivamente com valores como o sofrimento. natural da Ilha da Boavista: Dizem que a morna foi criada na Boavista no tempo da escravidão. E é essa hipótese que tem ganhado força em outros estratos nãointelectualizados da população cabo-verdiana. porque. o que permite que elas se aproximem muito do sentido que a morna carrega nos dias de hoje. alegre. por isso. Percebemos na análise dessa versão para a origem da morna uma mudança radical de direcionamento. a ênfase na participação de elementos culturais portugueses nesse processo. dançante. em vez de cantar aquelas músicas africanas mais “mexidas”. a preocupação em afirmar a origem genuinamente cabo-verdiana desse gênero musical e. A grande mudança nesse jogo de forças que se dá agora com um enfoque quase que exclusivo na população cabo-verdiana de origem africana reflete um novo momento no debate. conforme eles algemavam os escravos. Cito aqui um trecho da entrevista realizada com uma senhora de 75 anos. António Germano Lima vai buscar o processo de criação da morna na “dor”.5 “substrato sócio-cultural de origem afro-negra” da Ilha da Boavista (Cabo Verde). segundo o autor..

A morna surge. Gostaria de comentar especialmente que essas hipóteses não deixam de enfatizar. atribui à morna origem argelina (ver sua entrevista em Duarte. Contudo. a lamentação e a melancolia. através da ênfase. O músico e compositor Jorge Monteiro. e são tais particularidades da história social cabo-verdiana que são assimiladas por esta última versão sobre a origem da morna. a dor na sua expressão máxima.. se o debate sobre a identidade cabo-verdiana tem sido muitas vezes retratado como um dilema que coloca o arquipélago entre a Europa e a África Negra. como afirmam. como linguagem para falar das tristezas e amarguras vividas pelo povo cabo-verdiano. E é a partir disso que podemos compreender o caráter particular que assume aqui a afirmação da africanidade. Não podemos concluir a discussão sem observar que. por exemplo. como em várias outras narrativas. outras matrizes culturais têm sido destacadas pelos cabo-verdianos nas reflexões sobre sua história social. o processo de criação da morna ocorre. dentro da narrativa. além da participação de portugueses e africanos no encontro que gerou a sociedade cabo-verdiana e. no arquipélago de Cabo Verde. ela não deixa de carregar as marcas da cabo-verdianidade. Seu argumento não tem recebido muito apoio (cf. 1985: 49). na experiência da escravidão e no sofrimento a ela vinculado. Partindo desse significado da morna. Mesmo que procedente de uma população “de origem afro-negra”. a discussão sobre a ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Se no atual momento a africanidade é enfatizada. É a junção da cultura africana com as particularidades da história e da geografia cabo-verdiana que possibilita o nascimento da morna. assim. bem como uma possível participação árabe no desenvolvimento da canção cabo-verdiana. por exemplo. podemos perceber o poder de uma narrativa que a identifica com a dor escrava. e sim enquanto “escrava”. ora distanciando-o dos dois continentes.6 choro. 1989: 20-21). Cabo Verde é produto direto da expansão européia e do sistema econômico implantado nesse contexto. Esse é um ponto muito importante para as freqüentes afirmações sobre a morna como símbolo da identidade nacional cabo-verdiana. A população negra não aparece como contribuinte para a criação da morna enquanto “africana”. a morna. a exclusividade cabo-verdiana nesse processo. Martins. ora aproximando-o. todo ele. em particular. o que interessa é observar que. A influência brasileira sobre a morna aparece em algumas narrativas.

É do mar e suas ondas que vem o ritmo da morna. Noto também a existência de hipóteses para o surgimento da morna que colocam em evidência um conteúdo bem diferenciado. nem culturas geométricas. Assim como versões de um mito que. tão grato aos ouvidos dos mareantes. esculpindo na sua sensibilidade o ritmo das ondas. O mar surge aqui como um valor. (Duarte. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . afirmando: Cabo Verde é a transição.. dedilhando o violão. E o espaço permanece aberto às possibilidades mais diversas.. E. atraiu-o. 1934: 10-11). Sob as velas enfunadas que se deleitam na luz flava e recolhem o murmúrio da brisa. nunca é definitiva. Cada uma das versões da gênese da morna faz parte de um projeto específico de construção da unidade nacional cabo-verdiana e. cada hipótese sobre a origem da morna sugere um “mito de origem” de Cabo Verde. Nem arvoredos bastos crescidos ao acaso pela mão da natureza. uma determinada construção sobre essa formação sócio-cultural. essas inúmeras hipóteses se somam ao contar a história de um fenômeno musical e do povo que o criou.. Como no lirismo rebuscado de Fausto Duarte. funcionário da administração colonial e escritor cabo-verdiano que representou o arquipélago na 1ª Exposição Colonial Portuguesa. do murmúrio da brisa. o caboverdeano escutou os queixumes.7 origem da morna vem tornar mais complexo esse quadro através de narrativas que acrescentam novos elementos na composição dessa sociedade crioula. E porque a terra se recusou à fecundação. segundo interesses cambiantes. o caboverdeano volveu os olhos para o mar. seja mesmo a característica dessa sociedade crioula. embora contraditórias. o que. as notas plangentes que se perdem na imensidade do espaço e são a própria alma do oceano. em 1934. Numa relação metonímica. acalentou-o. compôs a primeira “morna”: dolência. assim. sua melodia. mas também a própria “alma do oceano”. sofrimento e harmonia – virtudes da alma do povo ilhéu que se inspirou directamente na mágoa dolorosa do Atlântico. que não se fecha em si mesma e participa de um contínuo movimento de reformulação. não eliminam umas às outras. E é com essa narrativa que Fausto Duarte apresenta a morna como a síntese.. o símbolo máximo da fusão do caboverdiano com o Atlântico que o circunda. e o mar enamorou-se dele. talvez. A melodia nascente não é apenas a “alma do povo ilhéu”.

começa a dar lugar a novos debates envolvendo outras manifestações da cultura popular cabo-verdiana. O Império é recriado. quando têm início os movimentos de libertação nacional nas colônias. revela um momento histórico em que a lusitanidade é apresentada como um valor. agora estas últimas posicionam-se no centro da agenda política de Cabo Verde. E a imensidão de estudos sobre a morna. sem no entanto deixar de enfatizar a força da influência portuguesa sobre esse gênero musical. E mesmo a morna toma agora nova feição. acarretando importantes alterações na política colonial. ainda que claramente marcadas pela disparidade entre elas. Afirmam sua originalidade. Entre as décadas de 1930 e 1960. É nessa fase que se instaura em Portugal o Estado Novo. passam a figurar nos círculos da intelectualidade local. em detrimento das relações com a África continental. a importância que adquiria a construção da singularidade cabo-verdiana frente ao Império Colonial naquela época. mas também deve ser compreendida como parte de uma estrutura que lhe abrange. com caráter nacionalista e centralizador. que marcou o período salazarista. Ele é ainda um importante símbolo da ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . e a Metrópole se mantém como o referencial de civilidade. de Cabo Verde. porém. Cada uma dessas narrativas tem sentido em si. especialmente aquelas onde a herança africana pode ser mais facilmente percebida. por outro. seguem a mesma tendência de construção da morna – e. o debate sofre uma mudança radical. é preciso observar que as narrativas aqui analisadas. por um lado. que tem no tempo o seu critério orientador. Como não poderia deixar de ser. conseqüentemente. o funaná e a tabanka. Essa dupla tendência indica. Com o processo de independência vivido pelos cabo-verdianos. A morna deixa de ser praticamente a única manifestação da cultura popular trabalhada em projetos de construção da nacionalidade cabo-verdiana. e o controle sobre as colônias é reforçado. delineiam um padrão. entre outros. este último gênero musical deixa de ser expressão da lusitanidade para se tornar índice de africanidade. Já num outro período. tanto por intelectuais cabo-verdianos quanto portugueses. Se até então a proximidade em relação à Metrópole era valorada positivamente.8 À guisa de conclusão. as versões para a gênese da morna então articuladas apresentam-se imersas nesse processo político. O batuku. concentra-se a grande maioria das narrativas sobre a origem da morna. É possível observar que as narrativas elaboradas nesse período.

uma forma de religação ao antigo Império Colonial. de sofrimento dos escravos brasileiros aqui na Boavista e alguém pegou.. Nuno retoma alguns pontos já levantados nos discursos aqui analisados. hoje comunidade lusófona... funcionário público e músico cabo-verdiano. mas acrescenta à narrativa novos elementos. sem que para tal seja necessário fazer referência direta à ex-Metrópole.... comer ou ir para um outro sítio. mas é ao mesmo tempo um instrumento para a recriação do vínculo com o continente africano. sem palavras.. eles tinham uma melodia que eles iam interpretando.. Mas a referência ao Brasil representa. como a escravidão. nós teríamos.).. o sofrimento e a própria imagem do escravo acorrentado. natural da Ilha da Boavista.. porque lá fala muito de ‘bocê’... (. Então quando se deslocavam de um sítio a outro. Nuno.. e estavam acorrentados. de saudade ou de sofrimento..... ‘você’. alguém de há muito pegou nessa melodia que eles iam cantando assim. logo se disponibilizou para contar sua versão sobre a gênese da morna. havia problema. onde nós temos convicção de que lá é que nasceu a morna. ao mesmo tempo.. Encerro a presente discussão com mais uma das inúmeras narrativas sobre a origem da morna. Quase sempre o Brasil assume a forma de uma ligação entre Cabo Verde e a África.) é a primeira povoação do norte. Por fim. O barco encalhou e as pessoas salvaram-se ou foram salvas... sem a letra. não havia comunicação naquele tempo. ‘você’ e que. Essas referências têm caráter um tanto ambíguo. nessa versão a explicação para a gênese da morna tem início com a referência ao encalhe de uma embarcação ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . noto que também nesse período são relativamente freqüentes as referências ao Brasil nas narrativas sobre a gênese da morna. E então ficaram em João Galego.. ‘bocê’.. Então começaram a pôr letra nas mornas (. nós temos essa informação oral de que a morna terá nascido daquele ambiente de tristeza. a tristeza..9 originalidade cabo-verdiana. Até por causa do sotaque que ainda existe naquele povoado. nós pensamos que teria sido. porque aqui esses escravos ficaram lá durante muito tempo. O que segue abaixo é a sua narrativa: Teria encalhado no norte da ilha [Boavista] um barco brasileiro que tinha escravos a bordo. antes mesmo de perguntado sobre o assunto. portadora de admirável riqueza simbólica. mas só com melodia. Em primeiro lugar.. mas que dava um sentido de tristeza. quando procurado por mim para conversar sobre suas experiências com a música local. de solidão. tem muito a ver com alguma influência da língua brasileira. Então.

Portanto. Nuno cita a povoação para reforçar seu argumento sobre a influência brasileira na origem da morna. Porém. O reconhecimento da participação dos escravos na criação da morna não representa. O Mundo Português. p. “A música africana como a vê a sensibilidade dum europeu”. Tal caráter ambíguo pode mesmo ser apontado como um dos traços marcantes da “crioulidade”. CORREIA. uma identificação com o continente africano.10 ocorrido na costa norte da Boavista. Afonso. Diante da complexidade do debate em que está inserida a busca pelas raízes da morna. E no lugar da habitual disputa entre as heranças portuguesa e africana. 2002: 196). 301-304. ao menos não diretamente. e sim do Brasil. evento que durante séculos foi relativamente comum na referida ilha. 68. pela via de uma rota na contracorrente do tráfico negro. mas se trata de escravos muito especiais. Por fim. portanto. vol. construída metaforicamente através de uma etno-história musical. VI. baseando-se para tal no sotaque que ainda hoje existe no local. é compreensível a sugestão de que ela tenha nascido em uma povoação marcada por tamanha ambigüidade. João Galego é também conhecida entre os boavistenses por ter sido fundada por “escravos-galegos”. 1999. curiosamente. n. não apenas a escravidão. todo o discurso de Nuno aponta os escravos como criadores da melodia que veio a dar origem à morna tal qual conhecemos. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . há a identificação com um terceiro. uma vez que não vinham da África. também resultado do encontro dessas duas matrizes culturais. como de costume. Em segundo lugar. 1939. a referência à povoação de João Galego como o local onde nasceu a morna enriquece ainda mais o relato. Um Século de Fado. mas também nuanças da história local são contempladas na narrativa. passando antes pela mediação realizada pelo Brasil. A aproximação construída entre Cabo Verde e Brasil é a base sobre a qual se desenrola a narrativa. Referências bibliográficas CARVALHO. escravos brancos provenientes da Europa (Lima. Ruben de. Amadora: Ediclube.

ano XII. n. A Música Tradicional Cabo-Verdiana . 4853. Jean-Paul. LIMA. António. a morna e o mandó . 2004. Juliana Braz. Praia: Instituto Superior de Educação. 1985. António Germano. 1984. 138. 1995.I (A Morna). esp.A morna”. “Marialvismo: A Moral Discourse in the Portuguese Transition to Modernity”. DUARTE. REIS. p. n. “A morna: síntese da espiritualidade do povo cabo-verdiano”. Universidade de Brasília. Africana. 21.II . ______ Boavista. 9-18. n. 239-267.11 DIAS. Porto: Edições da 1ª Exposição Colonial Portuguesa. 1934. “Da literatura colonial e da ‘morna’ de Cabo Verde”. DUARTE. “Três formas de influência portuguesa na música popular do ultramar: o samba. FERREIRA. 2002. Portugal Cooperação. 2001. 7-10. p. 1985 [1ª edição: 1967]. 1989. 1. Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social. 6. VALE DE ALMEIDA. A Aventura Crioula. Tese (Doutoramento em Antropologia). Raízes. 184. José Alves dos. Miguel. Série Antropologia. Praia: Instituto Caboverdiano do Livro e do Disco. MARTINS. Vasco. Manuel. Ilha da Morna e do Landú. Fausto. “Subsídios para o estudo da Morna”. Lisboa: Plátano. SARRAUTTE. p. 1961. “Morna: o doce lamento do Atlântico”. Mornas e Coladeiras de Cabo Verde: versões musicais de uma nação. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . n. n. p. Cabo Verde: Boletim de Propaganda e Informação.

Argumento que a definição emic da crioulidade cabo-verdiana recorre a marcadores de vária ordem: não apenas genealógicos e fenotípicos. Como adjectivo. identidade cultural. Não obstante as suas importantes variações locais. A compreensão etnográfica da crioulidade cabo-verdiana levanta-me reservas em relação aos usos generalistas da noção e leva-me a defender em vez disso um uso ad hoc.Filhos da terra. Cabo Verde. O peso relativo atribuído a cada um deles varia consoante os contextos de interacção social. transportam ou cultivam uma identidade cabo-verdiana.vasconcelos@ics. atento aos sentidos que ela possui nos diferentes espaços e tempos em que é empregada pelos agentes sociais. O propósito deste texto é mapear o campo semântico e afectivo associado à palavra “crioulo” tal como ela é usada correntemente em Cabo Verde. identidade performativa. nos países de emigração. o substantivo “crioulo” designa um indivíduo cabo-verdiano. A etnografia caboverdiana desafia a acepção de “crioulidade” corrente na literatura antropológica. “Crioulo” e “cabo-verdiano” são sinónimos portanto. Palavras-chave: crioulidade. identidades lamarckianas e mendelianas.ul. mas também comportamentais ou performativos. o crioulo é a língua materna de todos aqueles que nascem no arquipélago e é uma língua falada por quase todos os cabo-verdianos e seus descendentes que. regionais e de classe. Universidade de Lisboa joao. Ambos os termos podem ser trocados na maioria dos contextos de fala sem que isso afecte o sentido dos enunciados. onde o termo significa essencialmente ideias de mestiçagem e hibridez. Em Cabo Verde. ou Lamarck em Cabo Verde João Vasconcelos Instituto de Ciências Sociais. “Crioulo” é também o nome corrente da língua cabo-verdiana. Circunscrevo assim a minha abordagem às vivências e aos sentidos que andam atrelados ao termo no ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . a palavra significa qualquer coisa que diga respeito a Cabo Verde ou aos cabo-verdianos.pt Este texto pretende mapear o campo semântico e afectivo associado à palavra “crioulo” tal como ela é usada correntemente em Cabo Verde.

coordenado por Wilson Trajano Filho e por mim. 2 A segunda circula em estudos com alicerces Uma versão ligeiramente diferente deste trabalho foi apresentada no 3. A primeira é moeda corrente naquilo a que chamarei os estudos pós e os estudos trans (traduzindo livremente duas expressões provocativas lançadas respectivamente por Marshall Sahlins e Jonathan Friedman). Recorro para esse efeito a materiais etnográficos que reuni em 2000 e 2001. A primeira hipótese é admissível. mas parecem-me ser as mais difundidas no senso comum dos antropólogos contemporâneos.º Congresso da Associação Portuguesa de Antropologia (Lisboa.) A terceira hipótese é aquela que irei defender e explicitar aqui. os caboverdianos se afirmassem uma raça superior e justificassem dessa maneira qualquer forma de tirania sobre outros povos. (É claro que as coisas seriam diferentes se. A segunda é absurda: se os cabo-verdianos se dizem crioulos. um texto em construção. Este texto é um produto lateral da minha pesquisa de doutoramento. me pareceu uma ocasião adequada para reflectir acerca de lógicas culturais de identificação e diferenciação. Jorge Rivera e Ramon Sarró. para usar linguagem de antropólogo. 6-8 de Abril de 2006). o trabalho do etnógrafo é tentar perceber o que querem eles dizer com isso. ainda bastante incipiente. 1 Depois porque nos últimos anos tenho lido vários trabalhos antropológicos que falam de “crioulidade” e “crioulização” em termos que me parecem ser apenas parcialmente transponíveis para Cabo Verde.2 arquipélago – ou. Esta primeira revisão procura endereçar alguns comentários que me foram dirigidos naquela ocasião e. no decurso de trabalho de campo prolongado na ilha de São Vicente. no painel “Caboverdianidade e Crioulidade”. por mera hipótese académica. Porque é que me abalancei a escrevê-lo? Primeiro porque o congresso onde o apresentei. posteriormente. Estas duas concepções não são as únicas. 2 Sahlins (1999a) fala de “afterological studies” para designar os autodenominados estudos pósmodernistas. ou os cabo-verdianos estão errados quando se dizem crioulos. cujo lema era “afinidade e diferença”. Principiarei por identificar duas concepções de crioulidade e crioulização em uso na literatura antropológica recente. Ou a minha percepção etnográfica está completamente equivocada. e é também um working paper. por João de Pina Cabral. mencionando que foi buscar aquela expressão a um 1 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . que tratou de outros assuntos. Pode haver três razões para este desajuste. pós-estruturalistas e pós-coloniais. e não decretar se estão certos ou errados. à noção de crioulo enquanto categoria emic. ou então a crioulidade caboverdiana possui realmente alguns traços distintos daqueles que são veiculados na crioulidade da vulgata antropológica. a quem manifesto a minha gratidão.

no artigo “The world in creolisation”. 3 Hannerz 1987: 546 – tradução minha. 3 O país do Terceiro Mundo de que o antropólogo fala é a Nigéria. Todo o artigo é uma celebração deslumbrada do movimento e da mistura. Na Nigéria. os Abba e Jimmy Cliff não destruíram o mercado da música popular de Fela Anikulapo-Kuti. nos colégios internos. procurarei demonstrar que a crioulidade cabo-verdiana. históricos e culturais. São as culturas em exibição nos mercados. Um dos primeiros antropólogos a formulá-la foi Ulf Hannerz. Refiro-me especialmente às ilhas do Pacífico. publicado em 1987 na revista Africa. 5 Hannerz 1987: 551 – tradução minha. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Esse texto começa assim: Desde que me embrenhei pela primeira vez no Terceiro Mundo. início dos anos 1960. * Ataquemos para já a crioulidade dos estudos pós e trans. nas cervejarias. A noção de cultura. muito embora partilhe várias características da crioulidade caraíba. e o conceito de cultura crioula é a “metáfora mais promissora” para o descrever. região que corporiza o protótipo da crioulidade nos imaginários anglófono e francófono. Sunny Ade ou Victor Uwaifo”. afirma Hannerz. não tem de designar algo homogéneo nem sequer particularmente coerente. nas salas de espera das estações de comboio. comunga também aspectos de uma lógica de formação de identidades que tem sido registada noutros espaços insulares bem mais afastados em termos geográficos. transculturalismo e transnacionalismo. nos jornais e nas estações de televisão. Friedman (2002) fala do “trans-X discourse” como uma agenda ideológica que permeia os estudos sobre translocalismo. é “um mundo em crioulização”. no final dos anos 1950. No final desta apresentação. escreve Hannerz. “Michael Jackson. Os elementos culturais importados não abafam necessariamente os elementos indígenas. nas livrarias missionárias. 4 Este mundo de importações e misturas. 5 trabalho inédito de Jacqueline Mraz. 4 Hannerz 1987: 555 – tradução minha. nos bairros de lata. e o antropólogo é sueco. fiquei fascinado com aqueles modos de vida e de pensar que vão emergindo da interacção entre culturas importadas e indígenas. nas discotecas.3 etnográficos nas Caraíbas.

bricolage […]. sincretismo. Friedman 2002: 32-33 – tradução minha. 9 Friedman argumenta no mesmo sentido. E acrescenta que o fascínio contemporâneo de intelectuais como Hannerz. transculturação. 7 Se a crioulização significa isto. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . do que da emergência de uma nova realidade global. Os discursos do mundo em crioulização e do transnacionalismo “constituem uma agenda ideológica e não uma descoberta científica”: “um programa elitista imposto de cima para baixo e baseado na experiência de viajar de avião”. retomada por Hannerz em trabalhos posteriores. que “as culturas crioulas não são apenas necessariamente as culturas coloniais e pós-coloniais”. 8 Mais ainda. imagine-se. colagem. Mais de noventa e oito por cento da população mundial permanece toda a sua vida no país onde nasceu e a maioria não tem acesso à Internet. Ver também Friedman 1994: 209-210. mistas. No final do seu artigo. Leia-se a este respeito Sarró 1999. Ver também Hannerz 1996. Arjun Appadurai. sinergia. 10 * 6 7 8 9 10 Hannerz 1987: 557 – tradução minha. “a chamada hibridez é no fim de contas uma observação genealógica. mélange. miscigenação. mas que também não me parece poder constituir ponto de partida útil para um empreendimento analítico capaz de esclarecer o que quer que seja. então somos todos crioulos – coisa que não me repudia de todo. Hannerz conclui (com uma candura que não chego a perceber se é retórica ou genuína). Sahlins 1999b: xi – tradução minha. até os suecos são crioulos. parece-me francamente débil como formulação conceptual. e não uma determinação estrutural – talvez apropriada apenas para os intelectuais cosmopolitas que fabricam estas teorias culturais a partir da sua posição de exterioridade”. e que. Hannerz 1997: 26.4 As culturas crioulas são culturas híbridas. Homi Bhabbha ou James Clifford pelas viagens e pelo hibridismo decorre mais da forma de vida dos académicos e das suas próprias preocupações políticas paroquiais (como por exemplo o multiculturalismo nas grandes metrópoles). terceiras culturas e outros termos”. mestiçagem. misturadas. miscelânea. como escreve Sahlins. montagem. 6 Esta concepção da crioulização como sinónimo de “hibridez.

5 Passemos à segunda concepção de crioulidade e crioulização. Vou somente identificar um denominador comum a todos eles. um outro que ele toma por mulato é afinal um branco crioulo. de acordo com a proveniência dos grupos que real ou presumidamente os introduziram. os costumes e os objectos são classificados de forma quase obsessiva em termos étnicos ou raciais. Esse traço comum é a importância que as categorias étnicas e raciais ali assumem na organização das relações sociais e no pensamento sobre a sociedade. asiáticos e europeus) em diferentes tempos. que parece demonstrar a existência de um traço bem saliente na crioulidade das Caraíbas. Não vou aqui resumi-los. e nas quais as pessoas. 11 11 Leiris 1955: 160-161 – tradução minha. As classificações étnicas e raciais utilizadas nem sempre coincidem com aquelas que os observadores exteriores aprenderam nos seus países de origem. a escravatura. Estes trabalhos cobrem um período bastante longo: o livro de Leiris baseia-se em missões etnológicas realizadas em 1948 e 1952 e o de Miller em trabalho de campo do final dos anos 1980. outro ainda que ele julgava negro é rotulado de mulato. Os estudos a que aludirei concentram-se nas sociedades das Caraíbas. um influente artigo de Lee Drummond (1980) sobre a Guiana. e a etnografia mais recente de Daniel Miller (1994) sobre a Trinidad. Como escreve Leiris. o observador estrangeiro que chega à Martinica ou a Guadalupe é forçado a constatar que o seu discernimento falha frequentemente quando julga saber. a deslocação mais ou menos forçada de populações de origens diversas (africanos. que merece outra atenção. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . fiando-se no aspecto da pessoa com quem trava contacto. e a manutenção durante séculos de um domínio colonial centrado em metrópoles europeias. Tomarei como amostra três estudos sobre quatro sociedades caraíbas: a monografia de Michel Leiris (1955) sobre a Martinica e Guadalupe. São também estudos muito diferentes no tocante às suas perspectivas teóricas de partida. sociedades formadas através de processos históricos que envolveram o desenvolvimento de economias de plantação. Os três estudos retratam sociedades cujos membros designam “crioulas” e vêem como resultado de uma mistura de ingredientes de origens diversas. visto encontrar-se em estudos baseados em trabalho de campo prolongado. qual a categoria racial em que ela é colocada localmente: um indivíduo que ele vê como um branco é afinal classificado como mulato.

ele mostra que não só a classificação varia situacionalmente. Através de vários exemplos etnográficos. “chinee” (chinês) e “white” ou “english” (branco ou inglês). como varia também o valor atribuído aos estereótipos étnicos e raciais. dentro do pluralismo étnico e das formas de categorização social que se baseiam nele. da qualidade dos cabelos e também da genealogia das pessoas e do seu estrato social que são aprendidos desde a infância e cujo domínio competente se torna. e às vezes nem sequer sua real disseminação entre os grupos étnicos correspondentes. sobressai um padrão classificatório dualista. “buck” (ameríndio).6 A questão é que na classificação racial. não são apenas atributos de dois grupos étnicos. Drummond acrescenta que a primeira manifesta uma variação à primeira vista desconcertante. em qualquer classificação racial. Mais ainda. 13 Drummond 1980: 356. Um branco num determinado contexto pode ser um mulato noutro. cujos pólos são os “africanos” e os “indianos”. dois estereótipos associados a valores em larga medida opostos. a atribuição de africanidade e indianidade a determinados usos e costumes nem sempre reflecte a real origem cultural dos mesmos. Aqui. 13 Além de reconhecer a inexistência de isomorfismo entre a classificação guianense e. de que o tipo de classificação racial estabelecido há cerca de cem anos nos Estados Unidos da América e nalguns países do norte da Europa constituiria por assim dizer o tipo padrão. na interpretação do autor. a forma modelar do racialismo. 12 Escrevendo sobre a Guiana. por fim. como também denuncia o pressuposto. 12 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Leia-se a este respeito Wade 2002. além disso. e classificações como “whiteman” e “blackman” podem assumir conotações positivas. que não equivale a “branco” no sistema guianense). ver Vale de Almeida 1997. portanto. consoante a situação em que são utilizadas. São. da fisionomia. acrescenta algo às observações de Leiris e Drummond. A etnografia de Miller sobre a Trinidad. que não só evidencia a existência de diferentes tipos de formação racial e de racismo. “potuguee” (português. entram em jogo modos de percepção e apreciação da cor da pele. na ilha de Trinidad. argumenta Miller. negativas ou neutras. a inglesa. A africanidade e a indianidade. Sobre os potuguees da Trinidad. que as pessoas da Trinidad usam para pensar sobre a sua sociedade. digamos. Segundo Miller. “black” (negro). muito difícil a um indivíduo naturalizado noutro esquema classificatório e ignorante da pequena história local. Drummond afirma que também nesta sociedade as diferenças entre pessoas e formas de vida são expressas de forma explícita em termos de categorias raciais ou étnicas. implícito na maioria dos estudos sociais sobre “raça”. as categorias primárias são “coolie” (indiano).

Muito embora o arquipélago tenha conhecido em diversos momentos da sua história várias vagas migratórias (de escravos da costa ocidental africana. dá ao termo. A crioulidade. Noutro trabalho tive ocasião de argumentar que. nenhum destes grupos construiu identidades étnicas de longa duração vinculadas às respectivas origens. Ver Vasconcelos 2004: 170-187. por isso mesmo. 17 Não me parece adequado falar de grupos étnicos em Cabo Verde. confrontamo-nos com um contexto social crioulo no sentido que Édouard Glissant. 16 Não estamos portanto a falar do vago e vasto “mundo em crioulização” de Hannerz e outros. a sociedade cabo-verdiana do século XX e dos dias de hoje. Miller 1994: 132-133. Glissant 1981. madeirenses.7 Para Miller. Estamos a falar de sociedades concretas nas quais as pessoas se vêem a si próprias como mistas ou misturadas e usam o vocabulário das “categorias puras” que compõem a mistura para se pensarem e se classificarem. e 15 da “transiência” ou efemeridade (corporizada nos valores * Muito disto será familiar para quem conheça um pouco. ao longo do século XX. alentejanos e algarvios. a identidade cabo-verdiana foi sistematicamente definida pela mistura e que. segundo Glissant. por exemplo). tal como nas Caraíbas. Há que esperar para ver o que acontecerá com as 14 15 16 17 Miller 1994: 15 – tradução minha. por experiência própria ou através de leituras. o discurso da crioulidade nunca deixou de reproduzir as “categorias puras” que pretendia dissolver. intelectual natural da Martinica. encontra-a Miller na “natureza fundamental da modernidade”: na contradição entre a valorização simultânea da “transcendência” ou continuidade (corporizada nos valores da indianidade) africanidade). é “uma mestiçagem consciente de si própria”. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Em Cabo Verde. 14 Essa raiz. deportados políticos da antiga metrópole e judeus de Gibraltar. Passar-se-á antes o contrário: “muito do conteúdo específico da estereotipagem étnica e da experiência contemporânea da etnicidade resulta do uso de grupos étnicos para objectivar um dualismo cuja raiz se encontra noutro lugar”. o dualismo cultural entranhado na Trinidad não resulta da diferença étnica.

No decurso das transformações políticas que marcaram o século XX. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . no passado tal como no presente. “África” e “Europa” (ou. Além disso. Consoante as conjunturas político-ideológicas. A Europa de Cabo Verde é a ilha de São Vicente. a operação de critérios de identificação insular. Em vez de grupos étnicos. mais modestamente. Mais ainda. nas esquinas da Rua de Lisboa e em casa. existe em Cabo Verde a ideia de que ser crioulo é ser misturado. De onde veio a morna? E o machismo? E a família matrifocal? E o gosto pelo desporto? Não são apenas debates de intelectuais. e “hibridez” (nos neo-liberais anos 1990). A África cabo-verdiana é a ilha de Santiago. a maioria dos cabo-verdianos vê-se como gente com sangue mais africano que português e com espírito mais português que africano. observam-se estratégias de classificação e distinção social que põem em prática a ideologia subjacente dos “tipos puros”. nos botequins. mas ambos estiveram sempre presentes na consciência da caboverdianidade. estes estereótipos não são étnicos. “África” e “Europa” foram internalizadas em Cabo Verde. o camponês escuro e iletrado do interior que vibra ao som do batuque. em vez disso. ora “África”. são conversas que se ouvem nos cafés. Os debates acerca da cultura cabo-verdiana são quase sempre debates acerca de origens culturais. à semelhança do que acontece nas Caraíbas. nos mercados. E são. personificada na figura do badio. dois estereótipos fortes. Em suma. tal como nas Caraíbas. E. os estereótipos que fazem a mistura crioula caboverdiana são as nove micro-sociedades insulares que constituem o arquipélago. “alienação cultural” (no período da guerra colonial e dos anos pós-independência). o estereótipo positivamente valorado foi ora “Portugal”. “aristocratização cultural” (no período da Claridade). racial e classista. e que resultam de processos de formação social bastante distintos e desfasados no tempo. empregado de escritório ou funcionário público nas horas vagas. sobretudo. esta crença tem recebido os nomes de “civilização” (no período republicano). Diferentemente das Caraíbas. “Portugal”).8 migrações mais recentes de vendedores ambulantes da África Ocidental e de comerciantes chineses. personificada no literato claro do Mindelo. Revelam. Duas jovens mindelenses perfumadas e de cabelo alisado que passam descaradamente à frente de um rapaz de Santo Antão de aspecto pobre na fila da bilheteira do cinema Éden Park são descompostas por uma rabidante que vende drops.

a frequentar as tocatinas que se organizavam aqui e ali. Foi um processo gradual. para concluir. Não só existe racismo em Cabo Verde como ele é além do mais consciencializado e verbalizado. sempre a armar afronta!” Acompanho o drama de uma rapariga de boas famílias cujos parentes tentam por todos os meios pôr fim ao seu namoro com um rapaz também de boas famílias e até com estudos universitários. comenta logo: “Aquilo são badios da Praia. Sem negar que a ideia de que se é “misturado” e as práticas de discriminação que só superficialmente a contradizem constituem componentes característicos da caboverdianidade enquanto forma de vida. mas bastante escuro e de cabelo encarapinhado. que viviam na ilha há bastante tempo e que se comportavam e eram tratados como filhos da terra. e creio que não se trata de uma percepção puramente subjectiva. Quando é O estudo de Deirdre Meintel (1984) sobre a classificação e a discriminação raciais em Cabo Verde. em que comecei a frequentar espaços públicos locais. a vestir-me à moda local (tirando o uso de sandálias. 18 Mas quero agora. Os filhos destas pessoas que nasceram ou foram criados desde pequenos na ilha em nada se distinguiam das crianças e dos jovens dos estratos sociais correspondentes. a partir do momento que fiz questão de falar crioulo sempre que as circunstâncias não aconselhavam o uso do português. mas também alguns negros e um chinês). conserva ainda muita actualidade. Andam sempre com faca. que identifica os assaltantes como cabo-verdianos. a tomar uns grogues e uns pastelinhos nas vendas dos subúrbios e nos botequins da cidade. e um amigo meu. militante do PAICV. que naquele tempo me incomodava) e a ganhar um tom moreno. comecei a sentir-me parte da pequena cidade com cerca de setenta mil habitantes. chamar a atenção para uma outra característica bem diferente da crioulidade cabo-verdiana. gostaria de sugerir que estes componentes coexistem com outros.9 mancarra e cigarros no seu balaio em frente à escadaria. Os homens e rapazes com quem convivia foram-se tornando cada vez mais indiscretos e insistentes acerca das minhas relações com as raparigas da terra. que lhes grita: “tempo de escravatura acabá!” Assisto no noticiário das oito a uma reportagem sobre um assalto em Lisboa a uma actriz de teatro. assente em trabalho de campo realizado no começo dos anos 1970. Conheci em São Vicente alguns estrangeiros (brancos a maioria. a ter a minha cachupa preparada em casa todos os sábados ou a ir comê-la a casa de outros. Eu próprio. 18 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . que evidenciam o funcionamento paralelo de uma outra lógica de formação de identidades.

Quando ele tentava explicar em francês ou em inglês que não era cabo-verdiano. Pelo contrário. de fazer as minhas compras no supermercado. desde que o outro estivesse disposto a isso. Todos apreciavam o facto de eu não ser esquisito com a comida. em certos contextos. Mas sei que os meus amigos cabo-verdianos não são tratados desta forma em Portugal. é claro. havia ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . O meu domínio do crioulo foi talvez o feito mais apreciado. E noutros contextos são depreciados pelo mesmo motivo. por serem afro. por muito que se esforcem por se comportar como portugueses. de comer o mesmo que as pessoas da terra. Não que ele seja muito bom. ao cabo de uma semana em Cabo Verde. Pode haver aqui algum romantismo de going native da minha parte. que eu falo como os filhos dos caboverdianos que nasceram em Portugal. exactamente pela sua diferença. e quase todos os estrangeiros que conheci que estavam mais crioulizados que eu eram homens também. É verdade que há uma espécie de fenótipo cabo-verdiano modal. Aquilo que experimentei e que observei na interacção dos mindelenses comigo e com outros estrangeiros foi uma grande abertura da parte deles à assimilação do outro (para usar uma palavra politicamente incorrecta). de se ter pais ou avós cabo-verdianos) e fenotípicos. são apreciados.10 que eu arranjava uma pequena? Quando é que eu tinha lá um filho? As raparigas foramse tornando cada vez mais atrevidas nos jogos de sedução – ou então fui eu que comecei a percebê-los melhor. Tenho amigos mindelenses que até em Portugal seriam brancos e que eram tomados por estrangeiros pelos raros camponeses com quem nos cruzávamos nos nossos passeios de domingo pelo interior da ilha – isto. negros e brancos? Não sei. estava afrontado porque toda a gente presumia que ele era cabo-verdiano com base na sua aparência física e lhe falava em crioulo. Eu sou homem e sou branco. Por outro lado. embora três deles não fossem brancos. conheci um jovem turista mulato da Martinica que. Será a que a antropofagia cultural mindelense manifesta igual apetite por homens e mulheres. Os meus amigos mais chegados dizem. Em todo o caso. de ir nadar à praia da Lajinha pela manhã. mas também elementos performativos. A minha experiência pessoal e o meu universo de observação podem implicar muitos enviesamentos. aquilo que quero sugerir é que a crioulidade é uma classificação identitária que contempla não apenas elementos genealógicos (o facto de se ter nascido na terra. antes de abrirem a boca e falarem em crioulo. julgo que com sinceridade.

As classificações raciais e classistas que os diferenciam em certas situações coexistem com uma outra que os irmana. ser-se di terra. o facto de uma pessoa viver numa determinada terra e se alimentar do que ela dá fá-la da mesma substância que a terra. se cantar ou dançar a música da terra. Sahlins 1985: xi-xii – tradução minha. Depois de residir um certo tempo na comunidade. no mesmo sentido em que se diz que uma criança é feita da substância de seus pais. se comer as comidas da terra. pior. diz-nos que no Havai uma pessoa pode tornar-se “nativa”. Esta realidade tem muito em comum com aquela que João de Pina Cabral e Nelson Lourenço encontraram em Macau no início dos anos 1990. Um estrangeiro. mas também chineses e gente de outras proveniências que adoptavam a língua e a cultura locais. por exemplo. entre outras coisas. não apenas os filhos de naturais do território. para diferenciar os brancos europeus ou reinóis dos brancos da terra e os pretos africanos dos pretos da terra. Brancos.11 quem não acreditasse e achasse que ele era um desses emigrantes cheios de inchadura que perderam as raízes ou. 19 Outros trabalhos etnográficos recentes realizados noutras regiões do Pacífico descrevem a operação de lógicas de formação de identidade semelhantes. pretos e mestiços. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Marshall Sahlins. Em Cabo Verde. se acamaradar e eventualmente procriar com gente da terra. que se envergonham delas. termo que não está exclusivamente reservado aos nascidos no lugar. A palavra “crioulo” tem a sua raiz etimológica no verbo “criar” e começou a ser utilizada em sítios como Cabo Verde e as colónias de povoamento das Américas. Mas não é o único critério em jogo. 20 19 20 Ver Pina Cabral e Lourenço 1993: 53-72. mediante acção adequada. independentemente da sua aparência física. Naquele enclave português na China. Há também uma outra crioulidade que obedece a uma lógica identitária que tem subjacente a ideia de que aquilo que se faz é uma parte importante daquilo que se é. a “raça” interessa. Portanto. tal como interessa quando se trata de diferenciar internamente os cabo-verdianos. ou “filhos da terra”. eram considerados macaenses. pretos e mestiços são todos crioulos sem que deixem com isso de ser brancos. pode tornar-se crioulo se falar a língua da terra. quando se trata de classificar as pessoas como cabo-verdianas ou não. ser-se crioulo é. […] Para os havaianos. até os estrangeiros se tornam “filhos da terra” (kama’àina).

de que se é aquilo que se faz. A segunda é vista “como uma essência herdada do passado”. O peso relativo atribuído a marcadores genealógicos. escreve a autora. com base na acção. as “identidades lamarckianas” baseiam-se na crença de que o comportamento constitui o ser. Num extremo estão as semelhanças e diferenças estabelecidas a partir de reais ou supostas heranças genealógicas. 21 Diferentemente das “identidades mendelianas”. Astuti 1995: 1 – tradução minha. por ser transformativa. que provavelmente se poderão encontrar em qualquer parte do mundo. como ainda daquilo que se faz. em doses e com matizes diferentes. mas é igualmente possível que uma pessoa se faça crioula pela acção adequada. Rita Astuti identificou também entre os vezo. que enfatizam a preeminência dos traços herdados na constituição do ser. A conceptualização de Watson foi depois aplicada por outros autores a diversas sociedades oceânicas. Creio que a crioulidade cabo-verdiana congrega ambas as lógicas de formação identitária. o recurso a duas formas de identificação idênticas às identidades lamarckiana e mendeliana de Watson: uma identidade “performativa” e uma identidade “étnica”. 22 Na ilha índica de Madagáscar. “adquire-se através de actividades realizadas no presente” e possui “traços caracteristicamente austronésios. 23 Identidades mendelianas e lamarckianas podem ser concebidas como dois pólos de um continuum de produção de semelhanças e diferenças entre os seres humanos. não primordialista e não essencialista”. na sua monografia sobre os tairora das terras altas da Nova Guiné.) 1990 e Hoëm e Roalkvam (eds.) 2003. introduziu a expressão “identidades lamarckianas” para designar este tipo de classificações performativas. e “possui um forte cunho africano. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . na prática quotidiana. no outro as semelhanças e diferenças reconhecidas nos modos de vida. Um filho de crioulos é crioulo pelo nascimento. por se enraizar na ordem imutável da descendência e ser por ela determinada”. fenotípicos e comportamentais varia consoante os contextos de interacção social. Este entendimento da crioulidade cabo-verdiana levantame reservas em relação a qualquer uso generalista da noção e leva-me a defender em 21 22 23 Ver Watson 1983: 276-280. um grupo da costa oeste. A primeira.12 James Watson. Ver por exemplo Linnekin e Poyer (eds. como de traços corporais herdados e adquiridos socialmente. É-se reconhecido como crioulo em virtude tanto da ascendência familiar.

Londres e Nova Iorque.). Ingjerd. LINNEKIN. Transnational Connections: Culture. Thousand Oaks e Nova Deli. Oxford e Nova Iorque. atento aos sentidos que ela possui nos diferentes espaços e tempos em que é empregada pelos agentes sociais. Cambridge. and Portuguese Colonialism in Cabo Verde. Africa. Jonathan. Jocelyn. 2003. 1981. Ulf. Cambridge University Press. “The world in creolisation”. Race. 2 (1): 21-36. Routledge. 57 (4): 546-559. 1995. Ulf. 1980. Rita. DRUMMOND. HOËM. 1994. Culture. Não estará a crioulidade enquanto identidade performativa estreitamente relacionada com aquilo a que poderíamos chamar o presentismo cabo-verdiano.S. Man (N. “From roots to routes: tropes for trippers”. Lee. e Sidsel Roalkvam (eds. Bibliografia ASTUTI. Paris. 1955. FRIEDMAN. People of the Sea: Identity and Descent among the Vezo of Madagascar. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Sage. Mana. “Fluxos. HANNERZ. e Lin Poyer (eds. ligado por sua vez à experiência do trânsito migratório e da transitoriedade das relações. Maxwell School of Citizenship and Public Affairs. Jonathan. até dia que bô voltá”? (“Se me escreveres eu vou escrever-te. 2002. Syracuse. Contacts de civilisations en Martinique et en Guadeloupe. MEINTEL. fronteiras. Anthropological Theory. Seuil. Édouard. People. Termino com uma hipótese.13 vez disso um uso ad hoc. mais uma. Berghahn Books. 1996.). HANNERZ. Michel. híbridos: palavras-chave da antropologia transnacional”. Places. 1990. 1987. Oceanic Socialities and Cultural Forms: Ethnographies of Experience. 1984. GLISSANT. LEIRIS. Deirdre. Le discours antillais. Cultural Identity and Global Process. si bô esquecê’m um ta esquecê’b. “The cultural continuum: a theory of inter-systems”. Paris. HANNERZ. Gallimard.”) Este é o meu ponto de interrogação final. 1997. se me esqueceres eu vou esquecer-te.). Syracuse University. 15 (2): 352-374. University of Hawai’i Press. tão belamente expresso na morna mais conhecida de Cesária Évora: “Si bô escrevê’m um ta escrevê’b. Cultural Identity and Ethnicity in the Pacific. Ulf. até ao dia em que tu voltares. Honolulu. FRIEDMAN. 3 (1): 7-39. Londres.

27: 13-14. Macau. Etnográfica. Race. University of Chicago Press. 5 (3): 399-421. Miguel. Lisboa.. SAHLINS. Annual Review of Anthropology. Imprensa de Ciências Sociais. 1999b. 1985. Nature and Culture: An Anthropological Perspective. WADE. WATSON. Londres e Sterling. Oxford e Providence. Marshall. poder e identidade em São Vicente de Cabo Verde”. Instituto Cultural de Macau. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . 2004. Seattle e Londres. e João de Pina Cabral (orgs. A Persistência da História: Passado e Contemporaneidade em África.14 MILLER. Peter. 1999a. 149-190. Clara. PINA CABRAL. SAHLINS. “Ser português na Trinidad: etnicidade. “Espíritos lusófonos numa ilha crioula: língua. The Journal of the Royal Anthropological Institute. 1997. 1983. Modernity – An Ethnographic Approach: Dualism and Mass Consumption in Trinidad. VALE DE ALMEIDA. Tairora Culture: Contingency and Pragmatism. 28: i-xxiii. University of Washington Press. “Cultura y metacultura: más allá de la diversidad y de la homogeneización”. 1993. Berg. James B. 1999. Em Terra de Tufões: Dinâmicas da Etnicidade Macaense. João. Marshall. Pluto Press. 2002. Ramon. “What is anthropological enlightenment? Some lessons of the twentieth century”. Chicago e Londres. VASCONCELOS. em CARVALHO. subjectividade e poder”. “Two or three things that I know about culture”. SAHLINS.). e Nelson Lourenço. 1 (1): 9-31. Revista de Libros. João de. Islands of History. SARRÓ. Daniel. Marshall. 1994.

ISCTE ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .III – Capítulo Identidades migrantes: afinidades e diferenças como processos sociais Textos de comunicações do painel Identidades migrantes: afinidades e diferenças como processos sociais Coordenação Lorenzo Bordonaro Chiara Pussetti Centro de Estudos de Antropologia Social .

ligados mais à memória filogenética que não à aprendizagem ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Os biologistas sustentam que as emoções são essências universais. Temos assistido nos últimos vinte anos a manifestações de um interesse académico renovado pelas emoções em campos disciplinares diferentes. migrantes. Podemos.it Temos assistido nos últimos vinte anos a manifestações de um interesse académico renovado pelas emoções em campos disciplinares diferentes. a neurobiologia e a história. reconduzir a maior parte dos estudos produzidos nas últimas décadas sobre as emoções a dois ramos teóricos opostos: os biologistas e os construcionistas sociais. herdadas pelo pensamento do século XIX. Infelizmente. sobretudo nas disciplinas que se confrontam com as vivências emocionais dos migrantes – ou seja a antropologia e a psicologia transcultural -. “genes/ambiente”. Definir o que é comum a todos os seres humanos e o que é específico de cada cultura torna-se assim um assunto politicamente relevante e potencialmente discriminante. inatas e geneticamente determinadas: fenómenos biológicos interiores passivos e involuntários. sobretudo nas disciplinas que se confrontam com as vivências emocionais dos migrantes – ou seja a antropologia e a psicologia transcultural os debates recentes continuam a reproduzir dicotomias como “natureza/cultura”. reconstruídas ou inventadas pelos diferentes actores sociais. a filosofia. psiquiatria transcultural. herdadas pelo pensamento do século XIX. Entre estes a antropologia. a reproduzir dicotomias como “natureza/cultura”. de carácter não cognitivo. “genes/ambiente”. os debates recentes continuam. etnopsiquiatria. Infelizmente. salvo raras excepções. assim. o convite é de repensar o conceito de identidade pessoal. a sociologia. Palavras-chave:Antropologia das emoções. a psicologia.Emoções migrantes: afinidades e diferencias como factos políticos Chiara Pussetti CEAS/ISCTE chiara_pussetti@hotmail. considerando como as afinidades e diferenças emocionais são estrategicamente realçadas. Questionando quer as posições biologizantes quer as radicalmente relativistas.

Durante muito tempo. As teorias universalistas ou inatistas. idade e posição social. William James. Os antropólogos culturais criticaram duramente a metodologia utilizada por Ekman e pelos pesquisadores que partilharam a sua opinião e a sua orientação teórica. segundo critérios apriorísticos. têm dominado há muitos anos o campo das pesquisas psicológicas e são representadas de maneira emblemática pelos estudos neuroculturais de Paul Ekman sobre a expressão facial das emoções (Ekman 1980a. é a teoria do “processo evolutivo na 1 Entre os pensadores que inauguraram a concepção científica das emoções Charles Darwin. nesta perspectiva. a um agregado restrito de pessoas. O que em síntese une a posição destes teóricos é uma visão das emoções como fenómenos não cognitivos e involuntários. O conceito de unidade psíquica dos seres humanos justificava ao nível teórico a possibilidade de compreensão imediata entre pessoas de culturas diferentes: antropólogos e psicólogos poderiam assim entender empaticamente as emoções dos outros enquanto idênticas às próprias e utilizar sem problemas as próprias categorias para descrever as vivências afectivas dos outros. A falta de correspondência linguística directa. Nestes trabalhos Ekman tentou identificar a correlação entre um grupo limitado de expressões faciais universais e um conjunto definido de “emoções básicas”. A compreensão. Walter Cannon e Sigmund Freud podem ser considerados pais fundadores da moderna pesquisa sobre as emoções.2 individual. abstraídas de qualquer contexto. 1984) 2 . algo de interno aos indivíduos e conexo a uma base genética hereditária e universal. presente ainda hoje nas expectativas. que baseia as suas pretensões de eficácia transcultural no pressuposto da unidade biopsíquica dos seres humanos. Um exemplo clássico desta postura teórica. sem terem em conta as eventuais diferenças de género. descuidando o ponto de vista dos locais. não é interpretada como uma contradição da tese da universalidade das emoções. o contexto e as circunstâncias da experiência emotiva. universais e inatos. desinteressantes e inacessíveis portanto aos métodos da análise cultural 1 . mas. de terem submetido desenhos estilizados ou fotografias de caras. reduz-se à classificação das experiências e das narrativas dos outros no próprio horizonte lexical e categorial. caracterizadas por influências de tipo etológico e neurobiológico. É nesta posição que se coloca a psiquiatria transcultural norte-americana de derivação kraepeliniana. as emoções foram consideradas também pelos antropólogos como fenómenos naturais. ou seja a um exercício de tradução imediata entre as palavras de uma língua às palavras de uma outra língua. como o sinal da limitação das capacidades introspectivas e de averbamento emocional de alguns grupos humanos (nomeadamente os africanos e os negros americanos). censurando-os de terem seleccionado artificialmente algumas emoções “purificadas”. e no final de terem fornecido uma tradução não critica dos termos emocionais ingleses em outras línguas. nas atitudes e nos preconceitos de muitos dos técnicos dos serviços de saúde que se confrontam com migrantes. melhor. 1980b. 2 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . de se terem baseado numa identificação mecanicista entre movimento muscular e emoção propriamente dita.

posso afirmar que. às vezes. o prevalecer de um código somático indicaria um nível mais arcaico de expressão e elaboração emocional. ainda que. depende da dificuldade de encarar e compreender questões sobre as quais se reflecte localmente utilizando categorias muito diversas das nossas. Nas palavras de Leff : “as pessoas de países desenvolvidos apresentam uma bem maior diferenciação de estados emocionais em relação às pessoas que provêm de países em desenvolvimento” (Leff 1973: 305 – tradução minha). âmbitos de significados articulados logicamente e sem contradições internas. presente ainda hoje nos assuntos e nas práticas das ciências psicológicas ocidentais 3 . Os relativistas culturais. enquanto que. um evidente continuum caracterizaria a evolução do tradicional para o moderno e. A maioria dos antropólogos construcionistas tem assim descrito comportamentos emocionais culturalmente específicos em contextos etnográficos apresentados como terrenos puros e coerentes. 5 No meu trabalho de terreno dedicado ao vivido emocional entre os Bijagós da Ilha de Bubaque (Pussetti 2005). para o que concerne a experiência emocional. A verbalização emocional típica dos ocidentais – salientam as minhas entrevistas . afirmam que as emoções derivam da interpretação e da avaliação de um estímulo. encontrei um vocabulário das emoções muito complexo e uma requintada capacidade de comunicar os próprios estados interiores. O facto que esta modalidade de expressão emocional possa ser interpretada pelo psiquiatras ocidentais como sinal de um arcaísmo do grau de elaboração do próprio vivido interior. a teoria de Leff é ainda considerada absolutamente válida 4 . Vejam-se Bibeau 1978. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Ots 1990. variáveis como qualquer outro fenómeno cultural: não faz sentido portanto falar de emoções inatas e universais. ou seja de um processo de atribuição de sentido e valor historica e culturalmente específico. Podemos distinguir na teoria de Leff a presença de um modelo antropológico evolucionista. Neste sentido. Devisch 1990. Se para os 3 4 Veja-se Lilltewood e Lipsedge [1982] 1997. as emoções são consideradas como construções sociais. 1979. Desjarlais 1992. típico por exemplo dos africanos 5 .seria assim expressão de uma maior capacidade de introspecção e de uma melhor gestão do próprio vivido interior. Heelas 1996. através de expressões referidas a partes do corpo. Segundo esta teoria. pelo contrário. pelo contrário. de uma modalidade e uma expressão somática (própria das culturas menos desenvolvidas) a um léxico psicológico (próprio das culturas ocidentais). idênticas através das culturas e através do tempo. que todavia não têm um valor puramente somático. Dirven e Niemeier 1997. marcados por confins precisos e imóveis no tempo. sistemas de representações relativamente homogéneos. salvo raras excepções. Beneduce 1996.3 elaboração emocional” do psiquiatra cultural Julian Leff (1981: 66). Na base das minhas entrevistas em hospitais e centros de saúde vários em Itália como em Portugal.

mas é. Em 1993. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Os filósofos Robert Solomon e Claire Armon-Jones por exemplo afirmam que “a emoção não é um sensação mas é essencialmente uma interpretação” (Solomon 1984: 248 – tradução minha) e que “cada emoção é um produto sociocultural único e irreduzível” (ArmonJones 1986: 37 – tradução minha). no Hospital Avicenne. o antropólogo. historicamente situados e continuamente modificados pelas experiências diferentes e pelos discursos polivalentes que se encontram em cada indivíduo. 12 – tradução minha). do mesmo modo as suas perturbações não podem ser consideradas como objectivas e value-free. Tobie Nathan criou. sugerindo aos antropólogos de “trabalhar para libertá-las da psicobiologia” (Abu-Lughod e Lutz 1990: 10. examinar a dimensão cultural torna-se um passo fundamental para compreender as dimensões de significado que os modelos biológicos não conseguem colher e explicar. Lila Abu-Lughod e Catherine Lutz sustentam que “a emoção é só cultura” (Grima 1992: 6 – tradução minha) e que “longe do ser entidades psicobiológicas internas”. “práticas discursivas”. constituída por modelos de experiência adquiridos. 6 Psicólogo e psicanalista. discípulo do Georges Devereux. “performance sociais” culturalmente específicas (Abu-Lughod e Lutz 1990 – tradução minha). observa Catherine Lutz (1988: 8). fundou o “Centre Georges Devereux”. antes pelo contrário. “estilos culturais”. colocamos a psiquiatria transcultural clássica no filão teórico dos biologistas.4 biologistas a empatia é o instrumento privilegiado de compreensão transcultural – em virtude da comum humanidade -. na posição construcionista radical podemos colocar a etnopsiquiatria francesa à la Tobie Nathan 6 . Se a emoção não é independente da cultura. centro clínico-académico de investigação e apoio psicológico às famílias imigrantes. AbuLughod e Lutz chegam até a propor uma concepção das emoções como algo que “pertençe à vida social e não a estados interiores” (Abu-Lughod e Lutz 1990: 2 – tradução minha). já que não existe um terreno bio-psíquico comum de compreensão humana. No encontro com os próprios interlocutores. mas antes. as antropólogas Benedicte Grima. só pode desempenhar o papel de “tradutor”. Se pensando as formas de acompanhamento psicológico dos migrantes. para os construcionistas radicais o trabalho de terreno sobre as emoções dos outros acaba paradoxalmente por se tornar uma confirmação da incomensurabilidade da experiência humana. Aderindo a esta forma de construcionismo radical muitos cientistas sociais têm produzido afirmações discutíveis. as emoções são antes “construções socioculturais”. em 1979. o primeiro ambulatório de etnopsiquiatria em França. Nesta visão. nas palavras de Beneduce.

parece-me que quer as posições biologizantes quer as radicalmente relativistas acabam para se tornar muito problemáticas. permitindo “instituir . o xamanismo uma esquizofrenia disfarçada por superstições culturais. afirmam os etnopsiquiatras italianos Roberto Beneduce (2001) e Salvatore Inglese (2002). Se as emoções são exactamente as mesmas em cada lugar. Trabalhando como antropóloga na área da saúde mental dos migrantes. É neste sentido que. revela. dissimulado pelas prescrições locais. patologia psiquiátrica. Esta colonização cultural da psiquiatria estadunidense. objectiva e portanto culture-free. valores e ideologias” (Beneduce 1995: 17 – tradução minha). e a psiquiatria conseguiu identificá-las de forma cientifica. as outras representações da pessoa e dos seus limites. e em particular sobre as atitudes interpretadas como perturbações do comportamento emocional. ou ainda uma forma de controlo sanitário e moral sobre os outros. é definida como “experiência esquizofrénica dissociativa” e considerada. significados. as interpretações não ocidentais da doença. Ou que a linguagem da feitiçaria é interpretada num registro exclusivamente psicopatológico como psicose aguda de natureza persecutória com alucinações auditivas e visuais. metáforas.5 como “um conjunto de conotações. por exemplo. independentemente das maneiras através das quais os homens as avaliam intelectualmente e as vivem somaticamente.uma forma de imperialismo ocidental sobre as emoções dos outros” (Lynch 1990: 17 – tradução minha). ligada a temáticas religiosas e a crenças culturais (Ndetei 1988).nas palavras de Owen Lynch . no Diagnóstic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM-IV) da American Psychiatric Association (1994) a possessão zar. as distinções alternativas entre ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . No primeiro caso a tese da universalidade da vivência emocional justifica as pretensões hegemónicas das categorias diagnósticas e dos modelos interpretativos da psiquiatria euroamericana. baseada no pressuposto da universalidade das emoções. estudada já no 1958 pelo antropólogo Michel Leiris que trabalhou entre os Etíopes de Gondar. portanto. de forma evidente. portanto. Assim. a possessão espírita seria uma perturbação dissociativa mascarada por crenças e práticas religiosas. Nesta visão. as abluções rituais dos muçulmanos praticantes uma forma de distúrbio obsessivo-compulsivo. então a cultura nesta perspectiva só pode condicionar a interpretação destas mesmas experiências universais através dos óculos opacos das crenças locais. relações assimétricas de poder.

Muitas vezes. ou seja. por se tornar um instrumento de ratificação da incomensurabilidade da experiência humana. intraduzíveis e incompatíveis entre elas. cientificas. a perspectiva relativista acaba. Na base das ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . realçam todavia que também as perspectivas construcionistas ou relativistas podem revelar-se muito perigosas e politicamente discriminatórias. realçou os riscos gerados pela reificação do conceito de cultura e por uma culturalização excessiva dos instrumentos e das estratégias metodológicas dos antropólogos e dos psiquiatras que querem indagar as emoções humanas. reais e universais que só a psiquiatria ocidental conseguiu identificar. Corre-se. etnopsicologias. afirma Fassin. que podem ser ligadas a “crenças erradas e superstições mórbidas culturalmente específicas”. assim. situações que têm também outras raízes. Neste sentido. Este uso da noção de cultura – que postula a incomensurabilidade de mundos culturais diversos . considerar as culturas como irredutivelmente distintas.confina os outros numa “diversidade” fechada em si mesma e autónoma. de mediação e de confrontação. Assim. Em contextos quentes como os das políticas directas aos migrantes. pode assim acontecer que se reproduzam formas de racismo cultural. de facto. A este respeito. uma das principais revistas psiquiátricas.6 “normalidade” e “anomalia” são consideradas como maneiras culturalmente impróprias de interpretar a experiência humana (Fernando 2003). comportamentos. nos quais elaborar práticas clínicas inovadoras. propondo-se como as únicas com validade científica. dissimulando como questões culturais conflitos. “primitivas”. há questões objectivas. psicologias culture-bound.por definição construídas ao redor de presumíveis universais -. psicologias indígenas. a expressão mesma das suas necessidades. o médico e sociólogo Didier Fassin (2000). não é de admirar que no British Journal of Psychiatry. da expressão e da experiência emocional individual. as ciências da psique ocidentais . o psiquiatra Andrew Cheng (2001) chegue a afirmar que além da interpretação. Na sua opinião é evidente que as sociedades “menos desenvolvidas”. o risco de cair em derivas relativísticas: em vez de procurar ou inventar espaços originais de diálogo. reproduzindo assim o risco de guetizar os imigrados. podem relegar os outros saberes e práticas para a categoria de psicologias folk. lugares singulares de pesquisa. os conceitos de cultura e de diferença cultural foram empregues de maneira ambígua. As minhas investigações nos serviços de saúde mental específicos para migrantes. com inteligência escassa só podem ter um conhecimento limitado dos problemas mentais.

o fantasma da Raça disfarçado de Cultura. postula a reprodução das culturas especificas em guetos fechados em si mesmos e autónomos.7 minhas experiências de trabalho em três centros de etnopsiquiatria clinica posso também salientar que é precisamente nestes serviços específicos para migrantes que muitas vezes se utilizam noções estereotipadas. constituiu uma das práticas e teorias etnopsiquiátricas mais originais – acusando-o de considerar a “cultura” como uma entidade definida. antes em Bobigny e depois no Centre Devereux. que dissocia os cenários locais do sistema mundial assumindo frequentemente posições de relativismo absoluto. Como na sua visão é a mestiçagem ou o encontro cultural que gera patologias psíquicas. Fernando 2003). como um Kabyle com um kabyle” (Nathan 1994: 24 – tradução minha) tendo sempre em conta a identidade étnica dos migrantes. ocultando-o. como um Bambara com um bambara. continua Nathan. Nathan utiliza afirmações bastante criticáveis. históricas e políticas mais amplas. ataca abertamente Tobie Nathan – o etnopsiquiatria francês aluno de Devereux que. De facto. torna. Na palavras de Fassin esta atitude comporta. qualquer seja a sua história pessoal. porque. Por esta razão. essencializadas e biologizantes de “cultura” e “etnia”. delimitada por confins que tornam impossível a compreensão recíproca. “um Dogon será sempre um Dogon e um Bozo um Bozo” (Nathan 1994: 219 – tradução minha). do género “é necessário fazer o possível para agir como um Soninké com um paciente soninké. as instituições francesas deveriam “favorecer os guetos para nunca constranger uma família a abandonar o seu próprio sistema cultural” (Nathan 1994: 216 – tradução minha). Mountain e Koenig 2001. assumindo uma posição rigidamente relativistica. de facto. Muitos autores realçaram como a frequente sobreposição das noções de biologia e cultura nos programas terapêuticos para migrantes acaba para “naturalizar” as diferenças entre grupos (Lee. fechada. Fassin. confundindo de facto “cultura” com “raça”. sem considerar as dinâmicas sociais. no seu texto principal (L'influence qui guérit 1994). conceptualmente e metodologicamente difícil compreender a heterogeneidade e a indeterminação interna dos sistemas de representações que os indivíduos utilizam para construir criativamente e estrategicamente a própria identidade e as próprias emoções. e de procurar nesta “cultura” a origem e os remédios dos mal-estares dos outros. Para descrever a ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Nathan. em particular. A asserção da coerência das estruturas referenciais baseada numa abordagem essencialista da cultura.

encontramos panoramas complexos. como o psiquiatra cultural. Os indivíduos e as sociedades do mundo contemporâneo parecem ser sempre mais envolvidos em uma transição permanente: em lugar de horizontes culturais bem definidos. com as suas crises existenciais. observando com mais atenção os interstícios. sociais. O convite é de trabalhar bem conscientes das relações entre conhecimento. os paradoxos. é necessário imaginar uma abordagem diferente. em particular. sobrepondo-se à obrigação de pôr as traduções como um problema que é preciso enfrentar e não com uma solução tão rápida quanto superficial. com elementos periféricos marginais que invadiram os seus sistemas de representação. móvel e mutável. familiares. poder. pelo contrário. da multiplicidade dos factores em jogo (sociais. as suas experiências do mal estar. as suas representações. É neste panorama complexo. as ambiguidades e as incongruências que são partes constitutivas dos sistemas de significado. constroem a sua experiência interior combinando os códigos fundamentais das multíplices visões do mundo às quais aderem. tem que se mexer. já não podem assumir que os indivíduos habitam mundos circunscritos de experiências e significados que dão forma às suas respostas emocionais: os indivíduos. conflituais. Os antropólogos que se confrontam com migrantes. no qual múltiplos discursos coexistentes entram em contradição entre eles e os problemas sociais podem tornar-se sintomas. esperanças. as suas interpretações. que o antropólogo. rejeitando quer o determinismo psicobiológico quer o sociocultural. móveis e mutáveis. memórias. os margens. híbridos. conflitual. além de culturais) e bem concentrados sobre os indivíduos em si. emoções. políticos e económicos. e em particular com o mal-estar dos migrantes. autoridade e hegemonia. O confronto quotidiano com os migrantes. as próprias emoções e a própria experiência do mundo. ambiguidades.8 complexidade e as mutações da vida social e da experiência individual. obrigou-me a repensar também o conceito de identidade pessoal e as suas relações com as multíplices ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . que ofereça espaços de autonomia e de liberdade ao indivíduo. realçaram a importância de repensar as minhas ferramentas de trabalho para apreciar melhor a heterogeneidade interna dos sistemas de representação que os indivíduos utilizam para construir o próprio self. As minhas experiências de investigação na área da antropologia das emoções na Guiné Bissau e da saúde mental dos migrantes em Itália como em Portugal.

Esta abordagem permite de facto reconstruir os percursos de significação individuais e os processos de construção de e de negociação entre as identidades múltiplas das quais todos somos portadores. conexas a metanarrativas fragmentárias e a sistemas de referência flexíveis (Bibeau 1997: 57). revelou-se na minha experiência de investigação um método mais eficaz para compreender como cada indivíduo constrói relações originais com o próprio contexto de origem e com as suas identidades diferentes. que se encontra à sua disposição. sociais e económicas que ontem os obrigaram a migrar e hoje os bloqueiam nas margens da sociedade -. assim também em cada indivíduo coexistem sujeitos diferentes: nas palavras de Bibeau. permite aos meus interlocutores procurar o sentido do próprio percurso. muitas vozes falam nos indivíduos.não apenas da vida individual. Se cada cultura possui uma alma multíplice. A narração . participando de relações nas quais outros grupos e culturas são encontrados. instáveis e transitórios (Bibeau 1997: 55. por um lado.9 comunidades às quais as pessoas pertencem simultaneamente. Reconstruir as histórias de vida dos migrantes através das suas narrativas. anomalias. contradições e sobreposições de valores. que fazem de facto referência a esquemas que inevitavelmente produzem quebra-cabeças. atravessados. utilizando o conjunto amplo e híbrido de representações ou modelos culturais do self. na perspectiva metodológica da person-centered ethnography. contraditória. 57 – tradução minha) 7 . interpretam e transformam continuamente a própria identidade. Hollan 1997). Castillo 1997. Outra vez um panorama instável e contraditório com o qual antropólogos e psiquiatras têm que se confrontar: o mundo interior dos indivíduos. do presente como do passado e das mais amplas constrições políticas. selfexploration e self-alteration (Reddy 2001: 32). gerir as ligações contraditórias 7 Muitos autores salientaram a importância de uma abordagem centrada sobre o paciente (entre os outros. a códigos centrais de referência que geram estruturas de representações e cenários pragmáticos que podem ser amplamente caracterizados como móveis. mas também da memória familiar e colectiva. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Neste processo de auto-narração os indivíduos reconstroem. explorados e outras redes sociais percorridas e construídas. espaços vazios. William Reddy fala a este respeito de processos de self-making.

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com a própria família e a própria terra de origem e estabelecer relações originais entre as próprias identidades, por outro, revela-se como um acesso privilegiado para reconhecer dimensões “ocultas”, estratégias e interesses políticos e económicos, muitas vezes intencionalmente omitidos ou dissimulados na literatura sobre o argumento, mas importantes para compreender o que acontece quando se passa uma fronteira.

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Antigas afinidades na construção da diferença na diáspora: emigração e o resgate da herança cripto-judaica transmontana 1

Elsa Lechner CEAS, ISCTE elsa.lechner@iscte.pt

Trás-os-Montes é considerada uma região clássica de judeus convertidos, onde, ainda hoje, se encontra viva a memória dessa herança histórica perdida. Entre emigrantes transmontanos em França no final dos anos noventa, a identidade secreta dos judeus convertidos parece ter encontrado um contexto favorável de publicização que ganha reconhecimento crescente. Analisando a alteridade particular existente entre “judeus” e “lavradores” transmontanos, bem como a posição de Outro que os “judeus” ocupam nas comunidades a que pertencem, este texto identifica os factores distintivos das duas categorias sociais que separam uns transmontanos de outros. Visa-se assim compreender a reivindicação de uma origem judaica e os movimentos de resgate de uma identidade de descendente de judeus convertidos.

Palavras-chave: diferença.

Identidade,

migração,

memória,

alteridade,

Entre emigrantes transmontanos em Paris contactados no final dos anos noventa no âmbito de uma pesquisa sobre reconstrução da identidade em situação de emigração 2 , constatámos a presença de uma distinção, nas narrativas de alguns entrevistados, entre transmontanos “judeus” e transmontanos lavradores ou cristãos velhos. O tema dos judeus convertidos apareceu nas entrevistas como um discurso calado mantendo em silêncio, ao longo das gerações, uma distinção identitária pronta a revelar-se no contexto migratório. Comecemos com uma vinheta etnográfica retirada de uma das nossas entrevistas neste terreno:
Quando o barbeiro da minha aldeia morreu, ficámos todos espantados em ver que na sua campa no cemitério, a mulher e
Partes deste texto foram publicadas no artigo “Memória das origens e identidade social. Análise a partir de um caso português” in Encontro de Saberes, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa 2006, pp. 67-83. 2 Tese de Doutoramento defendida pela autora na EHESS, Paris 2003.
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as filhas puseram uma estrela de David em vez da cruz de Cristo. Eu não sabia que eles eram judeus… na minha altura não se falava no assunto…pronto, sabíamos que havia judeus em Trás-os-Montes mas não se falava nisso. Foi aqui em França que descobri muita coisa e segundo o meu primo nós também somos da raça dos judeus. (empresário transmontano em Paris, 1998).

Este excerto de conversa ilustra um facto recorrente entre alguns transmontanos que se dizem judeus por referência a uma “memória das origens” de antepassados convertidos à força ao catolicismo. Refugiados desde os finais do século XVI nas montanhas do nordeste português, estes “judeus” não estão organizados numa comunidade voluntária com um projecto étnico, nem têm uma cultura judaica consolidada. No entanto, e apesar das contingências adversas da história, muitos guardam vestígios e memórias de uma pertença presumidamente judaica que acompanha uma condição de alteridade e diferença nas comunidades a que pertencem. Esta, manifesta-se tanto nas formas de nomeação destes descendentes de convertidos, como na sua posição social, e também num sentimento de si que suscita movimentos de resgate da sua história colectiva e herança identitária. Mais do que “judeus secretos” de Trás-os-Montes”, estes descendentes de cristãos-novos são os guardiães de vestígios históricos herdados em silêncio e a expressão social de uma alteridade que remete os seus protagonistas para uma condição de Outro no seio da comunidade local. A herança do segredo confere-lhes uma consciência de grupo distintiva no meio social em que se inserem, e hoje suscita processos de construção ou reinvenção da identidade que conduzem à tentativa de recuperar sentidos históricos longínquos. Este processo de atribuição de sentido a uma herança perdida origina um diálogo entre identidade e memória exercido em contextos existenciais e políticos concretos que consubstanciam a identidade social dos “judeus” transmontanos.

Alteridade e diferença: nomes, pessoas e “animais analógicos”

Considerada pelos especialistas da história da Península Ibérica como uma região clássica de assentamento de “marranos” (Révah 1959), Trás-os-Montes é actualmente, do ponto de vista etnográfico, ainda o reduto de um passado histórico

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marcado pela presença de judeus refugiados de Espanha após o édito de expulsão de 1492, pelos reis Fernando e Isabel de Castela. Entre um sentido mais erudito e propriamente historiográfico da presença de judeus convertidos no território transmontano, e o significado antropológico da persistência de uma diferenciação de um grupo reportado a uma origem étnica judaica, os diversos termos utilizados para designar os “judeus” transmontanos, traduzem nuances conceptuais relevantes para a análise percorrida aqui. O termo marrano confunde-se com a raiz antropológica da identidade dos judeus convertidos e remete-os para uma condição de alteridade particular. Segundo o estudo clássico de Arturo Farinelli (1925), encontra-se no vocabulário espanhol de quinhentos e corresponde a um termo ofensivo (significando porco, em português) adaptado para denegrir, na época, os cristãos-novos de Espanha e de Portugal. O seu significado de origem parece não se referir à relutância dos judeus em comer carne de porco, mas antes exprimir um sentimento de desprezo com que é conotada aquela palavra também noutras várias línguas. 3 O significado que adquiriu posteriormente configura a adaptação a um contexto histórico que se tornou hostil à presença judaica na Península Ibérica. Forçados a converterem-se à religião católica desde que a Inquisição foi instituída em 1536, muitos judeus foram acusados de práticas de um judaísmo secreto. Vários autores utilizam a expressão “cripto-judeu” para designar membros de comunidades rurais portuguesas nas quais foram identificadas práticas de um judaísmo sujeito a forte erosão pela história de conversão dos seus antepassados. 4 Em Trás-os-Montes, e mais especificamente no Distrito de Bragança, os descendentes de judeus convertidos são apelidados de perro (cão, em português), ilustrando um facto antropológico identificado por Edmund Leach (1964) segundo o qual o uso recorrente de nomes de animais como injúria, cumpre uma função social de imposição de distância entre pessoas próximas. Claude Lévi-Strauss já havia pensado na utilização de nomes de animais entre os humanos, referindo que “… aos cães não damos um nome humano sem provocar um sentimento de mal estar, ou mesmo de pequeno escândalo […] Como animais “domésticos”, eles fazem parte da sociedade humana, mas ocupando uma posição tão baixa que não sonharíamos, seguindo o exemplo de
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Encyclopaedia Judaica, entrada « Marrano », Vol. 11, Jerusalém, p. 1018. Ver nomeadamente, Samuel Schwarz Os Cristãos Novos em Portugal no Século XX, Instituto de Sociologia e Etnologia das Religiões, Universidade Nova de Lisboa, 2000 [1925].

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alguns australianos e ameríndios, em chamá-los como se fossem humanos (…)” 5 (LéviStrauss 1962: 272). Nas aldeias e vilas do concelho de Vimioso, distrito de Bragança, onde coexistem estes dois grupos, mantém-se até hoje o distintivo de “terras de judeus”, aplicado quando se trata de espaços onde se concentraram ao longo do tempo grupos dedicados ao comércio e à indústria artesanal de curtumes (as pelicarias). Na descrição dos próprios sobre as especificidades destes ditos “judeus”, relatam-se as suas viagens pelos montes, montados numa mula, vendendo produtos alimentares e bens essenciais que os lavradores não produziam. Os homens perros eram também artesãos, sapateiros, latoeiros, carpinteiros ou alfaiates, enquanto as mulheres trabalhavam como tecedeiras. Em geral eram letrados e escolarizavam os filhos, ao contrário dos lavradores mais necessitados da mão-de-obra dos seus descendentes nos campos. No final dos anos 90 do século XX, observava-se ainda uma compartimentação no espaço físico da aldeia de Carção, com os comerciantes instalados no centro, na praça, perto da fonte e da rua principal, e os lavradores sobretudo na periferia do burgo, perto dos campos que cultivavam. A organização urbana e a economia política locais exprimem assim uma alteridade em que se foram reproduzindo e perpetuando as posições ocupadas pelos dois grupos de oficiais e lavradores economicamente interdependentes. A par desta estratificação sócio-económica, a população local refere estereótipos físicos e comportamentais que contribuem para reforçar a divisão criada. Os dois grupos auto-distinguem-se atribuindo-se características fenotípicas específicas, sendo a aparência física dos “judeus” associada a cabelos ruivos, pele sardenta e olhos claros. Este estereótipo coincide com a imagem clássica do “judeu vermelho”ou “judeuruivo”, analisada na tradição cristã europeia por Claudine Fabre-Vassas (1994). Eles são o Outro mais diferente dos outros, ou seja uma figura de alteridade extrema, remetida para um limiar de aceitação na fronteira com o animal. Assim, tal como o termo perro constitui uma rejeição linguística daquele que é designado literalmente de “cão espanhol”, o estereótipo físico do “judeu ruivo” traduz a condição de Outro, próximo do animal, a que a tradição cristã sempre tendeu a remeter os judeus. Esta iconografia

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« Comme animaux domestiques, ils font partie de la société humaine, tout en y occupant une place si humble que nous ne songerions pas, suivant l’exemple de certains Australiens et Amérindiens, à les appeler comme des humains… »

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surgiu na Europa medieval expandindo-se numa imagética popular e médica que diagnosticava um laço “de natureza” entre “a raça maldita” e o animal porco. Nos dados etnográficos recolhidos junto de transmontanos, encontra-se este saber estereotipado sobre si próprios utilizado como forma de afirmação identitária e de demarcação. Mas esta não corresponde a uma cultura judaica, fazendo com que o que caracteriza a diferença destes ditos “judeus” é a referência às origens étnicas herdada ao longo das gerações em silêncio. Ou seja, a insistência na demarcação identitária participa aqui do carácter do segredo, que é um saber à parte, de que as novas gerações são depositárias sem conhecer os respectivos conteúdos culturais. O que os interlocutores entrevistados no terreno dizem sobre si é um saber marcado pela dispersão e pela fragmentação de referências ao judaísmo dos seus antepassados. A maior parte fala da sua cultura de converso na terceira pessoa do plural “eles”, para depois dizer, em tom de aceitação ou revelação que “nós também somos judeus” (Lechner 2002). Os mais idosos relatam costumes dos membros “da família de Moisés” como os bradórios ou velórios de quatro e cinco dias consecutivos, em que se acendiam velas em torno do morto, se faziam rezas próprias e se colocavam pedaços de pão sobre os cantos das mesas. Tudo era feito às escondidas dos vizinhos, na mesma lógica de segredo que deu origem à bola tosca e às alheiras transmontanas. O isolamento das montanhas transmontanas, permitiu aos judeus convertidos conservar e transmitir estes vestígios de um passado escondido que reaparece através de rastos e fragmentos etnográficos quase crípticos. Mas a herança do segredo histórico como factor constitutivo de uma identidade social de “judeu”, suscita ainda processos de reconstrução da identidade em forma de identificações com parentescos intelectuais, espirituais, e com novos laços de casamento ou de amizade, para os quais a emigração contribui de forma decisiva. De forma consciente ou inconsciente as novas gerações criam as condições de possibilidade de reconstituição e publicitação deste aspecto importante da cultura transmontana e portuguesa. À semelhança do que mostra Frédéric Brenner no seu documentário “Les Derniers Marranes” realizado em Belmonte em 1990, o que resta desta memória identitária é o segredo histórico transformado em práticas residuais que persistem em segregar o grupo da comunidade. Este efeito de segregação não resulta do facto de se ter tratado de práticas judaicas ou “judaizantes”, num passado longínquo, mas sim da

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que na realidade se perdeu para a maioria do grupo. culturais e políticos específicos. ou entre transmontanos da diáspora. são vestígios e memórias de uma pertença identitária reinventada de forma pontual a partir de fontes dispersas. se encontram obliteradas no caso dos descendentes de marranos de Trás-os-Montes enquanto “judeus”. de forma evidente.6 persistência das manifestações de um segredo herdado que funciona como marca identitária. ao mesmo tempo. a percepção e a memória conservam uma função ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . a afirmação de uma identidade assenta em identificações continuadas que. Trata-se de uma marca de seres à parte. Em função de contextos históricos. Mas mesmo quando registadas pela negativa. diferentes tipos de identidade ressaltam tipos distintos de diferenças e de diferenciações entre o Eu e o Outro. A sugestão deste transmontano de que o futuro da sua cultura está comprometido. que a emigração potencia. a diferenças categorizadas. como em Trás-os-Montes. sublinha o facto de que a memória histórica é aqui quase fantasmagórica. As formas sociais e os conteúdos culturais que determinam identidades humanas são complexas e radicam na dimensão temporal. que havia frequentado a Sinagoga inaugurada nos anos 1930 pelo Capitão Barros Basto (“O Apóstolo dos Marranos”) e que havia convivido de perto com o rabino. De um ponto de vista antropológico. apenas recuperável na pesquisa historiográfica e/ou num trabalho de arqueologia identitária. Essa a razão pela qual uma reconversão ao judaísmo não é sequer procurada ou desejava pelos que. Neste caso é a obliteração identitária que é incorporada como traço distintivo dos auto-denominados “judeus de Trás-os-Montes” como ilustra um episódio ocorrido durante o meu trabalho de campo em Bragança onde um entrevistado que me havia sido apresentado como sendo “a pessoa” que conhecia as ladainhas marranas. herdaram da sua perda histórica O que se encontra hoje no distrito de Bragança. também ela dinâmica. “do passado já não me lembro e o futuro já passou”. nestes territórios. relatou de forma evasiva os costumes da sua herança afirmando. mais do que de um saber à parte. Origens e identidade social: vestígios e memórias de uma pertença Qualquer identidade é necessariamente construída por referência a uma alteridade.

que as vozes singulares (ou com ressonância plural) estão impedidas de agir socialmente e de ter consequências práticas na construção da memória no presente. É importante notar que a imaterialidade da herança dos descendentes de judeus convertidos não é desobjectivada e não deixa de fazer parte da construção identitária dos seus depositários. no seio da própria comunidade a que se pertence.7 identitária que não pode deixar de ser tomada em conta num estudo antropológico. É importante. Esta última podendo ser a pequena aldeia transmontana de peliqueiros onde o “judeu” é o perro. que define esta forma particular de ser “judeu”. porém. segundo a qual a identidade étnica se baseia na crença numa origem comum. políticos. em função dos interesses de quem detém algum poder de publicitação: intelectuais. artistas. Rejeitando uma visão essencialista da etnicidade. a intelligentsia bragançana onde muitos se dizem algo “judeus”. e um entendimento da etnicidade como categoria de definição identitária impermeável ao tempo e à história. onde outros se descobrem ou reinventam “descendentes de judeus convertidos”. aqui ressalvar a diferença entre a auto-referência destes transmontanos à origem étnica como fundadora da sua identidade. personalidades carismáticas. ou a comunidade de emigrantes transmontanos da região de Paris. É justamente a falta de referenciais tangíveis. torna-se pois necessário compreender o sentido desta persistência de uma reivindicação codificada por referência a uma herança histórica perdida. jornalistas. ou de ser o Outro. Esta faz-se de forma personalizada e potencialmente politizada. podemos apoiar-nos na definição proposta por Max Weber (1956). Não é porque os contextos de vivência das pessoas possam ser surdos ou impermeáveis à experiência privada. torna-se relevante para que a questão das origens possa ser considerada decisiva na definição da respectiva identidade. a par da ausência de uma transmissão transgeracional articulada e continuada. O comentário em voz off da herança de um passado enterrado no tempo transforma os testemunhos privados de muitos transmontanos numa reapropriação articulada da história que permite a transmissão lúcida no seio da comunidade. Se o que resta aos descendentes de judeus convertidos de Trás-os-Montes é o rasto de uma pertença étnica judaica que se mantém todavia presente na definição da sua identidade social. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . O facto de um importante número de transmontanos assumir uma identidade social a partir da crença numa origem étnica judaica.

passou-se para um domínio público de visibilidade de uma herança colectiva. produziu no Ocidente uma nova maneira de conceber e de pensar a identidade humana. coincidiram com a emergência de discursos públicos regionais. por referência a uma origem absolutamente identificada nos judeus vindos de Espanha depois de 1492. de reconstrução da identidade. muitas vezes isolado. Mas a este propósito. com a preocupação de se tornarem “eles mesmos” num projecto. a vivência de um luto. é de notar também que o impacto cultural e económico da emigração. ou crise existencial. Este passou a ser palco de uma crescente autonomização das consciências individuais e de uma ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Os mesmos 500 anos que separaram os judeus convertidos da tradição dos seus antepassados.8 Em Trás-os-Montes. Movidos por uma consciência agudizada em contextos de ruptura biográfica como a emigração. os perros dizem ser “da raça dos judeus”. oferecendo à análise uma categoria que na realidade encobre o que realmente os define como “judeus” e que assenta num complexo jogo cruzado entre identidades históricas e interesses sociais e pessoais. Do espaço privado das memórias familiares. dando voz à herança histórica marrana. então. O deficit de capital cultural judaico destes judeus baptizados e convertidos ao catolicismo remete. Nomeadamente em Carção e Argoselo. desembocaram numa modernidade que estabeleceu o princípio da subjectividade como estrutura da relação dos sujeitos com o mundo e consigo próprios (Giddens 1991). em que alguns se lançam ao trabalho de tecer os laços desfeitos do passado. Os casamentos mistos apenas surgiram com as transformações sociais resultantes da emigração. e mesmo nacionais. interrogam-se sobre a descontinuidade que os habita tornando-se assim agentes activos do seu ser no mundo. a questão das origens para o domínio daquilo a que chamamos “memórias de uma pertença”. O presente da memória: tecer os laços desfeitos O longo movimento histórico que se iniciou com as descobertas do século XVI. bem como os efeitos da implementação da democracia em Portugal. estes escultores do presente. as estratégias de preservação da diferença assentaram em acordos tácitos reproduzidos ao longo das gerações. contemporâneas da expulsão dos judeus de Espanha.

org criado por uma descendente de portugueses cristãos-novos emigrados na África do Sul. Num movimento de retorno ao passado e ao mesmo tempo de descoberta de si. ou da criação de uma identidade edificada pela palavra – no sentido lacaniano de parole 6 – e pelo gesto – como sugeriu Merleau-Ponty 7 –. na emigração e em Trás-os-Montes. À procura de um sentimento de si enraizado numa história familiar herdada com falhas. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .saudades. Também desde os anos 1990 se observa o surgir de associações internacionais de estudos cripto-judaicos. como o site www. e de história do judaísmo na Península Ibérica. Estes são espaços tanto virtuais como reais de estudo e troca de informações entre pessoas que se identificam com a problemática da reconstrução de uma identidade de descendentes de judeus convertidos. muitos se reúnem em fóruns electrónicos de encontro e partilha de experiências. bem como congressos anuais onde procuram construir o presente. que reaproxime as distâncias criadas. é em função dos novos contextos multi-referenciais dos nossos dias que a identidade dos descendentes de judeus convertidos se define. e porque a identidade é uma relação processual e não uma coisa em si ou uma qualidade fixa de alguém ou de um grupo. e a experiência generalizada de ruptura com tradições. É nesta dimensão subjectiva da reinvenção de si. que o sentimento de pertença identitária se consubstancia. com vista a garantir o futuro da sua família simbólica. As fronteiras da identidade e da memória definem uma dimensão quase “natural” dos contextos de pertença dos indivíduos. Sob 6 7 Acto de simbolização subjectiva. A persistência da sua crença numa pertença étnica judaica contrasta com a descontinuidade entre uma presumida origem “natural” judaica e uma cultura cristã imposta pela história. Não conta para os descendentes de judeus convertidos de Trás-osMontes o facto de não se constituírem como uma comunidade voluntária assente numa cultura específica. que caracterizam os grandes desafios actuais das identidades juntamente com a crioulização global das humanidades contemporâneas (Glissant 1996). em situações de ruptura como a conversão religiosa do passado ou a imigração dos nossos dias. Neste contexto. No sentido de “consciência incorporada” de um corpo-sujeito. de tal modo que. se torne necessário todo um trabalho de reelaboração. organizam viagens a Portugal e a Espanha.9 secularização da vida humana incorporando a aceleração de criação de novidades no quotidiano.

