AFINIDADE E DIFERENÇA

Ana Bénard da Costa (Org.)

ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA LISBOA, 6,7 E 8 DE ABRIL DE 2006

APRESENTAÇÃO

Entre 6 e 8 de Abril de 2006 decorreu em Lisboa, no Instituto de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE) e no Instituto de Ciências Sociais (ICS), o Terceiro Congresso da Associação Portuguesa de Antropologia. Este Congresso organizado em torno das temáticas abrangentes Afinidade e Diferença reuniu cerca de 250 participantes que expuseram e debateram as suas diversificadas comunicações em sessões plenárias, painéis temáticos, mesas redondas e posters. A temática proposta pelos coordenadores do Congresso, José Manuel Sobral e Cristiana Bastos, respectivamente o Presidente e a Vice-Presidente da então Direcção da Associação Portuguesa de Antropologia, invocava, como se refere no texto de apresentação, “uma tensão básica que percorre o nosso campo disciplinar, provocada simultaneamente pela identificação do que se julga ser comum e do que se julga ser específico em cada cultura”. Procurava-se, através desta proposta abrangente, acolher “todos os domínios de saber reconhecidos como Antropologia” e abrir um espaço para uma “reflexão sobre a sua situação actual, tanto no plano nacional como no internacional.”

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Dentro desta perspectiva, os promotores do evento assumiram a responsabilidade da organização das sessões plenárias e solicitaram aos sócios e potenciais interessados que apresentassem propostas de painéis temáticos. O acolhimento por parte da comunidade nacional e internacional de antropólogos e de ciências afins (sociólogos, economistas e outros) excedeu as expectativas. Numerosos investigadores propuseram painéis que abarcaram desde as grandes temáticas da antropologia clássica (cultura popular, religião) às novas problemáticas da actualidade (globalização, identidades, transnacionalismo), a temas transversais (cultura, metodologia) ou temas que se podem considerar geograficamente ou historicamente mais específicos (Timor, Caboverdianidade, colonialismo). Percorrendo o Programa que então foi editado, constata-se a enorme vitalidade que a antropologia em Portugal conhece actualmente. Não só, como já se mencionou, pela diversidade dos temas debatidos - emigração, crenças, saberes, saúde, educação, memórias, arte, história, economia, desenvolvimento, género, natureza, corpos ou afectos, para só enumerar alguns - como também pela variedade de escolas, centros de pesquisa e associações de investigação presentes. Importa ainda acrescentar que este Congresso demonstrou que a internacionalização da antropologia portuguesa é uma realidade: estiveram presentes vários antropólogos de outros países com trabalhos desenvolvidos em Portugal e noutras regiões do mundo e vários antropólogos portugueses que estudam outras realidades que não a portuguesa. A participação da Antropologia Visual (ciclo de cinema-documentários e debate) constituiu outro factor enriquecedor desta iniciativa. Mais de um ano decorreu desde que este Congresso se realizou e vários acontecimentos atrasaram a publicação das Actas: a Associação de Antropologia mudou de Direcção, questões burocráticas urgentes exigiram as atenções dos novos membros da Direcção e, quando foi possível a organização dos textos finais das comunicações, constatou-se que muitos dos participantes não os tinham enviado e que o “estado” dos painéis era muito variável: havia painéis completos, outros sem nenhum dos textos finais das comunicações apresentadas e outros, ainda, em que os textos eram em número insuficiente não justificando a “existência” do respectivo painel nas Actas. Perante esta situação, e porque a nova Direcção considerou de todo o interesse deixar um registo material exemplificativo da riqueza temática e teórica que marcou os debates no Congresso que cumpriu plenamente os objectivos propostos pelos organizadores de “realizar um Congresso onde sejam acolhidos todos os domínios de saber reconhecidos como Antropologia e que constitua um momento de reflexão sobre a sua situação actual, tanto no plano nacional como no internacional”, foi necessário tomar algumas opções que passamos a explicitar:

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Foram mantidos os painéis cujos números de textos finais das comunicações eram significativos;

-

Foram agrupados em capítulos novos, textos de comunicações de

diferentes painéis que partilhavam afinidades temáticas (os títulos desses capítulos foram inspirados nos títulos dos painéis originais).
-

Em cada um dos capítulos há uma nota que explica se este corresponde a um
painel apresentado no Congresso ou se é um capítulo que agrega comunicações de painéis diferentes, bem como uma referência aos organizadores dos painéis originais.

Acreditamos que este índice, a organização temática que o suporta e, no seu conjunto, esta publicação de Actas, não desvirtua o que de essencial o Terceiro Congresso da Associação Portuguesa de Antropologia revelou a todos os que nele participaram. Acreditamos, sobretudo, que a publicação destes textos possibilita, a todos aqueles que não puderam estar presentes no Congresso, a participação nesse debate que assim certamente irá continuar.

Ana Bénard da Costa Junho de 2007

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Coordenadores da Comissão Organizadora
José Manuel Sobral (Presidente da Direcção da APA), Cristiana Bastos (Vice-presidente da APA),

Comissão organizadora
Nuno Porto, Paulo Castro Seixas (Direcção da APA), Patrícia Alves de Matos, Cynthia Pereira, Teresa Bolas, Isabel Bajouco (FCSH, UNL), Daniel Seabra (U.F. Pessoa) , Ruy Blanes (ICS, UL), Antónia Pedroso de Lima (ISCTE), Clara Saraiva (FCSH, UNL)

Comissão Científica
João Pina Cabral - Instituto de Ciências Sociais, Universidade de Lisboa Raul Iturra, Jorge Freitas Branco, Clara Carvalho, Brian O’Neill - Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa Augusto Abade, Eugénia Cunha, Manuel Laranjeira - Faculdade de Ciências, Universidade de Coimbra Jill Dias, Jorge Crespo, Claudia Sousa - Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, U. Nova de Lisboa Luis Batalha, Narana Coissoró -Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, U. Téc Lisboa Maria Johanna Schouten - Universidade da Beira Interior, Francisco Ramos, da Universidade de Évora. Álvaro Campelo, Paula Mota Santos - Universidade Fernando Pessoa Jean Yves Durand, Manuela Palmeirim - Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho Fernando Bessa Ribeiro, Xerardo Pereiro - Universidade de Trás os Montes e Alto Douro Ricardo Vieira - Instituto Politécnico de Leiria José Orta - Instituto Politécnico de Beja Joaquim Pais de Brito - Museu de Etnologia Vítor Oliveira Jorge - Sociedade Portuguesa de Antropologia e Etnologia (SPAE) João Leal, Miguel Vale de Almeida, Carlos Simões Nuno - Associação Portuguesa de Antropologia (APA) Maria Cátedra - Universidade Complutense de Madrid Shawn Parkhurst -Universidade de Louisville, USA Miriam Grossi - Associação Brasileira de Antropologia

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Dorle Drackle - European Association for Social Anthropology (EASA) Gustavo Lins Ribeiro - World Council for Anthropological Associations

Coordenação dos Voluntários: Cynthia A. Pereira Voluntários: Fátima Almeida Filipa Soares José Fidalgo Marta Fragata, Marina Sousa, Teresa
Bolas,Elísio Jossias, Mª Fátima Gabriel, Ana Beatriz Boucinha, Vanessa Gonçalves, Rui Costa, Íris Rosa, Tiago Oliveira, Ana Rita Alves, Ana Mafalda Falcão

Secretário
Miguel Jorge Lopes Sousa Pinto

Patrocínios
O Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (ICS-UL) e o Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE) cederam graciosamente à APA as suas instalações para a realização do congresso.

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I – Capítulo Colonialismo

Textos de comunicações dos painéis:

O Saber colonial e o fim da colonização
Coordenação

Clara Carvalho
Departamento de Antropologia, ISCTE;

Raça, Eugenia, Nação e Império
Coordenação

José Manuel Sobral e Patrícia Ferraz de Matos
Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa

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Antropologia Colonial e a Produção de Conhecimento sobre Grupos Étnicos da Guiné Portuguesa
Reflexão em torno da Tese de Mário Humberto Ferreira Marques “Comportamento dos Mandingas da Guiné Portuguesa na Vida e na Morte” 1 ISCSPU, 1965

Ana Mafalda Abreu e Castro Menezes Falcão ISCTE ana.falcao@sapo.pt

A produção científica portuguesa respeitante ao período colonial foi fortemente condicionada por um poder político que pretendia manter a forma colonial existente, alheio às exigências de mudança provindas da conjuntura internacional. Muitos dos autores deste saber participaram activamente nos programas políticos do regime colonial, e mesmo do autoritário, revelando assim a natureza essencialmente política da esfera científica da época. Nesta comunicação pretende-se deixar explícito o entrosamento entre discurso antropológico e dominação colonial, vínculo exemplificado no conteúdo duma das teses de final de curso do ISCSPU. Estas teses exprimiam os níveis de conhecimento (antropológico) em que se inseriram as decisões de política colonial nas décadas de 60 e 70. As referências imediatas dos autores destes trabalhos, que aliás exibem uma consistente igualdade de pontos de vista sobre as sociedades tradicionais, eram constituídas pelos ensinamentos ministrados nas Escolas Coloniais e, como tal, nenhuma novidade sobressai das análises que elaboram. Trata-se, portanto, através de uma leitura da tese “O Comportamento dos Mandingas da Guiné Portuguesa na Vida e na Morte” revelar a estreita conexão entre o saber antropológico e a ideologia colonial portuguesa, plasmada por um lado na valorização dos usos e costumes nativos transformados em “riqueza de Portugal”, e, por outro, no dualismo que opõe a incivilidade desta etnia à tolerância que sobre ela, no suposto respeito por esses mesmos costumes, os portugueses cultivaram. Palavras-chave: Discurso antropológico, Dominação política, Ideologia colonial, Incivilidade, Tolerância.

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Comunicação apresentada no painel “O Saber colonial e o fim da colonização”( coord. Clara Carvalho, Departamento de Antropologia, ISCTE)

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1. Discurso Antropológico e Dominação Colonial

A produção científica portuguesa no que respeita às colónias, principalmente no domínio das Ciências Sociais, encontra-se muito condicionada por um poder político que pretendia manter a forma colonial existente, alheio às exigências de mudança provindas da conjuntura internacional. Muitos dos autores deste saber participaram formal e activamente nos programas políticos do regime colonial, e mesmo do autoritário, revelando assim a natureza essencialmente política da esfera científica na época. De facto, segundo Rui Pereira (1998), a afirmação institucional da antropologia portuguesa remonta à segunda metade do século XIX, e este desenvolvimento dos estudos etnográficos, em Portugal como noutros países Europeus, estava

manifestamente associado à busca de uma identidade nacional. Esta prolífica geração de intelectuais em permanente contacto com as escolas e teorias que então se desenvolviam em Inglaterra, França e Alemanha, contrastou com o anacronismo académico que assolou a antropologia entre as décadas de 1930 e 1970. Na sequência da Conferência de Berlim, Portugal demorou 70 anos a cumprir a exigência de ocupação efectiva das suas possessões coloniais, principal mandamento resultante do evento. Estabelecida a dominação política, económica e administrativa tratava-se de conhecer, de ocupar cientificamente o ultramar português, o que permitiu a elaboração de um plano, que servia ao “prestígio” e à “utilidade nacional”, por parte da Junta das Missões Geográficas e de Investigações Coloniais. Este plano para manter as colónias reivindicava um papel, a par de outras ciências, para uma Antropologia baseada em dados etnográficos existentes nos arquivos portugueses, reconhecendo-se, num mesmo movimento, a insipiência dos estudos elaborados sobre as colónias. A Junta de Investigações Científicas do Ultramar (J.I.U.), à qual se anexou mais tarde o Centro de Estudos Políticos e Sociais (C.E.P.S.), era expressão da ociosidade científica da altura. Porém, o CEPS viria dar vida a uma política de transformação do modelo colonial, organizando e coordenando as necessárias recolhas de dados. Adriano

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aliás. Moreira enfatizava a urgência de um exame da situação colonial que assentasse no desenvolver de estudos monográficos sobre a dinâmica do fenómeno colonial. que todavia comportava elementos de discriminação em relação às populações autóctones. Nestas vemos perdurar a concepção ideológica que faz da imagem do negro enquanto “cidadão subalterno”. poucos teriam sido realizados por antropólogos portugueses. inútil ou pouco conveniente. Isto porque seria. escassa de trabalhos antropológicos e. aliado a uma dose avultada de paternalismo. deste modo se reconhece a especificidade do colonialismo português do ponto de vista científico: “até então aos portugueses não interessava uma informação cientificamente válida. Esta apreciação consubstancia-se na tónica conferida pelos antropólogos culturais aos aspectos esotéricos das religiões e cerimónias africanas.3 Moreira. A aceitação do critério luso-tropicalista e a conjuntura favorável de que gozava o império Português no pós 2ª Guerra tornava possível tais projectos de delimitação de uma “área cultural lusófona. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .. falando a partir de uma asserção de princípio que reafirmava o modelo cultural lusófono como ideologia da colonização.U. encontramos plasmado nas obras dos melhores antropólogos portugueses. A produção cultural da J. Etnocentrismo que. 1988: 20). asseverava mesmo que “por definição a situação colonial que interessa à ciência política é uma situação dependente da intervenção do poder político”. as bases dos novos modelos integrativos para as situações coloniais portuguesas. enquanto se delineava um clima de fraternidade humanitária que bem podia ser posto ao serviço das classes coloniais no poder” (GALLO. porque lhes bastava uma aparência de conhecimento” (GALLO. segundo R. Donde concluiu a quase inexistência de uma antropologia colonial portuguesa. e da necessidade de guiar as populações autóctones porque incapazes de se autodeterminarem. era. 1988: 18-19). entre estes. Alfredo Margarido afirma que a primeira foi mero instrumento na mudança das formas coloniais. autor que anos mais tarde se debruçou sobre a etnologia colonial portuguesa. concentrando esforços na mera descrição de ritos tribais. no quadro de um colonialismo que reduz as populações autóctones a reservatórios de mão-de-obra. ainda que frequentemente apresentada do ponto de vista antropológico.I. situando as parcas obras de cientistas sociais que se ocuparam da ex-África lusófona “abaixo do limiar científico mínimo”. Director do CEPS entre 1956 e 60. Pélissier. No campo dos estudos sobre a conexão entre a antropologia e o colonialismo português.

4 Contudo. que institui uma Escola Colonial onde figuram disciplinas como geografia e história mas se pretere a etnologia geral em prol de uma geografia colonial. de que fazem parte “noções e conceitos confluentes no património do saber antropológico europeu” (GALLO.P. esclarece ainda melhor o formato da presença ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . também Portugal construiu um saber colonial. e a pesquisa de campo constituiu o denominador comum entre eles. funcionando nos momentos de normalidade da prática colonial.E.S. e as datas das reformas que antecederam a sua consolidação reflectem as transformações dominantes sobre a função dos quadros coloniais. 1988: 24).P. Na verdade. Era necessário elaborar uma estratégia que. ainda que não praticada necessariamente pela mão de antropólogos. instaurando o consenso social interno. Analisar a produção colonial portuguesa de 1950 a 1975 implica primeiramente considerar a posição do País na década de 50. proposta da Sociedade de Geografia de Lisboa no sentido de produzir uma ciência colonial. assim.C. agregou autonomamente um conjunto de saberes sobre as suas colónias. A reforma de 1919. se revelam os elementos de fraqueza e crise do império português. em 1906. Os sistemas de investigação manejados por estes funcionários do regime foram os mais variados.U. mas a antropologia era uma cadeira das escolas de quadros coloniais. e do I. A finalidade principal do ISCSPU era a de formar quadros civis e militares capazes de fazer funcionar as estruturas da administração colonial. desde que permitidos pelo enquadramento colonial. a despeito da pobreza. É precisamente no âmbito deste empreendimento contra as formas eversivas que se pode situar as produções do C. conjuntura internacional onde emergem renovadas acções dos capitalismos ocidentais face aos países desenvolvidos e. permitisse a continuidade do colonialismo evitando a contaminação das formas neocoloniais de territórios vizinhos. O argumento que daqui emana refere-se a uma especificidade do colonialismo português que. À semelhança das outras nações coloniais europeias.S.S. até há alguns anos em Portugal não se formavam antropólogos a um nível académico. Esta última instituição é produto das múltiplas reformas sofridas pela Escola Colonial desde a sua criação. No decreto de 1906. não é possível negar a existência concomitante de uma “antropologia aplicada”. ressalta a intencionalidade de imbuir os cursos dos quadros coloniais de cadeiras que acelerem a adaptação do conhecimento às formas de dominação. resultado de determinadas práticas científicas peculiares. fragmentação e subalternidade da antropologia portuguesa.

desde a sua origem até ao estado actual de civilização. representando um momento de crescimento económico do colonialismo português. pondo fim à figura do administrador-etnógrafo na qual se baseavam as precedentes. modificando o posicionamento português no quadro internacional do capitalismo.5 portuguesa nas colónias. Uma nova reviravolta na orientação destas formações ocorre em consequência da segunda guerra mundial que. disciplinas funcionais à formação dos administradores. reconhece-se a necessidade de adaptar o sistema de conhecimento às novas exigências coloniais. que. ano de uma nova reforma. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . preconizava agora a intervenção de um antropólogo. No ano de 1946. através destas reformas. de ora em diante com uma utilidade prática cada vez mais reconhecida. “esta [actualização] não se fazia com o fim efectivo de uma transformação do sistema de domínio” (GALLO. Em 1926. se é verdade que se procedeu. em 1961. 1988: 31). e cria-se uma segunda formação. fazendo sentido acrescentar as disciplinas de direito internacional. através de análises de tipo físico. entendido como “um especialista do carácter físico. biológico e comportamental das populações primitivas e não um especialista das sociedades primitivas então existentes” (GALLO. nomeadamente pela adopção de uma política assimilacionista. em Altos Estudos Coloniais. visando preparar os quadros teóricos do colonialismo. A etnologia mantinha-se no currículo mas a sua aplicabilidade e utilidade prática era considerada de segundo plano. privado e público e ainda formação relativa a práticas judiciárias e notariais. 1988: idem). mantendo a sua função de formar quadros coloniais. procede-se à reestruturação do antigo curso de Administração Colonial do ISCSPU. biológico e comportamental do indivíduo. espelha o aumento do enfoque etnográfico ao introduzir a cadeira de antropologia cultural no Curso Complementar de Estudos Ultramarinos. Porém. Uma nova reforma. A etnologia praticada por esta nova figura permitia deduzir as leis gerais dos fenómenos das vidas dos povos. frente aos desígnios de domínio em curso. justifica o abandono de lógicas formativas anteriores. a uma actualização ideológica de Portugal. uma vez que se introduzem elementos de teoria económica e de ciências das finanças. o punha a par de outras formas de colonialismo europeias. pois que “a etnologia é a ciência que trata da formação e dos caracteres físicos das raças humanas” (GALLO. a reforma de 1946. 1988: 29). De facto. Em ambos os cursos constava a etnografia.

Assim se subtrai à antropologia qualquer ligação às estruturas sociais dado que ela é apenas o principal elemento para o estudo do crânio humano. ao abordarmos a vertente física da antropologia ou. suplantando a simplista visão craneológica. desencorajava a disciplina das categorias exclusivas da antropologia física. Em 1918. tuteladas por Mendes Corrêa. eram conjugáveis com a ideologia colonial e as suas exigências de domínio. 1998: XVII). 1998: VII). ou seja. e portanto também possíveis. de novos elementos naturais. por serem capazes de fornecer à administração colonial portuguesa os meios de reforçar a sua ocupação e incrementar a mobilização da força de trabalho indígena. paulatinamente. A recorrência a M. onde vemos surgir a antropologia cultural nos cursos do ISCSPU. foi-se somando. marcou decisivamente a orientação do pensamento antropológico português por toda a primeira metade do século. por outro. entendida como o estudo do homem cultural e social” (PEREIRA. da mensuração e da quantificação. partes de uma equação em que os segundos são produto de uma combinação complexa aprendida e das tendências genéticas de cada ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . o sentido antropobiologista reinante durante quase toda a primeira metade do século XX. a elaboração das respectivas cartas etnológicas” (PEREIRA. vinculada a uma concepção científico-naturalista das ciências. Esta lógica corporiza-se nas reformas de 1946 e 61. No âmbito de actividade desta escola. Esta visão restritiva das disciplinas etno-antropológicas. Fundador da «Escola do Porto» este médico. António Augusto Mendes Corrêa cria com Américo Pires de Lima a Sociedade Portuguesa de Antropologia e Etnologia. por um lado confirmavam a tradição portuguesa que a partir de Mendes Corrêa foi sobretudo a da antropologia física e. Corrêa é inevitável. que se dispunham “proceder ao conhecimento dos grupos étnicos de cada um dos nossos domínios ultramarinos. doutorado em Antropologia física. Foi a época de força da antropobiologia. preferindo. do outro a Etnologia. cuja designação trai desde logo “uma divisão fundadora no campo das ciências antropológicas em Portugal na primeira metade deste século: de um lado a Antropologia entendida como o estudo do homem físico. As concepções contidas nos manuais desta disciplina apontavam para uma ligação entre cultura e comportamento dos indivíduos. as primeiras acções em terreno colonial dignas de menção foram as famosas missões antropológicas.6 A aceitação destes princípios foi bastante simples dado que. geográficos e históricos que. convertidas nas únicas investigações antropológicas úteis.

que continuavam a ser “cidadãos de segunda”. exprimiam os níveis de conhecimento em que se inseriram as decisões de política colonial do regime português nas décadas de 60 e 70. Existiam simultaneamente facilidades para os que. em fazer frente às pressões do colonialismo internacional e. sobre a acção das missões e razões da emigração para as cidades. detenhamo-nos no caso particular dos Relatórios Confidenciais. É pela análise destas produções que. na óptica de Donato Gallo. É neste sentido que podemos afirmar. redigidas pelos vários administradores coloniais que tinham frequentado o curso de Altos Estudos Coloniais.7 um. mas também revela “as duas directrizes principais da sua funcionalidade: a gestão dos momentos de transição da forma colonial e o uso ideológico para o interior de Portugal” (GALLO. O estudo dos relatórios e das teses serviu para atestar a sua argumentação em torno da existência de uma antropologia colonial portuguesa. por outro. Após a década de 50. 1988: 38). elucidando também as dinâmicas culturais que favoreceram e regularam as diferentes funções da antropologia da época. resultavam cientificamente inaceitáveis. Retornado à produção cultural do CEPS. de entre estes. ou ainda do rendimento nacional do ultramar. este tipo de produção não aparece senão no formato de teses de final de curso do ISCSPU. podendo mesmo conter conclusões diametralmente opostas às da pesquisa original.I. Em termos temáticos podem ser classificados em três grupos. excepto através de simulações que propusessem novamente a sua inferioridade ou subalternidade a um outro nível. Alternando entre a fidelidade às ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Esta visão ratificava as convicções portuguesas relativas aos povos africanos. por um lado. seguindo o raciocínio de Gallo.. As teses de final de curso. privilegiavam o discurso ideológico do regime. quando publicadas pela J. se esclarece a relação entre antropologia e colonialismo.U. O entendimento ideológico do “outro” não era alterável. Frequentemente alvos de censura e de modificações estratégicas. na procura das condições necessárias para uma racionalização eficaz da gestão colonial. pesquisas utilizáveis como fontes antropológicas. resultados de missões a África e cujos principais objectivos se cifravam. sem se afastar de uma grelha interpretativa de carácter biológico e social. consoante tratassem de movimentos associativos e minorias étnicas. e fortes penalizações para quem desta quisesse eximir-se. tal como estes. pretendessem licenças para elaborar a tese. que as teses aparecem como uma continuidade dos relatórios confidenciais e.

como tal. porquanto estão condicionados “ao ponto de serem completamente acríticos em relação à própria visão escolar da realidade colonial” (GALLO. os aparatos coloniais deste colonialismo funcionaram à semelhança dos de outras potências coloniais. controlava e até censurava o saber.8 práticas normativas e a curiosidade antropológica. nenhuma novidade sobressai das análises que elaboram. então. numa de duas modalidades possíveis: ou participando directamente nos aparatos coloniais ou dependendo deles para o financiamento das suas investigações. no que concerne as práticas antropológicas podemos. 1988: 170). 1988: 169). verificando-a agora com base nas condições que a produziram: o único conhecimento permitido era o aplicado e aplicável e a posição objectiva do intelectual português era a de um prestador de serviços a quem se encomendava. É no seguimento destas asserções sobre o imbricamento entre antropologia e colonialismo que Gallo alerta para a precisão de revermos a acusação de acientificidade da produção cultural portuguesa ligada às colónias. era a de “conhecer para melhor dominar”. os autores destes trabalhos exibem uma consistente “igualdade de pontos de vista sobre as sociedades tradicionais. 1988: idem). Gerou uma intelectualidade capaz de produzir análises etno-antropológicas passíveis de apropriação para uso político sobre a população dominada e de cariz propagandístico na metrópole. com as respectivas diferenças que emanam da ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . ainda que tenha sido amiúde negada. apesar de todas as indeléveis ligações ideológicas. As suas referências imediatas eram constituídas pelos ensinamentos ministrados nas escolas coloniais e. aferir que o domínio colonial português se serviu de um aparato cultural cuja finalidade. O condicionamento dos produtores deste saber devia-se essencialmente ao seu cometimento com o sistema de domínio. A presença destes mecanismos que submetiam a produção intelectual lusitana aos desígnios do império demonstra que “em Portugal o poder geria exclusivamente para os seus fins a necessidade. a possibilidade e o uso do saber colonial” (GALLO. O saber colonial português foi. Ora. directamente funcional para a gestão do poder nas épocas de crise e de transformação do modelo de controlo colonial. O autor avança ainda que. para além de podermos com alguma propriedade aferir a existência de uma antropologia colonial portuguesa. com as mensagens ideológicas elaboradas pelo regime e com a ideologia das noções antropológicas do período da sua formação na escola de quadros coloniais” (GALLO.

. nalguns casos. (PEREIRA. por um lado.) ou se considera o conjunto de problemas e temas questionados pela produção antropológica colonial como derivando das relações de força e das necessidades da própria situação colonial (…) ou.9 especificidade de uma forma colonial subalterna e periférica ao sistema económico internacional. propõe duas perspectivas diferentes. a presente tese se insere no período considerado e surge na época da ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Ora. tendo bem presente o subjacente entrosamento entre discurso antropológico e dominação colonial demonstrado nas páginas precedentes. 1998: XLVII). um por um. no caso da produção antropológica colonial portuguesa ambos os ângulos de abordagem se afiguram pertinentes. que passaremos a escalpelizar o conteúdo de uma das teses de final de curso do ISCSPU. mesmo servindo um intento de dominação colonial. Os Mandingas da Guiné Portuguesa: Confronto entre Incivilidade e Tolerância Em primeira instância cumpre ressalvar as particularidades desta tese de final de curso. que a distanciam de outras consideradas num mesmo olhar por Donato Gallo. no prefácio que escreveu para a reedição do Macondes de Moçambique de Jorge Dias. representou. mas complementares. então. por um lado as necessidades coloniais ditaram a problematização científica – como no caso da relação entre medições antropométricas e a quantificação da força de trabalho indígena –. explícitos ou latentes. o levantamento etnográfico de determinadas culturas. cuja importância foi já referida no desenvolver da matriz teórica de Donato Gallo. os contributos directos ou simbólicos. de encarar as relações entre a Antropologia e a dominação colonial: (. visto que.. por outro. e. A este propósito. também Rui Pereira. Se. se avaliam. 2. É com base na articulação entre o poder heurístico destes dois vectores de análise da produção antropológica colonial. que tal produção antropológica prestou à empresa colonial. dez anos depois de Gallo. uma prestação académica e científica importante.

As sucessivas reformas que foram reconfigurando uma Escola Superior Colonial em ISCSPU trouxeram consigo. Sabe-se. se não havia hostilidade. poderemos concluir que. No entanto. pelo menos indiferença” (MARQUES. se nos cingirmos apenas ao ambiente metropolitano. aspirava através dela obter a equivalência ao grau de licenciatura em Ciências Sociais e Política Ultramarina. que sobre esta colónia versavam (1988: 95). a instauração de hierarquias estatutárias entre os antigos e novos alunos de cursos com uma origem comum. contudo que a motivação para a realização desta tese parte de uma lógica estatutária visto que o autor.10 extensão das lutas de independência iniciadas em Luanda a outras colónias portuguesas. entre 1961-1975. aliás. Sobre o autor pouco se conseguiu averiguar. Ferreira Marques justifica a sua opção temática espacial por “ser a Guiné a nossa província ultramarina mais atingida pelo desvairamento negro da presente hora”. algo que se lhe tornou possível. a ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Invoca. Ainda. no mínimo. durante muito tempo no ambiente ultramarino (…) e. ainda que modestamente. consciente dessa realidade. a este respeito. O autor. destas circunstâncias particulares acresce ainda o facto da dissertação sobre o comportamento dos mandingas provir simplesmente da “conexão de elementos bebidos em fontes de várias origens” sendo. confessa a mágoa de. “a hostilidade que os diplomados da Escola Superior Colonial sentiram. notava-se. critério de constituição da “amostra” de Donato Gallo. donde escrever sobre ela serviria para. à medida que os cursos se ajustavam às realidades coloniais e se subdividiam para melhor se especializarem. depois da reforma de 1961. curiosa dado que a Guiné na época “parecia não dar as mesmas preocupações que as outras colónias ao governo português”. não ter podido frequentar o curso de Altos Estudos do reformulado ISCSPU. A escolha do tema é também. 1965: III). assunção retirada por Gallo a partir do reduzido número de teses. em função dos seus deveres profissionais metropolitanos (Chefe de repartição do ensino liceal) “absorventes até ao esgotamento”. portanto. desde que apresentasse uma dissertação. por outro não foi elaborada por um aluno que tenha sido administrador colonial ou militar. Decorrendo. diplomado com o curso superior colonial. a defender (MARQUES. uma elaboração teórica desprovida de trabalho de campo. 1965: II). donde se infere a sua relativa marginalidade face a autores de destaque das ciências sociais comprometidas com o projecto colonial da época.

E. Apesar da manifesta ausência de pertinentes referências bibliográficas no texto. Os agradecimentos. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . por enquanto interessa analisar. e o “pleno clima de confiança nos portugueses. Marques refere-se a África como “o alvo da curiosidade mundial” instituído pelo desejo de “desvendar o seu mistério” e a “pretensão de civilizar as suas gentes”. criadas pelas correntes ideológicas ou só aparentemente ideológicas que se alicerçam na finalidade. isto é. e na decifração das referências mais imediatas de um autor. ajudam. passo a passo. os diversos capítulos que a constituem. de mútua compreensão” que norteou as relações entre povo colonizador e colonizado (MARQUES. a referenciar bibliograficamente. 1965: idem). facto ainda mais preocupante visto que é apenas de conexões teóricas que este se constitui. contudo. lança mão de uma descrição da época. encoberta ou politicamente declarada. muitos destes ligados ao C. do ISCSPU. tendo em conta o que se disse no capítulo anterior. Mas o que interessa reter à primeira vista são simultaneamente as possibilidades eversivas do povo mandinga. como veremos adiante. portanto. da Guiné Portuguesa. Cabe ressalvar também a presença. no prefácio. António Carreira. Esta temática será esclarecida atempadamente no decurso da análise da tese. ameaçadoras para o domínio português.11 escolha da etnia mandinga se rege por critérios de ligação ao projecto lusitano: “ser. dirigidos aos Drs. que são também as de uma escola. de uma temática que só no final da tese começamos a compreender do que realmente se trata. o grupo mandinga o mais aliciante pelo fundo histórico de haverem sido os portugueses os primeiros europeus a tomarem contacto com os mandingas no tempo das descobertas” (MARQUES. fazendo especial menção à reduzida bibliografia de autores portugueses. Esta inexactidão de fontes e inferências teóricas pouco documentadas e actualizadas vai percorrer todo o conteúdo da dissertação. na compreensão do tipo de antropologia que se tentou pôr em prática neste estudo dos mandingas. 1965: IV). Para o confirmar. Fernando Rogado Quintino e ao Centro de Antropobiologia e Centro de Antropologia Cultural. sem. do ódio ao branco” (MARQUES. o autor faz no prefácio um elogio da excelência das obras em que se apoiou. 1965: V). missão que “está agora polarizada na decifração do enigma economico-politico suscitado pelas reivindicações que nela pululam. atribuída a Duarte Pacheco Pereira. e a uma mais vasta panóplia de autoria estrangeira.

que afirma a posição dos Estados Unidos contra o colonialismo europeu. O acolhimento desta orda islâmica não foi de todo unânime. difícil de precisar em termos temporais. nascem os sarakolés ou soninkés. onde. e a consequente expansão do islamismo. anterior à dos fulas-pretos feiticistas. trataram de formar um grande estado que não se concretizou devido à ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Em meados do século XIII e sacudido o jugo dos Almoravidas. considerada como a sua pátria. tem o seu revés de benefício para os sudaneses visto que. depois de estabelecidos. “em adiantado estado de civilização”. o domínio português se legitima pela particular tolerância e compreensão reveladas no contacto com os povos que pretende subjugar/civilizar: “se os instigadores do ódio ao branco. Inicialmente feiticistas. negros oceânicos da segunda invasão. este grupo subdivide-se. se podem superiorizar face ao atraso dos verdadeiros autóctones: os negrilhos. os não convertidos permanecem com a designação de soninkés ou sarakolés enquanto os convertidos passam a nomear-se mandingas. em vez das promessas fantasiosas. e brancos do mediterrâneo. Destes cruzamentos conjugados às duas vagas de invasão de massas semitas. que se pretende histórico. que sucederam ao desmembramento do império de Kumbi. A aparição dos mandingas dá-se pela mestiçagem entre autóctones.12 Começando por um relato. nome que provém da região do Mandén. aqueles que resistiam foram impelidos a rumar a Sul. todavia. lessem aos instigados os capítulos das suas histórias em que o ódio figura como causa principal no atraso e na ruína de muitas sociedades em evolução. 1965: 2). e os primeiros. perturbando a apropriação colonial de povos e territórios. para refutar aos sudaneses a sua qualidade de autóctones da África. assim. talvez não conseguissem arranjar meia dúzia de adeptos” (MARQUES. seguindo-se a tomada do centro de África pelos árabes. Numa lógica um pouco travessa Marques pretende deslegitimar esta pertença que. E foi dessas massas fugidias que se formaram os grupos étnicos que envolveram a Guiné Portuguesa. a parcela convertida dos soninkés. os Mandingas constituem o seu império. com a expansão do islamismo. conforme a conversão. como veremos. Marques invoca a Doutrina de Monroe. De facto. foi. A chegada dos mandingas à Guiné portuguesa. da formação do grupo étnico. Mas este império acaba por sucumbir no despontar do século XV. com o Norte de África dominado pelos árabes e as populações subjugadas. o império do Mandén. Colonialismo e civilização dão as mãos numa relação inextrincável.

13 dispersão que dificultava a unidade política. António de Almeida. O primeiro grande capítulo da tese sobre o comportamento dos Mandingas é dedicado aos caracteres somáticos desta etnia. “elemento indispensável à classificação dos vários grupos da humanidade”. que. no seu estudo por meios antropológicos reproduzir hierarquicamente a desigualdade. Iniciou-se uma guerra sangrenta donde os mandingas saem vencidos dando origem à tirania dos Fula-Pretos e à tentativa de islamização dos dominados. verificada a impotência para a rebeldia e as vantagens em aceitarem o domínio português. ainda. Segundo uma chave interpretativa baseada no pressuposto de que a diferença física se manifesta também enquanto diferença mental. os mandingas entraram numa fase de quietação” (MARQUES. ao contactar com os povos de todas as latitudes” (MARQUES. todos baseados em cálculos da média de uma série de mensurações. e com isto assegurar a preservação do império (THOMAZ. Barrow. impotentes. Marques começa pela análise da estatura. Estes. 1965: 17). 1965: idem). uniram-se aos futa-fulas para se libertarem do domínio mandinga. Com o aumento das massas de fulas-pretos a fixar-se na Guiné. o grupo mandinga exigiu-lhes uma elevada tributação de ocupação de território que lhes valeria grandes dissabores futuros. elaborados num texto praticamente telegráfico que desvela a adesão a uma análise antropométrica dos povos. dos portugueses. 2002:119) e. fingindo-se convertidos ao islamismo. estes. Aquando da fixação dos fulas. suportam a tirania e revelam diferentes posturas face à islamização: uns convertem-se. reconstruindo assim a homogeneidade através de uma abstracção ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Eugene Pittard e do Prof. O intuito de análises assim esboçadas era o de garantir a preservação da diferença e. À igreja católica caberia desempenhar o papel de instituição legitimadora do regime colonial e dos valores por ele veiculados (THOMAZ. Para tal convoca contributos de Alcide D’Orbigny. numa proposta quase luso-tropical. eivada de ideias de determinação biológica de tipo racial esgrimidas enquanto discurso científico. logo civilizadora. confere um carácter benevolente à colonização: “E. 2002: 111). assim se divulga uma atitude doutrinária relativamente à qualidade evangelizadora e. outros entram num sistema religioso misto e. outros revelam uma certa renitência: “é nos renitentes que se encontra a grande massa que no final do século XIX e nos primeiros anos do século XX deram trabalho às autoridades portuguesas para receber o sopro de Cristianização que sempre foi timbre de Portugal.

mesmo à época. Les Races et l’Histoire. encontra valores médios elevados para os mandingas do sexo masculino e estaturas pequenas em indivíduos do sexo feminino. 1988: 159). 2003). Para o atestar recorre a António Carreira. como negros que são. Marques vai forjando um entendimento antropológico dos mandingas. como povo de alta estatura. e “conferindo uma nova aparência de cientificidade a uma classificação oriunda do senso comum” (RAMOS. segundo Eugene Pittard. Marques vai estabelecer uma equivalência entre a cor da pele do mandinga e as escalas cromáticas propostas pelos anteriores autores: “a cor da pele dos mandingas corresponde ao último destes tipos [preto]. nas observações de A. vê a base desta noção na somatologia. e o valor dessa diferença oscila. surgem também as outras categorias cefálicas. Baseando-se em Broca e Deniker. “Mandingas da Guiné Portuguesa”. mas a negrura varia em intensidade. já de certo modo datados. 1965: 22) Paul Broca. Deniker insere-se igualmente nesta linhagem de autores que pretendiam ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .14 matemática. Recorrendo a textos apodados de uma cientificidade duvidosa e. Continuando a percorrer os caracteres que definiam o conceito abstracto de raça. A divisão em dolicocéfalos e braquicéfalos. na época director da escola de antropologia de Paris. Deste modo permite-se afirmar que “esta diferença está absolutamente de acordo com a teoria científica de que. Carreirra e Emília de Oliveira Mateus. esta última no quadro da missão antropológica da Guiné em 1946. são dolicocéfalos na sua maior percentagem mas. Os mandingas são considerados por Marques. realizara estudos tributários de um darwinismo social que pretendiam determinar biologicamente a imagem do negro colocando-o entre “o homem e o macaco” (GALLO. entre 9 e 12 cm”. onde este administrador colonial e antropólogo ligado ao Centro de Estudos da Guiné Portuguesa. nos grupos humanos. Quanto aos mandingas. a estatura do homem é sempre maior do que a da mulher. remetendo obviamente para Mendes Corrêa. não isenta de polémica já na altura de realização da tese. enquadrado por uma ciência das raças que. tendo como base as anteriores “teorias científicas”. o índice cefálico figurava como outro dos elementos científicos encontrados para a classificação dos grupos humanos. ao sabor dos cruzamentos havidos no decorrer do tempo” (MARQUES. espelha uma adesão a teorias de superioridade racial que pretendiam inferir do afastamento entre estádios de civilização dos povos.

pelo sentimentalismo. A face. pelo seu aturado contacto com os nossos mandingas. No caso dos mandingas o autor afirma apenas que estes são platirrinios. Ora. 1965: 25). Sobre a boca. pelo seu pacifismo e capacidade de adaptação. honradez. sentido artístico. e logo aos mandingas. como outro dos indicadores do grau de intelecto. meras descrições que. imputando-se aos negros. ironia e superstição. as modalidades mais características da sua fisiopsicologia” (RAMOS. criando esse quadro de homogeneidade tão precioso no delinear de estratégias de dominação colonial. é fortemente vincada durante a descrição dos seus comportamentos na vida e na morte. à falta de apreciação presencial. “segundo conclusões tiradas por pessoas que. Ademais. adaptação. Para o índice nasal sucede o mesmo processo de mensuração e de construção de equivalências automáticas. sem especificar se em virtude desta qualidade se podem tirar conclusões sobre a sua condição intelectual. “que acompanha todos os actos da vida do mandinga” e. segundo A. vista e ouvidos as informações são escassas e inconclusivas. Relativamente aos caracteres psicológicos. ou o ângulo facial é considerado. como apanágio do seu estádio inferior de civilização. pacifismo. Esta última. os mandingas seriam então. “e. A psicologia do mandinga caracterizar-se-ia. quanto maior a abertura do ângulo maior a superioridade intelectual. ignorando a enorme diversidade racial no interior de cada grupo. e através da antropometria. e pelo poder de observação demonstrado noutros trabalhos. Os estudos deste tipo aspiram a discriminar e analisar primeiramente. depois. uma etnia particularmente dócil na aceitação do jugo colonialista português. invocando-se novamente teorias científicas que neste caso não possuem referência. 2003). nas suas características funcionais de maneira a determinar os tipos constitucionais mais frequentes em cada um deles e. as características são elencadas de forma breve e generalizadora. nos merecem confiança” (MARQUES. um prognatismo que correlaciona tipos morfológicos e atributos intelectuais. Assim. porém não tão evidentes. olhos. isto é. resume a sua ideia religiosa. biotipologicamente. Carreira. portanto. não fora a proximidade de fontes subversivas e as doses avultadas de superstição que lhes estrutura o quotidiano. as características morfológicas de um dado “tipo”. o seu carácter adaptativo pode ser encarado como ameaça a este mesmo domínio uma vez ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . o autor reproduziu de descrições lidas. cabelo.15 classificar globalmente um povo com base nas observações somáticas e morfológicas da sua corporalidade.

Casa. não é onde se habita. para o autor. Refere-se-lhe como um tegúrio. Não querendo alongar-me na enumeração de mais exemplos desta parcialidade de análise. uma estratégia dúbia de afirmação das características positivas e ao mesmo tempo. Marques classifica de “exortação patética” as palavras dirigidas pelo Almami (padre muçulmano) ao novo profissional e. 1965: 37). verificamos. justificava o domínio português. de segurança e de condições higiénicas” (MARQUES. são também os juízos de valor. empregam as criadas. De facto. justifica-se referir ainda as representações reveladas relativamente à produção artística mandinga. que recordemos. noutra usa-o para imputar primitivismo: “têm alguma originalidade. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . como forma de os terem em sossego [algo que] nos povos atrasados ainda é desculpável porque obedece ao espírito supersticioso que eles têm” (MARQUES. assente sobre as bases da tolerância religiosa e cultural que “caracterizariam a obra portuguesa no mundo” (THOMAZ. o autor refere-se frequentemente às sociedades evoluídas como contraponto de comportamentos supersticiosos que descreve: “salvas as devidas distâncias. Se numa altura Marques lhes realça o sentido artístico. pela intensificação da construção. o tom jocoso. e as comparações desniveladas que elabora: referindo-se a uma cerimónia de entronização ao papel de médico mandinga. Partindo agora para uma análise do discurso sobre o comportamento mandinga. “de habitações dignas de serem ocupadas pelo ser humano que é o mandinga!”. adverte que “os atrevidos são talvez em percentagem igual ou maior do que nas sociedades evoluídas”. os mandingas constituiriam um reduto de conformidade que o regime procurava a todo o custo perpetuar. se pensarmos que em 1965 estavam já acesas muitas das guerrilhas de libertação africanas. Sintoma da falta de cientificidade das descrições de Marques. 1965: 106).16 que. “por ela pouca ou nenhuma diferença fazer da que serve para recolher animais”. Quando fala da casa mandinga fá-lo de forma flagrantemente etnocêntrica. nas sociedades evoluídas. com a maior urgência. não são mais do que reformulações das originais. 2002: 281). para que tal receba esse apelido é preciso ser um sítio “a que nós [civilizados] associamos a ideia de conforto. arrecadação. Perante tal cenário clama. é-lhe exigido mais que isso. é o mesmo processo que. que incapaz de se autodeterminar. com notória indignação. aprisco. da incivilidade desta etnia. desde logo. contando histórias de lobisomens aos filhos família. sobre a protecção das casas de mulheres.

Voltamos a assistir a resquícios de uma tese sobre a inferioridade das raças quando se aborda a questão das actividades desportivas. tido como objectivamente inferior. se pode classificar aspectos da vida mandinga como “actos do mais puro barbarismo”. mas este darwinismo social manifesto em produções que se queriam antropológicas. ou próxima dela. uma descrição detalhada das características fundamentais de dada etnia. não sabemos o que o leva ou em que documento se apoia para assumir tal coisa. e já tendo presente a especificidade antropológica da época. do que. que “o desenvolvimento intelectual do mandinga encontrou muito cedo o seu termo. são menos juízos éticos sobre a vida dos povos em questão. Só estando profundamente imbuído de uma crença na real superioridade de um povo sobre outro. a dada altura. 1965: 45). Pátria e Família. Este etnocentrismo e paternalismo explícito nas produções antropológicas portuguesas era ainda de maior funcionalidade em períodos em que se temia a turbulência das lutas de libertação nas colónias. 1965: 49). num processo que mediu pela bitola portuguesa todos os comportamentos que não se coadunavam com a mentalidade colonialista e autoritária do Estado Novo. Ora. Noutra zona do texto faz-se a apologia da influência da civilização portuguesa na mudança comportamental dos mandingas: “Pela evolução por que tem passado o mandinga no contacto com a nossa civilização. dada a psicologia gentílica” (MARQUES. Apreciações de carácter ético que desvalorizam as particularidades culturais de determinado povo. que Marques faz uma ressalva ao “amor familiar” entre os mandingas: “esse amor tem de ser considerado num campo relativo. mas sente-se nelas um fundo musical de primitivismo” (MARQUES. nota-se hoje uma acentuada relutância das viúvas em aceitarem a união com os cunhados” (MARQUES. O que deveria estar em causa numa análise etnográfica. o que o leva a fugir de tudo o que exija esforços mentais” (MARQUES. M. Marques esclarece. serviu ao regime para se posicionar discursivamente acima de qualquer negro. É neste quadro de sentido que une Deus. 1965: 66). Neste aspecto particular se revelam as fraquezas de uma tolerância característica do português. e como tal de civilização e progresso: “tornando possível a movimentação ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .17 não há dúvida. porquanto esta só faz sentido numa determinada e bem restrita organização social dos significados. 1965: 109). A ocupação europeia de África é enfatizada por Marques como “sinónimo de pacificação”.

Já na época dos relatórios confidenciais de que nos fala Gallo. adoçando a prepotência dos dominadores [fulas]. vemos em ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . ao afirmar que “se não fora a intervenção das autoridades portuguesas. Marques revela-se preocupado com a série de movimentos eversivos que. 1965: 82). sob a égide de reivindicações religiosas ou nacionalistas têm provocado uma “agitação negra quasi total”. A “acção lenta e pertinaz da colonização dos europeus”. 1965: 64). que foi perdendo terreno com a emergência do nacionalismo africano. nas zonas de transição e do interior. sabe-se que há “católicos civilizados de raça negra” (MARQUES. De forma consentânea. porém. 1965: 85). originou a criação de novas vias de comunicação e. Marques aproveita para inserir mais uma das suas considerações propagandísticas da benevolência lusitana. Numa alusão clara ao pan-africanismo. Alegando a fragilidade da organização política mandinga. principalmente quando se toca no aspecto político e religioso da etnia mandinga. A história da submissão mandinga ao domínio fula reverteu-se num predomínio acentuado do islamismo nestas duas etnias. e islamização. e esta só poderia ser superada através da conversão ao catolicismo. daí. baseandose numa “autoridade em assuntos da Guiné” – Teixeira da Mota –. na zona litoral e a norte do canal do Geba. o desenvolvimento económico das regiões” (MARQUES. A isto parece seguir logicamente um sentimento de dívida. postos em crise pelas tentativas de intromissão do capitalismo internacional. revelada no rápido desmembramento do seu império e na submissão ao domínio fula depois da batalha de Turu-bã. com origem política ou religiosa. a sua “boa vontade” é sempre enfatizada nas considerações de Marques. de afeição pelo bom colonizador. existia uma atenção particularmente interessada em defender os interesses do colonialismo português.18 com segurança. mais afincadamente sentiriam o erro” encerrado na modalidade da sua organização política (MARQUES. É o caso dos relatórios de Silva Cunha em que este analisa os vários movimentos eversivos. afirma. Em termos religiosos. Os movimentos religiosos eram nos relatórios retratados através de uma imagem em que reinava a incivilidade. demonstrando que “as origens destes movimentos estão nos estragos impostos pelo colonialismo às estruturas tradicionais” (GALLO. incompatível com a série de correntes ideológicas que promovem o ódio ao branco. 1988: 43). que os mandingas se distribuem por duas formas religiosas principais: o animismo.

1965: 120). A simples existência deste pólo atractivo não pode pôr-se de lado e. Mas. na qual. Gâmbia. “sabido como é que no Mali e na Republica do Gana se agitam com mais intensidade as doutrinas de emancipação do continente negro”. enceta uma revisão da história política dos mandingas. Na verdade. assim. O equilíbrio é aqui corporizado na perpetuação da dominação colonial portuguesa. mais uma vez reificando o etnocentrismo e paternalismo que o guiaram durante toda a tese. “a proximidade de repúblicas recém-nascidas põe os povos que nela habitam na iminência de serem influenciados pelas novas doutrinas do continente” (MARQUES. 1965: 118). e as conexões ideológicas destas com os movimentos eversivos do poder colonial fá-lo recear as hipóteses de contaminação dos mandingas: “a situação geográfica de cada povo tem uma importância capital na determinação da maior ou menor facilidade de impregnação. colocando a salvo os elementos mandingas: “parece lógico admitir a existência de uma dívida de gratidão por parte dos mandingas da nossa Guiné para com Portugal. Este é precisamente o caso dos povos da Guiné portuguesa e. como já foi dito. torna possível admitir a existência de uma profunda impregnação dessas doutrinas que ameaçam o domínio colonial português na Guiné. admitir-se também a dificuldade da sua absorção pelas correntes de independência que volitam em seu redor” (MARQUES. a dispersão dos mandingas pelas terras do Mali. Senegal.19 Marques uma mesma postura. 1965: idem). em nome de um sentimento de gratidão que. e. ainda ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . o autor faz especial menção a outras circunstâncias que podem subverter o rumo lógico dos processos de manutenção do império. “adoçou”a prepotência dos fulas. Com o intuito de deixar clara a dívida dos mandingas para com o civilizador português. O que estiver mais perto da fonte donde jorram as ideias terá mais probabilidade de ser atingido” (MARQUES. tal como avançado anteriormente. logo. este último diz mesmo que “os negros foram sempre propensos à continuação de sociedades secretas”. Sudão. o autor adverte para a necessidade de se lhe dar maior ênfase “quando o atraído não atingiu o grau cultural que lhe permitiria discernir com equilíbrio”. e no tom de alerta que faz desta tese um justo sucessor dos relatórios confidenciais. dos próprios Mandingas. razão que faz o autor discorrer sobre “as características especiais e únicas do sistema de Portugal contactar com os povos que civilizou” e que permitem esperar deles reconhecimento e gratidão. República da Guiné e do Gana. No entanto. o colonizador português.

eivada de um cariz religioso e de forte carácter ideológico. à luz de uma antropologia que não é já aquela dos tempos coloniais. o volume de informação que poderíamos cruzar no espaço deste ensaio extrapola significativamente o que para a sua realização foi estipulado. apesar de se estar a analisar em primeira-mão material intocado. A forma como se finaliza esta tese é a expressão mais finalizada do propósito último que levou à sua elaboração. e outros estudos poderão. dominando. em virtude de constrangimentos de dimensão não puderam aqui ser desenvolvidos. muito ainda ficou por dizer. 2002: 277). encerramos esta dissertação na esperança de que Essa será a força que neutralizará todas as forças contrárias. assim. Tratou-se neste documento. a própria existência da nação portuguesa nos quatro cantos do mundo” (THOMAZ. no gradualismo da «transfusão das almas». numerosos autores de destaque por convocar e uma história do saber etnológico da Guiné por recordar. Não obstante o que se tentou demonstrar nestas páginas. contemplando aspectos que. garantir. Ferreira Marques apela aos Céus para que guie no sentido certo um império que já era na época uma forma colonial em vias de extinção: No entanto.20 assim. e por outro de opor a sua incivilidade à tolerância que sobre ela. ser iniciados. embora associados e pertinentes. no suposto respeito por esses mesmos costumes. bem de alto a estrada percorrida por mais de quatro séculos por uma Nação que teve sempre como principal determinante da sua expansão no mundo a conquista de almas e não a de territórios. indelevelmente revelador de uma ligação entre o saber antropológico e a ideologia colonial portuguesa. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . os portugueses alimentavam. pode não conseguir neutralizar as forças de sinal contrário trazidas pelas “reivindicações negras em ebulição”. porque neste momento nos acode à imaginação a Cruz de Cristo. Numa passagem que se assemelha a uma prece. Próximas oportunidades de repensar estas questões surgirão. Procurava-se dessa forma “perpetuar o império e a sua estrutura hierárquica e. Mas. de por um lado valorizar os usos e costumes nativos e transformá-los em riqueza de Portugal. a partir de abordagens como esta.

21 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .

Omar Ribeiro. Lisboa. 2002.ler. nº. Os Macondes de Moçambique. pp.). Lisboa. “Factos e teorias históricas (sociais)”. 64-86. 2003.scielo. ISCSPU. Newton de. editora UFRJ. GALLO. Clara.1. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .pt/revistas/documentos/revista_49/artigo4551. Ciências e Saúde.22 Referências Bibliográficas CARVALHO. RAMOS. Gérald (dir.2. Jair de Souza. Vol. ER. “Ciência e racismo: uma leitura crítica de Raça e assimilação em Oliveira Vianna” in História. Gérald. 1988. THOMAZ. 1998. 2000. Rui. Ecos do Atlântico Sul. “Antropologia da Guiné-Bissau” in Dicionário Temático da Lusofonia. Jorge. Comportamento dos Mandingas da Guiné Portuguesa na Vida e na Morte. PEREIRA. 2005. in MARQUES. Migrations Anciennes et Peuplemente Actuel des Côtes Guinéenes. “Brève évocation d’une histoire de la constitution du savoir ethnologique relatif à la Guinée Bissau” in GAILLARD.br/). www. Mário Humberto Ferreira. MACEDO. Donato. 1965. “Introdução à reedição de 1998” in DIAS. Vol.letras. L’Harmattan. pp.doc.10. Lisboa.539-577. GAILLARD. CNCDP e IICT. Texto Editores. Antropologia e Colonialismo. Rio de Janeiro (http://www. Rio de Janeiro. O Saber Português.up. Lisboa. Paris. 1920.

neste sentido. Nação e Império”. nação. Este trabalho foi realizado com o apoio da Fundação para a Ciência e a Tecnologia. pois contaminaria a “essência” que se julgava existir e se devia preservar. Teoria da selecção natural e origens do pensamento eugénico Num contexto pré-darwiniano. Com este estudo pretendemos contribuir para uma melhor compreensão das sociedades contemporâneas e para uma reflexão sobre a história das ideias e do colonialismo português. influente nos EUA e na Europa. Associadas a esta lógica. império. Clara Carvalho e Leonor Pires Martins. Tal projecto de “purificação” procurava garantir o poder e a soberania dos portugueses e alguns cientistas fundamentaram os perigos da mestiçagem daqueles com as populações autóctones dos territórios ultramarinos.pt Nas primeiras décadas do século XX em Portugal tanto a ciência como o poder estatal pretendiam contribuir para o progresso da nação. pelo seu incentivo e pelo espaço de reflexão que ali foi possível criar. a miscigenação seria nefasta. eugenia. miscigenação. 1. 2 Doutoranda em Antropologia Social e Cultural do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e Bolseira da Fundação para a Ciência e a Tecnologia. pois esses constituíam uma ameaça.Oximórons do Império: as buscas da perfeição ao serviço da nação 1 Patrícia Ferraz de Matos 2 Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa patricia_matos@ics. Ricardo Roque. Agradeço aos colegas que fizeram parte deste painel e aos que participaram no debate final.ul. Assistiu-se então à procura de afirmação da superioridade biológica e racial dos portugueses. 1 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Eugenia. Uma das formas de garantir a “pureza racial” era através da eugenia. surgiram noções como “pureza da raça” e. Palavras-chave: raça. coordenado por mim e por José Manuel Sobral. as espécies eram consideradas imutáveis e os membros de cada uma delas eram detentores de uma essência que os diferenciava de todas as outras. Posteriormente. inspirado nas teorias populacionais Comunicação apresentada no painel intitulado “Raça. Era necessário afastar os “incapazes” ou mais “fracos”. Gonçalo Duro dos Santos. e no qual participaram também José Manuel Sobral.

).boa. na obra Hereditary genius. 16. criada na Inglaterra. o resultado tendia a ser ervilhas de casca enrugada.. No entanto. a teoria eugénica de “aperfeiçoamento da raça humana”. por isso. 5 Mendel cruzou pés de ervilhas e identificou algumas características: quando as ervilhas de casca enrugada eram cruzadas com as ervilhas de casca lisa. conhecido como o fundador da genética. tendo-lhe sucedido no cargo Leonard Darwin . emergiu a eugenia. um monge checo. uma prática que procurava alcançar a melhoria das qualidades físicas e morais de gerações futuras.. autor do Ensaio sobre o Princípio da População (1798). 2. a selecção natural actuava no sentido da preservação das diferenças e variações favoráveis e da eliminação das variações nocivas (Darwin 1968 [1859]: 84).filho de Charles Darwin. era necessário intervir activamente no desenvolvimento do homem. podendo tal conduzir a uma catástrofe. Ainda durante o século XIX. Galton 4 inspirou-se ainda nas descobertas de Gregor Mendel 5 (1822-1884).geração) foi criado em 1883 pelo britânico Francis Galton (1822-1911). pois esse gene era dominante. Inspira-se no darwinismo para elaborar em 1883. Darwin (1809-1882) definiu o processo de “selecção natural” das espécies. 8. 2. Galton procura provar. 4 Em 1907 foi presidente da Sociedade para a Educação Eugénica. Alguns eugenistas interpretaram estas experiências de um modo que reconhecia as ervilhas de casca enrugada como uma degeneração (e não como uma variação genética apenas). a população cresce em proporção geométrica (1. ou seja. na obra Inquires into Human Faculty and its development. Segundo Malthus. que a capacidade humana era influenciada pela hereditariedade e não pelo meio e sugere as proibições dos casamentos inter-raciais. a primeira do género. enquanto a produção de bens alimentares cresce em proporção aritmética (1. através de um método estatístico e genealógico. e paralelamente ao evolucionismo. O termo eugenia (eu . pondo assim em causa a reprodução daquela espécie. 4.. 3. 4. Em 1869. Ao transferir o resultado das descobertas de Mendel acerca do cruzamento de ervilhas para os humanos. genus . as espécies não eram imutáveis e evoluíam gradualmente. Não fazia sentido. o processo darwiniano de selecção natural já não operava sob as condições de uma vida “civilizada” e. segundo o próprio.).. uma vez que as populações se adaptavam/ evoluíam ao longo do tempo. 3 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . falar na existência de “tipos” raciais permanentes. Segundo ele. primo direito de Darwin. os seres mais bem adaptados viviam durante mais tempo e deixavam uma maior descendência. tendo em vista um aperfeiçoamento das populações e a eliminação de características indesejáveis. Malthus não defendia a ajuda aos mais necessitados. portanto. principalmente pelo controle social dos matrimónios. pois tal não permitia a actuação da selecção natural que eliminava os mais fracos.2 do pastor protestante Thomas Malthus 3 (1766-1834). Galton considerou necessário procurar manter as “raças” puras.

deduzir os caracteres de “uma raça fundadora” portuguesa (Matos 1998: 324). Para impedi-la promoveu-se a segregação de alguns grupos. Alguns autores vão então procurar encontrar uma matriz rácica para explicar a decadência de finais do século XIX (Sobral 2004: 259). mas as superiores sairiam desfavorecidas. inclusivamente. pois esta permitiria obter combinações incontroláveis. tomou a literatura como “expressão ou produto do meio social” e do “génio nacional” para. 2. algumas zonas do país. Teorias nacionalistas e influência do pensamento eugénico em Portugal No contexto português de finais do século XIX. por um lado. especialistas legais e higienistas mentais. como Alexandre Herculano (1810-1847) na sua História de Portugal. p. como Alcácer do Sal. Na obra O povo português nos seus costumes. “o sentido unitário – mas polissémico e ambíguo – de nação” (idem. tanto para Antero de Quental. por outro. por exemplo. Por outro lado. como para Oliveira Martins. a palavra “raça” tinha ainda. médicos. “a nação portuguesa. uma grande parte dos autores da geração de 1870 debruçou-se sobre a constatação do atraso português de então comparado com os feitos heróicos nacionais que ocorreram nos séculos XV e XVI. levantaram-se questões relativas à miscigenação. reconheceram a influência árabe. T. tendo como resultado a sua degenerescência. Alguns teóricos defenderam que as “raças” inferiores ficariam favorecidas. resultou da “vontade política e das instituições e não de uma raça entendida como um tipo nacional” (Matos 1998: 329). crenças e tradições (1885). tinham uma influência africana evidente (Vasconcelos 1895). Nesta altura. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . e com os avanços técnicos. 279).3 A eugenia veio a suscitar o interesse de cientistas. Por seu turno. Outros. Já Leite de Vasconcelos (1858-1941) reconheceu que os portugueses resultaram da mistura de vários povos e. o isolamento dos “inferiores” e até a sua exterminação. Braga concluiu que os portugueses resultaram da mistura de vários grupos e tal era um exemplo de superioridade. destituída de uma base étnica individualizada”. a ideia de “nação” estava no centro das preocupações dos intelectuais (Mattoso 1998). como observou José Manuel Sobral. económicos e políticos das nações mais progressivas da Europa. Porém. a partir dela. Teófilo Braga (1843-1924).

sentiu-se a necessidade de realçar a hegemonia de uma nação colonial afastando elementos que pudessem sugerir degenerescência ou hibridação. assistência social. reconhece os “traços flagrantes” deixados pelo germano. minora a influência dos semitas e não se refere a uma possível influência dos habitantes da África sub-sahariana.. nem a existência de sangue árabe consideravam. Em 1927. Corrêa propôs a criação de um “arquivo genealógico dos doentes” que veio a ser “posto em prática. Por outro lado. o médico e antropólogo Mendes Corrêa. para uma conferência no Porto. promoção e proibição de casamentos. Para M. Nesse sentido referiu que era “urgente (. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .) os princípios racionais de eugénica positiva (favorecendo a procriação sã). em 1931. Foi neste contexto também que. cinco anos depois. na Clínica Psiquiátrica da Faculdade de Medicina de Lisboa” (Pimentel 1998: 22). assim como pela mortalidade. Nessa mesma altura. nesse mesmo ano. hereditário. mais de 50% dos homens sujeitos às inspecções para o recrutamento militar não foram apurados por falta de robustez física.. No ano seguinte (1932) é convidado para organizar a secção do Porto da Sociedade Portuguesa de Estudos Eugénicos e. Na I Semana Portuguesa de Higiene. altura ou saúde. M.. Corrêa estava ainda preocupado com o facto de que. M. presidente da organização brasileira de eugenia. num texto de 1914-1915.) pôr em prática (. na qual o eugenista brasileiro condenou a mestiçagem (idem. no sentido de salvar a população portuguesa e manter genuinidade do carácter dos portugueses. Corrêa intervém no Congresso Nacional de Medicina defendendo que o desfalque humano suscitado pela emigração. ou devido a deformidades físicas (Corrêa 1928). Corrêa.4 Nos inícios do século XX. não sendo pois muito eficazes os meios higienistas. começaram a surgir propostas de medidas de higiene. M. portanto. os integralistas lusitanos.. da eugénica negativa (combatendo a procriação mórbida) e da eugénica preventiva (combatendo os factores degenerativos)” (Corrêa 1928: 1-7). convida Renato Kehl. entre 1915 e 1921. como António Sardinha (1887-1925) em O valor da raça (1915). a inaptidão bio-social era um fenómeno constitucional-germinal e. ibidem). pela tuberculose e pela ilegitimidade das crianças conduzia à necessidade de tomar medidas eugénicas.

podemos referir a criação da Sociedade Alemã para a Higiene Racial (1905). o médico e antropólogo Eusébio Tamagnini 6 apresenta a proposta para a criação da Sociedade Portuguesa de Estudos Eugénicos 7 . Esta Sociedade. Anselmo Ferraz de Carvalho ou Elísio de Moura. a Sociedade para a Educação Eugénica na Inglaterra (1907). Corrêa e H. de 23-10-1934 a 18-1-1936. Tamagnini analisa a importância do estudo da população e destaca as medidas eugénicas já tomadas pela Alemanha: Podem discutir-se pormenores. na lição inaugural da Universidade de Coimbra. desenvolvendo a nossa raça. aperfeiçoando-a.. Embora não fazendo parte desta sociedade. respectivamente. cujos estatutos foram aprovados em 1934. 10 Estes pressupostos eram comuns aos defendidos pela Sociedade Portuguesa de Estudos Eugénicos. educando-a. as variadas causas do seu enfraquecimento 10 (1940: 6). director do Instituto de Antropologia de Kaiser Wilhelm de Berlim (Diário de Coimbra. mas o que ninguém pode contestar é a seguinte afirmação do Hitler: ‘Numa época em que as raças se estão intoxicando a si próprias. o Estado que devote os seus cuidados aos seus melhores elementos étnicos dominará um dia o Mundo’ (1934-35: 28). Foi inaugurada durante as Comemorações Centenárias da Universidade de Coimbra. com a presença 8 de representantes de vários países 9 e esteve em actividade até 1974. Vilhena. no discurso para as festas comemorativas da cidade de Coimbra. como Bissaya-Barreto. Bissaya-Barreto esteve presente na sua inauguração.) de desenvolver tôdas as fôrças e riquezas com que a Natureza as dotou. no ano lectivo de 1934-35. 10-12-1937). instruindo-a. e realizou estudos que ilustram o seu interesse pela “raça”. pode discordar-se de certos processos. professor de Antropologia. Tamagnini foi ministro do governo de Salazar. defendeu em 1940. Rocha Brito. os “homens de amanhã”. onde as secções da sociedade eram dirigidas por M. tinha a intenção de propagandear ideias de “valorização demográfica” e responder à “necessidade de se criar uma geração mais forte”. combatendo tanto quanto possível. a Sociedade Eugénica Francesa (1912) e a Sociedade Eugénica Americana (1921) que veio a aconselhar a esterilização de um décimo da população americana para evitar o “suicídio da raça branca”. 6 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . participaram os médicos Joaquim Pires de Lima. tornando-a vigorosa e forte. para que possam manter o seu lugar ou conquistar melhor lugar na hierarquia dos Povos” (e isso só é possível) “aumentando a nossa população. que segundo ele permitiriam a continuidade dos valores da “nação” e da “raça”. João de Almeida (brigadeiro-médico) e Sobral Cid. de tão brilhante Passado.. 7 Em termos comparativos. 8 A maioria dos presentes era constituída por professores da Faculdade de Medicina de Coimbra. Mas já anteriormente. na Universidade de Coimbra. 9 Entre os quais o alemão Eugen Fischer. que: As Nações novas e as velhas como a Nossa. criada em Coimbra em 1937. Por seu turno.5 Em 1933. E. Bissaya-Barreto. mentor de várias estruturas de apoio às crianças. necessitam (. Do Porto e Lisboa.

que defendeu em 1940 a despenalização do aborto 11 ). no que diz respeito à regulamentação de casamentos e divórcios proposta por alguns médicos e à consequente necessidade de actualizar o Código Civil português.6 Em Portugal. Sendo assim. psicológicos e até jurídicos. a Igreja foi-se mantendo vigilante no que diz respeito a uma excessiva intervenção do Estado no domínio privado e familiar. Entre os grandes defensores da eugenia estiveram vários psiquiatras e pessoas de distintos quadrantes políticos: ex-nacionais-sindicalistas (E. como sabemos que aconteceu nos EUA e na Alemanha. p. 26). 11 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . os princípios da eugenia não foram levados até às últimas consequências e não se registou no país a ocorrência de extermínio ou genocídio. Em Portugal registou-se então a persistência dos valores humanistas. De facto. embora as duas pudessem coexistir. membros da União Nacional e opositores ao regime (como Álvaro Cunhal. Outro elemento interessante é que as discussões acerca da eugenia passaram a juntar aos argumentos biológicos. os elementos sociológicos. encontram-se apologistas da eugenia com diferentes posturas relativamente à religião: católicos. Os católicos defenderam a eugenia “embora aprovassem medidas natalistas de aumento da população e condenassem as medidas limitativas da natalidade” (idem. membros do Partido Evolucionista (Bissaya-Barreto). João de Almeida). em parte devido à influência cristã. A sua tese de licenciatura incidiu sobre “A Realidade Social do Aborto” e defendeu a legalização do aborto. com a intervenção da Igreja no Estado. houve em Portugal um certo consenso em a reprovar. ou de esterilização como sucedeu na Suécia. Por outro lado. agnósticos e ateus (Pimentel 1998). Tamagnini. No que respeita à esterilização. Apenas Egas Moniz. procurando assim impedir os excessos “negativos” da eugenia. a via higienista (apoiada pelas descobertas da química. propôs a esterilização para eliminar a hereditariedade mórbida. conservadores republicanos (Júlio Dantas). e especificamente católica. uma medida no entanto restrita a casos clínicos mais especiais (Pereira 1999: 588). medicina e farmácia) acabaria por prevalecer à via eugenista. Prémio Nobel de Medicina e Fisiologia (1949).

envolvendo os meios políticos. uma vez que um mestiço era “um sêr imprevisto no plano do mundo” (1934: 332). ao defender o esforço para incutir nos portugueses o desejo de emigrarem para as colónias e aí se fixarem definitivamente.7 3. No Congresso de Antropologia Colonial (1934). 1934: 329. mas com um espírito um pouco diferente. por exemplo. Apela ainda A questão da mistura racial não era única de Portugal. refere a importância do “vigor” e da “pureza germinal da Raça” para a “continuidade histórica da Nação” (1940c: 20). inaceitáveis em “matéria da eugenésica interétnica”. desde a Família até ao Estado” (1934: 63). no I Congresso Nacional de Antropologia Colonial de 1934. Numa outra comunicação apresentada ao Congresso Colonial. Já no âmbito científico. por um lado. o médico Germano da Silva Correia criticou o povoamento colonial por condenados. enfatiza a sua linha de pensamento quanto à mestiçagem. defendendo que: “de um mestiçamento não se pode esperar uma nova linha racial pura” (1940b). que estes constituíssem “grupos cuidadosamente separados” (Ribeiro 1981: 155). por um lado. por essa razão. Corrêa propósitos muito idênticos. o Peru. alertou para os perigos da mestiçagem. e ainda o México. referindo que esta era “um risco para tôdas as sociedades humanas. não eram favoráveis à mestiçagem. pois foram esquecidos desde os “tempos dourados em que o grande Afonso de Albuquerque favorecia o cruzamento de portugueses com as mulheres indígenas”. Contemporaneamente a Tamagnini. por outro (Correia. e os científicos. como o próprio Brasil. e defendeu uma política colonial “extremamente humanitária e rasgadamente liberal” para apelar à colaboração dos mestiços. por outro. por exemplo. este autor chama a atenção para a necessidade do desenvolvimento de estudos sobre os “problemas biológicos e sociais do mestiçamento” cuja “intensidade angustiosa e dramática” deveria preocupar os investigadores. estas discussões acerca do “aperfeiçoamento da raça” estiveram envolvidas também com a questão colonial (Matos 2006) e. Tamagnini. Este médico não apoiava a mestiçagem. 12 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Higiene racial e questão colonial Na primeira metade do século XX. como Norton de Matos ou Vicente Ferreira. com a questão da miscigenação 12 . Ela foi debatida em alguns países da América Latina. Nas Comemorações de 1940. Assim. 326). podemos encontrar em M. G. no discurso da Sessão Inaugural do Congresso Nacional de Ciências da População. embora fossem a favor da “elevação social de pretos e mulatos”. a Argentina e a Venezuela. no entanto. No mesmo Congresso. governadores coloniais. salvaguardando.

o que este autor acaba por destacar é a imprevisibilidade do mestiçamento (1940b) e não a sua fundamentação científica. não representa todos os discursos da época. dentro do possível. Corrêa debruça-se sobre os “Factores degenerativos na população portuguesa e seu combate” e anuncia o mestiçamento como “possível factor degenerativo”. um recurso a adoptar para exploração dalguns territórios (. Dito de outra forma. porventura. que é a maior garantia da continuidade histórica da Pátria. o mestiçamento levaria à diluição de caracteres (1940b). a sua colaboração com os mais prestimosos valores nacionais. cuja existência vários autores tinham tentado demonstrar desde o século XIX. Mendes Corrêa sustenta que: 1. 3... 4. pois poderia conduzir à dissolução de caracteres específicos dos portugueses. salvo (. é.) (1944: 3-4). após a apropriação das teses luso-tropicalistas de Gilberto Freyre..º Não deve considerar-se o mestiçamento em larga escala como base da nossa política colonial. no entanto. sobretudo mais tarde. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . foram desfavorecidos por más condições sociais e educativas e promover. tanto quanto possível. Havia alguns que contrastavam com estes. como não devem os estrangeiros naturalizados. Ainda no âmbito daqueles congressos de 1940. no Congresso Colonial. aborda questões como o contacto da “raça portuguesa” com as “raças indígenas” e o contacto das “raças” nas colónias portuguesas e revela-se também contrário à existência de “mestiços” (1940: 20-21). mas a questão de o factor degenerativo surgir era apenas uma possibilidade (1940a). embora influente. procurando melhorar a situação daqueles que.. professor na então Escola Superior Colonial. fraterno. numa Comunicação apresentada à 22..8 à “conveniência nacional de restringir os cruzamentos raciais” e termina referindo que: “nunca eles (os mestiços) deverão.º Deve dar-se aos mestiços do nosso Império um tratamento carinhoso. Porém. Quatro anos mais tarde (1944). M. Contudo. A mestiçagem era vista como uma ameaça.) em casos (... Gonçalo de Santa-Rita (1891-1967).º O mestiçamento em áreas de difícil aclimação dos europeus ou por virtude da escassez dos colonos provenientes da metrópole. Na sua apresentação integrada no Congresso Nacional de Ciências da População. 2. exercer postos superiores da política geral do país.). a posição destes autores. em Lisboa.. pois isso implicaria a destruição dum património germinal. uma selecção eugénica dos progenitores (. humano.ª Sub-Secção do II Congresso da União Nacional.) muito excepcionais e improváveis” (1940b).º Em tal caso deve procurar-se.

Tamagnini (1939) procurou demonstrar que os narizes dos portugueses eram muito diferentes e não tinham qualquer influência dos narizes dos africanos. Por ocasião do Congresso Nacional de Ciências da População (1940). é pràticamente nula” (1940: 563). 13 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . etc. Ainda no âmbito dos congressos de 1940 foi apresentado um estudo sobre as populações indo-portuguesas. românico e germânico. o médico Joaquim Pires de Lima defendeu que os portugueses resultavam da síntese entre os elementos lusitano. num texto sobre o índice nasal dos portugueses. vice-rei da Índia. Por seu turno. a par das considerações contrárias à miscigenação. houve quem tenha defendido uma política de casamento misto. o seu desenvolvimento social e cultural era considerado superior ao dos africanos. como é o caso de Afonso de Albuquerque 13 . Sampaio e Mello.9 Curiosamente. professor da Escola Superior Colonial. Histórias de miscigenação na colonização portuguesa Apesar do que foi dito atrás. domiciliada há mais de dois séculos nesta Colónia” e que a única diferença resultante do clima tropical é “o menor grau de robustez orgânica” (1940: 663-678). houve gente que ascendeu à nobreza. negando outras influências (1940: 99). Germano da Silva Correia refere que “não ocorreu nem degenerescência. nem diversificação rácica na grei Luso-descendente. Embora a sua religião fosse diferente. que encorajou os seus homens a casar com as mulheres de origem ariana convertidas ao cristianismo. No âmbito deste mesmo congresso. Quando os portugueses chegaram à Índia encontraram impérios imponentes. é nesta mesma altura. que assistimos à produção de trabalhos visando provar a pureza do povo português. 4. na história da colonização portuguesa. defende que os portugueses em contacto com outras populações se manteriam sempre portugueses e um bom exemplo disso era o Brasil (1936: 52). No âmbito das Conferências de Alta Cultura Colonial (1936). Várias vezes foram lembradas as iniciativas de Albuquerque na Índia no que disse Aqui o processo de colonização ocorreu de um modo diferente do que aconteceu em África. O seu autor. a Escola Médica de Goa era muito organizada. Os hindus impressionaram pelo seu desenvolvimento e organização social. Aires de Azevedo apresenta um trabalho no qual conclui que “a influência das raças coloniais (nomeadamente Hindu e Negra) na pureza bioquímica do povo português. embora tenha enfatizado não querer que estes “casassem com as ‘mulheres negras’ de Malabar” (Boxer 1967: 98-9).

tal processo não terá sido pacífico. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . um ex-funcionário administrativo nos anos 30 em Angola: J: . vide Andrews (1991) e Castelo (1998). em 1933. 17 anos quando fui daqui. Esta ideia parece ser predecessora da ideologia “luso-tropicalista” cujos fundamentos começam a ser lançados. rapaz. você ou tem uma ou não pode ter muitas’.Sucedeu-me isso. o próprio soba não perceber como é que um monaqueca (rapaz novo) podia viver sem mulher. 14 Para um maior desenvolvimento sobre este assunto. devido ao seu passado étnico e cultural de “povo” indefinido entre a Europa e a África 14 . em entrevista. como nos referiu. foram mesmo consideradas inspiradoras e precursoras das ideias que se quiseram pôr em prática nos territórios coloniais depois dos anos 40 do século XX. De facto. eu não tenho nenhuma. não havia lugar para a visão culturalista de Freyre ou para o elogio do mestiço (Castelo 1998). aquilo para mim era um bicho. quer dizer. mas o administrador onde eu estava. Freyre destaca a predisposição dos portugueses para o contacto fraterno com as populações tropicais. A sensação de estranheza do colono quando chegava aos territórios ultramarinos e tinha um primeiro contacto com as suas populações autóctones. pode ser descrita como um “choque cultural”. embora depois houvesse uma adaptação. na obra Casa Grande & Senzala do já referido Gilberto Freyre (1957 [1933]). a obra de Freyre não teve receptividade em Portugal na década de 30. Porém. como tal.Não senhor. eu não quero. dizia: ‘. Na obra citada. eu não me relaciono com pretas!’ (…) Eu tinha 18. As suas ideias de política colonial.10 respeito à colonização. E eu disse: ‘Ó senhor administrador. O “renascimento do império” estava imbuído de ideias raciais e. de adaptação ao ambiente. postas em prática no início do século XVI. é relativamente comum considerar-se que os portugueses não estabeleciam barreiras raciais nas suas colónias e que a sua fácil miscigenação com outros povos lhes daria uma certa especificidade (Boxer 1967: 35). mais tarde já não era… É uma questão de costume. G. Todavia. e eu chegava lá e ver uma preta nua não me impressionava nada. um discípulo de Franz Boas.

