AFINIDADE E DIFERENÇA

Ana Bénard da Costa (Org.)

ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA LISBOA, 6,7 E 8 DE ABRIL DE 2006

APRESENTAÇÃO

Entre 6 e 8 de Abril de 2006 decorreu em Lisboa, no Instituto de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE) e no Instituto de Ciências Sociais (ICS), o Terceiro Congresso da Associação Portuguesa de Antropologia. Este Congresso organizado em torno das temáticas abrangentes Afinidade e Diferença reuniu cerca de 250 participantes que expuseram e debateram as suas diversificadas comunicações em sessões plenárias, painéis temáticos, mesas redondas e posters. A temática proposta pelos coordenadores do Congresso, José Manuel Sobral e Cristiana Bastos, respectivamente o Presidente e a Vice-Presidente da então Direcção da Associação Portuguesa de Antropologia, invocava, como se refere no texto de apresentação, “uma tensão básica que percorre o nosso campo disciplinar, provocada simultaneamente pela identificação do que se julga ser comum e do que se julga ser específico em cada cultura”. Procurava-se, através desta proposta abrangente, acolher “todos os domínios de saber reconhecidos como Antropologia” e abrir um espaço para uma “reflexão sobre a sua situação actual, tanto no plano nacional como no internacional.”

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Dentro desta perspectiva, os promotores do evento assumiram a responsabilidade da organização das sessões plenárias e solicitaram aos sócios e potenciais interessados que apresentassem propostas de painéis temáticos. O acolhimento por parte da comunidade nacional e internacional de antropólogos e de ciências afins (sociólogos, economistas e outros) excedeu as expectativas. Numerosos investigadores propuseram painéis que abarcaram desde as grandes temáticas da antropologia clássica (cultura popular, religião) às novas problemáticas da actualidade (globalização, identidades, transnacionalismo), a temas transversais (cultura, metodologia) ou temas que se podem considerar geograficamente ou historicamente mais específicos (Timor, Caboverdianidade, colonialismo). Percorrendo o Programa que então foi editado, constata-se a enorme vitalidade que a antropologia em Portugal conhece actualmente. Não só, como já se mencionou, pela diversidade dos temas debatidos - emigração, crenças, saberes, saúde, educação, memórias, arte, história, economia, desenvolvimento, género, natureza, corpos ou afectos, para só enumerar alguns - como também pela variedade de escolas, centros de pesquisa e associações de investigação presentes. Importa ainda acrescentar que este Congresso demonstrou que a internacionalização da antropologia portuguesa é uma realidade: estiveram presentes vários antropólogos de outros países com trabalhos desenvolvidos em Portugal e noutras regiões do mundo e vários antropólogos portugueses que estudam outras realidades que não a portuguesa. A participação da Antropologia Visual (ciclo de cinema-documentários e debate) constituiu outro factor enriquecedor desta iniciativa. Mais de um ano decorreu desde que este Congresso se realizou e vários acontecimentos atrasaram a publicação das Actas: a Associação de Antropologia mudou de Direcção, questões burocráticas urgentes exigiram as atenções dos novos membros da Direcção e, quando foi possível a organização dos textos finais das comunicações, constatou-se que muitos dos participantes não os tinham enviado e que o “estado” dos painéis era muito variável: havia painéis completos, outros sem nenhum dos textos finais das comunicações apresentadas e outros, ainda, em que os textos eram em número insuficiente não justificando a “existência” do respectivo painel nas Actas. Perante esta situação, e porque a nova Direcção considerou de todo o interesse deixar um registo material exemplificativo da riqueza temática e teórica que marcou os debates no Congresso que cumpriu plenamente os objectivos propostos pelos organizadores de “realizar um Congresso onde sejam acolhidos todos os domínios de saber reconhecidos como Antropologia e que constitua um momento de reflexão sobre a sua situação actual, tanto no plano nacional como no internacional”, foi necessário tomar algumas opções que passamos a explicitar:

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Foram mantidos os painéis cujos números de textos finais das comunicações eram significativos;

-

Foram agrupados em capítulos novos, textos de comunicações de

diferentes painéis que partilhavam afinidades temáticas (os títulos desses capítulos foram inspirados nos títulos dos painéis originais).
-

Em cada um dos capítulos há uma nota que explica se este corresponde a um
painel apresentado no Congresso ou se é um capítulo que agrega comunicações de painéis diferentes, bem como uma referência aos organizadores dos painéis originais.

Acreditamos que este índice, a organização temática que o suporta e, no seu conjunto, esta publicação de Actas, não desvirtua o que de essencial o Terceiro Congresso da Associação Portuguesa de Antropologia revelou a todos os que nele participaram. Acreditamos, sobretudo, que a publicação destes textos possibilita, a todos aqueles que não puderam estar presentes no Congresso, a participação nesse debate que assim certamente irá continuar.

Ana Bénard da Costa Junho de 2007

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Coordenadores da Comissão Organizadora
José Manuel Sobral (Presidente da Direcção da APA), Cristiana Bastos (Vice-presidente da APA),

Comissão organizadora
Nuno Porto, Paulo Castro Seixas (Direcção da APA), Patrícia Alves de Matos, Cynthia Pereira, Teresa Bolas, Isabel Bajouco (FCSH, UNL), Daniel Seabra (U.F. Pessoa) , Ruy Blanes (ICS, UL), Antónia Pedroso de Lima (ISCTE), Clara Saraiva (FCSH, UNL)

Comissão Científica
João Pina Cabral - Instituto de Ciências Sociais, Universidade de Lisboa Raul Iturra, Jorge Freitas Branco, Clara Carvalho, Brian O’Neill - Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa Augusto Abade, Eugénia Cunha, Manuel Laranjeira - Faculdade de Ciências, Universidade de Coimbra Jill Dias, Jorge Crespo, Claudia Sousa - Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, U. Nova de Lisboa Luis Batalha, Narana Coissoró -Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, U. Téc Lisboa Maria Johanna Schouten - Universidade da Beira Interior, Francisco Ramos, da Universidade de Évora. Álvaro Campelo, Paula Mota Santos - Universidade Fernando Pessoa Jean Yves Durand, Manuela Palmeirim - Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho Fernando Bessa Ribeiro, Xerardo Pereiro - Universidade de Trás os Montes e Alto Douro Ricardo Vieira - Instituto Politécnico de Leiria José Orta - Instituto Politécnico de Beja Joaquim Pais de Brito - Museu de Etnologia Vítor Oliveira Jorge - Sociedade Portuguesa de Antropologia e Etnologia (SPAE) João Leal, Miguel Vale de Almeida, Carlos Simões Nuno - Associação Portuguesa de Antropologia (APA) Maria Cátedra - Universidade Complutense de Madrid Shawn Parkhurst -Universidade de Louisville, USA Miriam Grossi - Associação Brasileira de Antropologia

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Dorle Drackle - European Association for Social Anthropology (EASA) Gustavo Lins Ribeiro - World Council for Anthropological Associations

Coordenação dos Voluntários: Cynthia A. Pereira Voluntários: Fátima Almeida Filipa Soares José Fidalgo Marta Fragata, Marina Sousa, Teresa
Bolas,Elísio Jossias, Mª Fátima Gabriel, Ana Beatriz Boucinha, Vanessa Gonçalves, Rui Costa, Íris Rosa, Tiago Oliveira, Ana Rita Alves, Ana Mafalda Falcão

Secretário
Miguel Jorge Lopes Sousa Pinto

Patrocínios
O Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (ICS-UL) e o Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE) cederam graciosamente à APA as suas instalações para a realização do congresso.

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I – Capítulo Colonialismo

Textos de comunicações dos painéis:

O Saber colonial e o fim da colonização
Coordenação

Clara Carvalho
Departamento de Antropologia, ISCTE;

Raça, Eugenia, Nação e Império
Coordenação

José Manuel Sobral e Patrícia Ferraz de Matos
Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa

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Antropologia Colonial e a Produção de Conhecimento sobre Grupos Étnicos da Guiné Portuguesa
Reflexão em torno da Tese de Mário Humberto Ferreira Marques “Comportamento dos Mandingas da Guiné Portuguesa na Vida e na Morte” 1 ISCSPU, 1965

Ana Mafalda Abreu e Castro Menezes Falcão ISCTE ana.falcao@sapo.pt

A produção científica portuguesa respeitante ao período colonial foi fortemente condicionada por um poder político que pretendia manter a forma colonial existente, alheio às exigências de mudança provindas da conjuntura internacional. Muitos dos autores deste saber participaram activamente nos programas políticos do regime colonial, e mesmo do autoritário, revelando assim a natureza essencialmente política da esfera científica da época. Nesta comunicação pretende-se deixar explícito o entrosamento entre discurso antropológico e dominação colonial, vínculo exemplificado no conteúdo duma das teses de final de curso do ISCSPU. Estas teses exprimiam os níveis de conhecimento (antropológico) em que se inseriram as decisões de política colonial nas décadas de 60 e 70. As referências imediatas dos autores destes trabalhos, que aliás exibem uma consistente igualdade de pontos de vista sobre as sociedades tradicionais, eram constituídas pelos ensinamentos ministrados nas Escolas Coloniais e, como tal, nenhuma novidade sobressai das análises que elaboram. Trata-se, portanto, através de uma leitura da tese “O Comportamento dos Mandingas da Guiné Portuguesa na Vida e na Morte” revelar a estreita conexão entre o saber antropológico e a ideologia colonial portuguesa, plasmada por um lado na valorização dos usos e costumes nativos transformados em “riqueza de Portugal”, e, por outro, no dualismo que opõe a incivilidade desta etnia à tolerância que sobre ela, no suposto respeito por esses mesmos costumes, os portugueses cultivaram. Palavras-chave: Discurso antropológico, Dominação política, Ideologia colonial, Incivilidade, Tolerância.

1

Comunicação apresentada no painel “O Saber colonial e o fim da colonização”( coord. Clara Carvalho, Departamento de Antropologia, ISCTE)

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1. Discurso Antropológico e Dominação Colonial

A produção científica portuguesa no que respeita às colónias, principalmente no domínio das Ciências Sociais, encontra-se muito condicionada por um poder político que pretendia manter a forma colonial existente, alheio às exigências de mudança provindas da conjuntura internacional. Muitos dos autores deste saber participaram formal e activamente nos programas políticos do regime colonial, e mesmo do autoritário, revelando assim a natureza essencialmente política da esfera científica na época. De facto, segundo Rui Pereira (1998), a afirmação institucional da antropologia portuguesa remonta à segunda metade do século XIX, e este desenvolvimento dos estudos etnográficos, em Portugal como noutros países Europeus, estava

manifestamente associado à busca de uma identidade nacional. Esta prolífica geração de intelectuais em permanente contacto com as escolas e teorias que então se desenvolviam em Inglaterra, França e Alemanha, contrastou com o anacronismo académico que assolou a antropologia entre as décadas de 1930 e 1970. Na sequência da Conferência de Berlim, Portugal demorou 70 anos a cumprir a exigência de ocupação efectiva das suas possessões coloniais, principal mandamento resultante do evento. Estabelecida a dominação política, económica e administrativa tratava-se de conhecer, de ocupar cientificamente o ultramar português, o que permitiu a elaboração de um plano, que servia ao “prestígio” e à “utilidade nacional”, por parte da Junta das Missões Geográficas e de Investigações Coloniais. Este plano para manter as colónias reivindicava um papel, a par de outras ciências, para uma Antropologia baseada em dados etnográficos existentes nos arquivos portugueses, reconhecendo-se, num mesmo movimento, a insipiência dos estudos elaborados sobre as colónias. A Junta de Investigações Científicas do Ultramar (J.I.U.), à qual se anexou mais tarde o Centro de Estudos Políticos e Sociais (C.E.P.S.), era expressão da ociosidade científica da altura. Porém, o CEPS viria dar vida a uma política de transformação do modelo colonial, organizando e coordenando as necessárias recolhas de dados. Adriano

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I. Donde concluiu a quase inexistência de uma antropologia colonial portuguesa. encontramos plasmado nas obras dos melhores antropólogos portugueses. entre estes. Nestas vemos perdurar a concepção ideológica que faz da imagem do negro enquanto “cidadão subalterno”. aliás. ainda que frequentemente apresentada do ponto de vista antropológico.. no quadro de um colonialismo que reduz as populações autóctones a reservatórios de mão-de-obra. Esta apreciação consubstancia-se na tónica conferida pelos antropólogos culturais aos aspectos esotéricos das religiões e cerimónias africanas.U. enquanto se delineava um clima de fraternidade humanitária que bem podia ser posto ao serviço das classes coloniais no poder” (GALLO. porque lhes bastava uma aparência de conhecimento” (GALLO. falando a partir de uma asserção de princípio que reafirmava o modelo cultural lusófono como ideologia da colonização. deste modo se reconhece a especificidade do colonialismo português do ponto de vista científico: “até então aos portugueses não interessava uma informação cientificamente válida. 1988: 18-19). Director do CEPS entre 1956 e 60. Etnocentrismo que. concentrando esforços na mera descrição de ritos tribais. que todavia comportava elementos de discriminação em relação às populações autóctones.3 Moreira. A produção cultural da J. segundo R. No campo dos estudos sobre a conexão entre a antropologia e o colonialismo português. asseverava mesmo que “por definição a situação colonial que interessa à ciência política é uma situação dependente da intervenção do poder político”. situando as parcas obras de cientistas sociais que se ocuparam da ex-África lusófona “abaixo do limiar científico mínimo”. 1988: 20). as bases dos novos modelos integrativos para as situações coloniais portuguesas. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Alfredo Margarido afirma que a primeira foi mero instrumento na mudança das formas coloniais. autor que anos mais tarde se debruçou sobre a etnologia colonial portuguesa. A aceitação do critério luso-tropicalista e a conjuntura favorável de que gozava o império Português no pós 2ª Guerra tornava possível tais projectos de delimitação de uma “área cultural lusófona. aliado a uma dose avultada de paternalismo. Moreira enfatizava a urgência de um exame da situação colonial que assentasse no desenvolver de estudos monográficos sobre a dinâmica do fenómeno colonial. escassa de trabalhos antropológicos e. poucos teriam sido realizados por antropólogos portugueses. Isto porque seria. era. Pélissier. e da necessidade de guiar as populações autóctones porque incapazes de se autodeterminarem. inútil ou pouco conveniente.

Na verdade. assim.P. permitisse a continuidade do colonialismo evitando a contaminação das formas neocoloniais de territórios vizinhos.S. Era necessário elaborar uma estratégia que. A reforma de 1919. À semelhança das outras nações coloniais europeias. que institui uma Escola Colonial onde figuram disciplinas como geografia e história mas se pretere a etnologia geral em prol de uma geografia colonial.E.U. O argumento que daqui emana refere-se a uma especificidade do colonialismo português que. ressalta a intencionalidade de imbuir os cursos dos quadros coloniais de cadeiras que acelerem a adaptação do conhecimento às formas de dominação. se revelam os elementos de fraqueza e crise do império português. agregou autonomamente um conjunto de saberes sobre as suas colónias.P. esclarece ainda melhor o formato da presença ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . em 1906. de que fazem parte “noções e conceitos confluentes no património do saber antropológico europeu” (GALLO. funcionando nos momentos de normalidade da prática colonial. A finalidade principal do ISCSPU era a de formar quadros civis e militares capazes de fazer funcionar as estruturas da administração colonial.C.S. Esta última instituição é produto das múltiplas reformas sofridas pela Escola Colonial desde a sua criação. Os sistemas de investigação manejados por estes funcionários do regime foram os mais variados. É precisamente no âmbito deste empreendimento contra as formas eversivas que se pode situar as produções do C. resultado de determinadas práticas científicas peculiares. mas a antropologia era uma cadeira das escolas de quadros coloniais. No decreto de 1906. desde que permitidos pelo enquadramento colonial. a despeito da pobreza.S. e do I. proposta da Sociedade de Geografia de Lisboa no sentido de produzir uma ciência colonial.4 Contudo. ainda que não praticada necessariamente pela mão de antropólogos. até há alguns anos em Portugal não se formavam antropólogos a um nível académico. Analisar a produção colonial portuguesa de 1950 a 1975 implica primeiramente considerar a posição do País na década de 50. fragmentação e subalternidade da antropologia portuguesa. e a pesquisa de campo constituiu o denominador comum entre eles. e as datas das reformas que antecederam a sua consolidação reflectem as transformações dominantes sobre a função dos quadros coloniais. instaurando o consenso social interno. não é possível negar a existência concomitante de uma “antropologia aplicada”. também Portugal construiu um saber colonial. 1988: 24). conjuntura internacional onde emergem renovadas acções dos capitalismos ocidentais face aos países desenvolvidos e.

fazendo sentido acrescentar as disciplinas de direito internacional. uma vez que se introduzem elementos de teoria económica e de ciências das finanças. mantendo a sua função de formar quadros coloniais. privado e público e ainda formação relativa a práticas judiciárias e notariais. 1988: idem). pois que “a etnologia é a ciência que trata da formação e dos caracteres físicos das raças humanas” (GALLO. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . representando um momento de crescimento económico do colonialismo português. preconizava agora a intervenção de um antropólogo. disciplinas funcionais à formação dos administradores. em Altos Estudos Coloniais. através destas reformas. pondo fim à figura do administrador-etnógrafo na qual se baseavam as precedentes. No ano de 1946. De facto. e cria-se uma segunda formação. que.5 portuguesa nas colónias. ano de uma nova reforma. de ora em diante com uma utilidade prática cada vez mais reconhecida. através de análises de tipo físico. nomeadamente pela adopção de uma política assimilacionista. visando preparar os quadros teóricos do colonialismo. “esta [actualização] não se fazia com o fim efectivo de uma transformação do sistema de domínio” (GALLO. biológico e comportamental do indivíduo. espelha o aumento do enfoque etnográfico ao introduzir a cadeira de antropologia cultural no Curso Complementar de Estudos Ultramarinos. a reforma de 1946. 1988: 29). modificando o posicionamento português no quadro internacional do capitalismo. A etnologia praticada por esta nova figura permitia deduzir as leis gerais dos fenómenos das vidas dos povos. Uma nova reforma. Porém. o punha a par de outras formas de colonialismo europeias. justifica o abandono de lógicas formativas anteriores. 1988: 31). desde a sua origem até ao estado actual de civilização. reconhece-se a necessidade de adaptar o sistema de conhecimento às novas exigências coloniais. a uma actualização ideológica de Portugal. frente aos desígnios de domínio em curso. em 1961. biológico e comportamental das populações primitivas e não um especialista das sociedades primitivas então existentes” (GALLO. procede-se à reestruturação do antigo curso de Administração Colonial do ISCSPU. A etnologia mantinha-se no currículo mas a sua aplicabilidade e utilidade prática era considerada de segundo plano. se é verdade que se procedeu. Em 1926. Uma nova reviravolta na orientação destas formações ocorre em consequência da segunda guerra mundial que. Em ambos os cursos constava a etnografia. entendido como “um especialista do carácter físico.

1998: VII). que se dispunham “proceder ao conhecimento dos grupos étnicos de cada um dos nossos domínios ultramarinos. tuteladas por Mendes Corrêa. o sentido antropobiologista reinante durante quase toda a primeira metade do século XX. marcou decisivamente a orientação do pensamento antropológico português por toda a primeira metade do século. 1998: XVII). A recorrência a M. por outro. Corrêa é inevitável. preferindo. Esta visão restritiva das disciplinas etno-antropológicas. desencorajava a disciplina das categorias exclusivas da antropologia física. cuja designação trai desde logo “uma divisão fundadora no campo das ciências antropológicas em Portugal na primeira metade deste século: de um lado a Antropologia entendida como o estudo do homem físico.6 A aceitação destes princípios foi bastante simples dado que. e portanto também possíveis. Em 1918. paulatinamente. suplantando a simplista visão craneológica. partes de uma equação em que os segundos são produto de uma combinação complexa aprendida e das tendências genéticas de cada ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . por um lado confirmavam a tradição portuguesa que a partir de Mendes Corrêa foi sobretudo a da antropologia física e. do outro a Etnologia. foi-se somando. Assim se subtrai à antropologia qualquer ligação às estruturas sociais dado que ela é apenas o principal elemento para o estudo do crânio humano. doutorado em Antropologia física. Fundador da «Escola do Porto» este médico. a elaboração das respectivas cartas etnológicas” (PEREIRA. António Augusto Mendes Corrêa cria com Américo Pires de Lima a Sociedade Portuguesa de Antropologia e Etnologia. Foi a época de força da antropobiologia. de novos elementos naturais. as primeiras acções em terreno colonial dignas de menção foram as famosas missões antropológicas. ao abordarmos a vertente física da antropologia ou. Esta lógica corporiza-se nas reformas de 1946 e 61. convertidas nas únicas investigações antropológicas úteis. por serem capazes de fornecer à administração colonial portuguesa os meios de reforçar a sua ocupação e incrementar a mobilização da força de trabalho indígena. onde vemos surgir a antropologia cultural nos cursos do ISCSPU. da mensuração e da quantificação. As concepções contidas nos manuais desta disciplina apontavam para uma ligação entre cultura e comportamento dos indivíduos. vinculada a uma concepção científico-naturalista das ciências. geográficos e históricos que. eram conjugáveis com a ideologia colonial e as suas exigências de domínio. No âmbito de actividade desta escola. ou seja. entendida como o estudo do homem cultural e social” (PEREIRA.

pesquisas utilizáveis como fontes antropológicas. privilegiavam o discurso ideológico do regime. Esta visão ratificava as convicções portuguesas relativas aos povos africanos. podendo mesmo conter conclusões diametralmente opostas às da pesquisa original. detenhamo-nos no caso particular dos Relatórios Confidenciais. mas também revela “as duas directrizes principais da sua funcionalidade: a gestão dos momentos de transição da forma colonial e o uso ideológico para o interior de Portugal” (GALLO. e fortes penalizações para quem desta quisesse eximir-se. que continuavam a ser “cidadãos de segunda”. tal como estes. este tipo de produção não aparece senão no formato de teses de final de curso do ISCSPU.. na procura das condições necessárias para uma racionalização eficaz da gestão colonial. por um lado. Alternando entre a fidelidade às ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . É pela análise destas produções que. 1988: 38). pretendessem licenças para elaborar a tese. resultados de missões a África e cujos principais objectivos se cifravam. redigidas pelos vários administradores coloniais que tinham frequentado o curso de Altos Estudos Coloniais. Após a década de 50. excepto através de simulações que propusessem novamente a sua inferioridade ou subalternidade a um outro nível. resultavam cientificamente inaceitáveis. por outro. É neste sentido que podemos afirmar. sem se afastar de uma grelha interpretativa de carácter biológico e social. As teses de final de curso.7 um. em fazer frente às pressões do colonialismo internacional e. se esclarece a relação entre antropologia e colonialismo. seguindo o raciocínio de Gallo. O estudo dos relatórios e das teses serviu para atestar a sua argumentação em torno da existência de uma antropologia colonial portuguesa. exprimiam os níveis de conhecimento em que se inseriram as decisões de política colonial do regime português nas décadas de 60 e 70. Existiam simultaneamente facilidades para os que. Em termos temáticos podem ser classificados em três grupos.U.I. que as teses aparecem como uma continuidade dos relatórios confidenciais e. quando publicadas pela J. Retornado à produção cultural do CEPS. na óptica de Donato Gallo. ou ainda do rendimento nacional do ultramar. O entendimento ideológico do “outro” não era alterável. consoante tratassem de movimentos associativos e minorias étnicas. elucidando também as dinâmicas culturais que favoreceram e regularam as diferentes funções da antropologia da época. de entre estes. Frequentemente alvos de censura e de modificações estratégicas. sobre a acção das missões e razões da emigração para as cidades.

apesar de todas as indeléveis ligações ideológicas. a possibilidade e o uso do saber colonial” (GALLO. com as mensagens ideológicas elaboradas pelo regime e com a ideologia das noções antropológicas do período da sua formação na escola de quadros coloniais” (GALLO. verificando-a agora com base nas condições que a produziram: o único conhecimento permitido era o aplicado e aplicável e a posição objectiva do intelectual português era a de um prestador de serviços a quem se encomendava. porquanto estão condicionados “ao ponto de serem completamente acríticos em relação à própria visão escolar da realidade colonial” (GALLO. O saber colonial português foi. então. As suas referências imediatas eram constituídas pelos ensinamentos ministrados nas escolas coloniais e. numa de duas modalidades possíveis: ou participando directamente nos aparatos coloniais ou dependendo deles para o financiamento das suas investigações. O autor avança ainda que. controlava e até censurava o saber. no que concerne as práticas antropológicas podemos. ainda que tenha sido amiúde negada. para além de podermos com alguma propriedade aferir a existência de uma antropologia colonial portuguesa. O condicionamento dos produtores deste saber devia-se essencialmente ao seu cometimento com o sistema de domínio. A presença destes mecanismos que submetiam a produção intelectual lusitana aos desígnios do império demonstra que “em Portugal o poder geria exclusivamente para os seus fins a necessidade. Gerou uma intelectualidade capaz de produzir análises etno-antropológicas passíveis de apropriação para uso político sobre a população dominada e de cariz propagandístico na metrópole. era a de “conhecer para melhor dominar”. aferir que o domínio colonial português se serviu de um aparato cultural cuja finalidade. 1988: idem). como tal. 1988: 170). Ora. com as respectivas diferenças que emanam da ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . directamente funcional para a gestão do poder nas épocas de crise e de transformação do modelo de controlo colonial. É no seguimento destas asserções sobre o imbricamento entre antropologia e colonialismo que Gallo alerta para a precisão de revermos a acusação de acientificidade da produção cultural portuguesa ligada às colónias.8 práticas normativas e a curiosidade antropológica. 1988: 169). os aparatos coloniais deste colonialismo funcionaram à semelhança dos de outras potências coloniais. os autores destes trabalhos exibem uma consistente “igualdade de pontos de vista sobre as sociedades tradicionais. nenhuma novidade sobressai das análises que elaboram.

9 especificidade de uma forma colonial subalterna e periférica ao sistema económico internacional. de encarar as relações entre a Antropologia e a dominação colonial: (. por outro. e. Os Mandingas da Guiné Portuguesa: Confronto entre Incivilidade e Tolerância Em primeira instância cumpre ressalvar as particularidades desta tese de final de curso. o levantamento etnográfico de determinadas culturas. também Rui Pereira. explícitos ou latentes. 2. Ora. no caso da produção antropológica colonial portuguesa ambos os ângulos de abordagem se afiguram pertinentes. mas complementares. então. que tal produção antropológica prestou à empresa colonial. mesmo servindo um intento de dominação colonial. propõe duas perspectivas diferentes. visto que. por um lado as necessidades coloniais ditaram a problematização científica – como no caso da relação entre medições antropométricas e a quantificação da força de trabalho indígena –. dez anos depois de Gallo. os contributos directos ou simbólicos. um por um. nalguns casos. representou. 1998: XLVII). tendo bem presente o subjacente entrosamento entre discurso antropológico e dominação colonial demonstrado nas páginas precedentes. que passaremos a escalpelizar o conteúdo de uma das teses de final de curso do ISCSPU. se avaliam. A este propósito. a presente tese se insere no período considerado e surge na época da ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .. por um lado. cuja importância foi já referida no desenvolver da matriz teórica de Donato Gallo. (PEREIRA. no prefácio que escreveu para a reedição do Macondes de Moçambique de Jorge Dias. É com base na articulação entre o poder heurístico destes dois vectores de análise da produção antropológica colonial.. Se.) ou se considera o conjunto de problemas e temas questionados pela produção antropológica colonial como derivando das relações de força e das necessidades da própria situação colonial (…) ou. uma prestação académica e científica importante. que a distanciam de outras consideradas num mesmo olhar por Donato Gallo.

Sabe-se. Decorrendo. uma elaboração teórica desprovida de trabalho de campo. em função dos seus deveres profissionais metropolitanos (Chefe de repartição do ensino liceal) “absorventes até ao esgotamento”. no mínimo. Sobre o autor pouco se conseguiu averiguar. a ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . que sobre esta colónia versavam (1988: 95). 1965: III). durante muito tempo no ambiente ultramarino (…) e. “a hostilidade que os diplomados da Escola Superior Colonial sentiram. No entanto. assunção retirada por Gallo a partir do reduzido número de teses. O autor. aliás. por outro não foi elaborada por um aluno que tenha sido administrador colonial ou militar. não ter podido frequentar o curso de Altos Estudos do reformulado ISCSPU. donde se infere a sua relativa marginalidade face a autores de destaque das ciências sociais comprometidas com o projecto colonial da época. diplomado com o curso superior colonial. notava-se. critério de constituição da “amostra” de Donato Gallo. Ainda. portanto. curiosa dado que a Guiné na época “parecia não dar as mesmas preocupações que as outras colónias ao governo português”. contudo que a motivação para a realização desta tese parte de uma lógica estatutária visto que o autor. a este respeito. a defender (MARQUES. ainda que modestamente. Invoca. se nos cingirmos apenas ao ambiente metropolitano. Ferreira Marques justifica a sua opção temática espacial por “ser a Guiné a nossa província ultramarina mais atingida pelo desvairamento negro da presente hora”. poderemos concluir que. As sucessivas reformas que foram reconfigurando uma Escola Superior Colonial em ISCSPU trouxeram consigo. desde que apresentasse uma dissertação. depois da reforma de 1961. a instauração de hierarquias estatutárias entre os antigos e novos alunos de cursos com uma origem comum. à medida que os cursos se ajustavam às realidades coloniais e se subdividiam para melhor se especializarem. algo que se lhe tornou possível. A escolha do tema é também. 1965: II). se não havia hostilidade. donde escrever sobre ela serviria para. pelo menos indiferença” (MARQUES. destas circunstâncias particulares acresce ainda o facto da dissertação sobre o comportamento dos mandingas provir simplesmente da “conexão de elementos bebidos em fontes de várias origens” sendo. confessa a mágoa de. entre 1961-1975. consciente dessa realidade.10 extensão das lutas de independência iniciadas em Luanda a outras colónias portuguesas. aspirava através dela obter a equivalência ao grau de licenciatura em Ciências Sociais e Política Ultramarina.

Cabe ressalvar também a presença. 1965: IV). o grupo mandinga o mais aliciante pelo fundo histórico de haverem sido os portugueses os primeiros europeus a tomarem contacto com os mandingas no tempo das descobertas” (MARQUES. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . do ódio ao branco” (MARQUES. ameaçadoras para o domínio português.11 escolha da etnia mandinga se rege por critérios de ligação ao projecto lusitano: “ser. de mútua compreensão” que norteou as relações entre povo colonizador e colonizado (MARQUES. passo a passo. Mas o que interessa reter à primeira vista são simultaneamente as possibilidades eversivas do povo mandinga. lança mão de uma descrição da época. ajudam. Apesar da manifesta ausência de pertinentes referências bibliográficas no texto. Para o confirmar. fazendo especial menção à reduzida bibliografia de autores portugueses. por enquanto interessa analisar. 1965: idem). a referenciar bibliograficamente. encoberta ou politicamente declarada. Os agradecimentos. como veremos adiante. e na decifração das referências mais imediatas de um autor. na compreensão do tipo de antropologia que se tentou pôr em prática neste estudo dos mandingas. 1965: V). contudo. facto ainda mais preocupante visto que é apenas de conexões teóricas que este se constitui. no prefácio. os diversos capítulos que a constituem. isto é. Esta temática será esclarecida atempadamente no decurso da análise da tese. do ISCSPU. o autor faz no prefácio um elogio da excelência das obras em que se apoiou. Marques refere-se a África como “o alvo da curiosidade mundial” instituído pelo desejo de “desvendar o seu mistério” e a “pretensão de civilizar as suas gentes”. António Carreira. portanto. de uma temática que só no final da tese começamos a compreender do que realmente se trata. atribuída a Duarte Pacheco Pereira. tendo em conta o que se disse no capítulo anterior. Esta inexactidão de fontes e inferências teóricas pouco documentadas e actualizadas vai percorrer todo o conteúdo da dissertação. dirigidos aos Drs.E. que são também as de uma escola. e a uma mais vasta panóplia de autoria estrangeira. da Guiné Portuguesa. missão que “está agora polarizada na decifração do enigma economico-politico suscitado pelas reivindicações que nela pululam. muitos destes ligados ao C. criadas pelas correntes ideológicas ou só aparentemente ideológicas que se alicerçam na finalidade. Fernando Rogado Quintino e ao Centro de Antropobiologia e Centro de Antropologia Cultural. sem. e o “pleno clima de confiança nos portugueses.

“em adiantado estado de civilização”. Marques invoca a Doutrina de Monroe. o domínio português se legitima pela particular tolerância e compreensão reveladas no contacto com os povos que pretende subjugar/civilizar: “se os instigadores do ódio ao branco. talvez não conseguissem arranjar meia dúzia de adeptos” (MARQUES. nome que provém da região do Mandén. tem o seu revés de benefício para os sudaneses visto que. Mas este império acaba por sucumbir no despontar do século XV. A aparição dos mandingas dá-se pela mestiçagem entre autóctones. conforme a conversão. E foi dessas massas fugidias que se formaram os grupos étnicos que envolveram a Guiné Portuguesa. em vez das promessas fantasiosas. este grupo subdivide-se. lessem aos instigados os capítulos das suas histórias em que o ódio figura como causa principal no atraso e na ruína de muitas sociedades em evolução. assim.12 Começando por um relato. todavia. onde. o império do Mandén. foi. Inicialmente feiticistas. perturbando a apropriação colonial de povos e territórios. aqueles que resistiam foram impelidos a rumar a Sul. que sucederam ao desmembramento do império de Kumbi. se podem superiorizar face ao atraso dos verdadeiros autóctones: os negrilhos. De facto. Em meados do século XIII e sacudido o jugo dos Almoravidas. para refutar aos sudaneses a sua qualidade de autóctones da África. e os primeiros. que se pretende histórico. como veremos. os não convertidos permanecem com a designação de soninkés ou sarakolés enquanto os convertidos passam a nomear-se mandingas. e a consequente expansão do islamismo. com a expansão do islamismo. Colonialismo e civilização dão as mãos numa relação inextrincável. nascem os sarakolés ou soninkés. A chegada dos mandingas à Guiné portuguesa. que afirma a posição dos Estados Unidos contra o colonialismo europeu. Destes cruzamentos conjugados às duas vagas de invasão de massas semitas. e brancos do mediterrâneo. Numa lógica um pouco travessa Marques pretende deslegitimar esta pertença que. negros oceânicos da segunda invasão. da formação do grupo étnico. anterior à dos fulas-pretos feiticistas. trataram de formar um grande estado que não se concretizou devido à ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . O acolhimento desta orda islâmica não foi de todo unânime. difícil de precisar em termos temporais. os Mandingas constituem o seu império. seguindo-se a tomada do centro de África pelos árabes. considerada como a sua pátria. 1965: 2). com o Norte de África dominado pelos árabes e as populações subjugadas. depois de estabelecidos. a parcela convertida dos soninkés.

verificada a impotência para a rebeldia e as vantagens em aceitarem o domínio português. O primeiro grande capítulo da tese sobre o comportamento dos Mandingas é dedicado aos caracteres somáticos desta etnia. que. o grupo mandinga exigiu-lhes uma elevada tributação de ocupação de território que lhes valeria grandes dissabores futuros. ao contactar com os povos de todas as latitudes” (MARQUES. impotentes. À igreja católica caberia desempenhar o papel de instituição legitimadora do regime colonial e dos valores por ele veiculados (THOMAZ. outros entram num sistema religioso misto e. e com isto assegurar a preservação do império (THOMAZ. Eugene Pittard e do Prof. 2002: 111). todos baseados em cálculos da média de uma série de mensurações. Segundo uma chave interpretativa baseada no pressuposto de que a diferença física se manifesta também enquanto diferença mental. no seu estudo por meios antropológicos reproduzir hierarquicamente a desigualdade. 2002:119) e. assim se divulga uma atitude doutrinária relativamente à qualidade evangelizadora e. Para tal convoca contributos de Alcide D’Orbigny. numa proposta quase luso-tropical. Com o aumento das massas de fulas-pretos a fixar-se na Guiné. O intuito de análises assim esboçadas era o de garantir a preservação da diferença e. elaborados num texto praticamente telegráfico que desvela a adesão a uma análise antropométrica dos povos. dos portugueses. Barrow. outros revelam uma certa renitência: “é nos renitentes que se encontra a grande massa que no final do século XIX e nos primeiros anos do século XX deram trabalho às autoridades portuguesas para receber o sopro de Cristianização que sempre foi timbre de Portugal. ainda. reconstruindo assim a homogeneidade através de uma abstracção ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . fingindo-se convertidos ao islamismo. 1965: 17). António de Almeida. Marques começa pela análise da estatura.13 dispersão que dificultava a unidade política. “elemento indispensável à classificação dos vários grupos da humanidade”. eivada de ideias de determinação biológica de tipo racial esgrimidas enquanto discurso científico. estes. os mandingas entraram numa fase de quietação” (MARQUES. Iniciou-se uma guerra sangrenta donde os mandingas saem vencidos dando origem à tirania dos Fula-Pretos e à tentativa de islamização dos dominados. suportam a tirania e revelam diferentes posturas face à islamização: uns convertem-se. logo civilizadora. 1965: idem). uniram-se aos futa-fulas para se libertarem do domínio mandinga. confere um carácter benevolente à colonização: “E. Aquando da fixação dos fulas. Estes.

e o valor dessa diferença oscila. tendo como base as anteriores “teorias científicas”. Quanto aos mandingas. vê a base desta noção na somatologia. como povo de alta estatura. 1965: 22) Paul Broca. realizara estudos tributários de um darwinismo social que pretendiam determinar biologicamente a imagem do negro colocando-o entre “o homem e o macaco” (GALLO. A divisão em dolicocéfalos e braquicéfalos. Continuando a percorrer os caracteres que definiam o conceito abstracto de raça. Les Races et l’Histoire. já de certo modo datados. nas observações de A. Carreirra e Emília de Oliveira Mateus. mas a negrura varia em intensidade. Marques vai forjando um entendimento antropológico dos mandingas. como negros que são. segundo Eugene Pittard. surgem também as outras categorias cefálicas. remetendo obviamente para Mendes Corrêa. mesmo à época. Baseando-se em Broca e Deniker. são dolicocéfalos na sua maior percentagem mas. Para o atestar recorre a António Carreira. a estatura do homem é sempre maior do que a da mulher. não isenta de polémica já na altura de realização da tese. enquadrado por uma ciência das raças que. Os mandingas são considerados por Marques. entre 9 e 12 cm”. e “conferindo uma nova aparência de cientificidade a uma classificação oriunda do senso comum” (RAMOS. nos grupos humanos. esta última no quadro da missão antropológica da Guiné em 1946. 1988: 159). 2003). Recorrendo a textos apodados de uma cientificidade duvidosa e. encontra valores médios elevados para os mandingas do sexo masculino e estaturas pequenas em indivíduos do sexo feminino. Deniker insere-se igualmente nesta linhagem de autores que pretendiam ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . o índice cefálico figurava como outro dos elementos científicos encontrados para a classificação dos grupos humanos. na época director da escola de antropologia de Paris. espelha uma adesão a teorias de superioridade racial que pretendiam inferir do afastamento entre estádios de civilização dos povos. onde este administrador colonial e antropólogo ligado ao Centro de Estudos da Guiné Portuguesa. Deste modo permite-se afirmar que “esta diferença está absolutamente de acordo com a teoria científica de que. ao sabor dos cruzamentos havidos no decorrer do tempo” (MARQUES. “Mandingas da Guiné Portuguesa”. Marques vai estabelecer uma equivalência entre a cor da pele do mandinga e as escalas cromáticas propostas pelos anteriores autores: “a cor da pele dos mandingas corresponde ao último destes tipos [preto].14 matemática.

1965: 25). Os estudos deste tipo aspiram a discriminar e analisar primeiramente. porém não tão evidentes. como apanágio do seu estádio inferior de civilização. No caso dos mandingas o autor afirma apenas que estes são platirrinios. Assim. e logo aos mandingas. criando esse quadro de homogeneidade tão precioso no delinear de estratégias de dominação colonial.15 classificar globalmente um povo com base nas observações somáticas e morfológicas da sua corporalidade. depois. ignorando a enorme diversidade racial no interior de cada grupo. resume a sua ideia religiosa. olhos. nas suas características funcionais de maneira a determinar os tipos constitucionais mais frequentes em cada um deles e. as modalidades mais características da sua fisiopsicologia” (RAMOS. Para o índice nasal sucede o mesmo processo de mensuração e de construção de equivalências automáticas. biotipologicamente. os mandingas seriam então. “que acompanha todos os actos da vida do mandinga” e. ironia e superstição. A psicologia do mandinga caracterizar-se-ia. portanto. é fortemente vincada durante a descrição dos seus comportamentos na vida e na morte. o seu carácter adaptativo pode ser encarado como ameaça a este mesmo domínio uma vez ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . A face. 2003). sentido artístico. “e. Sobre a boca. nos merecem confiança” (MARQUES. e através da antropometria. Esta última. o autor reproduziu de descrições lidas. pelo sentimentalismo. imputando-se aos negros. um prognatismo que correlaciona tipos morfológicos e atributos intelectuais. as características morfológicas de um dado “tipo”. honradez. não fora a proximidade de fontes subversivas e as doses avultadas de superstição que lhes estrutura o quotidiano. pacifismo. vista e ouvidos as informações são escassas e inconclusivas. isto é. pelo seu pacifismo e capacidade de adaptação. uma etnia particularmente dócil na aceitação do jugo colonialista português. Ademais. adaptação. as características são elencadas de forma breve e generalizadora. sem especificar se em virtude desta qualidade se podem tirar conclusões sobre a sua condição intelectual. à falta de apreciação presencial. e pelo poder de observação demonstrado noutros trabalhos. Carreira. invocando-se novamente teorias científicas que neste caso não possuem referência. meras descrições que. Ora. como outro dos indicadores do grau de intelecto. cabelo. Relativamente aos caracteres psicológicos. pelo seu aturado contacto com os nossos mandingas. segundo A. “segundo conclusões tiradas por pessoas que. ou o ângulo facial é considerado. quanto maior a abertura do ângulo maior a superioridade intelectual.

de segurança e de condições higiénicas” (MARQUES. sobre a protecção das casas de mulheres. para que tal receba esse apelido é preciso ser um sítio “a que nós [civilizados] associamos a ideia de conforto. arrecadação. Refere-se-lhe como um tegúrio. aprisco. empregam as criadas.16 que. noutra usa-o para imputar primitivismo: “têm alguma originalidade. Perante tal cenário clama. é-lhe exigido mais que isso. 1965: 106). contando histórias de lobisomens aos filhos família. Partindo agora para uma análise do discurso sobre o comportamento mandinga. não são mais do que reformulações das originais. pela intensificação da construção. o tom jocoso. uma estratégia dúbia de afirmação das características positivas e ao mesmo tempo. verificamos. “por ela pouca ou nenhuma diferença fazer da que serve para recolher animais”. o autor refere-se frequentemente às sociedades evoluídas como contraponto de comportamentos supersticiosos que descreve: “salvas as devidas distâncias. Marques classifica de “exortação patética” as palavras dirigidas pelo Almami (padre muçulmano) ao novo profissional e. para o autor. com a maior urgência. não é onde se habita. “de habitações dignas de serem ocupadas pelo ser humano que é o mandinga!”. justifica-se referir ainda as representações reveladas relativamente à produção artística mandinga. que recordemos. 1965: 37). com notória indignação. e as comparações desniveladas que elabora: referindo-se a uma cerimónia de entronização ao papel de médico mandinga. se pensarmos que em 1965 estavam já acesas muitas das guerrilhas de libertação africanas. que incapaz de se autodeterminar. são também os juízos de valor. Quando fala da casa mandinga fá-lo de forma flagrantemente etnocêntrica. nas sociedades evoluídas. como forma de os terem em sossego [algo que] nos povos atrasados ainda é desculpável porque obedece ao espírito supersticioso que eles têm” (MARQUES. Não querendo alongar-me na enumeração de mais exemplos desta parcialidade de análise. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . é o mesmo processo que. da incivilidade desta etnia. 2002: 281). Sintoma da falta de cientificidade das descrições de Marques. justificava o domínio português. os mandingas constituiriam um reduto de conformidade que o regime procurava a todo o custo perpetuar. Se numa altura Marques lhes realça o sentido artístico. adverte que “os atrevidos são talvez em percentagem igual ou maior do que nas sociedades evoluídas”. desde logo. Casa. De facto. assente sobre as bases da tolerância religiosa e cultural que “caracterizariam a obra portuguesa no mundo” (THOMAZ.

uma descrição detalhada das características fundamentais de dada etnia. não sabemos o que o leva ou em que documento se apoia para assumir tal coisa. Marques esclarece. tido como objectivamente inferior. Ora. Apreciações de carácter ético que desvalorizam as particularidades culturais de determinado povo. mas este darwinismo social manifesto em produções que se queriam antropológicas. 1965: 45). 1965: 109). porquanto esta só faz sentido numa determinada e bem restrita organização social dos significados. O que deveria estar em causa numa análise etnográfica. 1965: 66). Pátria e Família. são menos juízos éticos sobre a vida dos povos em questão. e como tal de civilização e progresso: “tornando possível a movimentação ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . num processo que mediu pela bitola portuguesa todos os comportamentos que não se coadunavam com a mentalidade colonialista e autoritária do Estado Novo. dada a psicologia gentílica” (MARQUES. que Marques faz uma ressalva ao “amor familiar” entre os mandingas: “esse amor tem de ser considerado num campo relativo. se pode classificar aspectos da vida mandinga como “actos do mais puro barbarismo”. 1965: 49). Só estando profundamente imbuído de uma crença na real superioridade de um povo sobre outro. Neste aspecto particular se revelam as fraquezas de uma tolerância característica do português. ou próxima dela. mas sente-se nelas um fundo musical de primitivismo” (MARQUES. M. Voltamos a assistir a resquícios de uma tese sobre a inferioridade das raças quando se aborda a questão das actividades desportivas. do que. nota-se hoje uma acentuada relutância das viúvas em aceitarem a união com os cunhados” (MARQUES. É neste quadro de sentido que une Deus. serviu ao regime para se posicionar discursivamente acima de qualquer negro.17 não há dúvida. Este etnocentrismo e paternalismo explícito nas produções antropológicas portuguesas era ainda de maior funcionalidade em períodos em que se temia a turbulência das lutas de libertação nas colónias. A ocupação europeia de África é enfatizada por Marques como “sinónimo de pacificação”. Noutra zona do texto faz-se a apologia da influência da civilização portuguesa na mudança comportamental dos mandingas: “Pela evolução por que tem passado o mandinga no contacto com a nossa civilização. que “o desenvolvimento intelectual do mandinga encontrou muito cedo o seu termo. e já tendo presente a especificidade antropológica da época. o que o leva a fugir de tudo o que exija esforços mentais” (MARQUES. a dada altura.

sabe-se que há “católicos civilizados de raça negra” (MARQUES. incompatível com a série de correntes ideológicas que promovem o ódio ao branco. Já na época dos relatórios confidenciais de que nos fala Gallo. ao afirmar que “se não fora a intervenção das autoridades portuguesas. É o caso dos relatórios de Silva Cunha em que este analisa os vários movimentos eversivos. vemos em ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Numa alusão clara ao pan-africanismo. Marques revela-se preocupado com a série de movimentos eversivos que. 1965: 82). e islamização. originou a criação de novas vias de comunicação e. 1965: 64). afirma. que os mandingas se distribuem por duas formas religiosas principais: o animismo. demonstrando que “as origens destes movimentos estão nos estragos impostos pelo colonialismo às estruturas tradicionais” (GALLO. Marques aproveita para inserir mais uma das suas considerações propagandísticas da benevolência lusitana. mais afincadamente sentiriam o erro” encerrado na modalidade da sua organização política (MARQUES. De forma consentânea. porém. existia uma atenção particularmente interessada em defender os interesses do colonialismo português. A isto parece seguir logicamente um sentimento de dívida. A história da submissão mandinga ao domínio fula reverteu-se num predomínio acentuado do islamismo nestas duas etnias. baseandose numa “autoridade em assuntos da Guiné” – Teixeira da Mota –. Em termos religiosos. que foi perdendo terreno com a emergência do nacionalismo africano. nas zonas de transição e do interior. na zona litoral e a norte do canal do Geba. a sua “boa vontade” é sempre enfatizada nas considerações de Marques. com origem política ou religiosa. Os movimentos religiosos eram nos relatórios retratados através de uma imagem em que reinava a incivilidade. postos em crise pelas tentativas de intromissão do capitalismo internacional. 1965: 85). sob a égide de reivindicações religiosas ou nacionalistas têm provocado uma “agitação negra quasi total”. o desenvolvimento económico das regiões” (MARQUES. A “acção lenta e pertinaz da colonização dos europeus”. daí. de afeição pelo bom colonizador. Alegando a fragilidade da organização política mandinga. revelada no rápido desmembramento do seu império e na submissão ao domínio fula depois da batalha de Turu-bã. e esta só poderia ser superada através da conversão ao catolicismo. principalmente quando se toca no aspecto político e religioso da etnia mandinga. 1988: 43).18 com segurança. adoçando a prepotência dos dominadores [fulas].

19 Marques uma mesma postura. torna possível admitir a existência de uma profunda impregnação dessas doutrinas que ameaçam o domínio colonial português na Guiné. Sudão. o autor faz especial menção a outras circunstâncias que podem subverter o rumo lógico dos processos de manutenção do império. tal como avançado anteriormente. Mas. como já foi dito. “adoçou”a prepotência dos fulas. “a proximidade de repúblicas recém-nascidas põe os povos que nela habitam na iminência de serem influenciados pelas novas doutrinas do continente” (MARQUES. enceta uma revisão da história política dos mandingas. o autor adverte para a necessidade de se lhe dar maior ênfase “quando o atraído não atingiu o grau cultural que lhe permitiria discernir com equilíbrio”. “sabido como é que no Mali e na Republica do Gana se agitam com mais intensidade as doutrinas de emancipação do continente negro”. O que estiver mais perto da fonte donde jorram as ideias terá mais probabilidade de ser atingido” (MARQUES. o colonizador português. República da Guiné e do Gana. colocando a salvo os elementos mandingas: “parece lógico admitir a existência de uma dívida de gratidão por parte dos mandingas da nossa Guiné para com Portugal. admitir-se também a dificuldade da sua absorção pelas correntes de independência que volitam em seu redor” (MARQUES. logo. Senegal. dos próprios Mandingas. este último diz mesmo que “os negros foram sempre propensos à continuação de sociedades secretas”. A simples existência deste pólo atractivo não pode pôr-se de lado e. a dispersão dos mandingas pelas terras do Mali. 1965: 118). assim. Na verdade. O equilíbrio é aqui corporizado na perpetuação da dominação colonial portuguesa. razão que faz o autor discorrer sobre “as características especiais e únicas do sistema de Portugal contactar com os povos que civilizou” e que permitem esperar deles reconhecimento e gratidão. e. na qual. Com o intuito de deixar clara a dívida dos mandingas para com o civilizador português. e as conexões ideológicas destas com os movimentos eversivos do poder colonial fá-lo recear as hipóteses de contaminação dos mandingas: “a situação geográfica de cada povo tem uma importância capital na determinação da maior ou menor facilidade de impregnação. Este é precisamente o caso dos povos da Guiné portuguesa e. No entanto. em nome de um sentimento de gratidão que. ainda ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . 1965: idem). Gâmbia. e no tom de alerta que faz desta tese um justo sucessor dos relatórios confidenciais. mais uma vez reificando o etnocentrismo e paternalismo que o guiaram durante toda a tese. 1965: 120).

Numa passagem que se assemelha a uma prece. dominando. indelevelmente revelador de uma ligação entre o saber antropológico e a ideologia colonial portuguesa. o volume de informação que poderíamos cruzar no espaço deste ensaio extrapola significativamente o que para a sua realização foi estipulado. garantir. à luz de uma antropologia que não é já aquela dos tempos coloniais. a partir de abordagens como esta. eivada de um cariz religioso e de forte carácter ideológico. a própria existência da nação portuguesa nos quatro cantos do mundo” (THOMAZ. os portugueses alimentavam. encerramos esta dissertação na esperança de que Essa será a força que neutralizará todas as forças contrárias. no gradualismo da «transfusão das almas». de por um lado valorizar os usos e costumes nativos e transformá-los em riqueza de Portugal. muito ainda ficou por dizer. embora associados e pertinentes. porque neste momento nos acode à imaginação a Cruz de Cristo. Próximas oportunidades de repensar estas questões surgirão. 2002: 277). Ferreira Marques apela aos Céus para que guie no sentido certo um império que já era na época uma forma colonial em vias de extinção: No entanto. ser iniciados. bem de alto a estrada percorrida por mais de quatro séculos por uma Nação que teve sempre como principal determinante da sua expansão no mundo a conquista de almas e não a de territórios. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Mas. Procurava-se dessa forma “perpetuar o império e a sua estrutura hierárquica e. no suposto respeito por esses mesmos costumes. Não obstante o que se tentou demonstrar nestas páginas. A forma como se finaliza esta tese é a expressão mais finalizada do propósito último que levou à sua elaboração. pode não conseguir neutralizar as forças de sinal contrário trazidas pelas “reivindicações negras em ebulição”. apesar de se estar a analisar em primeira-mão material intocado. contemplando aspectos que. e por outro de opor a sua incivilidade à tolerância que sobre ela. e outros estudos poderão. assim. numerosos autores de destaque por convocar e uma história do saber etnológico da Guiné por recordar.20 assim. Tratou-se neste documento. em virtude de constrangimentos de dimensão não puderam aqui ser desenvolvidos.

21 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .

Omar Ribeiro. Gérald (dir. in MARQUES. Lisboa.scielo. “Introdução à reedição de 1998” in DIAS. 1965.doc. ER. Newton de. “Factos e teorias históricas (sociais)”. Rui. 2002. Rio de Janeiro (http://www. Mário Humberto Ferreira. 1988.pt/revistas/documentos/revista_49/artigo4551. Antropologia e Colonialismo. Os Macondes de Moçambique. Lisboa. Gérald. “Ciência e racismo: uma leitura crítica de Raça e assimilação em Oliveira Vianna” in História. Lisboa.10.up. Donato. 1998. pp. L’Harmattan. Jorge. Vol. Vol. 2005.22 Referências Bibliográficas CARVALHO. “Brève évocation d’une histoire de la constitution du savoir ethnologique relatif à la Guinée Bissau” in GAILLARD. nº. ISCSPU. THOMAZ. MACEDO.letras. Texto Editores. Lisboa.539-577. 2000. pp. PEREIRA. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .1.br/). 1920. Ecos do Atlântico Sul. 64-86. editora UFRJ. Rio de Janeiro. 2003.). CNCDP e IICT. O Saber Português. RAMOS.2. Paris. GAILLARD. Comportamento dos Mandingas da Guiné Portuguesa na Vida e na Morte. Clara. Ciências e Saúde. “Antropologia da Guiné-Bissau” in Dicionário Temático da Lusofonia.ler. www. GALLO. Migrations Anciennes et Peuplemente Actuel des Côtes Guinéenes. Jair de Souza.

Palavras-chave: raça. 2 Doutoranda em Antropologia Social e Cultural do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e Bolseira da Fundação para a Ciência e a Tecnologia. 1. influente nos EUA e na Europa. eugenia. a miscigenação seria nefasta. Nação e Império”. Posteriormente. Associadas a esta lógica. inspirado nas teorias populacionais Comunicação apresentada no painel intitulado “Raça. Ricardo Roque. e no qual participaram também José Manuel Sobral.Oximórons do Império: as buscas da perfeição ao serviço da nação 1 Patrícia Ferraz de Matos 2 Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa patricia_matos@ics. Eugenia. império. Tal projecto de “purificação” procurava garantir o poder e a soberania dos portugueses e alguns cientistas fundamentaram os perigos da mestiçagem daqueles com as populações autóctones dos territórios ultramarinos. miscigenação.ul. Agradeço aos colegas que fizeram parte deste painel e aos que participaram no debate final. surgiram noções como “pureza da raça” e. Assistiu-se então à procura de afirmação da superioridade biológica e racial dos portugueses. 1 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .pt Nas primeiras décadas do século XX em Portugal tanto a ciência como o poder estatal pretendiam contribuir para o progresso da nação. Com este estudo pretendemos contribuir para uma melhor compreensão das sociedades contemporâneas e para uma reflexão sobre a história das ideias e do colonialismo português. pelo seu incentivo e pelo espaço de reflexão que ali foi possível criar. coordenado por mim e por José Manuel Sobral. Teoria da selecção natural e origens do pensamento eugénico Num contexto pré-darwiniano. neste sentido. Gonçalo Duro dos Santos. Clara Carvalho e Leonor Pires Martins. pois contaminaria a “essência” que se julgava existir e se devia preservar. Era necessário afastar os “incapazes” ou mais “fracos”. pois esses constituíam uma ameaça. nação. Uma das formas de garantir a “pureza racial” era através da eugenia. as espécies eram consideradas imutáveis e os membros de cada uma delas eram detentores de uma essência que os diferenciava de todas as outras. Este trabalho foi realizado com o apoio da Fundação para a Ciência e a Tecnologia.

as espécies não eram imutáveis e evoluíam gradualmente. Galton procura provar. Segundo Malthus. Inspira-se no darwinismo para elaborar em 1883. Alguns eugenistas interpretaram estas experiências de um modo que reconhecia as ervilhas de casca enrugada como uma degeneração (e não como uma variação genética apenas). Darwin (1809-1882) definiu o processo de “selecção natural” das espécies. pondo assim em causa a reprodução daquela espécie. na obra Hereditary genius. a teoria eugénica de “aperfeiçoamento da raça humana”. 3 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA ..boa. portanto. o resultado tendia a ser ervilhas de casca enrugada. Não fazia sentido. Malthus não defendia a ajuda aos mais necessitados. 3. tendo em vista um aperfeiçoamento das populações e a eliminação de características indesejáveis. tendo-lhe sucedido no cargo Leonard Darwin . a primeira do género. Galton considerou necessário procurar manter as “raças” puras. 2. na obra Inquires into Human Faculty and its development. podendo tal conduzir a uma catástrofe. 4 Em 1907 foi presidente da Sociedade para a Educação Eugénica. era necessário intervir activamente no desenvolvimento do homem. primo direito de Darwin. 4. uma vez que as populações se adaptavam/ evoluíam ao longo do tempo.. por isso. conhecido como o fundador da genética. segundo o próprio. a selecção natural actuava no sentido da preservação das diferenças e variações favoráveis e da eliminação das variações nocivas (Darwin 1968 [1859]: 84). 2. que a capacidade humana era influenciada pela hereditariedade e não pelo meio e sugere as proibições dos casamentos inter-raciais. 8. 16.). através de um método estatístico e genealógico. os seres mais bem adaptados viviam durante mais tempo e deixavam uma maior descendência. e paralelamente ao evolucionismo.filho de Charles Darwin. falar na existência de “tipos” raciais permanentes.geração) foi criado em 1883 pelo britânico Francis Galton (1822-1911). o processo darwiniano de selecção natural já não operava sob as condições de uma vida “civilizada” e. emergiu a eugenia. autor do Ensaio sobre o Princípio da População (1798). pois tal não permitia a actuação da selecção natural que eliminava os mais fracos. pois esse gene era dominante. 5 Mendel cruzou pés de ervilhas e identificou algumas características: quando as ervilhas de casca enrugada eram cruzadas com as ervilhas de casca lisa. 4. criada na Inglaterra.2 do pastor protestante Thomas Malthus 3 (1766-1834). um monge checo. enquanto a produção de bens alimentares cresce em proporção aritmética (1. ou seja.). Ainda durante o século XIX. Segundo ele. genus .. Galton 4 inspirou-se ainda nas descobertas de Gregor Mendel 5 (1822-1884). a população cresce em proporção geométrica (1. No entanto. Em 1869. principalmente pelo controle social dos matrimónios.. uma prática que procurava alcançar a melhoria das qualidades físicas e morais de gerações futuras. O termo eugenia (eu . Ao transferir o resultado das descobertas de Mendel acerca do cruzamento de ervilhas para os humanos.

tendo como resultado a sua degenerescência. p. pois esta permitiria obter combinações incontroláveis. Teófilo Braga (1843-1924). por outro. como para Oliveira Martins. Nesta altura. como Alexandre Herculano (1810-1847) na sua História de Portugal. médicos. deduzir os caracteres de “uma raça fundadora” portuguesa (Matos 1998: 324). a partir dela. Na obra O povo português nos seus costumes. resultou da “vontade política e das instituições e não de uma raça entendida como um tipo nacional” (Matos 1998: 329). Alguns teóricos defenderam que as “raças” inferiores ficariam favorecidas. como observou José Manuel Sobral. Para impedi-la promoveu-se a segregação de alguns grupos. Já Leite de Vasconcelos (1858-1941) reconheceu que os portugueses resultaram da mistura de vários povos e.3 A eugenia veio a suscitar o interesse de cientistas. Outros. o isolamento dos “inferiores” e até a sua exterminação. reconheceram a influência árabe. levantaram-se questões relativas à miscigenação. destituída de uma base étnica individualizada”. “a nação portuguesa. por um lado. algumas zonas do país. crenças e tradições (1885). Teorias nacionalistas e influência do pensamento eugénico em Portugal No contexto português de finais do século XIX. Por outro lado. Alguns autores vão então procurar encontrar uma matriz rácica para explicar a decadência de finais do século XIX (Sobral 2004: 259). 279). Porém. e com os avanços técnicos. tinham uma influência africana evidente (Vasconcelos 1895). tanto para Antero de Quental. tomou a literatura como “expressão ou produto do meio social” e do “génio nacional” para. por exemplo. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . especialistas legais e higienistas mentais. inclusivamente. mas as superiores sairiam desfavorecidas. uma grande parte dos autores da geração de 1870 debruçou-se sobre a constatação do atraso português de então comparado com os feitos heróicos nacionais que ocorreram nos séculos XV e XVI. “o sentido unitário – mas polissémico e ambíguo – de nação” (idem. a ideia de “nação” estava no centro das preocupações dos intelectuais (Mattoso 1998). 2. Por seu turno. Braga concluiu que os portugueses resultaram da mistura de vários grupos e tal era um exemplo de superioridade. económicos e políticos das nações mais progressivas da Europa. como Alcácer do Sal. T. a palavra “raça” tinha ainda.

os integralistas lusitanos. num texto de 1914-1915.. cinco anos depois.4 Nos inícios do século XX. Nessa mesma altura. na Clínica Psiquiátrica da Faculdade de Medicina de Lisboa” (Pimentel 1998: 22).) os princípios racionais de eugénica positiva (favorecendo a procriação sã). nesse mesmo ano. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Corrêa estava ainda preocupado com o facto de que. ibidem). M. Corrêa intervém no Congresso Nacional de Medicina defendendo que o desfalque humano suscitado pela emigração. Corrêa. No ano seguinte (1932) é convidado para organizar a secção do Porto da Sociedade Portuguesa de Estudos Eugénicos e. Corrêa propôs a criação de um “arquivo genealógico dos doentes” que veio a ser “posto em prática. entre 1915 e 1921. Por outro lado. Foi neste contexto também que. M. mais de 50% dos homens sujeitos às inspecções para o recrutamento militar não foram apurados por falta de robustez física. promoção e proibição de casamentos. a inaptidão bio-social era um fenómeno constitucional-germinal e. reconhece os “traços flagrantes” deixados pelo germano. nem a existência de sangue árabe consideravam.) pôr em prática (. M. Em 1927. convida Renato Kehl.. portanto. começaram a surgir propostas de medidas de higiene. hereditário. altura ou saúde. em 1931. Para M. minora a influência dos semitas e não se refere a uma possível influência dos habitantes da África sub-sahariana. o médico e antropólogo Mendes Corrêa. sentiu-se a necessidade de realçar a hegemonia de uma nação colonial afastando elementos que pudessem sugerir degenerescência ou hibridação. pela tuberculose e pela ilegitimidade das crianças conduzia à necessidade de tomar medidas eugénicas. não sendo pois muito eficazes os meios higienistas. Nesse sentido referiu que era “urgente (. como António Sardinha (1887-1925) em O valor da raça (1915)... da eugénica negativa (combatendo a procriação mórbida) e da eugénica preventiva (combatendo os factores degenerativos)” (Corrêa 1928: 1-7). presidente da organização brasileira de eugenia. para uma conferência no Porto. ou devido a deformidades físicas (Corrêa 1928). assistência social. no sentido de salvar a população portuguesa e manter genuinidade do carácter dos portugueses. na qual o eugenista brasileiro condenou a mestiçagem (idem. assim como pela mortalidade. Na I Semana Portuguesa de Higiene.

E. 6 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . a Sociedade para a Educação Eugénica na Inglaterra (1907). de tão brilhante Passado. Por seu turno. educando-a. criada em Coimbra em 1937. com a presença 8 de representantes de vários países 9 e esteve em actividade até 1974. cujos estatutos foram aprovados em 1934. Tamagnini analisa a importância do estudo da população e destaca as medidas eugénicas já tomadas pela Alemanha: Podem discutir-se pormenores. de 23-10-1934 a 18-1-1936. instruindo-a. aperfeiçoando-a. respectivamente.) de desenvolver tôdas as fôrças e riquezas com que a Natureza as dotou. onde as secções da sociedade eram dirigidas por M. 9 Entre os quais o alemão Eugen Fischer. Esta Sociedade. a Sociedade Eugénica Francesa (1912) e a Sociedade Eugénica Americana (1921) que veio a aconselhar a esterilização de um décimo da população americana para evitar o “suicídio da raça branca”. na lição inaugural da Universidade de Coimbra. necessitam (. desenvolvendo a nossa raça. tornando-a vigorosa e forte. mas o que ninguém pode contestar é a seguinte afirmação do Hitler: ‘Numa época em que as raças se estão intoxicando a si próprias. como Bissaya-Barreto. Tamagnini foi ministro do governo de Salazar. na Universidade de Coimbra. tinha a intenção de propagandear ideias de “valorização demográfica” e responder à “necessidade de se criar uma geração mais forte”. Mas já anteriormente.. para que possam manter o seu lugar ou conquistar melhor lugar na hierarquia dos Povos” (e isso só é possível) “aumentando a nossa população. que segundo ele permitiriam a continuidade dos valores da “nação” e da “raça”. Embora não fazendo parte desta sociedade. no ano lectivo de 1934-35. o médico e antropólogo Eusébio Tamagnini 6 apresenta a proposta para a criação da Sociedade Portuguesa de Estudos Eugénicos 7 . Vilhena. Anselmo Ferraz de Carvalho ou Elísio de Moura. Do Porto e Lisboa. o Estado que devote os seus cuidados aos seus melhores elementos étnicos dominará um dia o Mundo’ (1934-35: 28). combatendo tanto quanto possível. professor de Antropologia. pode discordar-se de certos processos. e realizou estudos que ilustram o seu interesse pela “raça”. os “homens de amanhã”. no discurso para as festas comemorativas da cidade de Coimbra. 10-12-1937). João de Almeida (brigadeiro-médico) e Sobral Cid. Bissaya-Barreto.. Corrêa e H. as variadas causas do seu enfraquecimento 10 (1940: 6).5 Em 1933. participaram os médicos Joaquim Pires de Lima. Foi inaugurada durante as Comemorações Centenárias da Universidade de Coimbra. defendeu em 1940. 7 Em termos comparativos. podemos referir a criação da Sociedade Alemã para a Higiene Racial (1905). Bissaya-Barreto esteve presente na sua inauguração. director do Instituto de Antropologia de Kaiser Wilhelm de Berlim (Diário de Coimbra. que: As Nações novas e as velhas como a Nossa. mentor de várias estruturas de apoio às crianças. 10 Estes pressupostos eram comuns aos defendidos pela Sociedade Portuguesa de Estudos Eugénicos. Rocha Brito. 8 A maioria dos presentes era constituída por professores da Faculdade de Medicina de Coimbra.

membros da União Nacional e opositores ao regime (como Álvaro Cunhal. Prémio Nobel de Medicina e Fisiologia (1949).6 Em Portugal. Por outro lado. João de Almeida). Os católicos defenderam a eugenia “embora aprovassem medidas natalistas de aumento da população e condenassem as medidas limitativas da natalidade” (idem. 11 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . no que diz respeito à regulamentação de casamentos e divórcios proposta por alguns médicos e à consequente necessidade de actualizar o Código Civil português. De facto. membros do Partido Evolucionista (Bissaya-Barreto). houve em Portugal um certo consenso em a reprovar. e especificamente católica. Sendo assim. medicina e farmácia) acabaria por prevalecer à via eugenista. p. Outro elemento interessante é que as discussões acerca da eugenia passaram a juntar aos argumentos biológicos. procurando assim impedir os excessos “negativos” da eugenia. Em Portugal registou-se então a persistência dos valores humanistas. que defendeu em 1940 a despenalização do aborto 11 ). psicológicos e até jurídicos. uma medida no entanto restrita a casos clínicos mais especiais (Pereira 1999: 588). agnósticos e ateus (Pimentel 1998). como sabemos que aconteceu nos EUA e na Alemanha. 26). em parte devido à influência cristã. embora as duas pudessem coexistir. a via higienista (apoiada pelas descobertas da química. Apenas Egas Moniz. No que respeita à esterilização. Entre os grandes defensores da eugenia estiveram vários psiquiatras e pessoas de distintos quadrantes políticos: ex-nacionais-sindicalistas (E. a Igreja foi-se mantendo vigilante no que diz respeito a uma excessiva intervenção do Estado no domínio privado e familiar. encontram-se apologistas da eugenia com diferentes posturas relativamente à religião: católicos. ou de esterilização como sucedeu na Suécia. os elementos sociológicos. conservadores republicanos (Júlio Dantas). os princípios da eugenia não foram levados até às últimas consequências e não se registou no país a ocorrência de extermínio ou genocídio. propôs a esterilização para eliminar a hereditariedade mórbida. com a intervenção da Igreja no Estado. Tamagnini. A sua tese de licenciatura incidiu sobre “A Realidade Social do Aborto” e defendeu a legalização do aborto.

Numa outra comunicação apresentada ao Congresso Colonial. inaceitáveis em “matéria da eugenésica interétnica”. não eram favoráveis à mestiçagem. Contemporaneamente a Tamagnini. no entanto. como Norton de Matos ou Vicente Ferreira. Higiene racial e questão colonial Na primeira metade do século XX. por exemplo. o Peru. por outro (Correia. no discurso da Sessão Inaugural do Congresso Nacional de Ciências da População. No mesmo Congresso. por um lado. embora fossem a favor da “elevação social de pretos e mulatos”. No Congresso de Antropologia Colonial (1934). este autor chama a atenção para a necessidade do desenvolvimento de estudos sobre os “problemas biológicos e sociais do mestiçamento” cuja “intensidade angustiosa e dramática” deveria preocupar os investigadores. refere a importância do “vigor” e da “pureza germinal da Raça” para a “continuidade histórica da Nação” (1940c: 20). Assim. Corrêa propósitos muito idênticos. enfatiza a sua linha de pensamento quanto à mestiçagem. por um lado. e os científicos. Ela foi debatida em alguns países da América Latina. mas com um espírito um pouco diferente. salvaguardando. 1934: 329. alertou para os perigos da mestiçagem. defendendo que: “de um mestiçamento não se pode esperar uma nova linha racial pura” (1940b). Este médico não apoiava a mestiçagem. como o próprio Brasil.7 3. uma vez que um mestiço era “um sêr imprevisto no plano do mundo” (1934: 332). ao defender o esforço para incutir nos portugueses o desejo de emigrarem para as colónias e aí se fixarem definitivamente. a Argentina e a Venezuela. e defendeu uma política colonial “extremamente humanitária e rasgadamente liberal” para apelar à colaboração dos mestiços. pois foram esquecidos desde os “tempos dourados em que o grande Afonso de Albuquerque favorecia o cruzamento de portugueses com as mulheres indígenas”. 326). Apela ainda A questão da mistura racial não era única de Portugal. governadores coloniais. Tamagnini. estas discussões acerca do “aperfeiçoamento da raça” estiveram envolvidas também com a questão colonial (Matos 2006) e. o médico Germano da Silva Correia criticou o povoamento colonial por condenados. por outro. por essa razão. podemos encontrar em M. envolvendo os meios políticos. no I Congresso Nacional de Antropologia Colonial de 1934. que estes constituíssem “grupos cuidadosamente separados” (Ribeiro 1981: 155). G. com a questão da miscigenação 12 . desde a Família até ao Estado” (1934: 63). referindo que esta era “um risco para tôdas as sociedades humanas. por exemplo. e ainda o México. Nas Comemorações de 1940. Já no âmbito científico. 12 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .

como não devem os estrangeiros naturalizados. exercer postos superiores da política geral do país.. salvo (. Corrêa debruça-se sobre os “Factores degenerativos na população portuguesa e seu combate” e anuncia o mestiçamento como “possível factor degenerativo”. Mendes Corrêa sustenta que: 1. Porém. sobretudo mais tarde. um recurso a adoptar para exploração dalguns territórios (. fraterno.. mas a questão de o factor degenerativo surgir era apenas uma possibilidade (1940a). uma selecção eugénica dos progenitores (.) em casos (. Havia alguns que contrastavam com estes. porventura. numa Comunicação apresentada à 22. M. que é a maior garantia da continuidade histórica da Pátria. o que este autor acaba por destacar é a imprevisibilidade do mestiçamento (1940b) e não a sua fundamentação científica.).ª Sub-Secção do II Congresso da União Nacional. pois poderia conduzir à dissolução de caracteres específicos dos portugueses. no entanto. professor na então Escola Superior Colonial. cuja existência vários autores tinham tentado demonstrar desde o século XIX. após a apropriação das teses luso-tropicalistas de Gilberto Freyre. Na sua apresentação integrada no Congresso Nacional de Ciências da População. não representa todos os discursos da época. tanto quanto possível..º Deve dar-se aos mestiços do nosso Império um tratamento carinhoso.) muito excepcionais e improváveis” (1940b). procurando melhorar a situação daqueles que..8 à “conveniência nacional de restringir os cruzamentos raciais” e termina referindo que: “nunca eles (os mestiços) deverão. Quatro anos mais tarde (1944). é. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .º Em tal caso deve procurar-se. a sua colaboração com os mais prestimosos valores nacionais.. dentro do possível.. embora influente. a posição destes autores. pois isso implicaria a destruição dum património germinal..º Não deve considerar-se o mestiçamento em larga escala como base da nossa política colonial. em Lisboa. 2. A mestiçagem era vista como uma ameaça. Contudo. foram desfavorecidos por más condições sociais e educativas e promover. 3. 4. o mestiçamento levaria à diluição de caracteres (1940b). Ainda no âmbito daqueles congressos de 1940. aborda questões como o contacto da “raça portuguesa” com as “raças indígenas” e o contacto das “raças” nas colónias portuguesas e revela-se também contrário à existência de “mestiços” (1940: 20-21).º O mestiçamento em áreas de difícil aclimação dos europeus ou por virtude da escassez dos colonos provenientes da metrópole. Gonçalo de Santa-Rita (1891-1967). Dito de outra forma. no Congresso Colonial. humano..) (1944: 3-4).

Os hindus impressionaram pelo seu desenvolvimento e organização social. Germano da Silva Correia refere que “não ocorreu nem degenerescência. a Escola Médica de Goa era muito organizada. nem diversificação rácica na grei Luso-descendente. Aires de Azevedo apresenta um trabalho no qual conclui que “a influência das raças coloniais (nomeadamente Hindu e Negra) na pureza bioquímica do povo português. Por ocasião do Congresso Nacional de Ciências da População (1940). houve gente que ascendeu à nobreza.9 Curiosamente. negando outras influências (1940: 99). que encorajou os seus homens a casar com as mulheres de origem ariana convertidas ao cristianismo. Sampaio e Mello. No âmbito das Conferências de Alta Cultura Colonial (1936). na história da colonização portuguesa. é nesta mesma altura. 13 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . O seu autor. Embora a sua religião fosse diferente. domiciliada há mais de dois séculos nesta Colónia” e que a única diferença resultante do clima tropical é “o menor grau de robustez orgânica” (1940: 663-678). Histórias de miscigenação na colonização portuguesa Apesar do que foi dito atrás. Ainda no âmbito dos congressos de 1940 foi apresentado um estudo sobre as populações indo-portuguesas. 4. vice-rei da Índia. a par das considerações contrárias à miscigenação. Quando os portugueses chegaram à Índia encontraram impérios imponentes. etc. o médico Joaquim Pires de Lima defendeu que os portugueses resultavam da síntese entre os elementos lusitano. românico e germânico. professor da Escola Superior Colonial. num texto sobre o índice nasal dos portugueses. Várias vezes foram lembradas as iniciativas de Albuquerque na Índia no que disse Aqui o processo de colonização ocorreu de um modo diferente do que aconteceu em África. é pràticamente nula” (1940: 563). que assistimos à produção de trabalhos visando provar a pureza do povo português. como é o caso de Afonso de Albuquerque 13 . No âmbito deste mesmo congresso. defende que os portugueses em contacto com outras populações se manteriam sempre portugueses e um bom exemplo disso era o Brasil (1936: 52). o seu desenvolvimento social e cultural era considerado superior ao dos africanos. Por seu turno. embora tenha enfatizado não querer que estes “casassem com as ‘mulheres negras’ de Malabar” (Boxer 1967: 98-9). houve quem tenha defendido uma política de casamento misto. Tamagnini (1939) procurou demonstrar que os narizes dos portugueses eram muito diferentes e não tinham qualquer influência dos narizes dos africanos.

E eu disse: ‘Ó senhor administrador. eu não quero. rapaz. tal processo não terá sido pacífico. e eu chegava lá e ver uma preta nua não me impressionava nada. dizia: ‘. como tal. vide Andrews (1991) e Castelo (1998). Esta ideia parece ser predecessora da ideologia “luso-tropicalista” cujos fundamentos começam a ser lançados. como nos referiu. mais tarde já não era… É uma questão de costume. O “renascimento do império” estava imbuído de ideias raciais e.Não senhor. Porém. De facto. um discípulo de Franz Boas.Sucedeu-me isso. postas em prática no início do século XVI. quer dizer. Todavia. As suas ideias de política colonial. um ex-funcionário administrativo nos anos 30 em Angola: J: .10 respeito à colonização. foram mesmo consideradas inspiradoras e precursoras das ideias que se quiseram pôr em prática nos territórios coloniais depois dos anos 40 do século XX. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Freyre destaca a predisposição dos portugueses para o contacto fraterno com as populações tropicais. eu não me relaciono com pretas!’ (…) Eu tinha 18. é relativamente comum considerar-se que os portugueses não estabeleciam barreiras raciais nas suas colónias e que a sua fácil miscigenação com outros povos lhes daria uma certa especificidade (Boxer 1967: 35). 14 Para um maior desenvolvimento sobre este assunto. em entrevista. de adaptação ao ambiente. devido ao seu passado étnico e cultural de “povo” indefinido entre a Europa e a África 14 . a obra de Freyre não teve receptividade em Portugal na década de 30. G. em 1933. aquilo para mim era um bicho. 17 anos quando fui daqui. não havia lugar para a visão culturalista de Freyre ou para o elogio do mestiço (Castelo 1998). na obra Casa Grande & Senzala do já referido Gilberto Freyre (1957 [1933]). pode ser descrita como um “choque cultural”. mas o administrador onde eu estava. A sensação de estranheza do colono quando chegava aos territórios ultramarinos e tinha um primeiro contacto com as suas populações autóctones. você ou tem uma ou não pode ter muitas’. embora depois houvesse uma adaptação. o próprio soba não perceber como é que um monaqueca (rapaz novo) podia viver sem mulher. Na obra citada. eu não tenho nenhuma.

No caso de Jorge Dias. foi necessário proceder a uma reformulação da postura portuguesa face aos territórios ultramarinos e seus habitantes. harmonia. Ainda hoje. segundo a qual a colonização portuguesa teria sido diferente. num Relatório de Campanha (Moçambique. é muito difícil para muitos acreditar na teoria luso-tropicalista. e até ousadamente. por exemplo. Tanganhica e União Sul-Africana). este autor. fraternidade e até de intimidade. Moçambique e Guiné pelo facto de considerar que estes ainda não tinham alcançado “o nível de cultura e o desenvolvimento social dos europeus” como possuíam os de “Cabo Verde. como certos erros que passam de uns manuais para os outros. A Constituição de 1951 instituiu o regime de indigenato aos nativos de Angola. Angola. que se verifica uma mudança na atitude dos políticos do regime face à ideologia de Freyre. declarava que: “nós continuamos a ouvir sempre repetir que os indígenas gostam mais dos portugueses que dos ingleses.11 5. é sobretudo no período pós-Segunda Guerra. As ideias discriminatórias do Acto Colonial (criado em 1930) começam a ser abandonadas e o regime adopta a teoria “científica” de Freyre 15 . embora ela nunca tenha sido apoiada oficialmente (Castelo 1998). Índia Portuguesa e Macau” (Santos 1955: 159). numa altura em que os países europeus já tinham concedido a independência às suas colónias. porque os autores em vez de procurarem verificar a exactidão das afirmações. um pouco inesperadamente. Ao mesmo tempo. E esta história vai-se repetindo. Reformulações trazidas pelo pós-guerra Embora a recepção inicial da teoria gilbertiana em Portugal tenha sido heterogénea e não lhe tenha sido dado um grande destaque nos anos 30 e 40. criando as chamadas sociedades luso-tropicais. Como resultado das pressões anti-coloniais. a expressão “colonização” passa a ser substituída gradualmente por “integração”. A discriminação racial e as duras práticas administrativas coloniais existiam e persistiam. acham mais cómodo repetir aquilo que os outros disseram” (Dias e Guerreiro 1960: 21). Mas as concepções luso-tropicalistas de Gilberto Freyre receberam críticas. só a visita ao “terreno” lhe concedeu uma visão crítica diferente das visões luso-tropicalistas que o regime apropriou. uma vez que os portugueses sempre tinham respeitado os valores das populações com as quais se relacionaram e com as quais mantiveram laços de tolerância. porque os tratamos com mais humanidade e nos interessamos pela vida deles. Em 1959. 15 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .

Um outro oximóron resulta da promoção da ideia de “pureza racial” dos portugueses e da argumentação simultânea de que os portugueses descendiam de vários povos (ao longo de séculos). apesar da ascendência diversa dos portugueses. se contradizem entre si. um país pequeno. era dado a ver como um país grande. nunca perderiam a sua essência individual que os caracterizaria. Portugal. por exemplo. porque um oximóron designa uma combinação engenhosa de palavras que. só era concedida se o indivíduo provasse que nunca tinha passado por África e. essa mistura nem sempre foi reconhecida e alguns autores procuraram provar a sua “pureza racial”. o processo de assimilação das populações autóctones dos territórios ultramarinos não parecia diluir a originalidade portuguesa. imperial. Outros consideravam que mesmo cruzando-se com outros povos. e à influência da Igreja no próprio Estado. nos séculos anteriores. Curiosamente. no fundo. mas todos eles tinham características particulares que se tinham mantido inalteráveis. No âmbito do contexto colonial.12 6. num contexto no qual à partida concebemos o Estado e a Igreja como separados. pois o potencial eugénico dos portugueses permitia que essa originalidade se mantivesse mesmo em contacto com populações “exóticas”. tendo o “estatuto” de “indígenas”. encontrámos algumas dessas combinações. portanto. a atribuição de um título nobiliárquico em Portugal. perdurado ainda até 1954. com territórios espalhados por todo o mundo. Faz sentido também falar em oximóron quando nos estamos a referir ao texto da Constituição de 1951 que se refere ao processo de assimilar os nativos dos territórios sob administração portuguesa. Os oximórons podem surgir também. mas depois assistimos ao entrecruzar dos discursos políticos com os discursos da Igreja. por exemplo. Em conclusão Escolhi a expressão “oximórons” para o título desta comunicação. Ou seja. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . não tinha tido quaisquer relações com negros. e constatamos que alguns discursos científicos afinal estão imbuídos de discursos também eles políticos e até de teor religioso. cujos recursos não abundavam. que não permitia o acesso à cidadania da maioria da população das colónias africanas. No âmbito do contexto nacional e colonial português analisado.

. segundo Sousa Santos. Hoje.13 Por outro lado. ou marcada por uma grande “disponibilidade multicultural”. parece coadunar-se. atravessaram o período que precedeu o Estado Novo e reavivaram-se com este. a ideia do luso-tropicalismo. “as buscas da perfeição ao serviço da nação”. e outras obras (acrescentamos nós). da identidade nacional e da adaptação dos portugueses a diferentes territórios. S. e tendo sobrevivido ao período pós-independência das ex-colónias portuguesas. “continuam a projectar a sua sombra nas discussões contemporâneas acerca do que é ser português” (2000: 103). segundo J. dado o contexto que se vive actualmente? Boaventura Sousa Santos (1993) caracterizou a cultura portuguesa como uma “cultura de fronteira” e defendeu ideias a propósito da capacidade de adaptação da cultura portuguesa. 16 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . o que faz dela uma entidade “poliglota”. “volvido quase meio século sobre a sua publicação”.. com algumas das ideias acerca do nacionalismo português.. Dias (1990: 156). Contudo. há autores que ainda recentemente se prenderam com essa questão 16 . segundo alguns historiadores como Valentim Alexandre (2000) e Cláudia Castelo (1998) e antropólogos como Miguel Vale de Almeida (2000) e Cristiana Bastos (1998). não será também um oximóron a combinação sugerida por alguns entre ideias de “cultura de fronteira” (Boaventura Sousa Santos 1993) e a de que a cultura portuguesa se deixa contaminar pelo que lhe é exterior (Jorge Dias 1990 [1953]. Os Elementos Fundamentais. emergiram no final do século XIX. na altura. Quanto à predisposição especial dos portugueses para a adaptabilidade. há muito alvo de descrédito científico. Santos 1993) com a ideia de um “modo de ser português” facilmente identificável e transhistórico? Como vimos. O que podemos então esperar dos antropólogos de hoje? Correr-se-á o risco de voltarmos a viver em contextos semelhantes aos aqui descritos. na expressão do nosso subtítulo. nos quais se discute a superioridade biológica e cultural de uns indivíduos em relação a outros e se propõem medidas científicas e políticas com vista a penetrar nas esferas pessoais e sociais dos indivíduos? Poderemos nós prever isso. Tanto um autor como outro abordaram a questão da cultura portuguesa se deixar contaminar pelo que lhe é exterior. Muitos dos autores que teceram considerações acerca da “raça” e da eugenia tinham currículos que. B. não permitiriam levantar qualquer suspeita. atingindo o seu auge durante as décadas de 30 e 40 do século XX. Como referiu João Leal. estamos perante um oximóron quando nos lembramos da defesa das teses luso-tropicalistas aplicadas à caracterização da colonização portuguesa. Essas teses foram inicialmente desenvolvidas por Jorge Dias em Os Elementos Fundamentais da Cultura Portuguesa (1990 [1953]) e depois em O Carácter Nacional Português na Presente Conjuntura (1971 [1968]).

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o médico Américo Pires de Lima integrou uma expedição militar ao norte de Moçambique.piresmartins@gmail. Aproveitando a estada naquela antiga colónia portuguesa o jovem médico ocupou o tempo livre com o estudo da flora. foi Este texto é uma transcrição fiel da comunicação que foi apresentada no painel intitulado “Raça. representava um esforço de sistematização das observações e mensurações antropométricas de populações locais realizadas pelo jovem médico durante o período em que integrou terceira expedição militar ao norte de Moçambique (Lima 1918a). Uma versão mais desenvolvida e trabalhada foi posteriormente publicada (vd.com Por ocasião da I Guerra Mundial.Ossos do ofício: um caso de práticas antropométricas no norte de Moçambique (1916-1917) 1 Leonor Pires Martins Doutoranda em Antropologia. I Guerra Mundial 1. Colonialismo. Palavras-chave: Antropologia física. este texto pretende recuperar a sua experiência no litoral norte de Moçambique em 1916-1917 e reflectir sobre os interesses do médico pelas “raças” moçambicanas à luz das práticas antropológicas suas contemporâneas. Este texto. Em 1918 a revista Anais Científicos da Faculdade de Medicina do Porto publicou um artigo com o título de “Contribuição para um estudo antropológico dos indígenas de Moçambique” que revelava interesses no domínio da antropologia física e biológica. Martins 2006). 1 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Moçambique. fauna e antropologia indígenas. a que não estava obrigado pela sua participação na campanha. ISTCE leonor. zoológicos e diversos artefactos. Utilizando diversas fontes literárias de natureza autobiográfica. recolhendo espécimens botânicos. Fazendo uso da técnica da antropometria realizou ainda mensurações em mais de uma centena e meia de nativos moçambicanos e procedeu à descrição dos seus caracteres fisionómicos. O interesse pela aplicação de práticas de natureza antropométrica. Eugenia. memorialística e técnica da autoria de Pires Lima. redigido por Américo Pires de Lima (1886-1966). Nação e Império”.

materiais e humanos disponíveis para o exercício de averiguações científicas – compreendeu uma importante diversidade de interesses. Lima 1918b). Pires de Lima. sobretudo) e um pequeno número de artefactos. como recordou em 1943 no prefácio de um volume que reunia os textos decorrentes daquela experiência em África (Lima 1943: vii). exemplares da flora (plantas e líquenes. a variedade desses interesses pode ser ilustrada através do destino dado aos resultados da recolha de Pires de Lima. colónias que confinavam com territórios então sob administração colonial alemã (Arrifes 2004). no seu regresso a Portugal em 1917. embora as acções do exército português nesse conflito se tivessem iniciado bastante antes no continente africano. Em larga medida. uma nação beligerante no contexto da I Guerra Mundial (1914-1918). veremos que este conflito proporcionou a Pires de Lima condições particularmente favoráveis à realização de estudos de antropometria. Na realidade. A missão contou com aprovação ministerial e o apoio das autoridades locais. Mais adiante. técnicos. Portugal era formalmente. provavelmente as peças etnográficas mais importantes que adquiriu no norte de Moçambique (Afaa 1989. da fauna e antropologia indígenas”. desde o final de 1914 que essas intervenções militares ocorriam em Angola e em Moçambique. a missão de estudos de Pires de Lima – ainda que condicionada pela modéstia dos recursos logísticos. Na tradição das expedições e viagens científicas setecentistas e oitocentistas. Américo Pires de Lima embarcou no início de Junho de 1916. entre os quais. Assim. e também ao enquadramento específico do desempenho das suas funções naquele território. o médico português ocupou o tempo que sobrava da actividade clínica recolhendo “todos os elementos possíveis para o estudo da flora. Durante a sua permanência em Moçambique. desenvolvendo uma actividade paralela à assistência médica prestada às tropas expedicionárias portuguesas ali estacionadas. desde Março desse ano. quatro estatuetas maconde. Nessa altura. Estes tiveram como destino diferentes secções museológicas da Faculdade de Ciências do Porto e ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . designadamente pela oportunidade de serem estabelecidas comparações entre diferentes grupos humanos. instituição onde leccionava ciências biológicas. recolheu espécimes zoológicos. sendo notório o espírito cumulativo com que procedeu à recolha de informação.2 principalmente devido ao incentivo de dois colegas da Faculdade de Ciências do Porto.

Durante a sua estada em Palma e Mocímboa da Praia. Deste modo. classificou várias dezenas de novos líquenes e outros espécimes vegetais recolhidos pelo médico português. Broca e Paul Topinard que o médico português perfilhava. os artefactos trazidos de Moçambique foram depositados no acervo do Museu e Laboratório Antropológico daquela mesma faculdade. Por sua vez. que a actividade antropométrica exercida por Pires de Lima foi sobretudo orientada para a acumulação de dados sobre características fisionómicas por forma a contribuir para a elaboração do imenso arquivo da diversidade humana ambicionado pelo projecto antropológico de Pierre P. entre outros indicadores – exigiram o manuseamento de diversos ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Parece-me. os seus índices cefálico. O exercício de classificação fisionómica e racial de indivíduos – em que se inscrevem os levantamentos antropométricos realizados pelo médico expedicionário – compreendia o estudo anatómico e metrológico do corpo humano: isto é. Quer a actividade descritiva – atenta à cor da pele dos indivíduos. Pires de Lima reuniu ainda dados sobre os caracteres fisionómicos de 170 indígenas moçambicanos. quer o exercício de mensuração do corpo humano – por forma à obtenção de valores médios relativos à estatura dos indivíduos observados. em virtude das precárias condições de armazenamento e de conservação de que dispunha – foram oferecidas ao Museu de Zoologia da sua faculdade e também a um entomologista espanhol. 2. Já as suas colheitas no campo da zoologia – apesar do facto de muitos dos exemplares se terem deteriorado. às tatuagens e outros sinais corporais particulares –. todos adultos e do sexo masculino.3 outras entidades estrangeiras ligadas ao ensino e à investigação. ao aspecto do cabelo e da dentição. de uma parte. colega de curso de Pires de Lima na Escola Médica do Porto. no final da década de 1930. Vainio) que. a observação e a descrição dos seus caracteres físicos e. a aplicação da técnica da antropometria. facial e nasal. de outra parte. ao invés. criado em 1914 por António Mendes Correia (1888-1960). à forma do nariz e dos lábios. No estudo de Pires de Lima não é identificável um propósito prevalecente de associação de traços psicológicos e comportamentais a traços físicos particulares. uma parte significativa da sua colecção de botânica foi doada a um liquenólogo finlandês (Edvard A.

os diversos instrumentos antropométricos tinham por função aperfeiçoar a percepção dos praticantes da antropometria. Ao fim e ao cabo. julgada excessivamente sensorial e imprecisa. os profissionais da medicina seriam particularmente aptos para o exercício da antropologia física e da antropometria. De uma porta de madeira. sem o auxílio visual daquela ferramenta. o médico expedicionário fez uma craveira. ainda que constitua um importante repositório de informação sobre a sua experiência biográfica no norte de Moçambique durante a Grande Guerra. No entanto. um compasso de espessura e um outro de corrediça. uma vez que apenas conseguira transportar consigo três instrumentos que lhe tinham sido cedidos por um colega da Faculdade de Medicina de Lisboa: uma fita métrica. a utilização daqueles aparelhos visava disciplinar os sentidos do observador e atenuar a interferência da sua subjectividade na produção de resultados (Dias 1996: 33-4). não clarifica todos os aspectos que rodearam a sua actividade no campo da antropometria. Pires de Lima não dispunha de uma vasta aparelhagem antropométrica. por exemplo. a improvisação e a criatividade supriram a inexistência de outros instrumentos necessários à prática antropométrica. a literatura de cariz técnico e memorialista deixada por Pires de Lima. entendia ser limitada em precisão a classificação dos grupos humanos observados em função da cor da pele. e como fica sugerido num passo do seu artigo. Na realidade. Relativamente às circunstâncias específicas em que o estudo de antropometria realizado por Pires de Lima foi desenvolvido. designadamente sobre as condições logísticas e técnicas em que o médico militar efectuou as observações (no espaço da enfermaria? num laboratório propositadamente montado para aquele fim? foi auxiliado por alguém? em quanto tempo realizou as mensurações?). Pires de Lima ressentia a impossibilidade de utilizar uma escala de cores no decurso das suas observações. gravando nela a escala com o auxílio da fita métrica (Lima 1918a: 23-4). Por outro lado. No fundo. em virtude da prática rotineira da inspecção de corpos humanos nas actividades clínicas. Na verdade. Desta forma. são várias as questões que ficam sem esclarecimento. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . eram extremamente limitados os recursos de que dispunha. procurando evitar estimativas produzidas a partir da observação a olho nu.4 instrumentos e aparelhos. porquanto.

de grande número de indígenas de toda a colónia – uns recrutados como carregadores. contrariamente àquilo que poderia supor-se. teve um papel determinante no que respeita à configuração da amostra do estudo de antropologia física de Pires de Lima. Assim. Na presença do excerto citado.5 Conhecemos. Em vez de ter sido um obstáculo à realização do seu “estudo antropológico”. havendo notícia de alguns trabalhos de antropometria realizados entre recrutas do exército português (Roque 2001: 261-2). e como já tive ocasião ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . no norte da província. etc. estamos perante um caso em que a instituição militar foi parte importante no processo de produção de conhecimento sobre as populações locais daquele território sob administração colonial portuguesa. em Mocímboa da Praia) pôde observar indígenas provenientes de diferentes regiões do território (de Tete. É o próprio médico quem o sugere logo no início daquele seu texto de 1918: As circunstâncias derivadas da guerra contra a Deutsch Ost Afrika provocaram a concentração. No caso particular de Pires de Lima. sem sair do Niassa. tive a possibilidade de reunir mensurações antropométricas (…) de várias raças de Moçambique. contudo. Inhambane. facto que motivou o seu recrutamento e que. Por outro lado. não deve ser menosprezado. Assinale-se que no espaço geográfico da “metrópole” a colaboração entre a estrutura militar e a comunidade científica tinha já produzido alguns resultados desde os anos finais do século XIX. depois. num ambiente militarizado e com o recurso a nativos moçambicanos que integravam a sua expedição. De alguma maneira. Reporto-me à situação de conflito vivida no norte de Moçambique por altura da permanência do médico português na região. já que nos locais onde esteve estacionado (primeiro em Palma e. as quais me servem de base a este estudo. As observações antropométricas de Pires de Lima aconteceram. outros como soldados das companhias indígenas.). um aspecto muito importante que. a guerra gerou condições particulares de pesquisa. a colaboração entre a estrutura militar e a esfera académica (a Faculdade de Ciências do Porto) foi formalizada através de um despacho ministerial datado de 31 de Maio de 1916. é notório que o conflito no norte de Moçambique proporcionou circunstâncias extraordinárias de pesquisa ao médico português. oportunamente aproveitadas por Pires de Lima. portanto. em meu entender. Quelimane.” (Lima 1918a: 5).

Art Makondé: Tradition et Modernité. Referências Bibliográficas AFAA. 23-44. se implantará de forma mais sistemática e continuada no terreno colonial através das “missões antropológicas” que foram dirigidas por Joaquim Rodrigues dos Santos Júnior (1901-1990) em território moçambicano (Pereira 1998).). Treze Reflexões Antropológicas sobre o Corpo. que a antropologia portuguesa. ADEIAO. Nélia. na sua vertente física e biológica. de resto. Corpo Presente. ARRIFES. circunstanciais e episódicos – como. não chegando a institucionalizarem-se em Portugal. facto que é assinalado por Rui Pereira na introdução à reedição do primeiro volume de Os Macondes de Moçambique de António Jorge Dias (Pereira 1998).6 de referir. De facto. Oeiras. esta constatação não lhe retirará o carácter precursor dos seus levantamentos antropométricos no norte de Moçambique. 2004. em ALMEIDA. DIAS. Lisboa. tiveram expressão em alguns trabalhos esporádicos. Edições Cosmos. 1996. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Os casos existentes são. “O corpo e a visibilidade da diferença”. são raros os estudos de antropologia física apoiados na aplicação da técnica da antropometria a populações do “império” português que poderão ser referenciados. se nos reportarmos à segunda década do século XX. será somente em meados da década de 1930. penso que deverá ser encarado o estudo de Pires de Lima. Instituto de Defesa Nacional. 1989. Para terminar. em pleno regime do Estado Novo. no meu ver. A Primeira Grande Guerra na África Portuguesa. Paris. Marco Fortunato. gostaria de acrescentar que. 3. a observação de indivíduos em situação de recrutamento – de soldados e carregadores indígenas que se encontravam ao serviço das tropas expedicionárias portuguesas – possibilita uma associação imediata do seu estudo ao universo dos projectos de antropometria militar que. Contudo. Celta. Miguel Vale de (org. Angola e Moçambique (1914-1918).

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II – Capítulo Caboverdianidade e Crioulidade Textos de comunicações do painel Caboverdianidade e Crioulidade Coordenação Wilson Trajano Filho Departamento de Antropologia da Universidade de Brasília e Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa João Vasconcelos Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .

aparentemente um traço adicional da sua identidade.Cabo-verdianos em S. a viver naquele arquipélago há cerca de meio século. Devido à percepção das dificuldades na sua terra e às mudanças nos Este texto socorre-se igualmente do trabalho de campo em S. Esses cabo-verdianos contrataram-se como serviçais. Tomé e Príncipe: os contornos da consciência de segundos europeus Augusto Nascimento Instituto de Investigação Científica Tropical. No decurso de entrevistas não estruturadas. Descrevem-se antes como cabo-verdianos e. Tomé e Príncipe nunca se referem a si mesmos como crioulos. Tomé e Príncipe independente. Tomé e Príncipe. Vicente em 2004. Entre as várias hipóteses explicativas. Palavras-chave: ideário colonial. como segundos europeus. nem sempre ligada a uma visão instrumental dos testemunhos que eles fornecem sobre a sua presente condição social e política. Tomé. com alguma frequência. a classificação subjacente à denominação de segundos europeus. nem por isso ela deixa de traduzir uma dada consciência da sua especificidade enquanto cabo-verdianos. consideraremos o uso desta denominação pelos ex-serviçais que se quedaram por S. Refiro-me a idosos. Cumulativamente. os cabo-verdianos que se quedaram por S. intenta-se contextualizar o uso esta designação. eram debatidos pela intelectualidade cabo-verdiana. aventaríamos a de que tal expressão traduz um alheamento em relação às inquietações e aos temas que. na sua maioria voluntariamente ainda que sem escolha. eles reiteraram de forma enfática a sua condição de caboverdianos 1 . comporta um juízo sobre a civilização. à primeira vista tributária do ideário colonial. ao tempo do seu êxodo para S. Mas. efectuadas entre 2001 e 2003. Afinal. 1 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . sua e dos outros. identidade cabo-verdiana. onde a designação segundos europeus aflorou em testemunhos dos ex-contratados. alguns descreveram-se como segundos europeus. Introdução Este trabalho aborda um peculiar processo de identificação de ex-serviçais caboverdianos em S. “segundos europeus”. Contudo. Tomé e Príncipe. e serve para se situarem perante as mudanças políticas e sociais assaz adversas sobrevindas no S. Lisboa Nas suas memórias e auto-caracterizações. Nesta comunicação.