« Pleins Silences ». Max. 1956 [1971]. Paris. FABRE-VASSAS. Difel. pp. num outro lugar. Paris. 1958. LÉVI-STRAUSS. PINA CABRAL. Phénoménologie de la Perception. 1989. 1994. 1980 [1964]. SCHWARZ. Sigila. 11. Edmund. « Les Marranes ». Instituto de Sociologia e Etnologia das Religiões. Paris. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Plon. Cambridge. PINA CABRA. Em Terra de Tufões: dinâmicas da etnicidade macaense. não deixa indiferente quem assim descobre poder ser o autor de si mesmo e nascer para uma condição humana que ultrapasse o acidente biológico. LECHNER. La Bête Singulière: les juifs. Introduction à une poétique du divers. WEBER. GIDDENS. Isaac. Le Seuil. FARINELLI. Paris. 1945. MERLEAU-PONTY. Les Gardiens du Secret. vol. Polity Press. CXVIII/1. 1925. 17-27. João.10 o risco de uma condição humana “descosida” de si. Paris. pp. 1966. 321361. Universidade Nova de Lisboa. Paris. 29-77. Paris. TheHuman Condition.9. La Pensée Sauvage. Hanna. entrada « Marrano ». 2000 [1925]. Lisboa. Gallimard.Os Cristãos Novos em Portugal no Século XX. pp. 1996. 2002. Economie et société. Modernity and Self-Identity: self and society in the late modern age. Macau. Vol. Samuel. Num outro tempo. Elsa. LEACH. Gallimard. Encyclopaedia Judaica. Claude. Gallimard. GLISSANT Edouart. L’unité de l’homme et autres essais. p. Paris. 1959. 1993. Os Contextos da Antropologia. Écrits. Maurice. 1925. 1962. RÉVAH. Claudine. Plon. mesmo que esta última seja uma ruína e o retorno uma viagem. João e Nelson Lourenço. a descontinuidade que atinge os “órfãos de cultura própria”. Referências Bibliográficas ARENDT. Gallimard. Instituto Cultural de Macau. 1018. pode-se “retornar a casa”. Arturo. Paris. Jerusalém. Jacques. The University of Chicago Press. Anthony. les chrétiens et le cochon. Marrano : storia di un vituperio. Revue des Etudes Juives. “Fonction et champ de la parole et du langage”. LACAN. 1992. Firenze. Gris.

O trabalho que hoje apresento integra-se numa investigação em curso sobre a integração de Portugal na rede transnacional de imigração marroquina e sobre a permeabilidade da fronteira luso-espanhola por parte destes sujeitos migrantes. religião. Nina Clara Tiesler pela possibilidade de participar neste Congresso. mais que constatar dados. levou a que diferentes investigadores chamassem a atenção. Assim.gomesfaria@uam. XIV (1).Participação marroquina na construção da comunidade muçulmana em Portugal ° Rita Gomes Faria Universidad Autónoma de Madrid ∗ rita. venho referir hipóteses num momento concreto da investigação. num momento de saturação dos países que tradicionalmente recebem imigrantes marroquinos.es Nesta comunicação aproximar-nos-emos. Muito bom dia. ∗ Esta conferência integra-se numa investigação em curso no âmbito da pesquisa de doutoramento em realização na Universidad Autónoma de Madrid financiada pela Fundação para a Ciência. religião e comunidade”. imigração. “Islam en lusophonie” (2007) com o título “Marroquinos em Portugal: imigração. A análise dos resultados da regularização extraordinária de imigrantes realizada em Portugal no ano de 1996. Palavras-chave: integração. Vol. históricos e religiosos que funcionariam como factores de integração. O interesse pela investigação do fenómeno da imigração marroquina para Portugal surge pela possibilidade de completar o quadro visual sobre Uma versão desenvolvida desta conferência poderá encontrar-se na revista Lusotopie (Brill). para a aparição inesperada de regularizados de nacionalidade marroquina. Tecnologia e Ensino Superior (Portugal). ao fenómeno da imigração marroquina em Portugal. de forma muito sucinta. Tentaremos compreender se. ainda que subtilmente. antes de começar gostaria de agradecer à Associação Portuguesa de Antropologia e principalmente à Prof. marroquinos. Portugal pode constituir uma alternativa considerando alguns elementos sociais. comunidade. ° ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .

Como sabemos. em Portugal a questão da imigração marroquina constitui uma novidade. mas também pelo facto de Portugal não constituir um destino final do processo migratório. observando desde a perspectiva espanhola. Pela existência de uma relevante bolsa de imigrantes marroquinos irregulares que não se encontram contabilizados pelas instituições oficiais. No relatório sobre as migrações mediterrâneas publicado pela Comissão Europeia (Fargues 2005). o acesso a um documento oficial que lhes permita uma residência legal em Portugal (inclusive para aqueles que esperaram os dez anos necessários para receber a 1 A única investigação até agora realizada sobre o tema encontra-se publicada: CABRAL 2003. Discutindo a questão com alguns dos informantes desta investigação eles próprios se negam a acreditar na sua validade. o Ministère des Affaires Étrangères et de la Coopération marroquina contabiliza 2866 marroquinos a viver em Portugal. também Portugal parecia ser a alternativa lógica a uma certa saturação do mercado espanhol 1 .2 imigração marroquina na Europa mas também. os imigrantes que tradicionalmente se dirigem para Portugal são originários dos chamados PALOP e do Brasil. Bélgica e a Alemanha fecham as suas fronteiras à imigração. por nos parecer que Portugal poderia ser a sequência directa da evolução do fenómeno – tal como Espanha e Itália vão estabelecer-se como destinos para estes migrantes no momento em que países como a França. a população marroquina seja uma das mais importantes dentro da comunidade imigrante. e por outro a aparição e crescimento (constante mas discreto) de pessoas provenientes do norte de África. Segundo os próprios sujeitos. Holanda. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Marroquinos em Portugal Ainda que se encontre relativamente perto de Marrocos e que no seu principal país vizinho. principalmente de Marrocos. Espanha. mas as regularizações extraordinárias dos anos 90 apontam para um fenómeno que posteriormente se confirmou com o processo de pedidos de autorizações de permanência do ano 2001: por um lado a nova presença massiva em Portugal de cidadãos oriundos de países do Leste da Europa. dos quais 778 estão contabilizados pelo Serviço de Estrangeiros e Fronteiras português como detentores de uma autorização de residência e os restantes de autorizações de permanência.

de recepção de imigrantes muito limitada). vários são os acontecimentos (simultâneos) que “empurram” os nacionais marroquinos para os países europeus: A) a guerra de independência argelina provocou o regresso a França das empresas instaladas na região norte da Argélia. que vão abrir os primeiros canais de imigração (pendular) massivos. B) durante a mesma época. o que levou ao seguimento dos trabalhadores rifenhos para o território francês. C) mas as principais saídas são provocadas pela assinatura dos primeiros acordos de mão de obra entre países como a França. atrás dos seus empregadores. Os primeiros marroquinos que chegam à Europa são comerciantes que se instalam em França e em Inglaterra pela metade do século XIX.3 nacionalidade) permite-lhes atingir o seu objectivo final que é a “verdadeira Europa” – França. a Alemanha. Como alternativa os trabalhadores marroquinos dirigem-se então para países como a Líbia e a Arábia Saudita (com uma capacidade . a Holanda e a Bélgica. e principalmente a partir do boom económico do pós-II Guerra Mundial. de assentamento e de diversificação de destinos. e por outro o aumento das entradas irregulares. pais onde a maioria tem família já instalada. Os anos 70 do século XX assistem à grave crise de petróleo que provoca o fecho das fronteiras europeias e o inicio da chamada “imigração zero”. e para Espanha e Itália que demonstram ser regiões nas quais era possível (principalmente devido à inexistência de uma legislação relativa aos movimentos de imigração) a permanência daqueles que não conseguiram passar as fronteiras do norte ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Holanda. Por essa altura dirigiam-se a países do Médio Oriente e da África ocidental. Os países do norte e centro da Europa mantêm um único canal de imigração aberto através do reagrupamento familiar (primário e secundário) o que provoca por um lado uma estabilização das populações. Já no século XX. A imigração marroquina na Europa Os movimentos migratórios marroquinos remontam a épocas anteriores ao período colonial.de recursos e de interesse político . Alemanha. Marrocos vive um momento de explosão demográfica o que acentua um certo desequilíbrio entre a população e os recursos naturais e económicos do país. O fenómeno entra numa segunda fase.

“MAI de Marrocos em Lisboa” edição de 17-05-1997. 4 Ver por exemplo Público. consideramos. Nestes anos 70 e 80 Portugal ainda não era considerado um destino mas a crescente politização e mediatização (além do tratamento negativista do tema que os media espanhóis estão a desenvolver e da preferência pela imigração originária da América do sul e de países do leste europeu) da questão migratória que verificamos a partir dos anos 90 em Espanha 3 . 1993. inicialmente que Portugal poderia (potencialmente) como um destino alternativo baseando-nos em alguns supostos que poderiam funcionar como meios de integração positiva dos marroquinos por parte dos portugueses: A) uma certa construção da identidade nacional baseada na capacidade de adaptação ao outro resultante da experiência histórica do contacto cultural (na boa tradição do luso-tropicalismo). página 2-3. 1994. edição de 26-01-1993. levou-nos a pensar que Portugal poderia ser o próximo passo. “Acordos com Marrocos”. também. 1997. formam-se claramente por indivíduos que não ultrapassaram a fronteira com França e que ficaram a trabalhar na Catalunha (que no final dos anos 70 indicava um aumento da industrialização e que por isso agradecia estes novos trabalhadores). 2 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . O potencial integrador Por outro lado. como por exemplo a pesca. A imigração foi muito utilizada pelo PP como instrumento n luta económica e politica com o governo do Reino de Marrocos em debates sobre distintas temas. “Portugal e Marrocos inauguram cimeira anual” edição de 30-05-1994. como David Lopes (responsável pela institucionalização do arabismo em Portugal) No caso espanhol os primeiros assentamentos de marroquinos realizam-se na Catalunha. Público. D) e por último a forma como os últimos governos portugueses têm tentado recuperar estas distintas tradições para a construção de um papel de mediador politico entre a Europa e o mundo árabe. B) a tradição do arabismo português que procura aproximar-se da academia europeia orientalizando parte do próprio território português. C) a recuperação da presença “árabe” no território e identidade portugueses através da redignificação dos espaços arqueológicos do Al-Andalus. Cardeira da Silva recorda numa publicação recente (Cardeira da Silva 2005).4 economicamente mais vantajoso (Teim 1996) 2 . página 24. Público. página 9. tendo o governo marroquino como interlocutor do outro lado do mediterrâneo 4 . Ver também o jornal Público nos dias posteriores aos atentados de Madrid de 10 de Março de 2004. Ver TEIM 1996. 3 Visível principalmente durante o governo do Partido Popular que assumiu a luta contra a imigração irregular como um dos seus principais papéis ante a União Europeia e para tal a imagem da patera como metáfora dessa irregularidade.

de ponte de diálogo que a proclamada genética diversa (árabe. a presença dos próprios portugueses em Marrocos e a presença dos portugueses no Oriente. nessa encruzilhada entre a Europa e os países árabes. procuraram personificar o papel do mediador de conflitos. num multiculturalismo tolerante que ascende à idade média) permite.5 definiu o Portugal histórico através de três dimensões “paranacionais”: a presença dos árabes na Península. exteriores ao mundo lusófono e integrados em trajectórias migratórias globalizadas. associam a redignificação da imagem dos árabes na história e identidade nacionais servindo por um lado uma folclorizaçao e reinvenção da memória. A nível local. Lagos e Sintra. Castro Verde. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Até que ponto esta recuperação da essência árabe na identidade nacional leva a uma real facilidade de integração dos árabes (marroquinos) contemporâneos que escolhem este pais para residir? O contexto de integração Os imigrantes marroquinos que se encontram em Portugal enquadram-se perfeitamente como sujeitos do que Tiesler (2005) chamou a pós-descolonização. Aí se encontra o stock identitário tradicional que se pode conjugar com o imaginário do exotismo árabe economicamente operacional. judaica e crista. E como no pós-25 de Abril de 1974 o processo de reconstrução nacional e de desenvolvimento económico regional passou por uma exploração do potencial turístico e económico que os vestígios e a herança árabes poderiam implicar. Castro Marim. Silves. uma nova fase de imigração caracterizada por novos padrões de imigração independentes do passado colonial. Mértola abriu caminho para que as regiões norte e sul do país se apercebessem das vantagens da reabilitação de material arqueológico sempre sustentado por uma promoção turística do mesmo através da escenificaçao da vida quotidiana em feiras e mercados da época do Al-Andalus. 5 Fez e Marraquexe transformam-se nas cidades guardiãs de uma identidade que pode ser explorada economicamente para aproximar-se do ideal imaginário dos portugueses. Mértola. mas também uma dimensão política de encontro com os países árabes do mediterrâneo 5 . E a nível nacional diversos governos portugueses. Cacela Velha.

uma instituição constituída principalmente por indivíduos oriundos das antigas colónias portuguesas que se esforçaram desde o inicio na construção de uma relação positiva e apolítica com o Estado e com a sociedade de acolhimento(Tiesler 2000). Os anos 90 observam uma diversificação das origens dos imigrantes muçulmanos mas estes “pioneiros” permanecem como porta-voz da comunidade. e em muitos casos o seu próprio percurso individual é marcado pela transnacionalidade.que em muitos casos desenvolvem paralelamente actividades económicas (Freire 1999).numa adaptação à nova realidade através de subalternização da etnicidade. No entanto.6 O colectivo com o qual trabalhamos nesta investigação é constituído por pessoas que seguem um padrão de imigração por imperativos económicos. os imigrantes económicos irregulares e os estudantes . elaborando agora um discurso universalizante do Islão e integrador dos distintos membros da umma (Mapril 2005) . Participação na comunidade islâmica Quando os marroquinos chegam a Portugal encontra-se já constituída a Comunidade Islâmica de Lisboa. o circuito da imigração e a forte mobilidade vivida por todos os sujeitos levamnos a participar da comunidade transnacional marroquina – quase todos têm membros da unidade familiar dispersos pelo mundo. Estes grupos não são uniformes. As trajectórias da maioria dos informantes caracteriza-se por uma forte mobilidade e em geral a sua presença em Portugal está marcada por uma temporalidade associada a um objectivo. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . As relações que os nossos informantes constituem no pais de acolhimento são circunstanciais partilham elementos étnico-culturais que contextualmente os afirmam a todos como marroquinos mas existem numa distância já que entre os diferentes indivíduos ou colectivos não se criam tecidos que os unam a todos como comunidade em Portugal. No entanto. este Islão como fenómeno mundializado encontra-se sujeito a fenómenos como a individualização da relação com a religião e a comunitarização do grupo religioso. como Roy (2003) afirmou. principalmente pela Europa. Dentro do universo dos marroquinos que vivem em Portugal podemos encontrar distintas categorias: os imigrantes económicos regularizados.

Ainda que a participação na vida religiosa da Mesquita Central de Lisboa seja praticamente nula. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .7 A vivência dos marroquinos em Portugal provoca uma transformação na sua religiosidade – na forma como estes indivíduos vivem a sua relação com a religião (Roy 2005). Observa-se um distanciamento do principal protagonista do Islão em Portugal – a Mesquita Central e a Comunidade Islâmica de Lisboa (com cuja identidade e discurso não se sentem identificados) – e uma privatização do Islão ou uma participação em comunidades religiosas particulares. principalmente feminina. Ramírez (1998) refere. não impede a sua integração na comunidade a nível local. como o contexto de saída condiciona uma situação determinada da mulher no país de imigração. O espaço da mesquita de Lisboa não se traduz num elemento catalizador das sociabilidades e configurações identitárias destes marroquinos que vivem em Lisboa. em pequenos locais de culto nos arredores de Lisboa (como no caso do local de culto de Forte da Casa) ou noutras regiões do país é mais activa (como é o caso do local de culto de Faro para cuja criação há cerca de quatro anos diversos imigrantes marroquinos participaram activamente 6 ). O sistema de estratificação de género em Marrocos define que o projecto de vida feminino é dependente do masculino 6 No Verão do ano 2005 a Comunidade Islâmica de Lisboa não tinha sequer informação da sua existência. distinta e imediatamente associável à religião islâmica. Visibilidade e religiosidade feminina Segundo os próprios informantes há um outro elemento que os distancia da comunidade islâmica portuguesa: uma imagem exterior. O facto de representarem uma diferença em relação aos representantes dos muçulmanos em Portugal. O lenço é instrumentalizado por algumas destas mulheres de múltiplas formas numa estratégia de integração na sociedade de acolhimento mas também de manutenção de direitos e de um determinado estatuto num contexto diverso ao da sua sociedade original. Existe uma dissociação para com as actividades da mesquita central e para com o culto o que impede uma prática religiosa quotidiana. Os sujeitos elaboram um discurso politico sobre a realidade da mesquita central que é o local de reunião de africanos e indianos e não de árabes ou magrebinos. para o caso da mulheres marroquinas em Espanha.

com o nascimento das primeiras crianças em Portugal e com a criação das primeiras associações de imigrantes marroquinos. num contexto de incorporação ao mercado de trabalho (subalterno) referem como o lenço lhes permite participar e auxiliar a economia familiar. auto-orientalizam e personificam a imagem de árabo-muçulmanas nas festas “árabes” e nas feiras de artesanato oriental regionais que se realizam principalmente durante o Verão e que fazem reviver. Notas finais Portugal resulta ser um contexto difícil para a imigração marroquina. podendo a condição feminina ser estrategicamente manipulada. principalmente as que não realizaram um trajecto imigratório individual e cuja presença no terreno da imigração resulta da reagrupamento familiar.8 mas parece ser que a imigração permite uma adaptação da condição feminina e das restrições culturais à mobilidade feminina. Por outro lado Abranches (2005) observa em Portugal como as mulheres muçulmanas imigrantes utilizam as transformações características da sociedade ocidental na (re)construção das duas identidades. a época da presença árabe em Portugal. No entanto estes sujeitos parecem mais interessados na participação na comunidade muçulmana transnacional do que na construção de uma comunidade em Portugal. muitos deles em situação de irregularidade ante a legislação portuguesa. O lenço é então utilizado na luta pela recuperação de um papel dentro do espaço íntimo da casa familiar. No entanto até há três anos atrás parecia que este fluxo estava a entrar numa segunda fase. Outras. O reduzido número e a dispersão territorial dos nacionais marroquinos que vivem em Portugal dificulta a constituição do que se pode chamar uma comunidade de marroquinos no país. Algumas mulheres. Algumas destas mulheres. por exemplo. instrumentalizam o papel da mulher muçulmana de forma a recuperar direitos que consideram que estão a perder em contexto imigratório. O colectivo de marroquinos que vive em Portugal ainda é maioritariamente constituído por homens. e “mercadorizam”. numa tentativa de conjugar fidelidade às origens mas também modernidade e autonomia pessoal. agora transnacional. Este país continua a ser manipulado como um passo num ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . com o inicio de processos de reagrupamento familiar.

). CARDEIRA DA SILVA. segundo os informantes. Philippe (ed. a “verdadeira” Europa. (Loubna. edições Universidade Fernando Pessoa... a comunidade islâmica.. Vivências e trajectórias de mulheres em Portugal. é só sair à rua que ficam todos a olhar para mim. Rapport 2005. Sabes. há três anos a viver em Portugal) Nesta transcrição podemos observar a distância que existe entre a recuperação da memória histórica do legendário passado árabe na identidade portuguesa e a dificuldade de integração da realidade dos marroquinos contemporâneos que vivem no país. todos te perguntam de onde é que és. Uma vez com a Karima na rua uma senhora tirou a cabeça pela janela do carro e chamou-nos terroristas.. FARGUES... ou se vais aquelas feiras onde ela vai com o marido. pp. SOS Racismo.9 projecto migratório que se quer terminar em França ou na Holanda. países que constituem. 2005. Migrations Méditerranéennes. CABRAL.. não querem saber do que dizem dos árabes. ele é do Paquistão e na mesquita falam todos português. Lisboa. Bibliografia: ABRANCHES. Uma informante dizia: (.] Aqui nem o imã da mesquita nos defende. Nº 173. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .). 2003.[.. Maria. Maria . [. “Mulheres muçulmanas em Portugal: formas de adaptação entre múltiplas referencias” in SOS RACISMO Imigração e Etnicidade. Mas aqui no meu bairro [num polígono industrial em Carcavelos]. 26 anos.) se estás ao balcão numa loja que vende coisas árabes. E é que nem pensam que usas o lenço porque és muçulmana. 2005. 149-179. Alcinda (ed. Dos estudos sobre árabes e sobre muçulmanos em Portugal” in Análise Social..] Eu quero é ir para casa da minha cunhada [França]. Imigração Marroquina. 753-806. Vol. XXXIX (Inverno). Também esta reanimação do árabe em Portugal parece não servir realmente como aproximação aos árabes contemporâneos que vivem no país. European University Institute y European Commission – Europe Aid Cooperation Office (Euromed). não representa para estes indivíduos um colchão interessante de integração.. Porto. pp. 2005. ainda maioritariamente “portuguesa”. “O sentido dos árabes no nosso sentido. Europa e Islão. como me aconteceu lá em baixo na loja da Fátima [Olhão]. Ao viver debaixo de uma consciência de temporalidade restrita.

SOS Racismo. Nº 173. Os movimentos humanos e culturais em Portugal. 273-288. Francisco. TIESLER. Monografia de licenciatura em Antropologia. 2003. MAPRIL. MACHADO.) A Imigração em Portugal. 1996. Transcrição editada da Conferência realizado no FRIDE. RAMÍREZ. “Immigration to medium sized cities and rural areas: the case of eastern Europeans in the Évora region (southern Portugal)” em BAGANHA. 2000. Maria Ioannis e Maria Lucinda Fonseca (eds. 1999) Do Yemen ao Dafundo. Artigos de jornais: Público. Lisboa. 2004. 1997. XXXIX (Inverno). Agencia Española de Cooperación Internacional. 2005. 9-44. edição de 26-01-1993. nº 173. 1998. 91-118. 117-144. pp. “Contornos e especificidades da imigração em Portugal” em Sociologia – Problemas e Práticas.) New Waves: migration from eastern to southern Europe. “Portugal e Marrocos inauguram cimeira anual” edição de 30-05-1994. Universidad Autónoma de Madrid Ediciones. policopiado. Ana Rita. 1993. Paris. “Novidades no terreno: muçulmanos na Europa e o caso português” in Análise Social – Europa e Islão. Maria Lucinda. El Islam Mundializado. Ángeles. página 9. TIESLER. “Imigrantes. Atlas de la Inmigración Magrebí en España. Público. « Le ‘retour des caravelles’ au Portugal: de l’exclusion des immigrés à l’inclusion des lusophones ? » in RITAINE. Luso-American Foundation. Olivier. FREIRE. “Acordos com Marrocos”. Évelyne (dir. João Alegria e Alexandra Nunes. página 24. Práticas e Instituições do Arabismo Português. 2005. Olivier. minorias étnicas e minorias nacionais em Portugal. 827-849. Itinerários para a construção de uma masculinidade. “’Bangla masdjid’: Islão e bengalidade entre os bangladeshianos em Lisboa” in Análise Social. hoje: da exclusão social e identitária ao multiculturalismo?” em SOS RACISMO (ed. pp.) L’Europe du Sud face à l’Immigration. página 23. Nina Clara. Monografia de licenciatura em Antropologia. pp. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . pp. Madrid. “MAI de Marrocos em Lisboa” edição de 17-05-1997. 2002. Vol. Europa e Islão. Género e Islam. Nuno Dias e José Mapril. Fernando Luís. 2005. 1994. policopiado. pp. vol. TEIM. PUF. PEREIRA BASTOS. ROY. Lisboa. Migraciones. Nina Clara. 2000. Madrid. nº 34 (Dezembro). MARQUES. José. FCSH-UNL. Público. Mujeres marroquíes en España. XXXIX (Inverno). El Islam en occidente: ¿La occidentalización del Islam?. 2005. José Gabriel e Susana Pereira Bastos.. pp.10 FONSECA. Los musulmanes en la era de la globalización. 1997. Maria Margarida. “Muçulmanos na margem: a nova presença islâmica em Portugal” in Sociologia – Problemas e Práticas. Ideias. Madrid. FCSH-UNL. 851-873. Ediciones Bellaterra. Politique de l’étranger. 149-183. Barcelona. ROY. MOREIRA. nº 24.

a Mutilação Genital Feminina ou a gravidez prematura? No campo da saúde. faz com que o país receptor. obrigam a reflectir sobre novas formas de encarar o mundo e soluções mais ajustadas a uma sociedade multicultural. uma das áreas mais sensíveis na condição de imigrante economicamente desfavorecido. Saúde. se propõe desenhar projectos de intervenção na área da saúde. Partindo do princípio de que em grande parte dos países de origem dos imigrantes – com particular expressão para os países africanos de expressão portuguesa ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Portugal e em particular a área metropolitana de Lisboa. cultural e religiosa da população imigrante residente actualmente em Portugal. como cruzar saberes institucionalizados e hegemónicos com saberes ancestrais explicadores de uma determinada visão do mundo? Palavras chave: Trabalho autárquico. Particularidades Culturais e Abordagens específicas no Campo da Saúde Maria Cristina Santinho Antropóloga. técnica na Câmara Municipal de Loures Quais os desafios que se colocam ao Antropólogo quando. diversos de vida e inclusive diferentes sistemas de organização política e administrativa que. Imigrantes. em particular no campo da saúde. foi alvo de uma alteração profunda na sua morfologia social nas décadas mais recentes. Vulnerabilidade. a prevenção do HIV–SIDA. quando se pretende intervir em áreas como a acessibilidades dos imigrantes ao Serviço Nacional de Saúde.Contextos Migratórios. tenha a responsabilidade de dar uma resposta eficaz às suas diversas necessidades. a par da expressividade idiossincrática e das histórias de vida particulares de cada indivíduo. no contexto do seu trabalho como técnico de uma autarquia. étnica. em particular pela coexistência de populações nacionais e estrangeiras com diferentes origens geográficas. orientados para as populações imigrantes residentes num determinado concelho? Qual a importância do trabalho em parceria. A diversidade social.

Cada etnia. sem esquecer as mulheres da comunidade e os líderes religiosos. enquanto abordagem no domínio da promoção da saúde e prevenção da doença. psicólogos. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . animadores sócio-culturais). que estabeleçam a ponte entre a necessidade de apoio sentida pelos imigrantes no campo concreto da saúde. culturais. económicas.2 – os sistemas de saúde de modelo ocidental. pelos técnicos que intervêm em programas e projectos comunitários (desde logo antropólogos. sem tomar grandemente em conta os padrões culturais específicos de cada grupo cultural. importa-nos aprofundar outros modelos alternativos neste campo. religiosas e cívicas que fragilizam o seu estado físico e psíquico. a intervenção médica de modelo ocidental. formação esta que também deve ser partilhada por cada um destes actores culturais. num contexto mais global da exclusão social. eram (e em muitos casos ainda são) praticamente inexistentes. tendo em conta as idiossincrasias de cada grupo e os seus problemas relativos às desigualdades no acesso à saúde e outros serviços básicos. nalguns casos. surge do facto destas populações estarem sujeitas a muitas desigualdades sociais. A promoção da saúde deverá por conseguinte ser levada a cabo não só pelos profissionais de saúde – médicos e enfermeiros – mas também de forma concertada e em parceria. pelos líderes das associações de imigrantes locais. é uma abordagem localizada. e interculturalidade. A questão da saúde dos imigrantes tem sido encarada de uma forma geral. confundindo frequentemente conceitos fundamentais como nacionalidade e origem étnica e prejudicando assim a comunicação em termos de eficácia de utilização dos serviços de saúde. sociólogos. salvaguardando as suas particularidades identitárias e. É necessário que haja uma acção concertada entre todos. promoção da saúde. assim como os seus recursos comunitários para a prevenção de certas doenças e cura de males comuns. pelos mediadores de saúde que fazem uma ponte entre a sua comunidade de origem e a sociedade de acolhimento – escola ou trabalho. tem as suas próprias crenças e práticas únicas no referente à saúde. face à nova realidade que estão a viver. Por conseguinte uma das abordagens que se pode e deve fazer. é necessária uma formação adequada em direitos de cidadania. A necessidade de se promover uma abordagem específica no campo da saúde das comunidades imigrantes. cada grupo.

Factores como o índice de morbilidade. sentimentos de revolta. distúrbios mentais. mental. partimos dos seguintes pressupostos relativamente à população imigrante: . ter boas notas na escola. dependência do álcool ou alucinogéneos. ou incidência de determinadas doenças específicas de certos grupos. desadaptação. social e espiritual. teremos que analisar se intimamente estamos dispostos a intervir com acções concretas e pragmáticas.A principal razão que leva um indivíduo ou uma família a emigrar. em suma: uma fragilidade perigosamente manifestada em quase todos os indicadores dos condicionantes sociais da saúde. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . mortalidade. sabemos que uma das características comuns de grande parte da população imigrante é a sua vulnerabilidade. Quase inevitavelmente manifestada através de numa crónica acumulação de desvantagens sociais. sociais. pois o nosso contributo poderá de facto vir a influenciar a maneira como outros técnicos de saúde percepcionam o contexto cultural dos imigrantes. somos levados a ter em conta as circunstancias que pautam a vida da maioria da população imigrante e consequentemente condicionam a sua saúde. é procurar noutro país melhores condições de vida. violência. manifestadas através de uma maior dificuldade em arranjar emprego de acordo com as suas necessidades. natalidade. Infelizmente a formação cruzada ou mesmo a investigação sobre as características específicas em termos de saúde e doença entre as diferentes comunidades imigrantes ainda não está trabalhada nem sequer ao nível dos simples dados estatísticos. segundo a qual: “A saúde é um estado de completo bem-estar físico. técnicos de saúde ou investigadores que dedicam a sua atenção a casos particulares de bairros onde residem imigrantes. tomando o papel de facilitadores entre estas comunidades e os médicos e enfermeiros. ainda estão no domínio dos dados empíricos ou do conhecimento de alguns estudantes. conseguir consulta no médico. Por outro lado. e não apenas a ausência de enfermidade ou doença”. religiosas e simbólicas próprios de cada comunidade. Tomando como ponto de partida a definição da Organização Mundial de Saúde. traduzindo a importância dos valores e práticas culturais. gravidez prematura. que conduzem estas populações a circuitos de exclusão e que se vão manifestando mais cedo ou mais tarde em frustração. Assim sendo.3 Como antropólogos.

de grande parte dos imigrantes constituídos como população alvo de alguns projectos levados a cabo pelos Centros de Saúde locais e autarquias. limita as suas opções de trabalho. por vezes propensos a acidentes graves. será necessário abordar cada aspecto. com horários violentos. condicionando assim a sua relação com o bom ou o mau desempenho profissional – a pessoa doente não pode trabalhar (se falta ao trabalho é imediatamente despedida por não estar abrangida na maior parte dos casos pelos sistemas de saúde e segurança social). mas também tomando em linha de conta que os próprios imigrantes terão em determinados contextos étnicos. sem seguros de risco. O conceito de saúde e de doença tem uma enorme abrangência e portanto a doença do indivíduo não se pode observar só numa perspectiva clínica ocidental. instáveis. condicionam também a atitude dos indivíduos perante os diversos conceitos de saúde e de doença. Os contextos sociais.. remetendo-os para actividades pouco valorizadas socialmente. muitas vezes dependentes da má índole dos empregadores que preferem não regularizar os contratos de trabalho. profissional. Esta prática cultural que tem sido alvo da atenção de muitos meios ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . a dificuldade no domínio da língua ou a inexistência de certificação de competências. entre alguns grupos étnicos guineenses. pois o contexto em que os imigrantes se inserem irá condicionar a sua própria relação com a saúde e com a doença. em particular muçulmanos. Esta premissa pode-se verificar por exemplo. habitacional.4 . mal remunerados. No desenrolar de cada projecto de saúde a levar a cabo eventualmente por uma parceria técnica de intervenção.A reduzida formação académica. nem tem dinheiro para os medicamentos. práticas tradicionais de saúde eficazes para o contexto cultural que as produziu e que obviamente devem ser tomadas em conta pela medicina ocidental. ou seja: compromete perigosamente todos os projectos e aspirações a uma vida melhor que o levaram em primeira instância a emigrar. trabalhos de alto risco. . religioso. que implica a relação do corpo com vários contextos: familiar.Neste contexto. mas antes sobretudo de forma holística. o corpo é usado como principal ferramenta de trabalho. com certeza diferente do país de acolhimento. se é despedida não tem capacidade para sustentar a sua por vezes numerosa família. etc.” ritual inclusivo da prática da Mutilação Genital Feminina. culturais e políticos dos países de origem dos imigrantes. em relação à forma como se encara o “Fanado.

é necessário ter em conta a importância das curas tradicionais praticadas pelos curandeiros. residente no bairro da Quinta da Vitória . por outro lado. É pois necessário abrir o leque de conhecimentos e de práticas médicas. deve ser alvo de uma apreciação profunda por parte dos antropólogos. a pobreza ou as políticas governamentais. colocando ainda em risco de vida as crianças e mulheres que a ela voluntariamente ou involuntariamente se submetem. em território português. que existem de facto fragilidades de saúde directamente relacionadas com as comunidades imigrantes. sobretudo nos países africanos. Passamos a referir apenas algumas: no caso da população de origem africana. a ausência de hábitos de prevenção da doença. infelizmente tem estigmatizado grande parte da população guineense residente em Portugal. tanto pela importância que estes indivíduos têm no universo simbólico dos contextos etnográficos. levando a medicina ocidental a integrar o valor da medicina tradicional. pois se por um lado. existem por exemplo. É ainda importante mencionar. Do ponto de vista cultural. levando-os a interagir com a medicina ocidental apenas em situações de emergência. dados constantes dos ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . a ausência de Sistemas Nacionais de Saúde por vários motivos como a guerra. tendo em conta a importância do trabalho em parceria com as associações de imigrantes e seus lideres religiosos. deverá ser abordada como uma prática que põe em causa a própria saúde sexual e reprodutiva da mulher.Portela. como já referimos. relativizando o próprio relativismo cultural. como pelo facto de muitas vezes serem estes os únicos detentores do poder da cura reconhecidos pela comunidade. porque se levantam questões tão delicadas como a sexualidade. condicionam as atitudes dos imigrantes perante a doença. crenças e tabús que é necessário entender e contextualizar no ponto de vista antropológico. Por outro lado.5 de comunicação social pelas razões mais perversas. que chegou a adquirir forma de projecto-lei e que. envolta em mitos. a Mutilação Genital não deve ser analisada fora de todo o contexto cultural e ritual que a justifica. sabemos da relevância da tuberculose (muito associada a situações de pobreza e carências alimentares por exemplo) e do HIV – Sida e da necessidade de combater esta pandemia. No que diz respeito à população hindú proveniente do Gujarati. com especial destaque para as enfermidades do foro psíquico. reconhecendo a profunda sabedoria que os curandeiros possuem sobre o uso das plantas para fins terapêuticos.

distúrbios mentais. considerado pelos especialistas da medicina ocidental como um indicador que é imperioso combater. havia muito pouco trabalho desenvolvido na promoção de estilos de vida saudáveis. colesterol elevado. será necessário realizar outras investigações para o desenvolvimento e implementação de projectos científicos adequados. e álcool em excesso. tensão alta. Onde se localizam. originam problemas cardíacos. sobre o modo de vida destas comunidades em território nacional. tabaco. Um dos vários objectivos no campo quer da intervenção clínica. visa o combate determinado da gravidez na adolescência. as suas práticas relativas à saúde e à doença e a sua expectativa de vida aqui em Portugal. gratuita para toda a população. problemas dentários. Segundo os médicos que ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Ainda um outro exemplo. Em parte. em condições promíscuas e pouco higiénicas. ou de dependência das mafias. seria interessante promover a investigação voltada para os seus hábitos de saúde relacionados com as práticas das terapias orientais e obviamente. mais próximo do campo específico da saúde. Quanto aos imigrantes oriundos de leste. Condições de habitabilidade deficientes. Relativamente aos imigrantes de origem oriental. quer nos projectos de educação para a saúde que envolvam adolescentes imigrantes de origem africana. Contudo. os seus referentes culturais e em particular. ainda muito pouco se aprofundou sobre as práticas e o estado de saúde destas populações. a fragilidade no campo da saúde está sobretudo relacionada com o stress provocado pela sua condição de imigrantes. metodologias e estratégias de intervenção comunitária. esta doença é devida ao consumo excessivo de açúcares. promover de forma sistematizada investigação aprofundada do ponto de vista da antropologia da saúde. alerta para a necessidade de se constituírem equipas multidisciplinares sempre que se definam objectivos. tendo em conta a chegada de novos imigrantes com características sociais e culturais diferenciadas.6 estudos da morbilidade efectuados pelo Centro de Saúde de Sacavém que dão conta de uma alta incidência de diabetes naquela população. muitas vezes indocumentados. Apesar de sabermos que as ex repúblicas soviéticas tinham uma política generalizada na cobertura da saúde. como são as suas estruturas familiares. presente em todas as cerimónias e rituais praticados frequentemente por aquela comunidade (o açúcar é associado simbolicamente à fertilidade e abundância). como se relacionam entre si. Sabemos através de resultados empíricos realizados por técnicos de saúde das autarquias que. com quartos de pensão sobrelotados.

Para além de uma abordagem no campo social. é necessário contar com a contribuição de diversos especialistas: em primeiro lugar. etc. sobre auto-estima. é necessário contextualizar a saúde e a doença no campo cultural. hepatite. pode surgir quando a constituição física da jovem ainda não atingiu a maturidade biológica que lhe permita ter filhos sem por em risco a sua própria saúde física e mental. ou quando a opção por engravidar está mais relacionada com uma estratégia de sobrevivência afectiva num contexto de exclusão social. a participação de representantes das próprias comunidades locais – aqui as associações de imigrantes têm um papel fundamental quando existem. Preferencialmente. são sempre diagnosticadas características recorrentes.7 intervêm nesta área. hemoglobinopatias. esclarecendo também eventuais estereótipos criados pela sociedade ocidental que podem colocar em risco projectos de promoção da saúde sexual e reprodutiva. (homens ou mulheres) e eventualmente os líderes religiosos. consumo de droga e. São elas: tuberculose. tinha. diabetes. O problema contudo. adaptando-os a novas realidades. sida. referentes às doenças com maior incidência. são muito raros os casos que se podem considerar de sucesso. hipertensão. violência doméstica. integrando saberes diferentes e envolvendo-os nos projectos de saúde institucionais porque. a gravidez na adolescência pode não ser um problema para diversos contextos culturais onde os sistemas de parentesco estão dependentes de alianças em que a rapariga assume desde muito jovem o compromisso de procriação. dentro destas ainda se podem destacar os anciãos. Há pois que saber distinguir as diferentes situações. em segundo lugar a participação de cientistas sociais em particular de antropólogos e obviamente dos próprios profissionais de saúde – médicos e enfermeiros. deverão também ser elaborados em parceria com homens e mulheres da comunidade. Não é de estranhar que nos bairros de imigrantes onde se faz intervenção comunitária. alcoolismo. de informação sobre saúde. anti-concepção. impor a alteração de padrões culturais e de normas de comportamento de forma desajustada. fazendo uso de uma linguagem comum e dos mesmos referentes simbólicos. estes projectos orientados para a intervenção directa no campo da saúde. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . doenças do foro mental. é contribuir ainda mais para a desestruturação social e psicológica das comunidades e dos indivíduos de origens etnográficas diferentes. A verdade é que em concreto. Para perceber este ou outro fenómeno da mesma natureza.

É em português ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .8 O que dizer do surgimento excessivo de perturbações mentais entre os imigrantes e refugiados. As intenções de dito folheto eram de facto as melhores e o mesmo teve bastante aceitação tendo sido considerado muito original – sobretudo pelos outros técnicos envolvidos na divulgação do referido folheto. sobre os perigos da sida e a forma de evitar comportamentos sexuais de risco. os cancros. Porquê? Em primeiro lugar porque o crioulo não é por enquanto. tendo em conta os conhecimentos adquiridos com base no trabalho de campo e observação participante realizada junto às diferentes nacionalidades e particularidades étnicas. Ainda apelando à necessidade de enquadramento de Antropólogos em Autarquias. escreve e lê em português. entre a população alvo. A população crioula letrada. Centros de Saúde. numa sociedade que também ela atravessa uma profunda crise de valores identitários? Podemos ainda acreditar na justiça? E na educação? E na saúde? Como poderemos exigir às populações imigrantes que assimilem e adeqúem comportamentos e atitudes sociais nos quais uma grande parte dos portugueses tem dificuldade em acreditar? Entre a população portuguesa. sabendo que muitos indivíduos provêem por vezes de países em guerra prolongada e pobreza extrema. foi feito numa Câmara Municipal. espartilhados por uma África que nem conheceram e um Portugal que nada lhes diz e que lhes recusa a nacionalidade portuguesa apesar de terem cá nascido? Porquê a existência de gangs? Não será eventualmente esta a resposta a uma necessidade de identificação grupal. aumentam também cada vez mais as depressões. um folheto em crioulo para alertar a população africana em geral. ou. uma língua que se escreva ou que se leia com frequência. mas também a procura de estilos de vida alternativos como possível resposta às novas (velhas) angústias. No entanto. ONG’s e IPSS’s de forma a adequar as intervenções e projectos de saúde directamente dirigidos às populações imigrantes. ou de comportamentos aditivos com recurso ao álcool ou a alucinogéneos. a sua aceitação foi quase nula. com as suas próprias hierarquias e sistemas de valor simbólicos. tornando-os ainda mais vulneráveis? Como estranhar o comportamento agressivo e os actos de vandalismo de alguns jovens de origem africana mas frequentemente já nascidos em Portugal? Não terão eles também perdido a sua própria identidade. Darei um exemplo: – Aqui há alguns anos. pior ainda: será que alguma vez a tiveram.

9 que se escrevem as cartas para a tia ou para a avó que ficou em Cabo-Verde. Em segundo lugar. Esta necessidade tinha sido de facto identificada nas reuniões do Projecto de Intervenção Comunitária que se realizavam no bairro. É por estas razões que acabei de expor que. integrando os saberes destas comunidades e envolvendo-os nos projectos de saúde institucionais. relegadas para a privacidade do espaço doméstico ou religioso. tendo em conta que os seus percursos identitários são mutáveis e bem ou mal. Aprofundando mais as razões que levaram a essa situação e contactando mais de perto com as famílias e com indivíduos dessas comunidades culturais. quando transpostas para a necessidade de sobrevivência dos indivíduos imigrantes. as características culturais de uma determinada etnia em Angola ou na Guiné. residiam precisamente nos tabus do corpo. vindos dos países africanos que. de cada etnia. esse folheto só atingiu uma minoria insignificante de população que teria entendido perfeitamente a mensagem em português. e com grandes carências e fragilidades na saúde. Frequentemente. no contexto de um bairro de realojamento e face à pressão exercida pelas instituições portuguesas. os serviços eram sistematicamente recusados. estavam a chegar cada vez mais idosos. e apesar da oferta insistente dessa instituição na comunidade. ficam diluídas. ficavam a residir em casa dos seus filhos e aí permaneciam todo o dia sozinhos. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . interiorizadas. não dá legitimidade a um estranho à família. em que cerca de 90% da população é de origem africana. No entanto. rapidamente adaptáveis às condicionantes impostas pela sociedade receptora. ainda que seja médico. Apesar de normalmente a população desse bairro ser maioritariamente jovem. veio-se a constatar que as razões para essa recusa. Logo. para que cuide de si e muito menos que invada a intimidade do seu próprio corpo. surgiu uma Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS) que tinha a valência de Centro de Dia para idosos. Um idoso ou idosa africana. considero imprescindível valorizar os códigos culturais próprios de cada grupo. porque existe uma grande variedade de crioulos. agora relacionado com os tabus do corpo: Num dos bairros de realojamento de imigrantes em Loures. que disponibilizava técnicos especializados para prestar assistência domiciliária. Mas também considero importante que os Antropólogos olhem urgentemente para as realidades dos imigrantes aqui residentes. Outro caso.

Transactions Interculturelles. Imprensa das Ciências Sociais. racismos. VERMEULEN. ISCSP. 90º (ed. sabendo contudo que não basta nem OBSERVAR. all). Lisboa. Não Lugares. Lisboa. RUIVO. Condutas de Risco. para poder PARTICIPAR e INTERVIR de forma útil na melhoria da qualidade de vida e em particular da saúde das várias comunidades de imigrantes residentes em Portugal. os Anos da Mudança. ao Antropólogo. Hermano (et. Jorge Macaísta. Universidade Técnica de Lisboa. Coimbra. Hacia la Construcción del Bienestar y del Desarrollo Comunitário Transnacional. 1996. Lisboa. Práticas Culturais e Atitudes Perante o Corpo.10 Cabe a ainda a meu ver. MALHEIROS. all). Referências Bibliográficas: AUGÉ. Celta. L’Harmattan. Manuel Villaverde e Pais. José Machado (et all). 2004. 2003. 2006. Colibri. 2005. 1998. CARMO. México. KHADIYATOULAB. Rocio Gil Martínez de. Quarteto Editora. Globalização e Migrações. Edições Colibri. Ministério da Saúde. Hans. Imigrantes na Região de Lisboa. 2001. Plano Nacional de Saúde. Integração e a Dimensão Política da Cultura. 1996. Socinova . Fernando. Marc.. Lisboa. Champ Multiculturel. Universidade Autónoma Metropolitana. 2005. Imigração. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . António (et. ou paternalismos das instituições onde se enquadra profissionalmente. CABRAL. burocracias e estereótipos. ESCOBAR. Poder local e Exclusão Social. Direcção Geral de Saúde.) BARRETO. Rotas de Intervenção. Paris. 2000. Lisboa. Introdução a uma Antropologia da Sobremodernidade. nem submeter-se pacificamente às regras.Ed. Fronteras de Pertenencia. decidir se está disposto a intervir nestes contextos migratórios. Lisboa. Exclusão Social. Fall.

Sem negar as estratégias geopoliticas e as relações de dominação. Arquipélago dos Bijagós. onde não só Europeus e Bijagós se encontraram e se encontram. Consumo. explorar as conexões entre local e global significa na prática etnográfica considerar as ligações que os indivíduos em contextos específicos estabelecem com os significados e os produtos que o seu habitat cultural lhes oferece e que podem escapar uma delimitação espacial precisa. Bem que seja um pequeno centro. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . chamado familiarmente Praça 1 . segundo dinâmicas de migração rural/urbana bem conhecidas 1 Originalmente tratava-se de um posto construído pelos Portugueses. Lisboa lo_bordonaro@hotmail. chapéu de baseball e ténis? A partir destas questões da minha experiência de pesquisa na Guiné-Bissau. salientando como a circulação de modas. não produz homogeneização. Bijagós.como um íman para os jovens das ilhas. a Praça funciona . Estas reflexões têm a sua origem em uma pesquisa efectuada na ilha de Bubaque. com jovens rapazes. ultrapassando a dialéctica entre resistência e homogeneização.no âmbito restrito do Arquipélago .com Porque é que os jovens Bijagós do centro urbano de Bubaque acham cool andar de gangas. Palavras-chave: Globalização.Valores e ícones da cultura juvenil na Guiné-Bissau: uma abordagem individualista e não-essencialista à dinâmica local/global Lorenzo I. Jovens. óculos de sol e estilos. Guiné Bissau. mas também onde Guineenses de outras regiões e comerciantes de diferentes nacionalidades exercem as suas actividades. mais especificadamente no único pequeno centro urbano do Arquipélago. mas pelo contrario é utilizada nos contextos locais para produzir novas diferencias e distinções. sede da administração colonial da Região: é uma zona de contacto. roupas. viso contribuir ao debate sobre as dinâmicas entre local e global. Guiné Bissau. com mais o menos 2000 habitantes permanentes. A minha intenção nesta comunicação é a de explorar a relevância e a pertinência do conceito de ‘estilo cultural’ (um noção que pertence mais aos Cultural Studies do que à antropologia) para descrever a cultura juvenil urbana em África ocidental. esquecendo a preocupação com uma fictícia autenticidade e negando uma formulação rígida da identidade e do sujeito. Bordonaro CEAS – Centro de Estudos de Antropologia Social.

as roupas. chapéu de baseball e absurdos óculos de sol nas escuras noites de Bubaque. Estas aproximações consideram o vestuário como sinal e como objecto de consumo: um campo de representação social onde identidades individuais e sociais são criadas. Um dos aspectos mais sobressaliente dos jovens que vivem neste espaço são as suas narrativas modernistas. Ora bem. para o cuidado do seu aspecto segundo cânones que se referem à uma circulação mais ampla de estéticas e atitudes. para a constituição e como ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . mediada e reinterpretada por os artistas da cena musical Africana e Lúso-Africana em particular. considerado com desprezo como atrasado. a estética do cool em Bubaque tem muito a ver com ícones de sucesso global da cultura negro-americana. de falar. Em particular. de tratar com as meninas. todos respondem a uma estética. Ser cool não é só vestir gangas. de cumprimentar os amigos. como temos que interpretar estes aspectos da cultura material? A antropologia já salientou muitas vezes nos últimos anos como estes traços não podem ser facilmente considerados aspectos de um processo de homogeneização devido à ‘globalização cultural’. urbanos. os jovens da Praça contrapõem-se ao mundo das aldeias. e das práticas de consumo em geral. A relevância dos hábitos. É também uma maneira de andar. os corte de cabelo.2 em África. Uma das modalidades mais espectaculares de expressão desta diferença. criativa e crioula. educados. De facto a Praça tem atraído nos últimos anos muitos jovens que queriam abandonar o sistema tradicional de produção da aldeia. a capital do país. se adornam: as atitudes. é a atenção que os jovens demonstram pela moda. muitas vezes como primeira etapa de uma deslocação mais definitiva para Bissau. nomeadamente a cultura do hip-hop. Definindo-se a si mesmos como “desenvolvidos”. um estilo que os rapazes chamam cool. primitivo e não civilizado. ténis de marca. Estas interpretações tristo-tropicalistas baseiam-se sobre uma ideia de imobilidade e autenticidade das culturas que a antropologia recusou em nome de uma imagem mais dinâmica. quem desse um passeio na Praça de Bubaque no Sábado a noite. Weiss 2002). as mais recentes leituras antropológicas interpretam a moda como uma prática social que visa à formulação e a expressão da identidade e a significação de diferenças sociais. Paralelamente ao que acontece em outros lugares em África (Larkin 2000. Em termo gerais. caracterizadas pelas oposições próprias da ideologia da modernidade. ficaria surpreendido para o cuidado com quem rapazes e raparigas se vestem. como também um lugar de acção social e política.

de autonomia e de autenticidade. as características da cultural juvenil que temos salientado. e movendo para o um paradigma da crioulização. são compreendidas melhor como praticas de distinção do mundo das aldeias e como afirmação de uma identidade urbana e moderna 2 . a cultura da modernidade dos jovens da praça não pode ser compreendida sem referencia à estrutura social das aldeias. nós denegrimos as capacidades criativas e expressivas das pessoas de apropriar-se e de usar bens estrangeiros para o próprio propósito. Em particular o conceito de distinção pode dar nos umas pistas importantes. 2 Mas para perceber melhor é preciso dar alguns detalhes sobre o conflito generacional que opões jovens e anciãos. Segundo esta abordagem. Para a maioria deles a Praça é o lugar onde alguém tem que se vestir correctamente. rejeitando firmemente o paradigma da homogeneização global. a subordinação dos jovens aos velhos é um elemento essencial da organização social: tornar-se ancião é um processo complexo que exige a passagem através vários graus de idade e o pagamento contínuo aos membros das classes de idade superiores. de facto. quase um palco da modernidade. adquire um valor especifico e profundamente local. A contraposição ideológica entre “tradição” e “modernidade”. De facto. em acordo com estratégias locais de identidade e de distinção social. é que supera a retórica modernista que condena o consumo de produtos globais ou estrangeiros em contextos locais como perca de identidade. A iniciação divide a população masculina em dois grupos opostos: os que já adquiriram o estatuto de homem adulto e os que ainda são “crianças”. que visa a considerar esta actividade como uma forma de produção cultural e de construção de identidade. O cuidado pela moda. conferindo voz e descrevendo em termos reconhecidos uma dialéctica generacional. foi também considerada produtivamente pela antropologia do consumo. à moda. evidente nas palavras dos jovens. eficaz para marcar o distanciamento dos valores e hábitos da aldeia. pode ser de facto interpretado como mais um signo de distinção do mundo rural da aldeia que os homens jovens querem exibir no contexto urbano. manifestando ao mesmo tempo proximidade com o ambiente moderno da Praça. No interior das dinâmicas modernistas. Neste contexto. Sem esquecer as geografias ocultas de produção que também fazem parte das relações sociais de consumo. e portanto não têm acesso à terra e às mulheres. acho que podemos considerar a pratica do vestir cool em Bubaque como uma forma de apropriação de produtos e imagens com circulação transnacional. As suas críticas baseiam-se na contraposição entre dois termos chave: desenvolvimento por um lado e cultura do outro. é verdade que se nos condenamos o consumo como emulação ou imitação. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Um dos méritos fundamentais desta abordagem.3 marca de identidade. Os rapazes que abandonaram as aldeias para viver na Praça criticam as normas éticas e as instituições “tradicionais” e tentam subtrair-se a estas relações de poder. As roupas são também um sinal de 'civilização' e de 'desenvolvimento'.

uma aproximação sociológica à moda e às práticas de consumo que realça a sua relevância quer para marcar e elaborar um estilo de vida distinto. não tem a ver nem com o fim da tradição face ao avançar da modernidade. vender mangas. alguém fica na rua com o traseiro de fora. são duas práticas simbólicas socialmente posicionadas. foi proposto nos anos Setenta pelo Center for Contemporary Cultural Studies na análise das sub-culturas juvenis no Reino Unido. um rapaz de 17 anos que entrevistei em Bubaque. o que eu quero propor aqui é a possibilidade de uma interpretação original deste tipo de características culturais. a noção de estilo como prática significante pode também nos oferecer explicações alternativas e não-essencialistas sobre como a diferença não só é significada e marcada. e eles olhavam para mi com admiração. então fui para a aldeia e percebi que não era possível viver assim para um ser humano. Eu percebi que esta coisa é ma. O texto fundamental desta abordagem é Subculture: the meaning of style do Dick Hebdige (1979). realizadas (enacted) 3 The notion of signifying practice was initially elaborated in France by the Tel Quel group. vi os meus colegas. Comprei a minha roupa. Moderno e tradicional. Segundo esta abordagem. em direcção de uma aproximação performativa e prática às identidades sociais. como eles se vestiam (é ta bisti). deu-me um relato extremamente significativo neste sentido: Mas ao final eu percebi que aquela vida [na aldeia] não é uma boa vida. Aliás. o contraste entre ‘moderno’ e ‘tradicional’. bem como para a construção da diferença e a produção de identidade. Assim foi à Praça. onde a noção de estilo como ‘prática significante’ 3 é proposta para explicar como a diferença é activamente produzida e utilizada em uma sociedade. nem com a imitação de uma cultura hegemónica. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . A noção de estilo cultural pode então oferecer uma solução original ao problema da definição de modernidade local e nesta direcção já foi utilizado por James Ferguson na Zambia (Ferguson 1999). Sem fazer referências aqui aos que salientaram a função de distinção de algumas prática de consumo (nomeadamente Veblen 1998 e Bourdieu 1979). no seu significado local.4 Xarife. voltei para a aldeia. vesti os meus vestidos na aldeia em frente dos meus colegas. colegas. se utilizarmos um conceito que não é propriamente antropológico: o de ‘estilo cultural’. Eu percebi que não é uma vida boa porque eu vim na Praça. E vi algumas pessoas. mas produzida por essas mesmas práticas em um contexto social. De facto. como eles se vestiam… as vezes na aldeia. Vim na Praça.

que envolve quer uma deliberada auto-construção quer determinações estruturais. enfatizando o caractere consciente. O estilo cultural é uma capacidade de utilizar e manifestar signos em uma maneira que posiciona o actor em relação a categorias sociais relevante. um processo em parte consciente como também inconsciente. da qual as roupas também fazem parte. um processo motivado de auto-construção: é neste sentido que poderíamos utilizar uma ideia de cultivação de estilo. construído e cultivado dessas práticas. na qual as pessoas improvisam estratégias duráveis e motivadas de auto-construção e apresentação. um estilo é claramente pelo menos em parte uma actividade. pode bem ser considerada como um aspecto de um ‘estilo cultural’ em quanto conjunto de práticas que significam diferenças e alianças entre as categorias sociais. e os ténis Nike para voltar a vestir uma máscara cornuda e tornar-se novamente 'verdadeiros' Bijagós de aldeia. Os jovens do Praça não eram actores que ao fim do espectáculo tiravam os seus chapéus de baseball. que vê por um lado os anciãos na aldeia. e. A atitude cool dos jovens. executadas com êxito’ (Ferguson 1999: 98). Afirmar que modernidade é uma questão de estilo não significa dizer que é uma questão de possuir um certo tipo de vestidos. Isto não significa claro que os jovens recitavam . os óculos de sol. Ser cool para os jovens em Bubaque não é simplesmente um estilo que se pode mudar ou adoptar ao acaso. não podem não ser ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . um aspecto importante da cultura material dos jovens. no horizonte.5 em uma conjuntura social e político-económica específica. Não se trata de manter que os indivíduos flutuam livremente num oceano de signos que eles podem apropriar e utilizar a vontade para se construir uma identidade ad hoc. por outro o Estado pós-colonial. mas que se trata de ‘práticas encarnadas. em conclusão.no sentido que nós geralmente damos a este termo .e que o seu teatro terminava ao fim do dia. As pessoas sempre vivem naquela área posicionada entre a lógica microsociológica da situação social e as estruturas globais e regionais da economia política. É uma competência performativa que tem que ser aprendida e interiorizada: é uma estratégia de sobrevivência em uma situação de poder tensa. Embora seja verdade que um estilo não é o resultado exclusivo de escolhas individuais e que as pessoas também são limitadas em parte por condicionamentos económicos e sociais. E é em relação a estes fantasmas que. deixando espaço para identidades mais autênticas. os fantasmas da Europa e do Ocidente.

A relação que os jovens têm com a materialidade das coisas não é só puramente semiótica. que a investigação sobre a cultura material tem que focar a sua atenção. um sentido da beleza. WEISS. Brian. questão que não acaba de suscitar debates. Cahiers d’Études Africaines. Berkeley. 2000. Subculture: The Meaning of Style. 1. Referências bibliográficas BOURDIEU. “Thug realism: inhabiting fantasy in urban Tanzania”. 1979. Prometheus. Thorstein. Globalization and Urban Experience in Nigeria”. 93-124. FERGUSON. na articulação e na dialéctica entre apropriação e sedução. VEBLEN. 1998 [1899]. University of California Press. Les éditions de minuit. 1979.6 salientado. London. LARKIN. mais criticamente. que não são só actores sociais cientemente utilizando signos de distinção. Esta abordagem nos permite por um lado dar uma imagem mais concreta e realística dos jovens. Dick. The Theory of the Leisure Class. Paris. Expectations of Modernity. mas indivíduos vivos. Critique sociale du Jugement. Pierre. Amherst (NY). questionar e investigar a origem do valor destes aspectos da cultura material. Myths and Meanings of Urban Life on the Zambian Copperbelt. um aspecto que nos permite de adicionar mais uma perspectiva à puramente semiótica até agora salientada. Cultural Anthropology 17(1). James. Pessoas com um gosto. mas tem também a ver com fascinação e sedução. Methuen. Por outro lado nos permite. com a qualidade material das coisas em si. pelo seu caracter estético. HEBDIGE. 1999. fascinados e seduzidos pela materialidade das coisas. Acho que é exactamente neste ponto. “Bandiri Music. La distinction. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . 168 (XLII-4): 739-762. Brad (2002).

Universidade Fernando Pessoa. Centro de Estudos de Antropologia Aplicada. Porto ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .IV – Capítulo Processos de Integração Social e Económica de Imigrantes Textos de comunicações do painel: Processos de Integração Social e Económica de Imigrantes Alcinda Cabral.

aquisições e alianças estratégicas têm se multiplicado.Cidadania e o Homem: construção de uma sociedade integrativa Carlos Luiz Cerqueira Junior CEAA . Existia. ethical. a sociedade que o acolhia não solicitava a adesão a seus valores. para tanto. Within this context. In the last years the world economy has been changing deeply. Antropologia Jurídica. Fusões. A busca da competitividade relaciona-se cada vez mais com a busca do ótimo sistêmico das fronteiras da cidadania. Introdução Pertinente aos imigrantes brasileiros em Portugal. Parte considerável destas mudanças relaciona-se com profundas alterações nos sistemas de valores de todos os segmentos sociais.Porto Portugal carlosluizjr@terra. jurídicos e comunitários. affecting all society. não integrando de forma plena e efetiva aquele ser humano oriundo ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Fusions. importante traçar-se panorama deste individuo pertencente a este coletivo com o intuito de se proteger com políticas públicas efetivas a devida integração na sociedade que o acolhe sob vários enfoques. Imigração. Cidadania. éticos. juridique and with your community. the human sciences gains a new dimension. sociedade. encompassing the integration of all activitis related to the social vlue system.br Nos últimos anos a economia mundial tem sofrido mudanças importantes.Centro de Estudos em Antropologia Aplicada . a convicção de que voltaria ao seu país de origem uma vez que sua atividade laboral se findasse. em especial ao que tange a função desempenhada por este cidadão no mercado laboral. Neste contexto. acquistions and strategic alliances are multiplying everywhere.com. envolvendo a integração de todas as atividades ao longo cadeia de valores sociais. De inicio a figura do imigrante encontrava-se relacionada à figura de trabalhador. Most of these changes are related with deep modifications in the value systens. Por este motivo. The search for competitiveness is more and more concerned with the search for the optimal systemic beyond citizenship frontiers. Palavras-chave: Antropologia. as ciências humanas ganham nova dimensão.

qual seja. em particular ao nosso estudo Portugal. Nas sociedades modernas tem-se obtido relevo a questão associada aos fluxos migratórios da humanidade. económicos e financeiras não esgotam a pluralidade de motivos propulsores do evento migratório. equânime e legal do Estado e da sociedade acolhedora. e sobretudo da discussão acerca da cidadania. traduzindo a função social e política do homem – a esta função se atribui o caráter necessário da delimitação da importância da cidadania como fonte primária desta pretendida estabilidade a que o homem pretende e deseja. interagindo com a sua comunidade no intuito claro de trazer-lhe melhoras e benfeitorias.2 de outra cultura. enquanto fator propulsor de desenvolvimento local. desde o momento que sua permanência no país recorrido. deseja-se demonstrar o perfil do imigrante brasileiro em terras portuguesas. da nacionalidade e do estrangeiro. cujos factores sociais. o Estrangeiro e sua Política de Integração Diante do panorama atual. que invariavelmente desenvolvia atividades para aquela comunidade receptora. a aceitação do outro sob o olhar justo. vai se convertendo em definitiva. imprescindível saber o efetivo conceito da importância do ser humano. em especial àquela migração evidenciada no sentido sul-norte. encontrando respostas para o dilema hoje vivenciado na antropologia jurídica. Esses fluxos têm-se alterado em dimensão e direção de acordo com as fases de transição económicas. Diante de tais fatos. Todavia. ou seja. Este primeiro grupo que emigra era. aos quais se refere como transição migratória histórica à demográfica econômica. seus modos e seus projetos de inserção nesta comunidade tão parecida e ao mesmo tempo tão distante dos hábitos imigrantes. imprescindível situarmos a questão relativa à política migratória travada entre Portugal e Brasil nos últimos anos. Assim. assim como delinear seu estado cidadão. fundamentalmente. Brasil-Portugal. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . relacionando os factores endógenos do país de origem em face da perspectiva de construção de vida digna e construtiva. A Cidadania. I. onde se inclui a discussão da ciência em proveito do desenvolvimento social e humanitário. reduzido e heterogêneo.

Após o advento da II Guerra Mundial. aqueles na direção SulNorte. Acerca dos assuntos. A isto se deu pelo fato da crescente isenção estatal em desenvolver políticas determinadas de identidade cultural e social do seu povo. corroborada pela falta de perspectiva de desenvolvimento sustentável nos países de emigração. permitindo a aproximação cada vez mais freqüente da cultura local com o estrangeiro. com políticas de identidade cultural. cujo contexto de crise de estrutural nos países de destino impulsiona à procura por outras culturas. em busca de atividades acadêmicas enriquecedoras. através dos quais quase um milhão e meio de pessoas (IBGE:2004) estão chegando anualmente à Europa e América do Norte. outros recursos não restaram aos cidadãos senão buscar no estrangeiro à sustentação financeira. justificando a imigração sempre temporária. notadamente o Brasil. a procura de profissionais cuja qualificação se amolda aos padrões internacionais. se não poderia o estado criar e sustentar vias de acesso à manutenção da ordem interna. em face dos acontecimentos políticos e sociais à época evidenciados. língua e identidade antropológica referente ao caminho sul-norte. social e educacional em franco declínio no país. região escolhida para fixar residências e outros critérios de aderência do imigrante. o Brasil ingressa no circuito das migrações internacionais. apresenta-se por fator determinante o aspecto social e econômico. cabendo ao país receptor (Portugal) analisar as questões pertinentes ao grau de escolaridade. demonstrando determinado enfraquecimento da conjuntura educacional interna brasileira. a ruptura do conjunto econômico-social na Europa estimulou a imigração de mão-de-obra menos qualificada. muitas vezes opondo-se aquela a esta. qual seja.3 O aparente paradoxo dos fluxos migratórios mais recentes. Observa-se. cujo país submergia em profunda crise política junto ao uma falta de perspectiva de crescimento sócio-económico. leva-se em consideração a clara aparência de culturas. Tais estudos deram inicio na década de 40 (quarenta) quando se efetivou a corrente migratória a Europa. ao passo que evidenciamos a ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Diante deste cenário. uma política dualista. portanto. diversos estudos foram realizados em Portugal e em Brasil. sempre em busca de melhor avaliar as correntes migratórias firmadas entre os dois países.

sempre em busca de equilíbrio das políticas migratórias. primeira. perspectivas laborais e inclusão social. não podemos deixar de citar aquelas pertinentes a OPLP (Organização dos Paises de Língua Portuguesa) com significativos contributos na formação de medidas de acolhimento do colectivo imaginário desta comunidade lingüística. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Estudos recentes realizados pelos dois países demonstram duas categorias efetivas de migração. referente às pessoas sem grau de escolaridade e ou econômico satisfatório.4 procura especial por Portugal pelos menos qualificados. modernamente se tem um espelho efetivo das correntes migratórias entre Brasil e Portugal. cujo interesse nos países desenvolvidos se amoldam na busca de qualificação profissional e acadêmica. Todavia. havendo clara formulação de estudos. embora se tenha em mente as adversidades tratadas. racial e lingüística a migração de brasileiros para terras Portuguesas. levando-se em consideração os diversos fatores externos que influenciam na reestruturação destes estatutos. Assim. consubstanciando a sua migração em busca de novos mercados. cujo efeito imediato foi o reexame das políticas bilaterais com o Brasil visando à adequação da legislação lusitana àquelas impostas pelo pacto comunitário europeu. duas correntes diferentes. ainda continua reflexo da irmandade cultural. mesclando seu conhecimento adquirido com a vivencia em novas culturas. em face da semelhança de cultura. A saber. em face dos constantes estudos realizados. observamos a existência de dois mundos distintos e paradoxais. A segunda. vejamos. a exemplo da própria inclusão de Portugal na União Européia. vários foram – e ainda são – os Tratados e Acordos bilaterais chancelados entre os citados Estados. língua e costumes colonizadores. programas e estatutos que evidenciam a esta política humanitária. Passados alguns anos. referente aos profissionais de formação técnica e científica. cujas causas e razões estimulantes à migração se distanciam de forma latente. em especial a inclusão do cidadão e do estrangeiro frente à nova ordem mundial – a globalização e os mercados comunitários.

palestras. buscando a inclusão menos traumática para este individuo na cultua local. leva o cidadão a busca de novas fronteiras.5 Pertinente à primeira situação. importante que se observe o cenário económico e as perspectivas sociais existentes no Brasil. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . não se pode deixar de ressaltar o papel das entidades de acolhimento aos imigrantes no esforço em fazer cumprir em território português a legislação comunitária pertinente ao reagrupamento familiar. levando-se em conta. cujo intuito é diminuir o sofrimento dos imigrantes que partem deixando sua família no Brasil. a política de acolhimento do imigrante sem os freqüentes questionamentos de raça. não lhe restando alternativa senão vender de forma irresponsável a sua força de trabalho em países em troca de tratamento sério e digno as condição de cidadão. identificando-se com o país em face da identidade lingüística. ademais. cujo trabalho realizado orienta com cartilhas. A isso se dá em face da completa exclusão social do ser humano (do indivíduo) na realidade que o cerca no Brasil. Mesmo diante de situações adversas na política internacional. A exemplo de tais assertivas. seguridade social e saúde pública. natos) e cultural (sociedade diversificada com perspectivas de aberturas de mercado). Estudo realizado por tal entidade revelou que os imigrantes influenciam e enriquecem a pátria portuguesa frente às questões de ordem financeira (65 mil contos investidos no país. cor e escolaridade. demográfica (povoamento de locais não desejados pelos habitantes locais. Cabe ressaltar que nem sempre se encontra no país receptor tais políticas dignas e de recepção ao imigrante. o Estado Português em busca de novas tendências de inclusão local do imigrante tem desenvolvido políticas próprias e sérias para o enquadramento da imigração legal. cujo afastamento das classes menos favorecidas ao acesso dos meios justos e honestos de emprego. acreditando realizar em um novo país as perspectivas frustradas na sua pátria de origem. A nível europeu. ano base 2004). centro de acolhimento e frentes próprias de trabalho e inclusão social. encontra-se o país envolvido em grave crise de inclusão social ao longo das última duas décadas. cite-se a excelente lição oferecida pela ACIME – Alto Comissariado para a Imigração e Minorias Étnicas.

Outro fator de observação importante na consideração dos imigrantes são aqueles apontados por pesquisas recentes demonstrando a desvinculação entre os índices de violência. somente no Brasil encontram-se os investimentos portugueses na ordem de bilhões de euros. qual seja. não havendo dessa forma qualquer vínculo e ou relação direta entre a elevação das taxas de desemprego com a corrente migratória evidenciada. retribuindo-lhe com o reconhecimento prático da sua força de trabalho. violência e usurpação de postos de trabalhos locais pelo imigrante brasileiro. quais sejam. buscando na fonte as novas técnicas e meios científicos. demonstra-se a urgente necessidade de se delinear o efetivo papel do Estado nas políticas migratórias quando se tem por objeto o imigrante sem qualificação social. desejando realizar em Portugal trabalhos de aprendizado. buscam os profissionais brasileiros qualificados e ou em vias de qualificação um melhor aproveitamento desta política de investimentos e desenvolvimento econômico. cultural e ou econômica. De forma distinta. pois. eis que as causas de sua busca migratória e a retórica desenvolvimentista. não mais deixando na marginalidade os agregados da imigração. a ruptura entre desemprego.6 Com efetividade a este programa. emprego e exercício do direito de integração entre os nacionais e os imigrantes. é. Destarte. trata-se de questão humanitária de fiel recepção dos familiares. contribuindo de forma clara na agregação deste ser na comunidade acolhedora. encontram-se os imigrantes integrantes da segunda categoria ou gênero. Diante de tais fatos. havendo o favorecimento ao imigrante legal que traga ao seio da sociedade acolhedora aqueles entes familiares (cônjuges e filhos) para a formação da entidade familiar. inclusive com investimentos sólidos e altos nos países em desenvolvimento. financeiras e sociais cuja economia local alcançou níveis altíssimos. com a inclusão de novas perspectivas econômicas. Frise-se que as condições profissionais portuguesas após a sua inclusão no mercado comum europeu se deu de forma alarmante. aqueles que migram em busca de melhores condições profissionais e ou em face do melhor aproveitamento acadêmico em Portugal. que respeita as condições humanas. necessidade de se incluir em uma sociedade plural justa. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . colocando Portugal na segunda posição de investimentos internos no Brasil nos últimos cinco anos.

peculiar interesse têm em desenvolver técnicas de aprendizado e melhor aproveitamento das teses e conhecimentos do velho mundo. buscando a atualização profissional a ser aplicada no seu país de origem. consolidando-se como o grande coletivo de imigrantes que povoa o território português. adquiridos ou natos. quer se enquadrem no gênero de imigrante sem a devida escolaridade ou integrante do grande sistema de inclusão social no país emigrante (Brasil). em face da sua inclusão na sociedade. eis que a sua satisfação migratória se deu em face da necessidade em melhor aparelhar seus currículos e estudos no exterior. ou seja. volta-se a se a realizar as constantes indagações acerca da urgente e necessária diretiva acerca da cidadania. em face da concentração secular de boas escolas e centro de estudo. a exemplo da Constituição Européia que assim o deseja. Com referência aos imigrantes acadêmicos. econômica e laboral do estrangeiro. Assim. necessário se faz a reflexão sobre a necessidade de se admitir a inclusão social. Posta tais questões. como são conhecidos nos centros de estudos migratórios. convertendo seu conhecimento em garantias de melhores condições de empregabilidade e inclusão profissional. ai se incluem aqueles que buscam na pátria acolhedora o fortalecimento dos conhecimentos científicos e acadêmicos. sendo o cidadão aquele ser humano que possui o exercício e gozo dos direitos civis.7 De igual sorte encontram-se os profissionais em busca de novas perspectivas acadêmicas. novas perspectivas em uma pátria rica. desenvolvida e próspera. do estrangeiro e do individuo. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . a Europa. pois estes são inerente dos nacionais. próxima dos grandes centros internacionais e integrante do maior e mais rico continente do globo. diametralmente oposta encontram-se aquel’outros que migram frente a necessidade de melhorar suas condições humanitárias. exceto quanto aos direitos políticos. inobstante a categoria que possa vir a integrar-se. Vislumbra-se que tais pessoas retornam na sua maioria ao seu país de origem. tem a comunidade de imigrantes brasileiros constituído-se naquela que mais cresceu desde o final da década de noventa até os dias atuais. civil. eis que não possuindo grau de instrução e ou condições próprias necessárias para se fazer incluir em mercado de trabalho ríspido no Brasil buscam em Portugal uma fonte de nova vida. Sendo o ser humano aquele capaz de lançar-se em busca de novas perspectivas vitais.

muitas vezes arrasadores na aceitação do coletivo ante a nova perspectiva de vida por ele sonhada ao chegar na sociedade que o acolhe. ao que tange à formação de uma consciência política e social. não se pode deixar de auferir que a cidadania é elemento constitutivo da sociedade devidamente instituída e legalmente formada. trazendo para o conjunto de análises da constituição de uma sociedade integrada o respeito na elaboração de políticas públicas exigíveis no plano da migração. os diminutivos culturais e o temido choque de costumes. a cidadania do imigrante somente poderá se efetivar quando o Estado reconhecer a necessidade de se desenvolver políticas publicas adequadas à inserção deste coletivo sob o prisma do reconhecimento social via inserção laboral. sem fazer delinear para com os seus novos compatriotas as diferenças. em especial a necessidade de cobrança da atuação efetiva e proactiva do Estado e das demais Instituições em favor da formação do Homem? Desta forma. eis que somente a adoção de políticas adequadas ao reconhecimento da força ativa em proveito da construção da sociedade que o acolhe o cidadão imigrante poderá sentir-se fortalecido o suficiente para aceitar a integração plena. faz-se indagar: é fundamental diminuir a influência do estado na construção de uma nova acepção sobre as estruturas de um novo regime democrático. reconhecendo o efetivo ajuste desta sociedade sob ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Conclusão Tais questionamentos refletem a ligação do homem como reflexo da sociedade na qual se encontrar engajado. posto que o retrato da democracia nestes países assolados pela falta de investimentos de base e total desrespeito ao homem e a cidadania. quer na qualidade de vetor imprescindível a este desenvolvimento. buscando no país receptor (Portugal) a pátria que poderá conceder melhor perspectiva de engrandecimento intelecto-social. democrática. do esforço de se alertar as novas gerações sobre tais questões que preocupam a sociedade moderna.8 quer sejam aqueles que buscam um aperfeiçoamento no seu grau de enriquecimento humano. Em conclusão. quer como elemento de desenvolvimento social. atendendo-se aos anseios da cidadania? Qual o retorno.

nomos. RAMOS.9 o ângulo do imigrante que se insere na comunidade que o acolhe. Coimbra editora. (1998). Paulos. ACIME – Alto comissariado para a Imigração e Minorias Étnicas. (1997). MOURA. Rio de Janeiro. Los sistemas perversos y la corrupcion institucionalizada. Jorge. assim como analisando de forma plena as políticas de acolhimento. Laércio Dias. VERGINIÈRES. traçando um panorama plausível na elaboração de meios reais para melhor acolher o imigrante brasileiro em Portugal. São Paulo. edição 2005. _______ Imigração: os mitos e os factos. língua e hábitos similares entre tais coletivos. levando-se em consideração os conceitos básicos de similitude de cultura. Madrid. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . São Paulo. Coimbra. ed. Ética e Política em Aristóteles: physis. Solange. Civilização Brasileira. (1996). La doble moral de las organizaciones. (1986). Adolfo. Rui Manual Gens de Moura. MacGrawhill. Da Comunidade Internacional e do seu Direito. Construindo a cidadania. VASQUEZ. (1996). Makron Books e PUC – RIO. Ética. Referências Bibliográficas ETKIN. Ethos.

discurso político. O presente trabalho. parlamento. aborda o modo como o discurso político constrói a integração de imigrantes. Centrando-se no discurso político parlamentar. nomeadamente nas vertentes da discussão e tomada de decisão legislativa e do controlo da execução de políticas. análise de discurso.Porto cramos@ufp O presente texto apresenta o ponto de partida metodológico e as linhas gerais da operacionalização de um estudo decorrente sobre discurso político parlamentar e integração de imigrantes.pt Universidade Fernando Pessoa . as linhas estruturantes das posiçõestipo assumidas em matéria de imigração pelas diferentes forças políticas em presença. Estrutura-se em torno de três itens fundamentais: uma abordagem breve à análise de discurso. uma apresentação de ideias emergentes de trabalhos recentes de análise do discurso parlamentar. integração. nas ciências sociais e política. Palavras-chave: imigração. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Com particular recurso aos debates plenários.Discurso político e integração de imigrantes: uma análise do discurso parlamentar Cláudia Toriz Ramos Centro de Estudos de Antropologia Aplicada . no actual contexto político português. o trabalho abordará não apenas a dimensão da construção ideológica associada ao discurso de cada uma das forças políticas representadas no Parlamento português. uma explicitação do plano e pressupostos da pesquisa em curso. mas atendendo também ao enquadramento do processo legislativo. de forma diacrónica. mas também a forma como essa dimensão se cruza com o pragmatismo político-institucional. a decorrer no âmbito do projecto Processos de integração social e económica de imigrantes do Centro de Estudos de Antropologia Aplicada da Universidade Fernando Pessoa. o projecto procura identificar.

centrada no modo como o discurso político parlamentar constrói a integração de imigrantes. 2001a). de forma mais lata. sobremaneira. Daí decorre também a análise das interacções inerentes ao diálogo entre os falantes e.2 Esta comunicação corresponde a uma notícia preambular sobre essa perspectiva de abordagem à problemática da imigração. 2001. não se pretende apresentar resultados. o terceiro. terão a acepção de que o discurso é parte da acção social e como tal pode ser estudado. referir. o segundo. uma apresentação de ideias emergentes de trabalhos recentes de análise do discurso parlamentar. Do ponto de vista metodológico. para os objectivos do presente trabalho. por relação com o âmbito teórico e temático da antropologia. encarada na perspectiva das metodologias de investigação das ciências sociais. Em comum. Ao presente. do ponto de vista disciplinar. no quadro teórico e metodológico das ciências sociais e política. a antropologia. 2001a). uma explicitação do modo de operacionalização da presente pesquisa. um breve apontamento acerca da análise de discurso. Taylor e Yates. 2001. que não caberá. a ciência política e as ciências da comunicação usam de forma recorrente a análise de discurso. Taylor e Yates. para o contexto parlamentar português e para o tema da imigração. A análise do discurso político A análise de discurso. corresponde a um vasto campo de estudo que toma o discurso – oral e/ou escrito – como objecto. a linguística. mas sim o plano que para ela foi gizado e a sua razão de ser. mas também a sociologia. Se abordados os suportes teóricos e filosóficos dos diversos modos de análise do discurso encontra-se também uma pluralidade de posicionamentos. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . do contexto social do discurso (Wetherell. Estando esta abordagem na sua fase inicial. não necessariamente contínuas entre si (Wetherell. no âmbito dos estudos de ciência política sobre discurso político parlamentar. tais abordagens subdividem-se numa pluralidade de práticas investigativas. Esta linha de estudo. a psicologia social. sendo assim este um contributo transdisciplinar. deve ser colocada. O texto que se segue estrutura-se em torno de três itens fundamentais: o primeiro.