Em 1959. porque os tratamos com mais humanidade e nos interessamos pela vida deles. Reformulações trazidas pelo pós-guerra Embora a recepção inicial da teoria gilbertiana em Portugal tenha sido heterogénea e não lhe tenha sido dado um grande destaque nos anos 30 e 40. A discriminação racial e as duras práticas administrativas coloniais existiam e persistiam. criando as chamadas sociedades luso-tropicais. Angola. segundo a qual a colonização portuguesa teria sido diferente. é sobretudo no período pós-Segunda Guerra. e até ousadamente. foi necessário proceder a uma reformulação da postura portuguesa face aos territórios ultramarinos e seus habitantes. harmonia. numa altura em que os países europeus já tinham concedido a independência às suas colónias. é muito difícil para muitos acreditar na teoria luso-tropicalista. As ideias discriminatórias do Acto Colonial (criado em 1930) começam a ser abandonadas e o regime adopta a teoria “científica” de Freyre 15 . um pouco inesperadamente. declarava que: “nós continuamos a ouvir sempre repetir que os indígenas gostam mais dos portugueses que dos ingleses. 15 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . A Constituição de 1951 instituiu o regime de indigenato aos nativos de Angola. embora ela nunca tenha sido apoiada oficialmente (Castelo 1998). Índia Portuguesa e Macau” (Santos 1955: 159). como certos erros que passam de uns manuais para os outros. a expressão “colonização” passa a ser substituída gradualmente por “integração”. acham mais cómodo repetir aquilo que os outros disseram” (Dias e Guerreiro 1960: 21). Tanganhica e União Sul-Africana). Como resultado das pressões anti-coloniais. No caso de Jorge Dias.11 5. porque os autores em vez de procurarem verificar a exactidão das afirmações. E esta história vai-se repetindo. só a visita ao “terreno” lhe concedeu uma visão crítica diferente das visões luso-tropicalistas que o regime apropriou. este autor. Ainda hoje. num Relatório de Campanha (Moçambique. por exemplo. Ao mesmo tempo. Mas as concepções luso-tropicalistas de Gilberto Freyre receberam críticas. uma vez que os portugueses sempre tinham respeitado os valores das populações com as quais se relacionaram e com as quais mantiveram laços de tolerância. fraternidade e até de intimidade. que se verifica uma mudança na atitude dos políticos do regime face à ideologia de Freyre. Moçambique e Guiné pelo facto de considerar que estes ainda não tinham alcançado “o nível de cultura e o desenvolvimento social dos europeus” como possuíam os de “Cabo Verde.

que não permitia o acesso à cidadania da maioria da população das colónias africanas. no fundo. um país pequeno. encontrámos algumas dessas combinações. o processo de assimilação das populações autóctones dos territórios ultramarinos não parecia diluir a originalidade portuguesa. por exemplo. e à influência da Igreja no próprio Estado. Portugal. mas todos eles tinham características particulares que se tinham mantido inalteráveis. nos séculos anteriores. No âmbito do contexto colonial. Faz sentido também falar em oximóron quando nos estamos a referir ao texto da Constituição de 1951 que se refere ao processo de assimilar os nativos dos territórios sob administração portuguesa. Os oximórons podem surgir também. com territórios espalhados por todo o mundo. por exemplo.12 6. e constatamos que alguns discursos científicos afinal estão imbuídos de discursos também eles políticos e até de teor religioso. essa mistura nem sempre foi reconhecida e alguns autores procuraram provar a sua “pureza racial”. nunca perderiam a sua essência individual que os caracterizaria. Outros consideravam que mesmo cruzando-se com outros povos. cujos recursos não abundavam. imperial. só era concedida se o indivíduo provasse que nunca tinha passado por África e. mas depois assistimos ao entrecruzar dos discursos políticos com os discursos da Igreja. No âmbito do contexto nacional e colonial português analisado. se contradizem entre si. era dado a ver como um país grande. a atribuição de um título nobiliárquico em Portugal. Ou seja. perdurado ainda até 1954. portanto. num contexto no qual à partida concebemos o Estado e a Igreja como separados. porque um oximóron designa uma combinação engenhosa de palavras que. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . tendo o “estatuto” de “indígenas”. Um outro oximóron resulta da promoção da ideia de “pureza racial” dos portugueses e da argumentação simultânea de que os portugueses descendiam de vários povos (ao longo de séculos). pois o potencial eugénico dos portugueses permitia que essa originalidade se mantivesse mesmo em contacto com populações “exóticas”. apesar da ascendência diversa dos portugueses. Curiosamente. não tinha tido quaisquer relações com negros. Em conclusão Escolhi a expressão “oximórons” para o título desta comunicação.

atravessaram o período que precedeu o Estado Novo e reavivaram-se com este.. há autores que ainda recentemente se prenderam com essa questão 16 . não será também um oximóron a combinação sugerida por alguns entre ideias de “cultura de fronteira” (Boaventura Sousa Santos 1993) e a de que a cultura portuguesa se deixa contaminar pelo que lhe é exterior (Jorge Dias 1990 [1953]. na expressão do nosso subtítulo. e outras obras (acrescentamos nós). Contudo. segundo Sousa Santos. a ideia do luso-tropicalismo. Os Elementos Fundamentais. há muito alvo de descrédito científico. Quanto à predisposição especial dos portugueses para a adaptabilidade. Hoje. 16 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . “as buscas da perfeição ao serviço da nação”. “continuam a projectar a sua sombra nas discussões contemporâneas acerca do que é ser português” (2000: 103). atingindo o seu auge durante as décadas de 30 e 40 do século XX.13 Por outro lado. Dias (1990: 156). Essas teses foram inicialmente desenvolvidas por Jorge Dias em Os Elementos Fundamentais da Cultura Portuguesa (1990 [1953]) e depois em O Carácter Nacional Português na Presente Conjuntura (1971 [1968]). segundo alguns historiadores como Valentim Alexandre (2000) e Cláudia Castelo (1998) e antropólogos como Miguel Vale de Almeida (2000) e Cristiana Bastos (1998). e tendo sobrevivido ao período pós-independência das ex-colónias portuguesas.. com algumas das ideias acerca do nacionalismo português. Tanto um autor como outro abordaram a questão da cultura portuguesa se deixar contaminar pelo que lhe é exterior. na altura. ou marcada por uma grande “disponibilidade multicultural”. estamos perante um oximóron quando nos lembramos da defesa das teses luso-tropicalistas aplicadas à caracterização da colonização portuguesa. não permitiriam levantar qualquer suspeita.. emergiram no final do século XIX. “volvido quase meio século sobre a sua publicação”. B. O que podemos então esperar dos antropólogos de hoje? Correr-se-á o risco de voltarmos a viver em contextos semelhantes aos aqui descritos. Muitos dos autores que teceram considerações acerca da “raça” e da eugenia tinham currículos que. o que faz dela uma entidade “poliglota”. Como referiu João Leal. Santos 1993) com a ideia de um “modo de ser português” facilmente identificável e transhistórico? Como vimos. segundo J. parece coadunar-se. dado o contexto que se vive actualmente? Boaventura Sousa Santos (1993) caracterizou a cultura portuguesa como uma “cultura de fronteira” e defendeu ideias a propósito da capacidade de adaptação da cultura portuguesa. da identidade nacional e da adaptação dos portugueses a diferentes territórios. nos quais se discute a superioridade biológica e cultural de uns indivíduos em relação a outros e se propõem medidas científicas e políticas com vista a penetrar nas esferas pessoais e sociais dos indivíduos? Poderemos nós prever isso. S.

Perspectivas Comparativas. 1991. Cristiana. 1940. II Secção. Charles. Mais vale prevenir do que remediar. Alberto Carlos Germano da Silva. Aires de. O luso-tropicalismo e a ideologia colonial portuguesa (1933-1961). O Modo Português de Estar no Mundo. Teófilo.14 Estando Portugal a transformar-se cada vez mais num país de imigração e de acolhimento para muitos indivíduos poderemos vir a assistir novamente a discussões sobre os possíveis efeitos das misturas biológicas e culturais dos portugueses com outros grupos e. Fernando. Edições da 1. Mendes. bi-mensal de Higiene e Profilaxia Sociais. 33 (146-147). 1. 1998. em Congresso Nacional de Ciências da População. “O mestiçamento nas colónias portuguesas”. em Congresso da História da Actividade Científica Portuguesa. 1985-1986 [1885]. Celta. ou será que é porque existem semelhanças que se poderão facilmente continuar a compará-los? Por outras palavras. 4-7. em Trabalhos do 1. “Festas comemorativas dos Centenários e da Rainha Santa”. 1888-1988. em VALA. Porto. “Os Eurafricanos de Angola”. Edição dos Congressos do Mundo Português. 551-564. Jorge (Coord. Nº 12. Valentim. 1944. Volume I.º. 1415-1825. BOXER.ª Exposição Colonial Portuguesa. Lisboa. 133-144. porque distintas e distantes. II Secção. ANDREWS. 1. Edição dos Congressos do Mundo Português. Dom Quixote. Blacks & Whites in São Paulo. O povo português nos seus costumes. Dezembro de 1944. sobre o receio da diluição dos caracteres seculares evocados por alguns autores? Inventariar-se-ão diferenças incomparáveis. Relações Raciais no Império Colonial Português. Madison. 1940.º Congresso Nacional de Antropologia Colonial. The University of Wisconsin Press. 1967. 415-432. Novos Racismos. 1940. CORREIA. George Reid. Tempo Brasileiro. de África Médica. BRAGA. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . BASTOS. 1998. em Sep. consequentemente. “Tristes trópicos e alegres luso-tropicalismos: das notas de viagem em Lévi-Strauss e Gilberto Freyre”. “O império e a ideia de raça (séculos XIX e XX)”. Tomo 1. Tomo 1.). Costa Carregal. 663-678. Porto. Afrontamento.º. Porto. Ano X (229 e 230). VIII Congresso.ª Parte. Cláudia. Lisboa. Análise Social. CORREIA. AZEVEDO. Lisboa. Alberto Carlos Germano da Silva. Brazil. Jornal popular.ª ed. “Antropologia na Índia portuguesa”. não será apenas onde existem afinidades que podemos encontrar diferenças? Referências bibliográficas ALEXANDRE. crenças e tradições. A Saúde. CASTELO. Oeiras. 2000. “A pureza bioquímica do Povo Português”. 300-330. CORRÊA. Rio de Janeiro. 1934. BISSAYA-BARRETO.

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recolhendo espécimens botânicos. ISTCE leonor. Moçambique. 1 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Este texto. a que não estava obrigado pela sua participação na campanha. fauna e antropologia indígenas. memorialística e técnica da autoria de Pires Lima. este texto pretende recuperar a sua experiência no litoral norte de Moçambique em 1916-1917 e reflectir sobre os interesses do médico pelas “raças” moçambicanas à luz das práticas antropológicas suas contemporâneas. representava um esforço de sistematização das observações e mensurações antropométricas de populações locais realizadas pelo jovem médico durante o período em que integrou terceira expedição militar ao norte de Moçambique (Lima 1918a). Colonialismo. I Guerra Mundial 1. Martins 2006).Ossos do ofício: um caso de práticas antropométricas no norte de Moçambique (1916-1917) 1 Leonor Pires Martins Doutoranda em Antropologia.com Por ocasião da I Guerra Mundial. Nação e Império”. Fazendo uso da técnica da antropometria realizou ainda mensurações em mais de uma centena e meia de nativos moçambicanos e procedeu à descrição dos seus caracteres fisionómicos. Utilizando diversas fontes literárias de natureza autobiográfica. O interesse pela aplicação de práticas de natureza antropométrica.piresmartins@gmail. Palavras-chave: Antropologia física. zoológicos e diversos artefactos. Uma versão mais desenvolvida e trabalhada foi posteriormente publicada (vd. o médico Américo Pires de Lima integrou uma expedição militar ao norte de Moçambique. Aproveitando a estada naquela antiga colónia portuguesa o jovem médico ocupou o tempo livre com o estudo da flora. Eugenia. redigido por Américo Pires de Lima (1886-1966). Em 1918 a revista Anais Científicos da Faculdade de Medicina do Porto publicou um artigo com o título de “Contribuição para um estudo antropológico dos indígenas de Moçambique” que revelava interesses no domínio da antropologia física e biológica. foi Este texto é uma transcrição fiel da comunicação que foi apresentada no painel intitulado “Raça.

técnicos. no seu regresso a Portugal em 1917. veremos que este conflito proporcionou a Pires de Lima condições particularmente favoráveis à realização de estudos de antropometria. designadamente pela oportunidade de serem estabelecidas comparações entre diferentes grupos humanos. sendo notório o espírito cumulativo com que procedeu à recolha de informação. recolheu espécimes zoológicos. uma nação beligerante no contexto da I Guerra Mundial (1914-1918). Nessa altura. a missão de estudos de Pires de Lima – ainda que condicionada pela modéstia dos recursos logísticos. e também ao enquadramento específico do desempenho das suas funções naquele território. da fauna e antropologia indígenas”. desenvolvendo uma actividade paralela à assistência médica prestada às tropas expedicionárias portuguesas ali estacionadas. sobretudo) e um pequeno número de artefactos. instituição onde leccionava ciências biológicas. desde Março desse ano. Durante a sua permanência em Moçambique. Mais adiante. Américo Pires de Lima embarcou no início de Junho de 1916. provavelmente as peças etnográficas mais importantes que adquiriu no norte de Moçambique (Afaa 1989. o médico português ocupou o tempo que sobrava da actividade clínica recolhendo “todos os elementos possíveis para o estudo da flora.2 principalmente devido ao incentivo de dois colegas da Faculdade de Ciências do Porto. a variedade desses interesses pode ser ilustrada através do destino dado aos resultados da recolha de Pires de Lima. Na tradição das expedições e viagens científicas setecentistas e oitocentistas. Pires de Lima. embora as acções do exército português nesse conflito se tivessem iniciado bastante antes no continente africano. Portugal era formalmente. entre os quais. quatro estatuetas maconde. desde o final de 1914 que essas intervenções militares ocorriam em Angola e em Moçambique. Assim. Na realidade. como recordou em 1943 no prefácio de um volume que reunia os textos decorrentes daquela experiência em África (Lima 1943: vii). exemplares da flora (plantas e líquenes. A missão contou com aprovação ministerial e o apoio das autoridades locais. Em larga medida. colónias que confinavam com territórios então sob administração colonial alemã (Arrifes 2004). Estes tiveram como destino diferentes secções museológicas da Faculdade de Ciências do Porto e ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . materiais e humanos disponíveis para o exercício de averiguações científicas – compreendeu uma importante diversidade de interesses. Lima 1918b).

de uma parte. classificou várias dezenas de novos líquenes e outros espécimes vegetais recolhidos pelo médico português. ao aspecto do cabelo e da dentição. uma parte significativa da sua colecção de botânica foi doada a um liquenólogo finlandês (Edvard A. 2. Vainio) que. Quer a actividade descritiva – atenta à cor da pele dos indivíduos. em virtude das precárias condições de armazenamento e de conservação de que dispunha – foram oferecidas ao Museu de Zoologia da sua faculdade e também a um entomologista espanhol. Deste modo.3 outras entidades estrangeiras ligadas ao ensino e à investigação. Pires de Lima reuniu ainda dados sobre os caracteres fisionómicos de 170 indígenas moçambicanos. Durante a sua estada em Palma e Mocímboa da Praia. a observação e a descrição dos seus caracteres físicos e. entre outros indicadores – exigiram o manuseamento de diversos ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Por sua vez. colega de curso de Pires de Lima na Escola Médica do Porto. que a actividade antropométrica exercida por Pires de Lima foi sobretudo orientada para a acumulação de dados sobre características fisionómicas por forma a contribuir para a elaboração do imenso arquivo da diversidade humana ambicionado pelo projecto antropológico de Pierre P. à forma do nariz e dos lábios. todos adultos e do sexo masculino. No estudo de Pires de Lima não é identificável um propósito prevalecente de associação de traços psicológicos e comportamentais a traços físicos particulares. quer o exercício de mensuração do corpo humano – por forma à obtenção de valores médios relativos à estatura dos indivíduos observados. Parece-me. O exercício de classificação fisionómica e racial de indivíduos – em que se inscrevem os levantamentos antropométricos realizados pelo médico expedicionário – compreendia o estudo anatómico e metrológico do corpo humano: isto é. no final da década de 1930. os seus índices cefálico. a aplicação da técnica da antropometria. facial e nasal. Broca e Paul Topinard que o médico português perfilhava. ao invés. às tatuagens e outros sinais corporais particulares –. de outra parte. os artefactos trazidos de Moçambique foram depositados no acervo do Museu e Laboratório Antropológico daquela mesma faculdade. Já as suas colheitas no campo da zoologia – apesar do facto de muitos dos exemplares se terem deteriorado. criado em 1914 por António Mendes Correia (1888-1960).

ainda que constitua um importante repositório de informação sobre a sua experiência biográfica no norte de Moçambique durante a Grande Guerra. por exemplo. No entanto. uma vez que apenas conseguira transportar consigo três instrumentos que lhe tinham sido cedidos por um colega da Faculdade de Medicina de Lisboa: uma fita métrica. No fundo. o médico expedicionário fez uma craveira. porquanto. são várias as questões que ficam sem esclarecimento. De uma porta de madeira. Relativamente às circunstâncias específicas em que o estudo de antropometria realizado por Pires de Lima foi desenvolvido. um compasso de espessura e um outro de corrediça. não clarifica todos os aspectos que rodearam a sua actividade no campo da antropometria. gravando nela a escala com o auxílio da fita métrica (Lima 1918a: 23-4). Ao fim e ao cabo. julgada excessivamente sensorial e imprecisa. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Na verdade. sem o auxílio visual daquela ferramenta. a utilização daqueles aparelhos visava disciplinar os sentidos do observador e atenuar a interferência da sua subjectividade na produção de resultados (Dias 1996: 33-4). a improvisação e a criatividade supriram a inexistência de outros instrumentos necessários à prática antropométrica. em virtude da prática rotineira da inspecção de corpos humanos nas actividades clínicas. designadamente sobre as condições logísticas e técnicas em que o médico militar efectuou as observações (no espaço da enfermaria? num laboratório propositadamente montado para aquele fim? foi auxiliado por alguém? em quanto tempo realizou as mensurações?). e como fica sugerido num passo do seu artigo. Pires de Lima não dispunha de uma vasta aparelhagem antropométrica. procurando evitar estimativas produzidas a partir da observação a olho nu. Na realidade. a literatura de cariz técnico e memorialista deixada por Pires de Lima. Pires de Lima ressentia a impossibilidade de utilizar uma escala de cores no decurso das suas observações. Desta forma. eram extremamente limitados os recursos de que dispunha. Por outro lado. os diversos instrumentos antropométricos tinham por função aperfeiçoar a percepção dos praticantes da antropometria. entendia ser limitada em precisão a classificação dos grupos humanos observados em função da cor da pele.4 instrumentos e aparelhos. os profissionais da medicina seriam particularmente aptos para o exercício da antropologia física e da antropometria.

de grande número de indígenas de toda a colónia – uns recrutados como carregadores. e como já tive ocasião ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . De alguma maneira. um aspecto muito importante que. contrariamente àquilo que poderia supor-se. Reporto-me à situação de conflito vivida no norte de Moçambique por altura da permanência do médico português na região. havendo notícia de alguns trabalhos de antropometria realizados entre recrutas do exército português (Roque 2001: 261-2). Assim.5 Conhecemos. outros como soldados das companhias indígenas. num ambiente militarizado e com o recurso a nativos moçambicanos que integravam a sua expedição. depois. em meu entender. já que nos locais onde esteve estacionado (primeiro em Palma e. Em vez de ter sido um obstáculo à realização do seu “estudo antropológico”.” (Lima 1918a: 5). Inhambane. as quais me servem de base a este estudo. etc. não deve ser menosprezado. contudo. No caso particular de Pires de Lima. sem sair do Niassa. facto que motivou o seu recrutamento e que. Por outro lado. estamos perante um caso em que a instituição militar foi parte importante no processo de produção de conhecimento sobre as populações locais daquele território sob administração colonial portuguesa. É o próprio médico quem o sugere logo no início daquele seu texto de 1918: As circunstâncias derivadas da guerra contra a Deutsch Ost Afrika provocaram a concentração. a guerra gerou condições particulares de pesquisa. no norte da província. oportunamente aproveitadas por Pires de Lima. a colaboração entre a estrutura militar e a esfera académica (a Faculdade de Ciências do Porto) foi formalizada através de um despacho ministerial datado de 31 de Maio de 1916. As observações antropométricas de Pires de Lima aconteceram. em Mocímboa da Praia) pôde observar indígenas provenientes de diferentes regiões do território (de Tete. tive a possibilidade de reunir mensurações antropométricas (…) de várias raças de Moçambique. portanto. Assinale-se que no espaço geográfico da “metrópole” a colaboração entre a estrutura militar e a comunidade científica tinha já produzido alguns resultados desde os anos finais do século XIX. é notório que o conflito no norte de Moçambique proporcionou circunstâncias extraordinárias de pesquisa ao médico português. Quelimane. teve um papel determinante no que respeita à configuração da amostra do estudo de antropologia física de Pires de Lima.). Na presença do excerto citado.

Treze Reflexões Antropológicas sobre o Corpo. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . não chegando a institucionalizarem-se em Portugal. penso que deverá ser encarado o estudo de Pires de Lima. Nélia. 1996. DIAS. Art Makondé: Tradition et Modernité. facto que é assinalado por Rui Pereira na introdução à reedição do primeiro volume de Os Macondes de Moçambique de António Jorge Dias (Pereira 1998). Celta. Paris. de resto. Referências Bibliográficas AFAA. Contudo. 3. Lisboa. em pleno regime do Estado Novo. Para terminar. a observação de indivíduos em situação de recrutamento – de soldados e carregadores indígenas que se encontravam ao serviço das tropas expedicionárias portuguesas – possibilita uma associação imediata do seu estudo ao universo dos projectos de antropometria militar que. 1989. “O corpo e a visibilidade da diferença”. Corpo Presente. no meu ver. A Primeira Grande Guerra na África Portuguesa. que a antropologia portuguesa. 23-44. na sua vertente física e biológica. se implantará de forma mais sistemática e continuada no terreno colonial através das “missões antropológicas” que foram dirigidas por Joaquim Rodrigues dos Santos Júnior (1901-1990) em território moçambicano (Pereira 1998). se nos reportarmos à segunda década do século XX. tiveram expressão em alguns trabalhos esporádicos. circunstanciais e episódicos – como. De facto. gostaria de acrescentar que. em ALMEIDA. Edições Cosmos.).6 de referir. Angola e Moçambique (1914-1918). são raros os estudos de antropologia física apoiados na aplicação da técnica da antropometria a populações do “império” português que poderão ser referenciados. Marco Fortunato. Oeiras. ARRIFES. esta constatação não lhe retirará o carácter precursor dos seus levantamentos antropométricos no norte de Moçambique. será somente em meados da década de 1930. ADEIAO. Instituto de Defesa Nacional. Os casos existentes são. 2004. Miguel Vale de (org.

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II – Capítulo Caboverdianidade e Crioulidade Textos de comunicações do painel Caboverdianidade e Crioulidade Coordenação Wilson Trajano Filho Departamento de Antropologia da Universidade de Brasília e Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa João Vasconcelos Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .

Nesta comunicação. nem por isso ela deixa de traduzir uma dada consciência da sua especificidade enquanto cabo-verdianos. comporta um juízo sobre a civilização. Afinal. na sua maioria voluntariamente ainda que sem escolha. Tomé e Príncipe: os contornos da consciência de segundos europeus Augusto Nascimento Instituto de Investigação Científica Tropical. consideraremos o uso desta denominação pelos ex-serviçais que se quedaram por S. Tomé e Príncipe nunca se referem a si mesmos como crioulos. efectuadas entre 2001 e 2003. Devido à percepção das dificuldades na sua terra e às mudanças nos Este texto socorre-se igualmente do trabalho de campo em S. eles reiteraram de forma enfática a sua condição de caboverdianos 1 . nem sempre ligada a uma visão instrumental dos testemunhos que eles fornecem sobre a sua presente condição social e política. com alguma frequência. os cabo-verdianos que se quedaram por S. No decurso de entrevistas não estruturadas. Mas. aventaríamos a de que tal expressão traduz um alheamento em relação às inquietações e aos temas que. 1 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . a classificação subjacente à denominação de segundos europeus. alguns descreveram-se como segundos europeus. “segundos europeus”. Tomé. aparentemente um traço adicional da sua identidade. a viver naquele arquipélago há cerca de meio século. identidade cabo-verdiana. como segundos europeus. Descrevem-se antes como cabo-verdianos e. à primeira vista tributária do ideário colonial. sua e dos outros. Tomé e Príncipe. Lisboa Nas suas memórias e auto-caracterizações. Vicente em 2004. ao tempo do seu êxodo para S. Esses cabo-verdianos contrataram-se como serviçais. intenta-se contextualizar o uso esta designação. onde a designação segundos europeus aflorou em testemunhos dos ex-contratados. Introdução Este trabalho aborda um peculiar processo de identificação de ex-serviçais caboverdianos em S. Tomé e Príncipe. Tomé e Príncipe independente. eram debatidos pela intelectualidade cabo-verdiana.Cabo-verdianos em S. e serve para se situarem perante as mudanças políticas e sociais assaz adversas sobrevindas no S. Cumulativamente. Entre as várias hipóteses explicativas. Refiro-me a idosos. Contudo. Palavras-chave: ideário colonial.

é notório o esforço de construção de uma nação diaspórica e. Em que circunstâncias a ideia de segundos europeus será. Tomé e Príncipe. particularmente sentida pelos ex-serviçais cabo-verdianos. Nos discursos sobre a nacionalidade cabo-verdiana patenteia-se o orgulho nas cultura e identidade historicamente fundadas. por outro. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . adquire o tom de apelo à acção justiceira de quem tenha poder para o efeito 2 . veiculada? Usá-la-ão quando não estão presentes interlocutores europeus? É difícil ser taxativo. por outra. também a decrescente valia política de uma tal expressão vai de par com o fim da vida predito para breve. Neste texto. seja na criação da sua terra e de um destino próprio contra a adversidade natural. correlatamente. ela não parece passível de redução a algo de meramente instrumental.. Tomé e Príncipe. Em primeiro lugar. Dadas a pobreza e a solidão a que estão confinados. a classificação de segundos europeus caminha ao arrepio das redefinições identitárias ainda algo politizadas por relação ao colonialismo. expor perplexidades a propósito de uma caracterização identitária algo inesperada. Para além de um ambiente avesso à sua afirmação grupal – no geral. É lícito supor que essa expressão condensa um desabafo acerca da marginalidade social. e sem futuro (político) visível 3 .2 moldes de trabalho e nas relações sociais nos anos finais do colonialismo. serão raríssimas as ocasiões para um tal desabafo que. Ainda assim. ou não. mesmo admitindo que a presença de um português a possa lembrar. a representação de segundos europeus como que cinge os cabo-verdianos a metas 2 A designação segundos europeus foi recorrentemente usada pelos mais idosos em contactos espaçados ao longo de anos. por um lado. hoje falidas e fisicamente degradadas. Hoje. 3 Os cabo-verdianos não têm qualquer capacidade de luta política e social. pretendemos enunciar hipóteses ou. Apesar da presença de um interlocutor português a poder induzir. quando saíram destas. os cabo-verdianos somaram. de uma identidade cabo-verdiana política e culturalmente útil à projecção internacional do país e à obtenção de vantagens no mundo globalizado. os cabo-verdianos contam-se entre as principais vítimas do empobrecimento de S. Mas. seja na luta contra a opressão colonial. Durante as entrevistas surgiu a expressão segundos europeus. assim como das pretextadas dificuldades do seu repatriamento e do recomeço da vida no seu pobre país. por se fixar em S. uma experiência de privações difíceis de suportar. A independência representou para eles um momento difícil. descrêem e alheiam-se de práticas associativas –. Ora. a expressão emergiu sem indagações prévias a tal respeito. Tal indiciará o curso dessa expressão nos terreiros das roças. com que se conformaram em vista das promessas políticas. assim. Entre cabo-verdianos. devemos questionar-nos acerca da sua faceta instrumental. À vida espinhosa antes de 1975.. desde então. acabaram por permanecer nas roças ou.

tal caracterização suscitará estranheza e. tão pouco parece servir a concepção de nação diasporizada 4 . até. conquanto nela possam ecoar os debates em curso em Cabo Verde ao tempo em que os ex-serviçais daí largaram para S. Ainda assim. uma abordagem pressurosamente condenatória da alienação subjacente à designação de segundos europeus. decerto. Todavia. Vicente e. a porosidade observável entre um discurso mais erudito e o discurso popular em S. Politicamente. A noção de segundos europeus não contribui para a valorização dos referentes identitários cabo-verdianos no mercado de bens culturais. E. também entre os cabo-verdianos de S. tal designação comporta uma sugestão de hierarquização social que. atento o contexto político são-tomense. Tal abrange igualmente os valores de há meio Como frequentemente sucede em narrações de indivíduos de grupos subalternizados. lembre-se a pluralidade dessa identidade nos mais variados contextos. talvez a qualificação de segundos europeus tenha sentido para aqueles que a evocam.3 coloniais. 4 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Só uma investigação profunda permitiria validar esta hipótese. dada a sua situação e a do país em que se encontram. do mestiço – como construtor do Cabo Verde independente. trata-se de uma caracterização sem futuro. igualmente baseada na interpretação de gestos e dizeres dos ex-serviçais cabo-verdianos. 5 Tal hipótese assenta em indícios escassos. noutras ilhas. De outra perspectiva. Em suma. Tomé 5 . abdicaria de tentar explicar o curso e o significado social e político dessa designação corrente entre os ex-serviçais cabo-verdianos. Contra uma visão sub-repticiamente normativa da identidade cabo-verdiana. que a filiasse apenas na ideologia colonial e racista. do grupo e do arquipélago. tão pouco para o reconhecimento político e social das minorias. Parecendo uma reivindicação identitária passadista e anacrónica. entre eles. também. não tem sentido do ponto de vista político ou sequer ideológico e cultural. a designação de segundos europeus não participa da reflexividade das elaborações identitárias dos cabo-verdianos. nessa medida contrariando a exaltação do cabo-verdiano – outrora. Dadas as características sociais e culturais do arquipélago equatorial e o veio essencialista da afirmação são-tomense. os exserviçais cabo-verdianos estão irremediavelmente condenados à subalternidade. Como veremos. permite-lhes uma reordenação simbólica deste mundo. Tomé e Príncipe avultam preocupações arredias das dos arautos da identidade caboverdiana. Em segundo lugar. das motivações de quem os procura para redigir histórias de vida. não há lugar para a negociação política a partir da consideração de identidades. cuja memória se afigura errática e avessa à perspectiva institucional da diacronia e do discurso histórico. aversão. Outros motivos aconselham a evitar um tal enfoque redutor.

quer com a sua permanência. Olhemos. a ser enunciada por outrem. 8 A afirmação relativa à condição de segundos europeus não foi partilhada por todos. Ademais. de alguma forma perseguida pelos cabo-verdianos ao longo de cerca de meio século de vida no arquipélago equatorial. no S. De resto. crioulidade ou processo de crioulização não constituem tópicos de debate em S. noções como mestiçagem. se solicitados a opinar formalmente. Tomé e Príncipe (MAINO 1999:135). O termo crioulo foi adoptado por são-tomenses em textos científicos e ensaísticos sobre asua etnogénese. para os ex-contratados. essa designação comportou (e comporta) uma afirmação social. no foco dos governantes do seu país na diáspora dos países ricos 6 . Tomé e Príncipe. assim como ao facto de não beneficiarem em nada dos êxitos económicos na terra natal e do sucesso dos seus conterrâneos nos países mais ricos. Tomé e Príncipe sobre o abandono em que se acham. a génese e o curso da designação de segundos europeus. discussão sem paralelo em S. se tornou o seu mundo. Com a menção ao abandono. alguns dos que asseveram com sentimento serem segundos europeus talvez não se mostrassem tão seguros dessa classificação. a identidade caboverdiana. Não obstante as mutações de significado social e político ao longo de sucessivas conjunturas. os cabo-verdianos aludem à sua miséria em S. patente. cumpre contextualizar o seu uso 8 para a interpretação de um arquipélago que. No fundo. a qualificação de segundos europeus surge à margem da discussão relativa à origem e ao conteúdo de uma identidade crioula em Cabo Verde. então. Concretamente. onde a europeização. tal designação padecerá de um paternalismo retrógrado. Tomé e Príncipe independente. pois que. ao invés de classificar a designação de segundos europeus à luz do (nosso) mundo globalizado. Assim. tivesse a crítica sentido. também não completamente voluntária. Ora. dar-se-ia razão aos lamentos dos cabo-verdianos em S. decidir-se-ia arbitrariamente o que comporia. alegam eles. 7 Diga-se. Porém. para além de aplicado num sentido lato e de fraco valor descritivo ou interpretativo. Sem dúvida. Rejeitando-se esta parcela da vivência cabo-verdiana. Tomé e Príncipe. ou não. que os ex-serviçais ainda hoje têm por crivo de definição dos cabo-verdianos. em tempos orgulhosamente reclamada pela elite dos nativos. importa reportá-la à evolução do arquipélago. este termo tem vindo a perder lugar no discurso dos são-tomenses. embora marginalizados. que não evidencia senão a insensibilidade dos que a veiculam relativamente ao impróprio de uma classificação eurocêntrica 7 . 6 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .4 século. Mas tal enunciação provém de sujeitos que. Prontamente se sentenciará que a asserção relativa à europeização é enviesada e extemporânea e. um inquérito talvez produzisse resultados inesperados e contraditórios. são cabo-verdianos. miscigenação. a noção de segundos europeus tem uma história relacionada quer com o contrato nas roças coloniais. vai deixando de ser uma marca local.

9 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . da lusitanidade cultural do caboverdiano ou de Cabo Verde como um regionalismo português (cf. Tomé e Príncipe independente. Tomé e Príncipe. Tomé e Príncipe foram sendo reelaboradas ao sabor tanto da evolução das relações laborais e sociais nas roças. citemos a descrição de S. de caminho. não é de todo impossível que estas e outras descrições de Cabo Verde. esses ecos não precisam de ser coerentes. Expressando o desejo de que Deus olhasse para ela e a levasse a morrer na sua terra. Vicente por uma ex-serviçal dessa ilha. asserção que não terá. por ALMEIDA 2004:284). quanto até das inconsequentes intenções de instrumentalização política e social dos cabo-verdianos por autoridades coloniais 11 . Em S. 11 Algumas autoridades coloniais pensaram em usar cabo-verdianos como factor de aportuguesamento do arquipélago.5 Génese da expressão segundos europeus A primeira dificuldade reside na datação desta noção. a sua resistência à opressão excessiva nas roças. o poder ensaiou uma aproximação aos são-tomenses. nos derradeiros anos do colonialismo. Ora. cantarolou um verso de uma modinha da sua juventude. Assim. por exemplo. Bastaria tão só que a sua socialização nos terreiros das roças tivesse ajudado a alicerçar as relações entre os cabo-verdianos e. para que tais ecos viessem a ser recriados para afirmar a indignação contra a miséria a que acabaram condenados no S. Entre as reminiscentes percepções da mestiçagem constitutiva dos cabo-verdianos. FERNANDES cit. Tendo em mente as inquietações e os temas debatidos nos anos 50 pela intelectualidade cabo-verdiana 10 . dos cabo-verdianos e da sua “civilização”. Porém. Face ao espanto. S. Conquanto sujeita a refracções múltiplas. ganhando aí novos significados. nunca o senhor ouvir? Outra exserviçal aventou Cabo Verde com Portugal é perto. É concebível o cepticismo quanto à possibilidade de no termo segundos europeus ainda ecoarem mensagens acerca da mestiçagem como expressão. Uma hipótese tem-na como um eco longínquo da difusão no meio cabo-verdiano dos discursos sobre a etnogénese do povo cabo-verdiano 9 . a conquista da fidelidade política dos nativos tornou-se o objectivo prioritário. uma noção relativa à miscigenação ou à mestiçagem como matriz da génese dos cabo-verdianos poderá ter sido levada para S. um mero conteúdo geográfico. presumimos. Esta política fez esquecer aquele desígnio político e social que alguns voluntaristas tinham gizado para os cabo-verdianos. tenham viajado com os contratados. 10 Consulte-se uma resenha destes debates em ALMEIDA 2004:255 e ss. mormente aos elementos das famílias ditas tradicionais. Vicente pequenino é um pedacinho do Brasil. após o sangrento episódio de Batepá e face à ofensiva anti-colonial nos círculos internacionais.

por entre desencontradas intuições sobre o futuro político do arquipélago. alguns dos quais asseveraram que a designação de segundos europeus tinha o reconhecimento dos colonos. Por exemplo. Mais tarde. esta vertente conflitual parece esquecida pelos cabo-verdianos. 13 Em parte. quando não era da autoria destes. ao que nem sempre os cabo-verdianos se mostravam prontos. a reiteração da qualidade de segundos europeus poderia afigurarse um atrevimento por ameaçadora das barreiras sociais – tão só por implicar um juízo implícito sobre estas –. os roceiros tenham feito por avivar a disjunção entre os das roças e os nativos. uma tal designação deveria ter um curso contido ou carecer do beneplácito do europeu. pelas clivagens entre as roças e os nativos. bem como de identificação com as roças e os roceiros. A alegada civilização ou a reivindicada semelhança fenotípica com o europeu podiam desencadear efeitos contraditórios. o quotidiano era emoldurado por um racismo difuso e pelo ideário colonialista sobre a hierarquização dos vários segmentos populacionais 12 . a vida nas roças era marcada pela rispidez. por exemplo. a aptidão do trabalho incluía o acatamento incondicional das suas ordens. em razão da aptidão para o trabalho. Deixe-se dito. mormente na negociação informal de uma diferenciação social. por vezes. Logo. tal pretensão terá tido importância. esta adesão pode ter sido induzida. Por seu turno. Até meados do século XX. dizerem-se segundos europeus – e. o mais das vezes. Em todo o caso. tal deveu-se aos roceiros. tão-somente criaturas humanas – não seria uma afirmação fácil. tendo em vista. num tratamento diferente do dispensado a moçambicanos e a angolanos. a preservação das propriedades em caso de turbulência política e de reivindicações de distribuição de terras. Para os europeus. traduzida. Noutros termos. no tocante à alfabetização – causou crispações entre empregados europeus subalternos e cabo-verdianos. no que nem sempre os cabo-verdianos eram os mais apreciados. hoje. que as mutações políticas e sociais do colonialismo tardio não dissolviam por completo 13 . Neste quadro. a designação segundos europeus pode ter passado a compor mecanismos de acomodação.6 Ao tempo. por várias vezes a proximidade racial – por exemplo. É provável que. por exemplo. A criação de um tecido social nas roças deveria afigurar-se o melhor dos antídotos contra tais reivindicações. 12 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . fosse quando denotava uma adesão ao colonizador. Amiúde barrada pelas assimetrias sociais nas roças. fosse quando insinuava uma competição civilizacional. podendo suscitar quezílias ao invés de apaziguamento. a ter acompanhado as mudanças dos derradeiros anos do colonialismo. entre outros factores. com a indigenização da mão-de-obra a pautar as condições de trabalho.

ter sido transportada desde Cabo Verde. Tomé e Príncipe ou com uma visão muito esbatida da evolução deste arquipélago após a sua saída. tributário de reminiscências da ideologia colonial – para avalizar a interpelação implicitamente contida na apresentação de si mesmos como segundos europeus a quem chega de fora. Vicente ainda no tempo colonial. da ocupação do tempo como princípio de organização de trabalho. Podemo-nos interrogar acerca das razões pelas quais dizem segundos europeus e não segundos brancos. tenham asseverado que a designação segundos europeus 16 não tinha curso na era colonial. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . por exemplo. “no tempo do colono”) ou “o branco fez…” –. Em todo o caso. a rarefacção de braços obrigava à racionalização das tarefas. Por existir uma primazia do aspecto civilizacional – mais conforme à sua ideia de cabo-verdianos – sobre o referente racial? Não o saberíamos dizer. os cabo-verdianos recorrem. 16 Sem prejuízo da necessidade de pesquisas ulteriores. pode pensar-se que a noção de segundos europeus conterá implicitamente uma reivindicação social inspirada na valorização das garantias de vida e no papel do paternalismo. nos testemunhos dos cabo-verdianos. combinando-se a reiteração das diferenças sociais com a proximidade assente no reconhecimento da valia dos indivíduos (em termos comparativos. Mas a expressão europeus pode ter sido induzida no tempo colonial. apesar de branco ser um termo corrente nas narrativas do passado – sendo comum ouvir dizer “no tempo do branco” (em alternativa. parte deles sem contactos com S. veja-se NAVE 1990:29). prescindindo-se. convida a imaginar recriações dessa expressão já depois da independência para efeitos de interpretação da evolução política do arquipélago equatorial. Segundos europeus ou o juízo do pós-independência Na ausência de tal equação política. conhecendo sucessivas adaptações conformes às mudanças de políticas e no dia-a-dia das roças. Eventualmente. que não ex-serviçais.7 Dissemo-lo. Portanto. o critério da civilização parece sobrepujar o da coloração epidérmica. a crer nalguns ex-serviçais. ela foi utilizada por ex-serviçais regressados a S. iniciando-se em manifestações de paternalismo 15 . tal poderia advir da cautela induzida pela carga racial. talvez. temos de equacionar a hipótese de estarmos perante um expediente – de alguma forma. mas a “europeu”. alguma proximidade dos administradores das roças com o pessoal terá servido para obter uma prestação produtiva a contento num tempo em que se tornara impossível extorqui-la pela coacção. é possível que a designação possa ter sido (re)criada no tempo colonial. 14 Neste particular. Ou. Por um lado. foram os próprios europeus a usar essa expressão 14 . Embora pessoas. Assistiu-se a alguma personalização das relações laborais. 15 Nalguns administradores notavam-se sinais de uma emergente consciência social que como que visava reparar as fissuras causadas pela agressividade e a rudeza de trato inspiradas pelo ideário colonialista imperante até meados de Novecentos. nos derradeiros anos do colonialismo associado a uma maior contiguidade nas roças. Justamente. no final do colonialismo. Por outro. da designação “branco”. observa-se que. os roceiros tinham uma atitude oposta à das décadas precedentes. actualmente menos aceitável. Tal processo prosseguiria no pós-independência. tal induz a supor que. não a “branco”. A par disso.

Tomé e Príncipe 17 . a designação segundos europeus pode interpretada como uma reacção dos ex-serviçais à africanização da terra e das gentes. a A racialização. Vejamos como. provas irrefutáveis da sua natureza. na diferença de natureza encontra-se. nalgumas circunstâncias. desenhou-se uma clivagem assente na raça – que congregava são-tomenses. deles – o mais contundente dos argumentos para contestar o status quo e as assimetrias sociais.8 Actualmente. embora o lema fosse o da luta contra a exploração do homem pelo homem. quando a miséria se abateu sobre os trabalhadores das roças. O seu discurso reporta-se a marcas corporais. Tal como no colonialismo. atribuíram o empobrecimento do país à natureza de quem passara a governar S. o da dissemelhança entre a epiderme e o fenótipo deles e os dos demais africanos habitantes e senhores da terra. a lida do mundo e uma dada ética de trabalho 18 . a intrepidez ou a esperteza – tenham conflituado com a boçalidade dos europeus. Tomé e Príncipe –. indubitavelmente. a esperteza. Por outras palavras. É disso que os ex-serviçais cabo-verdianos se distanciam. Há anos a passar por privações incontáveis e a caminho do fim de suas vidas. após o 25 de Abril as considerações de teor racial continuaram como um instrumento de análise do rumo da história e um móbil de acção. a designação segundos europeus readquiriu sentido para os que dela se reivindicam. em virtude do percurso pós-independência. daí. como explicação dos comportamentos e. Simultaneamente – por um processo de identificação (alienada que seja) com o colono e de oposição aos mandantes em S. supostos traços da sua personalidade – por exemplo. traduzida pelo fenótipo. a inteligência demonstrada na compreensão da condição humana. preterindo os slogans políticos pela racialização das condutas – entre elas. caboverdianos e outros contra os colonos –. segundos europeus remete para supostos atributos de cabo-verdianos. para eles. do fracasso do país. 18 Tal não invalida que. apelam ao mais poderoso dos argumentos. as lesivas do património das roças –. estes. entrementes tornada uma deriva identitária com que os são-tomenses ensaiam racionalizar o processo de perda económica e social por que passa o seu país. Ao tempo. é também adoptada por são-tomenses que encontram na natureza do africano ou do negro – isto é. Para os exserviçais cabo-verdianos. a visão do mundo dos cabo-verdianos tende a enquistar. a capacidade de afrontamento das adversidades. 17 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . foi com base na clivagem racial que se legitimaram os que acederam ao poder em 1975. Anos depois. entre os quais. Sem embargo das roupagens progressistas do ideário independentista. Como? A noção de segundos europeus aponta para uma característica irredutível.

vinham intentando fazer os patrões brancos. não se legitimam por uma prática justa. menos gravoso. ex-trabalhadores das roças. Afinal. No mínimo. Conquanto tributária do ideário colonial. Os cabo-verdianos detêm uma visão acerca das desigualdades humanas como princípio perene da ordenação do mundo. então. Tomé e Príncipe. rejeita-se a afinidade racial apregoada para efeito da mobilização anti-colonial nessa época. quando não aceitável 19 . à crítica da presente situação em S. de que eles. mesmo. nativos e outros – do tempo colonial parece. Por um lado. era este padrão de evolução que os cabo-verdianos (e. a hierarquização social subjacente a essa denominação comporta um juízo sobre a sua civilização comparada com a dos outros. os são-tomenses. são as maiores vítimas. e. incluindo a terra natal. o actual ordenamento social favorável aos são-tomenses afigura-se-lhes contra-natura. enquanto o alinhamento de contornos raciais – brancos. a esta distância. a noção anacrónica de segundos europeus condensa uma leitura da evolução do (seu) mundo. Apesar de enviesada pela resiliência do ideário colonial ou. a noção de segundos europeus tem um valor interpretativo evidente: o de que o desajustamento entre a actual posição hegemónica dos são-tomenses e a respectiva natureza não pode senão desembocar em comportamentos anti-sociais conducentes à ruína dos empreendimentos dos homens. decerto. Mas umas são mais toleráveis do que outras.9 explicação da trajectória de perda de S. A perda económica e social A reavaliação e o matizar das críticas ao tempo do colono resulta da apreciação dos políticos sãotomenses. do racismo. Tomé e Príncipe. como. Serve igualmente para se situarem perante as danosas mudanças políticas e económicas desfavoráveis sobrevindas no pósindependência. por outro. Agora. Tal noção de um mundo fatalmente injusto não os torna nem passivos nem acríticos relativamente às desigualdades sociais. A noção de segundos europeus traduz um ressentimento e hoje – irremediavelmente traçado que está o seu destino – ela pode ser lida como a denegação da solidariedade racial que cimentou o bloco político-social contra os colonos na transição para a independência. estes derrogaram a ideologia igualitarista com que aliciaram os cabo-verdianos. Portanto. cabo-verdianos. Atenhamo-nos. no final. também os sãotomenses) esperavam ver prosseguido após a independência. 19 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .

Os nativos passaram a mandar na terra e subalternizaram-nos. Hoje. os caboverdianos desqualificam os são-tomenses. nunca vi responsáveis políticos incentivar o uso de linguagem pejorativa para com os exserviçais. em perda. eles deviam sentir-se acima dos nativos (e até de europeus boçais. as diferenças eram constitutivas do mundo. se subsiste. O reconhecimento da sua idiossincrasia pelos roceiros foi um passo na melhoria do ambiente social. não apenas esquecendo as promessas políticas do advento da independência. os cabo-verdianos lembrem agravos antigos para explicar compreensivamente a sua situação actual. Esta alegação poderá não corresponder fielmente à realidade. Noutros termos. porquanto diminui o argumento de que os são-tomenses estão na sua terra. A designação de segundos europeus tem um valor político. justamente a evolução que os levou a ficar por S. alguns chegam a classificar-se como escravos dos são-tomenses em cujo quintal são obrigados a trabalhar. Em S. esta prática de rebaixamento dos serviçais com que outrora os nativos se procuravam demarcar das roças. nome de escravizados e de desqualificados coagidos aos ditames das roças. Tomé. os europeus reconheciam a índole diferente dos cabo-verdianos. como voltando a invectivá-los com o termo gabão 20 . o ressentimento advirá da derrogação da superioridade simbólica de outrora. Não se pode descartar o uso do termo gabão. invertendo simbolicamente a actual subalternidade relativamente a estes. Presentemente. o termo segundos europeus escorou as queixas e protestos contra a indigenização a que estavam obrigados pelos ditames dos roceiros. A distinção social dos poderosos e dos governantes socorre-se de outros meios e. queda por comprovar com que intensidade subsiste. Retratando-se como segundos europeus. para eles. pelo menos ao nível retórico. deixando implicitamente entendido que a desmerecem. dissemo-lo. 20 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Outrora. a quem tinham de obedecer por terem escolhido o contrato). Com efeito. não obstante a pobreza da sua terra os ter impelido para o contrato. as clivagens étnicas não são encorajadas. a reivindicação de civilização subjacente à ideia de segundos europeus compôs variadas contestações ao labor e à vida nas roças. Mas também é natural que. Tomé e Príncipe. uma vez dobrada a fase das maiores agruras de trabalho e de vida dos anos 50. mas. Esse reconhecimento não anulava as assimetrias sociais.10 No tempo colonial. Na era colonial. a afirmação da qualidade de segundos europeus comporta uma acusação quanto às provações por que passam e denuncia a contradição entre a sua situação social e a sua imaginada natureza. Enfatizando a sua desventura. pese embora o eventual orgulho na identificação com o veio de filhos da terra ou de forros.

terem sido impedidos pelo fechamento da sociedade são-tomense à competição e à mobilidade social de usar as suas aptidões e a sua identidade para ascenderem económica e socialmente. Ou mesmo de uma noção de mestiçagem 22 . os mandantes de uma terra tornada estranha não lhes reconhecem nada. Empobrecidos. Esta valorização da mestiçagem entre os cabo-verdianos não se prende com a sua valia política. não necessariamente devido a uma ideologia segregacionista quanto ao peso dos laços familiares e clientelares na modelação da sociedade são. alguns dos quais se percebem como genuínos enquanto descendentes de progenitores de diferentes raças. resumem-se à crítica da apropriação indevida de bens das roças pelos responsáveis nomeados após 1975. depois de. em trapos. o contra-senso entre a sua condição de segundos europeus e a de escravos. com a mestiçagem visava-se o embranquecimento das sociedades ou. os termos em que os cabo-verdianos interpretam a sua situação implicam a O crivo étnico deve ter várias vezes barrado a trajectória ascensional de descendentes de caboverdianos. No passado. eles descrevem a sua situação falando em abandono. Devido à evolução pós-1975. tem a ver com o enraizamento popular de ecos de ideias do tempo colonial. Neste contexto. como e para que fins denunciá-la? Quando momentaneamente se rompe a solidão e têm oportunidade de falar. Possivelmente.11 Hoje. em escravos. realçando. 21 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Logo. nos antípodas das (nossas) noções de crioulização e das perspectivas do mundo a ela associadas.tomense. essa crítica faz-se a partir da racialização de comportamentos. um artifício retórico de alguma ressonância política. Têm consciência da marginalização – a que aludem subliminarmente com a palavra abandono – embora não a classifiquem de premeditada 21 . 22 A ideia de mestiçagem corre entre os cabo-verdianos. pois. de outro modo. tal fito comportava uma esconsa negação do negro. supostamente constitutiva do povo cabo-verdiano. Reina a desolação que não advém apenas da pobreza mas igualmente da perda da valia individual e da condição de cabo-verdianos. os ex-serviçais estão acantonados nas roças. De fundo ético. a qualidade de segundos europeus sentencia o seu distanciamento de tais práticas. desse modo. uma face da identidade cabo-verdiana Situamo-nos. sem outro horizonte além da morte. hoje nula. Aventaríamos que hoje a designação de segundos europeus sublinha esta negação. Justamente. há anos. Segundos europeus.

nem sempre serão totalmente arbitrários. contratados para cargos intermédios nas roças.) os estrangeiros veio ensinar a vocês [são-tomenses] trabalhar e a falar… A denominação segundos europeus comporta uma faceta instrumental. valiosa porque vivamente sentida e consciencializada por alguns dos cabo-verdianos. outrora imediatamente inerente a esse binómio. A dimensão da alienação será notada pelo observador exterior. na Apesar de nos primórdios do século XX. seguindo as pisadas de seus pais. Por exemplo. para os cabo-verdianos. o determinismo. Esta é a posição dos cabo-verdianos que. marginalizados e sem razões para aspirar à integração numa sociedade drasticamente empobrecida. Entre os cabo-verdianos. Em época de prosperidade devida ao cacau. os seus ascendentes ostentavam um refinamento de gostos a que europeus rústicos. 23 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . parece comprovado pela degradação social em S. Tomé e Príncipe –. E. dizem nós podemos acompanhar branco. Mais. chamam a nós estrangeiros (. reelaboram a sua identidade pela reafirmação da ética aprendida no torrão natal a que se afirmam incondicionalmente fiéis. o que reforça o impulso a sublinhar a condição de segundos europeus. os são-tomenses não a poderão reivindicar. que a usam para rebater o epíteto de gabão e estabelecer uma demarcação social inversa.. ao menos simbolicamente. não tem sido reclamada por são-tomenses em tempos recentes 23 . Apregoando a sua civilização. raça e cultura não se afiguram suficientemente distintas. estes terem reivindicado comungar de mais elevados patamares de civilização europeia. não podiam aspirar. Enfatizando a dimensão civilizacional da sua condição de segundos europeus. na ausência de qualquer perspectiva para safar a o dia-a-dia após décadas de trabalho massacrante. por exemplo.12 rejeição liminar de um negro em particular – daquele que tomou o poder em S. Tomé e Príncipe. No final de suas vidas. ou de uma herança europeia. é com noções aparentadas com a de segundos europeus que interpretam o mundo e a sua vida.. apartam-se da africanização dos nativos. a ideia de segundos europeus. a quem responsabilizam pela sua desgraça. Ao invés. E relatam. que resta senão procurar uma demarcação que contrabalance. hoje. a miséria e a marginalização que não têm hipótese de combater? Independentemente dos processos de identificação acorrerem às oportunidades políticas. Já os caboverdianos apontam a injustiça da sua perda social.

recorrem para reagir simbolicamente à subalternidade em que se acham. Concomitantemente. como é próprio da experiência humana. A ênfase dos testemunhos valida a sua verdade e autentica o seu sentimento de revolta sofrida e contida. verbal e gestualmente. é na vivência no S. pouco conhecimento do mundo. pouco ou nada porá em causa a sua leitura do mundo. o isolamento e a privação extrema vincam ainda mais. a que se presta tal designação. as piruetas da vida ensinaram aos cabo-verdianos o escusado do apego a sentimentos de outrora que – sabem-no bem – não têm mais sentido.13 procura de vida. Tomé e Príncipe independente que reside a explicação do uso da noção de segundos europeus. porque insistiriam os ex-serviçais cabo-verdianos numa tal formulação? A explicação pode ser encontrada na compensação simbólica e na denúncia política. aqui e além propensos a expressar. a que. mesmo se enviesada. Se o rótulo de segundos europeus proporcionasse ganhos reais. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . tal afigura-se pouco consentâneo quer com os sentimentos do comum dos cabo-verdianos. na falta da canga do destino ou da graça de Deus. pois. No entanto. Mas não tendo os olhos fechados – assim o pretextam –. nem sempre encontra realização neste mundo. como outrora. reafirmando uma justeza (cabo-verdiana) de princípios que. Tomé e Príncipe colonial. através da qual tentam uma compreensão do que lhe sucedeu. se porventura isso é imaginável. Seja como for. ainda seria mais abraçado. A expressão de tais ideias revelaria. ainda entendido à luz do imobilismo social do S. a consciência de serem cabo-verdianos. Tomé lhes pregaram. Na realidade. Para eles. sentimentos passíveis de confusão com a aceitação da inferioridade face aos europeus. quer com valores que actualmente plasmam a pesquisa social. Notas conclusivas Segundos europeus afigura-se uma etiqueta de indivíduos de vidas corridas em horizontes fechados e. talvez por isso. Evidentemente. é pela afirmação da sua diferença que se reconciliam com as partidas que o destino e a evolução política em S.

Clifford. quem lhes dirá que não viveram de acordo com o que os seus pais lhes legaram como sendo valores cabo-verdianos? Referências Bibliográficas ALMEIDA. Chris. Instituto Caboverdeano do Livro CONNERTON. “A identidade santomense em gestão: desde a heterogeneidade do estatuto de trabalhador até à homogeneidade do estatuto de cidadão” in Africana Studia nº2. Rio de Janeiro. de essencialistas ou de coisa que o valha. Oeiras. Lisboa. 2004. Paul. Memória social. Uma abordagem antropológica através da literatura de ficção. 1986. Margarida. Small Farmers and Estates in Sao Tome. Yale University FENTRESS. Teorema FERNANDES. Outros destinos. Editora Guanabara MAINO. Migrações nas ilhas de Cabo Verde. Miguel Vale de. não corroboro. 1984. cultura e política de identidade. and portuguese colonialism in Cabo Verde. 24 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . dissertation. Hora di bai. D. 1983 [1977]. Elisabetta. ideia que. Celta EYZAGUIRRE. Lisboa. 1989. mesmo se nos seus testemunhos aflora uma noção de um veio singular que dimanaria das suas ilhas 24 .14 Seria risível taxar os ex-serviçais cabo-verdianos. 1994. Miguel Vale de. James e WICHAM. Oeiras. Campo das Letras CARREIRA. 2004. Ensaios de antropologia e de cidadania. 1999 [1ª ed. Porto. Termino de outro modo: ao cabo de décadas de vida assaz sofrida. CEA-UP MEINTEL. 1993] Como as sociedades recordam. 2000. Syracuse University E que. Raça. previsivelmente. Pablo. Porto. António. Celta ALMEIDA. Deirdre. West Africa. começa a ser reconhecido. culture. 1999. A interpretação das culturas. Race. Os cabo-verdianos e a morte. Ph. noutras circunstâncias sociais sugere o enquistamento do discurso identitário ou o reveste de tons marcadamente auto-encomiásticos atinentes à exaltação do cabo-verdiano. Um mar da cor da terra. Nova Vega GEERTZ. com quem me sinto emocionalmente implicado.

Um estudo de caso. Joaquim Gil. 1999. Tomé e Príncipe de finais de Oitocentos a meados de Novecentos. Cabo-verdianos nas plantações de S. António Leão Correia e. Edição da Presidência da República de Cabo Verde NASCIMENTO. Órfãos da Raça: Europeus entre a fortuna e a desventura no S. S. ISCTE SEIBERT. Identidade social e ética do trabalho nos assalariados agrícolas do Alentejo – a empresa colectiva e a comunidade local no espaço rural pós-latifundista. Gerhard. 2003. Brian L. Nova Yorque. Clients and Cousins. Praia.. O sul da diáspora. Guyana After Slavery 1838-1891. Augusto. 2005. 2002. Gordon and Breach NASCIMENTO. 2006. 2002. O fim do ‘caminhu longi’ [para publicação] NAVE. Lisboa. Augusto. Tomé. Tomé e Príncipe colonial. Socialism and Democratization in São Tomé and Príncipe. Junta de Investigações do Ultramar ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Augusto. Francisco. Augusto. Spleen Edições TENREIRO. Poderes e quotidiano nas roças de S. Tomé e Príncipe e de Moçambique. Tomé. 1990. 1961. Combates pela história. Praia. Comrades. Tomé segundo vozes de Soncente [para publicação] NASCIMENTO. Colonialism. Augusto. S. 1987. Universidade de Leiden SILVA. Lisboa. Instituto Camões / Centro Cultural Português NASCIMENTO. 2003. A ilha de S. Tomé NASCIMENTO. Vidas de S.15 MOORE. Power and Social Segmentation in Colonial Society. Leiden. Race.

imutáveis. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . nas suas mais diversas formas de expressão. identidade social. presentes em diferentes projetos identitários. mas sobre a própria cultura cabo-verdiana. nunca foi um trabalho simples. a sociedade cabo-verdiana. empenhada no projeto ideológico de construção da identidade nacional. Palavras-chave: cabo-verdianidade. indicando como essa polêmica reflete a pluralidade de concepções acerca do sentido de ser “crioulo”. assinalando seus limites internos e externos. reconstrói a dinâmica das discussões sobre a origem da morna (gênero musical tomado como um dos símbolos da nação cabo-verdiana). Neste trabalho procuro abordar uma coletividade específica. fruto de consenso. Como em qualquer processo social de identificação. mostro como membros de variados setores da população cabo-verdiana. portadoras de uma riqueza simbólica capaz de revelar diferentes construções. não apenas sobre esse fenômeno musical. Tão somente. em diferentes momentos da história daquele país. Mais precisamente. bem como suas características mais notáveis. as construções dos caboverdianos acerca da nação a qual pertencem não são fixas. Discorrer sobre uma coletividade. A morna é mesmo uma criação dos cabo-verdianos? Que matrizes culturais exerceram influência na sua origem? Quais acontecimentos e sentimentos inspiraram a criação desse gênero musical? Não procuro trazer respostas definitivas a essas questões. e as discussões em torno daquilo que singulariza este povo. procuraram responder tais perguntas. Os próprios membros constituintes de qualquer totalidade apresentam idéias divergentes a respeito daquilo que os define. São discussões que ultrapassam os limites de uma elite intelectual. São diversas hipóteses sobre a origem da morna. e que alcançam cada setor dessa sociedade. Universidade Federal de Mato Grosso Este trabalho aborda parte do debate realizado no arquipélago de Cabo Verde em torno do significado cultural da cabo-verdianidade. morna.A ORIGEM DA MORNA E A ORIGINALIDADE CABO-VERDIANA Juliana Braz Dias Departamento de Antropologia. A pluralidade de opiniões dos cabo-verdianos sobre eles próprios e sobre o sentido de ser “crioulo” conforma um rico campo de debate.

com a discussão sobre a formação da sociedade cabo-verdiana. da mesma autora. Muito mais interessante. Baseia-se. explícita ou implicitamente. tomado hoje como um dos símbolos da nação cabo-verdiana.2 As reflexões a seguir abarcam parte do debate realizado em Cabo Verde em torno do significado cultural da cabo-verdianidade. indicando como a polêmica criada acerca do surgimento desse fenômeno musical reflete a pluralidade de concepções acerca do sentido de ser “crioulo”. Este trabalho é uma versão resumida de parte do argumento apresentado na tese de doutoramento Mornas e Coladeiras de Cabo Verde: versões musicais de uma nação. Essas diversas versões para a origem da morna têm percorrido diferentes momentos da história de Cabo Verde e envolvem membros de diferentes setores da população cabo-verdiana. Exemplo disso é o discurso seguinte. Em grande parte dos casos. produto do encontro entre Portugal e África. a discussão sobre a história da morna tem-se confundido. Mais precisamente. dar esta resposta. 1 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Desde o início das atividades de investigação que fundamentam a presente discussão. soube que não cabia a mim. Assim como o homem cabo-verdiano é apresentado como um mestiço. muito menos discutir qual das diversas hipóteses sobre a origem da morna aproxima-se mais da verdadeira trajetória percorrida por essa manifestação da cultura popular cabo-verdiana. pesquisadora. procura-se reconstruir a dinâmica das discussões sobre a origem do gênero musical cabo-verdiano denominado morna. a necessidade de uma resposta definitiva. aparentemente. mas sobre a própria cultura cabo-verdiana. visto que apresentam uma riqueza simbólica capaz de revelar diversas construções. levanta inevitavelmente uma série de questões: a morna é mesmo uma criação dos cabo-verdianos? que matrizes culturais exerceram influência na sua origem? quais acontecimentos e sentimentos inspiraram a criação desse gênero musical? Repito que não pretendo aqui responder a essas questões. procuro indicar como as diferentes versões sobre a origem da morna são todas elas portadoras de uma verdade. também a morna surge como resultado desse cruzamento de culturas diversas. sob uma perspectiva antropológica. Muito antes. impondo. ao refletir e opinar sobre o assunto. Cada um desses atores. era analisar o significado das diversas hipóteses construídas sobre o nascimento desse gênero musical. não apenas sobre esse fenômeno musical. 1 A pergunta “qual a origem da morna?” tem sido insistentemente levantada pelos cabo-verdianos.

na sua música. Os portugueses teriam sido peça fundamental na formação desse novo estilo musical. “uma personalidade própria”. Caiu como uma luva no discurso daqueles que participavam do processo de construção da nação cabo-verdiana como uma organização sócio-cultural distanciada de suas raízes africanas. é preciso maior cuidado na análise da maneira como esse processo de miscigenação é apresentado. Mas o africano. sem qualquer nota de influências lusas. onde há gemidos dolentes. espiritual e cultural do cabo-verdiano. vibrados no sofrimento duma fatalidade étnica que os tempos não destroem. em atividades de investigação realizadas entre os anos de 2001 e 2002. com base na idéia de mestiçagem. e suas contribuições para a formação da sociedade cabo-verdiana são continuamente discutidas. há as dolências africanas. conforme os interesses em questão. de um jogo de forças entre as heranças culturais portuguesa e africana. em A Aventura Crioula. no seu sangue e nos seus hábitos. utiliza-se da autoridade do referido musicólogo para argumentar sobre “a importância da presença europeia na origem e desenvolvimento fundamentalmente. devidamente influenciado pelo português. possue música pobre. o musicólogo Jean-Paul Sarrautte publicou em Cabo Verde um artigo onde procurava demonstrar a maior intensidade da influência metropolitana na origem da morna.3 onde o português Afonso Correia descreve. o povo caboverdeano. E a morna apresenta-se como um símbolo dessa síntese sui generis. Preponderando nêle os elementos mestiços. é simplesmente “crioulo”. É assim que o debate sobre a origem da morna acaba tomando a forma. o processo de criação da morna cabo-verdiana: O indígena africano. Mas se a morna é descrita como a melhor testemunha da mestiçagem étnica. criou uma personalidade própria que os mais pequenos nadas tornam evidente. 1939: 301) O homem cabo-verdiano é apresentado como o produto original de um encontro intersocietário. em Lisboa (Portugal) e Mindelo (Cabo Verde). neste caso. nesse povo. na sua morna. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Manuel Ferreira. O artigo de Sarrautte passou a ser amplamente citado. a preceito. Ele não é português nem africano. Em 1961. muitas vezes. (Correia. capaz de gerar. Nas narrativas sobre o processo histórico que deu origem ao cabo-verdiano. Está. as dolências e as alegrias portuguesas. as duas matrizes culturais que participam desse encontro quase nunca se apresentam em posição de igualdade. Elas são valoradas.

4 orgânico da morna” (Ferreira. Com isso. E no calor dessa polêmica. O que precisa ser lembrado é a polêmica que envolve o próprio fado. e sem dúvida nenhuma que pela natureza das suas letras e pela atmosfera lírica e sentimental que a envolve. porém.. Alguns. Nessa asserção percebe-se claramente o intuito de reforçar o caráter singular. António Germano Lima propõe uma nova versão para a polêmica origem da morna. de tal forma que a relação entre os dois gêneros musicais adquirisse o caráter de uma filiação direta. o caráter ideológico do fado tornou-se evidente. com o surgimento de críticas que denunciaram sua ligação ao regime de Salazar (ver Carvalho. com proximidades muito pouco significativas do mundo africano. 1999: 83-88. muitas vezes. alegam simplesmente que o fado não poderia ter influenciado a morna. Pouco a pouco o debate sobre o nascimento da morna caminhou no sentido de romper (ou pelo menos minimizar) possíveis associações entre esse e outros gêneros musicais e de enfatizar a originalidade daquela que vinha sendo construída como a canção nacional cabo-verdiana. Ainda em 1954. ganhou destaque em narrativas sobre a história da morna. afastou a morna (e com ela todo o arquipélago cabo-verdiano) de seus vínculos históricos com a África: Europeia pela tonalidade. como Manuel Ferreira (ibid: 185). Vale de Almeida. da morna. 1995: 5-8). para a entendermos na sua mais íntima estrutura e figuração tem de ser estudada essencialmente nos seus apports europeus. 1984: 11). maestro e professor do liceu Gil Eanes de São Vicente. tem sido amplamente contestada. as ligações entre o fado e a morna viram-se cada vez mais questionadas pela intelectualidade em Cabo Verde. Mais do que meras semelhanças. Durante a vigência do Estado Novo. diversos autores enxergaram na canção portuguesa a mais provável explicação para a origem da morna.) a morna. tudo concorre para a encararmos indiscutivelmente como uma criação do CaboVerdiano. o cabo-verdiano José Alves dos Reis. possivelmente até pela síncope. Tal hipótese. (ibid: 207-208) O fado. que tem sido alvo de longo e acirrado debate em Portugal. Sugere que sua procedência pode ser encontrada no ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .. (. 1985: 205). Já na atualidade. exclusivamente cabo-verdiano. uma vez que se supõe ser a segunda mais antiga que o primeiro. afirmou que “não é fácil encontrar no folclore português ou outro estrangeiro qualquer das características das formas musicais das mornas” (Reis.

outro importante estilo da música popular cabo-verdiana. Com António Germano Lima. natural da Ilha da Boavista: Dizem que a morna foi criada na Boavista no tempo da escravidão.. A experiência histórica da escravidão torna-se a peça chave para a compreensão dessa hipótese. A grande mudança nesse jogo de forças que se dá agora com um enfoque quase que exclusivo na população cabo-verdiana de origem africana reflete um novo momento no debate. vem ocupando o espaço da música “mexida”. ouvi cabo-verdianos ressaltando que os escravos.. daquela tristeza. os escravos africanos e seus descendentes são apresentados como os principais personagens da história da morna.. conforme eles algemavam os escravos. que escreve no começo do século XXI. Por diversas vezes. É importante perceber que a força dessas narrativas está justamente no destaque que dão ao sofrimento vinculado à escravidão. de outro lado. é que eles inventaram a morna.. no tempo dos escravos. daquele gemido. nos “queixumes” e nas “lamentações” dos escravos. Cito aqui um trecho da entrevista realizada com uma senhora de 75 anos. as mãos. aquele gemido. alegre. Nas hipóteses anteriores notamos.. por isso. tinham um trabalho muito duro e. Daquele som. o luto. aquele gemido escravo. E é essa hipótese que tem ganhado força em outros estratos nãointelectualizados da população cabo-verdiana. irônica e satírica. em vez de cantar aquelas músicas africanas mais “mexidas”. a morna identifica-se quase que exclusivamente com valores como o sofrimento. aquela dor. António Germano Lima vai buscar o processo de criação da morna na “dor”. de um lado. expressos. a preocupação em afirmar a origem genuinamente cabo-verdiana desse gênero musical e. o que permite que elas se aproximem muito do sentido que a morna carrega nos dias de hoje. dançante. porque. a ênfase na participação de elementos culturais portugueses nesse processo. quando vieram da África. 2001: 247). Enquanto a coladeira.. em oposição a ela. Diziam que os escravos cantavam a morna no lugar de chorar. em “linguagens e gestos imperceptíveis para os colonizadores mas sempre na forma de cantos e danças” (Lima. a saudade. assim eram também as mornas da Boavista. a dor.5 “substrato sócio-cultural de origem afro-negra” da Ilha da Boavista (Cabo Verde). Percebemos na análise dessa versão para a origem da morna uma mudança radical de direcionamento. segundo o autor. no tempo dos escravos. o ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . criaram a morna.

por exemplo. através da ênfase. a exclusividade cabo-verdiana nesse processo. a lamentação e a melancolia. em particular. como afirmam. A população negra não aparece como contribuinte para a criação da morna enquanto “africana”. O músico e compositor Jorge Monteiro. assim. a dor na sua expressão máxima. no arquipélago de Cabo Verde. podemos perceber o poder de uma narrativa que a identifica com a dor escrava. bem como uma possível participação árabe no desenvolvimento da canção cabo-verdiana. A morna surge. Seu argumento não tem recebido muito apoio (cf. como linguagem para falar das tristezas e amarguras vividas pelo povo cabo-verdiano. e são tais particularidades da história social cabo-verdiana que são assimiladas por esta última versão sobre a origem da morna. todo ele. atribui à morna origem argelina (ver sua entrevista em Duarte. Gostaria de comentar especialmente que essas hipóteses não deixam de enfatizar. Martins. na experiência da escravidão e no sofrimento a ela vinculado. se o debate sobre a identidade cabo-verdiana tem sido muitas vezes retratado como um dilema que coloca o arquipélago entre a Europa e a África Negra. ora aproximando-o. além da participação de portugueses e africanos no encontro que gerou a sociedade cabo-verdiana e. Contudo. como em várias outras narrativas. Partindo desse significado da morna. o que interessa é observar que. ela não deixa de carregar as marcas da cabo-verdianidade. Mesmo que procedente de uma população “de origem afro-negra”. e sim enquanto “escrava”. dentro da narrativa.6 choro. por exemplo. a discussão sobre a ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . o processo de criação da morna ocorre. É a junção da cultura africana com as particularidades da história e da geografia cabo-verdiana que possibilita o nascimento da morna. Se no atual momento a africanidade é enfatizada. Não podemos concluir a discussão sem observar que. a morna. A influência brasileira sobre a morna aparece em algumas narrativas. E é a partir disso que podemos compreender o caráter particular que assume aqui a afirmação da africanidade. 1985: 49). 1989: 20-21). outras matrizes culturais têm sido destacadas pelos cabo-verdianos nas reflexões sobre sua história social. ora distanciando-o dos dois continentes.. Cabo Verde é produto direto da expansão européia e do sistema econômico implantado nesse contexto. Esse é um ponto muito importante para as freqüentes afirmações sobre a morna como símbolo da identidade nacional cabo-verdiana.

sua melodia. Nem arvoredos bastos crescidos ao acaso pela mão da natureza. e o mar enamorou-se dele. atraiu-o. o caboverdeano escutou os queixumes. acalentou-o. Numa relação metonímica. E o espaço permanece aberto às possibilidades mais diversas. nunca é definitiva. E porque a terra se recusou à fecundação. 1934: 10-11).7 origem da morna vem tornar mais complexo esse quadro através de narrativas que acrescentam novos elementos na composição dessa sociedade crioula. o que. essas inúmeras hipóteses se somam ao contar a história de um fenômeno musical e do povo que o criou. Cada uma das versões da gênese da morna faz parte de um projeto específico de construção da unidade nacional cabo-verdiana e. as notas plangentes que se perdem na imensidade do espaço e são a própria alma do oceano. nem culturas geométricas. o símbolo máximo da fusão do caboverdiano com o Atlântico que o circunda. embora contraditórias. que não se fecha em si mesma e participa de um contínuo movimento de reformulação. uma determinada construção sobre essa formação sócio-cultural. afirmando: Cabo Verde é a transição. o caboverdeano volveu os olhos para o mar.. É do mar e suas ondas que vem o ritmo da morna. do murmúrio da brisa. O mar surge aqui como um valor. dedilhando o violão. A melodia nascente não é apenas a “alma do povo ilhéu”. Como no lirismo rebuscado de Fausto Duarte.. mas também a própria “alma do oceano”. seja mesmo a característica dessa sociedade crioula. cada hipótese sobre a origem da morna sugere um “mito de origem” de Cabo Verde. em 1934. sofrimento e harmonia – virtudes da alma do povo ilhéu que se inspirou directamente na mágoa dolorosa do Atlântico. talvez. assim. (Duarte. E é com essa narrativa que Fausto Duarte apresenta a morna como a síntese. não eliminam umas às outras.. Noto também a existência de hipóteses para o surgimento da morna que colocam em evidência um conteúdo bem diferenciado. E.. Sob as velas enfunadas que se deleitam na luz flava e recolhem o murmúrio da brisa. compôs a primeira “morna”: dolência. tão grato aos ouvidos dos mareantes. esculpindo na sua sensibilidade o ritmo das ondas. segundo interesses cambiantes. Assim como versões de um mito que. funcionário da administração colonial e escritor cabo-verdiano que representou o arquipélago na 1ª Exposição Colonial Portuguesa. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .

Ele é ainda um importante símbolo da ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . mas também deve ser compreendida como parte de uma estrutura que lhe abrange. a importância que adquiria a construção da singularidade cabo-verdiana frente ao Império Colonial naquela época. por outro. as versões para a gênese da morna então articuladas apresentam-se imersas nesse processo político. agora estas últimas posicionam-se no centro da agenda política de Cabo Verde. acarretando importantes alterações na política colonial. este último gênero musical deixa de ser expressão da lusitanidade para se tornar índice de africanidade. Cada uma dessas narrativas tem sentido em si. de Cabo Verde. sem no entanto deixar de enfatizar a força da influência portuguesa sobre esse gênero musical. tanto por intelectuais cabo-verdianos quanto portugueses. com caráter nacionalista e centralizador. ainda que claramente marcadas pela disparidade entre elas. O Império é recriado. é preciso observar que as narrativas aqui analisadas. É possível observar que as narrativas elaboradas nesse período. Se até então a proximidade em relação à Metrópole era valorada positivamente. Afirmam sua originalidade. entre outros. passam a figurar nos círculos da intelectualidade local. E a imensidão de estudos sobre a morna. O batuku. em detrimento das relações com a África continental. E mesmo a morna toma agora nova feição. concentra-se a grande maioria das narrativas sobre a origem da morna. A morna deixa de ser praticamente a única manifestação da cultura popular trabalhada em projetos de construção da nacionalidade cabo-verdiana. Como não poderia deixar de ser. Essa dupla tendência indica. quando têm início os movimentos de libertação nacional nas colônias. o funaná e a tabanka. revela um momento histórico em que a lusitanidade é apresentada como um valor. especialmente aquelas onde a herança africana pode ser mais facilmente percebida. por um lado. Entre as décadas de 1930 e 1960. conseqüentemente. que tem no tempo o seu critério orientador. Com o processo de independência vivido pelos cabo-verdianos. porém.8 À guisa de conclusão. e o controle sobre as colônias é reforçado. delineiam um padrão. que marcou o período salazarista. começa a dar lugar a novos debates envolvendo outras manifestações da cultura popular cabo-verdiana. seguem a mesma tendência de construção da morna – e. Já num outro período. e a Metrópole se mantém como o referencial de civilidade. o debate sofre uma mudança radical. É nessa fase que se instaura em Portugal o Estado Novo.

natural da Ilha da Boavista. funcionário público e músico cabo-verdiano. (. portadora de admirável riqueza simbólica. porque lá fala muito de ‘bocê’. sem que para tal seja necessário fazer referência direta à ex-Metrópole.. mas que dava um sentido de tristeza. Mas a referência ao Brasil representa. a tristeza... havia problema. não havia comunicação naquele tempo..9 originalidade cabo-verdiana. uma forma de religação ao antigo Império Colonial. nós temos essa informação oral de que a morna terá nascido daquele ambiente de tristeza. alguém de há muito pegou nessa melodia que eles iam cantando assim. Encerro a presente discussão com mais uma das inúmeras narrativas sobre a origem da morna. antes mesmo de perguntado sobre o assunto. mas só com melodia.. mas acrescenta à narrativa novos elementos. nessa versão a explicação para a gênese da morna tem início com a referência ao encalhe de uma embarcação ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . sem a letra.. o sofrimento e a própria imagem do escravo acorrentado. nós teríamos.. onde nós temos convicção de que lá é que nasceu a morna.. logo se disponibilizou para contar sua versão sobre a gênese da morna.. Essas referências têm caráter um tanto ambíguo. nós pensamos que teria sido... noto que também nesse período são relativamente freqüentes as referências ao Brasil nas narrativas sobre a gênese da morna. Então começaram a pôr letra nas mornas (.. O que segue abaixo é a sua narrativa: Teria encalhado no norte da ilha [Boavista] um barco brasileiro que tinha escravos a bordo. E então ficaram em João Galego. mas é ao mesmo tempo um instrumento para a recriação do vínculo com o continente africano. Nuno. Até por causa do sotaque que ainda existe naquele povoado. Por fim. e estavam acorrentados. de saudade ou de sofrimento. eles tinham uma melodia que eles iam interpretando. de sofrimento dos escravos brasileiros aqui na Boavista e alguém pegou.. Então. de solidão. hoje comunidade lusófona.. comer ou ir para um outro sítio.... ‘você’ e que. Nuno retoma alguns pontos já levantados nos discursos aqui analisados... tem muito a ver com alguma influência da língua brasileira. Quase sempre o Brasil assume a forma de uma ligação entre Cabo Verde e a África. ‘bocê’..) é a primeira povoação do norte. quando procurado por mim para conversar sobre suas experiências com a música local. Em primeiro lugar. Então quando se deslocavam de um sítio a outro. porque aqui esses escravos ficaram lá durante muito tempo... O barco encalhou e as pessoas salvaram-se ou foram salvas.). ao mesmo tempo. como a escravidão. ‘você’... sem palavras.

uma vez que não vinham da África. baseando-se para tal no sotaque que ainda hoje existe no local. a referência à povoação de João Galego como o local onde nasceu a morna enriquece ainda mais o relato. portanto. mas também nuanças da história local são contempladas na narrativa. VI. vol. curiosamente. Porém. passando antes pela mediação realizada pelo Brasil. Por fim. Afonso. Portanto. escravos brancos provenientes da Europa (Lima. todo o discurso de Nuno aponta os escravos como criadores da melodia que veio a dar origem à morna tal qual conhecemos. pela via de uma rota na contracorrente do tráfico negro. n. João Galego é também conhecida entre os boavistenses por ter sido fundada por “escravos-galegos”. evento que durante séculos foi relativamente comum na referida ilha. O reconhecimento da participação dos escravos na criação da morna não representa. é compreensível a sugestão de que ela tenha nascido em uma povoação marcada por tamanha ambigüidade. e sim do Brasil. Diante da complexidade do debate em que está inserida a busca pelas raízes da morna. Amadora: Ediclube. CORREIA. 68. 1999. mas se trata de escravos muito especiais. A aproximação construída entre Cabo Verde e Brasil é a base sobre a qual se desenrola a narrativa. p. ao menos não diretamente. uma identificação com o continente africano. Ruben de. 2002: 196).10 ocorrido na costa norte da Boavista. não apenas a escravidão. também resultado do encontro dessas duas matrizes culturais. Nuno cita a povoação para reforçar seu argumento sobre a influência brasileira na origem da morna. 301-304. há a identificação com um terceiro. 1939. “A música africana como a vê a sensibilidade dum europeu”. O Mundo Português. Um Século de Fado. E no lugar da habitual disputa entre as heranças portuguesa e africana. Em segundo lugar. como de costume. Referências bibliográficas CARVALHO. construída metaforicamente através de uma etno-história musical. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Tal caráter ambíguo pode mesmo ser apontado como um dos traços marcantes da “crioulidade”.

