AFINIDADE E DIFERENÇA

Ana Bénard da Costa (Org.)

ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA LISBOA, 6,7 E 8 DE ABRIL DE 2006

APRESENTAÇÃO

Entre 6 e 8 de Abril de 2006 decorreu em Lisboa, no Instituto de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE) e no Instituto de Ciências Sociais (ICS), o Terceiro Congresso da Associação Portuguesa de Antropologia. Este Congresso organizado em torno das temáticas abrangentes Afinidade e Diferença reuniu cerca de 250 participantes que expuseram e debateram as suas diversificadas comunicações em sessões plenárias, painéis temáticos, mesas redondas e posters. A temática proposta pelos coordenadores do Congresso, José Manuel Sobral e Cristiana Bastos, respectivamente o Presidente e a Vice-Presidente da então Direcção da Associação Portuguesa de Antropologia, invocava, como se refere no texto de apresentação, “uma tensão básica que percorre o nosso campo disciplinar, provocada simultaneamente pela identificação do que se julga ser comum e do que se julga ser específico em cada cultura”. Procurava-se, através desta proposta abrangente, acolher “todos os domínios de saber reconhecidos como Antropologia” e abrir um espaço para uma “reflexão sobre a sua situação actual, tanto no plano nacional como no internacional.”

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Dentro desta perspectiva, os promotores do evento assumiram a responsabilidade da organização das sessões plenárias e solicitaram aos sócios e potenciais interessados que apresentassem propostas de painéis temáticos. O acolhimento por parte da comunidade nacional e internacional de antropólogos e de ciências afins (sociólogos, economistas e outros) excedeu as expectativas. Numerosos investigadores propuseram painéis que abarcaram desde as grandes temáticas da antropologia clássica (cultura popular, religião) às novas problemáticas da actualidade (globalização, identidades, transnacionalismo), a temas transversais (cultura, metodologia) ou temas que se podem considerar geograficamente ou historicamente mais específicos (Timor, Caboverdianidade, colonialismo). Percorrendo o Programa que então foi editado, constata-se a enorme vitalidade que a antropologia em Portugal conhece actualmente. Não só, como já se mencionou, pela diversidade dos temas debatidos - emigração, crenças, saberes, saúde, educação, memórias, arte, história, economia, desenvolvimento, género, natureza, corpos ou afectos, para só enumerar alguns - como também pela variedade de escolas, centros de pesquisa e associações de investigação presentes. Importa ainda acrescentar que este Congresso demonstrou que a internacionalização da antropologia portuguesa é uma realidade: estiveram presentes vários antropólogos de outros países com trabalhos desenvolvidos em Portugal e noutras regiões do mundo e vários antropólogos portugueses que estudam outras realidades que não a portuguesa. A participação da Antropologia Visual (ciclo de cinema-documentários e debate) constituiu outro factor enriquecedor desta iniciativa. Mais de um ano decorreu desde que este Congresso se realizou e vários acontecimentos atrasaram a publicação das Actas: a Associação de Antropologia mudou de Direcção, questões burocráticas urgentes exigiram as atenções dos novos membros da Direcção e, quando foi possível a organização dos textos finais das comunicações, constatou-se que muitos dos participantes não os tinham enviado e que o “estado” dos painéis era muito variável: havia painéis completos, outros sem nenhum dos textos finais das comunicações apresentadas e outros, ainda, em que os textos eram em número insuficiente não justificando a “existência” do respectivo painel nas Actas. Perante esta situação, e porque a nova Direcção considerou de todo o interesse deixar um registo material exemplificativo da riqueza temática e teórica que marcou os debates no Congresso que cumpriu plenamente os objectivos propostos pelos organizadores de “realizar um Congresso onde sejam acolhidos todos os domínios de saber reconhecidos como Antropologia e que constitua um momento de reflexão sobre a sua situação actual, tanto no plano nacional como no internacional”, foi necessário tomar algumas opções que passamos a explicitar:

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-

Foram mantidos os painéis cujos números de textos finais das comunicações eram significativos;

-

Foram agrupados em capítulos novos, textos de comunicações de

diferentes painéis que partilhavam afinidades temáticas (os títulos desses capítulos foram inspirados nos títulos dos painéis originais).
-

Em cada um dos capítulos há uma nota que explica se este corresponde a um
painel apresentado no Congresso ou se é um capítulo que agrega comunicações de painéis diferentes, bem como uma referência aos organizadores dos painéis originais.

Acreditamos que este índice, a organização temática que o suporta e, no seu conjunto, esta publicação de Actas, não desvirtua o que de essencial o Terceiro Congresso da Associação Portuguesa de Antropologia revelou a todos os que nele participaram. Acreditamos, sobretudo, que a publicação destes textos possibilita, a todos aqueles que não puderam estar presentes no Congresso, a participação nesse debate que assim certamente irá continuar.

Ana Bénard da Costa Junho de 2007

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Coordenadores da Comissão Organizadora
José Manuel Sobral (Presidente da Direcção da APA), Cristiana Bastos (Vice-presidente da APA),

Comissão organizadora
Nuno Porto, Paulo Castro Seixas (Direcção da APA), Patrícia Alves de Matos, Cynthia Pereira, Teresa Bolas, Isabel Bajouco (FCSH, UNL), Daniel Seabra (U.F. Pessoa) , Ruy Blanes (ICS, UL), Antónia Pedroso de Lima (ISCTE), Clara Saraiva (FCSH, UNL)

Comissão Científica
João Pina Cabral - Instituto de Ciências Sociais, Universidade de Lisboa Raul Iturra, Jorge Freitas Branco, Clara Carvalho, Brian O’Neill - Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa Augusto Abade, Eugénia Cunha, Manuel Laranjeira - Faculdade de Ciências, Universidade de Coimbra Jill Dias, Jorge Crespo, Claudia Sousa - Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, U. Nova de Lisboa Luis Batalha, Narana Coissoró -Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, U. Téc Lisboa Maria Johanna Schouten - Universidade da Beira Interior, Francisco Ramos, da Universidade de Évora. Álvaro Campelo, Paula Mota Santos - Universidade Fernando Pessoa Jean Yves Durand, Manuela Palmeirim - Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho Fernando Bessa Ribeiro, Xerardo Pereiro - Universidade de Trás os Montes e Alto Douro Ricardo Vieira - Instituto Politécnico de Leiria José Orta - Instituto Politécnico de Beja Joaquim Pais de Brito - Museu de Etnologia Vítor Oliveira Jorge - Sociedade Portuguesa de Antropologia e Etnologia (SPAE) João Leal, Miguel Vale de Almeida, Carlos Simões Nuno - Associação Portuguesa de Antropologia (APA) Maria Cátedra - Universidade Complutense de Madrid Shawn Parkhurst -Universidade de Louisville, USA Miriam Grossi - Associação Brasileira de Antropologia

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Dorle Drackle - European Association for Social Anthropology (EASA) Gustavo Lins Ribeiro - World Council for Anthropological Associations

Coordenação dos Voluntários: Cynthia A. Pereira Voluntários: Fátima Almeida Filipa Soares José Fidalgo Marta Fragata, Marina Sousa, Teresa
Bolas,Elísio Jossias, Mª Fátima Gabriel, Ana Beatriz Boucinha, Vanessa Gonçalves, Rui Costa, Íris Rosa, Tiago Oliveira, Ana Rita Alves, Ana Mafalda Falcão

Secretário
Miguel Jorge Lopes Sousa Pinto

Patrocínios
O Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (ICS-UL) e o Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE) cederam graciosamente à APA as suas instalações para a realização do congresso.

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I – Capítulo Colonialismo

Textos de comunicações dos painéis:

O Saber colonial e o fim da colonização
Coordenação

Clara Carvalho
Departamento de Antropologia, ISCTE;

Raça, Eugenia, Nação e Império
Coordenação

José Manuel Sobral e Patrícia Ferraz de Matos
Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa

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Antropologia Colonial e a Produção de Conhecimento sobre Grupos Étnicos da Guiné Portuguesa
Reflexão em torno da Tese de Mário Humberto Ferreira Marques “Comportamento dos Mandingas da Guiné Portuguesa na Vida e na Morte” 1 ISCSPU, 1965

Ana Mafalda Abreu e Castro Menezes Falcão ISCTE ana.falcao@sapo.pt

A produção científica portuguesa respeitante ao período colonial foi fortemente condicionada por um poder político que pretendia manter a forma colonial existente, alheio às exigências de mudança provindas da conjuntura internacional. Muitos dos autores deste saber participaram activamente nos programas políticos do regime colonial, e mesmo do autoritário, revelando assim a natureza essencialmente política da esfera científica da época. Nesta comunicação pretende-se deixar explícito o entrosamento entre discurso antropológico e dominação colonial, vínculo exemplificado no conteúdo duma das teses de final de curso do ISCSPU. Estas teses exprimiam os níveis de conhecimento (antropológico) em que se inseriram as decisões de política colonial nas décadas de 60 e 70. As referências imediatas dos autores destes trabalhos, que aliás exibem uma consistente igualdade de pontos de vista sobre as sociedades tradicionais, eram constituídas pelos ensinamentos ministrados nas Escolas Coloniais e, como tal, nenhuma novidade sobressai das análises que elaboram. Trata-se, portanto, através de uma leitura da tese “O Comportamento dos Mandingas da Guiné Portuguesa na Vida e na Morte” revelar a estreita conexão entre o saber antropológico e a ideologia colonial portuguesa, plasmada por um lado na valorização dos usos e costumes nativos transformados em “riqueza de Portugal”, e, por outro, no dualismo que opõe a incivilidade desta etnia à tolerância que sobre ela, no suposto respeito por esses mesmos costumes, os portugueses cultivaram. Palavras-chave: Discurso antropológico, Dominação política, Ideologia colonial, Incivilidade, Tolerância.

1

Comunicação apresentada no painel “O Saber colonial e o fim da colonização”( coord. Clara Carvalho, Departamento de Antropologia, ISCTE)

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1. Discurso Antropológico e Dominação Colonial

A produção científica portuguesa no que respeita às colónias, principalmente no domínio das Ciências Sociais, encontra-se muito condicionada por um poder político que pretendia manter a forma colonial existente, alheio às exigências de mudança provindas da conjuntura internacional. Muitos dos autores deste saber participaram formal e activamente nos programas políticos do regime colonial, e mesmo do autoritário, revelando assim a natureza essencialmente política da esfera científica na época. De facto, segundo Rui Pereira (1998), a afirmação institucional da antropologia portuguesa remonta à segunda metade do século XIX, e este desenvolvimento dos estudos etnográficos, em Portugal como noutros países Europeus, estava

manifestamente associado à busca de uma identidade nacional. Esta prolífica geração de intelectuais em permanente contacto com as escolas e teorias que então se desenvolviam em Inglaterra, França e Alemanha, contrastou com o anacronismo académico que assolou a antropologia entre as décadas de 1930 e 1970. Na sequência da Conferência de Berlim, Portugal demorou 70 anos a cumprir a exigência de ocupação efectiva das suas possessões coloniais, principal mandamento resultante do evento. Estabelecida a dominação política, económica e administrativa tratava-se de conhecer, de ocupar cientificamente o ultramar português, o que permitiu a elaboração de um plano, que servia ao “prestígio” e à “utilidade nacional”, por parte da Junta das Missões Geográficas e de Investigações Coloniais. Este plano para manter as colónias reivindicava um papel, a par de outras ciências, para uma Antropologia baseada em dados etnográficos existentes nos arquivos portugueses, reconhecendo-se, num mesmo movimento, a insipiência dos estudos elaborados sobre as colónias. A Junta de Investigações Científicas do Ultramar (J.I.U.), à qual se anexou mais tarde o Centro de Estudos Políticos e Sociais (C.E.P.S.), era expressão da ociosidade científica da altura. Porém, o CEPS viria dar vida a uma política de transformação do modelo colonial, organizando e coordenando as necessárias recolhas de dados. Adriano

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Etnocentrismo que. asseverava mesmo que “por definição a situação colonial que interessa à ciência política é uma situação dependente da intervenção do poder político”. falando a partir de uma asserção de princípio que reafirmava o modelo cultural lusófono como ideologia da colonização. escassa de trabalhos antropológicos e. Isto porque seria. poucos teriam sido realizados por antropólogos portugueses. Moreira enfatizava a urgência de um exame da situação colonial que assentasse no desenvolver de estudos monográficos sobre a dinâmica do fenómeno colonial. encontramos plasmado nas obras dos melhores antropólogos portugueses. no quadro de um colonialismo que reduz as populações autóctones a reservatórios de mão-de-obra. inútil ou pouco conveniente.. porque lhes bastava uma aparência de conhecimento” (GALLO. Esta apreciação consubstancia-se na tónica conferida pelos antropólogos culturais aos aspectos esotéricos das religiões e cerimónias africanas. deste modo se reconhece a especificidade do colonialismo português do ponto de vista científico: “até então aos portugueses não interessava uma informação cientificamente válida. enquanto se delineava um clima de fraternidade humanitária que bem podia ser posto ao serviço das classes coloniais no poder” (GALLO. aliás. Donde concluiu a quase inexistência de uma antropologia colonial portuguesa. autor que anos mais tarde se debruçou sobre a etnologia colonial portuguesa. entre estes. ainda que frequentemente apresentada do ponto de vista antropológico. e da necessidade de guiar as populações autóctones porque incapazes de se autodeterminarem. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .I.U. as bases dos novos modelos integrativos para as situações coloniais portuguesas. que todavia comportava elementos de discriminação em relação às populações autóctones. concentrando esforços na mera descrição de ritos tribais. 1988: 20). No campo dos estudos sobre a conexão entre a antropologia e o colonialismo português. Alfredo Margarido afirma que a primeira foi mero instrumento na mudança das formas coloniais. A produção cultural da J. era. aliado a uma dose avultada de paternalismo.3 Moreira. segundo R. situando as parcas obras de cientistas sociais que se ocuparam da ex-África lusófona “abaixo do limiar científico mínimo”. A aceitação do critério luso-tropicalista e a conjuntura favorável de que gozava o império Português no pós 2ª Guerra tornava possível tais projectos de delimitação de uma “área cultural lusófona. Nestas vemos perdurar a concepção ideológica que faz da imagem do negro enquanto “cidadão subalterno”. 1988: 18-19). Director do CEPS entre 1956 e 60. Pélissier.

e as datas das reformas que antecederam a sua consolidação reflectem as transformações dominantes sobre a função dos quadros coloniais. instaurando o consenso social interno.S.C. fragmentação e subalternidade da antropologia portuguesa. a despeito da pobreza. desde que permitidos pelo enquadramento colonial. ainda que não praticada necessariamente pela mão de antropólogos. funcionando nos momentos de normalidade da prática colonial. que institui uma Escola Colonial onde figuram disciplinas como geografia e história mas se pretere a etnologia geral em prol de uma geografia colonial. resultado de determinadas práticas científicas peculiares. conjuntura internacional onde emergem renovadas acções dos capitalismos ocidentais face aos países desenvolvidos e. até há alguns anos em Portugal não se formavam antropólogos a um nível académico. Esta última instituição é produto das múltiplas reformas sofridas pela Escola Colonial desde a sua criação. e do I. Analisar a produção colonial portuguesa de 1950 a 1975 implica primeiramente considerar a posição do País na década de 50. No decreto de 1906.E. de que fazem parte “noções e conceitos confluentes no património do saber antropológico europeu” (GALLO. em 1906.4 Contudo. se revelam os elementos de fraqueza e crise do império português. não é possível negar a existência concomitante de uma “antropologia aplicada”.P. assim. esclarece ainda melhor o formato da presença ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . É precisamente no âmbito deste empreendimento contra as formas eversivas que se pode situar as produções do C. A finalidade principal do ISCSPU era a de formar quadros civis e militares capazes de fazer funcionar as estruturas da administração colonial. Os sistemas de investigação manejados por estes funcionários do regime foram os mais variados. mas a antropologia era uma cadeira das escolas de quadros coloniais. agregou autonomamente um conjunto de saberes sobre as suas colónias. proposta da Sociedade de Geografia de Lisboa no sentido de produzir uma ciência colonial. Era necessário elaborar uma estratégia que. Na verdade. permitisse a continuidade do colonialismo evitando a contaminação das formas neocoloniais de territórios vizinhos. também Portugal construiu um saber colonial. ressalta a intencionalidade de imbuir os cursos dos quadros coloniais de cadeiras que acelerem a adaptação do conhecimento às formas de dominação. O argumento que daqui emana refere-se a uma especificidade do colonialismo português que.P. e a pesquisa de campo constituiu o denominador comum entre eles. A reforma de 1919. À semelhança das outras nações coloniais europeias.S. 1988: 24).S.U.

fazendo sentido acrescentar as disciplinas de direito internacional. uma vez que se introduzem elementos de teoria económica e de ciências das finanças. em Altos Estudos Coloniais. biológico e comportamental do indivíduo. A etnologia praticada por esta nova figura permitia deduzir as leis gerais dos fenómenos das vidas dos povos. De facto. A etnologia mantinha-se no currículo mas a sua aplicabilidade e utilidade prática era considerada de segundo plano. 1988: 31). frente aos desígnios de domínio em curso. Uma nova reforma. pondo fim à figura do administrador-etnógrafo na qual se baseavam as precedentes. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . pois que “a etnologia é a ciência que trata da formação e dos caracteres físicos das raças humanas” (GALLO. o punha a par de outras formas de colonialismo europeias. 1988: 29). preconizava agora a intervenção de um antropólogo. modificando o posicionamento português no quadro internacional do capitalismo. reconhece-se a necessidade de adaptar o sistema de conhecimento às novas exigências coloniais. procede-se à reestruturação do antigo curso de Administração Colonial do ISCSPU. representando um momento de crescimento económico do colonialismo português. desde a sua origem até ao estado actual de civilização. mantendo a sua função de formar quadros coloniais. de ora em diante com uma utilidade prática cada vez mais reconhecida. espelha o aumento do enfoque etnográfico ao introduzir a cadeira de antropologia cultural no Curso Complementar de Estudos Ultramarinos. Porém. biológico e comportamental das populações primitivas e não um especialista das sociedades primitivas então existentes” (GALLO. No ano de 1946. privado e público e ainda formação relativa a práticas judiciárias e notariais. a uma actualização ideológica de Portugal. através destas reformas. se é verdade que se procedeu. justifica o abandono de lógicas formativas anteriores. em 1961. a reforma de 1946. nomeadamente pela adopção de uma política assimilacionista. disciplinas funcionais à formação dos administradores. visando preparar os quadros teóricos do colonialismo. “esta [actualização] não se fazia com o fim efectivo de uma transformação do sistema de domínio” (GALLO. Em ambos os cursos constava a etnografia. entendido como “um especialista do carácter físico. e cria-se uma segunda formação. ano de uma nova reforma. Uma nova reviravolta na orientação destas formações ocorre em consequência da segunda guerra mundial que. que.5 portuguesa nas colónias. através de análises de tipo físico. 1988: idem). Em 1926.

ao abordarmos a vertente física da antropologia ou. Em 1918. a elaboração das respectivas cartas etnológicas” (PEREIRA. foi-se somando. do outro a Etnologia. convertidas nas únicas investigações antropológicas úteis. preferindo.6 A aceitação destes princípios foi bastante simples dado que. marcou decisivamente a orientação do pensamento antropológico português por toda a primeira metade do século. Foi a época de força da antropobiologia. António Augusto Mendes Corrêa cria com Américo Pires de Lima a Sociedade Portuguesa de Antropologia e Etnologia. onde vemos surgir a antropologia cultural nos cursos do ISCSPU. 1998: XVII). Fundador da «Escola do Porto» este médico. suplantando a simplista visão craneológica. desencorajava a disciplina das categorias exclusivas da antropologia física. e portanto também possíveis. vinculada a uma concepção científico-naturalista das ciências. 1998: VII). o sentido antropobiologista reinante durante quase toda a primeira metade do século XX. No âmbito de actividade desta escola. ou seja. Corrêa é inevitável. de novos elementos naturais. eram conjugáveis com a ideologia colonial e as suas exigências de domínio. A recorrência a M. paulatinamente. Esta visão restritiva das disciplinas etno-antropológicas. por serem capazes de fornecer à administração colonial portuguesa os meios de reforçar a sua ocupação e incrementar a mobilização da força de trabalho indígena. da mensuração e da quantificação. que se dispunham “proceder ao conhecimento dos grupos étnicos de cada um dos nossos domínios ultramarinos. Assim se subtrai à antropologia qualquer ligação às estruturas sociais dado que ela é apenas o principal elemento para o estudo do crânio humano. as primeiras acções em terreno colonial dignas de menção foram as famosas missões antropológicas. por outro. geográficos e históricos que. por um lado confirmavam a tradição portuguesa que a partir de Mendes Corrêa foi sobretudo a da antropologia física e. tuteladas por Mendes Corrêa. partes de uma equação em que os segundos são produto de uma combinação complexa aprendida e das tendências genéticas de cada ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . As concepções contidas nos manuais desta disciplina apontavam para uma ligação entre cultura e comportamento dos indivíduos. cuja designação trai desde logo “uma divisão fundadora no campo das ciências antropológicas em Portugal na primeira metade deste século: de um lado a Antropologia entendida como o estudo do homem físico. Esta lógica corporiza-se nas reformas de 1946 e 61. entendida como o estudo do homem cultural e social” (PEREIRA. doutorado em Antropologia física.

sobre a acção das missões e razões da emigração para as cidades. Retornado à produção cultural do CEPS. privilegiavam o discurso ideológico do regime. É neste sentido que podemos afirmar.7 um. Em termos temáticos podem ser classificados em três grupos. resultavam cientificamente inaceitáveis. mas também revela “as duas directrizes principais da sua funcionalidade: a gestão dos momentos de transição da forma colonial e o uso ideológico para o interior de Portugal” (GALLO. que as teses aparecem como uma continuidade dos relatórios confidenciais e. Frequentemente alvos de censura e de modificações estratégicas. resultados de missões a África e cujos principais objectivos se cifravam. Esta visão ratificava as convicções portuguesas relativas aos povos africanos. ou ainda do rendimento nacional do ultramar. de entre estes. se esclarece a relação entre antropologia e colonialismo. pretendessem licenças para elaborar a tese. pesquisas utilizáveis como fontes antropológicas. podendo mesmo conter conclusões diametralmente opostas às da pesquisa original. que continuavam a ser “cidadãos de segunda”. exprimiam os níveis de conhecimento em que se inseriram as decisões de política colonial do regime português nas décadas de 60 e 70. O entendimento ideológico do “outro” não era alterável. redigidas pelos vários administradores coloniais que tinham frequentado o curso de Altos Estudos Coloniais. As teses de final de curso. na óptica de Donato Gallo. e fortes penalizações para quem desta quisesse eximir-se. elucidando também as dinâmicas culturais que favoreceram e regularam as diferentes funções da antropologia da época. por outro. 1988: 38). em fazer frente às pressões do colonialismo internacional e.. este tipo de produção não aparece senão no formato de teses de final de curso do ISCSPU. É pela análise destas produções que. detenhamo-nos no caso particular dos Relatórios Confidenciais. Após a década de 50.I. O estudo dos relatórios e das teses serviu para atestar a sua argumentação em torno da existência de uma antropologia colonial portuguesa. Existiam simultaneamente facilidades para os que. por um lado. seguindo o raciocínio de Gallo. Alternando entre a fidelidade às ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . consoante tratassem de movimentos associativos e minorias étnicas. na procura das condições necessárias para uma racionalização eficaz da gestão colonial.U. tal como estes. sem se afastar de uma grelha interpretativa de carácter biológico e social. excepto através de simulações que propusessem novamente a sua inferioridade ou subalternidade a um outro nível. quando publicadas pela J.

É no seguimento destas asserções sobre o imbricamento entre antropologia e colonialismo que Gallo alerta para a precisão de revermos a acusação de acientificidade da produção cultural portuguesa ligada às colónias. 1988: idem). ainda que tenha sido amiúde negada. era a de “conhecer para melhor dominar”. porquanto estão condicionados “ao ponto de serem completamente acríticos em relação à própria visão escolar da realidade colonial” (GALLO. verificando-a agora com base nas condições que a produziram: o único conhecimento permitido era o aplicado e aplicável e a posição objectiva do intelectual português era a de um prestador de serviços a quem se encomendava. Gerou uma intelectualidade capaz de produzir análises etno-antropológicas passíveis de apropriação para uso político sobre a população dominada e de cariz propagandístico na metrópole. para além de podermos com alguma propriedade aferir a existência de uma antropologia colonial portuguesa. como tal. directamente funcional para a gestão do poder nas épocas de crise e de transformação do modelo de controlo colonial. os aparatos coloniais deste colonialismo funcionaram à semelhança dos de outras potências coloniais. a possibilidade e o uso do saber colonial” (GALLO. 1988: 170). As suas referências imediatas eram constituídas pelos ensinamentos ministrados nas escolas coloniais e. com as mensagens ideológicas elaboradas pelo regime e com a ideologia das noções antropológicas do período da sua formação na escola de quadros coloniais” (GALLO. controlava e até censurava o saber. aferir que o domínio colonial português se serviu de um aparato cultural cuja finalidade. 1988: 169).8 práticas normativas e a curiosidade antropológica. Ora. O saber colonial português foi. apesar de todas as indeléveis ligações ideológicas. com as respectivas diferenças que emanam da ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . os autores destes trabalhos exibem uma consistente “igualdade de pontos de vista sobre as sociedades tradicionais. O condicionamento dos produtores deste saber devia-se essencialmente ao seu cometimento com o sistema de domínio. nenhuma novidade sobressai das análises que elaboram. O autor avança ainda que. então. numa de duas modalidades possíveis: ou participando directamente nos aparatos coloniais ou dependendo deles para o financiamento das suas investigações. A presença destes mecanismos que submetiam a produção intelectual lusitana aos desígnios do império demonstra que “em Portugal o poder geria exclusivamente para os seus fins a necessidade. no que concerne as práticas antropológicas podemos.

por outro. 1998: XLVII). dez anos depois de Gallo. nalguns casos. também Rui Pereira. no caso da produção antropológica colonial portuguesa ambos os ângulos de abordagem se afiguram pertinentes. (PEREIRA. É com base na articulação entre o poder heurístico destes dois vectores de análise da produção antropológica colonial. os contributos directos ou simbólicos. que tal produção antropológica prestou à empresa colonial. A este propósito. o levantamento etnográfico de determinadas culturas. representou. no prefácio que escreveu para a reedição do Macondes de Moçambique de Jorge Dias. que passaremos a escalpelizar o conteúdo de uma das teses de final de curso do ISCSPU. de encarar as relações entre a Antropologia e a dominação colonial: (. mesmo servindo um intento de dominação colonial. a presente tese se insere no período considerado e surge na época da ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . visto que. tendo bem presente o subjacente entrosamento entre discurso antropológico e dominação colonial demonstrado nas páginas precedentes. 2.. cuja importância foi já referida no desenvolver da matriz teórica de Donato Gallo. e. uma prestação académica e científica importante. um por um. Os Mandingas da Guiné Portuguesa: Confronto entre Incivilidade e Tolerância Em primeira instância cumpre ressalvar as particularidades desta tese de final de curso. Se.) ou se considera o conjunto de problemas e temas questionados pela produção antropológica colonial como derivando das relações de força e das necessidades da própria situação colonial (…) ou. que a distanciam de outras consideradas num mesmo olhar por Donato Gallo. explícitos ou latentes. mas complementares.9 especificidade de uma forma colonial subalterna e periférica ao sistema económico internacional. por um lado as necessidades coloniais ditaram a problematização científica – como no caso da relação entre medições antropométricas e a quantificação da força de trabalho indígena –. se avaliam.. então. Ora. propõe duas perspectivas diferentes. por um lado.

entre 1961-1975. diplomado com o curso superior colonial. por outro não foi elaborada por um aluno que tenha sido administrador colonial ou militar. confessa a mágoa de. As sucessivas reformas que foram reconfigurando uma Escola Superior Colonial em ISCSPU trouxeram consigo. pelo menos indiferença” (MARQUES. a instauração de hierarquias estatutárias entre os antigos e novos alunos de cursos com uma origem comum. ainda que modestamente. donde escrever sobre ela serviria para. se nos cingirmos apenas ao ambiente metropolitano. “a hostilidade que os diplomados da Escola Superior Colonial sentiram. aspirava através dela obter a equivalência ao grau de licenciatura em Ciências Sociais e Política Ultramarina. assunção retirada por Gallo a partir do reduzido número de teses. Sobre o autor pouco se conseguiu averiguar. A escolha do tema é também. durante muito tempo no ambiente ultramarino (…) e. à medida que os cursos se ajustavam às realidades coloniais e se subdividiam para melhor se especializarem. Ferreira Marques justifica a sua opção temática espacial por “ser a Guiné a nossa província ultramarina mais atingida pelo desvairamento negro da presente hora”. destas circunstâncias particulares acresce ainda o facto da dissertação sobre o comportamento dos mandingas provir simplesmente da “conexão de elementos bebidos em fontes de várias origens” sendo. donde se infere a sua relativa marginalidade face a autores de destaque das ciências sociais comprometidas com o projecto colonial da época. Sabe-se. critério de constituição da “amostra” de Donato Gallo. a defender (MARQUES. O autor. que sobre esta colónia versavam (1988: 95). poderemos concluir que. Ainda. uma elaboração teórica desprovida de trabalho de campo. algo que se lhe tornou possível. depois da reforma de 1961. desde que apresentasse uma dissertação. consciente dessa realidade. curiosa dado que a Guiné na época “parecia não dar as mesmas preocupações que as outras colónias ao governo português”. contudo que a motivação para a realização desta tese parte de uma lógica estatutária visto que o autor. 1965: III). No entanto. em função dos seus deveres profissionais metropolitanos (Chefe de repartição do ensino liceal) “absorventes até ao esgotamento”. se não havia hostilidade. no mínimo. 1965: II). notava-se. a ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . não ter podido frequentar o curso de Altos Estudos do reformulado ISCSPU. aliás. a este respeito.10 extensão das lutas de independência iniciadas em Luanda a outras colónias portuguesas. Decorrendo. portanto. Invoca.

1965: V). Apesar da manifesta ausência de pertinentes referências bibliográficas no texto. como veremos adiante. Esta temática será esclarecida atempadamente no decurso da análise da tese. de uma temática que só no final da tese começamos a compreender do que realmente se trata. Os agradecimentos. no prefácio. dirigidos aos Drs. 1965: idem). a referenciar bibliograficamente. que são também as de uma escola. e a uma mais vasta panóplia de autoria estrangeira. sem. criadas pelas correntes ideológicas ou só aparentemente ideológicas que se alicerçam na finalidade. ajudam. Esta inexactidão de fontes e inferências teóricas pouco documentadas e actualizadas vai percorrer todo o conteúdo da dissertação. Marques refere-se a África como “o alvo da curiosidade mundial” instituído pelo desejo de “desvendar o seu mistério” e a “pretensão de civilizar as suas gentes”. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . do ISCSPU. 1965: IV). Cabe ressalvar também a presença. encoberta ou politicamente declarada. da Guiné Portuguesa. António Carreira. isto é. na compreensão do tipo de antropologia que se tentou pôr em prática neste estudo dos mandingas.E. do ódio ao branco” (MARQUES. Mas o que interessa reter à primeira vista são simultaneamente as possibilidades eversivas do povo mandinga. fazendo especial menção à reduzida bibliografia de autores portugueses. os diversos capítulos que a constituem. passo a passo. tendo em conta o que se disse no capítulo anterior. e na decifração das referências mais imediatas de um autor. ameaçadoras para o domínio português. facto ainda mais preocupante visto que é apenas de conexões teóricas que este se constitui. e o “pleno clima de confiança nos portugueses. muitos destes ligados ao C. Fernando Rogado Quintino e ao Centro de Antropobiologia e Centro de Antropologia Cultural. o autor faz no prefácio um elogio da excelência das obras em que se apoiou. o grupo mandinga o mais aliciante pelo fundo histórico de haverem sido os portugueses os primeiros europeus a tomarem contacto com os mandingas no tempo das descobertas” (MARQUES. atribuída a Duarte Pacheco Pereira. lança mão de uma descrição da época. Para o confirmar. missão que “está agora polarizada na decifração do enigma economico-politico suscitado pelas reivindicações que nela pululam. de mútua compreensão” que norteou as relações entre povo colonizador e colonizado (MARQUES. portanto. contudo.11 escolha da etnia mandinga se rege por critérios de ligação ao projecto lusitano: “ser. por enquanto interessa analisar.

que sucederam ao desmembramento do império de Kumbi. A aparição dos mandingas dá-se pela mestiçagem entre autóctones. lessem aos instigados os capítulos das suas histórias em que o ódio figura como causa principal no atraso e na ruína de muitas sociedades em evolução. todavia. trataram de formar um grande estado que não se concretizou devido à ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Numa lógica um pouco travessa Marques pretende deslegitimar esta pertença que. que afirma a posição dos Estados Unidos contra o colonialismo europeu. conforme a conversão. aqueles que resistiam foram impelidos a rumar a Sul. o império do Mandén. A chegada dos mandingas à Guiné portuguesa. e a consequente expansão do islamismo. da formação do grupo étnico. o domínio português se legitima pela particular tolerância e compreensão reveladas no contacto com os povos que pretende subjugar/civilizar: “se os instigadores do ódio ao branco. assim. com o Norte de África dominado pelos árabes e as populações subjugadas. nome que provém da região do Mandén. Em meados do século XIII e sacudido o jugo dos Almoravidas. em vez das promessas fantasiosas. E foi dessas massas fugidias que se formaram os grupos étnicos que envolveram a Guiné Portuguesa. De facto. Colonialismo e civilização dão as mãos numa relação inextrincável. seguindo-se a tomada do centro de África pelos árabes. talvez não conseguissem arranjar meia dúzia de adeptos” (MARQUES. depois de estabelecidos. se podem superiorizar face ao atraso dos verdadeiros autóctones: os negrilhos. negros oceânicos da segunda invasão. como veremos. difícil de precisar em termos temporais. tem o seu revés de benefício para os sudaneses visto que. com a expansão do islamismo. considerada como a sua pátria. onde.12 Começando por um relato. e os primeiros. que se pretende histórico. O acolhimento desta orda islâmica não foi de todo unânime. este grupo subdivide-se. e brancos do mediterrâneo. “em adiantado estado de civilização”. a parcela convertida dos soninkés. para refutar aos sudaneses a sua qualidade de autóctones da África. Marques invoca a Doutrina de Monroe. os Mandingas constituem o seu império. foi. Destes cruzamentos conjugados às duas vagas de invasão de massas semitas. perturbando a apropriação colonial de povos e territórios. nascem os sarakolés ou soninkés. Inicialmente feiticistas. Mas este império acaba por sucumbir no despontar do século XV. anterior à dos fulas-pretos feiticistas. 1965: 2). os não convertidos permanecem com a designação de soninkés ou sarakolés enquanto os convertidos passam a nomear-se mandingas.

que. eivada de ideias de determinação biológica de tipo racial esgrimidas enquanto discurso científico. no seu estudo por meios antropológicos reproduzir hierarquicamente a desigualdade. todos baseados em cálculos da média de uma série de mensurações. “elemento indispensável à classificação dos vários grupos da humanidade”. Eugene Pittard e do Prof. numa proposta quase luso-tropical. outros entram num sistema religioso misto e. elaborados num texto praticamente telegráfico que desvela a adesão a uma análise antropométrica dos povos. 2002: 111). Marques começa pela análise da estatura. 1965: 17). ainda. logo civilizadora. À igreja católica caberia desempenhar o papel de instituição legitimadora do regime colonial e dos valores por ele veiculados (THOMAZ. impotentes. Barrow. e com isto assegurar a preservação do império (THOMAZ. assim se divulga uma atitude doutrinária relativamente à qualidade evangelizadora e. reconstruindo assim a homogeneidade através de uma abstracção ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Iniciou-se uma guerra sangrenta donde os mandingas saem vencidos dando origem à tirania dos Fula-Pretos e à tentativa de islamização dos dominados. 1965: idem). dos portugueses. o grupo mandinga exigiu-lhes uma elevada tributação de ocupação de território que lhes valeria grandes dissabores futuros. verificada a impotência para a rebeldia e as vantagens em aceitarem o domínio português.13 dispersão que dificultava a unidade política. Para tal convoca contributos de Alcide D’Orbigny. fingindo-se convertidos ao islamismo. ao contactar com os povos de todas as latitudes” (MARQUES. Estes. O primeiro grande capítulo da tese sobre o comportamento dos Mandingas é dedicado aos caracteres somáticos desta etnia. os mandingas entraram numa fase de quietação” (MARQUES. Aquando da fixação dos fulas. estes. outros revelam uma certa renitência: “é nos renitentes que se encontra a grande massa que no final do século XIX e nos primeiros anos do século XX deram trabalho às autoridades portuguesas para receber o sopro de Cristianização que sempre foi timbre de Portugal. Com o aumento das massas de fulas-pretos a fixar-se na Guiné. O intuito de análises assim esboçadas era o de garantir a preservação da diferença e. uniram-se aos futa-fulas para se libertarem do domínio mandinga. Segundo uma chave interpretativa baseada no pressuposto de que a diferença física se manifesta também enquanto diferença mental. confere um carácter benevolente à colonização: “E. suportam a tirania e revelam diferentes posturas face à islamização: uns convertem-se. 2002:119) e. António de Almeida.

Deniker insere-se igualmente nesta linhagem de autores que pretendiam ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Quanto aos mandingas. Deste modo permite-se afirmar que “esta diferença está absolutamente de acordo com a teoria científica de que. o índice cefálico figurava como outro dos elementos científicos encontrados para a classificação dos grupos humanos. Marques vai estabelecer uma equivalência entre a cor da pele do mandinga e as escalas cromáticas propostas pelos anteriores autores: “a cor da pele dos mandingas corresponde ao último destes tipos [preto]. encontra valores médios elevados para os mandingas do sexo masculino e estaturas pequenas em indivíduos do sexo feminino. Os mandingas são considerados por Marques. ao sabor dos cruzamentos havidos no decorrer do tempo” (MARQUES. vê a base desta noção na somatologia. como povo de alta estatura. Para o atestar recorre a António Carreira. nos grupos humanos. e o valor dessa diferença oscila. tendo como base as anteriores “teorias científicas”. já de certo modo datados. e “conferindo uma nova aparência de cientificidade a uma classificação oriunda do senso comum” (RAMOS. onde este administrador colonial e antropólogo ligado ao Centro de Estudos da Guiné Portuguesa. Continuando a percorrer os caracteres que definiam o conceito abstracto de raça. A divisão em dolicocéfalos e braquicéfalos. nas observações de A. Recorrendo a textos apodados de uma cientificidade duvidosa e. a estatura do homem é sempre maior do que a da mulher. Carreirra e Emília de Oliveira Mateus. Baseando-se em Broca e Deniker. “Mandingas da Guiné Portuguesa”. mas a negrura varia em intensidade. são dolicocéfalos na sua maior percentagem mas. na época director da escola de antropologia de Paris. enquadrado por uma ciência das raças que. não isenta de polémica já na altura de realização da tese. 1965: 22) Paul Broca. segundo Eugene Pittard. realizara estudos tributários de um darwinismo social que pretendiam determinar biologicamente a imagem do negro colocando-o entre “o homem e o macaco” (GALLO. Marques vai forjando um entendimento antropológico dos mandingas. 2003). mesmo à época. 1988: 159). surgem também as outras categorias cefálicas. Les Races et l’Histoire. esta última no quadro da missão antropológica da Guiné em 1946. remetendo obviamente para Mendes Corrêa.14 matemática. como negros que são. espelha uma adesão a teorias de superioridade racial que pretendiam inferir do afastamento entre estádios de civilização dos povos. entre 9 e 12 cm”.

segundo A. A face. biotipologicamente. Relativamente aos caracteres psicológicos. criando esse quadro de homogeneidade tão precioso no delinear de estratégias de dominação colonial. Para o índice nasal sucede o mesmo processo de mensuração e de construção de equivalências automáticas. isto é. o seu carácter adaptativo pode ser encarado como ameaça a este mesmo domínio uma vez ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . adaptação. as modalidades mais características da sua fisiopsicologia” (RAMOS. porém não tão evidentes. vista e ouvidos as informações são escassas e inconclusivas. sentido artístico. nas suas características funcionais de maneira a determinar os tipos constitucionais mais frequentes em cada um deles e. ignorando a enorme diversidade racial no interior de cada grupo. 2003).15 classificar globalmente um povo com base nas observações somáticas e morfológicas da sua corporalidade. é fortemente vincada durante a descrição dos seus comportamentos na vida e na morte. Os estudos deste tipo aspiram a discriminar e analisar primeiramente. No caso dos mandingas o autor afirma apenas que estes são platirrinios. imputando-se aos negros. à falta de apreciação presencial. quanto maior a abertura do ângulo maior a superioridade intelectual. Esta última. não fora a proximidade de fontes subversivas e as doses avultadas de superstição que lhes estrutura o quotidiano. ou o ângulo facial é considerado. A psicologia do mandinga caracterizar-se-ia. olhos. Ora. as características morfológicas de um dado “tipo”. nos merecem confiança” (MARQUES. o autor reproduziu de descrições lidas. pacifismo. um prognatismo que correlaciona tipos morfológicos e atributos intelectuais. as características são elencadas de forma breve e generalizadora. meras descrições que. pelo seu aturado contacto com os nossos mandingas. ironia e superstição. uma etnia particularmente dócil na aceitação do jugo colonialista português. e pelo poder de observação demonstrado noutros trabalhos. “segundo conclusões tiradas por pessoas que. como apanágio do seu estádio inferior de civilização. Ademais. sem especificar se em virtude desta qualidade se podem tirar conclusões sobre a sua condição intelectual. portanto. 1965: 25). os mandingas seriam então. pelo sentimentalismo. e através da antropometria. pelo seu pacifismo e capacidade de adaptação. Sobre a boca. “e. invocando-se novamente teorias científicas que neste caso não possuem referência. resume a sua ideia religiosa. depois. e logo aos mandingas. como outro dos indicadores do grau de intelecto. Assim. honradez. “que acompanha todos os actos da vida do mandinga” e. cabelo. Carreira.

Se numa altura Marques lhes realça o sentido artístico. os mandingas constituiriam um reduto de conformidade que o regime procurava a todo o custo perpetuar. para que tal receba esse apelido é preciso ser um sítio “a que nós [civilizados] associamos a ideia de conforto. que recordemos. 2002: 281). Marques classifica de “exortação patética” as palavras dirigidas pelo Almami (padre muçulmano) ao novo profissional e. para o autor. desde logo. adverte que “os atrevidos são talvez em percentagem igual ou maior do que nas sociedades evoluídas”. “por ela pouca ou nenhuma diferença fazer da que serve para recolher animais”. Casa. o tom jocoso. e as comparações desniveladas que elabora: referindo-se a uma cerimónia de entronização ao papel de médico mandinga. noutra usa-o para imputar primitivismo: “têm alguma originalidade. De facto. assente sobre as bases da tolerância religiosa e cultural que “caracterizariam a obra portuguesa no mundo” (THOMAZ. Quando fala da casa mandinga fá-lo de forma flagrantemente etnocêntrica. se pensarmos que em 1965 estavam já acesas muitas das guerrilhas de libertação africanas. aprisco. Refere-se-lhe como um tegúrio. verificamos. não são mais do que reformulações das originais. sobre a protecção das casas de mulheres. empregam as criadas. 1965: 106). com a maior urgência. da incivilidade desta etnia.16 que. Perante tal cenário clama. 1965: 37). “de habitações dignas de serem ocupadas pelo ser humano que é o mandinga!”. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . arrecadação. não é onde se habita. pela intensificação da construção. uma estratégia dúbia de afirmação das características positivas e ao mesmo tempo. contando histórias de lobisomens aos filhos família. justifica-se referir ainda as representações reveladas relativamente à produção artística mandinga. de segurança e de condições higiénicas” (MARQUES. que incapaz de se autodeterminar. justificava o domínio português. Partindo agora para uma análise do discurso sobre o comportamento mandinga. nas sociedades evoluídas. com notória indignação. Sintoma da falta de cientificidade das descrições de Marques. é-lhe exigido mais que isso. Não querendo alongar-me na enumeração de mais exemplos desta parcialidade de análise. o autor refere-se frequentemente às sociedades evoluídas como contraponto de comportamentos supersticiosos que descreve: “salvas as devidas distâncias. como forma de os terem em sossego [algo que] nos povos atrasados ainda é desculpável porque obedece ao espírito supersticioso que eles têm” (MARQUES. é o mesmo processo que. são também os juízos de valor.

1965: 109). nota-se hoje uma acentuada relutância das viúvas em aceitarem a união com os cunhados” (MARQUES. porquanto esta só faz sentido numa determinada e bem restrita organização social dos significados. que “o desenvolvimento intelectual do mandinga encontrou muito cedo o seu termo. não sabemos o que o leva ou em que documento se apoia para assumir tal coisa. se pode classificar aspectos da vida mandinga como “actos do mais puro barbarismo”. são menos juízos éticos sobre a vida dos povos em questão. Voltamos a assistir a resquícios de uma tese sobre a inferioridade das raças quando se aborda a questão das actividades desportivas. Noutra zona do texto faz-se a apologia da influência da civilização portuguesa na mudança comportamental dos mandingas: “Pela evolução por que tem passado o mandinga no contacto com a nossa civilização. num processo que mediu pela bitola portuguesa todos os comportamentos que não se coadunavam com a mentalidade colonialista e autoritária do Estado Novo. que Marques faz uma ressalva ao “amor familiar” entre os mandingas: “esse amor tem de ser considerado num campo relativo. 1965: 66). a dada altura. mas este darwinismo social manifesto em produções que se queriam antropológicas. Este etnocentrismo e paternalismo explícito nas produções antropológicas portuguesas era ainda de maior funcionalidade em períodos em que se temia a turbulência das lutas de libertação nas colónias. uma descrição detalhada das características fundamentais de dada etnia. o que o leva a fugir de tudo o que exija esforços mentais” (MARQUES. serviu ao regime para se posicionar discursivamente acima de qualquer negro. Só estando profundamente imbuído de uma crença na real superioridade de um povo sobre outro. Neste aspecto particular se revelam as fraquezas de uma tolerância característica do português. Apreciações de carácter ético que desvalorizam as particularidades culturais de determinado povo. do que. e já tendo presente a especificidade antropológica da época.17 não há dúvida. mas sente-se nelas um fundo musical de primitivismo” (MARQUES. Marques esclarece. e como tal de civilização e progresso: “tornando possível a movimentação ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . A ocupação europeia de África é enfatizada por Marques como “sinónimo de pacificação”. Ora. dada a psicologia gentílica” (MARQUES. M. É neste quadro de sentido que une Deus. ou próxima dela. Pátria e Família. tido como objectivamente inferior. 1965: 45). 1965: 49). O que deveria estar em causa numa análise etnográfica.

1988: 43). 1965: 64).18 com segurança. Marques revela-se preocupado com a série de movimentos eversivos que. vemos em ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . existia uma atenção particularmente interessada em defender os interesses do colonialismo português. A isto parece seguir logicamente um sentimento de dívida. 1965: 82). Marques aproveita para inserir mais uma das suas considerações propagandísticas da benevolência lusitana. daí. porém. nas zonas de transição e do interior. Os movimentos religiosos eram nos relatórios retratados através de uma imagem em que reinava a incivilidade. postos em crise pelas tentativas de intromissão do capitalismo internacional. o desenvolvimento económico das regiões” (MARQUES. A história da submissão mandinga ao domínio fula reverteu-se num predomínio acentuado do islamismo nestas duas etnias. Numa alusão clara ao pan-africanismo. A “acção lenta e pertinaz da colonização dos europeus”. com origem política ou religiosa. De forma consentânea. a sua “boa vontade” é sempre enfatizada nas considerações de Marques. adoçando a prepotência dos dominadores [fulas]. e islamização. principalmente quando se toca no aspecto político e religioso da etnia mandinga. demonstrando que “as origens destes movimentos estão nos estragos impostos pelo colonialismo às estruturas tradicionais” (GALLO. na zona litoral e a norte do canal do Geba. Alegando a fragilidade da organização política mandinga. que os mandingas se distribuem por duas formas religiosas principais: o animismo. e esta só poderia ser superada através da conversão ao catolicismo. incompatível com a série de correntes ideológicas que promovem o ódio ao branco. mais afincadamente sentiriam o erro” encerrado na modalidade da sua organização política (MARQUES. 1965: 85). sabe-se que há “católicos civilizados de raça negra” (MARQUES. Em termos religiosos. sob a égide de reivindicações religiosas ou nacionalistas têm provocado uma “agitação negra quasi total”. Já na época dos relatórios confidenciais de que nos fala Gallo. afirma. originou a criação de novas vias de comunicação e. baseandose numa “autoridade em assuntos da Guiné” – Teixeira da Mota –. que foi perdendo terreno com a emergência do nacionalismo africano. revelada no rápido desmembramento do seu império e na submissão ao domínio fula depois da batalha de Turu-bã. É o caso dos relatórios de Silva Cunha em que este analisa os vários movimentos eversivos. ao afirmar que “se não fora a intervenção das autoridades portuguesas. de afeição pelo bom colonizador.

a dispersão dos mandingas pelas terras do Mali. dos próprios Mandingas. A simples existência deste pólo atractivo não pode pôr-se de lado e. admitir-se também a dificuldade da sua absorção pelas correntes de independência que volitam em seu redor” (MARQUES. na qual. O que estiver mais perto da fonte donde jorram as ideias terá mais probabilidade de ser atingido” (MARQUES. 1965: 118). O equilíbrio é aqui corporizado na perpetuação da dominação colonial portuguesa. mais uma vez reificando o etnocentrismo e paternalismo que o guiaram durante toda a tese. este último diz mesmo que “os negros foram sempre propensos à continuação de sociedades secretas”. e. o colonizador português. torna possível admitir a existência de uma profunda impregnação dessas doutrinas que ameaçam o domínio colonial português na Guiné. colocando a salvo os elementos mandingas: “parece lógico admitir a existência de uma dívida de gratidão por parte dos mandingas da nossa Guiné para com Portugal. Com o intuito de deixar clara a dívida dos mandingas para com o civilizador português. enceta uma revisão da história política dos mandingas. Sudão. em nome de um sentimento de gratidão que. razão que faz o autor discorrer sobre “as características especiais e únicas do sistema de Portugal contactar com os povos que civilizou” e que permitem esperar deles reconhecimento e gratidão. Mas. Senegal. República da Guiné e do Gana. como já foi dito. e as conexões ideológicas destas com os movimentos eversivos do poder colonial fá-lo recear as hipóteses de contaminação dos mandingas: “a situação geográfica de cada povo tem uma importância capital na determinação da maior ou menor facilidade de impregnação. 1965: 120). 1965: idem).19 Marques uma mesma postura. o autor faz especial menção a outras circunstâncias que podem subverter o rumo lógico dos processos de manutenção do império. Na verdade. assim. logo. “adoçou”a prepotência dos fulas. e no tom de alerta que faz desta tese um justo sucessor dos relatórios confidenciais. No entanto. tal como avançado anteriormente. o autor adverte para a necessidade de se lhe dar maior ênfase “quando o atraído não atingiu o grau cultural que lhe permitiria discernir com equilíbrio”. Gâmbia. ainda ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . “a proximidade de repúblicas recém-nascidas põe os povos que nela habitam na iminência de serem influenciados pelas novas doutrinas do continente” (MARQUES. “sabido como é que no Mali e na Republica do Gana se agitam com mais intensidade as doutrinas de emancipação do continente negro”. Este é precisamente o caso dos povos da Guiné portuguesa e.

A forma como se finaliza esta tese é a expressão mais finalizada do propósito último que levou à sua elaboração. ser iniciados. encerramos esta dissertação na esperança de que Essa será a força que neutralizará todas as forças contrárias. garantir. no gradualismo da «transfusão das almas». de por um lado valorizar os usos e costumes nativos e transformá-los em riqueza de Portugal. Não obstante o que se tentou demonstrar nestas páginas. assim. Procurava-se dessa forma “perpetuar o império e a sua estrutura hierárquica e. o volume de informação que poderíamos cruzar no espaço deste ensaio extrapola significativamente o que para a sua realização foi estipulado.20 assim. contemplando aspectos que. à luz de uma antropologia que não é já aquela dos tempos coloniais. Tratou-se neste documento. apesar de se estar a analisar em primeira-mão material intocado. muito ainda ficou por dizer. Numa passagem que se assemelha a uma prece. eivada de um cariz religioso e de forte carácter ideológico. em virtude de constrangimentos de dimensão não puderam aqui ser desenvolvidos. 2002: 277). Ferreira Marques apela aos Céus para que guie no sentido certo um império que já era na época uma forma colonial em vias de extinção: No entanto. a própria existência da nação portuguesa nos quatro cantos do mundo” (THOMAZ. e outros estudos poderão. e por outro de opor a sua incivilidade à tolerância que sobre ela. Próximas oportunidades de repensar estas questões surgirão. os portugueses alimentavam. embora associados e pertinentes. no suposto respeito por esses mesmos costumes. Mas. porque neste momento nos acode à imaginação a Cruz de Cristo. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . bem de alto a estrada percorrida por mais de quatro séculos por uma Nação que teve sempre como principal determinante da sua expansão no mundo a conquista de almas e não a de territórios. a partir de abordagens como esta. pode não conseguir neutralizar as forças de sinal contrário trazidas pelas “reivindicações negras em ebulição”. numerosos autores de destaque por convocar e uma história do saber etnológico da Guiné por recordar. indelevelmente revelador de uma ligação entre o saber antropológico e a ideologia colonial portuguesa. dominando.

21 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .

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pois contaminaria a “essência” que se julgava existir e se devia preservar. pelo seu incentivo e pelo espaço de reflexão que ali foi possível criar. Nação e Império”. 2 Doutoranda em Antropologia Social e Cultural do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e Bolseira da Fundação para a Ciência e a Tecnologia. Teoria da selecção natural e origens do pensamento eugénico Num contexto pré-darwiniano. Assistiu-se então à procura de afirmação da superioridade biológica e racial dos portugueses.pt Nas primeiras décadas do século XX em Portugal tanto a ciência como o poder estatal pretendiam contribuir para o progresso da nação. 1 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . neste sentido. miscigenação. inspirado nas teorias populacionais Comunicação apresentada no painel intitulado “Raça. Palavras-chave: raça.ul. e no qual participaram também José Manuel Sobral.Oximórons do Império: as buscas da perfeição ao serviço da nação 1 Patrícia Ferraz de Matos 2 Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa patricia_matos@ics. Posteriormente. Eugenia. Este trabalho foi realizado com o apoio da Fundação para a Ciência e a Tecnologia. a miscigenação seria nefasta. nação. Com este estudo pretendemos contribuir para uma melhor compreensão das sociedades contemporâneas e para uma reflexão sobre a história das ideias e do colonialismo português. Ricardo Roque. Clara Carvalho e Leonor Pires Martins. eugenia. Uma das formas de garantir a “pureza racial” era através da eugenia. influente nos EUA e na Europa. coordenado por mim e por José Manuel Sobral. as espécies eram consideradas imutáveis e os membros de cada uma delas eram detentores de uma essência que os diferenciava de todas as outras. 1. Gonçalo Duro dos Santos. surgiram noções como “pureza da raça” e. Agradeço aos colegas que fizeram parte deste painel e aos que participaram no debate final. Tal projecto de “purificação” procurava garantir o poder e a soberania dos portugueses e alguns cientistas fundamentaram os perigos da mestiçagem daqueles com as populações autóctones dos territórios ultramarinos. Associadas a esta lógica. Era necessário afastar os “incapazes” ou mais “fracos”. pois esses constituíam uma ameaça. império.

na obra Inquires into Human Faculty and its development. e paralelamente ao evolucionismo.boa. No entanto. 4.. 5 Mendel cruzou pés de ervilhas e identificou algumas características: quando as ervilhas de casca enrugada eram cruzadas com as ervilhas de casca lisa. Segundo ele. O termo eugenia (eu . que a capacidade humana era influenciada pela hereditariedade e não pelo meio e sugere as proibições dos casamentos inter-raciais. podendo tal conduzir a uma catástrofe. era necessário intervir activamente no desenvolvimento do homem. um monge checo. conhecido como o fundador da genética. Galton procura provar. 3... uma vez que as populações se adaptavam/ evoluíam ao longo do tempo. tendo em vista um aperfeiçoamento das populações e a eliminação de características indesejáveis. 2. a população cresce em proporção geométrica (1. Alguns eugenistas interpretaram estas experiências de um modo que reconhecia as ervilhas de casca enrugada como uma degeneração (e não como uma variação genética apenas). Galton 4 inspirou-se ainda nas descobertas de Gregor Mendel 5 (1822-1884). Segundo Malthus. na obra Hereditary genius. primo direito de Darwin. uma prática que procurava alcançar a melhoria das qualidades físicas e morais de gerações futuras. as espécies não eram imutáveis e evoluíam gradualmente. Inspira-se no darwinismo para elaborar em 1883. ou seja. pondo assim em causa a reprodução daquela espécie. emergiu a eugenia. a teoria eugénica de “aperfeiçoamento da raça humana”. Ao transferir o resultado das descobertas de Mendel acerca do cruzamento de ervilhas para os humanos. autor do Ensaio sobre o Princípio da População (1798). criada na Inglaterra. Em 1869. enquanto a produção de bens alimentares cresce em proporção aritmética (1. Darwin (1809-1882) definiu o processo de “selecção natural” das espécies. através de um método estatístico e genealógico. pois tal não permitia a actuação da selecção natural que eliminava os mais fracos.filho de Charles Darwin. a primeira do género.geração) foi criado em 1883 pelo britânico Francis Galton (1822-1911). 16. a selecção natural actuava no sentido da preservação das diferenças e variações favoráveis e da eliminação das variações nocivas (Darwin 1968 [1859]: 84). 4 Em 1907 foi presidente da Sociedade para a Educação Eugénica. os seres mais bem adaptados viviam durante mais tempo e deixavam uma maior descendência. tendo-lhe sucedido no cargo Leonard Darwin .2 do pastor protestante Thomas Malthus 3 (1766-1834). 2. genus . por isso. falar na existência de “tipos” raciais permanentes.. pois esse gene era dominante. Não fazia sentido.). o processo darwiniano de selecção natural já não operava sob as condições de uma vida “civilizada” e. Malthus não defendia a ajuda aos mais necessitados. 3 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .). principalmente pelo controle social dos matrimónios. Ainda durante o século XIX. 4. Galton considerou necessário procurar manter as “raças” puras. portanto. o resultado tendia a ser ervilhas de casca enrugada. 8. segundo o próprio.

Alguns autores vão então procurar encontrar uma matriz rácica para explicar a decadência de finais do século XIX (Sobral 2004: 259). deduzir os caracteres de “uma raça fundadora” portuguesa (Matos 1998: 324). e com os avanços técnicos. o isolamento dos “inferiores” e até a sua exterminação. Teófilo Braga (1843-1924). Teorias nacionalistas e influência do pensamento eugénico em Portugal No contexto português de finais do século XIX. Braga concluiu que os portugueses resultaram da mistura de vários grupos e tal era um exemplo de superioridade. pois esta permitiria obter combinações incontroláveis. levantaram-se questões relativas à miscigenação. tendo como resultado a sua degenerescência. como observou José Manuel Sobral. 279). Por outro lado. Já Leite de Vasconcelos (1858-1941) reconheceu que os portugueses resultaram da mistura de vários povos e. inclusivamente. por outro. Nesta altura. médicos. algumas zonas do país. tinham uma influência africana evidente (Vasconcelos 1895). uma grande parte dos autores da geração de 1870 debruçou-se sobre a constatação do atraso português de então comparado com os feitos heróicos nacionais que ocorreram nos séculos XV e XVI. “a nação portuguesa. a palavra “raça” tinha ainda. como Alcácer do Sal. “o sentido unitário – mas polissémico e ambíguo – de nação” (idem. a ideia de “nação” estava no centro das preocupações dos intelectuais (Mattoso 1998). como Alexandre Herculano (1810-1847) na sua História de Portugal. tanto para Antero de Quental. a partir dela. p. reconheceram a influência árabe. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . especialistas legais e higienistas mentais. económicos e políticos das nações mais progressivas da Europa. Na obra O povo português nos seus costumes. Por seu turno. Alguns teóricos defenderam que as “raças” inferiores ficariam favorecidas. Porém. resultou da “vontade política e das instituições e não de uma raça entendida como um tipo nacional” (Matos 1998: 329). crenças e tradições (1885). por exemplo. T. Outros. tomou a literatura como “expressão ou produto do meio social” e do “génio nacional” para. como para Oliveira Martins.3 A eugenia veio a suscitar o interesse de cientistas. mas as superiores sairiam desfavorecidas. 2. destituída de uma base étnica individualizada”. Para impedi-la promoveu-se a segregação de alguns grupos. por um lado.

pela tuberculose e pela ilegitimidade das crianças conduzia à necessidade de tomar medidas eugénicas. M. Em 1927. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .) pôr em prática (. ou devido a deformidades físicas (Corrêa 1928). assim como pela mortalidade. presidente da organização brasileira de eugenia. altura ou saúde. ibidem). promoção e proibição de casamentos. minora a influência dos semitas e não se refere a uma possível influência dos habitantes da África sub-sahariana. reconhece os “traços flagrantes” deixados pelo germano. Na I Semana Portuguesa de Higiene. entre 1915 e 1921. não sendo pois muito eficazes os meios higienistas. convida Renato Kehl. Por outro lado. o médico e antropólogo Mendes Corrêa. num texto de 1914-1915. da eugénica negativa (combatendo a procriação mórbida) e da eugénica preventiva (combatendo os factores degenerativos)” (Corrêa 1928: 1-7). hereditário. M. Corrêa. Foi neste contexto também que. a inaptidão bio-social era um fenómeno constitucional-germinal e. Corrêa propôs a criação de um “arquivo genealógico dos doentes” que veio a ser “posto em prática.) os princípios racionais de eugénica positiva (favorecendo a procriação sã). Corrêa estava ainda preocupado com o facto de que.. nesse mesmo ano. Nessa mesma altura. cinco anos depois. em 1931. os integralistas lusitanos. Corrêa intervém no Congresso Nacional de Medicina defendendo que o desfalque humano suscitado pela emigração.. nem a existência de sangue árabe consideravam. portanto. Para M. para uma conferência no Porto.. na Clínica Psiquiátrica da Faculdade de Medicina de Lisboa” (Pimentel 1998: 22). M. como António Sardinha (1887-1925) em O valor da raça (1915). assistência social. mais de 50% dos homens sujeitos às inspecções para o recrutamento militar não foram apurados por falta de robustez física. Nesse sentido referiu que era “urgente (.. começaram a surgir propostas de medidas de higiene. na qual o eugenista brasileiro condenou a mestiçagem (idem. no sentido de salvar a população portuguesa e manter genuinidade do carácter dos portugueses. sentiu-se a necessidade de realçar a hegemonia de uma nação colonial afastando elementos que pudessem sugerir degenerescência ou hibridação. No ano seguinte (1932) é convidado para organizar a secção do Porto da Sociedade Portuguesa de Estudos Eugénicos e.4 Nos inícios do século XX.

Tamagnini foi ministro do governo de Salazar. os “homens de amanhã”. 6 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . necessitam (. podemos referir a criação da Sociedade Alemã para a Higiene Racial (1905). director do Instituto de Antropologia de Kaiser Wilhelm de Berlim (Diário de Coimbra. para que possam manter o seu lugar ou conquistar melhor lugar na hierarquia dos Povos” (e isso só é possível) “aumentando a nossa população. Esta Sociedade. educando-a. a Sociedade Eugénica Francesa (1912) e a Sociedade Eugénica Americana (1921) que veio a aconselhar a esterilização de um décimo da população americana para evitar o “suicídio da raça branca”. Anselmo Ferraz de Carvalho ou Elísio de Moura. e realizou estudos que ilustram o seu interesse pela “raça”. desenvolvendo a nossa raça. onde as secções da sociedade eram dirigidas por M. de tão brilhante Passado. Vilhena. aperfeiçoando-a. as variadas causas do seu enfraquecimento 10 (1940: 6). participaram os médicos Joaquim Pires de Lima. tornando-a vigorosa e forte. o Estado que devote os seus cuidados aos seus melhores elementos étnicos dominará um dia o Mundo’ (1934-35: 28). Embora não fazendo parte desta sociedade. 10 Estes pressupostos eram comuns aos defendidos pela Sociedade Portuguesa de Estudos Eugénicos. que segundo ele permitiriam a continuidade dos valores da “nação” e da “raça”. respectivamente. mas o que ninguém pode contestar é a seguinte afirmação do Hitler: ‘Numa época em que as raças se estão intoxicando a si próprias. com a presença 8 de representantes de vários países 9 e esteve em actividade até 1974. defendeu em 1940. de 23-10-1934 a 18-1-1936. Bissaya-Barreto esteve presente na sua inauguração. Corrêa e H. Tamagnini analisa a importância do estudo da população e destaca as medidas eugénicas já tomadas pela Alemanha: Podem discutir-se pormenores.5 Em 1933. a Sociedade para a Educação Eugénica na Inglaterra (1907). Do Porto e Lisboa. instruindo-a. Mas já anteriormente. no ano lectivo de 1934-35. que: As Nações novas e as velhas como a Nossa.) de desenvolver tôdas as fôrças e riquezas com que a Natureza as dotou. na lição inaugural da Universidade de Coimbra. na Universidade de Coimbra. pode discordar-se de certos processos. 7 Em termos comparativos. João de Almeida (brigadeiro-médico) e Sobral Cid.. E. 10-12-1937).. o médico e antropólogo Eusébio Tamagnini 6 apresenta a proposta para a criação da Sociedade Portuguesa de Estudos Eugénicos 7 . 9 Entre os quais o alemão Eugen Fischer. criada em Coimbra em 1937. Bissaya-Barreto. tinha a intenção de propagandear ideias de “valorização demográfica” e responder à “necessidade de se criar uma geração mais forte”. Foi inaugurada durante as Comemorações Centenárias da Universidade de Coimbra. mentor de várias estruturas de apoio às crianças. cujos estatutos foram aprovados em 1934. no discurso para as festas comemorativas da cidade de Coimbra. combatendo tanto quanto possível. Rocha Brito. como Bissaya-Barreto. professor de Antropologia. Por seu turno. 8 A maioria dos presentes era constituída por professores da Faculdade de Medicina de Coimbra.

no que diz respeito à regulamentação de casamentos e divórcios proposta por alguns médicos e à consequente necessidade de actualizar o Código Civil português. Prémio Nobel de Medicina e Fisiologia (1949). a Igreja foi-se mantendo vigilante no que diz respeito a uma excessiva intervenção do Estado no domínio privado e familiar. a via higienista (apoiada pelas descobertas da química. Apenas Egas Moniz. propôs a esterilização para eliminar a hereditariedade mórbida. 11 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Por outro lado. A sua tese de licenciatura incidiu sobre “A Realidade Social do Aborto” e defendeu a legalização do aborto.6 Em Portugal. Sendo assim. psicológicos e até jurídicos. Os católicos defenderam a eugenia “embora aprovassem medidas natalistas de aumento da população e condenassem as medidas limitativas da natalidade” (idem. p. conservadores republicanos (Júlio Dantas). 26). uma medida no entanto restrita a casos clínicos mais especiais (Pereira 1999: 588). com a intervenção da Igreja no Estado. membros da União Nacional e opositores ao regime (como Álvaro Cunhal. que defendeu em 1940 a despenalização do aborto 11 ). agnósticos e ateus (Pimentel 1998). membros do Partido Evolucionista (Bissaya-Barreto). Entre os grandes defensores da eugenia estiveram vários psiquiatras e pessoas de distintos quadrantes políticos: ex-nacionais-sindicalistas (E. Tamagnini. embora as duas pudessem coexistir. os princípios da eugenia não foram levados até às últimas consequências e não se registou no país a ocorrência de extermínio ou genocídio. encontram-se apologistas da eugenia com diferentes posturas relativamente à religião: católicos. Outro elemento interessante é que as discussões acerca da eugenia passaram a juntar aos argumentos biológicos. os elementos sociológicos. como sabemos que aconteceu nos EUA e na Alemanha. houve em Portugal um certo consenso em a reprovar. medicina e farmácia) acabaria por prevalecer à via eugenista. Em Portugal registou-se então a persistência dos valores humanistas. De facto. e especificamente católica. No que respeita à esterilização. procurando assim impedir os excessos “negativos” da eugenia. em parte devido à influência cristã. João de Almeida). ou de esterilização como sucedeu na Suécia.

1934: 329. estas discussões acerca do “aperfeiçoamento da raça” estiveram envolvidas também com a questão colonial (Matos 2006) e. no discurso da Sessão Inaugural do Congresso Nacional de Ciências da População. Nas Comemorações de 1940. como Norton de Matos ou Vicente Ferreira. este autor chama a atenção para a necessidade do desenvolvimento de estudos sobre os “problemas biológicos e sociais do mestiçamento” cuja “intensidade angustiosa e dramática” deveria preocupar os investigadores. no I Congresso Nacional de Antropologia Colonial de 1934. por exemplo. por essa razão. e defendeu uma política colonial “extremamente humanitária e rasgadamente liberal” para apelar à colaboração dos mestiços. por outro (Correia. Corrêa propósitos muito idênticos. por exemplo. Tamagnini. salvaguardando. que estes constituíssem “grupos cuidadosamente separados” (Ribeiro 1981: 155). 12 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . G. e ainda o México. e os científicos. uma vez que um mestiço era “um sêr imprevisto no plano do mundo” (1934: 332). Assim. podemos encontrar em M.7 3. defendendo que: “de um mestiçamento não se pode esperar uma nova linha racial pura” (1940b). ao defender o esforço para incutir nos portugueses o desejo de emigrarem para as colónias e aí se fixarem definitivamente. por um lado. Numa outra comunicação apresentada ao Congresso Colonial. embora fossem a favor da “elevação social de pretos e mulatos”. a Argentina e a Venezuela. governadores coloniais. por um lado. referindo que esta era “um risco para tôdas as sociedades humanas. envolvendo os meios políticos. No mesmo Congresso. inaceitáveis em “matéria da eugenésica interétnica”. por outro. o Peru. com a questão da miscigenação 12 . alertou para os perigos da mestiçagem. pois foram esquecidos desde os “tempos dourados em que o grande Afonso de Albuquerque favorecia o cruzamento de portugueses com as mulheres indígenas”. Já no âmbito científico. não eram favoráveis à mestiçagem. No Congresso de Antropologia Colonial (1934). Apela ainda A questão da mistura racial não era única de Portugal. Ela foi debatida em alguns países da América Latina. como o próprio Brasil. o médico Germano da Silva Correia criticou o povoamento colonial por condenados. Higiene racial e questão colonial Na primeira metade do século XX. refere a importância do “vigor” e da “pureza germinal da Raça” para a “continuidade histórica da Nação” (1940c: 20). Contemporaneamente a Tamagnini. Este médico não apoiava a mestiçagem. enfatiza a sua linha de pensamento quanto à mestiçagem. 326). no entanto. desde a Família até ao Estado” (1934: 63). mas com um espírito um pouco diferente.

porventura. em Lisboa. numa Comunicação apresentada à 22. a sua colaboração com os mais prestimosos valores nacionais.. no Congresso Colonial. Porém...º Deve dar-se aos mestiços do nosso Império um tratamento carinhoso. foram desfavorecidos por más condições sociais e educativas e promover. exercer postos superiores da política geral do país.ª Sub-Secção do II Congresso da União Nacional. como não devem os estrangeiros naturalizados. Corrêa debruça-se sobre os “Factores degenerativos na população portuguesa e seu combate” e anuncia o mestiçamento como “possível factor degenerativo”.. Dito de outra forma. dentro do possível. fraterno.... Quatro anos mais tarde (1944). Na sua apresentação integrada no Congresso Nacional de Ciências da População. sobretudo mais tarde. mas a questão de o factor degenerativo surgir era apenas uma possibilidade (1940a). um recurso a adoptar para exploração dalguns territórios (.) muito excepcionais e improváveis” (1940b). salvo (. no entanto.º Não deve considerar-se o mestiçamento em larga escala como base da nossa política colonial. que é a maior garantia da continuidade histórica da Pátria. M. Ainda no âmbito daqueles congressos de 1940. A mestiçagem era vista como uma ameaça.º Em tal caso deve procurar-se. Contudo. 4. a posição destes autores. uma selecção eugénica dos progenitores (. 2. pois isso implicaria a destruição dum património germinal. humano.) em casos (. tanto quanto possível.. cuja existência vários autores tinham tentado demonstrar desde o século XIX. professor na então Escola Superior Colonial. o mestiçamento levaria à diluição de caracteres (1940b). aborda questões como o contacto da “raça portuguesa” com as “raças indígenas” e o contacto das “raças” nas colónias portuguesas e revela-se também contrário à existência de “mestiços” (1940: 20-21).) (1944: 3-4). pois poderia conduzir à dissolução de caracteres específicos dos portugueses. o que este autor acaba por destacar é a imprevisibilidade do mestiçamento (1940b) e não a sua fundamentação científica. é. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . procurando melhorar a situação daqueles que. 3. não representa todos os discursos da época.º O mestiçamento em áreas de difícil aclimação dos europeus ou por virtude da escassez dos colonos provenientes da metrópole. Havia alguns que contrastavam com estes. após a apropriação das teses luso-tropicalistas de Gilberto Freyre. Gonçalo de Santa-Rita (1891-1967).). embora influente.8 à “conveniência nacional de restringir os cruzamentos raciais” e termina referindo que: “nunca eles (os mestiços) deverão. Mendes Corrêa sustenta que: 1.

Ainda no âmbito dos congressos de 1940 foi apresentado um estudo sobre as populações indo-portuguesas. No âmbito deste mesmo congresso. é nesta mesma altura. embora tenha enfatizado não querer que estes “casassem com as ‘mulheres negras’ de Malabar” (Boxer 1967: 98-9). Quando os portugueses chegaram à Índia encontraram impérios imponentes. o médico Joaquim Pires de Lima defendeu que os portugueses resultavam da síntese entre os elementos lusitano. é pràticamente nula” (1940: 563). No âmbito das Conferências de Alta Cultura Colonial (1936). a par das considerações contrárias à miscigenação. vice-rei da Índia. negando outras influências (1940: 99). como é o caso de Afonso de Albuquerque 13 . Embora a sua religião fosse diferente.9 Curiosamente. 13 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . etc. Aires de Azevedo apresenta um trabalho no qual conclui que “a influência das raças coloniais (nomeadamente Hindu e Negra) na pureza bioquímica do povo português. num texto sobre o índice nasal dos portugueses. o seu desenvolvimento social e cultural era considerado superior ao dos africanos. Tamagnini (1939) procurou demonstrar que os narizes dos portugueses eram muito diferentes e não tinham qualquer influência dos narizes dos africanos. houve gente que ascendeu à nobreza. que assistimos à produção de trabalhos visando provar a pureza do povo português. românico e germânico. Sampaio e Mello. a Escola Médica de Goa era muito organizada. Por seu turno. que encorajou os seus homens a casar com as mulheres de origem ariana convertidas ao cristianismo. 4. professor da Escola Superior Colonial. Várias vezes foram lembradas as iniciativas de Albuquerque na Índia no que disse Aqui o processo de colonização ocorreu de um modo diferente do que aconteceu em África. houve quem tenha defendido uma política de casamento misto. na história da colonização portuguesa. nem diversificação rácica na grei Luso-descendente. Os hindus impressionaram pelo seu desenvolvimento e organização social. Por ocasião do Congresso Nacional de Ciências da População (1940). O seu autor. Histórias de miscigenação na colonização portuguesa Apesar do que foi dito atrás. defende que os portugueses em contacto com outras populações se manteriam sempre portugueses e um bom exemplo disso era o Brasil (1936: 52). Germano da Silva Correia refere que “não ocorreu nem degenerescência. domiciliada há mais de dois séculos nesta Colónia” e que a única diferença resultante do clima tropical é “o menor grau de robustez orgânica” (1940: 663-678).

foram mesmo consideradas inspiradoras e precursoras das ideias que se quiseram pôr em prática nos territórios coloniais depois dos anos 40 do século XX. a obra de Freyre não teve receptividade em Portugal na década de 30. Esta ideia parece ser predecessora da ideologia “luso-tropicalista” cujos fundamentos começam a ser lançados. e eu chegava lá e ver uma preta nua não me impressionava nada. aquilo para mim era um bicho. de adaptação ao ambiente. um discípulo de Franz Boas. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . um ex-funcionário administrativo nos anos 30 em Angola: J: . quer dizer. dizia: ‘. eu não me relaciono com pretas!’ (…) Eu tinha 18. em 1933. pode ser descrita como um “choque cultural”.10 respeito à colonização. E eu disse: ‘Ó senhor administrador. como nos referiu. rapaz. 14 Para um maior desenvolvimento sobre este assunto. postas em prática no início do século XVI. De facto.Não senhor. G. Porém. As suas ideias de política colonial. eu não quero. você ou tem uma ou não pode ter muitas’. mais tarde já não era… É uma questão de costume. mas o administrador onde eu estava. Freyre destaca a predisposição dos portugueses para o contacto fraterno com as populações tropicais. O “renascimento do império” estava imbuído de ideias raciais e. o próprio soba não perceber como é que um monaqueca (rapaz novo) podia viver sem mulher. vide Andrews (1991) e Castelo (1998). é relativamente comum considerar-se que os portugueses não estabeleciam barreiras raciais nas suas colónias e que a sua fácil miscigenação com outros povos lhes daria uma certa especificidade (Boxer 1967: 35). como tal. tal processo não terá sido pacífico. embora depois houvesse uma adaptação. devido ao seu passado étnico e cultural de “povo” indefinido entre a Europa e a África 14 . na obra Casa Grande & Senzala do já referido Gilberto Freyre (1957 [1933]). em entrevista. 17 anos quando fui daqui. Na obra citada. A sensação de estranheza do colono quando chegava aos territórios ultramarinos e tinha um primeiro contacto com as suas populações autóctones. eu não tenho nenhuma.Sucedeu-me isso. Todavia. não havia lugar para a visão culturalista de Freyre ou para o elogio do mestiço (Castelo 1998).

11 5. segundo a qual a colonização portuguesa teria sido diferente. Como resultado das pressões anti-coloniais. a expressão “colonização” passa a ser substituída gradualmente por “integração”. porque os tratamos com mais humanidade e nos interessamos pela vida deles. uma vez que os portugueses sempre tinham respeitado os valores das populações com as quais se relacionaram e com as quais mantiveram laços de tolerância. criando as chamadas sociedades luso-tropicais. é muito difícil para muitos acreditar na teoria luso-tropicalista. harmonia. Índia Portuguesa e Macau” (Santos 1955: 159). num Relatório de Campanha (Moçambique. As ideias discriminatórias do Acto Colonial (criado em 1930) começam a ser abandonadas e o regime adopta a teoria “científica” de Freyre 15 . Angola. declarava que: “nós continuamos a ouvir sempre repetir que os indígenas gostam mais dos portugueses que dos ingleses. Ainda hoje. A discriminação racial e as duras práticas administrativas coloniais existiam e persistiam. numa altura em que os países europeus já tinham concedido a independência às suas colónias. que se verifica uma mudança na atitude dos políticos do regime face à ideologia de Freyre. A Constituição de 1951 instituiu o regime de indigenato aos nativos de Angola. por exemplo. como certos erros que passam de uns manuais para os outros. é sobretudo no período pós-Segunda Guerra. No caso de Jorge Dias. Tanganhica e União Sul-Africana). Moçambique e Guiné pelo facto de considerar que estes ainda não tinham alcançado “o nível de cultura e o desenvolvimento social dos europeus” como possuíam os de “Cabo Verde. e até ousadamente. Mas as concepções luso-tropicalistas de Gilberto Freyre receberam críticas. só a visita ao “terreno” lhe concedeu uma visão crítica diferente das visões luso-tropicalistas que o regime apropriou. fraternidade e até de intimidade. este autor. Em 1959. 15 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . foi necessário proceder a uma reformulação da postura portuguesa face aos territórios ultramarinos e seus habitantes. Reformulações trazidas pelo pós-guerra Embora a recepção inicial da teoria gilbertiana em Portugal tenha sido heterogénea e não lhe tenha sido dado um grande destaque nos anos 30 e 40. acham mais cómodo repetir aquilo que os outros disseram” (Dias e Guerreiro 1960: 21). porque os autores em vez de procurarem verificar a exactidão das afirmações. Ao mesmo tempo. um pouco inesperadamente. E esta história vai-se repetindo. embora ela nunca tenha sido apoiada oficialmente (Castelo 1998).

No âmbito do contexto colonial. portanto. mas depois assistimos ao entrecruzar dos discursos políticos com os discursos da Igreja. um país pequeno. encontrámos algumas dessas combinações. Curiosamente. por exemplo. No âmbito do contexto nacional e colonial português analisado. Os oximórons podem surgir também. mas todos eles tinham características particulares que se tinham mantido inalteráveis. apesar da ascendência diversa dos portugueses. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Outros consideravam que mesmo cruzando-se com outros povos.12 6. no fundo. porque um oximóron designa uma combinação engenhosa de palavras que. nunca perderiam a sua essência individual que os caracterizaria. se contradizem entre si. essa mistura nem sempre foi reconhecida e alguns autores procuraram provar a sua “pureza racial”. cujos recursos não abundavam. Portugal. imperial. perdurado ainda até 1954. a atribuição de um título nobiliárquico em Portugal. o processo de assimilação das populações autóctones dos territórios ultramarinos não parecia diluir a originalidade portuguesa. tendo o “estatuto” de “indígenas”. e constatamos que alguns discursos científicos afinal estão imbuídos de discursos também eles políticos e até de teor religioso. não tinha tido quaisquer relações com negros. por exemplo. Em conclusão Escolhi a expressão “oximórons” para o título desta comunicação. Faz sentido também falar em oximóron quando nos estamos a referir ao texto da Constituição de 1951 que se refere ao processo de assimilar os nativos dos territórios sob administração portuguesa. num contexto no qual à partida concebemos o Estado e a Igreja como separados. Ou seja. era dado a ver como um país grande. pois o potencial eugénico dos portugueses permitia que essa originalidade se mantivesse mesmo em contacto com populações “exóticas”. Um outro oximóron resulta da promoção da ideia de “pureza racial” dos portugueses e da argumentação simultânea de que os portugueses descendiam de vários povos (ao longo de séculos). com territórios espalhados por todo o mundo. e à influência da Igreja no próprio Estado. só era concedida se o indivíduo provasse que nunca tinha passado por África e. que não permitia o acesso à cidadania da maioria da população das colónias africanas. nos séculos anteriores.

atingindo o seu auge durante as décadas de 30 e 40 do século XX. não será também um oximóron a combinação sugerida por alguns entre ideias de “cultura de fronteira” (Boaventura Sousa Santos 1993) e a de que a cultura portuguesa se deixa contaminar pelo que lhe é exterior (Jorge Dias 1990 [1953]. Como referiu João Leal. segundo Sousa Santos. da identidade nacional e da adaptação dos portugueses a diferentes territórios. Muitos dos autores que teceram considerações acerca da “raça” e da eugenia tinham currículos que. O que podemos então esperar dos antropólogos de hoje? Correr-se-á o risco de voltarmos a viver em contextos semelhantes aos aqui descritos. Hoje. Dias (1990: 156). parece coadunar-se. a ideia do luso-tropicalismo. Santos 1993) com a ideia de um “modo de ser português” facilmente identificável e transhistórico? Como vimos. Contudo. Essas teses foram inicialmente desenvolvidas por Jorge Dias em Os Elementos Fundamentais da Cultura Portuguesa (1990 [1953]) e depois em O Carácter Nacional Português na Presente Conjuntura (1971 [1968]). nos quais se discute a superioridade biológica e cultural de uns indivíduos em relação a outros e se propõem medidas científicas e políticas com vista a penetrar nas esferas pessoais e sociais dos indivíduos? Poderemos nós prever isso. S. “as buscas da perfeição ao serviço da nação”. segundo alguns historiadores como Valentim Alexandre (2000) e Cláudia Castelo (1998) e antropólogos como Miguel Vale de Almeida (2000) e Cristiana Bastos (1998). estamos perante um oximóron quando nos lembramos da defesa das teses luso-tropicalistas aplicadas à caracterização da colonização portuguesa. Quanto à predisposição especial dos portugueses para a adaptabilidade. e tendo sobrevivido ao período pós-independência das ex-colónias portuguesas. na altura. B. e outras obras (acrescentamos nós). Os Elementos Fundamentais. dado o contexto que se vive actualmente? Boaventura Sousa Santos (1993) caracterizou a cultura portuguesa como uma “cultura de fronteira” e defendeu ideias a propósito da capacidade de adaptação da cultura portuguesa. atravessaram o período que precedeu o Estado Novo e reavivaram-se com este. há muito alvo de descrédito científico. segundo J. com algumas das ideias acerca do nacionalismo português. na expressão do nosso subtítulo. emergiram no final do século XIX.. “volvido quase meio século sobre a sua publicação”. ou marcada por uma grande “disponibilidade multicultural”... o que faz dela uma entidade “poliglota”. há autores que ainda recentemente se prenderam com essa questão 16 . não permitiriam levantar qualquer suspeita. 16 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Tanto um autor como outro abordaram a questão da cultura portuguesa se deixar contaminar pelo que lhe é exterior. “continuam a projectar a sua sombra nas discussões contemporâneas acerca do que é ser português” (2000: 103).13 Por outro lado.

II Secção. A Saúde. porque distintas e distantes. Novos Racismos. 1991. Análise Social. Porto. Porto. Rio de Janeiro. CORREIA. Tomo 1. Teófilo. não será apenas onde existem afinidades que podemos encontrar diferenças? Referências bibliográficas ALEXANDRE. Cláudia. consequentemente. Edição dos Congressos do Mundo Português. 1. 1940. Mendes. Edições da 1. 1940. VIII Congresso. em Congresso Nacional de Ciências da População. 1998. Lisboa. Porto. ANDREWS. II Secção. Mais vale prevenir do que remediar. em Congresso da História da Actividade Científica Portuguesa. 2000. 1934. Jornal popular. Edição dos Congressos do Mundo Português. em Trabalhos do 1. O luso-tropicalismo e a ideologia colonial portuguesa (1933-1961).º. ou será que é porque existem semelhanças que se poderão facilmente continuar a compará-los? Por outras palavras. Blacks & Whites in São Paulo. George Reid. BRAGA. 1985-1986 [1885]. Valentim. The University of Wisconsin Press. O povo português nos seus costumes. Alberto Carlos Germano da Silva. 1967.º. Fernando. CASTELO. crenças e tradições. Tempo Brasileiro. BISSAYA-BARRETO. O Modo Português de Estar no Mundo. “Festas comemorativas dos Centenários e da Rainha Santa”. Afrontamento. Jorge (Coord. CORREIA. 1998. Perspectivas Comparativas. Cristiana. Tomo 1. Lisboa. de África Médica. CORRÊA. BASTOS. Aires de. 1940. 1944. “Os Eurafricanos de Angola”. Volume I. Costa Carregal. em Sep. “O império e a ideia de raça (séculos XIX e XX)”. Relações Raciais no Império Colonial Português. 33 (146-147). “Antropologia na Índia portuguesa”. 1415-1825.ª Exposição Colonial Portuguesa. Alberto Carlos Germano da Silva. Charles.ª Parte. Ano X (229 e 230). em VALA. Oeiras. Dom Quixote. Lisboa.º Congresso Nacional de Antropologia Colonial. Celta. bi-mensal de Higiene e Profilaxia Sociais. 1888-1988. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . 1. sobre o receio da diluição dos caracteres seculares evocados por alguns autores? Inventariar-se-ão diferenças incomparáveis. 551-564. AZEVEDO. 663-678.14 Estando Portugal a transformar-se cada vez mais num país de imigração e de acolhimento para muitos indivíduos poderemos vir a assistir novamente a discussões sobre os possíveis efeitos das misturas biológicas e culturais dos portugueses com outros grupos e. Nº 12. “A pureza bioquímica do Povo Português”. Madison. 300-330. “Tristes trópicos e alegres luso-tropicalismos: das notas de viagem em Lévi-Strauss e Gilberto Freyre”. “O mestiçamento nas colónias portuguesas”. Dezembro de 1944. 133-144.). Brazil. 415-432. BOXER. 4-7.ª ed.

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Palavras-chave: Antropologia física. Nação e Império”. redigido por Américo Pires de Lima (1886-1966).Ossos do ofício: um caso de práticas antropométricas no norte de Moçambique (1916-1917) 1 Leonor Pires Martins Doutoranda em Antropologia.com Por ocasião da I Guerra Mundial.piresmartins@gmail. a que não estava obrigado pela sua participação na campanha. Aproveitando a estada naquela antiga colónia portuguesa o jovem médico ocupou o tempo livre com o estudo da flora. memorialística e técnica da autoria de Pires Lima. Utilizando diversas fontes literárias de natureza autobiográfica. fauna e antropologia indígenas. recolhendo espécimens botânicos. zoológicos e diversos artefactos. este texto pretende recuperar a sua experiência no litoral norte de Moçambique em 1916-1917 e reflectir sobre os interesses do médico pelas “raças” moçambicanas à luz das práticas antropológicas suas contemporâneas. foi Este texto é uma transcrição fiel da comunicação que foi apresentada no painel intitulado “Raça. Martins 2006). Eugenia. Moçambique. Fazendo uso da técnica da antropometria realizou ainda mensurações em mais de uma centena e meia de nativos moçambicanos e procedeu à descrição dos seus caracteres fisionómicos. Colonialismo. Este texto. representava um esforço de sistematização das observações e mensurações antropométricas de populações locais realizadas pelo jovem médico durante o período em que integrou terceira expedição militar ao norte de Moçambique (Lima 1918a). I Guerra Mundial 1. Uma versão mais desenvolvida e trabalhada foi posteriormente publicada (vd. 1 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . o médico Américo Pires de Lima integrou uma expedição militar ao norte de Moçambique. ISTCE leonor. Em 1918 a revista Anais Científicos da Faculdade de Medicina do Porto publicou um artigo com o título de “Contribuição para um estudo antropológico dos indígenas de Moçambique” que revelava interesses no domínio da antropologia física e biológica. O interesse pela aplicação de práticas de natureza antropométrica.

Mais adiante. exemplares da flora (plantas e líquenes. Em larga medida. desenvolvendo uma actividade paralela à assistência médica prestada às tropas expedicionárias portuguesas ali estacionadas. Américo Pires de Lima embarcou no início de Junho de 1916. sobretudo) e um pequeno número de artefactos. sendo notório o espírito cumulativo com que procedeu à recolha de informação. Na tradição das expedições e viagens científicas setecentistas e oitocentistas. da fauna e antropologia indígenas”. desde o final de 1914 que essas intervenções militares ocorriam em Angola e em Moçambique. Na realidade. recolheu espécimes zoológicos. Pires de Lima. quatro estatuetas maconde. veremos que este conflito proporcionou a Pires de Lima condições particularmente favoráveis à realização de estudos de antropometria. o médico português ocupou o tempo que sobrava da actividade clínica recolhendo “todos os elementos possíveis para o estudo da flora. técnicos. como recordou em 1943 no prefácio de um volume que reunia os textos decorrentes daquela experiência em África (Lima 1943: vii). materiais e humanos disponíveis para o exercício de averiguações científicas – compreendeu uma importante diversidade de interesses. a variedade desses interesses pode ser ilustrada através do destino dado aos resultados da recolha de Pires de Lima. Nessa altura. Durante a sua permanência em Moçambique. desde Março desse ano. a missão de estudos de Pires de Lima – ainda que condicionada pela modéstia dos recursos logísticos. Portugal era formalmente. Assim. entre os quais. instituição onde leccionava ciências biológicas. no seu regresso a Portugal em 1917. colónias que confinavam com territórios então sob administração colonial alemã (Arrifes 2004). e também ao enquadramento específico do desempenho das suas funções naquele território. A missão contou com aprovação ministerial e o apoio das autoridades locais. Estes tiveram como destino diferentes secções museológicas da Faculdade de Ciências do Porto e ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . uma nação beligerante no contexto da I Guerra Mundial (1914-1918). designadamente pela oportunidade de serem estabelecidas comparações entre diferentes grupos humanos. Lima 1918b). provavelmente as peças etnográficas mais importantes que adquiriu no norte de Moçambique (Afaa 1989.2 principalmente devido ao incentivo de dois colegas da Faculdade de Ciências do Porto. embora as acções do exército português nesse conflito se tivessem iniciado bastante antes no continente africano.

criado em 1914 por António Mendes Correia (1888-1960). Durante a sua estada em Palma e Mocímboa da Praia. Parece-me. que a actividade antropométrica exercida por Pires de Lima foi sobretudo orientada para a acumulação de dados sobre características fisionómicas por forma a contribuir para a elaboração do imenso arquivo da diversidade humana ambicionado pelo projecto antropológico de Pierre P. Quer a actividade descritiva – atenta à cor da pele dos indivíduos. à forma do nariz e dos lábios. No estudo de Pires de Lima não é identificável um propósito prevalecente de associação de traços psicológicos e comportamentais a traços físicos particulares. os seus índices cefálico. Deste modo. de uma parte. ao aspecto do cabelo e da dentição. ao invés. facial e nasal. a aplicação da técnica da antropometria. colega de curso de Pires de Lima na Escola Médica do Porto. de outra parte. quer o exercício de mensuração do corpo humano – por forma à obtenção de valores médios relativos à estatura dos indivíduos observados. às tatuagens e outros sinais corporais particulares –. Vainio) que. todos adultos e do sexo masculino. Por sua vez.3 outras entidades estrangeiras ligadas ao ensino e à investigação. Broca e Paul Topinard que o médico português perfilhava. Já as suas colheitas no campo da zoologia – apesar do facto de muitos dos exemplares se terem deteriorado. 2. entre outros indicadores – exigiram o manuseamento de diversos ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . no final da década de 1930. a observação e a descrição dos seus caracteres físicos e. em virtude das precárias condições de armazenamento e de conservação de que dispunha – foram oferecidas ao Museu de Zoologia da sua faculdade e também a um entomologista espanhol. uma parte significativa da sua colecção de botânica foi doada a um liquenólogo finlandês (Edvard A. os artefactos trazidos de Moçambique foram depositados no acervo do Museu e Laboratório Antropológico daquela mesma faculdade. O exercício de classificação fisionómica e racial de indivíduos – em que se inscrevem os levantamentos antropométricos realizados pelo médico expedicionário – compreendia o estudo anatómico e metrológico do corpo humano: isto é. Pires de Lima reuniu ainda dados sobre os caracteres fisionómicos de 170 indígenas moçambicanos. classificou várias dezenas de novos líquenes e outros espécimes vegetais recolhidos pelo médico português.

Pires de Lima não dispunha de uma vasta aparelhagem antropométrica. Desta forma. No entanto.4 instrumentos e aparelhos. a utilização daqueles aparelhos visava disciplinar os sentidos do observador e atenuar a interferência da sua subjectividade na produção de resultados (Dias 1996: 33-4). uma vez que apenas conseguira transportar consigo três instrumentos que lhe tinham sido cedidos por um colega da Faculdade de Medicina de Lisboa: uma fita métrica. Pires de Lima ressentia a impossibilidade de utilizar uma escala de cores no decurso das suas observações. a improvisação e a criatividade supriram a inexistência de outros instrumentos necessários à prática antropométrica. No fundo. ainda que constitua um importante repositório de informação sobre a sua experiência biográfica no norte de Moçambique durante a Grande Guerra. Relativamente às circunstâncias específicas em que o estudo de antropometria realizado por Pires de Lima foi desenvolvido. são várias as questões que ficam sem esclarecimento. procurando evitar estimativas produzidas a partir da observação a olho nu. Na realidade. os diversos instrumentos antropométricos tinham por função aperfeiçoar a percepção dos praticantes da antropometria. a literatura de cariz técnico e memorialista deixada por Pires de Lima. e como fica sugerido num passo do seu artigo. designadamente sobre as condições logísticas e técnicas em que o médico militar efectuou as observações (no espaço da enfermaria? num laboratório propositadamente montado para aquele fim? foi auxiliado por alguém? em quanto tempo realizou as mensurações?). Por outro lado. Ao fim e ao cabo. entendia ser limitada em precisão a classificação dos grupos humanos observados em função da cor da pele. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . não clarifica todos os aspectos que rodearam a sua actividade no campo da antropometria. gravando nela a escala com o auxílio da fita métrica (Lima 1918a: 23-4). De uma porta de madeira. um compasso de espessura e um outro de corrediça. o médico expedicionário fez uma craveira. sem o auxílio visual daquela ferramenta. os profissionais da medicina seriam particularmente aptos para o exercício da antropologia física e da antropometria. porquanto. Na verdade. em virtude da prática rotineira da inspecção de corpos humanos nas actividades clínicas. por exemplo. eram extremamente limitados os recursos de que dispunha. julgada excessivamente sensorial e imprecisa.

em Mocímboa da Praia) pôde observar indígenas provenientes de diferentes regiões do território (de Tete. as quais me servem de base a este estudo. no norte da província. Em vez de ter sido um obstáculo à realização do seu “estudo antropológico”. Na presença do excerto citado. e como já tive ocasião ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . um aspecto muito importante que. tive a possibilidade de reunir mensurações antropométricas (…) de várias raças de Moçambique. Assim. contudo. é notório que o conflito no norte de Moçambique proporcionou circunstâncias extraordinárias de pesquisa ao médico português. em meu entender.5 Conhecemos. Assinale-se que no espaço geográfico da “metrópole” a colaboração entre a estrutura militar e a comunidade científica tinha já produzido alguns resultados desde os anos finais do século XIX. No caso particular de Pires de Lima. Reporto-me à situação de conflito vivida no norte de Moçambique por altura da permanência do médico português na região. facto que motivou o seu recrutamento e que. De alguma maneira. depois. a colaboração entre a estrutura militar e a esfera académica (a Faculdade de Ciências do Porto) foi formalizada através de um despacho ministerial datado de 31 de Maio de 1916.). É o próprio médico quem o sugere logo no início daquele seu texto de 1918: As circunstâncias derivadas da guerra contra a Deutsch Ost Afrika provocaram a concentração. não deve ser menosprezado. Quelimane. Por outro lado. portanto. estamos perante um caso em que a instituição militar foi parte importante no processo de produção de conhecimento sobre as populações locais daquele território sob administração colonial portuguesa. num ambiente militarizado e com o recurso a nativos moçambicanos que integravam a sua expedição. a guerra gerou condições particulares de pesquisa. As observações antropométricas de Pires de Lima aconteceram. já que nos locais onde esteve estacionado (primeiro em Palma e. de grande número de indígenas de toda a colónia – uns recrutados como carregadores. etc. Inhambane.” (Lima 1918a: 5). outros como soldados das companhias indígenas. teve um papel determinante no que respeita à configuração da amostra do estudo de antropologia física de Pires de Lima. contrariamente àquilo que poderia supor-se. sem sair do Niassa. havendo notícia de alguns trabalhos de antropometria realizados entre recrutas do exército português (Roque 2001: 261-2). oportunamente aproveitadas por Pires de Lima.

gostaria de acrescentar que. Nélia. Contudo. Art Makondé: Tradition et Modernité. A Primeira Grande Guerra na África Portuguesa. em pleno regime do Estado Novo. 1996. 1989. De facto. no meu ver. Oeiras. será somente em meados da década de 1930. Referências Bibliográficas AFAA. ADEIAO. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . penso que deverá ser encarado o estudo de Pires de Lima. circunstanciais e episódicos – como. 23-44. em ALMEIDA. Treze Reflexões Antropológicas sobre o Corpo. DIAS. “O corpo e a visibilidade da diferença”. Miguel Vale de (org. esta constatação não lhe retirará o carácter precursor dos seus levantamentos antropométricos no norte de Moçambique. a observação de indivíduos em situação de recrutamento – de soldados e carregadores indígenas que se encontravam ao serviço das tropas expedicionárias portuguesas – possibilita uma associação imediata do seu estudo ao universo dos projectos de antropometria militar que. ARRIFES. Para terminar. facto que é assinalado por Rui Pereira na introdução à reedição do primeiro volume de Os Macondes de Moçambique de António Jorge Dias (Pereira 1998). Edições Cosmos. Lisboa. se nos reportarmos à segunda década do século XX. Corpo Presente. Celta. 3. de resto. Angola e Moçambique (1914-1918). Paris.). Instituto de Defesa Nacional. Marco Fortunato. Os casos existentes são. tiveram expressão em alguns trabalhos esporádicos. se implantará de forma mais sistemática e continuada no terreno colonial através das “missões antropológicas” que foram dirigidas por Joaquim Rodrigues dos Santos Júnior (1901-1990) em território moçambicano (Pereira 1998). não chegando a institucionalizarem-se em Portugal. na sua vertente física e biológica. que a antropologia portuguesa. são raros os estudos de antropologia física apoiados na aplicação da técnica da antropometria a populações do “império” português que poderão ser referenciados.6 de referir. 2004.

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II – Capítulo Caboverdianidade e Crioulidade Textos de comunicações do painel Caboverdianidade e Crioulidade Coordenação Wilson Trajano Filho Departamento de Antropologia da Universidade de Brasília e Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa João Vasconcelos Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .

Afinal. Tomé e Príncipe. Palavras-chave: ideário colonial. sua e dos outros. No decurso de entrevistas não estruturadas. Tomé e Príncipe: os contornos da consciência de segundos europeus Augusto Nascimento Instituto de Investigação Científica Tropical. com alguma frequência. Mas. aventaríamos a de que tal expressão traduz um alheamento em relação às inquietações e aos temas que. identidade cabo-verdiana. nem por isso ela deixa de traduzir uma dada consciência da sua especificidade enquanto cabo-verdianos. eles reiteraram de forma enfática a sua condição de caboverdianos 1 . nem sempre ligada a uma visão instrumental dos testemunhos que eles fornecem sobre a sua presente condição social e política. Devido à percepção das dificuldades na sua terra e às mudanças nos Este texto socorre-se igualmente do trabalho de campo em S. Esses cabo-verdianos contrataram-se como serviçais.Cabo-verdianos em S. alguns descreveram-se como segundos europeus. e serve para se situarem perante as mudanças políticas e sociais assaz adversas sobrevindas no S. eram debatidos pela intelectualidade cabo-verdiana. Lisboa Nas suas memórias e auto-caracterizações. “segundos europeus”. Tomé e Príncipe nunca se referem a si mesmos como crioulos. Cumulativamente. Tomé. a viver naquele arquipélago há cerca de meio século. Nesta comunicação. Refiro-me a idosos. efectuadas entre 2001 e 2003. à primeira vista tributária do ideário colonial. na sua maioria voluntariamente ainda que sem escolha. aparentemente um traço adicional da sua identidade. intenta-se contextualizar o uso esta designação. Entre as várias hipóteses explicativas. ao tempo do seu êxodo para S. Contudo. Introdução Este trabalho aborda um peculiar processo de identificação de ex-serviçais caboverdianos em S. Vicente em 2004. consideraremos o uso desta denominação pelos ex-serviçais que se quedaram por S. a classificação subjacente à denominação de segundos europeus. Tomé e Príncipe independente. onde a designação segundos europeus aflorou em testemunhos dos ex-contratados. como segundos europeus. comporta um juízo sobre a civilização. 1 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . os cabo-verdianos que se quedaram por S. Descrevem-se antes como cabo-verdianos e. Tomé e Príncipe.

Ora. Tomé e Príncipe. expor perplexidades a propósito de uma caracterização identitária algo inesperada. os cabo-verdianos somaram. Nos discursos sobre a nacionalidade cabo-verdiana patenteia-se o orgulho nas cultura e identidade historicamente fundadas.2 moldes de trabalho e nas relações sociais nos anos finais do colonialismo. uma experiência de privações difíceis de suportar.. veiculada? Usá-la-ão quando não estão presentes interlocutores europeus? É difícil ser taxativo. pretendemos enunciar hipóteses ou. com que se conformaram em vista das promessas políticas. e sem futuro (político) visível 3 . Ainda assim. seja na luta contra a opressão colonial. por um lado. 3 Os cabo-verdianos não têm qualquer capacidade de luta política e social. de uma identidade cabo-verdiana política e culturalmente útil à projecção internacional do país e à obtenção de vantagens no mundo globalizado. Durante as entrevistas surgiu a expressão segundos europeus. seja na criação da sua terra e de um destino próprio contra a adversidade natural. ou não. assim como das pretextadas dificuldades do seu repatriamento e do recomeço da vida no seu pobre país. devemos questionar-nos acerca da sua faceta instrumental. por outra. quando saíram destas. Entre cabo-verdianos. Em que circunstâncias a ideia de segundos europeus será. Tomé e Príncipe. hoje falidas e fisicamente degradadas.. adquire o tom de apelo à acção justiceira de quem tenha poder para o efeito 2 . desde então. é notório o esforço de construção de uma nação diaspórica e. acabaram por permanecer nas roças ou. assim. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . particularmente sentida pelos ex-serviçais cabo-verdianos. À vida espinhosa antes de 1975. Para além de um ambiente avesso à sua afirmação grupal – no geral. A independência representou para eles um momento difícil. a expressão emergiu sem indagações prévias a tal respeito. Tal indiciará o curso dessa expressão nos terreiros das roças. também a decrescente valia política de uma tal expressão vai de par com o fim da vida predito para breve. a representação de segundos europeus como que cinge os cabo-verdianos a metas 2 A designação segundos europeus foi recorrentemente usada pelos mais idosos em contactos espaçados ao longo de anos. Hoje. por se fixar em S. mesmo admitindo que a presença de um português a possa lembrar. É lícito supor que essa expressão condensa um desabafo acerca da marginalidade social. Dadas a pobreza e a solidão a que estão confinados. Em primeiro lugar. por outro. ela não parece passível de redução a algo de meramente instrumental. serão raríssimas as ocasiões para um tal desabafo que. Mas. Apesar da presença de um interlocutor português a poder induzir. Neste texto. descrêem e alheiam-se de práticas associativas –. os cabo-verdianos contam-se entre as principais vítimas do empobrecimento de S. correlatamente. a classificação de segundos europeus caminha ao arrepio das redefinições identitárias ainda algo politizadas por relação ao colonialismo.

atento o contexto político são-tomense. os exserviçais cabo-verdianos estão irremediavelmente condenados à subalternidade. 4 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . uma abordagem pressurosamente condenatória da alienação subjacente à designação de segundos europeus. noutras ilhas. Contra uma visão sub-repticiamente normativa da identidade cabo-verdiana. nessa medida contrariando a exaltação do cabo-verdiano – outrora. Tomé 5 . aversão. 5 Tal hipótese assenta em indícios escassos. das motivações de quem os procura para redigir histórias de vida. Em segundo lugar. Politicamente. A noção de segundos europeus não contribui para a valorização dos referentes identitários cabo-verdianos no mercado de bens culturais. Ainda assim. Como veremos. E.3 coloniais. do mestiço – como construtor do Cabo Verde independente. decerto. tal caracterização suscitará estranheza e. do grupo e do arquipélago. igualmente baseada na interpretação de gestos e dizeres dos ex-serviçais cabo-verdianos. também. cuja memória se afigura errática e avessa à perspectiva institucional da diacronia e do discurso histórico. Tomé e Príncipe avultam preocupações arredias das dos arautos da identidade caboverdiana. Todavia. lembre-se a pluralidade dessa identidade nos mais variados contextos. talvez a qualificação de segundos europeus tenha sentido para aqueles que a evocam. Vicente e. não há lugar para a negociação política a partir da consideração de identidades. a porosidade observável entre um discurso mais erudito e o discurso popular em S. tão pouco para o reconhecimento político e social das minorias. entre eles. Tal abrange igualmente os valores de há meio Como frequentemente sucede em narrações de indivíduos de grupos subalternizados. Parecendo uma reivindicação identitária passadista e anacrónica. Em suma. que a filiasse apenas na ideologia colonial e racista. a designação de segundos europeus não participa da reflexividade das elaborações identitárias dos cabo-verdianos. abdicaria de tentar explicar o curso e o significado social e político dessa designação corrente entre os ex-serviçais cabo-verdianos. não tem sentido do ponto de vista político ou sequer ideológico e cultural. dada a sua situação e a do país em que se encontram. De outra perspectiva. tão pouco parece servir a concepção de nação diasporizada 4 . Outros motivos aconselham a evitar um tal enfoque redutor. tal designação comporta uma sugestão de hierarquização social que. Só uma investigação profunda permitiria validar esta hipótese. Dadas as características sociais e culturais do arquipélago equatorial e o veio essencialista da afirmação são-tomense. trata-se de uma caracterização sem futuro. permite-lhes uma reordenação simbólica deste mundo. também entre os cabo-verdianos de S. conquanto nela possam ecoar os debates em curso em Cabo Verde ao tempo em que os ex-serviçais daí largaram para S. até.

em tempos orgulhosamente reclamada pela elite dos nativos. para os ex-contratados. Ademais. Ora. onde a europeização. também não completamente voluntária. Rejeitando-se esta parcela da vivência cabo-verdiana. Concretamente. Prontamente se sentenciará que a asserção relativa à europeização é enviesada e extemporânea e. cumpre contextualizar o seu uso 8 para a interpretação de um arquipélago que. que não evidencia senão a insensibilidade dos que a veiculam relativamente ao impróprio de uma classificação eurocêntrica 7 . tivesse a crítica sentido. discussão sem paralelo em S. Porém. os cabo-verdianos aludem à sua miséria em S. embora marginalizados. a génese e o curso da designação de segundos europeus. tal designação padecerá de um paternalismo retrógrado. no foco dos governantes do seu país na diáspora dos países ricos 6 . alegam eles. no S. a noção de segundos europeus tem uma história relacionada quer com o contrato nas roças coloniais. decidir-se-ia arbitrariamente o que comporia. vai deixando de ser uma marca local. Tomé e Príncipe (MAINO 1999:135). De resto. 8 A afirmação relativa à condição de segundos europeus não foi partilhada por todos. patente. noções como mestiçagem. a identidade caboverdiana. No fundo. assim como ao facto de não beneficiarem em nada dos êxitos económicos na terra natal e do sucesso dos seus conterrâneos nos países mais ricos. são cabo-verdianos. pois que. 7 Diga-se. essa designação comportou (e comporta) uma afirmação social. este termo tem vindo a perder lugar no discurso dos são-tomenses. que os ex-serviçais ainda hoje têm por crivo de definição dos cabo-verdianos. Mas tal enunciação provém de sujeitos que. alguns dos que asseveram com sentimento serem segundos europeus talvez não se mostrassem tão seguros dessa classificação. Assim. Tomé e Príncipe. então. crioulidade ou processo de crioulização não constituem tópicos de debate em S. um inquérito talvez produzisse resultados inesperados e contraditórios. se solicitados a opinar formalmente. Olhemos.4 século. Tomé e Príncipe. Tomé e Príncipe sobre o abandono em que se acham. Tomé e Príncipe independente. se tornou o seu mundo. importa reportá-la à evolução do arquipélago. O termo crioulo foi adoptado por são-tomenses em textos científicos e ensaísticos sobre asua etnogénese. a ser enunciada por outrem. a qualificação de segundos europeus surge à margem da discussão relativa à origem e ao conteúdo de uma identidade crioula em Cabo Verde. quer com a sua permanência. ou não. de alguma forma perseguida pelos cabo-verdianos ao longo de cerca de meio século de vida no arquipélago equatorial. dar-se-ia razão aos lamentos dos cabo-verdianos em S. ao invés de classificar a designação de segundos europeus à luz do (nosso) mundo globalizado. para além de aplicado num sentido lato e de fraco valor descritivo ou interpretativo. miscigenação. 6 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Não obstante as mutações de significado social e político ao longo de sucessivas conjunturas. Sem dúvida. Com a menção ao abandono.

Tomé e Príncipe independente. Ora. o poder ensaiou uma aproximação aos são-tomenses. Esta política fez esquecer aquele desígnio político e social que alguns voluntaristas tinham gizado para os cabo-verdianos. a sua resistência à opressão excessiva nas roças. não é de todo impossível que estas e outras descrições de Cabo Verde. 9 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . após o sangrento episódio de Batepá e face à ofensiva anti-colonial nos círculos internacionais. Vicente pequenino é um pedacinho do Brasil. esses ecos não precisam de ser coerentes. Entre as reminiscentes percepções da mestiçagem constitutiva dos cabo-verdianos. Porém. FERNANDES cit. quanto até das inconsequentes intenções de instrumentalização política e social dos cabo-verdianos por autoridades coloniais 11 . da lusitanidade cultural do caboverdiano ou de Cabo Verde como um regionalismo português (cf. Expressando o desejo de que Deus olhasse para ela e a levasse a morrer na sua terra. uma noção relativa à miscigenação ou à mestiçagem como matriz da génese dos cabo-verdianos poderá ter sido levada para S. Vicente por uma ex-serviçal dessa ilha. por ALMEIDA 2004:284). nos derradeiros anos do colonialismo. ganhando aí novos significados. para que tais ecos viessem a ser recriados para afirmar a indignação contra a miséria a que acabaram condenados no S. citemos a descrição de S. dos cabo-verdianos e da sua “civilização”. Uma hipótese tem-na como um eco longínquo da difusão no meio cabo-verdiano dos discursos sobre a etnogénese do povo cabo-verdiano 9 . Em S. 10 Consulte-se uma resenha destes debates em ALMEIDA 2004:255 e ss. Conquanto sujeita a refracções múltiplas. S. a conquista da fidelidade política dos nativos tornou-se o objectivo prioritário.5 Génese da expressão segundos europeus A primeira dificuldade reside na datação desta noção. Tomé e Príncipe. por exemplo. mormente aos elementos das famílias ditas tradicionais. presumimos. Assim. Face ao espanto. Tomé e Príncipe foram sendo reelaboradas ao sabor tanto da evolução das relações laborais e sociais nas roças. 11 Algumas autoridades coloniais pensaram em usar cabo-verdianos como factor de aportuguesamento do arquipélago. cantarolou um verso de uma modinha da sua juventude. Tendo em mente as inquietações e os temas debatidos nos anos 50 pela intelectualidade cabo-verdiana 10 . asserção que não terá. nunca o senhor ouvir? Outra exserviçal aventou Cabo Verde com Portugal é perto. Bastaria tão só que a sua socialização nos terreiros das roças tivesse ajudado a alicerçar as relações entre os cabo-verdianos e. tenham viajado com os contratados. de caminho. É concebível o cepticismo quanto à possibilidade de no termo segundos europeus ainda ecoarem mensagens acerca da mestiçagem como expressão. um mero conteúdo geográfico.

Neste quadro. no tocante à alfabetização – causou crispações entre empregados europeus subalternos e cabo-verdianos. Até meados do século XX. dizerem-se segundos europeus – e. É provável que. Deixe-se dito. entre outros factores. por vezes. 13 Em parte. uma tal designação deveria ter um curso contido ou carecer do beneplácito do europeu. fosse quando insinuava uma competição civilizacional. por exemplo. traduzida. 12 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . ao que nem sempre os cabo-verdianos se mostravam prontos. Amiúde barrada pelas assimetrias sociais nas roças. esta adesão pode ter sido induzida. a reiteração da qualidade de segundos europeus poderia afigurarse um atrevimento por ameaçadora das barreiras sociais – tão só por implicar um juízo implícito sobre estas –. tal deveu-se aos roceiros. com a indigenização da mão-de-obra a pautar as condições de trabalho. a designação segundos europeus pode ter passado a compor mecanismos de acomodação. Noutros termos. alguns dos quais asseveraram que a designação de segundos europeus tinha o reconhecimento dos colonos. no que nem sempre os cabo-verdianos eram os mais apreciados. pelas clivagens entre as roças e os nativos. mormente na negociação informal de uma diferenciação social.6 Ao tempo. tal pretensão terá tido importância. Logo. os roceiros tenham feito por avivar a disjunção entre os das roças e os nativos. que as mutações políticas e sociais do colonialismo tardio não dissolviam por completo 13 . hoje. a ter acompanhado as mudanças dos derradeiros anos do colonialismo. por entre desencontradas intuições sobre o futuro político do arquipélago. A criação de um tecido social nas roças deveria afigurar-se o melhor dos antídotos contra tais reivindicações. quando não era da autoria destes. o quotidiano era emoldurado por um racismo difuso e pelo ideário colonialista sobre a hierarquização dos vários segmentos populacionais 12 . Mais tarde. podendo suscitar quezílias ao invés de apaziguamento. Por seu turno. Por exemplo. esta vertente conflitual parece esquecida pelos cabo-verdianos. em razão da aptidão para o trabalho. o mais das vezes. tendo em vista. A alegada civilização ou a reivindicada semelhança fenotípica com o europeu podiam desencadear efeitos contraditórios. por exemplo. bem como de identificação com as roças e os roceiros. Em todo o caso. Para os europeus. a vida nas roças era marcada pela rispidez. fosse quando denotava uma adesão ao colonizador. a preservação das propriedades em caso de turbulência política e de reivindicações de distribuição de terras. num tratamento diferente do dispensado a moçambicanos e a angolanos. por várias vezes a proximidade racial – por exemplo. a aptidão do trabalho incluía o acatamento incondicional das suas ordens. tão-somente criaturas humanas – não seria uma afirmação fácil.

Tomé e Príncipe ou com uma visão muito esbatida da evolução deste arquipélago após a sua saída. convida a imaginar recriações dessa expressão já depois da independência para efeitos de interpretação da evolução política do arquipélago equatorial. tal induz a supor que. da ocupação do tempo como princípio de organização de trabalho. Por um lado. nos testemunhos dos cabo-verdianos. mas a “europeu”. é possível que a designação possa ter sido (re)criada no tempo colonial. por exemplo. os cabo-verdianos recorrem. no final do colonialismo. nos derradeiros anos do colonialismo associado a uma maior contiguidade nas roças. Justamente. iniciando-se em manifestações de paternalismo 15 . não a “branco”. actualmente menos aceitável. Vicente ainda no tempo colonial. Assistiu-se a alguma personalização das relações laborais.7 Dissemo-lo. que não ex-serviçais. o critério da civilização parece sobrepujar o da coloração epidérmica. A par disso. temos de equacionar a hipótese de estarmos perante um expediente – de alguma forma. alguma proximidade dos administradores das roças com o pessoal terá servido para obter uma prestação produtiva a contento num tempo em que se tornara impossível extorqui-la pela coacção. Podemo-nos interrogar acerca das razões pelas quais dizem segundos europeus e não segundos brancos. Mas a expressão europeus pode ter sido induzida no tempo colonial. conhecendo sucessivas adaptações conformes às mudanças de políticas e no dia-a-dia das roças. 14 Neste particular. Em todo o caso. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . ter sido transportada desde Cabo Verde. Por existir uma primazia do aspecto civilizacional – mais conforme à sua ideia de cabo-verdianos – sobre o referente racial? Não o saberíamos dizer. Por outro. observa-se que. parte deles sem contactos com S. tenham asseverado que a designação segundos europeus 16 não tinha curso na era colonial. apesar de branco ser um termo corrente nas narrativas do passado – sendo comum ouvir dizer “no tempo do branco” (em alternativa. combinando-se a reiteração das diferenças sociais com a proximidade assente no reconhecimento da valia dos indivíduos (em termos comparativos. Portanto. veja-se NAVE 1990:29). talvez. pode pensar-se que a noção de segundos europeus conterá implicitamente uma reivindicação social inspirada na valorização das garantias de vida e no papel do paternalismo. foram os próprios europeus a usar essa expressão 14 . 15 Nalguns administradores notavam-se sinais de uma emergente consciência social que como que visava reparar as fissuras causadas pela agressividade e a rudeza de trato inspiradas pelo ideário colonialista imperante até meados de Novecentos. a rarefacção de braços obrigava à racionalização das tarefas. prescindindo-se. ela foi utilizada por ex-serviçais regressados a S. Eventualmente. Ou. tal poderia advir da cautela induzida pela carga racial. 16 Sem prejuízo da necessidade de pesquisas ulteriores. Embora pessoas. “no tempo do colono”) ou “o branco fez…” –. tributário de reminiscências da ideologia colonial – para avalizar a interpelação implicitamente contida na apresentação de si mesmos como segundos europeus a quem chega de fora. da designação “branco”. os roceiros tinham uma atitude oposta à das décadas precedentes. Tal processo prosseguiria no pós-independência. a crer nalguns ex-serviçais. Segundos europeus ou o juízo do pós-independência Na ausência de tal equação política.

supostos traços da sua personalidade – por exemplo. Sem embargo das roupagens progressistas do ideário independentista. preterindo os slogans políticos pela racialização das condutas – entre elas. a capacidade de afrontamento das adversidades. após o 25 de Abril as considerações de teor racial continuaram como um instrumento de análise do rumo da história e um móbil de acção. Anos depois. indubitavelmente. a esperteza. Para os exserviçais cabo-verdianos. nalgumas circunstâncias. desenhou-se uma clivagem assente na raça – que congregava são-tomenses. Por outras palavras. provas irrefutáveis da sua natureza. como explicação dos comportamentos e. a A racialização. deles – o mais contundente dos argumentos para contestar o status quo e as assimetrias sociais. Tomé e Príncipe 17 . o da dissemelhança entre a epiderme e o fenótipo deles e os dos demais africanos habitantes e senhores da terra. traduzida pelo fenótipo. do fracasso do país. as lesivas do património das roças –. a inteligência demonstrada na compreensão da condição humana.8 Actualmente. a designação segundos europeus readquiriu sentido para os que dela se reivindicam. segundos europeus remete para supostos atributos de cabo-verdianos. estes. para eles. a intrepidez ou a esperteza – tenham conflituado com a boçalidade dos europeus. Vejamos como. a lida do mundo e uma dada ética de trabalho 18 . embora o lema fosse o da luta contra a exploração do homem pelo homem. a visão do mundo dos cabo-verdianos tende a enquistar. Tal como no colonialismo. 17 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Ao tempo. quando a miséria se abateu sobre os trabalhadores das roças. Tomé e Príncipe –. entrementes tornada uma deriva identitária com que os são-tomenses ensaiam racionalizar o processo de perda económica e social por que passa o seu país. em virtude do percurso pós-independência. Simultaneamente – por um processo de identificação (alienada que seja) com o colono e de oposição aos mandantes em S. na diferença de natureza encontra-se. entre os quais. caboverdianos e outros contra os colonos –. 18 Tal não invalida que. apelam ao mais poderoso dos argumentos. Há anos a passar por privações incontáveis e a caminho do fim de suas vidas. a designação segundos europeus pode interpretada como uma reacção dos ex-serviçais à africanização da terra e das gentes. É disso que os ex-serviçais cabo-verdianos se distanciam. é também adoptada por são-tomenses que encontram na natureza do africano ou do negro – isto é. foi com base na clivagem racial que se legitimaram os que acederam ao poder em 1975. atribuíram o empobrecimento do país à natureza de quem passara a governar S. daí. Como? A noção de segundos europeus aponta para uma característica irredutível. O seu discurso reporta-se a marcas corporais.

e. a hierarquização social subjacente a essa denominação comporta um juízo sobre a sua civilização comparada com a dos outros. Mas umas são mais toleráveis do que outras. a esta distância. quando não aceitável 19 . Apesar de enviesada pela resiliência do ideário colonial ou. a noção de segundos europeus tem um valor interpretativo evidente: o de que o desajustamento entre a actual posição hegemónica dos são-tomenses e a respectiva natureza não pode senão desembocar em comportamentos anti-sociais conducentes à ruína dos empreendimentos dos homens. era este padrão de evolução que os cabo-verdianos (e. Por um lado.9 explicação da trajectória de perda de S. a noção anacrónica de segundos europeus condensa uma leitura da evolução do (seu) mundo. 19 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Tal noção de um mundo fatalmente injusto não os torna nem passivos nem acríticos relativamente às desigualdades sociais. estes derrogaram a ideologia igualitarista com que aliciaram os cabo-verdianos. do racismo. No mínimo. por outro. ex-trabalhadores das roças. A perda económica e social A reavaliação e o matizar das críticas ao tempo do colono resulta da apreciação dos políticos sãotomenses. então. cabo-verdianos. A noção de segundos europeus traduz um ressentimento e hoje – irremediavelmente traçado que está o seu destino – ela pode ser lida como a denegação da solidariedade racial que cimentou o bloco político-social contra os colonos na transição para a independência. incluindo a terra natal. Tomé e Príncipe. também os sãotomenses) esperavam ver prosseguido após a independência. enquanto o alinhamento de contornos raciais – brancos. à crítica da presente situação em S. Atenhamo-nos. decerto. Afinal. no final. vinham intentando fazer os patrões brancos. Conquanto tributária do ideário colonial. o actual ordenamento social favorável aos são-tomenses afigura-se-lhes contra-natura. Tomé e Príncipe. não se legitimam por uma prática justa. nativos e outros – do tempo colonial parece. como. Portanto. os são-tomenses. mesmo. de que eles. são as maiores vítimas. Os cabo-verdianos detêm uma visão acerca das desigualdades humanas como princípio perene da ordenação do mundo. Serve igualmente para se situarem perante as danosas mudanças políticas e económicas desfavoráveis sobrevindas no pósindependência. rejeita-se a afinidade racial apregoada para efeito da mobilização anti-colonial nessa época. Agora. menos gravoso.

Tomé e Príncipe. Na era colonial. esta prática de rebaixamento dos serviçais com que outrora os nativos se procuravam demarcar das roças. Em S. os caboverdianos desqualificam os são-tomenses. o termo segundos europeus escorou as queixas e protestos contra a indigenização a que estavam obrigados pelos ditames dos roceiros. se subsiste. pelo menos ao nível retórico. não obstante a pobreza da sua terra os ter impelido para o contrato. os europeus reconheciam a índole diferente dos cabo-verdianos. Mas também é natural que. não apenas esquecendo as promessas políticas do advento da independência. Não se pode descartar o uso do termo gabão. invertendo simbolicamente a actual subalternidade relativamente a estes. os cabo-verdianos lembrem agravos antigos para explicar compreensivamente a sua situação actual. a afirmação da qualidade de segundos europeus comporta uma acusação quanto às provações por que passam e denuncia a contradição entre a sua situação social e a sua imaginada natureza. Outrora. mas. A distinção social dos poderosos e dos governantes socorre-se de outros meios e.10 No tempo colonial. Esta alegação poderá não corresponder fielmente à realidade. Presentemente. pese embora o eventual orgulho na identificação com o veio de filhos da terra ou de forros. nome de escravizados e de desqualificados coagidos aos ditames das roças. 20 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . a reivindicação de civilização subjacente à ideia de segundos europeus compôs variadas contestações ao labor e à vida nas roças. nunca vi responsáveis políticos incentivar o uso de linguagem pejorativa para com os exserviçais. Hoje. como voltando a invectivá-los com o termo gabão 20 . as diferenças eram constitutivas do mundo. a quem tinham de obedecer por terem escolhido o contrato). Esse reconhecimento não anulava as assimetrias sociais. eles deviam sentir-se acima dos nativos (e até de europeus boçais. em perda. justamente a evolução que os levou a ficar por S. as clivagens étnicas não são encorajadas. O reconhecimento da sua idiossincrasia pelos roceiros foi um passo na melhoria do ambiente social. Com efeito. deixando implicitamente entendido que a desmerecem. dissemo-lo. Retratando-se como segundos europeus. Os nativos passaram a mandar na terra e subalternizaram-nos. Noutros termos. A designação de segundos europeus tem um valor político. queda por comprovar com que intensidade subsiste. alguns chegam a classificar-se como escravos dos são-tomenses em cujo quintal são obrigados a trabalhar. Enfatizando a sua desventura. para eles. porquanto diminui o argumento de que os são-tomenses estão na sua terra. Tomé. o ressentimento advirá da derrogação da superioridade simbólica de outrora. uma vez dobrada a fase das maiores agruras de trabalho e de vida dos anos 50.

realçando. os termos em que os cabo-verdianos interpretam a sua situação implicam a O crivo étnico deve ter várias vezes barrado a trajectória ascensional de descendentes de caboverdianos. em escravos. tal fito comportava uma esconsa negação do negro. como e para que fins denunciá-la? Quando momentaneamente se rompe a solidão e têm oportunidade de falar. depois de. De fundo ético. Logo. supostamente constitutiva do povo cabo-verdiano. No passado. Esta valorização da mestiçagem entre os cabo-verdianos não se prende com a sua valia política. em trapos. tem a ver com o enraizamento popular de ecos de ideias do tempo colonial. os mandantes de uma terra tornada estranha não lhes reconhecem nada. a qualidade de segundos europeus sentencia o seu distanciamento de tais práticas. alguns dos quais se percebem como genuínos enquanto descendentes de progenitores de diferentes raças. Justamente. eles descrevem a sua situação falando em abandono. sem outro horizonte além da morte. um artifício retórico de alguma ressonância política.tomense. com a mestiçagem visava-se o embranquecimento das sociedades ou. terem sido impedidos pelo fechamento da sociedade são-tomense à competição e à mobilidade social de usar as suas aptidões e a sua identidade para ascenderem económica e socialmente. de outro modo. Têm consciência da marginalização – a que aludem subliminarmente com a palavra abandono – embora não a classifiquem de premeditada 21 . resumem-se à crítica da apropriação indevida de bens das roças pelos responsáveis nomeados após 1975. Aventaríamos que hoje a designação de segundos europeus sublinha esta negação. Neste contexto. Ou mesmo de uma noção de mestiçagem 22 . hoje nula. 21 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . desse modo. Empobrecidos. os ex-serviçais estão acantonados nas roças. essa crítica faz-se a partir da racialização de comportamentos.11 Hoje. Reina a desolação que não advém apenas da pobreza mas igualmente da perda da valia individual e da condição de cabo-verdianos. 22 A ideia de mestiçagem corre entre os cabo-verdianos. nos antípodas das (nossas) noções de crioulização e das perspectivas do mundo a ela associadas. não necessariamente devido a uma ideologia segregacionista quanto ao peso dos laços familiares e clientelares na modelação da sociedade são. Possivelmente. há anos. o contra-senso entre a sua condição de segundos europeus e a de escravos. Devido à evolução pós-1975. Segundos europeus. pois. uma face da identidade cabo-verdiana Situamo-nos.

Esta é a posição dos cabo-verdianos que.) os estrangeiros veio ensinar a vocês [são-tomenses] trabalhar e a falar… A denominação segundos europeus comporta uma faceta instrumental. parece comprovado pela degradação social em S. o determinismo. a miséria e a marginalização que não têm hipótese de combater? Independentemente dos processos de identificação acorrerem às oportunidades políticas.. os seus ascendentes ostentavam um refinamento de gostos a que europeus rústicos. Apregoando a sua civilização. chamam a nós estrangeiros (. Tomé e Príncipe –. Mais.. Ao invés. a quem responsabilizam pela sua desgraça. a ideia de segundos europeus. não podiam aspirar. Por exemplo. por exemplo. Entre os cabo-verdianos. outrora imediatamente inerente a esse binómio. que resta senão procurar uma demarcação que contrabalance. No final de suas vidas. contratados para cargos intermédios nas roças. Tomé e Príncipe. Já os caboverdianos apontam a injustiça da sua perda social. é com noções aparentadas com a de segundos europeus que interpretam o mundo e a sua vida. A dimensão da alienação será notada pelo observador exterior. ao menos simbolicamente. valiosa porque vivamente sentida e consciencializada por alguns dos cabo-verdianos. dizem nós podemos acompanhar branco. que a usam para rebater o epíteto de gabão e estabelecer uma demarcação social inversa. Enfatizando a dimensão civilizacional da sua condição de segundos europeus. na Apesar de nos primórdios do século XX. nem sempre serão totalmente arbitrários. E relatam. ou de uma herança europeia. E. hoje. reelaboram a sua identidade pela reafirmação da ética aprendida no torrão natal a que se afirmam incondicionalmente fiéis. apartam-se da africanização dos nativos.12 rejeição liminar de um negro em particular – daquele que tomou o poder em S. Em época de prosperidade devida ao cacau. não tem sido reclamada por são-tomenses em tempos recentes 23 . 23 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . seguindo as pisadas de seus pais. o que reforça o impulso a sublinhar a condição de segundos europeus. raça e cultura não se afiguram suficientemente distintas. os são-tomenses não a poderão reivindicar. para os cabo-verdianos. marginalizados e sem razões para aspirar à integração numa sociedade drasticamente empobrecida. estes terem reivindicado comungar de mais elevados patamares de civilização europeia. na ausência de qualquer perspectiva para safar a o dia-a-dia após décadas de trabalho massacrante.

Evidentemente. na falta da canga do destino ou da graça de Deus. No entanto. através da qual tentam uma compreensão do que lhe sucedeu. quer com valores que actualmente plasmam a pesquisa social. como outrora. se porventura isso é imaginável. A expressão de tais ideias revelaria. pouco conhecimento do mundo. a consciência de serem cabo-verdianos. porque insistiriam os ex-serviçais cabo-verdianos numa tal formulação? A explicação pode ser encontrada na compensação simbólica e na denúncia política. Tomé lhes pregaram. pois. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Tomé e Príncipe colonial. recorrem para reagir simbolicamente à subalternidade em que se acham. Mas não tendo os olhos fechados – assim o pretextam –. aqui e além propensos a expressar. é pela afirmação da sua diferença que se reconciliam com as partidas que o destino e a evolução política em S. nem sempre encontra realização neste mundo. sentimentos passíveis de confusão com a aceitação da inferioridade face aos europeus. a que. Notas conclusivas Segundos europeus afigura-se uma etiqueta de indivíduos de vidas corridas em horizontes fechados e. Tomé e Príncipe independente que reside a explicação do uso da noção de segundos europeus. ainda seria mais abraçado. as piruetas da vida ensinaram aos cabo-verdianos o escusado do apego a sentimentos de outrora que – sabem-no bem – não têm mais sentido. Seja como for. Para eles. a que se presta tal designação. reafirmando uma justeza (cabo-verdiana) de princípios que. pouco ou nada porá em causa a sua leitura do mundo. mesmo se enviesada. verbal e gestualmente. como é próprio da experiência humana. Se o rótulo de segundos europeus proporcionasse ganhos reais. talvez por isso. é na vivência no S. A ênfase dos testemunhos valida a sua verdade e autentica o seu sentimento de revolta sofrida e contida. Na realidade. o isolamento e a privação extrema vincam ainda mais.13 procura de vida. Concomitantemente. ainda entendido à luz do imobilismo social do S. tal afigura-se pouco consentâneo quer com os sentimentos do comum dos cabo-verdianos.

2004. António. culture. Margarida. Os cabo-verdianos e a morte. A interpretação das culturas. Clifford. de essencialistas ou de coisa que o valha. mesmo se nos seus testemunhos aflora uma noção de um veio singular que dimanaria das suas ilhas 24 . Lisboa. Miguel Vale de. Migrações nas ilhas de Cabo Verde. Um mar da cor da terra. Porto. Oeiras. quem lhes dirá que não viveram de acordo com o que os seus pais lhes legaram como sendo valores cabo-verdianos? Referências Bibliográficas ALMEIDA. Nova Vega GEERTZ. 1986. começa a ser reconhecido. 1984. “A identidade santomense em gestão: desde a heterogeneidade do estatuto de trabalhador até à homogeneidade do estatuto de cidadão” in Africana Studia nº2. 1999. noutras circunstâncias sociais sugere o enquistamento do discurso identitário ou o reveste de tons marcadamente auto-encomiásticos atinentes à exaltação do cabo-verdiano. previsivelmente. 1994. com quem me sinto emocionalmente implicado. Race. West Africa. Instituto Caboverdeano do Livro CONNERTON. Celta ALMEIDA. Hora di bai. CEA-UP MEINTEL. Celta EYZAGUIRRE. Elisabetta. Teorema FERNANDES. Porto. Ph. ideia que. Paul. 2004. Yale University FENTRESS. 1989. Syracuse University E que. 2000. 1993] Como as sociedades recordam. Lisboa. cultura e política de identidade. Ensaios de antropologia e de cidadania. Chris. 1983 [1977]. Outros destinos. Campo das Letras CARREIRA. Raça. Pablo. 24 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Miguel Vale de. James e WICHAM. Deirdre. Termino de outro modo: ao cabo de décadas de vida assaz sofrida. não corroboro. Memória social. Uma abordagem antropológica através da literatura de ficção.14 Seria risível taxar os ex-serviçais cabo-verdianos. 1999 [1ª ed. Editora Guanabara MAINO. D. and portuguese colonialism in Cabo Verde. Oeiras. Rio de Janeiro. dissertation. Small Farmers and Estates in Sao Tome.

Tomé segundo vozes de Soncente [para publicação] NASCIMENTO. Órfãos da Raça: Europeus entre a fortuna e a desventura no S. Poderes e quotidiano nas roças de S. Nova Yorque. Gordon and Breach NASCIMENTO. Vidas de S. Tomé e Príncipe colonial. Tomé e Príncipe de finais de Oitocentos a meados de Novecentos. O fim do ‘caminhu longi’ [para publicação] NAVE. Gerhard. 1990. Lisboa. Francisco. A ilha de S. 1999. Identidade social e ética do trabalho nos assalariados agrícolas do Alentejo – a empresa colectiva e a comunidade local no espaço rural pós-latifundista. 2003. Junta de Investigações do Ultramar ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Combates pela história. Um estudo de caso.. Augusto. 2005. Colonialism. Tomé e Príncipe e de Moçambique. Augusto. ISCTE SEIBERT.15 MOORE. Power and Social Segmentation in Colonial Society. Socialism and Democratization in São Tomé and Príncipe. Spleen Edições TENREIRO. 2002. Tomé. S. Brian L. S. António Leão Correia e. 1961. Lisboa. 2003. Augusto. Guyana After Slavery 1838-1891. Tomé. Tomé NASCIMENTO. Cabo-verdianos nas plantações de S. Instituto Camões / Centro Cultural Português NASCIMENTO. O sul da diáspora. Race. 2006. Clients and Cousins. Comrades. Leiden. Praia. 1987. 2002. Universidade de Leiden SILVA. Edição da Presidência da República de Cabo Verde NASCIMENTO. Augusto. Augusto. Praia. Joaquim Gil.

não apenas sobre esse fenômeno musical. identidade social. as construções dos caboverdianos acerca da nação a qual pertencem não são fixas. fruto de consenso. São diversas hipóteses sobre a origem da morna. A morna é mesmo uma criação dos cabo-verdianos? Que matrizes culturais exerceram influência na sua origem? Quais acontecimentos e sentimentos inspiraram a criação desse gênero musical? Não procuro trazer respostas definitivas a essas questões. a sociedade cabo-verdiana.A ORIGEM DA MORNA E A ORIGINALIDADE CABO-VERDIANA Juliana Braz Dias Departamento de Antropologia. indicando como essa polêmica reflete a pluralidade de concepções acerca do sentido de ser “crioulo”. mas sobre a própria cultura cabo-verdiana. Mais precisamente. em diferentes momentos da história daquele país. mostro como membros de variados setores da população cabo-verdiana. Discorrer sobre uma coletividade. nas suas mais diversas formas de expressão. morna. portadoras de uma riqueza simbólica capaz de revelar diferentes construções. Universidade Federal de Mato Grosso Este trabalho aborda parte do debate realizado no arquipélago de Cabo Verde em torno do significado cultural da cabo-verdianidade. Tão somente. Como em qualquer processo social de identificação. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Neste trabalho procuro abordar uma coletividade específica. assinalando seus limites internos e externos. imutáveis. nunca foi um trabalho simples. Palavras-chave: cabo-verdianidade. e que alcançam cada setor dessa sociedade. reconstrói a dinâmica das discussões sobre a origem da morna (gênero musical tomado como um dos símbolos da nação cabo-verdiana). bem como suas características mais notáveis. A pluralidade de opiniões dos cabo-verdianos sobre eles próprios e sobre o sentido de ser “crioulo” conforma um rico campo de debate. Os próprios membros constituintes de qualquer totalidade apresentam idéias divergentes a respeito daquilo que os define. empenhada no projeto ideológico de construção da identidade nacional. procuraram responder tais perguntas. e as discussões em torno daquilo que singulariza este povo. São discussões que ultrapassam os limites de uma elite intelectual. presentes em diferentes projetos identitários.

Baseia-se. com a discussão sobre a formação da sociedade cabo-verdiana. procura-se reconstruir a dinâmica das discussões sobre a origem do gênero musical cabo-verdiano denominado morna. da mesma autora. 1 A pergunta “qual a origem da morna?” tem sido insistentemente levantada pelos cabo-verdianos. ao refletir e opinar sobre o assunto. Em grande parte dos casos. a discussão sobre a história da morna tem-se confundido. Este trabalho é uma versão resumida de parte do argumento apresentado na tese de doutoramento Mornas e Coladeiras de Cabo Verde: versões musicais de uma nação. Essas diversas versões para a origem da morna têm percorrido diferentes momentos da história de Cabo Verde e envolvem membros de diferentes setores da população cabo-verdiana. dar esta resposta. indicando como a polêmica criada acerca do surgimento desse fenômeno musical reflete a pluralidade de concepções acerca do sentido de ser “crioulo”. era analisar o significado das diversas hipóteses construídas sobre o nascimento desse gênero musical.2 As reflexões a seguir abarcam parte do debate realizado em Cabo Verde em torno do significado cultural da cabo-verdianidade. soube que não cabia a mim. Mais precisamente. mas sobre a própria cultura cabo-verdiana. levanta inevitavelmente uma série de questões: a morna é mesmo uma criação dos cabo-verdianos? que matrizes culturais exerceram influência na sua origem? quais acontecimentos e sentimentos inspiraram a criação desse gênero musical? Repito que não pretendo aqui responder a essas questões. Muito antes. não apenas sobre esse fenômeno musical. a necessidade de uma resposta definitiva. impondo. Muito mais interessante. também a morna surge como resultado desse cruzamento de culturas diversas. produto do encontro entre Portugal e África. Cada um desses atores. muito menos discutir qual das diversas hipóteses sobre a origem da morna aproxima-se mais da verdadeira trajetória percorrida por essa manifestação da cultura popular cabo-verdiana. visto que apresentam uma riqueza simbólica capaz de revelar diversas construções. aparentemente. tomado hoje como um dos símbolos da nação cabo-verdiana. Desde o início das atividades de investigação que fundamentam a presente discussão. Exemplo disso é o discurso seguinte. 1 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . pesquisadora. procuro indicar como as diferentes versões sobre a origem da morna são todas elas portadoras de uma verdade. Assim como o homem cabo-verdiano é apresentado como um mestiço. sob uma perspectiva antropológica. explícita ou implicitamente.

criou uma personalidade própria que os mais pequenos nadas tornam evidente. “uma personalidade própria”. e suas contribuições para a formação da sociedade cabo-verdiana são continuamente discutidas. Mas se a morna é descrita como a melhor testemunha da mestiçagem étnica. na sua morna. em A Aventura Crioula. Está. Elas são valoradas. É assim que o debate sobre a origem da morna acaba tomando a forma. no seu sangue e nos seus hábitos. E a morna apresenta-se como um símbolo dessa síntese sui generis. a preceito. sem qualquer nota de influências lusas. muitas vezes. Preponderando nêle os elementos mestiços. Em 1961. utiliza-se da autoridade do referido musicólogo para argumentar sobre “a importância da presença europeia na origem e desenvolvimento fundamentalmente. as dolências e as alegrias portuguesas. é simplesmente “crioulo”. as duas matrizes culturais que participam desse encontro quase nunca se apresentam em posição de igualdade. Ele não é português nem africano. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . o processo de criação da morna cabo-verdiana: O indígena africano. nesse povo. devidamente influenciado pelo português. Nas narrativas sobre o processo histórico que deu origem ao cabo-verdiano. em Lisboa (Portugal) e Mindelo (Cabo Verde). há as dolências africanas. possue música pobre. Manuel Ferreira. neste caso. espiritual e cultural do cabo-verdiano. de um jogo de forças entre as heranças culturais portuguesa e africana. em atividades de investigação realizadas entre os anos de 2001 e 2002. onde há gemidos dolentes. vibrados no sofrimento duma fatalidade étnica que os tempos não destroem. é preciso maior cuidado na análise da maneira como esse processo de miscigenação é apresentado. (Correia. O artigo de Sarrautte passou a ser amplamente citado. com base na idéia de mestiçagem. o musicólogo Jean-Paul Sarrautte publicou em Cabo Verde um artigo onde procurava demonstrar a maior intensidade da influência metropolitana na origem da morna. capaz de gerar. 1939: 301) O homem cabo-verdiano é apresentado como o produto original de um encontro intersocietário. na sua música. o povo caboverdeano. Os portugueses teriam sido peça fundamental na formação desse novo estilo musical. Caiu como uma luva no discurso daqueles que participavam do processo de construção da nação cabo-verdiana como uma organização sócio-cultural distanciada de suas raízes africanas.3 onde o português Afonso Correia descreve. conforme os interesses em questão. Mas o africano.

com proximidades muito pouco significativas do mundo africano. (ibid: 207-208) O fado. da morna. 1995: 5-8). Alguns. Ainda em 1954. 1999: 83-88. Pouco a pouco o debate sobre o nascimento da morna caminhou no sentido de romper (ou pelo menos minimizar) possíveis associações entre esse e outros gêneros musicais e de enfatizar a originalidade daquela que vinha sendo construída como a canção nacional cabo-verdiana. 1984: 11). (. Vale de Almeida. de tal forma que a relação entre os dois gêneros musicais adquirisse o caráter de uma filiação direta. afastou a morna (e com ela todo o arquipélago cabo-verdiano) de seus vínculos históricos com a África: Europeia pela tonalidade..) a morna. Com isso. afirmou que “não é fácil encontrar no folclore português ou outro estrangeiro qualquer das características das formas musicais das mornas” (Reis. diversos autores enxergaram na canção portuguesa a mais provável explicação para a origem da morna. Durante a vigência do Estado Novo. E no calor dessa polêmica. muitas vezes. Tal hipótese. maestro e professor do liceu Gil Eanes de São Vicente. as ligações entre o fado e a morna viram-se cada vez mais questionadas pela intelectualidade em Cabo Verde.. 1985: 205).4 orgânico da morna” (Ferreira. como Manuel Ferreira (ibid: 185). Sugere que sua procedência pode ser encontrada no ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . para a entendermos na sua mais íntima estrutura e figuração tem de ser estudada essencialmente nos seus apports europeus. Nessa asserção percebe-se claramente o intuito de reforçar o caráter singular. tem sido amplamente contestada. alegam simplesmente que o fado não poderia ter influenciado a morna. que tem sido alvo de longo e acirrado debate em Portugal. possivelmente até pela síncope. Mais do que meras semelhanças. uma vez que se supõe ser a segunda mais antiga que o primeiro. o caráter ideológico do fado tornou-se evidente. exclusivamente cabo-verdiano. O que precisa ser lembrado é a polêmica que envolve o próprio fado. porém. o cabo-verdiano José Alves dos Reis. com o surgimento de críticas que denunciaram sua ligação ao regime de Salazar (ver Carvalho. António Germano Lima propõe uma nova versão para a polêmica origem da morna. ganhou destaque em narrativas sobre a história da morna. e sem dúvida nenhuma que pela natureza das suas letras e pela atmosfera lírica e sentimental que a envolve. tudo concorre para a encararmos indiscutivelmente como uma criação do CaboVerdiano. Já na atualidade.

Com António Germano Lima. o ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . em “linguagens e gestos imperceptíveis para os colonizadores mas sempre na forma de cantos e danças” (Lima. o luto.. os escravos africanos e seus descendentes são apresentados como os principais personagens da história da morna.. outro importante estilo da música popular cabo-verdiana... a saudade. conforme eles algemavam os escravos. Por diversas vezes. a ênfase na participação de elementos culturais portugueses nesse processo.. a morna identifica-se quase que exclusivamente com valores como o sofrimento. 2001: 247). alegre. Cito aqui um trecho da entrevista realizada com uma senhora de 75 anos. vem ocupando o espaço da música “mexida”. aquele gemido escravo. A grande mudança nesse jogo de forças que se dá agora com um enfoque quase que exclusivo na população cabo-verdiana de origem africana reflete um novo momento no debate. natural da Ilha da Boavista: Dizem que a morna foi criada na Boavista no tempo da escravidão. segundo o autor. o que permite que elas se aproximem muito do sentido que a morna carrega nos dias de hoje. no tempo dos escravos. nos “queixumes” e nas “lamentações” dos escravos. ouvi cabo-verdianos ressaltando que os escravos. porque. irônica e satírica.. tinham um trabalho muito duro e. por isso. a dor. daquela tristeza. dançante. António Germano Lima vai buscar o processo de criação da morna na “dor”. daquele gemido. aquele gemido. que escreve no começo do século XXI. de um lado. é que eles inventaram a morna. É importante perceber que a força dessas narrativas está justamente no destaque que dão ao sofrimento vinculado à escravidão. a preocupação em afirmar a origem genuinamente cabo-verdiana desse gênero musical e. Nas hipóteses anteriores notamos. Daquele som. criaram a morna. em oposição a ela. assim eram também as mornas da Boavista. quando vieram da África.5 “substrato sócio-cultural de origem afro-negra” da Ilha da Boavista (Cabo Verde). em vez de cantar aquelas músicas africanas mais “mexidas”. E é essa hipótese que tem ganhado força em outros estratos nãointelectualizados da população cabo-verdiana. Percebemos na análise dessa versão para a origem da morna uma mudança radical de direcionamento. as mãos. no tempo dos escravos. aquela dor. A experiência histórica da escravidão torna-se a peça chave para a compreensão dessa hipótese. Diziam que os escravos cantavam a morna no lugar de chorar. de outro lado. expressos. Enquanto a coladeira.

Martins. e são tais particularidades da história social cabo-verdiana que são assimiladas por esta última versão sobre a origem da morna. E é a partir disso que podemos compreender o caráter particular que assume aqui a afirmação da africanidade. Mesmo que procedente de uma população “de origem afro-negra”.. por exemplo. todo ele. o que interessa é observar que. Cabo Verde é produto direto da expansão européia e do sistema econômico implantado nesse contexto. Partindo desse significado da morna. o processo de criação da morna ocorre.6 choro. e sim enquanto “escrava”. Seu argumento não tem recebido muito apoio (cf. no arquipélago de Cabo Verde. por exemplo. a exclusividade cabo-verdiana nesse processo. como afirmam. Contudo. 1985: 49). como linguagem para falar das tristezas e amarguras vividas pelo povo cabo-verdiano. a morna. na experiência da escravidão e no sofrimento a ela vinculado. dentro da narrativa. se o debate sobre a identidade cabo-verdiana tem sido muitas vezes retratado como um dilema que coloca o arquipélago entre a Europa e a África Negra. Não podemos concluir a discussão sem observar que. outras matrizes culturais têm sido destacadas pelos cabo-verdianos nas reflexões sobre sua história social. assim. Esse é um ponto muito importante para as freqüentes afirmações sobre a morna como símbolo da identidade nacional cabo-verdiana. a discussão sobre a ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . ora distanciando-o dos dois continentes. atribui à morna origem argelina (ver sua entrevista em Duarte. bem como uma possível participação árabe no desenvolvimento da canção cabo-verdiana. É a junção da cultura africana com as particularidades da história e da geografia cabo-verdiana que possibilita o nascimento da morna. através da ênfase. Gostaria de comentar especialmente que essas hipóteses não deixam de enfatizar. Se no atual momento a africanidade é enfatizada. ela não deixa de carregar as marcas da cabo-verdianidade. O músico e compositor Jorge Monteiro. ora aproximando-o. A morna surge. podemos perceber o poder de uma narrativa que a identifica com a dor escrava. como em várias outras narrativas. A influência brasileira sobre a morna aparece em algumas narrativas. a dor na sua expressão máxima. a lamentação e a melancolia. em particular. A população negra não aparece como contribuinte para a criação da morna enquanto “africana”. além da participação de portugueses e africanos no encontro que gerou a sociedade cabo-verdiana e. 1989: 20-21).

E porque a terra se recusou à fecundação. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . cada hipótese sobre a origem da morna sugere um “mito de origem” de Cabo Verde. O mar surge aqui como um valor. Numa relação metonímica. do murmúrio da brisa.. atraiu-o. (Duarte. embora contraditórias. nem culturas geométricas. o caboverdeano volveu os olhos para o mar. em 1934. as notas plangentes que se perdem na imensidade do espaço e são a própria alma do oceano.. E o espaço permanece aberto às possibilidades mais diversas. É do mar e suas ondas que vem o ritmo da morna. talvez. nunca é definitiva. Assim como versões de um mito que. mas também a própria “alma do oceano”. o caboverdeano escutou os queixumes. 1934: 10-11).. o símbolo máximo da fusão do caboverdiano com o Atlântico que o circunda. sofrimento e harmonia – virtudes da alma do povo ilhéu que se inspirou directamente na mágoa dolorosa do Atlântico. esculpindo na sua sensibilidade o ritmo das ondas. sua melodia. Nem arvoredos bastos crescidos ao acaso pela mão da natureza. tão grato aos ouvidos dos mareantes. assim. Cada uma das versões da gênese da morna faz parte de um projeto específico de construção da unidade nacional cabo-verdiana e. E. afirmando: Cabo Verde é a transição. Como no lirismo rebuscado de Fausto Duarte. seja mesmo a característica dessa sociedade crioula. não eliminam umas às outras. o que. Sob as velas enfunadas que se deleitam na luz flava e recolhem o murmúrio da brisa. E é com essa narrativa que Fausto Duarte apresenta a morna como a síntese. uma determinada construção sobre essa formação sócio-cultural. que não se fecha em si mesma e participa de um contínuo movimento de reformulação. segundo interesses cambiantes. dedilhando o violão. funcionário da administração colonial e escritor cabo-verdiano que representou o arquipélago na 1ª Exposição Colonial Portuguesa. e o mar enamorou-se dele. acalentou-o. compôs a primeira “morna”: dolência.. essas inúmeras hipóteses se somam ao contar a história de um fenômeno musical e do povo que o criou. A melodia nascente não é apenas a “alma do povo ilhéu”.7 origem da morna vem tornar mais complexo esse quadro através de narrativas que acrescentam novos elementos na composição dessa sociedade crioula. Noto também a existência de hipóteses para o surgimento da morna que colocam em evidência um conteúdo bem diferenciado.

que tem no tempo o seu critério orientador. Cada uma dessas narrativas tem sentido em si. O Império é recriado. que marcou o período salazarista. o debate sofre uma mudança radical. entre outros. e a Metrópole se mantém como o referencial de civilidade. tanto por intelectuais cabo-verdianos quanto portugueses. com caráter nacionalista e centralizador. Afirmam sua originalidade. por um lado. e o controle sobre as colônias é reforçado. em detrimento das relações com a África continental. agora estas últimas posicionam-se no centro da agenda política de Cabo Verde. começa a dar lugar a novos debates envolvendo outras manifestações da cultura popular cabo-verdiana. de Cabo Verde. mas também deve ser compreendida como parte de uma estrutura que lhe abrange. Entre as décadas de 1930 e 1960. Já num outro período. seguem a mesma tendência de construção da morna – e. as versões para a gênese da morna então articuladas apresentam-se imersas nesse processo político. porém. Como não poderia deixar de ser. sem no entanto deixar de enfatizar a força da influência portuguesa sobre esse gênero musical. é preciso observar que as narrativas aqui analisadas. a importância que adquiria a construção da singularidade cabo-verdiana frente ao Império Colonial naquela época. quando têm início os movimentos de libertação nacional nas colônias. Com o processo de independência vivido pelos cabo-verdianos. revela um momento histórico em que a lusitanidade é apresentada como um valor. passam a figurar nos círculos da intelectualidade local.8 À guisa de conclusão. Essa dupla tendência indica. A morna deixa de ser praticamente a única manifestação da cultura popular trabalhada em projetos de construção da nacionalidade cabo-verdiana. o funaná e a tabanka. delineiam um padrão. É nessa fase que se instaura em Portugal o Estado Novo. este último gênero musical deixa de ser expressão da lusitanidade para se tornar índice de africanidade. acarretando importantes alterações na política colonial. ainda que claramente marcadas pela disparidade entre elas. É possível observar que as narrativas elaboradas nesse período. Se até então a proximidade em relação à Metrópole era valorada positivamente. Ele é ainda um importante símbolo da ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . O batuku. conseqüentemente. por outro. E a imensidão de estudos sobre a morna. concentra-se a grande maioria das narrativas sobre a origem da morna. especialmente aquelas onde a herança africana pode ser mais facilmente percebida. E mesmo a morna toma agora nova feição.

porque lá fala muito de ‘bocê’. Então quando se deslocavam de um sítio a outro. onde nós temos convicção de que lá é que nasceu a morna. mas que dava um sentido de tristeza... hoje comunidade lusófona.. ‘você’. mas é ao mesmo tempo um instrumento para a recriação do vínculo com o continente africano. O barco encalhou e as pessoas salvaram-se ou foram salvas... portadora de admirável riqueza simbólica. Encerro a presente discussão com mais uma das inúmeras narrativas sobre a origem da morna. Então começaram a pôr letra nas mornas (. natural da Ilha da Boavista. e estavam acorrentados. mas só com melodia. ‘você’ e que.) é a primeira povoação do norte. sem a letra.).. de sofrimento dos escravos brasileiros aqui na Boavista e alguém pegou. uma forma de religação ao antigo Império Colonial. Até por causa do sotaque que ainda existe naquele povoado.. Quase sempre o Brasil assume a forma de uma ligação entre Cabo Verde e a África. Então.. noto que também nesse período são relativamente freqüentes as referências ao Brasil nas narrativas sobre a gênese da morna.. logo se disponibilizou para contar sua versão sobre a gênese da morna.. (. nessa versão a explicação para a gênese da morna tem início com a referência ao encalhe de uma embarcação ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .. de solidão. porque aqui esses escravos ficaram lá durante muito tempo.. nós temos essa informação oral de que a morna terá nascido daquele ambiente de tristeza. nós pensamos que teria sido. E então ficaram em João Galego.. o sofrimento e a própria imagem do escravo acorrentado. alguém de há muito pegou nessa melodia que eles iam cantando assim. como a escravidão. Por fim. Mas a referência ao Brasil representa. mas acrescenta à narrativa novos elementos. comer ou ir para um outro sítio. ao mesmo tempo... Nuno.. de saudade ou de sofrimento.. Essas referências têm caráter um tanto ambíguo.. eles tinham uma melodia que eles iam interpretando. não havia comunicação naquele tempo. a tristeza. O que segue abaixo é a sua narrativa: Teria encalhado no norte da ilha [Boavista] um barco brasileiro que tinha escravos a bordo. antes mesmo de perguntado sobre o assunto. havia problema. quando procurado por mim para conversar sobre suas experiências com a música local... Nuno retoma alguns pontos já levantados nos discursos aqui analisados. ‘bocê’. tem muito a ver com alguma influência da língua brasileira.. sem palavras. Em primeiro lugar.9 originalidade cabo-verdiana. funcionário público e músico cabo-verdiano. nós teríamos. sem que para tal seja necessário fazer referência direta à ex-Metrópole....

Amadora: Ediclube. escravos brancos provenientes da Europa (Lima. portanto. A aproximação construída entre Cabo Verde e Brasil é a base sobre a qual se desenrola a narrativa. vol. Nuno cita a povoação para reforçar seu argumento sobre a influência brasileira na origem da morna. passando antes pela mediação realizada pelo Brasil. mas se trata de escravos muito especiais. 2002: 196). Tal caráter ambíguo pode mesmo ser apontado como um dos traços marcantes da “crioulidade”. a referência à povoação de João Galego como o local onde nasceu a morna enriquece ainda mais o relato. 301-304. é compreensível a sugestão de que ela tenha nascido em uma povoação marcada por tamanha ambigüidade. e sim do Brasil. n. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . construída metaforicamente através de uma etno-história musical. 68. todo o discurso de Nuno aponta os escravos como criadores da melodia que veio a dar origem à morna tal qual conhecemos. E no lugar da habitual disputa entre as heranças portuguesa e africana. ao menos não diretamente. Porém. também resultado do encontro dessas duas matrizes culturais. baseando-se para tal no sotaque que ainda hoje existe no local.10 ocorrido na costa norte da Boavista. VI. 1939. evento que durante séculos foi relativamente comum na referida ilha. p. mas também nuanças da história local são contempladas na narrativa. 1999. Ruben de. CORREIA. Referências bibliográficas CARVALHO. como de costume. Em segundo lugar. Portanto. Diante da complexidade do debate em que está inserida a busca pelas raízes da morna. “A música africana como a vê a sensibilidade dum europeu”. há a identificação com um terceiro. não apenas a escravidão. uma vez que não vinham da África. O reconhecimento da participação dos escravos na criação da morna não representa. Afonso. João Galego é também conhecida entre os boavistenses por ter sido fundada por “escravos-galegos”. O Mundo Português. uma identificação com o continente africano. Um Século de Fado. pela via de uma rota na contracorrente do tráfico negro. Por fim. curiosamente.

Série Antropologia. Mornas e Coladeiras de Cabo Verde: versões musicais de uma nação. a morna e o mandó . José Alves dos. Jean-Paul.A morna”. 1985. MARTINS. ______ Boavista. 1961. Cabo Verde: Boletim de Propaganda e Informação. SARRAUTTE. Praia: Instituto Superior de Educação. 4853. 21. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Porto: Edições da 1ª Exposição Colonial Portuguesa. n. Fausto. Lisboa: Plátano. Praia: Instituto Caboverdiano do Livro e do Disco. n. 184. n. Juliana Braz. Miguel. p. António Germano. DUARTE. António. LIMA. Portugal Cooperação. 138. A Aventura Crioula. “Marialvismo: A Moral Discourse in the Portuguese Transition to Modernity”. Manuel. p. Vasco.II . 2004. Tese (Doutoramento em Antropologia).I (A Morna). VALE DE ALMEIDA. “Subsídios para o estudo da Morna”. “A morna: síntese da espiritualidade do povo cabo-verdiano”. A Música Tradicional Cabo-Verdiana . DUARTE. 2002. Raízes. 1995. n. Universidade de Brasília. 1934. “Três formas de influência portuguesa na música popular do ultramar: o samba. 7-10. Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social.11 DIAS. Africana. n. 1984. FERREIRA. ano XII. esp. p. p. REIS. 2001. 1989. “Da literatura colonial e da ‘morna’ de Cabo Verde”. 9-18. 1985 [1ª edição: 1967]. Ilha da Morna e do Landú. 6. “Morna: o doce lamento do Atlântico”. 1. 239-267.

Circunscrevo assim a minha abordagem às vivências e aos sentidos que andam atrelados ao termo no ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . a palavra significa qualquer coisa que diga respeito a Cabo Verde ou aos cabo-verdianos.ul. ou Lamarck em Cabo Verde João Vasconcelos Instituto de Ciências Sociais. Como adjectivo. onde o termo significa essencialmente ideias de mestiçagem e hibridez. o crioulo é a língua materna de todos aqueles que nascem no arquipélago e é uma língua falada por quase todos os cabo-verdianos e seus descendentes que. transportam ou cultivam uma identidade cabo-verdiana.Filhos da terra.vasconcelos@ics. Universidade de Lisboa joao. identidade performativa. Em Cabo Verde. Não obstante as suas importantes variações locais. A etnografia caboverdiana desafia a acepção de “crioulidade” corrente na literatura antropológica. o substantivo “crioulo” designa um indivíduo cabo-verdiano. nos países de emigração. “Crioulo” é também o nome corrente da língua cabo-verdiana. mas também comportamentais ou performativos. Ambos os termos podem ser trocados na maioria dos contextos de fala sem que isso afecte o sentido dos enunciados. Palavras-chave: crioulidade. Argumento que a definição emic da crioulidade cabo-verdiana recorre a marcadores de vária ordem: não apenas genealógicos e fenotípicos. O propósito deste texto é mapear o campo semântico e afectivo associado à palavra “crioulo” tal como ela é usada correntemente em Cabo Verde. “Crioulo” e “cabo-verdiano” são sinónimos portanto. A compreensão etnográfica da crioulidade cabo-verdiana levanta-me reservas em relação aos usos generalistas da noção e leva-me a defender em vez disso um uso ad hoc. atento aos sentidos que ela possui nos diferentes espaços e tempos em que é empregada pelos agentes sociais. regionais e de classe.pt Este texto pretende mapear o campo semântico e afectivo associado à palavra “crioulo” tal como ela é usada correntemente em Cabo Verde. identidades lamarckianas e mendelianas. Cabo Verde. O peso relativo atribuído a cada um deles varia consoante os contextos de interacção social. identidade cultural.

por João de Pina Cabral. os caboverdianos se afirmassem uma raça superior e justificassem dessa maneira qualquer forma de tirania sobre outros povos. Pode haver três razões para este desajuste. cujo lema era “afinidade e diferença”. à noção de crioulo enquanto categoria emic. Esta primeira revisão procura endereçar alguns comentários que me foram dirigidos naquela ocasião e.º Congresso da Associação Portuguesa de Antropologia (Lisboa. Jorge Rivera e Ramon Sarró. 2 A segunda circula em estudos com alicerces Uma versão ligeiramente diferente deste trabalho foi apresentada no 3. o trabalho do etnógrafo é tentar perceber o que querem eles dizer com isso. ou os cabo-verdianos estão errados quando se dizem crioulos. por mera hipótese académica. Porque é que me abalancei a escrevê-lo? Primeiro porque o congresso onde o apresentei. me pareceu uma ocasião adequada para reflectir acerca de lógicas culturais de identificação e diferenciação. ainda bastante incipiente. Estas duas concepções não são as únicas. Principiarei por identificar duas concepções de crioulidade e crioulização em uso na literatura antropológica recente. Ou a minha percepção etnográfica está completamente equivocada. para usar linguagem de antropólogo. um texto em construção. 2 Sahlins (1999a) fala de “afterological studies” para designar os autodenominados estudos pósmodernistas. Recorro para esse efeito a materiais etnográficos que reuni em 2000 e 2001. A primeira hipótese é admissível. no decurso de trabalho de campo prolongado na ilha de São Vicente. 1 Depois porque nos últimos anos tenho lido vários trabalhos antropológicos que falam de “crioulidade” e “crioulização” em termos que me parecem ser apenas parcialmente transponíveis para Cabo Verde. 6-8 de Abril de 2006). a quem manifesto a minha gratidão. mencionando que foi buscar aquela expressão a um 1 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . que tratou de outros assuntos. (É claro que as coisas seriam diferentes se. ou então a crioulidade caboverdiana possui realmente alguns traços distintos daqueles que são veiculados na crioulidade da vulgata antropológica. coordenado por Wilson Trajano Filho e por mim. e é também um working paper. pós-estruturalistas e pós-coloniais. A segunda é absurda: se os cabo-verdianos se dizem crioulos. mas parecem-me ser as mais difundidas no senso comum dos antropólogos contemporâneos. posteriormente. A primeira é moeda corrente naquilo a que chamarei os estudos pós e os estudos trans (traduzindo livremente duas expressões provocativas lançadas respectivamente por Marshall Sahlins e Jonathan Friedman). Este texto é um produto lateral da minha pesquisa de doutoramento. no painel “Caboverdianidade e Crioulidade”.) A terceira hipótese é aquela que irei defender e explicitar aqui. e não decretar se estão certos ou errados.2 arquipélago – ou.

nas discotecas. publicado em 1987 na revista Africa. São as culturas em exibição nos mercados. nos jornais e nas estações de televisão. Esse texto começa assim: Desde que me embrenhei pela primeira vez no Terceiro Mundo.3 etnográficos nas Caraíbas. é “um mundo em crioulização”. não tem de designar algo homogéneo nem sequer particularmente coerente. fiquei fascinado com aqueles modos de vida e de pensar que vão emergindo da interacção entre culturas importadas e indígenas. e o antropólogo é sueco. início dos anos 1960. comunga também aspectos de uma lógica de formação de identidades que tem sido registada noutros espaços insulares bem mais afastados em termos geográficos. * Ataquemos para já a crioulidade dos estudos pós e trans. Um dos primeiros antropólogos a formulá-la foi Ulf Hannerz. nos colégios internos. 5 trabalho inédito de Jacqueline Mraz. escreve Hannerz. nas salas de espera das estações de comboio. Refiro-me especialmente às ilhas do Pacífico. muito embora partilhe várias características da crioulidade caraíba. Todo o artigo é uma celebração deslumbrada do movimento e da mistura. no final dos anos 1950. históricos e culturais. 4 Este mundo de importações e misturas. nos bairros de lata. e o conceito de cultura crioula é a “metáfora mais promissora” para o descrever. no artigo “The world in creolisation”. No final desta apresentação. 5 Hannerz 1987: 551 – tradução minha. A noção de cultura. nas livrarias missionárias. “Michael Jackson. nas cervejarias. 3 Hannerz 1987: 546 – tradução minha. Friedman (2002) fala do “trans-X discourse” como uma agenda ideológica que permeia os estudos sobre translocalismo. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Os elementos culturais importados não abafam necessariamente os elementos indígenas. Sunny Ade ou Victor Uwaifo”. 3 O país do Terceiro Mundo de que o antropólogo fala é a Nigéria. região que corporiza o protótipo da crioulidade nos imaginários anglófono e francófono. 4 Hannerz 1987: 555 – tradução minha. os Abba e Jimmy Cliff não destruíram o mercado da música popular de Fela Anikulapo-Kuti. procurarei demonstrar que a crioulidade cabo-verdiana. afirma Hannerz. Na Nigéria. transculturalismo e transnacionalismo.

miscigenação. Sahlins 1999b: xi – tradução minha. como escreve Sahlins. Ver também Hannerz 1996. 8 Mais ainda. No final do seu artigo. colagem. Homi Bhabbha ou James Clifford pelas viagens e pelo hibridismo decorre mais da forma de vida dos académicos e das suas próprias preocupações políticas paroquiais (como por exemplo o multiculturalismo nas grandes metrópoles). Mais de noventa e oito por cento da população mundial permanece toda a sua vida no país onde nasceu e a maioria não tem acesso à Internet. sinergia. misturadas. 10 * 6 7 8 9 10 Hannerz 1987: 557 – tradução minha. até os suecos são crioulos.4 As culturas crioulas são culturas híbridas. imagine-se. sincretismo. que “as culturas crioulas não são apenas necessariamente as culturas coloniais e pós-coloniais”. do que da emergência de uma nova realidade global. 9 Friedman argumenta no mesmo sentido. Hannerz conclui (com uma candura que não chego a perceber se é retórica ou genuína). terceiras culturas e outros termos”. transculturação. Arjun Appadurai. mestiçagem. 7 Se a crioulização significa isto. “a chamada hibridez é no fim de contas uma observação genealógica. e não uma determinação estrutural – talvez apropriada apenas para os intelectuais cosmopolitas que fabricam estas teorias culturais a partir da sua posição de exterioridade”. então somos todos crioulos – coisa que não me repudia de todo. e que. bricolage […]. Leia-se a este respeito Sarró 1999. parece-me francamente débil como formulação conceptual. miscelânea. retomada por Hannerz em trabalhos posteriores. mélange. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . mas que também não me parece poder constituir ponto de partida útil para um empreendimento analítico capaz de esclarecer o que quer que seja. 6 Esta concepção da crioulização como sinónimo de “hibridez. E acrescenta que o fascínio contemporâneo de intelectuais como Hannerz. Ver também Friedman 1994: 209-210. montagem. mistas. Hannerz 1997: 26. Friedman 2002: 32-33 – tradução minha. Os discursos do mundo em crioulização e do transnacionalismo “constituem uma agenda ideológica e não uma descoberta científica”: “um programa elitista imposto de cima para baixo e baseado na experiência de viajar de avião”.

um influente artigo de Lee Drummond (1980) sobre a Guiana. Não vou aqui resumi-los. e a manutenção durante séculos de um domínio colonial centrado em metrópoles europeias. um outro que ele toma por mulato é afinal um branco crioulo. asiáticos e europeus) em diferentes tempos. Como escreve Leiris. sociedades formadas através de processos históricos que envolveram o desenvolvimento de economias de plantação. As classificações étnicas e raciais utilizadas nem sempre coincidem com aquelas que os observadores exteriores aprenderam nos seus países de origem. fiando-se no aspecto da pessoa com quem trava contacto. São também estudos muito diferentes no tocante às suas perspectivas teóricas de partida. outro ainda que ele julgava negro é rotulado de mulato. Os estudos a que aludirei concentram-se nas sociedades das Caraíbas. que parece demonstrar a existência de um traço bem saliente na crioulidade das Caraíbas. e nas quais as pessoas. e a etnografia mais recente de Daniel Miller (1994) sobre a Trinidad. qual a categoria racial em que ela é colocada localmente: um indivíduo que ele vê como um branco é afinal classificado como mulato. Os três estudos retratam sociedades cujos membros designam “crioulas” e vêem como resultado de uma mistura de ingredientes de origens diversas.5 Passemos à segunda concepção de crioulidade e crioulização. que merece outra atenção. o observador estrangeiro que chega à Martinica ou a Guadalupe é forçado a constatar que o seu discernimento falha frequentemente quando julga saber. 11 11 Leiris 1955: 160-161 – tradução minha. a deslocação mais ou menos forçada de populações de origens diversas (africanos. Estes trabalhos cobrem um período bastante longo: o livro de Leiris baseia-se em missões etnológicas realizadas em 1948 e 1952 e o de Miller em trabalho de campo do final dos anos 1980. de acordo com a proveniência dos grupos que real ou presumidamente os introduziram. os costumes e os objectos são classificados de forma quase obsessiva em termos étnicos ou raciais. Esse traço comum é a importância que as categorias étnicas e raciais ali assumem na organização das relações sociais e no pensamento sobre a sociedade. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . a escravatura. Tomarei como amostra três estudos sobre quatro sociedades caraíbas: a monografia de Michel Leiris (1955) sobre a Martinica e Guadalupe. Vou somente identificar um denominador comum a todos eles. visto encontrar-se em estudos baseados em trabalho de campo prolongado.

a atribuição de africanidade e indianidade a determinados usos e costumes nem sempre reflecte a real origem cultural dos mesmos. Através de vários exemplos etnográficos. as categorias primárias são “coolie” (indiano). São. e classificações como “whiteman” e “blackman” podem assumir conotações positivas. entram em jogo modos de percepção e apreciação da cor da pele. argumenta Miller. 12 Escrevendo sobre a Guiana. na ilha de Trinidad. por fim. Leia-se a este respeito Wade 2002. como também denuncia o pressuposto. Sobre os potuguees da Trinidad. 13 Drummond 1980: 356. Drummond afirma que também nesta sociedade as diferenças entre pessoas e formas de vida são expressas de forma explícita em termos de categorias raciais ou étnicas. Segundo Miller. dois estereótipos associados a valores em larga medida opostos. ver Vale de Almeida 1997. 12 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . A africanidade e a indianidade. da qualidade dos cabelos e também da genealogia das pessoas e do seu estrato social que são aprendidos desde a infância e cujo domínio competente se torna. da fisionomia. portanto. “chinee” (chinês) e “white” ou “english” (branco ou inglês). dentro do pluralismo étnico e das formas de categorização social que se baseiam nele. A etnografia de Miller sobre a Trinidad. “potuguee” (português. na interpretação do autor. 13 Além de reconhecer a inexistência de isomorfismo entre a classificação guianense e. a forma modelar do racialismo. negativas ou neutras. que não só evidencia a existência de diferentes tipos de formação racial e de racismo. Drummond acrescenta que a primeira manifesta uma variação à primeira vista desconcertante. cujos pólos são os “africanos” e os “indianos”. implícito na maioria dos estudos sociais sobre “raça”.6 A questão é que na classificação racial. sobressai um padrão classificatório dualista. que não equivale a “branco” no sistema guianense). de que o tipo de classificação racial estabelecido há cerca de cem anos nos Estados Unidos da América e nalguns países do norte da Europa constituiria por assim dizer o tipo padrão. em qualquer classificação racial. acrescenta algo às observações de Leiris e Drummond. a inglesa. que as pessoas da Trinidad usam para pensar sobre a sua sociedade. e às vezes nem sequer sua real disseminação entre os grupos étnicos correspondentes. digamos. “black” (negro). não são apenas atributos de dois grupos étnicos. além disso. Um branco num determinado contexto pode ser um mulato noutro. ele mostra que não só a classificação varia situacionalmente. “buck” (ameríndio). Mais ainda. como varia também o valor atribuído aos estereótipos étnicos e raciais. Aqui. muito difícil a um indivíduo naturalizado noutro esquema classificatório e ignorante da pequena história local. consoante a situação em que são utilizadas.

é “uma mestiçagem consciente de si própria”. Passar-se-á antes o contrário: “muito do conteúdo específico da estereotipagem étnica e da experiência contemporânea da etnicidade resulta do uso de grupos étnicos para objectivar um dualismo cuja raiz se encontra noutro lugar”. o discurso da crioulidade nunca deixou de reproduzir as “categorias puras” que pretendia dissolver. a sociedade cabo-verdiana do século XX e dos dias de hoje. nenhum destes grupos construiu identidades étnicas de longa duração vinculadas às respectivas origens. o dualismo cultural entranhado na Trinidad não resulta da diferença étnica. Em Cabo Verde. deportados políticos da antiga metrópole e judeus de Gibraltar. Ver Vasconcelos 2004: 170-187. e 15 da “transiência” ou efemeridade (corporizada nos valores * Muito disto será familiar para quem conheça um pouco. ao longo do século XX.7 Para Miller. 17 Não me parece adequado falar de grupos étnicos em Cabo Verde. intelectual natural da Martinica. alentejanos e algarvios. 14 Essa raiz. encontra-a Miller na “natureza fundamental da modernidade”: na contradição entre a valorização simultânea da “transcendência” ou continuidade (corporizada nos valores da indianidade) africanidade). dá ao termo. A crioulidade. por experiência própria ou através de leituras. Glissant 1981. Noutro trabalho tive ocasião de argumentar que. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . tal como nas Caraíbas. madeirenses. a identidade cabo-verdiana foi sistematicamente definida pela mistura e que. Há que esperar para ver o que acontecerá com as 14 15 16 17 Miller 1994: 15 – tradução minha. confrontamo-nos com um contexto social crioulo no sentido que Édouard Glissant. Muito embora o arquipélago tenha conhecido em diversos momentos da sua história várias vagas migratórias (de escravos da costa ocidental africana. Estamos a falar de sociedades concretas nas quais as pessoas se vêem a si próprias como mistas ou misturadas e usam o vocabulário das “categorias puras” que compõem a mistura para se pensarem e se classificarem. Miller 1994: 132-133. por exemplo). segundo Glissant. 16 Não estamos portanto a falar do vago e vasto “mundo em crioulização” de Hannerz e outros. por isso mesmo.

ora “África”. tal como nas Caraíbas. Revelam. dois estereótipos fortes. são conversas que se ouvem nos cafés. Duas jovens mindelenses perfumadas e de cabelo alisado que passam descaradamente à frente de um rapaz de Santo Antão de aspecto pobre na fila da bilheteira do cinema Éden Park são descompostas por uma rabidante que vende drops. “África” e “Europa” (ou. A África cabo-verdiana é a ilha de Santiago. personificada na figura do badio. mas ambos estiveram sempre presentes na consciência da caboverdianidade. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . empregado de escritório ou funcionário público nas horas vagas. e que resultam de processos de formação social bastante distintos e desfasados no tempo. no passado tal como no presente. Mais ainda. nos mercados. nas esquinas da Rua de Lisboa e em casa. Os debates acerca da cultura cabo-verdiana são quase sempre debates acerca de origens culturais. Em suma. estes estereótipos não são étnicos. racial e classista. personificada no literato claro do Mindelo.8 migrações mais recentes de vendedores ambulantes da África Ocidental e de comerciantes chineses. “aristocratização cultural” (no período da Claridade). “alienação cultural” (no período da guerra colonial e dos anos pós-independência). em vez disso. a maioria dos cabo-verdianos vê-se como gente com sangue mais africano que português e com espírito mais português que africano. “África” e “Europa” foram internalizadas em Cabo Verde. A Europa de Cabo Verde é a ilha de São Vicente. e “hibridez” (nos neo-liberais anos 1990). sobretudo. o estereótipo positivamente valorado foi ora “Portugal”. De onde veio a morna? E o machismo? E a família matrifocal? E o gosto pelo desporto? Não são apenas debates de intelectuais. à semelhança do que acontece nas Caraíbas. Diferentemente das Caraíbas. E são. observam-se estratégias de classificação e distinção social que põem em prática a ideologia subjacente dos “tipos puros”. existe em Cabo Verde a ideia de que ser crioulo é ser misturado. a operação de critérios de identificação insular. Consoante as conjunturas político-ideológicas. esta crença tem recebido os nomes de “civilização” (no período republicano). “Portugal”). Em vez de grupos étnicos. Além disso. os estereótipos que fazem a mistura crioula caboverdiana são as nove micro-sociedades insulares que constituem o arquipélago. nos botequins. E. No decurso das transformações políticas que marcaram o século XX. mais modestamente. o camponês escuro e iletrado do interior que vibra ao som do batuque.

em que comecei a frequentar espaços públicos locais. que evidenciam o funcionamento paralelo de uma outra lógica de formação de identidades. chamar a atenção para uma outra característica bem diferente da crioulidade cabo-verdiana. e creio que não se trata de uma percepção puramente subjectiva. assente em trabalho de campo realizado no começo dos anos 1970. gostaria de sugerir que estes componentes coexistem com outros. mas bastante escuro e de cabelo encarapinhado. a tomar uns grogues e uns pastelinhos nas vendas dos subúrbios e nos botequins da cidade. a partir do momento que fiz questão de falar crioulo sempre que as circunstâncias não aconselhavam o uso do português. 18 Mas quero agora. 18 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . a vestir-me à moda local (tirando o uso de sandálias. sempre a armar afronta!” Acompanho o drama de uma rapariga de boas famílias cujos parentes tentam por todos os meios pôr fim ao seu namoro com um rapaz também de boas famílias e até com estudos universitários. que viviam na ilha há bastante tempo e que se comportavam e eram tratados como filhos da terra. que naquele tempo me incomodava) e a ganhar um tom moreno. Foi um processo gradual. Eu próprio. comenta logo: “Aquilo são badios da Praia. Os filhos destas pessoas que nasceram ou foram criados desde pequenos na ilha em nada se distinguiam das crianças e dos jovens dos estratos sociais correspondentes. Não só existe racismo em Cabo Verde como ele é além do mais consciencializado e verbalizado. conserva ainda muita actualidade. a ter a minha cachupa preparada em casa todos os sábados ou a ir comê-la a casa de outros. Os homens e rapazes com quem convivia foram-se tornando cada vez mais indiscretos e insistentes acerca das minhas relações com as raparigas da terra. que identifica os assaltantes como cabo-verdianos. mas também alguns negros e um chinês). Andam sempre com faca. Quando é O estudo de Deirdre Meintel (1984) sobre a classificação e a discriminação raciais em Cabo Verde. e um amigo meu. comecei a sentir-me parte da pequena cidade com cerca de setenta mil habitantes. que lhes grita: “tempo de escravatura acabá!” Assisto no noticiário das oito a uma reportagem sobre um assalto em Lisboa a uma actriz de teatro. a frequentar as tocatinas que se organizavam aqui e ali. militante do PAICV. Sem negar que a ideia de que se é “misturado” e as práticas de discriminação que só superficialmente a contradizem constituem componentes característicos da caboverdianidade enquanto forma de vida. para concluir. Conheci em São Vicente alguns estrangeiros (brancos a maioria.9 mancarra e cigarros no seu balaio em frente à escadaria.

conheci um jovem turista mulato da Martinica que. Será a que a antropofagia cultural mindelense manifesta igual apetite por homens e mulheres. O meu domínio do crioulo foi talvez o feito mais apreciado. Em todo o caso. por muito que se esforcem por se comportar como portugueses. Pelo contrário. Aquilo que experimentei e que observei na interacção dos mindelenses comigo e com outros estrangeiros foi uma grande abertura da parte deles à assimilação do outro (para usar uma palavra politicamente incorrecta). que eu falo como os filhos dos caboverdianos que nasceram em Portugal. E noutros contextos são depreciados pelo mesmo motivo. Os meus amigos mais chegados dizem. aquilo que quero sugerir é que a crioulidade é uma classificação identitária que contempla não apenas elementos genealógicos (o facto de se ter nascido na terra. julgo que com sinceridade. exactamente pela sua diferença. de ir nadar à praia da Lajinha pela manhã. em certos contextos. é claro. Mas sei que os meus amigos cabo-verdianos não são tratados desta forma em Portugal. Eu sou homem e sou branco. Todos apreciavam o facto de eu não ser esquisito com a comida. de comer o mesmo que as pessoas da terra. A minha experiência pessoal e o meu universo de observação podem implicar muitos enviesamentos. Pode haver aqui algum romantismo de going native da minha parte. antes de abrirem a boca e falarem em crioulo. Tenho amigos mindelenses que até em Portugal seriam brancos e que eram tomados por estrangeiros pelos raros camponeses com quem nos cruzávamos nos nossos passeios de domingo pelo interior da ilha – isto. Por outro lado. embora três deles não fossem brancos. de se ter pais ou avós cabo-verdianos) e fenotípicos. desde que o outro estivesse disposto a isso. havia ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Não que ele seja muito bom. negros e brancos? Não sei. É verdade que há uma espécie de fenótipo cabo-verdiano modal. Quando ele tentava explicar em francês ou em inglês que não era cabo-verdiano. por serem afro. estava afrontado porque toda a gente presumia que ele era cabo-verdiano com base na sua aparência física e lhe falava em crioulo. de fazer as minhas compras no supermercado.10 que eu arranjava uma pequena? Quando é que eu tinha lá um filho? As raparigas foramse tornando cada vez mais atrevidas nos jogos de sedução – ou então fui eu que comecei a percebê-los melhor. ao cabo de uma semana em Cabo Verde. e quase todos os estrangeiros que conheci que estavam mais crioulizados que eu eram homens também. mas também elementos performativos. são apreciados.

[…] Para os havaianos. a “raça” interessa. Portanto. ser-se di terra. termo que não está exclusivamente reservado aos nascidos no lugar.11 quem não acreditasse e achasse que ele era um desses emigrantes cheios de inchadura que perderam as raízes ou. Brancos. por exemplo. eram considerados macaenses. não apenas os filhos de naturais do território. Marshall Sahlins. Esta realidade tem muito em comum com aquela que João de Pina Cabral e Nelson Lourenço encontraram em Macau no início dos anos 1990. pode tornar-se crioulo se falar a língua da terra. ou “filhos da terra”. se cantar ou dançar a música da terra. ser-se crioulo é. se acamaradar e eventualmente procriar com gente da terra. 19 Outros trabalhos etnográficos recentes realizados noutras regiões do Pacífico descrevem a operação de lógicas de formação de identidade semelhantes. Um estrangeiro. que se envergonham delas. tal como interessa quando se trata de diferenciar internamente os cabo-verdianos. pior. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . até os estrangeiros se tornam “filhos da terra” (kama’àina). As classificações raciais e classistas que os diferenciam em certas situações coexistem com uma outra que os irmana. independentemente da sua aparência física. Naquele enclave português na China. se comer as comidas da terra. Em Cabo Verde. diz-nos que no Havai uma pessoa pode tornar-se “nativa”. A palavra “crioulo” tem a sua raiz etimológica no verbo “criar” e começou a ser utilizada em sítios como Cabo Verde e as colónias de povoamento das Américas. mediante acção adequada. entre outras coisas. Mas não é o único critério em jogo. Sahlins 1985: xi-xii – tradução minha. 20 19 20 Ver Pina Cabral e Lourenço 1993: 53-72. mas também chineses e gente de outras proveniências que adoptavam a língua e a cultura locais. o facto de uma pessoa viver numa determinada terra e se alimentar do que ela dá fá-la da mesma substância que a terra. quando se trata de classificar as pessoas como cabo-verdianas ou não. Depois de residir um certo tempo na comunidade. pretos e mestiços. no mesmo sentido em que se diz que uma criança é feita da substância de seus pais. para diferenciar os brancos europeus ou reinóis dos brancos da terra e os pretos africanos dos pretos da terra. pretos e mestiços são todos crioulos sem que deixem com isso de ser brancos. Há também uma outra crioulidade que obedece a uma lógica identitária que tem subjacente a ideia de que aquilo que se faz é uma parte importante daquilo que se é.

que enfatizam a preeminência dos traços herdados na constituição do ser. escreve a autora. A conceptualização de Watson foi depois aplicada por outros autores a diversas sociedades oceânicas. Este entendimento da crioulidade cabo-verdiana levantame reservas em relação a qualquer uso generalista da noção e leva-me a defender em 21 22 23 Ver Watson 1983: 276-280. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . na sua monografia sobre os tairora das terras altas da Nova Guiné. mas é igualmente possível que uma pessoa se faça crioula pela acção adequada. no outro as semelhanças e diferenças reconhecidas nos modos de vida. com base na acção. como ainda daquilo que se faz. “adquire-se através de actividades realizadas no presente” e possui “traços caracteristicamente austronésios. que provavelmente se poderão encontrar em qualquer parte do mundo. Astuti 1995: 1 – tradução minha. por ser transformativa. A segunda é vista “como uma essência herdada do passado”. e “possui um forte cunho africano. introduziu a expressão “identidades lamarckianas” para designar este tipo de classificações performativas. as “identidades lamarckianas” baseiam-se na crença de que o comportamento constitui o ser. o recurso a duas formas de identificação idênticas às identidades lamarckiana e mendeliana de Watson: uma identidade “performativa” e uma identidade “étnica”. Um filho de crioulos é crioulo pelo nascimento.) 2003. 23 Identidades mendelianas e lamarckianas podem ser concebidas como dois pólos de um continuum de produção de semelhanças e diferenças entre os seres humanos. 22 Na ilha índica de Madagáscar. por se enraizar na ordem imutável da descendência e ser por ela determinada”. Num extremo estão as semelhanças e diferenças estabelecidas a partir de reais ou supostas heranças genealógicas.) 1990 e Hoëm e Roalkvam (eds. não primordialista e não essencialista”. Rita Astuti identificou também entre os vezo. na prática quotidiana. O peso relativo atribuído a marcadores genealógicos. em doses e com matizes diferentes. como de traços corporais herdados e adquiridos socialmente. um grupo da costa oeste. fenotípicos e comportamentais varia consoante os contextos de interacção social. 21 Diferentemente das “identidades mendelianas”. A primeira. Creio que a crioulidade cabo-verdiana congrega ambas as lógicas de formação identitária. É-se reconhecido como crioulo em virtude tanto da ascendência familiar.12 James Watson. Ver por exemplo Linnekin e Poyer (eds. de que se é aquilo que se faz.

fronteiras. 1994. 2003. LINNEKIN. GLISSANT. University of Hawai’i Press. Cultural Identity and Ethnicity in the Pacific. FRIEDMAN. FRIEDMAN. Oxford e Nova Iorque. 1996. 2002. 1984. Thousand Oaks e Nova Deli. Le discours antillais. Anthropological Theory. Édouard. Jonathan. 1955. Deirdre. “The cultural continuum: a theory of inter-systems”. HOËM. 2 (1): 21-36.13 vez disso um uso ad hoc. Michel. Jocelyn. 1990. Sage. 1980. HANNERZ. Oceanic Socialities and Cultural Forms: Ethnographies of Experience. Maxwell School of Citizenship and Public Affairs. atento aos sentidos que ela possui nos diferentes espaços e tempos em que é empregada pelos agentes sociais. Culture. Bibliografia ASTUTI. “From roots to routes: tropes for trippers”. Jonathan. Ulf. Termino com uma hipótese. 3 (1): 7-39. Berghahn Books. 1995.). 57 (4): 546-559. LEIRIS. Cambridge. Ulf. Race. “Fluxos. Paris. tão belamente expresso na morna mais conhecida de Cesária Évora: “Si bô escrevê’m um ta escrevê’b. HANNERZ. MEINTEL. Cambridge University Press.S. mais uma. Lee. Transnational Connections: Culture. até dia que bô voltá”? (“Se me escreveres eu vou escrever-te. até ao dia em que tu voltares.”) Este é o meu ponto de interrogação final. Syracuse. 1987. Routledge. HANNERZ. Places. si bô esquecê’m um ta esquecê’b. 1997. People. Ingjerd. Paris.). e Sidsel Roalkvam (eds. Syracuse University. and Portuguese Colonialism in Cabo Verde. Cultural Identity and Global Process. Londres e Nova Iorque. 1981. Rita. “The world in creolisation”. Honolulu. se me esqueceres eu vou esquecer-te. Man (N. Não estará a crioulidade enquanto identidade performativa estreitamente relacionada com aquilo a que poderíamos chamar o presentismo cabo-verdiano. DRUMMOND. Seuil. Contacts de civilisations en Martinique et en Guadeloupe. Mana. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . 15 (2): 352-374. Londres. híbridos: palavras-chave da antropologia transnacional”. Ulf. e Lin Poyer (eds. Africa.). Gallimard. People of the Sea: Identity and Descent among the Vezo of Madagascar. ligado por sua vez à experiência do trânsito migratório e da transitoriedade das relações.

SAHLINS. Lisboa. 2002. University of Washington Press. Tairora Culture: Contingency and Pragmatism. A Persistência da História: Passado e Contemporaneidade em África. Clara. WATSON. Seattle e Londres. Etnográfica.14 MILLER. Modernity – An Ethnographic Approach: Dualism and Mass Consumption in Trinidad. João de. Instituto Cultural de Macau. 5 (3): 399-421. SAHLINS. 1999a. e Nelson Lourenço. PINA CABRAL. 28: i-xxiii. Oxford e Providence. 1 (1): 9-31. Race. Miguel. “Two or three things that I know about culture”. 1999. 1983. Marshall. poder e identidade em São Vicente de Cabo Verde”. University of Chicago Press. 1999b. 27: 13-14.). Marshall. 1997. Islands of History. 1985. Daniel. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . The Journal of the Royal Anthropological Institute. “Ser português na Trinidad: etnicidade. James B. Pluto Press. 1994.. VALE DE ALMEIDA. Annual Review of Anthropology. VASCONCELOS. Peter. 1993. “Cultura y metacultura: más allá de la diversidad y de la homogeneización”. Ramon. Chicago e Londres. SARRÓ. SAHLINS. Imprensa de Ciências Sociais. subjectividade e poder”. e João de Pina Cabral (orgs. Revista de Libros. João. WADE. Nature and Culture: An Anthropological Perspective. 2004. 149-190. Berg. Marshall. Londres e Sterling. em CARVALHO. “Espíritos lusófonos numa ilha crioula: língua. Macau. “What is anthropological enlightenment? Some lessons of the twentieth century”. Em Terra de Tufões: Dinâmicas da Etnicidade Macaense.

III – Capítulo Identidades migrantes: afinidades e diferenças como processos sociais Textos de comunicações do painel Identidades migrantes: afinidades e diferenças como processos sociais Coordenação Lorenzo Bordonaro Chiara Pussetti Centro de Estudos de Antropologia Social .ISCTE ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .

herdadas pelo pensamento do século XIX. sobretudo nas disciplinas que se confrontam com as vivências emocionais dos migrantes – ou seja a antropologia e a psicologia transcultural os debates recentes continuam a reproduzir dicotomias como “natureza/cultura”. inatas e geneticamente determinadas: fenómenos biológicos interiores passivos e involuntários. reconduzir a maior parte dos estudos produzidos nas últimas décadas sobre as emoções a dois ramos teóricos opostos: os biologistas e os construcionistas sociais. Os biologistas sustentam que as emoções são essências universais. os debates recentes continuam. Palavras-chave:Antropologia das emoções. considerando como as afinidades e diferenças emocionais são estrategicamente realçadas. sobretudo nas disciplinas que se confrontam com as vivências emocionais dos migrantes – ou seja a antropologia e a psicologia transcultural -. herdadas pelo pensamento do século XIX. a psicologia. ligados mais à memória filogenética que não à aprendizagem ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Entre estes a antropologia. assim. de carácter não cognitivo. Infelizmente. etnopsiquiatria. “genes/ambiente”. migrantes. a sociologia. salvo raras excepções.Emoções migrantes: afinidades e diferencias como factos políticos Chiara Pussetti CEAS/ISCTE chiara_pussetti@hotmail. Temos assistido nos últimos vinte anos a manifestações de um interesse académico renovado pelas emoções em campos disciplinares diferentes. psiquiatria transcultural. Podemos.it Temos assistido nos últimos vinte anos a manifestações de um interesse académico renovado pelas emoções em campos disciplinares diferentes. a reproduzir dicotomias como “natureza/cultura”. a neurobiologia e a história. a filosofia. Questionando quer as posições biologizantes quer as radicalmente relativistas. “genes/ambiente”. reconstruídas ou inventadas pelos diferentes actores sociais. o convite é de repensar o conceito de identidade pessoal. Infelizmente. Definir o que é comum a todos os seres humanos e o que é específico de cada cultura torna-se assim um assunto politicamente relevante e potencialmente discriminante.

Walter Cannon e Sigmund Freud podem ser considerados pais fundadores da moderna pesquisa sobre as emoções. A falta de correspondência linguística directa. algo de interno aos indivíduos e conexo a uma base genética hereditária e universal. censurando-os de terem seleccionado artificialmente algumas emoções “purificadas”. Durante muito tempo. melhor. desinteressantes e inacessíveis portanto aos métodos da análise cultural 1 . é a teoria do “processo evolutivo na 1 Entre os pensadores que inauguraram a concepção científica das emoções Charles Darwin. Os antropólogos culturais criticaram duramente a metodologia utilizada por Ekman e pelos pesquisadores que partilharam a sua opinião e a sua orientação teórica. como o sinal da limitação das capacidades introspectivas e de averbamento emocional de alguns grupos humanos (nomeadamente os africanos e os negros americanos). abstraídas de qualquer contexto. 1984) 2 . de se terem baseado numa identificação mecanicista entre movimento muscular e emoção propriamente dita. Um exemplo clássico desta postura teórica. descuidando o ponto de vista dos locais.2 individual. que baseia as suas pretensões de eficácia transcultural no pressuposto da unidade biopsíquica dos seres humanos. idade e posição social. 2 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . ou seja a um exercício de tradução imediata entre as palavras de uma língua às palavras de uma outra língua. As teorias universalistas ou inatistas. É nesta posição que se coloca a psiquiatria transcultural norte-americana de derivação kraepeliniana. universais e inatos. 1980b. nesta perspectiva. mas. presente ainda hoje nas expectativas. A compreensão. segundo critérios apriorísticos. têm dominado há muitos anos o campo das pesquisas psicológicas e são representadas de maneira emblemática pelos estudos neuroculturais de Paul Ekman sobre a expressão facial das emoções (Ekman 1980a. o contexto e as circunstâncias da experiência emotiva. e no final de terem fornecido uma tradução não critica dos termos emocionais ingleses em outras línguas. nas atitudes e nos preconceitos de muitos dos técnicos dos serviços de saúde que se confrontam com migrantes. O que em síntese une a posição destes teóricos é uma visão das emoções como fenómenos não cognitivos e involuntários. sem terem em conta as eventuais diferenças de género. William James. não é interpretada como uma contradição da tese da universalidade das emoções. Nestes trabalhos Ekman tentou identificar a correlação entre um grupo limitado de expressões faciais universais e um conjunto definido de “emoções básicas”. reduz-se à classificação das experiências e das narrativas dos outros no próprio horizonte lexical e categorial. O conceito de unidade psíquica dos seres humanos justificava ao nível teórico a possibilidade de compreensão imediata entre pessoas de culturas diferentes: antropólogos e psicólogos poderiam assim entender empaticamente as emoções dos outros enquanto idênticas às próprias e utilizar sem problemas as próprias categorias para descrever as vivências afectivas dos outros. de terem submetido desenhos estilizados ou fotografias de caras. as emoções foram consideradas também pelos antropólogos como fenómenos naturais. caracterizadas por influências de tipo etológico e neurobiológico. a um agregado restrito de pessoas.

sistemas de representações relativamente homogéneos. Na base das minhas entrevistas em hospitais e centros de saúde vários em Itália como em Portugal. Dirven e Niemeier 1997. a teoria de Leff é ainda considerada absolutamente válida 4 . pelo contrário. A maioria dos antropólogos construcionistas tem assim descrito comportamentos emocionais culturalmente específicos em contextos etnográficos apresentados como terrenos puros e coerentes. 5 No meu trabalho de terreno dedicado ao vivido emocional entre os Bijagós da Ilha de Bubaque (Pussetti 2005).3 elaboração emocional” do psiquiatra cultural Julian Leff (1981: 66). depende da dificuldade de encarar e compreender questões sobre as quais se reflecte localmente utilizando categorias muito diversas das nossas. pelo contrário. Segundo esta teoria. através de expressões referidas a partes do corpo. Nas palavras de Leff : “as pessoas de países desenvolvidos apresentam uma bem maior diferenciação de estados emocionais em relação às pessoas que provêm de países em desenvolvimento” (Leff 1973: 305 – tradução minha). enquanto que. 1979. Os relativistas culturais. Vejam-se Bibeau 1978. Neste sentido. Se para os 3 4 Veja-se Lilltewood e Lipsedge [1982] 1997. presente ainda hoje nos assuntos e nas práticas das ciências psicológicas ocidentais 3 . um evidente continuum caracterizaria a evolução do tradicional para o moderno e. variáveis como qualquer outro fenómeno cultural: não faz sentido portanto falar de emoções inatas e universais. afirmam que as emoções derivam da interpretação e da avaliação de um estímulo. marcados por confins precisos e imóveis no tempo. âmbitos de significados articulados logicamente e sem contradições internas. Heelas 1996. Devisch 1990. o prevalecer de um código somático indicaria um nível mais arcaico de expressão e elaboração emocional. posso afirmar que. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . de uma modalidade e uma expressão somática (própria das culturas menos desenvolvidas) a um léxico psicológico (próprio das culturas ocidentais). para o que concerne a experiência emocional. Beneduce 1996. Podemos distinguir na teoria de Leff a presença de um modelo antropológico evolucionista. ainda que. encontrei um vocabulário das emoções muito complexo e uma requintada capacidade de comunicar os próprios estados interiores. idênticas através das culturas e através do tempo. que todavia não têm um valor puramente somático. as emoções são consideradas como construções sociais. às vezes. salvo raras excepções. ou seja de um processo de atribuição de sentido e valor historica e culturalmente específico. típico por exemplo dos africanos 5 . A verbalização emocional típica dos ocidentais – salientam as minhas entrevistas . Ots 1990. Desjarlais 1992. O facto que esta modalidade de expressão emocional possa ser interpretada pelo psiquiatras ocidentais como sinal de um arcaísmo do grau de elaboração do próprio vivido interior.seria assim expressão de uma maior capacidade de introspecção e de uma melhor gestão do próprio vivido interior.

nas palavras de Beneduce. examinar a dimensão cultural torna-se um passo fundamental para compreender as dimensões de significado que os modelos biológicos não conseguem colher e explicar. mas antes. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Lila Abu-Lughod e Catherine Lutz sustentam que “a emoção é só cultura” (Grima 1992: 6 – tradução minha) e que “longe do ser entidades psicobiológicas internas”. antes pelo contrário. Tobie Nathan criou. as emoções são antes “construções socioculturais”. constituída por modelos de experiência adquiridos. Os filósofos Robert Solomon e Claire Armon-Jones por exemplo afirmam que “a emoção não é um sensação mas é essencialmente uma interpretação” (Solomon 1984: 248 – tradução minha) e que “cada emoção é um produto sociocultural único e irreduzível” (ArmonJones 1986: 37 – tradução minha). as antropólogas Benedicte Grima. Se pensando as formas de acompanhamento psicológico dos migrantes. discípulo do Georges Devereux. só pode desempenhar o papel de “tradutor”. No encontro com os próprios interlocutores. sugerindo aos antropólogos de “trabalhar para libertá-las da psicobiologia” (Abu-Lughod e Lutz 1990: 10. Nesta visão. “estilos culturais”. mas é. 12 – tradução minha). observa Catherine Lutz (1988: 8). historicamente situados e continuamente modificados pelas experiências diferentes e pelos discursos polivalentes que se encontram em cada indivíduo.4 biologistas a empatia é o instrumento privilegiado de compreensão transcultural – em virtude da comum humanidade -. AbuLughod e Lutz chegam até a propor uma concepção das emoções como algo que “pertençe à vida social e não a estados interiores” (Abu-Lughod e Lutz 1990: 2 – tradução minha). Aderindo a esta forma de construcionismo radical muitos cientistas sociais têm produzido afirmações discutíveis. 6 Psicólogo e psicanalista. Em 1993. centro clínico-académico de investigação e apoio psicológico às famílias imigrantes. o antropólogo. o primeiro ambulatório de etnopsiquiatria em França. “performance sociais” culturalmente específicas (Abu-Lughod e Lutz 1990 – tradução minha). colocamos a psiquiatria transcultural clássica no filão teórico dos biologistas. para os construcionistas radicais o trabalho de terreno sobre as emoções dos outros acaba paradoxalmente por se tornar uma confirmação da incomensurabilidade da experiência humana. Se a emoção não é independente da cultura. do mesmo modo as suas perturbações não podem ser consideradas como objectivas e value-free. na posição construcionista radical podemos colocar a etnopsiquiatria francesa à la Tobie Nathan 6 . “práticas discursivas”. em 1979. já que não existe um terreno bio-psíquico comum de compreensão humana. fundou o “Centre Georges Devereux”. no Hospital Avicenne.