2001. cujas características cabe analisar. 1997. construídas através do discurso. Diez. nos planos teórico e metodológico. ressalvando-se a sua maleabilidade a diferentes abordagens teóricas de fundo. 2004: 6. por relação com o pensamento. 2006. traduzido). na tomada de posições públicas. no entanto. Ver. 2001. Waever. em declarações públicas as estruturas e os padrões que regulam o debate político fazendo com que algumas coisas possam ser ditas enquanto outras seriam sem sentido ou menos fortes. 2004: 6). Isto é. Definem-se. Por outro porque. nos paradigmas construtivistas e pós-estruturalistas aplicados à ciência política (Adler. a palavra assume um papel nuclear na explicitação de ideias. assim. na argumentação e contra-argumentação de causas. ou pouco razoáveis (2004: 199. As abordagens ditas cognitivistas tenderão a procurar aplicar parâmetros de verdade ou falsidade ao discurso. 1 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Rosamond. a acção política é o próprio discurso (Chilton. É corrente que tais análises se centrem no estudo das “estruturas de sentido”. a abordagem ao discurso é entendida essencialmente como uma metodologia. “comunidades de discurso” (Porter. Todavia. porque. na captação de adesões. Hansen. Poder-se-ia dizer que a política democrática começa no discurso e por vezes mesmo nele se finda (Chilton. em sentido lato. 2002). Neste sentido. a análise de discurso pode centrar-se “apenas” neste. e ao contrário do que o senso comum frequentemente afirmará sobre o mesmo. as percepções e as crenças dos sujeitos. independentemente de referenciais de verdade ou falsidade. 1992) específicas do âmbito da política. Em alguns casos.3 A análise do discurso político é. no contexto da política democrática contemporânea. Outro aspecto salientado pelo autor é o das características de sistematicidade e coerência do discurso político. considerando-o interessante por si próprio. em diversos âmbitos da ciência política. Chilton (2004: 21). enquanto construção mental ou realidade ideada. Muitos dos estudos recentes baseados nesta abordagem filiam-se. também uma abordagem em expansão. numa perspectiva ligeiramente diferente. Waever afirma 1 : A análise de discurso procura identificar. considerando-o circunstancial ou mesmo Também em Waever: «…a linguagem é um sistema e podemos estudar a sua estrutura como um estrato separado da realidade» (2002: 29). Por um lado. 2006). Hansen.

São exemplos de estudos desenvolvidos nesta perspectiva. Um terceiro aspecto prende-se com os tipos de análise de discurso em presença. centradas em técnicas linguísticas de análise detalhada do texto (Waever. Uma outra linha de abordagem define-se no quadro da chamada “análise crítica do discurso” a qual conjugará ambas as dimensões. este revela uma estruturação interna sólida e continuada. e os que têm os meios e a oportunidade de resolver esses problemas (cit. Meyer afirma: «As teorias do discurso visam a conceptualização do discurso enquanto fenómeno social e procuram explicar a sua génese e a sua estrutura. Esta escola tem desenvolvido o seu trabalho com relação com a “teoria crítica” e assume posicionamentos normativos. em associação com a ideologia e as relações de poder (Fairclough. por exemplo. a abordagens “micro”. teorias da argumentação. por enquadrar técnicas de análise linguística. Em vez de focar problemas puramente académicos ou problemas teóricos. sobre os discursos de extrema direita na Alemanha (2001: 32). Veja-se por exemplo a afirmação de van Dijk: Para lá da descrição ou de aplicações superficiais.4 errático. traduzido). tias como as da responsabilidade. dos interesses ou da ideologia. 2001: 19-20) 2 . 2001) que publicaram «The semiotics of racism» e 2 A este propósito. 1995. a ciência crítica formula. embora com terminologia algo diferente. nomeadamente do político. mas também uma larga análise de contexto. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . in Wodak. 2004: 201). parte de problemas sociais prementes e consequentemente opta pela perspectiva dos que mais sofrem. e analisa criticamente os que estão no poder. traduzido). da retórica. O autor contrapõe abordagens “macro”. ao distinguir teorias do discurso de teorias linguísticas (Meyer. outras questões. procuram descrever e explicar o padrão específico dos sistemas de linguagem e da comunicação verbal» (2001: 19-20. O autor afirma: “Os analistas do discurso estarão mais frequentemente interessados em perceber como um político argumenta do que estarão interessados no que ele diz. 2001:1. Esta distinção é também utilizada por Meyer. 2002: 30. da gramática. traduzido). os de Reisigl e Ruth Wodak (2000.» (Waever. Tirar daí consequências para a acção política é assim intenção expressa. 2001). M. entre outros: os de Siegfried Jäger./ As teorias linguísticas. os que são responsáveis. Wodak e Meyer. em cada domínio. que procuram identificar padrões de conjunto do quadro conceptual do discurso político. Do ponto de vista metodológico este modelo de abordagem releva mais da hermenêutica do que dos métodos analítico-dedutivos.

a partir do qual muito do discurso nacional poderá ser gerado» (2002: 24). Rhetorics of racism and antisemitism». Tal análise visou justamente identificar e interpretar as posições chave estruturantes do ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . para os casos dos quatro países escandinavos – Dinamarca. o modelo desenhado por Waever foi já aplicado ao discurso parlamentar português. O discurso parlamentar A análise do discurso político parlamentar. Do ponto de vista metodológico.d. Este último aborda o discurso do anti-semitismo. em matéria de investigação politológica. a lógica dos seus argumentos torna-se muito mais clara (Waever. o autor chama a atenção para a coerência das representações evidenciadas no discurso parlamentar. 2002: 42). (…) Se nos limitamos ao nível do discurso. Numa óptica que se reclama do pós-estruturalismo. s. de estado e de Europa. Os autores basearam-se substancialmente numa análise da construção das ideias de nação. se enquadrada nos enfoques de análise do discurso acima referidos. 2002: 26. o discurso populista e o discurso racista. às suas intenções secretas ou aos seus planos. 2005. Finlândia e Noruega. um bom exemplo é a obra editada por Waever e Hansen (2002) sobre identidades nacionais no contexto da integração europeia. não sendo um exercício novo. não procura chegar ao pensamento ou aos motivos dos actores. pela autora do presente texto (Ramos. Desse ponto de vista. Em parte. ganha todavia novas perspectivas. respectivamente sobre identidade nacional e integração europeia e sobre construção do Estado. cuja aparência de alguma desestruturação interna se dissolve quando se identificam os núcleos de sentido recorrentes que ele comporta (Waever.5 «Discourse and discrimination.). Afirma ainda: A análise de discurso trabalha sobre textos públicos. Suécia. no discurso político e parlamentar. Waever apresenta a tarefa do investigador como «a procura de pequenas constelações de conceitos que produzem um núcleo de sentido. traduzido).

segurança e justiça e o discurso de direitos serão também analisados. procurando a sua correlação com o contexto político e com os posicionamentos político-partidários. observando detalhadamente a estrutura das interacções (inclusivamente as não verbais) estabelecidas na arena parlamentar.6 discurso parlamentar. de acordo com a agenda política e parlamentar. debate corrente nos media). por uma sociedade tradicionalmente de emigração e com episódios muito recentes de fortes fluxos emigratórios. A ideia de que a questão da integração de imigrantes possa ser vista de uma forma particular. entre outras. eventualmente positiva. o emprego. constitui uma hipótese de trabalho interessante mas carece de comprovação. por isso. o espaço de liberdade. a necessidade de estudar cuidadosamente as estruturas regimentais e informais de enquadramento do discurso parlamentar. Estão. Deste trabalho parece ressaltar. Temas circunvizinhos como a nacionalidade. são também identificadas e analisadas as alusões à emigração portuguesa. A ideia de fundo é identificar no debate parlamentar as posições chave assumidas pelos diferentes partidos políticos e governo relativamente à questão da imigração. a cidadania. Chilton (2004: 92-109) apresenta ainda uma outra abordagem ao discurso parlamentar. centrando-se no parlamento britânico e em particular nas sessões de perguntas e respostas (“question time”). a ser isolados e analisados os debates em que o tema é abordado. o que poderá vir a permitir uma análise comparativa entre os discursos de imigração e de emigração. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . e bem assim o contexto em que as questões surgem (nomeadamente. o presente projecto de investigação decorre do cruzamento do projecto «Processos de integração social e económica de imigrantes» com a perspectiva de investigação sobre estruturas discursivas do debate parlamentar português. preparação prévia. Discurso parlamentar português e imigração Como foi anteriormente explicitado. agenda política. Esta análise disseca o discurso parlamentar num nível “micro”. para os temas mencionados. Porque a questão é histórica e sociologicamente premente para a sociedade portuguesa.

o contexto económico e social de fundo e a identificação dos momentos-chave (“critical junctures”). Encarado o Parlamento no seu interior. Por outro lado. Entende-se que a análise diacrónica poderá acrescer à interpretação desta documentação. supracitada). e uma vez que o fenómeno da imigração em Portugal tem uma forte correlação com a integração de Portugal no espaço territorial. nomeadamente no que respeita à hipótese sustentada numa análise comparativa. enunciada acima. em fase posterior. em posteriores rondas de recolha de material. no seu tudo. poderá. Para a análise de contexto.7 O estudo pretende-se longitudinal. A análise micro. embora se admita que. A documentação em análise é constituída pelo registo escrito dos debates plenários parlamentares. na evolução nacional e internacional da imigração. que ainda não foi ensaiada. a legislação relevante sobre os temas enunciados acima produzida no Parlamento. balizando-se entre 1976 e a actualidade. os insights da análise crítica do discurso levantam um conjunto de questões que permitem reconduzir a análise do discurso à temática de partida do projecto de investigação. para a história da democracia portuguesa. O procedimento que tem vindo a ser seguido filia-se nas linhas gerais da orientação para a aplicação da análise de discurso às ciências políticas como a apresenta Ole Waever (detecção de estruturas de sentido. A análise de contexto carece ainda de uma análise cuidadosa da agenda política concomitante com as iniciativas legislativas e debates parlamentares. Por sua vez. como não poderia deixar de ser. todo o processo político associado à integração europeia é relevante para a compreensão do objecto. é ainda relevante para a contextualização um estudo sistemático das condicionantes regimentais e do modus faciendi próprio do Parlamento português. mas é antecedido por toda uma preparação política e legislativa de que os debates parlamentares fazem eco e parte constituinte. revelar-se de alguma utilidade. marcam os pontos de referência necessários a uma análise diacrónica. Por sua vez. Este desenvolve-se a partir de 1986. lhe possam vir a ser acrescentados documentos resultantes de trabalhos em comissão (e eventualmente registos vídeo de uns de outros). à questão das atitudes sociais e políticas condicionantes da integração dos migrantes e ao debate sobre os modos da ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . utilizam-se também materiais complementares do debate público nos media e. permitindo assim a detecção dos temas que ditam ou condicionam a actividade parlamentar. económico e político da União Europeia. isto é.

“Between theory. Antje (eds. Londres. “Speaking ‘Europe’: The Politics of Integration Discourse” in Christiansen. No quadro da análise dos posicionamentos ideológicos e das relações de poder. 14-31. Londres. Knud e Wiener.). Referências Bibliográficas ADLER. 2004. Michael. Londres. Methods of Critical Discourse Analysis. Londres. Londres. Londres.). o discurso parlamentar ganhará certamente acrescidas potencialidades de leitura. CHILTON. maior normatividade do que aquela que é inerente a todo o acto de investigação científica.) 2001. Analysing Political Discourse: Theory and Practice. Thomas. Michael (eds. Sage. The Social Construction of Europe. HANSEN. nas finalidades deste trabalho. Siegfried. European Integration and National Identity. Routledge. Ruth e MEYER. 2001. DIEZ. CHRISTIANSEN. FAIRCLOUGH. “Discourse and knowledge: theoretical and methodological aspects of a critical discourse and dispositive analysis” in Wodak. Norman. Ruth e Meyer. Paul. Lene e WAEVER. Longman. Security as Practice: Discourse Analysis and the Bosnian War. Thomas. Sage. 2001. a tendência dominante seja a da afirmação da necessidade da integração. 1997. 2001. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Routledge. Knud e WIENER. Methods of Critical Discourse Analysis. JORGENSEN. Jorgensen.8 operacionalização de tal integração. Antje (eds.). 1995. 32-62. JÄGER. Ainda assim. The challenge of the Nordic states. Critical Discourse Analysis: The Critical Study of Language. Londres. De outro modo dito. Ole (eds. Thomas. não se assume. The Social Construction of Europe. no discurso político sobre imigração. Taylor & Francis. Londres. sendo hipótese plausível à partida que. Lene. MEYER. Sage. 2006. não é também de excluir a hipótese de que a desconstrução desses discursos possa evidenciar atitudes bem mais reticentes do que as que aparentemente emergem da letra do discurso político. Michael (eds. Sage.) 2002. method and politics: positioning of the approaches to CDA” in WODAK. 85-100. Emmanuel. HANSEN. 3 (3): 319-363. “Seizing the Middle Ground: Constructivism in World Politics” in European Journal of International Relations.

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fundadas em percepções e em interesses parciais e não com base em conhecimentos sustentados sobre o que as populações pensam da imigração e dos imigrantes. o perfil tipo do imigrante em favor da sociedade receptora deve conduzir à reflexão alargada muito para além do que julgam e podem ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Mas a norma tem sido a de fixação de “políticas” de imigração “de cima para baixo”. A ausência de uma política de imigração que considere. Pressupõe a existência de condições económicas. pensam e querem o conjunto de respondentes a um questionário construído para o efeito. sobretudo.OPINIÕES E PERCEPÇÕES SOBRE A IMIGRAÇÃO: CONTRIBUTO PARA A DEFINIÇÃO DE UMA POLÍTICA DE IMIGRAÇÃO PARA PORTUGAL Rui Leandro Maia Centro de Estudos de Antropologia Aplicada Universidade Fernando Pessoa – Porto A partir do tratamento de um vasto conjunto de informações provenientes da aplicação de um inquérito por questionário a uma amostra da população portuguesa de maior idade. o País e os que. mutuamente. Introdução A imigração constitui uma matéria de enquadramento legal particularmente delicada. pluralista e dinâmica. com capacidade executiva e legislativa. e. a partir do que sabem. as tipologias de políticas de imigração que advoga em relação com os espaços sociais com que se identificam as “categorias” dos respondentes. descreve-se o que ela opina e percepciona sobre a imigração e os imigrantes. isto é. sociais e culturais de integração daqueles que a representam e não cabe em exclusivo aos decisores. nele se radicam. Apresenta-se aqui um conjunto de opiniões e de percepções sobre a imigração e. No pressuposto de que a sociedade civil. procura-se desenhar perspectivas sobre a imigração “de baixo para cima”. para além do número. é referência para a fixação de qualquer contrato social. vindos do estrangeiro. em forma de reflexão. para a necessidade premente de se fixar um Livro Branco para a imigração em Portugal. e releva. o texto propõe um modelo possível de integração social e económica de imigrantes. encontrarem respostas satisfatórias à instituição de uma política estratégica capaz de servir. com sentido prospectivo.

sendo residuais os valores referentes a outras categorias possíveis de estado civil. carece de ampla participação cívica na perspectiva de.9 por cento.3 por cento. todos universitários de cursos de licenciatura em regime diurno ou em regime nocturno. seguido do de Braga. se associar ao processo imigratório uma política de integração. 82. os casados e os que estão a viver maritalmente 9.3 por cento do total. uma minoria. considerando os do ensino pré-universitário.3 por cento do total dos respondentes. Os alunos nascidos no distrito de Aveiro representam 17. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Estão sobretudo adstritos a actividades relacionadas com o comércio e os serviços. com 12. em consequência de aqui estarem radicados muitos respondentes por estarem a estudar. com um intervalo de amplitude de 46 anos. As origens geográficas dos alunos estão essencialmente concentradas pelo Norte do País. com 7. valor elevado e compreensível tendo em conta o estado da economia nacional e internacional e as baixas oportunidades de emprego. com o distrito do Porto em maior evidência.5 por cento.8 por cento dos alunos. E essa só se alcança com aceitação e participação social alargada.3 por cento.3 por cento.3 por cento. e do de Viana do Castelo. é significativo. sobretudo em relação ao mercado de trabalho capaz de absorver mão-de-obra possuidora de formação superior. com um intervalo de amplitude de 40 anos. com o distrito do Porto em evidência. com 10. seguido do de Braga.1 por cento de respostas referentes à não filiação em qualquer credo e. ao invés.4 por cento.3 por cento e 2.2 por cento.8 por cento. A preocupação em relação à situação económica é manifesta por 78. 2. de outras confissões. 25. Os solteiros representam 86. O número de alunos que exerce ocupação / profissão. 43.6 por cento. com estratégia. São sobretudo de religião católica. com 5. valores que correspondem à oscilação esperada para os alunos que frequentam o ensino superior em geral. e a idade média dos elementos dos 202 elementos do século feminino é de 23. 2.3 anos.0 por cento. e os restantes 97. e do de Viana do Castelo. com 15. 63.7 por cento. respectivamente.2 aqueles que estão transitoriamente mandatados e. Os distritos onde residem estão também essencialmente concentrados pelo Norte do País.7 por cento. Os respondentes nascidos no estrangeiro representam 7.5 anos. A idade média dos 98 elementos do sexo masculino inquiridos é de 25.

9 por cento manifesta não saber ou não responder sobre a orientação política que os norteia. as que estão representadas entre nós com maior acuidade e as demais que. no trabalho. Tem por base empírica a recolha de informações por um inquérito por questionário que.7 por cento refere contactar com imigrantes nas terras onde residem quando não estão no Porto e 8.4 por cento. com 1.1 por cento e o centro-esquerda com 7. e a extrema-esquerda. uma divisão dicotómica coloca os indivíduos situados à direita e em minoria. com vista à fixação de uma política estratégica.7 por cento. descreve que eles ocorrem no dia-a-dia. em relação à imigração e à integração de imigrantes. em número de trezentos. As opiniões dos respondentes são aqui literalmente transcritas. considerando. respectivamente a extrema-direita. após validação. O posicionamento manifesto no texto parte do princípio de que as opiniões. em espaços públicos.9 por cento. dos respondentes não tem contactos frequentes com imigrantes. de autorizações e de qualidades relacionadas com escolaridade e com experiência de trabalho. simultaneamente. descreve-se o que querem os respondentes da imigração e dos imigrantes para Portugal em matéria de impedimentos. a direita com 21.5 por cento. Um pouco mais de dois terços.3 Quanto à orientação política.4 por cento. com 0. por isso. o centro-direita com 9. Para além dos elementos referentes à caracterização sócio-demográfica da amostra não representativa colhida. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Mas é de relevar que. 39. não estando tão presentes. Metodologia Esta proposta assenta no princípio de que a sociedade civil deve ser auscultada. a maioria. em ambiente de estudo. frequentador habitual das bibliotecas da Universidade Fernando Pessoa – Porto. 70.6 por cento e a esquerda com 19.3 por cento contacta com imigrantes em casa. foi lançado na primeira quinzena do mês de Março de 2006 a um público específico. 21. ou seja. Dos que referem ter. exploram-se sobretudo questões relacionadas com algumas perspectivas sobre a imigração. 68.0 por cento. as percepções e as perspectivas sobre a imigração se relacionam e diferenciam em função e consoante as regiões de origem dos imigrantes. dos 300 indivíduos respondentes. apresentados os extremos valores residuais.

37. 2.7 por cento.2 por cento. 11. configuram explicações reveladoras de preferências por uma imigração condicionada à existência de um a série de requisitos.0 por cento.4 também induzam à tomada de posições relativamente ao conjunto de questões contempladas. face às questões que aqui foram consideradas para tratamento e análise. e dos que têm mais de 50 anos. Conquanto não exista qualquer manifestação de preferência de fixação dos imigrantes no nosso País pelo seu sexo. A maior parte dos respondentes considera que ela deve situara-se nos que têm entre os 20 e os 29 anos. há uma manifestação dispersa pelas categorias consideradas sobre se a imigração deve corresponder a determinada faixa etária. dos imigrantes. 19. Essas preferências remetem para a existência de uma consciência sobre a imigração e a necessidade de se adoptarem políticas estratégicas para o País e é sobre elas que este texto reflecte. por entender ser melhor. de qualquer forma. 20.7 por cento. 58. dos que dizem não saberem ou não responderem. fundamentalmente variável a variável. 1. Os dados apresentados são ainda de nível exploratório primário. Mas os restantes 40. permite entender como se posicionam em relação à imigração e ao que pretendem. para cada uma das opções tomadas.7 por cento. Discussão de resultados A maior parte dos inquiridos.5 por cento. dos que têm menos de 15 anos. acham que o Estado não deve seleccionar. Para os que entendem que os imigrantes devem vir para Portugal entre os 20 e os 29 anos os discursos podem dividir-se em três grupos: ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . seguidos dos que aceitam a imigração em qualquer idade. dos que estão entre os 30 e os 39 anos. Uma análise dos discursos dos respondentes. os estrangeiros que querem vir para Portugal. dos que têm entre os 15 e os 19 anos. uma vez que a investigação de conjunto está ainda em desenvolvimento e terá conclusão prevista até ao final do ano de 2007.5 por cento.5 por cento.3 por cento. 7.

por cento das explicações aduzidas: • • De preferência. Porque são idades em que o rendimento/ produtividade no trabalho é maior.1. A formação de um aluno fica cara ao Estado. relativamente jovem. 2. O que justifica a idade por motivos educacionais. às suas realizações pessoais. com espírito de trabalho e disponibilidade. representando 7. Porque se encontra em idade de produção. Pessoas mais novas. com capacidade. como é o caso dos idosos. às suas expectativas e ambições.3 por cento das explicações aduzidas: ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . dos imigrantes a admitir no País por motivos económicos e sociais essencialmente. 3. Contribuir para o desenvolvimento do País. A entrada de imigrantes jovens e com formação superior e conhecimentos é uma mais-valia para o País. São pessoas em início de vida. e vêm para o País trabalhar e não beneficiar de ajudas. daí trabalharem e serem importantes para o desenvolvimento económico do nosso País. representando 50.5 1. Idade onde eles podem contribuir para o desenvolvimento do País mais activamente. à partida. já adquiriram um nível de educação superior à média. Pessoas com ambição e com vontade de trabalhar. Física e psicologicamente mais preparados para o trabalho. Fase de maior capacidade física e psicológica. São os mais produtivos. Porque já possuem alguma escolaridade e já são maiores de idade. podendo contribuir para o crescimento sócio-económico. O que justifica a idade. E o que apresenta motivos essencialmente associados à vida dos imigrantes. para trabalhar e não para ter qualquer tipo de ajuda. Trata-se de uma idade em que a adaptação é mais fácil. supostamente.0 por cento das justificações aduzidas: • • • • • • • • • • • • • • A população portuguesa está a ficar envelhecida. que querem ganhar dinheiro. Porque são jovens adultos. representando 39.

se calhar. Estão numa idade de procurar uma vida melhor. O que justifica a admissão dos imigrantes por motivos pessoais. Todos somos iguais. Para os que entendem que os imigrantes podem vir para Portugal em qualquer idade os discursos podem dividir-se em quatro grupos: 1. • • • • • • • • • Encontram-se numa boa idade para começar a delinear livremente a sua vida. a conhecer locais novos. Sendo menor. É necessário ter em conta a fase de integração que é muito importante. Mais expectativas nestas idades. até porque é nesta idade que está patente a aventura. Poucas. não custa tanto nesta idade. Idade propícia a uma integração mais rápida e ainda com possibilidade de formação ideal.4 por cento das justificações aduzidas: • • • • A população deve ser controlada de modo a que não haja injustiças sociais Desde que queira trabalhar e não cause desemprego para os de Portugal. e por estarem num nível etário em que precisam de trabalho para serem alguém na vida. Por serem maiores de idade para poderem ter mais condições de vida. Porque é a idade onde começa uma nova vida e há mais perspectivas futuras. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA ..2 por cento das justificações aduzidas: • • • Porque qualquer pessoa tem direito a tentar melhorar a vida. O que justifica a admissão dos imigrantes por motivos económicos e sociais essencialmente. a sua sobrevivência tem que ser assegurada pelos pais ou familiares. representando 44. 2. Pelo facto de não serem menores. Jovens. caso não a tenha no seu país de origem.. Idade com melhor integração na comunidade.6 • • A vontade de "crescer na vida" aumenta neste escalão etário. mas que venham para trabalhar. representando 22. E esta integração.

por cento das razões aduzidas: • Importância na aprendizagem da língua. Penso que a idade não é determinante mas sim a motivação e os objectivos dos imigrantes. são três as justificações avançadas: • • • A idade implica que estes tenham maturidade suficiente e valores definidos. representando 22.2 por cento das justificações aduzidas: • • Não há idade determinada para se poder imigrar para qualquer país. em consonância com a opção de resposta. não dão quaisquer motivos específicos para associar a idade ao acto de imigrar. Relativamente novos – para. com o seu contributo profissional. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . 4. Não faz sentido falar em idade para a imigração ou emigração.7 por cento das justificações aduzidas: • • Aumenta o número de pessoas aptas para trabalharem e assim contribuem para o desenvolvimento económico do País. provavelmente. representando 11. • • • Idade intermédia – aptos para trabalharem. sem vícios de trabalho. alguma maturidade e. Embora os que referem não saber ou não responder não apontem qualquer grupo de idades. Maior aptidão para o trabalho. representando 85. Melhor [por] estarem dentro da idade para trabalharem.7 3. adaptarse a uma nova cultura. O que justifica a idade dos imigrantes a admitir no País por motivos económicos e sociais essencialmente. Só se for para trabalhar seriamente. E o que.1. ajudarem a economia do País. Para os que entendem que os imigrantes devem vir para Portugal entre os 30 e os 39 anos os discursos podem dividir-se em dois grupos: 1. Idade adulta – mais responsáveis/ maduros/ com objectivos construídos. O que justifica a admissão de imigrantes por motivos educacionais. entender a língua portuguesa.

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Porque já são pessoas com experiência e a integração num novo país não vai ser tão dificultada.

2. E o que apresenta motivos associados à vida dos imigrantes, às suas realizações pessoais, às suas expectativas e ambições, representando 14.3 por cento das explicações aduzidas: • Porque terão uma idade mais madura para fazerem essa opção.

Para os que entendem que os imigrantes devem vir para com idade inferior a 15 anos os discursos referem-se a motivos de natureza social e económica: • • • Adaptação. Há uma melhor inserção no País de escolha. Não deveria haver imigração, mas, a haver, os imigrantes devem ser o mais possível novos: integram-se melhor. A existência de imigrantes é o oportunismo de alguns. • Pois seriam portugueses, pois iriam contribuir para o País como portugueses, desde terem a escolaridade obrigatória e mais tarde terem direito a uma reforma porque contribuíram para o Estado. • São criadas normas de ensino e saber estar num país que não é o deles. Logo, conseguem adaptar-se melhor.

Para os que entendem que os imigrantes devem vir com idades entre os 15 e os 19 anos, os discursos referem-se a motivos económicos e sociais: • • É a idade adequada para se adaptarem a quase tudo, têm maior independência e maior autonomia. Podem assegurar vários tipos de trabalho. Pois são pessoas ainda jovens que podem vir a realizar o trabalho que cá ninguém quer fazer, normalmente trabalhos mais forçados

Dos que entendem que os imigrantes devem vir para Portugal com mais de 50 anos nenhum respondente avançou explicações. A associação entre requisitos educacionais prévios e imigração identifica a prioridade para as pessoas que tenham realizado estudos, com 19,3 por cento e 26,9 por

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cento das manifestações para os adeptos de que os imigrantes devem, respectivamente, possuir a escolaridade equivalente ao nosso ensino secundário e ao nosso ensino superior. Os adeptos do primeiro e do segundo ciclos do ensino básico são em igual valor percentual, 2,5, e do terceiro ciclo do ensino básico são 5,9 por cento. No entanto, 6,7 por cento dos respondentes optam pela não exigência de qualquer frequência escolar para os imigrantes e 36,1 por cento não sabe ou não responde. A imigração por fases colhe 69,7 de respostas favoráveis, 6,7 de respostas não e 23,5 por cento de não respostas, não sabe ou não responde. O sim foi mais expressivo, 90,8 por cento, na questão do estabelecimento de um número máximo de pessoas a admitir por ano como imigrantes, ficando o não pelos 4,2 por cento e o não sabe não responde pelos 5,0 por cento. A maior parte dos respondentes considera que deve existir algum grau de restrição à entrada de imigrantes, com maior expressão para os que pensam que ela deve ser elevada e moderada, 25,0 por cento cada, seguidas de perto pelos que pensam que ela deve ser baixa, 20,0 por cento, e, a alguma distancia, muito baixa, 8,3 por cento. Apenas 12,5 por cento consideram que não deve existir qualquer restrição à imigração e 8,3 por cento não sabem ou não respondem. A manifesta restrição à entrada de imigrantes, para as três regiões mais expressivas, é revelada em relação à China, com 17,1 por cento, a Outros Países de África, com 11,2 por cento, e aos PALOP, com 10,3 por cento na categoria “muito elevada”; é de 21,4 por cento para a Europa de Leste e repete-se para Outros Países de África, com 19,8 por cento, e para os PALOP, com 18,8 por cento na categoria “elevada”. As manifestas exigências de grau de escolaridade dos imigrantes são maioritárias na categoria “moderado”, com 50,4 por cento, “elevado”, com 33,1 por cento, “muito elevado”, com 3,3 por cento, “muito baixo”, com 1,7 por cento, “baixo”, com 0,8 por cento. 10,7 por cento, não sabe ou não respondem. As maiores exigências em relação ao grau de escolaridade colocam-se, naturalmente, em relação a quadros superiores, 45,5 por cento “muito elevada”, e em relação a técnicos profissionais intermédios, 57,0 por cento “muito elevada”. Para as profissões e ocupações de menores exigências habilitacionais a expressão de requisitos escolares é dominada pelas categorias “moderada” e “baixa”.

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Da mesma forma em relação às maiores exigências em relação ao grau de experiência profissional para os quadros superiores, 44,2 por cento “muito elevada”, e em relação a técnicos profissionais intermédios, 45,0 por cento “muito elevada”. Para as profissões e ocupações de especialização a expressão do requisito experiência é dominada pelas categorias “elevada” e moderada”.

Nota de conclusão A posição de que ao Estado não cabe seleccionar, de qualquer forma, os estrangeiros que querem vir para Portugal é reveladora, na expressão maioritária que tem e tendo em conta as características dos respondentes – pessoas com um nível educacional acima da média – da ausência de uma consciência cívica estratégica para a imigração e para os imigrantes. É de assinalar que 58,7 por cento dos respondentes acham que o Estado não deve seleccionar os imigrantes. E para os restantes regista-se que: • Apesar de 37,5 por cento entender que os imigrantes devem vir para Portugal entre os 20 e os 29 anos, não há uma definição marcante de idade ideal. • As justificações sobre as opções de idades de imigração são, fundamentalmente, de carácter económico e social, seguidas das relacionadas com as competências educacionais e das relacionadas com os interesses e as expectativas dos imigrantes, numa distinção que nem sempre é clara pelas categorias de análise expostas. Há uma manifesta tendência pelas respostas justificativas da imigração como um todo por aquilo que a mesma representa de vantajoso para o País e não para as pessoas. • Há uma assunção clara pela aceitação de imigrantes com formação média e superior, uma associação entre as competências educacionais de base e as competências exigidas para o trabalho a desenvolver em Portugal, bem como destas em relação à experiência profissional de base.

Parece consensual que não é possível nem é desejável, no quadro geoeconómico em que se insere Portugal, parar a imigração. É possível geri-la de modo a que responda ao desafio, quase utópico, de contribuir para um benefício triplo: entre os países que nela se envolvem e para os actores que a sustentam. E isso implica um conhecimento

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profundo do que a imigração e os imigrantes representam, em si e para a sociedade civil que com eles interage. O que se afirma é tanto mais importante quando a definição de uma política de imigração, para além do número, implica a preparação e a definição de uma política de integração de imigrantes, o que só se consegue com a colaboração da sociedade civil. O projecto a que este texto se associa pretende dar corpo a essa preocupação de auscultar o entendimento da sociedade civil, em forma de Livro Branco, sobre a imigração e os imigrantes. Ao que ele esboça, parece não existir um sentimento formado sobre o lugar da imigração e dos imigrantes na construção da nossa sociedade e, muito menos, sobre uma estratégia imigratória para o País.

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Este questionário destina-se a recolher informações junto de cidadãos portugueses de maior idade sobre a imigração e os imigrantes, ou seja, sobre aqueles que, sendo estrangeiros, fixaram residência em Portugal. Está dividido em três partes cada qual com a sua função: a primeira, de carácter identificativo, visa caracterizar os respondentes; a segunda, de carácter valorativo, visa perceber o que opinam e percepcionam os respondentes sobre a imigração e os imigrantes; a terceira, de carácter prospectivo, visa perceber que tipos de imigração defendem os respondentes. A sua participação, com resposta a todas as questões, é muito importante. I – Caracterização sócio-demográfica 1. Idade Anos 2. Sexo Masculi Femini no no

Solteiro(a)

Casado(a)

3. Estado Civil A viver maritalme Divorciado Separado(a nte (a) )

Viúvo(a)

Outra situação

4. Tem filhos? Sim Quantos ? Não

5. Qual é o grau de escolaridade mais elevado que frequenta ou frequentou? 1º Ciclo ou 2º Ciclo ou 3º Ciclo ou Ensino Nenhuma Ensino Ensino Ensino Ensino Secundário, frequência Primário, 1ª, Superior Preparatório Médio, 7, 8º 10º, 11º e 12º escolar 2ª, 3ª e 4ª , 5º e 6º anos e 9º anos anos classes

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6. Trabalha? Sim Se sim, em que trabalha? Não

7. Está preocupado(a) com a sua situação económica? Sim Não

8. Refira o distrito, o concelho e a freguesia onde nasceu Distrito Concelho Freguesia 9. Refira o distrito, o concelho e a freguesia onde vive habitualmente Distrito Concelho Freguesia

Nenhuma

10. Qual é a sua opção religiosa? Católica

Outra Qual?

11. Qual é a sua orientação política? Extrema direita Direita Centro direita Centro esquerda Esquerda Extrema esquerda Não Sabe/ Não responde

II – Opiniões e percepções sobre a imigração 12. Contacta frequentemente com imigrantes? Sim Não Onde? 13. Assinale o grau de simpatia que tem em relação aos imigrantes das seguintes regiões: Não Muito sabe/ Eleva Mode Muito Nenh Eleva Baixa Não da rada Baixa uma da respo nde União Europeia Europa de Leste Países Africanos de Língua

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Oficial Portuguesa Outros países de África América do Norte Brasil Outros países da América Central e do Sul China Outros países da Ásia Oceânia 14. Assinale o grau de importância que os imigrantes dão ao trabalho, segundo as seguintes regiões: União Europeia Europa de Leste Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa Outros países de África América do Norte Brasil Outros países da América Central e do Sul China Outros países da Ásia Oceânia 15. A impressão que os imigrantes têm e a forma como agem com os portugueses é: Não sabe/ Muito Modera Muito Boa Má Não boa da má respond e União Europeia Europa de Leste Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa Outros países de África América do Norte Brasil Outros países da América Central e do Sul China Outros países da Ásia Oceânia 16. A impressão que os portugueses têm e a forma como agem com os imigrantes é: União Europeia Europa de Leste Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa

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Outros países de África América do Norte Brasil Outros países da América Central e do Sul China Outros países da Ásia Oceânia 17. A presença de imigrantes influencia o número de crimes registados no País? Sim, eles Sim, eles são Sim, eles vítimas do são Não cometem Não Sabe/ vítimas do crime e o crime Não crime cometem Responde o crime União Europeia Europa de Leste Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa Outros países de África América do Norte Brasil Outros países da América Central e do Sul China Outros países da Ásia Oceânia 18. Trabalho e legislação. Os imigrantes: Sim Tiram o trabalho aos portugueses? Os que estão ilegais devem ter direito a trabalhar? São regidos por legislação adequada? Contribuem para o nosso desenvolvimento económico? Pagam os impostos que devem? E beneficiam desses impostos? 19. É função do Estado: Adoptar políticas de actuação específicas para os imigrantes Assegurar igualdade de tratamento entre nacionais e imigrantes Assegurar maior ajuda aos imigrantes Não Não Sabe/ Não Responde

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5º e 6º responde 8º e 9º anos 12º anos 4ª classes anos ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .16 Expulsar os imigrantes ilegais. 3ª e io. sem tentar promover a sua inserção? 20. 7. O Estado deve dar preferência à entrada de imigrantes do sexo: Masculino Feminino Sem preferência 23. Aceitaria ter como imigrantes: Membros da sua família? Seus amigos? Seus vizinhos? Seus colegas de trabalho? Residentes nas imediações ao espaço onde você vive? Residentes no espaço onde você vive? III – Perspectivas sobre a imigração 21. 2ª. . Indique a melhor idade para os imigrantes virem para Portugal (assinale apenas uma opção): Menos Dos 20 Dos 30 Dos 40 Não sabe/ Dos 15 aos Mais de Qualquer de 15 aos 29 aos 39 aos 49 Não 19 anos 50 anos idade anos anos anos anos responde Justifique a sua escolha 24. O Estado deve seleccionar os imigrantes que querem vir para Portugal? Sim Não ⇒ para si. o Estado deve dar prioridade a imigrantes com (assinale apenas uma opção): 1º Ciclo ou 2º Ciclo ou 3º Ciclo ou Ensino Nenhuma Ensino Ensino Não Ensino Secundário Ensino frequência Primário. Preparatór Sabe/ Não Médio. o questionário termina aqui. Sobre a escolaridade. 22. 10º. 11º e Superior escolar 1ª.

ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . O Estado deve estabelecer o número máximo de imigrantes a entrar em cada ano? Sim Não Não sabe/ Não responde 27. Assinale o grau de escolaridade que os imigrantes devem ter para poderem desempenhar as seguintes profissões: Não Muito sabe/ Eleva Mode Muito Nenh elevad Baixo Não do rado Baixo um o respo nde Quadros Superiores da Administração Pública. A integração dos imigrantes deve ser feita por fases? Sim Não Não sabe/ Não Responde 26.17 Justifique a sua escolha 25. Outros países da Ásia Oceânia 28. indique o grau de restrição de entrada que lhes atribui: Não Muito sabe/ Elevad Moder Muito Nenhu Elevad Baixo Não o ado Baixo m o respon de União Europeia Europa de Leste Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa Outros países de África América do Norte Brasil Outros países da América Central e do Sul China. Das seguintes regiões de origem dos imigrantes.

A sua colaboração foi muito importante. Artífices e Trabalhadores Similares Operadores de Instalações e Máquinas e Trabalhadores da Montagem Trabalhadores Não Qualificados 29. Assinale o grau de experiência profissional que os imigrantes devem ter no seu país de origem para poderem desempenhar as seguintes profissões em Portugal: Quadros Superiores da Administração Pública. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Dirigentes e Quadros Superiores de Empresas Especialistas das Profissões Intelectuais e Científicas Técnicos e Profissionais de Nível Intermédio Pessoal Administrativo e Similares Pessoal dos Serviços e Vendedores Agricultores e Trabalhadores Qualificados da Agricultura e Pescas Operários. Artífices e Trabalhadores Similares Operadores de Instalações e Máquinas e Trabalhadores da Montagem Trabalhadores Não Qualificados O questionário termina aqui.18 Dirigentes e Quadros Superiores de Empresas Especialistas das Profissões Intelectuais e Científicas Técnicos e Profissionais de Nível Intermédio Pessoal Administrativo e Similares Pessoal dos Serviços e Vendedores Agricultores e Trabalhadores Qualificados da Agricultura e Pescas Operários.

º do questionário: Responsável pela administração: Data e hora: Local de realização e contacto do respondente: Av.19 Ficha Técnica do questionário N. / Rua.facultativo: ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . n.º : Telefone de contacto .

Uma das comunidades imigradas em Portugal que mais tem dinamizado o seu movimento associativo é a brasileira. à segurança social. em parte. necessidades. outras razões poderão ajudar a explicar este fenómeno. esse vigor. Dolores Vargas Llovera Centro de Estudos de Antropologia Aplicada Universidade de Alicante As associações de imigrantes constituem uma estratégia clássica de ligação à origem e de luta pela integração no destino. ao reagrupamento familiar. Introdução O associacionismo é uma necessidade vital do ser humano. à escolarização dos filhos. sobretudo nos momentos chave da vida. aos cuidados de saúde. à legalização. A nossa proposta de comunicação centrar-se-á nesse desígnio. O facto de se tratar de comunidades numerosas justifica. no sentido de acederem aos recursos e aos direitos existentes na sociedade receptora. as associações cobrem objectivos de recriação dos modelos de origem. de diversão. de perpetuação da cultura de partida. Enquanto elemento dinamizador da presença e do enquadramento legal e profissional dos seus concidadãos. duas atitudes que podem parecer antagónicas. funcionando também como redes sociais de encontro. ao trabalho. buscar apoios materiais afectivos ou de outra índole e conceber espaços de segurança. Enquanto elemento coesionador do grupo estrangeiro. o que permite colmatar os constrangimentos resultantes das diferenças ao nível das normas sociais e dos padrões culturais da sociedade de chegada. elas vão actuar no sentido de integrar o seu modo de vida. de ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . as associações organizam-se no sentido de agir socialmente e politicamente a fim de que os seus membros possam ter acesso no lugar de chegada aos direitos elementares relativos à permanência e residência. que aportam aos seus membros um pouco do lugar que deixaram. ajustando-o ao novo ambiente social. em que urge partilhar experiências. Com o tempo e a inevitável aculturação. mas que na realidade se revelam complementares. enfim. o mesmo acontecendo com os diferentes grupos de sul-americanos em Espanha.A integração dos imigrantes deve ser feita por fases? As associações de imigrantes latino-americanos na Península Ibérica Alcinda Cabral Centro de Estudos de Antropologia Aplicada Universidade Fernando Pessoa e M. Todavia.

mantêm identidades e são um núcleo de informação necessária. que encontram todo o tipo de carências. na mira de uma eficácia dos seus propósitos. culturais.2 ideias. as suas actuações e a sua cosmovisão chocam frontalmente com os esquemas de uma sociedade que culturalmente não é igual. que fomentam a divisão da sociedade e que não favorecem a integração. e são fundamentais para a assistência das pessoas. como um mundo que não pertence a ela. provocando tensões. sejam locais. geram iniciativas de actuação para o fortalecimento das suas ideias associativas. Por isso é de grande importância ter em conta que o actual dinamismo associativo dos imigrantes teve que ultrapassar grandes impedimentos para consolidar a sua realidade social e para ganhar o respeito fundamental das instituições oficiais. estas não vêem com bons olhos a criação desses espaços. Pode afirmar-se que as associações de imigrantes terão que continuar a lutar para ultrapassar os muitos entraves que as instâncias oficiais lhes apresentam. Desta maneira. como é o caso dos imigrantes. bem como romper com as fronteiras sociais que a sociedade civil pretende ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . particularmente em momentos difíceis. não coincide com o ritmo do reconhecimento social. mas este reconhecimento oficial que vão adquirindo paulatinamente. de manter identidades e tudo o que implica a afirmação socio-cultural própria do ser humano. apresentando-se como lugares delimitados no interior da sociedade de recepção. não só com a sociedade civil. O grande objectivo é o de. procurarem junto dos companheiros a coerência das suas ideias e não actuarem isoladamente. actuam como grupos de pressão de reivindicações sociais. Ao mesmo tempo fomentam a solidariedade. de crenças. As associações dinamizam actividades próprias na base das estruturas que criaram. Ante a grande eclosão de associações de imigrantes que se formam nas actuais sociedades receptoras. regionais ou nacionais. a sua música. o intercâmbio de experiências. A sua estética. mas também com os poderes estabelecidos. o fim primordial de uma associação é o de partilhar metas e o de formar espaços que rompam com o isolamento social e cultural. como guetos ou nichos socio-culturais. A formação e a importância dada às associações demonstra que os indivíduos se envolvem em acções recíprocas e em contactos entre os que buscam o mesmo fim. sobretudo nas primeiras etapas da imigração. porque os apercebem unicamente como reproduções das diferentes culturas de origem. económicas e políticas. É certo que as associações de imigrantes recriam os esquemas das suas sociedades de origem.

Este tipo de classificação baseia-se sempre na instalação na sociedade de acolhimento. conselhos de carácter burocrático. na Península Ibérica e segundo as aportações de Martín (2004). e por outro lado. Sobre estes dois pontos de vista. Morán (2001) distingue as associações de imigrantes que têm uma predominância de relações com a sociedade de partida e as que têm uma predominância relacional com a sociedade de chegada. distinguindo entre a temporalidade e a permanência definitiva. facilitam a negociação da sua participação social e da sua incorporação efectiva. o associacionismo migratório constitui actualmente uma força importante nas sociedades receptoras. desempenham um papel muito importante no conjunto das práticas que integram a ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Certo é que se tem constatado que as associações de imigrantes. de programas de ajuda e de acolhimento. com pessoas da mesma etnia ou de várias. As associações deste cariz revelam constituir um processo de socialização.3 estabelecer. embora não rompam os laços com a origem. e outros. encontram-se ante duas dificuldades: por um lado levam a cabo. dirigidos aos colectivos recém-chegados. Apesar do esforço que fazem as associações de imigrantes para serem reconhecidas e aceites como centros de integração. Sem dúvida. com o fim de afrontarem a vulnerabilidade social em que os imigrantes se encontram. pelo que. e não como centros de realidades culturais fechadas. Tem havido tentativas de classificação segundo as tendências manifestadas pelas associações de imigrantes: umas orientadas para o país de origem e outras para o país de residência. e simultaneamente como plataformas de reivindicação dos seus direitos como trabalhadores e como seres humanos. com ou sem ajudas de fundos públicos. que é na verdade uma faceta da sua realidade. tal como sustentam Castels e Millar (1994). uma vinculação de ajuda dirigida fundamentalmente ao conhecimento das vivências de origem. estão tentando de cada vez mais incrementar a integração no espaço de acolhimento. longe de dificultarem a integração. estas associações. actividades destinadas ao acolhimento e à integração dos imigrantes. a fim de conseguirem convencer umas e outras de que o maior anseio dos seus dirigentes e membros é a inserção da sua comunidade na sociedade receptora. ao afirmarem que as associações de imigrantes são uma manifestação necessária para a sua instalação nas novas sociedades. através do qual criam. através de actividades.

ultrapassam um milhar. a partir dos quais recenseamos os seus pontos de partida: * Abordar o fenómeno da imigração em todos os seus aspectos. A sua formação obedece a um leque comum de objectivos gerais. No que respeita às da América Latina. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Perante tal situação.4 política de imigração. de cidades grandes ou pequenas. Se elegem a via reivindicativa. Se optarem pela primeira possibilidade. agrupando os colectivos dos diferentes países que formam a América do Sul. ou introduzem soluções inovadoras para o tratamento dos problemas derivados da integração dos imigrantes. quer da ausência de acção dos poderes públicos. Todavia. renunciando frequentemente aos seus princípios. * Elaborar projectos de acção social e de cooperação internacional. as associações funcionam como entidades prestadoras de serviços do Estado. 2004: 123). independentemente dos membros que as constituem. Por outro lado. se formam associações. * Assessorar a população imigrante nas áreas que favoreçam a sua integração. quando pertencem ao conjunto das financiadas. Em todas as zonas onde haja um número considerável de imigrantes com essa proveniência. arriscam-se a ver impossibilitada a execução das suas actividades. Desenvolvimento A Espanha encontra-se com um número importante de associações de imigrantes registadas no Ministério do Interior. pelo que se revela difícil individualizá-las por países. arriscando a perda do financiamento público. quer se trate de capitais de província. na medida em que as acções que desenvolvem são o resultado. as associações encontram-se perante a seguinte alternativa: ou servem as políticas públicas. às associações de imigrantes não é concedida a participação na tomada de decisões políticas em nenhum âmbito oficial. quer da delegação de competências através do financiamento de projectos de ajuda social. As suas estruturas passam por registos oficiais. a maior parte delas adoptam uma postura intermédia (Martín. apesar da sua posição destacada nas práticas de integração.

* Promover um diálogo construtivo com as autoridades e a sociedade acolhedora. em alguns casos mais especificados quando se trata de promover a identidade cultural dos imigrantes. * Fomentar a convivência e a integração social e educativa dos imigrantes. * Defender estas populações junto das autoridades administrativas e outras. * Promocionar individual e colectivamente os imigrantes nos seus lugares de residência. que conduzam a mudanças sociais. No que respeita a Portugal. * Facilitar a participação das pessoas em actividades laborais. Estes pontos. formam o núcleo central de todas as associações de imigrantes latino-americanos em Espanha. as associações de imigrantes brasileiros em Portugal apresentam fins distintos. ou parceiros profissionais. dada a pequenez do seu território e dos seus recursos. pelo que o número de associações deste tipo é mais reduzido e muito mais específico quanto à origem geográfica e nacional dos seus sócios. Desta forma. tentando proporcionar aos seus concidadãos. * Colaborar com outros colectivos. caracterizando-se pelo ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . * Potenciar o respeito pelos direitos humanos. De facto. uma inserção o menos traumática possível. que tantas vezes dificultam a vida destas pessoas. * Participar em campanhas contra o racismo e a xenofobia. entidades e instituições especialmente relacionadas com a imigração. de acordo com as necessidades sentidas pelos próprios. os seus objectivos são orientados para o seu público alvo. organizações. e mesmo a imigrantes de outras origens. também as suas necessidades de mão de obra e os seus factores de atracção para a instalação destas populações são mais raros.5 * Desenvolver campanhas de sensibilização em relação a estas populações e às suas culturas. outras dirigem-se a populações específicas. ou ainda indivíduos oriundos do mesmo local de origem. Enquanto umas têm um carácter mais geral de apoio ao público imigrante. * Associar-se a projectos com associações e entidades das zonas onde vivem. tais como imigrantes vinculados a uma universidade. sociais e políticas.

up. da Associação de Pesquisadores e Estudantes Brasileiros em Coimbra (http://geocities.pt). da Associação de Cidadãos Brasileiros na Universidade do Porto (http://brasup.html) e da Torcida Brasil (www. da Associação Luso-Brasileira de Saúde Oral – Portugal (www.org/aacilus/). da Associação de Amizade Cabo Verde – Brasil (www. da Associação Mais Brasil (www.pt) e da Associação Luso-Brasileira de Juristas do Trabalho (www.com. Imigrantes do Brasil e de países africanos de língua oficial portuguesa (http://www.php).com/bc/sscb/aacb.casadobrasil.abop.torcidabrasil.asp?sidc=478&idc=22393). da Associação de Imigração em Portugal.ca.maisbrasil.6 desenvolvimento de actividades específicas. como poderemos verificar no quadro que segue 1 : Fonte: Site da Casa do Brasil (www.pt/).angelfire.net/torcida.pt/distritais/genericos/detalheArtigo. 1 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .br/apebcoimbra/).pt).pt/abruna/).yahoo. da Associação dos Brasileiros na Universidade de Aveiro (www.aacilus.oa.ua.

social e jurídico. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .Associações Académicas de Brasileiros • • • Associação dos Brasileiros na Universidade de Aveiro (ABRUNA) Associação de Cidadãos Brasileiros na Porto 2003 Aveiro 2001 Coimbra 2004 Porto 1999 Universidade do Porto (BRASUP) Associação de Pesquisadores e Estudantes Brasileiros em Coimbra (APEBC) IV . estas têm como objectivo prioritário o apoio aos imigrantes a nível moral.7 Tipologia da Associação I . 2004 Imigrantes do Brasil e de países africanos de Porto língua oficial portuguesa (AACILUS) 1997 • V .Associações Generalistas de Brasileiros • • Casa do Brasil de Lisboa (CBL) Associação Mais Brasil (AMB) Localização Sede da Ano em que foi fundada Lisboa Porto 1992 II .Associações de Amizade entre Países • • Coimbra 2004 Associação de Amizade Cabo Verde – Brasil (AACB) Associação de Imigração em Portugal.Associações de Profissionais Brasileiros • • Associação Luso Brasileira de Saúde Oral (ABOP) Associação Luso-Brasileira de Juristas do Trabalho (ALBJT) III .Associações Lúdicas Brasileiras • Torcida Brasil (TB) 1994 No que respeita às Associações Generalistas.

A Torcida Brasil apresenta uma população alvo. Os objectivos e actividades das Associações Académicas orientam-se principalmente no sentido de apoiar a integração de estudantes brasileiros e de promover eventos culturais e científicos que possibilitem a valorização da identidade brasileira no seio da comunidade portuguesa.8 As Associações de Profissionais visam a defesa das suas profissões e sobretudo dos seus profissionais. muitas similitudes entre elas. naturalmente. As Associações de amizade entre indivíduos brasileiros e de outros países definem-se pelo apoio prestado às comunidades imigrantes em questão e pela promoção de actividades recreativas num espaço de partilha cultural. nomeadamente de apoio às equipas brasileiras em eventos desportivos. mas também ao nível dos objectivos traçados e das actividades. As principais semelhanças encontram-se ao nível dos seus estatutos. A partir daqui. principalmente para formar uma “claque” para dar apoio às equipas brasileiras nos torneios mundiais de futebol. devidas ao traço comum que une os seus filiados. nomeadamente a constituição formal da associação em si. Estas associações de imigrantes brasileiros foram criadas por estes e por portugueses que os apoiaram. no sentido de colmatarem lacunas na organização da sociedade civil e nas dificuldades sentidas pelos imigrantes para se integrarem na comunidade portuguesa. também se detectaram. procurando ser uma mais valia nos ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . muitas vezes opondo-se a alguma discriminação que encontram no mesmo meio profissional português. que é a sua condição de imigrantes. Foi criada por imigrantes brasileiros. ou ainda para organizarem um movimento que fortalecesse a posição da população imigrante face às instituições oficiais da sociedade acolhedora e no diálogo com as mesmas. Ao pretender-se encontrar os traços distintivos de cada uma destas 5 tipologias de Associações de Brasileiros em Portugal. objectivos e actividades muito específicos. Conclusão Todo o esforço das associações tem como finalidade a melhoria das condições das comunidades imigrantes que representam. começou a desenvolver outras actividades recreativas e culturais para os seus sócios.

Macmillan. tal como referem Alonso e Garcia (1995) quando dizem que os reptos aos quais devem fazer face as associações de imigrantes visam veicular a sua integração social e económica no país que escolheram para trabalhar e viver e daí a importância de que se reveste o tecido associativo desta natureza. Universidad de Guadalajara. A. Cremos que estamos perante um desenrolar de participação que implica novas formas de cidadania: os estrangeiros continuam privados de direitos políticos. Referências Bibliográficas ALONSO. Estudio sobre la situación actual y capacidad institucional de las asociaciones de inmigrantes en España. y MILLER.J.csh. As associações de imigrantes constituem um meio de institucionalização das vias necessárias para a defesa dos seus interesses e. 2001 “Las asociaciones de extranjeros y su origen: algunos comentarios para el caso de Alemania” Sincronía. L. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . 2004 “ Las asociaciones de inmigrantes en el debate sobre nuevas formas de participación política y de ciudadanía: reflexiones sobre algunas experiencias en España” Migraciones. Revista electrónica de estudios culturales. Barcelona: Galaxia Gutemberg. V.mx/CUCSH/Sincrinia/ PUTNAM. bem como nos contactos informais com a comunidade anfitriã em si.udg. D. (ed. ao mesmo tempo. R. y GARCÍA. 1994. http://fuentes. The age of migration. Un estudio internacional sobre las sociedades y el sentido comunitario. para lhes proporcionar os meios condutores a fim de que se incorporem paulatinamente na sociedade de chegada. através de estratégias que valorizem a sua identidade cultural de pertença. Madrid. MORÁN. Nexo. no entanto podem participar através das associações na tomada de decisões sobre alguns dos aspectos que os afectam. G. Londres MARTÍN.) 2003 El declive del capital social. M. a nível dos dois países implicados. Universidad Pontificia de Comillas.9 contactos formais com as instituições oficiais da sociedade acolhedora. Internacional population movements in the modern world. pelas implicações pessoais e nacionais. S. 1995. Madrid. CASTLES. numa perspectiva da possível inclusão na sociedade de acolhida. R.

angelfire. Imigrantes do Brasil e de países africanos de língua oficial portuguesa (http://www.up.pt) Torcida Brasil (www.asp?sidc=478&idc=22393) Associação Luso-Brasileira de Saúde Oral – Portugal (www.com.casadobrasil.pt) Associação de Pesquisadores e Estudantes Brasileiros em Coimbra (http://geocities.br/apebcoimbra/) Casa do Brasil (www.aacilus.abop.php) ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .pt/distritais/genericos/detalheArtigo.pt) Associação Mais Brasil (www.ua.10 Sites Consultados Associação de Amizade Cabo Verde – Brasil (www.html) Associação dos Brasileiros na Universidade de Aveiro (www.oa.ca.maisbrasil.net/torcida.com/bc/sscb/aacb.yahoo.pt/abruna/) Associação de Cidadãos Brasileiros na Universidade do Porto (http://brasup.pt/) Associação de Imigração em Portugal.torcidabrasil.org/aacilus/) Associação Luso-Brasileira de Juristas do Trabalho (www.

o país escolhido como pátria de adopção de imigrantes brasileiros. De facto. consabidamente. motivos determinantes para essa escolha. datada de 29 de Dezembro de 1971. Trata-se com especial acuidade o jornal Sabiá publicado pela Casa do Brasil de Lisboa. corroboradas. imprensa. 1 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . integração. Acresce a isto a semelhança de procedimentos entre portugueses e brasileiros em certos usos e costumes. construída ao longo de séculos de convivência entre os povos de Portugal e das suas Desenvolvimento do Projecto CEAA/0013/ALC "Processos de integração social e económica de imigrantes"integrado no Centro de Estudos de Antropologia Aplicada da Universidade Fernando Pessoa. brasileiros. A sua localização enquanto porta de entrada para a Europa – continente que ainda hoje exerce o seu fascínio sobre os povos mais recentes – e a lusofonia são.Modos e modas de integração de imigrantes (o papel do jornal Sabiá) 1 Isabel Ponce de Leão Centro de Estudos de Antropologia Aplicada Universidade Fernando Pessoa .Porto blepl@netcabo. Sabiá Portugal é. as práticas religiosas e os comportamentos sexuais. aquilo a que vulgarmente se chama valores e que pode ser definido como um “conjunto de ideias partilhadas por indivíduos sobre o que é desejável. aquelas. acreditado pela FCT (Fundação para a Ciência e a Tecnologia). como sejam a forma como educam os filhos. alguns estudos demonstram que os brasileiros são os imigrantes que têm em Portugal maior grau de aceitação “assente na ideia de uma identidade lusófona. o que é bom e o que é mau” (Trindade 1995: 381). talvez. vendo-se de que forma ele contribui para a inserção dos brasileiros em Portugal. pela aplicação da Convenção sobre a Igualdade de Direitos e Deveres entre Brasileiros e portugueses.pt O presente texto faz uma reflexão sobre a imprensa enquanto modo de integração de imigrantes. Palavras-chave: imigrantes.

o referido formato dá lugar a um jornal Entendemos integração enquanto ajustamento dos imigrantes a um novo dependente de dois conjuntos de factores: “os que dizem respeito às características individuais dos migrantes e os que se relacionam com características fundamentais dos países de origem e de destino entre os quais se processa a transferência de recursos humanos”. 2003: 51). nem sempre de modo bem sucedido. no seu artigo 74. primeira publicação destinada aos brasileiros residentes em Portugal. logo actuando como factor de integração. lançado em Abril de 2003. pela integração 2 e pela socialização aprendendo padrões de cultura e modos de vida da sociedade de acolhimento. ao curioso fenómeno da aculturação. e de gizar estratégias de integração. os brasileiros radicados em Portugal não deixam de constituir uma minoria e. (CBL). VV. O primeiro número foi publicado em Maio de 1992 em formato de boletim de folhas A4 e. ligada ao país de origem. o contacto entre portugueses e brasileiros origina “alterações nos padrões culturais originais” (Trindade 1995: 357) de ambos os povos o que deixa prever um intenso diálogo. assazmente. a verdade é que um imigrante é. tinha uma periodicidade irregular. No caso dos brasileiros assiste-se. por tal. Distribuído gratuitamente. e por mais que o país de acolhimento assuma uma postura fraternal. o tipo de desempenho económico. por outro lado. reitera “os laços de amizade e cooperação com os países lusófonos”. jornal editado pela Casa do Brasil de Lisboa. A própria Constituição da República Portuguesa.colónias” (AA. junta-se uma boa adaptação vista esta enquanto “fenómeno multidimensional que compreende aspectos tais como a satisfação. quer dizer. Seja como for. sem que. reflectindo o desejo da preservação de laços históricos. a aculturação linguística. está disponível na CBL. ainda que se anunciasse mensal. pretenda ignorar os da pátria de origem. A essa boa aceitação por parte do país de acolhimento. Uma delas é a produção de uma imprensa própria. A partir do número 53. (Trindade 1995: 102) 2 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . bem como nas instalações dos seus anunciantes. em Portugal. a integração social e a identidade cultural” (Trindade 1995: 358). minimizadora da discriminação e da intolerância. Apesar desta reciprocidade de aceitação. têm necessidade de criar elos de identidade. no Consulado do Brasil e noutros locais consabidamente frequentados por brasileiros. Um caso paradigmático é o Sabiá. um desenraizado que luta.

discotecas. Verificar-se-ia depois que essa periodicidade não viria a ser respeitada o que é perfeitamente compreensível neste tipo de publicações por constrangimentos de ordem vária que aqui nos dispensamos de escalpelizar. clínicas médicas. como se pode verificar pela leitura do seguinte quadro que abarca os 4 números saídos em 2005: Assuntos Política nacional (Portugal) Política nacional (Brasil) Política internacional Educação Saúde Habitação Economia Emigração Cultura Desporto Sociedade 3 1 4 2 2 4 5 2 5 4 Quantidade 19 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . de uma maneira geral. lojas de comércio…. agências de viagens. difunde serviços prestados por brasileiros em Portugal: restaurantes.500 8 4 4 4 N. composto por 4 a 8 páginas. Os números publicados em 2005. XIIº ano da sua publicação. bares.500 7.º Para além de publicidade que. a saber: N. constituem o corpus em análise e foram em número de 4.º Mês Tiragem pp. estes números tratam de assuntos diversificados. que até aí era de 2 mil exemplares. A tiragem. 66 67 68 69 Março Junho Julho Novembro 5.500 7. bancos. aumenta e a sua periodicidade anuncia-se mensal.tablóide.000 7.

numa manifesta vontade de interagir com o país de acolhimento. Por tal. por exemplo.ª página. são cegos. Reveladoras de certas preocupações são igualmente as chamadas à 1. Por outro lado. Seria de esperar.Os números.Lazer 2 Este quadro traz-nos algumas surpresas relativamente à imagem empírica que temos dos imigrantes brasileiros. que não se faz por extrapolar o âmbito deste trabalho. não se torna difícil a identificação do público-alvo: Alcance / Público-alvo Público em geral Grupos étnicos / minorias Quantidade 40 12 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .ª página: Chamadas à 1. uma maior abundância de artigos relacionados com desporto e lazer. evidencia preocupações de índole cultural e uma atenção especial para a política internacional cujos artigos constantes. e uma leitura dos artigos.ª página Quan tidade Política Nacional (Portugal) Política Nacional (Brasil) Política Internacional Habitação Cultura Desporto Sociedade 1 3 1 2 1 1 13 Uma leitura comparativa dos dois quadros descobre um jornal intensamente preocupado com os acontecimentos políticos do país de adopção dos seus leitores. ainda que em número reduzido. contudo os interesses parecem estar virados para o que se passa em Portugal. são sempre chamados em destaque à 1. sendo essa preocupação menor relativamente ao país de origem. mostra bastante superficialidade quer no tratamento quer nas opções conteudísticas. naturalmente.

º 67 N.º 68 2 N.Brasil Expectativas na política de imigração do Títulos dos artigos Imigrantes vão às ruas exigir a regularização Regularização para todos Moção exige políticas de integração Duzentos mil pediram regularização em ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . político. Isto tem a sua explicação no facto do perfil sócio-económico dos imigrantes brasileiros ser extremamente diversificado. o jornal dirige-se. ainda que não quebrem a sua ligação ao país de origem.º 66 • • • • Espanha • novo governo PS • Na ponte aérea Portugal. Não se sentem vítimas de tratamentos discriminatórios. logo não se assumem como minoria. muitos têm escolarização secundária e superior e querem ser o elo de união entre Portugal e o Brasil.º Total A observação deste quadro mostra que o desejo de inserção em termos políticos ocupa.º 69 3 N. são vários os artigos do Sabiá que se prefiguram como factores de aglutinação e inserção aos níveis social. prioritariamente ao público em geral. grande parte dos artigos. cujos títulos aparecem em baixo: N.Não esquecendo embora os imigrantes. Apesar desta visão optimista. cultural e profissional e encontram-se assim distribuídos pelos 4 números saídos em 2005: Artigos 66 Inserção social Inserção política Inserção cultural Inserção profissional 1 1 1 3 4 2 6 6 5 6 5 22 1 N. de forma quase obsessiva.

67 • • • • • O direito de ser português Eleições em Portugal e no Brasil Lei da Nacionalidade – Alterações à vista Governo promete mudar a lei Quem pode ser português Burocratices Brasileiro tem nova chance de conseguir o 68 • • visto • maioria de fora • • • Lei da nacionalidade do governo deixa Foi bonita a festa. – dupla nacionalidade. só 14 mil legalizados Opiniões divergem na avaliação do acordo Casa do Brasil convoca acto público pela 69 • legalização • • • • Nacionalidade: o que vai mudar Mobilização já! Muito barulho por nada Governo admite nova lei de estrangeiros mas recusa debate Só a leitura dos títulos destes artigos. outro com mero carácter informativo. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . outrossim com a legalização obviadora da segurança que permita a construção do seu futuro em Portugal. – igualdade de direitos. pá Dois anos depois. o Sabiá corrobora a ideia de que o grande problema dos brasileiros em Portugal não tem a ver com a adaptação. É sem dúvida. De facto. nos dão a noção clara das pretensões dos imigrantes brasileiros em Portugal e que são: – legalização e integração. outros ainda onde uma leve ironia esconde uma crítica profunda. completados pelos conteúdos que conhecemos mas que extrapolam o âmbito deste trabalho. Por isso surgem mesmo títulos incentivando à luta. De uma forma geral lamentam a morosidade processual e pugnam por uma cidadania activa. neste ano de 2005 a grande preocupação do jornal enquanto elemento de inserção política. olhando com alguma apreensão o empenhamento dos governantes portugueses e brasileiros na resolução dos conflitos.

a tentativa de inserção cultural atravessa também as páginas do jornal através dos seguintes artigos: N.º 66 Títulos dos artigos • casa própria 68 • • na Caparica Mais Brasil Torcida premiada Como adquirir a Ainda que escassos.º 66 • • CBL • • o Dali do Sertão 67 • • Era uma vez na América As sombras das coisas Mulheres de Morte Zé-Limeira. Para além disso há uma preocupação por práticas interculturais. fazem perceber a necessidade dos imigrantes brasileiros interagirem com os portugueses quer no que diz respeito a actividades lúdicas quer na procura de uma forma de estar semelhante.Ainda que bastante distanciada. o Sabiá propriedade da Casa do Brasil. a maior parte dos artigos que privilegiam a inserção cultural assentam em iniciativas desta associação que através dele as promove e as divulga. como é. naturalmente as idiossincrasias de cada povo. O poeta do absurdo ou Títulos dos artigos O significado da palavra associação Primavera relança actividades na Sendo. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . No que diz respeito à inserção social temos os seguintes artigos: N. quer dizer uma divulgação das literaturas e das artes portuguesas e brasileiras bem como das suas respectivas afinidades. respeitando-se.

a publicidade é abundante. A instituição sua proprietária – Casa do Brasil de Lisboa – tem. naturalmente. com o que se passa no país de adopção. Esta observação dos números do jornal Sabiá saídos em 2005 permitem-nos tirar conclusões por um lado sobre as características de um jornal feito por brasileiros e para brasileiros fisicamente distanciados da sua pátria. mesmo assim. fundamentalmente.Em termos de inserção profissional. que ter capacidade de resposta para muitas situações logo não pode canalizar toda a sua atenção para um jornal que. configuram uma publicação que se debate com problemas económicos como é comum neste tipo de imprensa de imigrantes. sobretudo uma particular acuidade pela actualização dos imigrantes de forma a acompanharem a evolução da Europa. há uma certa tendência para que esta se faça no âmbito da restauração e. Sushi do jeito que o futebol e churrasco 69 • Restauração Os seus títulos demonstram que não sendo grande a preocupação em termos de inserção profissional. Curiosamente o jornal é policromático. por outro sobre o papel que ele tem na integração destas minorias. encontrámos os seguintes artigos: N. mesmo assim. Este interesse é já a primeira manifestação de tentativa de inserção e aparece em artigos quase sempre com chamadas à primeira página. Os problemas de natureza cultural são também tratados recorrentemente ainda que a sua superficialidade configure um público-alvo minoritário ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .º 66 Títulos dos artigos • povo gosta 67 • Informática. é eco das preocupações dos potenciais leitores. A periodização irregular. Da sua leitura depreende-se que essas preocupações se prendem. o que o torna naturalmente mais dispendioso mas também mais consentâneo com as características do público que quer atingir. a tiragem reduzida e o escasso número de páginas onde.

com uma formação cultural de nível médio / inferior o que nem sempre corresponde ao perfil dos brasileiros residentes em Portugal (AA. VV. 2003. 87). Isto leva-nos a crer que, dadas as similaridades linguísticas, a maior parte dos imigrantes brasileiros recorre à leitura da imprensa portuguesa, sendo o Sabiá tão só uma forma de matar as saudades pátrias. A sua periodicidade irregular poderá também gerar esta situação. De qualquer forma, o Sabiá cumpre o seu papel integrador da comunidade brasileira. A integração faz-se aos níveis social, político, cultural e profissional ainda que nos artigos nele inseridos, e que tentámos dissociar, se torne difícil separar estes tipos de integração uma vez que aparecem assiduamente em simultâneo. Mesmo assim tentámos ver a predominância de cada um deles. O único número que remete para os quatro tipos de inserção acima referenciados é o 66. De facto é o maior – 8 páginas enquanto os outros números têm apenas 4 – logo aquele que pode mostrar interesses diversificados. Apenas a inserção política é contemplada e tratada de forma obsessiva em todos os números. Isto é facilmente explicável. Dissemos, no início, que vários eram os factores optimizadores da inserção dos brasileiros em Portugal. Assim sendo, por aquilo que aduzimos, constata-se que desde que se encontrem numa situação legal, seja, politicamente inseridos, a inserção cultural, social e profissional são praticamente automáticas. Por um lado, a maioria dos brasileiros têm em Portugal um emprego estável (AA. VV. 2003: 86), por outro, convém não esquecer que não só, mas também através da comunidade imigrante, o nosso país assimilou muitos traços da cultura brasileira fazendo, muitas vezes, dela um modelo. A forma extrovertida de ser deste povo coadjuvada pela comunhão linguística viabilizam a rápida inserção social. Há, contudo, outra explicação para o tratamento obsessivo da problemática da inserção política nestes 4 números do periódico. Eles saíram em 2005, quando o governo português introduziu alterações à lei da imigração. Fazendo, como faz, o Sabiá, eco das preocupações dos imigrantes brasileiros não admira que dê voz à sua luta pela conquista de determinadas regalias.

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Assim sendo, e apesar dos constrangimentos vivenciados por este tipo de associações e publicações, o Sabiá erige-se como factor de integração, ponto de encontro e também de partida para aqueles que pretendem estabilizar numa segunda pátria.

Referências Bibliográficas
AA. VV., 2000, Dicionário de Ciências da Comunicação. Porto, Porto Editora. AA. VV., 2003, Atitudes e valores perante a imigração. Lisboa, ACIME. Chaliand, G., 1991, Atles des Diáspores. Paris, ed. Odile Jacob. Elias, N., 1980, Introdução à Sociologia. Lisboa, Edições 70. Escarpit, R., 1991, L’information et la Communication. Théorie Générale. Paris, Hachette. Esteves, M. C. (org), 1991, Portugal, país de Imigração. Lisboa, I. E. D. Jackson, J., 1991, Migrações. Lisboa, Escher. Leitão, J., 1991, A situação dos Emigrantes e das Minorias Étnicas na Imprensa. Lisboa, I.E.D. Mauss, M., 1991, Sociologie et Antropologie. Paris, Quadrige / puf. Neno, P., 1989, Morrer no Brasil. Lisboa, Veja. Neto, F., 1993, Psicologia da Migração Portuguesa. Lisboa, Universidade Aberta. Trindade, B R., 1995, Sociologia das migrações. Lisboa, Universidade Aberta. Sabiá, n.º 66, 67, 68 e 69 (2005). Lisboa, Casa do Brasil.

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V – Capítulo

Educação e formação

Textos de comunicações dos painéis:

Transnacionalismo, identidade, desenvolvimento
Coordenação

Miguel Moniz
Instituto de Ciências Sociais - Universidade de Lisboa

Percursos e testemunhos em Antropologia da Educação –
Coordenação

Telmo Caria, Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro - UTAD

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Sistema de Ensino, Transição Societal e Práticas Educativas Estratégicas dos Actores Sociais
Virgílio Correia Escola Superior de Educação de Coimbra (ESEC) vcorreia@esec.pt

Este texto pretende contribuir para o esforço de compreensão da realidade social angolana na actual fase de transição política, económica e social. Trata-se de uma análise da realidade, tentando captar as dinâmicas sociais resultantes das práticas educativas estratégicas dos actores sociais no quadro da transição e veiculadas pelo Sistema de Ensino. Estas práticas educativas estratégicas são analisadas enquanto respostas sociais a uma política educativa e enquanto mecanismo social que reflecte e reforça a dinâmica societal. Abordando três períodos do Estado pós-colonial (1975-1991/1992, 1992-2002 e 2002 até ao presente), propõe-se demonstrar que essas três conjunturas correspondem a dinâmicas de ensino que são função das políticas de ensino ‘praticadas’ pelo Estado e das respostas dos actores sociais a essas mesmas políticas. Palavras-chave: sistema de ensino, práticas educativas estratégicas, actores sociais, Estado pós-colonial, Angola.

Não constituindo objectivo desta comunicação apresentar resultados definitivos, deixam-se aqui algumas notas que permitem apreender e compreender a prática e o sentido das estratégicas educativas dos actores sociais no âmbito do processo de transição política, económica e social em Angola. A estrutura expositiva da comunicação obedece o seguinte percurso: num primeiro momento debruça-se sobre o processo de constituição e desenvolvimento da estrutura social angolana e o papel societal do sistema de ensino no mesmo. Esta incursão ao passado é fundamental para se perceber o processo de transição que Angola vem experimentando de forma particular desde o princípio da década de 90. A seguir aborda-se o processo de transição angolano no quadro do movimento global dos processos de transição que têm vindo a atravessar vários países da África ao Sul do Saara (ASS). Esta tarefa é completada com uma explicitação sucinta das principais perspectivas analíticas do processo de transição, proporcionando assim um elemento indispensável para se perceber a especificidade do caso angolano. Finalmente, no terceiro e último ponto, faz-se uma aproximação à questão central desta pesquisa: as estratégias educativas dos actores sociais no processo de transição em

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Angola. Nesta fase do trabalho não só é possível identificar os protagonistas (segmentos sociais) como também percepcionar os sentidos das suas acções.