Lisboa: Plátano. 4853. A Aventura Crioula. Juliana Braz. Praia: Instituto Superior de Educação. Jean-Paul. 138. p. n. 2004. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . António.11 DIAS. “A morna: síntese da espiritualidade do povo cabo-verdiano”. LIMA. a morna e o mandó .A morna”. VALE DE ALMEIDA. Mornas e Coladeiras de Cabo Verde: versões musicais de uma nação. 2001. José Alves dos. n. ano XII. 6. 1985. ______ Boavista. 239-267. p. 1985 [1ª edição: 1967]. Praia: Instituto Caboverdiano do Livro e do Disco. 184. 1. Universidade de Brasília. 1989. 7-10. 1995. “Marialvismo: A Moral Discourse in the Portuguese Transition to Modernity”.II . 2002. “Da literatura colonial e da ‘morna’ de Cabo Verde”. DUARTE. Manuel. Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social. esp. p. “Três formas de influência portuguesa na música popular do ultramar: o samba. Portugal Cooperação. “Subsídios para o estudo da Morna”. DUARTE. REIS. Africana. A Música Tradicional Cabo-Verdiana .I (A Morna). 1934. SARRAUTTE. “Morna: o doce lamento do Atlântico”. n. n. Porto: Edições da 1ª Exposição Colonial Portuguesa. Série Antropologia. Raízes. Cabo Verde: Boletim de Propaganda e Informação. António Germano. Vasco. 9-18. Miguel. 1961. n. Fausto. p. Ilha da Morna e do Landú. 21. FERREIRA. MARTINS. Tese (Doutoramento em Antropologia). 1984.

o crioulo é a língua materna de todos aqueles que nascem no arquipélago e é uma língua falada por quase todos os cabo-verdianos e seus descendentes que. onde o termo significa essencialmente ideias de mestiçagem e hibridez. Não obstante as suas importantes variações locais. identidades lamarckianas e mendelianas.Filhos da terra. nos países de emigração. a palavra significa qualquer coisa que diga respeito a Cabo Verde ou aos cabo-verdianos. “Crioulo” é também o nome corrente da língua cabo-verdiana. A etnografia caboverdiana desafia a acepção de “crioulidade” corrente na literatura antropológica. o substantivo “crioulo” designa um indivíduo cabo-verdiano. atento aos sentidos que ela possui nos diferentes espaços e tempos em que é empregada pelos agentes sociais. O peso relativo atribuído a cada um deles varia consoante os contextos de interacção social. O propósito deste texto é mapear o campo semântico e afectivo associado à palavra “crioulo” tal como ela é usada correntemente em Cabo Verde. Universidade de Lisboa joao. identidade performativa. transportam ou cultivam uma identidade cabo-verdiana. Como adjectivo. mas também comportamentais ou performativos. identidade cultural.pt Este texto pretende mapear o campo semântico e afectivo associado à palavra “crioulo” tal como ela é usada correntemente em Cabo Verde. Ambos os termos podem ser trocados na maioria dos contextos de fala sem que isso afecte o sentido dos enunciados. “Crioulo” e “cabo-verdiano” são sinónimos portanto. Palavras-chave: crioulidade.ul. Argumento que a definição emic da crioulidade cabo-verdiana recorre a marcadores de vária ordem: não apenas genealógicos e fenotípicos.vasconcelos@ics. Circunscrevo assim a minha abordagem às vivências e aos sentidos que andam atrelados ao termo no ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Em Cabo Verde. ou Lamarck em Cabo Verde João Vasconcelos Instituto de Ciências Sociais. A compreensão etnográfica da crioulidade cabo-verdiana levanta-me reservas em relação aos usos generalistas da noção e leva-me a defender em vez disso um uso ad hoc. Cabo Verde. regionais e de classe.

no decurso de trabalho de campo prolongado na ilha de São Vicente. ou os cabo-verdianos estão errados quando se dizem crioulos. (É claro que as coisas seriam diferentes se. 2 A segunda circula em estudos com alicerces Uma versão ligeiramente diferente deste trabalho foi apresentada no 3. cujo lema era “afinidade e diferença”. mencionando que foi buscar aquela expressão a um 1 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .) A terceira hipótese é aquela que irei defender e explicitar aqui. no painel “Caboverdianidade e Crioulidade”. Recorro para esse efeito a materiais etnográficos que reuni em 2000 e 2001. Principiarei por identificar duas concepções de crioulidade e crioulização em uso na literatura antropológica recente. a quem manifesto a minha gratidão. A primeira é moeda corrente naquilo a que chamarei os estudos pós e os estudos trans (traduzindo livremente duas expressões provocativas lançadas respectivamente por Marshall Sahlins e Jonathan Friedman). Ou a minha percepção etnográfica está completamente equivocada. por mera hipótese académica. ainda bastante incipiente. Estas duas concepções não são as únicas. para usar linguagem de antropólogo. Esta primeira revisão procura endereçar alguns comentários que me foram dirigidos naquela ocasião e. Jorge Rivera e Ramon Sarró. pós-estruturalistas e pós-coloniais. A primeira hipótese é admissível. coordenado por Wilson Trajano Filho e por mim. que tratou de outros assuntos. 2 Sahlins (1999a) fala de “afterological studies” para designar os autodenominados estudos pósmodernistas. Este texto é um produto lateral da minha pesquisa de doutoramento.2 arquipélago – ou. 6-8 de Abril de 2006). os caboverdianos se afirmassem uma raça superior e justificassem dessa maneira qualquer forma de tirania sobre outros povos. A segunda é absurda: se os cabo-verdianos se dizem crioulos. 1 Depois porque nos últimos anos tenho lido vários trabalhos antropológicos que falam de “crioulidade” e “crioulização” em termos que me parecem ser apenas parcialmente transponíveis para Cabo Verde. e é também um working paper. o trabalho do etnógrafo é tentar perceber o que querem eles dizer com isso.º Congresso da Associação Portuguesa de Antropologia (Lisboa. um texto em construção. me pareceu uma ocasião adequada para reflectir acerca de lógicas culturais de identificação e diferenciação. posteriormente. e não decretar se estão certos ou errados. Pode haver três razões para este desajuste. mas parecem-me ser as mais difundidas no senso comum dos antropólogos contemporâneos. por João de Pina Cabral. à noção de crioulo enquanto categoria emic. Porque é que me abalancei a escrevê-lo? Primeiro porque o congresso onde o apresentei. ou então a crioulidade caboverdiana possui realmente alguns traços distintos daqueles que são veiculados na crioulidade da vulgata antropológica.

escreve Hannerz. * Ataquemos para já a crioulidade dos estudos pós e trans. Um dos primeiros antropólogos a formulá-la foi Ulf Hannerz. nos bairros de lata. São as culturas em exibição nos mercados. “Michael Jackson. procurarei demonstrar que a crioulidade cabo-verdiana. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . afirma Hannerz. região que corporiza o protótipo da crioulidade nos imaginários anglófono e francófono. 3 O país do Terceiro Mundo de que o antropólogo fala é a Nigéria. e o conceito de cultura crioula é a “metáfora mais promissora” para o descrever. históricos e culturais. Refiro-me especialmente às ilhas do Pacífico. 4 Hannerz 1987: 555 – tradução minha. é “um mundo em crioulização”. e o antropólogo é sueco. publicado em 1987 na revista Africa. transculturalismo e transnacionalismo. Friedman (2002) fala do “trans-X discourse” como uma agenda ideológica que permeia os estudos sobre translocalismo. nos jornais e nas estações de televisão. nas salas de espera das estações de comboio. nos colégios internos. comunga também aspectos de uma lógica de formação de identidades que tem sido registada noutros espaços insulares bem mais afastados em termos geográficos. Na Nigéria. A noção de cultura. Sunny Ade ou Victor Uwaifo”. nas cervejarias. os Abba e Jimmy Cliff não destruíram o mercado da música popular de Fela Anikulapo-Kuti. Esse texto começa assim: Desde que me embrenhei pela primeira vez no Terceiro Mundo. No final desta apresentação. início dos anos 1960.3 etnográficos nas Caraíbas. nas livrarias missionárias. 5 trabalho inédito de Jacqueline Mraz. no final dos anos 1950. nas discotecas. muito embora partilhe várias características da crioulidade caraíba. 4 Este mundo de importações e misturas. 3 Hannerz 1987: 546 – tradução minha. fiquei fascinado com aqueles modos de vida e de pensar que vão emergindo da interacção entre culturas importadas e indígenas. 5 Hannerz 1987: 551 – tradução minha. não tem de designar algo homogéneo nem sequer particularmente coerente. Todo o artigo é uma celebração deslumbrada do movimento e da mistura. Os elementos culturais importados não abafam necessariamente os elementos indígenas. no artigo “The world in creolisation”.

até os suecos são crioulos. imagine-se.4 As culturas crioulas são culturas híbridas. parece-me francamente débil como formulação conceptual. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Leia-se a este respeito Sarró 1999. terceiras culturas e outros termos”. mas que também não me parece poder constituir ponto de partida útil para um empreendimento analítico capaz de esclarecer o que quer que seja. como escreve Sahlins. 9 Friedman argumenta no mesmo sentido. miscelânea. montagem. Os discursos do mundo em crioulização e do transnacionalismo “constituem uma agenda ideológica e não uma descoberta científica”: “um programa elitista imposto de cima para baixo e baseado na experiência de viajar de avião”. retomada por Hannerz em trabalhos posteriores. No final do seu artigo. mélange. “a chamada hibridez é no fim de contas uma observação genealógica. sinergia. do que da emergência de uma nova realidade global. mistas. 6 Esta concepção da crioulização como sinónimo de “hibridez. Ver também Hannerz 1996. e que. Homi Bhabbha ou James Clifford pelas viagens e pelo hibridismo decorre mais da forma de vida dos académicos e das suas próprias preocupações políticas paroquiais (como por exemplo o multiculturalismo nas grandes metrópoles). sincretismo. Arjun Appadurai. Hannerz 1997: 26. Mais de noventa e oito por cento da população mundial permanece toda a sua vida no país onde nasceu e a maioria não tem acesso à Internet. bricolage […]. Sahlins 1999b: xi – tradução minha. e não uma determinação estrutural – talvez apropriada apenas para os intelectuais cosmopolitas que fabricam estas teorias culturais a partir da sua posição de exterioridade”. que “as culturas crioulas não são apenas necessariamente as culturas coloniais e pós-coloniais”. E acrescenta que o fascínio contemporâneo de intelectuais como Hannerz. misturadas. 8 Mais ainda. Friedman 2002: 32-33 – tradução minha. miscigenação. mestiçagem. 7 Se a crioulização significa isto. 10 * 6 7 8 9 10 Hannerz 1987: 557 – tradução minha. transculturação. Ver também Friedman 1994: 209-210. colagem. então somos todos crioulos – coisa que não me repudia de todo. Hannerz conclui (com uma candura que não chego a perceber se é retórica ou genuína).

Os três estudos retratam sociedades cujos membros designam “crioulas” e vêem como resultado de uma mistura de ingredientes de origens diversas. Não vou aqui resumi-los. o observador estrangeiro que chega à Martinica ou a Guadalupe é forçado a constatar que o seu discernimento falha frequentemente quando julga saber. de acordo com a proveniência dos grupos que real ou presumidamente os introduziram. e nas quais as pessoas. e a manutenção durante séculos de um domínio colonial centrado em metrópoles europeias. um outro que ele toma por mulato é afinal um branco crioulo. e a etnografia mais recente de Daniel Miller (1994) sobre a Trinidad. qual a categoria racial em que ela é colocada localmente: um indivíduo que ele vê como um branco é afinal classificado como mulato. os costumes e os objectos são classificados de forma quase obsessiva em termos étnicos ou raciais. Esse traço comum é a importância que as categorias étnicas e raciais ali assumem na organização das relações sociais e no pensamento sobre a sociedade. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Estes trabalhos cobrem um período bastante longo: o livro de Leiris baseia-se em missões etnológicas realizadas em 1948 e 1952 e o de Miller em trabalho de campo do final dos anos 1980. São também estudos muito diferentes no tocante às suas perspectivas teóricas de partida. fiando-se no aspecto da pessoa com quem trava contacto. um influente artigo de Lee Drummond (1980) sobre a Guiana. Vou somente identificar um denominador comum a todos eles. Tomarei como amostra três estudos sobre quatro sociedades caraíbas: a monografia de Michel Leiris (1955) sobre a Martinica e Guadalupe. 11 11 Leiris 1955: 160-161 – tradução minha. Os estudos a que aludirei concentram-se nas sociedades das Caraíbas. sociedades formadas através de processos históricos que envolveram o desenvolvimento de economias de plantação. que parece demonstrar a existência de um traço bem saliente na crioulidade das Caraíbas. a escravatura. que merece outra atenção. Como escreve Leiris. As classificações étnicas e raciais utilizadas nem sempre coincidem com aquelas que os observadores exteriores aprenderam nos seus países de origem. outro ainda que ele julgava negro é rotulado de mulato. visto encontrar-se em estudos baseados em trabalho de campo prolongado. a deslocação mais ou menos forçada de populações de origens diversas (africanos.5 Passemos à segunda concepção de crioulidade e crioulização. asiáticos e europeus) em diferentes tempos.

6 A questão é que na classificação racial. “chinee” (chinês) e “white” ou “english” (branco ou inglês). em qualquer classificação racial. na ilha de Trinidad. dentro do pluralismo étnico e das formas de categorização social que se baseiam nele. “black” (negro). como também denuncia o pressuposto. Através de vários exemplos etnográficos. da qualidade dos cabelos e também da genealogia das pessoas e do seu estrato social que são aprendidos desde a infância e cujo domínio competente se torna. entram em jogo modos de percepção e apreciação da cor da pele. “buck” (ameríndio). 13 Além de reconhecer a inexistência de isomorfismo entre a classificação guianense e. Mais ainda. implícito na maioria dos estudos sociais sobre “raça”. as categorias primárias são “coolie” (indiano). 12 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . 13 Drummond 1980: 356. na interpretação do autor. Segundo Miller. Aqui. ele mostra que não só a classificação varia situacionalmente. Sobre os potuguees da Trinidad. Drummond afirma que também nesta sociedade as diferenças entre pessoas e formas de vida são expressas de forma explícita em termos de categorias raciais ou étnicas. “potuguee” (português. e classificações como “whiteman” e “blackman” podem assumir conotações positivas. negativas ou neutras. digamos. São. sobressai um padrão classificatório dualista. dois estereótipos associados a valores em larga medida opostos. portanto. da fisionomia. argumenta Miller. Leia-se a este respeito Wade 2002. a atribuição de africanidade e indianidade a determinados usos e costumes nem sempre reflecte a real origem cultural dos mesmos. e às vezes nem sequer sua real disseminação entre os grupos étnicos correspondentes. cujos pólos são os “africanos” e os “indianos”. A africanidade e a indianidade. Um branco num determinado contexto pode ser um mulato noutro. ver Vale de Almeida 1997. consoante a situação em que são utilizadas. 12 Escrevendo sobre a Guiana. acrescenta algo às observações de Leiris e Drummond. a forma modelar do racialismo. como varia também o valor atribuído aos estereótipos étnicos e raciais. a inglesa. de que o tipo de classificação racial estabelecido há cerca de cem anos nos Estados Unidos da América e nalguns países do norte da Europa constituiria por assim dizer o tipo padrão. não são apenas atributos de dois grupos étnicos. que não só evidencia a existência de diferentes tipos de formação racial e de racismo. A etnografia de Miller sobre a Trinidad. que não equivale a “branco” no sistema guianense). além disso. que as pessoas da Trinidad usam para pensar sobre a sua sociedade. Drummond acrescenta que a primeira manifesta uma variação à primeira vista desconcertante. muito difícil a um indivíduo naturalizado noutro esquema classificatório e ignorante da pequena história local. por fim.

A crioulidade. Em Cabo Verde. o discurso da crioulidade nunca deixou de reproduzir as “categorias puras” que pretendia dissolver. encontra-a Miller na “natureza fundamental da modernidade”: na contradição entre a valorização simultânea da “transcendência” ou continuidade (corporizada nos valores da indianidade) africanidade). Muito embora o arquipélago tenha conhecido em diversos momentos da sua história várias vagas migratórias (de escravos da costa ocidental africana. Estamos a falar de sociedades concretas nas quais as pessoas se vêem a si próprias como mistas ou misturadas e usam o vocabulário das “categorias puras” que compõem a mistura para se pensarem e se classificarem. Ver Vasconcelos 2004: 170-187. confrontamo-nos com um contexto social crioulo no sentido que Édouard Glissant. segundo Glissant. a identidade cabo-verdiana foi sistematicamente definida pela mistura e que. Há que esperar para ver o que acontecerá com as 14 15 16 17 Miller 1994: 15 – tradução minha. 17 Não me parece adequado falar de grupos étnicos em Cabo Verde. 14 Essa raiz.7 Para Miller. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Glissant 1981. o dualismo cultural entranhado na Trinidad não resulta da diferença étnica. intelectual natural da Martinica. ao longo do século XX. e 15 da “transiência” ou efemeridade (corporizada nos valores * Muito disto será familiar para quem conheça um pouco. tal como nas Caraíbas. 16 Não estamos portanto a falar do vago e vasto “mundo em crioulização” de Hannerz e outros. Miller 1994: 132-133. madeirenses. Noutro trabalho tive ocasião de argumentar que. é “uma mestiçagem consciente de si própria”. por isso mesmo. alentejanos e algarvios. Passar-se-á antes o contrário: “muito do conteúdo específico da estereotipagem étnica e da experiência contemporânea da etnicidade resulta do uso de grupos étnicos para objectivar um dualismo cuja raiz se encontra noutro lugar”. nenhum destes grupos construiu identidades étnicas de longa duração vinculadas às respectivas origens. deportados políticos da antiga metrópole e judeus de Gibraltar. por exemplo). dá ao termo. a sociedade cabo-verdiana do século XX e dos dias de hoje. por experiência própria ou através de leituras.

E são. em vez disso. personificada na figura do badio. personificada no literato claro do Mindelo. a maioria dos cabo-verdianos vê-se como gente com sangue mais africano que português e com espírito mais português que africano. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . no passado tal como no presente. “aristocratização cultural” (no período da Claridade). estes estereótipos não são étnicos. nos botequins. Revelam. No decurso das transformações políticas que marcaram o século XX. De onde veio a morna? E o machismo? E a família matrifocal? E o gosto pelo desporto? Não são apenas debates de intelectuais. Em vez de grupos étnicos. o camponês escuro e iletrado do interior que vibra ao som do batuque.8 migrações mais recentes de vendedores ambulantes da África Ocidental e de comerciantes chineses. nos mercados. sobretudo. Mais ainda. e que resultam de processos de formação social bastante distintos e desfasados no tempo. os estereótipos que fazem a mistura crioula caboverdiana são as nove micro-sociedades insulares que constituem o arquipélago. “África” e “Europa” (ou. mas ambos estiveram sempre presentes na consciência da caboverdianidade. Duas jovens mindelenses perfumadas e de cabelo alisado que passam descaradamente à frente de um rapaz de Santo Antão de aspecto pobre na fila da bilheteira do cinema Éden Park são descompostas por uma rabidante que vende drops. Consoante as conjunturas político-ideológicas. A África cabo-verdiana é a ilha de Santiago. racial e classista. a operação de critérios de identificação insular. dois estereótipos fortes. existe em Cabo Verde a ideia de que ser crioulo é ser misturado. à semelhança do que acontece nas Caraíbas. “alienação cultural” (no período da guerra colonial e dos anos pós-independência). esta crença tem recebido os nomes de “civilização” (no período republicano). nas esquinas da Rua de Lisboa e em casa. Em suma. E. mais modestamente. e “hibridez” (nos neo-liberais anos 1990). o estereótipo positivamente valorado foi ora “Portugal”. “Portugal”). A Europa de Cabo Verde é a ilha de São Vicente. observam-se estratégias de classificação e distinção social que põem em prática a ideologia subjacente dos “tipos puros”. são conversas que se ouvem nos cafés. tal como nas Caraíbas. Além disso. empregado de escritório ou funcionário público nas horas vagas. ora “África”. “África” e “Europa” foram internalizadas em Cabo Verde. Diferentemente das Caraíbas. Os debates acerca da cultura cabo-verdiana são quase sempre debates acerca de origens culturais.

Sem negar que a ideia de que se é “misturado” e as práticas de discriminação que só superficialmente a contradizem constituem componentes característicos da caboverdianidade enquanto forma de vida. conserva ainda muita actualidade. Andam sempre com faca. que lhes grita: “tempo de escravatura acabá!” Assisto no noticiário das oito a uma reportagem sobre um assalto em Lisboa a uma actriz de teatro. Não só existe racismo em Cabo Verde como ele é além do mais consciencializado e verbalizado. chamar a atenção para uma outra característica bem diferente da crioulidade cabo-verdiana.9 mancarra e cigarros no seu balaio em frente à escadaria. a tomar uns grogues e uns pastelinhos nas vendas dos subúrbios e nos botequins da cidade. em que comecei a frequentar espaços públicos locais. a frequentar as tocatinas que se organizavam aqui e ali. e um amigo meu. 18 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . para concluir. militante do PAICV. Eu próprio. comecei a sentir-me parte da pequena cidade com cerca de setenta mil habitantes. que evidenciam o funcionamento paralelo de uma outra lógica de formação de identidades. a vestir-me à moda local (tirando o uso de sandálias. a ter a minha cachupa preparada em casa todos os sábados ou a ir comê-la a casa de outros. Os homens e rapazes com quem convivia foram-se tornando cada vez mais indiscretos e insistentes acerca das minhas relações com as raparigas da terra. Os filhos destas pessoas que nasceram ou foram criados desde pequenos na ilha em nada se distinguiam das crianças e dos jovens dos estratos sociais correspondentes. mas bastante escuro e de cabelo encarapinhado. a partir do momento que fiz questão de falar crioulo sempre que as circunstâncias não aconselhavam o uso do português. Foi um processo gradual. gostaria de sugerir que estes componentes coexistem com outros. que viviam na ilha há bastante tempo e que se comportavam e eram tratados como filhos da terra. e creio que não se trata de uma percepção puramente subjectiva. comenta logo: “Aquilo são badios da Praia. assente em trabalho de campo realizado no começo dos anos 1970. mas também alguns negros e um chinês). que naquele tempo me incomodava) e a ganhar um tom moreno. que identifica os assaltantes como cabo-verdianos. Conheci em São Vicente alguns estrangeiros (brancos a maioria. Quando é O estudo de Deirdre Meintel (1984) sobre a classificação e a discriminação raciais em Cabo Verde. 18 Mas quero agora. sempre a armar afronta!” Acompanho o drama de uma rapariga de boas famílias cujos parentes tentam por todos os meios pôr fim ao seu namoro com um rapaz também de boas famílias e até com estudos universitários.

por serem afro. Não que ele seja muito bom. Quando ele tentava explicar em francês ou em inglês que não era cabo-verdiano. Pode haver aqui algum romantismo de going native da minha parte. E noutros contextos são depreciados pelo mesmo motivo. de se ter pais ou avós cabo-verdianos) e fenotípicos. que eu falo como os filhos dos caboverdianos que nasceram em Portugal. Mas sei que os meus amigos cabo-verdianos não são tratados desta forma em Portugal. de comer o mesmo que as pessoas da terra. em certos contextos. conheci um jovem turista mulato da Martinica que. Aquilo que experimentei e que observei na interacção dos mindelenses comigo e com outros estrangeiros foi uma grande abertura da parte deles à assimilação do outro (para usar uma palavra politicamente incorrecta). negros e brancos? Não sei. Todos apreciavam o facto de eu não ser esquisito com a comida. por muito que se esforcem por se comportar como portugueses. são apreciados. mas também elementos performativos. Os meus amigos mais chegados dizem.10 que eu arranjava uma pequena? Quando é que eu tinha lá um filho? As raparigas foramse tornando cada vez mais atrevidas nos jogos de sedução – ou então fui eu que comecei a percebê-los melhor. É verdade que há uma espécie de fenótipo cabo-verdiano modal. e quase todos os estrangeiros que conheci que estavam mais crioulizados que eu eram homens também. ao cabo de uma semana em Cabo Verde. Em todo o caso. Tenho amigos mindelenses que até em Portugal seriam brancos e que eram tomados por estrangeiros pelos raros camponeses com quem nos cruzávamos nos nossos passeios de domingo pelo interior da ilha – isto. antes de abrirem a boca e falarem em crioulo. O meu domínio do crioulo foi talvez o feito mais apreciado. Eu sou homem e sou branco. estava afrontado porque toda a gente presumia que ele era cabo-verdiano com base na sua aparência física e lhe falava em crioulo. de ir nadar à praia da Lajinha pela manhã. Pelo contrário. desde que o outro estivesse disposto a isso. é claro. de fazer as minhas compras no supermercado. exactamente pela sua diferença. Por outro lado. embora três deles não fossem brancos. A minha experiência pessoal e o meu universo de observação podem implicar muitos enviesamentos. Será a que a antropofagia cultural mindelense manifesta igual apetite por homens e mulheres. aquilo que quero sugerir é que a crioulidade é uma classificação identitária que contempla não apenas elementos genealógicos (o facto de se ter nascido na terra. havia ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . julgo que com sinceridade.

19 Outros trabalhos etnográficos recentes realizados noutras regiões do Pacífico descrevem a operação de lógicas de formação de identidade semelhantes. se cantar ou dançar a música da terra. Marshall Sahlins. diz-nos que no Havai uma pessoa pode tornar-se “nativa”. por exemplo. As classificações raciais e classistas que os diferenciam em certas situações coexistem com uma outra que os irmana. Portanto. ou “filhos da terra”. não apenas os filhos de naturais do território. Um estrangeiro. tal como interessa quando se trata de diferenciar internamente os cabo-verdianos. mas também chineses e gente de outras proveniências que adoptavam a língua e a cultura locais. pretos e mestiços são todos crioulos sem que deixem com isso de ser brancos. Em Cabo Verde. A palavra “crioulo” tem a sua raiz etimológica no verbo “criar” e começou a ser utilizada em sítios como Cabo Verde e as colónias de povoamento das Américas. se acamaradar e eventualmente procriar com gente da terra. para diferenciar os brancos europeus ou reinóis dos brancos da terra e os pretos africanos dos pretos da terra. o facto de uma pessoa viver numa determinada terra e se alimentar do que ela dá fá-la da mesma substância que a terra. 20 19 20 Ver Pina Cabral e Lourenço 1993: 53-72. […] Para os havaianos. Mas não é o único critério em jogo. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . no mesmo sentido em que se diz que uma criança é feita da substância de seus pais. Depois de residir um certo tempo na comunidade.11 quem não acreditasse e achasse que ele era um desses emigrantes cheios de inchadura que perderam as raízes ou. termo que não está exclusivamente reservado aos nascidos no lugar. Naquele enclave português na China. pode tornar-se crioulo se falar a língua da terra. entre outras coisas. se comer as comidas da terra. Há também uma outra crioulidade que obedece a uma lógica identitária que tem subjacente a ideia de que aquilo que se faz é uma parte importante daquilo que se é. até os estrangeiros se tornam “filhos da terra” (kama’àina). mediante acção adequada. eram considerados macaenses. ser-se crioulo é. Brancos. independentemente da sua aparência física. a “raça” interessa. ser-se di terra. Esta realidade tem muito em comum com aquela que João de Pina Cabral e Nelson Lourenço encontraram em Macau no início dos anos 1990. que se envergonham delas. pior. Sahlins 1985: xi-xii – tradução minha. pretos e mestiços. quando se trata de classificar as pessoas como cabo-verdianas ou não.

escreve a autora. A primeira. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Rita Astuti identificou também entre os vezo. A conceptualização de Watson foi depois aplicada por outros autores a diversas sociedades oceânicas. por ser transformativa. fenotípicos e comportamentais varia consoante os contextos de interacção social. que provavelmente se poderão encontrar em qualquer parte do mundo. Creio que a crioulidade cabo-verdiana congrega ambas as lógicas de formação identitária. as “identidades lamarckianas” baseiam-se na crença de que o comportamento constitui o ser. Ver por exemplo Linnekin e Poyer (eds. Um filho de crioulos é crioulo pelo nascimento. na prática quotidiana. no outro as semelhanças e diferenças reconhecidas nos modos de vida. mas é igualmente possível que uma pessoa se faça crioula pela acção adequada. de que se é aquilo que se faz. “adquire-se através de actividades realizadas no presente” e possui “traços caracteristicamente austronésios. que enfatizam a preeminência dos traços herdados na constituição do ser. 23 Identidades mendelianas e lamarckianas podem ser concebidas como dois pólos de um continuum de produção de semelhanças e diferenças entre os seres humanos. um grupo da costa oeste. o recurso a duas formas de identificação idênticas às identidades lamarckiana e mendeliana de Watson: uma identidade “performativa” e uma identidade “étnica”. 22 Na ilha índica de Madagáscar.) 1990 e Hoëm e Roalkvam (eds. não primordialista e não essencialista”.) 2003. em doses e com matizes diferentes. Astuti 1995: 1 – tradução minha. como de traços corporais herdados e adquiridos socialmente.12 James Watson. introduziu a expressão “identidades lamarckianas” para designar este tipo de classificações performativas. É-se reconhecido como crioulo em virtude tanto da ascendência familiar. A segunda é vista “como uma essência herdada do passado”. 21 Diferentemente das “identidades mendelianas”. por se enraizar na ordem imutável da descendência e ser por ela determinada”. como ainda daquilo que se faz. e “possui um forte cunho africano. Num extremo estão as semelhanças e diferenças estabelecidas a partir de reais ou supostas heranças genealógicas. O peso relativo atribuído a marcadores genealógicos. na sua monografia sobre os tairora das terras altas da Nova Guiné. com base na acção. Este entendimento da crioulidade cabo-verdiana levantame reservas em relação a qualquer uso generalista da noção e leva-me a defender em 21 22 23 Ver Watson 1983: 276-280.

Oceanic Socialities and Cultural Forms: Ethnographies of Experience. Race. Termino com uma hipótese. Londres e Nova Iorque. até ao dia em que tu voltares. People of the Sea: Identity and Descent among the Vezo of Madagascar. atento aos sentidos que ela possui nos diferentes espaços e tempos em que é empregada pelos agentes sociais. híbridos: palavras-chave da antropologia transnacional”. e Sidsel Roalkvam (eds. University of Hawai’i Press. Places. Ingjerd. Africa. 2 (1): 21-36. Jonathan. Thousand Oaks e Nova Deli. HOËM. Rita. 2002. fronteiras. Man (N. 3 (1): 7-39. Lee. Jocelyn. HANNERZ. Paris. Paris. “Fluxos. Cultural Identity and Ethnicity in the Pacific. 2003. Não estará a crioulidade enquanto identidade performativa estreitamente relacionada com aquilo a que poderíamos chamar o presentismo cabo-verdiano. GLISSANT. MEINTEL. ligado por sua vez à experiência do trânsito migratório e da transitoriedade das relações. 1980. Le discours antillais.). “From roots to routes: tropes for trippers”. tão belamente expresso na morna mais conhecida de Cesária Évora: “Si bô escrevê’m um ta escrevê’b. Bibliografia ASTUTI. Anthropological Theory. Berghahn Books. Ulf. 1997. e Lin Poyer (eds. Maxwell School of Citizenship and Public Affairs. Honolulu. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . se me esqueceres eu vou esquecer-te. Deirdre. Londres.). 57 (4): 546-559. 15 (2): 352-374. Oxford e Nova Iorque. Ulf. Gallimard. 1987. Cultural Identity and Global Process. Ulf. Cambridge University Press. People. 1990. LEIRIS. Édouard. Cambridge. 1995.S. Sage. Syracuse. “The cultural continuum: a theory of inter-systems”. Routledge. si bô esquecê’m um ta esquecê’b.13 vez disso um uso ad hoc. Syracuse University.). Seuil. Mana. Michel. Contacts de civilisations en Martinique et en Guadeloupe. FRIEDMAN. Jonathan. mais uma. 1994. 1981. Culture. DRUMMOND. LINNEKIN. Transnational Connections: Culture. 1955. “The world in creolisation”. 1996. até dia que bô voltá”? (“Se me escreveres eu vou escrever-te. FRIEDMAN.”) Este é o meu ponto de interrogação final. HANNERZ. HANNERZ. and Portuguese Colonialism in Cabo Verde. 1984.

Clara. 1997. Berg. Etnográfica. Modernity – An Ethnographic Approach: Dualism and Mass Consumption in Trinidad. WATSON. e João de Pina Cabral (orgs. “What is anthropological enlightenment? Some lessons of the twentieth century”. James B. e Nelson Lourenço. “Cultura y metacultura: más allá de la diversidad y de la homogeneización”. poder e identidade em São Vicente de Cabo Verde”. PINA CABRAL. Peter. 2002. 1985. Londres e Sterling. Marshall. Instituto Cultural de Macau. Em Terra de Tufões: Dinâmicas da Etnicidade Macaense. João de. “Espíritos lusófonos numa ilha crioula: língua. Race. WADE. 1983. Revista de Libros. Pluto Press.). SARRÓ. Seattle e Londres. 27: 13-14. University of Chicago Press. SAHLINS. Macau. Oxford e Providence. Ramon. Lisboa. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . 1999b. 28: i-xxiii. “Two or three things that I know about culture”. Annual Review of Anthropology. Daniel. 1999a. Tairora Culture: Contingency and Pragmatism.. Nature and Culture: An Anthropological Perspective. VASCONCELOS. Miguel. Islands of History. João. em CARVALHO. 1993. “Ser português na Trinidad: etnicidade. Imprensa de Ciências Sociais. Marshall. University of Washington Press.14 MILLER. A Persistência da História: Passado e Contemporaneidade em África. 1999. VALE DE ALMEIDA. 149-190. 2004. Marshall. SAHLINS. 1994. Chicago e Londres. 5 (3): 399-421. The Journal of the Royal Anthropological Institute. 1 (1): 9-31. SAHLINS. subjectividade e poder”.

III – Capítulo Identidades migrantes: afinidades e diferenças como processos sociais Textos de comunicações do painel Identidades migrantes: afinidades e diferenças como processos sociais Coordenação Lorenzo Bordonaro Chiara Pussetti Centro de Estudos de Antropologia Social .ISCTE ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .

a psicologia. a reproduzir dicotomias como “natureza/cultura”. os debates recentes continuam. etnopsiquiatria. sobretudo nas disciplinas que se confrontam com as vivências emocionais dos migrantes – ou seja a antropologia e a psicologia transcultural -. Infelizmente. psiquiatria transcultural. a sociologia. Entre estes a antropologia.Emoções migrantes: afinidades e diferencias como factos políticos Chiara Pussetti CEAS/ISCTE chiara_pussetti@hotmail. considerando como as afinidades e diferenças emocionais são estrategicamente realçadas. Os biologistas sustentam que as emoções são essências universais. migrantes. Temos assistido nos últimos vinte anos a manifestações de um interesse académico renovado pelas emoções em campos disciplinares diferentes. Definir o que é comum a todos os seres humanos e o que é específico de cada cultura torna-se assim um assunto politicamente relevante e potencialmente discriminante. Podemos. “genes/ambiente”. Palavras-chave:Antropologia das emoções. a neurobiologia e a história. sobretudo nas disciplinas que se confrontam com as vivências emocionais dos migrantes – ou seja a antropologia e a psicologia transcultural os debates recentes continuam a reproduzir dicotomias como “natureza/cultura”. reconduzir a maior parte dos estudos produzidos nas últimas décadas sobre as emoções a dois ramos teóricos opostos: os biologistas e os construcionistas sociais. “genes/ambiente”. salvo raras excepções. ligados mais à memória filogenética que não à aprendizagem ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . a filosofia. inatas e geneticamente determinadas: fenómenos biológicos interiores passivos e involuntários. Questionando quer as posições biologizantes quer as radicalmente relativistas. herdadas pelo pensamento do século XIX. herdadas pelo pensamento do século XIX.it Temos assistido nos últimos vinte anos a manifestações de um interesse académico renovado pelas emoções em campos disciplinares diferentes. de carácter não cognitivo. reconstruídas ou inventadas pelos diferentes actores sociais. assim. o convite é de repensar o conceito de identidade pessoal. Infelizmente.

descuidando o ponto de vista dos locais. nas atitudes e nos preconceitos de muitos dos técnicos dos serviços de saúde que se confrontam com migrantes. é a teoria do “processo evolutivo na 1 Entre os pensadores que inauguraram a concepção científica das emoções Charles Darwin. 1980b. as emoções foram consideradas também pelos antropólogos como fenómenos naturais. o contexto e as circunstâncias da experiência emotiva. Durante muito tempo. nesta perspectiva. 2 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . É nesta posição que se coloca a psiquiatria transcultural norte-americana de derivação kraepeliniana. O que em síntese une a posição destes teóricos é uma visão das emoções como fenómenos não cognitivos e involuntários. de se terem baseado numa identificação mecanicista entre movimento muscular e emoção propriamente dita. O conceito de unidade psíquica dos seres humanos justificava ao nível teórico a possibilidade de compreensão imediata entre pessoas de culturas diferentes: antropólogos e psicólogos poderiam assim entender empaticamente as emoções dos outros enquanto idênticas às próprias e utilizar sem problemas as próprias categorias para descrever as vivências afectivas dos outros. Walter Cannon e Sigmund Freud podem ser considerados pais fundadores da moderna pesquisa sobre as emoções. que baseia as suas pretensões de eficácia transcultural no pressuposto da unidade biopsíquica dos seres humanos.2 individual. A falta de correspondência linguística directa. têm dominado há muitos anos o campo das pesquisas psicológicas e são representadas de maneira emblemática pelos estudos neuroculturais de Paul Ekman sobre a expressão facial das emoções (Ekman 1980a. sem terem em conta as eventuais diferenças de género. abstraídas de qualquer contexto. melhor. a um agregado restrito de pessoas. segundo critérios apriorísticos. As teorias universalistas ou inatistas. algo de interno aos indivíduos e conexo a uma base genética hereditária e universal. Nestes trabalhos Ekman tentou identificar a correlação entre um grupo limitado de expressões faciais universais e um conjunto definido de “emoções básicas”. Um exemplo clássico desta postura teórica. não é interpretada como uma contradição da tese da universalidade das emoções. mas. de terem submetido desenhos estilizados ou fotografias de caras. censurando-os de terem seleccionado artificialmente algumas emoções “purificadas”. caracterizadas por influências de tipo etológico e neurobiológico. reduz-se à classificação das experiências e das narrativas dos outros no próprio horizonte lexical e categorial. 1984) 2 . como o sinal da limitação das capacidades introspectivas e de averbamento emocional de alguns grupos humanos (nomeadamente os africanos e os negros americanos). Os antropólogos culturais criticaram duramente a metodologia utilizada por Ekman e pelos pesquisadores que partilharam a sua opinião e a sua orientação teórica. William James. presente ainda hoje nas expectativas. desinteressantes e inacessíveis portanto aos métodos da análise cultural 1 . e no final de terem fornecido uma tradução não critica dos termos emocionais ingleses em outras línguas. A compreensão. idade e posição social. universais e inatos. ou seja a um exercício de tradução imediata entre as palavras de uma língua às palavras de uma outra língua.

de uma modalidade e uma expressão somática (própria das culturas menos desenvolvidas) a um léxico psicológico (próprio das culturas ocidentais). Nas palavras de Leff : “as pessoas de países desenvolvidos apresentam uma bem maior diferenciação de estados emocionais em relação às pessoas que provêm de países em desenvolvimento” (Leff 1973: 305 – tradução minha). marcados por confins precisos e imóveis no tempo. afirmam que as emoções derivam da interpretação e da avaliação de um estímulo. Beneduce 1996. enquanto que. âmbitos de significados articulados logicamente e sem contradições internas. Ots 1990. Desjarlais 1992. a teoria de Leff é ainda considerada absolutamente válida 4 . Vejam-se Bibeau 1978. Segundo esta teoria. posso afirmar que. para o que concerne a experiência emocional. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Os relativistas culturais. 1979. Heelas 1996. encontrei um vocabulário das emoções muito complexo e uma requintada capacidade de comunicar os próprios estados interiores. pelo contrário. depende da dificuldade de encarar e compreender questões sobre as quais se reflecte localmente utilizando categorias muito diversas das nossas. Devisch 1990. Podemos distinguir na teoria de Leff a presença de um modelo antropológico evolucionista. ou seja de um processo de atribuição de sentido e valor historica e culturalmente específico. que todavia não têm um valor puramente somático. salvo raras excepções.3 elaboração emocional” do psiquiatra cultural Julian Leff (1981: 66). Se para os 3 4 Veja-se Lilltewood e Lipsedge [1982] 1997. 5 No meu trabalho de terreno dedicado ao vivido emocional entre os Bijagós da Ilha de Bubaque (Pussetti 2005). um evidente continuum caracterizaria a evolução do tradicional para o moderno e. às vezes. O facto que esta modalidade de expressão emocional possa ser interpretada pelo psiquiatras ocidentais como sinal de um arcaísmo do grau de elaboração do próprio vivido interior. idênticas através das culturas e através do tempo. através de expressões referidas a partes do corpo.seria assim expressão de uma maior capacidade de introspecção e de uma melhor gestão do próprio vivido interior. ainda que. Na base das minhas entrevistas em hospitais e centros de saúde vários em Itália como em Portugal. típico por exemplo dos africanos 5 . sistemas de representações relativamente homogéneos. Dirven e Niemeier 1997. A maioria dos antropólogos construcionistas tem assim descrito comportamentos emocionais culturalmente específicos em contextos etnográficos apresentados como terrenos puros e coerentes. pelo contrário. o prevalecer de um código somático indicaria um nível mais arcaico de expressão e elaboração emocional. Neste sentido. presente ainda hoje nos assuntos e nas práticas das ciências psicológicas ocidentais 3 . A verbalização emocional típica dos ocidentais – salientam as minhas entrevistas . variáveis como qualquer outro fenómeno cultural: não faz sentido portanto falar de emoções inatas e universais. as emoções são consideradas como construções sociais.

na posição construcionista radical podemos colocar a etnopsiquiatria francesa à la Tobie Nathan 6 . “performance sociais” culturalmente específicas (Abu-Lughod e Lutz 1990 – tradução minha). 12 – tradução minha). Em 1993. centro clínico-académico de investigação e apoio psicológico às famílias imigrantes. Se pensando as formas de acompanhamento psicológico dos migrantes. historicamente situados e continuamente modificados pelas experiências diferentes e pelos discursos polivalentes que se encontram em cada indivíduo. Se a emoção não é independente da cultura. mas é. “práticas discursivas”. colocamos a psiquiatria transcultural clássica no filão teórico dos biologistas. constituída por modelos de experiência adquiridos. as antropólogas Benedicte Grima. nas palavras de Beneduce. para os construcionistas radicais o trabalho de terreno sobre as emoções dos outros acaba paradoxalmente por se tornar uma confirmação da incomensurabilidade da experiência humana. examinar a dimensão cultural torna-se um passo fundamental para compreender as dimensões de significado que os modelos biológicos não conseguem colher e explicar. Os filósofos Robert Solomon e Claire Armon-Jones por exemplo afirmam que “a emoção não é um sensação mas é essencialmente uma interpretação” (Solomon 1984: 248 – tradução minha) e que “cada emoção é um produto sociocultural único e irreduzível” (ArmonJones 1986: 37 – tradução minha). AbuLughod e Lutz chegam até a propor uma concepção das emoções como algo que “pertençe à vida social e não a estados interiores” (Abu-Lughod e Lutz 1990: 2 – tradução minha). as emoções são antes “construções socioculturais”. discípulo do Georges Devereux. 6 Psicólogo e psicanalista. só pode desempenhar o papel de “tradutor”. antes pelo contrário. o primeiro ambulatório de etnopsiquiatria em França. “estilos culturais”.4 biologistas a empatia é o instrumento privilegiado de compreensão transcultural – em virtude da comum humanidade -. Tobie Nathan criou. observa Catherine Lutz (1988: 8). do mesmo modo as suas perturbações não podem ser consideradas como objectivas e value-free. o antropólogo. em 1979. No encontro com os próprios interlocutores. fundou o “Centre Georges Devereux”. Lila Abu-Lughod e Catherine Lutz sustentam que “a emoção é só cultura” (Grima 1992: 6 – tradução minha) e que “longe do ser entidades psicobiológicas internas”. Nesta visão. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . mas antes. sugerindo aos antropólogos de “trabalhar para libertá-las da psicobiologia” (Abu-Lughod e Lutz 1990: 10. já que não existe um terreno bio-psíquico comum de compreensão humana. Aderindo a esta forma de construcionismo radical muitos cientistas sociais têm produzido afirmações discutíveis. no Hospital Avicenne.

independentemente das maneiras através das quais os homens as avaliam intelectualmente e as vivem somaticamente. Esta colonização cultural da psiquiatria estadunidense.uma forma de imperialismo ocidental sobre as emoções dos outros” (Lynch 1990: 17 – tradução minha). ou ainda uma forma de controlo sanitário e moral sobre os outros. portanto. patologia psiquiátrica. as interpretações não ocidentais da doença. estudada já no 1958 pelo antropólogo Michel Leiris que trabalhou entre os Etíopes de Gondar. Se as emoções são exactamente as mesmas em cada lugar. permitindo “instituir . É neste sentido que. é definida como “experiência esquizofrénica dissociativa” e considerada.nas palavras de Owen Lynch . significados. valores e ideologias” (Beneduce 1995: 17 – tradução minha). relações assimétricas de poder. o xamanismo uma esquizofrenia disfarçada por superstições culturais. no Diagnóstic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM-IV) da American Psychiatric Association (1994) a possessão zar. Ou que a linguagem da feitiçaria é interpretada num registro exclusivamente psicopatológico como psicose aguda de natureza persecutória com alucinações auditivas e visuais. as abluções rituais dos muçulmanos praticantes uma forma de distúrbio obsessivo-compulsivo. No primeiro caso a tese da universalidade da vivência emocional justifica as pretensões hegemónicas das categorias diagnósticas e dos modelos interpretativos da psiquiatria euroamericana. baseada no pressuposto da universalidade das emoções. dissimulado pelas prescrições locais. objectiva e portanto culture-free. e a psiquiatria conseguiu identificá-las de forma cientifica. parece-me que quer as posições biologizantes quer as radicalmente relativistas acabam para se tornar muito problemáticas. revela. as distinções alternativas entre ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . metáforas. afirmam os etnopsiquiatras italianos Roberto Beneduce (2001) e Salvatore Inglese (2002). Nesta visão. de forma evidente. por exemplo. então a cultura nesta perspectiva só pode condicionar a interpretação destas mesmas experiências universais através dos óculos opacos das crenças locais. portanto. a possessão espírita seria uma perturbação dissociativa mascarada por crenças e práticas religiosas. Assim. as outras representações da pessoa e dos seus limites.5 como “um conjunto de conotações. ligada a temáticas religiosas e a crenças culturais (Ndetei 1988). Trabalhando como antropóloga na área da saúde mental dos migrantes. e em particular sobre as atitudes interpretadas como perturbações do comportamento emocional.

realçam todavia que também as perspectivas construcionistas ou relativistas podem revelar-se muito perigosas e politicamente discriminatórias. Este uso da noção de cultura – que postula a incomensurabilidade de mundos culturais diversos . reais e universais que só a psiquiatria ocidental conseguiu identificar. intraduzíveis e incompatíveis entre elas. psicologias indígenas. ou seja. de facto. nos quais elaborar práticas clínicas inovadoras.por definição construídas ao redor de presumíveis universais -. as ciências da psique ocidentais . Assim. lugares singulares de pesquisa. o médico e sociólogo Didier Fassin (2000). cientificas. o risco de cair em derivas relativísticas: em vez de procurar ou inventar espaços originais de diálogo. Na base das ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . há questões objectivas. situações que têm também outras raízes. não é de admirar que no British Journal of Psychiatry. a perspectiva relativista acaba. a expressão mesma das suas necessidades. Muitas vezes. por se tornar um instrumento de ratificação da incomensurabilidade da experiência humana. dissimulando como questões culturais conflitos. “primitivas”. realçou os riscos gerados pela reificação do conceito de cultura e por uma culturalização excessiva dos instrumentos e das estratégias metodológicas dos antropólogos e dos psiquiatras que querem indagar as emoções humanas. Na sua opinião é evidente que as sociedades “menos desenvolvidas”. da expressão e da experiência emocional individual. A este respeito. psicologias culture-bound. propondo-se como as únicas com validade científica. Neste sentido. pode assim acontecer que se reproduzam formas de racismo cultural. o psiquiatra Andrew Cheng (2001) chegue a afirmar que além da interpretação. As minhas investigações nos serviços de saúde mental específicos para migrantes. comportamentos. reproduzindo assim o risco de guetizar os imigrados. com inteligência escassa só podem ter um conhecimento limitado dos problemas mentais. afirma Fassin. etnopsicologias.6 “normalidade” e “anomalia” são consideradas como maneiras culturalmente impróprias de interpretar a experiência humana (Fernando 2003). considerar as culturas como irredutivelmente distintas. podem relegar os outros saberes e práticas para a categoria de psicologias folk. uma das principais revistas psiquiátricas. que podem ser ligadas a “crenças erradas e superstições mórbidas culturalmente específicas”. os conceitos de cultura e de diferença cultural foram empregues de maneira ambígua. assim. de mediação e de confrontação. Em contextos quentes como os das políticas directas aos migrantes. Corre-se.confina os outros numa “diversidade” fechada em si mesma e autónoma.

Nathan utiliza afirmações bastante criticáveis. de facto. Mountain e Koenig 2001. Na palavras de Fassin esta atitude comporta. no seu texto principal (L'influence qui guérit 1994). “um Dogon será sempre um Dogon e um Bozo um Bozo” (Nathan 1994: 219 – tradução minha). postula a reprodução das culturas especificas em guetos fechados em si mesmos e autónomos. em particular. conceptualmente e metodologicamente difícil compreender a heterogeneidade e a indeterminação interna dos sistemas de representações que os indivíduos utilizam para construir criativamente e estrategicamente a própria identidade e as próprias emoções. e de procurar nesta “cultura” a origem e os remédios dos mal-estares dos outros. as instituições francesas deveriam “favorecer os guetos para nunca constranger uma família a abandonar o seu próprio sistema cultural” (Nathan 1994: 216 – tradução minha).7 minhas experiências de trabalho em três centros de etnopsiquiatria clinica posso também salientar que é precisamente nestes serviços específicos para migrantes que muitas vezes se utilizam noções estereotipadas. como um Kabyle com um kabyle” (Nathan 1994: 24 – tradução minha) tendo sempre em conta a identidade étnica dos migrantes. A asserção da coerência das estruturas referenciais baseada numa abordagem essencialista da cultura. torna. ocultando-o. Como na sua visão é a mestiçagem ou o encontro cultural que gera patologias psíquicas. históricas e políticas mais amplas. constituiu uma das práticas e teorias etnopsiquiátricas mais originais – acusando-o de considerar a “cultura” como uma entidade definida. antes em Bobigny e depois no Centre Devereux. confundindo de facto “cultura” com “raça”. porque. Para descrever a ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . do género “é necessário fazer o possível para agir como um Soninké com um paciente soninké. sem considerar as dinâmicas sociais. Fernando 2003). essencializadas e biologizantes de “cultura” e “etnia”. Por esta razão. Nathan. ataca abertamente Tobie Nathan – o etnopsiquiatria francês aluno de Devereux que. qualquer seja a sua história pessoal. Muitos autores realçaram como a frequente sobreposição das noções de biologia e cultura nos programas terapêuticos para migrantes acaba para “naturalizar” as diferenças entre grupos (Lee. o fantasma da Raça disfarçado de Cultura. fechada. Fassin. De facto. delimitada por confins que tornam impossível a compreensão recíproca. que dissocia os cenários locais do sistema mundial assumindo frequentemente posições de relativismo absoluto. continua Nathan. assumindo uma posição rigidamente relativistica. como um Bambara com um bambara.

híbridos. as suas experiências do mal estar. que o antropólogo. as suas interpretações. Os antropólogos que se confrontam com migrantes. como o psiquiatra cultural. poder. sociais.8 complexidade e as mutações da vida social e da experiência individual. emoções. É neste panorama complexo. As minhas experiências de investigação na área da antropologia das emoções na Guiné Bissau e da saúde mental dos migrantes em Itália como em Portugal. pelo contrário. com as suas crises existenciais. Os indivíduos e as sociedades do mundo contemporâneo parecem ser sempre mais envolvidos em uma transição permanente: em lugar de horizontes culturais bem definidos. com elementos periféricos marginais que invadiram os seus sistemas de representação. autoridade e hegemonia. as suas representações. obrigou-me a repensar também o conceito de identidade pessoal e as suas relações com as multíplices ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . familiares. que ofereça espaços de autonomia e de liberdade ao indivíduo. móveis e mutáveis. além de culturais) e bem concentrados sobre os indivíduos em si. conflituais. constroem a sua experiência interior combinando os códigos fundamentais das multíplices visões do mundo às quais aderem. esperanças. já não podem assumir que os indivíduos habitam mundos circunscritos de experiências e significados que dão forma às suas respostas emocionais: os indivíduos. O confronto quotidiano com os migrantes. observando com mais atenção os interstícios. é necessário imaginar uma abordagem diferente. conflitual. rejeitando quer o determinismo psicobiológico quer o sociocultural. as próprias emoções e a própria experiência do mundo. ambiguidades. no qual múltiplos discursos coexistentes entram em contradição entre eles e os problemas sociais podem tornar-se sintomas. encontramos panoramas complexos. as ambiguidades e as incongruências que são partes constitutivas dos sistemas de significado. memórias. da multiplicidade dos factores em jogo (sociais. tem que se mexer. sobrepondo-se à obrigação de pôr as traduções como um problema que é preciso enfrentar e não com uma solução tão rápida quanto superficial. e em particular com o mal-estar dos migrantes. os margens. realçaram a importância de repensar as minhas ferramentas de trabalho para apreciar melhor a heterogeneidade interna dos sistemas de representação que os indivíduos utilizam para construir o próprio self. em particular. O convite é de trabalhar bem conscientes das relações entre conhecimento. os paradoxos. móvel e mutável. políticos e económicos.

conexas a metanarrativas fragmentárias e a sistemas de referência flexíveis (Bibeau 1997: 57). contraditória. revelou-se na minha experiência de investigação um método mais eficaz para compreender como cada indivíduo constrói relações originais com o próprio contexto de origem e com as suas identidades diferentes. assim também em cada indivíduo coexistem sujeitos diferentes: nas palavras de Bibeau. explorados e outras redes sociais percorridas e construídas. atravessados. contradições e sobreposições de valores. Se cada cultura possui uma alma multíplice. Hollan 1997). que fazem de facto referência a esquemas que inevitavelmente produzem quebra-cabeças. Esta abordagem permite de facto reconstruir os percursos de significação individuais e os processos de construção de e de negociação entre as identidades múltiplas das quais todos somos portadores. espaços vazios. a códigos centrais de referência que geram estruturas de representações e cenários pragmáticos que podem ser amplamente caracterizados como móveis. Neste processo de auto-narração os indivíduos reconstroem. na perspectiva metodológica da person-centered ethnography. que se encontra à sua disposição. Reconstruir as histórias de vida dos migrantes através das suas narrativas. Castillo 1997. interpretam e transformam continuamente a própria identidade. do presente como do passado e das mais amplas constrições políticas. permite aos meus interlocutores procurar o sentido do próprio percurso. sociais e económicas que ontem os obrigaram a migrar e hoje os bloqueiam nas margens da sociedade -. utilizando o conjunto amplo e híbrido de representações ou modelos culturais do self. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . por um lado. A narração .9 comunidades às quais as pessoas pertencem simultaneamente. William Reddy fala a este respeito de processos de self-making. gerir as ligações contraditórias 7 Muitos autores salientaram a importância de uma abordagem centrada sobre o paciente (entre os outros. 57 – tradução minha) 7 . selfexploration e self-alteration (Reddy 2001: 32). Outra vez um panorama instável e contraditório com o qual antropólogos e psiquiatras têm que se confrontar: o mundo interior dos indivíduos. mas também da memória familiar e colectiva.não apenas da vida individual. participando de relações nas quais outros grupos e culturas são encontrados. instáveis e transitórios (Bibeau 1997: 55. anomalias. muitas vozes falam nos indivíduos.

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com a própria família e a própria terra de origem e estabelecer relações originais entre as próprias identidades, por outro, revela-se como um acesso privilegiado para reconhecer dimensões “ocultas”, estratégias e interesses políticos e económicos, muitas vezes intencionalmente omitidos ou dissimulados na literatura sobre o argumento, mas importantes para compreender o que acontece quando se passa uma fronteira.

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Antigas afinidades na construção da diferença na diáspora: emigração e o resgate da herança cripto-judaica transmontana 1

Elsa Lechner CEAS, ISCTE elsa.lechner@iscte.pt

Trás-os-Montes é considerada uma região clássica de judeus convertidos, onde, ainda hoje, se encontra viva a memória dessa herança histórica perdida. Entre emigrantes transmontanos em França no final dos anos noventa, a identidade secreta dos judeus convertidos parece ter encontrado um contexto favorável de publicização que ganha reconhecimento crescente. Analisando a alteridade particular existente entre “judeus” e “lavradores” transmontanos, bem como a posição de Outro que os “judeus” ocupam nas comunidades a que pertencem, este texto identifica os factores distintivos das duas categorias sociais que separam uns transmontanos de outros. Visa-se assim compreender a reivindicação de uma origem judaica e os movimentos de resgate de uma identidade de descendente de judeus convertidos.

Palavras-chave: diferença.

Identidade,

migração,

memória,

alteridade,

Entre emigrantes transmontanos em Paris contactados no final dos anos noventa no âmbito de uma pesquisa sobre reconstrução da identidade em situação de emigração 2 , constatámos a presença de uma distinção, nas narrativas de alguns entrevistados, entre transmontanos “judeus” e transmontanos lavradores ou cristãos velhos. O tema dos judeus convertidos apareceu nas entrevistas como um discurso calado mantendo em silêncio, ao longo das gerações, uma distinção identitária pronta a revelar-se no contexto migratório. Comecemos com uma vinheta etnográfica retirada de uma das nossas entrevistas neste terreno:
Quando o barbeiro da minha aldeia morreu, ficámos todos espantados em ver que na sua campa no cemitério, a mulher e
Partes deste texto foram publicadas no artigo “Memória das origens e identidade social. Análise a partir de um caso português” in Encontro de Saberes, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa 2006, pp. 67-83. 2 Tese de Doutoramento defendida pela autora na EHESS, Paris 2003.
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as filhas puseram uma estrela de David em vez da cruz de Cristo. Eu não sabia que eles eram judeus… na minha altura não se falava no assunto…pronto, sabíamos que havia judeus em Trás-os-Montes mas não se falava nisso. Foi aqui em França que descobri muita coisa e segundo o meu primo nós também somos da raça dos judeus. (empresário transmontano em Paris, 1998).

Este excerto de conversa ilustra um facto recorrente entre alguns transmontanos que se dizem judeus por referência a uma “memória das origens” de antepassados convertidos à força ao catolicismo. Refugiados desde os finais do século XVI nas montanhas do nordeste português, estes “judeus” não estão organizados numa comunidade voluntária com um projecto étnico, nem têm uma cultura judaica consolidada. No entanto, e apesar das contingências adversas da história, muitos guardam vestígios e memórias de uma pertença presumidamente judaica que acompanha uma condição de alteridade e diferença nas comunidades a que pertencem. Esta, manifesta-se tanto nas formas de nomeação destes descendentes de convertidos, como na sua posição social, e também num sentimento de si que suscita movimentos de resgate da sua história colectiva e herança identitária. Mais do que “judeus secretos” de Trás-os-Montes”, estes descendentes de cristãos-novos são os guardiães de vestígios históricos herdados em silêncio e a expressão social de uma alteridade que remete os seus protagonistas para uma condição de Outro no seio da comunidade local. A herança do segredo confere-lhes uma consciência de grupo distintiva no meio social em que se inserem, e hoje suscita processos de construção ou reinvenção da identidade que conduzem à tentativa de recuperar sentidos históricos longínquos. Este processo de atribuição de sentido a uma herança perdida origina um diálogo entre identidade e memória exercido em contextos existenciais e políticos concretos que consubstanciam a identidade social dos “judeus” transmontanos.

Alteridade e diferença: nomes, pessoas e “animais analógicos”

Considerada pelos especialistas da história da Península Ibérica como uma região clássica de assentamento de “marranos” (Révah 1959), Trás-os-Montes é actualmente, do ponto de vista etnográfico, ainda o reduto de um passado histórico

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marcado pela presença de judeus refugiados de Espanha após o édito de expulsão de 1492, pelos reis Fernando e Isabel de Castela. Entre um sentido mais erudito e propriamente historiográfico da presença de judeus convertidos no território transmontano, e o significado antropológico da persistência de uma diferenciação de um grupo reportado a uma origem étnica judaica, os diversos termos utilizados para designar os “judeus” transmontanos, traduzem nuances conceptuais relevantes para a análise percorrida aqui. O termo marrano confunde-se com a raiz antropológica da identidade dos judeus convertidos e remete-os para uma condição de alteridade particular. Segundo o estudo clássico de Arturo Farinelli (1925), encontra-se no vocabulário espanhol de quinhentos e corresponde a um termo ofensivo (significando porco, em português) adaptado para denegrir, na época, os cristãos-novos de Espanha e de Portugal. O seu significado de origem parece não se referir à relutância dos judeus em comer carne de porco, mas antes exprimir um sentimento de desprezo com que é conotada aquela palavra também noutras várias línguas. 3 O significado que adquiriu posteriormente configura a adaptação a um contexto histórico que se tornou hostil à presença judaica na Península Ibérica. Forçados a converterem-se à religião católica desde que a Inquisição foi instituída em 1536, muitos judeus foram acusados de práticas de um judaísmo secreto. Vários autores utilizam a expressão “cripto-judeu” para designar membros de comunidades rurais portuguesas nas quais foram identificadas práticas de um judaísmo sujeito a forte erosão pela história de conversão dos seus antepassados. 4 Em Trás-os-Montes, e mais especificamente no Distrito de Bragança, os descendentes de judeus convertidos são apelidados de perro (cão, em português), ilustrando um facto antropológico identificado por Edmund Leach (1964) segundo o qual o uso recorrente de nomes de animais como injúria, cumpre uma função social de imposição de distância entre pessoas próximas. Claude Lévi-Strauss já havia pensado na utilização de nomes de animais entre os humanos, referindo que “… aos cães não damos um nome humano sem provocar um sentimento de mal estar, ou mesmo de pequeno escândalo […] Como animais “domésticos”, eles fazem parte da sociedade humana, mas ocupando uma posição tão baixa que não sonharíamos, seguindo o exemplo de
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Encyclopaedia Judaica, entrada « Marrano », Vol. 11, Jerusalém, p. 1018. Ver nomeadamente, Samuel Schwarz Os Cristãos Novos em Portugal no Século XX, Instituto de Sociologia e Etnologia das Religiões, Universidade Nova de Lisboa, 2000 [1925].

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alguns australianos e ameríndios, em chamá-los como se fossem humanos (…)” 5 (LéviStrauss 1962: 272). Nas aldeias e vilas do concelho de Vimioso, distrito de Bragança, onde coexistem estes dois grupos, mantém-se até hoje o distintivo de “terras de judeus”, aplicado quando se trata de espaços onde se concentraram ao longo do tempo grupos dedicados ao comércio e à indústria artesanal de curtumes (as pelicarias). Na descrição dos próprios sobre as especificidades destes ditos “judeus”, relatam-se as suas viagens pelos montes, montados numa mula, vendendo produtos alimentares e bens essenciais que os lavradores não produziam. Os homens perros eram também artesãos, sapateiros, latoeiros, carpinteiros ou alfaiates, enquanto as mulheres trabalhavam como tecedeiras. Em geral eram letrados e escolarizavam os filhos, ao contrário dos lavradores mais necessitados da mão-de-obra dos seus descendentes nos campos. No final dos anos 90 do século XX, observava-se ainda uma compartimentação no espaço físico da aldeia de Carção, com os comerciantes instalados no centro, na praça, perto da fonte e da rua principal, e os lavradores sobretudo na periferia do burgo, perto dos campos que cultivavam. A organização urbana e a economia política locais exprimem assim uma alteridade em que se foram reproduzindo e perpetuando as posições ocupadas pelos dois grupos de oficiais e lavradores economicamente interdependentes. A par desta estratificação sócio-económica, a população local refere estereótipos físicos e comportamentais que contribuem para reforçar a divisão criada. Os dois grupos auto-distinguem-se atribuindo-se características fenotípicas específicas, sendo a aparência física dos “judeus” associada a cabelos ruivos, pele sardenta e olhos claros. Este estereótipo coincide com a imagem clássica do “judeu vermelho”ou “judeuruivo”, analisada na tradição cristã europeia por Claudine Fabre-Vassas (1994). Eles são o Outro mais diferente dos outros, ou seja uma figura de alteridade extrema, remetida para um limiar de aceitação na fronteira com o animal. Assim, tal como o termo perro constitui uma rejeição linguística daquele que é designado literalmente de “cão espanhol”, o estereótipo físico do “judeu ruivo” traduz a condição de Outro, próximo do animal, a que a tradição cristã sempre tendeu a remeter os judeus. Esta iconografia

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« Comme animaux domestiques, ils font partie de la société humaine, tout en y occupant une place si humble que nous ne songerions pas, suivant l’exemple de certains Australiens et Amérindiens, à les appeler comme des humains… »

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surgiu na Europa medieval expandindo-se numa imagética popular e médica que diagnosticava um laço “de natureza” entre “a raça maldita” e o animal porco. Nos dados etnográficos recolhidos junto de transmontanos, encontra-se este saber estereotipado sobre si próprios utilizado como forma de afirmação identitária e de demarcação. Mas esta não corresponde a uma cultura judaica, fazendo com que o que caracteriza a diferença destes ditos “judeus” é a referência às origens étnicas herdada ao longo das gerações em silêncio. Ou seja, a insistência na demarcação identitária participa aqui do carácter do segredo, que é um saber à parte, de que as novas gerações são depositárias sem conhecer os respectivos conteúdos culturais. O que os interlocutores entrevistados no terreno dizem sobre si é um saber marcado pela dispersão e pela fragmentação de referências ao judaísmo dos seus antepassados. A maior parte fala da sua cultura de converso na terceira pessoa do plural “eles”, para depois dizer, em tom de aceitação ou revelação que “nós também somos judeus” (Lechner 2002). Os mais idosos relatam costumes dos membros “da família de Moisés” como os bradórios ou velórios de quatro e cinco dias consecutivos, em que se acendiam velas em torno do morto, se faziam rezas próprias e se colocavam pedaços de pão sobre os cantos das mesas. Tudo era feito às escondidas dos vizinhos, na mesma lógica de segredo que deu origem à bola tosca e às alheiras transmontanas. O isolamento das montanhas transmontanas, permitiu aos judeus convertidos conservar e transmitir estes vestígios de um passado escondido que reaparece através de rastos e fragmentos etnográficos quase crípticos. Mas a herança do segredo histórico como factor constitutivo de uma identidade social de “judeu”, suscita ainda processos de reconstrução da identidade em forma de identificações com parentescos intelectuais, espirituais, e com novos laços de casamento ou de amizade, para os quais a emigração contribui de forma decisiva. De forma consciente ou inconsciente as novas gerações criam as condições de possibilidade de reconstituição e publicitação deste aspecto importante da cultura transmontana e portuguesa. À semelhança do que mostra Frédéric Brenner no seu documentário “Les Derniers Marranes” realizado em Belmonte em 1990, o que resta desta memória identitária é o segredo histórico transformado em práticas residuais que persistem em segregar o grupo da comunidade. Este efeito de segregação não resulta do facto de se ter tratado de práticas judaicas ou “judaizantes”, num passado longínquo, mas sim da

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que na realidade se perdeu para a maioria do grupo. “do passado já não me lembro e o futuro já passou”. como em Trás-os-Montes. também ela dinâmica. sublinha o facto de que a memória histórica é aqui quase fantasmagórica. a afirmação de uma identidade assenta em identificações continuadas que. se encontram obliteradas no caso dos descendentes de marranos de Trás-os-Montes enquanto “judeus”. As formas sociais e os conteúdos culturais que determinam identidades humanas são complexas e radicam na dimensão temporal. a percepção e a memória conservam uma função ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Trata-se de uma marca de seres à parte.6 persistência das manifestações de um segredo herdado que funciona como marca identitária. Origens e identidade social: vestígios e memórias de uma pertença Qualquer identidade é necessariamente construída por referência a uma alteridade. ao mesmo tempo. herdaram da sua perda histórica O que se encontra hoje no distrito de Bragança. A sugestão deste transmontano de que o futuro da sua cultura está comprometido. Essa a razão pela qual uma reconversão ao judaísmo não é sequer procurada ou desejava pelos que. culturais e políticos específicos. a diferenças categorizadas. que a emigração potencia. que havia frequentado a Sinagoga inaugurada nos anos 1930 pelo Capitão Barros Basto (“O Apóstolo dos Marranos”) e que havia convivido de perto com o rabino. apenas recuperável na pesquisa historiográfica e/ou num trabalho de arqueologia identitária. relatou de forma evasiva os costumes da sua herança afirmando. mais do que de um saber à parte. Mas mesmo quando registadas pela negativa. de forma evidente. diferentes tipos de identidade ressaltam tipos distintos de diferenças e de diferenciações entre o Eu e o Outro. nestes territórios. De um ponto de vista antropológico. Em função de contextos históricos. são vestígios e memórias de uma pertença identitária reinventada de forma pontual a partir de fontes dispersas. Neste caso é a obliteração identitária que é incorporada como traço distintivo dos auto-denominados “judeus de Trás-os-Montes” como ilustra um episódio ocorrido durante o meu trabalho de campo em Bragança onde um entrevistado que me havia sido apresentado como sendo “a pessoa” que conhecia as ladainhas marranas. ou entre transmontanos da diáspora.

e um entendimento da etnicidade como categoria de definição identitária impermeável ao tempo e à história. Esta faz-se de forma personalizada e potencialmente politizada. Não é porque os contextos de vivência das pessoas possam ser surdos ou impermeáveis à experiência privada. segundo a qual a identidade étnica se baseia na crença numa origem comum. que as vozes singulares (ou com ressonância plural) estão impedidas de agir socialmente e de ter consequências práticas na construção da memória no presente. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . no seio da própria comunidade a que se pertence. a par da ausência de uma transmissão transgeracional articulada e continuada. políticos. a intelligentsia bragançana onde muitos se dizem algo “judeus”. É justamente a falta de referenciais tangíveis. É importante notar que a imaterialidade da herança dos descendentes de judeus convertidos não é desobjectivada e não deixa de fazer parte da construção identitária dos seus depositários. Esta última podendo ser a pequena aldeia transmontana de peliqueiros onde o “judeu” é o perro.7 identitária que não pode deixar de ser tomada em conta num estudo antropológico. aqui ressalvar a diferença entre a auto-referência destes transmontanos à origem étnica como fundadora da sua identidade. É importante. ou a comunidade de emigrantes transmontanos da região de Paris. que define esta forma particular de ser “judeu”. O facto de um importante número de transmontanos assumir uma identidade social a partir da crença numa origem étnica judaica. torna-se pois necessário compreender o sentido desta persistência de uma reivindicação codificada por referência a uma herança histórica perdida. onde outros se descobrem ou reinventam “descendentes de judeus convertidos”. ou de ser o Outro. em função dos interesses de quem detém algum poder de publicitação: intelectuais. jornalistas. O comentário em voz off da herança de um passado enterrado no tempo transforma os testemunhos privados de muitos transmontanos numa reapropriação articulada da história que permite a transmissão lúcida no seio da comunidade. torna-se relevante para que a questão das origens possa ser considerada decisiva na definição da respectiva identidade. personalidades carismáticas. Se o que resta aos descendentes de judeus convertidos de Trás-os-Montes é o rasto de uma pertença étnica judaica que se mantém todavia presente na definição da sua identidade social. porém. podemos apoiar-nos na definição proposta por Max Weber (1956). Rejeitando uma visão essencialista da etnicidade. artistas.

Mas a este propósito. passou-se para um domínio público de visibilidade de uma herança colectiva. em que alguns se lançam ao trabalho de tecer os laços desfeitos do passado. dando voz à herança histórica marrana. produziu no Ocidente uma nova maneira de conceber e de pensar a identidade humana. interrogam-se sobre a descontinuidade que os habita tornando-se assim agentes activos do seu ser no mundo. Movidos por uma consciência agudizada em contextos de ruptura biográfica como a emigração. contemporâneas da expulsão dos judeus de Espanha. Os mesmos 500 anos que separaram os judeus convertidos da tradição dos seus antepassados. Este passou a ser palco de uma crescente autonomização das consciências individuais e de uma ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Nomeadamente em Carção e Argoselo. Os casamentos mistos apenas surgiram com as transformações sociais resultantes da emigração. O presente da memória: tecer os laços desfeitos O longo movimento histórico que se iniciou com as descobertas do século XVI. por referência a uma origem absolutamente identificada nos judeus vindos de Espanha depois de 1492. muitas vezes isolado. desembocaram numa modernidade que estabeleceu o princípio da subjectividade como estrutura da relação dos sujeitos com o mundo e consigo próprios (Giddens 1991). O deficit de capital cultural judaico destes judeus baptizados e convertidos ao catolicismo remete. os perros dizem ser “da raça dos judeus”. coincidiram com a emergência de discursos públicos regionais. bem como os efeitos da implementação da democracia em Portugal. Do espaço privado das memórias familiares. de reconstrução da identidade.8 Em Trás-os-Montes. as estratégias de preservação da diferença assentaram em acordos tácitos reproduzidos ao longo das gerações. oferecendo à análise uma categoria que na realidade encobre o que realmente os define como “judeus” e que assenta num complexo jogo cruzado entre identidades históricas e interesses sociais e pessoais. estes escultores do presente. com a preocupação de se tornarem “eles mesmos” num projecto. então. ou crise existencial. e mesmo nacionais. é de notar também que o impacto cultural e económico da emigração. a vivência de um luto. a questão das origens para o domínio daquilo a que chamamos “memórias de uma pertença”.

Num movimento de retorno ao passado e ao mesmo tempo de descoberta de si. de tal modo que. A persistência da sua crença numa pertença étnica judaica contrasta com a descontinuidade entre uma presumida origem “natural” judaica e uma cultura cristã imposta pela história. No sentido de “consciência incorporada” de um corpo-sujeito.saudades. na emigração e em Trás-os-Montes. que reaproxime as distâncias criadas. organizam viagens a Portugal e a Espanha. As fronteiras da identidade e da memória definem uma dimensão quase “natural” dos contextos de pertença dos indivíduos. é em função dos novos contextos multi-referenciais dos nossos dias que a identidade dos descendentes de judeus convertidos se define. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . como o site www. Sob 6 7 Acto de simbolização subjectiva. Estes são espaços tanto virtuais como reais de estudo e troca de informações entre pessoas que se identificam com a problemática da reconstrução de uma identidade de descendentes de judeus convertidos. Neste contexto. que caracterizam os grandes desafios actuais das identidades juntamente com a crioulização global das humanidades contemporâneas (Glissant 1996). e a experiência generalizada de ruptura com tradições.org criado por uma descendente de portugueses cristãos-novos emigrados na África do Sul. bem como congressos anuais onde procuram construir o presente. com vista a garantir o futuro da sua família simbólica. À procura de um sentimento de si enraizado numa história familiar herdada com falhas. se torne necessário todo um trabalho de reelaboração. e porque a identidade é uma relação processual e não uma coisa em si ou uma qualidade fixa de alguém ou de um grupo. ou da criação de uma identidade edificada pela palavra – no sentido lacaniano de parole 6 – e pelo gesto – como sugeriu Merleau-Ponty 7 –. Não conta para os descendentes de judeus convertidos de Trás-osMontes o facto de não se constituírem como uma comunidade voluntária assente numa cultura específica. em situações de ruptura como a conversão religiosa do passado ou a imigração dos nossos dias.9 secularização da vida humana incorporando a aceleração de criação de novidades no quotidiano. e de história do judaísmo na Península Ibérica. É nesta dimensão subjectiva da reinvenção de si. que o sentimento de pertença identitária se consubstancia. Também desde os anos 1990 se observa o surgir de associações internacionais de estudos cripto-judaicos. muitos se reúnem em fóruns electrónicos de encontro e partilha de experiências.

1992.Os Cristãos Novos em Portugal no Século XX. Difel. 1989. Macau. 1925. Revue des Etudes Juives. num outro lugar. João e Nelson Lourenço. PINA CABRAL. LECHNER. Universidade Nova de Lisboa. 1994. pp. Claudine. entrada « Marrano ». “Fonction et champ de la parole et du langage”. 321361. 2002. Instituto de Sociologia e Etnologia das Religiões. João. Gallimard. LEACH. pp. 1966. não deixa indiferente quem assim descobre poder ser o autor de si mesmo e nascer para uma condição humana que ultrapasse o acidente biológico. Firenze. La Pensée Sauvage. Paris. Em Terra de Tufões: dinâmicas da etnicidade macaense. Paris. 11. WEBER. 1962. Marrano : storia di un vituperio. « Pleins Silences ». Jacques. 1956 [1971]. Jerusalém. pp. The University of Chicago Press. 1959. Maurice. 29-77. mesmo que esta última seja uma ruína e o retorno uma viagem. Edmund. Paris. Polity Press. Max. Claude. Écrits. Samuel. Isaac. Num outro tempo. Os Contextos da Antropologia. Introduction à une poétique du divers. Gallimard. Referências Bibliográficas ARENDT. L’unité de l’homme et autres essais. Anthony. GIDDENS. RÉVAH. 2000 [1925]. Gris. 17-27. Modernity and Self-Identity: self and society in the late modern age. PINA CABRA. FARINELLI. CXVIII/1. Economie et société. FABRE-VASSAS. les chrétiens et le cochon. Paris. Hanna. Cambridge. MERLEAU-PONTY. vol. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . 1945. Lisboa. GLISSANT Edouart. Paris. La Bête Singulière: les juifs. Gallimard. Elsa. LACAN. Phénoménologie de la Perception. 1980 [1964]. Gallimard. p. 1993. Instituto Cultural de Macau. Encyclopaedia Judaica. 1925. Plon. 1018. LÉVI-STRAUSS. Plon. pode-se “retornar a casa”. a descontinuidade que atinge os “órfãos de cultura própria”. 1996. Vol. Paris. Paris.10 o risco de uma condição humana “descosida” de si. « Les Marranes ». SCHWARZ. Paris. TheHuman Condition. 1958. Les Gardiens du Secret. Paris. Le Seuil.9. Arturo. Sigila.