. pretendemos enunciar hipóteses ou. assim como das pretextadas dificuldades do seu repatriamento e do recomeço da vida no seu pobre país. por outro. quando saíram destas. A independência representou para eles um momento difícil. Nos discursos sobre a nacionalidade cabo-verdiana patenteia-se o orgulho nas cultura e identidade historicamente fundadas. devemos questionar-nos acerca da sua faceta instrumental. a classificação de segundos europeus caminha ao arrepio das redefinições identitárias ainda algo politizadas por relação ao colonialismo. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .. Entre cabo-verdianos. é notório o esforço de construção de uma nação diaspórica e. particularmente sentida pelos ex-serviçais cabo-verdianos. expor perplexidades a propósito de uma caracterização identitária algo inesperada. É lícito supor que essa expressão condensa um desabafo acerca da marginalidade social. Mas. também a decrescente valia política de uma tal expressão vai de par com o fim da vida predito para breve. por se fixar em S. Ora. uma experiência de privações difíceis de suportar. de uma identidade cabo-verdiana política e culturalmente útil à projecção internacional do país e à obtenção de vantagens no mundo globalizado. e sem futuro (político) visível 3 . Tomé e Príncipe. acabaram por permanecer nas roças ou. por outra. adquire o tom de apelo à acção justiceira de quem tenha poder para o efeito 2 . À vida espinhosa antes de 1975. Tal indiciará o curso dessa expressão nos terreiros das roças. 3 Os cabo-verdianos não têm qualquer capacidade de luta política e social. correlatamente. ou não. hoje falidas e fisicamente degradadas. Neste texto.2 moldes de trabalho e nas relações sociais nos anos finais do colonialismo. Ainda assim. a expressão emergiu sem indagações prévias a tal respeito. por um lado. Em primeiro lugar. Tomé e Príncipe. Para além de um ambiente avesso à sua afirmação grupal – no geral. assim. Hoje. desde então. os cabo-verdianos contam-se entre as principais vítimas do empobrecimento de S. Durante as entrevistas surgiu a expressão segundos europeus. Dadas a pobreza e a solidão a que estão confinados. serão raríssimas as ocasiões para um tal desabafo que. a representação de segundos europeus como que cinge os cabo-verdianos a metas 2 A designação segundos europeus foi recorrentemente usada pelos mais idosos em contactos espaçados ao longo de anos. seja na luta contra a opressão colonial. veiculada? Usá-la-ão quando não estão presentes interlocutores europeus? É difícil ser taxativo. os cabo-verdianos somaram. mesmo admitindo que a presença de um português a possa lembrar. seja na criação da sua terra e de um destino próprio contra a adversidade natural. ela não parece passível de redução a algo de meramente instrumental. Em que circunstâncias a ideia de segundos europeus será. descrêem e alheiam-se de práticas associativas –. com que se conformaram em vista das promessas políticas. Apesar da presença de um interlocutor português a poder induzir.

decerto. Contra uma visão sub-repticiamente normativa da identidade cabo-verdiana. do grupo e do arquipélago. Só uma investigação profunda permitiria validar esta hipótese. igualmente baseada na interpretação de gestos e dizeres dos ex-serviçais cabo-verdianos. cuja memória se afigura errática e avessa à perspectiva institucional da diacronia e do discurso histórico. a porosidade observável entre um discurso mais erudito e o discurso popular em S. Em suma. do mestiço – como construtor do Cabo Verde independente. também. Tal abrange igualmente os valores de há meio Como frequentemente sucede em narrações de indivíduos de grupos subalternizados. Vicente e. nessa medida contrariando a exaltação do cabo-verdiano – outrora. tão pouco para o reconhecimento político e social das minorias. noutras ilhas. 4 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . a designação de segundos europeus não participa da reflexividade das elaborações identitárias dos cabo-verdianos. trata-se de uma caracterização sem futuro. tal designação comporta uma sugestão de hierarquização social que. atento o contexto político são-tomense. aversão. 5 Tal hipótese assenta em indícios escassos. tal caracterização suscitará estranheza e. tão pouco parece servir a concepção de nação diasporizada 4 . até. uma abordagem pressurosamente condenatória da alienação subjacente à designação de segundos europeus. A noção de segundos europeus não contribui para a valorização dos referentes identitários cabo-verdianos no mercado de bens culturais. talvez a qualificação de segundos europeus tenha sentido para aqueles que a evocam. De outra perspectiva. os exserviçais cabo-verdianos estão irremediavelmente condenados à subalternidade. abdicaria de tentar explicar o curso e o significado social e político dessa designação corrente entre os ex-serviçais cabo-verdianos. também entre os cabo-verdianos de S. Outros motivos aconselham a evitar um tal enfoque redutor. Ainda assim. das motivações de quem os procura para redigir histórias de vida. permite-lhes uma reordenação simbólica deste mundo. conquanto nela possam ecoar os debates em curso em Cabo Verde ao tempo em que os ex-serviçais daí largaram para S. E. Dadas as características sociais e culturais do arquipélago equatorial e o veio essencialista da afirmação são-tomense. não tem sentido do ponto de vista político ou sequer ideológico e cultural. dada a sua situação e a do país em que se encontram. entre eles. Todavia. Tomé e Príncipe avultam preocupações arredias das dos arautos da identidade caboverdiana. lembre-se a pluralidade dessa identidade nos mais variados contextos. não há lugar para a negociação política a partir da consideração de identidades. que a filiasse apenas na ideologia colonial e racista.3 coloniais. Parecendo uma reivindicação identitária passadista e anacrónica. Como veremos. Tomé 5 . Politicamente. Em segundo lugar.

alegam eles. se solicitados a opinar formalmente. ao invés de classificar a designação de segundos europeus à luz do (nosso) mundo globalizado. 6 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . vai deixando de ser uma marca local. importa reportá-la à evolução do arquipélago. onde a europeização. Olhemos. Prontamente se sentenciará que a asserção relativa à europeização é enviesada e extemporânea e. em tempos orgulhosamente reclamada pela elite dos nativos. Tomé e Príncipe. 7 Diga-se. embora marginalizados. Porém. quer com a sua permanência. patente. que os ex-serviçais ainda hoje têm por crivo de definição dos cabo-verdianos. Ademais. noções como mestiçagem. decidir-se-ia arbitrariamente o que comporia. a génese e o curso da designação de segundos europeus. assim como ao facto de não beneficiarem em nada dos êxitos económicos na terra natal e do sucesso dos seus conterrâneos nos países mais ricos. a noção de segundos europeus tem uma história relacionada quer com o contrato nas roças coloniais. também não completamente voluntária. Tomé e Príncipe. a qualificação de segundos europeus surge à margem da discussão relativa à origem e ao conteúdo de uma identidade crioula em Cabo Verde. os cabo-verdianos aludem à sua miséria em S. Concretamente. este termo tem vindo a perder lugar no discurso dos são-tomenses. Mas tal enunciação provém de sujeitos que. Com a menção ao abandono. são cabo-verdianos. tal designação padecerá de um paternalismo retrógrado. No fundo. Assim. 8 A afirmação relativa à condição de segundos europeus não foi partilhada por todos. miscigenação. Tomé e Príncipe (MAINO 1999:135). que não evidencia senão a insensibilidade dos que a veiculam relativamente ao impróprio de uma classificação eurocêntrica 7 . crioulidade ou processo de crioulização não constituem tópicos de debate em S. de alguma forma perseguida pelos cabo-verdianos ao longo de cerca de meio século de vida no arquipélago equatorial. no S. para além de aplicado num sentido lato e de fraco valor descritivo ou interpretativo. tivesse a crítica sentido. a identidade caboverdiana. Ora. Rejeitando-se esta parcela da vivência cabo-verdiana. discussão sem paralelo em S. pois que. Não obstante as mutações de significado social e político ao longo de sucessivas conjunturas. para os ex-contratados. ou não. essa designação comportou (e comporta) uma afirmação social. um inquérito talvez produzisse resultados inesperados e contraditórios. Tomé e Príncipe sobre o abandono em que se acham. De resto.4 século. O termo crioulo foi adoptado por são-tomenses em textos científicos e ensaísticos sobre asua etnogénese. a ser enunciada por outrem. então. no foco dos governantes do seu país na diáspora dos países ricos 6 . se tornou o seu mundo. Tomé e Príncipe independente. alguns dos que asseveram com sentimento serem segundos europeus talvez não se mostrassem tão seguros dessa classificação. cumpre contextualizar o seu uso 8 para a interpretação de um arquipélago que. dar-se-ia razão aos lamentos dos cabo-verdianos em S. Sem dúvida.

um mero conteúdo geográfico. quanto até das inconsequentes intenções de instrumentalização política e social dos cabo-verdianos por autoridades coloniais 11 . cantarolou um verso de uma modinha da sua juventude. asserção que não terá. ganhando aí novos significados. mormente aos elementos das famílias ditas tradicionais. não é de todo impossível que estas e outras descrições de Cabo Verde. nunca o senhor ouvir? Outra exserviçal aventou Cabo Verde com Portugal é perto. por ALMEIDA 2004:284). Tomé e Príncipe. Porém. Vicente por uma ex-serviçal dessa ilha. dos cabo-verdianos e da sua “civilização”. Entre as reminiscentes percepções da mestiçagem constitutiva dos cabo-verdianos. Assim. Expressando o desejo de que Deus olhasse para ela e a levasse a morrer na sua terra. o poder ensaiou uma aproximação aos são-tomenses. Tomé e Príncipe independente. após o sangrento episódio de Batepá e face à ofensiva anti-colonial nos círculos internacionais.5 Génese da expressão segundos europeus A primeira dificuldade reside na datação desta noção. da lusitanidade cultural do caboverdiano ou de Cabo Verde como um regionalismo português (cf. 10 Consulte-se uma resenha destes debates em ALMEIDA 2004:255 e ss. 11 Algumas autoridades coloniais pensaram em usar cabo-verdianos como factor de aportuguesamento do arquipélago. para que tais ecos viessem a ser recriados para afirmar a indignação contra a miséria a que acabaram condenados no S. Esta política fez esquecer aquele desígnio político e social que alguns voluntaristas tinham gizado para os cabo-verdianos. citemos a descrição de S. uma noção relativa à miscigenação ou à mestiçagem como matriz da génese dos cabo-verdianos poderá ter sido levada para S. FERNANDES cit. presumimos. por exemplo. Tomé e Príncipe foram sendo reelaboradas ao sabor tanto da evolução das relações laborais e sociais nas roças. 9 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Bastaria tão só que a sua socialização nos terreiros das roças tivesse ajudado a alicerçar as relações entre os cabo-verdianos e. Em S. Uma hipótese tem-na como um eco longínquo da difusão no meio cabo-verdiano dos discursos sobre a etnogénese do povo cabo-verdiano 9 . tenham viajado com os contratados. a conquista da fidelidade política dos nativos tornou-se o objectivo prioritário. nos derradeiros anos do colonialismo. esses ecos não precisam de ser coerentes. Face ao espanto. S. a sua resistência à opressão excessiva nas roças. Vicente pequenino é um pedacinho do Brasil. Tendo em mente as inquietações e os temas debatidos nos anos 50 pela intelectualidade cabo-verdiana 10 . Conquanto sujeita a refracções múltiplas. de caminho. É concebível o cepticismo quanto à possibilidade de no termo segundos europeus ainda ecoarem mensagens acerca da mestiçagem como expressão. Ora.

o quotidiano era emoldurado por um racismo difuso e pelo ideário colonialista sobre a hierarquização dos vários segmentos populacionais 12 . alguns dos quais asseveraram que a designação de segundos europeus tinha o reconhecimento dos colonos. 12 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . por vezes. fosse quando insinuava uma competição civilizacional. tendo em vista. por exemplo. em razão da aptidão para o trabalho. a designação segundos europeus pode ter passado a compor mecanismos de acomodação. hoje. podendo suscitar quezílias ao invés de apaziguamento. num tratamento diferente do dispensado a moçambicanos e a angolanos. Por exemplo. tão-somente criaturas humanas – não seria uma afirmação fácil. quando não era da autoria destes. a reiteração da qualidade de segundos europeus poderia afigurarse um atrevimento por ameaçadora das barreiras sociais – tão só por implicar um juízo implícito sobre estas –. mormente na negociação informal de uma diferenciação social. traduzida. Por seu turno. Noutros termos. por entre desencontradas intuições sobre o futuro político do arquipélago. Até meados do século XX. tal deveu-se aos roceiros. a ter acompanhado as mudanças dos derradeiros anos do colonialismo. tal pretensão terá tido importância. esta adesão pode ter sido induzida. Para os europeus. os roceiros tenham feito por avivar a disjunção entre os das roças e os nativos. uma tal designação deveria ter um curso contido ou carecer do beneplácito do europeu. o mais das vezes. É provável que. com a indigenização da mão-de-obra a pautar as condições de trabalho. Logo. por exemplo. a preservação das propriedades em caso de turbulência política e de reivindicações de distribuição de terras. entre outros factores. esta vertente conflitual parece esquecida pelos cabo-verdianos. que as mutações políticas e sociais do colonialismo tardio não dissolviam por completo 13 . Deixe-se dito. Neste quadro.6 Ao tempo. dizerem-se segundos europeus – e. pelas clivagens entre as roças e os nativos. ao que nem sempre os cabo-verdianos se mostravam prontos. A alegada civilização ou a reivindicada semelhança fenotípica com o europeu podiam desencadear efeitos contraditórios. Em todo o caso. Amiúde barrada pelas assimetrias sociais nas roças. por várias vezes a proximidade racial – por exemplo. bem como de identificação com as roças e os roceiros. no que nem sempre os cabo-verdianos eram os mais apreciados. a aptidão do trabalho incluía o acatamento incondicional das suas ordens. no tocante à alfabetização – causou crispações entre empregados europeus subalternos e cabo-verdianos. 13 Em parte. a vida nas roças era marcada pela rispidez. A criação de um tecido social nas roças deveria afigurar-se o melhor dos antídotos contra tais reivindicações. Mais tarde. fosse quando denotava uma adesão ao colonizador.

14 Neste particular.7 Dissemo-lo. actualmente menos aceitável. Em todo o caso. Por outro. prescindindo-se. Justamente. convida a imaginar recriações dessa expressão já depois da independência para efeitos de interpretação da evolução política do arquipélago equatorial. Vicente ainda no tempo colonial. Podemo-nos interrogar acerca das razões pelas quais dizem segundos europeus e não segundos brancos. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Ou. os cabo-verdianos recorrem. veja-se NAVE 1990:29). ter sido transportada desde Cabo Verde. nos testemunhos dos cabo-verdianos. “no tempo do colono”) ou “o branco fez…” –. é possível que a designação possa ter sido (re)criada no tempo colonial. Embora pessoas. no final do colonialismo. por exemplo. Portanto. Assistiu-se a alguma personalização das relações laborais. Eventualmente. que não ex-serviçais. a crer nalguns ex-serviçais. iniciando-se em manifestações de paternalismo 15 . Tal processo prosseguiria no pós-independência. combinando-se a reiteração das diferenças sociais com a proximidade assente no reconhecimento da valia dos indivíduos (em termos comparativos. Tomé e Príncipe ou com uma visão muito esbatida da evolução deste arquipélago após a sua saída. Segundos europeus ou o juízo do pós-independência Na ausência de tal equação política. os roceiros tinham uma atitude oposta à das décadas precedentes. tenham asseverado que a designação segundos europeus 16 não tinha curso na era colonial. Por um lado. mas a “europeu”. observa-se que. tal poderia advir da cautela induzida pela carga racial. Mas a expressão europeus pode ter sido induzida no tempo colonial. ela foi utilizada por ex-serviçais regressados a S. pode pensar-se que a noção de segundos europeus conterá implicitamente uma reivindicação social inspirada na valorização das garantias de vida e no papel do paternalismo. não a “branco”. a rarefacção de braços obrigava à racionalização das tarefas. foram os próprios europeus a usar essa expressão 14 . Por existir uma primazia do aspecto civilizacional – mais conforme à sua ideia de cabo-verdianos – sobre o referente racial? Não o saberíamos dizer. 15 Nalguns administradores notavam-se sinais de uma emergente consciência social que como que visava reparar as fissuras causadas pela agressividade e a rudeza de trato inspiradas pelo ideário colonialista imperante até meados de Novecentos. tal induz a supor que. parte deles sem contactos com S. alguma proximidade dos administradores das roças com o pessoal terá servido para obter uma prestação produtiva a contento num tempo em que se tornara impossível extorqui-la pela coacção. apesar de branco ser um termo corrente nas narrativas do passado – sendo comum ouvir dizer “no tempo do branco” (em alternativa. temos de equacionar a hipótese de estarmos perante um expediente – de alguma forma. da designação “branco”. da ocupação do tempo como princípio de organização de trabalho. o critério da civilização parece sobrepujar o da coloração epidérmica. A par disso. conhecendo sucessivas adaptações conformes às mudanças de políticas e no dia-a-dia das roças. 16 Sem prejuízo da necessidade de pesquisas ulteriores. nos derradeiros anos do colonialismo associado a uma maior contiguidade nas roças. talvez. tributário de reminiscências da ideologia colonial – para avalizar a interpelação implicitamente contida na apresentação de si mesmos como segundos europeus a quem chega de fora.

deles – o mais contundente dos argumentos para contestar o status quo e as assimetrias sociais. entrementes tornada uma deriva identitária com que os são-tomenses ensaiam racionalizar o processo de perda económica e social por que passa o seu país. Vejamos como. para eles. supostos traços da sua personalidade – por exemplo. foi com base na clivagem racial que se legitimaram os que acederam ao poder em 1975. Sem embargo das roupagens progressistas do ideário independentista. a visão do mundo dos cabo-verdianos tende a enquistar. quando a miséria se abateu sobre os trabalhadores das roças. Tomé e Príncipe 17 . O seu discurso reporta-se a marcas corporais. 18 Tal não invalida que. em virtude do percurso pós-independência. Simultaneamente – por um processo de identificação (alienada que seja) com o colono e de oposição aos mandantes em S. estes. desenhou-se uma clivagem assente na raça – que congregava são-tomenses. a esperteza. provas irrefutáveis da sua natureza. segundos europeus remete para supostos atributos de cabo-verdianos. Tomé e Príncipe –. a lida do mundo e uma dada ética de trabalho 18 . embora o lema fosse o da luta contra a exploração do homem pelo homem. a designação segundos europeus readquiriu sentido para os que dela se reivindicam. na diferença de natureza encontra-se. a intrepidez ou a esperteza – tenham conflituado com a boçalidade dos europeus. Há anos a passar por privações incontáveis e a caminho do fim de suas vidas. apelam ao mais poderoso dos argumentos. traduzida pelo fenótipo. a designação segundos europeus pode interpretada como uma reacção dos ex-serviçais à africanização da terra e das gentes. do fracasso do país.8 Actualmente. Ao tempo. caboverdianos e outros contra os colonos –. Anos depois. após o 25 de Abril as considerações de teor racial continuaram como um instrumento de análise do rumo da história e um móbil de acção. Por outras palavras. entre os quais. as lesivas do património das roças –. o da dissemelhança entre a epiderme e o fenótipo deles e os dos demais africanos habitantes e senhores da terra. Tal como no colonialismo. atribuíram o empobrecimento do país à natureza de quem passara a governar S. preterindo os slogans políticos pela racialização das condutas – entre elas. a inteligência demonstrada na compreensão da condição humana. nalgumas circunstâncias. Como? A noção de segundos europeus aponta para uma característica irredutível. a A racialização. daí. Para os exserviçais cabo-verdianos. como explicação dos comportamentos e. indubitavelmente. a capacidade de afrontamento das adversidades. é também adoptada por são-tomenses que encontram na natureza do africano ou do negro – isto é. 17 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . É disso que os ex-serviçais cabo-verdianos se distanciam.

a esta distância. Mas umas são mais toleráveis do que outras. de que eles. nativos e outros – do tempo colonial parece. era este padrão de evolução que os cabo-verdianos (e. Apesar de enviesada pela resiliência do ideário colonial ou. são as maiores vítimas. Serve igualmente para se situarem perante as danosas mudanças políticas e económicas desfavoráveis sobrevindas no pósindependência. Atenhamo-nos. como. então. Conquanto tributária do ideário colonial. por outro. a noção de segundos europeus tem um valor interpretativo evidente: o de que o desajustamento entre a actual posição hegemónica dos são-tomenses e a respectiva natureza não pode senão desembocar em comportamentos anti-sociais conducentes à ruína dos empreendimentos dos homens. Afinal. decerto.9 explicação da trajectória de perda de S. cabo-verdianos. do racismo. menos gravoso. rejeita-se a afinidade racial apregoada para efeito da mobilização anti-colonial nessa época. e. A perda económica e social A reavaliação e o matizar das críticas ao tempo do colono resulta da apreciação dos políticos sãotomenses. Os cabo-verdianos detêm uma visão acerca das desigualdades humanas como princípio perene da ordenação do mundo. no final. No mínimo. Agora. também os sãotomenses) esperavam ver prosseguido após a independência. Tal noção de um mundo fatalmente injusto não os torna nem passivos nem acríticos relativamente às desigualdades sociais. ex-trabalhadores das roças. 19 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . quando não aceitável 19 . a hierarquização social subjacente a essa denominação comporta um juízo sobre a sua civilização comparada com a dos outros. Portanto. enquanto o alinhamento de contornos raciais – brancos. Tomé e Príncipe. A noção de segundos europeus traduz um ressentimento e hoje – irremediavelmente traçado que está o seu destino – ela pode ser lida como a denegação da solidariedade racial que cimentou o bloco político-social contra os colonos na transição para a independência. a noção anacrónica de segundos europeus condensa uma leitura da evolução do (seu) mundo. o actual ordenamento social favorável aos são-tomenses afigura-se-lhes contra-natura. vinham intentando fazer os patrões brancos. não se legitimam por uma prática justa. Por um lado. mesmo. à crítica da presente situação em S. estes derrogaram a ideologia igualitarista com que aliciaram os cabo-verdianos. incluindo a terra natal. Tomé e Príncipe. os são-tomenses.

em perda. os caboverdianos desqualificam os são-tomenses. a quem tinham de obedecer por terem escolhido o contrato). invertendo simbolicamente a actual subalternidade relativamente a estes. a afirmação da qualidade de segundos europeus comporta uma acusação quanto às provações por que passam e denuncia a contradição entre a sua situação social e a sua imaginada natureza. Na era colonial. o ressentimento advirá da derrogação da superioridade simbólica de outrora. Presentemente. Outrora. nunca vi responsáveis políticos incentivar o uso de linguagem pejorativa para com os exserviçais. porquanto diminui o argumento de que os são-tomenses estão na sua terra. deixando implicitamente entendido que a desmerecem. alguns chegam a classificar-se como escravos dos são-tomenses em cujo quintal são obrigados a trabalhar. os europeus reconheciam a índole diferente dos cabo-verdianos. Os nativos passaram a mandar na terra e subalternizaram-nos.10 No tempo colonial. mas. Em S. esta prática de rebaixamento dos serviçais com que outrora os nativos se procuravam demarcar das roças. dissemo-lo. não obstante a pobreza da sua terra os ter impelido para o contrato. as clivagens étnicas não são encorajadas. Tomé. A distinção social dos poderosos e dos governantes socorre-se de outros meios e. Não se pode descartar o uso do termo gabão. Noutros termos. pese embora o eventual orgulho na identificação com o veio de filhos da terra ou de forros. nome de escravizados e de desqualificados coagidos aos ditames das roças. a reivindicação de civilização subjacente à ideia de segundos europeus compôs variadas contestações ao labor e à vida nas roças. o termo segundos europeus escorou as queixas e protestos contra a indigenização a que estavam obrigados pelos ditames dos roceiros. Esse reconhecimento não anulava as assimetrias sociais. como voltando a invectivá-los com o termo gabão 20 . Retratando-se como segundos europeus. Hoje. Com efeito. eles deviam sentir-se acima dos nativos (e até de europeus boçais. não apenas esquecendo as promessas políticas do advento da independência. O reconhecimento da sua idiossincrasia pelos roceiros foi um passo na melhoria do ambiente social. se subsiste. 20 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . justamente a evolução que os levou a ficar por S. as diferenças eram constitutivas do mundo. A designação de segundos europeus tem um valor político. os cabo-verdianos lembrem agravos antigos para explicar compreensivamente a sua situação actual. Mas também é natural que. Enfatizando a sua desventura. para eles. uma vez dobrada a fase das maiores agruras de trabalho e de vida dos anos 50. Esta alegação poderá não corresponder fielmente à realidade. pelo menos ao nível retórico. Tomé e Príncipe. queda por comprovar com que intensidade subsiste.

não necessariamente devido a uma ideologia segregacionista quanto ao peso dos laços familiares e clientelares na modelação da sociedade são. como e para que fins denunciá-la? Quando momentaneamente se rompe a solidão e têm oportunidade de falar. com a mestiçagem visava-se o embranquecimento das sociedades ou. essa crítica faz-se a partir da racialização de comportamentos. há anos. 22 A ideia de mestiçagem corre entre os cabo-verdianos. depois de. sem outro horizonte além da morte. 21 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Logo. Segundos europeus. os mandantes de uma terra tornada estranha não lhes reconhecem nada. a qualidade de segundos europeus sentencia o seu distanciamento de tais práticas.11 Hoje. pois. um artifício retórico de alguma ressonância política. Justamente. realçando. No passado. os termos em que os cabo-verdianos interpretam a sua situação implicam a O crivo étnico deve ter várias vezes barrado a trajectória ascensional de descendentes de caboverdianos. Neste contexto. resumem-se à crítica da apropriação indevida de bens das roças pelos responsáveis nomeados após 1975. supostamente constitutiva do povo cabo-verdiano. hoje nula. Reina a desolação que não advém apenas da pobreza mas igualmente da perda da valia individual e da condição de cabo-verdianos. Têm consciência da marginalização – a que aludem subliminarmente com a palavra abandono – embora não a classifiquem de premeditada 21 . os ex-serviçais estão acantonados nas roças. Possivelmente. Aventaríamos que hoje a designação de segundos europeus sublinha esta negação. em trapos. eles descrevem a sua situação falando em abandono. de outro modo. uma face da identidade cabo-verdiana Situamo-nos. tem a ver com o enraizamento popular de ecos de ideias do tempo colonial.tomense. em escravos. Ou mesmo de uma noção de mestiçagem 22 . nos antípodas das (nossas) noções de crioulização e das perspectivas do mundo a ela associadas. terem sido impedidos pelo fechamento da sociedade são-tomense à competição e à mobilidade social de usar as suas aptidões e a sua identidade para ascenderem económica e socialmente. alguns dos quais se percebem como genuínos enquanto descendentes de progenitores de diferentes raças. Devido à evolução pós-1975. tal fito comportava uma esconsa negação do negro. Esta valorização da mestiçagem entre os cabo-verdianos não se prende com a sua valia política. De fundo ético. Empobrecidos. o contra-senso entre a sua condição de segundos europeus e a de escravos. desse modo.

E. Tomé e Príncipe. reelaboram a sua identidade pela reafirmação da ética aprendida no torrão natal a que se afirmam incondicionalmente fiéis. parece comprovado pela degradação social em S. Por exemplo. que resta senão procurar uma demarcação que contrabalance. dizem nós podemos acompanhar branco. seguindo as pisadas de seus pais. a ideia de segundos europeus. 23 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . chamam a nós estrangeiros (. não tem sido reclamada por são-tomenses em tempos recentes 23 . é com noções aparentadas com a de segundos europeus que interpretam o mundo e a sua vida. a quem responsabilizam pela sua desgraça. por exemplo. No final de suas vidas. ao menos simbolicamente. contratados para cargos intermédios nas roças. marginalizados e sem razões para aspirar à integração numa sociedade drasticamente empobrecida. Mais. valiosa porque vivamente sentida e consciencializada por alguns dos cabo-verdianos.. na Apesar de nos primórdios do século XX. estes terem reivindicado comungar de mais elevados patamares de civilização europeia.) os estrangeiros veio ensinar a vocês [são-tomenses] trabalhar e a falar… A denominação segundos europeus comporta uma faceta instrumental. A dimensão da alienação será notada pelo observador exterior. Tomé e Príncipe –. o determinismo. ou de uma herança europeia. o que reforça o impulso a sublinhar a condição de segundos europeus.12 rejeição liminar de um negro em particular – daquele que tomou o poder em S. nem sempre serão totalmente arbitrários. não podiam aspirar. os são-tomenses não a poderão reivindicar. Enfatizando a dimensão civilizacional da sua condição de segundos europeus. Já os caboverdianos apontam a injustiça da sua perda social. Ao invés. E relatam. na ausência de qualquer perspectiva para safar a o dia-a-dia após décadas de trabalho massacrante. hoje. Entre os cabo-verdianos. Em época de prosperidade devida ao cacau. para os cabo-verdianos. apartam-se da africanização dos nativos. raça e cultura não se afiguram suficientemente distintas. outrora imediatamente inerente a esse binómio. que a usam para rebater o epíteto de gabão e estabelecer uma demarcação social inversa.. os seus ascendentes ostentavam um refinamento de gostos a que europeus rústicos. Apregoando a sua civilização. a miséria e a marginalização que não têm hipótese de combater? Independentemente dos processos de identificação acorrerem às oportunidades políticas. Esta é a posição dos cabo-verdianos que.

na falta da canga do destino ou da graça de Deus. ainda seria mais abraçado. ainda entendido à luz do imobilismo social do S. a consciência de serem cabo-verdianos. quer com valores que actualmente plasmam a pesquisa social. Tomé lhes pregaram. Concomitantemente. Tomé e Príncipe colonial.13 procura de vida. tal afigura-se pouco consentâneo quer com os sentimentos do comum dos cabo-verdianos. como outrora. as piruetas da vida ensinaram aos cabo-verdianos o escusado do apego a sentimentos de outrora que – sabem-no bem – não têm mais sentido. pois. Tomé e Príncipe independente que reside a explicação do uso da noção de segundos europeus. mesmo se enviesada. Se o rótulo de segundos europeus proporcionasse ganhos reais. reafirmando uma justeza (cabo-verdiana) de princípios que. como é próprio da experiência humana. se porventura isso é imaginável. sentimentos passíveis de confusão com a aceitação da inferioridade face aos europeus. porque insistiriam os ex-serviçais cabo-verdianos numa tal formulação? A explicação pode ser encontrada na compensação simbólica e na denúncia política. Seja como for. No entanto. é pela afirmação da sua diferença que se reconciliam com as partidas que o destino e a evolução política em S. talvez por isso. Notas conclusivas Segundos europeus afigura-se uma etiqueta de indivíduos de vidas corridas em horizontes fechados e. pouco ou nada porá em causa a sua leitura do mundo. A ênfase dos testemunhos valida a sua verdade e autentica o seu sentimento de revolta sofrida e contida. Para eles. o isolamento e a privação extrema vincam ainda mais. Evidentemente. Na realidade. aqui e além propensos a expressar. verbal e gestualmente. A expressão de tais ideias revelaria. recorrem para reagir simbolicamente à subalternidade em que se acham. pouco conhecimento do mundo. é na vivência no S. a que. através da qual tentam uma compreensão do que lhe sucedeu. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . a que se presta tal designação. Mas não tendo os olhos fechados – assim o pretextam –. nem sempre encontra realização neste mundo.

Campo das Letras CARREIRA. Rio de Janeiro. com quem me sinto emocionalmente implicado. 1984. Os cabo-verdianos e a morte. dissertation. cultura e política de identidade. and portuguese colonialism in Cabo Verde. Um mar da cor da terra. Race. noutras circunstâncias sociais sugere o enquistamento do discurso identitário ou o reveste de tons marcadamente auto-encomiásticos atinentes à exaltação do cabo-verdiano. Teorema FERNANDES. 2004. começa a ser reconhecido. Nova Vega GEERTZ. Porto. Chris. Termino de outro modo: ao cabo de décadas de vida assaz sofrida. “A identidade santomense em gestão: desde a heterogeneidade do estatuto de trabalhador até à homogeneidade do estatuto de cidadão” in Africana Studia nº2. James e WICHAM. Ph. Ensaios de antropologia e de cidadania. Lisboa. 1983 [1977]. Migrações nas ilhas de Cabo Verde. West Africa. 2000. Pablo. Memória social. Lisboa. Miguel Vale de. 1993] Como as sociedades recordam. Instituto Caboverdeano do Livro CONNERTON. Porto. 24 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Raça. mesmo se nos seus testemunhos aflora uma noção de um veio singular que dimanaria das suas ilhas 24 . Syracuse University E que. Uma abordagem antropológica através da literatura de ficção. Margarida. não corroboro. Celta EYZAGUIRRE. Outros destinos. Oeiras. D. CEA-UP MEINTEL. António. 1986. culture. 1994. Celta ALMEIDA. Miguel Vale de. Small Farmers and Estates in Sao Tome. 2004. Hora di bai. quem lhes dirá que não viveram de acordo com o que os seus pais lhes legaram como sendo valores cabo-verdianos? Referências Bibliográficas ALMEIDA. 1989. Yale University FENTRESS. Oeiras. 1999 [1ª ed. ideia que. Paul. previsivelmente. de essencialistas ou de coisa que o valha. 1999. A interpretação das culturas. Elisabetta. Clifford.14 Seria risível taxar os ex-serviçais cabo-verdianos. Editora Guanabara MAINO. Deirdre.

António Leão Correia e. Colonialism. 1999. Race. Augusto. Lisboa. 2006. Praia.15 MOORE.. Um estudo de caso. Identidade social e ética do trabalho nos assalariados agrícolas do Alentejo – a empresa colectiva e a comunidade local no espaço rural pós-latifundista. Augusto. O fim do ‘caminhu longi’ [para publicação] NAVE. Nova Yorque. Joaquim Gil. Cabo-verdianos nas plantações de S. Comrades. Tomé segundo vozes de Soncente [para publicação] NASCIMENTO. Augusto. Socialism and Democratization in São Tomé and Príncipe. Tomé. S. Spleen Edições TENREIRO. Órfãos da Raça: Europeus entre a fortuna e a desventura no S. 1987. Clients and Cousins. Praia. Leiden. 2002. 2003. Tomé e Príncipe e de Moçambique. 2003. Poderes e quotidiano nas roças de S. Augusto. Junta de Investigações do Ultramar ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Universidade de Leiden SILVA. Augusto. ISCTE SEIBERT. Tomé e Príncipe de finais de Oitocentos a meados de Novecentos. O sul da diáspora. 1990. Guyana After Slavery 1838-1891. S. Francisco. Lisboa. Tomé NASCIMENTO. Instituto Camões / Centro Cultural Português NASCIMENTO. 1961. 2005. Combates pela história. 2002. Gerhard. Tomé. Power and Social Segmentation in Colonial Society. Vidas de S. Edição da Presidência da República de Cabo Verde NASCIMENTO. A ilha de S. Tomé e Príncipe colonial. Brian L. Gordon and Breach NASCIMENTO.

identidade social.A ORIGEM DA MORNA E A ORIGINALIDADE CABO-VERDIANA Juliana Braz Dias Departamento de Antropologia. A morna é mesmo uma criação dos cabo-verdianos? Que matrizes culturais exerceram influência na sua origem? Quais acontecimentos e sentimentos inspiraram a criação desse gênero musical? Não procuro trazer respostas definitivas a essas questões. reconstrói a dinâmica das discussões sobre a origem da morna (gênero musical tomado como um dos símbolos da nação cabo-verdiana). Mais precisamente. e que alcançam cada setor dessa sociedade. Discorrer sobre uma coletividade. morna. São diversas hipóteses sobre a origem da morna. nas suas mais diversas formas de expressão. a sociedade cabo-verdiana. Os próprios membros constituintes de qualquer totalidade apresentam idéias divergentes a respeito daquilo que os define. bem como suas características mais notáveis. imutáveis. indicando como essa polêmica reflete a pluralidade de concepções acerca do sentido de ser “crioulo”. procuraram responder tais perguntas. Palavras-chave: cabo-verdianidade. as construções dos caboverdianos acerca da nação a qual pertencem não são fixas. São discussões que ultrapassam os limites de uma elite intelectual. Tão somente. não apenas sobre esse fenômeno musical. Universidade Federal de Mato Grosso Este trabalho aborda parte do debate realizado no arquipélago de Cabo Verde em torno do significado cultural da cabo-verdianidade. mas sobre a própria cultura cabo-verdiana. Neste trabalho procuro abordar uma coletividade específica. nunca foi um trabalho simples. Como em qualquer processo social de identificação. empenhada no projeto ideológico de construção da identidade nacional. A pluralidade de opiniões dos cabo-verdianos sobre eles próprios e sobre o sentido de ser “crioulo” conforma um rico campo de debate. fruto de consenso. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . presentes em diferentes projetos identitários. e as discussões em torno daquilo que singulariza este povo. mostro como membros de variados setores da população cabo-verdiana. em diferentes momentos da história daquele país. portadoras de uma riqueza simbólica capaz de revelar diferentes construções. assinalando seus limites internos e externos.

Baseia-se. explícita ou implicitamente. a discussão sobre a história da morna tem-se confundido. sob uma perspectiva antropológica. Essas diversas versões para a origem da morna têm percorrido diferentes momentos da história de Cabo Verde e envolvem membros de diferentes setores da população cabo-verdiana. da mesma autora. era analisar o significado das diversas hipóteses construídas sobre o nascimento desse gênero musical. muito menos discutir qual das diversas hipóteses sobre a origem da morna aproxima-se mais da verdadeira trajetória percorrida por essa manifestação da cultura popular cabo-verdiana. também a morna surge como resultado desse cruzamento de culturas diversas. aparentemente. 1 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . procuro indicar como as diferentes versões sobre a origem da morna são todas elas portadoras de uma verdade. produto do encontro entre Portugal e África.2 As reflexões a seguir abarcam parte do debate realizado em Cabo Verde em torno do significado cultural da cabo-verdianidade. impondo. 1 A pergunta “qual a origem da morna?” tem sido insistentemente levantada pelos cabo-verdianos. a necessidade de uma resposta definitiva. tomado hoje como um dos símbolos da nação cabo-verdiana. Mais precisamente. não apenas sobre esse fenômeno musical. Em grande parte dos casos. Cada um desses atores. mas sobre a própria cultura cabo-verdiana. Desde o início das atividades de investigação que fundamentam a presente discussão. Muito antes. Muito mais interessante. procura-se reconstruir a dinâmica das discussões sobre a origem do gênero musical cabo-verdiano denominado morna. com a discussão sobre a formação da sociedade cabo-verdiana. indicando como a polêmica criada acerca do surgimento desse fenômeno musical reflete a pluralidade de concepções acerca do sentido de ser “crioulo”. Este trabalho é uma versão resumida de parte do argumento apresentado na tese de doutoramento Mornas e Coladeiras de Cabo Verde: versões musicais de uma nação. Exemplo disso é o discurso seguinte. levanta inevitavelmente uma série de questões: a morna é mesmo uma criação dos cabo-verdianos? que matrizes culturais exerceram influência na sua origem? quais acontecimentos e sentimentos inspiraram a criação desse gênero musical? Repito que não pretendo aqui responder a essas questões. Assim como o homem cabo-verdiano é apresentado como um mestiço. pesquisadora. dar esta resposta. visto que apresentam uma riqueza simbólica capaz de revelar diversas construções. ao refletir e opinar sobre o assunto. soube que não cabia a mim.

conforme os interesses em questão. o musicólogo Jean-Paul Sarrautte publicou em Cabo Verde um artigo onde procurava demonstrar a maior intensidade da influência metropolitana na origem da morna. Caiu como uma luva no discurso daqueles que participavam do processo de construção da nação cabo-verdiana como uma organização sócio-cultural distanciada de suas raízes africanas. 1939: 301) O homem cabo-verdiano é apresentado como o produto original de um encontro intersocietário. Elas são valoradas. as dolências e as alegrias portuguesas. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Está. Nas narrativas sobre o processo histórico que deu origem ao cabo-verdiano. em atividades de investigação realizadas entre os anos de 2001 e 2002. no seu sangue e nos seus hábitos. vibrados no sofrimento duma fatalidade étnica que os tempos não destroem. em Lisboa (Portugal) e Mindelo (Cabo Verde). Os portugueses teriam sido peça fundamental na formação desse novo estilo musical. O artigo de Sarrautte passou a ser amplamente citado. as duas matrizes culturais que participam desse encontro quase nunca se apresentam em posição de igualdade. E a morna apresenta-se como um símbolo dessa síntese sui generis. Mas o africano. criou uma personalidade própria que os mais pequenos nadas tornam evidente. Ele não é português nem africano. e suas contribuições para a formação da sociedade cabo-verdiana são continuamente discutidas. onde há gemidos dolentes. espiritual e cultural do cabo-verdiano. Manuel Ferreira. Mas se a morna é descrita como a melhor testemunha da mestiçagem étnica. é simplesmente “crioulo”. capaz de gerar. “uma personalidade própria”. em A Aventura Crioula. sem qualquer nota de influências lusas. há as dolências africanas. muitas vezes. Preponderando nêle os elementos mestiços. de um jogo de forças entre as heranças culturais portuguesa e africana. possue música pobre. É assim que o debate sobre a origem da morna acaba tomando a forma. a preceito. na sua música. Em 1961. (Correia. utiliza-se da autoridade do referido musicólogo para argumentar sobre “a importância da presença europeia na origem e desenvolvimento fundamentalmente. o povo caboverdeano. neste caso. o processo de criação da morna cabo-verdiana: O indígena africano. nesse povo. devidamente influenciado pelo português.3 onde o português Afonso Correia descreve. com base na idéia de mestiçagem. é preciso maior cuidado na análise da maneira como esse processo de miscigenação é apresentado. na sua morna.

o caráter ideológico do fado tornou-se evidente.. O que precisa ser lembrado é a polêmica que envolve o próprio fado. de tal forma que a relação entre os dois gêneros musicais adquirisse o caráter de uma filiação direta. 1984: 11). exclusivamente cabo-verdiano. para a entendermos na sua mais íntima estrutura e figuração tem de ser estudada essencialmente nos seus apports europeus. 1999: 83-88. Mais do que meras semelhanças. E no calor dessa polêmica. como Manuel Ferreira (ibid: 185). o cabo-verdiano José Alves dos Reis. 1985: 205). da morna. muitas vezes. afirmou que “não é fácil encontrar no folclore português ou outro estrangeiro qualquer das características das formas musicais das mornas” (Reis. Sugere que sua procedência pode ser encontrada no ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Alguns. alegam simplesmente que o fado não poderia ter influenciado a morna. Vale de Almeida. Tal hipótese. 1995: 5-8). as ligações entre o fado e a morna viram-se cada vez mais questionadas pela intelectualidade em Cabo Verde. possivelmente até pela síncope. Ainda em 1954. António Germano Lima propõe uma nova versão para a polêmica origem da morna. (. Com isso. e sem dúvida nenhuma que pela natureza das suas letras e pela atmosfera lírica e sentimental que a envolve. Durante a vigência do Estado Novo.4 orgânico da morna” (Ferreira. que tem sido alvo de longo e acirrado debate em Portugal. Pouco a pouco o debate sobre o nascimento da morna caminhou no sentido de romper (ou pelo menos minimizar) possíveis associações entre esse e outros gêneros musicais e de enfatizar a originalidade daquela que vinha sendo construída como a canção nacional cabo-verdiana. diversos autores enxergaram na canção portuguesa a mais provável explicação para a origem da morna. tudo concorre para a encararmos indiscutivelmente como uma criação do CaboVerdiano. Nessa asserção percebe-se claramente o intuito de reforçar o caráter singular. com o surgimento de críticas que denunciaram sua ligação ao regime de Salazar (ver Carvalho. com proximidades muito pouco significativas do mundo africano. maestro e professor do liceu Gil Eanes de São Vicente. porém. tem sido amplamente contestada. afastou a morna (e com ela todo o arquipélago cabo-verdiano) de seus vínculos históricos com a África: Europeia pela tonalidade. ganhou destaque em narrativas sobre a história da morna..) a morna. (ibid: 207-208) O fado. uma vez que se supõe ser a segunda mais antiga que o primeiro. Já na atualidade.

o que permite que elas se aproximem muito do sentido que a morna carrega nos dias de hoje. em oposição a ela. de um lado. é que eles inventaram a morna. assim eram também as mornas da Boavista.. Diziam que os escravos cantavam a morna no lugar de chorar. Daquele som. criaram a morna. Nas hipóteses anteriores notamos.5 “substrato sócio-cultural de origem afro-negra” da Ilha da Boavista (Cabo Verde).. dançante. outro importante estilo da música popular cabo-verdiana.. porque. Percebemos na análise dessa versão para a origem da morna uma mudança radical de direcionamento.. a morna identifica-se quase que exclusivamente com valores como o sofrimento. Cito aqui um trecho da entrevista realizada com uma senhora de 75 anos. alegre. aquele gemido. que escreve no começo do século XXI. de outro lado. a preocupação em afirmar a origem genuinamente cabo-verdiana desse gênero musical e. aquele gemido escravo. A grande mudança nesse jogo de forças que se dá agora com um enfoque quase que exclusivo na população cabo-verdiana de origem africana reflete um novo momento no debate. É importante perceber que a força dessas narrativas está justamente no destaque que dão ao sofrimento vinculado à escravidão.. Enquanto a coladeira. quando vieram da África. 2001: 247). a saudade. daquela tristeza.. o ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . segundo o autor. António Germano Lima vai buscar o processo de criação da morna na “dor”. A experiência histórica da escravidão torna-se a peça chave para a compreensão dessa hipótese. as mãos. em “linguagens e gestos imperceptíveis para os colonizadores mas sempre na forma de cantos e danças” (Lima. a dor. ouvi cabo-verdianos ressaltando que os escravos. o luto. expressos. os escravos africanos e seus descendentes são apresentados como os principais personagens da história da morna. em vez de cantar aquelas músicas africanas mais “mexidas”. aquela dor. conforme eles algemavam os escravos. nos “queixumes” e nas “lamentações” dos escravos. Com António Germano Lima. no tempo dos escravos. daquele gemido. natural da Ilha da Boavista: Dizem que a morna foi criada na Boavista no tempo da escravidão. irônica e satírica. por isso. Por diversas vezes. no tempo dos escravos. a ênfase na participação de elementos culturais portugueses nesse processo. tinham um trabalho muito duro e. E é essa hipótese que tem ganhado força em outros estratos nãointelectualizados da população cabo-verdiana. vem ocupando o espaço da música “mexida”.

por exemplo. outras matrizes culturais têm sido destacadas pelos cabo-verdianos nas reflexões sobre sua história social. Não podemos concluir a discussão sem observar que. a morna.6 choro. Partindo desse significado da morna. por exemplo. Mesmo que procedente de uma população “de origem afro-negra”. ora aproximando-o. O músico e compositor Jorge Monteiro. Esse é um ponto muito importante para as freqüentes afirmações sobre a morna como símbolo da identidade nacional cabo-verdiana. bem como uma possível participação árabe no desenvolvimento da canção cabo-verdiana. e são tais particularidades da história social cabo-verdiana que são assimiladas por esta última versão sobre a origem da morna. e sim enquanto “escrava”. É a junção da cultura africana com as particularidades da história e da geografia cabo-verdiana que possibilita o nascimento da morna. o processo de criação da morna ocorre. E é a partir disso que podemos compreender o caráter particular que assume aqui a afirmação da africanidade. podemos perceber o poder de uma narrativa que a identifica com a dor escrava. em particular. a exclusividade cabo-verdiana nesse processo. A população negra não aparece como contribuinte para a criação da morna enquanto “africana”. A influência brasileira sobre a morna aparece em algumas narrativas. na experiência da escravidão e no sofrimento a ela vinculado. 1985: 49). a dor na sua expressão máxima. atribui à morna origem argelina (ver sua entrevista em Duarte. assim.. Seu argumento não tem recebido muito apoio (cf. Gostaria de comentar especialmente que essas hipóteses não deixam de enfatizar. Martins. através da ênfase. no arquipélago de Cabo Verde. se o debate sobre a identidade cabo-verdiana tem sido muitas vezes retratado como um dilema que coloca o arquipélago entre a Europa e a África Negra. além da participação de portugueses e africanos no encontro que gerou a sociedade cabo-verdiana e. todo ele. dentro da narrativa. ela não deixa de carregar as marcas da cabo-verdianidade. Cabo Verde é produto direto da expansão européia e do sistema econômico implantado nesse contexto. A morna surge. ora distanciando-o dos dois continentes. Contudo. como em várias outras narrativas. 1989: 20-21). como linguagem para falar das tristezas e amarguras vividas pelo povo cabo-verdiano. o que interessa é observar que. a lamentação e a melancolia. como afirmam. a discussão sobre a ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Se no atual momento a africanidade é enfatizada.

sua melodia. afirmando: Cabo Verde é a transição.. cada hipótese sobre a origem da morna sugere um “mito de origem” de Cabo Verde. (Duarte. Numa relação metonímica. A melodia nascente não é apenas a “alma do povo ilhéu”. O mar surge aqui como um valor. compôs a primeira “morna”: dolência.. Nem arvoredos bastos crescidos ao acaso pela mão da natureza. essas inúmeras hipóteses se somam ao contar a história de um fenômeno musical e do povo que o criou. E porque a terra se recusou à fecundação. atraiu-o. seja mesmo a característica dessa sociedade crioula. do murmúrio da brisa. Cada uma das versões da gênese da morna faz parte de um projeto específico de construção da unidade nacional cabo-verdiana e. É do mar e suas ondas que vem o ritmo da morna. Sob as velas enfunadas que se deleitam na luz flava e recolhem o murmúrio da brisa.. esculpindo na sua sensibilidade o ritmo das ondas. que não se fecha em si mesma e participa de um contínuo movimento de reformulação. Assim como versões de um mito que. E. dedilhando o violão. funcionário da administração colonial e escritor cabo-verdiano que representou o arquipélago na 1ª Exposição Colonial Portuguesa. o símbolo máximo da fusão do caboverdiano com o Atlântico que o circunda. segundo interesses cambiantes.7 origem da morna vem tornar mais complexo esse quadro através de narrativas que acrescentam novos elementos na composição dessa sociedade crioula. acalentou-o. o caboverdeano volveu os olhos para o mar. Como no lirismo rebuscado de Fausto Duarte. o caboverdeano escutou os queixumes. o que. E é com essa narrativa que Fausto Duarte apresenta a morna como a síntese. sofrimento e harmonia – virtudes da alma do povo ilhéu que se inspirou directamente na mágoa dolorosa do Atlântico. assim. tão grato aos ouvidos dos mareantes. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Noto também a existência de hipóteses para o surgimento da morna que colocam em evidência um conteúdo bem diferenciado. nem culturas geométricas. e o mar enamorou-se dele. E o espaço permanece aberto às possibilidades mais diversas. mas também a própria “alma do oceano”. nunca é definitiva. não eliminam umas às outras. as notas plangentes que se perdem na imensidade do espaço e são a própria alma do oceano. embora contraditórias.. em 1934. uma determinada construção sobre essa formação sócio-cultural. 1934: 10-11). talvez.

em detrimento das relações com a África continental. quando têm início os movimentos de libertação nacional nas colônias. E a imensidão de estudos sobre a morna. por um lado. começa a dar lugar a novos debates envolvendo outras manifestações da cultura popular cabo-verdiana. a importância que adquiria a construção da singularidade cabo-verdiana frente ao Império Colonial naquela época. porém. com caráter nacionalista e centralizador. seguem a mesma tendência de construção da morna – e. delineiam um padrão. que tem no tempo o seu critério orientador. E mesmo a morna toma agora nova feição. O Império é recriado. conseqüentemente. tanto por intelectuais cabo-verdianos quanto portugueses. Ele é ainda um importante símbolo da ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . passam a figurar nos círculos da intelectualidade local. as versões para a gênese da morna então articuladas apresentam-se imersas nesse processo político. e a Metrópole se mantém como o referencial de civilidade.8 À guisa de conclusão. especialmente aquelas onde a herança africana pode ser mais facilmente percebida. o funaná e a tabanka. A morna deixa de ser praticamente a única manifestação da cultura popular trabalhada em projetos de construção da nacionalidade cabo-verdiana. e o controle sobre as colônias é reforçado. O batuku. de Cabo Verde. ainda que claramente marcadas pela disparidade entre elas. Essa dupla tendência indica. mas também deve ser compreendida como parte de uma estrutura que lhe abrange. Com o processo de independência vivido pelos cabo-verdianos. concentra-se a grande maioria das narrativas sobre a origem da morna. que marcou o período salazarista. Entre as décadas de 1930 e 1960. é preciso observar que as narrativas aqui analisadas. acarretando importantes alterações na política colonial. É nessa fase que se instaura em Portugal o Estado Novo. entre outros. É possível observar que as narrativas elaboradas nesse período. Cada uma dessas narrativas tem sentido em si. agora estas últimas posicionam-se no centro da agenda política de Cabo Verde. Como não poderia deixar de ser. Afirmam sua originalidade. sem no entanto deixar de enfatizar a força da influência portuguesa sobre esse gênero musical. por outro. revela um momento histórico em que a lusitanidade é apresentada como um valor. Se até então a proximidade em relação à Metrópole era valorada positivamente. o debate sofre uma mudança radical. Já num outro período. este último gênero musical deixa de ser expressão da lusitanidade para se tornar índice de africanidade.

O que segue abaixo é a sua narrativa: Teria encalhado no norte da ilha [Boavista] um barco brasileiro que tinha escravos a bordo. Quase sempre o Brasil assume a forma de uma ligação entre Cabo Verde e a África. hoje comunidade lusófona. de solidão.. porque lá fala muito de ‘bocê’. onde nós temos convicção de que lá é que nasceu a morna. Por fim.) é a primeira povoação do norte. ‘bocê’. portadora de admirável riqueza simbólica. comer ou ir para um outro sítio.. O barco encalhou e as pessoas salvaram-se ou foram salvas. quando procurado por mim para conversar sobre suas experiências com a música local. Essas referências têm caráter um tanto ambíguo. tem muito a ver com alguma influência da língua brasileira. sem a letra.... eles tinham uma melodia que eles iam interpretando. antes mesmo de perguntado sobre o assunto. Até por causa do sotaque que ainda existe naquele povoado.. natural da Ilha da Boavista. mas acrescenta à narrativa novos elementos. alguém de há muito pegou nessa melodia que eles iam cantando assim. ao mesmo tempo. havia problema.. Então..... nós teríamos... ‘você’.. ‘você’ e que. porque aqui esses escravos ficaram lá durante muito tempo..). mas é ao mesmo tempo um instrumento para a recriação do vínculo com o continente africano. como a escravidão. Então começaram a pôr letra nas mornas (. de sofrimento dos escravos brasileiros aqui na Boavista e alguém pegou. Em primeiro lugar. sem que para tal seja necessário fazer referência direta à ex-Metrópole. Nuno retoma alguns pontos já levantados nos discursos aqui analisados. logo se disponibilizou para contar sua versão sobre a gênese da morna. e estavam acorrentados.. funcionário público e músico cabo-verdiano. sem palavras. Mas a referência ao Brasil representa.. não havia comunicação naquele tempo. E então ficaram em João Galego. (.. mas só com melodia. Então quando se deslocavam de um sítio a outro. Encerro a presente discussão com mais uma das inúmeras narrativas sobre a origem da morna.. Nuno. nessa versão a explicação para a gênese da morna tem início com a referência ao encalhe de uma embarcação ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . a tristeza. de saudade ou de sofrimento. nós temos essa informação oral de que a morna terá nascido daquele ambiente de tristeza.. mas que dava um sentido de tristeza..9 originalidade cabo-verdiana. uma forma de religação ao antigo Império Colonial.... o sofrimento e a própria imagem do escravo acorrentado. noto que também nesse período são relativamente freqüentes as referências ao Brasil nas narrativas sobre a gênese da morna. nós pensamos que teria sido.

vol. Um Século de Fado. A aproximação construída entre Cabo Verde e Brasil é a base sobre a qual se desenrola a narrativa. Ruben de. curiosamente. Por fim. 2002: 196). evento que durante séculos foi relativamente comum na referida ilha. uma vez que não vinham da África. a referência à povoação de João Galego como o local onde nasceu a morna enriquece ainda mais o relato. mas se trata de escravos muito especiais. escravos brancos provenientes da Europa (Lima. também resultado do encontro dessas duas matrizes culturais. p. pela via de uma rota na contracorrente do tráfico negro. CORREIA. construída metaforicamente através de uma etno-história musical.10 ocorrido na costa norte da Boavista. portanto. mas também nuanças da história local são contempladas na narrativa. 301-304. Referências bibliográficas CARVALHO. Amadora: Ediclube. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Portanto. 1939. ao menos não diretamente. Diante da complexidade do debate em que está inserida a busca pelas raízes da morna. “A música africana como a vê a sensibilidade dum europeu”. 1999. baseando-se para tal no sotaque que ainda hoje existe no local. como de costume. passando antes pela mediação realizada pelo Brasil. uma identificação com o continente africano. todo o discurso de Nuno aponta os escravos como criadores da melodia que veio a dar origem à morna tal qual conhecemos. Em segundo lugar. Tal caráter ambíguo pode mesmo ser apontado como um dos traços marcantes da “crioulidade”. há a identificação com um terceiro. Nuno cita a povoação para reforçar seu argumento sobre a influência brasileira na origem da morna. João Galego é também conhecida entre os boavistenses por ter sido fundada por “escravos-galegos”. não apenas a escravidão. O reconhecimento da participação dos escravos na criação da morna não representa. Porém. 68. e sim do Brasil. E no lugar da habitual disputa entre as heranças portuguesa e africana. Afonso. n. VI. é compreensível a sugestão de que ela tenha nascido em uma povoação marcada por tamanha ambigüidade. O Mundo Português.

A morna”. Porto: Edições da 1ª Exposição Colonial Portuguesa. 9-18. n.I (A Morna). p. Série Antropologia. Vasco. 1985. 2002. Praia: Instituto Superior de Educação. Praia: Instituto Caboverdiano do Livro e do Disco. Raízes. a morna e o mandó . n. VALE DE ALMEIDA. Portugal Cooperação. p. 138. “A morna: síntese da espiritualidade do povo cabo-verdiano”. Lisboa: Plátano. Tese (Doutoramento em Antropologia). “Três formas de influência portuguesa na música popular do ultramar: o samba. Universidade de Brasília. n. Manuel. A Música Tradicional Cabo-Verdiana . 1934. Ilha da Morna e do Landú. 2001. p. 6. 1. A Aventura Crioula. ______ Boavista. Africana. “Da literatura colonial e da ‘morna’ de Cabo Verde”. MARTINS. José Alves dos. 4853. Mornas e Coladeiras de Cabo Verde: versões musicais de uma nação. Jean-Paul. ano XII. “Morna: o doce lamento do Atlântico”. p. 1961. 1984. 2004. 1989.II . 239-267. António Germano. 184. DUARTE. LIMA. n. Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social. FERREIRA. n. Cabo Verde: Boletim de Propaganda e Informação. Fausto. 21. SARRAUTTE. Miguel. 1995. Juliana Braz. REIS. esp.11 DIAS. “Marialvismo: A Moral Discourse in the Portuguese Transition to Modernity”. 1985 [1ª edição: 1967]. António. 7-10. DUARTE. “Subsídios para o estudo da Morna”. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .

Como adjectivo.vasconcelos@ics. Argumento que a definição emic da crioulidade cabo-verdiana recorre a marcadores de vária ordem: não apenas genealógicos e fenotípicos. identidades lamarckianas e mendelianas. regionais e de classe. Palavras-chave: crioulidade. Em Cabo Verde. A etnografia caboverdiana desafia a acepção de “crioulidade” corrente na literatura antropológica.pt Este texto pretende mapear o campo semântico e afectivo associado à palavra “crioulo” tal como ela é usada correntemente em Cabo Verde. Cabo Verde.ul. Ambos os termos podem ser trocados na maioria dos contextos de fala sem que isso afecte o sentido dos enunciados. Não obstante as suas importantes variações locais. ou Lamarck em Cabo Verde João Vasconcelos Instituto de Ciências Sociais. o substantivo “crioulo” designa um indivíduo cabo-verdiano. “Crioulo” e “cabo-verdiano” são sinónimos portanto. O propósito deste texto é mapear o campo semântico e afectivo associado à palavra “crioulo” tal como ela é usada correntemente em Cabo Verde. A compreensão etnográfica da crioulidade cabo-verdiana levanta-me reservas em relação aos usos generalistas da noção e leva-me a defender em vez disso um uso ad hoc. nos países de emigração. o crioulo é a língua materna de todos aqueles que nascem no arquipélago e é uma língua falada por quase todos os cabo-verdianos e seus descendentes que. onde o termo significa essencialmente ideias de mestiçagem e hibridez. identidade performativa. “Crioulo” é também o nome corrente da língua cabo-verdiana. mas também comportamentais ou performativos.Filhos da terra. atento aos sentidos que ela possui nos diferentes espaços e tempos em que é empregada pelos agentes sociais. Universidade de Lisboa joao. transportam ou cultivam uma identidade cabo-verdiana. O peso relativo atribuído a cada um deles varia consoante os contextos de interacção social. Circunscrevo assim a minha abordagem às vivências e aos sentidos que andam atrelados ao termo no ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . a palavra significa qualquer coisa que diga respeito a Cabo Verde ou aos cabo-verdianos. identidade cultural.

6-8 de Abril de 2006). Este texto é um produto lateral da minha pesquisa de doutoramento.º Congresso da Associação Portuguesa de Antropologia (Lisboa. a quem manifesto a minha gratidão. cujo lema era “afinidade e diferença”. mencionando que foi buscar aquela expressão a um 1 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Estas duas concepções não são as únicas. no decurso de trabalho de campo prolongado na ilha de São Vicente. 2 A segunda circula em estudos com alicerces Uma versão ligeiramente diferente deste trabalho foi apresentada no 3. A segunda é absurda: se os cabo-verdianos se dizem crioulos. Pode haver três razões para este desajuste. um texto em construção. Jorge Rivera e Ramon Sarró. coordenado por Wilson Trajano Filho e por mim. 2 Sahlins (1999a) fala de “afterological studies” para designar os autodenominados estudos pósmodernistas. (É claro que as coisas seriam diferentes se. Recorro para esse efeito a materiais etnográficos que reuni em 2000 e 2001. Ou a minha percepção etnográfica está completamente equivocada.2 arquipélago – ou. A primeira é moeda corrente naquilo a que chamarei os estudos pós e os estudos trans (traduzindo livremente duas expressões provocativas lançadas respectivamente por Marshall Sahlins e Jonathan Friedman). os caboverdianos se afirmassem uma raça superior e justificassem dessa maneira qualquer forma de tirania sobre outros povos. por mera hipótese académica. que tratou de outros assuntos. ou então a crioulidade caboverdiana possui realmente alguns traços distintos daqueles que são veiculados na crioulidade da vulgata antropológica. pós-estruturalistas e pós-coloniais. Esta primeira revisão procura endereçar alguns comentários que me foram dirigidos naquela ocasião e. ainda bastante incipiente. A primeira hipótese é admissível. no painel “Caboverdianidade e Crioulidade”. Porque é que me abalancei a escrevê-lo? Primeiro porque o congresso onde o apresentei. por João de Pina Cabral. para usar linguagem de antropólogo. e é também um working paper. ou os cabo-verdianos estão errados quando se dizem crioulos. posteriormente. à noção de crioulo enquanto categoria emic. o trabalho do etnógrafo é tentar perceber o que querem eles dizer com isso. e não decretar se estão certos ou errados.) A terceira hipótese é aquela que irei defender e explicitar aqui. mas parecem-me ser as mais difundidas no senso comum dos antropólogos contemporâneos. 1 Depois porque nos últimos anos tenho lido vários trabalhos antropológicos que falam de “crioulidade” e “crioulização” em termos que me parecem ser apenas parcialmente transponíveis para Cabo Verde. Principiarei por identificar duas concepções de crioulidade e crioulização em uso na literatura antropológica recente. me pareceu uma ocasião adequada para reflectir acerca de lógicas culturais de identificação e diferenciação.

nas salas de espera das estações de comboio. é “um mundo em crioulização”. * Ataquemos para já a crioulidade dos estudos pós e trans. A noção de cultura. nos bairros de lata. afirma Hannerz. Sunny Ade ou Victor Uwaifo”. nas discotecas. Esse texto começa assim: Desde que me embrenhei pela primeira vez no Terceiro Mundo. nos jornais e nas estações de televisão. início dos anos 1960. publicado em 1987 na revista Africa. No final desta apresentação. nas livrarias missionárias. os Abba e Jimmy Cliff não destruíram o mercado da música popular de Fela Anikulapo-Kuti. região que corporiza o protótipo da crioulidade nos imaginários anglófono e francófono. no final dos anos 1950.3 etnográficos nas Caraíbas. e o conceito de cultura crioula é a “metáfora mais promissora” para o descrever. comunga também aspectos de uma lógica de formação de identidades que tem sido registada noutros espaços insulares bem mais afastados em termos geográficos. nos colégios internos. não tem de designar algo homogéneo nem sequer particularmente coerente. escreve Hannerz. Os elementos culturais importados não abafam necessariamente os elementos indígenas. 4 Hannerz 1987: 555 – tradução minha. e o antropólogo é sueco. no artigo “The world in creolisation”. Todo o artigo é uma celebração deslumbrada do movimento e da mistura. fiquei fascinado com aqueles modos de vida e de pensar que vão emergindo da interacção entre culturas importadas e indígenas. 4 Este mundo de importações e misturas. Friedman (2002) fala do “trans-X discourse” como uma agenda ideológica que permeia os estudos sobre translocalismo. históricos e culturais. 3 O país do Terceiro Mundo de que o antropólogo fala é a Nigéria. São as culturas em exibição nos mercados. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Na Nigéria. 3 Hannerz 1987: 546 – tradução minha. 5 trabalho inédito de Jacqueline Mraz. muito embora partilhe várias características da crioulidade caraíba. Refiro-me especialmente às ilhas do Pacífico. 5 Hannerz 1987: 551 – tradução minha. transculturalismo e transnacionalismo. procurarei demonstrar que a crioulidade cabo-verdiana. “Michael Jackson. Um dos primeiros antropólogos a formulá-la foi Ulf Hannerz. nas cervejarias.

Arjun Appadurai. 7 Se a crioulização significa isto. parece-me francamente débil como formulação conceptual. E acrescenta que o fascínio contemporâneo de intelectuais como Hannerz. Leia-se a este respeito Sarró 1999. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . mistas. colagem. 9 Friedman argumenta no mesmo sentido. como escreve Sahlins. bricolage […]. até os suecos são crioulos. e que. Homi Bhabbha ou James Clifford pelas viagens e pelo hibridismo decorre mais da forma de vida dos académicos e das suas próprias preocupações políticas paroquiais (como por exemplo o multiculturalismo nas grandes metrópoles). transculturação. montagem. Os discursos do mundo em crioulização e do transnacionalismo “constituem uma agenda ideológica e não uma descoberta científica”: “um programa elitista imposto de cima para baixo e baseado na experiência de viajar de avião”. Ver também Hannerz 1996. Hannerz 1997: 26.4 As culturas crioulas são culturas híbridas. mestiçagem. e não uma determinação estrutural – talvez apropriada apenas para os intelectuais cosmopolitas que fabricam estas teorias culturais a partir da sua posição de exterioridade”. misturadas. Ver também Friedman 1994: 209-210. Hannerz conclui (com uma candura que não chego a perceber se é retórica ou genuína). Sahlins 1999b: xi – tradução minha. miscigenação. retomada por Hannerz em trabalhos posteriores. então somos todos crioulos – coisa que não me repudia de todo. terceiras culturas e outros termos”. 10 * 6 7 8 9 10 Hannerz 1987: 557 – tradução minha. “a chamada hibridez é no fim de contas uma observação genealógica. que “as culturas crioulas não são apenas necessariamente as culturas coloniais e pós-coloniais”. Friedman 2002: 32-33 – tradução minha. No final do seu artigo. do que da emergência de uma nova realidade global. miscelânea. 6 Esta concepção da crioulização como sinónimo de “hibridez. mas que também não me parece poder constituir ponto de partida útil para um empreendimento analítico capaz de esclarecer o que quer que seja. sincretismo. sinergia. mélange. imagine-se. 8 Mais ainda. Mais de noventa e oito por cento da população mundial permanece toda a sua vida no país onde nasceu e a maioria não tem acesso à Internet.

visto encontrar-se em estudos baseados em trabalho de campo prolongado. Estes trabalhos cobrem um período bastante longo: o livro de Leiris baseia-se em missões etnológicas realizadas em 1948 e 1952 e o de Miller em trabalho de campo do final dos anos 1980.5 Passemos à segunda concepção de crioulidade e crioulização. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . os costumes e os objectos são classificados de forma quase obsessiva em termos étnicos ou raciais. sociedades formadas através de processos históricos que envolveram o desenvolvimento de economias de plantação. Como escreve Leiris. e a etnografia mais recente de Daniel Miller (1994) sobre a Trinidad. e a manutenção durante séculos de um domínio colonial centrado em metrópoles europeias. o observador estrangeiro que chega à Martinica ou a Guadalupe é forçado a constatar que o seu discernimento falha frequentemente quando julga saber. outro ainda que ele julgava negro é rotulado de mulato. Não vou aqui resumi-los. a escravatura. Tomarei como amostra três estudos sobre quatro sociedades caraíbas: a monografia de Michel Leiris (1955) sobre a Martinica e Guadalupe. asiáticos e europeus) em diferentes tempos. fiando-se no aspecto da pessoa com quem trava contacto. e nas quais as pessoas. que parece demonstrar a existência de um traço bem saliente na crioulidade das Caraíbas. a deslocação mais ou menos forçada de populações de origens diversas (africanos. que merece outra atenção. Esse traço comum é a importância que as categorias étnicas e raciais ali assumem na organização das relações sociais e no pensamento sobre a sociedade. 11 11 Leiris 1955: 160-161 – tradução minha. de acordo com a proveniência dos grupos que real ou presumidamente os introduziram. qual a categoria racial em que ela é colocada localmente: um indivíduo que ele vê como um branco é afinal classificado como mulato. um influente artigo de Lee Drummond (1980) sobre a Guiana. Vou somente identificar um denominador comum a todos eles. São também estudos muito diferentes no tocante às suas perspectivas teóricas de partida. Os estudos a que aludirei concentram-se nas sociedades das Caraíbas. um outro que ele toma por mulato é afinal um branco crioulo. As classificações étnicas e raciais utilizadas nem sempre coincidem com aquelas que os observadores exteriores aprenderam nos seus países de origem. Os três estudos retratam sociedades cujos membros designam “crioulas” e vêem como resultado de uma mistura de ingredientes de origens diversas.

implícito na maioria dos estudos sociais sobre “raça”. “buck” (ameríndio). ele mostra que não só a classificação varia situacionalmente. digamos. a inglesa. muito difícil a um indivíduo naturalizado noutro esquema classificatório e ignorante da pequena história local. entram em jogo modos de percepção e apreciação da cor da pele. “potuguee” (português. Sobre os potuguees da Trinidad. Drummond afirma que também nesta sociedade as diferenças entre pessoas e formas de vida são expressas de forma explícita em termos de categorias raciais ou étnicas. São. Segundo Miller. 13 Drummond 1980: 356. Aqui. Através de vários exemplos etnográficos. acrescenta algo às observações de Leiris e Drummond. cujos pólos são os “africanos” e os “indianos”. sobressai um padrão classificatório dualista. não são apenas atributos de dois grupos étnicos. e classificações como “whiteman” e “blackman” podem assumir conotações positivas. 12 Escrevendo sobre a Guiana. dois estereótipos associados a valores em larga medida opostos. “black” (negro). 12 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . que as pessoas da Trinidad usam para pensar sobre a sua sociedade. ver Vale de Almeida 1997. por fim. Drummond acrescenta que a primeira manifesta uma variação à primeira vista desconcertante. consoante a situação em que são utilizadas. e às vezes nem sequer sua real disseminação entre os grupos étnicos correspondentes. portanto. a atribuição de africanidade e indianidade a determinados usos e costumes nem sempre reflecte a real origem cultural dos mesmos. Mais ainda. de que o tipo de classificação racial estabelecido há cerca de cem anos nos Estados Unidos da América e nalguns países do norte da Europa constituiria por assim dizer o tipo padrão. além disso. como varia também o valor atribuído aos estereótipos étnicos e raciais. Leia-se a este respeito Wade 2002. da fisionomia. a forma modelar do racialismo. que não equivale a “branco” no sistema guianense). negativas ou neutras. “chinee” (chinês) e “white” ou “english” (branco ou inglês). Um branco num determinado contexto pode ser um mulato noutro. 13 Além de reconhecer a inexistência de isomorfismo entre a classificação guianense e. as categorias primárias são “coolie” (indiano). em qualquer classificação racial.6 A questão é que na classificação racial. como também denuncia o pressuposto. dentro do pluralismo étnico e das formas de categorização social que se baseiam nele. na ilha de Trinidad. argumenta Miller. na interpretação do autor. que não só evidencia a existência de diferentes tipos de formação racial e de racismo. A africanidade e a indianidade. da qualidade dos cabelos e também da genealogia das pessoas e do seu estrato social que são aprendidos desde a infância e cujo domínio competente se torna. A etnografia de Miller sobre a Trinidad.

Ver Vasconcelos 2004: 170-187. a sociedade cabo-verdiana do século XX e dos dias de hoje. o dualismo cultural entranhado na Trinidad não resulta da diferença étnica. Glissant 1981. intelectual natural da Martinica. deportados políticos da antiga metrópole e judeus de Gibraltar. A crioulidade. Estamos a falar de sociedades concretas nas quais as pessoas se vêem a si próprias como mistas ou misturadas e usam o vocabulário das “categorias puras” que compõem a mistura para se pensarem e se classificarem. confrontamo-nos com um contexto social crioulo no sentido que Édouard Glissant. encontra-a Miller na “natureza fundamental da modernidade”: na contradição entre a valorização simultânea da “transcendência” ou continuidade (corporizada nos valores da indianidade) africanidade). 14 Essa raiz. alentejanos e algarvios. 16 Não estamos portanto a falar do vago e vasto “mundo em crioulização” de Hannerz e outros. é “uma mestiçagem consciente de si própria”. o discurso da crioulidade nunca deixou de reproduzir as “categorias puras” que pretendia dissolver. por experiência própria ou através de leituras. ao longo do século XX. segundo Glissant. por isso mesmo. madeirenses. Miller 1994: 132-133.7 Para Miller. Há que esperar para ver o que acontecerá com as 14 15 16 17 Miller 1994: 15 – tradução minha. Em Cabo Verde. por exemplo). dá ao termo. Muito embora o arquipélago tenha conhecido em diversos momentos da sua história várias vagas migratórias (de escravos da costa ocidental africana. nenhum destes grupos construiu identidades étnicas de longa duração vinculadas às respectivas origens. a identidade cabo-verdiana foi sistematicamente definida pela mistura e que. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Passar-se-á antes o contrário: “muito do conteúdo específico da estereotipagem étnica e da experiência contemporânea da etnicidade resulta do uso de grupos étnicos para objectivar um dualismo cuja raiz se encontra noutro lugar”. Noutro trabalho tive ocasião de argumentar que. tal como nas Caraíbas. 17 Não me parece adequado falar de grupos étnicos em Cabo Verde. e 15 da “transiência” ou efemeridade (corporizada nos valores * Muito disto será familiar para quem conheça um pouco.

Além disso. a maioria dos cabo-verdianos vê-se como gente com sangue mais africano que português e com espírito mais português que africano. E são. em vez disso. E. observam-se estratégias de classificação e distinção social que põem em prática a ideologia subjacente dos “tipos puros”. tal como nas Caraíbas.8 migrações mais recentes de vendedores ambulantes da África Ocidental e de comerciantes chineses. no passado tal como no presente. “África” e “Europa” foram internalizadas em Cabo Verde. mais modestamente. à semelhança do que acontece nas Caraíbas. os estereótipos que fazem a mistura crioula caboverdiana são as nove micro-sociedades insulares que constituem o arquipélago. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Consoante as conjunturas político-ideológicas. nos mercados. empregado de escritório ou funcionário público nas horas vagas. existe em Cabo Verde a ideia de que ser crioulo é ser misturado. De onde veio a morna? E o machismo? E a família matrifocal? E o gosto pelo desporto? Não são apenas debates de intelectuais. o camponês escuro e iletrado do interior que vibra ao som do batuque. estes estereótipos não são étnicos. personificada na figura do badio. ora “África”. o estereótipo positivamente valorado foi ora “Portugal”. dois estereótipos fortes. são conversas que se ouvem nos cafés. A África cabo-verdiana é a ilha de Santiago. A Europa de Cabo Verde é a ilha de São Vicente. e que resultam de processos de formação social bastante distintos e desfasados no tempo. nos botequins. Em suma. Em vez de grupos étnicos. personificada no literato claro do Mindelo. Revelam. “Portugal”). mas ambos estiveram sempre presentes na consciência da caboverdianidade. esta crença tem recebido os nomes de “civilização” (no período republicano). racial e classista. nas esquinas da Rua de Lisboa e em casa. No decurso das transformações políticas que marcaram o século XX. Os debates acerca da cultura cabo-verdiana são quase sempre debates acerca de origens culturais. “alienação cultural” (no período da guerra colonial e dos anos pós-independência). Mais ainda. e “hibridez” (nos neo-liberais anos 1990). Diferentemente das Caraíbas. “África” e “Europa” (ou. sobretudo. Duas jovens mindelenses perfumadas e de cabelo alisado que passam descaradamente à frente de um rapaz de Santo Antão de aspecto pobre na fila da bilheteira do cinema Éden Park são descompostas por uma rabidante que vende drops. a operação de critérios de identificação insular. “aristocratização cultural” (no período da Claridade).

conserva ainda muita actualidade. a tomar uns grogues e uns pastelinhos nas vendas dos subúrbios e nos botequins da cidade. comenta logo: “Aquilo são badios da Praia. e um amigo meu. militante do PAICV. que viviam na ilha há bastante tempo e que se comportavam e eram tratados como filhos da terra. Os homens e rapazes com quem convivia foram-se tornando cada vez mais indiscretos e insistentes acerca das minhas relações com as raparigas da terra. comecei a sentir-me parte da pequena cidade com cerca de setenta mil habitantes. para concluir. Não só existe racismo em Cabo Verde como ele é além do mais consciencializado e verbalizado. assente em trabalho de campo realizado no começo dos anos 1970. chamar a atenção para uma outra característica bem diferente da crioulidade cabo-verdiana. que identifica os assaltantes como cabo-verdianos. gostaria de sugerir que estes componentes coexistem com outros. Andam sempre com faca. que evidenciam o funcionamento paralelo de uma outra lógica de formação de identidades. mas também alguns negros e um chinês). a partir do momento que fiz questão de falar crioulo sempre que as circunstâncias não aconselhavam o uso do português.9 mancarra e cigarros no seu balaio em frente à escadaria. Sem negar que a ideia de que se é “misturado” e as práticas de discriminação que só superficialmente a contradizem constituem componentes característicos da caboverdianidade enquanto forma de vida. a ter a minha cachupa preparada em casa todos os sábados ou a ir comê-la a casa de outros. a frequentar as tocatinas que se organizavam aqui e ali. 18 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . que naquele tempo me incomodava) e a ganhar um tom moreno. Conheci em São Vicente alguns estrangeiros (brancos a maioria. mas bastante escuro e de cabelo encarapinhado. a vestir-me à moda local (tirando o uso de sandálias. Foi um processo gradual. Eu próprio. sempre a armar afronta!” Acompanho o drama de uma rapariga de boas famílias cujos parentes tentam por todos os meios pôr fim ao seu namoro com um rapaz também de boas famílias e até com estudos universitários. e creio que não se trata de uma percepção puramente subjectiva. Quando é O estudo de Deirdre Meintel (1984) sobre a classificação e a discriminação raciais em Cabo Verde. em que comecei a frequentar espaços públicos locais. que lhes grita: “tempo de escravatura acabá!” Assisto no noticiário das oito a uma reportagem sobre um assalto em Lisboa a uma actriz de teatro. 18 Mas quero agora. Os filhos destas pessoas que nasceram ou foram criados desde pequenos na ilha em nada se distinguiam das crianças e dos jovens dos estratos sociais correspondentes.

que eu falo como os filhos dos caboverdianos que nasceram em Portugal. exactamente pela sua diferença. são apreciados. de fazer as minhas compras no supermercado. O meu domínio do crioulo foi talvez o feito mais apreciado. de comer o mesmo que as pessoas da terra. É verdade que há uma espécie de fenótipo cabo-verdiano modal. ao cabo de uma semana em Cabo Verde. desde que o outro estivesse disposto a isso. julgo que com sinceridade. Por outro lado. Mas sei que os meus amigos cabo-verdianos não são tratados desta forma em Portugal. Não que ele seja muito bom. estava afrontado porque toda a gente presumia que ele era cabo-verdiano com base na sua aparência física e lhe falava em crioulo. é claro. Quando ele tentava explicar em francês ou em inglês que não era cabo-verdiano. Tenho amigos mindelenses que até em Portugal seriam brancos e que eram tomados por estrangeiros pelos raros camponeses com quem nos cruzávamos nos nossos passeios de domingo pelo interior da ilha – isto. Todos apreciavam o facto de eu não ser esquisito com a comida. conheci um jovem turista mulato da Martinica que. e quase todos os estrangeiros que conheci que estavam mais crioulizados que eu eram homens também. por muito que se esforcem por se comportar como portugueses. negros e brancos? Não sei. A minha experiência pessoal e o meu universo de observação podem implicar muitos enviesamentos. de ir nadar à praia da Lajinha pela manhã.10 que eu arranjava uma pequena? Quando é que eu tinha lá um filho? As raparigas foramse tornando cada vez mais atrevidas nos jogos de sedução – ou então fui eu que comecei a percebê-los melhor. em certos contextos. Pode haver aqui algum romantismo de going native da minha parte. Pelo contrário. por serem afro. havia ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Em todo o caso. embora três deles não fossem brancos. mas também elementos performativos. Será a que a antropofagia cultural mindelense manifesta igual apetite por homens e mulheres. de se ter pais ou avós cabo-verdianos) e fenotípicos. Aquilo que experimentei e que observei na interacção dos mindelenses comigo e com outros estrangeiros foi uma grande abertura da parte deles à assimilação do outro (para usar uma palavra politicamente incorrecta). E noutros contextos são depreciados pelo mesmo motivo. antes de abrirem a boca e falarem em crioulo. Eu sou homem e sou branco. aquilo que quero sugerir é que a crioulidade é uma classificação identitária que contempla não apenas elementos genealógicos (o facto de se ter nascido na terra. Os meus amigos mais chegados dizem.

no mesmo sentido em que se diz que uma criança é feita da substância de seus pais. eram considerados macaenses. quando se trata de classificar as pessoas como cabo-verdianas ou não. o facto de uma pessoa viver numa determinada terra e se alimentar do que ela dá fá-la da mesma substância que a terra. se comer as comidas da terra. Mas não é o único critério em jogo. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . pior. A palavra “crioulo” tem a sua raiz etimológica no verbo “criar” e começou a ser utilizada em sítios como Cabo Verde e as colónias de povoamento das Américas. Portanto. pretos e mestiços são todos crioulos sem que deixem com isso de ser brancos. ou “filhos da terra”. entre outras coisas. Há também uma outra crioulidade que obedece a uma lógica identitária que tem subjacente a ideia de que aquilo que se faz é uma parte importante daquilo que se é. Sahlins 1985: xi-xii – tradução minha. Depois de residir um certo tempo na comunidade. Brancos.11 quem não acreditasse e achasse que ele era um desses emigrantes cheios de inchadura que perderam as raízes ou. Em Cabo Verde. para diferenciar os brancos europeus ou reinóis dos brancos da terra e os pretos africanos dos pretos da terra. mas também chineses e gente de outras proveniências que adoptavam a língua e a cultura locais. que se envergonham delas. Esta realidade tem muito em comum com aquela que João de Pina Cabral e Nelson Lourenço encontraram em Macau no início dos anos 1990. se cantar ou dançar a música da terra. não apenas os filhos de naturais do território. […] Para os havaianos. pretos e mestiços. independentemente da sua aparência física. diz-nos que no Havai uma pessoa pode tornar-se “nativa”. tal como interessa quando se trata de diferenciar internamente os cabo-verdianos. 20 19 20 Ver Pina Cabral e Lourenço 1993: 53-72. até os estrangeiros se tornam “filhos da terra” (kama’àina). Um estrangeiro. mediante acção adequada. ser-se crioulo é. Marshall Sahlins. 19 Outros trabalhos etnográficos recentes realizados noutras regiões do Pacífico descrevem a operação de lógicas de formação de identidade semelhantes. pode tornar-se crioulo se falar a língua da terra. ser-se di terra. por exemplo. Naquele enclave português na China. termo que não está exclusivamente reservado aos nascidos no lugar. a “raça” interessa. se acamaradar e eventualmente procriar com gente da terra. As classificações raciais e classistas que os diferenciam em certas situações coexistem com uma outra que os irmana.

22 Na ilha índica de Madagáscar.12 James Watson. introduziu a expressão “identidades lamarckianas” para designar este tipo de classificações performativas. e “possui um forte cunho africano.) 2003. na sua monografia sobre os tairora das terras altas da Nova Guiné. as “identidades lamarckianas” baseiam-se na crença de que o comportamento constitui o ser. Ver por exemplo Linnekin e Poyer (eds. não primordialista e não essencialista”. 21 Diferentemente das “identidades mendelianas”. escreve a autora. Num extremo estão as semelhanças e diferenças estabelecidas a partir de reais ou supostas heranças genealógicas. por ser transformativa. mas é igualmente possível que uma pessoa se faça crioula pela acção adequada. Este entendimento da crioulidade cabo-verdiana levantame reservas em relação a qualquer uso generalista da noção e leva-me a defender em 21 22 23 Ver Watson 1983: 276-280. 23 Identidades mendelianas e lamarckianas podem ser concebidas como dois pólos de um continuum de produção de semelhanças e diferenças entre os seres humanos. um grupo da costa oeste. Astuti 1995: 1 – tradução minha. fenotípicos e comportamentais varia consoante os contextos de interacção social. Creio que a crioulidade cabo-verdiana congrega ambas as lógicas de formação identitária. na prática quotidiana. A primeira. “adquire-se através de actividades realizadas no presente” e possui “traços caracteristicamente austronésios. de que se é aquilo que se faz. por se enraizar na ordem imutável da descendência e ser por ela determinada”. que enfatizam a preeminência dos traços herdados na constituição do ser. A segunda é vista “como uma essência herdada do passado”.) 1990 e Hoëm e Roalkvam (eds. como de traços corporais herdados e adquiridos socialmente. como ainda daquilo que se faz. com base na acção. em doses e com matizes diferentes. que provavelmente se poderão encontrar em qualquer parte do mundo. Rita Astuti identificou também entre os vezo. O peso relativo atribuído a marcadores genealógicos. Um filho de crioulos é crioulo pelo nascimento. A conceptualização de Watson foi depois aplicada por outros autores a diversas sociedades oceânicas. no outro as semelhanças e diferenças reconhecidas nos modos de vida. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . É-se reconhecido como crioulo em virtude tanto da ascendência familiar. o recurso a duas formas de identificação idênticas às identidades lamarckiana e mendeliana de Watson: uma identidade “performativa” e uma identidade “étnica”.

Deirdre. MEINTEL. 1980. Transnational Connections: Culture. Londres. Syracuse University. Londres e Nova Iorque. Gallimard. até ao dia em que tu voltares. Oxford e Nova Iorque. Thousand Oaks e Nova Deli. Seuil. Syracuse. Honolulu. Berghahn Books. Cambridge University Press. Contacts de civilisations en Martinique et en Guadeloupe. 1955. Maxwell School of Citizenship and Public Affairs. Não estará a crioulidade enquanto identidade performativa estreitamente relacionada com aquilo a que poderíamos chamar o presentismo cabo-verdiano. híbridos: palavras-chave da antropologia transnacional”. Places. Le discours antillais. 1981. 15 (2): 352-374. Africa. 1996. Jonathan. Paris. 2 (1): 21-36. Bibliografia ASTUTI. “Fluxos.). fronteiras. tão belamente expresso na morna mais conhecida de Cesária Évora: “Si bô escrevê’m um ta escrevê’b. e Lin Poyer (eds. FRIEDMAN. Cultural Identity and Ethnicity in the Pacific. “The cultural continuum: a theory of inter-systems”. GLISSANT.”) Este é o meu ponto de interrogação final. Paris. University of Hawai’i Press. e Sidsel Roalkvam (eds. si bô esquecê’m um ta esquecê’b. Jocelyn. Ulf. People of the Sea: Identity and Descent among the Vezo of Madagascar. mais uma. 3 (1): 7-39. LINNEKIN. 57 (4): 546-559. and Portuguese Colonialism in Cabo Verde. Culture. 1995. People. Lee. 1984. 1987. 2002. Cultural Identity and Global Process. Michel. Rita. Routledge. “The world in creolisation”.S. Race. Mana. Cambridge. Jonathan. ligado por sua vez à experiência do trânsito migratório e da transitoriedade das relações. atento aos sentidos que ela possui nos diferentes espaços e tempos em que é empregada pelos agentes sociais. Ulf.13 vez disso um uso ad hoc. 1990. HANNERZ. LEIRIS. Man (N. FRIEDMAN.). Édouard. HANNERZ.). Anthropological Theory. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Oceanic Socialities and Cultural Forms: Ethnographies of Experience. HANNERZ. Ingjerd. DRUMMOND. Ulf. “From roots to routes: tropes for trippers”. se me esqueceres eu vou esquecer-te. Sage. 1997. 2003. 1994. HOËM. Termino com uma hipótese. até dia que bô voltá”? (“Se me escreveres eu vou escrever-te.

subjectividade e poder”.14 MILLER. Islands of History. Pluto Press. SARRÓ. em CARVALHO. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . SAHLINS. 28: i-xxiii. 1994. Tairora Culture: Contingency and Pragmatism. Annual Review of Anthropology. 1993. 149-190. The Journal of the Royal Anthropological Institute. Chicago e Londres. 2002. 1999a. 1 (1): 9-31. Daniel. Nature and Culture: An Anthropological Perspective. Oxford e Providence. Imprensa de Ciências Sociais. Marshall. SAHLINS. 1997. Marshall. Berg. Miguel. Macau. James B. 1999b. VALE DE ALMEIDA. “What is anthropological enlightenment? Some lessons of the twentieth century”. Revista de Libros. Etnográfica. Seattle e Londres. 1983. Londres e Sterling. Lisboa. e Nelson Lourenço. Peter. Instituto Cultural de Macau. 5 (3): 399-421. João.). Em Terra de Tufões: Dinâmicas da Etnicidade Macaense. “Ser português na Trinidad: etnicidade. 1985. Race. e João de Pina Cabral (orgs. “Espíritos lusófonos numa ilha crioula: língua. “Cultura y metacultura: más allá de la diversidad y de la homogeneización”.. Clara. SAHLINS. University of Chicago Press. poder e identidade em São Vicente de Cabo Verde”. João de. Marshall. Modernity – An Ethnographic Approach: Dualism and Mass Consumption in Trinidad. 1999. “Two or three things that I know about culture”. WADE. WATSON. 27: 13-14. Ramon. VASCONCELOS. 2004. PINA CABRAL. A Persistência da História: Passado e Contemporaneidade em África. University of Washington Press.

III – Capítulo Identidades migrantes: afinidades e diferenças como processos sociais Textos de comunicações do painel Identidades migrantes: afinidades e diferenças como processos sociais Coordenação Lorenzo Bordonaro Chiara Pussetti Centro de Estudos de Antropologia Social .ISCTE ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .

assim. Temos assistido nos últimos vinte anos a manifestações de um interesse académico renovado pelas emoções em campos disciplinares diferentes. psiquiatria transcultural. Entre estes a antropologia. sobretudo nas disciplinas que se confrontam com as vivências emocionais dos migrantes – ou seja a antropologia e a psicologia transcultural os debates recentes continuam a reproduzir dicotomias como “natureza/cultura”. Podemos. os debates recentes continuam. a psicologia. inatas e geneticamente determinadas: fenómenos biológicos interiores passivos e involuntários. “genes/ambiente”. herdadas pelo pensamento do século XIX. a reproduzir dicotomias como “natureza/cultura”. Os biologistas sustentam que as emoções são essências universais. “genes/ambiente”. reconstruídas ou inventadas pelos diferentes actores sociais. Definir o que é comum a todos os seres humanos e o que é específico de cada cultura torna-se assim um assunto politicamente relevante e potencialmente discriminante. Palavras-chave:Antropologia das emoções. a sociologia. de carácter não cognitivo. migrantes.Emoções migrantes: afinidades e diferencias como factos políticos Chiara Pussetti CEAS/ISCTE chiara_pussetti@hotmail. Questionando quer as posições biologizantes quer as radicalmente relativistas. considerando como as afinidades e diferenças emocionais são estrategicamente realçadas. herdadas pelo pensamento do século XIX. salvo raras excepções. etnopsiquiatria. a filosofia. ligados mais à memória filogenética que não à aprendizagem ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . sobretudo nas disciplinas que se confrontam com as vivências emocionais dos migrantes – ou seja a antropologia e a psicologia transcultural -. Infelizmente. a neurobiologia e a história. Infelizmente. o convite é de repensar o conceito de identidade pessoal. reconduzir a maior parte dos estudos produzidos nas últimas décadas sobre as emoções a dois ramos teóricos opostos: os biologistas e os construcionistas sociais.it Temos assistido nos últimos vinte anos a manifestações de um interesse académico renovado pelas emoções em campos disciplinares diferentes.

como o sinal da limitação das capacidades introspectivas e de averbamento emocional de alguns grupos humanos (nomeadamente os africanos e os negros americanos). O que em síntese une a posição destes teóricos é uma visão das emoções como fenómenos não cognitivos e involuntários. nas atitudes e nos preconceitos de muitos dos técnicos dos serviços de saúde que se confrontam com migrantes. têm dominado há muitos anos o campo das pesquisas psicológicas e são representadas de maneira emblemática pelos estudos neuroculturais de Paul Ekman sobre a expressão facial das emoções (Ekman 1980a. Durante muito tempo. melhor. 2 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . universais e inatos. Um exemplo clássico desta postura teórica.2 individual. William James. A falta de correspondência linguística directa. é a teoria do “processo evolutivo na 1 Entre os pensadores que inauguraram a concepção científica das emoções Charles Darwin. A compreensão. não é interpretada como uma contradição da tese da universalidade das emoções. descuidando o ponto de vista dos locais. que baseia as suas pretensões de eficácia transcultural no pressuposto da unidade biopsíquica dos seres humanos. nesta perspectiva. As teorias universalistas ou inatistas. mas. a um agregado restrito de pessoas. o contexto e as circunstâncias da experiência emotiva. ou seja a um exercício de tradução imediata entre as palavras de uma língua às palavras de uma outra língua. Os antropólogos culturais criticaram duramente a metodologia utilizada por Ekman e pelos pesquisadores que partilharam a sua opinião e a sua orientação teórica. de se terem baseado numa identificação mecanicista entre movimento muscular e emoção propriamente dita. 1980b. É nesta posição que se coloca a psiquiatria transcultural norte-americana de derivação kraepeliniana. segundo critérios apriorísticos. reduz-se à classificação das experiências e das narrativas dos outros no próprio horizonte lexical e categorial. desinteressantes e inacessíveis portanto aos métodos da análise cultural 1 . Walter Cannon e Sigmund Freud podem ser considerados pais fundadores da moderna pesquisa sobre as emoções. idade e posição social. O conceito de unidade psíquica dos seres humanos justificava ao nível teórico a possibilidade de compreensão imediata entre pessoas de culturas diferentes: antropólogos e psicólogos poderiam assim entender empaticamente as emoções dos outros enquanto idênticas às próprias e utilizar sem problemas as próprias categorias para descrever as vivências afectivas dos outros. Nestes trabalhos Ekman tentou identificar a correlação entre um grupo limitado de expressões faciais universais e um conjunto definido de “emoções básicas”. as emoções foram consideradas também pelos antropólogos como fenómenos naturais. sem terem em conta as eventuais diferenças de género. abstraídas de qualquer contexto. 1984) 2 . caracterizadas por influências de tipo etológico e neurobiológico. de terem submetido desenhos estilizados ou fotografias de caras. censurando-os de terem seleccionado artificialmente algumas emoções “purificadas”. algo de interno aos indivíduos e conexo a uma base genética hereditária e universal. presente ainda hoje nas expectativas. e no final de terem fornecido uma tradução não critica dos termos emocionais ingleses em outras línguas.

pelo contrário. Nas palavras de Leff : “as pessoas de países desenvolvidos apresentam uma bem maior diferenciação de estados emocionais em relação às pessoas que provêm de países em desenvolvimento” (Leff 1973: 305 – tradução minha). Podemos distinguir na teoria de Leff a presença de um modelo antropológico evolucionista. Na base das minhas entrevistas em hospitais e centros de saúde vários em Itália como em Portugal. Se para os 3 4 Veja-se Lilltewood e Lipsedge [1982] 1997. de uma modalidade e uma expressão somática (própria das culturas menos desenvolvidas) a um léxico psicológico (próprio das culturas ocidentais). às vezes. Ots 1990.3 elaboração emocional” do psiquiatra cultural Julian Leff (1981: 66). típico por exemplo dos africanos 5 . idênticas através das culturas e através do tempo. Dirven e Niemeier 1997. ou seja de um processo de atribuição de sentido e valor historica e culturalmente específico. Desjarlais 1992. Os relativistas culturais. afirmam que as emoções derivam da interpretação e da avaliação de um estímulo. o prevalecer de um código somático indicaria um nível mais arcaico de expressão e elaboração emocional. A verbalização emocional típica dos ocidentais – salientam as minhas entrevistas . Heelas 1996. Beneduce 1996. presente ainda hoje nos assuntos e nas práticas das ciências psicológicas ocidentais 3 .seria assim expressão de uma maior capacidade de introspecção e de uma melhor gestão do próprio vivido interior. através de expressões referidas a partes do corpo. pelo contrário. marcados por confins precisos e imóveis no tempo. âmbitos de significados articulados logicamente e sem contradições internas. as emoções são consideradas como construções sociais. sistemas de representações relativamente homogéneos. encontrei um vocabulário das emoções muito complexo e uma requintada capacidade de comunicar os próprios estados interiores. posso afirmar que. que todavia não têm um valor puramente somático. Vejam-se Bibeau 1978. ainda que. 1979. salvo raras excepções. Neste sentido. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Devisch 1990. a teoria de Leff é ainda considerada absolutamente válida 4 . para o que concerne a experiência emocional. Segundo esta teoria. O facto que esta modalidade de expressão emocional possa ser interpretada pelo psiquiatras ocidentais como sinal de um arcaísmo do grau de elaboração do próprio vivido interior. 5 No meu trabalho de terreno dedicado ao vivido emocional entre os Bijagós da Ilha de Bubaque (Pussetti 2005). A maioria dos antropólogos construcionistas tem assim descrito comportamentos emocionais culturalmente específicos em contextos etnográficos apresentados como terrenos puros e coerentes. variáveis como qualquer outro fenómeno cultural: não faz sentido portanto falar de emoções inatas e universais. depende da dificuldade de encarar e compreender questões sobre as quais se reflecte localmente utilizando categorias muito diversas das nossas. um evidente continuum caracterizaria a evolução do tradicional para o moderno e. enquanto que.

mas antes. Nesta visão. historicamente situados e continuamente modificados pelas experiências diferentes e pelos discursos polivalentes que se encontram em cada indivíduo. constituída por modelos de experiência adquiridos. colocamos a psiquiatria transcultural clássica no filão teórico dos biologistas. Se a emoção não é independente da cultura. Em 1993. Os filósofos Robert Solomon e Claire Armon-Jones por exemplo afirmam que “a emoção não é um sensação mas é essencialmente uma interpretação” (Solomon 1984: 248 – tradução minha) e que “cada emoção é um produto sociocultural único e irreduzível” (ArmonJones 1986: 37 – tradução minha). Tobie Nathan criou. sugerindo aos antropólogos de “trabalhar para libertá-las da psicobiologia” (Abu-Lughod e Lutz 1990: 10. do mesmo modo as suas perturbações não podem ser consideradas como objectivas e value-free. examinar a dimensão cultural torna-se um passo fundamental para compreender as dimensões de significado que os modelos biológicos não conseguem colher e explicar. já que não existe um terreno bio-psíquico comum de compreensão humana. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . 12 – tradução minha). no Hospital Avicenne.4 biologistas a empatia é o instrumento privilegiado de compreensão transcultural – em virtude da comum humanidade -. nas palavras de Beneduce. fundou o “Centre Georges Devereux”. centro clínico-académico de investigação e apoio psicológico às famílias imigrantes. “práticas discursivas”. “performance sociais” culturalmente específicas (Abu-Lughod e Lutz 1990 – tradução minha). para os construcionistas radicais o trabalho de terreno sobre as emoções dos outros acaba paradoxalmente por se tornar uma confirmação da incomensurabilidade da experiência humana. discípulo do Georges Devereux. as antropólogas Benedicte Grima. só pode desempenhar o papel de “tradutor”. mas é. 6 Psicólogo e psicanalista. em 1979. Lila Abu-Lughod e Catherine Lutz sustentam que “a emoção é só cultura” (Grima 1992: 6 – tradução minha) e que “longe do ser entidades psicobiológicas internas”. o antropólogo. as emoções são antes “construções socioculturais”. Aderindo a esta forma de construcionismo radical muitos cientistas sociais têm produzido afirmações discutíveis. AbuLughod e Lutz chegam até a propor uma concepção das emoções como algo que “pertençe à vida social e não a estados interiores” (Abu-Lughod e Lutz 1990: 2 – tradução minha). observa Catherine Lutz (1988: 8). “estilos culturais”. o primeiro ambulatório de etnopsiquiatria em França. Se pensando as formas de acompanhamento psicológico dos migrantes. No encontro com os próprios interlocutores. antes pelo contrário. na posição construcionista radical podemos colocar a etnopsiquiatria francesa à la Tobie Nathan 6 .

parece-me que quer as posições biologizantes quer as radicalmente relativistas acabam para se tornar muito problemáticas. No primeiro caso a tese da universalidade da vivência emocional justifica as pretensões hegemónicas das categorias diagnósticas e dos modelos interpretativos da psiquiatria euroamericana. as interpretações não ocidentais da doença. afirmam os etnopsiquiatras italianos Roberto Beneduce (2001) e Salvatore Inglese (2002). e em particular sobre as atitudes interpretadas como perturbações do comportamento emocional.uma forma de imperialismo ocidental sobre as emoções dos outros” (Lynch 1990: 17 – tradução minha). as abluções rituais dos muçulmanos praticantes uma forma de distúrbio obsessivo-compulsivo. dissimulado pelas prescrições locais. Nesta visão. Ou que a linguagem da feitiçaria é interpretada num registro exclusivamente psicopatológico como psicose aguda de natureza persecutória com alucinações auditivas e visuais. baseada no pressuposto da universalidade das emoções. portanto. estudada já no 1958 pelo antropólogo Michel Leiris que trabalhou entre os Etíopes de Gondar. as distinções alternativas entre ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . e a psiquiatria conseguiu identificá-las de forma cientifica. portanto. de forma evidente. independentemente das maneiras através das quais os homens as avaliam intelectualmente e as vivem somaticamente. ou ainda uma forma de controlo sanitário e moral sobre os outros. no Diagnóstic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM-IV) da American Psychiatric Association (1994) a possessão zar. revela. Trabalhando como antropóloga na área da saúde mental dos migrantes. Assim.5 como “um conjunto de conotações. objectiva e portanto culture-free. é definida como “experiência esquizofrénica dissociativa” e considerada. a possessão espírita seria uma perturbação dissociativa mascarada por crenças e práticas religiosas. valores e ideologias” (Beneduce 1995: 17 – tradução minha). o xamanismo uma esquizofrenia disfarçada por superstições culturais. significados. as outras representações da pessoa e dos seus limites. metáforas. Esta colonização cultural da psiquiatria estadunidense. É neste sentido que. permitindo “instituir . relações assimétricas de poder.nas palavras de Owen Lynch . patologia psiquiátrica. ligada a temáticas religiosas e a crenças culturais (Ndetei 1988). Se as emoções são exactamente as mesmas em cada lugar. então a cultura nesta perspectiva só pode condicionar a interpretação destas mesmas experiências universais através dos óculos opacos das crenças locais. por exemplo.