Assim.nas palavras de Owen Lynch . afirmam os etnopsiquiatras italianos Roberto Beneduce (2001) e Salvatore Inglese (2002). por exemplo. É neste sentido que. Trabalhando como antropóloga na área da saúde mental dos migrantes. ou ainda uma forma de controlo sanitário e moral sobre os outros. as interpretações não ocidentais da doença.5 como “um conjunto de conotações. e a psiquiatria conseguiu identificá-las de forma cientifica. permitindo “instituir . portanto. no Diagnóstic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM-IV) da American Psychiatric Association (1994) a possessão zar. No primeiro caso a tese da universalidade da vivência emocional justifica as pretensões hegemónicas das categorias diagnósticas e dos modelos interpretativos da psiquiatria euroamericana. as distinções alternativas entre ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . significados. parece-me que quer as posições biologizantes quer as radicalmente relativistas acabam para se tornar muito problemáticas. valores e ideologias” (Beneduce 1995: 17 – tradução minha). Ou que a linguagem da feitiçaria é interpretada num registro exclusivamente psicopatológico como psicose aguda de natureza persecutória com alucinações auditivas e visuais.uma forma de imperialismo ocidental sobre as emoções dos outros” (Lynch 1990: 17 – tradução minha). patologia psiquiátrica. Esta colonização cultural da psiquiatria estadunidense. ligada a temáticas religiosas e a crenças culturais (Ndetei 1988). o xamanismo uma esquizofrenia disfarçada por superstições culturais. é definida como “experiência esquizofrénica dissociativa” e considerada. de forma evidente. Nesta visão. dissimulado pelas prescrições locais. portanto. relações assimétricas de poder. as abluções rituais dos muçulmanos praticantes uma forma de distúrbio obsessivo-compulsivo. objectiva e portanto culture-free. revela. as outras representações da pessoa e dos seus limites. independentemente das maneiras através das quais os homens as avaliam intelectualmente e as vivem somaticamente. a possessão espírita seria uma perturbação dissociativa mascarada por crenças e práticas religiosas. estudada já no 1958 pelo antropólogo Michel Leiris que trabalhou entre os Etíopes de Gondar. Se as emoções são exactamente as mesmas em cada lugar. então a cultura nesta perspectiva só pode condicionar a interpretação destas mesmas experiências universais através dos óculos opacos das crenças locais. e em particular sobre as atitudes interpretadas como perturbações do comportamento emocional. baseada no pressuposto da universalidade das emoções. metáforas.

o médico e sociólogo Didier Fassin (2000). propondo-se como as únicas com validade científica. Na sua opinião é evidente que as sociedades “menos desenvolvidas”. de facto. dissimulando como questões culturais conflitos. pode assim acontecer que se reproduzam formas de racismo cultural. da expressão e da experiência emocional individual. com inteligência escassa só podem ter um conhecimento limitado dos problemas mentais. As minhas investigações nos serviços de saúde mental específicos para migrantes. ou seja. Na base das ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . reproduzindo assim o risco de guetizar os imigrados. as ciências da psique ocidentais . A este respeito. lugares singulares de pesquisa. comportamentos. não é de admirar que no British Journal of Psychiatry. o psiquiatra Andrew Cheng (2001) chegue a afirmar que além da interpretação.6 “normalidade” e “anomalia” são consideradas como maneiras culturalmente impróprias de interpretar a experiência humana (Fernando 2003). Corre-se. intraduzíveis e incompatíveis entre elas. afirma Fassin. cientificas. psicologias culture-bound. nos quais elaborar práticas clínicas inovadoras. os conceitos de cultura e de diferença cultural foram empregues de maneira ambígua. etnopsicologias. Este uso da noção de cultura – que postula a incomensurabilidade de mundos culturais diversos . de mediação e de confrontação. “primitivas”. podem relegar os outros saberes e práticas para a categoria de psicologias folk. por se tornar um instrumento de ratificação da incomensurabilidade da experiência humana. psicologias indígenas. realçam todavia que também as perspectivas construcionistas ou relativistas podem revelar-se muito perigosas e politicamente discriminatórias. Em contextos quentes como os das políticas directas aos migrantes. reais e universais que só a psiquiatria ocidental conseguiu identificar. o risco de cair em derivas relativísticas: em vez de procurar ou inventar espaços originais de diálogo. Assim.por definição construídas ao redor de presumíveis universais -. realçou os riscos gerados pela reificação do conceito de cultura e por uma culturalização excessiva dos instrumentos e das estratégias metodológicas dos antropólogos e dos psiquiatras que querem indagar as emoções humanas. a expressão mesma das suas necessidades. Neste sentido. considerar as culturas como irredutivelmente distintas. assim. que podem ser ligadas a “crenças erradas e superstições mórbidas culturalmente específicas”. uma das principais revistas psiquiátricas. a perspectiva relativista acaba.confina os outros numa “diversidade” fechada em si mesma e autónoma. há questões objectivas. Muitas vezes. situações que têm também outras raízes.

7 minhas experiências de trabalho em três centros de etnopsiquiatria clinica posso também salientar que é precisamente nestes serviços específicos para migrantes que muitas vezes se utilizam noções estereotipadas. ataca abertamente Tobie Nathan – o etnopsiquiatria francês aluno de Devereux que. porque. sem considerar as dinâmicas sociais. que dissocia os cenários locais do sistema mundial assumindo frequentemente posições de relativismo absoluto. Fassin. ocultando-o. essencializadas e biologizantes de “cultura” e “etnia”. Nathan utiliza afirmações bastante criticáveis. delimitada por confins que tornam impossível a compreensão recíproca. constituiu uma das práticas e teorias etnopsiquiátricas mais originais – acusando-o de considerar a “cultura” como uma entidade definida. A asserção da coerência das estruturas referenciais baseada numa abordagem essencialista da cultura. Como na sua visão é a mestiçagem ou o encontro cultural que gera patologias psíquicas. Mountain e Koenig 2001. as instituições francesas deveriam “favorecer os guetos para nunca constranger uma família a abandonar o seu próprio sistema cultural” (Nathan 1994: 216 – tradução minha). confundindo de facto “cultura” com “raça”. torna. continua Nathan. Muitos autores realçaram como a frequente sobreposição das noções de biologia e cultura nos programas terapêuticos para migrantes acaba para “naturalizar” as diferenças entre grupos (Lee. do género “é necessário fazer o possível para agir como um Soninké com um paciente soninké. “um Dogon será sempre um Dogon e um Bozo um Bozo” (Nathan 1994: 219 – tradução minha). Nathan. De facto. postula a reprodução das culturas especificas em guetos fechados em si mesmos e autónomos. o fantasma da Raça disfarçado de Cultura. fechada. Por esta razão. assumindo uma posição rigidamente relativistica. como um Kabyle com um kabyle” (Nathan 1994: 24 – tradução minha) tendo sempre em conta a identidade étnica dos migrantes. antes em Bobigny e depois no Centre Devereux. Fernando 2003). em particular. e de procurar nesta “cultura” a origem e os remédios dos mal-estares dos outros. de facto. conceptualmente e metodologicamente difícil compreender a heterogeneidade e a indeterminação interna dos sistemas de representações que os indivíduos utilizam para construir criativamente e estrategicamente a própria identidade e as próprias emoções. no seu texto principal (L'influence qui guérit 1994). históricas e políticas mais amplas. Na palavras de Fassin esta atitude comporta. Para descrever a ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . qualquer seja a sua história pessoal. como um Bambara com um bambara.

que ofereça espaços de autonomia e de liberdade ao indivíduo. com elementos periféricos marginais que invadiram os seus sistemas de representação. os margens. pelo contrário. constroem a sua experiência interior combinando os códigos fundamentais das multíplices visões do mundo às quais aderem. e em particular com o mal-estar dos migrantes. O confronto quotidiano com os migrantes. poder. realçaram a importância de repensar as minhas ferramentas de trabalho para apreciar melhor a heterogeneidade interna dos sistemas de representação que os indivíduos utilizam para construir o próprio self. sobrepondo-se à obrigação de pôr as traduções como um problema que é preciso enfrentar e não com uma solução tão rápida quanto superficial. memórias. as próprias emoções e a própria experiência do mundo. obrigou-me a repensar também o conceito de identidade pessoal e as suas relações com as multíplices ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . políticos e económicos. as suas experiências do mal estar. conflituais. as suas interpretações. emoções. familiares. As minhas experiências de investigação na área da antropologia das emoções na Guiné Bissau e da saúde mental dos migrantes em Itália como em Portugal. no qual múltiplos discursos coexistentes entram em contradição entre eles e os problemas sociais podem tornar-se sintomas. sociais. conflitual. móvel e mutável. Os antropólogos que se confrontam com migrantes. como o psiquiatra cultural. rejeitando quer o determinismo psicobiológico quer o sociocultural. os paradoxos. É neste panorama complexo.8 complexidade e as mutações da vida social e da experiência individual. encontramos panoramas complexos. da multiplicidade dos factores em jogo (sociais. além de culturais) e bem concentrados sobre os indivíduos em si. tem que se mexer. as ambiguidades e as incongruências que são partes constitutivas dos sistemas de significado. em particular. já não podem assumir que os indivíduos habitam mundos circunscritos de experiências e significados que dão forma às suas respostas emocionais: os indivíduos. que o antropólogo. ambiguidades. O convite é de trabalhar bem conscientes das relações entre conhecimento. observando com mais atenção os interstícios. as suas representações. esperanças. autoridade e hegemonia. híbridos. Os indivíduos e as sociedades do mundo contemporâneo parecem ser sempre mais envolvidos em uma transição permanente: em lugar de horizontes culturais bem definidos. com as suas crises existenciais. móveis e mutáveis. é necessário imaginar uma abordagem diferente.

permite aos meus interlocutores procurar o sentido do próprio percurso. Castillo 1997. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Se cada cultura possui uma alma multíplice. muitas vozes falam nos indivíduos. contraditória.9 comunidades às quais as pessoas pertencem simultaneamente. participando de relações nas quais outros grupos e culturas são encontrados. contradições e sobreposições de valores. por um lado. conexas a metanarrativas fragmentárias e a sistemas de referência flexíveis (Bibeau 1997: 57). gerir as ligações contraditórias 7 Muitos autores salientaram a importância de uma abordagem centrada sobre o paciente (entre os outros. atravessados. A narração . William Reddy fala a este respeito de processos de self-making. explorados e outras redes sociais percorridas e construídas. que se encontra à sua disposição. espaços vazios. Reconstruir as histórias de vida dos migrantes através das suas narrativas. na perspectiva metodológica da person-centered ethnography. 57 – tradução minha) 7 . selfexploration e self-alteration (Reddy 2001: 32). do presente como do passado e das mais amplas constrições políticas. que fazem de facto referência a esquemas que inevitavelmente produzem quebra-cabeças.não apenas da vida individual. interpretam e transformam continuamente a própria identidade. utilizando o conjunto amplo e híbrido de representações ou modelos culturais do self. sociais e económicas que ontem os obrigaram a migrar e hoje os bloqueiam nas margens da sociedade -. assim também em cada indivíduo coexistem sujeitos diferentes: nas palavras de Bibeau. a códigos centrais de referência que geram estruturas de representações e cenários pragmáticos que podem ser amplamente caracterizados como móveis. Outra vez um panorama instável e contraditório com o qual antropólogos e psiquiatras têm que se confrontar: o mundo interior dos indivíduos. Neste processo de auto-narração os indivíduos reconstroem. revelou-se na minha experiência de investigação um método mais eficaz para compreender como cada indivíduo constrói relações originais com o próprio contexto de origem e com as suas identidades diferentes. anomalias. Esta abordagem permite de facto reconstruir os percursos de significação individuais e os processos de construção de e de negociação entre as identidades múltiplas das quais todos somos portadores. Hollan 1997). mas também da memória familiar e colectiva. instáveis e transitórios (Bibeau 1997: 55.

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com a própria família e a própria terra de origem e estabelecer relações originais entre as próprias identidades, por outro, revela-se como um acesso privilegiado para reconhecer dimensões “ocultas”, estratégias e interesses políticos e económicos, muitas vezes intencionalmente omitidos ou dissimulados na literatura sobre o argumento, mas importantes para compreender o que acontece quando se passa uma fronteira.

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Antigas afinidades na construção da diferença na diáspora: emigração e o resgate da herança cripto-judaica transmontana 1

Elsa Lechner CEAS, ISCTE elsa.lechner@iscte.pt

Trás-os-Montes é considerada uma região clássica de judeus convertidos, onde, ainda hoje, se encontra viva a memória dessa herança histórica perdida. Entre emigrantes transmontanos em França no final dos anos noventa, a identidade secreta dos judeus convertidos parece ter encontrado um contexto favorável de publicização que ganha reconhecimento crescente. Analisando a alteridade particular existente entre “judeus” e “lavradores” transmontanos, bem como a posição de Outro que os “judeus” ocupam nas comunidades a que pertencem, este texto identifica os factores distintivos das duas categorias sociais que separam uns transmontanos de outros. Visa-se assim compreender a reivindicação de uma origem judaica e os movimentos de resgate de uma identidade de descendente de judeus convertidos.

Palavras-chave: diferença.

Identidade,

migração,

memória,

alteridade,

Entre emigrantes transmontanos em Paris contactados no final dos anos noventa no âmbito de uma pesquisa sobre reconstrução da identidade em situação de emigração 2 , constatámos a presença de uma distinção, nas narrativas de alguns entrevistados, entre transmontanos “judeus” e transmontanos lavradores ou cristãos velhos. O tema dos judeus convertidos apareceu nas entrevistas como um discurso calado mantendo em silêncio, ao longo das gerações, uma distinção identitária pronta a revelar-se no contexto migratório. Comecemos com uma vinheta etnográfica retirada de uma das nossas entrevistas neste terreno:
Quando o barbeiro da minha aldeia morreu, ficámos todos espantados em ver que na sua campa no cemitério, a mulher e
Partes deste texto foram publicadas no artigo “Memória das origens e identidade social. Análise a partir de um caso português” in Encontro de Saberes, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa 2006, pp. 67-83. 2 Tese de Doutoramento defendida pela autora na EHESS, Paris 2003.
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as filhas puseram uma estrela de David em vez da cruz de Cristo. Eu não sabia que eles eram judeus… na minha altura não se falava no assunto…pronto, sabíamos que havia judeus em Trás-os-Montes mas não se falava nisso. Foi aqui em França que descobri muita coisa e segundo o meu primo nós também somos da raça dos judeus. (empresário transmontano em Paris, 1998).

Este excerto de conversa ilustra um facto recorrente entre alguns transmontanos que se dizem judeus por referência a uma “memória das origens” de antepassados convertidos à força ao catolicismo. Refugiados desde os finais do século XVI nas montanhas do nordeste português, estes “judeus” não estão organizados numa comunidade voluntária com um projecto étnico, nem têm uma cultura judaica consolidada. No entanto, e apesar das contingências adversas da história, muitos guardam vestígios e memórias de uma pertença presumidamente judaica que acompanha uma condição de alteridade e diferença nas comunidades a que pertencem. Esta, manifesta-se tanto nas formas de nomeação destes descendentes de convertidos, como na sua posição social, e também num sentimento de si que suscita movimentos de resgate da sua história colectiva e herança identitária. Mais do que “judeus secretos” de Trás-os-Montes”, estes descendentes de cristãos-novos são os guardiães de vestígios históricos herdados em silêncio e a expressão social de uma alteridade que remete os seus protagonistas para uma condição de Outro no seio da comunidade local. A herança do segredo confere-lhes uma consciência de grupo distintiva no meio social em que se inserem, e hoje suscita processos de construção ou reinvenção da identidade que conduzem à tentativa de recuperar sentidos históricos longínquos. Este processo de atribuição de sentido a uma herança perdida origina um diálogo entre identidade e memória exercido em contextos existenciais e políticos concretos que consubstanciam a identidade social dos “judeus” transmontanos.

Alteridade e diferença: nomes, pessoas e “animais analógicos”

Considerada pelos especialistas da história da Península Ibérica como uma região clássica de assentamento de “marranos” (Révah 1959), Trás-os-Montes é actualmente, do ponto de vista etnográfico, ainda o reduto de um passado histórico

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marcado pela presença de judeus refugiados de Espanha após o édito de expulsão de 1492, pelos reis Fernando e Isabel de Castela. Entre um sentido mais erudito e propriamente historiográfico da presença de judeus convertidos no território transmontano, e o significado antropológico da persistência de uma diferenciação de um grupo reportado a uma origem étnica judaica, os diversos termos utilizados para designar os “judeus” transmontanos, traduzem nuances conceptuais relevantes para a análise percorrida aqui. O termo marrano confunde-se com a raiz antropológica da identidade dos judeus convertidos e remete-os para uma condição de alteridade particular. Segundo o estudo clássico de Arturo Farinelli (1925), encontra-se no vocabulário espanhol de quinhentos e corresponde a um termo ofensivo (significando porco, em português) adaptado para denegrir, na época, os cristãos-novos de Espanha e de Portugal. O seu significado de origem parece não se referir à relutância dos judeus em comer carne de porco, mas antes exprimir um sentimento de desprezo com que é conotada aquela palavra também noutras várias línguas. 3 O significado que adquiriu posteriormente configura a adaptação a um contexto histórico que se tornou hostil à presença judaica na Península Ibérica. Forçados a converterem-se à religião católica desde que a Inquisição foi instituída em 1536, muitos judeus foram acusados de práticas de um judaísmo secreto. Vários autores utilizam a expressão “cripto-judeu” para designar membros de comunidades rurais portuguesas nas quais foram identificadas práticas de um judaísmo sujeito a forte erosão pela história de conversão dos seus antepassados. 4 Em Trás-os-Montes, e mais especificamente no Distrito de Bragança, os descendentes de judeus convertidos são apelidados de perro (cão, em português), ilustrando um facto antropológico identificado por Edmund Leach (1964) segundo o qual o uso recorrente de nomes de animais como injúria, cumpre uma função social de imposição de distância entre pessoas próximas. Claude Lévi-Strauss já havia pensado na utilização de nomes de animais entre os humanos, referindo que “… aos cães não damos um nome humano sem provocar um sentimento de mal estar, ou mesmo de pequeno escândalo […] Como animais “domésticos”, eles fazem parte da sociedade humana, mas ocupando uma posição tão baixa que não sonharíamos, seguindo o exemplo de
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Encyclopaedia Judaica, entrada « Marrano », Vol. 11, Jerusalém, p. 1018. Ver nomeadamente, Samuel Schwarz Os Cristãos Novos em Portugal no Século XX, Instituto de Sociologia e Etnologia das Religiões, Universidade Nova de Lisboa, 2000 [1925].

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alguns australianos e ameríndios, em chamá-los como se fossem humanos (…)” 5 (LéviStrauss 1962: 272). Nas aldeias e vilas do concelho de Vimioso, distrito de Bragança, onde coexistem estes dois grupos, mantém-se até hoje o distintivo de “terras de judeus”, aplicado quando se trata de espaços onde se concentraram ao longo do tempo grupos dedicados ao comércio e à indústria artesanal de curtumes (as pelicarias). Na descrição dos próprios sobre as especificidades destes ditos “judeus”, relatam-se as suas viagens pelos montes, montados numa mula, vendendo produtos alimentares e bens essenciais que os lavradores não produziam. Os homens perros eram também artesãos, sapateiros, latoeiros, carpinteiros ou alfaiates, enquanto as mulheres trabalhavam como tecedeiras. Em geral eram letrados e escolarizavam os filhos, ao contrário dos lavradores mais necessitados da mão-de-obra dos seus descendentes nos campos. No final dos anos 90 do século XX, observava-se ainda uma compartimentação no espaço físico da aldeia de Carção, com os comerciantes instalados no centro, na praça, perto da fonte e da rua principal, e os lavradores sobretudo na periferia do burgo, perto dos campos que cultivavam. A organização urbana e a economia política locais exprimem assim uma alteridade em que se foram reproduzindo e perpetuando as posições ocupadas pelos dois grupos de oficiais e lavradores economicamente interdependentes. A par desta estratificação sócio-económica, a população local refere estereótipos físicos e comportamentais que contribuem para reforçar a divisão criada. Os dois grupos auto-distinguem-se atribuindo-se características fenotípicas específicas, sendo a aparência física dos “judeus” associada a cabelos ruivos, pele sardenta e olhos claros. Este estereótipo coincide com a imagem clássica do “judeu vermelho”ou “judeuruivo”, analisada na tradição cristã europeia por Claudine Fabre-Vassas (1994). Eles são o Outro mais diferente dos outros, ou seja uma figura de alteridade extrema, remetida para um limiar de aceitação na fronteira com o animal. Assim, tal como o termo perro constitui uma rejeição linguística daquele que é designado literalmente de “cão espanhol”, o estereótipo físico do “judeu ruivo” traduz a condição de Outro, próximo do animal, a que a tradição cristã sempre tendeu a remeter os judeus. Esta iconografia

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« Comme animaux domestiques, ils font partie de la société humaine, tout en y occupant une place si humble que nous ne songerions pas, suivant l’exemple de certains Australiens et Amérindiens, à les appeler comme des humains… »

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surgiu na Europa medieval expandindo-se numa imagética popular e médica que diagnosticava um laço “de natureza” entre “a raça maldita” e o animal porco. Nos dados etnográficos recolhidos junto de transmontanos, encontra-se este saber estereotipado sobre si próprios utilizado como forma de afirmação identitária e de demarcação. Mas esta não corresponde a uma cultura judaica, fazendo com que o que caracteriza a diferença destes ditos “judeus” é a referência às origens étnicas herdada ao longo das gerações em silêncio. Ou seja, a insistência na demarcação identitária participa aqui do carácter do segredo, que é um saber à parte, de que as novas gerações são depositárias sem conhecer os respectivos conteúdos culturais. O que os interlocutores entrevistados no terreno dizem sobre si é um saber marcado pela dispersão e pela fragmentação de referências ao judaísmo dos seus antepassados. A maior parte fala da sua cultura de converso na terceira pessoa do plural “eles”, para depois dizer, em tom de aceitação ou revelação que “nós também somos judeus” (Lechner 2002). Os mais idosos relatam costumes dos membros “da família de Moisés” como os bradórios ou velórios de quatro e cinco dias consecutivos, em que se acendiam velas em torno do morto, se faziam rezas próprias e se colocavam pedaços de pão sobre os cantos das mesas. Tudo era feito às escondidas dos vizinhos, na mesma lógica de segredo que deu origem à bola tosca e às alheiras transmontanas. O isolamento das montanhas transmontanas, permitiu aos judeus convertidos conservar e transmitir estes vestígios de um passado escondido que reaparece através de rastos e fragmentos etnográficos quase crípticos. Mas a herança do segredo histórico como factor constitutivo de uma identidade social de “judeu”, suscita ainda processos de reconstrução da identidade em forma de identificações com parentescos intelectuais, espirituais, e com novos laços de casamento ou de amizade, para os quais a emigração contribui de forma decisiva. De forma consciente ou inconsciente as novas gerações criam as condições de possibilidade de reconstituição e publicitação deste aspecto importante da cultura transmontana e portuguesa. À semelhança do que mostra Frédéric Brenner no seu documentário “Les Derniers Marranes” realizado em Belmonte em 1990, o que resta desta memória identitária é o segredo histórico transformado em práticas residuais que persistem em segregar o grupo da comunidade. Este efeito de segregação não resulta do facto de se ter tratado de práticas judaicas ou “judaizantes”, num passado longínquo, mas sim da

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também ela dinâmica. ao mesmo tempo. de forma evidente. a diferenças categorizadas. De um ponto de vista antropológico. “do passado já não me lembro e o futuro já passou”. sublinha o facto de que a memória histórica é aqui quase fantasmagórica. são vestígios e memórias de uma pertença identitária reinventada de forma pontual a partir de fontes dispersas. que havia frequentado a Sinagoga inaugurada nos anos 1930 pelo Capitão Barros Basto (“O Apóstolo dos Marranos”) e que havia convivido de perto com o rabino. relatou de forma evasiva os costumes da sua herança afirmando. Em função de contextos históricos. Mas mesmo quando registadas pela negativa. a percepção e a memória conservam uma função ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . As formas sociais e os conteúdos culturais que determinam identidades humanas são complexas e radicam na dimensão temporal. mais do que de um saber à parte. se encontram obliteradas no caso dos descendentes de marranos de Trás-os-Montes enquanto “judeus”. Neste caso é a obliteração identitária que é incorporada como traço distintivo dos auto-denominados “judeus de Trás-os-Montes” como ilustra um episódio ocorrido durante o meu trabalho de campo em Bragança onde um entrevistado que me havia sido apresentado como sendo “a pessoa” que conhecia as ladainhas marranas. como em Trás-os-Montes. A sugestão deste transmontano de que o futuro da sua cultura está comprometido. Trata-se de uma marca de seres à parte.6 persistência das manifestações de um segredo herdado que funciona como marca identitária. herdaram da sua perda histórica O que se encontra hoje no distrito de Bragança. Origens e identidade social: vestígios e memórias de uma pertença Qualquer identidade é necessariamente construída por referência a uma alteridade. que na realidade se perdeu para a maioria do grupo. nestes territórios. Essa a razão pela qual uma reconversão ao judaísmo não é sequer procurada ou desejava pelos que. que a emigração potencia. culturais e políticos específicos. a afirmação de uma identidade assenta em identificações continuadas que. diferentes tipos de identidade ressaltam tipos distintos de diferenças e de diferenciações entre o Eu e o Outro. ou entre transmontanos da diáspora. apenas recuperável na pesquisa historiográfica e/ou num trabalho de arqueologia identitária.

aqui ressalvar a diferença entre a auto-referência destes transmontanos à origem étnica como fundadora da sua identidade. É importante notar que a imaterialidade da herança dos descendentes de judeus convertidos não é desobjectivada e não deixa de fazer parte da construção identitária dos seus depositários. jornalistas. torna-se relevante para que a questão das origens possa ser considerada decisiva na definição da respectiva identidade. Esta última podendo ser a pequena aldeia transmontana de peliqueiros onde o “judeu” é o perro.7 identitária que não pode deixar de ser tomada em conta num estudo antropológico. Se o que resta aos descendentes de judeus convertidos de Trás-os-Montes é o rasto de uma pertença étnica judaica que se mantém todavia presente na definição da sua identidade social. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . onde outros se descobrem ou reinventam “descendentes de judeus convertidos”. que as vozes singulares (ou com ressonância plural) estão impedidas de agir socialmente e de ter consequências práticas na construção da memória no presente. O comentário em voz off da herança de um passado enterrado no tempo transforma os testemunhos privados de muitos transmontanos numa reapropriação articulada da história que permite a transmissão lúcida no seio da comunidade. e um entendimento da etnicidade como categoria de definição identitária impermeável ao tempo e à história. a par da ausência de uma transmissão transgeracional articulada e continuada. a intelligentsia bragançana onde muitos se dizem algo “judeus”. Não é porque os contextos de vivência das pessoas possam ser surdos ou impermeáveis à experiência privada. que define esta forma particular de ser “judeu”. ou de ser o Outro. segundo a qual a identidade étnica se baseia na crença numa origem comum. personalidades carismáticas. torna-se pois necessário compreender o sentido desta persistência de uma reivindicação codificada por referência a uma herança histórica perdida. porém. políticos. Rejeitando uma visão essencialista da etnicidade. O facto de um importante número de transmontanos assumir uma identidade social a partir da crença numa origem étnica judaica. ou a comunidade de emigrantes transmontanos da região de Paris. em função dos interesses de quem detém algum poder de publicitação: intelectuais. É justamente a falta de referenciais tangíveis. podemos apoiar-nos na definição proposta por Max Weber (1956). artistas. no seio da própria comunidade a que se pertence. É importante. Esta faz-se de forma personalizada e potencialmente politizada.

interrogam-se sobre a descontinuidade que os habita tornando-se assim agentes activos do seu ser no mundo. é de notar também que o impacto cultural e económico da emigração. bem como os efeitos da implementação da democracia em Portugal. muitas vezes isolado. de reconstrução da identidade. então. Nomeadamente em Carção e Argoselo. Os casamentos mistos apenas surgiram com as transformações sociais resultantes da emigração. Os mesmos 500 anos que separaram os judeus convertidos da tradição dos seus antepassados. coincidiram com a emergência de discursos públicos regionais. oferecendo à análise uma categoria que na realidade encobre o que realmente os define como “judeus” e que assenta num complexo jogo cruzado entre identidades históricas e interesses sociais e pessoais. os perros dizem ser “da raça dos judeus”. O presente da memória: tecer os laços desfeitos O longo movimento histórico que se iniciou com as descobertas do século XVI. desembocaram numa modernidade que estabeleceu o princípio da subjectividade como estrutura da relação dos sujeitos com o mundo e consigo próprios (Giddens 1991). contemporâneas da expulsão dos judeus de Espanha. por referência a uma origem absolutamente identificada nos judeus vindos de Espanha depois de 1492. produziu no Ocidente uma nova maneira de conceber e de pensar a identidade humana. a vivência de um luto. as estratégias de preservação da diferença assentaram em acordos tácitos reproduzidos ao longo das gerações. estes escultores do presente. Este passou a ser palco de uma crescente autonomização das consciências individuais e de uma ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . passou-se para um domínio público de visibilidade de uma herança colectiva. e mesmo nacionais. O deficit de capital cultural judaico destes judeus baptizados e convertidos ao catolicismo remete. ou crise existencial. com a preocupação de se tornarem “eles mesmos” num projecto. dando voz à herança histórica marrana. Do espaço privado das memórias familiares. Movidos por uma consciência agudizada em contextos de ruptura biográfica como a emigração. em que alguns se lançam ao trabalho de tecer os laços desfeitos do passado.8 Em Trás-os-Montes. Mas a este propósito. a questão das origens para o domínio daquilo a que chamamos “memórias de uma pertença”.

No sentido de “consciência incorporada” de um corpo-sujeito. que caracterizam os grandes desafios actuais das identidades juntamente com a crioulização global das humanidades contemporâneas (Glissant 1996). É nesta dimensão subjectiva da reinvenção de si. bem como congressos anuais onde procuram construir o presente. Sob 6 7 Acto de simbolização subjectiva. Num movimento de retorno ao passado e ao mesmo tempo de descoberta de si. Estes são espaços tanto virtuais como reais de estudo e troca de informações entre pessoas que se identificam com a problemática da reconstrução de uma identidade de descendentes de judeus convertidos. se torne necessário todo um trabalho de reelaboração. é em função dos novos contextos multi-referenciais dos nossos dias que a identidade dos descendentes de judeus convertidos se define. de tal modo que. em situações de ruptura como a conversão religiosa do passado ou a imigração dos nossos dias. e de história do judaísmo na Península Ibérica. Não conta para os descendentes de judeus convertidos de Trás-osMontes o facto de não se constituírem como uma comunidade voluntária assente numa cultura específica. ou da criação de uma identidade edificada pela palavra – no sentido lacaniano de parole 6 – e pelo gesto – como sugeriu Merleau-Ponty 7 –. que reaproxime as distâncias criadas. como o site www. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Também desde os anos 1990 se observa o surgir de associações internacionais de estudos cripto-judaicos.org criado por uma descendente de portugueses cristãos-novos emigrados na África do Sul. As fronteiras da identidade e da memória definem uma dimensão quase “natural” dos contextos de pertença dos indivíduos. que o sentimento de pertença identitária se consubstancia. muitos se reúnem em fóruns electrónicos de encontro e partilha de experiências. Neste contexto. e a experiência generalizada de ruptura com tradições. na emigração e em Trás-os-Montes. A persistência da sua crença numa pertença étnica judaica contrasta com a descontinuidade entre uma presumida origem “natural” judaica e uma cultura cristã imposta pela história. e porque a identidade é uma relação processual e não uma coisa em si ou uma qualidade fixa de alguém ou de um grupo.9 secularização da vida humana incorporando a aceleração de criação de novidades no quotidiano. À procura de um sentimento de si enraizado numa história familiar herdada com falhas.saudades. organizam viagens a Portugal e a Espanha. com vista a garantir o futuro da sua família simbólica.

10 o risco de uma condição humana “descosida” de si. LACAN. 1925. 1980 [1964]. João. MERLEAU-PONTY. Firenze. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . CXVIII/1. Phénoménologie de la Perception. LÉVI-STRAUSS. pp. Elsa. Gallimard. Maurice. Referências Bibliográficas ARENDT. 2002. Claude. La Pensée Sauvage. Modernity and Self-Identity: self and society in the late modern age. Plon. Gallimard. Economie et société. Paris. PINA CABRA. Gris. 1994. entrada « Marrano ». Isaac. João e Nelson Lourenço. Gallimard. 11. GLISSANT Edouart. 17-27. 1018. “Fonction et champ de la parole et du langage”. L’unité de l’homme et autres essais. 1989. Os Contextos da Antropologia. FABRE-VASSAS. pp. « Pleins Silences ». não deixa indiferente quem assim descobre poder ser o autor de si mesmo e nascer para uma condição humana que ultrapasse o acidente biológico. Edmund. RÉVAH. FARINELLI. 1945. Polity Press. p. PINA CABRAL. Universidade Nova de Lisboa. Cambridge. Les Gardiens du Secret. Lisboa. Paris. Écrits. 1925. 1956 [1971]. les chrétiens et le cochon. Le Seuil. 1993. 1996. SCHWARZ. Sigila. Jerusalém. Paris. LEACH. 1958. mesmo que esta última seja uma ruína e o retorno uma viagem. LECHNER. Paris.Os Cristãos Novos em Portugal no Século XX. Gallimard. Paris. 2000 [1925]. The University of Chicago Press. Difel. WEBER. Introduction à une poétique du divers.9. Plon. 1959. La Bête Singulière: les juifs. num outro lugar. pp. Claudine. Hanna. Instituto Cultural de Macau. Jacques. Arturo. Em Terra de Tufões: dinâmicas da etnicidade macaense. Encyclopaedia Judaica. Num outro tempo. 1966. vol. Anthony. Paris. Max. Paris. Samuel. 1992. 321361. Instituto de Sociologia e Etnologia das Religiões. pode-se “retornar a casa”. 1962. Paris. Macau. Revue des Etudes Juives. « Les Marranes ». 29-77. a descontinuidade que atinge os “órfãos de cultura própria”. Vol. Marrano : storia di un vituperio. GIDDENS. TheHuman Condition. Paris.

religião. mais que constatar dados.gomesfaria@uam. Tecnologia e Ensino Superior (Portugal). Muito bom dia. levou a que diferentes investigadores chamassem a atenção.es Nesta comunicação aproximar-nos-emos. num momento de saturação dos países que tradicionalmente recebem imigrantes marroquinos. históricos e religiosos que funcionariam como factores de integração. XIV (1).Participação marroquina na construção da comunidade muçulmana em Portugal ° Rita Gomes Faria Universidad Autónoma de Madrid ∗ rita. de forma muito sucinta. marroquinos. A análise dos resultados da regularização extraordinária de imigrantes realizada em Portugal no ano de 1996. Portugal pode constituir uma alternativa considerando alguns elementos sociais. antes de começar gostaria de agradecer à Associação Portuguesa de Antropologia e principalmente à Prof. Palavras-chave: integração. ° ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Assim. O trabalho que hoje apresento integra-se numa investigação em curso sobre a integração de Portugal na rede transnacional de imigração marroquina e sobre a permeabilidade da fronteira luso-espanhola por parte destes sujeitos migrantes. imigração. Nina Clara Tiesler pela possibilidade de participar neste Congresso. para a aparição inesperada de regularizados de nacionalidade marroquina. “Islam en lusophonie” (2007) com o título “Marroquinos em Portugal: imigração. Tentaremos compreender se. ∗ Esta conferência integra-se numa investigação em curso no âmbito da pesquisa de doutoramento em realização na Universidad Autónoma de Madrid financiada pela Fundação para a Ciência. comunidade. religião e comunidade”. ainda que subtilmente. venho referir hipóteses num momento concreto da investigação. ao fenómeno da imigração marroquina em Portugal. Vol. O interesse pela investigação do fenómeno da imigração marroquina para Portugal surge pela possibilidade de completar o quadro visual sobre Uma versão desenvolvida desta conferência poderá encontrar-se na revista Lusotopie (Brill).

2 imigração marroquina na Europa mas também. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . observando desde a perspectiva espanhola. o acesso a um documento oficial que lhes permita uma residência legal em Portugal (inclusive para aqueles que esperaram os dez anos necessários para receber a 1 A única investigação até agora realizada sobre o tema encontra-se publicada: CABRAL 2003. também Portugal parecia ser a alternativa lógica a uma certa saturação do mercado espanhol 1 . o Ministère des Affaires Étrangères et de la Coopération marroquina contabiliza 2866 marroquinos a viver em Portugal. Espanha. dos quais 778 estão contabilizados pelo Serviço de Estrangeiros e Fronteiras português como detentores de uma autorização de residência e os restantes de autorizações de permanência. mas também pelo facto de Portugal não constituir um destino final do processo migratório. Pela existência de uma relevante bolsa de imigrantes marroquinos irregulares que não se encontram contabilizados pelas instituições oficiais. os imigrantes que tradicionalmente se dirigem para Portugal são originários dos chamados PALOP e do Brasil. principalmente de Marrocos. mas as regularizações extraordinárias dos anos 90 apontam para um fenómeno que posteriormente se confirmou com o processo de pedidos de autorizações de permanência do ano 2001: por um lado a nova presença massiva em Portugal de cidadãos oriundos de países do Leste da Europa. No relatório sobre as migrações mediterrâneas publicado pela Comissão Europeia (Fargues 2005). Bélgica e a Alemanha fecham as suas fronteiras à imigração. Como sabemos. e por outro a aparição e crescimento (constante mas discreto) de pessoas provenientes do norte de África. Holanda. Discutindo a questão com alguns dos informantes desta investigação eles próprios se negam a acreditar na sua validade. Segundo os próprios sujeitos. a população marroquina seja uma das mais importantes dentro da comunidade imigrante. Marroquinos em Portugal Ainda que se encontre relativamente perto de Marrocos e que no seu principal país vizinho. por nos parecer que Portugal poderia ser a sequência directa da evolução do fenómeno – tal como Espanha e Itália vão estabelecer-se como destinos para estes migrantes no momento em que países como a França. em Portugal a questão da imigração marroquina constitui uma novidade.

A imigração marroquina na Europa Os movimentos migratórios marroquinos remontam a épocas anteriores ao período colonial. pais onde a maioria tem família já instalada. vários são os acontecimentos (simultâneos) que “empurram” os nacionais marroquinos para os países europeus: A) a guerra de independência argelina provocou o regresso a França das empresas instaladas na região norte da Argélia.3 nacionalidade) permite-lhes atingir o seu objectivo final que é a “verdadeira Europa” – França. de assentamento e de diversificação de destinos. e principalmente a partir do boom económico do pós-II Guerra Mundial. que vão abrir os primeiros canais de imigração (pendular) massivos. Marrocos vive um momento de explosão demográfica o que acentua um certo desequilíbrio entre a população e os recursos naturais e económicos do país. e para Espanha e Itália que demonstram ser regiões nas quais era possível (principalmente devido à inexistência de uma legislação relativa aos movimentos de imigração) a permanência daqueles que não conseguiram passar as fronteiras do norte ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . e por outro o aumento das entradas irregulares. a Alemanha. Por essa altura dirigiam-se a países do Médio Oriente e da África ocidental. Os países do norte e centro da Europa mantêm um único canal de imigração aberto através do reagrupamento familiar (primário e secundário) o que provoca por um lado uma estabilização das populações. B) durante a mesma época. a Holanda e a Bélgica.de recursos e de interesse político . atrás dos seus empregadores. Como alternativa os trabalhadores marroquinos dirigem-se então para países como a Líbia e a Arábia Saudita (com uma capacidade . o que levou ao seguimento dos trabalhadores rifenhos para o território francês. O fenómeno entra numa segunda fase. Alemanha.de recepção de imigrantes muito limitada). Os primeiros marroquinos que chegam à Europa são comerciantes que se instalam em França e em Inglaterra pela metade do século XIX. Já no século XX. Holanda. C) mas as principais saídas são provocadas pela assinatura dos primeiros acordos de mão de obra entre países como a França. Os anos 70 do século XX assistem à grave crise de petróleo que provoca o fecho das fronteiras europeias e o inicio da chamada “imigração zero”.

1997. Público. formam-se claramente por indivíduos que não ultrapassaram a fronteira com França e que ficaram a trabalhar na Catalunha (que no final dos anos 70 indicava um aumento da industrialização e que por isso agradecia estes novos trabalhadores). Ver também o jornal Público nos dias posteriores aos atentados de Madrid de 10 de Março de 2004. Cardeira da Silva recorda numa publicação recente (Cardeira da Silva 2005). C) a recuperação da presença “árabe” no território e identidade portugueses através da redignificação dos espaços arqueológicos do Al-Andalus. “Portugal e Marrocos inauguram cimeira anual” edição de 30-05-1994. 4 Ver por exemplo Público. “Acordos com Marrocos”. O potencial integrador Por outro lado. como David Lopes (responsável pela institucionalização do arabismo em Portugal) No caso espanhol os primeiros assentamentos de marroquinos realizam-se na Catalunha. “MAI de Marrocos em Lisboa” edição de 17-05-1997. também. Nestes anos 70 e 80 Portugal ainda não era considerado um destino mas a crescente politização e mediatização (além do tratamento negativista do tema que os media espanhóis estão a desenvolver e da preferência pela imigração originária da América do sul e de países do leste europeu) da questão migratória que verificamos a partir dos anos 90 em Espanha 3 . edição de 26-01-1993. 1994. como por exemplo a pesca. página 2-3. Ver TEIM 1996. D) e por último a forma como os últimos governos portugueses têm tentado recuperar estas distintas tradições para a construção de um papel de mediador politico entre a Europa e o mundo árabe. Público. tendo o governo marroquino como interlocutor do outro lado do mediterrâneo 4 . página 24. 1993. página 9. 3 Visível principalmente durante o governo do Partido Popular que assumiu a luta contra a imigração irregular como um dos seus principais papéis ante a União Europeia e para tal a imagem da patera como metáfora dessa irregularidade. levou-nos a pensar que Portugal poderia ser o próximo passo. consideramos. B) a tradição do arabismo português que procura aproximar-se da academia europeia orientalizando parte do próprio território português. A imigração foi muito utilizada pelo PP como instrumento n luta económica e politica com o governo do Reino de Marrocos em debates sobre distintas temas. 2 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .4 economicamente mais vantajoso (Teim 1996) 2 . inicialmente que Portugal poderia (potencialmente) como um destino alternativo baseando-nos em alguns supostos que poderiam funcionar como meios de integração positiva dos marroquinos por parte dos portugueses: A) uma certa construção da identidade nacional baseada na capacidade de adaptação ao outro resultante da experiência histórica do contacto cultural (na boa tradição do luso-tropicalismo).

5 definiu o Portugal histórico através de três dimensões “paranacionais”: a presença dos árabes na Península. Castro Verde. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . procuraram personificar o papel do mediador de conflitos. E como no pós-25 de Abril de 1974 o processo de reconstrução nacional e de desenvolvimento económico regional passou por uma exploração do potencial turístico e económico que os vestígios e a herança árabes poderiam implicar. Mértola. de ponte de diálogo que a proclamada genética diversa (árabe. Lagos e Sintra. 5 Fez e Marraquexe transformam-se nas cidades guardiãs de uma identidade que pode ser explorada economicamente para aproximar-se do ideal imaginário dos portugueses. nessa encruzilhada entre a Europa e os países árabes. Mértola abriu caminho para que as regiões norte e sul do país se apercebessem das vantagens da reabilitação de material arqueológico sempre sustentado por uma promoção turística do mesmo através da escenificaçao da vida quotidiana em feiras e mercados da época do Al-Andalus. associam a redignificação da imagem dos árabes na história e identidade nacionais servindo por um lado uma folclorizaçao e reinvenção da memória. E a nível nacional diversos governos portugueses. a presença dos próprios portugueses em Marrocos e a presença dos portugueses no Oriente. judaica e crista. Silves. Castro Marim. mas também uma dimensão política de encontro com os países árabes do mediterrâneo 5 . Até que ponto esta recuperação da essência árabe na identidade nacional leva a uma real facilidade de integração dos árabes (marroquinos) contemporâneos que escolhem este pais para residir? O contexto de integração Os imigrantes marroquinos que se encontram em Portugal enquadram-se perfeitamente como sujeitos do que Tiesler (2005) chamou a pós-descolonização. Aí se encontra o stock identitário tradicional que se pode conjugar com o imaginário do exotismo árabe economicamente operacional. exteriores ao mundo lusófono e integrados em trajectórias migratórias globalizadas. A nível local. Cacela Velha. uma nova fase de imigração caracterizada por novos padrões de imigração independentes do passado colonial. num multiculturalismo tolerante que ascende à idade média) permite.

elaborando agora um discurso universalizante do Islão e integrador dos distintos membros da umma (Mapril 2005) . Participação na comunidade islâmica Quando os marroquinos chegam a Portugal encontra-se já constituída a Comunidade Islâmica de Lisboa. As trajectórias da maioria dos informantes caracteriza-se por uma forte mobilidade e em geral a sua presença em Portugal está marcada por uma temporalidade associada a um objectivo.6 O colectivo com o qual trabalhamos nesta investigação é constituído por pessoas que seguem um padrão de imigração por imperativos económicos. o circuito da imigração e a forte mobilidade vivida por todos os sujeitos levamnos a participar da comunidade transnacional marroquina – quase todos têm membros da unidade familiar dispersos pelo mundo. os imigrantes económicos irregulares e os estudantes . No entanto.que em muitos casos desenvolvem paralelamente actividades económicas (Freire 1999). Dentro do universo dos marroquinos que vivem em Portugal podemos encontrar distintas categorias: os imigrantes económicos regularizados. Os anos 90 observam uma diversificação das origens dos imigrantes muçulmanos mas estes “pioneiros” permanecem como porta-voz da comunidade. No entanto. principalmente pela Europa.numa adaptação à nova realidade através de subalternização da etnicidade. como Roy (2003) afirmou. As relações que os nossos informantes constituem no pais de acolhimento são circunstanciais partilham elementos étnico-culturais que contextualmente os afirmam a todos como marroquinos mas existem numa distância já que entre os diferentes indivíduos ou colectivos não se criam tecidos que os unam a todos como comunidade em Portugal. Estes grupos não são uniformes. e em muitos casos o seu próprio percurso individual é marcado pela transnacionalidade. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . este Islão como fenómeno mundializado encontra-se sujeito a fenómenos como a individualização da relação com a religião e a comunitarização do grupo religioso. uma instituição constituída principalmente por indivíduos oriundos das antigas colónias portuguesas que se esforçaram desde o inicio na construção de uma relação positiva e apolítica com o Estado e com a sociedade de acolhimento(Tiesler 2000).

para o caso da mulheres marroquinas em Espanha. em pequenos locais de culto nos arredores de Lisboa (como no caso do local de culto de Forte da Casa) ou noutras regiões do país é mais activa (como é o caso do local de culto de Faro para cuja criação há cerca de quatro anos diversos imigrantes marroquinos participaram activamente 6 ). Os sujeitos elaboram um discurso politico sobre a realidade da mesquita central que é o local de reunião de africanos e indianos e não de árabes ou magrebinos. Ainda que a participação na vida religiosa da Mesquita Central de Lisboa seja praticamente nula. principalmente feminina. Observa-se um distanciamento do principal protagonista do Islão em Portugal – a Mesquita Central e a Comunidade Islâmica de Lisboa (com cuja identidade e discurso não se sentem identificados) – e uma privatização do Islão ou uma participação em comunidades religiosas particulares. não impede a sua integração na comunidade a nível local. Existe uma dissociação para com as actividades da mesquita central e para com o culto o que impede uma prática religiosa quotidiana. distinta e imediatamente associável à religião islâmica. O espaço da mesquita de Lisboa não se traduz num elemento catalizador das sociabilidades e configurações identitárias destes marroquinos que vivem em Lisboa. O sistema de estratificação de género em Marrocos define que o projecto de vida feminino é dependente do masculino 6 No Verão do ano 2005 a Comunidade Islâmica de Lisboa não tinha sequer informação da sua existência. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . O facto de representarem uma diferença em relação aos representantes dos muçulmanos em Portugal. Ramírez (1998) refere. como o contexto de saída condiciona uma situação determinada da mulher no país de imigração.7 A vivência dos marroquinos em Portugal provoca uma transformação na sua religiosidade – na forma como estes indivíduos vivem a sua relação com a religião (Roy 2005). Visibilidade e religiosidade feminina Segundo os próprios informantes há um outro elemento que os distancia da comunidade islâmica portuguesa: uma imagem exterior. O lenço é instrumentalizado por algumas destas mulheres de múltiplas formas numa estratégia de integração na sociedade de acolhimento mas também de manutenção de direitos e de um determinado estatuto num contexto diverso ao da sua sociedade original.

Algumas mulheres. numa tentativa de conjugar fidelidade às origens mas também modernidade e autonomia pessoal. com o inicio de processos de reagrupamento familiar. por exemplo. com o nascimento das primeiras crianças em Portugal e com a criação das primeiras associações de imigrantes marroquinos. auto-orientalizam e personificam a imagem de árabo-muçulmanas nas festas “árabes” e nas feiras de artesanato oriental regionais que se realizam principalmente durante o Verão e que fazem reviver. No entanto até há três anos atrás parecia que este fluxo estava a entrar numa segunda fase. instrumentalizam o papel da mulher muçulmana de forma a recuperar direitos que consideram que estão a perder em contexto imigratório. principalmente as que não realizaram um trajecto imigratório individual e cuja presença no terreno da imigração resulta da reagrupamento familiar. a época da presença árabe em Portugal. O colectivo de marroquinos que vive em Portugal ainda é maioritariamente constituído por homens. podendo a condição feminina ser estrategicamente manipulada. e “mercadorizam”. No entanto estes sujeitos parecem mais interessados na participação na comunidade muçulmana transnacional do que na construção de uma comunidade em Portugal. num contexto de incorporação ao mercado de trabalho (subalterno) referem como o lenço lhes permite participar e auxiliar a economia familiar. agora transnacional. O lenço é então utilizado na luta pela recuperação de um papel dentro do espaço íntimo da casa familiar.8 mas parece ser que a imigração permite uma adaptação da condição feminina e das restrições culturais à mobilidade feminina. O reduzido número e a dispersão territorial dos nacionais marroquinos que vivem em Portugal dificulta a constituição do que se pode chamar uma comunidade de marroquinos no país. Este país continua a ser manipulado como um passo num ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Outras. muitos deles em situação de irregularidade ante a legislação portuguesa. Por outro lado Abranches (2005) observa em Portugal como as mulheres muçulmanas imigrantes utilizam as transformações características da sociedade ocidental na (re)construção das duas identidades. Notas finais Portugal resulta ser um contexto difícil para a imigração marroquina. Algumas destas mulheres.

Alcinda (ed.. não querem saber do que dizem dos árabes. SOS Racismo. Vol. CARDEIRA DA SILVA. 26 anos. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .. [.. 149-179. Sabes. a comunidade islâmica. países que constituem. pp. 2005. Maria.. Maria . ele é do Paquistão e na mesquita falam todos português.. Bibliografia: ABRANCHES..). Uma informante dizia: (. 753-806.. ainda maioritariamente “portuguesa”.). Uma vez com a Karima na rua uma senhora tirou a cabeça pela janela do carro e chamou-nos terroristas. CABRAL. Porto. European University Institute y European Commission – Europe Aid Cooperation Office (Euromed). Rapport 2005. E é que nem pensam que usas o lenço porque és muçulmana. Ao viver debaixo de uma consciência de temporalidade restrita. pp. edições Universidade Fernando Pessoa. 2003.9 projecto migratório que se quer terminar em França ou na Holanda. Migrations Méditerranéennes. Vivências e trajectórias de mulheres em Portugal. FARGUES. Dos estudos sobre árabes e sobre muçulmanos em Portugal” in Análise Social. não representa para estes indivíduos um colchão interessante de integração. como me aconteceu lá em baixo na loja da Fátima [Olhão]. 2005. a “verdadeira” Europa. Imigração Marroquina.. “Mulheres muçulmanas em Portugal: formas de adaptação entre múltiplas referencias” in SOS RACISMO Imigração e Etnicidade. Nº 173.) se estás ao balcão numa loja que vende coisas árabes.. ou se vais aquelas feiras onde ela vai com o marido. Também esta reanimação do árabe em Portugal parece não servir realmente como aproximação aos árabes contemporâneos que vivem no país. Lisboa. “O sentido dos árabes no nosso sentido. (Loubna.. segundo os informantes. Philippe (ed. Europa e Islão. Mas aqui no meu bairro [num polígono industrial em Carcavelos].] Aqui nem o imã da mesquita nos defende. é só sair à rua que ficam todos a olhar para mim. 2005. há três anos a viver em Portugal) Nesta transcrição podemos observar a distância que existe entre a recuperação da memória histórica do legendário passado árabe na identidade portuguesa e a dificuldade de integração da realidade dos marroquinos contemporâneos que vivem no país.[.] Eu quero é ir para casa da minha cunhada [França]. todos te perguntam de onde é que és. XXXIX (Inverno).

Olivier. MACHADO. « Le ‘retour des caravelles’ au Portugal: de l’exclusion des immigrés à l’inclusion des lusophones ? » in RITAINE. 2005. MAPRIL. Atlas de la Inmigración Magrebí en España. Os movimentos humanos e culturais em Portugal. Ana Rita. 827-849. PUF. Nº 173. Francisco. Fernando Luís. nº 34 (Dezembro). Vol. 2005. “Portugal e Marrocos inauguram cimeira anual” edição de 30-05-1994. 273-288. Itinerários para a construção de uma masculinidade. Maria Lucinda. 2000. Monografia de licenciatura em Antropologia. edição de 26-01-1993. 1994. Género e Islam. TEIM. ROY. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . SOS Racismo. 1999) Do Yemen ao Dafundo. 2002. “MAI de Marrocos em Lisboa” edição de 17-05-1997. pp. página 9. Nuno Dias e José Mapril. 1997. TIESLER. El Islam Mundializado. vol. XXXIX (Inverno). “Immigration to medium sized cities and rural areas: the case of eastern Europeans in the Évora region (southern Portugal)” em BAGANHA. FCSH-UNL. Ideias. “Contornos e especificidades da imigração em Portugal” em Sociologia – Problemas e Práticas. Luso-American Foundation. Évelyne (dir. Público.. PEREIRA BASTOS. Agencia Española de Cooperación Internacional. Artigos de jornais: Público. Barcelona. pp. pp. FREIRE. TIESLER. “Novidades no terreno: muçulmanos na Europa e o caso português” in Análise Social – Europa e Islão. 851-873. 149-183. Madrid. Paris. policopiado. pp. página 24. RAMÍREZ. “Muçulmanos na margem: a nova presença islâmica em Portugal” in Sociologia – Problemas e Práticas. XXXIX (Inverno). El Islam en occidente: ¿La occidentalización del Islam?. Ángeles. MARQUES. Lisboa. 2005. página 23. 1996. Europa e Islão. nº 173. Politique de l’étranger. nº 24. 1998. FCSH-UNL. 2004.10 FONSECA. MOREIRA.) New Waves: migration from eastern to southern Europe. hoje: da exclusão social e identitária ao multiculturalismo?” em SOS RACISMO (ed. Madrid. 1993. Mujeres marroquíes en España. Monografia de licenciatura em Antropologia. 117-144. Público. Lisboa. 2005. ROY. José. Maria Margarida. Migraciones. “’Bangla masdjid’: Islão e bengalidade entre os bangladeshianos em Lisboa” in Análise Social. “Acordos com Marrocos”.) L’Europe du Sud face à l’Immigration. Los musulmanes en la era de la globalización. “Imigrantes. Nina Clara. Ediciones Bellaterra. Universidad Autónoma de Madrid Ediciones. 91-118. 1997. policopiado. 2003. José Gabriel e Susana Pereira Bastos. João Alegria e Alexandra Nunes.) A Imigração em Portugal. 2000. 9-44. Práticas e Instituições do Arabismo Português. Transcrição editada da Conferência realizado no FRIDE. Madrid. pp. Olivier. minorias étnicas e minorias nacionais em Portugal. Maria Ioannis e Maria Lucinda Fonseca (eds. pp. Nina Clara.

Imigrantes. uma das áreas mais sensíveis na condição de imigrante economicamente desfavorecido. Particularidades Culturais e Abordagens específicas no Campo da Saúde Maria Cristina Santinho Antropóloga. em particular pela coexistência de populações nacionais e estrangeiras com diferentes origens geográficas. a Mutilação Genital Feminina ou a gravidez prematura? No campo da saúde. diversos de vida e inclusive diferentes sistemas de organização política e administrativa que. foi alvo de uma alteração profunda na sua morfologia social nas décadas mais recentes. faz com que o país receptor. em particular no campo da saúde. Saúde. se propõe desenhar projectos de intervenção na área da saúde. Partindo do princípio de que em grande parte dos países de origem dos imigrantes – com particular expressão para os países africanos de expressão portuguesa ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . étnica. como cruzar saberes institucionalizados e hegemónicos com saberes ancestrais explicadores de uma determinada visão do mundo? Palavras chave: Trabalho autárquico. no contexto do seu trabalho como técnico de uma autarquia. a prevenção do HIV–SIDA. orientados para as populações imigrantes residentes num determinado concelho? Qual a importância do trabalho em parceria. a par da expressividade idiossincrática e das histórias de vida particulares de cada indivíduo. Vulnerabilidade. A diversidade social.Contextos Migratórios. cultural e religiosa da população imigrante residente actualmente em Portugal. obrigam a reflectir sobre novas formas de encarar o mundo e soluções mais ajustadas a uma sociedade multicultural. quando se pretende intervir em áreas como a acessibilidades dos imigrantes ao Serviço Nacional de Saúde. Portugal e em particular a área metropolitana de Lisboa. técnica na Câmara Municipal de Loures Quais os desafios que se colocam ao Antropólogo quando. tenha a responsabilidade de dar uma resposta eficaz às suas diversas necessidades.

tem as suas próprias crenças e práticas únicas no referente à saúde. num contexto mais global da exclusão social.2 – os sistemas de saúde de modelo ocidental. sociólogos. assim como os seus recursos comunitários para a prevenção de certas doenças e cura de males comuns. animadores sócio-culturais). económicas. enquanto abordagem no domínio da promoção da saúde e prevenção da doença. cada grupo. eram (e em muitos casos ainda são) praticamente inexistentes. face à nova realidade que estão a viver. a intervenção médica de modelo ocidental. confundindo frequentemente conceitos fundamentais como nacionalidade e origem étnica e prejudicando assim a comunicação em termos de eficácia de utilização dos serviços de saúde. nalguns casos. religiosas e cívicas que fragilizam o seu estado físico e psíquico. A questão da saúde dos imigrantes tem sido encarada de uma forma geral. que estabeleçam a ponte entre a necessidade de apoio sentida pelos imigrantes no campo concreto da saúde. tendo em conta as idiossincrasias de cada grupo e os seus problemas relativos às desigualdades no acesso à saúde e outros serviços básicos. salvaguardando as suas particularidades identitárias e. surge do facto destas populações estarem sujeitas a muitas desigualdades sociais. psicólogos. Cada etnia. Por conseguinte uma das abordagens que se pode e deve fazer. importa-nos aprofundar outros modelos alternativos neste campo. sem tomar grandemente em conta os padrões culturais específicos de cada grupo cultural. pelos técnicos que intervêm em programas e projectos comunitários (desde logo antropólogos. promoção da saúde. é uma abordagem localizada. pelos mediadores de saúde que fazem uma ponte entre a sua comunidade de origem e a sociedade de acolhimento – escola ou trabalho. pelos líderes das associações de imigrantes locais. culturais. sem esquecer as mulheres da comunidade e os líderes religiosos. formação esta que também deve ser partilhada por cada um destes actores culturais. A promoção da saúde deverá por conseguinte ser levada a cabo não só pelos profissionais de saúde – médicos e enfermeiros – mas também de forma concertada e em parceria. É necessário que haja uma acção concertada entre todos. e interculturalidade. é necessária uma formação adequada em direitos de cidadania. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . A necessidade de se promover uma abordagem específica no campo da saúde das comunidades imigrantes.

social e espiritual. dependência do álcool ou alucinogéneos. ou incidência de determinadas doenças específicas de certos grupos. teremos que analisar se intimamente estamos dispostos a intervir com acções concretas e pragmáticas. Infelizmente a formação cruzada ou mesmo a investigação sobre as características específicas em termos de saúde e doença entre as diferentes comunidades imigrantes ainda não está trabalhada nem sequer ao nível dos simples dados estatísticos. ter boas notas na escola. é procurar noutro país melhores condições de vida. sentimentos de revolta. conseguir consulta no médico. natalidade. violência. Quase inevitavelmente manifestada através de numa crónica acumulação de desvantagens sociais. que conduzem estas populações a circuitos de exclusão e que se vão manifestando mais cedo ou mais tarde em frustração. ainda estão no domínio dos dados empíricos ou do conhecimento de alguns estudantes. técnicos de saúde ou investigadores que dedicam a sua atenção a casos particulares de bairros onde residem imigrantes. sabemos que uma das características comuns de grande parte da população imigrante é a sua vulnerabilidade. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Tomando como ponto de partida a definição da Organização Mundial de Saúde. partimos dos seguintes pressupostos relativamente à população imigrante: . Factores como o índice de morbilidade. em suma: uma fragilidade perigosamente manifestada em quase todos os indicadores dos condicionantes sociais da saúde. religiosas e simbólicas próprios de cada comunidade. e não apenas a ausência de enfermidade ou doença”. desadaptação. Por outro lado.3 Como antropólogos.A principal razão que leva um indivíduo ou uma família a emigrar. sociais. mortalidade. manifestadas através de uma maior dificuldade em arranjar emprego de acordo com as suas necessidades. distúrbios mentais. somos levados a ter em conta as circunstancias que pautam a vida da maioria da população imigrante e consequentemente condicionam a sua saúde. traduzindo a importância dos valores e práticas culturais. tomando o papel de facilitadores entre estas comunidades e os médicos e enfermeiros. gravidez prematura. segundo a qual: “A saúde é um estado de completo bem-estar físico. pois o nosso contributo poderá de facto vir a influenciar a maneira como outros técnicos de saúde percepcionam o contexto cultural dos imigrantes. Assim sendo. mental.

profissional. limita as suas opções de trabalho. com horários violentos. condicionam também a atitude dos indivíduos perante os diversos conceitos de saúde e de doença. mas antes sobretudo de forma holística. entre alguns grupos étnicos guineenses. a dificuldade no domínio da língua ou a inexistência de certificação de competências. culturais e políticos dos países de origem dos imigrantes.Neste contexto. . habitacional. de grande parte dos imigrantes constituídos como população alvo de alguns projectos levados a cabo pelos Centros de Saúde locais e autarquias. mal remunerados. por vezes propensos a acidentes graves. ou seja: compromete perigosamente todos os projectos e aspirações a uma vida melhor que o levaram em primeira instância a emigrar. Os contextos sociais. remetendo-os para actividades pouco valorizadas socialmente.A reduzida formação académica. será necessário abordar cada aspecto. pois o contexto em que os imigrantes se inserem irá condicionar a sua própria relação com a saúde e com a doença. em relação à forma como se encara o “Fanado. práticas tradicionais de saúde eficazes para o contexto cultural que as produziu e que obviamente devem ser tomadas em conta pela medicina ocidental. trabalhos de alto risco. em particular muçulmanos. religioso. etc. O conceito de saúde e de doença tem uma enorme abrangência e portanto a doença do indivíduo não se pode observar só numa perspectiva clínica ocidental. Esta premissa pode-se verificar por exemplo. com certeza diferente do país de acolhimento. sem seguros de risco. muitas vezes dependentes da má índole dos empregadores que preferem não regularizar os contratos de trabalho. No desenrolar de cada projecto de saúde a levar a cabo eventualmente por uma parceria técnica de intervenção.” ritual inclusivo da prática da Mutilação Genital Feminina. nem tem dinheiro para os medicamentos.. o corpo é usado como principal ferramenta de trabalho. instáveis. Esta prática cultural que tem sido alvo da atenção de muitos meios ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . mas também tomando em linha de conta que os próprios imigrantes terão em determinados contextos étnicos. condicionando assim a sua relação com o bom ou o mau desempenho profissional – a pessoa doente não pode trabalhar (se falta ao trabalho é imediatamente despedida por não estar abrangida na maior parte dos casos pelos sistemas de saúde e segurança social).4 . se é despedida não tem capacidade para sustentar a sua por vezes numerosa família. que implica a relação do corpo com vários contextos: familiar.

Do ponto de vista cultural. deve ser alvo de uma apreciação profunda por parte dos antropólogos. dados constantes dos ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . tanto pela importância que estes indivíduos têm no universo simbólico dos contextos etnográficos. condicionam as atitudes dos imigrantes perante a doença. existem por exemplo.5 de comunicação social pelas razões mais perversas. reconhecendo a profunda sabedoria que os curandeiros possuem sobre o uso das plantas para fins terapêuticos. com especial destaque para as enfermidades do foro psíquico. em território português. Por outro lado. levando a medicina ocidental a integrar o valor da medicina tradicional. tendo em conta a importância do trabalho em parceria com as associações de imigrantes e seus lideres religiosos. que existem de facto fragilidades de saúde directamente relacionadas com as comunidades imigrantes. residente no bairro da Quinta da Vitória . sobretudo nos países africanos. pois se por um lado. Passamos a referir apenas algumas: no caso da população de origem africana. crenças e tabús que é necessário entender e contextualizar no ponto de vista antropológico. a ausência de Sistemas Nacionais de Saúde por vários motivos como a guerra. a pobreza ou as políticas governamentais. por outro lado. é necessário ter em conta a importância das curas tradicionais praticadas pelos curandeiros. É pois necessário abrir o leque de conhecimentos e de práticas médicas. envolta em mitos. que chegou a adquirir forma de projecto-lei e que. No que diz respeito à população hindú proveniente do Gujarati. infelizmente tem estigmatizado grande parte da população guineense residente em Portugal.Portela. a Mutilação Genital não deve ser analisada fora de todo o contexto cultural e ritual que a justifica. como pelo facto de muitas vezes serem estes os únicos detentores do poder da cura reconhecidos pela comunidade. a ausência de hábitos de prevenção da doença. porque se levantam questões tão delicadas como a sexualidade. relativizando o próprio relativismo cultural. levando-os a interagir com a medicina ocidental apenas em situações de emergência. deverá ser abordada como uma prática que põe em causa a própria saúde sexual e reprodutiva da mulher. colocando ainda em risco de vida as crianças e mulheres que a ela voluntariamente ou involuntariamente se submetem. como já referimos. sabemos da relevância da tuberculose (muito associada a situações de pobreza e carências alimentares por exemplo) e do HIV – Sida e da necessidade de combater esta pandemia. É ainda importante mencionar.

os seus referentes culturais e em particular. as suas práticas relativas à saúde e à doença e a sua expectativa de vida aqui em Portugal. seria interessante promover a investigação voltada para os seus hábitos de saúde relacionados com as práticas das terapias orientais e obviamente. havia muito pouco trabalho desenvolvido na promoção de estilos de vida saudáveis. Contudo. mais próximo do campo específico da saúde. Apesar de sabermos que as ex repúblicas soviéticas tinham uma política generalizada na cobertura da saúde. Segundo os médicos que ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . problemas dentários. colesterol elevado. ou de dependência das mafias. Quanto aos imigrantes oriundos de leste. como se relacionam entre si. alerta para a necessidade de se constituírem equipas multidisciplinares sempre que se definam objectivos. Onde se localizam. esta doença é devida ao consumo excessivo de açúcares. e álcool em excesso. quer nos projectos de educação para a saúde que envolvam adolescentes imigrantes de origem africana. como são as suas estruturas familiares.6 estudos da morbilidade efectuados pelo Centro de Saúde de Sacavém que dão conta de uma alta incidência de diabetes naquela população. presente em todas as cerimónias e rituais praticados frequentemente por aquela comunidade (o açúcar é associado simbolicamente à fertilidade e abundância). com quartos de pensão sobrelotados. a fragilidade no campo da saúde está sobretudo relacionada com o stress provocado pela sua condição de imigrantes. tendo em conta a chegada de novos imigrantes com características sociais e culturais diferenciadas. Um dos vários objectivos no campo quer da intervenção clínica. muitas vezes indocumentados. sobre o modo de vida destas comunidades em território nacional. Em parte. Ainda um outro exemplo. tabaco. originam problemas cardíacos. promover de forma sistematizada investigação aprofundada do ponto de vista da antropologia da saúde. gratuita para toda a população. será necessário realizar outras investigações para o desenvolvimento e implementação de projectos científicos adequados. ainda muito pouco se aprofundou sobre as práticas e o estado de saúde destas populações. visa o combate determinado da gravidez na adolescência. em condições promíscuas e pouco higiénicas. tensão alta. metodologias e estratégias de intervenção comunitária. considerado pelos especialistas da medicina ocidental como um indicador que é imperioso combater. Condições de habitabilidade deficientes. Sabemos através de resultados empíricos realizados por técnicos de saúde das autarquias que. distúrbios mentais. Relativamente aos imigrantes de origem oriental.

referentes às doenças com maior incidência. Não é de estranhar que nos bairros de imigrantes onde se faz intervenção comunitária. Preferencialmente. consumo de droga e. doenças do foro mental. adaptando-os a novas realidades. Para perceber este ou outro fenómeno da mesma natureza. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .7 intervêm nesta área. é necessário contar com a contribuição de diversos especialistas: em primeiro lugar. hemoglobinopatias. violência doméstica. em segundo lugar a participação de cientistas sociais em particular de antropólogos e obviamente dos próprios profissionais de saúde – médicos e enfermeiros. etc. é necessário contextualizar a saúde e a doença no campo cultural. A verdade é que em concreto. de informação sobre saúde. estes projectos orientados para a intervenção directa no campo da saúde. a participação de representantes das próprias comunidades locais – aqui as associações de imigrantes têm um papel fundamental quando existem. ou quando a opção por engravidar está mais relacionada com uma estratégia de sobrevivência afectiva num contexto de exclusão social. hipertensão. são sempre diagnosticadas características recorrentes. tinha. sida. Para além de uma abordagem no campo social. a gravidez na adolescência pode não ser um problema para diversos contextos culturais onde os sistemas de parentesco estão dependentes de alianças em que a rapariga assume desde muito jovem o compromisso de procriação. hepatite. (homens ou mulheres) e eventualmente os líderes religiosos. diabetes. São elas: tuberculose. alcoolismo. sobre auto-estima. esclarecendo também eventuais estereótipos criados pela sociedade ocidental que podem colocar em risco projectos de promoção da saúde sexual e reprodutiva. Há pois que saber distinguir as diferentes situações. é contribuir ainda mais para a desestruturação social e psicológica das comunidades e dos indivíduos de origens etnográficas diferentes. impor a alteração de padrões culturais e de normas de comportamento de forma desajustada. são muito raros os casos que se podem considerar de sucesso. dentro destas ainda se podem destacar os anciãos. pode surgir quando a constituição física da jovem ainda não atingiu a maturidade biológica que lhe permita ter filhos sem por em risco a sua própria saúde física e mental. deverão também ser elaborados em parceria com homens e mulheres da comunidade. O problema contudo. anti-concepção. integrando saberes diferentes e envolvendo-os nos projectos de saúde institucionais porque. fazendo uso de uma linguagem comum e dos mesmos referentes simbólicos.

ONG’s e IPSS’s de forma a adequar as intervenções e projectos de saúde directamente dirigidos às populações imigrantes. foi feito numa Câmara Municipal. A população crioula letrada. aumentam também cada vez mais as depressões. Darei um exemplo: – Aqui há alguns anos. uma língua que se escreva ou que se leia com frequência. tendo em conta os conhecimentos adquiridos com base no trabalho de campo e observação participante realizada junto às diferentes nacionalidades e particularidades étnicas. pior ainda: será que alguma vez a tiveram. As intenções de dito folheto eram de facto as melhores e o mesmo teve bastante aceitação tendo sido considerado muito original – sobretudo pelos outros técnicos envolvidos na divulgação do referido folheto. numa sociedade que também ela atravessa uma profunda crise de valores identitários? Podemos ainda acreditar na justiça? E na educação? E na saúde? Como poderemos exigir às populações imigrantes que assimilem e adeqúem comportamentos e atitudes sociais nos quais uma grande parte dos portugueses tem dificuldade em acreditar? Entre a população portuguesa. sobre os perigos da sida e a forma de evitar comportamentos sexuais de risco. a sua aceitação foi quase nula. entre a população alvo. com as suas próprias hierarquias e sistemas de valor simbólicos. mas também a procura de estilos de vida alternativos como possível resposta às novas (velhas) angústias. ou de comportamentos aditivos com recurso ao álcool ou a alucinogéneos. sabendo que muitos indivíduos provêem por vezes de países em guerra prolongada e pobreza extrema. No entanto. os cancros. um folheto em crioulo para alertar a população africana em geral.8 O que dizer do surgimento excessivo de perturbações mentais entre os imigrantes e refugiados. Ainda apelando à necessidade de enquadramento de Antropólogos em Autarquias. É em português ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Porquê? Em primeiro lugar porque o crioulo não é por enquanto. tornando-os ainda mais vulneráveis? Como estranhar o comportamento agressivo e os actos de vandalismo de alguns jovens de origem africana mas frequentemente já nascidos em Portugal? Não terão eles também perdido a sua própria identidade. ou. espartilhados por uma África que nem conheceram e um Portugal que nada lhes diz e que lhes recusa a nacionalidade portuguesa apesar de terem cá nascido? Porquê a existência de gangs? Não será eventualmente esta a resposta a uma necessidade de identificação grupal. Centros de Saúde. escreve e lê em português.

tendo em conta que os seus percursos identitários são mutáveis e bem ou mal. integrando os saberes destas comunidades e envolvendo-os nos projectos de saúde institucionais. estavam a chegar cada vez mais idosos. Esta necessidade tinha sido de facto identificada nas reuniões do Projecto de Intervenção Comunitária que se realizavam no bairro. porque existe uma grande variedade de crioulos. de cada etnia. em que cerca de 90% da população é de origem africana. no contexto de um bairro de realojamento e face à pressão exercida pelas instituições portuguesas. Em segundo lugar. e apesar da oferta insistente dessa instituição na comunidade. não dá legitimidade a um estranho à família. ficavam a residir em casa dos seus filhos e aí permaneciam todo o dia sozinhos.9 que se escrevem as cartas para a tia ou para a avó que ficou em Cabo-Verde. as características culturais de uma determinada etnia em Angola ou na Guiné. rapidamente adaptáveis às condicionantes impostas pela sociedade receptora. É por estas razões que acabei de expor que. e com grandes carências e fragilidades na saúde. interiorizadas. ficam diluídas. agora relacionado com os tabus do corpo: Num dos bairros de realojamento de imigrantes em Loures. No entanto. ainda que seja médico. quando transpostas para a necessidade de sobrevivência dos indivíduos imigrantes. considero imprescindível valorizar os códigos culturais próprios de cada grupo. Aprofundando mais as razões que levaram a essa situação e contactando mais de perto com as famílias e com indivíduos dessas comunidades culturais. Apesar de normalmente a população desse bairro ser maioritariamente jovem. Um idoso ou idosa africana. esse folheto só atingiu uma minoria insignificante de população que teria entendido perfeitamente a mensagem em português. para que cuide de si e muito menos que invada a intimidade do seu próprio corpo. Frequentemente. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Logo. residiam precisamente nos tabus do corpo. surgiu uma Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS) que tinha a valência de Centro de Dia para idosos. Outro caso. vindos dos países africanos que. veio-se a constatar que as razões para essa recusa. relegadas para a privacidade do espaço doméstico ou religioso. os serviços eram sistematicamente recusados. Mas também considero importante que os Antropólogos olhem urgentemente para as realidades dos imigrantes aqui residentes. que disponibilizava técnicos especializados para prestar assistência domiciliária.

L’Harmattan. Champ Multiculturel. Lisboa. KHADIYATOULAB. Não Lugares. Colibri. Lisboa. 90º (ed. Lisboa. 2001. ISCSP. Hacia la Construcción del Bienestar y del Desarrollo Comunitário Transnacional. António (et. decidir se está disposto a intervir nestes contextos migratórios. Lisboa. RUIVO. 2005. ESCOBAR. 1996. burocracias e estereótipos. sabendo contudo que não basta nem OBSERVAR. CARMO. Transactions Interculturelles. Manuel Villaverde e Pais. all). VERMEULEN. Direcção Geral de Saúde. Fronteras de Pertenencia. México. 2005. ou paternalismos das instituições onde se enquadra profissionalmente. Condutas de Risco. 1996. Rocio Gil Martínez de. Exclusão Social. Hermano (et.. Celta. 2003. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . os Anos da Mudança. all).10 Cabe a ainda a meu ver. Poder local e Exclusão Social. Quarteto Editora. MALHEIROS. 2000. 2004. Fernando. Integração e a Dimensão Política da Cultura. ao Antropólogo.) BARRETO. Referências Bibliográficas: AUGÉ. Ministério da Saúde. Lisboa.Ed. Fall. Introdução a uma Antropologia da Sobremodernidade. Edições Colibri. Paris. Rotas de Intervenção. Lisboa. Socinova . Imprensa das Ciências Sociais. Universidade Técnica de Lisboa. 1998. Marc. Jorge Macaísta. racismos. Imigração. 2006. CABRAL. Imigrantes na Região de Lisboa. Hans. Universidade Autónoma Metropolitana. Práticas Culturais e Atitudes Perante o Corpo. Plano Nacional de Saúde. para poder PARTICIPAR e INTERVIR de forma útil na melhoria da qualidade de vida e em particular da saúde das várias comunidades de imigrantes residentes em Portugal. Coimbra. Globalização e Migrações. José Machado (et all). nem submeter-se pacificamente às regras.

Jovens. Palavras-chave: Globalização. Arquipélago dos Bijagós. chapéu de baseball e ténis? A partir destas questões da minha experiência de pesquisa na Guiné-Bissau. mas pelo contrario é utilizada nos contextos locais para produzir novas diferencias e distinções. viso contribuir ao debate sobre as dinâmicas entre local e global. com mais o menos 2000 habitantes permanentes. óculos de sol e estilos. Estas reflexões têm a sua origem em uma pesquisa efectuada na ilha de Bubaque. Bijagós. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .com Porque é que os jovens Bijagós do centro urbano de Bubaque acham cool andar de gangas. a Praça funciona . onde não só Europeus e Bijagós se encontraram e se encontram. explorar as conexões entre local e global significa na prática etnográfica considerar as ligações que os indivíduos em contextos específicos estabelecem com os significados e os produtos que o seu habitat cultural lhes oferece e que podem escapar uma delimitação espacial precisa.Valores e ícones da cultura juvenil na Guiné-Bissau: uma abordagem individualista e não-essencialista à dinâmica local/global Lorenzo I. Bordonaro CEAS – Centro de Estudos de Antropologia Social. Consumo. Guiné Bissau. chamado familiarmente Praça 1 . roupas. segundo dinâmicas de migração rural/urbana bem conhecidas 1 Originalmente tratava-se de um posto construído pelos Portugueses. ultrapassando a dialéctica entre resistência e homogeneização. Sem negar as estratégias geopoliticas e as relações de dominação. Guiné Bissau.no âmbito restrito do Arquipélago . com jovens rapazes.como um íman para os jovens das ilhas. Lisboa lo_bordonaro@hotmail. não produz homogeneização. Bem que seja um pequeno centro. sede da administração colonial da Região: é uma zona de contacto. mais especificadamente no único pequeno centro urbano do Arquipélago. mas também onde Guineenses de outras regiões e comerciantes de diferentes nacionalidades exercem as suas actividades. esquecendo a preocupação com uma fictícia autenticidade e negando uma formulação rígida da identidade e do sujeito. A minha intenção nesta comunicação é a de explorar a relevância e a pertinência do conceito de ‘estilo cultural’ (um noção que pertence mais aos Cultural Studies do que à antropologia) para descrever a cultura juvenil urbana em África ocidental. salientando como a circulação de modas.

muitas vezes como primeira etapa de uma deslocação mais definitiva para Bissau. quem desse um passeio na Praça de Bubaque no Sábado a noite. criativa e crioula. considerado com desprezo como atrasado. primitivo e não civilizado. Estas interpretações tristo-tropicalistas baseiam-se sobre uma ideia de imobilidade e autenticidade das culturas que a antropologia recusou em nome de uma imagem mais dinâmica. Weiss 2002). Paralelamente ao que acontece em outros lugares em África (Larkin 2000. Em particular. um estilo que os rapazes chamam cool. a estética do cool em Bubaque tem muito a ver com ícones de sucesso global da cultura negro-americana. para o cuidado do seu aspecto segundo cânones que se referem à uma circulação mais ampla de estéticas e atitudes. Definindo-se a si mesmos como “desenvolvidos”. É também uma maneira de andar. urbanos. Um dos aspectos mais sobressaliente dos jovens que vivem neste espaço são as suas narrativas modernistas. de cumprimentar os amigos. como também um lugar de acção social e política. ténis de marca. de falar. como temos que interpretar estes aspectos da cultura material? A antropologia já salientou muitas vezes nos últimos anos como estes traços não podem ser facilmente considerados aspectos de um processo de homogeneização devido à ‘globalização cultural’. Uma das modalidades mais espectaculares de expressão desta diferença. educados. nomeadamente a cultura do hip-hop. a capital do país. as roupas. ficaria surpreendido para o cuidado com quem rapazes e raparigas se vestem. para a constituição e como ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . chapéu de baseball e absurdos óculos de sol nas escuras noites de Bubaque. Estas aproximações consideram o vestuário como sinal e como objecto de consumo: um campo de representação social onde identidades individuais e sociais são criadas. de tratar com as meninas.2 em África. os jovens da Praça contrapõem-se ao mundo das aldeias. Ora bem. Ser cool não é só vestir gangas. as mais recentes leituras antropológicas interpretam a moda como uma prática social que visa à formulação e a expressão da identidade e a significação de diferenças sociais. todos respondem a uma estética. Em termo gerais. mediada e reinterpretada por os artistas da cena musical Africana e Lúso-Africana em particular. e das práticas de consumo em geral. caracterizadas pelas oposições próprias da ideologia da modernidade. os corte de cabelo. De facto a Praça tem atraído nos últimos anos muitos jovens que queriam abandonar o sistema tradicional de produção da aldeia. é a atenção que os jovens demonstram pela moda. A relevância dos hábitos. se adornam: as atitudes.

Para a maioria deles a Praça é o lugar onde alguém tem que se vestir correctamente. são compreendidas melhor como praticas de distinção do mundo das aldeias e como afirmação de uma identidade urbana e moderna 2 . a cultura da modernidade dos jovens da praça não pode ser compreendida sem referencia à estrutura social das aldeias. e portanto não têm acesso à terra e às mulheres. eficaz para marcar o distanciamento dos valores e hábitos da aldeia. As suas críticas baseiam-se na contraposição entre dois termos chave: desenvolvimento por um lado e cultura do outro. que visa a considerar esta actividade como uma forma de produção cultural e de construção de identidade. e movendo para o um paradigma da crioulização. Segundo esta abordagem. manifestando ao mesmo tempo proximidade com o ambiente moderno da Praça. de facto. foi também considerada produtivamente pela antropologia do consumo. O cuidado pela moda. 2 Mas para perceber melhor é preciso dar alguns detalhes sobre o conflito generacional que opões jovens e anciãos. é verdade que se nos condenamos o consumo como emulação ou imitação. evidente nas palavras dos jovens. em acordo com estratégias locais de identidade e de distinção social. à moda. As roupas são também um sinal de 'civilização' e de 'desenvolvimento'. Em particular o conceito de distinção pode dar nos umas pistas importantes. de autonomia e de autenticidade. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . A iniciação divide a população masculina em dois grupos opostos: os que já adquiriram o estatuto de homem adulto e os que ainda são “crianças”. nós denegrimos as capacidades criativas e expressivas das pessoas de apropriar-se e de usar bens estrangeiros para o próprio propósito. quase um palco da modernidade. rejeitando firmemente o paradigma da homogeneização global. a subordinação dos jovens aos velhos é um elemento essencial da organização social: tornar-se ancião é um processo complexo que exige a passagem através vários graus de idade e o pagamento contínuo aos membros das classes de idade superiores. as características da cultural juvenil que temos salientado. De facto. é que supera a retórica modernista que condena o consumo de produtos globais ou estrangeiros em contextos locais como perca de identidade. adquire um valor especifico e profundamente local. Neste contexto. acho que podemos considerar a pratica do vestir cool em Bubaque como uma forma de apropriação de produtos e imagens com circulação transnacional. Um dos méritos fundamentais desta abordagem. A contraposição ideológica entre “tradição” e “modernidade”.3 marca de identidade. pode ser de facto interpretado como mais um signo de distinção do mundo rural da aldeia que os homens jovens querem exibir no contexto urbano. Os rapazes que abandonaram as aldeias para viver na Praça criticam as normas éticas e as instituições “tradicionais” e tentam subtrair-se a estas relações de poder. conferindo voz e descrevendo em termos reconhecidos uma dialéctica generacional. No interior das dinâmicas modernistas. Sem esquecer as geografias ocultas de produção que também fazem parte das relações sociais de consumo.

um rapaz de 17 anos que entrevistei em Bubaque. nem com a imitação de uma cultura hegemónica. A noção de estilo cultural pode então oferecer uma solução original ao problema da definição de modernidade local e nesta direcção já foi utilizado por James Ferguson na Zambia (Ferguson 1999). voltei para a aldeia. foi proposto nos anos Setenta pelo Center for Contemporary Cultural Studies na análise das sub-culturas juvenis no Reino Unido. De facto. o que eu quero propor aqui é a possibilidade de uma interpretação original deste tipo de características culturais. colegas. Segundo esta abordagem. realizadas (enacted) 3 The notion of signifying practice was initially elaborated in France by the Tel Quel group. Comprei a minha roupa. Eu percebi que não é uma vida boa porque eu vim na Praça. não tem a ver nem com o fim da tradição face ao avançar da modernidade. vesti os meus vestidos na aldeia em frente dos meus colegas. se utilizarmos um conceito que não é propriamente antropológico: o de ‘estilo cultural’. uma aproximação sociológica à moda e às práticas de consumo que realça a sua relevância quer para marcar e elaborar um estilo de vida distinto. o contraste entre ‘moderno’ e ‘tradicional’. Vim na Praça. então fui para a aldeia e percebi que não era possível viver assim para um ser humano. como eles se vestiam (é ta bisti). a noção de estilo como prática significante pode também nos oferecer explicações alternativas e não-essencialistas sobre como a diferença não só é significada e marcada. vender mangas. alguém fica na rua com o traseiro de fora. vi os meus colegas. são duas práticas simbólicas socialmente posicionadas. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Sem fazer referências aqui aos que salientaram a função de distinção de algumas prática de consumo (nomeadamente Veblen 1998 e Bourdieu 1979). onde a noção de estilo como ‘prática significante’ 3 é proposta para explicar como a diferença é activamente produzida e utilizada em uma sociedade. no seu significado local. deu-me um relato extremamente significativo neste sentido: Mas ao final eu percebi que aquela vida [na aldeia] não é uma boa vida. bem como para a construção da diferença e a produção de identidade. em direcção de uma aproximação performativa e prática às identidades sociais. Eu percebi que esta coisa é ma. Aliás. como eles se vestiam… as vezes na aldeia. mas produzida por essas mesmas práticas em um contexto social. Moderno e tradicional. O texto fundamental desta abordagem é Subculture: the meaning of style do Dick Hebdige (1979). Assim foi à Praça.4 Xarife. e eles olhavam para mi com admiração. E vi algumas pessoas.

O estilo cultural é uma capacidade de utilizar e manifestar signos em uma maneira que posiciona o actor em relação a categorias sociais relevante. os fantasmas da Europa e do Ocidente. os óculos de sol. enfatizando o caractere consciente. da qual as roupas também fazem parte. Embora seja verdade que um estilo não é o resultado exclusivo de escolhas individuais e que as pessoas também são limitadas em parte por condicionamentos económicos e sociais. E é em relação a estes fantasmas que. por outro o Estado pós-colonial. em conclusão. que vê por um lado os anciãos na aldeia. construído e cultivado dessas práticas. e os ténis Nike para voltar a vestir uma máscara cornuda e tornar-se novamente 'verdadeiros' Bijagós de aldeia. um aspecto importante da cultura material dos jovens. um estilo é claramente pelo menos em parte uma actividade. Não se trata de manter que os indivíduos flutuam livremente num oceano de signos que eles podem apropriar e utilizar a vontade para se construir uma identidade ad hoc. mas que se trata de ‘práticas encarnadas. no horizonte. Ser cool para os jovens em Bubaque não é simplesmente um estilo que se pode mudar ou adoptar ao acaso. A atitude cool dos jovens.5 em uma conjuntura social e político-económica específica. É uma competência performativa que tem que ser aprendida e interiorizada: é uma estratégia de sobrevivência em uma situação de poder tensa. Os jovens do Praça não eram actores que ao fim do espectáculo tiravam os seus chapéus de baseball. um processo motivado de auto-construção: é neste sentido que poderíamos utilizar uma ideia de cultivação de estilo. e. Isto não significa claro que os jovens recitavam . executadas com êxito’ (Ferguson 1999: 98). As pessoas sempre vivem naquela área posicionada entre a lógica microsociológica da situação social e as estruturas globais e regionais da economia política. na qual as pessoas improvisam estratégias duráveis e motivadas de auto-construção e apresentação. Afirmar que modernidade é uma questão de estilo não significa dizer que é uma questão de possuir um certo tipo de vestidos. que envolve quer uma deliberada auto-construção quer determinações estruturais. um processo em parte consciente como também inconsciente.no sentido que nós geralmente damos a este termo .e que o seu teatro terminava ao fim do dia. deixando espaço para identidades mais autênticas. pode bem ser considerada como um aspecto de um ‘estilo cultural’ em quanto conjunto de práticas que significam diferenças e alianças entre as categorias sociais. não podem não ser ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .

2000. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Amherst (NY). Subculture: The Meaning of Style. FERGUSON. 1979. com a qualidade material das coisas em si.6 salientado. Pierre. Berkeley. 168 (XLII-4): 739-762. Thorstein. 1979. Dick. Globalization and Urban Experience in Nigeria”. na articulação e na dialéctica entre apropriação e sedução. Expectations of Modernity. Referências bibliográficas BOURDIEU. WEISS. Methuen. Pessoas com um gosto. questão que não acaba de suscitar debates. Myths and Meanings of Urban Life on the Zambian Copperbelt. 1998 [1899]. questionar e investigar a origem do valor destes aspectos da cultura material. Esta abordagem nos permite por um lado dar uma imagem mais concreta e realística dos jovens. Cultural Anthropology 17(1). que não são só actores sociais cientemente utilizando signos de distinção. Brian. Paris. London. “Thug realism: inhabiting fantasy in urban Tanzania”. University of California Press. que a investigação sobre a cultura material tem que focar a sua atenção. James. Por outro lado nos permite. um aspecto que nos permite de adicionar mais uma perspectiva à puramente semiótica até agora salientada. La distinction. Prometheus. fascinados e seduzidos pela materialidade das coisas. VEBLEN. Critique sociale du Jugement. pelo seu caracter estético. mas indivíduos vivos. um sentido da beleza. Brad (2002). A relação que os jovens têm com a materialidade das coisas não é só puramente semiótica. 93-124. 1. The Theory of the Leisure Class. mais criticamente. 1999. HEBDIGE. “Bandiri Music. Acho que é exactamente neste ponto. mas tem também a ver com fascinação e sedução. LARKIN. Les éditions de minuit. Cahiers d’Études Africaines.

Centro de Estudos de Antropologia Aplicada.IV – Capítulo Processos de Integração Social e Económica de Imigrantes Textos de comunicações do painel: Processos de Integração Social e Económica de Imigrantes Alcinda Cabral. Universidade Fernando Pessoa. Porto ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .

Palavras-chave: Antropologia. In the last years the world economy has been changing deeply. Por este motivo. The search for competitiveness is more and more concerned with the search for the optimal systemic beyond citizenship frontiers. a sociedade que o acolhia não solicitava a adesão a seus valores. A busca da competitividade relaciona-se cada vez mais com a busca do ótimo sistêmico das fronteiras da cidadania.br Nos últimos anos a economia mundial tem sofrido mudanças importantes. Introdução Pertinente aos imigrantes brasileiros em Portugal. aquisições e alianças estratégicas têm se multiplicado. Imigração. sociedade. jurídicos e comunitários. Most of these changes are related with deep modifications in the value systens. Cidadania. Antropologia Jurídica. Fusões. De inicio a figura do imigrante encontrava-se relacionada à figura de trabalhador. não integrando de forma plena e efetiva aquele ser humano oriundo ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . éticos. Parte considerável destas mudanças relaciona-se com profundas alterações nos sistemas de valores de todos os segmentos sociais. Neste contexto.Porto Portugal carlosluizjr@terra. acquistions and strategic alliances are multiplying everywhere. importante traçar-se panorama deste individuo pertencente a este coletivo com o intuito de se proteger com políticas públicas efetivas a devida integração na sociedade que o acolhe sob vários enfoques. a convicção de que voltaria ao seu país de origem uma vez que sua atividade laboral se findasse. as ciências humanas ganham nova dimensão. Existia. juridique and with your community. ethical. para tanto. encompassing the integration of all activitis related to the social vlue system. em especial ao que tange a função desempenhada por este cidadão no mercado laboral. Fusions.Cidadania e o Homem: construção de uma sociedade integrativa Carlos Luiz Cerqueira Junior CEAA . Within this context. the human sciences gains a new dimension.Centro de Estudos em Antropologia Aplicada .com. affecting all society. envolvendo a integração de todas as atividades ao longo cadeia de valores sociais.

ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . enquanto fator propulsor de desenvolvimento local. interagindo com a sua comunidade no intuito claro de trazer-lhe melhoras e benfeitorias. reduzido e heterogêneo. relacionando os factores endógenos do país de origem em face da perspectiva de construção de vida digna e construtiva. Brasil-Portugal. da nacionalidade e do estrangeiro. Diante de tais fatos. a aceitação do outro sob o olhar justo. aos quais se refere como transição migratória histórica à demográfica econômica. onde se inclui a discussão da ciência em proveito do desenvolvimento social e humanitário. I. cujos factores sociais. em especial àquela migração evidenciada no sentido sul-norte. e sobretudo da discussão acerca da cidadania. Assim. que invariavelmente desenvolvia atividades para aquela comunidade receptora. desde o momento que sua permanência no país recorrido. vai se convertendo em definitiva. ou seja. assim como delinear seu estado cidadão. equânime e legal do Estado e da sociedade acolhedora.2 de outra cultura. traduzindo a função social e política do homem – a esta função se atribui o caráter necessário da delimitação da importância da cidadania como fonte primária desta pretendida estabilidade a que o homem pretende e deseja. encontrando respostas para o dilema hoje vivenciado na antropologia jurídica. Esses fluxos têm-se alterado em dimensão e direção de acordo com as fases de transição económicas. Todavia. Este primeiro grupo que emigra era. qual seja. o Estrangeiro e sua Política de Integração Diante do panorama atual. deseja-se demonstrar o perfil do imigrante brasileiro em terras portuguesas. imprescindível saber o efetivo conceito da importância do ser humano. seus modos e seus projetos de inserção nesta comunidade tão parecida e ao mesmo tempo tão distante dos hábitos imigrantes. Nas sociedades modernas tem-se obtido relevo a questão associada aos fluxos migratórios da humanidade. fundamentalmente. económicos e financeiras não esgotam a pluralidade de motivos propulsores do evento migratório. em particular ao nosso estudo Portugal. A Cidadania. imprescindível situarmos a questão relativa à política migratória travada entre Portugal e Brasil nos últimos anos.

leva-se em consideração a clara aparência de culturas. Diante deste cenário. através dos quais quase um milhão e meio de pessoas (IBGE:2004) estão chegando anualmente à Europa e América do Norte. em face dos acontecimentos políticos e sociais à época evidenciados. Observa-se. diversos estudos foram realizados em Portugal e em Brasil. qual seja. aqueles na direção SulNorte. cujo país submergia em profunda crise política junto ao uma falta de perspectiva de crescimento sócio-económico. portanto. ao passo que evidenciamos a ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . A isto se deu pelo fato da crescente isenção estatal em desenvolver políticas determinadas de identidade cultural e social do seu povo. a procura de profissionais cuja qualificação se amolda aos padrões internacionais. uma política dualista. social e educacional em franco declínio no país.3 O aparente paradoxo dos fluxos migratórios mais recentes. justificando a imigração sempre temporária. a ruptura do conjunto econômico-social na Europa estimulou a imigração de mão-de-obra menos qualificada. com políticas de identidade cultural. Tais estudos deram inicio na década de 40 (quarenta) quando se efetivou a corrente migratória a Europa. língua e identidade antropológica referente ao caminho sul-norte. Acerca dos assuntos. notadamente o Brasil. em busca de atividades acadêmicas enriquecedoras. cujo contexto de crise de estrutural nos países de destino impulsiona à procura por outras culturas. muitas vezes opondo-se aquela a esta. permitindo a aproximação cada vez mais freqüente da cultura local com o estrangeiro. demonstrando determinado enfraquecimento da conjuntura educacional interna brasileira. outros recursos não restaram aos cidadãos senão buscar no estrangeiro à sustentação financeira. Após o advento da II Guerra Mundial. corroborada pela falta de perspectiva de desenvolvimento sustentável nos países de emigração. o Brasil ingressa no circuito das migrações internacionais. região escolhida para fixar residências e outros critérios de aderência do imigrante. apresenta-se por fator determinante o aspecto social e econômico. se não poderia o estado criar e sustentar vias de acesso à manutenção da ordem interna. sempre em busca de melhor avaliar as correntes migratórias firmadas entre os dois países. cabendo ao país receptor (Portugal) analisar as questões pertinentes ao grau de escolaridade.

Estudos recentes realizados pelos dois países demonstram duas categorias efetivas de migração. língua e costumes colonizadores. a exemplo da própria inclusão de Portugal na União Européia. mesclando seu conhecimento adquirido com a vivencia em novas culturas. levando-se em consideração os diversos fatores externos que influenciam na reestruturação destes estatutos. Passados alguns anos. perspectivas laborais e inclusão social. A saber. referente aos profissionais de formação técnica e científica. cujas causas e razões estimulantes à migração se distanciam de forma latente. havendo clara formulação de estudos. sempre em busca de equilíbrio das políticas migratórias. cujo efeito imediato foi o reexame das políticas bilaterais com o Brasil visando à adequação da legislação lusitana àquelas impostas pelo pacto comunitário europeu. vejamos. duas correntes diferentes. observamos a existência de dois mundos distintos e paradoxais. em face dos constantes estudos realizados. referente às pessoas sem grau de escolaridade e ou econômico satisfatório. embora se tenha em mente as adversidades tratadas.4 procura especial por Portugal pelos menos qualificados. programas e estatutos que evidenciam a esta política humanitária. em especial a inclusão do cidadão e do estrangeiro frente à nova ordem mundial – a globalização e os mercados comunitários. A segunda. primeira. em face da semelhança de cultura. Assim. não podemos deixar de citar aquelas pertinentes a OPLP (Organização dos Paises de Língua Portuguesa) com significativos contributos na formação de medidas de acolhimento do colectivo imaginário desta comunidade lingüística. vários foram – e ainda são – os Tratados e Acordos bilaterais chancelados entre os citados Estados. ainda continua reflexo da irmandade cultural. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . modernamente se tem um espelho efetivo das correntes migratórias entre Brasil e Portugal. consubstanciando a sua migração em busca de novos mercados. Todavia. racial e lingüística a migração de brasileiros para terras Portuguesas. cujo interesse nos países desenvolvidos se amoldam na busca de qualificação profissional e acadêmica.