Palavras-chave: integração. antes de começar gostaria de agradecer à Associação Portuguesa de Antropologia e principalmente à Prof. históricos e religiosos que funcionariam como factores de integração. para a aparição inesperada de regularizados de nacionalidade marroquina. Assim. religião e comunidade”. num momento de saturação dos países que tradicionalmente recebem imigrantes marroquinos.Participação marroquina na construção da comunidade muçulmana em Portugal ° Rita Gomes Faria Universidad Autónoma de Madrid ∗ rita. XIV (1). “Islam en lusophonie” (2007) com o título “Marroquinos em Portugal: imigração. Vol.gomesfaria@uam. Tecnologia e Ensino Superior (Portugal). Tentaremos compreender se. mais que constatar dados. levou a que diferentes investigadores chamassem a atenção. O interesse pela investigação do fenómeno da imigração marroquina para Portugal surge pela possibilidade de completar o quadro visual sobre Uma versão desenvolvida desta conferência poderá encontrar-se na revista Lusotopie (Brill). A análise dos resultados da regularização extraordinária de imigrantes realizada em Portugal no ano de 1996.es Nesta comunicação aproximar-nos-emos. ° ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . ∗ Esta conferência integra-se numa investigação em curso no âmbito da pesquisa de doutoramento em realização na Universidad Autónoma de Madrid financiada pela Fundação para a Ciência. venho referir hipóteses num momento concreto da investigação. marroquinos. O trabalho que hoje apresento integra-se numa investigação em curso sobre a integração de Portugal na rede transnacional de imigração marroquina e sobre a permeabilidade da fronteira luso-espanhola por parte destes sujeitos migrantes. religião. de forma muito sucinta. Portugal pode constituir uma alternativa considerando alguns elementos sociais. imigração. ainda que subtilmente. Nina Clara Tiesler pela possibilidade de participar neste Congresso. ao fenómeno da imigração marroquina em Portugal. Muito bom dia. comunidade.

observando desde a perspectiva espanhola. dos quais 778 estão contabilizados pelo Serviço de Estrangeiros e Fronteiras português como detentores de uma autorização de residência e os restantes de autorizações de permanência. Pela existência de uma relevante bolsa de imigrantes marroquinos irregulares que não se encontram contabilizados pelas instituições oficiais. os imigrantes que tradicionalmente se dirigem para Portugal são originários dos chamados PALOP e do Brasil. Segundo os próprios sujeitos. mas também pelo facto de Portugal não constituir um destino final do processo migratório. o acesso a um documento oficial que lhes permita uma residência legal em Portugal (inclusive para aqueles que esperaram os dez anos necessários para receber a 1 A única investigação até agora realizada sobre o tema encontra-se publicada: CABRAL 2003. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . a população marroquina seja uma das mais importantes dentro da comunidade imigrante. Bélgica e a Alemanha fecham as suas fronteiras à imigração. principalmente de Marrocos. Marroquinos em Portugal Ainda que se encontre relativamente perto de Marrocos e que no seu principal país vizinho. Como sabemos. mas as regularizações extraordinárias dos anos 90 apontam para um fenómeno que posteriormente se confirmou com o processo de pedidos de autorizações de permanência do ano 2001: por um lado a nova presença massiva em Portugal de cidadãos oriundos de países do Leste da Europa. No relatório sobre as migrações mediterrâneas publicado pela Comissão Europeia (Fargues 2005). o Ministère des Affaires Étrangères et de la Coopération marroquina contabiliza 2866 marroquinos a viver em Portugal. Discutindo a questão com alguns dos informantes desta investigação eles próprios se negam a acreditar na sua validade.2 imigração marroquina na Europa mas também. Holanda. por nos parecer que Portugal poderia ser a sequência directa da evolução do fenómeno – tal como Espanha e Itália vão estabelecer-se como destinos para estes migrantes no momento em que países como a França. Espanha. em Portugal a questão da imigração marroquina constitui uma novidade. também Portugal parecia ser a alternativa lógica a uma certa saturação do mercado espanhol 1 . e por outro a aparição e crescimento (constante mas discreto) de pessoas provenientes do norte de África.

pais onde a maioria tem família já instalada. Por essa altura dirigiam-se a países do Médio Oriente e da África ocidental. de assentamento e de diversificação de destinos. Alemanha. Holanda. e principalmente a partir do boom económico do pós-II Guerra Mundial. Os países do norte e centro da Europa mantêm um único canal de imigração aberto através do reagrupamento familiar (primário e secundário) o que provoca por um lado uma estabilização das populações. Já no século XX.de recepção de imigrantes muito limitada). que vão abrir os primeiros canais de imigração (pendular) massivos. C) mas as principais saídas são provocadas pela assinatura dos primeiros acordos de mão de obra entre países como a França. e para Espanha e Itália que demonstram ser regiões nas quais era possível (principalmente devido à inexistência de uma legislação relativa aos movimentos de imigração) a permanência daqueles que não conseguiram passar as fronteiras do norte ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Os primeiros marroquinos que chegam à Europa são comerciantes que se instalam em França e em Inglaterra pela metade do século XIX.3 nacionalidade) permite-lhes atingir o seu objectivo final que é a “verdadeira Europa” – França. a Holanda e a Bélgica. vários são os acontecimentos (simultâneos) que “empurram” os nacionais marroquinos para os países europeus: A) a guerra de independência argelina provocou o regresso a França das empresas instaladas na região norte da Argélia. A imigração marroquina na Europa Os movimentos migratórios marroquinos remontam a épocas anteriores ao período colonial. Os anos 70 do século XX assistem à grave crise de petróleo que provoca o fecho das fronteiras europeias e o inicio da chamada “imigração zero”. a Alemanha. Como alternativa os trabalhadores marroquinos dirigem-se então para países como a Líbia e a Arábia Saudita (com uma capacidade . O fenómeno entra numa segunda fase. Marrocos vive um momento de explosão demográfica o que acentua um certo desequilíbrio entre a população e os recursos naturais e económicos do país. o que levou ao seguimento dos trabalhadores rifenhos para o território francês. B) durante a mesma época. atrás dos seus empregadores.de recursos e de interesse político . e por outro o aumento das entradas irregulares.

formam-se claramente por indivíduos que não ultrapassaram a fronteira com França e que ficaram a trabalhar na Catalunha (que no final dos anos 70 indicava um aumento da industrialização e que por isso agradecia estes novos trabalhadores). tendo o governo marroquino como interlocutor do outro lado do mediterrâneo 4 . O potencial integrador Por outro lado. levou-nos a pensar que Portugal poderia ser o próximo passo. “Acordos com Marrocos”. Nestes anos 70 e 80 Portugal ainda não era considerado um destino mas a crescente politização e mediatização (além do tratamento negativista do tema que os media espanhóis estão a desenvolver e da preferência pela imigração originária da América do sul e de países do leste europeu) da questão migratória que verificamos a partir dos anos 90 em Espanha 3 . também. inicialmente que Portugal poderia (potencialmente) como um destino alternativo baseando-nos em alguns supostos que poderiam funcionar como meios de integração positiva dos marroquinos por parte dos portugueses: A) uma certa construção da identidade nacional baseada na capacidade de adaptação ao outro resultante da experiência histórica do contacto cultural (na boa tradição do luso-tropicalismo). edição de 26-01-1993. “Portugal e Marrocos inauguram cimeira anual” edição de 30-05-1994. 4 Ver por exemplo Público. consideramos. como David Lopes (responsável pela institucionalização do arabismo em Portugal) No caso espanhol os primeiros assentamentos de marroquinos realizam-se na Catalunha. D) e por último a forma como os últimos governos portugueses têm tentado recuperar estas distintas tradições para a construção de um papel de mediador politico entre a Europa e o mundo árabe. 1993. Cardeira da Silva recorda numa publicação recente (Cardeira da Silva 2005). 1994. A imigração foi muito utilizada pelo PP como instrumento n luta económica e politica com o governo do Reino de Marrocos em debates sobre distintas temas. 1997. C) a recuperação da presença “árabe” no território e identidade portugueses através da redignificação dos espaços arqueológicos do Al-Andalus. B) a tradição do arabismo português que procura aproximar-se da academia europeia orientalizando parte do próprio território português. Público. página 9. 3 Visível principalmente durante o governo do Partido Popular que assumiu a luta contra a imigração irregular como um dos seus principais papéis ante a União Europeia e para tal a imagem da patera como metáfora dessa irregularidade.4 economicamente mais vantajoso (Teim 1996) 2 . Ver TEIM 1996. página 24. 2 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Público. como por exemplo a pesca. “MAI de Marrocos em Lisboa” edição de 17-05-1997. página 2-3. Ver também o jornal Público nos dias posteriores aos atentados de Madrid de 10 de Março de 2004.

uma nova fase de imigração caracterizada por novos padrões de imigração independentes do passado colonial. Castro Verde. Castro Marim. nessa encruzilhada entre a Europa e os países árabes. de ponte de diálogo que a proclamada genética diversa (árabe. judaica e crista. Cacela Velha. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . a presença dos próprios portugueses em Marrocos e a presença dos portugueses no Oriente. num multiculturalismo tolerante que ascende à idade média) permite. E como no pós-25 de Abril de 1974 o processo de reconstrução nacional e de desenvolvimento económico regional passou por uma exploração do potencial turístico e económico que os vestígios e a herança árabes poderiam implicar. A nível local. Até que ponto esta recuperação da essência árabe na identidade nacional leva a uma real facilidade de integração dos árabes (marroquinos) contemporâneos que escolhem este pais para residir? O contexto de integração Os imigrantes marroquinos que se encontram em Portugal enquadram-se perfeitamente como sujeitos do que Tiesler (2005) chamou a pós-descolonização. Mértola. Lagos e Sintra. E a nível nacional diversos governos portugueses. Mértola abriu caminho para que as regiões norte e sul do país se apercebessem das vantagens da reabilitação de material arqueológico sempre sustentado por uma promoção turística do mesmo através da escenificaçao da vida quotidiana em feiras e mercados da época do Al-Andalus.5 definiu o Portugal histórico através de três dimensões “paranacionais”: a presença dos árabes na Península. exteriores ao mundo lusófono e integrados em trajectórias migratórias globalizadas. procuraram personificar o papel do mediador de conflitos. mas também uma dimensão política de encontro com os países árabes do mediterrâneo 5 . associam a redignificação da imagem dos árabes na história e identidade nacionais servindo por um lado uma folclorizaçao e reinvenção da memória. Aí se encontra o stock identitário tradicional que se pode conjugar com o imaginário do exotismo árabe economicamente operacional. 5 Fez e Marraquexe transformam-se nas cidades guardiãs de uma identidade que pode ser explorada economicamente para aproximar-se do ideal imaginário dos portugueses. Silves.

uma instituição constituída principalmente por indivíduos oriundos das antigas colónias portuguesas que se esforçaram desde o inicio na construção de uma relação positiva e apolítica com o Estado e com a sociedade de acolhimento(Tiesler 2000). Os anos 90 observam uma diversificação das origens dos imigrantes muçulmanos mas estes “pioneiros” permanecem como porta-voz da comunidade. e em muitos casos o seu próprio percurso individual é marcado pela transnacionalidade.que em muitos casos desenvolvem paralelamente actividades económicas (Freire 1999).6 O colectivo com o qual trabalhamos nesta investigação é constituído por pessoas que seguem um padrão de imigração por imperativos económicos. este Islão como fenómeno mundializado encontra-se sujeito a fenómenos como a individualização da relação com a religião e a comunitarização do grupo religioso.numa adaptação à nova realidade através de subalternização da etnicidade. As relações que os nossos informantes constituem no pais de acolhimento são circunstanciais partilham elementos étnico-culturais que contextualmente os afirmam a todos como marroquinos mas existem numa distância já que entre os diferentes indivíduos ou colectivos não se criam tecidos que os unam a todos como comunidade em Portugal. Participação na comunidade islâmica Quando os marroquinos chegam a Portugal encontra-se já constituída a Comunidade Islâmica de Lisboa. o circuito da imigração e a forte mobilidade vivida por todos os sujeitos levamnos a participar da comunidade transnacional marroquina – quase todos têm membros da unidade familiar dispersos pelo mundo. No entanto. os imigrantes económicos irregulares e os estudantes . Estes grupos não são uniformes. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Dentro do universo dos marroquinos que vivem em Portugal podemos encontrar distintas categorias: os imigrantes económicos regularizados. como Roy (2003) afirmou. No entanto. principalmente pela Europa. As trajectórias da maioria dos informantes caracteriza-se por uma forte mobilidade e em geral a sua presença em Portugal está marcada por uma temporalidade associada a um objectivo. elaborando agora um discurso universalizante do Islão e integrador dos distintos membros da umma (Mapril 2005) .

Os sujeitos elaboram um discurso politico sobre a realidade da mesquita central que é o local de reunião de africanos e indianos e não de árabes ou magrebinos. principalmente feminina. O facto de representarem uma diferença em relação aos representantes dos muçulmanos em Portugal. O espaço da mesquita de Lisboa não se traduz num elemento catalizador das sociabilidades e configurações identitárias destes marroquinos que vivem em Lisboa. Existe uma dissociação para com as actividades da mesquita central e para com o culto o que impede uma prática religiosa quotidiana. Ainda que a participação na vida religiosa da Mesquita Central de Lisboa seja praticamente nula. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .7 A vivência dos marroquinos em Portugal provoca uma transformação na sua religiosidade – na forma como estes indivíduos vivem a sua relação com a religião (Roy 2005). distinta e imediatamente associável à religião islâmica. em pequenos locais de culto nos arredores de Lisboa (como no caso do local de culto de Forte da Casa) ou noutras regiões do país é mais activa (como é o caso do local de culto de Faro para cuja criação há cerca de quatro anos diversos imigrantes marroquinos participaram activamente 6 ). O sistema de estratificação de género em Marrocos define que o projecto de vida feminino é dependente do masculino 6 No Verão do ano 2005 a Comunidade Islâmica de Lisboa não tinha sequer informação da sua existência. não impede a sua integração na comunidade a nível local. O lenço é instrumentalizado por algumas destas mulheres de múltiplas formas numa estratégia de integração na sociedade de acolhimento mas também de manutenção de direitos e de um determinado estatuto num contexto diverso ao da sua sociedade original. Visibilidade e religiosidade feminina Segundo os próprios informantes há um outro elemento que os distancia da comunidade islâmica portuguesa: uma imagem exterior. para o caso da mulheres marroquinas em Espanha. Ramírez (1998) refere. Observa-se um distanciamento do principal protagonista do Islão em Portugal – a Mesquita Central e a Comunidade Islâmica de Lisboa (com cuja identidade e discurso não se sentem identificados) – e uma privatização do Islão ou uma participação em comunidades religiosas particulares. como o contexto de saída condiciona uma situação determinada da mulher no país de imigração.

auto-orientalizam e personificam a imagem de árabo-muçulmanas nas festas “árabes” e nas feiras de artesanato oriental regionais que se realizam principalmente durante o Verão e que fazem reviver. muitos deles em situação de irregularidade ante a legislação portuguesa. numa tentativa de conjugar fidelidade às origens mas também modernidade e autonomia pessoal. Outras. Por outro lado Abranches (2005) observa em Portugal como as mulheres muçulmanas imigrantes utilizam as transformações características da sociedade ocidental na (re)construção das duas identidades. por exemplo. podendo a condição feminina ser estrategicamente manipulada. e “mercadorizam”. num contexto de incorporação ao mercado de trabalho (subalterno) referem como o lenço lhes permite participar e auxiliar a economia familiar. com o inicio de processos de reagrupamento familiar. No entanto até há três anos atrás parecia que este fluxo estava a entrar numa segunda fase. a época da presença árabe em Portugal. principalmente as que não realizaram um trajecto imigratório individual e cuja presença no terreno da imigração resulta da reagrupamento familiar. Este país continua a ser manipulado como um passo num ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . No entanto estes sujeitos parecem mais interessados na participação na comunidade muçulmana transnacional do que na construção de uma comunidade em Portugal. Algumas mulheres. O reduzido número e a dispersão territorial dos nacionais marroquinos que vivem em Portugal dificulta a constituição do que se pode chamar uma comunidade de marroquinos no país. O colectivo de marroquinos que vive em Portugal ainda é maioritariamente constituído por homens. instrumentalizam o papel da mulher muçulmana de forma a recuperar direitos que consideram que estão a perder em contexto imigratório.8 mas parece ser que a imigração permite uma adaptação da condição feminina e das restrições culturais à mobilidade feminina. agora transnacional. O lenço é então utilizado na luta pela recuperação de um papel dentro do espaço íntimo da casa familiar. com o nascimento das primeiras crianças em Portugal e com a criação das primeiras associações de imigrantes marroquinos. Notas finais Portugal resulta ser um contexto difícil para a imigração marroquina. Algumas destas mulheres.

Vol. todos te perguntam de onde é que és.) se estás ao balcão numa loja que vende coisas árabes. Uma vez com a Karima na rua uma senhora tirou a cabeça pela janela do carro e chamou-nos terroristas... E é que nem pensam que usas o lenço porque és muçulmana. não representa para estes indivíduos um colchão interessante de integração. 2003. é só sair à rua que ficam todos a olhar para mim. Sabes. Alcinda (ed. Ao viver debaixo de uma consciência de temporalidade restrita. não querem saber do que dizem dos árabes. 2005. Lisboa. a comunidade islâmica. (Loubna. pp. 2005. “Mulheres muçulmanas em Portugal: formas de adaptação entre múltiplas referencias” in SOS RACISMO Imigração e Etnicidade. ele é do Paquistão e na mesquita falam todos português.] Eu quero é ir para casa da minha cunhada [França]. FARGUES.. países que constituem. European University Institute y European Commission – Europe Aid Cooperation Office (Euromed). Também esta reanimação do árabe em Portugal parece não servir realmente como aproximação aos árabes contemporâneos que vivem no país. SOS Racismo. Nº 173. ou se vais aquelas feiras onde ela vai com o marido..] Aqui nem o imã da mesquita nos defende. CARDEIRA DA SILVA.[. edições Universidade Fernando Pessoa. 26 anos. Philippe (ed. Imigração Marroquina.. ainda maioritariamente “portuguesa”. 2005. Europa e Islão. Vivências e trajectórias de mulheres em Portugal. Uma informante dizia: (. [. 149-179. segundo os informantes. Maria... a “verdadeira” Europa. há três anos a viver em Portugal) Nesta transcrição podemos observar a distância que existe entre a recuperação da memória histórica do legendário passado árabe na identidade portuguesa e a dificuldade de integração da realidade dos marroquinos contemporâneos que vivem no país. 753-806. como me aconteceu lá em baixo na loja da Fátima [Olhão]. “O sentido dos árabes no nosso sentido. Maria . CABRAL. Porto.). XXXIX (Inverno).. Rapport 2005. Mas aqui no meu bairro [num polígono industrial em Carcavelos]..9 projecto migratório que se quer terminar em França ou na Holanda. Bibliografia: ABRANCHES. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Dos estudos sobre árabes e sobre muçulmanos em Portugal” in Análise Social. Migrations Méditerranéennes. pp.)..

Ideias. policopiado. Mujeres marroquíes en España. 2005. Género e Islam. pp. Nuno Dias e José Mapril. página 9. 2002. Lisboa. Universidad Autónoma de Madrid Ediciones. nº 173. Agencia Española de Cooperación Internacional. 851-873. 1996. Los musulmanes en la era de la globalización. FCSH-UNL. 2003. Paris. página 23. Público. “’Bangla masdjid’: Islão e bengalidade entre os bangladeshianos em Lisboa” in Análise Social. ROY. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . “Imigrantes. página 24. FREIRE. Itinerários para a construção de uma masculinidade. Olivier. Madrid. Público. Maria Lucinda. MARQUES. Atlas de la Inmigración Magrebí en España. Barcelona. TIESLER. Ángeles. Monografia de licenciatura em Antropologia. Nº 173. Transcrição editada da Conferência realizado no FRIDE. MACHADO. nº 24.) New Waves: migration from eastern to southern Europe. pp. ROY. “Immigration to medium sized cities and rural areas: the case of eastern Europeans in the Évora region (southern Portugal)” em BAGANHA. policopiado. vol. PUF. 149-183. 1993. Europa e Islão. Monografia de licenciatura em Antropologia. Fernando Luís. Nina Clara. 827-849. José Gabriel e Susana Pereira Bastos. 1999) Do Yemen ao Dafundo. 2005. TEIM. El Islam Mundializado. edição de 26-01-1993. Évelyne (dir. 2000. 1997. XXXIX (Inverno). 1998. RAMÍREZ. 2005.) A Imigração em Portugal. Práticas e Instituições do Arabismo Português. PEREIRA BASTOS. 1994. “Muçulmanos na margem: a nova presença islâmica em Portugal” in Sociologia – Problemas e Práticas. 1997. pp. José.) L’Europe du Sud face à l’Immigration. 9-44. “Portugal e Marrocos inauguram cimeira anual” edição de 30-05-1994. « Le ‘retour des caravelles’ au Portugal: de l’exclusion des immigrés à l’inclusion des lusophones ? » in RITAINE. Artigos de jornais: Público. TIESLER. 2004. pp. “Contornos e especificidades da imigração em Portugal” em Sociologia – Problemas e Práticas. 273-288. FCSH-UNL. El Islam en occidente: ¿La occidentalización del Islam?.10 FONSECA. pp. Maria Ioannis e Maria Lucinda Fonseca (eds. João Alegria e Alexandra Nunes. Vol. Madrid. MAPRIL.. Os movimentos humanos e culturais em Portugal. Migraciones. Maria Margarida. Lisboa. minorias étnicas e minorias nacionais em Portugal. Olivier. 117-144. Ana Rita. “Acordos com Marrocos”. SOS Racismo. “Novidades no terreno: muçulmanos na Europa e o caso português” in Análise Social – Europa e Islão. “MAI de Marrocos em Lisboa” edição de 17-05-1997. 2005. Ediciones Bellaterra. Luso-American Foundation. nº 34 (Dezembro). Madrid. pp. 2000. Francisco. 91-118. Politique de l’étranger. Nina Clara. hoje: da exclusão social e identitária ao multiculturalismo?” em SOS RACISMO (ed. MOREIRA. XXXIX (Inverno).

A diversidade social. Vulnerabilidade. a prevenção do HIV–SIDA. Imigrantes. diversos de vida e inclusive diferentes sistemas de organização política e administrativa que. orientados para as populações imigrantes residentes num determinado concelho? Qual a importância do trabalho em parceria. a Mutilação Genital Feminina ou a gravidez prematura? No campo da saúde. quando se pretende intervir em áreas como a acessibilidades dos imigrantes ao Serviço Nacional de Saúde. foi alvo de uma alteração profunda na sua morfologia social nas décadas mais recentes. a par da expressividade idiossincrática e das histórias de vida particulares de cada indivíduo. Portugal e em particular a área metropolitana de Lisboa. obrigam a reflectir sobre novas formas de encarar o mundo e soluções mais ajustadas a uma sociedade multicultural. Saúde. técnica na Câmara Municipal de Loures Quais os desafios que se colocam ao Antropólogo quando. como cruzar saberes institucionalizados e hegemónicos com saberes ancestrais explicadores de uma determinada visão do mundo? Palavras chave: Trabalho autárquico. no contexto do seu trabalho como técnico de uma autarquia. tenha a responsabilidade de dar uma resposta eficaz às suas diversas necessidades. se propõe desenhar projectos de intervenção na área da saúde. em particular pela coexistência de populações nacionais e estrangeiras com diferentes origens geográficas. em particular no campo da saúde. Particularidades Culturais e Abordagens específicas no Campo da Saúde Maria Cristina Santinho Antropóloga. cultural e religiosa da população imigrante residente actualmente em Portugal. uma das áreas mais sensíveis na condição de imigrante economicamente desfavorecido. faz com que o país receptor. étnica. Partindo do princípio de que em grande parte dos países de origem dos imigrantes – com particular expressão para os países africanos de expressão portuguesa ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .Contextos Migratórios.

importa-nos aprofundar outros modelos alternativos neste campo. pelos mediadores de saúde que fazem uma ponte entre a sua comunidade de origem e a sociedade de acolhimento – escola ou trabalho. salvaguardando as suas particularidades identitárias e. pelos técnicos que intervêm em programas e projectos comunitários (desde logo antropólogos. num contexto mais global da exclusão social. tem as suas próprias crenças e práticas únicas no referente à saúde. cada grupo. promoção da saúde. Cada etnia. confundindo frequentemente conceitos fundamentais como nacionalidade e origem étnica e prejudicando assim a comunicação em termos de eficácia de utilização dos serviços de saúde. animadores sócio-culturais).2 – os sistemas de saúde de modelo ocidental. tendo em conta as idiossincrasias de cada grupo e os seus problemas relativos às desigualdades no acesso à saúde e outros serviços básicos. é necessária uma formação adequada em direitos de cidadania. sociólogos. surge do facto destas populações estarem sujeitas a muitas desigualdades sociais. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . e interculturalidade. sem esquecer as mulheres da comunidade e os líderes religiosos. pelos líderes das associações de imigrantes locais. eram (e em muitos casos ainda são) praticamente inexistentes. assim como os seus recursos comunitários para a prevenção de certas doenças e cura de males comuns. face à nova realidade que estão a viver. É necessário que haja uma acção concertada entre todos. religiosas e cívicas que fragilizam o seu estado físico e psíquico. A necessidade de se promover uma abordagem específica no campo da saúde das comunidades imigrantes. a intervenção médica de modelo ocidental. Por conseguinte uma das abordagens que se pode e deve fazer. económicas. A promoção da saúde deverá por conseguinte ser levada a cabo não só pelos profissionais de saúde – médicos e enfermeiros – mas também de forma concertada e em parceria. formação esta que também deve ser partilhada por cada um destes actores culturais. sem tomar grandemente em conta os padrões culturais específicos de cada grupo cultural. é uma abordagem localizada. culturais. psicólogos. que estabeleçam a ponte entre a necessidade de apoio sentida pelos imigrantes no campo concreto da saúde. nalguns casos. enquanto abordagem no domínio da promoção da saúde e prevenção da doença. A questão da saúde dos imigrantes tem sido encarada de uma forma geral.

Quase inevitavelmente manifestada através de numa crónica acumulação de desvantagens sociais. religiosas e simbólicas próprios de cada comunidade. ainda estão no domínio dos dados empíricos ou do conhecimento de alguns estudantes. somos levados a ter em conta as circunstancias que pautam a vida da maioria da população imigrante e consequentemente condicionam a sua saúde. desadaptação. traduzindo a importância dos valores e práticas culturais. teremos que analisar se intimamente estamos dispostos a intervir com acções concretas e pragmáticas. distúrbios mentais. Factores como o índice de morbilidade. Assim sendo. natalidade. mental.A principal razão que leva um indivíduo ou uma família a emigrar.3 Como antropólogos. é procurar noutro país melhores condições de vida. tomando o papel de facilitadores entre estas comunidades e os médicos e enfermeiros. sociais. mortalidade. técnicos de saúde ou investigadores que dedicam a sua atenção a casos particulares de bairros onde residem imigrantes. ou incidência de determinadas doenças específicas de certos grupos. segundo a qual: “A saúde é um estado de completo bem-estar físico. Infelizmente a formação cruzada ou mesmo a investigação sobre as características específicas em termos de saúde e doença entre as diferentes comunidades imigrantes ainda não está trabalhada nem sequer ao nível dos simples dados estatísticos. ter boas notas na escola. pois o nosso contributo poderá de facto vir a influenciar a maneira como outros técnicos de saúde percepcionam o contexto cultural dos imigrantes. conseguir consulta no médico. violência. que conduzem estas populações a circuitos de exclusão e que se vão manifestando mais cedo ou mais tarde em frustração. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Tomando como ponto de partida a definição da Organização Mundial de Saúde. dependência do álcool ou alucinogéneos. gravidez prematura. sabemos que uma das características comuns de grande parte da população imigrante é a sua vulnerabilidade. social e espiritual. partimos dos seguintes pressupostos relativamente à população imigrante: . Por outro lado. sentimentos de revolta. em suma: uma fragilidade perigosamente manifestada em quase todos os indicadores dos condicionantes sociais da saúde. manifestadas através de uma maior dificuldade em arranjar emprego de acordo com as suas necessidades. e não apenas a ausência de enfermidade ou doença”.

muitas vezes dependentes da má índole dos empregadores que preferem não regularizar os contratos de trabalho. profissional. remetendo-os para actividades pouco valorizadas socialmente. No desenrolar de cada projecto de saúde a levar a cabo eventualmente por uma parceria técnica de intervenção. instáveis. em relação à forma como se encara o “Fanado. condicionam também a atitude dos indivíduos perante os diversos conceitos de saúde e de doença.Neste contexto. mas também tomando em linha de conta que os próprios imigrantes terão em determinados contextos étnicos. . se é despedida não tem capacidade para sustentar a sua por vezes numerosa família. será necessário abordar cada aspecto.4 . trabalhos de alto risco. em particular muçulmanos. nem tem dinheiro para os medicamentos. de grande parte dos imigrantes constituídos como população alvo de alguns projectos levados a cabo pelos Centros de Saúde locais e autarquias. Esta premissa pode-se verificar por exemplo. Os contextos sociais. mas antes sobretudo de forma holística. limita as suas opções de trabalho. entre alguns grupos étnicos guineenses. Esta prática cultural que tem sido alvo da atenção de muitos meios ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . práticas tradicionais de saúde eficazes para o contexto cultural que as produziu e que obviamente devem ser tomadas em conta pela medicina ocidental. por vezes propensos a acidentes graves. com horários violentos. ou seja: compromete perigosamente todos os projectos e aspirações a uma vida melhor que o levaram em primeira instância a emigrar. a dificuldade no domínio da língua ou a inexistência de certificação de competências. o corpo é usado como principal ferramenta de trabalho. culturais e políticos dos países de origem dos imigrantes. habitacional. sem seguros de risco.. O conceito de saúde e de doença tem uma enorme abrangência e portanto a doença do indivíduo não se pode observar só numa perspectiva clínica ocidental. pois o contexto em que os imigrantes se inserem irá condicionar a sua própria relação com a saúde e com a doença. condicionando assim a sua relação com o bom ou o mau desempenho profissional – a pessoa doente não pode trabalhar (se falta ao trabalho é imediatamente despedida por não estar abrangida na maior parte dos casos pelos sistemas de saúde e segurança social). etc. com certeza diferente do país de acolhimento.” ritual inclusivo da prática da Mutilação Genital Feminina. que implica a relação do corpo com vários contextos: familiar. mal remunerados.A reduzida formação académica. religioso.

como já referimos. deve ser alvo de uma apreciação profunda por parte dos antropólogos. No que diz respeito à população hindú proveniente do Gujarati. pois se por um lado. condicionam as atitudes dos imigrantes perante a doença. a Mutilação Genital não deve ser analisada fora de todo o contexto cultural e ritual que a justifica. a ausência de Sistemas Nacionais de Saúde por vários motivos como a guerra.5 de comunicação social pelas razões mais perversas. existem por exemplo. sabemos da relevância da tuberculose (muito associada a situações de pobreza e carências alimentares por exemplo) e do HIV – Sida e da necessidade de combater esta pandemia. Do ponto de vista cultural. residente no bairro da Quinta da Vitória . com especial destaque para as enfermidades do foro psíquico. levando a medicina ocidental a integrar o valor da medicina tradicional. como pelo facto de muitas vezes serem estes os únicos detentores do poder da cura reconhecidos pela comunidade. que chegou a adquirir forma de projecto-lei e que. É ainda importante mencionar. sobretudo nos países africanos. envolta em mitos. reconhecendo a profunda sabedoria que os curandeiros possuem sobre o uso das plantas para fins terapêuticos. deverá ser abordada como uma prática que põe em causa a própria saúde sexual e reprodutiva da mulher. Passamos a referir apenas algumas: no caso da população de origem africana. crenças e tabús que é necessário entender e contextualizar no ponto de vista antropológico. infelizmente tem estigmatizado grande parte da população guineense residente em Portugal. levando-os a interagir com a medicina ocidental apenas em situações de emergência. a ausência de hábitos de prevenção da doença. que existem de facto fragilidades de saúde directamente relacionadas com as comunidades imigrantes. Por outro lado. é necessário ter em conta a importância das curas tradicionais praticadas pelos curandeiros. É pois necessário abrir o leque de conhecimentos e de práticas médicas. tendo em conta a importância do trabalho em parceria com as associações de imigrantes e seus lideres religiosos. em território português. tanto pela importância que estes indivíduos têm no universo simbólico dos contextos etnográficos. relativizando o próprio relativismo cultural. porque se levantam questões tão delicadas como a sexualidade. colocando ainda em risco de vida as crianças e mulheres que a ela voluntariamente ou involuntariamente se submetem. dados constantes dos ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .Portela. a pobreza ou as políticas governamentais. por outro lado.

Ainda um outro exemplo. Onde se localizam. sobre o modo de vida destas comunidades em território nacional. esta doença é devida ao consumo excessivo de açúcares. as suas práticas relativas à saúde e à doença e a sua expectativa de vida aqui em Portugal. originam problemas cardíacos. problemas dentários. Condições de habitabilidade deficientes. Apesar de sabermos que as ex repúblicas soviéticas tinham uma política generalizada na cobertura da saúde. Um dos vários objectivos no campo quer da intervenção clínica. muitas vezes indocumentados.6 estudos da morbilidade efectuados pelo Centro de Saúde de Sacavém que dão conta de uma alta incidência de diabetes naquela população. ou de dependência das mafias. Contudo. como se relacionam entre si. mais próximo do campo específico da saúde. os seus referentes culturais e em particular. Sabemos através de resultados empíricos realizados por técnicos de saúde das autarquias que. gratuita para toda a população. presente em todas as cerimónias e rituais praticados frequentemente por aquela comunidade (o açúcar é associado simbolicamente à fertilidade e abundância). em condições promíscuas e pouco higiénicas. Em parte. Relativamente aos imigrantes de origem oriental. será necessário realizar outras investigações para o desenvolvimento e implementação de projectos científicos adequados. com quartos de pensão sobrelotados. como são as suas estruturas familiares. considerado pelos especialistas da medicina ocidental como um indicador que é imperioso combater. a fragilidade no campo da saúde está sobretudo relacionada com o stress provocado pela sua condição de imigrantes. e álcool em excesso. metodologias e estratégias de intervenção comunitária. tensão alta. tabaco. havia muito pouco trabalho desenvolvido na promoção de estilos de vida saudáveis. colesterol elevado. alerta para a necessidade de se constituírem equipas multidisciplinares sempre que se definam objectivos. tendo em conta a chegada de novos imigrantes com características sociais e culturais diferenciadas. ainda muito pouco se aprofundou sobre as práticas e o estado de saúde destas populações. distúrbios mentais. promover de forma sistematizada investigação aprofundada do ponto de vista da antropologia da saúde. visa o combate determinado da gravidez na adolescência. quer nos projectos de educação para a saúde que envolvam adolescentes imigrantes de origem africana. seria interessante promover a investigação voltada para os seus hábitos de saúde relacionados com as práticas das terapias orientais e obviamente. Quanto aos imigrantes oriundos de leste. Segundo os médicos que ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .

São elas: tuberculose. pode surgir quando a constituição física da jovem ainda não atingiu a maturidade biológica que lhe permita ter filhos sem por em risco a sua própria saúde física e mental. estes projectos orientados para a intervenção directa no campo da saúde. (homens ou mulheres) e eventualmente os líderes religiosos. violência doméstica. são muito raros os casos que se podem considerar de sucesso. sobre auto-estima. de informação sobre saúde. deverão também ser elaborados em parceria com homens e mulheres da comunidade. a gravidez na adolescência pode não ser um problema para diversos contextos culturais onde os sistemas de parentesco estão dependentes de alianças em que a rapariga assume desde muito jovem o compromisso de procriação. Não é de estranhar que nos bairros de imigrantes onde se faz intervenção comunitária. hipertensão. a participação de representantes das próprias comunidades locais – aqui as associações de imigrantes têm um papel fundamental quando existem. é necessário contextualizar a saúde e a doença no campo cultural. Para além de uma abordagem no campo social. etc. alcoolismo. adaptando-os a novas realidades. esclarecendo também eventuais estereótipos criados pela sociedade ocidental que podem colocar em risco projectos de promoção da saúde sexual e reprodutiva. é contribuir ainda mais para a desestruturação social e psicológica das comunidades e dos indivíduos de origens etnográficas diferentes. hemoglobinopatias. Preferencialmente. em segundo lugar a participação de cientistas sociais em particular de antropólogos e obviamente dos próprios profissionais de saúde – médicos e enfermeiros. tinha. A verdade é que em concreto. referentes às doenças com maior incidência. Para perceber este ou outro fenómeno da mesma natureza. ou quando a opção por engravidar está mais relacionada com uma estratégia de sobrevivência afectiva num contexto de exclusão social. Há pois que saber distinguir as diferentes situações. consumo de droga e. impor a alteração de padrões culturais e de normas de comportamento de forma desajustada. O problema contudo. dentro destas ainda se podem destacar os anciãos. hepatite. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . doenças do foro mental. fazendo uso de uma linguagem comum e dos mesmos referentes simbólicos. integrando saberes diferentes e envolvendo-os nos projectos de saúde institucionais porque. sida. são sempre diagnosticadas características recorrentes. é necessário contar com a contribuição de diversos especialistas: em primeiro lugar. diabetes.7 intervêm nesta área. anti-concepção.

aumentam também cada vez mais as depressões. Porquê? Em primeiro lugar porque o crioulo não é por enquanto. pior ainda: será que alguma vez a tiveram. Ainda apelando à necessidade de enquadramento de Antropólogos em Autarquias. ONG’s e IPSS’s de forma a adequar as intervenções e projectos de saúde directamente dirigidos às populações imigrantes. tornando-os ainda mais vulneráveis? Como estranhar o comportamento agressivo e os actos de vandalismo de alguns jovens de origem africana mas frequentemente já nascidos em Portugal? Não terão eles também perdido a sua própria identidade. numa sociedade que também ela atravessa uma profunda crise de valores identitários? Podemos ainda acreditar na justiça? E na educação? E na saúde? Como poderemos exigir às populações imigrantes que assimilem e adeqúem comportamentos e atitudes sociais nos quais uma grande parte dos portugueses tem dificuldade em acreditar? Entre a população portuguesa. No entanto. foi feito numa Câmara Municipal. uma língua que se escreva ou que se leia com frequência. ou. A população crioula letrada. Darei um exemplo: – Aqui há alguns anos. tendo em conta os conhecimentos adquiridos com base no trabalho de campo e observação participante realizada junto às diferentes nacionalidades e particularidades étnicas. entre a população alvo. ou de comportamentos aditivos com recurso ao álcool ou a alucinogéneos. sobre os perigos da sida e a forma de evitar comportamentos sexuais de risco. a sua aceitação foi quase nula. sabendo que muitos indivíduos provêem por vezes de países em guerra prolongada e pobreza extrema. mas também a procura de estilos de vida alternativos como possível resposta às novas (velhas) angústias. As intenções de dito folheto eram de facto as melhores e o mesmo teve bastante aceitação tendo sido considerado muito original – sobretudo pelos outros técnicos envolvidos na divulgação do referido folheto. Centros de Saúde. um folheto em crioulo para alertar a população africana em geral. espartilhados por uma África que nem conheceram e um Portugal que nada lhes diz e que lhes recusa a nacionalidade portuguesa apesar de terem cá nascido? Porquê a existência de gangs? Não será eventualmente esta a resposta a uma necessidade de identificação grupal. escreve e lê em português. com as suas próprias hierarquias e sistemas de valor simbólicos. É em português ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . os cancros.8 O que dizer do surgimento excessivo de perturbações mentais entre os imigrantes e refugiados.

esse folheto só atingiu uma minoria insignificante de população que teria entendido perfeitamente a mensagem em português. as características culturais de uma determinada etnia em Angola ou na Guiné. Logo. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . não dá legitimidade a um estranho à família. No entanto. e com grandes carências e fragilidades na saúde. Frequentemente. veio-se a constatar que as razões para essa recusa. porque existe uma grande variedade de crioulos. quando transpostas para a necessidade de sobrevivência dos indivíduos imigrantes. residiam precisamente nos tabus do corpo. Esta necessidade tinha sido de facto identificada nas reuniões do Projecto de Intervenção Comunitária que se realizavam no bairro. Apesar de normalmente a população desse bairro ser maioritariamente jovem. em que cerca de 90% da população é de origem africana.9 que se escrevem as cartas para a tia ou para a avó que ficou em Cabo-Verde. ainda que seja médico. relegadas para a privacidade do espaço doméstico ou religioso. os serviços eram sistematicamente recusados. vindos dos países africanos que. integrando os saberes destas comunidades e envolvendo-os nos projectos de saúde institucionais. interiorizadas. ficavam a residir em casa dos seus filhos e aí permaneciam todo o dia sozinhos. Outro caso. e apesar da oferta insistente dessa instituição na comunidade. estavam a chegar cada vez mais idosos. tendo em conta que os seus percursos identitários são mutáveis e bem ou mal. para que cuide de si e muito menos que invada a intimidade do seu próprio corpo. Aprofundando mais as razões que levaram a essa situação e contactando mais de perto com as famílias e com indivíduos dessas comunidades culturais. no contexto de um bairro de realojamento e face à pressão exercida pelas instituições portuguesas. Em segundo lugar. agora relacionado com os tabus do corpo: Num dos bairros de realojamento de imigrantes em Loures. rapidamente adaptáveis às condicionantes impostas pela sociedade receptora. de cada etnia. Mas também considero importante que os Antropólogos olhem urgentemente para as realidades dos imigrantes aqui residentes. que disponibilizava técnicos especializados para prestar assistência domiciliária. ficam diluídas. surgiu uma Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS) que tinha a valência de Centro de Dia para idosos. considero imprescindível valorizar os códigos culturais próprios de cada grupo. Um idoso ou idosa africana. É por estas razões que acabei de expor que.

all). VERMEULEN. racismos. Integração e a Dimensão Política da Cultura. Marc. Colibri. Jorge Macaísta. Rotas de Intervenção. António (et. os Anos da Mudança. Universidade Autónoma Metropolitana. Lisboa. Ministério da Saúde. Exclusão Social. 1998. 2006. 1996. Champ Multiculturel. Fronteras de Pertenencia. decidir se está disposto a intervir nestes contextos migratórios. burocracias e estereótipos. Fernando. para poder PARTICIPAR e INTERVIR de forma útil na melhoria da qualidade de vida e em particular da saúde das várias comunidades de imigrantes residentes em Portugal. Celta. Universidade Técnica de Lisboa. Plano Nacional de Saúde. Transactions Interculturelles. RUIVO.Ed. Hermano (et. 2001. ou paternalismos das instituições onde se enquadra profissionalmente. México. José Machado (et all). Lisboa. Globalização e Migrações. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . 2003. Poder local e Exclusão Social. Lisboa. Imigrantes na Região de Lisboa. Imigração. CABRAL. Direcção Geral de Saúde. Paris.10 Cabe a ainda a meu ver. Hans. Rocio Gil Martínez de. 2005. Introdução a uma Antropologia da Sobremodernidade. ESCOBAR. L’Harmattan. ISCSP. Condutas de Risco. Manuel Villaverde e Pais. Práticas Culturais e Atitudes Perante o Corpo. Lisboa. all).. Fall. Edições Colibri. 90º (ed. 2005. CARMO. Referências Bibliográficas: AUGÉ. Lisboa. Lisboa.) BARRETO. Quarteto Editora. MALHEIROS. 2000. ao Antropólogo. Coimbra. Não Lugares. 1996. Socinova . KHADIYATOULAB. sabendo contudo que não basta nem OBSERVAR. 2004. Imprensa das Ciências Sociais. nem submeter-se pacificamente às regras. Hacia la Construcción del Bienestar y del Desarrollo Comunitário Transnacional.

esquecendo a preocupação com uma fictícia autenticidade e negando uma formulação rígida da identidade e do sujeito. Bordonaro CEAS – Centro de Estudos de Antropologia Social.Valores e ícones da cultura juvenil na Guiné-Bissau: uma abordagem individualista e não-essencialista à dinâmica local/global Lorenzo I. chapéu de baseball e ténis? A partir destas questões da minha experiência de pesquisa na Guiné-Bissau. Palavras-chave: Globalização. sede da administração colonial da Região: é uma zona de contacto. mas pelo contrario é utilizada nos contextos locais para produzir novas diferencias e distinções. Arquipélago dos Bijagós. com mais o menos 2000 habitantes permanentes.no âmbito restrito do Arquipélago . mas também onde Guineenses de outras regiões e comerciantes de diferentes nacionalidades exercem as suas actividades. segundo dinâmicas de migração rural/urbana bem conhecidas 1 Originalmente tratava-se de um posto construído pelos Portugueses. explorar as conexões entre local e global significa na prática etnográfica considerar as ligações que os indivíduos em contextos específicos estabelecem com os significados e os produtos que o seu habitat cultural lhes oferece e que podem escapar uma delimitação espacial precisa. não produz homogeneização. Bijagós. roupas. onde não só Europeus e Bijagós se encontraram e se encontram. viso contribuir ao debate sobre as dinâmicas entre local e global. Guiné Bissau. Sem negar as estratégias geopoliticas e as relações de dominação. Consumo. salientando como a circulação de modas. Estas reflexões têm a sua origem em uma pesquisa efectuada na ilha de Bubaque. A minha intenção nesta comunicação é a de explorar a relevância e a pertinência do conceito de ‘estilo cultural’ (um noção que pertence mais aos Cultural Studies do que à antropologia) para descrever a cultura juvenil urbana em África ocidental. Guiné Bissau. óculos de sol e estilos. mais especificadamente no único pequeno centro urbano do Arquipélago. Bem que seja um pequeno centro. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .como um íman para os jovens das ilhas. a Praça funciona . chamado familiarmente Praça 1 . ultrapassando a dialéctica entre resistência e homogeneização. com jovens rapazes. Jovens. Lisboa lo_bordonaro@hotmail.com Porque é que os jovens Bijagós do centro urbano de Bubaque acham cool andar de gangas.

se adornam: as atitudes. de cumprimentar os amigos. muitas vezes como primeira etapa de uma deslocação mais definitiva para Bissau. É também uma maneira de andar. e das práticas de consumo em geral. Uma das modalidades mais espectaculares de expressão desta diferença. de falar. um estilo que os rapazes chamam cool. a capital do país. De facto a Praça tem atraído nos últimos anos muitos jovens que queriam abandonar o sistema tradicional de produção da aldeia. urbanos. educados. mediada e reinterpretada por os artistas da cena musical Africana e Lúso-Africana em particular. considerado com desprezo como atrasado. os corte de cabelo. Estas interpretações tristo-tropicalistas baseiam-se sobre uma ideia de imobilidade e autenticidade das culturas que a antropologia recusou em nome de uma imagem mais dinâmica. como temos que interpretar estes aspectos da cultura material? A antropologia já salientou muitas vezes nos últimos anos como estes traços não podem ser facilmente considerados aspectos de um processo de homogeneização devido à ‘globalização cultural’. ténis de marca. nomeadamente a cultura do hip-hop. as mais recentes leituras antropológicas interpretam a moda como uma prática social que visa à formulação e a expressão da identidade e a significação de diferenças sociais.2 em África. A relevância dos hábitos. Um dos aspectos mais sobressaliente dos jovens que vivem neste espaço são as suas narrativas modernistas. Weiss 2002). de tratar com as meninas. Ora bem. primitivo e não civilizado. Em particular. a estética do cool em Bubaque tem muito a ver com ícones de sucesso global da cultura negro-americana. Ser cool não é só vestir gangas. para o cuidado do seu aspecto segundo cânones que se referem à uma circulação mais ampla de estéticas e atitudes. todos respondem a uma estética. Definindo-se a si mesmos como “desenvolvidos”. criativa e crioula. os jovens da Praça contrapõem-se ao mundo das aldeias. como também um lugar de acção social e política. é a atenção que os jovens demonstram pela moda. as roupas. para a constituição e como ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . ficaria surpreendido para o cuidado com quem rapazes e raparigas se vestem. chapéu de baseball e absurdos óculos de sol nas escuras noites de Bubaque. Paralelamente ao que acontece em outros lugares em África (Larkin 2000. quem desse um passeio na Praça de Bubaque no Sábado a noite. Em termo gerais. Estas aproximações consideram o vestuário como sinal e como objecto de consumo: um campo de representação social onde identidades individuais e sociais são criadas. caracterizadas pelas oposições próprias da ideologia da modernidade.

pode ser de facto interpretado como mais um signo de distinção do mundo rural da aldeia que os homens jovens querem exibir no contexto urbano. evidente nas palavras dos jovens. Um dos méritos fundamentais desta abordagem. Neste contexto. à moda. é verdade que se nos condenamos o consumo como emulação ou imitação. eficaz para marcar o distanciamento dos valores e hábitos da aldeia.3 marca de identidade. conferindo voz e descrevendo em termos reconhecidos uma dialéctica generacional. e portanto não têm acesso à terra e às mulheres. A iniciação divide a população masculina em dois grupos opostos: os que já adquiriram o estatuto de homem adulto e os que ainda são “crianças”. Sem esquecer as geografias ocultas de produção que também fazem parte das relações sociais de consumo. e movendo para o um paradigma da crioulização. Em particular o conceito de distinção pode dar nos umas pistas importantes. rejeitando firmemente o paradigma da homogeneização global. foi também considerada produtivamente pela antropologia do consumo. As suas críticas baseiam-se na contraposição entre dois termos chave: desenvolvimento por um lado e cultura do outro. No interior das dinâmicas modernistas. adquire um valor especifico e profundamente local. manifestando ao mesmo tempo proximidade com o ambiente moderno da Praça. a cultura da modernidade dos jovens da praça não pode ser compreendida sem referencia à estrutura social das aldeias. de facto. 2 Mas para perceber melhor é preciso dar alguns detalhes sobre o conflito generacional que opões jovens e anciãos. nós denegrimos as capacidades criativas e expressivas das pessoas de apropriar-se e de usar bens estrangeiros para o próprio propósito. As roupas são também um sinal de 'civilização' e de 'desenvolvimento'. O cuidado pela moda. De facto. é que supera a retórica modernista que condena o consumo de produtos globais ou estrangeiros em contextos locais como perca de identidade. Segundo esta abordagem. as características da cultural juvenil que temos salientado. são compreendidas melhor como praticas de distinção do mundo das aldeias e como afirmação de uma identidade urbana e moderna 2 . Para a maioria deles a Praça é o lugar onde alguém tem que se vestir correctamente. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . acho que podemos considerar a pratica do vestir cool em Bubaque como uma forma de apropriação de produtos e imagens com circulação transnacional. a subordinação dos jovens aos velhos é um elemento essencial da organização social: tornar-se ancião é um processo complexo que exige a passagem através vários graus de idade e o pagamento contínuo aos membros das classes de idade superiores. de autonomia e de autenticidade. que visa a considerar esta actividade como uma forma de produção cultural e de construção de identidade. Os rapazes que abandonaram as aldeias para viver na Praça criticam as normas éticas e as instituições “tradicionais” e tentam subtrair-se a estas relações de poder. em acordo com estratégias locais de identidade e de distinção social. A contraposição ideológica entre “tradição” e “modernidade”. quase um palco da modernidade.

não tem a ver nem com o fim da tradição face ao avançar da modernidade. foi proposto nos anos Setenta pelo Center for Contemporary Cultural Studies na análise das sub-culturas juvenis no Reino Unido. vesti os meus vestidos na aldeia em frente dos meus colegas. a noção de estilo como prática significante pode também nos oferecer explicações alternativas e não-essencialistas sobre como a diferença não só é significada e marcada. vi os meus colegas. Moderno e tradicional. mas produzida por essas mesmas práticas em um contexto social. e eles olhavam para mi com admiração. Assim foi à Praça. um rapaz de 17 anos que entrevistei em Bubaque. então fui para a aldeia e percebi que não era possível viver assim para um ser humano. bem como para a construção da diferença e a produção de identidade. alguém fica na rua com o traseiro de fora. Segundo esta abordagem. deu-me um relato extremamente significativo neste sentido: Mas ao final eu percebi que aquela vida [na aldeia] não é uma boa vida. o que eu quero propor aqui é a possibilidade de uma interpretação original deste tipo de características culturais. Aliás. A noção de estilo cultural pode então oferecer uma solução original ao problema da definição de modernidade local e nesta direcção já foi utilizado por James Ferguson na Zambia (Ferguson 1999). colegas. E vi algumas pessoas. o contraste entre ‘moderno’ e ‘tradicional’. Eu percebi que esta coisa é ma. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . uma aproximação sociológica à moda e às práticas de consumo que realça a sua relevância quer para marcar e elaborar um estilo de vida distinto. nem com a imitação de uma cultura hegemónica. onde a noção de estilo como ‘prática significante’ 3 é proposta para explicar como a diferença é activamente produzida e utilizada em uma sociedade. como eles se vestiam… as vezes na aldeia. Sem fazer referências aqui aos que salientaram a função de distinção de algumas prática de consumo (nomeadamente Veblen 1998 e Bourdieu 1979). no seu significado local. De facto. se utilizarmos um conceito que não é propriamente antropológico: o de ‘estilo cultural’. em direcção de uma aproximação performativa e prática às identidades sociais. Comprei a minha roupa. como eles se vestiam (é ta bisti). são duas práticas simbólicas socialmente posicionadas. vender mangas. realizadas (enacted) 3 The notion of signifying practice was initially elaborated in France by the Tel Quel group. O texto fundamental desta abordagem é Subculture: the meaning of style do Dick Hebdige (1979). Eu percebi que não é uma vida boa porque eu vim na Praça. Vim na Praça. voltei para a aldeia.4 Xarife.

construído e cultivado dessas práticas. Afirmar que modernidade é uma questão de estilo não significa dizer que é uma questão de possuir um certo tipo de vestidos. que envolve quer uma deliberada auto-construção quer determinações estruturais.no sentido que nós geralmente damos a este termo . As pessoas sempre vivem naquela área posicionada entre a lógica microsociológica da situação social e as estruturas globais e regionais da economia política. Embora seja verdade que um estilo não é o resultado exclusivo de escolhas individuais e que as pessoas também são limitadas em parte por condicionamentos económicos e sociais. Ser cool para os jovens em Bubaque não é simplesmente um estilo que se pode mudar ou adoptar ao acaso. e. pode bem ser considerada como um aspecto de um ‘estilo cultural’ em quanto conjunto de práticas que significam diferenças e alianças entre as categorias sociais. E é em relação a estes fantasmas que. executadas com êxito’ (Ferguson 1999: 98). um processo motivado de auto-construção: é neste sentido que poderíamos utilizar uma ideia de cultivação de estilo. É uma competência performativa que tem que ser aprendida e interiorizada: é uma estratégia de sobrevivência em uma situação de poder tensa. que vê por um lado os anciãos na aldeia.5 em uma conjuntura social e político-económica específica. um estilo é claramente pelo menos em parte uma actividade. da qual as roupas também fazem parte. não podem não ser ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . um processo em parte consciente como também inconsciente. no horizonte. Isto não significa claro que os jovens recitavam . em conclusão. e os ténis Nike para voltar a vestir uma máscara cornuda e tornar-se novamente 'verdadeiros' Bijagós de aldeia. Os jovens do Praça não eram actores que ao fim do espectáculo tiravam os seus chapéus de baseball. mas que se trata de ‘práticas encarnadas. os óculos de sol. na qual as pessoas improvisam estratégias duráveis e motivadas de auto-construção e apresentação. enfatizando o caractere consciente. A atitude cool dos jovens. O estilo cultural é uma capacidade de utilizar e manifestar signos em uma maneira que posiciona o actor em relação a categorias sociais relevante. deixando espaço para identidades mais autênticas. os fantasmas da Europa e do Ocidente.e que o seu teatro terminava ao fim do dia. um aspecto importante da cultura material dos jovens. por outro o Estado pós-colonial. Não se trata de manter que os indivíduos flutuam livremente num oceano de signos que eles podem apropriar e utilizar a vontade para se construir uma identidade ad hoc.

1979. Brad (2002). fascinados e seduzidos pela materialidade das coisas. FERGUSON. Amherst (NY). WEISS. Berkeley. Prometheus. com a qualidade material das coisas em si. Cahiers d’Études Africaines. LARKIN. mas indivíduos vivos. Dick. 1979. que não são só actores sociais cientemente utilizando signos de distinção. Myths and Meanings of Urban Life on the Zambian Copperbelt. Les éditions de minuit.6 salientado. James. Critique sociale du Jugement. Globalization and Urban Experience in Nigeria”. na articulação e na dialéctica entre apropriação e sedução. Expectations of Modernity. 168 (XLII-4): 739-762. The Theory of the Leisure Class. Acho que é exactamente neste ponto. que a investigação sobre a cultura material tem que focar a sua atenção. 2000. 93-124. 1. Referências bibliográficas BOURDIEU. mas tem também a ver com fascinação e sedução. mais criticamente. “Bandiri Music. Por outro lado nos permite. questão que não acaba de suscitar debates. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . University of California Press. 1999. Subculture: The Meaning of Style. Esta abordagem nos permite por um lado dar uma imagem mais concreta e realística dos jovens. “Thug realism: inhabiting fantasy in urban Tanzania”. VEBLEN. Pessoas com um gosto. HEBDIGE. Paris. Brian. Thorstein. pelo seu caracter estético. questionar e investigar a origem do valor destes aspectos da cultura material. um aspecto que nos permite de adicionar mais uma perspectiva à puramente semiótica até agora salientada. um sentido da beleza. La distinction. Methuen. London. Cultural Anthropology 17(1). 1998 [1899]. Pierre. A relação que os jovens têm com a materialidade das coisas não é só puramente semiótica.

Porto ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Universidade Fernando Pessoa. Centro de Estudos de Antropologia Aplicada.IV – Capítulo Processos de Integração Social e Económica de Imigrantes Textos de comunicações do painel: Processos de Integração Social e Económica de Imigrantes Alcinda Cabral.

acquistions and strategic alliances are multiplying everywhere. the human sciences gains a new dimension. jurídicos e comunitários. para tanto. importante traçar-se panorama deste individuo pertencente a este coletivo com o intuito de se proteger com políticas públicas efetivas a devida integração na sociedade que o acolhe sob vários enfoques. Antropologia Jurídica. não integrando de forma plena e efetiva aquele ser humano oriundo ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Cidadania. envolvendo a integração de todas as atividades ao longo cadeia de valores sociais. Fusões. juridique and with your community. as ciências humanas ganham nova dimensão. Neste contexto.Centro de Estudos em Antropologia Aplicada . Within this context. De inicio a figura do imigrante encontrava-se relacionada à figura de trabalhador.Cidadania e o Homem: construção de uma sociedade integrativa Carlos Luiz Cerqueira Junior CEAA . encompassing the integration of all activitis related to the social vlue system. Existia.Porto Portugal carlosluizjr@terra. a sociedade que o acolhia não solicitava a adesão a seus valores. A busca da competitividade relaciona-se cada vez mais com a busca do ótimo sistêmico das fronteiras da cidadania. sociedade. Introdução Pertinente aos imigrantes brasileiros em Portugal. ethical. éticos. Por este motivo. affecting all society. em especial ao que tange a função desempenhada por este cidadão no mercado laboral. Fusions. Parte considerável destas mudanças relaciona-se com profundas alterações nos sistemas de valores de todos os segmentos sociais. a convicção de que voltaria ao seu país de origem uma vez que sua atividade laboral se findasse. aquisições e alianças estratégicas têm se multiplicado. Imigração. The search for competitiveness is more and more concerned with the search for the optimal systemic beyond citizenship frontiers. Most of these changes are related with deep modifications in the value systens.br Nos últimos anos a economia mundial tem sofrido mudanças importantes. Palavras-chave: Antropologia.com. In the last years the world economy has been changing deeply.

Esses fluxos têm-se alterado em dimensão e direção de acordo com as fases de transição económicas. encontrando respostas para o dilema hoje vivenciado na antropologia jurídica. A Cidadania. vai se convertendo em definitiva. e sobretudo da discussão acerca da cidadania. Todavia. imprescindível situarmos a questão relativa à política migratória travada entre Portugal e Brasil nos últimos anos.2 de outra cultura. relacionando os factores endógenos do país de origem em face da perspectiva de construção de vida digna e construtiva. Nas sociedades modernas tem-se obtido relevo a questão associada aos fluxos migratórios da humanidade. económicos e financeiras não esgotam a pluralidade de motivos propulsores do evento migratório. enquanto fator propulsor de desenvolvimento local. equânime e legal do Estado e da sociedade acolhedora. Assim. I. a aceitação do outro sob o olhar justo. Diante de tais fatos. interagindo com a sua comunidade no intuito claro de trazer-lhe melhoras e benfeitorias. da nacionalidade e do estrangeiro. aos quais se refere como transição migratória histórica à demográfica econômica. desde o momento que sua permanência no país recorrido. seus modos e seus projetos de inserção nesta comunidade tão parecida e ao mesmo tempo tão distante dos hábitos imigrantes. Brasil-Portugal. que invariavelmente desenvolvia atividades para aquela comunidade receptora. reduzido e heterogêneo. em especial àquela migração evidenciada no sentido sul-norte. imprescindível saber o efetivo conceito da importância do ser humano. deseja-se demonstrar o perfil do imigrante brasileiro em terras portuguesas. ou seja. onde se inclui a discussão da ciência em proveito do desenvolvimento social e humanitário. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . traduzindo a função social e política do homem – a esta função se atribui o caráter necessário da delimitação da importância da cidadania como fonte primária desta pretendida estabilidade a que o homem pretende e deseja. em particular ao nosso estudo Portugal. fundamentalmente. cujos factores sociais. Este primeiro grupo que emigra era. assim como delinear seu estado cidadão. o Estrangeiro e sua Política de Integração Diante do panorama atual. qual seja.

através dos quais quase um milhão e meio de pessoas (IBGE:2004) estão chegando anualmente à Europa e América do Norte. portanto. Tais estudos deram inicio na década de 40 (quarenta) quando se efetivou a corrente migratória a Europa. cujo contexto de crise de estrutural nos países de destino impulsiona à procura por outras culturas. cabendo ao país receptor (Portugal) analisar as questões pertinentes ao grau de escolaridade. A isto se deu pelo fato da crescente isenção estatal em desenvolver políticas determinadas de identidade cultural e social do seu povo. uma política dualista. se não poderia o estado criar e sustentar vias de acesso à manutenção da ordem interna. a ruptura do conjunto econômico-social na Europa estimulou a imigração de mão-de-obra menos qualificada. Diante deste cenário. apresenta-se por fator determinante o aspecto social e econômico. a procura de profissionais cuja qualificação se amolda aos padrões internacionais. região escolhida para fixar residências e outros critérios de aderência do imigrante. social e educacional em franco declínio no país. qual seja. em busca de atividades acadêmicas enriquecedoras. muitas vezes opondo-se aquela a esta. em face dos acontecimentos políticos e sociais à época evidenciados. demonstrando determinado enfraquecimento da conjuntura educacional interna brasileira. corroborada pela falta de perspectiva de desenvolvimento sustentável nos países de emigração. justificando a imigração sempre temporária. cujo país submergia em profunda crise política junto ao uma falta de perspectiva de crescimento sócio-económico. diversos estudos foram realizados em Portugal e em Brasil. ao passo que evidenciamos a ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Após o advento da II Guerra Mundial. com políticas de identidade cultural. permitindo a aproximação cada vez mais freqüente da cultura local com o estrangeiro. sempre em busca de melhor avaliar as correntes migratórias firmadas entre os dois países. Acerca dos assuntos. língua e identidade antropológica referente ao caminho sul-norte. leva-se em consideração a clara aparência de culturas. notadamente o Brasil. o Brasil ingressa no circuito das migrações internacionais. Observa-se. aqueles na direção SulNorte.3 O aparente paradoxo dos fluxos migratórios mais recentes. outros recursos não restaram aos cidadãos senão buscar no estrangeiro à sustentação financeira.

programas e estatutos que evidenciam a esta política humanitária. em face da semelhança de cultura. Estudos recentes realizados pelos dois países demonstram duas categorias efetivas de migração. levando-se em consideração os diversos fatores externos que influenciam na reestruturação destes estatutos. a exemplo da própria inclusão de Portugal na União Européia. referente aos profissionais de formação técnica e científica. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . duas correntes diferentes. A saber. cujo efeito imediato foi o reexame das políticas bilaterais com o Brasil visando à adequação da legislação lusitana àquelas impostas pelo pacto comunitário europeu. língua e costumes colonizadores. primeira. não podemos deixar de citar aquelas pertinentes a OPLP (Organização dos Paises de Língua Portuguesa) com significativos contributos na formação de medidas de acolhimento do colectivo imaginário desta comunidade lingüística. cujo interesse nos países desenvolvidos se amoldam na busca de qualificação profissional e acadêmica. vejamos. embora se tenha em mente as adversidades tratadas. havendo clara formulação de estudos. observamos a existência de dois mundos distintos e paradoxais. sempre em busca de equilíbrio das políticas migratórias.4 procura especial por Portugal pelos menos qualificados. perspectivas laborais e inclusão social. em face dos constantes estudos realizados. A segunda. em especial a inclusão do cidadão e do estrangeiro frente à nova ordem mundial – a globalização e os mercados comunitários. mesclando seu conhecimento adquirido com a vivencia em novas culturas. Assim. vários foram – e ainda são – os Tratados e Acordos bilaterais chancelados entre os citados Estados. cujas causas e razões estimulantes à migração se distanciam de forma latente. Passados alguns anos. modernamente se tem um espelho efetivo das correntes migratórias entre Brasil e Portugal. Todavia. ainda continua reflexo da irmandade cultural. racial e lingüística a migração de brasileiros para terras Portuguesas. consubstanciando a sua migração em busca de novos mercados. referente às pessoas sem grau de escolaridade e ou econômico satisfatório.

identificando-se com o país em face da identidade lingüística. seguridade social e saúde pública. A exemplo de tais assertivas. cite-se a excelente lição oferecida pela ACIME – Alto Comissariado para a Imigração e Minorias Étnicas. A isso se dá em face da completa exclusão social do ser humano (do indivíduo) na realidade que o cerca no Brasil. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . natos) e cultural (sociedade diversificada com perspectivas de aberturas de mercado). a política de acolhimento do imigrante sem os freqüentes questionamentos de raça. não se pode deixar de ressaltar o papel das entidades de acolhimento aos imigrantes no esforço em fazer cumprir em território português a legislação comunitária pertinente ao reagrupamento familiar. encontra-se o país envolvido em grave crise de inclusão social ao longo das última duas décadas. ano base 2004). leva o cidadão a busca de novas fronteiras. Estudo realizado por tal entidade revelou que os imigrantes influenciam e enriquecem a pátria portuguesa frente às questões de ordem financeira (65 mil contos investidos no país. ademais.5 Pertinente à primeira situação. o Estado Português em busca de novas tendências de inclusão local do imigrante tem desenvolvido políticas próprias e sérias para o enquadramento da imigração legal. Cabe ressaltar que nem sempre se encontra no país receptor tais políticas dignas e de recepção ao imigrante. centro de acolhimento e frentes próprias de trabalho e inclusão social. cujo intuito é diminuir o sofrimento dos imigrantes que partem deixando sua família no Brasil. buscando a inclusão menos traumática para este individuo na cultua local. A nível europeu. não lhe restando alternativa senão vender de forma irresponsável a sua força de trabalho em países em troca de tratamento sério e digno as condição de cidadão. acreditando realizar em um novo país as perspectivas frustradas na sua pátria de origem. demográfica (povoamento de locais não desejados pelos habitantes locais. palestras. cujo trabalho realizado orienta com cartilhas. Mesmo diante de situações adversas na política internacional. cor e escolaridade. importante que se observe o cenário económico e as perspectivas sociais existentes no Brasil. levando-se em conta. cujo afastamento das classes menos favorecidas ao acesso dos meios justos e honestos de emprego.

retribuindo-lhe com o reconhecimento prático da sua força de trabalho. não mais deixando na marginalidade os agregados da imigração. Outro fator de observação importante na consideração dos imigrantes são aqueles apontados por pesquisas recentes demonstrando a desvinculação entre os índices de violência. violência e usurpação de postos de trabalhos locais pelo imigrante brasileiro. necessidade de se incluir em uma sociedade plural justa. De forma distinta. havendo o favorecimento ao imigrante legal que traga ao seio da sociedade acolhedora aqueles entes familiares (cônjuges e filhos) para a formação da entidade familiar. buscam os profissionais brasileiros qualificados e ou em vias de qualificação um melhor aproveitamento desta política de investimentos e desenvolvimento econômico. Destarte. somente no Brasil encontram-se os investimentos portugueses na ordem de bilhões de euros. trata-se de questão humanitária de fiel recepção dos familiares. com a inclusão de novas perspectivas econômicas. quais sejam. é. pois. emprego e exercício do direito de integração entre os nacionais e os imigrantes. a ruptura entre desemprego. encontram-se os imigrantes integrantes da segunda categoria ou gênero. demonstra-se a urgente necessidade de se delinear o efetivo papel do Estado nas políticas migratórias quando se tem por objeto o imigrante sem qualificação social.6 Com efetividade a este programa. aqueles que migram em busca de melhores condições profissionais e ou em face do melhor aproveitamento acadêmico em Portugal. colocando Portugal na segunda posição de investimentos internos no Brasil nos últimos cinco anos. não havendo dessa forma qualquer vínculo e ou relação direta entre a elevação das taxas de desemprego com a corrente migratória evidenciada. Diante de tais fatos. eis que as causas de sua busca migratória e a retórica desenvolvimentista. buscando na fonte as novas técnicas e meios científicos. qual seja. que respeita as condições humanas. inclusive com investimentos sólidos e altos nos países em desenvolvimento. financeiras e sociais cuja economia local alcançou níveis altíssimos. contribuindo de forma clara na agregação deste ser na comunidade acolhedora. Frise-se que as condições profissionais portuguesas após a sua inclusão no mercado comum europeu se deu de forma alarmante. cultural e ou econômica. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . desejando realizar em Portugal trabalhos de aprendizado.

desenvolvida e próspera. Com referência aos imigrantes acadêmicos. civil. sendo o cidadão aquele ser humano que possui o exercício e gozo dos direitos civis. volta-se a se a realizar as constantes indagações acerca da urgente e necessária diretiva acerca da cidadania. a Europa. buscando a atualização profissional a ser aplicada no seu país de origem. econômica e laboral do estrangeiro. como são conhecidos nos centros de estudos migratórios. eis que a sua satisfação migratória se deu em face da necessidade em melhor aparelhar seus currículos e estudos no exterior. do estrangeiro e do individuo. tem a comunidade de imigrantes brasileiros constituído-se naquela que mais cresceu desde o final da década de noventa até os dias atuais. adquiridos ou natos. Sendo o ser humano aquele capaz de lançar-se em busca de novas perspectivas vitais. em face da concentração secular de boas escolas e centro de estudo. pois estes são inerente dos nacionais. próxima dos grandes centros internacionais e integrante do maior e mais rico continente do globo. convertendo seu conhecimento em garantias de melhores condições de empregabilidade e inclusão profissional. quer se enquadrem no gênero de imigrante sem a devida escolaridade ou integrante do grande sistema de inclusão social no país emigrante (Brasil). inobstante a categoria que possa vir a integrar-se.7 De igual sorte encontram-se os profissionais em busca de novas perspectivas acadêmicas. diametralmente oposta encontram-se aquel’outros que migram frente a necessidade de melhorar suas condições humanitárias. ai se incluem aqueles que buscam na pátria acolhedora o fortalecimento dos conhecimentos científicos e acadêmicos. a exemplo da Constituição Européia que assim o deseja. Assim. necessário se faz a reflexão sobre a necessidade de se admitir a inclusão social. peculiar interesse têm em desenvolver técnicas de aprendizado e melhor aproveitamento das teses e conhecimentos do velho mundo. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . eis que não possuindo grau de instrução e ou condições próprias necessárias para se fazer incluir em mercado de trabalho ríspido no Brasil buscam em Portugal uma fonte de nova vida. consolidando-se como o grande coletivo de imigrantes que povoa o território português. Vislumbra-se que tais pessoas retornam na sua maioria ao seu país de origem. exceto quanto aos direitos políticos. Posta tais questões. novas perspectivas em uma pátria rica. em face da sua inclusão na sociedade. ou seja.

não se pode deixar de auferir que a cidadania é elemento constitutivo da sociedade devidamente instituída e legalmente formada. democrática.8 quer sejam aqueles que buscam um aperfeiçoamento no seu grau de enriquecimento humano. sem fazer delinear para com os seus novos compatriotas as diferenças. buscando no país receptor (Portugal) a pátria que poderá conceder melhor perspectiva de engrandecimento intelecto-social. quer na qualidade de vetor imprescindível a este desenvolvimento. a cidadania do imigrante somente poderá se efetivar quando o Estado reconhecer a necessidade de se desenvolver políticas publicas adequadas à inserção deste coletivo sob o prisma do reconhecimento social via inserção laboral. do esforço de se alertar as novas gerações sobre tais questões que preocupam a sociedade moderna. atendendo-se aos anseios da cidadania? Qual o retorno. reconhecendo o efetivo ajuste desta sociedade sob ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . quer como elemento de desenvolvimento social. eis que somente a adoção de políticas adequadas ao reconhecimento da força ativa em proveito da construção da sociedade que o acolhe o cidadão imigrante poderá sentir-se fortalecido o suficiente para aceitar a integração plena. ao que tange à formação de uma consciência política e social. muitas vezes arrasadores na aceitação do coletivo ante a nova perspectiva de vida por ele sonhada ao chegar na sociedade que o acolhe. em especial a necessidade de cobrança da atuação efetiva e proactiva do Estado e das demais Instituições em favor da formação do Homem? Desta forma. posto que o retrato da democracia nestes países assolados pela falta de investimentos de base e total desrespeito ao homem e a cidadania. Em conclusão. Conclusão Tais questionamentos refletem a ligação do homem como reflexo da sociedade na qual se encontrar engajado. trazendo para o conjunto de análises da constituição de uma sociedade integrada o respeito na elaboração de políticas públicas exigíveis no plano da migração. os diminutivos culturais e o temido choque de costumes. faz-se indagar: é fundamental diminuir a influência do estado na construção de uma nova acepção sobre as estruturas de um novo regime democrático.

Ética.9 o ângulo do imigrante que se insere na comunidade que o acolhe. ed. Madrid. traçando um panorama plausível na elaboração de meios reais para melhor acolher o imigrante brasileiro em Portugal. (1986). Rio de Janeiro. Laércio Dias. (1998). São Paulo. Jorge. (1996). Paulos. MacGrawhill. RAMOS. Ética e Política em Aristóteles: physis. Coimbra editora. ACIME – Alto comissariado para a Imigração e Minorias Étnicas. São Paulo. assim como analisando de forma plena as políticas de acolhimento. edição 2005. La doble moral de las organizaciones. Los sistemas perversos y la corrupcion institucionalizada. Referências Bibliográficas ETKIN. Coimbra. Construindo a cidadania. MOURA. Da Comunidade Internacional e do seu Direito. língua e hábitos similares entre tais coletivos. Civilização Brasileira. Solange. Adolfo. (1996). Rui Manual Gens de Moura. nomos. levando-se em consideração os conceitos básicos de similitude de cultura. Ethos. _______ Imigração: os mitos e os factos. Makron Books e PUC – RIO. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . (1997). VASQUEZ. VERGINIÈRES.

as linhas estruturantes das posiçõestipo assumidas em matéria de imigração pelas diferentes forças políticas em presença. parlamento.Porto cramos@ufp O presente texto apresenta o ponto de partida metodológico e as linhas gerais da operacionalização de um estudo decorrente sobre discurso político parlamentar e integração de imigrantes. o projecto procura identificar. no actual contexto político português. Com particular recurso aos debates plenários. discurso político. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . nas ciências sociais e política. nomeadamente nas vertentes da discussão e tomada de decisão legislativa e do controlo da execução de políticas. aborda o modo como o discurso político constrói a integração de imigrantes. uma explicitação do plano e pressupostos da pesquisa em curso. Estrutura-se em torno de três itens fundamentais: uma abordagem breve à análise de discurso. Centrando-se no discurso político parlamentar. o trabalho abordará não apenas a dimensão da construção ideológica associada ao discurso de cada uma das forças políticas representadas no Parlamento português. análise de discurso. mas também a forma como essa dimensão se cruza com o pragmatismo político-institucional. Palavras-chave: imigração. integração. a decorrer no âmbito do projecto Processos de integração social e económica de imigrantes do Centro de Estudos de Antropologia Aplicada da Universidade Fernando Pessoa. mas atendendo também ao enquadramento do processo legislativo.pt Universidade Fernando Pessoa .Discurso político e integração de imigrantes: uma análise do discurso parlamentar Cláudia Toriz Ramos Centro de Estudos de Antropologia Aplicada . uma apresentação de ideias emergentes de trabalhos recentes de análise do discurso parlamentar. de forma diacrónica. O presente trabalho.

sendo assim este um contributo transdisciplinar. uma apresentação de ideias emergentes de trabalhos recentes de análise do discurso parlamentar. de forma mais lata. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . a antropologia. Do ponto de vista metodológico. tais abordagens subdividem-se numa pluralidade de práticas investigativas. no âmbito dos estudos de ciência política sobre discurso político parlamentar. mas também a sociologia. para os objectivos do presente trabalho. A análise do discurso político A análise de discurso. o segundo. a linguística. para o contexto parlamentar português e para o tema da imigração. 2001a). sobremaneira. encarada na perspectiva das metodologias de investigação das ciências sociais. centrada no modo como o discurso político parlamentar constrói a integração de imigrantes. o terceiro. Ao presente. 2001. Estando esta abordagem na sua fase inicial. terão a acepção de que o discurso é parte da acção social e como tal pode ser estudado. deve ser colocada. Se abordados os suportes teóricos e filosóficos dos diversos modos de análise do discurso encontra-se também uma pluralidade de posicionamentos. corresponde a um vasto campo de estudo que toma o discurso – oral e/ou escrito – como objecto. que não caberá. Em comum. não se pretende apresentar resultados. um breve apontamento acerca da análise de discurso.2 Esta comunicação corresponde a uma notícia preambular sobre essa perspectiva de abordagem à problemática da imigração. não necessariamente contínuas entre si (Wetherell. por relação com o âmbito teórico e temático da antropologia. a psicologia social. referir. no quadro teórico e metodológico das ciências sociais e política. do ponto de vista disciplinar. uma explicitação do modo de operacionalização da presente pesquisa. mas sim o plano que para ela foi gizado e a sua razão de ser. 2001a). a ciência política e as ciências da comunicação usam de forma recorrente a análise de discurso. Taylor e Yates. Esta linha de estudo. O texto que se segue estrutura-se em torno de três itens fundamentais: o primeiro. do contexto social do discurso (Wetherell. 2001. Taylor e Yates. Daí decorre também a análise das interacções inerentes ao diálogo entre os falantes e.

Por um lado. 2006. 2001. cujas características cabe analisar. As abordagens ditas cognitivistas tenderão a procurar aplicar parâmetros de verdade ou falsidade ao discurso.3 A análise do discurso político é. 2004: 6). e ao contrário do que o senso comum frequentemente afirmará sobre o mesmo. Muitos dos estudos recentes baseados nesta abordagem filiam-se. Hansen. Poder-se-ia dizer que a política democrática começa no discurso e por vezes mesmo nele se finda (Chilton. assim. a abordagem ao discurso é entendida essencialmente como uma metodologia. independentemente de referenciais de verdade ou falsidade. 1992) específicas do âmbito da política. a palavra assume um papel nuclear na explicitação de ideias. ressalvando-se a sua maleabilidade a diferentes abordagens teóricas de fundo. ou pouco razoáveis (2004: 199. Outro aspecto salientado pelo autor é o das características de sistematicidade e coerência do discurso político. também uma abordagem em expansão. Todavia. Hansen. numa perspectiva ligeiramente diferente. considerando-o interessante por si próprio. 2006). na captação de adesões. 1 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . porque. em declarações públicas as estruturas e os padrões que regulam o debate político fazendo com que algumas coisas possam ser ditas enquanto outras seriam sem sentido ou menos fortes. Diez. construídas através do discurso. as percepções e as crenças dos sujeitos. Em alguns casos. no entanto. enquanto construção mental ou realidade ideada. nos paradigmas construtivistas e pós-estruturalistas aplicados à ciência política (Adler. Ver. na argumentação e contra-argumentação de causas. em diversos âmbitos da ciência política. Rosamond. na tomada de posições públicas. 1997. “comunidades de discurso” (Porter. Chilton (2004: 21). no contexto da política democrática contemporânea. considerando-o circunstancial ou mesmo Também em Waever: «…a linguagem é um sistema e podemos estudar a sua estrutura como um estrato separado da realidade» (2002: 29). Waever. a análise de discurso pode centrar-se “apenas” neste. Neste sentido. a acção política é o próprio discurso (Chilton. em sentido lato. traduzido). Isto é. Por outro porque. 2001. nos planos teórico e metodológico. Definem-se. 2002). 2004: 6. por relação com o pensamento. Waever afirma 1 : A análise de discurso procura identificar. É corrente que tais análises se centrem no estudo das “estruturas de sentido”.

outras questões. Veja-se por exemplo a afirmação de van Dijk: Para lá da descrição ou de aplicações superficiais. 2002: 30. 2001: 19-20) 2 . Do ponto de vista metodológico este modelo de abordagem releva mais da hermenêutica do que dos métodos analítico-dedutivos. ao distinguir teorias do discurso de teorias linguísticas (Meyer. Esta distinção é também utilizada por Meyer. e analisa criticamente os que estão no poder. in Wodak. São exemplos de estudos desenvolvidos nesta perspectiva. 2001:1. nomeadamente do político./ As teorias linguísticas. por exemplo. embora com terminologia algo diferente. Tirar daí consequências para a acção política é assim intenção expressa. por enquadrar técnicas de análise linguística. tias como as da responsabilidade. centradas em técnicas linguísticas de análise detalhada do texto (Waever. em associação com a ideologia e as relações de poder (Fairclough. traduzido). parte de problemas sociais prementes e consequentemente opta pela perspectiva dos que mais sofrem. Wodak e Meyer. mas também uma larga análise de contexto. este revela uma estruturação interna sólida e continuada. em cada domínio. Em vez de focar problemas puramente académicos ou problemas teóricos. teorias da argumentação.» (Waever. procuram descrever e explicar o padrão específico dos sistemas de linguagem e da comunicação verbal» (2001: 19-20. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . 2001) que publicaram «The semiotics of racism» e 2 A este propósito. traduzido). a ciência crítica formula. Uma outra linha de abordagem define-se no quadro da chamada “análise crítica do discurso” a qual conjugará ambas as dimensões. sobre os discursos de extrema direita na Alemanha (2001: 32). 2001). entre outros: os de Siegfried Jäger. que procuram identificar padrões de conjunto do quadro conceptual do discurso político. Um terceiro aspecto prende-se com os tipos de análise de discurso em presença. Esta escola tem desenvolvido o seu trabalho com relação com a “teoria crítica” e assume posicionamentos normativos. 2004: 201). os de Reisigl e Ruth Wodak (2000. da retórica. 1995. O autor afirma: “Os analistas do discurso estarão mais frequentemente interessados em perceber como um político argumenta do que estarão interessados no que ele diz. os que são responsáveis. O autor contrapõe abordagens “macro”. e os que têm os meios e a oportunidade de resolver esses problemas (cit. traduzido).4 errático. da gramática. Meyer afirma: «As teorias do discurso visam a conceptualização do discurso enquanto fenómeno social e procuram explicar a sua génese e a sua estrutura. a abordagens “micro”. M. dos interesses ou da ideologia.