Na sua opinião é evidente que as sociedades “menos desenvolvidas”. As minhas investigações nos serviços de saúde mental específicos para migrantes.6 “normalidade” e “anomalia” são consideradas como maneiras culturalmente impróprias de interpretar a experiência humana (Fernando 2003). intraduzíveis e incompatíveis entre elas. com inteligência escassa só podem ter um conhecimento limitado dos problemas mentais. há questões objectivas. assim. a perspectiva relativista acaba. cientificas. A este respeito. o médico e sociólogo Didier Fassin (2000). etnopsicologias. Neste sentido. o risco de cair em derivas relativísticas: em vez de procurar ou inventar espaços originais de diálogo. Na base das ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . considerar as culturas como irredutivelmente distintas. as ciências da psique ocidentais . Em contextos quentes como os das políticas directas aos migrantes. Corre-se. que podem ser ligadas a “crenças erradas e superstições mórbidas culturalmente específicas”. dissimulando como questões culturais conflitos. realçam todavia que também as perspectivas construcionistas ou relativistas podem revelar-se muito perigosas e politicamente discriminatórias. podem relegar os outros saberes e práticas para a categoria de psicologias folk. de mediação e de confrontação. Este uso da noção de cultura – que postula a incomensurabilidade de mundos culturais diversos . comportamentos.por definição construídas ao redor de presumíveis universais -. psicologias indígenas. “primitivas”. ou seja. de facto. afirma Fassin. realçou os riscos gerados pela reificação do conceito de cultura e por uma culturalização excessiva dos instrumentos e das estratégias metodológicas dos antropólogos e dos psiquiatras que querem indagar as emoções humanas. uma das principais revistas psiquiátricas. Assim. reproduzindo assim o risco de guetizar os imigrados. os conceitos de cultura e de diferença cultural foram empregues de maneira ambígua. propondo-se como as únicas com validade científica. da expressão e da experiência emocional individual. psicologias culture-bound. nos quais elaborar práticas clínicas inovadoras. a expressão mesma das suas necessidades. não é de admirar que no British Journal of Psychiatry. pode assim acontecer que se reproduzam formas de racismo cultural. Muitas vezes. o psiquiatra Andrew Cheng (2001) chegue a afirmar que além da interpretação. situações que têm também outras raízes.confina os outros numa “diversidade” fechada em si mesma e autónoma. por se tornar um instrumento de ratificação da incomensurabilidade da experiência humana. reais e universais que só a psiquiatria ocidental conseguiu identificar. lugares singulares de pesquisa.

Mountain e Koenig 2001.7 minhas experiências de trabalho em três centros de etnopsiquiatria clinica posso também salientar que é precisamente nestes serviços específicos para migrantes que muitas vezes se utilizam noções estereotipadas. confundindo de facto “cultura” com “raça”. Nathan. de facto. em particular. Na palavras de Fassin esta atitude comporta. Nathan utiliza afirmações bastante criticáveis. Por esta razão. e de procurar nesta “cultura” a origem e os remédios dos mal-estares dos outros. continua Nathan. antes em Bobigny e depois no Centre Devereux. Fernando 2003). históricas e políticas mais amplas. no seu texto principal (L'influence qui guérit 1994). Para descrever a ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . do género “é necessário fazer o possível para agir como um Soninké com um paciente soninké. “um Dogon será sempre um Dogon e um Bozo um Bozo” (Nathan 1994: 219 – tradução minha). A asserção da coerência das estruturas referenciais baseada numa abordagem essencialista da cultura. Fassin. sem considerar as dinâmicas sociais. como um Bambara com um bambara. Como na sua visão é a mestiçagem ou o encontro cultural que gera patologias psíquicas. ataca abertamente Tobie Nathan – o etnopsiquiatria francês aluno de Devereux que. essencializadas e biologizantes de “cultura” e “etnia”. qualquer seja a sua história pessoal. como um Kabyle com um kabyle” (Nathan 1994: 24 – tradução minha) tendo sempre em conta a identidade étnica dos migrantes. torna. fechada. delimitada por confins que tornam impossível a compreensão recíproca. conceptualmente e metodologicamente difícil compreender a heterogeneidade e a indeterminação interna dos sistemas de representações que os indivíduos utilizam para construir criativamente e estrategicamente a própria identidade e as próprias emoções. o fantasma da Raça disfarçado de Cultura. postula a reprodução das culturas especificas em guetos fechados em si mesmos e autónomos. assumindo uma posição rigidamente relativistica. constituiu uma das práticas e teorias etnopsiquiátricas mais originais – acusando-o de considerar a “cultura” como uma entidade definida. De facto. as instituições francesas deveriam “favorecer os guetos para nunca constranger uma família a abandonar o seu próprio sistema cultural” (Nathan 1994: 216 – tradução minha). ocultando-o. Muitos autores realçaram como a frequente sobreposição das noções de biologia e cultura nos programas terapêuticos para migrantes acaba para “naturalizar” as diferenças entre grupos (Lee. porque. que dissocia os cenários locais do sistema mundial assumindo frequentemente posições de relativismo absoluto.

esperanças. Os antropólogos que se confrontam com migrantes. com elementos periféricos marginais que invadiram os seus sistemas de representação. obrigou-me a repensar também o conceito de identidade pessoal e as suas relações com as multíplices ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . em particular. constroem a sua experiência interior combinando os códigos fundamentais das multíplices visões do mundo às quais aderem. rejeitando quer o determinismo psicobiológico quer o sociocultural. familiares. sobrepondo-se à obrigação de pôr as traduções como um problema que é preciso enfrentar e não com uma solução tão rápida quanto superficial. É neste panorama complexo. as suas interpretações. da multiplicidade dos factores em jogo (sociais. como o psiquiatra cultural. encontramos panoramas complexos. móvel e mutável. pelo contrário. conflituais. ambiguidades. conflitual. as suas experiências do mal estar. e em particular com o mal-estar dos migrantes. autoridade e hegemonia. já não podem assumir que os indivíduos habitam mundos circunscritos de experiências e significados que dão forma às suas respostas emocionais: os indivíduos. políticos e económicos. com as suas crises existenciais. realçaram a importância de repensar as minhas ferramentas de trabalho para apreciar melhor a heterogeneidade interna dos sistemas de representação que os indivíduos utilizam para construir o próprio self. as suas representações. as próprias emoções e a própria experiência do mundo. os margens. Os indivíduos e as sociedades do mundo contemporâneo parecem ser sempre mais envolvidos em uma transição permanente: em lugar de horizontes culturais bem definidos. que ofereça espaços de autonomia e de liberdade ao indivíduo.8 complexidade e as mutações da vida social e da experiência individual. poder. O convite é de trabalhar bem conscientes das relações entre conhecimento. tem que se mexer. memórias. sociais. emoções. que o antropólogo. observando com mais atenção os interstícios. móveis e mutáveis. no qual múltiplos discursos coexistentes entram em contradição entre eles e os problemas sociais podem tornar-se sintomas. é necessário imaginar uma abordagem diferente. os paradoxos. O confronto quotidiano com os migrantes. as ambiguidades e as incongruências que são partes constitutivas dos sistemas de significado. As minhas experiências de investigação na área da antropologia das emoções na Guiné Bissau e da saúde mental dos migrantes em Itália como em Portugal. híbridos. além de culturais) e bem concentrados sobre os indivíduos em si.

na perspectiva metodológica da person-centered ethnography. instáveis e transitórios (Bibeau 1997: 55. participando de relações nas quais outros grupos e culturas são encontrados.não apenas da vida individual. utilizando o conjunto amplo e híbrido de representações ou modelos culturais do self. Se cada cultura possui uma alma multíplice. assim também em cada indivíduo coexistem sujeitos diferentes: nas palavras de Bibeau. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . gerir as ligações contraditórias 7 Muitos autores salientaram a importância de uma abordagem centrada sobre o paciente (entre os outros. Neste processo de auto-narração os indivíduos reconstroem. Hollan 1997). selfexploration e self-alteration (Reddy 2001: 32).9 comunidades às quais as pessoas pertencem simultaneamente. A narração . sociais e económicas que ontem os obrigaram a migrar e hoje os bloqueiam nas margens da sociedade -. explorados e outras redes sociais percorridas e construídas. do presente como do passado e das mais amplas constrições políticas. interpretam e transformam continuamente a própria identidade. espaços vazios. Outra vez um panorama instável e contraditório com o qual antropólogos e psiquiatras têm que se confrontar: o mundo interior dos indivíduos. conexas a metanarrativas fragmentárias e a sistemas de referência flexíveis (Bibeau 1997: 57). a códigos centrais de referência que geram estruturas de representações e cenários pragmáticos que podem ser amplamente caracterizados como móveis. permite aos meus interlocutores procurar o sentido do próprio percurso. contradições e sobreposições de valores. muitas vozes falam nos indivíduos. revelou-se na minha experiência de investigação um método mais eficaz para compreender como cada indivíduo constrói relações originais com o próprio contexto de origem e com as suas identidades diferentes. William Reddy fala a este respeito de processos de self-making. Esta abordagem permite de facto reconstruir os percursos de significação individuais e os processos de construção de e de negociação entre as identidades múltiplas das quais todos somos portadores. por um lado. que se encontra à sua disposição. Castillo 1997. 57 – tradução minha) 7 . mas também da memória familiar e colectiva. que fazem de facto referência a esquemas que inevitavelmente produzem quebra-cabeças. contraditória. atravessados. Reconstruir as histórias de vida dos migrantes através das suas narrativas. anomalias.

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com a própria família e a própria terra de origem e estabelecer relações originais entre as próprias identidades, por outro, revela-se como um acesso privilegiado para reconhecer dimensões “ocultas”, estratégias e interesses políticos e económicos, muitas vezes intencionalmente omitidos ou dissimulados na literatura sobre o argumento, mas importantes para compreender o que acontece quando se passa uma fronteira.

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Antigas afinidades na construção da diferença na diáspora: emigração e o resgate da herança cripto-judaica transmontana 1

Elsa Lechner CEAS, ISCTE elsa.lechner@iscte.pt

Trás-os-Montes é considerada uma região clássica de judeus convertidos, onde, ainda hoje, se encontra viva a memória dessa herança histórica perdida. Entre emigrantes transmontanos em França no final dos anos noventa, a identidade secreta dos judeus convertidos parece ter encontrado um contexto favorável de publicização que ganha reconhecimento crescente. Analisando a alteridade particular existente entre “judeus” e “lavradores” transmontanos, bem como a posição de Outro que os “judeus” ocupam nas comunidades a que pertencem, este texto identifica os factores distintivos das duas categorias sociais que separam uns transmontanos de outros. Visa-se assim compreender a reivindicação de uma origem judaica e os movimentos de resgate de uma identidade de descendente de judeus convertidos.

Palavras-chave: diferença.

Identidade,

migração,

memória,

alteridade,

Entre emigrantes transmontanos em Paris contactados no final dos anos noventa no âmbito de uma pesquisa sobre reconstrução da identidade em situação de emigração 2 , constatámos a presença de uma distinção, nas narrativas de alguns entrevistados, entre transmontanos “judeus” e transmontanos lavradores ou cristãos velhos. O tema dos judeus convertidos apareceu nas entrevistas como um discurso calado mantendo em silêncio, ao longo das gerações, uma distinção identitária pronta a revelar-se no contexto migratório. Comecemos com uma vinheta etnográfica retirada de uma das nossas entrevistas neste terreno:
Quando o barbeiro da minha aldeia morreu, ficámos todos espantados em ver que na sua campa no cemitério, a mulher e
Partes deste texto foram publicadas no artigo “Memória das origens e identidade social. Análise a partir de um caso português” in Encontro de Saberes, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa 2006, pp. 67-83. 2 Tese de Doutoramento defendida pela autora na EHESS, Paris 2003.
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as filhas puseram uma estrela de David em vez da cruz de Cristo. Eu não sabia que eles eram judeus… na minha altura não se falava no assunto…pronto, sabíamos que havia judeus em Trás-os-Montes mas não se falava nisso. Foi aqui em França que descobri muita coisa e segundo o meu primo nós também somos da raça dos judeus. (empresário transmontano em Paris, 1998).

Este excerto de conversa ilustra um facto recorrente entre alguns transmontanos que se dizem judeus por referência a uma “memória das origens” de antepassados convertidos à força ao catolicismo. Refugiados desde os finais do século XVI nas montanhas do nordeste português, estes “judeus” não estão organizados numa comunidade voluntária com um projecto étnico, nem têm uma cultura judaica consolidada. No entanto, e apesar das contingências adversas da história, muitos guardam vestígios e memórias de uma pertença presumidamente judaica que acompanha uma condição de alteridade e diferença nas comunidades a que pertencem. Esta, manifesta-se tanto nas formas de nomeação destes descendentes de convertidos, como na sua posição social, e também num sentimento de si que suscita movimentos de resgate da sua história colectiva e herança identitária. Mais do que “judeus secretos” de Trás-os-Montes”, estes descendentes de cristãos-novos são os guardiães de vestígios históricos herdados em silêncio e a expressão social de uma alteridade que remete os seus protagonistas para uma condição de Outro no seio da comunidade local. A herança do segredo confere-lhes uma consciência de grupo distintiva no meio social em que se inserem, e hoje suscita processos de construção ou reinvenção da identidade que conduzem à tentativa de recuperar sentidos históricos longínquos. Este processo de atribuição de sentido a uma herança perdida origina um diálogo entre identidade e memória exercido em contextos existenciais e políticos concretos que consubstanciam a identidade social dos “judeus” transmontanos.

Alteridade e diferença: nomes, pessoas e “animais analógicos”

Considerada pelos especialistas da história da Península Ibérica como uma região clássica de assentamento de “marranos” (Révah 1959), Trás-os-Montes é actualmente, do ponto de vista etnográfico, ainda o reduto de um passado histórico

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marcado pela presença de judeus refugiados de Espanha após o édito de expulsão de 1492, pelos reis Fernando e Isabel de Castela. Entre um sentido mais erudito e propriamente historiográfico da presença de judeus convertidos no território transmontano, e o significado antropológico da persistência de uma diferenciação de um grupo reportado a uma origem étnica judaica, os diversos termos utilizados para designar os “judeus” transmontanos, traduzem nuances conceptuais relevantes para a análise percorrida aqui. O termo marrano confunde-se com a raiz antropológica da identidade dos judeus convertidos e remete-os para uma condição de alteridade particular. Segundo o estudo clássico de Arturo Farinelli (1925), encontra-se no vocabulário espanhol de quinhentos e corresponde a um termo ofensivo (significando porco, em português) adaptado para denegrir, na época, os cristãos-novos de Espanha e de Portugal. O seu significado de origem parece não se referir à relutância dos judeus em comer carne de porco, mas antes exprimir um sentimento de desprezo com que é conotada aquela palavra também noutras várias línguas. 3 O significado que adquiriu posteriormente configura a adaptação a um contexto histórico que se tornou hostil à presença judaica na Península Ibérica. Forçados a converterem-se à religião católica desde que a Inquisição foi instituída em 1536, muitos judeus foram acusados de práticas de um judaísmo secreto. Vários autores utilizam a expressão “cripto-judeu” para designar membros de comunidades rurais portuguesas nas quais foram identificadas práticas de um judaísmo sujeito a forte erosão pela história de conversão dos seus antepassados. 4 Em Trás-os-Montes, e mais especificamente no Distrito de Bragança, os descendentes de judeus convertidos são apelidados de perro (cão, em português), ilustrando um facto antropológico identificado por Edmund Leach (1964) segundo o qual o uso recorrente de nomes de animais como injúria, cumpre uma função social de imposição de distância entre pessoas próximas. Claude Lévi-Strauss já havia pensado na utilização de nomes de animais entre os humanos, referindo que “… aos cães não damos um nome humano sem provocar um sentimento de mal estar, ou mesmo de pequeno escândalo […] Como animais “domésticos”, eles fazem parte da sociedade humana, mas ocupando uma posição tão baixa que não sonharíamos, seguindo o exemplo de
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Encyclopaedia Judaica, entrada « Marrano », Vol. 11, Jerusalém, p. 1018. Ver nomeadamente, Samuel Schwarz Os Cristãos Novos em Portugal no Século XX, Instituto de Sociologia e Etnologia das Religiões, Universidade Nova de Lisboa, 2000 [1925].

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alguns australianos e ameríndios, em chamá-los como se fossem humanos (…)” 5 (LéviStrauss 1962: 272). Nas aldeias e vilas do concelho de Vimioso, distrito de Bragança, onde coexistem estes dois grupos, mantém-se até hoje o distintivo de “terras de judeus”, aplicado quando se trata de espaços onde se concentraram ao longo do tempo grupos dedicados ao comércio e à indústria artesanal de curtumes (as pelicarias). Na descrição dos próprios sobre as especificidades destes ditos “judeus”, relatam-se as suas viagens pelos montes, montados numa mula, vendendo produtos alimentares e bens essenciais que os lavradores não produziam. Os homens perros eram também artesãos, sapateiros, latoeiros, carpinteiros ou alfaiates, enquanto as mulheres trabalhavam como tecedeiras. Em geral eram letrados e escolarizavam os filhos, ao contrário dos lavradores mais necessitados da mão-de-obra dos seus descendentes nos campos. No final dos anos 90 do século XX, observava-se ainda uma compartimentação no espaço físico da aldeia de Carção, com os comerciantes instalados no centro, na praça, perto da fonte e da rua principal, e os lavradores sobretudo na periferia do burgo, perto dos campos que cultivavam. A organização urbana e a economia política locais exprimem assim uma alteridade em que se foram reproduzindo e perpetuando as posições ocupadas pelos dois grupos de oficiais e lavradores economicamente interdependentes. A par desta estratificação sócio-económica, a população local refere estereótipos físicos e comportamentais que contribuem para reforçar a divisão criada. Os dois grupos auto-distinguem-se atribuindo-se características fenotípicas específicas, sendo a aparência física dos “judeus” associada a cabelos ruivos, pele sardenta e olhos claros. Este estereótipo coincide com a imagem clássica do “judeu vermelho”ou “judeuruivo”, analisada na tradição cristã europeia por Claudine Fabre-Vassas (1994). Eles são o Outro mais diferente dos outros, ou seja uma figura de alteridade extrema, remetida para um limiar de aceitação na fronteira com o animal. Assim, tal como o termo perro constitui uma rejeição linguística daquele que é designado literalmente de “cão espanhol”, o estereótipo físico do “judeu ruivo” traduz a condição de Outro, próximo do animal, a que a tradição cristã sempre tendeu a remeter os judeus. Esta iconografia

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« Comme animaux domestiques, ils font partie de la société humaine, tout en y occupant une place si humble que nous ne songerions pas, suivant l’exemple de certains Australiens et Amérindiens, à les appeler comme des humains… »

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surgiu na Europa medieval expandindo-se numa imagética popular e médica que diagnosticava um laço “de natureza” entre “a raça maldita” e o animal porco. Nos dados etnográficos recolhidos junto de transmontanos, encontra-se este saber estereotipado sobre si próprios utilizado como forma de afirmação identitária e de demarcação. Mas esta não corresponde a uma cultura judaica, fazendo com que o que caracteriza a diferença destes ditos “judeus” é a referência às origens étnicas herdada ao longo das gerações em silêncio. Ou seja, a insistência na demarcação identitária participa aqui do carácter do segredo, que é um saber à parte, de que as novas gerações são depositárias sem conhecer os respectivos conteúdos culturais. O que os interlocutores entrevistados no terreno dizem sobre si é um saber marcado pela dispersão e pela fragmentação de referências ao judaísmo dos seus antepassados. A maior parte fala da sua cultura de converso na terceira pessoa do plural “eles”, para depois dizer, em tom de aceitação ou revelação que “nós também somos judeus” (Lechner 2002). Os mais idosos relatam costumes dos membros “da família de Moisés” como os bradórios ou velórios de quatro e cinco dias consecutivos, em que se acendiam velas em torno do morto, se faziam rezas próprias e se colocavam pedaços de pão sobre os cantos das mesas. Tudo era feito às escondidas dos vizinhos, na mesma lógica de segredo que deu origem à bola tosca e às alheiras transmontanas. O isolamento das montanhas transmontanas, permitiu aos judeus convertidos conservar e transmitir estes vestígios de um passado escondido que reaparece através de rastos e fragmentos etnográficos quase crípticos. Mas a herança do segredo histórico como factor constitutivo de uma identidade social de “judeu”, suscita ainda processos de reconstrução da identidade em forma de identificações com parentescos intelectuais, espirituais, e com novos laços de casamento ou de amizade, para os quais a emigração contribui de forma decisiva. De forma consciente ou inconsciente as novas gerações criam as condições de possibilidade de reconstituição e publicitação deste aspecto importante da cultura transmontana e portuguesa. À semelhança do que mostra Frédéric Brenner no seu documentário “Les Derniers Marranes” realizado em Belmonte em 1990, o que resta desta memória identitária é o segredo histórico transformado em práticas residuais que persistem em segregar o grupo da comunidade. Este efeito de segregação não resulta do facto de se ter tratado de práticas judaicas ou “judaizantes”, num passado longínquo, mas sim da

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apenas recuperável na pesquisa historiográfica e/ou num trabalho de arqueologia identitária. diferentes tipos de identidade ressaltam tipos distintos de diferenças e de diferenciações entre o Eu e o Outro. ao mesmo tempo.6 persistência das manifestações de um segredo herdado que funciona como marca identitária. As formas sociais e os conteúdos culturais que determinam identidades humanas são complexas e radicam na dimensão temporal. a afirmação de uma identidade assenta em identificações continuadas que. Neste caso é a obliteração identitária que é incorporada como traço distintivo dos auto-denominados “judeus de Trás-os-Montes” como ilustra um episódio ocorrido durante o meu trabalho de campo em Bragança onde um entrevistado que me havia sido apresentado como sendo “a pessoa” que conhecia as ladainhas marranas. sublinha o facto de que a memória histórica é aqui quase fantasmagórica. a diferenças categorizadas. De um ponto de vista antropológico. Origens e identidade social: vestígios e memórias de uma pertença Qualquer identidade é necessariamente construída por referência a uma alteridade. como em Trás-os-Montes. também ela dinâmica. que a emigração potencia. nestes territórios. herdaram da sua perda histórica O que se encontra hoje no distrito de Bragança. Essa a razão pela qual uma reconversão ao judaísmo não é sequer procurada ou desejava pelos que. se encontram obliteradas no caso dos descendentes de marranos de Trás-os-Montes enquanto “judeus”. mais do que de um saber à parte. que na realidade se perdeu para a maioria do grupo. “do passado já não me lembro e o futuro já passou”. a percepção e a memória conservam uma função ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . ou entre transmontanos da diáspora. culturais e políticos específicos. relatou de forma evasiva os costumes da sua herança afirmando. são vestígios e memórias de uma pertença identitária reinventada de forma pontual a partir de fontes dispersas. Em função de contextos históricos. de forma evidente. A sugestão deste transmontano de que o futuro da sua cultura está comprometido. que havia frequentado a Sinagoga inaugurada nos anos 1930 pelo Capitão Barros Basto (“O Apóstolo dos Marranos”) e que havia convivido de perto com o rabino. Trata-se de uma marca de seres à parte. Mas mesmo quando registadas pela negativa.

a par da ausência de uma transmissão transgeracional articulada e continuada. É justamente a falta de referenciais tangíveis. É importante notar que a imaterialidade da herança dos descendentes de judeus convertidos não é desobjectivada e não deixa de fazer parte da construção identitária dos seus depositários. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . ou a comunidade de emigrantes transmontanos da região de Paris. Se o que resta aos descendentes de judeus convertidos de Trás-os-Montes é o rasto de uma pertença étnica judaica que se mantém todavia presente na definição da sua identidade social. É importante. artistas. O comentário em voz off da herança de um passado enterrado no tempo transforma os testemunhos privados de muitos transmontanos numa reapropriação articulada da história que permite a transmissão lúcida no seio da comunidade. que as vozes singulares (ou com ressonância plural) estão impedidas de agir socialmente e de ter consequências práticas na construção da memória no presente. segundo a qual a identidade étnica se baseia na crença numa origem comum. políticos. jornalistas. Esta última podendo ser a pequena aldeia transmontana de peliqueiros onde o “judeu” é o perro. em função dos interesses de quem detém algum poder de publicitação: intelectuais. a intelligentsia bragançana onde muitos se dizem algo “judeus”. e um entendimento da etnicidade como categoria de definição identitária impermeável ao tempo e à história. personalidades carismáticas. torna-se relevante para que a questão das origens possa ser considerada decisiva na definição da respectiva identidade. Rejeitando uma visão essencialista da etnicidade. podemos apoiar-nos na definição proposta por Max Weber (1956). aqui ressalvar a diferença entre a auto-referência destes transmontanos à origem étnica como fundadora da sua identidade. no seio da própria comunidade a que se pertence. onde outros se descobrem ou reinventam “descendentes de judeus convertidos”. Esta faz-se de forma personalizada e potencialmente politizada. ou de ser o Outro. torna-se pois necessário compreender o sentido desta persistência de uma reivindicação codificada por referência a uma herança histórica perdida. O facto de um importante número de transmontanos assumir uma identidade social a partir da crença numa origem étnica judaica. Não é porque os contextos de vivência das pessoas possam ser surdos ou impermeáveis à experiência privada. que define esta forma particular de ser “judeu”.7 identitária que não pode deixar de ser tomada em conta num estudo antropológico. porém.

ou crise existencial. com a preocupação de se tornarem “eles mesmos” num projecto. Mas a este propósito. por referência a uma origem absolutamente identificada nos judeus vindos de Espanha depois de 1492. coincidiram com a emergência de discursos públicos regionais. então. desembocaram numa modernidade que estabeleceu o princípio da subjectividade como estrutura da relação dos sujeitos com o mundo e consigo próprios (Giddens 1991). dando voz à herança histórica marrana. e mesmo nacionais. em que alguns se lançam ao trabalho de tecer os laços desfeitos do passado. as estratégias de preservação da diferença assentaram em acordos tácitos reproduzidos ao longo das gerações. a vivência de um luto. oferecendo à análise uma categoria que na realidade encobre o que realmente os define como “judeus” e que assenta num complexo jogo cruzado entre identidades históricas e interesses sociais e pessoais. Este passou a ser palco de uma crescente autonomização das consciências individuais e de uma ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .8 Em Trás-os-Montes. é de notar também que o impacto cultural e económico da emigração. Os casamentos mistos apenas surgiram com as transformações sociais resultantes da emigração. Os mesmos 500 anos que separaram os judeus convertidos da tradição dos seus antepassados. produziu no Ocidente uma nova maneira de conceber e de pensar a identidade humana. O presente da memória: tecer os laços desfeitos O longo movimento histórico que se iniciou com as descobertas do século XVI. muitas vezes isolado. a questão das origens para o domínio daquilo a que chamamos “memórias de uma pertença”. interrogam-se sobre a descontinuidade que os habita tornando-se assim agentes activos do seu ser no mundo. contemporâneas da expulsão dos judeus de Espanha. bem como os efeitos da implementação da democracia em Portugal. os perros dizem ser “da raça dos judeus”. O deficit de capital cultural judaico destes judeus baptizados e convertidos ao catolicismo remete. estes escultores do presente. Do espaço privado das memórias familiares. passou-se para um domínio público de visibilidade de uma herança colectiva. Movidos por uma consciência agudizada em contextos de ruptura biográfica como a emigração. de reconstrução da identidade. Nomeadamente em Carção e Argoselo.

saudades. com vista a garantir o futuro da sua família simbólica. A persistência da sua crença numa pertença étnica judaica contrasta com a descontinuidade entre uma presumida origem “natural” judaica e uma cultura cristã imposta pela história. Num movimento de retorno ao passado e ao mesmo tempo de descoberta de si. As fronteiras da identidade e da memória definem uma dimensão quase “natural” dos contextos de pertença dos indivíduos. Sob 6 7 Acto de simbolização subjectiva. em situações de ruptura como a conversão religiosa do passado ou a imigração dos nossos dias. muitos se reúnem em fóruns electrónicos de encontro e partilha de experiências. é em função dos novos contextos multi-referenciais dos nossos dias que a identidade dos descendentes de judeus convertidos se define. que o sentimento de pertença identitária se consubstancia. Não conta para os descendentes de judeus convertidos de Trás-osMontes o facto de não se constituírem como uma comunidade voluntária assente numa cultura específica. No sentido de “consciência incorporada” de um corpo-sujeito. bem como congressos anuais onde procuram construir o presente. Neste contexto. É nesta dimensão subjectiva da reinvenção de si. Estes são espaços tanto virtuais como reais de estudo e troca de informações entre pessoas que se identificam com a problemática da reconstrução de uma identidade de descendentes de judeus convertidos.org criado por uma descendente de portugueses cristãos-novos emigrados na África do Sul. como o site www. ou da criação de uma identidade edificada pela palavra – no sentido lacaniano de parole 6 – e pelo gesto – como sugeriu Merleau-Ponty 7 –. que caracterizam os grandes desafios actuais das identidades juntamente com a crioulização global das humanidades contemporâneas (Glissant 1996). Também desde os anos 1990 se observa o surgir de associações internacionais de estudos cripto-judaicos. e porque a identidade é uma relação processual e não uma coisa em si ou uma qualidade fixa de alguém ou de um grupo. que reaproxime as distâncias criadas. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . se torne necessário todo um trabalho de reelaboração. na emigração e em Trás-os-Montes. organizam viagens a Portugal e a Espanha. À procura de um sentimento de si enraizado numa história familiar herdada com falhas.9 secularização da vida humana incorporando a aceleração de criação de novidades no quotidiano. e de história do judaísmo na Península Ibérica. e a experiência generalizada de ruptura com tradições. de tal modo que.

1966. Num outro tempo. 1956 [1971]. Marrano : storia di un vituperio. Claudine. 1989. Sigila. 11. Encyclopaedia Judaica. CXVIII/1. Instituto de Sociologia e Etnologia das Religiões. pp. FABRE-VASSAS. Isaac. Arturo. « Pleins Silences ». Paris. Difel. 2000 [1925]. TheHuman Condition. LACAN. Firenze. Paris. 1980 [1964]. pode-se “retornar a casa”. Macau. pp. João e Nelson Lourenço. Gallimard. Gallimard. WEBER. Universidade Nova de Lisboa. “Fonction et champ de la parole et du langage”. 1962. Cambridge. Os Contextos da Antropologia. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . 1993. Paris. 1994. Le Seuil. Revue des Etudes Juives. Modernity and Self-Identity: self and society in the late modern age. 1958. 1996. Gallimard. 321361. La Pensée Sauvage. Paris. Écrits. 17-27. 1959. Anthony. mesmo que esta última seja uma ruína e o retorno uma viagem. Gallimard. Economie et société. MERLEAU-PONTY.10 o risco de uma condição humana “descosida” de si. Samuel. Maurice. 1925.9. Elsa. Hanna. Jerusalém. Les Gardiens du Secret. 1018. Paris. LECHNER. Paris. LEACH. Paris. GLISSANT Edouart. SCHWARZ. 29-77. Vol. PINA CABRA. The University of Chicago Press. Edmund. La Bête Singulière: les juifs. Gris. « Les Marranes ». Paris. 1925. Polity Press. não deixa indiferente quem assim descobre poder ser o autor de si mesmo e nascer para uma condição humana que ultrapasse o acidente biológico. 1992. num outro lugar. 2002. p. pp. GIDDENS. João. a descontinuidade que atinge os “órfãos de cultura própria”. PINA CABRAL. LÉVI-STRAUSS. Claude. Em Terra de Tufões: dinâmicas da etnicidade macaense. L’unité de l’homme et autres essais. 1945. Max. Plon. Plon.Os Cristãos Novos em Portugal no Século XX. Introduction à une poétique du divers. les chrétiens et le cochon. RÉVAH. Paris. Lisboa. Jacques. entrada « Marrano ». Phénoménologie de la Perception. Referências Bibliográficas ARENDT. Instituto Cultural de Macau. FARINELLI. vol.

comunidade. Vol. O trabalho que hoje apresento integra-se numa investigação em curso sobre a integração de Portugal na rede transnacional de imigração marroquina e sobre a permeabilidade da fronteira luso-espanhola por parte destes sujeitos migrantes. levou a que diferentes investigadores chamassem a atenção. Assim. A análise dos resultados da regularização extraordinária de imigrantes realizada em Portugal no ano de 1996. Tecnologia e Ensino Superior (Portugal). XIV (1). Tentaremos compreender se. religião e comunidade”.Participação marroquina na construção da comunidade muçulmana em Portugal ° Rita Gomes Faria Universidad Autónoma de Madrid ∗ rita. venho referir hipóteses num momento concreto da investigação. Nina Clara Tiesler pela possibilidade de participar neste Congresso. marroquinos.gomesfaria@uam. “Islam en lusophonie” (2007) com o título “Marroquinos em Portugal: imigração. O interesse pela investigação do fenómeno da imigração marroquina para Portugal surge pela possibilidade de completar o quadro visual sobre Uma versão desenvolvida desta conferência poderá encontrar-se na revista Lusotopie (Brill). Palavras-chave: integração. num momento de saturação dos países que tradicionalmente recebem imigrantes marroquinos. ao fenómeno da imigração marroquina em Portugal. Muito bom dia. religião. de forma muito sucinta. ° ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . para a aparição inesperada de regularizados de nacionalidade marroquina. imigração.es Nesta comunicação aproximar-nos-emos. ∗ Esta conferência integra-se numa investigação em curso no âmbito da pesquisa de doutoramento em realização na Universidad Autónoma de Madrid financiada pela Fundação para a Ciência. históricos e religiosos que funcionariam como factores de integração. ainda que subtilmente. antes de começar gostaria de agradecer à Associação Portuguesa de Antropologia e principalmente à Prof. Portugal pode constituir uma alternativa considerando alguns elementos sociais. mais que constatar dados.

Segundo os próprios sujeitos. mas também pelo facto de Portugal não constituir um destino final do processo migratório. a população marroquina seja uma das mais importantes dentro da comunidade imigrante. e por outro a aparição e crescimento (constante mas discreto) de pessoas provenientes do norte de África. Bélgica e a Alemanha fecham as suas fronteiras à imigração. Pela existência de uma relevante bolsa de imigrantes marroquinos irregulares que não se encontram contabilizados pelas instituições oficiais. No relatório sobre as migrações mediterrâneas publicado pela Comissão Europeia (Fargues 2005). Como sabemos. os imigrantes que tradicionalmente se dirigem para Portugal são originários dos chamados PALOP e do Brasil. principalmente de Marrocos.2 imigração marroquina na Europa mas também. Marroquinos em Portugal Ainda que se encontre relativamente perto de Marrocos e que no seu principal país vizinho. Holanda. observando desde a perspectiva espanhola. mas as regularizações extraordinárias dos anos 90 apontam para um fenómeno que posteriormente se confirmou com o processo de pedidos de autorizações de permanência do ano 2001: por um lado a nova presença massiva em Portugal de cidadãos oriundos de países do Leste da Europa. Discutindo a questão com alguns dos informantes desta investigação eles próprios se negam a acreditar na sua validade. o Ministère des Affaires Étrangères et de la Coopération marroquina contabiliza 2866 marroquinos a viver em Portugal. dos quais 778 estão contabilizados pelo Serviço de Estrangeiros e Fronteiras português como detentores de uma autorização de residência e os restantes de autorizações de permanência. o acesso a um documento oficial que lhes permita uma residência legal em Portugal (inclusive para aqueles que esperaram os dez anos necessários para receber a 1 A única investigação até agora realizada sobre o tema encontra-se publicada: CABRAL 2003. Espanha. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . por nos parecer que Portugal poderia ser a sequência directa da evolução do fenómeno – tal como Espanha e Itália vão estabelecer-se como destinos para estes migrantes no momento em que países como a França. também Portugal parecia ser a alternativa lógica a uma certa saturação do mercado espanhol 1 . em Portugal a questão da imigração marroquina constitui uma novidade.

pais onde a maioria tem família já instalada. Alemanha. O fenómeno entra numa segunda fase. Os países do norte e centro da Europa mantêm um único canal de imigração aberto através do reagrupamento familiar (primário e secundário) o que provoca por um lado uma estabilização das populações. a Holanda e a Bélgica. e principalmente a partir do boom económico do pós-II Guerra Mundial. o que levou ao seguimento dos trabalhadores rifenhos para o território francês. Como alternativa os trabalhadores marroquinos dirigem-se então para países como a Líbia e a Arábia Saudita (com uma capacidade . Os primeiros marroquinos que chegam à Europa são comerciantes que se instalam em França e em Inglaterra pela metade do século XIX.3 nacionalidade) permite-lhes atingir o seu objectivo final que é a “verdadeira Europa” – França. Por essa altura dirigiam-se a países do Médio Oriente e da África ocidental. atrás dos seus empregadores. A imigração marroquina na Europa Os movimentos migratórios marroquinos remontam a épocas anteriores ao período colonial. Os anos 70 do século XX assistem à grave crise de petróleo que provoca o fecho das fronteiras europeias e o inicio da chamada “imigração zero”. Marrocos vive um momento de explosão demográfica o que acentua um certo desequilíbrio entre a população e os recursos naturais e económicos do país. vários são os acontecimentos (simultâneos) que “empurram” os nacionais marroquinos para os países europeus: A) a guerra de independência argelina provocou o regresso a França das empresas instaladas na região norte da Argélia. que vão abrir os primeiros canais de imigração (pendular) massivos. de assentamento e de diversificação de destinos. e para Espanha e Itália que demonstram ser regiões nas quais era possível (principalmente devido à inexistência de uma legislação relativa aos movimentos de imigração) a permanência daqueles que não conseguiram passar as fronteiras do norte ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .de recepção de imigrantes muito limitada). e por outro o aumento das entradas irregulares. C) mas as principais saídas são provocadas pela assinatura dos primeiros acordos de mão de obra entre países como a França. Já no século XX. Holanda.de recursos e de interesse político . B) durante a mesma época. a Alemanha.

consideramos. 2 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . O potencial integrador Por outro lado. página 2-3. “MAI de Marrocos em Lisboa” edição de 17-05-1997. como por exemplo a pesca. 4 Ver por exemplo Público. página 24. C) a recuperação da presença “árabe” no território e identidade portugueses através da redignificação dos espaços arqueológicos do Al-Andalus. Público. levou-nos a pensar que Portugal poderia ser o próximo passo. página 9. B) a tradição do arabismo português que procura aproximar-se da academia europeia orientalizando parte do próprio território português. D) e por último a forma como os últimos governos portugueses têm tentado recuperar estas distintas tradições para a construção de um papel de mediador politico entre a Europa e o mundo árabe. 1993. “Portugal e Marrocos inauguram cimeira anual” edição de 30-05-1994. também.4 economicamente mais vantajoso (Teim 1996) 2 . Nestes anos 70 e 80 Portugal ainda não era considerado um destino mas a crescente politização e mediatização (além do tratamento negativista do tema que os media espanhóis estão a desenvolver e da preferência pela imigração originária da América do sul e de países do leste europeu) da questão migratória que verificamos a partir dos anos 90 em Espanha 3 . edição de 26-01-1993. Ver também o jornal Público nos dias posteriores aos atentados de Madrid de 10 de Março de 2004. Público. 3 Visível principalmente durante o governo do Partido Popular que assumiu a luta contra a imigração irregular como um dos seus principais papéis ante a União Europeia e para tal a imagem da patera como metáfora dessa irregularidade. inicialmente que Portugal poderia (potencialmente) como um destino alternativo baseando-nos em alguns supostos que poderiam funcionar como meios de integração positiva dos marroquinos por parte dos portugueses: A) uma certa construção da identidade nacional baseada na capacidade de adaptação ao outro resultante da experiência histórica do contacto cultural (na boa tradição do luso-tropicalismo). A imigração foi muito utilizada pelo PP como instrumento n luta económica e politica com o governo do Reino de Marrocos em debates sobre distintas temas. tendo o governo marroquino como interlocutor do outro lado do mediterrâneo 4 . 1994. 1997. formam-se claramente por indivíduos que não ultrapassaram a fronteira com França e que ficaram a trabalhar na Catalunha (que no final dos anos 70 indicava um aumento da industrialização e que por isso agradecia estes novos trabalhadores). “Acordos com Marrocos”. como David Lopes (responsável pela institucionalização do arabismo em Portugal) No caso espanhol os primeiros assentamentos de marroquinos realizam-se na Catalunha. Cardeira da Silva recorda numa publicação recente (Cardeira da Silva 2005). Ver TEIM 1996.

num multiculturalismo tolerante que ascende à idade média) permite. Até que ponto esta recuperação da essência árabe na identidade nacional leva a uma real facilidade de integração dos árabes (marroquinos) contemporâneos que escolhem este pais para residir? O contexto de integração Os imigrantes marroquinos que se encontram em Portugal enquadram-se perfeitamente como sujeitos do que Tiesler (2005) chamou a pós-descolonização. Mértola. procuraram personificar o papel do mediador de conflitos. Mértola abriu caminho para que as regiões norte e sul do país se apercebessem das vantagens da reabilitação de material arqueológico sempre sustentado por uma promoção turística do mesmo através da escenificaçao da vida quotidiana em feiras e mercados da época do Al-Andalus. Castro Marim. mas também uma dimensão política de encontro com os países árabes do mediterrâneo 5 . ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . judaica e crista. associam a redignificação da imagem dos árabes na história e identidade nacionais servindo por um lado uma folclorizaçao e reinvenção da memória. 5 Fez e Marraquexe transformam-se nas cidades guardiãs de uma identidade que pode ser explorada economicamente para aproximar-se do ideal imaginário dos portugueses. Castro Verde. uma nova fase de imigração caracterizada por novos padrões de imigração independentes do passado colonial. de ponte de diálogo que a proclamada genética diversa (árabe. Aí se encontra o stock identitário tradicional que se pode conjugar com o imaginário do exotismo árabe economicamente operacional. exteriores ao mundo lusófono e integrados em trajectórias migratórias globalizadas. Silves. a presença dos próprios portugueses em Marrocos e a presença dos portugueses no Oriente. E a nível nacional diversos governos portugueses. A nível local. Cacela Velha. E como no pós-25 de Abril de 1974 o processo de reconstrução nacional e de desenvolvimento económico regional passou por uma exploração do potencial turístico e económico que os vestígios e a herança árabes poderiam implicar. Lagos e Sintra.5 definiu o Portugal histórico através de três dimensões “paranacionais”: a presença dos árabes na Península. nessa encruzilhada entre a Europa e os países árabes.

numa adaptação à nova realidade através de subalternização da etnicidade. No entanto. Estes grupos não são uniformes. e em muitos casos o seu próprio percurso individual é marcado pela transnacionalidade. As relações que os nossos informantes constituem no pais de acolhimento são circunstanciais partilham elementos étnico-culturais que contextualmente os afirmam a todos como marroquinos mas existem numa distância já que entre os diferentes indivíduos ou colectivos não se criam tecidos que os unam a todos como comunidade em Portugal. uma instituição constituída principalmente por indivíduos oriundos das antigas colónias portuguesas que se esforçaram desde o inicio na construção de uma relação positiva e apolítica com o Estado e com a sociedade de acolhimento(Tiesler 2000). principalmente pela Europa. Dentro do universo dos marroquinos que vivem em Portugal podemos encontrar distintas categorias: os imigrantes económicos regularizados. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Participação na comunidade islâmica Quando os marroquinos chegam a Portugal encontra-se já constituída a Comunidade Islâmica de Lisboa. elaborando agora um discurso universalizante do Islão e integrador dos distintos membros da umma (Mapril 2005) . o circuito da imigração e a forte mobilidade vivida por todos os sujeitos levamnos a participar da comunidade transnacional marroquina – quase todos têm membros da unidade familiar dispersos pelo mundo. os imigrantes económicos irregulares e os estudantes . este Islão como fenómeno mundializado encontra-se sujeito a fenómenos como a individualização da relação com a religião e a comunitarização do grupo religioso. No entanto. Os anos 90 observam uma diversificação das origens dos imigrantes muçulmanos mas estes “pioneiros” permanecem como porta-voz da comunidade.6 O colectivo com o qual trabalhamos nesta investigação é constituído por pessoas que seguem um padrão de imigração por imperativos económicos. As trajectórias da maioria dos informantes caracteriza-se por uma forte mobilidade e em geral a sua presença em Portugal está marcada por uma temporalidade associada a um objectivo.que em muitos casos desenvolvem paralelamente actividades económicas (Freire 1999). como Roy (2003) afirmou.

em pequenos locais de culto nos arredores de Lisboa (como no caso do local de culto de Forte da Casa) ou noutras regiões do país é mais activa (como é o caso do local de culto de Faro para cuja criação há cerca de quatro anos diversos imigrantes marroquinos participaram activamente 6 ). O espaço da mesquita de Lisboa não se traduz num elemento catalizador das sociabilidades e configurações identitárias destes marroquinos que vivem em Lisboa. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .7 A vivência dos marroquinos em Portugal provoca uma transformação na sua religiosidade – na forma como estes indivíduos vivem a sua relação com a religião (Roy 2005). principalmente feminina. Ramírez (1998) refere. O sistema de estratificação de género em Marrocos define que o projecto de vida feminino é dependente do masculino 6 No Verão do ano 2005 a Comunidade Islâmica de Lisboa não tinha sequer informação da sua existência. O lenço é instrumentalizado por algumas destas mulheres de múltiplas formas numa estratégia de integração na sociedade de acolhimento mas também de manutenção de direitos e de um determinado estatuto num contexto diverso ao da sua sociedade original. Ainda que a participação na vida religiosa da Mesquita Central de Lisboa seja praticamente nula. Existe uma dissociação para com as actividades da mesquita central e para com o culto o que impede uma prática religiosa quotidiana. para o caso da mulheres marroquinas em Espanha. O facto de representarem uma diferença em relação aos representantes dos muçulmanos em Portugal. não impede a sua integração na comunidade a nível local. como o contexto de saída condiciona uma situação determinada da mulher no país de imigração. Observa-se um distanciamento do principal protagonista do Islão em Portugal – a Mesquita Central e a Comunidade Islâmica de Lisboa (com cuja identidade e discurso não se sentem identificados) – e uma privatização do Islão ou uma participação em comunidades religiosas particulares. Os sujeitos elaboram um discurso politico sobre a realidade da mesquita central que é o local de reunião de africanos e indianos e não de árabes ou magrebinos. Visibilidade e religiosidade feminina Segundo os próprios informantes há um outro elemento que os distancia da comunidade islâmica portuguesa: uma imagem exterior. distinta e imediatamente associável à religião islâmica.

Por outro lado Abranches (2005) observa em Portugal como as mulheres muçulmanas imigrantes utilizam as transformações características da sociedade ocidental na (re)construção das duas identidades. Este país continua a ser manipulado como um passo num ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . instrumentalizam o papel da mulher muçulmana de forma a recuperar direitos que consideram que estão a perder em contexto imigratório. Algumas mulheres. num contexto de incorporação ao mercado de trabalho (subalterno) referem como o lenço lhes permite participar e auxiliar a economia familiar. com o nascimento das primeiras crianças em Portugal e com a criação das primeiras associações de imigrantes marroquinos. a época da presença árabe em Portugal. principalmente as que não realizaram um trajecto imigratório individual e cuja presença no terreno da imigração resulta da reagrupamento familiar. O lenço é então utilizado na luta pela recuperação de um papel dentro do espaço íntimo da casa familiar. Algumas destas mulheres. auto-orientalizam e personificam a imagem de árabo-muçulmanas nas festas “árabes” e nas feiras de artesanato oriental regionais que se realizam principalmente durante o Verão e que fazem reviver. O colectivo de marroquinos que vive em Portugal ainda é maioritariamente constituído por homens. No entanto até há três anos atrás parecia que este fluxo estava a entrar numa segunda fase. muitos deles em situação de irregularidade ante a legislação portuguesa. Outras. No entanto estes sujeitos parecem mais interessados na participação na comunidade muçulmana transnacional do que na construção de uma comunidade em Portugal. O reduzido número e a dispersão territorial dos nacionais marroquinos que vivem em Portugal dificulta a constituição do que se pode chamar uma comunidade de marroquinos no país. numa tentativa de conjugar fidelidade às origens mas também modernidade e autonomia pessoal.8 mas parece ser que a imigração permite uma adaptação da condição feminina e das restrições culturais à mobilidade feminina. podendo a condição feminina ser estrategicamente manipulada. com o inicio de processos de reagrupamento familiar. e “mercadorizam”. agora transnacional. Notas finais Portugal resulta ser um contexto difícil para a imigração marroquina. por exemplo.

ainda maioritariamente “portuguesa”.. edições Universidade Fernando Pessoa. Ao viver debaixo de uma consciência de temporalidade restrita. segundo os informantes. não representa para estes indivíduos um colchão interessante de integração.. Uma vez com a Karima na rua uma senhora tirou a cabeça pela janela do carro e chamou-nos terroristas. SOS Racismo. 2005. Também esta reanimação do árabe em Portugal parece não servir realmente como aproximação aos árabes contemporâneos que vivem no país. Sabes. Mas aqui no meu bairro [num polígono industrial em Carcavelos]. países que constituem. como me aconteceu lá em baixo na loja da Fátima [Olhão]. todos te perguntam de onde é que és. não querem saber do que dizem dos árabes. a “verdadeira” Europa. Rapport 2005. Vivências e trajectórias de mulheres em Portugal. 26 anos. Vol. E é que nem pensam que usas o lenço porque és muçulmana. Alcinda (ed. Uma informante dizia: (. Maria . ele é do Paquistão e na mesquita falam todos português. Nº 173. (Loubna. é só sair à rua que ficam todos a olhar para mim. 2005. pp.] Aqui nem o imã da mesquita nos defende. “Mulheres muçulmanas em Portugal: formas de adaptação entre múltiplas referencias” in SOS RACISMO Imigração e Etnicidade. CARDEIRA DA SILVA. FARGUES. Porto. Philippe (ed.. pp.). ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . European University Institute y European Commission – Europe Aid Cooperation Office (Euromed). “O sentido dos árabes no nosso sentido. 149-179. CABRAL. a comunidade islâmica. Lisboa.9 projecto migratório que se quer terminar em França ou na Holanda. Dos estudos sobre árabes e sobre muçulmanos em Portugal” in Análise Social. Europa e Islão.). [. Bibliografia: ABRANCHES.. Maria. XXXIX (Inverno). 2003. há três anos a viver em Portugal) Nesta transcrição podemos observar a distância que existe entre a recuperação da memória histórica do legendário passado árabe na identidade portuguesa e a dificuldade de integração da realidade dos marroquinos contemporâneos que vivem no país. 2005... Imigração Marroquina..[. Migrations Méditerranéennes..) se estás ao balcão numa loja que vende coisas árabes. ou se vais aquelas feiras onde ela vai com o marido..] Eu quero é ir para casa da minha cunhada [França].. 753-806.

ROY. Ideias. “Immigration to medium sized cities and rural areas: the case of eastern Europeans in the Évora region (southern Portugal)” em BAGANHA. pp. policopiado. Atlas de la Inmigración Magrebí en España. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Madrid. Os movimentos humanos e culturais em Portugal. Maria Margarida. MARQUES. pp. nº 24. Mujeres marroquíes en España.) L’Europe du Sud face à l’Immigration. Ana Rita. Artigos de jornais: Público. “Novidades no terreno: muçulmanos na Europa e o caso português” in Análise Social – Europa e Islão. policopiado. Vol. 1997. Luso-American Foundation. El Islam en occidente: ¿La occidentalización del Islam?. “MAI de Marrocos em Lisboa” edição de 17-05-1997. Lisboa. página 23. 2005. SOS Racismo. 1997. Évelyne (dir. Ángeles. « Le ‘retour des caravelles’ au Portugal: de l’exclusion des immigrés à l’inclusion des lusophones ? » in RITAINE. “Imigrantes. vol. Transcrição editada da Conferência realizado no FRIDE. 1993. “Acordos com Marrocos”. FREIRE. 827-849. Barcelona. TEIM. Migraciones. FCSH-UNL. Maria Lucinda. 1994. Agencia Española de Cooperación Internacional. José. PEREIRA BASTOS. edição de 26-01-1993. hoje: da exclusão social e identitária ao multiculturalismo?” em SOS RACISMO (ed. Nina Clara. ROY. Monografia de licenciatura em Antropologia. Público. 2005. página 9. XXXIX (Inverno). 91-118. Los musulmanes en la era de la globalización. pp. Madrid. minorias étnicas e minorias nacionais em Portugal. “Portugal e Marrocos inauguram cimeira anual” edição de 30-05-1994. “Muçulmanos na margem: a nova presença islâmica em Portugal” in Sociologia – Problemas e Práticas. Itinerários para a construção de uma masculinidade. “Contornos e especificidades da imigração em Portugal” em Sociologia – Problemas e Práticas. 9-44. 2005. MACHADO. Lisboa. Olivier. El Islam Mundializado. Nuno Dias e José Mapril. 2004. 1996. Monografia de licenciatura em Antropologia. PUF. nº 34 (Dezembro). 1999) Do Yemen ao Dafundo. TIESLER. 2002. pp. Europa e Islão. Olivier. nº 173. Paris. Ediciones Bellaterra.) New Waves: migration from eastern to southern Europe. 117-144. 2005. pp. 851-873. José Gabriel e Susana Pereira Bastos. Público. Nº 173. RAMÍREZ. 2003. Maria Ioannis e Maria Lucinda Fonseca (eds. FCSH-UNL. “’Bangla masdjid’: Islão e bengalidade entre os bangladeshianos em Lisboa” in Análise Social. 273-288.. João Alegria e Alexandra Nunes. Género e Islam.10 FONSECA. TIESLER. 2000. pp. Francisco. Madrid. Práticas e Instituições do Arabismo Português. MAPRIL. Politique de l’étranger.) A Imigração em Portugal. Fernando Luís. 1998. XXXIX (Inverno). Nina Clara. 149-183. Universidad Autónoma de Madrid Ediciones. MOREIRA. 2000. página 24.

quando se pretende intervir em áreas como a acessibilidades dos imigrantes ao Serviço Nacional de Saúde. étnica. em particular no campo da saúde. Imigrantes. a prevenção do HIV–SIDA. a Mutilação Genital Feminina ou a gravidez prematura? No campo da saúde. Particularidades Culturais e Abordagens específicas no Campo da Saúde Maria Cristina Santinho Antropóloga. cultural e religiosa da população imigrante residente actualmente em Portugal. uma das áreas mais sensíveis na condição de imigrante economicamente desfavorecido. orientados para as populações imigrantes residentes num determinado concelho? Qual a importância do trabalho em parceria. Saúde. Portugal e em particular a área metropolitana de Lisboa. tenha a responsabilidade de dar uma resposta eficaz às suas diversas necessidades. foi alvo de uma alteração profunda na sua morfologia social nas décadas mais recentes. diversos de vida e inclusive diferentes sistemas de organização política e administrativa que. como cruzar saberes institucionalizados e hegemónicos com saberes ancestrais explicadores de uma determinada visão do mundo? Palavras chave: Trabalho autárquico. Partindo do princípio de que em grande parte dos países de origem dos imigrantes – com particular expressão para os países africanos de expressão portuguesa ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .Contextos Migratórios. A diversidade social. técnica na Câmara Municipal de Loures Quais os desafios que se colocam ao Antropólogo quando. faz com que o país receptor. se propõe desenhar projectos de intervenção na área da saúde. obrigam a reflectir sobre novas formas de encarar o mundo e soluções mais ajustadas a uma sociedade multicultural. Vulnerabilidade. a par da expressividade idiossincrática e das histórias de vida particulares de cada indivíduo. no contexto do seu trabalho como técnico de uma autarquia. em particular pela coexistência de populações nacionais e estrangeiras com diferentes origens geográficas.

tem as suas próprias crenças e práticas únicas no referente à saúde. cada grupo. enquanto abordagem no domínio da promoção da saúde e prevenção da doença. sem tomar grandemente em conta os padrões culturais específicos de cada grupo cultural. É necessário que haja uma acção concertada entre todos. promoção da saúde. é uma abordagem localizada. que estabeleçam a ponte entre a necessidade de apoio sentida pelos imigrantes no campo concreto da saúde. assim como os seus recursos comunitários para a prevenção de certas doenças e cura de males comuns. A questão da saúde dos imigrantes tem sido encarada de uma forma geral. Cada etnia. e interculturalidade. a intervenção médica de modelo ocidental. nalguns casos. face à nova realidade que estão a viver. eram (e em muitos casos ainda são) praticamente inexistentes. económicas. tendo em conta as idiossincrasias de cada grupo e os seus problemas relativos às desigualdades no acesso à saúde e outros serviços básicos. confundindo frequentemente conceitos fundamentais como nacionalidade e origem étnica e prejudicando assim a comunicação em termos de eficácia de utilização dos serviços de saúde. animadores sócio-culturais). Por conseguinte uma das abordagens que se pode e deve fazer. num contexto mais global da exclusão social. pelos líderes das associações de imigrantes locais. formação esta que também deve ser partilhada por cada um destes actores culturais. religiosas e cívicas que fragilizam o seu estado físico e psíquico. A promoção da saúde deverá por conseguinte ser levada a cabo não só pelos profissionais de saúde – médicos e enfermeiros – mas também de forma concertada e em parceria. sem esquecer as mulheres da comunidade e os líderes religiosos. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . pelos mediadores de saúde que fazem uma ponte entre a sua comunidade de origem e a sociedade de acolhimento – escola ou trabalho. surge do facto destas populações estarem sujeitas a muitas desigualdades sociais. é necessária uma formação adequada em direitos de cidadania. pelos técnicos que intervêm em programas e projectos comunitários (desde logo antropólogos. culturais. salvaguardando as suas particularidades identitárias e. importa-nos aprofundar outros modelos alternativos neste campo. psicólogos. sociólogos.2 – os sistemas de saúde de modelo ocidental. A necessidade de se promover uma abordagem específica no campo da saúde das comunidades imigrantes.

ou incidência de determinadas doenças específicas de certos grupos. dependência do álcool ou alucinogéneos. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Tomando como ponto de partida a definição da Organização Mundial de Saúde. religiosas e simbólicas próprios de cada comunidade. sabemos que uma das características comuns de grande parte da população imigrante é a sua vulnerabilidade. Factores como o índice de morbilidade. violência. em suma: uma fragilidade perigosamente manifestada em quase todos os indicadores dos condicionantes sociais da saúde. Assim sendo. pois o nosso contributo poderá de facto vir a influenciar a maneira como outros técnicos de saúde percepcionam o contexto cultural dos imigrantes. tomando o papel de facilitadores entre estas comunidades e os médicos e enfermeiros. ainda estão no domínio dos dados empíricos ou do conhecimento de alguns estudantes. teremos que analisar se intimamente estamos dispostos a intervir com acções concretas e pragmáticas. traduzindo a importância dos valores e práticas culturais. natalidade. sentimentos de revolta.3 Como antropólogos. desadaptação. Por outro lado. manifestadas através de uma maior dificuldade em arranjar emprego de acordo com as suas necessidades. distúrbios mentais. que conduzem estas populações a circuitos de exclusão e que se vão manifestando mais cedo ou mais tarde em frustração. partimos dos seguintes pressupostos relativamente à população imigrante: . gravidez prematura. segundo a qual: “A saúde é um estado de completo bem-estar físico. conseguir consulta no médico. ter boas notas na escola. e não apenas a ausência de enfermidade ou doença”. é procurar noutro país melhores condições de vida. técnicos de saúde ou investigadores que dedicam a sua atenção a casos particulares de bairros onde residem imigrantes. Infelizmente a formação cruzada ou mesmo a investigação sobre as características específicas em termos de saúde e doença entre as diferentes comunidades imigrantes ainda não está trabalhada nem sequer ao nível dos simples dados estatísticos.A principal razão que leva um indivíduo ou uma família a emigrar. somos levados a ter em conta as circunstancias que pautam a vida da maioria da população imigrante e consequentemente condicionam a sua saúde. mental. Quase inevitavelmente manifestada através de numa crónica acumulação de desvantagens sociais. mortalidade. sociais. social e espiritual.

4 . muitas vezes dependentes da má índole dos empregadores que preferem não regularizar os contratos de trabalho. remetendo-os para actividades pouco valorizadas socialmente.. a dificuldade no domínio da língua ou a inexistência de certificação de competências. condicionando assim a sua relação com o bom ou o mau desempenho profissional – a pessoa doente não pode trabalhar (se falta ao trabalho é imediatamente despedida por não estar abrangida na maior parte dos casos pelos sistemas de saúde e segurança social). habitacional. por vezes propensos a acidentes graves. limita as suas opções de trabalho. com certeza diferente do país de acolhimento. O conceito de saúde e de doença tem uma enorme abrangência e portanto a doença do indivíduo não se pode observar só numa perspectiva clínica ocidental. de grande parte dos imigrantes constituídos como população alvo de alguns projectos levados a cabo pelos Centros de Saúde locais e autarquias. mas também tomando em linha de conta que os próprios imigrantes terão em determinados contextos étnicos. culturais e políticos dos países de origem dos imigrantes.A reduzida formação académica. ou seja: compromete perigosamente todos os projectos e aspirações a uma vida melhor que o levaram em primeira instância a emigrar. trabalhos de alto risco.” ritual inclusivo da prática da Mutilação Genital Feminina. . Esta prática cultural que tem sido alvo da atenção de muitos meios ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . práticas tradicionais de saúde eficazes para o contexto cultural que as produziu e que obviamente devem ser tomadas em conta pela medicina ocidental. em particular muçulmanos. religioso.Neste contexto. pois o contexto em que os imigrantes se inserem irá condicionar a sua própria relação com a saúde e com a doença. mal remunerados. que implica a relação do corpo com vários contextos: familiar. entre alguns grupos étnicos guineenses. mas antes sobretudo de forma holística. Esta premissa pode-se verificar por exemplo. será necessário abordar cada aspecto. nem tem dinheiro para os medicamentos. instáveis. condicionam também a atitude dos indivíduos perante os diversos conceitos de saúde e de doença. Os contextos sociais. No desenrolar de cada projecto de saúde a levar a cabo eventualmente por uma parceria técnica de intervenção. em relação à forma como se encara o “Fanado. o corpo é usado como principal ferramenta de trabalho. sem seguros de risco. etc. com horários violentos. se é despedida não tem capacidade para sustentar a sua por vezes numerosa família. profissional.

reconhecendo a profunda sabedoria que os curandeiros possuem sobre o uso das plantas para fins terapêuticos. crenças e tabús que é necessário entender e contextualizar no ponto de vista antropológico. pois se por um lado. deve ser alvo de uma apreciação profunda por parte dos antropólogos. a pobreza ou as políticas governamentais. relativizando o próprio relativismo cultural. sabemos da relevância da tuberculose (muito associada a situações de pobreza e carências alimentares por exemplo) e do HIV – Sida e da necessidade de combater esta pandemia. em território português.Portela.5 de comunicação social pelas razões mais perversas. por outro lado. que existem de facto fragilidades de saúde directamente relacionadas com as comunidades imigrantes. residente no bairro da Quinta da Vitória . porque se levantam questões tão delicadas como a sexualidade. com especial destaque para as enfermidades do foro psíquico. Por outro lado. sobretudo nos países africanos. é necessário ter em conta a importância das curas tradicionais praticadas pelos curandeiros. É pois necessário abrir o leque de conhecimentos e de práticas médicas. como já referimos. É ainda importante mencionar. como pelo facto de muitas vezes serem estes os únicos detentores do poder da cura reconhecidos pela comunidade. Do ponto de vista cultural. deverá ser abordada como uma prática que põe em causa a própria saúde sexual e reprodutiva da mulher. envolta em mitos. a ausência de Sistemas Nacionais de Saúde por vários motivos como a guerra. tendo em conta a importância do trabalho em parceria com as associações de imigrantes e seus lideres religiosos. que chegou a adquirir forma de projecto-lei e que. No que diz respeito à população hindú proveniente do Gujarati. dados constantes dos ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . infelizmente tem estigmatizado grande parte da população guineense residente em Portugal. tanto pela importância que estes indivíduos têm no universo simbólico dos contextos etnográficos. existem por exemplo. levando-os a interagir com a medicina ocidental apenas em situações de emergência. colocando ainda em risco de vida as crianças e mulheres que a ela voluntariamente ou involuntariamente se submetem. condicionam as atitudes dos imigrantes perante a doença. Passamos a referir apenas algumas: no caso da população de origem africana. levando a medicina ocidental a integrar o valor da medicina tradicional. a ausência de hábitos de prevenção da doença. a Mutilação Genital não deve ser analisada fora de todo o contexto cultural e ritual que a justifica.

Relativamente aos imigrantes de origem oriental. as suas práticas relativas à saúde e à doença e a sua expectativa de vida aqui em Portugal. muitas vezes indocumentados. ou de dependência das mafias. esta doença é devida ao consumo excessivo de açúcares. com quartos de pensão sobrelotados. distúrbios mentais. mais próximo do campo específico da saúde. ainda muito pouco se aprofundou sobre as práticas e o estado de saúde destas populações. tendo em conta a chegada de novos imigrantes com características sociais e culturais diferenciadas. originam problemas cardíacos. Condições de habitabilidade deficientes. colesterol elevado. Ainda um outro exemplo. Sabemos através de resultados empíricos realizados por técnicos de saúde das autarquias que. metodologias e estratégias de intervenção comunitária. Apesar de sabermos que as ex repúblicas soviéticas tinham uma política generalizada na cobertura da saúde. os seus referentes culturais e em particular. como são as suas estruturas familiares. presente em todas as cerimónias e rituais praticados frequentemente por aquela comunidade (o açúcar é associado simbolicamente à fertilidade e abundância). alerta para a necessidade de se constituírem equipas multidisciplinares sempre que se definam objectivos. Onde se localizam. Em parte. considerado pelos especialistas da medicina ocidental como um indicador que é imperioso combater. Contudo. e álcool em excesso. tabaco. promover de forma sistematizada investigação aprofundada do ponto de vista da antropologia da saúde. Segundo os médicos que ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . visa o combate determinado da gravidez na adolescência. gratuita para toda a população. será necessário realizar outras investigações para o desenvolvimento e implementação de projectos científicos adequados.6 estudos da morbilidade efectuados pelo Centro de Saúde de Sacavém que dão conta de uma alta incidência de diabetes naquela população. em condições promíscuas e pouco higiénicas. seria interessante promover a investigação voltada para os seus hábitos de saúde relacionados com as práticas das terapias orientais e obviamente. Um dos vários objectivos no campo quer da intervenção clínica. quer nos projectos de educação para a saúde que envolvam adolescentes imigrantes de origem africana. tensão alta. como se relacionam entre si. sobre o modo de vida destas comunidades em território nacional. Quanto aos imigrantes oriundos de leste. a fragilidade no campo da saúde está sobretudo relacionada com o stress provocado pela sua condição de imigrantes. havia muito pouco trabalho desenvolvido na promoção de estilos de vida saudáveis. problemas dentários.

Não é de estranhar que nos bairros de imigrantes onde se faz intervenção comunitária. a participação de representantes das próprias comunidades locais – aqui as associações de imigrantes têm um papel fundamental quando existem. Há pois que saber distinguir as diferentes situações. sida. integrando saberes diferentes e envolvendo-os nos projectos de saúde institucionais porque. São elas: tuberculose. pode surgir quando a constituição física da jovem ainda não atingiu a maturidade biológica que lhe permita ter filhos sem por em risco a sua própria saúde física e mental. hipertensão. é necessário contextualizar a saúde e a doença no campo cultural. estes projectos orientados para a intervenção directa no campo da saúde. é necessário contar com a contribuição de diversos especialistas: em primeiro lugar. Para além de uma abordagem no campo social. em segundo lugar a participação de cientistas sociais em particular de antropólogos e obviamente dos próprios profissionais de saúde – médicos e enfermeiros. deverão também ser elaborados em parceria com homens e mulheres da comunidade. Preferencialmente. ou quando a opção por engravidar está mais relacionada com uma estratégia de sobrevivência afectiva num contexto de exclusão social. são muito raros os casos que se podem considerar de sucesso. esclarecendo também eventuais estereótipos criados pela sociedade ocidental que podem colocar em risco projectos de promoção da saúde sexual e reprodutiva. tinha. diabetes. violência doméstica. hepatite. sobre auto-estima. consumo de droga e. (homens ou mulheres) e eventualmente os líderes religiosos. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . alcoolismo. A verdade é que em concreto. de informação sobre saúde. fazendo uso de uma linguagem comum e dos mesmos referentes simbólicos. são sempre diagnosticadas características recorrentes.7 intervêm nesta área. é contribuir ainda mais para a desestruturação social e psicológica das comunidades e dos indivíduos de origens etnográficas diferentes. anti-concepção. Para perceber este ou outro fenómeno da mesma natureza. impor a alteração de padrões culturais e de normas de comportamento de forma desajustada. hemoglobinopatias. a gravidez na adolescência pode não ser um problema para diversos contextos culturais onde os sistemas de parentesco estão dependentes de alianças em que a rapariga assume desde muito jovem o compromisso de procriação. O problema contudo. adaptando-os a novas realidades. etc. dentro destas ainda se podem destacar os anciãos. referentes às doenças com maior incidência. doenças do foro mental.

numa sociedade que também ela atravessa uma profunda crise de valores identitários? Podemos ainda acreditar na justiça? E na educação? E na saúde? Como poderemos exigir às populações imigrantes que assimilem e adeqúem comportamentos e atitudes sociais nos quais uma grande parte dos portugueses tem dificuldade em acreditar? Entre a população portuguesa. A população crioula letrada. entre a população alvo. Ainda apelando à necessidade de enquadramento de Antropólogos em Autarquias. Porquê? Em primeiro lugar porque o crioulo não é por enquanto. mas também a procura de estilos de vida alternativos como possível resposta às novas (velhas) angústias. os cancros. No entanto. pior ainda: será que alguma vez a tiveram. escreve e lê em português. foi feito numa Câmara Municipal. tendo em conta os conhecimentos adquiridos com base no trabalho de campo e observação participante realizada junto às diferentes nacionalidades e particularidades étnicas. uma língua que se escreva ou que se leia com frequência. espartilhados por uma África que nem conheceram e um Portugal que nada lhes diz e que lhes recusa a nacionalidade portuguesa apesar de terem cá nascido? Porquê a existência de gangs? Não será eventualmente esta a resposta a uma necessidade de identificação grupal.8 O que dizer do surgimento excessivo de perturbações mentais entre os imigrantes e refugiados. ou de comportamentos aditivos com recurso ao álcool ou a alucinogéneos. Darei um exemplo: – Aqui há alguns anos. Centros de Saúde. sabendo que muitos indivíduos provêem por vezes de países em guerra prolongada e pobreza extrema. ONG’s e IPSS’s de forma a adequar as intervenções e projectos de saúde directamente dirigidos às populações imigrantes. tornando-os ainda mais vulneráveis? Como estranhar o comportamento agressivo e os actos de vandalismo de alguns jovens de origem africana mas frequentemente já nascidos em Portugal? Não terão eles também perdido a sua própria identidade. aumentam também cada vez mais as depressões. ou. sobre os perigos da sida e a forma de evitar comportamentos sexuais de risco. um folheto em crioulo para alertar a população africana em geral. com as suas próprias hierarquias e sistemas de valor simbólicos. As intenções de dito folheto eram de facto as melhores e o mesmo teve bastante aceitação tendo sido considerado muito original – sobretudo pelos outros técnicos envolvidos na divulgação do referido folheto. É em português ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . a sua aceitação foi quase nula.

esse folheto só atingiu uma minoria insignificante de população que teria entendido perfeitamente a mensagem em português. e apesar da oferta insistente dessa instituição na comunidade. quando transpostas para a necessidade de sobrevivência dos indivíduos imigrantes. Outro caso. veio-se a constatar que as razões para essa recusa. de cada etnia. ficavam a residir em casa dos seus filhos e aí permaneciam todo o dia sozinhos. agora relacionado com os tabus do corpo: Num dos bairros de realojamento de imigrantes em Loures. residiam precisamente nos tabus do corpo. Logo. as características culturais de uma determinada etnia em Angola ou na Guiné. ainda que seja médico. É por estas razões que acabei de expor que. Aprofundando mais as razões que levaram a essa situação e contactando mais de perto com as famílias e com indivíduos dessas comunidades culturais. Um idoso ou idosa africana. Em segundo lugar. não dá legitimidade a um estranho à família. No entanto. para que cuide de si e muito menos que invada a intimidade do seu próprio corpo.9 que se escrevem as cartas para a tia ou para a avó que ficou em Cabo-Verde. tendo em conta que os seus percursos identitários são mutáveis e bem ou mal. rapidamente adaptáveis às condicionantes impostas pela sociedade receptora. estavam a chegar cada vez mais idosos. integrando os saberes destas comunidades e envolvendo-os nos projectos de saúde institucionais. em que cerca de 90% da população é de origem africana. os serviços eram sistematicamente recusados. Mas também considero importante que os Antropólogos olhem urgentemente para as realidades dos imigrantes aqui residentes. relegadas para a privacidade do espaço doméstico ou religioso. considero imprescindível valorizar os códigos culturais próprios de cada grupo. surgiu uma Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS) que tinha a valência de Centro de Dia para idosos. vindos dos países africanos que. Esta necessidade tinha sido de facto identificada nas reuniões do Projecto de Intervenção Comunitária que se realizavam no bairro. porque existe uma grande variedade de crioulos. ficam diluídas. que disponibilizava técnicos especializados para prestar assistência domiciliária. Apesar de normalmente a população desse bairro ser maioritariamente jovem. interiorizadas. e com grandes carências e fragilidades na saúde. no contexto de um bairro de realojamento e face à pressão exercida pelas instituições portuguesas. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Frequentemente.

Ministério da Saúde. 2006. CABRAL. Poder local e Exclusão Social. Rocio Gil Martínez de. Globalização e Migrações. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . 2004. Paris. para poder PARTICIPAR e INTERVIR de forma útil na melhoria da qualidade de vida e em particular da saúde das várias comunidades de imigrantes residentes em Portugal. 2005. racismos.) BARRETO. Universidade Autónoma Metropolitana. Lisboa. Lisboa. 1998. Direcção Geral de Saúde. Coimbra. México. Não Lugares. Introdução a uma Antropologia da Sobremodernidade. VERMEULEN. Referências Bibliográficas: AUGÉ. ISCSP. burocracias e estereótipos. Imigração. António (et. Plano Nacional de Saúde. Hans. all). Celta. nem submeter-se pacificamente às regras. RUIVO. KHADIYATOULAB. MALHEIROS. Hermano (et. 1996. ou paternalismos das instituições onde se enquadra profissionalmente. 2005. Lisboa. Condutas de Risco. Manuel Villaverde e Pais. Exclusão Social. Colibri. Lisboa. Práticas Culturais e Atitudes Perante o Corpo. Imigrantes na Região de Lisboa. José Machado (et all). Imprensa das Ciências Sociais. Quarteto Editora. ESCOBAR. Transactions Interculturelles. Universidade Técnica de Lisboa. all). Fronteras de Pertenencia. 2003. Champ Multiculturel. decidir se está disposto a intervir nestes contextos migratórios. Jorge Macaísta.Ed. 1996. ao Antropólogo.10 Cabe a ainda a meu ver. Fernando. Socinova . Lisboa. 2000. Lisboa. Hacia la Construcción del Bienestar y del Desarrollo Comunitário Transnacional.. 2001. Marc. CARMO. Integração e a Dimensão Política da Cultura. L’Harmattan. Fall. Rotas de Intervenção. 90º (ed. Edições Colibri. os Anos da Mudança. sabendo contudo que não basta nem OBSERVAR.

a Praça funciona . não produz homogeneização. explorar as conexões entre local e global significa na prática etnográfica considerar as ligações que os indivíduos em contextos específicos estabelecem com os significados e os produtos que o seu habitat cultural lhes oferece e que podem escapar uma delimitação espacial precisa. Arquipélago dos Bijagós. mas também onde Guineenses de outras regiões e comerciantes de diferentes nacionalidades exercem as suas actividades. esquecendo a preocupação com uma fictícia autenticidade e negando uma formulação rígida da identidade e do sujeito. Jovens. óculos de sol e estilos. mais especificadamente no único pequeno centro urbano do Arquipélago. Lisboa lo_bordonaro@hotmail. sede da administração colonial da Região: é uma zona de contacto.com Porque é que os jovens Bijagós do centro urbano de Bubaque acham cool andar de gangas. chamado familiarmente Praça 1 . Consumo. roupas. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Palavras-chave: Globalização.como um íman para os jovens das ilhas. Bem que seja um pequeno centro. Sem negar as estratégias geopoliticas e as relações de dominação. A minha intenção nesta comunicação é a de explorar a relevância e a pertinência do conceito de ‘estilo cultural’ (um noção que pertence mais aos Cultural Studies do que à antropologia) para descrever a cultura juvenil urbana em África ocidental. viso contribuir ao debate sobre as dinâmicas entre local e global. Guiné Bissau. mas pelo contrario é utilizada nos contextos locais para produzir novas diferencias e distinções. Bijagós. chapéu de baseball e ténis? A partir destas questões da minha experiência de pesquisa na Guiné-Bissau. com jovens rapazes. segundo dinâmicas de migração rural/urbana bem conhecidas 1 Originalmente tratava-se de um posto construído pelos Portugueses. ultrapassando a dialéctica entre resistência e homogeneização. Bordonaro CEAS – Centro de Estudos de Antropologia Social.no âmbito restrito do Arquipélago . onde não só Europeus e Bijagós se encontraram e se encontram. Guiné Bissau. com mais o menos 2000 habitantes permanentes. salientando como a circulação de modas. Estas reflexões têm a sua origem em uma pesquisa efectuada na ilha de Bubaque.Valores e ícones da cultura juvenil na Guiné-Bissau: uma abordagem individualista e não-essencialista à dinâmica local/global Lorenzo I.

um estilo que os rapazes chamam cool. a capital do país. como também um lugar de acção social e política. ficaria surpreendido para o cuidado com quem rapazes e raparigas se vestem.2 em África. considerado com desprezo como atrasado. de cumprimentar os amigos. nomeadamente a cultura do hip-hop. todos respondem a uma estética. De facto a Praça tem atraído nos últimos anos muitos jovens que queriam abandonar o sistema tradicional de produção da aldeia. educados. Em particular. Uma das modalidades mais espectaculares de expressão desta diferença. para a constituição e como ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . para o cuidado do seu aspecto segundo cânones que se referem à uma circulação mais ampla de estéticas e atitudes. de tratar com as meninas. as roupas. muitas vezes como primeira etapa de uma deslocação mais definitiva para Bissau. os jovens da Praça contrapõem-se ao mundo das aldeias. de falar. os corte de cabelo. criativa e crioula. a estética do cool em Bubaque tem muito a ver com ícones de sucesso global da cultura negro-americana. A relevância dos hábitos. como temos que interpretar estes aspectos da cultura material? A antropologia já salientou muitas vezes nos últimos anos como estes traços não podem ser facilmente considerados aspectos de um processo de homogeneização devido à ‘globalização cultural’. caracterizadas pelas oposições próprias da ideologia da modernidade. Um dos aspectos mais sobressaliente dos jovens que vivem neste espaço são as suas narrativas modernistas. Ora bem. Estas aproximações consideram o vestuário como sinal e como objecto de consumo: um campo de representação social onde identidades individuais e sociais são criadas. se adornam: as atitudes. Ser cool não é só vestir gangas. chapéu de baseball e absurdos óculos de sol nas escuras noites de Bubaque. Paralelamente ao que acontece em outros lugares em África (Larkin 2000. é a atenção que os jovens demonstram pela moda. urbanos. ténis de marca. Weiss 2002). Em termo gerais. É também uma maneira de andar. Estas interpretações tristo-tropicalistas baseiam-se sobre uma ideia de imobilidade e autenticidade das culturas que a antropologia recusou em nome de uma imagem mais dinâmica. Definindo-se a si mesmos como “desenvolvidos”. quem desse um passeio na Praça de Bubaque no Sábado a noite. as mais recentes leituras antropológicas interpretam a moda como uma prática social que visa à formulação e a expressão da identidade e a significação de diferenças sociais. e das práticas de consumo em geral. primitivo e não civilizado. mediada e reinterpretada por os artistas da cena musical Africana e Lúso-Africana em particular.

De facto. foi também considerada produtivamente pela antropologia do consumo. Sem esquecer as geografias ocultas de produção que também fazem parte das relações sociais de consumo. adquire um valor especifico e profundamente local. as características da cultural juvenil que temos salientado. são compreendidas melhor como praticas de distinção do mundo das aldeias e como afirmação de uma identidade urbana e moderna 2 . de autonomia e de autenticidade. de facto. No interior das dinâmicas modernistas. eficaz para marcar o distanciamento dos valores e hábitos da aldeia. a subordinação dos jovens aos velhos é um elemento essencial da organização social: tornar-se ancião é um processo complexo que exige a passagem através vários graus de idade e o pagamento contínuo aos membros das classes de idade superiores. acho que podemos considerar a pratica do vestir cool em Bubaque como uma forma de apropriação de produtos e imagens com circulação transnacional. em acordo com estratégias locais de identidade e de distinção social. Segundo esta abordagem. rejeitando firmemente o paradigma da homogeneização global. é que supera a retórica modernista que condena o consumo de produtos globais ou estrangeiros em contextos locais como perca de identidade. e movendo para o um paradigma da crioulização. Neste contexto. A contraposição ideológica entre “tradição” e “modernidade”. à moda. pode ser de facto interpretado como mais um signo de distinção do mundo rural da aldeia que os homens jovens querem exibir no contexto urbano. Para a maioria deles a Praça é o lugar onde alguém tem que se vestir correctamente.3 marca de identidade. é verdade que se nos condenamos o consumo como emulação ou imitação. conferindo voz e descrevendo em termos reconhecidos uma dialéctica generacional. Um dos méritos fundamentais desta abordagem. O cuidado pela moda. As roupas são também um sinal de 'civilização' e de 'desenvolvimento'. Em particular o conceito de distinção pode dar nos umas pistas importantes. e portanto não têm acesso à terra e às mulheres. A iniciação divide a população masculina em dois grupos opostos: os que já adquiriram o estatuto de homem adulto e os que ainda são “crianças”. a cultura da modernidade dos jovens da praça não pode ser compreendida sem referencia à estrutura social das aldeias. que visa a considerar esta actividade como uma forma de produção cultural e de construção de identidade. evidente nas palavras dos jovens. manifestando ao mesmo tempo proximidade com o ambiente moderno da Praça. nós denegrimos as capacidades criativas e expressivas das pessoas de apropriar-se e de usar bens estrangeiros para o próprio propósito. Os rapazes que abandonaram as aldeias para viver na Praça criticam as normas éticas e as instituições “tradicionais” e tentam subtrair-se a estas relações de poder. 2 Mas para perceber melhor é preciso dar alguns detalhes sobre o conflito generacional que opões jovens e anciãos. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . quase um palco da modernidade. As suas críticas baseiam-se na contraposição entre dois termos chave: desenvolvimento por um lado e cultura do outro.

então fui para a aldeia e percebi que não era possível viver assim para um ser humano. Moderno e tradicional. Vim na Praça. nem com a imitação de uma cultura hegemónica. não tem a ver nem com o fim da tradição face ao avançar da modernidade. uma aproximação sociológica à moda e às práticas de consumo que realça a sua relevância quer para marcar e elaborar um estilo de vida distinto. deu-me um relato extremamente significativo neste sentido: Mas ao final eu percebi que aquela vida [na aldeia] não é uma boa vida. colegas. O texto fundamental desta abordagem é Subculture: the meaning of style do Dick Hebdige (1979). vi os meus colegas. foi proposto nos anos Setenta pelo Center for Contemporary Cultural Studies na análise das sub-culturas juvenis no Reino Unido. vesti os meus vestidos na aldeia em frente dos meus colegas. Eu percebi que não é uma vida boa porque eu vim na Praça. realizadas (enacted) 3 The notion of signifying practice was initially elaborated in France by the Tel Quel group. em direcção de uma aproximação performativa e prática às identidades sociais. Aliás. o que eu quero propor aqui é a possibilidade de uma interpretação original deste tipo de características culturais. Assim foi à Praça. De facto. Sem fazer referências aqui aos que salientaram a função de distinção de algumas prática de consumo (nomeadamente Veblen 1998 e Bourdieu 1979). voltei para a aldeia. bem como para a construção da diferença e a produção de identidade. alguém fica na rua com o traseiro de fora.4 Xarife. como eles se vestiam… as vezes na aldeia. vender mangas. E vi algumas pessoas. Segundo esta abordagem. onde a noção de estilo como ‘prática significante’ 3 é proposta para explicar como a diferença é activamente produzida e utilizada em uma sociedade. mas produzida por essas mesmas práticas em um contexto social. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . são duas práticas simbólicas socialmente posicionadas. Eu percebi que esta coisa é ma. o contraste entre ‘moderno’ e ‘tradicional’. e eles olhavam para mi com admiração. A noção de estilo cultural pode então oferecer uma solução original ao problema da definição de modernidade local e nesta direcção já foi utilizado por James Ferguson na Zambia (Ferguson 1999). um rapaz de 17 anos que entrevistei em Bubaque. a noção de estilo como prática significante pode também nos oferecer explicações alternativas e não-essencialistas sobre como a diferença não só é significada e marcada. Comprei a minha roupa. como eles se vestiam (é ta bisti). no seu significado local. se utilizarmos um conceito que não é propriamente antropológico: o de ‘estilo cultural’.

executadas com êxito’ (Ferguson 1999: 98). os fantasmas da Europa e do Ocidente. As pessoas sempre vivem naquela área posicionada entre a lógica microsociológica da situação social e as estruturas globais e regionais da economia política. Os jovens do Praça não eram actores que ao fim do espectáculo tiravam os seus chapéus de baseball. que envolve quer uma deliberada auto-construção quer determinações estruturais. um estilo é claramente pelo menos em parte uma actividade. deixando espaço para identidades mais autênticas.no sentido que nós geralmente damos a este termo . na qual as pessoas improvisam estratégias duráveis e motivadas de auto-construção e apresentação. Isto não significa claro que os jovens recitavam . não podem não ser ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . em conclusão. no horizonte. Ser cool para os jovens em Bubaque não é simplesmente um estilo que se pode mudar ou adoptar ao acaso. O estilo cultural é uma capacidade de utilizar e manifestar signos em uma maneira que posiciona o actor em relação a categorias sociais relevante. e. da qual as roupas também fazem parte. que vê por um lado os anciãos na aldeia. por outro o Estado pós-colonial. um aspecto importante da cultura material dos jovens.e que o seu teatro terminava ao fim do dia. Afirmar que modernidade é uma questão de estilo não significa dizer que é uma questão de possuir um certo tipo de vestidos. É uma competência performativa que tem que ser aprendida e interiorizada: é uma estratégia de sobrevivência em uma situação de poder tensa. pode bem ser considerada como um aspecto de um ‘estilo cultural’ em quanto conjunto de práticas que significam diferenças e alianças entre as categorias sociais. Embora seja verdade que um estilo não é o resultado exclusivo de escolhas individuais e que as pessoas também são limitadas em parte por condicionamentos económicos e sociais. um processo em parte consciente como também inconsciente. Não se trata de manter que os indivíduos flutuam livremente num oceano de signos que eles podem apropriar e utilizar a vontade para se construir uma identidade ad hoc. A atitude cool dos jovens. os óculos de sol.5 em uma conjuntura social e político-económica específica. e os ténis Nike para voltar a vestir uma máscara cornuda e tornar-se novamente 'verdadeiros' Bijagós de aldeia. construído e cultivado dessas práticas. um processo motivado de auto-construção: é neste sentido que poderíamos utilizar uma ideia de cultivação de estilo. mas que se trata de ‘práticas encarnadas. enfatizando o caractere consciente. E é em relação a estes fantasmas que.

Paris. Expectations of Modernity. London. “Thug realism: inhabiting fantasy in urban Tanzania”. WEISS. Subculture: The Meaning of Style. com a qualidade material das coisas em si. 1. Esta abordagem nos permite por um lado dar uma imagem mais concreta e realística dos jovens. Prometheus. questionar e investigar a origem do valor destes aspectos da cultura material. HEBDIGE. 1979. FERGUSON. “Bandiri Music. 93-124. Critique sociale du Jugement. Pierre. LARKIN. Por outro lado nos permite. Acho que é exactamente neste ponto. University of California Press. Referências bibliográficas BOURDIEU. 1998 [1899]. um aspecto que nos permite de adicionar mais uma perspectiva à puramente semiótica até agora salientada. The Theory of the Leisure Class. que a investigação sobre a cultura material tem que focar a sua atenção. mas tem também a ver com fascinação e sedução. Brian. Les éditions de minuit. 168 (XLII-4): 739-762. 1979. questão que não acaba de suscitar debates. 2000. Brad (2002). na articulação e na dialéctica entre apropriação e sedução. Pessoas com um gosto. Berkeley. La distinction. mas indivíduos vivos. pelo seu caracter estético. Cahiers d’Études Africaines. que não são só actores sociais cientemente utilizando signos de distinção. 1999. um sentido da beleza. A relação que os jovens têm com a materialidade das coisas não é só puramente semiótica. Globalization and Urban Experience in Nigeria”. Myths and Meanings of Urban Life on the Zambian Copperbelt. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .6 salientado. fascinados e seduzidos pela materialidade das coisas. Cultural Anthropology 17(1). VEBLEN. Thorstein. James. Amherst (NY). Methuen. Dick. mais criticamente.

Universidade Fernando Pessoa. Porto ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Centro de Estudos de Antropologia Aplicada.IV – Capítulo Processos de Integração Social e Económica de Imigrantes Textos de comunicações do painel: Processos de Integração Social e Económica de Imigrantes Alcinda Cabral.

Palavras-chave: Antropologia. the human sciences gains a new dimension. não integrando de forma plena e efetiva aquele ser humano oriundo ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Most of these changes are related with deep modifications in the value systens. Existia. Fusões. Imigração. jurídicos e comunitários. De inicio a figura do imigrante encontrava-se relacionada à figura de trabalhador. Por este motivo.com. affecting all society. acquistions and strategic alliances are multiplying everywhere. a convicção de que voltaria ao seu país de origem uma vez que sua atividade laboral se findasse. Antropologia Jurídica.Centro de Estudos em Antropologia Aplicada . importante traçar-se panorama deste individuo pertencente a este coletivo com o intuito de se proteger com políticas públicas efetivas a devida integração na sociedade que o acolhe sob vários enfoques. The search for competitiveness is more and more concerned with the search for the optimal systemic beyond citizenship frontiers. Parte considerável destas mudanças relaciona-se com profundas alterações nos sistemas de valores de todos os segmentos sociais. as ciências humanas ganham nova dimensão. aquisições e alianças estratégicas têm se multiplicado.br Nos últimos anos a economia mundial tem sofrido mudanças importantes. Within this context. em especial ao que tange a função desempenhada por este cidadão no mercado laboral. Cidadania. Introdução Pertinente aos imigrantes brasileiros em Portugal. éticos. juridique and with your community. Fusions. para tanto. Neste contexto. sociedade. A busca da competitividade relaciona-se cada vez mais com a busca do ótimo sistêmico das fronteiras da cidadania. encompassing the integration of all activitis related to the social vlue system. a sociedade que o acolhia não solicitava a adesão a seus valores. envolvendo a integração de todas as atividades ao longo cadeia de valores sociais. ethical.Cidadania e o Homem: construção de uma sociedade integrativa Carlos Luiz Cerqueira Junior CEAA .Porto Portugal carlosluizjr@terra. In the last years the world economy has been changing deeply.

aos quais se refere como transição migratória histórica à demográfica econômica. encontrando respostas para o dilema hoje vivenciado na antropologia jurídica. económicos e financeiras não esgotam a pluralidade de motivos propulsores do evento migratório. relacionando os factores endógenos do país de origem em face da perspectiva de construção de vida digna e construtiva. equânime e legal do Estado e da sociedade acolhedora. desde o momento que sua permanência no país recorrido. vai se convertendo em definitiva. que invariavelmente desenvolvia atividades para aquela comunidade receptora. e sobretudo da discussão acerca da cidadania. I. Diante de tais fatos. a aceitação do outro sob o olhar justo. em especial àquela migração evidenciada no sentido sul-norte. Nas sociedades modernas tem-se obtido relevo a questão associada aos fluxos migratórios da humanidade. Assim. interagindo com a sua comunidade no intuito claro de trazer-lhe melhoras e benfeitorias. reduzido e heterogêneo. da nacionalidade e do estrangeiro. traduzindo a função social e política do homem – a esta função se atribui o caráter necessário da delimitação da importância da cidadania como fonte primária desta pretendida estabilidade a que o homem pretende e deseja. fundamentalmente. o Estrangeiro e sua Política de Integração Diante do panorama atual. imprescindível situarmos a questão relativa à política migratória travada entre Portugal e Brasil nos últimos anos. Brasil-Portugal. ou seja. qual seja. onde se inclui a discussão da ciência em proveito do desenvolvimento social e humanitário. assim como delinear seu estado cidadão. deseja-se demonstrar o perfil do imigrante brasileiro em terras portuguesas. Este primeiro grupo que emigra era. seus modos e seus projetos de inserção nesta comunidade tão parecida e ao mesmo tempo tão distante dos hábitos imigrantes. A Cidadania.2 de outra cultura. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . em particular ao nosso estudo Portugal. imprescindível saber o efetivo conceito da importância do ser humano. cujos factores sociais. enquanto fator propulsor de desenvolvimento local. Todavia. Esses fluxos têm-se alterado em dimensão e direção de acordo com as fases de transição económicas.

ao passo que evidenciamos a ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . aqueles na direção SulNorte. Diante deste cenário. portanto. em busca de atividades acadêmicas enriquecedoras. cabendo ao país receptor (Portugal) analisar as questões pertinentes ao grau de escolaridade. permitindo a aproximação cada vez mais freqüente da cultura local com o estrangeiro.3 O aparente paradoxo dos fluxos migratórios mais recentes. qual seja. Após o advento da II Guerra Mundial. notadamente o Brasil. a ruptura do conjunto econômico-social na Europa estimulou a imigração de mão-de-obra menos qualificada. A isto se deu pelo fato da crescente isenção estatal em desenvolver políticas determinadas de identidade cultural e social do seu povo. Acerca dos assuntos. diversos estudos foram realizados em Portugal e em Brasil. social e educacional em franco declínio no país. outros recursos não restaram aos cidadãos senão buscar no estrangeiro à sustentação financeira. muitas vezes opondo-se aquela a esta. justificando a imigração sempre temporária. região escolhida para fixar residências e outros critérios de aderência do imigrante. através dos quais quase um milhão e meio de pessoas (IBGE:2004) estão chegando anualmente à Europa e América do Norte. corroborada pela falta de perspectiva de desenvolvimento sustentável nos países de emigração. se não poderia o estado criar e sustentar vias de acesso à manutenção da ordem interna. cujo contexto de crise de estrutural nos países de destino impulsiona à procura por outras culturas. em face dos acontecimentos políticos e sociais à época evidenciados. apresenta-se por fator determinante o aspecto social e econômico. Observa-se. com políticas de identidade cultural. uma política dualista. a procura de profissionais cuja qualificação se amolda aos padrões internacionais. sempre em busca de melhor avaliar as correntes migratórias firmadas entre os dois países. leva-se em consideração a clara aparência de culturas. cujo país submergia em profunda crise política junto ao uma falta de perspectiva de crescimento sócio-económico. demonstrando determinado enfraquecimento da conjuntura educacional interna brasileira. língua e identidade antropológica referente ao caminho sul-norte. o Brasil ingressa no circuito das migrações internacionais. Tais estudos deram inicio na década de 40 (quarenta) quando se efetivou a corrente migratória a Europa.

modernamente se tem um espelho efetivo das correntes migratórias entre Brasil e Portugal. Estudos recentes realizados pelos dois países demonstram duas categorias efetivas de migração. mesclando seu conhecimento adquirido com a vivencia em novas culturas. observamos a existência de dois mundos distintos e paradoxais. consubstanciando a sua migração em busca de novos mercados. A segunda. a exemplo da própria inclusão de Portugal na União Européia. embora se tenha em mente as adversidades tratadas. vários foram – e ainda são – os Tratados e Acordos bilaterais chancelados entre os citados Estados. levando-se em consideração os diversos fatores externos que influenciam na reestruturação destes estatutos. Todavia. duas correntes diferentes. cujas causas e razões estimulantes à migração se distanciam de forma latente. cujo efeito imediato foi o reexame das políticas bilaterais com o Brasil visando à adequação da legislação lusitana àquelas impostas pelo pacto comunitário europeu. língua e costumes colonizadores. cujo interesse nos países desenvolvidos se amoldam na busca de qualificação profissional e acadêmica. havendo clara formulação de estudos. perspectivas laborais e inclusão social. em face dos constantes estudos realizados. referente aos profissionais de formação técnica e científica. Passados alguns anos. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . A saber. programas e estatutos que evidenciam a esta política humanitária. em especial a inclusão do cidadão e do estrangeiro frente à nova ordem mundial – a globalização e os mercados comunitários. em face da semelhança de cultura. vejamos. referente às pessoas sem grau de escolaridade e ou econômico satisfatório. primeira.4 procura especial por Portugal pelos menos qualificados. racial e lingüística a migração de brasileiros para terras Portuguesas. Assim. sempre em busca de equilíbrio das políticas migratórias. não podemos deixar de citar aquelas pertinentes a OPLP (Organização dos Paises de Língua Portuguesa) com significativos contributos na formação de medidas de acolhimento do colectivo imaginário desta comunidade lingüística. ainda continua reflexo da irmandade cultural.

palestras. centro de acolhimento e frentes próprias de trabalho e inclusão social. cite-se a excelente lição oferecida pela ACIME – Alto Comissariado para a Imigração e Minorias Étnicas. o Estado Português em busca de novas tendências de inclusão local do imigrante tem desenvolvido políticas próprias e sérias para o enquadramento da imigração legal. A isso se dá em face da completa exclusão social do ser humano (do indivíduo) na realidade que o cerca no Brasil. acreditando realizar em um novo país as perspectivas frustradas na sua pátria de origem. Estudo realizado por tal entidade revelou que os imigrantes influenciam e enriquecem a pátria portuguesa frente às questões de ordem financeira (65 mil contos investidos no país. seguridade social e saúde pública. identificando-se com o país em face da identidade lingüística. a política de acolhimento do imigrante sem os freqüentes questionamentos de raça. A nível europeu. A exemplo de tais assertivas. cujo intuito é diminuir o sofrimento dos imigrantes que partem deixando sua família no Brasil. ano base 2004). não se pode deixar de ressaltar o papel das entidades de acolhimento aos imigrantes no esforço em fazer cumprir em território português a legislação comunitária pertinente ao reagrupamento familiar. encontra-se o país envolvido em grave crise de inclusão social ao longo das última duas décadas. importante que se observe o cenário económico e as perspectivas sociais existentes no Brasil. Cabe ressaltar que nem sempre se encontra no país receptor tais políticas dignas e de recepção ao imigrante. buscando a inclusão menos traumática para este individuo na cultua local. cujo trabalho realizado orienta com cartilhas. leva o cidadão a busca de novas fronteiras. Mesmo diante de situações adversas na política internacional. levando-se em conta.5 Pertinente à primeira situação. cujo afastamento das classes menos favorecidas ao acesso dos meios justos e honestos de emprego. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . demográfica (povoamento de locais não desejados pelos habitantes locais. não lhe restando alternativa senão vender de forma irresponsável a sua força de trabalho em países em troca de tratamento sério e digno as condição de cidadão. cor e escolaridade. ademais. natos) e cultural (sociedade diversificada com perspectivas de aberturas de mercado).