5 Pertinente à primeira situação. Cabe ressaltar que nem sempre se encontra no país receptor tais políticas dignas e de recepção ao imigrante. palestras. leva o cidadão a busca de novas fronteiras. não se pode deixar de ressaltar o papel das entidades de acolhimento aos imigrantes no esforço em fazer cumprir em território português a legislação comunitária pertinente ao reagrupamento familiar. não lhe restando alternativa senão vender de forma irresponsável a sua força de trabalho em países em troca de tratamento sério e digno as condição de cidadão. buscando a inclusão menos traumática para este individuo na cultua local. o Estado Português em busca de novas tendências de inclusão local do imigrante tem desenvolvido políticas próprias e sérias para o enquadramento da imigração legal. ademais. cujo afastamento das classes menos favorecidas ao acesso dos meios justos e honestos de emprego. ano base 2004). seguridade social e saúde pública. a política de acolhimento do imigrante sem os freqüentes questionamentos de raça. cujo intuito é diminuir o sofrimento dos imigrantes que partem deixando sua família no Brasil. demográfica (povoamento de locais não desejados pelos habitantes locais. Estudo realizado por tal entidade revelou que os imigrantes influenciam e enriquecem a pátria portuguesa frente às questões de ordem financeira (65 mil contos investidos no país. A exemplo de tais assertivas. cite-se a excelente lição oferecida pela ACIME – Alto Comissariado para a Imigração e Minorias Étnicas. A nível europeu. importante que se observe o cenário económico e as perspectivas sociais existentes no Brasil. encontra-se o país envolvido em grave crise de inclusão social ao longo das última duas décadas. A isso se dá em face da completa exclusão social do ser humano (do indivíduo) na realidade que o cerca no Brasil. cujo trabalho realizado orienta com cartilhas. levando-se em conta. natos) e cultural (sociedade diversificada com perspectivas de aberturas de mercado). ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . identificando-se com o país em face da identidade lingüística. cor e escolaridade. centro de acolhimento e frentes próprias de trabalho e inclusão social. acreditando realizar em um novo país as perspectivas frustradas na sua pátria de origem. Mesmo diante de situações adversas na política internacional.

6 Com efetividade a este programa. quais sejam. somente no Brasil encontram-se os investimentos portugueses na ordem de bilhões de euros. inclusive com investimentos sólidos e altos nos países em desenvolvimento. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . com a inclusão de novas perspectivas econômicas. eis que as causas de sua busca migratória e a retórica desenvolvimentista. buscando na fonte as novas técnicas e meios científicos. contribuindo de forma clara na agregação deste ser na comunidade acolhedora. não mais deixando na marginalidade os agregados da imigração. Destarte. pois. violência e usurpação de postos de trabalhos locais pelo imigrante brasileiro. Diante de tais fatos. havendo o favorecimento ao imigrante legal que traga ao seio da sociedade acolhedora aqueles entes familiares (cônjuges e filhos) para a formação da entidade familiar. aqueles que migram em busca de melhores condições profissionais e ou em face do melhor aproveitamento acadêmico em Portugal. necessidade de se incluir em uma sociedade plural justa. retribuindo-lhe com o reconhecimento prático da sua força de trabalho. não havendo dessa forma qualquer vínculo e ou relação direta entre a elevação das taxas de desemprego com a corrente migratória evidenciada. trata-se de questão humanitária de fiel recepção dos familiares. colocando Portugal na segunda posição de investimentos internos no Brasil nos últimos cinco anos. demonstra-se a urgente necessidade de se delinear o efetivo papel do Estado nas políticas migratórias quando se tem por objeto o imigrante sem qualificação social. desejando realizar em Portugal trabalhos de aprendizado. Outro fator de observação importante na consideração dos imigrantes são aqueles apontados por pesquisas recentes demonstrando a desvinculação entre os índices de violência. encontram-se os imigrantes integrantes da segunda categoria ou gênero. é. emprego e exercício do direito de integração entre os nacionais e os imigrantes. financeiras e sociais cuja economia local alcançou níveis altíssimos. qual seja. cultural e ou econômica. a ruptura entre desemprego. que respeita as condições humanas. buscam os profissionais brasileiros qualificados e ou em vias de qualificação um melhor aproveitamento desta política de investimentos e desenvolvimento econômico. Frise-se que as condições profissionais portuguesas após a sua inclusão no mercado comum europeu se deu de forma alarmante. De forma distinta.

diametralmente oposta encontram-se aquel’outros que migram frente a necessidade de melhorar suas condições humanitárias. civil. inobstante a categoria que possa vir a integrar-se. volta-se a se a realizar as constantes indagações acerca da urgente e necessária diretiva acerca da cidadania. próxima dos grandes centros internacionais e integrante do maior e mais rico continente do globo. adquiridos ou natos. sendo o cidadão aquele ser humano que possui o exercício e gozo dos direitos civis. a exemplo da Constituição Européia que assim o deseja. exceto quanto aos direitos políticos. do estrangeiro e do individuo. Com referência aos imigrantes acadêmicos. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Posta tais questões. convertendo seu conhecimento em garantias de melhores condições de empregabilidade e inclusão profissional. Assim. pois estes são inerente dos nacionais. ai se incluem aqueles que buscam na pátria acolhedora o fortalecimento dos conhecimentos científicos e acadêmicos. ou seja. buscando a atualização profissional a ser aplicada no seu país de origem. tem a comunidade de imigrantes brasileiros constituído-se naquela que mais cresceu desde o final da década de noventa até os dias atuais. eis que não possuindo grau de instrução e ou condições próprias necessárias para se fazer incluir em mercado de trabalho ríspido no Brasil buscam em Portugal uma fonte de nova vida. eis que a sua satisfação migratória se deu em face da necessidade em melhor aparelhar seus currículos e estudos no exterior. econômica e laboral do estrangeiro.7 De igual sorte encontram-se os profissionais em busca de novas perspectivas acadêmicas. novas perspectivas em uma pátria rica. peculiar interesse têm em desenvolver técnicas de aprendizado e melhor aproveitamento das teses e conhecimentos do velho mundo. em face da sua inclusão na sociedade. a Europa. quer se enquadrem no gênero de imigrante sem a devida escolaridade ou integrante do grande sistema de inclusão social no país emigrante (Brasil). desenvolvida e próspera. consolidando-se como o grande coletivo de imigrantes que povoa o território português. em face da concentração secular de boas escolas e centro de estudo. Sendo o ser humano aquele capaz de lançar-se em busca de novas perspectivas vitais. necessário se faz a reflexão sobre a necessidade de se admitir a inclusão social. Vislumbra-se que tais pessoas retornam na sua maioria ao seu país de origem. como são conhecidos nos centros de estudos migratórios.

reconhecendo o efetivo ajuste desta sociedade sob ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . faz-se indagar: é fundamental diminuir a influência do estado na construção de uma nova acepção sobre as estruturas de um novo regime democrático.8 quer sejam aqueles que buscam um aperfeiçoamento no seu grau de enriquecimento humano. a cidadania do imigrante somente poderá se efetivar quando o Estado reconhecer a necessidade de se desenvolver políticas publicas adequadas à inserção deste coletivo sob o prisma do reconhecimento social via inserção laboral. eis que somente a adoção de políticas adequadas ao reconhecimento da força ativa em proveito da construção da sociedade que o acolhe o cidadão imigrante poderá sentir-se fortalecido o suficiente para aceitar a integração plena. Conclusão Tais questionamentos refletem a ligação do homem como reflexo da sociedade na qual se encontrar engajado. atendendo-se aos anseios da cidadania? Qual o retorno. os diminutivos culturais e o temido choque de costumes. quer como elemento de desenvolvimento social. democrática. muitas vezes arrasadores na aceitação do coletivo ante a nova perspectiva de vida por ele sonhada ao chegar na sociedade que o acolhe. buscando no país receptor (Portugal) a pátria que poderá conceder melhor perspectiva de engrandecimento intelecto-social. Em conclusão. sem fazer delinear para com os seus novos compatriotas as diferenças. não se pode deixar de auferir que a cidadania é elemento constitutivo da sociedade devidamente instituída e legalmente formada. trazendo para o conjunto de análises da constituição de uma sociedade integrada o respeito na elaboração de políticas públicas exigíveis no plano da migração. quer na qualidade de vetor imprescindível a este desenvolvimento. do esforço de se alertar as novas gerações sobre tais questões que preocupam a sociedade moderna. em especial a necessidade de cobrança da atuação efetiva e proactiva do Estado e das demais Instituições em favor da formação do Homem? Desta forma. ao que tange à formação de uma consciência política e social. posto que o retrato da democracia nestes países assolados pela falta de investimentos de base e total desrespeito ao homem e a cidadania.

(1996). edição 2005. RAMOS. traçando um panorama plausível na elaboração de meios reais para melhor acolher o imigrante brasileiro em Portugal. MacGrawhill. Ética. ed. Da Comunidade Internacional e do seu Direito. (1986). Madrid. levando-se em consideração os conceitos básicos de similitude de cultura. Paulos. Ética e Política em Aristóteles: physis. Referências Bibliográficas ETKIN. La doble moral de las organizaciones. Civilização Brasileira. VASQUEZ. Adolfo. MOURA. (1998). ACIME – Alto comissariado para a Imigração e Minorias Étnicas. Coimbra editora. Laércio Dias. VERGINIÈRES. Ethos. Solange. nomos. Makron Books e PUC – RIO. Rui Manual Gens de Moura. (1997). _______ Imigração: os mitos e os factos. língua e hábitos similares entre tais coletivos. Rio de Janeiro. Construindo a cidadania. Coimbra. São Paulo. Los sistemas perversos y la corrupcion institucionalizada. (1996). São Paulo.9 o ângulo do imigrante que se insere na comunidade que o acolhe. assim como analisando de forma plena as políticas de acolhimento. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Jorge.

Discurso político e integração de imigrantes: uma análise do discurso parlamentar Cláudia Toriz Ramos Centro de Estudos de Antropologia Aplicada . parlamento. mas também a forma como essa dimensão se cruza com o pragmatismo político-institucional. a decorrer no âmbito do projecto Processos de integração social e económica de imigrantes do Centro de Estudos de Antropologia Aplicada da Universidade Fernando Pessoa. Com particular recurso aos debates plenários. aborda o modo como o discurso político constrói a integração de imigrantes. o trabalho abordará não apenas a dimensão da construção ideológica associada ao discurso de cada uma das forças políticas representadas no Parlamento português. O presente trabalho. uma explicitação do plano e pressupostos da pesquisa em curso. uma apresentação de ideias emergentes de trabalhos recentes de análise do discurso parlamentar.pt Universidade Fernando Pessoa . ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Estrutura-se em torno de três itens fundamentais: uma abordagem breve à análise de discurso. Palavras-chave: imigração. discurso político. as linhas estruturantes das posiçõestipo assumidas em matéria de imigração pelas diferentes forças políticas em presença. no actual contexto político português. análise de discurso.Porto cramos@ufp O presente texto apresenta o ponto de partida metodológico e as linhas gerais da operacionalização de um estudo decorrente sobre discurso político parlamentar e integração de imigrantes. de forma diacrónica. nas ciências sociais e política. mas atendendo também ao enquadramento do processo legislativo. nomeadamente nas vertentes da discussão e tomada de decisão legislativa e do controlo da execução de políticas. Centrando-se no discurso político parlamentar. integração. o projecto procura identificar.

por relação com o âmbito teórico e temático da antropologia. Se abordados os suportes teóricos e filosóficos dos diversos modos de análise do discurso encontra-se também uma pluralidade de posicionamentos. Em comum. uma apresentação de ideias emergentes de trabalhos recentes de análise do discurso parlamentar. de forma mais lata. 2001a). terão a acepção de que o discurso é parte da acção social e como tal pode ser estudado. Estando esta abordagem na sua fase inicial. 2001. a ciência política e as ciências da comunicação usam de forma recorrente a análise de discurso. centrada no modo como o discurso político parlamentar constrói a integração de imigrantes. mas também a sociologia. do ponto de vista disciplinar. mas sim o plano que para ela foi gizado e a sua razão de ser. um breve apontamento acerca da análise de discurso. no quadro teórico e metodológico das ciências sociais e política. Taylor e Yates. Taylor e Yates. encarada na perspectiva das metodologias de investigação das ciências sociais. a linguística. uma explicitação do modo de operacionalização da presente pesquisa. 2001a). para os objectivos do presente trabalho. o terceiro. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . corresponde a um vasto campo de estudo que toma o discurso – oral e/ou escrito – como objecto. referir. o segundo. 2001. que não caberá. tais abordagens subdividem-se numa pluralidade de práticas investigativas. A análise do discurso político A análise de discurso. deve ser colocada. não se pretende apresentar resultados. Daí decorre também a análise das interacções inerentes ao diálogo entre os falantes e. não necessariamente contínuas entre si (Wetherell.2 Esta comunicação corresponde a uma notícia preambular sobre essa perspectiva de abordagem à problemática da imigração. O texto que se segue estrutura-se em torno de três itens fundamentais: o primeiro. Esta linha de estudo. a antropologia. para o contexto parlamentar português e para o tema da imigração. sendo assim este um contributo transdisciplinar. Ao presente. sobremaneira. do contexto social do discurso (Wetherell. Do ponto de vista metodológico. a psicologia social. no âmbito dos estudos de ciência política sobre discurso político parlamentar.

porque. 2006). Poder-se-ia dizer que a política democrática começa no discurso e por vezes mesmo nele se finda (Chilton. cujas características cabe analisar. a análise de discurso pode centrar-se “apenas” neste. Definem-se. Por um lado. a palavra assume um papel nuclear na explicitação de ideias. As abordagens ditas cognitivistas tenderão a procurar aplicar parâmetros de verdade ou falsidade ao discurso. também uma abordagem em expansão. 2004: 6). construídas através do discurso. É corrente que tais análises se centrem no estudo das “estruturas de sentido”. Neste sentido. assim. na captação de adesões. na tomada de posições públicas. ou pouco razoáveis (2004: 199. Em alguns casos. e ao contrário do que o senso comum frequentemente afirmará sobre o mesmo. traduzido). Chilton (2004: 21). Diez. independentemente de referenciais de verdade ou falsidade. 2006. no entanto. ressalvando-se a sua maleabilidade a diferentes abordagens teóricas de fundo. Isto é. Waever. considerando-o interessante por si próprio. no contexto da política democrática contemporânea. em declarações públicas as estruturas e os padrões que regulam o debate político fazendo com que algumas coisas possam ser ditas enquanto outras seriam sem sentido ou menos fortes. a acção política é o próprio discurso (Chilton. “comunidades de discurso” (Porter. por relação com o pensamento. Ver. a abordagem ao discurso é entendida essencialmente como uma metodologia.3 A análise do discurso político é. 1997. as percepções e as crenças dos sujeitos. em sentido lato. nos planos teórico e metodológico. 2004: 6. Todavia. 2001. em diversos âmbitos da ciência política. Waever afirma 1 : A análise de discurso procura identificar. nos paradigmas construtivistas e pós-estruturalistas aplicados à ciência política (Adler. na argumentação e contra-argumentação de causas. Hansen. Rosamond. 1992) específicas do âmbito da política. considerando-o circunstancial ou mesmo Também em Waever: «…a linguagem é um sistema e podemos estudar a sua estrutura como um estrato separado da realidade» (2002: 29). numa perspectiva ligeiramente diferente. 2001. Outro aspecto salientado pelo autor é o das características de sistematicidade e coerência do discurso político. Muitos dos estudos recentes baseados nesta abordagem filiam-se. 1 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Hansen. 2002). Por outro porque. enquanto construção mental ou realidade ideada.

os que são responsáveis. traduzido). e os que têm os meios e a oportunidade de resolver esses problemas (cit. Do ponto de vista metodológico este modelo de abordagem releva mais da hermenêutica do que dos métodos analítico-dedutivos. 2001). Wodak e Meyer. que procuram identificar padrões de conjunto do quadro conceptual do discurso político. centradas em técnicas linguísticas de análise detalhada do texto (Waever. nomeadamente do político. Meyer afirma: «As teorias do discurso visam a conceptualização do discurso enquanto fenómeno social e procuram explicar a sua génese e a sua estrutura. ao distinguir teorias do discurso de teorias linguísticas (Meyer. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . 2001:1. da retórica. a abordagens “micro”. mas também uma larga análise de contexto. O autor contrapõe abordagens “macro”. outras questões. Esta escola tem desenvolvido o seu trabalho com relação com a “teoria crítica” e assume posicionamentos normativos. por exemplo. Veja-se por exemplo a afirmação de van Dijk: Para lá da descrição ou de aplicações superficiais. entre outros: os de Siegfried Jäger. dos interesses ou da ideologia. Esta distinção é também utilizada por Meyer.4 errático. os de Reisigl e Ruth Wodak (2000. e analisa criticamente os que estão no poder. a ciência crítica formula. Em vez de focar problemas puramente académicos ou problemas teóricos. Uma outra linha de abordagem define-se no quadro da chamada “análise crítica do discurso” a qual conjugará ambas as dimensões. tias como as da responsabilidade. 2004: 201). traduzido). 2001: 19-20) 2 . embora com terminologia algo diferente. Um terceiro aspecto prende-se com os tipos de análise de discurso em presença. 2002: 30. este revela uma estruturação interna sólida e continuada. procuram descrever e explicar o padrão específico dos sistemas de linguagem e da comunicação verbal» (2001: 19-20. em cada domínio. em associação com a ideologia e as relações de poder (Fairclough. traduzido). São exemplos de estudos desenvolvidos nesta perspectiva. O autor afirma: “Os analistas do discurso estarão mais frequentemente interessados em perceber como um político argumenta do que estarão interessados no que ele diz. Tirar daí consequências para a acção política é assim intenção expressa. teorias da argumentação. da gramática. in Wodak. parte de problemas sociais prementes e consequentemente opta pela perspectiva dos que mais sofrem. M. sobre os discursos de extrema direita na Alemanha (2001: 32). 2001) que publicaram «The semiotics of racism» e 2 A este propósito.» (Waever./ As teorias linguísticas. 1995. por enquadrar técnicas de análise linguística.

não sendo um exercício novo. um bom exemplo é a obra editada por Waever e Hansen (2002) sobre identidades nacionais no contexto da integração europeia.d. Desse ponto de vista. ganha todavia novas perspectivas. não procura chegar ao pensamento ou aos motivos dos actores. Suécia. Este último aborda o discurso do anti-semitismo. respectivamente sobre identidade nacional e integração europeia e sobre construção do Estado. em matéria de investigação politológica. (…) Se nos limitamos ao nível do discurso. Numa óptica que se reclama do pós-estruturalismo. o discurso populista e o discurso racista. no discurso político e parlamentar. a partir do qual muito do discurso nacional poderá ser gerado» (2002: 24). traduzido).). s. Afirma ainda: A análise de discurso trabalha sobre textos públicos. Tal análise visou justamente identificar e interpretar as posições chave estruturantes do ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . 2005. para os casos dos quatro países escandinavos – Dinamarca. o autor chama a atenção para a coerência das representações evidenciadas no discurso parlamentar. Rhetorics of racism and antisemitism». Os autores basearam-se substancialmente numa análise da construção das ideias de nação. cuja aparência de alguma desestruturação interna se dissolve quando se identificam os núcleos de sentido recorrentes que ele comporta (Waever. a lógica dos seus argumentos torna-se muito mais clara (Waever. de estado e de Europa. o modelo desenhado por Waever foi já aplicado ao discurso parlamentar português. 2002: 42). às suas intenções secretas ou aos seus planos. Waever apresenta a tarefa do investigador como «a procura de pequenas constelações de conceitos que produzem um núcleo de sentido. O discurso parlamentar A análise do discurso político parlamentar.5 «Discourse and discrimination. se enquadrada nos enfoques de análise do discurso acima referidos. Finlândia e Noruega. Do ponto de vista metodológico. pela autora do presente texto (Ramos. Em parte. 2002: 26.

por uma sociedade tradicionalmente de emigração e com episódios muito recentes de fortes fluxos emigratórios. entre outras. a necessidade de estudar cuidadosamente as estruturas regimentais e informais de enquadramento do discurso parlamentar. Discurso parlamentar português e imigração Como foi anteriormente explicitado. por isso. de acordo com a agenda política e parlamentar.6 discurso parlamentar. centrando-se no parlamento britânico e em particular nas sessões de perguntas e respostas (“question time”). Estão. procurando a sua correlação com o contexto político e com os posicionamentos político-partidários. para os temas mencionados. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . o presente projecto de investigação decorre do cruzamento do projecto «Processos de integração social e económica de imigrantes» com a perspectiva de investigação sobre estruturas discursivas do debate parlamentar português. Esta análise disseca o discurso parlamentar num nível “micro”. a cidadania. constitui uma hipótese de trabalho interessante mas carece de comprovação. segurança e justiça e o discurso de direitos serão também analisados. Chilton (2004: 92-109) apresenta ainda uma outra abordagem ao discurso parlamentar. Porque a questão é histórica e sociologicamente premente para a sociedade portuguesa. observando detalhadamente a estrutura das interacções (inclusivamente as não verbais) estabelecidas na arena parlamentar. são também identificadas e analisadas as alusões à emigração portuguesa. A ideia de que a questão da integração de imigrantes possa ser vista de uma forma particular. e bem assim o contexto em que as questões surgem (nomeadamente. o espaço de liberdade. A ideia de fundo é identificar no debate parlamentar as posições chave assumidas pelos diferentes partidos políticos e governo relativamente à questão da imigração. agenda política. eventualmente positiva. Deste trabalho parece ressaltar. a ser isolados e analisados os debates em que o tema é abordado. debate corrente nos media). o que poderá vir a permitir uma análise comparativa entre os discursos de imigração e de emigração. Temas circunvizinhos como a nacionalidade. o emprego. preparação prévia.

o contexto económico e social de fundo e a identificação dos momentos-chave (“critical junctures”). Encarado o Parlamento no seu interior. poderá. A análise micro. Para a análise de contexto. e uma vez que o fenómeno da imigração em Portugal tem uma forte correlação com a integração de Portugal no espaço territorial. permitindo assim a detecção dos temas que ditam ou condicionam a actividade parlamentar. é ainda relevante para a contextualização um estudo sistemático das condicionantes regimentais e do modus faciendi próprio do Parlamento português. à questão das atitudes sociais e políticas condicionantes da integração dos migrantes e ao debate sobre os modos da ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . O procedimento que tem vindo a ser seguido filia-se nas linhas gerais da orientação para a aplicação da análise de discurso às ciências políticas como a apresenta Ole Waever (detecção de estruturas de sentido. A documentação em análise é constituída pelo registo escrito dos debates plenários parlamentares. utilizam-se também materiais complementares do debate público nos media e. que ainda não foi ensaiada. a legislação relevante sobre os temas enunciados acima produzida no Parlamento. económico e político da União Europeia. nomeadamente no que respeita à hipótese sustentada numa análise comparativa. revelar-se de alguma utilidade. Entende-se que a análise diacrónica poderá acrescer à interpretação desta documentação. isto é. Por sua vez. lhe possam vir a ser acrescentados documentos resultantes de trabalhos em comissão (e eventualmente registos vídeo de uns de outros). no seu tudo. para a história da democracia portuguesa.7 O estudo pretende-se longitudinal. A análise de contexto carece ainda de uma análise cuidadosa da agenda política concomitante com as iniciativas legislativas e debates parlamentares. enunciada acima. Por sua vez. todo o processo político associado à integração europeia é relevante para a compreensão do objecto. em fase posterior. na evolução nacional e internacional da imigração. Por outro lado. os insights da análise crítica do discurso levantam um conjunto de questões que permitem reconduzir a análise do discurso à temática de partida do projecto de investigação. embora se admita que. mas é antecedido por toda uma preparação política e legislativa de que os debates parlamentares fazem eco e parte constituinte. em posteriores rondas de recolha de material. supracitada). Este desenvolve-se a partir de 1986. marcam os pontos de referência necessários a uma análise diacrónica. balizando-se entre 1976 e a actualidade. como não poderia deixar de ser.

Knud e WIENER. 2001. 3 (3): 319-363. DIEZ. Sage. o discurso parlamentar ganhará certamente acrescidas potencialidades de leitura. HANSEN. Londres. Knud e Wiener. Paul.) 2002. HANSEN. Jorgensen. Sage. Ole (eds.) 2001. no discurso político sobre imigração. maior normatividade do que aquela que é inerente a todo o acto de investigação científica. The Social Construction of Europe.). Emmanuel. Methods of Critical Discourse Analysis. Ainda assim. “Between theory. Methods of Critical Discourse Analysis. JÄGER. Routledge. method and politics: positioning of the approaches to CDA” in WODAK. 1995.). 2004. Longman. Thomas. Londres. Siegfried. De outro modo dito. The Social Construction of Europe. sendo hipótese plausível à partida que. Critical Discourse Analysis: The Critical Study of Language. Michael (eds. CHILTON. Thomas. 85-100. Taylor & Francis. 2006. não é também de excluir a hipótese de que a desconstrução desses discursos possa evidenciar atitudes bem mais reticentes do que as que aparentemente emergem da letra do discurso político. Michael. “Speaking ‘Europe’: The Politics of Integration Discourse” in Christiansen. Lene e WAEVER. Analysing Political Discourse: Theory and Practice. 2001. The challenge of the Nordic states. 14-31. Antje (eds. Thomas. Londres. FAIRCLOUGH. 1997. nas finalidades deste trabalho. MEYER. Londres. JORGENSEN. CHRISTIANSEN. Lene. Antje (eds. Sage. a tendência dominante seja a da afirmação da necessidade da integração. “Discourse and knowledge: theoretical and methodological aspects of a critical discourse and dispositive analysis” in Wodak. Ruth e Meyer. Londres. 2001. “Seizing the Middle Ground: Constructivism in World Politics” in European Journal of International Relations. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Referências Bibliográficas ADLER. Londres. não se assume. Londres.). Norman. Ruth e MEYER. No quadro da análise dos posicionamentos ideológicos e das relações de poder. 32-62. Sage.8 operacionalização de tal integração. Routledge. European Integration and National Identity. Londres. Michael (eds. Security as Practice: Discourse Analysis and the Bosnian War.

TAYLOR. important concepts and its developments” in WODAK. Londres. “Identity. The Social Construction of Europe. Sage. Lene e WAEVER.9 PORTER. Thomas (eds.).). WETHERELL. Michael (eds. Sage. Audience and Rhetoric: An Archaeological Composition of the Discourse Community.. 2001. The semiotics of racism. Cláudia.). Ruth. Oxford. 158-173. 9: 67-96. Knud e WIENER. 20-49. WODAK. Oxford U. 2001. Ole (eds. Ole. Ruth e MEYER. Londres. 2002. in a context of transnationalisation” in VIII Congreso de Cultura Europea. Ruth e MEYER. “What CDA is about – a summary of its history. “Discurso parlamentar português e construção da identidade política no contexto da integração europeia” in Antropológicas. Sage. Joseph. WAEVER. JORGENSEN. Simeon (eds.d.). European Integration Theory. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . ROSAMOND. communities and foreign policy: discourse analysis as foreign policy theory” in HANSEN. “Is Portugal a “strong state”? An analysis of Portuguese political discourse on the state of the state. RAMOS. WAEVER.P. Londres. Cláudia. Londres. Margaret. Ben. Antje e DIEZ. Antje e DIEZ. Pamplona. Simeon (eds. WIENER. Antje (eds. Univ. 2004. Routledge. Routledge. RAMOS. Navarra [prelo]. European Integration and National Identity. Oxford U. The challenge of the Nordic states. Thomas. Stephanie e YATES. Margaret. 2001. Michael e WODAK. Londres. Discourse Theory and Practice: a reader. 2005. Ole. 1992. s.P. REISIGL. p.) 2001a. WETHERELL. Methods of Critical Discourse Analysis. Michael (eds. REISIGL. European Integration Theory. Londres. Oxford. Vienna. Ruth (eds. “Discursive Approaches” in WIENER. WODAK. Discourse as Data: a Guide for Analysis. Sage. Prentice Hall. Sage. Stephanie e YATES. Londres.).). “Discourses of Globalization and European Identities” in CHRISTIANSEN. Michael e WODAK Ruth. Thomas (eds.) 2001. 1-13. Discourse and discrimination. TAYLOR. New Jersey. Rhetorics of racism and anti-Semitism.) 2000. Methods of Critical Discourse Analysis. Passagen Verlag. 2001.

o País e os que. pensam e querem o conjunto de respondentes a um questionário construído para o efeito. e. encontrarem respostas satisfatórias à instituição de uma política estratégica capaz de servir. procura-se desenhar perspectivas sobre a imigração “de baixo para cima”. No pressuposto de que a sociedade civil. Mas a norma tem sido a de fixação de “políticas” de imigração “de cima para baixo”. em forma de reflexão. mutuamente. para além do número. é referência para a fixação de qualquer contrato social.OPINIÕES E PERCEPÇÕES SOBRE A IMIGRAÇÃO: CONTRIBUTO PARA A DEFINIÇÃO DE UMA POLÍTICA DE IMIGRAÇÃO PARA PORTUGAL Rui Leandro Maia Centro de Estudos de Antropologia Aplicada Universidade Fernando Pessoa – Porto A partir do tratamento de um vasto conjunto de informações provenientes da aplicação de um inquérito por questionário a uma amostra da população portuguesa de maior idade. Introdução A imigração constitui uma matéria de enquadramento legal particularmente delicada. vindos do estrangeiro. sobretudo. o texto propõe um modelo possível de integração social e económica de imigrantes. o perfil tipo do imigrante em favor da sociedade receptora deve conduzir à reflexão alargada muito para além do que julgam e podem ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Pressupõe a existência de condições económicas. descreve-se o que ela opina e percepciona sobre a imigração e os imigrantes. a partir do que sabem. com sentido prospectivo. isto é. nele se radicam. as tipologias de políticas de imigração que advoga em relação com os espaços sociais com que se identificam as “categorias” dos respondentes. A ausência de uma política de imigração que considere. para a necessidade premente de se fixar um Livro Branco para a imigração em Portugal. com capacidade executiva e legislativa. pluralista e dinâmica. Apresenta-se aqui um conjunto de opiniões e de percepções sobre a imigração e. e releva. fundadas em percepções e em interesses parciais e não com base em conhecimentos sustentados sobre o que as populações pensam da imigração e dos imigrantes. sociais e culturais de integração daqueles que a representam e não cabe em exclusivo aos decisores.

Os distritos onde residem estão também essencialmente concentrados pelo Norte do País. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . com 5.3 por cento. em consequência de aqui estarem radicados muitos respondentes por estarem a estudar. e a idade média dos elementos dos 202 elementos do século feminino é de 23. com 12. com o distrito do Porto em evidência. As origens geográficas dos alunos estão essencialmente concentradas pelo Norte do País. Os respondentes nascidos no estrangeiro representam 7.3 por cento do total dos respondentes. e do de Viana do Castelo. todos universitários de cursos de licenciatura em regime diurno ou em regime nocturno. Estão sobretudo adstritos a actividades relacionadas com o comércio e os serviços. sobretudo em relação ao mercado de trabalho capaz de absorver mão-de-obra possuidora de formação superior.4 por cento. 2.7 por cento. 63. respectivamente. com estratégia.9 por cento. O número de alunos que exerce ocupação / profissão. São sobretudo de religião católica. Os alunos nascidos no distrito de Aveiro representam 17. seguido do de Braga.2 por cento. com 15. seguido do de Braga.5 anos.3 por cento do total.3 por cento. 2. 43. Os solteiros representam 86. sendo residuais os valores referentes a outras categorias possíveis de estado civil. A idade média dos 98 elementos do sexo masculino inquiridos é de 25. com um intervalo de amplitude de 40 anos. carece de ampla participação cívica na perspectiva de. ao invés. com o distrito do Porto em maior evidência. é significativo.3 por cento. com um intervalo de amplitude de 46 anos.6 por cento.8 por cento dos alunos.0 por cento.7 por cento. 82.3 por cento. A preocupação em relação à situação económica é manifesta por 78.1 por cento de respostas referentes à não filiação em qualquer credo e. valores que correspondem à oscilação esperada para os alunos que frequentam o ensino superior em geral. com 7. com 10. E essa só se alcança com aceitação e participação social alargada. considerando os do ensino pré-universitário. se associar ao processo imigratório uma política de integração. uma minoria. e os restantes 97. os casados e os que estão a viver maritalmente 9. e do de Viana do Castelo. de outras confissões. valor elevado e compreensível tendo em conta o estado da economia nacional e internacional e as baixas oportunidades de emprego.5 por cento.2 aqueles que estão transitoriamente mandatados e. 25.3 por cento e 2.8 por cento.3 anos.

7 por cento refere contactar com imigrantes nas terras onde residem quando não estão no Porto e 8.0 por cento. com vista à fixação de uma política estratégica. com 1. foi lançado na primeira quinzena do mês de Março de 2006 a um público específico.5 por cento. não estando tão presentes. dos respondentes não tem contactos frequentes com imigrantes. As opiniões dos respondentes são aqui literalmente transcritas. Um pouco mais de dois terços. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .7 por cento.6 por cento e a esquerda com 19. considerando. descreve que eles ocorrem no dia-a-dia. respectivamente a extrema-direita. descreve-se o que querem os respondentes da imigração e dos imigrantes para Portugal em matéria de impedimentos.3 por cento contacta com imigrantes em casa. 70.9 por cento. Mas é de relevar que. dos 300 indivíduos respondentes. Dos que referem ter.9 por cento manifesta não saber ou não responder sobre a orientação política que os norteia. uma divisão dicotómica coloca os indivíduos situados à direita e em minoria.3 Quanto à orientação política. 39. 21. ou seja. após validação. Metodologia Esta proposta assenta no princípio de que a sociedade civil deve ser auscultada.4 por cento. o centro-direita com 9. em espaços públicos. Para além dos elementos referentes à caracterização sócio-demográfica da amostra não representativa colhida. frequentador habitual das bibliotecas da Universidade Fernando Pessoa – Porto. O posicionamento manifesto no texto parte do princípio de que as opiniões. a direita com 21. exploram-se sobretudo questões relacionadas com algumas perspectivas sobre a imigração. as percepções e as perspectivas sobre a imigração se relacionam e diferenciam em função e consoante as regiões de origem dos imigrantes. no trabalho. simultaneamente. apresentados os extremos valores residuais. as que estão representadas entre nós com maior acuidade e as demais que. em relação à imigração e à integração de imigrantes. de autorizações e de qualidades relacionadas com escolaridade e com experiência de trabalho. em número de trezentos. 68. com 0.4 por cento. a maioria. e a extrema-esquerda.1 por cento e o centro-esquerda com 7. em ambiente de estudo. Tem por base empírica a recolha de informações por um inquérito por questionário que. por isso.

fundamentalmente variável a variável. permite entender como se posicionam em relação à imigração e ao que pretendem. dos imigrantes. os estrangeiros que querem vir para Portugal. de qualquer forma. uma vez que a investigação de conjunto está ainda em desenvolvimento e terá conclusão prevista até ao final do ano de 2007. por entender ser melhor. 19.4 também induzam à tomada de posições relativamente ao conjunto de questões contempladas.3 por cento. para cada uma das opções tomadas. dos que têm menos de 15 anos. Os dados apresentados são ainda de nível exploratório primário. Discussão de resultados A maior parte dos inquiridos. Essas preferências remetem para a existência de uma consciência sobre a imigração e a necessidade de se adoptarem políticas estratégicas para o País e é sobre elas que este texto reflecte. 58. configuram explicações reveladoras de preferências por uma imigração condicionada à existência de um a série de requisitos.5 por cento.5 por cento. acham que o Estado não deve seleccionar. dos que dizem não saberem ou não responderem.7 por cento. 2. 11.0 por cento. Para os que entendem que os imigrantes devem vir para Portugal entre os 20 e os 29 anos os discursos podem dividir-se em três grupos: ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . A maior parte dos respondentes considera que ela deve situara-se nos que têm entre os 20 e os 29 anos. há uma manifestação dispersa pelas categorias consideradas sobre se a imigração deve corresponder a determinada faixa etária. Mas os restantes 40. Conquanto não exista qualquer manifestação de preferência de fixação dos imigrantes no nosso País pelo seu sexo. e dos que têm mais de 50 anos. dos que estão entre os 30 e os 39 anos.5 por cento. 20. seguidos dos que aceitam a imigração em qualquer idade. dos que têm entre os 15 e os 19 anos. 1.7 por cento.2 por cento. Uma análise dos discursos dos respondentes. 7.7 por cento. face às questões que aqui foram consideradas para tratamento e análise. 37.

podendo contribuir para o crescimento sócio-económico. representando 7. dos imigrantes a admitir no País por motivos económicos e sociais essencialmente. Porque já possuem alguma escolaridade e já são maiores de idade. que querem ganhar dinheiro. às suas expectativas e ambições. supostamente. Porque são idades em que o rendimento/ produtividade no trabalho é maior. Porque são jovens adultos. relativamente jovem. O que justifica a idade por motivos educacionais. como é o caso dos idosos. às suas realizações pessoais.3 por cento das explicações aduzidas: ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . E o que apresenta motivos essencialmente associados à vida dos imigrantes. São pessoas em início de vida. com capacidade. São os mais produtivos. Pessoas com ambição e com vontade de trabalhar. para trabalhar e não para ter qualquer tipo de ajuda.1. O que justifica a idade. Porque se encontra em idade de produção. 3. Trata-se de uma idade em que a adaptação é mais fácil. já adquiriram um nível de educação superior à média. Idade onde eles podem contribuir para o desenvolvimento do País mais activamente. Contribuir para o desenvolvimento do País. Física e psicologicamente mais preparados para o trabalho.0 por cento das justificações aduzidas: • • • • • • • • • • • • • • A população portuguesa está a ficar envelhecida. A formação de um aluno fica cara ao Estado. A entrada de imigrantes jovens e com formação superior e conhecimentos é uma mais-valia para o País. 2. representando 39. por cento das explicações aduzidas: • • De preferência. representando 50. com espírito de trabalho e disponibilidade. daí trabalharem e serem importantes para o desenvolvimento económico do nosso País. à partida. e vêm para o País trabalhar e não beneficiar de ajudas. Fase de maior capacidade física e psicológica. Pessoas mais novas.5 1.

• • • • • • • • • Encontram-se numa boa idade para começar a delinear livremente a sua vida. não custa tanto nesta idade. Pelo facto de não serem menores. Poucas. representando 44. mas que venham para trabalhar. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Porque é a idade onde começa uma nova vida e há mais perspectivas futuras. O que justifica a admissão dos imigrantes por motivos económicos e sociais essencialmente. E esta integração. até porque é nesta idade que está patente a aventura. a sua sobrevivência tem que ser assegurada pelos pais ou familiares. 2. caso não a tenha no seu país de origem. se calhar. representando 22.6 • • A vontade de "crescer na vida" aumenta neste escalão etário. Todos somos iguais. O que justifica a admissão dos imigrantes por motivos pessoais. Idade propícia a uma integração mais rápida e ainda com possibilidade de formação ideal. e por estarem num nível etário em que precisam de trabalho para serem alguém na vida. a conhecer locais novos. Por serem maiores de idade para poderem ter mais condições de vida. Jovens.2 por cento das justificações aduzidas: • • • Porque qualquer pessoa tem direito a tentar melhorar a vida. Mais expectativas nestas idades.4 por cento das justificações aduzidas: • • • • A população deve ser controlada de modo a que não haja injustiças sociais Desde que queira trabalhar e não cause desemprego para os de Portugal... Idade com melhor integração na comunidade. Estão numa idade de procurar uma vida melhor. Sendo menor. Para os que entendem que os imigrantes podem vir para Portugal em qualquer idade os discursos podem dividir-se em quatro grupos: 1. É necessário ter em conta a fase de integração que é muito importante.

O que justifica a admissão de imigrantes por motivos educacionais. Melhor [por] estarem dentro da idade para trabalharem. com o seu contributo profissional. alguma maturidade e. não dão quaisquer motivos específicos para associar a idade ao acto de imigrar. Embora os que referem não saber ou não responder não apontem qualquer grupo de idades. • • • Idade intermédia – aptos para trabalharem. O que justifica a idade dos imigrantes a admitir no País por motivos económicos e sociais essencialmente. Relativamente novos – para. sem vícios de trabalho. em consonância com a opção de resposta. são três as justificações avançadas: • • • A idade implica que estes tenham maturidade suficiente e valores definidos. adaptarse a uma nova cultura. Não faz sentido falar em idade para a imigração ou emigração.7 por cento das justificações aduzidas: • • Aumenta o número de pessoas aptas para trabalharem e assim contribuem para o desenvolvimento económico do País. 4. Penso que a idade não é determinante mas sim a motivação e os objectivos dos imigrantes.7 3. Idade adulta – mais responsáveis/ maduros/ com objectivos construídos. representando 85. E o que. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . representando 22. Maior aptidão para o trabalho. por cento das razões aduzidas: • Importância na aprendizagem da língua. ajudarem a economia do País. Para os que entendem que os imigrantes devem vir para Portugal entre os 30 e os 39 anos os discursos podem dividir-se em dois grupos: 1.2 por cento das justificações aduzidas: • • Não há idade determinada para se poder imigrar para qualquer país. Só se for para trabalhar seriamente.1. provavelmente. entender a língua portuguesa. representando 11.

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Porque já são pessoas com experiência e a integração num novo país não vai ser tão dificultada.

2. E o que apresenta motivos associados à vida dos imigrantes, às suas realizações pessoais, às suas expectativas e ambições, representando 14.3 por cento das explicações aduzidas: • Porque terão uma idade mais madura para fazerem essa opção.

Para os que entendem que os imigrantes devem vir para com idade inferior a 15 anos os discursos referem-se a motivos de natureza social e económica: • • • Adaptação. Há uma melhor inserção no País de escolha. Não deveria haver imigração, mas, a haver, os imigrantes devem ser o mais possível novos: integram-se melhor. A existência de imigrantes é o oportunismo de alguns. • Pois seriam portugueses, pois iriam contribuir para o País como portugueses, desde terem a escolaridade obrigatória e mais tarde terem direito a uma reforma porque contribuíram para o Estado. • São criadas normas de ensino e saber estar num país que não é o deles. Logo, conseguem adaptar-se melhor.

Para os que entendem que os imigrantes devem vir com idades entre os 15 e os 19 anos, os discursos referem-se a motivos económicos e sociais: • • É a idade adequada para se adaptarem a quase tudo, têm maior independência e maior autonomia. Podem assegurar vários tipos de trabalho. Pois são pessoas ainda jovens que podem vir a realizar o trabalho que cá ninguém quer fazer, normalmente trabalhos mais forçados

Dos que entendem que os imigrantes devem vir para Portugal com mais de 50 anos nenhum respondente avançou explicações. A associação entre requisitos educacionais prévios e imigração identifica a prioridade para as pessoas que tenham realizado estudos, com 19,3 por cento e 26,9 por

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cento das manifestações para os adeptos de que os imigrantes devem, respectivamente, possuir a escolaridade equivalente ao nosso ensino secundário e ao nosso ensino superior. Os adeptos do primeiro e do segundo ciclos do ensino básico são em igual valor percentual, 2,5, e do terceiro ciclo do ensino básico são 5,9 por cento. No entanto, 6,7 por cento dos respondentes optam pela não exigência de qualquer frequência escolar para os imigrantes e 36,1 por cento não sabe ou não responde. A imigração por fases colhe 69,7 de respostas favoráveis, 6,7 de respostas não e 23,5 por cento de não respostas, não sabe ou não responde. O sim foi mais expressivo, 90,8 por cento, na questão do estabelecimento de um número máximo de pessoas a admitir por ano como imigrantes, ficando o não pelos 4,2 por cento e o não sabe não responde pelos 5,0 por cento. A maior parte dos respondentes considera que deve existir algum grau de restrição à entrada de imigrantes, com maior expressão para os que pensam que ela deve ser elevada e moderada, 25,0 por cento cada, seguidas de perto pelos que pensam que ela deve ser baixa, 20,0 por cento, e, a alguma distancia, muito baixa, 8,3 por cento. Apenas 12,5 por cento consideram que não deve existir qualquer restrição à imigração e 8,3 por cento não sabem ou não respondem. A manifesta restrição à entrada de imigrantes, para as três regiões mais expressivas, é revelada em relação à China, com 17,1 por cento, a Outros Países de África, com 11,2 por cento, e aos PALOP, com 10,3 por cento na categoria “muito elevada”; é de 21,4 por cento para a Europa de Leste e repete-se para Outros Países de África, com 19,8 por cento, e para os PALOP, com 18,8 por cento na categoria “elevada”. As manifestas exigências de grau de escolaridade dos imigrantes são maioritárias na categoria “moderado”, com 50,4 por cento, “elevado”, com 33,1 por cento, “muito elevado”, com 3,3 por cento, “muito baixo”, com 1,7 por cento, “baixo”, com 0,8 por cento. 10,7 por cento, não sabe ou não respondem. As maiores exigências em relação ao grau de escolaridade colocam-se, naturalmente, em relação a quadros superiores, 45,5 por cento “muito elevada”, e em relação a técnicos profissionais intermédios, 57,0 por cento “muito elevada”. Para as profissões e ocupações de menores exigências habilitacionais a expressão de requisitos escolares é dominada pelas categorias “moderada” e “baixa”.

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Da mesma forma em relação às maiores exigências em relação ao grau de experiência profissional para os quadros superiores, 44,2 por cento “muito elevada”, e em relação a técnicos profissionais intermédios, 45,0 por cento “muito elevada”. Para as profissões e ocupações de especialização a expressão do requisito experiência é dominada pelas categorias “elevada” e moderada”.

Nota de conclusão A posição de que ao Estado não cabe seleccionar, de qualquer forma, os estrangeiros que querem vir para Portugal é reveladora, na expressão maioritária que tem e tendo em conta as características dos respondentes – pessoas com um nível educacional acima da média – da ausência de uma consciência cívica estratégica para a imigração e para os imigrantes. É de assinalar que 58,7 por cento dos respondentes acham que o Estado não deve seleccionar os imigrantes. E para os restantes regista-se que: • Apesar de 37,5 por cento entender que os imigrantes devem vir para Portugal entre os 20 e os 29 anos, não há uma definição marcante de idade ideal. • As justificações sobre as opções de idades de imigração são, fundamentalmente, de carácter económico e social, seguidas das relacionadas com as competências educacionais e das relacionadas com os interesses e as expectativas dos imigrantes, numa distinção que nem sempre é clara pelas categorias de análise expostas. Há uma manifesta tendência pelas respostas justificativas da imigração como um todo por aquilo que a mesma representa de vantajoso para o País e não para as pessoas. • Há uma assunção clara pela aceitação de imigrantes com formação média e superior, uma associação entre as competências educacionais de base e as competências exigidas para o trabalho a desenvolver em Portugal, bem como destas em relação à experiência profissional de base.

Parece consensual que não é possível nem é desejável, no quadro geoeconómico em que se insere Portugal, parar a imigração. É possível geri-la de modo a que responda ao desafio, quase utópico, de contribuir para um benefício triplo: entre os países que nela se envolvem e para os actores que a sustentam. E isso implica um conhecimento

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profundo do que a imigração e os imigrantes representam, em si e para a sociedade civil que com eles interage. O que se afirma é tanto mais importante quando a definição de uma política de imigração, para além do número, implica a preparação e a definição de uma política de integração de imigrantes, o que só se consegue com a colaboração da sociedade civil. O projecto a que este texto se associa pretende dar corpo a essa preocupação de auscultar o entendimento da sociedade civil, em forma de Livro Branco, sobre a imigração e os imigrantes. Ao que ele esboça, parece não existir um sentimento formado sobre o lugar da imigração e dos imigrantes na construção da nossa sociedade e, muito menos, sobre uma estratégia imigratória para o País.

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Este questionário destina-se a recolher informações junto de cidadãos portugueses de maior idade sobre a imigração e os imigrantes, ou seja, sobre aqueles que, sendo estrangeiros, fixaram residência em Portugal. Está dividido em três partes cada qual com a sua função: a primeira, de carácter identificativo, visa caracterizar os respondentes; a segunda, de carácter valorativo, visa perceber o que opinam e percepcionam os respondentes sobre a imigração e os imigrantes; a terceira, de carácter prospectivo, visa perceber que tipos de imigração defendem os respondentes. A sua participação, com resposta a todas as questões, é muito importante. I – Caracterização sócio-demográfica 1. Idade Anos 2. Sexo Masculi Femini no no

Solteiro(a)

Casado(a)

3. Estado Civil A viver maritalme Divorciado Separado(a nte (a) )

Viúvo(a)

Outra situação

4. Tem filhos? Sim Quantos ? Não

5. Qual é o grau de escolaridade mais elevado que frequenta ou frequentou? 1º Ciclo ou 2º Ciclo ou 3º Ciclo ou Ensino Nenhuma Ensino Ensino Ensino Ensino Secundário, frequência Primário, 1ª, Superior Preparatório Médio, 7, 8º 10º, 11º e 12º escolar 2ª, 3ª e 4ª , 5º e 6º anos e 9º anos anos classes

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6. Trabalha? Sim Se sim, em que trabalha? Não

7. Está preocupado(a) com a sua situação económica? Sim Não

8. Refira o distrito, o concelho e a freguesia onde nasceu Distrito Concelho Freguesia 9. Refira o distrito, o concelho e a freguesia onde vive habitualmente Distrito Concelho Freguesia

Nenhuma

10. Qual é a sua opção religiosa? Católica

Outra Qual?

11. Qual é a sua orientação política? Extrema direita Direita Centro direita Centro esquerda Esquerda Extrema esquerda Não Sabe/ Não responde

II – Opiniões e percepções sobre a imigração 12. Contacta frequentemente com imigrantes? Sim Não Onde? 13. Assinale o grau de simpatia que tem em relação aos imigrantes das seguintes regiões: Não Muito sabe/ Eleva Mode Muito Nenh Eleva Baixa Não da rada Baixa uma da respo nde União Europeia Europa de Leste Países Africanos de Língua

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Oficial Portuguesa Outros países de África América do Norte Brasil Outros países da América Central e do Sul China Outros países da Ásia Oceânia 14. Assinale o grau de importância que os imigrantes dão ao trabalho, segundo as seguintes regiões: União Europeia Europa de Leste Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa Outros países de África América do Norte Brasil Outros países da América Central e do Sul China Outros países da Ásia Oceânia 15. A impressão que os imigrantes têm e a forma como agem com os portugueses é: Não sabe/ Muito Modera Muito Boa Má Não boa da má respond e União Europeia Europa de Leste Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa Outros países de África América do Norte Brasil Outros países da América Central e do Sul China Outros países da Ásia Oceânia 16. A impressão que os portugueses têm e a forma como agem com os imigrantes é: União Europeia Europa de Leste Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa

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Outros países de África América do Norte Brasil Outros países da América Central e do Sul China Outros países da Ásia Oceânia 17. A presença de imigrantes influencia o número de crimes registados no País? Sim, eles Sim, eles são Sim, eles vítimas do são Não cometem Não Sabe/ vítimas do crime e o crime Não crime cometem Responde o crime União Europeia Europa de Leste Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa Outros países de África América do Norte Brasil Outros países da América Central e do Sul China Outros países da Ásia Oceânia 18. Trabalho e legislação. Os imigrantes: Sim Tiram o trabalho aos portugueses? Os que estão ilegais devem ter direito a trabalhar? São regidos por legislação adequada? Contribuem para o nosso desenvolvimento económico? Pagam os impostos que devem? E beneficiam desses impostos? 19. É função do Estado: Adoptar políticas de actuação específicas para os imigrantes Assegurar igualdade de tratamento entre nacionais e imigrantes Assegurar maior ajuda aos imigrantes Não Não Sabe/ Não Responde

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16 Expulsar os imigrantes ilegais. o Estado deve dar prioridade a imigrantes com (assinale apenas uma opção): 1º Ciclo ou 2º Ciclo ou 3º Ciclo ou Ensino Nenhuma Ensino Ensino Não Ensino Secundário Ensino frequência Primário. 3ª e io. Aceitaria ter como imigrantes: Membros da sua família? Seus amigos? Seus vizinhos? Seus colegas de trabalho? Residentes nas imediações ao espaço onde você vive? Residentes no espaço onde você vive? III – Perspectivas sobre a imigração 21. Sobre a escolaridade. 11º e Superior escolar 1ª. . Indique a melhor idade para os imigrantes virem para Portugal (assinale apenas uma opção): Menos Dos 20 Dos 30 Dos 40 Não sabe/ Dos 15 aos Mais de Qualquer de 15 aos 29 aos 39 aos 49 Não 19 anos 50 anos idade anos anos anos anos responde Justifique a sua escolha 24. 5º e 6º responde 8º e 9º anos 12º anos 4ª classes anos ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . O Estado deve dar preferência à entrada de imigrantes do sexo: Masculino Feminino Sem preferência 23. O Estado deve seleccionar os imigrantes que querem vir para Portugal? Sim Não ⇒ para si. sem tentar promover a sua inserção? 20. o questionário termina aqui. 22. Preparatór Sabe/ Não Médio. 7. 10º. 2ª.

Das seguintes regiões de origem dos imigrantes. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . O Estado deve estabelecer o número máximo de imigrantes a entrar em cada ano? Sim Não Não sabe/ Não responde 27. indique o grau de restrição de entrada que lhes atribui: Não Muito sabe/ Elevad Moder Muito Nenhu Elevad Baixo Não o ado Baixo m o respon de União Europeia Europa de Leste Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa Outros países de África América do Norte Brasil Outros países da América Central e do Sul China. A integração dos imigrantes deve ser feita por fases? Sim Não Não sabe/ Não Responde 26. Outros países da Ásia Oceânia 28. Assinale o grau de escolaridade que os imigrantes devem ter para poderem desempenhar as seguintes profissões: Não Muito sabe/ Eleva Mode Muito Nenh elevad Baixo Não do rado Baixo um o respo nde Quadros Superiores da Administração Pública.17 Justifique a sua escolha 25.

Dirigentes e Quadros Superiores de Empresas Especialistas das Profissões Intelectuais e Científicas Técnicos e Profissionais de Nível Intermédio Pessoal Administrativo e Similares Pessoal dos Serviços e Vendedores Agricultores e Trabalhadores Qualificados da Agricultura e Pescas Operários.18 Dirigentes e Quadros Superiores de Empresas Especialistas das Profissões Intelectuais e Científicas Técnicos e Profissionais de Nível Intermédio Pessoal Administrativo e Similares Pessoal dos Serviços e Vendedores Agricultores e Trabalhadores Qualificados da Agricultura e Pescas Operários. Artífices e Trabalhadores Similares Operadores de Instalações e Máquinas e Trabalhadores da Montagem Trabalhadores Não Qualificados 29. Artífices e Trabalhadores Similares Operadores de Instalações e Máquinas e Trabalhadores da Montagem Trabalhadores Não Qualificados O questionário termina aqui. A sua colaboração foi muito importante. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Assinale o grau de experiência profissional que os imigrantes devem ter no seu país de origem para poderem desempenhar as seguintes profissões em Portugal: Quadros Superiores da Administração Pública.

n.º do questionário: Responsável pela administração: Data e hora: Local de realização e contacto do respondente: Av.19 Ficha Técnica do questionário N.º : Telefone de contacto . / Rua.facultativo: ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .

sobretudo nos momentos chave da vida. que aportam aos seus membros um pouco do lugar que deixaram. A nossa proposta de comunicação centrar-se-á nesse desígnio. aos cuidados de saúde. necessidades. duas atitudes que podem parecer antagónicas. Todavia. Dolores Vargas Llovera Centro de Estudos de Antropologia Aplicada Universidade de Alicante As associações de imigrantes constituem uma estratégia clássica de ligação à origem e de luta pela integração no destino. no sentido de acederem aos recursos e aos direitos existentes na sociedade receptora. Uma das comunidades imigradas em Portugal que mais tem dinamizado o seu movimento associativo é a brasileira. ao reagrupamento familiar. elas vão actuar no sentido de integrar o seu modo de vida.A integração dos imigrantes deve ser feita por fases? As associações de imigrantes latino-americanos na Península Ibérica Alcinda Cabral Centro de Estudos de Antropologia Aplicada Universidade Fernando Pessoa e M. as associações organizam-se no sentido de agir socialmente e politicamente a fim de que os seus membros possam ter acesso no lugar de chegada aos direitos elementares relativos à permanência e residência. O facto de se tratar de comunidades numerosas justifica. outras razões poderão ajudar a explicar este fenómeno. à segurança social. o mesmo acontecendo com os diferentes grupos de sul-americanos em Espanha. em que urge partilhar experiências. à legalização. de diversão. em parte. ao trabalho. Com o tempo e a inevitável aculturação. de perpetuação da cultura de partida. enfim. Introdução O associacionismo é uma necessidade vital do ser humano. de ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . à escolarização dos filhos. funcionando também como redes sociais de encontro. Enquanto elemento coesionador do grupo estrangeiro. mas que na realidade se revelam complementares. ajustando-o ao novo ambiente social. Enquanto elemento dinamizador da presença e do enquadramento legal e profissional dos seus concidadãos. buscar apoios materiais afectivos ou de outra índole e conceber espaços de segurança. as associações cobrem objectivos de recriação dos modelos de origem. esse vigor. o que permite colmatar os constrangimentos resultantes das diferenças ao nível das normas sociais e dos padrões culturais da sociedade de chegada.

geram iniciativas de actuação para o fortalecimento das suas ideias associativas. procurarem junto dos companheiros a coerência das suas ideias e não actuarem isoladamente. o intercâmbio de experiências. mas este reconhecimento oficial que vão adquirindo paulatinamente. não só com a sociedade civil. Por isso é de grande importância ter em conta que o actual dinamismo associativo dos imigrantes teve que ultrapassar grandes impedimentos para consolidar a sua realidade social e para ganhar o respeito fundamental das instituições oficiais. As associações dinamizam actividades próprias na base das estruturas que criaram. sejam locais. apresentando-se como lugares delimitados no interior da sociedade de recepção. como um mundo que não pertence a ela. actuam como grupos de pressão de reivindicações sociais. A formação e a importância dada às associações demonstra que os indivíduos se envolvem em acções recíprocas e em contactos entre os que buscam o mesmo fim. mas também com os poderes estabelecidos. que encontram todo o tipo de carências. É certo que as associações de imigrantes recriam os esquemas das suas sociedades de origem. bem como romper com as fronteiras sociais que a sociedade civil pretende ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . não coincide com o ritmo do reconhecimento social. Ao mesmo tempo fomentam a solidariedade. de manter identidades e tudo o que implica a afirmação socio-cultural própria do ser humano. regionais ou nacionais. que fomentam a divisão da sociedade e que não favorecem a integração. e são fundamentais para a assistência das pessoas. Ante a grande eclosão de associações de imigrantes que se formam nas actuais sociedades receptoras. as suas actuações e a sua cosmovisão chocam frontalmente com os esquemas de uma sociedade que culturalmente não é igual. económicas e políticas. A sua estética. como é o caso dos imigrantes. sobretudo nas primeiras etapas da imigração. a sua música. o fim primordial de uma associação é o de partilhar metas e o de formar espaços que rompam com o isolamento social e cultural. como guetos ou nichos socio-culturais. na mira de uma eficácia dos seus propósitos. provocando tensões. de crenças. estas não vêem com bons olhos a criação desses espaços. porque os apercebem unicamente como reproduções das diferentes culturas de origem. Desta maneira. culturais. mantêm identidades e são um núcleo de informação necessária. particularmente em momentos difíceis.2 ideias. Pode afirmar-se que as associações de imigrantes terão que continuar a lutar para ultrapassar os muitos entraves que as instâncias oficiais lhes apresentam. O grande objectivo é o de.

Tem havido tentativas de classificação segundo as tendências manifestadas pelas associações de imigrantes: umas orientadas para o país de origem e outras para o país de residência. que é na verdade uma faceta da sua realidade. com ou sem ajudas de fundos públicos. Sem dúvida. a fim de conseguirem convencer umas e outras de que o maior anseio dos seus dirigentes e membros é a inserção da sua comunidade na sociedade receptora. ao afirmarem que as associações de imigrantes são uma manifestação necessária para a sua instalação nas novas sociedades. longe de dificultarem a integração. distinguindo entre a temporalidade e a permanência definitiva. através de actividades. na Península Ibérica e segundo as aportações de Martín (2004). uma vinculação de ajuda dirigida fundamentalmente ao conhecimento das vivências de origem. e outros. dirigidos aos colectivos recém-chegados. com pessoas da mesma etnia ou de várias. através do qual criam. Morán (2001) distingue as associações de imigrantes que têm uma predominância de relações com a sociedade de partida e as que têm uma predominância relacional com a sociedade de chegada. e não como centros de realidades culturais fechadas. actividades destinadas ao acolhimento e à integração dos imigrantes. Este tipo de classificação baseia-se sempre na instalação na sociedade de acolhimento. embora não rompam os laços com a origem. o associacionismo migratório constitui actualmente uma força importante nas sociedades receptoras. com o fim de afrontarem a vulnerabilidade social em que os imigrantes se encontram. e simultaneamente como plataformas de reivindicação dos seus direitos como trabalhadores e como seres humanos. encontram-se ante duas dificuldades: por um lado levam a cabo. tal como sustentam Castels e Millar (1994). estas associações. As associações deste cariz revelam constituir um processo de socialização. pelo que. desempenham um papel muito importante no conjunto das práticas que integram a ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . conselhos de carácter burocrático. e por outro lado. Apesar do esforço que fazem as associações de imigrantes para serem reconhecidas e aceites como centros de integração. estão tentando de cada vez mais incrementar a integração no espaço de acolhimento. de programas de ajuda e de acolhimento.3 estabelecer. Sobre estes dois pontos de vista. Certo é que se tem constatado que as associações de imigrantes. facilitam a negociação da sua participação social e da sua incorporação efectiva.

quando pertencem ao conjunto das financiadas. as associações funcionam como entidades prestadoras de serviços do Estado. a maior parte delas adoptam uma postura intermédia (Martín. Em todas as zonas onde haja um número considerável de imigrantes com essa proveniência. Por outro lado. * Assessorar a população imigrante nas áreas que favoreçam a sua integração. a partir dos quais recenseamos os seus pontos de partida: * Abordar o fenómeno da imigração em todos os seus aspectos. na medida em que as acções que desenvolvem são o resultado. Desenvolvimento A Espanha encontra-se com um número importante de associações de imigrantes registadas no Ministério do Interior. pelo que se revela difícil individualizá-las por países. apesar da sua posição destacada nas práticas de integração. arriscam-se a ver impossibilitada a execução das suas actividades. agrupando os colectivos dos diferentes países que formam a América do Sul. quer se trate de capitais de província.4 política de imigração. A sua formação obedece a um leque comum de objectivos gerais. * Elaborar projectos de acção social e de cooperação internacional. as associações encontram-se perante a seguinte alternativa: ou servem as políticas públicas. às associações de imigrantes não é concedida a participação na tomada de decisões políticas em nenhum âmbito oficial. se formam associações. As suas estruturas passam por registos oficiais. independentemente dos membros que as constituem. quer da ausência de acção dos poderes públicos. Se elegem a via reivindicativa. ou introduzem soluções inovadoras para o tratamento dos problemas derivados da integração dos imigrantes. No que respeita às da América Latina. Perante tal situação. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Todavia. ultrapassam um milhar. renunciando frequentemente aos seus princípios. quer da delegação de competências através do financiamento de projectos de ajuda social. de cidades grandes ou pequenas. 2004: 123). Se optarem pela primeira possibilidade. arriscando a perda do financiamento público.

ou parceiros profissionais. * Facilitar a participação das pessoas em actividades laborais. uma inserção o menos traumática possível. * Participar em campanhas contra o racismo e a xenofobia. * Colaborar com outros colectivos. que conduzam a mudanças sociais. dada a pequenez do seu território e dos seus recursos. tentando proporcionar aos seus concidadãos. em alguns casos mais especificados quando se trata de promover a identidade cultural dos imigrantes. ou ainda indivíduos oriundos do mesmo local de origem. Desta forma. os seus objectivos são orientados para o seu público alvo. * Promover um diálogo construtivo com as autoridades e a sociedade acolhedora. pelo que o número de associações deste tipo é mais reduzido e muito mais específico quanto à origem geográfica e nacional dos seus sócios. formam o núcleo central de todas as associações de imigrantes latino-americanos em Espanha. * Defender estas populações junto das autoridades administrativas e outras. e mesmo a imigrantes de outras origens. que tantas vezes dificultam a vida destas pessoas. tais como imigrantes vinculados a uma universidade. de acordo com as necessidades sentidas pelos próprios. Enquanto umas têm um carácter mais geral de apoio ao público imigrante. organizações. No que respeita a Portugal. entidades e instituições especialmente relacionadas com a imigração. * Fomentar a convivência e a integração social e educativa dos imigrantes. as associações de imigrantes brasileiros em Portugal apresentam fins distintos. Estes pontos. sociais e políticas. De facto.5 * Desenvolver campanhas de sensibilização em relação a estas populações e às suas culturas. outras dirigem-se a populações específicas. também as suas necessidades de mão de obra e os seus factores de atracção para a instalação destas populações são mais raros. * Associar-se a projectos com associações e entidades das zonas onde vivem. caracterizando-se pelo ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . * Promocionar individual e colectivamente os imigrantes nos seus lugares de residência. * Potenciar o respeito pelos direitos humanos.

angelfire.up. da Associação Mais Brasil (www.org/aacilus/).pt/distritais/genericos/detalheArtigo.aacilus.oa. Imigrantes do Brasil e de países africanos de língua oficial portuguesa (http://www.6 desenvolvimento de actividades específicas.pt) e da Associação Luso-Brasileira de Juristas do Trabalho (www.php). da Associação de Imigração em Portugal. da Associação de Pesquisadores e Estudantes Brasileiros em Coimbra (http://geocities. da Associação dos Brasileiros na Universidade de Aveiro (www.asp?sidc=478&idc=22393).pt/).pt). como poderemos verificar no quadro que segue 1 : Fonte: Site da Casa do Brasil (www.maisbrasil.pt).pt/abruna/). 1 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . da Associação de Cidadãos Brasileiros na Universidade do Porto (http://brasup.yahoo.html) e da Torcida Brasil (www. da Associação de Amizade Cabo Verde – Brasil (www.ua.casadobrasil. da Associação Luso-Brasileira de Saúde Oral – Portugal (www.br/apebcoimbra/).torcidabrasil.com/bc/sscb/aacb.abop.net/torcida.ca.com.

2004 Imigrantes do Brasil e de países africanos de Porto língua oficial portuguesa (AACILUS) 1997 • V .7 Tipologia da Associação I .Associações Lúdicas Brasileiras • Torcida Brasil (TB) 1994 No que respeita às Associações Generalistas.Associações Académicas de Brasileiros • • • Associação dos Brasileiros na Universidade de Aveiro (ABRUNA) Associação de Cidadãos Brasileiros na Porto 2003 Aveiro 2001 Coimbra 2004 Porto 1999 Universidade do Porto (BRASUP) Associação de Pesquisadores e Estudantes Brasileiros em Coimbra (APEBC) IV .Associações de Amizade entre Países • • Coimbra 2004 Associação de Amizade Cabo Verde – Brasil (AACB) Associação de Imigração em Portugal. social e jurídico. estas têm como objectivo prioritário o apoio aos imigrantes a nível moral.Associações Generalistas de Brasileiros • • Casa do Brasil de Lisboa (CBL) Associação Mais Brasil (AMB) Localização Sede da Ano em que foi fundada Lisboa Porto 1992 II .Associações de Profissionais Brasileiros • • Associação Luso Brasileira de Saúde Oral (ABOP) Associação Luso-Brasileira de Juristas do Trabalho (ALBJT) III . ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .

Foi criada por imigrantes brasileiros. A partir daqui. muitas vezes opondo-se a alguma discriminação que encontram no mesmo meio profissional português. no sentido de colmatarem lacunas na organização da sociedade civil e nas dificuldades sentidas pelos imigrantes para se integrarem na comunidade portuguesa. muitas similitudes entre elas. Conclusão Todo o esforço das associações tem como finalidade a melhoria das condições das comunidades imigrantes que representam. Estas associações de imigrantes brasileiros foram criadas por estes e por portugueses que os apoiaram. principalmente para formar uma “claque” para dar apoio às equipas brasileiras nos torneios mundiais de futebol. começou a desenvolver outras actividades recreativas e culturais para os seus sócios. Ao pretender-se encontrar os traços distintivos de cada uma destas 5 tipologias de Associações de Brasileiros em Portugal. também se detectaram. As Associações de amizade entre indivíduos brasileiros e de outros países definem-se pelo apoio prestado às comunidades imigrantes em questão e pela promoção de actividades recreativas num espaço de partilha cultural. que é a sua condição de imigrantes. nomeadamente a constituição formal da associação em si. naturalmente. procurando ser uma mais valia nos ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .8 As Associações de Profissionais visam a defesa das suas profissões e sobretudo dos seus profissionais. devidas ao traço comum que une os seus filiados. Os objectivos e actividades das Associações Académicas orientam-se principalmente no sentido de apoiar a integração de estudantes brasileiros e de promover eventos culturais e científicos que possibilitem a valorização da identidade brasileira no seio da comunidade portuguesa. objectivos e actividades muito específicos. nomeadamente de apoio às equipas brasileiras em eventos desportivos. mas também ao nível dos objectivos traçados e das actividades. ou ainda para organizarem um movimento que fortalecesse a posição da população imigrante face às instituições oficiais da sociedade acolhedora e no diálogo com as mesmas. As principais semelhanças encontram-se ao nível dos seus estatutos. A Torcida Brasil apresenta uma população alvo.

R.csh. ao mesmo tempo. Madrid. S. 1994. Revista electrónica de estudios culturales. MORÁN. Cremos que estamos perante um desenrolar de participação que implica novas formas de cidadania: os estrangeiros continuam privados de direitos políticos. através de estratégias que valorizem a sua identidade cultural de pertença.) 2003 El declive del capital social. y GARCÍA.udg. A. (ed. CASTLES. R. http://fuentes. Londres MARTÍN. tal como referem Alonso e Garcia (1995) quando dizem que os reptos aos quais devem fazer face as associações de imigrantes visam veicular a sua integração social e económica no país que escolheram para trabalhar e viver e daí a importância de que se reveste o tecido associativo desta natureza. Macmillan. Estudio sobre la situación actual y capacidad institucional de las asociaciones de inmigrantes en España. Referências Bibliográficas ALONSO. Madrid. The age of migration. para lhes proporcionar os meios condutores a fim de que se incorporem paulatinamente na sociedade de chegada. Universidad de Guadalajara. Un estudio internacional sobre las sociedades y el sentido comunitario. M. 1995.J. y MILLER. Internacional population movements in the modern world.mx/CUCSH/Sincrinia/ PUTNAM. D. bem como nos contactos informais com a comunidade anfitriã em si. 2004 “ Las asociaciones de inmigrantes en el debate sobre nuevas formas de participación política y de ciudadanía: reflexiones sobre algunas experiencias en España” Migraciones. 2001 “Las asociaciones de extranjeros y su origen: algunos comentarios para el caso de Alemania” Sincronía. numa perspectiva da possível inclusão na sociedade de acolhida. V. pelas implicações pessoais e nacionais. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . a nível dos dois países implicados. Nexo. L. Universidad Pontificia de Comillas. As associações de imigrantes constituem um meio de institucionalização das vias necessárias para a defesa dos seus interesses e. Barcelona: Galaxia Gutemberg. no entanto podem participar através das associações na tomada de decisões sobre alguns dos aspectos que os afectam. G.9 contactos formais com as instituições oficiais da sociedade acolhedora.

pt/) Associação de Imigração em Portugal.up.asp?sidc=478&idc=22393) Associação Luso-Brasileira de Saúde Oral – Portugal (www.oa.torcidabrasil.angelfire.aacilus.pt) Torcida Brasil (www.pt) Associação Mais Brasil (www.net/torcida.yahoo.com.com/bc/sscb/aacb.br/apebcoimbra/) Casa do Brasil (www.html) Associação dos Brasileiros na Universidade de Aveiro (www.maisbrasil.ua.php) ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .10 Sites Consultados Associação de Amizade Cabo Verde – Brasil (www.pt/distritais/genericos/detalheArtigo. Imigrantes do Brasil e de países africanos de língua oficial portuguesa (http://www.pt/abruna/) Associação de Cidadãos Brasileiros na Universidade do Porto (http://brasup.casadobrasil.org/aacilus/) Associação Luso-Brasileira de Juristas do Trabalho (www.pt) Associação de Pesquisadores e Estudantes Brasileiros em Coimbra (http://geocities.ca.abop.

Porto blepl@netcabo. A sua localização enquanto porta de entrada para a Europa – continente que ainda hoje exerce o seu fascínio sobre os povos mais recentes – e a lusofonia são. alguns estudos demonstram que os brasileiros são os imigrantes que têm em Portugal maior grau de aceitação “assente na ideia de uma identidade lusófona. o país escolhido como pátria de adopção de imigrantes brasileiros. as práticas religiosas e os comportamentos sexuais. motivos determinantes para essa escolha. pela aplicação da Convenção sobre a Igualdade de Direitos e Deveres entre Brasileiros e portugueses. vendo-se de que forma ele contribui para a inserção dos brasileiros em Portugal. Sabiá Portugal é. 1 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . talvez. imprensa. acreditado pela FCT (Fundação para a Ciência e a Tecnologia).pt O presente texto faz uma reflexão sobre a imprensa enquanto modo de integração de imigrantes. consabidamente.Modos e modas de integração de imigrantes (o papel do jornal Sabiá) 1 Isabel Ponce de Leão Centro de Estudos de Antropologia Aplicada Universidade Fernando Pessoa . aquelas. como sejam a forma como educam os filhos. o que é bom e o que é mau” (Trindade 1995: 381). construída ao longo de séculos de convivência entre os povos de Portugal e das suas Desenvolvimento do Projecto CEAA/0013/ALC "Processos de integração social e económica de imigrantes"integrado no Centro de Estudos de Antropologia Aplicada da Universidade Fernando Pessoa. corroboradas. datada de 29 de Dezembro de 1971. Acresce a isto a semelhança de procedimentos entre portugueses e brasileiros em certos usos e costumes. aquilo a que vulgarmente se chama valores e que pode ser definido como um “conjunto de ideias partilhadas por indivíduos sobre o que é desejável. De facto. Palavras-chave: imigrantes. Trata-se com especial acuidade o jornal Sabiá publicado pela Casa do Brasil de Lisboa. integração. brasileiros.

colónias” (AA. por tal. a verdade é que um imigrante é. a integração social e a identidade cultural” (Trindade 1995: 358). quer dizer. o tipo de desempenho económico. Distribuído gratuitamente. em Portugal. reitera “os laços de amizade e cooperação com os países lusófonos”. pretenda ignorar os da pátria de origem. minimizadora da discriminação e da intolerância. e por mais que o país de acolhimento assuma uma postura fraternal. Uma delas é a produção de uma imprensa própria. Um caso paradigmático é o Sabiá. bem como nas instalações dos seus anunciantes. a aculturação linguística. os brasileiros radicados em Portugal não deixam de constituir uma minoria e. primeira publicação destinada aos brasileiros residentes em Portugal. Apesar desta reciprocidade de aceitação. no Consulado do Brasil e noutros locais consabidamente frequentados por brasileiros. ao curioso fenómeno da aculturação. o contacto entre portugueses e brasileiros origina “alterações nos padrões culturais originais” (Trindade 1995: 357) de ambos os povos o que deixa prever um intenso diálogo. A essa boa aceitação por parte do país de acolhimento. no seu artigo 74. por outro lado. ligada ao país de origem. A própria Constituição da República Portuguesa. 2003: 51). e de gizar estratégias de integração. A partir do número 53. assazmente. está disponível na CBL. logo actuando como factor de integração. jornal editado pela Casa do Brasil de Lisboa. nem sempre de modo bem sucedido. ainda que se anunciasse mensal. têm necessidade de criar elos de identidade. No caso dos brasileiros assiste-se. VV. sem que. junta-se uma boa adaptação vista esta enquanto “fenómeno multidimensional que compreende aspectos tais como a satisfação. um desenraizado que luta. (Trindade 1995: 102) 2 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . o referido formato dá lugar a um jornal Entendemos integração enquanto ajustamento dos imigrantes a um novo dependente de dois conjuntos de factores: “os que dizem respeito às características individuais dos migrantes e os que se relacionam com características fundamentais dos países de origem e de destino entre os quais se processa a transferência de recursos humanos”. (CBL). Seja como for. pela integração 2 e pela socialização aprendendo padrões de cultura e modos de vida da sociedade de acolhimento. tinha uma periodicidade irregular. O primeiro número foi publicado em Maio de 1992 em formato de boletim de folhas A4 e. lançado em Abril de 2003. reflectindo o desejo da preservação de laços históricos.

A tiragem. discotecas. aumenta e a sua periodicidade anuncia-se mensal.500 8 4 4 4 N. lojas de comércio…. clínicas médicas.000 7. como se pode verificar pela leitura do seguinte quadro que abarca os 4 números saídos em 2005: Assuntos Política nacional (Portugal) Política nacional (Brasil) Política internacional Educação Saúde Habitação Economia Emigração Cultura Desporto Sociedade 3 1 4 2 2 4 5 2 5 4 Quantidade 19 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . composto por 4 a 8 páginas.500 7. de uma maneira geral.tablóide. Verificar-se-ia depois que essa periodicidade não viria a ser respeitada o que é perfeitamente compreensível neste tipo de publicações por constrangimentos de ordem vária que aqui nos dispensamos de escalpelizar. bancos. 66 67 68 69 Março Junho Julho Novembro 5. XIIº ano da sua publicação. bares. difunde serviços prestados por brasileiros em Portugal: restaurantes. a saber: N. estes números tratam de assuntos diversificados.500 7. Os números publicados em 2005.º Para além de publicidade que. agências de viagens. constituem o corpus em análise e foram em número de 4.º Mês Tiragem pp. que até aí era de 2 mil exemplares.

e uma leitura dos artigos.Lazer 2 Este quadro traz-nos algumas surpresas relativamente à imagem empírica que temos dos imigrantes brasileiros.ª página. Por outro lado. evidencia preocupações de índole cultural e uma atenção especial para a política internacional cujos artigos constantes. numa manifesta vontade de interagir com o país de acolhimento. sendo essa preocupação menor relativamente ao país de origem. Reveladoras de certas preocupações são igualmente as chamadas à 1. por exemplo. contudo os interesses parecem estar virados para o que se passa em Portugal. são sempre chamados em destaque à 1. são cegos. uma maior abundância de artigos relacionados com desporto e lazer. Por tal. naturalmente. ainda que em número reduzido.ª página Quan tidade Política Nacional (Portugal) Política Nacional (Brasil) Política Internacional Habitação Cultura Desporto Sociedade 1 3 1 2 1 1 13 Uma leitura comparativa dos dois quadros descobre um jornal intensamente preocupado com os acontecimentos políticos do país de adopção dos seus leitores. que não se faz por extrapolar o âmbito deste trabalho. mostra bastante superficialidade quer no tratamento quer nas opções conteudísticas. não se torna difícil a identificação do público-alvo: Alcance / Público-alvo Público em geral Grupos étnicos / minorias Quantidade 40 12 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .ª página: Chamadas à 1.Os números. Seria de esperar.

político.Brasil Expectativas na política de imigração do Títulos dos artigos Imigrantes vão às ruas exigir a regularização Regularização para todos Moção exige políticas de integração Duzentos mil pediram regularização em ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . muitos têm escolarização secundária e superior e querem ser o elo de união entre Portugal e o Brasil. logo não se assumem como minoria. cujos títulos aparecem em baixo: N. prioritariamente ao público em geral.º 67 N.º 66 • • • • Espanha • novo governo PS • Na ponte aérea Portugal. Não se sentem vítimas de tratamentos discriminatórios.º 68 2 N. Apesar desta visão optimista. grande parte dos artigos.º 69 3 N. o jornal dirige-se. são vários os artigos do Sabiá que se prefiguram como factores de aglutinação e inserção aos níveis social.Não esquecendo embora os imigrantes. cultural e profissional e encontram-se assim distribuídos pelos 4 números saídos em 2005: Artigos 66 Inserção social Inserção política Inserção cultural Inserção profissional 1 1 1 3 4 2 6 6 5 6 5 22 1 N. Isto tem a sua explicação no facto do perfil sócio-económico dos imigrantes brasileiros ser extremamente diversificado. ainda que não quebrem a sua ligação ao país de origem. de forma quase obsessiva.º Total A observação deste quadro mostra que o desejo de inserção em termos políticos ocupa.

outrossim com a legalização obviadora da segurança que permita a construção do seu futuro em Portugal. outros ainda onde uma leve ironia esconde uma crítica profunda. só 14 mil legalizados Opiniões divergem na avaliação do acordo Casa do Brasil convoca acto público pela 69 • legalização • • • • Nacionalidade: o que vai mudar Mobilização já! Muito barulho por nada Governo admite nova lei de estrangeiros mas recusa debate Só a leitura dos títulos destes artigos. É sem dúvida. – igualdade de direitos.67 • • • • • O direito de ser português Eleições em Portugal e no Brasil Lei da Nacionalidade – Alterações à vista Governo promete mudar a lei Quem pode ser português Burocratices Brasileiro tem nova chance de conseguir o 68 • • visto • maioria de fora • • • Lei da nacionalidade do governo deixa Foi bonita a festa. o Sabiá corrobora a ideia de que o grande problema dos brasileiros em Portugal não tem a ver com a adaptação. pá Dois anos depois. Por isso surgem mesmo títulos incentivando à luta. nos dão a noção clara das pretensões dos imigrantes brasileiros em Portugal e que são: – legalização e integração. olhando com alguma apreensão o empenhamento dos governantes portugueses e brasileiros na resolução dos conflitos. De uma forma geral lamentam a morosidade processual e pugnam por uma cidadania activa. outro com mero carácter informativo. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . De facto. completados pelos conteúdos que conhecemos mas que extrapolam o âmbito deste trabalho. neste ano de 2005 a grande preocupação do jornal enquanto elemento de inserção política. – dupla nacionalidade.

como é.º 66 Títulos dos artigos • casa própria 68 • • na Caparica Mais Brasil Torcida premiada Como adquirir a Ainda que escassos. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Para além disso há uma preocupação por práticas interculturais. No que diz respeito à inserção social temos os seguintes artigos: N. fazem perceber a necessidade dos imigrantes brasileiros interagirem com os portugueses quer no que diz respeito a actividades lúdicas quer na procura de uma forma de estar semelhante. a maior parte dos artigos que privilegiam a inserção cultural assentam em iniciativas desta associação que através dele as promove e as divulga. naturalmente as idiossincrasias de cada povo. o Sabiá propriedade da Casa do Brasil.º 66 • • CBL • • o Dali do Sertão 67 • • Era uma vez na América As sombras das coisas Mulheres de Morte Zé-Limeira. O poeta do absurdo ou Títulos dos artigos O significado da palavra associação Primavera relança actividades na Sendo.Ainda que bastante distanciada. a tentativa de inserção cultural atravessa também as páginas do jornal através dos seguintes artigos: N. respeitando-se. quer dizer uma divulgação das literaturas e das artes portuguesas e brasileiras bem como das suas respectivas afinidades.

Em termos de inserção profissional. sobretudo uma particular acuidade pela actualização dos imigrantes de forma a acompanharem a evolução da Europa. por outro sobre o papel que ele tem na integração destas minorias. Curiosamente o jornal é policromático. Da sua leitura depreende-se que essas preocupações se prendem. configuram uma publicação que se debate com problemas económicos como é comum neste tipo de imprensa de imigrantes. naturalmente. que ter capacidade de resposta para muitas situações logo não pode canalizar toda a sua atenção para um jornal que. com o que se passa no país de adopção. Este interesse é já a primeira manifestação de tentativa de inserção e aparece em artigos quase sempre com chamadas à primeira página. a tiragem reduzida e o escasso número de páginas onde. fundamentalmente. mesmo assim. encontrámos os seguintes artigos: N. Os problemas de natureza cultural são também tratados recorrentemente ainda que a sua superficialidade configure um público-alvo minoritário ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .º 66 Títulos dos artigos • povo gosta 67 • Informática. A periodização irregular. a publicidade é abundante. há uma certa tendência para que esta se faça no âmbito da restauração e. o que o torna naturalmente mais dispendioso mas também mais consentâneo com as características do público que quer atingir. Esta observação dos números do jornal Sabiá saídos em 2005 permitem-nos tirar conclusões por um lado sobre as características de um jornal feito por brasileiros e para brasileiros fisicamente distanciados da sua pátria. mesmo assim. é eco das preocupações dos potenciais leitores. Sushi do jeito que o futebol e churrasco 69 • Restauração Os seus títulos demonstram que não sendo grande a preocupação em termos de inserção profissional. A instituição sua proprietária – Casa do Brasil de Lisboa – tem.

com uma formação cultural de nível médio / inferior o que nem sempre corresponde ao perfil dos brasileiros residentes em Portugal (AA. VV. 2003. 87). Isto leva-nos a crer que, dadas as similaridades linguísticas, a maior parte dos imigrantes brasileiros recorre à leitura da imprensa portuguesa, sendo o Sabiá tão só uma forma de matar as saudades pátrias. A sua periodicidade irregular poderá também gerar esta situação. De qualquer forma, o Sabiá cumpre o seu papel integrador da comunidade brasileira. A integração faz-se aos níveis social, político, cultural e profissional ainda que nos artigos nele inseridos, e que tentámos dissociar, se torne difícil separar estes tipos de integração uma vez que aparecem assiduamente em simultâneo. Mesmo assim tentámos ver a predominância de cada um deles. O único número que remete para os quatro tipos de inserção acima referenciados é o 66. De facto é o maior – 8 páginas enquanto os outros números têm apenas 4 – logo aquele que pode mostrar interesses diversificados. Apenas a inserção política é contemplada e tratada de forma obsessiva em todos os números. Isto é facilmente explicável. Dissemos, no início, que vários eram os factores optimizadores da inserção dos brasileiros em Portugal. Assim sendo, por aquilo que aduzimos, constata-se que desde que se encontrem numa situação legal, seja, politicamente inseridos, a inserção cultural, social e profissional são praticamente automáticas. Por um lado, a maioria dos brasileiros têm em Portugal um emprego estável (AA. VV. 2003: 86), por outro, convém não esquecer que não só, mas também através da comunidade imigrante, o nosso país assimilou muitos traços da cultura brasileira fazendo, muitas vezes, dela um modelo. A forma extrovertida de ser deste povo coadjuvada pela comunhão linguística viabilizam a rápida inserção social. Há, contudo, outra explicação para o tratamento obsessivo da problemática da inserção política nestes 4 números do periódico. Eles saíram em 2005, quando o governo português introduziu alterações à lei da imigração. Fazendo, como faz, o Sabiá, eco das preocupações dos imigrantes brasileiros não admira que dê voz à sua luta pela conquista de determinadas regalias.

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Assim sendo, e apesar dos constrangimentos vivenciados por este tipo de associações e publicações, o Sabiá erige-se como factor de integração, ponto de encontro e também de partida para aqueles que pretendem estabilizar numa segunda pátria.

Referências Bibliográficas
AA. VV., 2000, Dicionário de Ciências da Comunicação. Porto, Porto Editora. AA. VV., 2003, Atitudes e valores perante a imigração. Lisboa, ACIME. Chaliand, G., 1991, Atles des Diáspores. Paris, ed. Odile Jacob. Elias, N., 1980, Introdução à Sociologia. Lisboa, Edições 70. Escarpit, R., 1991, L’information et la Communication. Théorie Générale. Paris, Hachette. Esteves, M. C. (org), 1991, Portugal, país de Imigração. Lisboa, I. E. D. Jackson, J., 1991, Migrações. Lisboa, Escher. Leitão, J., 1991, A situação dos Emigrantes e das Minorias Étnicas na Imprensa. Lisboa, I.E.D. Mauss, M., 1991, Sociologie et Antropologie. Paris, Quadrige / puf. Neno, P., 1989, Morrer no Brasil. Lisboa, Veja. Neto, F., 1993, Psicologia da Migração Portuguesa. Lisboa, Universidade Aberta. Trindade, B R., 1995, Sociologia das migrações. Lisboa, Universidade Aberta. Sabiá, n.º 66, 67, 68 e 69 (2005). Lisboa, Casa do Brasil.

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V – Capítulo

Educação e formação

Textos de comunicações dos painéis:

Transnacionalismo, identidade, desenvolvimento
Coordenação

Miguel Moniz
Instituto de Ciências Sociais - Universidade de Lisboa

Percursos e testemunhos em Antropologia da Educação –
Coordenação

Telmo Caria, Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro - UTAD

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Sistema de Ensino, Transição Societal e Práticas Educativas Estratégicas dos Actores Sociais
Virgílio Correia Escola Superior de Educação de Coimbra (ESEC) vcorreia@esec.pt

Este texto pretende contribuir para o esforço de compreensão da realidade social angolana na actual fase de transição política, económica e social. Trata-se de uma análise da realidade, tentando captar as dinâmicas sociais resultantes das práticas educativas estratégicas dos actores sociais no quadro da transição e veiculadas pelo Sistema de Ensino. Estas práticas educativas estratégicas são analisadas enquanto respostas sociais a uma política educativa e enquanto mecanismo social que reflecte e reforça a dinâmica societal. Abordando três períodos do Estado pós-colonial (1975-1991/1992, 1992-2002 e 2002 até ao presente), propõe-se demonstrar que essas três conjunturas correspondem a dinâmicas de ensino que são função das políticas de ensino ‘praticadas’ pelo Estado e das respostas dos actores sociais a essas mesmas políticas. Palavras-chave: sistema de ensino, práticas educativas estratégicas, actores sociais, Estado pós-colonial, Angola.

Não constituindo objectivo desta comunicação apresentar resultados definitivos, deixam-se aqui algumas notas que permitem apreender e compreender a prática e o sentido das estratégicas educativas dos actores sociais no âmbito do processo de transição política, económica e social em Angola. A estrutura expositiva da comunicação obedece o seguinte percurso: num primeiro momento debruça-se sobre o processo de constituição e desenvolvimento da estrutura social angolana e o papel societal do sistema de ensino no mesmo. Esta incursão ao passado é fundamental para se perceber o processo de transição que Angola vem experimentando de forma particular desde o princípio da década de 90. A seguir aborda-se o processo de transição angolano no quadro do movimento global dos processos de transição que têm vindo a atravessar vários países da África ao Sul do Saara (ASS). Esta tarefa é completada com uma explicitação sucinta das principais perspectivas analíticas do processo de transição, proporcionando assim um elemento indispensável para se perceber a especificidade do caso angolano. Finalmente, no terceiro e último ponto, faz-se uma aproximação à questão central desta pesquisa: as estratégias educativas dos actores sociais no processo de transição em

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Angola. Nesta fase do trabalho não só é possível identificar os protagonistas (segmentos sociais) como também percepcionar os sentidos das suas acções.

Sistema de ensino e formação da estrutura social angolana

O objectivo que move o presente trabalho é o de proceder a uma análise crítica da realidade angolana do presente e captar as dinâmicas sociais resultantes das práticas estratégias dos actores sociais associadas ao sistema de ensino, no quadro do processo de transição política, económica e social iniciado em 1991/92. Semelhante empresa não dispensa uma perspectiva analítica socio-histórica. Muito pelo contrário, a análise do passado, sobretudo do passado recente, que coincide grosso modo com as décadas de 60 e 70, é fundamental para se perceber o momento actual. Esse período da história angolana, particularmente no que se refere às políticas e práticas educativas coloniais, marca decisivamente o Estado pós-colonial pela possibilidade de (re)estruturação societal que então permitiu e que haveria de permitir mais tarde, nos primeiros momentos após a independência. Os períodos que precederam e seguiram a independência foram importantes para a definição das posições e dos protagonistas na estrutura social angolana. Com a independência, e a consequente saída de grande maioria dos portugueses, era preciso ocupar os lugares deixados vagos, criar novos e eliminar outros. Neste processo era preciso fazer uma triagem, saber quem entrava, quem saía, e quem se mantinha. No entanto, o processo de formação social angolana vem de períodos mais recuados. Se é verdade que na época pré-colonial uma população pré-banta — constituída por pequenas sociedades, pouco diferenciadas e com baixo nível tecnológico — cobria de um modo escasso e intermitente o actual território angolano, no decurso de uma penetração lenta, 1 já nos quatro séculos de presença portuguesa no litoral angolano (iniciada no fim do século XV e prosseguida até meados do século XIX), sobretudo na sua fase final, verificava-se a coexistência de duas sociedades estratificadas, cujo
No Norte formou-se a sociedade Kongo, tendo alcançado extensão apreciável e alguma complexidade e maturidade, mas não atingindo o nível de certas sociedades políticas que naquela época (século XX) já existiam noutras partes de África. No Leste a penetração, até o século XV, não levou à formação de unidades sociais maiores. E no Sul (e Oeste) do Cuanza a cobertura demográfica continuara fraca e intermitente.
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«centro» era formado por um núcleo pequeno de europeus e «assimilados» (isto é, os que se encontravam próximos dos europeus, não no sentido legal que viria a ter mais tarde) e O período seguinte, isto é, a fase da ocupação colonial, que coincide com as últimas décadas do século XIX, corresponde ao momento em que Portugal redobrou o seu esforço de conquista do «interior de Angola», numa clara tentativa de antecipação e reforço da sua presença em África, em consequência da crescente concorrência de outros países europeus empenhados na «corrida para a África». Nesta fase consolidou-se um sistema eco-cultural colonial integrado, 2 composto por um «centro» e uma «periferia». O «centro» era constituído por uma imigração portuguesa cada vez mais importante, um número limitado de africanos «assimilados» e um número algo maior de mestiços. A «periferia» era composta por um número crescente de africanos, que constituiriam a mão-de-obra não qualificada (ou pouco qualificada) de que o sistema precisava para o seu funcionamento. Esta situação de dominação do «sistema central» sobre a «periferia» ou «sistemas tributários» manteve-se mesmo depois de algumas transformações posteriores a 1961, como são exemplos o surgimento de disposições legais abolindo a distinção entre «núcleo» e «periferia» no «sistema central», e entre «sistema central» e «sistemas tributários»; a supressão do trabalho obrigatório e da coacção para aceitar contratação de trabalho; a imposição de culturas obrigatórias, etc. Por conseguinte, essas alterações não passavam de estratégias da metrópole portuguesa para manter o seu domínio colonial sobre Angola, recorrendo à situação militar e à introdução de algumas modificações no status quo. Uma análise do papel societal do ensino na formação e desenvolvimento da estrutura social angolana de então permite constatar que, em cada um daqueles momentos históricos, o sistema de ensino teria não só servido como mecanismo de consolidação do modelo societal vigente, mas também contribuído para a passagem de um modelo para outro e para produzir modificações parciais em cada um dos modelos (Heimer 1973: 639). 3 Assim, nos primeiros quatro séculos da presença portuguesa, as sociedades
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Sobre a teoria dos ecossistemas eco-culturais cf. Silva e Morais 1973: 93-109. Conclusões globais de vários estudos levados a cabo nas ciências sociais sobre o papel societal da «educação formal» (ensino escolar) apontam no sentido da confirmação da hipótese segundo a qual o impacto da educação tende a reforçar a dinâmica societal prevalecente (cf. Bourdieu e Passeron s.d.).
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africanas e as «micro-sociedades coloniais» desenvolveram os seus mecanismos próprios de educação. Aquelas dispunham dos seus mecanismos de educação das novas gerações e estas últimas desenvolveram um pequeno número de instituições escolares que viriam a complementar a educação «informal». Relativamente às instituições escolares das «micro-sociedades coloniais», umas serviam os «núcleos» da população urbana e outras a parcela da população africana situada na faixa do território anexa a Luanda. Se as primeiras contribuíam para a consolidação do «centro» das micro-sociedades coloniais as segundas serviam para a consolidação do domínio do «centro» sobre a sua «periferia». Na fase da ocupação colonial, o estabelecimento de uma rede escolar estatal contribuiu para a consolidação do «centro» do sistema colonial, enquanto que uma rede escolar paralela estabelecida pela penetração missionária nas sociedades africanas (iniciada de forma sistemática na segunda metade do século XIX) viria a cobrir o conjunto do território. Tendo atingido uma ínfima parte das sociedades rurais africanas, o ensino missionário (chamado «ensino rudimentar») ajudou, por um lado, a consolidar, em termos de «superestrutura» ideológico-cultural, o domínio do «núcleo» sobre a «periferia» do «sistema central» e do «sistema central» sobre os «sistemas tributários» e, por outro lado, a mobilizar um certo número de africanos de que o «sistema central» precisava para o seu funcionamento. No período de transformação posterior a 1961 um balanço global da situação aponta no sentido de que as prioridades relativas tanto ao ensino primário como ao ensino pós-primário foram dadas ao «sistema central», pelo que o ensino constituiu um poderoso mecanismo de «integração» e de diversificação. Quanto aos «sistemas tributários», a expansão do ensino pouco ou nada contribuiu para o seu desenvolvimento; continuou, isso sim, a constituir um mecanismo de «domesticação» ideológico-cultural dos «sistemas tributários» pelo «sistema central», um mecanismo de drenagem de elementos dos «sistemas tributários» para o «sistema central» (Heimer 1973: 643). Essas transformações da década de 60 foram o culminar de uma estratégia iniciada na década anterior. Em 1951, quando o ensino «rudimentar» passou a chamar-se «ensino de adaptação», havia a intenção de facilitar (de forma restrita, é claro) a passagem de alunos deste tipo de ensino para o estatal; a partir de 1954/55, em certas zonas urbanas ou mesmo rurais praticava-se uma admissão «tácita» em escolas estatais de

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crianças africanas oriundas de famílias consideradas «indígenas»; a reforma do ensino primário de 1961, sancionada por lei em 1964 e continuada por outras tantas medidas subsequentes, foram importantes em termos estruturais (cf. Ministério do Ultramar 1964). Os aspectos mais importantes desta mudança foram a abolição da distinção de princípio entre duas redes de ensino primário, com status diferentes; o alargamento da actuação do Estado, implicando o estabelecimento de postos escolares rurais e «suburbanos»; a «oficialização» do ensino missionário católico (cujos professores ficaram a depender, financeira e pedagogicamente do Estado); a manutenção das escolas das missões protestantes, sem subsídios estatais, mas seguindo os modos de actuação das escolas estatais; a generalização de um tipo de escola inspirada nos parâmetros culturais vigentes em Portugal, com modificações apenas destinadas a facilitar a transição da criança africana «não-assimilada» para este tipo de ensino; a introdução de dois novos tipos de agentes de ensino: o monitor, elemento africano, com «habilitações literárias» elementares e precária formação profissional, e o professor de posto, não diplomado, com «habilitações literárias» equivalentes ao ensino preparatório; a aceleração da expansão escolar (ensino primário) beneficiando sobretudo efectivos das áreas rurais; a introdução da escola preparatória do ensino secundário (1968); a expansão do ensino liceal técnico; e a criação do ensino universitário. Independentemente das razões que se prendem com as estratégias políticas de fundo, essa mudança na política educacional proporcionou, por um lado, à sociedade central em expansão uma mão-de-obra mais qualificada e numerosa e, por outro, contribuiu para uma maior corrosão e incorporação das sociedades periféricas; isto é, a educação foi um factor decisivo para o avanço maciço dos não brancos em posições de classe média, que durante muito tempo foram domínio quase exclusivo dos brancos. 4 Assim, com a independência e a correspondente saída dos portugueses, os lugares deixados vagos foram ocupados por esse grupo que viria a constituir a classe dirigente e burguesia técnica executante, o gérmen da classe-Estado pós-colonial. Com efeito, o
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Esta explicação não invalida, no entanto, as interpretações dessas mudanças que vão no sentido de explicar estas últimas como uma estratégia de «contra-subversão», isto é, uma tentativa da metrópole assinalar o fim da discriminação social/racial e manifestar preocupação com o «bem-estar das populações», dando resposta a uma procura da educação por parte dos «indígenas»; como uma preocupação de valorização da Província (mais tarde Estado) de Angola face à metrópole, africanizando, em certa medida, os manuais escolares e tentando criar uma afiliação cultural e uma identificação forte e generalizada com Portugal e, deste modo, minar a base de uma contestação anti-colonial inspirada na ideia de uma identidade nacional angolana (cf. Silva 1969; citado por Heimer 1973: 641).

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reconversão essa que devia ser acompanhada de um maior desenvolvimento. em detrimento de outros). já que a manutenção do baixo nível médio de desenvolvimento. maior participação na classe-Estado ou dirigente). em tudo semelhante ao verificado nos «sistemas tributários» e na «periferia» do «sistema central». de práticas estratégicas de sobrevivência dos actores sociais. Nestas lojas vendiam-se produtos nacionais 5 Na época colonial. melhores ‘razões de troca’ com a classe-Estado ou dirigente. os assalariados do Estado recebiam um salário nominal baixo. consequentemente. ou obter a seu favor uma mudança nos termos da heterogeneidade (por exemplo. criava as condições para competições individuais e colectivas que podiam assumir feição de concorrência inter-étnica. Nessas circunstâncias. A prática desse Estado protector reflecte. tenta garantir a permanência do poder e a legitimação social. em Luanda. uma convivência harmoniosa entre os vários segmentos sociais ou etnias africanas estaria dependente de uma reconversão do referido modelo societal. estavam criadas as condições para o surgimento de conflitos diversos e. aceitaram a sua utilização pelo «sistema central» entrando em disputas com outras etnias. praticante de políticas sociais dirigidas aos grupos vulneráveis. Heimer 1973: 648). Em Angola. até 1982. Com os Bakongo. Esta situação era ‘compensada’ por um cartão (o cartão do povo) que dava acesso às «Loja do Povo». Na luta por condições relativamente melhores (ou apenas menos más) podia dar-se o caso de determinadas etnias tentarem ou garantirem para si mesmas uma posição mais vantajosa na estrutura vigente (por exemplo. à semelhança da quase totalidade dos Estados africanos. utilizando as mais diversas formas de compensação. ou mesmo cessou.6 Estado pós-colonial seguiu e ‘reproduziu’ o ‘modelo societal’ da época colonial. São exemplos os conflitos que envolveram geralmente os Ovimbundu que. no Uíge. Com efeito. 5 Nas primeiras décadas de independência. uma estrutura social heterogénea. ou conseguir combinações de ambas as modalidades. Quando esta prática de funcionamento do Estado começou a dar mostras de fraqueza. os trabalhadores ovimbundu colaboraram na expansão do «sistema central». os conflitos resultaram na competição nos empregos oferecidos pelo «sistema central» (cf. os riscos mínimos de conflito associados aos vários segmentos sociais ou às etnias africanas foram em larga medida superados graças a um Estado protector. ao ver tolhida a sua base de subsistência. também. com os Akuwambundu. isto é. que esteve congelado durante muitos anos. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . algumas tensões inter-étnicas entretanto verificadas foram provocadas pela ‘situação colonial’. a estratégia de um Estado que. possibilitando aos empresários europeus fixar um nível de remuneração mais baixo para a mão-de-obra assalariada. a utilização do sistema de ‘cartão’ é um exemplo disso mesmo.

ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . suborno. assumindo formas de nepotismo. o espaço de sobrevivência da quase maioria da população. O processo de transição política. O’Donnel e Schmitter 1986). diferentemente das outras formas de mudança política baseadas na violência. entre outras (cf. 6 A restrição daquela prática de sobrevivência. a não ser sob graves riscos políticos (O’Donnel 1979. absentismo. Trata-se de processos de 6 Muitas empresas do Estado utilizavam também formas de pagamento em géneros aos seus trabalhadores. Fall 1993). ora valorizando a sociedade civil (‘política pela base’). calculada ao câmbio oficial. sobretudo para os trabalhadores que mais precisavam dela. altura em que foi extinto o controlo dos preços. em Abril de 1992. Ennes 1994/95: 171-196). assim. ao reforço da utilização do património do Estado em benefício próprio. acumulação de cargos ou falta de decisões. isto é. e não satisfazer com as aberturas/soluções apresentadas. permitindo no início apenas ‘aberturas’ controladas do espaço político. precipitar um processo de expansão de expectativas de uma sociedade civil. práticas essas que se mantiveram de forma sistemática até 1989. Com efeito. conduziu. Pode dizer-se que os processos de transição. decorrem na vigência de expectativas mais ou menos seguras. segundo o qual a instituição da democracia em África se deveu a um processo de democratização progressiva.7 e importados em moeda nacional. As medidas liberalizantes podem. económica e social. Generalizaram-se as práticas de «corrupção». Pierre Moukoko Mbondjo representa o pólo oposto. O sector informal da economia tornava-se. realizado por vários regimes de partido único (cf. Um exemplo do modelo de explicação das transições pelo topo é o trabalho de Fall. mas depois pode levar as reformas até um ponto onde já não se pode parar. Kwanza. O cartão dava direito a um cabaz de compras em função do número de elementos do agregado familiar e/ou da qualificação profissional do detentor. 7 Os processos africanos de transição têm sido explicados ora valorizando o sistema político (‘política pelo topo’). que exigirá sempre mais. em Angola a fraqueza do Estado e o ‘abandono’ das populações surgiram ligados ao processo de transição política. 7 As medidas de liberalização tendem a introduzir uma significativa abertura do regime burocrático-autocrático em vigor. postos em marcha pelo poder instituído. as transições políticas tendem a surgir associadas aos processos de liberalização económica. mais do que nunca. retém a sociedade civil como protagonista de desmantelamento dos regimes monopartidários (Mbondjo 1993). económica e social na África ao Sul do Saara (ASS) e o caso angolano À semelhança do que aconteceu na África subsaariana em geral.

mas sim como mecanismo de predação dos recursos financeiros (Bayart 1989. O Estado funciona. A aceitação deste paradigma causal das determinações económicas nos processos políticos africanos. Bayart 1985). a partir de então experimenta a tendência para o abrandamento do ritmo de crescimento das suas economias: entre 1981-1989 o crescimento do PIB atinge os 0. associada ao processo de transição. o fim dos sistema de controlo de preços de bens e serviços essenciais.7%. É neste contexto que uma grande maioria dos Estados africanos é sujeitos aos programas de estabilização impostos pelo Banco Mundial e pelo Fundo Monetário ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . de uma tendência acentuada e prolongada de degradação das condições económicas (Boudon 1990. muitos dos Estados africanos conhecem uma dinâmica económica regressiva desde então. Por todo o continente a desintegração institucional surge como uma das facetas mais importantes da crise. tenha contribuído para desencadear. parece encontrar razões que as justifiquem. a hipótese segundo a qual a derrapagem económica sofrida pelo continente africano. Tocqueville 1989). quase sempre. o fomento do aparecimento de empresas privadas. resultam muitas vezes deste processo. não como um agente do desenvolvimento. incentivar e acelerar esse mesmo processo de transição. Efectivamente. tais como a perca de certos monopólios. O Estado é objecto de apropriação por uma gestão neo-patrimonialista. Esta fraqueza do Estado. iniciados nos anos 80. as transições nunca chegam a caracterizar-se pela anomia. A nível económico. etc. Ou seja. ao perder grande parte da sua legitimidade o poder político provoca fenómenos de descontentamento e insubordinação. em certa medida. neste sentido. na qual os recursos públicos são distribuídos segundo princípios clientelares. na segunda metade dos anos 80.8 mudança intencionalmente direccionada e parcialmente dominada pelos actores em presença. Se entre 1960-1972 o continente regista um crescimento real do Produto Interno Bruto (PIB) na ordem de 2. as medidas de liberalização acabam por abrir brechas nos fundamentos doutrinários. e que têm na democracia o fim último a atingir (Przeworski 1994). com a consequente perca das fontes tradicionais de legitimidade. O abandono dos mecanismos de distribuição social dos rendimentos por parte do Estado e o alargamento das desigualdades. confirma.5%. Ao contrário dos processos de ruptura. A ideia base é que os processos de ruptura resultam.

e a mobilização política contra o poder monopartidário e sua penalização eleitoral. as ‘novas democracias’. 8 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . na restrição do pacote de preços subsidiados de produtos essenciais. jurídicas e políticas. As medidas accionadas pelo PAE contribuem. os regimes monopartidários não conseguem resistir às pressões externas e internas que apontam para o seu desmantelamento. Ou seja. No plano interno. perdendo em muitos casos o controlo sobre o processo social. motins. as ‘novas democracias’. no entanto. Gâmbia. a um tempo. que não existe uma correlação linear e directa entre fraqueza ou crise económica e os respectivos efeitos sociais (mais) dramáticos. A aplicação das medidas do PAE conduzem. Botsuana e também Senegal). não foram os países mais endividados. não deixando aos responsáveis políticos africanos um espaço de manobra apreciável. nos cortes nos programas sociais que envolvem a saúde. na desvalorização da moeda. resultantes de alternância de poderes (Benin. em muito. São Tomé e Príncipe. nomeadamente o respeito pelos Direitos Humanos e o engajamento do poder político no processo tendente à instauração do pluripartidarismo. Camarões e Gana). As reformas institucionais. traduzida na redução das despesas públicas e restrições das importações associadas ao despedimento de funcionários públicos considerados excedentários. A adopção do Programa de Ajustamento Estrutural (PAE) coloca estes Estados na situação de dependência. a educação e a cultura. à fraqueza e à perca de alguma soberania real dos Estados tanto a nível externo como interno. Cabo Verde. Congo e Mali). a aplicação das medidas do PAE parece estar na origem de greves. Zâmbia. onde vigorava o multipartidarismo desde a independência (Ilhas Maurícias. sem alternância de poderes (Costa do Marfim. mais marginalizados e mais pobres que enfrentaram a rejeição mais expressiva do regime monopartidário aí existente. manifestações diversas. Gabão. Os governos perdem a capacidade autónoma de decisão em matéria estrita de política económica e bem assim nos aspectos que se prendem com o enquadramento legislativo e definição constitucional de competências. países que proibiram o multipartidarismo ou que tendo aceite avançar com Deve notar-se. são alguns exemplos. etc. 8 Um balanço do processo de transição democrática iniciado na ASS nos 80 dá conta de alguns resultados positivos mas também de muitos obstáculos. etc. na alienação das empresas. Neste quadro. Angola.9 Internacional. No panorama da rápida evolução política propriamente dita ocorrida na ASS em direcção ao multipartidarismo é possível distinguir quatro categorias: as ‘velhas democracias’. para a erosão da legitimidade do Estado.

reconhecendo uma dimensão económica. certamente. pré-colonial. dirigentes de partidos e oficiais superiores. pode dizer-se que as mudanças entretanto ocorridas não produziram efeitos significativos. como sejam a oposição dos poderes instituídos e. todas formas de organização política que não favoreciam. Por outro lado. a transição entrou numa fase de estagnação. o funcionamento do Estado pós-colonial não favorece o desenvolvimento e a prática da democracia. a classe-Estado. aproveitava as suas posições para se munir de uma base económica própria pela criação de empresas públicas e privadas ou outras actividades económicas. ainda. Estes grupos eram constituídos sobretudo por altos funcionários competentes. em alguns países. Com efeito. persistem dúvidas sobre uma «participação» que se reportava às formas de democracia da política tradicional africana (cf. Bozenan 1976). 9 Esta evolução não é estranha. ou classe dirigente. vendo nela apenas um sistema multipartidário (cf. ao passado longínquo e recente da África nem às características do regime anterior. jogando um papel central na formação das classes sociais. De qualquer modo. O Estado pós-colonial em África constituiu. ex-Zaire e Malawi). Eles fundamentam as suas posições essencialmente nas imperfeições de algumas experiências já levadas a efeito. caracterizados por Por outro lado. mais tarde. o surgimento e o desenvolvimento de práticas democráticas. Quando da independência o poder foi apropriado pela elite política e. e não favorecem. fundamentalmente. quer no plano político quer no plano económico. o processo de democratização em África não deixou de ser influenciado pela combinação de factores externos e internos e acontecimentos só foi 9 Os múltiplos obstáculos ao processo de democratização estão na origem do pouco optimismo de muitos autores relativamente ao futuro do continente africano. um à direita e outro à esquerda (Buijtenhuijs e Rijnierse 1993: 1). pela burguesia burocrática. e o caso da Nigéria onde o governo militar autorizou dois partidos. Tratando-se. Autores há que são ainda mais pessimistas. Este grupo inclui autores que encaram a democracia no seu sentido mais lato. pela classe política ou. noutros deparou-se com algumas dificuldades. assim como autores que pensam a democracia de uma forma mais restrita. e continua ainda a constituir. dado que não havia uma burguesia local.10 mudanças políticas tudo fizeram para minar esses acordos (Quénia. Buijtenhuijs e Rijnierse 1993: 18 e 19). Esta característica influenciou decisivamente a política africana e o processo de competição política. a centralização e o paternalismo. Em alguns casos o processo foi bem sucedido. se relativamente ao passado longínquo. de Estados que não tinham o controlo sobre os meios de produção. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . relativamente ao passado colonial é consensual a ideia de que a tradição política então praticada repousava sobre a autarcia. o canal principal de crescimento económico.

Angola experimenta um processo de transição que enfrenta problemas graves. um processo que até 2002 esteve bloqueado (Buijtenhuijs e Thiriot 1995: 26). O insucesso do processo de transição em Angola tem certamente várias causas. Por isso mesmo. só assinou os Acordos de Bicesse porque estava convencida que sairia vencedora das eleições de 1992. o Estado diminuiu o seu controlo sob todos os sectores da economia. associado a um processo liberalização económica. o que não acontecia no sistema monopartidário vigente anteriormente. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . A partir de 1991. Para esta autora. demitindo-se progressivamente das funções sociais que anteriormente assumira. 10 Este abandono do Estado das suas funções sociais é agravado pela necessidade do governo do MPLA garantir a sua manutenção no poder na sequência da guerra civil vivida após as eleições de 1992. que apelavam para uma mudança.11 possível porque as forças sociais internas. Para esta autora. ao facto dos Acordos de paz de Bicesse destinados a pôr fim à guerra civil. à semelhança da grande parte do resto do continente africano. o insucesso do processo de transição angolano fica a dever-se também ao facto de que os dois principais partidos angolanos. com o início do processo de abertura política. estavam lá e aproveitaram as circunstâncias para fazer ouvir a voz dos seus protestos. visto que o processo de pacificação foi limitado aos dois beligerantes: UNITA e MPLA. este fracasso fica a dever-se. por seu lado. surge também num contexto de crise económica e social que atravessa o país e num contexto de fortes pressões internas e externas que reivindicam para Angola mudanças rápidas e drásticas dos rumos que o país tem tomado. Mas o processo angolano. em larga medida. Enfim. de negociações e de guerra intensificada. «o papel da ‘comunidade internacional’ neste processo e sua responsabilidade política neste resultado foram consideráveis» (Messiant 1995: 48). O MPLA. Conforme Messiant. terem sido mal conduzidos (Messiant 1995: 40-57). quando deu conta 10 É verdade que a abertura pré-eleitoral de 1991-92 não permitiu resolver as situações de guerra. além de não ter tomado a iniciativa de abertura democrática. UNITA e MPLA. resistiu enquanto pôde. não estarem convencidos de que a democracia era o melhor sistema governamental. só cedendo sob pressões. Esta especificidade deve-se sobretudo ao facto desse processo surgir num contexto de guerra civil em que o país está mergulhado há mais de três décadas. negociados sob auspícios internacionais. A UNITA. mas teve o mérito de possibilitar ‘alguma abertura política’ para manifestações sociais/laborais e económicas. Em Angola o processo de transição assume características específicas.

O segmento intermédio da classe-Estado. Pereira 1994: 1-28. 11 Nos anos que se seguiram esse período conturbado da vida angolana. recorrendo sobretudo ao sector informal da economia. São eles que vão alimentar Luanda e outras cidades do país. As actividades mais lucrativas no imediato. Se os dirigentes ou ex-dirigentes candidatos a empresários encontram nos mecanismos de privatização um espaço para manter o status quo. 12 As privatizações das empresas do sector público trazem. 11 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . com a inflação a atingir valores elevadíssimos. Os indivíduos pertencentes aos níveis mais elevados da classe-Estado encontram no processo de privatização. às divisas e ao crédito. como é o caso do comércio grossista.12 que os resultados eleitorais lhe eram desfavoráveis não hesitou em retomar a guerra. No entanto. desempregados e muitos empregados recorrem a esse sector como tábua de salvação. Subempregados. Sommerville 1993: 51-77. a taxa de desemprego em Luanda era superior a 24%. responsável por 96. prejuízos avultados ao Estado. 5% das exportações de 1994. em 1994 a economia angolana. devido sobretudo ao reforço da exportação de petróleo. confrontados com a falta de «cartões». A estratégia da classe dirigente ou ex-classe dirigente é sobreviver na área económica sem perder a ligação aos círculos de influência.2%. Sobre as eleições abortadas de Setembro de 1992 cf. dependente de um contexto de guerra. registou uma significativa recuperação. Na segunda metade de 1995 o governo perdeu de novo controlo da situação. e a Revista Politique Africaine. 57. cerca de metade dos quais entre a população rural (cf. em 1993 a situação agravara-se: o ritmo de inflação mensal atingiu os 23%. na maioria dos casos. que consagra grande parte dos artigos a . em relação ao ano de 1993 (mas não em relação ao de 1992).Angola. a situação económica e social em Angola não melhorou. os deslocados e outros afectados pela situação de guerra atingiam os três milhões de pessoas. vão sobreviver nos círculos informais da economia. que haveriam de formar uma pequena burguesia. O PIB cresceu na ordem dos 8. Pelo contrário. 12 os segmentos mais baixos da classe-Estado. Até 1996 muitos funcionários do Estado. Banco de Portugal 1995 e Carvalho 1996). são as preferidas pelo novo empresariado angolano. É neste contexto de crise generalizada que as populações desenvolvem estratégias próprias de sobrevivência. Por vezes mantêm as suas funções no aparelho de Estado. uma possibilidade de manter a sua posição na primeira linha de hierarquia económica e social do país. aproveitando alguma segurança que a UNAVEM III proporciona. Pycroft 1994: 241-262. iniciado em 1991. e sobre a guerra civil angolana cf. demitem-se das suas funções ou ausentam-se do serviço para procurar sobrevivência na economia paralela.

Há também aqueles que aproveitam a abertura política para se dedicarem às actividades do sector privado. Além da oferta de ensino não satisfazer a procura a sua qualidade era muito fraca. cumulativamente ou não com a sua funções do sector público. social e económico acumulado ao longo dos tempos junto do aparelho de Estado. A degradação progressiva dos edifícios herdados da época colonial e a escassez de verbas orçamentais destinadas à educação revelam a grave crise do sector. marginalizado e subordinado. Em suma. que tendem a transitar do Estado/partido para o topo da hierarquia económica. O reconhecimento do baixo nível de preparação dos professores. os diversos actores sociais tentam rentabilizar o capital político. a ponto de se tornar imprescindível o apoio das organizações internacionais com vista a uma nova reforma do sistema de educativo. Os segmentos sociais menos bem colocados tendem. acumulando frequentemente outras funções em empresas multinacionais. Os melhores colocados para exercer esse «poder» são. que surge associado a um certo abandono das populações por parte do Estado.13 por sua vez. evidentemente. em Angola. mantém o seu emprego no Estado ou noutro organismo. Mas as dificuldades que afectavam e afectam a realidade educativa em Angola foram sempre muito mais graves. no quadro de transição. de todos os países africanos recém-independentes). aliás. levando consigo a propriedade do Estado. a rentabilizar as funções que exercem usando a corrupção e o suborno para aumentar os seus rendimentos. no período de transição. Apesar da educação ter sido eleita pelo Estado pós-colonial como uma via privilegiada para o desenvolvimento e para a transformação da estrutura social em Angola (à semelhança. por sua vez. ao sector de segurança e defesa. a nível do sistema de ensino. reforçada ainda pelo facto de que o sector de educação surge. por exemplo. as classes dirigentes ou classe-Estado. Realidades educativas angolanas e estratégias educativas dos actores sociais no processo de transição É justamente esta lógica estratégica de rentabilização de capital acumulado junto do aparelho do Estado que também prevalece. tanto por parte do Ministério da Educação de Angola como das instituições ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . este sector defrontou-se desde sempre com grandes dificuldades.

O processo de transição/liberalização não trouxe alterações significativas ao sector de educação. A frequência dos alunos nos níveis escolares mais avançados (II e III) continuava a ser fraca. associada a um projecto financiado pelo PNUD. como sejam das populações que chegam à cidade. as próprias populações. motivou a cooperação técnica da UNESCO. embora africano. permanecia desigual. a uma situação em que o Governo eleito não controla parte significativa do território e à consequente subordinação do sector do ensino relativamente aos esforços e políticas estratégicos de defesa e segurança.14 internacionais. a maioria dos professores continuava a ter entre quatro a seis anos de escolaridade. mas que ainda não estão integradas. por exemplo. associada à situação de guerra civil. a todo o custo. As outras realidades. A Reforma educativa de 1994 orientava-se para uma realidade educacional concreta. a distribuição da frequência. Rapport National de la République d’Angola par le Ministère de l’Éducation 1994). desenvolvem. Muitas vezes conseguir um complemento salarial significa abandonar o posto de trabalho em qualquer momento. doravante e mais do que nunca. sempre que surja ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . projecto este que visava elevar o nível académico de vinte mil professores com a 4ª classe para a 6ª classe. como foi o caso da Reforma de 1994. o funcionamento real da estrutura do sistema educativo angolano apresenta-se desfasada da estrutura «oficial». Nestas circunstâncias. a não ser que. procuram outras formas de complementar os seus salários para assegurar uma sobrevivência condigna. não são contempladas nas preocupações da reforma (cf. As orientações políticas e outras relativas ao sector são sacrificadas. em termos regionais. Acrescente-se que o sector de educação angolano sofria de uma desarticulação a nível de coordenação de acções a nível nacional/regional ou local. estratégias próprias com vista à resolução dos seus problemas educativos específicos. defrontavam-se sempre com um problema central que era o desconhecimento da realidade educativa de Angola. reflectindo uma situação de litoralização (à medida que se afastava para o interior a frequência diminuía) e desfavorável aos elementos femininos. Os professores. com um estilo de vida urbano. as tentativas de levar a cabo as reformas educativas. cientes de que os seus salários não lhes permitiam garantir a sua sobrevivência e da sua família. em 1979. ao sentirem-se abandonadas pelo Estado. Face à situação de instabilidade política em que o país vive. a da população que vive na cidade.

que chegam à cidade. os grupos favorecidos. Junto aos edifícios do culto religioso foram surgindo ‘espontaneamente’ as «escolas» em salas de aulas anexas. Poucas pessoas ou instituições. teoricamente gratuita. As populações de origem rural. a incapacidade do Estado em responder à procura de educação e. os funcionários públicos e os pequenos empresários — que acaba por aproveitar as oportunidades de escolarização existentes. com excepção da Igreja Católica. Todavia. E porque a frequência de uma escola pública. As populações mais carenciadas. Uma vez mais o jogo do poder e de influência política encontra um campo propício. que chegam à cidade fugindo à guerra ou em busca de melhores condições. a classe-Estado. As diligências da Igreja Católica permitiram-lhe. por um lado. este traduz. esta situação favorece o carácter reprodutor da educação. fugindo da guerra ou simplesmente à procura de melhores condições. exige das famílias um investimento significativo que não está ao alcance de toda a população. e os perdedores também são sempre os mesmos.15 uma oportunidade. é apenas parte dela — mormente a pequena burguesia. deste modo. os grupos desfavorecidos ou menos favorecidos. têm. o arranque do ensino privado não se processa sem grandes dificuldades. a pressão exercida pela classe-Estado e pela burguesia emergente. por outro. na maioria das vezes. desejosa de protagonizar dinâmicas próprias dos países capitalistas. que deixar de «mandar os filhos à escola» em favor de uma qualquer estratégia de ganha-pão no mercado informal/paralelo. uma situação em que a política de formação de quadros está ausente ou se encontra subordinada a um processo de manutenção/melhoria das condições de vida ou de sobrevivência. Naturalmente. conseguem a legalização e o funcionamento de escolas privadas sem grandes obstáculos. encontram nas diferentes comunidades religiosas um espaço de pertença e integração. receber de volta as suas antigas instalações escolares nacionalizadas com a chegada da independência. A mesma lógica preside às estratégias de atribuição/acesso às bolsas de estudo reflectindo. enquanto via de obtenção de interesses próprios. Aqui o que está em jogo é o poder de influência e ligação com o Poder político. Os ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Quanto ao aparecimento do ensino privado. em que os vencedores são sempre os mesmos. Daí que os empreendimentos de maior importância surjam ligados à classe-Estado. sobretudo as «deslocadas». após 1992.

Paulo. Jean-François. Ibrahima. ENNES. Paris. A. BAYART. Paris. geralmente com o Estado. «Esquisse d’une théorie de la transition: du monopartisme au ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Leiden. L’État au Cameroun. Raymon. 1990. Política Internacional. FALL. Fayart. Jean-François. o seu poder de influência resulta do controlo do aparelho de Estado (incluindo ‘cunhas’. Lisboa. bastante acima da oferecida por outras instituições. Pierre e PASSERON.. BOZENAN.). 1989. s. 1994/95. O lugar da desordem. 1993. Estas instituições tentam aproveitar as antigas instalações negociando. Démocratisation en Afrique au Sud du Sahara 1992-1995: un bilan de la littérature. por sua vez. CARVALHO. e a classe-Estado rentabiliza os recurso do próprio Estado em seu favor. Ferreira. tratam-se de escolas de elite. Princeton. «Hiperinflação em Angola».. a reconstrução de edifícios que no período colonial serviam funções similares. Editorial Vega. as populações dos estratos mais baixos têm como recurso as comunidades religiosas (e/ou ONG). Princeton University Press. etc. L’État en Afrique: la politique du ventre. 1996. 1 (10): 171-196. 1989-1992: Un aperçu de la littérature. Revista Energia. «O processo de privatização em Angola». incluindo o Estado. BUIJTENHUIJS. Démocratisation en Afrique au Sud du Sahara. FNSP. BOUDON. 1976. Elly. African Studies Centre. Céline. os vários segmentos sociais desenvolvem estratégias próprias de acesso à educação.16 Colégios e Externatos surgem. Referências Bibliográficas BANCO DE PORTUGAL. investindo os seus recursos de modo a atingir os seus objectivos: a pequena burguesia do empresariado emergente socorre-se dos seus recursos provenientes do comércio informal. Gradiva. Conflict in Africa: Concepts and Realities. 1993. Jean-Claude. Rob e RIJNIERSE. BOURDIEU. BAYART. Lisboa. Rob e THIRIOT. Evolução das economias dos PALOP 1994. B. 1995. corrupção. Em suma. Lisboa. BUIJTENHUIJS. 1985. Leiden. 1995.d. 42. associados aos grupos com algum poder/interesse económico interessados em desenvolver projectos de ensino com uma qualidade razoável. A reprodução: elementos para uma teoria do sistema de ensino. Centre d’Études Africaines.

«The Neglected Tragedy: The Return to War in Angola. Social Change in Angola. PEREIRA. 1969. C. 1994. «Estrutura social e descolonização em Angola».17 multipartisme en Afrique». Politique Africaine. Luanda. A reforma do ensino primário no Ultramar. José Pinheiro da. Rio de Janeiro. Genève. Conférence Internationale de l’Éducation. C. 1994. Relume e Dumará. em L’Afrique vers le pluralisme politique. «MPLA et UNITA: processus de paix et logique de guerre».. 44èmme Session. Guillermo. 1994. Economica. Franz-Wilhelm.. Munique. 1973. Survival. 5. Editorial Fragmentos. TOCQUEVILLE. Franz-Wilhelm (ed. Alex. O’DONNEL. Paris. RAPPORT NATIONAL DE LA RÉPUBLIQUE D’ANGOLA PAR LE MINISTÈRE DE L’ÉDUCATION. MESSIANT. «Ecological Conditions of Social Change in the Central Highlands of Angola». Pierre Moukoko.. O Antigo Regime e a revolução. SILVA. Lisboa. «Développement de l’Éducation». MINISTÉRIO DO ULTRAMAR.?. Lisboa. Guillermo e SCHMITTER. Journal of Southern African Studies. Adam. Paris. 1993. «Notas para el estúdio de procesos y democratizacion a partir del estado burocrático-autoritário». PRZEWORSKI. John Hopkins University Press. HEIMER. Transitions from Authoritarian Rule: Tentative Conclusions about Uncertain Democraties. SILVA.). 93-109. K. «Angola — The Forgotten Tragedy». Estúdios CEDES. W. Análise Social. PYCROFT. 40: 621-655. O’DONNEL. Toda educação aponta para a integração. 1973. 32 (1): 1-28. 1989. 1994. 20 (2): 241-262. 1964. em L’Afrique vers le pluralisme politique. 1992-1993». em HEIMER. Jorge Vieira da e MORAIS. Phillipe. SOMMERVILLE. s. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Economica. MBONDJO. 57: 40-57. 35 (3): 51-77. Democracia e mercado. Júlio Artur de. A. «Le retour au multipartisme au Cameroun».l. 1979.. «The Failure of Democratic Reform in Angola and Zaire». 1986. 1993. 1995. The Journal of Modern African Studies.

Mentalidade Cultural O presente trabalho. apesar de diversos entre si. com diferentes origens etno-culturais. Na supracitada monografia. que neste encontro tem a sua primeira oportunidade de ser submetido ao escrutínio dos nossos pares. logo. posteriores à apresentação. Assim. deriva de um conjunto de desenvolvimentos e reflexões. realizámos a avaliação etnográfica1 de um Centro de Formação Profissional.A. acordámos com a direcção da Instituição. entre os 17 e os 18 anos. Em suma. a realizar um curso técnico. procurámos compreender as relações sociais estabelecidas entre os formandos e o pessoal de enquadramento. Inserção Social. S. em 2003. Mediação Cultural. que iríamos restringir o locus da pesquisa aos espaços de recreio e lazer. embora limitando o horizonte da investigação. face ao horizonte de acção. defendemos a reabilitação da figura do agente social. Palavras-Chave: Formação Profissional. esta condicionante permitiu-nos estudar a vida quotidiana destes formandos nos espaços físicos onde existe maior flexibilidade de regras.Relações Sociais na Formação Profissional Especial: da(s) Cultura(s) às Pessoas Miguel Ângelo Granja Lobato FCSH-UNL miguellobato@sapo. inseridas no quadro geral de um horizonte de acção comum. de uma monografia final de pósgraduação em Formação de Formadores que frequentámos no Instituto Superior de Psicologia Aplicada. 2 E que.pt Através do estudo de um grupo de jovens desfavorecidos. ponderando o peso da agência pessoal e dos condicionantes estruturais. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . 1 Nesta investigação. Insucesso Escolar. aproveitando para estudar aquele grupo durante os seus tempos livres. que. elaboradas sobre o fenómeno da educação/formação. radicamos os seus padrões de atitude e conduta na adesão a diferentes mentalidades culturais. junto de um grupo de jovens (seis rapazes e uma rapariga). na compreensão da forma de relação destes jovens formandos com os formadores e os mediadores culturais que lidam com eles. designámos como Instituto Global de Artes e Ofícios da Periferia. ao invés da tendencial “naturalização” dos fenómenos sócio-culturais das explicações etno-culturalistas. por motivos éticos. sito na região da Grande Lisboa 2 . de manifestação “livre” de condutas e atitudes. Assim.

mantendo todavia a carga horária total inicial. desenvolvendo-se em três anos. pese embora as características especiais desta formação. local onde o alcance da intervenção dos mediadores.2 tanto nos seus “fenótipos”. tinham percursos existenciais similares. social. avaliador). Porém.º 140/93. visa antes de tudo. com qualificação de nível II. o dispositivo institucional. no presente trabalho. como forma de resolver a recorrente perturbação que provocava nas sessões de formação. tanto quanto sabemos. estes jovens estavam ali a frequentar um curso de longa duração (2 anos 3 ) no domínio da construção civil 4 . por norma. e outros quatro haviam desistido 7 . profissões desprestigiantes. estava legalmente regulamentado pelo Despacho Normativo n. quando começou. durante os últimos meses do segundo ano do curso. De facto. o que é visível no escasso número de raparigas que o frequentavam. Assim sendo. refira-se que a maior parte da oferta formativa do IGAOP dirigia-se a áreas de formação tradicionalmente masculinas. como se sabe. ao abrigo do programa da Formação Profissional Especial 5 . dos quais quatro haviam sido expulsos. e. oriundos de famílias com baixos níveis de escolaridade. e. Fetterman & Pitman 1986). a qual. neste trabalho não pretendemos apresentar uma súmula da nossa pesquisa. de 6 de Julho. Não obstante. na época. consequentemente. antes de entrarmos nos aspectos mais substantivos desta comunicação. visando a inclusão social dos jovens envolvidos. os problemas que motivaram a expulsão. partindo da pesquisa efectuada sobre a relação destes jovens formandos com os mediadores culturais. equivalência ao 9º ano. que era composta por dezasseis elementos. 7 Já durante a nossa pesquisa. também foi expulso. era bastante reduzido. convém referir que este grupo de formação 6 era o remanescente da “turma” inicial. ou de habitação social. Nesse sentido. tem um estatuto intelectualmente ambíguo. mas antes desenvolver algumas reflexões relativas à perspectiva do investigador (e. Por motivos imprevistos. a acção teve um desdobramento curricular. pois embora recorra a técnicas etnográficas. face aos Pelo menos de início. ou populares. como nas suas “origens etno-culturais”. 3 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . e. que foram emergindo ao longo do tempo que passámos entre os formandos. (Fetterman 1984. habitando em bairros ou degradados. mas antes avaliar uma realidade face a um referente. 5 O qual. devemos relembrar que os resultados deste trabalho estão enformados pelo facto de emergirem de uma avaliação etnográfica. procedeu sempre ao seu acompanhamento. 4 Neste campo. laboral. iremos apresentar uma breve reflexão sobre uma tese que preconiza o primado da agência pessoal. 6 Com quem nos envolvemos. particularmente por intermédio dos mediadores culturais. não produzir uma verdadeira etnografia. Todavia. um dos formandos com que trabalhámos. derivaram das condutas desenvolvidas no interior da sala de formação. Ora. parcos rendimentos. marcados pela exclusão escolar.

Fetterman & Pitman 1986). reflectidos em espelhos distintos. e. através do seu dasein (estar-aí). onde tentámos equilibrar horizontes de acção macro-estruturais e as possibilidades (realistas e/ou razoáveis. pelo que. elaborado no seio de uma avaliação etnográfica sobre os formandos de um curso de formação profissional especial.3 condicionantes estruturais. operando no âmago da dualidade da estrutura de que nos fala Anthony Giddens (Guiddens 2000). inscrevendo a diversidade dos padrões de atitude e conduta que observámos. a saber. 9 Assim sendo. pessoas concretas. que. reconhecendo a distintividade e diversidade dos seus caminhos pessoais. num processo decisório. Nesse sentido. enquanto avaliadores etnográficos.) ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . sem prejuízo dos elementos que os unem entre si 9 . o nosso papel principal é a produção de conhecimentos para apoio à acção. mulheres.d. raciais. recorrer-se à “atomização” das estruturas sociais. este trabalho decorreu a uma escala micro-social. minorias. 8 Sobre este assunto. etc). mas antes das mais-valias heurísticas e hermenêuticas derivadas da opção consciente de. balizado por preocupações. devemos ter a preocupação de recorrer a uma(s) que responda(m) às questões que urge resolver. rejeitando as sobredeterminações (sociais. e escolares. lendo os agentes envolvidos como hologramas societais. sexuais) que possam ser elaboradas sobre determinadas categorias de pessoas (pobres. do qual emergem simultaneamente como produtos e produtores. de entre a variedade de teorias disponíveis para abordar o terreno. hic et nunc (aqui e agora). movem-se num lebenwelt (mundo da vida). esperamos) existentes ao nível da agência pessoal dos intervenientes (Bourdieu s. enjeitando as teses mais “estruturalistas”. na adesão (pessoal) dos agentes a diferentes configurações de mentalidades culturais. familiares. no estudo de pequenos grupos (como é o caso de um meio escolar circunscrito). ou seja. como filosóficas (valorização e dignificação da pessoa humana). tanto pragmáticas (escolha de um quadro teórico com boa adesão aos fenómenos observados e relevância para a acção). não vamos aqui falar da avaliação etnográfica em si 8 . económicas. Por outras palavras. Todavia. procurámos tratar cada um dos envolvidos nesta investigação como um sujeito. ou seja. pode consultar-se proveitosamente os estudos de David Fetterman (Fetterman 1984.

preconiza que as culturas são tendencialmente fixistas e/ou essencialistas 11 . a auto-vigilância do discurso é fulcral para evitar cair nesta dissimulada e recorrente armadilha do senso comum. classe social ou mesmo sub-cultura. Logo. reificam os indivíduos. Fruto das aprendizagens posteriores. por considerarmos que essas teses escondem escolhas ideológicas que enviesam as análises científicas. e. 11 As marcas mais ou menos camufladas deste tipo de teses. 1). preconizando que «…the ethnographer enters the field with an open mind. sexo.» (Fetterman 1998. fruto dos processos dinâmicos (e. etc. hoje reconhecemos que o quadro teórico em que nos movimentámos na altura está um pouco desactualizado. que. descuram a importância da dimensão social e colectiva da vida humana. embora tenhamos explorado algumas teorizações bastante profícuas sobre a exclusão social 10 . e. Costa 1998). 10 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . A título de exemplo. defendemos que é um erro (infelizmente comum) considerar que as “segundas gerações” de imigrantes. Crehan 2004). nesta pesquisa. not an empty head. p. opusemos uma teoria que considera o domínio cultural como uma rede constelacional. raça. enjeitámos as teorias que elaboram instrumentais (modelos de dados e grelhas de leitura da realidade) centrados no primado de determinada variável (classe. bem como as teorizações ostensivamente psicologistas. Nesse sentido. numa perspectiva próxima da teoria emergente (usualmente conhecida por grounded theory). encontram-se mesmo entre alguns antropólogos. salvo melhor opinião.4 Posto isto. desenvolvemos uma reflexão sobre a sociedade e a cultura. razão pela qual procurámos deixar que os eventos em que participávamos fossem ajudando à emergência de uma hermenêutica do vivido. recusámos abordar o terreno com um quadro teórico “prontoa-vestir”. etnia. que pode assumir expressões diversas no interior de cada sociedade. próprias de determinada civilização.). enformando-as a visões políticas do mundo. Ora. vivem num regime de “esquizofrenia cultural”. Assim. Isto porque. ainda que estes o ignorem ou neguem. e. a posição dos sujeitos na estrutura e organização da sociedade. contra esta tese que – inclusive sob o signo do multiculturalismo –. particularmente no que concerne à identificação e filiação identitária (Nunes 1995. que visam reduzir o “lebenwelt” a uma tendência configuradora de um inequívoco e normativo padrão de ideias e condutas. sem todavia negar a sua unidade. assente na desconstrução de visões homogeneizantes e intentos hegemónicos (oriundas tanto dos estratos dominantes como de grupos subalternos). transitória e em constante (re)produção. Especialmente os estudos feitos sobre a égide de Luís Capucha e Alfredo Bruto da Costa (Capucha 1999.

Nesse sentido. tanto têm de comum como de diverso.. em que usualmente são (re)produzidas. no quadro de um complexo socio-cultural que assenta numa lógica que não é monolítica. Mas. sentir e agir. por parte do investigador. sociais. seja de cariz laudatório. expectativas e/ou aspirações. nem a apologia da hibridez cultural.. etc). mas antes uma abertura intelectual. expressam-se por códigos culturais emergentes. Por outras palavras. mas antes segmentar. para lá da sua aparência. embora podendo. saindo deste breve excurso. abrindo e explorando um feixe de modos de vida. nos mesmos parâmetros que identificamos o “Eu”.e. de tipo pejorativo. ao edificarem novas “sub-culturas”. O reconhecimento de uma emergência miscigenada (que tanto se aplica a filhos de caboverdeanos em Portugal como à prole dos portugueses em França) não é a denúncia de uma alienação cultural (embora alguns o possam viver assim. étnicas. um interlocutor tem o supremo direito de falar por si. Efectivamente. foi através do enquadramento da investigação com um conjunto de noções operatórias.e. o fulcro da nossa tese é a defesa que. em que se revêem. enquanto ser singular – embora nunca perdendo a sua posição de sujeito cultural e socialmente situado – ao invés de ser discursivamente sobredeterminado por um conjunto de categorizações genéricas (nacionais. ou de género neutro. possuir um núcleo de elementos transversais. Ou seja. como também respondem de forma plural e diversa a todo um conjunto de diferentes desafios. nestas pessoas (que podem ou não viver impregnadas em redes comunitaristas de identificação e sociabilidade). devemos reconhecer o “Outro” (seja ele qual for). importa referir que. que reflectem as novas modalidades societais de pensar. i. entre diferentes “mundos de vida”. que. não só “miscigenizam” elementos de diferentes proveniências. numa identidade dilacerada). não devemos apenas mudar as palavras. por vezes ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . sexuais. organizado segundo princípios policêntricos. mais próxima do multiculturalismo celebratório (com que certos sujeitos se podem porventura identificar). i. reconhecendo a pluralidade das pessoas e dos seus modos de vida. por vezes. mas temos que redefinir também a sua semântica.5 amiúde ambíguos ou contraditórios) de socialização e endoculturação. que o torne capaz de reconhecer que. reelaboram-nos de formas particularmente distintas.

favorece a legibilidade das diferenças (por vezes profundas). e. expressos por percursos biográficos singulares – que se apresentam sob o conceito de “modo de vida”. da profusão de dados observados. revelou trajectórias sociais e percursos biográficos diferenciados que. mais que pugnar por uma tese.e. Porém. monografia de Óscar Lewis sobre a biografia de uma família pobre da cidade do México. que permitimos que o terreno fosse gerando pistas para a sua própria interpretação. refutado por uma perspectiva mais promissora 12 . revelam como nas suas vidas. esta diversidade de modos de vida da pobreza e exclusão social é magistralmente ilustrada em “Os filhos de Sanchez”. matizam as visões hegemónicas que tendem sumariamente a associar e/ou justificar a pertença a determinada categoria social. venha a ser refinado. pôde assentar no individualismo metodológico. importa ainda referir que as nossas conclusões devem muito à estratégia de pesquisa mobilizada. Esta última noção. o que desenlevando a acção diferencial dos agentes sociais sob investigação. 12 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . sintetizando mecanismos de ordem cultural e sócioeconómica. no seio da qual os membros da linhagem.. pelo que esperamos que o aparato teórico referido em epígrafe nos tenha apartado do senso comum. entre e no interior. exploraram distintos percursos existenciais. se possam perspectivar diferentes padrões de conduta – enraizados em trajectórias sociais colectivas (culturalmente informadas) e. por desenvolver uma reflexão emergente das fecundas contribuições do debate entre Thomas Khun e Karl Popper (Lakatos 1998. devido a estudarmos um fenómeno restrito a um pequeno grupo de pessoas. No campo da epistemologia. que separam as condutas consideradas dominantes. Desta forma. Imre Lakatos. foi para nós uma referência basilar. sem por isso cortar relações com o bom senso.6 contra-factuais (i. a qual. opostas à “naturalização” dos fenómenos e/ou à justificação e padronização da evolução das suas configurações societais). o individualismo metodológico – se interpretado em termos culturalistas – permite-nos que. esperamos que o nosso insight ao ser aquilatado pelos nossos pares. em tempo. Além disso. dos vários estratos sócioeconómicos ou comunidades etno-culturais. com a existência de diferentes tipos de exclusão social. Efectivamente. Lakatos 1999). com um acento tónico no pólo da observação (e da escuta casual).

com tudo isto. Assim sendo. mesmo que com a mais benigna e igualitária das intenções. considerámos o terreiro de formação. 13 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . se alguns formandos (principalmente jovens adultos. como um terreiro de desiguais e permanentes negociações. era governado por um regime de Existe. tanto mais que ao invés da difícil operacionalização da ideia de cultura. maiores de idade) exprimiam atitudes mais “consentâneas” com o institucionalmente “desejável”. 14 Expressos particularmente na resistência à imposição da pontualidade quanto aos tempos lectivos. no seio do qual os indivíduos que dele partilham. perpetrado por Roberto (Lewis 1979). particularmente visível em comportamentos belicosos para com os seus pares. um bom estudo sobre alguns aspectos desta problemática. tendiam a acentuar os actos de insubordinação e/ou desobediência 14 . outros havia que revelavam claro “desajuste”. Efectivamente. possuam atitudes e condutas comuns concordantes com essa percepção do mundo (Vieira 1995). através das quais jovens formandos e agentes institucionais. de modo especial quando as actividades recreativas (como a conversa ou o pingue-pongue) em que estavam envolvidos. na tentativa de escapar ao pântano intelectual em que muitas vezes caem os culturalistas. de consequências incertas e equívocas 13 . enquanto comunidade de agentes institucionais e beneficiários da formação. Em suma. Face a tudo isto. protagonizado por Consuelo até ao crime ocasional. bem como os discursos e as práticas a ela associada – por vezes levados a extremos (Vasconcelos 1996) – mesmo que elaborados com intenções igualitárias. estamos entre os que defendem que a reificação da diferença. o IGAOP. a sua consequente redução ao nível do estereótipo ou das ideias feitas. conforme nos foi dado a observar. (re)constroem processos de regulação e legitimação das diversas formas de conduta social em presença. pelo menos. optámos pelo recurso ao conceito de mentalidade cultural. decorriam em franca grande animação. correm o sério risco de enfraquecer e inquinar os laços sociais em prol de políticas comunitaristas. Na mesma linha. nomeadamente no domínio sócio-educativo. embora a maioria dos sujeitos demonstra-se uma conduta intermédia. e. esse termo expressa simplesmente um sistema de referências colectivas. em contexto holandês (Vermeulen 2001). umas vezes dando mostras de maior acatamento de normas de conduta instituídas. No entanto. não quisemos fazer mais do que evitar a sobredeterminação das pessoas. enquanto em outras ocasiões.7 desde o prosseguimento dos estudos.

incentivando alterações de atitudes e condutas. tomando-os como pessoas ao invés de especímenes de determinada categoria (social. os projectos institucionalizados de regulação das atitudes e condutas 15 . Não obstante os elementos mais recalcitrantes ao respeito ou negociação de fórmulas de “convivência”. Neste domínio. reificar os ethos. 15 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . verifica-se um efectivo esforço de inclusão social e combate à marginalidade. os activistas de toda a espécie – especialmente os nacionalistas radicais – que lutam pela implementação efectiva deste tipo de programa de acção. especialmente pelo recurso a animadores/mediadores culturais. não obstante haver muitos adeptos destas teorias. sexual ou cultural). nos espaços livres. acabassem por ser irradiados do sistema. mais que qualquer outros. de modo ligeiro. Isto porque. defendemos que. ao estudar os jovens envolvidos nesta formação. estes desenvolvem um papel decisivo na gestão da mudança. devido ao amplo regime de autonomia organizacional e pedagógica. entre os formandos e a organização. entramos em choque com aqueles que. visam circunscrever grupos de pertença. ao contrário da escola “tradicional”. prevenindo conflitos. os quais. passando pela subordinação da formação à diversão). necessárias ao institucionalmente desejável desenrolar da Formação Profissional. radicam modos de vida e mentalidades culturais em supostos ascendentes e/ou filiação em determinada cultura. e.8 mútua adaptação. comprimido entre os esforços envidados por diferentes jovens em implementarem os seus distintos modos de vida (que iam do acatamento geral das regras à violência entre pares. Assim sendo. é ao explorar a descontinuidade entre os arquétipos do dever-ser. e. Isto é válido. ancorados numa posição de “charneira”. como também. essas teses. tinham o fulcro da sua actividade centrada na harmonização dos diferentes modos de vida e mentalidades culturais em presença. no sentido dos padrões socialmente aceites. justificando os fenómenos com argumentos quasi-naturalistas. Todavia. excepto no caso de estarmos dispostos a acreditar nas vetustas “caracterologias” nacionais ou a preconizar que as culturas constituem súmulas sistematizadas e orgânicas bem delimitadas. existente no Centro de Formação Profissional que estudámos. remete o valor heurístico da causalidade fundada na categorização para um papel residual. particularmente através dos mediadores/animadores culturais. Conforme revelou a nossa pesquisa. concluímos que a diversidade dos padrões de conduta observados. em última análise. racial. e. que englobam não só uns quantos estudiosos. Todavia.

nesta linha. e. sem procurarmos “naturalizar” qualquer modalidade de organização do mundo humano. verifica-se que os jovens formandos trazidos à colação. com vista a que estes jovens pudessem adquirir (quando necessário) competências sociais. informadas tanto por idiossincrasias pessoais. releva da nossa pesquisa que estamos perante um processo de (re)produção social e cultural. na qual se negoceiam formas de pensar e agir. que estes jovens adquirissem conhecimentos profissionais passíveis de lhes abrir as portas ao mercado de trabalho (quebrando assim o ciclo da pobreza e da exclusão profissional). Ora. radicando-a numa pletora de modos de vida e mentalidades culturais. como pela diversidade de trajectórias biográficas. que encontramos esta pletora de modos de vida e de mentalidades culturais. que erradamente tomam o todo pela parte. interessados em conhecer as diferentes expressões das atitudes e condutas dos formandos. assumiam uma grande diversidade de formas de conduta. proceder à "correcção" de comportamentos. bem ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Deste modo. Posto isto. procurámos interpretar as mentalidades culturais. passíveis de lhes facultar uma melhor integração no seio das normas de conduta da sociedade envolvente e do mercado de trabalho. através dos animadores/mediadores culturais. foi o facto de enformarmos a nossa pesquisa por estes pressupostos. que não são redutíveis a causalidades unidimensionais. a realidade substantiva das modalidades concretas de padrões de atitude e comportamento. procurando. esta visões derivam de um excessivo enfoque nos casos particularmente problemáticos. Logo. enquanto avaliadores etnográficos. que acabámos por valorizar a diversidade interna entre os formandos. através dos formadores. inscritas no âmago dos sujeitos investigados. Neste sentido. que moldaram a sua socialização primária. negligenciando as situações de marginalidade mais brandas. em determinados modos de vida e mentalidades culturais.9 e. Deste modo. emergente de uma dinâmica de socialização secundária. tanto mais que afigura-se que. afigurou-se que a Instituição. desenvolvia um duplo labor. tendo em vista uma maior adaptação destes jovens em risco de exclusão social no seio da sociedade envolvente. o que provoca leituras equívocas. particularmente em termos laborais. concluímos pela vacuidade das teses que tendem a reduzir os jovens pobres ou socialmente excluídos a um grupo de comportamento homogéneo.

devemos. que há pessoas para lá das culturas. mesmo que discordem das suas linhas programáticas. reconhece-los como pessoas e tratá-los como sujeitos. secundários ou marginais. seja de etnia ou de classe. tanto “tradicionais” como “modernas”16 . exprimem a diversidade das formas de conduta humana. (bem como o inverso). da dimensão policêntrica das culturas e sociedades. Logo. especialmente quando se estuda ou trabalha entre grupos desfavorecidos – que estão particularmente expostos ao olhar desse “Outro”. nem ficámos na especulação gratuita. concorrência e/ou antagonismo. concluímos que estes jovens. pelo que ao invés de os reduzirmos a categorias.10 como as suas expressões societais. não entrámos em pormenores substantivos do empírico. Posto isto. patentes nos modos de vida destes jovens. reiterando o propósito desta comunicação. mas antes. corporizado nos cientistas sociais – tenhamos sempre em conta. fruto de uma determinada cultura. Assim. Falámos pois de algumas reflexões sobre a prática e o terreno. e. as pessoas operam sobre a cultura. que assumem funções de complementaridade. outros também possam vir a lucrar com as nossas teses. as instituições culturais dotadas de superior legitimidade ou poderio (substantivo ou simbólico). derivada ela própria. se a cultura (en)forma os sujeitos. Em suma. nenhum destes elementos é redutível ao outro. 16 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . antes de tudo o mais. não radicam a sua conduta em modos essencialmente determinados de relacionamento social. fazemos votos para que. defendemos que. Efectivamente. esperando que. perspectivados no quadro de uma cultura segmentar. não obstam à presença em cena de focos de poder alternativos.

Integração e a Dimensão Política da Cultura. Hans. Ethnography. 2002. 1984. COSTA. 1999. Campo da Comunicação. História da Ciência e suas Reconstruções Racionais. FETTERMAN. Anthony. Pierre. NUNES. Beverly Hills. VASCONCELOS. Ethnography in theory. LAKATOS. João Arriscado. Sociedade & Culturas. GUIDDENS. Thousand Oaks. Gramsci. Escola e Pedagogia Intercultural”. Luís Manuel Antunes (coord. Imre. Beverly Hills. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Identidade e Globalização. Librairie Droz. 2004. Óscar. 2001. 1999. LEWIS. practice and politics. Esquisse d’une Théorie de la Pratique. Falsificação e Metodologia dos Programas de Investigação Científica. Fundação Mário Soares/Gradiva Publicações. David e Mary Anne Pitman (eds. Teresa Maria Sena de. “Onde Pensas que Tu Vais? Senta-te! – Etnografia como Experiência Transformadora”. Lisboa. CAPUCHA. Imigração. s. 1995. Imre. MILAGRE. 1995. 4: 127-147. “Mentalidades. CREHAN. 1979. Coimbra. Centro de Estudos Sociais. Lisboa. Lisboa. Celta Editora. Lisboa. Moraes Editores. FETTERMAN. 6: 23-46. Lisboa.. Genebra. Educação. 1998. Oeiras. Grupos Desfavorecidos Face ao Emprego. Cultura e Antropologia. Sage Publications. VERMEULEN. 1986 Educational Evaluation. Educação. Alfredo Bruto da. Edições Colibri. Lisboa. Observatório do Emprego e Formação Profissional. Lisboa.).d.. Sociedade & Culturas. Perfis Emergentes. Os Filhos de Sanchez. Edições 70. Dualidade da Estrutura. LAKATOS. Sage Publications. 1998. Ethnography in Educational Evaluation. Edições 70.11 Bibliografia BORDIEU. Exclusões Sociais. David (ed. Cristina Maria Paulo do Nascimento et al. Instituto para a Inovação na Formação. Lisboa. Reportórios. Ricardo. Kate. Configurações e Fronteiras: Sobre Cultura. David M. VIEIRA. FETTERMAN. 1996. 1998..).). Sage Publications. 2000.

Manuel José Alves Viegas Tavares resumia assim a Antropologia da Educação: A Antropologia da Educação analisa as relações escola/comunidade e as suas implicações no processo de enculturação dos jovens. numa primeira instância. Educação Intercultural. que acumulava a docência com a de quadro superior no Ministério da Educação. Setúbal e Leiria. essencialmente. o papel da FCSH-UNL. Histórias de Vida. Salienta-se.A ANTROPOLOGIA DA EDUCAÇÃO EM PORTUGAL Ricardo Vieira Centro de Investigação Identidade(s) e Diversidade(s) (CIID) Instituto Politécnico de Leiria (IPL) rvieira@esel. a este propósito. a Licenciatura em Antropologia da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa tinha uma cadeira optativa de Antropologia da Educação 1 leccionada pelo professor Viegas Tavares. Há um investimento maior na obra de Raul Iturra e sua equipa de investigação. do ISCTE e de algumas ESEs. Esboço Histórico No início dos anos 80. 1. como são o caso da de Castelo Branco.ipleiria. Num artigo de 1985. também o papel da APA no desenvolvimento destas matérias. currículo vitae que integra estas provas de agregação). tanto ao nível do trabalho ligado ao ensino da antropologia como à investigação em antropologia da educação produzida no ISCTE. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . realçando.pt Faz-se. Aplicando os métodos de pesquisa e 1 No ano lectivo de 1983/84 eu próprio fui seu aluno e desenvolvi para avaliação final um pequeno trabalho de pesquisa etnográfica numa escola de Lisboa com o financiamento do Ministério da Educação (cf. Palavras-chave: Antropologia da Educação. um pequeno esboço histórico sobre a Antropologia da Educação em Portugal.

não tinham habilitação própria nem formação específica em Antropologia. o Ensino Secundário os alunos tinham. De resto. Benito Martinez e João Lopes Filho. 1999: 7). em 1987. os jogos integravam-se no complexo de cerimónias cíclicas através das quais as crianças e os jovens se apropriavam da cultura das suas comunidades. Nas sociedades tradicionais. “Entretanto. do 10º ano. vim a ingressar na Escola Superior de Educação de Leiria 4 que tinha iniciado a sua função docente há apenas um ano. no 1º semestre. Paralelamente.2 análise de ciências afins. “tendo sido na sua generalidade. os professores de Geografia. Em particular. espaço e tempo da liberdade favorável à inovação e transformação da realidade (Crespo. ramo de Jornalismo e Turismo. Jorge Crespo desenvolvia também uma cadeira optativa de Antropologia do Jogo. Antropologia Cultural. 1985: 53). visa contribuir para a solução de problemas da prática e da política educativa (Tavares. a disciplina de Antropologia Cultural desapareceu com a nova reforma curricular. depois das noções operatórias básicas da Antropologia Geral e das 2 TAVARES. da autoria de Augusto Mesquitela Lima. sendo que os cursos de Educadores de Infância e Professores do 1º Ciclo do Ensino Básico tinham. mas apenas por necessidade de complemento de horário. 1982: 52). incluíam nos seus curricula a disciplina de Introdução às Ciências Sociais. e depois de 2 anos a ensinar Geografia e Antropologia no Ensino Secundário 3 . Educadores de Infância. 4 No ano lectivo de 1987/88 5 Poucos na altura: Formação de Professores para o 1º Ciclo. Os professores de Antropologia Cultural. com uma 2ª parte que. no processo cíclico de reestruturação do mundo. como ele próprio diz. depois. de cursar Antropologia. Viegas Tavares veio a fazer o seu doutoramento sobre o insucesso escolar e as minorias étnicas em Portugal 2 . 1997: 116). variante de Português/Francês. Nestes casos. pois o número de aulas de Antropologia não chega para formar um horário lectivo normal de 22 horas” (Souta. no domínio das relações com os outros. mas centrando-se sempre no método etnográfico de observação participante na análise dos processos educacionais. tendo deixado de ser leccionada em 1993/94” (Santos e Seixas. no 1º semestre do 2º ano. nos ciclos do Inverno e da Primavera. o jogo é um dos elementos mais importante na formação das personalidades. Terminada a minha licenciatura. Lisboa: Piaget. Todos os cursos de então 5 . O insucesso escolar e as minorias étnicas em Portugal: uma abordagem antropológica da educação. destacam-se os jogos que constituíam experiências fundamentais da morte e da vida. na altura. obrigatoriamente. 3 Na área de Estudos Humanísticos. O programa e o manual mais divulgado eram. Fui convidado a construir o programa de Antropologia Cultural e fi-lo. encarregues de a leccionar – o que nem sempre fazem com gosto. Manuel Viegas (1998). ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Professores do 2º Ciclo do Ensino Básico.

tinham também nos currículos da formação de professores e de educadores de infância. a 10. 11 e 12 de Novembro. financiados por um projecto do Banco de Portugal. na Universidade de Boston. traduzida em edição brasileira por “Introdução à Antropologia Cultural” em 3 tomos que basicamente constituíam o manual da disciplina. provavelmente. ora em França. e os demais foram publicados nas Actas das I Jornadas de Antropologia e Etnologia Regional. Nalgumas escolas 6 Estes textos.3 Ciências Sociais. a disciplina de Antropologia Cultural muito desenvolvida em torno da obra de Herskovits “Man and his Works”. Os conferencistas convidados para esta sessão foram os professores Raul Iturra do ISCTE que apresentou a conferência “A passagem da oralidade à escrita na formação do saber: o mito do insucesso escolar” e Augusto Mesquitela Lima da FCSH – Universidade Nova de Lisboa. há já alguns anos. Os que fizeram as suas especializações em Análise Social da Educação ou em Metodologia dos Estudos Sociais são. apontava para o estudo do processo educativo embora. que apresentou a conferência “A Antropologia e o Sistema Educativo 6 ”. A minha preocupação com o cruzamento da Antropologia com a educação era de tal forma já considerável na altura que consegui que a manhã do primeiro dia fosse inteiramente dedicada ao tema da Antropologia e Educação. basicamente por todo o país. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . 11 e 12 de Novembro de 1988. No ano de 1988. era o célebre “Padrões de Cultura” de Ruth Benedict e “Os conflitos e Gerações” de Margaret Mead. não tivesse formação suficiente para ir além do Culturismo Americano e da escola de cultura e personalidade. na altura. integrei a comissão organizadora das I Jornadas de Antropologia e Etnologia Regional. lembro-me. É preciso recordar que as Escolas Superiores de Educação (ESEs) nasceram a partir dos Magistérios Primários que. na Universidade de Bordéus. os docentes que estão na origem das disciplinas de Análise Social da Educação. O corpo docente das emergentes Escolas Superiores de Educação foi alimentado. Os livros obrigatórios de então. Leiria: Escola Superior de Educação. numa tentativa de relativizar a mente dos futuros professores e educadores. dias 10. um pouco por todos os Magistérios do País. por professores que haviam feito os seus mestrados em Ciências da Educação. Sociologia da Educação e Antropologia da Educação dos currículos de formação das ESEs. ora no Estados Unidos da América. no ano de 1988.

acabam por ter algumas disciplinas viradas para a questão da educação e diversidade cultural que. Professor Catedrático do ISCTE. Pulo Raposo. Na ESE de Leiria surgiu a Antropologia da Educação como disciplina optativa dos cursos de Formação de Professores para o 1º Ciclo e de Educadores de Infância. como é o caso de Castelo Branco. presidida pelo professor Raul Iturra e da qual eu próprio fazia parte. Rosa Nunes e Rui Trindade. actualmente. em 1992. desde muito cedo que orientou a Antropologia (licenciatura) para a questão da educação e da diversidade cultural e para a legitimação da Antropologia da Educação (tese de mestrado e de doutoramento) sob a orientação do Doutor Raul Iturra. definida como uma área curricular não disciplinar e os TEIP (Territórios Educativos de Intervenção Comunitária) criados pelo Despacho 147-B/ME/96. Outras Escolas Superiores de Educação e Universidades públicas e privadas. Entre 1993 e 1997. inevitavelmente. é notável sobre a questão da escola e das propostas inter/multiculturais. Rosa Madeira. professor da Escola Superior de Educação de Lisboa. sem qualquer grau em Ciências da Educação. Aproveitavam o tempo livre Luís Souta. está a concluir o seu doutoramento em Antropologia da Educação no ISCTE. Professor Coordenador da ESE de Setúbal. É inegavelmente.4 surgiu mesmo a disciplina de Sócio-Antropologia. a Raul Iturra que se deve o boom do desenvolvimento da Antropologia da Educação em Portugal. iniciado em Vila Ruiva. embora não tendo especificamente Antropologia da Educação nos seus currículos. 9 Ver a este propósito a obra “Nos Bastidores da Formação: Contributo para o Conhecimento da Situação Actual da Formação de Adultos para a Diversidade em Portugal”. Em 1987 Raul Iturra dava o grande pontapé de saída com o trabalho de campo com observação participante. é. e cuja coordenação tem sido assegurada por Luís Souta. não podem/devem perder a experiência da Antropologia nessas matérias 9 . sob proposta de Ricardo Vieira 8 . O trabalho de Carlos Cardoso. também ele Mestre em Ciências da Educação 7 pela Universidade de Boston. reuniu várias vezes com o Ministério da Educação a propósito da habilitação própria para leccionar no Ensino Secundário e de outras saídas profissionais dos Antropólogos no ensino: Área-Escola. criada pelo Decreto-Lei 286/89. leccionada por Luís Costa. 2000). licenciado em Antropologia e. 8 Ricardo Vieira. coordenada por Luíza Cortesão (Cortesão. que funcionou pela primeira vez no ano lectivo de 1988/89. com Filipe Reis. – Associação Portuguesa de Antropologia. 7 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Nuno Porto e Berta Nunes. Na ESE de Setúbal foi criada a disciplina de Antropologia da Educação. a secção de Antropologia da Educação da APA. no entanto. de Carlinda Leite.

“Educação. Ricardo Vieira colaborou na organizou da secção Diálogos sobre o Vivido. integra vários sociólogos. Ricardo Vieira. 11 Contudo. que tem Ver entrevista dada por Raul Iturra em 1999 a Ana Levy Aires. Luís Souta e Amélia Frazão-Moreira). dirigida pelo professor Stephen Stoer e que. 1991). n. os animais etc 10 . o Coração: A Construção Social da Sexualidade em Vila Ruiva” de Nuno Porto (Porto. Esta revista. “O Saber Médico do Povo” de Berta Nunes (Nunes. o património dos pais. terras. papel e lápis e faziam com as crianças os trabalhos de casa. 1992). sobre a temática “sistemas de avaliação doa alunos do Ensino Básico”. Iturra. Vieram a juntar-se a estas publicações a “Escola e Aprendizagem para o Trabalho num País da (Semi)periferia Europeia” de Stephen Stoer e Helena Araújo (Stoer e Araújo. 1991). 1990 e Iturra. “Corpos. Dessa investigação foram publicados. 1991). Ana Felisbela Lavado e Paula Godinho para a revista Arquivos da Memória do Centro de Estudos de Etnologia Portuguesa da Universidade Nova de Lisboa. 2000). Assim. Compravam cadernos. ainda em termos do desenvolvimento da Antropologia da Educação em Portugal. (cf. brincavam à família. Paulo Raposo. Arados e Romarias: Entre a Fé e a Razão em Vila Ruiva” de Paulo Raposo (Raposo. em 1994. mais tarde. cientistas da educação e antropólogos (Raul Iturra desde o primeiro número 11 . conjuntamente com Telmo Caria e Ana Benavente. “O Corpo. 1992). à doença. e “Entre a Escola e o Lar: O Curriculum e os Saberes da Infância” de Ricardo Vieira (Vieira. em termos de secretariado de redacção e conselho de redacção. Sociedade e Culturas”. através da metodologia das genealogias. a Razão. 1997). desde o segundo e. “A Construção Social do Insucesso Escolar: Memória e Aprendizagem em Vila Ruiva” de Raul Iturra (1990b). Ensino e Crescimento: O Jogo Infantil e a Aprendizagem do Cálculo Económico em Vila Ruiva” de Filipe Reis (Reis. os seguintes livros: “Fugirás à Escola Para Trabalhar a Terra: Ensaios de Antropologia Social Sobre o Insucesso Escolar” de Raul Iturra (1990a). levava os alunos a pensar a sua história.5 que a escola concedia às crianças para fazerem actividades com elas a fim de compreender as suas representações sociais e conhecimento local. na colecção “A aprendizagem para além da Escola”. É de assinalar aqui. ainda que de uma forma mais interdisciplinar. ao hospital. 10 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . etc. propriedade da Associação de Sociologia e Antropologia da Educação. Filipe Reis. Iturra e Reis. o aparecimento da revista “Educação.º 6/7. em particular com a Sociologia da Educação.

por criar. editorial do primeiro número da revista. a meter-me por uma ideia feliz daquela equipa: como é a epistemologia do lar. Na base de um conhecimento da evolução de instituições de ensino técnico. Finalmente.6 tido um forte pendor etnográfico. encontramos. porque a criança ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . a epistemologia dos seres humanos. p. passando. a partir das brincadeiras e jogos passámos a analisar. através do que é que pensam e como pensam as crianças acerca do que acontece na sua casa. os tempos livres. e. As crianças vêem o mundo através dos olhos dos adultos. no artigo de Sérgio Grácio. A seguir. Então. ou o Nuno Porto. apresentamos dois artigos que estudam o processo de aprendizagem nas crianças como forma de produção e construção de novos saberes e poderes: enquanto o artigo de Raul Iturra ensaia ideias sobre a natureza do processo educativo. […] Eu queria entender a racionalidade daquelas estratégias reprodutivas. pelo meio. Antropologia da Sexualidade. Investigação e Ensino da Antropologia da Educação no ISCTE. recusando uma visão linear e sucessiva de mudança. com seis artigos que abordam temas variados: O primeiro artigo [da autoria de Stephen Stoer] aborda a construção. ou o Filipe Reis. 2. que fez comigo trabalho de campo. como tentativa de aceder a uma compreensão dos seus quotidianos. no seu primeiro número. inventámos os ATL. Este objectivo de entender a racionalidade reprodutiva tem-me levado da Antropologia Económica à Antropologia da Educação. uma Antropologia Urbana. O artigo de Luiza Cortesão e colaboradores apresenta uma análise das histórias contadas por crianças luso-brancas e luso-ciganas. Antropologia do Género. uma proposta para um modelo explicativo dos graus de autonomia ou de heteronomia nas relações das instituições de ensino com as instituições económicas o mercado de emprego. começámos a brincar com as crianças. possivelmente “contra-hegemónia”. Augusto Santos Silva. Isso levou-me. em conjunto com uma equipa que angariei enquanto colaborava na fundação do departamento do ISCTE.5). apresenta-nos uma reflexão crítica sobre o conceito e as teorias da mudança social. o artigo de Georges Augustin lança um olhar antropológico sobre o jogo de berlindes. uma Antropologia do Turismo. saiu. por insistência de Paulo Raposo. (Stoer. do conceito do professor inter/multicultural através do campo da recontextualização pedagógica. que vivem no que é denominada «uma situação de ghetto sóciocultural».

só que ninguém dá por isso” 13 . 1994: 186). A cultura está dividida em duas partes: a dos adultos e a da infância. em 1970 e em 1974.º 6/7. passim). Trata-se de um pensamento radical. n. numa recensão bibliográfica da obra atrás citada de Stoer e Araújo (Stoer e Araújo. corresponde ao espraiar do pensamento teórico do autor na perspectiva da afirmação de uma Antropologia da Educação. se começou a interessar como se 12 Extracto de entrevista dada por Raul Iturra em 1999 a Ana Levy Aires. Pedro Silva. em 23 de Julho de 2004. tanto assim que os inimigos dos pais. p. no trabalho de campo em VilaTuxe. A Antropologia da Educação. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . 4. Já antes. 1992). no ano lectivo de 1994/95. 14 Dados apurados em entrevista com Raul Iturra. “A criança não é o domínio de ninguém. A leccionação em cadeira autónoma viria a acontecer no ISTE. A propósito da primeira obra da colecção “A Aprendizagem Para Além da Escola”. 129. 13 Entrevista dada por Raul Iturra aos cadernos de Educação de Infância. (Silva. que se debruça sobre a complexa relação entre o «saber letrado» (da escola) e a «mente cultural» (rural). pela primeira vez. n. as crianças não entendem porquê mas são também seus inimigos 12 . diz que O primeiro livro (Iturra. um conjunto de ensaios. incluída na mesma.7 não tem ainda conceitos. […] As crianças entendem o mundo da forma que os pais o entendem. Abril/Maio/Junho de 2002. Ana Felisbela Lavado e Paula Godinho para a revista Arquivos da Memória do Centro de Estudos de Etnologia Portuguesa da Universidade Nova de Lisboa. é do domínio dela própria. 1990a).º 62. trata mal os conceitos. em termos de investigação. elaborado numa linguagem não hermética. mas foi precedida de muita investigação financiada pelo INIC e pela FCT e de muito debate no país e no estrangeiro. p. Raul Iturra reconhece 14 que. emergiu no ISCTE pela mão de Raul Iturra que assim foi progredindo da Antropologia Económica para o estudo da aprendizagem e transmissão cultural para além da escola e para o estudo da mente cultural e da epistemologia da criança (Iturra. ao estudar o grupo doméstico.

a etnopsicanálise. Albergaria dos Doze. 15 Luís Souta tem dado um contibuto notável ao desenvolvimento da educação multicultural e da antropologia da educação em Portugal (1991. Marie Elizabeth Handman. Porto. 1997a: 353).8 aprendia a calcular na rua. 1997 e 2001). A sua pesquisa faz-se por isso a montante do sistema educativo. (Souta. 1992. num processo que conduz naturalmente ao reconhecimento e valorização desses saberes. As suas filhas começaram a ir à escola em VilaTuxe onde falavam galego.. Iturra. à volta de temas como o insucesso escolar. Em casa as línguas eram o Castelhano e o Inglês. a transgressão e a aprendizagem. no jogo. procurando compreender os mecanismos da aprendizagem informal. Françoise Zonabend. Paulo Raposo. Ricardo Vieira) como uma equipa pioneira que lançou em Portugal a Antropologia da Educação. professor de Antropologia da Educação na Escola Superior de Educação de Setúbal 15 . a oralidade e a escrita na aprendizagem. em Portugal (Lisboa. 1996). o jogo e a aprendizagem. Na recensão da obra “O Saber das Crianças” (Iturra. considera os cinco autores dos textos que compõem este livro (Raul Iturra. Comparando-a com os trabalhos de Antropologia da Educação americana que se tem preocupado com o sistema formal. na economia doméstica etc. não em torno de “problemas” mas na procura das virtualidades e potencialidades das crianças para aprenderem e entenderem o real. Alfândega da Fé. Raul Iturra e a sua equipa de investigação iniciaram um conjunto de seminários fechados sobre Antropologia da Educação. Luís Souta. François Bonvin e Bernard Lahire. Pierre Bourdieu. início de 90. Amélia Frazão Moreira. 1997a e 1997b). Monique de Saint Martin.) e em França (Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales e no Collège de France) com a participação de Maurice Godelier. Percebeu que as crianças eram educadas pela interacção dentro do grupo onde vivem (cf. etc. a ideia da aprendizagem para além da escola foi emergindo e viria a despertar o seu interesse pela Antropologia da Educação. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Filipe Reis. diz que O Saber das Crianças «trilha outros caminhos. E toda esta diversidade levava Iturra a pensar nas descontinuidades entre a casa e a escola. 1993. A partir dos finais da década de 80. etc. Embora a pesquisa aí realizada fosse centrada na vida económica.

a emotividade do mais novo para assegurar a reprodução. parte IV). nas conversas sobre os amores e a afectividade. e tem sido coordenada por Raul Iturra e leccionada por este. […] Filipe Reis […] analisa a forma como a escola introduz as crianças na cultura escrita. 2003). colectando dados a partir dos quais foi capaz de concluir que o real é representado e manipulado pela pequenada que estamos a estudar aí. Sociologia e Psicologia Social (cf. a continuidade histórica das pessoas sobre a terra […]. anexos. Sob a minha orientação. Assumindo essa consciência e essa responsabilidade. e hoje sob a minha coordenação. A disciplina de Antropologia da Educação tem-se mantido como optativa para as licenciaturas de Antropologia Social. Amélia Frazão-Moreira […] analisa o processo de interacção que no interior de um grupo doméstico. ora em colaboração conjunta. por Filipe Reis e por Paulo Raposo. esta análise é feita por meio de entrevistas e análises de histórias de vida de professores do ensino Básico. bem como sobre o método etnográfico (Caria. 2003).9 As pesquisas de Telmo Caria sobre culturas de escola e culturas profissionais. a partir de uma experiência de terreno. 1996:10 e 11). arranjo doméstico.). 1994 e sobre etnobotânica (Frazão-Moreira. isto é. queríamos definir processos e actividades que permitam ao leitor entender o dito saber. transmite saberes e contra saberes através das tarefas que constituem o trabalho doméstico (nutrição. (Iturra. Ricardo Vieira […] procura explicar como o adulto de hoje é resultado do jovem e da criança que antigamente foi. Raul Iturra diz na Introdução ao livro “O Saber das Crianças”: Uma parte do grupo que comigo trabalha decidiu escrever sobre o saber das crianças. ambas orientadas por Raul Iturra e conducentes aos seus doutoramentos já terminados. numa aldeia da serra da Estrela. ora separadamente em termos de docência. Começo por abordar uma forma particular de interacção entre ascendente e descendente: aquela através da qual um grupo social contextualiza ou quer contextualizar. […] Paulo Raposo […] regressou comigo à Beira Alta e observou os comportamentos rituais dos pequenos. ao longo do tempo. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . etc. engrossam a latitude da Antropologia da Educação que este tem feito desenvolver em Portugal. e a de Amélia Frazão Moreira sobre as classificações das crianças apreendidas do mundo adulto (FrazãoMoreira. (de uma aldeia de Trásos-Montes). 2000. 1994.

BRUNER. Lisboa.A análise do jogo . a criação do primeiro mestrado em Portugal de Antropologia da Educação (2003-2005). 1994. Marc. e com a colaboração de docentes internos (Paulo Raposo e Miguel Vale de Almeida do Departamento de Antropologia Social do ISCTE) e externos (Amélia Frazão-Moreira da Universidade Nova de Lisboa. No ano lectivo de 1995/96. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Luís Souta da ESE de Setúbal. 11 e 12. Darlinda Moreira da Universidade Aberta. Para além da disciplina que integra como optativa os currículos das licenciaturas do ISCTE já mencionadas. 8.Lugares. 1: 493-503.10. Luis Souta multiculturalismo e educação.. grosso modo. Ricardo Vieira da ESE de Leiria e José Catarino da ESE de Setúbal). Lisboa. São Paulo. Ed. Amélia Frazão . Referências bibliográficas AUGÉ.problemas metodológicos e de investigação em contexto escolar. 2000. Bertrand. “Le Principe de Coupure et le Comportement Afro-Bresilien”. 70. Ed. a disciplina envolveu convidados exteriores ao ISCTE na leccionação das aulas nº 7. Ricardo Vieira . todos os programas abrangem o processo educativo na escola e fora da escola. Telmo Caria da UTAD. Roger. Cultura e Educação. Lisboa.saberes secretos.etnicidade e identidade nacional. J. Anais XXXL Congresso Internacional de Americanistas. é de assinalar. J.10 De ano para ano.tradicional/moderno. 9. BRUNER. Actos de Significado. Não . José Veiga . há algumas alterações pontuais em termos da ordem e da natureza das temáticas abordadas mas.. BASTIDE. 1997. 70. coordenado por Raul Iturra. como corolário de uma basta investigação e prática de ensino no ISCTE. Introdução a uma Antropologia da Sobremodernidade. Luis Silva Pereira .histórias de vida e biografias. 1955. com os seguintes docentes e respectivos temas: Teimo Caria .

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VI – Capítulo Diferenças e Semelhanças do Género Textos de comunicações do painel: Diferenças e Semelhanças do Género Coordenação Antónia Pedroso de Lima Centro de Estudos de Antropologia Social -ISCTE Susana Matos Viegas Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e Universidade de Coimbra ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .

Como tal. então. ter comportamentos distintos. pretende-se lançar pistas que contribuam para esse debate. estas diferenças e os processos sociais e culturais através dos quais são constituídas? Mais do que uma propriedade unívoca e “objectiva” das pessoas ou grupos em estudo. teóricos. Diferença. Palavras-Chave: Género. é fundamental problematizar o lugar do binómio diferença e/vs semelhança na investigação sobre género e debater o seu estatuto epistemológico. em larga medida. reflectir sobre os recursos (metodológicos.pt Os conceitos de diferença e semelhança são eixos estruturantes da reflexão sobre género. discursivos) que empregamos para descrever diferenças e semelhanças de género (bem como aquelas que estão associadas a outros eixos de diferenciação e desigualdade social) e discutir o ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . cantina ou sala de aula de uma escola de 2º e 3º ciclo. Escola. orientando a atenção para certas dimensões dos fenómenos em estudo e deixando outras encobertas.mar@netcabo. pertencer a grupos separados. construídos na produção de conhecimento sobre esses contextos e as relações que aí se estabelecem. as diferenças de género identificadas na observação são configuradas pelas questões que colocamos e perspectivas de análise que adoptamos. ocupar o espaço de forma desigual. mas são abordados nessa reflexão de modos variáveis. sala de convívio. como tal. Poder.do. potencial heurístico e relevância etnográfica. Importa. Estes conceitos podem ser definidos e medidos de formas distintas e as nossas opções teóricas e metodológicas sobre a utilização que lhes damos têm efeitos significativos nas análises que fazemos. Nesta comunicação.Construindo Diferenças e Semelhanças no Recreio: uma Micro-Etnografia de Género e Poder em Contexto Escolar Maria do Mar Pereira Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE) maria. Não são factos apenas dados pelos contextos empíricos mas. Semelhança Quando entramos num recreio. Como descrever e problematizar. saltam frequentemente à vista diferenças entre raparigas e rapazes – as/os jovens dos dois sexos parecem desempenhar actividades diferentes. partindo de observações realizadas numa micro-etnografia com uma turma de 8º ano de uma escola em Lisboa. Jovens.

por outro lado. Os conceitos de diferença e semelhança assumem-se. com uma turma de 8º ano de uma escola em Lisboa (Pereira 2006). actualmente em curso. colocar no centro da análise as situações em que estas diferenças são minimizadas ou negadas. se salientam as semelhanças entre homens (em especial no que diz respeito aos aspectos entendidos como características centrais e necessárias da masculinidade) e as semelhanças entre mulheres (em particular no que se refere aos elementos considerados distintivos e fundamentais da feminilidade). geralmente orientando o olhar para ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Eagly 1995. analisando deste modo a diversidade de performances de feminilidade. et al 2003. por exemplo.2 papel que esse processo de descrição desempenha na (re)produção e legitimação dessas diferenças e semelhanças. potencial heurístico e relevância etnográfica (por exemplo. Um estudo poderá focar os contextos em que as diferenças entre mulheres e homens são acentuadas e explicitadas ou. diversas/os autoras/es têm salientado a necessidade de problematizar o lugar do binómio diferença e/vs semelhança na investigação sobre género e de debater o seu estatuto epistemológico. pretende-se lançar pistas que contribuam para esse debate. Cranny-Francis. como eixos estruturadores da reflexão sobre género. não têm um significado unívoco ou posição constante nessa reflexão: as diferenças e semelhanças de género podem ser (e são) definidas e medidas das mais variadas formas. Diferença e Semelhança na Investigação sobre Género Estudar género é analisar a construção social de diferenças e semelhanças. assim. Nesta comunicação. West e Zimmerman 1987). De facto. tomando como ponto de partida observações efectuadas no âmbito de um trabalho de micro-etnografia. ao mesmo tempo. No entanto. As opções teóricas e metodológicas sobre os modos como se usam os conceitos de diferença e semelhança de género e sobre o papel e estatuto que lhes é atribuído num dado estudo têm implicações nas observações feitas e conclusões formuladas. Butler 1990 e 1993. Existem estudos que se centram nas diferenças entre mulheres e homens e outros que privilegiam a exploração de diferenças entre mulheres. É problematizar os processos materiais e simbólicos através dos quais se representam e posicionam as mulheres como sendo diferentes dos homens e.

Têm também implicações a outros níveis: influenciam. uma descrição “científica” de diferenças entre mulheres e homens pode ser lida e usada como confirmação da existência de “essências” de feminilidade e masculinidade. como mais uma prova de que mulheres e homens são.3 certas dimensões dos fenómenos em análise e deixando outras encobertas. directa ou indirectamente. Jacobus et al 1990. como no das físico-naturais) intervém. com base nos seus traços “biológicos”. relações e situações em função Como argumenta Gherardi.” (1995: 1 – itálicos no original). mesmo quando essa descrição assenta no pressuposto de que essas diferenças são o produto de experiências sociais distintas e não o resultado de características biológicas necessárias e universais. de forma activa e sistemática. “demonstrando” as diferenças entre os sexos e a “natural” superioridade de um em relação ao outro. Como tal. devido ao seu estatuto (nas sociedades ocidentais contemporâneas) como forma mais “objectiva" de produção de conhecimento sobre o real (Bourdieu 2001. Rosenberg 2005. exagerados ou mitificados) se tornam elementos integrantes de crenças e discursos generalizados sobre as diferenças entre mulheres e homens e sobre as implicações dessas diferenças ao nível dos papéis e posições sociais que devem corresponder a umas e outros. Como tal. Laqueur 1990). na regulação dos significados e normas associados ao género1 . Enquanto instituição que produz discursos (diversos) sobre as diferenças e semelhanças entre mulheres e homens. As/os jovens com as/os quais convivi no âmbito do trabalho que aqui vou apresentar diziam com frequência que “está provado cientificamente que as raparigas amadurecem mais cedo do que os rapazes” ou que “há estudos que mostram que os homens têm muito mais força do que as mulheres”. nos últimos séculos os discursos científicos têm desempenhado um papel crucial como “narrativas de legitimação” (Foley e Faircloth 2003) da subordinação das mulheres (Amâncio 1994 e 1997. Esta é uma ilustração de como os discursos científicos sobre género (embora filtrados e muitas vezes adaptados. À ciência é. diferentes. de facto. Thorlindsson e Vilhjalmsson 2003). “the knowledge yielded by the category «gender» about gender is one of the clearest examples of reflexive knowledge – by which I mean the social process of knowledge production which changes the knowing subjects and the conditions under which the phenomenon is produced. os próprios processos sociais de construção de diferenciações que analisam. Friedan 1965. 1 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Ao analisar práticas. aliás. conferida particular autoridade nesta regulação. a investigação científica (tanto no âmbito das ciências sociais. Maranta et al 2003.

gostaria de recorrer a observações e reflexões efectuadas no âmbito do meu trabalho de micro-etnografia. cultura organizacional. sem lhes conferir uma existência concreta. sistemas de regras. No entanto. Os vários estudos que têm problematizado as relações entre género e educação2 demonstram que as estruturas institucionais. então. instrumentos pedagógicos. O desafio é. necessária e dualista. Thorne (1993). actividades curriculares e extra-curriculares. as escolas têm sido descritas e estudadas no âmbito das ciências sociais como espaços em que as questões de género estão presentes de forma transversal e estruturante. Delamont (1990). ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . a investigação em ciências sociais sobre género pode contribuir indirecta e inadvertidamente para a re-inscrição biológica dessa diferenciação e para a reprodução e legitimação de uma dicotomia que deve ser seu objectivo problematizar e desnaturalizar. isto é. em suma. Não há fórmulas já prontas e infalíveis para o fazer e não tenho quaisquer pretensões de apresentar aqui respostas e soluções a estas questões. independente das suas manifestações situacionais. Kessler et al (1985). estável. construir vocabulários e modelos de análise que nos permitam dar conta das dinâmicas e efeitos da produção da diferenciação (e desigualdade) de género e descrever as múltiplas configurações dessa diferenciação (evidenciando o seu carácter variável e contextual). de forma mais ou menos explícita. em função de representações socialmente partilhadas sobre os significados e implicações da diferença 2 Arnot e Weiner (1987). relações formais e informais. Fernandes (1984). espaços e recursos. todas as dimensões da vida na escola estão organizadas. estratégias de gestão. Connell et al (1982). e utilização de artefactos.4 da dicotomia feminino/masculino. rotinas. Stanworth (1981) e Wolpe (1988) foram alguns dos trabalhos pioneiros nesta área. ainda em curso. essencializar e dicotomizar as diferenças entre mulheres e homens. relações de poder e autoridade. discursos oficiais e não oficiais. sem reificar. recompensas e sanções. para ilustrar e explorar as formas como estas questões se manifestam num contexto empírico particular. Diferenças e Semelhanças na Escola Desde inícios da década de 1980. sobre negociação de masculinidades e feminilidades entre jovens de uma escola em Lisboa.

as raparigas não sabem e não estão interessadas em jogar. diferentes. faziam sons de animais. também fora dela). já que elas/es frequentemente falam de rapazes e raparigas através de dicotomias e oposições: as raparigas são bem comportadas. as raparigas demonstram maturidade e responsabilidade.5 entre mulheres e homens. Quando se realiza um trabalho de observação sobre género junto de jovens desta idade numa escola. no geral. os rapazes não querem saber da vida das outras pessoas e dizem o que têm a dizer “na cara”. estruturas e dinâmicas de interacção distintas. por exemplo. estar a prestar atenção ao que estava a ser dito. e as dinâmicas de poder e (auto e hetero) regulação através das quais certas performances de feminilidade e masculinidade são avaliadas e sancionadas como “naturais” (e portanto legítimas e desejáveis) e outras como desviantes e problemáticas. integrei-me numa turma de 8º ano e acompanhei as/os jovens da turma (com idades compreendidas entre os 13 e os 15 anos) em todas as suas actividades (lectivas ou não) na escola (e. os rapazes adoram jogar futebol e outros desportos. noutras circulavam pela sala. Muito do que vemos parece confirmá-lo: frequentam espaços distintos. atiravam canetas e outros objectos. os grupos de amigas/os têm dimensões. sem intrigas. No projecto de investigação no qual estou neste momento a trabalhar. No entanto. aparentando. ao longo de seis semanas. A questão do comportamento na aula é um exemplo pertinente. Interessam-me em particular os modos como estas/es jovens definem e expressam o “ser mulher” e “ser homem”. Esta diferença foi observada por várias/os autoras/es ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Os discursos que as/os jovens produzem reiteram e reforçam esta diferença. Para o fazer. ouviam música em leitores de mp3. um olhar atento revela que muitas das diferenças que observamos e que nos são relatadas pelas/os jovens são menos diferentes do que inicialmente pareciam. recreio. as raparigas gostam de fazer fofocas e são intriguistas. proponhome analisar as formas como jovens negoceiam género num contexto desse tipo. Os protagonistas deste tipo de comportamentos eram. em geral. os rapazes o inverso. têm comportamentos em sala de aula. rapazes – as raparigas pareciam estar. uma escola pública em Lisboa. etc. os rapazes barulhentos e irrequietos. na sua quase totalidade. a sensação inicial é a de que rapazes e raparigas são muito diferentes. mais quietas e atentas. A turma que observei tinha comportamentos bastante diferentes em cada disciplina – em algumas estavam caladas/os. por vezes.

também elas. comportamentos. interiorizadas na infância. mais dificilmente identificáveis pelo/a professor/a ou outro/a observador/a mas são. frequentemente. é raro ver raparigas jogar futebol nos campos principais. A relação das raparigas com o futebol e com os espaços onde este é praticado é um exemplo interessante da forma como se estabelecem e negoceiam fronteiras.6 em outros estudos. que contrariam o dualismo rígido e simplista que é habitualmente usado para descrever comportamentos em aula e que tende a reforçar a tradicional dicotomia entre actividade masculina e passividade (e obediência) feminina. Uma observação mais atenta e continuada do que acontece na escola demonstra também que as diferenças que se observam entre rapazes e raparigas não são diferenças já resolvidas e consolidadas. Na véspera de um campeonato inter-turmas (no qual participavam equipas femininas e masculinas). Na escola onde está a ser realizado este estudo. considerados adequados a rapazes e raparigas (Ferreira 2002). Como tal. As/os jovens da turma atribuem-no ao facto de as raparigas não terem jeito ou interesse para o futebol. Estas práticas são menos visíveis e audíveis do que as dos rapazes e. Mesmo quando parecem estar atentas. apenas aparente. são mais visíveis e familiares para nós. traços. por exemplo. não só a nível simbólico mas também geográfico. portanto. uma análise do comportamento das raparigas na turma que observei demonstra que esta “integração feminina” é. manifestações de distracção e resistência. mas sim elementos de processos recorrentes e contínuos de criação e negociação de fronteiras entre os espaços. etc. na medida em que podemos ser levadas/os a focar a atenção nas diferenças e dicotomias que. habitualmente formulada por meio da dicotomia “integração feminina / resistência masculina” (Abrantes 2003: 88. conversar e rir baixinho. ver também Willis 1977) No entanto. muitas delas estão envolvidas em práticas que podem ser consideradas também como estratégias de disrupção da concentração em aula e que incluem. importa proceder com cautela na observação. escrever e trocar recados em papel. um grupo de nove raparigas decidiu praticar num dos campos principais. enviar mensagens de telemóvel. descrição e análise de diferenças e semelhanças de género. por serem elementos centrais das representações colectivamente partilhadas sobre a masculinidade e feminilidade. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . ler revistas. tendo sido interpretada como um demonstração da postura significativamente diferente de rapazes e raparigas face à escola.

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Depois de jogarem durante alguns minutos, dois rapazes pediram-lhes que saíssem do campo, dizendo que eles e os colegas queriam jogar ali. Elas não acederam, declararam que tinham tanto direito à utilização do campo quanto eles, disseram que eles não lhes pediriam para sair do campo se elas fossem rapazes e chamaram-lhes machistas. Os rapazes insistiram e perante a recusa delas ameaçaram pontapear a sua bola na direcção delas, tiraram-lhes a bola com que elas estavam a jogar e as raparigas acabaram por sair do campo e ir jogar numa zona exígua do outro lado do recreio, sem condições para a prática do futebol. Mais tarde, uma das raparigas explicou-me que “muitas vezes nós tentamos ir jogar ali mas eles arranjam sempre desculpas para nos tirar de lá”. Como tal, a observação de que os campos de jogos são quase sempre ocupados por rapazes não é, necessariamente, uma demonstração de que as raparigas não se interessam (ou se interessam menos) pela prática desportiva e uma prova de que rapazes e raparigas são incontornavelmente diferentes a este nível, seja devido à socialização ou biologia. Pode estar associada a dinâmicas específicas de apropriação do espaço, também elas centrais para a análise da forma como se negoceia o género em contexto escolar. Além disso, nem todos os rapazes manifestam interesse pela prática do futebol, aspecto que por vezes fica camuflado pela tendência para focar a análise nas diferenças entre sexos, tendência que pode levar a sobrevalorizar as semelhanças que existem entre os rapazes e entre as raparigas e a negligenciar a heterogeneidade que caracteriza tanto um grupo como o outro. Neste episódio, como em vários outros que marcam o quotidiano de jovens na escola, as/os jovens recorrem a estratégias várias de (auto e hetero) monitorização e regulação (que incluem o gozo e o insulto ou o uso da força física, por exemplo) para marcar fronteiras (que não são sempre consensuais ou aceites passivamente), evitar que essas fronteiras sejam desrespeitadas e aplicar sanções quando isso acontece. Nesta e em muitas outras situações, a diferenciação de género não aparece como um facto dado e resolvido mas como uma construção que dá trabalho manter no quotidiano. De facto, essa diferenciação é algo que se faz todos os dias, e não algo que simplesmente existe na sequência de uma socialização que (re)produz identidades e papéis genderizados, profundamente enraízados e estáveis.

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Considerações Finais Não é possível sintetizar, numa comunicação de quinze minutos, a diversidade de observações que preencheram as seis semanas de trabalho de campo que aqui vos apresentei sumariamente ou a multiplicidade de interrogações e reflexões que elas têm suscitado. No entanto, mais do que descrever exaustivamente os modos como estas/es jovens vivem e fazem género nas suas relações em contexto escolar, o objectivo desta comunicação é contribuir para animar o debate sobre os conceitos de “diferença” e "semelhança”, por vezes utilizados de forma excessivamente rigída e potencialmente reificante no estudo do género, em particular, e nas ciências sociais, em geral. Pretendia-se, também, contribuir para a discussão do papel que a investigação científica sobre a diferenciação de género desempenha, directa ou indirectamente, na regulação social dessa diferenciação, demonstrando que não é só nos recreios que se constroem diferenças e semelhanças – os nossos próprios estudos, textos e comunicações são, também eles, agentes e espaços dessa construção.

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DIFERENÇAS DE GÉNERO E FAMÍLIAS HOMOPARENTAIS
Margarida Moz ISCTE margaridamoz@oniduo.pt

As famílias homoparentais parecem contrariar a noção de família, assente numa forte distinção de género, a que correspondem algumas atribuições ideais de papéis: mãe/mulher, pai/homem. A antropologia questionou já o carácter universal do parentesco mas pode-se também questionar a distinção masculino/feminino, pai/mãe associada à família. A par da contingência do parentesco e da sua “desnaturalização”, a ciência aumenta as possibilidades no domínio do parentesco, ao introduzir a escolha como critério de construção familiar. Em simultâneo, os governos de alguns países ajustam as leis para que se construam relações familiares não assentes nas distinções de género fundamentais. Nesta comunicação discute-se a relevância dos papéis de género numa família homoparental, com base nalguns estudos efectuados na Europa e na América do Norte. PALAVRAS-CHAVE: Género, Família, Parentesco, Homossexualidade, Homoparentalidade.

Quando falamos numa família homoparental estamos desde logo a entrar por uma via que, à partida, parece contrariar a própria noção de família, assente numa forte distinção de género, a que correspondem simbolicamente algumas atribuições: os papéis de mãe/mulher e de pai/homem. Se é certo que, aparentemente, estas distinções tendem a estar cada vez mais esbatidas, e que se espera que a responsabilidade na educação dos filhos seja dividida por igual entre os pais, continua a dar-se uma enorme importância às distinções de género no seio da família, consideradas como referências fundamentais. As distinções de que falamos pressupõem que a mulher é mãe e o homem pai, e que os dois coexistem numa relação parental (mesmo se uma das partes nunca participou de facto nesta relação) e esta é normalmente vista como a única e natural possibilidade numa relação que é, apesar de tudo, socialmente construída. A ideia de que para se ser pai é necessário ser-se homem está ligada àquela outra defendida por David

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Blankenhorn, autor do livro Fatherless América (1995) que causou um enorme debate ao afirmar que a própria masculinidade só se atinge plenamente com a paternidade:

A paternidade, mais do que qualquer outra actividade masculina, ajuda os homens a tornarem-se bons homens: mais propensos a obedecer às leis, a ser bons cidadãos, a pensar nas necessidades dos outros. (p.21 – tradução minha)

É certo que, para o autor, esta paternidade benévola é apanágio exclusivo dos pais biológicos ou adoptivos, sendo os padrastos excluídos desta propensão para o bem. Também na equação subjacente a este argumento existe a mãe/mulher, cuja presença é fundamental e necessária à existência deste pai/homem. Para lá do interesse em defender os valores da família tradicional americana, o autor está empenhado em reforçar, através da família, as distinções de género, absolutamente necessárias à conservação destes valores. Quando se fala em famílias homoparentais esta lógica familiar fica desde logo ameaçada e com ela o futuro da família pensada nestes termos. As justificações para a não-aceitação das famílias homoparentais são frequentemente as de que se trata de uma situação anormal, desviante, em que as crianças vão crescer confusas, destituídas de valores morais, em que serão provavelmente recrutadas para a homossexualidade. Esta ideia pode manifestar-se de várias formas e quase sempre é expressa em favor do “superior interesse da criança”. Em 2003 (a 31 de Julho), o Vaticano emitiu um documento de oposição ao casamento homossexual onde se lia: “Inserir crianças nas uniões homossexuais através da adopção significa, na realidade, praticar a violência sobre essas crianças, no sentido que se aproveita do seu estado de fraqueza para introduzi-las em ambientes que não favorecem o seu pleno desenvolvimento humano.” 1 Apesar das alegações da Igreja de que “o pleno desenvolvimento humano” das crianças que crescem nas famílias homossexuais está comprometido, o que parece estar de facto comprometido nesta possibilidade é mais a plena continuidade da família tradicional. Desde logo porque o referido documento trata de uma eventual autorização do casamento homossexual e da sua reprodução, ignorando a existência dos milhares de
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http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_con_cfaith_doc_20030731_homos exual-unions_po.html

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famílias que por todo o mundo, vivem já, e nalguns casos há muito, nessas condições sem que os estudos efectuados revelem qualquer deficit de humanidade nestes filhos, nestas crianças – ideia corroborada pela American Academy of Pediatrics que se posiciona publicamente em favor da adopção de crianças por casais do mesmo sexo. Antes do mais é preciso lembrar aos que acreditam que a adopção é a única forma de um casal homossexual ter filhos que não só a maioria dos indivíduos que compõem estes casais não é estéril como tão-pouco a reprodução é um acto exclusivamente natural. Ter filhos é um acto de vontade, uma vontade vista como um desejo natural, que a homossexualidade não inibe. O parentesco foi já “desnaturalizado” (Collier e Yanagisako, 1997), porquanto as evidências etnográficas esclarecem a sua pertença mais ao domínio da cultura que da natureza, uma vez que as associações genealógicas são sobretudo construídas. David Schneider (1984) foi dos antropólogos que mais se bateu contra o enraizamento biológico do parentesco que prevalece no pensamento ocidental onde, por definição, o parentesco é composto por relações baseadas na reprodução sexual. Sendo um dos primeiros grandes críticos do que designou por “Doutrina da Unidade Genealógica da Humanidade”, chamou a atenção para que o método não é mais que uma tentativa de generalização de uma noção ocidental assente na ideia de que o parentesco está ligado à partilha de uma substância comum, que aproxima e identifica as pessoas umas com as outras. No Ocidente, esta consubstancialidade está fortemente ligada à reprodução e ao pressuposto de que “o sangue é mais espesso que a água” (blood is thicker than water). Os estudos realizados em diversos contextos não ocidentais revelam, porém, que o valor atribuído à reprodução no Ocidente não é universal. Entre os Nuer do Sudão, por exemplo, a designação de pai estendia-se a demais membros da família, incluindo mesmo alguma irmã do pai, que por ser estéril passava, ao fim de alguns anos de não gestação, a constar do grupo dos homens e a ser chamada de pai (Héritier, 1996). E nas Ilhas Salomão, por exemplo, em que as crianças ficam com os pais não pela ordem natural das coisas mas porque os pais as desejam e são autorizados a fazê-lo pela comunidade, torna-se evidente o carácter frágil e condicional das relações entre pais e filhos (Holy, 1996). A par da evidência universal da contingência do parentesco e da sua “desnaturalização”, os desenvolvimentos tecnológicos aumentam as possibilidades no

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domínio do parentesco ao introduzir a escolha como critério de construção familiar. Marilyn Strathern (1996) chama a atenção para a forma como as possibilidades introduzidas pelas novas tecnologias reprodutivas, desenvolvidas para colmatar limitações biológicas, vão mais longe na requalificação do parentesco: ao criarem um vínculo natural por via artificial, como resultado da escolha de se ter filhos que naturalmente não se podem conceber, abrem caminho para que outros candidatos a pais, naturalmente impossibilitados, possam também satisfazer as suas pretensões. A ciência permite já situações que desafiam todas as noções de parentesco, como é o caso de mães virgens ou de duplas mães biológicas (no caso em que existe uma mãe hospedeira, que gera um embrião proveniente de uma combinação de óvulo/espermatozóide alheia). Mas não é apenas a ciência que dá passos na construção de relações familiares não assentes nas distinções de género fundamentais, os governos de alguns países, acompanham já estes desenvolvimentos ao permitirem aos casais homossexuais tanto a adopção plena de crianças, como a adopção do filho do companheiro por um parceiro do mesmo sexo. Nesta segunda forma, a mais frequente na Europa e em prática em países onde a adopção conjunta não é, ainda, permitida, trata-se de adaptar a legislação a uma realidade em que as famílias se vêem muitas vezes incapazes de gerir a sua situação familiar por falta de enquadramento legal (seja na relação dos filhos com a escola, seja na própria vivência quotidiana quando, por exemplo, o pai/mãe legal se ausenta e a criança é deixada com o companheiro/a. Mas há países que vão mesmo mais longe nesta adaptação às diversas formas de agrupamento familiar e aplicam a presunção de paternidade à parceira não parturiente de um casal de lésbicas que tenha um filho por inseminação artificial - é assim no Quebeque, no Canadá. Voltando à questão inicial da distinção pai/mãe, homem/mulher, importa desde logo chamar a atenção para o modo como a reprodução medicamente assistida introduz novas questões com forte ressonância no plano social e jurídico. Hoje em dia as famílias são cada vez mais diversificadas e pai/madrasta; mãe/padrasto, meio-irmão-materno, meio-irmão-paterno, irmão-filho-do-marido-da-mãe, etc. são realidades que não surpreendem ninguém. Para além destas famílias recompostas, as novas tecnologias evidenciam ainda outras distinções como “mãe genética”, “mãe biológica”, “mãe de aluguer”, etc. As realidades sociais há muito que transcendem as designações que existem e que são visivelmente insuficientes.