Finlândia e Noruega. 2005. Tal análise visou justamente identificar e interpretar as posições chave estruturantes do ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Afirma ainda: A análise de discurso trabalha sobre textos públicos. se enquadrada nos enfoques de análise do discurso acima referidos. a partir do qual muito do discurso nacional poderá ser gerado» (2002: 24). Do ponto de vista metodológico. s. (…) Se nos limitamos ao nível do discurso. Numa óptica que se reclama do pós-estruturalismo. Os autores basearam-se substancialmente numa análise da construção das ideias de nação. o modelo desenhado por Waever foi já aplicado ao discurso parlamentar português. às suas intenções secretas ou aos seus planos. o autor chama a atenção para a coerência das representações evidenciadas no discurso parlamentar. traduzido).). no discurso político e parlamentar. de estado e de Europa. cuja aparência de alguma desestruturação interna se dissolve quando se identificam os núcleos de sentido recorrentes que ele comporta (Waever. Rhetorics of racism and antisemitism». Desse ponto de vista. em matéria de investigação politológica. O discurso parlamentar A análise do discurso político parlamentar. para os casos dos quatro países escandinavos – Dinamarca. um bom exemplo é a obra editada por Waever e Hansen (2002) sobre identidades nacionais no contexto da integração europeia. Waever apresenta a tarefa do investigador como «a procura de pequenas constelações de conceitos que produzem um núcleo de sentido. não procura chegar ao pensamento ou aos motivos dos actores. 2002: 26. 2002: 42). ganha todavia novas perspectivas.5 «Discourse and discrimination. a lógica dos seus argumentos torna-se muito mais clara (Waever. não sendo um exercício novo. o discurso populista e o discurso racista. respectivamente sobre identidade nacional e integração europeia e sobre construção do Estado. Em parte. pela autora do presente texto (Ramos. Suécia.d. Este último aborda o discurso do anti-semitismo.

A ideia de que a questão da integração de imigrantes possa ser vista de uma forma particular. observando detalhadamente a estrutura das interacções (inclusivamente as não verbais) estabelecidas na arena parlamentar. Chilton (2004: 92-109) apresenta ainda uma outra abordagem ao discurso parlamentar. Porque a questão é histórica e sociologicamente premente para a sociedade portuguesa. preparação prévia. Discurso parlamentar português e imigração Como foi anteriormente explicitado. A ideia de fundo é identificar no debate parlamentar as posições chave assumidas pelos diferentes partidos políticos e governo relativamente à questão da imigração. segurança e justiça e o discurso de direitos serão também analisados. centrando-se no parlamento britânico e em particular nas sessões de perguntas e respostas (“question time”). para os temas mencionados. por isso. a necessidade de estudar cuidadosamente as estruturas regimentais e informais de enquadramento do discurso parlamentar. o espaço de liberdade. de acordo com a agenda política e parlamentar. eventualmente positiva. procurando a sua correlação com o contexto político e com os posicionamentos político-partidários. Temas circunvizinhos como a nacionalidade. debate corrente nos media). agenda política. a cidadania. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .6 discurso parlamentar. constitui uma hipótese de trabalho interessante mas carece de comprovação. Esta análise disseca o discurso parlamentar num nível “micro”. e bem assim o contexto em que as questões surgem (nomeadamente. a ser isolados e analisados os debates em que o tema é abordado. Estão. são também identificadas e analisadas as alusões à emigração portuguesa. Deste trabalho parece ressaltar. por uma sociedade tradicionalmente de emigração e com episódios muito recentes de fortes fluxos emigratórios. entre outras. o que poderá vir a permitir uma análise comparativa entre os discursos de imigração e de emigração. o presente projecto de investigação decorre do cruzamento do projecto «Processos de integração social e económica de imigrantes» com a perspectiva de investigação sobre estruturas discursivas do debate parlamentar português. o emprego.

lhe possam vir a ser acrescentados documentos resultantes de trabalhos em comissão (e eventualmente registos vídeo de uns de outros). económico e político da União Europeia. poderá. é ainda relevante para a contextualização um estudo sistemático das condicionantes regimentais e do modus faciendi próprio do Parlamento português. em posteriores rondas de recolha de material. todo o processo político associado à integração europeia é relevante para a compreensão do objecto.7 O estudo pretende-se longitudinal. Este desenvolve-se a partir de 1986. os insights da análise crítica do discurso levantam um conjunto de questões que permitem reconduzir a análise do discurso à temática de partida do projecto de investigação. A análise micro. O procedimento que tem vindo a ser seguido filia-se nas linhas gerais da orientação para a aplicação da análise de discurso às ciências políticas como a apresenta Ole Waever (detecção de estruturas de sentido. utilizam-se também materiais complementares do debate público nos media e. A documentação em análise é constituída pelo registo escrito dos debates plenários parlamentares. embora se admita que. Encarado o Parlamento no seu interior. mas é antecedido por toda uma preparação política e legislativa de que os debates parlamentares fazem eco e parte constituinte. enunciada acima. isto é. e uma vez que o fenómeno da imigração em Portugal tem uma forte correlação com a integração de Portugal no espaço territorial. Por sua vez. a legislação relevante sobre os temas enunciados acima produzida no Parlamento. o contexto económico e social de fundo e a identificação dos momentos-chave (“critical junctures”). permitindo assim a detecção dos temas que ditam ou condicionam a actividade parlamentar. na evolução nacional e internacional da imigração. revelar-se de alguma utilidade. marcam os pontos de referência necessários a uma análise diacrónica. como não poderia deixar de ser. Entende-se que a análise diacrónica poderá acrescer à interpretação desta documentação. em fase posterior. Por outro lado. Por sua vez. nomeadamente no que respeita à hipótese sustentada numa análise comparativa. supracitada). no seu tudo. que ainda não foi ensaiada. A análise de contexto carece ainda de uma análise cuidadosa da agenda política concomitante com as iniciativas legislativas e debates parlamentares. para a história da democracia portuguesa. balizando-se entre 1976 e a actualidade. à questão das atitudes sociais e políticas condicionantes da integração dos migrantes e ao debate sobre os modos da ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Para a análise de contexto.

ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . 3 (3): 319-363. 85-100. Siegfried. Security as Practice: Discourse Analysis and the Bosnian War. European Integration and National Identity. Ainda assim. Londres. Critical Discourse Analysis: The Critical Study of Language. The Social Construction of Europe. Londres. Thomas. Antje (eds. Sage. Londres. Knud e Wiener. HANSEN. Michael. 1997. JORGENSEN. No quadro da análise dos posicionamentos ideológicos e das relações de poder. HANSEN. Referências Bibliográficas ADLER. 32-62. Analysing Political Discourse: Theory and Practice. não se assume. Thomas. no discurso político sobre imigração. Taylor & Francis. 1995. 2001. Londres. nas finalidades deste trabalho. CHILTON. Ruth e MEYER. method and politics: positioning of the approaches to CDA” in WODAK. Michael (eds. FAIRCLOUGH. maior normatividade do que aquela que é inerente a todo o acto de investigação científica.) 2001. Londres. Sage. Jorgensen. Sage. 2004. Ruth e Meyer. Thomas. o discurso parlamentar ganhará certamente acrescidas potencialidades de leitura. “Between theory. “Discourse and knowledge: theoretical and methodological aspects of a critical discourse and dispositive analysis” in Wodak. Emmanuel. Londres. a tendência dominante seja a da afirmação da necessidade da integração. Routledge. Michael (eds. Londres. De outro modo dito. Methods of Critical Discourse Analysis. The challenge of the Nordic states. Lene e WAEVER. sendo hipótese plausível à partida que. Londres. “Seizing the Middle Ground: Constructivism in World Politics” in European Journal of International Relations. Ole (eds. Paul. 14-31. 2006. CHRISTIANSEN.). 2001. Lene. Routledge.).8 operacionalização de tal integração. “Speaking ‘Europe’: The Politics of Integration Discourse” in Christiansen. DIEZ.). Methods of Critical Discourse Analysis. Knud e WIENER. JÄGER. Norman. 2001. Antje (eds. The Social Construction of Europe.) 2002. não é também de excluir a hipótese de que a desconstrução desses discursos possa evidenciar atitudes bem mais reticentes do que as que aparentemente emergem da letra do discurso político. MEYER. Longman. Sage.

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o texto propõe um modelo possível de integração social e económica de imigrantes. com sentido prospectivo. Pressupõe a existência de condições económicas. pluralista e dinâmica. a partir do que sabem. o perfil tipo do imigrante em favor da sociedade receptora deve conduzir à reflexão alargada muito para além do que julgam e podem ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . e. em forma de reflexão. sobretudo. Mas a norma tem sido a de fixação de “políticas” de imigração “de cima para baixo”. fundadas em percepções e em interesses parciais e não com base em conhecimentos sustentados sobre o que as populações pensam da imigração e dos imigrantes. para a necessidade premente de se fixar um Livro Branco para a imigração em Portugal. Introdução A imigração constitui uma matéria de enquadramento legal particularmente delicada. vindos do estrangeiro. com capacidade executiva e legislativa. é referência para a fixação de qualquer contrato social. e releva. as tipologias de políticas de imigração que advoga em relação com os espaços sociais com que se identificam as “categorias” dos respondentes. para além do número. descreve-se o que ela opina e percepciona sobre a imigração e os imigrantes. A ausência de uma política de imigração que considere. mutuamente. sociais e culturais de integração daqueles que a representam e não cabe em exclusivo aos decisores. isto é. o País e os que. Apresenta-se aqui um conjunto de opiniões e de percepções sobre a imigração e. procura-se desenhar perspectivas sobre a imigração “de baixo para cima”. nele se radicam. pensam e querem o conjunto de respondentes a um questionário construído para o efeito. encontrarem respostas satisfatórias à instituição de uma política estratégica capaz de servir. No pressuposto de que a sociedade civil.OPINIÕES E PERCEPÇÕES SOBRE A IMIGRAÇÃO: CONTRIBUTO PARA A DEFINIÇÃO DE UMA POLÍTICA DE IMIGRAÇÃO PARA PORTUGAL Rui Leandro Maia Centro de Estudos de Antropologia Aplicada Universidade Fernando Pessoa – Porto A partir do tratamento de um vasto conjunto de informações provenientes da aplicação de um inquérito por questionário a uma amostra da população portuguesa de maior idade.

e do de Viana do Castelo. com um intervalo de amplitude de 46 anos. E essa só se alcança com aceitação e participação social alargada.3 anos.5 por cento.7 por cento.2 aqueles que estão transitoriamente mandatados e.9 por cento. 25.3 por cento e 2. considerando os do ensino pré-universitário. com 12. carece de ampla participação cívica na perspectiva de. Os distritos onde residem estão também essencialmente concentrados pelo Norte do País. e a idade média dos elementos dos 202 elementos do século feminino é de 23. O número de alunos que exerce ocupação / profissão.3 por cento do total.0 por cento.4 por cento. São sobretudo de religião católica. As origens geográficas dos alunos estão essencialmente concentradas pelo Norte do País. Os respondentes nascidos no estrangeiro representam 7.3 por cento. sobretudo em relação ao mercado de trabalho capaz de absorver mão-de-obra possuidora de formação superior. Estão sobretudo adstritos a actividades relacionadas com o comércio e os serviços. todos universitários de cursos de licenciatura em regime diurno ou em regime nocturno. Os solteiros representam 86. sendo residuais os valores referentes a outras categorias possíveis de estado civil. valor elevado e compreensível tendo em conta o estado da economia nacional e internacional e as baixas oportunidades de emprego.6 por cento.8 por cento dos alunos. A idade média dos 98 elementos do sexo masculino inquiridos é de 25. com um intervalo de amplitude de 40 anos. com 15. valores que correspondem à oscilação esperada para os alunos que frequentam o ensino superior em geral.3 por cento.5 anos. seguido do de Braga. com o distrito do Porto em maior evidência. 63. respectivamente. os casados e os que estão a viver maritalmente 9. com 10. 82. com o distrito do Porto em evidência. e do de Viana do Castelo. seguido do de Braga. se associar ao processo imigratório uma política de integração.2 por cento.1 por cento de respostas referentes à não filiação em qualquer credo e.3 por cento. com 7. e os restantes 97. Os alunos nascidos no distrito de Aveiro representam 17. 2. é significativo. ao invés. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .3 por cento do total dos respondentes. com estratégia.3 por cento.7 por cento. em consequência de aqui estarem radicados muitos respondentes por estarem a estudar. 43.8 por cento. uma minoria. 2. com 5. de outras confissões. A preocupação em relação à situação económica é manifesta por 78.

com 1. 21. em ambiente de estudo.7 por cento refere contactar com imigrantes nas terras onde residem quando não estão no Porto e 8. após validação. Um pouco mais de dois terços.7 por cento. e a extrema-esquerda. em número de trezentos. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . foi lançado na primeira quinzena do mês de Março de 2006 a um público específico. O posicionamento manifesto no texto parte do princípio de que as opiniões. Dos que referem ter. As opiniões dos respondentes são aqui literalmente transcritas. com vista à fixação de uma política estratégica. de autorizações e de qualidades relacionadas com escolaridade e com experiência de trabalho. com 0. ou seja. 68.9 por cento manifesta não saber ou não responder sobre a orientação política que os norteia. a maioria. descreve-se o que querem os respondentes da imigração e dos imigrantes para Portugal em matéria de impedimentos. Mas é de relevar que.4 por cento.3 por cento contacta com imigrantes em casa. as percepções e as perspectivas sobre a imigração se relacionam e diferenciam em função e consoante as regiões de origem dos imigrantes. Tem por base empírica a recolha de informações por um inquérito por questionário que. exploram-se sobretudo questões relacionadas com algumas perspectivas sobre a imigração. no trabalho. 70. o centro-direita com 9. respectivamente a extrema-direita. frequentador habitual das bibliotecas da Universidade Fernando Pessoa – Porto.4 por cento. as que estão representadas entre nós com maior acuidade e as demais que. a direita com 21. por isso. não estando tão presentes. uma divisão dicotómica coloca os indivíduos situados à direita e em minoria.0 por cento.6 por cento e a esquerda com 19.3 Quanto à orientação política. em relação à imigração e à integração de imigrantes. considerando. em espaços públicos.9 por cento.1 por cento e o centro-esquerda com 7. dos 300 indivíduos respondentes.5 por cento. Metodologia Esta proposta assenta no princípio de que a sociedade civil deve ser auscultada. simultaneamente. dos respondentes não tem contactos frequentes com imigrantes. apresentados os extremos valores residuais. 39. descreve que eles ocorrem no dia-a-dia. Para além dos elementos referentes à caracterização sócio-demográfica da amostra não representativa colhida.

Discussão de resultados A maior parte dos inquiridos. Essas preferências remetem para a existência de uma consciência sobre a imigração e a necessidade de se adoptarem políticas estratégicas para o País e é sobre elas que este texto reflecte. 19. Os dados apresentados são ainda de nível exploratório primário. dos que dizem não saberem ou não responderem. 20. de qualquer forma. 7. dos que têm menos de 15 anos.2 por cento. permite entender como se posicionam em relação à imigração e ao que pretendem. Uma análise dos discursos dos respondentes.5 por cento.5 por cento. 58. os estrangeiros que querem vir para Portugal. configuram explicações reveladoras de preferências por uma imigração condicionada à existência de um a série de requisitos. uma vez que a investigação de conjunto está ainda em desenvolvimento e terá conclusão prevista até ao final do ano de 2007. por entender ser melhor. Conquanto não exista qualquer manifestação de preferência de fixação dos imigrantes no nosso País pelo seu sexo. há uma manifestação dispersa pelas categorias consideradas sobre se a imigração deve corresponder a determinada faixa etária. face às questões que aqui foram consideradas para tratamento e análise. Mas os restantes 40.0 por cento. e dos que têm mais de 50 anos. para cada uma das opções tomadas. Para os que entendem que os imigrantes devem vir para Portugal entre os 20 e os 29 anos os discursos podem dividir-se em três grupos: ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . seguidos dos que aceitam a imigração em qualquer idade. A maior parte dos respondentes considera que ela deve situara-se nos que têm entre os 20 e os 29 anos.3 por cento. fundamentalmente variável a variável. 2. 37.7 por cento. dos imigrantes.4 também induzam à tomada de posições relativamente ao conjunto de questões contempladas.7 por cento. dos que estão entre os 30 e os 39 anos. 11. 1.7 por cento. dos que têm entre os 15 e os 19 anos. acham que o Estado não deve seleccionar.5 por cento.

0 por cento das justificações aduzidas: • • • • • • • • • • • • • • A população portuguesa está a ficar envelhecida. Porque são idades em que o rendimento/ produtividade no trabalho é maior. com capacidade. representando 7. O que justifica a idade por motivos educacionais. representando 39. Pessoas com ambição e com vontade de trabalhar. daí trabalharem e serem importantes para o desenvolvimento económico do nosso País. como é o caso dos idosos. O que justifica a idade. por cento das explicações aduzidas: • • De preferência. Fase de maior capacidade física e psicológica. São pessoas em início de vida. dos imigrantes a admitir no País por motivos económicos e sociais essencialmente. 2. Idade onde eles podem contribuir para o desenvolvimento do País mais activamente. representando 50. às suas realizações pessoais. E o que apresenta motivos essencialmente associados à vida dos imigrantes. às suas expectativas e ambições. podendo contribuir para o crescimento sócio-económico. Trata-se de uma idade em que a adaptação é mais fácil. Física e psicologicamente mais preparados para o trabalho. supostamente. Porque se encontra em idade de produção. já adquiriram um nível de educação superior à média. relativamente jovem.3 por cento das explicações aduzidas: ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . A entrada de imigrantes jovens e com formação superior e conhecimentos é uma mais-valia para o País. 3. que querem ganhar dinheiro. para trabalhar e não para ter qualquer tipo de ajuda. à partida. Contribuir para o desenvolvimento do País. A formação de um aluno fica cara ao Estado. Pessoas mais novas. Porque são jovens adultos.1.5 1. e vêm para o País trabalhar e não beneficiar de ajudas. Porque já possuem alguma escolaridade e já são maiores de idade. com espírito de trabalho e disponibilidade. São os mais produtivos.

se calhar. Idade com melhor integração na comunidade. 2.4 por cento das justificações aduzidas: • • • • A população deve ser controlada de modo a que não haja injustiças sociais Desde que queira trabalhar e não cause desemprego para os de Portugal.6 • • A vontade de "crescer na vida" aumenta neste escalão etário. não custa tanto nesta idade. Jovens. Sendo menor. • • • • • • • • • Encontram-se numa boa idade para começar a delinear livremente a sua vida. caso não a tenha no seu país de origem. Pelo facto de não serem menores. representando 22. O que justifica a admissão dos imigrantes por motivos económicos e sociais essencialmente. Poucas. até porque é nesta idade que está patente a aventura. O que justifica a admissão dos imigrantes por motivos pessoais. É necessário ter em conta a fase de integração que é muito importante. E esta integração. Por serem maiores de idade para poderem ter mais condições de vida. Porque é a idade onde começa uma nova vida e há mais perspectivas futuras. e por estarem num nível etário em que precisam de trabalho para serem alguém na vida. mas que venham para trabalhar. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .. Para os que entendem que os imigrantes podem vir para Portugal em qualquer idade os discursos podem dividir-se em quatro grupos: 1. Estão numa idade de procurar uma vida melhor. Todos somos iguais. Mais expectativas nestas idades. representando 44.. a conhecer locais novos.2 por cento das justificações aduzidas: • • • Porque qualquer pessoa tem direito a tentar melhorar a vida. Idade propícia a uma integração mais rápida e ainda com possibilidade de formação ideal. a sua sobrevivência tem que ser assegurada pelos pais ou familiares.

representando 11. Embora os que referem não saber ou não responder não apontem qualquer grupo de idades. 4.1. Só se for para trabalhar seriamente. sem vícios de trabalho. são três as justificações avançadas: • • • A idade implica que estes tenham maturidade suficiente e valores definidos.2 por cento das justificações aduzidas: • • Não há idade determinada para se poder imigrar para qualquer país. entender a língua portuguesa. representando 22. O que justifica a idade dos imigrantes a admitir no País por motivos económicos e sociais essencialmente. • • • Idade intermédia – aptos para trabalharem.7 por cento das justificações aduzidas: • • Aumenta o número de pessoas aptas para trabalharem e assim contribuem para o desenvolvimento económico do País. em consonância com a opção de resposta. Relativamente novos – para. adaptarse a uma nova cultura. Melhor [por] estarem dentro da idade para trabalharem. ajudarem a economia do País. com o seu contributo profissional. Maior aptidão para o trabalho. alguma maturidade e. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . não dão quaisquer motivos específicos para associar a idade ao acto de imigrar. Para os que entendem que os imigrantes devem vir para Portugal entre os 30 e os 39 anos os discursos podem dividir-se em dois grupos: 1. Não faz sentido falar em idade para a imigração ou emigração. Idade adulta – mais responsáveis/ maduros/ com objectivos construídos. por cento das razões aduzidas: • Importância na aprendizagem da língua. representando 85. provavelmente. O que justifica a admissão de imigrantes por motivos educacionais.7 3. E o que. Penso que a idade não é determinante mas sim a motivação e os objectivos dos imigrantes.

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Porque já são pessoas com experiência e a integração num novo país não vai ser tão dificultada.

2. E o que apresenta motivos associados à vida dos imigrantes, às suas realizações pessoais, às suas expectativas e ambições, representando 14.3 por cento das explicações aduzidas: • Porque terão uma idade mais madura para fazerem essa opção.

Para os que entendem que os imigrantes devem vir para com idade inferior a 15 anos os discursos referem-se a motivos de natureza social e económica: • • • Adaptação. Há uma melhor inserção no País de escolha. Não deveria haver imigração, mas, a haver, os imigrantes devem ser o mais possível novos: integram-se melhor. A existência de imigrantes é o oportunismo de alguns. • Pois seriam portugueses, pois iriam contribuir para o País como portugueses, desde terem a escolaridade obrigatória e mais tarde terem direito a uma reforma porque contribuíram para o Estado. • São criadas normas de ensino e saber estar num país que não é o deles. Logo, conseguem adaptar-se melhor.

Para os que entendem que os imigrantes devem vir com idades entre os 15 e os 19 anos, os discursos referem-se a motivos económicos e sociais: • • É a idade adequada para se adaptarem a quase tudo, têm maior independência e maior autonomia. Podem assegurar vários tipos de trabalho. Pois são pessoas ainda jovens que podem vir a realizar o trabalho que cá ninguém quer fazer, normalmente trabalhos mais forçados

Dos que entendem que os imigrantes devem vir para Portugal com mais de 50 anos nenhum respondente avançou explicações. A associação entre requisitos educacionais prévios e imigração identifica a prioridade para as pessoas que tenham realizado estudos, com 19,3 por cento e 26,9 por

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cento das manifestações para os adeptos de que os imigrantes devem, respectivamente, possuir a escolaridade equivalente ao nosso ensino secundário e ao nosso ensino superior. Os adeptos do primeiro e do segundo ciclos do ensino básico são em igual valor percentual, 2,5, e do terceiro ciclo do ensino básico são 5,9 por cento. No entanto, 6,7 por cento dos respondentes optam pela não exigência de qualquer frequência escolar para os imigrantes e 36,1 por cento não sabe ou não responde. A imigração por fases colhe 69,7 de respostas favoráveis, 6,7 de respostas não e 23,5 por cento de não respostas, não sabe ou não responde. O sim foi mais expressivo, 90,8 por cento, na questão do estabelecimento de um número máximo de pessoas a admitir por ano como imigrantes, ficando o não pelos 4,2 por cento e o não sabe não responde pelos 5,0 por cento. A maior parte dos respondentes considera que deve existir algum grau de restrição à entrada de imigrantes, com maior expressão para os que pensam que ela deve ser elevada e moderada, 25,0 por cento cada, seguidas de perto pelos que pensam que ela deve ser baixa, 20,0 por cento, e, a alguma distancia, muito baixa, 8,3 por cento. Apenas 12,5 por cento consideram que não deve existir qualquer restrição à imigração e 8,3 por cento não sabem ou não respondem. A manifesta restrição à entrada de imigrantes, para as três regiões mais expressivas, é revelada em relação à China, com 17,1 por cento, a Outros Países de África, com 11,2 por cento, e aos PALOP, com 10,3 por cento na categoria “muito elevada”; é de 21,4 por cento para a Europa de Leste e repete-se para Outros Países de África, com 19,8 por cento, e para os PALOP, com 18,8 por cento na categoria “elevada”. As manifestas exigências de grau de escolaridade dos imigrantes são maioritárias na categoria “moderado”, com 50,4 por cento, “elevado”, com 33,1 por cento, “muito elevado”, com 3,3 por cento, “muito baixo”, com 1,7 por cento, “baixo”, com 0,8 por cento. 10,7 por cento, não sabe ou não respondem. As maiores exigências em relação ao grau de escolaridade colocam-se, naturalmente, em relação a quadros superiores, 45,5 por cento “muito elevada”, e em relação a técnicos profissionais intermédios, 57,0 por cento “muito elevada”. Para as profissões e ocupações de menores exigências habilitacionais a expressão de requisitos escolares é dominada pelas categorias “moderada” e “baixa”.

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Da mesma forma em relação às maiores exigências em relação ao grau de experiência profissional para os quadros superiores, 44,2 por cento “muito elevada”, e em relação a técnicos profissionais intermédios, 45,0 por cento “muito elevada”. Para as profissões e ocupações de especialização a expressão do requisito experiência é dominada pelas categorias “elevada” e moderada”.

Nota de conclusão A posição de que ao Estado não cabe seleccionar, de qualquer forma, os estrangeiros que querem vir para Portugal é reveladora, na expressão maioritária que tem e tendo em conta as características dos respondentes – pessoas com um nível educacional acima da média – da ausência de uma consciência cívica estratégica para a imigração e para os imigrantes. É de assinalar que 58,7 por cento dos respondentes acham que o Estado não deve seleccionar os imigrantes. E para os restantes regista-se que: • Apesar de 37,5 por cento entender que os imigrantes devem vir para Portugal entre os 20 e os 29 anos, não há uma definição marcante de idade ideal. • As justificações sobre as opções de idades de imigração são, fundamentalmente, de carácter económico e social, seguidas das relacionadas com as competências educacionais e das relacionadas com os interesses e as expectativas dos imigrantes, numa distinção que nem sempre é clara pelas categorias de análise expostas. Há uma manifesta tendência pelas respostas justificativas da imigração como um todo por aquilo que a mesma representa de vantajoso para o País e não para as pessoas. • Há uma assunção clara pela aceitação de imigrantes com formação média e superior, uma associação entre as competências educacionais de base e as competências exigidas para o trabalho a desenvolver em Portugal, bem como destas em relação à experiência profissional de base.

Parece consensual que não é possível nem é desejável, no quadro geoeconómico em que se insere Portugal, parar a imigração. É possível geri-la de modo a que responda ao desafio, quase utópico, de contribuir para um benefício triplo: entre os países que nela se envolvem e para os actores que a sustentam. E isso implica um conhecimento

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profundo do que a imigração e os imigrantes representam, em si e para a sociedade civil que com eles interage. O que se afirma é tanto mais importante quando a definição de uma política de imigração, para além do número, implica a preparação e a definição de uma política de integração de imigrantes, o que só se consegue com a colaboração da sociedade civil. O projecto a que este texto se associa pretende dar corpo a essa preocupação de auscultar o entendimento da sociedade civil, em forma de Livro Branco, sobre a imigração e os imigrantes. Ao que ele esboça, parece não existir um sentimento formado sobre o lugar da imigração e dos imigrantes na construção da nossa sociedade e, muito menos, sobre uma estratégia imigratória para o País.

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Este questionário destina-se a recolher informações junto de cidadãos portugueses de maior idade sobre a imigração e os imigrantes, ou seja, sobre aqueles que, sendo estrangeiros, fixaram residência em Portugal. Está dividido em três partes cada qual com a sua função: a primeira, de carácter identificativo, visa caracterizar os respondentes; a segunda, de carácter valorativo, visa perceber o que opinam e percepcionam os respondentes sobre a imigração e os imigrantes; a terceira, de carácter prospectivo, visa perceber que tipos de imigração defendem os respondentes. A sua participação, com resposta a todas as questões, é muito importante. I – Caracterização sócio-demográfica 1. Idade Anos 2. Sexo Masculi Femini no no

Solteiro(a)

Casado(a)

3. Estado Civil A viver maritalme Divorciado Separado(a nte (a) )

Viúvo(a)

Outra situação

4. Tem filhos? Sim Quantos ? Não

5. Qual é o grau de escolaridade mais elevado que frequenta ou frequentou? 1º Ciclo ou 2º Ciclo ou 3º Ciclo ou Ensino Nenhuma Ensino Ensino Ensino Ensino Secundário, frequência Primário, 1ª, Superior Preparatório Médio, 7, 8º 10º, 11º e 12º escolar 2ª, 3ª e 4ª , 5º e 6º anos e 9º anos anos classes

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6. Trabalha? Sim Se sim, em que trabalha? Não

7. Está preocupado(a) com a sua situação económica? Sim Não

8. Refira o distrito, o concelho e a freguesia onde nasceu Distrito Concelho Freguesia 9. Refira o distrito, o concelho e a freguesia onde vive habitualmente Distrito Concelho Freguesia

Nenhuma

10. Qual é a sua opção religiosa? Católica

Outra Qual?

11. Qual é a sua orientação política? Extrema direita Direita Centro direita Centro esquerda Esquerda Extrema esquerda Não Sabe/ Não responde

II – Opiniões e percepções sobre a imigração 12. Contacta frequentemente com imigrantes? Sim Não Onde? 13. Assinale o grau de simpatia que tem em relação aos imigrantes das seguintes regiões: Não Muito sabe/ Eleva Mode Muito Nenh Eleva Baixa Não da rada Baixa uma da respo nde União Europeia Europa de Leste Países Africanos de Língua

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Oficial Portuguesa Outros países de África América do Norte Brasil Outros países da América Central e do Sul China Outros países da Ásia Oceânia 14. Assinale o grau de importância que os imigrantes dão ao trabalho, segundo as seguintes regiões: União Europeia Europa de Leste Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa Outros países de África América do Norte Brasil Outros países da América Central e do Sul China Outros países da Ásia Oceânia 15. A impressão que os imigrantes têm e a forma como agem com os portugueses é: Não sabe/ Muito Modera Muito Boa Má Não boa da má respond e União Europeia Europa de Leste Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa Outros países de África América do Norte Brasil Outros países da América Central e do Sul China Outros países da Ásia Oceânia 16. A impressão que os portugueses têm e a forma como agem com os imigrantes é: União Europeia Europa de Leste Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa

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Outros países de África América do Norte Brasil Outros países da América Central e do Sul China Outros países da Ásia Oceânia 17. A presença de imigrantes influencia o número de crimes registados no País? Sim, eles Sim, eles são Sim, eles vítimas do são Não cometem Não Sabe/ vítimas do crime e o crime Não crime cometem Responde o crime União Europeia Europa de Leste Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa Outros países de África América do Norte Brasil Outros países da América Central e do Sul China Outros países da Ásia Oceânia 18. Trabalho e legislação. Os imigrantes: Sim Tiram o trabalho aos portugueses? Os que estão ilegais devem ter direito a trabalhar? São regidos por legislação adequada? Contribuem para o nosso desenvolvimento económico? Pagam os impostos que devem? E beneficiam desses impostos? 19. É função do Estado: Adoptar políticas de actuação específicas para os imigrantes Assegurar igualdade de tratamento entre nacionais e imigrantes Assegurar maior ajuda aos imigrantes Não Não Sabe/ Não Responde

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5º e 6º responde 8º e 9º anos 12º anos 4ª classes anos ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . O Estado deve dar preferência à entrada de imigrantes do sexo: Masculino Feminino Sem preferência 23. o questionário termina aqui. 10º. O Estado deve seleccionar os imigrantes que querem vir para Portugal? Sim Não ⇒ para si. . 11º e Superior escolar 1ª. 22. Preparatór Sabe/ Não Médio. 2ª. Sobre a escolaridade. o Estado deve dar prioridade a imigrantes com (assinale apenas uma opção): 1º Ciclo ou 2º Ciclo ou 3º Ciclo ou Ensino Nenhuma Ensino Ensino Não Ensino Secundário Ensino frequência Primário. Aceitaria ter como imigrantes: Membros da sua família? Seus amigos? Seus vizinhos? Seus colegas de trabalho? Residentes nas imediações ao espaço onde você vive? Residentes no espaço onde você vive? III – Perspectivas sobre a imigração 21. sem tentar promover a sua inserção? 20. 7. Indique a melhor idade para os imigrantes virem para Portugal (assinale apenas uma opção): Menos Dos 20 Dos 30 Dos 40 Não sabe/ Dos 15 aos Mais de Qualquer de 15 aos 29 aos 39 aos 49 Não 19 anos 50 anos idade anos anos anos anos responde Justifique a sua escolha 24. 3ª e io.16 Expulsar os imigrantes ilegais.

O Estado deve estabelecer o número máximo de imigrantes a entrar em cada ano? Sim Não Não sabe/ Não responde 27. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Das seguintes regiões de origem dos imigrantes. Assinale o grau de escolaridade que os imigrantes devem ter para poderem desempenhar as seguintes profissões: Não Muito sabe/ Eleva Mode Muito Nenh elevad Baixo Não do rado Baixo um o respo nde Quadros Superiores da Administração Pública. indique o grau de restrição de entrada que lhes atribui: Não Muito sabe/ Elevad Moder Muito Nenhu Elevad Baixo Não o ado Baixo m o respon de União Europeia Europa de Leste Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa Outros países de África América do Norte Brasil Outros países da América Central e do Sul China.17 Justifique a sua escolha 25. Outros países da Ásia Oceânia 28. A integração dos imigrantes deve ser feita por fases? Sim Não Não sabe/ Não Responde 26.

Dirigentes e Quadros Superiores de Empresas Especialistas das Profissões Intelectuais e Científicas Técnicos e Profissionais de Nível Intermédio Pessoal Administrativo e Similares Pessoal dos Serviços e Vendedores Agricultores e Trabalhadores Qualificados da Agricultura e Pescas Operários. A sua colaboração foi muito importante. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Assinale o grau de experiência profissional que os imigrantes devem ter no seu país de origem para poderem desempenhar as seguintes profissões em Portugal: Quadros Superiores da Administração Pública.18 Dirigentes e Quadros Superiores de Empresas Especialistas das Profissões Intelectuais e Científicas Técnicos e Profissionais de Nível Intermédio Pessoal Administrativo e Similares Pessoal dos Serviços e Vendedores Agricultores e Trabalhadores Qualificados da Agricultura e Pescas Operários. Artífices e Trabalhadores Similares Operadores de Instalações e Máquinas e Trabalhadores da Montagem Trabalhadores Não Qualificados O questionário termina aqui. Artífices e Trabalhadores Similares Operadores de Instalações e Máquinas e Trabalhadores da Montagem Trabalhadores Não Qualificados 29.

º do questionário: Responsável pela administração: Data e hora: Local de realização e contacto do respondente: Av. n.facultativo: ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . / Rua.º : Telefone de contacto .19 Ficha Técnica do questionário N.

Dolores Vargas Llovera Centro de Estudos de Antropologia Aplicada Universidade de Alicante As associações de imigrantes constituem uma estratégia clássica de ligação à origem e de luta pela integração no destino.A integração dos imigrantes deve ser feita por fases? As associações de imigrantes latino-americanos na Península Ibérica Alcinda Cabral Centro de Estudos de Antropologia Aplicada Universidade Fernando Pessoa e M. à legalização. Enquanto elemento dinamizador da presença e do enquadramento legal e profissional dos seus concidadãos. funcionando também como redes sociais de encontro. o que permite colmatar os constrangimentos resultantes das diferenças ao nível das normas sociais e dos padrões culturais da sociedade de chegada. mas que na realidade se revelam complementares. necessidades. esse vigor. enfim. aos cuidados de saúde. Com o tempo e a inevitável aculturação. Enquanto elemento coesionador do grupo estrangeiro. Uma das comunidades imigradas em Portugal que mais tem dinamizado o seu movimento associativo é a brasileira. de diversão. de perpetuação da cultura de partida. de ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Todavia. no sentido de acederem aos recursos e aos direitos existentes na sociedade receptora. à segurança social. elas vão actuar no sentido de integrar o seu modo de vida. A nossa proposta de comunicação centrar-se-á nesse desígnio. que aportam aos seus membros um pouco do lugar que deixaram. em parte. duas atitudes que podem parecer antagónicas. Introdução O associacionismo é uma necessidade vital do ser humano. ajustando-o ao novo ambiente social. O facto de se tratar de comunidades numerosas justifica. à escolarização dos filhos. buscar apoios materiais afectivos ou de outra índole e conceber espaços de segurança. as associações organizam-se no sentido de agir socialmente e politicamente a fim de que os seus membros possam ter acesso no lugar de chegada aos direitos elementares relativos à permanência e residência. o mesmo acontecendo com os diferentes grupos de sul-americanos em Espanha. sobretudo nos momentos chave da vida. ao trabalho. ao reagrupamento familiar. as associações cobrem objectivos de recriação dos modelos de origem. em que urge partilhar experiências. outras razões poderão ajudar a explicar este fenómeno.

económicas e políticas. provocando tensões. sejam locais. mantêm identidades e são um núcleo de informação necessária. porque os apercebem unicamente como reproduções das diferentes culturas de origem. e são fundamentais para a assistência das pessoas. culturais. a sua música.2 ideias. É certo que as associações de imigrantes recriam os esquemas das suas sociedades de origem. A sua estética. geram iniciativas de actuação para o fortalecimento das suas ideias associativas. as suas actuações e a sua cosmovisão chocam frontalmente com os esquemas de uma sociedade que culturalmente não é igual. que fomentam a divisão da sociedade e que não favorecem a integração. Ao mesmo tempo fomentam a solidariedade. bem como romper com as fronteiras sociais que a sociedade civil pretende ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . não coincide com o ritmo do reconhecimento social. Pode afirmar-se que as associações de imigrantes terão que continuar a lutar para ultrapassar os muitos entraves que as instâncias oficiais lhes apresentam. como um mundo que não pertence a ela. procurarem junto dos companheiros a coerência das suas ideias e não actuarem isoladamente. Desta maneira. o intercâmbio de experiências. o fim primordial de uma associação é o de partilhar metas e o de formar espaços que rompam com o isolamento social e cultural. de manter identidades e tudo o que implica a afirmação socio-cultural própria do ser humano. As associações dinamizam actividades próprias na base das estruturas que criaram. que encontram todo o tipo de carências. na mira de uma eficácia dos seus propósitos. particularmente em momentos difíceis. como é o caso dos imigrantes. Ante a grande eclosão de associações de imigrantes que se formam nas actuais sociedades receptoras. sobretudo nas primeiras etapas da imigração. de crenças. mas este reconhecimento oficial que vão adquirindo paulatinamente. actuam como grupos de pressão de reivindicações sociais. regionais ou nacionais. estas não vêem com bons olhos a criação desses espaços. como guetos ou nichos socio-culturais. A formação e a importância dada às associações demonstra que os indivíduos se envolvem em acções recíprocas e em contactos entre os que buscam o mesmo fim. mas também com os poderes estabelecidos. não só com a sociedade civil. O grande objectivo é o de. apresentando-se como lugares delimitados no interior da sociedade de recepção. Por isso é de grande importância ter em conta que o actual dinamismo associativo dos imigrantes teve que ultrapassar grandes impedimentos para consolidar a sua realidade social e para ganhar o respeito fundamental das instituições oficiais.

Tem havido tentativas de classificação segundo as tendências manifestadas pelas associações de imigrantes: umas orientadas para o país de origem e outras para o país de residência. e simultaneamente como plataformas de reivindicação dos seus direitos como trabalhadores e como seres humanos. pelo que. com ou sem ajudas de fundos públicos. tal como sustentam Castels e Millar (1994). Este tipo de classificação baseia-se sempre na instalação na sociedade de acolhimento. Morán (2001) distingue as associações de imigrantes que têm uma predominância de relações com a sociedade de partida e as que têm uma predominância relacional com a sociedade de chegada. Apesar do esforço que fazem as associações de imigrantes para serem reconhecidas e aceites como centros de integração.3 estabelecer. conselhos de carácter burocrático. que é na verdade uma faceta da sua realidade. e não como centros de realidades culturais fechadas. uma vinculação de ajuda dirigida fundamentalmente ao conhecimento das vivências de origem. dirigidos aos colectivos recém-chegados. Sobre estes dois pontos de vista. através do qual criam. e por outro lado. As associações deste cariz revelam constituir um processo de socialização. estão tentando de cada vez mais incrementar a integração no espaço de acolhimento. o associacionismo migratório constitui actualmente uma força importante nas sociedades receptoras. embora não rompam os laços com a origem. distinguindo entre a temporalidade e a permanência definitiva. na Península Ibérica e segundo as aportações de Martín (2004). através de actividades. com pessoas da mesma etnia ou de várias. encontram-se ante duas dificuldades: por um lado levam a cabo. Sem dúvida. actividades destinadas ao acolhimento e à integração dos imigrantes. com o fim de afrontarem a vulnerabilidade social em que os imigrantes se encontram. desempenham um papel muito importante no conjunto das práticas que integram a ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . longe de dificultarem a integração. e outros. de programas de ajuda e de acolhimento. facilitam a negociação da sua participação social e da sua incorporação efectiva. estas associações. a fim de conseguirem convencer umas e outras de que o maior anseio dos seus dirigentes e membros é a inserção da sua comunidade na sociedade receptora. ao afirmarem que as associações de imigrantes são uma manifestação necessária para a sua instalação nas novas sociedades. Certo é que se tem constatado que as associações de imigrantes.

Em todas as zonas onde haja um número considerável de imigrantes com essa proveniência. 2004: 123). ou introduzem soluções inovadoras para o tratamento dos problemas derivados da integração dos imigrantes. quer se trate de capitais de província. quer da delegação de competências através do financiamento de projectos de ajuda social. pelo que se revela difícil individualizá-las por países.4 política de imigração. Se optarem pela primeira possibilidade. Se elegem a via reivindicativa. Todavia. As suas estruturas passam por registos oficiais. independentemente dos membros que as constituem. arriscam-se a ver impossibilitada a execução das suas actividades. as associações funcionam como entidades prestadoras de serviços do Estado. Perante tal situação. quando pertencem ao conjunto das financiadas. a maior parte delas adoptam uma postura intermédia (Martín. renunciando frequentemente aos seus princípios. * Assessorar a população imigrante nas áreas que favoreçam a sua integração. Desenvolvimento A Espanha encontra-se com um número importante de associações de imigrantes registadas no Ministério do Interior. se formam associações. a partir dos quais recenseamos os seus pontos de partida: * Abordar o fenómeno da imigração em todos os seus aspectos. arriscando a perda do financiamento público. de cidades grandes ou pequenas. apesar da sua posição destacada nas práticas de integração. Por outro lado. A sua formação obedece a um leque comum de objectivos gerais. na medida em que as acções que desenvolvem são o resultado. as associações encontram-se perante a seguinte alternativa: ou servem as políticas públicas. quer da ausência de acção dos poderes públicos. No que respeita às da América Latina. agrupando os colectivos dos diferentes países que formam a América do Sul. * Elaborar projectos de acção social e de cooperação internacional. às associações de imigrantes não é concedida a participação na tomada de decisões políticas em nenhum âmbito oficial. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . ultrapassam um milhar.

* Associar-se a projectos com associações e entidades das zonas onde vivem. outras dirigem-se a populações específicas. dada a pequenez do seu território e dos seus recursos. caracterizando-se pelo ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . ou ainda indivíduos oriundos do mesmo local de origem. em alguns casos mais especificados quando se trata de promover a identidade cultural dos imigrantes. e mesmo a imigrantes de outras origens. * Facilitar a participação das pessoas em actividades laborais. No que respeita a Portugal. * Promover um diálogo construtivo com as autoridades e a sociedade acolhedora. pelo que o número de associações deste tipo é mais reduzido e muito mais específico quanto à origem geográfica e nacional dos seus sócios. que tantas vezes dificultam a vida destas pessoas. Desta forma. * Potenciar o respeito pelos direitos humanos. também as suas necessidades de mão de obra e os seus factores de atracção para a instalação destas populações são mais raros. formam o núcleo central de todas as associações de imigrantes latino-americanos em Espanha. * Colaborar com outros colectivos. organizações. tais como imigrantes vinculados a uma universidade. Estes pontos. * Fomentar a convivência e a integração social e educativa dos imigrantes. entidades e instituições especialmente relacionadas com a imigração. uma inserção o menos traumática possível. tentando proporcionar aos seus concidadãos. sociais e políticas. de acordo com as necessidades sentidas pelos próprios. De facto.5 * Desenvolver campanhas de sensibilização em relação a estas populações e às suas culturas. * Promocionar individual e colectivamente os imigrantes nos seus lugares de residência. os seus objectivos são orientados para o seu público alvo. as associações de imigrantes brasileiros em Portugal apresentam fins distintos. * Participar em campanhas contra o racismo e a xenofobia. * Defender estas populações junto das autoridades administrativas e outras. Enquanto umas têm um carácter mais geral de apoio ao público imigrante. que conduzam a mudanças sociais. ou parceiros profissionais.

6 desenvolvimento de actividades específicas.html) e da Torcida Brasil (www. da Associação de Amizade Cabo Verde – Brasil (www.pt/). da Associação dos Brasileiros na Universidade de Aveiro (www. da Associação de Cidadãos Brasileiros na Universidade do Porto (http://brasup.pt/distritais/genericos/detalheArtigo. da Associação de Pesquisadores e Estudantes Brasileiros em Coimbra (http://geocities.com. 1 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .abop.php). da Associação Mais Brasil (www.net/torcida.ca. da Associação Luso-Brasileira de Saúde Oral – Portugal (www.casadobrasil. da Associação de Imigração em Portugal.pt).up.angelfire.maisbrasil.ua.aacilus. Imigrantes do Brasil e de países africanos de língua oficial portuguesa (http://www.torcidabrasil. como poderemos verificar no quadro que segue 1 : Fonte: Site da Casa do Brasil (www.br/apebcoimbra/).pt) e da Associação Luso-Brasileira de Juristas do Trabalho (www.org/aacilus/).oa.asp?sidc=478&idc=22393).pt/abruna/).com/bc/sscb/aacb.yahoo.pt).

Associações Académicas de Brasileiros • • • Associação dos Brasileiros na Universidade de Aveiro (ABRUNA) Associação de Cidadãos Brasileiros na Porto 2003 Aveiro 2001 Coimbra 2004 Porto 1999 Universidade do Porto (BRASUP) Associação de Pesquisadores e Estudantes Brasileiros em Coimbra (APEBC) IV . social e jurídico. 2004 Imigrantes do Brasil e de países africanos de Porto língua oficial portuguesa (AACILUS) 1997 • V .Associações de Amizade entre Países • • Coimbra 2004 Associação de Amizade Cabo Verde – Brasil (AACB) Associação de Imigração em Portugal.Associações de Profissionais Brasileiros • • Associação Luso Brasileira de Saúde Oral (ABOP) Associação Luso-Brasileira de Juristas do Trabalho (ALBJT) III . ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .Associações Lúdicas Brasileiras • Torcida Brasil (TB) 1994 No que respeita às Associações Generalistas.7 Tipologia da Associação I .Associações Generalistas de Brasileiros • • Casa do Brasil de Lisboa (CBL) Associação Mais Brasil (AMB) Localização Sede da Ano em que foi fundada Lisboa Porto 1992 II . estas têm como objectivo prioritário o apoio aos imigrantes a nível moral.

Foi criada por imigrantes brasileiros. A partir daqui. Ao pretender-se encontrar os traços distintivos de cada uma destas 5 tipologias de Associações de Brasileiros em Portugal. principalmente para formar uma “claque” para dar apoio às equipas brasileiras nos torneios mundiais de futebol. nomeadamente a constituição formal da associação em si. naturalmente. Os objectivos e actividades das Associações Académicas orientam-se principalmente no sentido de apoiar a integração de estudantes brasileiros e de promover eventos culturais e científicos que possibilitem a valorização da identidade brasileira no seio da comunidade portuguesa. começou a desenvolver outras actividades recreativas e culturais para os seus sócios. também se detectaram. procurando ser uma mais valia nos ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . muitas similitudes entre elas. devidas ao traço comum que une os seus filiados. objectivos e actividades muito específicos. Estas associações de imigrantes brasileiros foram criadas por estes e por portugueses que os apoiaram. As principais semelhanças encontram-se ao nível dos seus estatutos. que é a sua condição de imigrantes. As Associações de amizade entre indivíduos brasileiros e de outros países definem-se pelo apoio prestado às comunidades imigrantes em questão e pela promoção de actividades recreativas num espaço de partilha cultural. muitas vezes opondo-se a alguma discriminação que encontram no mesmo meio profissional português. A Torcida Brasil apresenta uma população alvo. ou ainda para organizarem um movimento que fortalecesse a posição da população imigrante face às instituições oficiais da sociedade acolhedora e no diálogo com as mesmas. Conclusão Todo o esforço das associações tem como finalidade a melhoria das condições das comunidades imigrantes que representam. no sentido de colmatarem lacunas na organização da sociedade civil e nas dificuldades sentidas pelos imigrantes para se integrarem na comunidade portuguesa.8 As Associações de Profissionais visam a defesa das suas profissões e sobretudo dos seus profissionais. nomeadamente de apoio às equipas brasileiras em eventos desportivos. mas também ao nível dos objectivos traçados e das actividades.

udg. para lhes proporcionar os meios condutores a fim de que se incorporem paulatinamente na sociedade de chegada. R. V.csh. (ed.mx/CUCSH/Sincrinia/ PUTNAM. M. Universidad Pontificia de Comillas.) 2003 El declive del capital social. 2004 “ Las asociaciones de inmigrantes en el debate sobre nuevas formas de participación política y de ciudadanía: reflexiones sobre algunas experiencias en España” Migraciones. G. y GARCÍA. Londres MARTÍN. Internacional population movements in the modern world.9 contactos formais com as instituições oficiais da sociedade acolhedora. numa perspectiva da possível inclusão na sociedade de acolhida. ao mesmo tempo. As associações de imigrantes constituem um meio de institucionalização das vias necessárias para a defesa dos seus interesses e. tal como referem Alonso e Garcia (1995) quando dizem que os reptos aos quais devem fazer face as associações de imigrantes visam veicular a sua integração social e económica no país que escolheram para trabalhar e viver e daí a importância de que se reveste o tecido associativo desta natureza. Referências Bibliográficas ALONSO. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Universidad de Guadalajara. a nível dos dois países implicados. bem como nos contactos informais com a comunidade anfitriã em si. Barcelona: Galaxia Gutemberg. A. pelas implicações pessoais e nacionais. Estudio sobre la situación actual y capacidad institucional de las asociaciones de inmigrantes en España.J. no entanto podem participar através das associações na tomada de decisões sobre alguns dos aspectos que os afectam. Macmillan. Revista electrónica de estudios culturales. Cremos que estamos perante um desenrolar de participação que implica novas formas de cidadania: os estrangeiros continuam privados de direitos políticos. CASTLES. The age of migration. 1995. L. R. y MILLER. 1994. através de estratégias que valorizem a sua identidade cultural de pertença. Madrid. S. http://fuentes. MORÁN. 2001 “Las asociaciones de extranjeros y su origen: algunos comentarios para el caso de Alemania” Sincronía. Nexo. Un estudio internacional sobre las sociedades y el sentido comunitario. Madrid. D.

com.html) Associação dos Brasileiros na Universidade de Aveiro (www.br/apebcoimbra/) Casa do Brasil (www.pt/) Associação de Imigração em Portugal.angelfire.oa.abop.casadobrasil.torcidabrasil.yahoo.aacilus.ca.maisbrasil.asp?sidc=478&idc=22393) Associação Luso-Brasileira de Saúde Oral – Portugal (www.up.php) ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .10 Sites Consultados Associação de Amizade Cabo Verde – Brasil (www. Imigrantes do Brasil e de países africanos de língua oficial portuguesa (http://www.pt/abruna/) Associação de Cidadãos Brasileiros na Universidade do Porto (http://brasup.pt) Torcida Brasil (www.ua.org/aacilus/) Associação Luso-Brasileira de Juristas do Trabalho (www.net/torcida.pt) Associação de Pesquisadores e Estudantes Brasileiros em Coimbra (http://geocities.com/bc/sscb/aacb.pt) Associação Mais Brasil (www.pt/distritais/genericos/detalheArtigo.

Trata-se com especial acuidade o jornal Sabiá publicado pela Casa do Brasil de Lisboa. consabidamente. 1 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .pt O presente texto faz uma reflexão sobre a imprensa enquanto modo de integração de imigrantes. Acresce a isto a semelhança de procedimentos entre portugueses e brasileiros em certos usos e costumes. Sabiá Portugal é. motivos determinantes para essa escolha. construída ao longo de séculos de convivência entre os povos de Portugal e das suas Desenvolvimento do Projecto CEAA/0013/ALC "Processos de integração social e económica de imigrantes"integrado no Centro de Estudos de Antropologia Aplicada da Universidade Fernando Pessoa. A sua localização enquanto porta de entrada para a Europa – continente que ainda hoje exerce o seu fascínio sobre os povos mais recentes – e a lusofonia são. Palavras-chave: imigrantes. datada de 29 de Dezembro de 1971.Modos e modas de integração de imigrantes (o papel do jornal Sabiá) 1 Isabel Ponce de Leão Centro de Estudos de Antropologia Aplicada Universidade Fernando Pessoa . como sejam a forma como educam os filhos. alguns estudos demonstram que os brasileiros são os imigrantes que têm em Portugal maior grau de aceitação “assente na ideia de uma identidade lusófona. o que é bom e o que é mau” (Trindade 1995: 381). De facto. as práticas religiosas e os comportamentos sexuais. imprensa. integração. aquelas. vendo-se de que forma ele contribui para a inserção dos brasileiros em Portugal. pela aplicação da Convenção sobre a Igualdade de Direitos e Deveres entre Brasileiros e portugueses. o país escolhido como pátria de adopção de imigrantes brasileiros. corroboradas. talvez. brasileiros.Porto blepl@netcabo. acreditado pela FCT (Fundação para a Ciência e a Tecnologia). aquilo a que vulgarmente se chama valores e que pode ser definido como um “conjunto de ideias partilhadas por indivíduos sobre o que é desejável.

pela integração 2 e pela socialização aprendendo padrões de cultura e modos de vida da sociedade de acolhimento. VV. pretenda ignorar os da pátria de origem. 2003: 51). no Consulado do Brasil e noutros locais consabidamente frequentados por brasileiros. A essa boa aceitação por parte do país de acolhimento. No caso dos brasileiros assiste-se. têm necessidade de criar elos de identidade. Um caso paradigmático é o Sabiá. ligada ao país de origem. a aculturação linguística. Apesar desta reciprocidade de aceitação. quer dizer. O primeiro número foi publicado em Maio de 1992 em formato de boletim de folhas A4 e. o contacto entre portugueses e brasileiros origina “alterações nos padrões culturais originais” (Trindade 1995: 357) de ambos os povos o que deixa prever um intenso diálogo. A própria Constituição da República Portuguesa. bem como nas instalações dos seus anunciantes. por tal. ao curioso fenómeno da aculturação. junta-se uma boa adaptação vista esta enquanto “fenómeno multidimensional que compreende aspectos tais como a satisfação. e de gizar estratégias de integração. no seu artigo 74. e por mais que o país de acolhimento assuma uma postura fraternal.colónias” (AA. reflectindo o desejo da preservação de laços históricos. primeira publicação destinada aos brasileiros residentes em Portugal. sem que. minimizadora da discriminação e da intolerância. o referido formato dá lugar a um jornal Entendemos integração enquanto ajustamento dos imigrantes a um novo dependente de dois conjuntos de factores: “os que dizem respeito às características individuais dos migrantes e os que se relacionam com características fundamentais dos países de origem e de destino entre os quais se processa a transferência de recursos humanos”. Distribuído gratuitamente. nem sempre de modo bem sucedido. o tipo de desempenho económico. por outro lado. jornal editado pela Casa do Brasil de Lisboa. (CBL). a integração social e a identidade cultural” (Trindade 1995: 358). A partir do número 53. tinha uma periodicidade irregular. os brasileiros radicados em Portugal não deixam de constituir uma minoria e. a verdade é que um imigrante é. (Trindade 1995: 102) 2 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Uma delas é a produção de uma imprensa própria. logo actuando como factor de integração. assazmente. ainda que se anunciasse mensal. reitera “os laços de amizade e cooperação com os países lusófonos”. em Portugal. está disponível na CBL. Seja como for. lançado em Abril de 2003. um desenraizado que luta.

de uma maneira geral. estes números tratam de assuntos diversificados.º Para além de publicidade que. A tiragem. discotecas.500 8 4 4 4 N. lojas de comércio…. aumenta e a sua periodicidade anuncia-se mensal. composto por 4 a 8 páginas.º Mês Tiragem pp. Verificar-se-ia depois que essa periodicidade não viria a ser respeitada o que é perfeitamente compreensível neste tipo de publicações por constrangimentos de ordem vária que aqui nos dispensamos de escalpelizar. constituem o corpus em análise e foram em número de 4. difunde serviços prestados por brasileiros em Portugal: restaurantes.000 7. como se pode verificar pela leitura do seguinte quadro que abarca os 4 números saídos em 2005: Assuntos Política nacional (Portugal) Política nacional (Brasil) Política internacional Educação Saúde Habitação Economia Emigração Cultura Desporto Sociedade 3 1 4 2 2 4 5 2 5 4 Quantidade 19 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . que até aí era de 2 mil exemplares. a saber: N. 66 67 68 69 Março Junho Julho Novembro 5. Os números publicados em 2005. clínicas médicas.500 7.500 7. XIIº ano da sua publicação. agências de viagens.tablóide. bares. bancos.

são cegos. e uma leitura dos artigos.ª página: Chamadas à 1. Seria de esperar. naturalmente. por exemplo. Reveladoras de certas preocupações são igualmente as chamadas à 1. não se torna difícil a identificação do público-alvo: Alcance / Público-alvo Público em geral Grupos étnicos / minorias Quantidade 40 12 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . contudo os interesses parecem estar virados para o que se passa em Portugal.ª página. Por tal. uma maior abundância de artigos relacionados com desporto e lazer. evidencia preocupações de índole cultural e uma atenção especial para a política internacional cujos artigos constantes. que não se faz por extrapolar o âmbito deste trabalho. mostra bastante superficialidade quer no tratamento quer nas opções conteudísticas. Por outro lado.ª página Quan tidade Política Nacional (Portugal) Política Nacional (Brasil) Política Internacional Habitação Cultura Desporto Sociedade 1 3 1 2 1 1 13 Uma leitura comparativa dos dois quadros descobre um jornal intensamente preocupado com os acontecimentos políticos do país de adopção dos seus leitores. ainda que em número reduzido.Os números. numa manifesta vontade de interagir com o país de acolhimento. são sempre chamados em destaque à 1.Lazer 2 Este quadro traz-nos algumas surpresas relativamente à imagem empírica que temos dos imigrantes brasileiros. sendo essa preocupação menor relativamente ao país de origem.

cujos títulos aparecem em baixo: N. Não se sentem vítimas de tratamentos discriminatórios. político. o jornal dirige-se. Apesar desta visão optimista. muitos têm escolarização secundária e superior e querem ser o elo de união entre Portugal e o Brasil.Brasil Expectativas na política de imigração do Títulos dos artigos Imigrantes vão às ruas exigir a regularização Regularização para todos Moção exige políticas de integração Duzentos mil pediram regularização em ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Isto tem a sua explicação no facto do perfil sócio-económico dos imigrantes brasileiros ser extremamente diversificado.º 68 2 N.º 69 3 N. ainda que não quebrem a sua ligação ao país de origem. logo não se assumem como minoria.º Total A observação deste quadro mostra que o desejo de inserção em termos políticos ocupa. grande parte dos artigos.Não esquecendo embora os imigrantes. cultural e profissional e encontram-se assim distribuídos pelos 4 números saídos em 2005: Artigos 66 Inserção social Inserção política Inserção cultural Inserção profissional 1 1 1 3 4 2 6 6 5 6 5 22 1 N. são vários os artigos do Sabiá que se prefiguram como factores de aglutinação e inserção aos níveis social. prioritariamente ao público em geral. de forma quase obsessiva.º 66 • • • • Espanha • novo governo PS • Na ponte aérea Portugal.º 67 N.

olhando com alguma apreensão o empenhamento dos governantes portugueses e brasileiros na resolução dos conflitos. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . pá Dois anos depois. outro com mero carácter informativo. nos dão a noção clara das pretensões dos imigrantes brasileiros em Portugal e que são: – legalização e integração. só 14 mil legalizados Opiniões divergem na avaliação do acordo Casa do Brasil convoca acto público pela 69 • legalização • • • • Nacionalidade: o que vai mudar Mobilização já! Muito barulho por nada Governo admite nova lei de estrangeiros mas recusa debate Só a leitura dos títulos destes artigos. De uma forma geral lamentam a morosidade processual e pugnam por uma cidadania activa. completados pelos conteúdos que conhecemos mas que extrapolam o âmbito deste trabalho. É sem dúvida. outrossim com a legalização obviadora da segurança que permita a construção do seu futuro em Portugal. Por isso surgem mesmo títulos incentivando à luta.67 • • • • • O direito de ser português Eleições em Portugal e no Brasil Lei da Nacionalidade – Alterações à vista Governo promete mudar a lei Quem pode ser português Burocratices Brasileiro tem nova chance de conseguir o 68 • • visto • maioria de fora • • • Lei da nacionalidade do governo deixa Foi bonita a festa. outros ainda onde uma leve ironia esconde uma crítica profunda. – dupla nacionalidade. neste ano de 2005 a grande preocupação do jornal enquanto elemento de inserção política. De facto. o Sabiá corrobora a ideia de que o grande problema dos brasileiros em Portugal não tem a ver com a adaptação. – igualdade de direitos.

naturalmente as idiossincrasias de cada povo. quer dizer uma divulgação das literaturas e das artes portuguesas e brasileiras bem como das suas respectivas afinidades.Ainda que bastante distanciada. No que diz respeito à inserção social temos os seguintes artigos: N. o Sabiá propriedade da Casa do Brasil. Para além disso há uma preocupação por práticas interculturais. fazem perceber a necessidade dos imigrantes brasileiros interagirem com os portugueses quer no que diz respeito a actividades lúdicas quer na procura de uma forma de estar semelhante. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .º 66 • • CBL • • o Dali do Sertão 67 • • Era uma vez na América As sombras das coisas Mulheres de Morte Zé-Limeira.º 66 Títulos dos artigos • casa própria 68 • • na Caparica Mais Brasil Torcida premiada Como adquirir a Ainda que escassos. O poeta do absurdo ou Títulos dos artigos O significado da palavra associação Primavera relança actividades na Sendo. como é. a tentativa de inserção cultural atravessa também as páginas do jornal através dos seguintes artigos: N. a maior parte dos artigos que privilegiam a inserção cultural assentam em iniciativas desta associação que através dele as promove e as divulga. respeitando-se.

configuram uma publicação que se debate com problemas económicos como é comum neste tipo de imprensa de imigrantes.Em termos de inserção profissional. encontrámos os seguintes artigos: N. que ter capacidade de resposta para muitas situações logo não pode canalizar toda a sua atenção para um jornal que. Os problemas de natureza cultural são também tratados recorrentemente ainda que a sua superficialidade configure um público-alvo minoritário ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . fundamentalmente. naturalmente. há uma certa tendência para que esta se faça no âmbito da restauração e. por outro sobre o papel que ele tem na integração destas minorias. a tiragem reduzida e o escasso número de páginas onde. o que o torna naturalmente mais dispendioso mas também mais consentâneo com as características do público que quer atingir. Sushi do jeito que o futebol e churrasco 69 • Restauração Os seus títulos demonstram que não sendo grande a preocupação em termos de inserção profissional. A instituição sua proprietária – Casa do Brasil de Lisboa – tem. A periodização irregular. com o que se passa no país de adopção. é eco das preocupações dos potenciais leitores. Da sua leitura depreende-se que essas preocupações se prendem. Este interesse é já a primeira manifestação de tentativa de inserção e aparece em artigos quase sempre com chamadas à primeira página. a publicidade é abundante. sobretudo uma particular acuidade pela actualização dos imigrantes de forma a acompanharem a evolução da Europa. Curiosamente o jornal é policromático. Esta observação dos números do jornal Sabiá saídos em 2005 permitem-nos tirar conclusões por um lado sobre as características de um jornal feito por brasileiros e para brasileiros fisicamente distanciados da sua pátria.º 66 Títulos dos artigos • povo gosta 67 • Informática. mesmo assim. mesmo assim.

com uma formação cultural de nível médio / inferior o que nem sempre corresponde ao perfil dos brasileiros residentes em Portugal (AA. VV. 2003. 87). Isto leva-nos a crer que, dadas as similaridades linguísticas, a maior parte dos imigrantes brasileiros recorre à leitura da imprensa portuguesa, sendo o Sabiá tão só uma forma de matar as saudades pátrias. A sua periodicidade irregular poderá também gerar esta situação. De qualquer forma, o Sabiá cumpre o seu papel integrador da comunidade brasileira. A integração faz-se aos níveis social, político, cultural e profissional ainda que nos artigos nele inseridos, e que tentámos dissociar, se torne difícil separar estes tipos de integração uma vez que aparecem assiduamente em simultâneo. Mesmo assim tentámos ver a predominância de cada um deles. O único número que remete para os quatro tipos de inserção acima referenciados é o 66. De facto é o maior – 8 páginas enquanto os outros números têm apenas 4 – logo aquele que pode mostrar interesses diversificados. Apenas a inserção política é contemplada e tratada de forma obsessiva em todos os números. Isto é facilmente explicável. Dissemos, no início, que vários eram os factores optimizadores da inserção dos brasileiros em Portugal. Assim sendo, por aquilo que aduzimos, constata-se que desde que se encontrem numa situação legal, seja, politicamente inseridos, a inserção cultural, social e profissional são praticamente automáticas. Por um lado, a maioria dos brasileiros têm em Portugal um emprego estável (AA. VV. 2003: 86), por outro, convém não esquecer que não só, mas também através da comunidade imigrante, o nosso país assimilou muitos traços da cultura brasileira fazendo, muitas vezes, dela um modelo. A forma extrovertida de ser deste povo coadjuvada pela comunhão linguística viabilizam a rápida inserção social. Há, contudo, outra explicação para o tratamento obsessivo da problemática da inserção política nestes 4 números do periódico. Eles saíram em 2005, quando o governo português introduziu alterações à lei da imigração. Fazendo, como faz, o Sabiá, eco das preocupações dos imigrantes brasileiros não admira que dê voz à sua luta pela conquista de determinadas regalias.

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Assim sendo, e apesar dos constrangimentos vivenciados por este tipo de associações e publicações, o Sabiá erige-se como factor de integração, ponto de encontro e também de partida para aqueles que pretendem estabilizar numa segunda pátria.

Referências Bibliográficas
AA. VV., 2000, Dicionário de Ciências da Comunicação. Porto, Porto Editora. AA. VV., 2003, Atitudes e valores perante a imigração. Lisboa, ACIME. Chaliand, G., 1991, Atles des Diáspores. Paris, ed. Odile Jacob. Elias, N., 1980, Introdução à Sociologia. Lisboa, Edições 70. Escarpit, R., 1991, L’information et la Communication. Théorie Générale. Paris, Hachette. Esteves, M. C. (org), 1991, Portugal, país de Imigração. Lisboa, I. E. D. Jackson, J., 1991, Migrações. Lisboa, Escher. Leitão, J., 1991, A situação dos Emigrantes e das Minorias Étnicas na Imprensa. Lisboa, I.E.D. Mauss, M., 1991, Sociologie et Antropologie. Paris, Quadrige / puf. Neno, P., 1989, Morrer no Brasil. Lisboa, Veja. Neto, F., 1993, Psicologia da Migração Portuguesa. Lisboa, Universidade Aberta. Trindade, B R., 1995, Sociologia das migrações. Lisboa, Universidade Aberta. Sabiá, n.º 66, 67, 68 e 69 (2005). Lisboa, Casa do Brasil.

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V – Capítulo

Educação e formação

Textos de comunicações dos painéis:

Transnacionalismo, identidade, desenvolvimento
Coordenação

Miguel Moniz
Instituto de Ciências Sociais - Universidade de Lisboa

Percursos e testemunhos em Antropologia da Educação –
Coordenação

Telmo Caria, Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro - UTAD

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Sistema de Ensino, Transição Societal e Práticas Educativas Estratégicas dos Actores Sociais
Virgílio Correia Escola Superior de Educação de Coimbra (ESEC) vcorreia@esec.pt

Este texto pretende contribuir para o esforço de compreensão da realidade social angolana na actual fase de transição política, económica e social. Trata-se de uma análise da realidade, tentando captar as dinâmicas sociais resultantes das práticas educativas estratégicas dos actores sociais no quadro da transição e veiculadas pelo Sistema de Ensino. Estas práticas educativas estratégicas são analisadas enquanto respostas sociais a uma política educativa e enquanto mecanismo social que reflecte e reforça a dinâmica societal. Abordando três períodos do Estado pós-colonial (1975-1991/1992, 1992-2002 e 2002 até ao presente), propõe-se demonstrar que essas três conjunturas correspondem a dinâmicas de ensino que são função das políticas de ensino ‘praticadas’ pelo Estado e das respostas dos actores sociais a essas mesmas políticas. Palavras-chave: sistema de ensino, práticas educativas estratégicas, actores sociais, Estado pós-colonial, Angola.

Não constituindo objectivo desta comunicação apresentar resultados definitivos, deixam-se aqui algumas notas que permitem apreender e compreender a prática e o sentido das estratégicas educativas dos actores sociais no âmbito do processo de transição política, económica e social em Angola. A estrutura expositiva da comunicação obedece o seguinte percurso: num primeiro momento debruça-se sobre o processo de constituição e desenvolvimento da estrutura social angolana e o papel societal do sistema de ensino no mesmo. Esta incursão ao passado é fundamental para se perceber o processo de transição que Angola vem experimentando de forma particular desde o princípio da década de 90. A seguir aborda-se o processo de transição angolano no quadro do movimento global dos processos de transição que têm vindo a atravessar vários países da África ao Sul do Saara (ASS). Esta tarefa é completada com uma explicitação sucinta das principais perspectivas analíticas do processo de transição, proporcionando assim um elemento indispensável para se perceber a especificidade do caso angolano. Finalmente, no terceiro e último ponto, faz-se uma aproximação à questão central desta pesquisa: as estratégias educativas dos actores sociais no processo de transição em

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Angola. Nesta fase do trabalho não só é possível identificar os protagonistas (segmentos sociais) como também percepcionar os sentidos das suas acções.

Sistema de ensino e formação da estrutura social angolana

O objectivo que move o presente trabalho é o de proceder a uma análise crítica da realidade angolana do presente e captar as dinâmicas sociais resultantes das práticas estratégias dos actores sociais associadas ao sistema de ensino, no quadro do processo de transição política, económica e social iniciado em 1991/92. Semelhante empresa não dispensa uma perspectiva analítica socio-histórica. Muito pelo contrário, a análise do passado, sobretudo do passado recente, que coincide grosso modo com as décadas de 60 e 70, é fundamental para se perceber o momento actual. Esse período da história angolana, particularmente no que se refere às políticas e práticas educativas coloniais, marca decisivamente o Estado pós-colonial pela possibilidade de (re)estruturação societal que então permitiu e que haveria de permitir mais tarde, nos primeiros momentos após a independência. Os períodos que precederam e seguiram a independência foram importantes para a definição das posições e dos protagonistas na estrutura social angolana. Com a independência, e a consequente saída de grande maioria dos portugueses, era preciso ocupar os lugares deixados vagos, criar novos e eliminar outros. Neste processo era preciso fazer uma triagem, saber quem entrava, quem saía, e quem se mantinha. No entanto, o processo de formação social angolana vem de períodos mais recuados. Se é verdade que na época pré-colonial uma população pré-banta — constituída por pequenas sociedades, pouco diferenciadas e com baixo nível tecnológico — cobria de um modo escasso e intermitente o actual território angolano, no decurso de uma penetração lenta, 1 já nos quatro séculos de presença portuguesa no litoral angolano (iniciada no fim do século XV e prosseguida até meados do século XIX), sobretudo na sua fase final, verificava-se a coexistência de duas sociedades estratificadas, cujo
No Norte formou-se a sociedade Kongo, tendo alcançado extensão apreciável e alguma complexidade e maturidade, mas não atingindo o nível de certas sociedades políticas que naquela época (século XX) já existiam noutras partes de África. No Leste a penetração, até o século XV, não levou à formação de unidades sociais maiores. E no Sul (e Oeste) do Cuanza a cobertura demográfica continuara fraca e intermitente.
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«centro» era formado por um núcleo pequeno de europeus e «assimilados» (isto é, os que se encontravam próximos dos europeus, não no sentido legal que viria a ter mais tarde) e O período seguinte, isto é, a fase da ocupação colonial, que coincide com as últimas décadas do século XIX, corresponde ao momento em que Portugal redobrou o seu esforço de conquista do «interior de Angola», numa clara tentativa de antecipação e reforço da sua presença em África, em consequência da crescente concorrência de outros países europeus empenhados na «corrida para a África». Nesta fase consolidou-se um sistema eco-cultural colonial integrado, 2 composto por um «centro» e uma «periferia». O «centro» era constituído por uma imigração portuguesa cada vez mais importante, um número limitado de africanos «assimilados» e um número algo maior de mestiços. A «periferia» era composta por um número crescente de africanos, que constituiriam a mão-de-obra não qualificada (ou pouco qualificada) de que o sistema precisava para o seu funcionamento. Esta situação de dominação do «sistema central» sobre a «periferia» ou «sistemas tributários» manteve-se mesmo depois de algumas transformações posteriores a 1961, como são exemplos o surgimento de disposições legais abolindo a distinção entre «núcleo» e «periferia» no «sistema central», e entre «sistema central» e «sistemas tributários»; a supressão do trabalho obrigatório e da coacção para aceitar contratação de trabalho; a imposição de culturas obrigatórias, etc. Por conseguinte, essas alterações não passavam de estratégias da metrópole portuguesa para manter o seu domínio colonial sobre Angola, recorrendo à situação militar e à introdução de algumas modificações no status quo. Uma análise do papel societal do ensino na formação e desenvolvimento da estrutura social angolana de então permite constatar que, em cada um daqueles momentos históricos, o sistema de ensino teria não só servido como mecanismo de consolidação do modelo societal vigente, mas também contribuído para a passagem de um modelo para outro e para produzir modificações parciais em cada um dos modelos (Heimer 1973: 639). 3 Assim, nos primeiros quatro séculos da presença portuguesa, as sociedades
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Sobre a teoria dos ecossistemas eco-culturais cf. Silva e Morais 1973: 93-109. Conclusões globais de vários estudos levados a cabo nas ciências sociais sobre o papel societal da «educação formal» (ensino escolar) apontam no sentido da confirmação da hipótese segundo a qual o impacto da educação tende a reforçar a dinâmica societal prevalecente (cf. Bourdieu e Passeron s.d.).
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africanas e as «micro-sociedades coloniais» desenvolveram os seus mecanismos próprios de educação. Aquelas dispunham dos seus mecanismos de educação das novas gerações e estas últimas desenvolveram um pequeno número de instituições escolares que viriam a complementar a educação «informal». Relativamente às instituições escolares das «micro-sociedades coloniais», umas serviam os «núcleos» da população urbana e outras a parcela da população africana situada na faixa do território anexa a Luanda. Se as primeiras contribuíam para a consolidação do «centro» das micro-sociedades coloniais as segundas serviam para a consolidação do domínio do «centro» sobre a sua «periferia». Na fase da ocupação colonial, o estabelecimento de uma rede escolar estatal contribuiu para a consolidação do «centro» do sistema colonial, enquanto que uma rede escolar paralela estabelecida pela penetração missionária nas sociedades africanas (iniciada de forma sistemática na segunda metade do século XIX) viria a cobrir o conjunto do território. Tendo atingido uma ínfima parte das sociedades rurais africanas, o ensino missionário (chamado «ensino rudimentar») ajudou, por um lado, a consolidar, em termos de «superestrutura» ideológico-cultural, o domínio do «núcleo» sobre a «periferia» do «sistema central» e do «sistema central» sobre os «sistemas tributários» e, por outro lado, a mobilizar um certo número de africanos de que o «sistema central» precisava para o seu funcionamento. No período de transformação posterior a 1961 um balanço global da situação aponta no sentido de que as prioridades relativas tanto ao ensino primário como ao ensino pós-primário foram dadas ao «sistema central», pelo que o ensino constituiu um poderoso mecanismo de «integração» e de diversificação. Quanto aos «sistemas tributários», a expansão do ensino pouco ou nada contribuiu para o seu desenvolvimento; continuou, isso sim, a constituir um mecanismo de «domesticação» ideológico-cultural dos «sistemas tributários» pelo «sistema central», um mecanismo de drenagem de elementos dos «sistemas tributários» para o «sistema central» (Heimer 1973: 643). Essas transformações da década de 60 foram o culminar de uma estratégia iniciada na década anterior. Em 1951, quando o ensino «rudimentar» passou a chamar-se «ensino de adaptação», havia a intenção de facilitar (de forma restrita, é claro) a passagem de alunos deste tipo de ensino para o estatal; a partir de 1954/55, em certas zonas urbanas ou mesmo rurais praticava-se uma admissão «tácita» em escolas estatais de

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crianças africanas oriundas de famílias consideradas «indígenas»; a reforma do ensino primário de 1961, sancionada por lei em 1964 e continuada por outras tantas medidas subsequentes, foram importantes em termos estruturais (cf. Ministério do Ultramar 1964). Os aspectos mais importantes desta mudança foram a abolição da distinção de princípio entre duas redes de ensino primário, com status diferentes; o alargamento da actuação do Estado, implicando o estabelecimento de postos escolares rurais e «suburbanos»; a «oficialização» do ensino missionário católico (cujos professores ficaram a depender, financeira e pedagogicamente do Estado); a manutenção das escolas das missões protestantes, sem subsídios estatais, mas seguindo os modos de actuação das escolas estatais; a generalização de um tipo de escola inspirada nos parâmetros culturais vigentes em Portugal, com modificações apenas destinadas a facilitar a transição da criança africana «não-assimilada» para este tipo de ensino; a introdução de dois novos tipos de agentes de ensino: o monitor, elemento africano, com «habilitações literárias» elementares e precária formação profissional, e o professor de posto, não diplomado, com «habilitações literárias» equivalentes ao ensino preparatório; a aceleração da expansão escolar (ensino primário) beneficiando sobretudo efectivos das áreas rurais; a introdução da escola preparatória do ensino secundário (1968); a expansão do ensino liceal técnico; e a criação do ensino universitário. Independentemente das razões que se prendem com as estratégias políticas de fundo, essa mudança na política educacional proporcionou, por um lado, à sociedade central em expansão uma mão-de-obra mais qualificada e numerosa e, por outro, contribuiu para uma maior corrosão e incorporação das sociedades periféricas; isto é, a educação foi um factor decisivo para o avanço maciço dos não brancos em posições de classe média, que durante muito tempo foram domínio quase exclusivo dos brancos. 4 Assim, com a independência e a correspondente saída dos portugueses, os lugares deixados vagos foram ocupados por esse grupo que viria a constituir a classe dirigente e burguesia técnica executante, o gérmen da classe-Estado pós-colonial. Com efeito, o
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Esta explicação não invalida, no entanto, as interpretações dessas mudanças que vão no sentido de explicar estas últimas como uma estratégia de «contra-subversão», isto é, uma tentativa da metrópole assinalar o fim da discriminação social/racial e manifestar preocupação com o «bem-estar das populações», dando resposta a uma procura da educação por parte dos «indígenas»; como uma preocupação de valorização da Província (mais tarde Estado) de Angola face à metrópole, africanizando, em certa medida, os manuais escolares e tentando criar uma afiliação cultural e uma identificação forte e generalizada com Portugal e, deste modo, minar a base de uma contestação anti-colonial inspirada na ideia de uma identidade nacional angolana (cf. Silva 1969; citado por Heimer 1973: 641).