Outro fator de observação importante na consideração dos imigrantes são aqueles apontados por pesquisas recentes demonstrando a desvinculação entre os índices de violência. trata-se de questão humanitária de fiel recepção dos familiares. Diante de tais fatos. quais sejam.6 Com efetividade a este programa. é. retribuindo-lhe com o reconhecimento prático da sua força de trabalho. cultural e ou econômica. colocando Portugal na segunda posição de investimentos internos no Brasil nos últimos cinco anos. a ruptura entre desemprego. somente no Brasil encontram-se os investimentos portugueses na ordem de bilhões de euros. que respeita as condições humanas. Destarte. havendo o favorecimento ao imigrante legal que traga ao seio da sociedade acolhedora aqueles entes familiares (cônjuges e filhos) para a formação da entidade familiar. qual seja. demonstra-se a urgente necessidade de se delinear o efetivo papel do Estado nas políticas migratórias quando se tem por objeto o imigrante sem qualificação social. financeiras e sociais cuja economia local alcançou níveis altíssimos. inclusive com investimentos sólidos e altos nos países em desenvolvimento. De forma distinta. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . emprego e exercício do direito de integração entre os nacionais e os imigrantes. com a inclusão de novas perspectivas econômicas. encontram-se os imigrantes integrantes da segunda categoria ou gênero. contribuindo de forma clara na agregação deste ser na comunidade acolhedora. necessidade de se incluir em uma sociedade plural justa. buscando na fonte as novas técnicas e meios científicos. não havendo dessa forma qualquer vínculo e ou relação direta entre a elevação das taxas de desemprego com a corrente migratória evidenciada. buscam os profissionais brasileiros qualificados e ou em vias de qualificação um melhor aproveitamento desta política de investimentos e desenvolvimento econômico. aqueles que migram em busca de melhores condições profissionais e ou em face do melhor aproveitamento acadêmico em Portugal. pois. eis que as causas de sua busca migratória e a retórica desenvolvimentista. Frise-se que as condições profissionais portuguesas após a sua inclusão no mercado comum europeu se deu de forma alarmante. não mais deixando na marginalidade os agregados da imigração. violência e usurpação de postos de trabalhos locais pelo imigrante brasileiro. desejando realizar em Portugal trabalhos de aprendizado.

civil. em face da concentração secular de boas escolas e centro de estudo. Sendo o ser humano aquele capaz de lançar-se em busca de novas perspectivas vitais. do estrangeiro e do individuo. exceto quanto aos direitos políticos. inobstante a categoria que possa vir a integrar-se. próxima dos grandes centros internacionais e integrante do maior e mais rico continente do globo. Assim. buscando a atualização profissional a ser aplicada no seu país de origem. desenvolvida e próspera. peculiar interesse têm em desenvolver técnicas de aprendizado e melhor aproveitamento das teses e conhecimentos do velho mundo. a Europa. convertendo seu conhecimento em garantias de melhores condições de empregabilidade e inclusão profissional. como são conhecidos nos centros de estudos migratórios. eis que a sua satisfação migratória se deu em face da necessidade em melhor aparelhar seus currículos e estudos no exterior. novas perspectivas em uma pátria rica. diametralmente oposta encontram-se aquel’outros que migram frente a necessidade de melhorar suas condições humanitárias. sendo o cidadão aquele ser humano que possui o exercício e gozo dos direitos civis. a exemplo da Constituição Européia que assim o deseja.7 De igual sorte encontram-se os profissionais em busca de novas perspectivas acadêmicas. quer se enquadrem no gênero de imigrante sem a devida escolaridade ou integrante do grande sistema de inclusão social no país emigrante (Brasil). necessário se faz a reflexão sobre a necessidade de se admitir a inclusão social. Posta tais questões. consolidando-se como o grande coletivo de imigrantes que povoa o território português. ai se incluem aqueles que buscam na pátria acolhedora o fortalecimento dos conhecimentos científicos e acadêmicos. tem a comunidade de imigrantes brasileiros constituído-se naquela que mais cresceu desde o final da década de noventa até os dias atuais. volta-se a se a realizar as constantes indagações acerca da urgente e necessária diretiva acerca da cidadania. Vislumbra-se que tais pessoas retornam na sua maioria ao seu país de origem. Com referência aos imigrantes acadêmicos. adquiridos ou natos. ou seja. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . eis que não possuindo grau de instrução e ou condições próprias necessárias para se fazer incluir em mercado de trabalho ríspido no Brasil buscam em Portugal uma fonte de nova vida. econômica e laboral do estrangeiro. pois estes são inerente dos nacionais. em face da sua inclusão na sociedade.

atendendo-se aos anseios da cidadania? Qual o retorno. os diminutivos culturais e o temido choque de costumes. faz-se indagar: é fundamental diminuir a influência do estado na construção de uma nova acepção sobre as estruturas de um novo regime democrático. democrática. quer como elemento de desenvolvimento social. não se pode deixar de auferir que a cidadania é elemento constitutivo da sociedade devidamente instituída e legalmente formada. trazendo para o conjunto de análises da constituição de uma sociedade integrada o respeito na elaboração de políticas públicas exigíveis no plano da migração. a cidadania do imigrante somente poderá se efetivar quando o Estado reconhecer a necessidade de se desenvolver políticas publicas adequadas à inserção deste coletivo sob o prisma do reconhecimento social via inserção laboral.8 quer sejam aqueles que buscam um aperfeiçoamento no seu grau de enriquecimento humano. Em conclusão. sem fazer delinear para com os seus novos compatriotas as diferenças. em especial a necessidade de cobrança da atuação efetiva e proactiva do Estado e das demais Instituições em favor da formação do Homem? Desta forma. buscando no país receptor (Portugal) a pátria que poderá conceder melhor perspectiva de engrandecimento intelecto-social. posto que o retrato da democracia nestes países assolados pela falta de investimentos de base e total desrespeito ao homem e a cidadania. do esforço de se alertar as novas gerações sobre tais questões que preocupam a sociedade moderna. muitas vezes arrasadores na aceitação do coletivo ante a nova perspectiva de vida por ele sonhada ao chegar na sociedade que o acolhe. eis que somente a adoção de políticas adequadas ao reconhecimento da força ativa em proveito da construção da sociedade que o acolhe o cidadão imigrante poderá sentir-se fortalecido o suficiente para aceitar a integração plena. reconhecendo o efetivo ajuste desta sociedade sob ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . quer na qualidade de vetor imprescindível a este desenvolvimento. ao que tange à formação de uma consciência política e social. Conclusão Tais questionamentos refletem a ligação do homem como reflexo da sociedade na qual se encontrar engajado.

Ethos. Los sistemas perversos y la corrupcion institucionalizada. Rio de Janeiro.9 o ângulo do imigrante que se insere na comunidade que o acolhe. traçando um panorama plausível na elaboração de meios reais para melhor acolher o imigrante brasileiro em Portugal. Madrid. _______ Imigração: os mitos e os factos. Da Comunidade Internacional e do seu Direito. edição 2005. MacGrawhill. ed. Solange. nomos. assim como analisando de forma plena as políticas de acolhimento. Makron Books e PUC – RIO. Coimbra editora. (1997). VERGINIÈRES. Referências Bibliográficas ETKIN. (1996). Rui Manual Gens de Moura. Adolfo. La doble moral de las organizaciones. Civilização Brasileira. Construindo a cidadania. VASQUEZ. Laércio Dias. ACIME – Alto comissariado para a Imigração e Minorias Étnicas. São Paulo. (1986). Coimbra. Paulos. MOURA. língua e hábitos similares entre tais coletivos. Ética. levando-se em consideração os conceitos básicos de similitude de cultura. Jorge. RAMOS. (1996). ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Ética e Política em Aristóteles: physis. (1998). São Paulo.

Com particular recurso aos debates plenários.Porto cramos@ufp O presente texto apresenta o ponto de partida metodológico e as linhas gerais da operacionalização de um estudo decorrente sobre discurso político parlamentar e integração de imigrantes. a decorrer no âmbito do projecto Processos de integração social e económica de imigrantes do Centro de Estudos de Antropologia Aplicada da Universidade Fernando Pessoa. análise de discurso. uma explicitação do plano e pressupostos da pesquisa em curso. no actual contexto político português. aborda o modo como o discurso político constrói a integração de imigrantes. Palavras-chave: imigração. Centrando-se no discurso político parlamentar. nomeadamente nas vertentes da discussão e tomada de decisão legislativa e do controlo da execução de políticas. o trabalho abordará não apenas a dimensão da construção ideológica associada ao discurso de cada uma das forças políticas representadas no Parlamento português. Estrutura-se em torno de três itens fundamentais: uma abordagem breve à análise de discurso. o projecto procura identificar. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .Discurso político e integração de imigrantes: uma análise do discurso parlamentar Cláudia Toriz Ramos Centro de Estudos de Antropologia Aplicada . uma apresentação de ideias emergentes de trabalhos recentes de análise do discurso parlamentar. de forma diacrónica. nas ciências sociais e política. as linhas estruturantes das posiçõestipo assumidas em matéria de imigração pelas diferentes forças políticas em presença. discurso político. O presente trabalho. mas atendendo também ao enquadramento do processo legislativo. parlamento. mas também a forma como essa dimensão se cruza com o pragmatismo político-institucional.pt Universidade Fernando Pessoa . integração.

mas sim o plano que para ela foi gizado e a sua razão de ser. para o contexto parlamentar português e para o tema da imigração. centrada no modo como o discurso político parlamentar constrói a integração de imigrantes. a psicologia social. o segundo. uma apresentação de ideias emergentes de trabalhos recentes de análise do discurso parlamentar. o terceiro. não necessariamente contínuas entre si (Wetherell. Daí decorre também a análise das interacções inerentes ao diálogo entre os falantes e. encarada na perspectiva das metodologias de investigação das ciências sociais. deve ser colocada. do ponto de vista disciplinar. Ao presente. a ciência política e as ciências da comunicação usam de forma recorrente a análise de discurso.2 Esta comunicação corresponde a uma notícia preambular sobre essa perspectiva de abordagem à problemática da imigração. O texto que se segue estrutura-se em torno de três itens fundamentais: o primeiro. para os objectivos do presente trabalho. não se pretende apresentar resultados. 2001a). Estando esta abordagem na sua fase inicial. um breve apontamento acerca da análise de discurso. referir. no quadro teórico e metodológico das ciências sociais e política. a linguística. terão a acepção de que o discurso é parte da acção social e como tal pode ser estudado. Do ponto de vista metodológico. do contexto social do discurso (Wetherell. a antropologia. Esta linha de estudo. que não caberá. mas também a sociologia. 2001. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . por relação com o âmbito teórico e temático da antropologia. sendo assim este um contributo transdisciplinar. sobremaneira. Se abordados os suportes teóricos e filosóficos dos diversos modos de análise do discurso encontra-se também uma pluralidade de posicionamentos. Taylor e Yates. uma explicitação do modo de operacionalização da presente pesquisa. A análise do discurso político A análise de discurso. no âmbito dos estudos de ciência política sobre discurso político parlamentar. corresponde a um vasto campo de estudo que toma o discurso – oral e/ou escrito – como objecto. 2001. 2001a). Em comum. tais abordagens subdividem-se numa pluralidade de práticas investigativas. de forma mais lata. Taylor e Yates.

Ver. assim. em sentido lato. 2002). 2004: 6.3 A análise do discurso político é. na argumentação e contra-argumentação de causas. Waever. 1 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Neste sentido. traduzido). 2001. 2004: 6). 1992) específicas do âmbito da política. considerando-o circunstancial ou mesmo Também em Waever: «…a linguagem é um sistema e podemos estudar a sua estrutura como um estrato separado da realidade» (2002: 29). Hansen. a acção política é o próprio discurso (Chilton. ou pouco razoáveis (2004: 199. em declarações públicas as estruturas e os padrões que regulam o debate político fazendo com que algumas coisas possam ser ditas enquanto outras seriam sem sentido ou menos fortes. Outro aspecto salientado pelo autor é o das características de sistematicidade e coerência do discurso político. Em alguns casos. 2006. Hansen. Isto é. “comunidades de discurso” (Porter. construídas através do discurso. Waever afirma 1 : A análise de discurso procura identificar. numa perspectiva ligeiramente diferente. considerando-o interessante por si próprio. Definem-se. Poder-se-ia dizer que a política democrática começa no discurso e por vezes mesmo nele se finda (Chilton. As abordagens ditas cognitivistas tenderão a procurar aplicar parâmetros de verdade ou falsidade ao discurso. a análise de discurso pode centrar-se “apenas” neste. em diversos âmbitos da ciência política. cujas características cabe analisar. a palavra assume um papel nuclear na explicitação de ideias. porque. Muitos dos estudos recentes baseados nesta abordagem filiam-se. Todavia. e ao contrário do que o senso comum frequentemente afirmará sobre o mesmo. no entanto. nos planos teórico e metodológico. Diez. Rosamond. enquanto construção mental ou realidade ideada. também uma abordagem em expansão. na captação de adesões. no contexto da política democrática contemporânea. É corrente que tais análises se centrem no estudo das “estruturas de sentido”. Por um lado. por relação com o pensamento. na tomada de posições públicas. as percepções e as crenças dos sujeitos. nos paradigmas construtivistas e pós-estruturalistas aplicados à ciência política (Adler. ressalvando-se a sua maleabilidade a diferentes abordagens teóricas de fundo. 2006). a abordagem ao discurso é entendida essencialmente como uma metodologia. 2001. Chilton (2004: 21). 1997. Por outro porque. independentemente de referenciais de verdade ou falsidade.

» (Waever. sobre os discursos de extrema direita na Alemanha (2001: 32). em cada domínio. Do ponto de vista metodológico este modelo de abordagem releva mais da hermenêutica do que dos métodos analítico-dedutivos. procuram descrever e explicar o padrão específico dos sistemas de linguagem e da comunicação verbal» (2001: 19-20. da retórica. Wodak e Meyer. nomeadamente do político. mas também uma larga análise de contexto. os de Reisigl e Ruth Wodak (2000. Meyer afirma: «As teorias do discurso visam a conceptualização do discurso enquanto fenómeno social e procuram explicar a sua génese e a sua estrutura. centradas em técnicas linguísticas de análise detalhada do texto (Waever. Veja-se por exemplo a afirmação de van Dijk: Para lá da descrição ou de aplicações superficiais. Um terceiro aspecto prende-se com os tipos de análise de discurso em presença. 1995. 2002: 30. a abordagens “micro”. por exemplo. outras questões. teorias da argumentação. O autor contrapõe abordagens “macro”. traduzido). 2001:1. os que são responsáveis. por enquadrar técnicas de análise linguística. São exemplos de estudos desenvolvidos nesta perspectiva. dos interesses ou da ideologia. a ciência crítica formula. O autor afirma: “Os analistas do discurso estarão mais frequentemente interessados em perceber como um político argumenta do que estarão interessados no que ele diz. traduzido).4 errático. da gramática. tias como as da responsabilidade. 2004: 201). e os que têm os meios e a oportunidade de resolver esses problemas (cit. embora com terminologia algo diferente. Tirar daí consequências para a acção política é assim intenção expressa. este revela uma estruturação interna sólida e continuada. que procuram identificar padrões de conjunto do quadro conceptual do discurso político. M. parte de problemas sociais prementes e consequentemente opta pela perspectiva dos que mais sofrem. 2001) que publicaram «The semiotics of racism» e 2 A este propósito. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Esta distinção é também utilizada por Meyer./ As teorias linguísticas. traduzido). entre outros: os de Siegfried Jäger. Esta escola tem desenvolvido o seu trabalho com relação com a “teoria crítica” e assume posicionamentos normativos. in Wodak. Uma outra linha de abordagem define-se no quadro da chamada “análise crítica do discurso” a qual conjugará ambas as dimensões. 2001: 19-20) 2 . e analisa criticamente os que estão no poder. em associação com a ideologia e as relações de poder (Fairclough. 2001). Em vez de focar problemas puramente académicos ou problemas teóricos. ao distinguir teorias do discurso de teorias linguísticas (Meyer.

). Suécia. Os autores basearam-se substancialmente numa análise da construção das ideias de nação. não procura chegar ao pensamento ou aos motivos dos actores. (…) Se nos limitamos ao nível do discurso. Desse ponto de vista. cuja aparência de alguma desestruturação interna se dissolve quando se identificam os núcleos de sentido recorrentes que ele comporta (Waever. Do ponto de vista metodológico. Afirma ainda: A análise de discurso trabalha sobre textos públicos. Tal análise visou justamente identificar e interpretar as posições chave estruturantes do ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . 2005. não sendo um exercício novo. ganha todavia novas perspectivas. de estado e de Europa. em matéria de investigação politológica. Finlândia e Noruega. 2002: 26. o discurso populista e o discurso racista. um bom exemplo é a obra editada por Waever e Hansen (2002) sobre identidades nacionais no contexto da integração europeia.d. Numa óptica que se reclama do pós-estruturalismo. 2002: 42). Waever apresenta a tarefa do investigador como «a procura de pequenas constelações de conceitos que produzem um núcleo de sentido. traduzido). a partir do qual muito do discurso nacional poderá ser gerado» (2002: 24). O discurso parlamentar A análise do discurso político parlamentar. pela autora do presente texto (Ramos. no discurso político e parlamentar. s. respectivamente sobre identidade nacional e integração europeia e sobre construção do Estado. às suas intenções secretas ou aos seus planos. Este último aborda o discurso do anti-semitismo. se enquadrada nos enfoques de análise do discurso acima referidos. a lógica dos seus argumentos torna-se muito mais clara (Waever. Rhetorics of racism and antisemitism».5 «Discourse and discrimination. o modelo desenhado por Waever foi já aplicado ao discurso parlamentar português. o autor chama a atenção para a coerência das representações evidenciadas no discurso parlamentar. para os casos dos quatro países escandinavos – Dinamarca. Em parte.

Temas circunvizinhos como a nacionalidade. entre outras. Discurso parlamentar português e imigração Como foi anteriormente explicitado. de acordo com a agenda política e parlamentar. por isso.6 discurso parlamentar. segurança e justiça e o discurso de direitos serão também analisados. por uma sociedade tradicionalmente de emigração e com episódios muito recentes de fortes fluxos emigratórios. preparação prévia. e bem assim o contexto em que as questões surgem (nomeadamente. são também identificadas e analisadas as alusões à emigração portuguesa. eventualmente positiva. Esta análise disseca o discurso parlamentar num nível “micro”. a cidadania. Estão. constitui uma hipótese de trabalho interessante mas carece de comprovação. Chilton (2004: 92-109) apresenta ainda uma outra abordagem ao discurso parlamentar. o que poderá vir a permitir uma análise comparativa entre os discursos de imigração e de emigração. A ideia de que a questão da integração de imigrantes possa ser vista de uma forma particular. centrando-se no parlamento britânico e em particular nas sessões de perguntas e respostas (“question time”). procurando a sua correlação com o contexto político e com os posicionamentos político-partidários. agenda política. o espaço de liberdade. debate corrente nos media). ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . para os temas mencionados. Porque a questão é histórica e sociologicamente premente para a sociedade portuguesa. o emprego. a ser isolados e analisados os debates em que o tema é abordado. A ideia de fundo é identificar no debate parlamentar as posições chave assumidas pelos diferentes partidos políticos e governo relativamente à questão da imigração. observando detalhadamente a estrutura das interacções (inclusivamente as não verbais) estabelecidas na arena parlamentar. Deste trabalho parece ressaltar. o presente projecto de investigação decorre do cruzamento do projecto «Processos de integração social e económica de imigrantes» com a perspectiva de investigação sobre estruturas discursivas do debate parlamentar português. a necessidade de estudar cuidadosamente as estruturas regimentais e informais de enquadramento do discurso parlamentar.

Por outro lado.7 O estudo pretende-se longitudinal. Para a análise de contexto. enunciada acima. permitindo assim a detecção dos temas que ditam ou condicionam a actividade parlamentar. Por sua vez. no seu tudo. nomeadamente no que respeita à hipótese sustentada numa análise comparativa. A análise micro. revelar-se de alguma utilidade. poderá. O procedimento que tem vindo a ser seguido filia-se nas linhas gerais da orientação para a aplicação da análise de discurso às ciências políticas como a apresenta Ole Waever (detecção de estruturas de sentido. o contexto económico e social de fundo e a identificação dos momentos-chave (“critical junctures”). isto é. em posteriores rondas de recolha de material. balizando-se entre 1976 e a actualidade. e uma vez que o fenómeno da imigração em Portugal tem uma forte correlação com a integração de Portugal no espaço territorial. A documentação em análise é constituída pelo registo escrito dos debates plenários parlamentares. utilizam-se também materiais complementares do debate público nos media e. que ainda não foi ensaiada. económico e político da União Europeia. os insights da análise crítica do discurso levantam um conjunto de questões que permitem reconduzir a análise do discurso à temática de partida do projecto de investigação. Encarado o Parlamento no seu interior. Por sua vez. A análise de contexto carece ainda de uma análise cuidadosa da agenda política concomitante com as iniciativas legislativas e debates parlamentares. para a história da democracia portuguesa. na evolução nacional e internacional da imigração. marcam os pontos de referência necessários a uma análise diacrónica. Entende-se que a análise diacrónica poderá acrescer à interpretação desta documentação. embora se admita que. supracitada). lhe possam vir a ser acrescentados documentos resultantes de trabalhos em comissão (e eventualmente registos vídeo de uns de outros). Este desenvolve-se a partir de 1986. é ainda relevante para a contextualização um estudo sistemático das condicionantes regimentais e do modus faciendi próprio do Parlamento português. a legislação relevante sobre os temas enunciados acima produzida no Parlamento. todo o processo político associado à integração europeia é relevante para a compreensão do objecto. à questão das atitudes sociais e políticas condicionantes da integração dos migrantes e ao debate sobre os modos da ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . como não poderia deixar de ser. em fase posterior. mas é antecedido por toda uma preparação política e legislativa de que os debates parlamentares fazem eco e parte constituinte.

Londres. “Speaking ‘Europe’: The Politics of Integration Discourse” in Christiansen. Ruth e MEYER. Ainda assim. Lene. 14-31. Londres. “Seizing the Middle Ground: Constructivism in World Politics” in European Journal of International Relations. Longman. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . FAIRCLOUGH.). Taylor & Francis. Londres. Londres. De outro modo dito. 1995. “Discourse and knowledge: theoretical and methodological aspects of a critical discourse and dispositive analysis” in Wodak. Antje (eds. Siegfried. Lene e WAEVER. maior normatividade do que aquela que é inerente a todo o acto de investigação científica. Jorgensen. Knud e Wiener. 3 (3): 319-363.8 operacionalização de tal integração. Michael (eds. Michael. Londres. 2004. The Social Construction of Europe.) 2001. Londres. 1997. o discurso parlamentar ganhará certamente acrescidas potencialidades de leitura. Methods of Critical Discourse Analysis. 2001. HANSEN. Critical Discourse Analysis: The Critical Study of Language. Michael (eds. não se assume.) 2002. Sage. DIEZ. a tendência dominante seja a da afirmação da necessidade da integração. No quadro da análise dos posicionamentos ideológicos e das relações de poder. The Social Construction of Europe.). Norman. Security as Practice: Discourse Analysis and the Bosnian War. nas finalidades deste trabalho. Londres. Sage. MEYER. HANSEN. Ole (eds. “Between theory. Londres. method and politics: positioning of the approaches to CDA” in WODAK. JORGENSEN. Paul. Emmanuel. 32-62. Thomas. Referências Bibliográficas ADLER. Antje (eds. Methods of Critical Discourse Analysis. CHILTON. Sage. 2006. The challenge of the Nordic states. Thomas. sendo hipótese plausível à partida que.). 85-100. JÄGER. Analysing Political Discourse: Theory and Practice. 2001. Routledge. Knud e WIENER. Ruth e Meyer. 2001. Sage. não é também de excluir a hipótese de que a desconstrução desses discursos possa evidenciar atitudes bem mais reticentes do que as que aparentemente emergem da letra do discurso político. no discurso político sobre imigração. CHRISTIANSEN. Routledge. European Integration and National Identity. Thomas.

).. 2001. “Discursive Approaches” in WIENER. communities and foreign policy: discourse analysis as foreign policy theory” in HANSEN. WAEVER. European Integration Theory. ROSAMOND. Ruth. Pamplona. Routledge. Margaret. WETHERELL.P.). Ben. Audience and Rhetoric: An Archaeological Composition of the Discourse Community. 158-173.) 2001a. TAYLOR. Discourse as Data: a Guide for Analysis. 2001. p. Ole (eds. Stephanie e YATES. Londres.) 2001.P. Oxford U. Thomas (eds. Rhetorics of racism and anti-Semitism. Sage. 2001. Margaret. Discourse Theory and Practice: a reader. “Identity. Oxford. RAMOS. Londres. Michael e WODAK. European Integration Theory. 2001. Sage. Antje e DIEZ. WETHERELL. RAMOS. Londres. Vienna. WAEVER. The Social Construction of Europe. Knud e WIENER. 1-13. New Jersey. Antje (eds. Methods of Critical Discourse Analysis. Oxford U. Lene e WAEVER. Ruth e MEYER. s. 2004. “What CDA is about – a summary of its history. “Discurso parlamentar português e construção da identidade política no contexto da integração europeia” in Antropológicas. Sage. WODAK. Ole. Londres. European Integration and National Identity. TAYLOR. 2002. WODAK.) 2000. in a context of transnationalisation” in VIII Congreso de Cultura Europea.). Routledge. Ole. important concepts and its developments” in WODAK. “Discourses of Globalization and European Identities” in CHRISTIANSEN. Simeon (eds. Stephanie e YATES. JORGENSEN. 2005.).). Thomas. The challenge of the Nordic states. Univ. 1992. Joseph. WIENER. Navarra [prelo]. REISIGL. Simeon (eds.9 PORTER. 9: 67-96. Cláudia. Michael (eds. Prentice Hall. Passagen Verlag. REISIGL. Sage. Londres.).d. The semiotics of racism. 20-49. Ruth e MEYER. “Is Portugal a “strong state”? An analysis of Portuguese political discourse on the state of the state. Ruth (eds. Cláudia. Michael (eds. Londres. Oxford. Thomas (eds. Sage. Discourse and discrimination. Michael e WODAK Ruth. Londres. Antje e DIEZ. Methods of Critical Discourse Analysis. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .

Pressupõe a existência de condições económicas. em forma de reflexão. e releva. A ausência de uma política de imigração que considere. nele se radicam. Apresenta-se aqui um conjunto de opiniões e de percepções sobre a imigração e. isto é.OPINIÕES E PERCEPÇÕES SOBRE A IMIGRAÇÃO: CONTRIBUTO PARA A DEFINIÇÃO DE UMA POLÍTICA DE IMIGRAÇÃO PARA PORTUGAL Rui Leandro Maia Centro de Estudos de Antropologia Aplicada Universidade Fernando Pessoa – Porto A partir do tratamento de um vasto conjunto de informações provenientes da aplicação de um inquérito por questionário a uma amostra da população portuguesa de maior idade. o texto propõe um modelo possível de integração social e económica de imigrantes. é referência para a fixação de qualquer contrato social. para a necessidade premente de se fixar um Livro Branco para a imigração em Portugal. sociais e culturais de integração daqueles que a representam e não cabe em exclusivo aos decisores. descreve-se o que ela opina e percepciona sobre a imigração e os imigrantes. sobretudo. No pressuposto de que a sociedade civil. mutuamente. com capacidade executiva e legislativa. o perfil tipo do imigrante em favor da sociedade receptora deve conduzir à reflexão alargada muito para além do que julgam e podem ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . procura-se desenhar perspectivas sobre a imigração “de baixo para cima”. a partir do que sabem. pensam e querem o conjunto de respondentes a um questionário construído para o efeito. as tipologias de políticas de imigração que advoga em relação com os espaços sociais com que se identificam as “categorias” dos respondentes. encontrarem respostas satisfatórias à instituição de uma política estratégica capaz de servir. pluralista e dinâmica. o País e os que. vindos do estrangeiro. Introdução A imigração constitui uma matéria de enquadramento legal particularmente delicada. fundadas em percepções e em interesses parciais e não com base em conhecimentos sustentados sobre o que as populações pensam da imigração e dos imigrantes. e. com sentido prospectivo. para além do número. Mas a norma tem sido a de fixação de “políticas” de imigração “de cima para baixo”.

Os distritos onde residem estão também essencialmente concentrados pelo Norte do País.5 anos. 25. carece de ampla participação cívica na perspectiva de.3 anos. 2. sobretudo em relação ao mercado de trabalho capaz de absorver mão-de-obra possuidora de formação superior. em consequência de aqui estarem radicados muitos respondentes por estarem a estudar.0 por cento.6 por cento.2 aqueles que estão transitoriamente mandatados e. ao invés. com o distrito do Porto em maior evidência.8 por cento dos alunos.2 por cento.7 por cento. se associar ao processo imigratório uma política de integração. todos universitários de cursos de licenciatura em regime diurno ou em regime nocturno.3 por cento. com um intervalo de amplitude de 46 anos. 82.3 por cento e 2. e os restantes 97. e do de Viana do Castelo.8 por cento. os casados e os que estão a viver maritalmente 9. de outras confissões. Os respondentes nascidos no estrangeiro representam 7. Os alunos nascidos no distrito de Aveiro representam 17. 63. e a idade média dos elementos dos 202 elementos do século feminino é de 23. valores que correspondem à oscilação esperada para os alunos que frequentam o ensino superior em geral. sendo residuais os valores referentes a outras categorias possíveis de estado civil. considerando os do ensino pré-universitário. respectivamente. A preocupação em relação à situação económica é manifesta por 78. com 5.5 por cento.7 por cento.9 por cento. uma minoria. seguido do de Braga. com estratégia. 2.3 por cento do total.4 por cento. São sobretudo de religião católica. com 10. e do de Viana do Castelo. com um intervalo de amplitude de 40 anos. O número de alunos que exerce ocupação / profissão.3 por cento do total dos respondentes. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . valor elevado e compreensível tendo em conta o estado da economia nacional e internacional e as baixas oportunidades de emprego.3 por cento. com 15. é significativo. com o distrito do Porto em evidência. E essa só se alcança com aceitação e participação social alargada. Estão sobretudo adstritos a actividades relacionadas com o comércio e os serviços. Os solteiros representam 86. As origens geográficas dos alunos estão essencialmente concentradas pelo Norte do País. com 7. seguido do de Braga.3 por cento. com 12.1 por cento de respostas referentes à não filiação em qualquer credo e.3 por cento. A idade média dos 98 elementos do sexo masculino inquiridos é de 25. 43.

Tem por base empírica a recolha de informações por um inquérito por questionário que. As opiniões dos respondentes são aqui literalmente transcritas. com 1.6 por cento e a esquerda com 19. 21. no trabalho. exploram-se sobretudo questões relacionadas com algumas perspectivas sobre a imigração. descreve que eles ocorrem no dia-a-dia.7 por cento.3 Quanto à orientação política. considerando.7 por cento refere contactar com imigrantes nas terras onde residem quando não estão no Porto e 8. não estando tão presentes. após validação. em espaços públicos. em ambiente de estudo. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .5 por cento.4 por cento. com vista à fixação de uma política estratégica. as que estão representadas entre nós com maior acuidade e as demais que. em número de trezentos. descreve-se o que querem os respondentes da imigração e dos imigrantes para Portugal em matéria de impedimentos.4 por cento.1 por cento e o centro-esquerda com 7. de autorizações e de qualidades relacionadas com escolaridade e com experiência de trabalho. em relação à imigração e à integração de imigrantes. apresentados os extremos valores residuais. 39. Para além dos elementos referentes à caracterização sócio-demográfica da amostra não representativa colhida. O posicionamento manifesto no texto parte do princípio de que as opiniões. Um pouco mais de dois terços. as percepções e as perspectivas sobre a imigração se relacionam e diferenciam em função e consoante as regiões de origem dos imigrantes. dos 300 indivíduos respondentes. 68. a direita com 21. simultaneamente. por isso. com 0.3 por cento contacta com imigrantes em casa. dos respondentes não tem contactos frequentes com imigrantes. Metodologia Esta proposta assenta no princípio de que a sociedade civil deve ser auscultada. Mas é de relevar que. frequentador habitual das bibliotecas da Universidade Fernando Pessoa – Porto. o centro-direita com 9. 70. ou seja. e a extrema-esquerda.0 por cento. uma divisão dicotómica coloca os indivíduos situados à direita e em minoria.9 por cento. Dos que referem ter. foi lançado na primeira quinzena do mês de Março de 2006 a um público específico. a maioria.9 por cento manifesta não saber ou não responder sobre a orientação política que os norteia. respectivamente a extrema-direita.

uma vez que a investigação de conjunto está ainda em desenvolvimento e terá conclusão prevista até ao final do ano de 2007. acham que o Estado não deve seleccionar. dos que dizem não saberem ou não responderem. permite entender como se posicionam em relação à imigração e ao que pretendem. dos que têm entre os 15 e os 19 anos. para cada uma das opções tomadas. A maior parte dos respondentes considera que ela deve situara-se nos que têm entre os 20 e os 29 anos. 11. Uma análise dos discursos dos respondentes. e dos que têm mais de 50 anos. Para os que entendem que os imigrantes devem vir para Portugal entre os 20 e os 29 anos os discursos podem dividir-se em três grupos: ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Mas os restantes 40. Conquanto não exista qualquer manifestação de preferência de fixação dos imigrantes no nosso País pelo seu sexo.5 por cento. 1. Os dados apresentados são ainda de nível exploratório primário. dos que têm menos de 15 anos.2 por cento.0 por cento.7 por cento. configuram explicações reveladoras de preferências por uma imigração condicionada à existência de um a série de requisitos. 7. fundamentalmente variável a variável. 37. dos que estão entre os 30 e os 39 anos. seguidos dos que aceitam a imigração em qualquer idade. dos imigrantes. Discussão de resultados A maior parte dos inquiridos. por entender ser melhor. os estrangeiros que querem vir para Portugal. Essas preferências remetem para a existência de uma consciência sobre a imigração e a necessidade de se adoptarem políticas estratégicas para o País e é sobre elas que este texto reflecte.3 por cento. de qualquer forma. 20.7 por cento. 19. 2.4 também induzam à tomada de posições relativamente ao conjunto de questões contempladas. há uma manifestação dispersa pelas categorias consideradas sobre se a imigração deve corresponder a determinada faixa etária. 58.5 por cento.7 por cento. face às questões que aqui foram consideradas para tratamento e análise.5 por cento.

com espírito de trabalho e disponibilidade. O que justifica a idade por motivos educacionais. São os mais produtivos. 2. por cento das explicações aduzidas: • • De preferência. Pessoas mais novas. representando 39. Idade onde eles podem contribuir para o desenvolvimento do País mais activamente. já adquiriram um nível de educação superior à média. que querem ganhar dinheiro. às suas expectativas e ambições. Pessoas com ambição e com vontade de trabalhar. relativamente jovem. dos imigrantes a admitir no País por motivos económicos e sociais essencialmente. O que justifica a idade.0 por cento das justificações aduzidas: • • • • • • • • • • • • • • A população portuguesa está a ficar envelhecida. podendo contribuir para o crescimento sócio-económico. A entrada de imigrantes jovens e com formação superior e conhecimentos é uma mais-valia para o País.3 por cento das explicações aduzidas: ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Porque são idades em que o rendimento/ produtividade no trabalho é maior. e vêm para o País trabalhar e não beneficiar de ajudas. representando 7. como é o caso dos idosos. São pessoas em início de vida.5 1. com capacidade. E o que apresenta motivos essencialmente associados à vida dos imigrantes. à partida. 3. para trabalhar e não para ter qualquer tipo de ajuda. supostamente. Contribuir para o desenvolvimento do País.1. Porque são jovens adultos. Física e psicologicamente mais preparados para o trabalho. Trata-se de uma idade em que a adaptação é mais fácil. Porque se encontra em idade de produção. daí trabalharem e serem importantes para o desenvolvimento económico do nosso País. representando 50. Fase de maior capacidade física e psicológica. Porque já possuem alguma escolaridade e já são maiores de idade. A formação de um aluno fica cara ao Estado. às suas realizações pessoais.

O que justifica a admissão dos imigrantes por motivos económicos e sociais essencialmente.. caso não a tenha no seu país de origem. a conhecer locais novos. a sua sobrevivência tem que ser assegurada pelos pais ou familiares. Pelo facto de não serem menores. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . O que justifica a admissão dos imigrantes por motivos pessoais. não custa tanto nesta idade. Sendo menor.. Idade propícia a uma integração mais rápida e ainda com possibilidade de formação ideal. Estão numa idade de procurar uma vida melhor. • • • • • • • • • Encontram-se numa boa idade para começar a delinear livremente a sua vida. se calhar. mas que venham para trabalhar. 2. representando 44.2 por cento das justificações aduzidas: • • • Porque qualquer pessoa tem direito a tentar melhorar a vida. Todos somos iguais. representando 22. E esta integração. e por estarem num nível etário em que precisam de trabalho para serem alguém na vida. Porque é a idade onde começa uma nova vida e há mais perspectivas futuras. Jovens. É necessário ter em conta a fase de integração que é muito importante. Para os que entendem que os imigrantes podem vir para Portugal em qualquer idade os discursos podem dividir-se em quatro grupos: 1. Idade com melhor integração na comunidade.4 por cento das justificações aduzidas: • • • • A população deve ser controlada de modo a que não haja injustiças sociais Desde que queira trabalhar e não cause desemprego para os de Portugal. até porque é nesta idade que está patente a aventura. Por serem maiores de idade para poderem ter mais condições de vida. Poucas.6 • • A vontade de "crescer na vida" aumenta neste escalão etário. Mais expectativas nestas idades.

em consonância com a opção de resposta.7 3.2 por cento das justificações aduzidas: • • Não há idade determinada para se poder imigrar para qualquer país. O que justifica a idade dos imigrantes a admitir no País por motivos económicos e sociais essencialmente. Maior aptidão para o trabalho. adaptarse a uma nova cultura. Melhor [por] estarem dentro da idade para trabalharem. provavelmente. E o que.1. Idade adulta – mais responsáveis/ maduros/ com objectivos construídos. representando 22. são três as justificações avançadas: • • • A idade implica que estes tenham maturidade suficiente e valores definidos. O que justifica a admissão de imigrantes por motivos educacionais.7 por cento das justificações aduzidas: • • Aumenta o número de pessoas aptas para trabalharem e assim contribuem para o desenvolvimento económico do País. Penso que a idade não é determinante mas sim a motivação e os objectivos dos imigrantes. Embora os que referem não saber ou não responder não apontem qualquer grupo de idades. Para os que entendem que os imigrantes devem vir para Portugal entre os 30 e os 39 anos os discursos podem dividir-se em dois grupos: 1. 4. representando 11. alguma maturidade e. Relativamente novos – para. • • • Idade intermédia – aptos para trabalharem. sem vícios de trabalho. entender a língua portuguesa. não dão quaisquer motivos específicos para associar a idade ao acto de imigrar. com o seu contributo profissional. ajudarem a economia do País. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . representando 85. Não faz sentido falar em idade para a imigração ou emigração. Só se for para trabalhar seriamente. por cento das razões aduzidas: • Importância na aprendizagem da língua.

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Porque já são pessoas com experiência e a integração num novo país não vai ser tão dificultada.

2. E o que apresenta motivos associados à vida dos imigrantes, às suas realizações pessoais, às suas expectativas e ambições, representando 14.3 por cento das explicações aduzidas: • Porque terão uma idade mais madura para fazerem essa opção.

Para os que entendem que os imigrantes devem vir para com idade inferior a 15 anos os discursos referem-se a motivos de natureza social e económica: • • • Adaptação. Há uma melhor inserção no País de escolha. Não deveria haver imigração, mas, a haver, os imigrantes devem ser o mais possível novos: integram-se melhor. A existência de imigrantes é o oportunismo de alguns. • Pois seriam portugueses, pois iriam contribuir para o País como portugueses, desde terem a escolaridade obrigatória e mais tarde terem direito a uma reforma porque contribuíram para o Estado. • São criadas normas de ensino e saber estar num país que não é o deles. Logo, conseguem adaptar-se melhor.

Para os que entendem que os imigrantes devem vir com idades entre os 15 e os 19 anos, os discursos referem-se a motivos económicos e sociais: • • É a idade adequada para se adaptarem a quase tudo, têm maior independência e maior autonomia. Podem assegurar vários tipos de trabalho. Pois são pessoas ainda jovens que podem vir a realizar o trabalho que cá ninguém quer fazer, normalmente trabalhos mais forçados

Dos que entendem que os imigrantes devem vir para Portugal com mais de 50 anos nenhum respondente avançou explicações. A associação entre requisitos educacionais prévios e imigração identifica a prioridade para as pessoas que tenham realizado estudos, com 19,3 por cento e 26,9 por

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cento das manifestações para os adeptos de que os imigrantes devem, respectivamente, possuir a escolaridade equivalente ao nosso ensino secundário e ao nosso ensino superior. Os adeptos do primeiro e do segundo ciclos do ensino básico são em igual valor percentual, 2,5, e do terceiro ciclo do ensino básico são 5,9 por cento. No entanto, 6,7 por cento dos respondentes optam pela não exigência de qualquer frequência escolar para os imigrantes e 36,1 por cento não sabe ou não responde. A imigração por fases colhe 69,7 de respostas favoráveis, 6,7 de respostas não e 23,5 por cento de não respostas, não sabe ou não responde. O sim foi mais expressivo, 90,8 por cento, na questão do estabelecimento de um número máximo de pessoas a admitir por ano como imigrantes, ficando o não pelos 4,2 por cento e o não sabe não responde pelos 5,0 por cento. A maior parte dos respondentes considera que deve existir algum grau de restrição à entrada de imigrantes, com maior expressão para os que pensam que ela deve ser elevada e moderada, 25,0 por cento cada, seguidas de perto pelos que pensam que ela deve ser baixa, 20,0 por cento, e, a alguma distancia, muito baixa, 8,3 por cento. Apenas 12,5 por cento consideram que não deve existir qualquer restrição à imigração e 8,3 por cento não sabem ou não respondem. A manifesta restrição à entrada de imigrantes, para as três regiões mais expressivas, é revelada em relação à China, com 17,1 por cento, a Outros Países de África, com 11,2 por cento, e aos PALOP, com 10,3 por cento na categoria “muito elevada”; é de 21,4 por cento para a Europa de Leste e repete-se para Outros Países de África, com 19,8 por cento, e para os PALOP, com 18,8 por cento na categoria “elevada”. As manifestas exigências de grau de escolaridade dos imigrantes são maioritárias na categoria “moderado”, com 50,4 por cento, “elevado”, com 33,1 por cento, “muito elevado”, com 3,3 por cento, “muito baixo”, com 1,7 por cento, “baixo”, com 0,8 por cento. 10,7 por cento, não sabe ou não respondem. As maiores exigências em relação ao grau de escolaridade colocam-se, naturalmente, em relação a quadros superiores, 45,5 por cento “muito elevada”, e em relação a técnicos profissionais intermédios, 57,0 por cento “muito elevada”. Para as profissões e ocupações de menores exigências habilitacionais a expressão de requisitos escolares é dominada pelas categorias “moderada” e “baixa”.

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Da mesma forma em relação às maiores exigências em relação ao grau de experiência profissional para os quadros superiores, 44,2 por cento “muito elevada”, e em relação a técnicos profissionais intermédios, 45,0 por cento “muito elevada”. Para as profissões e ocupações de especialização a expressão do requisito experiência é dominada pelas categorias “elevada” e moderada”.

Nota de conclusão A posição de que ao Estado não cabe seleccionar, de qualquer forma, os estrangeiros que querem vir para Portugal é reveladora, na expressão maioritária que tem e tendo em conta as características dos respondentes – pessoas com um nível educacional acima da média – da ausência de uma consciência cívica estratégica para a imigração e para os imigrantes. É de assinalar que 58,7 por cento dos respondentes acham que o Estado não deve seleccionar os imigrantes. E para os restantes regista-se que: • Apesar de 37,5 por cento entender que os imigrantes devem vir para Portugal entre os 20 e os 29 anos, não há uma definição marcante de idade ideal. • As justificações sobre as opções de idades de imigração são, fundamentalmente, de carácter económico e social, seguidas das relacionadas com as competências educacionais e das relacionadas com os interesses e as expectativas dos imigrantes, numa distinção que nem sempre é clara pelas categorias de análise expostas. Há uma manifesta tendência pelas respostas justificativas da imigração como um todo por aquilo que a mesma representa de vantajoso para o País e não para as pessoas. • Há uma assunção clara pela aceitação de imigrantes com formação média e superior, uma associação entre as competências educacionais de base e as competências exigidas para o trabalho a desenvolver em Portugal, bem como destas em relação à experiência profissional de base.

Parece consensual que não é possível nem é desejável, no quadro geoeconómico em que se insere Portugal, parar a imigração. É possível geri-la de modo a que responda ao desafio, quase utópico, de contribuir para um benefício triplo: entre os países que nela se envolvem e para os actores que a sustentam. E isso implica um conhecimento

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profundo do que a imigração e os imigrantes representam, em si e para a sociedade civil que com eles interage. O que se afirma é tanto mais importante quando a definição de uma política de imigração, para além do número, implica a preparação e a definição de uma política de integração de imigrantes, o que só se consegue com a colaboração da sociedade civil. O projecto a que este texto se associa pretende dar corpo a essa preocupação de auscultar o entendimento da sociedade civil, em forma de Livro Branco, sobre a imigração e os imigrantes. Ao que ele esboça, parece não existir um sentimento formado sobre o lugar da imigração e dos imigrantes na construção da nossa sociedade e, muito menos, sobre uma estratégia imigratória para o País.

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Este questionário destina-se a recolher informações junto de cidadãos portugueses de maior idade sobre a imigração e os imigrantes, ou seja, sobre aqueles que, sendo estrangeiros, fixaram residência em Portugal. Está dividido em três partes cada qual com a sua função: a primeira, de carácter identificativo, visa caracterizar os respondentes; a segunda, de carácter valorativo, visa perceber o que opinam e percepcionam os respondentes sobre a imigração e os imigrantes; a terceira, de carácter prospectivo, visa perceber que tipos de imigração defendem os respondentes. A sua participação, com resposta a todas as questões, é muito importante. I – Caracterização sócio-demográfica 1. Idade Anos 2. Sexo Masculi Femini no no

Solteiro(a)

Casado(a)

3. Estado Civil A viver maritalme Divorciado Separado(a nte (a) )

Viúvo(a)

Outra situação

4. Tem filhos? Sim Quantos ? Não

5. Qual é o grau de escolaridade mais elevado que frequenta ou frequentou? 1º Ciclo ou 2º Ciclo ou 3º Ciclo ou Ensino Nenhuma Ensino Ensino Ensino Ensino Secundário, frequência Primário, 1ª, Superior Preparatório Médio, 7, 8º 10º, 11º e 12º escolar 2ª, 3ª e 4ª , 5º e 6º anos e 9º anos anos classes

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6. Trabalha? Sim Se sim, em que trabalha? Não

7. Está preocupado(a) com a sua situação económica? Sim Não

8. Refira o distrito, o concelho e a freguesia onde nasceu Distrito Concelho Freguesia 9. Refira o distrito, o concelho e a freguesia onde vive habitualmente Distrito Concelho Freguesia

Nenhuma

10. Qual é a sua opção religiosa? Católica

Outra Qual?

11. Qual é a sua orientação política? Extrema direita Direita Centro direita Centro esquerda Esquerda Extrema esquerda Não Sabe/ Não responde

II – Opiniões e percepções sobre a imigração 12. Contacta frequentemente com imigrantes? Sim Não Onde? 13. Assinale o grau de simpatia que tem em relação aos imigrantes das seguintes regiões: Não Muito sabe/ Eleva Mode Muito Nenh Eleva Baixa Não da rada Baixa uma da respo nde União Europeia Europa de Leste Países Africanos de Língua

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Oficial Portuguesa Outros países de África América do Norte Brasil Outros países da América Central e do Sul China Outros países da Ásia Oceânia 14. Assinale o grau de importância que os imigrantes dão ao trabalho, segundo as seguintes regiões: União Europeia Europa de Leste Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa Outros países de África América do Norte Brasil Outros países da América Central e do Sul China Outros países da Ásia Oceânia 15. A impressão que os imigrantes têm e a forma como agem com os portugueses é: Não sabe/ Muito Modera Muito Boa Má Não boa da má respond e União Europeia Europa de Leste Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa Outros países de África América do Norte Brasil Outros países da América Central e do Sul China Outros países da Ásia Oceânia 16. A impressão que os portugueses têm e a forma como agem com os imigrantes é: União Europeia Europa de Leste Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa

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Outros países de África América do Norte Brasil Outros países da América Central e do Sul China Outros países da Ásia Oceânia 17. A presença de imigrantes influencia o número de crimes registados no País? Sim, eles Sim, eles são Sim, eles vítimas do são Não cometem Não Sabe/ vítimas do crime e o crime Não crime cometem Responde o crime União Europeia Europa de Leste Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa Outros países de África América do Norte Brasil Outros países da América Central e do Sul China Outros países da Ásia Oceânia 18. Trabalho e legislação. Os imigrantes: Sim Tiram o trabalho aos portugueses? Os que estão ilegais devem ter direito a trabalhar? São regidos por legislação adequada? Contribuem para o nosso desenvolvimento económico? Pagam os impostos que devem? E beneficiam desses impostos? 19. É função do Estado: Adoptar políticas de actuação específicas para os imigrantes Assegurar igualdade de tratamento entre nacionais e imigrantes Assegurar maior ajuda aos imigrantes Não Não Sabe/ Não Responde

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. o questionário termina aqui. Indique a melhor idade para os imigrantes virem para Portugal (assinale apenas uma opção): Menos Dos 20 Dos 30 Dos 40 Não sabe/ Dos 15 aos Mais de Qualquer de 15 aos 29 aos 39 aos 49 Não 19 anos 50 anos idade anos anos anos anos responde Justifique a sua escolha 24. sem tentar promover a sua inserção? 20. 22. O Estado deve dar preferência à entrada de imigrantes do sexo: Masculino Feminino Sem preferência 23. 10º. 11º e Superior escolar 1ª. o Estado deve dar prioridade a imigrantes com (assinale apenas uma opção): 1º Ciclo ou 2º Ciclo ou 3º Ciclo ou Ensino Nenhuma Ensino Ensino Não Ensino Secundário Ensino frequência Primário. O Estado deve seleccionar os imigrantes que querem vir para Portugal? Sim Não ⇒ para si. Sobre a escolaridade.16 Expulsar os imigrantes ilegais. 5º e 6º responde 8º e 9º anos 12º anos 4ª classes anos ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . 2ª. 7. Preparatór Sabe/ Não Médio. Aceitaria ter como imigrantes: Membros da sua família? Seus amigos? Seus vizinhos? Seus colegas de trabalho? Residentes nas imediações ao espaço onde você vive? Residentes no espaço onde você vive? III – Perspectivas sobre a imigração 21. 3ª e io.

Outros países da Ásia Oceânia 28. O Estado deve estabelecer o número máximo de imigrantes a entrar em cada ano? Sim Não Não sabe/ Não responde 27. Assinale o grau de escolaridade que os imigrantes devem ter para poderem desempenhar as seguintes profissões: Não Muito sabe/ Eleva Mode Muito Nenh elevad Baixo Não do rado Baixo um o respo nde Quadros Superiores da Administração Pública. Das seguintes regiões de origem dos imigrantes. indique o grau de restrição de entrada que lhes atribui: Não Muito sabe/ Elevad Moder Muito Nenhu Elevad Baixo Não o ado Baixo m o respon de União Europeia Europa de Leste Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa Outros países de África América do Norte Brasil Outros países da América Central e do Sul China. A integração dos imigrantes deve ser feita por fases? Sim Não Não sabe/ Não Responde 26. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .17 Justifique a sua escolha 25.

Dirigentes e Quadros Superiores de Empresas Especialistas das Profissões Intelectuais e Científicas Técnicos e Profissionais de Nível Intermédio Pessoal Administrativo e Similares Pessoal dos Serviços e Vendedores Agricultores e Trabalhadores Qualificados da Agricultura e Pescas Operários. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Assinale o grau de experiência profissional que os imigrantes devem ter no seu país de origem para poderem desempenhar as seguintes profissões em Portugal: Quadros Superiores da Administração Pública.18 Dirigentes e Quadros Superiores de Empresas Especialistas das Profissões Intelectuais e Científicas Técnicos e Profissionais de Nível Intermédio Pessoal Administrativo e Similares Pessoal dos Serviços e Vendedores Agricultores e Trabalhadores Qualificados da Agricultura e Pescas Operários. Artífices e Trabalhadores Similares Operadores de Instalações e Máquinas e Trabalhadores da Montagem Trabalhadores Não Qualificados O questionário termina aqui. A sua colaboração foi muito importante. Artífices e Trabalhadores Similares Operadores de Instalações e Máquinas e Trabalhadores da Montagem Trabalhadores Não Qualificados 29.

º : Telefone de contacto . n.facultativo: ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .19 Ficha Técnica do questionário N.º do questionário: Responsável pela administração: Data e hora: Local de realização e contacto do respondente: Av. / Rua.

buscar apoios materiais afectivos ou de outra índole e conceber espaços de segurança. funcionando também como redes sociais de encontro. Dolores Vargas Llovera Centro de Estudos de Antropologia Aplicada Universidade de Alicante As associações de imigrantes constituem uma estratégia clássica de ligação à origem e de luta pela integração no destino. ajustando-o ao novo ambiente social. de diversão. duas atitudes que podem parecer antagónicas. o mesmo acontecendo com os diferentes grupos de sul-americanos em Espanha. outras razões poderão ajudar a explicar este fenómeno. aos cuidados de saúde. sobretudo nos momentos chave da vida. as associações organizam-se no sentido de agir socialmente e politicamente a fim de que os seus membros possam ter acesso no lugar de chegada aos direitos elementares relativos à permanência e residência. Enquanto elemento dinamizador da presença e do enquadramento legal e profissional dos seus concidadãos. esse vigor. enfim. as associações cobrem objectivos de recriação dos modelos de origem. que aportam aos seus membros um pouco do lugar que deixaram. de ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .A integração dos imigrantes deve ser feita por fases? As associações de imigrantes latino-americanos na Península Ibérica Alcinda Cabral Centro de Estudos de Antropologia Aplicada Universidade Fernando Pessoa e M. ao reagrupamento familiar. o que permite colmatar os constrangimentos resultantes das diferenças ao nível das normas sociais e dos padrões culturais da sociedade de chegada. Todavia. ao trabalho. em que urge partilhar experiências. à escolarização dos filhos. elas vão actuar no sentido de integrar o seu modo de vida. mas que na realidade se revelam complementares. Com o tempo e a inevitável aculturação. Uma das comunidades imigradas em Portugal que mais tem dinamizado o seu movimento associativo é a brasileira. Enquanto elemento coesionador do grupo estrangeiro. de perpetuação da cultura de partida. à legalização. à segurança social. A nossa proposta de comunicação centrar-se-á nesse desígnio. em parte. no sentido de acederem aos recursos e aos direitos existentes na sociedade receptora. Introdução O associacionismo é uma necessidade vital do ser humano. necessidades. O facto de se tratar de comunidades numerosas justifica.

Ante a grande eclosão de associações de imigrantes que se formam nas actuais sociedades receptoras. e são fundamentais para a assistência das pessoas. na mira de uma eficácia dos seus propósitos. actuam como grupos de pressão de reivindicações sociais. mas este reconhecimento oficial que vão adquirindo paulatinamente. que fomentam a divisão da sociedade e que não favorecem a integração. como um mundo que não pertence a ela. geram iniciativas de actuação para o fortalecimento das suas ideias associativas. Por isso é de grande importância ter em conta que o actual dinamismo associativo dos imigrantes teve que ultrapassar grandes impedimentos para consolidar a sua realidade social e para ganhar o respeito fundamental das instituições oficiais. não só com a sociedade civil.2 ideias. A sua estética. procurarem junto dos companheiros a coerência das suas ideias e não actuarem isoladamente. Ao mesmo tempo fomentam a solidariedade. as suas actuações e a sua cosmovisão chocam frontalmente com os esquemas de uma sociedade que culturalmente não é igual. o fim primordial de uma associação é o de partilhar metas e o de formar espaços que rompam com o isolamento social e cultural. mas também com os poderes estabelecidos. As associações dinamizam actividades próprias na base das estruturas que criaram. como guetos ou nichos socio-culturais. a sua música. de crenças. estas não vêem com bons olhos a criação desses espaços. Desta maneira. mantêm identidades e são um núcleo de informação necessária. não coincide com o ritmo do reconhecimento social. Pode afirmar-se que as associações de imigrantes terão que continuar a lutar para ultrapassar os muitos entraves que as instâncias oficiais lhes apresentam. sobretudo nas primeiras etapas da imigração. de manter identidades e tudo o que implica a afirmação socio-cultural própria do ser humano. culturais. O grande objectivo é o de. que encontram todo o tipo de carências. económicas e políticas. bem como romper com as fronteiras sociais que a sociedade civil pretende ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . provocando tensões. É certo que as associações de imigrantes recriam os esquemas das suas sociedades de origem. porque os apercebem unicamente como reproduções das diferentes culturas de origem. apresentando-se como lugares delimitados no interior da sociedade de recepção. regionais ou nacionais. particularmente em momentos difíceis. A formação e a importância dada às associações demonstra que os indivíduos se envolvem em acções recíprocas e em contactos entre os que buscam o mesmo fim. o intercâmbio de experiências. sejam locais. como é o caso dos imigrantes.

estas associações. Tem havido tentativas de classificação segundo as tendências manifestadas pelas associações de imigrantes: umas orientadas para o país de origem e outras para o país de residência. encontram-se ante duas dificuldades: por um lado levam a cabo. actividades destinadas ao acolhimento e à integração dos imigrantes. longe de dificultarem a integração. na Península Ibérica e segundo as aportações de Martín (2004). desempenham um papel muito importante no conjunto das práticas que integram a ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . com ou sem ajudas de fundos públicos. estão tentando de cada vez mais incrementar a integração no espaço de acolhimento. pelo que. de programas de ajuda e de acolhimento. conselhos de carácter burocrático. Certo é que se tem constatado que as associações de imigrantes. dirigidos aos colectivos recém-chegados. distinguindo entre a temporalidade e a permanência definitiva. através de actividades. Morán (2001) distingue as associações de imigrantes que têm uma predominância de relações com a sociedade de partida e as que têm uma predominância relacional com a sociedade de chegada. As associações deste cariz revelam constituir um processo de socialização. através do qual criam. e simultaneamente como plataformas de reivindicação dos seus direitos como trabalhadores e como seres humanos. facilitam a negociação da sua participação social e da sua incorporação efectiva. tal como sustentam Castels e Millar (1994). Este tipo de classificação baseia-se sempre na instalação na sociedade de acolhimento. e outros. embora não rompam os laços com a origem. uma vinculação de ajuda dirigida fundamentalmente ao conhecimento das vivências de origem. e por outro lado. com o fim de afrontarem a vulnerabilidade social em que os imigrantes se encontram. que é na verdade uma faceta da sua realidade.3 estabelecer. a fim de conseguirem convencer umas e outras de que o maior anseio dos seus dirigentes e membros é a inserção da sua comunidade na sociedade receptora. Sem dúvida. Apesar do esforço que fazem as associações de imigrantes para serem reconhecidas e aceites como centros de integração. o associacionismo migratório constitui actualmente uma força importante nas sociedades receptoras. com pessoas da mesma etnia ou de várias. e não como centros de realidades culturais fechadas. Sobre estes dois pontos de vista. ao afirmarem que as associações de imigrantes são uma manifestação necessária para a sua instalação nas novas sociedades.

se formam associações. As suas estruturas passam por registos oficiais. as associações funcionam como entidades prestadoras de serviços do Estado. a maior parte delas adoptam uma postura intermédia (Martín. Por outro lado. 2004: 123). as associações encontram-se perante a seguinte alternativa: ou servem as políticas públicas. quer da delegação de competências através do financiamento de projectos de ajuda social. ou introduzem soluções inovadoras para o tratamento dos problemas derivados da integração dos imigrantes. Perante tal situação. quer da ausência de acção dos poderes públicos. A sua formação obedece a um leque comum de objectivos gerais. Desenvolvimento A Espanha encontra-se com um número importante de associações de imigrantes registadas no Ministério do Interior. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . de cidades grandes ou pequenas. arriscando a perda do financiamento público. independentemente dos membros que as constituem. No que respeita às da América Latina. pelo que se revela difícil individualizá-las por países. renunciando frequentemente aos seus princípios. * Elaborar projectos de acção social e de cooperação internacional. às associações de imigrantes não é concedida a participação na tomada de decisões políticas em nenhum âmbito oficial. Se elegem a via reivindicativa. ultrapassam um milhar. arriscam-se a ver impossibilitada a execução das suas actividades. quando pertencem ao conjunto das financiadas. a partir dos quais recenseamos os seus pontos de partida: * Abordar o fenómeno da imigração em todos os seus aspectos. * Assessorar a população imigrante nas áreas que favoreçam a sua integração. Em todas as zonas onde haja um número considerável de imigrantes com essa proveniência. Todavia. quer se trate de capitais de província.4 política de imigração. Se optarem pela primeira possibilidade. apesar da sua posição destacada nas práticas de integração. agrupando os colectivos dos diferentes países que formam a América do Sul. na medida em que as acções que desenvolvem são o resultado.

* Participar em campanhas contra o racismo e a xenofobia. que tantas vezes dificultam a vida destas pessoas. também as suas necessidades de mão de obra e os seus factores de atracção para a instalação destas populações são mais raros. em alguns casos mais especificados quando se trata de promover a identidade cultural dos imigrantes. No que respeita a Portugal. pelo que o número de associações deste tipo é mais reduzido e muito mais específico quanto à origem geográfica e nacional dos seus sócios. ou ainda indivíduos oriundos do mesmo local de origem. * Colaborar com outros colectivos. * Potenciar o respeito pelos direitos humanos. que conduzam a mudanças sociais. entidades e instituições especialmente relacionadas com a imigração. e mesmo a imigrantes de outras origens. * Promover um diálogo construtivo com as autoridades e a sociedade acolhedora. organizações. * Fomentar a convivência e a integração social e educativa dos imigrantes. as associações de imigrantes brasileiros em Portugal apresentam fins distintos. uma inserção o menos traumática possível.5 * Desenvolver campanhas de sensibilização em relação a estas populações e às suas culturas. * Promocionar individual e colectivamente os imigrantes nos seus lugares de residência. Enquanto umas têm um carácter mais geral de apoio ao público imigrante. os seus objectivos são orientados para o seu público alvo. Desta forma. * Defender estas populações junto das autoridades administrativas e outras. caracterizando-se pelo ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . dada a pequenez do seu território e dos seus recursos. de acordo com as necessidades sentidas pelos próprios. De facto. outras dirigem-se a populações específicas. sociais e políticas. tentando proporcionar aos seus concidadãos. formam o núcleo central de todas as associações de imigrantes latino-americanos em Espanha. tais como imigrantes vinculados a uma universidade. * Facilitar a participação das pessoas em actividades laborais. ou parceiros profissionais. * Associar-se a projectos com associações e entidades das zonas onde vivem. Estes pontos.

br/apebcoimbra/).com. da Associação de Imigração em Portugal. da Associação de Pesquisadores e Estudantes Brasileiros em Coimbra (http://geocities.torcidabrasil.pt/).aacilus.php). da Associação de Cidadãos Brasileiros na Universidade do Porto (http://brasup.org/aacilus/).oa.pt) e da Associação Luso-Brasileira de Juristas do Trabalho (www. como poderemos verificar no quadro que segue 1 : Fonte: Site da Casa do Brasil (www.net/torcida. da Associação Mais Brasil (www.up.ca.ua.pt/distritais/genericos/detalheArtigo. da Associação de Amizade Cabo Verde – Brasil (www.yahoo.abop.com/bc/sscb/aacb.html) e da Torcida Brasil (www.casadobrasil.maisbrasil. Imigrantes do Brasil e de países africanos de língua oficial portuguesa (http://www. da Associação Luso-Brasileira de Saúde Oral – Portugal (www.pt/abruna/).angelfire. da Associação dos Brasileiros na Universidade de Aveiro (www.asp?sidc=478&idc=22393).pt). 1 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .6 desenvolvimento de actividades específicas.pt).

2004 Imigrantes do Brasil e de países africanos de Porto língua oficial portuguesa (AACILUS) 1997 • V . estas têm como objectivo prioritário o apoio aos imigrantes a nível moral. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . social e jurídico.Associações Académicas de Brasileiros • • • Associação dos Brasileiros na Universidade de Aveiro (ABRUNA) Associação de Cidadãos Brasileiros na Porto 2003 Aveiro 2001 Coimbra 2004 Porto 1999 Universidade do Porto (BRASUP) Associação de Pesquisadores e Estudantes Brasileiros em Coimbra (APEBC) IV .Associações de Amizade entre Países • • Coimbra 2004 Associação de Amizade Cabo Verde – Brasil (AACB) Associação de Imigração em Portugal.7 Tipologia da Associação I .Associações de Profissionais Brasileiros • • Associação Luso Brasileira de Saúde Oral (ABOP) Associação Luso-Brasileira de Juristas do Trabalho (ALBJT) III .Associações Generalistas de Brasileiros • • Casa do Brasil de Lisboa (CBL) Associação Mais Brasil (AMB) Localização Sede da Ano em que foi fundada Lisboa Porto 1992 II .Associações Lúdicas Brasileiras • Torcida Brasil (TB) 1994 No que respeita às Associações Generalistas.

no sentido de colmatarem lacunas na organização da sociedade civil e nas dificuldades sentidas pelos imigrantes para se integrarem na comunidade portuguesa. que é a sua condição de imigrantes. A partir daqui. Foi criada por imigrantes brasileiros. também se detectaram. começou a desenvolver outras actividades recreativas e culturais para os seus sócios. As Associações de amizade entre indivíduos brasileiros e de outros países definem-se pelo apoio prestado às comunidades imigrantes em questão e pela promoção de actividades recreativas num espaço de partilha cultural. naturalmente. devidas ao traço comum que une os seus filiados. Estas associações de imigrantes brasileiros foram criadas por estes e por portugueses que os apoiaram.8 As Associações de Profissionais visam a defesa das suas profissões e sobretudo dos seus profissionais. principalmente para formar uma “claque” para dar apoio às equipas brasileiras nos torneios mundiais de futebol. muitas vezes opondo-se a alguma discriminação que encontram no mesmo meio profissional português. Ao pretender-se encontrar os traços distintivos de cada uma destas 5 tipologias de Associações de Brasileiros em Portugal. As principais semelhanças encontram-se ao nível dos seus estatutos. ou ainda para organizarem um movimento que fortalecesse a posição da população imigrante face às instituições oficiais da sociedade acolhedora e no diálogo com as mesmas. Os objectivos e actividades das Associações Académicas orientam-se principalmente no sentido de apoiar a integração de estudantes brasileiros e de promover eventos culturais e científicos que possibilitem a valorização da identidade brasileira no seio da comunidade portuguesa. A Torcida Brasil apresenta uma população alvo. muitas similitudes entre elas. objectivos e actividades muito específicos. nomeadamente a constituição formal da associação em si. nomeadamente de apoio às equipas brasileiras em eventos desportivos. Conclusão Todo o esforço das associações tem como finalidade a melhoria das condições das comunidades imigrantes que representam. procurando ser uma mais valia nos ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . mas também ao nível dos objectivos traçados e das actividades.

ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . numa perspectiva da possível inclusão na sociedade de acolhida.mx/CUCSH/Sincrinia/ PUTNAM. 2001 “Las asociaciones de extranjeros y su origen: algunos comentarios para el caso de Alemania” Sincronía. As associações de imigrantes constituem um meio de institucionalização das vias necessárias para a defesa dos seus interesses e. Londres MARTÍN. MORÁN. S. Madrid. D. L.9 contactos formais com as instituições oficiais da sociedade acolhedora. bem como nos contactos informais com a comunidade anfitriã em si. Referências Bibliográficas ALONSO. Estudio sobre la situación actual y capacidad institucional de las asociaciones de inmigrantes en España. The age of migration. G. Madrid. 1994. R. Revista electrónica de estudios culturales. 2004 “ Las asociaciones de inmigrantes en el debate sobre nuevas formas de participación política y de ciudadanía: reflexiones sobre algunas experiencias en España” Migraciones. tal como referem Alonso e Garcia (1995) quando dizem que os reptos aos quais devem fazer face as associações de imigrantes visam veicular a sua integração social e económica no país que escolheram para trabalhar e viver e daí a importância de que se reveste o tecido associativo desta natureza. no entanto podem participar através das associações na tomada de decisões sobre alguns dos aspectos que os afectam. Universidad Pontificia de Comillas. 1995. CASTLES. Un estudio internacional sobre las sociedades y el sentido comunitario. y MILLER. Universidad de Guadalajara. Nexo. Internacional population movements in the modern world.csh.) 2003 El declive del capital social. Barcelona: Galaxia Gutemberg. para lhes proporcionar os meios condutores a fim de que se incorporem paulatinamente na sociedade de chegada. V. (ed. R. a nível dos dois países implicados. ao mesmo tempo.J. y GARCÍA.udg. através de estratégias que valorizem a sua identidade cultural de pertença. http://fuentes. A. pelas implicações pessoais e nacionais. Macmillan. M. Cremos que estamos perante um desenrolar de participação que implica novas formas de cidadania: os estrangeiros continuam privados de direitos políticos.

org/aacilus/) Associação Luso-Brasileira de Juristas do Trabalho (www.com.aacilus.angelfire.yahoo.oa.pt) Associação Mais Brasil (www.pt/) Associação de Imigração em Portugal.ua.10 Sites Consultados Associação de Amizade Cabo Verde – Brasil (www.pt/abruna/) Associação de Cidadãos Brasileiros na Universidade do Porto (http://brasup.abop.html) Associação dos Brasileiros na Universidade de Aveiro (www.maisbrasil.com/bc/sscb/aacb. Imigrantes do Brasil e de países africanos de língua oficial portuguesa (http://www.torcidabrasil.asp?sidc=478&idc=22393) Associação Luso-Brasileira de Saúde Oral – Portugal (www.pt/distritais/genericos/detalheArtigo.casadobrasil.php) ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .net/torcida.pt) Torcida Brasil (www.ca.up.pt) Associação de Pesquisadores e Estudantes Brasileiros em Coimbra (http://geocities.br/apebcoimbra/) Casa do Brasil (www.

Trata-se com especial acuidade o jornal Sabiá publicado pela Casa do Brasil de Lisboa. motivos determinantes para essa escolha. vendo-se de que forma ele contribui para a inserção dos brasileiros em Portugal.pt O presente texto faz uma reflexão sobre a imprensa enquanto modo de integração de imigrantes. aquilo a que vulgarmente se chama valores e que pode ser definido como um “conjunto de ideias partilhadas por indivíduos sobre o que é desejável.Porto blepl@netcabo. 1 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . o país escolhido como pátria de adopção de imigrantes brasileiros. imprensa. alguns estudos demonstram que os brasileiros são os imigrantes que têm em Portugal maior grau de aceitação “assente na ideia de uma identidade lusófona. consabidamente. datada de 29 de Dezembro de 1971. Palavras-chave: imigrantes. como sejam a forma como educam os filhos. A sua localização enquanto porta de entrada para a Europa – continente que ainda hoje exerce o seu fascínio sobre os povos mais recentes – e a lusofonia são. construída ao longo de séculos de convivência entre os povos de Portugal e das suas Desenvolvimento do Projecto CEAA/0013/ALC "Processos de integração social e económica de imigrantes"integrado no Centro de Estudos de Antropologia Aplicada da Universidade Fernando Pessoa. corroboradas. o que é bom e o que é mau” (Trindade 1995: 381). acreditado pela FCT (Fundação para a Ciência e a Tecnologia). De facto. talvez. aquelas. pela aplicação da Convenção sobre a Igualdade de Direitos e Deveres entre Brasileiros e portugueses. Sabiá Portugal é. Acresce a isto a semelhança de procedimentos entre portugueses e brasileiros em certos usos e costumes. brasileiros.Modos e modas de integração de imigrantes (o papel do jornal Sabiá) 1 Isabel Ponce de Leão Centro de Estudos de Antropologia Aplicada Universidade Fernando Pessoa . integração. as práticas religiosas e os comportamentos sexuais.

Um caso paradigmático é o Sabiá. minimizadora da discriminação e da intolerância. a integração social e a identidade cultural” (Trindade 1995: 358).colónias” (AA. lançado em Abril de 2003. A partir do número 53. 2003: 51). primeira publicação destinada aos brasileiros residentes em Portugal. no seu artigo 74. ligada ao país de origem. Distribuído gratuitamente. (CBL). nem sempre de modo bem sucedido. o referido formato dá lugar a um jornal Entendemos integração enquanto ajustamento dos imigrantes a um novo dependente de dois conjuntos de factores: “os que dizem respeito às características individuais dos migrantes e os que se relacionam com características fundamentais dos países de origem e de destino entre os quais se processa a transferência de recursos humanos”. bem como nas instalações dos seus anunciantes. logo actuando como factor de integração. e por mais que o país de acolhimento assuma uma postura fraternal. junta-se uma boa adaptação vista esta enquanto “fenómeno multidimensional que compreende aspectos tais como a satisfação. jornal editado pela Casa do Brasil de Lisboa. por outro lado. um desenraizado que luta. Seja como for. VV. reflectindo o desejo da preservação de laços históricos. a aculturação linguística. ao curioso fenómeno da aculturação. quer dizer. têm necessidade de criar elos de identidade. no Consulado do Brasil e noutros locais consabidamente frequentados por brasileiros. O primeiro número foi publicado em Maio de 1992 em formato de boletim de folhas A4 e. está disponível na CBL. por tal. A própria Constituição da República Portuguesa. A essa boa aceitação por parte do país de acolhimento. ainda que se anunciasse mensal. os brasileiros radicados em Portugal não deixam de constituir uma minoria e. e de gizar estratégias de integração. Uma delas é a produção de uma imprensa própria. a verdade é que um imigrante é. pretenda ignorar os da pátria de origem. assazmente. (Trindade 1995: 102) 2 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . em Portugal. o contacto entre portugueses e brasileiros origina “alterações nos padrões culturais originais” (Trindade 1995: 357) de ambos os povos o que deixa prever um intenso diálogo. reitera “os laços de amizade e cooperação com os países lusófonos”. Apesar desta reciprocidade de aceitação. o tipo de desempenho económico. tinha uma periodicidade irregular. sem que. pela integração 2 e pela socialização aprendendo padrões de cultura e modos de vida da sociedade de acolhimento. No caso dos brasileiros assiste-se.

constituem o corpus em análise e foram em número de 4.º Mês Tiragem pp. Os números publicados em 2005. clínicas médicas. de uma maneira geral. Verificar-se-ia depois que essa periodicidade não viria a ser respeitada o que é perfeitamente compreensível neste tipo de publicações por constrangimentos de ordem vária que aqui nos dispensamos de escalpelizar.500 7. como se pode verificar pela leitura do seguinte quadro que abarca os 4 números saídos em 2005: Assuntos Política nacional (Portugal) Política nacional (Brasil) Política internacional Educação Saúde Habitação Economia Emigração Cultura Desporto Sociedade 3 1 4 2 2 4 5 2 5 4 Quantidade 19 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . 66 67 68 69 Março Junho Julho Novembro 5.tablóide. lojas de comércio…. bancos. XIIº ano da sua publicação.000 7.500 7. A tiragem. agências de viagens. bares. estes números tratam de assuntos diversificados. difunde serviços prestados por brasileiros em Portugal: restaurantes. composto por 4 a 8 páginas. discotecas. que até aí era de 2 mil exemplares. a saber: N.º Para além de publicidade que.500 8 4 4 4 N. aumenta e a sua periodicidade anuncia-se mensal.

contudo os interesses parecem estar virados para o que se passa em Portugal. Por outro lado. não se torna difícil a identificação do público-alvo: Alcance / Público-alvo Público em geral Grupos étnicos / minorias Quantidade 40 12 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .ª página. por exemplo.ª página: Chamadas à 1. Reveladoras de certas preocupações são igualmente as chamadas à 1. são sempre chamados em destaque à 1. evidencia preocupações de índole cultural e uma atenção especial para a política internacional cujos artigos constantes.Os números. ainda que em número reduzido.Lazer 2 Este quadro traz-nos algumas surpresas relativamente à imagem empírica que temos dos imigrantes brasileiros. numa manifesta vontade de interagir com o país de acolhimento. naturalmente. mostra bastante superficialidade quer no tratamento quer nas opções conteudísticas. são cegos. sendo essa preocupação menor relativamente ao país de origem. Por tal. uma maior abundância de artigos relacionados com desporto e lazer.ª página Quan tidade Política Nacional (Portugal) Política Nacional (Brasil) Política Internacional Habitação Cultura Desporto Sociedade 1 3 1 2 1 1 13 Uma leitura comparativa dos dois quadros descobre um jornal intensamente preocupado com os acontecimentos políticos do país de adopção dos seus leitores. que não se faz por extrapolar o âmbito deste trabalho. e uma leitura dos artigos. Seria de esperar.

Apesar desta visão optimista. de forma quase obsessiva. cujos títulos aparecem em baixo: N. logo não se assumem como minoria.º 68 2 N. Não se sentem vítimas de tratamentos discriminatórios.º Total A observação deste quadro mostra que o desejo de inserção em termos políticos ocupa. o jornal dirige-se. prioritariamente ao público em geral.º 67 N. cultural e profissional e encontram-se assim distribuídos pelos 4 números saídos em 2005: Artigos 66 Inserção social Inserção política Inserção cultural Inserção profissional 1 1 1 3 4 2 6 6 5 6 5 22 1 N. ainda que não quebrem a sua ligação ao país de origem.º 69 3 N.Brasil Expectativas na política de imigração do Títulos dos artigos Imigrantes vão às ruas exigir a regularização Regularização para todos Moção exige políticas de integração Duzentos mil pediram regularização em ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Isto tem a sua explicação no facto do perfil sócio-económico dos imigrantes brasileiros ser extremamente diversificado.º 66 • • • • Espanha • novo governo PS • Na ponte aérea Portugal. são vários os artigos do Sabiá que se prefiguram como factores de aglutinação e inserção aos níveis social. muitos têm escolarização secundária e superior e querem ser o elo de união entre Portugal e o Brasil. político.Não esquecendo embora os imigrantes. grande parte dos artigos.

De uma forma geral lamentam a morosidade processual e pugnam por uma cidadania activa. neste ano de 2005 a grande preocupação do jornal enquanto elemento de inserção política. olhando com alguma apreensão o empenhamento dos governantes portugueses e brasileiros na resolução dos conflitos. – dupla nacionalidade. De facto. o Sabiá corrobora a ideia de que o grande problema dos brasileiros em Portugal não tem a ver com a adaptação. É sem dúvida. completados pelos conteúdos que conhecemos mas que extrapolam o âmbito deste trabalho. outrossim com a legalização obviadora da segurança que permita a construção do seu futuro em Portugal.67 • • • • • O direito de ser português Eleições em Portugal e no Brasil Lei da Nacionalidade – Alterações à vista Governo promete mudar a lei Quem pode ser português Burocratices Brasileiro tem nova chance de conseguir o 68 • • visto • maioria de fora • • • Lei da nacionalidade do governo deixa Foi bonita a festa. – igualdade de direitos. outro com mero carácter informativo. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Por isso surgem mesmo títulos incentivando à luta. pá Dois anos depois. nos dão a noção clara das pretensões dos imigrantes brasileiros em Portugal e que são: – legalização e integração. outros ainda onde uma leve ironia esconde uma crítica profunda. só 14 mil legalizados Opiniões divergem na avaliação do acordo Casa do Brasil convoca acto público pela 69 • legalização • • • • Nacionalidade: o que vai mudar Mobilização já! Muito barulho por nada Governo admite nova lei de estrangeiros mas recusa debate Só a leitura dos títulos destes artigos.

a maior parte dos artigos que privilegiam a inserção cultural assentam em iniciativas desta associação que através dele as promove e as divulga. fazem perceber a necessidade dos imigrantes brasileiros interagirem com os portugueses quer no que diz respeito a actividades lúdicas quer na procura de uma forma de estar semelhante.º 66 • • CBL • • o Dali do Sertão 67 • • Era uma vez na América As sombras das coisas Mulheres de Morte Zé-Limeira. O poeta do absurdo ou Títulos dos artigos O significado da palavra associação Primavera relança actividades na Sendo. No que diz respeito à inserção social temos os seguintes artigos: N. Para além disso há uma preocupação por práticas interculturais. naturalmente as idiossincrasias de cada povo.Ainda que bastante distanciada. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . como é. quer dizer uma divulgação das literaturas e das artes portuguesas e brasileiras bem como das suas respectivas afinidades. a tentativa de inserção cultural atravessa também as páginas do jornal através dos seguintes artigos: N.º 66 Títulos dos artigos • casa própria 68 • • na Caparica Mais Brasil Torcida premiada Como adquirir a Ainda que escassos. respeitando-se. o Sabiá propriedade da Casa do Brasil.

mesmo assim. Curiosamente o jornal é policromático. Este interesse é já a primeira manifestação de tentativa de inserção e aparece em artigos quase sempre com chamadas à primeira página.Em termos de inserção profissional. Esta observação dos números do jornal Sabiá saídos em 2005 permitem-nos tirar conclusões por um lado sobre as características de um jornal feito por brasileiros e para brasileiros fisicamente distanciados da sua pátria. fundamentalmente. encontrámos os seguintes artigos: N. a tiragem reduzida e o escasso número de páginas onde. A periodização irregular. Da sua leitura depreende-se que essas preocupações se prendem. com o que se passa no país de adopção. naturalmente. Os problemas de natureza cultural são também tratados recorrentemente ainda que a sua superficialidade configure um público-alvo minoritário ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . por outro sobre o papel que ele tem na integração destas minorias. sobretudo uma particular acuidade pela actualização dos imigrantes de forma a acompanharem a evolução da Europa.º 66 Títulos dos artigos • povo gosta 67 • Informática. é eco das preocupações dos potenciais leitores. que ter capacidade de resposta para muitas situações logo não pode canalizar toda a sua atenção para um jornal que. o que o torna naturalmente mais dispendioso mas também mais consentâneo com as características do público que quer atingir. A instituição sua proprietária – Casa do Brasil de Lisboa – tem. há uma certa tendência para que esta se faça no âmbito da restauração e. mesmo assim. a publicidade é abundante. Sushi do jeito que o futebol e churrasco 69 • Restauração Os seus títulos demonstram que não sendo grande a preocupação em termos de inserção profissional. configuram uma publicação que se debate com problemas económicos como é comum neste tipo de imprensa de imigrantes.

com uma formação cultural de nível médio / inferior o que nem sempre corresponde ao perfil dos brasileiros residentes em Portugal (AA. VV. 2003. 87). Isto leva-nos a crer que, dadas as similaridades linguísticas, a maior parte dos imigrantes brasileiros recorre à leitura da imprensa portuguesa, sendo o Sabiá tão só uma forma de matar as saudades pátrias. A sua periodicidade irregular poderá também gerar esta situação. De qualquer forma, o Sabiá cumpre o seu papel integrador da comunidade brasileira. A integração faz-se aos níveis social, político, cultural e profissional ainda que nos artigos nele inseridos, e que tentámos dissociar, se torne difícil separar estes tipos de integração uma vez que aparecem assiduamente em simultâneo. Mesmo assim tentámos ver a predominância de cada um deles. O único número que remete para os quatro tipos de inserção acima referenciados é o 66. De facto é o maior – 8 páginas enquanto os outros números têm apenas 4 – logo aquele que pode mostrar interesses diversificados. Apenas a inserção política é contemplada e tratada de forma obsessiva em todos os números. Isto é facilmente explicável. Dissemos, no início, que vários eram os factores optimizadores da inserção dos brasileiros em Portugal. Assim sendo, por aquilo que aduzimos, constata-se que desde que se encontrem numa situação legal, seja, politicamente inseridos, a inserção cultural, social e profissional são praticamente automáticas. Por um lado, a maioria dos brasileiros têm em Portugal um emprego estável (AA. VV. 2003: 86), por outro, convém não esquecer que não só, mas também através da comunidade imigrante, o nosso país assimilou muitos traços da cultura brasileira fazendo, muitas vezes, dela um modelo. A forma extrovertida de ser deste povo coadjuvada pela comunhão linguística viabilizam a rápida inserção social. Há, contudo, outra explicação para o tratamento obsessivo da problemática da inserção política nestes 4 números do periódico. Eles saíram em 2005, quando o governo português introduziu alterações à lei da imigração. Fazendo, como faz, o Sabiá, eco das preocupações dos imigrantes brasileiros não admira que dê voz à sua luta pela conquista de determinadas regalias.

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Assim sendo, e apesar dos constrangimentos vivenciados por este tipo de associações e publicações, o Sabiá erige-se como factor de integração, ponto de encontro e também de partida para aqueles que pretendem estabilizar numa segunda pátria.

Referências Bibliográficas
AA. VV., 2000, Dicionário de Ciências da Comunicação. Porto, Porto Editora. AA. VV., 2003, Atitudes e valores perante a imigração. Lisboa, ACIME. Chaliand, G., 1991, Atles des Diáspores. Paris, ed. Odile Jacob. Elias, N., 1980, Introdução à Sociologia. Lisboa, Edições 70. Escarpit, R., 1991, L’information et la Communication. Théorie Générale. Paris, Hachette. Esteves, M. C. (org), 1991, Portugal, país de Imigração. Lisboa, I. E. D. Jackson, J., 1991, Migrações. Lisboa, Escher. Leitão, J., 1991, A situação dos Emigrantes e das Minorias Étnicas na Imprensa. Lisboa, I.E.D. Mauss, M., 1991, Sociologie et Antropologie. Paris, Quadrige / puf. Neno, P., 1989, Morrer no Brasil. Lisboa, Veja. Neto, F., 1993, Psicologia da Migração Portuguesa. Lisboa, Universidade Aberta. Trindade, B R., 1995, Sociologia das migrações. Lisboa, Universidade Aberta. Sabiá, n.º 66, 67, 68 e 69 (2005). Lisboa, Casa do Brasil.

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V – Capítulo

Educação e formação

Textos de comunicações dos painéis:

Transnacionalismo, identidade, desenvolvimento
Coordenação

Miguel Moniz
Instituto de Ciências Sociais - Universidade de Lisboa

Percursos e testemunhos em Antropologia da Educação –
Coordenação

Telmo Caria, Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro - UTAD

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Sistema de Ensino, Transição Societal e Práticas Educativas Estratégicas dos Actores Sociais
Virgílio Correia Escola Superior de Educação de Coimbra (ESEC) vcorreia@esec.pt

Este texto pretende contribuir para o esforço de compreensão da realidade social angolana na actual fase de transição política, económica e social. Trata-se de uma análise da realidade, tentando captar as dinâmicas sociais resultantes das práticas educativas estratégicas dos actores sociais no quadro da transição e veiculadas pelo Sistema de Ensino. Estas práticas educativas estratégicas são analisadas enquanto respostas sociais a uma política educativa e enquanto mecanismo social que reflecte e reforça a dinâmica societal. Abordando três períodos do Estado pós-colonial (1975-1991/1992, 1992-2002 e 2002 até ao presente), propõe-se demonstrar que essas três conjunturas correspondem a dinâmicas de ensino que são função das políticas de ensino ‘praticadas’ pelo Estado e das respostas dos actores sociais a essas mesmas políticas. Palavras-chave: sistema de ensino, práticas educativas estratégicas, actores sociais, Estado pós-colonial, Angola.

Não constituindo objectivo desta comunicação apresentar resultados definitivos, deixam-se aqui algumas notas que permitem apreender e compreender a prática e o sentido das estratégicas educativas dos actores sociais no âmbito do processo de transição política, económica e social em Angola. A estrutura expositiva da comunicação obedece o seguinte percurso: num primeiro momento debruça-se sobre o processo de constituição e desenvolvimento da estrutura social angolana e o papel societal do sistema de ensino no mesmo. Esta incursão ao passado é fundamental para se perceber o processo de transição que Angola vem experimentando de forma particular desde o princípio da década de 90. A seguir aborda-se o processo de transição angolano no quadro do movimento global dos processos de transição que têm vindo a atravessar vários países da África ao Sul do Saara (ASS). Esta tarefa é completada com uma explicitação sucinta das principais perspectivas analíticas do processo de transição, proporcionando assim um elemento indispensável para se perceber a especificidade do caso angolano. Finalmente, no terceiro e último ponto, faz-se uma aproximação à questão central desta pesquisa: as estratégias educativas dos actores sociais no processo de transição em

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Angola. Nesta fase do trabalho não só é possível identificar os protagonistas (segmentos sociais) como também percepcionar os sentidos das suas acções.

Sistema de ensino e formação da estrutura social angolana

O objectivo que move o presente trabalho é o de proceder a uma análise crítica da realidade angolana do presente e captar as dinâmicas sociais resultantes das práticas estratégias dos actores sociais associadas ao sistema de ensino, no quadro do processo de transição política, económica e social iniciado em 1991/92. Semelhante empresa não dispensa uma perspectiva analítica socio-histórica. Muito pelo contrário, a análise do passado, sobretudo do passado recente, que coincide grosso modo com as décadas de 60 e 70, é fundamental para se perceber o momento actual. Esse período da história angolana, particularmente no que se refere às políticas e práticas educativas coloniais, marca decisivamente o Estado pós-colonial pela possibilidade de (re)estruturação societal que então permitiu e que haveria de permitir mais tarde, nos primeiros momentos após a independência. Os períodos que precederam e seguiram a independência foram importantes para a definição das posições e dos protagonistas na estrutura social angolana. Com a independência, e a consequente saída de grande maioria dos portugueses, era preciso ocupar os lugares deixados vagos, criar novos e eliminar outros. Neste processo era preciso fazer uma triagem, saber quem entrava, quem saía, e quem se mantinha. No entanto, o processo de formação social angolana vem de períodos mais recuados. Se é verdade que na época pré-colonial uma população pré-banta — constituída por pequenas sociedades, pouco diferenciadas e com baixo nível tecnológico — cobria de um modo escasso e intermitente o actual território angolano, no decurso de uma penetração lenta, 1 já nos quatro séculos de presença portuguesa no litoral angolano (iniciada no fim do século XV e prosseguida até meados do século XIX), sobretudo na sua fase final, verificava-se a coexistência de duas sociedades estratificadas, cujo
No Norte formou-se a sociedade Kongo, tendo alcançado extensão apreciável e alguma complexidade e maturidade, mas não atingindo o nível de certas sociedades políticas que naquela época (século XX) já existiam noutras partes de África. No Leste a penetração, até o século XV, não levou à formação de unidades sociais maiores. E no Sul (e Oeste) do Cuanza a cobertura demográfica continuara fraca e intermitente.
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«centro» era formado por um núcleo pequeno de europeus e «assimilados» (isto é, os que se encontravam próximos dos europeus, não no sentido legal que viria a ter mais tarde) e O período seguinte, isto é, a fase da ocupação colonial, que coincide com as últimas décadas do século XIX, corresponde ao momento em que Portugal redobrou o seu esforço de conquista do «interior de Angola», numa clara tentativa de antecipação e reforço da sua presença em África, em consequência da crescente concorrência de outros países europeus empenhados na «corrida para a África». Nesta fase consolidou-se um sistema eco-cultural colonial integrado, 2 composto por um «centro» e uma «periferia». O «centro» era constituído por uma imigração portuguesa cada vez mais importante, um número limitado de africanos «assimilados» e um número algo maior de mestiços. A «periferia» era composta por um número crescente de africanos, que constituiriam a mão-de-obra não qualificada (ou pouco qualificada) de que o sistema precisava para o seu funcionamento. Esta situação de dominação do «sistema central» sobre a «periferia» ou «sistemas tributários» manteve-se mesmo depois de algumas transformações posteriores a 1961, como são exemplos o surgimento de disposições legais abolindo a distinção entre «núcleo» e «periferia» no «sistema central», e entre «sistema central» e «sistemas tributários»; a supressão do trabalho obrigatório e da coacção para aceitar contratação de trabalho; a imposição de culturas obrigatórias, etc. Por conseguinte, essas alterações não passavam de estratégias da metrópole portuguesa para manter o seu domínio colonial sobre Angola, recorrendo à situação militar e à introdução de algumas modificações no status quo. Uma análise do papel societal do ensino na formação e desenvolvimento da estrutura social angolana de então permite constatar que, em cada um daqueles momentos históricos, o sistema de ensino teria não só servido como mecanismo de consolidação do modelo societal vigente, mas também contribuído para a passagem de um modelo para outro e para produzir modificações parciais em cada um dos modelos (Heimer 1973: 639). 3 Assim, nos primeiros quatro séculos da presença portuguesa, as sociedades
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Sobre a teoria dos ecossistemas eco-culturais cf. Silva e Morais 1973: 93-109. Conclusões globais de vários estudos levados a cabo nas ciências sociais sobre o papel societal da «educação formal» (ensino escolar) apontam no sentido da confirmação da hipótese segundo a qual o impacto da educação tende a reforçar a dinâmica societal prevalecente (cf. Bourdieu e Passeron s.d.).
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africanas e as «micro-sociedades coloniais» desenvolveram os seus mecanismos próprios de educação. Aquelas dispunham dos seus mecanismos de educação das novas gerações e estas últimas desenvolveram um pequeno número de instituições escolares que viriam a complementar a educação «informal». Relativamente às instituições escolares das «micro-sociedades coloniais», umas serviam os «núcleos» da população urbana e outras a parcela da população africana situada na faixa do território anexa a Luanda. Se as primeiras contribuíam para a consolidação do «centro» das micro-sociedades coloniais as segundas serviam para a consolidação do domínio do «centro» sobre a sua «periferia». Na fase da ocupação colonial, o estabelecimento de uma rede escolar estatal contribuiu para a consolidação do «centro» do sistema colonial, enquanto que uma rede escolar paralela estabelecida pela penetração missionária nas sociedades africanas (iniciada de forma sistemática na segunda metade do século XIX) viria a cobrir o conjunto do território. Tendo atingido uma ínfima parte das sociedades rurais africanas, o ensino missionário (chamado «ensino rudimentar») ajudou, por um lado, a consolidar, em termos de «superestrutura» ideológico-cultural, o domínio do «núcleo» sobre a «periferia» do «sistema central» e do «sistema central» sobre os «sistemas tributários» e, por outro lado, a mobilizar um certo número de africanos de que o «sistema central» precisava para o seu funcionamento. No período de transformação posterior a 1961 um balanço global da situação aponta no sentido de que as prioridades relativas tanto ao ensino primário como ao ensino pós-primário foram dadas ao «sistema central», pelo que o ensino constituiu um poderoso mecanismo de «integração» e de diversificação. Quanto aos «sistemas tributários», a expansão do ensino pouco ou nada contribuiu para o seu desenvolvimento; continuou, isso sim, a constituir um mecanismo de «domesticação» ideológico-cultural dos «sistemas tributários» pelo «sistema central», um mecanismo de drenagem de elementos dos «sistemas tributários» para o «sistema central» (Heimer 1973: 643). Essas transformações da década de 60 foram o culminar de uma estratégia iniciada na década anterior. Em 1951, quando o ensino «rudimentar» passou a chamar-se «ensino de adaptação», havia a intenção de facilitar (de forma restrita, é claro) a passagem de alunos deste tipo de ensino para o estatal; a partir de 1954/55, em certas zonas urbanas ou mesmo rurais praticava-se uma admissão «tácita» em escolas estatais de

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crianças africanas oriundas de famílias consideradas «indígenas»; a reforma do ensino primário de 1961, sancionada por lei em 1964 e continuada por outras tantas medidas subsequentes, foram importantes em termos estruturais (cf. Ministério do Ultramar 1964). Os aspectos mais importantes desta mudança foram a abolição da distinção de princípio entre duas redes de ensino primário, com status diferentes; o alargamento da actuação do Estado, implicando o estabelecimento de postos escolares rurais e «suburbanos»; a «oficialização» do ensino missionário católico (cujos professores ficaram a depender, financeira e pedagogicamente do Estado); a manutenção das escolas das missões protestantes, sem subsídios estatais, mas seguindo os modos de actuação das escolas estatais; a generalização de um tipo de escola inspirada nos parâmetros culturais vigentes em Portugal, com modificações apenas destinadas a facilitar a transição da criança africana «não-assimilada» para este tipo de ensino; a introdução de dois novos tipos de agentes de ensino: o monitor, elemento africano, com «habilitações literárias» elementares e precária formação profissional, e o professor de posto, não diplomado, com «habilitações literárias» equivalentes ao ensino preparatório; a aceleração da expansão escolar (ensino primário) beneficiando sobretudo efectivos das áreas rurais; a introdução da escola preparatória do ensino secundário (1968); a expansão do ensino liceal técnico; e a criação do ensino universitário. Independentemente das razões que se prendem com as estratégias políticas de fundo, essa mudança na política educacional proporcionou, por um lado, à sociedade central em expansão uma mão-de-obra mais qualificada e numerosa e, por outro, contribuiu para uma maior corrosão e incorporação das sociedades periféricas; isto é, a educação foi um factor decisivo para o avanço maciço dos não brancos em posições de classe média, que durante muito tempo foram domínio quase exclusivo dos brancos. 4 Assim, com a independência e a correspondente saída dos portugueses, os lugares deixados vagos foram ocupados por esse grupo que viria a constituir a classe dirigente e burguesia técnica executante, o gérmen da classe-Estado pós-colonial. Com efeito, o
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Esta explicação não invalida, no entanto, as interpretações dessas mudanças que vão no sentido de explicar estas últimas como uma estratégia de «contra-subversão», isto é, uma tentativa da metrópole assinalar o fim da discriminação social/racial e manifestar preocupação com o «bem-estar das populações», dando resposta a uma procura da educação por parte dos «indígenas»; como uma preocupação de valorização da Província (mais tarde Estado) de Angola face à metrópole, africanizando, em certa medida, os manuais escolares e tentando criar uma afiliação cultural e uma identificação forte e generalizada com Portugal e, deste modo, minar a base de uma contestação anti-colonial inspirada na ideia de uma identidade nacional angolana (cf. Silva 1969; citado por Heimer 1973: 641).

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tenta garantir a permanência do poder e a legitimação social. os conflitos resultaram na competição nos empregos oferecidos pelo «sistema central» (cf. consequentemente. reconversão essa que devia ser acompanhada de um maior desenvolvimento. Nessas circunstâncias. Em Angola. praticante de políticas sociais dirigidas aos grupos vulneráveis. utilizando as mais diversas formas de compensação. Nestas lojas vendiam-se produtos nacionais 5 Na época colonial. ou mesmo cessou. no Uíge. ao ver tolhida a sua base de subsistência. Com os Bakongo. de práticas estratégicas de sobrevivência dos actores sociais. a estratégia de um Estado que. aceitaram a sua utilização pelo «sistema central» entrando em disputas com outras etnias. uma estrutura social heterogénea. até 1982. São exemplos os conflitos que envolveram geralmente os Ovimbundu que. já que a manutenção do baixo nível médio de desenvolvimento. também. uma convivência harmoniosa entre os vários segmentos sociais ou etnias africanas estaria dependente de uma reconversão do referido modelo societal. a utilização do sistema de ‘cartão’ é um exemplo disso mesmo. 5 Nas primeiras décadas de independência. à semelhança da quase totalidade dos Estados africanos. os trabalhadores ovimbundu colaboraram na expansão do «sistema central». criava as condições para competições individuais e colectivas que podiam assumir feição de concorrência inter-étnica. Na luta por condições relativamente melhores (ou apenas menos más) podia dar-se o caso de determinadas etnias tentarem ou garantirem para si mesmas uma posição mais vantajosa na estrutura vigente (por exemplo. em Luanda. possibilitando aos empresários europeus fixar um nível de remuneração mais baixo para a mão-de-obra assalariada. algumas tensões inter-étnicas entretanto verificadas foram provocadas pela ‘situação colonial’. os assalariados do Estado recebiam um salário nominal baixo. estavam criadas as condições para o surgimento de conflitos diversos e. Esta situação era ‘compensada’ por um cartão (o cartão do povo) que dava acesso às «Loja do Povo». maior participação na classe-Estado ou dirigente). os riscos mínimos de conflito associados aos vários segmentos sociais ou às etnias africanas foram em larga medida superados graças a um Estado protector. isto é. Quando esta prática de funcionamento do Estado começou a dar mostras de fraqueza. ou obter a seu favor uma mudança nos termos da heterogeneidade (por exemplo. ou conseguir combinações de ambas as modalidades. Com efeito. em detrimento de outros). que esteve congelado durante muitos anos. melhores ‘razões de troca’ com a classe-Estado ou dirigente.6 Estado pós-colonial seguiu e ‘reproduziu’ o ‘modelo societal’ da época colonial. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . com os Akuwambundu. em tudo semelhante ao verificado nos «sistemas tributários» e na «periferia» do «sistema central». A prática desse Estado protector reflecte. Heimer 1973: 648).

acumulação de cargos ou falta de decisões. económica e social. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . 6 A restrição daquela prática de sobrevivência. retém a sociedade civil como protagonista de desmantelamento dos regimes monopartidários (Mbondjo 1993). diferentemente das outras formas de mudança política baseadas na violência. Fall 1993). absentismo. que exigirá sempre mais. permitindo no início apenas ‘aberturas’ controladas do espaço político. as transições políticas tendem a surgir associadas aos processos de liberalização económica. mais do que nunca. em Abril de 1992. Ennes 1994/95: 171-196).7 e importados em moeda nacional. sobretudo para os trabalhadores que mais precisavam dela. ora valorizando a sociedade civil (‘política pela base’). altura em que foi extinto o controlo dos preços. isto é. decorrem na vigência de expectativas mais ou menos seguras. O processo de transição política. suborno. 7 Os processos africanos de transição têm sido explicados ora valorizando o sistema político (‘política pelo topo’). precipitar um processo de expansão de expectativas de uma sociedade civil. Generalizaram-se as práticas de «corrupção». práticas essas que se mantiveram de forma sistemática até 1989. ao reforço da utilização do património do Estado em benefício próprio. mas depois pode levar as reformas até um ponto onde já não se pode parar. O sector informal da economia tornava-se. realizado por vários regimes de partido único (cf. a não ser sob graves riscos políticos (O’Donnel 1979. O cartão dava direito a um cabaz de compras em função do número de elementos do agregado familiar e/ou da qualificação profissional do detentor. e não satisfazer com as aberturas/soluções apresentadas. Kwanza. assumindo formas de nepotismo. Um exemplo do modelo de explicação das transições pelo topo é o trabalho de Fall. Trata-se de processos de 6 Muitas empresas do Estado utilizavam também formas de pagamento em géneros aos seus trabalhadores. económica e social na África ao Sul do Saara (ASS) e o caso angolano À semelhança do que aconteceu na África subsaariana em geral. conduziu. assim. entre outras (cf. Pierre Moukoko Mbondjo representa o pólo oposto. calculada ao câmbio oficial. Pode dizer-se que os processos de transição. As medidas liberalizantes podem. em Angola a fraqueza do Estado e o ‘abandono’ das populações surgiram ligados ao processo de transição política. o espaço de sobrevivência da quase maioria da população. postos em marcha pelo poder instituído. 7 As medidas de liberalização tendem a introduzir uma significativa abertura do regime burocrático-autocrático em vigor. segundo o qual a instituição da democracia em África se deveu a um processo de democratização progressiva. Com efeito. O’Donnel e Schmitter 1986).

o fim dos sistema de controlo de preços de bens e serviços essenciais. O Estado funciona. Esta fraqueza do Estado. a hipótese segundo a qual a derrapagem económica sofrida pelo continente africano. com a consequente perca das fontes tradicionais de legitimidade. incentivar e acelerar esse mesmo processo de transição. resultam muitas vezes deste processo. A nível económico. Por todo o continente a desintegração institucional surge como uma das facetas mais importantes da crise. Tocqueville 1989). ao perder grande parte da sua legitimidade o poder político provoca fenómenos de descontentamento e insubordinação. quase sempre. as medidas de liberalização acabam por abrir brechas nos fundamentos doutrinários. parece encontrar razões que as justifiquem. na qual os recursos públicos são distribuídos segundo princípios clientelares. de uma tendência acentuada e prolongada de degradação das condições económicas (Boudon 1990. tais como a perca de certos monopólios. mas sim como mecanismo de predação dos recursos financeiros (Bayart 1989. muitos dos Estados africanos conhecem uma dinâmica económica regressiva desde então. associada ao processo de transição. O Estado é objecto de apropriação por uma gestão neo-patrimonialista. na segunda metade dos anos 80. etc. o fomento do aparecimento de empresas privadas. as transições nunca chegam a caracterizar-se pela anomia.8 mudança intencionalmente direccionada e parcialmente dominada pelos actores em presença. e que têm na democracia o fim último a atingir (Przeworski 1994). O abandono dos mecanismos de distribuição social dos rendimentos por parte do Estado e o alargamento das desigualdades. em certa medida. confirma. neste sentido. a partir de então experimenta a tendência para o abrandamento do ritmo de crescimento das suas economias: entre 1981-1989 o crescimento do PIB atinge os 0. A aceitação deste paradigma causal das determinações económicas nos processos políticos africanos. Se entre 1960-1972 o continente regista um crescimento real do Produto Interno Bruto (PIB) na ordem de 2. iniciados nos anos 80. Ao contrário dos processos de ruptura.7%. não como um agente do desenvolvimento. Ou seja. Efectivamente. Bayart 1985). É neste contexto que uma grande maioria dos Estados africanos é sujeitos aos programas de estabilização impostos pelo Banco Mundial e pelo Fundo Monetário ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .5%. tenha contribuído para desencadear. A ideia base é que os processos de ruptura resultam.