Sistema de ensino e formação da estrutura social angolana

O objectivo que move o presente trabalho é o de proceder a uma análise crítica da realidade angolana do presente e captar as dinâmicas sociais resultantes das práticas estratégias dos actores sociais associadas ao sistema de ensino, no quadro do processo de transição política, económica e social iniciado em 1991/92. Semelhante empresa não dispensa uma perspectiva analítica socio-histórica. Muito pelo contrário, a análise do passado, sobretudo do passado recente, que coincide grosso modo com as décadas de 60 e 70, é fundamental para se perceber o momento actual. Esse período da história angolana, particularmente no que se refere às políticas e práticas educativas coloniais, marca decisivamente o Estado pós-colonial pela possibilidade de (re)estruturação societal que então permitiu e que haveria de permitir mais tarde, nos primeiros momentos após a independência. Os períodos que precederam e seguiram a independência foram importantes para a definição das posições e dos protagonistas na estrutura social angolana. Com a independência, e a consequente saída de grande maioria dos portugueses, era preciso ocupar os lugares deixados vagos, criar novos e eliminar outros. Neste processo era preciso fazer uma triagem, saber quem entrava, quem saía, e quem se mantinha. No entanto, o processo de formação social angolana vem de períodos mais recuados. Se é verdade que na época pré-colonial uma população pré-banta — constituída por pequenas sociedades, pouco diferenciadas e com baixo nível tecnológico — cobria de um modo escasso e intermitente o actual território angolano, no decurso de uma penetração lenta, 1 já nos quatro séculos de presença portuguesa no litoral angolano (iniciada no fim do século XV e prosseguida até meados do século XIX), sobretudo na sua fase final, verificava-se a coexistência de duas sociedades estratificadas, cujo
No Norte formou-se a sociedade Kongo, tendo alcançado extensão apreciável e alguma complexidade e maturidade, mas não atingindo o nível de certas sociedades políticas que naquela época (século XX) já existiam noutras partes de África. No Leste a penetração, até o século XV, não levou à formação de unidades sociais maiores. E no Sul (e Oeste) do Cuanza a cobertura demográfica continuara fraca e intermitente.
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«centro» era formado por um núcleo pequeno de europeus e «assimilados» (isto é, os que se encontravam próximos dos europeus, não no sentido legal que viria a ter mais tarde) e O período seguinte, isto é, a fase da ocupação colonial, que coincide com as últimas décadas do século XIX, corresponde ao momento em que Portugal redobrou o seu esforço de conquista do «interior de Angola», numa clara tentativa de antecipação e reforço da sua presença em África, em consequência da crescente concorrência de outros países europeus empenhados na «corrida para a África». Nesta fase consolidou-se um sistema eco-cultural colonial integrado, 2 composto por um «centro» e uma «periferia». O «centro» era constituído por uma imigração portuguesa cada vez mais importante, um número limitado de africanos «assimilados» e um número algo maior de mestiços. A «periferia» era composta por um número crescente de africanos, que constituiriam a mão-de-obra não qualificada (ou pouco qualificada) de que o sistema precisava para o seu funcionamento. Esta situação de dominação do «sistema central» sobre a «periferia» ou «sistemas tributários» manteve-se mesmo depois de algumas transformações posteriores a 1961, como são exemplos o surgimento de disposições legais abolindo a distinção entre «núcleo» e «periferia» no «sistema central», e entre «sistema central» e «sistemas tributários»; a supressão do trabalho obrigatório e da coacção para aceitar contratação de trabalho; a imposição de culturas obrigatórias, etc. Por conseguinte, essas alterações não passavam de estratégias da metrópole portuguesa para manter o seu domínio colonial sobre Angola, recorrendo à situação militar e à introdução de algumas modificações no status quo. Uma análise do papel societal do ensino na formação e desenvolvimento da estrutura social angolana de então permite constatar que, em cada um daqueles momentos históricos, o sistema de ensino teria não só servido como mecanismo de consolidação do modelo societal vigente, mas também contribuído para a passagem de um modelo para outro e para produzir modificações parciais em cada um dos modelos (Heimer 1973: 639). 3 Assim, nos primeiros quatro séculos da presença portuguesa, as sociedades
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Sobre a teoria dos ecossistemas eco-culturais cf. Silva e Morais 1973: 93-109. Conclusões globais de vários estudos levados a cabo nas ciências sociais sobre o papel societal da «educação formal» (ensino escolar) apontam no sentido da confirmação da hipótese segundo a qual o impacto da educação tende a reforçar a dinâmica societal prevalecente (cf. Bourdieu e Passeron s.d.).
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africanas e as «micro-sociedades coloniais» desenvolveram os seus mecanismos próprios de educação. Aquelas dispunham dos seus mecanismos de educação das novas gerações e estas últimas desenvolveram um pequeno número de instituições escolares que viriam a complementar a educação «informal». Relativamente às instituições escolares das «micro-sociedades coloniais», umas serviam os «núcleos» da população urbana e outras a parcela da população africana situada na faixa do território anexa a Luanda. Se as primeiras contribuíam para a consolidação do «centro» das micro-sociedades coloniais as segundas serviam para a consolidação do domínio do «centro» sobre a sua «periferia». Na fase da ocupação colonial, o estabelecimento de uma rede escolar estatal contribuiu para a consolidação do «centro» do sistema colonial, enquanto que uma rede escolar paralela estabelecida pela penetração missionária nas sociedades africanas (iniciada de forma sistemática na segunda metade do século XIX) viria a cobrir o conjunto do território. Tendo atingido uma ínfima parte das sociedades rurais africanas, o ensino missionário (chamado «ensino rudimentar») ajudou, por um lado, a consolidar, em termos de «superestrutura» ideológico-cultural, o domínio do «núcleo» sobre a «periferia» do «sistema central» e do «sistema central» sobre os «sistemas tributários» e, por outro lado, a mobilizar um certo número de africanos de que o «sistema central» precisava para o seu funcionamento. No período de transformação posterior a 1961 um balanço global da situação aponta no sentido de que as prioridades relativas tanto ao ensino primário como ao ensino pós-primário foram dadas ao «sistema central», pelo que o ensino constituiu um poderoso mecanismo de «integração» e de diversificação. Quanto aos «sistemas tributários», a expansão do ensino pouco ou nada contribuiu para o seu desenvolvimento; continuou, isso sim, a constituir um mecanismo de «domesticação» ideológico-cultural dos «sistemas tributários» pelo «sistema central», um mecanismo de drenagem de elementos dos «sistemas tributários» para o «sistema central» (Heimer 1973: 643). Essas transformações da década de 60 foram o culminar de uma estratégia iniciada na década anterior. Em 1951, quando o ensino «rudimentar» passou a chamar-se «ensino de adaptação», havia a intenção de facilitar (de forma restrita, é claro) a passagem de alunos deste tipo de ensino para o estatal; a partir de 1954/55, em certas zonas urbanas ou mesmo rurais praticava-se uma admissão «tácita» em escolas estatais de

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crianças africanas oriundas de famílias consideradas «indígenas»; a reforma do ensino primário de 1961, sancionada por lei em 1964 e continuada por outras tantas medidas subsequentes, foram importantes em termos estruturais (cf. Ministério do Ultramar 1964). Os aspectos mais importantes desta mudança foram a abolição da distinção de princípio entre duas redes de ensino primário, com status diferentes; o alargamento da actuação do Estado, implicando o estabelecimento de postos escolares rurais e «suburbanos»; a «oficialização» do ensino missionário católico (cujos professores ficaram a depender, financeira e pedagogicamente do Estado); a manutenção das escolas das missões protestantes, sem subsídios estatais, mas seguindo os modos de actuação das escolas estatais; a generalização de um tipo de escola inspirada nos parâmetros culturais vigentes em Portugal, com modificações apenas destinadas a facilitar a transição da criança africana «não-assimilada» para este tipo de ensino; a introdução de dois novos tipos de agentes de ensino: o monitor, elemento africano, com «habilitações literárias» elementares e precária formação profissional, e o professor de posto, não diplomado, com «habilitações literárias» equivalentes ao ensino preparatório; a aceleração da expansão escolar (ensino primário) beneficiando sobretudo efectivos das áreas rurais; a introdução da escola preparatória do ensino secundário (1968); a expansão do ensino liceal técnico; e a criação do ensino universitário. Independentemente das razões que se prendem com as estratégias políticas de fundo, essa mudança na política educacional proporcionou, por um lado, à sociedade central em expansão uma mão-de-obra mais qualificada e numerosa e, por outro, contribuiu para uma maior corrosão e incorporação das sociedades periféricas; isto é, a educação foi um factor decisivo para o avanço maciço dos não brancos em posições de classe média, que durante muito tempo foram domínio quase exclusivo dos brancos. 4 Assim, com a independência e a correspondente saída dos portugueses, os lugares deixados vagos foram ocupados por esse grupo que viria a constituir a classe dirigente e burguesia técnica executante, o gérmen da classe-Estado pós-colonial. Com efeito, o
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Esta explicação não invalida, no entanto, as interpretações dessas mudanças que vão no sentido de explicar estas últimas como uma estratégia de «contra-subversão», isto é, uma tentativa da metrópole assinalar o fim da discriminação social/racial e manifestar preocupação com o «bem-estar das populações», dando resposta a uma procura da educação por parte dos «indígenas»; como uma preocupação de valorização da Província (mais tarde Estado) de Angola face à metrópole, africanizando, em certa medida, os manuais escolares e tentando criar uma afiliação cultural e uma identificação forte e generalizada com Portugal e, deste modo, minar a base de uma contestação anti-colonial inspirada na ideia de uma identidade nacional angolana (cf. Silva 1969; citado por Heimer 1973: 641).

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5 Nas primeiras décadas de independência. até 1982. os assalariados do Estado recebiam um salário nominal baixo. criava as condições para competições individuais e colectivas que podiam assumir feição de concorrência inter-étnica. ou mesmo cessou. também. estavam criadas as condições para o surgimento de conflitos diversos e. isto é. utilizando as mais diversas formas de compensação. São exemplos os conflitos que envolveram geralmente os Ovimbundu que. Na luta por condições relativamente melhores (ou apenas menos más) podia dar-se o caso de determinadas etnias tentarem ou garantirem para si mesmas uma posição mais vantajosa na estrutura vigente (por exemplo. A prática desse Estado protector reflecte. no Uíge. os conflitos resultaram na competição nos empregos oferecidos pelo «sistema central» (cf. reconversão essa que devia ser acompanhada de um maior desenvolvimento. de práticas estratégicas de sobrevivência dos actores sociais. Quando esta prática de funcionamento do Estado começou a dar mostras de fraqueza. tenta garantir a permanência do poder e a legitimação social. Em Angola.6 Estado pós-colonial seguiu e ‘reproduziu’ o ‘modelo societal’ da época colonial. algumas tensões inter-étnicas entretanto verificadas foram provocadas pela ‘situação colonial’. com os Akuwambundu. já que a manutenção do baixo nível médio de desenvolvimento. Com os Bakongo. que esteve congelado durante muitos anos. uma estrutura social heterogénea. os trabalhadores ovimbundu colaboraram na expansão do «sistema central». possibilitando aos empresários europeus fixar um nível de remuneração mais baixo para a mão-de-obra assalariada. ao ver tolhida a sua base de subsistência. Esta situação era ‘compensada’ por um cartão (o cartão do povo) que dava acesso às «Loja do Povo». Heimer 1973: 648). melhores ‘razões de troca’ com a classe-Estado ou dirigente. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Nestas lojas vendiam-se produtos nacionais 5 Na época colonial. Com efeito. em Luanda. ou conseguir combinações de ambas as modalidades. aceitaram a sua utilização pelo «sistema central» entrando em disputas com outras etnias. uma convivência harmoniosa entre os vários segmentos sociais ou etnias africanas estaria dependente de uma reconversão do referido modelo societal. os riscos mínimos de conflito associados aos vários segmentos sociais ou às etnias africanas foram em larga medida superados graças a um Estado protector. maior participação na classe-Estado ou dirigente). à semelhança da quase totalidade dos Estados africanos. Nessas circunstâncias. ou obter a seu favor uma mudança nos termos da heterogeneidade (por exemplo. praticante de políticas sociais dirigidas aos grupos vulneráveis. consequentemente. em detrimento de outros). em tudo semelhante ao verificado nos «sistemas tributários» e na «periferia» do «sistema central». a utilização do sistema de ‘cartão’ é um exemplo disso mesmo. a estratégia de um Estado que.

Kwanza. As medidas liberalizantes podem. e não satisfazer com as aberturas/soluções apresentadas. económica e social. permitindo no início apenas ‘aberturas’ controladas do espaço político. conduziu. entre outras (cf. sobretudo para os trabalhadores que mais precisavam dela. O processo de transição política. em Abril de 1992. O sector informal da economia tornava-se. Generalizaram-se as práticas de «corrupção». assim. suborno. absentismo. assumindo formas de nepotismo. ao reforço da utilização do património do Estado em benefício próprio. decorrem na vigência de expectativas mais ou menos seguras. o espaço de sobrevivência da quase maioria da população. altura em que foi extinto o controlo dos preços. Pierre Moukoko Mbondjo representa o pólo oposto. diferentemente das outras formas de mudança política baseadas na violência. O’Donnel e Schmitter 1986). Com efeito.7 e importados em moeda nacional. O cartão dava direito a um cabaz de compras em função do número de elementos do agregado familiar e/ou da qualificação profissional do detentor. retém a sociedade civil como protagonista de desmantelamento dos regimes monopartidários (Mbondjo 1993). práticas essas que se mantiveram de forma sistemática até 1989. Um exemplo do modelo de explicação das transições pelo topo é o trabalho de Fall. as transições políticas tendem a surgir associadas aos processos de liberalização económica. a não ser sob graves riscos políticos (O’Donnel 1979. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Pode dizer-se que os processos de transição. calculada ao câmbio oficial. mas depois pode levar as reformas até um ponto onde já não se pode parar. em Angola a fraqueza do Estado e o ‘abandono’ das populações surgiram ligados ao processo de transição política. isto é. ora valorizando a sociedade civil (‘política pela base’). precipitar um processo de expansão de expectativas de uma sociedade civil. Ennes 1994/95: 171-196). realizado por vários regimes de partido único (cf. postos em marcha pelo poder instituído. 6 A restrição daquela prática de sobrevivência. económica e social na África ao Sul do Saara (ASS) e o caso angolano À semelhança do que aconteceu na África subsaariana em geral. 7 Os processos africanos de transição têm sido explicados ora valorizando o sistema político (‘política pelo topo’). Fall 1993). acumulação de cargos ou falta de decisões. Trata-se de processos de 6 Muitas empresas do Estado utilizavam também formas de pagamento em géneros aos seus trabalhadores. segundo o qual a instituição da democracia em África se deveu a um processo de democratização progressiva. 7 As medidas de liberalização tendem a introduzir uma significativa abertura do regime burocrático-autocrático em vigor. mais do que nunca. que exigirá sempre mais.

de uma tendência acentuada e prolongada de degradação das condições económicas (Boudon 1990. Bayart 1985). A aceitação deste paradigma causal das determinações económicas nos processos políticos africanos. O Estado funciona. A ideia base é que os processos de ruptura resultam. ao perder grande parte da sua legitimidade o poder político provoca fenómenos de descontentamento e insubordinação. O abandono dos mecanismos de distribuição social dos rendimentos por parte do Estado e o alargamento das desigualdades. iniciados nos anos 80. as transições nunca chegam a caracterizar-se pela anomia. etc. o fomento do aparecimento de empresas privadas. Ou seja. É neste contexto que uma grande maioria dos Estados africanos é sujeitos aos programas de estabilização impostos pelo Banco Mundial e pelo Fundo Monetário ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . a partir de então experimenta a tendência para o abrandamento do ritmo de crescimento das suas economias: entre 1981-1989 o crescimento do PIB atinge os 0. as medidas de liberalização acabam por abrir brechas nos fundamentos doutrinários. não como um agente do desenvolvimento. em certa medida. Ao contrário dos processos de ruptura.8 mudança intencionalmente direccionada e parcialmente dominada pelos actores em presença. tais como a perca de certos monopólios. Tocqueville 1989). com a consequente perca das fontes tradicionais de legitimidade. Efectivamente. quase sempre. resultam muitas vezes deste processo. tenha contribuído para desencadear. na qual os recursos públicos são distribuídos segundo princípios clientelares. neste sentido.7%.5%. incentivar e acelerar esse mesmo processo de transição. mas sim como mecanismo de predação dos recursos financeiros (Bayart 1989. confirma. o fim dos sistema de controlo de preços de bens e serviços essenciais. Esta fraqueza do Estado. Por todo o continente a desintegração institucional surge como uma das facetas mais importantes da crise. na segunda metade dos anos 80. Se entre 1960-1972 o continente regista um crescimento real do Produto Interno Bruto (PIB) na ordem de 2. parece encontrar razões que as justifiquem. a hipótese segundo a qual a derrapagem económica sofrida pelo continente africano. e que têm na democracia o fim último a atingir (Przeworski 1994). associada ao processo de transição. O Estado é objecto de apropriação por uma gestão neo-patrimonialista. A nível económico. muitos dos Estados africanos conhecem uma dinâmica económica regressiva desde então.

As reformas institucionais. nos cortes nos programas sociais que envolvem a saúde. à fraqueza e à perca de alguma soberania real dos Estados tanto a nível externo como interno. onde vigorava o multipartidarismo desde a independência (Ilhas Maurícias. traduzida na redução das despesas públicas e restrições das importações associadas ao despedimento de funcionários públicos considerados excedentários. jurídicas e políticas. 8 Um balanço do processo de transição democrática iniciado na ASS nos 80 dá conta de alguns resultados positivos mas também de muitos obstáculos. não deixando aos responsáveis políticos africanos um espaço de manobra apreciável. mais marginalizados e mais pobres que enfrentaram a rejeição mais expressiva do regime monopartidário aí existente. Congo e Mali). motins. nomeadamente o respeito pelos Direitos Humanos e o engajamento do poder político no processo tendente à instauração do pluripartidarismo. não foram os países mais endividados. manifestações diversas. Ou seja. e a mobilização política contra o poder monopartidário e sua penalização eleitoral. países que proibiram o multipartidarismo ou que tendo aceite avançar com Deve notar-se. em muito. 8 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . a aplicação das medidas do PAE parece estar na origem de greves. No panorama da rápida evolução política propriamente dita ocorrida na ASS em direcção ao multipartidarismo é possível distinguir quatro categorias: as ‘velhas democracias’. Cabo Verde. a um tempo. na restrição do pacote de preços subsidiados de produtos essenciais. Angola. São Tomé e Príncipe. resultantes de alternância de poderes (Benin. no entanto. as ‘novas democracias’.9 Internacional. na desvalorização da moeda. a educação e a cultura. Botsuana e também Senegal). as ‘novas democracias’. A adopção do Programa de Ajustamento Estrutural (PAE) coloca estes Estados na situação de dependência. Neste quadro. que não existe uma correlação linear e directa entre fraqueza ou crise económica e os respectivos efeitos sociais (mais) dramáticos. sem alternância de poderes (Costa do Marfim. perdendo em muitos casos o controlo sobre o processo social. etc. na alienação das empresas. Gabão. As medidas accionadas pelo PAE contribuem. A aplicação das medidas do PAE conduzem. Gâmbia. os regimes monopartidários não conseguem resistir às pressões externas e internas que apontam para o seu desmantelamento. No plano interno. etc. são alguns exemplos. para a erosão da legitimidade do Estado. Camarões e Gana). Zâmbia. Os governos perdem a capacidade autónoma de decisão em matéria estrita de política económica e bem assim nos aspectos que se prendem com o enquadramento legislativo e definição constitucional de competências.

ou classe dirigente. a transição entrou numa fase de estagnação. mais tarde. ao passado longínquo e recente da África nem às características do regime anterior. Eles fundamentam as suas posições essencialmente nas imperfeições de algumas experiências já levadas a efeito. Por outro lado. e o caso da Nigéria onde o governo militar autorizou dois partidos. pode dizer-se que as mudanças entretanto ocorridas não produziram efeitos significativos. todas formas de organização política que não favoreciam. pré-colonial. Esta característica influenciou decisivamente a política africana e o processo de competição política. dirigentes de partidos e oficiais superiores. jogando um papel central na formação das classes sociais. o surgimento e o desenvolvimento de práticas democráticas. Tratando-se. quer no plano político quer no plano económico. e continua ainda a constituir. de Estados que não tinham o controlo sobre os meios de produção. relativamente ao passado colonial é consensual a ideia de que a tradição política então praticada repousava sobre a autarcia. Buijtenhuijs e Rijnierse 1993: 18 e 19). Bozenan 1976). aproveitava as suas posições para se munir de uma base económica própria pela criação de empresas públicas e privadas ou outras actividades económicas. como sejam a oposição dos poderes instituídos e. Com efeito. Este grupo inclui autores que encaram a democracia no seu sentido mais lato. De qualquer modo. o funcionamento do Estado pós-colonial não favorece o desenvolvimento e a prática da democracia. 9 Esta evolução não é estranha. o canal principal de crescimento económico. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Em alguns casos o processo foi bem sucedido. se relativamente ao passado longínquo. dado que não havia uma burguesia local. caracterizados por Por outro lado. a centralização e o paternalismo. Quando da independência o poder foi apropriado pela elite política e.10 mudanças políticas tudo fizeram para minar esses acordos (Quénia. pela classe política ou. a classe-Estado. assim como autores que pensam a democracia de uma forma mais restrita. um à direita e outro à esquerda (Buijtenhuijs e Rijnierse 1993: 1). persistem dúvidas sobre uma «participação» que se reportava às formas de democracia da política tradicional africana (cf. em alguns países. reconhecendo uma dimensão económica. ainda. ex-Zaire e Malawi). vendo nela apenas um sistema multipartidário (cf. pela burguesia burocrática. Autores há que são ainda mais pessimistas. O Estado pós-colonial em África constituiu. certamente. o processo de democratização em África não deixou de ser influenciado pela combinação de factores externos e internos e acontecimentos só foi 9 Os múltiplos obstáculos ao processo de democratização estão na origem do pouco optimismo de muitos autores relativamente ao futuro do continente africano. e não favorecem. fundamentalmente. Estes grupos eram constituídos sobretudo por altos funcionários competentes. noutros deparou-se com algumas dificuldades.

Por isso mesmo. o que não acontecia no sistema monopartidário vigente anteriormente. um processo que até 2002 esteve bloqueado (Buijtenhuijs e Thiriot 1995: 26). só assinou os Acordos de Bicesse porque estava convencida que sairia vencedora das eleições de 1992. Para esta autora. à semelhança da grande parte do resto do continente africano. não estarem convencidos de que a democracia era o melhor sistema governamental. Para esta autora. O insucesso do processo de transição em Angola tem certamente várias causas. Conforme Messiant. Esta especificidade deve-se sobretudo ao facto desse processo surgir num contexto de guerra civil em que o país está mergulhado há mais de três décadas. surge também num contexto de crise económica e social que atravessa o país e num contexto de fortes pressões internas e externas que reivindicam para Angola mudanças rápidas e drásticas dos rumos que o país tem tomado. 10 Este abandono do Estado das suas funções sociais é agravado pela necessidade do governo do MPLA garantir a sua manutenção no poder na sequência da guerra civil vivida após as eleições de 1992. Enfim. além de não ter tomado a iniciativa de abertura democrática. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . UNITA e MPLA. só cedendo sob pressões. O MPLA. o insucesso do processo de transição angolano fica a dever-se também ao facto de que os dois principais partidos angolanos.11 possível porque as forças sociais internas. Angola experimenta um processo de transição que enfrenta problemas graves. que apelavam para uma mudança. negociados sob auspícios internacionais. por seu lado. ao facto dos Acordos de paz de Bicesse destinados a pôr fim à guerra civil. Em Angola o processo de transição assume características específicas. «o papel da ‘comunidade internacional’ neste processo e sua responsabilidade política neste resultado foram consideráveis» (Messiant 1995: 48). demitindo-se progressivamente das funções sociais que anteriormente assumira. A UNITA. de negociações e de guerra intensificada. estavam lá e aproveitaram as circunstâncias para fazer ouvir a voz dos seus protestos. com o início do processo de abertura política. este fracasso fica a dever-se. A partir de 1991. resistiu enquanto pôde. o Estado diminuiu o seu controlo sob todos os sectores da economia. visto que o processo de pacificação foi limitado aos dois beligerantes: UNITA e MPLA. terem sido mal conduzidos (Messiant 1995: 40-57). mas teve o mérito de possibilitar ‘alguma abertura política’ para manifestações sociais/laborais e económicas. quando deu conta 10 É verdade que a abertura pré-eleitoral de 1991-92 não permitiu resolver as situações de guerra. Mas o processo angolano. associado a um processo liberalização económica. em larga medida.

O segmento intermédio da classe-Estado. em relação ao ano de 1993 (mas não em relação ao de 1992). os deslocados e outros afectados pela situação de guerra atingiam os três milhões de pessoas. 57. que consagra grande parte dos artigos a . 12 os segmentos mais baixos da classe-Estado. Se os dirigentes ou ex-dirigentes candidatos a empresários encontram nos mecanismos de privatização um espaço para manter o status quo. A estratégia da classe dirigente ou ex-classe dirigente é sobreviver na área económica sem perder a ligação aos círculos de influência. em 1994 a economia angolana. são as preferidas pelo novo empresariado angolano. Por vezes mantêm as suas funções no aparelho de Estado. responsável por 96. Sobre as eleições abortadas de Setembro de 1992 cf. que haveriam de formar uma pequena burguesia. registou uma significativa recuperação. O PIB cresceu na ordem dos 8. Banco de Portugal 1995 e Carvalho 1996). São eles que vão alimentar Luanda e outras cidades do país. em 1993 a situação agravara-se: o ritmo de inflação mensal atingiu os 23%. Pycroft 1994: 241-262. devido sobretudo ao reforço da exportação de petróleo. a situação económica e social em Angola não melhorou. Os indivíduos pertencentes aos níveis mais elevados da classe-Estado encontram no processo de privatização. iniciado em 1991. vão sobreviver nos círculos informais da economia. As actividades mais lucrativas no imediato. Sommerville 1993: 51-77. e a Revista Politique Africaine. na maioria dos casos. Pereira 1994: 1-28. Subempregados. demitem-se das suas funções ou ausentam-se do serviço para procurar sobrevivência na economia paralela. 11 Nos anos que se seguiram esse período conturbado da vida angolana. a taxa de desemprego em Luanda era superior a 24%. e sobre a guerra civil angolana cf. prejuízos avultados ao Estado.12 que os resultados eleitorais lhe eram desfavoráveis não hesitou em retomar a guerra. 5% das exportações de 1994. Pelo contrário. confrontados com a falta de «cartões».Angola. com a inflação a atingir valores elevadíssimos. É neste contexto de crise generalizada que as populações desenvolvem estratégias próprias de sobrevivência. 11 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . 12 As privatizações das empresas do sector público trazem. recorrendo sobretudo ao sector informal da economia. Até 1996 muitos funcionários do Estado. desempregados e muitos empregados recorrem a esse sector como tábua de salvação. às divisas e ao crédito. como é o caso do comércio grossista.2%. cerca de metade dos quais entre a população rural (cf. dependente de um contexto de guerra. aproveitando alguma segurança que a UNAVEM III proporciona. Na segunda metade de 1995 o governo perdeu de novo controlo da situação. uma possibilidade de manter a sua posição na primeira linha de hierarquia económica e social do país. No entanto.

por sua vez. Em suma. de todos os países africanos recém-independentes). que surge associado a um certo abandono das populações por parte do Estado. que tendem a transitar do Estado/partido para o topo da hierarquia económica. Os melhores colocados para exercer esse «poder» são. tanto por parte do Ministério da Educação de Angola como das instituições ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . os diversos actores sociais tentam rentabilizar o capital político. reforçada ainda pelo facto de que o sector de educação surge. no quadro de transição. no período de transição. as classes dirigentes ou classe-Estado. cumulativamente ou não com a sua funções do sector público. social e económico acumulado ao longo dos tempos junto do aparelho de Estado. a ponto de se tornar imprescindível o apoio das organizações internacionais com vista a uma nova reforma do sistema de educativo. a rentabilizar as funções que exercem usando a corrupção e o suborno para aumentar os seus rendimentos. Os segmentos sociais menos bem colocados tendem. mantém o seu emprego no Estado ou noutro organismo. levando consigo a propriedade do Estado. Além da oferta de ensino não satisfazer a procura a sua qualidade era muito fraca. Mas as dificuldades que afectavam e afectam a realidade educativa em Angola foram sempre muito mais graves. Apesar da educação ter sido eleita pelo Estado pós-colonial como uma via privilegiada para o desenvolvimento e para a transformação da estrutura social em Angola (à semelhança. este sector defrontou-se desde sempre com grandes dificuldades. ao sector de segurança e defesa. O reconhecimento do baixo nível de preparação dos professores. por exemplo. A degradação progressiva dos edifícios herdados da época colonial e a escassez de verbas orçamentais destinadas à educação revelam a grave crise do sector. evidentemente.13 por sua vez. Realidades educativas angolanas e estratégias educativas dos actores sociais no processo de transição É justamente esta lógica estratégica de rentabilização de capital acumulado junto do aparelho do Estado que também prevalece. aliás. Há também aqueles que aproveitam a abertura política para se dedicarem às actividades do sector privado. acumulando frequentemente outras funções em empresas multinacionais. em Angola. marginalizado e subordinado. a nível do sistema de ensino.

ao sentirem-se abandonadas pelo Estado. associada à situação de guerra civil. procuram outras formas de complementar os seus salários para assegurar uma sobrevivência condigna. em 1979. Acrescente-se que o sector de educação angolano sofria de uma desarticulação a nível de coordenação de acções a nível nacional/regional ou local. as próprias populações. as tentativas de levar a cabo as reformas educativas. reflectindo uma situação de litoralização (à medida que se afastava para o interior a frequência diminuía) e desfavorável aos elementos femininos. a não ser que. mas que ainda não estão integradas. motivou a cooperação técnica da UNESCO. a maioria dos professores continuava a ter entre quatro a seis anos de escolaridade. As orientações políticas e outras relativas ao sector são sacrificadas. por exemplo. As outras realidades. Os professores.14 internacionais. como foi o caso da Reforma de 1994. sempre que surja ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . em termos regionais. Muitas vezes conseguir um complemento salarial significa abandonar o posto de trabalho em qualquer momento. defrontavam-se sempre com um problema central que era o desconhecimento da realidade educativa de Angola. permanecia desigual. desenvolvem. doravante e mais do que nunca. embora africano. A Reforma educativa de 1994 orientava-se para uma realidade educacional concreta. a da população que vive na cidade. a uma situação em que o Governo eleito não controla parte significativa do território e à consequente subordinação do sector do ensino relativamente aos esforços e políticas estratégicos de defesa e segurança. não são contempladas nas preocupações da reforma (cf. a todo o custo. o funcionamento real da estrutura do sistema educativo angolano apresenta-se desfasada da estrutura «oficial». O processo de transição/liberalização não trouxe alterações significativas ao sector de educação. A frequência dos alunos nos níveis escolares mais avançados (II e III) continuava a ser fraca. estratégias próprias com vista à resolução dos seus problemas educativos específicos. como sejam das populações que chegam à cidade. a distribuição da frequência. associada a um projecto financiado pelo PNUD. Face à situação de instabilidade política em que o país vive. Nestas circunstâncias. Rapport National de la République d’Angola par le Ministère de l’Éducation 1994). cientes de que os seus salários não lhes permitiam garantir a sua sobrevivência e da sua família. com um estilo de vida urbano. projecto este que visava elevar o nível académico de vinte mil professores com a 4ª classe para a 6ª classe.

Quanto ao aparecimento do ensino privado. e os perdedores também são sempre os mesmos. a pressão exercida pela classe-Estado e pela burguesia emergente. Uma vez mais o jogo do poder e de influência política encontra um campo propício. é apenas parte dela — mormente a pequena burguesia. Junto aos edifícios do culto religioso foram surgindo ‘espontaneamente’ as «escolas» em salas de aulas anexas. os grupos desfavorecidos ou menos favorecidos. após 1992. E porque a frequência de uma escola pública. receber de volta as suas antigas instalações escolares nacionalizadas com a chegada da independência. com excepção da Igreja Católica. desejosa de protagonizar dinâmicas próprias dos países capitalistas. a classe-Estado. exige das famílias um investimento significativo que não está ao alcance de toda a população. As populações mais carenciadas. os funcionários públicos e os pequenos empresários — que acaba por aproveitar as oportunidades de escolarização existentes. por um lado. sobretudo as «deslocadas». têm. que chegam à cidade fugindo à guerra ou em busca de melhores condições. A mesma lógica preside às estratégias de atribuição/acesso às bolsas de estudo reflectindo. uma situação em que a política de formação de quadros está ausente ou se encontra subordinada a um processo de manutenção/melhoria das condições de vida ou de sobrevivência. Poucas pessoas ou instituições. Naturalmente. fugindo da guerra ou simplesmente à procura de melhores condições. encontram nas diferentes comunidades religiosas um espaço de pertença e integração. que deixar de «mandar os filhos à escola» em favor de uma qualquer estratégia de ganha-pão no mercado informal/paralelo. teoricamente gratuita. conseguem a legalização e o funcionamento de escolas privadas sem grandes obstáculos. que chegam à cidade. por outro. As diligências da Igreja Católica permitiram-lhe. esta situação favorece o carácter reprodutor da educação. enquanto via de obtenção de interesses próprios. Aqui o que está em jogo é o poder de influência e ligação com o Poder político. deste modo. o arranque do ensino privado não se processa sem grandes dificuldades. os grupos favorecidos.15 uma oportunidade. Daí que os empreendimentos de maior importância surjam ligados à classe-Estado. na maioria das vezes. As populações de origem rural. Todavia. em que os vencedores são sempre os mesmos. a incapacidade do Estado em responder à procura de educação e. Os ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . este traduz.

Jean-Claude. «O processo de privatização em Angola». Centre d’Études Africaines. L’État au Cameroun. Conflict in Africa: Concepts and Realities. Elly. A. L’État en Afrique: la politique du ventre. Paulo. BUIJTENHUIJS. BOURDIEU. Ferreira. ENNES. Démocratisation en Afrique au Sud du Sahara. 1989-1992: Un aperçu de la littérature. por sua vez. 1993. FNSP. bastante acima da oferecida por outras instituições. incluindo o Estado. BAYART. Lisboa. A reprodução: elementos para uma teoria do sistema de ensino. O lugar da desordem. Editorial Vega. Lisboa. Em suma. «Hiperinflação em Angola». tratam-se de escolas de elite. Pierre e PASSERON. Gradiva. Paris. 1993. Raymon.). 1990. Démocratisation en Afrique au Sud du Sahara 1992-1995: un bilan de la littérature. BOZENAN. 1995. 1995. Princeton University Press. Paris. o seu poder de influência resulta do controlo do aparelho de Estado (incluindo ‘cunhas’. 1996. BUIJTENHUIJS.16 Colégios e Externatos surgem. Princeton. Rob e RIJNIERSE. 42. etc... Jean-François. a reconstrução de edifícios que no período colonial serviam funções similares. Estas instituições tentam aproveitar as antigas instalações negociando. «Esquisse d’une théorie de la transition: du monopartisme au ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . e a classe-Estado rentabiliza os recurso do próprio Estado em seu favor.d. Céline. 1 (10): 171-196. Leiden. Fayart. corrupção. Evolução das economias dos PALOP 1994. 1989. Jean-François. 1994/95. Leiden. BAYART. investindo os seus recursos de modo a atingir os seus objectivos: a pequena burguesia do empresariado emergente socorre-se dos seus recursos provenientes do comércio informal. as populações dos estratos mais baixos têm como recurso as comunidades religiosas (e/ou ONG). African Studies Centre. 1976. Revista Energia. B. geralmente com o Estado. FALL. CARVALHO. Política Internacional. 1985. BOUDON. s. Rob e THIRIOT. Ibrahima. Lisboa. associados aos grupos com algum poder/interesse económico interessados em desenvolver projectos de ensino com uma qualidade razoável. os vários segmentos sociais desenvolvem estratégias próprias de acesso à educação. Referências Bibliográficas BANCO DE PORTUGAL.

5. Estúdios CEDES. 1994. TOCQUEVILLE. 1973. PYCROFT. Munique. 93-109.?. SILVA. Economica. RAPPORT NATIONAL DE LA RÉPUBLIQUE D’ANGOLA PAR LE MINISTÈRE DE L’ÉDUCATION. Economica. K.. O’DONNEL. Paris. Júlio Artur de. Jorge Vieira da e MORAIS. Transitions from Authoritarian Rule: Tentative Conclusions about Uncertain Democraties. 1964. Paris. Toda educação aponta para a integração.l. Alex. Survival. Politique Africaine. PEREIRA. John Hopkins University Press.. em HEIMER. Genève. Relume e Dumará.. «Le retour au multipartisme au Cameroun». A reforma do ensino primário no Ultramar. Conférence Internationale de l’Éducation. Lisboa. Guillermo e SCHMITTER. Democracia e mercado. Rio de Janeiro. 32 (1): 1-28. 1993. MESSIANT. Franz-Wilhelm. 1995. 1969. Phillipe. SOMMERVILLE. HEIMER. 1986. O’DONNEL. «Estrutura social e descolonização em Angola». Lisboa. s. The Journal of Modern African Studies. Journal of Southern African Studies. PRZEWORSKI. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .. 20 (2): 241-262. Social Change in Angola. Adam. «The Failure of Democratic Reform in Angola and Zaire». MBONDJO.17 multipartisme en Afrique». C. 1993. O Antigo Regime e a revolução. SILVA. «Développement de l’Éducation». Luanda. Análise Social. «Ecological Conditions of Social Change in the Central Highlands of Angola». José Pinheiro da. 1994. «MPLA et UNITA: processus de paix et logique de guerre».). Editorial Fragmentos. W. 57: 40-57. 1994. 1994. 1992-1993». 1989. em L’Afrique vers le pluralisme politique. C. Franz-Wilhelm (ed. em L’Afrique vers le pluralisme politique. 40: 621-655. «The Neglected Tragedy: The Return to War in Angola. 35 (3): 51-77. Pierre Moukoko. 44èmme Session. 1973. Guillermo. MINISTÉRIO DO ULTRAMAR. 1979. «Angola — The Forgotten Tragedy». «Notas para el estúdio de procesos y democratizacion a partir del estado burocrático-autoritário». A.

2 E que. Assim.A. inseridas no quadro geral de um horizonte de acção comum. acordámos com a direcção da Instituição.Relações Sociais na Formação Profissional Especial: da(s) Cultura(s) às Pessoas Miguel Ângelo Granja Lobato FCSH-UNL miguellobato@sapo. na compreensão da forma de relação destes jovens formandos com os formadores e os mediadores culturais que lidam com eles. com diferentes origens etno-culturais. Em suma. posteriores à apresentação. 1 Nesta investigação. logo. designámos como Instituto Global de Artes e Ofícios da Periferia. que. Insucesso Escolar. ao invés da tendencial “naturalização” dos fenómenos sócio-culturais das explicações etno-culturalistas. S. de uma monografia final de pósgraduação em Formação de Formadores que frequentámos no Instituto Superior de Psicologia Aplicada. realizámos a avaliação etnográfica1 de um Centro de Formação Profissional. junto de um grupo de jovens (seis rapazes e uma rapariga). que neste encontro tem a sua primeira oportunidade de ser submetido ao escrutínio dos nossos pares.pt Através do estudo de um grupo de jovens desfavorecidos. em 2003. embora limitando o horizonte da investigação. ponderando o peso da agência pessoal e dos condicionantes estruturais. deriva de um conjunto de desenvolvimentos e reflexões. Assim. por motivos éticos. esta condicionante permitiu-nos estudar a vida quotidiana destes formandos nos espaços físicos onde existe maior flexibilidade de regras. Inserção Social. de manifestação “livre” de condutas e atitudes. elaboradas sobre o fenómeno da educação/formação. Mediação Cultural. procurámos compreender as relações sociais estabelecidas entre os formandos e o pessoal de enquadramento. Na supracitada monografia. entre os 17 e os 18 anos. Mentalidade Cultural O presente trabalho. radicamos os seus padrões de atitude e conduta na adesão a diferentes mentalidades culturais. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . sito na região da Grande Lisboa 2 . apesar de diversos entre si. que iríamos restringir o locus da pesquisa aos espaços de recreio e lazer. defendemos a reabilitação da figura do agente social. Palavras-Chave: Formação Profissional. a realizar um curso técnico. face ao horizonte de acção. aproveitando para estudar aquele grupo durante os seus tempos livres.

equivalência ao 9º ano. no presente trabalho. antes de entrarmos nos aspectos mais substantivos desta comunicação. Fetterman & Pitman 1986). 6 Com quem nos envolvemos. Nesse sentido. refira-se que a maior parte da oferta formativa do IGAOP dirigia-se a áreas de formação tradicionalmente masculinas. partindo da pesquisa efectuada sobre a relação destes jovens formandos com os mediadores culturais. 4 Neste campo. um dos formandos com que trabalhámos. Assim sendo. desenvolvendo-se em três anos. o dispositivo institucional. o que é visível no escasso número de raparigas que o frequentavam. Ora. e.º 140/93. profissões desprestigiantes. também foi expulso. não produzir uma verdadeira etnografia. local onde o alcance da intervenção dos mediadores. como forma de resolver a recorrente perturbação que provocava nas sessões de formação. particularmente por intermédio dos mediadores culturais. Todavia. social. oriundos de famílias com baixos níveis de escolaridade. ou de habitação social. e. devemos relembrar que os resultados deste trabalho estão enformados pelo facto de emergirem de uma avaliação etnográfica. convém referir que este grupo de formação 6 era o remanescente da “turma” inicial.2 tanto nos seus “fenótipos”. procedeu sempre ao seu acompanhamento. na época. visando a inclusão social dos jovens envolvidos. era bastante reduzido. mas antes avaliar uma realidade face a um referente. como se sabe. marcados pela exclusão escolar. Não obstante. durante os últimos meses do segundo ano do curso. que era composta por dezasseis elementos. 3 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . os problemas que motivaram a expulsão. face aos Pelo menos de início. 7 Já durante a nossa pesquisa. por norma. com qualificação de nível II. derivaram das condutas desenvolvidas no interior da sala de formação. e. De facto. a qual. mantendo todavia a carga horária total inicial. que foram emergindo ao longo do tempo que passámos entre os formandos. mas antes desenvolver algumas reflexões relativas à perspectiva do investigador (e. visa antes de tudo. (Fetterman 1984. estava legalmente regulamentado pelo Despacho Normativo n. avaliador). tinham percursos existenciais similares. consequentemente. e outros quatro haviam desistido 7 . Porém. tanto quanto sabemos. pois embora recorra a técnicas etnográficas. quando começou. pese embora as características especiais desta formação. parcos rendimentos. laboral. a acção teve um desdobramento curricular. ou populares. dos quais quatro haviam sido expulsos. neste trabalho não pretendemos apresentar uma súmula da nossa pesquisa. iremos apresentar uma breve reflexão sobre uma tese que preconiza o primado da agência pessoal. como nas suas “origens etno-culturais”. 5 O qual. ao abrigo do programa da Formação Profissional Especial 5 . estes jovens estavam ali a frequentar um curso de longa duração (2 anos 3 ) no domínio da construção civil 4 . Por motivos imprevistos. de 6 de Julho. habitando em bairros ou degradados. tem um estatuto intelectualmente ambíguo.

de entre a variedade de teorias disponíveis para abordar o terreno.3 condicionantes estruturais. a saber. económicas. num processo decisório. pessoas concretas. etc). movem-se num lebenwelt (mundo da vida). devemos ter a preocupação de recorrer a uma(s) que responda(m) às questões que urge resolver. operando no âmago da dualidade da estrutura de que nos fala Anthony Giddens (Guiddens 2000). mulheres. inscrevendo a diversidade dos padrões de atitude e conduta que observámos. pelo que. Todavia. e escolares. reflectidos em espelhos distintos. enquanto avaliadores etnográficos. elaborado no seio de uma avaliação etnográfica sobre os formandos de um curso de formação profissional especial. raciais. pode consultar-se proveitosamente os estudos de David Fetterman (Fetterman 1984. do qual emergem simultaneamente como produtos e produtores. reconhecendo a distintividade e diversidade dos seus caminhos pessoais. Fetterman & Pitman 1986). ou seja. rejeitando as sobredeterminações (sociais. procurámos tratar cada um dos envolvidos nesta investigação como um sujeito. ou seja. familiares. o nosso papel principal é a produção de conhecimentos para apoio à acção. Nesse sentido. Por outras palavras. esperamos) existentes ao nível da agência pessoal dos intervenientes (Bourdieu s. balizado por preocupações.d. minorias. através do seu dasein (estar-aí). sexuais) que possam ser elaboradas sobre determinadas categorias de pessoas (pobres. na adesão (pessoal) dos agentes a diferentes configurações de mentalidades culturais. e. mas antes das mais-valias heurísticas e hermenêuticas derivadas da opção consciente de. recorrer-se à “atomização” das estruturas sociais. tanto pragmáticas (escolha de um quadro teórico com boa adesão aos fenómenos observados e relevância para a acção). onde tentámos equilibrar horizontes de acção macro-estruturais e as possibilidades (realistas e/ou razoáveis. enjeitando as teses mais “estruturalistas”. 8 Sobre este assunto. lendo os agentes envolvidos como hologramas societais. como filosóficas (valorização e dignificação da pessoa humana). que. não vamos aqui falar da avaliação etnográfica em si 8 . hic et nunc (aqui e agora). no estudo de pequenos grupos (como é o caso de um meio escolar circunscrito). este trabalho decorreu a uma escala micro-social. sem prejuízo dos elementos que os unem entre si 9 .) ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . 9 Assim sendo.

assente na desconstrução de visões homogeneizantes e intentos hegemónicos (oriundas tanto dos estratos dominantes como de grupos subalternos). contra esta tese que – inclusive sob o signo do multiculturalismo –. Logo. defendemos que é um erro (infelizmente comum) considerar que as “segundas gerações” de imigrantes. ainda que estes o ignorem ou neguem. salvo melhor opinião. Isto porque. descuram a importância da dimensão social e colectiva da vida humana. nesta pesquisa. bem como as teorizações ostensivamente psicologistas.4 Posto isto. Fruto das aprendizagens posteriores. opusemos uma teoria que considera o domínio cultural como uma rede constelacional. que visam reduzir o “lebenwelt” a uma tendência configuradora de um inequívoco e normativo padrão de ideias e condutas. e. recusámos abordar o terreno com um quadro teórico “prontoa-vestir”. enformando-as a visões políticas do mundo. a auto-vigilância do discurso é fulcral para evitar cair nesta dissimulada e recorrente armadilha do senso comum. que. Crehan 2004). Nesse sentido. Especialmente os estudos feitos sobre a égide de Luís Capucha e Alfredo Bruto da Costa (Capucha 1999. 11 As marcas mais ou menos camufladas deste tipo de teses. transitória e em constante (re)produção. 10 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Assim. e. Costa 1998). etc. fruto dos processos dinâmicos (e. particularmente no que concerne à identificação e filiação identitária (Nunes 1995. razão pela qual procurámos deixar que os eventos em que participávamos fossem ajudando à emergência de uma hermenêutica do vivido. numa perspectiva próxima da teoria emergente (usualmente conhecida por grounded theory). reificam os indivíduos. e. sexo. próprias de determinada civilização. hoje reconhecemos que o quadro teórico em que nos movimentámos na altura está um pouco desactualizado. classe social ou mesmo sub-cultura.» (Fetterman 1998. desenvolvemos uma reflexão sobre a sociedade e a cultura. encontram-se mesmo entre alguns antropólogos.). enjeitámos as teorias que elaboram instrumentais (modelos de dados e grelhas de leitura da realidade) centrados no primado de determinada variável (classe. vivem num regime de “esquizofrenia cultural”. 1). Ora. p. sem todavia negar a sua unidade. A título de exemplo. a posição dos sujeitos na estrutura e organização da sociedade. por considerarmos que essas teses escondem escolhas ideológicas que enviesam as análises científicas. raça. not an empty head. etnia. preconiza que as culturas são tendencialmente fixistas e/ou essencialistas 11 . que pode assumir expressões diversas no interior de cada sociedade. embora tenhamos explorado algumas teorizações bastante profícuas sobre a exclusão social 10 . preconizando que «…the ethnographer enters the field with an open mind.

étnicas. nestas pessoas (que podem ou não viver impregnadas em redes comunitaristas de identificação e sociabilidade). Nesse sentido. por vezes ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . seja de cariz laudatório. sociais. nos mesmos parâmetros que identificamos o “Eu”. que. não só “miscigenizam” elementos de diferentes proveniências. mas temos que redefinir também a sua semântica. para lá da sua aparência. Mas.5 amiúde ambíguos ou contraditórios) de socialização e endoculturação. reconhecendo a pluralidade das pessoas e dos seus modos de vida. de tipo pejorativo. mas antes uma abertura intelectual. nem a apologia da hibridez cultural. o fulcro da nossa tese é a defesa que. mais próxima do multiculturalismo celebratório (com que certos sujeitos se podem porventura identificar). sentir e agir. um interlocutor tem o supremo direito de falar por si. abrindo e explorando um feixe de modos de vida. Ou seja. expressam-se por códigos culturais emergentes. importa referir que. organizado segundo princípios policêntricos. como também respondem de forma plural e diversa a todo um conjunto de diferentes desafios. no quadro de um complexo socio-cultural que assenta numa lógica que não é monolítica. que reflectem as novas modalidades societais de pensar. saindo deste breve excurso. em que se revêem. O reconhecimento de uma emergência miscigenada (que tanto se aplica a filhos de caboverdeanos em Portugal como à prole dos portugueses em França) não é a denúncia de uma alienação cultural (embora alguns o possam viver assim. Efectivamente.e. entre diferentes “mundos de vida”. por parte do investigador. por vezes. expectativas e/ou aspirações. embora podendo. ao edificarem novas “sub-culturas”. etc). mas antes segmentar. reelaboram-nos de formas particularmente distintas.e. possuir um núcleo de elementos transversais. i. sexuais. numa identidade dilacerada).. ou de género neutro. enquanto ser singular – embora nunca perdendo a sua posição de sujeito cultural e socialmente situado – ao invés de ser discursivamente sobredeterminado por um conjunto de categorizações genéricas (nacionais.. tanto têm de comum como de diverso. devemos reconhecer o “Outro” (seja ele qual for). que o torne capaz de reconhecer que. Por outras palavras. foi através do enquadramento da investigação com um conjunto de noções operatórias. i. em que usualmente são (re)produzidas. não devemos apenas mudar as palavras.

Além disso. Esta última noção. favorece a legibilidade das diferenças (por vezes profundas). Lakatos 1999). a qual.6 contra-factuais (i. sintetizando mecanismos de ordem cultural e sócioeconómica. Efectivamente. revelou trajectórias sociais e percursos biográficos diferenciados que. por desenvolver uma reflexão emergente das fecundas contribuições do debate entre Thomas Khun e Karl Popper (Lakatos 1998. pôde assentar no individualismo metodológico. se possam perspectivar diferentes padrões de conduta – enraizados em trajectórias sociais colectivas (culturalmente informadas) e. esta diversidade de modos de vida da pobreza e exclusão social é magistralmente ilustrada em “Os filhos de Sanchez”. em tempo. no seio da qual os membros da linhagem. 12 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . que separam as condutas consideradas dominantes. importa ainda referir que as nossas conclusões devem muito à estratégia de pesquisa mobilizada. matizam as visões hegemónicas que tendem sumariamente a associar e/ou justificar a pertença a determinada categoria social. dos vários estratos sócioeconómicos ou comunidades etno-culturais.e. esperamos que o nosso insight ao ser aquilatado pelos nossos pares. sem por isso cortar relações com o bom senso. Porém. com um acento tónico no pólo da observação (e da escuta casual). que permitimos que o terreno fosse gerando pistas para a sua própria interpretação. da profusão de dados observados. o que desenlevando a acção diferencial dos agentes sociais sob investigação. revelam como nas suas vidas. monografia de Óscar Lewis sobre a biografia de uma família pobre da cidade do México. foi para nós uma referência basilar. devido a estudarmos um fenómeno restrito a um pequeno grupo de pessoas. venha a ser refinado. entre e no interior. mais que pugnar por uma tese. refutado por uma perspectiva mais promissora 12 . exploraram distintos percursos existenciais. e. o individualismo metodológico – se interpretado em termos culturalistas – permite-nos que. pelo que esperamos que o aparato teórico referido em epígrafe nos tenha apartado do senso comum. Imre Lakatos. opostas à “naturalização” dos fenómenos e/ou à justificação e padronização da evolução das suas configurações societais).. No campo da epistemologia. expressos por percursos biográficos singulares – que se apresentam sob o conceito de “modo de vida”. Desta forma. com a existência de diferentes tipos de exclusão social.

Efectivamente. tanto mais que ao invés da difícil operacionalização da ideia de cultura. de modo especial quando as actividades recreativas (como a conversa ou o pingue-pongue) em que estavam envolvidos. protagonizado por Consuelo até ao crime ocasional. enquanto comunidade de agentes institucionais e beneficiários da formação. considerámos o terreiro de formação. No entanto. possuam atitudes e condutas comuns concordantes com essa percepção do mundo (Vieira 1995). enquanto em outras ocasiões. um bom estudo sobre alguns aspectos desta problemática. a sua consequente redução ao nível do estereótipo ou das ideias feitas. pelo menos. decorriam em franca grande animação. correm o sério risco de enfraquecer e inquinar os laços sociais em prol de políticas comunitaristas. e. tendiam a acentuar os actos de insubordinação e/ou desobediência 14 . Na mesma linha. 14 Expressos particularmente na resistência à imposição da pontualidade quanto aos tempos lectivos. em contexto holandês (Vermeulen 2001). na tentativa de escapar ao pântano intelectual em que muitas vezes caem os culturalistas. bem como os discursos e as práticas a ela associada – por vezes levados a extremos (Vasconcelos 1996) – mesmo que elaborados com intenções igualitárias. (re)constroem processos de regulação e legitimação das diversas formas de conduta social em presença. o IGAOP. conforme nos foi dado a observar. particularmente visível em comportamentos belicosos para com os seus pares. Face a tudo isto. no seio do qual os indivíduos que dele partilham. Em suma.7 desde o prosseguimento dos estudos. com tudo isto. como um terreiro de desiguais e permanentes negociações. umas vezes dando mostras de maior acatamento de normas de conduta instituídas. se alguns formandos (principalmente jovens adultos. optámos pelo recurso ao conceito de mentalidade cultural. de consequências incertas e equívocas 13 . era governado por um regime de Existe. perpetrado por Roberto (Lewis 1979). mesmo que com a mais benigna e igualitária das intenções. não quisemos fazer mais do que evitar a sobredeterminação das pessoas. estamos entre os que defendem que a reificação da diferença. Assim sendo. esse termo expressa simplesmente um sistema de referências colectivas. nomeadamente no domínio sócio-educativo. através das quais jovens formandos e agentes institucionais. maiores de idade) exprimiam atitudes mais “consentâneas” com o institucionalmente “desejável”. outros havia que revelavam claro “desajuste”. 13 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . embora a maioria dos sujeitos demonstra-se uma conduta intermédia.

15 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . passando pela subordinação da formação à diversão). Isto porque. verifica-se um efectivo esforço de inclusão social e combate à marginalidade. entramos em choque com aqueles que. estes desenvolvem um papel decisivo na gestão da mudança. em última análise. concluímos que a diversidade dos padrões de conduta observados. necessárias ao institucionalmente desejável desenrolar da Formação Profissional. Não obstante os elementos mais recalcitrantes ao respeito ou negociação de fórmulas de “convivência”. ao estudar os jovens envolvidos nesta formação. acabassem por ser irradiados do sistema. incentivando alterações de atitudes e condutas. Assim sendo. racial. não obstante haver muitos adeptos destas teorias. prevenindo conflitos. tinham o fulcro da sua actividade centrada na harmonização dos diferentes modos de vida e mentalidades culturais em presença. visam circunscrever grupos de pertença. ao contrário da escola “tradicional”. especialmente pelo recurso a animadores/mediadores culturais. existente no Centro de Formação Profissional que estudámos. justificando os fenómenos com argumentos quasi-naturalistas. Todavia. que englobam não só uns quantos estudiosos. reificar os ethos. os quais. tomando-os como pessoas ao invés de especímenes de determinada categoria (social.8 mútua adaptação. é ao explorar a descontinuidade entre os arquétipos do dever-ser. entre os formandos e a organização. comprimido entre os esforços envidados por diferentes jovens em implementarem os seus distintos modos de vida (que iam do acatamento geral das regras à violência entre pares. excepto no caso de estarmos dispostos a acreditar nas vetustas “caracterologias” nacionais ou a preconizar que as culturas constituem súmulas sistematizadas e orgânicas bem delimitadas. remete o valor heurístico da causalidade fundada na categorização para um papel residual. devido ao amplo regime de autonomia organizacional e pedagógica. mais que qualquer outros. no sentido dos padrões socialmente aceites. os activistas de toda a espécie – especialmente os nacionalistas radicais – que lutam pela implementação efectiva deste tipo de programa de acção. essas teses. Neste domínio. radicam modos de vida e mentalidades culturais em supostos ascendentes e/ou filiação em determinada cultura. Isto é válido. defendemos que. e. nos espaços livres. Conforme revelou a nossa pesquisa. Todavia. como também. particularmente através dos mediadores/animadores culturais. ancorados numa posição de “charneira”. e. os projectos institucionalizados de regulação das atitudes e condutas 15 . de modo ligeiro. e. sexual ou cultural).

bem ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . que encontramos esta pletora de modos de vida e de mentalidades culturais. tanto mais que afigura-se que. foi o facto de enformarmos a nossa pesquisa por estes pressupostos. desenvolvia um duplo labor. emergente de uma dinâmica de socialização secundária. que erradamente tomam o todo pela parte. que estes jovens adquirissem conhecimentos profissionais passíveis de lhes abrir as portas ao mercado de trabalho (quebrando assim o ciclo da pobreza e da exclusão profissional). tendo em vista uma maior adaptação destes jovens em risco de exclusão social no seio da sociedade envolvente. afigurou-se que a Instituição. negligenciando as situações de marginalidade mais brandas. em determinados modos de vida e mentalidades culturais. radicando-a numa pletora de modos de vida e mentalidades culturais. que moldaram a sua socialização primária. com vista a que estes jovens pudessem adquirir (quando necessário) competências sociais. o que provoca leituras equívocas. Posto isto. sem procurarmos “naturalizar” qualquer modalidade de organização do mundo humano. assumiam uma grande diversidade de formas de conduta.9 e. interessados em conhecer as diferentes expressões das atitudes e condutas dos formandos. procurámos interpretar as mentalidades culturais. a realidade substantiva das modalidades concretas de padrões de atitude e comportamento. Deste modo. Deste modo. Ora. particularmente em termos laborais. na qual se negoceiam formas de pensar e agir. concluímos pela vacuidade das teses que tendem a reduzir os jovens pobres ou socialmente excluídos a um grupo de comportamento homogéneo. que acabámos por valorizar a diversidade interna entre os formandos. esta visões derivam de um excessivo enfoque nos casos particularmente problemáticos. proceder à "correcção" de comportamentos. através dos animadores/mediadores culturais. através dos formadores. como pela diversidade de trajectórias biográficas. que não são redutíveis a causalidades unidimensionais. Neste sentido. verifica-se que os jovens formandos trazidos à colação. procurando. enquanto avaliadores etnográficos. e. inscritas no âmago dos sujeitos investigados. releva da nossa pesquisa que estamos perante um processo de (re)produção social e cultural. nesta linha. Logo. informadas tanto por idiossincrasias pessoais. passíveis de lhes facultar uma melhor integração no seio das normas de conduta da sociedade envolvente e do mercado de trabalho.

concorrência e/ou antagonismo. Efectivamente. pelo que ao invés de os reduzirmos a categorias. fazemos votos para que. esperando que. que há pessoas para lá das culturas. nem ficámos na especulação gratuita. (bem como o inverso). Falámos pois de algumas reflexões sobre a prática e o terreno. reconhece-los como pessoas e tratá-los como sujeitos. não entrámos em pormenores substantivos do empírico. que assumem funções de complementaridade.10 como as suas expressões societais. outros também possam vir a lucrar com as nossas teses. da dimensão policêntrica das culturas e sociedades. mas antes. concluímos que estes jovens. tanto “tradicionais” como “modernas”16 . derivada ela própria. corporizado nos cientistas sociais – tenhamos sempre em conta. 16 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . mesmo que discordem das suas linhas programáticas. Logo. patentes nos modos de vida destes jovens. exprimem a diversidade das formas de conduta humana. devemos. nenhum destes elementos é redutível ao outro. e. Posto isto. antes de tudo o mais. se a cultura (en)forma os sujeitos. perspectivados no quadro de uma cultura segmentar. secundários ou marginais. Em suma. Assim. as instituições culturais dotadas de superior legitimidade ou poderio (substantivo ou simbólico). seja de etnia ou de classe. fruto de uma determinada cultura. não obstam à presença em cena de focos de poder alternativos. especialmente quando se estuda ou trabalha entre grupos desfavorecidos – que estão particularmente expostos ao olhar desse “Outro”. não radicam a sua conduta em modos essencialmente determinados de relacionamento social. reiterando o propósito desta comunicação. as pessoas operam sobre a cultura. defendemos que.

. 2004. Lisboa. LEWIS. 1999. Cultura e Antropologia. VASCONCELOS. FETTERMAN. História da Ciência e suas Reconstruções Racionais. Sage Publications. Ricardo. Os Filhos de Sanchez. “Onde Pensas que Tu Vais? Senta-te! – Etnografia como Experiência Transformadora”. Imre. Campo da Comunicação. 1996. 2000. NUNES. João Arriscado. Óscar. Ethnography in theory. Celta Editora. 1995. VIEIRA. Exclusões Sociais. Ethnography in Educational Evaluation. Beverly Hills. Educação. Lisboa. Sociedade & Culturas. 1995. Sociedade & Culturas. Fundação Mário Soares/Gradiva Publicações. 2001. Cristina Maria Paulo do Nascimento et al. Genebra. Sage Publications. CAPUCHA. Identidade e Globalização. Lisboa. s. Moraes Editores. Observatório do Emprego e Formação Profissional. Luís Manuel Antunes (coord. Ethnography. Perfis Emergentes. Lisboa. Dualidade da Estrutura. Sage Publications. 1998. 1999. 1998. David (ed. FETTERMAN. Falsificação e Metodologia dos Programas de Investigação Científica. Alfredo Bruto da. Lisboa. GUIDDENS. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Grupos Desfavorecidos Face ao Emprego. FETTERMAN. Thousand Oaks. Gramsci. COSTA. Imre.).). Hans. David M. 6: 23-46. Kate. “Mentalidades.. Edições 70. 4: 127-147. Beverly Hills.. Edições 70. Lisboa. Instituto para a Inovação na Formação. Integração e a Dimensão Política da Cultura. David e Mary Anne Pitman (eds. Educação. Librairie Droz. VERMEULEN. LAKATOS. Edições Colibri. Coimbra. Teresa Maria Sena de. practice and politics.). 1998.11 Bibliografia BORDIEU. 1979. 2002. Configurações e Fronteiras: Sobre Cultura. Pierre. Esquisse d’une Théorie de la Pratique. Imigração. 1984. Lisboa. Escola e Pedagogia Intercultural”. MILAGRE. CREHAN. Oeiras. Lisboa. 1986 Educational Evaluation. Anthony.d. Reportórios. LAKATOS. Centro de Estudos Sociais.

a este propósito. Setúbal e Leiria. currículo vitae que integra estas provas de agregação). a Licenciatura em Antropologia da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa tinha uma cadeira optativa de Antropologia da Educação 1 leccionada pelo professor Viegas Tavares. Salienta-se. como são o caso da de Castelo Branco. Manuel José Alves Viegas Tavares resumia assim a Antropologia da Educação: A Antropologia da Educação analisa as relações escola/comunidade e as suas implicações no processo de enculturação dos jovens. Educação Intercultural.A ANTROPOLOGIA DA EDUCAÇÃO EM PORTUGAL Ricardo Vieira Centro de Investigação Identidade(s) e Diversidade(s) (CIID) Instituto Politécnico de Leiria (IPL) rvieira@esel. que acumulava a docência com a de quadro superior no Ministério da Educação. Num artigo de 1985. Há um investimento maior na obra de Raul Iturra e sua equipa de investigação. Palavras-chave: Antropologia da Educação. essencialmente. 1. tanto ao nível do trabalho ligado ao ensino da antropologia como à investigação em antropologia da educação produzida no ISCTE. Histórias de Vida. também o papel da APA no desenvolvimento destas matérias. Aplicando os métodos de pesquisa e 1 No ano lectivo de 1983/84 eu próprio fui seu aluno e desenvolvi para avaliação final um pequeno trabalho de pesquisa etnográfica numa escola de Lisboa com o financiamento do Ministério da Educação (cf. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . um pequeno esboço histórico sobre a Antropologia da Educação em Portugal. Esboço Histórico No início dos anos 80. numa primeira instância. o papel da FCSH-UNL.pt Faz-se. do ISCTE e de algumas ESEs.ipleiria. realçando.

no domínio das relações com os outros. Fui convidado a construir o programa de Antropologia Cultural e fi-lo. como ele próprio diz. destacam-se os jogos que constituíam experiências fundamentais da morte e da vida. Em particular. ramo de Jornalismo e Turismo. Paralelamente. espaço e tempo da liberdade favorável à inovação e transformação da realidade (Crespo. a disciplina de Antropologia Cultural desapareceu com a nova reforma curricular. Nas sociedades tradicionais. mas centrando-se sempre no método etnográfico de observação participante na análise dos processos educacionais. 1999: 7). 3 Na área de Estudos Humanísticos. obrigatoriamente. variante de Português/Francês. “tendo sido na sua generalidade. de cursar Antropologia. o jogo é um dos elementos mais importante na formação das personalidades. “Entretanto. tendo deixado de ser leccionada em 1993/94” (Santos e Seixas. os jogos integravam-se no complexo de cerimónias cíclicas através das quais as crianças e os jovens se apropriavam da cultura das suas comunidades. Manuel Viegas (1998). Professores do 2º Ciclo do Ensino Básico. O programa e o manual mais divulgado eram. no 1º semestre. 1997: 116). pois o número de aulas de Antropologia não chega para formar um horário lectivo normal de 22 horas” (Souta. De resto. Benito Martinez e João Lopes Filho. no 1º semestre do 2º ano. Educadores de Infância. incluíam nos seus curricula a disciplina de Introdução às Ciências Sociais. em 1987.2 análise de ciências afins. nos ciclos do Inverno e da Primavera. depois. na altura. Lisboa: Piaget. sendo que os cursos de Educadores de Infância e Professores do 1º Ciclo do Ensino Básico tinham. o Ensino Secundário os alunos tinham. os professores de Geografia. e depois de 2 anos a ensinar Geografia e Antropologia no Ensino Secundário 3 . Todos os cursos de então 5 . 1985: 53). Jorge Crespo desenvolvia também uma cadeira optativa de Antropologia do Jogo. O insucesso escolar e as minorias étnicas em Portugal: uma abordagem antropológica da educação. não tinham habilitação própria nem formação específica em Antropologia. 1982: 52). mas apenas por necessidade de complemento de horário. 4 No ano lectivo de 1987/88 5 Poucos na altura: Formação de Professores para o 1º Ciclo. Terminada a minha licenciatura. depois das noções operatórias básicas da Antropologia Geral e das 2 TAVARES. da autoria de Augusto Mesquitela Lima. vim a ingressar na Escola Superior de Educação de Leiria 4 que tinha iniciado a sua função docente há apenas um ano. Viegas Tavares veio a fazer o seu doutoramento sobre o insucesso escolar e as minorias étnicas em Portugal 2 . Nestes casos. visa contribuir para a solução de problemas da prática e da política educativa (Tavares. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . no processo cíclico de reestruturação do mundo. encarregues de a leccionar – o que nem sempre fazem com gosto. do 10º ano. Os professores de Antropologia Cultural. com uma 2ª parte que. Antropologia Cultural.

Nalgumas escolas 6 Estes textos. por professores que haviam feito os seus mestrados em Ciências da Educação. traduzida em edição brasileira por “Introdução à Antropologia Cultural” em 3 tomos que basicamente constituíam o manual da disciplina. na Universidade de Boston. numa tentativa de relativizar a mente dos futuros professores e educadores. na altura. O corpo docente das emergentes Escolas Superiores de Educação foi alimentado. dias 10. financiados por um projecto do Banco de Portugal. Leiria: Escola Superior de Educação.3 Ciências Sociais. integrei a comissão organizadora das I Jornadas de Antropologia e Etnologia Regional. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . a disciplina de Antropologia Cultural muito desenvolvida em torno da obra de Herskovits “Man and his Works”. Os livros obrigatórios de então. a 10. ora em França. Os conferencistas convidados para esta sessão foram os professores Raul Iturra do ISCTE que apresentou a conferência “A passagem da oralidade à escrita na formação do saber: o mito do insucesso escolar” e Augusto Mesquitela Lima da FCSH – Universidade Nova de Lisboa. No ano de 1988. há já alguns anos. É preciso recordar que as Escolas Superiores de Educação (ESEs) nasceram a partir dos Magistérios Primários que. na Universidade de Bordéus. Os que fizeram as suas especializações em Análise Social da Educação ou em Metodologia dos Estudos Sociais são. 11 e 12 de Novembro de 1988. que apresentou a conferência “A Antropologia e o Sistema Educativo 6 ”. ora no Estados Unidos da América. lembro-me. não tivesse formação suficiente para ir além do Culturismo Americano e da escola de cultura e personalidade. tinham também nos currículos da formação de professores e de educadores de infância. um pouco por todos os Magistérios do País. A minha preocupação com o cruzamento da Antropologia com a educação era de tal forma já considerável na altura que consegui que a manhã do primeiro dia fosse inteiramente dedicada ao tema da Antropologia e Educação. apontava para o estudo do processo educativo embora. os docentes que estão na origem das disciplinas de Análise Social da Educação. no ano de 1988. basicamente por todo o país. Sociologia da Educação e Antropologia da Educação dos currículos de formação das ESEs. 11 e 12 de Novembro. provavelmente. era o célebre “Padrões de Cultura” de Ruth Benedict e “Os conflitos e Gerações” de Margaret Mead. e os demais foram publicados nas Actas das I Jornadas de Antropologia e Etnologia Regional.

está a concluir o seu doutoramento em Antropologia da Educação no ISCTE. sob proposta de Ricardo Vieira 8 . que funcionou pela primeira vez no ano lectivo de 1988/89. reuniu várias vezes com o Ministério da Educação a propósito da habilitação própria para leccionar no Ensino Secundário e de outras saídas profissionais dos Antropólogos no ensino: Área-Escola. 8 Ricardo Vieira. É inegavelmente. acabam por ter algumas disciplinas viradas para a questão da educação e diversidade cultural que. no entanto. presidida pelo professor Raul Iturra e da qual eu próprio fazia parte. a secção de Antropologia da Educação da APA. professor da Escola Superior de Educação de Lisboa. 7 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Entre 1993 e 1997. criada pelo Decreto-Lei 286/89. com Filipe Reis. 9 Ver a este propósito a obra “Nos Bastidores da Formação: Contributo para o Conhecimento da Situação Actual da Formação de Adultos para a Diversidade em Portugal”. sem qualquer grau em Ciências da Educação. Professor Coordenador da ESE de Setúbal. de Carlinda Leite. Professor Catedrático do ISCTE. iniciado em Vila Ruiva. 2000). Pulo Raposo. O trabalho de Carlos Cardoso. não podem/devem perder a experiência da Antropologia nessas matérias 9 . a Raul Iturra que se deve o boom do desenvolvimento da Antropologia da Educação em Portugal. desde muito cedo que orientou a Antropologia (licenciatura) para a questão da educação e da diversidade cultural e para a legitimação da Antropologia da Educação (tese de mestrado e de doutoramento) sob a orientação do Doutor Raul Iturra. Rosa Madeira. embora não tendo especificamente Antropologia da Educação nos seus currículos. Nuno Porto e Berta Nunes. inevitavelmente. coordenada por Luíza Cortesão (Cortesão. também ele Mestre em Ciências da Educação 7 pela Universidade de Boston. é notável sobre a questão da escola e das propostas inter/multiculturais. Aproveitavam o tempo livre Luís Souta. Na ESE de Setúbal foi criada a disciplina de Antropologia da Educação. Na ESE de Leiria surgiu a Antropologia da Educação como disciplina optativa dos cursos de Formação de Professores para o 1º Ciclo e de Educadores de Infância.4 surgiu mesmo a disciplina de Sócio-Antropologia. como é o caso de Castelo Branco. Em 1987 Raul Iturra dava o grande pontapé de saída com o trabalho de campo com observação participante. Outras Escolas Superiores de Educação e Universidades públicas e privadas. actualmente. – Associação Portuguesa de Antropologia. licenciado em Antropologia e. em 1992. é. e cuja coordenação tem sido assegurada por Luís Souta. Rosa Nunes e Rui Trindade. leccionada por Luís Costa. definida como uma área curricular não disciplinar e os TEIP (Territórios Educativos de Intervenção Comunitária) criados pelo Despacho 147-B/ME/96.

e “Entre a Escola e o Lar: O Curriculum e os Saberes da Infância” de Ricardo Vieira (Vieira. a Razão. 1997). “Educação. que tem Ver entrevista dada por Raul Iturra em 1999 a Ana Levy Aires. Arados e Romarias: Entre a Fé e a Razão em Vila Ruiva” de Paulo Raposo (Raposo. Ricardo Vieira. o património dos pais. brincavam à família. etc. 11 Contudo. cientistas da educação e antropólogos (Raul Iturra desde o primeiro número 11 . mais tarde. Paulo Raposo. o Coração: A Construção Social da Sexualidade em Vila Ruiva” de Nuno Porto (Porto. em termos de secretariado de redacção e conselho de redacção. ainda que de uma forma mais interdisciplinar. Ricardo Vieira colaborou na organizou da secção Diálogos sobre o Vivido. 1991). 1992).º 6/7. 1991). Compravam cadernos. n. através da metodologia das genealogias. levava os alunos a pensar a sua história. conjuntamente com Telmo Caria e Ana Benavente. 1990 e Iturra. o aparecimento da revista “Educação. ao hospital. integra vários sociólogos. Ana Felisbela Lavado e Paula Godinho para a revista Arquivos da Memória do Centro de Estudos de Etnologia Portuguesa da Universidade Nova de Lisboa. (cf. propriedade da Associação de Sociologia e Antropologia da Educação. Dessa investigação foram publicados. na colecção “A aprendizagem para além da Escola”. “O Corpo. É de assinalar aqui. ainda em termos do desenvolvimento da Antropologia da Educação em Portugal. Assim. os animais etc 10 . Esta revista.5 que a escola concedia às crianças para fazerem actividades com elas a fim de compreender as suas representações sociais e conhecimento local. Luís Souta e Amélia Frazão-Moreira). Vieram a juntar-se a estas publicações a “Escola e Aprendizagem para o Trabalho num País da (Semi)periferia Europeia” de Stephen Stoer e Helena Araújo (Stoer e Araújo. “Corpos. 1992). “A Construção Social do Insucesso Escolar: Memória e Aprendizagem em Vila Ruiva” de Raul Iturra (1990b). Ensino e Crescimento: O Jogo Infantil e a Aprendizagem do Cálculo Económico em Vila Ruiva” de Filipe Reis (Reis. Iturra. à doença. 10 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . os seguintes livros: “Fugirás à Escola Para Trabalhar a Terra: Ensaios de Antropologia Social Sobre o Insucesso Escolar” de Raul Iturra (1990a). sobre a temática “sistemas de avaliação doa alunos do Ensino Básico”. dirigida pelo professor Stephen Stoer e que. terras. Filipe Reis. papel e lápis e faziam com as crianças os trabalhos de casa. Iturra e Reis. 2000). desde o segundo e. em 1994. em particular com a Sociologia da Educação. Sociedade e Culturas”. 1991). “O Saber Médico do Povo” de Berta Nunes (Nunes.

Antropologia da Sexualidade. uma Antropologia Urbana.6 tido um forte pendor etnográfico. no artigo de Sérgio Grácio. o artigo de Georges Augustin lança um olhar antropológico sobre o jogo de berlindes. ou o Filipe Reis. recusando uma visão linear e sucessiva de mudança. […] Eu queria entender a racionalidade daquelas estratégias reprodutivas. a epistemologia dos seres humanos. do conceito do professor inter/multicultural através do campo da recontextualização pedagógica. uma Antropologia do Turismo. Investigação e Ensino da Antropologia da Educação no ISCTE. os tempos livres.5). 2. ou o Nuno Porto. por criar. Este objectivo de entender a racionalidade reprodutiva tem-me levado da Antropologia Económica à Antropologia da Educação. porque a criança ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . encontramos. possivelmente “contra-hegemónia”. inventámos os ATL. começámos a brincar com as crianças. por insistência de Paulo Raposo. a partir das brincadeiras e jogos passámos a analisar. que fez comigo trabalho de campo. editorial do primeiro número da revista. no seu primeiro número. p. Antropologia do Género. a meter-me por uma ideia feliz daquela equipa: como é a epistemologia do lar. apresenta-nos uma reflexão crítica sobre o conceito e as teorias da mudança social. A seguir. apresentamos dois artigos que estudam o processo de aprendizagem nas crianças como forma de produção e construção de novos saberes e poderes: enquanto o artigo de Raul Iturra ensaia ideias sobre a natureza do processo educativo. pelo meio. O artigo de Luiza Cortesão e colaboradores apresenta uma análise das histórias contadas por crianças luso-brancas e luso-ciganas. através do que é que pensam e como pensam as crianças acerca do que acontece na sua casa. que vivem no que é denominada «uma situação de ghetto sóciocultural». (Stoer. saiu. As crianças vêem o mundo através dos olhos dos adultos. Augusto Santos Silva. Na base de um conhecimento da evolução de instituições de ensino técnico. com seis artigos que abordam temas variados: O primeiro artigo [da autoria de Stephen Stoer] aborda a construção. e. Então. Isso levou-me. passando. uma proposta para um modelo explicativo dos graus de autonomia ou de heteronomia nas relações das instituições de ensino com as instituições económicas o mercado de emprego. Finalmente. como tentativa de aceder a uma compreensão dos seus quotidianos. em conjunto com uma equipa que angariei enquanto colaborava na fundação do departamento do ISCTE.

no trabalho de campo em VilaTuxe. é do domínio dela própria.º 6/7. A leccionação em cadeira autónoma viria a acontecer no ISTE. p. ao estudar o grupo doméstico. A Antropologia da Educação. numa recensão bibliográfica da obra atrás citada de Stoer e Araújo (Stoer e Araújo. n. no ano lectivo de 1994/95. as crianças não entendem porquê mas são também seus inimigos 12 . tanto assim que os inimigos dos pais. emergiu no ISCTE pela mão de Raul Iturra que assim foi progredindo da Antropologia Económica para o estudo da aprendizagem e transmissão cultural para além da escola e para o estudo da mente cultural e da epistemologia da criança (Iturra. Raul Iturra reconhece 14 que. incluída na mesma. Abril/Maio/Junho de 2002. n. […] As crianças entendem o mundo da forma que os pais o entendem. que se debruça sobre a complexa relação entre o «saber letrado» (da escola) e a «mente cultural» (rural). trata mal os conceitos. A propósito da primeira obra da colecção “A Aprendizagem Para Além da Escola”. 129. 1990a). diz que O primeiro livro (Iturra. em 1970 e em 1974.7 não tem ainda conceitos. Ana Felisbela Lavado e Paula Godinho para a revista Arquivos da Memória do Centro de Estudos de Etnologia Portuguesa da Universidade Nova de Lisboa. “A criança não é o domínio de ninguém.º 62. 1992). mas foi precedida de muita investigação financiada pelo INIC e pela FCT e de muito debate no país e no estrangeiro. p. um conjunto de ensaios. 1994: 186). elaborado numa linguagem não hermética. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Já antes. A cultura está dividida em duas partes: a dos adultos e a da infância. pela primeira vez. em termos de investigação. 14 Dados apurados em entrevista com Raul Iturra. (Silva. 13 Entrevista dada por Raul Iturra aos cadernos de Educação de Infância. se começou a interessar como se 12 Extracto de entrevista dada por Raul Iturra em 1999 a Ana Levy Aires. Trata-se de um pensamento radical. em 23 de Julho de 2004. só que ninguém dá por isso” 13 . corresponde ao espraiar do pensamento teórico do autor na perspectiva da afirmação de uma Antropologia da Educação. Pedro Silva. 4. passim).

Marie Elizabeth Handman. considera os cinco autores dos textos que compõem este livro (Raul Iturra. 15 Luís Souta tem dado um contibuto notável ao desenvolvimento da educação multicultural e da antropologia da educação em Portugal (1991. 1996). no jogo.. etc. Embora a pesquisa aí realizada fosse centrada na vida económica. início de 90. Françoise Zonabend. não em torno de “problemas” mas na procura das virtualidades e potencialidades das crianças para aprenderem e entenderem o real. diz que O Saber das Crianças «trilha outros caminhos. Na recensão da obra “O Saber das Crianças” (Iturra. na economia doméstica etc. num processo que conduz naturalmente ao reconhecimento e valorização desses saberes.) e em França (Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales e no Collège de France) com a participação de Maurice Godelier. a transgressão e a aprendizagem. 1993. Iturra. Ricardo Vieira) como uma equipa pioneira que lançou em Portugal a Antropologia da Educação. (Souta. Percebeu que as crianças eram educadas pela interacção dentro do grupo onde vivem (cf. o jogo e a aprendizagem.8 aprendia a calcular na rua. Albergaria dos Doze. François Bonvin e Bernard Lahire. E toda esta diversidade levava Iturra a pensar nas descontinuidades entre a casa e a escola. 1997a: 353). Amélia Frazão Moreira. 1992. Luís Souta. Comparando-a com os trabalhos de Antropologia da Educação americana que se tem preocupado com o sistema formal. a ideia da aprendizagem para além da escola foi emergindo e viria a despertar o seu interesse pela Antropologia da Educação. Em casa as línguas eram o Castelhano e o Inglês. Pierre Bourdieu. em Portugal (Lisboa. procurando compreender os mecanismos da aprendizagem informal. Alfândega da Fé. Monique de Saint Martin. 1997a e 1997b). à volta de temas como o insucesso escolar. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . As suas filhas começaram a ir à escola em VilaTuxe onde falavam galego. Filipe Reis. 1997 e 2001). a oralidade e a escrita na aprendizagem. A sua pesquisa faz-se por isso a montante do sistema educativo. a etnopsicanálise. Porto. Raul Iturra e a sua equipa de investigação iniciaram um conjunto de seminários fechados sobre Antropologia da Educação. Paulo Raposo. A partir dos finais da década de 80. professor de Antropologia da Educação na Escola Superior de Educação de Setúbal 15 . etc.

nas conversas sobre os amores e a afectividade. e tem sido coordenada por Raul Iturra e leccionada por este. e a de Amélia Frazão Moreira sobre as classificações das crianças apreendidas do mundo adulto (FrazãoMoreira. ora em colaboração conjunta. 2000. Começo por abordar uma forma particular de interacção entre ascendente e descendente: aquela através da qual um grupo social contextualiza ou quer contextualizar. 2003). Amélia Frazão-Moreira […] analisa o processo de interacção que no interior de um grupo doméstico. Ricardo Vieira […] procura explicar como o adulto de hoje é resultado do jovem e da criança que antigamente foi. e hoje sob a minha coordenação. (Iturra. queríamos definir processos e actividades que permitam ao leitor entender o dito saber. bem como sobre o método etnográfico (Caria.9 As pesquisas de Telmo Caria sobre culturas de escola e culturas profissionais. A disciplina de Antropologia da Educação tem-se mantido como optativa para as licenciaturas de Antropologia Social. Sociologia e Psicologia Social (cf. isto é. a partir de uma experiência de terreno. […] Paulo Raposo […] regressou comigo à Beira Alta e observou os comportamentos rituais dos pequenos. Raul Iturra diz na Introdução ao livro “O Saber das Crianças”: Uma parte do grupo que comigo trabalha decidiu escrever sobre o saber das crianças. 2003). ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . 1994 e sobre etnobotânica (Frazão-Moreira. parte IV). arranjo doméstico. numa aldeia da serra da Estrela. ao longo do tempo. Sob a minha orientação. anexos. (de uma aldeia de Trásos-Montes). a emotividade do mais novo para assegurar a reprodução. 1994. engrossam a latitude da Antropologia da Educação que este tem feito desenvolver em Portugal. ora separadamente em termos de docência. 1996:10 e 11). Assumindo essa consciência e essa responsabilidade. ambas orientadas por Raul Iturra e conducentes aos seus doutoramentos já terminados.). colectando dados a partir dos quais foi capaz de concluir que o real é representado e manipulado pela pequenada que estamos a estudar aí. por Filipe Reis e por Paulo Raposo. transmite saberes e contra saberes através das tarefas que constituem o trabalho doméstico (nutrição. esta análise é feita por meio de entrevistas e análises de histórias de vida de professores do ensino Básico. […] Filipe Reis […] analisa a forma como a escola introduz as crianças na cultura escrita. a continuidade histórica das pessoas sobre a terra […]. etc.

todos os programas abrangem o processo educativo na escola e fora da escola. 70. José Veiga . Amélia Frazão . Anais XXXL Congresso Internacional de Americanistas. Darlinda Moreira da Universidade Aberta. grosso modo.tradicional/moderno. Introdução a uma Antropologia da Sobremodernidade. BRUNER. 8. J. Cultura e Educação. Bertrand. coordenado por Raul Iturra. Ricardo Vieira . ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . com os seguintes docentes e respectivos temas: Teimo Caria . Marc. Actos de Significado. Luís Souta da ESE de Setúbal. Ed. Para além da disciplina que integra como optativa os currículos das licenciaturas do ISCTE já mencionadas. Lisboa. 2000.problemas metodológicos e de investigação em contexto escolar. Roger. “Le Principe de Coupure et le Comportement Afro-Bresilien”. BRUNER.10. como corolário de uma basta investigação e prática de ensino no ISCTE. 1997. Telmo Caria da UTAD. 70. Não . Lisboa. São Paulo. Luis Souta multiculturalismo e educação.. 1994. J. BASTIDE. há algumas alterações pontuais em termos da ordem e da natureza das temáticas abordadas mas.etnicidade e identidade nacional.histórias de vida e biografias. 1955. No ano lectivo de 1995/96.10 De ano para ano.. e com a colaboração de docentes internos (Paulo Raposo e Miguel Vale de Almeida do Departamento de Antropologia Social do ISCTE) e externos (Amélia Frazão-Moreira da Universidade Nova de Lisboa. 11 e 12.A análise do jogo . Ricardo Vieira da ESE de Leiria e José Catarino da ESE de Setúbal). Luis Silva Pereira . a criação do primeiro mestrado em Portugal de Antropologia da Educação (2003-2005). Ed. 9.Lugares. Referências bibliográficas AUGÉ.saberes secretos. a disciplina envolveu convidados exteriores ao ISCTE na leccionação das aulas nº 7. é de assinalar. 1: 493-503. Lisboa.