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Mas depois acrescentou. sublinhando assim uma vontade de formar uma família. Em relação ao casal é referido como “a minha mãe e a parceira”. ao serviço de uma ficção de nascimento: veja-se as restrições no acesso à adopção e à reprodução assistida. Eu sustive a respiração. Esta dificuldade. de se afirmarem como pais. surgem termos como “a outra mãe”. sendo que muitas vezes as condições exigidas jamais seriam satisfeitas pelas famílias que geram crianças sem ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . como também se opta por chamar pai/mãe a ambos os membros do casal. conta que certa vez. e os restantes. tanto acontece que mãe e pai sejam os biológicos ou legais. “tia” ou então opta-se pela utilização apenas do nome da pessoa em causa. A antropóloga Anne Cadoret (2000) observa no contexto francês. 2004: 139 – Tradução minha) – é que partner em inglês quer igualmente dizer sócio.” (Cadoret. autora de um importante estudo americano sobre os filhos de pais LGBT (Lésbicas. “madrasta”. satisfeita por ela ter percebido e achado fantástico. 2000: 173 – Tradução minha). porém. etc. A inexistência de nomes para as relações torna difícil fazer transparecer a importância destas pessoas na família quando se fala dela a estranhos. “Bem” continuou “não é fantástico que o ‘partner’ do teu pai tenha vindo de tão longe com ele para assistir à cerimónia da tua graduação!”. e o outro. na cerimónia de graduação da faculdade. o parceiro dele (em inglês partner). seguido do primeiro nome que distingue cada um deles. Bissexuais e Transgender) – Families Like Mine (2004) –. Gays. As dificuldades relatadas não seriam provavelmente muito distintas das que existiriam para a adopção comum.5 Nas famílias homoparentais esta parece ser das situações mais difíceis de resolver e aceitar: assim. “as minhas mães”. não fossem estas estar. esta mesma necessidade: “Nota-se uma vontade muito nítida de utilizar um termo de parentesco e não apenas o nome próprio da pessoa em causa. padrastos ou padrinhos. sobretudo quando as crianças vivem esta situação desde sempre. mas nas referências à família fora do seio familiar. “A que ramo de negócio é que eles se dedicam?” (Garner. não é tanto sentida no seio da família. uma colega lhe perguntou qual dos dois homens para quem apontou como sendo a família. Respirei de alívio. Abigail Garner. era o seu pai. sob o argumento do princípio do bem-estar da criança. normalmente. Garner esclareceu que um era seu pai. “os meus pais”. “O ‘partner’?” perguntou. e em relação aos pais. e ela própria filha de pai gay. Assim.

na maioria dos casos. o afectivo. estas famílias. está-se em geral consciente da ausência de um dos sexos nesta composição. O termo escolhido deverá evidenciar a existência de uma relação de tipo familiar e a posição da pessoa face a quem a nomeia. se as raparigas crescessem mais arrapazadas e os rapazes ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . a dificuldade em classificar os parentes parece residir mais na forma como se explicam as relações familiares em causa. e era até recorrente a indicação de que na sua grande maioria estas crianças na idade adulta tendiam para a heterossexualidade. no caso dos filhos resultantes de inseminação artificial esta questão torna-se mais difícil de resolver. como se isso fosse sinónimo de uma educação eficaz. Como diz ainda Anne Cadoret (2000): A família sempre foi uma montagem. de uma adequação do parentesco biológico ao parentesco social. e uma vez que esses receios se prendem normalmente com a hipótese de estas crianças apresentarem inconformidades de género. ou até um casal do mesmo sexo opta pela adopção. Por outro lado. O envolvimento de mais do que duas pessoas no processo de concepção dificulta a nomeação de cada um dos pais e privilegia um em detrimento do outro dos membros do casal. nos Estados Unidos da América. o histórico. ao reproduzir-se poderão estar a reproduzir o desajuste: que será dos filhos que crescem nestas famílias? Que homens e que mulheres serão? Que famílias irão eles construir? Nos anos 80. Mas as famílias homossexuais fazem cair a nossa ilusão de um “parentesco natural”. Tanto para as famílias homossexuais quanto para as famílias heterossexuais trata-se de fazer a ‘bricolage’ da família a partir de diversos argumentos de parentesco: o biológico. (Cadoret. As descobertas iam ao encontro dos receios da maioria heterossexual e homo-hesitante. Sejam quais forem os termos usados. Já quando uma mãe sozinha. ou pelo casal do mesmo sexo. os estudos sobre filhos de casais do mesmo sexo evidenciavam a necessidade de contrariar os argumentos homofóbicos e sublinhavam a existência de poucas diferenças entre as crianças educadas numa família homossexual face às que cresciam numa família heterossexual.6 recorrer a estes meios. 2000: 173 – Tradução minha) Para além disso. ou um pai celibatário. o jurídico. Quase todos os estudos nesta área referem não ser difícil. o cultural. situar o sexo ausente uma vez que a criança nasce de um casal heterossexual e é posteriormente adoptada por esta ou aquela pessoa. o social.

com as suas próprias referências. mas longe de considerarem isso uma falha no seu desenvolvimento pessoal. o lugar dos homens e das mulheres na sociedade e na família? E quando é que o “problema” das famílias homoparentais passa a ser o ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . E se os próprios se sentem bem. e concluíram que contrariamente ao que antes havia sido divulgado. Em 2001. ser uma maisvalia. Garner percebeu como muitos deles têm uma clara noção de que a sua identidade de género escapa. acreditam que tal os valoriza no seu relacionamento com os outros e lhes dá uma maior abertura e capacidade de tolerância – conclusão. à rigidez dos padrões e não se coaduna exactamente com o que é ser homem e mulher. e resolvidos na sua sexualidade. sinónimo de uma sexualidade mal resolvida – tanto para a homossexualidade quanto para a heterossexualidade. sem que isso fosse. por exemplo. efectuados entre 1981 e 1998. por que motivo se teme tanto pelo desenvolvimento destas crianças? Porque é que se diz ser no seu superior interesse que se impede a adopção por casais do mesmo sexo? Como é que se poderá viver com uma realidade familiar que parece não ensinar a distinguir. Ao mesmo tempo que se mostravam mais abertos. também se revelavam mais abertos à aceitação das relações homossexuais. mas que os próprios consideram. na medida em que lhes confere uma liberdade maior de comportamento ao poderem expressar livremente traços mais efeminados ou masculinos e ao serem abertamente afectuosos com alguém do mesmo sexo sem que isso os faça sentir esquisitos ou inseguros em relação à sua própria sexualidade. A interpretação feita por estes autores sugere uma maior tendência dos filhos com pais do mesmo sexo para desafiar as ideias relativas aos papéis de género e à sexualidade. Entre os jovens adultos com quem trabalhou. Abigail Garner verifica que por vezes estes filhos apresentam personalidades em cujas distinções de género são menos óbvias e em que os papéis são mais indistintos – um aspecto que os conservadores tomam como evidência de uma falha no desenvolvimento das crianças. reexaminaram os dados utilizados nos estudos sobre os filhos das famílias do mesmo sexo. no entanto. ao igual desempenho de funções normalmente associadas a um dos sexos. tal seria motivo para preocupação. e integrados. em geral. os sociólogos americanos Judith Stacey e Timothy J. sobre filhos de casais do mesmo sexo. a que têm chegado quase todos os estudos nesta área.7 efeminados. aliás. No seu estudo. actualmente entre os 20 e os 30 anos. por vezes. Biblarz. estes filhos apresentavam algumas diferenças relativamente aos seus congéneres de famílias heterossexuais.

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1994). apesar destas já terem uma participação importante no mercado de trabalho A sua chegada tardia ao mundo do trabalho remunerado contribuiu para as segregar em profissões onde a sua presença é fundamentada nos seus atributos «naturais». Elas estão em maioria e são poucos os homens que ultrapassam a barreira simbólica do género. reprodução. o tratar e o ensinar. 1. O estereótipo masculino está associado aos domínios profissionais mais dinâmicos e independentes. A partir de um trabalho de observação empírica feito numa creche.e nos veículos por ele utilizados .Educadoras de Infância: A fragilidade de uma maioria Manuela Raminhos Centro de Estudos de Antropologia Social ISCTE A profissão de Educadores de infância é em Portugal exercida quase em exclusividade por mulheres. de acordo com o seu género.as mulheres e as crianças. poder. Em Portugal. em entrevistas semi-estruturadas realizadas a educadoras e alunos da licenciatura de educação de infância e também um inquérito realizado entre profissionais e futuros candidatos à profissão. Palavras-chave: educadores de infância. A sua ausência da profissão permite que sejam as mulheres. por exemplo. Apresentação Os estudos desenvolvidos em Portugal demonstram uma grande consensualidade no que diz respeito aos estereótipos do género. jardim-de-infância e ATL. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . as educadoras de infância a transmitir aos seus educandos o modelo feminino: o cuidar. a marcada diferenciação entre “trabalho de homem” e “trabalho de mulher” tem criado condições para que continuem a existir trabalhos maioritariamente desempenhados pelas mulheres. género. o estereótipo feminino está associado à expressividade e à submissão (cf. esta comunicação dará conta de uma forma de reprodução de poder assente na diferenciação de género. isto é. Amâncio. enquanto que. O êxito da sua longevidade está no seu meio de reprodução – os pequenos domínios de relações sociais .

as educadoras de infância . Ministério da Ciência e do Ensino Superior. Concurso Nacional de Acesso ao Ensino Superior. O Recenseamento Geral da População de 2001 regista um total de 20.a transmitir aos seus educandos o modelo feminino: o cuidar. A concentração por sexos quer a nível do ensino (licenciaturas e cursos profissionais) quer na actividade profissional é suportada por um discurso que alimenta a ideia que existem profissões masculinas e femininas. em Portugal. 1995). promove a desigualdade social. mas em contrapartida. 2002. Como resultado. Lisboa. que as jovens já escolhem com frequência cursos e profissões ligados com o estereótipo da masculinidade (cf. no entanto.354 educadores de infância em Portugal. Os homens tinham neste universo profissional um peso inferior a 1%. A sua ausência da profissão permite que sejam as mulheres.2003 3 2004. As várias escolas superiores de educação públicas entre 2002.2 Em Portugal são poucas as profissões do domínio profissional que tradicionalmente está ligado ao mundo do trabalho feminino que empregam homens e são poucos os jovens do sexo masculino que escolhem licenciaturas em áreas comprometidas com o estereótipo feminino. Através de um forte dispositivo ideológico continuamos a assistir à naturalização do género que. 2005). o tratar e o ensinar. 2005. A profissão de Educadores de infância é em Portugal exercida quase em exclusividade por mulheres. sentimentos e comportamentos» (cf. dos quais 161 do sexo masculino (INE: 2001). a partir da diferença sexual. Williams. colocando as mulheres em profissões menos prestigiantes socialmente e dificultando-lhes o acesso a funções de chefia tradicionalmente desempenhadas por homens. Cardana. os empregos do domínio feminino pouco têm mudado a sua composição sexual. Mas porque é que a divisão do trabalho por género persiste? A primeira explicação centra-se nos estereótipos que passam através da ideologia do género e que 1 DGES. a presença das mulheres no domínio profissional masculino tem aumentado. Elas estão em maioria e são poucos os homens que ultrapassam a barreira simbólica do género. Como pano de fundo fica a ideia que existem profissões para as quais as mulheres possuem habilitações naturais dado crer-se «que os sexo tem consequências inevitáveis quando à forma de pensamento. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Nota-se. 2003 e 2004 foram frequentadas por cerca de 2 mil alunos nos cursos de educação de infância onde se estima que apenas 3% dos alunos sejam do sexo masculino 1 .

42-43. col.que ainda consegue preservar a sua vantagem localizando-os em esferas diferentes das da mulher. “género é poder”.o masculino . 2ª edição. com uma distribuição razoavelmente equitativa. da Licenciatura de educação de infância e a Educadores de Infância e exercerem a sua actividade em creches e jardins-de-infância de Lisboa e do Porto. 3 2. uma vez que têm demonstrado falta de estratégias de afastamento dos homens nas funções de liderança quando estes entram no seu domínio profissional. entre os alunos das Escolas Superiores de Educação de Lisboa e do Porto. 3 4 2 ID. Thousand Oaks. A imagem de si Dizem as feministas. A amostra revelou uma distribuição por género fortemente feminizada. Pine Forge Press (an imprint of Sage Publications. como esperado. Os registos etnográficos que suportam este texto são: uma amostra baseada em 166 questionários. 2 Uma segunda explicação para a para a divisão do trabalho é o facto desta divisão conceder privilégios ao grupo dominante proporcionando-lhe uma posição de controlo.). No grupo de educadores de infância não foi inquirido um único homem e no grupo de alunos de educação infantil apenas um. Women and Men at Work. São estes estereótipos que levam a que a profissão de educador de infância seja própria de mulher. Sociology for a new Century. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . nos lugares de chefia e de decisão. como por exemplo. mas como é que o género se torna poder? e qual é a sua natureza? A partir de um trabalho de observação empírica feito numa creche. as mulheres não têm sido consistentes na consolidação dos seus privilégios profissionais. Inc. um conjunto de comportamentos e atributos. Londres e Nova Deli. 4 Padavic. em entrevistas semi-estruturadas realizadas a educadoras e alunos da licenciatura de educação de infância e também um inquérito realizado entre profissionais e futuros candidatos à profissão. São os estereótipos que fazem com que o trabalho.3 permitem aos indivíduos a partilha de um conjunto de ideias que naturalizam. por sexo. pag. esta comunicação tem como objectivo identificar a natureza do poder atribuído ao género. Este controlo é exercido pelo sexo privilegiado . jardim-de-infância e ATL. e Barbara Reskin (2002). “seja etiquetado como feminino e masculino”. Irene. deixando-os construir a sua masculinidade e evidenciando a sua supremacia e poder. Uma terceira explicação surge.

o género justifica-se de acordo com um quadro biológico que suporta a ideia que divisão do trabalho. controlando a massa crítica. O Género está de acordo com o seu sistema nervoso. Um dos impedimentos à mudança social é a assunção da naturalidade das coisas. actos. Como o comportamento. formas de subjectividade. O género manifesta-se segundo a sua natureza biológica.4 Um dos maiores contributos de Foucault foi fazer a ligação entre o discurso dominante da verdade (ou a verdade de um grupo reflectida no discurso dominante) e a emergência do poder. efeito do património biológico do indivíduo. É uma verdade que liga os indivíduos e que fortalece as estruturas de poder e dominação (cf. E é aqui que reside também um dos poderes do género. Contudo a verdade não existe por si só o que permite que o poder não se reduza somente às formas de dominação e não seja essencialmente repressão. O poder identifica o indivíduo. Dizem: ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . (Foucault. Acredita-se que é assim. é normal e natural. Foucault. não está ao nível da sua composição sexual. 1982:212). 1979). tornando o discurso ideológico coerente e permitindo também a continuidade do discurso do senso comum. apesar de todo os projectos de transgressão e de rotura. também o género é assumido como um fenómeno causal. Porque? Porque o poder é produtivo: produz indivíduos. mas na presença de um modelo de género institucionalizado. porque se acredita nele. diferentes tipos de identidades. Nestes discursos o género tem qualquer coisa de fixo e permanente. E se esta verdade fizer parte de cada “verdadeiro eu” acredita-se nela. É este modelo que é reproduzido e assimilado pelas mulheres e pelos homens que ingressam em profissões que de acordo com o seu género. segundo o género. desejos e crenças. Apesar de ser uma identidade plástica. No caso das educadoras de infância estas assumem que a profissão é feminina e que está de acordo com o seu património biológico. Esta é a verdade. Isto significa que a feminização das profissões. prende-o à sua identidade que ele ou ela deve reconhecer e acreditar como reflexo do seu verdadeiro “eu”. no seu carácter fixo. Esta naturalidade está contida nos discursos científicos da biologia e da psicologia. O poder perde o seu carácter dominante e deixa de ser repressivo. modos de comportamento. apesar de sabermos que é uma construção social. Como a fé aceita-se e não se discute.

Dizia a minha avó quando via o meu irmão a brincar com as minhas bonecas: Vê lá que ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . aos escritórios. enfermeiras. 55 anos) os homens aparecem no ensino já quando «as nossas crianças estão prontas» para a mudança. (aluna da licenciatura de Educação de Infância. 55 anos) As educadoras de infância deixaram transparecer que no decurso da sua actividade profissional o seu universo é feminino. da dedicação. Às casinhas. É verdade! Se calhar sem querer estava-me a ensinar-nos que cuidar de meninos era coisa de mulher! Mas a minha avó sim …que espectáculo. mas é simultaneamente a imagem da passividade. Lembro-me de brincar com os meus irmãos. Elas são como as flores. A naturalização do género é tão forte nas educadoras que apesar de no inquérito terem respondido que em crianças as profissões que gostariam de ter em adultas se situavam no universo das profissões femininas. da tolerância. (mulher. No entanto dava-me bonecas a mim e carrinhos ao meu irmão. A mulher biologicamente está preparada para isso. Não tenho assim presente que fossemos muito rigorosos na divisão de tarefas. são as flores do nosso jardim que nos primeiros tempos de vida precisam da nossa ajuda. tão ligadas ao universo materno. dentro dos parâmetros da verdade estabelecida. só te fica bem!». No entanto através dos seus discursos. à paciência. a tratar dos filhos. 21 anos) Nós sabemos que é uma profissão feminina. educadora de infância. a ajudar a mãe dos meninos. Mais crescidas. A minha mãe não se ralava nada se o meu irmão brincasse com as bonecas e eu com os brinquedos dele. aos médicos. Não aprendo isto na licencaitura. educadora. como professoras. negam que tenham sido condicionadas pela família e pelos amigos na escolha da sua profissão. negando o papel que estes tiveram na sua aprendizagem do género. aos veterinários. Ou seja o seu género não acrescenta nada à profissão. da bondade. Essa era implacável. Em interacção com as crianças partilham com estas experiências ligadas ao universo da casa. essa realidade é bem diferente. da paciência. Até lhe dizia «assim é que é. mais fortes.5 Somos só mulheres … penso que os homens não têm paciência … exercemos a nossa profissão com mais naturalidade é por isso que é uma profissão feminina. Ao mesmo tempo perante as crianças a educadora é a autoridade. A tudo. ao carinho. consolidando a ideia de que esta ocorre com normalidade. porque está ligada ao cuidar. (mulher. mas é assim que eu penso. aos astronautas.

Se atendermos a PARSONS. The University of California Press. Mais tarde. pode ser explicada através da teoria do sexo. 40 anos. Berkley. “The superego and the theory of social systems”. 6 Como me disse uma educadora. 5 Através da construção de uma identidade masculina pela negativa: “tu não fazes isso porque quem o faz são as mulheres!”.6 desgostos que ainda queres dar ao teu pai. «a sociedade vê a sua profissão como a profissionalização do trabalho doméstico» (Mulher. Nancy. também o seu afastamento das profissões “apropriadas às mulheres”. Uma forte identidade Como já dissemos. afirmar a sua masculinidade. os rapazes são pressionados para abandonar esta identificação com a mãe e assumirem a sua identidade de género masculino. afastando-se das brincadeiras das meninas. quando aí chegam.174. influência. Social Structure and Personality. que resulta desta intensidade do significado atribuído ao género. a preocupação na construção da masculinidade profissional. 5 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . New York Free Press. The reproduction of mothering. 1978. enquanto que os homens. Lisboa). perdendo. negando dessa forma a sua ligação ao mundo feminino e. Porto). 3. O afastamento dos homens das profissões femininas ou a necessidade que estes têm de. 6 CHODOROW.17-33. Talcott. A forte presença da mulher face ao afastamento da figura do pai nos primeiros anos de vida é pertinente para tentarmos compreender a necessidade que os rapazes têm em manifestar a sua masculinidade. pp. olha que as bonecas são para as meninas! (Aluna da ESE. acaba por ser influenciada pelo modelo que lhe está mais próximo. o feminino e em muitos casos a figura da mãe ou da educadora. já na vida adulta. 1970 (1952). em contrapartida. pp. Nova Iorque. exige uma assimetria dos papéis: A mulher pode fazer qualquer trabalho que não deixa por isso de ser feminina. mais tarde. A criança. põem mais em causa a sua masculinidade. aparentemente. Quando chegam à vida adulta os homens escolhem geralmente uma profissão do universo das profissões masculinas. quando entram no campo profissional tradicionalmente conotado com o género feminino. as escolhas profissionais são incentivadas ou condicionadas através da aprendizagem dos papéis do género no seio das solidariedades primárias. o modelo da paternidade (masculino) fica mais ausente. no seu processo de aprendizagem.

Como no lar. a ensinar e a proteger as suas crianças.privado -. também aqui as mulheres. . ensinandoos a arrumar a casa. a biblioteca. o quarto e até a garagem. a vigiar. o justo das roupas passa a folgado. O formal que trazem da rua passa a informal dentro do infantário. como por exemplo.as batas – e. preocupandose com o seu bem-estar. o seu prestígio. E até o espírito de poupança doméstica se reflecte nestas profissionais que promovem «as festinhas onde vendemos coisinhas feitas por eles para juntar dinheiro para a viagem dos finalistas» (Mulher. com as enfermeiras que prestam serviço no infantário. 7 Através do trabalho de observação realizado junto de educadoras de infância. a educadora olha atentamente “pelos seus meninos”. pudemos verificar que algumas das suas tarefas são semelhantes às que as mulheres realizam no espaço privado. A sua actividade profissional demonstra que a passagem da casa para o trabalho continua a permitir que esta profissão consolide os estereótipos femininos. 7 Entendemos que poder ou o exercício do poder por parte de pessoas ou de grupos sociais é a capacidade que estes têm em usar estratégias próprias que provocam obediência outras pessoas ou grupos. Porto). com os seus educandos a quem dispensam toda a sua atenção ao longo das muitas horas que estão com eles. onde surge a cozinha. 49 anos. É esta simbiose perfeita entre objectos. As educadoras continuam a cuidar. práticas e comportamentos domésticos e profissionais que alimenta a forte imagem feminina que estas profissionais têm de si mesmo. no seu local de trabalho – o infantário -. numa atitude de conforto e de disponibilidade para com a sua tarefa. a quem se dirigem para saberem como devem actuar face a problemas de saúde das crianças. e o profissional . com os pais destes. ou a cuidar da sua higiene. como se fossem uma casa familiar. Entre o social.7 isso. Na sua sala. a sala. A feminilidade da profissão também é observável através das relações sociais que estas profissionais estabelecem no seu dia-a-dia com os seus interlocutores mais directos. Colocariam em causa a sua masculinidade. o seu poder de grupo privilegiado. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Por outro lado. em alguns estabelecimentos. os espaços em que interagem com as crianças estão carregados de simbolismo feminino. normalmente. compreendemos porque é que os homens não escolhem esta profissão. a apresentação destas mulheres muda e o significado que daí emerge permite sinalizar a semelhança entre o trabalho de casa e o trabalho que desempenham profissionalmente nos infantários. As salas estão decoradas. a arrumar. calçam sapatos baixos. usam roupas largas .público -.

a reader. Segundo Catherine Lutz (2003) a aplicação do conceito emoção. Emoção significa subjectividade. uma vez que está associada.. “Emotion: The universal and the local. Gergen (Ed. 40 anos. 20005 (2003). «mas não é só a mulher que consegue experimentar a angustia e reagir. irracionalidade a tal ponto que pode gerar o caos. Na prática. Quer dizer que a emoção faz parte de um sistema de relações de poder e tem um papel fundamental na manutenção desse mesmo poder. Porto) A emoção pode ser também entendida como uma representação do feminismo da profissão. As educadoras sofrem e riem. As educadoras fazem um trabalho valorizado socialmente mas em contrapartida com pouco realce e estatuto social de prestígio. Social Construction. à mulher.8 No entanto por detrás desta imagem estereotipada está a ideologia do género que através da divisão do trabalho por sexo atribui à mulher tarefas diferentes das que atribui ao homem. Catherine. Envolvemonos e demonstramos. face à alegria ou tristeza das crianças». com paixão a determinadas situações. pelas categorias do género. Londres.). Isso é uma injustiça e eu não quero que tu continues a alimentar essa injustiça. Disse-me uma Educadora. Sou educadora porque quis sê-lo e gosto da minha profissão. enquanto que o homem é caracterizado pela sua objectividade. (Educadora. Mary Gergen e Kenneth J. a diferença é que nós conseguimos LUTZ. organização. sabes porque é que não há homens nesta profissão? Porque nós somos socialmente vistas como “donas de casa” que trabalham fora de casa. racionalidade. 8 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . 8 Algumas educadoras de infância entrevistadas não escondem que para as mulheres é normal reagirem emocionalmente enquanto que se espera que os homens escondem as suas emoções. ao mesmo tempo que dizem. com raiva ou com alegria. Sage. permitindo desta forma a manutenção um sistema de estratificação profissional que atribui valor desigual ao trabalho segundo o género. a emoção opõe-se ao pensamento e muitas vezes é empregue para caracterizar a mulher negativamente reforçando a sua subordinação ao homem.40. ou o seu emprego como adjectivação de uma mulher serve fins ideológicos. Perguntar-lhe-ia. pp. Mas hoje se a minha filha escolhesse esta profissão eu iria contra a ideia dela.

6% 19.7% 15.6% 24.2% 13. Professora da ESE. «os poucos rapazes que aqui chegam não conseguem aguentar a carga emocional negativa que lhes é transmitida pelos média. o carinho.1% 30.1% 34. empatia. a vocação e o gosto.9% 25. Porto). flexibilidade Sensibilidade. enquanto que eles a escondem!» (Educadora. simpatia 34.1% 30.5% 14.4% 10. educação Afabilidade.7% 30.3% 33. 40 anos. Acabam por desistir» (Mulher. em muitos casos condição essencial para afastamento dos homens da profissão. No inquérito realizado embora de opinião bastante díspares os educadores revelam um leque alargado de características comportamentais na área da emoção e atribuídas à mulher pelas categorias do género feminino. 54 anos.0% 12.3% Para as mulheres educadoras de infância os afectos fazem parte da sua prática profissional.3% 16.9 manifesta-la. compreensão Criatividade. a criatividade e a flexibilidade. dedicação Responsabilidade. assim como as denúncias de praticas pedófilas em estabelecimentos de ensino têm ultimamente afastado da licenciatura possíveis candidatos.0% 33. A paciência e a compreensão. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .4% 37.8% 32. gosto Afectividade. amor. atenção Competência técnica e científica Capacidades profissionais Respeito.9% 22. Educação Infância 44. a sensibilidade.4% 13.5% 13.1% 20.3% Aluno Lic.6% 32.5% Total 41.5% 18. amor.8% 32.9% 39. os possíveis candidatos homens desta profissão. afectividade.4% 11. segurança Observação.8% 25.5% 10.8% 18. Lisboa). humanismo Vocação. carinho Empenho.3% 32.2% 12.3% 25. Características de um bom educador Educador de infância Paciência.4% 15. Os afectos que manifestam também nas carícias que as crianças recebem dos educadores afasta. Segundo uma professora da ESE do Porto.

a criança vai à procura do seu “outro” para o copiar ou simplesmente para o ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . nem tão pouco se sentem que houve algum dia qualquer forma de influência que condicionasse a sua escolha.10 Por outro lado. Pelas práticas profissionais que lhes vemos ter. As mulheres devem ficar junto das crianças. pela a forma de comportamento que se espera delas. por tudo isto. têm características e apetências diferentes. Aqui. sem a necessidade de um “diferente por perto”. se sentirá mais atraído pelas profissões que estão de acordo com as características atribuídas ao seu género. As crianças representam a pureza e a mulher conserva uma imagem menos perigosa. Os inquiridos. a imagem de feminilidade contida nesta profissão é forte e constrói-se sozinha. afastando deste universo os homens. De facto. O seu poder advém-lhe da sua forma de reprodução. 4. Isto quer dizer que até a sociabilização com os papéis atribuído ao género acontece dentro dos parâmetros naturais da ordem estabelecida. neste universo. No seu processo de sociabilização a criança começa por copiar as atitudes daqueles que lhes estão mais próximos ou daqueles que sobre ela exerçam mais influência e que se encontram no universo das solidariedades primárias. Segundo a ideologia do género os indivíduos. amigos ou mesmo da escola no seu processo de sociabilização com as categorias do género. não reconhecem directamente a influência dos seus pais. Porém a sua natureza não passa de uma construção social. já na fase adulta. até pelo perigo que pode representar a presença de um homem nesta profissão. foi o que constatámos junto das Educadoras de Infância. Conclusão O processo de aprendizagem das categorias do género iniciado através do processo de interacção desenvolvido no seio das solidariedades primárias. também manifestam que a profissão de educador de infância é própria para mulheres. mais dócil e o seu as suas carícias são consideradas normais. os pais das crianças em idade de pré-escolar. por exemplo. pelo meio em que estão inseridas. segundo o sexo. Esta aprendizagem condicionará o indivíduo que. Na verdade expressam a ideologia do género e os seus medos. mais tarde.

Nos seus espaços de trabalho. no jardim-de-infância a criança começar por distinguir os papéis diferenciados do género. um número de factores e de práticas profissionais chama a nossa atenção. pp. Através da interacção que se estabelece entre a criança e a sua educadora. “e todas as sociedade reconhecem os laços que cada criança tem com as pessoas envolvidas no planeamento e empreendimento do acto reprodutivo”. condicionando o leque das profissões disponíveis para os futuros homens e influenciando-os a escolher: «uma profissão que não envolva o cuidar dos filhos dos outros e ensiná-los brincando» (Educadora. Referências Bibliográficas AMÂNCIO. as salas que recebem as crianças. Mais tarde. Lígia. Provadamente. Lisboa). Porto. E aí está a perversidade desta profissão. precisamente para a falta de práticas conducentes a esse equilíbrio e equidade. 9 É na família que. Este processo de aprendizagem dos papéis do género é universal. 9 ID. Apesar dos educadores de infância deixarem transparecer que o seu trabalho com as crianças é feito com o objectivo de os influenciar no sentido do equilíbrio e equidade entre géneros. Edições Afrontamento. Estas profissionais actuam como frentes de consolidação do género feminino. muitas vezes a brincar ao “faz de conta” sob os olhares da mãe ou da avó. copia e aprende a reproduzir os papéis sociais esperados para o homem e para a mulher. As crianças brincam e utilizam este espaço não tendo em conta o seu sexo. esta transmite-lhe a ideia que cuidar das crianças é trabalho para mulher. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . A construção Social da Diferença. os objectos estão distribuídos como se de uma casa se tratasse. mas mais do que entanto a criança habitua-se a partilhar a sua vida com uma mulher que os ensina a divisão do trabalho por sexo. É também neste universo. O trabalho de observação empírica permitiu ver que as mulheres educadoras de infância desenvolvem um tipo de trabalho que as posiciona de acordo com o imaginário feminino. a criança aprende as categorias do género. 41. que a criança vê. Masculino e Feminino.11 identificar com determinado tipo de trabalho. 1994. no seu estabelecimento todas as educadoras são mulheres. 54 anos.

PHILIP. 2004. Os percursos do género na antropologia e para além dela. Pine Forge Press.17-33. Women and Men at Work. Sage. pp. Universidade de Guadalajara. Nancy.ujaen.). University of California Press. 1982. FOUCAULT. 8. 1999. nº 5. Padavic. 2ª edição. Berkeley. N. 2000. Michel. Inc. WILLIAMS. (ed).). ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . “Emotion: The universal and the local. Social Construction. Academic Press.es/huesped/rae. Presentations of Gender. 2005. Yale press University. Karmela Liebkin (Eds). Robert. Mercedes. 99-121. Women and Men at Work. Irene. MURRAY. Nº 2. e Barbara Reskin (2002). “Variations in Ethnic Identity: Structure Analysis”. Gower/European Science Foundation. 4 pp. New Haven. Subject and Power. PARSONS. Vol 10. 1985. “The gender division of labour: Keeping house and occupational Segregation in the United States”. 1995. Cohen. Vintage. pp. La Ventana. Londres e Nova Deli. “A Casa é para as raparigas.40. Rita Laura. Mary Gergen e Kenneth J.2002.12 CARDANA. Discipline and punish: the birth of the prision. Guadalajara. Vermont. Gergen (Ed. a reader. 1998. os rapazes são para trabalhar fora: a diferenciação sexual do trabalho das crianças camponesas e a construção da identidade dos rapazes e raparigas”. pp. e Nelson Lourenço. and RABINOW. pp. 42. Sociology for a new Century. Padavic. Em Terra de tufões: dinâmicas da etnicidade macaense. “Espacios e Identidades: ingreso de profesores a preescolar”. Susan. pp. 1978. “Electrotecnia e Informática: Dinâmicas de Género em Ciência e Tecnologia”. Sociology for a new Century. Thousand Oaks. 1993. Londres. Christine. Pine Forge Press (an imprint of Sage Publications. PINA-CABRAL. 1970 (1952). 20005 (2003). 42-43. CHODOROW. 2005. New York Free Press. Nova Iorque. PALENCIA. “We all love Charles: men in Child Care and the Social construction of Gender”. 1989. Revista de Antropología Experimental. Gender and Society. The University of California Press. Gender & Society. 174. 2ª edição. No. 1979. CA. ICM. Sociedade e Culturas. Graça Alves. Brasília. Revista de estúdios de género. 52. SEGATO. Social Structure and Personality. Hemel Hempsted. col. L. San Diego. (Texto 14). João de. Nova Iorque. Peter. pp. 18. DREYFUS. LUTZ. Michel. Talcott. Universidad de Jaén (España). pp. http://www. Série Antropologia 236. Hubert. FOUCAULT. Thousand Oaks. Still a man’s World: men who do “women’s work”. pp. The reproduction of mothering. STOLLER. Londres e Nova Deli. New Identities in Europe.369. Wheatsheaf. Paul. col. Vol. Berkley. Isabel. Michel Foucault beyond structuralism and hermeneutics. Catherine. “The superego and the theory of social systems”. Irene. PINTO.. e Barbara Reskin. WEINREICH. Educação. 1996.

Nova Iorque. Christine L. Doing «Woman’s work»: men in non-traditional occupations.1993.).13 WILLIAMS. (Ed. Sage. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .

poder. com as representações sociais e culturais e com a auto percepção que os membros da família têm do poder que exercem ou ao qual se submetem. Palavras-chave: Moçambique. de índices elevados de «pobreza» e desemprego formal. relações de aliança.pt Baseando-se numa investigação sobre estratégias de sobrevivência e reprodução social de famílias da periferia de Maputo. estratégias económicas.Há-de vir um senhor que é meu marido: relações de género na periferia de Maputo Ana Bénard da Costa Instituto de Investigação Científica e Tropical. Foi neste contexto de precariedade de infra-estruturas urbanas e de serviços sociais. Lisboa anabenard@netcabo. que as investigações decorreu centrando-se na análise de estratégias de sobrevivência e reprodução social de famílias maioritariamente originárias do Sul de Moçambique. este artigo articula a avaliação da efectiva capacidade de controlo de recursos que os homens e mulheres da família exercem. Introdução Esta comunicação 1 baseia-se em investigações que decorreram entre os anos de 1998 e 2002 junto de famílias dos bairros de Mafalala. género. Nesta análise discute-se se as transformações ocorridas nas relações de aliança e nas práticas desenvolvidas pelos membros das famílias para obtenção de rendimentos e/ou produtos terão contribuído (ou não) para uma modificação nos papeis de género e mais especificamente para um acréscimo do poder e autonomia das mulheres e para uma valorização do seu estatuto social. Polana Caniço A e Hulene B na periferia de Maputo 2 . Para a compreensão de todo este processo foi essencial o estudo das relações de género e poder que se processam no interior das famílias e nesta comunicação analisam-se os diferentes papéis desempenhados pelos homens e mulheres reflectindo-se sobre as 1 Uma versão desenvolvida desta comunicação foi publicada na revista Lusotopie (Costa 2005) ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .

significar alterações substantivas nas relações de género e de poder que implicam rupturas profundas com os modelos 2. há famílias poligâmicas. Estas práticas. 3. O lobolo não é um acto ou uma cerimónia circunscrita a um momento. Formalizar de algum modo uma união implica. kutilhuva designa uma situação em que o homem sai de sua casa e vai viver para casa de outra mulher . é um processo que. E quando os actores sociais se afirmam «casados» podem referir-se a uniões formalizadas simultaneamente no Registo Civil. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Uma informante referiu que existiam palavras diferentes em changana para designar os diferentes tipos de uniões conjugais. protestante ou de inspiração protestante) ou mesquitas Muçulmanas e através de lobolo 4 . em que cada uma das mulheres é casada de forma diferente com o marido e há «uniões de facto» que não envolveram qualquer formalização 5 . Uniões conjugais em transformação e questões de género Nestas famílias coexistem diferentes processos de formalização das uniões conjugais que não são exclusivos entre si. kulovoliva designa o casamento com lobolo . envolvem múltiplas dimensões (social. Mutchade significa casamento no registo civil . A diversidade de tipos de uniões matrimoniais é significativa. pelo menos ao nível das representações. não só entre o casal e entre as duas famílias que assim se unem. 5. Oppenheimer 2003). simbólica e económica) e diferentes tipos de recursos (humanos. entre outras coisas. há casais que só cumpriram parcialmente as diferentes cerimónias e prestações que o lobolo implica. nas igrejas Cristãs (Católica. Não formalizar uma união num contexto onde se cruzam diferentes sistemas matrimoniais pode ter múltiplos significados. Entende-se como estratégias económicas o conjunto de práticas articuladas através das quais os membros das famílias obtêm rendimentos e/ou produtos. outros referiram que se casaram «muçulmanamente». e himbuya significa amantes.2 implicações que as mudanças ocorridas nas relações de aliança e nas estratégias económicas das famílias 3 têm (ou não) na sua transformação. culturais e naturais) que são articulados de forma dinâmica e relacional pelos actores sociais no quadro das estratégias económicas que desenvolvem. mas também entre estas e o(s) modelo(s) social (is) de onde emanam os ritos ou as leis através dos quais esse casamento se realiza. que pode ser repartida por tempos diferentes. implica diferentes cerimónias e o pagamento de uma prestação matrimonial. kukandza ou avukate designam a mulher que não foi lobolada e não formalizou a união conjugal de nenhuma das formas possíveis e significam «estar no lar (mùntì » . 4. uma intenção de compromisso. A presente análise baseia-se em investigações realizadas na periferia de Maputo entre 1999 e 2002 (Costa 2007 . sociais.

Pretende-se que esta nova Lei da Família venha a ser um importante instrumento de mudança no conjunto de práticas sociais (consagradas na anterior Lei ainda do tempo colonial e imanentes dos diferentes sistemas de parentesco moçambicanos) que sustentam e promovem profundos desequilíbrios nas relações de género 6 . Entre outros aspectos inovadores que esta Lei consagra. sendo uma das mais importantes a legal.). sistemas de sucessão e herança e sistemas matrimoniais são interpretados de forma diversa. 10. As uniões poligâmicas não são reconhecidas (nem proibidas) e a lei estabelece que no caso de morte do marido a herança deste deve ser dividida em partes iguais pelas viúvas 7 . Decorre. Loforte e Pessoa 1991). Cf. desde 1991 (Casimiro. deveres e obrigações dos diferentes membros da família. Este facto explica. 9. Se estas uniões se quebram o homem pode ser obrigado a contribuir com uma pensão para a sua ex-mulher e filhos. e Pessoa 1991). o reconhecimento do casamento religioso e tradicional e das uniões de facto desde que estas últimas tenham mais de um ano de duração. o facto de este processo legislativo decorrer pelo menos desde 1991 (Casimiro. Desta forma. Depois de um longo debate o Parlamento aprovou em Dezembro de 2003 a nova Lei da Família. A pluralidade de formas possíveis de formalizar uma união conjugal e o facto de existirem uniões de facto em que casal se considera e é considerado socialmente casado. possibilitando arbitragens permanentes entre vários referentes 10. destaca-se o facto de o marido deixar de ser « automaticamente » o representante da família. Foram entrevistadas 81 famílias e inquiridas 1 000 e foi realizado trabalho de terreno mais aprofundado com seis famílias do bairro Polana Caniço A. dificulta a análise das diferentes situações. pelo menos. em que direitos.doc 7. nomeadamente no que se refere às uniões poligâmicas.html.net/mozambique/Outras_voces-3Maio % 202003.mujeresenred. embora em 24 % das famílias estudadas11 existissem relações 6.30 TMG). sendo esta promulgada pelo Presidente Joaquim Chissano vários meses depois (a 25 de Agosto de 2004). http://allafrica.3 matrimoniais prevalecentes e com os papéis que os respectivos cônjuges supostamente assumem dentro na união conjugal e várias implicações. entrevista radiodifundida pela Rádio Moçambique a 15 de Maio de 2002 às 10. A morosidade deste processo legislativo 8 e a polémica que à volta dele se desenvolveu 9 testemunha as contradições resultantes da coexistência de diferentes sistemas culturais que permitem uma dinâmica « normativa ». 8. A proposta de lei e particularmente a questão da poligamia « inflamaram » os ânimos de alguns sectores da « sociedade civil moçambicana » (cf. Loforte.com/stories/200312090271. http://www. em parte. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Cf. 11.

A família do marido leva todos os bens da senhora […] podem até levar os filhos […] e a mulher volta para casa dos pais […] e ela engravida outra vez. Porque a mulher.4 entre um homem e duas ou mais mulheres. aldeia vila. a mulher livre da actualidade. De forma a compreender as transformações ocorridas ao nível das relações de aliança e de género. Se o homem decidir sair definitivamente da sua casa. 3. quando morre o marido eles arrancam todas as coisas da mulher. como a libertação da mulher da 12. 2. vou viver com aquela família definitivamente porque me lobolaram[…]. Só que a diferença deve haver porque da mulher nasce bebé […]. cidade. […] faziam isso antigamente. transcrevem-se aqui as palavras de uma mulher. e assim sucessivamente […] e então chamamos de «mães solteiras». então passam de amantes a casal. lar. casa. Nestes excertos estão patentes as contradições entre uma «realidade» que ela descreve como composta de mães solteiras e mulheres abandonadas e as representações ideológicas que contrapõem à mulher submissa da sociedade tradicional. Mas qual é a verdadeira situação da mulher moçambicana em meio urbano ? A existência de um elevado número de mulheres «mães solteiras» tem sido apontada como espelhando tanto a crise social que se vive e a dissolução da família «tradicional» e dos laços familiares subjacentes a esta. tem outro filho. Depois a Frelimo. povoação. família. Esta distinção é subtil e o lobolo não é o factor que introduz a diferença. e a amante passa a ser a esposa do homem. pois muitas mulheres (em regime de monogamia ou poligamia) consideram-se casadas mesmo sem terem sido loboladas. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . […] A mulher tem todos os direitos iguais aos do homem. com a independência deu a liberdade à mulher. secretária da OMM (Organização da Mulher Moçambicana) no bairro de Hulene B : Minha mãe não quis casar com o cunhado e por isso mandaramna embora. sede» (1996 : 132). instalações. antes […] eu caso. não foi possível apurar se todas estas relações eram poligâmicas de tipo «tradicional» ou se eram casamentos monogâmicos onde havia uma «amante». No dicionário de Bento Sitoe pode ler-se o seguinte : «mùntì […] 1. A explicação dada para distinguir uma amante de uma segunda (ou terceira…) mulher «legítima» foi a seguinte : é-se amante quando se «namora fora do mùntì 12 » e quando a esposa «legítima» desconhece a situação.

Mas «a vida está cara». no entanto. podendo esta ser abandonada com mais facilidade do que aconteceria se fosse lobolada. Não parece. a crise social e económica e as contradições internas das estratégias de reprodução social. porque o que importa aferir não é o valor monetário dos bens transaccionados. o noivo (e a família deste) não o pode pagar e que arrisca. que o dinheiro que assim vão receber pode contribuir para fazer face a outras despesas 13. em meio urbano. porque no passado envolvia bens de prestígio com valor simbólico (vacas) mas aos quais não era estranho o valor material.5 tutela da família «tradicional» e das regras rígidas que a reduziam a um «ser menor». não passam necessariamente pelo casamento e pelo pagamento de prestações matrimoniais. Finalmente. Coexistem. Segundo. e muitos disseram que o valor monetário do lobolo era calculado em função das despesas que haviam tido com a educação da filha. Aparentemente esse aumento não é do interesse de nenhuma das partes : os rapazes querem cumprir a obrigação e não têm meios suficientes. mas sobretudo com a criação. Por outro lado. Esta prestação matrimonial era. se exigir muito dinheiro. obrigando à criação e ao desenvolvimento de novas cadeias de solidariedade. por isso. manutenção e desenvolvimento de redes de solidariedade entre diferentes grupos familiares. que o papel desempenhado pelo lobolo se relacione apenas com o estabelecimento de direitos e deveres de mulheres e maridos. a que este e a sua filha vivam maritalmente. a família destas sabe que. também. valores simbólicos e monetários. Primeiro. o processo de deslocamento em que estas populações estiveram envolvidas nos últimos anos e que tornaram por vezes obsoletas as velhas alianças. Estas solidariedades. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Actualmente. O lobolo (ilustrando o pluralismo moral do contexto) é visto como um acto abominável através do qual mulheres são compradas e vendidas e simultaneamente como algo positivo que sanciona e dá estabilidade a uniões. porque se trata de uma prestação matrimonial que envolve um sistema de trocas complexo onde a «lógica da dádiva» se articula com a «lógica de mercado». entre outras coisas. na sociedade tsonga. Consideram. por conseguinte. simultaneamente. o aumento (relativo) 13 do custo desta prestação matrimonial reflecte. É difícil fazer uma análise « objectiva » da evolução do «custo» do lobolo. muitos dos bens transaccionados (roupa. mas sim as possibilidades (facilidades) que os rapazes e as famílias têm de os adquirir – e estas talvez fossem maiores no passado. Se actualmente se verificam transformações estas reflectem. as raparigas sentem que se «juntarem» sem lobolo não estão casadas . anel e dinheiro) ainda conservam essa conotação. estruturante das estratégias matrimoniais que visavam antes de mais estabelecer uma cadeia de relações entre diferentes linhagens (Feliciano 1989a).

Concluindo. Por outras palavras. No entanto. o rapaz e a família deste façam os sacrifícios necessários para as poder cumprir. à semelhança das próprias uniões conjugais (o divórcio e a separação não são propriamente novidades). mesmo quando as situações indefinidas criadas ao nível das relações de aliança permitem à mulher uma maior liberdade e autonomia face às suas obrigações tradicionais. escrevem a carta onde as exigências ficam expressas e esperam que. matrimoniais) que tenderiam a perpetuar essas unidades sociais.6 essenciais (por exemplo. A cerimónia de casamento é. Essa liberdade e autonomia. e como referem : «há-de cumprir-se». existe sempre a possibilidade de «circulação» entre redes de solidariedade e por isso é possível aos indivíduos e às famílias estabelecerem novas alianças com outras unidades sociais (novas uniões ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . num contexto onde a sobrevivência e a reprodução social dependem em grande medida do estabelecimento de redes familiares de entreajuda. Por isso. os indivíduos para sobreviverem e se reproduzirem necessitam de estar inseridos em redes sociais de solidariedade. as transformações que se verificam em todo o processo cerimonial do lobolo não reflectem necessariamente mudanças qualitativas nas relações de género. correndo o risco. algo em permanente construção que se pode ir realizando ou protelando no tempo. Nesse hipotético futuro se projectam actos e cerimónias como se de processos se tratasse. No entanto não é necessário que todos estes requisitos se cumpram para o casal se sentir «casado» e para a família de ambos os aceitar como tal. ajudar um filho a pagar o lobolo que outra família exige). Essas práticas podem gerar a quebra de alguns dos compromissos sociais em que se baseiam as referidas redes (neste caso. eventualmente. não sobrevivem se não desenvolverem práticas «egoístas» que lhes permitam satisfazer as suas necessidades materiais. são muitas vezes auto-percepcionadas como negativas e podem traduzirse num maior isolamento social das mulheres e consequentemente num decréscimo do seu poder e estatuto. as famílias) e por conseguinte quebram-se as alianças (neste caso. Essas transformações reflectem a dinâmica das estratégias de sobrevivência e reprodução social que articulam de forma ambígua valores contraditórios. apesar de ambas as partes não considerarem que a formalização do acto de matrimonial se tenha cumprido na íntegra. simultaneamente. sendo a família uma das mais importantes . Porém.

a fragilidade dos laços matrimoniais não significou a desestruturação da família. as mulheres e os seus maridos não consideram as actividades que estas desenvolvem como «trabalho». venda de lenha. venda de produtos hortícolas e frutícolas. as famílias desenvolvem uma estratégia pela qual tentam conciliar a instabilidade das relações de aliança com as necessidades de coesão interna. Uma das soluções possíveis passa pela aceitação e criação de condições que transformem as cerimónias matrimoniais em processos em permanente construção que podem a qualquer altura ser interrompidos. foi possível concluir que em muitas famílias o número de mulheres que trabalham é igual ou superior ao número de homens que ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . executando aí um leque muito variado de actividades – confecção e venda de carvão. a flexibilidade desta unidade social permitiu o desenvolvimento de estratégias de reprodução social adaptadas a um contexto social e económico que exige uma grande versatilidade de práticas e a articulação permanente de valores opostos. O trabalho feminino nas estratégias económicas das famílias Em praticamente todas as famílias. Para subsistir e fazer face às suas responsabilidades tradicionais de provedoras do sustento da família.7 matrimoniais) e desenvolverem processos dinâmicos e versáteis de reprodução social. Não obstante este facto e a dificuldade de apurar a importância da contribuição financeira das mulheres para os orçamentos familiares – a maioria das actividades não tem um rendimento constante e não é realizada de forma continuada –. continuidade e reprodução social. Pelo contrário. só vendo» ou «aquilo que ela faz é para entreter». e referem : «eu não faço nada. desta articulação que é sentida por todos os homens independentemente da sociedade a que pertencem (Casal 2001: 123). Concluindo. estas mulheres tiveram de inserir-se nos circuitos do chamado mercado informal. Desta forma. contudo. confecção e venda de alimentos ou revenda de produtos importados. em alguns casos. as mulheres exercem actividades geradoras de rendimentos ou produtos e as vendas são uma das tarefas principais em que se ocupam. Importa notar que. Advém sim da forma particularmente dinâmica de que se revestem as articulações entre valores opostos. A especificidade deste contexto social não lhe advém.

as actividades que desenvolve e a importância relativa dos rendimentos daí resultantes no orçamento familiar. Se o exercício de actividades geradoras de rendimentos monetários cria possibilidades para o aumento de autonomia e liberdade das mulheres. com outros elementos masculinos da família. para outras tal não acontece. segundas mulheres. que têm chamado a atenção para o facto de muitas mulheres que desenvolvem actividades geradoras de recursos financeiros terem. a posição que a mulher ocupa dentro desta estrutura. em meio urbano africano. têm a possibilidade de aceder a certas posições de poder e de conquistar uma certa visibilidade a nível do bairro que pode influenciar positivamente o seu estatuto na família e fora da família. não as realizam. sendo necessário relacionar inúmeras variáveis para compreender a posição das mulheres em termos de autonomia. as mulheres. Segundo alguns autores (Tripp 1989 . as crianças e os jovens (incluindo rapazes). embora continuem a gerir as actividades domésticas. ele não tem nada a ver com isso». Loforte 1996). as mulheres afirmaram que eram elas que efectivamente sustentavam a família e que a contribuição financeira do marido para as despesas domésticas não era suficiente : «atirou toda a responsabilidade. face às mulheres que não as desenvolvem. O que esta investigação constatou foi que existiam situações muito diversas. a relação afectiva e emocional com o cônjuge ou. pelo facto de obterem rendimentos monetários em actividades que exercem «fora de casa». na ausência deste. ou que ele tinha arranjado outra mulher e quando vinha dava uma quantia insignificante. são as outras mulheres da família de estatuto inferior (noras. Rocha e Grinspun 2001). irmãs mais novas. Esta ideia tem sido contrariada por outros autores (Caplan 1995 e Campbell 1995. Quem vai buscar água e comprar lenha. Destacam-se algumas: a estrutura familiar (tipo de família. número de membros da família e distribuição por sexo). poder e estatuto. esta pode gerar ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Estas últimas.8 trabalham. um acréscimo de trabalho e de responsabilidades. as actividades geradoras de rendimentos representam um acréscimo de trabalho. Se para muitas mulheres. quem vai às compras ou cozinha. os recursos materiais disponíveis e a capacidade da mulher para os mobilizar e rentabilizar em seu benefício. quem varre o chão e lava a roupa. Em alguns casos. a situação do homem em termos de trabalho/rendimentos.

[…] Mas gostava mais de ter uma família. marido e filhos. não tenho quase despesas. sou só eu e o meu irmãozinho de dez anos que vive comigo […]. ele é de três. comprei o talhão sozinha e foi o meu irmão que fez a casa […]. Como exemplo destas situações apresenta-se aqui o testemunho de duas amigas da mesma idade que vivem situações muito diferentes. que por vezes atingem níveis dramáticos. Cristina é professora na escola comunitária do bairro Polana Caniço A. é ela que dá ao marido» – ou rompimentos com redes familiares e de parentesco. A autonomia da mulher pode ainda traduzir-se numa capacidade limitada para mobilizar recursos (humanos e materiais) e num aumento consequente de responsabilidades face a si e aos seus filhos e num maior isolamento social. por isso às vezes a mulher faz sem dizer nada ao marido. do que esta situação de independente. apenas produz para o consumo da família. nem registo nem nada. solteira e com uma situação económica que lhe permite possuir casa própria e usufruir de uma certa independência não se considera mais «valorizada» socialmente (embora seja certamente mais independente e tenha mais poder e autonomia sobre a sua vida) do que outra mulher inserida numa família poligâmica e sem rendimentos próprios. Sou casada mas ainda não fui lobolada. Os homens não tiram o dinheiro. Uma mulher sem filhos. estou à espera que ele venha para saber se fica comigo ou não. Eva (30 anos) : Não me considero uma mulher com sorte porque não tive o marido só para mim. Prefiro assim.9 conflitos quando é concretizada – «há muita zanga entre os homens e as mulheres por causa do que hão-de fazer ao dinheiro. mas vive sozinha. O potencial de conflitos. sozinha. Uma (Eva) é a terceira esposa de um casamento poligâmico e outra (Cristina) afirma-se casada. A primeira trabalha na machamba da família e não obtém quaisquer rendimentos monetários com essa actividade. e a ausência de alternativas – uma mulher sem família é socialmente marginalizada – podem transformar a autonomia em sofrimento e a liberdade num pesadelo. Estas mulheres referem-se nos seguintes termos às suas situações : Cristina (29 anos) : Eu há dois anos que vivo numa casa que é só minha em Magoanine. tem um ordenado e casa própria. mas também não posso dizer que sou muito azarada em ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . O estatuto do casamento e da maternidade constitui um factor de grande peso cultural e social. ele está na África do Sul e nunca mais veio.

romper com fidelidades antigas que as subalternizavam. mas desde que o senhor Josué [marido] cuide de mim. mas estas mudanças ocorrem em múltiplos sentidos.10 relação à minha amiga. mas o facto de as mulheres terem a responsabilidade de prover ao sustento alimentar básico da sua família não constitui uma mudança. No entanto. a afirmação de interesses individuais e a capacidade (e coragem) de certas mulheres tornam possível. neste estudo de caso. por exemplo no ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . estas «conquistas» só adquirem «valor» quando têm significado e reconhecimento social dentro do contexto em que se efectivam. que existem efectivamente mudanças no papel que a mulher desempenha dentro da família. esta mudança não significou. em certos casos. o exercício de profissões. Conclusão A análise demonstrou que as mulheres constituem um elemento essencial nas estratégias económicas. A diferença reside nos rendimentos monetários que agora adquirem através do seu trabalho. estou num lar que já tinha lá duas mulheres. trate de mim. efectivamente. para mim basta. por si só. traduzir-se num aumento relativo do espaço de poder feminino face ao masculino. E tal pode. Através deste exemplo é possível concluir. Da mesma forma o acesso aos rendimentos monetários não se traduziu numa maior visibilidade ou intervenção a nível do bairro. A formação escolar. uma transformação valorativa no estatuto das mulheres. pois esta era tradicionalmente a sua obrigação. para além de estar profundamente marcado por relações de género que subalternizam o papel social da mulher face ao do homem. interesses «modernos » e representações ideais de modernidade. Esse contexto. é necessária prudência quando se tenta extrair conclusões sobre eventuais modificações nas relações de género e é difícil percepcionar as direcções para as quais tendem as transformações observadas. porque esta aí ainda anda a tentar ver se consegue um lar […] agradeço a Deus o que me deu. os ganhos monetários provenientes de diversas actividades. é pleno de contradições e articula de forma complexa valores «tradicionais». A participação das mulheres em ONG. associações de bairro (excluindo aqui a Organização da Mulher Moçambicana) e grupos de entreajuda. Neste complexo jogo e face às alternativas existentes. No entanto.

a hierarquia destas igrejas (incluindo o pastor. que as mulheres não podem ser membros desta Igreja sem autorização do seu parceiro.11 «xitike». a análise das questões de género constitui essencialmente uma análise relacional e o que está em jogo são fundamentalmente relações sociais entre os membros masculinos e femininos da família. embora a maioria dos crentes das igrejas ziones sejam mulheres. por um lado. Pelo contrário. Simultaneamente. O que se verificou foi que questões relacionadas com «autonomia». as relações de poder devem ser compreendidas em termos de avaliação da capacidade de controlo de recursos materiais e humanos por parte dos homens e mulheres da família. é reduzida. As informações empíricas disponíveis não permitem chegar a conclusões acerca de modificações nos papéis de género. ao nível das representações sociais e culturais no contexto em questão (como a sociedade em causa molda os papéis e os comportamentos de ambos os sexos) e em termos da auto-percepção que os membros da família têm do poder que exercem ou ao qual se submetem. bem como significados que essas questões e conceitos têm no contexto cultural e social em observação. Neste último caso. e as práticas concretas dos actores. Sendo assim. 14 Seibert (2001: 5 e 15) acrescenta em relação às igrejas Zione. não faz sentido falar de poder ou de autonomia sem os contextualizarmos dentro desta dinâmica relacional (Medick e Sabean 1988 : 18). a essência multidimensional das relações familiares implica que nessas mesmas relações sejam expressos diversos tipos e níveis de poder que não só podem não ser coincidentes como são dinâmicos e se alteram permanentemente sob a influência de inúmeros factores (Medick e Sabean. há ainda que ter em conta não só os múltiplos referentes em presença como as diferenças entre valores culturais e representações sociais. 1988 : 18). Estas mudam frequentemente de culto quando se casam e passam a seguir a religião do marido 14 . Neste sentido. os secretários e diáconos) é constituída exclusivamente por homens. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . por outro. Refere ainda que. o evangelista. A compreensão destas questões pressupõe uma análise integrada onde intervêm diferentes significados e interpretações : o significado que o investigador dá a esses conceitos e que influencia as interpretações que faz da realidade social que analisa. «independência». Da mesma forma. «controlo» e «relações de poder» são extremamente complexas e têm de ser contextualizadas. Mas mesmo a vida religiosa da mulher está por vezes dependente da vontade do marido. as mulheres participam frequentemente em grupos religiosos (igrejas).

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Portugal situava-se regularmente no topo dos países da União Europeia com os maiores índices de encarceramento por 100 000 habitantes 2 . em torno dessa velha e recorrente personagem designada por nova delinquente. IDEMEC micunha@ics. permitirá dar conta das propriedades específicas que a intervenção das mulheres no tráfico assume em contextos portugueses. tráfico a retalho. pt Partindo da actual centralidade dos crimes de droga na condenação penal de mulheres e da assinalável reorganização das fileiras prisionais que ela veio indirectamente produzir. Ministério da Justiça. o Estabelecimento Prisional de Tires. Palavras-chave: ideologias de género. 6099) o apoio prestado à investigação da que resulta este texto. Reafirmando assim a importância de contextualizações precisas. pelas 1 Agradeço à Wenner-Gren Foundation for Anthropological Research (Gr. como e quando são os narcomercados estratificados por este e outros critérios e quais as modalidades da participação feminina na economia da droga. 2 Entre 128 e 145 por 100. esta especificidade pode também contribuir para reapreciar a uma outra luz a controvérsia criminológica.Os géneros do tráfico 1 Manuela Ivone P. estrutura dos narcomercados Em finais de século. CEAS. Não cabe dizer aqui como e porquê a economia retalhista da droga veio induzir uma reorganização sem precedentes nas fileiras prisionais. bem como às ideologias de género que diversamente os caracterizam. procurar-se-á examinar como se modula o tráfico segundo o género. Uma perspectiva comparativa atenta às variações na estrutura destes mercados ilegais.000 habitantes (Estatísticas da Justiça. Pretendo focar aqui alguns aspectos da conexão entre eles tal como aparece refractada na maior prisão feminina do país. da Cunha Universidade do Minho. onde fiz trabalho de campo nos anos 80 e nos anos 90 (1986-87/1997. cujo aspecto mais fundamental. Cunha 2002). Estes factos não são alheios entre si. A esta posição destacada nos níveis gerais de reclusão acrescentava dois records no contexto europeu: a maior proporção de condenações por crimes de droga e a maior taxa de reclusão feminina (cerca de 10%). 1994.uminho. recentementemente exumada. 1987-2000). ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . economia da droga. Cunha. cf. criminalidade feminina.

em núcleos mais ou menos vastos de presos que já tinham laços entre si antes da reclusão. É ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . antes de mais. tal prende-se. amarrada a esse critério. por exemplo. alheia ao género.as mulheres são pois muito mais condenadas a penas de prisão por crimes de tráfico do que os homens. 46% dos reclusos estavam condenados por crimes contra o património e 34% por crimes de droga. incapazes de alimentar de forma recíproca a produção global de conhecimento sobre a reclusão (um olhar rápido aos títulos das respectivas publicações é bastante ilustrativo: o género apenas é especificado quando a investigação em questão versa sobre uma prisão feminina). E dado que os fenómenos que a configuram emergem também noutros contextos carcerais. respectivamente. é o facto de agora a maior parte dessas fileiras se articular em redes de parentesco e vizinhança. Acontece que essa mutação é especialmente vincada na população prisional feminina. Na cadeia de Tires. 76% das reclusas estavam presas por tráfico. repartem-se por eles de maneira mais equilibrada. mas de maneira mais diluída. Se a mutação que referi ganha uma particular proeminência no contexto carceral feminino. no que respeita às reclusas). Esta centralidade dos crimes de droga nas condenações de mulheres é também aquilo que melhor permite esclarecer a subida dos índices de encarceramento feminino. enquanto a investigação sobre a feminina se desenrolava ao invés na base mesma do critério do género. Quer dizer. que apesar de na sua maioria também se distribuírem por um leque pouco variado de crimes. O problema era que permanecia confinada a ele. com a extraordinária homogeneidade que a sociografia dos contingentes de reclusas agora apresenta.não portanto em termos absolutos . os contributos teóricos que ia gerando não eram exportados para lá do âmbito das prisões femininas.implicações analíticas que tem para os estudos prisionais. Em termos proporcionais . pode bem ser que por uma vez o estudo das instituições femininas contribua para estabelecer os termos do debate teórico sobre a prisão. No caso converso das mulheres. Em todo o caso. a concentração é comparativamente muito superior (em 1997. quer dizer. invertendo-se assim as assimetrias do passado: a reclusão masculina sempre enquadrou este debate de maneira universalista. contra 16% e 69%. o seu perfil penal é bastante mais homogéneo que o das populações de reclusos.

Chapman. Quer isto dizer que a subida nestes índices de encarceramento não parece de facto dever-se a uma eventual mudança na atitude dos tribunais para com o género feminino . É claro que não é de excluir a possível intervenção de várias filtragens deste e outros tipos ao longo do percurso que termina na constituição das populações prisionais. Wilson. Simon. por exemplo. 1993.. Adler. no que respeita à criminalidade em geral. poderiam investir. mesmo as mais idosas.que estes são os crimes com maiores taxas de condenação e contam-se entre os crimes mais duramente sentenciados. Mas o tráfico parece na verdade ter atraído muitas mulheres e ter-se-lhes apresentado como uma estrutura de oportunidades onde elas. como ficou conhecida. Simplesmente. do mesmo modo que conquistaram as mais variadas arenas lícitas? Por outras palavras. sob pena de se tomar a nuvem por Juno. por exemplo. ainda que agora num âmbito mais restrito. Mas a forte presença feminina recentemente constatada um pouco por toda a parte na economia da droga conduziu inevitavelmente à tentativa de reciclar a ideia.de "cavalheiresca". suponhamos. 1975. foi precisamente a propósito do tráfico que se assistiu à ressurreição de uma velha tese dos anos 70 segundo a qual um dos efeitos colaterais do feminismo teria sido o de libertar as mulheres também para o crime (cf.. de facto. limitado a este tipo de mercado ilegal. A questão então é a seguinte: dever-se-á às próprias características do tráfico o facto de ele se ter tornado a actividade ilegal de eleição entre as mulheres? Ou será antes que as mulheres conquistaram para si uma arena ilícita que até aí lhes estaria vedada.. A tese da "nova delinquente". E é também a partir daqui ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . por exemplo. Que a proliferação vertiginosa dos mercados de droga expandiu as oportunidades ilegais é um facto consensual. 1979. Carlen. E assim permaneceu. para especialmente intransigente (para retomar aqui os termos de uma velha controvérsia da criminologia em torno do eterno diferencial entre os índices carcerais femininos e masculinos) 3 . tratar-se-á de uma repercussão ou até da reprodução no mundo do crime do mesmo movimento emancipatório que reivindica a igualdade de oportunidades? Ora. Chesney-Lind. Bourgois y Dunlap. 1975). 1988). Smart. assim como o é o da maior presença de mulheres neles (cf. 1986. 1980. 1993). foi no entanto rebatida em tantas frentes que parecia definitivamente enterrada (cf. há que examinar a natureza desta presença.

onde a maioria das oportunidades se abriu às mulheres apenas nos segmentos mais baixos. como sucede com mercados retalhistas norte-americanos. por exemplo. presença não quer dizer participação paritária. Pode até dizer-se que se trata mais propriamente de pequenos nichos que elas criaram nos interstícios desta economia. a nova cornucópia não estaria ao alcance das mulheres. assumem funções marginais como publicitação de drogas. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . A forte estratificação destes mercados segundo o género levou a que alguns autores vissem mais continuidade do que propriamente mudança na participação feminina no tráfico (Maher e Daly. 1997). Mas este "sexismo do sub-mundo" (Steffensmeier e Terry. Na limitada medida em que nele podem participar (nomeadamente enquanto exército de reserva usado quando a mão-de-obra masculina escasseia ou na iminência do risco de uma intervenção policial). O que acontece é que elas se tornaram mais eficazes nos anos 90. pelo que é imprescindível uma perspectiva comparativa. ou a capacidade de intimidação necessária para vingar num meio violento. assistência na administração de drogas a terceiros. a mudança seria afinal pura aparência. de resto gerando nela novos papéis. a necessária ferocidade física e mental. 1996). por exemplo.que as coisas divergem segundo os contextos. etc. Não se pode no entanto dizer que estas barreiras ideológicas à participação feminina no tráfico sejam inéditas nos mercados retalhistas americanos. (1993) ou Heidensohn (1997). Ou seja. Steffensmeier et al. Johnson e Maher. 1986) . A hierarquização sexual do trabalho ilegal deve-se nesses contextos à conjugação de vários factores. Em primeiro lugar ao facto de se regerem por uma visão domesticizada das mulheres que as confina ideologicamente aos tradicionais papéis de género. que nem sequer se encontravam inventariados nas anteriores tipologias dos actores deste mercado (veja-se Dunlap. 1997).que na verdade se mostra muito pouco sensível a veleidades emancipatórias encontra além disso um terreno especialmente propício na violência endémica que aí marca a economia retalhista da droga. A masculinidade hegemónica é com efeito reforçada pelo facto de os empregadores desta economia definirem os requisitos de empregabilidade no narco-comércio como algo de intrinsecamente masculino: às mulheres faltaria. precários e arriscados deste mercado (Maher. E as condições dessa eficácia foram proporcionadas 3 Veja-se. aluguer ou venda de parafernália acessória ao consumo. Em primeiro lugar.

1999) do ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . quanto muito. Com uma relativa facilidade. com muito pouca interdependência hierárquica e com uma fraca divisão funcional do trabalho. Ora. fossem na prática mais permeáveis. Tais mercados passaram por essa altura a assumir um perfil empresarial que se viria a traduzir em organizações hierarquizadas. muitas mulheres puderam lançar-se autonomamente no tráfico como free-lancers. Jacobs e Miller. mesmo que mercados deste tipo se pautassem igualmente pela dominação masculina e por um ethos agressivo que à partida os tornava arenas desfavoráveis às mulheres. havia apesar de tudo maior latitude para as incursões das mulheres no tráfico. além de esta estrutura de mercado que domina em Portugal representar uma estrutura de oportunidades bastante mais aberta (veja-se neste sentido Chaves. 1992) ou. mas enquanto parentes. uma forma tradicional de empréstimo informal e de entreajuda. Trata-se. a sua própria estrutura free-lance fazia com que as barreiras à participação feminina fossem mais frágeis e ineficientes. como "crime em associação". centralizada e envolvendo equipas de assalariados cuja margem de autonomia é praticamente nula. com uma estrutura relativamente rígida. assim como uma maior autonomia nas decisões que tomavam acerca de onde. Ora. Outras vezes as mulheres limitaram-se a assessorar episodicamente parceiros masculinos numa ou noutra transacção. por exemplo. Morgan e Joe. Era bastante mais fluido. Pode-se definir o seu perfil como marcadamente free-lance (veja-se a tipologia de Johnson. 1995). do chamado "crime em organização" (Ruggiero e South.. com frequência obtendo drogas em regime de empréstimo ou à consignação através de redes de vizinhança e preparando elas próprias o produto para revenda. desconcentrado. em suma. se quisermos. quando e como vender (cf. Aliás este modo de abastecimento segue muitas vezes os circuitos do fiado. Sucede que é precisamente esta estrutura de mercado que prevalece actualmente no tráfico retalhista português. Hamid e Sanabria. tendo-se até registado uma evolução de sentido contrário à que acabei de referir para contextos europeus e americanos: isto é. Portanto. passou-se de um modelo empresarial para um modelo free-lance. Até essa década o modelo que prevalecia era outro. amigas e vizinhas e não como assalariadas de uma organização que estes chefiariam. que de resto se verificou não só nos EUA mas também em contextos europeus.por uma mutação na estrutura dos narco-mercados retalhistas. 1997). 1998.

Não. digamos. 1991 e Pina Cabral. na forma de resposta às questões formuladas de início. sendo esta debilidade especialmente acentuada nas chamadas classes populares. Aí. 2000). ou. nem este é necessariamente considerado um desvio ao guião cultural feminino ou uma decorrência de um fracasso masculino. já que as suas características não são essencializáveis ou dadas fora dos contextos sociais e históricos em que se desenvolve. não sendo de facto exigido aos candidatos a traficantes especiais requisitos de virilidade. mas como condição e estratégia de sobrevivência (veja-se neste sentido Cole. E é precisamente porque são tributárias desses mesmos contextos que tais características são variáveis. Começando pela tese da "nova delinquente". porque ou essa participação permanece afinal acantonada nas margens da margem. por assim dizer. Dito de outro modo. Recapitulo. quando comparado com outras actividades ilegais? Sim e não. quer dizer nos patamares mais baixos do patamar retalhista. É que os obstáculos ideológicos à participação feminina no mundo do trabalho remunerado e no orçamento familiar são obstáculos de maneira geral débeis em Portugal. mas apenas ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . é uma ideia desajustada. O narco-trabalho é aqui menos sexuado. ou "contra-hegemónica". acontece também que o tráfico a retalho é aqui bastante menos violento do que noutras geografias. traçar-lhe um perfil absoluto. Mas não é só por isso que é menos operante a filtragem dos candidatos segundo o género. quando não está. Quanto à segunda questão: serão características inerentes ao tráfico que o tornam um tipo de crime particularmente acessível e atractivo para as mulheres.uma tese reactivada a propósito da participação feminina no tráfico e que tem alguma popularidade nos meios judiciais -. Primeiro. não é para este efeito pertinente falar em tráfico. porque não é possível caracterizar em abstracto o tráfico. que seria uma espécie de sub-produto feminista espúrio . as definições culturais dos papéis de género também remetem para as mulheres as responsabilidades familiares e domésticas. isso em nada se deve a uma mudança ideológica nas definições culturais dos papéis de género. questões estas que corresponderam propositamente a modos correntes de colocar o problema. As mulheres de baixos estratos sociais sempre investiram na esfera do trabalho. não lhes vedam o papel extra-doméstico de provedora de recursos.que a empresarial. Contudo. pois. não enquanto opção "emancipatória". como é o caso em Portugal.

Traffickers. Freda. como porventura nenhuma outra o foi antes. Crime and Poverty. Meda. Referências Bibliográficas ADLER. 25-55. Nicholas. Lisboa. Nigel South. DORN. Pat. Nova Iorque. COLE. 1986. Entre o Bairro e a Prisão: Tráfico e Trajectos. Cadernos do Centro de Estudos Judiciários. Reformulada a questão nestes termos. "Female Crack Sellers in New York City: Who They Are and What They Do". Nova Iorque. da. Crack Pipe as Pimp: An Ethnographic Investigation of Sex-For-Crack Exchanges. Women of the Praia. CUNHA. Murji Karim.). 2002. nenhuma outra houvera mudado tão extensamente a paisagem carcerária. Casal Ventoso: Da Gandaia ao Narcotráfico. 1994. pode dizer-se que o tráfico em Portugal . Lisboa. em M. RATNER (ed. então sim. Imprensa de Ciências Sociais. Manuela P. 1999. 1991. DUNLAP. Signs. Manuela P. NY. 1992. Lisa Maher. Economic Realities and the Female Offender. Sisters in Crime. Bruce Johnson.e evidentemente não faz qualquer sentido pressupor uma espécie de modelo-padrão em relação ao qual cada uma delas seria considerada mais ou menos conforme. Drug Markets and Law Enforcement. McGraw Hill. Routledge. Malhas que a Reclusão Tece. 1975.mas não. Lisboa. da. Sally. 12 (1). Eloise. Open University Press. New Jersey. Miguel. Fim de Século. Lexington Books.em versões do tráfico . Princeton. Work and Lives in a Portuguese Coastal Community. Em todo o caso. Milton Keynes. Questões de Identidade numa Prisão Feminina. 8 (4). CUNHA. 1988. Women & Criminal Justice. Lexington Books. BOURGOIS. NY. CHAVES. Women. CHESNEY-LIND. Jane 1980. Lexington. Londres. por exemplo. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . "Women and Crime: The Female Offender". CHAPMAN. 7896. Philippe. 1993. 97-132. noutros contextos europeus e norte-americanos configura uma estrutura de oportunidades ilegais bastante inclusiva das mulheres. CARLEN. Princeton University Press. e Eloise Dunlap. 1997. “Exorcising Sex for Crack: An Ethnographic Perspective from Harlem”.

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os homens. os autodenominados Sanumá com quem tenho convivido desde 1969. Pode-se. porém. Em linguagem antropológica. à la Austin. A outra metade. especificamente. ou seja. como produto de evolução materialista na visão de Robert Murphy sobre os Mundurucu). os Sanumá diferem bastante dos outros subgrupos não apenas pela língua (uma de quatro). a patrilinearidade pode evaporar-se nas vicissitudes do tempo. Poderíamos supor que parte das diferenças resultam dos próprios etnógrafos. Por exemplo. parecem existir apenas para dar aos seus homens a oportunidade de exibir machismo superlativo a platéias ocidentais em busca do exótico. não existem. convertendo relações de gênero e parentesco em ícones da dialética entre permanência e efemeridade. espaço e tempo sanumá surgem como categorias básicas do entendimento. Por Yanomami entende-se comumente uma de suas metades. desvela-se que a aparente fragilidade da condição supostamente de imanência feminina tem como contrapartida a real fragilidade da aparente transcendência masculina.Tempo está para homens assim como espaço está para mulheres: por uma teoria do conhecimento sanumá Alcida Rita Ramos Universidade de Brasília (UnB) Sistemas desarmônicos em que descendência e residência seguem linhas opostas são hoje comuns na etnografia indígena da Amazônia. os homens circulam em busca de esposas. é possível “fazer coisas sociais com outras coisas sociais”. Assim. Mas esses Yanomami. mas por certos aspectos da vida social. O fenômeno da patrilinearidade combinada a uxolilocalidade ou vice-versa tem sido analisado de várias formas (por exemplo. do subgrupo mais setentrional da família lingüística yanomami. Como já tive oportunidade de demonstrar (Ramos 1995). ressaltando-se como. as mulheres. quão violentos seriam os Yanomamö descritos pelo estadunidense Napoleon Chagnon ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Na família lingüística Yanomami os Sanumá são os únicos que exibem um inquestionável sistema desarmônico: as mulheres ficam em casa. interpretá-lo no contexto de outros componentes culturais. pois enquanto a residência uxorilocal permanece onde quer que seja. uniformes e unitários. aos olhos ocidentais. Trato aqui.

como diz Louis Dumont (1953). uma afinidade herdada e não apenas adquirida com o casamento. Como elas estão diretamente ligadas à organização social. o que significa que a responsabilidade pela reprodução do grupo é mais deles do que de marido e mulher. é preciso descrever. Em outras palavras. Em grande medida. A complementaridade entre homens e mulheres aparece em vários planos. essa dupla é uma cápsula da socialidade sanumá. mas com algumas consequências epistemológicas. ao contrário de outros subgrupos yanomami (Ramos e Albert 1977). as diferenças de gênero no contexto etnográfico yanomami têm um interesse que vai muito além do tira-teimas entre etnógrafos ou de filigranas empíricas sobre o quão violenta deve ser a violência para caracterizar um povo inteiro como violento. muito brevemente. vamos à relação entre irmão e irmã. ao serem também afins dos filhos uns dos outros. são considerados afins. É. portanto. estão numa posição perfeitamente ambígua. embora atados numa relação permanente de sangue. Os Sanumá. segundo o qual filhos de irmãos de sexos opostos (os ditos primos cruzados) podem casar-se entre si e. Como consangüíneos que produzem afins. Para mim. no mundo das idéias. entre nós e os outros. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . eles simbolizam a paradoxal co-existência entre intimidade e recato. A díade irmãoirmã tem. Tomo aqui a questão de gênero como uma excelente oportunidade para observar a capacidade dos Sanumá para expor categorias-chave do seu entendimento e que nos dizem muito mais do que a simples diferença entre os sexos. Refiro-me especificamente às noções de tempo e espaço. com princípios axiológicos subentendidos. Primeiro. certos elementos da vida social. o encargo de fornecer cônjuges para a geração seguinte. à moda de um Austin ampliado. É como se os Sanumá dissessem e fizessem coisas. não com palavras ou gestos. mas. exibem a conjunção de dois elementos: um sistema desarmônico entre descendência patrilinear e residência matrilocal. e o padrão de parentesco chamado dravidiano. mesmo que não se casem. Encarnam tanto os efeitos da dispersão como da permanência e marcam a manutenção da identidade no tempo e de vínculos no espaço. irmão e irmã.2 (1968) se fossem descritos por mim? Ou quão subjugadas seriam as mulheres sanumá se fossem descritas por Chagnon? Questões meramente acadêmicas? Pode ser. inclusive no cognitivo.

mas a flecha ficou presa nos galhos das árvores. criarem uma narrativa sobre ele. assim!. “Sobe lá e sacode a flecha”. respondeu ele. inserindo-o. pronta para o ataque. Um dia Koshiloli foi caçar muito longe.3 Não é por acaso que as mães procuram os serviços de um xamã quando só têm prole do mesmo sexo. Entrou e jogou-o no chão. Voltando a casa. “Meu marido matou meu irmão”. “Está certo. disseram os parentes. ela cozinhou o fígado e deu-o para o filho comer. Assim que preparou a caça. disse ela. Koshiloli esperava ao pé da árvore. este último matou um papagaio. enquanto a sua gente se aproximava. disse ela. portanto. disse ela ao marido. Abriu-lhe a barriga e retirou as vísceras – wi! wi! wi! wi! “Não havia rastro?” ela perguntou a Koshiloli. Os outros mataram-no com um golpe de terçado – ka! E assim morreu Koshiloli (Colchester 1981: 59-60). como foi coletada por Marcus Colchester nos anos 70. Veio e sentou-se à frente dela. furioso. ela foi ter com os seus parentes. No caminho de volta. disse Koshiloli. Faz com que ele se sente do lado de fora da casa e faz de conta que lhe catas os piolhos. Ela puxou-lhe a cabeça para trás de modo a ficar de frente para o sol. acompanhado do cão da mulher e do cunhado. vira-lhe a cara para trás. de modo a encarar o sol” “Está bem!”. senta aqui! Vou te catar piolhos”. Esta análise poderia ser atribuída à imaginação da etnógrafa se não fosse pelo fato de os próprios Sanumá. tendo pensado no assunto. Vale a pena contar a história. ela começou a pranteá-lo. O ideal da maternidade é ter um número equilibrado de filhos e filhas. Quando o cunhado desceu. matou-o a pauladas – to! to! to! to! Koshiloli voltou para casa carregando o morto. Koshiloli. sua mulher e um irmão desta viviam a alguma distância dos outros parentes dela. “Está bem”. na sua teoria de sociedade. Aproximou-se da mulher e disse: “Corta a caça!”. Nela encontramos claramente as diferenças de lealdade entre irmãos e entre cônjuges e a tácita luta da consanguinidade com a afinidade. “É mesmo?”. respondeu ele. Koshiloli. informou. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . nada”. “É pesado”. Ao ver o irmão morto no chão. O cunhado subiu e conseguiu soltá-la dos galhos. “Não. Ela segurava a cabeça de Koshiloli virada para o sol. “Vem cá.

mães contra filhos.4 Esta história cria um arranjo residencial pouco comum: um homem casado que se esquiva de cumprir o regulamentar serviço da noiva. pois se não fosse não se deixaria mandar tão facilmente pelo cunhado. reservados. vivendo sozinhos. irmãos de ambos os sexos constituem um bando virtualmente indivisível. enchendo o ar com risadas. Mas. a lealdade que se espera dos consangüíneos. mais novo. Circulam com outras crianças pela aldeia. presenciei muitos incidentes entre homens e mulheres – maridos contra mulheres. representa um artifício narrativo para enfatizar os antagonismos e lealdades presentes naquilo que para Lévi-Strauss é “a forma mais elementar do parentesco” (Lévi-Strauss 1963: 46). mulher e cunhado. além de um filho não identificado. quando algum homem ameaça bater na esposa. Muito pelo contrário. Irmãos e irmãs deixam de brincar juntos e começam a ensaiar uma postura que terão pelo resto da vida: respeitosos. Até pouco antes da puberdade. ao mesmo tempo. A duplicidade estrutural que envolve irmãos de sexos opostos. pelo rio. a moral da história – entre consangüíneos e afins. pelas roças. A narrativa sublinha a fragilidade do elo entre marido e mulher e a problemática afinidade. que é um mal necessário na vida dos homens sanumá. Durante minha convivência relativamente longa com os Sanumá. Com uma criatividade hiperbólica. Esse trio etnograficamente improvável de marido. os irmãos desta correm imediatamente em defesa dela. gritos e choros constantes. É por isso que as mulheres órfãs estão em franca desvantagem: faltam-lhes irmãos que as defendam dos maridos. o que tem tudo isto a ver com espaço e tempo? Consideremos duas figuras centrais na vida sanumá. O duplo assassinato sublinha a tensão permanente entre afins e. sogras contra genros – mas nunca vi uma briga entre irmãos de sexos opostos. fica-se sempre com os consangüíneos – talvez diga mais sobre os pares irmão-irmã e marido-mulher do que qualquer elaboração antropológica. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . principalmente dos homens: a sogra e o pai que. mas prontos para se defender mutuamente quando for necessário. ao que parece. gerada pela combinação explosiva de consangüinidade (filhos dos mesmos pais) e afinidade (filhos de irmãos de sexos opostos) também está evidente na maneira como irmão e irmã se comportam. vive com a esposa e o irmão desta. Essa rotina descontraída muda abruptamente quando meninos e meninas entram na adolescência. mas afastados. afinal de contas. pela mata em volta.

as opções de casamento endogâmico podem ser bastante reduzidas. ele está à mercê de seus afins. Se o rapaz se casa longe de casa. Expressões faciais de absoluta repulsa geralmente acompanham a descrição dessa relação incestuosa cujo arquétipo mítico é o comportamento de um certo tipo de preguiça de gestos lânguidos a trepar pelas árvores em câmara lenta agarrada ao genro num abraço obsceno.5 são. quando a mulher fica isolada de seus parentes. principalmente se ele é jovem. as mulheres permanecem na casa materna. Até terem filhos e estes crescerem. Algumas velhas me asseguraram que fulano não se casou na própria aldeia porque não havia sogras para ele. Viver como genro na casa dos outros sujeita um homem a uma condição de subalternidade ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Aí. Virtualmente indefeso. preferencialmente. enquanto as moças ficam com os pais. Vivendo sob o mesmo texto. alvos fáceis de maus tratos. ele se vê só. Órfãs e viúvas que vivem na aldeia dos maridos são um triste espetáculo de vulnerabilidade. A mensagem é clara: sem sogra. A sogra é mais um mal necessário na vida de um homem. no lar dos pais. Com os homens algo semelhante acontece. a mulher se realiza. Sendo as aldeias sanumá em geral pequenas (de 30 a 60 pessoas. irmãos entre si. Ela personifica a dispersão masculina que resulta da disparidade entre as normas de descendência e residência. tornando-se seus consangüíneos protetores. essas mulheres desgarradas vivem como cidadãs de segunda ou terceira categoria à mercê do gênio dos seus maridos e demais afins. distante dos parentes que o apoiariam psicológica e politicamente. Com a residência matrilocal. Esta condição talvez fique mais clara em negativo. Enquanto os homens circulam. a maioria dos homens tem que deixar a casa e muitas vezes a aldeia dos pais à procura de esposa. É nesse espaço de residência. O casamento implica um longo período de serviço da noiva. normalmente). insultos e brincadeiras de mau gosto. não há esposa. Não é mera coincidência que o símbolo maior do incesto é a díade sogra-genro. a sogra é o foco da vida conjugal. de produção e reprodução que ela encontra a dimensão mais compatível com a feminilidade. A quintessência dos anos de chumbo de um marido sanumá é a sogra. ele tem que evitá-la a todo custo. mas com outro viés e por outras razões. além de ser obrigado a prestar-lhe serviços e provisões. Para a maioria dos homens. O resultado é que cada aldeia precisa exportar uma boa parte dos seus jovens.

dependem da conjunção de uma série de circunstâncias favoráveis. de modo a poder formar-se um grupo agnaticamente bem definido. pelo menos. ou ser objeto de suspeitas até provar o contrário. Pode-se dizer que. Há. A categoria tempo significa neste contexto a transmissão patrilinear. há grandes variações sobre o tema do marido forasteiro. uma outra unidade mais localizada. é preciso que grupos de irmãos se mantenham juntos depois do casamento por. que contribui para agravar o problema de homens agnatas. definitivamente. que se espalham pelo território sanumá. mais diplomáticos ou aguerridos. Esse sistema de identidade paterna é o mecanismo mais eficaz para garantir hospitalidade onde quer que vão as pessoas do mesmo sib. para sobreviver.6 que não difere muito da das órfãs e viúvas. Tanto homens como mulheres herdam dos pais a condição de membros e mantêm-na por toda a vida. Por que o tempo? Porque é através do tempo que os homens sanumá podem desenvolver plenamente o seu potencial. A dimensão própria dos homens sanumá. guardadas as devidas distinções inerentes à fisicalidade dos sexos. ligados por filiação paterna. co-habitar com gente com quem não pode falar ou interagir. Onde quer que estejam. com um nome próprio e politicamente importante. não é o espaço. Naturalmente. duas gerações. Alguns sofrem constantes abusos dos cunhados. homens e mulheres são identificados pelo nome da unidade do pai. Para que surjam esses grupos patrilineares localizados. É no tempo que eles encontram a possibilidade de criar alguma coisa de importância social e de se projetar na posteridade. Cada aldeia tem membros de várias unidades patrilineares. de uma geração a outra. um tipo de grupo patrilinear. a que com algum desconforto chamo linhagens. ter seus pertences desrespeitosamente afanados. São grupos muito frágeis porque. o que raramente ocorre. a que chamo sibs. a longo prazo. ou seja. Enquanto o espaço os dispersa. outros. quando enfrentam a dispersão causada pela residência matrilocal. A força centrífuga da matrilocalidade produz a dispersão dos homens de uma mesma linhagem. porém. como trabalhar duro no serviço da noiva. Os descendentes desses homens dispersos acabam. exogâmico. para os homens adultos o espaço de residência envolve sacrifícios. por ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . da identidade grupal. mesmo em circunstâncias amenas. o tempo os une e prolonga. levam uma vida mais leve com os afins.

embora nunca percam a de sib. Sem a residência em comum. ausência de mulheres casáveis na mesma aldeia. portanto. Por ironia da vida. nota 4). átomos sociais voltados para si mesmos. perpetuando mecanicamente o casamento endogâmico entre primos cruzados. Sua existência ou colapso é. a figura do pai e da sogra teriam pesos iguais. por trás de um pai temporal há sempre uma sogra espacial. Fatores demográficos. ou uma epidemia devastadora podem dizimar uma linhagem em apenas uma geração. Nesse brotar e murchar de unidades patrilineares em sua trajetória diacrônica. Os homens podem criar grupos de descendência. como ausência de filhos homens. Em suma. Se todos os homens pudessem casar-se na aldeia dos pais. haveria o risco de se criar mônadas residenciais. longe de ser um dado incontestável. injetar harmonia no seu sistema desarmônico. o esforço de homens e mulheres para alcançar a coincidência do tempo com o espaço. mas não controlam o seu destino. a vida de uma linhagem depende da capacidade de um grupo de homens agnaticamente relacionados para controlar o espaço onde vivem durante um número mínimo de gerações. o espaço. no entanto. com um desfecho tão melancólico como previsível: o grupo residencial em questão acabou por se desintegrar e seus remanescentes passaram à condição de apêndices dispersos por várias aldeias (Ramos 1995: 329. muitas pessoas ficam sem afiliação de linhagem. O resultado é que aqueles que conseguem a proeza de se manter juntos terão seus nomes perpetuados nas gerações seguintes numa escala de tempo que pode ser muito curta. um homem fica quase sempre dividido entre a lealdade para com o pai e o dever para com a sogra. mas virtualmente impossível de sustentar. uma díade irmão-irmã. Para eles. o resultado de duas forças em colisão: a força centrífuga da exogamia e a força centrípeta da transmissão agnática. é algo a ser conquistado. ou seja. mas sempre mais longa do que as suas próprias vidas. sendo. Efêmeros ao extremo. Pude acompanhar ao longo de mais de uma década um caso concreto desse tipo.7 perder sua afiliação paterna por falta de foco residencial. O grau ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . As linhagens sanumá não existem sem concentração no espaço e esta só pode ser alcançada na medida em que os homens conseguem superar a necessidade de casar fora. Numa situação ideal. eles mesmos. essas linhagens se esboroam até ao desaparecimento. Na realidade. esses grupos representam.

Actes du XLIIe Congrès International dês Américanistes 2: 71-90. Sanumá Memories: Ethnic politics in Brazil. Claude. o tempo traz incertezas.8 de sucesso em se criar um grupo de descendência próprio reflete o jogo de influências entre essas duas figuras determinantes. insegurança e aventura. confiabilidade. Antropológica 56: 25-126. Madison: The University of Wisconsin Press. Marcus. O lar e as roças são os símbolos de espaço por excelência. 1968. Yanomamo: The Fierce People. como se pode perceber nas histórias sobre as migrações sanumá. 1981. The Dravidian kinship terminology as an expression of marriage. instabilidade. idéias fundamentais que dão sentido ao mundo. 1990. 1953. Myths and legends of the Sanema. Structural Anthropology. arraigamento. DUMONT. 1963. Man 54: 34-39. a complementaridade entre o espaço-mulher e o tempo-homem é uma marca que o pensamento teórico sanumá imprime na experiência vivida. quando o único elemento de ligação entre comunidades em trânsito eram os elos patrilineares sempre por um fio (Ramos 1995: 17277). Napoleon. Rinehart & Winston. Referências Bibliográficas CHAGNON. Alcida Rita. Yanoama descent and affinity: the Sanumá/Yanomam contrast. A exemplo da bruxaria zande. Nova Iorque: Basic Books. Juntos. Por contraste. Alcida Rita e Bruce Albert. Nova Iorque: Holt. o fulcro da sociabilidade onde as mulheres estão à vontade e os homens gostariam de nunca deixar. Representa perda de raízes. LÉVI-STRAUSS. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Evocam noções de estabilidade. mulher e homem revelam-se metáforas da oscilação necessária entre repouso e movimento. Louis. RAMOS. COLCHESTER. RAMOS. Paris: Société des Américanistes. 1977.

foi realizado em parceria por várias instituições ligadas às áreas do desenvolvimento local. 1. Elas são o ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Articula-se a observação participante com “Oficinas-diagnóstico” no intuito de potenciar uma abordagem antropológica para a investigaçãoacção. os homens estão ausentes e são as mulheres que asseguram a vida social quotidiana. Amarante. revelam-se os resultados da investigação-acção realizada em 2005 no centro e norte de Portugal (Sever do Vouga e Amarante) onde se identificaram as desigualdades produzidas pelo género. no Centro e Norte de Portugal. que contemple as necessidades específicas e os interesses estratégicos de homens e mulheres em meio rural e se ajuste aos seus valores e experiências. Apresenta-se uma proposta metodológica de diagnóstico. teatro e ensino/investigação. Este projecto. igualdade de género. Sever de Vouga. ruralidade.com ricardoseica@gmail. realizado em Abril de 2006. identificando-se com uma ruralidade que muitos sectores institucionais têm vindo a declarar extinta.com Com base no projecto “Iguais num Rural Diferente”. assim como a sustentabilidade da actividade agrícola. no qual apresentámos uma proposta metodológica. nomeadamente na conciliação família/trabalho. Introdução Este artigo refere-se à comunicação proferida no Terceiro Congresso da Associação Portuguesa de Antropologia. decorrente de um projecto de investigaçãoacção realizado em 2005. com vista a sistematizar um possível contributo da Antropologia na promoção da igualdade de género. teatro e ensino/investigação. Palavras-chave: investigação-acção. oficinas-diagnóstico. e cujo objectivo central foi o da promoção da igualdade de género em meio rural. denominado de “Iguais num Rural Diferente”. Em ambos os contextos. promovido por várias instituições ligadas ao desenvolvimento local.Iguais num Rural Diferente: o papel da Antropologia na investigação-acção sobre género Ana Luísa Micaelo e Ricardo Seiça Salgado CEAS/ISCTE analuisamicaelo@gmail.

C. Assim.2 Departamento de Antropologia Universidade de Coimbra 1 . não faziam já parte da parceria. pretendia-se também promover uma abordagem participada e reflexiva (estratégia bottom-up) com estas populaçõesalvo. sendo produzidas pelo género. assim como o Departamento de Antropologia da U. Sever do Vouga e Vouzela – mas a comunicação e este artigo só se referem aos dois primeiros. a partir dele. A participação dos antropólogos no projecto teve como objectivo a realização de um Diagnóstico de Necessidades 2 destes contextos sobre a igualdade de género. a APA – Associação dos Agricultores do Porto. numa altura em que o projecto estava já na sua segunda fase e os autores. a ADRL – Associação de Desenvolvimento Rural de Lafões. incorporando a maior multiplicidade de técnicas de recolha de material possível. para que fosse possível o desenvolvimento de actividades futuras em conjunto. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . 2004/EQUAL/A2/IO/343). 2 De acordo com o modelo do Programa EQUAL. Sanjek 1990 e Davis 1999). para o Terceiro Congresso da APA. culturais e económicas – tal como elas são vividas pelos actores sociais – e contemplar as necessidades específicas e interesses estratégicos de homens e mulheres em meio rural.. a candidatura à segunda fase. o projecto identificou uma série de desigualdades que. Para tal. eram específicas a estes meios sociais rurais. a autora realizou ainda uma tese de investigação. nomeadamente no que diz respeito à conciliação do trabalho com a vida familiar. a equipa técnica de antropólogos que elaborou este diagnóstico (de Sever de Vouga e de Amarante) guiou-se pela abordagem empírica que há muito tempo se consolidou na antropologia. a observação participante (cf. a Solidários – Fundação para o Desenvolvimento Cooperativo e Comunitário. com a qual concluiu a licenciatura (cf. querendo envolvê-las no diagnóstico que fazíamos sobre as suas vidas e implicando-as no projecto. do Fundo Social Europeu (Ref. sublinhamos que esta metodologia se refere àquela desenvolvida na primeira fase do projecto. A partir desta experiência de trabalho. Relembramos que a comunicação foi proferida em Abril de 2006. a ACERT – Associação Cultural e Recreativa de Tondela e o ICE – Instituto das Comunidades Educativas. na qual se realizarão as actividades planeadas anteriormente. que decorreu entre Janeiro e Junho de 2006. O projecto realizou-se em três contextos rurais diferentes: Amarante. Por outro lado. os projectos são compostos de uma primeira fase. Micaelo 2005b). Foi financiado pelo Programa de Iniciativa Comunitária EQUAL. em que se realiza o diagnóstico de necessidades e. Com o objectivo de aferir a diversidade das realidades sociais. 1 A equipa técnica foi composta pelos autores e a coordenação científica ficou a cargo da Professora Doutora Susana de Matos Viegas.