São Tomé e Príncipe. Gâmbia. na desvalorização da moeda. perdendo em muitos casos o controlo sobre o processo social. jurídicas e políticas. não deixando aos responsáveis políticos africanos um espaço de manobra apreciável. Ou seja. sem alternância de poderes (Costa do Marfim. e a mobilização política contra o poder monopartidário e sua penalização eleitoral. na restrição do pacote de preços subsidiados de produtos essenciais. os regimes monopartidários não conseguem resistir às pressões externas e internas que apontam para o seu desmantelamento. são alguns exemplos. a um tempo. 8 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . mais marginalizados e mais pobres que enfrentaram a rejeição mais expressiva do regime monopartidário aí existente. no entanto. Congo e Mali). etc. que não existe uma correlação linear e directa entre fraqueza ou crise económica e os respectivos efeitos sociais (mais) dramáticos. à fraqueza e à perca de alguma soberania real dos Estados tanto a nível externo como interno.9 Internacional. a aplicação das medidas do PAE parece estar na origem de greves. para a erosão da legitimidade do Estado. As reformas institucionais. etc. Os governos perdem a capacidade autónoma de decisão em matéria estrita de política económica e bem assim nos aspectos que se prendem com o enquadramento legislativo e definição constitucional de competências. nomeadamente o respeito pelos Direitos Humanos e o engajamento do poder político no processo tendente à instauração do pluripartidarismo. A adopção do Programa de Ajustamento Estrutural (PAE) coloca estes Estados na situação de dependência. A aplicação das medidas do PAE conduzem. as ‘novas democracias’. Neste quadro. No plano interno. as ‘novas democracias’. onde vigorava o multipartidarismo desde a independência (Ilhas Maurícias. traduzida na redução das despesas públicas e restrições das importações associadas ao despedimento de funcionários públicos considerados excedentários. No panorama da rápida evolução política propriamente dita ocorrida na ASS em direcção ao multipartidarismo é possível distinguir quatro categorias: as ‘velhas democracias’. Cabo Verde. a educação e a cultura. Camarões e Gana). resultantes de alternância de poderes (Benin. manifestações diversas. Botsuana e também Senegal). Gabão. Angola. não foram os países mais endividados. em muito. motins. Zâmbia. As medidas accionadas pelo PAE contribuem. 8 Um balanço do processo de transição democrática iniciado na ASS nos 80 dá conta de alguns resultados positivos mas também de muitos obstáculos. na alienação das empresas. países que proibiram o multipartidarismo ou que tendo aceite avançar com Deve notar-se. nos cortes nos programas sociais que envolvem a saúde.

o canal principal de crescimento económico. e continua ainda a constituir. noutros deparou-se com algumas dificuldades. em alguns países. assim como autores que pensam a democracia de uma forma mais restrita. o processo de democratização em África não deixou de ser influenciado pela combinação de factores externos e internos e acontecimentos só foi 9 Os múltiplos obstáculos ao processo de democratização estão na origem do pouco optimismo de muitos autores relativamente ao futuro do continente africano. pré-colonial. um à direita e outro à esquerda (Buijtenhuijs e Rijnierse 1993: 1). ex-Zaire e Malawi). caracterizados por Por outro lado. pela burguesia burocrática. jogando um papel central na formação das classes sociais. certamente. e o caso da Nigéria onde o governo militar autorizou dois partidos. o surgimento e o desenvolvimento de práticas democráticas.10 mudanças políticas tudo fizeram para minar esses acordos (Quénia. Esta característica influenciou decisivamente a política africana e o processo de competição política. como sejam a oposição dos poderes instituídos e. pela classe política ou. O Estado pós-colonial em África constituiu. Por outro lado. vendo nela apenas um sistema multipartidário (cf. ou classe dirigente. Eles fundamentam as suas posições essencialmente nas imperfeições de algumas experiências já levadas a efeito. reconhecendo uma dimensão económica. Bozenan 1976). pode dizer-se que as mudanças entretanto ocorridas não produziram efeitos significativos. Tratando-se. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . de Estados que não tinham o controlo sobre os meios de produção. Quando da independência o poder foi apropriado pela elite política e. De qualquer modo. aproveitava as suas posições para se munir de uma base económica própria pela criação de empresas públicas e privadas ou outras actividades económicas. ao passado longínquo e recente da África nem às características do regime anterior. fundamentalmente. dirigentes de partidos e oficiais superiores. persistem dúvidas sobre uma «participação» que se reportava às formas de democracia da política tradicional africana (cf. Estes grupos eram constituídos sobretudo por altos funcionários competentes. a transição entrou numa fase de estagnação. 9 Esta evolução não é estranha. todas formas de organização política que não favoreciam. mais tarde. quer no plano político quer no plano económico. Este grupo inclui autores que encaram a democracia no seu sentido mais lato. a classe-Estado. e não favorecem. a centralização e o paternalismo. Buijtenhuijs e Rijnierse 1993: 18 e 19). o funcionamento do Estado pós-colonial não favorece o desenvolvimento e a prática da democracia. Autores há que são ainda mais pessimistas. dado que não havia uma burguesia local. relativamente ao passado colonial é consensual a ideia de que a tradição política então praticada repousava sobre a autarcia. se relativamente ao passado longínquo. Em alguns casos o processo foi bem sucedido. ainda. Com efeito.

A partir de 1991. à semelhança da grande parte do resto do continente africano. Conforme Messiant. terem sido mal conduzidos (Messiant 1995: 40-57). Para esta autora. que apelavam para uma mudança. visto que o processo de pacificação foi limitado aos dois beligerantes: UNITA e MPLA. só assinou os Acordos de Bicesse porque estava convencida que sairia vencedora das eleições de 1992. associado a um processo liberalização económica. negociados sob auspícios internacionais. não estarem convencidos de que a democracia era o melhor sistema governamental. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . este fracasso fica a dever-se. ao facto dos Acordos de paz de Bicesse destinados a pôr fim à guerra civil.11 possível porque as forças sociais internas. Mas o processo angolano. além de não ter tomado a iniciativa de abertura democrática. estavam lá e aproveitaram as circunstâncias para fazer ouvir a voz dos seus protestos. O insucesso do processo de transição em Angola tem certamente várias causas. «o papel da ‘comunidade internacional’ neste processo e sua responsabilidade política neste resultado foram consideráveis» (Messiant 1995: 48). mas teve o mérito de possibilitar ‘alguma abertura política’ para manifestações sociais/laborais e económicas. Esta especificidade deve-se sobretudo ao facto desse processo surgir num contexto de guerra civil em que o país está mergulhado há mais de três décadas. UNITA e MPLA. o que não acontecia no sistema monopartidário vigente anteriormente. o insucesso do processo de transição angolano fica a dever-se também ao facto de que os dois principais partidos angolanos. com o início do processo de abertura política. de negociações e de guerra intensificada. Enfim. Para esta autora. Em Angola o processo de transição assume características específicas. só cedendo sob pressões. resistiu enquanto pôde. Por isso mesmo. surge também num contexto de crise económica e social que atravessa o país e num contexto de fortes pressões internas e externas que reivindicam para Angola mudanças rápidas e drásticas dos rumos que o país tem tomado. A UNITA. Angola experimenta um processo de transição que enfrenta problemas graves. 10 Este abandono do Estado das suas funções sociais é agravado pela necessidade do governo do MPLA garantir a sua manutenção no poder na sequência da guerra civil vivida após as eleições de 1992. em larga medida. quando deu conta 10 É verdade que a abertura pré-eleitoral de 1991-92 não permitiu resolver as situações de guerra. demitindo-se progressivamente das funções sociais que anteriormente assumira. um processo que até 2002 esteve bloqueado (Buijtenhuijs e Thiriot 1995: 26). o Estado diminuiu o seu controlo sob todos os sectores da economia. por seu lado. O MPLA.

Sobre as eleições abortadas de Setembro de 1992 cf. que haveriam de formar uma pequena burguesia. na maioria dos casos. em 1994 a economia angolana.Angola. uma possibilidade de manter a sua posição na primeira linha de hierarquia económica e social do país. com a inflação a atingir valores elevadíssimos. em 1993 a situação agravara-se: o ritmo de inflação mensal atingiu os 23%. desempregados e muitos empregados recorrem a esse sector como tábua de salvação. As actividades mais lucrativas no imediato. a situação económica e social em Angola não melhorou. cerca de metade dos quais entre a população rural (cf. os deslocados e outros afectados pela situação de guerra atingiam os três milhões de pessoas. e a Revista Politique Africaine. Os indivíduos pertencentes aos níveis mais elevados da classe-Estado encontram no processo de privatização. responsável por 96. O segmento intermédio da classe-Estado. A estratégia da classe dirigente ou ex-classe dirigente é sobreviver na área económica sem perder a ligação aos círculos de influência. No entanto. Banco de Portugal 1995 e Carvalho 1996). e sobre a guerra civil angolana cf. 11 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Por vezes mantêm as suas funções no aparelho de Estado. prejuízos avultados ao Estado. Pelo contrário. aproveitando alguma segurança que a UNAVEM III proporciona. demitem-se das suas funções ou ausentam-se do serviço para procurar sobrevivência na economia paralela. dependente de um contexto de guerra. 11 Nos anos que se seguiram esse período conturbado da vida angolana. Se os dirigentes ou ex-dirigentes candidatos a empresários encontram nos mecanismos de privatização um espaço para manter o status quo.12 que os resultados eleitorais lhe eram desfavoráveis não hesitou em retomar a guerra. Na segunda metade de 1995 o governo perdeu de novo controlo da situação. Pycroft 1994: 241-262. confrontados com a falta de «cartões». Sommerville 1993: 51-77. 57. vão sobreviver nos círculos informais da economia. que consagra grande parte dos artigos a . É neste contexto de crise generalizada que as populações desenvolvem estratégias próprias de sobrevivência. 12 os segmentos mais baixos da classe-Estado. a taxa de desemprego em Luanda era superior a 24%. iniciado em 1991. Subempregados. como é o caso do comércio grossista. O PIB cresceu na ordem dos 8. São eles que vão alimentar Luanda e outras cidades do país. são as preferidas pelo novo empresariado angolano. recorrendo sobretudo ao sector informal da economia. devido sobretudo ao reforço da exportação de petróleo. Até 1996 muitos funcionários do Estado.2%. 12 As privatizações das empresas do sector público trazem. 5% das exportações de 1994. registou uma significativa recuperação. em relação ao ano de 1993 (mas não em relação ao de 1992). Pereira 1994: 1-28. às divisas e ao crédito.

13 por sua vez. por sua vez. Apesar da educação ter sido eleita pelo Estado pós-colonial como uma via privilegiada para o desenvolvimento e para a transformação da estrutura social em Angola (à semelhança. Os melhores colocados para exercer esse «poder» são. as classes dirigentes ou classe-Estado. levando consigo a propriedade do Estado. este sector defrontou-se desde sempre com grandes dificuldades. a rentabilizar as funções que exercem usando a corrupção e o suborno para aumentar os seus rendimentos. Em suma. O reconhecimento do baixo nível de preparação dos professores. Mas as dificuldades que afectavam e afectam a realidade educativa em Angola foram sempre muito mais graves. aliás. A degradação progressiva dos edifícios herdados da época colonial e a escassez de verbas orçamentais destinadas à educação revelam a grave crise do sector. marginalizado e subordinado. a ponto de se tornar imprescindível o apoio das organizações internacionais com vista a uma nova reforma do sistema de educativo. Realidades educativas angolanas e estratégias educativas dos actores sociais no processo de transição É justamente esta lógica estratégica de rentabilização de capital acumulado junto do aparelho do Estado que também prevalece. em Angola. Os segmentos sociais menos bem colocados tendem. de todos os países africanos recém-independentes). os diversos actores sociais tentam rentabilizar o capital político. no período de transição. Há também aqueles que aproveitam a abertura política para se dedicarem às actividades do sector privado. a nível do sistema de ensino. que surge associado a um certo abandono das populações por parte do Estado. que tendem a transitar do Estado/partido para o topo da hierarquia económica. cumulativamente ou não com a sua funções do sector público. tanto por parte do Ministério da Educação de Angola como das instituições ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . social e económico acumulado ao longo dos tempos junto do aparelho de Estado. no quadro de transição. Além da oferta de ensino não satisfazer a procura a sua qualidade era muito fraca. ao sector de segurança e defesa. acumulando frequentemente outras funções em empresas multinacionais. mantém o seu emprego no Estado ou noutro organismo. por exemplo. evidentemente. reforçada ainda pelo facto de que o sector de educação surge.

desenvolvem. reflectindo uma situação de litoralização (à medida que se afastava para o interior a frequência diminuía) e desfavorável aos elementos femininos. Rapport National de la République d’Angola par le Ministère de l’Éducation 1994). As orientações políticas e outras relativas ao sector são sacrificadas. associada a um projecto financiado pelo PNUD. defrontavam-se sempre com um problema central que era o desconhecimento da realidade educativa de Angola. permanecia desigual. com um estilo de vida urbano. As outras realidades. em 1979. por exemplo. procuram outras formas de complementar os seus salários para assegurar uma sobrevivência condigna. a não ser que. Acrescente-se que o sector de educação angolano sofria de uma desarticulação a nível de coordenação de acções a nível nacional/regional ou local. estratégias próprias com vista à resolução dos seus problemas educativos específicos. a distribuição da frequência. O processo de transição/liberalização não trouxe alterações significativas ao sector de educação. as próprias populações. em termos regionais. Os professores. cientes de que os seus salários não lhes permitiam garantir a sua sobrevivência e da sua família. ao sentirem-se abandonadas pelo Estado. sempre que surja ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . doravante e mais do que nunca. a da população que vive na cidade. mas que ainda não estão integradas. o funcionamento real da estrutura do sistema educativo angolano apresenta-se desfasada da estrutura «oficial». como sejam das populações que chegam à cidade. A Reforma educativa de 1994 orientava-se para uma realidade educacional concreta. a uma situação em que o Governo eleito não controla parte significativa do território e à consequente subordinação do sector do ensino relativamente aos esforços e políticas estratégicos de defesa e segurança.14 internacionais. as tentativas de levar a cabo as reformas educativas. Nestas circunstâncias. embora africano. projecto este que visava elevar o nível académico de vinte mil professores com a 4ª classe para a 6ª classe. motivou a cooperação técnica da UNESCO. a maioria dos professores continuava a ter entre quatro a seis anos de escolaridade. A frequência dos alunos nos níveis escolares mais avançados (II e III) continuava a ser fraca. a todo o custo. não são contempladas nas preocupações da reforma (cf. como foi o caso da Reforma de 1994. associada à situação de guerra civil. Muitas vezes conseguir um complemento salarial significa abandonar o posto de trabalho em qualquer momento. Face à situação de instabilidade política em que o país vive.

receber de volta as suas antigas instalações escolares nacionalizadas com a chegada da independência. Uma vez mais o jogo do poder e de influência política encontra um campo propício. é apenas parte dela — mormente a pequena burguesia. este traduz. teoricamente gratuita. deste modo. fugindo da guerra ou simplesmente à procura de melhores condições. a pressão exercida pela classe-Estado e pela burguesia emergente. os grupos desfavorecidos ou menos favorecidos. encontram nas diferentes comunidades religiosas um espaço de pertença e integração. na maioria das vezes. Todavia. em que os vencedores são sempre os mesmos. Daí que os empreendimentos de maior importância surjam ligados à classe-Estado. Aqui o que está em jogo é o poder de influência e ligação com o Poder político. que chegam à cidade. desejosa de protagonizar dinâmicas próprias dos países capitalistas. sobretudo as «deslocadas». com excepção da Igreja Católica. os funcionários públicos e os pequenos empresários — que acaba por aproveitar as oportunidades de escolarização existentes. As populações de origem rural. Junto aos edifícios do culto religioso foram surgindo ‘espontaneamente’ as «escolas» em salas de aulas anexas. Os ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . conseguem a legalização e o funcionamento de escolas privadas sem grandes obstáculos. E porque a frequência de uma escola pública. por outro. que deixar de «mandar os filhos à escola» em favor de uma qualquer estratégia de ganha-pão no mercado informal/paralelo. esta situação favorece o carácter reprodutor da educação. Naturalmente. o arranque do ensino privado não se processa sem grandes dificuldades. As diligências da Igreja Católica permitiram-lhe. que chegam à cidade fugindo à guerra ou em busca de melhores condições. enquanto via de obtenção de interesses próprios. Quanto ao aparecimento do ensino privado. As populações mais carenciadas. exige das famílias um investimento significativo que não está ao alcance de toda a população. A mesma lógica preside às estratégias de atribuição/acesso às bolsas de estudo reflectindo.15 uma oportunidade. e os perdedores também são sempre os mesmos. Poucas pessoas ou instituições. por um lado. após 1992. os grupos favorecidos. uma situação em que a política de formação de quadros está ausente ou se encontra subordinada a um processo de manutenção/melhoria das condições de vida ou de sobrevivência. têm. a incapacidade do Estado em responder à procura de educação e. a classe-Estado.

1994/95. Editorial Vega. BOURDIEU. L’État en Afrique: la politique du ventre. Evolução das economias dos PALOP 1994. BAYART. Raymon. bastante acima da oferecida por outras instituições. incluindo o Estado. os vários segmentos sociais desenvolvem estratégias próprias de acesso à educação. 1976. por sua vez. «Esquisse d’une théorie de la transition: du monopartisme au ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . O lugar da desordem. Elly.d. Jean-Claude. Paris. Princeton. 1996. Revista Energia. Política Internacional. BOUDON. BUIJTENHUIJS.. Jean-François. Leiden. Referências Bibliográficas BANCO DE PORTUGAL. 1989-1992: Un aperçu de la littérature. «Hiperinflação em Angola».16 Colégios e Externatos surgem. A reprodução: elementos para uma teoria do sistema de ensino. Gradiva. CARVALHO. ENNES. FALL. 1990. 1995. e a classe-Estado rentabiliza os recurso do próprio Estado em seu favor. 1993. a reconstrução de edifícios que no período colonial serviam funções similares. Paris. 1985. L’État au Cameroun. corrupção. o seu poder de influência resulta do controlo do aparelho de Estado (incluindo ‘cunhas’.. Lisboa. 1 (10): 171-196. BUIJTENHUIJS. Em suma. s. geralmente com o Estado. 1995. Lisboa. Jean-François. Ibrahima. BAYART. «O processo de privatização em Angola». etc. Paulo. Princeton University Press. Démocratisation en Afrique au Sud du Sahara 1992-1995: un bilan de la littérature. Estas instituições tentam aproveitar as antigas instalações negociando. Démocratisation en Afrique au Sud du Sahara. Fayart. tratam-se de escolas de elite. Céline. Conflict in Africa: Concepts and Realities. Centre d’Études Africaines. investindo os seus recursos de modo a atingir os seus objectivos: a pequena burguesia do empresariado emergente socorre-se dos seus recursos provenientes do comércio informal. Leiden. Pierre e PASSERON. 42. BOZENAN. A. associados aos grupos com algum poder/interesse económico interessados em desenvolver projectos de ensino com uma qualidade razoável. African Studies Centre.). 1989. 1993. Rob e RIJNIERSE. as populações dos estratos mais baixos têm como recurso as comunidades religiosas (e/ou ONG). Ferreira. B. Lisboa. Rob e THIRIOT. FNSP.

Lisboa.. Survival. PEREIRA. Alex. 1973. MESSIANT. Estúdios CEDES. «The Failure of Democratic Reform in Angola and Zaire». 57: 40-57. K. W. Journal of Southern African Studies. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . 1989. «Développement de l’Éducation». John Hopkins University Press. 1979.. O’DONNEL. 1995. MBONDJO. Social Change in Angola. SILVA. em L’Afrique vers le pluralisme politique. HEIMER. PYCROFT. Democracia e mercado. Genève. 1969. 1993. Franz-Wilhelm. TOCQUEVILLE. 1964. em L’Afrique vers le pluralisme politique. Análise Social.l. O Antigo Regime e a revolução. 5. 1994. 35 (3): 51-77. C. Guillermo. «MPLA et UNITA: processus de paix et logique de guerre».?. The Journal of Modern African Studies. Conférence Internationale de l’Éducation. Jorge Vieira da e MORAIS. Paris. Transitions from Authoritarian Rule: Tentative Conclusions about Uncertain Democraties. SILVA. Rio de Janeiro. Adam. 40: 621-655. Franz-Wilhelm (ed. 1994. 1994.. 1992-1993». Economica. Júlio Artur de. s. 1986. A reforma do ensino primário no Ultramar. C. «Notas para el estúdio de procesos y democratizacion a partir del estado burocrático-autoritário». PRZEWORSKI.. Pierre Moukoko. «Le retour au multipartisme au Cameroun». MINISTÉRIO DO ULTRAMAR. «Estrutura social e descolonização em Angola». Phillipe. 1973. Guillermo e SCHMITTER. 93-109. RAPPORT NATIONAL DE LA RÉPUBLIQUE D’ANGOLA PAR LE MINISTÈRE DE L’ÉDUCATION. Economica. O’DONNEL. «The Neglected Tragedy: The Return to War in Angola. Luanda. Editorial Fragmentos. «Angola — The Forgotten Tragedy». José Pinheiro da.17 multipartisme en Afrique». Toda educação aponta para a integração. Munique. Politique Africaine. em HEIMER.). 1993. Lisboa. 32 (1): 1-28. Relume e Dumará. 20 (2): 241-262. 1994. SOMMERVILLE. «Ecological Conditions of Social Change in the Central Highlands of Angola». Paris. A. 44èmme Session.

junto de um grupo de jovens (seis rapazes e uma rapariga). inseridas no quadro geral de um horizonte de acção comum. embora limitando o horizonte da investigação. Assim.pt Através do estudo de um grupo de jovens desfavorecidos. Na supracitada monografia. deriva de um conjunto de desenvolvimentos e reflexões. Insucesso Escolar. Palavras-Chave: Formação Profissional. entre os 17 e os 18 anos. acordámos com a direcção da Instituição. que iríamos restringir o locus da pesquisa aos espaços de recreio e lazer.Relações Sociais na Formação Profissional Especial: da(s) Cultura(s) às Pessoas Miguel Ângelo Granja Lobato FCSH-UNL miguellobato@sapo. com diferentes origens etno-culturais. posteriores à apresentação. na compreensão da forma de relação destes jovens formandos com os formadores e os mediadores culturais que lidam com eles. de uma monografia final de pósgraduação em Formação de Formadores que frequentámos no Instituto Superior de Psicologia Aplicada. logo. aproveitando para estudar aquele grupo durante os seus tempos livres. Em suma. a realizar um curso técnico. de manifestação “livre” de condutas e atitudes. Inserção Social. que. designámos como Instituto Global de Artes e Ofícios da Periferia. Mentalidade Cultural O presente trabalho. defendemos a reabilitação da figura do agente social. sito na região da Grande Lisboa 2 . ao invés da tendencial “naturalização” dos fenómenos sócio-culturais das explicações etno-culturalistas. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . realizámos a avaliação etnográfica1 de um Centro de Formação Profissional. elaboradas sobre o fenómeno da educação/formação. Assim. procurámos compreender as relações sociais estabelecidas entre os formandos e o pessoal de enquadramento. apesar de diversos entre si. Mediação Cultural. ponderando o peso da agência pessoal e dos condicionantes estruturais. em 2003. esta condicionante permitiu-nos estudar a vida quotidiana destes formandos nos espaços físicos onde existe maior flexibilidade de regras. 2 E que. radicamos os seus padrões de atitude e conduta na adesão a diferentes mentalidades culturais. 1 Nesta investigação. face ao horizonte de acção. por motivos éticos.A. S. que neste encontro tem a sua primeira oportunidade de ser submetido ao escrutínio dos nossos pares.

6 Com quem nos envolvemos. ou de habitação social. Nesse sentido. durante os últimos meses do segundo ano do curso. consequentemente. era bastante reduzido. local onde o alcance da intervenção dos mediadores. estava legalmente regulamentado pelo Despacho Normativo n. 4 Neste campo. Todavia.º 140/93. mantendo todavia a carga horária total inicial. como nas suas “origens etno-culturais”. como forma de resolver a recorrente perturbação que provocava nas sessões de formação. Porém. pese embora as características especiais desta formação. na época. profissões desprestigiantes. marcados pela exclusão escolar. não produzir uma verdadeira etnografia. partindo da pesquisa efectuada sobre a relação destes jovens formandos com os mediadores culturais. visando a inclusão social dos jovens envolvidos. refira-se que a maior parte da oferta formativa do IGAOP dirigia-se a áreas de formação tradicionalmente masculinas. ou populares. 3 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Fetterman & Pitman 1986). a qual. também foi expulso. Assim sendo. no presente trabalho. De facto. de 6 de Julho. e. pois embora recorra a técnicas etnográficas. derivaram das condutas desenvolvidas no interior da sala de formação. tem um estatuto intelectualmente ambíguo. desenvolvendo-se em três anos. habitando em bairros ou degradados. 7 Já durante a nossa pesquisa. que foram emergindo ao longo do tempo que passámos entre os formandos. o dispositivo institucional. a acção teve um desdobramento curricular. avaliador). convém referir que este grupo de formação 6 era o remanescente da “turma” inicial. um dos formandos com que trabalhámos. procedeu sempre ao seu acompanhamento. tanto quanto sabemos. iremos apresentar uma breve reflexão sobre uma tese que preconiza o primado da agência pessoal. Por motivos imprevistos. parcos rendimentos. tinham percursos existenciais similares. equivalência ao 9º ano. mas antes desenvolver algumas reflexões relativas à perspectiva do investigador (e. Não obstante. social. antes de entrarmos nos aspectos mais substantivos desta comunicação. particularmente por intermédio dos mediadores culturais. como se sabe. quando começou. oriundos de famílias com baixos níveis de escolaridade. face aos Pelo menos de início. neste trabalho não pretendemos apresentar uma súmula da nossa pesquisa. laboral. Ora. e. devemos relembrar que os resultados deste trabalho estão enformados pelo facto de emergirem de uma avaliação etnográfica. mas antes avaliar uma realidade face a um referente. visa antes de tudo. que era composta por dezasseis elementos. com qualificação de nível II. e. dos quais quatro haviam sido expulsos. por norma. os problemas que motivaram a expulsão. 5 O qual. e outros quatro haviam desistido 7 . (Fetterman 1984. estes jovens estavam ali a frequentar um curso de longa duração (2 anos 3 ) no domínio da construção civil 4 . o que é visível no escasso número de raparigas que o frequentavam.2 tanto nos seus “fenótipos”. ao abrigo do programa da Formação Profissional Especial 5 .

lendo os agentes envolvidos como hologramas societais.3 condicionantes estruturais. Todavia. sem prejuízo dos elementos que os unem entre si 9 . procurámos tratar cada um dos envolvidos nesta investigação como um sujeito. onde tentámos equilibrar horizontes de acção macro-estruturais e as possibilidades (realistas e/ou razoáveis. recorrer-se à “atomização” das estruturas sociais. elaborado no seio de uma avaliação etnográfica sobre os formandos de um curso de formação profissional especial. enquanto avaliadores etnográficos. económicas. Por outras palavras. do qual emergem simultaneamente como produtos e produtores. tanto pragmáticas (escolha de um quadro teórico com boa adesão aos fenómenos observados e relevância para a acção). balizado por preocupações. enjeitando as teses mais “estruturalistas”. este trabalho decorreu a uma escala micro-social. reconhecendo a distintividade e diversidade dos seus caminhos pessoais. devemos ter a preocupação de recorrer a uma(s) que responda(m) às questões que urge resolver. pelo que. inscrevendo a diversidade dos padrões de atitude e conduta que observámos. pessoas concretas. 9 Assim sendo. de entre a variedade de teorias disponíveis para abordar o terreno. ou seja. hic et nunc (aqui e agora). esperamos) existentes ao nível da agência pessoal dos intervenientes (Bourdieu s. reflectidos em espelhos distintos. 8 Sobre este assunto. Nesse sentido. Fetterman & Pitman 1986). pode consultar-se proveitosamente os estudos de David Fetterman (Fetterman 1984. e escolares. o nosso papel principal é a produção de conhecimentos para apoio à acção. mulheres. mas antes das mais-valias heurísticas e hermenêuticas derivadas da opção consciente de. sexuais) que possam ser elaboradas sobre determinadas categorias de pessoas (pobres. minorias. que. na adesão (pessoal) dos agentes a diferentes configurações de mentalidades culturais. a saber. não vamos aqui falar da avaliação etnográfica em si 8 . ou seja. num processo decisório.d. familiares. raciais. como filosóficas (valorização e dignificação da pessoa humana). e. através do seu dasein (estar-aí).) ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . movem-se num lebenwelt (mundo da vida). etc). operando no âmago da dualidade da estrutura de que nos fala Anthony Giddens (Guiddens 2000). no estudo de pequenos grupos (como é o caso de um meio escolar circunscrito). rejeitando as sobredeterminações (sociais.

1). raça. vivem num regime de “esquizofrenia cultural”. etnia. Crehan 2004). salvo melhor opinião. reificam os indivíduos. preconiza que as culturas são tendencialmente fixistas e/ou essencialistas 11 . razão pela qual procurámos deixar que os eventos em que participávamos fossem ajudando à emergência de uma hermenêutica do vivido. sexo. enformando-as a visões políticas do mundo. e. transitória e em constante (re)produção. desenvolvemos uma reflexão sobre a sociedade e a cultura. fruto dos processos dinâmicos (e. Ora. encontram-se mesmo entre alguns antropólogos. A título de exemplo. opusemos uma teoria que considera o domínio cultural como uma rede constelacional. descuram a importância da dimensão social e colectiva da vida humana.» (Fetterman 1998. sem todavia negar a sua unidade. Costa 1998). que visam reduzir o “lebenwelt” a uma tendência configuradora de um inequívoco e normativo padrão de ideias e condutas. Especialmente os estudos feitos sobre a égide de Luís Capucha e Alfredo Bruto da Costa (Capucha 1999. preconizando que «…the ethnographer enters the field with an open mind. e. Assim. que. 11 As marcas mais ou menos camufladas deste tipo de teses. particularmente no que concerne à identificação e filiação identitária (Nunes 1995. próprias de determinada civilização. numa perspectiva próxima da teoria emergente (usualmente conhecida por grounded theory). ainda que estes o ignorem ou neguem. que pode assumir expressões diversas no interior de cada sociedade. p. recusámos abordar o terreno com um quadro teórico “prontoa-vestir”. a posição dos sujeitos na estrutura e organização da sociedade. 10 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . classe social ou mesmo sub-cultura. a auto-vigilância do discurso é fulcral para evitar cair nesta dissimulada e recorrente armadilha do senso comum. hoje reconhecemos que o quadro teórico em que nos movimentámos na altura está um pouco desactualizado. Isto porque. defendemos que é um erro (infelizmente comum) considerar que as “segundas gerações” de imigrantes. contra esta tese que – inclusive sob o signo do multiculturalismo –. bem como as teorizações ostensivamente psicologistas.4 Posto isto. not an empty head. Logo. Nesse sentido. enjeitámos as teorias que elaboram instrumentais (modelos de dados e grelhas de leitura da realidade) centrados no primado de determinada variável (classe. embora tenhamos explorado algumas teorizações bastante profícuas sobre a exclusão social 10 . por considerarmos que essas teses escondem escolhas ideológicas que enviesam as análises científicas.). Fruto das aprendizagens posteriores. assente na desconstrução de visões homogeneizantes e intentos hegemónicos (oriundas tanto dos estratos dominantes como de grupos subalternos). e. etc. nesta pesquisa.

entre diferentes “mundos de vida”. ou de género neutro. mas temos que redefinir também a sua semântica.5 amiúde ambíguos ou contraditórios) de socialização e endoculturação. por vezes ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . que. que reflectem as novas modalidades societais de pensar. expressam-se por códigos culturais emergentes. não devemos apenas mudar as palavras. no quadro de um complexo socio-cultural que assenta numa lógica que não é monolítica. nestas pessoas (que podem ou não viver impregnadas em redes comunitaristas de identificação e sociabilidade).e. etc). o fulcro da nossa tese é a defesa que. embora podendo. enquanto ser singular – embora nunca perdendo a sua posição de sujeito cultural e socialmente situado – ao invés de ser discursivamente sobredeterminado por um conjunto de categorizações genéricas (nacionais. étnicas.. Nesse sentido. mais próxima do multiculturalismo celebratório (com que certos sujeitos se podem porventura identificar). Por outras palavras. reelaboram-nos de formas particularmente distintas. em que usualmente são (re)produzidas. sexuais. mas antes segmentar. expectativas e/ou aspirações.. por vezes. reconhecendo a pluralidade das pessoas e dos seus modos de vida. abrindo e explorando um feixe de modos de vida. nem a apologia da hibridez cultural. numa identidade dilacerada). importa referir que. para lá da sua aparência. Efectivamente. i. por parte do investigador. foi através do enquadramento da investigação com um conjunto de noções operatórias. um interlocutor tem o supremo direito de falar por si. sentir e agir. Mas. mas antes uma abertura intelectual. não só “miscigenizam” elementos de diferentes proveniências. de tipo pejorativo. como também respondem de forma plural e diversa a todo um conjunto de diferentes desafios. seja de cariz laudatório. i. tanto têm de comum como de diverso. devemos reconhecer o “Outro” (seja ele qual for). organizado segundo princípios policêntricos. em que se revêem. Ou seja. O reconhecimento de uma emergência miscigenada (que tanto se aplica a filhos de caboverdeanos em Portugal como à prole dos portugueses em França) não é a denúncia de uma alienação cultural (embora alguns o possam viver assim. nos mesmos parâmetros que identificamos o “Eu”. que o torne capaz de reconhecer que.e. sociais. saindo deste breve excurso. ao edificarem novas “sub-culturas”. possuir um núcleo de elementos transversais.

mais que pugnar por uma tese. pôde assentar no individualismo metodológico. expressos por percursos biográficos singulares – que se apresentam sob o conceito de “modo de vida”. dos vários estratos sócioeconómicos ou comunidades etno-culturais. a qual. esta diversidade de modos de vida da pobreza e exclusão social é magistralmente ilustrada em “Os filhos de Sanchez”. exploraram distintos percursos existenciais. que separam as condutas consideradas dominantes. matizam as visões hegemónicas que tendem sumariamente a associar e/ou justificar a pertença a determinada categoria social. Efectivamente.6 contra-factuais (i. foi para nós uma referência basilar. sintetizando mecanismos de ordem cultural e sócioeconómica. favorece a legibilidade das diferenças (por vezes profundas). monografia de Óscar Lewis sobre a biografia de uma família pobre da cidade do México. Além disso. opostas à “naturalização” dos fenómenos e/ou à justificação e padronização da evolução das suas configurações societais). e. revelam como nas suas vidas. Esta última noção. devido a estudarmos um fenómeno restrito a um pequeno grupo de pessoas. com um acento tónico no pólo da observação (e da escuta casual). revelou trajectórias sociais e percursos biográficos diferenciados que. 12 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Porém. esperamos que o nosso insight ao ser aquilatado pelos nossos pares. o que desenlevando a acção diferencial dos agentes sociais sob investigação.e. que permitimos que o terreno fosse gerando pistas para a sua própria interpretação. da profusão de dados observados. importa ainda referir que as nossas conclusões devem muito à estratégia de pesquisa mobilizada. por desenvolver uma reflexão emergente das fecundas contribuições do debate entre Thomas Khun e Karl Popper (Lakatos 1998. sem por isso cortar relações com o bom senso. Desta forma. Lakatos 1999).. Imre Lakatos. o individualismo metodológico – se interpretado em termos culturalistas – permite-nos que. entre e no interior. com a existência de diferentes tipos de exclusão social. em tempo. refutado por uma perspectiva mais promissora 12 . venha a ser refinado. pelo que esperamos que o aparato teórico referido em epígrafe nos tenha apartado do senso comum. no seio da qual os membros da linhagem. No campo da epistemologia. se possam perspectivar diferentes padrões de conduta – enraizados em trajectórias sociais colectivas (culturalmente informadas) e.

mesmo que com a mais benigna e igualitária das intenções. outros havia que revelavam claro “desajuste”. pelo menos. no seio do qual os indivíduos que dele partilham. No entanto. na tentativa de escapar ao pântano intelectual em que muitas vezes caem os culturalistas. nomeadamente no domínio sócio-educativo. decorriam em franca grande animação. estamos entre os que defendem que a reificação da diferença. perpetrado por Roberto (Lewis 1979). era governado por um regime de Existe. considerámos o terreiro de formação. a sua consequente redução ao nível do estereótipo ou das ideias feitas. optámos pelo recurso ao conceito de mentalidade cultural. como um terreiro de desiguais e permanentes negociações. tendiam a acentuar os actos de insubordinação e/ou desobediência 14 . Face a tudo isto. maiores de idade) exprimiam atitudes mais “consentâneas” com o institucionalmente “desejável”. 13 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . 14 Expressos particularmente na resistência à imposição da pontualidade quanto aos tempos lectivos. protagonizado por Consuelo até ao crime ocasional. o IGAOP. Assim sendo. através das quais jovens formandos e agentes institucionais. com tudo isto. tanto mais que ao invés da difícil operacionalização da ideia de cultura. (re)constroem processos de regulação e legitimação das diversas formas de conduta social em presença. de consequências incertas e equívocas 13 . de modo especial quando as actividades recreativas (como a conversa ou o pingue-pongue) em que estavam envolvidos. não quisemos fazer mais do que evitar a sobredeterminação das pessoas. possuam atitudes e condutas comuns concordantes com essa percepção do mundo (Vieira 1995). particularmente visível em comportamentos belicosos para com os seus pares. esse termo expressa simplesmente um sistema de referências colectivas. um bom estudo sobre alguns aspectos desta problemática. em contexto holandês (Vermeulen 2001). embora a maioria dos sujeitos demonstra-se uma conduta intermédia. Efectivamente. e. enquanto em outras ocasiões.7 desde o prosseguimento dos estudos. Na mesma linha. bem como os discursos e as práticas a ela associada – por vezes levados a extremos (Vasconcelos 1996) – mesmo que elaborados com intenções igualitárias. umas vezes dando mostras de maior acatamento de normas de conduta instituídas. se alguns formandos (principalmente jovens adultos. conforme nos foi dado a observar. correm o sério risco de enfraquecer e inquinar os laços sociais em prol de políticas comunitaristas. enquanto comunidade de agentes institucionais e beneficiários da formação. Em suma.

os activistas de toda a espécie – especialmente os nacionalistas radicais – que lutam pela implementação efectiva deste tipo de programa de acção. e. verifica-se um efectivo esforço de inclusão social e combate à marginalidade. racial. excepto no caso de estarmos dispostos a acreditar nas vetustas “caracterologias” nacionais ou a preconizar que as culturas constituem súmulas sistematizadas e orgânicas bem delimitadas. comprimido entre os esforços envidados por diferentes jovens em implementarem os seus distintos modos de vida (que iam do acatamento geral das regras à violência entre pares. é ao explorar a descontinuidade entre os arquétipos do dever-ser. tinham o fulcro da sua actividade centrada na harmonização dos diferentes modos de vida e mentalidades culturais em presença. mais que qualquer outros. de modo ligeiro. que englobam não só uns quantos estudiosos. em última análise. Não obstante os elementos mais recalcitrantes ao respeito ou negociação de fórmulas de “convivência”. reificar os ethos. essas teses. ancorados numa posição de “charneira”. concluímos que a diversidade dos padrões de conduta observados. passando pela subordinação da formação à diversão). entre os formandos e a organização. existente no Centro de Formação Profissional que estudámos. ao contrário da escola “tradicional”. os quais. visam circunscrever grupos de pertença. especialmente pelo recurso a animadores/mediadores culturais. devido ao amplo regime de autonomia organizacional e pedagógica. Isto é válido. Conforme revelou a nossa pesquisa. Assim sendo. e.8 mútua adaptação. como também. no sentido dos padrões socialmente aceites. prevenindo conflitos. 15 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . remete o valor heurístico da causalidade fundada na categorização para um papel residual. Isto porque. entramos em choque com aqueles que. necessárias ao institucionalmente desejável desenrolar da Formação Profissional. Todavia. sexual ou cultural). e. Neste domínio. defendemos que. tomando-os como pessoas ao invés de especímenes de determinada categoria (social. ao estudar os jovens envolvidos nesta formação. estes desenvolvem um papel decisivo na gestão da mudança. os projectos institucionalizados de regulação das atitudes e condutas 15 . nos espaços livres. particularmente através dos mediadores/animadores culturais. Todavia. radicam modos de vida e mentalidades culturais em supostos ascendentes e/ou filiação em determinada cultura. acabassem por ser irradiados do sistema. incentivando alterações de atitudes e condutas. justificando os fenómenos com argumentos quasi-naturalistas. não obstante haver muitos adeptos destas teorias.

informadas tanto por idiossincrasias pessoais.9 e. interessados em conhecer as diferentes expressões das atitudes e condutas dos formandos. Logo. afigurou-se que a Instituição. enquanto avaliadores etnográficos. emergente de uma dinâmica de socialização secundária. que não são redutíveis a causalidades unidimensionais. Posto isto. a realidade substantiva das modalidades concretas de padrões de atitude e comportamento. tanto mais que afigura-se que. que erradamente tomam o todo pela parte. esta visões derivam de um excessivo enfoque nos casos particularmente problemáticos. Deste modo. tendo em vista uma maior adaptação destes jovens em risco de exclusão social no seio da sociedade envolvente. que encontramos esta pletora de modos de vida e de mentalidades culturais. como pela diversidade de trajectórias biográficas. Deste modo. procurámos interpretar as mentalidades culturais. passíveis de lhes facultar uma melhor integração no seio das normas de conduta da sociedade envolvente e do mercado de trabalho. o que provoca leituras equívocas. que acabámos por valorizar a diversidade interna entre os formandos. com vista a que estes jovens pudessem adquirir (quando necessário) competências sociais. desenvolvia um duplo labor. nesta linha. na qual se negoceiam formas de pensar e agir. Neste sentido. e. através dos formadores. que moldaram a sua socialização primária. sem procurarmos “naturalizar” qualquer modalidade de organização do mundo humano. radicando-a numa pletora de modos de vida e mentalidades culturais. inscritas no âmago dos sujeitos investigados. através dos animadores/mediadores culturais. proceder à "correcção" de comportamentos. negligenciando as situações de marginalidade mais brandas. Ora. foi o facto de enformarmos a nossa pesquisa por estes pressupostos. que estes jovens adquirissem conhecimentos profissionais passíveis de lhes abrir as portas ao mercado de trabalho (quebrando assim o ciclo da pobreza e da exclusão profissional). em determinados modos de vida e mentalidades culturais. assumiam uma grande diversidade de formas de conduta. verifica-se que os jovens formandos trazidos à colação. procurando. concluímos pela vacuidade das teses que tendem a reduzir os jovens pobres ou socialmente excluídos a um grupo de comportamento homogéneo. particularmente em termos laborais. releva da nossa pesquisa que estamos perante um processo de (re)produção social e cultural. bem ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .

que assumem funções de complementaridade. nenhum destes elementos é redutível ao outro. (bem como o inverso). patentes nos modos de vida destes jovens. nem ficámos na especulação gratuita. corporizado nos cientistas sociais – tenhamos sempre em conta. fruto de uma determinada cultura.10 como as suas expressões societais. Em suma. não entrámos em pormenores substantivos do empírico. derivada ela própria. secundários ou marginais. 16 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . reconhece-los como pessoas e tratá-los como sujeitos. Assim. reiterando o propósito desta comunicação. as instituições culturais dotadas de superior legitimidade ou poderio (substantivo ou simbólico). Efectivamente. defendemos que. Posto isto. mesmo que discordem das suas linhas programáticas. as pessoas operam sobre a cultura. Logo. e. especialmente quando se estuda ou trabalha entre grupos desfavorecidos – que estão particularmente expostos ao olhar desse “Outro”. esperando que. Falámos pois de algumas reflexões sobre a prática e o terreno. outros também possam vir a lucrar com as nossas teses. pelo que ao invés de os reduzirmos a categorias. concorrência e/ou antagonismo. não radicam a sua conduta em modos essencialmente determinados de relacionamento social. concluímos que estes jovens. se a cultura (en)forma os sujeitos. fazemos votos para que. seja de etnia ou de classe. exprimem a diversidade das formas de conduta humana. que há pessoas para lá das culturas. não obstam à presença em cena de focos de poder alternativos. mas antes. da dimensão policêntrica das culturas e sociedades. tanto “tradicionais” como “modernas”16 . devemos. antes de tudo o mais. perspectivados no quadro de uma cultura segmentar.

Edições 70. Lisboa. Pierre. 1998. Perfis Emergentes. Sage Publications. Sociedade & Culturas. Configurações e Fronteiras: Sobre Cultura. Campo da Comunicação.). 6: 23-46. Lisboa.). Grupos Desfavorecidos Face ao Emprego. Os Filhos de Sanchez. Beverly Hills. Óscar. Sage Publications. s. practice and politics. Celta Editora. David M. 1979. Ricardo. Teresa Maria Sena de. 1998. Esquisse d’une Théorie de la Pratique. 1995. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Lisboa. Edições 70. Falsificação e Metodologia dos Programas de Investigação Científica. Dualidade da Estrutura. FETTERMAN. CAPUCHA. Ethnography. Lisboa. Alfredo Bruto da.). Anthony. 1999. Lisboa. Librairie Droz. FETTERMAN. VERMEULEN. Cristina Maria Paulo do Nascimento et al. 2001. Hans. 4: 127-147. Genebra. Ethnography in Educational Evaluation. LAKATOS.d. Exclusões Sociais. Gramsci. VASCONCELOS. 1995. Thousand Oaks. João Arriscado. Oeiras. Integração e a Dimensão Política da Cultura. “Onde Pensas que Tu Vais? Senta-te! – Etnografia como Experiência Transformadora”. Cultura e Antropologia. 2000. NUNES. Coimbra. LEWIS. Lisboa.. Imre. Ethnography in theory. 2002. VIEIRA. COSTA. História da Ciência e suas Reconstruções Racionais. Sage Publications. 1984. Fundação Mário Soares/Gradiva Publicações. Edições Colibri. Lisboa. FETTERMAN. Reportórios. Lisboa. David e Mary Anne Pitman (eds. LAKATOS.. Observatório do Emprego e Formação Profissional. Imigração. Instituto para a Inovação na Formação. “Mentalidades. Kate. Moraes Editores. 1999.11 Bibliografia BORDIEU.. 1996. Sociedade & Culturas. 1986 Educational Evaluation. Beverly Hills. Educação. Escola e Pedagogia Intercultural”. 1998. MILAGRE. CREHAN. 2004. Educação. Identidade e Globalização. Centro de Estudos Sociais. Luís Manuel Antunes (coord. David (ed. Imre. GUIDDENS.

como são o caso da de Castelo Branco.pt Faz-se. Num artigo de 1985. Há um investimento maior na obra de Raul Iturra e sua equipa de investigação. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . realçando. Palavras-chave: Antropologia da Educação. do ISCTE e de algumas ESEs. Esboço Histórico No início dos anos 80. Manuel José Alves Viegas Tavares resumia assim a Antropologia da Educação: A Antropologia da Educação analisa as relações escola/comunidade e as suas implicações no processo de enculturação dos jovens. que acumulava a docência com a de quadro superior no Ministério da Educação. tanto ao nível do trabalho ligado ao ensino da antropologia como à investigação em antropologia da educação produzida no ISCTE. Setúbal e Leiria. a este propósito. Aplicando os métodos de pesquisa e 1 No ano lectivo de 1983/84 eu próprio fui seu aluno e desenvolvi para avaliação final um pequeno trabalho de pesquisa etnográfica numa escola de Lisboa com o financiamento do Ministério da Educação (cf. essencialmente. também o papel da APA no desenvolvimento destas matérias. Histórias de Vida. Salienta-se. Educação Intercultural.ipleiria. o papel da FCSH-UNL. um pequeno esboço histórico sobre a Antropologia da Educação em Portugal. numa primeira instância. currículo vitae que integra estas provas de agregação). a Licenciatura em Antropologia da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa tinha uma cadeira optativa de Antropologia da Educação 1 leccionada pelo professor Viegas Tavares.A ANTROPOLOGIA DA EDUCAÇÃO EM PORTUGAL Ricardo Vieira Centro de Investigação Identidade(s) e Diversidade(s) (CIID) Instituto Politécnico de Leiria (IPL) rvieira@esel. 1.

não tinham habilitação própria nem formação específica em Antropologia. destacam-se os jogos que constituíam experiências fundamentais da morte e da vida. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . obrigatoriamente. 3 Na área de Estudos Humanísticos. mas apenas por necessidade de complemento de horário. visa contribuir para a solução de problemas da prática e da política educativa (Tavares. mas centrando-se sempre no método etnográfico de observação participante na análise dos processos educacionais. O programa e o manual mais divulgado eram. como ele próprio diz. De resto. 1999: 7). “Entretanto. O insucesso escolar e as minorias étnicas em Portugal: uma abordagem antropológica da educação. encarregues de a leccionar – o que nem sempre fazem com gosto. Antropologia Cultural. Terminada a minha licenciatura. de cursar Antropologia. na altura. no 1º semestre. espaço e tempo da liberdade favorável à inovação e transformação da realidade (Crespo.2 análise de ciências afins. variante de Português/Francês. 1997: 116). os professores de Geografia. e depois de 2 anos a ensinar Geografia e Antropologia no Ensino Secundário 3 . Paralelamente. Lisboa: Piaget. Educadores de Infância. ramo de Jornalismo e Turismo. Todos os cursos de então 5 . do 10º ano. Professores do 2º Ciclo do Ensino Básico. Em particular. nos ciclos do Inverno e da Primavera. da autoria de Augusto Mesquitela Lima. Fui convidado a construir o programa de Antropologia Cultural e fi-lo. com uma 2ª parte que. depois. a disciplina de Antropologia Cultural desapareceu com a nova reforma curricular. em 1987. 4 No ano lectivo de 1987/88 5 Poucos na altura: Formação de Professores para o 1º Ciclo. no domínio das relações com os outros. tendo deixado de ser leccionada em 1993/94” (Santos e Seixas. no processo cíclico de reestruturação do mundo. o Ensino Secundário os alunos tinham. pois o número de aulas de Antropologia não chega para formar um horário lectivo normal de 22 horas” (Souta. os jogos integravam-se no complexo de cerimónias cíclicas através das quais as crianças e os jovens se apropriavam da cultura das suas comunidades. “tendo sido na sua generalidade. Os professores de Antropologia Cultural. 1985: 53). depois das noções operatórias básicas da Antropologia Geral e das 2 TAVARES. Benito Martinez e João Lopes Filho. o jogo é um dos elementos mais importante na formação das personalidades. vim a ingressar na Escola Superior de Educação de Leiria 4 que tinha iniciado a sua função docente há apenas um ano. incluíam nos seus curricula a disciplina de Introdução às Ciências Sociais. Nas sociedades tradicionais. Viegas Tavares veio a fazer o seu doutoramento sobre o insucesso escolar e as minorias étnicas em Portugal 2 . sendo que os cursos de Educadores de Infância e Professores do 1º Ciclo do Ensino Básico tinham. Jorge Crespo desenvolvia também uma cadeira optativa de Antropologia do Jogo. Nestes casos. no 1º semestre do 2º ano. 1982: 52). Manuel Viegas (1998).

por professores que haviam feito os seus mestrados em Ciências da Educação. É preciso recordar que as Escolas Superiores de Educação (ESEs) nasceram a partir dos Magistérios Primários que. Os conferencistas convidados para esta sessão foram os professores Raul Iturra do ISCTE que apresentou a conferência “A passagem da oralidade à escrita na formação do saber: o mito do insucesso escolar” e Augusto Mesquitela Lima da FCSH – Universidade Nova de Lisboa. provavelmente. traduzida em edição brasileira por “Introdução à Antropologia Cultural” em 3 tomos que basicamente constituíam o manual da disciplina. dias 10. numa tentativa de relativizar a mente dos futuros professores e educadores. tinham também nos currículos da formação de professores e de educadores de infância.3 Ciências Sociais. ora no Estados Unidos da América. no ano de 1988. e os demais foram publicados nas Actas das I Jornadas de Antropologia e Etnologia Regional. Os livros obrigatórios de então. não tivesse formação suficiente para ir além do Culturismo Americano e da escola de cultura e personalidade. que apresentou a conferência “A Antropologia e o Sistema Educativo 6 ”. lembro-me. Leiria: Escola Superior de Educação. na altura. na Universidade de Bordéus. um pouco por todos os Magistérios do País. A minha preocupação com o cruzamento da Antropologia com a educação era de tal forma já considerável na altura que consegui que a manhã do primeiro dia fosse inteiramente dedicada ao tema da Antropologia e Educação. Os que fizeram as suas especializações em Análise Social da Educação ou em Metodologia dos Estudos Sociais são. era o célebre “Padrões de Cultura” de Ruth Benedict e “Os conflitos e Gerações” de Margaret Mead. Sociologia da Educação e Antropologia da Educação dos currículos de formação das ESEs. 11 e 12 de Novembro. na Universidade de Boston. há já alguns anos. O corpo docente das emergentes Escolas Superiores de Educação foi alimentado. ora em França. No ano de 1988. 11 e 12 de Novembro de 1988. financiados por um projecto do Banco de Portugal. basicamente por todo o país. a 10. integrei a comissão organizadora das I Jornadas de Antropologia e Etnologia Regional. Nalgumas escolas 6 Estes textos. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . a disciplina de Antropologia Cultural muito desenvolvida em torno da obra de Herskovits “Man and his Works”. os docentes que estão na origem das disciplinas de Análise Social da Educação. apontava para o estudo do processo educativo embora.

não podem/devem perder a experiência da Antropologia nessas matérias 9 . Na ESE de Setúbal foi criada a disciplina de Antropologia da Educação. em 1992. Na ESE de Leiria surgiu a Antropologia da Educação como disciplina optativa dos cursos de Formação de Professores para o 1º Ciclo e de Educadores de Infância. coordenada por Luíza Cortesão (Cortesão. Pulo Raposo. no entanto. acabam por ter algumas disciplinas viradas para a questão da educação e diversidade cultural que. Professor Catedrático do ISCTE. definida como uma área curricular não disciplinar e os TEIP (Territórios Educativos de Intervenção Comunitária) criados pelo Despacho 147-B/ME/96. 7 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . desde muito cedo que orientou a Antropologia (licenciatura) para a questão da educação e da diversidade cultural e para a legitimação da Antropologia da Educação (tese de mestrado e de doutoramento) sob a orientação do Doutor Raul Iturra. professor da Escola Superior de Educação de Lisboa. licenciado em Antropologia e. leccionada por Luís Costa. sem qualquer grau em Ciências da Educação. actualmente. Aproveitavam o tempo livre Luís Souta. 8 Ricardo Vieira. Rosa Madeira. a secção de Antropologia da Educação da APA. e cuja coordenação tem sido assegurada por Luís Souta. Entre 1993 e 1997. inevitavelmente. que funcionou pela primeira vez no ano lectivo de 1988/89. Nuno Porto e Berta Nunes. Em 1987 Raul Iturra dava o grande pontapé de saída com o trabalho de campo com observação participante.4 surgiu mesmo a disciplina de Sócio-Antropologia. é notável sobre a questão da escola e das propostas inter/multiculturais. – Associação Portuguesa de Antropologia. a Raul Iturra que se deve o boom do desenvolvimento da Antropologia da Educação em Portugal. está a concluir o seu doutoramento em Antropologia da Educação no ISCTE. também ele Mestre em Ciências da Educação 7 pela Universidade de Boston. O trabalho de Carlos Cardoso. sob proposta de Ricardo Vieira 8 . Professor Coordenador da ESE de Setúbal. é. de Carlinda Leite. 2000). É inegavelmente. reuniu várias vezes com o Ministério da Educação a propósito da habilitação própria para leccionar no Ensino Secundário e de outras saídas profissionais dos Antropólogos no ensino: Área-Escola. criada pelo Decreto-Lei 286/89. Outras Escolas Superiores de Educação e Universidades públicas e privadas. 9 Ver a este propósito a obra “Nos Bastidores da Formação: Contributo para o Conhecimento da Situação Actual da Formação de Adultos para a Diversidade em Portugal”. Rosa Nunes e Rui Trindade. embora não tendo especificamente Antropologia da Educação nos seus currículos. com Filipe Reis. como é o caso de Castelo Branco. iniciado em Vila Ruiva. presidida pelo professor Raul Iturra e da qual eu próprio fazia parte.

e “Entre a Escola e o Lar: O Curriculum e os Saberes da Infância” de Ricardo Vieira (Vieira.º 6/7. Ricardo Vieira. terras. através da metodologia das genealogias. Ricardo Vieira colaborou na organizou da secção Diálogos sobre o Vivido. cientistas da educação e antropólogos (Raul Iturra desde o primeiro número 11 . 1992). papel e lápis e faziam com as crianças os trabalhos de casa. 1997). Iturra e Reis. 1991). Assim. 2000). o aparecimento da revista “Educação. sobre a temática “sistemas de avaliação doa alunos do Ensino Básico”. à doença. conjuntamente com Telmo Caria e Ana Benavente. 1990 e Iturra. em termos de secretariado de redacção e conselho de redacção. Iturra. 11 Contudo. Filipe Reis. 1991). “Educação. Paulo Raposo. (cf. Arados e Romarias: Entre a Fé e a Razão em Vila Ruiva” de Paulo Raposo (Raposo. o Coração: A Construção Social da Sexualidade em Vila Ruiva” de Nuno Porto (Porto. a Razão. “O Saber Médico do Povo” de Berta Nunes (Nunes. em 1994. 1991). que tem Ver entrevista dada por Raul Iturra em 1999 a Ana Levy Aires. os animais etc 10 . os seguintes livros: “Fugirás à Escola Para Trabalhar a Terra: Ensaios de Antropologia Social Sobre o Insucesso Escolar” de Raul Iturra (1990a). etc. ao hospital.5 que a escola concedia às crianças para fazerem actividades com elas a fim de compreender as suas representações sociais e conhecimento local. n. dirigida pelo professor Stephen Stoer e que. propriedade da Associação de Sociologia e Antropologia da Educação. 1992). brincavam à família. Vieram a juntar-se a estas publicações a “Escola e Aprendizagem para o Trabalho num País da (Semi)periferia Europeia” de Stephen Stoer e Helena Araújo (Stoer e Araújo. Esta revista. “O Corpo. “A Construção Social do Insucesso Escolar: Memória e Aprendizagem em Vila Ruiva” de Raul Iturra (1990b). ainda que de uma forma mais interdisciplinar. mais tarde. Luís Souta e Amélia Frazão-Moreira). em particular com a Sociologia da Educação. Ana Felisbela Lavado e Paula Godinho para a revista Arquivos da Memória do Centro de Estudos de Etnologia Portuguesa da Universidade Nova de Lisboa. desde o segundo e. levava os alunos a pensar a sua história. Ensino e Crescimento: O Jogo Infantil e a Aprendizagem do Cálculo Económico em Vila Ruiva” de Filipe Reis (Reis. Dessa investigação foram publicados. Compravam cadernos. o património dos pais. É de assinalar aqui. “Corpos. na colecção “A aprendizagem para além da Escola”. ainda em termos do desenvolvimento da Antropologia da Educação em Portugal. integra vários sociólogos. 10 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Sociedade e Culturas”.

por insistência de Paulo Raposo. do conceito do professor inter/multicultural através do campo da recontextualização pedagógica. uma proposta para um modelo explicativo dos graus de autonomia ou de heteronomia nas relações das instituições de ensino com as instituições económicas o mercado de emprego. […] Eu queria entender a racionalidade daquelas estratégias reprodutivas. editorial do primeiro número da revista. começámos a brincar com as crianças. As crianças vêem o mundo através dos olhos dos adultos. Augusto Santos Silva. Este objectivo de entender a racionalidade reprodutiva tem-me levado da Antropologia Económica à Antropologia da Educação. apresentamos dois artigos que estudam o processo de aprendizagem nas crianças como forma de produção e construção de novos saberes e poderes: enquanto o artigo de Raul Iturra ensaia ideias sobre a natureza do processo educativo. apresenta-nos uma reflexão crítica sobre o conceito e as teorias da mudança social. recusando uma visão linear e sucessiva de mudança.5). Antropologia da Sexualidade. 2. O artigo de Luiza Cortesão e colaboradores apresenta uma análise das histórias contadas por crianças luso-brancas e luso-ciganas. Na base de um conhecimento da evolução de instituições de ensino técnico. em conjunto com uma equipa que angariei enquanto colaborava na fundação do departamento do ISCTE. a epistemologia dos seres humanos. ou o Nuno Porto. p. Isso levou-me. saiu. que fez comigo trabalho de campo. Então. Antropologia do Género. a meter-me por uma ideia feliz daquela equipa: como é a epistemologia do lar. A seguir. e. Finalmente. que vivem no que é denominada «uma situação de ghetto sóciocultural». no artigo de Sérgio Grácio. por criar. passando. uma Antropologia do Turismo. os tempos livres. com seis artigos que abordam temas variados: O primeiro artigo [da autoria de Stephen Stoer] aborda a construção. Investigação e Ensino da Antropologia da Educação no ISCTE. no seu primeiro número. ou o Filipe Reis. uma Antropologia Urbana. a partir das brincadeiras e jogos passámos a analisar. o artigo de Georges Augustin lança um olhar antropológico sobre o jogo de berlindes. (Stoer.6 tido um forte pendor etnográfico. pelo meio. possivelmente “contra-hegemónia”. como tentativa de aceder a uma compreensão dos seus quotidianos. encontramos. através do que é que pensam e como pensam as crianças acerca do que acontece na sua casa. porque a criança ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . inventámos os ATL.

em 1970 e em 1974. 13 Entrevista dada por Raul Iturra aos cadernos de Educação de Infância.º 62. corresponde ao espraiar do pensamento teórico do autor na perspectiva da afirmação de uma Antropologia da Educação.7 não tem ainda conceitos. p. um conjunto de ensaios. 1994: 186). que se debruça sobre a complexa relação entre o «saber letrado» (da escola) e a «mente cultural» (rural). só que ninguém dá por isso” 13 . ao estudar o grupo doméstico. “A criança não é o domínio de ninguém. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . n. Ana Felisbela Lavado e Paula Godinho para a revista Arquivos da Memória do Centro de Estudos de Etnologia Portuguesa da Universidade Nova de Lisboa. elaborado numa linguagem não hermética. pela primeira vez. A Antropologia da Educação. (Silva. 129. 1990a). no ano lectivo de 1994/95. A cultura está dividida em duas partes: a dos adultos e a da infância. diz que O primeiro livro (Iturra. em termos de investigação. tanto assim que os inimigos dos pais. as crianças não entendem porquê mas são também seus inimigos 12 . 1992). numa recensão bibliográfica da obra atrás citada de Stoer e Araújo (Stoer e Araújo. passim). Trata-se de um pensamento radical. mas foi precedida de muita investigação financiada pelo INIC e pela FCT e de muito debate no país e no estrangeiro. em 23 de Julho de 2004. é do domínio dela própria. no trabalho de campo em VilaTuxe. n. Já antes. 4. Pedro Silva. emergiu no ISCTE pela mão de Raul Iturra que assim foi progredindo da Antropologia Económica para o estudo da aprendizagem e transmissão cultural para além da escola e para o estudo da mente cultural e da epistemologia da criança (Iturra. p. incluída na mesma. A leccionação em cadeira autónoma viria a acontecer no ISTE. 14 Dados apurados em entrevista com Raul Iturra. Abril/Maio/Junho de 2002. […] As crianças entendem o mundo da forma que os pais o entendem. A propósito da primeira obra da colecção “A Aprendizagem Para Além da Escola”. trata mal os conceitos.º 6/7. se começou a interessar como se 12 Extracto de entrevista dada por Raul Iturra em 1999 a Ana Levy Aires. Raul Iturra reconhece 14 que.

) e em França (Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales e no Collège de France) com a participação de Maurice Godelier. à volta de temas como o insucesso escolar. etc. a etnopsicanálise. a oralidade e a escrita na aprendizagem. Filipe Reis. Amélia Frazão Moreira. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Françoise Zonabend. Luís Souta. François Bonvin e Bernard Lahire. Comparando-a com os trabalhos de Antropologia da Educação americana que se tem preocupado com o sistema formal. Paulo Raposo. início de 90. As suas filhas começaram a ir à escola em VilaTuxe onde falavam galego. 1992.8 aprendia a calcular na rua. 1997a: 353). o jogo e a aprendizagem. Marie Elizabeth Handman. A partir dos finais da década de 80. A sua pesquisa faz-se por isso a montante do sistema educativo. Iturra. (Souta. Raul Iturra e a sua equipa de investigação iniciaram um conjunto de seminários fechados sobre Antropologia da Educação. Monique de Saint Martin.. na economia doméstica etc. diz que O Saber das Crianças «trilha outros caminhos. 1993. em Portugal (Lisboa. Embora a pesquisa aí realizada fosse centrada na vida económica. 1997a e 1997b). etc. Ricardo Vieira) como uma equipa pioneira que lançou em Portugal a Antropologia da Educação. não em torno de “problemas” mas na procura das virtualidades e potencialidades das crianças para aprenderem e entenderem o real. Albergaria dos Doze. a transgressão e a aprendizagem. professor de Antropologia da Educação na Escola Superior de Educação de Setúbal 15 . Percebeu que as crianças eram educadas pela interacção dentro do grupo onde vivem (cf. 1997 e 2001). no jogo. Porto. considera os cinco autores dos textos que compõem este livro (Raul Iturra. 15 Luís Souta tem dado um contibuto notável ao desenvolvimento da educação multicultural e da antropologia da educação em Portugal (1991. Em casa as línguas eram o Castelhano e o Inglês. Alfândega da Fé. num processo que conduz naturalmente ao reconhecimento e valorização desses saberes. a ideia da aprendizagem para além da escola foi emergindo e viria a despertar o seu interesse pela Antropologia da Educação. E toda esta diversidade levava Iturra a pensar nas descontinuidades entre a casa e a escola. Na recensão da obra “O Saber das Crianças” (Iturra. procurando compreender os mecanismos da aprendizagem informal. 1996). Pierre Bourdieu.

Raul Iturra diz na Introdução ao livro “O Saber das Crianças”: Uma parte do grupo que comigo trabalha decidiu escrever sobre o saber das crianças. Assumindo essa consciência e essa responsabilidade. bem como sobre o método etnográfico (Caria. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . engrossam a latitude da Antropologia da Educação que este tem feito desenvolver em Portugal. esta análise é feita por meio de entrevistas e análises de histórias de vida de professores do ensino Básico. numa aldeia da serra da Estrela. ora separadamente em termos de docência. 2003). e tem sido coordenada por Raul Iturra e leccionada por este. por Filipe Reis e por Paulo Raposo. (Iturra. Começo por abordar uma forma particular de interacção entre ascendente e descendente: aquela através da qual um grupo social contextualiza ou quer contextualizar. e hoje sob a minha coordenação. Amélia Frazão-Moreira […] analisa o processo de interacção que no interior de um grupo doméstico. Ricardo Vieira […] procura explicar como o adulto de hoje é resultado do jovem e da criança que antigamente foi. Sociologia e Psicologia Social (cf. a continuidade histórica das pessoas sobre a terra […]. […] Filipe Reis […] analisa a forma como a escola introduz as crianças na cultura escrita. 2000. parte IV).9 As pesquisas de Telmo Caria sobre culturas de escola e culturas profissionais. e a de Amélia Frazão Moreira sobre as classificações das crianças apreendidas do mundo adulto (FrazãoMoreira. a partir de uma experiência de terreno. 1994 e sobre etnobotânica (Frazão-Moreira. ao longo do tempo. arranjo doméstico. ambas orientadas por Raul Iturra e conducentes aos seus doutoramentos já terminados. transmite saberes e contra saberes através das tarefas que constituem o trabalho doméstico (nutrição. anexos. (de uma aldeia de Trásos-Montes). 2003). queríamos definir processos e actividades que permitam ao leitor entender o dito saber. A disciplina de Antropologia da Educação tem-se mantido como optativa para as licenciaturas de Antropologia Social. Sob a minha orientação. 1994. isto é. etc.). ora em colaboração conjunta. nas conversas sobre os amores e a afectividade. 1996:10 e 11). […] Paulo Raposo […] regressou comigo à Beira Alta e observou os comportamentos rituais dos pequenos. colectando dados a partir dos quais foi capaz de concluir que o real é representado e manipulado pela pequenada que estamos a estudar aí. a emotividade do mais novo para assegurar a reprodução.

J.. é de assinalar. Ricardo Vieira da ESE de Leiria e José Catarino da ESE de Setúbal).10 De ano para ano.etnicidade e identidade nacional. 70. Referências bibliográficas AUGÉ. BRUNER. 2000.tradicional/moderno. todos os programas abrangem o processo educativo na escola e fora da escola. 1955. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Ed. Lisboa. Luis Silva Pereira . Actos de Significado. Luis Souta multiculturalismo e educação. BASTIDE. a disciplina envolveu convidados exteriores ao ISCTE na leccionação das aulas nº 7. a criação do primeiro mestrado em Portugal de Antropologia da Educação (2003-2005). Anais XXXL Congresso Internacional de Americanistas.Lugares. 8. Amélia Frazão . 9. coordenado por Raul Iturra. Lisboa. São Paulo. “Le Principe de Coupure et le Comportement Afro-Bresilien”.problemas metodológicos e de investigação em contexto escolar. 70. Bertrand. 11 e 12. Ed. BRUNER. há algumas alterações pontuais em termos da ordem e da natureza das temáticas abordadas mas. No ano lectivo de 1995/96. J. Roger. Telmo Caria da UTAD. Lisboa. grosso modo. 1: 493-503. Darlinda Moreira da Universidade Aberta.. José Veiga .histórias de vida e biografias. Não . 1997. Cultura e Educação.10. Ricardo Vieira . como corolário de uma basta investigação e prática de ensino no ISCTE. Para além da disciplina que integra como optativa os currículos das licenciaturas do ISCTE já mencionadas. Luís Souta da ESE de Setúbal. 1994. com os seguintes docentes e respectivos temas: Teimo Caria .A análise do jogo . Marc. Introdução a uma Antropologia da Sobremodernidade. e com a colaboração de docentes internos (Paulo Raposo e Miguel Vale de Almeida do Departamento de Antropologia Social do ISCTE) e externos (Amélia Frazão-Moreira da Universidade Nova de Lisboa.saberes secretos.

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VI – Capítulo Diferenças e Semelhanças do Género Textos de comunicações do painel: Diferenças e Semelhanças do Género Coordenação Antónia Pedroso de Lima Centro de Estudos de Antropologia Social -ISCTE Susana Matos Viegas Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e Universidade de Coimbra ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .

pt Os conceitos de diferença e semelhança são eixos estruturantes da reflexão sobre género. Estes conceitos podem ser definidos e medidos de formas distintas e as nossas opções teóricas e metodológicas sobre a utilização que lhes damos têm efeitos significativos nas análises que fazemos.mar@netcabo. Palavras-Chave: Género. orientando a atenção para certas dimensões dos fenómenos em estudo e deixando outras encobertas. pretende-se lançar pistas que contribuam para esse debate. discursivos) que empregamos para descrever diferenças e semelhanças de género (bem como aquelas que estão associadas a outros eixos de diferenciação e desigualdade social) e discutir o ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Diferença. construídos na produção de conhecimento sobre esses contextos e as relações que aí se estabelecem. partindo de observações realizadas numa micro-etnografia com uma turma de 8º ano de uma escola em Lisboa. Semelhança Quando entramos num recreio. Como descrever e problematizar. Poder. Nesta comunicação. pertencer a grupos separados. as diferenças de género identificadas na observação são configuradas pelas questões que colocamos e perspectivas de análise que adoptamos. é fundamental problematizar o lugar do binómio diferença e/vs semelhança na investigação sobre género e debater o seu estatuto epistemológico. saltam frequentemente à vista diferenças entre raparigas e rapazes – as/os jovens dos dois sexos parecem desempenhar actividades diferentes. teóricos.Construindo Diferenças e Semelhanças no Recreio: uma Micro-Etnografia de Género e Poder em Contexto Escolar Maria do Mar Pereira Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE) maria. Importa.do. cantina ou sala de aula de uma escola de 2º e 3º ciclo. mas são abordados nessa reflexão de modos variáveis. sala de convívio. reflectir sobre os recursos (metodológicos. potencial heurístico e relevância etnográfica. Como tal. Jovens. em larga medida. como tal. ter comportamentos distintos. Não são factos apenas dados pelos contextos empíricos mas. então. ocupar o espaço de forma desigual. estas diferenças e os processos sociais e culturais através dos quais são constituídas? Mais do que uma propriedade unívoca e “objectiva” das pessoas ou grupos em estudo. Escola.

se salientam as semelhanças entre homens (em especial no que diz respeito aos aspectos entendidos como características centrais e necessárias da masculinidade) e as semelhanças entre mulheres (em particular no que se refere aos elementos considerados distintivos e fundamentais da feminilidade). Nesta comunicação.2 papel que esse processo de descrição desempenha na (re)produção e legitimação dessas diferenças e semelhanças. pretende-se lançar pistas que contribuam para esse debate. geralmente orientando o olhar para ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . colocar no centro da análise as situações em que estas diferenças são minimizadas ou negadas. De facto. diversas/os autoras/es têm salientado a necessidade de problematizar o lugar do binómio diferença e/vs semelhança na investigação sobre género e de debater o seu estatuto epistemológico. actualmente em curso. com uma turma de 8º ano de uma escola em Lisboa (Pereira 2006). potencial heurístico e relevância etnográfica (por exemplo. analisando deste modo a diversidade de performances de feminilidade. tomando como ponto de partida observações efectuadas no âmbito de um trabalho de micro-etnografia. Existem estudos que se centram nas diferenças entre mulheres e homens e outros que privilegiam a exploração de diferenças entre mulheres. As opções teóricas e metodológicas sobre os modos como se usam os conceitos de diferença e semelhança de género e sobre o papel e estatuto que lhes é atribuído num dado estudo têm implicações nas observações feitas e conclusões formuladas. Diferença e Semelhança na Investigação sobre Género Estudar género é analisar a construção social de diferenças e semelhanças. É problematizar os processos materiais e simbólicos através dos quais se representam e posicionam as mulheres como sendo diferentes dos homens e. não têm um significado unívoco ou posição constante nessa reflexão: as diferenças e semelhanças de género podem ser (e são) definidas e medidas das mais variadas formas. assim. No entanto. Eagly 1995. Os conceitos de diferença e semelhança assumem-se. Butler 1990 e 1993. West e Zimmerman 1987). ao mesmo tempo. Um estudo poderá focar os contextos em que as diferenças entre mulheres e homens são acentuadas e explicitadas ou. et al 2003. como eixos estruturadores da reflexão sobre género. por outro lado. Cranny-Francis. por exemplo.

relações e situações em função Como argumenta Gherardi. aliás. mesmo quando essa descrição assenta no pressuposto de que essas diferenças são o produto de experiências sociais distintas e não o resultado de características biológicas necessárias e universais. Têm também implicações a outros níveis: influenciam. Como tal. de forma activa e sistemática. na regulação dos significados e normas associados ao género1 . exagerados ou mitificados) se tornam elementos integrantes de crenças e discursos generalizados sobre as diferenças entre mulheres e homens e sobre as implicações dessas diferenças ao nível dos papéis e posições sociais que devem corresponder a umas e outros. diferentes. Friedan 1965. Thorlindsson e Vilhjalmsson 2003). À ciência é. “demonstrando” as diferenças entre os sexos e a “natural” superioridade de um em relação ao outro. Como tal. como mais uma prova de que mulheres e homens são. Laqueur 1990). como no das físico-naturais) intervém. com base nos seus traços “biológicos”. Jacobus et al 1990. As/os jovens com as/os quais convivi no âmbito do trabalho que aqui vou apresentar diziam com frequência que “está provado cientificamente que as raparigas amadurecem mais cedo do que os rapazes” ou que “há estudos que mostram que os homens têm muito mais força do que as mulheres”. Esta é uma ilustração de como os discursos científicos sobre género (embora filtrados e muitas vezes adaptados.3 certas dimensões dos fenómenos em análise e deixando outras encobertas. uma descrição “científica” de diferenças entre mulheres e homens pode ser lida e usada como confirmação da existência de “essências” de feminilidade e masculinidade. Enquanto instituição que produz discursos (diversos) sobre as diferenças e semelhanças entre mulheres e homens. Ao analisar práticas. devido ao seu estatuto (nas sociedades ocidentais contemporâneas) como forma mais “objectiva" de produção de conhecimento sobre o real (Bourdieu 2001. a investigação científica (tanto no âmbito das ciências sociais. Maranta et al 2003. directa ou indirectamente. “the knowledge yielded by the category «gender» about gender is one of the clearest examples of reflexive knowledge – by which I mean the social process of knowledge production which changes the knowing subjects and the conditions under which the phenomenon is produced. Rosenberg 2005.” (1995: 1 – itálicos no original). conferida particular autoridade nesta regulação. os próprios processos sociais de construção de diferenciações que analisam. 1 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . nos últimos séculos os discursos científicos têm desempenhado um papel crucial como “narrativas de legitimação” (Foley e Faircloth 2003) da subordinação das mulheres (Amâncio 1994 e 1997. de facto.

estratégias de gestão. rotinas. relações de poder e autoridade. Os vários estudos que têm problematizado as relações entre género e educação2 demonstram que as estruturas institucionais. Diferenças e Semelhanças na Escola Desde inícios da década de 1980. gostaria de recorrer a observações e reflexões efectuadas no âmbito do meu trabalho de micro-etnografia. Fernandes (1984). para ilustrar e explorar as formas como estas questões se manifestam num contexto empírico particular. a investigação em ciências sociais sobre género pode contribuir indirecta e inadvertidamente para a re-inscrição biológica dessa diferenciação e para a reprodução e legitimação de uma dicotomia que deve ser seu objectivo problematizar e desnaturalizar. em função de representações socialmente partilhadas sobre os significados e implicações da diferença 2 Arnot e Weiner (1987). isto é. Não há fórmulas já prontas e infalíveis para o fazer e não tenho quaisquer pretensões de apresentar aqui respostas e soluções a estas questões. então. em suma. necessária e dualista.4 da dicotomia feminino/masculino. e utilização de artefactos. ainda em curso. as escolas têm sido descritas e estudadas no âmbito das ciências sociais como espaços em que as questões de género estão presentes de forma transversal e estruturante. Thorne (1993). recompensas e sanções. independente das suas manifestações situacionais. instrumentos pedagógicos. cultura organizacional. Connell et al (1982). O desafio é. actividades curriculares e extra-curriculares. espaços e recursos. essencializar e dicotomizar as diferenças entre mulheres e homens. discursos oficiais e não oficiais. Stanworth (1981) e Wolpe (1988) foram alguns dos trabalhos pioneiros nesta área. relações formais e informais. No entanto. sem lhes conferir uma existência concreta. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . sobre negociação de masculinidades e feminilidades entre jovens de uma escola em Lisboa. todas as dimensões da vida na escola estão organizadas. Kessler et al (1985). construir vocabulários e modelos de análise que nos permitam dar conta das dinâmicas e efeitos da produção da diferenciação (e desigualdade) de género e descrever as múltiplas configurações dessa diferenciação (evidenciando o seu carácter variável e contextual). sistemas de regras. de forma mais ou menos explícita. Delamont (1990). sem reificar. estável.

No projecto de investigação no qual estou neste momento a trabalhar. as raparigas gostam de fazer fofocas e são intriguistas. também fora dela). Para o fazer. mais quietas e atentas. Quando se realiza um trabalho de observação sobre género junto de jovens desta idade numa escola. têm comportamentos em sala de aula.5 entre mulheres e homens. uma escola pública em Lisboa. estruturas e dinâmicas de interacção distintas. ao longo de seis semanas. diferentes. atiravam canetas e outros objectos. os rapazes o inverso. aparentando. Os protagonistas deste tipo de comportamentos eram. as raparigas não sabem e não estão interessadas em jogar. na sua quase totalidade. um olhar atento revela que muitas das diferenças que observamos e que nos são relatadas pelas/os jovens são menos diferentes do que inicialmente pareciam. estar a prestar atenção ao que estava a ser dito. em geral. Os discursos que as/os jovens produzem reiteram e reforçam esta diferença. sem intrigas. os grupos de amigas/os têm dimensões. e as dinâmicas de poder e (auto e hetero) regulação através das quais certas performances de feminilidade e masculinidade são avaliadas e sancionadas como “naturais” (e portanto legítimas e desejáveis) e outras como desviantes e problemáticas. Esta diferença foi observada por várias/os autoras/es ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . proponhome analisar as formas como jovens negoceiam género num contexto desse tipo. os rapazes adoram jogar futebol e outros desportos. No entanto. recreio. já que elas/es frequentemente falam de rapazes e raparigas através de dicotomias e oposições: as raparigas são bem comportadas. no geral. A questão do comportamento na aula é um exemplo pertinente. noutras circulavam pela sala. Interessam-me em particular os modos como estas/es jovens definem e expressam o “ser mulher” e “ser homem”. por exemplo. Muito do que vemos parece confirmá-lo: frequentam espaços distintos. por vezes. etc. faziam sons de animais. as raparigas demonstram maturidade e responsabilidade. os rapazes barulhentos e irrequietos. a sensação inicial é a de que rapazes e raparigas são muito diferentes. os rapazes não querem saber da vida das outras pessoas e dizem o que têm a dizer “na cara”. rapazes – as raparigas pareciam estar. integrei-me numa turma de 8º ano e acompanhei as/os jovens da turma (com idades compreendidas entre os 13 e os 15 anos) em todas as suas actividades (lectivas ou não) na escola (e. ouviam música em leitores de mp3. A turma que observei tinha comportamentos bastante diferentes em cada disciplina – em algumas estavam caladas/os.

apenas aparente. muitas delas estão envolvidas em práticas que podem ser consideradas também como estratégias de disrupção da concentração em aula e que incluem. por exemplo. Como tal. habitualmente formulada por meio da dicotomia “integração feminina / resistência masculina” (Abrantes 2003: 88. Na véspera de um campeonato inter-turmas (no qual participavam equipas femininas e masculinas). Mesmo quando parecem estar atentas. enviar mensagens de telemóvel. considerados adequados a rapazes e raparigas (Ferreira 2002). interiorizadas na infância. na medida em que podemos ser levadas/os a focar a atenção nas diferenças e dicotomias que. A relação das raparigas com o futebol e com os espaços onde este é praticado é um exemplo interessante da forma como se estabelecem e negoceiam fronteiras. que contrariam o dualismo rígido e simplista que é habitualmente usado para descrever comportamentos em aula e que tende a reforçar a tradicional dicotomia entre actividade masculina e passividade (e obediência) feminina. tendo sido interpretada como um demonstração da postura significativamente diferente de rapazes e raparigas face à escola. manifestações de distracção e resistência. por serem elementos centrais das representações colectivamente partilhadas sobre a masculinidade e feminilidade. descrição e análise de diferenças e semelhanças de género. também elas. mais dificilmente identificáveis pelo/a professor/a ou outro/a observador/a mas são. um grupo de nove raparigas decidiu praticar num dos campos principais. mas sim elementos de processos recorrentes e contínuos de criação e negociação de fronteiras entre os espaços. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . escrever e trocar recados em papel. portanto. Uma observação mais atenta e continuada do que acontece na escola demonstra também que as diferenças que se observam entre rapazes e raparigas não são diferenças já resolvidas e consolidadas. ver também Willis 1977) No entanto. frequentemente. Na escola onde está a ser realizado este estudo. são mais visíveis e familiares para nós. importa proceder com cautela na observação.6 em outros estudos. etc. As/os jovens da turma atribuem-no ao facto de as raparigas não terem jeito ou interesse para o futebol. uma análise do comportamento das raparigas na turma que observei demonstra que esta “integração feminina” é. comportamentos. ler revistas. é raro ver raparigas jogar futebol nos campos principais. conversar e rir baixinho. traços. não só a nível simbólico mas também geográfico. Estas práticas são menos visíveis e audíveis do que as dos rapazes e.

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Depois de jogarem durante alguns minutos, dois rapazes pediram-lhes que saíssem do campo, dizendo que eles e os colegas queriam jogar ali. Elas não acederam, declararam que tinham tanto direito à utilização do campo quanto eles, disseram que eles não lhes pediriam para sair do campo se elas fossem rapazes e chamaram-lhes machistas. Os rapazes insistiram e perante a recusa delas ameaçaram pontapear a sua bola na direcção delas, tiraram-lhes a bola com que elas estavam a jogar e as raparigas acabaram por sair do campo e ir jogar numa zona exígua do outro lado do recreio, sem condições para a prática do futebol. Mais tarde, uma das raparigas explicou-me que “muitas vezes nós tentamos ir jogar ali mas eles arranjam sempre desculpas para nos tirar de lá”. Como tal, a observação de que os campos de jogos são quase sempre ocupados por rapazes não é, necessariamente, uma demonstração de que as raparigas não se interessam (ou se interessam menos) pela prática desportiva e uma prova de que rapazes e raparigas são incontornavelmente diferentes a este nível, seja devido à socialização ou biologia. Pode estar associada a dinâmicas específicas de apropriação do espaço, também elas centrais para a análise da forma como se negoceia o género em contexto escolar. Além disso, nem todos os rapazes manifestam interesse pela prática do futebol, aspecto que por vezes fica camuflado pela tendência para focar a análise nas diferenças entre sexos, tendência que pode levar a sobrevalorizar as semelhanças que existem entre os rapazes e entre as raparigas e a negligenciar a heterogeneidade que caracteriza tanto um grupo como o outro. Neste episódio, como em vários outros que marcam o quotidiano de jovens na escola, as/os jovens recorrem a estratégias várias de (auto e hetero) monitorização e regulação (que incluem o gozo e o insulto ou o uso da força física, por exemplo) para marcar fronteiras (que não são sempre consensuais ou aceites passivamente), evitar que essas fronteiras sejam desrespeitadas e aplicar sanções quando isso acontece. Nesta e em muitas outras situações, a diferenciação de género não aparece como um facto dado e resolvido mas como uma construção que dá trabalho manter no quotidiano. De facto, essa diferenciação é algo que se faz todos os dias, e não algo que simplesmente existe na sequência de uma socialização que (re)produz identidades e papéis genderizados, profundamente enraízados e estáveis.

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Considerações Finais Não é possível sintetizar, numa comunicação de quinze minutos, a diversidade de observações que preencheram as seis semanas de trabalho de campo que aqui vos apresentei sumariamente ou a multiplicidade de interrogações e reflexões que elas têm suscitado. No entanto, mais do que descrever exaustivamente os modos como estas/es jovens vivem e fazem género nas suas relações em contexto escolar, o objectivo desta comunicação é contribuir para animar o debate sobre os conceitos de “diferença” e "semelhança”, por vezes utilizados de forma excessivamente rigída e potencialmente reificante no estudo do género, em particular, e nas ciências sociais, em geral. Pretendia-se, também, contribuir para a discussão do papel que a investigação científica sobre a diferenciação de género desempenha, directa ou indirectamente, na regulação social dessa diferenciação, demonstrando que não é só nos recreios que se constroem diferenças e semelhanças – os nossos próprios estudos, textos e comunicações são, também eles, agentes e espaços dessa construção.

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DIFERENÇAS DE GÉNERO E FAMÍLIAS HOMOPARENTAIS
Margarida Moz ISCTE margaridamoz@oniduo.pt

As famílias homoparentais parecem contrariar a noção de família, assente numa forte distinção de género, a que correspondem algumas atribuições ideais de papéis: mãe/mulher, pai/homem. A antropologia questionou já o carácter universal do parentesco mas pode-se também questionar a distinção masculino/feminino, pai/mãe associada à família. A par da contingência do parentesco e da sua “desnaturalização”, a ciência aumenta as possibilidades no domínio do parentesco, ao introduzir a escolha como critério de construção familiar. Em simultâneo, os governos de alguns países ajustam as leis para que se construam relações familiares não assentes nas distinções de género fundamentais. Nesta comunicação discute-se a relevância dos papéis de género numa família homoparental, com base nalguns estudos efectuados na Europa e na América do Norte. PALAVRAS-CHAVE: Género, Família, Parentesco, Homossexualidade, Homoparentalidade.

Quando falamos numa família homoparental estamos desde logo a entrar por uma via que, à partida, parece contrariar a própria noção de família, assente numa forte distinção de género, a que correspondem simbolicamente algumas atribuições: os papéis de mãe/mulher e de pai/homem. Se é certo que, aparentemente, estas distinções tendem a estar cada vez mais esbatidas, e que se espera que a responsabilidade na educação dos filhos seja dividida por igual entre os pais, continua a dar-se uma enorme importância às distinções de género no seio da família, consideradas como referências fundamentais. As distinções de que falamos pressupõem que a mulher é mãe e o homem pai, e que os dois coexistem numa relação parental (mesmo se uma das partes nunca participou de facto nesta relação) e esta é normalmente vista como a única e natural possibilidade numa relação que é, apesar de tudo, socialmente construída. A ideia de que para se ser pai é necessário ser-se homem está ligada àquela outra defendida por David

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Blankenhorn, autor do livro Fatherless América (1995) que causou um enorme debate ao afirmar que a própria masculinidade só se atinge plenamente com a paternidade:

A paternidade, mais do que qualquer outra actividade masculina, ajuda os homens a tornarem-se bons homens: mais propensos a obedecer às leis, a ser bons cidadãos, a pensar nas necessidades dos outros. (p.21 – tradução minha)

É certo que, para o autor, esta paternidade benévola é apanágio exclusivo dos pais biológicos ou adoptivos, sendo os padrastos excluídos desta propensão para o bem. Também na equação subjacente a este argumento existe a mãe/mulher, cuja presença é fundamental e necessária à existência deste pai/homem. Para lá do interesse em defender os valores da família tradicional americana, o autor está empenhado em reforçar, através da família, as distinções de género, absolutamente necessárias à conservação destes valores. Quando se fala em famílias homoparentais esta lógica familiar fica desde logo ameaçada e com ela o futuro da família pensada nestes termos. As justificações para a não-aceitação das famílias homoparentais são frequentemente as de que se trata de uma situação anormal, desviante, em que as crianças vão crescer confusas, destituídas de valores morais, em que serão provavelmente recrutadas para a homossexualidade. Esta ideia pode manifestar-se de várias formas e quase sempre é expressa em favor do “superior interesse da criança”. Em 2003 (a 31 de Julho), o Vaticano emitiu um documento de oposição ao casamento homossexual onde se lia: “Inserir crianças nas uniões homossexuais através da adopção significa, na realidade, praticar a violência sobre essas crianças, no sentido que se aproveita do seu estado de fraqueza para introduzi-las em ambientes que não favorecem o seu pleno desenvolvimento humano.” 1 Apesar das alegações da Igreja de que “o pleno desenvolvimento humano” das crianças que crescem nas famílias homossexuais está comprometido, o que parece estar de facto comprometido nesta possibilidade é mais a plena continuidade da família tradicional. Desde logo porque o referido documento trata de uma eventual autorização do casamento homossexual e da sua reprodução, ignorando a existência dos milhares de
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http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_con_cfaith_doc_20030731_homos exual-unions_po.html

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famílias que por todo o mundo, vivem já, e nalguns casos há muito, nessas condições sem que os estudos efectuados revelem qualquer deficit de humanidade nestes filhos, nestas crianças – ideia corroborada pela American Academy of Pediatrics que se posiciona publicamente em favor da adopção de crianças por casais do mesmo sexo. Antes do mais é preciso lembrar aos que acreditam que a adopção é a única forma de um casal homossexual ter filhos que não só a maioria dos indivíduos que compõem estes casais não é estéril como tão-pouco a reprodução é um acto exclusivamente natural. Ter filhos é um acto de vontade, uma vontade vista como um desejo natural, que a homossexualidade não inibe. O parentesco foi já “desnaturalizado” (Collier e Yanagisako, 1997), porquanto as evidências etnográficas esclarecem a sua pertença mais ao domínio da cultura que da natureza, uma vez que as associações genealógicas são sobretudo construídas. David Schneider (1984) foi dos antropólogos que mais se bateu contra o enraizamento biológico do parentesco que prevalece no pensamento ocidental onde, por definição, o parentesco é composto por relações baseadas na reprodução sexual. Sendo um dos primeiros grandes críticos do que designou por “Doutrina da Unidade Genealógica da Humanidade”, chamou a atenção para que o método não é mais que uma tentativa de generalização de uma noção ocidental assente na ideia de que o parentesco está ligado à partilha de uma substância comum, que aproxima e identifica as pessoas umas com as outras. No Ocidente, esta consubstancialidade está fortemente ligada à reprodução e ao pressuposto de que “o sangue é mais espesso que a água” (blood is thicker than water). Os estudos realizados em diversos contextos não ocidentais revelam, porém, que o valor atribuído à reprodução no Ocidente não é universal. Entre os Nuer do Sudão, por exemplo, a designação de pai estendia-se a demais membros da família, incluindo mesmo alguma irmã do pai, que por ser estéril passava, ao fim de alguns anos de não gestação, a constar do grupo dos homens e a ser chamada de pai (Héritier, 1996). E nas Ilhas Salomão, por exemplo, em que as crianças ficam com os pais não pela ordem natural das coisas mas porque os pais as desejam e são autorizados a fazê-lo pela comunidade, torna-se evidente o carácter frágil e condicional das relações entre pais e filhos (Holy, 1996). A par da evidência universal da contingência do parentesco e da sua “desnaturalização”, os desenvolvimentos tecnológicos aumentam as possibilidades no

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domínio do parentesco ao introduzir a escolha como critério de construção familiar. Marilyn Strathern (1996) chama a atenção para a forma como as possibilidades introduzidas pelas novas tecnologias reprodutivas, desenvolvidas para colmatar limitações biológicas, vão mais longe na requalificação do parentesco: ao criarem um vínculo natural por via artificial, como resultado da escolha de se ter filhos que naturalmente não se podem conceber, abrem caminho para que outros candidatos a pais, naturalmente impossibilitados, possam também satisfazer as suas pretensões. A ciência permite já situações que desafiam todas as noções de parentesco, como é o caso de mães virgens ou de duplas mães biológicas (no caso em que existe uma mãe hospedeira, que gera um embrião proveniente de uma combinação de óvulo/espermatozóide alheia). Mas não é apenas a ciência que dá passos na construção de relações familiares não assentes nas distinções de género fundamentais, os governos de alguns países, acompanham já estes desenvolvimentos ao permitirem aos casais homossexuais tanto a adopção plena de crianças, como a adopção do filho do companheiro por um parceiro do mesmo sexo. Nesta segunda forma, a mais frequente na Europa e em prática em países onde a adopção conjunta não é, ainda, permitida, trata-se de adaptar a legislação a uma realidade em que as famílias se vêem muitas vezes incapazes de gerir a sua situação familiar por falta de enquadramento legal (seja na relação dos filhos com a escola, seja na própria vivência quotidiana quando, por exemplo, o pai/mãe legal se ausenta e a criança é deixada com o companheiro/a. Mas há países que vão mesmo mais longe nesta adaptação às diversas formas de agrupamento familiar e aplicam a presunção de paternidade à parceira não parturiente de um casal de lésbicas que tenha um filho por inseminação artificial - é assim no Quebeque, no Canadá. Voltando à questão inicial da distinção pai/mãe, homem/mulher, importa desde logo chamar a atenção para o modo como a reprodução medicamente assistida introduz novas questões com forte ressonância no plano social e jurídico. Hoje em dia as famílias são cada vez mais diversificadas e pai/madrasta; mãe/padrasto, meio-irmão-materno, meio-irmão-paterno, irmão-filho-do-marido-da-mãe, etc. são realidades que não surpreendem ninguém. Para além destas famílias recompostas, as novas tecnologias evidenciam ainda outras distinções como “mãe genética”, “mãe biológica”, “mãe de aluguer”, etc. As realidades sociais há muito que transcendem as designações que existem e que são visivelmente insuficientes.