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VI – Capítulo Diferenças e Semelhanças do Género Textos de comunicações do painel: Diferenças e Semelhanças do Género Coordenação Antónia Pedroso de Lima Centro de Estudos de Antropologia Social -ISCTE Susana Matos Viegas Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e Universidade de Coimbra ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .

cantina ou sala de aula de uma escola de 2º e 3º ciclo. em larga medida. Estes conceitos podem ser definidos e medidos de formas distintas e as nossas opções teóricas e metodológicas sobre a utilização que lhes damos têm efeitos significativos nas análises que fazemos. estas diferenças e os processos sociais e culturais através dos quais são constituídas? Mais do que uma propriedade unívoca e “objectiva” das pessoas ou grupos em estudo. como tal. reflectir sobre os recursos (metodológicos. Nesta comunicação.pt Os conceitos de diferença e semelhança são eixos estruturantes da reflexão sobre género. pretende-se lançar pistas que contribuam para esse debate. então. Poder. Diferença.Construindo Diferenças e Semelhanças no Recreio: uma Micro-Etnografia de Género e Poder em Contexto Escolar Maria do Mar Pereira Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE) maria. potencial heurístico e relevância etnográfica. teóricos. Escola. é fundamental problematizar o lugar do binómio diferença e/vs semelhança na investigação sobre género e debater o seu estatuto epistemológico. ter comportamentos distintos. sala de convívio. Jovens.mar@netcabo. pertencer a grupos separados. Palavras-Chave: Género. Não são factos apenas dados pelos contextos empíricos mas. mas são abordados nessa reflexão de modos variáveis. discursivos) que empregamos para descrever diferenças e semelhanças de género (bem como aquelas que estão associadas a outros eixos de diferenciação e desigualdade social) e discutir o ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Como tal.do. as diferenças de género identificadas na observação são configuradas pelas questões que colocamos e perspectivas de análise que adoptamos. Como descrever e problematizar. saltam frequentemente à vista diferenças entre raparigas e rapazes – as/os jovens dos dois sexos parecem desempenhar actividades diferentes. ocupar o espaço de forma desigual. construídos na produção de conhecimento sobre esses contextos e as relações que aí se estabelecem. Semelhança Quando entramos num recreio. partindo de observações realizadas numa micro-etnografia com uma turma de 8º ano de uma escola em Lisboa. Importa. orientando a atenção para certas dimensões dos fenómenos em estudo e deixando outras encobertas.

analisando deste modo a diversidade de performances de feminilidade. tomando como ponto de partida observações efectuadas no âmbito de um trabalho de micro-etnografia. Um estudo poderá focar os contextos em que as diferenças entre mulheres e homens são acentuadas e explicitadas ou. Diferença e Semelhança na Investigação sobre Género Estudar género é analisar a construção social de diferenças e semelhanças. se salientam as semelhanças entre homens (em especial no que diz respeito aos aspectos entendidos como características centrais e necessárias da masculinidade) e as semelhanças entre mulheres (em particular no que se refere aos elementos considerados distintivos e fundamentais da feminilidade). como eixos estruturadores da reflexão sobre género. com uma turma de 8º ano de uma escola em Lisboa (Pereira 2006). No entanto. pretende-se lançar pistas que contribuam para esse debate. et al 2003. Os conceitos de diferença e semelhança assumem-se. por exemplo. Cranny-Francis. por outro lado. actualmente em curso. Nesta comunicação. Butler 1990 e 1993. ao mesmo tempo. De facto. não têm um significado unívoco ou posição constante nessa reflexão: as diferenças e semelhanças de género podem ser (e são) definidas e medidas das mais variadas formas. geralmente orientando o olhar para ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . diversas/os autoras/es têm salientado a necessidade de problematizar o lugar do binómio diferença e/vs semelhança na investigação sobre género e de debater o seu estatuto epistemológico. assim. colocar no centro da análise as situações em que estas diferenças são minimizadas ou negadas.2 papel que esse processo de descrição desempenha na (re)produção e legitimação dessas diferenças e semelhanças. É problematizar os processos materiais e simbólicos através dos quais se representam e posicionam as mulheres como sendo diferentes dos homens e. potencial heurístico e relevância etnográfica (por exemplo. Eagly 1995. As opções teóricas e metodológicas sobre os modos como se usam os conceitos de diferença e semelhança de género e sobre o papel e estatuto que lhes é atribuído num dado estudo têm implicações nas observações feitas e conclusões formuladas. West e Zimmerman 1987). Existem estudos que se centram nas diferenças entre mulheres e homens e outros que privilegiam a exploração de diferenças entre mulheres.

“demonstrando” as diferenças entre os sexos e a “natural” superioridade de um em relação ao outro. Têm também implicações a outros níveis: influenciam. Como tal. a investigação científica (tanto no âmbito das ciências sociais. conferida particular autoridade nesta regulação. relações e situações em função Como argumenta Gherardi. As/os jovens com as/os quais convivi no âmbito do trabalho que aqui vou apresentar diziam com frequência que “está provado cientificamente que as raparigas amadurecem mais cedo do que os rapazes” ou que “há estudos que mostram que os homens têm muito mais força do que as mulheres”. com base nos seus traços “biológicos”. de facto. 1 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . “the knowledge yielded by the category «gender» about gender is one of the clearest examples of reflexive knowledge – by which I mean the social process of knowledge production which changes the knowing subjects and the conditions under which the phenomenon is produced. Thorlindsson e Vilhjalmsson 2003). aliás. como mais uma prova de que mulheres e homens são.” (1995: 1 – itálicos no original). devido ao seu estatuto (nas sociedades ocidentais contemporâneas) como forma mais “objectiva" de produção de conhecimento sobre o real (Bourdieu 2001. uma descrição “científica” de diferenças entre mulheres e homens pode ser lida e usada como confirmação da existência de “essências” de feminilidade e masculinidade. Enquanto instituição que produz discursos (diversos) sobre as diferenças e semelhanças entre mulheres e homens. diferentes. Maranta et al 2003. Laqueur 1990). À ciência é. exagerados ou mitificados) se tornam elementos integrantes de crenças e discursos generalizados sobre as diferenças entre mulheres e homens e sobre as implicações dessas diferenças ao nível dos papéis e posições sociais que devem corresponder a umas e outros. de forma activa e sistemática.3 certas dimensões dos fenómenos em análise e deixando outras encobertas. nos últimos séculos os discursos científicos têm desempenhado um papel crucial como “narrativas de legitimação” (Foley e Faircloth 2003) da subordinação das mulheres (Amâncio 1994 e 1997. Jacobus et al 1990. Como tal. como no das físico-naturais) intervém. os próprios processos sociais de construção de diferenciações que analisam. directa ou indirectamente. na regulação dos significados e normas associados ao género1 . Esta é uma ilustração de como os discursos científicos sobre género (embora filtrados e muitas vezes adaptados. Friedan 1965. Ao analisar práticas. mesmo quando essa descrição assenta no pressuposto de que essas diferenças são o produto de experiências sociais distintas e não o resultado de características biológicas necessárias e universais. Rosenberg 2005.

Os vários estudos que têm problematizado as relações entre género e educação2 demonstram que as estruturas institucionais. espaços e recursos. a investigação em ciências sociais sobre género pode contribuir indirecta e inadvertidamente para a re-inscrição biológica dessa diferenciação e para a reprodução e legitimação de uma dicotomia que deve ser seu objectivo problematizar e desnaturalizar. relações formais e informais. Diferenças e Semelhanças na Escola Desde inícios da década de 1980. relações de poder e autoridade. e utilização de artefactos. Connell et al (1982). sem lhes conferir uma existência concreta. essencializar e dicotomizar as diferenças entre mulheres e homens. Kessler et al (1985). discursos oficiais e não oficiais. sem reificar. as escolas têm sido descritas e estudadas no âmbito das ciências sociais como espaços em que as questões de género estão presentes de forma transversal e estruturante. isto é. instrumentos pedagógicos. necessária e dualista. todas as dimensões da vida na escola estão organizadas. ainda em curso. O desafio é. cultura organizacional. rotinas. Fernandes (1984). em função de representações socialmente partilhadas sobre os significados e implicações da diferença 2 Arnot e Weiner (1987). sistemas de regras. para ilustrar e explorar as formas como estas questões se manifestam num contexto empírico particular. estratégias de gestão. Não há fórmulas já prontas e infalíveis para o fazer e não tenho quaisquer pretensões de apresentar aqui respostas e soluções a estas questões.4 da dicotomia feminino/masculino. então. Stanworth (1981) e Wolpe (1988) foram alguns dos trabalhos pioneiros nesta área. de forma mais ou menos explícita. em suma. independente das suas manifestações situacionais. Thorne (1993). construir vocabulários e modelos de análise que nos permitam dar conta das dinâmicas e efeitos da produção da diferenciação (e desigualdade) de género e descrever as múltiplas configurações dessa diferenciação (evidenciando o seu carácter variável e contextual). ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . No entanto. sobre negociação de masculinidades e feminilidades entre jovens de uma escola em Lisboa. estável. gostaria de recorrer a observações e reflexões efectuadas no âmbito do meu trabalho de micro-etnografia. Delamont (1990). recompensas e sanções. actividades curriculares e extra-curriculares.

5 entre mulheres e homens. A turma que observei tinha comportamentos bastante diferentes em cada disciplina – em algumas estavam caladas/os. aparentando. diferentes. integrei-me numa turma de 8º ano e acompanhei as/os jovens da turma (com idades compreendidas entre os 13 e os 15 anos) em todas as suas actividades (lectivas ou não) na escola (e. Muito do que vemos parece confirmá-lo: frequentam espaços distintos. a sensação inicial é a de que rapazes e raparigas são muito diferentes. as raparigas não sabem e não estão interessadas em jogar. por exemplo. os rapazes adoram jogar futebol e outros desportos. têm comportamentos em sala de aula. Quando se realiza um trabalho de observação sobre género junto de jovens desta idade numa escola. etc. sem intrigas. por vezes. noutras circulavam pela sala. ouviam música em leitores de mp3. Os discursos que as/os jovens produzem reiteram e reforçam esta diferença. já que elas/es frequentemente falam de rapazes e raparigas através de dicotomias e oposições: as raparigas são bem comportadas. na sua quase totalidade. estruturas e dinâmicas de interacção distintas. mais quietas e atentas. estar a prestar atenção ao que estava a ser dito. faziam sons de animais. recreio. uma escola pública em Lisboa. proponhome analisar as formas como jovens negoceiam género num contexto desse tipo. os rapazes não querem saber da vida das outras pessoas e dizem o que têm a dizer “na cara”. No projecto de investigação no qual estou neste momento a trabalhar. rapazes – as raparigas pareciam estar. Interessam-me em particular os modos como estas/es jovens definem e expressam o “ser mulher” e “ser homem”. os rapazes o inverso. no geral. e as dinâmicas de poder e (auto e hetero) regulação através das quais certas performances de feminilidade e masculinidade são avaliadas e sancionadas como “naturais” (e portanto legítimas e desejáveis) e outras como desviantes e problemáticas. as raparigas gostam de fazer fofocas e são intriguistas. Para o fazer. também fora dela). os grupos de amigas/os têm dimensões. A questão do comportamento na aula é um exemplo pertinente. Esta diferença foi observada por várias/os autoras/es ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . em geral. Os protagonistas deste tipo de comportamentos eram. os rapazes barulhentos e irrequietos. ao longo de seis semanas. as raparigas demonstram maturidade e responsabilidade. um olhar atento revela que muitas das diferenças que observamos e que nos são relatadas pelas/os jovens são menos diferentes do que inicialmente pareciam. atiravam canetas e outros objectos. No entanto.

etc. interiorizadas na infância.6 em outros estudos. A relação das raparigas com o futebol e com os espaços onde este é praticado é um exemplo interessante da forma como se estabelecem e negoceiam fronteiras. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . habitualmente formulada por meio da dicotomia “integração feminina / resistência masculina” (Abrantes 2003: 88. traços. Na véspera de um campeonato inter-turmas (no qual participavam equipas femininas e masculinas). Como tal. Na escola onde está a ser realizado este estudo. ler revistas. portanto. apenas aparente. enviar mensagens de telemóvel. conversar e rir baixinho. comportamentos. Mesmo quando parecem estar atentas. escrever e trocar recados em papel. também elas. importa proceder com cautela na observação. tendo sido interpretada como um demonstração da postura significativamente diferente de rapazes e raparigas face à escola. As/os jovens da turma atribuem-no ao facto de as raparigas não terem jeito ou interesse para o futebol. muitas delas estão envolvidas em práticas que podem ser consideradas também como estratégias de disrupção da concentração em aula e que incluem. ver também Willis 1977) No entanto. manifestações de distracção e resistência. mas sim elementos de processos recorrentes e contínuos de criação e negociação de fronteiras entre os espaços. por serem elementos centrais das representações colectivamente partilhadas sobre a masculinidade e feminilidade. frequentemente. não só a nível simbólico mas também geográfico. descrição e análise de diferenças e semelhanças de género. um grupo de nove raparigas decidiu praticar num dos campos principais. mais dificilmente identificáveis pelo/a professor/a ou outro/a observador/a mas são. são mais visíveis e familiares para nós. uma análise do comportamento das raparigas na turma que observei demonstra que esta “integração feminina” é. é raro ver raparigas jogar futebol nos campos principais. que contrariam o dualismo rígido e simplista que é habitualmente usado para descrever comportamentos em aula e que tende a reforçar a tradicional dicotomia entre actividade masculina e passividade (e obediência) feminina. Estas práticas são menos visíveis e audíveis do que as dos rapazes e. por exemplo. Uma observação mais atenta e continuada do que acontece na escola demonstra também que as diferenças que se observam entre rapazes e raparigas não são diferenças já resolvidas e consolidadas. na medida em que podemos ser levadas/os a focar a atenção nas diferenças e dicotomias que. considerados adequados a rapazes e raparigas (Ferreira 2002).

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Depois de jogarem durante alguns minutos, dois rapazes pediram-lhes que saíssem do campo, dizendo que eles e os colegas queriam jogar ali. Elas não acederam, declararam que tinham tanto direito à utilização do campo quanto eles, disseram que eles não lhes pediriam para sair do campo se elas fossem rapazes e chamaram-lhes machistas. Os rapazes insistiram e perante a recusa delas ameaçaram pontapear a sua bola na direcção delas, tiraram-lhes a bola com que elas estavam a jogar e as raparigas acabaram por sair do campo e ir jogar numa zona exígua do outro lado do recreio, sem condições para a prática do futebol. Mais tarde, uma das raparigas explicou-me que “muitas vezes nós tentamos ir jogar ali mas eles arranjam sempre desculpas para nos tirar de lá”. Como tal, a observação de que os campos de jogos são quase sempre ocupados por rapazes não é, necessariamente, uma demonstração de que as raparigas não se interessam (ou se interessam menos) pela prática desportiva e uma prova de que rapazes e raparigas são incontornavelmente diferentes a este nível, seja devido à socialização ou biologia. Pode estar associada a dinâmicas específicas de apropriação do espaço, também elas centrais para a análise da forma como se negoceia o género em contexto escolar. Além disso, nem todos os rapazes manifestam interesse pela prática do futebol, aspecto que por vezes fica camuflado pela tendência para focar a análise nas diferenças entre sexos, tendência que pode levar a sobrevalorizar as semelhanças que existem entre os rapazes e entre as raparigas e a negligenciar a heterogeneidade que caracteriza tanto um grupo como o outro. Neste episódio, como em vários outros que marcam o quotidiano de jovens na escola, as/os jovens recorrem a estratégias várias de (auto e hetero) monitorização e regulação (que incluem o gozo e o insulto ou o uso da força física, por exemplo) para marcar fronteiras (que não são sempre consensuais ou aceites passivamente), evitar que essas fronteiras sejam desrespeitadas e aplicar sanções quando isso acontece. Nesta e em muitas outras situações, a diferenciação de género não aparece como um facto dado e resolvido mas como uma construção que dá trabalho manter no quotidiano. De facto, essa diferenciação é algo que se faz todos os dias, e não algo que simplesmente existe na sequência de uma socialização que (re)produz identidades e papéis genderizados, profundamente enraízados e estáveis.

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Considerações Finais Não é possível sintetizar, numa comunicação de quinze minutos, a diversidade de observações que preencheram as seis semanas de trabalho de campo que aqui vos apresentei sumariamente ou a multiplicidade de interrogações e reflexões que elas têm suscitado. No entanto, mais do que descrever exaustivamente os modos como estas/es jovens vivem e fazem género nas suas relações em contexto escolar, o objectivo desta comunicação é contribuir para animar o debate sobre os conceitos de “diferença” e "semelhança”, por vezes utilizados de forma excessivamente rigída e potencialmente reificante no estudo do género, em particular, e nas ciências sociais, em geral. Pretendia-se, também, contribuir para a discussão do papel que a investigação científica sobre a diferenciação de género desempenha, directa ou indirectamente, na regulação social dessa diferenciação, demonstrando que não é só nos recreios que se constroem diferenças e semelhanças – os nossos próprios estudos, textos e comunicações são, também eles, agentes e espaços dessa construção.

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DIFERENÇAS DE GÉNERO E FAMÍLIAS HOMOPARENTAIS
Margarida Moz ISCTE margaridamoz@oniduo.pt

As famílias homoparentais parecem contrariar a noção de família, assente numa forte distinção de género, a que correspondem algumas atribuições ideais de papéis: mãe/mulher, pai/homem. A antropologia questionou já o carácter universal do parentesco mas pode-se também questionar a distinção masculino/feminino, pai/mãe associada à família. A par da contingência do parentesco e da sua “desnaturalização”, a ciência aumenta as possibilidades no domínio do parentesco, ao introduzir a escolha como critério de construção familiar. Em simultâneo, os governos de alguns países ajustam as leis para que se construam relações familiares não assentes nas distinções de género fundamentais. Nesta comunicação discute-se a relevância dos papéis de género numa família homoparental, com base nalguns estudos efectuados na Europa e na América do Norte. PALAVRAS-CHAVE: Género, Família, Parentesco, Homossexualidade, Homoparentalidade.

Quando falamos numa família homoparental estamos desde logo a entrar por uma via que, à partida, parece contrariar a própria noção de família, assente numa forte distinção de género, a que correspondem simbolicamente algumas atribuições: os papéis de mãe/mulher e de pai/homem. Se é certo que, aparentemente, estas distinções tendem a estar cada vez mais esbatidas, e que se espera que a responsabilidade na educação dos filhos seja dividida por igual entre os pais, continua a dar-se uma enorme importância às distinções de género no seio da família, consideradas como referências fundamentais. As distinções de que falamos pressupõem que a mulher é mãe e o homem pai, e que os dois coexistem numa relação parental (mesmo se uma das partes nunca participou de facto nesta relação) e esta é normalmente vista como a única e natural possibilidade numa relação que é, apesar de tudo, socialmente construída. A ideia de que para se ser pai é necessário ser-se homem está ligada àquela outra defendida por David

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Blankenhorn, autor do livro Fatherless América (1995) que causou um enorme debate ao afirmar que a própria masculinidade só se atinge plenamente com a paternidade:

A paternidade, mais do que qualquer outra actividade masculina, ajuda os homens a tornarem-se bons homens: mais propensos a obedecer às leis, a ser bons cidadãos, a pensar nas necessidades dos outros. (p.21 – tradução minha)

É certo que, para o autor, esta paternidade benévola é apanágio exclusivo dos pais biológicos ou adoptivos, sendo os padrastos excluídos desta propensão para o bem. Também na equação subjacente a este argumento existe a mãe/mulher, cuja presença é fundamental e necessária à existência deste pai/homem. Para lá do interesse em defender os valores da família tradicional americana, o autor está empenhado em reforçar, através da família, as distinções de género, absolutamente necessárias à conservação destes valores. Quando se fala em famílias homoparentais esta lógica familiar fica desde logo ameaçada e com ela o futuro da família pensada nestes termos. As justificações para a não-aceitação das famílias homoparentais são frequentemente as de que se trata de uma situação anormal, desviante, em que as crianças vão crescer confusas, destituídas de valores morais, em que serão provavelmente recrutadas para a homossexualidade. Esta ideia pode manifestar-se de várias formas e quase sempre é expressa em favor do “superior interesse da criança”. Em 2003 (a 31 de Julho), o Vaticano emitiu um documento de oposição ao casamento homossexual onde se lia: “Inserir crianças nas uniões homossexuais através da adopção significa, na realidade, praticar a violência sobre essas crianças, no sentido que se aproveita do seu estado de fraqueza para introduzi-las em ambientes que não favorecem o seu pleno desenvolvimento humano.” 1 Apesar das alegações da Igreja de que “o pleno desenvolvimento humano” das crianças que crescem nas famílias homossexuais está comprometido, o que parece estar de facto comprometido nesta possibilidade é mais a plena continuidade da família tradicional. Desde logo porque o referido documento trata de uma eventual autorização do casamento homossexual e da sua reprodução, ignorando a existência dos milhares de
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http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_con_cfaith_doc_20030731_homos exual-unions_po.html

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famílias que por todo o mundo, vivem já, e nalguns casos há muito, nessas condições sem que os estudos efectuados revelem qualquer deficit de humanidade nestes filhos, nestas crianças – ideia corroborada pela American Academy of Pediatrics que se posiciona publicamente em favor da adopção de crianças por casais do mesmo sexo. Antes do mais é preciso lembrar aos que acreditam que a adopção é a única forma de um casal homossexual ter filhos que não só a maioria dos indivíduos que compõem estes casais não é estéril como tão-pouco a reprodução é um acto exclusivamente natural. Ter filhos é um acto de vontade, uma vontade vista como um desejo natural, que a homossexualidade não inibe. O parentesco foi já “desnaturalizado” (Collier e Yanagisako, 1997), porquanto as evidências etnográficas esclarecem a sua pertença mais ao domínio da cultura que da natureza, uma vez que as associações genealógicas são sobretudo construídas. David Schneider (1984) foi dos antropólogos que mais se bateu contra o enraizamento biológico do parentesco que prevalece no pensamento ocidental onde, por definição, o parentesco é composto por relações baseadas na reprodução sexual. Sendo um dos primeiros grandes críticos do que designou por “Doutrina da Unidade Genealógica da Humanidade”, chamou a atenção para que o método não é mais que uma tentativa de generalização de uma noção ocidental assente na ideia de que o parentesco está ligado à partilha de uma substância comum, que aproxima e identifica as pessoas umas com as outras. No Ocidente, esta consubstancialidade está fortemente ligada à reprodução e ao pressuposto de que “o sangue é mais espesso que a água” (blood is thicker than water). Os estudos realizados em diversos contextos não ocidentais revelam, porém, que o valor atribuído à reprodução no Ocidente não é universal. Entre os Nuer do Sudão, por exemplo, a designação de pai estendia-se a demais membros da família, incluindo mesmo alguma irmã do pai, que por ser estéril passava, ao fim de alguns anos de não gestação, a constar do grupo dos homens e a ser chamada de pai (Héritier, 1996). E nas Ilhas Salomão, por exemplo, em que as crianças ficam com os pais não pela ordem natural das coisas mas porque os pais as desejam e são autorizados a fazê-lo pela comunidade, torna-se evidente o carácter frágil e condicional das relações entre pais e filhos (Holy, 1996). A par da evidência universal da contingência do parentesco e da sua “desnaturalização”, os desenvolvimentos tecnológicos aumentam as possibilidades no

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domínio do parentesco ao introduzir a escolha como critério de construção familiar. Marilyn Strathern (1996) chama a atenção para a forma como as possibilidades introduzidas pelas novas tecnologias reprodutivas, desenvolvidas para colmatar limitações biológicas, vão mais longe na requalificação do parentesco: ao criarem um vínculo natural por via artificial, como resultado da escolha de se ter filhos que naturalmente não se podem conceber, abrem caminho para que outros candidatos a pais, naturalmente impossibilitados, possam também satisfazer as suas pretensões. A ciência permite já situações que desafiam todas as noções de parentesco, como é o caso de mães virgens ou de duplas mães biológicas (no caso em que existe uma mãe hospedeira, que gera um embrião proveniente de uma combinação de óvulo/espermatozóide alheia). Mas não é apenas a ciência que dá passos na construção de relações familiares não assentes nas distinções de género fundamentais, os governos de alguns países, acompanham já estes desenvolvimentos ao permitirem aos casais homossexuais tanto a adopção plena de crianças, como a adopção do filho do companheiro por um parceiro do mesmo sexo. Nesta segunda forma, a mais frequente na Europa e em prática em países onde a adopção conjunta não é, ainda, permitida, trata-se de adaptar a legislação a uma realidade em que as famílias se vêem muitas vezes incapazes de gerir a sua situação familiar por falta de enquadramento legal (seja na relação dos filhos com a escola, seja na própria vivência quotidiana quando, por exemplo, o pai/mãe legal se ausenta e a criança é deixada com o companheiro/a. Mas há países que vão mesmo mais longe nesta adaptação às diversas formas de agrupamento familiar e aplicam a presunção de paternidade à parceira não parturiente de um casal de lésbicas que tenha um filho por inseminação artificial - é assim no Quebeque, no Canadá. Voltando à questão inicial da distinção pai/mãe, homem/mulher, importa desde logo chamar a atenção para o modo como a reprodução medicamente assistida introduz novas questões com forte ressonância no plano social e jurídico. Hoje em dia as famílias são cada vez mais diversificadas e pai/madrasta; mãe/padrasto, meio-irmão-materno, meio-irmão-paterno, irmão-filho-do-marido-da-mãe, etc. são realidades que não surpreendem ninguém. Para além destas famílias recompostas, as novas tecnologias evidenciam ainda outras distinções como “mãe genética”, “mãe biológica”, “mãe de aluguer”, etc. As realidades sociais há muito que transcendem as designações que existem e que são visivelmente insuficientes.

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A antropóloga Anne Cadoret (2000) observa no contexto francês.5 Nas famílias homoparentais esta parece ser das situações mais difíceis de resolver e aceitar: assim. como também se opta por chamar pai/mãe a ambos os membros do casal. Mas depois acrescentou. “A que ramo de negócio é que eles se dedicam?” (Garner. era o seu pai. sendo que muitas vezes as condições exigidas jamais seriam satisfeitas pelas famílias que geram crianças sem ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . autora de um importante estudo americano sobre os filhos de pais LGBT (Lésbicas. “tia” ou então opta-se pela utilização apenas do nome da pessoa em causa. “as minhas mães”. As dificuldades relatadas não seriam provavelmente muito distintas das que existiriam para a adopção comum.” (Cadoret. e os restantes. etc. seguido do primeiro nome que distingue cada um deles. sublinhando assim uma vontade de formar uma família. surgem termos como “a outra mãe”. Garner esclareceu que um era seu pai. sobretudo quando as crianças vivem esta situação desde sempre. Respirei de alívio. Abigail Garner. sob o argumento do princípio do bem-estar da criança. “Bem” continuou “não é fantástico que o ‘partner’ do teu pai tenha vindo de tão longe com ele para assistir à cerimónia da tua graduação!”. normalmente. Esta dificuldade. 2000: 173 – Tradução minha). na cerimónia de graduação da faculdade. porém. e em relação aos pais. esta mesma necessidade: “Nota-se uma vontade muito nítida de utilizar um termo de parentesco e não apenas o nome próprio da pessoa em causa. de se afirmarem como pais. padrastos ou padrinhos. “madrasta”. Bissexuais e Transgender) – Families Like Mine (2004) –. ao serviço de uma ficção de nascimento: veja-se as restrições no acesso à adopção e à reprodução assistida. Eu sustive a respiração. “os meus pais”. “O ‘partner’?” perguntou. A inexistência de nomes para as relações torna difícil fazer transparecer a importância destas pessoas na família quando se fala dela a estranhos. uma colega lhe perguntou qual dos dois homens para quem apontou como sendo a família. Em relação ao casal é referido como “a minha mãe e a parceira”. Assim. não fossem estas estar. satisfeita por ela ter percebido e achado fantástico. 2004: 139 – Tradução minha) – é que partner em inglês quer igualmente dizer sócio. mas nas referências à família fora do seio familiar. Gays. o parceiro dele (em inglês partner). e o outro. tanto acontece que mãe e pai sejam os biológicos ou legais. e ela própria filha de pai gay. conta que certa vez. não é tanto sentida no seio da família.

Sejam quais forem os termos usados. o histórico. O termo escolhido deverá evidenciar a existência de uma relação de tipo familiar e a posição da pessoa face a quem a nomeia. como se isso fosse sinónimo de uma educação eficaz. As descobertas iam ao encontro dos receios da maioria heterossexual e homo-hesitante. 2000: 173 – Tradução minha) Para além disso. nos Estados Unidos da América. ou pelo casal do mesmo sexo. Por outro lado. o cultural. e era até recorrente a indicação de que na sua grande maioria estas crianças na idade adulta tendiam para a heterossexualidade. Tanto para as famílias homossexuais quanto para as famílias heterossexuais trata-se de fazer a ‘bricolage’ da família a partir de diversos argumentos de parentesco: o biológico. na maioria dos casos. ou um pai celibatário. Quase todos os estudos nesta área referem não ser difícil. está-se em geral consciente da ausência de um dos sexos nesta composição. ou até um casal do mesmo sexo opta pela adopção. a dificuldade em classificar os parentes parece residir mais na forma como se explicam as relações familiares em causa. os estudos sobre filhos de casais do mesmo sexo evidenciavam a necessidade de contrariar os argumentos homofóbicos e sublinhavam a existência de poucas diferenças entre as crianças educadas numa família homossexual face às que cresciam numa família heterossexual. Já quando uma mãe sozinha. no caso dos filhos resultantes de inseminação artificial esta questão torna-se mais difícil de resolver. o jurídico. O envolvimento de mais do que duas pessoas no processo de concepção dificulta a nomeação de cada um dos pais e privilegia um em detrimento do outro dos membros do casal. se as raparigas crescessem mais arrapazadas e os rapazes ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . o social.6 recorrer a estes meios. ao reproduzir-se poderão estar a reproduzir o desajuste: que será dos filhos que crescem nestas famílias? Que homens e que mulheres serão? Que famílias irão eles construir? Nos anos 80. e uma vez que esses receios se prendem normalmente com a hipótese de estas crianças apresentarem inconformidades de género. Mas as famílias homossexuais fazem cair a nossa ilusão de um “parentesco natural”. Como diz ainda Anne Cadoret (2000): A família sempre foi uma montagem. situar o sexo ausente uma vez que a criança nasce de um casal heterossexual e é posteriormente adoptada por esta ou aquela pessoa. (Cadoret. de uma adequação do parentesco biológico ao parentesco social. o afectivo. estas famílias.

E se os próprios se sentem bem. no entanto.7 efeminados. aliás. também se revelavam mais abertos à aceitação das relações homossexuais. na medida em que lhes confere uma liberdade maior de comportamento ao poderem expressar livremente traços mais efeminados ou masculinos e ao serem abertamente afectuosos com alguém do mesmo sexo sem que isso os faça sentir esquisitos ou inseguros em relação à sua própria sexualidade. Em 2001. por exemplo. sinónimo de uma sexualidade mal resolvida – tanto para a homossexualidade quanto para a heterossexualidade. sem que isso fosse. tal seria motivo para preocupação. o lugar dos homens e das mulheres na sociedade e na família? E quando é que o “problema” das famílias homoparentais passa a ser o ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . acreditam que tal os valoriza no seu relacionamento com os outros e lhes dá uma maior abertura e capacidade de tolerância – conclusão. efectuados entre 1981 e 1998. Entre os jovens adultos com quem trabalhou. com as suas próprias referências. à rigidez dos padrões e não se coaduna exactamente com o que é ser homem e mulher. mas que os próprios consideram. reexaminaram os dados utilizados nos estudos sobre os filhos das famílias do mesmo sexo. Abigail Garner verifica que por vezes estes filhos apresentam personalidades em cujas distinções de género são menos óbvias e em que os papéis são mais indistintos – um aspecto que os conservadores tomam como evidência de uma falha no desenvolvimento das crianças. No seu estudo. Garner percebeu como muitos deles têm uma clara noção de que a sua identidade de género escapa. por que motivo se teme tanto pelo desenvolvimento destas crianças? Porque é que se diz ser no seu superior interesse que se impede a adopção por casais do mesmo sexo? Como é que se poderá viver com uma realidade familiar que parece não ensinar a distinguir. estes filhos apresentavam algumas diferenças relativamente aos seus congéneres de famílias heterossexuais. mas longe de considerarem isso uma falha no seu desenvolvimento pessoal. Biblarz. actualmente entre os 20 e os 30 anos. e concluíram que contrariamente ao que antes havia sido divulgado. e resolvidos na sua sexualidade. em geral. ser uma maisvalia. sobre filhos de casais do mesmo sexo. e integrados. ao igual desempenho de funções normalmente associadas a um dos sexos. a que têm chegado quase todos os estudos nesta área. A interpretação feita por estes autores sugere uma maior tendência dos filhos com pais do mesmo sexo para desafiar as ideias relativas aos papéis de género e à sexualidade. Ao mesmo tempo que se mostravam mais abertos. por vezes. os sociólogos americanos Judith Stacey e Timothy J.

Paris : Editions HOLY. o que a homoparentalidade evidencia é a possibilidade de se formar e viver a família de um modo não alicerçado nas categorias de género que na sociedade Ocidental estiveram sempre na base da sua formação. Anthropological Perspectives on Kinship. Gender and Kinship: essays toward a unified analysis.). Families Like Mine – Children of gay parents tell it like it is. 1996. David.) 1997. Standford. Questions of Cultural Identity. Fatherless America. e Judith Stacey. Choice and the New Reproductive Technologies”.) Homoparentalités. Jane.8 “problema” da família? Acima de tudo. A Critique of the Study of Kinship. 1996. “Figures d’homoparentalité ”. Landislav. STRATHERN. CA: Standford University Press. 2004. Françoise. 1984. “(How) Does the Sexual Orientation of Parents Matter?”. HERITIER. (eds. Para melhor se perceber a homoparentalidade é pois fundamental desmontar este conceito de família assente numa forte distinção de género e a partir daí perceber se ainda sobram motivos para que se receie a sua proliferação. Ann Arbor: University of Michigan Press. in Martine Goss (dir. SCHNEIDER. Abigail. justificando (e justificadas por) o seu carácter natural. New Delhi: SAGE Publications. in American Sociological Review 66 (April 2001): 159-183. Referências Bibliográficas: BIBLARZ. CADORET. 1996: Masculin/Féminin: La pensée de la différence. London. COLLLIER. David 1995. 2001. Anne. Marilyn. BLANKENHORN. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . “Enabling Identity? Biology. Timothy J. Issy-les-Moulineaux : ESF éditeur. New York: Perennial Currents. & Sylvia YANAGISAKO. 2000. État des Lieux. London: Pluto Press. GARNER. New York: Basic Books. Thousand Oaks. in Stuart HALL & Paul DU GAY (eds.

esta comunicação dará conta de uma forma de reprodução de poder assente na diferenciação de género. enquanto que. Elas estão em maioria e são poucos os homens que ultrapassam a barreira simbólica do género. o tratar e o ensinar.as mulheres e as crianças. O êxito da sua longevidade está no seu meio de reprodução – os pequenos domínios de relações sociais . isto é. A sua ausência da profissão permite que sejam as mulheres. 1994). apesar destas já terem uma participação importante no mercado de trabalho A sua chegada tardia ao mundo do trabalho remunerado contribuiu para as segregar em profissões onde a sua presença é fundamentada nos seus atributos «naturais». género. 1. A partir de um trabalho de observação empírica feito numa creche. reprodução. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . por exemplo. Apresentação Os estudos desenvolvidos em Portugal demonstram uma grande consensualidade no que diz respeito aos estereótipos do género. Amâncio. O estereótipo masculino está associado aos domínios profissionais mais dinâmicos e independentes. Em Portugal. em entrevistas semi-estruturadas realizadas a educadoras e alunos da licenciatura de educação de infância e também um inquérito realizado entre profissionais e futuros candidatos à profissão. poder. de acordo com o seu género.e nos veículos por ele utilizados . o estereótipo feminino está associado à expressividade e à submissão (cf. a marcada diferenciação entre “trabalho de homem” e “trabalho de mulher” tem criado condições para que continuem a existir trabalhos maioritariamente desempenhados pelas mulheres. as educadoras de infância a transmitir aos seus educandos o modelo feminino: o cuidar. Palavras-chave: educadores de infância. jardim-de-infância e ATL.Educadoras de Infância: A fragilidade de uma maioria Manuela Raminhos Centro de Estudos de Antropologia Social ISCTE A profissão de Educadores de infância é em Portugal exercida quase em exclusividade por mulheres.

Williams. Mas porque é que a divisão do trabalho por género persiste? A primeira explicação centra-se nos estereótipos que passam através da ideologia do género e que 1 DGES. colocando as mulheres em profissões menos prestigiantes socialmente e dificultando-lhes o acesso a funções de chefia tradicionalmente desempenhadas por homens. Cardana. Elas estão em maioria e são poucos os homens que ultrapassam a barreira simbólica do género. A concentração por sexos quer a nível do ensino (licenciaturas e cursos profissionais) quer na actividade profissional é suportada por um discurso que alimenta a ideia que existem profissões masculinas e femininas. em Portugal. sentimentos e comportamentos» (cf. Como pano de fundo fica a ideia que existem profissões para as quais as mulheres possuem habilitações naturais dado crer-se «que os sexo tem consequências inevitáveis quando à forma de pensamento. Lisboa. A sua ausência da profissão permite que sejam as mulheres. Concurso Nacional de Acesso ao Ensino Superior. As várias escolas superiores de educação públicas entre 2002. a partir da diferença sexual. 2005). que as jovens já escolhem com frequência cursos e profissões ligados com o estereótipo da masculinidade (cf. a presença das mulheres no domínio profissional masculino tem aumentado. Como resultado. dos quais 161 do sexo masculino (INE: 2001). no entanto. o tratar e o ensinar. 1995). 2002. promove a desigualdade social. Ministério da Ciência e do Ensino Superior. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . os empregos do domínio feminino pouco têm mudado a sua composição sexual. O Recenseamento Geral da População de 2001 regista um total de 20. Os homens tinham neste universo profissional um peso inferior a 1%. Através de um forte dispositivo ideológico continuamos a assistir à naturalização do género que. 2003 e 2004 foram frequentadas por cerca de 2 mil alunos nos cursos de educação de infância onde se estima que apenas 3% dos alunos sejam do sexo masculino 1 . as educadoras de infância . 2005. mas em contrapartida.2 Em Portugal são poucas as profissões do domínio profissional que tradicionalmente está ligado ao mundo do trabalho feminino que empregam homens e são poucos os jovens do sexo masculino que escolhem licenciaturas em áreas comprometidas com o estereótipo feminino.354 educadores de infância em Portugal. A profissão de Educadores de infância é em Portugal exercida quase em exclusividade por mulheres.2003 3 2004.a transmitir aos seus educandos o modelo feminino: o cuidar. Nota-se.

Londres e Nova Deli. No grupo de educadores de infância não foi inquirido um único homem e no grupo de alunos de educação infantil apenas um. e Barbara Reskin (2002). por sexo. 3 2. entre os alunos das Escolas Superiores de Educação de Lisboa e do Porto. mas como é que o género se torna poder? e qual é a sua natureza? A partir de um trabalho de observação empírica feito numa creche. como esperado. as mulheres não têm sido consistentes na consolidação dos seus privilégios profissionais. com uma distribuição razoavelmente equitativa. Inc. esta comunicação tem como objectivo identificar a natureza do poder atribuído ao género. 4 Padavic. um conjunto de comportamentos e atributos. 42-43. col.o masculino . São os estereótipos que fazem com que o trabalho. da Licenciatura de educação de infância e a Educadores de Infância e exercerem a sua actividade em creches e jardins-de-infância de Lisboa e do Porto. Thousand Oaks.que ainda consegue preservar a sua vantagem localizando-os em esferas diferentes das da mulher.). 2ª edição. “seja etiquetado como feminino e masculino”. pag. Este controlo é exercido pelo sexo privilegiado . “género é poder”. uma vez que têm demonstrado falta de estratégias de afastamento dos homens nas funções de liderança quando estes entram no seu domínio profissional. Uma terceira explicação surge. deixando-os construir a sua masculinidade e evidenciando a sua supremacia e poder. A imagem de si Dizem as feministas. jardim-de-infância e ATL. em entrevistas semi-estruturadas realizadas a educadoras e alunos da licenciatura de educação de infância e também um inquérito realizado entre profissionais e futuros candidatos à profissão. 2 Uma segunda explicação para a para a divisão do trabalho é o facto desta divisão conceder privilégios ao grupo dominante proporcionando-lhe uma posição de controlo. nos lugares de chefia e de decisão. A amostra revelou uma distribuição por género fortemente feminizada. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Irene. Women and Men at Work. Os registos etnográficos que suportam este texto são: uma amostra baseada em 166 questionários. Sociology for a new Century.3 permitem aos indivíduos a partilha de um conjunto de ideias que naturalizam. Pine Forge Press (an imprint of Sage Publications. São estes estereótipos que levam a que a profissão de educador de infância seja própria de mulher. 3 4 2 ID. como por exemplo.

No caso das educadoras de infância estas assumem que a profissão é feminina e que está de acordo com o seu património biológico. prende-o à sua identidade que ele ou ela deve reconhecer e acreditar como reflexo do seu verdadeiro “eu”. mas na presença de um modelo de género institucionalizado. no seu carácter fixo. Foucault. Contudo a verdade não existe por si só o que permite que o poder não se reduza somente às formas de dominação e não seja essencialmente repressão. Dizem: ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . o género justifica-se de acordo com um quadro biológico que suporta a ideia que divisão do trabalho. Como o comportamento. Isto significa que a feminização das profissões. não está ao nível da sua composição sexual. modos de comportamento. O poder perde o seu carácter dominante e deixa de ser repressivo. Nestes discursos o género tem qualquer coisa de fixo e permanente. O poder identifica o indivíduo. É este modelo que é reproduzido e assimilado pelas mulheres e pelos homens que ingressam em profissões que de acordo com o seu género. porque se acredita nele. apesar de sabermos que é uma construção social. controlando a massa crítica. E é aqui que reside também um dos poderes do género. diferentes tipos de identidades. desejos e crenças. Esta naturalidade está contida nos discursos científicos da biologia e da psicologia. Um dos impedimentos à mudança social é a assunção da naturalidade das coisas. É uma verdade que liga os indivíduos e que fortalece as estruturas de poder e dominação (cf. O Género está de acordo com o seu sistema nervoso. Esta é a verdade. tornando o discurso ideológico coerente e permitindo também a continuidade do discurso do senso comum. Apesar de ser uma identidade plástica. também o género é assumido como um fenómeno causal. (Foucault. Porque? Porque o poder é produtivo: produz indivíduos. E se esta verdade fizer parte de cada “verdadeiro eu” acredita-se nela. apesar de todo os projectos de transgressão e de rotura. Como a fé aceita-se e não se discute. O género manifesta-se segundo a sua natureza biológica. formas de subjectividade. segundo o género. é normal e natural. actos. 1982:212). efeito do património biológico do indivíduo. Acredita-se que é assim.4 Um dos maiores contributos de Foucault foi fazer a ligação entre o discurso dominante da verdade (ou a verdade de um grupo reflectida no discurso dominante) e a emergência do poder. 1979).

dentro dos parâmetros da verdade estabelecida. aos astronautas. A mulher biologicamente está preparada para isso. educadora. aos escritórios. mas é simultaneamente a imagem da passividade. (mulher. mais fortes. Em interacção com as crianças partilham com estas experiências ligadas ao universo da casa. da tolerância. Até lhe dizia «assim é que é. a tratar dos filhos. aos médicos. da bondade. 21 anos) Nós sabemos que é uma profissão feminina. aos veterinários. Às casinhas. Não aprendo isto na licencaitura. só te fica bem!». porque está ligada ao cuidar. 55 anos) As educadoras de infância deixaram transparecer que no decurso da sua actividade profissional o seu universo é feminino. mas é assim que eu penso. Mais crescidas. (aluna da licenciatura de Educação de Infância. No entanto dava-me bonecas a mim e carrinhos ao meu irmão. No entanto através dos seus discursos. Essa era implacável. enfermeiras. da paciência. educadora de infância. Ao mesmo tempo perante as crianças a educadora é a autoridade. 55 anos) os homens aparecem no ensino já quando «as nossas crianças estão prontas» para a mudança. A minha mãe não se ralava nada se o meu irmão brincasse com as bonecas e eu com os brinquedos dele. à paciência. negam que tenham sido condicionadas pela família e pelos amigos na escolha da sua profissão. Elas são como as flores. consolidando a ideia de que esta ocorre com normalidade. negando o papel que estes tiveram na sua aprendizagem do género. a ajudar a mãe dos meninos. são as flores do nosso jardim que nos primeiros tempos de vida precisam da nossa ajuda. É verdade! Se calhar sem querer estava-me a ensinar-nos que cuidar de meninos era coisa de mulher! Mas a minha avó sim …que espectáculo. essa realidade é bem diferente. tão ligadas ao universo materno. Lembro-me de brincar com os meus irmãos. Não tenho assim presente que fossemos muito rigorosos na divisão de tarefas. como professoras. A tudo. Ou seja o seu género não acrescenta nada à profissão.5 Somos só mulheres … penso que os homens não têm paciência … exercemos a nossa profissão com mais naturalidade é por isso que é uma profissão feminina. (mulher. A naturalização do género é tão forte nas educadoras que apesar de no inquérito terem respondido que em crianças as profissões que gostariam de ter em adultas se situavam no universo das profissões femininas. da dedicação. Dizia a minha avó quando via o meu irmão a brincar com as minhas bonecas: Vê lá que ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . ao carinho.

Porto). Nova Iorque. Se atendermos a PARSONS. negando dessa forma a sua ligação ao mundo feminino e. a preocupação na construção da masculinidade profissional. Nancy. o feminino e em muitos casos a figura da mãe ou da educadora. acaba por ser influenciada pelo modelo que lhe está mais próximo. põem mais em causa a sua masculinidade. Uma forte identidade Como já dissemos. The University of California Press. «a sociedade vê a sua profissão como a profissionalização do trabalho doméstico» (Mulher. os rapazes são pressionados para abandonar esta identificação com a mãe e assumirem a sua identidade de género masculino. pp. no seu processo de aprendizagem. enquanto que os homens. influência. Berkley. Social Structure and Personality. “The superego and the theory of social systems”. 1978. 3. afirmar a sua masculinidade.6 desgostos que ainda queres dar ao teu pai. afastando-se das brincadeiras das meninas.174. A forte presença da mulher face ao afastamento da figura do pai nos primeiros anos de vida é pertinente para tentarmos compreender a necessidade que os rapazes têm em manifestar a sua masculinidade. A criança. Talcott. 5 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .17-33. que resulta desta intensidade do significado atribuído ao género. 6 CHODOROW. quando entram no campo profissional tradicionalmente conotado com o género feminino. mais tarde. 5 Através da construção de uma identidade masculina pela negativa: “tu não fazes isso porque quem o faz são as mulheres!”. Quando chegam à vida adulta os homens escolhem geralmente uma profissão do universo das profissões masculinas. 6 Como me disse uma educadora. olha que as bonecas são para as meninas! (Aluna da ESE. em contrapartida. pp. também o seu afastamento das profissões “apropriadas às mulheres”. Lisboa). Mais tarde. aparentemente. perdendo. o modelo da paternidade (masculino) fica mais ausente. as escolhas profissionais são incentivadas ou condicionadas através da aprendizagem dos papéis do género no seio das solidariedades primárias. The reproduction of mothering. 1970 (1952). New York Free Press. 40 anos. exige uma assimetria dos papéis: A mulher pode fazer qualquer trabalho que não deixa por isso de ser feminina. quando aí chegam. O afastamento dos homens das profissões femininas ou a necessidade que estes têm de. já na vida adulta. pode ser explicada através da teoria do sexo.

práticas e comportamentos domésticos e profissionais que alimenta a forte imagem feminina que estas profissionais têm de si mesmo. com as enfermeiras que prestam serviço no infantário. O formal que trazem da rua passa a informal dentro do infantário. o seu prestígio. como se fossem uma casa familiar. 7 Através do trabalho de observação realizado junto de educadoras de infância. normalmente.7 isso. a vigiar. Porto). 7 Entendemos que poder ou o exercício do poder por parte de pessoas ou de grupos sociais é a capacidade que estes têm em usar estratégias próprias que provocam obediência outras pessoas ou grupos. a sala. em alguns estabelecimentos. os espaços em que interagem com as crianças estão carregados de simbolismo feminino.privado -. A feminilidade da profissão também é observável através das relações sociais que estas profissionais estabelecem no seu dia-a-dia com os seus interlocutores mais directos. E até o espírito de poupança doméstica se reflecte nestas profissionais que promovem «as festinhas onde vendemos coisinhas feitas por eles para juntar dinheiro para a viagem dos finalistas» (Mulher. A sua actividade profissional demonstra que a passagem da casa para o trabalho continua a permitir que esta profissão consolide os estereótipos femininos. também aqui as mulheres. 49 anos. compreendemos porque é que os homens não escolhem esta profissão. a arrumar. a quem se dirigem para saberem como devem actuar face a problemas de saúde das crianças. Como no lar. Entre o social.as batas – e. Colocariam em causa a sua masculinidade. numa atitude de conforto e de disponibilidade para com a sua tarefa. com os seus educandos a quem dispensam toda a sua atenção ao longo das muitas horas que estão com eles. ensinandoos a arrumar a casa. usam roupas largas . a apresentação destas mulheres muda e o significado que daí emerge permite sinalizar a semelhança entre o trabalho de casa e o trabalho que desempenham profissionalmente nos infantários. com os pais destes. pudemos verificar que algumas das suas tarefas são semelhantes às que as mulheres realizam no espaço privado. calçam sapatos baixos. o justo das roupas passa a folgado. a biblioteca. As salas estão decoradas. As educadoras continuam a cuidar. no seu local de trabalho – o infantário -. a ensinar e a proteger as suas crianças.público -. como por exemplo. onde surge a cozinha. Por outro lado. preocupandose com o seu bem-estar. o quarto e até a garagem. e o profissional . o seu poder de grupo privilegiado. É esta simbiose perfeita entre objectos. Na sua sala. . ou a cuidar da sua higiene. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . a educadora olha atentamente “pelos seus meninos”.

ou o seu emprego como adjectivação de uma mulher serve fins ideológicos. Mary Gergen e Kenneth J. As educadoras fazem um trabalho valorizado socialmente mas em contrapartida com pouco realce e estatuto social de prestígio. 20005 (2003). 8 Algumas educadoras de infância entrevistadas não escondem que para as mulheres é normal reagirem emocionalmente enquanto que se espera que os homens escondem as suas emoções. Sage. sabes porque é que não há homens nesta profissão? Porque nós somos socialmente vistas como “donas de casa” que trabalham fora de casa. (Educadora. a diferença é que nós conseguimos LUTZ. organização. Envolvemonos e demonstramos. Segundo Catherine Lutz (2003) a aplicação do conceito emoção. As educadoras sofrem e riem. «mas não é só a mulher que consegue experimentar a angustia e reagir. com paixão a determinadas situações. irracionalidade a tal ponto que pode gerar o caos. permitindo desta forma a manutenção um sistema de estratificação profissional que atribui valor desigual ao trabalho segundo o género. a emoção opõe-se ao pensamento e muitas vezes é empregue para caracterizar a mulher negativamente reforçando a sua subordinação ao homem.8 No entanto por detrás desta imagem estereotipada está a ideologia do género que através da divisão do trabalho por sexo atribui à mulher tarefas diferentes das que atribui ao homem. Mas hoje se a minha filha escolhesse esta profissão eu iria contra a ideia dela. a reader. Quer dizer que a emoção faz parte de um sistema de relações de poder e tem um papel fundamental na manutenção desse mesmo poder. 8 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . face à alegria ou tristeza das crianças».40. Social Construction. Emoção significa subjectividade. à mulher. Sou educadora porque quis sê-lo e gosto da minha profissão. Gergen (Ed. racionalidade. Porto) A emoção pode ser também entendida como uma representação do feminismo da profissão.). pelas categorias do género. enquanto que o homem é caracterizado pela sua objectividade. pp. Isso é uma injustiça e eu não quero que tu continues a alimentar essa injustiça. Perguntar-lhe-ia. “Emotion: The universal and the local. com raiva ou com alegria. Na prática. uma vez que está associada. Catherine. ao mesmo tempo que dizem. Londres. Disse-me uma Educadora. 40 anos..

humanismo Vocação. amor.2% 13. a vocação e o gosto. carinho Empenho.8% 32.9 manifesta-la.9% 39. Segundo uma professora da ESE do Porto. dedicação Responsabilidade. empatia.1% 30. Acabam por desistir» (Mulher.1% 34.0% 33.3% Para as mulheres educadoras de infância os afectos fazem parte da sua prática profissional. assim como as denúncias de praticas pedófilas em estabelecimentos de ensino têm ultimamente afastado da licenciatura possíveis candidatos. amor. Professora da ESE.5% 13.3% 25.4% 11. Lisboa). «os poucos rapazes que aqui chegam não conseguem aguentar a carga emocional negativa que lhes é transmitida pelos média.4% 37.5% 10. Características de um bom educador Educador de infância Paciência.0% 12.7% 15.5% Total 41. gosto Afectividade. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .3% Aluno Lic. atenção Competência técnica e científica Capacidades profissionais Respeito. enquanto que eles a escondem!» (Educadora.6% 24. simpatia 34.5% 14.9% 25.8% 25.9% 22.5% 18.3% 16.4% 10.1% 20.3% 33. Educação Infância 44.4% 13. a criatividade e a flexibilidade.8% 32. em muitos casos condição essencial para afastamento dos homens da profissão. 54 anos. 40 anos.2% 12.4% 15.7% 30. A paciência e a compreensão.6% 19. Os afectos que manifestam também nas carícias que as crianças recebem dos educadores afasta. No inquérito realizado embora de opinião bastante díspares os educadores revelam um leque alargado de características comportamentais na área da emoção e atribuídas à mulher pelas categorias do género feminino. compreensão Criatividade.6% 32.8% 18. Porto). segurança Observação.1% 30. educação Afabilidade. o carinho. flexibilidade Sensibilidade. os possíveis candidatos homens desta profissão.3% 32. a sensibilidade. afectividade.

Aqui. pela a forma de comportamento que se espera delas. nem tão pouco se sentem que houve algum dia qualquer forma de influência que condicionasse a sua escolha. Segundo a ideologia do género os indivíduos. até pelo perigo que pode representar a presença de um homem nesta profissão. os pais das crianças em idade de pré-escolar. a criança vai à procura do seu “outro” para o copiar ou simplesmente para o ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . segundo o sexo. O seu poder advém-lhe da sua forma de reprodução. têm características e apetências diferentes. Os inquiridos. De facto. Pelas práticas profissionais que lhes vemos ter. Conclusão O processo de aprendizagem das categorias do género iniciado através do processo de interacção desenvolvido no seio das solidariedades primárias. amigos ou mesmo da escola no seu processo de sociabilização com as categorias do género. As mulheres devem ficar junto das crianças. mais dócil e o seu as suas carícias são consideradas normais. a imagem de feminilidade contida nesta profissão é forte e constrói-se sozinha. Porém a sua natureza não passa de uma construção social. mais tarde.10 Por outro lado. No seu processo de sociabilização a criança começa por copiar as atitudes daqueles que lhes estão mais próximos ou daqueles que sobre ela exerçam mais influência e que se encontram no universo das solidariedades primárias. por tudo isto. Esta aprendizagem condicionará o indivíduo que. também manifestam que a profissão de educador de infância é própria para mulheres. Na verdade expressam a ideologia do género e os seus medos. se sentirá mais atraído pelas profissões que estão de acordo com as características atribuídas ao seu género. por exemplo. 4. afastando deste universo os homens. pelo meio em que estão inseridas. já na fase adulta. foi o que constatámos junto das Educadoras de Infância. não reconhecem directamente a influência dos seus pais. sem a necessidade de um “diferente por perto”. neste universo. As crianças representam a pureza e a mulher conserva uma imagem menos perigosa. Isto quer dizer que até a sociabilização com os papéis atribuído ao género acontece dentro dos parâmetros naturais da ordem estabelecida.

Porto. 1994. Nos seus espaços de trabalho. Masculino e Feminino. Edições Afrontamento. Através da interacção que se estabelece entre a criança e a sua educadora. no seu estabelecimento todas as educadoras são mulheres. Apesar dos educadores de infância deixarem transparecer que o seu trabalho com as crianças é feito com o objectivo de os influenciar no sentido do equilíbrio e equidade entre géneros. mas mais do que entanto a criança habitua-se a partilhar a sua vida com uma mulher que os ensina a divisão do trabalho por sexo. Mais tarde. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . As crianças brincam e utilizam este espaço não tendo em conta o seu sexo. copia e aprende a reproduzir os papéis sociais esperados para o homem e para a mulher. Lisboa). Este processo de aprendizagem dos papéis do género é universal. um número de factores e de práticas profissionais chama a nossa atenção. E aí está a perversidade desta profissão. precisamente para a falta de práticas conducentes a esse equilíbrio e equidade. os objectos estão distribuídos como se de uma casa se tratasse. 9 ID. Provadamente. A construção Social da Diferença. a criança aprende as categorias do género. muitas vezes a brincar ao “faz de conta” sob os olhares da mãe ou da avó. esta transmite-lhe a ideia que cuidar das crianças é trabalho para mulher. no jardim-de-infância a criança começar por distinguir os papéis diferenciados do género. “e todas as sociedade reconhecem os laços que cada criança tem com as pessoas envolvidas no planeamento e empreendimento do acto reprodutivo”. Estas profissionais actuam como frentes de consolidação do género feminino. que a criança vê. 41. pp. Lígia. condicionando o leque das profissões disponíveis para os futuros homens e influenciando-os a escolher: «uma profissão que não envolva o cuidar dos filhos dos outros e ensiná-los brincando» (Educadora. 9 É na família que.11 identificar com determinado tipo de trabalho. as salas que recebem as crianças. 54 anos. O trabalho de observação empírica permitiu ver que as mulheres educadoras de infância desenvolvem um tipo de trabalho que as posiciona de acordo com o imaginário feminino. É também neste universo. Referências Bibliográficas AMÂNCIO.

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que as investigações decorreu centrando-se na análise de estratégias de sobrevivência e reprodução social de famílias maioritariamente originárias do Sul de Moçambique. Polana Caniço A e Hulene B na periferia de Maputo 2 . com as representações sociais e culturais e com a auto percepção que os membros da família têm do poder que exercem ou ao qual se submetem. este artigo articula a avaliação da efectiva capacidade de controlo de recursos que os homens e mulheres da família exercem. poder. género. Nesta análise discute-se se as transformações ocorridas nas relações de aliança e nas práticas desenvolvidas pelos membros das famílias para obtenção de rendimentos e/ou produtos terão contribuído (ou não) para uma modificação nos papeis de género e mais especificamente para um acréscimo do poder e autonomia das mulheres e para uma valorização do seu estatuto social. Introdução Esta comunicação 1 baseia-se em investigações que decorreram entre os anos de 1998 e 2002 junto de famílias dos bairros de Mafalala. estratégias económicas. relações de aliança. Lisboa anabenard@netcabo. de índices elevados de «pobreza» e desemprego formal. Para a compreensão de todo este processo foi essencial o estudo das relações de género e poder que se processam no interior das famílias e nesta comunicação analisam-se os diferentes papéis desempenhados pelos homens e mulheres reflectindo-se sobre as 1 Uma versão desenvolvida desta comunicação foi publicada na revista Lusotopie (Costa 2005) ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Foi neste contexto de precariedade de infra-estruturas urbanas e de serviços sociais.Há-de vir um senhor que é meu marido: relações de género na periferia de Maputo Ana Bénard da Costa Instituto de Investigação Científica e Tropical.pt Baseando-se numa investigação sobre estratégias de sobrevivência e reprodução social de famílias da periferia de Maputo. Palavras-chave: Moçambique.

2 implicações que as mudanças ocorridas nas relações de aliança e nas estratégias económicas das famílias 3 têm (ou não) na sua transformação. Uniões conjugais em transformação e questões de género Nestas famílias coexistem diferentes processos de formalização das uniões conjugais que não são exclusivos entre si. pelo menos ao nível das representações. Uma informante referiu que existiam palavras diferentes em changana para designar os diferentes tipos de uniões conjugais. outros referiram que se casaram «muçulmanamente». Oppenheimer 2003). não só entre o casal e entre as duas famílias que assim se unem. kutilhuva designa uma situação em que o homem sai de sua casa e vai viver para casa de outra mulher . implica diferentes cerimónias e o pagamento de uma prestação matrimonial. kukandza ou avukate designam a mulher que não foi lobolada e não formalizou a união conjugal de nenhuma das formas possíveis e significam «estar no lar (mùntì » . Estas práticas. A presente análise baseia-se em investigações realizadas na periferia de Maputo entre 1999 e 2002 (Costa 2007 . Formalizar de algum modo uma união implica. que pode ser repartida por tempos diferentes. é um processo que. 4. há casais que só cumpriram parcialmente as diferentes cerimónias e prestações que o lobolo implica. envolvem múltiplas dimensões (social. culturais e naturais) que são articulados de forma dinâmica e relacional pelos actores sociais no quadro das estratégias económicas que desenvolvem. mas também entre estas e o(s) modelo(s) social (is) de onde emanam os ritos ou as leis através dos quais esse casamento se realiza. uma intenção de compromisso. A diversidade de tipos de uniões matrimoniais é significativa. 3. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . simbólica e económica) e diferentes tipos de recursos (humanos. e himbuya significa amantes. O lobolo não é um acto ou uma cerimónia circunscrita a um momento. kulovoliva designa o casamento com lobolo . E quando os actores sociais se afirmam «casados» podem referir-se a uniões formalizadas simultaneamente no Registo Civil. Não formalizar uma união num contexto onde se cruzam diferentes sistemas matrimoniais pode ter múltiplos significados. Entende-se como estratégias económicas o conjunto de práticas articuladas através das quais os membros das famílias obtêm rendimentos e/ou produtos. protestante ou de inspiração protestante) ou mesquitas Muçulmanas e através de lobolo 4 . nas igrejas Cristãs (Católica. entre outras coisas. sociais. há famílias poligâmicas. em que cada uma das mulheres é casada de forma diferente com o marido e há «uniões de facto» que não envolveram qualquer formalização 5 . significar alterações substantivas nas relações de género e de poder que implicam rupturas profundas com os modelos 2. Mutchade significa casamento no registo civil . 5.

Entre outros aspectos inovadores que esta Lei consagra.30 TMG). destaca-se o facto de o marido deixar de ser « automaticamente » o representante da família.com/stories/200312090271. 9. sendo uma das mais importantes a legal. Cf. entrevista radiodifundida pela Rádio Moçambique a 15 de Maio de 2002 às 10. e Pessoa 1991). Se estas uniões se quebram o homem pode ser obrigado a contribuir com uma pensão para a sua ex-mulher e filhos. o reconhecimento do casamento religioso e tradicional e das uniões de facto desde que estas últimas tenham mais de um ano de duração. desde 1991 (Casimiro. em parte. embora em 24 % das famílias estudadas11 existissem relações 6. Cf. A pluralidade de formas possíveis de formalizar uma união conjugal e o facto de existirem uniões de facto em que casal se considera e é considerado socialmente casado. 10. As uniões poligâmicas não são reconhecidas (nem proibidas) e a lei estabelece que no caso de morte do marido a herança deste deve ser dividida em partes iguais pelas viúvas 7 .net/mozambique/Outras_voces-3Maio % 202003. nomeadamente no que se refere às uniões poligâmicas. pelo menos.html. dificulta a análise das diferentes situações.). Pretende-se que esta nova Lei da Família venha a ser um importante instrumento de mudança no conjunto de práticas sociais (consagradas na anterior Lei ainda do tempo colonial e imanentes dos diferentes sistemas de parentesco moçambicanos) que sustentam e promovem profundos desequilíbrios nas relações de género 6 . Loforte e Pessoa 1991). Loforte. Foram entrevistadas 81 famílias e inquiridas 1 000 e foi realizado trabalho de terreno mais aprofundado com seis famílias do bairro Polana Caniço A. em que direitos. Este facto explica. 8. Depois de um longo debate o Parlamento aprovou em Dezembro de 2003 a nova Lei da Família. A proposta de lei e particularmente a questão da poligamia « inflamaram » os ânimos de alguns sectores da « sociedade civil moçambicana » (cf.mujeresenred. http://www. Desta forma.3 matrimoniais prevalecentes e com os papéis que os respectivos cônjuges supostamente assumem dentro na união conjugal e várias implicações. deveres e obrigações dos diferentes membros da família. o facto de este processo legislativo decorrer pelo menos desde 1991 (Casimiro.doc 7. Decorre. A morosidade deste processo legislativo 8 e a polémica que à volta dele se desenvolveu 9 testemunha as contradições resultantes da coexistência de diferentes sistemas culturais que permitem uma dinâmica « normativa ». possibilitando arbitragens permanentes entre vários referentes 10. sendo esta promulgada pelo Presidente Joaquim Chissano vários meses depois (a 25 de Agosto de 2004). sistemas de sucessão e herança e sistemas matrimoniais são interpretados de forma diversa. 11. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . http://allafrica.

secretária da OMM (Organização da Mulher Moçambicana) no bairro de Hulene B : Minha mãe não quis casar com o cunhado e por isso mandaramna embora. 2. antes […] eu caso. De forma a compreender as transformações ocorridas ao nível das relações de aliança e de género. tem outro filho. Nestes excertos estão patentes as contradições entre uma «realidade» que ela descreve como composta de mães solteiras e mulheres abandonadas e as representações ideológicas que contrapõem à mulher submissa da sociedade tradicional. A família do marido leva todos os bens da senhora […] podem até levar os filhos […] e a mulher volta para casa dos pais […] e ela engravida outra vez. como a libertação da mulher da 12. e a amante passa a ser a esposa do homem. pois muitas mulheres (em regime de monogamia ou poligamia) consideram-se casadas mesmo sem terem sido loboladas. cidade. família. Porque a mulher. e assim sucessivamente […] e então chamamos de «mães solteiras». com a independência deu a liberdade à mulher. Esta distinção é subtil e o lobolo não é o factor que introduz a diferença. povoação. […] faziam isso antigamente.4 entre um homem e duas ou mais mulheres. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . No dicionário de Bento Sitoe pode ler-se o seguinte : «mùntì […] 1. casa. Só que a diferença deve haver porque da mulher nasce bebé […]. a mulher livre da actualidade. sede» (1996 : 132). não foi possível apurar se todas estas relações eram poligâmicas de tipo «tradicional» ou se eram casamentos monogâmicos onde havia uma «amante». 3. Se o homem decidir sair definitivamente da sua casa. quando morre o marido eles arrancam todas as coisas da mulher. instalações. […] A mulher tem todos os direitos iguais aos do homem. Depois a Frelimo. aldeia vila. A explicação dada para distinguir uma amante de uma segunda (ou terceira…) mulher «legítima» foi a seguinte : é-se amante quando se «namora fora do mùntì 12 » e quando a esposa «legítima» desconhece a situação. lar. transcrevem-se aqui as palavras de uma mulher. vou viver com aquela família definitivamente porque me lobolaram[…]. Mas qual é a verdadeira situação da mulher moçambicana em meio urbano ? A existência de um elevado número de mulheres «mães solteiras» tem sido apontada como espelhando tanto a crise social que se vive e a dissolução da família «tradicional» e dos laços familiares subjacentes a esta. então passam de amantes a casal.

ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . obrigando à criação e ao desenvolvimento de novas cadeias de solidariedade. Consideram. também. Segundo. podendo esta ser abandonada com mais facilidade do que aconteceria se fosse lobolada. a crise social e económica e as contradições internas das estratégias de reprodução social. não passam necessariamente pelo casamento e pelo pagamento de prestações matrimoniais. o aumento (relativo) 13 do custo desta prestação matrimonial reflecte. por isso. as raparigas sentem que se «juntarem» sem lobolo não estão casadas . o processo de deslocamento em que estas populações estiveram envolvidas nos últimos anos e que tornaram por vezes obsoletas as velhas alianças. porque o que importa aferir não é o valor monetário dos bens transaccionados. mas sobretudo com a criação. anel e dinheiro) ainda conservam essa conotação. a família destas sabe que. na sociedade tsonga. entre outras coisas. Mas «a vida está cara». Por outro lado. Não parece. porque se trata de uma prestação matrimonial que envolve um sistema de trocas complexo onde a «lógica da dádiva» se articula com a «lógica de mercado».5 tutela da família «tradicional» e das regras rígidas que a reduziam a um «ser menor». Aparentemente esse aumento não é do interesse de nenhuma das partes : os rapazes querem cumprir a obrigação e não têm meios suficientes. Se actualmente se verificam transformações estas reflectem. a que este e a sua filha vivam maritalmente. manutenção e desenvolvimento de redes de solidariedade entre diferentes grupos familiares. por conseguinte. Esta prestação matrimonial era. valores simbólicos e monetários. o noivo (e a família deste) não o pode pagar e que arrisca. no entanto. muitos dos bens transaccionados (roupa. estruturante das estratégias matrimoniais que visavam antes de mais estabelecer uma cadeia de relações entre diferentes linhagens (Feliciano 1989a). Actualmente. se exigir muito dinheiro. porque no passado envolvia bens de prestígio com valor simbólico (vacas) mas aos quais não era estranho o valor material. Primeiro. Finalmente. que o papel desempenhado pelo lobolo se relacione apenas com o estabelecimento de direitos e deveres de mulheres e maridos. Coexistem. Estas solidariedades. e muitos disseram que o valor monetário do lobolo era calculado em função das despesas que haviam tido com a educação da filha. É difícil fazer uma análise « objectiva » da evolução do «custo» do lobolo. O lobolo (ilustrando o pluralismo moral do contexto) é visto como um acto abominável através do qual mulheres são compradas e vendidas e simultaneamente como algo positivo que sanciona e dá estabilidade a uniões. simultaneamente. que o dinheiro que assim vão receber pode contribuir para fazer face a outras despesas 13. em meio urbano. mas sim as possibilidades (facilidades) que os rapazes e as famílias têm de os adquirir – e estas talvez fossem maiores no passado.

o rapaz e a família deste façam os sacrifícios necessários para as poder cumprir. A cerimónia de casamento é. os indivíduos para sobreviverem e se reproduzirem necessitam de estar inseridos em redes sociais de solidariedade. existe sempre a possibilidade de «circulação» entre redes de solidariedade e por isso é possível aos indivíduos e às famílias estabelecerem novas alianças com outras unidades sociais (novas uniões ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . e como referem : «há-de cumprir-se». apesar de ambas as partes não considerarem que a formalização do acto de matrimonial se tenha cumprido na íntegra. Essas transformações reflectem a dinâmica das estratégias de sobrevivência e reprodução social que articulam de forma ambígua valores contraditórios. ajudar um filho a pagar o lobolo que outra família exige). não sobrevivem se não desenvolverem práticas «egoístas» que lhes permitam satisfazer as suas necessidades materiais. Essas práticas podem gerar a quebra de alguns dos compromissos sociais em que se baseiam as referidas redes (neste caso. Porém. Por isso. as transformações que se verificam em todo o processo cerimonial do lobolo não reflectem necessariamente mudanças qualitativas nas relações de género. simultaneamente. eventualmente. Por outras palavras. matrimoniais) que tenderiam a perpetuar essas unidades sociais. Concluindo.6 essenciais (por exemplo. num contexto onde a sobrevivência e a reprodução social dependem em grande medida do estabelecimento de redes familiares de entreajuda. sendo a família uma das mais importantes . correndo o risco. No entanto. Essa liberdade e autonomia. escrevem a carta onde as exigências ficam expressas e esperam que. mesmo quando as situações indefinidas criadas ao nível das relações de aliança permitem à mulher uma maior liberdade e autonomia face às suas obrigações tradicionais. No entanto não é necessário que todos estes requisitos se cumpram para o casal se sentir «casado» e para a família de ambos os aceitar como tal. à semelhança das próprias uniões conjugais (o divórcio e a separação não são propriamente novidades). são muitas vezes auto-percepcionadas como negativas e podem traduzirse num maior isolamento social das mulheres e consequentemente num decréscimo do seu poder e estatuto. Nesse hipotético futuro se projectam actos e cerimónias como se de processos se tratasse. algo em permanente construção que se pode ir realizando ou protelando no tempo. as famílias) e por conseguinte quebram-se as alianças (neste caso.

venda de produtos hortícolas e frutícolas. contudo. Não obstante este facto e a dificuldade de apurar a importância da contribuição financeira das mulheres para os orçamentos familiares – a maioria das actividades não tem um rendimento constante e não é realizada de forma continuada –. Importa notar que. executando aí um leque muito variado de actividades – confecção e venda de carvão. estas mulheres tiveram de inserir-se nos circuitos do chamado mercado informal. Desta forma. continuidade e reprodução social. a fragilidade dos laços matrimoniais não significou a desestruturação da família. Uma das soluções possíveis passa pela aceitação e criação de condições que transformem as cerimónias matrimoniais em processos em permanente construção que podem a qualquer altura ser interrompidos. O trabalho feminino nas estratégias económicas das famílias Em praticamente todas as famílias. A especificidade deste contexto social não lhe advém. Pelo contrário. confecção e venda de alimentos ou revenda de produtos importados. a flexibilidade desta unidade social permitiu o desenvolvimento de estratégias de reprodução social adaptadas a um contexto social e económico que exige uma grande versatilidade de práticas e a articulação permanente de valores opostos. as famílias desenvolvem uma estratégia pela qual tentam conciliar a instabilidade das relações de aliança com as necessidades de coesão interna. venda de lenha. foi possível concluir que em muitas famílias o número de mulheres que trabalham é igual ou superior ao número de homens que ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Para subsistir e fazer face às suas responsabilidades tradicionais de provedoras do sustento da família.7 matrimoniais) e desenvolverem processos dinâmicos e versáteis de reprodução social. em alguns casos. Advém sim da forma particularmente dinâmica de que se revestem as articulações entre valores opostos. Concluindo. só vendo» ou «aquilo que ela faz é para entreter». as mulheres exercem actividades geradoras de rendimentos ou produtos e as vendas são uma das tarefas principais em que se ocupam. as mulheres e os seus maridos não consideram as actividades que estas desenvolvem como «trabalho». desta articulação que é sentida por todos os homens independentemente da sociedade a que pertencem (Casal 2001: 123). e referem : «eu não faço nada.

poder e estatuto. pelo facto de obterem rendimentos monetários em actividades que exercem «fora de casa». face às mulheres que não as desenvolvem. a posição que a mulher ocupa dentro desta estrutura. com outros elementos masculinos da família. os recursos materiais disponíveis e a capacidade da mulher para os mobilizar e rentabilizar em seu benefício. quem vai às compras ou cozinha. as crianças e os jovens (incluindo rapazes). Esta ideia tem sido contrariada por outros autores (Caplan 1995 e Campbell 1995. Em alguns casos. ele não tem nada a ver com isso». O que esta investigação constatou foi que existiam situações muito diversas. ou que ele tinha arranjado outra mulher e quando vinha dava uma quantia insignificante. Quem vai buscar água e comprar lenha. um acréscimo de trabalho e de responsabilidades. Segundo alguns autores (Tripp 1989 . as mulheres afirmaram que eram elas que efectivamente sustentavam a família e que a contribuição financeira do marido para as despesas domésticas não era suficiente : «atirou toda a responsabilidade. Destacam-se algumas: a estrutura familiar (tipo de família. esta pode gerar ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Se para muitas mulheres.8 trabalham. as actividades geradoras de rendimentos representam um acréscimo de trabalho. irmãs mais novas. Rocha e Grinspun 2001). Se o exercício de actividades geradoras de rendimentos monetários cria possibilidades para o aumento de autonomia e liberdade das mulheres. não as realizam. as actividades que desenvolve e a importância relativa dos rendimentos daí resultantes no orçamento familiar. embora continuem a gerir as actividades domésticas. a relação afectiva e emocional com o cônjuge ou. na ausência deste. são as outras mulheres da família de estatuto inferior (noras. segundas mulheres. Loforte 1996). Estas últimas. para outras tal não acontece. as mulheres. em meio urbano africano. número de membros da família e distribuição por sexo). têm a possibilidade de aceder a certas posições de poder e de conquistar uma certa visibilidade a nível do bairro que pode influenciar positivamente o seu estatuto na família e fora da família. que têm chamado a atenção para o facto de muitas mulheres que desenvolvem actividades geradoras de recursos financeiros terem. quem varre o chão e lava a roupa. a situação do homem em termos de trabalho/rendimentos. sendo necessário relacionar inúmeras variáveis para compreender a posição das mulheres em termos de autonomia.

A autonomia da mulher pode ainda traduzir-se numa capacidade limitada para mobilizar recursos (humanos e materiais) e num aumento consequente de responsabilidades face a si e aos seus filhos e num maior isolamento social. por isso às vezes a mulher faz sem dizer nada ao marido. estou à espera que ele venha para saber se fica comigo ou não.9 conflitos quando é concretizada – «há muita zanga entre os homens e as mulheres por causa do que hão-de fazer ao dinheiro. solteira e com uma situação económica que lhe permite possuir casa própria e usufruir de uma certa independência não se considera mais «valorizada» socialmente (embora seja certamente mais independente e tenha mais poder e autonomia sobre a sua vida) do que outra mulher inserida numa família poligâmica e sem rendimentos próprios. Os homens não tiram o dinheiro. tem um ordenado e casa própria. Uma mulher sem filhos. que por vezes atingem níveis dramáticos. e a ausência de alternativas – uma mulher sem família é socialmente marginalizada – podem transformar a autonomia em sofrimento e a liberdade num pesadelo. Cristina é professora na escola comunitária do bairro Polana Caniço A. Como exemplo destas situações apresenta-se aqui o testemunho de duas amigas da mesma idade que vivem situações muito diferentes. marido e filhos. Prefiro assim. Uma (Eva) é a terceira esposa de um casamento poligâmico e outra (Cristina) afirma-se casada. mas vive sozinha. Estas mulheres referem-se nos seguintes termos às suas situações : Cristina (29 anos) : Eu há dois anos que vivo numa casa que é só minha em Magoanine. Eva (30 anos) : Não me considero uma mulher com sorte porque não tive o marido só para mim. Sou casada mas ainda não fui lobolada. sou só eu e o meu irmãozinho de dez anos que vive comigo […]. não tenho quase despesas. é ela que dá ao marido» – ou rompimentos com redes familiares e de parentesco. sozinha. A primeira trabalha na machamba da família e não obtém quaisquer rendimentos monetários com essa actividade. mas também não posso dizer que sou muito azarada em ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . do que esta situação de independente. O estatuto do casamento e da maternidade constitui um factor de grande peso cultural e social. apenas produz para o consumo da família. […] Mas gostava mais de ter uma família. nem registo nem nada. comprei o talhão sozinha e foi o meu irmão que fez a casa […]. ele é de três. O potencial de conflitos. ele está na África do Sul e nunca mais veio.

neste estudo de caso. Da mesma forma o acesso aos rendimentos monetários não se traduziu numa maior visibilidade ou intervenção a nível do bairro. romper com fidelidades antigas que as subalternizavam. esta mudança não significou. mas estas mudanças ocorrem em múltiplos sentidos. estou num lar que já tinha lá duas mulheres. em certos casos. a afirmação de interesses individuais e a capacidade (e coragem) de certas mulheres tornam possível. trate de mim. para mim basta. porque esta aí ainda anda a tentar ver se consegue um lar […] agradeço a Deus o que me deu. Esse contexto. No entanto. os ganhos monetários provenientes de diversas actividades. Através deste exemplo é possível concluir. traduzir-se num aumento relativo do espaço de poder feminino face ao masculino. estas «conquistas» só adquirem «valor» quando têm significado e reconhecimento social dentro do contexto em que se efectivam. para além de estar profundamente marcado por relações de género que subalternizam o papel social da mulher face ao do homem. mas o facto de as mulheres terem a responsabilidade de prover ao sustento alimentar básico da sua família não constitui uma mudança. Conclusão A análise demonstrou que as mulheres constituem um elemento essencial nas estratégias económicas. E tal pode. por si só. A participação das mulheres em ONG. mas desde que o senhor Josué [marido] cuide de mim. que existem efectivamente mudanças no papel que a mulher desempenha dentro da família. No entanto. é necessária prudência quando se tenta extrair conclusões sobre eventuais modificações nas relações de género e é difícil percepcionar as direcções para as quais tendem as transformações observadas. associações de bairro (excluindo aqui a Organização da Mulher Moçambicana) e grupos de entreajuda. uma transformação valorativa no estatuto das mulheres. Neste complexo jogo e face às alternativas existentes.10 relação à minha amiga. interesses «modernos » e representações ideais de modernidade. A formação escolar. é pleno de contradições e articula de forma complexa valores «tradicionais». por exemplo no ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . pois esta era tradicionalmente a sua obrigação. efectivamente. o exercício de profissões. A diferença reside nos rendimentos monetários que agora adquirem através do seu trabalho.

embora a maioria dos crentes das igrejas ziones sejam mulheres. 14 Seibert (2001: 5 e 15) acrescenta em relação às igrejas Zione. a análise das questões de género constitui essencialmente uma análise relacional e o que está em jogo são fundamentalmente relações sociais entre os membros masculinos e femininos da família. bem como significados que essas questões e conceitos têm no contexto cultural e social em observação. por um lado. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . que as mulheres não podem ser membros desta Igreja sem autorização do seu parceiro. o evangelista. Neste último caso. a essência multidimensional das relações familiares implica que nessas mesmas relações sejam expressos diversos tipos e níveis de poder que não só podem não ser coincidentes como são dinâmicos e se alteram permanentemente sob a influência de inúmeros factores (Medick e Sabean. «independência». e as práticas concretas dos actores. as mulheres participam frequentemente em grupos religiosos (igrejas). os secretários e diáconos) é constituída exclusivamente por homens. há ainda que ter em conta não só os múltiplos referentes em presença como as diferenças entre valores culturais e representações sociais. Sendo assim. Da mesma forma. por outro.11 «xitike». Estas mudam frequentemente de culto quando se casam e passam a seguir a religião do marido 14 . a hierarquia destas igrejas (incluindo o pastor. é reduzida. Mas mesmo a vida religiosa da mulher está por vezes dependente da vontade do marido. Refere ainda que. As informações empíricas disponíveis não permitem chegar a conclusões acerca de modificações nos papéis de género. «controlo» e «relações de poder» são extremamente complexas e têm de ser contextualizadas. Pelo contrário. as relações de poder devem ser compreendidas em termos de avaliação da capacidade de controlo de recursos materiais e humanos por parte dos homens e mulheres da família. A compreensão destas questões pressupõe uma análise integrada onde intervêm diferentes significados e interpretações : o significado que o investigador dá a esses conceitos e que influencia as interpretações que faz da realidade social que analisa. não faz sentido falar de poder ou de autonomia sem os contextualizarmos dentro desta dinâmica relacional (Medick e Sabean 1988 : 18). ao nível das representações sociais e culturais no contexto em questão (como a sociedade em causa molda os papéis e os comportamentos de ambos os sexos) e em termos da auto-percepção que os membros da família têm do poder que exercem ou ao qual se submetem. O que se verificou foi que questões relacionadas com «autonomia». 1988 : 18). Neste sentido. Simultaneamente.