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São exemplos os conflitos que envolveram geralmente os Ovimbundu que. Com efeito. tenta garantir a permanência do poder e a legitimação social. a utilização do sistema de ‘cartão’ é um exemplo disso mesmo. maior participação na classe-Estado ou dirigente). a estratégia de um Estado que. até 1982. também. algumas tensões inter-étnicas entretanto verificadas foram provocadas pela ‘situação colonial’. reconversão essa que devia ser acompanhada de um maior desenvolvimento. já que a manutenção do baixo nível médio de desenvolvimento. utilizando as mais diversas formas de compensação. Esta situação era ‘compensada’ por um cartão (o cartão do povo) que dava acesso às «Loja do Povo». em Luanda.6 Estado pós-colonial seguiu e ‘reproduziu’ o ‘modelo societal’ da época colonial. Nestas lojas vendiam-se produtos nacionais 5 Na época colonial. uma convivência harmoniosa entre os vários segmentos sociais ou etnias africanas estaria dependente de uma reconversão do referido modelo societal. uma estrutura social heterogénea. ou conseguir combinações de ambas as modalidades. criava as condições para competições individuais e colectivas que podiam assumir feição de concorrência inter-étnica. A prática desse Estado protector reflecte. ao ver tolhida a sua base de subsistência. ou obter a seu favor uma mudança nos termos da heterogeneidade (por exemplo. Com os Bakongo. Nessas circunstâncias. os riscos mínimos de conflito associados aos vários segmentos sociais ou às etnias africanas foram em larga medida superados graças a um Estado protector. possibilitando aos empresários europeus fixar um nível de remuneração mais baixo para a mão-de-obra assalariada. estavam criadas as condições para o surgimento de conflitos diversos e. ou mesmo cessou. no Uíge. Em Angola. que esteve congelado durante muitos anos. 5 Nas primeiras décadas de independência. aceitaram a sua utilização pelo «sistema central» entrando em disputas com outras etnias. de práticas estratégicas de sobrevivência dos actores sociais. à semelhança da quase totalidade dos Estados africanos. em detrimento de outros). praticante de políticas sociais dirigidas aos grupos vulneráveis. Quando esta prática de funcionamento do Estado começou a dar mostras de fraqueza. os assalariados do Estado recebiam um salário nominal baixo. em tudo semelhante ao verificado nos «sistemas tributários» e na «periferia» do «sistema central». os conflitos resultaram na competição nos empregos oferecidos pelo «sistema central» (cf. Na luta por condições relativamente melhores (ou apenas menos más) podia dar-se o caso de determinadas etnias tentarem ou garantirem para si mesmas uma posição mais vantajosa na estrutura vigente (por exemplo. os trabalhadores ovimbundu colaboraram na expansão do «sistema central». ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . melhores ‘razões de troca’ com a classe-Estado ou dirigente. Heimer 1973: 648). isto é. consequentemente. com os Akuwambundu.

segundo o qual a instituição da democracia em África se deveu a um processo de democratização progressiva. As medidas liberalizantes podem. calculada ao câmbio oficial. Pierre Moukoko Mbondjo representa o pólo oposto. entre outras (cf. ao reforço da utilização do património do Estado em benefício próprio. assumindo formas de nepotismo. O cartão dava direito a um cabaz de compras em função do número de elementos do agregado familiar e/ou da qualificação profissional do detentor. Pode dizer-se que os processos de transição. ora valorizando a sociedade civil (‘política pela base’). mas depois pode levar as reformas até um ponto onde já não se pode parar. 7 As medidas de liberalização tendem a introduzir uma significativa abertura do regime burocrático-autocrático em vigor. práticas essas que se mantiveram de forma sistemática até 1989. diferentemente das outras formas de mudança política baseadas na violência. as transições políticas tendem a surgir associadas aos processos de liberalização económica. Fall 1993). Kwanza. isto é. realizado por vários regimes de partido único (cf. decorrem na vigência de expectativas mais ou menos seguras. suborno. Com efeito. retém a sociedade civil como protagonista de desmantelamento dos regimes monopartidários (Mbondjo 1993). económica e social. a não ser sob graves riscos políticos (O’Donnel 1979. Generalizaram-se as práticas de «corrupção». e não satisfazer com as aberturas/soluções apresentadas. em Abril de 1992. 6 A restrição daquela prática de sobrevivência. precipitar um processo de expansão de expectativas de uma sociedade civil. assim. em Angola a fraqueza do Estado e o ‘abandono’ das populações surgiram ligados ao processo de transição política. absentismo. económica e social na África ao Sul do Saara (ASS) e o caso angolano À semelhança do que aconteceu na África subsaariana em geral. conduziu.7 e importados em moeda nacional. O’Donnel e Schmitter 1986). acumulação de cargos ou falta de decisões. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . 7 Os processos africanos de transição têm sido explicados ora valorizando o sistema político (‘política pelo topo’). mais do que nunca. sobretudo para os trabalhadores que mais precisavam dela. altura em que foi extinto o controlo dos preços. permitindo no início apenas ‘aberturas’ controladas do espaço político. Ennes 1994/95: 171-196). postos em marcha pelo poder instituído. Trata-se de processos de 6 Muitas empresas do Estado utilizavam também formas de pagamento em géneros aos seus trabalhadores. O processo de transição política. Um exemplo do modelo de explicação das transições pelo topo é o trabalho de Fall. que exigirá sempre mais. O sector informal da economia tornava-se. o espaço de sobrevivência da quase maioria da população.

Ao contrário dos processos de ruptura. neste sentido. A aceitação deste paradigma causal das determinações económicas nos processos políticos africanos. na qual os recursos públicos são distribuídos segundo princípios clientelares. O Estado funciona. associada ao processo de transição. O Estado é objecto de apropriação por uma gestão neo-patrimonialista. na segunda metade dos anos 80. Esta fraqueza do Estado. tenha contribuído para desencadear. em certa medida. as transições nunca chegam a caracterizar-se pela anomia. parece encontrar razões que as justifiquem. É neste contexto que uma grande maioria dos Estados africanos é sujeitos aos programas de estabilização impostos pelo Banco Mundial e pelo Fundo Monetário ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . o fim dos sistema de controlo de preços de bens e serviços essenciais. a hipótese segundo a qual a derrapagem económica sofrida pelo continente africano. Bayart 1985).7%. e que têm na democracia o fim último a atingir (Przeworski 1994). Por todo o continente a desintegração institucional surge como uma das facetas mais importantes da crise. o fomento do aparecimento de empresas privadas. A nível económico. não como um agente do desenvolvimento. muitos dos Estados africanos conhecem uma dinâmica económica regressiva desde então. mas sim como mecanismo de predação dos recursos financeiros (Bayart 1989. as medidas de liberalização acabam por abrir brechas nos fundamentos doutrinários. a partir de então experimenta a tendência para o abrandamento do ritmo de crescimento das suas economias: entre 1981-1989 o crescimento do PIB atinge os 0. tais como a perca de certos monopólios. de uma tendência acentuada e prolongada de degradação das condições económicas (Boudon 1990. ao perder grande parte da sua legitimidade o poder político provoca fenómenos de descontentamento e insubordinação. Ou seja.8 mudança intencionalmente direccionada e parcialmente dominada pelos actores em presença. A ideia base é que os processos de ruptura resultam. Se entre 1960-1972 o continente regista um crescimento real do Produto Interno Bruto (PIB) na ordem de 2. Tocqueville 1989). iniciados nos anos 80. etc. com a consequente perca das fontes tradicionais de legitimidade.5%. quase sempre. incentivar e acelerar esse mesmo processo de transição. Efectivamente. resultam muitas vezes deste processo. O abandono dos mecanismos de distribuição social dos rendimentos por parte do Estado e o alargamento das desigualdades. confirma.

etc. 8 Um balanço do processo de transição democrática iniciado na ASS nos 80 dá conta de alguns resultados positivos mas também de muitos obstáculos. No plano interno. A adopção do Programa de Ajustamento Estrutural (PAE) coloca estes Estados na situação de dependência. os regimes monopartidários não conseguem resistir às pressões externas e internas que apontam para o seu desmantelamento. Cabo Verde. no entanto. No panorama da rápida evolução política propriamente dita ocorrida na ASS em direcção ao multipartidarismo é possível distinguir quatro categorias: as ‘velhas democracias’. e a mobilização política contra o poder monopartidário e sua penalização eleitoral. motins. As reformas institucionais. na alienação das empresas. Congo e Mali). na restrição do pacote de preços subsidiados de produtos essenciais.9 Internacional. mais marginalizados e mais pobres que enfrentaram a rejeição mais expressiva do regime monopartidário aí existente. não deixando aos responsáveis políticos africanos um espaço de manobra apreciável. à fraqueza e à perca de alguma soberania real dos Estados tanto a nível externo como interno. para a erosão da legitimidade do Estado. em muito. países que proibiram o multipartidarismo ou que tendo aceite avançar com Deve notar-se. a educação e a cultura. Neste quadro. Gabão. etc. Botsuana e também Senegal). Os governos perdem a capacidade autónoma de decisão em matéria estrita de política económica e bem assim nos aspectos que se prendem com o enquadramento legislativo e definição constitucional de competências. a um tempo. resultantes de alternância de poderes (Benin. não foram os países mais endividados. A aplicação das medidas do PAE conduzem. perdendo em muitos casos o controlo sobre o processo social. Ou seja. nomeadamente o respeito pelos Direitos Humanos e o engajamento do poder político no processo tendente à instauração do pluripartidarismo. as ‘novas democracias’. Gâmbia. jurídicas e políticas. são alguns exemplos. as ‘novas democracias’. onde vigorava o multipartidarismo desde a independência (Ilhas Maurícias. sem alternância de poderes (Costa do Marfim. traduzida na redução das despesas públicas e restrições das importações associadas ao despedimento de funcionários públicos considerados excedentários. Angola. manifestações diversas. São Tomé e Príncipe. que não existe uma correlação linear e directa entre fraqueza ou crise económica e os respectivos efeitos sociais (mais) dramáticos. Camarões e Gana). Zâmbia. a aplicação das medidas do PAE parece estar na origem de greves. 8 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . na desvalorização da moeda. As medidas accionadas pelo PAE contribuem. nos cortes nos programas sociais que envolvem a saúde.

persistem dúvidas sobre uma «participação» que se reportava às formas de democracia da política tradicional africana (cf. em alguns países. ainda. um à direita e outro à esquerda (Buijtenhuijs e Rijnierse 1993: 1). a classe-Estado. Bozenan 1976). vendo nela apenas um sistema multipartidário (cf. e continua ainda a constituir. o surgimento e o desenvolvimento de práticas democráticas. de Estados que não tinham o controlo sobre os meios de produção. Em alguns casos o processo foi bem sucedido. a centralização e o paternalismo. quer no plano político quer no plano económico. ou classe dirigente. pré-colonial. fundamentalmente. 9 Esta evolução não é estranha. o canal principal de crescimento económico. o processo de democratização em África não deixou de ser influenciado pela combinação de factores externos e internos e acontecimentos só foi 9 Os múltiplos obstáculos ao processo de democratização estão na origem do pouco optimismo de muitos autores relativamente ao futuro do continente africano. jogando um papel central na formação das classes sociais. mais tarde. O Estado pós-colonial em África constituiu. pode dizer-se que as mudanças entretanto ocorridas não produziram efeitos significativos. Estes grupos eram constituídos sobretudo por altos funcionários competentes. ex-Zaire e Malawi). Com efeito.10 mudanças políticas tudo fizeram para minar esses acordos (Quénia. Eles fundamentam as suas posições essencialmente nas imperfeições de algumas experiências já levadas a efeito. Autores há que são ainda mais pessimistas. Por outro lado. ao passado longínquo e recente da África nem às características do regime anterior. a transição entrou numa fase de estagnação. aproveitava as suas posições para se munir de uma base económica própria pela criação de empresas públicas e privadas ou outras actividades económicas. se relativamente ao passado longínquo. e não favorecem. Este grupo inclui autores que encaram a democracia no seu sentido mais lato. caracterizados por Por outro lado. reconhecendo uma dimensão económica. Quando da independência o poder foi apropriado pela elite política e. Tratando-se. todas formas de organização política que não favoreciam. relativamente ao passado colonial é consensual a ideia de que a tradição política então praticada repousava sobre a autarcia. Esta característica influenciou decisivamente a política africana e o processo de competição política. pela burguesia burocrática. como sejam a oposição dos poderes instituídos e. dado que não havia uma burguesia local. assim como autores que pensam a democracia de uma forma mais restrita. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . e o caso da Nigéria onde o governo militar autorizou dois partidos. pela classe política ou. dirigentes de partidos e oficiais superiores. Buijtenhuijs e Rijnierse 1993: 18 e 19). noutros deparou-se com algumas dificuldades. certamente. o funcionamento do Estado pós-colonial não favorece o desenvolvimento e a prática da democracia. De qualquer modo.

de negociações e de guerra intensificada. além de não ter tomado a iniciativa de abertura democrática. surge também num contexto de crise económica e social que atravessa o país e num contexto de fortes pressões internas e externas que reivindicam para Angola mudanças rápidas e drásticas dos rumos que o país tem tomado. negociados sob auspícios internacionais. demitindo-se progressivamente das funções sociais que anteriormente assumira. Mas o processo angolano. Angola experimenta um processo de transição que enfrenta problemas graves. um processo que até 2002 esteve bloqueado (Buijtenhuijs e Thiriot 1995: 26). O MPLA. Conforme Messiant. quando deu conta 10 É verdade que a abertura pré-eleitoral de 1991-92 não permitiu resolver as situações de guerra. visto que o processo de pacificação foi limitado aos dois beligerantes: UNITA e MPLA. só cedendo sob pressões. não estarem convencidos de que a democracia era o melhor sistema governamental. O insucesso do processo de transição em Angola tem certamente várias causas. Para esta autora. o Estado diminuiu o seu controlo sob todos os sectores da economia. mas teve o mérito de possibilitar ‘alguma abertura política’ para manifestações sociais/laborais e económicas. Esta especificidade deve-se sobretudo ao facto desse processo surgir num contexto de guerra civil em que o país está mergulhado há mais de três décadas. só assinou os Acordos de Bicesse porque estava convencida que sairia vencedora das eleições de 1992. Por isso mesmo. Em Angola o processo de transição assume características específicas. que apelavam para uma mudança. A partir de 1991. o que não acontecia no sistema monopartidário vigente anteriormente. Para esta autora. «o papel da ‘comunidade internacional’ neste processo e sua responsabilidade política neste resultado foram consideráveis» (Messiant 1995: 48). este fracasso fica a dever-se. com o início do processo de abertura política. 10 Este abandono do Estado das suas funções sociais é agravado pela necessidade do governo do MPLA garantir a sua manutenção no poder na sequência da guerra civil vivida após as eleições de 1992. à semelhança da grande parte do resto do continente africano. em larga medida. associado a um processo liberalização económica. A UNITA. resistiu enquanto pôde. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . estavam lá e aproveitaram as circunstâncias para fazer ouvir a voz dos seus protestos. Enfim. UNITA e MPLA. terem sido mal conduzidos (Messiant 1995: 40-57). por seu lado.11 possível porque as forças sociais internas. ao facto dos Acordos de paz de Bicesse destinados a pôr fim à guerra civil. o insucesso do processo de transição angolano fica a dever-se também ao facto de que os dois principais partidos angolanos.

Os indivíduos pertencentes aos níveis mais elevados da classe-Estado encontram no processo de privatização.Angola. Banco de Portugal 1995 e Carvalho 1996). na maioria dos casos. como é o caso do comércio grossista. 57. cerca de metade dos quais entre a população rural (cf. confrontados com a falta de «cartões». prejuízos avultados ao Estado. devido sobretudo ao reforço da exportação de petróleo. registou uma significativa recuperação. São eles que vão alimentar Luanda e outras cidades do país. a situação económica e social em Angola não melhorou. recorrendo sobretudo ao sector informal da economia. que haveriam de formar uma pequena burguesia. Se os dirigentes ou ex-dirigentes candidatos a empresários encontram nos mecanismos de privatização um espaço para manter o status quo. com a inflação a atingir valores elevadíssimos. As actividades mais lucrativas no imediato. vão sobreviver nos círculos informais da economia. O PIB cresceu na ordem dos 8. Subempregados. 12 As privatizações das empresas do sector público trazem. e sobre a guerra civil angolana cf. que consagra grande parte dos artigos a . uma possibilidade de manter a sua posição na primeira linha de hierarquia económica e social do país. demitem-se das suas funções ou ausentam-se do serviço para procurar sobrevivência na economia paralela. iniciado em 1991. No entanto. 11 Nos anos que se seguiram esse período conturbado da vida angolana. É neste contexto de crise generalizada que as populações desenvolvem estratégias próprias de sobrevivência. em 1994 a economia angolana. 5% das exportações de 1994. Sobre as eleições abortadas de Setembro de 1992 cf. Até 1996 muitos funcionários do Estado.12 que os resultados eleitorais lhe eram desfavoráveis não hesitou em retomar a guerra. responsável por 96. 12 os segmentos mais baixos da classe-Estado. Pycroft 1994: 241-262. desempregados e muitos empregados recorrem a esse sector como tábua de salvação. Na segunda metade de 1995 o governo perdeu de novo controlo da situação.2%. às divisas e ao crédito. Pelo contrário. em 1993 a situação agravara-se: o ritmo de inflação mensal atingiu os 23%. dependente de um contexto de guerra. aproveitando alguma segurança que a UNAVEM III proporciona. Pereira 1994: 1-28. em relação ao ano de 1993 (mas não em relação ao de 1992). os deslocados e outros afectados pela situação de guerra atingiam os três milhões de pessoas. a taxa de desemprego em Luanda era superior a 24%. Por vezes mantêm as suas funções no aparelho de Estado. 11 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Sommerville 1993: 51-77. e a Revista Politique Africaine. O segmento intermédio da classe-Estado. A estratégia da classe dirigente ou ex-classe dirigente é sobreviver na área económica sem perder a ligação aos círculos de influência. são as preferidas pelo novo empresariado angolano.

Apesar da educação ter sido eleita pelo Estado pós-colonial como uma via privilegiada para o desenvolvimento e para a transformação da estrutura social em Angola (à semelhança. cumulativamente ou não com a sua funções do sector público.13 por sua vez. em Angola. evidentemente. levando consigo a propriedade do Estado. no quadro de transição. O reconhecimento do baixo nível de preparação dos professores. mantém o seu emprego no Estado ou noutro organismo. social e económico acumulado ao longo dos tempos junto do aparelho de Estado. acumulando frequentemente outras funções em empresas multinacionais. de todos os países africanos recém-independentes). Em suma. no período de transição. por exemplo. a nível do sistema de ensino. Além da oferta de ensino não satisfazer a procura a sua qualidade era muito fraca. reforçada ainda pelo facto de que o sector de educação surge. que tendem a transitar do Estado/partido para o topo da hierarquia económica. as classes dirigentes ou classe-Estado. ao sector de segurança e defesa. marginalizado e subordinado. que surge associado a um certo abandono das populações por parte do Estado. Há também aqueles que aproveitam a abertura política para se dedicarem às actividades do sector privado. A degradação progressiva dos edifícios herdados da época colonial e a escassez de verbas orçamentais destinadas à educação revelam a grave crise do sector. Os melhores colocados para exercer esse «poder» são. a ponto de se tornar imprescindível o apoio das organizações internacionais com vista a uma nova reforma do sistema de educativo. tanto por parte do Ministério da Educação de Angola como das instituições ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Os segmentos sociais menos bem colocados tendem. por sua vez. os diversos actores sociais tentam rentabilizar o capital político. Realidades educativas angolanas e estratégias educativas dos actores sociais no processo de transição É justamente esta lógica estratégica de rentabilização de capital acumulado junto do aparelho do Estado que também prevalece. aliás. a rentabilizar as funções que exercem usando a corrupção e o suborno para aumentar os seus rendimentos. Mas as dificuldades que afectavam e afectam a realidade educativa em Angola foram sempre muito mais graves. este sector defrontou-se desde sempre com grandes dificuldades.

a maioria dos professores continuava a ter entre quatro a seis anos de escolaridade. a todo o custo. embora africano. Acrescente-se que o sector de educação angolano sofria de uma desarticulação a nível de coordenação de acções a nível nacional/regional ou local. por exemplo. projecto este que visava elevar o nível académico de vinte mil professores com a 4ª classe para a 6ª classe. procuram outras formas de complementar os seus salários para assegurar uma sobrevivência condigna. As orientações políticas e outras relativas ao sector são sacrificadas. mas que ainda não estão integradas. a uma situação em que o Governo eleito não controla parte significativa do território e à consequente subordinação do sector do ensino relativamente aos esforços e políticas estratégicos de defesa e segurança. As outras realidades. o funcionamento real da estrutura do sistema educativo angolano apresenta-se desfasada da estrutura «oficial». permanecia desigual. defrontavam-se sempre com um problema central que era o desconhecimento da realidade educativa de Angola. cientes de que os seus salários não lhes permitiam garantir a sua sobrevivência e da sua família. estratégias próprias com vista à resolução dos seus problemas educativos específicos. a distribuição da frequência. associada à situação de guerra civil. desenvolvem. em termos regionais. Rapport National de la République d’Angola par le Ministère de l’Éducation 1994). O processo de transição/liberalização não trouxe alterações significativas ao sector de educação. com um estilo de vida urbano.14 internacionais. Face à situação de instabilidade política em que o país vive. sempre que surja ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . em 1979. associada a um projecto financiado pelo PNUD. Os professores. as tentativas de levar a cabo as reformas educativas. A frequência dos alunos nos níveis escolares mais avançados (II e III) continuava a ser fraca. a da população que vive na cidade. a não ser que. como sejam das populações que chegam à cidade. A Reforma educativa de 1994 orientava-se para uma realidade educacional concreta. as próprias populações. reflectindo uma situação de litoralização (à medida que se afastava para o interior a frequência diminuía) e desfavorável aos elementos femininos. doravante e mais do que nunca. ao sentirem-se abandonadas pelo Estado. Nestas circunstâncias. motivou a cooperação técnica da UNESCO. Muitas vezes conseguir um complemento salarial significa abandonar o posto de trabalho em qualquer momento. não são contempladas nas preocupações da reforma (cf. como foi o caso da Reforma de 1994.

a pressão exercida pela classe-Estado e pela burguesia emergente. este traduz. os grupos favorecidos. E porque a frequência de uma escola pública. Aqui o que está em jogo é o poder de influência e ligação com o Poder político. enquanto via de obtenção de interesses próprios. na maioria das vezes. deste modo. fugindo da guerra ou simplesmente à procura de melhores condições. desejosa de protagonizar dinâmicas próprias dos países capitalistas.15 uma oportunidade. sobretudo as «deslocadas». Junto aos edifícios do culto religioso foram surgindo ‘espontaneamente’ as «escolas» em salas de aulas anexas. Poucas pessoas ou instituições. e os perdedores também são sempre os mesmos. após 1992. receber de volta as suas antigas instalações escolares nacionalizadas com a chegada da independência. que deixar de «mandar os filhos à escola» em favor de uma qualquer estratégia de ganha-pão no mercado informal/paralelo. As populações mais carenciadas. em que os vencedores são sempre os mesmos. Daí que os empreendimentos de maior importância surjam ligados à classe-Estado. que chegam à cidade fugindo à guerra ou em busca de melhores condições. encontram nas diferentes comunidades religiosas um espaço de pertença e integração. uma situação em que a política de formação de quadros está ausente ou se encontra subordinada a um processo de manutenção/melhoria das condições de vida ou de sobrevivência. é apenas parte dela — mormente a pequena burguesia. Uma vez mais o jogo do poder e de influência política encontra um campo propício. As populações de origem rural. que chegam à cidade. a incapacidade do Estado em responder à procura de educação e. a classe-Estado. Os ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . com excepção da Igreja Católica. têm. Todavia. As diligências da Igreja Católica permitiram-lhe. por outro. A mesma lógica preside às estratégias de atribuição/acesso às bolsas de estudo reflectindo. teoricamente gratuita. exige das famílias um investimento significativo que não está ao alcance de toda a população. os funcionários públicos e os pequenos empresários — que acaba por aproveitar as oportunidades de escolarização existentes. conseguem a legalização e o funcionamento de escolas privadas sem grandes obstáculos. por um lado. Quanto ao aparecimento do ensino privado. esta situação favorece o carácter reprodutor da educação. o arranque do ensino privado não se processa sem grandes dificuldades. os grupos desfavorecidos ou menos favorecidos. Naturalmente.

os vários segmentos sociais desenvolvem estratégias próprias de acesso à educação. BOZENAN. Princeton University Press. Raymon. Lisboa. Jean-François. L’État en Afrique: la politique du ventre. 1993. 1 (10): 171-196. L’État au Cameroun. investindo os seus recursos de modo a atingir os seus objectivos: a pequena burguesia do empresariado emergente socorre-se dos seus recursos provenientes do comércio informal. 1989. Céline. BUIJTENHUIJS. 1996. Leiden. Política Internacional. African Studies Centre. Referências Bibliográficas BANCO DE PORTUGAL.d. FALL. Ferreira. 1993. BOUDON. Leiden. por sua vez. etc. Centre d’Études Africaines. B. Princeton. Revista Energia. Em suma. Jean-François. Rob e RIJNIERSE. bastante acima da oferecida por outras instituições. Ibrahima. o seu poder de influência resulta do controlo do aparelho de Estado (incluindo ‘cunhas’. tratam-se de escolas de elite. Paris. 1990. BOURDIEU. Pierre e PASSERON. O lugar da desordem. Evolução das economias dos PALOP 1994. 1995. e a classe-Estado rentabiliza os recurso do próprio Estado em seu favor. Paulo. «Hiperinflação em Angola». A. associados aos grupos com algum poder/interesse económico interessados em desenvolver projectos de ensino com uma qualidade razoável.). 1985. ENNES. Gradiva. Rob e THIRIOT. FNSP. Estas instituições tentam aproveitar as antigas instalações negociando. 1976. CARVALHO. Editorial Vega. Lisboa. 1995. BUIJTENHUIJS. geralmente com o Estado. 1989-1992: Un aperçu de la littérature. incluindo o Estado. Conflict in Africa: Concepts and Realities. Démocratisation en Afrique au Sud du Sahara 1992-1995: un bilan de la littérature. 1994/95. s. Elly.. Jean-Claude. as populações dos estratos mais baixos têm como recurso as comunidades religiosas (e/ou ONG). A reprodução: elementos para uma teoria do sistema de ensino.16 Colégios e Externatos surgem. BAYART. BAYART. Paris. Démocratisation en Afrique au Sud du Sahara. corrupção. Lisboa. 42. a reconstrução de edifícios que no período colonial serviam funções similares. «Esquisse d’une théorie de la transition: du monopartisme au ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . «O processo de privatização em Angola».. Fayart.

SOMMERVILLE. MESSIANT. PEREIRA. «Le retour au multipartisme au Cameroun». 1986. Journal of Southern African Studies.). MBONDJO. 1973. W. MINISTÉRIO DO ULTRAMAR. Rio de Janeiro. Estúdios CEDES. PRZEWORSKI. The Journal of Modern African Studies. s. Guillermo e SCHMITTER. O’DONNEL. 57: 40-57.. 1994.. Editorial Fragmentos. Survival. 35 (3): 51-77. Relume e Dumará. Politique Africaine. Genève. HEIMER. 1994. Jorge Vieira da e MORAIS. em L’Afrique vers le pluralisme politique.l. Franz-Wilhelm (ed. 1995. 1973. 1979. 1993. A. 1989. «Ecological Conditions of Social Change in the Central Highlands of Angola». «Angola — The Forgotten Tragedy». Democracia e mercado. Adam. 1994. Paris. Toda educação aponta para a integração. O Antigo Regime e a revolução. Phillipe. Economica. SILVA. A reforma do ensino primário no Ultramar. PYCROFT. 1994. 1969. Lisboa. Júlio Artur de. em HEIMER. Análise Social. Social Change in Angola. 32 (1): 1-28. SILVA. Munique. Guillermo. «Notas para el estúdio de procesos y democratizacion a partir del estado burocrático-autoritário». 44èmme Session. «Développement de l’Éducation». 1992-1993».17 multipartisme en Afrique». 93-109. Pierre Moukoko. K. «The Failure of Democratic Reform in Angola and Zaire». Lisboa. «The Neglected Tragedy: The Return to War in Angola. 1964. Conférence Internationale de l’Éducation. O’DONNEL. John Hopkins University Press.?. José Pinheiro da. C. «Estrutura social e descolonização em Angola».. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . RAPPORT NATIONAL DE LA RÉPUBLIQUE D’ANGOLA PAR LE MINISTÈRE DE L’ÉDUCATION. em L’Afrique vers le pluralisme politique. C. Paris. Luanda. Economica. Transitions from Authoritarian Rule: Tentative Conclusions about Uncertain Democraties. 40: 621-655.. Franz-Wilhelm. 1993. 20 (2): 241-262. TOCQUEVILLE. Alex. 5. «MPLA et UNITA: processus de paix et logique de guerre».

ponderando o peso da agência pessoal e dos condicionantes estruturais. embora limitando o horizonte da investigação. em 2003. logo. face ao horizonte de acção. aproveitando para estudar aquele grupo durante os seus tempos livres. que neste encontro tem a sua primeira oportunidade de ser submetido ao escrutínio dos nossos pares. inseridas no quadro geral de um horizonte de acção comum. acordámos com a direcção da Instituição. Assim. entre os 17 e os 18 anos. apesar de diversos entre si. Mentalidade Cultural O presente trabalho. a realizar um curso técnico. ao invés da tendencial “naturalização” dos fenómenos sócio-culturais das explicações etno-culturalistas. posteriores à apresentação. na compreensão da forma de relação destes jovens formandos com os formadores e os mediadores culturais que lidam com eles. elaboradas sobre o fenómeno da educação/formação. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . realizámos a avaliação etnográfica1 de um Centro de Formação Profissional. de uma monografia final de pósgraduação em Formação de Formadores que frequentámos no Instituto Superior de Psicologia Aplicada. designámos como Instituto Global de Artes e Ofícios da Periferia. Inserção Social. que.A. de manifestação “livre” de condutas e atitudes.Relações Sociais na Formação Profissional Especial: da(s) Cultura(s) às Pessoas Miguel Ângelo Granja Lobato FCSH-UNL miguellobato@sapo. Mediação Cultural. Na supracitada monografia. Assim. Em suma. 1 Nesta investigação. 2 E que. S. que iríamos restringir o locus da pesquisa aos espaços de recreio e lazer. junto de um grupo de jovens (seis rapazes e uma rapariga). esta condicionante permitiu-nos estudar a vida quotidiana destes formandos nos espaços físicos onde existe maior flexibilidade de regras. Palavras-Chave: Formação Profissional. por motivos éticos. Insucesso Escolar. deriva de um conjunto de desenvolvimentos e reflexões. sito na região da Grande Lisboa 2 .pt Através do estudo de um grupo de jovens desfavorecidos. procurámos compreender as relações sociais estabelecidas entre os formandos e o pessoal de enquadramento. com diferentes origens etno-culturais. defendemos a reabilitação da figura do agente social. radicamos os seus padrões de atitude e conduta na adesão a diferentes mentalidades culturais.

desenvolvendo-se em três anos. particularmente por intermédio dos mediadores culturais. estava legalmente regulamentado pelo Despacho Normativo n. que era composta por dezasseis elementos. como forma de resolver a recorrente perturbação que provocava nas sessões de formação. ou de habitação social. partindo da pesquisa efectuada sobre a relação destes jovens formandos com os mediadores culturais. no presente trabalho. o dispositivo institucional. por norma. durante os últimos meses do segundo ano do curso. convém referir que este grupo de formação 6 era o remanescente da “turma” inicial. a qual. face aos Pelo menos de início. mas antes desenvolver algumas reflexões relativas à perspectiva do investigador (e. dos quais quatro haviam sido expulsos. Todavia. não produzir uma verdadeira etnografia. local onde o alcance da intervenção dos mediadores. 3 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . equivalência ao 9º ano. visando a inclusão social dos jovens envolvidos. oriundos de famílias com baixos níveis de escolaridade. Não obstante. estes jovens estavam ali a frequentar um curso de longa duração (2 anos 3 ) no domínio da construção civil 4 . Por motivos imprevistos.º 140/93. devemos relembrar que os resultados deste trabalho estão enformados pelo facto de emergirem de uma avaliação etnográfica. ou populares. De facto. 5 O qual. e outros quatro haviam desistido 7 . um dos formandos com que trabalhámos. antes de entrarmos nos aspectos mais substantivos desta comunicação. também foi expulso. neste trabalho não pretendemos apresentar uma súmula da nossa pesquisa. era bastante reduzido. tem um estatuto intelectualmente ambíguo. 6 Com quem nos envolvemos. e. Porém. ao abrigo do programa da Formação Profissional Especial 5 . (Fetterman 1984. o que é visível no escasso número de raparigas que o frequentavam. com qualificação de nível II. Nesse sentido. habitando em bairros ou degradados. e. marcados pela exclusão escolar. mantendo todavia a carga horária total inicial. social. profissões desprestigiantes. e. Ora. pois embora recorra a técnicas etnográficas. na época. pese embora as características especiais desta formação.2 tanto nos seus “fenótipos”. os problemas que motivaram a expulsão. Fetterman & Pitman 1986). laboral. refira-se que a maior parte da oferta formativa do IGAOP dirigia-se a áreas de formação tradicionalmente masculinas. como se sabe. Assim sendo. tanto quanto sabemos. quando começou. 4 Neste campo. parcos rendimentos. mas antes avaliar uma realidade face a um referente. derivaram das condutas desenvolvidas no interior da sala de formação. como nas suas “origens etno-culturais”. avaliador). a acção teve um desdobramento curricular. 7 Já durante a nossa pesquisa. procedeu sempre ao seu acompanhamento. visa antes de tudo. que foram emergindo ao longo do tempo que passámos entre os formandos. de 6 de Julho. iremos apresentar uma breve reflexão sobre uma tese que preconiza o primado da agência pessoal. tinham percursos existenciais similares. consequentemente.

pode consultar-se proveitosamente os estudos de David Fetterman (Fetterman 1984. Por outras palavras. movem-se num lebenwelt (mundo da vida). pelo que. etc). elaborado no seio de uma avaliação etnográfica sobre os formandos de um curso de formação profissional especial. de entre a variedade de teorias disponíveis para abordar o terreno. e escolares. não vamos aqui falar da avaliação etnográfica em si 8 . Nesse sentido. esperamos) existentes ao nível da agência pessoal dos intervenientes (Bourdieu s. Todavia. enjeitando as teses mais “estruturalistas”. na adesão (pessoal) dos agentes a diferentes configurações de mentalidades culturais. tanto pragmáticas (escolha de um quadro teórico com boa adesão aos fenómenos observados e relevância para a acção). devemos ter a preocupação de recorrer a uma(s) que responda(m) às questões que urge resolver. familiares.3 condicionantes estruturais. 8 Sobre este assunto. num processo decisório. 9 Assim sendo. o nosso papel principal é a produção de conhecimentos para apoio à acção. Fetterman & Pitman 1986).) ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . pessoas concretas. sem prejuízo dos elementos que os unem entre si 9 . como filosóficas (valorização e dignificação da pessoa humana). a saber. mulheres. através do seu dasein (estar-aí). operando no âmago da dualidade da estrutura de que nos fala Anthony Giddens (Guiddens 2000). onde tentámos equilibrar horizontes de acção macro-estruturais e as possibilidades (realistas e/ou razoáveis.d. hic et nunc (aqui e agora). recorrer-se à “atomização” das estruturas sociais. que. procurámos tratar cada um dos envolvidos nesta investigação como um sujeito. lendo os agentes envolvidos como hologramas societais. reflectidos em espelhos distintos. raciais. ou seja. e. mas antes das mais-valias heurísticas e hermenêuticas derivadas da opção consciente de. rejeitando as sobredeterminações (sociais. balizado por preocupações. ou seja. sexuais) que possam ser elaboradas sobre determinadas categorias de pessoas (pobres. este trabalho decorreu a uma escala micro-social. minorias. inscrevendo a diversidade dos padrões de atitude e conduta que observámos. no estudo de pequenos grupos (como é o caso de um meio escolar circunscrito). do qual emergem simultaneamente como produtos e produtores. económicas. reconhecendo a distintividade e diversidade dos seus caminhos pessoais. enquanto avaliadores etnográficos.

). Ora. 10 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . salvo melhor opinião. que. a auto-vigilância do discurso é fulcral para evitar cair nesta dissimulada e recorrente armadilha do senso comum. Especialmente os estudos feitos sobre a égide de Luís Capucha e Alfredo Bruto da Costa (Capucha 1999. defendemos que é um erro (infelizmente comum) considerar que as “segundas gerações” de imigrantes. hoje reconhecemos que o quadro teórico em que nos movimentámos na altura está um pouco desactualizado. a posição dos sujeitos na estrutura e organização da sociedade. descuram a importância da dimensão social e colectiva da vida humana. raça. recusámos abordar o terreno com um quadro teórico “prontoa-vestir”. particularmente no que concerne à identificação e filiação identitária (Nunes 1995. 1). not an empty head. assente na desconstrução de visões homogeneizantes e intentos hegemónicos (oriundas tanto dos estratos dominantes como de grupos subalternos). enformando-as a visões políticas do mundo. transitória e em constante (re)produção. desenvolvemos uma reflexão sobre a sociedade e a cultura. contra esta tese que – inclusive sob o signo do multiculturalismo –. e. que pode assumir expressões diversas no interior de cada sociedade. razão pela qual procurámos deixar que os eventos em que participávamos fossem ajudando à emergência de uma hermenêutica do vivido. preconizando que «…the ethnographer enters the field with an open mind. Isto porque. vivem num regime de “esquizofrenia cultural”. numa perspectiva próxima da teoria emergente (usualmente conhecida por grounded theory). Logo. próprias de determinada civilização. fruto dos processos dinâmicos (e. A título de exemplo. etc. e. reificam os indivíduos.» (Fetterman 1998. e. classe social ou mesmo sub-cultura. Crehan 2004). p. Assim. sexo. por considerarmos que essas teses escondem escolhas ideológicas que enviesam as análises científicas. Costa 1998). Nesse sentido. que visam reduzir o “lebenwelt” a uma tendência configuradora de um inequívoco e normativo padrão de ideias e condutas. nesta pesquisa. bem como as teorizações ostensivamente psicologistas. 11 As marcas mais ou menos camufladas deste tipo de teses. sem todavia negar a sua unidade. etnia. preconiza que as culturas são tendencialmente fixistas e/ou essencialistas 11 .4 Posto isto. embora tenhamos explorado algumas teorizações bastante profícuas sobre a exclusão social 10 . Fruto das aprendizagens posteriores. enjeitámos as teorias que elaboram instrumentais (modelos de dados e grelhas de leitura da realidade) centrados no primado de determinada variável (classe. ainda que estes o ignorem ou neguem. encontram-se mesmo entre alguns antropólogos. opusemos uma teoria que considera o domínio cultural como uma rede constelacional.

O reconhecimento de uma emergência miscigenada (que tanto se aplica a filhos de caboverdeanos em Portugal como à prole dos portugueses em França) não é a denúncia de uma alienação cultural (embora alguns o possam viver assim.e. que. por vezes ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . para lá da sua aparência. um interlocutor tem o supremo direito de falar por si. devemos reconhecer o “Outro” (seja ele qual for). etc). enquanto ser singular – embora nunca perdendo a sua posição de sujeito cultural e socialmente situado – ao invés de ser discursivamente sobredeterminado por um conjunto de categorizações genéricas (nacionais. reelaboram-nos de formas particularmente distintas. numa identidade dilacerada). i. embora podendo. no quadro de um complexo socio-cultural que assenta numa lógica que não é monolítica. expectativas e/ou aspirações. por vezes. mas temos que redefinir também a sua semântica. possuir um núcleo de elementos transversais. seja de cariz laudatório.. sociais. importa referir que. Nesse sentido. não só “miscigenizam” elementos de diferentes proveniências. ao edificarem novas “sub-culturas”. o fulcro da nossa tese é a defesa que. abrindo e explorando um feixe de modos de vida. organizado segundo princípios policêntricos. i. étnicas. em que usualmente são (re)produzidas. nestas pessoas (que podem ou não viver impregnadas em redes comunitaristas de identificação e sociabilidade).. nos mesmos parâmetros que identificamos o “Eu”. por parte do investigador. reconhecendo a pluralidade das pessoas e dos seus modos de vida. Mas.e.5 amiúde ambíguos ou contraditórios) de socialização e endoculturação. não devemos apenas mudar as palavras. foi através do enquadramento da investigação com um conjunto de noções operatórias. expressam-se por códigos culturais emergentes. em que se revêem. sentir e agir. Por outras palavras. de tipo pejorativo. saindo deste breve excurso. entre diferentes “mundos de vida”. tanto têm de comum como de diverso. sexuais. Ou seja. mas antes uma abertura intelectual. como também respondem de forma plural e diversa a todo um conjunto de diferentes desafios. nem a apologia da hibridez cultural. que reflectem as novas modalidades societais de pensar. mas antes segmentar. mais próxima do multiculturalismo celebratório (com que certos sujeitos se podem porventura identificar). ou de género neutro. Efectivamente. que o torne capaz de reconhecer que.

esta diversidade de modos de vida da pobreza e exclusão social é magistralmente ilustrada em “Os filhos de Sanchez”. por desenvolver uma reflexão emergente das fecundas contribuições do debate entre Thomas Khun e Karl Popper (Lakatos 1998. Desta forma. sintetizando mecanismos de ordem cultural e sócioeconómica. a qual. importa ainda referir que as nossas conclusões devem muito à estratégia de pesquisa mobilizada.6 contra-factuais (i. Porém. expressos por percursos biográficos singulares – que se apresentam sob o conceito de “modo de vida”. favorece a legibilidade das diferenças (por vezes profundas). pôde assentar no individualismo metodológico. Efectivamente. o individualismo metodológico – se interpretado em termos culturalistas – permite-nos que. No campo da epistemologia. esperamos que o nosso insight ao ser aquilatado pelos nossos pares. Lakatos 1999). Imre Lakatos. venha a ser refinado. se possam perspectivar diferentes padrões de conduta – enraizados em trajectórias sociais colectivas (culturalmente informadas) e. Esta última noção. matizam as visões hegemónicas que tendem sumariamente a associar e/ou justificar a pertença a determinada categoria social. dos vários estratos sócioeconómicos ou comunidades etno-culturais. e. monografia de Óscar Lewis sobre a biografia de uma família pobre da cidade do México. revelam como nas suas vidas. em tempo. pelo que esperamos que o aparato teórico referido em epígrafe nos tenha apartado do senso comum. sem por isso cortar relações com o bom senso. Além disso. que separam as condutas consideradas dominantes. com a existência de diferentes tipos de exclusão social. revelou trajectórias sociais e percursos biográficos diferenciados que. que permitimos que o terreno fosse gerando pistas para a sua própria interpretação.. opostas à “naturalização” dos fenómenos e/ou à justificação e padronização da evolução das suas configurações societais).e. foi para nós uma referência basilar. exploraram distintos percursos existenciais. refutado por uma perspectiva mais promissora 12 . com um acento tónico no pólo da observação (e da escuta casual). devido a estudarmos um fenómeno restrito a um pequeno grupo de pessoas. o que desenlevando a acção diferencial dos agentes sociais sob investigação. 12 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . no seio da qual os membros da linhagem. entre e no interior. mais que pugnar por uma tese. da profusão de dados observados.

bem como os discursos e as práticas a ela associada – por vezes levados a extremos (Vasconcelos 1996) – mesmo que elaborados com intenções igualitárias. no seio do qual os indivíduos que dele partilham. decorriam em franca grande animação. não quisemos fazer mais do que evitar a sobredeterminação das pessoas. nomeadamente no domínio sócio-educativo. pelo menos. um bom estudo sobre alguns aspectos desta problemática. se alguns formandos (principalmente jovens adultos. Face a tudo isto. de consequências incertas e equívocas 13 . No entanto. considerámos o terreiro de formação. de modo especial quando as actividades recreativas (como a conversa ou o pingue-pongue) em que estavam envolvidos. protagonizado por Consuelo até ao crime ocasional. perpetrado por Roberto (Lewis 1979). enquanto comunidade de agentes institucionais e beneficiários da formação.7 desde o prosseguimento dos estudos. Assim sendo. mesmo que com a mais benigna e igualitária das intenções. Na mesma linha. particularmente visível em comportamentos belicosos para com os seus pares. possuam atitudes e condutas comuns concordantes com essa percepção do mundo (Vieira 1995). era governado por um regime de Existe. através das quais jovens formandos e agentes institucionais. conforme nos foi dado a observar. tanto mais que ao invés da difícil operacionalização da ideia de cultura. a sua consequente redução ao nível do estereótipo ou das ideias feitas. na tentativa de escapar ao pântano intelectual em que muitas vezes caem os culturalistas. optámos pelo recurso ao conceito de mentalidade cultural. e. 13 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . (re)constroem processos de regulação e legitimação das diversas formas de conduta social em presença. como um terreiro de desiguais e permanentes negociações. enquanto em outras ocasiões. Em suma. umas vezes dando mostras de maior acatamento de normas de conduta instituídas. Efectivamente. outros havia que revelavam claro “desajuste”. com tudo isto. maiores de idade) exprimiam atitudes mais “consentâneas” com o institucionalmente “desejável”. 14 Expressos particularmente na resistência à imposição da pontualidade quanto aos tempos lectivos. em contexto holandês (Vermeulen 2001). tendiam a acentuar os actos de insubordinação e/ou desobediência 14 . embora a maioria dos sujeitos demonstra-se uma conduta intermédia. o IGAOP. correm o sério risco de enfraquecer e inquinar os laços sociais em prol de políticas comunitaristas. estamos entre os que defendem que a reificação da diferença. esse termo expressa simplesmente um sistema de referências colectivas.

os projectos institucionalizados de regulação das atitudes e condutas 15 . no sentido dos padrões socialmente aceites. remete o valor heurístico da causalidade fundada na categorização para um papel residual. como também. visam circunscrever grupos de pertença. que englobam não só uns quantos estudiosos. concluímos que a diversidade dos padrões de conduta observados. Não obstante os elementos mais recalcitrantes ao respeito ou negociação de fórmulas de “convivência”. Todavia. acabassem por ser irradiados do sistema. reificar os ethos. passando pela subordinação da formação à diversão). não obstante haver muitos adeptos destas teorias. e. entre os formandos e a organização. excepto no caso de estarmos dispostos a acreditar nas vetustas “caracterologias” nacionais ou a preconizar que as culturas constituem súmulas sistematizadas e orgânicas bem delimitadas. particularmente através dos mediadores/animadores culturais. incentivando alterações de atitudes e condutas. verifica-se um efectivo esforço de inclusão social e combate à marginalidade. prevenindo conflitos. nos espaços livres. os quais. os activistas de toda a espécie – especialmente os nacionalistas radicais – que lutam pela implementação efectiva deste tipo de programa de acção. Conforme revelou a nossa pesquisa. entramos em choque com aqueles que. racial. comprimido entre os esforços envidados por diferentes jovens em implementarem os seus distintos modos de vida (que iam do acatamento geral das regras à violência entre pares. ao contrário da escola “tradicional”. tinham o fulcro da sua actividade centrada na harmonização dos diferentes modos de vida e mentalidades culturais em presença. ancorados numa posição de “charneira”. é ao explorar a descontinuidade entre os arquétipos do dever-ser. essas teses. Isto porque. Neste domínio. e. devido ao amplo regime de autonomia organizacional e pedagógica. de modo ligeiro. Assim sendo. estes desenvolvem um papel decisivo na gestão da mudança. ao estudar os jovens envolvidos nesta formação. em última análise. necessárias ao institucionalmente desejável desenrolar da Formação Profissional. especialmente pelo recurso a animadores/mediadores culturais. sexual ou cultural). 15 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Todavia. tomando-os como pessoas ao invés de especímenes de determinada categoria (social. justificando os fenómenos com argumentos quasi-naturalistas. radicam modos de vida e mentalidades culturais em supostos ascendentes e/ou filiação em determinada cultura. existente no Centro de Formação Profissional que estudámos.8 mútua adaptação. defendemos que. mais que qualquer outros. Isto é válido. e.

desenvolvia um duplo labor. sem procurarmos “naturalizar” qualquer modalidade de organização do mundo humano. foi o facto de enformarmos a nossa pesquisa por estes pressupostos. negligenciando as situações de marginalidade mais brandas. que erradamente tomam o todo pela parte. na qual se negoceiam formas de pensar e agir. Deste modo. Posto isto. enquanto avaliadores etnográficos. Neste sentido. através dos animadores/mediadores culturais. concluímos pela vacuidade das teses que tendem a reduzir os jovens pobres ou socialmente excluídos a um grupo de comportamento homogéneo. passíveis de lhes facultar uma melhor integração no seio das normas de conduta da sociedade envolvente e do mercado de trabalho. em determinados modos de vida e mentalidades culturais. que encontramos esta pletora de modos de vida e de mentalidades culturais. como pela diversidade de trajectórias biográficas. através dos formadores. nesta linha. inscritas no âmago dos sujeitos investigados.9 e. radicando-a numa pletora de modos de vida e mentalidades culturais. bem ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Logo. releva da nossa pesquisa que estamos perante um processo de (re)produção social e cultural. informadas tanto por idiossincrasias pessoais. emergente de uma dinâmica de socialização secundária. a realidade substantiva das modalidades concretas de padrões de atitude e comportamento. Deste modo. proceder à "correcção" de comportamentos. particularmente em termos laborais. o que provoca leituras equívocas. Ora. que acabámos por valorizar a diversidade interna entre os formandos. afigurou-se que a Instituição. que moldaram a sua socialização primária. com vista a que estes jovens pudessem adquirir (quando necessário) competências sociais. assumiam uma grande diversidade de formas de conduta. tanto mais que afigura-se que. e. que estes jovens adquirissem conhecimentos profissionais passíveis de lhes abrir as portas ao mercado de trabalho (quebrando assim o ciclo da pobreza e da exclusão profissional). procurando. verifica-se que os jovens formandos trazidos à colação. tendo em vista uma maior adaptação destes jovens em risco de exclusão social no seio da sociedade envolvente. procurámos interpretar as mentalidades culturais. esta visões derivam de um excessivo enfoque nos casos particularmente problemáticos. que não são redutíveis a causalidades unidimensionais. interessados em conhecer as diferentes expressões das atitudes e condutas dos formandos.

Posto isto. reiterando o propósito desta comunicação. fruto de uma determinada cultura. não obstam à presença em cena de focos de poder alternativos. as pessoas operam sobre a cultura. defendemos que. corporizado nos cientistas sociais – tenhamos sempre em conta. pelo que ao invés de os reduzirmos a categorias. concluímos que estes jovens. exprimem a diversidade das formas de conduta humana. devemos. Assim. que há pessoas para lá das culturas. tanto “tradicionais” como “modernas”16 . nem ficámos na especulação gratuita. as instituições culturais dotadas de superior legitimidade ou poderio (substantivo ou simbólico). seja de etnia ou de classe. mesmo que discordem das suas linhas programáticas. secundários ou marginais. mas antes. Logo. concorrência e/ou antagonismo. especialmente quando se estuda ou trabalha entre grupos desfavorecidos – que estão particularmente expostos ao olhar desse “Outro”. não radicam a sua conduta em modos essencialmente determinados de relacionamento social. (bem como o inverso). Falámos pois de algumas reflexões sobre a prática e o terreno. se a cultura (en)forma os sujeitos. derivada ela própria. da dimensão policêntrica das culturas e sociedades. e. outros também possam vir a lucrar com as nossas teses. perspectivados no quadro de uma cultura segmentar.10 como as suas expressões societais. que assumem funções de complementaridade. esperando que. não entrámos em pormenores substantivos do empírico. 16 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . fazemos votos para que. antes de tudo o mais. Efectivamente. Em suma. patentes nos modos de vida destes jovens. nenhum destes elementos é redutível ao outro. reconhece-los como pessoas e tratá-los como sujeitos.

Lisboa. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Reportórios. LEWIS. LAKATOS. Lisboa. Sage Publications. Edições 70.). Celta Editora. VASCONCELOS. NUNES. Ethnography in Educational Evaluation. 1986 Educational Evaluation. Kate. Anthony. 2004. Imre. David M.). Ethnography. Hans. s. Moraes Editores. Imre. Integração e a Dimensão Política da Cultura. Teresa Maria Sena de. 1999. David e Mary Anne Pitman (eds. Pierre. João Arriscado. Ethnography in theory. 2002. Alfredo Bruto da. Oeiras. 2000. Escola e Pedagogia Intercultural”. 1999. Cristina Maria Paulo do Nascimento et al. Lisboa. Campo da Comunicação. Edições Colibri. Beverly Hills. Perfis Emergentes. Gramsci. 4: 127-147. Lisboa. Lisboa. Configurações e Fronteiras: Sobre Cultura. História da Ciência e suas Reconstruções Racionais. FETTERMAN. LAKATOS.d. Óscar. Identidade e Globalização. 1998. VERMEULEN. Beverly Hills. Lisboa. practice and politics. Sage Publications. Sociedade & Culturas. MILAGRE. Thousand Oaks.11 Bibliografia BORDIEU. Librairie Droz. Educação. Lisboa. CREHAN. Luís Manuel Antunes (coord. 1998. Genebra. Fundação Mário Soares/Gradiva Publicações. Ricardo. Edições 70. 1995.. COSTA. FETTERMAN. 2001. Falsificação e Metodologia dos Programas de Investigação Científica. 1998. CAPUCHA. Grupos Desfavorecidos Face ao Emprego. Educação. “Onde Pensas que Tu Vais? Senta-te! – Etnografia como Experiência Transformadora”. 1979. 6: 23-46. Dualidade da Estrutura. 1995. Coimbra.. 1984. Sage Publications. VIEIRA. Centro de Estudos Sociais. Instituto para a Inovação na Formação. Imigração. Cultura e Antropologia. Observatório do Emprego e Formação Profissional. GUIDDENS.). “Mentalidades. David (ed. FETTERMAN.. Sociedade & Culturas. Exclusões Sociais. Os Filhos de Sanchez. Esquisse d’une Théorie de la Pratique. Lisboa. 1996.

o papel da FCSH-UNL. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Setúbal e Leiria. Esboço Histórico No início dos anos 80. como são o caso da de Castelo Branco. Histórias de Vida. Salienta-se. também o papel da APA no desenvolvimento destas matérias. a Licenciatura em Antropologia da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa tinha uma cadeira optativa de Antropologia da Educação 1 leccionada pelo professor Viegas Tavares.ipleiria. um pequeno esboço histórico sobre a Antropologia da Educação em Portugal. 1. Palavras-chave: Antropologia da Educação. tanto ao nível do trabalho ligado ao ensino da antropologia como à investigação em antropologia da educação produzida no ISCTE. a este propósito. currículo vitae que integra estas provas de agregação). numa primeira instância.A ANTROPOLOGIA DA EDUCAÇÃO EM PORTUGAL Ricardo Vieira Centro de Investigação Identidade(s) e Diversidade(s) (CIID) Instituto Politécnico de Leiria (IPL) rvieira@esel.pt Faz-se. essencialmente. Num artigo de 1985. Manuel José Alves Viegas Tavares resumia assim a Antropologia da Educação: A Antropologia da Educação analisa as relações escola/comunidade e as suas implicações no processo de enculturação dos jovens. Aplicando os métodos de pesquisa e 1 No ano lectivo de 1983/84 eu próprio fui seu aluno e desenvolvi para avaliação final um pequeno trabalho de pesquisa etnográfica numa escola de Lisboa com o financiamento do Ministério da Educação (cf. Há um investimento maior na obra de Raul Iturra e sua equipa de investigação. que acumulava a docência com a de quadro superior no Ministério da Educação. realçando. Educação Intercultural. do ISCTE e de algumas ESEs.

mas apenas por necessidade de complemento de horário. os jogos integravam-se no complexo de cerimónias cíclicas através das quais as crianças e os jovens se apropriavam da cultura das suas comunidades. espaço e tempo da liberdade favorável à inovação e transformação da realidade (Crespo. Lisboa: Piaget. 1985: 53). vim a ingressar na Escola Superior de Educação de Leiria 4 que tinha iniciado a sua função docente há apenas um ano. 1999: 7). variante de Português/Francês. Viegas Tavares veio a fazer o seu doutoramento sobre o insucesso escolar e as minorias étnicas em Portugal 2 . Nas sociedades tradicionais. do 10º ano. incluíam nos seus curricula a disciplina de Introdução às Ciências Sociais. depois. a disciplina de Antropologia Cultural desapareceu com a nova reforma curricular. “tendo sido na sua generalidade. Jorge Crespo desenvolvia também uma cadeira optativa de Antropologia do Jogo. o Ensino Secundário os alunos tinham. e depois de 2 anos a ensinar Geografia e Antropologia no Ensino Secundário 3 . sendo que os cursos de Educadores de Infância e Professores do 1º Ciclo do Ensino Básico tinham. obrigatoriamente. nos ciclos do Inverno e da Primavera. encarregues de a leccionar – o que nem sempre fazem com gosto. destacam-se os jogos que constituíam experiências fundamentais da morte e da vida. Manuel Viegas (1998). com uma 2ª parte que. Antropologia Cultural. Os professores de Antropologia Cultural. ramo de Jornalismo e Turismo. da autoria de Augusto Mesquitela Lima. não tinham habilitação própria nem formação específica em Antropologia. no domínio das relações com os outros. 4 No ano lectivo de 1987/88 5 Poucos na altura: Formação de Professores para o 1º Ciclo.2 análise de ciências afins. tendo deixado de ser leccionada em 1993/94” (Santos e Seixas. os professores de Geografia. O programa e o manual mais divulgado eram. depois das noções operatórias básicas da Antropologia Geral e das 2 TAVARES. Paralelamente. no 1º semestre. no processo cíclico de reestruturação do mundo. Professores do 2º Ciclo do Ensino Básico. Todos os cursos de então 5 . mas centrando-se sempre no método etnográfico de observação participante na análise dos processos educacionais. em 1987. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Fui convidado a construir o programa de Antropologia Cultural e fi-lo. Terminada a minha licenciatura. Benito Martinez e João Lopes Filho. Educadores de Infância. 1982: 52). De resto. pois o número de aulas de Antropologia não chega para formar um horário lectivo normal de 22 horas” (Souta. como ele próprio diz. o jogo é um dos elementos mais importante na formação das personalidades. O insucesso escolar e as minorias étnicas em Portugal: uma abordagem antropológica da educação. Em particular. “Entretanto. na altura. no 1º semestre do 2º ano. 1997: 116). visa contribuir para a solução de problemas da prática e da política educativa (Tavares. 3 Na área de Estudos Humanísticos. Nestes casos. de cursar Antropologia.

11 e 12 de Novembro de 1988. traduzida em edição brasileira por “Introdução à Antropologia Cultural” em 3 tomos que basicamente constituíam o manual da disciplina. numa tentativa de relativizar a mente dos futuros professores e educadores. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . e os demais foram publicados nas Actas das I Jornadas de Antropologia e Etnologia Regional. na Universidade de Boston. a disciplina de Antropologia Cultural muito desenvolvida em torno da obra de Herskovits “Man and his Works”. 11 e 12 de Novembro. na altura. a 10. Os conferencistas convidados para esta sessão foram os professores Raul Iturra do ISCTE que apresentou a conferência “A passagem da oralidade à escrita na formação do saber: o mito do insucesso escolar” e Augusto Mesquitela Lima da FCSH – Universidade Nova de Lisboa. ora no Estados Unidos da América. ora em França. financiados por um projecto do Banco de Portugal. que apresentou a conferência “A Antropologia e o Sistema Educativo 6 ”. era o célebre “Padrões de Cultura” de Ruth Benedict e “Os conflitos e Gerações” de Margaret Mead. os docentes que estão na origem das disciplinas de Análise Social da Educação. apontava para o estudo do processo educativo embora. É preciso recordar que as Escolas Superiores de Educação (ESEs) nasceram a partir dos Magistérios Primários que. tinham também nos currículos da formação de professores e de educadores de infância. no ano de 1988. por professores que haviam feito os seus mestrados em Ciências da Educação. provavelmente. Os livros obrigatórios de então. Sociologia da Educação e Antropologia da Educação dos currículos de formação das ESEs. um pouco por todos os Magistérios do País. No ano de 1988. basicamente por todo o país. A minha preocupação com o cruzamento da Antropologia com a educação era de tal forma já considerável na altura que consegui que a manhã do primeiro dia fosse inteiramente dedicada ao tema da Antropologia e Educação. Nalgumas escolas 6 Estes textos. O corpo docente das emergentes Escolas Superiores de Educação foi alimentado. não tivesse formação suficiente para ir além do Culturismo Americano e da escola de cultura e personalidade. na Universidade de Bordéus. há já alguns anos. Os que fizeram as suas especializações em Análise Social da Educação ou em Metodologia dos Estudos Sociais são. Leiria: Escola Superior de Educação.3 Ciências Sociais. integrei a comissão organizadora das I Jornadas de Antropologia e Etnologia Regional. dias 10. lembro-me.

não podem/devem perder a experiência da Antropologia nessas matérias 9 . iniciado em Vila Ruiva. de Carlinda Leite. professor da Escola Superior de Educação de Lisboa. O trabalho de Carlos Cardoso. reuniu várias vezes com o Ministério da Educação a propósito da habilitação própria para leccionar no Ensino Secundário e de outras saídas profissionais dos Antropólogos no ensino: Área-Escola. é notável sobre a questão da escola e das propostas inter/multiculturais. a Raul Iturra que se deve o boom do desenvolvimento da Antropologia da Educação em Portugal. Entre 1993 e 1997. e cuja coordenação tem sido assegurada por Luís Souta. presidida pelo professor Raul Iturra e da qual eu próprio fazia parte. – Associação Portuguesa de Antropologia. Aproveitavam o tempo livre Luís Souta. criada pelo Decreto-Lei 286/89. Nuno Porto e Berta Nunes. Professor Coordenador da ESE de Setúbal. licenciado em Antropologia e. em 1992. desde muito cedo que orientou a Antropologia (licenciatura) para a questão da educação e da diversidade cultural e para a legitimação da Antropologia da Educação (tese de mestrado e de doutoramento) sob a orientação do Doutor Raul Iturra. Na ESE de Setúbal foi criada a disciplina de Antropologia da Educação. acabam por ter algumas disciplinas viradas para a questão da educação e diversidade cultural que. com Filipe Reis. também ele Mestre em Ciências da Educação 7 pela Universidade de Boston. 7 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . como é o caso de Castelo Branco. sob proposta de Ricardo Vieira 8 . 8 Ricardo Vieira. embora não tendo especificamente Antropologia da Educação nos seus currículos.4 surgiu mesmo a disciplina de Sócio-Antropologia. Rosa Nunes e Rui Trindade. Professor Catedrático do ISCTE. que funcionou pela primeira vez no ano lectivo de 1988/89. Na ESE de Leiria surgiu a Antropologia da Educação como disciplina optativa dos cursos de Formação de Professores para o 1º Ciclo e de Educadores de Infância. coordenada por Luíza Cortesão (Cortesão. sem qualquer grau em Ciências da Educação. definida como uma área curricular não disciplinar e os TEIP (Territórios Educativos de Intervenção Comunitária) criados pelo Despacho 147-B/ME/96. Outras Escolas Superiores de Educação e Universidades públicas e privadas. Pulo Raposo. a secção de Antropologia da Educação da APA. inevitavelmente. É inegavelmente. leccionada por Luís Costa. é. Em 1987 Raul Iturra dava o grande pontapé de saída com o trabalho de campo com observação participante. está a concluir o seu doutoramento em Antropologia da Educação no ISCTE. actualmente. 9 Ver a este propósito a obra “Nos Bastidores da Formação: Contributo para o Conhecimento da Situação Actual da Formação de Adultos para a Diversidade em Portugal”. 2000). Rosa Madeira. no entanto.

conjuntamente com Telmo Caria e Ana Benavente. à doença. “O Corpo. 1991). Ricardo Vieira colaborou na organizou da secção Diálogos sobre o Vivido. 1991). Filipe Reis. Ana Felisbela Lavado e Paula Godinho para a revista Arquivos da Memória do Centro de Estudos de Etnologia Portuguesa da Universidade Nova de Lisboa. (cf. Compravam cadernos.º 6/7. Paulo Raposo. n. Iturra. Sociedade e Culturas”. em particular com a Sociologia da Educação. levava os alunos a pensar a sua história. “O Saber Médico do Povo” de Berta Nunes (Nunes. 1990 e Iturra. “A Construção Social do Insucesso Escolar: Memória e Aprendizagem em Vila Ruiva” de Raul Iturra (1990b). Iturra e Reis. Luís Souta e Amélia Frazão-Moreira). Vieram a juntar-se a estas publicações a “Escola e Aprendizagem para o Trabalho num País da (Semi)periferia Europeia” de Stephen Stoer e Helena Araújo (Stoer e Araújo. “Corpos. 1992). 10 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Ensino e Crescimento: O Jogo Infantil e a Aprendizagem do Cálculo Económico em Vila Ruiva” de Filipe Reis (Reis. papel e lápis e faziam com as crianças os trabalhos de casa. os seguintes livros: “Fugirás à Escola Para Trabalhar a Terra: Ensaios de Antropologia Social Sobre o Insucesso Escolar” de Raul Iturra (1990a). 1997). ainda que de uma forma mais interdisciplinar. 11 Contudo. mais tarde. Esta revista. É de assinalar aqui.5 que a escola concedia às crianças para fazerem actividades com elas a fim de compreender as suas representações sociais e conhecimento local. que tem Ver entrevista dada por Raul Iturra em 1999 a Ana Levy Aires. dirigida pelo professor Stephen Stoer e que. o aparecimento da revista “Educação. 1991). Dessa investigação foram publicados. em 1994. terras. “Educação. desde o segundo e. Ricardo Vieira. brincavam à família. na colecção “A aprendizagem para além da Escola”. integra vários sociólogos. e “Entre a Escola e o Lar: O Curriculum e os Saberes da Infância” de Ricardo Vieira (Vieira. 1992). propriedade da Associação de Sociologia e Antropologia da Educação. 2000). o património dos pais. etc. sobre a temática “sistemas de avaliação doa alunos do Ensino Básico”. o Coração: A Construção Social da Sexualidade em Vila Ruiva” de Nuno Porto (Porto. a Razão. os animais etc 10 . Assim. ao hospital. através da metodologia das genealogias. em termos de secretariado de redacção e conselho de redacção. cientistas da educação e antropólogos (Raul Iturra desde o primeiro número 11 . Arados e Romarias: Entre a Fé e a Razão em Vila Ruiva” de Paulo Raposo (Raposo. ainda em termos do desenvolvimento da Antropologia da Educação em Portugal.

a meter-me por uma ideia feliz daquela equipa: como é a epistemologia do lar. que vivem no que é denominada «uma situação de ghetto sóciocultural».5). Augusto Santos Silva. […] Eu queria entender a racionalidade daquelas estratégias reprodutivas. Finalmente. A seguir. porque a criança ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . por insistência de Paulo Raposo. (Stoer. uma proposta para um modelo explicativo dos graus de autonomia ou de heteronomia nas relações das instituições de ensino com as instituições económicas o mercado de emprego. a epistemologia dos seres humanos. editorial do primeiro número da revista. apresenta-nos uma reflexão crítica sobre o conceito e as teorias da mudança social. como tentativa de aceder a uma compreensão dos seus quotidianos. Isso levou-me. 2. Este objectivo de entender a racionalidade reprodutiva tem-me levado da Antropologia Económica à Antropologia da Educação. ou o Nuno Porto. apresentamos dois artigos que estudam o processo de aprendizagem nas crianças como forma de produção e construção de novos saberes e poderes: enquanto o artigo de Raul Iturra ensaia ideias sobre a natureza do processo educativo. o artigo de Georges Augustin lança um olhar antropológico sobre o jogo de berlindes. pelo meio. Antropologia da Sexualidade. em conjunto com uma equipa que angariei enquanto colaborava na fundação do departamento do ISCTE. através do que é que pensam e como pensam as crianças acerca do que acontece na sua casa. começámos a brincar com as crianças. a partir das brincadeiras e jogos passámos a analisar. e. Antropologia do Género. passando. Na base de um conhecimento da evolução de instituições de ensino técnico.6 tido um forte pendor etnográfico. uma Antropologia Urbana. possivelmente “contra-hegemónia”. O artigo de Luiza Cortesão e colaboradores apresenta uma análise das histórias contadas por crianças luso-brancas e luso-ciganas. Investigação e Ensino da Antropologia da Educação no ISCTE. por criar. no seu primeiro número. inventámos os ATL. que fez comigo trabalho de campo. ou o Filipe Reis. recusando uma visão linear e sucessiva de mudança. Então. os tempos livres. uma Antropologia do Turismo. no artigo de Sérgio Grácio. As crianças vêem o mundo através dos olhos dos adultos. saiu. p. encontramos. com seis artigos que abordam temas variados: O primeiro artigo [da autoria de Stephen Stoer] aborda a construção. do conceito do professor inter/multicultural através do campo da recontextualização pedagógica.

[…] As crianças entendem o mundo da forma que os pais o entendem. (Silva. Abril/Maio/Junho de 2002. no ano lectivo de 1994/95. ao estudar o grupo doméstico. n. Já antes.º 62. mas foi precedida de muita investigação financiada pelo INIC e pela FCT e de muito debate no país e no estrangeiro. trata mal os conceitos. A cultura está dividida em duas partes: a dos adultos e a da infância. Ana Felisbela Lavado e Paula Godinho para a revista Arquivos da Memória do Centro de Estudos de Etnologia Portuguesa da Universidade Nova de Lisboa. pela primeira vez. 1990a). passim). elaborado numa linguagem não hermética. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . é do domínio dela própria. tanto assim que os inimigos dos pais. 129. corresponde ao espraiar do pensamento teórico do autor na perspectiva da afirmação de uma Antropologia da Educação. p.7 não tem ainda conceitos. só que ninguém dá por isso” 13 . 4. 13 Entrevista dada por Raul Iturra aos cadernos de Educação de Infância. 14 Dados apurados em entrevista com Raul Iturra. incluída na mesma. A propósito da primeira obra da colecção “A Aprendizagem Para Além da Escola”. emergiu no ISCTE pela mão de Raul Iturra que assim foi progredindo da Antropologia Económica para o estudo da aprendizagem e transmissão cultural para além da escola e para o estudo da mente cultural e da epistemologia da criança (Iturra. 1994: 186). “A criança não é o domínio de ninguém. p. A Antropologia da Educação. Pedro Silva. A leccionação em cadeira autónoma viria a acontecer no ISTE. 1992). diz que O primeiro livro (Iturra. que se debruça sobre a complexa relação entre o «saber letrado» (da escola) e a «mente cultural» (rural). em 1970 e em 1974. se começou a interessar como se 12 Extracto de entrevista dada por Raul Iturra em 1999 a Ana Levy Aires. em termos de investigação. um conjunto de ensaios. Trata-se de um pensamento radical. em 23 de Julho de 2004. as crianças não entendem porquê mas são também seus inimigos 12 . Raul Iturra reconhece 14 que. numa recensão bibliográfica da obra atrás citada de Stoer e Araújo (Stoer e Araújo. n. no trabalho de campo em VilaTuxe.º 6/7.

em Portugal (Lisboa. Alfândega da Fé. à volta de temas como o insucesso escolar. Porto. A sua pesquisa faz-se por isso a montante do sistema educativo. 1993. 1997a: 353). procurando compreender os mecanismos da aprendizagem informal. Amélia Frazão Moreira. Na recensão da obra “O Saber das Crianças” (Iturra. na economia doméstica etc. num processo que conduz naturalmente ao reconhecimento e valorização desses saberes. etc. etc. Percebeu que as crianças eram educadas pela interacção dentro do grupo onde vivem (cf.) e em França (Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales e no Collège de France) com a participação de Maurice Godelier. François Bonvin e Bernard Lahire. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . a etnopsicanálise. Ricardo Vieira) como uma equipa pioneira que lançou em Portugal a Antropologia da Educação. 1997 e 2001). As suas filhas começaram a ir à escola em VilaTuxe onde falavam galego. a ideia da aprendizagem para além da escola foi emergindo e viria a despertar o seu interesse pela Antropologia da Educação. professor de Antropologia da Educação na Escola Superior de Educação de Setúbal 15 . 1996). Iturra. Françoise Zonabend.. o jogo e a aprendizagem. Comparando-a com os trabalhos de Antropologia da Educação americana que se tem preocupado com o sistema formal. Embora a pesquisa aí realizada fosse centrada na vida económica. 1997a e 1997b). considera os cinco autores dos textos que compõem este livro (Raul Iturra. não em torno de “problemas” mas na procura das virtualidades e potencialidades das crianças para aprenderem e entenderem o real. Pierre Bourdieu. Raul Iturra e a sua equipa de investigação iniciaram um conjunto de seminários fechados sobre Antropologia da Educação.8 aprendia a calcular na rua. Luís Souta. E toda esta diversidade levava Iturra a pensar nas descontinuidades entre a casa e a escola. no jogo. Paulo Raposo. 1992. (Souta. Marie Elizabeth Handman. início de 90. Monique de Saint Martin. diz que O Saber das Crianças «trilha outros caminhos. A partir dos finais da década de 80. a transgressão e a aprendizagem. 15 Luís Souta tem dado um contibuto notável ao desenvolvimento da educação multicultural e da antropologia da educação em Portugal (1991. Albergaria dos Doze. a oralidade e a escrita na aprendizagem. Em casa as línguas eram o Castelhano e o Inglês. Filipe Reis.

1994 e sobre etnobotânica (Frazão-Moreira. e a de Amélia Frazão Moreira sobre as classificações das crianças apreendidas do mundo adulto (FrazãoMoreira. ao longo do tempo. a partir de uma experiência de terreno. 1994. bem como sobre o método etnográfico (Caria. anexos. arranjo doméstico.9 As pesquisas de Telmo Caria sobre culturas de escola e culturas profissionais. Raul Iturra diz na Introdução ao livro “O Saber das Crianças”: Uma parte do grupo que comigo trabalha decidiu escrever sobre o saber das crianças. 1996:10 e 11). A disciplina de Antropologia da Educação tem-se mantido como optativa para as licenciaturas de Antropologia Social. ora em colaboração conjunta. […] Filipe Reis […] analisa a forma como a escola introduz as crianças na cultura escrita. […] Paulo Raposo […] regressou comigo à Beira Alta e observou os comportamentos rituais dos pequenos. e tem sido coordenada por Raul Iturra e leccionada por este. Começo por abordar uma forma particular de interacção entre ascendente e descendente: aquela através da qual um grupo social contextualiza ou quer contextualizar. 2003). ambas orientadas por Raul Iturra e conducentes aos seus doutoramentos já terminados. Sob a minha orientação. isto é. (Iturra. Assumindo essa consciência e essa responsabilidade. ora separadamente em termos de docência. por Filipe Reis e por Paulo Raposo. a continuidade histórica das pessoas sobre a terra […]. transmite saberes e contra saberes através das tarefas que constituem o trabalho doméstico (nutrição.). engrossam a latitude da Antropologia da Educação que este tem feito desenvolver em Portugal. Amélia Frazão-Moreira […] analisa o processo de interacção que no interior de um grupo doméstico. a emotividade do mais novo para assegurar a reprodução. nas conversas sobre os amores e a afectividade. Sociologia e Psicologia Social (cf. Ricardo Vieira […] procura explicar como o adulto de hoje é resultado do jovem e da criança que antigamente foi. 2003). esta análise é feita por meio de entrevistas e análises de histórias de vida de professores do ensino Básico. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . queríamos definir processos e actividades que permitam ao leitor entender o dito saber. e hoje sob a minha coordenação. numa aldeia da serra da Estrela. parte IV). colectando dados a partir dos quais foi capaz de concluir que o real é representado e manipulado pela pequenada que estamos a estudar aí. etc. (de uma aldeia de Trásos-Montes). 2000.

1955.10. Darlinda Moreira da Universidade Aberta. Para além da disciplina que integra como optativa os currículos das licenciaturas do ISCTE já mencionadas. Amélia Frazão . 1: 493-503. a disciplina envolveu convidados exteriores ao ISCTE na leccionação das aulas nº 7. Ed. 8.etnicidade e identidade nacional.A análise do jogo .problemas metodológicos e de investigação em contexto escolar. Anais XXXL Congresso Internacional de Americanistas. e com a colaboração de docentes internos (Paulo Raposo e Miguel Vale de Almeida do Departamento de Antropologia Social do ISCTE) e externos (Amélia Frazão-Moreira da Universidade Nova de Lisboa. Telmo Caria da UTAD. Marc. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .10 De ano para ano. Bertrand. “Le Principe de Coupure et le Comportement Afro-Bresilien”. como corolário de uma basta investigação e prática de ensino no ISCTE. Ricardo Vieira . 9.. Ricardo Vieira da ESE de Leiria e José Catarino da ESE de Setúbal). 70. a criação do primeiro mestrado em Portugal de Antropologia da Educação (2003-2005). Ed. coordenado por Raul Iturra. São Paulo. Introdução a uma Antropologia da Sobremodernidade.saberes secretos. Luís Souta da ESE de Setúbal. todos os programas abrangem o processo educativo na escola e fora da escola. Lisboa. 70. 1997. grosso modo. Não . 11 e 12. José Veiga . J. Cultura e Educação. com os seguintes docentes e respectivos temas: Teimo Caria . Lisboa. 1994..histórias de vida e biografias. Luis Silva Pereira . Roger. é de assinalar.Lugares. Referências bibliográficas AUGÉ. BASTIDE. Lisboa. No ano lectivo de 1995/96. há algumas alterações pontuais em termos da ordem e da natureza das temáticas abordadas mas. BRUNER.tradicional/moderno. Actos de Significado. Luis Souta multiculturalismo e educação. 2000. BRUNER. J.

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VI – Capítulo Diferenças e Semelhanças do Género Textos de comunicações do painel: Diferenças e Semelhanças do Género Coordenação Antónia Pedroso de Lima Centro de Estudos de Antropologia Social -ISCTE Susana Matos Viegas Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e Universidade de Coimbra ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .

Como descrever e problematizar.mar@netcabo. em larga medida. construídos na produção de conhecimento sobre esses contextos e as relações que aí se estabelecem.pt Os conceitos de diferença e semelhança são eixos estruturantes da reflexão sobre género. estas diferenças e os processos sociais e culturais através dos quais são constituídas? Mais do que uma propriedade unívoca e “objectiva” das pessoas ou grupos em estudo. as diferenças de género identificadas na observação são configuradas pelas questões que colocamos e perspectivas de análise que adoptamos. mas são abordados nessa reflexão de modos variáveis. Como tal. sala de convívio. pertencer a grupos separados. reflectir sobre os recursos (metodológicos. é fundamental problematizar o lugar do binómio diferença e/vs semelhança na investigação sobre género e debater o seu estatuto epistemológico. Não são factos apenas dados pelos contextos empíricos mas. como tal. teóricos. Estes conceitos podem ser definidos e medidos de formas distintas e as nossas opções teóricas e metodológicas sobre a utilização que lhes damos têm efeitos significativos nas análises que fazemos. Importa. Jovens. discursivos) que empregamos para descrever diferenças e semelhanças de género (bem como aquelas que estão associadas a outros eixos de diferenciação e desigualdade social) e discutir o ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . orientando a atenção para certas dimensões dos fenómenos em estudo e deixando outras encobertas. partindo de observações realizadas numa micro-etnografia com uma turma de 8º ano de uma escola em Lisboa. Semelhança Quando entramos num recreio. Escola. ocupar o espaço de forma desigual. saltam frequentemente à vista diferenças entre raparigas e rapazes – as/os jovens dos dois sexos parecem desempenhar actividades diferentes.Construindo Diferenças e Semelhanças no Recreio: uma Micro-Etnografia de Género e Poder em Contexto Escolar Maria do Mar Pereira Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE) maria. Poder. ter comportamentos distintos. Palavras-Chave: Género. pretende-se lançar pistas que contribuam para esse debate. então.do. Nesta comunicação. Diferença. cantina ou sala de aula de uma escola de 2º e 3º ciclo. potencial heurístico e relevância etnográfica.