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e em relação aos pais. ao serviço de uma ficção de nascimento: veja-se as restrições no acesso à adopção e à reprodução assistida. esta mesma necessidade: “Nota-se uma vontade muito nítida de utilizar um termo de parentesco e não apenas o nome próprio da pessoa em causa.5 Nas famílias homoparentais esta parece ser das situações mais difíceis de resolver e aceitar: assim. o parceiro dele (em inglês partner). era o seu pai. Mas depois acrescentou. A inexistência de nomes para as relações torna difícil fazer transparecer a importância destas pessoas na família quando se fala dela a estranhos. Garner esclareceu que um era seu pai. “A que ramo de negócio é que eles se dedicam?” (Garner. Em relação ao casal é referido como “a minha mãe e a parceira”. e os restantes. surgem termos como “a outra mãe”. como também se opta por chamar pai/mãe a ambos os membros do casal. sendo que muitas vezes as condições exigidas jamais seriam satisfeitas pelas famílias que geram crianças sem ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Abigail Garner. mas nas referências à família fora do seio familiar. “madrasta”. A antropóloga Anne Cadoret (2000) observa no contexto francês. tanto acontece que mãe e pai sejam os biológicos ou legais. autora de um importante estudo americano sobre os filhos de pais LGBT (Lésbicas. sob o argumento do princípio do bem-estar da criança. sublinhando assim uma vontade de formar uma família. Eu sustive a respiração. conta que certa vez. “tia” ou então opta-se pela utilização apenas do nome da pessoa em causa. “O ‘partner’?” perguntou. padrastos ou padrinhos. e ela própria filha de pai gay. na cerimónia de graduação da faculdade. Gays. porém. e o outro. normalmente. satisfeita por ela ter percebido e achado fantástico. “as minhas mães”. seguido do primeiro nome que distingue cada um deles. Respirei de alívio. sobretudo quando as crianças vivem esta situação desde sempre. “os meus pais”. “Bem” continuou “não é fantástico que o ‘partner’ do teu pai tenha vindo de tão longe com ele para assistir à cerimónia da tua graduação!”. não fossem estas estar. Bissexuais e Transgender) – Families Like Mine (2004) –. de se afirmarem como pais.” (Cadoret. Assim. não é tanto sentida no seio da família. As dificuldades relatadas não seriam provavelmente muito distintas das que existiriam para a adopção comum. etc. 2000: 173 – Tradução minha). 2004: 139 – Tradução minha) – é que partner em inglês quer igualmente dizer sócio. uma colega lhe perguntou qual dos dois homens para quem apontou como sendo a família. Esta dificuldade.

o jurídico. Já quando uma mãe sozinha. no caso dos filhos resultantes de inseminação artificial esta questão torna-se mais difícil de resolver. os estudos sobre filhos de casais do mesmo sexo evidenciavam a necessidade de contrariar os argumentos homofóbicos e sublinhavam a existência de poucas diferenças entre as crianças educadas numa família homossexual face às que cresciam numa família heterossexual. Como diz ainda Anne Cadoret (2000): A família sempre foi uma montagem. As descobertas iam ao encontro dos receios da maioria heterossexual e homo-hesitante. está-se em geral consciente da ausência de um dos sexos nesta composição. ou um pai celibatário. Sejam quais forem os termos usados. estas famílias. ou pelo casal do mesmo sexo. a dificuldade em classificar os parentes parece residir mais na forma como se explicam as relações familiares em causa. o cultural. 2000: 173 – Tradução minha) Para além disso. o afectivo. e era até recorrente a indicação de que na sua grande maioria estas crianças na idade adulta tendiam para a heterossexualidade. O envolvimento de mais do que duas pessoas no processo de concepção dificulta a nomeação de cada um dos pais e privilegia um em detrimento do outro dos membros do casal. se as raparigas crescessem mais arrapazadas e os rapazes ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . (Cadoret. O termo escolhido deverá evidenciar a existência de uma relação de tipo familiar e a posição da pessoa face a quem a nomeia. Mas as famílias homossexuais fazem cair a nossa ilusão de um “parentesco natural”. situar o sexo ausente uma vez que a criança nasce de um casal heterossexual e é posteriormente adoptada por esta ou aquela pessoa. Por outro lado. ou até um casal do mesmo sexo opta pela adopção. Quase todos os estudos nesta área referem não ser difícil. o social.6 recorrer a estes meios. na maioria dos casos. o histórico. e uma vez que esses receios se prendem normalmente com a hipótese de estas crianças apresentarem inconformidades de género. Tanto para as famílias homossexuais quanto para as famílias heterossexuais trata-se de fazer a ‘bricolage’ da família a partir de diversos argumentos de parentesco: o biológico. nos Estados Unidos da América. de uma adequação do parentesco biológico ao parentesco social. como se isso fosse sinónimo de uma educação eficaz. ao reproduzir-se poderão estar a reproduzir o desajuste: que será dos filhos que crescem nestas famílias? Que homens e que mulheres serão? Que famílias irão eles construir? Nos anos 80.

mas longe de considerarem isso uma falha no seu desenvolvimento pessoal. os sociólogos americanos Judith Stacey e Timothy J. por vezes. Garner percebeu como muitos deles têm uma clara noção de que a sua identidade de género escapa. em geral. efectuados entre 1981 e 1998. com as suas próprias referências. e integrados. sem que isso fosse. ao igual desempenho de funções normalmente associadas a um dos sexos. mas que os próprios consideram. e resolvidos na sua sexualidade. no entanto. A interpretação feita por estes autores sugere uma maior tendência dos filhos com pais do mesmo sexo para desafiar as ideias relativas aos papéis de género e à sexualidade. E se os próprios se sentem bem. No seu estudo. Em 2001. e concluíram que contrariamente ao que antes havia sido divulgado. Biblarz. também se revelavam mais abertos à aceitação das relações homossexuais. por exemplo. o lugar dos homens e das mulheres na sociedade e na família? E quando é que o “problema” das famílias homoparentais passa a ser o ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Abigail Garner verifica que por vezes estes filhos apresentam personalidades em cujas distinções de género são menos óbvias e em que os papéis são mais indistintos – um aspecto que os conservadores tomam como evidência de uma falha no desenvolvimento das crianças. Ao mesmo tempo que se mostravam mais abertos. reexaminaram os dados utilizados nos estudos sobre os filhos das famílias do mesmo sexo. acreditam que tal os valoriza no seu relacionamento com os outros e lhes dá uma maior abertura e capacidade de tolerância – conclusão. a que têm chegado quase todos os estudos nesta área. à rigidez dos padrões e não se coaduna exactamente com o que é ser homem e mulher. tal seria motivo para preocupação. Entre os jovens adultos com quem trabalhou. actualmente entre os 20 e os 30 anos. estes filhos apresentavam algumas diferenças relativamente aos seus congéneres de famílias heterossexuais. sinónimo de uma sexualidade mal resolvida – tanto para a homossexualidade quanto para a heterossexualidade. sobre filhos de casais do mesmo sexo. aliás. por que motivo se teme tanto pelo desenvolvimento destas crianças? Porque é que se diz ser no seu superior interesse que se impede a adopção por casais do mesmo sexo? Como é que se poderá viver com uma realidade familiar que parece não ensinar a distinguir. na medida em que lhes confere uma liberdade maior de comportamento ao poderem expressar livremente traços mais efeminados ou masculinos e ao serem abertamente afectuosos com alguém do mesmo sexo sem que isso os faça sentir esquisitos ou inseguros em relação à sua própria sexualidade. ser uma maisvalia.7 efeminados.

Gender and Kinship: essays toward a unified analysis.) Homoparentalités. Anthropological Perspectives on Kinship. 1996. Referências Bibliográficas: BIBLARZ. Anne. Families Like Mine – Children of gay parents tell it like it is. HERITIER. & Sylvia YANAGISAKO. New York: Perennial Currents. “(How) Does the Sexual Orientation of Parents Matter?”. justificando (e justificadas por) o seu carácter natural. Paris : Editions HOLY. (eds. Thousand Oaks. Fatherless America.). in Stuart HALL & Paul DU GAY (eds. London: Pluto Press. Landislav. 1984. GARNER. Abigail. BLANKENHORN. CADORET. Standford. 1996. STRATHERN. Ann Arbor: University of Michigan Press. 1996: Masculin/Féminin: La pensée de la différence.) 1997. Questions of Cultural Identity. État des Lieux. Para melhor se perceber a homoparentalidade é pois fundamental desmontar este conceito de família assente numa forte distinção de género e a partir daí perceber se ainda sobram motivos para que se receie a sua proliferação. David. Timothy J. A Critique of the Study of Kinship. Choice and the New Reproductive Technologies”. o que a homoparentalidade evidencia é a possibilidade de se formar e viver a família de um modo não alicerçado nas categorias de género que na sociedade Ocidental estiveram sempre na base da sua formação. David 1995. in Martine Goss (dir. in American Sociological Review 66 (April 2001): 159-183. 2001. New York: Basic Books. e Judith Stacey. “Enabling Identity? Biology. CA: Standford University Press. New Delhi: SAGE Publications. 2000. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Jane. SCHNEIDER. Marilyn. Issy-les-Moulineaux : ESF éditeur. Françoise. 2004. COLLLIER.8 “problema” da família? Acima de tudo. London. “Figures d’homoparentalité ”.

1. reprodução. o estereótipo feminino está associado à expressividade e à submissão (cf. por exemplo. A partir de um trabalho de observação empírica feito numa creche. isto é. género. 1994). ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . de acordo com o seu género. Palavras-chave: educadores de infância. esta comunicação dará conta de uma forma de reprodução de poder assente na diferenciação de género. em entrevistas semi-estruturadas realizadas a educadoras e alunos da licenciatura de educação de infância e também um inquérito realizado entre profissionais e futuros candidatos à profissão. O estereótipo masculino está associado aos domínios profissionais mais dinâmicos e independentes. Amâncio. jardim-de-infância e ATL. Em Portugal. poder.Educadoras de Infância: A fragilidade de uma maioria Manuela Raminhos Centro de Estudos de Antropologia Social ISCTE A profissão de Educadores de infância é em Portugal exercida quase em exclusividade por mulheres. as educadoras de infância a transmitir aos seus educandos o modelo feminino: o cuidar.as mulheres e as crianças. enquanto que. a marcada diferenciação entre “trabalho de homem” e “trabalho de mulher” tem criado condições para que continuem a existir trabalhos maioritariamente desempenhados pelas mulheres.e nos veículos por ele utilizados . apesar destas já terem uma participação importante no mercado de trabalho A sua chegada tardia ao mundo do trabalho remunerado contribuiu para as segregar em profissões onde a sua presença é fundamentada nos seus atributos «naturais». Apresentação Os estudos desenvolvidos em Portugal demonstram uma grande consensualidade no que diz respeito aos estereótipos do género. A sua ausência da profissão permite que sejam as mulheres. Elas estão em maioria e são poucos os homens que ultrapassam a barreira simbólica do género. O êxito da sua longevidade está no seu meio de reprodução – os pequenos domínios de relações sociais . o tratar e o ensinar.

2 Em Portugal são poucas as profissões do domínio profissional que tradicionalmente está ligado ao mundo do trabalho feminino que empregam homens e são poucos os jovens do sexo masculino que escolhem licenciaturas em áreas comprometidas com o estereótipo feminino. Nota-se. a presença das mulheres no domínio profissional masculino tem aumentado. 1995). o tratar e o ensinar. 2003 e 2004 foram frequentadas por cerca de 2 mil alunos nos cursos de educação de infância onde se estima que apenas 3% dos alunos sejam do sexo masculino 1 . Como resultado.a transmitir aos seus educandos o modelo feminino: o cuidar. Lisboa. os empregos do domínio feminino pouco têm mudado a sua composição sexual. Mas porque é que a divisão do trabalho por género persiste? A primeira explicação centra-se nos estereótipos que passam através da ideologia do género e que 1 DGES. dos quais 161 do sexo masculino (INE: 2001). Os homens tinham neste universo profissional um peso inferior a 1%.354 educadores de infância em Portugal. 2005. A concentração por sexos quer a nível do ensino (licenciaturas e cursos profissionais) quer na actividade profissional é suportada por um discurso que alimenta a ideia que existem profissões masculinas e femininas. Elas estão em maioria e são poucos os homens que ultrapassam a barreira simbólica do género. 2002. Concurso Nacional de Acesso ao Ensino Superior. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Através de um forte dispositivo ideológico continuamos a assistir à naturalização do género que. Cardana. A profissão de Educadores de infância é em Portugal exercida quase em exclusividade por mulheres. O Recenseamento Geral da População de 2001 regista um total de 20. 2005). as educadoras de infância . sentimentos e comportamentos» (cf. Ministério da Ciência e do Ensino Superior. As várias escolas superiores de educação públicas entre 2002.2003 3 2004. Williams. no entanto. a partir da diferença sexual. em Portugal. A sua ausência da profissão permite que sejam as mulheres. que as jovens já escolhem com frequência cursos e profissões ligados com o estereótipo da masculinidade (cf. promove a desigualdade social. mas em contrapartida. colocando as mulheres em profissões menos prestigiantes socialmente e dificultando-lhes o acesso a funções de chefia tradicionalmente desempenhadas por homens. Como pano de fundo fica a ideia que existem profissões para as quais as mulheres possuem habilitações naturais dado crer-se «que os sexo tem consequências inevitáveis quando à forma de pensamento.

entre os alunos das Escolas Superiores de Educação de Lisboa e do Porto. pag. “seja etiquetado como feminino e masculino”. um conjunto de comportamentos e atributos. 42-43. esta comunicação tem como objectivo identificar a natureza do poder atribuído ao género. jardim-de-infância e ATL. São os estereótipos que fazem com que o trabalho. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Uma terceira explicação surge. da Licenciatura de educação de infância e a Educadores de Infância e exercerem a sua actividade em creches e jardins-de-infância de Lisboa e do Porto.que ainda consegue preservar a sua vantagem localizando-os em esferas diferentes das da mulher. em entrevistas semi-estruturadas realizadas a educadoras e alunos da licenciatura de educação de infância e também um inquérito realizado entre profissionais e futuros candidatos à profissão. col. Inc. Women and Men at Work. e Barbara Reskin (2002). A imagem de si Dizem as feministas. mas como é que o género se torna poder? e qual é a sua natureza? A partir de um trabalho de observação empírica feito numa creche. São estes estereótipos que levam a que a profissão de educador de infância seja própria de mulher. com uma distribuição razoavelmente equitativa. Sociology for a new Century. como esperado. Este controlo é exercido pelo sexo privilegiado . 2 Uma segunda explicação para a para a divisão do trabalho é o facto desta divisão conceder privilégios ao grupo dominante proporcionando-lhe uma posição de controlo.3 permitem aos indivíduos a partilha de um conjunto de ideias que naturalizam. Pine Forge Press (an imprint of Sage Publications. “género é poder”. como por exemplo. uma vez que têm demonstrado falta de estratégias de afastamento dos homens nas funções de liderança quando estes entram no seu domínio profissional. Os registos etnográficos que suportam este texto são: uma amostra baseada em 166 questionários.). 4 Padavic. 3 2. No grupo de educadores de infância não foi inquirido um único homem e no grupo de alunos de educação infantil apenas um. Irene. Londres e Nova Deli. as mulheres não têm sido consistentes na consolidação dos seus privilégios profissionais. nos lugares de chefia e de decisão. por sexo. Thousand Oaks. 3 4 2 ID. A amostra revelou uma distribuição por género fortemente feminizada. deixando-os construir a sua masculinidade e evidenciando a sua supremacia e poder.o masculino . 2ª edição.

Acredita-se que é assim. não está ao nível da sua composição sexual. E é aqui que reside também um dos poderes do género. tornando o discurso ideológico coerente e permitindo também a continuidade do discurso do senso comum. Esta é a verdade. modos de comportamento. (Foucault. também o género é assumido como um fenómeno causal. o género justifica-se de acordo com um quadro biológico que suporta a ideia que divisão do trabalho. O Género está de acordo com o seu sistema nervoso. mas na presença de um modelo de género institucionalizado. apesar de todo os projectos de transgressão e de rotura. desejos e crenças. Foucault. O género manifesta-se segundo a sua natureza biológica. controlando a massa crítica. 1979). Dizem: ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Esta naturalidade está contida nos discursos científicos da biologia e da psicologia. 1982:212). Como a fé aceita-se e não se discute. Apesar de ser uma identidade plástica. prende-o à sua identidade que ele ou ela deve reconhecer e acreditar como reflexo do seu verdadeiro “eu”. é normal e natural. E se esta verdade fizer parte de cada “verdadeiro eu” acredita-se nela. Porque? Porque o poder é produtivo: produz indivíduos. É uma verdade que liga os indivíduos e que fortalece as estruturas de poder e dominação (cf. Como o comportamento. Contudo a verdade não existe por si só o que permite que o poder não se reduza somente às formas de dominação e não seja essencialmente repressão. No caso das educadoras de infância estas assumem que a profissão é feminina e que está de acordo com o seu património biológico. O poder identifica o indivíduo. diferentes tipos de identidades. É este modelo que é reproduzido e assimilado pelas mulheres e pelos homens que ingressam em profissões que de acordo com o seu género. Um dos impedimentos à mudança social é a assunção da naturalidade das coisas. efeito do património biológico do indivíduo. segundo o género. porque se acredita nele. no seu carácter fixo. actos. Nestes discursos o género tem qualquer coisa de fixo e permanente. apesar de sabermos que é uma construção social. O poder perde o seu carácter dominante e deixa de ser repressivo.4 Um dos maiores contributos de Foucault foi fazer a ligação entre o discurso dominante da verdade (ou a verdade de um grupo reflectida no discurso dominante) e a emergência do poder. Isto significa que a feminização das profissões. formas de subjectividade.

55 anos) As educadoras de infância deixaram transparecer que no decurso da sua actividade profissional o seu universo é feminino. negam que tenham sido condicionadas pela família e pelos amigos na escolha da sua profissão. são as flores do nosso jardim que nos primeiros tempos de vida precisam da nossa ajuda. Essa era implacável. a tratar dos filhos. A tudo. (mulher. mais fortes.5 Somos só mulheres … penso que os homens não têm paciência … exercemos a nossa profissão com mais naturalidade é por isso que é uma profissão feminina. (aluna da licenciatura de Educação de Infância. educadora. A mulher biologicamente está preparada para isso. A naturalização do género é tão forte nas educadoras que apesar de no inquérito terem respondido que em crianças as profissões que gostariam de ter em adultas se situavam no universo das profissões femininas. (mulher. aos astronautas. É verdade! Se calhar sem querer estava-me a ensinar-nos que cuidar de meninos era coisa de mulher! Mas a minha avó sim …que espectáculo. No entanto dava-me bonecas a mim e carrinhos ao meu irmão. Lembro-me de brincar com os meus irmãos. mas é simultaneamente a imagem da passividade. da paciência. 21 anos) Nós sabemos que é uma profissão feminina. ao carinho. Às casinhas. dentro dos parâmetros da verdade estabelecida. essa realidade é bem diferente. a ajudar a mãe dos meninos. aos médicos. Não aprendo isto na licencaitura. A minha mãe não se ralava nada se o meu irmão brincasse com as bonecas e eu com os brinquedos dele. 55 anos) os homens aparecem no ensino já quando «as nossas crianças estão prontas» para a mudança. consolidando a ideia de que esta ocorre com normalidade. Elas são como as flores. Em interacção com as crianças partilham com estas experiências ligadas ao universo da casa. da dedicação. No entanto através dos seus discursos. Não tenho assim presente que fossemos muito rigorosos na divisão de tarefas. enfermeiras. aos veterinários. Dizia a minha avó quando via o meu irmão a brincar com as minhas bonecas: Vê lá que ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . tão ligadas ao universo materno. Mais crescidas. da tolerância. aos escritórios. porque está ligada ao cuidar. só te fica bem!». Ao mesmo tempo perante as crianças a educadora é a autoridade. Ou seja o seu género não acrescenta nada à profissão. como professoras. da bondade. à paciência. Até lhe dizia «assim é que é. educadora de infância. mas é assim que eu penso. negando o papel que estes tiveram na sua aprendizagem do género.

5 Através da construção de uma identidade masculina pela negativa: “tu não fazes isso porque quem o faz são as mulheres!”. pode ser explicada através da teoria do sexo. perdendo. as escolhas profissionais são incentivadas ou condicionadas através da aprendizagem dos papéis do género no seio das solidariedades primárias. Uma forte identidade Como já dissemos. põem mais em causa a sua masculinidade. Social Structure and Personality. influência. O afastamento dos homens das profissões femininas ou a necessidade que estes têm de. 6 CHODOROW. pp. 1970 (1952).174. olha que as bonecas são para as meninas! (Aluna da ESE. acaba por ser influenciada pelo modelo que lhe está mais próximo. exige uma assimetria dos papéis: A mulher pode fazer qualquer trabalho que não deixa por isso de ser feminina. pp. também o seu afastamento das profissões “apropriadas às mulheres”. enquanto que os homens. Lisboa). Mais tarde. mais tarde. 6 Como me disse uma educadora. afastando-se das brincadeiras das meninas. que resulta desta intensidade do significado atribuído ao género. Quando chegam à vida adulta os homens escolhem geralmente uma profissão do universo das profissões masculinas. «a sociedade vê a sua profissão como a profissionalização do trabalho doméstico» (Mulher. o feminino e em muitos casos a figura da mãe ou da educadora. A forte presença da mulher face ao afastamento da figura do pai nos primeiros anos de vida é pertinente para tentarmos compreender a necessidade que os rapazes têm em manifestar a sua masculinidade. negando dessa forma a sua ligação ao mundo feminino e. Talcott. aparentemente.6 desgostos que ainda queres dar ao teu pai. os rapazes são pressionados para abandonar esta identificação com a mãe e assumirem a sua identidade de género masculino. quando aí chegam. já na vida adulta. quando entram no campo profissional tradicionalmente conotado com o género feminino. 1978. New York Free Press. 3.17-33. Nova Iorque. The University of California Press. no seu processo de aprendizagem. Porto). 40 anos. 5 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . a preocupação na construção da masculinidade profissional. Se atendermos a PARSONS. A criança. The reproduction of mothering. em contrapartida. o modelo da paternidade (masculino) fica mais ausente. Nancy. “The superego and the theory of social systems”. Berkley. afirmar a sua masculinidade.

a vigiar. É esta simbiose perfeita entre objectos. a ensinar e a proteger as suas crianças. com as enfermeiras que prestam serviço no infantário. em alguns estabelecimentos. com os pais destes. a sala. no seu local de trabalho – o infantário -. e o profissional . 7 Entendemos que poder ou o exercício do poder por parte de pessoas ou de grupos sociais é a capacidade que estes têm em usar estratégias próprias que provocam obediência outras pessoas ou grupos. a arrumar. Colocariam em causa a sua masculinidade. Porto). A sua actividade profissional demonstra que a passagem da casa para o trabalho continua a permitir que esta profissão consolide os estereótipos femininos. Por outro lado. a apresentação destas mulheres muda e o significado que daí emerge permite sinalizar a semelhança entre o trabalho de casa e o trabalho que desempenham profissionalmente nos infantários. práticas e comportamentos domésticos e profissionais que alimenta a forte imagem feminina que estas profissionais têm de si mesmo. também aqui as mulheres. . ou a cuidar da sua higiene.público -.7 isso. o seu prestígio. usam roupas largas . o quarto e até a garagem. ensinandoos a arrumar a casa. A feminilidade da profissão também é observável através das relações sociais que estas profissionais estabelecem no seu dia-a-dia com os seus interlocutores mais directos. 7 Através do trabalho de observação realizado junto de educadoras de infância.privado -. o justo das roupas passa a folgado. a biblioteca. Como no lar. Entre o social. normalmente. Na sua sala. numa atitude de conforto e de disponibilidade para com a sua tarefa. pudemos verificar que algumas das suas tarefas são semelhantes às que as mulheres realizam no espaço privado.as batas – e. As educadoras continuam a cuidar. com os seus educandos a quem dispensam toda a sua atenção ao longo das muitas horas que estão com eles. calçam sapatos baixos. onde surge a cozinha. As salas estão decoradas. preocupandose com o seu bem-estar. o seu poder de grupo privilegiado. os espaços em que interagem com as crianças estão carregados de simbolismo feminino. como por exemplo. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . compreendemos porque é que os homens não escolhem esta profissão. a educadora olha atentamente “pelos seus meninos”. E até o espírito de poupança doméstica se reflecte nestas profissionais que promovem «as festinhas onde vendemos coisinhas feitas por eles para juntar dinheiro para a viagem dos finalistas» (Mulher. como se fossem uma casa familiar. 49 anos. O formal que trazem da rua passa a informal dentro do infantário. a quem se dirigem para saberem como devem actuar face a problemas de saúde das crianças.

8 Algumas educadoras de infância entrevistadas não escondem que para as mulheres é normal reagirem emocionalmente enquanto que se espera que os homens escondem as suas emoções. Catherine. uma vez que está associada. sabes porque é que não há homens nesta profissão? Porque nós somos socialmente vistas como “donas de casa” que trabalham fora de casa. As educadoras sofrem e riem. racionalidade. Londres. 40 anos. 20005 (2003). «mas não é só a mulher que consegue experimentar a angustia e reagir. organização. face à alegria ou tristeza das crianças». com paixão a determinadas situações. (Educadora. Emoção significa subjectividade. Mary Gergen e Kenneth J. Disse-me uma Educadora. a diferença é que nós conseguimos LUTZ. enquanto que o homem é caracterizado pela sua objectividade. Quer dizer que a emoção faz parte de um sistema de relações de poder e tem um papel fundamental na manutenção desse mesmo poder. ao mesmo tempo que dizem. a reader. ou o seu emprego como adjectivação de uma mulher serve fins ideológicos. Porto) A emoção pode ser também entendida como uma representação do feminismo da profissão. Isso é uma injustiça e eu não quero que tu continues a alimentar essa injustiça. 8 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . pp. com raiva ou com alegria.8 No entanto por detrás desta imagem estereotipada está a ideologia do género que através da divisão do trabalho por sexo atribui à mulher tarefas diferentes das que atribui ao homem. permitindo desta forma a manutenção um sistema de estratificação profissional que atribui valor desigual ao trabalho segundo o género.). a emoção opõe-se ao pensamento e muitas vezes é empregue para caracterizar a mulher negativamente reforçando a sua subordinação ao homem. “Emotion: The universal and the local. Sou educadora porque quis sê-lo e gosto da minha profissão. Na prática. Envolvemonos e demonstramos. irracionalidade a tal ponto que pode gerar o caos.40. As educadoras fazem um trabalho valorizado socialmente mas em contrapartida com pouco realce e estatuto social de prestígio. Social Construction.. Gergen (Ed. à mulher. pelas categorias do género. Mas hoje se a minha filha escolhesse esta profissão eu iria contra a ideia dela. Perguntar-lhe-ia. Sage. Segundo Catherine Lutz (2003) a aplicação do conceito emoção.

3% 32. Professora da ESE. humanismo Vocação.5% Total 41. gosto Afectividade. Educação Infância 44. 40 anos. flexibilidade Sensibilidade.3% Para as mulheres educadoras de infância os afectos fazem parte da sua prática profissional. A paciência e a compreensão. Os afectos que manifestam também nas carícias que as crianças recebem dos educadores afasta. Lisboa). enquanto que eles a escondem!» (Educadora. Acabam por desistir» (Mulher. a criatividade e a flexibilidade.6% 24.1% 30.3% Aluno Lic.8% 32.8% 25. os possíveis candidatos homens desta profissão.4% 10.1% 20. o carinho. 54 anos.9% 22. empatia.4% 37.9% 25.6% 19.5% 10.9% 39. Segundo uma professora da ESE do Porto.7% 15. simpatia 34.9 manifesta-la. amor.4% 13. assim como as denúncias de praticas pedófilas em estabelecimentos de ensino têm ultimamente afastado da licenciatura possíveis candidatos. Porto).5% 18. dedicação Responsabilidade.4% 15. a sensibilidade. a vocação e o gosto. «os poucos rapazes que aqui chegam não conseguem aguentar a carga emocional negativa que lhes é transmitida pelos média. amor.2% 13.5% 13.4% 11.8% 32. compreensão Criatividade. segurança Observação. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .5% 14. em muitos casos condição essencial para afastamento dos homens da profissão.8% 18.1% 30.2% 12.7% 30.1% 34. No inquérito realizado embora de opinião bastante díspares os educadores revelam um leque alargado de características comportamentais na área da emoção e atribuídas à mulher pelas categorias do género feminino. afectividade.3% 16. carinho Empenho.6% 32.3% 33. educação Afabilidade.0% 33.3% 25. Características de um bom educador Educador de infância Paciência.0% 12. atenção Competência técnica e científica Capacidades profissionais Respeito.

Pelas práticas profissionais que lhes vemos ter.10 Por outro lado. Os inquiridos. No seu processo de sociabilização a criança começa por copiar as atitudes daqueles que lhes estão mais próximos ou daqueles que sobre ela exerçam mais influência e que se encontram no universo das solidariedades primárias. As mulheres devem ficar junto das crianças. pelo meio em que estão inseridas. Esta aprendizagem condicionará o indivíduo que. têm características e apetências diferentes. os pais das crianças em idade de pré-escolar. afastando deste universo os homens. 4. até pelo perigo que pode representar a presença de um homem nesta profissão. Segundo a ideologia do género os indivíduos. Isto quer dizer que até a sociabilização com os papéis atribuído ao género acontece dentro dos parâmetros naturais da ordem estabelecida. a criança vai à procura do seu “outro” para o copiar ou simplesmente para o ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . já na fase adulta. pela a forma de comportamento que se espera delas. As crianças representam a pureza e a mulher conserva uma imagem menos perigosa. foi o que constatámos junto das Educadoras de Infância. De facto. O seu poder advém-lhe da sua forma de reprodução. também manifestam que a profissão de educador de infância é própria para mulheres. amigos ou mesmo da escola no seu processo de sociabilização com as categorias do género. nem tão pouco se sentem que houve algum dia qualquer forma de influência que condicionasse a sua escolha. Porém a sua natureza não passa de uma construção social. a imagem de feminilidade contida nesta profissão é forte e constrói-se sozinha. Conclusão O processo de aprendizagem das categorias do género iniciado através do processo de interacção desenvolvido no seio das solidariedades primárias. se sentirá mais atraído pelas profissões que estão de acordo com as características atribuídas ao seu género. neste universo. Aqui. Na verdade expressam a ideologia do género e os seus medos. segundo o sexo. sem a necessidade de um “diferente por perto”. por exemplo. por tudo isto. mais tarde. mais dócil e o seu as suas carícias são consideradas normais. não reconhecem directamente a influência dos seus pais.

9 É na família que. Referências Bibliográficas AMÂNCIO. copia e aprende a reproduzir os papéis sociais esperados para o homem e para a mulher. esta transmite-lhe a ideia que cuidar das crianças é trabalho para mulher. Edições Afrontamento. muitas vezes a brincar ao “faz de conta” sob os olhares da mãe ou da avó. precisamente para a falta de práticas conducentes a esse equilíbrio e equidade. E aí está a perversidade desta profissão. Masculino e Feminino. pp. 54 anos. Através da interacção que se estabelece entre a criança e a sua educadora. mas mais do que entanto a criança habitua-se a partilhar a sua vida com uma mulher que os ensina a divisão do trabalho por sexo. as salas que recebem as crianças. É também neste universo. Nos seus espaços de trabalho. Estas profissionais actuam como frentes de consolidação do género feminino. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . 1994. O trabalho de observação empírica permitiu ver que as mulheres educadoras de infância desenvolvem um tipo de trabalho que as posiciona de acordo com o imaginário feminino. um número de factores e de práticas profissionais chama a nossa atenção. os objectos estão distribuídos como se de uma casa se tratasse. Lígia. no jardim-de-infância a criança começar por distinguir os papéis diferenciados do género. Lisboa). a criança aprende as categorias do género. 41. no seu estabelecimento todas as educadoras são mulheres. Apesar dos educadores de infância deixarem transparecer que o seu trabalho com as crianças é feito com o objectivo de os influenciar no sentido do equilíbrio e equidade entre géneros. Provadamente. Este processo de aprendizagem dos papéis do género é universal.11 identificar com determinado tipo de trabalho. Mais tarde. As crianças brincam e utilizam este espaço não tendo em conta o seu sexo. A construção Social da Diferença. 9 ID. Porto. que a criança vê. condicionando o leque das profissões disponíveis para os futuros homens e influenciando-os a escolher: «uma profissão que não envolva o cuidar dos filhos dos outros e ensiná-los brincando» (Educadora. “e todas as sociedade reconhecem os laços que cada criança tem com as pessoas envolvidas no planeamento e empreendimento do acto reprodutivo”.

2005. Academic Press. nº 5. Nova Iorque. Nova Iorque. Educação. os rapazes são para trabalhar fora: a diferenciação sexual do trabalho das crianças camponesas e a construção da identidade dos rapazes e raparigas”. João de. Karmela Liebkin (Eds). Hemel Hempsted. Irene. L. Mercedes. Guadalajara. Cohen. Mary Gergen e Kenneth J. PALENCIA. CHODOROW. Thousand Oaks. Michel. 1995. Revista de Antropología Experimental.. Padavic. PINA-CABRAL. PHILIP. Subject and Power. 1993.40. 2ª edição. Londres e Nova Deli. FOUCAULT. Londres e Nova Deli. The University of California Press. e Nelson Lourenço. Berkeley. http://www. 2000. (Texto 14). Londres. Social Construction. 4 pp. 1970 (1952). PINTO.). pp. Christine. N. Susan.es/huesped/rae. “We all love Charles: men in Child Care and the Social construction of Gender”. 1996. Sociedade e Culturas. Vol.2002. Graça Alves. pp. Os percursos do género na antropologia e para além dela. Universidad de Jaén (España). Sociology for a new Century. Discipline and punish: the birth of the prision. No. Michel Foucault beyond structuralism and hermeneutics. 20005 (2003). Em Terra de tufões: dinâmicas da etnicidade macaense. “The gender division of labour: Keeping house and occupational Segregation in the United States”. “Electrotecnia e Informática: Dinâmicas de Género em Ciência e Tecnologia”. Social Structure and Personality. “Variations in Ethnic Identity: Structure Analysis”. Presentations of Gender. STOLLER. 1998. New Haven. (ed). ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Gender & Society. 18. 174. pp. ICM. WILLIAMS. University of California Press. Gender and Society. Pine Forge Press.ujaen.369. Berkley. 1999. MURRAY. LUTZ. Paul. Brasília.). 2ª edição. “Emotion: The universal and the local. FOUCAULT. Wheatsheaf. 1985. Revista de estúdios de género. WEINREICH. Rita Laura. “Espacios e Identidades: ingreso de profesores a preescolar”. 1978. Women and Men at Work. col. Irene. 42. Isabel. pp. Women and Men at Work. pp. Vol 10. Vintage. Yale press University. San Diego. Gergen (Ed. Nancy. Sage. 2005. and RABINOW. SEGATO. e Barbara Reskin (2002). Inc. New Identities in Europe. CA. Peter. New York Free Press. col. PARSONS. “The superego and the theory of social systems”. La Ventana. 52. a reader.12 CARDANA. Série Antropologia 236. Hubert. Universidade de Guadalajara. 1982. pp. Michel. Still a man’s World: men who do “women’s work”. 99-121. Catherine. Thousand Oaks. Padavic. “A Casa é para as raparigas. Nº 2. Talcott. 1979. The reproduction of mothering. e Barbara Reskin. 2004. 42-43. Robert. 1989. DREYFUS. Gower/European Science Foundation. Pine Forge Press (an imprint of Sage Publications. 8. Sociology for a new Century.17-33. pp. Vermont. pp.

1993. Nova Iorque.). Sage. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Christine L. (Ed.13 WILLIAMS. Doing «Woman’s work»: men in non-traditional occupations.

Polana Caniço A e Hulene B na periferia de Maputo 2 . Palavras-chave: Moçambique. Foi neste contexto de precariedade de infra-estruturas urbanas e de serviços sociais. Para a compreensão de todo este processo foi essencial o estudo das relações de género e poder que se processam no interior das famílias e nesta comunicação analisam-se os diferentes papéis desempenhados pelos homens e mulheres reflectindo-se sobre as 1 Uma versão desenvolvida desta comunicação foi publicada na revista Lusotopie (Costa 2005) ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . poder.Há-de vir um senhor que é meu marido: relações de género na periferia de Maputo Ana Bénard da Costa Instituto de Investigação Científica e Tropical. género. de índices elevados de «pobreza» e desemprego formal. que as investigações decorreu centrando-se na análise de estratégias de sobrevivência e reprodução social de famílias maioritariamente originárias do Sul de Moçambique. Lisboa anabenard@netcabo.pt Baseando-se numa investigação sobre estratégias de sobrevivência e reprodução social de famílias da periferia de Maputo. este artigo articula a avaliação da efectiva capacidade de controlo de recursos que os homens e mulheres da família exercem. com as representações sociais e culturais e com a auto percepção que os membros da família têm do poder que exercem ou ao qual se submetem. estratégias económicas. Introdução Esta comunicação 1 baseia-se em investigações que decorreram entre os anos de 1998 e 2002 junto de famílias dos bairros de Mafalala. relações de aliança. Nesta análise discute-se se as transformações ocorridas nas relações de aliança e nas práticas desenvolvidas pelos membros das famílias para obtenção de rendimentos e/ou produtos terão contribuído (ou não) para uma modificação nos papeis de género e mais especificamente para um acréscimo do poder e autonomia das mulheres e para uma valorização do seu estatuto social.

há casais que só cumpriram parcialmente as diferentes cerimónias e prestações que o lobolo implica. pelo menos ao nível das representações. kutilhuva designa uma situação em que o homem sai de sua casa e vai viver para casa de outra mulher . e himbuya significa amantes. 3. Uniões conjugais em transformação e questões de género Nestas famílias coexistem diferentes processos de formalização das uniões conjugais que não são exclusivos entre si. Uma informante referiu que existiam palavras diferentes em changana para designar os diferentes tipos de uniões conjugais. 5. 4. kulovoliva designa o casamento com lobolo . uma intenção de compromisso. implica diferentes cerimónias e o pagamento de uma prestação matrimonial. significar alterações substantivas nas relações de género e de poder que implicam rupturas profundas com os modelos 2. em que cada uma das mulheres é casada de forma diferente com o marido e há «uniões de facto» que não envolveram qualquer formalização 5 . que pode ser repartida por tempos diferentes. A presente análise baseia-se em investigações realizadas na periferia de Maputo entre 1999 e 2002 (Costa 2007 . entre outras coisas. A diversidade de tipos de uniões matrimoniais é significativa. Formalizar de algum modo uma união implica. nas igrejas Cristãs (Católica. mas também entre estas e o(s) modelo(s) social (is) de onde emanam os ritos ou as leis através dos quais esse casamento se realiza. protestante ou de inspiração protestante) ou mesquitas Muçulmanas e através de lobolo 4 . Oppenheimer 2003). envolvem múltiplas dimensões (social. Entende-se como estratégias económicas o conjunto de práticas articuladas através das quais os membros das famílias obtêm rendimentos e/ou produtos. simbólica e económica) e diferentes tipos de recursos (humanos. O lobolo não é um acto ou uma cerimónia circunscrita a um momento. culturais e naturais) que são articulados de forma dinâmica e relacional pelos actores sociais no quadro das estratégias económicas que desenvolvem. sociais. kukandza ou avukate designam a mulher que não foi lobolada e não formalizou a união conjugal de nenhuma das formas possíveis e significam «estar no lar (mùntì » . Não formalizar uma união num contexto onde se cruzam diferentes sistemas matrimoniais pode ter múltiplos significados. E quando os actores sociais se afirmam «casados» podem referir-se a uniões formalizadas simultaneamente no Registo Civil. é um processo que.2 implicações que as mudanças ocorridas nas relações de aliança e nas estratégias económicas das famílias 3 têm (ou não) na sua transformação. há famílias poligâmicas. outros referiram que se casaram «muçulmanamente». ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Mutchade significa casamento no registo civil . não só entre o casal e entre as duas famílias que assim se unem. Estas práticas.

html. dificulta a análise das diferentes situações. http://www. sistemas de sucessão e herança e sistemas matrimoniais são interpretados de forma diversa. 9.30 TMG). pelo menos.3 matrimoniais prevalecentes e com os papéis que os respectivos cônjuges supostamente assumem dentro na união conjugal e várias implicações. A proposta de lei e particularmente a questão da poligamia « inflamaram » os ânimos de alguns sectores da « sociedade civil moçambicana » (cf. e Pessoa 1991). Pretende-se que esta nova Lei da Família venha a ser um importante instrumento de mudança no conjunto de práticas sociais (consagradas na anterior Lei ainda do tempo colonial e imanentes dos diferentes sistemas de parentesco moçambicanos) que sustentam e promovem profundos desequilíbrios nas relações de género 6 . Entre outros aspectos inovadores que esta Lei consagra. desde 1991 (Casimiro. Cf. 10.com/stories/200312090271. o facto de este processo legislativo decorrer pelo menos desde 1991 (Casimiro. Cf. Loforte e Pessoa 1991). possibilitando arbitragens permanentes entre vários referentes 10. Loforte. o reconhecimento do casamento religioso e tradicional e das uniões de facto desde que estas últimas tenham mais de um ano de duração. 8. http://allafrica. A pluralidade de formas possíveis de formalizar uma união conjugal e o facto de existirem uniões de facto em que casal se considera e é considerado socialmente casado. A morosidade deste processo legislativo 8 e a polémica que à volta dele se desenvolveu 9 testemunha as contradições resultantes da coexistência de diferentes sistemas culturais que permitem uma dinâmica « normativa ». destaca-se o facto de o marido deixar de ser « automaticamente » o representante da família.mujeresenred. Depois de um longo debate o Parlamento aprovou em Dezembro de 2003 a nova Lei da Família. deveres e obrigações dos diferentes membros da família. entrevista radiodifundida pela Rádio Moçambique a 15 de Maio de 2002 às 10. sendo uma das mais importantes a legal. Decorre.net/mozambique/Outras_voces-3Maio % 202003. 11. embora em 24 % das famílias estudadas11 existissem relações 6. Este facto explica. em que direitos. Desta forma. Foram entrevistadas 81 famílias e inquiridas 1 000 e foi realizado trabalho de terreno mais aprofundado com seis famílias do bairro Polana Caniço A. nomeadamente no que se refere às uniões poligâmicas. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Se estas uniões se quebram o homem pode ser obrigado a contribuir com uma pensão para a sua ex-mulher e filhos. em parte.). sendo esta promulgada pelo Presidente Joaquim Chissano vários meses depois (a 25 de Agosto de 2004).doc 7. As uniões poligâmicas não são reconhecidas (nem proibidas) e a lei estabelece que no caso de morte do marido a herança deste deve ser dividida em partes iguais pelas viúvas 7 .

sede» (1996 : 132). Só que a diferença deve haver porque da mulher nasce bebé […]. com a independência deu a liberdade à mulher. A família do marido leva todos os bens da senhora […] podem até levar os filhos […] e a mulher volta para casa dos pais […] e ela engravida outra vez. cidade. Nestes excertos estão patentes as contradições entre uma «realidade» que ela descreve como composta de mães solteiras e mulheres abandonadas e as representações ideológicas que contrapõem à mulher submissa da sociedade tradicional. povoação. transcrevem-se aqui as palavras de uma mulher.4 entre um homem e duas ou mais mulheres. 2. Porque a mulher. quando morre o marido eles arrancam todas as coisas da mulher. 3. […] A mulher tem todos os direitos iguais aos do homem. secretária da OMM (Organização da Mulher Moçambicana) no bairro de Hulene B : Minha mãe não quis casar com o cunhado e por isso mandaramna embora. De forma a compreender as transformações ocorridas ao nível das relações de aliança e de género. lar. casa. Se o homem decidir sair definitivamente da sua casa. família. vou viver com aquela família definitivamente porque me lobolaram[…]. aldeia vila. Depois a Frelimo. instalações. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . antes […] eu caso. Mas qual é a verdadeira situação da mulher moçambicana em meio urbano ? A existência de um elevado número de mulheres «mães solteiras» tem sido apontada como espelhando tanto a crise social que se vive e a dissolução da família «tradicional» e dos laços familiares subjacentes a esta. pois muitas mulheres (em regime de monogamia ou poligamia) consideram-se casadas mesmo sem terem sido loboladas. não foi possível apurar se todas estas relações eram poligâmicas de tipo «tradicional» ou se eram casamentos monogâmicos onde havia uma «amante». e a amante passa a ser a esposa do homem. Esta distinção é subtil e o lobolo não é o factor que introduz a diferença. A explicação dada para distinguir uma amante de uma segunda (ou terceira…) mulher «legítima» foi a seguinte : é-se amante quando se «namora fora do mùntì 12 » e quando a esposa «legítima» desconhece a situação. então passam de amantes a casal. No dicionário de Bento Sitoe pode ler-se o seguinte : «mùntì […] 1. tem outro filho. a mulher livre da actualidade. […] faziam isso antigamente. como a libertação da mulher da 12. e assim sucessivamente […] e então chamamos de «mães solteiras».

Esta prestação matrimonial era. o processo de deslocamento em que estas populações estiveram envolvidas nos últimos anos e que tornaram por vezes obsoletas as velhas alianças. porque o que importa aferir não é o valor monetário dos bens transaccionados. porque no passado envolvia bens de prestígio com valor simbólico (vacas) mas aos quais não era estranho o valor material. em meio urbano. o noivo (e a família deste) não o pode pagar e que arrisca. simultaneamente. podendo esta ser abandonada com mais facilidade do que aconteceria se fosse lobolada. Finalmente. anel e dinheiro) ainda conservam essa conotação. que o papel desempenhado pelo lobolo se relacione apenas com o estabelecimento de direitos e deveres de mulheres e maridos. Mas «a vida está cara». ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . na sociedade tsonga. a família destas sabe que. Coexistem.5 tutela da família «tradicional» e das regras rígidas que a reduziam a um «ser menor». e muitos disseram que o valor monetário do lobolo era calculado em função das despesas que haviam tido com a educação da filha. manutenção e desenvolvimento de redes de solidariedade entre diferentes grupos familiares. Consideram. a crise social e económica e as contradições internas das estratégias de reprodução social. Actualmente. muitos dos bens transaccionados (roupa. Primeiro. se exigir muito dinheiro. obrigando à criação e ao desenvolvimento de novas cadeias de solidariedade. estruturante das estratégias matrimoniais que visavam antes de mais estabelecer uma cadeia de relações entre diferentes linhagens (Feliciano 1989a). Se actualmente se verificam transformações estas reflectem. mas sim as possibilidades (facilidades) que os rapazes e as famílias têm de os adquirir – e estas talvez fossem maiores no passado. não passam necessariamente pelo casamento e pelo pagamento de prestações matrimoniais. porque se trata de uma prestação matrimonial que envolve um sistema de trocas complexo onde a «lógica da dádiva» se articula com a «lógica de mercado». Não parece. as raparigas sentem que se «juntarem» sem lobolo não estão casadas . valores simbólicos e monetários. entre outras coisas. O lobolo (ilustrando o pluralismo moral do contexto) é visto como um acto abominável através do qual mulheres são compradas e vendidas e simultaneamente como algo positivo que sanciona e dá estabilidade a uniões. por conseguinte. Segundo. no entanto. Por outro lado. também. mas sobretudo com a criação. Aparentemente esse aumento não é do interesse de nenhuma das partes : os rapazes querem cumprir a obrigação e não têm meios suficientes. o aumento (relativo) 13 do custo desta prestação matrimonial reflecte. Estas solidariedades. É difícil fazer uma análise « objectiva » da evolução do «custo» do lobolo. a que este e a sua filha vivam maritalmente. por isso. que o dinheiro que assim vão receber pode contribuir para fazer face a outras despesas 13.

ajudar um filho a pagar o lobolo que outra família exige). num contexto onde a sobrevivência e a reprodução social dependem em grande medida do estabelecimento de redes familiares de entreajuda. Essa liberdade e autonomia. existe sempre a possibilidade de «circulação» entre redes de solidariedade e por isso é possível aos indivíduos e às famílias estabelecerem novas alianças com outras unidades sociais (novas uniões ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Nesse hipotético futuro se projectam actos e cerimónias como se de processos se tratasse. escrevem a carta onde as exigências ficam expressas e esperam que. sendo a família uma das mais importantes . à semelhança das próprias uniões conjugais (o divórcio e a separação não são propriamente novidades). Porém. as transformações que se verificam em todo o processo cerimonial do lobolo não reflectem necessariamente mudanças qualitativas nas relações de género. o rapaz e a família deste façam os sacrifícios necessários para as poder cumprir. Por outras palavras. simultaneamente. algo em permanente construção que se pode ir realizando ou protelando no tempo.6 essenciais (por exemplo. No entanto. apesar de ambas as partes não considerarem que a formalização do acto de matrimonial se tenha cumprido na íntegra. são muitas vezes auto-percepcionadas como negativas e podem traduzirse num maior isolamento social das mulheres e consequentemente num decréscimo do seu poder e estatuto. eventualmente. A cerimónia de casamento é. as famílias) e por conseguinte quebram-se as alianças (neste caso. matrimoniais) que tenderiam a perpetuar essas unidades sociais. os indivíduos para sobreviverem e se reproduzirem necessitam de estar inseridos em redes sociais de solidariedade. mesmo quando as situações indefinidas criadas ao nível das relações de aliança permitem à mulher uma maior liberdade e autonomia face às suas obrigações tradicionais. Por isso. Essas práticas podem gerar a quebra de alguns dos compromissos sociais em que se baseiam as referidas redes (neste caso. No entanto não é necessário que todos estes requisitos se cumpram para o casal se sentir «casado» e para a família de ambos os aceitar como tal. correndo o risco. Concluindo. não sobrevivem se não desenvolverem práticas «egoístas» que lhes permitam satisfazer as suas necessidades materiais. e como referem : «há-de cumprir-se». Essas transformações reflectem a dinâmica das estratégias de sobrevivência e reprodução social que articulam de forma ambígua valores contraditórios.

venda de produtos hortícolas e frutícolas. Uma das soluções possíveis passa pela aceitação e criação de condições que transformem as cerimónias matrimoniais em processos em permanente construção que podem a qualquer altura ser interrompidos. estas mulheres tiveram de inserir-se nos circuitos do chamado mercado informal. a fragilidade dos laços matrimoniais não significou a desestruturação da família. Advém sim da forma particularmente dinâmica de que se revestem as articulações entre valores opostos.7 matrimoniais) e desenvolverem processos dinâmicos e versáteis de reprodução social. A especificidade deste contexto social não lhe advém. desta articulação que é sentida por todos os homens independentemente da sociedade a que pertencem (Casal 2001: 123). foi possível concluir que em muitas famílias o número de mulheres que trabalham é igual ou superior ao número de homens que ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . as mulheres e os seus maridos não consideram as actividades que estas desenvolvem como «trabalho». Concluindo. confecção e venda de alimentos ou revenda de produtos importados. Não obstante este facto e a dificuldade de apurar a importância da contribuição financeira das mulheres para os orçamentos familiares – a maioria das actividades não tem um rendimento constante e não é realizada de forma continuada –. venda de lenha. contudo. e referem : «eu não faço nada. continuidade e reprodução social. O trabalho feminino nas estratégias económicas das famílias Em praticamente todas as famílias. as mulheres exercem actividades geradoras de rendimentos ou produtos e as vendas são uma das tarefas principais em que se ocupam. Desta forma. as famílias desenvolvem uma estratégia pela qual tentam conciliar a instabilidade das relações de aliança com as necessidades de coesão interna. em alguns casos. só vendo» ou «aquilo que ela faz é para entreter». Importa notar que. executando aí um leque muito variado de actividades – confecção e venda de carvão. Pelo contrário. a flexibilidade desta unidade social permitiu o desenvolvimento de estratégias de reprodução social adaptadas a um contexto social e económico que exige uma grande versatilidade de práticas e a articulação permanente de valores opostos. Para subsistir e fazer face às suas responsabilidades tradicionais de provedoras do sustento da família.

irmãs mais novas. face às mulheres que não as desenvolvem. em meio urbano africano. as mulheres afirmaram que eram elas que efectivamente sustentavam a família e que a contribuição financeira do marido para as despesas domésticas não era suficiente : «atirou toda a responsabilidade. Se para muitas mulheres. pelo facto de obterem rendimentos monetários em actividades que exercem «fora de casa». poder e estatuto. a relação afectiva e emocional com o cônjuge ou. as actividades que desenvolve e a importância relativa dos rendimentos daí resultantes no orçamento familiar. O que esta investigação constatou foi que existiam situações muito diversas. um acréscimo de trabalho e de responsabilidades. Rocha e Grinspun 2001).8 trabalham. Segundo alguns autores (Tripp 1989 . a posição que a mulher ocupa dentro desta estrutura. são as outras mulheres da família de estatuto inferior (noras. Loforte 1996). não as realizam. Estas últimas. Em alguns casos. ele não tem nada a ver com isso». Quem vai buscar água e comprar lenha. as crianças e os jovens (incluindo rapazes). embora continuem a gerir as actividades domésticas. para outras tal não acontece. ou que ele tinha arranjado outra mulher e quando vinha dava uma quantia insignificante. sendo necessário relacionar inúmeras variáveis para compreender a posição das mulheres em termos de autonomia. os recursos materiais disponíveis e a capacidade da mulher para os mobilizar e rentabilizar em seu benefício. quem vai às compras ou cozinha. segundas mulheres. que têm chamado a atenção para o facto de muitas mulheres que desenvolvem actividades geradoras de recursos financeiros terem. Se o exercício de actividades geradoras de rendimentos monetários cria possibilidades para o aumento de autonomia e liberdade das mulheres. as mulheres. na ausência deste. quem varre o chão e lava a roupa. têm a possibilidade de aceder a certas posições de poder e de conquistar uma certa visibilidade a nível do bairro que pode influenciar positivamente o seu estatuto na família e fora da família. Esta ideia tem sido contrariada por outros autores (Caplan 1995 e Campbell 1995. Destacam-se algumas: a estrutura familiar (tipo de família. as actividades geradoras de rendimentos representam um acréscimo de trabalho. a situação do homem em termos de trabalho/rendimentos. número de membros da família e distribuição por sexo). com outros elementos masculinos da família. esta pode gerar ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .

Sou casada mas ainda não fui lobolada.9 conflitos quando é concretizada – «há muita zanga entre os homens e as mulheres por causa do que hão-de fazer ao dinheiro. que por vezes atingem níveis dramáticos. e a ausência de alternativas – uma mulher sem família é socialmente marginalizada – podem transformar a autonomia em sofrimento e a liberdade num pesadelo. ele está na África do Sul e nunca mais veio. sou só eu e o meu irmãozinho de dez anos que vive comigo […]. não tenho quase despesas. Uma (Eva) é a terceira esposa de um casamento poligâmico e outra (Cristina) afirma-se casada. apenas produz para o consumo da família. solteira e com uma situação económica que lhe permite possuir casa própria e usufruir de uma certa independência não se considera mais «valorizada» socialmente (embora seja certamente mais independente e tenha mais poder e autonomia sobre a sua vida) do que outra mulher inserida numa família poligâmica e sem rendimentos próprios. O estatuto do casamento e da maternidade constitui um factor de grande peso cultural e social. Os homens não tiram o dinheiro. sozinha. mas também não posso dizer que sou muito azarada em ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Uma mulher sem filhos. Estas mulheres referem-se nos seguintes termos às suas situações : Cristina (29 anos) : Eu há dois anos que vivo numa casa que é só minha em Magoanine. A autonomia da mulher pode ainda traduzir-se numa capacidade limitada para mobilizar recursos (humanos e materiais) e num aumento consequente de responsabilidades face a si e aos seus filhos e num maior isolamento social. Como exemplo destas situações apresenta-se aqui o testemunho de duas amigas da mesma idade que vivem situações muito diferentes. comprei o talhão sozinha e foi o meu irmão que fez a casa […]. O potencial de conflitos. é ela que dá ao marido» – ou rompimentos com redes familiares e de parentesco. Eva (30 anos) : Não me considero uma mulher com sorte porque não tive o marido só para mim. nem registo nem nada. mas vive sozinha. estou à espera que ele venha para saber se fica comigo ou não. A primeira trabalha na machamba da família e não obtém quaisquer rendimentos monetários com essa actividade. Prefiro assim. por isso às vezes a mulher faz sem dizer nada ao marido. Cristina é professora na escola comunitária do bairro Polana Caniço A. tem um ordenado e casa própria. marido e filhos. ele é de três. […] Mas gostava mais de ter uma família. do que esta situação de independente.

interesses «modernos » e representações ideais de modernidade. para além de estar profundamente marcado por relações de género que subalternizam o papel social da mulher face ao do homem. é pleno de contradições e articula de forma complexa valores «tradicionais». trate de mim. No entanto. o exercício de profissões. Da mesma forma o acesso aos rendimentos monetários não se traduziu numa maior visibilidade ou intervenção a nível do bairro. mas o facto de as mulheres terem a responsabilidade de prover ao sustento alimentar básico da sua família não constitui uma mudança. Através deste exemplo é possível concluir. uma transformação valorativa no estatuto das mulheres. Neste complexo jogo e face às alternativas existentes. Esse contexto. neste estudo de caso. romper com fidelidades antigas que as subalternizavam. em certos casos. esta mudança não significou. os ganhos monetários provenientes de diversas actividades. efectivamente. A participação das mulheres em ONG. a afirmação de interesses individuais e a capacidade (e coragem) de certas mulheres tornam possível. para mim basta. estas «conquistas» só adquirem «valor» quando têm significado e reconhecimento social dentro do contexto em que se efectivam. que existem efectivamente mudanças no papel que a mulher desempenha dentro da família. porque esta aí ainda anda a tentar ver se consegue um lar […] agradeço a Deus o que me deu. Conclusão A análise demonstrou que as mulheres constituem um elemento essencial nas estratégias económicas. A diferença reside nos rendimentos monetários que agora adquirem através do seu trabalho. traduzir-se num aumento relativo do espaço de poder feminino face ao masculino. A formação escolar. por exemplo no ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . E tal pode. mas desde que o senhor Josué [marido] cuide de mim. pois esta era tradicionalmente a sua obrigação. mas estas mudanças ocorrem em múltiplos sentidos. associações de bairro (excluindo aqui a Organização da Mulher Moçambicana) e grupos de entreajuda. é necessária prudência quando se tenta extrair conclusões sobre eventuais modificações nas relações de género e é difícil percepcionar as direcções para as quais tendem as transformações observadas.10 relação à minha amiga. por si só. estou num lar que já tinha lá duas mulheres. No entanto.

ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . «independência». é reduzida. Pelo contrário. Estas mudam frequentemente de culto quando se casam e passam a seguir a religião do marido 14 . Neste sentido. 1988 : 18). ao nível das representações sociais e culturais no contexto em questão (como a sociedade em causa molda os papéis e os comportamentos de ambos os sexos) e em termos da auto-percepção que os membros da família têm do poder que exercem ou ao qual se submetem. O que se verificou foi que questões relacionadas com «autonomia». as relações de poder devem ser compreendidas em termos de avaliação da capacidade de controlo de recursos materiais e humanos por parte dos homens e mulheres da família. As informações empíricas disponíveis não permitem chegar a conclusões acerca de modificações nos papéis de género. «controlo» e «relações de poder» são extremamente complexas e têm de ser contextualizadas.11 «xitike». não faz sentido falar de poder ou de autonomia sem os contextualizarmos dentro desta dinâmica relacional (Medick e Sabean 1988 : 18). por outro. embora a maioria dos crentes das igrejas ziones sejam mulheres. a análise das questões de género constitui essencialmente uma análise relacional e o que está em jogo são fundamentalmente relações sociais entre os membros masculinos e femininos da família. A compreensão destas questões pressupõe uma análise integrada onde intervêm diferentes significados e interpretações : o significado que o investigador dá a esses conceitos e que influencia as interpretações que faz da realidade social que analisa. os secretários e diáconos) é constituída exclusivamente por homens. Neste último caso. Sendo assim. Refere ainda que. Simultaneamente. a hierarquia destas igrejas (incluindo o pastor. por um lado. Da mesma forma. e as práticas concretas dos actores. o evangelista. que as mulheres não podem ser membros desta Igreja sem autorização do seu parceiro. 14 Seibert (2001: 5 e 15) acrescenta em relação às igrejas Zione. as mulheres participam frequentemente em grupos religiosos (igrejas). bem como significados que essas questões e conceitos têm no contexto cultural e social em observação. Mas mesmo a vida religiosa da mulher está por vezes dependente da vontade do marido. a essência multidimensional das relações familiares implica que nessas mesmas relações sejam expressos diversos tipos e níveis de poder que não só podem não ser coincidentes como são dinâmicos e se alteram permanentemente sob a influência de inúmeros factores (Medick e Sabean. há ainda que ter em conta não só os múltiplos referentes em presença como as diferenças entre valores culturais e representações sociais.

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procurar-se-á examinar como se modula o tráfico segundo o género. tráfico a retalho. estrutura dos narcomercados Em finais de século.uminho. Não cabe dizer aqui como e porquê a economia retalhista da droga veio induzir uma reorganização sem precedentes nas fileiras prisionais. da Cunha Universidade do Minho. Pretendo focar aqui alguns aspectos da conexão entre eles tal como aparece refractada na maior prisão feminina do país. 6099) o apoio prestado à investigação da que resulta este texto. em torno dessa velha e recorrente personagem designada por nova delinquente. 1994. Estes factos não são alheios entre si. Reafirmando assim a importância de contextualizações precisas. 1987-2000). economia da droga. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . pt Partindo da actual centralidade dos crimes de droga na condenação penal de mulheres e da assinalável reorganização das fileiras prisionais que ela veio indirectamente produzir. cujo aspecto mais fundamental. 2 Entre 128 e 145 por 100. pelas 1 Agradeço à Wenner-Gren Foundation for Anthropological Research (Gr. IDEMEC micunha@ics. bem como às ideologias de género que diversamente os caracterizam. cf. permitirá dar conta das propriedades específicas que a intervenção das mulheres no tráfico assume em contextos portugueses. como e quando são os narcomercados estratificados por este e outros critérios e quais as modalidades da participação feminina na economia da droga. Palavras-chave: ideologias de género. Portugal situava-se regularmente no topo dos países da União Europeia com os maiores índices de encarceramento por 100 000 habitantes 2 . recentementemente exumada. o Estabelecimento Prisional de Tires. A esta posição destacada nos níveis gerais de reclusão acrescentava dois records no contexto europeu: a maior proporção de condenações por crimes de droga e a maior taxa de reclusão feminina (cerca de 10%). Ministério da Justiça.000 habitantes (Estatísticas da Justiça. Cunha. criminalidade feminina. esta especificidade pode também contribuir para reapreciar a uma outra luz a controvérsia criminológica. Uma perspectiva comparativa atenta às variações na estrutura destes mercados ilegais. CEAS. onde fiz trabalho de campo nos anos 80 e nos anos 90 (1986-87/1997. Cunha 2002).Os géneros do tráfico 1 Manuela Ivone P.

tal prende-se. Em todo o caso. pode bem ser que por uma vez o estudo das instituições femininas contribua para estabelecer os termos do debate teórico sobre a prisão. antes de mais. Se a mutação que referi ganha uma particular proeminência no contexto carceral feminino. respectivamente. alheia ao género.implicações analíticas que tem para os estudos prisionais. invertendo-se assim as assimetrias do passado: a reclusão masculina sempre enquadrou este debate de maneira universalista.as mulheres são pois muito mais condenadas a penas de prisão por crimes de tráfico do que os homens. 76% das reclusas estavam presas por tráfico. quer dizer. Quer dizer. é o facto de agora a maior parte dessas fileiras se articular em redes de parentesco e vizinhança. repartem-se por eles de maneira mais equilibrada. enquanto a investigação sobre a feminina se desenrolava ao invés na base mesma do critério do género. os contributos teóricos que ia gerando não eram exportados para lá do âmbito das prisões femininas. No caso converso das mulheres. a concentração é comparativamente muito superior (em 1997. Acontece que essa mutação é especialmente vincada na população prisional feminina. com a extraordinária homogeneidade que a sociografia dos contingentes de reclusas agora apresenta. O problema era que permanecia confinada a ele. que apesar de na sua maioria também se distribuírem por um leque pouco variado de crimes. contra 16% e 69%. incapazes de alimentar de forma recíproca a produção global de conhecimento sobre a reclusão (um olhar rápido aos títulos das respectivas publicações é bastante ilustrativo: o género apenas é especificado quando a investigação em questão versa sobre uma prisão feminina). mas de maneira mais diluída. em núcleos mais ou menos vastos de presos que já tinham laços entre si antes da reclusão. no que respeita às reclusas). por exemplo.não portanto em termos absolutos . Esta centralidade dos crimes de droga nas condenações de mulheres é também aquilo que melhor permite esclarecer a subida dos índices de encarceramento feminino. Na cadeia de Tires. É ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . E dado que os fenómenos que a configuram emergem também noutros contextos carcerais. amarrada a esse critério. 46% dos reclusos estavam condenados por crimes contra o património e 34% por crimes de droga. o seu perfil penal é bastante mais homogéneo que o das populações de reclusos. Em termos proporcionais .

. Carlen. no que respeita à criminalidade em geral. A questão então é a seguinte: dever-se-á às próprias características do tráfico o facto de ele se ter tornado a actividade ilegal de eleição entre as mulheres? Ou será antes que as mulheres conquistaram para si uma arena ilícita que até aí lhes estaria vedada. Chesney-Lind. tratar-se-á de uma repercussão ou até da reprodução no mundo do crime do mesmo movimento emancipatório que reivindica a igualdade de oportunidades? Ora. Smart. há que examinar a natureza desta presença. do mesmo modo que conquistaram as mais variadas arenas lícitas? Por outras palavras. sob pena de se tomar a nuvem por Juno. foi precisamente a propósito do tráfico que se assistiu à ressurreição de uma velha tese dos anos 70 segundo a qual um dos efeitos colaterais do feminismo teria sido o de libertar as mulheres também para o crime (cf. assim como o é o da maior presença de mulheres neles (cf. 1975. por exemplo. 1988). Mas o tráfico parece na verdade ter atraído muitas mulheres e ter-se-lhes apresentado como uma estrutura de oportunidades onde elas. Chapman. por exemplo. E é também a partir daqui ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Adler.. 1993). poderiam investir. Mas a forte presença feminina recentemente constatada um pouco por toda a parte na economia da droga conduziu inevitavelmente à tentativa de reciclar a ideia. 1993. 1975). 1979. ainda que agora num âmbito mais restrito. Quer isto dizer que a subida nestes índices de encarceramento não parece de facto dever-se a uma eventual mudança na atitude dos tribunais para com o género feminino . para especialmente intransigente (para retomar aqui os termos de uma velha controvérsia da criminologia em torno do eterno diferencial entre os índices carcerais femininos e masculinos) 3 . limitado a este tipo de mercado ilegal. foi no entanto rebatida em tantas frentes que parecia definitivamente enterrada (cf. Wilson. Simplesmente. mesmo as mais idosas.que estes são os crimes com maiores taxas de condenação e contam-se entre os crimes mais duramente sentenciados. Bourgois y Dunlap. Simon.. de facto. Que a proliferação vertiginosa dos mercados de droga expandiu as oportunidades ilegais é um facto consensual.de "cavalheiresca". por exemplo. E assim permaneceu. suponhamos. 1986. A tese da "nova delinquente". como ficou conhecida. É claro que não é de excluir a possível intervenção de várias filtragens deste e outros tipos ao longo do percurso que termina na constituição das populações prisionais. 1980.

aluguer ou venda de parafernália acessória ao consumo. assumem funções marginais como publicitação de drogas. Mas este "sexismo do sub-mundo" (Steffensmeier e Terry. a necessária ferocidade física e mental. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . 1997). onde a maioria das oportunidades se abriu às mulheres apenas nos segmentos mais baixos. Em primeiro lugar ao facto de se regerem por uma visão domesticizada das mulheres que as confina ideologicamente aos tradicionais papéis de género. Não se pode no entanto dizer que estas barreiras ideológicas à participação feminina no tráfico sejam inéditas nos mercados retalhistas americanos. A forte estratificação destes mercados segundo o género levou a que alguns autores vissem mais continuidade do que propriamente mudança na participação feminina no tráfico (Maher e Daly. 1986) . a mudança seria afinal pura aparência. por exemplo. por exemplo.que as coisas divergem segundo os contextos. O que acontece é que elas se tornaram mais eficazes nos anos 90. A masculinidade hegemónica é com efeito reforçada pelo facto de os empregadores desta economia definirem os requisitos de empregabilidade no narco-comércio como algo de intrinsecamente masculino: às mulheres faltaria. presença não quer dizer participação paritária. assistência na administração de drogas a terceiros. A hierarquização sexual do trabalho ilegal deve-se nesses contextos à conjugação de vários factores. etc. de resto gerando nela novos papéis. Johnson e Maher. Pode até dizer-se que se trata mais propriamente de pequenos nichos que elas criaram nos interstícios desta economia. pelo que é imprescindível uma perspectiva comparativa. precários e arriscados deste mercado (Maher. que nem sequer se encontravam inventariados nas anteriores tipologias dos actores deste mercado (veja-se Dunlap. a nova cornucópia não estaria ao alcance das mulheres. como sucede com mercados retalhistas norte-americanos. 1996). ou a capacidade de intimidação necessária para vingar num meio violento. Na limitada medida em que nele podem participar (nomeadamente enquanto exército de reserva usado quando a mão-de-obra masculina escasseia ou na iminência do risco de uma intervenção policial). E as condições dessa eficácia foram proporcionadas 3 Veja-se.que na verdade se mostra muito pouco sensível a veleidades emancipatórias encontra além disso um terreno especialmente propício na violência endémica que aí marca a economia retalhista da droga. (1993) ou Heidensohn (1997). 1997). Em primeiro lugar. Ou seja. Steffensmeier et al.

centralizada e envolvendo equipas de assalariados cuja margem de autonomia é praticamente nula. quanto muito.. assim como uma maior autonomia nas decisões que tomavam acerca de onde. com muito pouca interdependência hierárquica e com uma fraca divisão funcional do trabalho. como "crime em associação". em suma. Sucede que é precisamente esta estrutura de mercado que prevalece actualmente no tráfico retalhista português. uma forma tradicional de empréstimo informal e de entreajuda. fossem na prática mais permeáveis. com frequência obtendo drogas em regime de empréstimo ou à consignação através de redes de vizinhança e preparando elas próprias o produto para revenda. Tais mercados passaram por essa altura a assumir um perfil empresarial que se viria a traduzir em organizações hierarquizadas. Ora. do chamado "crime em organização" (Ruggiero e South. Era bastante mais fluido. quando e como vender (cf.por uma mutação na estrutura dos narco-mercados retalhistas. amigas e vizinhas e não como assalariadas de uma organização que estes chefiariam. Jacobs e Miller. 1997). Hamid e Sanabria. Trata-se. por exemplo. Pode-se definir o seu perfil como marcadamente free-lance (veja-se a tipologia de Johnson. Outras vezes as mulheres limitaram-se a assessorar episodicamente parceiros masculinos numa ou noutra transacção. a sua própria estrutura free-lance fazia com que as barreiras à participação feminina fossem mais frágeis e ineficientes. com uma estrutura relativamente rígida. Ora. Com uma relativa facilidade. 1999) do ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . 1998. passou-se de um modelo empresarial para um modelo free-lance. 1995). muitas mulheres puderam lançar-se autonomamente no tráfico como free-lancers. se quisermos. desconcentrado. que de resto se verificou não só nos EUA mas também em contextos europeus. mesmo que mercados deste tipo se pautassem igualmente pela dominação masculina e por um ethos agressivo que à partida os tornava arenas desfavoráveis às mulheres. Até essa década o modelo que prevalecia era outro. Aliás este modo de abastecimento segue muitas vezes os circuitos do fiado. havia apesar de tudo maior latitude para as incursões das mulheres no tráfico. 1992) ou. Portanto. tendo-se até registado uma evolução de sentido contrário à que acabei de referir para contextos europeus e americanos: isto é. mas enquanto parentes. além de esta estrutura de mercado que domina em Portugal representar uma estrutura de oportunidades bastante mais aberta (veja-se neste sentido Chaves. Morgan e Joe.

Aí. traçar-lhe um perfil absoluto. como é o caso em Portugal. Recapitulo. nem este é necessariamente considerado um desvio ao guião cultural feminino ou uma decorrência de um fracasso masculino. não enquanto opção "emancipatória". Começando pela tese da "nova delinquente". quando não está. pois. quando comparado com outras actividades ilegais? Sim e não. O narco-trabalho é aqui menos sexuado. Não. ou "contra-hegemónica". é uma ideia desajustada. quer dizer nos patamares mais baixos do patamar retalhista. Quanto à segunda questão: serão características inerentes ao tráfico que o tornam um tipo de crime particularmente acessível e atractivo para as mulheres. que seria uma espécie de sub-produto feminista espúrio . isso em nada se deve a uma mudança ideológica nas definições culturais dos papéis de género. mas como condição e estratégia de sobrevivência (veja-se neste sentido Cole. não é para este efeito pertinente falar em tráfico. Primeiro. Contudo. não sendo de facto exigido aos candidatos a traficantes especiais requisitos de virilidade. sendo esta debilidade especialmente acentuada nas chamadas classes populares. E é precisamente porque são tributárias desses mesmos contextos que tais características são variáveis. questões estas que corresponderam propositamente a modos correntes de colocar o problema. não lhes vedam o papel extra-doméstico de provedora de recursos.uma tese reactivada a propósito da participação feminina no tráfico e que tem alguma popularidade nos meios judiciais -. por assim dizer. as definições culturais dos papéis de género também remetem para as mulheres as responsabilidades familiares e domésticas. 2000). porque não é possível caracterizar em abstracto o tráfico. porque ou essa participação permanece afinal acantonada nas margens da margem. já que as suas características não são essencializáveis ou dadas fora dos contextos sociais e históricos em que se desenvolve. Mas não é só por isso que é menos operante a filtragem dos candidatos segundo o género. É que os obstáculos ideológicos à participação feminina no mundo do trabalho remunerado e no orçamento familiar são obstáculos de maneira geral débeis em Portugal.que a empresarial. ou. 1991 e Pina Cabral. acontece também que o tráfico a retalho é aqui bastante menos violento do que noutras geografias. digamos. As mulheres de baixos estratos sociais sempre investiram na esfera do trabalho. mas apenas ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . na forma de resposta às questões formuladas de início. Dito de outro modo.

COLE. Princeton University Press. DORN. CHESNEY-LIND. 2002. Philippe.). Reformulada a questão nestes termos.e evidentemente não faz qualquer sentido pressupor uma espécie de modelo-padrão em relação ao qual cada uma delas seria considerada mais ou menos conforme. 8 (4). 1992. Drug Markets and Law Enforcement. 97-132. New Jersey. Traffickers. da. Lisboa. Pat. Murji Karim. 12 (1). Entre o Bairro e a Prisão: Tráfico e Trajectos. Imprensa de Ciências Sociais. 1997. Lexington. Lisboa. Princeton. Casal Ventoso: Da Gandaia ao Narcotráfico. Sally. Women of the Praia. 1988. Manuela P. Lexington Books. BOURGOIS. Lisboa. Nova Iorque. 1991. Eloise. 1994. NY. Routledge. Economic Realities and the Female Offender. RATNER (ed. Women. Manuela P. pode dizer-se que o tráfico em Portugal . Meda. Lisa Maher.em versões do tráfico . então sim. Crime and Poverty. 25-55. noutros contextos europeus e norte-americanos configura uma estrutura de oportunidades ilegais bastante inclusiva das mulheres. 1986. Fim de Século. Signs. Sisters in Crime. Open University Press. CHAPMAN. Work and Lives in a Portuguese Coastal Community. Questões de Identidade numa Prisão Feminina. CARLEN. 1999. como porventura nenhuma outra o foi antes. Referências Bibliográficas ADLER. Em todo o caso. "Women and Crime: The Female Offender". Miguel. Crack Pipe as Pimp: An Ethnographic Investigation of Sex-For-Crack Exchanges. Malhas que a Reclusão Tece. da. “Exorcising Sex for Crack: An Ethnographic Perspective from Harlem”. e Eloise Dunlap. Nigel South. Nova Iorque. Londres. CUNHA. Milton Keynes. por exemplo. Nicholas. CUNHA. em M. NY. 1993. CHAVES. "Female Crack Sellers in New York City: Who They Are and What They Do". DUNLAP. Bruce Johnson. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . 1975. McGraw Hill.mas não. Jane 1980. Cadernos do Centro de Estudos Judiciários. nenhuma outra houvera mudado tão extensamente a paisagem carcerária. Freda. Women & Criminal Justice. Lexington Books. 7896.

Criminology. NY. 2000. 50-9. Carol. Lexington Books. 1996. Rita. Harry Sanabria. Darrell. SMART. Gender. Drugs. Female Criminality: The State of the Art. Nancy. Ansley Hamid. Gatland Publishing. Bruce. Vicenzo. SIMON. Issues. University of Oldenburg. "The New Female Criminal: Reality or Myth?". Markets and Trafficking in Europe. Relatório Anual Sobre o Fenómeno da Droga na União Europeia. 1979. RUGGIERO. SPOCE. 1997. Jaren Ann Joe. UCL Press. 1997. Crime. Bruce. Sociological Inquiry. JACOBS. Jody Miller. Kathleen Daly. OEDT. 865-892. Lexington and Toronto. em T. 1995. STEFFENSMEIER. "Institutional Sexism in the Underworld: A view from the Inside". 550-569. Women and Criminal Justice. Mieczkowski (coord. MAHER. 56-78. Social Problems. Lisa. 19 (1). Nova Iorque. 1992. XXXIV (153). 2001. MAHER. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Culliver (ed.EMCDDA. 1993. 85-109. Robert Terry. Women and Crime. European Monitoring Centre for Drugs and Drug Addiction. "A Difusão do Limiar: Margens. Drug Use. Scientific Report . PINA CABRAL.). 8 (3). 34 (4). 169-194. Hegemonias e Contradições". MORGAN. Lisa. Patricia.An Overview Study: Assistance to Drug Users in European Union Prisons. Race and Resistance in a Brooklin Drug Market. Análise Social. Londres. "Women in the Street-Level Drug Economy: Continuity or Change?". Nigel South. and Arrest Avoidance". Sexed Work. 56. 1975. 1998. "Crack Dealing. "Emerging Models of Crack Distribution". 1986. British Journal of Criminology. Boston. em C. Eurodrugs. "Stealing and Dealing: The Drug War and Gendered Criminal Opportunity". Oxford. and Social Policy: Research. Clarendon Press. "Uncharted Terrain: Contexts of Experience Among Women in the Illicit Drug Economy". 45 (4). JOHNSON. Gender. 465-491. 304-323. and Concerns. Luxemburgo.). 2000. Allyn and Bacon. João de. WILSON.

a patrilinearidade pode evaporar-se nas vicissitudes do tempo. Como já tive oportunidade de demonstrar (Ramos 1995). O fenômeno da patrilinearidade combinada a uxolilocalidade ou vice-versa tem sido analisado de várias formas (por exemplo. pois enquanto a residência uxorilocal permanece onde quer que seja. Trato aqui. Por exemplo. mas por certos aspectos da vida social. os homens. os homens circulam em busca de esposas. porém. Em linguagem antropológica. não existem. convertendo relações de gênero e parentesco em ícones da dialética entre permanência e efemeridade. Poderíamos supor que parte das diferenças resultam dos próprios etnógrafos.Tempo está para homens assim como espaço está para mulheres: por uma teoria do conhecimento sanumá Alcida Rita Ramos Universidade de Brasília (UnB) Sistemas desarmônicos em que descendência e residência seguem linhas opostas são hoje comuns na etnografia indígena da Amazônia. quão violentos seriam os Yanomamö descritos pelo estadunidense Napoleon Chagnon ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . os autodenominados Sanumá com quem tenho convivido desde 1969. interpretá-lo no contexto de outros componentes culturais. as mulheres. Assim. ou seja. os Sanumá diferem bastante dos outros subgrupos não apenas pela língua (uma de quatro). parecem existir apenas para dar aos seus homens a oportunidade de exibir machismo superlativo a platéias ocidentais em busca do exótico. à la Austin. desvela-se que a aparente fragilidade da condição supostamente de imanência feminina tem como contrapartida a real fragilidade da aparente transcendência masculina. é possível “fazer coisas sociais com outras coisas sociais”. especificamente. do subgrupo mais setentrional da família lingüística yanomami. aos olhos ocidentais. espaço e tempo sanumá surgem como categorias básicas do entendimento. Pode-se. Mas esses Yanomami. A outra metade. como produto de evolução materialista na visão de Robert Murphy sobre os Mundurucu). ressaltando-se como. Por Yanomami entende-se comumente uma de suas metades. uniformes e unitários. Na família lingüística Yanomami os Sanumá são os únicos que exibem um inquestionável sistema desarmônico: as mulheres ficam em casa.

portanto. eles simbolizam a paradoxal co-existência entre intimidade e recato. vamos à relação entre irmão e irmã.2 (1968) se fossem descritos por mim? Ou quão subjugadas seriam as mulheres sanumá se fossem descritas por Chagnon? Questões meramente acadêmicas? Pode ser. com princípios axiológicos subentendidos. Como consangüíneos que produzem afins. o que significa que a responsabilidade pela reprodução do grupo é mais deles do que de marido e mulher. certos elementos da vida social. entre nós e os outros. mesmo que não se casem. como diz Louis Dumont (1953). uma afinidade herdada e não apenas adquirida com o casamento. exibem a conjunção de dois elementos: um sistema desarmônico entre descendência patrilinear e residência matrilocal. e o padrão de parentesco chamado dravidiano. A complementaridade entre homens e mulheres aparece em vários planos. mas. Tomo aqui a questão de gênero como uma excelente oportunidade para observar a capacidade dos Sanumá para expor categorias-chave do seu entendimento e que nos dizem muito mais do que a simples diferença entre os sexos. inclusive no cognitivo. muito brevemente. A díade irmãoirmã tem. irmão e irmã. É. ao contrário de outros subgrupos yanomami (Ramos e Albert 1977). o encargo de fornecer cônjuges para a geração seguinte. ao serem também afins dos filhos uns dos outros. é preciso descrever. embora atados numa relação permanente de sangue. Em outras palavras. à moda de um Austin ampliado. mas com algumas consequências epistemológicas. segundo o qual filhos de irmãos de sexos opostos (os ditos primos cruzados) podem casar-se entre si e. Primeiro. Refiro-me especificamente às noções de tempo e espaço. as diferenças de gênero no contexto etnográfico yanomami têm um interesse que vai muito além do tira-teimas entre etnógrafos ou de filigranas empíricas sobre o quão violenta deve ser a violência para caracterizar um povo inteiro como violento. Como elas estão diretamente ligadas à organização social. É como se os Sanumá dissessem e fizessem coisas. Em grande medida. estão numa posição perfeitamente ambígua. Os Sanumá. não com palavras ou gestos. são considerados afins. Para mim. no mundo das idéias. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Encarnam tanto os efeitos da dispersão como da permanência e marcam a manutenção da identidade no tempo e de vínculos no espaço. essa dupla é uma cápsula da socialidade sanumá.

Os outros mataram-no com um golpe de terçado – ka! E assim morreu Koshiloli (Colchester 1981: 59-60). O ideal da maternidade é ter um número equilibrado de filhos e filhas. tendo pensado no assunto. criarem uma narrativa sobre ele. “É pesado”. acompanhado do cão da mulher e do cunhado. “É mesmo?”. O cunhado subiu e conseguiu soltá-la dos galhos. ela começou a pranteá-lo. portanto. Aproximou-se da mulher e disse: “Corta a caça!”. ela foi ter com os seus parentes. Veio e sentou-se à frente dela. Ela segurava a cabeça de Koshiloli virada para o sol. Ao ver o irmão morto no chão. “Está bem”. pronta para o ataque. Vale a pena contar a história. “Meu marido matou meu irmão”. Abriu-lhe a barriga e retirou as vísceras – wi! wi! wi! wi! “Não havia rastro?” ela perguntou a Koshiloli. “Vem cá. Koshiloli. matou-o a pauladas – to! to! to! to! Koshiloli voltou para casa carregando o morto. respondeu ele. como foi coletada por Marcus Colchester nos anos 70. assim!. “Sobe lá e sacode a flecha”. Um dia Koshiloli foi caçar muito longe. disse ela. furioso. na sua teoria de sociedade. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Ela puxou-lhe a cabeça para trás de modo a ficar de frente para o sol. disse ela ao marido. este último matou um papagaio. Esta análise poderia ser atribuída à imaginação da etnógrafa se não fosse pelo fato de os próprios Sanumá. Voltando a casa. Koshiloli. disse ela. vira-lhe a cara para trás. disseram os parentes. enquanto a sua gente se aproximava. inserindo-o. Koshiloli esperava ao pé da árvore.3 Não é por acaso que as mães procuram os serviços de um xamã quando só têm prole do mesmo sexo. informou. No caminho de volta. sua mulher e um irmão desta viviam a alguma distância dos outros parentes dela. senta aqui! Vou te catar piolhos”. Nela encontramos claramente as diferenças de lealdade entre irmãos e entre cônjuges e a tácita luta da consanguinidade com a afinidade. Faz com que ele se sente do lado de fora da casa e faz de conta que lhe catas os piolhos. de modo a encarar o sol” “Está bem!”. respondeu ele. ela cozinhou o fígado e deu-o para o filho comer. “Está certo. nada”. Entrou e jogou-o no chão. “Não. disse Koshiloli. mas a flecha ficou presa nos galhos das árvores. Assim que preparou a caça. Quando o cunhado desceu.

quando algum homem ameaça bater na esposa. Essa rotina descontraída muda abruptamente quando meninos e meninas entram na adolescência. ao mesmo tempo. os irmãos desta correm imediatamente em defesa dela. o que tem tudo isto a ver com espaço e tempo? Consideremos duas figuras centrais na vida sanumá. pelas roças. além de um filho não identificado. a lealdade que se espera dos consangüíneos. É por isso que as mulheres órfãs estão em franca desvantagem: faltam-lhes irmãos que as defendam dos maridos. mães contra filhos. pois se não fosse não se deixaria mandar tão facilmente pelo cunhado. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . reservados. enchendo o ar com risadas. A narrativa sublinha a fragilidade do elo entre marido e mulher e a problemática afinidade. afinal de contas. sogras contra genros – mas nunca vi uma briga entre irmãos de sexos opostos. pela mata em volta. irmãos de ambos os sexos constituem um bando virtualmente indivisível. gerada pela combinação explosiva de consangüinidade (filhos dos mesmos pais) e afinidade (filhos de irmãos de sexos opostos) também está evidente na maneira como irmão e irmã se comportam. a moral da história – entre consangüíneos e afins. principalmente dos homens: a sogra e o pai que. mulher e cunhado. mas prontos para se defender mutuamente quando for necessário. que é um mal necessário na vida dos homens sanumá. pelo rio. Com uma criatividade hiperbólica. fica-se sempre com os consangüíneos – talvez diga mais sobre os pares irmão-irmã e marido-mulher do que qualquer elaboração antropológica. mas afastados. O duplo assassinato sublinha a tensão permanente entre afins e. gritos e choros constantes. Durante minha convivência relativamente longa com os Sanumá. vivendo sozinhos. Esse trio etnograficamente improvável de marido.4 Esta história cria um arranjo residencial pouco comum: um homem casado que se esquiva de cumprir o regulamentar serviço da noiva. Até pouco antes da puberdade. ao que parece. A duplicidade estrutural que envolve irmãos de sexos opostos. Mas. representa um artifício narrativo para enfatizar os antagonismos e lealdades presentes naquilo que para Lévi-Strauss é “a forma mais elementar do parentesco” (Lévi-Strauss 1963: 46). mais novo. vive com a esposa e o irmão desta. Circulam com outras crianças pela aldeia. Irmãos e irmãs deixam de brincar juntos e começam a ensaiar uma postura que terão pelo resto da vida: respeitosos. Muito pelo contrário. presenciei muitos incidentes entre homens e mulheres – maridos contra mulheres.

É nesse espaço de residência. essas mulheres desgarradas vivem como cidadãs de segunda ou terceira categoria à mercê do gênio dos seus maridos e demais afins. mas com outro viés e por outras razões. Com a residência matrilocal. quando a mulher fica isolada de seus parentes. Ela personifica a dispersão masculina que resulta da disparidade entre as normas de descendência e residência. as mulheres permanecem na casa materna. a maioria dos homens tem que deixar a casa e muitas vezes a aldeia dos pais à procura de esposa. Aí. Para a maioria dos homens. Sendo as aldeias sanumá em geral pequenas (de 30 a 60 pessoas. Vivendo sob o mesmo texto. irmãos entre si. Algumas velhas me asseguraram que fulano não se casou na própria aldeia porque não havia sogras para ele. ele tem que evitá-la a todo custo. Virtualmente indefeso. as opções de casamento endogâmico podem ser bastante reduzidas. de produção e reprodução que ela encontra a dimensão mais compatível com a feminilidade. insultos e brincadeiras de mau gosto. principalmente se ele é jovem. a mulher se realiza. não há esposa. normalmente). no lar dos pais. tornando-se seus consangüíneos protetores. Não é mera coincidência que o símbolo maior do incesto é a díade sogra-genro. enquanto as moças ficam com os pais. O resultado é que cada aldeia precisa exportar uma boa parte dos seus jovens. além de ser obrigado a prestar-lhe serviços e provisões. Até terem filhos e estes crescerem. O casamento implica um longo período de serviço da noiva.5 são. A mensagem é clara: sem sogra. Com os homens algo semelhante acontece. a sogra é o foco da vida conjugal. Viver como genro na casa dos outros sujeita um homem a uma condição de subalternidade ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . ele se vê só. Se o rapaz se casa longe de casa. A quintessência dos anos de chumbo de um marido sanumá é a sogra. Esta condição talvez fique mais clara em negativo. alvos fáceis de maus tratos. preferencialmente. Expressões faciais de absoluta repulsa geralmente acompanham a descrição dessa relação incestuosa cujo arquétipo mítico é o comportamento de um certo tipo de preguiça de gestos lânguidos a trepar pelas árvores em câmara lenta agarrada ao genro num abraço obsceno. Órfãs e viúvas que vivem na aldeia dos maridos são um triste espetáculo de vulnerabilidade. ele está à mercê de seus afins. Enquanto os homens circulam. A sogra é mais um mal necessário na vida de um homem. distante dos parentes que o apoiariam psicológica e politicamente.

porém. ligados por filiação paterna. a longo prazo. que se espalham pelo território sanumá. Por que o tempo? Porque é através do tempo que os homens sanumá podem desenvolver plenamente o seu potencial. que contribui para agravar o problema de homens agnatas. ou ser objeto de suspeitas até provar o contrário. mais diplomáticos ou aguerridos.6 que não difere muito da das órfãs e viúvas. para os homens adultos o espaço de residência envolve sacrifícios. outros. como trabalhar duro no serviço da noiva. pelo menos. o tempo os une e prolonga. Tanto homens como mulheres herdam dos pais a condição de membros e mantêm-na por toda a vida. A categoria tempo significa neste contexto a transmissão patrilinear. a que chamo sibs. co-habitar com gente com quem não pode falar ou interagir. uma outra unidade mais localizada. Enquanto o espaço os dispersa. ou seja. levam uma vida mais leve com os afins. Naturalmente. com um nome próprio e politicamente importante. A dimensão própria dos homens sanumá. exogâmico. Há. definitivamente. por ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Alguns sofrem constantes abusos dos cunhados. Para que surjam esses grupos patrilineares localizados. Esse sistema de identidade paterna é o mecanismo mais eficaz para garantir hospitalidade onde quer que vão as pessoas do mesmo sib. há grandes variações sobre o tema do marido forasteiro. dependem da conjunção de uma série de circunstâncias favoráveis. da identidade grupal. o que raramente ocorre. mesmo em circunstâncias amenas. guardadas as devidas distinções inerentes à fisicalidade dos sexos. de uma geração a outra. não é o espaço. é preciso que grupos de irmãos se mantenham juntos depois do casamento por. Pode-se dizer que. duas gerações. ter seus pertences desrespeitosamente afanados. Os descendentes desses homens dispersos acabam. Cada aldeia tem membros de várias unidades patrilineares. São grupos muito frágeis porque. um tipo de grupo patrilinear. para sobreviver. A força centrífuga da matrilocalidade produz a dispersão dos homens de uma mesma linhagem. a que com algum desconforto chamo linhagens. quando enfrentam a dispersão causada pela residência matrilocal. de modo a poder formar-se um grupo agnaticamente bem definido. Onde quer que estejam. homens e mulheres são identificados pelo nome da unidade do pai. É no tempo que eles encontram a possibilidade de criar alguma coisa de importância social e de se projetar na posteridade.

uma díade irmão-irmã. As linhagens sanumá não existem sem concentração no espaço e esta só pode ser alcançada na medida em que os homens conseguem superar a necessidade de casar fora. é algo a ser conquistado. mas sempre mais longa do que as suas próprias vidas. Se todos os homens pudessem casar-se na aldeia dos pais. Numa situação ideal. átomos sociais voltados para si mesmos. eles mesmos. O grau ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . um homem fica quase sempre dividido entre a lealdade para com o pai e o dever para com a sogra. ausência de mulheres casáveis na mesma aldeia. a figura do pai e da sogra teriam pesos iguais. injetar harmonia no seu sistema desarmônico. o esforço de homens e mulheres para alcançar a coincidência do tempo com o espaço. Em suma. por trás de um pai temporal há sempre uma sogra espacial. Pude acompanhar ao longo de mais de uma década um caso concreto desse tipo. Sua existência ou colapso é. Efêmeros ao extremo. nota 4). Para eles. perpetuando mecanicamente o casamento endogâmico entre primos cruzados. como ausência de filhos homens. Nesse brotar e murchar de unidades patrilineares em sua trajetória diacrônica. Fatores demográficos. haveria o risco de se criar mônadas residenciais. sendo.7 perder sua afiliação paterna por falta de foco residencial. ou seja. Os homens podem criar grupos de descendência. embora nunca percam a de sib. esses grupos representam. o espaço. mas virtualmente impossível de sustentar. essas linhagens se esboroam até ao desaparecimento. portanto. O resultado é que aqueles que conseguem a proeza de se manter juntos terão seus nomes perpetuados nas gerações seguintes numa escala de tempo que pode ser muito curta. a vida de uma linhagem depende da capacidade de um grupo de homens agnaticamente relacionados para controlar o espaço onde vivem durante um número mínimo de gerações. Na realidade. Sem a residência em comum. ou uma epidemia devastadora podem dizimar uma linhagem em apenas uma geração. com um desfecho tão melancólico como previsível: o grupo residencial em questão acabou por se desintegrar e seus remanescentes passaram à condição de apêndices dispersos por várias aldeias (Ramos 1995: 329. Por ironia da vida. no entanto. o resultado de duas forças em colisão: a força centrífuga da exogamia e a força centrípeta da transmissão agnática. mas não controlam o seu destino. muitas pessoas ficam sem afiliação de linhagem. longe de ser um dado incontestável.

Evocam noções de estabilidade. 1981. A exemplo da bruxaria zande. Alcida Rita. Juntos. Rinehart & Winston. O lar e as roças são os símbolos de espaço por excelência. 1990. Referências Bibliográficas CHAGNON. Actes du XLIIe Congrès International dês Américanistes 2: 71-90. 1953. DUMONT. Representa perda de raízes. Man 54: 34-39. Nova Iorque: Basic Books. a complementaridade entre o espaço-mulher e o tempo-homem é uma marca que o pensamento teórico sanumá imprime na experiência vivida. Yanomamo: The Fierce People. quando o único elemento de ligação entre comunidades em trânsito eram os elos patrilineares sempre por um fio (Ramos 1995: 17277). Nova Iorque: Holt.8 de sucesso em se criar um grupo de descendência próprio reflete o jogo de influências entre essas duas figuras determinantes. instabilidade. Structural Anthropology. Alcida Rita e Bruce Albert. Myths and legends of the Sanema. Marcus. Por contraste. The Dravidian kinship terminology as an expression of marriage. Sanumá Memories: Ethnic politics in Brazil. COLCHESTER. Napoleon. RAMOS. RAMOS. o fulcro da sociabilidade onde as mulheres estão à vontade e os homens gostariam de nunca deixar. 1963. LÉVI-STRAUSS. o tempo traz incertezas. Madison: The University of Wisconsin Press. Yanoama descent and affinity: the Sanumá/Yanomam contrast. Antropológica 56: 25-126. como se pode perceber nas histórias sobre as migrações sanumá. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . 1968. Louis. arraigamento. mulher e homem revelam-se metáforas da oscilação necessária entre repouso e movimento. 1977. insegurança e aventura. Claude. confiabilidade. Paris: Société des Américanistes. idéias fundamentais que dão sentido ao mundo.

Introdução Este artigo refere-se à comunicação proferida no Terceiro Congresso da Associação Portuguesa de Antropologia. assim como a sustentabilidade da actividade agrícola. e cujo objectivo central foi o da promoção da igualdade de género em meio rural.com Com base no projecto “Iguais num Rural Diferente”. Palavras-chave: investigação-acção. nomeadamente na conciliação família/trabalho.com ricardoseica@gmail. revelam-se os resultados da investigação-acção realizada em 2005 no centro e norte de Portugal (Sever do Vouga e Amarante) onde se identificaram as desigualdades produzidas pelo género. 1. com vista a sistematizar um possível contributo da Antropologia na promoção da igualdade de género. os homens estão ausentes e são as mulheres que asseguram a vida social quotidiana. igualdade de género. oficinas-diagnóstico. promovido por várias instituições ligadas ao desenvolvimento local. identificando-se com uma ruralidade que muitos sectores institucionais têm vindo a declarar extinta. no qual apresentámos uma proposta metodológica. foi realizado em parceria por várias instituições ligadas às áreas do desenvolvimento local. Elas são o ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Sever de Vouga. teatro e ensino/investigação. decorrente de um projecto de investigaçãoacção realizado em 2005.Iguais num Rural Diferente: o papel da Antropologia na investigação-acção sobre género Ana Luísa Micaelo e Ricardo Seiça Salgado CEAS/ISCTE analuisamicaelo@gmail. no Centro e Norte de Portugal. Apresenta-se uma proposta metodológica de diagnóstico. realizado em Abril de 2006. ruralidade. que contemple as necessidades específicas e os interesses estratégicos de homens e mulheres em meio rural e se ajuste aos seus valores e experiências. Em ambos os contextos. teatro e ensino/investigação. Amarante. denominado de “Iguais num Rural Diferente”. Articula-se a observação participante com “Oficinas-diagnóstico” no intuito de potenciar uma abordagem antropológica para a investigaçãoacção. Este projecto.

em que se realiza o diagnóstico de necessidades e. 1 A equipa técnica foi composta pelos autores e a coordenação científica ficou a cargo da Professora Doutora Susana de Matos Viegas. para que fosse possível o desenvolvimento de actividades futuras em conjunto. a autora realizou ainda uma tese de investigação. eram específicas a estes meios sociais rurais. na qual se realizarão as actividades planeadas anteriormente. A partir desta experiência de trabalho. Por outro lado. não faziam já parte da parceria. nomeadamente no que diz respeito à conciliação do trabalho com a vida familiar. a observação participante (cf. a partir dele. o projecto identificou uma série de desigualdades que. sublinhamos que esta metodologia se refere àquela desenvolvida na primeira fase do projecto. culturais e económicas – tal como elas são vividas pelos actores sociais – e contemplar as necessidades específicas e interesses estratégicos de homens e mulheres em meio rural. que decorreu entre Janeiro e Junho de 2006. a candidatura à segunda fase. a ADRL – Associação de Desenvolvimento Rural de Lafões. numa altura em que o projecto estava já na sua segunda fase e os autores. sendo produzidas pelo género. os projectos são compostos de uma primeira fase. querendo envolvê-las no diagnóstico que fazíamos sobre as suas vidas e implicando-as no projecto. Para tal. Foi financiado pelo Programa de Iniciativa Comunitária EQUAL. A participação dos antropólogos no projecto teve como objectivo a realização de um Diagnóstico de Necessidades 2 destes contextos sobre a igualdade de género. a equipa técnica de antropólogos que elaborou este diagnóstico (de Sever de Vouga e de Amarante) guiou-se pela abordagem empírica que há muito tempo se consolidou na antropologia.. Com o objectivo de aferir a diversidade das realidades sociais. Sever do Vouga e Vouzela – mas a comunicação e este artigo só se referem aos dois primeiros. 2004/EQUAL/A2/IO/343). incorporando a maior multiplicidade de técnicas de recolha de material possível. Micaelo 2005b). a Solidários – Fundação para o Desenvolvimento Cooperativo e Comunitário.2 Departamento de Antropologia Universidade de Coimbra 1 . pretendia-se também promover uma abordagem participada e reflexiva (estratégia bottom-up) com estas populaçõesalvo. do Fundo Social Europeu (Ref. a APA – Associação dos Agricultores do Porto. Relembramos que a comunicação foi proferida em Abril de 2006.C. O projecto realizou-se em três contextos rurais diferentes: Amarante. com a qual concluiu a licenciatura (cf. assim como o Departamento de Antropologia da U. 2 De acordo com o modelo do Programa EQUAL. a ACERT – Associação Cultural e Recreativa de Tondela e o ICE – Instituto das Comunidades Educativas. para o Terceiro Congresso da APA. Sanjek 1990 e Davis 1999). Assim. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .

pode participar na mudança das formas culturais. articulando a observação participante com as Oficinas Diagnóstico no intuito de potenciar uma abordagem antropológica para a investigação-acção. trabalho e/ou ruralidade. devolvida à sociedade. Apresentação dos contextos Ambos os contextos onde decorreu o trabalho de campo correspondem ao território de actuação da respectiva entidade local – a APA em Amarante e a Solidários em Sever do Vouga. representações e relações hegemónicas de poder – sejam elas de género. Neste artigo iremos apresentar as opções metodológicas que fizemos neste projecto. Aceitando um dos desafios deste congresso. com algumas freguesias e populações muito ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . família. decorrente da sua experimentação em cada um dos referidos contextos-piloto. ela própria. Tomando a tipologia e dados recolhidos no Instituto Nacional de Estatística (Censos de 2001) estas regiões são denominadas como Predominantemente Rurais. se pretendia envolver a população-alvo na formulação das questões socialmente relevantes no âmbito das relações de género. uma outra forma de poder que. Segue-se uma breve apresentação dos dois contextos onde se realizou este trabalho. mas igualmente marcantes para a criação de modelos de promoção da igualdade de género em meios rurais do Portugal contemporâneo. Têm características semelhantes que passamos a enumerar: ambas são montanhosas e o povoamento é disperso pelas encostas. de discutir a integração profissionalizante da antropologia. 2. Consideramos que estes dois territórios oferecem desafios diferentes.3 Para a elaboração do Diagnóstico de Necessidades – com base no qual se propuseram actividades concretas a realizar na Acção 2 do programa (2006/2007) – os procedimentos metodológicos qualitativos para este projecto assentaram no trabalho de campo e tinham por objectivo a criação de um Modelo de Oficina Diagnóstico para contextos de investigação-acção em meios rurais em que. propomo-nos assim tecer uma reflexão acerca do papel da Antropologia enquanto saberfazer específico e da maneira como a análise dos discursos de poder é.

fracas vias de acesso e um sistema de transportes públicos entre as freguesias praticamente inexistente. de culturas e outras fruições. consequência de vários factores como o êxodo rural e os fluxos de emigração (anos 60 e anos 80). tanto por via da Junta de Freguesia. contribuíram para a escassez de relações entre as pessoas e as várias aldeias da região. O acesso à saúde é escasso e não há instituições capazes de dar resposta à dependência que as crianças e idosos têm para com a família. estes terrenos que desde o 25 de Abril passaram outra vez a ser geridos pelas comunidades locais. Todas elas gerem baldios. apesar da existência de condições ambientais que permitem apostar na qualidade das produções agrícolas. depois de terem voltado e do incêndio que devastou a Serra do Marão. têm um potencial a desenvolver pelo projecto. apícola e turística. a perda de peso económico da agricultura não foi compensada com a criação de outras actividades económicas que pudessem absorver a mão-de-obra. Face a uma divisão sexual do trabalho que leva os ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . e têm direito ao uso e fruição do terreno baldio – para efeitos de apascentação de gado. silvo-pastoril. Hoje. a característica mais evidente do contexto de Sever do Vouga é a agricultura. reflorestação. o fraco empreendedorismo e um ainda baixo investimento turístico (algumas freguesias ainda não têm saneamento básico). nomeadamente de natureza agrícola. de recolha de lenhas e de matos. sendo que a acessibilidade ao Predominantemente Urbano é maior e mais frequente que ao Rural. 7 freguesias que constituem as comunidades serranas do Marão. Em Amarante. Os acontecimentos da década de 60. como por uma Comissão de Compartes independente. Nestas regiões. A relação das pessoas em Amarante está marcada por um passado emigratório. Tal como em Amarante. dos anos 80.4 isoladas. São também baixos os níveis de escolaridade e qualificação profissional. em contraponto com a alta taxa de desemprego – sendo que todas estas características assumem maior relevo na população feminina. após a retirada da possibilidade de gestão dos baldios e seus recursos pelo Estado salazarista e. silvícola. cuja economia tem uma base rural e agrícola (não intensiva). muito feminizada. a quase inexistência de indústrias e alternativas de emprego na região. o território-alvo do projecto corresponde à parte Este do concelho. Existe uma tendência para o declínio populacional e envelhecimento.

seja este doméstico. contribuindo para que os homens valorizem o papel da mulher na actividade económica local. ou também nas estruturas mais precárias do trabalho da indústria do calçado (Amarante). do trabalho assente em actividades artesanais. constituindo como modelos familiares o que propomos chamar de “temporariamente monoparentais femininos”. Assim sendo.5 homens a longos períodos de ausência (emigração e/ou trabalho temporário fora da região). Decorrente da divisão sexual do trabalho e das representações e concepções acerca da feminilidade e masculinidade. assim como a sustentabilidade da actividade agrícola – que não deixou de ser muito importante para a economia familiar – sem que tenham com isso um reconhecimento do seu trabalho. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . a ausência dos homens nas tarefas familiares reflecte uma grande disparidade de participação na vida familiar entre homens e mulheres. fixando as mulheres à terra. enquanto as mulheres se encarregam das tarefas domésticas. Esta situação resulta ainda numa dependência financeira das mulheres em relação ao marido. agrícola (Sever do Vouga) ou. em ambos os contextos. São as mulheres que asseguram a vida social quotidiana. das terras e animais e do cuidado dos filhos. bem como a reestruturação que ela permite das actividades laborais. de igual modo. em Sever de Vouga e Amarante a organização familiar está historicamente marcada pelo trabalho assalariado masculino fora da área de residência. os homens vão para fora e têm trabalho remunerado. sendo que o modelo hegemónico de género não reconhece simbolicamente o papel da mulher no trabalho. Por outro lado. se tem mostrado um meio eficaz de empoderamento (empowerment). aumento da autonomia destas mulheres e promoção de maior igualdade nas relações entre casais: reequilibra as formas de poder entre cônjuges. dos idosos e de outras pessoas dependentes. e também devido ao impacto do fenómeno migratório. a Solidários considera que em Sever de Vouga o incremento da agricultura segundo o modo de produção biológica.