1991.12 Referências Bibliográficas BEBBINGTON.. Isabel. 1988. “Femmes. mimeo. GONZÁLEZ de la ROCHA. e SABEAN. Thérèse. 2 vols. pouvoir. 1-2. Hans. 1995. Cambridge. 1996. Instituto superior de ciências do trabalho e da empresa. Antropologia Económica dos Thonga do Sul de Moçambique. Crises and Work” in Choices for the Poor : Lessons from National Poverty Strategies. mimeo. 1997. ed. Colin. COSTA. “Introduction”. “Conceptualizing Gender Relations and the Household in Urban Tanzania”. Rural Livelihoods and Poverty”. 2001. Lisboa. “"In My Office We Don’t Have Closing Hours" : Gendered Household Relations in a Swahili Village in Northern Mafia Island” in CREIGHTON. Family and Household in Tanzania. Livros Horizonte. Ana Maria. 3ª edição. pp. 1996. [1912-1913] LOFORTE. Cambridge University Press : 1-8. CAMPBELL. Género e Poder entre os Tsonga de Moçambique. Lisboa. dissertação de mestrado. sociétés”. Guerra em Casa : Feminismo e Organizações de Mulheres em Moçambique”. dissertação de doutoramento. HESSELING. Lusotopie. Ana Bénard 2005 “Género e poder nas famílias da periferia de Maputo”. 1999. Centro de estudos africanos. Gender. Universidade Eduardo Mondlane. undp. O preço da sombra: sobrevivência e reprodução social entre famílias de Maputo. Arquivo Histórico de Moçambique. JUNOD. 1989. mimeo. Aldershot. A Mulher em Moçambique. LOFORTE. Maputo. “Private Adjustments: Households. 1995. Género e Poder entre os Tsonga de Moçambique. Avebury : 118-138.. CASIMIRO. Universidade de Coimbra. John. 203-216. Ana Maria. in CREIGHTON. Anthony. org/dpa/publications/choicesforpoor/ENGLISH/CHAP03. Ana. http ://www. E GRINSPUN. e LAURAS-LOCOH. mimeo.. CAPLAN. David W.. XXVII (12) : 20212044. UNDP (United Nations Development Programme). Faculdade de Economia. e PESSOA. “Capitals and Capabilities : A Framework for Analyzing Peasant Viability. in Interest and Emotion: Essays on the Study of Family and Kinship. FELICIANO. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Gender. Ana Bénard. COSTA. 12. Lisboa. CASIMIRO. G. Aldershot. Henri A. dissertação de doutoramento. World Development. 65 : 3-20. Instituto superior de ciências do trabalho e da empresa. Coimbra. Isabel 1999. José Fialho. “Paz na Terra. Avebury : 178-202. Maputo. MEDICK. Pat. Alexandro. Usos e Costumes dos Bantos. Lisboa. Family and Household in Tanzania. Colin ed. Politique Africaine. ––––– 2003. 2007. Ela Por Ela. M.

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Palavras-chave: ideologias de género. pt Partindo da actual centralidade dos crimes de droga na condenação penal de mulheres e da assinalável reorganização das fileiras prisionais que ela veio indirectamente produzir.000 habitantes (Estatísticas da Justiça. A esta posição destacada nos níveis gerais de reclusão acrescentava dois records no contexto europeu: a maior proporção de condenações por crimes de droga e a maior taxa de reclusão feminina (cerca de 10%). procurar-se-á examinar como se modula o tráfico segundo o género. Pretendo focar aqui alguns aspectos da conexão entre eles tal como aparece refractada na maior prisão feminina do país. esta especificidade pode também contribuir para reapreciar a uma outra luz a controvérsia criminológica. Cunha 2002). Ministério da Justiça. Reafirmando assim a importância de contextualizações precisas. Não cabe dizer aqui como e porquê a economia retalhista da droga veio induzir uma reorganização sem precedentes nas fileiras prisionais. estrutura dos narcomercados Em finais de século. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . em torno dessa velha e recorrente personagem designada por nova delinquente. tráfico a retalho. onde fiz trabalho de campo nos anos 80 e nos anos 90 (1986-87/1997.Os géneros do tráfico 1 Manuela Ivone P. economia da droga.uminho. cf. 1994. o Estabelecimento Prisional de Tires. como e quando são os narcomercados estratificados por este e outros critérios e quais as modalidades da participação feminina na economia da droga. bem como às ideologias de género que diversamente os caracterizam. IDEMEC micunha@ics. 6099) o apoio prestado à investigação da que resulta este texto. Portugal situava-se regularmente no topo dos países da União Europeia com os maiores índices de encarceramento por 100 000 habitantes 2 . permitirá dar conta das propriedades específicas que a intervenção das mulheres no tráfico assume em contextos portugueses. pelas 1 Agradeço à Wenner-Gren Foundation for Anthropological Research (Gr. CEAS. Cunha. Estes factos não são alheios entre si. da Cunha Universidade do Minho. recentementemente exumada. 2 Entre 128 e 145 por 100. Uma perspectiva comparativa atenta às variações na estrutura destes mercados ilegais. cujo aspecto mais fundamental. criminalidade feminina. 1987-2000).

Acontece que essa mutação é especialmente vincada na população prisional feminina. antes de mais. por exemplo. tal prende-se. no que respeita às reclusas). pode bem ser que por uma vez o estudo das instituições femininas contribua para estabelecer os termos do debate teórico sobre a prisão. Quer dizer.não portanto em termos absolutos . No caso converso das mulheres. 76% das reclusas estavam presas por tráfico. respectivamente. E dado que os fenómenos que a configuram emergem também noutros contextos carcerais. Na cadeia de Tires. Se a mutação que referi ganha uma particular proeminência no contexto carceral feminino. O problema era que permanecia confinada a ele. amarrada a esse critério.as mulheres são pois muito mais condenadas a penas de prisão por crimes de tráfico do que os homens. os contributos teóricos que ia gerando não eram exportados para lá do âmbito das prisões femininas. mas de maneira mais diluída. que apesar de na sua maioria também se distribuírem por um leque pouco variado de crimes. em núcleos mais ou menos vastos de presos que já tinham laços entre si antes da reclusão. enquanto a investigação sobre a feminina se desenrolava ao invés na base mesma do critério do género. é o facto de agora a maior parte dessas fileiras se articular em redes de parentesco e vizinhança. Em termos proporcionais . 46% dos reclusos estavam condenados por crimes contra o património e 34% por crimes de droga. alheia ao género.implicações analíticas que tem para os estudos prisionais. incapazes de alimentar de forma recíproca a produção global de conhecimento sobre a reclusão (um olhar rápido aos títulos das respectivas publicações é bastante ilustrativo: o género apenas é especificado quando a investigação em questão versa sobre uma prisão feminina). Esta centralidade dos crimes de droga nas condenações de mulheres é também aquilo que melhor permite esclarecer a subida dos índices de encarceramento feminino. Em todo o caso. repartem-se por eles de maneira mais equilibrada. É ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . com a extraordinária homogeneidade que a sociografia dos contingentes de reclusas agora apresenta. a concentração é comparativamente muito superior (em 1997. quer dizer. o seu perfil penal é bastante mais homogéneo que o das populações de reclusos. invertendo-se assim as assimetrias do passado: a reclusão masculina sempre enquadrou este debate de maneira universalista. contra 16% e 69%.

há que examinar a natureza desta presença. sob pena de se tomar a nuvem por Juno. por exemplo. 1993. limitado a este tipo de mercado ilegal. 1979. no que respeita à criminalidade em geral.. A tese da "nova delinquente". É claro que não é de excluir a possível intervenção de várias filtragens deste e outros tipos ao longo do percurso que termina na constituição das populações prisionais. Carlen. como ficou conhecida. Simplesmente.de "cavalheiresca". 1993). assim como o é o da maior presença de mulheres neles (cf. Chesney-Lind. 1988). 1975. suponhamos. de facto. E é também a partir daqui ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . E assim permaneceu..que estes são os crimes com maiores taxas de condenação e contam-se entre os crimes mais duramente sentenciados. Smart. Chapman. por exemplo.. 1975). mesmo as mais idosas. por exemplo. poderiam investir. A questão então é a seguinte: dever-se-á às próprias características do tráfico o facto de ele se ter tornado a actividade ilegal de eleição entre as mulheres? Ou será antes que as mulheres conquistaram para si uma arena ilícita que até aí lhes estaria vedada. 1980. para especialmente intransigente (para retomar aqui os termos de uma velha controvérsia da criminologia em torno do eterno diferencial entre os índices carcerais femininos e masculinos) 3 . foi no entanto rebatida em tantas frentes que parecia definitivamente enterrada (cf. tratar-se-á de uma repercussão ou até da reprodução no mundo do crime do mesmo movimento emancipatório que reivindica a igualdade de oportunidades? Ora. Que a proliferação vertiginosa dos mercados de droga expandiu as oportunidades ilegais é um facto consensual. Quer isto dizer que a subida nestes índices de encarceramento não parece de facto dever-se a uma eventual mudança na atitude dos tribunais para com o género feminino . foi precisamente a propósito do tráfico que se assistiu à ressurreição de uma velha tese dos anos 70 segundo a qual um dos efeitos colaterais do feminismo teria sido o de libertar as mulheres também para o crime (cf. Mas o tráfico parece na verdade ter atraído muitas mulheres e ter-se-lhes apresentado como uma estrutura de oportunidades onde elas. Mas a forte presença feminina recentemente constatada um pouco por toda a parte na economia da droga conduziu inevitavelmente à tentativa de reciclar a ideia. do mesmo modo que conquistaram as mais variadas arenas lícitas? Por outras palavras. 1986. ainda que agora num âmbito mais restrito. Adler. Bourgois y Dunlap. Wilson. Simon.

ou a capacidade de intimidação necessária para vingar num meio violento. etc. Mas este "sexismo do sub-mundo" (Steffensmeier e Terry. pelo que é imprescindível uma perspectiva comparativa. 1986) . Em primeiro lugar ao facto de se regerem por uma visão domesticizada das mulheres que as confina ideologicamente aos tradicionais papéis de género. 1996). (1993) ou Heidensohn (1997). Steffensmeier et al. que nem sequer se encontravam inventariados nas anteriores tipologias dos actores deste mercado (veja-se Dunlap. O que acontece é que elas se tornaram mais eficazes nos anos 90. presença não quer dizer participação paritária. por exemplo. A masculinidade hegemónica é com efeito reforçada pelo facto de os empregadores desta economia definirem os requisitos de empregabilidade no narco-comércio como algo de intrinsecamente masculino: às mulheres faltaria. Johnson e Maher. Na limitada medida em que nele podem participar (nomeadamente enquanto exército de reserva usado quando a mão-de-obra masculina escasseia ou na iminência do risco de uma intervenção policial). Em primeiro lugar. Não se pode no entanto dizer que estas barreiras ideológicas à participação feminina no tráfico sejam inéditas nos mercados retalhistas americanos.que na verdade se mostra muito pouco sensível a veleidades emancipatórias encontra além disso um terreno especialmente propício na violência endémica que aí marca a economia retalhista da droga.que as coisas divergem segundo os contextos. A forte estratificação destes mercados segundo o género levou a que alguns autores vissem mais continuidade do que propriamente mudança na participação feminina no tráfico (Maher e Daly. onde a maioria das oportunidades se abriu às mulheres apenas nos segmentos mais baixos. como sucede com mercados retalhistas norte-americanos. a mudança seria afinal pura aparência. 1997). E as condições dessa eficácia foram proporcionadas 3 Veja-se. assistência na administração de drogas a terceiros. a nova cornucópia não estaria ao alcance das mulheres. por exemplo. 1997). precários e arriscados deste mercado (Maher. a necessária ferocidade física e mental. A hierarquização sexual do trabalho ilegal deve-se nesses contextos à conjugação de vários factores. Ou seja. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . de resto gerando nela novos papéis. Pode até dizer-se que se trata mais propriamente de pequenos nichos que elas criaram nos interstícios desta economia. assumem funções marginais como publicitação de drogas. aluguer ou venda de parafernália acessória ao consumo.

havia apesar de tudo maior latitude para as incursões das mulheres no tráfico. fossem na prática mais permeáveis. 1999) do ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . assim como uma maior autonomia nas decisões que tomavam acerca de onde. quanto muito. em suma. Trata-se. que de resto se verificou não só nos EUA mas também em contextos europeus. como "crime em associação". Sucede que é precisamente esta estrutura de mercado que prevalece actualmente no tráfico retalhista português. Aliás este modo de abastecimento segue muitas vezes os circuitos do fiado. 1992) ou. tendo-se até registado uma evolução de sentido contrário à que acabei de referir para contextos europeus e americanos: isto é. se quisermos. 1998. Outras vezes as mulheres limitaram-se a assessorar episodicamente parceiros masculinos numa ou noutra transacção. Era bastante mais fluido. desconcentrado. Jacobs e Miller. passou-se de um modelo empresarial para um modelo free-lance. com uma estrutura relativamente rígida. a sua própria estrutura free-lance fazia com que as barreiras à participação feminina fossem mais frágeis e ineficientes. com frequência obtendo drogas em regime de empréstimo ou à consignação através de redes de vizinhança e preparando elas próprias o produto para revenda. por exemplo. mesmo que mercados deste tipo se pautassem igualmente pela dominação masculina e por um ethos agressivo que à partida os tornava arenas desfavoráveis às mulheres. além de esta estrutura de mercado que domina em Portugal representar uma estrutura de oportunidades bastante mais aberta (veja-se neste sentido Chaves. Ora. Pode-se definir o seu perfil como marcadamente free-lance (veja-se a tipologia de Johnson. Tais mercados passaram por essa altura a assumir um perfil empresarial que se viria a traduzir em organizações hierarquizadas. Até essa década o modelo que prevalecia era outro. Hamid e Sanabria. 1995). Ora. Com uma relativa facilidade.por uma mutação na estrutura dos narco-mercados retalhistas. com muito pouca interdependência hierárquica e com uma fraca divisão funcional do trabalho. centralizada e envolvendo equipas de assalariados cuja margem de autonomia é praticamente nula. amigas e vizinhas e não como assalariadas de uma organização que estes chefiariam. do chamado "crime em organização" (Ruggiero e South. mas enquanto parentes. quando e como vender (cf.. Portanto. muitas mulheres puderam lançar-se autonomamente no tráfico como free-lancers. uma forma tradicional de empréstimo informal e de entreajuda. 1997). Morgan e Joe.

As mulheres de baixos estratos sociais sempre investiram na esfera do trabalho. não enquanto opção "emancipatória". Não. E é precisamente porque são tributárias desses mesmos contextos que tais características são variáveis. ou. já que as suas características não são essencializáveis ou dadas fora dos contextos sociais e históricos em que se desenvolve.que a empresarial. não é para este efeito pertinente falar em tráfico. nem este é necessariamente considerado um desvio ao guião cultural feminino ou uma decorrência de um fracasso masculino. Mas não é só por isso que é menos operante a filtragem dos candidatos segundo o género. como é o caso em Portugal. 2000). mas apenas ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . não sendo de facto exigido aos candidatos a traficantes especiais requisitos de virilidade. porque não é possível caracterizar em abstracto o tráfico. mas como condição e estratégia de sobrevivência (veja-se neste sentido Cole. que seria uma espécie de sub-produto feminista espúrio . questões estas que corresponderam propositamente a modos correntes de colocar o problema. traçar-lhe um perfil absoluto. quando comparado com outras actividades ilegais? Sim e não. sendo esta debilidade especialmente acentuada nas chamadas classes populares. por assim dizer. É que os obstáculos ideológicos à participação feminina no mundo do trabalho remunerado e no orçamento familiar são obstáculos de maneira geral débeis em Portugal. pois. Contudo. quando não está. O narco-trabalho é aqui menos sexuado. Primeiro. Quanto à segunda questão: serão características inerentes ao tráfico que o tornam um tipo de crime particularmente acessível e atractivo para as mulheres. porque ou essa participação permanece afinal acantonada nas margens da margem.uma tese reactivada a propósito da participação feminina no tráfico e que tem alguma popularidade nos meios judiciais -. é uma ideia desajustada. ou "contra-hegemónica". digamos. na forma de resposta às questões formuladas de início. não lhes vedam o papel extra-doméstico de provedora de recursos. as definições culturais dos papéis de género também remetem para as mulheres as responsabilidades familiares e domésticas. Dito de outro modo. Começando pela tese da "nova delinquente". Recapitulo. Aí. 1991 e Pina Cabral. isso em nada se deve a uma mudança ideológica nas definições culturais dos papéis de género. acontece também que o tráfico a retalho é aqui bastante menos violento do que noutras geografias. quer dizer nos patamares mais baixos do patamar retalhista.

Women & Criminal Justice. Crack Pipe as Pimp: An Ethnographic Investigation of Sex-For-Crack Exchanges. Sally. Lisboa. Imprensa de Ciências Sociais.mas não. nenhuma outra houvera mudado tão extensamente a paisagem carcerária. Fim de Século. Londres. Crime and Poverty. DORN. Sisters in Crime. CHAPMAN. “Exorcising Sex for Crack: An Ethnographic Perspective from Harlem”. New Jersey. Lexington Books. Lexington. e Eloise Dunlap.e evidentemente não faz qualquer sentido pressupor uma espécie de modelo-padrão em relação ao qual cada uma delas seria considerada mais ou menos conforme. Nigel South. Eloise. Routledge. Malhas que a Reclusão Tece. DUNLAP. Bruce Johnson. NY. Jane 1980. da. Referências Bibliográficas ADLER. 1975. então sim. 1988.em versões do tráfico . BOURGOIS. Philippe. Milton Keynes. 1999. 1986. Traffickers. Cadernos do Centro de Estudos Judiciários. Princeton University Press. 1994. Lisboa. 25-55. Economic Realities and the Female Offender. da. 1991.). CUNHA. Freda. CUNHA. 97-132. "Female Crack Sellers in New York City: Who They Are and What They Do". 2002. 7896. Drug Markets and Law Enforcement. Reformulada a questão nestes termos. Meda. Princeton. COLE. McGraw Hill. Em todo o caso. 1992. 1997. pode dizer-se que o tráfico em Portugal . Manuela P. "Women and Crime: The Female Offender". 8 (4). noutros contextos europeus e norte-americanos configura uma estrutura de oportunidades ilegais bastante inclusiva das mulheres. Pat. Entre o Bairro e a Prisão: Tráfico e Trajectos. Lisa Maher. 12 (1). ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Open University Press. Nicholas. CARLEN. Women. como porventura nenhuma outra o foi antes. Questões de Identidade numa Prisão Feminina. em M. CHAVES. Signs. Nova Iorque. NY. Manuela P. Lexington Books. Lisboa. CHESNEY-LIND. Work and Lives in a Portuguese Coastal Community. Miguel. Casal Ventoso: Da Gandaia ao Narcotráfico. Murji Karim. por exemplo. Women of the Praia. Nova Iorque. 1993. RATNER (ed.

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não existem. os Sanumá diferem bastante dos outros subgrupos não apenas pela língua (uma de quatro). Assim. desvela-se que a aparente fragilidade da condição supostamente de imanência feminina tem como contrapartida a real fragilidade da aparente transcendência masculina. a patrilinearidade pode evaporar-se nas vicissitudes do tempo. é possível “fazer coisas sociais com outras coisas sociais”. Por exemplo. parecem existir apenas para dar aos seus homens a oportunidade de exibir machismo superlativo a platéias ocidentais em busca do exótico. os homens. Pode-se. mas por certos aspectos da vida social. as mulheres. aos olhos ocidentais. O fenômeno da patrilinearidade combinada a uxolilocalidade ou vice-versa tem sido analisado de várias formas (por exemplo. à la Austin. Na família lingüística Yanomami os Sanumá são os únicos que exibem um inquestionável sistema desarmônico: as mulheres ficam em casa. porém. Trato aqui. Mas esses Yanomami. espaço e tempo sanumá surgem como categorias básicas do entendimento. pois enquanto a residência uxorilocal permanece onde quer que seja. A outra metade. quão violentos seriam os Yanomamö descritos pelo estadunidense Napoleon Chagnon ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . convertendo relações de gênero e parentesco em ícones da dialética entre permanência e efemeridade. como produto de evolução materialista na visão de Robert Murphy sobre os Mundurucu). ressaltando-se como. os homens circulam em busca de esposas. Em linguagem antropológica.Tempo está para homens assim como espaço está para mulheres: por uma teoria do conhecimento sanumá Alcida Rita Ramos Universidade de Brasília (UnB) Sistemas desarmônicos em que descendência e residência seguem linhas opostas são hoje comuns na etnografia indígena da Amazônia. ou seja. Poderíamos supor que parte das diferenças resultam dos próprios etnógrafos. uniformes e unitários. especificamente. os autodenominados Sanumá com quem tenho convivido desde 1969. Por Yanomami entende-se comumente uma de suas metades. interpretá-lo no contexto de outros componentes culturais. do subgrupo mais setentrional da família lingüística yanomami. Como já tive oportunidade de demonstrar (Ramos 1995).

ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . uma afinidade herdada e não apenas adquirida com o casamento. com princípios axiológicos subentendidos. o encargo de fornecer cônjuges para a geração seguinte. A complementaridade entre homens e mulheres aparece em vários planos. exibem a conjunção de dois elementos: um sistema desarmônico entre descendência patrilinear e residência matrilocal. Em outras palavras. à moda de um Austin ampliado. o que significa que a responsabilidade pela reprodução do grupo é mais deles do que de marido e mulher. essa dupla é uma cápsula da socialidade sanumá. não com palavras ou gestos. irmão e irmã. entre nós e os outros. embora atados numa relação permanente de sangue. portanto. estão numa posição perfeitamente ambígua. eles simbolizam a paradoxal co-existência entre intimidade e recato.2 (1968) se fossem descritos por mim? Ou quão subjugadas seriam as mulheres sanumá se fossem descritas por Chagnon? Questões meramente acadêmicas? Pode ser. ao serem também afins dos filhos uns dos outros. Encarnam tanto os efeitos da dispersão como da permanência e marcam a manutenção da identidade no tempo e de vínculos no espaço. como diz Louis Dumont (1953). Para mim. muito brevemente. inclusive no cognitivo. Tomo aqui a questão de gênero como uma excelente oportunidade para observar a capacidade dos Sanumá para expor categorias-chave do seu entendimento e que nos dizem muito mais do que a simples diferença entre os sexos. segundo o qual filhos de irmãos de sexos opostos (os ditos primos cruzados) podem casar-se entre si e. certos elementos da vida social. É como se os Sanumá dissessem e fizessem coisas. Primeiro. são considerados afins. é preciso descrever. Como elas estão diretamente ligadas à organização social. É. Como consangüíneos que produzem afins. Refiro-me especificamente às noções de tempo e espaço. mesmo que não se casem. vamos à relação entre irmão e irmã. mas com algumas consequências epistemológicas. A díade irmãoirmã tem. e o padrão de parentesco chamado dravidiano. Os Sanumá. no mundo das idéias. mas. as diferenças de gênero no contexto etnográfico yanomami têm um interesse que vai muito além do tira-teimas entre etnógrafos ou de filigranas empíricas sobre o quão violenta deve ser a violência para caracterizar um povo inteiro como violento. ao contrário de outros subgrupos yanomami (Ramos e Albert 1977). Em grande medida.

Veio e sentou-se à frente dela. mas a flecha ficou presa nos galhos das árvores. disse ela. “Sobe lá e sacode a flecha”. “Não. disse ela. Ao ver o irmão morto no chão. Vale a pena contar a história. criarem uma narrativa sobre ele. de modo a encarar o sol” “Está bem!”. vira-lhe a cara para trás. portanto. furioso. Faz com que ele se sente do lado de fora da casa e faz de conta que lhe catas os piolhos. este último matou um papagaio. senta aqui! Vou te catar piolhos”. informou. matou-o a pauladas – to! to! to! to! Koshiloli voltou para casa carregando o morto. Abriu-lhe a barriga e retirou as vísceras – wi! wi! wi! wi! “Não havia rastro?” ela perguntou a Koshiloli. “Está certo. ela foi ter com os seus parentes. Um dia Koshiloli foi caçar muito longe. “É mesmo?”. “Está bem”. enquanto a sua gente se aproximava. respondeu ele. Entrou e jogou-o no chão. Koshiloli esperava ao pé da árvore. sua mulher e um irmão desta viviam a alguma distância dos outros parentes dela. disse ela ao marido. Koshiloli. acompanhado do cão da mulher e do cunhado. Os outros mataram-no com um golpe de terçado – ka! E assim morreu Koshiloli (Colchester 1981: 59-60). Esta análise poderia ser atribuída à imaginação da etnógrafa se não fosse pelo fato de os próprios Sanumá.3 Não é por acaso que as mães procuram os serviços de um xamã quando só têm prole do mesmo sexo. ela começou a pranteá-lo. Ela segurava a cabeça de Koshiloli virada para o sol. disse Koshiloli. assim!. Koshiloli. na sua teoria de sociedade. nada”. O ideal da maternidade é ter um número equilibrado de filhos e filhas. respondeu ele. “Meu marido matou meu irmão”. pronta para o ataque. Ela puxou-lhe a cabeça para trás de modo a ficar de frente para o sol. Nela encontramos claramente as diferenças de lealdade entre irmãos e entre cônjuges e a tácita luta da consanguinidade com a afinidade. Quando o cunhado desceu. como foi coletada por Marcus Colchester nos anos 70. “É pesado”. disseram os parentes. Assim que preparou a caça. Voltando a casa. ela cozinhou o fígado e deu-o para o filho comer. Aproximou-se da mulher e disse: “Corta a caça!”. “Vem cá. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . tendo pensado no assunto. inserindo-o. O cunhado subiu e conseguiu soltá-la dos galhos. No caminho de volta.

ao mesmo tempo. enchendo o ar com risadas. os irmãos desta correm imediatamente em defesa dela. É por isso que as mulheres órfãs estão em franca desvantagem: faltam-lhes irmãos que as defendam dos maridos. Com uma criatividade hiperbólica. a moral da história – entre consangüíneos e afins. mas prontos para se defender mutuamente quando for necessário. pelas roças. gerada pela combinação explosiva de consangüinidade (filhos dos mesmos pais) e afinidade (filhos de irmãos de sexos opostos) também está evidente na maneira como irmão e irmã se comportam. O duplo assassinato sublinha a tensão permanente entre afins e. Essa rotina descontraída muda abruptamente quando meninos e meninas entram na adolescência. A narrativa sublinha a fragilidade do elo entre marido e mulher e a problemática afinidade. Mas. pois se não fosse não se deixaria mandar tão facilmente pelo cunhado. ao que parece. sogras contra genros – mas nunca vi uma briga entre irmãos de sexos opostos. quando algum homem ameaça bater na esposa. Circulam com outras crianças pela aldeia. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . gritos e choros constantes. vive com a esposa e o irmão desta. mães contra filhos. mulher e cunhado. pelo rio. além de um filho não identificado. presenciei muitos incidentes entre homens e mulheres – maridos contra mulheres. A duplicidade estrutural que envolve irmãos de sexos opostos. Muito pelo contrário. irmãos de ambos os sexos constituem um bando virtualmente indivisível. mais novo. fica-se sempre com os consangüíneos – talvez diga mais sobre os pares irmão-irmã e marido-mulher do que qualquer elaboração antropológica. pela mata em volta. a lealdade que se espera dos consangüíneos. reservados.4 Esta história cria um arranjo residencial pouco comum: um homem casado que se esquiva de cumprir o regulamentar serviço da noiva. Durante minha convivência relativamente longa com os Sanumá. vivendo sozinhos. afinal de contas. principalmente dos homens: a sogra e o pai que. representa um artifício narrativo para enfatizar os antagonismos e lealdades presentes naquilo que para Lévi-Strauss é “a forma mais elementar do parentesco” (Lévi-Strauss 1963: 46). que é um mal necessário na vida dos homens sanumá. Esse trio etnograficamente improvável de marido. mas afastados. Até pouco antes da puberdade. Irmãos e irmãs deixam de brincar juntos e começam a ensaiar uma postura que terão pelo resto da vida: respeitosos. o que tem tudo isto a ver com espaço e tempo? Consideremos duas figuras centrais na vida sanumá.

A sogra é mais um mal necessário na vida de um homem. normalmente).5 são. A quintessência dos anos de chumbo de um marido sanumá é a sogra. essas mulheres desgarradas vivem como cidadãs de segunda ou terceira categoria à mercê do gênio dos seus maridos e demais afins. Até terem filhos e estes crescerem. O resultado é que cada aldeia precisa exportar uma boa parte dos seus jovens. Vivendo sob o mesmo texto. ele se vê só. preferencialmente. alvos fáceis de maus tratos. Algumas velhas me asseguraram que fulano não se casou na própria aldeia porque não havia sogras para ele. Ela personifica a dispersão masculina que resulta da disparidade entre as normas de descendência e residência. insultos e brincadeiras de mau gosto. ele tem que evitá-la a todo custo. ele está à mercê de seus afins. quando a mulher fica isolada de seus parentes. A mensagem é clara: sem sogra. não há esposa. de produção e reprodução que ela encontra a dimensão mais compatível com a feminilidade. a mulher se realiza. Com a residência matrilocal. Viver como genro na casa dos outros sujeita um homem a uma condição de subalternidade ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . O casamento implica um longo período de serviço da noiva. Virtualmente indefeso. Sendo as aldeias sanumá em geral pequenas (de 30 a 60 pessoas. Enquanto os homens circulam. Se o rapaz se casa longe de casa. além de ser obrigado a prestar-lhe serviços e provisões. principalmente se ele é jovem. Esta condição talvez fique mais clara em negativo. no lar dos pais. Órfãs e viúvas que vivem na aldeia dos maridos são um triste espetáculo de vulnerabilidade. Expressões faciais de absoluta repulsa geralmente acompanham a descrição dessa relação incestuosa cujo arquétipo mítico é o comportamento de um certo tipo de preguiça de gestos lânguidos a trepar pelas árvores em câmara lenta agarrada ao genro num abraço obsceno. a maioria dos homens tem que deixar a casa e muitas vezes a aldeia dos pais à procura de esposa. mas com outro viés e por outras razões. a sogra é o foco da vida conjugal. as opções de casamento endogâmico podem ser bastante reduzidas. as mulheres permanecem na casa materna. enquanto as moças ficam com os pais. É nesse espaço de residência. Para a maioria dos homens. tornando-se seus consangüíneos protetores. Aí. Com os homens algo semelhante acontece. irmãos entre si. distante dos parentes que o apoiariam psicológica e politicamente. Não é mera coincidência que o símbolo maior do incesto é a díade sogra-genro.

de uma geração a outra. o que raramente ocorre. com um nome próprio e politicamente importante. a que com algum desconforto chamo linhagens. A categoria tempo significa neste contexto a transmissão patrilinear. pelo menos. Enquanto o espaço os dispersa. Naturalmente. São grupos muito frágeis porque.6 que não difere muito da das órfãs e viúvas. co-habitar com gente com quem não pode falar ou interagir. que se espalham pelo território sanumá. a longo prazo. exogâmico. definitivamente. ou seja. Por que o tempo? Porque é através do tempo que os homens sanumá podem desenvolver plenamente o seu potencial. Para que surjam esses grupos patrilineares localizados. para sobreviver. ter seus pertences desrespeitosamente afanados. da identidade grupal. é preciso que grupos de irmãos se mantenham juntos depois do casamento por. Onde quer que estejam. Há. ou ser objeto de suspeitas até provar o contrário. não é o espaço. homens e mulheres são identificados pelo nome da unidade do pai. Os descendentes desses homens dispersos acabam. o tempo os une e prolonga. porém. mesmo em circunstâncias amenas. de modo a poder formar-se um grupo agnaticamente bem definido. outros. Tanto homens como mulheres herdam dos pais a condição de membros e mantêm-na por toda a vida. uma outra unidade mais localizada. A dimensão própria dos homens sanumá. para os homens adultos o espaço de residência envolve sacrifícios. quando enfrentam a dispersão causada pela residência matrilocal. A força centrífuga da matrilocalidade produz a dispersão dos homens de uma mesma linhagem. por ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Cada aldeia tem membros de várias unidades patrilineares. há grandes variações sobre o tema do marido forasteiro. que contribui para agravar o problema de homens agnatas. levam uma vida mais leve com os afins. como trabalhar duro no serviço da noiva. Pode-se dizer que. ligados por filiação paterna. dependem da conjunção de uma série de circunstâncias favoráveis. guardadas as devidas distinções inerentes à fisicalidade dos sexos. É no tempo que eles encontram a possibilidade de criar alguma coisa de importância social e de se projetar na posteridade. duas gerações. mais diplomáticos ou aguerridos. Alguns sofrem constantes abusos dos cunhados. Esse sistema de identidade paterna é o mecanismo mais eficaz para garantir hospitalidade onde quer que vão as pessoas do mesmo sib. a que chamo sibs. um tipo de grupo patrilinear.

o espaço. no entanto. ou seja. ausência de mulheres casáveis na mesma aldeia. nota 4). um homem fica quase sempre dividido entre a lealdade para com o pai e o dever para com a sogra. mas não controlam o seu destino. Pude acompanhar ao longo de mais de uma década um caso concreto desse tipo. eles mesmos. Os homens podem criar grupos de descendência. como ausência de filhos homens. muitas pessoas ficam sem afiliação de linhagem. O resultado é que aqueles que conseguem a proeza de se manter juntos terão seus nomes perpetuados nas gerações seguintes numa escala de tempo que pode ser muito curta. Se todos os homens pudessem casar-se na aldeia dos pais. portanto. a vida de uma linhagem depende da capacidade de um grupo de homens agnaticamente relacionados para controlar o espaço onde vivem durante um número mínimo de gerações. com um desfecho tão melancólico como previsível: o grupo residencial em questão acabou por se desintegrar e seus remanescentes passaram à condição de apêndices dispersos por várias aldeias (Ramos 1995: 329. esses grupos representam. átomos sociais voltados para si mesmos. perpetuando mecanicamente o casamento endogâmico entre primos cruzados. é algo a ser conquistado. Na realidade. Sem a residência em comum. embora nunca percam a de sib. Efêmeros ao extremo. ou uma epidemia devastadora podem dizimar uma linhagem em apenas uma geração. longe de ser um dado incontestável. Sua existência ou colapso é. Fatores demográficos. Numa situação ideal. O grau ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Por ironia da vida. a figura do pai e da sogra teriam pesos iguais. As linhagens sanumá não existem sem concentração no espaço e esta só pode ser alcançada na medida em que os homens conseguem superar a necessidade de casar fora. Em suma. essas linhagens se esboroam até ao desaparecimento. sendo. por trás de um pai temporal há sempre uma sogra espacial. o resultado de duas forças em colisão: a força centrífuga da exogamia e a força centrípeta da transmissão agnática. injetar harmonia no seu sistema desarmônico. uma díade irmão-irmã. mas virtualmente impossível de sustentar. mas sempre mais longa do que as suas próprias vidas. haveria o risco de se criar mônadas residenciais.7 perder sua afiliação paterna por falta de foco residencial. Nesse brotar e murchar de unidades patrilineares em sua trajetória diacrônica. Para eles. o esforço de homens e mulheres para alcançar a coincidência do tempo com o espaço.

Nova Iorque: Basic Books. Evocam noções de estabilidade.8 de sucesso em se criar um grupo de descendência próprio reflete o jogo de influências entre essas duas figuras determinantes. Structural Anthropology. Yanomamo: The Fierce People. A exemplo da bruxaria zande. a complementaridade entre o espaço-mulher e o tempo-homem é uma marca que o pensamento teórico sanumá imprime na experiência vivida. Juntos. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Alcida Rita. Louis. quando o único elemento de ligação entre comunidades em trânsito eram os elos patrilineares sempre por um fio (Ramos 1995: 17277). Madison: The University of Wisconsin Press. 1968. RAMOS. Marcus. 1963. Man 54: 34-39. RAMOS. Antropológica 56: 25-126. The Dravidian kinship terminology as an expression of marriage. Claude. O lar e as roças são os símbolos de espaço por excelência. COLCHESTER. Myths and legends of the Sanema. insegurança e aventura. Napoleon. o fulcro da sociabilidade onde as mulheres estão à vontade e os homens gostariam de nunca deixar. instabilidade. Alcida Rita e Bruce Albert. 1953. Nova Iorque: Holt. arraigamento. o tempo traz incertezas. Actes du XLIIe Congrès International dês Américanistes 2: 71-90. Por contraste. Referências Bibliográficas CHAGNON. Paris: Société des Américanistes. Representa perda de raízes. como se pode perceber nas histórias sobre as migrações sanumá. confiabilidade. idéias fundamentais que dão sentido ao mundo. LÉVI-STRAUSS. DUMONT. mulher e homem revelam-se metáforas da oscilação necessária entre repouso e movimento. Yanoama descent and affinity: the Sanumá/Yanomam contrast. 1981. Rinehart & Winston. 1977. Sanumá Memories: Ethnic politics in Brazil. 1990.

Sever de Vouga. revelam-se os resultados da investigação-acção realizada em 2005 no centro e norte de Portugal (Sever do Vouga e Amarante) onde se identificaram as desigualdades produzidas pelo género.com Com base no projecto “Iguais num Rural Diferente”. oficinas-diagnóstico. realizado em Abril de 2006. igualdade de género. Introdução Este artigo refere-se à comunicação proferida no Terceiro Congresso da Associação Portuguesa de Antropologia. que contemple as necessidades específicas e os interesses estratégicos de homens e mulheres em meio rural e se ajuste aos seus valores e experiências. denominado de “Iguais num Rural Diferente”. no Centro e Norte de Portugal. Em ambos os contextos. identificando-se com uma ruralidade que muitos sectores institucionais têm vindo a declarar extinta. decorrente de um projecto de investigaçãoacção realizado em 2005. assim como a sustentabilidade da actividade agrícola. nomeadamente na conciliação família/trabalho. com vista a sistematizar um possível contributo da Antropologia na promoção da igualdade de género. os homens estão ausentes e são as mulheres que asseguram a vida social quotidiana. Apresenta-se uma proposta metodológica de diagnóstico.com ricardoseica@gmail. Amarante. Elas são o ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .Iguais num Rural Diferente: o papel da Antropologia na investigação-acção sobre género Ana Luísa Micaelo e Ricardo Seiça Salgado CEAS/ISCTE analuisamicaelo@gmail. ruralidade. e cujo objectivo central foi o da promoção da igualdade de género em meio rural. Palavras-chave: investigação-acção. teatro e ensino/investigação. teatro e ensino/investigação. 1. Articula-se a observação participante com “Oficinas-diagnóstico” no intuito de potenciar uma abordagem antropológica para a investigaçãoacção. foi realizado em parceria por várias instituições ligadas às áreas do desenvolvimento local. Este projecto. no qual apresentámos uma proposta metodológica. promovido por várias instituições ligadas ao desenvolvimento local.

. a observação participante (cf. na qual se realizarão as actividades planeadas anteriormente. A participação dos antropólogos no projecto teve como objectivo a realização de um Diagnóstico de Necessidades 2 destes contextos sobre a igualdade de género. culturais e económicas – tal como elas são vividas pelos actores sociais – e contemplar as necessidades específicas e interesses estratégicos de homens e mulheres em meio rural. incorporando a maior multiplicidade de técnicas de recolha de material possível.C. a partir dele. Sanjek 1990 e Davis 1999). Relembramos que a comunicação foi proferida em Abril de 2006. com a qual concluiu a licenciatura (cf. O projecto realizou-se em três contextos rurais diferentes: Amarante. 2 De acordo com o modelo do Programa EQUAL.2 Departamento de Antropologia Universidade de Coimbra 1 . A partir desta experiência de trabalho. numa altura em que o projecto estava já na sua segunda fase e os autores. nomeadamente no que diz respeito à conciliação do trabalho com a vida familiar. o projecto identificou uma série de desigualdades que. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . a ACERT – Associação Cultural e Recreativa de Tondela e o ICE – Instituto das Comunidades Educativas. eram específicas a estes meios sociais rurais. Por outro lado. a Solidários – Fundação para o Desenvolvimento Cooperativo e Comunitário. Para tal. do Fundo Social Europeu (Ref. pretendia-se também promover uma abordagem participada e reflexiva (estratégia bottom-up) com estas populaçõesalvo. assim como o Departamento de Antropologia da U. Com o objectivo de aferir a diversidade das realidades sociais. os projectos são compostos de uma primeira fase. sendo produzidas pelo género. Assim. Micaelo 2005b). a equipa técnica de antropólogos que elaborou este diagnóstico (de Sever de Vouga e de Amarante) guiou-se pela abordagem empírica que há muito tempo se consolidou na antropologia. não faziam já parte da parceria. a candidatura à segunda fase. em que se realiza o diagnóstico de necessidades e. para que fosse possível o desenvolvimento de actividades futuras em conjunto. 2004/EQUAL/A2/IO/343). sublinhamos que esta metodologia se refere àquela desenvolvida na primeira fase do projecto. 1 A equipa técnica foi composta pelos autores e a coordenação científica ficou a cargo da Professora Doutora Susana de Matos Viegas. a APA – Associação dos Agricultores do Porto. a ADRL – Associação de Desenvolvimento Rural de Lafões. Sever do Vouga e Vouzela – mas a comunicação e este artigo só se referem aos dois primeiros. a autora realizou ainda uma tese de investigação. que decorreu entre Janeiro e Junho de 2006. para o Terceiro Congresso da APA. querendo envolvê-las no diagnóstico que fazíamos sobre as suas vidas e implicando-as no projecto. Foi financiado pelo Programa de Iniciativa Comunitária EQUAL.

propomo-nos assim tecer uma reflexão acerca do papel da Antropologia enquanto saberfazer específico e da maneira como a análise dos discursos de poder é. trabalho e/ou ruralidade. devolvida à sociedade. mas igualmente marcantes para a criação de modelos de promoção da igualdade de género em meios rurais do Portugal contemporâneo. Apresentação dos contextos Ambos os contextos onde decorreu o trabalho de campo correspondem ao território de actuação da respectiva entidade local – a APA em Amarante e a Solidários em Sever do Vouga. Têm características semelhantes que passamos a enumerar: ambas são montanhosas e o povoamento é disperso pelas encostas. uma outra forma de poder que. Consideramos que estes dois territórios oferecem desafios diferentes. família. com algumas freguesias e populações muito ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . pode participar na mudança das formas culturais. Neste artigo iremos apresentar as opções metodológicas que fizemos neste projecto. se pretendia envolver a população-alvo na formulação das questões socialmente relevantes no âmbito das relações de género. articulando a observação participante com as Oficinas Diagnóstico no intuito de potenciar uma abordagem antropológica para a investigação-acção. representações e relações hegemónicas de poder – sejam elas de género. ela própria. Segue-se uma breve apresentação dos dois contextos onde se realizou este trabalho. de discutir a integração profissionalizante da antropologia. decorrente da sua experimentação em cada um dos referidos contextos-piloto. Aceitando um dos desafios deste congresso. Tomando a tipologia e dados recolhidos no Instituto Nacional de Estatística (Censos de 2001) estas regiões são denominadas como Predominantemente Rurais. 2.3 Para a elaboração do Diagnóstico de Necessidades – com base no qual se propuseram actividades concretas a realizar na Acção 2 do programa (2006/2007) – os procedimentos metodológicos qualitativos para este projecto assentaram no trabalho de campo e tinham por objectivo a criação de um Modelo de Oficina Diagnóstico para contextos de investigação-acção em meios rurais em que.

e têm direito ao uso e fruição do terreno baldio – para efeitos de apascentação de gado. o fraco empreendedorismo e um ainda baixo investimento turístico (algumas freguesias ainda não têm saneamento básico). em contraponto com a alta taxa de desemprego – sendo que todas estas características assumem maior relevo na população feminina. estes terrenos que desde o 25 de Abril passaram outra vez a ser geridos pelas comunidades locais. silvo-pastoril. Existe uma tendência para o declínio populacional e envelhecimento. o território-alvo do projecto corresponde à parte Este do concelho. Todas elas gerem baldios. após a retirada da possibilidade de gestão dos baldios e seus recursos pelo Estado salazarista e. apesar da existência de condições ambientais que permitem apostar na qualidade das produções agrícolas. reflorestação. Nestas regiões. de culturas e outras fruições. São também baixos os níveis de escolaridade e qualificação profissional. muito feminizada. apícola e turística. Os acontecimentos da década de 60. O acesso à saúde é escasso e não há instituições capazes de dar resposta à dependência que as crianças e idosos têm para com a família. dos anos 80. a quase inexistência de indústrias e alternativas de emprego na região. Em Amarante. 7 freguesias que constituem as comunidades serranas do Marão. a característica mais evidente do contexto de Sever do Vouga é a agricultura. a perda de peso económico da agricultura não foi compensada com a criação de outras actividades económicas que pudessem absorver a mão-de-obra. sendo que a acessibilidade ao Predominantemente Urbano é maior e mais frequente que ao Rural. Face a uma divisão sexual do trabalho que leva os ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . como por uma Comissão de Compartes independente. fracas vias de acesso e um sistema de transportes públicos entre as freguesias praticamente inexistente. tanto por via da Junta de Freguesia. consequência de vários factores como o êxodo rural e os fluxos de emigração (anos 60 e anos 80).4 isoladas. nomeadamente de natureza agrícola. cuja economia tem uma base rural e agrícola (não intensiva). contribuíram para a escassez de relações entre as pessoas e as várias aldeias da região. silvícola. A relação das pessoas em Amarante está marcada por um passado emigratório. Tal como em Amarante. depois de terem voltado e do incêndio que devastou a Serra do Marão. têm um potencial a desenvolver pelo projecto. de recolha de lenhas e de matos. Hoje.

se tem mostrado um meio eficaz de empoderamento (empowerment). Por outro lado. Assim sendo.5 homens a longos períodos de ausência (emigração e/ou trabalho temporário fora da região). Esta situação resulta ainda numa dependência financeira das mulheres em relação ao marido. seja este doméstico. sendo que o modelo hegemónico de género não reconhece simbolicamente o papel da mulher no trabalho. enquanto as mulheres se encarregam das tarefas domésticas. em Sever de Vouga e Amarante a organização familiar está historicamente marcada pelo trabalho assalariado masculino fora da área de residência. Decorrente da divisão sexual do trabalho e das representações e concepções acerca da feminilidade e masculinidade. agrícola (Sever do Vouga) ou. das terras e animais e do cuidado dos filhos. dos idosos e de outras pessoas dependentes. de igual modo. em ambos os contextos. bem como a reestruturação que ela permite das actividades laborais. a Solidários considera que em Sever de Vouga o incremento da agricultura segundo o modo de produção biológica. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . fixando as mulheres à terra. contribuindo para que os homens valorizem o papel da mulher na actividade económica local. São as mulheres que asseguram a vida social quotidiana. aumento da autonomia destas mulheres e promoção de maior igualdade nas relações entre casais: reequilibra as formas de poder entre cônjuges. do trabalho assente em actividades artesanais. ou também nas estruturas mais precárias do trabalho da indústria do calçado (Amarante). os homens vão para fora e têm trabalho remunerado. e também devido ao impacto do fenómeno migratório. a ausência dos homens nas tarefas familiares reflecte uma grande disparidade de participação na vida familiar entre homens e mulheres. assim como a sustentabilidade da actividade agrícola – que não deixou de ser muito importante para a economia familiar – sem que tenham com isso um reconhecimento do seu trabalho. constituindo como modelos familiares o que propomos chamar de “temporariamente monoparentais femininos”.

que foram convidadas a participar nas Oficinas Diagnóstico. Esta ideia é válida nos dois sentidos: por um lado. em períodos de cerca de quinze dias (a entrada no terreno tendo em vista a definição da população-alvo) e posteriormente. era condição necessária a consciência das pessoas em relação à sua participação e envolvimento no projecto. os resultados desta investigação-acção reflectiram necessariamente a forma como ela foi conduzida. realizaram-se histórias de família e identificaram-se estudos de caso que vieram a servir para a selecção das pessoas com potencial representativo da população-alvo. texto e paratexto. condutor da conversa. Os investigadores permaneceram nos territórios-alvo respectivos. Essa informação serviu sempre de subtexto. a sua própria relação com os eventos descritos é útil para a sua compreensão – e deve ser sempre especificada” (Pina Cabral 2003: 25). vivendo numa habitação local e integrando-se na vida quotidiana da população. técnicos das instituições parceiras. Tendo em conta a escassez de tempo para executar os objectivos recorreu-se ainda a outros informantes privilegiados. um mês (trabalho de campo e realização da Oficina Diagnóstico). O acesso aos informantes e o enquadramento no terreno não foi efectivamente restritivo na medida em que nunca os contactos interpessoais foram forçados ou veicularam a necessidade de uma reverência para com as instituições locais ou os informantes privilegiados. a posição e acção do investigador devem ser referidas como parte integrante da situação social estudada: “Quando o etnógrafo recorre ao método de estudo de caso. vivência no local de estudo. Assim. como o presidente da junta. Utilizaram-se as variadas técnicas de observação participante (entrevista. registo da informação e “notas de campo” e realização de diário de campo). conversa informal dirigida. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . entrevista aberta. por outro lado. em função do tempo que se dispunha pelo programa para a Acção I (4 meses).1. Primeira etapa metodológica: observação-participante O diagnóstico realizou-se a partir da recolha de material empírico em duas estadias de campo dos investigadores. do encontro estabelecido.6 3. Metodologia 3. directores associativos ou o padre. Teve-se sempre em conta a necessidade de informar as pessoas acerca do projecto e dos seus objectivos.

que já haviam experimentado em outras circunstâncias. pode ser favorável e será ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . em função dos interesses. motivações. Com elas e a partir delas. Para as oficinas de cada contexto seleccionaram-se temas e personagens consideradas prioritárias na identificação dos problemas e possíveis soluções ligadas à promoção da igualdade de género. Os conteúdos trabalhados nas oficinas provêm dos resultados analíticos da observação-participante no terreno. Quem participa nas Oficinas? Cada oficina é constituída por três tipos de intervenientes: “os participantes”. valores e experiências de homens e mulheres na vida familiar e no trabalho. A ideia de modelo operatório inicial da oficina foi proposto pela ACERT em conjunto com a Solidários. Segunda etapa metodológica: Oficinas Diagnóstico A Oficina Diagnóstico tem o seu modelo baseado em metodologias teatrais de modo a monitorizar a realidade social. foram sinalizados problemas e identificadas possibilidades de inovação. registando a interacção entre as pessoas e os comentários. mobilizando a população-alvo para práticas de inovação social. na conciliação do trabalho com a vida familiar. “os relatores” e os “facilitadores”. Os “participantes” são todos aqueles que irão exercer as actividades desenvolvidas na oficina desde a elaboração das histórias à reflexão sobre elas. os participantes representam a população-alvo e foram identificados previamente pelo antropólogo no terreno. foram elaborados pelos investigadores e depois debatidos com os técnicos das associações. Consistiu em se fazer uma fotonovela em grupo. na investigação de terreno. Os “relatores” são aqueles que vão ouvindo o processo de construção das histórias. O “relator” não deve ser um “participante” e o facto de já ter contactado as pessoas que participam na oficina. 3.2. bem como do próprio drama a ser construído por cada grupo. A sua atitude aproxima-se muito daquela que é assumida por um investigador a fazer trabalho de campo com observação participante.7 através do envolvimento das pessoas na procura das estratégias para o seu próprio “desenvolvimento”. Enquanto modelo de diagnóstico. Previamente fez-se uma simulação da oficina com os parceiros.

Cada oficina teve cerca de 4 grupos com cinco participantes cada. A personagem deve ser inspirada a partir do contexto em causa e induzida pelo tema do grupo. O envolvimento de membros das associações que já têm contacto com as populações pode ser igualmente importante. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . 2. um facilitador e relator por grupo (investigador e membros da associação parceira). A cada grupo é dado um tema sustentado pela informação empírica recolhida em trabalho de campo. intervir também nos outros grupos. 4. Deve deixar um espaço de liberdade criativa aos participantes durante todo este processo. uma vez que prepara as pessoas para os objectivos pretendidos. os facilitadores/relatores. Um ou dois dos grupos ficam com tema livre. Guião da Oficina 1. Garante a existência de papéis sociais representativos da população-alvo e que. deve provocar o debate com alguma ideia que conecte com a informação obtida e algum conflito passível de emergir da rede de relações produzida. Em cada grupo existem duas personagens predefinidas atribuídas ao acaso. os sonhos. sobretudo para garantir a prossecução dos trabalhos. abrindo espaço para a monitorização. Solicita-se a construção da identidade de uma personagem (que consiste em preencher uma ficha com o nome. Recomenda-se que circulem pelos diferentes grupos para permitir momentos de liberdade e tornar a oficina mais dinâmica podendo. Atento. Os “facilitadores”: em cada grupo existe um facilitador que intervém no sentido de ajudar a desenhar um mapa de relações entre as personagens construídas e organizar a sequência de fotografias finais representativas da história. não tenha sido possível comparecerem. por exemplo. De uma forma completamente aleatória divide-se o colectivo em grupos.8 fundamental num modelo mais consistente de utilização destas oficinas para diagnóstico. Recomenda-se a filmagem da oficina por um elemento conhecedor do projecto. de 5 ou 6 pessoas cada. “sem ele monopolizase”. a situação familiar e profissional). 3. os pesadelos.

tendo em conta as relações entre personagens. seu passado). começando pela apresentação das personagens intervenientes (uma fotografia por personagem) e contando a história produzida em cada tema. seus problemas e expectativas. A existência de iniciativas isoladas. tendo em conta a realidade da região. Conclusão As conclusões a que se chegou nas Oficinas Diagnóstico mostraram. A história deve ser conclusiva. a história é conduzida a partir de um qualquer conflito. dando origem a um mapa de relações (nome. 8. Desenhado o mapa de relações. O facilitador toma a iniciativa com uma questão observada e lança a discussão. passa-se à construção de um drama possível. representações e expectativas geradas). seguiu-se um convívio que se transformou num concerto espontâneo de um grupo de bombos e de uma tuna da região. Fotografam-se as personagens. reforçando finalmente a presença dos homens. apresentam-se as histórias por um “participante” do grupo. 7. 4. tendo em conta a relação de poderes criada entre personagens e recaindo também para a desigualdade de género. em Amarante. Depois. Discussão colectiva das histórias (os sentimentos. apesar de terem problemas comuns. Os dirigentes das associações sociais e culturais locais não se conheciam sequer. com a sucessão das fotografias produzidas. sob olhar do facilitador/relator. para futura apresentação. 9. Também aqui se deixou espaço de liberdade para os participantes desenvolverem os argumentos. não se relacionam na promoção de resoluções conjuntas. numa pequena série de fotografias. em torno das situações criadas na dramaturgia geral da história. Com recurso a um projector. Em Sever de Vouga a teatralização e interpretação das personagens e enredos aconteceu espontaneamente. relação entre personagens. 6.9 5. Em cada grupo. Em Amarante. havia sido identificada anteriormente pelo investigador como uma condição adversa à ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . encenam-se colectivamente quadros representativos da história produzida. que as pessoas das diferentes freguesias. uma a uma. vai inventando uma rede de relações sociais entre os personagens. reunido à parte. Cada grupo.

foi realizada pontualmente em cada aldeia e não com um conjunto integrado de mulheres das várias aldeias. por estarem empregados. No nosso entender. em oposição à sociabilidade masculina com que se identifica localmente o espaço do café. prende-se com o facto de o espaço social de género ser muito segregado. Em Sever do Vouga. Comissão Europeia 2004). A intervenção da APA. Este aspecto remete-nos ainda para uma limitação sentida no início do trabalho de campo sobre “o género do próprio antropólogo” – como chegar também aos homens. por um lado. uma vez que não se trata apenas de resolver os problemas das mulheres. e a Oficina Diagnóstico assim o demonstrou. até porque identificámos uma grande diferenciação social de género no que diz respeito às ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . a realização da Oficina mostrou haver uma a dificuldade em envolver os homens. por exemplo. Isto deve-se. à já referida divisão sexual do trabalho. não tenham muita disponibilidade de tempo. sobretudo nas possibilidades de trabalho auferidas pelos recursos dos baldios. de forma a reforçar a importância do trabalho feminino nos baldios e. apesar de terem sido convidados a participar. no seu desenvolvimento associativo para uma actividade económica – o que iria ao encontro das intenções manifestadas por elas próprias na Oficina. Um outro factor. Micaelo 2005b). Esta intervenção teve um sucesso relativo em motivar. nomeadamente no que diz respeito aos espaços de sociabilidade. esta falta de comunicação entre as pessoas das diferentes aldeias. quando a vida quotidiana é assegurada pelas mulheres e eles estão ausentes? A questão salienta a necessidade da integração da perspectiva de género (cf. quiçá. promovendo cursos que desenvolvem aptidões potencialmente económicas às mulheres da região.10 dinâmica para o desenvolvimento regional e estas oficinas permitiram essa consciencialização por parte dos participantes. a produção de artesanato a partir dos recursos dos baldios. exponencia a desigualdade de género. fazendo com que o espaço onde actualmente se realizam estes cursos – e onde decorreu a Oficina Diagnóstico – tenha uma associação de género diametralmente oposta à do café (cf. não se conseguiu integrar estas iniciativas isoladas num projecto comum. Os formandos dos cursos até aqui promovidos pela Solidários são maioritariamente mulheres. que faz com que os homens. também identificado durante o trabalho de campo. Contudo. já que é com as mulheres e a feminilidade que este espaço passou a estar associado.

Concluindo. as agricultoras. à mobilidade e mesmo à forma como se constituem os modos de sociabilidade. ao trabalho. isto é. através da consciencialização dos problemas-soluções apurados entre todos – contribuindo. uma organização familiar “temporariamente monoparental feminina”. estes dados permitem-nos perceber melhor a categoria de Predominantemente Rural. a situação profissional de todas as personagens coincide com a realidade socio-económica e antropológica da região estudada: os desempregados. e mesmo de outros meio rurais portugueses contemporâneos. como grande parte das regiões rurais de Portugal são classificadas. Por outro lado. em resultado do espaço de reflexão e experimentação criativas dos participantes. tipicamente envelhecidos e despovoados – como o Alentejo – ou aqueles que têm uma relação mais dinâmica com a actividade industrial – como é o caso de Vouzela. as domésticas. pôr em causa a imagem de um mundo rural homogéneo e “tradicional”. os próprios mapas das relações entre os personagens mostram a construção de redes familiares do mesmo tipo que constatámos na realidade. o político. Este “modelo” de um mundo rural é diferente daquele que conhecíamos na década de 60 no norte do país. cujo modo de vida e características de sociabilidade são melhor apreendidas por metodologias qualitativas. Em ambas as Oficinas. Este modelo parte do conhecimento empírico do terreno e da sua transformação em estudos de caso e conteúdos para a realização de oficinas teatrais onde os participantes (população-alvo. mas principalmente. Assim. agentes de intervenção e animadores culturais) reflectem sobre os seus problemas específicos no âmbito das desigualdades de género. por isso. ao acesso ao dinheiro e ao poder. investigadores. não podemos ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Por fim. consideramos ainda que contribuiu para o apuramento de práticas de intervenção que incorporem a participação efectiva das respectivas populações-alvo. O modelo de investigação-acção foi cientificamente informado e adaptado para comunidades rurais. consideramos que o modelo participativo das Oficinas Diagnóstico cria condições para a resolução dos problemas assinalados. assegurando que a comunidade seja agente das transformações propostas. o patrão.11 relações familiares. Por sua vez. para um potencial processo de mudança. os emigrantes. os estudantes deslocados. Ele foi pensado de forma a garantir que os modelos de intervenção social na promoção da igualdade de género compreendam e se ajustem aos valores e experiências da população. o construtor civil.

Ricardo Seiça. Lisboa. Disponível em: <http://europa. Cornell University Press. para aceder à sua realidade vivida. do Fundo Social Europeu (Ref. (policopiado). 2005.12 deixar de sublinhar que considerámos o contributo da Antropologia não como uma oportunidade para “dar voz” aos seus objectos de estudo/informantes/população-alvo. mas antes.eu. 2005. 1999. Ana Luísa. Projecto Iguais num Rural Diferente. 2004/EQUAL/A2/IO/343). Diagnóstico de Necessidades: Iguais num Rural Diferente (policopiado). Charlotte Aull. VIEGAS. Londres e Nova Iorque. Em: VIEGAS. MICAELO. 2005b. Mulheres. do Fundo Social Europeu (Ref. João de. Diagnóstico de Necessidades: Iguais num Rural Diferente. Susana de Matos (coord. 2004. MICAELO. SANJEK. 2004/EQUAL/A2/IO/343). Imprensa do ICS. 2004/EQUAL/A2/IO/343). Coimbra. um meio de estabelecer relação com as pessoas. Referências Bibliográficas COMISSÃO EUROPEIA. Routledge. Em: VIEGAS. O Homem na Família: cinco ensaios de Antropologia.). a partir da abordagem etnográfica. DAVIS. PINA CABRAL. Acção 1 – Programa de Iniciativa Comunitária EQUAL. Projecto Iguais num Rural Diferente. Reflexive Ethnography: a guide to researching selves and others. Acção 1 – Programa de Iniciativa Comunitária EQUAL. “Diagnóstico de Necessidades para Sever do Vouga”. Fieldnotes: The Making of Anthropology.). Ana Luísa.). Ithaca e Londres. Susana de Matos (coord. “Diagnóstico de Necessidades para Amarante”. Susana de Matos (coord. Acção 1 – Programa de Iniciativa Comunitária EQUAL. 2005. SALGADO. Departamento de Antropologia da Universidade de Coimbra. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Dissertação de Investigação I e II (policopiado). 1990.int/comm/equal> (acesso em 17-05-2005). Diagnóstico de Necessidades: Iguais num Rural Diferente (policopiado). trabalho e espaços de ruralidade: um estudo antropológico em Sever do Vouga. 2003. Projecto Iguais num Rural Diferente. “Guia Equal sobre a Integração da Perspectiva de Género” [online]. Roger (ed). do Fundo Social Europeu (Ref.

direitos e precariedade laboral ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Economia e Sociologia.VII – Capítulo Crenças e corpos Textos de comunicações dos painéis: Corpos. Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro Manuel Carlos Silva Instituto de Ciências Sociais. dinheiro e afecto Coordenação Fernando Bessa Ribeiro Dep. Universidade do Minho Pluralismo Religioso: novas abordagens etnográficas Coordenação Ramon Sarró Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa Estigma.

com breves alterações. se perante tão abrangente fenómeno social tem escasseado a atenção por parte dos cientistas sociais. as estradas que convergem para Fátima. uma promessa. e que são frequentemente. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . doutorando em Antropologia (ISCTE). concretamente no Painel Pluralismo Religioso: novas abordagens etnográficas. e. religião e Senhora de Fátima. 1 Este texto recupera alguns elementos do trabalho de campo anteriormente realizado (Pereira. peregrinação. Todavia.q. Palavras-chave: Promessa. recorrentemente. por outro. pt   Desde as Aparições da Virgem Maria. 2003) e reproduz. tem sobejado o interesse por parte * Mestre em Antropologia (UM). mas pouco sobre as práticas dos peregrinos desde o momento em que abandonam as suas casas e percorrem a pé a distância que os separa do Santuário de Fátima. nesta comunicação procurar-se-á evidenciar.    INTRODUÇÃO    No início do mês de Maio. longe de fazerem parte de uma communitas.pereira@netcabo. revelam práticas profundamente individualizadas para realizar a peregrinação.  “Cada um anda ao seu ritmo” As práticas individuais nas peregrinações a pé a Fátima 1   Pedro Pereira* Escola Superior de Enfermagem – Instituto Politécnico de Viana do Castelo pedro. até ao presente que todos os anos milhares de pessoas percorrem os caminhos que as levam até àquilo que nos meios católicos se chama. Contudo. Agradeço ao Professor Doutor José Manuel Sobral as críticas e sugestões que fez ao trabalho. que os peregrinos caminhantes até Fátima. que estes peregrinos procuram pagar com o mínimo de sofrimento o grande sacrifício prometido. encher-se-ão de peregrinos. o acto de caminhar até Fátima está fortemente condicionado pelas motivações que lhe subjazem. Professor Adjunto – Instituto Politécnico de Viana do Castelo – Escola Superior de Enfermagem. em 1917 em Fátima. Tem-se escrito muito sobre Fátima. tal como as páginas dos jornais e os principais noticiários dos canais de televisão portugueses. uma comunicação realizada no 3º Congresso da APA – Afinidade e Diferença (6-8 de Abril de 2006). coordenado por Ramon Sarró. por um lado. Altar do Mundo. Recorrendo privilegiadamente a elementos etnográficos.

a prática da peregrinação a pé é apresentada como um meio para solicitar alguma coisa à Senhora de Fátima. apologético. que caracteriza os lugares onde estão presentes. tem sido mais este discurso.2 dos religiosos católicos. mas sim a consequência de uma motivação. latente. o principal pilar que alicerça as práticas do acto de peregrinar 2 a pé da generalidade dos peregrinos que viajam até Fátima. que a redução dos motivos envolvidos nas peregrinações a pé a Fátima à teologia católica impede a efectiva compreensão das crenças e práticas dos peregrinos. intensamente. invisível. onde o poder da Senhora de Fátima pode ser invocado (ainda que neste caso à distância) para a resolução de problemas cruciais dos crentes. em boa parte dos casos. então as crenças e práticas dos peregrinos são interpretadas em consonância com o sentido teológico católico do peregrinar. os peregrinos podem encontrar aquilo que Alan Morinis chama ideais colectivos da cultura (1992-a: 4-5). frequentemente sensacionalista. dos meios de comunicação. Perante este diagnóstico da situação. que se expressa vulgarmente numa promessa. É de facto uma promessa que leva os crentes para a estrada e é ela que os impele a chegarem ao fim. sendo os peregrinos católicos. A partir deste dois postulados. ideais religiosos. mostrando que: em primeiro lugar. e a entidade a que prestam culto. tentar-se-á avançar com elementos que contribuam para uma efectiva compreensão do significado da expressão “cada um anda ao ritmo” (que dá o título a este artigo) e consequentemente enunciar as estratégias individuais que cada peregrino encontra para chegar até Fátima com o menor sofrimento possível. em segundo. 1991). Em Fátima. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . a par do outro discurso. De facto. neste artigo propõe-se desconstruir os dois pressupostos anteriores. 1 – A PROMESSA DE PEREGRINAÇÃO   Efectivamente. 2 3 Deve entender-se por peregrinação uma viagem por devoção a um lugar considerado sagrado. a promessa apresenta-se como a parte oculta. a Fátima 3 . sendo um lugar com grande magnetismo espiritual (Eade. as peregrinações a pé a Fátima não são o início de uma relação com a Senhora de Fátima. por outro. que tem contribuído de uma forma mais intensa para a maneira como se vão atribuindo significados às peregrinações a pé a Fátima. também católica. Duas ideias aparecem recorrentemente expressas nestes dois discursos: por um lado.

será interessante recuperar a referência de Michel Meslin à proveniência latina da palavra voto que provém do latim votum e que “consistia na promessa de uma oferenda que se fazia a uma divindade.   4 Partindo do pressuposto que a promessa é um voto. normalmente dentro da própria pessoa. poucos dias antes da partida – outras vezes nem isso – outra pessoa do meu grupo. normalmente. sendo portanto ele quem estabelece o que é simbolicamente equilibrado. há 15 anos atrás. nem a mim. na Grécia. a autonomia individual está bem presente na construção dos termos da troca. nem mesmo ao marido que a acompanha. de igual modo. e de uma forma simples. organiza-se em torno de três fases primordiais: uma declaração de compromisso. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . a promessa está sustentada numa clara racionalidade e. De facto. O marido suspeita que a promessa se deveu ao facto de. ele continuar a fazer “vida de solteiro”. o motivo da promessa. como me dizia um devoto: “concentro-me e mentalmente defino o que pretendo e o que estou disposto a fazer”. J. Como já foi defendido noutro lugar (Pereira.1– A declaração íntima de compromisso A declaração de compromisso é a enunciação da troca com a Senhora de Fátima.   1. 5 Reportando-se às promessas de peregrinação a Tinos. é quase sempre assim que ela é concebida pelos crentes que prometem ir a pé a Fátima. uma promessa pode ser definida como uma troca entre um crente e a Senhora de Fátima 4 . Só se o desejo se realizava é que o homem cumpria o que havia prometido”(1987: 1829). mas é também visível quer na forma como o voto é feito. 2003-a).3 Neste contexto. nunca revelou a ninguém. que os votos são feitos dentro da própria pessoa. Quando o crente constrói a declaração de compromisso está também a definir as condições da troca. quer pelo facto de o promitente (aquele que faz o voto) procurar manter sigilo da promessa até receber a graça ou dádiva 5 . 1995: 89). Dubisch salienta. uma dádiva. Este voto é tão pessoal que por vezes só é revelado à família poucos dias antes da partida – um elemento do meu grupo revelou à mulher que tinha feito uma promessa de ir a Fátima. nos primeiros anos do casamento. De facto. Veja-se um exemplo comum: “Se tu (Senhora de Fátima) curares o meu filho eu prometo ir a Fátima a pé”. uma contra-dádiva. que já vai há mais de vinte anos a pé a Fátima. com a condição de o homem obter dela um favor particular. sendo estes uma expressão de uma relação muito pessoal entre o promitente e o ser espiritual a quem o primeiro se dirige”(Dubisch.

4 1. pois atrai peregrinos dos mais diversos lugares do mundo. nesta situação de troca. as referências mais ou menos assíduas de que foi a Senhora de Fátima que salvou o filho ilustram bem que. a peregrinação a pé apresenta-se como a última fase deste processo. disseram-me que eram católicos. a peregrinação a pé é um agradecimento. como é referido pelos crentes). para em seguida retribuir com a peregrinação a pé. a comunhão e a aliança que elas estabelecem são relativamente indissolúveis”(Mauss. 1988: 101).  e  seguindo  a  tipologia  de  Edith  e  Victor  Turner  (1978). é o pagamento de algo que já foi recebido. como refere M. e não como uma dádiva.  6 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . 8  Se  o  critério  for  histórico.     2 – O CATOLICISMO E AS PEREGRINAÇÕES A PÉ  Todos os peregrinos com quem falei. mas também porque o que é dado nunca se separa de quem o deu. 7 Atendendo às classificações de Jackowski (1987) e Victor Turner (1973). seja ela escatológica ou terrena. As marcas mais ou menos perenes no corpo dos peregrinos. a utilização do critério de filiação religiosa apresenta acentuadas fragilidades. querendo isto dizer que. Porém. “só se promete ir a Fátima a pé quando é uma aflição muito grande. como me dizia uma peregrina. perante uma grande aflição promete-se um grande sacrifício pois. como uma contra-dádiva. através de uma troca simbolicamente equilibrada. Portanto. pelo contrário. Esta citação ilustra bem o sentido maussiano da dádiva. não apenas porque uma dádiva implica uma contra-dádiva.  as  peregrinações a Fátima são modernas. Esta filiação religiosa poder-se-ia apresentar como um critério mais interessante do que outros apresentados por outros autores como o geográfico 7 ou o histórico 8 . não visa uma recompensa. Mauss. “[as coisas trocadas] não estão nunca completamente desligadas dos seus agentes de troca. visto que. ou seja. efectivamente. depois da referida declaração de compromisso. temos de considerar as peregrinações a pé. as pessoas dão-se com aquilo que dão 6 . Por conseguinte. porque custa muito ir até lá a pé”.2 – A troca simbólica Assim. os crentes procuram re-equilibrar as suas relações com a Senhora de Fátima. o promitente espera pela dádiva da Senhora de Fátima (ou pela graça. a peregrinação a Fátima situase na categoria internacional.

pelo menos na actualidade. decorre de uma promessa nos termos anteriormente descritos 10 . normalmente. “vai-se a Maria para chegar melhor e mais facilmente a Deus”(1995: 1046). Pereira. as peregrinações a pé a Fátima não satisfazem estas importantes directrizes daquilo que. como oferecimento a Deus. 9 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Contudo.     3 – A PEREGRINAÇÃO COMO FENÓMENO LIMINÓIDE E AS PRÁTICAS  INDIVIDUAIS NAS PEREGRINAÇÕES A PÉ A FÁTIMA     3. através da formação de guias do Santuário (cf. apesar das dificuldades se pode chegar a um lugar mais sagrado que é o Céu.1 – peregrinação como fenómeno liminóide   De facto. E tanto assim é que são diversas as actuações da igreja para orientar ou converter essas práticas que se afastam do ideal de peregrinação cristã. 2003: 168-171). 1991: 2) evidente no Santuário (cf. ou como uma penitência (libertação de pecados) 9 . estando exposta na sua obra Image and Pilgrimage in Christian Culture. Bastará tão-só recordar que as peregrinações a pé são uma relação que os crentes estabelecem com a Senhora de Fátima e não com Deus. como privilegiar do despojamento que seria uma aproximação a Deus. ainda que os peregrinos que caminham até Fátima se autodefinam como católicos. Rosso define algumas orientações para aquilo que se poderia chamar uma pastoral da peregrinação. “não pode haver peregrinação sem a celebração da eucaristia”(1995: 1048). tal não significa que as suas crenças e as suas práticas estejam em consonância com aquilo que é defendido pela teologia católica. 10 A Igreja Católica tenta utilizar estratégias que lhe permitam evangelizar as peregrinações quer durante o caminho. 2003: 120-122) quer no santuário procurando fazer prevalecer o seu discurso na arena de discurso (Eade. e que a mesma prática. na realização de promessas o padre raramente é consultado e mesmo quando é consultado a sua opinião não é muito valorizada pelos promitentes (Sanchis. “a peregrinação não deve representar acréscimo de obrigações (pagar dívidas ou ‘comprar’ facilidades diante de Deus). Sanchis. a peregrinação deve promover a “participação na vida da igreja. a concepção católica da peregrinação a pé. Como se pôde notar ao longo do trabalho. Pereira. 1992: 51-52).5 De uma forma simples. Estes autores recuperam alguns pressupostos anteriormente defendidos quer por Van O autor católico S. a mais relevante teoria sobre as peregrinações deve-se a Edith e Victor Turner. em que. entrando ativamente nas suas preocupações e na sua ação”(1995: 1048-1049). apresenta esta como uma “imitação da vida”. deve ser uma peregrinação cristã. Contudo. mas deve ser de tipo festivo”(1995: 1048). como refere P. salientando-se as seguintes: “A peregrinação deve orientar para o sentido de corresponder ao oferecimento que Deus nos faz da sua misericórdia e do seu amor”(1995: 1048).

Turner. Petrópolis: Editora Vozes. Arnold Van (1978 [1908]) Os Ritos de Passagem.2 – Da ilusória communitas às práticas individuais     Contudo. etc”(1978: 34)”. O objectivo da viagem em grupo decorre do facto de esta se constituir como uma estratégia mais eficaz para que o peregrino alcance o seu objectivo. a peregrinação 14 é um acto voluntário. a individualidade posta contra o meio institucionalizado. 15 Esta caracteriza-se pela igualdade. 13 Designação dos próprios autores. ‘communitas’. um símbolo da ‘communitas’.6 Gennep 11 quer pelo próprio V. todavia a viagem em grupo não decorre de um eventual interesse dos peregrinos em partilhar com outros os valores espirituais da peregrinação. Assim. anomia (Turner. fortuita e por vezes ilusória communitas 15 . libertando-se das estruturas mundanas. Não é muito frequente encontrarem-se peregrinos que fazem toda a peregrinação a pé sozinhos. emersão da pessoa integral na multiplicidade da persona. mudança de um centro mundano para uma periferia sagrada que de repente se torna transitoriamente central para o indivíduo. Turner 12 . realização ritualizada de correspondências entre paradigmas religiosos e experiências humanas partilhadas. Gennep. Petrópolis: Editora Vozes. penitências. despojamento. um axis mundi da fé. indiferenciação. Este facto pode transmitir a ilusão da communitas. reflexão sobre o significado dos valores básicos religiosos e culturais. para os Turner. pois apesar de ter características semelhantes aos ritos de iniciação das sociedades tribais 13 . homogeneidade. o próprio movimento. que muda com o tempo contra o estático que representa a estrutura. os dados etnográficos não confirmam que as peregrinações a pé a Fátima possam ser consideradas como um fenómeno liminóide. pois normalmente os futuros peregrinos procuram um grupo para fazer a viagem. os peregrinos vão adquirir uma homogeneidade de status caracterizada de uma forma detalhada pelos autores: “simplicidade de vestes e comportamento. com a peregrinação a Meca. Deste modo. 1974). homogeneidade e camaradagem. 11 12 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . emergindo o individualismo de uma forma bem mais efectiva do que a ténue. santidade.estrutura e anti-estrutura. Victor (1974) O Processo Ritual . 14 Os Turner salvaguardam a excepção do Islão. a peregrinação apresentase como um fenómeno liminóide. com particular ênfase para o conceito de fenómenos liminares que apresentam uma junção de submissão.   3.

Assim. Desde a primeira refeição que as pessoas que já tinham feito mais vezes a peregrinação sugeriram que as refeições de todo o grupo seriam pagas por uma pessoa. até que na última refeição do último dia. No meu grupo viajavam um irmão e uma irmã. sendo quase sempre uma das últimas a chegar ao local de pernoita. e vai socializando os peregrinos neófitos como eu. ele fazia a peregrinação com uma certa tranquilidade. passaram a ser manifestos e cada peregrino pagou a sua própria refeição. diversos peregrinos a caminharem sozinhos 17 . que rapidamente vão assimilando este ideal. constituindo um dos primeiros registos no meu diário de campo. A partir do momento em que se inicia a peregrinação podem-se construir novas estruturas relacionais que podem decorrer. Ainda que existam momentos de agregação dos peregrinos no seu grupo. aumentando de frequência com o passar dos dias de caminhada. que em seguida dividia o total por todos os elementos. 17 Deve notar-se que frequentemente os grupos procuram agregar os seus membros para entrarem em conjunto no Santuário. cada um pagava a mesma quantia. 16 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .7 pague a sua promessa. chegue a Fátima. ele ia avançando. Pude ver. desde o primeiro dia. Encontrei peregrinos que por fragilidades resultantes de esforço tão continuado (dores intensas num tornozelo ou num joelho) foram ficando para trás cada vez mais distantes do seu grupo. como o almoço e particularmente a pernoita. diversas vezes. Note-se que depois deste momento a necessidade que cada peregrino tem do grupo é bem menor. e especialmente já mais próximo de Fátima. Da desocultação da ilusão da communitas emergem práticas individuais claramente ilustradas na expressão que dá o título a esta comunicação – “cada um anda ao seu ritmo” 16 . Ela desde o primeiro dia que apresentava imensas dificuldades. cada grupo vai-se desmembrando ao longo do dia. por Em grupos coordenados por guias do santuário não é raro existirem conflitos decorrentes do interesse em cada um chegar o mais rapidamente possível ao fim e o interesse do guia do Santuário que é manter grupo todo junto. Claro que estas marcas de individualismo concorrem para infirmar a homogeneidade de status defendida pelos Turner. Efectivamente esta locução foi-me repetida. Mas desde a primeira situação que os conflitos foram ficando latentes. sendo quase sempre um dos primeiros a chegar ao local de pernoita. independentemente daquilo que comesse. ou seja. Ela ia ficando parada em diversos postos da Cruz Vermelha. particularmente no fim da tarde. Ainda no meu grupo pude testemunhar outro exemplo da ilusão da communitas.

quase sempre. por exemplo. que aqueles que têm maior capacidade económica possam dormir numa cama mais cómoda ou comer comida de melhor qualidade num restaurante mais tranquilo. mas expressando-se de diversas outras formas. o mais provável é que andem cerca de 200 quilómetros. pelo afastamento de casa e da família. outras vezes critérios de aliança (duas pessoas casadas partilham um só quarto e uma só cama). codifica diferenças de estatuto sócio-económico.             sofrimento 3. do maior ou menor cansaço. sendo bastante visível a diferenciação económica que permite. longe de indiciar simplicidade. “cada um andar ao seu ritmo”. na roupa que. pode também notar-se a existência de um prolongamento das estruturas sociais anteriores à peregrinação 18 . vai procurar reduzir o mais possível o potencial sofrimento. No entanto. procurando reduzir o potencial sofrimento e a incerteza resultante de uma viagem deste tipo. 19 Ao contrário das peregrinações cristãs que se caracterizam pela insegurança. recorrendo aos diversos meios que tem ao seu alcance. aqueles que detêm um capital de experiência de peregrinações anteriores. Seria desta forma que o equilíbrio simbólico decorrente da promessa seria alcançado. recorrentemente. e comam. conhecem melhor o caminho e podem gerir melhor o esforço acentuado que. divididos em etapas de 40 quilómetros por dia. sendo um dos exemplos disso mesmo o seguro de vida realizado por um grupo para todos os seus membros (mais de 300 peregrinos). a promessa que os peregrinos fizeram foi de grande sacrifício e este expressa-se num quadro geral que. desde logo. das bolhas que podem surgir nos pés e que condicionam profundamente o andar ou de uma indisposição ou ainda das consequências de uma queda. na acomodação dos corpos durante a pernoita onde. por um lado. estradas nacionais com muito trânsito e com elevado perigo19 . por vezes emergem critérios sexuais (pessoas do mesmo sexo partilham o mesmo quarto e a mesma cama). visível. é interessante notar que cada peregrino.8 exemplo.3 – Da promessa de grande sacrifício e à procura de redução do   De facto. Atentem-se. na referida locução. as peregrinações a pé a Fátima na actualidade tendem a ser cada vez menos incertas e cada vez mais seguras. Porém. durmam pouco e em más condições. se tomarmos como exemplo peregrinos que partem do Porto até Fátima. normalmente exige uma peregrinação deste tipo. Cada vez mais os grupos aumentam o seu investimento na logística da viagem. e ao longo de cinco dias percorram. 18 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Por outro lado. comida de qualidade duvidosa. Uma boa parte dos peregrinos procura programar com detalhe a viagem. por outro.

No entanto. Por exemplo. apenas andam com o casaco quando têm frio ou apenas andam com a garrafa de água quando têm sede 20 21 . caminhou parte da viagem com fortes dores num joelho. num nos dias da peregrinação um massagista de beira de estrada deu-lhe uma pastilha que lhe permitiu caminhar durante todo o resto do dia sem dores. mais detalhes em Pereira. pode valer a pena relatar. Isto significa que. De facto. prometeu que faria o percurso sem falar. Por fim. Contudo. e que eram suficientes para cortejar elementos femininos do seu grupo. Por fim. pois as temperaturas estão mais amenas. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Alguns peregrinos caminham durante a noite. Um dos aspectos mais relevantes na redução do sofrimento é o chamado carro de apoio. escrita e gestual. 2003: 134-135. diversos peregrinos recorrem a medicamentos para realizar com menos custo a peregrinação. que serviam para se fazer entender com os membros do seu grupo e com as outras pessoas com as quais se cruzava. este crente encontrou outras formas de comunicação. o carro permite que os peregrinos possam andar apenas com aquilo que precisam em cada momento. Sendo normalmente conduzido por um familiar de um dos elementos do grupo. este sofrimento era atenuado pelo facto de ele usar diversos pares de meias. no fim da peregrinação teve recorrer ao hospital para retirar líquido de um joelho. seja em pensões ou em casas particulares. desde um vulgar analgésico até pastilhas desconhecidas que ocultam intensas dores durante algumas horas. procurando assim evitar que o calor se alie à estrada como mais um obstáculo. pode ir desde o aproveitamento do capital de experiência de peregrinos que já fizeram muitas peregrinações e acolher a inócua sugestão para usar pensos higiénicos de tamanho grande dentro das sapatilhas 22 ou pode-se aproximar de algo que poderíamos chamar doping. 22 Esta opção garantiu algum conforto ao próprio investigador. calçadas umas por cima das outras. quer daquilo que está disposto a fazer. Contudo. O jovem português que veio de Inglaterra para caminhar a pé até Fátima. de forma breve. apenas andam com o guarda-chuva quando chove. uma crente 20 21 Cf. 23 ou mesmo injectáveis de substâncias também desconhecidas. que após se romperem eram sucessivamente substituídas por outras. Um crente propôs-se acrescentar dureza à já dura viagem de ir a pé a Fátima: prometeu ir descalço. para além de não transportarem o saco com as suas pertenças. 23 Um elemento do meu grupo. três casos concretos em que emergem singulares estratégias individuais de redução do sofrimento. No dia seguinte as dores voltaram.9 essencialmente reservar com antecedência o lugar de pernoita. A diversidade das estratégias para reduzir o sofrimento varia em função quer das condições que cada um tem ao dispôr.