Diferença e Semelhança na Investigação sobre Género Estudar género é analisar a construção social de diferenças e semelhanças. ao mesmo tempo. por outro lado. Existem estudos que se centram nas diferenças entre mulheres e homens e outros que privilegiam a exploração de diferenças entre mulheres. potencial heurístico e relevância etnográfica (por exemplo. por exemplo. West e Zimmerman 1987). actualmente em curso. analisando deste modo a diversidade de performances de feminilidade. Eagly 1995. De facto.2 papel que esse processo de descrição desempenha na (re)produção e legitimação dessas diferenças e semelhanças. com uma turma de 8º ano de uma escola em Lisboa (Pereira 2006). pretende-se lançar pistas que contribuam para esse debate. tomando como ponto de partida observações efectuadas no âmbito de um trabalho de micro-etnografia. Um estudo poderá focar os contextos em que as diferenças entre mulheres e homens são acentuadas e explicitadas ou. Butler 1990 e 1993. É problematizar os processos materiais e simbólicos através dos quais se representam e posicionam as mulheres como sendo diferentes dos homens e. As opções teóricas e metodológicas sobre os modos como se usam os conceitos de diferença e semelhança de género e sobre o papel e estatuto que lhes é atribuído num dado estudo têm implicações nas observações feitas e conclusões formuladas. Os conceitos de diferença e semelhança assumem-se. No entanto. diversas/os autoras/es têm salientado a necessidade de problematizar o lugar do binómio diferença e/vs semelhança na investigação sobre género e de debater o seu estatuto epistemológico. colocar no centro da análise as situações em que estas diferenças são minimizadas ou negadas. Nesta comunicação. et al 2003. como eixos estruturadores da reflexão sobre género. se salientam as semelhanças entre homens (em especial no que diz respeito aos aspectos entendidos como características centrais e necessárias da masculinidade) e as semelhanças entre mulheres (em particular no que se refere aos elementos considerados distintivos e fundamentais da feminilidade). assim. Cranny-Francis. geralmente orientando o olhar para ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . não têm um significado unívoco ou posição constante nessa reflexão: as diferenças e semelhanças de género podem ser (e são) definidas e medidas das mais variadas formas.

Jacobus et al 1990. Como tal.” (1995: 1 – itálicos no original). As/os jovens com as/os quais convivi no âmbito do trabalho que aqui vou apresentar diziam com frequência que “está provado cientificamente que as raparigas amadurecem mais cedo do que os rapazes” ou que “há estudos que mostram que os homens têm muito mais força do que as mulheres”. com base nos seus traços “biológicos”. como mais uma prova de que mulheres e homens são. a investigação científica (tanto no âmbito das ciências sociais.3 certas dimensões dos fenómenos em análise e deixando outras encobertas. 1 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . diferentes. Como tal. os próprios processos sociais de construção de diferenciações que analisam. aliás. Rosenberg 2005. Laqueur 1990). mesmo quando essa descrição assenta no pressuposto de que essas diferenças são o produto de experiências sociais distintas e não o resultado de características biológicas necessárias e universais. Ao analisar práticas. relações e situações em função Como argumenta Gherardi. “the knowledge yielded by the category «gender» about gender is one of the clearest examples of reflexive knowledge – by which I mean the social process of knowledge production which changes the knowing subjects and the conditions under which the phenomenon is produced. conferida particular autoridade nesta regulação. Friedan 1965. directa ou indirectamente. na regulação dos significados e normas associados ao género1 . de forma activa e sistemática. exagerados ou mitificados) se tornam elementos integrantes de crenças e discursos generalizados sobre as diferenças entre mulheres e homens e sobre as implicações dessas diferenças ao nível dos papéis e posições sociais que devem corresponder a umas e outros. uma descrição “científica” de diferenças entre mulheres e homens pode ser lida e usada como confirmação da existência de “essências” de feminilidade e masculinidade. Esta é uma ilustração de como os discursos científicos sobre género (embora filtrados e muitas vezes adaptados. À ciência é. como no das físico-naturais) intervém. Thorlindsson e Vilhjalmsson 2003). Enquanto instituição que produz discursos (diversos) sobre as diferenças e semelhanças entre mulheres e homens. “demonstrando” as diferenças entre os sexos e a “natural” superioridade de um em relação ao outro. de facto. Maranta et al 2003. Têm também implicações a outros níveis: influenciam. nos últimos séculos os discursos científicos têm desempenhado um papel crucial como “narrativas de legitimação” (Foley e Faircloth 2003) da subordinação das mulheres (Amâncio 1994 e 1997. devido ao seu estatuto (nas sociedades ocidentais contemporâneas) como forma mais “objectiva" de produção de conhecimento sobre o real (Bourdieu 2001.

sem reificar. Diferenças e Semelhanças na Escola Desde inícios da década de 1980. relações de poder e autoridade. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . relações formais e informais. para ilustrar e explorar as formas como estas questões se manifestam num contexto empírico particular. gostaria de recorrer a observações e reflexões efectuadas no âmbito do meu trabalho de micro-etnografia. espaços e recursos. de forma mais ou menos explícita. Thorne (1993). isto é. Fernandes (1984). cultura organizacional. estável. as escolas têm sido descritas e estudadas no âmbito das ciências sociais como espaços em que as questões de género estão presentes de forma transversal e estruturante. todas as dimensões da vida na escola estão organizadas. Os vários estudos que têm problematizado as relações entre género e educação2 demonstram que as estruturas institucionais. actividades curriculares e extra-curriculares. a investigação em ciências sociais sobre género pode contribuir indirecta e inadvertidamente para a re-inscrição biológica dessa diferenciação e para a reprodução e legitimação de uma dicotomia que deve ser seu objectivo problematizar e desnaturalizar. O desafio é. em função de representações socialmente partilhadas sobre os significados e implicações da diferença 2 Arnot e Weiner (1987). e utilização de artefactos. No entanto. Kessler et al (1985). instrumentos pedagógicos. Stanworth (1981) e Wolpe (1988) foram alguns dos trabalhos pioneiros nesta área. necessária e dualista.4 da dicotomia feminino/masculino. rotinas. essencializar e dicotomizar as diferenças entre mulheres e homens. construir vocabulários e modelos de análise que nos permitam dar conta das dinâmicas e efeitos da produção da diferenciação (e desigualdade) de género e descrever as múltiplas configurações dessa diferenciação (evidenciando o seu carácter variável e contextual). Não há fórmulas já prontas e infalíveis para o fazer e não tenho quaisquer pretensões de apresentar aqui respostas e soluções a estas questões. sistemas de regras. recompensas e sanções. ainda em curso. Delamont (1990). Connell et al (1982). em suma. estratégias de gestão. discursos oficiais e não oficiais. independente das suas manifestações situacionais. então. sem lhes conferir uma existência concreta. sobre negociação de masculinidades e feminilidades entre jovens de uma escola em Lisboa.

No entanto. as raparigas gostam de fazer fofocas e são intriguistas. já que elas/es frequentemente falam de rapazes e raparigas através de dicotomias e oposições: as raparigas são bem comportadas. No projecto de investigação no qual estou neste momento a trabalhar. estruturas e dinâmicas de interacção distintas. e as dinâmicas de poder e (auto e hetero) regulação através das quais certas performances de feminilidade e masculinidade são avaliadas e sancionadas como “naturais” (e portanto legítimas e desejáveis) e outras como desviantes e problemáticas. Para o fazer. em geral. Os discursos que as/os jovens produzem reiteram e reforçam esta diferença. na sua quase totalidade. os rapazes barulhentos e irrequietos. ouviam música em leitores de mp3. Os protagonistas deste tipo de comportamentos eram. os rapazes o inverso. etc. Interessam-me em particular os modos como estas/es jovens definem e expressam o “ser mulher” e “ser homem”. faziam sons de animais. Muito do que vemos parece confirmá-lo: frequentam espaços distintos. estar a prestar atenção ao que estava a ser dito. por exemplo. A turma que observei tinha comportamentos bastante diferentes em cada disciplina – em algumas estavam caladas/os.5 entre mulheres e homens. um olhar atento revela que muitas das diferenças que observamos e que nos são relatadas pelas/os jovens são menos diferentes do que inicialmente pareciam. os grupos de amigas/os têm dimensões. rapazes – as raparigas pareciam estar. têm comportamentos em sala de aula. atiravam canetas e outros objectos. os rapazes adoram jogar futebol e outros desportos. aparentando. diferentes. proponhome analisar as formas como jovens negoceiam género num contexto desse tipo. no geral. ao longo de seis semanas. A questão do comportamento na aula é um exemplo pertinente. recreio. a sensação inicial é a de que rapazes e raparigas são muito diferentes. Quando se realiza um trabalho de observação sobre género junto de jovens desta idade numa escola. integrei-me numa turma de 8º ano e acompanhei as/os jovens da turma (com idades compreendidas entre os 13 e os 15 anos) em todas as suas actividades (lectivas ou não) na escola (e. também fora dela). uma escola pública em Lisboa. por vezes. as raparigas demonstram maturidade e responsabilidade. noutras circulavam pela sala. as raparigas não sabem e não estão interessadas em jogar. sem intrigas. os rapazes não querem saber da vida das outras pessoas e dizem o que têm a dizer “na cara”. Esta diferença foi observada por várias/os autoras/es ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . mais quietas e atentas.

tendo sido interpretada como um demonstração da postura significativamente diferente de rapazes e raparigas face à escola. escrever e trocar recados em papel. importa proceder com cautela na observação. etc. Na escola onde está a ser realizado este estudo. um grupo de nove raparigas decidiu praticar num dos campos principais. enviar mensagens de telemóvel. comportamentos. descrição e análise de diferenças e semelhanças de género. ver também Willis 1977) No entanto. também elas. que contrariam o dualismo rígido e simplista que é habitualmente usado para descrever comportamentos em aula e que tende a reforçar a tradicional dicotomia entre actividade masculina e passividade (e obediência) feminina. portanto. na medida em que podemos ser levadas/os a focar a atenção nas diferenças e dicotomias que. Uma observação mais atenta e continuada do que acontece na escola demonstra também que as diferenças que se observam entre rapazes e raparigas não são diferenças já resolvidas e consolidadas. Como tal. interiorizadas na infância. Na véspera de um campeonato inter-turmas (no qual participavam equipas femininas e masculinas). manifestações de distracção e resistência. frequentemente. são mais visíveis e familiares para nós. não só a nível simbólico mas também geográfico. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . mas sim elementos de processos recorrentes e contínuos de criação e negociação de fronteiras entre os espaços. por serem elementos centrais das representações colectivamente partilhadas sobre a masculinidade e feminilidade. traços. apenas aparente. considerados adequados a rapazes e raparigas (Ferreira 2002). por exemplo. é raro ver raparigas jogar futebol nos campos principais. conversar e rir baixinho. muitas delas estão envolvidas em práticas que podem ser consideradas também como estratégias de disrupção da concentração em aula e que incluem. mais dificilmente identificáveis pelo/a professor/a ou outro/a observador/a mas são.6 em outros estudos. habitualmente formulada por meio da dicotomia “integração feminina / resistência masculina” (Abrantes 2003: 88. uma análise do comportamento das raparigas na turma que observei demonstra que esta “integração feminina” é. ler revistas. Estas práticas são menos visíveis e audíveis do que as dos rapazes e. As/os jovens da turma atribuem-no ao facto de as raparigas não terem jeito ou interesse para o futebol. Mesmo quando parecem estar atentas. A relação das raparigas com o futebol e com os espaços onde este é praticado é um exemplo interessante da forma como se estabelecem e negoceiam fronteiras.

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Depois de jogarem durante alguns minutos, dois rapazes pediram-lhes que saíssem do campo, dizendo que eles e os colegas queriam jogar ali. Elas não acederam, declararam que tinham tanto direito à utilização do campo quanto eles, disseram que eles não lhes pediriam para sair do campo se elas fossem rapazes e chamaram-lhes machistas. Os rapazes insistiram e perante a recusa delas ameaçaram pontapear a sua bola na direcção delas, tiraram-lhes a bola com que elas estavam a jogar e as raparigas acabaram por sair do campo e ir jogar numa zona exígua do outro lado do recreio, sem condições para a prática do futebol. Mais tarde, uma das raparigas explicou-me que “muitas vezes nós tentamos ir jogar ali mas eles arranjam sempre desculpas para nos tirar de lá”. Como tal, a observação de que os campos de jogos são quase sempre ocupados por rapazes não é, necessariamente, uma demonstração de que as raparigas não se interessam (ou se interessam menos) pela prática desportiva e uma prova de que rapazes e raparigas são incontornavelmente diferentes a este nível, seja devido à socialização ou biologia. Pode estar associada a dinâmicas específicas de apropriação do espaço, também elas centrais para a análise da forma como se negoceia o género em contexto escolar. Além disso, nem todos os rapazes manifestam interesse pela prática do futebol, aspecto que por vezes fica camuflado pela tendência para focar a análise nas diferenças entre sexos, tendência que pode levar a sobrevalorizar as semelhanças que existem entre os rapazes e entre as raparigas e a negligenciar a heterogeneidade que caracteriza tanto um grupo como o outro. Neste episódio, como em vários outros que marcam o quotidiano de jovens na escola, as/os jovens recorrem a estratégias várias de (auto e hetero) monitorização e regulação (que incluem o gozo e o insulto ou o uso da força física, por exemplo) para marcar fronteiras (que não são sempre consensuais ou aceites passivamente), evitar que essas fronteiras sejam desrespeitadas e aplicar sanções quando isso acontece. Nesta e em muitas outras situações, a diferenciação de género não aparece como um facto dado e resolvido mas como uma construção que dá trabalho manter no quotidiano. De facto, essa diferenciação é algo que se faz todos os dias, e não algo que simplesmente existe na sequência de uma socialização que (re)produz identidades e papéis genderizados, profundamente enraízados e estáveis.

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Considerações Finais Não é possível sintetizar, numa comunicação de quinze minutos, a diversidade de observações que preencheram as seis semanas de trabalho de campo que aqui vos apresentei sumariamente ou a multiplicidade de interrogações e reflexões que elas têm suscitado. No entanto, mais do que descrever exaustivamente os modos como estas/es jovens vivem e fazem género nas suas relações em contexto escolar, o objectivo desta comunicação é contribuir para animar o debate sobre os conceitos de “diferença” e "semelhança”, por vezes utilizados de forma excessivamente rigída e potencialmente reificante no estudo do género, em particular, e nas ciências sociais, em geral. Pretendia-se, também, contribuir para a discussão do papel que a investigação científica sobre a diferenciação de género desempenha, directa ou indirectamente, na regulação social dessa diferenciação, demonstrando que não é só nos recreios que se constroem diferenças e semelhanças – os nossos próprios estudos, textos e comunicações são, também eles, agentes e espaços dessa construção.

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DIFERENÇAS DE GÉNERO E FAMÍLIAS HOMOPARENTAIS
Margarida Moz ISCTE margaridamoz@oniduo.pt

As famílias homoparentais parecem contrariar a noção de família, assente numa forte distinção de género, a que correspondem algumas atribuições ideais de papéis: mãe/mulher, pai/homem. A antropologia questionou já o carácter universal do parentesco mas pode-se também questionar a distinção masculino/feminino, pai/mãe associada à família. A par da contingência do parentesco e da sua “desnaturalização”, a ciência aumenta as possibilidades no domínio do parentesco, ao introduzir a escolha como critério de construção familiar. Em simultâneo, os governos de alguns países ajustam as leis para que se construam relações familiares não assentes nas distinções de género fundamentais. Nesta comunicação discute-se a relevância dos papéis de género numa família homoparental, com base nalguns estudos efectuados na Europa e na América do Norte. PALAVRAS-CHAVE: Género, Família, Parentesco, Homossexualidade, Homoparentalidade.

Quando falamos numa família homoparental estamos desde logo a entrar por uma via que, à partida, parece contrariar a própria noção de família, assente numa forte distinção de género, a que correspondem simbolicamente algumas atribuições: os papéis de mãe/mulher e de pai/homem. Se é certo que, aparentemente, estas distinções tendem a estar cada vez mais esbatidas, e que se espera que a responsabilidade na educação dos filhos seja dividida por igual entre os pais, continua a dar-se uma enorme importância às distinções de género no seio da família, consideradas como referências fundamentais. As distinções de que falamos pressupõem que a mulher é mãe e o homem pai, e que os dois coexistem numa relação parental (mesmo se uma das partes nunca participou de facto nesta relação) e esta é normalmente vista como a única e natural possibilidade numa relação que é, apesar de tudo, socialmente construída. A ideia de que para se ser pai é necessário ser-se homem está ligada àquela outra defendida por David

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Blankenhorn, autor do livro Fatherless América (1995) que causou um enorme debate ao afirmar que a própria masculinidade só se atinge plenamente com a paternidade:

A paternidade, mais do que qualquer outra actividade masculina, ajuda os homens a tornarem-se bons homens: mais propensos a obedecer às leis, a ser bons cidadãos, a pensar nas necessidades dos outros. (p.21 – tradução minha)

É certo que, para o autor, esta paternidade benévola é apanágio exclusivo dos pais biológicos ou adoptivos, sendo os padrastos excluídos desta propensão para o bem. Também na equação subjacente a este argumento existe a mãe/mulher, cuja presença é fundamental e necessária à existência deste pai/homem. Para lá do interesse em defender os valores da família tradicional americana, o autor está empenhado em reforçar, através da família, as distinções de género, absolutamente necessárias à conservação destes valores. Quando se fala em famílias homoparentais esta lógica familiar fica desde logo ameaçada e com ela o futuro da família pensada nestes termos. As justificações para a não-aceitação das famílias homoparentais são frequentemente as de que se trata de uma situação anormal, desviante, em que as crianças vão crescer confusas, destituídas de valores morais, em que serão provavelmente recrutadas para a homossexualidade. Esta ideia pode manifestar-se de várias formas e quase sempre é expressa em favor do “superior interesse da criança”. Em 2003 (a 31 de Julho), o Vaticano emitiu um documento de oposição ao casamento homossexual onde se lia: “Inserir crianças nas uniões homossexuais através da adopção significa, na realidade, praticar a violência sobre essas crianças, no sentido que se aproveita do seu estado de fraqueza para introduzi-las em ambientes que não favorecem o seu pleno desenvolvimento humano.” 1 Apesar das alegações da Igreja de que “o pleno desenvolvimento humano” das crianças que crescem nas famílias homossexuais está comprometido, o que parece estar de facto comprometido nesta possibilidade é mais a plena continuidade da família tradicional. Desde logo porque o referido documento trata de uma eventual autorização do casamento homossexual e da sua reprodução, ignorando a existência dos milhares de
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http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_con_cfaith_doc_20030731_homos exual-unions_po.html

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famílias que por todo o mundo, vivem já, e nalguns casos há muito, nessas condições sem que os estudos efectuados revelem qualquer deficit de humanidade nestes filhos, nestas crianças – ideia corroborada pela American Academy of Pediatrics que se posiciona publicamente em favor da adopção de crianças por casais do mesmo sexo. Antes do mais é preciso lembrar aos que acreditam que a adopção é a única forma de um casal homossexual ter filhos que não só a maioria dos indivíduos que compõem estes casais não é estéril como tão-pouco a reprodução é um acto exclusivamente natural. Ter filhos é um acto de vontade, uma vontade vista como um desejo natural, que a homossexualidade não inibe. O parentesco foi já “desnaturalizado” (Collier e Yanagisako, 1997), porquanto as evidências etnográficas esclarecem a sua pertença mais ao domínio da cultura que da natureza, uma vez que as associações genealógicas são sobretudo construídas. David Schneider (1984) foi dos antropólogos que mais se bateu contra o enraizamento biológico do parentesco que prevalece no pensamento ocidental onde, por definição, o parentesco é composto por relações baseadas na reprodução sexual. Sendo um dos primeiros grandes críticos do que designou por “Doutrina da Unidade Genealógica da Humanidade”, chamou a atenção para que o método não é mais que uma tentativa de generalização de uma noção ocidental assente na ideia de que o parentesco está ligado à partilha de uma substância comum, que aproxima e identifica as pessoas umas com as outras. No Ocidente, esta consubstancialidade está fortemente ligada à reprodução e ao pressuposto de que “o sangue é mais espesso que a água” (blood is thicker than water). Os estudos realizados em diversos contextos não ocidentais revelam, porém, que o valor atribuído à reprodução no Ocidente não é universal. Entre os Nuer do Sudão, por exemplo, a designação de pai estendia-se a demais membros da família, incluindo mesmo alguma irmã do pai, que por ser estéril passava, ao fim de alguns anos de não gestação, a constar do grupo dos homens e a ser chamada de pai (Héritier, 1996). E nas Ilhas Salomão, por exemplo, em que as crianças ficam com os pais não pela ordem natural das coisas mas porque os pais as desejam e são autorizados a fazê-lo pela comunidade, torna-se evidente o carácter frágil e condicional das relações entre pais e filhos (Holy, 1996). A par da evidência universal da contingência do parentesco e da sua “desnaturalização”, os desenvolvimentos tecnológicos aumentam as possibilidades no

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domínio do parentesco ao introduzir a escolha como critério de construção familiar. Marilyn Strathern (1996) chama a atenção para a forma como as possibilidades introduzidas pelas novas tecnologias reprodutivas, desenvolvidas para colmatar limitações biológicas, vão mais longe na requalificação do parentesco: ao criarem um vínculo natural por via artificial, como resultado da escolha de se ter filhos que naturalmente não se podem conceber, abrem caminho para que outros candidatos a pais, naturalmente impossibilitados, possam também satisfazer as suas pretensões. A ciência permite já situações que desafiam todas as noções de parentesco, como é o caso de mães virgens ou de duplas mães biológicas (no caso em que existe uma mãe hospedeira, que gera um embrião proveniente de uma combinação de óvulo/espermatozóide alheia). Mas não é apenas a ciência que dá passos na construção de relações familiares não assentes nas distinções de género fundamentais, os governos de alguns países, acompanham já estes desenvolvimentos ao permitirem aos casais homossexuais tanto a adopção plena de crianças, como a adopção do filho do companheiro por um parceiro do mesmo sexo. Nesta segunda forma, a mais frequente na Europa e em prática em países onde a adopção conjunta não é, ainda, permitida, trata-se de adaptar a legislação a uma realidade em que as famílias se vêem muitas vezes incapazes de gerir a sua situação familiar por falta de enquadramento legal (seja na relação dos filhos com a escola, seja na própria vivência quotidiana quando, por exemplo, o pai/mãe legal se ausenta e a criança é deixada com o companheiro/a. Mas há países que vão mesmo mais longe nesta adaptação às diversas formas de agrupamento familiar e aplicam a presunção de paternidade à parceira não parturiente de um casal de lésbicas que tenha um filho por inseminação artificial - é assim no Quebeque, no Canadá. Voltando à questão inicial da distinção pai/mãe, homem/mulher, importa desde logo chamar a atenção para o modo como a reprodução medicamente assistida introduz novas questões com forte ressonância no plano social e jurídico. Hoje em dia as famílias são cada vez mais diversificadas e pai/madrasta; mãe/padrasto, meio-irmão-materno, meio-irmão-paterno, irmão-filho-do-marido-da-mãe, etc. são realidades que não surpreendem ninguém. Para além destas famílias recompostas, as novas tecnologias evidenciam ainda outras distinções como “mãe genética”, “mãe biológica”, “mãe de aluguer”, etc. As realidades sociais há muito que transcendem as designações que existem e que são visivelmente insuficientes.

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” (Cadoret. e ela própria filha de pai gay. seguido do primeiro nome que distingue cada um deles. Garner esclareceu que um era seu pai. Gays. Em relação ao casal é referido como “a minha mãe e a parceira”. “as minhas mães”. Mas depois acrescentou. tanto acontece que mãe e pai sejam os biológicos ou legais. e o outro. 2004: 139 – Tradução minha) – é que partner em inglês quer igualmente dizer sócio. o parceiro dele (em inglês partner). Eu sustive a respiração. conta que certa vez. mas nas referências à família fora do seio familiar. “tia” ou então opta-se pela utilização apenas do nome da pessoa em causa. surgem termos como “a outra mãe”. Esta dificuldade. etc. esta mesma necessidade: “Nota-se uma vontade muito nítida de utilizar um termo de parentesco e não apenas o nome próprio da pessoa em causa. sob o argumento do princípio do bem-estar da criança. “madrasta”. Bissexuais e Transgender) – Families Like Mine (2004) –. era o seu pai. e em relação aos pais. sublinhando assim uma vontade de formar uma família. não fossem estas estar. A inexistência de nomes para as relações torna difícil fazer transparecer a importância destas pessoas na família quando se fala dela a estranhos. Respirei de alívio. Abigail Garner. Assim. sobretudo quando as crianças vivem esta situação desde sempre.5 Nas famílias homoparentais esta parece ser das situações mais difíceis de resolver e aceitar: assim. como também se opta por chamar pai/mãe a ambos os membros do casal. e os restantes. ao serviço de uma ficção de nascimento: veja-se as restrições no acesso à adopção e à reprodução assistida. “os meus pais”. normalmente. “Bem” continuou “não é fantástico que o ‘partner’ do teu pai tenha vindo de tão longe com ele para assistir à cerimónia da tua graduação!”. 2000: 173 – Tradução minha). não é tanto sentida no seio da família. A antropóloga Anne Cadoret (2000) observa no contexto francês. autora de um importante estudo americano sobre os filhos de pais LGBT (Lésbicas. sendo que muitas vezes as condições exigidas jamais seriam satisfeitas pelas famílias que geram crianças sem ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . As dificuldades relatadas não seriam provavelmente muito distintas das que existiriam para a adopção comum. padrastos ou padrinhos. na cerimónia de graduação da faculdade. “O ‘partner’?” perguntou. “A que ramo de negócio é que eles se dedicam?” (Garner. de se afirmarem como pais. porém. uma colega lhe perguntou qual dos dois homens para quem apontou como sendo a família. satisfeita por ela ter percebido e achado fantástico.

As descobertas iam ao encontro dos receios da maioria heterossexual e homo-hesitante. o cultural. se as raparigas crescessem mais arrapazadas e os rapazes ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . 2000: 173 – Tradução minha) Para além disso. de uma adequação do parentesco biológico ao parentesco social. Quase todos os estudos nesta área referem não ser difícil. está-se em geral consciente da ausência de um dos sexos nesta composição. os estudos sobre filhos de casais do mesmo sexo evidenciavam a necessidade de contrariar os argumentos homofóbicos e sublinhavam a existência de poucas diferenças entre as crianças educadas numa família homossexual face às que cresciam numa família heterossexual. a dificuldade em classificar os parentes parece residir mais na forma como se explicam as relações familiares em causa. O envolvimento de mais do que duas pessoas no processo de concepção dificulta a nomeação de cada um dos pais e privilegia um em detrimento do outro dos membros do casal. ou pelo casal do mesmo sexo. Já quando uma mãe sozinha. e era até recorrente a indicação de que na sua grande maioria estas crianças na idade adulta tendiam para a heterossexualidade. nos Estados Unidos da América. (Cadoret. o afectivo. ou até um casal do mesmo sexo opta pela adopção. situar o sexo ausente uma vez que a criança nasce de um casal heterossexual e é posteriormente adoptada por esta ou aquela pessoa. O termo escolhido deverá evidenciar a existência de uma relação de tipo familiar e a posição da pessoa face a quem a nomeia. Tanto para as famílias homossexuais quanto para as famílias heterossexuais trata-se de fazer a ‘bricolage’ da família a partir de diversos argumentos de parentesco: o biológico. o social. e uma vez que esses receios se prendem normalmente com a hipótese de estas crianças apresentarem inconformidades de género. Sejam quais forem os termos usados. o histórico. como se isso fosse sinónimo de uma educação eficaz. ao reproduzir-se poderão estar a reproduzir o desajuste: que será dos filhos que crescem nestas famílias? Que homens e que mulheres serão? Que famílias irão eles construir? Nos anos 80. Como diz ainda Anne Cadoret (2000): A família sempre foi uma montagem. estas famílias.6 recorrer a estes meios. Por outro lado. Mas as famílias homossexuais fazem cair a nossa ilusão de um “parentesco natural”. ou um pai celibatário. no caso dos filhos resultantes de inseminação artificial esta questão torna-se mais difícil de resolver. na maioria dos casos. o jurídico.

à rigidez dos padrões e não se coaduna exactamente com o que é ser homem e mulher. e concluíram que contrariamente ao que antes havia sido divulgado. Entre os jovens adultos com quem trabalhou. por vezes. com as suas próprias referências. por exemplo. reexaminaram os dados utilizados nos estudos sobre os filhos das famílias do mesmo sexo. tal seria motivo para preocupação. acreditam que tal os valoriza no seu relacionamento com os outros e lhes dá uma maior abertura e capacidade de tolerância – conclusão. a que têm chegado quase todos os estudos nesta área. também se revelavam mais abertos à aceitação das relações homossexuais. e resolvidos na sua sexualidade. Em 2001. ao igual desempenho de funções normalmente associadas a um dos sexos. aliás. A interpretação feita por estes autores sugere uma maior tendência dos filhos com pais do mesmo sexo para desafiar as ideias relativas aos papéis de género e à sexualidade. E se os próprios se sentem bem. por que motivo se teme tanto pelo desenvolvimento destas crianças? Porque é que se diz ser no seu superior interesse que se impede a adopção por casais do mesmo sexo? Como é que se poderá viver com uma realidade familiar que parece não ensinar a distinguir. mas que os próprios consideram. sobre filhos de casais do mesmo sexo. e integrados. Garner percebeu como muitos deles têm uma clara noção de que a sua identidade de género escapa. no entanto. actualmente entre os 20 e os 30 anos. mas longe de considerarem isso uma falha no seu desenvolvimento pessoal. estes filhos apresentavam algumas diferenças relativamente aos seus congéneres de famílias heterossexuais. Abigail Garner verifica que por vezes estes filhos apresentam personalidades em cujas distinções de género são menos óbvias e em que os papéis são mais indistintos – um aspecto que os conservadores tomam como evidência de uma falha no desenvolvimento das crianças. efectuados entre 1981 e 1998. os sociólogos americanos Judith Stacey e Timothy J. No seu estudo. Ao mesmo tempo que se mostravam mais abertos. na medida em que lhes confere uma liberdade maior de comportamento ao poderem expressar livremente traços mais efeminados ou masculinos e ao serem abertamente afectuosos com alguém do mesmo sexo sem que isso os faça sentir esquisitos ou inseguros em relação à sua própria sexualidade. ser uma maisvalia. sem que isso fosse.7 efeminados. sinónimo de uma sexualidade mal resolvida – tanto para a homossexualidade quanto para a heterossexualidade. em geral. Biblarz. o lugar dos homens e das mulheres na sociedade e na família? E quando é que o “problema” das famílias homoparentais passa a ser o ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .

“(How) Does the Sexual Orientation of Parents Matter?”. David. Standford. Timothy J.8 “problema” da família? Acima de tudo. 1996. Questions of Cultural Identity. justificando (e justificadas por) o seu carácter natural. Françoise. Para melhor se perceber a homoparentalidade é pois fundamental desmontar este conceito de família assente numa forte distinção de género e a partir daí perceber se ainda sobram motivos para que se receie a sua proliferação. “Figures d’homoparentalité ”. New York: Perennial Currents. 1996. Jane. Families Like Mine – Children of gay parents tell it like it is.) Homoparentalités. Anne. STRATHERN. Landislav. Thousand Oaks. & Sylvia YANAGISAKO. BLANKENHORN. 1996: Masculin/Féminin: La pensée de la différence. Referências Bibliográficas: BIBLARZ. “Enabling Identity? Biology. SCHNEIDER. Choice and the New Reproductive Technologies”. in Martine Goss (dir. 2001. Paris : Editions HOLY. Issy-les-Moulineaux : ESF éditeur. David 1995. CADORET.). Fatherless America.) 1997. CA: Standford University Press. (eds. 2004. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . État des Lieux. London. GARNER. COLLLIER. o que a homoparentalidade evidencia é a possibilidade de se formar e viver a família de um modo não alicerçado nas categorias de género que na sociedade Ocidental estiveram sempre na base da sua formação. HERITIER. Abigail. in American Sociological Review 66 (April 2001): 159-183. in Stuart HALL & Paul DU GAY (eds. 1984. e Judith Stacey. Ann Arbor: University of Michigan Press. Gender and Kinship: essays toward a unified analysis. Anthropological Perspectives on Kinship. New York: Basic Books. 2000. London: Pluto Press. Marilyn. New Delhi: SAGE Publications. A Critique of the Study of Kinship.

esta comunicação dará conta de uma forma de reprodução de poder assente na diferenciação de género. O estereótipo masculino está associado aos domínios profissionais mais dinâmicos e independentes. Amâncio.e nos veículos por ele utilizados . O êxito da sua longevidade está no seu meio de reprodução – os pequenos domínios de relações sociais . jardim-de-infância e ATL. A sua ausência da profissão permite que sejam as mulheres. A partir de um trabalho de observação empírica feito numa creche. apesar destas já terem uma participação importante no mercado de trabalho A sua chegada tardia ao mundo do trabalho remunerado contribuiu para as segregar em profissões onde a sua presença é fundamentada nos seus atributos «naturais». enquanto que. Palavras-chave: educadores de infância. a marcada diferenciação entre “trabalho de homem” e “trabalho de mulher” tem criado condições para que continuem a existir trabalhos maioritariamente desempenhados pelas mulheres. isto é. Apresentação Os estudos desenvolvidos em Portugal demonstram uma grande consensualidade no que diz respeito aos estereótipos do género. as educadoras de infância a transmitir aos seus educandos o modelo feminino: o cuidar.as mulheres e as crianças. Em Portugal. 1. de acordo com o seu género. poder. Elas estão em maioria e são poucos os homens que ultrapassam a barreira simbólica do género. o tratar e o ensinar. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . o estereótipo feminino está associado à expressividade e à submissão (cf. 1994).Educadoras de Infância: A fragilidade de uma maioria Manuela Raminhos Centro de Estudos de Antropologia Social ISCTE A profissão de Educadores de infância é em Portugal exercida quase em exclusividade por mulheres. por exemplo. em entrevistas semi-estruturadas realizadas a educadoras e alunos da licenciatura de educação de infância e também um inquérito realizado entre profissionais e futuros candidatos à profissão. género. reprodução.

promove a desigualdade social. O Recenseamento Geral da População de 2001 regista um total de 20. 1995). 2002. no entanto. a presença das mulheres no domínio profissional masculino tem aumentado. Através de um forte dispositivo ideológico continuamos a assistir à naturalização do género que. 2005). Nota-se. 2003 e 2004 foram frequentadas por cerca de 2 mil alunos nos cursos de educação de infância onde se estima que apenas 3% dos alunos sejam do sexo masculino 1 . As várias escolas superiores de educação públicas entre 2002. que as jovens já escolhem com frequência cursos e profissões ligados com o estereótipo da masculinidade (cf. Concurso Nacional de Acesso ao Ensino Superior. sentimentos e comportamentos» (cf. 2005. mas em contrapartida. os empregos do domínio feminino pouco têm mudado a sua composição sexual. Cardana. Como pano de fundo fica a ideia que existem profissões para as quais as mulheres possuem habilitações naturais dado crer-se «que os sexo tem consequências inevitáveis quando à forma de pensamento. Elas estão em maioria e são poucos os homens que ultrapassam a barreira simbólica do género. dos quais 161 do sexo masculino (INE: 2001). em Portugal. Os homens tinham neste universo profissional um peso inferior a 1%. Mas porque é que a divisão do trabalho por género persiste? A primeira explicação centra-se nos estereótipos que passam através da ideologia do género e que 1 DGES.2 Em Portugal são poucas as profissões do domínio profissional que tradicionalmente está ligado ao mundo do trabalho feminino que empregam homens e são poucos os jovens do sexo masculino que escolhem licenciaturas em áreas comprometidas com o estereótipo feminino. A sua ausência da profissão permite que sejam as mulheres. Ministério da Ciência e do Ensino Superior. A profissão de Educadores de infância é em Portugal exercida quase em exclusividade por mulheres.354 educadores de infância em Portugal. A concentração por sexos quer a nível do ensino (licenciaturas e cursos profissionais) quer na actividade profissional é suportada por um discurso que alimenta a ideia que existem profissões masculinas e femininas.2003 3 2004. colocando as mulheres em profissões menos prestigiantes socialmente e dificultando-lhes o acesso a funções de chefia tradicionalmente desempenhadas por homens. Williams. a partir da diferença sexual. as educadoras de infância . ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Lisboa. Como resultado.a transmitir aos seus educandos o modelo feminino: o cuidar. o tratar e o ensinar.

3 4 2 ID. em entrevistas semi-estruturadas realizadas a educadoras e alunos da licenciatura de educação de infância e também um inquérito realizado entre profissionais e futuros candidatos à profissão. da Licenciatura de educação de infância e a Educadores de Infância e exercerem a sua actividade em creches e jardins-de-infância de Lisboa e do Porto. Women and Men at Work. pag. mas como é que o género se torna poder? e qual é a sua natureza? A partir de um trabalho de observação empírica feito numa creche. 2 Uma segunda explicação para a para a divisão do trabalho é o facto desta divisão conceder privilégios ao grupo dominante proporcionando-lhe uma posição de controlo. Thousand Oaks. como por exemplo. Uma terceira explicação surge. col. “género é poder”. deixando-os construir a sua masculinidade e evidenciando a sua supremacia e poder. Pine Forge Press (an imprint of Sage Publications.o masculino . 2ª edição. entre os alunos das Escolas Superiores de Educação de Lisboa e do Porto.). Sociology for a new Century. “seja etiquetado como feminino e masculino”. esta comunicação tem como objectivo identificar a natureza do poder atribuído ao género. as mulheres não têm sido consistentes na consolidação dos seus privilégios profissionais. A amostra revelou uma distribuição por género fortemente feminizada. A imagem de si Dizem as feministas. um conjunto de comportamentos e atributos. Irene.3 permitem aos indivíduos a partilha de um conjunto de ideias que naturalizam. São os estereótipos que fazem com que o trabalho.que ainda consegue preservar a sua vantagem localizando-os em esferas diferentes das da mulher. uma vez que têm demonstrado falta de estratégias de afastamento dos homens nas funções de liderança quando estes entram no seu domínio profissional. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . São estes estereótipos que levam a que a profissão de educador de infância seja própria de mulher. Inc. com uma distribuição razoavelmente equitativa. nos lugares de chefia e de decisão. por sexo. Este controlo é exercido pelo sexo privilegiado . No grupo de educadores de infância não foi inquirido um único homem e no grupo de alunos de educação infantil apenas um. 3 2. como esperado. e Barbara Reskin (2002). 4 Padavic. Os registos etnográficos que suportam este texto são: uma amostra baseada em 166 questionários. jardim-de-infância e ATL. 42-43. Londres e Nova Deli.

mas na presença de um modelo de género institucionalizado. Contudo a verdade não existe por si só o que permite que o poder não se reduza somente às formas de dominação e não seja essencialmente repressão. apesar de todo os projectos de transgressão e de rotura. Dizem: ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Foucault. Acredita-se que é assim. no seu carácter fixo.4 Um dos maiores contributos de Foucault foi fazer a ligação entre o discurso dominante da verdade (ou a verdade de um grupo reflectida no discurso dominante) e a emergência do poder. Esta é a verdade. é normal e natural. E se esta verdade fizer parte de cada “verdadeiro eu” acredita-se nela. O poder identifica o indivíduo. O poder perde o seu carácter dominante e deixa de ser repressivo. efeito do património biológico do indivíduo. O Género está de acordo com o seu sistema nervoso. 1982:212). Isto significa que a feminização das profissões. (Foucault. controlando a massa crítica. Nestes discursos o género tem qualquer coisa de fixo e permanente. tornando o discurso ideológico coerente e permitindo também a continuidade do discurso do senso comum. apesar de sabermos que é uma construção social. Porque? Porque o poder é produtivo: produz indivíduos. modos de comportamento. o género justifica-se de acordo com um quadro biológico que suporta a ideia que divisão do trabalho. Um dos impedimentos à mudança social é a assunção da naturalidade das coisas. Apesar de ser uma identidade plástica. diferentes tipos de identidades. É uma verdade que liga os indivíduos e que fortalece as estruturas de poder e dominação (cf. No caso das educadoras de infância estas assumem que a profissão é feminina e que está de acordo com o seu património biológico. Como o comportamento. É este modelo que é reproduzido e assimilado pelas mulheres e pelos homens que ingressam em profissões que de acordo com o seu género. Como a fé aceita-se e não se discute. segundo o género. não está ao nível da sua composição sexual. 1979). desejos e crenças. também o género é assumido como um fenómeno causal. O género manifesta-se segundo a sua natureza biológica. prende-o à sua identidade que ele ou ela deve reconhecer e acreditar como reflexo do seu verdadeiro “eu”. formas de subjectividade. porque se acredita nele. E é aqui que reside também um dos poderes do género. Esta naturalidade está contida nos discursos científicos da biologia e da psicologia. actos.

mas é assim que eu penso. 55 anos) As educadoras de infância deixaram transparecer que no decurso da sua actividade profissional o seu universo é feminino. negando o papel que estes tiveram na sua aprendizagem do género. Em interacção com as crianças partilham com estas experiências ligadas ao universo da casa. A naturalização do género é tão forte nas educadoras que apesar de no inquérito terem respondido que em crianças as profissões que gostariam de ter em adultas se situavam no universo das profissões femininas. Elas são como as flores. A tudo. (mulher. Não tenho assim presente que fossemos muito rigorosos na divisão de tarefas. A mulher biologicamente está preparada para isso. a ajudar a mãe dos meninos. educadora. Lembro-me de brincar com os meus irmãos. ao carinho. da paciência. É verdade! Se calhar sem querer estava-me a ensinar-nos que cuidar de meninos era coisa de mulher! Mas a minha avó sim …que espectáculo. Ou seja o seu género não acrescenta nada à profissão. 55 anos) os homens aparecem no ensino já quando «as nossas crianças estão prontas» para a mudança. são as flores do nosso jardim que nos primeiros tempos de vida precisam da nossa ajuda. aos astronautas. Essa era implacável. da bondade. Dizia a minha avó quando via o meu irmão a brincar com as minhas bonecas: Vê lá que ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . aos escritórios. 21 anos) Nós sabemos que é uma profissão feminina. essa realidade é bem diferente. Às casinhas. negam que tenham sido condicionadas pela família e pelos amigos na escolha da sua profissão. Até lhe dizia «assim é que é.5 Somos só mulheres … penso que os homens não têm paciência … exercemos a nossa profissão com mais naturalidade é por isso que é uma profissão feminina. (mulher. Ao mesmo tempo perante as crianças a educadora é a autoridade. como professoras. mas é simultaneamente a imagem da passividade. só te fica bem!». A minha mãe não se ralava nada se o meu irmão brincasse com as bonecas e eu com os brinquedos dele. No entanto através dos seus discursos. Mais crescidas. Não aprendo isto na licencaitura. dentro dos parâmetros da verdade estabelecida. a tratar dos filhos. consolidando a ideia de que esta ocorre com normalidade. No entanto dava-me bonecas a mim e carrinhos ao meu irmão. da tolerância. educadora de infância. da dedicação. porque está ligada ao cuidar. à paciência. enfermeiras. aos veterinários. aos médicos. (aluna da licenciatura de Educação de Infância. mais fortes. tão ligadas ao universo materno.

aparentemente. A forte presença da mulher face ao afastamento da figura do pai nos primeiros anos de vida é pertinente para tentarmos compreender a necessidade que os rapazes têm em manifestar a sua masculinidade. Nancy. 1970 (1952). 6 Como me disse uma educadora. influência. perdendo. New York Free Press. o modelo da paternidade (masculino) fica mais ausente. exige uma assimetria dos papéis: A mulher pode fazer qualquer trabalho que não deixa por isso de ser feminina. os rapazes são pressionados para abandonar esta identificação com a mãe e assumirem a sua identidade de género masculino. O afastamento dos homens das profissões femininas ou a necessidade que estes têm de. põem mais em causa a sua masculinidade. pp. A criança. acaba por ser influenciada pelo modelo que lhe está mais próximo. 3. 5 Através da construção de uma identidade masculina pela negativa: “tu não fazes isso porque quem o faz são as mulheres!”.17-33. Quando chegam à vida adulta os homens escolhem geralmente uma profissão do universo das profissões masculinas. The University of California Press. The reproduction of mothering. no seu processo de aprendizagem. Porto). Berkley. pode ser explicada através da teoria do sexo. 40 anos. afirmar a sua masculinidade. quando entram no campo profissional tradicionalmente conotado com o género feminino. a preocupação na construção da masculinidade profissional. “The superego and the theory of social systems”. Talcott. Mais tarde. que resulta desta intensidade do significado atribuído ao género. olha que as bonecas são para as meninas! (Aluna da ESE. negando dessa forma a sua ligação ao mundo feminino e. Uma forte identidade Como já dissemos. afastando-se das brincadeiras das meninas. as escolhas profissionais são incentivadas ou condicionadas através da aprendizagem dos papéis do género no seio das solidariedades primárias. 1978. 6 CHODOROW.174. Social Structure and Personality. também o seu afastamento das profissões “apropriadas às mulheres”. quando aí chegam.6 desgostos que ainda queres dar ao teu pai. «a sociedade vê a sua profissão como a profissionalização do trabalho doméstico» (Mulher. Nova Iorque. em contrapartida. mais tarde. pp. já na vida adulta. o feminino e em muitos casos a figura da mãe ou da educadora. Lisboa). enquanto que os homens. Se atendermos a PARSONS. 5 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .

a vigiar. normalmente. As salas estão decoradas. Por outro lado.público -. como por exemplo. em alguns estabelecimentos. E até o espírito de poupança doméstica se reflecte nestas profissionais que promovem «as festinhas onde vendemos coisinhas feitas por eles para juntar dinheiro para a viagem dos finalistas» (Mulher. o seu prestígio.privado -. Como no lar. ou a cuidar da sua higiene. onde surge a cozinha. 7 Através do trabalho de observação realizado junto de educadoras de infância. a ensinar e a proteger as suas crianças. ensinandoos a arrumar a casa. 49 anos. a sala. pudemos verificar que algumas das suas tarefas são semelhantes às que as mulheres realizam no espaço privado. Porto). numa atitude de conforto e de disponibilidade para com a sua tarefa. a quem se dirigem para saberem como devem actuar face a problemas de saúde das crianças. calçam sapatos baixos. os espaços em que interagem com as crianças estão carregados de simbolismo feminino. a apresentação destas mulheres muda e o significado que daí emerge permite sinalizar a semelhança entre o trabalho de casa e o trabalho que desempenham profissionalmente nos infantários. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . A sua actividade profissional demonstra que a passagem da casa para o trabalho continua a permitir que esta profissão consolide os estereótipos femininos. e o profissional . Entre o social. O formal que trazem da rua passa a informal dentro do infantário. Colocariam em causa a sua masculinidade. 7 Entendemos que poder ou o exercício do poder por parte de pessoas ou de grupos sociais é a capacidade que estes têm em usar estratégias próprias que provocam obediência outras pessoas ou grupos. o quarto e até a garagem. preocupandose com o seu bem-estar. como se fossem uma casa familiar. o seu poder de grupo privilegiado. com os pais destes. com os seus educandos a quem dispensam toda a sua atenção ao longo das muitas horas que estão com eles.as batas – e. o justo das roupas passa a folgado. Na sua sala. também aqui as mulheres.7 isso. a biblioteca. a arrumar. As educadoras continuam a cuidar. . a educadora olha atentamente “pelos seus meninos”. É esta simbiose perfeita entre objectos. práticas e comportamentos domésticos e profissionais que alimenta a forte imagem feminina que estas profissionais têm de si mesmo. usam roupas largas . no seu local de trabalho – o infantário -. compreendemos porque é que os homens não escolhem esta profissão. com as enfermeiras que prestam serviço no infantário. A feminilidade da profissão também é observável através das relações sociais que estas profissionais estabelecem no seu dia-a-dia com os seus interlocutores mais directos.

Perguntar-lhe-ia. 40 anos. Porto) A emoção pode ser também entendida como uma representação do feminismo da profissão. Sage. Londres. (Educadora. Disse-me uma Educadora. Sou educadora porque quis sê-lo e gosto da minha profissão. uma vez que está associada. à mulher. a emoção opõe-se ao pensamento e muitas vezes é empregue para caracterizar a mulher negativamente reforçando a sua subordinação ao homem. permitindo desta forma a manutenção um sistema de estratificação profissional que atribui valor desigual ao trabalho segundo o género. pelas categorias do género. 8 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Envolvemonos e demonstramos.). Quer dizer que a emoção faz parte de um sistema de relações de poder e tem um papel fundamental na manutenção desse mesmo poder. organização. Catherine. Mary Gergen e Kenneth J. Mas hoje se a minha filha escolhesse esta profissão eu iria contra a ideia dela. «mas não é só a mulher que consegue experimentar a angustia e reagir. Segundo Catherine Lutz (2003) a aplicação do conceito emoção. racionalidade. sabes porque é que não há homens nesta profissão? Porque nós somos socialmente vistas como “donas de casa” que trabalham fora de casa. Social Construction. a diferença é que nós conseguimos LUTZ. 8 Algumas educadoras de infância entrevistadas não escondem que para as mulheres é normal reagirem emocionalmente enquanto que se espera que os homens escondem as suas emoções. 20005 (2003). com paixão a determinadas situações. Gergen (Ed. ao mesmo tempo que dizem. As educadoras sofrem e riem.8 No entanto por detrás desta imagem estereotipada está a ideologia do género que através da divisão do trabalho por sexo atribui à mulher tarefas diferentes das que atribui ao homem. Isso é uma injustiça e eu não quero que tu continues a alimentar essa injustiça. a reader.. face à alegria ou tristeza das crianças». enquanto que o homem é caracterizado pela sua objectividade. Emoção significa subjectividade. com raiva ou com alegria. “Emotion: The universal and the local. As educadoras fazem um trabalho valorizado socialmente mas em contrapartida com pouco realce e estatuto social de prestígio. pp. ou o seu emprego como adjectivação de uma mulher serve fins ideológicos. Na prática.40. irracionalidade a tal ponto que pode gerar o caos.

empatia. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .1% 30. o carinho.0% 12. atenção Competência técnica e científica Capacidades profissionais Respeito.5% 13.5% Total 41. amor.2% 12.4% 13. enquanto que eles a escondem!» (Educadora. Características de um bom educador Educador de infância Paciência. Porto). a sensibilidade. 40 anos.4% 15.3% 25.7% 15.5% 18. «os poucos rapazes que aqui chegam não conseguem aguentar a carga emocional negativa que lhes é transmitida pelos média. humanismo Vocação.3% Para as mulheres educadoras de infância os afectos fazem parte da sua prática profissional. A paciência e a compreensão.5% 10.1% 34.9% 22. afectividade. No inquérito realizado embora de opinião bastante díspares os educadores revelam um leque alargado de características comportamentais na área da emoção e atribuídas à mulher pelas categorias do género feminino.8% 18.6% 24. assim como as denúncias de praticas pedófilas em estabelecimentos de ensino têm ultimamente afastado da licenciatura possíveis candidatos.3% 32.5% 14. compreensão Criatividade. 54 anos.2% 13. Professora da ESE. a criatividade e a flexibilidade.4% 37. Lisboa). a vocação e o gosto. amor.3% Aluno Lic.7% 30. flexibilidade Sensibilidade. Os afectos que manifestam também nas carícias que as crianças recebem dos educadores afasta.8% 32. segurança Observação.1% 30.0% 33. os possíveis candidatos homens desta profissão. dedicação Responsabilidade.8% 25.3% 16.1% 20.6% 19.8% 32. carinho Empenho. gosto Afectividade.6% 32. Educação Infância 44. Acabam por desistir» (Mulher.9% 39.4% 11. em muitos casos condição essencial para afastamento dos homens da profissão. simpatia 34. educação Afabilidade.3% 33.4% 10.9 manifesta-la. Segundo uma professora da ESE do Porto.9% 25.

Pelas práticas profissionais que lhes vemos ter. Conclusão O processo de aprendizagem das categorias do género iniciado através do processo de interacção desenvolvido no seio das solidariedades primárias. por exemplo. não reconhecem directamente a influência dos seus pais. a imagem de feminilidade contida nesta profissão é forte e constrói-se sozinha. pela a forma de comportamento que se espera delas. até pelo perigo que pode representar a presença de um homem nesta profissão. No seu processo de sociabilização a criança começa por copiar as atitudes daqueles que lhes estão mais próximos ou daqueles que sobre ela exerçam mais influência e que se encontram no universo das solidariedades primárias. neste universo. se sentirá mais atraído pelas profissões que estão de acordo com as características atribuídas ao seu género. Aqui. 4. segundo o sexo. Os inquiridos. amigos ou mesmo da escola no seu processo de sociabilização com as categorias do género. Porém a sua natureza não passa de uma construção social. os pais das crianças em idade de pré-escolar. nem tão pouco se sentem que houve algum dia qualquer forma de influência que condicionasse a sua escolha. já na fase adulta. Segundo a ideologia do género os indivíduos. também manifestam que a profissão de educador de infância é própria para mulheres. Isto quer dizer que até a sociabilização com os papéis atribuído ao género acontece dentro dos parâmetros naturais da ordem estabelecida. a criança vai à procura do seu “outro” para o copiar ou simplesmente para o ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . As mulheres devem ficar junto das crianças. foi o que constatámos junto das Educadoras de Infância. afastando deste universo os homens. As crianças representam a pureza e a mulher conserva uma imagem menos perigosa. O seu poder advém-lhe da sua forma de reprodução. De facto. sem a necessidade de um “diferente por perto”. pelo meio em que estão inseridas. Na verdade expressam a ideologia do género e os seus medos. mais dócil e o seu as suas carícias são consideradas normais. por tudo isto.10 Por outro lado. Esta aprendizagem condicionará o indivíduo que. mais tarde. têm características e apetências diferentes.

“e todas as sociedade reconhecem os laços que cada criança tem com as pessoas envolvidas no planeamento e empreendimento do acto reprodutivo”. 1994. Este processo de aprendizagem dos papéis do género é universal. no jardim-de-infância a criança começar por distinguir os papéis diferenciados do género. mas mais do que entanto a criança habitua-se a partilhar a sua vida com uma mulher que os ensina a divisão do trabalho por sexo. Lisboa). Provadamente. 9 ID. Lígia. pp. 41. muitas vezes a brincar ao “faz de conta” sob os olhares da mãe ou da avó. Nos seus espaços de trabalho. Edições Afrontamento. no seu estabelecimento todas as educadoras são mulheres. os objectos estão distribuídos como se de uma casa se tratasse. Estas profissionais actuam como frentes de consolidação do género feminino. condicionando o leque das profissões disponíveis para os futuros homens e influenciando-os a escolher: «uma profissão que não envolva o cuidar dos filhos dos outros e ensiná-los brincando» (Educadora. O trabalho de observação empírica permitiu ver que as mulheres educadoras de infância desenvolvem um tipo de trabalho que as posiciona de acordo com o imaginário feminino. um número de factores e de práticas profissionais chama a nossa atenção. precisamente para a falta de práticas conducentes a esse equilíbrio e equidade. Masculino e Feminino. 54 anos.11 identificar com determinado tipo de trabalho. Referências Bibliográficas AMÂNCIO. copia e aprende a reproduzir os papéis sociais esperados para o homem e para a mulher. Mais tarde. As crianças brincam e utilizam este espaço não tendo em conta o seu sexo. que a criança vê. E aí está a perversidade desta profissão. 9 É na família que. esta transmite-lhe a ideia que cuidar das crianças é trabalho para mulher. É também neste universo. a criança aprende as categorias do género. Porto. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Apesar dos educadores de infância deixarem transparecer que o seu trabalho com as crianças é feito com o objectivo de os influenciar no sentido do equilíbrio e equidade entre géneros. Através da interacção que se estabelece entre a criança e a sua educadora. A construção Social da Diferença. as salas que recebem as crianças.

João de.369. Nancy.. Os percursos do género na antropologia e para além dela. and RABINOW. Berkley. ICM. e Barbara Reskin (2002). DREYFUS. WILLIAMS. Robert. Cohen. MURRAY. Social Construction. CA.17-33. (ed). “A Casa é para as raparigas. 1993. “Emotion: The universal and the local. Pine Forge Press. WEINREICH. col. Karmela Liebkin (Eds). Irene. Gergen (Ed. a reader. 2000. Gower/European Science Foundation. (Texto 14). Academic Press. Irene. Isabel. Gender and Society. Sage. Mary Gergen e Kenneth J. Universidade de Guadalajara. pp. 1978. PARSONS. New York Free Press. http://www. Yale press University. Women and Men at Work.2002. 1982. N. 1970 (1952). col. Londres. Still a man’s World: men who do “women’s work”. Nova Iorque. Padavic. nº 5. “Electrotecnia e Informática: Dinâmicas de Género em Ciência e Tecnologia”. Catherine. 2005. 1995.ujaen. Talcott. Michel. Nova Iorque.). Mercedes. Hemel Hempsted. The reproduction of mothering. Hubert. 2ª edição. 8. pp. Série Antropologia 236.40.es/huesped/rae. e Nelson Lourenço. L. pp. Vol 10. 20005 (2003). PINA-CABRAL. Discipline and punish: the birth of the prision. STOLLER. 1979. Peter. Vol. Gender & Society. Nº 2. Pine Forge Press (an imprint of Sage Publications. Berkeley. 2005. SEGATO. 1985. pp. 2004. 99-121. pp.). 42. Londres e Nova Deli. Revista de Antropología Experimental. Michel Foucault beyond structuralism and hermeneutics. Em Terra de tufões: dinâmicas da etnicidade macaense. PINTO. FOUCAULT. San Diego. Inc. Sociology for a new Century. 2ª edição. Revista de estúdios de género. Brasília. “The superego and the theory of social systems”. Subject and Power. 52. Social Structure and Personality. Michel. 42-43. Rita Laura. 1989. 1998. “The gender division of labour: Keeping house and occupational Segregation in the United States”. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Wheatsheaf. Vermont. Susan. Sociedade e Culturas. Guadalajara. Thousand Oaks. “Espacios e Identidades: ingreso de profesores a preescolar”. New Identities in Europe. CHODOROW. Vintage. Educação. “We all love Charles: men in Child Care and the Social construction of Gender”. “Variations in Ethnic Identity: Structure Analysis”. pp. Presentations of Gender. e Barbara Reskin. The University of California Press. 174. Graça Alves. Paul. Women and Men at Work. Padavic. Universidad de Jaén (España). 1999. PHILIP. os rapazes são para trabalhar fora: a diferenciação sexual do trabalho das crianças camponesas e a construção da identidade dos rapazes e raparigas”. LUTZ. pp. FOUCAULT. Londres e Nova Deli. 1996.12 CARDANA. La Ventana. 4 pp. No. Thousand Oaks. 18. New Haven. pp. Christine. University of California Press. Sociology for a new Century. PALENCIA.

Sage. Doing «Woman’s work»: men in non-traditional occupations. Christine L. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .13 WILLIAMS.1993. Nova Iorque. (Ed.).

Foi neste contexto de precariedade de infra-estruturas urbanas e de serviços sociais. estratégias económicas. com as representações sociais e culturais e com a auto percepção que os membros da família têm do poder que exercem ou ao qual se submetem.Há-de vir um senhor que é meu marido: relações de género na periferia de Maputo Ana Bénard da Costa Instituto de Investigação Científica e Tropical. Polana Caniço A e Hulene B na periferia de Maputo 2 . Nesta análise discute-se se as transformações ocorridas nas relações de aliança e nas práticas desenvolvidas pelos membros das famílias para obtenção de rendimentos e/ou produtos terão contribuído (ou não) para uma modificação nos papeis de género e mais especificamente para um acréscimo do poder e autonomia das mulheres e para uma valorização do seu estatuto social. Para a compreensão de todo este processo foi essencial o estudo das relações de género e poder que se processam no interior das famílias e nesta comunicação analisam-se os diferentes papéis desempenhados pelos homens e mulheres reflectindo-se sobre as 1 Uma versão desenvolvida desta comunicação foi publicada na revista Lusotopie (Costa 2005) ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . de índices elevados de «pobreza» e desemprego formal. relações de aliança. este artigo articula a avaliação da efectiva capacidade de controlo de recursos que os homens e mulheres da família exercem. que as investigações decorreu centrando-se na análise de estratégias de sobrevivência e reprodução social de famílias maioritariamente originárias do Sul de Moçambique. Introdução Esta comunicação 1 baseia-se em investigações que decorreram entre os anos de 1998 e 2002 junto de famílias dos bairros de Mafalala. Palavras-chave: Moçambique.pt Baseando-se numa investigação sobre estratégias de sobrevivência e reprodução social de famílias da periferia de Maputo. Lisboa anabenard@netcabo. poder. género.

Entende-se como estratégias económicas o conjunto de práticas articuladas através das quais os membros das famílias obtêm rendimentos e/ou produtos. 4. culturais e naturais) que são articulados de forma dinâmica e relacional pelos actores sociais no quadro das estratégias económicas que desenvolvem. nas igrejas Cristãs (Católica. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . uma intenção de compromisso. é um processo que. Mutchade significa casamento no registo civil . E quando os actores sociais se afirmam «casados» podem referir-se a uniões formalizadas simultaneamente no Registo Civil. A diversidade de tipos de uniões matrimoniais é significativa. outros referiram que se casaram «muçulmanamente». O lobolo não é um acto ou uma cerimónia circunscrita a um momento. Formalizar de algum modo uma união implica. sociais. em que cada uma das mulheres é casada de forma diferente com o marido e há «uniões de facto» que não envolveram qualquer formalização 5 . Uniões conjugais em transformação e questões de género Nestas famílias coexistem diferentes processos de formalização das uniões conjugais que não são exclusivos entre si. entre outras coisas. não só entre o casal e entre as duas famílias que assim se unem. há casais que só cumpriram parcialmente as diferentes cerimónias e prestações que o lobolo implica. A presente análise baseia-se em investigações realizadas na periferia de Maputo entre 1999 e 2002 (Costa 2007 . Uma informante referiu que existiam palavras diferentes em changana para designar os diferentes tipos de uniões conjugais. kulovoliva designa o casamento com lobolo . 5. envolvem múltiplas dimensões (social. pelo menos ao nível das representações. Oppenheimer 2003). significar alterações substantivas nas relações de género e de poder que implicam rupturas profundas com os modelos 2.2 implicações que as mudanças ocorridas nas relações de aliança e nas estratégias económicas das famílias 3 têm (ou não) na sua transformação. 3. há famílias poligâmicas. kutilhuva designa uma situação em que o homem sai de sua casa e vai viver para casa de outra mulher . Não formalizar uma união num contexto onde se cruzam diferentes sistemas matrimoniais pode ter múltiplos significados. e himbuya significa amantes. mas também entre estas e o(s) modelo(s) social (is) de onde emanam os ritos ou as leis através dos quais esse casamento se realiza. que pode ser repartida por tempos diferentes. implica diferentes cerimónias e o pagamento de uma prestação matrimonial. protestante ou de inspiração protestante) ou mesquitas Muçulmanas e através de lobolo 4 . simbólica e económica) e diferentes tipos de recursos (humanos. kukandza ou avukate designam a mulher que não foi lobolada e não formalizou a união conjugal de nenhuma das formas possíveis e significam «estar no lar (mùntì » . Estas práticas.

mujeresenred.net/mozambique/Outras_voces-3Maio % 202003.doc 7. sendo esta promulgada pelo Presidente Joaquim Chissano vários meses depois (a 25 de Agosto de 2004). o facto de este processo legislativo decorrer pelo menos desde 1991 (Casimiro. Cf. e Pessoa 1991). 10.3 matrimoniais prevalecentes e com os papéis que os respectivos cônjuges supostamente assumem dentro na união conjugal e várias implicações. http://allafrica. possibilitando arbitragens permanentes entre vários referentes 10. Depois de um longo debate o Parlamento aprovou em Dezembro de 2003 a nova Lei da Família. Loforte e Pessoa 1991). sendo uma das mais importantes a legal. As uniões poligâmicas não são reconhecidas (nem proibidas) e a lei estabelece que no caso de morte do marido a herança deste deve ser dividida em partes iguais pelas viúvas 7 . nomeadamente no que se refere às uniões poligâmicas. entrevista radiodifundida pela Rádio Moçambique a 15 de Maio de 2002 às 10. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . A pluralidade de formas possíveis de formalizar uma união conjugal e o facto de existirem uniões de facto em que casal se considera e é considerado socialmente casado. 8. Loforte. Desta forma. deveres e obrigações dos diferentes membros da família. 11. Decorre. Cf. A morosidade deste processo legislativo 8 e a polémica que à volta dele se desenvolveu 9 testemunha as contradições resultantes da coexistência de diferentes sistemas culturais que permitem uma dinâmica « normativa ». embora em 24 % das famílias estudadas11 existissem relações 6.30 TMG). Foram entrevistadas 81 famílias e inquiridas 1 000 e foi realizado trabalho de terreno mais aprofundado com seis famílias do bairro Polana Caniço A. pelo menos. dificulta a análise das diferentes situações. sistemas de sucessão e herança e sistemas matrimoniais são interpretados de forma diversa. Entre outros aspectos inovadores que esta Lei consagra.html. desde 1991 (Casimiro. em que direitos. Pretende-se que esta nova Lei da Família venha a ser um importante instrumento de mudança no conjunto de práticas sociais (consagradas na anterior Lei ainda do tempo colonial e imanentes dos diferentes sistemas de parentesco moçambicanos) que sustentam e promovem profundos desequilíbrios nas relações de género 6 . em parte. Este facto explica.com/stories/200312090271. A proposta de lei e particularmente a questão da poligamia « inflamaram » os ânimos de alguns sectores da « sociedade civil moçambicana » (cf. http://www. o reconhecimento do casamento religioso e tradicional e das uniões de facto desde que estas últimas tenham mais de um ano de duração. destaca-se o facto de o marido deixar de ser « automaticamente » o representante da família.). Se estas uniões se quebram o homem pode ser obrigado a contribuir com uma pensão para a sua ex-mulher e filhos. 9.

casa. instalações. não foi possível apurar se todas estas relações eram poligâmicas de tipo «tradicional» ou se eram casamentos monogâmicos onde havia uma «amante». Porque a mulher. povoação. A família do marido leva todos os bens da senhora […] podem até levar os filhos […] e a mulher volta para casa dos pais […] e ela engravida outra vez. com a independência deu a liberdade à mulher. 2. No dicionário de Bento Sitoe pode ler-se o seguinte : «mùntì […] 1. 3. cidade. De forma a compreender as transformações ocorridas ao nível das relações de aliança e de género. Esta distinção é subtil e o lobolo não é o factor que introduz a diferença. como a libertação da mulher da 12. Nestes excertos estão patentes as contradições entre uma «realidade» que ela descreve como composta de mães solteiras e mulheres abandonadas e as representações ideológicas que contrapõem à mulher submissa da sociedade tradicional. secretária da OMM (Organização da Mulher Moçambicana) no bairro de Hulene B : Minha mãe não quis casar com o cunhado e por isso mandaramna embora. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . e assim sucessivamente […] e então chamamos de «mães solteiras». lar. então passam de amantes a casal. […] A mulher tem todos os direitos iguais aos do homem. sede» (1996 : 132). família. transcrevem-se aqui as palavras de uma mulher. quando morre o marido eles arrancam todas as coisas da mulher.4 entre um homem e duas ou mais mulheres. pois muitas mulheres (em regime de monogamia ou poligamia) consideram-se casadas mesmo sem terem sido loboladas. Só que a diferença deve haver porque da mulher nasce bebé […]. A explicação dada para distinguir uma amante de uma segunda (ou terceira…) mulher «legítima» foi a seguinte : é-se amante quando se «namora fora do mùntì 12 » e quando a esposa «legítima» desconhece a situação. antes […] eu caso. aldeia vila. Mas qual é a verdadeira situação da mulher moçambicana em meio urbano ? A existência de um elevado número de mulheres «mães solteiras» tem sido apontada como espelhando tanto a crise social que se vive e a dissolução da família «tradicional» e dos laços familiares subjacentes a esta. Se o homem decidir sair definitivamente da sua casa. vou viver com aquela família definitivamente porque me lobolaram[…]. […] faziam isso antigamente. a mulher livre da actualidade. tem outro filho. e a amante passa a ser a esposa do homem. Depois a Frelimo.

não passam necessariamente pelo casamento e pelo pagamento de prestações matrimoniais. manutenção e desenvolvimento de redes de solidariedade entre diferentes grupos familiares. em meio urbano. anel e dinheiro) ainda conservam essa conotação. Consideram. as raparigas sentem que se «juntarem» sem lobolo não estão casadas . Não parece. a crise social e económica e as contradições internas das estratégias de reprodução social. também. muitos dos bens transaccionados (roupa. a que este e a sua filha vivam maritalmente. que o dinheiro que assim vão receber pode contribuir para fazer face a outras despesas 13. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . porque o que importa aferir não é o valor monetário dos bens transaccionados. no entanto. o processo de deslocamento em que estas populações estiveram envolvidas nos últimos anos e que tornaram por vezes obsoletas as velhas alianças. Primeiro. o noivo (e a família deste) não o pode pagar e que arrisca.5 tutela da família «tradicional» e das regras rígidas que a reduziam a um «ser menor». a família destas sabe que. mas sim as possibilidades (facilidades) que os rapazes e as famílias têm de os adquirir – e estas talvez fossem maiores no passado. É difícil fazer uma análise « objectiva » da evolução do «custo» do lobolo. o aumento (relativo) 13 do custo desta prestação matrimonial reflecte. entre outras coisas. podendo esta ser abandonada com mais facilidade do que aconteceria se fosse lobolada. que o papel desempenhado pelo lobolo se relacione apenas com o estabelecimento de direitos e deveres de mulheres e maridos. Se actualmente se verificam transformações estas reflectem. por conseguinte. mas sobretudo com a criação. Estas solidariedades. e muitos disseram que o valor monetário do lobolo era calculado em função das despesas que haviam tido com a educação da filha. Por outro lado. simultaneamente. se exigir muito dinheiro. porque se trata de uma prestação matrimonial que envolve um sistema de trocas complexo onde a «lógica da dádiva» se articula com a «lógica de mercado». Aparentemente esse aumento não é do interesse de nenhuma das partes : os rapazes querem cumprir a obrigação e não têm meios suficientes. Segundo. Esta prestação matrimonial era. porque no passado envolvia bens de prestígio com valor simbólico (vacas) mas aos quais não era estranho o valor material. Coexistem. Mas «a vida está cara». Actualmente. por isso. obrigando à criação e ao desenvolvimento de novas cadeias de solidariedade. O lobolo (ilustrando o pluralismo moral do contexto) é visto como um acto abominável através do qual mulheres são compradas e vendidas e simultaneamente como algo positivo que sanciona e dá estabilidade a uniões. na sociedade tsonga. valores simbólicos e monetários. estruturante das estratégias matrimoniais que visavam antes de mais estabelecer uma cadeia de relações entre diferentes linhagens (Feliciano 1989a). Finalmente.

num contexto onde a sobrevivência e a reprodução social dependem em grande medida do estabelecimento de redes familiares de entreajuda. A cerimónia de casamento é. algo em permanente construção que se pode ir realizando ou protelando no tempo. as transformações que se verificam em todo o processo cerimonial do lobolo não reflectem necessariamente mudanças qualitativas nas relações de género. as famílias) e por conseguinte quebram-se as alianças (neste caso. não sobrevivem se não desenvolverem práticas «egoístas» que lhes permitam satisfazer as suas necessidades materiais. Concluindo. escrevem a carta onde as exigências ficam expressas e esperam que. os indivíduos para sobreviverem e se reproduzirem necessitam de estar inseridos em redes sociais de solidariedade. existe sempre a possibilidade de «circulação» entre redes de solidariedade e por isso é possível aos indivíduos e às famílias estabelecerem novas alianças com outras unidades sociais (novas uniões ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . apesar de ambas as partes não considerarem que a formalização do acto de matrimonial se tenha cumprido na íntegra. sendo a família uma das mais importantes . No entanto não é necessário que todos estes requisitos se cumpram para o casal se sentir «casado» e para a família de ambos os aceitar como tal. ajudar um filho a pagar o lobolo que outra família exige). mesmo quando as situações indefinidas criadas ao nível das relações de aliança permitem à mulher uma maior liberdade e autonomia face às suas obrigações tradicionais. correndo o risco. simultaneamente. Porém. Nesse hipotético futuro se projectam actos e cerimónias como se de processos se tratasse. e como referem : «há-de cumprir-se». Essas práticas podem gerar a quebra de alguns dos compromissos sociais em que se baseiam as referidas redes (neste caso. Por outras palavras. No entanto. Essas transformações reflectem a dinâmica das estratégias de sobrevivência e reprodução social que articulam de forma ambígua valores contraditórios.6 essenciais (por exemplo. Essa liberdade e autonomia. eventualmente. à semelhança das próprias uniões conjugais (o divórcio e a separação não são propriamente novidades). o rapaz e a família deste façam os sacrifícios necessários para as poder cumprir. Por isso. são muitas vezes auto-percepcionadas como negativas e podem traduzirse num maior isolamento social das mulheres e consequentemente num decréscimo do seu poder e estatuto. matrimoniais) que tenderiam a perpetuar essas unidades sociais.

as mulheres e os seus maridos não consideram as actividades que estas desenvolvem como «trabalho».7 matrimoniais) e desenvolverem processos dinâmicos e versáteis de reprodução social. só vendo» ou «aquilo que ela faz é para entreter». confecção e venda de alimentos ou revenda de produtos importados. Não obstante este facto e a dificuldade de apurar a importância da contribuição financeira das mulheres para os orçamentos familiares – a maioria das actividades não tem um rendimento constante e não é realizada de forma continuada –. Importa notar que. continuidade e reprodução social. Advém sim da forma particularmente dinâmica de que se revestem as articulações entre valores opostos. Desta forma. desta articulação que é sentida por todos os homens independentemente da sociedade a que pertencem (Casal 2001: 123). foi possível concluir que em muitas famílias o número de mulheres que trabalham é igual ou superior ao número de homens que ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . a flexibilidade desta unidade social permitiu o desenvolvimento de estratégias de reprodução social adaptadas a um contexto social e económico que exige uma grande versatilidade de práticas e a articulação permanente de valores opostos. as famílias desenvolvem uma estratégia pela qual tentam conciliar a instabilidade das relações de aliança com as necessidades de coesão interna. Pelo contrário. venda de lenha. A especificidade deste contexto social não lhe advém. as mulheres exercem actividades geradoras de rendimentos ou produtos e as vendas são uma das tarefas principais em que se ocupam. Uma das soluções possíveis passa pela aceitação e criação de condições que transformem as cerimónias matrimoniais em processos em permanente construção que podem a qualquer altura ser interrompidos. contudo. estas mulheres tiveram de inserir-se nos circuitos do chamado mercado informal. Concluindo. venda de produtos hortícolas e frutícolas. executando aí um leque muito variado de actividades – confecção e venda de carvão. e referem : «eu não faço nada. O trabalho feminino nas estratégias económicas das famílias Em praticamente todas as famílias. a fragilidade dos laços matrimoniais não significou a desestruturação da família. Para subsistir e fazer face às suas responsabilidades tradicionais de provedoras do sustento da família. em alguns casos.

Se para muitas mulheres. Loforte 1996). Se o exercício de actividades geradoras de rendimentos monetários cria possibilidades para o aumento de autonomia e liberdade das mulheres. quem varre o chão e lava a roupa. face às mulheres que não as desenvolvem. para outras tal não acontece. a situação do homem em termos de trabalho/rendimentos. sendo necessário relacionar inúmeras variáveis para compreender a posição das mulheres em termos de autonomia. as crianças e os jovens (incluindo rapazes). são as outras mulheres da família de estatuto inferior (noras. têm a possibilidade de aceder a certas posições de poder e de conquistar uma certa visibilidade a nível do bairro que pode influenciar positivamente o seu estatuto na família e fora da família. irmãs mais novas.8 trabalham. quem vai às compras ou cozinha. Rocha e Grinspun 2001). esta pode gerar ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . a posição que a mulher ocupa dentro desta estrutura. a relação afectiva e emocional com o cônjuge ou. as actividades que desenvolve e a importância relativa dos rendimentos daí resultantes no orçamento familiar. na ausência deste. as mulheres. Estas últimas. Em alguns casos. Esta ideia tem sido contrariada por outros autores (Caplan 1995 e Campbell 1995. as mulheres afirmaram que eram elas que efectivamente sustentavam a família e que a contribuição financeira do marido para as despesas domésticas não era suficiente : «atirou toda a responsabilidade. Segundo alguns autores (Tripp 1989 . os recursos materiais disponíveis e a capacidade da mulher para os mobilizar e rentabilizar em seu benefício. um acréscimo de trabalho e de responsabilidades. Quem vai buscar água e comprar lenha. com outros elementos masculinos da família. pelo facto de obterem rendimentos monetários em actividades que exercem «fora de casa». que têm chamado a atenção para o facto de muitas mulheres que desenvolvem actividades geradoras de recursos financeiros terem. as actividades geradoras de rendimentos representam um acréscimo de trabalho. não as realizam. O que esta investigação constatou foi que existiam situações muito diversas. em meio urbano africano. Destacam-se algumas: a estrutura familiar (tipo de família. ele não tem nada a ver com isso». ou que ele tinha arranjado outra mulher e quando vinha dava uma quantia insignificante. poder e estatuto. embora continuem a gerir as actividades domésticas. número de membros da família e distribuição por sexo). segundas mulheres.

sozinha. Prefiro assim. apenas produz para o consumo da família. mas vive sozinha. Eva (30 anos) : Não me considero uma mulher com sorte porque não tive o marido só para mim. tem um ordenado e casa própria. Como exemplo destas situações apresenta-se aqui o testemunho de duas amigas da mesma idade que vivem situações muito diferentes. por isso às vezes a mulher faz sem dizer nada ao marido. Cristina é professora na escola comunitária do bairro Polana Caniço A. O potencial de conflitos. que por vezes atingem níveis dramáticos. Os homens não tiram o dinheiro. sou só eu e o meu irmãozinho de dez anos que vive comigo […]. ele é de três. comprei o talhão sozinha e foi o meu irmão que fez a casa […]. O estatuto do casamento e da maternidade constitui um factor de grande peso cultural e social. solteira e com uma situação económica que lhe permite possuir casa própria e usufruir de uma certa independência não se considera mais «valorizada» socialmente (embora seja certamente mais independente e tenha mais poder e autonomia sobre a sua vida) do que outra mulher inserida numa família poligâmica e sem rendimentos próprios. mas também não posso dizer que sou muito azarada em ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . estou à espera que ele venha para saber se fica comigo ou não. Uma (Eva) é a terceira esposa de um casamento poligâmico e outra (Cristina) afirma-se casada. Sou casada mas ainda não fui lobolada. e a ausência de alternativas – uma mulher sem família é socialmente marginalizada – podem transformar a autonomia em sofrimento e a liberdade num pesadelo. nem registo nem nada. marido e filhos. […] Mas gostava mais de ter uma família. Uma mulher sem filhos.9 conflitos quando é concretizada – «há muita zanga entre os homens e as mulheres por causa do que hão-de fazer ao dinheiro. é ela que dá ao marido» – ou rompimentos com redes familiares e de parentesco. do que esta situação de independente. ele está na África do Sul e nunca mais veio. Estas mulheres referem-se nos seguintes termos às suas situações : Cristina (29 anos) : Eu há dois anos que vivo numa casa que é só minha em Magoanine. A primeira trabalha na machamba da família e não obtém quaisquer rendimentos monetários com essa actividade. não tenho quase despesas. A autonomia da mulher pode ainda traduzir-se numa capacidade limitada para mobilizar recursos (humanos e materiais) e num aumento consequente de responsabilidades face a si e aos seus filhos e num maior isolamento social.

A diferença reside nos rendimentos monetários que agora adquirem através do seu trabalho. em certos casos. esta mudança não significou. é necessária prudência quando se tenta extrair conclusões sobre eventuais modificações nas relações de género e é difícil percepcionar as direcções para as quais tendem as transformações observadas.10 relação à minha amiga. que existem efectivamente mudanças no papel que a mulher desempenha dentro da família. os ganhos monetários provenientes de diversas actividades. Através deste exemplo é possível concluir. para mim basta. efectivamente. Esse contexto. Neste complexo jogo e face às alternativas existentes. o exercício de profissões. pois esta era tradicionalmente a sua obrigação. No entanto. mas o facto de as mulheres terem a responsabilidade de prover ao sustento alimentar básico da sua família não constitui uma mudança. traduzir-se num aumento relativo do espaço de poder feminino face ao masculino. trate de mim. mas estas mudanças ocorrem em múltiplos sentidos. estou num lar que já tinha lá duas mulheres. uma transformação valorativa no estatuto das mulheres. interesses «modernos » e representações ideais de modernidade. neste estudo de caso. porque esta aí ainda anda a tentar ver se consegue um lar […] agradeço a Deus o que me deu. por exemplo no ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . E tal pode. para além de estar profundamente marcado por relações de género que subalternizam o papel social da mulher face ao do homem. a afirmação de interesses individuais e a capacidade (e coragem) de certas mulheres tornam possível. A formação escolar. associações de bairro (excluindo aqui a Organização da Mulher Moçambicana) e grupos de entreajuda. é pleno de contradições e articula de forma complexa valores «tradicionais». No entanto. por si só. estas «conquistas» só adquirem «valor» quando têm significado e reconhecimento social dentro do contexto em que se efectivam. Da mesma forma o acesso aos rendimentos monetários não se traduziu numa maior visibilidade ou intervenção a nível do bairro. romper com fidelidades antigas que as subalternizavam. A participação das mulheres em ONG. mas desde que o senhor Josué [marido] cuide de mim. Conclusão A análise demonstrou que as mulheres constituem um elemento essencial nas estratégias económicas.