Tendo em conta a escassez de tempo para executar os objectivos recorreu-se ainda a outros informantes privilegiados. texto e paratexto. em períodos de cerca de quinze dias (a entrada no terreno tendo em vista a definição da população-alvo) e posteriormente. Assim. Metodologia 3. a posição e acção do investigador devem ser referidas como parte integrante da situação social estudada: “Quando o etnógrafo recorre ao método de estudo de caso. vivência no local de estudo. entrevista aberta. realizaram-se histórias de família e identificaram-se estudos de caso que vieram a servir para a selecção das pessoas com potencial representativo da população-alvo. um mês (trabalho de campo e realização da Oficina Diagnóstico). Os investigadores permaneceram nos territórios-alvo respectivos. O acesso aos informantes e o enquadramento no terreno não foi efectivamente restritivo na medida em que nunca os contactos interpessoais foram forçados ou veicularam a necessidade de uma reverência para com as instituições locais ou os informantes privilegiados. técnicos das instituições parceiras. conversa informal dirigida. a sua própria relação com os eventos descritos é útil para a sua compreensão – e deve ser sempre especificada” (Pina Cabral 2003: 25). do encontro estabelecido. vivendo numa habitação local e integrando-se na vida quotidiana da população. que foram convidadas a participar nas Oficinas Diagnóstico.6 3. condutor da conversa. Primeira etapa metodológica: observação-participante O diagnóstico realizou-se a partir da recolha de material empírico em duas estadias de campo dos investigadores. Esta ideia é válida nos dois sentidos: por um lado. por outro lado. Essa informação serviu sempre de subtexto.1. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . como o presidente da junta. era condição necessária a consciência das pessoas em relação à sua participação e envolvimento no projecto. directores associativos ou o padre. em função do tempo que se dispunha pelo programa para a Acção I (4 meses). registo da informação e “notas de campo” e realização de diário de campo). Teve-se sempre em conta a necessidade de informar as pessoas acerca do projecto e dos seus objectivos. os resultados desta investigação-acção reflectiram necessariamente a forma como ela foi conduzida. Utilizaram-se as variadas técnicas de observação participante (entrevista.

foram sinalizados problemas e identificadas possibilidades de inovação. Quem participa nas Oficinas? Cada oficina é constituída por três tipos de intervenientes: “os participantes”. em função dos interesses. bem como do próprio drama a ser construído por cada grupo. 3. Consistiu em se fazer uma fotonovela em grupo. Os conteúdos trabalhados nas oficinas provêm dos resultados analíticos da observação-participante no terreno. Previamente fez-se uma simulação da oficina com os parceiros. mobilizando a população-alvo para práticas de inovação social. os participantes representam a população-alvo e foram identificados previamente pelo antropólogo no terreno. motivações. A ideia de modelo operatório inicial da oficina foi proposto pela ACERT em conjunto com a Solidários. na conciliação do trabalho com a vida familiar. Segunda etapa metodológica: Oficinas Diagnóstico A Oficina Diagnóstico tem o seu modelo baseado em metodologias teatrais de modo a monitorizar a realidade social. valores e experiências de homens e mulheres na vida familiar e no trabalho.2. Para as oficinas de cada contexto seleccionaram-se temas e personagens consideradas prioritárias na identificação dos problemas e possíveis soluções ligadas à promoção da igualdade de género. foram elaborados pelos investigadores e depois debatidos com os técnicos das associações.7 através do envolvimento das pessoas na procura das estratégias para o seu próprio “desenvolvimento”. pode ser favorável e será ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . “os relatores” e os “facilitadores”. O “relator” não deve ser um “participante” e o facto de já ter contactado as pessoas que participam na oficina. A sua atitude aproxima-se muito daquela que é assumida por um investigador a fazer trabalho de campo com observação participante. registando a interacção entre as pessoas e os comentários. Os “relatores” são aqueles que vão ouvindo o processo de construção das histórias. Com elas e a partir delas. na investigação de terreno. Enquanto modelo de diagnóstico. que já haviam experimentado em outras circunstâncias. Os “participantes” são todos aqueles que irão exercer as actividades desenvolvidas na oficina desde a elaboração das histórias à reflexão sobre elas.

intervir também nos outros grupos. O envolvimento de membros das associações que já têm contacto com as populações pode ser igualmente importante. de 5 ou 6 pessoas cada. 4. abrindo espaço para a monitorização. 2. Em cada grupo existem duas personagens predefinidas atribuídas ao acaso. 3. os pesadelos. Recomenda-se a filmagem da oficina por um elemento conhecedor do projecto. uma vez que prepara as pessoas para os objectivos pretendidos. os facilitadores/relatores. Guião da Oficina 1. Solicita-se a construção da identidade de uma personagem (que consiste em preencher uma ficha com o nome. deve provocar o debate com alguma ideia que conecte com a informação obtida e algum conflito passível de emergir da rede de relações produzida. Cada oficina teve cerca de 4 grupos com cinco participantes cada. não tenha sido possível comparecerem. A cada grupo é dado um tema sustentado pela informação empírica recolhida em trabalho de campo. Os “facilitadores”: em cada grupo existe um facilitador que intervém no sentido de ajudar a desenhar um mapa de relações entre as personagens construídas e organizar a sequência de fotografias finais representativas da história. a situação familiar e profissional). Atento. por exemplo. Recomenda-se que circulem pelos diferentes grupos para permitir momentos de liberdade e tornar a oficina mais dinâmica podendo. Garante a existência de papéis sociais representativos da população-alvo e que. “sem ele monopolizase”. os sonhos. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Deve deixar um espaço de liberdade criativa aos participantes durante todo este processo. sobretudo para garantir a prossecução dos trabalhos.8 fundamental num modelo mais consistente de utilização destas oficinas para diagnóstico. De uma forma completamente aleatória divide-se o colectivo em grupos. um facilitador e relator por grupo (investigador e membros da associação parceira). A personagem deve ser inspirada a partir do contexto em causa e induzida pelo tema do grupo. Um ou dois dos grupos ficam com tema livre.

passa-se à construção de um drama possível. tendo em conta a realidade da região. apesar de terem problemas comuns. Depois. Os dirigentes das associações sociais e culturais locais não se conheciam sequer. Cada grupo. sob olhar do facilitador/relator. começando pela apresentação das personagens intervenientes (uma fotografia por personagem) e contando a história produzida em cada tema. havia sido identificada anteriormente pelo investigador como uma condição adversa à ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . reunido à parte. 9. Também aqui se deixou espaço de liberdade para os participantes desenvolverem os argumentos. Com recurso a um projector. que as pessoas das diferentes freguesias. Desenhado o mapa de relações. reforçando finalmente a presença dos homens. vai inventando uma rede de relações sociais entre os personagens. Conclusão As conclusões a que se chegou nas Oficinas Diagnóstico mostraram. relação entre personagens. seus problemas e expectativas. 8. numa pequena série de fotografias. representações e expectativas geradas). O facilitador toma a iniciativa com uma questão observada e lança a discussão. para futura apresentação. seu passado). Em Sever de Vouga a teatralização e interpretação das personagens e enredos aconteceu espontaneamente. uma a uma.9 5. Em Amarante. com a sucessão das fotografias produzidas. seguiu-se um convívio que se transformou num concerto espontâneo de um grupo de bombos e de uma tuna da região. dando origem a um mapa de relações (nome. Fotografam-se as personagens. Discussão colectiva das histórias (os sentimentos. 6. A existência de iniciativas isoladas. Em cada grupo. 7. apresentam-se as histórias por um “participante” do grupo. tendo em conta as relações entre personagens. não se relacionam na promoção de resoluções conjuntas. A história deve ser conclusiva. em torno das situações criadas na dramaturgia geral da história. a história é conduzida a partir de um qualquer conflito. encenam-se colectivamente quadros representativos da história produzida. em Amarante. 4. tendo em conta a relação de poderes criada entre personagens e recaindo também para a desigualdade de género.

Isto deve-se. nomeadamente no que diz respeito aos espaços de sociabilidade. por um lado. que faz com que os homens. uma vez que não se trata apenas de resolver os problemas das mulheres. No nosso entender. por exemplo. a realização da Oficina mostrou haver uma a dificuldade em envolver os homens. de forma a reforçar a importância do trabalho feminino nos baldios e. não se conseguiu integrar estas iniciativas isoladas num projecto comum. em oposição à sociabilidade masculina com que se identifica localmente o espaço do café. por estarem empregados. Um outro factor. quando a vida quotidiana é assegurada pelas mulheres e eles estão ausentes? A questão salienta a necessidade da integração da perspectiva de género (cf. fazendo com que o espaço onde actualmente se realizam estes cursos – e onde decorreu a Oficina Diagnóstico – tenha uma associação de género diametralmente oposta à do café (cf. também identificado durante o trabalho de campo. prende-se com o facto de o espaço social de género ser muito segregado. até porque identificámos uma grande diferenciação social de género no que diz respeito às ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Este aspecto remete-nos ainda para uma limitação sentida no início do trabalho de campo sobre “o género do próprio antropólogo” – como chegar também aos homens. Esta intervenção teve um sucesso relativo em motivar. quiçá. A intervenção da APA. à já referida divisão sexual do trabalho. no seu desenvolvimento associativo para uma actividade económica – o que iria ao encontro das intenções manifestadas por elas próprias na Oficina. apesar de terem sido convidados a participar. e a Oficina Diagnóstico assim o demonstrou. não tenham muita disponibilidade de tempo. esta falta de comunicação entre as pessoas das diferentes aldeias. Contudo. promovendo cursos que desenvolvem aptidões potencialmente económicas às mulheres da região. exponencia a desigualdade de género. a produção de artesanato a partir dos recursos dos baldios. Os formandos dos cursos até aqui promovidos pela Solidários são maioritariamente mulheres. já que é com as mulheres e a feminilidade que este espaço passou a estar associado. foi realizada pontualmente em cada aldeia e não com um conjunto integrado de mulheres das várias aldeias. Micaelo 2005b). sobretudo nas possibilidades de trabalho auferidas pelos recursos dos baldios.10 dinâmica para o desenvolvimento regional e estas oficinas permitiram essa consciencialização por parte dos participantes. Comissão Europeia 2004). Em Sever do Vouga.

consideramos que o modelo participativo das Oficinas Diagnóstico cria condições para a resolução dos problemas assinalados. Por outro lado. à mobilidade e mesmo à forma como se constituem os modos de sociabilidade. as domésticas. Assim. tipicamente envelhecidos e despovoados – como o Alentejo – ou aqueles que têm uma relação mais dinâmica com a actividade industrial – como é o caso de Vouzela. ao acesso ao dinheiro e ao poder. uma organização familiar “temporariamente monoparental feminina”. consideramos ainda que contribuiu para o apuramento de práticas de intervenção que incorporem a participação efectiva das respectivas populações-alvo. ao trabalho. O modelo de investigação-acção foi cientificamente informado e adaptado para comunidades rurais. e mesmo de outros meio rurais portugueses contemporâneos. Concluindo. não podemos ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . por isso. como grande parte das regiões rurais de Portugal são classificadas. isto é. cujo modo de vida e características de sociabilidade são melhor apreendidas por metodologias qualitativas. o patrão. Ele foi pensado de forma a garantir que os modelos de intervenção social na promoção da igualdade de género compreendam e se ajustem aos valores e experiências da população.11 relações familiares. a situação profissional de todas as personagens coincide com a realidade socio-económica e antropológica da região estudada: os desempregados. investigadores. os próprios mapas das relações entre os personagens mostram a construção de redes familiares do mesmo tipo que constatámos na realidade. assegurando que a comunidade seja agente das transformações propostas. através da consciencialização dos problemas-soluções apurados entre todos – contribuindo. Este “modelo” de um mundo rural é diferente daquele que conhecíamos na década de 60 no norte do país. mas principalmente. o construtor civil. Este modelo parte do conhecimento empírico do terreno e da sua transformação em estudos de caso e conteúdos para a realização de oficinas teatrais onde os participantes (população-alvo. o político. agentes de intervenção e animadores culturais) reflectem sobre os seus problemas específicos no âmbito das desigualdades de género. as agricultoras. Por fim. Por sua vez. os emigrantes. em resultado do espaço de reflexão e experimentação criativas dos participantes. Em ambas as Oficinas. estes dados permitem-nos perceber melhor a categoria de Predominantemente Rural. pôr em causa a imagem de um mundo rural homogéneo e “tradicional”. para um potencial processo de mudança. os estudantes deslocados.

Lisboa. MICAELO. Routledge. Ithaca e Londres. Referências Bibliográficas COMISSÃO EUROPEIA. um meio de estabelecer relação com as pessoas. 2005. Acção 1 – Programa de Iniciativa Comunitária EQUAL. (policopiado). do Fundo Social Europeu (Ref.). mas antes. “Diagnóstico de Necessidades para Amarante”. Charlotte Aull. 1990. Diagnóstico de Necessidades: Iguais num Rural Diferente (policopiado). Reflexive Ethnography: a guide to researching selves and others. SANJEK. Susana de Matos (coord. Roger (ed). “Guia Equal sobre a Integração da Perspectiva de Género” [online]. “Diagnóstico de Necessidades para Sever do Vouga”. DAVIS. para aceder à sua realidade vivida. Londres e Nova Iorque. Projecto Iguais num Rural Diferente. 1999. Projecto Iguais num Rural Diferente. 2004. 2005. Acção 1 – Programa de Iniciativa Comunitária EQUAL. trabalho e espaços de ruralidade: um estudo antropológico em Sever do Vouga. Projecto Iguais num Rural Diferente. 2004/EQUAL/A2/IO/343). Ana Luísa. Em: VIEGAS.12 deixar de sublinhar que considerámos o contributo da Antropologia não como uma oportunidade para “dar voz” aos seus objectos de estudo/informantes/população-alvo. do Fundo Social Europeu (Ref.int/comm/equal> (acesso em 17-05-2005). PINA CABRAL. Departamento de Antropologia da Universidade de Coimbra. Susana de Matos (coord. Em: VIEGAS. 2005. Acção 1 – Programa de Iniciativa Comunitária EQUAL. João de.). ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . MICAELO. Coimbra. VIEGAS.eu. a partir da abordagem etnográfica. Fieldnotes: The Making of Anthropology. 2004/EQUAL/A2/IO/343). Ricardo Seiça. Ana Luísa. Susana de Matos (coord. Imprensa do ICS. SALGADO. 2005b. 2003. Disponível em: <http://europa. do Fundo Social Europeu (Ref.). O Homem na Família: cinco ensaios de Antropologia. Dissertação de Investigação I e II (policopiado). Diagnóstico de Necessidades: Iguais num Rural Diferente (policopiado). Mulheres. Diagnóstico de Necessidades: Iguais num Rural Diferente. Cornell University Press. 2004/EQUAL/A2/IO/343).

direitos e precariedade laboral ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .VII – Capítulo Crenças e corpos Textos de comunicações dos painéis: Corpos. Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro Manuel Carlos Silva Instituto de Ciências Sociais. Economia e Sociologia. dinheiro e afecto Coordenação Fernando Bessa Ribeiro Dep. Universidade do Minho Pluralismo Religioso: novas abordagens etnográficas Coordenação Ramon Sarró Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa Estigma.

uma promessa. que estes peregrinos procuram pagar com o mínimo de sofrimento o grande sacrifício prometido. e que são frequentemente. em 1917 em Fátima. doutorando em Antropologia (ISCTE). Recorrendo privilegiadamente a elementos etnográficos. tem sobejado o interesse por parte * Mestre em Antropologia (UM). Professor Adjunto – Instituto Politécnico de Viana do Castelo – Escola Superior de Enfermagem. Agradeço ao Professor Doutor José Manuel Sobral as críticas e sugestões que fez ao trabalho. Contudo. Palavras-chave: Promessa. peregrinação. revelam práticas profundamente individualizadas para realizar a peregrinação. coordenado por Ramon Sarró. concretamente no Painel Pluralismo Religioso: novas abordagens etnográficas. tal como as páginas dos jornais e os principais noticiários dos canais de televisão portugueses. encher-se-ão de peregrinos.    INTRODUÇÃO    No início do mês de Maio. por um lado. com breves alterações. se perante tão abrangente fenómeno social tem escasseado a atenção por parte dos cientistas sociais. 2003) e reproduz. que os peregrinos caminhantes até Fátima. o acto de caminhar até Fátima está fortemente condicionado pelas motivações que lhe subjazem. Altar do Mundo. longe de fazerem parte de uma communitas. mas pouco sobre as práticas dos peregrinos desde o momento em que abandonam as suas casas e percorrem a pé a distância que os separa do Santuário de Fátima. uma comunicação realizada no 3º Congresso da APA – Afinidade e Diferença (6-8 de Abril de 2006). as estradas que convergem para Fátima.q. por outro. nesta comunicação procurar-se-á evidenciar.pereira@netcabo. religião e Senhora de Fátima.  “Cada um anda ao seu ritmo” As práticas individuais nas peregrinações a pé a Fátima 1   Pedro Pereira* Escola Superior de Enfermagem – Instituto Politécnico de Viana do Castelo pedro. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . até ao presente que todos os anos milhares de pessoas percorrem os caminhos que as levam até àquilo que nos meios católicos se chama. recorrentemente. Tem-se escrito muito sobre Fátima. Todavia. pt   Desde as Aparições da Virgem Maria. e. 1 Este texto recupera alguns elementos do trabalho de campo anteriormente realizado (Pereira.

dos meios de comunicação. latente. ideais religiosos. que tem contribuído de uma forma mais intensa para a maneira como se vão atribuindo significados às peregrinações a pé a Fátima. em boa parte dos casos. que caracteriza os lugares onde estão presentes. sendo um lugar com grande magnetismo espiritual (Eade. invisível. a par do outro discurso. então as crenças e práticas dos peregrinos são interpretadas em consonância com o sentido teológico católico do peregrinar. os peregrinos podem encontrar aquilo que Alan Morinis chama ideais colectivos da cultura (1992-a: 4-5). também católica. em segundo.2 dos religiosos católicos. sendo os peregrinos católicos. Duas ideias aparecem recorrentemente expressas nestes dois discursos: por um lado. onde o poder da Senhora de Fátima pode ser invocado (ainda que neste caso à distância) para a resolução de problemas cruciais dos crentes. A partir deste dois postulados. o principal pilar que alicerça as práticas do acto de peregrinar 2 a pé da generalidade dos peregrinos que viajam até Fátima. Perante este diagnóstico da situação. as peregrinações a pé a Fátima não são o início de uma relação com a Senhora de Fátima. De facto. tem sido mais este discurso. frequentemente sensacionalista. intensamente. É de facto uma promessa que leva os crentes para a estrada e é ela que os impele a chegarem ao fim. e a entidade a que prestam culto. apologético. 2 3 Deve entender-se por peregrinação uma viagem por devoção a um lugar considerado sagrado. mostrando que: em primeiro lugar. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . 1 – A PROMESSA DE PEREGRINAÇÃO   Efectivamente. que a redução dos motivos envolvidos nas peregrinações a pé a Fátima à teologia católica impede a efectiva compreensão das crenças e práticas dos peregrinos. a promessa apresenta-se como a parte oculta. por outro. mas sim a consequência de uma motivação. a Fátima 3 . Em Fátima. 1991). que se expressa vulgarmente numa promessa. neste artigo propõe-se desconstruir os dois pressupostos anteriores. tentar-se-á avançar com elementos que contribuam para uma efectiva compreensão do significado da expressão “cada um anda ao ritmo” (que dá o título a este artigo) e consequentemente enunciar as estratégias individuais que cada peregrino encontra para chegar até Fátima com o menor sofrimento possível. a prática da peregrinação a pé é apresentada como um meio para solicitar alguma coisa à Senhora de Fátima.

que os votos são feitos dentro da própria pessoa. sendo estes uma expressão de uma relação muito pessoal entre o promitente e o ser espiritual a quem o primeiro se dirige”(Dubisch. nem a mim. com a condição de o homem obter dela um favor particular. O marido suspeita que a promessa se deveu ao facto de. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . 2003-a). nem mesmo ao marido que a acompanha.3 Neste contexto. De facto. sendo portanto ele quem estabelece o que é simbolicamente equilibrado. o motivo da promessa.   1. Este voto é tão pessoal que por vezes só é revelado à família poucos dias antes da partida – um elemento do meu grupo revelou à mulher que tinha feito uma promessa de ir a Fátima. nos primeiros anos do casamento. normalmente. J. mas é também visível quer na forma como o voto é feito. Veja-se um exemplo comum: “Se tu (Senhora de Fátima) curares o meu filho eu prometo ir a Fátima a pé”. poucos dias antes da partida – outras vezes nem isso – outra pessoa do meu grupo. que já vai há mais de vinte anos a pé a Fátima. organiza-se em torno de três fases primordiais: uma declaração de compromisso. quer pelo facto de o promitente (aquele que faz o voto) procurar manter sigilo da promessa até receber a graça ou dádiva 5 . Quando o crente constrói a declaração de compromisso está também a definir as condições da troca.1– A declaração íntima de compromisso A declaração de compromisso é a enunciação da troca com a Senhora de Fátima. será interessante recuperar a referência de Michel Meslin à proveniência latina da palavra voto que provém do latim votum e que “consistia na promessa de uma oferenda que se fazia a uma divindade. a autonomia individual está bem presente na construção dos termos da troca. uma promessa pode ser definida como uma troca entre um crente e a Senhora de Fátima 4 . Como já foi defendido noutro lugar (Pereira. e de uma forma simples. na Grécia. há 15 anos atrás. nunca revelou a ninguém. Só se o desejo se realizava é que o homem cumpria o que havia prometido”(1987: 1829). De facto. uma contra-dádiva. normalmente dentro da própria pessoa. é quase sempre assim que ela é concebida pelos crentes que prometem ir a pé a Fátima. Dubisch salienta. uma dádiva. 1995: 89). a promessa está sustentada numa clara racionalidade e. ele continuar a fazer “vida de solteiro”.   4 Partindo do pressuposto que a promessa é um voto. 5 Reportando-se às promessas de peregrinação a Tinos. de igual modo. como me dizia um devoto: “concentro-me e mentalmente defino o que pretendo e o que estou disposto a fazer”.

porque custa muito ir até lá a pé”. As marcas mais ou menos perenes no corpo dos peregrinos. 7 Atendendo às classificações de Jackowski (1987) e Victor Turner (1973). 1988: 101). visto que. disseram-me que eram católicos. como é referido pelos crentes). Mauss. pois atrai peregrinos dos mais diversos lugares do mundo. a peregrinação a pé apresenta-se como a última fase deste processo. Por conseguinte. mas também porque o que é dado nunca se separa de quem o deu. não apenas porque uma dádiva implica uma contra-dádiva.2 – A troca simbólica Assim. Esta filiação religiosa poder-se-ia apresentar como um critério mais interessante do que outros apresentados por outros autores como o geográfico 7 ou o histórico 8 . seja ela escatológica ou terrena. efectivamente. a utilização do critério de filiação religiosa apresenta acentuadas fragilidades.  as  peregrinações a Fátima são modernas. não visa uma recompensa. pelo contrário. as referências mais ou menos assíduas de que foi a Senhora de Fátima que salvou o filho ilustram bem que. como uma contra-dádiva.  e  seguindo  a  tipologia  de  Edith  e  Victor  Turner  (1978). Portanto. nesta situação de troca. a peregrinação a Fátima situase na categoria internacional. através de uma troca simbolicamente equilibrada.4 1. o promitente espera pela dádiva da Senhora de Fátima (ou pela graça. “só se promete ir a Fátima a pé quando é uma aflição muito grande. temos de considerar as peregrinações a pé. “[as coisas trocadas] não estão nunca completamente desligadas dos seus agentes de troca. a comunhão e a aliança que elas estabelecem são relativamente indissolúveis”(Mauss.     2 – O CATOLICISMO E AS PEREGRINAÇÕES A PÉ  Todos os peregrinos com quem falei. depois da referida declaração de compromisso. Esta citação ilustra bem o sentido maussiano da dádiva. 8  Se  o  critério  for  histórico. as pessoas dão-se com aquilo que dão 6 . Porém. é o pagamento de algo que já foi recebido. perante uma grande aflição promete-se um grande sacrifício pois. e não como uma dádiva. como me dizia uma peregrina. a peregrinação a pé é um agradecimento. os crentes procuram re-equilibrar as suas relações com a Senhora de Fátima.  6 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . querendo isto dizer que. como refere M. ou seja. para em seguida retribuir com a peregrinação a pé.

2003: 168-171). entrando ativamente nas suas preocupações e na sua ação”(1995: 1048-1049). “vai-se a Maria para chegar melhor e mais facilmente a Deus”(1995: 1046). Pereira. como oferecimento a Deus. 1991: 2) evidente no Santuário (cf. salientando-se as seguintes: “A peregrinação deve orientar para o sentido de corresponder ao oferecimento que Deus nos faz da sua misericórdia e do seu amor”(1995: 1048). Sanchis. 2003: 120-122) quer no santuário procurando fazer prevalecer o seu discurso na arena de discurso (Eade. “a peregrinação não deve representar acréscimo de obrigações (pagar dívidas ou ‘comprar’ facilidades diante de Deus). através da formação de guias do Santuário (cf. Bastará tão-só recordar que as peregrinações a pé são uma relação que os crentes estabelecem com a Senhora de Fátima e não com Deus. como refere P. a concepção católica da peregrinação a pé. Estes autores recuperam alguns pressupostos anteriormente defendidos quer por Van O autor católico S. “não pode haver peregrinação sem a celebração da eucaristia”(1995: 1048). Contudo. Rosso define algumas orientações para aquilo que se poderia chamar uma pastoral da peregrinação. deve ser uma peregrinação cristã.1 – peregrinação como fenómeno liminóide   De facto. em que. 10 A Igreja Católica tenta utilizar estratégias que lhe permitam evangelizar as peregrinações quer durante o caminho. como privilegiar do despojamento que seria uma aproximação a Deus. Contudo. e que a mesma prática.5 De uma forma simples. ou como uma penitência (libertação de pecados) 9 . a mais relevante teoria sobre as peregrinações deve-se a Edith e Victor Turner. Pereira. apresenta esta como uma “imitação da vida”. tal não significa que as suas crenças e as suas práticas estejam em consonância com aquilo que é defendido pela teologia católica. na realização de promessas o padre raramente é consultado e mesmo quando é consultado a sua opinião não é muito valorizada pelos promitentes (Sanchis. a peregrinação deve promover a “participação na vida da igreja. 1992: 51-52). E tanto assim é que são diversas as actuações da igreja para orientar ou converter essas práticas que se afastam do ideal de peregrinação cristã. as peregrinações a pé a Fátima não satisfazem estas importantes directrizes daquilo que. Como se pôde notar ao longo do trabalho. pelo menos na actualidade. normalmente. apesar das dificuldades se pode chegar a um lugar mais sagrado que é o Céu. mas deve ser de tipo festivo”(1995: 1048). estando exposta na sua obra Image and Pilgrimage in Christian Culture. ainda que os peregrinos que caminham até Fátima se autodefinam como católicos. decorre de uma promessa nos termos anteriormente descritos 10 .     3 – A PEREGRINAÇÃO COMO FENÓMENO LIMINÓIDE E AS PRÁTICAS  INDIVIDUAIS NAS PEREGRINAÇÕES A PÉ A FÁTIMA     3. 9 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .

13 Designação dos próprios autores.estrutura e anti-estrutura. anomia (Turner. Victor (1974) O Processo Ritual . com a peregrinação a Meca. 14 Os Turner salvaguardam a excepção do Islão. Este facto pode transmitir a ilusão da communitas.   3. penitências. Não é muito frequente encontrarem-se peregrinos que fazem toda a peregrinação a pé sozinhos.6 Gennep 11 quer pelo próprio V. Arnold Van (1978 [1908]) Os Ritos de Passagem. emersão da pessoa integral na multiplicidade da persona. a individualidade posta contra o meio institucionalizado. indiferenciação. pois apesar de ter características semelhantes aos ritos de iniciação das sociedades tribais 13 . mudança de um centro mundano para uma periferia sagrada que de repente se torna transitoriamente central para o indivíduo. Assim. para os Turner. Turner 12 . todavia a viagem em grupo não decorre de um eventual interesse dos peregrinos em partilhar com outros os valores espirituais da peregrinação. os peregrinos vão adquirir uma homogeneidade de status caracterizada de uma forma detalhada pelos autores: “simplicidade de vestes e comportamento. Deste modo. com particular ênfase para o conceito de fenómenos liminares que apresentam uma junção de submissão. Gennep. Petrópolis: Editora Vozes. ‘communitas’. libertando-se das estruturas mundanas. santidade. que muda com o tempo contra o estático que representa a estrutura. reflexão sobre o significado dos valores básicos religiosos e culturais. a peregrinação apresentase como um fenómeno liminóide. realização ritualizada de correspondências entre paradigmas religiosos e experiências humanas partilhadas. despojamento. 15 Esta caracteriza-se pela igualdade.2 – Da ilusória communitas às práticas individuais     Contudo. O objectivo da viagem em grupo decorre do facto de esta se constituir como uma estratégia mais eficaz para que o peregrino alcance o seu objectivo. um símbolo da ‘communitas’. a peregrinação 14 é um acto voluntário. um axis mundi da fé. pois normalmente os futuros peregrinos procuram um grupo para fazer a viagem. emergindo o individualismo de uma forma bem mais efectiva do que a ténue. homogeneidade e camaradagem. os dados etnográficos não confirmam que as peregrinações a pé a Fátima possam ser consideradas como um fenómeno liminóide. 1974). Petrópolis: Editora Vozes. fortuita e por vezes ilusória communitas 15 . etc”(1978: 34)”. 11 12 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . o próprio movimento. homogeneidade. Turner.

Ainda no meu grupo pude testemunhar outro exemplo da ilusão da communitas. até que na última refeição do último dia. e vai socializando os peregrinos neófitos como eu. No meu grupo viajavam um irmão e uma irmã. A partir do momento em que se inicia a peregrinação podem-se construir novas estruturas relacionais que podem decorrer. Ela ia ficando parada em diversos postos da Cruz Vermelha. cada um pagava a mesma quantia. ele fazia a peregrinação com uma certa tranquilidade. ele ia avançando. aumentando de frequência com o passar dos dias de caminhada. Ainda que existam momentos de agregação dos peregrinos no seu grupo. Encontrei peregrinos que por fragilidades resultantes de esforço tão continuado (dores intensas num tornozelo ou num joelho) foram ficando para trás cada vez mais distantes do seu grupo. passaram a ser manifestos e cada peregrino pagou a sua própria refeição. Assim. Da desocultação da ilusão da communitas emergem práticas individuais claramente ilustradas na expressão que dá o título a esta comunicação – “cada um anda ao seu ritmo” 16 . que em seguida dividia o total por todos os elementos. como o almoço e particularmente a pernoita. independentemente daquilo que comesse. sendo quase sempre um dos primeiros a chegar ao local de pernoita. Efectivamente esta locução foi-me repetida. ou seja. por Em grupos coordenados por guias do santuário não é raro existirem conflitos decorrentes do interesse em cada um chegar o mais rapidamente possível ao fim e o interesse do guia do Santuário que é manter grupo todo junto. Note-se que depois deste momento a necessidade que cada peregrino tem do grupo é bem menor. Claro que estas marcas de individualismo concorrem para infirmar a homogeneidade de status defendida pelos Turner. desde o primeiro dia. cada grupo vai-se desmembrando ao longo do dia.7 pague a sua promessa. Pude ver. que rapidamente vão assimilando este ideal. 17 Deve notar-se que frequentemente os grupos procuram agregar os seus membros para entrarem em conjunto no Santuário. constituindo um dos primeiros registos no meu diário de campo. diversas vezes. Ela desde o primeiro dia que apresentava imensas dificuldades. chegue a Fátima. Desde a primeira refeição que as pessoas que já tinham feito mais vezes a peregrinação sugeriram que as refeições de todo o grupo seriam pagas por uma pessoa. diversos peregrinos a caminharem sozinhos 17 . 16 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . particularmente no fim da tarde. sendo quase sempre uma das últimas a chegar ao local de pernoita. Mas desde a primeira situação que os conflitos foram ficando latentes. e especialmente já mais próximo de Fátima.

e comam. visível.             sofrimento 3. é interessante notar que cada peregrino. comida de qualidade duvidosa.8 exemplo. codifica diferenças de estatuto sócio-económico. Uma boa parte dos peregrinos procura programar com detalhe a viagem. na acomodação dos corpos durante a pernoita onde. na referida locução. pode também notar-se a existência de um prolongamento das estruturas sociais anteriores à peregrinação 18 . por um lado. No entanto. pelo afastamento de casa e da família. procurando reduzir o potencial sofrimento e a incerteza resultante de uma viagem deste tipo. outras vezes critérios de aliança (duas pessoas casadas partilham um só quarto e uma só cama). das bolhas que podem surgir nos pés e que condicionam profundamente o andar ou de uma indisposição ou ainda das consequências de uma queda. Por outro lado. que aqueles que têm maior capacidade económica possam dormir numa cama mais cómoda ou comer comida de melhor qualidade num restaurante mais tranquilo. 18 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . mas expressando-se de diversas outras formas. durmam pouco e em más condições. e ao longo de cinco dias percorram. desde logo. divididos em etapas de 40 quilómetros por dia. Seria desta forma que o equilíbrio simbólico decorrente da promessa seria alcançado. longe de indiciar simplicidade. se tomarmos como exemplo peregrinos que partem do Porto até Fátima. normalmente exige uma peregrinação deste tipo. aqueles que detêm um capital de experiência de peregrinações anteriores. por outro. na roupa que. do maior ou menor cansaço. o mais provável é que andem cerca de 200 quilómetros.3 – Da promessa de grande sacrifício e à procura de redução do   De facto. Atentem-se. recorrentemente. Cada vez mais os grupos aumentam o seu investimento na logística da viagem. vai procurar reduzir o mais possível o potencial sofrimento. sendo um dos exemplos disso mesmo o seguro de vida realizado por um grupo para todos os seus membros (mais de 300 peregrinos). 19 Ao contrário das peregrinações cristãs que se caracterizam pela insegurança. conhecem melhor o caminho e podem gerir melhor o esforço acentuado que. por vezes emergem critérios sexuais (pessoas do mesmo sexo partilham o mesmo quarto e a mesma cama). a promessa que os peregrinos fizeram foi de grande sacrifício e este expressa-se num quadro geral que. estradas nacionais com muito trânsito e com elevado perigo19 . sendo bastante visível a diferenciação económica que permite. quase sempre. “cada um andar ao seu ritmo”. recorrendo aos diversos meios que tem ao seu alcance. por exemplo. as peregrinações a pé a Fátima na actualidade tendem a ser cada vez menos incertas e cada vez mais seguras. Porém.

No dia seguinte as dores voltaram. Contudo. três casos concretos em que emergem singulares estratégias individuais de redução do sofrimento. calçadas umas por cima das outras. desde um vulgar analgésico até pastilhas desconhecidas que ocultam intensas dores durante algumas horas. prometeu que faria o percurso sem falar. o carro permite que os peregrinos possam andar apenas com aquilo que precisam em cada momento. Um crente propôs-se acrescentar dureza à já dura viagem de ir a pé a Fátima: prometeu ir descalço. Um dos aspectos mais relevantes na redução do sofrimento é o chamado carro de apoio. pode ir desde o aproveitamento do capital de experiência de peregrinos que já fizeram muitas peregrinações e acolher a inócua sugestão para usar pensos higiénicos de tamanho grande dentro das sapatilhas 22 ou pode-se aproximar de algo que poderíamos chamar doping.9 essencialmente reservar com antecedência o lugar de pernoita. caminhou parte da viagem com fortes dores num joelho. Por exemplo. Contudo. Por fim. que serviam para se fazer entender com os membros do seu grupo e com as outras pessoas com as quais se cruzava. 2003: 134-135. O jovem português que veio de Inglaterra para caminhar a pé até Fátima. 23 ou mesmo injectáveis de substâncias também desconhecidas. A diversidade das estratégias para reduzir o sofrimento varia em função quer das condições que cada um tem ao dispôr. uma crente 20 21 Cf. que após se romperem eram sucessivamente substituídas por outras. Sendo normalmente conduzido por um familiar de um dos elementos do grupo. seja em pensões ou em casas particulares. Por fim. procurando assim evitar que o calor se alie à estrada como mais um obstáculo. quer daquilo que está disposto a fazer. apenas andam com o guarda-chuva quando chove. diversos peregrinos recorrem a medicamentos para realizar com menos custo a peregrinação. num nos dias da peregrinação um massagista de beira de estrada deu-lhe uma pastilha que lhe permitiu caminhar durante todo o resto do dia sem dores. Alguns peregrinos caminham durante a noite. No entanto. de forma breve. este crente encontrou outras formas de comunicação. e que eram suficientes para cortejar elementos femininos do seu grupo. 22 Esta opção garantiu algum conforto ao próprio investigador. De facto. este sofrimento era atenuado pelo facto de ele usar diversos pares de meias. pode valer a pena relatar. 23 Um elemento do meu grupo. escrita e gestual. mais detalhes em Pereira. apenas andam com o casaco quando têm frio ou apenas andam com a garrafa de água quando têm sede 20 21 . pois as temperaturas estão mais amenas. para além de não transportarem o saco com as suas pertenças. Isto significa que. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . no fim da peregrinação teve recorrer ao hospital para retirar líquido de um joelho.

Marcel. 1-29. POUPARD.10 prometeu ir a pé de Vila Nova de Gaia até Fátima. GENNEP. Gender. Petrópolis: Editora Vozes. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . come em grupo. deste modo. Em cada Domingo. “Introduction” EADE. EADE. sobrepõem-se os interesses do peregrino que parte em grupo. MAUSS. nº 33. Todavia. Ensaio sobre a Dádiva. Os Ritos de Passagem. 422-429. à frágil e pontual communitas. de filiação católica. p. chegar a Fátima. não caminha como penitência para se libertar de pecados cometidos. John e SALNOW. A. Michael J. não caminha para Deus. Michel. dorme em grupo. JACKOWSKI. (ed. Quando o promitente se metamorfoseia em peregrino transporta consigo não apenas o cansaço mas também o ónus de uma dívida que cada passo irá fazer diminuir.). No Domingo seguinte.). Barcelona: Editorial Herder. a peregrina fazia cerca de 20 quilómetros. “Geography of pilgrimage in Poland” in The National Geographic Journal of India. 1978 [1908]. mas que “anda ao seu ritmo” para. Lisboa: Edições 70. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS   DUBISCH. sendo depois transportada de carro pelo marido de volta até casa. In a Different Place .. 1995. 1991. 1988 [1950]. pagar a sua contra-dádiva: chegar a Fátima. 1829. Diccionario de las Religiones. Princeton: University Press. (dir. pp.     CONCLUSÃO   O peregrino. Contesting the Sacred: The Anthropology of Christian Pilgrimage. Jill. “Votum”. and Politics at a Greek Island Shrine. 1987..Pilgrimage. mas que só anulada no encontro com a Senhora de Fátima. MESLIN. o cumprimento desta promessa foi feito em prestações. pp. P. Arnold Van. partia do sítio onde tinha parado anteriormente e percorria mais 20 quilómetros até. John e SALNOW. Portanto. London: Routledge. Michael J. 1987. da forma menos penosa possível.

DE FIORES. London: Greenwood Press. 1992.The Anthropology of Pilgrimage. Salvatore (dir. PEREIRA. 1995. pp. Alan (ed. Image and Pilgrimage in Christian Culture Anthropological Perspectives.estrutura e anti-estrutura. PEREIRA. Victor e TURNER. pp. “The center out there: Pilgrim’s goal”.. Vol. “Introduction: The Territory of the Anthropology of Pilgrimage”. Pedro. 1031-1052. 1992-a. SANCHIS. 3-4). Porto. Alan.). promessas e peregrinações: as promessas de peregrinação a pé a Fátima”. “Doenças. Edith. Pierre. Lisboa: Piaget. TURNER. Lisboa: Dom Quixote. Oxford: Basil Blackwell. Dicionário de Mariologia. O Processo Ritual . pp.as romarias portuguesas. Victor. TURNER.11 MORINIS. São Paulo: Paulus. 2003-b. History of Religions. Stefano e MEO. Trabalhos de Antropologia e Etnologia. S. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . 43 (fascs. 191-230. Sacred Journeys . MORINIS. Peregrinos – Um estudo antropológico das peregrinações a pé a Fátima. 12. 2003-a. ROSSO. 1-28. 1978. Arraial: Festa de um Povo . “Peregrinações”. Pedro. 2003.). 1974. TURNER. Petrópolis: Editora Vozes. Victor. 1973.

pretendo aqui convocar algumas questões teóricas que se erigiram particularmente significativas à medida que fui sendo confrontado com os limites postos às formas convencionais de apreender a experiência nas ciências sociais.. desde então. Não obstante. Num primeiro momento. centrada no indivíduo. numa espécie de fracasso coreografado. no achado parentesco com outras condições físicas e mentais. Estamos perante uma moldura de inteligibilidade social que muito deve ao modo como a modernidade reinventou a exclusão das pessoas cegas através do idioma da biomedicina. há anos que venho realizando investigação em Portugal sobre questões relacionadas com o tema da deficiência. experiência incorporada.A Cegueira como Transgressão: dos corpos marcados aos corpos que marcam Bruno Sena Martins Faculdade de Economia. Universidade de Coimbra bsenamartins@gmail. os movimentos normalizantes da medicina não cessaram de informar. respostas que vêm corroborando vivamente. deficiência. a reflexão de Colin Barnes (et al. corpo. as respostas sociais que se vieram a dirigir às pessoas identificadas com a deficiência. importa denotar como as pessoas cegas estão sujeitas a fortíssimas condições de opressão social e estigmatização cultural. do corpo e da imaginação se foi gradualmente insinuando. a cegueira ficou objectificada como uma exterioridade da norma biomédica: um topos de desvio corporal onde o horizonte de restituição da normalidade está habitualmente ausente. deparei-me com dimensões da experiência humana onde a centralidade das emoções. ostensivamente negligente ao imperativo de transformações sociais mais amplas. constrangendo. Sob o conceito de deficiência. Respostas alojadas numa abordagem reabilitacional. Partindo do meu itinerário etnográfico. 1999: 60): “o efeito da medicalização dos problemas sociais é a sua despolitização” (minha tradução). ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .com Com propósito central de compreender a complexa relação entre as representações culturais da cegueira e as vidas daqueles que a conhecem na carne. enquanto referente. Tentando inquirir o lugar díspar que o sofrimento ocupa. nas histórias de vida das pessoas cegas e nos valores dominantes acerca da cegueira. Palavras chave: cegueira.

No que à deficiência diz respeito. a “experiência de deficiência” que elegi para recolher histórias de vida e para acompanhar vivências quotidianas e associativas. inspirados pela agitação social do final da década anterior. perante uma “lógica de classificação” que tem operada como fiel pajem de uma “monocultura da naturalização das diferenças” (ibidem). ausência. o sacro caminho para a integração social ― à luz dessoutra abordagem reabilitacional ― ganhou a consistência de uma miragem para a esmagadora maioria das pessoas com deficiência. A própria emergência histórica do conceito de deficiência. marcada por exclusões e silenciamentos. Nas representações ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . A situação social das pessoas com deficiência.2 Consequentemente. pude partir de uma condição que sintetiza de modo flagrante os valores incapacitantes com que a sociedade hegemonicamente se dirige para a experiência daqueles a que aprendemos a chamar deficientes. Isto é tão mais problemático e perturbante quando sabemos que se conferidas as condições adequadas. 2002). etc. surge como óbvio produto de uma moderna “razão metonímica” (Santos. O facto é que até este dia as pessoas com deficiência encontram na maioria das sociedades um quadro em que a desigualdade de oportunidades caminha de par em par com forte discriminação institucional e vigorosa estigmatização cultural. Ao centrar-me na cegueira. produtora de um estreitamento das vozes avalizadas e das práticas sociais pensáveis. as nossas sociedades estão estruturadas para a integração social daqueles que Erving Goffman chamou de “heróis de adaptação” (Goffman 1990:37). pois. apenas uma reduzida percentagem de pessoas com deficiência ficaria impedida de participar na vida económica e social. denunciaram um sistema discriminatório tenazmente vigiado por: valores e atitudes subalternizantes. barreiras arquitectónicas e comunicacionais. Estamos. critérios excludentes para a educação superior e para o emprego. instiga de sobremaneira a uma “epistemologia das ausências”. insuficiência ou inadequação do apoio no sistema regular de educação. Entendo que o elemento mais resistente na marginalização das pessoas com deficiência reside no modo como este processo social de exclusão se articula com o fatalismo dos valores culturais dominantes que encarceram a experiência das pessoas com deficiência nas ideia de tragédia e incapacidade. Este mesmo estado de coisas começou a ser denunciado no início dos anos (19)70 quando os movimentos de pessoas com deficiência. obstáculos no acesso aos transportes.

3 culturais hegemónicas da cegueira esta condição está fortemente está fortemente cingida pelos conceitos de tragédia. o rapaz que o acompanhou numa viagem a Boston. numa tão sonante aparição mediática da cegueira. Neste romance. clamando a certa altura: ― Vá para a frente com a sua vida! ― Ao que Frank responde: ― Que vida?! Eu não tenho vida! Eu estou aqui na escuridão! Será que não percebes. a ignorância e a alienação. procura detê-lo. grosso modo. minha ênfase). ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . reiteram uma “narrativa da tragédia pessoal” enquanto gramática sócio-cultural na apreensão da experiência da deficiência. eu estou na escuridão! (minha tradução. Recolho de Michael Oliver (1990) a “narrativa da tragédia pessoal”. Uma tal conceptualização da cegueira está bem presente nos nossos artefactos culturais. Podemos evocar. a resposta gritada por Al Pacino pode obviamente expressar o sofrimento e dissolução sentidos por alguém que cegou recentemente num acidente. trocadas que foram pela imensidão de significados e ecos simbólicos que a história ocidental ligou à experiência de quem não vê. Estes mesmos valores estão presentes no “Ensaio sobre a Cegueira”. a súbita cegueira de toda uma população emerge como uma riquíssima metáfora para simbolizar a desgraça humana. Na verdade. O diálogo central do filme ocorre quando Frank Slade é surpreendido preparando o seu suicídio. um militar que ficou na reserva na sequência pelo rebentamento acidental de uma granada que o deixou cego. de José Saramago. Construções que. no “Ensaio sobre a Cegueira” as experiências das pessoas cegas estão ironicamente ausentes. Mas o que eu pretendo enfatizar é o modo como esta enunciação. Como o pude atestar nalgumas experiências de cegueira subitamente infligida. por exemplo. largamente reflecte os termos pelos quais esta condição é socialmente entendida: uma desgraça que assola o valor da própria vida. onde as narrativas e reflexões das pessoas cegas se encontram subsumidas pelas construções dominantes. viver num mundo onde se tenha acabado a esperança" (Saramago 1995: 204). Significados que estão brilhantemente resumidos na voz de uma das personagens de Saramago: “a cegueira também é isto. É esta mesma substituição que acontece na vida social. desgraça e incapacidade. conceito central que mobilizo para explorar como as vidas e aspirações das pessoas com deficiência continuamente debatem com préconcepções fatalistas acerca da desgraça e do infortúnio. Charlie. onde Al Pacino desempenha o papel de Frank Slade. o filme “Scent of a woman” .

quero argumentar um tal enfoque nos poderá levar a desconsiderar outras dimensões da experiência. não totalmente apreensível na sua relação com elementos sociais. corre o risco de reproduzir o cânone da razão moderna: o velho espectro da reprodução noutros termos do que se procura superar. o corpo vivido e as emoções adquirem estatuto nobre ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . que transgride as nossas referências na existência. este texto prenha da preocupação de que a desmobilização da “razão metonímica” (Santos 2002) tenha em conta outras densidades da experiência que poderiam ficar de fora de um pensamento contra-hegemónico. De facto. leituras positivas da cegueira. A esta dimensão do sofrimento pessoal. a angústia da transgressão corporal concita-nos a reconhecer dimensões de dor. que. a apreensão das vidas e pensares das pessoas com deficiência marcadamente instrui no apagamento dos fatalismos trágicos. ou seja. nos sofrimentos ontológicos e na imaginação sensorial. como mostrámos. Se. vontade de viver. Por isso. tanto como do reconhecimento dos valores fatalistas que se abatem sobre as pessoas com deficiência. as suas capacidades. eminentemente fenomenológicas. sofrimento e ansiedade existencial onde. na investigação que venho realizando entre as pessoas cegas. que amplamente fracassamos em apreender pelo crivo das construções culturais e das condições de opressão social. Assim entendida. A angústia da transgressão corporal refere-se à vulnerabilidade na existência dada por um corpo que nos falha.4 Em cintilante contraste com os valores dominantes. desde cedo emergiram evidentes. desafiar o modo como a razão metonímica se abateu sobre as pessoas com deficiência é também atentar em “racionalidades” embutidas nos corpos. os mais relevantes dados sociológicos derivam da identificação de perspectivas positivas e capacitantes sobre a cegueira. No entanto. as nossas referências no modo de ser/estar-no-mundo. contra sedimentada negligência. eu chamo angústia da transgressão corporal. confronta-nos com preciosas elaborações sócio-políticas capazes de reverter a pesada marginalização de que as pessoas com deficiência vêm sendo alvo. eminentemente corporal. Refiro-me a experiências de sofrimento e privação mais directamente associadas ao facto corporal da cegueira. neste texto. a assentar numa oposicionalidade estreita. potencialidades. e resistência para superar os muitos obstáculos postos à realização pessoal. Uma perspectiva crítica nas nossas sociedades. informada pelas vozes das pessoas com deficiência. experiências de sofrimento. como referentes capitais.

minha tradução). Obrigo-me. Os corpos sentem dor. do idealismo passível de ser sugerido por uma abordagem que procura explorar a cegueira e as suas implicações como correlato de condições sócio-históricas. Em segundo lugar. e. Em primeiro lugar. nada disto pode ser desmobilizado como mera representação. Explorar o carácter incorporado da experiência implica respigar as consequências deste singelo facto: os nossos corpos ― pois de um vos escrevo ― não são apenas objectificados com significados culturais. onde a noção de tragédia amiúde encontra guarida. prazer. sofrem doença e violência. Assim investidos. de visão. Tal apologia constitui uma sensibilidade analítica recentemente surgida nas ciências sociais. retornamos à angústia da transgressão corporal. Mas esta evasão ao idealismo não de oferece a uma reinstauração da narrativa da ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . uma perda. quando ele enuncia: “acreditar que as questões da representação são as únicas legítimas ou cientificamente interessantes é adoptar uma posição de idealismo em relação ao corpo” (1992: 41. nalgum momento das suas vidas. Esta abordagem distancia-se. Na primeira dimensão que acima enunciei somos convocados a reconhecer as experiências de sofrimento que podem estar fenomenologicamente associadas à cegueira. pela importância que a visão detém para quem dela pode fazer uso a sua perda ser recebida como uma cataclismo onde o significado da cegueira e o significado da vida não raro dançam juntos. como Judith Butler (1993: xi) afirma. ou confrontaram.5 nas reflexões antropológicas e sociológicas Na investigação que desenvolvi entre as pessoas cegas a centralidade da angústia da transgressão corporal emergiu de ― e permitiu apreender ― duas densidades fenomenológicas diferentes. mas são também condição da nossa existência no mundo e na cultura. essa sensibilidade analítica recolhe da experiência de pessoas que confrontam. gradual ou súbita. De facto. pois. conforme ficou patente em muitas histórias de vida e no encontro com algumas experiências. É através dos nossos corpos que ganhamos acesso ao mundo e aos outros. desde logo. tradicionalmente pouco à vontade com tais campos da experiência humana. a angústia da transgressão corporal enceta diálogo com as ansiedades existenciais e corporais fundadas no modo como a cegueira é adivinhada na perspectiva de “corpos que vêem”. a dar eco a Bryan Turner. Procurando seguir estas questões achei-me na esteira apologética da experiência incorporada enquanto relevante dimensão da experiência.

O escritor alude em vários momentos da sua obra. Na verdade. Apesar de Borges ter visto durante grande parte da sua vida. nem tão pouco um confronto com as coisas que se tornaram impossíveis de fazer. Verás a cor amarela e sombra e luzes. um lapso que é actualizado quotidianamente na comparação com os outros. sei de milhares de pessoas que vêm e que não são particularmente felizes. longe disso. Não há. junto ao rio. Um encontro dos diferentes tempos de uma vida em que profecias e memórias se cruzam. Em segundo lugar. à cegueira que lhe sobreveio lentamente até lhe roubar a visão aos 55 anos. justas ou sábias” (Borges 1998a: 394). Evoco aqui a pena de Jorge Luis Borges pelo que a sua experiência tem de congruente com muitas histórias de que me tornei próximo. directa ou indirectamente. como acontece com algumas patologias degenerativas. Numa curiosa fábula. os sofrimentos mais directamente associados à dimensão física da cegueira estão ausentes.” (Borges 1998b: 14). porque na vida de pessoas que nascerem cegas não existe uma experiência de perda. É como um lento entardecer de Verão. Assim é. e na percepção das facilidades que a visão permite na apreensão de elementos da realidade e na execução de algumas tarefas. Não te preocupes. como o autor reitera noutro lugar: ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . nem a submissão a uma imperativa metamorfose no modus vivendi. a possibilidade de antecipar a cegueira e a mansidão da sua chegada assomam nele como factores que fazem com que um tal evento não se assuma como algo de trágico. Jorge Luís Borges evoca o encontro sonhado de si consigo mesmo. aí se conta como no banco de um jardim. a experiência de ruptura fenomenológica inexiste igualmente em muitas biografias em que a cegueira surge. portanto. É óbvio que as pessoas que já nasceram cegas têm uma noção do lapso que as separa de quem vê. através de um lento anoitecer de muitos anos. Uma inevitabilidade que soube aceitar e que já havia visitado o seu pai e a sua avó: “Pedir que não me anoiteçam os meus olhos seria uma loucura. a experiência de uma ruptura fenomenológica. e onde a cegueira é tranquilamente revelada pela voz do ancião: “Quando atingires a minha idade terás perdido quase por completo a vista. não há um mundo empobrecido naquilo que nele se pode apreender. numa primeira instância. em muitas histórias de vida com que tomei contacto. A cegueira gradual não é coisa trágica.6 tragédia pessoal. tomou lugar o diálogo mágico de um Borges septuagenário com o seu jovem predecessor. não há um constrangimento em relação aos modos de realizar.

que também nos tornamos familiares com a capacidade dos sujeitos para a reconstrução pessoal: histórias órficas que nos são contadas por pessoas que relatam como morreram e voltaram a nascer. de um eclipse. a alusão a cegueiras congénitas ou lentamente adquiridas mais não pretende do que negar uma qualquer omnipresença biográfica da angústia da transgressão corporal nas vidas da cegueira. Portanto.7 O meu caso não é especialmente dramático. rápida ou inesperada. É fundamentalmente nessas histórias que encontramos fortes experiências de angústia que largamente escapam a uma perspectiva informada pelas condições de opressão social. Nessa ironia o que assoma como trágico é alguém ter que viver refém de valores que ousou superar. estamos longe de sancionar a naturalização hegemónica da incapacidade e do infortúnio. Portanto. Não sendo possível abraçar generalizações que aplanem o modo particular como os eventos são acolhidos pelos sujeitos. Prolongou-se desde 1899 sem momentos dramáticos. é nessas histórias fortemente marcadas por dolorosos períodos de luto apostos à experiência da cegueira. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . No entanto. O que resulta irónico é perceber como o encontrado alento para viver em novos termos frequentemente se tem de confrontar com os valores fatalistas que visitam a experiência social das pessoas cegas. sofrem e lidam com experiências de radical ruptura na sua relação sensorial com o mundo. corporais e sociais. a angústia da transgressão corporal emerge essencialmente nas narrativas de perda de visão súbita. e como bem sugere a reflexão de Borges. De facto. e dada a prevalência dos questionamentos políticos e sociais que o tema da deficiência justamente nos instiga. a assunção de um conjunto de experiências descritas pela ideia de angústia da transgressão corporal pretende conferir espaço de enunciação a determinadas dimensões do sofrimento pessoal dos sujeitos. um lento crepúsculo que durou mais de meio século (Borges. 1998c: 289). nesse sentido. O que este cuidado analítico de facto nos concede é a densidade de experiências que são a um tempo emocionais. mas no meu esse lento crepúsculo começou (essa lenta perda de vista) quando comecei a ver. ao explorar a transgressão implicada por um corpo que “falha” e “rouba” referências no modo de ser no mundo. É dramático o caso dos que perdem bruscamente a vista: trata-se de uma fulminação. Na investigação que venho realizando essa ponderação tem permitido apreender e valorizar o modo como os indivíduos suportam.

mas também às ansiedades existenciais. jogara algumas vezes consigo mesmo. a exploração de determinadas experiências através da angústia da transgressão corporal visa contornar o perigo atrás identificado. Como conceito mais vasto. pois.. que vale para mais triviais experiências. que algumas condições tendem a incitar. pretende-se que o reconhecimento das condições de opressão social na vida das pessoas cegas. a angústia da transgressão corporal curva-se à centralidade que experiências corporais detêm no significado da existência e na construção dos referentes pelos quais o mundo adquire sentido. sem dúvida alguma uma terrível desgraça.. ganha acrescida saliência à luz de itinerários marcados por experiências limite. corporeamente informadas. É nessa persuasão que defendo que os valores hegemónicos associados à cegueira devem aos valores culturais e legados históricos. enquanto evidência sociológica mais cintilante. e chegara à conclusão. numa perspectiva diferente. Mas. Na pesquisa entre as pessoas cegas isto tornou-se sobretudo manifesto nas narrativas de cegueira subitamente infligida. na adolescência. Assim a angústia da transgressão acolhe experiências subjectivas de perda e vulnerabilidade corpórea tanto como sustenta que as nossas referências ontológicas são construídas ― e portanto podem ser perdidas ― através dos nossos corpos. o mesmo é dizer. ao cabo de cinco minutos com os olhos fechados. quero enfatizar como a centralidade dada à angústia da transgressão corporal nos permite compreender algo dos valores dominantes associados à cegueira. de que a cegueira. nesses casos a mais ilustrativa enunciação ― esmagadoramente veiculada como lugar de um país que se fez distante ― fala da morte que um dia se desejou. Alego. ao jogo do E se eu fosse cego. à sistemática marginalização das vozes das pessoas com deficiência. Este poderoso postulado. (. As conclusões advindas de uma tal relação empática são instrutivamente tocadas por José Saramago (1995:15) referindo-se a uma das personagens do Ensaio Sobre a Cegueira: Como toda a gente provavelmente o fez. experiências de perda de referentes fenomenológicos onde se torna dramaticamente expresso como a existência carece das fundações dadas pelos corpos.) ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . que a tragédia associada à cegueira trafica com o modo como as pessoas usam os seus corpos para ensaiar a cegueira. não retire espaço de enunciação às experiências subjectivas de sofrimento corporal.8 Nesse sentido.

manifesta naquele sonho. Acordei como uma intensa sensação de angústia. que trouxe para a Antropologia a herança fenomenológica de Maurice Merleau-Ponrty. A asserção. conceder relevância a esse experimentalismo sensorial que a cegueira evoca nos corpos cuja construção do mundo ─ cosmovisão ou mundividência ─ é eminentemente visual. apesar de singela. e é a nossa imaginação. assim cabe referir autores como Thomas Csordas (1990. gradualmente passei por um apagamento dessa pré-concepção. Tento. Apesar de uma funda negligência histórica nas ciências sociais. sabiamente sustentada pelos autores. o produto das ansiedades com que ela é empaticamente percebida. de que pensamos embutidos na carne. De mencionar trabalhos recentes em que estas abordagens têm conhecido solidificação teórica. à medida que fui contactando mais e mais com pessoas cegas e com as suas experiências de vida. pois. do quão terrível a ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . não deixa de ser ilustrativa da minha iniciática resposta ansiosa perante o espectro da cegueira. despertei de madrugada perturbado por um terrível pesadelo. durante a primeira noite. como via para as relações empáticas com outros corpos Quando principiei o trabalho de campo entre as pessoas cegas tomou lugar um interessante evento. Esta experiência. Desde então. a relevância dada à experiência incorporada e ao conhecimento incorporado. não a sua recusa (Lakoff e Mark Johnson 1999: 93. O que sempre permitiu a ciência é a nossa a incorporação e não a sua transcendência. por via de projecções imaginativas em que o próprio corpo é feito um “tubo de ensaio” da cegueira. e sensação de alívio: sonhei que tinha ficado cego. que resgatam a importância do corpo e das emoções para o campo das ciências cognitivas: Como criaturas imaginativas incorpóreas. que labora para que as concepções hegemónicas da cegueira sejam. conduznos precisamente ao reconhecimento das projecções imaginativas corpóreas como uma via para a produção de sentido acerca de outras posições estruturais. tem recebido acrescida importância. minha tradução). 1994). e que damos carne aos conceitos através de metáforas e da imaginação. nalguma medida. nós nunca estamos separados ou divorciados da realidade numa primeira instância. isto é. Eu estava num campo de férias a trabalhar como voluntário junto da Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal (ACAPO) quando.9 É esta forma de “ser no outro”. e como George Lakoff e Mark Johnson (1999).

Deste modo. para intensamente imaginarmos ser outra pessoa. ao falar com pessoas sobre o tema da minha pesquisa frequentemente a cegueira suscitava reflexões em termos que reiteradamente expressavam relacionamentos pessoais com o espectro dessa ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Desde o nascimento nós temos a capacidade para imitar os outros. Ainda assim esta mais comum das experiências é uma forma de transcendência. minha tradução.. apesar do centrismo visual em que vivemos ter um fortíssimo viés sóciohistórico. Alegar a relevância da angústia da transgressão corporal é sustentar as possibilidades criativas para o significado que resultam da imaginação empática de uma dissolução sensorial e fenomenológica. ênfase no original). A capacidade para a projecção imaginativa é uma faculdade cognitiva vital. Defendo que a relevância que a angústia da transgressão corporal assume nas representações da cegueira não é separável da sua congruência com um contexto onde as heranças simbólicas não poderiam ser menos favoráveis e onde as vozes das pessoas com deficiência se encontram silenciadas. é uma capacidade eminentemente corporal. nós usamos constantemente as projecções imaginativas para aceder às experiências do outro: Uma função central da mente incorporada é a empática. Não obstante. a angústia da transgressão corporal não é apenas algo vivenciado por alguém que fica cego. a projecção imaginária da cegueira através de um corpo que “vive visualmente” vai forjar algo das ideias de prisão sensorial e incapacidade. a visão tende a ser um sentido crucial para quem dele pode fazer uso: na realização de actividades.10 cegueira deveria ser. De facto. Vivencialmente é uma forma de “transcendência”. Não há nada de místico nela. vim gradualmente a compreender a importância crucial ocupada pelas ansiedades pessoais na consagração da teoria da tragédia pessoal como a narrativa cultural dominante acerca da cegueira. como nos dizem Lakoff e Johnson. experienciando o que essa pessoa experiencia. essa transgressão é também conhecida por projecções corpóreas empáticas através das quais a cegueira é “trazida para casa”. fazendo o que essa pessoa faz. uma forma de estar no outro (1999: 565. na construção do mundo envolvente. Através dela podemos experienciar algo próximo a “sair dos nossos corpos” ─ no entanto.. De igual modo. O papel desempenhado pelas imaginações ansiosas da cegueira foi-se insinuando ao longo do trabalho empírico: nas histórias que me foram sendo contadas pelas pessoas cegas e na observação das interacções sociais. Como consequência. no sentido inverso. De facto.

Lisboa. Thomas. 1990. 18 (1): 5-47. Paul Brodwin. University of California Press.Obras Completas de Jorge Luis Borges 19751985 vol. Geof e Shakespeare. Londres. e Mercer. Stigma: Notes on the Management of Spoiled Identity. finalmente. CSORDAS. Nova Iorque. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . elas também são mobilizadas como via de acesso à realidade das pessoas com deficiência visual. Teorema. Byron Good e Arthur Kleinman (orgs. BORGES. GOFFMAN. Teorema. Jorge Luís. Colin. em termos bem distantes das complexas experiências que as pessoas cegas vivem Referências Bibliográficas BARNES. “Embodiment as a Paradigm for Anthropology”. 1998c. 1990 (1963). Sete Noites . Penguim Books. Arthur. Erving. fracassa em apreender a adaptação permitida por uma cegueira que caminha gradualmente ao longo dos anos. etc. O Elogio da Sombra .). CSORDAS. pois. A questão é que uma tal imaginação permite captar algo do eventual impacto de uma súbita perda de visão. Polity Press. 1993. Berkeley. Thomas (org. “acho que preferia matarme”. Embodiment and Experience: The Existential Ground of Culture and Self. uma identificação empática parcial e errónea. III.Obras Completas de Jorge Luis Borges 1975-1985 vol. O Livro da Areia . Pain as Human Experience: An Anthropological Perspective. BUTLER. University Press. Cambridge. fracassa em conceber o mundo sem perda de alguém que nasceu cego. Exploring Disability: a Sociological Introduction. 1999. A ruptura existencial que esta empatia sugere e exporta para os significados sociais toma parte na re-produção das representações culturais prevalecentes. BORGES. mas fracassa em perceber como a vida de alguém se pode vagarosamente reconstruir em novos termos sem a visão. Teorema. e. Lisboa. O que se produz é.Obras Completas de Jorge Luis Borges 1952-1972 vol II.Cambridge. KLEINMAN. 1998a. Ethos. “Pain and Resistance: the Delegitimation and Relegitimation of Local Worlds” in Mary-Jo Good. Lisboa. 1992. não sendo raras frases como: “não sei conseguem”. Tom. 1994. Bodies That Matter: On the Discursive Limits of Sex. Jorge Luís. Cambridge. Judith. Jorge Luís. Estas imaginações projectivas não apenas produzem ansiedades pessoais acerca da cegueira.). 1998b.11 condição. Routledge. BORGES. III.

Basic Books. The Macmillan Press. Routledge. Philosophy in the Flesh: The Embodied Mind and its Challenge to Western Tthought. The Politics of Disablement. Lisboa. Regulating Bodies: Essays in Medical Sociology. 1990. 2002. 1992. 1995. TURNER. 1999. Ensaio Sobre a Cegueira. “Para uma Sociologia das Ausências e uma Sociologia das Emergências”. 63: 237-280. SANTOS. José. Círculo de Leitores. Bryan. SARAMAGO. Boaventura de Sousa. Michael. Houndmills. Nova Iorque. OLIVER. Revista Crítica de Ciências Sociais.12 LAKOFF. Londres. Mark. George e Johnson. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .

em boa medida impulsionado pela redução dos custos das viagens de avião intercontinentais proporcionada pelos avanços tecnológicos e organizativos no sector dos transportes aéreos (Urry 1990: 44-50). muito intensa a partir dos anos 60. com destaque para o dinheiro. Palavras-chave: género. a performance sexual e as emoções. Nesta vasta região. Tentando escapar aos discursos vulgares. Debié 1995. nas quais o turista é sistematicamente apresentado como o predador que apenas procura satisfação sexual e. o próprio desenvolvimento do capitalismo na procura e invenção de novos mercados e produtos (Ribeiro e Portela 2002). sexualidade. o corpo. amor e interesse entre gringos e garotas em Natal (Brasil) Fernando Bessa Ribeiro e Octávio Sacramento Departamento de Economia e Sociologia Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro fbessa@utad.A ilusão da conquista: Sexo. D’Epinay 1991) – mais tardia no caso português (Arroteia 1994) – e. o Estado do Rio Grande do Norte ocupa uma posição consolidada como ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . afectos.pt riosacra@portugalmail. por outro lado. sem capacidade de autodeterminação sobre o seu corpo e a sua sexualidade. Introdução A expansão do turismo de massas. interesse. turismo 0. com a consolidação do Estado-Providência (Santos 1993) nos países europeus centrais (Boissevain 1996. por outro. a mulher jovem local vista como vítima. conduziram à incorporação sucessiva de novos destinos na geografia mundial das rotas turísticas. Um dos mais recentes é o do Nordeste brasileiro. implicando a manipulação de recursos. Tal interpela as imagens “a preto e branco”. Turistas e locais participam em complexos jogos de poder. procura-se mostrar a densa teia de racionalidades que estruturam as práticas destes actores sociais.pt Este texto analisa as interacções entre os turistas europeus e as garotas de programa na cidade de Natal (Brasil).

como os jovens e adultos pertencentes aos meios populares. Hitchcock et al. Truong 1989. 1 Deste vasto fluxo turístico passaram a fazer parte indivíduos de classes e grupos sociais até então apenas marginalmente envolvidos. Singly 1993. 1993. Saraceno e Naldini 2003) têm vindo a repercutir-se significativamente na configuração da procura turística. publicidade e consumismo que caracterizam as sociedades modernas (Baudrillard 1981). com um aumento vertiginoso dos provenientes do estrangeiro (282. relacionado com a quantidade e a qualidade da experiência que oferecem. depois de Fortaleza e de Salvador. muito em particular no sudeste asiático (Cohen 1982. Natal é a cidade com maior número de visitantes estrangeiros no Nordeste brasileiro. muitos deles solteiros ou transitoriamente sem parceira/o sexual. 92. Tal é particularmente evidente nos turistas jovens do sexo masculino que afluem ao Nordeste brasileiro. De facto. de origem operária ou trabalhando em actividades mal remuneradas do comércio e dos serviços. em particular. que parece constituir uma motivação presente em numerosos europeus que visitam o nordeste brasileiro (Piscitelli 2004) e. fazendo com que entre os turistas se assista a uma presença crescente daqueles que escapam ao padrão dito tradicional. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . a procura de sexo por parte dos turistas.000. não escapa a esta mercantilização. contribuindo assim para que o número total de turistas atingisse os 1.2 um dos principais destinos turísticos. Por outras palavras. os voos charters internacionais passaram de cinco em 2002 para 17 por semana em 2004. impulsionado pelas entidades públicas ligadas à promoção turística no Brasil. através da publicitação da 1 Dados disponibilizados pela Secretaria de Turismo do Estado do Rio Grande do Norte. Considerando que na economia do turismo as commodities não possuem apenas valor de uso e de troca mas também um “valor-signo”. cabendo aqui um especial realce para a sua capital.000 (24. Com um crescimento verdadeiramente impressionante nos últimos cinco anos. Por outro lado. cujas deslocações são. pelo menos desde os anos 60. elas são fortemente determinadas pelas imagens. assente no “papá.2% superior a 2002). mamã e filhos”.700. a cidade de Natal. as profundas alterações sociológicas no domínio da família experimentadas pelas sociedades europeias nas últimas décadas (Berry-Brazelton 1989.84% superior a 2002). Leheny necessariamente de modo intencional. motivadas por um conjunto de representações e expectativas ancoradas em imagens de erotismo e de acesso fácil à fruição sexual. Não sendo um fenómeno desconhecido noutras paragens. amiúde.

A designação garotas de programa. turistas e locais envolvem-se em complexos jogos de poder. quer do ponto de vista económico quer do ponto de vista do imaginário colectivo e das representações dos actores sociais locais e dos turistas que visitam a cidade. racionalidades e interacções que envolvem estes actores sociais. Neste exercício é fundamental assumir-se que a sexualidade humana. Se é certo que não deixa de estar marcada pelas relações de poder entre os de fora e os locais – que nos remete para a problemática das desigualdades. à procriação. é usada nos discursos sociais para fazer referência a mulheres que se prostituem ou que são tidas como sexualmente promíscuas (Gaspar 1985). 2 Tentando escapar aos discursos vulgares. Torna-se. Em concreto. pertinente trabalhar sobre este interpelador campo social. que nos ajudam a desconstruir as imagens monolíticas. que marcam os intercâmbios entre o Norte e o Sul –. se orienta para a procura doutras satisfações. do género e das emoções que exige uma reflexão sociológica densa e um conhecimento empírico aprofundado. enunciados nomeadamente pelos media e pelo senso comum. o corpo. é nosso objectivo central interpretar a densa teia de motivações. implicando a manipulação de recursos. encontramos formas muito diversas de relacionamento sexual que se concretizam em diferentes contextos sociais. Entre os turistas e as mulheres locais estabelece-se um intrincado jogo de relações sociais em torno da sexualidade. estabelecem com as garotas de programa. Longe de existir apenas um único modo de a fruir. por sua vez. suscitando a atenção dos media e das forças políticas do Estado. incluindo os que se prendem com o sexo mercantil e o turismo. como notam Silva e Blanchette (2005). é um termo que no Brasil se aplica a qualquer estrangeiro. a compreensão cabal desta teia densa de relações sociais exige que se tomem em consideração outros aspectos. apesar de estar associada. conhecidos localmente como gringos. com destaque para o dinheiro. incluindo aquelas que se fundam no género. em determinados momentos. nas quais o turista é sistematicamente apresentado como o predador que Gringo.3 imagem da mulata com bunda generosa. Hoje em dia trata-se de uma realidade social incontornável e de grande impacto em Natal. 2 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . portanto. a performance sexual e as emoções. procuraremos reflectir sobre as relações sociais que os turistas. não tendo necessariamente uma conotação pejorativa. Partindo de perspectivas sócioantropológicas e explorando os elementos etnográficos que recolhemos durante o trabalho de campo realizado no Verão de 2005 na cidade de Natal.

homens. restaurantes e bares. pizzerias e outros negócios ligados ao turismo. 3 1. 4 Ao longo dos cerca de dois quilómetros da estreita língua de areia que dá corpo à praia erguem-se hotéis. os prédios que ficam na encosta da praia fazem lembrar alguns dos piores exercícios Em termos filosóficos. Constituindo hoje um espaço-chave na “cidade do prazer” (Lopes Júnior 2000). uma encosta belíssima debruçada sobre o mar. Com o turismo e a expansão da cidade. Os prédios altos. em troca de remuneração mercantil. a vila está hoje mergulhada num acelerado processo de gentrificação. pousadas. 4 Por detrás da praia localiza-se a pequena vila de Ponta Negra.4 apenas procura satisfação sexual e. com numerosas residências e propriedades adquiridas quer por europeus quer por natalenses que aí decidiram fixar residência. Mas não só. incluindo o da utilização para satisfação do prazer físico e emocional de outros. oferecendo esteiras. nomeadamente identificando ristorantes. no calçadão. como o tipo de envolvimento emocional e a questão do poder no contexto das relações de género. guarda-sóis e serviço de bar. situam-se precisamente por detrás da primeira linha de praia. amplamente discutido pelos filósofos libertários (Van Parijs 1997. Durante séculos os seus habitantes viveram praticamente de costas voltadas para a praia. melhor dito. com uma faixa de areia interrompendo a vegetação. nas esplanadas. que dão um ar americanizado à cidade. turismo sexual e sexo mercantil interpelam o princípio do chamado selfownership. A presença italiana faz-se notar através dos inúmeros anúncios escritos na língua de Leonardo da Vinci. aparthotéis. cultivando as suas terras férteis. a mulher jovem local vista como vítima. Em plena praia posicionam-se pequenos espaços de apoio aos veraneantes. por outro lado. É aqui. a praia é dominada pelo “morro do careca”. 2000a e 2000b). 3 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Embora muito diferente em termos paisagísticos e a uma escala mais reduzida. Trata-se da discussão sobre os limites do direito de cada um dispor do seu próprio corpo. situada no extremo sudoeste da cidade. a sexualidade e o dinheiro aparecem como elementos estruturantes. desprovida de self-ownership sobre o seu corpo e a sua sexualidade. nos bares e nas discotecas que gringos e garotas constroem relações sociais nas quais o corpo. Um lugar dionisíaco e economicamente dinâmico: a praia de Ponta Negra Um dos principais cenários turísticos de Natal e com maior presença de garotas de programa é a praia de Ponta Negra. mulheres ou transgéneros. esta articulação entre turistas e sexo mercantil compreende outros aspectos. realizando obras de ampliação e de melhoramento das habitações. Vallentyne e Steiner.

empurrou os alternativos para praias mais distantes. os taxistas a colaborar com as garotas. quinquilharia. 6 Numa notícia saída no jornal “Tribuna do Norte”. construída nos anos 90 do século passado. muitos deles politicamente engajados nas lutas estudantis contra a ditadura militar. pelas trocas sexuais de carácter mercantil. como o transporte de passageiros em táxis. era nos anos 60 e 70 do século passado um point de “alternativos”: jovens das classes mais privilegiadas de Natal. numa zona de paisagem protegida. as condições suficientes para experiências sociais mal toleradas pela ordem político-moral dominante. vivem das dinâmicas económicas geradas. entre outros exemplos. A expansão da cidade e. Muitos destes “alternativos” falam hoje com saudade deste tempo em que a praia não estava bordejada pela urbanização avassaladora. fastfood). fruta. onde se acampava e se faziam fogueiras. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . nesta economia do prazer todas as demais actividades. encarregando-se também do seu transporte aos motéis e 5 Avançando pela estrada marginal. distante da cidade e com acesso precário. ao ponto de os habitantes locais até já a terem (re)baptizado com o nome de Puta Negra. o comércio e serviços prestados pelas barracas do areal.5 urbanísticos do Algarve e da costa andaluza espanhola. presença obrigatória em todos os catálogos e brochuras de promoção turística editados pelo governo estadual e pelo município local. que encontravam neste espaço paradisíaco. CD e DVD. com a ocupação de um litoral dunar muito sensível por um sem fim de hotéis e empreendimentos turísticos literalmente em cima do mar. os estupefacientes. os bares e as discotecas da avenida marginal. o desenvolvimento do turismo. directa ou indirectamente. os próprios agentes policiais. 5 Esta praia. primeiro Pirangi e Cotovelo. Todos os actores sociais envolvidos parecem saber com precisão o lugar ocupado nesta divisão social do trabalho do prazer. 6 Quer dizer. sente-se o carácter predador do turismo. incluindo aquelas ligadas ao sexo e ao consumo de estupefacientes. da praia como um lugar idílico. roupa. as lojas de artesanato. actualmente a praia mais cosmopolita do Rio Grande do Norte. que liga a zona de Ponta Negra ao velho forte construído pelos portugueses no século XVI. transportando-as de suas casas para a praia. É assim que temos. De forma recorrente cooperam entre si para dinamizar os consumos por parte dos turistas. Relevando o seu sentimento de perda. Nesta praia tudo parece girar em torno do sexo mercantil. mais tarde Pipa. um deles afirmou que “onde a civilização chega acaba com tudo”. em especial. a venda ambulante dos mais variados produtos (tabaco. sempre repletas de trabalhadoras sexuais. ao início da noite. Ponta Negra era qualificada como uma “praia de apelos sexuais” (Francisco 2004).

Os produtos mais pesados. com base na aplicação de um auto-rádio alimentado por uma pequena bateria e dois altifalantes de qualidade modesta parecendo quase sempre ligados na sua máxima potência. amêndoa de caju. muitos turistas aproveitam para recuperar da noite agitada. as políticas neoliberais empurraram milhões de brasileiros para o campo da economia informal. CD e DVD. para aí venderem e comprarem mercadorias. bebidas. aconselhando-os mesmo. gelados.8 Durante o dia. por vezes. como as bebidas. a mediação entre as garotas e os turistas pode envolver vários outros intervenientes.6 hotéis para as “transacções” com os turistas. crepes. de conviver com as garotas de programa. camarão. esta situação revela o papel social decisivo desempenhado actualmente pelas actividades informais no Brasil. frutas. Os barraqueiros alugam cadeiras e toldos. geralmente marcada por actividade sexual intensa e pelo consumo em grande quantidade de bebidas alcoólicas. servem bebidas e refeições. Marcada pela auto-exclusão quase geral dos natalenses das classes sociais mais privilegiadas. Além dos taxistas. Relevando o engenho dos seus proprietários e um certo sentido de negócio. alguns com belas pinturas. Ao mesmo tempo disponibilizam a estes contactos de garotas anotados nos seus books – agendas ou pequenos cadernos de registo de contactos telefónicos –. na escolha da parceira. durante o período diurno a praia é frequentada não só pelos turistas em busca de sexo mas também por outros tipos. Durante estas longas e fatigantes viagens tinham na “carne-sol” moída no pilão e misturada com farinha o seu principal alimento. são transportados em carrinhos de mão apresentados de uma forma impecável. Nada falta para o conforto de um tempo bem passado. 8 Não sendo relevante para a presente discussão. num vai-e-vem aparentemente ininterrupto. os carrinhos de venda de CD e DVD fazem-se anunciar através de equipamento sonoro simples. todavia. Foi uma invenção dos mercadores sertanejos que viajavam desde o sertão nordestino para as cidades do litoral. os comerciantes informais podem conseguir por mês rendimentos entre dois a três salários mínimos (cerca de 750 a 1000 reais). cremes solares. ora continuando a relação social já estabelecida. O uso social da praia varia consideravelmente do dia para a noite. nomeadamente o “familiar” e o de proveniência interna. ora aproveitando para estabelecer novos contactos. vendendo de tudo um pouco: roupa. Estes são realizados quase sempre por iniciativa das jovens Um dos pratos mais populares é a paçoca: carne seca moída acompanhada de molho vinagrete e feijão. não deixando. Ainda que muito variável. 7 os vendedores ambulantes percorrem a praia sem cessar. única forma de garantir a sobrevivência e o acesso ao consumo mercantil. 7 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . como por exemplo o comerciante da barraca e algum dos seus empregados. Incapazes de gerar emprego formal. mormente para Recife.

estas discotecas funcionam em regime alternado. em cada noite podem ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . em virtude do movimento não justificar outra solução. Pertencendo ao mesmo proprietário. que “é raro pegar na discoteca alguma mulher que não seja de programa”. algumas provenientes de outros Estados brasileiros. não deixam de ir retirando alguns benefícios desta economia do prazer. Diga-se. não raro com música ao vivo. Aos restaurantes e bares fixos juntam-se cerca de meia dúzia de barracas móveis. a exposição para o turista e a interpelação que se segue é feita de forma mais ou menos subtil: através da postura corporal. caipirinhas ou outras bebidas alcoólicas. Pará e Amazonas – os mais distantes. aliás. ou talvez para um destino mais afastado. extorquindo aos turistas que se deslocam em carros alugados pequenas quantias monetárias em troca do perdão de multas relativas a infracções reais ou imaginárias por eles cometidas. da solicitação de um cigarro. para onde converge a grande maioria das garotas de programa e dos turistas de Ponta Negra. como é o caso dos visitantes cujos hotéis se localizam na própria avenida da praia ou nas artérias adjacentes. quer circulando em viatura automóvel. do sorriso. A noite começa invariavelmente por algum bar ou restaurante. marcam também presença agentes da Polícia Militar. Ceará. outros transportados por táxis que estacionam na avenida. quer em posição fixa. Por norma. a diversão continua sobretudo na discoteca da avenida da praia de serviço nessa noite. Segundo o respectivo proprietário. como Paraíba. Como nota Piscitelli (2006). do olhar. de nacionalidade italiana. nomeadamente para a avenida que faz a ligação da praia ao centro da cidade. Turistas e garotas vão chegando. Maranhão. Depois de mais algumas cervejas. ao mesmo tempo que tentam obter das garotas de programa alguns serviços sexuais gratuitos. Daí segue-se para as barracas em frente das discotecas acima referidas. Se bem que exerçam um papel dissuasor da criminalidade. estas “[…] aproximações adquirem características de uma paquera […] remetendo a padrões tradicionais de cortejo”. montadas ao início da noite em pleno passeio mesmo em frente das duas discotecas da praia. Pernambuco – os mais próximos –. preparados para as corridas em direcção aos motéis ou aos hotéis onde eles se alojam. Para além destes actores sociais.7 nativas. o areal esvazia-se em favor do calçadão e dos estabelecimentos de restauração e de diversão alinhados ao longo da avenida que bordeja a praia. Assim que a noite se impõe. como um dos nossos informantes relevou. onde também existe animação nocturna. uns a pé.

Buscando aventura. quase sempre motivados pelas representações sociais dominantes sobre a sexualidade da “mulher 9 O’Connell-Davidson (1995: 53). sobretudo. perfis de masculinidade e estrato social. há uma certa preponderância dos indivíduos das classes populares (trabalhadores fabris) e. normalmente viajando em grupo (3 a 6 elementos). É neste espaço que as interacções entre turistas e garotas atingem um nível elevado de erotismo e sedução. Podendo prolongar-se por várias horas. profissionais técnicos). dos diversos segmentos das classes médias urbanas (empregados do comércio e dos serviços. os actores envolvidos dão-se a conhecer. idades. portanto. adverte que não existe nada de verdadeiramente particular ou distintivo nos seus comportamentos. sexo e romance: os gringos Os turistas que frequentam a praia de Ponta Negra à procura de aventuras sexuais evidenciam uma considerável diversidade no que diz respeito aos seus países de origem. com destaque para esta. motivações. na sua maioria jovens adultos (entre os 30 e os 40 anos). Embora seja inadequado falar-se de um perfil-tipo de turista sexual. homens insatisfeitos com as relações de género nos seus contextos de origem. existem determinados elementos caracterizadores que sobressaem. os gestos e o uso do corpo desempenham funções importantes. referindo-se aos turistas ingleses que procuram sexo comercial na Tailândia.8 passar por lá cerca de 300 mulheres à procura de programas com gringos. um turista típico no quadro do chamado turismo sexual. aferindo as expectativas de ambos. de um modo geral. 2. quando se diz que os turistas que vêm à procura de sexo são indivíduos sexualmente perturbados. nomeadamente em termos de duração do possível relacionamento. desejos e sexualidade. Ainda que se encontrem as mais diversas posições de classe. profissões. como por vezes se sugere. funcionários públicos. de que resulta a combinação de numerosos consumos sexuais de carácter mercantil. Não há. entre outros aspectos. Tratam-se de interacções definidas por um jogo de sedução no qual o discurso. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . São. preferências sexuais e recursos financeiros a mobilizar por parte do turista. Temos assim o predomínio de turistas de nacionalidade espanhola e italiana. 9 O seu comportamento deverá ser interpretado sobretudo por referência a condicionalismos de ordem sociológica.

com os estereótipos da mulher brasileira como sexualmente libertina e promíscua. eventualmente. especialmente válido para os turistas mais velhos. são muitos os que admitem preferir casar com uma mulher do seu país em detrimento de uma brasileira. “a brasileira é boa para transar. também constatada por Piscitelli (2006) entre os turistas que visitam Fortaleza. Apesar desta avaliação desfavorável à mulher europeia. Os turistas com quem falámos tendem a estabelecer uma diferenciação bastante vincada entre as mulheres brasileiras e as europeias. num registo de certo modo paradoxal. mais conservadoras. relacionado com as expectativas de revivalismo de experiências de homossociabilidade da juventude. Considerando que não dão tanto valor à aparência do homem como na Europa. de status ou de apresentação do eu. Alguns deles. destacam também que as garotas de programa têm um grande interesse pelo dinheiro. seja por motivos económicos. mais snobes”. ainda que daqui não se possa afirmar. em boa medida amplificadas pelos discursos mediáticos de impacto global e pelas narrativas dos amigos e conhecidos que se envolveram em experiências sexuais com brasileiras em viagens turísticas ao Brasil. dizem que as europeias são “mais frias. A estes dois elementos junta-se um terceiro. que elas ligam muito à aparência e à capacidade económica do homem. Deste modo. como veremos. ou seja. por razões que certamente se prendem com aspectos relacionados com a afinidade cultural e. a italiana é boa para casar”. técnico administrativo no porto de Nápoles. no sentido de estarem disponíveis para um relacionamento menos atado à fase do enamoramento em favor de uma interacção sexual mais imediata e intensa. solteiro. Como dizia um italiano. A maior dificuldade de acesso às mulheres que os turistas gostariam de conquistar nos seus contextos de origem. sobretudo os italianos. para os grupos de gringos que visitam Ponta Negra. com 31 anos. a procura de recriação dos laços e das vivências masculinas que antecedem a rotina e as responsabilidades da vida adulta (Kruhse-Mountburton 1995). mais altivas. classificam-nas como “mais simples”. Referem-se às brasileiras como mulheres sexualmente “mais quentes e mais afectuosas”. que a dimensão afectiva não esteja presente. sublinhando. o turismo parece ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . e o relativo constrangimento em conviver com uma feminilidade ocidental que continua a colocar algumas limitações às preferências e valores predominantes da masculinidade são dois elementos centrais a considerar para compreender o fenómeno do turismo sexual (O’Connell-Davidson 1995: 52). Em contraponto.9 brasileira”.

É precisamente num ambiente de anonimato. Como nota Franklin (2003: 255). atenuou. proposto por Cohen (1979) para designar os turistas que procuram. “o turismo sexual tem subjacente um potencial de rejuvenescimento […] o sentimento pessoal de conquista e poder que proporciona pode constituir uma compensação para um indivíduo que. “a liminalidade. O turismo sexual constitui. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . perante os quais se procura (re)afirmar os atributos de masculinidade (muito em particular os que dizem respeito à capacidade de conquista sexual) e. Neste contexto de excessos tem lugar um estreitamento dos laços homossociais entre os membros do grupo. assim. Jafari 1987. A sua estadia em Ponta Negra é marcada pelas constantes saídas em grupo para os bares e discotecas à procura das mulheres locais e pelo consumo desregrado de álcool e. os turistas que visitam Ponta Negra. como destaca Kruhse-MountBurton (1995: 197). ou seja. pela festa e transgressão (Bataille 1962) e pelos excessos dionisíacos (Benedict 1950). Santana 1997. em virtude da distância que os separa dos seus contextos de origem. sentir de novo o poder e o orgulho viril que a vida quotidiana. aventura e fantasia. de estupefacientes. o que nos permite incluí-los no tipo “hedonístico”. ao dever e à obrigação […] e também a liberdade para a fantasia. imaginação e aventura”. a deslocação temporária do turista da sua vida quotidiana. não raro. sexo e romance se encontram tão interligados”. caracterizado pela liberdade face às normas sociais quotidianas – situação social anti-estrutural –.10 assumir-se como uma experiência de liminaridade. que os turistas de Ponta Negra enveredam por um estilo de vida dionisíaco. No entender de Bauer e McKercher (2003: xiv). Desta forma. essencialmente. Delgado 2004). a diversão e o prazer como forma de ruptura com o quotidiano laboral. Com efeito. assim. é incapaz de manifestar qualquer tipo de autoridade efectiva”. decorrente de uma experiência de transição espacial e social. na sua vida quotidiana. explica porque é que turismo. parecem não manifestar qualquer tipo de preocupação ou constrangimento pelo facto de serem vistos na companhia de garotas de programa. “viajar proporciona anonimato e evasão face ao controlo. eventualmente. de ruptura face às restrições sociais da vida quotidiana (O’Grady 1981) e de (re)constituição de um espírito de communitas masculina (Turner 1974). uma expressão extrema da ruptura com a previsibilidade e os constrangimentos quotidianos que o turismo de massas ambiciona (MacCannell 1976. de um modo geral. amor.

pelo contrário. no essencial. A valorização dos afectos e das emoções por parte de muitos turistas constitui um traço identitário não enquadrável naquelas que são as expectativas sociais dominantes do que é ser homem. Dizem que os portugueses são “cafussú (querem comer [ter relações sexuais] de graça). um derivado da ilusão que as garotas de programa criam como estratégia comercial subjacente à sua actividade. procurando. Amiúde. nem tampouco exclusivamente. na maior parte dos casos. são eles próprios alvo de manipulação. parecem não nutrir grande simpatia pelo brasileiro. Só assim se compreende o facto de muitos deles desenvolverem relações de longa duração com uma única mulher que. questionar alguns discursos teóricos. concretizar as suas fantasias sexuais e afirmar a sua virilidade. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . retomam nos períodos de férias seguintes. mediáticos e do senso comum que. como também com vários outros aspectos que remetem para o domínio da afectividade. para as garotas de programa como simples objectos de satisfação sexual. Isto porque muitos dos turistas não procuram apenas gratificação sexual mas também intimidade. Na construção desta ilusão. da sua competência de sedução. portanto. De igual modo. que fodem bem. consequentemente como uma manifestação “subordinada” de masculinidade (Connell 1995). tendem a referir-se ao fenómeno do turismo sexual como um contexto no qual os homens poriam de lado as emoções e dariam livre curso à sexualidade. elas preocupam-se não só com as questões mais directamente vinculadas à esfera da sexualidade. como veremos. de acordo com os interesses económicos daquelas. em muitos casos. Impõe-se. Os turistas não olham todos. São. não resultam. de forma linear e acrítica. assim. mas pagam mal”. envolvimento e conforto emocional.11 As conquistas sexuais que os turistas tanto procuram exercitar. É precisamente tendo em conta este tipo de interesses que elas parecem não denotar grande preferência pelos portugueses. associando-lhe uma imagem de pé rapado (sem capacidade económica) e de machista. assumindo-se.

de estranhar as inúmeras construções acerca da competência emocional. levando-a mesmo a referir-se às trabalhadoras sexuais como “vendedoras de ilusões”: o cliente “[…] pensa que está a fazer amor com uma mulher. manipulando assim as suas impressões e fazendo-lhes acreditar na genuinidade da cena. A ilusão é-lhe presenteada a troco de dinheiro” (2004: 177). mas está a fazer sexo sozinho. não tendo efectiva consciência de que elas estão apenas a desempenhar o seu “papel”. gringos e garotas. erótica e sexual da mulher brasileira que emergem nos discursos dos turistas com quem falámos e em muitos outros que partilham as suas experiências no ciberespaço. as quais. partilhada por ambos. recusam beijar os seus clientes. 10 Neste processo estratégico de criação de uma “ilusão de ‘normalidade’” (Piscitelli 2006). O beijar na boca constitui um dos principais componentes do simulacro da sua rendição emocional. As garotas de programa parecem ser especialmente entendidas nesta arte de sedução manipulatória.12 3. por norma. a que não é alheia a própria alteração da geografia internacional do turismo sexual. Algo que foi também observado por Manita e Oliveira (2002) e Handman e Mossuz-Lavau (2005). mas também romance e emoção. Idêntica situação é constatada por Oliveira no seu estudo sobre a prostituição de rua na cidade do Porto (Portugal). Muitos dos turistas julgam mesmo como genuínas as atitudes e emoções das garotas de programa. 2005). Fazendo intimidades e aspirando a uma outra vida: as motivações e os projectos das garotas de programa Mais ou menos conscientes de que a uma grande parte dos turistas não interessa apenas o sexo pelo sexo. portanto. como uma forma de demarcação da fronteira entre a esfera profissional e a pessoal (Ribeiro et al. que deve ser entendido no contexto de uma representação do relacionamento como estando dentro da norma e do socialmente reconhecido como o namoro e o sexo monetariamente desinteressados. como amplamente o demonstra Piscitelli (2005). elas encenam uma realidade em função daquilo que julgam ser as expectativas dos gringos. Não são. para a disseminação de uma imagem (racializada) da mulher sul-americana altamente valorizada no mercado erótico. as garotas de programa constroem um simulacro (Baudrillard 1991) no qual se apresentam como completamente rendidas à capacidade de sedução e de conquista dos indivíduos que com elas interagem. 10 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .. contribuindo. o que nos permite Comportamento totalmente diferente têm as trabalhadoras sexuais que exercem a actividade na zona raiana de Portugal e Espanha.

13 dizer que o turista não compra apenas serviços sexuais. não raro. mas sim uma grande ambiguidade. permitindo-lhe conquistar e fidelizar clientela e. ou melhor. mais tarde. vivem como ‘reis’ ou playboys. 11 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . a que surge associada uma “[…] ilusão de ‘normalidade’ que possibilita aos visitantes não necessariamente se perceberem como clientes” (Piscitelli 2006). Nestes casos de relacionamento amoroso. como também (e sobretudo) uma ilusão de conquista. ser bancada (sustentada) por ele e. O’Connell-Davidson (1995: 45) refere o seguinte: “[…] todos os turistas sexuais que entrevistei comentam o facto de que. Debatendo a articulação entre a prostituição orientada para turistas na Tailândia e o fenómeno dos casamentos transnacionais entre nativas e estrangeiros. Cohen (2003: 66) mostra a frequente evolução e continuidade de uma relação comercial para uma relação matrimonial. esta vertente mercantil não desaparece. na Tailândia. geralmente. aquilo que começou por ser uma relação meramente prostitucional – prestação de serviços sexuais a troco de dinheiro – evolui para uma relação de um certo envolvimento afectivo. segundo o qual é obrigação do marido bancar a sua esposa. um simulacro no qual ele parece sentir-se inebriado de poder. destacando que não há uma fronteira nítida entre a prostituição e o casamento. em princípio em regime de exclusividade.” Esta é uma situação favorável à concretização dos interesses comerciais e/ou dos projectos de vida da garota de programa. de competência viril e crê ser um autêntico Don Juan. aos seus serviços sexuais. assumindo. ir para a Europa. A este propósito. eventualmente. sendo que a vertente mercantil associada à sexualidade começa gradualmente a tornar-se menos explícita. No entanto. poderá até permitir-lhe a realização do sonho da maioria das jovens que fazem programas em Ponta Negra: casar com um gringo. tendo como contrapartida o seu trabalho em casa e o acesso. No nordeste brasileiro é ainda bastante frequente o homem bancar a mulher. 11 Entra-se então aqui num contexto de “prostituição difusa”. estabelecer um relacionamento amoroso com um ou outro turista que a ajudará economicamente e que. configurações que fazem lembrar as obrigações que sustentam o tradicional contrato matrimonial patriarcal. ao ponto de se poder considerar o matrimónio com um estrangeiro como a consequência última do exercício do sexo comercial.

para satisfação ou prazer sexual. 14 Face a isto. pobres e maioritariamente mestiças. abrindo-lhes a porta para uma estilização da vida semelhante à fruída pelas classes mais privilegiadas. 2003). Enquanto espaço de Uma garota de programa que entrevistámos confidenciou-nos receber do seu namorado italiano uma quantia mensal na ordem dos três salários mínimos (cerca de 1000 reais. entre outros. em regra e prioritariamente. é forçoso sublinhar que o turismo sexual não se circunscreve necessariamente à prostituição. pelo lado da procura. 12 a aquisição de móveis para a casa. ajudas pontuais à família dela ou aos filhos. os ganhos mensais podem ser superiores a 4. sem ele saber. 4. É precisamente tendo em conta estes benefícios. Considerações finais A praia de Ponta Negra faz parte das rotas turísticas globais. começando já a destacar-se como um destino do chamado turismo sexual. 14 Ao colocar em causa a “ordem natural das coisas”. esta ascensão social de mulheres jovens. poderá estar na origem do desconforto que as camadas sociais privilegiadas de Natal manifestam relativamente à prostituição em Ponta Negra. continua a fazer programas.000 reais (cerca de 1.14 Os benefícios que a garota de programa retira de uma situação em que é bancada pelo gringo podem incluir a mesada. No entanto. Podendo esta existir (e normalmente está presente) em contextos turísticos. Nas situações em que as garotas de programa são bancadas por um gringo não há uma mercantilização directa e imediata da sexualidade. e na esteira do que é referido por Oppermann (1998. 12 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . a fruição da sexualidade em tempo de férias não tem de estar estritamente a ela associada.500 euros). não há de facto prostituição. suspendendo a actividade somente quando o recebe de visita em Natal. isto é. São benefícios extremamente significativos atendendo a que a generalidade delas provem das camadas sociais mais desfavorecidas. 13 Com programas por noite raramente inferiores a 150 reais. 13 que parece pertinente admitir que o trabalho sexual lhes permite um relativo empowerment económico e social. entendida aqui numa acepção restrita: a disponibilização do corpo em troca de remuneração material (designadamente monetária) e. a compra de serviços sexuais a troco de dinheiro. presentes diversos. o pagamento da renda de casa. ao ponto de se auto-excluírem desse local. 1999) e Cohen (1982. quantia equivalente a cerca de 300 euros) para abandonar a prostituição. bem como o facto de a maioria das garotas de programa ter um rendimento bastante considerável para a realidade brasileira.