Marcel. da forma menos penosa possível. Jill. deste modo. EADE. mas que “anda ao seu ritmo” para. Michel. 1987. A. mas que só anulada no encontro com a Senhora de Fátima. Gender. In a Different Place . Barcelona: Editorial Herder.Pilgrimage. sobrepõem-se os interesses do peregrino que parte em grupo. MAUSS. Portanto. MESLIN. P. “Introduction” EADE.     CONCLUSÃO   O peregrino. “Geography of pilgrimage in Poland” in The National Geographic Journal of India. à frágil e pontual communitas. p. 1987. No Domingo seguinte. Lisboa: Edições 70. JACKOWSKI. chegar a Fátima. Princeton: University Press. Todavia. dorme em grupo.. Ensaio sobre a Dádiva.10 prometeu ir a pé de Vila Nova de Gaia até Fátima. pp. de filiação católica. Em cada Domingo. a peregrina fazia cerca de 20 quilómetros. Contesting the Sacred: The Anthropology of Christian Pilgrimage. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . “Votum”. 1988 [1950]. Quando o promitente se metamorfoseia em peregrino transporta consigo não apenas o cansaço mas também o ónus de uma dívida que cada passo irá fazer diminuir. não caminha como penitência para se libertar de pecados cometidos. Michael J. Arnold Van. 1995.). Michael J. London: Routledge.. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS   DUBISCH. GENNEP. (dir. partia do sítio onde tinha parado anteriormente e percorria mais 20 quilómetros até. POUPARD. não caminha para Deus. Diccionario de las Religiones.). and Politics at a Greek Island Shrine. 1991. Os Ritos de Passagem. 1-29. 1978 [1908]. 1829. sendo depois transportada de carro pelo marido de volta até casa. John e SALNOW. pagar a sua contra-dádiva: chegar a Fátima. come em grupo. pp. (ed. nº 33. Petrópolis: Editora Vozes. o cumprimento desta promessa foi feito em prestações. 422-429. John e SALNOW.

). Salvatore (dir. “Doenças. pp.estrutura e anti-estrutura. Petrópolis: Editora Vozes. 1978. pp. 191-230. SANCHIS.). Pierre.as romarias portuguesas. promessas e peregrinações: as promessas de peregrinação a pé a Fátima”. Dicionário de Mariologia.. Porto. 12. Vol. Sacred Journeys . O Processo Ritual . Stefano e MEO. TURNER. Image and Pilgrimage in Christian Culture Anthropological Perspectives. 1973. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Pedro. PEREIRA. Lisboa: Dom Quixote. “Peregrinações”. Alan. 2003-b. Oxford: Basil Blackwell. 2003-a. Lisboa: Piaget. Pedro. TURNER. London: Greenwood Press. MORINIS. Victor. 1-28. Arraial: Festa de um Povo . 1974.11 MORINIS. Victor. “Introduction: The Territory of the Anthropology of Pilgrimage”. 43 (fascs. 1031-1052. 1995.The Anthropology of Pilgrimage. Alan (ed. 1992. 2003. pp. São Paulo: Paulus. 1992-a. PEREIRA. Victor e TURNER. “The center out there: Pilgrim’s goal”. DE FIORES. S. Trabalhos de Antropologia e Etnologia. Peregrinos – Um estudo antropológico das peregrinações a pé a Fátima. History of Religions. 3-4). ROSSO. TURNER. Edith.

Não obstante. corpo. Respostas alojadas numa abordagem reabilitacional. os movimentos normalizantes da medicina não cessaram de informar. deficiência. deparei-me com dimensões da experiência humana onde a centralidade das emoções. Num primeiro momento. experiência incorporada. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . constrangendo. desde então.com Com propósito central de compreender a complexa relação entre as representações culturais da cegueira e as vidas daqueles que a conhecem na carne.. Palavras chave: cegueira. a cegueira ficou objectificada como uma exterioridade da norma biomédica: um topos de desvio corporal onde o horizonte de restituição da normalidade está habitualmente ausente. enquanto referente. Tentando inquirir o lugar díspar que o sofrimento ocupa. do corpo e da imaginação se foi gradualmente insinuando. importa denotar como as pessoas cegas estão sujeitas a fortíssimas condições de opressão social e estigmatização cultural. ostensivamente negligente ao imperativo de transformações sociais mais amplas. nas histórias de vida das pessoas cegas e nos valores dominantes acerca da cegueira. Estamos perante uma moldura de inteligibilidade social que muito deve ao modo como a modernidade reinventou a exclusão das pessoas cegas através do idioma da biomedicina. centrada no indivíduo. 1999: 60): “o efeito da medicalização dos problemas sociais é a sua despolitização” (minha tradução). no achado parentesco com outras condições físicas e mentais.A Cegueira como Transgressão: dos corpos marcados aos corpos que marcam Bruno Sena Martins Faculdade de Economia. a reflexão de Colin Barnes (et al. pretendo aqui convocar algumas questões teóricas que se erigiram particularmente significativas à medida que fui sendo confrontado com os limites postos às formas convencionais de apreender a experiência nas ciências sociais. as respostas sociais que se vieram a dirigir às pessoas identificadas com a deficiência. Partindo do meu itinerário etnográfico. respostas que vêm corroborando vivamente. há anos que venho realizando investigação em Portugal sobre questões relacionadas com o tema da deficiência. numa espécie de fracasso coreografado. Sob o conceito de deficiência. Universidade de Coimbra bsenamartins@gmail.

etc. Este mesmo estado de coisas começou a ser denunciado no início dos anos (19)70 quando os movimentos de pessoas com deficiência. o sacro caminho para a integração social ― à luz dessoutra abordagem reabilitacional ― ganhou a consistência de uma miragem para a esmagadora maioria das pessoas com deficiência. Isto é tão mais problemático e perturbante quando sabemos que se conferidas as condições adequadas. critérios excludentes para a educação superior e para o emprego. A própria emergência histórica do conceito de deficiência. ausência. O facto é que até este dia as pessoas com deficiência encontram na maioria das sociedades um quadro em que a desigualdade de oportunidades caminha de par em par com forte discriminação institucional e vigorosa estigmatização cultural. produtora de um estreitamento das vozes avalizadas e das práticas sociais pensáveis. marcada por exclusões e silenciamentos. insuficiência ou inadequação do apoio no sistema regular de educação. pois. as nossas sociedades estão estruturadas para a integração social daqueles que Erving Goffman chamou de “heróis de adaptação” (Goffman 1990:37). pude partir de uma condição que sintetiza de modo flagrante os valores incapacitantes com que a sociedade hegemonicamente se dirige para a experiência daqueles a que aprendemos a chamar deficientes. Estamos. No que à deficiência diz respeito. Nas representações ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Ao centrar-me na cegueira. Entendo que o elemento mais resistente na marginalização das pessoas com deficiência reside no modo como este processo social de exclusão se articula com o fatalismo dos valores culturais dominantes que encarceram a experiência das pessoas com deficiência nas ideia de tragédia e incapacidade. surge como óbvio produto de uma moderna “razão metonímica” (Santos. obstáculos no acesso aos transportes. inspirados pela agitação social do final da década anterior. apenas uma reduzida percentagem de pessoas com deficiência ficaria impedida de participar na vida económica e social. instiga de sobremaneira a uma “epistemologia das ausências”. barreiras arquitectónicas e comunicacionais. denunciaram um sistema discriminatório tenazmente vigiado por: valores e atitudes subalternizantes. a “experiência de deficiência” que elegi para recolher histórias de vida e para acompanhar vivências quotidianas e associativas. perante uma “lógica de classificação” que tem operada como fiel pajem de uma “monocultura da naturalização das diferenças” (ibidem). 2002).2 Consequentemente. A situação social das pessoas com deficiência.

Charlie. Como o pude atestar nalgumas experiências de cegueira subitamente infligida. reiteram uma “narrativa da tragédia pessoal” enquanto gramática sócio-cultural na apreensão da experiência da deficiência. clamando a certa altura: ― Vá para a frente com a sua vida! ― Ao que Frank responde: ― Que vida?! Eu não tenho vida! Eu estou aqui na escuridão! Será que não percebes. Neste romance. por exemplo. Construções que. Estes mesmos valores estão presentes no “Ensaio sobre a Cegueira”. O diálogo central do filme ocorre quando Frank Slade é surpreendido preparando o seu suicídio. largamente reflecte os termos pelos quais esta condição é socialmente entendida: uma desgraça que assola o valor da própria vida. Na verdade. conceito central que mobilizo para explorar como as vidas e aspirações das pessoas com deficiência continuamente debatem com préconcepções fatalistas acerca da desgraça e do infortúnio. a ignorância e a alienação. o rapaz que o acompanhou numa viagem a Boston. Podemos evocar. onde as narrativas e reflexões das pessoas cegas se encontram subsumidas pelas construções dominantes. um militar que ficou na reserva na sequência pelo rebentamento acidental de uma granada que o deixou cego. Uma tal conceptualização da cegueira está bem presente nos nossos artefactos culturais. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . numa tão sonante aparição mediática da cegueira. Recolho de Michael Oliver (1990) a “narrativa da tragédia pessoal”. a resposta gritada por Al Pacino pode obviamente expressar o sofrimento e dissolução sentidos por alguém que cegou recentemente num acidente. grosso modo. de José Saramago. desgraça e incapacidade. procura detê-lo. eu estou na escuridão! (minha tradução. viver num mundo onde se tenha acabado a esperança" (Saramago 1995: 204). a súbita cegueira de toda uma população emerge como uma riquíssima metáfora para simbolizar a desgraça humana.3 culturais hegemónicas da cegueira esta condição está fortemente está fortemente cingida pelos conceitos de tragédia. o filme “Scent of a woman” . trocadas que foram pela imensidão de significados e ecos simbólicos que a história ocidental ligou à experiência de quem não vê. É esta mesma substituição que acontece na vida social. no “Ensaio sobre a Cegueira” as experiências das pessoas cegas estão ironicamente ausentes. Mas o que eu pretendo enfatizar é o modo como esta enunciação. minha ênfase). onde Al Pacino desempenha o papel de Frank Slade. Significados que estão brilhantemente resumidos na voz de uma das personagens de Saramago: “a cegueira também é isto.

Assim entendida.4 Em cintilante contraste com os valores dominantes. não totalmente apreensível na sua relação com elementos sociais. informada pelas vozes das pessoas com deficiência. leituras positivas da cegueira. quero argumentar um tal enfoque nos poderá levar a desconsiderar outras dimensões da experiência. que amplamente fracassamos em apreender pelo crivo das construções culturais e das condições de opressão social. potencialidades. como referentes capitais. De facto. eminentemente fenomenológicas. Refiro-me a experiências de sofrimento e privação mais directamente associadas ao facto corporal da cegueira. o corpo vivido e as emoções adquirem estatuto nobre ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . experiências de sofrimento. a apreensão das vidas e pensares das pessoas com deficiência marcadamente instrui no apagamento dos fatalismos trágicos. A esta dimensão do sofrimento pessoal. A angústia da transgressão corporal refere-se à vulnerabilidade na existência dada por um corpo que nos falha. este texto prenha da preocupação de que a desmobilização da “razão metonímica” (Santos 2002) tenha em conta outras densidades da experiência que poderiam ficar de fora de um pensamento contra-hegemónico. neste texto. sofrimento e ansiedade existencial onde. eminentemente corporal. vontade de viver. Uma perspectiva crítica nas nossas sociedades. contra sedimentada negligência. confronta-nos com preciosas elaborações sócio-políticas capazes de reverter a pesada marginalização de que as pessoas com deficiência vêm sendo alvo. desafiar o modo como a razão metonímica se abateu sobre as pessoas com deficiência é também atentar em “racionalidades” embutidas nos corpos. que transgride as nossas referências na existência. desde cedo emergiram evidentes. nos sofrimentos ontológicos e na imaginação sensorial. as nossas referências no modo de ser/estar-no-mundo. a assentar numa oposicionalidade estreita. que. corre o risco de reproduzir o cânone da razão moderna: o velho espectro da reprodução noutros termos do que se procura superar. Por isso. Se. tanto como do reconhecimento dos valores fatalistas que se abatem sobre as pessoas com deficiência. No entanto. a angústia da transgressão corporal concita-nos a reconhecer dimensões de dor. como mostrámos. e resistência para superar os muitos obstáculos postos à realização pessoal. na investigação que venho realizando entre as pessoas cegas. as suas capacidades. eu chamo angústia da transgressão corporal. os mais relevantes dados sociológicos derivam da identificação de perspectivas positivas e capacitantes sobre a cegueira. ou seja.

do idealismo passível de ser sugerido por uma abordagem que procura explorar a cegueira e as suas implicações como correlato de condições sócio-históricas.5 nas reflexões antropológicas e sociológicas Na investigação que desenvolvi entre as pessoas cegas a centralidade da angústia da transgressão corporal emergiu de ― e permitiu apreender ― duas densidades fenomenológicas diferentes. É através dos nossos corpos que ganhamos acesso ao mundo e aos outros. essa sensibilidade analítica recolhe da experiência de pessoas que confrontam. onde a noção de tragédia amiúde encontra guarida. Tal apologia constitui uma sensibilidade analítica recentemente surgida nas ciências sociais. Mas esta evasão ao idealismo não de oferece a uma reinstauração da narrativa da ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . a angústia da transgressão corporal enceta diálogo com as ansiedades existenciais e corporais fundadas no modo como a cegueira é adivinhada na perspectiva de “corpos que vêem”. pois. Obrigo-me. Em primeiro lugar. conforme ficou patente em muitas histórias de vida e no encontro com algumas experiências. minha tradução). Explorar o carácter incorporado da experiência implica respigar as consequências deste singelo facto: os nossos corpos ― pois de um vos escrevo ― não são apenas objectificados com significados culturais. Assim investidos. pela importância que a visão detém para quem dela pode fazer uso a sua perda ser recebida como uma cataclismo onde o significado da cegueira e o significado da vida não raro dançam juntos. quando ele enuncia: “acreditar que as questões da representação são as únicas legítimas ou cientificamente interessantes é adoptar uma posição de idealismo em relação ao corpo” (1992: 41. Procurando seguir estas questões achei-me na esteira apologética da experiência incorporada enquanto relevante dimensão da experiência. de visão. Em segundo lugar. nada disto pode ser desmobilizado como mera representação. a dar eco a Bryan Turner. mas são também condição da nossa existência no mundo e na cultura. gradual ou súbita. prazer. tradicionalmente pouco à vontade com tais campos da experiência humana. uma perda. desde logo. retornamos à angústia da transgressão corporal. De facto. Na primeira dimensão que acima enunciei somos convocados a reconhecer as experiências de sofrimento que podem estar fenomenologicamente associadas à cegueira. Esta abordagem distancia-se. nalgum momento das suas vidas. como Judith Butler (1993: xi) afirma. e. ou confrontaram. sofrem doença e violência. Os corpos sentem dor.

a possibilidade de antecipar a cegueira e a mansidão da sua chegada assomam nele como factores que fazem com que um tal evento não se assuma como algo de trágico. não há um constrangimento em relação aos modos de realizar. directa ou indirectamente. Um encontro dos diferentes tempos de uma vida em que profecias e memórias se cruzam. longe disso. É como um lento entardecer de Verão. tomou lugar o diálogo mágico de um Borges septuagenário com o seu jovem predecessor. portanto. Apesar de Borges ter visto durante grande parte da sua vida. numa primeira instância. sei de milhares de pessoas que vêm e que não são particularmente felizes. Verás a cor amarela e sombra e luzes. e onde a cegueira é tranquilamente revelada pela voz do ancião: “Quando atingires a minha idade terás perdido quase por completo a vista. não há um mundo empobrecido naquilo que nele se pode apreender. Em segundo lugar. Não há. através de um lento anoitecer de muitos anos. justas ou sábias” (Borges 1998a: 394). Evoco aqui a pena de Jorge Luis Borges pelo que a sua experiência tem de congruente com muitas histórias de que me tornei próximo. junto ao rio. Numa curiosa fábula. como acontece com algumas patologias degenerativas. à cegueira que lhe sobreveio lentamente até lhe roubar a visão aos 55 anos. a experiência de uma ruptura fenomenológica. como o autor reitera noutro lugar: ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . um lapso que é actualizado quotidianamente na comparação com os outros. em muitas histórias de vida com que tomei contacto. A cegueira gradual não é coisa trágica. Uma inevitabilidade que soube aceitar e que já havia visitado o seu pai e a sua avó: “Pedir que não me anoiteçam os meus olhos seria uma loucura. os sofrimentos mais directamente associados à dimensão física da cegueira estão ausentes. e na percepção das facilidades que a visão permite na apreensão de elementos da realidade e na execução de algumas tarefas. Jorge Luís Borges evoca o encontro sonhado de si consigo mesmo. nem a submissão a uma imperativa metamorfose no modus vivendi. nem tão pouco um confronto com as coisas que se tornaram impossíveis de fazer.” (Borges 1998b: 14). porque na vida de pessoas que nascerem cegas não existe uma experiência de perda. É óbvio que as pessoas que já nasceram cegas têm uma noção do lapso que as separa de quem vê. a experiência de ruptura fenomenológica inexiste igualmente em muitas biografias em que a cegueira surge. Assim é. O escritor alude em vários momentos da sua obra. Na verdade.6 tragédia pessoal. Não te preocupes. aí se conta como no banco de um jardim.

É dramático o caso dos que perdem bruscamente a vista: trata-se de uma fulminação. de um eclipse. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Portanto. e como bem sugere a reflexão de Borges. mas no meu esse lento crepúsculo começou (essa lenta perda de vista) quando comecei a ver. Prolongou-se desde 1899 sem momentos dramáticos. Nessa ironia o que assoma como trágico é alguém ter que viver refém de valores que ousou superar. é nessas histórias fortemente marcadas por dolorosos períodos de luto apostos à experiência da cegueira.7 O meu caso não é especialmente dramático. 1998c: 289). Portanto. nesse sentido. No entanto. De facto. sofrem e lidam com experiências de radical ruptura na sua relação sensorial com o mundo. Não sendo possível abraçar generalizações que aplanem o modo particular como os eventos são acolhidos pelos sujeitos. a assunção de um conjunto de experiências descritas pela ideia de angústia da transgressão corporal pretende conferir espaço de enunciação a determinadas dimensões do sofrimento pessoal dos sujeitos. O que resulta irónico é perceber como o encontrado alento para viver em novos termos frequentemente se tem de confrontar com os valores fatalistas que visitam a experiência social das pessoas cegas. a alusão a cegueiras congénitas ou lentamente adquiridas mais não pretende do que negar uma qualquer omnipresença biográfica da angústia da transgressão corporal nas vidas da cegueira. e dada a prevalência dos questionamentos políticos e sociais que o tema da deficiência justamente nos instiga. ao explorar a transgressão implicada por um corpo que “falha” e “rouba” referências no modo de ser no mundo. corporais e sociais. É fundamentalmente nessas histórias que encontramos fortes experiências de angústia que largamente escapam a uma perspectiva informada pelas condições de opressão social. O que este cuidado analítico de facto nos concede é a densidade de experiências que são a um tempo emocionais. estamos longe de sancionar a naturalização hegemónica da incapacidade e do infortúnio. que também nos tornamos familiares com a capacidade dos sujeitos para a reconstrução pessoal: histórias órficas que nos são contadas por pessoas que relatam como morreram e voltaram a nascer. rápida ou inesperada. Na investigação que venho realizando essa ponderação tem permitido apreender e valorizar o modo como os indivíduos suportam. um lento crepúsculo que durou mais de meio século (Borges. a angústia da transgressão corporal emerge essencialmente nas narrativas de perda de visão súbita.

Mas. à sistemática marginalização das vozes das pessoas com deficiência. É nessa persuasão que defendo que os valores hegemónicos associados à cegueira devem aos valores culturais e legados históricos. de que a cegueira. que vale para mais triviais experiências. pretende-se que o reconhecimento das condições de opressão social na vida das pessoas cegas. mas também às ansiedades existenciais. Alego. que a tragédia associada à cegueira trafica com o modo como as pessoas usam os seus corpos para ensaiar a cegueira. Este poderoso postulado. enquanto evidência sociológica mais cintilante. quero enfatizar como a centralidade dada à angústia da transgressão corporal nos permite compreender algo dos valores dominantes associados à cegueira. na adolescência. sem dúvida alguma uma terrível desgraça. nesses casos a mais ilustrativa enunciação ― esmagadoramente veiculada como lugar de um país que se fez distante ― fala da morte que um dia se desejou.8 Nesse sentido. a exploração de determinadas experiências através da angústia da transgressão corporal visa contornar o perigo atrás identificado. não retire espaço de enunciação às experiências subjectivas de sofrimento corporal. Como conceito mais vasto. o mesmo é dizer.) ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . experiências de perda de referentes fenomenológicos onde se torna dramaticamente expresso como a existência carece das fundações dadas pelos corpos. (. As conclusões advindas de uma tal relação empática são instrutivamente tocadas por José Saramago (1995:15) referindo-se a uma das personagens do Ensaio Sobre a Cegueira: Como toda a gente provavelmente o fez.. pois. e chegara à conclusão. que algumas condições tendem a incitar. ao cabo de cinco minutos com os olhos fechados. corporeamente informadas. jogara algumas vezes consigo mesmo. ao jogo do E se eu fosse cego. Na pesquisa entre as pessoas cegas isto tornou-se sobretudo manifesto nas narrativas de cegueira subitamente infligida. ganha acrescida saliência à luz de itinerários marcados por experiências limite.. Assim a angústia da transgressão acolhe experiências subjectivas de perda e vulnerabilidade corpórea tanto como sustenta que as nossas referências ontológicas são construídas ― e portanto podem ser perdidas ― através dos nossos corpos. numa perspectiva diferente. a angústia da transgressão corporal curva-se à centralidade que experiências corporais detêm no significado da existência e na construção dos referentes pelos quais o mundo adquire sentido.

manifesta naquele sonho. sabiamente sustentada pelos autores. isto é. pois.9 É esta forma de “ser no outro”. e é a nossa imaginação. do quão terrível a ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . 1994). de que pensamos embutidos na carne. apesar de singela. não a sua recusa (Lakoff e Mark Johnson 1999: 93. e como George Lakoff e Mark Johnson (1999). a relevância dada à experiência incorporada e ao conhecimento incorporado. à medida que fui contactando mais e mais com pessoas cegas e com as suas experiências de vida. tem recebido acrescida importância. A asserção. conduznos precisamente ao reconhecimento das projecções imaginativas corpóreas como uma via para a produção de sentido acerca de outras posições estruturais. o produto das ansiedades com que ela é empaticamente percebida. nós nunca estamos separados ou divorciados da realidade numa primeira instância. Eu estava num campo de férias a trabalhar como voluntário junto da Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal (ACAPO) quando. que resgatam a importância do corpo e das emoções para o campo das ciências cognitivas: Como criaturas imaginativas incorpóreas. que labora para que as concepções hegemónicas da cegueira sejam. Acordei como uma intensa sensação de angústia. por via de projecções imaginativas em que o próprio corpo é feito um “tubo de ensaio” da cegueira. Esta experiência. assim cabe referir autores como Thomas Csordas (1990. conceder relevância a esse experimentalismo sensorial que a cegueira evoca nos corpos cuja construção do mundo ─ cosmovisão ou mundividência ─ é eminentemente visual. durante a primeira noite. despertei de madrugada perturbado por um terrível pesadelo. Desde então. gradualmente passei por um apagamento dessa pré-concepção. não deixa de ser ilustrativa da minha iniciática resposta ansiosa perante o espectro da cegueira. que trouxe para a Antropologia a herança fenomenológica de Maurice Merleau-Ponrty. e sensação de alívio: sonhei que tinha ficado cego. De mencionar trabalhos recentes em que estas abordagens têm conhecido solidificação teórica. e que damos carne aos conceitos através de metáforas e da imaginação. nalguma medida. Tento. minha tradução). Apesar de uma funda negligência histórica nas ciências sociais. como via para as relações empáticas com outros corpos Quando principiei o trabalho de campo entre as pessoas cegas tomou lugar um interessante evento. O que sempre permitiu a ciência é a nossa a incorporação e não a sua transcendência.

Não obstante. vim gradualmente a compreender a importância crucial ocupada pelas ansiedades pessoais na consagração da teoria da tragédia pessoal como a narrativa cultural dominante acerca da cegueira.. Vivencialmente é uma forma de “transcendência”. a projecção imaginária da cegueira através de um corpo que “vive visualmente” vai forjar algo das ideias de prisão sensorial e incapacidade. O papel desempenhado pelas imaginações ansiosas da cegueira foi-se insinuando ao longo do trabalho empírico: nas histórias que me foram sendo contadas pelas pessoas cegas e na observação das interacções sociais. Não há nada de místico nela. Desde o nascimento nós temos a capacidade para imitar os outros. Defendo que a relevância que a angústia da transgressão corporal assume nas representações da cegueira não é separável da sua congruência com um contexto onde as heranças simbólicas não poderiam ser menos favoráveis e onde as vozes das pessoas com deficiência se encontram silenciadas. Através dela podemos experienciar algo próximo a “sair dos nossos corpos” ─ no entanto. minha tradução. De facto. no sentido inverso. Deste modo. é uma capacidade eminentemente corporal. Como consequência. ao falar com pessoas sobre o tema da minha pesquisa frequentemente a cegueira suscitava reflexões em termos que reiteradamente expressavam relacionamentos pessoais com o espectro dessa ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . A capacidade para a projecção imaginativa é uma faculdade cognitiva vital. Alegar a relevância da angústia da transgressão corporal é sustentar as possibilidades criativas para o significado que resultam da imaginação empática de uma dissolução sensorial e fenomenológica. na construção do mundo envolvente. para intensamente imaginarmos ser outra pessoa.10 cegueira deveria ser. De igual modo.. apesar do centrismo visual em que vivemos ter um fortíssimo viés sóciohistórico. a angústia da transgressão corporal não é apenas algo vivenciado por alguém que fica cego. nós usamos constantemente as projecções imaginativas para aceder às experiências do outro: Uma função central da mente incorporada é a empática. Ainda assim esta mais comum das experiências é uma forma de transcendência. a visão tende a ser um sentido crucial para quem dele pode fazer uso: na realização de actividades. De facto. experienciando o que essa pessoa experiencia. uma forma de estar no outro (1999: 565. ênfase no original). essa transgressão é também conhecida por projecções corpóreas empáticas através das quais a cegueira é “trazida para casa”. fazendo o que essa pessoa faz. como nos dizem Lakoff e Johnson.

Paul Brodwin. GOFFMAN. Exploring Disability: a Sociological Introduction. não sendo raras frases como: “não sei conseguem”. Lisboa. O Livro da Areia . fracassa em conceber o mundo sem perda de alguém que nasceu cego. Geof e Shakespeare. Bodies That Matter: On the Discursive Limits of Sex. Byron Good e Arthur Kleinman (orgs. “acho que preferia matarme”. fracassa em apreender a adaptação permitida por uma cegueira que caminha gradualmente ao longo dos anos. University Press. Teorema. BUTLER. e. 1999. Nova Iorque. Arthur. mas fracassa em perceber como a vida de alguém se pode vagarosamente reconstruir em novos termos sem a visão. Erving.Cambridge. BORGES. etc. e Mercer. 1990 (1963). Cambridge. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Judith. 1998b. Penguim Books. pois. CSORDAS. BORGES. Thomas.11 condição. 1994.Obras Completas de Jorge Luis Borges 1975-1985 vol. CSORDAS. Cambridge. BORGES. 1990. Jorge Luís. elas também são mobilizadas como via de acesso à realidade das pessoas com deficiência visual. A questão é que uma tal imaginação permite captar algo do eventual impacto de uma súbita perda de visão. O Elogio da Sombra . Teorema. 1998c. O que se produz é. “Embodiment as a Paradigm for Anthropology”.). Londres. Pain as Human Experience: An Anthropological Perspective. Berkeley. III. Estas imaginações projectivas não apenas produzem ansiedades pessoais acerca da cegueira. Teorema. 1993. III. 1992. University of California Press. finalmente. Stigma: Notes on the Management of Spoiled Identity. 1998a. Ethos. Lisboa. em termos bem distantes das complexas experiências que as pessoas cegas vivem Referências Bibliográficas BARNES. 18 (1): 5-47. Embodiment and Experience: The Existential Ground of Culture and Self. KLEINMAN.). Tom. Routledge.Obras Completas de Jorge Luis Borges 1952-1972 vol II. A ruptura existencial que esta empatia sugere e exporta para os significados sociais toma parte na re-produção das representações culturais prevalecentes. Polity Press. Thomas (org. Jorge Luís.Obras Completas de Jorge Luis Borges 19751985 vol. Colin. Jorge Luís. uma identificação empática parcial e errónea. Lisboa. “Pain and Resistance: the Delegitimation and Relegitimation of Local Worlds” in Mary-Jo Good. Sete Noites .

TURNER. Boaventura de Sousa. Bryan. The Politics of Disablement. 1995. 1990. Philosophy in the Flesh: The Embodied Mind and its Challenge to Western Tthought. Lisboa. Londres. José.12 LAKOFF. Michael. 1992. 63: 237-280. Routledge. Regulating Bodies: Essays in Medical Sociology. The Macmillan Press. Basic Books. Círculo de Leitores. Mark. SARAMAGO. Houndmills. Nova Iorque. 1999. George e Johnson. SANTOS. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . “Para uma Sociologia das Ausências e uma Sociologia das Emergências”. 2002. OLIVER. Revista Crítica de Ciências Sociais. Ensaio Sobre a Cegueira.

interesse. Um dos mais recentes é o do Nordeste brasileiro. com a consolidação do Estado-Providência (Santos 1993) nos países europeus centrais (Boissevain 1996. Nesta vasta região. com destaque para o dinheiro. implicando a manipulação de recursos. Turistas e locais participam em complexos jogos de poder. o Estado do Rio Grande do Norte ocupa uma posição consolidada como ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Palavras-chave: género. Tentando escapar aos discursos vulgares. por outro. a mulher jovem local vista como vítima. Debié 1995. D’Epinay 1991) – mais tardia no caso português (Arroteia 1994) – e. por outro lado. o corpo. nas quais o turista é sistematicamente apresentado como o predador que apenas procura satisfação sexual e.pt Este texto analisa as interacções entre os turistas europeus e as garotas de programa na cidade de Natal (Brasil). o próprio desenvolvimento do capitalismo na procura e invenção de novos mercados e produtos (Ribeiro e Portela 2002). Introdução A expansão do turismo de massas. sexualidade. amor e interesse entre gringos e garotas em Natal (Brasil) Fernando Bessa Ribeiro e Octávio Sacramento Departamento de Economia e Sociologia Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro fbessa@utad. afectos. em boa medida impulsionado pela redução dos custos das viagens de avião intercontinentais proporcionada pelos avanços tecnológicos e organizativos no sector dos transportes aéreos (Urry 1990: 44-50). a performance sexual e as emoções. Tal interpela as imagens “a preto e branco”.pt riosacra@portugalmail. conduziram à incorporação sucessiva de novos destinos na geografia mundial das rotas turísticas. turismo 0. procura-se mostrar a densa teia de racionalidades que estruturam as práticas destes actores sociais. muito intensa a partir dos anos 60.A ilusão da conquista: Sexo. sem capacidade de autodeterminação sobre o seu corpo e a sua sexualidade.

mamã e filhos”.000. cabendo aqui um especial realce para a sua capital. Natal é a cidade com maior número de visitantes estrangeiros no Nordeste brasileiro. publicidade e consumismo que caracterizam as sociedades modernas (Baudrillard 1981). 1 Deste vasto fluxo turístico passaram a fazer parte indivíduos de classes e grupos sociais até então apenas marginalmente envolvidos. Considerando que na economia do turismo as commodities não possuem apenas valor de uso e de troca mas também um “valor-signo”. como os jovens e adultos pertencentes aos meios populares. muito em particular no sudeste asiático (Cohen 1982. com um aumento vertiginoso dos provenientes do estrangeiro (282. Leheny necessariamente de modo intencional. a cidade de Natal. muitos deles solteiros ou transitoriamente sem parceira/o sexual. a procura de sexo por parte dos turistas.84% superior a 2002). 92. os voos charters internacionais passaram de cinco em 2002 para 17 por semana em 2004. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . 1993. relacionado com a quantidade e a qualidade da experiência que oferecem. através da publicitação da 1 Dados disponibilizados pela Secretaria de Turismo do Estado do Rio Grande do Norte. motivadas por um conjunto de representações e expectativas ancoradas em imagens de erotismo e de acesso fácil à fruição sexual. Por outras palavras. Não sendo um fenómeno desconhecido noutras paragens. Singly 1993. impulsionado pelas entidades públicas ligadas à promoção turística no Brasil. as profundas alterações sociológicas no domínio da família experimentadas pelas sociedades europeias nas últimas décadas (Berry-Brazelton 1989.2% superior a 2002). não escapa a esta mercantilização. depois de Fortaleza e de Salvador. assente no “papá. Truong 1989. fazendo com que entre os turistas se assista a uma presença crescente daqueles que escapam ao padrão dito tradicional. que parece constituir uma motivação presente em numerosos europeus que visitam o nordeste brasileiro (Piscitelli 2004) e. cujas deslocações são. Hitchcock et al. de origem operária ou trabalhando em actividades mal remuneradas do comércio e dos serviços.700. Por outro lado. Com um crescimento verdadeiramente impressionante nos últimos cinco anos. contribuindo assim para que o número total de turistas atingisse os 1. De facto. em particular. pelo menos desde os anos 60. Tal é particularmente evidente nos turistas jovens do sexo masculino que afluem ao Nordeste brasileiro. elas são fortemente determinadas pelas imagens. Saraceno e Naldini 2003) têm vindo a repercutir-se significativamente na configuração da procura turística.2 um dos principais destinos turísticos.000 (24. amiúde.

suscitando a atenção dos media e das forças políticas do Estado. implicando a manipulação de recursos. incluindo os que se prendem com o sexo mercantil e o turismo. estabelecem com as garotas de programa. a compreensão cabal desta teia densa de relações sociais exige que se tomem em consideração outros aspectos. procuraremos reflectir sobre as relações sociais que os turistas. Se é certo que não deixa de estar marcada pelas relações de poder entre os de fora e os locais – que nos remete para a problemática das desigualdades. 2 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . como notam Silva e Blanchette (2005). com destaque para o dinheiro. Torna-se. o corpo. é um termo que no Brasil se aplica a qualquer estrangeiro. é usada nos discursos sociais para fazer referência a mulheres que se prostituem ou que são tidas como sexualmente promíscuas (Gaspar 1985). turistas e locais envolvem-se em complexos jogos de poder. Neste exercício é fundamental assumir-se que a sexualidade humana. Entre os turistas e as mulheres locais estabelece-se um intrincado jogo de relações sociais em torno da sexualidade. Hoje em dia trata-se de uma realidade social incontornável e de grande impacto em Natal. é nosso objectivo central interpretar a densa teia de motivações. Partindo de perspectivas sócioantropológicas e explorando os elementos etnográficos que recolhemos durante o trabalho de campo realizado no Verão de 2005 na cidade de Natal. apesar de estar associada. em determinados momentos. A designação garotas de programa.3 imagem da mulata com bunda generosa. incluindo aquelas que se fundam no género. que marcam os intercâmbios entre o Norte e o Sul –. Em concreto. 2 Tentando escapar aos discursos vulgares. enunciados nomeadamente pelos media e pelo senso comum. pertinente trabalhar sobre este interpelador campo social. quer do ponto de vista económico quer do ponto de vista do imaginário colectivo e das representações dos actores sociais locais e dos turistas que visitam a cidade. racionalidades e interacções que envolvem estes actores sociais. do género e das emoções que exige uma reflexão sociológica densa e um conhecimento empírico aprofundado. a performance sexual e as emoções. nas quais o turista é sistematicamente apresentado como o predador que Gringo. encontramos formas muito diversas de relacionamento sexual que se concretizam em diferentes contextos sociais. que nos ajudam a desconstruir as imagens monolíticas. portanto. se orienta para a procura doutras satisfações. à procriação. Longe de existir apenas um único modo de a fruir. por sua vez. conhecidos localmente como gringos. não tendo necessariamente uma conotação pejorativa.

mulheres ou transgéneros. situada no extremo sudoeste da cidade. com uma faixa de areia interrompendo a vegetação. que dão um ar americanizado à cidade. cultivando as suas terras férteis. Trata-se da discussão sobre os limites do direito de cada um dispor do seu próprio corpo. guarda-sóis e serviço de bar. melhor dito. nomeadamente identificando ristorantes. a praia é dominada pelo “morro do careca”. homens. com numerosas residências e propriedades adquiridas quer por europeus quer por natalenses que aí decidiram fixar residência. Vallentyne e Steiner. turismo sexual e sexo mercantil interpelam o princípio do chamado selfownership.4 apenas procura satisfação sexual e. pousadas. É aqui. esta articulação entre turistas e sexo mercantil compreende outros aspectos. situam-se precisamente por detrás da primeira linha de praia. os prédios que ficam na encosta da praia fazem lembrar alguns dos piores exercícios Em termos filosóficos. realizando obras de ampliação e de melhoramento das habitações. restaurantes e bares. a vila está hoje mergulhada num acelerado processo de gentrificação. a sexualidade e o dinheiro aparecem como elementos estruturantes. amplamente discutido pelos filósofos libertários (Van Parijs 1997. A presença italiana faz-se notar através dos inúmeros anúncios escritos na língua de Leonardo da Vinci. nos bares e nas discotecas que gringos e garotas constroem relações sociais nas quais o corpo. Constituindo hoje um espaço-chave na “cidade do prazer” (Lopes Júnior 2000). 3 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . em troca de remuneração mercantil. Em plena praia posicionam-se pequenos espaços de apoio aos veraneantes. Um lugar dionisíaco e economicamente dinâmico: a praia de Ponta Negra Um dos principais cenários turísticos de Natal e com maior presença de garotas de programa é a praia de Ponta Negra. 4 Ao longo dos cerca de dois quilómetros da estreita língua de areia que dá corpo à praia erguem-se hotéis. uma encosta belíssima debruçada sobre o mar. Mas não só. incluindo o da utilização para satisfação do prazer físico e emocional de outros. a mulher jovem local vista como vítima. 2000a e 2000b). Os prédios altos. 3 1. aparthotéis. desprovida de self-ownership sobre o seu corpo e a sua sexualidade. oferecendo esteiras. Embora muito diferente em termos paisagísticos e a uma escala mais reduzida. por outro lado. 4 Por detrás da praia localiza-se a pequena vila de Ponta Negra. pizzerias e outros negócios ligados ao turismo. nas esplanadas. como o tipo de envolvimento emocional e a questão do poder no contexto das relações de género. Com o turismo e a expansão da cidade. Durante séculos os seus habitantes viveram praticamente de costas voltadas para a praia. no calçadão.

fruta. incluindo aquelas ligadas ao sexo e ao consumo de estupefacientes. nesta economia do prazer todas as demais actividades. Todos os actores sociais envolvidos parecem saber com precisão o lugar ocupado nesta divisão social do trabalho do prazer. que encontravam neste espaço paradisíaco. com a ocupação de um litoral dunar muito sensível por um sem fim de hotéis e empreendimentos turísticos literalmente em cima do mar. construída nos anos 90 do século passado. primeiro Pirangi e Cotovelo. era nos anos 60 e 70 do século passado um point de “alternativos”: jovens das classes mais privilegiadas de Natal. quinquilharia. CD e DVD. em especial. um deles afirmou que “onde a civilização chega acaba com tudo”. entre outros exemplos. roupa. da praia como um lugar idílico. o desenvolvimento do turismo. Nesta praia tudo parece girar em torno do sexo mercantil. transportando-as de suas casas para a praia. as lojas de artesanato. ao início da noite. empurrou os alternativos para praias mais distantes. as condições suficientes para experiências sociais mal toleradas pela ordem político-moral dominante. Ponta Negra era qualificada como uma “praia de apelos sexuais” (Francisco 2004). os próprios agentes policiais. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . distante da cidade e com acesso precário. vivem das dinâmicas económicas geradas. directa ou indirectamente. numa zona de paisagem protegida. actualmente a praia mais cosmopolita do Rio Grande do Norte. os estupefacientes. sente-se o carácter predador do turismo. os taxistas a colaborar com as garotas. Relevando o seu sentimento de perda. muitos deles politicamente engajados nas lutas estudantis contra a ditadura militar. como o transporte de passageiros em táxis. De forma recorrente cooperam entre si para dinamizar os consumos por parte dos turistas. 6 Numa notícia saída no jornal “Tribuna do Norte”. Muitos destes “alternativos” falam hoje com saudade deste tempo em que a praia não estava bordejada pela urbanização avassaladora. 5 Esta praia. presença obrigatória em todos os catálogos e brochuras de promoção turística editados pelo governo estadual e pelo município local.5 urbanísticos do Algarve e da costa andaluza espanhola. É assim que temos. onde se acampava e se faziam fogueiras. encarregando-se também do seu transporte aos motéis e 5 Avançando pela estrada marginal. sempre repletas de trabalhadoras sexuais. 6 Quer dizer. ao ponto de os habitantes locais até já a terem (re)baptizado com o nome de Puta Negra. os bares e as discotecas da avenida marginal. fastfood). o comércio e serviços prestados pelas barracas do areal. pelas trocas sexuais de carácter mercantil. A expansão da cidade e. mais tarde Pipa. que liga a zona de Ponta Negra ao velho forte construído pelos portugueses no século XVI. a venda ambulante dos mais variados produtos (tabaco.

Estes são realizados quase sempre por iniciativa das jovens Um dos pratos mais populares é a paçoca: carne seca moída acompanhada de molho vinagrete e feijão. 7 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . cremes solares. aconselhando-os mesmo. num vai-e-vem aparentemente ininterrupto. os carrinhos de venda de CD e DVD fazem-se anunciar através de equipamento sonoro simples. servem bebidas e refeições. Nada falta para o conforto de um tempo bem passado. 8 Não sendo relevante para a presente discussão. Durante estas longas e fatigantes viagens tinham na “carne-sol” moída no pilão e misturada com farinha o seu principal alimento. Ainda que muito variável. na escolha da parceira. as políticas neoliberais empurraram milhões de brasileiros para o campo da economia informal. Incapazes de gerar emprego formal. Foi uma invenção dos mercadores sertanejos que viajavam desde o sertão nordestino para as cidades do litoral. amêndoa de caju. geralmente marcada por actividade sexual intensa e pelo consumo em grande quantidade de bebidas alcoólicas. todavia. ora aproveitando para estabelecer novos contactos. a mediação entre as garotas e os turistas pode envolver vários outros intervenientes. Além dos taxistas. como por exemplo o comerciante da barraca e algum dos seus empregados.6 hotéis para as “transacções” com os turistas.8 Durante o dia. muitos turistas aproveitam para recuperar da noite agitada. O uso social da praia varia consideravelmente do dia para a noite. os comerciantes informais podem conseguir por mês rendimentos entre dois a três salários mínimos (cerca de 750 a 1000 reais). camarão. Marcada pela auto-exclusão quase geral dos natalenses das classes sociais mais privilegiadas. por vezes. 7 os vendedores ambulantes percorrem a praia sem cessar. de conviver com as garotas de programa. vendendo de tudo um pouco: roupa. durante o período diurno a praia é frequentada não só pelos turistas em busca de sexo mas também por outros tipos. alguns com belas pinturas. única forma de garantir a sobrevivência e o acesso ao consumo mercantil. ora continuando a relação social já estabelecida. nomeadamente o “familiar” e o de proveniência interna. são transportados em carrinhos de mão apresentados de uma forma impecável. não deixando. com base na aplicação de um auto-rádio alimentado por uma pequena bateria e dois altifalantes de qualidade modesta parecendo quase sempre ligados na sua máxima potência. gelados. crepes. mormente para Recife. como as bebidas. Relevando o engenho dos seus proprietários e um certo sentido de negócio. Ao mesmo tempo disponibilizam a estes contactos de garotas anotados nos seus books – agendas ou pequenos cadernos de registo de contactos telefónicos –. Os produtos mais pesados. esta situação revela o papel social decisivo desempenhado actualmente pelas actividades informais no Brasil. bebidas. para aí venderem e comprarem mercadorias. Os barraqueiros alugam cadeiras e toldos. frutas. CD e DVD.

o areal esvazia-se em favor do calçadão e dos estabelecimentos de restauração e de diversão alinhados ao longo da avenida que bordeja a praia. Ceará. como Paraíba. Pará e Amazonas – os mais distantes. a diversão continua sobretudo na discoteca da avenida da praia de serviço nessa noite. não deixam de ir retirando alguns benefícios desta economia do prazer. do sorriso. para onde converge a grande maioria das garotas de programa e dos turistas de Ponta Negra. que “é raro pegar na discoteca alguma mulher que não seja de programa”. Para além destes actores sociais. Maranhão. onde também existe animação nocturna. ou talvez para um destino mais afastado. Depois de mais algumas cervejas. quer circulando em viatura automóvel. uns a pé. nomeadamente para a avenida que faz a ligação da praia ao centro da cidade. Daí segue-se para as barracas em frente das discotecas acima referidas. Se bem que exerçam um papel dissuasor da criminalidade. como um dos nossos informantes relevou. ao mesmo tempo que tentam obter das garotas de programa alguns serviços sexuais gratuitos. não raro com música ao vivo. marcam também presença agentes da Polícia Militar. Segundo o respectivo proprietário. estas discotecas funcionam em regime alternado. Pertencendo ao mesmo proprietário. A noite começa invariavelmente por algum bar ou restaurante. como é o caso dos visitantes cujos hotéis se localizam na própria avenida da praia ou nas artérias adjacentes. da solicitação de um cigarro.7 nativas. Assim que a noite se impõe. estas “[…] aproximações adquirem características de uma paquera […] remetendo a padrões tradicionais de cortejo”. aliás. a exposição para o turista e a interpelação que se segue é feita de forma mais ou menos subtil: através da postura corporal. Pernambuco – os mais próximos –. outros transportados por táxis que estacionam na avenida. do olhar. de nacionalidade italiana. caipirinhas ou outras bebidas alcoólicas. extorquindo aos turistas que se deslocam em carros alugados pequenas quantias monetárias em troca do perdão de multas relativas a infracções reais ou imaginárias por eles cometidas. em cada noite podem ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . montadas ao início da noite em pleno passeio mesmo em frente das duas discotecas da praia. Turistas e garotas vão chegando. preparados para as corridas em direcção aos motéis ou aos hotéis onde eles se alojam. algumas provenientes de outros Estados brasileiros. Como nota Piscitelli (2006). quer em posição fixa. Diga-se. Aos restaurantes e bares fixos juntam-se cerca de meia dúzia de barracas móveis. Por norma. em virtude do movimento não justificar outra solução.

Tratam-se de interacções definidas por um jogo de sedução no qual o discurso. normalmente viajando em grupo (3 a 6 elementos). Não há. nomeadamente em termos de duração do possível relacionamento.8 passar por lá cerca de 300 mulheres à procura de programas com gringos. funcionários públicos. quase sempre motivados pelas representações sociais dominantes sobre a sexualidade da “mulher 9 O’Connell-Davidson (1995: 53). Temos assim o predomínio de turistas de nacionalidade espanhola e italiana. preferências sexuais e recursos financeiros a mobilizar por parte do turista. referindo-se aos turistas ingleses que procuram sexo comercial na Tailândia. na sua maioria jovens adultos (entre os 30 e os 40 anos). quando se diz que os turistas que vêm à procura de sexo são indivíduos sexualmente perturbados. idades. perfis de masculinidade e estrato social. entre outros aspectos. profissões. sobretudo. sexo e romance: os gringos Os turistas que frequentam a praia de Ponta Negra à procura de aventuras sexuais evidenciam uma considerável diversidade no que diz respeito aos seus países de origem. os gestos e o uso do corpo desempenham funções importantes. um turista típico no quadro do chamado turismo sexual. Ainda que se encontrem as mais diversas posições de classe. aferindo as expectativas de ambos. existem determinados elementos caracterizadores que sobressaem. como por vezes se sugere. profissionais técnicos). 9 O seu comportamento deverá ser interpretado sobretudo por referência a condicionalismos de ordem sociológica. 2. de que resulta a combinação de numerosos consumos sexuais de carácter mercantil. motivações. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . portanto. É neste espaço que as interacções entre turistas e garotas atingem um nível elevado de erotismo e sedução. desejos e sexualidade. de um modo geral. Embora seja inadequado falar-se de um perfil-tipo de turista sexual. com destaque para esta. homens insatisfeitos com as relações de género nos seus contextos de origem. os actores envolvidos dão-se a conhecer. dos diversos segmentos das classes médias urbanas (empregados do comércio e dos serviços. São. Buscando aventura. Podendo prolongar-se por várias horas. adverte que não existe nada de verdadeiramente particular ou distintivo nos seus comportamentos. há uma certa preponderância dos indivíduos das classes populares (trabalhadores fabris) e.

mais conservadoras. A estes dois elementos junta-se um terceiro.9 brasileira”. num registo de certo modo paradoxal. por razões que certamente se prendem com aspectos relacionados com a afinidade cultural e. são muitos os que admitem preferir casar com uma mulher do seu país em detrimento de uma brasileira. que elas ligam muito à aparência e à capacidade económica do homem. que a dimensão afectiva não esteja presente. para os grupos de gringos que visitam Ponta Negra. mais altivas. seja por motivos económicos. dizem que as europeias são “mais frias. também constatada por Piscitelli (2006) entre os turistas que visitam Fortaleza. de status ou de apresentação do eu. Os turistas com quem falámos tendem a estabelecer uma diferenciação bastante vincada entre as mulheres brasileiras e as europeias. como veremos. A maior dificuldade de acesso às mulheres que os turistas gostariam de conquistar nos seus contextos de origem. com 31 anos. Considerando que não dão tanto valor à aparência do homem como na Europa. Alguns deles. ou seja. Em contraponto. a italiana é boa para casar”. classificam-nas como “mais simples”. mais snobes”. com os estereótipos da mulher brasileira como sexualmente libertina e promíscua. no sentido de estarem disponíveis para um relacionamento menos atado à fase do enamoramento em favor de uma interacção sexual mais imediata e intensa. em boa medida amplificadas pelos discursos mediáticos de impacto global e pelas narrativas dos amigos e conhecidos que se envolveram em experiências sexuais com brasileiras em viagens turísticas ao Brasil. e o relativo constrangimento em conviver com uma feminilidade ocidental que continua a colocar algumas limitações às preferências e valores predominantes da masculinidade são dois elementos centrais a considerar para compreender o fenómeno do turismo sexual (O’Connell-Davidson 1995: 52). a procura de recriação dos laços e das vivências masculinas que antecedem a rotina e as responsabilidades da vida adulta (Kruhse-Mountburton 1995). sublinhando. Deste modo. sobretudo os italianos. ainda que daqui não se possa afirmar. técnico administrativo no porto de Nápoles. solteiro. destacam também que as garotas de programa têm um grande interesse pelo dinheiro. especialmente válido para os turistas mais velhos. eventualmente. Apesar desta avaliação desfavorável à mulher europeia. Como dizia um italiano. relacionado com as expectativas de revivalismo de experiências de homossociabilidade da juventude. o turismo parece ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Referem-se às brasileiras como mulheres sexualmente “mais quentes e mais afectuosas”. “a brasileira é boa para transar.

uma expressão extrema da ruptura com a previsibilidade e os constrangimentos quotidianos que o turismo de massas ambiciona (MacCannell 1976. de ruptura face às restrições sociais da vida quotidiana (O’Grady 1981) e de (re)constituição de um espírito de communitas masculina (Turner 1974). ou seja. No entender de Bauer e McKercher (2003: xiv). A sua estadia em Ponta Negra é marcada pelas constantes saídas em grupo para os bares e discotecas à procura das mulheres locais e pelo consumo desregrado de álcool e. em virtude da distância que os separa dos seus contextos de origem. pela festa e transgressão (Bataille 1962) e pelos excessos dionisíacos (Benedict 1950). “o turismo sexual tem subjacente um potencial de rejuvenescimento […] o sentimento pessoal de conquista e poder que proporciona pode constituir uma compensação para um indivíduo que. os turistas que visitam Ponta Negra. Jafari 1987. que os turistas de Ponta Negra enveredam por um estilo de vida dionisíaco. de um modo geral. Desta forma. a deslocação temporária do turista da sua vida quotidiana. proposto por Cohen (1979) para designar os turistas que procuram. imaginação e aventura”.10 assumir-se como uma experiência de liminaridade. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Santana 1997. é incapaz de manifestar qualquer tipo de autoridade efectiva”. de estupefacientes. sexo e romance se encontram tão interligados”. Delgado 2004). Com efeito. como destaca Kruhse-MountBurton (1995: 197). amor. “a liminalidade. É precisamente num ambiente de anonimato. eventualmente. O turismo sexual constitui. parecem não manifestar qualquer tipo de preocupação ou constrangimento pelo facto de serem vistos na companhia de garotas de programa. assim. a diversão e o prazer como forma de ruptura com o quotidiano laboral. atenuou. caracterizado pela liberdade face às normas sociais quotidianas – situação social anti-estrutural –. decorrente de uma experiência de transição espacial e social. não raro. essencialmente. Como nota Franklin (2003: 255). ao dever e à obrigação […] e também a liberdade para a fantasia. sentir de novo o poder e o orgulho viril que a vida quotidiana. assim. Neste contexto de excessos tem lugar um estreitamento dos laços homossociais entre os membros do grupo. “viajar proporciona anonimato e evasão face ao controlo. na sua vida quotidiana. perante os quais se procura (re)afirmar os atributos de masculinidade (muito em particular os que dizem respeito à capacidade de conquista sexual) e. aventura e fantasia. explica porque é que turismo. o que nos permite incluí-los no tipo “hedonístico”.

tendem a referir-se ao fenómeno do turismo sexual como um contexto no qual os homens poriam de lado as emoções e dariam livre curso à sexualidade. Amiúde. envolvimento e conforto emocional. não resultam. associando-lhe uma imagem de pé rapado (sem capacidade económica) e de machista. pelo contrário. como também com vários outros aspectos que remetem para o domínio da afectividade. da sua competência de sedução. assumindo-se. de forma linear e acrítica. como veremos. que fodem bem. É precisamente tendo em conta este tipo de interesses que elas parecem não denotar grande preferência pelos portugueses. A valorização dos afectos e das emoções por parte de muitos turistas constitui um traço identitário não enquadrável naquelas que são as expectativas sociais dominantes do que é ser homem. parecem não nutrir grande simpatia pelo brasileiro. em muitos casos. assim. concretizar as suas fantasias sexuais e afirmar a sua virilidade. um derivado da ilusão que as garotas de programa criam como estratégia comercial subjacente à sua actividade. nem tampouco exclusivamente. elas preocupam-se não só com as questões mais directamente vinculadas à esfera da sexualidade. procurando. Dizem que os portugueses são “cafussú (querem comer [ter relações sexuais] de graça). Os turistas não olham todos. Isto porque muitos dos turistas não procuram apenas gratificação sexual mas também intimidade. mediáticos e do senso comum que. retomam nos períodos de férias seguintes. Impõe-se. portanto. de acordo com os interesses económicos daquelas. na maior parte dos casos. São. De igual modo. questionar alguns discursos teóricos. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . no essencial.11 As conquistas sexuais que os turistas tanto procuram exercitar. Só assim se compreende o facto de muitos deles desenvolverem relações de longa duração com uma única mulher que. para as garotas de programa como simples objectos de satisfação sexual. são eles próprios alvo de manipulação. Na construção desta ilusão. mas pagam mal”. consequentemente como uma manifestação “subordinada” de masculinidade (Connell 1995).

elas encenam uma realidade em função daquilo que julgam ser as expectativas dos gringos. Algo que foi também observado por Manita e Oliveira (2002) e Handman e Mossuz-Lavau (2005). Idêntica situação é constatada por Oliveira no seu estudo sobre a prostituição de rua na cidade do Porto (Portugal). Fazendo intimidades e aspirando a uma outra vida: as motivações e os projectos das garotas de programa Mais ou menos conscientes de que a uma grande parte dos turistas não interessa apenas o sexo pelo sexo. por norma. gringos e garotas. as garotas de programa constroem um simulacro (Baudrillard 1991) no qual se apresentam como completamente rendidas à capacidade de sedução e de conquista dos indivíduos que com elas interagem. o que nos permite Comportamento totalmente diferente têm as trabalhadoras sexuais que exercem a actividade na zona raiana de Portugal e Espanha. Muitos dos turistas julgam mesmo como genuínas as atitudes e emoções das garotas de programa. Não são. 10 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .12 3. As garotas de programa parecem ser especialmente entendidas nesta arte de sedução manipulatória. partilhada por ambos. O beijar na boca constitui um dos principais componentes do simulacro da sua rendição emocional. a que não é alheia a própria alteração da geografia internacional do turismo sexual. não tendo efectiva consciência de que elas estão apenas a desempenhar o seu “papel”. para a disseminação de uma imagem (racializada) da mulher sul-americana altamente valorizada no mercado erótico. como amplamente o demonstra Piscitelli (2005). contribuindo. manipulando assim as suas impressões e fazendo-lhes acreditar na genuinidade da cena. 10 Neste processo estratégico de criação de uma “ilusão de ‘normalidade’” (Piscitelli 2006). que deve ser entendido no contexto de uma representação do relacionamento como estando dentro da norma e do socialmente reconhecido como o namoro e o sexo monetariamente desinteressados. mas está a fazer sexo sozinho. A ilusão é-lhe presenteada a troco de dinheiro” (2004: 177). recusam beijar os seus clientes. como uma forma de demarcação da fronteira entre a esfera profissional e a pessoal (Ribeiro et al. erótica e sexual da mulher brasileira que emergem nos discursos dos turistas com quem falámos e em muitos outros que partilham as suas experiências no ciberespaço. portanto. levando-a mesmo a referir-se às trabalhadoras sexuais como “vendedoras de ilusões”: o cliente “[…] pensa que está a fazer amor com uma mulher. mas também romance e emoção.. de estranhar as inúmeras construções acerca da competência emocional. 2005). as quais.

como também (e sobretudo) uma ilusão de conquista. estabelecer um relacionamento amoroso com um ou outro turista que a ajudará economicamente e que. ao ponto de se poder considerar o matrimónio com um estrangeiro como a consequência última do exercício do sexo comercial. ir para a Europa. aquilo que começou por ser uma relação meramente prostitucional – prestação de serviços sexuais a troco de dinheiro – evolui para uma relação de um certo envolvimento afectivo. eventualmente. aos seus serviços sexuais. A este propósito. esta vertente mercantil não desaparece. No entanto. na Tailândia. mas sim uma grande ambiguidade. poderá até permitir-lhe a realização do sonho da maioria das jovens que fazem programas em Ponta Negra: casar com um gringo. ser bancada (sustentada) por ele e. Debatendo a articulação entre a prostituição orientada para turistas na Tailândia e o fenómeno dos casamentos transnacionais entre nativas e estrangeiros. tendo como contrapartida o seu trabalho em casa e o acesso. permitindo-lhe conquistar e fidelizar clientela e. sendo que a vertente mercantil associada à sexualidade começa gradualmente a tornar-se menos explícita. a que surge associada uma “[…] ilusão de ‘normalidade’ que possibilita aos visitantes não necessariamente se perceberem como clientes” (Piscitelli 2006). de competência viril e crê ser um autêntico Don Juan. não raro. destacando que não há uma fronteira nítida entre a prostituição e o casamento. No nordeste brasileiro é ainda bastante frequente o homem bancar a mulher.13 dizer que o turista não compra apenas serviços sexuais. um simulacro no qual ele parece sentir-se inebriado de poder. configurações que fazem lembrar as obrigações que sustentam o tradicional contrato matrimonial patriarcal. segundo o qual é obrigação do marido bancar a sua esposa. 11 Entra-se então aqui num contexto de “prostituição difusa”. mais tarde. assumindo. vivem como ‘reis’ ou playboys. O’Connell-Davidson (1995: 45) refere o seguinte: “[…] todos os turistas sexuais que entrevistei comentam o facto de que.” Esta é uma situação favorável à concretização dos interesses comerciais e/ou dos projectos de vida da garota de programa. geralmente. 11 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Cohen (2003: 66) mostra a frequente evolução e continuidade de uma relação comercial para uma relação matrimonial. ou melhor. Nestes casos de relacionamento amoroso. em princípio em regime de exclusividade.

Podendo esta existir (e normalmente está presente) em contextos turísticos. pobres e maioritariamente mestiças. esta ascensão social de mulheres jovens. 4. entendida aqui numa acepção restrita: a disponibilização do corpo em troca de remuneração material (designadamente monetária) e. 2003). e na esteira do que é referido por Oppermann (1998. para satisfação ou prazer sexual. suspendendo a actividade somente quando o recebe de visita em Natal. a compra de serviços sexuais a troco de dinheiro. No entanto. ao ponto de se auto-excluírem desse local. São benefícios extremamente significativos atendendo a que a generalidade delas provem das camadas sociais mais desfavorecidas. 14 Ao colocar em causa a “ordem natural das coisas”.14 Os benefícios que a garota de programa retira de uma situação em que é bancada pelo gringo podem incluir a mesada. É precisamente tendo em conta estes benefícios. bem como o facto de a maioria das garotas de programa ter um rendimento bastante considerável para a realidade brasileira. 14 Face a isto. o pagamento da renda de casa. entre outros. pelo lado da procura. continua a fazer programas. em regra e prioritariamente. Nas situações em que as garotas de programa são bancadas por um gringo não há uma mercantilização directa e imediata da sexualidade. ajudas pontuais à família dela ou aos filhos. a fruição da sexualidade em tempo de férias não tem de estar estritamente a ela associada. sem ele saber. começando já a destacar-se como um destino do chamado turismo sexual. 12 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . os ganhos mensais podem ser superiores a 4. poderá estar na origem do desconforto que as camadas sociais privilegiadas de Natal manifestam relativamente à prostituição em Ponta Negra. é forçoso sublinhar que o turismo sexual não se circunscreve necessariamente à prostituição. abrindo-lhes a porta para uma estilização da vida semelhante à fruída pelas classes mais privilegiadas. Considerações finais A praia de Ponta Negra faz parte das rotas turísticas globais.500 euros). presentes diversos. 12 a aquisição de móveis para a casa. 1999) e Cohen (1982. isto é. Enquanto espaço de Uma garota de programa que entrevistámos confidenciou-nos receber do seu namorado italiano uma quantia mensal na ordem dos três salários mínimos (cerca de 1000 reais. quantia equivalente a cerca de 300 euros) para abandonar a prostituição. 13 Com programas por noite raramente inferiores a 150 reais. não há de facto prostituição.000 reais (cerca de 1. 13 que parece pertinente admitir que o trabalho sexual lhes permite um relativo empowerment económico e social.

impõe-se considerar que uns e outras estabelecem relações sociais permeadas por complexos jogos de poder. à partida favorecendo os gringos. portanto. Ao invés do sugerido pelos discursos do senso comum e outros. não é possível qualificar os turistas como indivíduos sexualmente pervertidos. por si só. Se bem que as suas interacções sejam atravessadas por poderes assimétricos. Hart 1998). as garotas colocam em campo os seus atributos físicos e recursos eróticos. nomeadamente sexuais. a possibilidade de as mulheres locais deterem algum nível de autonomia. que lhes permite desafiar a desigualdade estrutural de género e os estereótipos dominantes que organizam a condição feminina. de contingências várias presentes nos contextos em que ocorrem as suas interacções. as jovens locais são muitas vezes capazes de inverter as posições. nomeadamente na esfera sexual. à semelhança do que acontece em muitos outros destinos. o poder não está estruturalmente atribuído ad eternum aos indivíduos em concreto. nem pode ser vista como o único factor determinante na configuração dos processos relacionais entre estes actores sociais. Em lugar das visões a “pretoe-branco”. através do uso eficiente dos seus recursos. à semelhança de Oppermann (1999). Admite-se. Como argumenta Foucault (1992). questionamo-nos sobre quem explora quem na relação turista-garota de programa e encaramos com sérias reservas os discursos mais comuns que tendem a apresentar as trabalhadoras sexuais como a parte exclusiva e sistematicamente explorada. uma capitalização automática de poder. mas depende. Deste modo. em boa medida. Heyl 1979. como tentámos mostrar através da mobilização dos elementos etnográficos recolhidos. incapazes de captar a densidade das relações sociais que envolvem turistas e garotas. não serão sempre os dominantes. nem aqueles que sempre “ganham”. vinculados a práticas de envolvimento sexual marcadas pela violência e o completo descomprometimento ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . aproveitando criativamente em seu próprio benefício as emoções e os desejos mais profundos dos seus parceiros vindos do outro lado do Atlântico.15 acolhimento deste tipo de turismo. não significa. a alegada supremacia económica dos turistas. Quer dizer. presente também noutros contextos de trabalho sexual (Barry 1979. nela se exprimem e articulam de modo muito próprio as motivações. Daqui decorre que os turistas. Enquanto que os turistas mobilizam sobretudo os seus recursos económicos. os interesses e os desejos dos turistas e das mulheres locais. em contraste com a debilidade económica da generalidade das mulheres locais com quem eles sexualmente se relacionam.

bem como nos interesses que lhes são subjacentes. La Famille en Crise. Lisboa. Relógio d’Água. Stock. 1962. s/d [1934]. Haworth Press. Como os discursos e as observações etnográficas registadas o testemunham. que se olhe para o turismo sexual como um continuum (Piscitelli 2006).16 afectivo. BERRY-BRAZELTON. através de um envolvimento mais duradoiro que pode incluir o casamento com o gringo e a emigração para o seu respectivo país. Padrões de Cultura. entre um pólo em que ele é coincidente com a prostituição e o pólo oposto em que o relacionamento sexual entre o turista e a garota de programa tem subjacente um maior envolvimento emocional e. Georges. não está monetariamente quantificado. BAUDRILLARD. Universidade de Aveiro. 1994. o relacionamento sexual pode ser atravessado por afectos de grande intensidade que. Kathleen. empenham-se em estabelecer com eles relações de namoro. Lisboa. nas quais a componente mercantil acaba por se esbater de forma significativa. T. Nova Iorque. 1979. desde logo. 1989. não raro. Guiadas pelo sonho da vida na Europa. BAUDRILLARD. BARRY. Walker. portanto. 1981. Edições 70. BAUER. Avon Books. Thomas e Bob McKercher (orgs. 2003. BATAILLE. Referências bibliográficas ARROTEIA. Nova Iorque. Jean. pelo menos de forma directa e imediata. algumas acabam por o conseguir. Lisboa. Aveiro. Já as garotas guiam-se por desejos e projectos que não se esgotam na simples obtenção de um rendimento monetário em troca da disponibilização de serviços sexuais. Sex and Tourism: Journeys of Romance. mais importante ainda. continuam para além do tempo rigorosamente fixado da permanência do turista na cidade. Jean. A Sociedade de Consumo. Este tipo de situações implica. Paris. Ruth. Jorge. uma considerável heterogeneidade nas relações que se estabelecem entre os gringos e as garotas. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . 1991. O Turismo em Portugal: Subsídios para o seu Conhecimento. aproveitando a receptividade de muitos turistas. Livros do Brasil. BENEDICT. New Jersey.. Assim. Death and Sensuality: A Study of Eroticism and the Taboo. Female Sexual Slavery. Love and Lust.). Existe. Simulacros e Simulação.

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entre prostitutas e gringos se relacionam com as novas formas de uso do espaço urbano. o diálogo entre diferentes formas de ocupação do espaço e novas representações. de “modernizar” o Estado do Ceará. financeiras e afectivas. tem sido as políticas de intervenções em áreas históricas. desperta nos utentes do bairro. por parte do governo estadual. pertença. Os conflitos decorrentes das trocas sexuais. tem início na década de 1990. Nos anos 2000. passou a ser associada ao turismo.Praia de Iracema como cenário de encontros de alcova Roselane Gomes Bezerra * Universidade Federal do Ceará A Praia de Iracema localizada na cidade de Fortaleza. nos últimos anos. povoa o imaginário dos fortalezenses como um bairro boémio. Após a requalificação do bairro no início dos anos 1990. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . descriminação e xenofobia. turismo. Para tanto foi implementada uma política de atração de investimentos para a indústria do turismo. tradicionais e implementando nestes espaços públicos e/ou privados diferentes representações. sentimentos relacionados a valores morais. Em Fortaleza. turismo sexual e prostituição. que há um interesse. Uma nova imagem-síntese se constituiu associando-a ao lugar de prostitutas e gringos. Momento. O uso social dos seus corpos. começou a ser difundido um discurso sobre o fim da Praia de Iracema. mediante incentivos fiscais. sentimento de pertença. a imagem de boémia. Palavras-chave: requalificação urbana. capital do Estado do Ceará. É notável nos estudos urbanos que a “requalificação” de áreas históricas e/ou degradadas da cidade vem acarretando em uma ruptura dos seus usos. iniciaram-se outras formas de uso originando conflitos. Ceará-Brasil. por meio de projetos de “requalificação” urbana e conseqüentes alterações nos usos do espaço. ou não usos. * Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal do Ceará/Brasil. estabelecendo a cidade de Fortaleza como um pólo turístico. um tema de grande relevância nas pesquisas sociológicas e antropológicas. No Brasil.

por meio dos seus discursos e práticas. Foi notável. Chegaremos aos dias de hoje percebendo como e porque a Praia de Iracema se tornara um cenário para encontros de alcova. Veremos que. sentimento de pertença e afetividade desse espaço da cidade de Fortaleza. imagens e discursos dos utilizadores do bairro em diferentes momentos de sua história. associando-a ao lugar de prostitutas e gringos. uma disputa administrativa entre os governos estadual e municipal com interesse em atrair a atenção de moradores da cidade e de turistas para este bairro que se tornara a “vitrine” de suas políticas administrativas. na década de 1990. as representações sobre Iracema resultam das práticas. contribuindo para a expulsão e permuta de antigos moradores e freqüentadores. quando a imagem de boêmia passou a ser associada ao turismo.2 As políticas de “requalificação” urbana em Fortaleza tiveram lugar no bairro Praia de Iracema. assim como os processos simbólicos de inclusão e exclusão de seus utilizadores. ocorreu forte especulação imobiliária. a representação do bairro como lugar de prostitutas e gringos se relaciona diretamente com as formas de uso do espaço urbano. e assim. Contudo. consumo cultural e turismo. uma nova representação se constituiu para defini-la. por meio das narrativas dos utilizadores da Praia de Iracema. começou a ser difundido por meio de jornais locais um discurso sobre o fim da Praia de Iracema com ênfase à sua degradação e abandono. Ressalto ainda. estas muitas vezes os orientam. O bairro Praia de Iracema passou a ser o cenário das políticas de requalificação em virtude das representações construídas ao longo de sua história. Neste momento. No início dos anos 2000. O objetivo desses projetos de requalificação era transformar áreas “degradadas” em lugares de entretenimento. Como conseqüência desse fenômeno. a mídia tornou públicos problemas referentes à degradação física de algumas áreas e a ocupação de certos lugares. que os usos que se fazem nesse espaço não estão separados das imagens. surgiram dissensões quanto às formas de ocupações desse espaço. no inicio dos anos 1990. Nesse sentido. Um breve passeio pela história da Praia de Iracema nos permite entender a constituição das representações. após essas intervenções. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . a construção e reprodução de sua imagem como um bairro boêmio e bucólico. Os utilizadores deste bairro reforçaram.

antes denominado porto das Jangadas. Esta elite intensificou a sua inserção na praia. inclusive por meio do epíteto Praia dos Amores. “Um abaixo assinado é encaminhado. ganharam fama o Jangada Clube. As ruas do bairro ganharam nomes de tribos indígenas cearenses: Tabajaras. a ser erigido na orla marítima. Como foi descrito por Schramm (2001). fenômeno que “obrigou” os pescadores a mudaram-se para outras praias. Tremembés. e o Hotel Pacajus. Devido as novas formas de apropriação desse espaço da cidade surgiu a necessidade de se forjar uma nova imagem para aquele lugar. Em 1925. quando a cronista social Adília de Albuquerque Morais lançou a idéia de que se construísse um monumento à heroína do romancista José de Alencar. pequenas instalações comerciais. Na época. Potiguaras. inclusive no que se refere à sua denominação. residência da família Porto. foram inaugurados na Praia de Iracema os “balneários”. A primeira manifestação pública que permite antever o futuro nome do bairro ocorre em 1924. está associado à “descoberta” do banho de mar como medida terapêutica e também como contemplação e lazer por parte da elite econômica da cidade nos anos de 1920. aluguel de calções de banho e guarda de pertences dos banhistas. entre outras” (Schramm. neste período.2001:37). Durante a Segunda Guerra Mundial. Houve também a instalação de clubes. Desta forma. freqüentado pela boêmia de classe média e alta da cidade. pelos novos moradores do bairro. a mansão Vila Morena. para a oficialização da denominação Praia de Iracema. de frente para o mar. Guanacés. com a construção de casas alpendradas ou do tipo bungalow. que expressasse os novos hábitos e valores.3 A origem da Praia de Iracema O surgimento do bairro Praia de Iracema. Groaíras. foi arrendada às tropas americanas e transformada em um ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . praia do Peixe ou Grauçá. onde a um bar se agregava um local para troca de roupa. construída em 1925. ao então prefeito Godofredo Maciel. elaborava-se uma imagem do bairro associada ao bucólico e aprazível. apoiada pela imprensa local. tem início uma campanha. solicitando ‘que mude a denominação imprópria e vulgar por que é conhecido aquelle encantador trecho de Fortaleza para a de Praia de Iracema’. como o Praia Clube e o América. o primeiro à beira-mar.

enciumados. o Porto do Mucuripe. a Praia de Iracema começou a apresentar um novo cenário em virtude do avanço do mar. Denominado U. que ainda não era consumido na cidade. jogos e shows. 1 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . também viveu transformações. o lugar era quase exclusivo aos estrangeiros. 27 de abril de 1946 apud Schramm. Praia de Iracema/Praia dos Amores que o mar carregou/Quando a lua te procura/Também sente saudades/Do tempo que passou/De um casal apaixonado/Entre beijos e abraços/Que tanta coisa jurou/Mas a causa do fracasso/Foi o mar enciumado/Que da praia se vingou».4 cassino pelos oficiais. 2001. e ficou conhecido por suas noites com danças. O interior do bairro. do sr. a antiga sede da United States Organization (U. A transformação da paisagem obrigou a saída de antigos moradores e freqüentadores dando início a um discurso melancólico sobre a praia “que o mar carregou 1 ”. A partir de meados da década de 1940. os ricos ‘bungalows’ da nossa aristocrática praia. como pode ser lido nos trechos abaixo: Nestes próximos dias.S. grifos meus). especialmente a área conhecida desde o início do séc.) O fato é que estamos mais uma vez diante de uma situação difícil. tornando-se atrativo para as moças da cidade. passaram a chamar por coca-colas as freqüentadoras do cassino dos americanos. XVIII por Prainha.. a imprensa local começava a falar em decadência da Praia de Iracema. Essa prática foi responsável por gerar uma disputa simbólica entre os moradores da cidade e os visitantes. o que acarretou também significativa diminuição da faixa de praia.O.. Matérias do jornal O Povo lamentavam a sua destruição. José Porto. Parte do casario foi destruído em decorrência da alteração no movimento das correntes marítimas. com prejuízos para a própria estética da cidade (O Povo. Destacam-se entre os prédios mais visados pela fúria do mar os de propriedade da família João Gentil. decorrente da construção de um novo porto da cidade. talvez. adeus/Só o nome ficou/Adeus.O) e o do antigo ‘Ideal Clube’(. (United States Organization). vindo a atingir. através da seguinte canção: «Adeus. a maré investirá com grande violência. Os rapazes da terra.S. pois se a maré próxima for impetuosa assistiremos à eliminação dos ‘bungalows’. Nesse período. principalmente no tocante às sociabilidades. O compositor Luís Assunção contribui para a elaboração da imagem de afetividade da Praia de Iracema na cidade de Fortaleza. associando o encanto do bairro à sua apropriação pela elite. que se dirigiam ao local para namorar os oficiais americanos e beber o refrigerante coca-cola.

foi inaugurado. também. se apropriaram também da Ponte dos Ingleses. era freqüentado por boêmios seresteiros. 2001). como casa de pasto que reunia a elite fortalezense.5 Com a transferência do porto da Praia de Iracema para o Mucuripe. políticos e amorosos. transformando-se em prostíbulos. Jangadeiro”(2001:47). Estes se reuniam no Restaurante Estoril. ocupantes do Estoril. como afirma um ex-freqüentador (O Povo. Os donos do espaço. para “ver e ‘fumar’ o pôr-dosol”. 2001). Nos anos 1950. como pode ser visto nesse trecho de uma matéria publicada no jornal Tribuna do Ceará: “mesmo com as torturas rolando pelo país. Como nos mostra Schramm. que se dirigiam ao lugar para cantar e namorar. a parte costeira do bairro ainda figurava como um lugar da elite econômica e intelectual. A partir desta década. profissionais liberais e músicos. defronte ao hotel. Iracema era apropriada por utilizadores “marginais” em relação aos valores sociais vigentes. contudo. na antiga residência da família Porto. Praticavam. Eles compartilhavam o mesmo sentimento de pertença ou entendimento sobre o lugar e sobre os seus códigos culturais (Leite. que funcionava desde 1948. a vida [no bairro] era uma festa” (15 de janeiro de 1996 apud SCHRAMM. intelectuais. “Na década de 1950. uma inversão dos valores e normas de disciplina da cidade. Era palco de encontros culturais. Nick Bar. afamado o local de vida boêmia. que se encontrava em mau estado de conservação. o Restaurante Lido. que havia sido arrendado a comerciantes portugueses. o bairro foi “descoberto” por novos freqüentadores e se tornou um ponto de encontro de militantes de esquerda. assim. 09 de dezembro de 2004). onde existia o cassino dos americanos. o Restaurante Estoril. Alguns bares surgiram nas ruas de toponímia indígena. Nesse período. que figurou. até os anos 70. Os seus ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . A Praia de Iracema tornou-se reduto de artistas. Iracema era apropriada por: jornalistas. militantes políticos e intelectuais. em meio às residências da população de classe média e classe média baixa do bairro: Tonny’s Bar. ficando. Nos tempos do regime militar entre 1964-1985. El Dourado. se consolida a imagem da Praia de Iracema como um bairro boêmio. os armazéns e casas comerciais ligadas aos negócios de exportação foram fechados.

por meio da construção de casas de madeira ou papelão. foi fundada a Associação de Moradores da Praia de Iracema/AMPI e houve grande movimento pela sua preservação. atraíram diversos freqüentadores para o bairro. entre meados dos anos 1960 e 1980. Durante a década de 1980. que a Praia de Iracema fosse reconhecida como Patrimônio Histórico e Cultural da cidade. diante das possibilidades de mudanças na lei de uso e ocupação do solo no bairro. sem um devido planejamento do poder público. da Praia de Iracema. É importante ressaltar que Iracema vivenciou. O público que se dirigia ao Bar e Restaurante Estoril e Ponte dos Ingleses. antigos moradores mudaram-se do bairro. os usos na Praia de Iracema. 1985 e 1986. com adesão de artistas e intelectuais. Esse fenômeno ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . profissionais liberais. inaugurados em 1981. houve uma mobilização dos moradores e freqüentadores no sentido de sustar aquele processo e solicitar. alguns bares temáticos. O banho de mar perdera sua atração. artistas e universitários. era marginalizado por questões ideológicas. terminou com os moradores chamando atenção do poder público. pois a pequena faixa de areia que restara recebia somente alguns poucos freqüentadores. eram legitimados e compartilhados entre os usuários da Praia de Iracema. a década de 1980. mas. mesmo fazendo parte de uma elite da cidade. não tiveram êxito. Nesse período. Em 1984. ou seja. políticos. Assim é que. moradores e freqüentadores não aceitaram as transformações da sua arquitetura. Nesse período iniciava-se a edificação de prédios com mais de dez pavimentos. deram inicio a uma “requalificação espontânea”. além de algumas melhorias. por meio dos jornais. uma imagem de bairro decadente. as tentativas de barrar as construções de edifícios verticais no bairro. e havia uma ocupação irregular na margem da praia. porém. respectivamente. para os problemas causados pela especulação imobiliária. assim como a instalação de uma diversidade de bares e restaurantes em imóveis supervalorizados. uma mudança nas formas de uso e apropriação do espaço. As transformações vivenciadas ali durante a década de 1980. O bairro era habitado por famílias de classe média e baixa. Sob protestos. o Cais Bar e o Pirata Bar.6 comportamentos. ainda se restringiam aos intelectuais. como o La Trattoria. Entendendo como uma “destradicionalização” daquele espaço da cidade. Contudo.