3 Para a elaboração do Diagnóstico de Necessidades – com base no qual se propuseram actividades concretas a realizar na Acção 2 do programa (2006/2007) – os procedimentos metodológicos qualitativos para este projecto assentaram no trabalho de campo e tinham por objectivo a criação de um Modelo de Oficina Diagnóstico para contextos de investigação-acção em meios rurais em que. mas igualmente marcantes para a criação de modelos de promoção da igualdade de género em meios rurais do Portugal contemporâneo. 2. Tomando a tipologia e dados recolhidos no Instituto Nacional de Estatística (Censos de 2001) estas regiões são denominadas como Predominantemente Rurais. Aceitando um dos desafios deste congresso. Apresentação dos contextos Ambos os contextos onde decorreu o trabalho de campo correspondem ao território de actuação da respectiva entidade local – a APA em Amarante e a Solidários em Sever do Vouga. devolvida à sociedade. Consideramos que estes dois territórios oferecem desafios diferentes. família. se pretendia envolver a população-alvo na formulação das questões socialmente relevantes no âmbito das relações de género. Segue-se uma breve apresentação dos dois contextos onde se realizou este trabalho. decorrente da sua experimentação em cada um dos referidos contextos-piloto. de discutir a integração profissionalizante da antropologia. Têm características semelhantes que passamos a enumerar: ambas são montanhosas e o povoamento é disperso pelas encostas. ela própria. uma outra forma de poder que. Neste artigo iremos apresentar as opções metodológicas que fizemos neste projecto. propomo-nos assim tecer uma reflexão acerca do papel da Antropologia enquanto saberfazer específico e da maneira como a análise dos discursos de poder é. com algumas freguesias e populações muito ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . articulando a observação participante com as Oficinas Diagnóstico no intuito de potenciar uma abordagem antropológica para a investigação-acção. representações e relações hegemónicas de poder – sejam elas de género. trabalho e/ou ruralidade. pode participar na mudança das formas culturais.

e têm direito ao uso e fruição do terreno baldio – para efeitos de apascentação de gado. muito feminizada.4 isoladas. o fraco empreendedorismo e um ainda baixo investimento turístico (algumas freguesias ainda não têm saneamento básico). cuja economia tem uma base rural e agrícola (não intensiva). após a retirada da possibilidade de gestão dos baldios e seus recursos pelo Estado salazarista e. consequência de vários factores como o êxodo rural e os fluxos de emigração (anos 60 e anos 80). Em Amarante. dos anos 80. Nestas regiões. A relação das pessoas em Amarante está marcada por um passado emigratório. de recolha de lenhas e de matos. Todas elas gerem baldios. Tal como em Amarante. fracas vias de acesso e um sistema de transportes públicos entre as freguesias praticamente inexistente. em contraponto com a alta taxa de desemprego – sendo que todas estas características assumem maior relevo na população feminina. contribuíram para a escassez de relações entre as pessoas e as várias aldeias da região. o território-alvo do projecto corresponde à parte Este do concelho. a característica mais evidente do contexto de Sever do Vouga é a agricultura. tanto por via da Junta de Freguesia. sendo que a acessibilidade ao Predominantemente Urbano é maior e mais frequente que ao Rural. estes terrenos que desde o 25 de Abril passaram outra vez a ser geridos pelas comunidades locais. silvícola. Existe uma tendência para o declínio populacional e envelhecimento. reflorestação. de culturas e outras fruições. São também baixos os níveis de escolaridade e qualificação profissional. Os acontecimentos da década de 60. Face a uma divisão sexual do trabalho que leva os ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . apesar da existência de condições ambientais que permitem apostar na qualidade das produções agrícolas. 7 freguesias que constituem as comunidades serranas do Marão. a perda de peso económico da agricultura não foi compensada com a criação de outras actividades económicas que pudessem absorver a mão-de-obra. O acesso à saúde é escasso e não há instituições capazes de dar resposta à dependência que as crianças e idosos têm para com a família. Hoje. apícola e turística. depois de terem voltado e do incêndio que devastou a Serra do Marão. têm um potencial a desenvolver pelo projecto. nomeadamente de natureza agrícola. silvo-pastoril. como por uma Comissão de Compartes independente. a quase inexistência de indústrias e alternativas de emprego na região.

fixando as mulheres à terra. constituindo como modelos familiares o que propomos chamar de “temporariamente monoparentais femininos”. sendo que o modelo hegemónico de género não reconhece simbolicamente o papel da mulher no trabalho. bem como a reestruturação que ela permite das actividades laborais. das terras e animais e do cuidado dos filhos. do trabalho assente em actividades artesanais. em ambos os contextos. agrícola (Sever do Vouga) ou. a Solidários considera que em Sever de Vouga o incremento da agricultura segundo o modo de produção biológica. ou também nas estruturas mais precárias do trabalho da indústria do calçado (Amarante). os homens vão para fora e têm trabalho remunerado. a ausência dos homens nas tarefas familiares reflecte uma grande disparidade de participação na vida familiar entre homens e mulheres. Decorrente da divisão sexual do trabalho e das representações e concepções acerca da feminilidade e masculinidade. Assim sendo. Por outro lado. e também devido ao impacto do fenómeno migratório. seja este doméstico. assim como a sustentabilidade da actividade agrícola – que não deixou de ser muito importante para a economia familiar – sem que tenham com isso um reconhecimento do seu trabalho. contribuindo para que os homens valorizem o papel da mulher na actividade económica local. Esta situação resulta ainda numa dependência financeira das mulheres em relação ao marido. aumento da autonomia destas mulheres e promoção de maior igualdade nas relações entre casais: reequilibra as formas de poder entre cônjuges. dos idosos e de outras pessoas dependentes. em Sever de Vouga e Amarante a organização familiar está historicamente marcada pelo trabalho assalariado masculino fora da área de residência. de igual modo. se tem mostrado um meio eficaz de empoderamento (empowerment). São as mulheres que asseguram a vida social quotidiana.5 homens a longos períodos de ausência (emigração e/ou trabalho temporário fora da região). ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . enquanto as mulheres se encarregam das tarefas domésticas.

entrevista aberta. como o presidente da junta. Essa informação serviu sempre de subtexto. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . condutor da conversa. um mês (trabalho de campo e realização da Oficina Diagnóstico). por outro lado. em função do tempo que se dispunha pelo programa para a Acção I (4 meses). O acesso aos informantes e o enquadramento no terreno não foi efectivamente restritivo na medida em que nunca os contactos interpessoais foram forçados ou veicularam a necessidade de uma reverência para com as instituições locais ou os informantes privilegiados. conversa informal dirigida. Assim. realizaram-se histórias de família e identificaram-se estudos de caso que vieram a servir para a selecção das pessoas com potencial representativo da população-alvo. em períodos de cerca de quinze dias (a entrada no terreno tendo em vista a definição da população-alvo) e posteriormente. Esta ideia é válida nos dois sentidos: por um lado. os resultados desta investigação-acção reflectiram necessariamente a forma como ela foi conduzida. Tendo em conta a escassez de tempo para executar os objectivos recorreu-se ainda a outros informantes privilegiados.1. Os investigadores permaneceram nos territórios-alvo respectivos. vivendo numa habitação local e integrando-se na vida quotidiana da população. Teve-se sempre em conta a necessidade de informar as pessoas acerca do projecto e dos seus objectivos. a sua própria relação com os eventos descritos é útil para a sua compreensão – e deve ser sempre especificada” (Pina Cabral 2003: 25). directores associativos ou o padre.6 3. Primeira etapa metodológica: observação-participante O diagnóstico realizou-se a partir da recolha de material empírico em duas estadias de campo dos investigadores. era condição necessária a consciência das pessoas em relação à sua participação e envolvimento no projecto. Metodologia 3. texto e paratexto. registo da informação e “notas de campo” e realização de diário de campo). a posição e acção do investigador devem ser referidas como parte integrante da situação social estudada: “Quando o etnógrafo recorre ao método de estudo de caso. vivência no local de estudo. que foram convidadas a participar nas Oficinas Diagnóstico. técnicos das instituições parceiras. do encontro estabelecido. Utilizaram-se as variadas técnicas de observação participante (entrevista.

na conciliação do trabalho com a vida familiar. O “relator” não deve ser um “participante” e o facto de já ter contactado as pessoas que participam na oficina. Os conteúdos trabalhados nas oficinas provêm dos resultados analíticos da observação-participante no terreno. Quem participa nas Oficinas? Cada oficina é constituída por três tipos de intervenientes: “os participantes”. Enquanto modelo de diagnóstico. Segunda etapa metodológica: Oficinas Diagnóstico A Oficina Diagnóstico tem o seu modelo baseado em metodologias teatrais de modo a monitorizar a realidade social. em função dos interesses.7 através do envolvimento das pessoas na procura das estratégias para o seu próprio “desenvolvimento”. foram sinalizados problemas e identificadas possibilidades de inovação. Previamente fez-se uma simulação da oficina com os parceiros. valores e experiências de homens e mulheres na vida familiar e no trabalho. Consistiu em se fazer uma fotonovela em grupo. pode ser favorável e será ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . 3. motivações.2. foram elaborados pelos investigadores e depois debatidos com os técnicos das associações. registando a interacção entre as pessoas e os comentários. Com elas e a partir delas. bem como do próprio drama a ser construído por cada grupo. que já haviam experimentado em outras circunstâncias. na investigação de terreno. A sua atitude aproxima-se muito daquela que é assumida por um investigador a fazer trabalho de campo com observação participante. Os “relatores” são aqueles que vão ouvindo o processo de construção das histórias. os participantes representam a população-alvo e foram identificados previamente pelo antropólogo no terreno. Para as oficinas de cada contexto seleccionaram-se temas e personagens consideradas prioritárias na identificação dos problemas e possíveis soluções ligadas à promoção da igualdade de género. “os relatores” e os “facilitadores”. mobilizando a população-alvo para práticas de inovação social. Os “participantes” são todos aqueles que irão exercer as actividades desenvolvidas na oficina desde a elaboração das histórias à reflexão sobre elas. A ideia de modelo operatório inicial da oficina foi proposto pela ACERT em conjunto com a Solidários.

ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . a situação familiar e profissional). Cada oficina teve cerca de 4 grupos com cinco participantes cada. Solicita-se a construção da identidade de uma personagem (que consiste em preencher uma ficha com o nome.8 fundamental num modelo mais consistente de utilização destas oficinas para diagnóstico. De uma forma completamente aleatória divide-se o colectivo em grupos. Um ou dois dos grupos ficam com tema livre. Guião da Oficina 1. por exemplo. Em cada grupo existem duas personagens predefinidas atribuídas ao acaso. “sem ele monopolizase”. 2. deve provocar o debate com alguma ideia que conecte com a informação obtida e algum conflito passível de emergir da rede de relações produzida. abrindo espaço para a monitorização. Deve deixar um espaço de liberdade criativa aos participantes durante todo este processo. Garante a existência de papéis sociais representativos da população-alvo e que. não tenha sido possível comparecerem. uma vez que prepara as pessoas para os objectivos pretendidos. A cada grupo é dado um tema sustentado pela informação empírica recolhida em trabalho de campo. os pesadelos. Atento. A personagem deve ser inspirada a partir do contexto em causa e induzida pelo tema do grupo. Recomenda-se que circulem pelos diferentes grupos para permitir momentos de liberdade e tornar a oficina mais dinâmica podendo. intervir também nos outros grupos. sobretudo para garantir a prossecução dos trabalhos. os facilitadores/relatores. um facilitador e relator por grupo (investigador e membros da associação parceira). 3. Recomenda-se a filmagem da oficina por um elemento conhecedor do projecto. os sonhos. de 5 ou 6 pessoas cada. O envolvimento de membros das associações que já têm contacto com as populações pode ser igualmente importante. 4. Os “facilitadores”: em cada grupo existe um facilitador que intervém no sentido de ajudar a desenhar um mapa de relações entre as personagens construídas e organizar a sequência de fotografias finais representativas da história.

dando origem a um mapa de relações (nome. tendo em conta a realidade da região. apesar de terem problemas comuns. A existência de iniciativas isoladas. que as pessoas das diferentes freguesias. 9. em Amarante. reunido à parte. vai inventando uma rede de relações sociais entre os personagens. encenam-se colectivamente quadros representativos da história produzida. uma a uma. 4. Em cada grupo. tendo em conta a relação de poderes criada entre personagens e recaindo também para a desigualdade de género. 7. 6. em torno das situações criadas na dramaturgia geral da história. começando pela apresentação das personagens intervenientes (uma fotografia por personagem) e contando a história produzida em cada tema. numa pequena série de fotografias. Discussão colectiva das histórias (os sentimentos. representações e expectativas geradas). Conclusão As conclusões a que se chegou nas Oficinas Diagnóstico mostraram. reforçando finalmente a presença dos homens. Com recurso a um projector. O facilitador toma a iniciativa com uma questão observada e lança a discussão. passa-se à construção de um drama possível. seu passado).9 5. com a sucessão das fotografias produzidas. não se relacionam na promoção de resoluções conjuntas. havia sido identificada anteriormente pelo investigador como uma condição adversa à ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Fotografam-se as personagens. Os dirigentes das associações sociais e culturais locais não se conheciam sequer. Em Amarante. a história é conduzida a partir de um qualquer conflito. tendo em conta as relações entre personagens. sob olhar do facilitador/relator. Em Sever de Vouga a teatralização e interpretação das personagens e enredos aconteceu espontaneamente. seus problemas e expectativas. A história deve ser conclusiva. seguiu-se um convívio que se transformou num concerto espontâneo de um grupo de bombos e de uma tuna da região. Desenhado o mapa de relações. Também aqui se deixou espaço de liberdade para os participantes desenvolverem os argumentos. Depois. Cada grupo. 8. apresentam-se as histórias por um “participante” do grupo. relação entre personagens. para futura apresentação.

10 dinâmica para o desenvolvimento regional e estas oficinas permitiram essa consciencialização por parte dos participantes. promovendo cursos que desenvolvem aptidões potencialmente económicas às mulheres da região. Micaelo 2005b). prende-se com o facto de o espaço social de género ser muito segregado. por um lado. Em Sever do Vouga. à já referida divisão sexual do trabalho. a produção de artesanato a partir dos recursos dos baldios. No nosso entender. Os formandos dos cursos até aqui promovidos pela Solidários são maioritariamente mulheres. quando a vida quotidiana é assegurada pelas mulheres e eles estão ausentes? A questão salienta a necessidade da integração da perspectiva de género (cf. em oposição à sociabilidade masculina com que se identifica localmente o espaço do café. Este aspecto remete-nos ainda para uma limitação sentida no início do trabalho de campo sobre “o género do próprio antropólogo” – como chegar também aos homens. foi realizada pontualmente em cada aldeia e não com um conjunto integrado de mulheres das várias aldeias. Isto deve-se. que faz com que os homens. no seu desenvolvimento associativo para uma actividade económica – o que iria ao encontro das intenções manifestadas por elas próprias na Oficina. exponencia a desigualdade de género. Contudo. Um outro factor. Comissão Europeia 2004). por exemplo. fazendo com que o espaço onde actualmente se realizam estes cursos – e onde decorreu a Oficina Diagnóstico – tenha uma associação de género diametralmente oposta à do café (cf. A intervenção da APA. e a Oficina Diagnóstico assim o demonstrou. já que é com as mulheres e a feminilidade que este espaço passou a estar associado. de forma a reforçar a importância do trabalho feminino nos baldios e. esta falta de comunicação entre as pessoas das diferentes aldeias. Esta intervenção teve um sucesso relativo em motivar. até porque identificámos uma grande diferenciação social de género no que diz respeito às ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . não se conseguiu integrar estas iniciativas isoladas num projecto comum. uma vez que não se trata apenas de resolver os problemas das mulheres. sobretudo nas possibilidades de trabalho auferidas pelos recursos dos baldios. a realização da Oficina mostrou haver uma a dificuldade em envolver os homens. nomeadamente no que diz respeito aos espaços de sociabilidade. apesar de terem sido convidados a participar. não tenham muita disponibilidade de tempo. também identificado durante o trabalho de campo. quiçá. por estarem empregados.

isto é. Por fim. através da consciencialização dos problemas-soluções apurados entre todos – contribuindo. Este “modelo” de um mundo rural é diferente daquele que conhecíamos na década de 60 no norte do país. ao acesso ao dinheiro e ao poder. investigadores. a situação profissional de todas as personagens coincide com a realidade socio-económica e antropológica da região estudada: os desempregados. à mobilidade e mesmo à forma como se constituem os modos de sociabilidade. os estudantes deslocados. tipicamente envelhecidos e despovoados – como o Alentejo – ou aqueles que têm uma relação mais dinâmica com a actividade industrial – como é o caso de Vouzela. como grande parte das regiões rurais de Portugal são classificadas. agentes de intervenção e animadores culturais) reflectem sobre os seus problemas específicos no âmbito das desigualdades de género. estes dados permitem-nos perceber melhor a categoria de Predominantemente Rural. o patrão. mas principalmente. os próprios mapas das relações entre os personagens mostram a construção de redes familiares do mesmo tipo que constatámos na realidade. não podemos ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . ao trabalho. em resultado do espaço de reflexão e experimentação criativas dos participantes. Em ambas as Oficinas. cujo modo de vida e características de sociabilidade são melhor apreendidas por metodologias qualitativas. uma organização familiar “temporariamente monoparental feminina”. O modelo de investigação-acção foi cientificamente informado e adaptado para comunidades rurais. Concluindo. para um potencial processo de mudança. as agricultoras. os emigrantes. Este modelo parte do conhecimento empírico do terreno e da sua transformação em estudos de caso e conteúdos para a realização de oficinas teatrais onde os participantes (população-alvo. por isso. consideramos ainda que contribuiu para o apuramento de práticas de intervenção que incorporem a participação efectiva das respectivas populações-alvo. e mesmo de outros meio rurais portugueses contemporâneos. Ele foi pensado de forma a garantir que os modelos de intervenção social na promoção da igualdade de género compreendam e se ajustem aos valores e experiências da população. assegurando que a comunidade seja agente das transformações propostas. Assim. o construtor civil. Por outro lado. pôr em causa a imagem de um mundo rural homogéneo e “tradicional”. as domésticas. consideramos que o modelo participativo das Oficinas Diagnóstico cria condições para a resolução dos problemas assinalados.11 relações familiares. o político. Por sua vez.

Susana de Matos (coord. Dissertação de Investigação I e II (policopiado). MICAELO. um meio de estabelecer relação com as pessoas. trabalho e espaços de ruralidade: um estudo antropológico em Sever do Vouga. Departamento de Antropologia da Universidade de Coimbra.). “Guia Equal sobre a Integração da Perspectiva de Género” [online]. a partir da abordagem etnográfica. Imprensa do ICS. 2004/EQUAL/A2/IO/343). Projecto Iguais num Rural Diferente. 2005. João de. 2005b.12 deixar de sublinhar que considerámos o contributo da Antropologia não como uma oportunidade para “dar voz” aos seus objectos de estudo/informantes/população-alvo. O Homem na Família: cinco ensaios de Antropologia. Fieldnotes: The Making of Anthropology. DAVIS. 2004. Susana de Matos (coord. do Fundo Social Europeu (Ref. Acção 1 – Programa de Iniciativa Comunitária EQUAL. PINA CABRAL. SANJEK. Ricardo Seiça. 2005.). Cornell University Press. Ana Luísa. “Diagnóstico de Necessidades para Sever do Vouga”. 1990. 2005. Susana de Matos (coord. Londres e Nova Iorque. Em: VIEGAS. mas antes. Ithaca e Londres. Reflexive Ethnography: a guide to researching selves and others. Em: VIEGAS. 2003. do Fundo Social Europeu (Ref. (policopiado). Coimbra.eu. Ana Luísa. 2004/EQUAL/A2/IO/343). Charlotte Aull. Lisboa. “Diagnóstico de Necessidades para Amarante”. VIEGAS. Disponível em: <http://europa. 1999. Diagnóstico de Necessidades: Iguais num Rural Diferente (policopiado). 2004/EQUAL/A2/IO/343). Diagnóstico de Necessidades: Iguais num Rural Diferente. Projecto Iguais num Rural Diferente. Projecto Iguais num Rural Diferente. Routledge. Acção 1 – Programa de Iniciativa Comunitária EQUAL.int/comm/equal> (acesso em 17-05-2005).). MICAELO. Diagnóstico de Necessidades: Iguais num Rural Diferente (policopiado). Mulheres. Referências Bibliográficas COMISSÃO EUROPEIA. Roger (ed). Acção 1 – Programa de Iniciativa Comunitária EQUAL. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . SALGADO. para aceder à sua realidade vivida. do Fundo Social Europeu (Ref.

dinheiro e afecto Coordenação Fernando Bessa Ribeiro Dep. Economia e Sociologia. Universidade do Minho Pluralismo Religioso: novas abordagens etnográficas Coordenação Ramon Sarró Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa Estigma. direitos e precariedade laboral ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .VII – Capítulo Crenças e corpos Textos de comunicações dos painéis: Corpos. Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro Manuel Carlos Silva Instituto de Ciências Sociais.

Recorrendo privilegiadamente a elementos etnográficos. e. recorrentemente. 2003) e reproduz. uma promessa. doutorando em Antropologia (ISCTE). com breves alterações.q. peregrinação. nesta comunicação procurar-se-á evidenciar. Professor Adjunto – Instituto Politécnico de Viana do Castelo – Escola Superior de Enfermagem.    INTRODUÇÃO    No início do mês de Maio. Todavia. mas pouco sobre as práticas dos peregrinos desde o momento em que abandonam as suas casas e percorrem a pé a distância que os separa do Santuário de Fátima. Altar do Mundo. até ao presente que todos os anos milhares de pessoas percorrem os caminhos que as levam até àquilo que nos meios católicos se chama. pt   Desde as Aparições da Virgem Maria. Agradeço ao Professor Doutor José Manuel Sobral as críticas e sugestões que fez ao trabalho. que estes peregrinos procuram pagar com o mínimo de sofrimento o grande sacrifício prometido. em 1917 em Fátima. longe de fazerem parte de uma communitas. por um lado. Contudo.  “Cada um anda ao seu ritmo” As práticas individuais nas peregrinações a pé a Fátima 1   Pedro Pereira* Escola Superior de Enfermagem – Instituto Politécnico de Viana do Castelo pedro. religião e Senhora de Fátima. uma comunicação realizada no 3º Congresso da APA – Afinidade e Diferença (6-8 de Abril de 2006). tem sobejado o interesse por parte * Mestre em Antropologia (UM). e que são frequentemente. Palavras-chave: Promessa. por outro. as estradas que convergem para Fátima. coordenado por Ramon Sarró. 1 Este texto recupera alguns elementos do trabalho de campo anteriormente realizado (Pereira. se perante tão abrangente fenómeno social tem escasseado a atenção por parte dos cientistas sociais. concretamente no Painel Pluralismo Religioso: novas abordagens etnográficas. tal como as páginas dos jornais e os principais noticiários dos canais de televisão portugueses. encher-se-ão de peregrinos.pereira@netcabo. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . que os peregrinos caminhantes até Fátima. o acto de caminhar até Fátima está fortemente condicionado pelas motivações que lhe subjazem. revelam práticas profundamente individualizadas para realizar a peregrinação. Tem-se escrito muito sobre Fátima.

a Fátima 3 . sendo os peregrinos católicos. Perante este diagnóstico da situação. então as crenças e práticas dos peregrinos são interpretadas em consonância com o sentido teológico católico do peregrinar. também católica. e a entidade a que prestam culto. É de facto uma promessa que leva os crentes para a estrada e é ela que os impele a chegarem ao fim. tem sido mais este discurso. a par do outro discurso. mas sim a consequência de uma motivação. tentar-se-á avançar com elementos que contribuam para uma efectiva compreensão do significado da expressão “cada um anda ao ritmo” (que dá o título a este artigo) e consequentemente enunciar as estratégias individuais que cada peregrino encontra para chegar até Fátima com o menor sofrimento possível. neste artigo propõe-se desconstruir os dois pressupostos anteriores. frequentemente sensacionalista. invisível. em boa parte dos casos.2 dos religiosos católicos. em segundo. que tem contribuído de uma forma mais intensa para a maneira como se vão atribuindo significados às peregrinações a pé a Fátima. a promessa apresenta-se como a parte oculta. os peregrinos podem encontrar aquilo que Alan Morinis chama ideais colectivos da cultura (1992-a: 4-5). as peregrinações a pé a Fátima não são o início de uma relação com a Senhora de Fátima. o principal pilar que alicerça as práticas do acto de peregrinar 2 a pé da generalidade dos peregrinos que viajam até Fátima. que se expressa vulgarmente numa promessa. De facto. por outro. apologético. mostrando que: em primeiro lugar. ideais religiosos. dos meios de comunicação. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . 1991). intensamente. sendo um lugar com grande magnetismo espiritual (Eade. 2 3 Deve entender-se por peregrinação uma viagem por devoção a um lugar considerado sagrado. A partir deste dois postulados. 1 – A PROMESSA DE PEREGRINAÇÃO   Efectivamente. Em Fátima. Duas ideias aparecem recorrentemente expressas nestes dois discursos: por um lado. que caracteriza os lugares onde estão presentes. que a redução dos motivos envolvidos nas peregrinações a pé a Fátima à teologia católica impede a efectiva compreensão das crenças e práticas dos peregrinos. latente. a prática da peregrinação a pé é apresentada como um meio para solicitar alguma coisa à Senhora de Fátima. onde o poder da Senhora de Fátima pode ser invocado (ainda que neste caso à distância) para a resolução de problemas cruciais dos crentes.

a autonomia individual está bem presente na construção dos termos da troca. com a condição de o homem obter dela um favor particular. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . uma contra-dádiva. e de uma forma simples. 5 Reportando-se às promessas de peregrinação a Tinos. organiza-se em torno de três fases primordiais: uma declaração de compromisso. a promessa está sustentada numa clara racionalidade e. sendo estes uma expressão de uma relação muito pessoal entre o promitente e o ser espiritual a quem o primeiro se dirige”(Dubisch. quer pelo facto de o promitente (aquele que faz o voto) procurar manter sigilo da promessa até receber a graça ou dádiva 5 . de igual modo. como me dizia um devoto: “concentro-me e mentalmente defino o que pretendo e o que estou disposto a fazer”. De facto.3 Neste contexto. será interessante recuperar a referência de Michel Meslin à proveniência latina da palavra voto que provém do latim votum e que “consistia na promessa de uma oferenda que se fazia a uma divindade. que os votos são feitos dentro da própria pessoa. nos primeiros anos do casamento. ele continuar a fazer “vida de solteiro”.   4 Partindo do pressuposto que a promessa é um voto. J. Só se o desejo se realizava é que o homem cumpria o que havia prometido”(1987: 1829). Este voto é tão pessoal que por vezes só é revelado à família poucos dias antes da partida – um elemento do meu grupo revelou à mulher que tinha feito uma promessa de ir a Fátima. nunca revelou a ninguém. na Grécia. o motivo da promessa. uma dádiva. nem mesmo ao marido que a acompanha. 1995: 89). poucos dias antes da partida – outras vezes nem isso – outra pessoa do meu grupo. é quase sempre assim que ela é concebida pelos crentes que prometem ir a pé a Fátima. Como já foi defendido noutro lugar (Pereira. Veja-se um exemplo comum: “Se tu (Senhora de Fátima) curares o meu filho eu prometo ir a Fátima a pé”. normalmente. nem a mim. De facto. uma promessa pode ser definida como uma troca entre um crente e a Senhora de Fátima 4 . há 15 anos atrás.   1. O marido suspeita que a promessa se deveu ao facto de. mas é também visível quer na forma como o voto é feito. sendo portanto ele quem estabelece o que é simbolicamente equilibrado. que já vai há mais de vinte anos a pé a Fátima.1– A declaração íntima de compromisso A declaração de compromisso é a enunciação da troca com a Senhora de Fátima. Quando o crente constrói a declaração de compromisso está também a definir as condições da troca. Dubisch salienta. 2003-a). normalmente dentro da própria pessoa.

querendo isto dizer que. através de uma troca simbolicamente equilibrada. a peregrinação a pé é um agradecimento. seja ela escatológica ou terrena. a comunhão e a aliança que elas estabelecem são relativamente indissolúveis”(Mauss. porque custa muito ir até lá a pé”. como é referido pelos crentes). visto que. ou seja. mas também porque o que é dado nunca se separa de quem o deu. como me dizia uma peregrina. as pessoas dão-se com aquilo que dão 6 .2 – A troca simbólica Assim. as referências mais ou menos assíduas de que foi a Senhora de Fátima que salvou o filho ilustram bem que. pelo contrário. 8  Se  o  critério  for  histórico. disseram-me que eram católicos. Esta filiação religiosa poder-se-ia apresentar como um critério mais interessante do que outros apresentados por outros autores como o geográfico 7 ou o histórico 8 . Mauss. como uma contra-dádiva. nesta situação de troca.  as  peregrinações a Fátima são modernas.     2 – O CATOLICISMO E AS PEREGRINAÇÕES A PÉ  Todos os peregrinos com quem falei. a peregrinação a pé apresenta-se como a última fase deste processo.  6 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . para em seguida retribuir com a peregrinação a pé. a utilização do critério de filiação religiosa apresenta acentuadas fragilidades. efectivamente. pois atrai peregrinos dos mais diversos lugares do mundo. “só se promete ir a Fátima a pé quando é uma aflição muito grande. não apenas porque uma dádiva implica uma contra-dádiva.4 1. 7 Atendendo às classificações de Jackowski (1987) e Victor Turner (1973). Por conseguinte. os crentes procuram re-equilibrar as suas relações com a Senhora de Fátima. As marcas mais ou menos perenes no corpo dos peregrinos. como refere M. o promitente espera pela dádiva da Senhora de Fátima (ou pela graça. Esta citação ilustra bem o sentido maussiano da dádiva. e não como uma dádiva. temos de considerar as peregrinações a pé.  e  seguindo  a  tipologia  de  Edith  e  Victor  Turner  (1978). não visa uma recompensa. depois da referida declaração de compromisso. Portanto. 1988: 101). Porém. é o pagamento de algo que já foi recebido. “[as coisas trocadas] não estão nunca completamente desligadas dos seus agentes de troca. perante uma grande aflição promete-se um grande sacrifício pois. a peregrinação a Fátima situase na categoria internacional.

1 – peregrinação como fenómeno liminóide   De facto. decorre de uma promessa nos termos anteriormente descritos 10 .5 De uma forma simples. Contudo. ainda que os peregrinos que caminham até Fátima se autodefinam como católicos. estando exposta na sua obra Image and Pilgrimage in Christian Culture. como oferecimento a Deus. “não pode haver peregrinação sem a celebração da eucaristia”(1995: 1048). 2003: 120-122) quer no santuário procurando fazer prevalecer o seu discurso na arena de discurso (Eade. em que. tal não significa que as suas crenças e as suas práticas estejam em consonância com aquilo que é defendido pela teologia católica. “a peregrinação não deve representar acréscimo de obrigações (pagar dívidas ou ‘comprar’ facilidades diante de Deus). mas deve ser de tipo festivo”(1995: 1048).     3 – A PEREGRINAÇÃO COMO FENÓMENO LIMINÓIDE E AS PRÁTICAS  INDIVIDUAIS NAS PEREGRINAÇÕES A PÉ A FÁTIMA     3. 2003: 168-171). deve ser uma peregrinação cristã. Pereira. E tanto assim é que são diversas as actuações da igreja para orientar ou converter essas práticas que se afastam do ideal de peregrinação cristã. 1992: 51-52). “vai-se a Maria para chegar melhor e mais facilmente a Deus”(1995: 1046). como refere P. Como se pôde notar ao longo do trabalho. salientando-se as seguintes: “A peregrinação deve orientar para o sentido de corresponder ao oferecimento que Deus nos faz da sua misericórdia e do seu amor”(1995: 1048). a peregrinação deve promover a “participação na vida da igreja. Rosso define algumas orientações para aquilo que se poderia chamar uma pastoral da peregrinação. Estes autores recuperam alguns pressupostos anteriormente defendidos quer por Van O autor católico S. Bastará tão-só recordar que as peregrinações a pé são uma relação que os crentes estabelecem com a Senhora de Fátima e não com Deus. Pereira. na realização de promessas o padre raramente é consultado e mesmo quando é consultado a sua opinião não é muito valorizada pelos promitentes (Sanchis. apesar das dificuldades se pode chegar a um lugar mais sagrado que é o Céu. e que a mesma prática. como privilegiar do despojamento que seria uma aproximação a Deus. a mais relevante teoria sobre as peregrinações deve-se a Edith e Victor Turner. através da formação de guias do Santuário (cf. apresenta esta como uma “imitação da vida”. as peregrinações a pé a Fátima não satisfazem estas importantes directrizes daquilo que. Sanchis. ou como uma penitência (libertação de pecados) 9 . 1991: 2) evidente no Santuário (cf. 10 A Igreja Católica tenta utilizar estratégias que lhe permitam evangelizar as peregrinações quer durante o caminho. a concepção católica da peregrinação a pé. 9 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Contudo. entrando ativamente nas suas preocupações e na sua ação”(1995: 1048-1049). normalmente. pelo menos na actualidade.

realização ritualizada de correspondências entre paradigmas religiosos e experiências humanas partilhadas. ‘communitas’. Petrópolis: Editora Vozes. Assim. emersão da pessoa integral na multiplicidade da persona. os peregrinos vão adquirir uma homogeneidade de status caracterizada de uma forma detalhada pelos autores: “simplicidade de vestes e comportamento. um símbolo da ‘communitas’. fortuita e por vezes ilusória communitas 15 .6 Gennep 11 quer pelo próprio V. Turner. a individualidade posta contra o meio institucionalizado. O objectivo da viagem em grupo decorre do facto de esta se constituir como uma estratégia mais eficaz para que o peregrino alcance o seu objectivo. reflexão sobre o significado dos valores básicos religiosos e culturais. Victor (1974) O Processo Ritual . etc”(1978: 34)”. pois normalmente os futuros peregrinos procuram um grupo para fazer a viagem. Não é muito frequente encontrarem-se peregrinos que fazem toda a peregrinação a pé sozinhos. 13 Designação dos próprios autores. um axis mundi da fé. os dados etnográficos não confirmam que as peregrinações a pé a Fátima possam ser consideradas como um fenómeno liminóide. 1974). mudança de um centro mundano para uma periferia sagrada que de repente se torna transitoriamente central para o indivíduo. para os Turner. Petrópolis: Editora Vozes. emergindo o individualismo de uma forma bem mais efectiva do que a ténue. Gennep. libertando-se das estruturas mundanas. penitências.estrutura e anti-estrutura. a peregrinação 14 é um acto voluntário. indiferenciação. 14 Os Turner salvaguardam a excepção do Islão.   3. Arnold Van (1978 [1908]) Os Ritos de Passagem. anomia (Turner. homogeneidade. o próprio movimento. 11 12 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Turner 12 . todavia a viagem em grupo não decorre de um eventual interesse dos peregrinos em partilhar com outros os valores espirituais da peregrinação.2 – Da ilusória communitas às práticas individuais     Contudo. homogeneidade e camaradagem. a peregrinação apresentase como um fenómeno liminóide. com particular ênfase para o conceito de fenómenos liminares que apresentam uma junção de submissão. que muda com o tempo contra o estático que representa a estrutura. pois apesar de ter características semelhantes aos ritos de iniciação das sociedades tribais 13 . 15 Esta caracteriza-se pela igualdade. Este facto pode transmitir a ilusão da communitas. com a peregrinação a Meca. despojamento. santidade. Deste modo.

ele fazia a peregrinação com uma certa tranquilidade. Mas desde a primeira situação que os conflitos foram ficando latentes. cada um pagava a mesma quantia. Pude ver. Efectivamente esta locução foi-me repetida. até que na última refeição do último dia. por Em grupos coordenados por guias do santuário não é raro existirem conflitos decorrentes do interesse em cada um chegar o mais rapidamente possível ao fim e o interesse do guia do Santuário que é manter grupo todo junto. constituindo um dos primeiros registos no meu diário de campo. e especialmente já mais próximo de Fátima. Encontrei peregrinos que por fragilidades resultantes de esforço tão continuado (dores intensas num tornozelo ou num joelho) foram ficando para trás cada vez mais distantes do seu grupo. 16 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . e vai socializando os peregrinos neófitos como eu. diversas vezes. Ainda no meu grupo pude testemunhar outro exemplo da ilusão da communitas. A partir do momento em que se inicia a peregrinação podem-se construir novas estruturas relacionais que podem decorrer. particularmente no fim da tarde. chegue a Fátima. passaram a ser manifestos e cada peregrino pagou a sua própria refeição. Ela ia ficando parada em diversos postos da Cruz Vermelha. Da desocultação da ilusão da communitas emergem práticas individuais claramente ilustradas na expressão que dá o título a esta comunicação – “cada um anda ao seu ritmo” 16 . que em seguida dividia o total por todos os elementos. como o almoço e particularmente a pernoita. Claro que estas marcas de individualismo concorrem para infirmar a homogeneidade de status defendida pelos Turner. Assim. No meu grupo viajavam um irmão e uma irmã. Ela desde o primeiro dia que apresentava imensas dificuldades. independentemente daquilo que comesse. aumentando de frequência com o passar dos dias de caminhada. desde o primeiro dia. Note-se que depois deste momento a necessidade que cada peregrino tem do grupo é bem menor. cada grupo vai-se desmembrando ao longo do dia. diversos peregrinos a caminharem sozinhos 17 . 17 Deve notar-se que frequentemente os grupos procuram agregar os seus membros para entrarem em conjunto no Santuário. ele ia avançando. sendo quase sempre uma das últimas a chegar ao local de pernoita. sendo quase sempre um dos primeiros a chegar ao local de pernoita. ou seja.7 pague a sua promessa. Desde a primeira refeição que as pessoas que já tinham feito mais vezes a peregrinação sugeriram que as refeições de todo o grupo seriam pagas por uma pessoa. Ainda que existam momentos de agregação dos peregrinos no seu grupo. que rapidamente vão assimilando este ideal.

pode também notar-se a existência de um prolongamento das estruturas sociais anteriores à peregrinação 18 .3 – Da promessa de grande sacrifício e à procura de redução do   De facto. por outro. Por outro lado. se tomarmos como exemplo peregrinos que partem do Porto até Fátima. mas expressando-se de diversas outras formas. por vezes emergem critérios sexuais (pessoas do mesmo sexo partilham o mesmo quarto e a mesma cama). “cada um andar ao seu ritmo”. Porém. na roupa que. Uma boa parte dos peregrinos procura programar com detalhe a viagem. o mais provável é que andem cerca de 200 quilómetros. a promessa que os peregrinos fizeram foi de grande sacrifício e este expressa-se num quadro geral que. por exemplo. conhecem melhor o caminho e podem gerir melhor o esforço acentuado que. na referida locução. vai procurar reduzir o mais possível o potencial sofrimento. desde logo. codifica diferenças de estatuto sócio-económico. sendo um dos exemplos disso mesmo o seguro de vida realizado por um grupo para todos os seus membros (mais de 300 peregrinos). longe de indiciar simplicidade. Cada vez mais os grupos aumentam o seu investimento na logística da viagem. na acomodação dos corpos durante a pernoita onde. divididos em etapas de 40 quilómetros por dia.             sofrimento 3. quase sempre. que aqueles que têm maior capacidade económica possam dormir numa cama mais cómoda ou comer comida de melhor qualidade num restaurante mais tranquilo. normalmente exige uma peregrinação deste tipo. do maior ou menor cansaço. visível. recorrentemente. aqueles que detêm um capital de experiência de peregrinações anteriores.8 exemplo. 18 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Atentem-se. estradas nacionais com muito trânsito e com elevado perigo19 . sendo bastante visível a diferenciação económica que permite. comida de qualidade duvidosa. No entanto. e comam. por um lado. durmam pouco e em más condições. e ao longo de cinco dias percorram. procurando reduzir o potencial sofrimento e a incerteza resultante de uma viagem deste tipo. é interessante notar que cada peregrino. recorrendo aos diversos meios que tem ao seu alcance. 19 Ao contrário das peregrinações cristãs que se caracterizam pela insegurança. Seria desta forma que o equilíbrio simbólico decorrente da promessa seria alcançado. outras vezes critérios de aliança (duas pessoas casadas partilham um só quarto e uma só cama). pelo afastamento de casa e da família. das bolhas que podem surgir nos pés e que condicionam profundamente o andar ou de uma indisposição ou ainda das consequências de uma queda. as peregrinações a pé a Fátima na actualidade tendem a ser cada vez menos incertas e cada vez mais seguras.

ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . pode ir desde o aproveitamento do capital de experiência de peregrinos que já fizeram muitas peregrinações e acolher a inócua sugestão para usar pensos higiénicos de tamanho grande dentro das sapatilhas 22 ou pode-se aproximar de algo que poderíamos chamar doping. No dia seguinte as dores voltaram. calçadas umas por cima das outras. seja em pensões ou em casas particulares. Contudo. Um crente propôs-se acrescentar dureza à já dura viagem de ir a pé a Fátima: prometeu ir descalço. apenas andam com o casaco quando têm frio ou apenas andam com a garrafa de água quando têm sede 20 21 . apenas andam com o guarda-chuva quando chove. mais detalhes em Pereira. pois as temperaturas estão mais amenas. 2003: 134-135. que após se romperem eram sucessivamente substituídas por outras. 23 Um elemento do meu grupo. quer daquilo que está disposto a fazer. 23 ou mesmo injectáveis de substâncias também desconhecidas. De facto. pode valer a pena relatar. três casos concretos em que emergem singulares estratégias individuais de redução do sofrimento. Por fim.9 essencialmente reservar com antecedência o lugar de pernoita. O jovem português que veio de Inglaterra para caminhar a pé até Fátima. desde um vulgar analgésico até pastilhas desconhecidas que ocultam intensas dores durante algumas horas. No entanto. Por exemplo. Contudo. de forma breve. A diversidade das estratégias para reduzir o sofrimento varia em função quer das condições que cada um tem ao dispôr. Por fim. este crente encontrou outras formas de comunicação. e que eram suficientes para cortejar elementos femininos do seu grupo. Alguns peregrinos caminham durante a noite. uma crente 20 21 Cf. num nos dias da peregrinação um massagista de beira de estrada deu-lhe uma pastilha que lhe permitiu caminhar durante todo o resto do dia sem dores. este sofrimento era atenuado pelo facto de ele usar diversos pares de meias. prometeu que faria o percurso sem falar. 22 Esta opção garantiu algum conforto ao próprio investigador. Um dos aspectos mais relevantes na redução do sofrimento é o chamado carro de apoio. diversos peregrinos recorrem a medicamentos para realizar com menos custo a peregrinação. Isto significa que. o carro permite que os peregrinos possam andar apenas com aquilo que precisam em cada momento. que serviam para se fazer entender com os membros do seu grupo e com as outras pessoas com as quais se cruzava. escrita e gestual. procurando assim evitar que o calor se alie à estrada como mais um obstáculo. no fim da peregrinação teve recorrer ao hospital para retirar líquido de um joelho. caminhou parte da viagem com fortes dores num joelho. Sendo normalmente conduzido por um familiar de um dos elementos do grupo. para além de não transportarem o saco com as suas pertenças.

POUPARD. Michael J. John e SALNOW. Michel. 1987. John e SALNOW. (ed. 1991. partia do sítio onde tinha parado anteriormente e percorria mais 20 quilómetros até. Jill. pagar a sua contra-dádiva: chegar a Fátima. nº 33. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS   DUBISCH.). JACKOWSKI. Contesting the Sacred: The Anthropology of Christian Pilgrimage. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . não caminha como penitência para se libertar de pecados cometidos. 1829. 422-429. P. Arnold Van. In a Different Place . “Votum”. Gender.10 prometeu ir a pé de Vila Nova de Gaia até Fátima. pp. and Politics at a Greek Island Shrine.     CONCLUSÃO   O peregrino. Diccionario de las Religiones. Petrópolis: Editora Vozes. 1-29. Michael J. pp. Todavia. Barcelona: Editorial Herder. Princeton: University Press. MESLIN. A. come em grupo. deste modo. MAUSS.Pilgrimage. GENNEP. 1978 [1908]. à frágil e pontual communitas. Em cada Domingo. 1995. dorme em grupo. Marcel. 1988 [1950]. não caminha para Deus. EADE. 1987. “Introduction” EADE. a peregrina fazia cerca de 20 quilómetros. No Domingo seguinte.). Lisboa: Edições 70.. sendo depois transportada de carro pelo marido de volta até casa. Portanto.. sobrepõem-se os interesses do peregrino que parte em grupo. de filiação católica. p. Quando o promitente se metamorfoseia em peregrino transporta consigo não apenas o cansaço mas também o ónus de uma dívida que cada passo irá fazer diminuir. da forma menos penosa possível. “Geography of pilgrimage in Poland” in The National Geographic Journal of India. Os Ritos de Passagem. mas que só anulada no encontro com a Senhora de Fátima. Ensaio sobre a Dádiva. London: Routledge. mas que “anda ao seu ritmo” para. chegar a Fátima. o cumprimento desta promessa foi feito em prestações. (dir.

Pierre. 2003. Vol. SANCHIS. Salvatore (dir. São Paulo: Paulus. Image and Pilgrimage in Christian Culture Anthropological Perspectives. promessas e peregrinações: as promessas de peregrinação a pé a Fátima”. 2003-b. pp. 1031-1052. Victor. Edith. 1978. “Doenças. Pedro. History of Religions. Lisboa: Dom Quixote.). 2003-a. London: Greenwood Press. 1995.as romarias portuguesas. 191-230. 43 (fascs. Victor e TURNER.). Petrópolis: Editora Vozes. Sacred Journeys .The Anthropology of Pilgrimage.estrutura e anti-estrutura. S. 1-28. 12. Porto. Peregrinos – Um estudo antropológico das peregrinações a pé a Fátima. Lisboa: Piaget. pp. TURNER. 1973. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Oxford: Basil Blackwell. Stefano e MEO. DE FIORES. TURNER. Dicionário de Mariologia. pp. 1992. “Introduction: The Territory of the Anthropology of Pilgrimage”. TURNER. 1992-a. Alan (ed. Arraial: Festa de um Povo . “Peregrinações”. O Processo Ritual . PEREIRA. Trabalhos de Antropologia e Etnologia. 3-4). 1974. Alan. MORINIS.11 MORINIS. Victor.. ROSSO. PEREIRA. Pedro. “The center out there: Pilgrim’s goal”.

deficiência. Estamos perante uma moldura de inteligibilidade social que muito deve ao modo como a modernidade reinventou a exclusão das pessoas cegas através do idioma da biomedicina. respostas que vêm corroborando vivamente. Palavras chave: cegueira. Universidade de Coimbra bsenamartins@gmail. a cegueira ficou objectificada como uma exterioridade da norma biomédica: um topos de desvio corporal onde o horizonte de restituição da normalidade está habitualmente ausente. Respostas alojadas numa abordagem reabilitacional.A Cegueira como Transgressão: dos corpos marcados aos corpos que marcam Bruno Sena Martins Faculdade de Economia. corpo. os movimentos normalizantes da medicina não cessaram de informar. Sob o conceito de deficiência. enquanto referente. há anos que venho realizando investigação em Portugal sobre questões relacionadas com o tema da deficiência. Tentando inquirir o lugar díspar que o sofrimento ocupa. numa espécie de fracasso coreografado. constrangendo. Partindo do meu itinerário etnográfico. ostensivamente negligente ao imperativo de transformações sociais mais amplas. experiência incorporada..com Com propósito central de compreender a complexa relação entre as representações culturais da cegueira e as vidas daqueles que a conhecem na carne. desde então. nas histórias de vida das pessoas cegas e nos valores dominantes acerca da cegueira. no achado parentesco com outras condições físicas e mentais. centrada no indivíduo. Não obstante. 1999: 60): “o efeito da medicalização dos problemas sociais é a sua despolitização” (minha tradução). ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . a reflexão de Colin Barnes (et al. importa denotar como as pessoas cegas estão sujeitas a fortíssimas condições de opressão social e estigmatização cultural. Num primeiro momento. deparei-me com dimensões da experiência humana onde a centralidade das emoções. do corpo e da imaginação se foi gradualmente insinuando. as respostas sociais que se vieram a dirigir às pessoas identificadas com a deficiência. pretendo aqui convocar algumas questões teóricas que se erigiram particularmente significativas à medida que fui sendo confrontado com os limites postos às formas convencionais de apreender a experiência nas ciências sociais.

A situação social das pessoas com deficiência. A própria emergência histórica do conceito de deficiência. instiga de sobremaneira a uma “epistemologia das ausências”. Isto é tão mais problemático e perturbante quando sabemos que se conferidas as condições adequadas. inspirados pela agitação social do final da década anterior. No que à deficiência diz respeito. as nossas sociedades estão estruturadas para a integração social daqueles que Erving Goffman chamou de “heróis de adaptação” (Goffman 1990:37). a “experiência de deficiência” que elegi para recolher histórias de vida e para acompanhar vivências quotidianas e associativas. critérios excludentes para a educação superior e para o emprego. ausência. etc. pude partir de uma condição que sintetiza de modo flagrante os valores incapacitantes com que a sociedade hegemonicamente se dirige para a experiência daqueles a que aprendemos a chamar deficientes. produtora de um estreitamento das vozes avalizadas e das práticas sociais pensáveis. Entendo que o elemento mais resistente na marginalização das pessoas com deficiência reside no modo como este processo social de exclusão se articula com o fatalismo dos valores culturais dominantes que encarceram a experiência das pessoas com deficiência nas ideia de tragédia e incapacidade. marcada por exclusões e silenciamentos. 2002). Este mesmo estado de coisas começou a ser denunciado no início dos anos (19)70 quando os movimentos de pessoas com deficiência. O facto é que até este dia as pessoas com deficiência encontram na maioria das sociedades um quadro em que a desigualdade de oportunidades caminha de par em par com forte discriminação institucional e vigorosa estigmatização cultural. apenas uma reduzida percentagem de pessoas com deficiência ficaria impedida de participar na vida económica e social. denunciaram um sistema discriminatório tenazmente vigiado por: valores e atitudes subalternizantes. o sacro caminho para a integração social ― à luz dessoutra abordagem reabilitacional ― ganhou a consistência de uma miragem para a esmagadora maioria das pessoas com deficiência. pois. insuficiência ou inadequação do apoio no sistema regular de educação. barreiras arquitectónicas e comunicacionais. Estamos. surge como óbvio produto de uma moderna “razão metonímica” (Santos. Ao centrar-me na cegueira. Nas representações ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . perante uma “lógica de classificação” que tem operada como fiel pajem de uma “monocultura da naturalização das diferenças” (ibidem). obstáculos no acesso aos transportes.2 Consequentemente.

Mas o que eu pretendo enfatizar é o modo como esta enunciação. largamente reflecte os termos pelos quais esta condição é socialmente entendida: uma desgraça que assola o valor da própria vida. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Como o pude atestar nalgumas experiências de cegueira subitamente infligida. Neste romance. o rapaz que o acompanhou numa viagem a Boston. Podemos evocar. viver num mundo onde se tenha acabado a esperança" (Saramago 1995: 204).3 culturais hegemónicas da cegueira esta condição está fortemente está fortemente cingida pelos conceitos de tragédia. desgraça e incapacidade. minha ênfase). a resposta gritada por Al Pacino pode obviamente expressar o sofrimento e dissolução sentidos por alguém que cegou recentemente num acidente. Significados que estão brilhantemente resumidos na voz de uma das personagens de Saramago: “a cegueira também é isto. Na verdade. Estes mesmos valores estão presentes no “Ensaio sobre a Cegueira”. onde Al Pacino desempenha o papel de Frank Slade. a súbita cegueira de toda uma população emerge como uma riquíssima metáfora para simbolizar a desgraça humana. eu estou na escuridão! (minha tradução. a ignorância e a alienação. Recolho de Michael Oliver (1990) a “narrativa da tragédia pessoal”. grosso modo. O diálogo central do filme ocorre quando Frank Slade é surpreendido preparando o seu suicídio. Construções que. onde as narrativas e reflexões das pessoas cegas se encontram subsumidas pelas construções dominantes. clamando a certa altura: ― Vá para a frente com a sua vida! ― Ao que Frank responde: ― Que vida?! Eu não tenho vida! Eu estou aqui na escuridão! Será que não percebes. É esta mesma substituição que acontece na vida social. Uma tal conceptualização da cegueira está bem presente nos nossos artefactos culturais. numa tão sonante aparição mediática da cegueira. reiteram uma “narrativa da tragédia pessoal” enquanto gramática sócio-cultural na apreensão da experiência da deficiência. procura detê-lo. um militar que ficou na reserva na sequência pelo rebentamento acidental de uma granada que o deixou cego. por exemplo. o filme “Scent of a woman” . no “Ensaio sobre a Cegueira” as experiências das pessoas cegas estão ironicamente ausentes. trocadas que foram pela imensidão de significados e ecos simbólicos que a história ocidental ligou à experiência de quem não vê. conceito central que mobilizo para explorar como as vidas e aspirações das pessoas com deficiência continuamente debatem com préconcepções fatalistas acerca da desgraça e do infortúnio. de José Saramago. Charlie.

a assentar numa oposicionalidade estreita. corre o risco de reproduzir o cânone da razão moderna: o velho espectro da reprodução noutros termos do que se procura superar. A angústia da transgressão corporal refere-se à vulnerabilidade na existência dada por um corpo que nos falha. a angústia da transgressão corporal concita-nos a reconhecer dimensões de dor. e resistência para superar os muitos obstáculos postos à realização pessoal. como mostrámos. os mais relevantes dados sociológicos derivam da identificação de perspectivas positivas e capacitantes sobre a cegueira. sofrimento e ansiedade existencial onde. este texto prenha da preocupação de que a desmobilização da “razão metonímica” (Santos 2002) tenha em conta outras densidades da experiência que poderiam ficar de fora de um pensamento contra-hegemónico. as suas capacidades. eminentemente corporal. experiências de sofrimento. De facto. eminentemente fenomenológicas. nos sofrimentos ontológicos e na imaginação sensorial. as nossas referências no modo de ser/estar-no-mundo. ou seja. leituras positivas da cegueira. quero argumentar um tal enfoque nos poderá levar a desconsiderar outras dimensões da experiência. confronta-nos com preciosas elaborações sócio-políticas capazes de reverter a pesada marginalização de que as pessoas com deficiência vêm sendo alvo. tanto como do reconhecimento dos valores fatalistas que se abatem sobre as pessoas com deficiência. desafiar o modo como a razão metonímica se abateu sobre as pessoas com deficiência é também atentar em “racionalidades” embutidas nos corpos. eu chamo angústia da transgressão corporal. No entanto. desde cedo emergiram evidentes. contra sedimentada negligência. o corpo vivido e as emoções adquirem estatuto nobre ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . potencialidades. que transgride as nossas referências na existência.4 Em cintilante contraste com os valores dominantes. Refiro-me a experiências de sofrimento e privação mais directamente associadas ao facto corporal da cegueira. informada pelas vozes das pessoas com deficiência. Se. a apreensão das vidas e pensares das pessoas com deficiência marcadamente instrui no apagamento dos fatalismos trágicos. na investigação que venho realizando entre as pessoas cegas. Uma perspectiva crítica nas nossas sociedades. que amplamente fracassamos em apreender pelo crivo das construções culturais e das condições de opressão social. Assim entendida. Por isso. não totalmente apreensível na sua relação com elementos sociais. A esta dimensão do sofrimento pessoal. neste texto. que. vontade de viver. como referentes capitais.

sofrem doença e violência. Obrigo-me. Na primeira dimensão que acima enunciei somos convocados a reconhecer as experiências de sofrimento que podem estar fenomenologicamente associadas à cegueira. gradual ou súbita. Esta abordagem distancia-se. Mas esta evasão ao idealismo não de oferece a uma reinstauração da narrativa da ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . De facto. Tal apologia constitui uma sensibilidade analítica recentemente surgida nas ciências sociais. conforme ficou patente em muitas histórias de vida e no encontro com algumas experiências. Em segundo lugar. Os corpos sentem dor.5 nas reflexões antropológicas e sociológicas Na investigação que desenvolvi entre as pessoas cegas a centralidade da angústia da transgressão corporal emergiu de ― e permitiu apreender ― duas densidades fenomenológicas diferentes. onde a noção de tragédia amiúde encontra guarida. minha tradução). prazer. quando ele enuncia: “acreditar que as questões da representação são as únicas legítimas ou cientificamente interessantes é adoptar uma posição de idealismo em relação ao corpo” (1992: 41. pela importância que a visão detém para quem dela pode fazer uso a sua perda ser recebida como uma cataclismo onde o significado da cegueira e o significado da vida não raro dançam juntos. É através dos nossos corpos que ganhamos acesso ao mundo e aos outros. desde logo. como Judith Butler (1993: xi) afirma. nada disto pode ser desmobilizado como mera representação. mas são também condição da nossa existência no mundo e na cultura. a dar eco a Bryan Turner. Procurando seguir estas questões achei-me na esteira apologética da experiência incorporada enquanto relevante dimensão da experiência. Explorar o carácter incorporado da experiência implica respigar as consequências deste singelo facto: os nossos corpos ― pois de um vos escrevo ― não são apenas objectificados com significados culturais. a angústia da transgressão corporal enceta diálogo com as ansiedades existenciais e corporais fundadas no modo como a cegueira é adivinhada na perspectiva de “corpos que vêem”. ou confrontaram. nalgum momento das suas vidas. e. Em primeiro lugar. tradicionalmente pouco à vontade com tais campos da experiência humana. de visão. retornamos à angústia da transgressão corporal. do idealismo passível de ser sugerido por uma abordagem que procura explorar a cegueira e as suas implicações como correlato de condições sócio-históricas. Assim investidos. uma perda. pois. essa sensibilidade analítica recolhe da experiência de pessoas que confrontam.

Verás a cor amarela e sombra e luzes. não há um mundo empobrecido naquilo que nele se pode apreender. numa primeira instância. um lapso que é actualizado quotidianamente na comparação com os outros. sei de milhares de pessoas que vêm e que não são particularmente felizes. Não te preocupes. portanto. Numa curiosa fábula. Um encontro dos diferentes tempos de uma vida em que profecias e memórias se cruzam. Uma inevitabilidade que soube aceitar e que já havia visitado o seu pai e a sua avó: “Pedir que não me anoiteçam os meus olhos seria uma loucura. directa ou indirectamente. não há um constrangimento em relação aos modos de realizar. a experiência de uma ruptura fenomenológica. através de um lento anoitecer de muitos anos. É óbvio que as pessoas que já nasceram cegas têm uma noção do lapso que as separa de quem vê. como acontece com algumas patologias degenerativas. Assim é. a possibilidade de antecipar a cegueira e a mansidão da sua chegada assomam nele como factores que fazem com que um tal evento não se assuma como algo de trágico. É como um lento entardecer de Verão.” (Borges 1998b: 14). os sofrimentos mais directamente associados à dimensão física da cegueira estão ausentes. em muitas histórias de vida com que tomei contacto. Não há. como o autor reitera noutro lugar: ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .6 tragédia pessoal. A cegueira gradual não é coisa trágica. e onde a cegueira é tranquilamente revelada pela voz do ancião: “Quando atingires a minha idade terás perdido quase por completo a vista. Em segundo lugar. Apesar de Borges ter visto durante grande parte da sua vida. longe disso. Evoco aqui a pena de Jorge Luis Borges pelo que a sua experiência tem de congruente com muitas histórias de que me tornei próximo. porque na vida de pessoas que nascerem cegas não existe uma experiência de perda. à cegueira que lhe sobreveio lentamente até lhe roubar a visão aos 55 anos. tomou lugar o diálogo mágico de um Borges septuagenário com o seu jovem predecessor. Jorge Luís Borges evoca o encontro sonhado de si consigo mesmo. Na verdade. O escritor alude em vários momentos da sua obra. e na percepção das facilidades que a visão permite na apreensão de elementos da realidade e na execução de algumas tarefas. justas ou sábias” (Borges 1998a: 394). junto ao rio. nem a submissão a uma imperativa metamorfose no modus vivendi. a experiência de ruptura fenomenológica inexiste igualmente em muitas biografias em que a cegueira surge. nem tão pouco um confronto com as coisas que se tornaram impossíveis de fazer. aí se conta como no banco de um jardim.

Portanto. Na investigação que venho realizando essa ponderação tem permitido apreender e valorizar o modo como os indivíduos suportam. É dramático o caso dos que perdem bruscamente a vista: trata-se de uma fulminação. de um eclipse. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . mas no meu esse lento crepúsculo começou (essa lenta perda de vista) quando comecei a ver. e como bem sugere a reflexão de Borges. O que resulta irónico é perceber como o encontrado alento para viver em novos termos frequentemente se tem de confrontar com os valores fatalistas que visitam a experiência social das pessoas cegas. O que este cuidado analítico de facto nos concede é a densidade de experiências que são a um tempo emocionais. é nessas histórias fortemente marcadas por dolorosos períodos de luto apostos à experiência da cegueira.7 O meu caso não é especialmente dramático. e dada a prevalência dos questionamentos políticos e sociais que o tema da deficiência justamente nos instiga. É fundamentalmente nessas histórias que encontramos fortes experiências de angústia que largamente escapam a uma perspectiva informada pelas condições de opressão social. a assunção de um conjunto de experiências descritas pela ideia de angústia da transgressão corporal pretende conferir espaço de enunciação a determinadas dimensões do sofrimento pessoal dos sujeitos. De facto. nesse sentido. Prolongou-se desde 1899 sem momentos dramáticos. que também nos tornamos familiares com a capacidade dos sujeitos para a reconstrução pessoal: histórias órficas que nos são contadas por pessoas que relatam como morreram e voltaram a nascer. um lento crepúsculo que durou mais de meio século (Borges. Nessa ironia o que assoma como trágico é alguém ter que viver refém de valores que ousou superar. Portanto. a angústia da transgressão corporal emerge essencialmente nas narrativas de perda de visão súbita. sofrem e lidam com experiências de radical ruptura na sua relação sensorial com o mundo. corporais e sociais. estamos longe de sancionar a naturalização hegemónica da incapacidade e do infortúnio. 1998c: 289). rápida ou inesperada. Não sendo possível abraçar generalizações que aplanem o modo particular como os eventos são acolhidos pelos sujeitos. a alusão a cegueiras congénitas ou lentamente adquiridas mais não pretende do que negar uma qualquer omnipresença biográfica da angústia da transgressão corporal nas vidas da cegueira. No entanto. ao explorar a transgressão implicada por um corpo que “falha” e “rouba” referências no modo de ser no mundo.

à sistemática marginalização das vozes das pessoas com deficiência. corporeamente informadas. enquanto evidência sociológica mais cintilante.. mas também às ansiedades existenciais. pretende-se que o reconhecimento das condições de opressão social na vida das pessoas cegas. numa perspectiva diferente. a angústia da transgressão corporal curva-se à centralidade que experiências corporais detêm no significado da existência e na construção dos referentes pelos quais o mundo adquire sentido. que algumas condições tendem a incitar. que a tragédia associada à cegueira trafica com o modo como as pessoas usam os seus corpos para ensaiar a cegueira. Assim a angústia da transgressão acolhe experiências subjectivas de perda e vulnerabilidade corpórea tanto como sustenta que as nossas referências ontológicas são construídas ― e portanto podem ser perdidas ― através dos nossos corpos. nesses casos a mais ilustrativa enunciação ― esmagadoramente veiculada como lugar de um país que se fez distante ― fala da morte que um dia se desejou. jogara algumas vezes consigo mesmo. As conclusões advindas de uma tal relação empática são instrutivamente tocadas por José Saramago (1995:15) referindo-se a uma das personagens do Ensaio Sobre a Cegueira: Como toda a gente provavelmente o fez. Alego. Como conceito mais vasto.8 Nesse sentido. a exploração de determinadas experiências através da angústia da transgressão corporal visa contornar o perigo atrás identificado. (. Mas. Na pesquisa entre as pessoas cegas isto tornou-se sobretudo manifesto nas narrativas de cegueira subitamente infligida. sem dúvida alguma uma terrível desgraça.. pois.) ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . quero enfatizar como a centralidade dada à angústia da transgressão corporal nos permite compreender algo dos valores dominantes associados à cegueira. ganha acrescida saliência à luz de itinerários marcados por experiências limite. ao jogo do E se eu fosse cego. É nessa persuasão que defendo que os valores hegemónicos associados à cegueira devem aos valores culturais e legados históricos. na adolescência. o mesmo é dizer. experiências de perda de referentes fenomenológicos onde se torna dramaticamente expresso como a existência carece das fundações dadas pelos corpos. não retire espaço de enunciação às experiências subjectivas de sofrimento corporal. Este poderoso postulado. e chegara à conclusão. que vale para mais triviais experiências. ao cabo de cinco minutos com os olhos fechados. de que a cegueira.

que trouxe para a Antropologia a herança fenomenológica de Maurice Merleau-Ponrty. à medida que fui contactando mais e mais com pessoas cegas e com as suas experiências de vida. Tento. e como George Lakoff e Mark Johnson (1999). e sensação de alívio: sonhei que tinha ficado cego. por via de projecções imaginativas em que o próprio corpo é feito um “tubo de ensaio” da cegueira. e que damos carne aos conceitos através de metáforas e da imaginação. durante a primeira noite. despertei de madrugada perturbado por um terrível pesadelo. não deixa de ser ilustrativa da minha iniciática resposta ansiosa perante o espectro da cegueira. apesar de singela. que labora para que as concepções hegemónicas da cegueira sejam. manifesta naquele sonho. e é a nossa imaginação. gradualmente passei por um apagamento dessa pré-concepção. nós nunca estamos separados ou divorciados da realidade numa primeira instância. a relevância dada à experiência incorporada e ao conhecimento incorporado. do quão terrível a ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . assim cabe referir autores como Thomas Csordas (1990. não a sua recusa (Lakoff e Mark Johnson 1999: 93. tem recebido acrescida importância. 1994). Eu estava num campo de férias a trabalhar como voluntário junto da Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal (ACAPO) quando. de que pensamos embutidos na carne. O que sempre permitiu a ciência é a nossa a incorporação e não a sua transcendência. De mencionar trabalhos recentes em que estas abordagens têm conhecido solidificação teórica. conceder relevância a esse experimentalismo sensorial que a cegueira evoca nos corpos cuja construção do mundo ─ cosmovisão ou mundividência ─ é eminentemente visual. Esta experiência. Apesar de uma funda negligência histórica nas ciências sociais. Acordei como uma intensa sensação de angústia. minha tradução). A asserção. pois. como via para as relações empáticas com outros corpos Quando principiei o trabalho de campo entre as pessoas cegas tomou lugar um interessante evento. conduznos precisamente ao reconhecimento das projecções imaginativas corpóreas como uma via para a produção de sentido acerca de outras posições estruturais. nalguma medida.9 É esta forma de “ser no outro”. que resgatam a importância do corpo e das emoções para o campo das ciências cognitivas: Como criaturas imaginativas incorpóreas. o produto das ansiedades com que ela é empaticamente percebida. isto é. Desde então. sabiamente sustentada pelos autores.

Como consequência. De igual modo. Não há nada de místico nela. Não obstante. é uma capacidade eminentemente corporal. apesar do centrismo visual em que vivemos ter um fortíssimo viés sóciohistórico. no sentido inverso. Através dela podemos experienciar algo próximo a “sair dos nossos corpos” ─ no entanto. na construção do mundo envolvente. vim gradualmente a compreender a importância crucial ocupada pelas ansiedades pessoais na consagração da teoria da tragédia pessoal como a narrativa cultural dominante acerca da cegueira. Alegar a relevância da angústia da transgressão corporal é sustentar as possibilidades criativas para o significado que resultam da imaginação empática de uma dissolução sensorial e fenomenológica. a angústia da transgressão corporal não é apenas algo vivenciado por alguém que fica cego. essa transgressão é também conhecida por projecções corpóreas empáticas através das quais a cegueira é “trazida para casa”.10 cegueira deveria ser. para intensamente imaginarmos ser outra pessoa.. a projecção imaginária da cegueira através de um corpo que “vive visualmente” vai forjar algo das ideias de prisão sensorial e incapacidade. ao falar com pessoas sobre o tema da minha pesquisa frequentemente a cegueira suscitava reflexões em termos que reiteradamente expressavam relacionamentos pessoais com o espectro dessa ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . De facto. De facto. Defendo que a relevância que a angústia da transgressão corporal assume nas representações da cegueira não é separável da sua congruência com um contexto onde as heranças simbólicas não poderiam ser menos favoráveis e onde as vozes das pessoas com deficiência se encontram silenciadas. como nos dizem Lakoff e Johnson. uma forma de estar no outro (1999: 565. Ainda assim esta mais comum das experiências é uma forma de transcendência. fazendo o que essa pessoa faz. experienciando o que essa pessoa experiencia. ênfase no original). nós usamos constantemente as projecções imaginativas para aceder às experiências do outro: Uma função central da mente incorporada é a empática.. minha tradução. Deste modo. O papel desempenhado pelas imaginações ansiosas da cegueira foi-se insinuando ao longo do trabalho empírico: nas histórias que me foram sendo contadas pelas pessoas cegas e na observação das interacções sociais. A capacidade para a projecção imaginativa é uma faculdade cognitiva vital. Desde o nascimento nós temos a capacidade para imitar os outros. a visão tende a ser um sentido crucial para quem dele pode fazer uso: na realização de actividades. Vivencialmente é uma forma de “transcendência”.

mas fracassa em perceber como a vida de alguém se pode vagarosamente reconstruir em novos termos sem a visão. KLEINMAN. BUTLER. CSORDAS. Jorge Luís. “Pain and Resistance: the Delegitimation and Relegitimation of Local Worlds” in Mary-Jo Good. elas também são mobilizadas como via de acesso à realidade das pessoas com deficiência visual. Cambridge. “Embodiment as a Paradigm for Anthropology”. Colin. fracassa em conceber o mundo sem perda de alguém que nasceu cego.). Byron Good e Arthur Kleinman (orgs. A ruptura existencial que esta empatia sugere e exporta para os significados sociais toma parte na re-produção das representações culturais prevalecentes. fracassa em apreender a adaptação permitida por uma cegueira que caminha gradualmente ao longo dos anos. III.11 condição. e. BORGES.Obras Completas de Jorge Luis Borges 19751985 vol. Stigma: Notes on the Management of Spoiled Identity. etc. Penguim Books. pois. Embodiment and Experience: The Existential Ground of Culture and Self. Berkeley. Ethos. Lisboa. Estas imaginações projectivas não apenas produzem ansiedades pessoais acerca da cegueira. 1999. O Elogio da Sombra . Routledge. Thomas (org. 1998a. Judith. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . 18 (1): 5-47. University of California Press.Obras Completas de Jorge Luis Borges 1952-1972 vol II. uma identificação empática parcial e errónea. Arthur. 1994. Teorema. Jorge Luís. CSORDAS. 1993. Cambridge. III. BORGES. 1998c. Geof e Shakespeare. O Livro da Areia . Erving. Nova Iorque. Lisboa. BORGES. Paul Brodwin. 1998b. 1990. Teorema. não sendo raras frases como: “não sei conseguem”. Londres. 1990 (1963).Cambridge. Sete Noites . Exploring Disability: a Sociological Introduction. 1992. Jorge Luís. finalmente. University Press.Obras Completas de Jorge Luis Borges 1975-1985 vol. Teorema. Bodies That Matter: On the Discursive Limits of Sex. e Mercer. Lisboa. A questão é que uma tal imaginação permite captar algo do eventual impacto de uma súbita perda de visão.). Thomas. em termos bem distantes das complexas experiências que as pessoas cegas vivem Referências Bibliográficas BARNES. Pain as Human Experience: An Anthropological Perspective. GOFFMAN. Polity Press. O que se produz é. “acho que preferia matarme”. Tom.

SARAMAGO. The Politics of Disablement. “Para uma Sociologia das Ausências e uma Sociologia das Emergências”. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . TURNER. Boaventura de Sousa. 2002. Lisboa. Houndmills. Michael. 1995. Basic Books. Regulating Bodies: Essays in Medical Sociology. Londres. The Macmillan Press. 63: 237-280. José. George e Johnson. 1992. SANTOS. Routledge. 1990. OLIVER. Círculo de Leitores.12 LAKOFF. Philosophy in the Flesh: The Embodied Mind and its Challenge to Western Tthought. Revista Crítica de Ciências Sociais. Ensaio Sobre a Cegueira. Nova Iorque. Mark. 1999. Bryan.

amor e interesse entre gringos e garotas em Natal (Brasil) Fernando Bessa Ribeiro e Octávio Sacramento Departamento de Economia e Sociologia Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro fbessa@utad. por outro lado. por outro. afectos.A ilusão da conquista: Sexo. conduziram à incorporação sucessiva de novos destinos na geografia mundial das rotas turísticas. o próprio desenvolvimento do capitalismo na procura e invenção de novos mercados e produtos (Ribeiro e Portela 2002). Debié 1995.pt riosacra@portugalmail. em boa medida impulsionado pela redução dos custos das viagens de avião intercontinentais proporcionada pelos avanços tecnológicos e organizativos no sector dos transportes aéreos (Urry 1990: 44-50). Turistas e locais participam em complexos jogos de poder. Tal interpela as imagens “a preto e branco”. Nesta vasta região. sem capacidade de autodeterminação sobre o seu corpo e a sua sexualidade. D’Epinay 1991) – mais tardia no caso português (Arroteia 1994) – e. procura-se mostrar a densa teia de racionalidades que estruturam as práticas destes actores sociais. o Estado do Rio Grande do Norte ocupa uma posição consolidada como ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Introdução A expansão do turismo de massas.pt Este texto analisa as interacções entre os turistas europeus e as garotas de programa na cidade de Natal (Brasil). Palavras-chave: género. implicando a manipulação de recursos. com destaque para o dinheiro. nas quais o turista é sistematicamente apresentado como o predador que apenas procura satisfação sexual e. interesse. com a consolidação do Estado-Providência (Santos 1993) nos países europeus centrais (Boissevain 1996. sexualidade. turismo 0. muito intensa a partir dos anos 60. a performance sexual e as emoções. Um dos mais recentes é o do Nordeste brasileiro. o corpo. a mulher jovem local vista como vítima. Tentando escapar aos discursos vulgares.

a procura de sexo por parte dos turistas. não escapa a esta mercantilização.000 (24. muito em particular no sudeste asiático (Cohen 1982. Tal é particularmente evidente nos turistas jovens do sexo masculino que afluem ao Nordeste brasileiro. fazendo com que entre os turistas se assista a uma presença crescente daqueles que escapam ao padrão dito tradicional. cabendo aqui um especial realce para a sua capital.2 um dos principais destinos turísticos. Truong 1989. cujas deslocações são. impulsionado pelas entidades públicas ligadas à promoção turística no Brasil. Considerando que na economia do turismo as commodities não possuem apenas valor de uso e de troca mas também um “valor-signo”. contribuindo assim para que o número total de turistas atingisse os 1. em particular. mamã e filhos”. Saraceno e Naldini 2003) têm vindo a repercutir-se significativamente na configuração da procura turística. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . que parece constituir uma motivação presente em numerosos europeus que visitam o nordeste brasileiro (Piscitelli 2004) e. 1993. 92. Com um crescimento verdadeiramente impressionante nos últimos cinco anos. 1 Deste vasto fluxo turístico passaram a fazer parte indivíduos de classes e grupos sociais até então apenas marginalmente envolvidos. como os jovens e adultos pertencentes aos meios populares. a cidade de Natal. Leheny necessariamente de modo intencional. Hitchcock et al. Não sendo um fenómeno desconhecido noutras paragens.84% superior a 2002). com um aumento vertiginoso dos provenientes do estrangeiro (282. de origem operária ou trabalhando em actividades mal remuneradas do comércio e dos serviços.000. através da publicitação da 1 Dados disponibilizados pela Secretaria de Turismo do Estado do Rio Grande do Norte. Natal é a cidade com maior número de visitantes estrangeiros no Nordeste brasileiro. as profundas alterações sociológicas no domínio da família experimentadas pelas sociedades europeias nas últimas décadas (Berry-Brazelton 1989. muitos deles solteiros ou transitoriamente sem parceira/o sexual. motivadas por um conjunto de representações e expectativas ancoradas em imagens de erotismo e de acesso fácil à fruição sexual. depois de Fortaleza e de Salvador. pelo menos desde os anos 60. Singly 1993. assente no “papá. relacionado com a quantidade e a qualidade da experiência que oferecem. publicidade e consumismo que caracterizam as sociedades modernas (Baudrillard 1981). amiúde.2% superior a 2002). Por outro lado. Por outras palavras. os voos charters internacionais passaram de cinco em 2002 para 17 por semana em 2004.700. De facto. elas são fortemente determinadas pelas imagens.

é nosso objectivo central interpretar a densa teia de motivações. Entre os turistas e as mulheres locais estabelece-se um intrincado jogo de relações sociais em torno da sexualidade. é um termo que no Brasil se aplica a qualquer estrangeiro. a compreensão cabal desta teia densa de relações sociais exige que se tomem em consideração outros aspectos. a performance sexual e as emoções. Neste exercício é fundamental assumir-se que a sexualidade humana. enunciados nomeadamente pelos media e pelo senso comum. que marcam os intercâmbios entre o Norte e o Sul –. à procriação. Torna-se. conhecidos localmente como gringos. racionalidades e interacções que envolvem estes actores sociais. pertinente trabalhar sobre este interpelador campo social. procuraremos reflectir sobre as relações sociais que os turistas. o corpo. não tendo necessariamente uma conotação pejorativa. Partindo de perspectivas sócioantropológicas e explorando os elementos etnográficos que recolhemos durante o trabalho de campo realizado no Verão de 2005 na cidade de Natal. A designação garotas de programa. nas quais o turista é sistematicamente apresentado como o predador que Gringo. em determinados momentos. turistas e locais envolvem-se em complexos jogos de poder.3 imagem da mulata com bunda generosa. suscitando a atenção dos media e das forças políticas do Estado. incluindo aquelas que se fundam no género. incluindo os que se prendem com o sexo mercantil e o turismo. portanto. que nos ajudam a desconstruir as imagens monolíticas. 2 Tentando escapar aos discursos vulgares. implicando a manipulação de recursos. Se é certo que não deixa de estar marcada pelas relações de poder entre os de fora e os locais – que nos remete para a problemática das desigualdades. com destaque para o dinheiro. Longe de existir apenas um único modo de a fruir. é usada nos discursos sociais para fazer referência a mulheres que se prostituem ou que são tidas como sexualmente promíscuas (Gaspar 1985). como notam Silva e Blanchette (2005). quer do ponto de vista económico quer do ponto de vista do imaginário colectivo e das representações dos actores sociais locais e dos turistas que visitam a cidade. estabelecem com as garotas de programa. por sua vez. Em concreto. 2 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . encontramos formas muito diversas de relacionamento sexual que se concretizam em diferentes contextos sociais. Hoje em dia trata-se de uma realidade social incontornável e de grande impacto em Natal. se orienta para a procura doutras satisfações. apesar de estar associada. do género e das emoções que exige uma reflexão sociológica densa e um conhecimento empírico aprofundado.

Os prédios altos. restaurantes e bares. Mas não só. esta articulação entre turistas e sexo mercantil compreende outros aspectos. nas esplanadas. a praia é dominada pelo “morro do careca”. no calçadão. como o tipo de envolvimento emocional e a questão do poder no contexto das relações de género. Embora muito diferente em termos paisagísticos e a uma escala mais reduzida. Trata-se da discussão sobre os limites do direito de cada um dispor do seu próprio corpo. desprovida de self-ownership sobre o seu corpo e a sua sexualidade. incluindo o da utilização para satisfação do prazer físico e emocional de outros. pizzerias e outros negócios ligados ao turismo. homens. realizando obras de ampliação e de melhoramento das habitações. por outro lado. pousadas. 2000a e 2000b). a vila está hoje mergulhada num acelerado processo de gentrificação. melhor dito. 4 Por detrás da praia localiza-se a pequena vila de Ponta Negra. oferecendo esteiras. guarda-sóis e serviço de bar. 4 Ao longo dos cerca de dois quilómetros da estreita língua de areia que dá corpo à praia erguem-se hotéis. os prédios que ficam na encosta da praia fazem lembrar alguns dos piores exercícios Em termos filosóficos. que dão um ar americanizado à cidade. cultivando as suas terras férteis. em troca de remuneração mercantil. amplamente discutido pelos filósofos libertários (Van Parijs 1997. a sexualidade e o dinheiro aparecem como elementos estruturantes. com uma faixa de areia interrompendo a vegetação. Durante séculos os seus habitantes viveram praticamente de costas voltadas para a praia. situada no extremo sudoeste da cidade.4 apenas procura satisfação sexual e. A presença italiana faz-se notar através dos inúmeros anúncios escritos na língua de Leonardo da Vinci. Vallentyne e Steiner. nos bares e nas discotecas que gringos e garotas constroem relações sociais nas quais o corpo. 3 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Em plena praia posicionam-se pequenos espaços de apoio aos veraneantes. É aqui. aparthotéis. Constituindo hoje um espaço-chave na “cidade do prazer” (Lopes Júnior 2000). situam-se precisamente por detrás da primeira linha de praia. turismo sexual e sexo mercantil interpelam o princípio do chamado selfownership. a mulher jovem local vista como vítima. Com o turismo e a expansão da cidade. uma encosta belíssima debruçada sobre o mar. Um lugar dionisíaco e economicamente dinâmico: a praia de Ponta Negra Um dos principais cenários turísticos de Natal e com maior presença de garotas de programa é a praia de Ponta Negra. nomeadamente identificando ristorantes. com numerosas residências e propriedades adquiridas quer por europeus quer por natalenses que aí decidiram fixar residência. mulheres ou transgéneros. 3 1.

quinquilharia. entre outros exemplos. É assim que temos. ao ponto de os habitantes locais até já a terem (re)baptizado com o nome de Puta Negra. como o transporte de passageiros em táxis. sente-se o carácter predador do turismo. primeiro Pirangi e Cotovelo. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Muitos destes “alternativos” falam hoje com saudade deste tempo em que a praia não estava bordejada pela urbanização avassaladora. CD e DVD. ao início da noite. 5 Esta praia. fastfood). que liga a zona de Ponta Negra ao velho forte construído pelos portugueses no século XVI. muitos deles politicamente engajados nas lutas estudantis contra a ditadura militar. Nesta praia tudo parece girar em torno do sexo mercantil. o desenvolvimento do turismo. A expansão da cidade e. um deles afirmou que “onde a civilização chega acaba com tudo”. sempre repletas de trabalhadoras sexuais. actualmente a praia mais cosmopolita do Rio Grande do Norte. pelas trocas sexuais de carácter mercantil. mais tarde Pipa. onde se acampava e se faziam fogueiras. directa ou indirectamente. numa zona de paisagem protegida. os taxistas a colaborar com as garotas. em especial. presença obrigatória em todos os catálogos e brochuras de promoção turística editados pelo governo estadual e pelo município local. construída nos anos 90 do século passado. encarregando-se também do seu transporte aos motéis e 5 Avançando pela estrada marginal. vivem das dinâmicas económicas geradas.5 urbanísticos do Algarve e da costa andaluza espanhola. as lojas de artesanato. distante da cidade e com acesso precário. 6 Numa notícia saída no jornal “Tribuna do Norte”. os estupefacientes. roupa. com a ocupação de um litoral dunar muito sensível por um sem fim de hotéis e empreendimentos turísticos literalmente em cima do mar. o comércio e serviços prestados pelas barracas do areal. Ponta Negra era qualificada como uma “praia de apelos sexuais” (Francisco 2004). as condições suficientes para experiências sociais mal toleradas pela ordem político-moral dominante. fruta. Relevando o seu sentimento de perda. os próprios agentes policiais. da praia como um lugar idílico. os bares e as discotecas da avenida marginal. que encontravam neste espaço paradisíaco. era nos anos 60 e 70 do século passado um point de “alternativos”: jovens das classes mais privilegiadas de Natal. Todos os actores sociais envolvidos parecem saber com precisão o lugar ocupado nesta divisão social do trabalho do prazer. a venda ambulante dos mais variados produtos (tabaco. 6 Quer dizer. nesta economia do prazer todas as demais actividades. De forma recorrente cooperam entre si para dinamizar os consumos por parte dos turistas. transportando-as de suas casas para a praia. incluindo aquelas ligadas ao sexo e ao consumo de estupefacientes. empurrou os alternativos para praias mais distantes.

como por exemplo o comerciante da barraca e algum dos seus empregados. com base na aplicação de um auto-rádio alimentado por uma pequena bateria e dois altifalantes de qualidade modesta parecendo quase sempre ligados na sua máxima potência.6 hotéis para as “transacções” com os turistas. amêndoa de caju. esta situação revela o papel social decisivo desempenhado actualmente pelas actividades informais no Brasil. camarão. Nada falta para o conforto de um tempo bem passado.8 Durante o dia. geralmente marcada por actividade sexual intensa e pelo consumo em grande quantidade de bebidas alcoólicas. os comerciantes informais podem conseguir por mês rendimentos entre dois a três salários mínimos (cerca de 750 a 1000 reais). mormente para Recife. O uso social da praia varia consideravelmente do dia para a noite. muitos turistas aproveitam para recuperar da noite agitada. única forma de garantir a sobrevivência e o acesso ao consumo mercantil. Foi uma invenção dos mercadores sertanejos que viajavam desde o sertão nordestino para as cidades do litoral. para aí venderem e comprarem mercadorias. 8 Não sendo relevante para a presente discussão. durante o período diurno a praia é frequentada não só pelos turistas em busca de sexo mas também por outros tipos. as políticas neoliberais empurraram milhões de brasileiros para o campo da economia informal. ora aproveitando para estabelecer novos contactos. gelados. como as bebidas. crepes. não deixando. CD e DVD. Os barraqueiros alugam cadeiras e toldos. Além dos taxistas. Durante estas longas e fatigantes viagens tinham na “carne-sol” moída no pilão e misturada com farinha o seu principal alimento. todavia. Relevando o engenho dos seus proprietários e um certo sentido de negócio. Marcada pela auto-exclusão quase geral dos natalenses das classes sociais mais privilegiadas. servem bebidas e refeições. na escolha da parceira. vendendo de tudo um pouco: roupa. alguns com belas pinturas. num vai-e-vem aparentemente ininterrupto. frutas. de conviver com as garotas de programa. Os produtos mais pesados. cremes solares. Ainda que muito variável. bebidas. os carrinhos de venda de CD e DVD fazem-se anunciar através de equipamento sonoro simples. nomeadamente o “familiar” e o de proveniência interna. a mediação entre as garotas e os turistas pode envolver vários outros intervenientes. ora continuando a relação social já estabelecida. por vezes. aconselhando-os mesmo. Ao mesmo tempo disponibilizam a estes contactos de garotas anotados nos seus books – agendas ou pequenos cadernos de registo de contactos telefónicos –. 7 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Estes são realizados quase sempre por iniciativa das jovens Um dos pratos mais populares é a paçoca: carne seca moída acompanhada de molho vinagrete e feijão. Incapazes de gerar emprego formal. 7 os vendedores ambulantes percorrem a praia sem cessar. são transportados em carrinhos de mão apresentados de uma forma impecável.

Pernambuco – os mais próximos –. Daí segue-se para as barracas em frente das discotecas acima referidas. Maranhão. outros transportados por táxis que estacionam na avenida. como Paraíba. Turistas e garotas vão chegando. montadas ao início da noite em pleno passeio mesmo em frente das duas discotecas da praia. Se bem que exerçam um papel dissuasor da criminalidade. uns a pé. a exposição para o turista e a interpelação que se segue é feita de forma mais ou menos subtil: através da postura corporal.7 nativas. não deixam de ir retirando alguns benefícios desta economia do prazer. ou talvez para um destino mais afastado. a diversão continua sobretudo na discoteca da avenida da praia de serviço nessa noite. Pertencendo ao mesmo proprietário. Como nota Piscitelli (2006). Segundo o respectivo proprietário. do olhar. como um dos nossos informantes relevou. Diga-se. estas “[…] aproximações adquirem características de uma paquera […] remetendo a padrões tradicionais de cortejo”. Para além destes actores sociais. ao mesmo tempo que tentam obter das garotas de programa alguns serviços sexuais gratuitos. que “é raro pegar na discoteca alguma mulher que não seja de programa”. Depois de mais algumas cervejas. como é o caso dos visitantes cujos hotéis se localizam na própria avenida da praia ou nas artérias adjacentes. A noite começa invariavelmente por algum bar ou restaurante. preparados para as corridas em direcção aos motéis ou aos hotéis onde eles se alojam. o areal esvazia-se em favor do calçadão e dos estabelecimentos de restauração e de diversão alinhados ao longo da avenida que bordeja a praia. estas discotecas funcionam em regime alternado. quer em posição fixa. Aos restaurantes e bares fixos juntam-se cerca de meia dúzia de barracas móveis. extorquindo aos turistas que se deslocam em carros alugados pequenas quantias monetárias em troca do perdão de multas relativas a infracções reais ou imaginárias por eles cometidas. Ceará. aliás. quer circulando em viatura automóvel. algumas provenientes de outros Estados brasileiros. para onde converge a grande maioria das garotas de programa e dos turistas de Ponta Negra. do sorriso. caipirinhas ou outras bebidas alcoólicas. nomeadamente para a avenida que faz a ligação da praia ao centro da cidade. Pará e Amazonas – os mais distantes. Por norma. Assim que a noite se impõe. não raro com música ao vivo. em cada noite podem ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . marcam também presença agentes da Polícia Militar. de nacionalidade italiana. em virtude do movimento não justificar outra solução. onde também existe animação nocturna. da solicitação de um cigarro.

preferências sexuais e recursos financeiros a mobilizar por parte do turista. referindo-se aos turistas ingleses que procuram sexo comercial na Tailândia. com destaque para esta. dos diversos segmentos das classes médias urbanas (empregados do comércio e dos serviços. há uma certa preponderância dos indivíduos das classes populares (trabalhadores fabris) e. profissões. os actores envolvidos dão-se a conhecer. São. Não há. Temos assim o predomínio de turistas de nacionalidade espanhola e italiana. motivações. portanto. nomeadamente em termos de duração do possível relacionamento. perfis de masculinidade e estrato social. quando se diz que os turistas que vêm à procura de sexo são indivíduos sexualmente perturbados. Tratam-se de interacções definidas por um jogo de sedução no qual o discurso. É neste espaço que as interacções entre turistas e garotas atingem um nível elevado de erotismo e sedução. Buscando aventura. idades. Podendo prolongar-se por várias horas. entre outros aspectos. um turista típico no quadro do chamado turismo sexual. sobretudo. 2. sexo e romance: os gringos Os turistas que frequentam a praia de Ponta Negra à procura de aventuras sexuais evidenciam uma considerável diversidade no que diz respeito aos seus países de origem. adverte que não existe nada de verdadeiramente particular ou distintivo nos seus comportamentos. 9 O seu comportamento deverá ser interpretado sobretudo por referência a condicionalismos de ordem sociológica. normalmente viajando em grupo (3 a 6 elementos). de que resulta a combinação de numerosos consumos sexuais de carácter mercantil. os gestos e o uso do corpo desempenham funções importantes. como por vezes se sugere. Embora seja inadequado falar-se de um perfil-tipo de turista sexual. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . homens insatisfeitos com as relações de género nos seus contextos de origem. de um modo geral.8 passar por lá cerca de 300 mulheres à procura de programas com gringos. Ainda que se encontrem as mais diversas posições de classe. aferindo as expectativas de ambos. existem determinados elementos caracterizadores que sobressaem. quase sempre motivados pelas representações sociais dominantes sobre a sexualidade da “mulher 9 O’Connell-Davidson (1995: 53). profissionais técnicos). desejos e sexualidade. na sua maioria jovens adultos (entre os 30 e os 40 anos). funcionários públicos.

também constatada por Piscitelli (2006) entre os turistas que visitam Fortaleza. relacionado com as expectativas de revivalismo de experiências de homossociabilidade da juventude. a procura de recriação dos laços e das vivências masculinas que antecedem a rotina e as responsabilidades da vida adulta (Kruhse-Mountburton 1995). especialmente válido para os turistas mais velhos. ou seja. mais snobes”.9 brasileira”. Como dizia um italiano. sublinhando. eventualmente. por razões que certamente se prendem com aspectos relacionados com a afinidade cultural e. “a brasileira é boa para transar. Em contraponto. técnico administrativo no porto de Nápoles. que elas ligam muito à aparência e à capacidade económica do homem. solteiro. no sentido de estarem disponíveis para um relacionamento menos atado à fase do enamoramento em favor de uma interacção sexual mais imediata e intensa. Considerando que não dão tanto valor à aparência do homem como na Europa. em boa medida amplificadas pelos discursos mediáticos de impacto global e pelas narrativas dos amigos e conhecidos que se envolveram em experiências sexuais com brasileiras em viagens turísticas ao Brasil. Deste modo. o turismo parece ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . mais conservadoras. mais altivas. com 31 anos. para os grupos de gringos que visitam Ponta Negra. como veremos. a italiana é boa para casar”. são muitos os que admitem preferir casar com uma mulher do seu país em detrimento de uma brasileira. com os estereótipos da mulher brasileira como sexualmente libertina e promíscua. dizem que as europeias são “mais frias. que a dimensão afectiva não esteja presente. destacam também que as garotas de programa têm um grande interesse pelo dinheiro. num registo de certo modo paradoxal. de status ou de apresentação do eu. A estes dois elementos junta-se um terceiro. seja por motivos económicos. Alguns deles. ainda que daqui não se possa afirmar. sobretudo os italianos. e o relativo constrangimento em conviver com uma feminilidade ocidental que continua a colocar algumas limitações às preferências e valores predominantes da masculinidade são dois elementos centrais a considerar para compreender o fenómeno do turismo sexual (O’Connell-Davidson 1995: 52). classificam-nas como “mais simples”. Os turistas com quem falámos tendem a estabelecer uma diferenciação bastante vincada entre as mulheres brasileiras e as europeias. Apesar desta avaliação desfavorável à mulher europeia. Referem-se às brasileiras como mulheres sexualmente “mais quentes e mais afectuosas”. A maior dificuldade de acesso às mulheres que os turistas gostariam de conquistar nos seus contextos de origem.

imaginação e aventura”. ao dever e à obrigação […] e também a liberdade para a fantasia. na sua vida quotidiana. como destaca Kruhse-MountBurton (1995: 197). sentir de novo o poder e o orgulho viril que a vida quotidiana. assim. amor. aventura e fantasia. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . é incapaz de manifestar qualquer tipo de autoridade efectiva”. de ruptura face às restrições sociais da vida quotidiana (O’Grady 1981) e de (re)constituição de um espírito de communitas masculina (Turner 1974). em virtude da distância que os separa dos seus contextos de origem. ou seja. Neste contexto de excessos tem lugar um estreitamento dos laços homossociais entre os membros do grupo. uma expressão extrema da ruptura com a previsibilidade e os constrangimentos quotidianos que o turismo de massas ambiciona (MacCannell 1976. É precisamente num ambiente de anonimato. o que nos permite incluí-los no tipo “hedonístico”. a deslocação temporária do turista da sua vida quotidiana. Com efeito. eventualmente. de um modo geral. pela festa e transgressão (Bataille 1962) e pelos excessos dionisíacos (Benedict 1950). proposto por Cohen (1979) para designar os turistas que procuram. a diversão e o prazer como forma de ruptura com o quotidiano laboral.10 assumir-se como uma experiência de liminaridade. O turismo sexual constitui. não raro. parecem não manifestar qualquer tipo de preocupação ou constrangimento pelo facto de serem vistos na companhia de garotas de programa. essencialmente. os turistas que visitam Ponta Negra. sexo e romance se encontram tão interligados”. Santana 1997. Como nota Franklin (2003: 255). assim. que os turistas de Ponta Negra enveredam por um estilo de vida dionisíaco. “a liminalidade. atenuou. “viajar proporciona anonimato e evasão face ao controlo. de estupefacientes. caracterizado pela liberdade face às normas sociais quotidianas – situação social anti-estrutural –. A sua estadia em Ponta Negra é marcada pelas constantes saídas em grupo para os bares e discotecas à procura das mulheres locais e pelo consumo desregrado de álcool e. Jafari 1987. perante os quais se procura (re)afirmar os atributos de masculinidade (muito em particular os que dizem respeito à capacidade de conquista sexual) e. explica porque é que turismo. “o turismo sexual tem subjacente um potencial de rejuvenescimento […] o sentimento pessoal de conquista e poder que proporciona pode constituir uma compensação para um indivíduo que. decorrente de uma experiência de transição espacial e social. Delgado 2004). No entender de Bauer e McKercher (2003: xiv). Desta forma.

para as garotas de programa como simples objectos de satisfação sexual. assim. parecem não nutrir grande simpatia pelo brasileiro. em muitos casos. São.11 As conquistas sexuais que os turistas tanto procuram exercitar. mediáticos e do senso comum que. de acordo com os interesses económicos daquelas. pelo contrário. no essencial. da sua competência de sedução. associando-lhe uma imagem de pé rapado (sem capacidade económica) e de machista. como veremos. envolvimento e conforto emocional. assumindo-se. procurando. concretizar as suas fantasias sexuais e afirmar a sua virilidade. Os turistas não olham todos. De igual modo. consequentemente como uma manifestação “subordinada” de masculinidade (Connell 1995). um derivado da ilusão que as garotas de programa criam como estratégia comercial subjacente à sua actividade. como também com vários outros aspectos que remetem para o domínio da afectividade. não resultam. É precisamente tendo em conta este tipo de interesses que elas parecem não denotar grande preferência pelos portugueses. são eles próprios alvo de manipulação. Dizem que os portugueses são “cafussú (querem comer [ter relações sexuais] de graça). ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Impõe-se. nem tampouco exclusivamente. na maior parte dos casos. questionar alguns discursos teóricos. Amiúde. tendem a referir-se ao fenómeno do turismo sexual como um contexto no qual os homens poriam de lado as emoções e dariam livre curso à sexualidade. Só assim se compreende o facto de muitos deles desenvolverem relações de longa duração com uma única mulher que. retomam nos períodos de férias seguintes. Na construção desta ilusão. que fodem bem. A valorização dos afectos e das emoções por parte de muitos turistas constitui um traço identitário não enquadrável naquelas que são as expectativas sociais dominantes do que é ser homem. de forma linear e acrítica. mas pagam mal”. elas preocupam-se não só com as questões mais directamente vinculadas à esfera da sexualidade. portanto. Isto porque muitos dos turistas não procuram apenas gratificação sexual mas também intimidade.

de estranhar as inúmeras construções acerca da competência emocional. como uma forma de demarcação da fronteira entre a esfera profissional e a pessoal (Ribeiro et al. erótica e sexual da mulher brasileira que emergem nos discursos dos turistas com quem falámos e em muitos outros que partilham as suas experiências no ciberespaço. o que nos permite Comportamento totalmente diferente têm as trabalhadoras sexuais que exercem a actividade na zona raiana de Portugal e Espanha. Não são. A ilusão é-lhe presenteada a troco de dinheiro” (2004: 177). não tendo efectiva consciência de que elas estão apenas a desempenhar o seu “papel”. gringos e garotas. mas também romance e emoção. As garotas de programa parecem ser especialmente entendidas nesta arte de sedução manipulatória. contribuindo. 10 Neste processo estratégico de criação de uma “ilusão de ‘normalidade’” (Piscitelli 2006). levando-a mesmo a referir-se às trabalhadoras sexuais como “vendedoras de ilusões”: o cliente “[…] pensa que está a fazer amor com uma mulher. mas está a fazer sexo sozinho. que deve ser entendido no contexto de uma representação do relacionamento como estando dentro da norma e do socialmente reconhecido como o namoro e o sexo monetariamente desinteressados. por norma. as quais. Muitos dos turistas julgam mesmo como genuínas as atitudes e emoções das garotas de programa. Fazendo intimidades e aspirando a uma outra vida: as motivações e os projectos das garotas de programa Mais ou menos conscientes de que a uma grande parte dos turistas não interessa apenas o sexo pelo sexo. 10 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . as garotas de programa constroem um simulacro (Baudrillard 1991) no qual se apresentam como completamente rendidas à capacidade de sedução e de conquista dos indivíduos que com elas interagem. manipulando assim as suas impressões e fazendo-lhes acreditar na genuinidade da cena. partilhada por ambos. 2005). O beijar na boca constitui um dos principais componentes do simulacro da sua rendição emocional.12 3. para a disseminação de uma imagem (racializada) da mulher sul-americana altamente valorizada no mercado erótico. portanto. Algo que foi também observado por Manita e Oliveira (2002) e Handman e Mossuz-Lavau (2005). elas encenam uma realidade em função daquilo que julgam ser as expectativas dos gringos.. como amplamente o demonstra Piscitelli (2005). Idêntica situação é constatada por Oliveira no seu estudo sobre a prostituição de rua na cidade do Porto (Portugal). recusam beijar os seus clientes. a que não é alheia a própria alteração da geografia internacional do turismo sexual.

na Tailândia. não raro. aos seus serviços sexuais. esta vertente mercantil não desaparece. um simulacro no qual ele parece sentir-se inebriado de poder. Nestes casos de relacionamento amoroso. em princípio em regime de exclusividade. 11 Entra-se então aqui num contexto de “prostituição difusa”. mas sim uma grande ambiguidade. eventualmente. vivem como ‘reis’ ou playboys. configurações que fazem lembrar as obrigações que sustentam o tradicional contrato matrimonial patriarcal. ser bancada (sustentada) por ele e. estabelecer um relacionamento amoroso com um ou outro turista que a ajudará economicamente e que. geralmente.” Esta é uma situação favorável à concretização dos interesses comerciais e/ou dos projectos de vida da garota de programa. ou melhor. sendo que a vertente mercantil associada à sexualidade começa gradualmente a tornar-se menos explícita. de competência viril e crê ser um autêntico Don Juan. aquilo que começou por ser uma relação meramente prostitucional – prestação de serviços sexuais a troco de dinheiro – evolui para uma relação de um certo envolvimento afectivo. Cohen (2003: 66) mostra a frequente evolução e continuidade de uma relação comercial para uma relação matrimonial. segundo o qual é obrigação do marido bancar a sua esposa.13 dizer que o turista não compra apenas serviços sexuais. ir para a Europa. O’Connell-Davidson (1995: 45) refere o seguinte: “[…] todos os turistas sexuais que entrevistei comentam o facto de que. mais tarde. poderá até permitir-lhe a realização do sonho da maioria das jovens que fazem programas em Ponta Negra: casar com um gringo. No nordeste brasileiro é ainda bastante frequente o homem bancar a mulher. A este propósito. tendo como contrapartida o seu trabalho em casa e o acesso. No entanto. como também (e sobretudo) uma ilusão de conquista. permitindo-lhe conquistar e fidelizar clientela e. ao ponto de se poder considerar o matrimónio com um estrangeiro como a consequência última do exercício do sexo comercial. 11 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . assumindo. a que surge associada uma “[…] ilusão de ‘normalidade’ que possibilita aos visitantes não necessariamente se perceberem como clientes” (Piscitelli 2006). Debatendo a articulação entre a prostituição orientada para turistas na Tailândia e o fenómeno dos casamentos transnacionais entre nativas e estrangeiros. destacando que não há uma fronteira nítida entre a prostituição e o casamento.

em regra e prioritariamente. É precisamente tendo em conta estes benefícios. isto é. 13 que parece pertinente admitir que o trabalho sexual lhes permite um relativo empowerment económico e social. abrindo-lhes a porta para uma estilização da vida semelhante à fruída pelas classes mais privilegiadas. continua a fazer programas. São benefícios extremamente significativos atendendo a que a generalidade delas provem das camadas sociais mais desfavorecidas. Podendo esta existir (e normalmente está presente) em contextos turísticos. presentes diversos. 1999) e Cohen (1982. ao ponto de se auto-excluírem desse local. entendida aqui numa acepção restrita: a disponibilização do corpo em troca de remuneração material (designadamente monetária) e. Enquanto espaço de Uma garota de programa que entrevistámos confidenciou-nos receber do seu namorado italiano uma quantia mensal na ordem dos três salários mínimos (cerca de 1000 reais. sem ele saber. 12 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . esta ascensão social de mulheres jovens. o pagamento da renda de casa. é forçoso sublinhar que o turismo sexual não se circunscreve necessariamente à prostituição. pelo lado da procura. suspendendo a actividade somente quando o recebe de visita em Natal. e na esteira do que é referido por Oppermann (1998. para satisfação ou prazer sexual. a fruição da sexualidade em tempo de férias não tem de estar estritamente a ela associada. Considerações finais A praia de Ponta Negra faz parte das rotas turísticas globais. não há de facto prostituição. 14 Ao colocar em causa a “ordem natural das coisas”. bem como o facto de a maioria das garotas de programa ter um rendimento bastante considerável para a realidade brasileira. 14 Face a isto. ajudas pontuais à família dela ou aos filhos. pobres e maioritariamente mestiças.14 Os benefícios que a garota de programa retira de uma situação em que é bancada pelo gringo podem incluir a mesada. os ganhos mensais podem ser superiores a 4. quantia equivalente a cerca de 300 euros) para abandonar a prostituição.500 euros). poderá estar na origem do desconforto que as camadas sociais privilegiadas de Natal manifestam relativamente à prostituição em Ponta Negra. 2003). 12 a aquisição de móveis para a casa.000 reais (cerca de 1. a compra de serviços sexuais a troco de dinheiro. 13 Com programas por noite raramente inferiores a 150 reais. começando já a destacar-se como um destino do chamado turismo sexual. 4. Nas situações em que as garotas de programa são bancadas por um gringo não há uma mercantilização directa e imediata da sexualidade. No entanto. entre outros.

as jovens locais são muitas vezes capazes de inverter as posições. por si só. os interesses e os desejos dos turistas e das mulheres locais. a alegada supremacia económica dos turistas. mas depende. à partida favorecendo os gringos. à semelhança do que acontece em muitos outros destinos. Em lugar das visões a “pretoe-branco”. nomeadamente sexuais. Enquanto que os turistas mobilizam sobretudo os seus recursos económicos. a possibilidade de as mulheres locais deterem algum nível de autonomia. nomeadamente na esfera sexual. em contraste com a debilidade económica da generalidade das mulheres locais com quem eles sexualmente se relacionam. portanto. Heyl 1979. como tentámos mostrar através da mobilização dos elementos etnográficos recolhidos. impõe-se considerar que uns e outras estabelecem relações sociais permeadas por complexos jogos de poder. nela se exprimem e articulam de modo muito próprio as motivações. à semelhança de Oppermann (1999). as garotas colocam em campo os seus atributos físicos e recursos eróticos. que lhes permite desafiar a desigualdade estrutural de género e os estereótipos dominantes que organizam a condição feminina. vinculados a práticas de envolvimento sexual marcadas pela violência e o completo descomprometimento ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Admite-se. nem aqueles que sempre “ganham”. não é possível qualificar os turistas como indivíduos sexualmente pervertidos. incapazes de captar a densidade das relações sociais que envolvem turistas e garotas. em boa medida. Se bem que as suas interacções sejam atravessadas por poderes assimétricos. Ao invés do sugerido pelos discursos do senso comum e outros. não serão sempre os dominantes. de contingências várias presentes nos contextos em que ocorrem as suas interacções. o poder não está estruturalmente atribuído ad eternum aos indivíduos em concreto. Como argumenta Foucault (1992). através do uso eficiente dos seus recursos. presente também noutros contextos de trabalho sexual (Barry 1979. Deste modo. aproveitando criativamente em seu próprio benefício as emoções e os desejos mais profundos dos seus parceiros vindos do outro lado do Atlântico. questionamo-nos sobre quem explora quem na relação turista-garota de programa e encaramos com sérias reservas os discursos mais comuns que tendem a apresentar as trabalhadoras sexuais como a parte exclusiva e sistematicamente explorada. Quer dizer. uma capitalização automática de poder. Hart 1998). não significa.15 acolhimento deste tipo de turismo. Daqui decorre que os turistas. nem pode ser vista como o único factor determinante na configuração dos processos relacionais entre estes actores sociais.