Deste modo. Enquanto que os turistas mobilizam sobretudo os seus recursos económicos. de contingências várias presentes nos contextos em que ocorrem as suas interacções. em contraste com a debilidade económica da generalidade das mulheres locais com quem eles sexualmente se relacionam. não significa. Heyl 1979. incapazes de captar a densidade das relações sociais que envolvem turistas e garotas. os interesses e os desejos dos turistas e das mulheres locais. nomeadamente na esfera sexual. uma capitalização automática de poder. a possibilidade de as mulheres locais deterem algum nível de autonomia.15 acolhimento deste tipo de turismo. através do uso eficiente dos seus recursos. as jovens locais são muitas vezes capazes de inverter as posições. que lhes permite desafiar a desigualdade estrutural de género e os estereótipos dominantes que organizam a condição feminina. em boa medida. Admite-se. presente também noutros contextos de trabalho sexual (Barry 1979. aproveitando criativamente em seu próprio benefício as emoções e os desejos mais profundos dos seus parceiros vindos do outro lado do Atlântico. Daqui decorre que os turistas. Como argumenta Foucault (1992). questionamo-nos sobre quem explora quem na relação turista-garota de programa e encaramos com sérias reservas os discursos mais comuns que tendem a apresentar as trabalhadoras sexuais como a parte exclusiva e sistematicamente explorada. por si só. não é possível qualificar os turistas como indivíduos sexualmente pervertidos. Quer dizer. vinculados a práticas de envolvimento sexual marcadas pela violência e o completo descomprometimento ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Em lugar das visões a “pretoe-branco”. nem pode ser vista como o único factor determinante na configuração dos processos relacionais entre estes actores sociais. como tentámos mostrar através da mobilização dos elementos etnográficos recolhidos. não serão sempre os dominantes. portanto. Ao invés do sugerido pelos discursos do senso comum e outros. nela se exprimem e articulam de modo muito próprio as motivações. as garotas colocam em campo os seus atributos físicos e recursos eróticos. mas depende. o poder não está estruturalmente atribuído ad eternum aos indivíduos em concreto. Hart 1998). impõe-se considerar que uns e outras estabelecem relações sociais permeadas por complexos jogos de poder. Se bem que as suas interacções sejam atravessadas por poderes assimétricos. nem aqueles que sempre “ganham”. à semelhança de Oppermann (1999). nomeadamente sexuais. a alegada supremacia económica dos turistas. à semelhança do que acontece em muitos outros destinos. à partida favorecendo os gringos.

Este tipo de situações implica. continuam para além do tempo rigorosamente fixado da permanência do turista na cidade. Kathleen. Nova Iorque. desde logo. Thomas e Bob McKercher (orgs. Jean. Livros do Brasil. não está monetariamente quantificado. pelo menos de forma directa e imediata. Jean. não raro. Assim. 1994. Existe. Edições 70. Como os discursos e as observações etnográficas registadas o testemunham. empenham-se em estabelecer com eles relações de namoro. BATAILLE. 1991. Love and Lust. O Turismo em Portugal: Subsídios para o seu Conhecimento. Walker. A Sociedade de Consumo. La Famille en Crise. Stock. Simulacros e Simulação. Georges.. mais importante ainda. Avon Books. Female Sexual Slavery. 1989. Paris. Universidade de Aveiro. Referências bibliográficas ARROTEIA. BERRY-BRAZELTON. BARRY. Lisboa. 1981. Death and Sensuality: A Study of Eroticism and the Taboo. Sex and Tourism: Journeys of Romance. 2003.16 afectivo. Lisboa. através de um envolvimento mais duradoiro que pode incluir o casamento com o gringo e a emigração para o seu respectivo país. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Relógio d’Água. que se olhe para o turismo sexual como um continuum (Piscitelli 2006). uma considerável heterogeneidade nas relações que se estabelecem entre os gringos e as garotas. Jorge. New Jersey. Padrões de Cultura. 1962. s/d [1934]. BAUER. T. BENEDICT. Ruth. entre um pólo em que ele é coincidente com a prostituição e o pólo oposto em que o relacionamento sexual entre o turista e a garota de programa tem subjacente um maior envolvimento emocional e. Nova Iorque. Aveiro. portanto. BAUDRILLARD. Lisboa. BAUDRILLARD. Haworth Press.). Já as garotas guiam-se por desejos e projectos que não se esgotam na simples obtenção de um rendimento monetário em troca da disponibilização de serviços sexuais. aproveitando a receptividade de muitos turistas. 1979. bem como nos interesses que lhes são subjacentes. algumas acabam por o conseguir. o relacionamento sexual pode ser atravessado por afectos de grande intensidade que. Guiadas pelo sonho da vida na Europa. nas quais a componente mercantil acaba por se esbater de forma significativa.

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iniciaram-se outras formas de uso originando conflitos. sentimentos relacionados a valores morais. * Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal do Ceará/Brasil. a imagem de boémia. passou a ser associada ao turismo. turismo sexual e prostituição. começou a ser difundido um discurso sobre o fim da Praia de Iracema. Para tanto foi implementada uma política de atração de investimentos para a indústria do turismo. por parte do governo estadual. povoa o imaginário dos fortalezenses como um bairro boémio. O uso social dos seus corpos. estabelecendo a cidade de Fortaleza como um pólo turístico. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . mediante incentivos fiscais. o diálogo entre diferentes formas de ocupação do espaço e novas representações. entre prostitutas e gringos se relacionam com as novas formas de uso do espaço urbano. tem sido as políticas de intervenções em áreas históricas. financeiras e afectivas. desperta nos utentes do bairro. Ceará-Brasil. capital do Estado do Ceará. Momento. tem início na década de 1990. tradicionais e implementando nestes espaços públicos e/ou privados diferentes representações. de “modernizar” o Estado do Ceará. sentimento de pertença. um tema de grande relevância nas pesquisas sociológicas e antropológicas.Praia de Iracema como cenário de encontros de alcova Roselane Gomes Bezerra * Universidade Federal do Ceará A Praia de Iracema localizada na cidade de Fortaleza. ou não usos. No Brasil. descriminação e xenofobia. pertença. Após a requalificação do bairro no início dos anos 1990. Os conflitos decorrentes das trocas sexuais. que há um interesse. É notável nos estudos urbanos que a “requalificação” de áreas históricas e/ou degradadas da cidade vem acarretando em uma ruptura dos seus usos. por meio de projetos de “requalificação” urbana e conseqüentes alterações nos usos do espaço. Nos anos 2000. Uma nova imagem-síntese se constituiu associando-a ao lugar de prostitutas e gringos. Palavras-chave: requalificação urbana. Em Fortaleza. nos últimos anos. turismo.

assim como os processos simbólicos de inclusão e exclusão de seus utilizadores. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . a mídia tornou públicos problemas referentes à degradação física de algumas áreas e a ocupação de certos lugares. Ressalto ainda. e assim. Foi notável. por meio das narrativas dos utilizadores da Praia de Iracema. a construção e reprodução de sua imagem como um bairro boêmio e bucólico. O bairro Praia de Iracema passou a ser o cenário das políticas de requalificação em virtude das representações construídas ao longo de sua história. Nesse sentido. as representações sobre Iracema resultam das práticas. contribuindo para a expulsão e permuta de antigos moradores e freqüentadores. Veremos que. que os usos que se fazem nesse espaço não estão separados das imagens. Os utilizadores deste bairro reforçaram.2 As políticas de “requalificação” urbana em Fortaleza tiveram lugar no bairro Praia de Iracema. imagens e discursos dos utilizadores do bairro em diferentes momentos de sua história. a representação do bairro como lugar de prostitutas e gringos se relaciona diretamente com as formas de uso do espaço urbano. consumo cultural e turismo. O objetivo desses projetos de requalificação era transformar áreas “degradadas” em lugares de entretenimento. sentimento de pertença e afetividade desse espaço da cidade de Fortaleza. estas muitas vezes os orientam. ocorreu forte especulação imobiliária. Como conseqüência desse fenômeno. uma nova representação se constituiu para defini-la. Um breve passeio pela história da Praia de Iracema nos permite entender a constituição das representações. por meio dos seus discursos e práticas. na década de 1990. surgiram dissensões quanto às formas de ocupações desse espaço. começou a ser difundido por meio de jornais locais um discurso sobre o fim da Praia de Iracema com ênfase à sua degradação e abandono. uma disputa administrativa entre os governos estadual e municipal com interesse em atrair a atenção de moradores da cidade e de turistas para este bairro que se tornara a “vitrine” de suas políticas administrativas. Neste momento. quando a imagem de boêmia passou a ser associada ao turismo. no inicio dos anos 1990. Chegaremos aos dias de hoje percebendo como e porque a Praia de Iracema se tornara um cenário para encontros de alcova. No início dos anos 2000. após essas intervenções. associando-a ao lugar de prostitutas e gringos. Contudo.

inclusive por meio do epíteto Praia dos Amores. Houve também a instalação de clubes. “Um abaixo assinado é encaminhado. Desta forma.3 A origem da Praia de Iracema O surgimento do bairro Praia de Iracema. e o Hotel Pacajus. elaborava-se uma imagem do bairro associada ao bucólico e aprazível. de frente para o mar. tem início uma campanha. Como foi descrito por Schramm (2001). neste período.2001:37). residência da família Porto. foram inaugurados na Praia de Iracema os “balneários”. Groaíras. inclusive no que se refere à sua denominação. está associado à “descoberta” do banho de mar como medida terapêutica e também como contemplação e lazer por parte da elite econômica da cidade nos anos de 1920. pelos novos moradores do bairro. construída em 1925. apoiada pela imprensa local. Potiguaras. que expressasse os novos hábitos e valores. a mansão Vila Morena. o primeiro à beira-mar. quando a cronista social Adília de Albuquerque Morais lançou a idéia de que se construísse um monumento à heroína do romancista José de Alencar. entre outras” (Schramm. Devido as novas formas de apropriação desse espaço da cidade surgiu a necessidade de se forjar uma nova imagem para aquele lugar. Na época. As ruas do bairro ganharam nomes de tribos indígenas cearenses: Tabajaras. aluguel de calções de banho e guarda de pertences dos banhistas. ganharam fama o Jangada Clube. Esta elite intensificou a sua inserção na praia. a ser erigido na orla marítima. pequenas instalações comerciais. antes denominado porto das Jangadas. foi arrendada às tropas americanas e transformada em um ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . praia do Peixe ou Grauçá. Tremembés. solicitando ‘que mude a denominação imprópria e vulgar por que é conhecido aquelle encantador trecho de Fortaleza para a de Praia de Iracema’. fenômeno que “obrigou” os pescadores a mudaram-se para outras praias. Durante a Segunda Guerra Mundial. A primeira manifestação pública que permite antever o futuro nome do bairro ocorre em 1924. Guanacés. onde a um bar se agregava um local para troca de roupa. com a construção de casas alpendradas ou do tipo bungalow. freqüentado pela boêmia de classe média e alta da cidade. ao então prefeito Godofredo Maciel. para a oficialização da denominação Praia de Iracema. Em 1925. como o Praia Clube e o América.

especialmente a área conhecida desde o início do séc. o Porto do Mucuripe. talvez. 2001. através da seguinte canção: «Adeus. e ficou conhecido por suas noites com danças. (United States Organization). como pode ser lido nos trechos abaixo: Nestes próximos dias. principalmente no tocante às sociabilidades.. A transformação da paisagem obrigou a saída de antigos moradores e freqüentadores dando início a um discurso melancólico sobre a praia “que o mar carregou 1 ”. O interior do bairro.S. O compositor Luís Assunção contribui para a elaboração da imagem de afetividade da Praia de Iracema na cidade de Fortaleza. tornando-se atrativo para as moças da cidade. a antiga sede da United States Organization (U. também viveu transformações.O) e o do antigo ‘Ideal Clube’(. jogos e shows. enciumados. José Porto.. a Praia de Iracema começou a apresentar um novo cenário em virtude do avanço do mar.4 cassino pelos oficiais. Matérias do jornal O Povo lamentavam a sua destruição.S. com prejuízos para a própria estética da cidade (O Povo. Essa prática foi responsável por gerar uma disputa simbólica entre os moradores da cidade e os visitantes. o que acarretou também significativa diminuição da faixa de praia. os ricos ‘bungalows’ da nossa aristocrática praia. Denominado U. do sr. adeus/Só o nome ficou/Adeus. Praia de Iracema/Praia dos Amores que o mar carregou/Quando a lua te procura/Também sente saudades/Do tempo que passou/De um casal apaixonado/Entre beijos e abraços/Que tanta coisa jurou/Mas a causa do fracasso/Foi o mar enciumado/Que da praia se vingou».O. associando o encanto do bairro à sua apropriação pela elite. passaram a chamar por coca-colas as freqüentadoras do cassino dos americanos. 1 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . 27 de abril de 1946 apud Schramm. Parte do casario foi destruído em decorrência da alteração no movimento das correntes marítimas. a maré investirá com grande violência. Nesse período.) O fato é que estamos mais uma vez diante de uma situação difícil. decorrente da construção de um novo porto da cidade. A partir de meados da década de 1940. o lugar era quase exclusivo aos estrangeiros. pois se a maré próxima for impetuosa assistiremos à eliminação dos ‘bungalows’. grifos meus). XVIII por Prainha. Destacam-se entre os prédios mais visados pela fúria do mar os de propriedade da família João Gentil. a imprensa local começava a falar em decadência da Praia de Iracema. que ainda não era consumido na cidade. Os rapazes da terra. vindo a atingir. que se dirigiam ao local para namorar os oficiais americanos e beber o refrigerante coca-cola.

assim. o Restaurante Estoril. para “ver e ‘fumar’ o pôr-dosol”. 2001). que figurou. intelectuais. em meio às residências da população de classe média e classe média baixa do bairro: Tonny’s Bar. o Restaurante Lido. Os donos do espaço. Como nos mostra Schramm. Jangadeiro”(2001:47). que se encontrava em mau estado de conservação. que havia sido arrendado a comerciantes portugueses. defronte ao hotel. profissionais liberais e músicos. A partir desta década. Nos tempos do regime militar entre 1964-1985. na antiga residência da família Porto. Nick Bar. se consolida a imagem da Praia de Iracema como um bairro boêmio. também. Alguns bares surgiram nas ruas de toponímia indígena.5 Com a transferência do porto da Praia de Iracema para o Mucuripe. Os seus ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Praticavam. Eles compartilhavam o mesmo sentimento de pertença ou entendimento sobre o lugar e sobre os seus códigos culturais (Leite. se apropriaram também da Ponte dos Ingleses. onde existia o cassino dos americanos. ficando. Iracema era apropriada por utilizadores “marginais” em relação aos valores sociais vigentes. A Praia de Iracema tornou-se reduto de artistas. como pode ser visto nesse trecho de uma matéria publicada no jornal Tribuna do Ceará: “mesmo com as torturas rolando pelo país. o bairro foi “descoberto” por novos freqüentadores e se tornou um ponto de encontro de militantes de esquerda. Estes se reuniam no Restaurante Estoril. a vida [no bairro] era uma festa” (15 de janeiro de 1996 apud SCHRAMM. como casa de pasto que reunia a elite fortalezense. Iracema era apropriada por: jornalistas. políticos e amorosos. Era palco de encontros culturais. 09 de dezembro de 2004). Nesse período. era freqüentado por boêmios seresteiros. contudo. afamado o local de vida boêmia. “Na década de 1950. uma inversão dos valores e normas de disciplina da cidade. transformando-se em prostíbulos. foi inaugurado. a parte costeira do bairro ainda figurava como um lugar da elite econômica e intelectual. que funcionava desde 1948. 2001). que se dirigiam ao lugar para cantar e namorar. os armazéns e casas comerciais ligadas aos negócios de exportação foram fechados. militantes políticos e intelectuais. El Dourado. até os anos 70. Nos anos 1950. como afirma um ex-freqüentador (O Povo. ocupantes do Estoril.

O banho de mar perdera sua atração. terminou com os moradores chamando atenção do poder público. O público que se dirigia ao Bar e Restaurante Estoril e Ponte dos Ingleses. uma imagem de bairro decadente. da Praia de Iracema. diante das possibilidades de mudanças na lei de uso e ocupação do solo no bairro. para os problemas causados pela especulação imobiliária. respectivamente. 1985 e 1986. não tiveram êxito. deram inicio a uma “requalificação espontânea”. Em 1984. as tentativas de barrar as construções de edifícios verticais no bairro. Assim é que. ainda se restringiam aos intelectuais. era marginalizado por questões ideológicas. Contudo. profissionais liberais. atraíram diversos freqüentadores para o bairro. Nesse período iniciava-se a edificação de prédios com mais de dez pavimentos. antigos moradores mudaram-se do bairro. por meio da construção de casas de madeira ou papelão. Esse fenômeno ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . eram legitimados e compartilhados entre os usuários da Praia de Iracema. houve uma mobilização dos moradores e freqüentadores no sentido de sustar aquele processo e solicitar. Sob protestos. Durante a década de 1980. e havia uma ocupação irregular na margem da praia. entre meados dos anos 1960 e 1980. artistas e universitários. os usos na Praia de Iracema. As transformações vivenciadas ali durante a década de 1980. mesmo fazendo parte de uma elite da cidade. pois a pequena faixa de areia que restara recebia somente alguns poucos freqüentadores. a década de 1980. uma mudança nas formas de uso e apropriação do espaço. como o La Trattoria. Nesse período. inaugurados em 1981. que a Praia de Iracema fosse reconhecida como Patrimônio Histórico e Cultural da cidade. moradores e freqüentadores não aceitaram as transformações da sua arquitetura. o Cais Bar e o Pirata Bar. O bairro era habitado por famílias de classe média e baixa. com adesão de artistas e intelectuais. mas. alguns bares temáticos. além de algumas melhorias. sem um devido planejamento do poder público. por meio dos jornais. Entendendo como uma “destradicionalização” daquele espaço da cidade. porém. É importante ressaltar que Iracema vivenciou. ou seja. assim como a instalação de uma diversidade de bares e restaurantes em imóveis supervalorizados.6 comportamentos. foi fundada a Associação de Moradores da Praia de Iracema/AMPI e houve grande movimento pela sua preservação. políticos.

ao desordenamento do trânsito. A partir de então. juntamente com o arquiteto Paulo Simões. Outro problema que emergiu com as transformações na apropriação do espaço na Praia de Iracema foi a presença de pessoas que não tinham uma tradição boêmia. em junho de 1991. alguns gestores da cidade passaram a defender a tese de que a Praia de Iracema possuía uma “vocação natural para o lazer”. Assim. No cerne da polêmica.7 que chamo de “espontâneo” foi incentivado pela tradição boêmia do bairro e pela movimentação dos diversos freqüentadores que se dirigiam para alguns bares. empresários da noite se inseriram no bairro com uma grande oferta de bares e restaurantes. a paisagem transformou-se rapidamente. já não era prioridade a transformação do bairro em Patrimônio Histórico e Cultural. Em meio à disputa pelo espaço de Iracema. Nesse novo momento estavam na pauta das reivindicações dos moradores: o combate à poluição sonora. criou-se um clima de rivalidade entre os empresários estabelecidos e os recém-chegados. Juraci Magalhães. estava a questão de quem tinha direito ao bairro. graças ao seu passado boêmio. apresentaram para os moradores e comerciantes da Praia de Iracema um projeto de urbanização da sua parte costeira. Impulsionados pela freqüência desses estabelecimentos e vislumbrando a Praia de Iracema como um novo mercado. os moradores intensificaram suas lutas na defesa do bairro. à abertura irregular de estabelecimentos comerciais e à especulação imobiliária. com a presença de grande diversidade de estabelecimentos comerciais. o então prefeito de Fortaleza. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . mas. restaurantes e para assistir ao pôr-do-sol na Ponte dos Ingleses. Devido as novas formas de ocupação desse espaço e suas novas representações. Como conseqüência dessa “requalificação espontânea” que estava transformando a paisagem do bairro desde meados dos anos 1980.

Por meio de uma política de atração de investimentos. habitantes da cidade. esse espaço da cidade de Fortaleza passou a ser consumido por moradores de classe média e alta da cidade e também por turistas. As intervenções urbanísticas na Praia de Iracema podem ser associadas a uma disputa administrativa.2001). mediante inscrições arquitetônicas e urbanísticas que representem visualmente valores e visões de mundo de uma nova camada social que busca se apropriar de certos espaços da cidade (Leite. percebo um conflito na ocupação do espaço na Praia de Iracema.8 A Praia de Iracema “requalificada” Em 1994. como a construção do largo Luiz Assunção. entre os governos estadual e municipal. Neste sentido. a reforma da Ponte dos Ingleses e a reconstrução do Restaurante Estoril. Carlos Fortuna (1997). lugar de artistas e 2 Denominação dada por ex-freqüentadores e moradores do bairro. boêmio. restaurantes. De um lado havia os usuários. mediante suas práticas sociais e lembranças – baseadas na imagem de um bairro bucólico. 2001). Falava-se em “Miamização de Iracema 2 ”. hotéis. fala em “conservação inovadora do elemento tradicional”. há uma afirmação simbólica do poder. Havia um interesse político em estabelecer a cidade de Fortaleza como um pólo turístico. apareceram investimentos da iniciativa privada em bares. Nesse novo contexto. o bairro já apresentava diversos sinais da “requalificação” urbana. processo que tenta adequar as tradições locais às demandas globais do consumo cultural. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Paralelamente as intervenções nos espaços públicos do bairro. Em meados dos anos 1990. Consolidouse a imagem do marketing turístico na Praia de Iracema. que. Alusão a Miame (EUA). Na política de gentrification. o calçadão. essa política de reforma urbana na Praia de Iracema acarretou uma mudança nas práticas sociais e conseqüentemente foi proposta uma imagem do bairro. flats e pousadas. que em abril de 1994. Transformando a arquitetura vernacular em paisagem. mediante incentivos fiscais e da estratégia de Place Marketing (Gondim. havia desmoronado. um calçadão a beira mar já fazia parte do novo cenário de Iracema. nacionais e internacionais. por meio de obras da Prefeitura Municipal e do Governo do Estado.

. ou seja. já que o novo desenho arquitetônico impôs um controle social.2000). não tinha proposta. em segundo lugar todo mundo vendia a mesma coisa que era uma cerveja com petisco. Desta forma. O maior conflito em relação às novas formas de apropriação era quanto à falta de harmonia entre os bares e as residências que ainda restavam. incentivados por um marketing do lugar turístico. O poder público chegou fez um calçadão superlegal.9 intelectuais – forjaram um sentimento de pertença ao bairro. ou seja. Na fala de um empresário. ótimo. ou seja. eu só tenho a parabenizar. Esse processo desencadeou a monofuncionalidade com a predominância de bares e restaurantes no bairro. está a política de gentrification. ex-morador do bairro: “Os donos de bares daqui impõem um repertório na altura que querem e não se relacionam de modo democrático com sua vizinhança. que transforma a tradição na city marketing. esse fenômeno contribuiu para o início da imagem da degradação da Praia de Iracema. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . É o que pode ser constatado nesse depoimento de Hélio Rôla. uma grande valorização dos imóveis e conseqüente aumento nos valores dos aluguéis e dos serviços e produtos ofertados. Como anota Leite (2001). É inevitável uma asfixia da Praia de Iracema” (O Povo. você nem andava pelo calçadão. onde moradores e freqüentadores antigos se tornam outsiders. habitantes da cidade e turistas. Então você tinha três milhões de bares. ou seja. Foi vivenciado naquele bairro o que Carlos Fortuna (1999) chama de “sociabilidades efêmeras”. não tinha proposta comercial dentro da Praia de Iracema (..) não deviam ter liberado tantos alvarás pra tanta gente devia ter escolhido o que fazer em cada lugar. o modo como as práticas sociais criam seus nexos identitários com os lugares sociais colide muitas vezes com as formulações abrangentes das políticas oficiais da cultura. a Praia de Iracema se tornou um lugar de consumo para os novos utilizadores que passaram a ocupar aquele espaço. o que foi presenciado na Praia de Iracema foi uma supervalorização dos “produtos vendidos”. uma “descoberta” do lugar para “novos freqüentadores”. foi assim ao leu e então como não tinha nenhuma proposta desinchou a Praia de Iracema deixou de ser moda o fortalezense enjoou (Entrevista concedida em 27 de abril de 2005). aí dá aquele inchaço onde toda casa por menor que ela fosse era um bar. Como a “requalificação” conduz ao “consumo do lugar” (Zukin. maravilhoso. o processo de “requalificação” acarretou um choque de valores. não teve. 3 de junho de 1995). De outro.

cinemas. Além dos hippies. concorrendo para a construção da representação de bairro degradado e lugar de prostitutas e gringos. auditório. A sua implementação não considerou os “trajetos” (Magnani. com cinco prostitutas voltando da Itália (Entrevista concedida em 27 de abril de 2005). como assalto aos freqüentadores. também passaram a incomodar alguns utilizadores do bairro. mendigos. O Dragão do Mar projetou uma intervenção no bairro que se refletiu por toda a Praia de Iracema. Adentravam o bairro atores sociais que não comungavam com os códigos da disciplina dos espaços “equalificados” como os hippies. os freqüentadores da Praia de Iracema foram paulatinamente procurando outros lugares de lazer. 2000) de ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . No seu entorno. Iniciavam-se também as denúncias de violência. típica dos processos de “requalificação”. além de praças. Nesse sentido. no final dos anos 1990. E a Praia de Iracema “requalificada” começou a apresentar sérios problemas no tocante à ocupação do espaço e manutenção dos espaços reformados. museus. Leiamos a fala de um empresário da Praia de Iracema: Essa imagem [da degradação] se dá porque no início não teve uma boa divulgação do turismo [internacional] aqui do Estado. loja de artesanato e bares. 300 machos vindo. que dava os seus primeiros passos rumo ao dissídio na ocupação daquele espaço. meninos em situação de rua. boates e casas de shows. livraria. não permitiu uma nítida visualização dos contra-usos. sob a forma de uma arquitetura eclética e pós-moderna. turistas estrangeiros e prostitutas. foi inaugurado o Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura. os turistas internacionais e as “garotas de programa”.10 Outro fenômeno a ser ressaltado é que a “política de controle social”. como a expulsão dos hippies. Como parte da dinâmica de ocupação dos espaços da cidade. passaram a existir bares. um planetário. onde havia antigos armazéns desativados. café. Em 1999. vendedores ambulantes. os protestos dos moradores ganharam novos temas. os poucos turistas [estrangeiros] que vieram pra cá foram vôos italianos e alemães e no início o vôo dos italianos foi péssimo conseguiram acabar com esse vôo tem pouco tempo atrás que era assim. dando maior visibilidade aos hippies. Este equipamento passou a oferecer teatro.

abrindo espaço para instalação de boates algumas com shows de striper. pois os utilizadores da Praia de Iracema passaram a ser predominantemente. principal rua do bairro. a harmonia superficial. Fausto Nilo. passando a ser ocupado predominantemente pelos hippies e meninos em situação de rua. ele esclarece que o projeto original previa um “corredor” de ligação entre a parte costeira do bairro o Centro Dragão do Mar. a partir do inicio dos anos 2000. inclusive o tradicional restaurante La Trattoria e o Cais Bar. Esse fenômeno redesenhou a Praia de Iracema a partir dos seus usos e contra-usos. No ano de 2004. mais da metade dos novos estabelecimentos já haviam sido fechados. prostitutas. O calçadão apresentava muitos trechos com buracos e a grade de proteção quase toda quebrada. Os bares e restaurantes gradativamente foram sendo fechados. instalado no bairro há quase vinte anos. e teve seus pontos comerciais e observatório de golfinhos desativados. O Largo Luis Assunção deixou de ser ocupado por famílias nos finais de tarde. 3 Em entrevista com um dos arquitetos do projeto do Centro Dragão do Mar. hippies. a Praia de Iracema passou a abrigar duas “manchas” (Magnani. como uma casa que favorecia a prostituição. deixando um terreno baldio no meio da rua dos Tabajaras. contudo por falta de verbas a ligação não foi estabelecida. No inicio dos anos 2000. ou seja. por intermédio do não-respeito aos códigos culturais do lugar ou da falta de um entendimento mínimo sobre o que eles representavam. Este fato produziu um conflito na apropriação do espaço daquele bairro. conhecida na cidade de Fortaleza. mendigos. Assim é que. espaços praticados (Marc Augé.11 seus utilizadores 3 . Em janeiro de 2003 a pizzaria Geppo’s fechou. construída nestes “lugares de consumo”. turistas estrangeiros. A Ponte dos Ingleses ficou sem iluminação. Quando os espaços “requalificados” tornam-se “lugares”. foi sendo cortada pelos contra-usos. afirma que a nova representação surgiu a partir da instalação de uma boate. os problemas referentes à ocupação do espaço na Praia de Iracema se agravaram.2000) de lazer com sociabilidades e temporalidades distintas. ambulantes e meninos em situação de rua. 1994). Este fato contribuiu para enfatizar ainda mais a representação do bairro como lugar de prostitutas e gringos. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Os novos freqüentadores saíram em busca de novos lugares. pois grande parte do público freqüentador da parte costeira da Praia de Iracema passou a ocupar esse novo espaço. Um empresário.

a fronteira para o lugar dos habitantes ficou muito tênue. não existiu um respeito às demandas dos moradores do bairro. Como resultado desse processo. Nesse sentido. Esse fenômeno contribuiu para a saída da maioria dos moradores.. (. por parte do Poder Municipal. sem um devido planejamento. poluição sonora e desordenamento do tráfego. Frente a este panorama que se estabeleceu na Praia de Iracema. 1997). a tradição boêmia de Iracema foi comercializada por meio de uma política de incentivo ao turismo no Estado do Ceará.. se vier um puteiro vem todos os puteiros da praia.. no dia que o África’s vier. Este fenômeno gerou uma disputa pela ocupação do espaço urbano. ou seja. porque a gente pensava assim. ou seja. Ele fazia o seguinte: montava um restaurante achava um investidor em Portugal e dizia olha eu tenho um restaurante maravilhoso pra você ele montava o restaurante pras pessoas ai o cara vinha de lá pra cá com o restaurante montado comprava o restaurante e achava que tinha um ponto super bem feito e vinha pra trabalhar quando chegava aqui ele tinha um puteiro.. contudo. o cara muitas vezes vinha com boa fé tinha muita gente que vinha com boa fé e ficavam com um puteiro nos braços (Entrevista concedida em 27 de abril de 2005).) Depois apareceu um português que era o maior trambiqueiro. acarretando a monofuncionalidade do bairro. Ocorreu uma intervenção no espaço urbano. que tentam adequar as tradições locais às demandas globais do consumo cultural (Carlos Fortuna. Segundo. houve ingerência quanto à ocupação do espaço. e foi dito e feito. tendo como ícone o bairro Praia de Iracema.) a gente fez toda uma campanha pro África’s não vir. a própria dinâmica da cidade e do turismo nacional e internacional foi determinando as novas faces de Iracema. O cenário atual da Praia de Iracema Após essas intervenções arquitetônicas esse bairro se apresentou como um lugar turístico. tornando visível a existência de ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .12 A deterioração começou por que? Porque em primeiro lugar deixaram construir o África’s [boate conhecida na cidade por shows de striper] (. Primeiro houve a execução das políticas de gentrification. entendo que a nova representação é um reflexo das práticas sociais e das condições espaciais de algumas áreas do bairro.

taxistas. 5 Os entrevistados na pesquisa de terreno na Praia de Iracema foram: moradores. Por meio deste modelo de análise de conteúdo está sendo possível identificar “expressões conceituais”. empresários. trabalho e futuro. emerge nesse bairro. sentimento de pertença. bancos quebrados. ou seja. Lisboa: Ed Âmbar. entre outros problemas. hippies e meninas freqüentadoras das boates. ex-moradores. No cerne da questão percebo que temas relacionados a “requalificação” urbana. Os moradores do bairro passaram a denunciar por meio de suas narrativas que. vendedores ambulantes. o diferente. proprietários de boates. sobressalto. o uso social dos corpos dos turistas estrangeiros. Estas levam a percepção de categorias definidoras do “mito fundador” da nova representação do bairro. Siglo Veintiuno de España Editores. Outros falam em degradação social. moradores do bairro Praia de Iracema. enleio. A pesquisa etnográfica me permitiu perceber que existe um dissenso nas opiniões quanto à representação da degradação. freqüentadores da Ponte Metálica. Devido a essa simbologia negativa os habitantes do bairro estão buscando justificativas para a emergência dessa representação. tema tão caro à produção antropológica. José. turismo.13 conflitos simbólicos decorrentes do encontro entre alguns habitantes de Fortaleza. com quem andam e como se comportam. envolto ao espanto. análise sóciosemântica e análise interpretativa 4 . El Presente de su Futuro. o que fazem. a de estafeta. turismo sexual e prostituição fazem parte dessa nova representação da Praia de Iracema. valores morais. Esta metodologia foi desenvolvida por: Captolina Díaz Martinez. É perceptível uma admiração. Modelos de Autopercepción y de Vida entre Adolescentes Españoles. falta de iluminação. A utilização deste modelo de análise de conteúdo segue o método de investigação adotado por: Machado Pais. estava a contribuir para uma reafirmação da representação do bairro como degradado e lugar de prostitutas e gringos. 1996. e associam a representação atual à presença do turista estrangeiro e suas acompanhantes. 2005. entre alguns nativos e o turista. Distribuindo pizas: vida estafada. globalização. Madrid. turistas estrangeiros e suas acompanhantes. O encontro com o “outro”. 4 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . segundo meus interlocutores 5 . tachos e biscates – jovens. Alguns utilizadores do bairro falam em degradação espacial. Aplicando a metodologia de análise de conteúdo que venho utilizando na apreciação dos dados apresentarei a seguir a análise de conteúdo das narrativas. erosão no calçadão. In Ganchos.

ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . a partir de sua obra de referência. Contudo. Estas têm um significado social. Seguindo este modelo de análise de conteúdo é importante ressaltar que a proposta da autora 6 é desenvolver um método de análise “não-redutivo”. que reafirma a imagem da Praia de Iracema como lugar de prostitutas e gringos. o entrevistado está a fazer uma analogia com o turista estrangeiro pobre identificado por alguns utilizadores do bairro como pessoas com emprego precário na Europa e com pouca qualificação escolar. Os conceitos estão encarnados em expressões literais. vem com umas macacas que se você vê as macacas você corre. quando os membros do grupo. dos sujeitos da pesquisa. El Presente de su Futuro. todo inchado. Neste modelo de análise o investigador deve “traduzir” a conceitos as “expressões lingüísticas”. aquele cheio de tatuagem. depende do entendimento por parte do grupo pesquisado. Ao se referir ao gringo cheio de tatuagem e inchado. É importante ressaltar que o processo de “homologação conceitual” é próprio do pesquisador ao empregar suas habilidades de intuição lingüística e social. ou narrativas. a sua fala parece ininteligível se relatada em outro contexto: Quem vem aqui é o gringo.. entendem o significado dessa expressão. de pele morena. as “expressões conceituais” são produzidas pelos sujeitos da pesquisa e não pelo pesquisador.. de quem as explicitaram. Apresento abaixo a fala de um empresário do bairro. que namoram ou fazem programa com os turistas estrangeiros. 6 Estou fazendo alusão a Capitolina Martínez autora deste modelo de análise de conteúdo. o significado social das expressões. contudo a relação entre os conceitos e suas “expressões literais” não é unívoca: distintas expressões literais podem representar o mesmo conceito (sinonímia) e a mesma expressão literal pode representar distintos conceitos (homonímia). E “macacas” é uma expressão utilizada para se referir as garotas pobres.(1996).14 Das expressões conceituais ao “mito fundador” da nova representação de Iracema Identifiquei as “expressões conceituais” aplicando o método de análise voltado para a percepção de “homologias conceituais”. uma expressão pode incluir vários conceitos. Assim como. uma série de unidades de significados. Assim. as quais devem ter um significado autônomo. o qual conserva duas operações: 1) se seleciona dentre os textos. Contudo.

Assim. (Entrevista com um morador que reside há 32 na Praia de Iracema. Concedida em 02 de agosto de 2005). o que mantém é o fortalezense. começou a chegar boates e o fortalezense deixou de andar aqui. relacionadas à construção do “mito fundador” da representação da degradação e lugar de prostitutas e gringos. porque o que mantém um restaurante não é turista. Como conseqüência. Narrativa um: Hoje a Praia de Iracema é dominada por menores infratores. a lista de conceitos se estrutura em dois níveis. Assim. é o pessoal daqui ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . não é bom para a capital é o turista que vem a procura de drogas e prostituição. com a presença do turista estrangeiro. A apreciação de uma lista de conceitos e palavras-chave permite ao pesquisador agrupar famílias de conceitos similares. Para isso coloca-se as unidades soltas (palavras-chave) frente às unidades complexas (orações conceituais) de que formam parte. Narrativa dois: Os bares começaram a fechar porque encheu de gringo. os conceitos específicos definem reciprocamente os seus significados através da interação dos diversos conceitos. o processo de “homologação conceitual” não só funciona a partir dos significados isolados das orações conceituais. prostituição e turistas estrangeiros que não é o bom turista. uma “categoria” é um conceito geral que deriva de uma família de conceitos concretos por sua vez derivados de orações particulares. 2) a especificação do significado das ditas unidades tem de ser redefinida observando seus contextos: uma unidade dada pode está localizada em distintos contextos e a interação entre esses contextos deve redefinir o significado da unidade em questão. estas constituem as “categorias”. Por meio deste método proposto por Martínez (1996). extratos de quatro entrevistas que associam. Para chegar a estas “categorias” selecionei diversas “expressões conceituais” dos meus entrevistados. e sua representação hoje. que relatam as mudanças vivenciadas no bairro a partir dos anos 1980. A seguir apresento. mas também por meio de palavras-chave.15 parcialmente livre do contexto. a nova representação do bairro. com os significados concorrentes de distintas orações conceituais. Ao utilizar esse modelo de análise de conteúdo identifiquei “categorias” que caracterizam fases da história recente do bairro Praia de Iracema.

o modelo de desenvolvimento. o turista melhora [o movimento]. dessa coisa gostosa da beira da praia e tudo.) (Entrevista com um morador. Os bares começaram a fechar porque encheu de gringo. as pessoas faziam questão de vir aqui pra usufruir a beleza do ambiente. Concedida em 19 de maio de 2005). (Entrevista com uma moradora.. (Entrevista com um empresário. A lista de palavras que tem significados relevantes é: Prostituição Turistas estrangeiros Drogas Boates A lista de conceitos contempla: A Praia de Iracema é dominada por menores infratores. não é isso porque sempre foi dessa forma e as pessoas vinham. hoje em dia as pessoas não vem mais aqui porque ficam incomodadas com essa invasão de prostitutas e de gringos que tem aqui.16 que vai com a família. (.) As soluções pra mim. Narrativa três: Eu acho. implementado no Estado. Turista (estrangeiro) que vem a procura de drogas e prostituição. não é pelo simples fato de que está quebrada. as pessoas não andam mais na Praia de Iracema. (.. traz os vendedores ambulantes (. esse turista qualquer que venha pra cá e manter as mulheres que eles quiserem. estão loteando as praias para fazer os resortes. seria em primeiro lugar. fechar essas boates porque eu acho que elas é que trazem todos os outros problemas. prostituição e turistas estrangeiros.. não tem iluminação. Começou a chegar boates e o fortalezense deixou de andar aqui. traz a prostituta.. mas as despesas do dia-a-dia são tiradas com o pessoal daqui.) tudo isso para dá a esse turista europeu. os modelos de turismo que a gente tem no Estado. que não tem segurança. traz o menino de rua. Residente há 25 anos na Praia de Iracema. Gringo Taxista Vendedores ambulantes ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . (O problema é) o modelo de turismo que a gente tem no Estado. é o modelo dos hotéis que estão destruindo as comunidades dos povos do mar. isso é o modelo de turismo que a gente tem aqui. que a Praia de Iracema é uma ponta de iceberg. de 34 anos. Concedida em 23 de agosto de 2005)... Narrativa quatro: O gringo traz o taxista. Concedida em 19 de maio de 2005). que sempre residiu na Praia de Iracema.

Cultura e Globalização: Ensaios de Sociologia. Fase do bairro Características Categorias “Mito fundador” de Chegada dos turistas Os bares começaram a Invasão de prostitutas e Presença estrangeiros – gringos. O fortalezense abandona o bairro. Celta. da representação do bairro como degradado e lugar de prostitutas e gringos. a O fortalezense abandona chegar o bairro.17 Quadro 1: A presença de gringos como um “mito fundador” da representação da degradação. taxista. Paisagens Culturais. Fechamento de bares. Oeiras. Com o gringo veio o Surgimento de boates. Carlos (org. gringo. gringos. fechar porque encheu de gringos. Começaram boates. ___________. São Paulo: Papirus. Oeiras: Celta Editora.) Cidade. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Referencias Bibliográficas AUGÉ. 1997. a prostituta. Neste sentido. Percursos. Não-Lugares. e os vendedores ambulantes. financeiras e afetivas entre os turistas estrangeiros e suas acompanhantes se relacionam diretamente com o uso e apropriação do espaço na Praia de Iracema. os conflitos decorrentes das trocas sexuais. Identidades. A análise de conteúdo das narrativas me permitiu identificar que a chegada do turista estrangeiro é considerado o “mito fundador”. Alguns utilizadores do bairro entendem que a chegada dos novos freqüentadores. FORTUNA. 1994. Estudos Sociológicos de Cultura Urbana. contribuiu para sua identificação com um cenário de encontros de alcova. sem um sentimento de pertença ao bairro. Marc. o menino de rua. 1999.

tachos e biscates – jovens. 2005. In Revista de Ciências Sociais. 09 de dezembro de 2004.Fapesp. Política e Cultura. Campinas. PAIS. 2000. Sharon. Programa de PósGraduação em Sociologia. Fortaleza. Era uma vez a Praia de Iracema. Lisboa: Ed Âmbar. José Machado. 1996. Captolina Díaz. Linda. Airton. 03 de junho de 1995. 2000. LEITE. trabalho e futuro. Caderno Vida e Arte. Modelos de Autopercepción y de Vida entre Adolescentes Españoles. Madrid: Siglo Veintiuno de España Editores. Território livre de Iracema: só o nome ficou? Memórias coletivas e a produção do Espaço na Praia de Iracema. 2ª Ed. Rogério Prença de Sousa. TORRES. “Paisagens urbanas pós-modernas : mapeando cultura e poder” In Antônio Arantes (org. 2001. Campinas: Papirus. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . 2001. 2001. Na metrópole: textos de antropologia urbana. MONTE. José Guilherme Cantor. SCHRAMM. MARTINEZ. Lilian de Lucca (orgs). 32. impresso. Universidade Estadual de Campinas. Imagens da Cidade ou Imaginário Espacial? Reflexões sobre as relações entre Espaço.18 GONDIM. Solange Maria de Oliveira. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo. O POVO. a Propósito da Praia de Iracema. Periódicos ARTE guarda memória da PI. Números ½.) O espaço da diferença. Vol. Espaço público e política dos lugares: usos do patrimônio cultural na reinvenção contemporânea do Recife Antigo. Fortaleza. El Presente de su Futuro. impresso. O POVO. MAGNANI. Fortaleza. Ganchos. ZUKIN. Universidade Federal do Ceará.

Portugal é dos únicos países da Europa com legislação fortemente restritiva à prática de interrupção voluntária da gravidez. da maternidade e da vida. Malta e Polónia. Este processo que com diferentes momentos de intensidade vem animando o debate político na sociedade portuguesa esgrime questões tão instigantes como as representações culturais da mulher.O Kula revisitado? A cultura dos direitos na luta pela despenalização do aborto Madalena Duarte Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra madalena@ces. pelo facto de se inscrever nas formas de acção política ditas radicais ao mesmo tempo que sustenta a sua acção no cumprimento da lei. Women on Waves. uma perspectiva de análise ao mesmo tempo privilegiada e problemática.uc. que pretendo formular nesta comunicação algumas reflexões sobre o momento cultural e político então criado Palavras-chave: direitos/género/cidadania/movimentos sociais 1. É a partir da minha experiência de activista neste processo. Este processo que com diferentes momentos de intensidade vem animando o debate político na sociedade portuguesa esgrime questões tão instigantes como as representações ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Introdução A luta despenalização do aborto em Portugal constitui uma das aspirações mais emblemáticas na enunciação dos direitos das mulheres no contexto português. A recente viagem deste barco que se propunha a realizar interrupções voluntárias da gravidez em águas de jurisdição internacional ― onde prevaleceria a lei holandesa ― de bandeira do barco. foi um fenómeno singular na sociedade portuguesa: pelo aceso debate que suscitou na opinião publica.pt A luta despenalização do aborto em Portugal constitui uma das aspirações mais emblemáticas na enunciação dos direitos das mulheres no contexto português. Elemento este que foi mobilizador para uma conciliação de esforços entre algumas organizações portuguesas e estrangeiras com vista a à vinda do célebre barco da organização holandesa. e pela circunstância de constituir uma forma de acção política sobre uma legislação nacional com um desenho exuberantemente transnacional. O interesse deste quadro histórico não se restringe às nossas fronteiras. concitando ainda relevantes momentos de análise das dinâmicas democráticas sobre o direito e a transformação legislativa. juntamente com a Irlanda. dado que.

que pretendo formular nesta comunicação algumas reflexões sobre o momento cultural e político então criado e sobre as estratégias encetadas pelo movimento. Em ambas as publicações é feito um importante retrato histórico da luta pela despenalização do aborto em Portugal. Malta e Polónia. 1998 e 2003 e UMAR. Uma análise mais detalhada desta análise cronológica obriga. foi um fenómeno singular na sociedade portuguesa: pelo aceso debate que suscitou na opinião publica. 1 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . pelo facto de se inscrever nas formas de acção política ditas radicais ao mesmo tempo que sustenta a sua acção no cumprimento da lei. 2. concitando ainda relevantes momentos de análise das dinâmicas democráticas sobre o direito e a transformação legislativa. 1999. à sua consulta.2 culturais da mulher. Women on Waves. juntamente com a Irlanda. A contextualização da luta 1 O direito da mulher à interrupção voluntária da sua gravidez não foi consagrado no conjunto de direitos das mulheres adquiridos após o 25 de Abril com a Constituição da República Portuguesa de 1976. É a partir da minha experiência de activista neste processo. pois. uma perspectiva de análise ao mesmo tempo privilegiada e problemática. Elemento este que foi mobilizador para uma conciliação de esforços entre algumas organizações portuguesas e estrangeiras com vista a à vinda do célebre barco da organização holandesa. Os finais da década de 70 são. pois. da maternidade e da vida. marcados por um esboçar daquela que viria a ser uma luta forte pelos direitos das mulheres nas décadas Neste ponto sigo de perto Tavares. A recente viagem deste barco que se propunha a realizar interrupções voluntárias da gravidez em águas de jurisdição internacional ― onde prevaleceria a lei holandesa ― de bandeira do barco. O interesse deste quadro histórico não se restringe às nossas fronteiras. Portugal é dos únicos países da Europa com legislação fortemente restritiva à prática de interrupção voluntária da gravidez. dado que. e pela circunstância de constituir uma forma de acção política sobre uma legislação nacional com um desenho exuberantemente transnacional.

Não obstante esta resistência e críticas. Em simultâneo a Igreja Católica começa a firmar a sua posição publicamente. Logo em 1975 é criado o Movimento para a Contracepção e Aborto Livre e Gratuito que exigia a despenalização do aborto em Portugal e a difusão e informação sobre contraceptivos em Portugal. Em 1983. Na década de 80 o aborto entra na agenda política. entre elas a UMAR. demonstrando uma total oposição a qualquer medida legislativa que autorize o aborto. consequência das acções do movimento feminista e dos julgamentos da década de 70. em 1979. partidos políticos como o PS e PCP anunciam a preparação de propostas de lei sobre a despenalização do aborto. conhecendo algumas destas uma visibilidade social que as mantém ainda hoje como importantes actores nesta luta. Estes projectos. e partidos de esquerda tomam posições públicas contra este projecto-lei. APF e MDM. Não só os partidos políticos. como os sindicatos começam a ter iniciativas neste domínio. também. nomeadamente da UDP (1980) e do PCP (1982) para que a mulher possa interromper livremente a sua gravidez até às 12 semanas. Surgem projectos-lei. 1999). a emergir associações e organizações feministas que têm a despenalização do aborto como bandeira e que o assumem publicamente (UMAR. é entregue uma petição de 5 mil assinaturas na Assembleia da República exigindo a despenalização do aborto. 2003). cria-se a Campanha Nacional pelo Aborto e Contracepção (CNC) que incorpora várias associações feministas e que se começa a mobilizar para mostrar solidariedade para com as mulheres julgadas por aborto. é a vez do PS apresentar um projecto-lei. que é considerado ainda mais restritivo do que o do PCP. Várias associações feministas. contudo não deixam de representar um caminho no sentido da despenalização. são considerados algo limitativos no que concerne aos direitos da mulher (Tavares. Nas galerias do ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Em 8 de Março de 1977. porque consideram que. uma vez que não prevê sequer razões económicas para uma mulher interromper a sua gravidez (UMAR. com ele. E. é precisamente este projecto que vai ser aprovado em Janeiro de 1984. em consequência.3 seguintes. entre outras). Começam. o aborto clandestino em Portugal vai continuar a ser uma realidade. Estes julgamentos. entre eles o de uma jovem alentejana. rapidamente chegam à imprensa internacional e. Os projectos-lei são chumbados em Assembleia da República e fica na história a imagem de 12 mulheres da CNAC nas galerias do parlamento envergando uma camisola com a inscrição “Nós abortámos”. sobretudo o do PCP.

assim que é aprovado o projecto. pela publicação de artigos. o movimento anti-escolha. por exemplo. 2 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . em Fevereiro de 1997. em Portugal. na sua maioria. em 1996. com 36 anos e três filhos. se a gravidez resultar de violação (16 semanas). a iniciada em Fevereiro de 1997 “Não matarás o zezinho”. quer por parte dos partidos políticos (Tavares. De acordo com esta lei (Lei nº 6/84. A indignação e o mal-estar público levam a que algumas deputadas do PCP e do PS acusem os deputados que votaram contra os projectos-lei apresentados de contribuir em grande medida para situações como esta. no dia internacional da mulher. de forma incurável de doença grave (24 semanas). as mulheres que se fazem abortar e as pessoas que realizam a intervenção estão a cometer um crime. que desenvolve campanhas ancoradas moralmente impactantes como. sendo que o da JS não é aprovado por um voto. se houver sério risco para a saúde física e mental da mãe (12 semanas). e como consequência de notícias na imprensa de que a PJ estaria a investigar 1200 mulheres que tinham abortado numa clínica clandestina em Lisboa. Foi. se a discussão parlamentar dos projectos-lei constitui um novo alento para o movimento pela despenalização que começa. de 11 de Maio). vítima de aborto clandestino. É esta a lei que está hoje em vigor 2 . A luta continua”. 2003) e. Mas. a reerguer-se. Os dois projectos-lei vão a votação na Assembleia da República. A década de 90 ficou marcada pelo referendo sobre o aborto e pelos julgamentos de mulheres. O aborto não é punido apenas nos seguintes casos: se for o único meio de evitar a morte da mãe (sem prazo). deste modo. se houver grave malformação do feto ou se o recém-nascido vier a sofrer. Este crime está previsto e punido no Código Penal. pois. começam a organizar-se novas iniciativas quer por parte da sociedade civil. solta-se uma faixa que diz: “Lei do PS mantém aborto clandestino. Após a aprovação da lei de 1984. aos poucos. mas não são aprovados. longo e complexo o caminho que levou de novo à colocação do aborto na agenda pública e política. artigos 140º e seguintes. a JS e o PCP apresentam dois projectos-lei de despenalização do aborto a pedido da mulher. ligado à Igreja Católica. morre uma mulher. No entanto. também começa a ganhar força um contra-movimento. produção de relatórios e realização de debates. o movimento conheceu algum esmorecimento e durante vários anos a luta passou. o aborto é um crime.4 parlamento. No mesmo mês. se houver inviabilidade fetal (sem prazo). a UMAR lança a Linha SOS-Aborto. Alguns dias mais tarde.

porque nesse mesmo dia PS. sindicatos. 2003). Para as pessoas envolvidas no movimento pela despenalização do aborto este foi um marco histórico (Tavares. deputados. os dois projectos são debatidos na Assembleia da República: o do PCP não é aprovado por 3 votos. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Também o PCP apresenta um projecto-lei semelhante ao já proposto em 1997. a vitória na luta estava longe de ser conseguida. António Guterres. era necessário criar um movimento forte que fizesse face aos movimentos associados à Igreja Católica. com maiores recursos e capacidade de mobilização. a JS apresenta um outro projecto-lei. em 28 de Junho de 1998. uma plataforma que integrava partidos políticos. profissionais de saúde. sobretudo. e PSD celebram um acordo para a realização de um referendo nesta matéria. uma vez que o prazo legal previsto para a interrupção voluntária da gravidez é reduzido para 10 semanas. Cria-se. Mas. à indiferença e/ou à indecisão dos portugueses. O referendo não foi. assim. que desde cedo se pronunciou contra a mudança da lei. contra todas as sondagens. A 5 de Fevereiro de 1998. o “Movimento Sim Pela Tolerância”. A campanha do referendo (que ocorreu de 15 a 26 de Junho de 1998) assumiu-se como um momento de intenso e polémico debate em que nem sempre os argumentos surgiram com a clareza necessária. Para tal não foi indiferente a posição do líder do PS. mas o projecto-lei da JS é aprovado. mais restritivo que o anterior. Desde logo porque algumas associações feministas envolvidas entendiam que a JS não devia ter encurtado o prazo. etc. à complexidade da questão referendada. e a um cenário político partidário em que a direita se unia e o partido do governo se encontrava fragmentado e marcado pelo ideal católico de um PrimeiroMinistro que publicamente se mostrou contra a despenalização. artistas. No entanto. Por razões atribuídas ao fundamentalismo da posição do não. o não ganhou. associações de defesa dos direitos das mulheres. e que depois se foi alargando a juristas. que se encontrava no Governo.5 No início de 1998. Perante um referendo imposto que muitos percepcionaram como uma expressão de uma instrumentalização política atentatória dos direitos de cidadania dos cidadãos e das cidadãs portuguesas.

ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Com efeito. 16. em 2004. votaram menos de 3 milhões. não te prives e UMAR (União Mulheres Alternativa e Resposta) . 4 Uma das excepções a este desânimo surge com a discussão e aprovação da Lei 12/2001. começam a despoletar os julgamentos de mulheres (Maia. As manifestações do movimento pelo sim começam a cingir-se a presenças à porta dos tribunais.6 contudo. Tendo como base um campo 3 De acordo com o artigo 115º da Constituição da República Portuguesa. Portugal torna-se o único país da União Europeia que leva mulheres a julgamento por interromperem a sua gravidez. O pós-referendo foi uma altura de grande desânimo 4 e de desvitalização de um movimento que se sentia impotente face à constituição da Assembleia da República e às demandas da democracia representativa. “O referendo só tem efeito vinculativo quando o número de votantes for superior a metade dos eleitores inscritos no recenseamento”. assumindo-se o resultado no referendo como uma decisão final. 5 O então Primeiro-ministro José Manuel Durão Barroso. Neste cenário. a discussão devia ter sido retomada e. sobre a contracepção de emergência que assegura que a chamada pílula do dia seguinte pudesse ser vendida em Portugal e sem prescrição médica. à entrega de uma petição com 120 mil assinaturas na Assembleia da República para a realização de um novo referendo que se revelou infrutífera 5 . foi ignorada.5% a favor do sim. Aveiro. consequentemente. isto é. referiu que nenhuma outra consulta nesta matéria seria realizada até ao final do mandato do seu governo. vinculativo 3 . já que. a artigos na imprensa e. pelo contrário. apenas 32% dos eleitores se pronunciaram. Setúbal.5% a favor do não e 15. coube aos agentes judiciários e aos tribunais garantirem a aplicação efectiva da lei em vigor e.unem esforços e decidem convidar a organização holandesa Women on Waves (WOW) para vir a Portugal e desenvolver uma campanha pela despenalização do aborto. A campanha WOW: breve descrição É num cenário de um activismo institucionalizado e essencialmente reactivo que um conjunto de associações portuguesas . Clube Safo. 3. Lisboa…). dos mais de 8 milhões de eleitores. líder do PSD.Acção Jovem para a Paz.

para tal. onde. que desejassem interromper a sua gravidez. de 1982. eventos culturais. através da pílula abortiva. propunha-se a ajudar as mulheres portuguesas. desde 2001 que a WOW é uma organização não governamental (ONG) devidamente autorizada pelo Ministério de Saúde holandês a interromper a gravidez de mulheres que assim o decidam até um prazo máximo de 6 semanas e meia. cerca de um ano antes. a bordo do barco que está sob jurisdição holandesa. canalizando os ganhos mediáticos da campanha desenvolvida para a mudança da lei restritiva. jurídicos e culturais que os 6 De acordo com a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar. Inspirada na ideia do barco da organização ambientalista Greenpeace. o limite exterior do mar territorial é fixado nas 12 milhas náuticas. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . a WOW assenta a sua campanha na deslocação de um barco que traz consigo um contentor onde funciona uma clínica ginecológica e na qual é possível realizar abortos a pedido da mulher. Assim. A cronologia deste acontecimento consubstancia um exercício importante de reflexão sobre as opções dos movimentos sociais e dos constrangimentos políticos. uma equipa de médicas e enfermeiras devidamente autorizadas podem realizar abortos. sessões de esclarecimento e sensibilização para a prevenção de doenças sexualmente transmissíveis e de gravidezes não desejadas. a WOW desenvolve actividades mediáticas nos países onde o aborto é ainda criminalizado que visam chamar a atenção para as consequências nefastas dos abortos clandestinos e para a necessidade do aborto ser despenalizado. deslocando-as. Tais iniciativas e a vinda do Borndiep foram cuidadosamente preparadas desde a vinda de Rebecca Gomperts a Portugal. certo é que o projecto WOW consistia em mais actividades. Esta componente do projecto aplica-se exclusivamente a águas internacionais. nome do barco utilizado na campanha da WOW em Portugal. Com efeito. Tal acção não expressa qualquer tipo de ilegalidade. definindo-o como uma zona marítima contígua ao território do Estado costeiro e sobre a qual se estende a sua soberania. mas antes articula normas do direito nacional com normas do direito internacional. reuniões com partidos políticos. Embora tivesse sido a faceta mais mediática e polémica da campanha. com uma gravidez até seis semanas.7 de acção transnacional e usufruindo de um pluralismo jurídico a partir de cima. debates com profissionais do direito. até águas internacionais 6 . designadamente workshops no âmbito da saúde sexual e reprodutiva. o Borndiep.

Agosto de 2004: a chegada do Borndiep e a acção do Governo português A 23 de Agosto é realizada. o barco pretende atracar no porto da Figueira da Foz. ainda confidenciais. devem ser surpreendidos. se encontravam a Rebecca Gomperts e Guinilla Kleivierda. se assumiram como mais marcantes. do atendimento da hotline e ao nível jurídico. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . a WOW navega novamente para um país onde o aborto é penalizado. estando presentes na formação os advogados portugueses das associações envolvidas e da WOW. na prática. receberam formação diversa para poderem participar na campanha. da relação com os media. Para além de promover o conhecimento e a sensibilização junto dos profissionais de saúde. médica ginecologista da WOW. Esta formação. em 2003. os cerca de trinta voluntários. Em Julho. Em cada uma destas áreas. Mais especificamente. Depois da viagem em 2001 à Irlanda e. a esta altura. bem como o Governo. foi dito aos voluntários como agir. foi realizado em Coimbra um seminário sobre saúde reprodutiva onde. nomeadamente ao nível da segurança. à Polónia. sócios das associações envolvidas e pessoas a título individual. uma conferência de imprensa anunciada a partida do Borndiep rumo a Portugal. na Holanda. este seminário serviu. Desde cedo se percebe que os media. e da estratégia pensada para o projecto. sempre dentro da legalidade. entre os palestrantes. quer para a opinião pública. pelo que se referem de seguida algumas das datas que. para angariar voluntários. quer internamente para o movimento constituído. o que dizer. pelo que o contacto com os media é reduzido ou mesmo nulo. activistas e outros para as campanhas da WOW e para a questão da despenalização do aborto como um problema de saúde pública. bem como todas as informações relativas ao projecto são.8 condicionam. Junho/ Julho de 2004: Recrutamento e Preparação de Voluntários Em 5 de Junho de 2004.

e a política. Estes argumentos serviram. na prática. com várias equipes de reportagem estrangeiras a chegar à Figueira da Foz. Mais tarde o Governo justifica a sua decisão afirmando que. 2005: 11). a tripulação do Borndiep. Pela primeira vez o barco era proibido de entrar em águas nacionais num país. mas não para a eventualidade da sua não chegada. nomeadamente. O impacto mediático é extraordinário. E. A cautelosa formação a que se tinham submetido preparava-os para qualquer imprevisto e obstáculo após a chegada do Barco a águas territoriais. As arenas de eleição eram. com a notícia a abrir vários serviços noticiosos televisivos. um certo desnorteamento. inclusive a perseguição judicial. recebe um fax no qual se pode ler: “Em nome das autoridades marítimas portuguesas. sobretudo quando são destacadas duas covertas para vigiar o Borndiep. o que poderia colocar em causa a saúde pública (idem: 12). três: a legal. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Entre 26 e 27 de Agosto. através dos media nacionais e internacionais. através do recurso aos media. O impacto mediático da campanha cresce a cada dia. violando-se um sem número de convenções e directivas europeias. a sua soberania jurídica. informamos que. mais de trinta voluntários portugueses e holandeses se encontram preparados. imagens que rapidamente são divulgadas nacional e internacionalmente. no seio dos activistas. publicitar e promover a prática de actos ilícitos em Portugal. de 1982. nomeadamente os artigos 19 e 25. efectivamente. como suporte ao argumento mais invocado: o de que esta campanha atentava contra a soberania do Estado português. e o direito português.9 onde numa casa especialmente arrendada para o efeito. desenvolver uma actividade numa infra-estrutura médica sem licença ou inspecção por parte das autoridades portuguesas competentes. através da equipa jurídica. teve conhecimento que a ONG holandesa WOW pretendia entrar em território português para: distribuir e publicitar produtos farmacêuticos não autorizados em Portugal. começam a ouvir-se rumores de que o barco será impedido de entrar em águas territoriais. agora. ao abrigo da Secção III Parte II da Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar. esse foi recusado” (WOW. após tentativas falhadas de comunicação com as autoridades marítimas. informamos o seguinte: no que se refere ao pedido de autorização para a embarcação Borndiep entrar em águas territoriais portuguesas com destino ao Porto da Figueira da Foz. mediante o lobby exercido junto aos partidos políticos portugueses e Governo holandês. constituída somente por membros da WOW. Neste momento nota-se. a pública.

mas. havendo viagens específicas para jornalistas e políticos: a JS realiza no Borndiep uma conferência de imprensa a 30 de Agosto e. a WOW e as associações portuguesas envolvidas optam por contornar a situação inesperada.10 Finais de Agosto. inícios de Setembro: entre a acção institucional. quer para os activistas envolvidos. necessariamente. alteradas. designadamente os activistas da WOW. porque a sua acção era legitima e legal. Odete Santos (PCP) e Jamila Madeira (Parlamento Europeu). A discussão instala-se no seio do grupo de activistas: deve ou não o Borndiep regressar à Holanda? Que alternativas devem ser equacionadas para que toda a campanha não seja colocada em risco? Nesta altura há uma certa cisão no grupo. alugando uma pequena embarcação: se o Borndiep está impedido de vir junto dos portugueses. os movimentos sociais caminham num permanente limbo entre a acção institucional e a acção radical que foge ao poder do Estado. Também o Governo e deputados holandeses iniciam esforços no sentido de ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . O objectivo agora é. também. o que não se vem a verificar. Entendendo-se que é ainda cedo para encerrar a campanha. mas não para ir contra a lei. as acções planeadas para os quinze dias de estadia são. claramente. é rentabilizado em termos mediáticos. no dia seguinte. irem ao Borndiep. outros consideram que tal acção constitui um risco grave quer para a tripulação. Este barco faz viagens para levar mantimentos à tripulação. pressionar politicamente o governo para que este levante a proibição. voluntários a conhecer o Borndiep. Com a proibição à entrada do barco. a acção radical e a acção ilegal Como refere Boaventura de Sousa Santos (2005). entendem que o barco deve forçar a entrada e avançar para águas territoriais portuguesas. Afinal. A campanha WOW foi a este nível paradigmática. Os activistas estavam preparados para serem detidos pela polícia. Se alguns. é a vez dos deputados parlamentares Francisco Louça (Bloco de Esquerda). estes não estão proibidos de ir até eles. a acção foi pensada para ser desenvolvida sempre dentro dos limites da lei portuguesa e toda a formação dos activistas foi no sentido de cumprimento da lei pelo que a opção por uma acção ilegal podia traduzir-se em perdas de legitimidade do projecto globalmente considerado.

já que tal operação foi proibida em Portugal. Estas são acções moderadas e institucionais. Assim. Estes são momentos de uma nova atenção mediática. que levante a interdição. do modo como a mulher portuguesa podia abortar usando Misoprostol. de informação. que verdadeiramente podia haver continuação da actividade criminosa e que os direitos fundamentais invocados pela WOW não são absolutos e podem ser restringidos quando há interesses maiores em risco. que reuniu cerca de 250 pessoas junto da residência oficial do Primeiro-Ministro. por seu lado. A juíza decidiu a favor do Governo dizendo que este tinha agido de acordo com o seu poder discricionário e não cabia a um juiz anulá-lo. mas pede. de reunião e de expressão. também. designadamente aos workshops com políticos. Os advogados do governo argumentaram. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . assim como a viagem forçada do Borndiep a Espanha para se abastecer de combustível. no programa SIC 10 Horas de 7 de Setembro. Considerou. o Borndiep fez a viagem que muitas mulheres portuguesas fazem para abortar: vão a Espanha. A seis de Setembro é conhecida a decisão do Tribunal Administrativo de Coimbra. Progressivamente a campanha começa a perder força e vitalidade e os media dão menos destaque às iniciativas. Bernard Bot. que havia continuidade de actividade criminosa em território português. os advogados da WOW solicitaram ao tribunal que anulasse a decisão do Ministro Paulo Portas e permitisse ao barco entrar em águas portuguesas. o Ministro dos Negócios Estrangeiros da Holanda. A dois de Setembro. Baseados no direito à liberdade de mobilidade. argumento que foi contestado. há acções de confronto como a manifestação realizada a 1 de Setembro. mas o aborto ocorria em Portugal. assim como a acção judicial contra o Estado português Paralelamente a estas. Julgamento. deputadas do Parlamento Holandês vêm a Portugal como forma de apoio à campanha WOW. uma vez que a pílula abortiva era administrada no barco.11 convencer o Governo Português a permitir a entrada do Borndiep. artistas e profissionais de saúde que ocorrem em terra e não a bordo do Borndiep como inicialmente se tinha previsto. Também a quatro de Setembro. em nome do Parlamento Holandês. a colagem de faixas com a inscrição “Eu fiz um aborto” em diversos pontos da cidade de Lisboa. e a divulgação pela Rebeca Gomperts. diz respeitar a decisão do Governo Português.

podendo ser utilizados para justificar quase qualquer decisão judicial (Tushnet. a 9 de Setembro. ambíguos e manipuláveis. ao mesmo tempo que sustenta a sua acção no cumprimento da lei. no final. como defendem vários autores. o chamado “Barco do Aborto” emerge como uma forma de acção colectiva nova que se inscreve nas formas de acção política ditas radicais. o direito é político. na génese da criação da WOW. mostrando que. o barco regressa. mas também na acção dos movimentos sociais generalizadamente considerados. que está. uma vez que os voluntários e algumas associações envolvidas queriam permanecer dentro da legalidade e evitar colocar em risco a legitimidade da acção. essencialmente. por acções institucionais. à Holanda e a campanha termina. entendendo várias pessoas que Rebeca Gomperts não deveria ter divulgado como cada mulher podia fazer um aborto se assim o entendesse. como a decisão do tribunal mostrou ser mais uma decisão política do que uma decisão judicial. aliás. O Borndiep como Kula? Numa sociedade marcada pela ausência de movimentos sociais fortes e por uma luta que se tem marcado. 4. foi uma estratégia contraproducente? As acções usadas durante a campanha face à proibição da entrada do Barco foram adequadas? O grande trunfo da campanha. o que de facto aconteceu após o programa SIC 10 Horas. um obstáculo a que a acção se radicalizasse. A primeira era mais imediata e procurava ajudar o maior ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . pelo contrário. Também a acção política do movimento foi constrangida. 1984). Neste ponto. Em primeiro lugar. já que os direitos são instáveis. O Borndiep surge como uma “dádiva” provinda de outro país para a luta pela despenalização do aborto em Portugal ou.12 Sem qualquer esperança de que o Borndiep fosse ainda autorizado a entrar em Portugal e perante uma luta que se desmobilizava. tal pluralismo jurídico não só foi ignorado pelo Governo. O balanço da campanha obriga a uma reflexão deste tipo de estratégias não só na luta específica pela despenalização do aborto a pedido da mulher. o recurso a um pluralismo jurídico que permite toda uma acção dentro da legalidade acabou por ser. notou-se uma diferença entre a agenda da WOW e a agenda das associações portuguesas.

quer na televisão. Uma outra sondagem. permitiu reintroduzir na discussão pública um tema que parecia estar votado à marginalização das opções políticas. esta foi uma mobilização do movimento pela despenalização que fugiu ao carácter reactivo e pontual dos protestos dos últimos anos. Permitiu. direitos e cidadania e a relacioná-los com a questão do aborto. ajudar efectivamente várias mulheres portuguesas. A proibição da entrada do barco acabou por ter. mais moderada. a derrota judicial conduziu a uma desmobilização final da luta. mostrou que 56% da população queria que o aborto fosse despenalizado imediatamente e 7% depois do Governo terminar mandato. Assim. mesmo aqueles que eram contra a despenalização. realizada pelo Diario de Noticias e TSF. partido do Governo. Desde logo. ainda que de uma forma mais indirecta do que a inicialmente prevista. e inclusive após a partida do Barco e houve informação disponibilizada quer na Internet. no final. contribuiu para que os portugueses tivessem consciência do posicionamento de Portugal nesta matéria face aos restantes países da União Europeia. a segunda. entendo que os ganhos desta campanha superaram as eventuais perdas. ganhos mediáticos significativos. uma sondagem efectuada pelo jornal Público. Finalmente. Esta possibilitou uma onda de apoio por parte de vários políticos. não deveria ser “espectacularizada” em iniciativas como o “Barco do Aborto”. Em terceiro lugar. Certo é que o mediatismo conseguido por uma acção radical da sociedade civil sem precedentes em Portugal perdeu vitalidade e dinamismo quando enveredou por uma via mais institucional e moderada. levando ao repensar de conceitos como o de democracia. media e população em geral. ainda. De facto. mostrou que 79. Com efeito. foram várias as vozes que consideraram que uma questão da esfera íntima como é a da interrupção de uma gravidez. durante a campanha. inclusive do PSD. tinha objectivos definidos a médio-longo-prazo que passavam pela criação de um cenário propício à alteração da lei em vigor.9% dos inquiridos afirmavam querer um novo referendo e 60% defendiam que o aborto devia ser despenalizado. como activista e socióloga. Num outro aspecto. questionando-se o grupo se esta foi uma opção eficaz. No entanto. Estes resultados e a reintrodução deste tema na opinião pública ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .13 número de mulheres portuguesas possível levando-as a bordo do Borndiep. a hotline esteve a funcionar durante toda a campanha.

WOW ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .” Texas Law Review. Manuela (1998) Movimentos de Mulheres em Portugal. UMAR (1999) Aborto – decisão da mulher. Porto: Edições Afrontamento. UMAR. na minha opinião. a questão do aborto estivesse presente em todos os debates televisivos e nos programas eleitorais. TAVARES. Lisboa: Livros Horizonte. Lisboa: Universidade Aberta. 62:1363. TUSHNET. WOW (2005) Women on Waves – Portugal. após Abril de 1974. Mark (1984) “An Essay on Rights. Referências Bibliográficas SANTOS.14 contribuiu. Dissertação de Mestrado em estudos sobre as mulheres. Manuela (2003) Aborto e Contracepção em Portugal. Boaventura de Sousa (2005) Fórum Social Mundial: Manual de Uso. História do movimento pelo aborto e contracepção em Portugal. para que nas campanhas para as eleições legislativas que se iniciaram pouco tempo depois da campanha WOW. TAVARES.

em finais da década de 80. Introdução Esta comunicação centra-se numa controvérsia patrimonial em torno de um antigo Teatro situado na Alta de Coimbra.Uma controvérsia como objecto etnográfico1 Andrea Gaspar Palavras-chave: património. por outro. havendo diferentes posições relativamente ao seu destino e às suas possíveis funções. e por fim. a outra reforça-o. Assim. alegando razões financeiras. Trata-se. um movimento cívico em prol do Teatro. espartilhado entre toda uma heterogeneidade de objectivos contraditórios: por um lado. que defende a sua aquisição pública ou expropriação e a devolução da sua função de espaço cultural. mediação 1. inviabiliza a última proposta. propondo como solução alternativa. adquiriu o espaço para a construção de apartamentos. em Coimbra”. Esta comunicação baseia-se em dissertação realizada no âmbito do programa de mestrado em sociologia “As Sociedades Nacionais Perante os Processos de Globalização”. mas sim em discussão. FEUC. processos de tradução. em tempos. portanto. enquanto que uma posição nega o interesse patrimonial do edifício. a Câmara Municipal de Coimbra que. originalmente com o título “Património em Contestação: o caso da controvérsia em torno do Teatro Sousa Bastos. A controvérsia propriamente dita diz respeito à discussão sobre o tipo de intervenção a dar ao edifício que. foi um dos mais importantes Cine-teatros de Coimbra. de um caso que nos remete para uma concepção de património como uma construção social. controvérsia. A minha abordagem situa-se O presente texto corresponde à comunicação apresentada pela autora no 3º Congresso da APA. um promotor imobiliário que. um acordo com o proprietário. O interesse do edifício não é consensual. O motivo da discórdia relaciona-se com diferentes versões daquilo que é o valor patrimonial do edifício. dado que o mesmo dá origem a duas versões contraditórias sobre o valor do edifício. 1 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . mas que desde há mais de uma década enfrenta um processo de degradação. em que o estatuto patrimonial do objecto analisado não está definido. A transformação do título deve-se ao facto de esta se tratar de uma versão revista e mais detalhada. a vontade de rentabilização do seu proprietário.

como algo exclusivamente humano). Como Teatro. Seguindo a perspectiva de Bruno Latour (1996. com o nome de Teatro Sousa Bastos. de modo a ter um registo de todas as circunstâncias de que eles são feitos. 2. altura em que foi aclamado Teatro D.precisamente na análise de todo o processo que leva à construção destes respectivos enunciados. Não sendo o meu objectivo avaliar qual dos lados da controvérsia é que tem razão. Soares 1990-1992). foi frequentado pela elite de Coimbra. a constatação de que eles fazem parte do mesmo processo. são ainda mais antigas: remetem para o século XII. 1999b). altura em que foi remodelado ao estilo arte déco. desta vez em homenagem ao dramaturgo que era tio do então proprietário da casa de espectáculos (cf. Pequeno apontamento histórico sobre o edifício Embora a fachada do edifício remonte à década de 1940. Em todo o caso. tendo sido reinaugurado em 1910. O ter estado atenta ao processo que antecede as suas consequências significou a consciência da problematicidade em separar um ponto de vista discursivo de um ponto de vista pragmático e material. e portanto. passando a incluir estes aspectos numa abordagem mais ampla que permite dar conta da construção praxiológica de um objecto patrimonial. importa sobretudo analisar as posições que a compõem enquanto processos contraditórios. Gambini 1999). começou a sentir-se na década de 70. tendo passado a ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . é importante salientar a tentativa de deslocação da análise de um ponto de vista meramente discursivo e ideológico. para uma Igreja Românica semelhante à Sé Velha. da qual se supõe a existência de vestígios (cf. como se de algo puramente “social” se tratasse (ou seja. numa espécie de liminaridade patrimonial. que conduzem a dois produtos possíveis da controvérsia (património/não património). mais precisamente. mas no sentido em que há uma série de processos ou acções que são simultaneamente humanos e não humanos ou materiais – as mediações – as quais irão determinar esse estatuto do objecto em discussão. a sua função de Teatro é bem mais antiga – remonta ao século XIX. por sua vez. considero que este processo de patrimonialização se trata de uma construção social não apenas no sentido de algo que não está definido. Luís em homenagem ao monarca vigente. e sobretudo após 74. A sua decadência. no entanto. As origens do edifício. 1999a. após instauração da República.

que lhe fora oferecido com melhores condições. importa salientar o facto de o espaço se situar na Alta de Coimbra. folclóricas e etnográficas). Posteriormente. Há. a discórdia e. ao espírito da época. a Alta de Coimbra é um espaço dotado de alguma ambiguidade. mais “autêntica”. as quais são visíveis. desde então. altura em que foram sendo projectados filmes altamente lucrativos.funcionar exclusivamente como Cinema. A Alta de Coimbra Contextualizando um pouco a controvérsia. a Alta é assim uma espécie de laboratório de representações múltiplas e ambíguas. tem vindo a deslocar-se para zonas mais periféricas. sobretudo westerns e filmes pornográficos. 3. não obstante as diversas tentativas por parte dessa Cooperativa que. entretanto. O edifício. com o seu crescimento. à semelhança da maioria dos centros históricos em Portugal. uma vez que a própria Universidade. Espaço de múltiplas vivências. Diário de Coimbra. centro de serviços). do que dos discursos nos quais essa separação é produzida. uma vez que a posse pública do edifício nunca se chegou a concretizar. Uma das mais importantes características da Alta de Coimbra é o facto de se tratar simultaneamente da zona onde se situa a Universidade. bem como o bairro mais antigo da cidade. consequentemente. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Por essa razão. e por outro lado. viria a trocar este espaço por outro. ao nível associativo. associações mais ligadas ao meio local (associações de moradores. foi a sede de uma Cooperativa de Teatro – a Bonifrates – que. ambição essa mal sucedida. A Alta de Coimbra tem vindo a perder as suas funções de centro (centro habitacional. Instalou-se. um processo de ruína que tem durado até aos dias de hoje. acabaria por ser adquirido por uma sociedade constituída entre um promotor imobiliário e um ex-presidente de Câmara de Coimbra (cf. tinha o intento de transformar o espaço num Centro Cultural. devido à coexistência de população autóctone e de população universitária. 1989). na Alta. fazendo do local uma zona marcada pelo envelhecimento e pela desertificação. em inícios da década de 80. por exemplo. perante a degradação do edifício. associações recreativas. preocupadas em reviver costumes e tradições de uma Alta passada. produto de um conjunto de tensões que provêm menos de uma real separação entre dois tipos de população (a população autóctone vs população flutuante).

remonta a 1989. quando o proprietário apresentou um projecto de construção de apartamentos. Este foi o primeiro momento da controvérsia. segundo o conceito de Kristoff Pomian (1984). ou a semióforo. o que não raramente corresponde a uma visão idealizada do “espírito de bairro”. importa salientar que a ADDAC reproduz. como algo que perdeu a sua centralidade e se desfuncionalizou. passando a significante. e que por isso se situa numa espécie de liminaridade em que se discutem novas funcionalidades. a ADDAC (Associação de Desenvolvimento da Alta de Coimbra) e as Repúblicas da Alta de Coimbra – o movimento Salvem o Sousa Bastos. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . a Alta é objecto politico de contestação. enquanto as Repúblicas. Estanque 2005). tal como a Alta. altura em que a Cooperativa de Teatro Bonifrates abandonou o edifício.associações mais ligadas a um meio académico e político que. entre as principais. contestando o localismo e o passadismo da visão das primeiras. salientam a Alta como um espaço vivo de relações sociais. o Sousa Bastos pode ser considerado como uma espécie de objecto de museu metonímico da própria Alta e dos discursos sobre ela produzidos. Formou-se então um Movimento Cívico composto por várias associações da Alta. por sua vez preocupadas em promover a participação cívica e o activismo social dos seus residentes (cf. de reactualização de discursos e constante negociação de representações e divergências políticas acerca do que é e deve ser o espaço social do centro histórico de Coimbra. e do ponto de vista da musealização do espaço urbano. 4. interpretar o Teatro Sousa Bastos. uma representação da Alta como um espaço pitoresco. Neste contexto de relações. Tal é o caso das Repúblicas de estudantes. No seguimento do que foi dito no ponto anterior. Breve contexto da controvérsia A controvérsia é longa. representam-na como espaço em que o espírito de bairro e as relações sociais cedem lugar a uma objectificação e esteticização do centro histórico para consumo turístico – a perspectiva da mercantilização da cultura. mas foi sobretudo em 1996 que se levantou a discórdia. residências de estudantes autogeridas e organizadas em termos associativos. Mais do que pano de fundo da controvérsia. para os quais funcionam como uma espécie de rituais de cidadania. por isso. Poderemos. através dos seus discursos. que viria a ser aprovado pela Câmara Municipal.

Mas o objectivo de recuperação do edifício como espaço cultural acabou por revelar. diferentes intenções à partida. um “espaço cultural” significava. Por seu lado. havendo por parte da Câmara Municipal. dado que ambos possuíam. que entretanto. Foi a partir deste segundo momento que tive a oportunidade de acompanhar a controvérsia à medida que ela se foi desenrolando: assistindo a debates. para a ADDAC. em 2003. a aproximação de eleições municipais. Deu-se assim o ressurgimento do protesto. a reconstrução do edifício como Teatro. na qual este edifício se insere. a acções e a manifestações culturais. Entretanto. e este objectivo inseria-se num outro contexto de preocupações: a política cultural da cidade. com a ideia de recuperação do edifício. O movimento cívico veio discordar desta posição. Apesar das diferenças de sensibilidades e de motivações de partida. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . o projecto do proprietário ficou suspenso devido à obrigatoriedade de escavações arqueológicas. um significado diferente para ambos os grupos. começava a ruir. público na sua essência. Esta associação de moradores manifesta uma preocupação com a degradação e crescente desertificação e desfuncionalização da Alta como espaço social. por outro lado. a reuniões com a população. ao longo da controvérsia.marcada por uma visão negativa e pessimista relativamente aos fenómenos de “musealização” do espaço urbano. Houve um impasse até uma segunda fase da controvérsia. que surgiu aquando da reunião de dois factores: por um lado. mantendo a defesa do edifício como espaço cultural. para as Repúblicas. altura em que se reacendeu a discórdia. ambas se uniram num objectivo comum (lutar pela preservação do edifício como espaço cultural). com um novo nome: o Movimento Sousa Bastos Vivo. com vista a resolver o problema do Teatro. formando um único grupo. Tais negociações iam no sentido de permitir o projecto do construtor. No contexto das suas intenções. há aqui contextos de motivações políticas que divergem e que formam agregações de intencionalidades distintas. tal não significava necessariamente um restauro do edifício. O assunto do Teatro Sousa Bastos volta a ser colocado nas agendas políticas. a Comissão para a Coimbra Capital Nacional da Cultura. com a contrapartida da cedência de algum espaço no rés-do-chão para construção de uma sala polivalente que servisse as actividades locais da população daquele bairro. E portanto. implicando a restituição fiel da sua fachada bem como da sua função. procurando com isso acompanhar o modo como essas duas versões sobre o interesse patrimonial do edifício estavam a ser construídas. a anunciação de negociações com o proprietário. enquanto processo (contestado) de patrimonialização em curso.

Ao longo deste processo. e por isso. grupos e alianças. de modo a convencê-los de que essa é a opção “boa”. que passou a ser a ser aliada da Câmara Municipal. Perante isto. no sentido de avançar com um projecto misto. mas têm de ser mediados: são necessários outros. Reformularam-se assim os grupos de acção: Câmara e ADDAC. Perante isto. em nome de uma melhor política cultural na cidade. o qual consideram que serviria mais os artistas do que a população da Alta. e que a Câmara não estava interessada em fazer mais um Teatro na cidade. a ADDAC declarou a sua desvinculação do movimento cívico. irão procurar convencer os artistas e grupos culturais de Coimbra. a Câmara Municipal. As Repúblicas. com outras intenções. Esta posição não veio a ser partilhada pela ADDAC. por outro. a transformação do Sousa Bastos num espaço cultural alternativo. por um lado. Porém. por seu lado.5. a partir do momento em que a Câmara Municipal anuncia um acordo com o proprietário. e daí a constituição de acordos. marcada por novos protestos. que estão mais interessadas em defender um espaço cultural alternativo. não num Teatro. para atingir o seu objectivo (recuperar o edifício recorrendo à iniciativa do próprio proprietário). e por não se identificar com a nova reivindicação. a concepção por detrás da ideia de “espaço cultural” foi revelando as divergências e diferentes motivações de partida. associa-se à ADDAC. o movimento cívico continuou a defender a necessidade da intervenção no antigo Teatro como espaço público. A justificação da ADDAC pela divergência é a de que a anterior luta não revelou qualquer eficácia. Esses objectivos de partida não são atingidos directamente. que é mais representativa dos interesses dos moradores da Alta. então apresentado como Movimento Sousa Bastos Vivo. a sua aquisição pública ou expropriação. Mas a principal objecção é dirigida à nova proposta do movimento. Perante isto. portanto. O argumento da recuperação do edifício como espaço cultural foi o denominador comum que agregou as Repúblicas e ADDAC no mesmo grupo. Processos de tradução A segunda fase da controvérsia foi. O que defendem é a importância de existência de espaços culturais ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . pois permitia a ambos a concretização dos seus objectivos. Movimento Sousa Bastos Vivo. também as agendas irão ser reformuladas.

propondo para o Teatro Sousa Bastos a criação de um “Espaço Social e Performativo”. do que um equipamento de grandes dimensões. Estamos. o que significa que não faz sentido falar em discursos separadamente das estratégias: acções e de operações específicas. organizou. ateliers com crianças e idosos da Alta. em colaboração com a ADDAC. Para estas iniciativas. uma sessão de esclarecimento dos moradores. nível esse inseparável de um contexto praxiológico mais vasto. A ideia de cidadania cultural permite entender a população da Alta como agente e participante nos processos culturais desenvolvidos. em diferentes contextos e ocasiões: A Câmara. contingentes e contextuais. entre outras. A ideia de um “Espaço Cultural e Performativo” permitiria. perante acções que ultrapassam o nível discursivo. com o objectivo de envolver a população. assim. uma inauguração “fantasma” (simbólica) do novo Teatro. por sua vez inspirado numa concepção de cidadania cultural. professores universitários. para artistas. Os argumentos foram os de que uma sala polivalente para pequenas festas e para pequenos ensaios de peças de teatro ou de ranchos folclóricos serve melhor a população. Por seu lado. o Movimento Sousa Bastos Vivo foi organizando diversos debates públicos com a participação de convidados com algum destaque no meio cultural de Coimbra: artistas. por isso. e não para a população que ali vive. dando assim exemplos do que poderia ser a actividade cultural a desenvolver no “espaço social e performativo” (idem: 111). intelectuais. e constituídas as novas alianças. a síntese de uma crítica mais geral aos processos mercantilizantes da cultura e do património. Reformuladas as devidas estratégias. através do Gabinete para o Centro Histórico. que formam o contexto no qual ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . procurando mostrar que a proposta que apresentam. tais como desfiles performativos. e constitui. com o objectivo de convencer os respectivos públicos. pelo movimento: diversas manifestações culturais. Gaspar 2006: 170-176). foram convidados artistas a participar com criações originais. é a que melhor representa a Alta. espectáculos. o que significa que irá haver transformação no final do processo. como justificação para o investimento na criação desse espaço alternativo naquela contexto. sobretudo. ambos os grupos foram realizando uma série de debates e de acções. outras acções foram realizadas.especificamente naquela zona da cidade. Para além de debates. em vez de mera consumidora de espectáculos. arquitectos. trabalhar com. agentes culturais. Também estes procuram mostrar que defendem o que é “melhor” para a Alta (cf. portanto. Importa com isto salientar que o mesmo objecto está a ser duplamente processado como património e como não património.

pois. tão negligenciados ao longo das abordagens excessivamente humanistas e antropocêntricas das ciências sociais da modernidade. Nesse sentido. Os segundos grupos. os aspectos “objectivos” e materiais da realidade. que têm consequências que não são meramente retóricas e discursivas. após reformulação. identifica-se como um desses passos ou operações. No fundo. como leis científicas ou novos objectos materiais. Estes interesses eram. podemos considerar que o edifício está a ser duplamente processado por intenções opostas. desvio de percurso e reformulação de objectivos. por oposição a Movimento Sousa Bastos Vivo (Repúblicas em pareceria com agentes culturais). que constituem dois processos de tradução distintos: um que visa transformá-lo no enunciado de que se trata de um “espaço patrimonial”. enquanto que a ADDAC manifestava uma preocupação mais relacionada com a recuperação do edifício e das suas funções. para uma abordagem material e praxiológica dos fenómenos sociais. segundo Latour. É isto que tem marcado a passagem de uma abordagem simbólica da cultura. remete para um conjunto de acções que conduzem a transformações ontológicas e materiais. que nos habituaram a uma concepção de sociedade como algo puramente humano. e consequentemente. reformuladas as estratégias. Os objectivos de ambos foram interrompidos. e consequentemente. são constituídos por uma série de acções ou operações. ou seja. a ideia de que há uma série de passos até chegar ao enunciado final. a Câmara Municipal. não conseguiram convencer os poderes autárquicos. na primeira fase da controvérsia. Contudo. que seguir caminhos ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . heterogéneos. Os processos de tradução. foram a parceria constituída entre Câmara ADDAC. ou seja. no contexto de uma Alta concebida como espaço de habitação e de vivência social. o outro que visa transformá-lo no enunciado oposto de “espaço sem interesse patrimonial”. à partida. Os primeiros grupos autonomizados foram. seguindo o conceito desenvolvido por Bruno Latour (1996). em termos de uma identidade e posição política acerca desta questão. em pareceria com o proprietário. juntos. a autonomização de grupos. por oposição ao primeiro movimento cívico. Neste caso.esses discursos são produzidos. Pessoas e grupos com interesses heterogéneos uniram-se com um interesse comum. pois as Repúblicas estariam mais interessadas na política cultural. que era a recuperação do Teatro para fins culturais. composto por várias associações. Tiveram. trata-se de recolocar no âmbito da análise social. incluindo (ADDAC) e as Repúblicas de Coimbra. A ideia de tradução. mas essas consequências são mais “duras” do que simples discursos.

Ou seja. o seu significado social. designada por processo de interessamento (Latour 1996). detalhadas na minha etnografia. chama a atenção para a impossibilidade de construção de um equipamento cultural adaptado às exigências contemporâneas num espaço com aquelas características (ruas íngremes e medievais). verifica-se na ligação entre a Câmara Municipal e a ADDAC. Seguiu-se uma fase de estagnação e posteriormente. novos protestos. Estas duas versões do interesse do edifício. mas que se tornaram aliados. e surgida uma oportunidade de aliança com agentes culturais da cidade. a Câmara. chamando a atenção para a necessidade de criação de espaços para grupos culturais que não têm espaço. constituem o ponto fundamental que permite a constatação da observação de um fenómeno que ultrapassa o nível meramente linguístico. Estas estratégias de acção. que irá procurar associar-se a especialistas em urbanismo para reforçar e legitimar “tecnicamente” o enunciado pretendido. bem como com agentes culturais descontentes com a política cultural da cidade. bem como novas retóricas. cuja aliança permite reforçar o respectivo argumento ou enunciado.). Outro dos processos de interessamento. mobilizando argumentos técnicos e urbanísticos. também os processos de mobilização retórica envolvidos (outra das operações de tradução) são reformulados: por exemplo. Um dos processos de interessamento que se verificou foi a associação com artistas da cidade que reclamam a falta de espaço cultural. em termos de mobilização retórica. o objectivo do novo movimento. têm por base ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . mas a sua memória. o Movimento Sousa Bastos Vivo.divergentes para atingir as suas finalidades. como já referi. A partir daqui. a Câmara considera que o edifício não tem interesse (arquitectónico. porém o movimento considera que não é o interesse do edifício que está em causa. etc. na altura em que houve negociação da Câmara com o proprietário. Em suma. novos aliados foram sendo mobilizados para a causa. histórico. bem como os discursos que lhe estão associados. Fragmentado o movimento. e pela ausência de uma estratégia cultural por parte dos poderes autárquicos. ao mesmo tempo que o movimento mobiliza a retórica da política cultural da cidade. significou seduzir para o mesmo objectivo grupos os pessoas que nada tinham a ver com o assunto. passou progressivamente a ser a transformação do antigo Teatro num espaço alternativo para os grupos artísticos da cidade. aquilo que ele representa como Teatro naquele bairro. numa segunda fase. o qual irá determinar o destino do novo objecto resultante. Assim se transformam interesses heterogéneos em interesses comuns. Esta operação.

no caminho para atingir o seu objectivo) precisamente esta segunda opção: a cultura como cidadania. desta forma. a “cidadania cultural” como crítica a essa tendência de mercantilização da cultura 3 . Tal se verifica na acção de salientar um projecto alternativo para aquele espaço (proposta de Espaço Social e Performativo). impossível de concretizar não apenas devido a motivos económicos. no contexto das sociedades capitalistas modernas. que é também. patrimoniais: argumentam que o edifício não é típico da zona onde está inserido. só faz sentido como reacção ao extremo oposto desta concepção. vieram. históricas. urbanísticos (problemas de acessibilidade que têm a ver com a configuração das ruas). marcado pelo confronto entre duas tendências: por um lado. Esta concepção de cultura e de património.tradições ideológicas distintas. defendendo a interacção entre dinamizadores culturais e a comunidade local. que reduz a proposta de um “espaço social e performativo” a um Teatro. ou cultura de massas. importa apenas salientar que o movimento cívico representa (no sentido em que mobiliza a retórica construída por esta tendência. ele só 2 As chamadas indústrias culturais. que nos remetem para um velho debate sobre as questões da cultura na globalização. Deslocam. aqui objectificado na posição da Câmara Municipal. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . em detrimento da transformação da Alta para turistas. a ideia de que haver interesse patrimonial no edifício. e que por isso. está nas pessoas. salientam a importância daquele espaço para os moradores. conhecida por Teoria Crítica da Escola de Frankfurt. na memória do espaço e no seu significado. Abandonadas quaisquer pretensões vlorativas de acesso a uma verdade final. não no edifício em si. Para além disso. a uma ideia de cultura como sujeito. argumentam que o edifício não possui características que justifiquem a sua preservação: características estéticas. foge ao padrão dos edifícios que compõem o Centro Histórico. e uma concepção de património como algo social. O interesse do edifício. ou seja. sinónimo de um grande equipamento. e não sendo o âmbito desta discussão procurar saber qual das duas a mais válida. a “mercantilização da cultura” ou as “indústrias culturais”2 (o turismo. o interesse do edifício para as pessoas. os sujeitos em detrimentos dos objectos. arquitectónicas. substituir a noção de cultura popular. Isto é o que se poderá considerar uma concepção de cultura como cidadania. 3 Insere-se nesta tendência a escola de pensamento dos anos 1970. a musealização do espaço urbano) e por outro. promovendo a participação em detrimento do consumo e transformando consumidores em participantes num processo de produção cultural. Com isto. num certo sentido. para a memória social. mas também técnicos. realçando o aspecto social em detrimento do material. e sobretudo. defendem.

de retóricas que servem esses objectivos. etc. reformulação de grupos autonomizados. que não correspondem às expectativas em termos de público. reformulação de objectivos e consequentemente.poderia estar inscrito no próprio edifício. Cabral 2004). no sentido em que defende que representa mais fielmente aquilo que a população quer para o edifício. Este é apenas o resumo das narrativas mobilizadas para esta questão ao longo do processo. O que é importante salientar é que esta é a legitimação retórica que fundamenta cada uma das posições a realizar de uma série de acções com vista a convencer a população de que representa aquilo que ela quer: através de manifestações artísticas. contrariamente à anterior. Um dos lados representa a Alta como sujeito. caso contrário. pois. como objecto. o destino do edifício. Estratégias a nível de alianças ou processos de interesssamento. e consequentemente. A representação é outra das operações. Ambas as concepções e processos de mobilização retórica podem ser entendidos como diferentes caminhos para atingir diferentes fins. um dos argumentos desta posição é a de que. não fazem falta mais Teatros na cidade. de uma perspectiva de relação entre oferta e procura. É. pequenas peças de teatro. que determinará o predomínio de um enunciado sobre o outro. mas sim a representação política. reuniões de moradores por intermédio de associações de moradores. ou criação de relações com o público. estão envolvidos em muito maior detalhe. bem como para uma noção de cultura que é mais próxima de uma ideia de cultura como mercadoria (em vez de cidadania).). Neste caso. bem como as representações. para além dos já existentes. cada lado da controvérsia considera que representa a população da Alta. etc. que por razoes obvias escapam aos ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . através da conquista do consentimento dos representados (Gramsci 1974). É a eficácia dessa representação. a Câmara Municipal defende que a população não precisa de um Teatro. debates com a população. remete para uma concepção objectificante de património. tendo em conta que. sendo que a prova final do respectivo enunciado não é a verificação empírica (ao contrário da ciência. para a qual este modelo de interpretação foi desenvolvido). mas sim de um espaço polivalente para as suas actividades (ranchos. em que cada um dos lados desencadeia as suas acções com vista a atingir o seu objectivo. é outro dos passos no caminho. Esta ideia. em processos de representação. o outro. seria mero “património psicológico”. O Movimento Sousa Bastos Vivo defende que a população do bairro precisa de um espaço cultural. que assentam todos os processos políticos (cf.

Por outras palavras. quiçá. dado que esse desfecho ainda não se conhece e a controvérsia ainda perdura (marcada por nova estagnação que durará. todo um trabalho artefactual de sucessivas mediações. duas possibilidades de objectos diferentes. fica no entanto ausente esta última fase deste processo de tradução. foi fundamental o trabalho de Bruno 4 Não se pretende com isto oferecer uma visão homogénea dos grupos em questão. mas refiro-me a grupos somente do ponto de vista das suas estratégias de acção. o novo objecto. foram assim sendo criadas relações ou elos de ligação que não existiam antes – por exemplo: o Sousa Bastos como uma questão de política cultural da cidade. pois. sendo isso que define o social. no sentido latouriano. interessou-me analisar como é que cada uma se constrói como “verdade”. Havendo dois enunciados. Desta forma se constata como o mundo discursivo e o mundo material não se sobrepõe. a algo irreversível. mais do que procurar saber qual destas posições sobre o Teatro Sousa Bastos é a mais “verdadeira”. também. Importa porém salientar que. interessou-me sobretudo analisar estes dois lados da controvérsia como dois processos de enunciação. ou qual é a “melhor”. e mobilizados para a controvérsia. Há. pois a noção de grupo que utilizo refere-se a um nível de sentido meramente formal. Para isso. portanto. as consequências materiais propriamente ditas. a identidade não foi o critério que utilizei para identificar e diferenciar grupos. ou o Sousa Bastos como uma questão urbanística – mas que foram sendo criados ao longo do processo. as consequências materiais desse processo. àquilo que fica para a história após a controvérsia. Um destes enunciados terá maior eficácia sobre o outro e dará origem a um novo objecto. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .objectivos desta comunicação. ou seja. até novas eleições municipais). mas constituem-se mutuamente. após a controvérsia. ou seja. Conclusão Perante estes dois paradigmas (subjectificação/objectificação). refiro-me a grupo não no sentido de identificação. ou no sentido de associações. trabalho esse que é feito e refeito em função das inúmeras contingências que surgem ao longo do processo. a forma e o estatuto que o edifício irá assumir. São estas operações que permitem identificar os diferentes enunciados em causa. é esse o elemento que permite analisar as duas posições enquanto grupos de intencionalidades distintas 4 . há. que são os seus efeitos. ou seja. através das acções referidas. 6. mas no sentido de agregação com fins pragmáticos e acções convergentes. O processo de tradução só é terminado assim que houver uma coesão entre esses elos: esse será o núcleo duro. Porém.

ces. por isso.pt/corpocientifico/pinacabral/pdf/DemocraciaJPC3. 21-05-04. um instrumento de análise inicialmente concebido para controvérsias científicas.ul. é uma espécie de resíduo. www. Paulo. Bibliografia CABRAL.php FRIAS. Aníbal e PEIXOTO. 7.pt/publicacoes/oficina/162/162. Junho de 2001 FRIAS. e “o Sousa Bastos não é património”. trata-se de analisar os processos pelos quais a acção é mediada: que operações são levadas a cabo para atingir determinados objectivos. 1999.uc. o que implica entender a controvérsia não como algo a eliminar.pt/opiniao/ee/001. Elísio. João de Pina. 2001. é aquilo que não fica para a história. mas como parte constituinte desse mesmo processo: a controvérsia como processo de construção em si. 2002. A ideia de tradução significa. a última fase do processo (património/não património). www. Teatro Sousa Bastos . Actas do IV Congresso Português de Sociologia. que delegações.fe. Aníbal. 2004. A controvérsia é o que Latour chama de modalidade: é o lado contingente de um processo social. Oficina do CES.fe. que desvios.pdf ESTANQUE. Por isso. sendo que a enunciação é o produto final. Oficina do CES. “Aprender a representar: democracia como prática local”. Coimbra ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . E a tradução é precisamente a passagem da controvérsia aos novos objectos ou factos objectivos: a passagem da contingência à necessidade. 2005. do ponto de vista da tradução. 1806-05.ces. “Patrimonialização” da Alta e da Praxe académica de Coimbra”. mas que permitiu entender este caso de um ponto de vista processual: o conceito de tradução. O conceito de tradução remete para o processo de construção de novos factos ou de novos objectos. é aquilo que faz a história. Oeiras: Celta. 20-05-05. Comissão de Coordenação da Região Centro. “Representação Imaginária da Cidade. “Esthetiques urbaines et jeux d’echelles: expressions graphiques étudiantes et images du patrimoine universitaire a Coimbra”. as operações que transformam a modalidade em enunciação. “As Repúblicas de Coimbra. Lígia Inês. nº 183. entre o passado e o presente”. nº 162. Dezembro de 2002 FRIAS.As Primeiras Décadas de História. que caminhos mais longos irão ser tomados para lá chegar.ics. a observação etnográfica deste caso permitiu-me descrever e dar conta de dois processos de enunciação de verdade em confronto simultâneo: “o Sousa Bastos é património”.Latour.pdf GAMBINI. Processos de Racionalização e de Estetização do Património Urbano de Coimbra”. Mas no fundo. 2002.uc. http://www. No fundo. Paulo. Aníbal e PEIXOTO.

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