7 que chamo de “espontâneo” foi incentivado pela tradição boêmia do bairro e pela movimentação dos diversos freqüentadores que se dirigiam para alguns bares. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . restaurantes e para assistir ao pôr-do-sol na Ponte dos Ingleses. ao desordenamento do trânsito. os moradores intensificaram suas lutas na defesa do bairro. empresários da noite se inseriram no bairro com uma grande oferta de bares e restaurantes. já não era prioridade a transformação do bairro em Patrimônio Histórico e Cultural. à abertura irregular de estabelecimentos comerciais e à especulação imobiliária. Em meio à disputa pelo espaço de Iracema. Impulsionados pela freqüência desses estabelecimentos e vislumbrando a Praia de Iracema como um novo mercado. graças ao seu passado boêmio. Nesse novo momento estavam na pauta das reivindicações dos moradores: o combate à poluição sonora. Devido as novas formas de ocupação desse espaço e suas novas representações. juntamente com o arquiteto Paulo Simões. estava a questão de quem tinha direito ao bairro. a paisagem transformou-se rapidamente. em junho de 1991. o então prefeito de Fortaleza. criou-se um clima de rivalidade entre os empresários estabelecidos e os recém-chegados. alguns gestores da cidade passaram a defender a tese de que a Praia de Iracema possuía uma “vocação natural para o lazer”. No cerne da polêmica. com a presença de grande diversidade de estabelecimentos comerciais. A partir de então. Outro problema que emergiu com as transformações na apropriação do espaço na Praia de Iracema foi a presença de pessoas que não tinham uma tradição boêmia. Assim. apresentaram para os moradores e comerciantes da Praia de Iracema um projeto de urbanização da sua parte costeira. mas. Juraci Magalhães. Como conseqüência dessa “requalificação espontânea” que estava transformando a paisagem do bairro desde meados dos anos 1980.

mediante suas práticas sociais e lembranças – baseadas na imagem de um bairro bucólico. boêmio. mediante incentivos fiscais e da estratégia de Place Marketing (Gondim. Carlos Fortuna (1997). Neste sentido. que em abril de 1994. flats e pousadas. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . havia desmoronado. Havia um interesse político em estabelecer a cidade de Fortaleza como um pólo turístico. nacionais e internacionais. Paralelamente as intervenções nos espaços públicos do bairro. fala em “conservação inovadora do elemento tradicional”. que. como a construção do largo Luiz Assunção. Por meio de uma política de atração de investimentos. a reforma da Ponte dos Ingleses e a reconstrução do Restaurante Estoril. habitantes da cidade.2001). essa política de reforma urbana na Praia de Iracema acarretou uma mudança nas práticas sociais e conseqüentemente foi proposta uma imagem do bairro. Nesse novo contexto. As intervenções urbanísticas na Praia de Iracema podem ser associadas a uma disputa administrativa. há uma afirmação simbólica do poder. restaurantes. o bairro já apresentava diversos sinais da “requalificação” urbana. mediante inscrições arquitetônicas e urbanísticas que representem visualmente valores e visões de mundo de uma nova camada social que busca se apropriar de certos espaços da cidade (Leite. um calçadão a beira mar já fazia parte do novo cenário de Iracema.8 A Praia de Iracema “requalificada” Em 1994. por meio de obras da Prefeitura Municipal e do Governo do Estado. entre os governos estadual e municipal. hotéis. apareceram investimentos da iniciativa privada em bares. Consolidouse a imagem do marketing turístico na Praia de Iracema. De um lado havia os usuários. processo que tenta adequar as tradições locais às demandas globais do consumo cultural. Em meados dos anos 1990. Transformando a arquitetura vernacular em paisagem. percebo um conflito na ocupação do espaço na Praia de Iracema. esse espaço da cidade de Fortaleza passou a ser consumido por moradores de classe média e alta da cidade e também por turistas. Falava-se em “Miamização de Iracema 2 ”. lugar de artistas e 2 Denominação dada por ex-freqüentadores e moradores do bairro. 2001). Alusão a Miame (EUA). o calçadão. Na política de gentrification.

ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . ou seja. já que o novo desenho arquitetônico impôs um controle social. De outro. Como a “requalificação” conduz ao “consumo do lugar” (Zukin. em segundo lugar todo mundo vendia a mesma coisa que era uma cerveja com petisco.) não deviam ter liberado tantos alvarás pra tanta gente devia ter escolhido o que fazer em cada lugar. ou seja.9 intelectuais – forjaram um sentimento de pertença ao bairro. não tinha proposta. O maior conflito em relação às novas formas de apropriação era quanto à falta de harmonia entre os bares e as residências que ainda restavam. Então você tinha três milhões de bares. Desta forma. está a política de gentrification. É inevitável uma asfixia da Praia de Iracema” (O Povo. uma “descoberta” do lugar para “novos freqüentadores”. ótimo. você nem andava pelo calçadão. habitantes da cidade e turistas. foi assim ao leu e então como não tinha nenhuma proposta desinchou a Praia de Iracema deixou de ser moda o fortalezense enjoou (Entrevista concedida em 27 de abril de 2005)..2000). não tinha proposta comercial dentro da Praia de Iracema (. ou seja. É o que pode ser constatado nesse depoimento de Hélio Rôla. onde moradores e freqüentadores antigos se tornam outsiders. o que foi presenciado na Praia de Iracema foi uma supervalorização dos “produtos vendidos”. esse fenômeno contribuiu para o início da imagem da degradação da Praia de Iracema. a Praia de Iracema se tornou um lugar de consumo para os novos utilizadores que passaram a ocupar aquele espaço. Como anota Leite (2001). o modo como as práticas sociais criam seus nexos identitários com os lugares sociais colide muitas vezes com as formulações abrangentes das políticas oficiais da cultura. maravilhoso. aí dá aquele inchaço onde toda casa por menor que ela fosse era um bar. incentivados por um marketing do lugar turístico. que transforma a tradição na city marketing. ex-morador do bairro: “Os donos de bares daqui impõem um repertório na altura que querem e não se relacionam de modo democrático com sua vizinhança.. não teve. o processo de “requalificação” acarretou um choque de valores. O poder público chegou fez um calçadão superlegal. Na fala de um empresário. eu só tenho a parabenizar. Foi vivenciado naquele bairro o que Carlos Fortuna (1999) chama de “sociabilidades efêmeras”. ou seja. 3 de junho de 1995). Esse processo desencadeou a monofuncionalidade com a predominância de bares e restaurantes no bairro. uma grande valorização dos imóveis e conseqüente aumento nos valores dos aluguéis e dos serviços e produtos ofertados.

E a Praia de Iracema “requalificada” começou a apresentar sérios problemas no tocante à ocupação do espaço e manutenção dos espaços reformados. mendigos. museus. que dava os seus primeiros passos rumo ao dissídio na ocupação daquele espaço. café. com cinco prostitutas voltando da Itália (Entrevista concedida em 27 de abril de 2005). A sua implementação não considerou os “trajetos” (Magnani. vendedores ambulantes. como assalto aos freqüentadores. meninos em situação de rua. onde havia antigos armazéns desativados. os poucos turistas [estrangeiros] que vieram pra cá foram vôos italianos e alemães e no início o vôo dos italianos foi péssimo conseguiram acabar com esse vôo tem pouco tempo atrás que era assim. O Dragão do Mar projetou uma intervenção no bairro que se refletiu por toda a Praia de Iracema. Adentravam o bairro atores sociais que não comungavam com os códigos da disciplina dos espaços “equalificados” como os hippies. livraria. turistas estrangeiros e prostitutas. Este equipamento passou a oferecer teatro. dando maior visibilidade aos hippies. os protestos dos moradores ganharam novos temas. Leiamos a fala de um empresário da Praia de Iracema: Essa imagem [da degradação] se dá porque no início não teve uma boa divulgação do turismo [internacional] aqui do Estado. um planetário. além de praças. cinemas. também passaram a incomodar alguns utilizadores do bairro. Nesse sentido. como a expulsão dos hippies. passaram a existir bares. Além dos hippies. Iniciavam-se também as denúncias de violência. sob a forma de uma arquitetura eclética e pós-moderna. típica dos processos de “requalificação”. 300 machos vindo. os freqüentadores da Praia de Iracema foram paulatinamente procurando outros lugares de lazer. no final dos anos 1990. foi inaugurado o Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura. Em 1999. Como parte da dinâmica de ocupação dos espaços da cidade. auditório. não permitiu uma nítida visualização dos contra-usos. boates e casas de shows. loja de artesanato e bares. No seu entorno. os turistas internacionais e as “garotas de programa”.10 Outro fenômeno a ser ressaltado é que a “política de controle social”. concorrendo para a construção da representação de bairro degradado e lugar de prostitutas e gringos. 2000) de ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .

Este fato contribuiu para enfatizar ainda mais a representação do bairro como lugar de prostitutas e gringos. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . a Praia de Iracema passou a abrigar duas “manchas” (Magnani. Este fato produziu um conflito na apropriação do espaço daquele bairro. principal rua do bairro. instalado no bairro há quase vinte anos. ele esclarece que o projeto original previa um “corredor” de ligação entre a parte costeira do bairro o Centro Dragão do Mar. A Ponte dos Ingleses ficou sem iluminação. os problemas referentes à ocupação do espaço na Praia de Iracema se agravaram. Os novos freqüentadores saíram em busca de novos lugares. afirma que a nova representação surgiu a partir da instalação de uma boate. foi sendo cortada pelos contra-usos.11 seus utilizadores 3 . passando a ser ocupado predominantemente pelos hippies e meninos em situação de rua. turistas estrangeiros. inclusive o tradicional restaurante La Trattoria e o Cais Bar. ambulantes e meninos em situação de rua. Fausto Nilo. ou seja. 3 Em entrevista com um dos arquitetos do projeto do Centro Dragão do Mar. conhecida na cidade de Fortaleza. No inicio dos anos 2000. Quando os espaços “requalificados” tornam-se “lugares”. Um empresário. a harmonia superficial. contudo por falta de verbas a ligação não foi estabelecida. Os bares e restaurantes gradativamente foram sendo fechados. e teve seus pontos comerciais e observatório de golfinhos desativados. No ano de 2004. a partir do inicio dos anos 2000. por intermédio do não-respeito aos códigos culturais do lugar ou da falta de um entendimento mínimo sobre o que eles representavam. deixando um terreno baldio no meio da rua dos Tabajaras. pois grande parte do público freqüentador da parte costeira da Praia de Iracema passou a ocupar esse novo espaço. mais da metade dos novos estabelecimentos já haviam sido fechados. prostitutas. 1994). abrindo espaço para instalação de boates algumas com shows de striper. O calçadão apresentava muitos trechos com buracos e a grade de proteção quase toda quebrada. O Largo Luis Assunção deixou de ser ocupado por famílias nos finais de tarde. Em janeiro de 2003 a pizzaria Geppo’s fechou. espaços praticados (Marc Augé. Esse fenômeno redesenhou a Praia de Iracema a partir dos seus usos e contra-usos.2000) de lazer com sociabilidades e temporalidades distintas. Assim é que. construída nestes “lugares de consumo”. pois os utilizadores da Praia de Iracema passaram a ser predominantemente. mendigos. como uma casa que favorecia a prostituição. hippies.

poluição sonora e desordenamento do tráfego. Nesse sentido.) Depois apareceu um português que era o maior trambiqueiro. contudo. (. o cara muitas vezes vinha com boa fé tinha muita gente que vinha com boa fé e ficavam com um puteiro nos braços (Entrevista concedida em 27 de abril de 2005). porque a gente pensava assim. sem um devido planejamento. a fronteira para o lugar dos habitantes ficou muito tênue. 1997). e foi dito e feito. Ocorreu uma intervenção no espaço urbano. Primeiro houve a execução das políticas de gentrification. ou seja. Ele fazia o seguinte: montava um restaurante achava um investidor em Portugal e dizia olha eu tenho um restaurante maravilhoso pra você ele montava o restaurante pras pessoas ai o cara vinha de lá pra cá com o restaurante montado comprava o restaurante e achava que tinha um ponto super bem feito e vinha pra trabalhar quando chegava aqui ele tinha um puteiro.) a gente fez toda uma campanha pro África’s não vir. acarretando a monofuncionalidade do bairro. Esse fenômeno contribuiu para a saída da maioria dos moradores..12 A deterioração começou por que? Porque em primeiro lugar deixaram construir o África’s [boate conhecida na cidade por shows de striper] (. a própria dinâmica da cidade e do turismo nacional e internacional foi determinando as novas faces de Iracema. a tradição boêmia de Iracema foi comercializada por meio de uma política de incentivo ao turismo no Estado do Ceará. houve ingerência quanto à ocupação do espaço. entendo que a nova representação é um reflexo das práticas sociais e das condições espaciais de algumas áreas do bairro. por parte do Poder Municipal.. que tentam adequar as tradições locais às demandas globais do consumo cultural (Carlos Fortuna. Este fenômeno gerou uma disputa pela ocupação do espaço urbano. tornando visível a existência de ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . no dia que o África’s vier. ou seja. Como resultado desse processo. Frente a este panorama que se estabeleceu na Praia de Iracema. se vier um puteiro vem todos os puteiros da praia. não existiu um respeito às demandas dos moradores do bairro. tendo como ícone o bairro Praia de Iracema. O cenário atual da Praia de Iracema Após essas intervenções arquitetônicas esse bairro se apresentou como um lugar turístico. Segundo...

segundo meus interlocutores 5 . trabalho e futuro. Outros falam em degradação social. turistas estrangeiros e suas acompanhantes. Siglo Veintiuno de España Editores.13 conflitos simbólicos decorrentes do encontro entre alguns habitantes de Fortaleza. Alguns utilizadores do bairro falam em degradação espacial. 2005. 5 Os entrevistados na pesquisa de terreno na Praia de Iracema foram: moradores. turismo sexual e prostituição fazem parte dessa nova representação da Praia de Iracema. 1996. vendedores ambulantes. Estas levam a percepção de categorias definidoras do “mito fundador” da nova representação do bairro. hippies e meninas freqüentadoras das boates. erosão no calçadão. José. A pesquisa etnográfica me permitiu perceber que existe um dissenso nas opiniões quanto à representação da degradação. envolto ao espanto. o diferente. sentimento de pertença. ou seja. tachos e biscates – jovens. empresários. sobressalto. O encontro com o “outro”. Os moradores do bairro passaram a denunciar por meio de suas narrativas que. É perceptível uma admiração. El Presente de su Futuro. Lisboa: Ed Âmbar. análise sóciosemântica e análise interpretativa 4 . valores morais. Modelos de Autopercepción y de Vida entre Adolescentes Españoles. moradores do bairro Praia de Iracema. Por meio deste modelo de análise de conteúdo está sendo possível identificar “expressões conceituais”. 4 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Devido a essa simbologia negativa os habitantes do bairro estão buscando justificativas para a emergência dessa representação. estava a contribuir para uma reafirmação da representação do bairro como degradado e lugar de prostitutas e gringos. A utilização deste modelo de análise de conteúdo segue o método de investigação adotado por: Machado Pais. ex-moradores. globalização. freqüentadores da Ponte Metálica. enleio. emerge nesse bairro. com quem andam e como se comportam. turismo. tema tão caro à produção antropológica. o uso social dos corpos dos turistas estrangeiros. entre outros problemas. e associam a representação atual à presença do turista estrangeiro e suas acompanhantes. In Ganchos. Distribuindo pizas: vida estafada. a de estafeta. Aplicando a metodologia de análise de conteúdo que venho utilizando na apreciação dos dados apresentarei a seguir a análise de conteúdo das narrativas. Esta metodologia foi desenvolvida por: Captolina Díaz Martinez. falta de iluminação. entre alguns nativos e o turista. taxistas. proprietários de boates. o que fazem. Madrid. No cerne da questão percebo que temas relacionados a “requalificação” urbana. bancos quebrados.

vem com umas macacas que se você vê as macacas você corre. contudo a relação entre os conceitos e suas “expressões literais” não é unívoca: distintas expressões literais podem representar o mesmo conceito (sinonímia) e a mesma expressão literal pode representar distintos conceitos (homonímia). aquele cheio de tatuagem. Neste modelo de análise o investigador deve “traduzir” a conceitos as “expressões lingüísticas”. Contudo. o entrevistado está a fazer uma analogia com o turista estrangeiro pobre identificado por alguns utilizadores do bairro como pessoas com emprego precário na Europa e com pouca qualificação escolar. todo inchado. El Presente de su Futuro. as quais devem ter um significado autônomo.14 Das expressões conceituais ao “mito fundador” da nova representação de Iracema Identifiquei as “expressões conceituais” aplicando o método de análise voltado para a percepção de “homologias conceituais”. Contudo. depende do entendimento por parte do grupo pesquisado.. que namoram ou fazem programa com os turistas estrangeiros. o qual conserva duas operações: 1) se seleciona dentre os textos. Assim. quando os membros do grupo. ou narrativas. uma expressão pode incluir vários conceitos. dos sujeitos da pesquisa. 6 Estou fazendo alusão a Capitolina Martínez autora deste modelo de análise de conteúdo.(1996). Assim como. Apresento abaixo a fala de um empresário do bairro.. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . a sua fala parece ininteligível se relatada em outro contexto: Quem vem aqui é o gringo. Seguindo este modelo de análise de conteúdo é importante ressaltar que a proposta da autora 6 é desenvolver um método de análise “não-redutivo”. o significado social das expressões. Os conceitos estão encarnados em expressões literais. E “macacas” é uma expressão utilizada para se referir as garotas pobres. Estas têm um significado social. a partir de sua obra de referência. Ao se referir ao gringo cheio de tatuagem e inchado. É importante ressaltar que o processo de “homologação conceitual” é próprio do pesquisador ao empregar suas habilidades de intuição lingüística e social. de pele morena. de quem as explicitaram. as “expressões conceituais” são produzidas pelos sujeitos da pesquisa e não pelo pesquisador. que reafirma a imagem da Praia de Iracema como lugar de prostitutas e gringos. uma série de unidades de significados. entendem o significado dessa expressão.

com a presença do turista estrangeiro. a lista de conceitos se estrutura em dois níveis. que relatam as mudanças vivenciadas no bairro a partir dos anos 1980. 2) a especificação do significado das ditas unidades tem de ser redefinida observando seus contextos: uma unidade dada pode está localizada em distintos contextos e a interação entre esses contextos deve redefinir o significado da unidade em questão. Como conseqüência. Ao utilizar esse modelo de análise de conteúdo identifiquei “categorias” que caracterizam fases da história recente do bairro Praia de Iracema. A seguir apresento. o processo de “homologação conceitual” não só funciona a partir dos significados isolados das orações conceituais. extratos de quatro entrevistas que associam. os conceitos específicos definem reciprocamente os seus significados através da interação dos diversos conceitos. é o pessoal daqui ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . não é bom para a capital é o turista que vem a procura de drogas e prostituição.15 parcialmente livre do contexto. Concedida em 02 de agosto de 2005). estas constituem as “categorias”. Por meio deste método proposto por Martínez (1996). Assim. prostituição e turistas estrangeiros que não é o bom turista. Para isso coloca-se as unidades soltas (palavras-chave) frente às unidades complexas (orações conceituais) de que formam parte. começou a chegar boates e o fortalezense deixou de andar aqui. Para chegar a estas “categorias” selecionei diversas “expressões conceituais” dos meus entrevistados. Narrativa um: Hoje a Praia de Iracema é dominada por menores infratores. Narrativa dois: Os bares começaram a fechar porque encheu de gringo. e sua representação hoje. a nova representação do bairro. Assim. uma “categoria” é um conceito geral que deriva de uma família de conceitos concretos por sua vez derivados de orações particulares. com os significados concorrentes de distintas orações conceituais. mas também por meio de palavras-chave. porque o que mantém um restaurante não é turista. A apreciação de uma lista de conceitos e palavras-chave permite ao pesquisador agrupar famílias de conceitos similares. (Entrevista com um morador que reside há 32 na Praia de Iracema. relacionadas à construção do “mito fundador” da representação da degradação e lugar de prostitutas e gringos. o que mantém é o fortalezense.

o modelo de desenvolvimento. que não tem segurança. de 34 anos.. os modelos de turismo que a gente tem no Estado. Começou a chegar boates e o fortalezense deixou de andar aqui. Concedida em 23 de agosto de 2005). Concedida em 19 de maio de 2005). A lista de palavras que tem significados relevantes é: Prostituição Turistas estrangeiros Drogas Boates A lista de conceitos contempla: A Praia de Iracema é dominada por menores infratores. (Entrevista com um empresário.16 que vai com a família. Narrativa três: Eu acho.) As soluções pra mim. Os bares começaram a fechar porque encheu de gringo. isso é o modelo de turismo que a gente tem aqui. estão loteando as praias para fazer os resortes. implementado no Estado.. as pessoas não andam mais na Praia de Iracema. o turista melhora [o movimento]. Turista (estrangeiro) que vem a procura de drogas e prostituição.. fechar essas boates porque eu acho que elas é que trazem todos os outros problemas. Residente há 25 anos na Praia de Iracema. Gringo Taxista Vendedores ambulantes ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . mas as despesas do dia-a-dia são tiradas com o pessoal daqui. seria em primeiro lugar.) (Entrevista com um morador. esse turista qualquer que venha pra cá e manter as mulheres que eles quiserem. (. traz o menino de rua. não tem iluminação. não é isso porque sempre foi dessa forma e as pessoas vinham. as pessoas faziam questão de vir aqui pra usufruir a beleza do ambiente. (Entrevista com uma moradora. traz a prostituta. hoje em dia as pessoas não vem mais aqui porque ficam incomodadas com essa invasão de prostitutas e de gringos que tem aqui. que a Praia de Iracema é uma ponta de iceberg. (O problema é) o modelo de turismo que a gente tem no Estado.. que sempre residiu na Praia de Iracema.. Concedida em 19 de maio de 2005). traz os vendedores ambulantes (. (. Narrativa quatro: O gringo traz o taxista. não é pelo simples fato de que está quebrada.) tudo isso para dá a esse turista europeu. prostituição e turistas estrangeiros. dessa coisa gostosa da beira da praia e tudo. é o modelo dos hotéis que estão destruindo as comunidades dos povos do mar..

Paisagens Culturais. Não-Lugares. 1997. financeiras e afetivas entre os turistas estrangeiros e suas acompanhantes se relacionam diretamente com o uso e apropriação do espaço na Praia de Iracema. da representação do bairro como degradado e lugar de prostitutas e gringos. Fase do bairro Características Categorias “Mito fundador” de Chegada dos turistas Os bares começaram a Invasão de prostitutas e Presença estrangeiros – gringos.) Cidade. ___________. Celta. a O fortalezense abandona chegar o bairro.17 Quadro 1: A presença de gringos como um “mito fundador” da representação da degradação. sem um sentimento de pertença ao bairro. Referencias Bibliográficas AUGÉ. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Com o gringo veio o Surgimento de boates. Oeiras: Celta Editora. contribuiu para sua identificação com um cenário de encontros de alcova. Oeiras. os conflitos decorrentes das trocas sexuais. o menino de rua. gringos. Alguns utilizadores do bairro entendem que a chegada dos novos freqüentadores. Identidades. e os vendedores ambulantes. Cultura e Globalização: Ensaios de Sociologia. 1994. gringo. Neste sentido. fechar porque encheu de gringos. Estudos Sociológicos de Cultura Urbana. FORTUNA. São Paulo: Papirus. O fortalezense abandona o bairro. 1999. taxista. Marc. Percursos. Fechamento de bares. Carlos (org. A análise de conteúdo das narrativas me permitiu identificar que a chegada do turista estrangeiro é considerado o “mito fundador”. a prostituta. Começaram boates.

Fortaleza. José Machado. 2000. Captolina Díaz. Na metrópole: textos de antropologia urbana. Programa de PósGraduação em Sociologia. impresso. Solange Maria de Oliveira. a Propósito da Praia de Iracema. Lilian de Lucca (orgs). Fortaleza. Política e Cultura. 09 de dezembro de 2004. Periódicos ARTE guarda memória da PI. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo. 2001. 32. LEITE. Lisboa: Ed Âmbar. Universidade Estadual de Campinas. trabalho e futuro. tachos e biscates – jovens. 03 de junho de 1995. El Presente de su Futuro. 2000. 1996. José Guilherme Cantor. impresso. Era uma vez a Praia de Iracema. MARTINEZ. Madrid: Siglo Veintiuno de España Editores. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Fortaleza. In Revista de Ciências Sociais. 2001. “Paisagens urbanas pós-modernas : mapeando cultura e poder” In Antônio Arantes (org.18 GONDIM. Campinas: Papirus. Linda. Campinas. Vol. 2ª Ed. Airton.) O espaço da diferença.Fapesp. Modelos de Autopercepción y de Vida entre Adolescentes Españoles. Sharon. O POVO. 2005. O POVO. 2001. Números ½. Caderno Vida e Arte. Ganchos. Imagens da Cidade ou Imaginário Espacial? Reflexões sobre as relações entre Espaço. MONTE. MAGNANI. Rogério Prença de Sousa. Espaço público e política dos lugares: usos do patrimônio cultural na reinvenção contemporânea do Recife Antigo. ZUKIN. Território livre de Iracema: só o nome ficou? Memórias coletivas e a produção do Espaço na Praia de Iracema. TORRES. SCHRAMM. Universidade Federal do Ceará. PAIS.

É a partir da minha experiência de activista neste processo.pt A luta despenalização do aborto em Portugal constitui uma das aspirações mais emblemáticas na enunciação dos direitos das mulheres no contexto português. Elemento este que foi mobilizador para uma conciliação de esforços entre algumas organizações portuguesas e estrangeiras com vista a à vinda do célebre barco da organização holandesa. concitando ainda relevantes momentos de análise das dinâmicas democráticas sobre o direito e a transformação legislativa. Este processo que com diferentes momentos de intensidade vem animando o debate político na sociedade portuguesa esgrime questões tão instigantes como as representações ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . pelo facto de se inscrever nas formas de acção política ditas radicais ao mesmo tempo que sustenta a sua acção no cumprimento da lei.uc. Introdução A luta despenalização do aborto em Portugal constitui uma das aspirações mais emblemáticas na enunciação dos direitos das mulheres no contexto português. Malta e Polónia. Portugal é dos únicos países da Europa com legislação fortemente restritiva à prática de interrupção voluntária da gravidez. O interesse deste quadro histórico não se restringe às nossas fronteiras. dado que. foi um fenómeno singular na sociedade portuguesa: pelo aceso debate que suscitou na opinião publica. juntamente com a Irlanda. da maternidade e da vida. que pretendo formular nesta comunicação algumas reflexões sobre o momento cultural e político então criado Palavras-chave: direitos/género/cidadania/movimentos sociais 1.O Kula revisitado? A cultura dos direitos na luta pela despenalização do aborto Madalena Duarte Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra madalena@ces. A recente viagem deste barco que se propunha a realizar interrupções voluntárias da gravidez em águas de jurisdição internacional ― onde prevaleceria a lei holandesa ― de bandeira do barco. uma perspectiva de análise ao mesmo tempo privilegiada e problemática. e pela circunstância de constituir uma forma de acção política sobre uma legislação nacional com um desenho exuberantemente transnacional. Women on Waves. Este processo que com diferentes momentos de intensidade vem animando o debate político na sociedade portuguesa esgrime questões tão instigantes como as representações culturais da mulher.

à sua consulta. pois. 2. 1 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . uma perspectiva de análise ao mesmo tempo privilegiada e problemática. 1999. A recente viagem deste barco que se propunha a realizar interrupções voluntárias da gravidez em águas de jurisdição internacional ― onde prevaleceria a lei holandesa ― de bandeira do barco. pois. Malta e Polónia. Uma análise mais detalhada desta análise cronológica obriga. pelo facto de se inscrever nas formas de acção política ditas radicais ao mesmo tempo que sustenta a sua acção no cumprimento da lei. Em ambas as publicações é feito um importante retrato histórico da luta pela despenalização do aborto em Portugal. que pretendo formular nesta comunicação algumas reflexões sobre o momento cultural e político então criado e sobre as estratégias encetadas pelo movimento. A contextualização da luta 1 O direito da mulher à interrupção voluntária da sua gravidez não foi consagrado no conjunto de direitos das mulheres adquiridos após o 25 de Abril com a Constituição da República Portuguesa de 1976. da maternidade e da vida. e pela circunstância de constituir uma forma de acção política sobre uma legislação nacional com um desenho exuberantemente transnacional. marcados por um esboçar daquela que viria a ser uma luta forte pelos direitos das mulheres nas décadas Neste ponto sigo de perto Tavares. concitando ainda relevantes momentos de análise das dinâmicas democráticas sobre o direito e a transformação legislativa. O interesse deste quadro histórico não se restringe às nossas fronteiras. 1998 e 2003 e UMAR. Women on Waves. Os finais da década de 70 são.2 culturais da mulher. É a partir da minha experiência de activista neste processo. dado que. foi um fenómeno singular na sociedade portuguesa: pelo aceso debate que suscitou na opinião publica. juntamente com a Irlanda. Elemento este que foi mobilizador para uma conciliação de esforços entre algumas organizações portuguesas e estrangeiras com vista a à vinda do célebre barco da organização holandesa. Portugal é dos únicos países da Europa com legislação fortemente restritiva à prática de interrupção voluntária da gravidez.

Os projectos-lei são chumbados em Assembleia da República e fica na história a imagem de 12 mulheres da CNAC nas galerias do parlamento envergando uma camisola com a inscrição “Nós abortámos”. conhecendo algumas destas uma visibilidade social que as mantém ainda hoje como importantes actores nesta luta. Começam. E.3 seguintes. entre outras). Em simultâneo a Igreja Católica começa a firmar a sua posição publicamente. Na década de 80 o aborto entra na agenda política. cria-se a Campanha Nacional pelo Aborto e Contracepção (CNC) que incorpora várias associações feministas e que se começa a mobilizar para mostrar solidariedade para com as mulheres julgadas por aborto. também. nomeadamente da UDP (1980) e do PCP (1982) para que a mulher possa interromper livremente a sua gravidez até às 12 semanas. partidos políticos como o PS e PCP anunciam a preparação de propostas de lei sobre a despenalização do aborto. Estes julgamentos. é precisamente este projecto que vai ser aprovado em Janeiro de 1984. rapidamente chegam à imprensa internacional e. é a vez do PS apresentar um projecto-lei. em consequência. entre elas a UMAR. é entregue uma petição de 5 mil assinaturas na Assembleia da República exigindo a despenalização do aborto. a emergir associações e organizações feministas que têm a despenalização do aborto como bandeira e que o assumem publicamente (UMAR. o aborto clandestino em Portugal vai continuar a ser uma realidade. Surgem projectos-lei. como os sindicatos começam a ter iniciativas neste domínio. Nas galerias do ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Não só os partidos políticos. porque consideram que. Logo em 1975 é criado o Movimento para a Contracepção e Aborto Livre e Gratuito que exigia a despenalização do aborto em Portugal e a difusão e informação sobre contraceptivos em Portugal. são considerados algo limitativos no que concerne aos direitos da mulher (Tavares. uma vez que não prevê sequer razões económicas para uma mulher interromper a sua gravidez (UMAR. com ele. que é considerado ainda mais restritivo do que o do PCP. Em 1983. sobretudo o do PCP. Não obstante esta resistência e críticas. 2003). e partidos de esquerda tomam posições públicas contra este projecto-lei. contudo não deixam de representar um caminho no sentido da despenalização. Estes projectos. 1999). demonstrando uma total oposição a qualquer medida legislativa que autorize o aborto. entre eles o de uma jovem alentejana. APF e MDM. consequência das acções do movimento feminista e dos julgamentos da década de 70. em 1979. Várias associações feministas. Em 8 de Março de 1977.

sendo que o da JS não é aprovado por um voto. produção de relatórios e realização de debates. assim que é aprovado o projecto. o movimento anti-escolha. o movimento conheceu algum esmorecimento e durante vários anos a luta passou. Foi. por exemplo. as mulheres que se fazem abortar e as pessoas que realizam a intervenção estão a cometer um crime. começam a organizar-se novas iniciativas quer por parte da sociedade civil. A luta continua”. se houver inviabilidade fetal (sem prazo). O aborto não é punido apenas nos seguintes casos: se for o único meio de evitar a morte da mãe (sem prazo). aos poucos. mas não são aprovados. a reerguer-se. longo e complexo o caminho que levou de novo à colocação do aborto na agenda pública e política. pela publicação de artigos. A década de 90 ficou marcada pelo referendo sobre o aborto e pelos julgamentos de mulheres. se a gravidez resultar de violação (16 semanas). É esta a lei que está hoje em vigor 2 . em Fevereiro de 1997. 2003) e. 2 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . artigos 140º e seguintes. Este crime está previsto e punido no Código Penal. A indignação e o mal-estar público levam a que algumas deputadas do PCP e do PS acusem os deputados que votaram contra os projectos-lei apresentados de contribuir em grande medida para situações como esta. com 36 anos e três filhos. a JS e o PCP apresentam dois projectos-lei de despenalização do aborto a pedido da mulher. o aborto é um crime. a iniciada em Fevereiro de 1997 “Não matarás o zezinho”. que desenvolve campanhas ancoradas moralmente impactantes como. No mesmo mês. de 11 de Maio). quer por parte dos partidos políticos (Tavares. a UMAR lança a Linha SOS-Aborto. Os dois projectos-lei vão a votação na Assembleia da República. De acordo com esta lei (Lei nº 6/84. em Portugal. se houver sério risco para a saúde física e mental da mãe (12 semanas). se houver grave malformação do feto ou se o recém-nascido vier a sofrer. se a discussão parlamentar dos projectos-lei constitui um novo alento para o movimento pela despenalização que começa. no dia internacional da mulher. de forma incurável de doença grave (24 semanas). Alguns dias mais tarde. em 1996. ligado à Igreja Católica. vítima de aborto clandestino. na sua maioria. também começa a ganhar força um contra-movimento. deste modo.4 parlamento. Mas. Após a aprovação da lei de 1984. morre uma mulher. No entanto. solta-se uma faixa que diz: “Lei do PS mantém aborto clandestino. pois. e como consequência de notícias na imprensa de que a PJ estaria a investigar 1200 mulheres que tinham abortado numa clínica clandestina em Lisboa.

Perante um referendo imposto que muitos percepcionaram como uma expressão de uma instrumentalização política atentatória dos direitos de cidadania dos cidadãos e das cidadãs portuguesas. António Guterres.5 No início de 1998. Também o PCP apresenta um projecto-lei semelhante ao já proposto em 1997. a JS apresenta um outro projecto-lei. à complexidade da questão referendada. era necessário criar um movimento forte que fizesse face aos movimentos associados à Igreja Católica. Para as pessoas envolvidas no movimento pela despenalização do aborto este foi um marco histórico (Tavares. o não ganhou. mais restritivo que o anterior. O referendo não foi. Cria-se. sindicatos. A campanha do referendo (que ocorreu de 15 a 26 de Junho de 1998) assumiu-se como um momento de intenso e polémico debate em que nem sempre os argumentos surgiram com a clareza necessária. uma plataforma que integrava partidos políticos. uma vez que o prazo legal previsto para a interrupção voluntária da gravidez é reduzido para 10 semanas. artistas. e que depois se foi alargando a juristas. à indiferença e/ou à indecisão dos portugueses. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . a vitória na luta estava longe de ser conseguida. e a um cenário político partidário em que a direita se unia e o partido do governo se encontrava fragmentado e marcado pelo ideal católico de um PrimeiroMinistro que publicamente se mostrou contra a despenalização. associações de defesa dos direitos das mulheres. Desde logo porque algumas associações feministas envolvidas entendiam que a JS não devia ter encurtado o prazo. contra todas as sondagens. e PSD celebram um acordo para a realização de um referendo nesta matéria. Por razões atribuídas ao fundamentalismo da posição do não. A 5 de Fevereiro de 1998. que desde cedo se pronunciou contra a mudança da lei. porque nesse mesmo dia PS. No entanto. que se encontrava no Governo. com maiores recursos e capacidade de mobilização. o “Movimento Sim Pela Tolerância”. etc. os dois projectos são debatidos na Assembleia da República: o do PCP não é aprovado por 3 votos. sobretudo. Mas. em 28 de Junho de 1998. deputados. mas o projecto-lei da JS é aprovado. Para tal não foi indiferente a posição do líder do PS. 2003). profissionais de saúde. assim.

apenas 32% dos eleitores se pronunciaram. referiu que nenhuma outra consulta nesta matéria seria realizada até ao final do mandato do seu governo.Acção Jovem para a Paz. votaram menos de 3 milhões. A campanha WOW: breve descrição É num cenário de um activismo institucionalizado e essencialmente reactivo que um conjunto de associações portuguesas . a discussão devia ter sido retomada e. em 2004. 5 O então Primeiro-ministro José Manuel Durão Barroso.6 contudo. O pós-referendo foi uma altura de grande desânimo 4 e de desvitalização de um movimento que se sentia impotente face à constituição da Assembleia da República e às demandas da democracia representativa. Tendo como base um campo 3 De acordo com o artigo 115º da Constituição da República Portuguesa. Neste cenário. consequentemente. à entrega de uma petição com 120 mil assinaturas na Assembleia da República para a realização de um novo referendo que se revelou infrutífera 5 . Setúbal. líder do PSD.unem esforços e decidem convidar a organização holandesa Women on Waves (WOW) para vir a Portugal e desenvolver uma campanha pela despenalização do aborto. vinculativo 3 . isto é. coube aos agentes judiciários e aos tribunais garantirem a aplicação efectiva da lei em vigor e. foi ignorada. Lisboa…). a artigos na imprensa e. já que. Com efeito. 3. Clube Safo.5% a favor do não e 15. pelo contrário. Aveiro. As manifestações do movimento pelo sim começam a cingir-se a presenças à porta dos tribunais. Portugal torna-se o único país da União Europeia que leva mulheres a julgamento por interromperem a sua gravidez. “O referendo só tem efeito vinculativo quando o número de votantes for superior a metade dos eleitores inscritos no recenseamento”. 16. 4 Uma das excepções a este desânimo surge com a discussão e aprovação da Lei 12/2001. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .5% a favor do sim. assumindo-se o resultado no referendo como uma decisão final. dos mais de 8 milhões de eleitores. sobre a contracepção de emergência que assegura que a chamada pílula do dia seguinte pudesse ser vendida em Portugal e sem prescrição médica. começam a despoletar os julgamentos de mulheres (Maia. não te prives e UMAR (União Mulheres Alternativa e Resposta) .

nome do barco utilizado na campanha da WOW em Portugal. Esta componente do projecto aplica-se exclusivamente a águas internacionais. mas antes articula normas do direito nacional com normas do direito internacional. desde 2001 que a WOW é uma organização não governamental (ONG) devidamente autorizada pelo Ministério de Saúde holandês a interromper a gravidez de mulheres que assim o decidam até um prazo máximo de 6 semanas e meia. canalizando os ganhos mediáticos da campanha desenvolvida para a mudança da lei restritiva. que desejassem interromper a sua gravidez. Assim. designadamente workshops no âmbito da saúde sexual e reprodutiva. até águas internacionais 6 . com uma gravidez até seis semanas. a bordo do barco que está sob jurisdição holandesa. a WOW assenta a sua campanha na deslocação de um barco que traz consigo um contentor onde funciona uma clínica ginecológica e na qual é possível realizar abortos a pedido da mulher. jurídicos e culturais que os 6 De acordo com a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar. A cronologia deste acontecimento consubstancia um exercício importante de reflexão sobre as opções dos movimentos sociais e dos constrangimentos políticos. de 1982. Inspirada na ideia do barco da organização ambientalista Greenpeace. Tais iniciativas e a vinda do Borndiep foram cuidadosamente preparadas desde a vinda de Rebecca Gomperts a Portugal. para tal. propunha-se a ajudar as mulheres portuguesas. uma equipa de médicas e enfermeiras devidamente autorizadas podem realizar abortos. onde. deslocando-as. o Borndiep. a WOW desenvolve actividades mediáticas nos países onde o aborto é ainda criminalizado que visam chamar a atenção para as consequências nefastas dos abortos clandestinos e para a necessidade do aborto ser despenalizado.7 de acção transnacional e usufruindo de um pluralismo jurídico a partir de cima. certo é que o projecto WOW consistia em mais actividades. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . sessões de esclarecimento e sensibilização para a prevenção de doenças sexualmente transmissíveis e de gravidezes não desejadas. Tal acção não expressa qualquer tipo de ilegalidade. Com efeito. eventos culturais. Embora tivesse sido a faceta mais mediática e polémica da campanha. cerca de um ano antes. através da pílula abortiva. o limite exterior do mar territorial é fixado nas 12 milhas náuticas. debates com profissionais do direito. definindo-o como uma zona marítima contígua ao território do Estado costeiro e sobre a qual se estende a sua soberania. reuniões com partidos políticos.

entre os palestrantes.8 condicionam. receberam formação diversa para poderem participar na campanha. Esta formação. sócios das associações envolvidas e pessoas a título individual. estando presentes na formação os advogados portugueses das associações envolvidas e da WOW. os cerca de trinta voluntários. nomeadamente ao nível da segurança. em 2003. a esta altura. ainda confidenciais. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . e da estratégia pensada para o projecto. Desde cedo se percebe que os media. Em Julho. na Holanda. médica ginecologista da WOW. Agosto de 2004: a chegada do Borndiep e a acção do Governo português A 23 de Agosto é realizada. bem como todas as informações relativas ao projecto são. quer internamente para o movimento constituído. a WOW navega novamente para um país onde o aborto é penalizado. bem como o Governo. activistas e outros para as campanhas da WOW e para a questão da despenalização do aborto como um problema de saúde pública. o barco pretende atracar no porto da Figueira da Foz. Mais especificamente. devem ser surpreendidos. Junho/ Julho de 2004: Recrutamento e Preparação de Voluntários Em 5 de Junho de 2004. este seminário serviu. na prática. o que dizer. Depois da viagem em 2001 à Irlanda e. uma conferência de imprensa anunciada a partida do Borndiep rumo a Portugal. se encontravam a Rebecca Gomperts e Guinilla Kleivierda. foi realizado em Coimbra um seminário sobre saúde reprodutiva onde. à Polónia. pelo que o contacto com os media é reduzido ou mesmo nulo. quer para a opinião pública. foi dito aos voluntários como agir. Para além de promover o conhecimento e a sensibilização junto dos profissionais de saúde. pelo que se referem de seguida algumas das datas que. se assumiram como mais marcantes. para angariar voluntários. Em cada uma destas áreas. do atendimento da hotline e ao nível jurídico. da relação com os media. sempre dentro da legalidade.

recebe um fax no qual se pode ler: “Em nome das autoridades marítimas portuguesas. como suporte ao argumento mais invocado: o de que esta campanha atentava contra a soberania do Estado português. sobretudo quando são destacadas duas covertas para vigiar o Borndiep. Estes argumentos serviram. começam a ouvir-se rumores de que o barco será impedido de entrar em águas territoriais. esse foi recusado” (WOW. através da equipa jurídica. Mais tarde o Governo justifica a sua decisão afirmando que. agora. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . violando-se um sem número de convenções e directivas europeias. mas não para a eventualidade da sua não chegada. a pública. As arenas de eleição eram. o que poderia colocar em causa a saúde pública (idem: 12). um certo desnorteamento. inclusive a perseguição judicial. E. A cautelosa formação a que se tinham submetido preparava-os para qualquer imprevisto e obstáculo após a chegada do Barco a águas territoriais. e a política. de 1982. constituída somente por membros da WOW. na prática. a tripulação do Borndiep. após tentativas falhadas de comunicação com as autoridades marítimas. O impacto mediático é extraordinário. três: a legal. mais de trinta voluntários portugueses e holandeses se encontram preparados.9 onde numa casa especialmente arrendada para o efeito. Entre 26 e 27 de Agosto. Pela primeira vez o barco era proibido de entrar em águas nacionais num país. com a notícia a abrir vários serviços noticiosos televisivos. informamos que. informamos o seguinte: no que se refere ao pedido de autorização para a embarcação Borndiep entrar em águas territoriais portuguesas com destino ao Porto da Figueira da Foz. a sua soberania jurídica. mediante o lobby exercido junto aos partidos políticos portugueses e Governo holandês. efectivamente. publicitar e promover a prática de actos ilícitos em Portugal. através do recurso aos media. desenvolver uma actividade numa infra-estrutura médica sem licença ou inspecção por parte das autoridades portuguesas competentes. no seio dos activistas. nomeadamente. imagens que rapidamente são divulgadas nacional e internacionalmente. Neste momento nota-se. através dos media nacionais e internacionais. 2005: 11). teve conhecimento que a ONG holandesa WOW pretendia entrar em território português para: distribuir e publicitar produtos farmacêuticos não autorizados em Portugal. ao abrigo da Secção III Parte II da Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar. e o direito português. com várias equipes de reportagem estrangeiras a chegar à Figueira da Foz. O impacto mediático da campanha cresce a cada dia. nomeadamente os artigos 19 e 25.

Os activistas estavam preparados para serem detidos pela polícia. A campanha WOW foi a este nível paradigmática. pressionar politicamente o governo para que este levante a proibição. é rentabilizado em termos mediáticos. também. O objectivo agora é. inícios de Setembro: entre a acção institucional. Se alguns. Este barco faz viagens para levar mantimentos à tripulação. é a vez dos deputados parlamentares Francisco Louça (Bloco de Esquerda). Odete Santos (PCP) e Jamila Madeira (Parlamento Europeu). A discussão instala-se no seio do grupo de activistas: deve ou não o Borndiep regressar à Holanda? Que alternativas devem ser equacionadas para que toda a campanha não seja colocada em risco? Nesta altura há uma certa cisão no grupo. no dia seguinte. porque a sua acção era legitima e legal. entendem que o barco deve forçar a entrada e avançar para águas territoriais portuguesas. o que não se vem a verificar. mas não para ir contra a lei. quer para os activistas envolvidos. Também o Governo e deputados holandeses iniciam esforços no sentido de ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Entendendo-se que é ainda cedo para encerrar a campanha. a WOW e as associações portuguesas envolvidas optam por contornar a situação inesperada. Com a proibição à entrada do barco. a acção radical e a acção ilegal Como refere Boaventura de Sousa Santos (2005). voluntários a conhecer o Borndiep. alteradas. claramente. estes não estão proibidos de ir até eles. havendo viagens específicas para jornalistas e políticos: a JS realiza no Borndiep uma conferência de imprensa a 30 de Agosto e. os movimentos sociais caminham num permanente limbo entre a acção institucional e a acção radical que foge ao poder do Estado. as acções planeadas para os quinze dias de estadia são. a acção foi pensada para ser desenvolvida sempre dentro dos limites da lei portuguesa e toda a formação dos activistas foi no sentido de cumprimento da lei pelo que a opção por uma acção ilegal podia traduzir-se em perdas de legitimidade do projecto globalmente considerado. alugando uma pequena embarcação: se o Borndiep está impedido de vir junto dos portugueses. designadamente os activistas da WOW.10 Finais de Agosto. Afinal. mas. outros consideram que tal acção constitui um risco grave quer para a tripulação. necessariamente. irem ao Borndiep.

do modo como a mulher portuguesa podia abortar usando Misoprostol. Considerou. que reuniu cerca de 250 pessoas junto da residência oficial do Primeiro-Ministro. artistas e profissionais de saúde que ocorrem em terra e não a bordo do Borndiep como inicialmente se tinha previsto.11 convencer o Governo Português a permitir a entrada do Borndiep. Os advogados do governo argumentaram. argumento que foi contestado. deputadas do Parlamento Holandês vêm a Portugal como forma de apoio à campanha WOW. Também a quatro de Setembro. de reunião e de expressão. assim como a acção judicial contra o Estado português Paralelamente a estas. mas pede. Bernard Bot. Julgamento. Assim. uma vez que a pílula abortiva era administrada no barco. e a divulgação pela Rebeca Gomperts. assim como a viagem forçada do Borndiep a Espanha para se abastecer de combustível. de informação. há acções de confronto como a manifestação realizada a 1 de Setembro. o Ministro dos Negócios Estrangeiros da Holanda. Progressivamente a campanha começa a perder força e vitalidade e os media dão menos destaque às iniciativas. por seu lado. em nome do Parlamento Holandês. o Borndiep fez a viagem que muitas mulheres portuguesas fazem para abortar: vão a Espanha. mas o aborto ocorria em Portugal. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . A juíza decidiu a favor do Governo dizendo que este tinha agido de acordo com o seu poder discricionário e não cabia a um juiz anulá-lo. a colagem de faixas com a inscrição “Eu fiz um aborto” em diversos pontos da cidade de Lisboa. A seis de Setembro é conhecida a decisão do Tribunal Administrativo de Coimbra. já que tal operação foi proibida em Portugal. no programa SIC 10 Horas de 7 de Setembro. diz respeitar a decisão do Governo Português. designadamente aos workshops com políticos. os advogados da WOW solicitaram ao tribunal que anulasse a decisão do Ministro Paulo Portas e permitisse ao barco entrar em águas portuguesas. que levante a interdição. Estas são acções moderadas e institucionais. que havia continuidade de actividade criminosa em território português. também. Estes são momentos de uma nova atenção mediática. A dois de Setembro. que verdadeiramente podia haver continuação da actividade criminosa e que os direitos fundamentais invocados pela WOW não são absolutos e podem ser restringidos quando há interesses maiores em risco. Baseados no direito à liberdade de mobilidade.

um obstáculo a que a acção se radicalizasse. Em primeiro lugar. Neste ponto. notou-se uma diferença entre a agenda da WOW e a agenda das associações portuguesas. já que os direitos são instáveis. O Borndiep surge como uma “dádiva” provinda de outro país para a luta pela despenalização do aborto em Portugal ou. 4. o chamado “Barco do Aborto” emerge como uma forma de acção colectiva nova que se inscreve nas formas de acção política ditas radicais. por acções institucionais. aliás. ambíguos e manipuláveis. à Holanda e a campanha termina. Também a acção política do movimento foi constrangida.12 Sem qualquer esperança de que o Borndiep fosse ainda autorizado a entrar em Portugal e perante uma luta que se desmobilizava. o barco regressa. 1984). entendendo várias pessoas que Rebeca Gomperts não deveria ter divulgado como cada mulher podia fazer um aborto se assim o entendesse. tal pluralismo jurídico não só foi ignorado pelo Governo. na génese da criação da WOW. o recurso a um pluralismo jurídico que permite toda uma acção dentro da legalidade acabou por ser. uma vez que os voluntários e algumas associações envolvidas queriam permanecer dentro da legalidade e evitar colocar em risco a legitimidade da acção. no final. que está. a 9 de Setembro. A primeira era mais imediata e procurava ajudar o maior ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . essencialmente. o direito é político. O Borndiep como Kula? Numa sociedade marcada pela ausência de movimentos sociais fortes e por uma luta que se tem marcado. o que de facto aconteceu após o programa SIC 10 Horas. podendo ser utilizados para justificar quase qualquer decisão judicial (Tushnet. mas também na acção dos movimentos sociais generalizadamente considerados. como defendem vários autores. foi uma estratégia contraproducente? As acções usadas durante a campanha face à proibição da entrada do Barco foram adequadas? O grande trunfo da campanha. como a decisão do tribunal mostrou ser mais uma decisão política do que uma decisão judicial. O balanço da campanha obriga a uma reflexão deste tipo de estratégias não só na luta específica pela despenalização do aborto a pedido da mulher. pelo contrário. mostrando que. ao mesmo tempo que sustenta a sua acção no cumprimento da lei.

Uma outra sondagem. partido do Governo. ainda que de uma forma mais indirecta do que a inicialmente prevista. a derrota judicial conduziu a uma desmobilização final da luta. a hotline esteve a funcionar durante toda a campanha. foram várias as vozes que consideraram que uma questão da esfera íntima como é a da interrupção de uma gravidez. como activista e socióloga. contribuiu para que os portugueses tivessem consciência do posicionamento de Portugal nesta matéria face aos restantes países da União Europeia. ajudar efectivamente várias mulheres portuguesas. questionando-se o grupo se esta foi uma opção eficaz. inclusive do PSD.9% dos inquiridos afirmavam querer um novo referendo e 60% defendiam que o aborto devia ser despenalizado. mostrou que 79. quer na televisão. não deveria ser “espectacularizada” em iniciativas como o “Barco do Aborto”. ganhos mediáticos significativos. No entanto. Permitiu. tinha objectivos definidos a médio-longo-prazo que passavam pela criação de um cenário propício à alteração da lei em vigor.13 número de mulheres portuguesas possível levando-as a bordo do Borndiep. mais moderada. De facto. A proibição da entrada do barco acabou por ter. Estes resultados e a reintrodução deste tema na opinião pública ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Certo é que o mediatismo conseguido por uma acção radical da sociedade civil sem precedentes em Portugal perdeu vitalidade e dinamismo quando enveredou por uma via mais institucional e moderada. Finalmente. Esta possibilitou uma onda de apoio por parte de vários políticos. mostrou que 56% da população queria que o aborto fosse despenalizado imediatamente e 7% depois do Governo terminar mandato. realizada pelo Diario de Noticias e TSF. Com efeito. no final. direitos e cidadania e a relacioná-los com a questão do aborto. uma sondagem efectuada pelo jornal Público. entendo que os ganhos desta campanha superaram as eventuais perdas. Em terceiro lugar. Assim. Desde logo. ainda. Num outro aspecto. e inclusive após a partida do Barco e houve informação disponibilizada quer na Internet. mesmo aqueles que eram contra a despenalização. levando ao repensar de conceitos como o de democracia. a segunda. durante a campanha. esta foi uma mobilização do movimento pela despenalização que fugiu ao carácter reactivo e pontual dos protestos dos últimos anos. media e população em geral. permitiu reintroduzir na discussão pública um tema que parecia estar votado à marginalização das opções políticas.

14 contribuiu. UMAR. para que nas campanhas para as eleições legislativas que se iniciaram pouco tempo depois da campanha WOW. TUSHNET. Porto: Edições Afrontamento. UMAR (1999) Aborto – decisão da mulher. na minha opinião. História do movimento pelo aborto e contracepção em Portugal. a questão do aborto estivesse presente em todos os debates televisivos e nos programas eleitorais. TAVARES. WOW ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . WOW (2005) Women on Waves – Portugal.” Texas Law Review. Manuela (2003) Aborto e Contracepção em Portugal. após Abril de 1974. 62:1363. Manuela (1998) Movimentos de Mulheres em Portugal. Referências Bibliográficas SANTOS. Mark (1984) “An Essay on Rights. Lisboa: Universidade Aberta. Dissertação de Mestrado em estudos sobre as mulheres. Lisboa: Livros Horizonte. TAVARES. Boaventura de Sousa (2005) Fórum Social Mundial: Manual de Uso.

por outro. mas que desde há mais de uma década enfrenta um processo de degradação. de um caso que nos remete para uma concepção de património como uma construção social. Assim. portanto. a outra reforça-o. em que o estatuto patrimonial do objecto analisado não está definido. 1 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . em tempos. controvérsia. e por fim. mas sim em discussão.Uma controvérsia como objecto etnográfico1 Andrea Gaspar Palavras-chave: património. A minha abordagem situa-se O presente texto corresponde à comunicação apresentada pela autora no 3º Congresso da APA. adquiriu o espaço para a construção de apartamentos. O interesse do edifício não é consensual. havendo diferentes posições relativamente ao seu destino e às suas possíveis funções. dado que o mesmo dá origem a duas versões contraditórias sobre o valor do edifício. originalmente com o título “Património em Contestação: o caso da controvérsia em torno do Teatro Sousa Bastos. Esta comunicação baseia-se em dissertação realizada no âmbito do programa de mestrado em sociologia “As Sociedades Nacionais Perante os Processos de Globalização”. um promotor imobiliário que. alegando razões financeiras. a Câmara Municipal de Coimbra que. a vontade de rentabilização do seu proprietário. A transformação do título deve-se ao facto de esta se tratar de uma versão revista e mais detalhada. inviabiliza a última proposta. espartilhado entre toda uma heterogeneidade de objectivos contraditórios: por um lado. um acordo com o proprietário. em Coimbra”. que defende a sua aquisição pública ou expropriação e a devolução da sua função de espaço cultural. mediação 1. em finais da década de 80. O motivo da discórdia relaciona-se com diferentes versões daquilo que é o valor patrimonial do edifício. foi um dos mais importantes Cine-teatros de Coimbra. enquanto que uma posição nega o interesse patrimonial do edifício. processos de tradução. propondo como solução alternativa. um movimento cívico em prol do Teatro. FEUC. A controvérsia propriamente dita diz respeito à discussão sobre o tipo de intervenção a dar ao edifício que. Introdução Esta comunicação centra-se numa controvérsia patrimonial em torno de um antigo Teatro situado na Alta de Coimbra. Trata-se.

passando a incluir estes aspectos numa abordagem mais ampla que permite dar conta da construção praxiológica de um objecto patrimonial. como se de algo puramente “social” se tratasse (ou seja. Não sendo o meu objectivo avaliar qual dos lados da controvérsia é que tem razão. tendo sido reinaugurado em 1910. considero que este processo de patrimonialização se trata de uma construção social não apenas no sentido de algo que não está definido. 2. tendo passado a ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . A sua decadência. desta vez em homenagem ao dramaturgo que era tio do então proprietário da casa de espectáculos (cf. foi frequentado pela elite de Coimbra. Luís em homenagem ao monarca vigente. altura em que foi remodelado ao estilo arte déco. é importante salientar a tentativa de deslocação da análise de um ponto de vista meramente discursivo e ideológico. da qual se supõe a existência de vestígios (cf. As origens do edifício. numa espécie de liminaridade patrimonial. mais precisamente. são ainda mais antigas: remetem para o século XII. Gambini 1999). e portanto. Soares 1990-1992). Em todo o caso. que conduzem a dois produtos possíveis da controvérsia (património/não património). após instauração da República. Como Teatro. para uma Igreja Românica semelhante à Sé Velha. começou a sentir-se na década de 70. O ter estado atenta ao processo que antecede as suas consequências significou a consciência da problematicidade em separar um ponto de vista discursivo de um ponto de vista pragmático e material. com o nome de Teatro Sousa Bastos. 1999b). a sua função de Teatro é bem mais antiga – remonta ao século XIX. altura em que foi aclamado Teatro D. de modo a ter um registo de todas as circunstâncias de que eles são feitos.precisamente na análise de todo o processo que leva à construção destes respectivos enunciados. 1999a. por sua vez. como algo exclusivamente humano). mas no sentido em que há uma série de processos ou acções que são simultaneamente humanos e não humanos ou materiais – as mediações – as quais irão determinar esse estatuto do objecto em discussão. Seguindo a perspectiva de Bruno Latour (1996. Pequeno apontamento histórico sobre o edifício Embora a fachada do edifício remonte à década de 1940. a constatação de que eles fazem parte do mesmo processo. e sobretudo após 74. importa sobretudo analisar as posições que a compõem enquanto processos contraditórios. no entanto.

em inícios da década de 80. ao nível associativo. associações mais ligadas ao meio local (associações de moradores. Há. Instalou-se. importa salientar o facto de o espaço se situar na Alta de Coimbra. 1989). preocupadas em reviver costumes e tradições de uma Alta passada. produto de um conjunto de tensões que provêm menos de uma real separação entre dois tipos de população (a população autóctone vs população flutuante). Posteriormente. ao espírito da época. à semelhança da maioria dos centros históricos em Portugal. do que dos discursos nos quais essa separação é produzida. A Alta de Coimbra Contextualizando um pouco a controvérsia. não obstante as diversas tentativas por parte dessa Cooperativa que. 3. ambição essa mal sucedida. na Alta. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . uma vez que a posse pública do edifício nunca se chegou a concretizar. perante a degradação do edifício. devido à coexistência de população autóctone e de população universitária. que lhe fora oferecido com melhores condições. por exemplo. tem vindo a deslocar-se para zonas mais periféricas. A Alta de Coimbra tem vindo a perder as suas funções de centro (centro habitacional. foi a sede de uma Cooperativa de Teatro – a Bonifrates – que. bem como o bairro mais antigo da cidade. Por essa razão. Espaço de múltiplas vivências. fazendo do local uma zona marcada pelo envelhecimento e pela desertificação. e por outro lado. consequentemente. centro de serviços). desde então. a Alta é assim uma espécie de laboratório de representações múltiplas e ambíguas. folclóricas e etnográficas). entretanto. O edifício. altura em que foram sendo projectados filmes altamente lucrativos.funcionar exclusivamente como Cinema. acabaria por ser adquirido por uma sociedade constituída entre um promotor imobiliário e um ex-presidente de Câmara de Coimbra (cf. as quais são visíveis. Uma das mais importantes características da Alta de Coimbra é o facto de se tratar simultaneamente da zona onde se situa a Universidade. a Alta de Coimbra é um espaço dotado de alguma ambiguidade. um processo de ruína que tem durado até aos dias de hoje. tinha o intento de transformar o espaço num Centro Cultural. uma vez que a própria Universidade. viria a trocar este espaço por outro. mais “autêntica”. sobretudo westerns e filmes pornográficos. a discórdia e. com o seu crescimento. associações recreativas. Diário de Coimbra.

associações mais ligadas a um meio académico e político que. remonta a 1989. uma representação da Alta como um espaço pitoresco. salientam a Alta como um espaço vivo de relações sociais. Formou-se então um Movimento Cívico composto por várias associações da Alta. 4. quando o proprietário apresentou um projecto de construção de apartamentos. Breve contexto da controvérsia A controvérsia é longa. de reactualização de discursos e constante negociação de representações e divergências políticas acerca do que é e deve ser o espaço social do centro histórico de Coimbra. a Alta é objecto politico de contestação. representam-na como espaço em que o espírito de bairro e as relações sociais cedem lugar a uma objectificação e esteticização do centro histórico para consumo turístico – a perspectiva da mercantilização da cultura. como algo que perdeu a sua centralidade e se desfuncionalizou. Neste contexto de relações. entre as principais. segundo o conceito de Kristoff Pomian (1984). contestando o localismo e o passadismo da visão das primeiras. passando a significante. por sua vez preocupadas em promover a participação cívica e o activismo social dos seus residentes (cf. residências de estudantes autogeridas e organizadas em termos associativos. que viria a ser aprovado pela Câmara Municipal. o Sousa Bastos pode ser considerado como uma espécie de objecto de museu metonímico da própria Alta e dos discursos sobre ela produzidos. Tal é o caso das Repúblicas de estudantes. através dos seus discursos. interpretar o Teatro Sousa Bastos. mas foi sobretudo em 1996 que se levantou a discórdia. a ADDAC (Associação de Desenvolvimento da Alta de Coimbra) e as Repúblicas da Alta de Coimbra – o movimento Salvem o Sousa Bastos. altura em que a Cooperativa de Teatro Bonifrates abandonou o edifício. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . para os quais funcionam como uma espécie de rituais de cidadania. enquanto as Repúblicas. Poderemos. e que por isso se situa numa espécie de liminaridade em que se discutem novas funcionalidades. importa salientar que a ADDAC reproduz. por isso. o que não raramente corresponde a uma visão idealizada do “espírito de bairro”. No seguimento do que foi dito no ponto anterior. Mais do que pano de fundo da controvérsia. ou a semióforo. Este foi o primeiro momento da controvérsia. e do ponto de vista da musealização do espaço urbano. tal como a Alta. Estanque 2005).

a reuniões com a população. a acções e a manifestações culturais. com a contrapartida da cedência de algum espaço no rés-do-chão para construção de uma sala polivalente que servisse as actividades locais da população daquele bairro. Mas o objectivo de recuperação do edifício como espaço cultural acabou por revelar. mantendo a defesa do edifício como espaço cultural. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . um significado diferente para ambos os grupos. Foi a partir deste segundo momento que tive a oportunidade de acompanhar a controvérsia à medida que ela se foi desenrolando: assistindo a debates. público na sua essência. com a ideia de recuperação do edifício. a anunciação de negociações com o proprietário. havendo por parte da Câmara Municipal. Esta associação de moradores manifesta uma preocupação com a degradação e crescente desertificação e desfuncionalização da Alta como espaço social. que surgiu aquando da reunião de dois factores: por um lado. para a ADDAC. em 2003. a Comissão para a Coimbra Capital Nacional da Cultura. para as Repúblicas. altura em que se reacendeu a discórdia. Houve um impasse até uma segunda fase da controvérsia. implicando a restituição fiel da sua fachada bem como da sua função. por outro lado. ao longo da controvérsia. a reconstrução do edifício como Teatro. na qual este edifício se insere. dado que ambos possuíam. há aqui contextos de motivações políticas que divergem e que formam agregações de intencionalidades distintas. o projecto do proprietário ficou suspenso devido à obrigatoriedade de escavações arqueológicas. um “espaço cultural” significava. Apesar das diferenças de sensibilidades e de motivações de partida. enquanto processo (contestado) de patrimonialização em curso. No contexto das suas intenções. Deu-se assim o ressurgimento do protesto. com um novo nome: o Movimento Sousa Bastos Vivo. O assunto do Teatro Sousa Bastos volta a ser colocado nas agendas políticas. ambas se uniram num objectivo comum (lutar pela preservação do edifício como espaço cultural). que entretanto. com vista a resolver o problema do Teatro. tal não significava necessariamente um restauro do edifício. Entretanto. a aproximação de eleições municipais. diferentes intenções à partida. Tais negociações iam no sentido de permitir o projecto do construtor. e este objectivo inseria-se num outro contexto de preocupações: a política cultural da cidade. O movimento cívico veio discordar desta posição. procurando com isso acompanhar o modo como essas duas versões sobre o interesse patrimonial do edifício estavam a ser construídas.marcada por uma visão negativa e pessimista relativamente aos fenómenos de “musealização” do espaço urbano. começava a ruir. E portanto. formando um único grupo. Por seu lado.

o qual consideram que serviria mais os artistas do que a população da Alta. que passou a ser a ser aliada da Câmara Municipal. Porém. O que defendem é a importância de existência de espaços culturais ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Esta posição não veio a ser partilhada pela ADDAC. Perante isto. Movimento Sousa Bastos Vivo. Processos de tradução A segunda fase da controvérsia foi. Mas a principal objecção é dirigida à nova proposta do movimento. O argumento da recuperação do edifício como espaço cultural foi o denominador comum que agregou as Repúblicas e ADDAC no mesmo grupo. por um lado. grupos e alianças. de modo a convencê-los de que essa é a opção “boa”. Reformularam-se assim os grupos de acção: Câmara e ADDAC. e que a Câmara não estava interessada em fazer mais um Teatro na cidade. Perante isto. não num Teatro. marcada por novos protestos. e por isso. o movimento cívico continuou a defender a necessidade da intervenção no antigo Teatro como espaço público.5. a sua aquisição pública ou expropriação. então apresentado como Movimento Sousa Bastos Vivo. pois permitia a ambos a concretização dos seus objectivos. no sentido de avançar com um projecto misto. para atingir o seu objectivo (recuperar o edifício recorrendo à iniciativa do próprio proprietário). A justificação da ADDAC pela divergência é a de que a anterior luta não revelou qualquer eficácia. a Câmara Municipal. a ADDAC declarou a sua desvinculação do movimento cívico. Esses objectivos de partida não são atingidos directamente. As Repúblicas. associa-se à ADDAC. a concepção por detrás da ideia de “espaço cultural” foi revelando as divergências e diferentes motivações de partida. por seu lado. também as agendas irão ser reformuladas. a transformação do Sousa Bastos num espaço cultural alternativo. que é mais representativa dos interesses dos moradores da Alta. que estão mais interessadas em defender um espaço cultural alternativo. e por não se identificar com a nova reivindicação. Ao longo deste processo. a partir do momento em que a Câmara Municipal anuncia um acordo com o proprietário. irão procurar convencer os artistas e grupos culturais de Coimbra. com outras intenções. portanto. mas têm de ser mediados: são necessários outros. por outro. e daí a constituição de acordos. Perante isto. em nome de uma melhor política cultural na cidade.

ateliers com crianças e idosos da Alta. foram convidados artistas a participar com criações originais. professores universitários. e constitui. contingentes e contextuais. assim. intelectuais. Os argumentos foram os de que uma sala polivalente para pequenas festas e para pequenos ensaios de peças de teatro ou de ranchos folclóricos serve melhor a população. propondo para o Teatro Sousa Bastos a criação de um “Espaço Social e Performativo”. espectáculos. para artistas. Reformuladas as devidas estratégias. sobretudo. por isso. tais como desfiles performativos. Gaspar 2006: 170-176). A ideia de um “Espaço Cultural e Performativo” permitiria.especificamente naquela zona da cidade. e constituídas as novas alianças. entre outras. por sua vez inspirado numa concepção de cidadania cultural. em vez de mera consumidora de espectáculos. e não para a população que ali vive. Estamos. dando assim exemplos do que poderia ser a actividade cultural a desenvolver no “espaço social e performativo” (idem: 111). arquitectos. Para além de debates. Por seu lado. nível esse inseparável de um contexto praxiológico mais vasto. com o objectivo de envolver a população. portanto. em diferentes contextos e ocasiões: A Câmara. o que significa que não faz sentido falar em discursos separadamente das estratégias: acções e de operações específicas. procurando mostrar que a proposta que apresentam. Também estes procuram mostrar que defendem o que é “melhor” para a Alta (cf. pelo movimento: diversas manifestações culturais. Para estas iniciativas. Importa com isto salientar que o mesmo objecto está a ser duplamente processado como património e como não património. em colaboração com a ADDAC. através do Gabinete para o Centro Histórico. o Movimento Sousa Bastos Vivo foi organizando diversos debates públicos com a participação de convidados com algum destaque no meio cultural de Coimbra: artistas. a síntese de uma crítica mais geral aos processos mercantilizantes da cultura e do património. que formam o contexto no qual ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . do que um equipamento de grandes dimensões. organizou. trabalhar com. uma inauguração “fantasma” (simbólica) do novo Teatro. o que significa que irá haver transformação no final do processo. como justificação para o investimento na criação desse espaço alternativo naquela contexto. com o objectivo de convencer os respectivos públicos. é a que melhor representa a Alta. perante acções que ultrapassam o nível discursivo. A ideia de cidadania cultural permite entender a população da Alta como agente e participante nos processos culturais desenvolvidos. uma sessão de esclarecimento dos moradores. agentes culturais. outras acções foram realizadas. ambos os grupos foram realizando uma série de debates e de acções.

Nesse sentido. que era a recuperação do Teatro para fins culturais. ou seja. trata-se de recolocar no âmbito da análise social. como leis científicas ou novos objectos materiais. após reformulação. para uma abordagem material e praxiológica dos fenómenos sociais. tão negligenciados ao longo das abordagens excessivamente humanistas e antropocêntricas das ciências sociais da modernidade. remete para um conjunto de acções que conduzem a transformações ontológicas e materiais. composto por várias associações. Estes interesses eram. no contexto de uma Alta concebida como espaço de habitação e de vivência social. e consequentemente. que têm consequências que não são meramente retóricas e discursivas. em termos de uma identidade e posição política acerca desta questão. na primeira fase da controvérsia.esses discursos são produzidos. desvio de percurso e reformulação de objectivos. pois as Repúblicas estariam mais interessadas na política cultural. em pareceria com o proprietário. incluindo (ADDAC) e as Repúblicas de Coimbra. Pessoas e grupos com interesses heterogéneos uniram-se com um interesse comum. segundo Latour. reformuladas as estratégias. É isto que tem marcado a passagem de uma abordagem simbólica da cultura. a Câmara Municipal. os aspectos “objectivos” e materiais da realidade. foram a parceria constituída entre Câmara ADDAC. No fundo. à partida. heterogéneos. pois. por oposição a Movimento Sousa Bastos Vivo (Repúblicas em pareceria com agentes culturais). a autonomização de grupos. a ideia de que há uma série de passos até chegar ao enunciado final. que seguir caminhos ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . são constituídos por uma série de acções ou operações. identifica-se como um desses passos ou operações. Neste caso. não conseguiram convencer os poderes autárquicos. que nos habituaram a uma concepção de sociedade como algo puramente humano. Os segundos grupos. o outro que visa transformá-lo no enunciado oposto de “espaço sem interesse patrimonial”. mas essas consequências são mais “duras” do que simples discursos. Tiveram. ou seja. e consequentemente. Os primeiros grupos autonomizados foram. que constituem dois processos de tradução distintos: um que visa transformá-lo no enunciado de que se trata de um “espaço patrimonial”. por oposição ao primeiro movimento cívico. Os processos de tradução. Os objectivos de ambos foram interrompidos. enquanto que a ADDAC manifestava uma preocupação mais relacionada com a recuperação do edifício e das suas funções. seguindo o conceito desenvolvido por Bruno Latour (1996). podemos considerar que o edifício está a ser duplamente processado por intenções opostas. Contudo. A ideia de tradução. juntos.

Assim se transformam interesses heterogéneos em interesses comuns.). mobilizando argumentos técnicos e urbanísticos. e pela ausência de uma estratégia cultural por parte dos poderes autárquicos. chama a atenção para a impossibilidade de construção de um equipamento cultural adaptado às exigências contemporâneas num espaço com aquelas características (ruas íngremes e medievais). mas a sua memória. significou seduzir para o mesmo objectivo grupos os pessoas que nada tinham a ver com o assunto. Seguiu-se uma fase de estagnação e posteriormente. passou progressivamente a ser a transformação do antigo Teatro num espaço alternativo para os grupos artísticos da cidade. bem como os discursos que lhe estão associados. A partir daqui. Outro dos processos de interessamento. cuja aliança permite reforçar o respectivo argumento ou enunciado. Um dos processos de interessamento que se verificou foi a associação com artistas da cidade que reclamam a falta de espaço cultural. detalhadas na minha etnografia. também os processos de mobilização retórica envolvidos (outra das operações de tradução) são reformulados: por exemplo. a Câmara. como já referi. têm por base ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . constituem o ponto fundamental que permite a constatação da observação de um fenómeno que ultrapassa o nível meramente linguístico. Ou seja. o qual irá determinar o destino do novo objecto resultante. novos aliados foram sendo mobilizados para a causa. que irá procurar associar-se a especialistas em urbanismo para reforçar e legitimar “tecnicamente” o enunciado pretendido. em termos de mobilização retórica. numa segunda fase. a Câmara considera que o edifício não tem interesse (arquitectónico. mas que se tornaram aliados. verifica-se na ligação entre a Câmara Municipal e a ADDAC. novos protestos. aquilo que ele representa como Teatro naquele bairro. o objectivo do novo movimento. e surgida uma oportunidade de aliança com agentes culturais da cidade. Fragmentado o movimento. designada por processo de interessamento (Latour 1996). Esta operação. Estas estratégias de acção. Em suma.divergentes para atingir as suas finalidades. bem como com agentes culturais descontentes com a política cultural da cidade. etc. Estas duas versões do interesse do edifício. porém o movimento considera que não é o interesse do edifício que está em causa. chamando a atenção para a necessidade de criação de espaços para grupos culturais que não têm espaço. na altura em que houve negociação da Câmara com o proprietário. o Movimento Sousa Bastos Vivo. bem como novas retóricas. o seu significado social. ao mesmo tempo que o movimento mobiliza a retórica da política cultural da cidade. histórico.

tradições ideológicas distintas. aqui objectificado na posição da Câmara Municipal. ou seja. o interesse do edifício para as pessoas. em detrimento da transformação da Alta para turistas. urbanísticos (problemas de acessibilidade que têm a ver com a configuração das ruas). Tal se verifica na acção de salientar um projecto alternativo para aquele espaço (proposta de Espaço Social e Performativo). Para além disso. que nos remetem para um velho debate sobre as questões da cultura na globalização. no contexto das sociedades capitalistas modernas. a uma ideia de cultura como sujeito. vieram. que reduz a proposta de um “espaço social e performativo” a um Teatro. substituir a noção de cultura popular. só faz sentido como reacção ao extremo oposto desta concepção. argumentam que o edifício não possui características que justifiquem a sua preservação: características estéticas. a “cidadania cultural” como crítica a essa tendência de mercantilização da cultura 3 . ou cultura de massas. Esta concepção de cultura e de património. e não sendo o âmbito desta discussão procurar saber qual das duas a mais válida. ele só 2 As chamadas indústrias culturais. importa apenas salientar que o movimento cívico representa (no sentido em que mobiliza a retórica construída por esta tendência. Isto é o que se poderá considerar uma concepção de cultura como cidadania. e que por isso. defendem. não no edifício em si. na memória do espaço e no seu significado. e uma concepção de património como algo social. marcado pelo confronto entre duas tendências: por um lado. Abandonadas quaisquer pretensões vlorativas de acesso a uma verdade final. realçando o aspecto social em detrimento do material. e sobretudo. sinónimo de um grande equipamento. está nas pessoas. patrimoniais: argumentam que o edifício não é típico da zona onde está inserido. para a memória social. no caminho para atingir o seu objectivo) precisamente esta segunda opção: a cultura como cidadania. a “mercantilização da cultura” ou as “indústrias culturais”2 (o turismo. 3 Insere-se nesta tendência a escola de pensamento dos anos 1970. conhecida por Teoria Crítica da Escola de Frankfurt. foge ao padrão dos edifícios que compõem o Centro Histórico. Com isto. a musealização do espaço urbano) e por outro. impossível de concretizar não apenas devido a motivos económicos. arquitectónicas. mas também técnicos. Deslocam. históricas. defendendo a interacção entre dinamizadores culturais e a comunidade local. que é também. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . O interesse do edifício. desta forma. promovendo a participação em detrimento do consumo e transformando consumidores em participantes num processo de produção cultural. salientam a importância daquele espaço para os moradores. a ideia de que haver interesse patrimonial no edifício. num certo sentido. os sujeitos em detrimentos dos objectos.

Este é apenas o resumo das narrativas mobilizadas para esta questão ao longo do processo. para a qual este modelo de interpretação foi desenvolvido). mas sim a representação política. como objecto. em que cada um dos lados desencadeia as suas acções com vista a atingir o seu objectivo. pois. um dos argumentos desta posição é a de que. O Movimento Sousa Bastos Vivo defende que a população do bairro precisa de um espaço cultural. tendo em conta que. que não correspondem às expectativas em termos de público. estão envolvidos em muito maior detalhe. É. mas sim de um espaço polivalente para as suas actividades (ranchos. etc. Ambas as concepções e processos de mobilização retórica podem ser entendidos como diferentes caminhos para atingir diferentes fins. Um dos lados representa a Alta como sujeito. É a eficácia dessa representação. ou criação de relações com o público. O que é importante salientar é que esta é a legitimação retórica que fundamenta cada uma das posições a realizar de uma série de acções com vista a convencer a população de que representa aquilo que ela quer: através de manifestações artísticas. é outro dos passos no caminho.poderia estar inscrito no próprio edifício.). a Câmara Municipal defende que a população não precisa de um Teatro. que assentam todos os processos políticos (cf. reuniões de moradores por intermédio de associações de moradores. através da conquista do consentimento dos representados (Gramsci 1974). sendo que a prova final do respectivo enunciado não é a verificação empírica (ao contrário da ciência. que por razoes obvias escapam aos ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . para além dos já existentes. remete para uma concepção objectificante de património. bem como para uma noção de cultura que é mais próxima de uma ideia de cultura como mercadoria (em vez de cidadania). de uma perspectiva de relação entre oferta e procura. etc. o destino do edifício. de retóricas que servem esses objectivos. cada lado da controvérsia considera que representa a população da Alta. debates com a população. em processos de representação. pequenas peças de teatro. Estratégias a nível de alianças ou processos de interesssamento. reformulação de grupos autonomizados. A representação é outra das operações. no sentido em que defende que representa mais fielmente aquilo que a população quer para o edifício. Cabral 2004). bem como as representações. o outro. caso contrário. que determinará o predomínio de um enunciado sobre o outro. seria mero “património psicológico”. e consequentemente. Esta ideia. Neste caso. não fazem falta mais Teatros na cidade. contrariamente à anterior. reformulação de objectivos e consequentemente.

a identidade não foi o critério que utilizei para identificar e diferenciar grupos. sendo isso que define o social. 6. àquilo que fica para a história após a controvérsia. Um destes enunciados terá maior eficácia sobre o outro e dará origem a um novo objecto. refiro-me a grupo não no sentido de identificação. O processo de tradução só é terminado assim que houver uma coesão entre esses elos: esse será o núcleo duro. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . as consequências materiais desse processo. também. Por outras palavras. São estas operações que permitem identificar os diferentes enunciados em causa. Conclusão Perante estes dois paradigmas (subjectificação/objectificação). Havendo dois enunciados. Há. no sentido latouriano. foram assim sendo criadas relações ou elos de ligação que não existiam antes – por exemplo: o Sousa Bastos como uma questão de política cultural da cidade. ou seja. o novo objecto. ou qual é a “melhor”. portanto. ou o Sousa Bastos como uma questão urbanística – mas que foram sendo criados ao longo do processo. duas possibilidades de objectos diferentes. após a controvérsia. através das acções referidas. interessou-me sobretudo analisar estes dois lados da controvérsia como dois processos de enunciação. ou seja. a forma e o estatuto que o edifício irá assumir. Importa porém salientar que. mas no sentido de agregação com fins pragmáticos e acções convergentes. mais do que procurar saber qual destas posições sobre o Teatro Sousa Bastos é a mais “verdadeira”. e mobilizados para a controvérsia. que são os seus efeitos. Desta forma se constata como o mundo discursivo e o mundo material não se sobrepõe. Para isso. até novas eleições municipais). a algo irreversível. Porém. as consequências materiais propriamente ditas. pois a noção de grupo que utilizo refere-se a um nível de sentido meramente formal. quiçá. foi fundamental o trabalho de Bruno 4 Não se pretende com isto oferecer uma visão homogénea dos grupos em questão.objectivos desta comunicação. mas constituem-se mutuamente. pois. interessou-me analisar como é que cada uma se constrói como “verdade”. mas refiro-me a grupos somente do ponto de vista das suas estratégias de acção. há. todo um trabalho artefactual de sucessivas mediações. ou seja. dado que esse desfecho ainda não se conhece e a controvérsia ainda perdura (marcada por nova estagnação que durará. trabalho esse que é feito e refeito em função das inúmeras contingências que surgem ao longo do processo. ou no sentido de associações. fica no entanto ausente esta última fase deste processo de tradução. é esse o elemento que permite analisar as duas posições enquanto grupos de intencionalidades distintas 4 .

fe. Actas do IV Congresso Português de Sociologia. é aquilo que não fica para a história. 21-05-04. Elísio. O conceito de tradução remete para o processo de construção de novos factos ou de novos objectos. João de Pina. Oeiras: Celta. Junho de 2001 FRIAS.php FRIAS. Paulo.uc. Aníbal e PEIXOTO. www.pt/corpocientifico/pinacabral/pdf/DemocraciaJPC3. “Representação Imaginária da Cidade. Mas no fundo. é uma espécie de resíduo. Processos de Racionalização e de Estetização do Património Urbano de Coimbra”. que desvios. nº 183.ul. mas que permitiu entender este caso de um ponto de vista processual: o conceito de tradução. “As Repúblicas de Coimbra. E a tradução é precisamente a passagem da controvérsia aos novos objectos ou factos objectivos: a passagem da contingência à necessidade. 7. Teatro Sousa Bastos . é aquilo que faz a história.pdf ESTANQUE. trata-se de analisar os processos pelos quais a acção é mediada: que operações são levadas a cabo para atingir determinados objectivos. Oficina do CES. “Patrimonialização” da Alta e da Praxe académica de Coimbra”. Lígia Inês. sendo que a enunciação é o produto final. 2002.fe. um instrumento de análise inicialmente concebido para controvérsias científicas. 2005.ics. Oficina do CES.pdf GAMBINI. 20-05-05.ces. “Esthetiques urbaines et jeux d’echelles: expressions graphiques étudiantes et images du patrimoine universitaire a Coimbra”.ces.uc. A controvérsia é o que Latour chama de modalidade: é o lado contingente de um processo social. nº 162. www. que caminhos mais longos irão ser tomados para lá chegar. No fundo. que delegações. entre o passado e o presente”. as operações que transformam a modalidade em enunciação. Aníbal. a última fase do processo (património/não património). Paulo.pt/opiniao/ee/001. do ponto de vista da tradução. o que implica entender a controvérsia não como algo a eliminar. http://www. Aníbal e PEIXOTO. 1806-05. Bibliografia CABRAL. “Aprender a representar: democracia como prática local”. Por isso. Coimbra ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Comissão de Coordenação da Região Centro. 2002. 2004.pt/publicacoes/oficina/162/162. Dezembro de 2002 FRIAS. e “o Sousa Bastos não é património”. a observação etnográfica deste caso permitiu-me descrever e dar conta de dois processos de enunciação de verdade em confronto simultâneo: “o Sousa Bastos é património”. por isso. 1999.Latour. 2001. mas como parte constituinte desse mesmo processo: a controvérsia como processo de construção em si.As Primeiras Décadas de História. A ideia de tradução significa.

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