Ruth. nas quais a componente mercantil acaba por se esbater de forma significativa. Este tipo de situações implica. Relógio d’Água. Death and Sensuality: A Study of Eroticism and the Taboo.. 1991. portanto. 2003. s/d [1934]. Jean. Nova Iorque. Livros do Brasil. BERRY-BRAZELTON. uma considerável heterogeneidade nas relações que se estabelecem entre os gringos e as garotas. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . pelo menos de forma directa e imediata. 1962. através de um envolvimento mais duradoiro que pode incluir o casamento com o gringo e a emigração para o seu respectivo país. 1979. BAUDRILLARD. Love and Lust. algumas acabam por o conseguir. O Turismo em Portugal: Subsídios para o seu Conhecimento. 1994. aproveitando a receptividade de muitos turistas. empenham-se em estabelecer com eles relações de namoro. Guiadas pelo sonho da vida na Europa. entre um pólo em que ele é coincidente com a prostituição e o pólo oposto em que o relacionamento sexual entre o turista e a garota de programa tem subjacente um maior envolvimento emocional e. Lisboa.16 afectivo. o relacionamento sexual pode ser atravessado por afectos de grande intensidade que. A Sociedade de Consumo. Lisboa. que se olhe para o turismo sexual como um continuum (Piscitelli 2006). Já as garotas guiam-se por desejos e projectos que não se esgotam na simples obtenção de um rendimento monetário em troca da disponibilização de serviços sexuais. New Jersey. Sex and Tourism: Journeys of Romance. Edições 70. BENEDICT. Thomas e Bob McKercher (orgs. 1981. mais importante ainda. BAUDRILLARD. Universidade de Aveiro. Existe. continuam para além do tempo rigorosamente fixado da permanência do turista na cidade. Simulacros e Simulação. Haworth Press. Lisboa. bem como nos interesses que lhes são subjacentes. Female Sexual Slavery. Avon Books. BATAILLE. Assim. Aveiro. Jorge. T. Stock. Kathleen. Nova Iorque. Referências bibliográficas ARROTEIA. Como os discursos e as observações etnográficas registadas o testemunham. Paris. La Famille en Crise. Walker. desde logo.). 1989. BAUER. BARRY. não raro. Georges. não está monetariamente quantificado. Jean. Padrões de Cultura.

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por parte do governo estadual. Após a requalificação do bairro no início dos anos 1990. povoa o imaginário dos fortalezenses como um bairro boémio. sentimento de pertença. turismo. que há um interesse. Palavras-chave: requalificação urbana. Em Fortaleza. financeiras e afectivas. Para tanto foi implementada uma política de atração de investimentos para a indústria do turismo. turismo sexual e prostituição. descriminação e xenofobia. o diálogo entre diferentes formas de ocupação do espaço e novas representações.Praia de Iracema como cenário de encontros de alcova Roselane Gomes Bezerra * Universidade Federal do Ceará A Praia de Iracema localizada na cidade de Fortaleza. * Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal do Ceará/Brasil. nos últimos anos. Nos anos 2000. pertença. ou não usos. Uma nova imagem-síntese se constituiu associando-a ao lugar de prostitutas e gringos. desperta nos utentes do bairro. tradicionais e implementando nestes espaços públicos e/ou privados diferentes representações. um tema de grande relevância nas pesquisas sociológicas e antropológicas. mediante incentivos fiscais. passou a ser associada ao turismo. por meio de projetos de “requalificação” urbana e conseqüentes alterações nos usos do espaço. estabelecendo a cidade de Fortaleza como um pólo turístico. sentimentos relacionados a valores morais. tem sido as políticas de intervenções em áreas históricas. No Brasil. entre prostitutas e gringos se relacionam com as novas formas de uso do espaço urbano. Ceará-Brasil. capital do Estado do Ceará. tem início na década de 1990. O uso social dos seus corpos. Os conflitos decorrentes das trocas sexuais. de “modernizar” o Estado do Ceará. começou a ser difundido um discurso sobre o fim da Praia de Iracema. É notável nos estudos urbanos que a “requalificação” de áreas históricas e/ou degradadas da cidade vem acarretando em uma ruptura dos seus usos. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . a imagem de boémia. Momento. iniciaram-se outras formas de uso originando conflitos.

no inicio dos anos 1990. Veremos que. assim como os processos simbólicos de inclusão e exclusão de seus utilizadores. na década de 1990. imagens e discursos dos utilizadores do bairro em diferentes momentos de sua história. Contudo. Neste momento. após essas intervenções. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . começou a ser difundido por meio de jornais locais um discurso sobre o fim da Praia de Iracema com ênfase à sua degradação e abandono. as representações sobre Iracema resultam das práticas. contribuindo para a expulsão e permuta de antigos moradores e freqüentadores. por meio das narrativas dos utilizadores da Praia de Iracema. a mídia tornou públicos problemas referentes à degradação física de algumas áreas e a ocupação de certos lugares. uma disputa administrativa entre os governos estadual e municipal com interesse em atrair a atenção de moradores da cidade e de turistas para este bairro que se tornara a “vitrine” de suas políticas administrativas. Foi notável. Os utilizadores deste bairro reforçaram. Um breve passeio pela história da Praia de Iracema nos permite entender a constituição das representações. e assim. No início dos anos 2000. O objetivo desses projetos de requalificação era transformar áreas “degradadas” em lugares de entretenimento. Nesse sentido. ocorreu forte especulação imobiliária. quando a imagem de boêmia passou a ser associada ao turismo. Como conseqüência desse fenômeno. Ressalto ainda. Chegaremos aos dias de hoje percebendo como e porque a Praia de Iracema se tornara um cenário para encontros de alcova. consumo cultural e turismo. O bairro Praia de Iracema passou a ser o cenário das políticas de requalificação em virtude das representações construídas ao longo de sua história.2 As políticas de “requalificação” urbana em Fortaleza tiveram lugar no bairro Praia de Iracema. a representação do bairro como lugar de prostitutas e gringos se relaciona diretamente com as formas de uso do espaço urbano. estas muitas vezes os orientam. a construção e reprodução de sua imagem como um bairro boêmio e bucólico. que os usos que se fazem nesse espaço não estão separados das imagens. associando-a ao lugar de prostitutas e gringos. uma nova representação se constituiu para defini-la. sentimento de pertença e afetividade desse espaço da cidade de Fortaleza. surgiram dissensões quanto às formas de ocupações desse espaço. por meio dos seus discursos e práticas.

foram inaugurados na Praia de Iracema os “balneários”. “Um abaixo assinado é encaminhado. inclusive por meio do epíteto Praia dos Amores.2001:37). As ruas do bairro ganharam nomes de tribos indígenas cearenses: Tabajaras. entre outras” (Schramm. Na época.3 A origem da Praia de Iracema O surgimento do bairro Praia de Iracema. residência da família Porto. neste período. ao então prefeito Godofredo Maciel. Devido as novas formas de apropriação desse espaço da cidade surgiu a necessidade de se forjar uma nova imagem para aquele lugar. a mansão Vila Morena. tem início uma campanha. fenômeno que “obrigou” os pescadores a mudaram-se para outras praias. para a oficialização da denominação Praia de Iracema. Houve também a instalação de clubes. A primeira manifestação pública que permite antever o futuro nome do bairro ocorre em 1924. antes denominado porto das Jangadas. Esta elite intensificou a sua inserção na praia. praia do Peixe ou Grauçá. de frente para o mar. que expressasse os novos hábitos e valores. pelos novos moradores do bairro. a ser erigido na orla marítima. Groaíras. o primeiro à beira-mar. Guanacés. Como foi descrito por Schramm (2001). foi arrendada às tropas americanas e transformada em um ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . está associado à “descoberta” do banho de mar como medida terapêutica e também como contemplação e lazer por parte da elite econômica da cidade nos anos de 1920. com a construção de casas alpendradas ou do tipo bungalow. Potiguaras. freqüentado pela boêmia de classe média e alta da cidade. ganharam fama o Jangada Clube. Durante a Segunda Guerra Mundial. pequenas instalações comerciais. Tremembés. construída em 1925. Desta forma. como o Praia Clube e o América. elaborava-se uma imagem do bairro associada ao bucólico e aprazível. aluguel de calções de banho e guarda de pertences dos banhistas. inclusive no que se refere à sua denominação. solicitando ‘que mude a denominação imprópria e vulgar por que é conhecido aquelle encantador trecho de Fortaleza para a de Praia de Iracema’. apoiada pela imprensa local. Em 1925. quando a cronista social Adília de Albuquerque Morais lançou a idéia de que se construísse um monumento à heroína do romancista José de Alencar. onde a um bar se agregava um local para troca de roupa. e o Hotel Pacajus.

Parte do casario foi destruído em decorrência da alteração no movimento das correntes marítimas. grifos meus). O interior do bairro.4 cassino pelos oficiais. do sr.S. adeus/Só o nome ficou/Adeus. especialmente a área conhecida desde o início do séc.. Os rapazes da terra. talvez. como pode ser lido nos trechos abaixo: Nestes próximos dias. tornando-se atrativo para as moças da cidade. associando o encanto do bairro à sua apropriação pela elite. passaram a chamar por coca-colas as freqüentadoras do cassino dos americanos. Denominado U. vindo a atingir. o lugar era quase exclusivo aos estrangeiros. decorrente da construção de um novo porto da cidade.O) e o do antigo ‘Ideal Clube’(. que se dirigiam ao local para namorar os oficiais americanos e beber o refrigerante coca-cola.) O fato é que estamos mais uma vez diante de uma situação difícil. e ficou conhecido por suas noites com danças. Destacam-se entre os prédios mais visados pela fúria do mar os de propriedade da família João Gentil. A transformação da paisagem obrigou a saída de antigos moradores e freqüentadores dando início a um discurso melancólico sobre a praia “que o mar carregou 1 ”. enciumados. 1 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . 2001. XVIII por Prainha. os ricos ‘bungalows’ da nossa aristocrática praia.S.. jogos e shows. principalmente no tocante às sociabilidades. O compositor Luís Assunção contribui para a elaboração da imagem de afetividade da Praia de Iracema na cidade de Fortaleza. Matérias do jornal O Povo lamentavam a sua destruição. A partir de meados da década de 1940. Nesse período. 27 de abril de 1946 apud Schramm. que ainda não era consumido na cidade. também viveu transformações. pois se a maré próxima for impetuosa assistiremos à eliminação dos ‘bungalows’. a imprensa local começava a falar em decadência da Praia de Iracema. a maré investirá com grande violência. (United States Organization).O. o Porto do Mucuripe. através da seguinte canção: «Adeus. a antiga sede da United States Organization (U. com prejuízos para a própria estética da cidade (O Povo. o que acarretou também significativa diminuição da faixa de praia. Essa prática foi responsável por gerar uma disputa simbólica entre os moradores da cidade e os visitantes. José Porto. Praia de Iracema/Praia dos Amores que o mar carregou/Quando a lua te procura/Também sente saudades/Do tempo que passou/De um casal apaixonado/Entre beijos e abraços/Que tanta coisa jurou/Mas a causa do fracasso/Foi o mar enciumado/Que da praia se vingou». a Praia de Iracema começou a apresentar um novo cenário em virtude do avanço do mar.

era freqüentado por boêmios seresteiros. que havia sido arrendado a comerciantes portugueses.5 Com a transferência do porto da Praia de Iracema para o Mucuripe. Era palco de encontros culturais. El Dourado. na antiga residência da família Porto. A partir desta década. 2001). ficando. Os seus ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . transformando-se em prostíbulos. para “ver e ‘fumar’ o pôr-dosol”. que figurou. se apropriaram também da Ponte dos Ingleses. 09 de dezembro de 2004). militantes políticos e intelectuais. Estes se reuniam no Restaurante Estoril. Nos tempos do regime militar entre 1964-1985. Os donos do espaço. ocupantes do Estoril. o bairro foi “descoberto” por novos freqüentadores e se tornou um ponto de encontro de militantes de esquerda. Nesse período. se consolida a imagem da Praia de Iracema como um bairro boêmio. Nick Bar. políticos e amorosos. Nos anos 1950. A Praia de Iracema tornou-se reduto de artistas. como afirma um ex-freqüentador (O Povo. o Restaurante Lido. a vida [no bairro] era uma festa” (15 de janeiro de 1996 apud SCHRAMM. 2001). contudo. uma inversão dos valores e normas de disciplina da cidade. “Na década de 1950. Iracema era apropriada por: jornalistas. intelectuais. profissionais liberais e músicos. em meio às residências da população de classe média e classe média baixa do bairro: Tonny’s Bar. como pode ser visto nesse trecho de uma matéria publicada no jornal Tribuna do Ceará: “mesmo com as torturas rolando pelo país. até os anos 70. defronte ao hotel. Alguns bares surgiram nas ruas de toponímia indígena. que funcionava desde 1948. a parte costeira do bairro ainda figurava como um lugar da elite econômica e intelectual. Eles compartilhavam o mesmo sentimento de pertença ou entendimento sobre o lugar e sobre os seus códigos culturais (Leite. Como nos mostra Schramm. o Restaurante Estoril. Praticavam. onde existia o cassino dos americanos. como casa de pasto que reunia a elite fortalezense. os armazéns e casas comerciais ligadas aos negócios de exportação foram fechados. que se dirigiam ao lugar para cantar e namorar. também. Jangadeiro”(2001:47). foi inaugurado. Iracema era apropriada por utilizadores “marginais” em relação aos valores sociais vigentes. afamado o local de vida boêmia. assim. que se encontrava em mau estado de conservação.

por meio dos jornais. eram legitimados e compartilhados entre os usuários da Praia de Iracema. diante das possibilidades de mudanças na lei de uso e ocupação do solo no bairro. o Cais Bar e o Pirata Bar. Assim é que. com adesão de artistas e intelectuais. entre meados dos anos 1960 e 1980. além de algumas melhorias. As transformações vivenciadas ali durante a década de 1980. e havia uma ocupação irregular na margem da praia. políticos. respectivamente. Entendendo como uma “destradicionalização” daquele espaço da cidade. Nesse período iniciava-se a edificação de prédios com mais de dez pavimentos. foi fundada a Associação de Moradores da Praia de Iracema/AMPI e houve grande movimento pela sua preservação. inaugurados em 1981. Em 1984. atraíram diversos freqüentadores para o bairro. Durante a década de 1980. uma mudança nas formas de uso e apropriação do espaço. a década de 1980. O banho de mar perdera sua atração. profissionais liberais. da Praia de Iracema. É importante ressaltar que Iracema vivenciou. por meio da construção de casas de madeira ou papelão. assim como a instalação de uma diversidade de bares e restaurantes em imóveis supervalorizados. O público que se dirigia ao Bar e Restaurante Estoril e Ponte dos Ingleses. deram inicio a uma “requalificação espontânea”. como o La Trattoria. moradores e freqüentadores não aceitaram as transformações da sua arquitetura. uma imagem de bairro decadente. que a Praia de Iracema fosse reconhecida como Patrimônio Histórico e Cultural da cidade. O bairro era habitado por famílias de classe média e baixa. 1985 e 1986. sem um devido planejamento do poder público. ainda se restringiam aos intelectuais. Nesse período. Esse fenômeno ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . pois a pequena faixa de areia que restara recebia somente alguns poucos freqüentadores. Sob protestos. mas. era marginalizado por questões ideológicas. porém. alguns bares temáticos. mesmo fazendo parte de uma elite da cidade. antigos moradores mudaram-se do bairro. os usos na Praia de Iracema. para os problemas causados pela especulação imobiliária. Contudo. não tiveram êxito. houve uma mobilização dos moradores e freqüentadores no sentido de sustar aquele processo e solicitar. as tentativas de barrar as construções de edifícios verticais no bairro. artistas e universitários. terminou com os moradores chamando atenção do poder público. ou seja.6 comportamentos.

a paisagem transformou-se rapidamente.7 que chamo de “espontâneo” foi incentivado pela tradição boêmia do bairro e pela movimentação dos diversos freqüentadores que se dirigiam para alguns bares. No cerne da polêmica. Outro problema que emergiu com as transformações na apropriação do espaço na Praia de Iracema foi a presença de pessoas que não tinham uma tradição boêmia. já não era prioridade a transformação do bairro em Patrimônio Histórico e Cultural. graças ao seu passado boêmio. criou-se um clima de rivalidade entre os empresários estabelecidos e os recém-chegados. Assim. Impulsionados pela freqüência desses estabelecimentos e vislumbrando a Praia de Iracema como um novo mercado. à abertura irregular de estabelecimentos comerciais e à especulação imobiliária. apresentaram para os moradores e comerciantes da Praia de Iracema um projeto de urbanização da sua parte costeira. mas. juntamente com o arquiteto Paulo Simões. estava a questão de quem tinha direito ao bairro. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . alguns gestores da cidade passaram a defender a tese de que a Praia de Iracema possuía uma “vocação natural para o lazer”. A partir de então. os moradores intensificaram suas lutas na defesa do bairro. Como conseqüência dessa “requalificação espontânea” que estava transformando a paisagem do bairro desde meados dos anos 1980. ao desordenamento do trânsito. Em meio à disputa pelo espaço de Iracema. empresários da noite se inseriram no bairro com uma grande oferta de bares e restaurantes. Devido as novas formas de ocupação desse espaço e suas novas representações. restaurantes e para assistir ao pôr-do-sol na Ponte dos Ingleses. com a presença de grande diversidade de estabelecimentos comerciais. o então prefeito de Fortaleza. em junho de 1991. Juraci Magalhães. Nesse novo momento estavam na pauta das reivindicações dos moradores: o combate à poluição sonora.

por meio de obras da Prefeitura Municipal e do Governo do Estado. restaurantes. processo que tenta adequar as tradições locais às demandas globais do consumo cultural. essa política de reforma urbana na Praia de Iracema acarretou uma mudança nas práticas sociais e conseqüentemente foi proposta uma imagem do bairro. havia desmoronado. Consolidouse a imagem do marketing turístico na Praia de Iracema. nacionais e internacionais. Neste sentido. há uma afirmação simbólica do poder. Na política de gentrification. apareceram investimentos da iniciativa privada em bares. Por meio de uma política de atração de investimentos. mediante incentivos fiscais e da estratégia de Place Marketing (Gondim. Havia um interesse político em estabelecer a cidade de Fortaleza como um pólo turístico. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Falava-se em “Miamização de Iracema 2 ”. que. hotéis. Paralelamente as intervenções nos espaços públicos do bairro. boêmio. Alusão a Miame (EUA).2001). a reforma da Ponte dos Ingleses e a reconstrução do Restaurante Estoril.8 A Praia de Iracema “requalificada” Em 1994. lugar de artistas e 2 Denominação dada por ex-freqüentadores e moradores do bairro. habitantes da cidade. o calçadão. percebo um conflito na ocupação do espaço na Praia de Iracema. mediante suas práticas sociais e lembranças – baseadas na imagem de um bairro bucólico. De um lado havia os usuários. mediante inscrições arquitetônicas e urbanísticas que representem visualmente valores e visões de mundo de uma nova camada social que busca se apropriar de certos espaços da cidade (Leite. como a construção do largo Luiz Assunção. esse espaço da cidade de Fortaleza passou a ser consumido por moradores de classe média e alta da cidade e também por turistas. Em meados dos anos 1990. As intervenções urbanísticas na Praia de Iracema podem ser associadas a uma disputa administrativa. Transformando a arquitetura vernacular em paisagem. um calçadão a beira mar já fazia parte do novo cenário de Iracema. o bairro já apresentava diversos sinais da “requalificação” urbana. 2001). flats e pousadas. entre os governos estadual e municipal. que em abril de 1994. Nesse novo contexto. Carlos Fortuna (1997). fala em “conservação inovadora do elemento tradicional”.

. que transforma a tradição na city marketing. está a política de gentrification. Foi vivenciado naquele bairro o que Carlos Fortuna (1999) chama de “sociabilidades efêmeras”.9 intelectuais – forjaram um sentimento de pertença ao bairro. Desta forma. não tinha proposta comercial dentro da Praia de Iracema (. não tinha proposta. Esse processo desencadeou a monofuncionalidade com a predominância de bares e restaurantes no bairro. incentivados por um marketing do lugar turístico. O maior conflito em relação às novas formas de apropriação era quanto à falta de harmonia entre os bares e as residências que ainda restavam. Então você tinha três milhões de bares. em segundo lugar todo mundo vendia a mesma coisa que era uma cerveja com petisco. o processo de “requalificação” acarretou um choque de valores. onde moradores e freqüentadores antigos se tornam outsiders. É inevitável uma asfixia da Praia de Iracema” (O Povo. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . De outro. eu só tenho a parabenizar. O poder público chegou fez um calçadão superlegal. 3 de junho de 1995). ex-morador do bairro: “Os donos de bares daqui impõem um repertório na altura que querem e não se relacionam de modo democrático com sua vizinhança. aí dá aquele inchaço onde toda casa por menor que ela fosse era um bar. ou seja. habitantes da cidade e turistas. maravilhoso. ou seja. ótimo. já que o novo desenho arquitetônico impôs um controle social. Como anota Leite (2001). ou seja. Na fala de um empresário. ou seja. não teve. esse fenômeno contribuiu para o início da imagem da degradação da Praia de Iracema. a Praia de Iracema se tornou um lugar de consumo para os novos utilizadores que passaram a ocupar aquele espaço. É o que pode ser constatado nesse depoimento de Hélio Rôla.2000). você nem andava pelo calçadão. o modo como as práticas sociais criam seus nexos identitários com os lugares sociais colide muitas vezes com as formulações abrangentes das políticas oficiais da cultura. uma grande valorização dos imóveis e conseqüente aumento nos valores dos aluguéis e dos serviços e produtos ofertados.) não deviam ter liberado tantos alvarás pra tanta gente devia ter escolhido o que fazer em cada lugar. Como a “requalificação” conduz ao “consumo do lugar” (Zukin.. o que foi presenciado na Praia de Iracema foi uma supervalorização dos “produtos vendidos”. uma “descoberta” do lugar para “novos freqüentadores”. foi assim ao leu e então como não tinha nenhuma proposta desinchou a Praia de Iracema deixou de ser moda o fortalezense enjoou (Entrevista concedida em 27 de abril de 2005).

passaram a existir bares. livraria. os turistas internacionais e as “garotas de programa”. meninos em situação de rua. os freqüentadores da Praia de Iracema foram paulatinamente procurando outros lugares de lazer. como assalto aos freqüentadores. Em 1999. No seu entorno. dando maior visibilidade aos hippies. um planetário. concorrendo para a construção da representação de bairro degradado e lugar de prostitutas e gringos. E a Praia de Iracema “requalificada” começou a apresentar sérios problemas no tocante à ocupação do espaço e manutenção dos espaços reformados. Além dos hippies. foi inaugurado o Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura.10 Outro fenômeno a ser ressaltado é que a “política de controle social”. os poucos turistas [estrangeiros] que vieram pra cá foram vôos italianos e alemães e no início o vôo dos italianos foi péssimo conseguiram acabar com esse vôo tem pouco tempo atrás que era assim. além de praças. mendigos. como a expulsão dos hippies. A sua implementação não considerou os “trajetos” (Magnani. vendedores ambulantes. auditório. típica dos processos de “requalificação”. Como parte da dinâmica de ocupação dos espaços da cidade. também passaram a incomodar alguns utilizadores do bairro. Iniciavam-se também as denúncias de violência. Este equipamento passou a oferecer teatro. Nesse sentido. não permitiu uma nítida visualização dos contra-usos. que dava os seus primeiros passos rumo ao dissídio na ocupação daquele espaço. 2000) de ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . no final dos anos 1990. café. Adentravam o bairro atores sociais que não comungavam com os códigos da disciplina dos espaços “equalificados” como os hippies. sob a forma de uma arquitetura eclética e pós-moderna. turistas estrangeiros e prostitutas. boates e casas de shows. onde havia antigos armazéns desativados. O Dragão do Mar projetou uma intervenção no bairro que se refletiu por toda a Praia de Iracema. cinemas. museus. loja de artesanato e bares. 300 machos vindo. os protestos dos moradores ganharam novos temas. com cinco prostitutas voltando da Itália (Entrevista concedida em 27 de abril de 2005). Leiamos a fala de um empresário da Praia de Iracema: Essa imagem [da degradação] se dá porque no início não teve uma boa divulgação do turismo [internacional] aqui do Estado.

No inicio dos anos 2000. Os novos freqüentadores saíram em busca de novos lugares. pois os utilizadores da Praia de Iracema passaram a ser predominantemente. turistas estrangeiros. Esse fenômeno redesenhou a Praia de Iracema a partir dos seus usos e contra-usos. contudo por falta de verbas a ligação não foi estabelecida. prostitutas. Os bares e restaurantes gradativamente foram sendo fechados. O calçadão apresentava muitos trechos com buracos e a grade de proteção quase toda quebrada. pois grande parte do público freqüentador da parte costeira da Praia de Iracema passou a ocupar esse novo espaço. Este fato contribuiu para enfatizar ainda mais a representação do bairro como lugar de prostitutas e gringos. construída nestes “lugares de consumo”. deixando um terreno baldio no meio da rua dos Tabajaras. a partir do inicio dos anos 2000. e teve seus pontos comerciais e observatório de golfinhos desativados. 1994). Em janeiro de 2003 a pizzaria Geppo’s fechou. conhecida na cidade de Fortaleza. Um empresário. a harmonia superficial. ele esclarece que o projeto original previa um “corredor” de ligação entre a parte costeira do bairro o Centro Dragão do Mar. afirma que a nova representação surgiu a partir da instalação de uma boate. A Ponte dos Ingleses ficou sem iluminação. Quando os espaços “requalificados” tornam-se “lugares”. foi sendo cortada pelos contra-usos. hippies. 3 Em entrevista com um dos arquitetos do projeto do Centro Dragão do Mar. Assim é que. a Praia de Iracema passou a abrigar duas “manchas” (Magnani. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . passando a ser ocupado predominantemente pelos hippies e meninos em situação de rua.2000) de lazer com sociabilidades e temporalidades distintas. ou seja. inclusive o tradicional restaurante La Trattoria e o Cais Bar. abrindo espaço para instalação de boates algumas com shows de striper. No ano de 2004.11 seus utilizadores 3 . O Largo Luis Assunção deixou de ser ocupado por famílias nos finais de tarde. espaços praticados (Marc Augé. como uma casa que favorecia a prostituição. principal rua do bairro. mendigos. instalado no bairro há quase vinte anos. Este fato produziu um conflito na apropriação do espaço daquele bairro. por intermédio do não-respeito aos códigos culturais do lugar ou da falta de um entendimento mínimo sobre o que eles representavam. ambulantes e meninos em situação de rua. os problemas referentes à ocupação do espaço na Praia de Iracema se agravaram. Fausto Nilo. mais da metade dos novos estabelecimentos já haviam sido fechados.

acarretando a monofuncionalidade do bairro. houve ingerência quanto à ocupação do espaço. ou seja. contudo. ou seja. Esse fenômeno contribuiu para a saída da maioria dos moradores. porque a gente pensava assim. Ocorreu uma intervenção no espaço urbano. Nesse sentido. O cenário atual da Praia de Iracema Após essas intervenções arquitetônicas esse bairro se apresentou como um lugar turístico. e foi dito e feito.) Depois apareceu um português que era o maior trambiqueiro. 1997). a própria dinâmica da cidade e do turismo nacional e internacional foi determinando as novas faces de Iracema. por parte do Poder Municipal.) a gente fez toda uma campanha pro África’s não vir. não existiu um respeito às demandas dos moradores do bairro. Primeiro houve a execução das políticas de gentrification. no dia que o África’s vier. poluição sonora e desordenamento do tráfego. entendo que a nova representação é um reflexo das práticas sociais e das condições espaciais de algumas áreas do bairro.. se vier um puteiro vem todos os puteiros da praia. Ele fazia o seguinte: montava um restaurante achava um investidor em Portugal e dizia olha eu tenho um restaurante maravilhoso pra você ele montava o restaurante pras pessoas ai o cara vinha de lá pra cá com o restaurante montado comprava o restaurante e achava que tinha um ponto super bem feito e vinha pra trabalhar quando chegava aqui ele tinha um puteiro. tornando visível a existência de ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . a fronteira para o lugar dos habitantes ficou muito tênue.. (. o cara muitas vezes vinha com boa fé tinha muita gente que vinha com boa fé e ficavam com um puteiro nos braços (Entrevista concedida em 27 de abril de 2005).. a tradição boêmia de Iracema foi comercializada por meio de uma política de incentivo ao turismo no Estado do Ceará.12 A deterioração começou por que? Porque em primeiro lugar deixaram construir o África’s [boate conhecida na cidade por shows de striper] (. tendo como ícone o bairro Praia de Iracema. Segundo. Este fenômeno gerou uma disputa pela ocupação do espaço urbano. sem um devido planejamento. que tentam adequar as tradições locais às demandas globais do consumo cultural (Carlos Fortuna. Frente a este panorama que se estabeleceu na Praia de Iracema. Como resultado desse processo..

globalização. trabalho e futuro. o diferente. ex-moradores. entre outros problemas. moradores do bairro Praia de Iracema. bancos quebrados. enleio. Lisboa: Ed Âmbar. Alguns utilizadores do bairro falam em degradação espacial. 1996. sobressalto. a de estafeta. El Presente de su Futuro. o uso social dos corpos dos turistas estrangeiros. freqüentadores da Ponte Metálica. A pesquisa etnográfica me permitiu perceber que existe um dissenso nas opiniões quanto à representação da degradação. 4 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . valores morais. segundo meus interlocutores 5 . estava a contribuir para uma reafirmação da representação do bairro como degradado e lugar de prostitutas e gringos. hippies e meninas freqüentadoras das boates. Os moradores do bairro passaram a denunciar por meio de suas narrativas que. o que fazem. entre alguns nativos e o turista. análise sóciosemântica e análise interpretativa 4 . taxistas. empresários.13 conflitos simbólicos decorrentes do encontro entre alguns habitantes de Fortaleza. tachos e biscates – jovens. ou seja. Esta metodologia foi desenvolvida por: Captolina Díaz Martinez. sentimento de pertença. Madrid. 2005. No cerne da questão percebo que temas relacionados a “requalificação” urbana. Modelos de Autopercepción y de Vida entre Adolescentes Españoles. In Ganchos. emerge nesse bairro. Distribuindo pizas: vida estafada. turistas estrangeiros e suas acompanhantes. Por meio deste modelo de análise de conteúdo está sendo possível identificar “expressões conceituais”. Aplicando a metodologia de análise de conteúdo que venho utilizando na apreciação dos dados apresentarei a seguir a análise de conteúdo das narrativas. turismo. erosão no calçadão. vendedores ambulantes. turismo sexual e prostituição fazem parte dessa nova representação da Praia de Iracema. envolto ao espanto. falta de iluminação. Outros falam em degradação social. 5 Os entrevistados na pesquisa de terreno na Praia de Iracema foram: moradores. A utilização deste modelo de análise de conteúdo segue o método de investigação adotado por: Machado Pais. José. Devido a essa simbologia negativa os habitantes do bairro estão buscando justificativas para a emergência dessa representação. Siglo Veintiuno de España Editores. proprietários de boates. com quem andam e como se comportam. É perceptível uma admiração. tema tão caro à produção antropológica. O encontro com o “outro”. Estas levam a percepção de categorias definidoras do “mito fundador” da nova representação do bairro. e associam a representação atual à presença do turista estrangeiro e suas acompanhantes.

Apresento abaixo a fala de um empresário do bairro. uma série de unidades de significados. dos sujeitos da pesquisa. Estas têm um significado social. Contudo. aquele cheio de tatuagem. Assim. Neste modelo de análise o investigador deve “traduzir” a conceitos as “expressões lingüísticas”.(1996). 6 Estou fazendo alusão a Capitolina Martínez autora deste modelo de análise de conteúdo. contudo a relação entre os conceitos e suas “expressões literais” não é unívoca: distintas expressões literais podem representar o mesmo conceito (sinonímia) e a mesma expressão literal pode representar distintos conceitos (homonímia). El Presente de su Futuro. E “macacas” é uma expressão utilizada para se referir as garotas pobres. ou narrativas. Os conceitos estão encarnados em expressões literais. as quais devem ter um significado autônomo. a partir de sua obra de referência. que reafirma a imagem da Praia de Iracema como lugar de prostitutas e gringos. o qual conserva duas operações: 1) se seleciona dentre os textos. todo inchado.. Contudo. É importante ressaltar que o processo de “homologação conceitual” é próprio do pesquisador ao empregar suas habilidades de intuição lingüística e social. vem com umas macacas que se você vê as macacas você corre. o entrevistado está a fazer uma analogia com o turista estrangeiro pobre identificado por alguns utilizadores do bairro como pessoas com emprego precário na Europa e com pouca qualificação escolar. que namoram ou fazem programa com os turistas estrangeiros. de quem as explicitaram.. entendem o significado dessa expressão. o significado social das expressões. Ao se referir ao gringo cheio de tatuagem e inchado. as “expressões conceituais” são produzidas pelos sujeitos da pesquisa e não pelo pesquisador. depende do entendimento por parte do grupo pesquisado. quando os membros do grupo. de pele morena. uma expressão pode incluir vários conceitos. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . a sua fala parece ininteligível se relatada em outro contexto: Quem vem aqui é o gringo. Assim como. Seguindo este modelo de análise de conteúdo é importante ressaltar que a proposta da autora 6 é desenvolver um método de análise “não-redutivo”.14 Das expressões conceituais ao “mito fundador” da nova representação de Iracema Identifiquei as “expressões conceituais” aplicando o método de análise voltado para a percepção de “homologias conceituais”.

Narrativa dois: Os bares começaram a fechar porque encheu de gringo. começou a chegar boates e o fortalezense deixou de andar aqui. Assim. uma “categoria” é um conceito geral que deriva de uma família de conceitos concretos por sua vez derivados de orações particulares. A seguir apresento. que relatam as mudanças vivenciadas no bairro a partir dos anos 1980. Assim. os conceitos específicos definem reciprocamente os seus significados através da interação dos diversos conceitos. o que mantém é o fortalezense. A apreciação de uma lista de conceitos e palavras-chave permite ao pesquisador agrupar famílias de conceitos similares. Por meio deste método proposto por Martínez (1996). e sua representação hoje. (Entrevista com um morador que reside há 32 na Praia de Iracema. estas constituem as “categorias”. 2) a especificação do significado das ditas unidades tem de ser redefinida observando seus contextos: uma unidade dada pode está localizada em distintos contextos e a interação entre esses contextos deve redefinir o significado da unidade em questão. é o pessoal daqui ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . a nova representação do bairro. Para isso coloca-se as unidades soltas (palavras-chave) frente às unidades complexas (orações conceituais) de que formam parte. porque o que mantém um restaurante não é turista. não é bom para a capital é o turista que vem a procura de drogas e prostituição. Como conseqüência.15 parcialmente livre do contexto. Concedida em 02 de agosto de 2005). o processo de “homologação conceitual” não só funciona a partir dos significados isolados das orações conceituais. mas também por meio de palavras-chave. Ao utilizar esse modelo de análise de conteúdo identifiquei “categorias” que caracterizam fases da história recente do bairro Praia de Iracema. com os significados concorrentes de distintas orações conceituais. Narrativa um: Hoje a Praia de Iracema é dominada por menores infratores. prostituição e turistas estrangeiros que não é o bom turista. relacionadas à construção do “mito fundador” da representação da degradação e lugar de prostitutas e gringos. a lista de conceitos se estrutura em dois níveis. extratos de quatro entrevistas que associam. com a presença do turista estrangeiro. Para chegar a estas “categorias” selecionei diversas “expressões conceituais” dos meus entrevistados.

fechar essas boates porque eu acho que elas é que trazem todos os outros problemas. os modelos de turismo que a gente tem no Estado. traz o menino de rua.. que sempre residiu na Praia de Iracema. que não tem segurança. é o modelo dos hotéis que estão destruindo as comunidades dos povos do mar.) tudo isso para dá a esse turista europeu. Os bares começaram a fechar porque encheu de gringo. não tem iluminação. traz os vendedores ambulantes (. hoje em dia as pessoas não vem mais aqui porque ficam incomodadas com essa invasão de prostitutas e de gringos que tem aqui. que a Praia de Iracema é uma ponta de iceberg. o modelo de desenvolvimento. dessa coisa gostosa da beira da praia e tudo. Narrativa três: Eu acho. (. Começou a chegar boates e o fortalezense deixou de andar aqui. Turista (estrangeiro) que vem a procura de drogas e prostituição. Gringo Taxista Vendedores ambulantes ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . seria em primeiro lugar. esse turista qualquer que venha pra cá e manter as mulheres que eles quiserem. A lista de palavras que tem significados relevantes é: Prostituição Turistas estrangeiros Drogas Boates A lista de conceitos contempla: A Praia de Iracema é dominada por menores infratores. o turista melhora [o movimento]. Narrativa quatro: O gringo traz o taxista. não é pelo simples fato de que está quebrada. Concedida em 23 de agosto de 2005). (O problema é) o modelo de turismo que a gente tem no Estado. (Entrevista com um empresário.. prostituição e turistas estrangeiros.. traz a prostituta. mas as despesas do dia-a-dia são tiradas com o pessoal daqui.) As soluções pra mim. as pessoas não andam mais na Praia de Iracema. Residente há 25 anos na Praia de Iracema. (. estão loteando as praias para fazer os resortes. não é isso porque sempre foi dessa forma e as pessoas vinham.) (Entrevista com um morador. Concedida em 19 de maio de 2005). as pessoas faziam questão de vir aqui pra usufruir a beleza do ambiente... de 34 anos. (Entrevista com uma moradora. isso é o modelo de turismo que a gente tem aqui.16 que vai com a família. implementado no Estado. Concedida em 19 de maio de 2005)..

Celta. Identidades. Começaram boates. Fechamento de bares. São Paulo: Papirus. Não-Lugares. 1999. Carlos (org. sem um sentimento de pertença ao bairro. Oeiras: Celta Editora. Oeiras. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . FORTUNA. taxista. Estudos Sociológicos de Cultura Urbana. Alguns utilizadores do bairro entendem que a chegada dos novos freqüentadores. financeiras e afetivas entre os turistas estrangeiros e suas acompanhantes se relacionam diretamente com o uso e apropriação do espaço na Praia de Iracema. Cultura e Globalização: Ensaios de Sociologia. o menino de rua. contribuiu para sua identificação com um cenário de encontros de alcova. Marc. fechar porque encheu de gringos. gringos. A análise de conteúdo das narrativas me permitiu identificar que a chegada do turista estrangeiro é considerado o “mito fundador”. gringo. Neste sentido. Com o gringo veio o Surgimento de boates. Fase do bairro Características Categorias “Mito fundador” de Chegada dos turistas Os bares começaram a Invasão de prostitutas e Presença estrangeiros – gringos. a prostituta. da representação do bairro como degradado e lugar de prostitutas e gringos.17 Quadro 1: A presença de gringos como um “mito fundador” da representação da degradação. 1994. a O fortalezense abandona chegar o bairro. Referencias Bibliográficas AUGÉ. e os vendedores ambulantes. 1997. os conflitos decorrentes das trocas sexuais.) Cidade. Paisagens Culturais. O fortalezense abandona o bairro. Percursos. ___________.

impresso. 2001. a Propósito da Praia de Iracema. Na metrópole: textos de antropologia urbana.Fapesp. 09 de dezembro de 2004. Política e Cultura. Linda. MONTE. José Guilherme Cantor. Fortaleza.) O espaço da diferença. Universidade Estadual de Campinas. ZUKIN. Números ½. Fortaleza. O POVO. Lilian de Lucca (orgs). Airton. Universidade Federal do Ceará. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . 2005. Imagens da Cidade ou Imaginário Espacial? Reflexões sobre as relações entre Espaço. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo. Modelos de Autopercepción y de Vida entre Adolescentes Españoles. Madrid: Siglo Veintiuno de España Editores. Rogério Prença de Sousa. In Revista de Ciências Sociais. Programa de PósGraduação em Sociologia.18 GONDIM. El Presente de su Futuro. Território livre de Iracema: só o nome ficou? Memórias coletivas e a produção do Espaço na Praia de Iracema. Vol. Ganchos. Caderno Vida e Arte. 03 de junho de 1995. Solange Maria de Oliveira. Periódicos ARTE guarda memória da PI. 2000. 2000. José Machado. “Paisagens urbanas pós-modernas : mapeando cultura e poder” In Antônio Arantes (org. tachos e biscates – jovens. Captolina Díaz. MARTINEZ. 32. Fortaleza. trabalho e futuro. Sharon. O POVO. PAIS. SCHRAMM. MAGNANI. Espaço público e política dos lugares: usos do patrimônio cultural na reinvenção contemporânea do Recife Antigo. 2001. 1996. 2001. Campinas: Papirus. impresso. Campinas. TORRES. LEITE. Lisboa: Ed Âmbar. 2ª Ed. Era uma vez a Praia de Iracema.

uma perspectiva de análise ao mesmo tempo privilegiada e problemática.uc. Este processo que com diferentes momentos de intensidade vem animando o debate político na sociedade portuguesa esgrime questões tão instigantes como as representações ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . juntamente com a Irlanda. Elemento este que foi mobilizador para uma conciliação de esforços entre algumas organizações portuguesas e estrangeiras com vista a à vinda do célebre barco da organização holandesa. Introdução A luta despenalização do aborto em Portugal constitui uma das aspirações mais emblemáticas na enunciação dos direitos das mulheres no contexto português. concitando ainda relevantes momentos de análise das dinâmicas democráticas sobre o direito e a transformação legislativa. Portugal é dos únicos países da Europa com legislação fortemente restritiva à prática de interrupção voluntária da gravidez. O interesse deste quadro histórico não se restringe às nossas fronteiras. dado que. e pela circunstância de constituir uma forma de acção política sobre uma legislação nacional com um desenho exuberantemente transnacional. A recente viagem deste barco que se propunha a realizar interrupções voluntárias da gravidez em águas de jurisdição internacional ― onde prevaleceria a lei holandesa ― de bandeira do barco. Women on Waves. Malta e Polónia.pt A luta despenalização do aborto em Portugal constitui uma das aspirações mais emblemáticas na enunciação dos direitos das mulheres no contexto português. pelo facto de se inscrever nas formas de acção política ditas radicais ao mesmo tempo que sustenta a sua acção no cumprimento da lei. É a partir da minha experiência de activista neste processo. foi um fenómeno singular na sociedade portuguesa: pelo aceso debate que suscitou na opinião publica. da maternidade e da vida.O Kula revisitado? A cultura dos direitos na luta pela despenalização do aborto Madalena Duarte Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra madalena@ces. que pretendo formular nesta comunicação algumas reflexões sobre o momento cultural e político então criado Palavras-chave: direitos/género/cidadania/movimentos sociais 1. Este processo que com diferentes momentos de intensidade vem animando o debate político na sociedade portuguesa esgrime questões tão instigantes como as representações culturais da mulher.

foi um fenómeno singular na sociedade portuguesa: pelo aceso debate que suscitou na opinião publica.2 culturais da mulher. concitando ainda relevantes momentos de análise das dinâmicas democráticas sobre o direito e a transformação legislativa. 1998 e 2003 e UMAR. Women on Waves. juntamente com a Irlanda. pois. pois. marcados por um esboçar daquela que viria a ser uma luta forte pelos direitos das mulheres nas décadas Neste ponto sigo de perto Tavares. Os finais da década de 70 são. 2. A contextualização da luta 1 O direito da mulher à interrupção voluntária da sua gravidez não foi consagrado no conjunto de direitos das mulheres adquiridos após o 25 de Abril com a Constituição da República Portuguesa de 1976. O interesse deste quadro histórico não se restringe às nossas fronteiras. 1 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Portugal é dos únicos países da Europa com legislação fortemente restritiva à prática de interrupção voluntária da gravidez. Uma análise mais detalhada desta análise cronológica obriga. pelo facto de se inscrever nas formas de acção política ditas radicais ao mesmo tempo que sustenta a sua acção no cumprimento da lei. dado que. à sua consulta. A recente viagem deste barco que se propunha a realizar interrupções voluntárias da gravidez em águas de jurisdição internacional ― onde prevaleceria a lei holandesa ― de bandeira do barco. Elemento este que foi mobilizador para uma conciliação de esforços entre algumas organizações portuguesas e estrangeiras com vista a à vinda do célebre barco da organização holandesa. 1999. e pela circunstância de constituir uma forma de acção política sobre uma legislação nacional com um desenho exuberantemente transnacional. que pretendo formular nesta comunicação algumas reflexões sobre o momento cultural e político então criado e sobre as estratégias encetadas pelo movimento. É a partir da minha experiência de activista neste processo. da maternidade e da vida. Malta e Polónia. Em ambas as publicações é feito um importante retrato histórico da luta pela despenalização do aborto em Portugal. uma perspectiva de análise ao mesmo tempo privilegiada e problemática.

e partidos de esquerda tomam posições públicas contra este projecto-lei. demonstrando uma total oposição a qualquer medida legislativa que autorize o aborto.3 seguintes. 1999). Começam. rapidamente chegam à imprensa internacional e. partidos políticos como o PS e PCP anunciam a preparação de propostas de lei sobre a despenalização do aborto. em consequência. é a vez do PS apresentar um projecto-lei. o aborto clandestino em Portugal vai continuar a ser uma realidade. Várias associações feministas. são considerados algo limitativos no que concerne aos direitos da mulher (Tavares. entre elas a UMAR. sobretudo o do PCP. cria-se a Campanha Nacional pelo Aborto e Contracepção (CNC) que incorpora várias associações feministas e que se começa a mobilizar para mostrar solidariedade para com as mulheres julgadas por aborto. entre outras). porque consideram que. Nas galerias do ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . nomeadamente da UDP (1980) e do PCP (1982) para que a mulher possa interromper livremente a sua gravidez até às 12 semanas. a emergir associações e organizações feministas que têm a despenalização do aborto como bandeira e que o assumem publicamente (UMAR. entre eles o de uma jovem alentejana. Não só os partidos políticos. APF e MDM. Estes julgamentos. 2003). também. contudo não deixam de representar um caminho no sentido da despenalização. Em 1983. Na década de 80 o aborto entra na agenda política. Surgem projectos-lei. é entregue uma petição de 5 mil assinaturas na Assembleia da República exigindo a despenalização do aborto. como os sindicatos começam a ter iniciativas neste domínio. é precisamente este projecto que vai ser aprovado em Janeiro de 1984. Estes projectos. Não obstante esta resistência e críticas. Logo em 1975 é criado o Movimento para a Contracepção e Aborto Livre e Gratuito que exigia a despenalização do aborto em Portugal e a difusão e informação sobre contraceptivos em Portugal. E. Em simultâneo a Igreja Católica começa a firmar a sua posição publicamente. que é considerado ainda mais restritivo do que o do PCP. consequência das acções do movimento feminista e dos julgamentos da década de 70. em 1979. Os projectos-lei são chumbados em Assembleia da República e fica na história a imagem de 12 mulheres da CNAC nas galerias do parlamento envergando uma camisola com a inscrição “Nós abortámos”. Em 8 de Março de 1977. conhecendo algumas destas uma visibilidade social que as mantém ainda hoje como importantes actores nesta luta. com ele. uma vez que não prevê sequer razões económicas para uma mulher interromper a sua gravidez (UMAR.

começam a organizar-se novas iniciativas quer por parte da sociedade civil. a UMAR lança a Linha SOS-Aborto. se houver inviabilidade fetal (sem prazo). de 11 de Maio). morre uma mulher. com 36 anos e três filhos. se a discussão parlamentar dos projectos-lei constitui um novo alento para o movimento pela despenalização que começa. Este crime está previsto e punido no Código Penal. 2003) e. De acordo com esta lei (Lei nº 6/84. a JS e o PCP apresentam dois projectos-lei de despenalização do aborto a pedido da mulher. quer por parte dos partidos políticos (Tavares. sendo que o da JS não é aprovado por um voto. A década de 90 ficou marcada pelo referendo sobre o aborto e pelos julgamentos de mulheres. na sua maioria. ligado à Igreja Católica. É esta a lei que está hoje em vigor 2 . artigos 140º e seguintes. que desenvolve campanhas ancoradas moralmente impactantes como. em 1996. o movimento conheceu algum esmorecimento e durante vários anos a luta passou. vítima de aborto clandestino. pois. mas não são aprovados. se houver grave malformação do feto ou se o recém-nascido vier a sofrer. aos poucos. solta-se uma faixa que diz: “Lei do PS mantém aborto clandestino. No entanto. por exemplo. deste modo. o aborto é um crime. em Portugal. de forma incurável de doença grave (24 semanas).4 parlamento. a iniciada em Fevereiro de 1997 “Não matarás o zezinho”. 2 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Alguns dias mais tarde. A luta continua”. e como consequência de notícias na imprensa de que a PJ estaria a investigar 1200 mulheres que tinham abortado numa clínica clandestina em Lisboa. o movimento anti-escolha. Foi. se houver sério risco para a saúde física e mental da mãe (12 semanas). as mulheres que se fazem abortar e as pessoas que realizam a intervenção estão a cometer um crime. em Fevereiro de 1997. se a gravidez resultar de violação (16 semanas). no dia internacional da mulher. O aborto não é punido apenas nos seguintes casos: se for o único meio de evitar a morte da mãe (sem prazo). Após a aprovação da lei de 1984. longo e complexo o caminho que levou de novo à colocação do aborto na agenda pública e política. a reerguer-se. também começa a ganhar força um contra-movimento. pela publicação de artigos. A indignação e o mal-estar público levam a que algumas deputadas do PCP e do PS acusem os deputados que votaram contra os projectos-lei apresentados de contribuir em grande medida para situações como esta. Mas. assim que é aprovado o projecto. Os dois projectos-lei vão a votação na Assembleia da República. No mesmo mês. produção de relatórios e realização de debates.

deputados. assim. Cria-se. A campanha do referendo (que ocorreu de 15 a 26 de Junho de 1998) assumiu-se como um momento de intenso e polémico debate em que nem sempre os argumentos surgiram com a clareza necessária. etc. os dois projectos são debatidos na Assembleia da República: o do PCP não é aprovado por 3 votos. o “Movimento Sim Pela Tolerância”. contra todas as sondagens. porque nesse mesmo dia PS. artistas. a vitória na luta estava longe de ser conseguida. Para tal não foi indiferente a posição do líder do PS. à complexidade da questão referendada. em 28 de Junho de 1998. Para as pessoas envolvidas no movimento pela despenalização do aborto este foi um marco histórico (Tavares. que desde cedo se pronunciou contra a mudança da lei. mais restritivo que o anterior. sindicatos. Também o PCP apresenta um projecto-lei semelhante ao já proposto em 1997. a JS apresenta um outro projecto-lei. Por razões atribuídas ao fundamentalismo da posição do não. Desde logo porque algumas associações feministas envolvidas entendiam que a JS não devia ter encurtado o prazo. sobretudo. Perante um referendo imposto que muitos percepcionaram como uma expressão de uma instrumentalização política atentatória dos direitos de cidadania dos cidadãos e das cidadãs portuguesas. António Guterres. associações de defesa dos direitos das mulheres. 2003). o não ganhou. mas o projecto-lei da JS é aprovado. com maiores recursos e capacidade de mobilização. uma plataforma que integrava partidos políticos. Mas. No entanto. e a um cenário político partidário em que a direita se unia e o partido do governo se encontrava fragmentado e marcado pelo ideal católico de um PrimeiroMinistro que publicamente se mostrou contra a despenalização. que se encontrava no Governo. à indiferença e/ou à indecisão dos portugueses. e que depois se foi alargando a juristas. O referendo não foi. e PSD celebram um acordo para a realização de um referendo nesta matéria. era necessário criar um movimento forte que fizesse face aos movimentos associados à Igreja Católica. A 5 de Fevereiro de 1998. profissionais de saúde.5 No início de 1998. uma vez que o prazo legal previsto para a interrupção voluntária da gravidez é reduzido para 10 semanas. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .

Lisboa…). votaram menos de 3 milhões. 16. líder do PSD. foi ignorada. O pós-referendo foi uma altura de grande desânimo 4 e de desvitalização de um movimento que se sentia impotente face à constituição da Assembleia da República e às demandas da democracia representativa. já que. isto é.5% a favor do sim. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . “O referendo só tem efeito vinculativo quando o número de votantes for superior a metade dos eleitores inscritos no recenseamento”. vinculativo 3 . consequentemente.5% a favor do não e 15. 3. a artigos na imprensa e.Acção Jovem para a Paz. dos mais de 8 milhões de eleitores. Neste cenário. referiu que nenhuma outra consulta nesta matéria seria realizada até ao final do mandato do seu governo. a discussão devia ter sido retomada e. em 2004. apenas 32% dos eleitores se pronunciaram. à entrega de uma petição com 120 mil assinaturas na Assembleia da República para a realização de um novo referendo que se revelou infrutífera 5 . 4 Uma das excepções a este desânimo surge com a discussão e aprovação da Lei 12/2001.6 contudo. não te prives e UMAR (União Mulheres Alternativa e Resposta) . Tendo como base um campo 3 De acordo com o artigo 115º da Constituição da República Portuguesa. 5 O então Primeiro-ministro José Manuel Durão Barroso. Aveiro. pelo contrário. Com efeito. Portugal torna-se o único país da União Europeia que leva mulheres a julgamento por interromperem a sua gravidez. Clube Safo. começam a despoletar os julgamentos de mulheres (Maia. sobre a contracepção de emergência que assegura que a chamada pílula do dia seguinte pudesse ser vendida em Portugal e sem prescrição médica. assumindo-se o resultado no referendo como uma decisão final. As manifestações do movimento pelo sim começam a cingir-se a presenças à porta dos tribunais. Setúbal.unem esforços e decidem convidar a organização holandesa Women on Waves (WOW) para vir a Portugal e desenvolver uma campanha pela despenalização do aborto. coube aos agentes judiciários e aos tribunais garantirem a aplicação efectiva da lei em vigor e. A campanha WOW: breve descrição É num cenário de um activismo institucionalizado e essencialmente reactivo que um conjunto de associações portuguesas .

deslocando-as. a WOW desenvolve actividades mediáticas nos países onde o aborto é ainda criminalizado que visam chamar a atenção para as consequências nefastas dos abortos clandestinos e para a necessidade do aborto ser despenalizado. Inspirada na ideia do barco da organização ambientalista Greenpeace. Esta componente do projecto aplica-se exclusivamente a águas internacionais. nome do barco utilizado na campanha da WOW em Portugal. a bordo do barco que está sob jurisdição holandesa. designadamente workshops no âmbito da saúde sexual e reprodutiva. uma equipa de médicas e enfermeiras devidamente autorizadas podem realizar abortos. onde. para tal. definindo-o como uma zona marítima contígua ao território do Estado costeiro e sobre a qual se estende a sua soberania. até águas internacionais 6 . Assim. Tal acção não expressa qualquer tipo de ilegalidade. o Borndiep. eventos culturais. debates com profissionais do direito. certo é que o projecto WOW consistia em mais actividades. propunha-se a ajudar as mulheres portuguesas. reuniões com partidos políticos. a WOW assenta a sua campanha na deslocação de um barco que traz consigo um contentor onde funciona uma clínica ginecológica e na qual é possível realizar abortos a pedido da mulher. sessões de esclarecimento e sensibilização para a prevenção de doenças sexualmente transmissíveis e de gravidezes não desejadas. canalizando os ganhos mediáticos da campanha desenvolvida para a mudança da lei restritiva. cerca de um ano antes. mas antes articula normas do direito nacional com normas do direito internacional. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .7 de acção transnacional e usufruindo de um pluralismo jurídico a partir de cima. o limite exterior do mar territorial é fixado nas 12 milhas náuticas. Tais iniciativas e a vinda do Borndiep foram cuidadosamente preparadas desde a vinda de Rebecca Gomperts a Portugal. jurídicos e culturais que os 6 De acordo com a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar. Embora tivesse sido a faceta mais mediática e polémica da campanha. Com efeito. através da pílula abortiva. com uma gravidez até seis semanas. A cronologia deste acontecimento consubstancia um exercício importante de reflexão sobre as opções dos movimentos sociais e dos constrangimentos políticos. desde 2001 que a WOW é uma organização não governamental (ONG) devidamente autorizada pelo Ministério de Saúde holandês a interromper a gravidez de mulheres que assim o decidam até um prazo máximo de 6 semanas e meia. de 1982. que desejassem interromper a sua gravidez.

Em cada uma destas áreas. pelo que o contacto com os media é reduzido ou mesmo nulo. Mais especificamente. foi dito aos voluntários como agir. a esta altura. ainda confidenciais. Depois da viagem em 2001 à Irlanda e. Para além de promover o conhecimento e a sensibilização junto dos profissionais de saúde. a WOW navega novamente para um país onde o aborto é penalizado. Em Julho. sempre dentro da legalidade. este seminário serviu. o barco pretende atracar no porto da Figueira da Foz. à Polónia. quer para a opinião pública. se assumiram como mais marcantes. na Holanda. e da estratégia pensada para o projecto. bem como todas as informações relativas ao projecto são. pelo que se referem de seguida algumas das datas que. estando presentes na formação os advogados portugueses das associações envolvidas e da WOW. Junho/ Julho de 2004: Recrutamento e Preparação de Voluntários Em 5 de Junho de 2004. os cerca de trinta voluntários. em 2003. do atendimento da hotline e ao nível jurídico. entre os palestrantes. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . para angariar voluntários. bem como o Governo. médica ginecologista da WOW. activistas e outros para as campanhas da WOW e para a questão da despenalização do aborto como um problema de saúde pública. uma conferência de imprensa anunciada a partida do Borndiep rumo a Portugal. foi realizado em Coimbra um seminário sobre saúde reprodutiva onde.8 condicionam. se encontravam a Rebecca Gomperts e Guinilla Kleivierda. Esta formação. Agosto de 2004: a chegada do Borndiep e a acção do Governo português A 23 de Agosto é realizada. nomeadamente ao nível da segurança. da relação com os media. o que dizer. devem ser surpreendidos. receberam formação diversa para poderem participar na campanha. quer internamente para o movimento constituído. sócios das associações envolvidas e pessoas a título individual. na prática. Desde cedo se percebe que os media.

imagens que rapidamente são divulgadas nacional e internacionalmente. E. A cautelosa formação a que se tinham submetido preparava-os para qualquer imprevisto e obstáculo após a chegada do Barco a águas territoriais. O impacto mediático é extraordinário. teve conhecimento que a ONG holandesa WOW pretendia entrar em território português para: distribuir e publicitar produtos farmacêuticos não autorizados em Portugal. através dos media nacionais e internacionais. Estes argumentos serviram. Neste momento nota-se. nomeadamente os artigos 19 e 25. agora. o que poderia colocar em causa a saúde pública (idem: 12). nomeadamente. a tripulação do Borndiep. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . após tentativas falhadas de comunicação com as autoridades marítimas. através do recurso aos media. de 1982. no seio dos activistas. na prática. informamos que. efectivamente. constituída somente por membros da WOW. a pública. violando-se um sem número de convenções e directivas europeias. três: a legal. começam a ouvir-se rumores de que o barco será impedido de entrar em águas territoriais. O impacto mediático da campanha cresce a cada dia.9 onde numa casa especialmente arrendada para o efeito. recebe um fax no qual se pode ler: “Em nome das autoridades marítimas portuguesas. com várias equipes de reportagem estrangeiras a chegar à Figueira da Foz. desenvolver uma actividade numa infra-estrutura médica sem licença ou inspecção por parte das autoridades portuguesas competentes. Pela primeira vez o barco era proibido de entrar em águas nacionais num país. esse foi recusado” (WOW. mediante o lobby exercido junto aos partidos políticos portugueses e Governo holandês. Mais tarde o Governo justifica a sua decisão afirmando que. mais de trinta voluntários portugueses e holandeses se encontram preparados. a sua soberania jurídica. As arenas de eleição eram. ao abrigo da Secção III Parte II da Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar. sobretudo quando são destacadas duas covertas para vigiar o Borndiep. através da equipa jurídica. como suporte ao argumento mais invocado: o de que esta campanha atentava contra a soberania do Estado português. publicitar e promover a prática de actos ilícitos em Portugal. Entre 26 e 27 de Agosto. inclusive a perseguição judicial. e a política. 2005: 11). com a notícia a abrir vários serviços noticiosos televisivos. e o direito português. um certo desnorteamento. informamos o seguinte: no que se refere ao pedido de autorização para a embarcação Borndiep entrar em águas territoriais portuguesas com destino ao Porto da Figueira da Foz. mas não para a eventualidade da sua não chegada.

A discussão instala-se no seio do grupo de activistas: deve ou não o Borndiep regressar à Holanda? Que alternativas devem ser equacionadas para que toda a campanha não seja colocada em risco? Nesta altura há uma certa cisão no grupo. voluntários a conhecer o Borndiep. é rentabilizado em termos mediáticos. quer para os activistas envolvidos. no dia seguinte. é a vez dos deputados parlamentares Francisco Louça (Bloco de Esquerda). O objectivo agora é. entendem que o barco deve forçar a entrada e avançar para águas territoriais portuguesas. mas não para ir contra a lei. Entendendo-se que é ainda cedo para encerrar a campanha. alteradas. outros consideram que tal acção constitui um risco grave quer para a tripulação. inícios de Setembro: entre a acção institucional. a acção radical e a acção ilegal Como refere Boaventura de Sousa Santos (2005). os movimentos sociais caminham num permanente limbo entre a acção institucional e a acção radical que foge ao poder do Estado. designadamente os activistas da WOW. alugando uma pequena embarcação: se o Borndiep está impedido de vir junto dos portugueses. Os activistas estavam preparados para serem detidos pela polícia. Se alguns. Odete Santos (PCP) e Jamila Madeira (Parlamento Europeu). também. A campanha WOW foi a este nível paradigmática. a acção foi pensada para ser desenvolvida sempre dentro dos limites da lei portuguesa e toda a formação dos activistas foi no sentido de cumprimento da lei pelo que a opção por uma acção ilegal podia traduzir-se em perdas de legitimidade do projecto globalmente considerado. o que não se vem a verificar. Afinal. Com a proibição à entrada do barco. necessariamente. Este barco faz viagens para levar mantimentos à tripulação. as acções planeadas para os quinze dias de estadia são. Também o Governo e deputados holandeses iniciam esforços no sentido de ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . mas. havendo viagens específicas para jornalistas e políticos: a JS realiza no Borndiep uma conferência de imprensa a 30 de Agosto e. irem ao Borndiep. estes não estão proibidos de ir até eles. pressionar politicamente o governo para que este levante a proibição. porque a sua acção era legitima e legal. claramente. a WOW e as associações portuguesas envolvidas optam por contornar a situação inesperada.10 Finais de Agosto.

o Borndiep fez a viagem que muitas mulheres portuguesas fazem para abortar: vão a Espanha. os advogados da WOW solicitaram ao tribunal que anulasse a decisão do Ministro Paulo Portas e permitisse ao barco entrar em águas portuguesas. em nome do Parlamento Holandês. que levante a interdição. e a divulgação pela Rebeca Gomperts. artistas e profissionais de saúde que ocorrem em terra e não a bordo do Borndiep como inicialmente se tinha previsto. que havia continuidade de actividade criminosa em território português. por seu lado. A seis de Setembro é conhecida a decisão do Tribunal Administrativo de Coimbra. Considerou. também. Julgamento. Estes são momentos de uma nova atenção mediática. assim como a acção judicial contra o Estado português Paralelamente a estas. Assim. do modo como a mulher portuguesa podia abortar usando Misoprostol. deputadas do Parlamento Holandês vêm a Portugal como forma de apoio à campanha WOW. mas pede. designadamente aos workshops com políticos.11 convencer o Governo Português a permitir a entrada do Borndiep. Os advogados do governo argumentaram. no programa SIC 10 Horas de 7 de Setembro. que reuniu cerca de 250 pessoas junto da residência oficial do Primeiro-Ministro. de reunião e de expressão. assim como a viagem forçada do Borndiep a Espanha para se abastecer de combustível. de informação. há acções de confronto como a manifestação realizada a 1 de Setembro. argumento que foi contestado. a colagem de faixas com a inscrição “Eu fiz um aborto” em diversos pontos da cidade de Lisboa. o Ministro dos Negócios Estrangeiros da Holanda. Estas são acções moderadas e institucionais. que verdadeiramente podia haver continuação da actividade criminosa e que os direitos fundamentais invocados pela WOW não são absolutos e podem ser restringidos quando há interesses maiores em risco. diz respeitar a decisão do Governo Português. Também a quatro de Setembro. já que tal operação foi proibida em Portugal. Bernard Bot. Baseados no direito à liberdade de mobilidade. Progressivamente a campanha começa a perder força e vitalidade e os media dão menos destaque às iniciativas. A juíza decidiu a favor do Governo dizendo que este tinha agido de acordo com o seu poder discricionário e não cabia a um juiz anulá-lo. A dois de Setembro. uma vez que a pílula abortiva era administrada no barco. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . mas o aborto ocorria em Portugal.

Neste ponto. uma vez que os voluntários e algumas associações envolvidas queriam permanecer dentro da legalidade e evitar colocar em risco a legitimidade da acção. A primeira era mais imediata e procurava ajudar o maior ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . ao mesmo tempo que sustenta a sua acção no cumprimento da lei. notou-se uma diferença entre a agenda da WOW e a agenda das associações portuguesas. como a decisão do tribunal mostrou ser mais uma decisão política do que uma decisão judicial. pelo contrário. o direito é político. por acções institucionais. o barco regressa. Em primeiro lugar. mostrando que. 1984). O Borndiep surge como uma “dádiva” provinda de outro país para a luta pela despenalização do aborto em Portugal ou. já que os direitos são instáveis. na génese da criação da WOW. 4. ambíguos e manipuláveis. essencialmente. O Borndiep como Kula? Numa sociedade marcada pela ausência de movimentos sociais fortes e por uma luta que se tem marcado. o que de facto aconteceu após o programa SIC 10 Horas. à Holanda e a campanha termina. mas também na acção dos movimentos sociais generalizadamente considerados.12 Sem qualquer esperança de que o Borndiep fosse ainda autorizado a entrar em Portugal e perante uma luta que se desmobilizava. O balanço da campanha obriga a uma reflexão deste tipo de estratégias não só na luta específica pela despenalização do aborto a pedido da mulher. podendo ser utilizados para justificar quase qualquer decisão judicial (Tushnet. tal pluralismo jurídico não só foi ignorado pelo Governo. no final. aliás. como defendem vários autores. foi uma estratégia contraproducente? As acções usadas durante a campanha face à proibição da entrada do Barco foram adequadas? O grande trunfo da campanha. que está. um obstáculo a que a acção se radicalizasse. entendendo várias pessoas que Rebeca Gomperts não deveria ter divulgado como cada mulher podia fazer um aborto se assim o entendesse. o recurso a um pluralismo jurídico que permite toda uma acção dentro da legalidade acabou por ser. a 9 de Setembro. o chamado “Barco do Aborto” emerge como uma forma de acção colectiva nova que se inscreve nas formas de acção política ditas radicais. Também a acção política do movimento foi constrangida.

Finalmente. como activista e socióloga. realizada pelo Diario de Noticias e TSF. não deveria ser “espectacularizada” em iniciativas como o “Barco do Aborto”. media e população em geral. Uma outra sondagem. Permitiu. Desde logo. inclusive do PSD. contribuiu para que os portugueses tivessem consciência do posicionamento de Portugal nesta matéria face aos restantes países da União Europeia. ainda. Assim. quer na televisão. A proibição da entrada do barco acabou por ter. entendo que os ganhos desta campanha superaram as eventuais perdas. permitiu reintroduzir na discussão pública um tema que parecia estar votado à marginalização das opções políticas. ainda que de uma forma mais indirecta do que a inicialmente prevista. De facto. Com efeito. Em terceiro lugar. ajudar efectivamente várias mulheres portuguesas. tinha objectivos definidos a médio-longo-prazo que passavam pela criação de um cenário propício à alteração da lei em vigor. Num outro aspecto.13 número de mulheres portuguesas possível levando-as a bordo do Borndiep. a derrota judicial conduziu a uma desmobilização final da luta. esta foi uma mobilização do movimento pela despenalização que fugiu ao carácter reactivo e pontual dos protestos dos últimos anos. mais moderada. Estes resultados e a reintrodução deste tema na opinião pública ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . questionando-se o grupo se esta foi uma opção eficaz. a hotline esteve a funcionar durante toda a campanha. durante a campanha. mesmo aqueles que eram contra a despenalização. foram várias as vozes que consideraram que uma questão da esfera íntima como é a da interrupção de uma gravidez. direitos e cidadania e a relacioná-los com a questão do aborto. Esta possibilitou uma onda de apoio por parte de vários políticos.9% dos inquiridos afirmavam querer um novo referendo e 60% defendiam que o aborto devia ser despenalizado. no final. partido do Governo. e inclusive após a partida do Barco e houve informação disponibilizada quer na Internet. mostrou que 56% da população queria que o aborto fosse despenalizado imediatamente e 7% depois do Governo terminar mandato. No entanto. ganhos mediáticos significativos. Certo é que o mediatismo conseguido por uma acção radical da sociedade civil sem precedentes em Portugal perdeu vitalidade e dinamismo quando enveredou por uma via mais institucional e moderada. levando ao repensar de conceitos como o de democracia. uma sondagem efectuada pelo jornal Público. a segunda. mostrou que 79.

UMAR (1999) Aborto – decisão da mulher. 62:1363. Porto: Edições Afrontamento. na minha opinião. Boaventura de Sousa (2005) Fórum Social Mundial: Manual de Uso. TAVARES. TUSHNET. a questão do aborto estivesse presente em todos os debates televisivos e nos programas eleitorais.” Texas Law Review. UMAR. WOW ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Referências Bibliográficas SANTOS. Manuela (2003) Aborto e Contracepção em Portugal. após Abril de 1974. Lisboa: Universidade Aberta. WOW (2005) Women on Waves – Portugal. Manuela (1998) Movimentos de Mulheres em Portugal. Dissertação de Mestrado em estudos sobre as mulheres. para que nas campanhas para as eleições legislativas que se iniciaram pouco tempo depois da campanha WOW. Mark (1984) “An Essay on Rights. TAVARES.14 contribuiu. Lisboa: Livros Horizonte. História do movimento pelo aborto e contracepção em Portugal.

em tempos. um promotor imobiliário que. processos de tradução. espartilhado entre toda uma heterogeneidade de objectivos contraditórios: por um lado. O motivo da discórdia relaciona-se com diferentes versões daquilo que é o valor patrimonial do edifício. a Câmara Municipal de Coimbra que.Uma controvérsia como objecto etnográfico1 Andrea Gaspar Palavras-chave: património. adquiriu o espaço para a construção de apartamentos. dado que o mesmo dá origem a duas versões contraditórias sobre o valor do edifício. mas que desde há mais de uma década enfrenta um processo de degradação. A minha abordagem situa-se O presente texto corresponde à comunicação apresentada pela autora no 3º Congresso da APA. havendo diferentes posições relativamente ao seu destino e às suas possíveis funções. a outra reforça-o. Introdução Esta comunicação centra-se numa controvérsia patrimonial em torno de um antigo Teatro situado na Alta de Coimbra. mediação 1. em Coimbra”. controvérsia. portanto. foi um dos mais importantes Cine-teatros de Coimbra. de um caso que nos remete para uma concepção de património como uma construção social. alegando razões financeiras. em finais da década de 80. A controvérsia propriamente dita diz respeito à discussão sobre o tipo de intervenção a dar ao edifício que. inviabiliza a última proposta. FEUC. por outro. um acordo com o proprietário. um movimento cívico em prol do Teatro. que defende a sua aquisição pública ou expropriação e a devolução da sua função de espaço cultural. Assim. O interesse do edifício não é consensual. Esta comunicação baseia-se em dissertação realizada no âmbito do programa de mestrado em sociologia “As Sociedades Nacionais Perante os Processos de Globalização”. em que o estatuto patrimonial do objecto analisado não está definido. e por fim. enquanto que uma posição nega o interesse patrimonial do edifício. originalmente com o título “Património em Contestação: o caso da controvérsia em torno do Teatro Sousa Bastos. 1 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . a vontade de rentabilização do seu proprietário. A transformação do título deve-se ao facto de esta se tratar de uma versão revista e mais detalhada. propondo como solução alternativa. mas sim em discussão. Trata-se.

altura em que foi aclamado Teatro D. tendo passado a ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Gambini 1999). tendo sido reinaugurado em 1910. após instauração da República. como algo exclusivamente humano). a sua função de Teatro é bem mais antiga – remonta ao século XIX. são ainda mais antigas: remetem para o século XII. A sua decadência. Luís em homenagem ao monarca vigente. desta vez em homenagem ao dramaturgo que era tio do então proprietário da casa de espectáculos (cf. Em todo o caso. para uma Igreja Românica semelhante à Sé Velha. Não sendo o meu objectivo avaliar qual dos lados da controvérsia é que tem razão. numa espécie de liminaridade patrimonial. que conduzem a dois produtos possíveis da controvérsia (património/não património). como se de algo puramente “social” se tratasse (ou seja. no entanto. por sua vez. começou a sentir-se na década de 70. considero que este processo de patrimonialização se trata de uma construção social não apenas no sentido de algo que não está definido. mais precisamente. passando a incluir estes aspectos numa abordagem mais ampla que permite dar conta da construção praxiológica de um objecto patrimonial. 1999b). Como Teatro. foi frequentado pela elite de Coimbra. altura em que foi remodelado ao estilo arte déco. importa sobretudo analisar as posições que a compõem enquanto processos contraditórios. e portanto. Pequeno apontamento histórico sobre o edifício Embora a fachada do edifício remonte à década de 1940. a constatação de que eles fazem parte do mesmo processo. é importante salientar a tentativa de deslocação da análise de um ponto de vista meramente discursivo e ideológico. As origens do edifício. com o nome de Teatro Sousa Bastos. O ter estado atenta ao processo que antecede as suas consequências significou a consciência da problematicidade em separar um ponto de vista discursivo de um ponto de vista pragmático e material. 1999a. e sobretudo após 74. de modo a ter um registo de todas as circunstâncias de que eles são feitos. Soares 1990-1992). 2. da qual se supõe a existência de vestígios (cf.precisamente na análise de todo o processo que leva à construção destes respectivos enunciados. Seguindo a perspectiva de Bruno Latour (1996. mas no sentido em que há uma série de processos ou acções que são simultaneamente humanos e não humanos ou materiais – as mediações – as quais irão determinar esse estatuto do objecto em discussão.

à semelhança da maioria dos centros históricos em Portugal. um processo de ruína que tem durado até aos dias de hoje. a Alta de Coimbra é um espaço dotado de alguma ambiguidade. fazendo do local uma zona marcada pelo envelhecimento e pela desertificação. viria a trocar este espaço por outro. foi a sede de uma Cooperativa de Teatro – a Bonifrates – que. a discórdia e. associações mais ligadas ao meio local (associações de moradores. entretanto. A Alta de Coimbra Contextualizando um pouco a controvérsia. na Alta.funcionar exclusivamente como Cinema. ao espírito da época. centro de serviços). as quais são visíveis. Diário de Coimbra. 1989). ao nível associativo. Posteriormente. desde então. sobretudo westerns e filmes pornográficos. Por essa razão. perante a degradação do edifício. uma vez que a posse pública do edifício nunca se chegou a concretizar. do que dos discursos nos quais essa separação é produzida. com o seu crescimento. acabaria por ser adquirido por uma sociedade constituída entre um promotor imobiliário e um ex-presidente de Câmara de Coimbra (cf. bem como o bairro mais antigo da cidade. tem vindo a deslocar-se para zonas mais periféricas. Uma das mais importantes características da Alta de Coimbra é o facto de se tratar simultaneamente da zona onde se situa a Universidade. a Alta é assim uma espécie de laboratório de representações múltiplas e ambíguas. produto de um conjunto de tensões que provêm menos de uma real separação entre dois tipos de população (a população autóctone vs população flutuante). mais “autêntica”. uma vez que a própria Universidade. e por outro lado. tinha o intento de transformar o espaço num Centro Cultural. importa salientar o facto de o espaço se situar na Alta de Coimbra. Há. O edifício. 3. devido à coexistência de população autóctone e de população universitária. por exemplo. A Alta de Coimbra tem vindo a perder as suas funções de centro (centro habitacional. não obstante as diversas tentativas por parte dessa Cooperativa que. folclóricas e etnográficas). consequentemente. que lhe fora oferecido com melhores condições. em inícios da década de 80. altura em que foram sendo projectados filmes altamente lucrativos. associações recreativas. ambição essa mal sucedida. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Instalou-se. Espaço de múltiplas vivências. preocupadas em reviver costumes e tradições de uma Alta passada.

segundo o conceito de Kristoff Pomian (1984).associações mais ligadas a um meio académico e político que. residências de estudantes autogeridas e organizadas em termos associativos. importa salientar que a ADDAC reproduz. Formou-se então um Movimento Cívico composto por várias associações da Alta. No seguimento do que foi dito no ponto anterior. por isso. ou a semióforo. através dos seus discursos. remonta a 1989. interpretar o Teatro Sousa Bastos. a ADDAC (Associação de Desenvolvimento da Alta de Coimbra) e as Repúblicas da Alta de Coimbra – o movimento Salvem o Sousa Bastos. 4. passando a significante. tal como a Alta. mas foi sobretudo em 1996 que se levantou a discórdia. Este foi o primeiro momento da controvérsia. o Sousa Bastos pode ser considerado como uma espécie de objecto de museu metonímico da própria Alta e dos discursos sobre ela produzidos. Estanque 2005). o que não raramente corresponde a uma visão idealizada do “espírito de bairro”. como algo que perdeu a sua centralidade e se desfuncionalizou. quando o proprietário apresentou um projecto de construção de apartamentos. de reactualização de discursos e constante negociação de representações e divergências políticas acerca do que é e deve ser o espaço social do centro histórico de Coimbra. que viria a ser aprovado pela Câmara Municipal. Neste contexto de relações. representam-na como espaço em que o espírito de bairro e as relações sociais cedem lugar a uma objectificação e esteticização do centro histórico para consumo turístico – a perspectiva da mercantilização da cultura. Poderemos. Mais do que pano de fundo da controvérsia. salientam a Alta como um espaço vivo de relações sociais. a Alta é objecto politico de contestação. altura em que a Cooperativa de Teatro Bonifrates abandonou o edifício. Breve contexto da controvérsia A controvérsia é longa. entre as principais. e que por isso se situa numa espécie de liminaridade em que se discutem novas funcionalidades. por sua vez preocupadas em promover a participação cívica e o activismo social dos seus residentes (cf. Tal é o caso das Repúblicas de estudantes. para os quais funcionam como uma espécie de rituais de cidadania. contestando o localismo e o passadismo da visão das primeiras. enquanto as Repúblicas. e do ponto de vista da musealização do espaço urbano. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . uma representação da Alta como um espaço pitoresco.

Esta associação de moradores manifesta uma preocupação com a degradação e crescente desertificação e desfuncionalização da Alta como espaço social. com a ideia de recuperação do edifício. e este objectivo inseria-se num outro contexto de preocupações: a política cultural da cidade. a aproximação de eleições municipais. um significado diferente para ambos os grupos. há aqui contextos de motivações políticas que divergem e que formam agregações de intencionalidades distintas. com vista a resolver o problema do Teatro. a Comissão para a Coimbra Capital Nacional da Cultura. a acções e a manifestações culturais. em 2003. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . começava a ruir. E portanto. o projecto do proprietário ficou suspenso devido à obrigatoriedade de escavações arqueológicas. havendo por parte da Câmara Municipal. a reconstrução do edifício como Teatro. Entretanto. Por seu lado. na qual este edifício se insere. ambas se uniram num objectivo comum (lutar pela preservação do edifício como espaço cultural). Foi a partir deste segundo momento que tive a oportunidade de acompanhar a controvérsia à medida que ela se foi desenrolando: assistindo a debates. procurando com isso acompanhar o modo como essas duas versões sobre o interesse patrimonial do edifício estavam a ser construídas. para a ADDAC. implicando a restituição fiel da sua fachada bem como da sua função. O movimento cívico veio discordar desta posição. a reuniões com a população. com a contrapartida da cedência de algum espaço no rés-do-chão para construção de uma sala polivalente que servisse as actividades locais da população daquele bairro. por outro lado. formando um único grupo. dado que ambos possuíam. que entretanto. um “espaço cultural” significava. para as Repúblicas. Tais negociações iam no sentido de permitir o projecto do construtor. No contexto das suas intenções. público na sua essência. Apesar das diferenças de sensibilidades e de motivações de partida. Deu-se assim o ressurgimento do protesto. tal não significava necessariamente um restauro do edifício. diferentes intenções à partida.marcada por uma visão negativa e pessimista relativamente aos fenómenos de “musealização” do espaço urbano. ao longo da controvérsia. a anunciação de negociações com o proprietário. que surgiu aquando da reunião de dois factores: por um lado. enquanto processo (contestado) de patrimonialização em curso. altura em que se reacendeu a discórdia. Houve um impasse até uma segunda fase da controvérsia. Mas o objectivo de recuperação do edifício como espaço cultural acabou por revelar. com um novo nome: o Movimento Sousa Bastos Vivo. mantendo a defesa do edifício como espaço cultural. O assunto do Teatro Sousa Bastos volta a ser colocado nas agendas políticas.

que estão mais interessadas em defender um espaço cultural alternativo. por um lado. mas têm de ser mediados: são necessários outros. Mas a principal objecção é dirigida à nova proposta do movimento. a partir do momento em que a Câmara Municipal anuncia um acordo com o proprietário. Perante isto. Reformularam-se assim os grupos de acção: Câmara e ADDAC. Processos de tradução A segunda fase da controvérsia foi. Esta posição não veio a ser partilhada pela ADDAC. a concepção por detrás da ideia de “espaço cultural” foi revelando as divergências e diferentes motivações de partida. também as agendas irão ser reformuladas. a Câmara Municipal. e por não se identificar com a nova reivindicação. associa-se à ADDAC. não num Teatro. e por isso. Movimento Sousa Bastos Vivo. então apresentado como Movimento Sousa Bastos Vivo. por outro. de modo a convencê-los de que essa é a opção “boa”. a ADDAC declarou a sua desvinculação do movimento cívico. O que defendem é a importância de existência de espaços culturais ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . que passou a ser a ser aliada da Câmara Municipal. A justificação da ADDAC pela divergência é a de que a anterior luta não revelou qualquer eficácia. com outras intenções. por seu lado. pois permitia a ambos a concretização dos seus objectivos. marcada por novos protestos. Esses objectivos de partida não são atingidos directamente. no sentido de avançar com um projecto misto. Ao longo deste processo. Perante isto. O argumento da recuperação do edifício como espaço cultural foi o denominador comum que agregou as Repúblicas e ADDAC no mesmo grupo. a transformação do Sousa Bastos num espaço cultural alternativo. Porém. e daí a constituição de acordos. para atingir o seu objectivo (recuperar o edifício recorrendo à iniciativa do próprio proprietário). irão procurar convencer os artistas e grupos culturais de Coimbra. o movimento cívico continuou a defender a necessidade da intervenção no antigo Teatro como espaço público. Perante isto.5. o qual consideram que serviria mais os artistas do que a população da Alta. grupos e alianças. que é mais representativa dos interesses dos moradores da Alta. portanto. As Repúblicas. em nome de uma melhor política cultural na cidade. a sua aquisição pública ou expropriação. e que a Câmara não estava interessada em fazer mais um Teatro na cidade.

em colaboração com a ADDAC.especificamente naquela zona da cidade. ateliers com crianças e idosos da Alta. o que significa que não faz sentido falar em discursos separadamente das estratégias: acções e de operações específicas. A ideia de cidadania cultural permite entender a população da Alta como agente e participante nos processos culturais desenvolvidos. e constituídas as novas alianças. uma inauguração “fantasma” (simbólica) do novo Teatro. entre outras. agentes culturais. nível esse inseparável de um contexto praxiológico mais vasto. assim. Estamos. o Movimento Sousa Bastos Vivo foi organizando diversos debates públicos com a participação de convidados com algum destaque no meio cultural de Coimbra: artistas. propondo para o Teatro Sousa Bastos a criação de um “Espaço Social e Performativo”. Importa com isto salientar que o mesmo objecto está a ser duplamente processado como património e como não património. perante acções que ultrapassam o nível discursivo. através do Gabinete para o Centro Histórico. organizou. com o objectivo de envolver a população. Por seu lado. Reformuladas as devidas estratégias. foram convidados artistas a participar com criações originais. e constitui. Os argumentos foram os de que uma sala polivalente para pequenas festas e para pequenos ensaios de peças de teatro ou de ranchos folclóricos serve melhor a população. que formam o contexto no qual ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . em diferentes contextos e ocasiões: A Câmara. intelectuais. é a que melhor representa a Alta. pelo movimento: diversas manifestações culturais. do que um equipamento de grandes dimensões. Para estas iniciativas. Para além de debates. por isso. sobretudo. A ideia de um “Espaço Cultural e Performativo” permitiria. contingentes e contextuais. em vez de mera consumidora de espectáculos. tais como desfiles performativos. espectáculos. a síntese de uma crítica mais geral aos processos mercantilizantes da cultura e do património. procurando mostrar que a proposta que apresentam. trabalhar com. como justificação para o investimento na criação desse espaço alternativo naquela contexto. para artistas. ambos os grupos foram realizando uma série de debates e de acções. professores universitários. com o objectivo de convencer os respectivos públicos. uma sessão de esclarecimento dos moradores. Gaspar 2006: 170-176). Também estes procuram mostrar que defendem o que é “melhor” para a Alta (cf. o que significa que irá haver transformação no final do processo. arquitectos. outras acções foram realizadas. e não para a população que ali vive. dando assim exemplos do que poderia ser a actividade cultural a desenvolver no “espaço social e performativo” (idem: 111). por sua vez inspirado numa concepção de cidadania cultural. portanto.

Nesse sentido. o outro que visa transformá-lo no enunciado oposto de “espaço sem interesse patrimonial”. É isto que tem marcado a passagem de uma abordagem simbólica da cultura. Os segundos grupos. Neste caso. Pessoas e grupos com interesses heterogéneos uniram-se com um interesse comum. por oposição a Movimento Sousa Bastos Vivo (Repúblicas em pareceria com agentes culturais). para uma abordagem material e praxiológica dos fenómenos sociais. no contexto de uma Alta concebida como espaço de habitação e de vivência social. como leis científicas ou novos objectos materiais. trata-se de recolocar no âmbito da análise social. A ideia de tradução. e consequentemente. No fundo. Estes interesses eram. tão negligenciados ao longo das abordagens excessivamente humanistas e antropocêntricas das ciências sociais da modernidade. em termos de uma identidade e posição política acerca desta questão. Tiveram. seguindo o conceito desenvolvido por Bruno Latour (1996). ou seja. pois. em pareceria com o proprietário. que era a recuperação do Teatro para fins culturais. a autonomização de grupos. desvio de percurso e reformulação de objectivos. Os objectivos de ambos foram interrompidos. à partida. pois as Repúblicas estariam mais interessadas na política cultural. e consequentemente. segundo Latour. que constituem dois processos de tradução distintos: um que visa transformá-lo no enunciado de que se trata de um “espaço patrimonial”. na primeira fase da controvérsia. reformuladas as estratégias. heterogéneos. Os primeiros grupos autonomizados foram. mas essas consequências são mais “duras” do que simples discursos. por oposição ao primeiro movimento cívico. a Câmara Municipal. que seguir caminhos ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . após reformulação. composto por várias associações. enquanto que a ADDAC manifestava uma preocupação mais relacionada com a recuperação do edifício e das suas funções. são constituídos por uma série de acções ou operações. incluindo (ADDAC) e as Repúblicas de Coimbra. remete para um conjunto de acções que conduzem a transformações ontológicas e materiais. a ideia de que há uma série de passos até chegar ao enunciado final. ou seja. identifica-se como um desses passos ou operações. Contudo.esses discursos são produzidos. podemos considerar que o edifício está a ser duplamente processado por intenções opostas. os aspectos “objectivos” e materiais da realidade. foram a parceria constituída entre Câmara ADDAC. juntos. que têm consequências que não são meramente retóricas e discursivas. não conseguiram convencer os poderes autárquicos. Os processos de tradução. que nos habituaram a uma concepção de sociedade como algo puramente humano.

também os processos de mobilização retórica envolvidos (outra das operações de tradução) são reformulados: por exemplo. e pela ausência de uma estratégia cultural por parte dos poderes autárquicos.divergentes para atingir as suas finalidades. a Câmara considera que o edifício não tem interesse (arquitectónico. têm por base ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . chama a atenção para a impossibilidade de construção de um equipamento cultural adaptado às exigências contemporâneas num espaço com aquelas características (ruas íngremes e medievais). Ou seja. histórico. bem como os discursos que lhe estão associados. Fragmentado o movimento. o qual irá determinar o destino do novo objecto resultante. Seguiu-se uma fase de estagnação e posteriormente. novos protestos. designada por processo de interessamento (Latour 1996). A partir daqui. detalhadas na minha etnografia. significou seduzir para o mesmo objectivo grupos os pessoas que nada tinham a ver com o assunto. e surgida uma oportunidade de aliança com agentes culturais da cidade. Um dos processos de interessamento que se verificou foi a associação com artistas da cidade que reclamam a falta de espaço cultural. mas a sua memória. Outro dos processos de interessamento. verifica-se na ligação entre a Câmara Municipal e a ADDAC. Estas duas versões do interesse do edifício. bem como com agentes culturais descontentes com a política cultural da cidade. numa segunda fase. passou progressivamente a ser a transformação do antigo Teatro num espaço alternativo para os grupos artísticos da cidade. ao mesmo tempo que o movimento mobiliza a retórica da política cultural da cidade. novos aliados foram sendo mobilizados para a causa. constituem o ponto fundamental que permite a constatação da observação de um fenómeno que ultrapassa o nível meramente linguístico. etc. mobilizando argumentos técnicos e urbanísticos. como já referi. Assim se transformam interesses heterogéneos em interesses comuns. bem como novas retóricas. a Câmara.). mas que se tornaram aliados. que irá procurar associar-se a especialistas em urbanismo para reforçar e legitimar “tecnicamente” o enunciado pretendido. porém o movimento considera que não é o interesse do edifício que está em causa. aquilo que ele representa como Teatro naquele bairro. na altura em que houve negociação da Câmara com o proprietário. em termos de mobilização retórica. o objectivo do novo movimento. cuja aliança permite reforçar o respectivo argumento ou enunciado. o Movimento Sousa Bastos Vivo. Em suma. o seu significado social. chamando a atenção para a necessidade de criação de espaços para grupos culturais que não têm espaço. Esta operação. Estas estratégias de acção.

está nas pessoas. num certo sentido. que é também. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . no contexto das sociedades capitalistas modernas. a “cidadania cultural” como crítica a essa tendência de mercantilização da cultura 3 . impossível de concretizar não apenas devido a motivos económicos. históricas. vieram. que reduz a proposta de um “espaço social e performativo” a um Teatro. não no edifício em si. os sujeitos em detrimentos dos objectos. importa apenas salientar que o movimento cívico representa (no sentido em que mobiliza a retórica construída por esta tendência.tradições ideológicas distintas. Tal se verifica na acção de salientar um projecto alternativo para aquele espaço (proposta de Espaço Social e Performativo). a ideia de que haver interesse patrimonial no edifício. Para além disso. aqui objectificado na posição da Câmara Municipal. Abandonadas quaisquer pretensões vlorativas de acesso a uma verdade final. salientam a importância daquele espaço para os moradores. argumentam que o edifício não possui características que justifiquem a sua preservação: características estéticas. que nos remetem para um velho debate sobre as questões da cultura na globalização. 3 Insere-se nesta tendência a escola de pensamento dos anos 1970. realçando o aspecto social em detrimento do material. arquitectónicas. Esta concepção de cultura e de património. a musealização do espaço urbano) e por outro. no caminho para atingir o seu objectivo) precisamente esta segunda opção: a cultura como cidadania. a “mercantilização da cultura” ou as “indústrias culturais”2 (o turismo. só faz sentido como reacção ao extremo oposto desta concepção. patrimoniais: argumentam que o edifício não é típico da zona onde está inserido. marcado pelo confronto entre duas tendências: por um lado. o interesse do edifício para as pessoas. ou cultura de massas. ou seja. e uma concepção de património como algo social. O interesse do edifício. Isto é o que se poderá considerar uma concepção de cultura como cidadania. substituir a noção de cultura popular. e sobretudo. sinónimo de um grande equipamento. a uma ideia de cultura como sujeito. Deslocam. foge ao padrão dos edifícios que compõem o Centro Histórico. urbanísticos (problemas de acessibilidade que têm a ver com a configuração das ruas). mas também técnicos. Com isto. na memória do espaço e no seu significado. em detrimento da transformação da Alta para turistas. promovendo a participação em detrimento do consumo e transformando consumidores em participantes num processo de produção cultural. defendendo a interacção entre dinamizadores culturais e a comunidade local. para a memória social. desta forma. defendem. e que por isso. e não sendo o âmbito desta discussão procurar saber qual das duas a mais válida. ele só 2 As chamadas indústrias culturais. conhecida por Teoria Crítica da Escola de Frankfurt.

É a eficácia dessa representação. que por razoes obvias escapam aos ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . é outro dos passos no caminho. o destino do edifício. que assentam todos os processos políticos (cf. de retóricas que servem esses objectivos. reuniões de moradores por intermédio de associações de moradores. a Câmara Municipal defende que a população não precisa de um Teatro. mas sim de um espaço polivalente para as suas actividades (ranchos. o outro. Um dos lados representa a Alta como sujeito. tendo em conta que. Este é apenas o resumo das narrativas mobilizadas para esta questão ao longo do processo. no sentido em que defende que representa mais fielmente aquilo que a população quer para o edifício. mas sim a representação política. para a qual este modelo de interpretação foi desenvolvido). através da conquista do consentimento dos representados (Gramsci 1974). bem como para uma noção de cultura que é mais próxima de uma ideia de cultura como mercadoria (em vez de cidadania). É. que não correspondem às expectativas em termos de público. Cabral 2004). Neste caso. não fazem falta mais Teatros na cidade. A representação é outra das operações. contrariamente à anterior.). seria mero “património psicológico”. reformulação de grupos autonomizados. como objecto.poderia estar inscrito no próprio edifício. debates com a população. sendo que a prova final do respectivo enunciado não é a verificação empírica (ao contrário da ciência. reformulação de objectivos e consequentemente. cada lado da controvérsia considera que representa a população da Alta. ou criação de relações com o público. pequenas peças de teatro. O que é importante salientar é que esta é a legitimação retórica que fundamenta cada uma das posições a realizar de uma série de acções com vista a convencer a população de que representa aquilo que ela quer: através de manifestações artísticas. Esta ideia. e consequentemente. um dos argumentos desta posição é a de que. Estratégias a nível de alianças ou processos de interesssamento. etc. em processos de representação. de uma perspectiva de relação entre oferta e procura. que determinará o predomínio de um enunciado sobre o outro. Ambas as concepções e processos de mobilização retórica podem ser entendidos como diferentes caminhos para atingir diferentes fins. estão envolvidos em muito maior detalhe. caso contrário. pois. em que cada um dos lados desencadeia as suas acções com vista a atingir o seu objectivo. para além dos já existentes. remete para uma concepção objectificante de património. etc. bem como as representações. O Movimento Sousa Bastos Vivo defende que a população do bairro precisa de um espaço cultural.

foi fundamental o trabalho de Bruno 4 Não se pretende com isto oferecer uma visão homogénea dos grupos em questão. O processo de tradução só é terminado assim que houver uma coesão entre esses elos: esse será o núcleo duro. as consequências materiais propriamente ditas. São estas operações que permitem identificar os diferentes enunciados em causa. Para isso. refiro-me a grupo não no sentido de identificação. foram assim sendo criadas relações ou elos de ligação que não existiam antes – por exemplo: o Sousa Bastos como uma questão de política cultural da cidade. duas possibilidades de objectos diferentes. Há. ou o Sousa Bastos como uma questão urbanística – mas que foram sendo criados ao longo do processo. interessou-me sobretudo analisar estes dois lados da controvérsia como dois processos de enunciação. Desta forma se constata como o mundo discursivo e o mundo material não se sobrepõe. fica no entanto ausente esta última fase deste processo de tradução. Conclusão Perante estes dois paradigmas (subjectificação/objectificação).objectivos desta comunicação. ou seja. Por outras palavras. ou seja. há. portanto. a identidade não foi o critério que utilizei para identificar e diferenciar grupos. o novo objecto. mais do que procurar saber qual destas posições sobre o Teatro Sousa Bastos é a mais “verdadeira”. a algo irreversível. ou seja. sendo isso que define o social. até novas eleições municipais). Importa porém salientar que. ou qual é a “melhor”. mas no sentido de agregação com fins pragmáticos e acções convergentes. também. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . ou no sentido de associações. Porém. 6. quiçá. através das acções referidas. e mobilizados para a controvérsia. após a controvérsia. interessou-me analisar como é que cada uma se constrói como “verdade”. trabalho esse que é feito e refeito em função das inúmeras contingências que surgem ao longo do processo. pois a noção de grupo que utilizo refere-se a um nível de sentido meramente formal. dado que esse desfecho ainda não se conhece e a controvérsia ainda perdura (marcada por nova estagnação que durará. Havendo dois enunciados. mas constituem-se mutuamente. Um destes enunciados terá maior eficácia sobre o outro e dará origem a um novo objecto. mas refiro-me a grupos somente do ponto de vista das suas estratégias de acção. àquilo que fica para a história após a controvérsia. é esse o elemento que permite analisar as duas posições enquanto grupos de intencionalidades distintas 4 . que são os seus efeitos. as consequências materiais desse processo. no sentido latouriano. todo um trabalho artefactual de sucessivas mediações. pois. a forma e o estatuto que o edifício irá assumir.

é aquilo que faz a história. 20-05-05. do ponto de vista da tradução. e “o Sousa Bastos não é património”. um instrumento de análise inicialmente concebido para controvérsias científicas. Oeiras: Celta. Oficina do CES.ces. O conceito de tradução remete para o processo de construção de novos factos ou de novos objectos.ces.fe. é aquilo que não fica para a história. Dezembro de 2002 FRIAS. 7. A ideia de tradução significa.pdf ESTANQUE. 1999. Elísio. www. Actas do IV Congresso Português de Sociologia. “Esthetiques urbaines et jeux d’echelles: expressions graphiques étudiantes et images du patrimoine universitaire a Coimbra”. E a tradução é precisamente a passagem da controvérsia aos novos objectos ou factos objectivos: a passagem da contingência à necessidade. 2004. www. as operações que transformam a modalidade em enunciação. Paulo. Junho de 2001 FRIAS. o que implica entender a controvérsia não como algo a eliminar.Latour. http://www. “Representação Imaginária da Cidade.uc.pt/opiniao/ee/001. 2005. entre o passado e o presente”. No fundo. Comissão de Coordenação da Região Centro. Aníbal. Coimbra ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . nº 183. que caminhos mais longos irão ser tomados para lá chegar. Por isso. a observação etnográfica deste caso permitiu-me descrever e dar conta de dois processos de enunciação de verdade em confronto simultâneo: “o Sousa Bastos é património”. Oficina do CES. 2001. A controvérsia é o que Latour chama de modalidade: é o lado contingente de um processo social. Aníbal e PEIXOTO. “Aprender a representar: democracia como prática local”. Mas no fundo. por isso. mas que permitiu entender este caso de um ponto de vista processual: o conceito de tradução. “Patrimonialização” da Alta e da Praxe académica de Coimbra”. Teatro Sousa Bastos . trata-se de analisar os processos pelos quais a acção é mediada: que operações são levadas a cabo para atingir determinados objectivos.As Primeiras Décadas de História.pdf GAMBINI. 21-05-04. Lígia Inês.pt/corpocientifico/pinacabral/pdf/DemocraciaJPC3. que desvios. Bibliografia CABRAL. 1806-05.php FRIAS. 2002. nº 162. Aníbal e PEIXOTO.fe. a última fase do processo (património/não património).ics. 2002.ul. sendo que a enunciação é o produto final. que delegações. Paulo. João de Pina.uc. é uma espécie de resíduo. “As Repúblicas de Coimbra. Processos de Racionalização e de Estetização do Património Urbano de Coimbra”.pt/publicacoes/oficina/162/162. mas como parte constituinte desse mesmo processo: a controvérsia como processo de construção em si.

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