11 «xitike». A compreensão destas questões pressupõe uma análise integrada onde intervêm diferentes significados e interpretações : o significado que o investigador dá a esses conceitos e que influencia as interpretações que faz da realidade social que analisa. «controlo» e «relações de poder» são extremamente complexas e têm de ser contextualizadas. bem como significados que essas questões e conceitos têm no contexto cultural e social em observação. a essência multidimensional das relações familiares implica que nessas mesmas relações sejam expressos diversos tipos e níveis de poder que não só podem não ser coincidentes como são dinâmicos e se alteram permanentemente sob a influência de inúmeros factores (Medick e Sabean. por um lado. 14 Seibert (2001: 5 e 15) acrescenta em relação às igrejas Zione. há ainda que ter em conta não só os múltiplos referentes em presença como as diferenças entre valores culturais e representações sociais. Sendo assim. «independência». Neste sentido. é reduzida. as mulheres participam frequentemente em grupos religiosos (igrejas). o evangelista. Simultaneamente. e as práticas concretas dos actores. Da mesma forma. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . As informações empíricas disponíveis não permitem chegar a conclusões acerca de modificações nos papéis de género. que as mulheres não podem ser membros desta Igreja sem autorização do seu parceiro. a hierarquia destas igrejas (incluindo o pastor. Pelo contrário. por outro. as relações de poder devem ser compreendidas em termos de avaliação da capacidade de controlo de recursos materiais e humanos por parte dos homens e mulheres da família. O que se verificou foi que questões relacionadas com «autonomia». a análise das questões de género constitui essencialmente uma análise relacional e o que está em jogo são fundamentalmente relações sociais entre os membros masculinos e femininos da família. os secretários e diáconos) é constituída exclusivamente por homens. Refere ainda que. Mas mesmo a vida religiosa da mulher está por vezes dependente da vontade do marido. embora a maioria dos crentes das igrejas ziones sejam mulheres. 1988 : 18). não faz sentido falar de poder ou de autonomia sem os contextualizarmos dentro desta dinâmica relacional (Medick e Sabean 1988 : 18). Neste último caso. ao nível das representações sociais e culturais no contexto em questão (como a sociedade em causa molda os papéis e os comportamentos de ambos os sexos) e em termos da auto-percepção que os membros da família têm do poder que exercem ou ao qual se submetem. Estas mudam frequentemente de culto quando se casam e passam a seguir a religião do marido 14 .

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Reafirmando assim a importância de contextualizações precisas. 1994. esta especificidade pode também contribuir para reapreciar a uma outra luz a controvérsia criminológica. como e quando são os narcomercados estratificados por este e outros critérios e quais as modalidades da participação feminina na economia da droga. pelas 1 Agradeço à Wenner-Gren Foundation for Anthropological Research (Gr. Estes factos não são alheios entre si. Uma perspectiva comparativa atenta às variações na estrutura destes mercados ilegais. procurar-se-á examinar como se modula o tráfico segundo o género. tráfico a retalho. 2 Entre 128 e 145 por 100. Palavras-chave: ideologias de género. Portugal situava-se regularmente no topo dos países da União Europeia com os maiores índices de encarceramento por 100 000 habitantes 2 .Os géneros do tráfico 1 Manuela Ivone P. criminalidade feminina. estrutura dos narcomercados Em finais de século. Ministério da Justiça. em torno dessa velha e recorrente personagem designada por nova delinquente. cujo aspecto mais fundamental. permitirá dar conta das propriedades específicas que a intervenção das mulheres no tráfico assume em contextos portugueses. Cunha. recentementemente exumada. 1987-2000).uminho. A esta posição destacada nos níveis gerais de reclusão acrescentava dois records no contexto europeu: a maior proporção de condenações por crimes de droga e a maior taxa de reclusão feminina (cerca de 10%). cf. pt Partindo da actual centralidade dos crimes de droga na condenação penal de mulheres e da assinalável reorganização das fileiras prisionais que ela veio indirectamente produzir. Não cabe dizer aqui como e porquê a economia retalhista da droga veio induzir uma reorganização sem precedentes nas fileiras prisionais. bem como às ideologias de género que diversamente os caracterizam. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . da Cunha Universidade do Minho. Pretendo focar aqui alguns aspectos da conexão entre eles tal como aparece refractada na maior prisão feminina do país. IDEMEC micunha@ics. economia da droga. 6099) o apoio prestado à investigação da que resulta este texto. Cunha 2002). onde fiz trabalho de campo nos anos 80 e nos anos 90 (1986-87/1997. o Estabelecimento Prisional de Tires.000 habitantes (Estatísticas da Justiça. CEAS.

O problema era que permanecia confinada a ele. no que respeita às reclusas). é o facto de agora a maior parte dessas fileiras se articular em redes de parentesco e vizinhança. Quer dizer. amarrada a esse critério. tal prende-se. No caso converso das mulheres. quer dizer. É ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . incapazes de alimentar de forma recíproca a produção global de conhecimento sobre a reclusão (um olhar rápido aos títulos das respectivas publicações é bastante ilustrativo: o género apenas é especificado quando a investigação em questão versa sobre uma prisão feminina). os contributos teóricos que ia gerando não eram exportados para lá do âmbito das prisões femininas. Na cadeia de Tires. 76% das reclusas estavam presas por tráfico. 46% dos reclusos estavam condenados por crimes contra o património e 34% por crimes de droga. Em todo o caso. em núcleos mais ou menos vastos de presos que já tinham laços entre si antes da reclusão. enquanto a investigação sobre a feminina se desenrolava ao invés na base mesma do critério do género. a concentração é comparativamente muito superior (em 1997. Em termos proporcionais . pode bem ser que por uma vez o estudo das instituições femininas contribua para estabelecer os termos do debate teórico sobre a prisão. Se a mutação que referi ganha uma particular proeminência no contexto carceral feminino. invertendo-se assim as assimetrias do passado: a reclusão masculina sempre enquadrou este debate de maneira universalista. o seu perfil penal é bastante mais homogéneo que o das populações de reclusos. por exemplo. antes de mais. contra 16% e 69%. alheia ao género. Acontece que essa mutação é especialmente vincada na população prisional feminina.as mulheres são pois muito mais condenadas a penas de prisão por crimes de tráfico do que os homens. repartem-se por eles de maneira mais equilibrada. com a extraordinária homogeneidade que a sociografia dos contingentes de reclusas agora apresenta. E dado que os fenómenos que a configuram emergem também noutros contextos carcerais.implicações analíticas que tem para os estudos prisionais.não portanto em termos absolutos . respectivamente. Esta centralidade dos crimes de droga nas condenações de mulheres é também aquilo que melhor permite esclarecer a subida dos índices de encarceramento feminino. mas de maneira mais diluída. que apesar de na sua maioria também se distribuírem por um leque pouco variado de crimes.

Simon.que estes são os crimes com maiores taxas de condenação e contam-se entre os crimes mais duramente sentenciados. mesmo as mais idosas. 1979. Que a proliferação vertiginosa dos mercados de droga expandiu as oportunidades ilegais é um facto consensual. 1993. assim como o é o da maior presença de mulheres neles (cf. Chapman. 1993). Carlen. A tese da "nova delinquente". poderiam investir. 1986. Wilson. Chesney-Lind. sob pena de se tomar a nuvem por Juno. É claro que não é de excluir a possível intervenção de várias filtragens deste e outros tipos ao longo do percurso que termina na constituição das populações prisionais. há que examinar a natureza desta presença. do mesmo modo que conquistaram as mais variadas arenas lícitas? Por outras palavras. foi precisamente a propósito do tráfico que se assistiu à ressurreição de uma velha tese dos anos 70 segundo a qual um dos efeitos colaterais do feminismo teria sido o de libertar as mulheres também para o crime (cf. para especialmente intransigente (para retomar aqui os termos de uma velha controvérsia da criminologia em torno do eterno diferencial entre os índices carcerais femininos e masculinos) 3 . de facto.de "cavalheiresca". Quer isto dizer que a subida nestes índices de encarceramento não parece de facto dever-se a uma eventual mudança na atitude dos tribunais para com o género feminino . Adler. Mas a forte presença feminina recentemente constatada um pouco por toda a parte na economia da droga conduziu inevitavelmente à tentativa de reciclar a ideia. tratar-se-á de uma repercussão ou até da reprodução no mundo do crime do mesmo movimento emancipatório que reivindica a igualdade de oportunidades? Ora. ainda que agora num âmbito mais restrito. A questão então é a seguinte: dever-se-á às próprias características do tráfico o facto de ele se ter tornado a actividade ilegal de eleição entre as mulheres? Ou será antes que as mulheres conquistaram para si uma arena ilícita que até aí lhes estaria vedada. Bourgois y Dunlap. limitado a este tipo de mercado ilegal. por exemplo. foi no entanto rebatida em tantas frentes que parecia definitivamente enterrada (cf. 1975). como ficou conhecida. 1988).. no que respeita à criminalidade em geral. suponhamos. Simplesmente. 1980. E assim permaneceu. Mas o tráfico parece na verdade ter atraído muitas mulheres e ter-se-lhes apresentado como uma estrutura de oportunidades onde elas. por exemplo.. por exemplo. 1975.. E é também a partir daqui ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Smart.

pelo que é imprescindível uma perspectiva comparativa. 1997). E as condições dessa eficácia foram proporcionadas 3 Veja-se. de resto gerando nela novos papéis. por exemplo. Ou seja. Em primeiro lugar. A forte estratificação destes mercados segundo o género levou a que alguns autores vissem mais continuidade do que propriamente mudança na participação feminina no tráfico (Maher e Daly. 1997). que nem sequer se encontravam inventariados nas anteriores tipologias dos actores deste mercado (veja-se Dunlap. Johnson e Maher. Em primeiro lugar ao facto de se regerem por uma visão domesticizada das mulheres que as confina ideologicamente aos tradicionais papéis de género. assumem funções marginais como publicitação de drogas. onde a maioria das oportunidades se abriu às mulheres apenas nos segmentos mais baixos. aluguer ou venda de parafernália acessória ao consumo. Pode até dizer-se que se trata mais propriamente de pequenos nichos que elas criaram nos interstícios desta economia. (1993) ou Heidensohn (1997). ou a capacidade de intimidação necessária para vingar num meio violento. como sucede com mercados retalhistas norte-americanos. 1996). A masculinidade hegemónica é com efeito reforçada pelo facto de os empregadores desta economia definirem os requisitos de empregabilidade no narco-comércio como algo de intrinsecamente masculino: às mulheres faltaria. O que acontece é que elas se tornaram mais eficazes nos anos 90. Steffensmeier et al. Não se pode no entanto dizer que estas barreiras ideológicas à participação feminina no tráfico sejam inéditas nos mercados retalhistas americanos. Na limitada medida em que nele podem participar (nomeadamente enquanto exército de reserva usado quando a mão-de-obra masculina escasseia ou na iminência do risco de uma intervenção policial). 1986) . presença não quer dizer participação paritária. a mudança seria afinal pura aparência.que as coisas divergem segundo os contextos. Mas este "sexismo do sub-mundo" (Steffensmeier e Terry. assistência na administração de drogas a terceiros. a necessária ferocidade física e mental. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . precários e arriscados deste mercado (Maher. etc.que na verdade se mostra muito pouco sensível a veleidades emancipatórias encontra além disso um terreno especialmente propício na violência endémica que aí marca a economia retalhista da droga. A hierarquização sexual do trabalho ilegal deve-se nesses contextos à conjugação de vários factores. a nova cornucópia não estaria ao alcance das mulheres. por exemplo.

com uma estrutura relativamente rígida. 1999) do ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . centralizada e envolvendo equipas de assalariados cuja margem de autonomia é praticamente nula. Aliás este modo de abastecimento segue muitas vezes os circuitos do fiado. Hamid e Sanabria. 1997). em suma. Outras vezes as mulheres limitaram-se a assessorar episodicamente parceiros masculinos numa ou noutra transacção. a sua própria estrutura free-lance fazia com que as barreiras à participação feminina fossem mais frágeis e ineficientes. que de resto se verificou não só nos EUA mas também em contextos europeus. muitas mulheres puderam lançar-se autonomamente no tráfico como free-lancers. tendo-se até registado uma evolução de sentido contrário à que acabei de referir para contextos europeus e americanos: isto é. com frequência obtendo drogas em regime de empréstimo ou à consignação através de redes de vizinhança e preparando elas próprias o produto para revenda. havia apesar de tudo maior latitude para as incursões das mulheres no tráfico. 1992) ou. por exemplo. Tais mercados passaram por essa altura a assumir um perfil empresarial que se viria a traduzir em organizações hierarquizadas. Era bastante mais fluido. mas enquanto parentes. Sucede que é precisamente esta estrutura de mercado que prevalece actualmente no tráfico retalhista português.. como "crime em associação". 1995). quando e como vender (cf. 1998. Jacobs e Miller. uma forma tradicional de empréstimo informal e de entreajuda. Com uma relativa facilidade.por uma mutação na estrutura dos narco-mercados retalhistas. Morgan e Joe. amigas e vizinhas e não como assalariadas de uma organização que estes chefiariam. se quisermos. fossem na prática mais permeáveis. Pode-se definir o seu perfil como marcadamente free-lance (veja-se a tipologia de Johnson. Trata-se. Portanto. com muito pouca interdependência hierárquica e com uma fraca divisão funcional do trabalho. Ora. quanto muito. assim como uma maior autonomia nas decisões que tomavam acerca de onde. Até essa década o modelo que prevalecia era outro. Ora. passou-se de um modelo empresarial para um modelo free-lance. desconcentrado. além de esta estrutura de mercado que domina em Portugal representar uma estrutura de oportunidades bastante mais aberta (veja-se neste sentido Chaves. mesmo que mercados deste tipo se pautassem igualmente pela dominação masculina e por um ethos agressivo que à partida os tornava arenas desfavoráveis às mulheres. do chamado "crime em organização" (Ruggiero e South.

as definições culturais dos papéis de género também remetem para as mulheres as responsabilidades familiares e domésticas. Começando pela tese da "nova delinquente". acontece também que o tráfico a retalho é aqui bastante menos violento do que noutras geografias. isso em nada se deve a uma mudança ideológica nas definições culturais dos papéis de género. Aí. nem este é necessariamente considerado um desvio ao guião cultural feminino ou uma decorrência de um fracasso masculino. é uma ideia desajustada. Contudo. ou "contra-hegemónica". quando comparado com outras actividades ilegais? Sim e não. como é o caso em Portugal. pois. que seria uma espécie de sub-produto feminista espúrio . não lhes vedam o papel extra-doméstico de provedora de recursos. já que as suas características não são essencializáveis ou dadas fora dos contextos sociais e históricos em que se desenvolve. digamos. 2000). Dito de outro modo. mas como condição e estratégia de sobrevivência (veja-se neste sentido Cole. quer dizer nos patamares mais baixos do patamar retalhista.que a empresarial. O narco-trabalho é aqui menos sexuado. Quanto à segunda questão: serão características inerentes ao tráfico que o tornam um tipo de crime particularmente acessível e atractivo para as mulheres. Mas não é só por isso que é menos operante a filtragem dos candidatos segundo o género. traçar-lhe um perfil absoluto. por assim dizer. na forma de resposta às questões formuladas de início. ou. Recapitulo. porque ou essa participação permanece afinal acantonada nas margens da margem. não enquanto opção "emancipatória". não sendo de facto exigido aos candidatos a traficantes especiais requisitos de virilidade. quando não está. questões estas que corresponderam propositamente a modos correntes de colocar o problema. porque não é possível caracterizar em abstracto o tráfico. mas apenas ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . 1991 e Pina Cabral. E é precisamente porque são tributárias desses mesmos contextos que tais características são variáveis. Não. As mulheres de baixos estratos sociais sempre investiram na esfera do trabalho. não é para este efeito pertinente falar em tráfico. Primeiro.uma tese reactivada a propósito da participação feminina no tráfico e que tem alguma popularidade nos meios judiciais -. É que os obstáculos ideológicos à participação feminina no mundo do trabalho remunerado e no orçamento familiar são obstáculos de maneira geral débeis em Portugal. sendo esta debilidade especialmente acentuada nas chamadas classes populares.

Open University Press. Meda. noutros contextos europeus e norte-americanos configura uma estrutura de oportunidades ilegais bastante inclusiva das mulheres. 1988. CHAPMAN. NY. Traffickers. Murji Karim. em M. nenhuma outra houvera mudado tão extensamente a paisagem carcerária. 1999. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .mas não. Women. Work and Lives in a Portuguese Coastal Community. Questões de Identidade numa Prisão Feminina. Women of the Praia. Drug Markets and Law Enforcement. 1986. Sisters in Crime. COLE. Freda. então sim. CUNHA. 8 (4). Jane 1980.). Em todo o caso. Entre o Bairro e a Prisão: Tráfico e Trajectos. New Jersey. Lisboa. NY. “Exorcising Sex for Crack: An Ethnographic Perspective from Harlem”. 97-132. Milton Keynes. Crime and Poverty. Lisboa. Crack Pipe as Pimp: An Ethnographic Investigation of Sex-For-Crack Exchanges. Malhas que a Reclusão Tece. 1997. Sally.e evidentemente não faz qualquer sentido pressupor uma espécie de modelo-padrão em relação ao qual cada uma delas seria considerada mais ou menos conforme. 12 (1). Bruce Johnson. Lisa Maher. 1975. pode dizer-se que o tráfico em Portugal . Princeton University Press. Princeton. 1991. Manuela P. CARLEN. por exemplo. Lisboa. 2002. Philippe. "Female Crack Sellers in New York City: Who They Are and What They Do". DORN. Fim de Século. Lexington Books. Nova Iorque. 25-55. como porventura nenhuma outra o foi antes. 1992. 7896. Pat. Women & Criminal Justice. Routledge. Reformulada a questão nestes termos. CHESNEY-LIND. Nicholas. Eloise. McGraw Hill. Miguel. Cadernos do Centro de Estudos Judiciários. Economic Realities and the Female Offender. "Women and Crime: The Female Offender". DUNLAP. Signs. CHAVES. Nova Iorque. Referências Bibliográficas ADLER. BOURGOIS. e Eloise Dunlap. RATNER (ed. Lexington Books. Nigel South. Londres. 1994. Lexington.em versões do tráfico . da. Casal Ventoso: Da Gandaia ao Narcotráfico. CUNHA. 1993. Manuela P. da. Imprensa de Ciências Sociais.

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mas por certos aspectos da vida social. as mulheres. os homens circulam em busca de esposas. não existem. convertendo relações de gênero e parentesco em ícones da dialética entre permanência e efemeridade. Como já tive oportunidade de demonstrar (Ramos 1995). especificamente. desvela-se que a aparente fragilidade da condição supostamente de imanência feminina tem como contrapartida a real fragilidade da aparente transcendência masculina. os Sanumá diferem bastante dos outros subgrupos não apenas pela língua (uma de quatro). à la Austin. a patrilinearidade pode evaporar-se nas vicissitudes do tempo. uniformes e unitários. Em linguagem antropológica. Pode-se. os autodenominados Sanumá com quem tenho convivido desde 1969. Mas esses Yanomami. pois enquanto a residência uxorilocal permanece onde quer que seja. ressaltando-se como. A outra metade. ou seja.Tempo está para homens assim como espaço está para mulheres: por uma teoria do conhecimento sanumá Alcida Rita Ramos Universidade de Brasília (UnB) Sistemas desarmônicos em que descendência e residência seguem linhas opostas são hoje comuns na etnografia indígena da Amazônia. Na família lingüística Yanomami os Sanumá são os únicos que exibem um inquestionável sistema desarmônico: as mulheres ficam em casa. aos olhos ocidentais. parecem existir apenas para dar aos seus homens a oportunidade de exibir machismo superlativo a platéias ocidentais em busca do exótico. O fenômeno da patrilinearidade combinada a uxolilocalidade ou vice-versa tem sido analisado de várias formas (por exemplo. Por exemplo. interpretá-lo no contexto de outros componentes culturais. Poderíamos supor que parte das diferenças resultam dos próprios etnógrafos. Trato aqui. do subgrupo mais setentrional da família lingüística yanomami. Assim. como produto de evolução materialista na visão de Robert Murphy sobre os Mundurucu). é possível “fazer coisas sociais com outras coisas sociais”. os homens. espaço e tempo sanumá surgem como categorias básicas do entendimento. Por Yanomami entende-se comumente uma de suas metades. porém. quão violentos seriam os Yanomamö descritos pelo estadunidense Napoleon Chagnon ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .

exibem a conjunção de dois elementos: um sistema desarmônico entre descendência patrilinear e residência matrilocal. A complementaridade entre homens e mulheres aparece em vários planos. entre nós e os outros. A díade irmãoirmã tem. como diz Louis Dumont (1953). É. ao contrário de outros subgrupos yanomami (Ramos e Albert 1977). à moda de um Austin ampliado. uma afinidade herdada e não apenas adquirida com o casamento. não com palavras ou gestos. embora atados numa relação permanente de sangue. e o padrão de parentesco chamado dravidiano. Refiro-me especificamente às noções de tempo e espaço. segundo o qual filhos de irmãos de sexos opostos (os ditos primos cruzados) podem casar-se entre si e. com princípios axiológicos subentendidos. eles simbolizam a paradoxal co-existência entre intimidade e recato. o que significa que a responsabilidade pela reprodução do grupo é mais deles do que de marido e mulher. estão numa posição perfeitamente ambígua. mesmo que não se casem. no mundo das idéias. mas. ao serem também afins dos filhos uns dos outros. Encarnam tanto os efeitos da dispersão como da permanência e marcam a manutenção da identidade no tempo e de vínculos no espaço. Em grande medida. certos elementos da vida social. muito brevemente. mas com algumas consequências epistemológicas. é preciso descrever. Para mim. É como se os Sanumá dissessem e fizessem coisas. as diferenças de gênero no contexto etnográfico yanomami têm um interesse que vai muito além do tira-teimas entre etnógrafos ou de filigranas empíricas sobre o quão violenta deve ser a violência para caracterizar um povo inteiro como violento. o encargo de fornecer cônjuges para a geração seguinte. Tomo aqui a questão de gênero como uma excelente oportunidade para observar a capacidade dos Sanumá para expor categorias-chave do seu entendimento e que nos dizem muito mais do que a simples diferença entre os sexos. vamos à relação entre irmão e irmã. inclusive no cognitivo. irmão e irmã. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Como consangüíneos que produzem afins. Como elas estão diretamente ligadas à organização social. essa dupla é uma cápsula da socialidade sanumá. Os Sanumá. portanto. Em outras palavras. são considerados afins.2 (1968) se fossem descritos por mim? Ou quão subjugadas seriam as mulheres sanumá se fossem descritas por Chagnon? Questões meramente acadêmicas? Pode ser. Primeiro.

informou.3 Não é por acaso que as mães procuram os serviços de um xamã quando só têm prole do mesmo sexo. furioso. senta aqui! Vou te catar piolhos”. Entrou e jogou-o no chão. pronta para o ataque. Assim que preparou a caça. nada”. Koshiloli. Vale a pena contar a história. criarem uma narrativa sobre ele. “Meu marido matou meu irmão”. “É mesmo?”. disse ela. Aproximou-se da mulher e disse: “Corta a caça!”. “Não. Nela encontramos claramente as diferenças de lealdade entre irmãos e entre cônjuges e a tácita luta da consanguinidade com a afinidade. respondeu ele. Abriu-lhe a barriga e retirou as vísceras – wi! wi! wi! wi! “Não havia rastro?” ela perguntou a Koshiloli. como foi coletada por Marcus Colchester nos anos 70. assim!. de modo a encarar o sol” “Está bem!”. sua mulher e um irmão desta viviam a alguma distância dos outros parentes dela. “Vem cá. O cunhado subiu e conseguiu soltá-la dos galhos. acompanhado do cão da mulher e do cunhado. “Está certo. Ela puxou-lhe a cabeça para trás de modo a ficar de frente para o sol. Quando o cunhado desceu. ela começou a pranteá-lo. Os outros mataram-no com um golpe de terçado – ka! E assim morreu Koshiloli (Colchester 1981: 59-60). No caminho de volta. ela foi ter com os seus parentes. disse Koshiloli. Veio e sentou-se à frente dela. “É pesado”. Ela segurava a cabeça de Koshiloli virada para o sol. mas a flecha ficou presa nos galhos das árvores. Voltando a casa. enquanto a sua gente se aproximava. tendo pensado no assunto. inserindo-o. “Sobe lá e sacode a flecha”. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . ela cozinhou o fígado e deu-o para o filho comer. Koshiloli. portanto. Ao ver o irmão morto no chão. disse ela. Esta análise poderia ser atribuída à imaginação da etnógrafa se não fosse pelo fato de os próprios Sanumá. matou-o a pauladas – to! to! to! to! Koshiloli voltou para casa carregando o morto. Koshiloli esperava ao pé da árvore. Faz com que ele se sente do lado de fora da casa e faz de conta que lhe catas os piolhos. disseram os parentes. Um dia Koshiloli foi caçar muito longe. “Está bem”. na sua teoria de sociedade. respondeu ele. vira-lhe a cara para trás. este último matou um papagaio. disse ela ao marido. O ideal da maternidade é ter um número equilibrado de filhos e filhas.

além de um filho não identificado. pelo rio. Irmãos e irmãs deixam de brincar juntos e começam a ensaiar uma postura que terão pelo resto da vida: respeitosos. a lealdade que se espera dos consangüíneos. presenciei muitos incidentes entre homens e mulheres – maridos contra mulheres. É por isso que as mulheres órfãs estão em franca desvantagem: faltam-lhes irmãos que as defendam dos maridos. Até pouco antes da puberdade. que é um mal necessário na vida dos homens sanumá. mas prontos para se defender mutuamente quando for necessário. Mas. A narrativa sublinha a fragilidade do elo entre marido e mulher e a problemática afinidade. Muito pelo contrário. A duplicidade estrutural que envolve irmãos de sexos opostos. Durante minha convivência relativamente longa com os Sanumá. principalmente dos homens: a sogra e o pai que. ao mesmo tempo. sogras contra genros – mas nunca vi uma briga entre irmãos de sexos opostos. ao que parece. Com uma criatividade hiperbólica. pela mata em volta. representa um artifício narrativo para enfatizar os antagonismos e lealdades presentes naquilo que para Lévi-Strauss é “a forma mais elementar do parentesco” (Lévi-Strauss 1963: 46).4 Esta história cria um arranjo residencial pouco comum: um homem casado que se esquiva de cumprir o regulamentar serviço da noiva. o que tem tudo isto a ver com espaço e tempo? Consideremos duas figuras centrais na vida sanumá. quando algum homem ameaça bater na esposa. Essa rotina descontraída muda abruptamente quando meninos e meninas entram na adolescência. irmãos de ambos os sexos constituem um bando virtualmente indivisível. mas afastados. vivendo sozinhos. os irmãos desta correm imediatamente em defesa dela. mães contra filhos. pois se não fosse não se deixaria mandar tão facilmente pelo cunhado. gritos e choros constantes. pelas roças. mais novo. vive com a esposa e o irmão desta. a moral da história – entre consangüíneos e afins. O duplo assassinato sublinha a tensão permanente entre afins e. Esse trio etnograficamente improvável de marido. gerada pela combinação explosiva de consangüinidade (filhos dos mesmos pais) e afinidade (filhos de irmãos de sexos opostos) também está evidente na maneira como irmão e irmã se comportam. afinal de contas. reservados. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Circulam com outras crianças pela aldeia. enchendo o ar com risadas. mulher e cunhado. fica-se sempre com os consangüíneos – talvez diga mais sobre os pares irmão-irmã e marido-mulher do que qualquer elaboração antropológica.

ele está à mercê de seus afins. Expressões faciais de absoluta repulsa geralmente acompanham a descrição dessa relação incestuosa cujo arquétipo mítico é o comportamento de um certo tipo de preguiça de gestos lânguidos a trepar pelas árvores em câmara lenta agarrada ao genro num abraço obsceno. Esta condição talvez fique mais clara em negativo. Sendo as aldeias sanumá em geral pequenas (de 30 a 60 pessoas. quando a mulher fica isolada de seus parentes. Vivendo sob o mesmo texto. normalmente). Enquanto os homens circulam. alvos fáceis de maus tratos. Até terem filhos e estes crescerem. Algumas velhas me asseguraram que fulano não se casou na própria aldeia porque não havia sogras para ele. no lar dos pais.5 são. Não é mera coincidência que o símbolo maior do incesto é a díade sogra-genro. as mulheres permanecem na casa materna. principalmente se ele é jovem. Viver como genro na casa dos outros sujeita um homem a uma condição de subalternidade ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Aí. distante dos parentes que o apoiariam psicológica e politicamente. ele tem que evitá-la a todo custo. Com a residência matrilocal. Ela personifica a dispersão masculina que resulta da disparidade entre as normas de descendência e residência. insultos e brincadeiras de mau gosto. a sogra é o foco da vida conjugal. não há esposa. a maioria dos homens tem que deixar a casa e muitas vezes a aldeia dos pais à procura de esposa. Se o rapaz se casa longe de casa. Virtualmente indefeso. tornando-se seus consangüíneos protetores. O resultado é que cada aldeia precisa exportar uma boa parte dos seus jovens. essas mulheres desgarradas vivem como cidadãs de segunda ou terceira categoria à mercê do gênio dos seus maridos e demais afins. Órfãs e viúvas que vivem na aldeia dos maridos são um triste espetáculo de vulnerabilidade. irmãos entre si. A quintessência dos anos de chumbo de um marido sanumá é a sogra. as opções de casamento endogâmico podem ser bastante reduzidas. Para a maioria dos homens. além de ser obrigado a prestar-lhe serviços e provisões. ele se vê só. a mulher se realiza. preferencialmente. Com os homens algo semelhante acontece. enquanto as moças ficam com os pais. É nesse espaço de residência. mas com outro viés e por outras razões. O casamento implica um longo período de serviço da noiva. de produção e reprodução que ela encontra a dimensão mais compatível com a feminilidade. A mensagem é clara: sem sogra. A sogra é mais um mal necessário na vida de um homem.

há grandes variações sobre o tema do marido forasteiro. São grupos muito frágeis porque. uma outra unidade mais localizada. outros. É no tempo que eles encontram a possibilidade de criar alguma coisa de importância social e de se projetar na posteridade. ou ser objeto de suspeitas até provar o contrário. é preciso que grupos de irmãos se mantenham juntos depois do casamento por. a que com algum desconforto chamo linhagens. porém. Alguns sofrem constantes abusos dos cunhados. Tanto homens como mulheres herdam dos pais a condição de membros e mantêm-na por toda a vida. homens e mulheres são identificados pelo nome da unidade do pai. dependem da conjunção de uma série de circunstâncias favoráveis. Onde quer que estejam. que se espalham pelo território sanumá. Pode-se dizer que. Por que o tempo? Porque é através do tempo que os homens sanumá podem desenvolver plenamente o seu potencial. co-habitar com gente com quem não pode falar ou interagir. ou seja. a longo prazo. levam uma vida mais leve com os afins. guardadas as devidas distinções inerentes à fisicalidade dos sexos. a que chamo sibs. ter seus pertences desrespeitosamente afanados. A dimensão própria dos homens sanumá. Os descendentes desses homens dispersos acabam. A categoria tempo significa neste contexto a transmissão patrilinear. Há. não é o espaço. quando enfrentam a dispersão causada pela residência matrilocal. de modo a poder formar-se um grupo agnaticamente bem definido. mesmo em circunstâncias amenas. que contribui para agravar o problema de homens agnatas. pelo menos. mais diplomáticos ou aguerridos. Enquanto o espaço os dispersa. por ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . o tempo os une e prolonga. Naturalmente. ligados por filiação paterna. Cada aldeia tem membros de várias unidades patrilineares. para sobreviver. definitivamente. para os homens adultos o espaço de residência envolve sacrifícios. com um nome próprio e politicamente importante. o que raramente ocorre. um tipo de grupo patrilinear. da identidade grupal. duas gerações. A força centrífuga da matrilocalidade produz a dispersão dos homens de uma mesma linhagem. como trabalhar duro no serviço da noiva. Esse sistema de identidade paterna é o mecanismo mais eficaz para garantir hospitalidade onde quer que vão as pessoas do mesmo sib. Para que surjam esses grupos patrilineares localizados.6 que não difere muito da das órfãs e viúvas. de uma geração a outra. exogâmico.

nota 4). Na realidade. essas linhagens se esboroam até ao desaparecimento. é algo a ser conquistado. como ausência de filhos homens. átomos sociais voltados para si mesmos. Nesse brotar e murchar de unidades patrilineares em sua trajetória diacrônica. injetar harmonia no seu sistema desarmônico. mas sempre mais longa do que as suas próprias vidas. Sua existência ou colapso é. As linhagens sanumá não existem sem concentração no espaço e esta só pode ser alcançada na medida em que os homens conseguem superar a necessidade de casar fora. muitas pessoas ficam sem afiliação de linhagem. Os homens podem criar grupos de descendência. portanto. esses grupos representam. a figura do pai e da sogra teriam pesos iguais. o esforço de homens e mulheres para alcançar a coincidência do tempo com o espaço. Para eles. perpetuando mecanicamente o casamento endogâmico entre primos cruzados. Efêmeros ao extremo. a vida de uma linhagem depende da capacidade de um grupo de homens agnaticamente relacionados para controlar o espaço onde vivem durante um número mínimo de gerações. embora nunca percam a de sib. Em suma. Por ironia da vida. Se todos os homens pudessem casar-se na aldeia dos pais. ou uma epidemia devastadora podem dizimar uma linhagem em apenas uma geração. O grau ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Sem a residência em comum. o espaço. por trás de um pai temporal há sempre uma sogra espacial. o resultado de duas forças em colisão: a força centrífuga da exogamia e a força centrípeta da transmissão agnática. Numa situação ideal. no entanto. longe de ser um dado incontestável. eles mesmos. O resultado é que aqueles que conseguem a proeza de se manter juntos terão seus nomes perpetuados nas gerações seguintes numa escala de tempo que pode ser muito curta. sendo. Fatores demográficos. haveria o risco de se criar mônadas residenciais. ausência de mulheres casáveis na mesma aldeia. uma díade irmão-irmã.7 perder sua afiliação paterna por falta de foco residencial. mas virtualmente impossível de sustentar. Pude acompanhar ao longo de mais de uma década um caso concreto desse tipo. um homem fica quase sempre dividido entre a lealdade para com o pai e o dever para com a sogra. ou seja. com um desfecho tão melancólico como previsível: o grupo residencial em questão acabou por se desintegrar e seus remanescentes passaram à condição de apêndices dispersos por várias aldeias (Ramos 1995: 329. mas não controlam o seu destino.

A exemplo da bruxaria zande. Yanoama descent and affinity: the Sanumá/Yanomam contrast. Louis. Actes du XLIIe Congrès International dês Américanistes 2: 71-90. Madison: The University of Wisconsin Press. o fulcro da sociabilidade onde as mulheres estão à vontade e os homens gostariam de nunca deixar. Nova Iorque: Basic Books. mulher e homem revelam-se metáforas da oscilação necessária entre repouso e movimento. Sanumá Memories: Ethnic politics in Brazil. Representa perda de raízes. Alcida Rita. Marcus. Antropológica 56: 25-126. Alcida Rita e Bruce Albert. confiabilidade. arraigamento. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Myths and legends of the Sanema. The Dravidian kinship terminology as an expression of marriage. O lar e as roças são os símbolos de espaço por excelência. insegurança e aventura. Nova Iorque: Holt. Yanomamo: The Fierce People. Structural Anthropology. RAMOS. a complementaridade entre o espaço-mulher e o tempo-homem é uma marca que o pensamento teórico sanumá imprime na experiência vivida. 1968. Paris: Société des Américanistes. LÉVI-STRAUSS. instabilidade. Claude. quando o único elemento de ligação entre comunidades em trânsito eram os elos patrilineares sempre por um fio (Ramos 1995: 17277). como se pode perceber nas histórias sobre as migrações sanumá. 1953. RAMOS.8 de sucesso em se criar um grupo de descendência próprio reflete o jogo de influências entre essas duas figuras determinantes. 1990. 1977. 1963. COLCHESTER. Napoleon. Man 54: 34-39. o tempo traz incertezas. Juntos. 1981. Rinehart & Winston. Referências Bibliográficas CHAGNON. Evocam noções de estabilidade. idéias fundamentais que dão sentido ao mundo. Por contraste. DUMONT.

Palavras-chave: investigação-acção. Apresenta-se uma proposta metodológica de diagnóstico. ruralidade.Iguais num Rural Diferente: o papel da Antropologia na investigação-acção sobre género Ana Luísa Micaelo e Ricardo Seiça Salgado CEAS/ISCTE analuisamicaelo@gmail. nomeadamente na conciliação família/trabalho. Este projecto. realizado em Abril de 2006. e cujo objectivo central foi o da promoção da igualdade de género em meio rural. Sever de Vouga. Articula-se a observação participante com “Oficinas-diagnóstico” no intuito de potenciar uma abordagem antropológica para a investigaçãoacção. igualdade de género. denominado de “Iguais num Rural Diferente”. os homens estão ausentes e são as mulheres que asseguram a vida social quotidiana. Elas são o ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . no qual apresentámos uma proposta metodológica. promovido por várias instituições ligadas ao desenvolvimento local. decorrente de um projecto de investigaçãoacção realizado em 2005. foi realizado em parceria por várias instituições ligadas às áreas do desenvolvimento local.com Com base no projecto “Iguais num Rural Diferente”. que contemple as necessidades específicas e os interesses estratégicos de homens e mulheres em meio rural e se ajuste aos seus valores e experiências. teatro e ensino/investigação. 1. identificando-se com uma ruralidade que muitos sectores institucionais têm vindo a declarar extinta. Amarante. teatro e ensino/investigação. com vista a sistematizar um possível contributo da Antropologia na promoção da igualdade de género.com ricardoseica@gmail. oficinas-diagnóstico. revelam-se os resultados da investigação-acção realizada em 2005 no centro e norte de Portugal (Sever do Vouga e Amarante) onde se identificaram as desigualdades produzidas pelo género. Introdução Este artigo refere-se à comunicação proferida no Terceiro Congresso da Associação Portuguesa de Antropologia. no Centro e Norte de Portugal. assim como a sustentabilidade da actividade agrícola. Em ambos os contextos.

querendo envolvê-las no diagnóstico que fazíamos sobre as suas vidas e implicando-as no projecto. 2004/EQUAL/A2/IO/343). com a qual concluiu a licenciatura (cf. para que fosse possível o desenvolvimento de actividades futuras em conjunto. Foi financiado pelo Programa de Iniciativa Comunitária EQUAL. Relembramos que a comunicação foi proferida em Abril de 2006. Sanjek 1990 e Davis 1999).C. a equipa técnica de antropólogos que elaborou este diagnóstico (de Sever de Vouga e de Amarante) guiou-se pela abordagem empírica que há muito tempo se consolidou na antropologia. culturais e económicas – tal como elas são vividas pelos actores sociais – e contemplar as necessidades específicas e interesses estratégicos de homens e mulheres em meio rural. a Solidários – Fundação para o Desenvolvimento Cooperativo e Comunitário. pretendia-se também promover uma abordagem participada e reflexiva (estratégia bottom-up) com estas populaçõesalvo. numa altura em que o projecto estava já na sua segunda fase e os autores. que decorreu entre Janeiro e Junho de 2006. Assim. A participação dos antropólogos no projecto teve como objectivo a realização de um Diagnóstico de Necessidades 2 destes contextos sobre a igualdade de género. a partir dele. Com o objectivo de aferir a diversidade das realidades sociais. sublinhamos que esta metodologia se refere àquela desenvolvida na primeira fase do projecto. 2 De acordo com o modelo do Programa EQUAL. a APA – Associação dos Agricultores do Porto. não faziam já parte da parceria. Micaelo 2005b). a observação participante (cf.. assim como o Departamento de Antropologia da U. incorporando a maior multiplicidade de técnicas de recolha de material possível. a ADRL – Associação de Desenvolvimento Rural de Lafões. Para tal. A partir desta experiência de trabalho. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Sever do Vouga e Vouzela – mas a comunicação e este artigo só se referem aos dois primeiros. do Fundo Social Europeu (Ref. Por outro lado. na qual se realizarão as actividades planeadas anteriormente. sendo produzidas pelo género. eram específicas a estes meios sociais rurais. a candidatura à segunda fase. a ACERT – Associação Cultural e Recreativa de Tondela e o ICE – Instituto das Comunidades Educativas. em que se realiza o diagnóstico de necessidades e. O projecto realizou-se em três contextos rurais diferentes: Amarante. a autora realizou ainda uma tese de investigação. nomeadamente no que diz respeito à conciliação do trabalho com a vida familiar. 1 A equipa técnica foi composta pelos autores e a coordenação científica ficou a cargo da Professora Doutora Susana de Matos Viegas.2 Departamento de Antropologia Universidade de Coimbra 1 . para o Terceiro Congresso da APA. os projectos são compostos de uma primeira fase. o projecto identificou uma série de desigualdades que.

2. Têm características semelhantes que passamos a enumerar: ambas são montanhosas e o povoamento é disperso pelas encostas. Consideramos que estes dois territórios oferecem desafios diferentes. mas igualmente marcantes para a criação de modelos de promoção da igualdade de género em meios rurais do Portugal contemporâneo.3 Para a elaboração do Diagnóstico de Necessidades – com base no qual se propuseram actividades concretas a realizar na Acção 2 do programa (2006/2007) – os procedimentos metodológicos qualitativos para este projecto assentaram no trabalho de campo e tinham por objectivo a criação de um Modelo de Oficina Diagnóstico para contextos de investigação-acção em meios rurais em que. Tomando a tipologia e dados recolhidos no Instituto Nacional de Estatística (Censos de 2001) estas regiões são denominadas como Predominantemente Rurais. uma outra forma de poder que. representações e relações hegemónicas de poder – sejam elas de género. articulando a observação participante com as Oficinas Diagnóstico no intuito de potenciar uma abordagem antropológica para a investigação-acção. Aceitando um dos desafios deste congresso. devolvida à sociedade. família. de discutir a integração profissionalizante da antropologia. Neste artigo iremos apresentar as opções metodológicas que fizemos neste projecto. com algumas freguesias e populações muito ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . ela própria. Apresentação dos contextos Ambos os contextos onde decorreu o trabalho de campo correspondem ao território de actuação da respectiva entidade local – a APA em Amarante e a Solidários em Sever do Vouga. decorrente da sua experimentação em cada um dos referidos contextos-piloto. propomo-nos assim tecer uma reflexão acerca do papel da Antropologia enquanto saberfazer específico e da maneira como a análise dos discursos de poder é. trabalho e/ou ruralidade. pode participar na mudança das formas culturais. Segue-se uma breve apresentação dos dois contextos onde se realizou este trabalho. se pretendia envolver a população-alvo na formulação das questões socialmente relevantes no âmbito das relações de género.

apesar da existência de condições ambientais que permitem apostar na qualidade das produções agrícolas. Nestas regiões. de culturas e outras fruições. apícola e turística. cuja economia tem uma base rural e agrícola (não intensiva). São também baixos os níveis de escolaridade e qualificação profissional. após a retirada da possibilidade de gestão dos baldios e seus recursos pelo Estado salazarista e. de recolha de lenhas e de matos. muito feminizada. Hoje. Os acontecimentos da década de 60. fracas vias de acesso e um sistema de transportes públicos entre as freguesias praticamente inexistente. o território-alvo do projecto corresponde à parte Este do concelho. Tal como em Amarante. nomeadamente de natureza agrícola. Todas elas gerem baldios. consequência de vários factores como o êxodo rural e os fluxos de emigração (anos 60 e anos 80). a perda de peso económico da agricultura não foi compensada com a criação de outras actividades económicas que pudessem absorver a mão-de-obra. tanto por via da Junta de Freguesia. a característica mais evidente do contexto de Sever do Vouga é a agricultura. O acesso à saúde é escasso e não há instituições capazes de dar resposta à dependência que as crianças e idosos têm para com a família. contribuíram para a escassez de relações entre as pessoas e as várias aldeias da região. 7 freguesias que constituem as comunidades serranas do Marão. e têm direito ao uso e fruição do terreno baldio – para efeitos de apascentação de gado. como por uma Comissão de Compartes independente. a quase inexistência de indústrias e alternativas de emprego na região. silvo-pastoril. Em Amarante. dos anos 80. reflorestação. A relação das pessoas em Amarante está marcada por um passado emigratório. o fraco empreendedorismo e um ainda baixo investimento turístico (algumas freguesias ainda não têm saneamento básico). Face a uma divisão sexual do trabalho que leva os ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . silvícola. sendo que a acessibilidade ao Predominantemente Urbano é maior e mais frequente que ao Rural. depois de terem voltado e do incêndio que devastou a Serra do Marão. têm um potencial a desenvolver pelo projecto. Existe uma tendência para o declínio populacional e envelhecimento.4 isoladas. estes terrenos que desde o 25 de Abril passaram outra vez a ser geridos pelas comunidades locais. em contraponto com a alta taxa de desemprego – sendo que todas estas características assumem maior relevo na população feminina.

Assim sendo. constituindo como modelos familiares o que propomos chamar de “temporariamente monoparentais femininos”. aumento da autonomia destas mulheres e promoção de maior igualdade nas relações entre casais: reequilibra as formas de poder entre cônjuges. os homens vão para fora e têm trabalho remunerado. Esta situação resulta ainda numa dependência financeira das mulheres em relação ao marido. fixando as mulheres à terra. ou também nas estruturas mais precárias do trabalho da indústria do calçado (Amarante).5 homens a longos períodos de ausência (emigração e/ou trabalho temporário fora da região). ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . sendo que o modelo hegemónico de género não reconhece simbolicamente o papel da mulher no trabalho. das terras e animais e do cuidado dos filhos. dos idosos e de outras pessoas dependentes. agrícola (Sever do Vouga) ou. assim como a sustentabilidade da actividade agrícola – que não deixou de ser muito importante para a economia familiar – sem que tenham com isso um reconhecimento do seu trabalho. São as mulheres que asseguram a vida social quotidiana. de igual modo. bem como a reestruturação que ela permite das actividades laborais. a ausência dos homens nas tarefas familiares reflecte uma grande disparidade de participação na vida familiar entre homens e mulheres. e também devido ao impacto do fenómeno migratório. em Sever de Vouga e Amarante a organização familiar está historicamente marcada pelo trabalho assalariado masculino fora da área de residência. Por outro lado. Decorrente da divisão sexual do trabalho e das representações e concepções acerca da feminilidade e masculinidade. contribuindo para que os homens valorizem o papel da mulher na actividade económica local. seja este doméstico. em ambos os contextos. enquanto as mulheres se encarregam das tarefas domésticas. se tem mostrado um meio eficaz de empoderamento (empowerment). a Solidários considera que em Sever de Vouga o incremento da agricultura segundo o modo de produção biológica. do trabalho assente em actividades artesanais.

por outro lado. Teve-se sempre em conta a necessidade de informar as pessoas acerca do projecto e dos seus objectivos. Os investigadores permaneceram nos territórios-alvo respectivos. Metodologia 3. O acesso aos informantes e o enquadramento no terreno não foi efectivamente restritivo na medida em que nunca os contactos interpessoais foram forçados ou veicularam a necessidade de uma reverência para com as instituições locais ou os informantes privilegiados. a sua própria relação com os eventos descritos é útil para a sua compreensão – e deve ser sempre especificada” (Pina Cabral 2003: 25). Assim. realizaram-se histórias de família e identificaram-se estudos de caso que vieram a servir para a selecção das pessoas com potencial representativo da população-alvo. a posição e acção do investigador devem ser referidas como parte integrante da situação social estudada: “Quando o etnógrafo recorre ao método de estudo de caso. vivência no local de estudo. condutor da conversa. conversa informal dirigida.6 3. Utilizaram-se as variadas técnicas de observação participante (entrevista. texto e paratexto. Esta ideia é válida nos dois sentidos: por um lado. vivendo numa habitação local e integrando-se na vida quotidiana da população. entrevista aberta. como o presidente da junta. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . os resultados desta investigação-acção reflectiram necessariamente a forma como ela foi conduzida. em períodos de cerca de quinze dias (a entrada no terreno tendo em vista a definição da população-alvo) e posteriormente. um mês (trabalho de campo e realização da Oficina Diagnóstico). registo da informação e “notas de campo” e realização de diário de campo). Essa informação serviu sempre de subtexto. do encontro estabelecido. Tendo em conta a escassez de tempo para executar os objectivos recorreu-se ainda a outros informantes privilegiados. directores associativos ou o padre.1. técnicos das instituições parceiras. que foram convidadas a participar nas Oficinas Diagnóstico. em função do tempo que se dispunha pelo programa para a Acção I (4 meses). era condição necessária a consciência das pessoas em relação à sua participação e envolvimento no projecto. Primeira etapa metodológica: observação-participante O diagnóstico realizou-se a partir da recolha de material empírico em duas estadias de campo dos investigadores.

Consistiu em se fazer uma fotonovela em grupo. que já haviam experimentado em outras circunstâncias. Segunda etapa metodológica: Oficinas Diagnóstico A Oficina Diagnóstico tem o seu modelo baseado em metodologias teatrais de modo a monitorizar a realidade social. A ideia de modelo operatório inicial da oficina foi proposto pela ACERT em conjunto com a Solidários. Os conteúdos trabalhados nas oficinas provêm dos resultados analíticos da observação-participante no terreno. Enquanto modelo de diagnóstico. “os relatores” e os “facilitadores”. O “relator” não deve ser um “participante” e o facto de já ter contactado as pessoas que participam na oficina. Com elas e a partir delas. os participantes representam a população-alvo e foram identificados previamente pelo antropólogo no terreno. Para as oficinas de cada contexto seleccionaram-se temas e personagens consideradas prioritárias na identificação dos problemas e possíveis soluções ligadas à promoção da igualdade de género. valores e experiências de homens e mulheres na vida familiar e no trabalho.2. na investigação de terreno. na conciliação do trabalho com a vida familiar.7 através do envolvimento das pessoas na procura das estratégias para o seu próprio “desenvolvimento”. pode ser favorável e será ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . bem como do próprio drama a ser construído por cada grupo. registando a interacção entre as pessoas e os comentários. Quem participa nas Oficinas? Cada oficina é constituída por três tipos de intervenientes: “os participantes”. motivações. Os “relatores” são aqueles que vão ouvindo o processo de construção das histórias. Os “participantes” são todos aqueles que irão exercer as actividades desenvolvidas na oficina desde a elaboração das histórias à reflexão sobre elas. Previamente fez-se uma simulação da oficina com os parceiros. mobilizando a população-alvo para práticas de inovação social. 3. foram elaborados pelos investigadores e depois debatidos com os técnicos das associações. A sua atitude aproxima-se muito daquela que é assumida por um investigador a fazer trabalho de campo com observação participante. em função dos interesses. foram sinalizados problemas e identificadas possibilidades de inovação.

8 fundamental num modelo mais consistente de utilização destas oficinas para diagnóstico. 3. deve provocar o debate com alguma ideia que conecte com a informação obtida e algum conflito passível de emergir da rede de relações produzida. Em cada grupo existem duas personagens predefinidas atribuídas ao acaso. Deve deixar um espaço de liberdade criativa aos participantes durante todo este processo. O envolvimento de membros das associações que já têm contacto com as populações pode ser igualmente importante. Atento. a situação familiar e profissional). 2. Guião da Oficina 1. os facilitadores/relatores. por exemplo. Cada oficina teve cerca de 4 grupos com cinco participantes cada. Solicita-se a construção da identidade de uma personagem (que consiste em preencher uma ficha com o nome. um facilitador e relator por grupo (investigador e membros da associação parceira). os sonhos. Um ou dois dos grupos ficam com tema livre. De uma forma completamente aleatória divide-se o colectivo em grupos. “sem ele monopolizase”. de 5 ou 6 pessoas cada. os pesadelos. sobretudo para garantir a prossecução dos trabalhos. uma vez que prepara as pessoas para os objectivos pretendidos. A cada grupo é dado um tema sustentado pela informação empírica recolhida em trabalho de campo. Garante a existência de papéis sociais representativos da população-alvo e que. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Recomenda-se a filmagem da oficina por um elemento conhecedor do projecto. intervir também nos outros grupos. Os “facilitadores”: em cada grupo existe um facilitador que intervém no sentido de ajudar a desenhar um mapa de relações entre as personagens construídas e organizar a sequência de fotografias finais representativas da história. Recomenda-se que circulem pelos diferentes grupos para permitir momentos de liberdade e tornar a oficina mais dinâmica podendo. abrindo espaço para a monitorização. A personagem deve ser inspirada a partir do contexto em causa e induzida pelo tema do grupo. 4. não tenha sido possível comparecerem.

Os dirigentes das associações sociais e culturais locais não se conheciam sequer. Discussão colectiva das histórias (os sentimentos. que as pessoas das diferentes freguesias. para futura apresentação. reforçando finalmente a presença dos homens. seus problemas e expectativas. em Amarante. seguiu-se um convívio que se transformou num concerto espontâneo de um grupo de bombos e de uma tuna da região. Também aqui se deixou espaço de liberdade para os participantes desenvolverem os argumentos. sob olhar do facilitador/relator. numa pequena série de fotografias. em torno das situações criadas na dramaturgia geral da história. dando origem a um mapa de relações (nome. começando pela apresentação das personagens intervenientes (uma fotografia por personagem) e contando a história produzida em cada tema. não se relacionam na promoção de resoluções conjuntas. vai inventando uma rede de relações sociais entre os personagens.9 5. uma a uma. Conclusão As conclusões a que se chegou nas Oficinas Diagnóstico mostraram. Com recurso a um projector. Em cada grupo. tendo em conta as relações entre personagens. apresentam-se as histórias por um “participante” do grupo. havia sido identificada anteriormente pelo investigador como uma condição adversa à ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Depois. representações e expectativas geradas). O facilitador toma a iniciativa com uma questão observada e lança a discussão. encenam-se colectivamente quadros representativos da história produzida. Em Amarante. a história é conduzida a partir de um qualquer conflito. reunido à parte. relação entre personagens. 4. 6. Fotografam-se as personagens. apesar de terem problemas comuns. seu passado). tendo em conta a realidade da região. 8. 9. A existência de iniciativas isoladas. Cada grupo. Desenhado o mapa de relações. Em Sever de Vouga a teatralização e interpretação das personagens e enredos aconteceu espontaneamente. A história deve ser conclusiva. tendo em conta a relação de poderes criada entre personagens e recaindo também para a desigualdade de género. 7. com a sucessão das fotografias produzidas. passa-se à construção de um drama possível.

exponencia a desigualdade de género. Esta intervenção teve um sucesso relativo em motivar. por um lado. esta falta de comunicação entre as pessoas das diferentes aldeias. Um outro factor. Este aspecto remete-nos ainda para uma limitação sentida no início do trabalho de campo sobre “o género do próprio antropólogo” – como chegar também aos homens. já que é com as mulheres e a feminilidade que este espaço passou a estar associado. nomeadamente no que diz respeito aos espaços de sociabilidade. Os formandos dos cursos até aqui promovidos pela Solidários são maioritariamente mulheres. à já referida divisão sexual do trabalho. a realização da Oficina mostrou haver uma a dificuldade em envolver os homens. não se conseguiu integrar estas iniciativas isoladas num projecto comum. no seu desenvolvimento associativo para uma actividade económica – o que iria ao encontro das intenções manifestadas por elas próprias na Oficina. por estarem empregados. Em Sever do Vouga. até porque identificámos uma grande diferenciação social de género no que diz respeito às ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . uma vez que não se trata apenas de resolver os problemas das mulheres. Comissão Europeia 2004). Isto deve-se. quiçá. de forma a reforçar a importância do trabalho feminino nos baldios e. fazendo com que o espaço onde actualmente se realizam estes cursos – e onde decorreu a Oficina Diagnóstico – tenha uma associação de género diametralmente oposta à do café (cf. também identificado durante o trabalho de campo. Micaelo 2005b). quando a vida quotidiana é assegurada pelas mulheres e eles estão ausentes? A questão salienta a necessidade da integração da perspectiva de género (cf. a produção de artesanato a partir dos recursos dos baldios. apesar de terem sido convidados a participar. por exemplo.10 dinâmica para o desenvolvimento regional e estas oficinas permitiram essa consciencialização por parte dos participantes. foi realizada pontualmente em cada aldeia e não com um conjunto integrado de mulheres das várias aldeias. não tenham muita disponibilidade de tempo. No nosso entender. A intervenção da APA. promovendo cursos que desenvolvem aptidões potencialmente económicas às mulheres da região. e a Oficina Diagnóstico assim o demonstrou. Contudo. em oposição à sociabilidade masculina com que se identifica localmente o espaço do café. prende-se com o facto de o espaço social de género ser muito segregado. sobretudo nas possibilidades de trabalho auferidas pelos recursos dos baldios. que faz com que os homens.

a situação profissional de todas as personagens coincide com a realidade socio-económica e antropológica da região estudada: os desempregados. as agricultoras. Este “modelo” de um mundo rural é diferente daquele que conhecíamos na década de 60 no norte do país. investigadores. consideramos que o modelo participativo das Oficinas Diagnóstico cria condições para a resolução dos problemas assinalados. Por outro lado. como grande parte das regiões rurais de Portugal são classificadas. assegurando que a comunidade seja agente das transformações propostas. Concluindo. estes dados permitem-nos perceber melhor a categoria de Predominantemente Rural. mas principalmente. à mobilidade e mesmo à forma como se constituem os modos de sociabilidade. Por fim. ao trabalho. Por sua vez. não podemos ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Este modelo parte do conhecimento empírico do terreno e da sua transformação em estudos de caso e conteúdos para a realização de oficinas teatrais onde os participantes (população-alvo. os estudantes deslocados. e mesmo de outros meio rurais portugueses contemporâneos. os próprios mapas das relações entre os personagens mostram a construção de redes familiares do mesmo tipo que constatámos na realidade. em resultado do espaço de reflexão e experimentação criativas dos participantes. Ele foi pensado de forma a garantir que os modelos de intervenção social na promoção da igualdade de género compreendam e se ajustem aos valores e experiências da população. isto é. para um potencial processo de mudança. através da consciencialização dos problemas-soluções apurados entre todos – contribuindo. o construtor civil. ao acesso ao dinheiro e ao poder. por isso. uma organização familiar “temporariamente monoparental feminina”. O modelo de investigação-acção foi cientificamente informado e adaptado para comunidades rurais. Em ambas as Oficinas. os emigrantes. tipicamente envelhecidos e despovoados – como o Alentejo – ou aqueles que têm uma relação mais dinâmica com a actividade industrial – como é o caso de Vouzela. agentes de intervenção e animadores culturais) reflectem sobre os seus problemas específicos no âmbito das desigualdades de género.11 relações familiares. Assim. cujo modo de vida e características de sociabilidade são melhor apreendidas por metodologias qualitativas. pôr em causa a imagem de um mundo rural homogéneo e “tradicional”. o político. consideramos ainda que contribuiu para o apuramento de práticas de intervenção que incorporem a participação efectiva das respectivas populações-alvo. as domésticas. o patrão.

2005. SANJEK. O Homem na Família: cinco ensaios de Antropologia. Londres e Nova Iorque. “Diagnóstico de Necessidades para Sever do Vouga”. Roger (ed). João de. Acção 1 – Programa de Iniciativa Comunitária EQUAL. Mulheres. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . do Fundo Social Europeu (Ref. Susana de Matos (coord. Projecto Iguais num Rural Diferente. “Guia Equal sobre a Integração da Perspectiva de Género” [online]. Acção 1 – Programa de Iniciativa Comunitária EQUAL. Em: VIEGAS. Cornell University Press. trabalho e espaços de ruralidade: um estudo antropológico em Sever do Vouga.int/comm/equal> (acesso em 17-05-2005). 2004/EQUAL/A2/IO/343). do Fundo Social Europeu (Ref. um meio de estabelecer relação com as pessoas. 2003. 1990. Acção 1 – Programa de Iniciativa Comunitária EQUAL. Ithaca e Londres. Diagnóstico de Necessidades: Iguais num Rural Diferente. 2005b. 1999. Referências Bibliográficas COMISSÃO EUROPEIA. 2004/EQUAL/A2/IO/343). Departamento de Antropologia da Universidade de Coimbra. mas antes. Ricardo Seiça. Ana Luísa. 2005.). Projecto Iguais num Rural Diferente. DAVIS. (policopiado). PINA CABRAL. Projecto Iguais num Rural Diferente. para aceder à sua realidade vivida. Charlotte Aull. Fieldnotes: The Making of Anthropology. Ana Luísa. Disponível em: <http://europa. MICAELO.eu. Susana de Matos (coord. Diagnóstico de Necessidades: Iguais num Rural Diferente (policopiado). 2005.). Coimbra. Imprensa do ICS. do Fundo Social Europeu (Ref. 2004/EQUAL/A2/IO/343). a partir da abordagem etnográfica. Diagnóstico de Necessidades: Iguais num Rural Diferente (policopiado). Routledge. Dissertação de Investigação I e II (policopiado). SALGADO.). MICAELO. Reflexive Ethnography: a guide to researching selves and others. Lisboa. Susana de Matos (coord. Em: VIEGAS. 2004.12 deixar de sublinhar que considerámos o contributo da Antropologia não como uma oportunidade para “dar voz” aos seus objectos de estudo/informantes/população-alvo. “Diagnóstico de Necessidades para Amarante”. VIEGAS.

Universidade do Minho Pluralismo Religioso: novas abordagens etnográficas Coordenação Ramon Sarró Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa Estigma. Economia e Sociologia. dinheiro e afecto Coordenação Fernando Bessa Ribeiro Dep. Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro Manuel Carlos Silva Instituto de Ciências Sociais.VII – Capítulo Crenças e corpos Textos de comunicações dos painéis: Corpos. direitos e precariedade laboral ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .

coordenado por Ramon Sarró. Tem-se escrito muito sobre Fátima.    INTRODUÇÃO    No início do mês de Maio. mas pouco sobre as práticas dos peregrinos desde o momento em que abandonam as suas casas e percorrem a pé a distância que os separa do Santuário de Fátima. encher-se-ão de peregrinos. doutorando em Antropologia (ISCTE). Contudo. Recorrendo privilegiadamente a elementos etnográficos. uma promessa. peregrinação. longe de fazerem parte de uma communitas. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . o acto de caminhar até Fátima está fortemente condicionado pelas motivações que lhe subjazem. por um lado. 2003) e reproduz. uma comunicação realizada no 3º Congresso da APA – Afinidade e Diferença (6-8 de Abril de 2006). até ao presente que todos os anos milhares de pessoas percorrem os caminhos que as levam até àquilo que nos meios católicos se chama. concretamente no Painel Pluralismo Religioso: novas abordagens etnográficas.q. que os peregrinos caminhantes até Fátima. com breves alterações. nesta comunicação procurar-se-á evidenciar. Palavras-chave: Promessa. em 1917 em Fátima. Todavia. que estes peregrinos procuram pagar com o mínimo de sofrimento o grande sacrifício prometido. pt   Desde as Aparições da Virgem Maria. recorrentemente. e que são frequentemente. 1 Este texto recupera alguns elementos do trabalho de campo anteriormente realizado (Pereira. por outro. revelam práticas profundamente individualizadas para realizar a peregrinação. religião e Senhora de Fátima.  “Cada um anda ao seu ritmo” As práticas individuais nas peregrinações a pé a Fátima 1   Pedro Pereira* Escola Superior de Enfermagem – Instituto Politécnico de Viana do Castelo pedro.pereira@netcabo. tem sobejado o interesse por parte * Mestre em Antropologia (UM). se perante tão abrangente fenómeno social tem escasseado a atenção por parte dos cientistas sociais. Altar do Mundo. as estradas que convergem para Fátima. e. tal como as páginas dos jornais e os principais noticiários dos canais de televisão portugueses. Professor Adjunto – Instituto Politécnico de Viana do Castelo – Escola Superior de Enfermagem. Agradeço ao Professor Doutor José Manuel Sobral as críticas e sugestões que fez ao trabalho.

2 3 Deve entender-se por peregrinação uma viagem por devoção a um lugar considerado sagrado. que tem contribuído de uma forma mais intensa para a maneira como se vão atribuindo significados às peregrinações a pé a Fátima. o principal pilar que alicerça as práticas do acto de peregrinar 2 a pé da generalidade dos peregrinos que viajam até Fátima. também católica. sendo um lugar com grande magnetismo espiritual (Eade. a Fátima 3 . as peregrinações a pé a Fátima não são o início de uma relação com a Senhora de Fátima. neste artigo propõe-se desconstruir os dois pressupostos anteriores. sendo os peregrinos católicos. a par do outro discurso. Perante este diagnóstico da situação. tem sido mais este discurso. então as crenças e práticas dos peregrinos são interpretadas em consonância com o sentido teológico católico do peregrinar. latente. invisível. em segundo. mas sim a consequência de uma motivação. apologético. intensamente. a promessa apresenta-se como a parte oculta. frequentemente sensacionalista. onde o poder da Senhora de Fátima pode ser invocado (ainda que neste caso à distância) para a resolução de problemas cruciais dos crentes. que se expressa vulgarmente numa promessa. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . os peregrinos podem encontrar aquilo que Alan Morinis chama ideais colectivos da cultura (1992-a: 4-5). É de facto uma promessa que leva os crentes para a estrada e é ela que os impele a chegarem ao fim. tentar-se-á avançar com elementos que contribuam para uma efectiva compreensão do significado da expressão “cada um anda ao ritmo” (que dá o título a este artigo) e consequentemente enunciar as estratégias individuais que cada peregrino encontra para chegar até Fátima com o menor sofrimento possível. ideais religiosos. que caracteriza os lugares onde estão presentes. Duas ideias aparecem recorrentemente expressas nestes dois discursos: por um lado.2 dos religiosos católicos. dos meios de comunicação. Em Fátima. que a redução dos motivos envolvidos nas peregrinações a pé a Fátima à teologia católica impede a efectiva compreensão das crenças e práticas dos peregrinos. por outro. mostrando que: em primeiro lugar. De facto. e a entidade a que prestam culto. a prática da peregrinação a pé é apresentada como um meio para solicitar alguma coisa à Senhora de Fátima. 1991). em boa parte dos casos. A partir deste dois postulados. 1 – A PROMESSA DE PEREGRINAÇÃO   Efectivamente.

sendo estes uma expressão de uma relação muito pessoal entre o promitente e o ser espiritual a quem o primeiro se dirige”(Dubisch.3 Neste contexto. e de uma forma simples. uma contra-dádiva. Só se o desejo se realizava é que o homem cumpria o que havia prometido”(1987: 1829). De facto. nem mesmo ao marido que a acompanha. que já vai há mais de vinte anos a pé a Fátima. uma dádiva. mas é também visível quer na forma como o voto é feito. Quando o crente constrói a declaração de compromisso está também a definir as condições da troca. poucos dias antes da partida – outras vezes nem isso – outra pessoa do meu grupo. nunca revelou a ninguém. que os votos são feitos dentro da própria pessoa.1– A declaração íntima de compromisso A declaração de compromisso é a enunciação da troca com a Senhora de Fátima. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . organiza-se em torno de três fases primordiais: uma declaração de compromisso. a promessa está sustentada numa clara racionalidade e.   4 Partindo do pressuposto que a promessa é um voto. nem a mim. será interessante recuperar a referência de Michel Meslin à proveniência latina da palavra voto que provém do latim votum e que “consistia na promessa de uma oferenda que se fazia a uma divindade. na Grécia. 1995: 89). é quase sempre assim que ela é concebida pelos crentes que prometem ir a pé a Fátima. Como já foi defendido noutro lugar (Pereira.   1. Dubisch salienta. 2003-a). como me dizia um devoto: “concentro-me e mentalmente defino o que pretendo e o que estou disposto a fazer”. O marido suspeita que a promessa se deveu ao facto de. J. uma promessa pode ser definida como uma troca entre um crente e a Senhora de Fátima 4 . Veja-se um exemplo comum: “Se tu (Senhora de Fátima) curares o meu filho eu prometo ir a Fátima a pé”. o motivo da promessa. há 15 anos atrás. nos primeiros anos do casamento. quer pelo facto de o promitente (aquele que faz o voto) procurar manter sigilo da promessa até receber a graça ou dádiva 5 . De facto. com a condição de o homem obter dela um favor particular. Este voto é tão pessoal que por vezes só é revelado à família poucos dias antes da partida – um elemento do meu grupo revelou à mulher que tinha feito uma promessa de ir a Fátima. normalmente. normalmente dentro da própria pessoa. 5 Reportando-se às promessas de peregrinação a Tinos. ele continuar a fazer “vida de solteiro”. sendo portanto ele quem estabelece o que é simbolicamente equilibrado. a autonomia individual está bem presente na construção dos termos da troca. de igual modo.

a peregrinação a pé apresenta-se como a última fase deste processo. “só se promete ir a Fátima a pé quando é uma aflição muito grande. e não como uma dádiva. Portanto.  as  peregrinações a Fátima são modernas. nesta situação de troca. como uma contra-dádiva. 1988: 101). Por conseguinte. como refere M. As marcas mais ou menos perenes no corpo dos peregrinos. Esta filiação religiosa poder-se-ia apresentar como um critério mais interessante do que outros apresentados por outros autores como o geográfico 7 ou o histórico 8 . querendo isto dizer que. a comunhão e a aliança que elas estabelecem são relativamente indissolúveis”(Mauss. visto que. mas também porque o que é dado nunca se separa de quem o deu. as referências mais ou menos assíduas de que foi a Senhora de Fátima que salvou o filho ilustram bem que. é o pagamento de algo que já foi recebido.     2 – O CATOLICISMO E AS PEREGRINAÇÕES A PÉ  Todos os peregrinos com quem falei. através de uma troca simbolicamente equilibrada. temos de considerar as peregrinações a pé. “[as coisas trocadas] não estão nunca completamente desligadas dos seus agentes de troca. as pessoas dão-se com aquilo que dão 6 .2 – A troca simbólica Assim. a peregrinação a pé é um agradecimento. como é referido pelos crentes).  e  seguindo  a  tipologia  de  Edith  e  Victor  Turner  (1978). a utilização do critério de filiação religiosa apresenta acentuadas fragilidades. pelo contrário. seja ela escatológica ou terrena. os crentes procuram re-equilibrar as suas relações com a Senhora de Fátima. a peregrinação a Fátima situase na categoria internacional. para em seguida retribuir com a peregrinação a pé. o promitente espera pela dádiva da Senhora de Fátima (ou pela graça. 7 Atendendo às classificações de Jackowski (1987) e Victor Turner (1973). efectivamente. pois atrai peregrinos dos mais diversos lugares do mundo. porque custa muito ir até lá a pé”. 8  Se  o  critério  for  histórico. disseram-me que eram católicos. Esta citação ilustra bem o sentido maussiano da dádiva. Porém. depois da referida declaração de compromisso.4 1. ou seja. não apenas porque uma dádiva implica uma contra-dádiva. como me dizia uma peregrina. não visa uma recompensa. perante uma grande aflição promete-se um grande sacrifício pois. Mauss.  6 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .

pelo menos na actualidade. mas deve ser de tipo festivo”(1995: 1048). como refere P. salientando-se as seguintes: “A peregrinação deve orientar para o sentido de corresponder ao oferecimento que Deus nos faz da sua misericórdia e do seu amor”(1995: 1048). decorre de uma promessa nos termos anteriormente descritos 10 . Estes autores recuperam alguns pressupostos anteriormente defendidos quer por Van O autor católico S. apesar das dificuldades se pode chegar a um lugar mais sagrado que é o Céu. em que. ou como uma penitência (libertação de pecados) 9 . “não pode haver peregrinação sem a celebração da eucaristia”(1995: 1048). como privilegiar do despojamento que seria uma aproximação a Deus. normalmente. Sanchis. “a peregrinação não deve representar acréscimo de obrigações (pagar dívidas ou ‘comprar’ facilidades diante de Deus). na realização de promessas o padre raramente é consultado e mesmo quando é consultado a sua opinião não é muito valorizada pelos promitentes (Sanchis. E tanto assim é que são diversas as actuações da igreja para orientar ou converter essas práticas que se afastam do ideal de peregrinação cristã. Pereira. 2003: 168-171). e que a mesma prática. tal não significa que as suas crenças e as suas práticas estejam em consonância com aquilo que é defendido pela teologia católica. deve ser uma peregrinação cristã. as peregrinações a pé a Fátima não satisfazem estas importantes directrizes daquilo que. a mais relevante teoria sobre as peregrinações deve-se a Edith e Victor Turner. 1991: 2) evidente no Santuário (cf.1 – peregrinação como fenómeno liminóide   De facto.5 De uma forma simples. Bastará tão-só recordar que as peregrinações a pé são uma relação que os crentes estabelecem com a Senhora de Fátima e não com Deus. apresenta esta como uma “imitação da vida”.     3 – A PEREGRINAÇÃO COMO FENÓMENO LIMINÓIDE E AS PRÁTICAS  INDIVIDUAIS NAS PEREGRINAÇÕES A PÉ A FÁTIMA     3. 10 A Igreja Católica tenta utilizar estratégias que lhe permitam evangelizar as peregrinações quer durante o caminho. Contudo. a peregrinação deve promover a “participação na vida da igreja. a concepção católica da peregrinação a pé. ainda que os peregrinos que caminham até Fátima se autodefinam como católicos. Como se pôde notar ao longo do trabalho. entrando ativamente nas suas preocupações e na sua ação”(1995: 1048-1049). 9 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . estando exposta na sua obra Image and Pilgrimage in Christian Culture. como oferecimento a Deus. 2003: 120-122) quer no santuário procurando fazer prevalecer o seu discurso na arena de discurso (Eade. através da formação de guias do Santuário (cf. Contudo. Rosso define algumas orientações para aquilo que se poderia chamar uma pastoral da peregrinação. 1992: 51-52). Pereira. “vai-se a Maria para chegar melhor e mais facilmente a Deus”(1995: 1046).

a individualidade posta contra o meio institucionalizado. emergindo o individualismo de uma forma bem mais efectiva do que a ténue.6 Gennep 11 quer pelo próprio V. Petrópolis: Editora Vozes. indiferenciação. santidade.estrutura e anti-estrutura. Victor (1974) O Processo Ritual . fortuita e por vezes ilusória communitas 15 . penitências.   3. a peregrinação 14 é um acto voluntário. despojamento. 14 Os Turner salvaguardam a excepção do Islão. que muda com o tempo contra o estático que representa a estrutura. a peregrinação apresentase como um fenómeno liminóide. o próprio movimento. Arnold Van (1978 [1908]) Os Ritos de Passagem. Deste modo. com particular ênfase para o conceito de fenómenos liminares que apresentam uma junção de submissão. 13 Designação dos próprios autores. Petrópolis: Editora Vozes. Não é muito frequente encontrarem-se peregrinos que fazem toda a peregrinação a pé sozinhos. Este facto pode transmitir a ilusão da communitas. com a peregrinação a Meca. Assim. mudança de um centro mundano para uma periferia sagrada que de repente se torna transitoriamente central para o indivíduo. homogeneidade e camaradagem. realização ritualizada de correspondências entre paradigmas religiosos e experiências humanas partilhadas. 1974). emersão da pessoa integral na multiplicidade da persona. 11 12 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . anomia (Turner.2 – Da ilusória communitas às práticas individuais     Contudo. O objectivo da viagem em grupo decorre do facto de esta se constituir como uma estratégia mais eficaz para que o peregrino alcance o seu objectivo. reflexão sobre o significado dos valores básicos religiosos e culturais. etc”(1978: 34)”. pois normalmente os futuros peregrinos procuram um grupo para fazer a viagem. Turner. homogeneidade. Turner 12 . para os Turner. um axis mundi da fé. ‘communitas’. os peregrinos vão adquirir uma homogeneidade de status caracterizada de uma forma detalhada pelos autores: “simplicidade de vestes e comportamento. um símbolo da ‘communitas’. pois apesar de ter características semelhantes aos ritos de iniciação das sociedades tribais 13 . os dados etnográficos não confirmam que as peregrinações a pé a Fátima possam ser consideradas como um fenómeno liminóide. libertando-se das estruturas mundanas. todavia a viagem em grupo não decorre de um eventual interesse dos peregrinos em partilhar com outros os valores espirituais da peregrinação. 15 Esta caracteriza-se pela igualdade. Gennep.

diversas vezes. como o almoço e particularmente a pernoita. Desde a primeira refeição que as pessoas que já tinham feito mais vezes a peregrinação sugeriram que as refeições de todo o grupo seriam pagas por uma pessoa.7 pague a sua promessa. e vai socializando os peregrinos neófitos como eu. sendo quase sempre uma das últimas a chegar ao local de pernoita. desde o primeiro dia. passaram a ser manifestos e cada peregrino pagou a sua própria refeição. Ela desde o primeiro dia que apresentava imensas dificuldades. ele fazia a peregrinação com uma certa tranquilidade. e especialmente já mais próximo de Fátima. cada grupo vai-se desmembrando ao longo do dia. ele ia avançando. que em seguida dividia o total por todos os elementos. até que na última refeição do último dia. ou seja. Da desocultação da ilusão da communitas emergem práticas individuais claramente ilustradas na expressão que dá o título a esta comunicação – “cada um anda ao seu ritmo” 16 . sendo quase sempre um dos primeiros a chegar ao local de pernoita. Mas desde a primeira situação que os conflitos foram ficando latentes. independentemente daquilo que comesse. constituindo um dos primeiros registos no meu diário de campo. Ainda que existam momentos de agregação dos peregrinos no seu grupo. Pude ver. particularmente no fim da tarde. 16 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . 17 Deve notar-se que frequentemente os grupos procuram agregar os seus membros para entrarem em conjunto no Santuário. Efectivamente esta locução foi-me repetida. que rapidamente vão assimilando este ideal. Note-se que depois deste momento a necessidade que cada peregrino tem do grupo é bem menor. Ainda no meu grupo pude testemunhar outro exemplo da ilusão da communitas. aumentando de frequência com o passar dos dias de caminhada. Claro que estas marcas de individualismo concorrem para infirmar a homogeneidade de status defendida pelos Turner. cada um pagava a mesma quantia. chegue a Fátima. Encontrei peregrinos que por fragilidades resultantes de esforço tão continuado (dores intensas num tornozelo ou num joelho) foram ficando para trás cada vez mais distantes do seu grupo. A partir do momento em que se inicia a peregrinação podem-se construir novas estruturas relacionais que podem decorrer. diversos peregrinos a caminharem sozinhos 17 . No meu grupo viajavam um irmão e uma irmã. Assim. Ela ia ficando parada em diversos postos da Cruz Vermelha. por Em grupos coordenados por guias do santuário não é raro existirem conflitos decorrentes do interesse em cada um chegar o mais rapidamente possível ao fim e o interesse do guia do Santuário que é manter grupo todo junto.

na referida locução. Uma boa parte dos peregrinos procura programar com detalhe a viagem. por um lado. outras vezes critérios de aliança (duas pessoas casadas partilham um só quarto e uma só cama). a promessa que os peregrinos fizeram foi de grande sacrifício e este expressa-se num quadro geral que. divididos em etapas de 40 quilómetros por dia. e ao longo de cinco dias percorram. aqueles que detêm um capital de experiência de peregrinações anteriores. na acomodação dos corpos durante a pernoita onde. Cada vez mais os grupos aumentam o seu investimento na logística da viagem. visível. é interessante notar que cada peregrino. o mais provável é que andem cerca de 200 quilómetros. 18 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . longe de indiciar simplicidade. pelo afastamento de casa e da família. quase sempre. comida de qualidade duvidosa. recorrentemente. pode também notar-se a existência de um prolongamento das estruturas sociais anteriores à peregrinação 18 . conhecem melhor o caminho e podem gerir melhor o esforço acentuado que. por outro. normalmente exige uma peregrinação deste tipo. das bolhas que podem surgir nos pés e que condicionam profundamente o andar ou de uma indisposição ou ainda das consequências de uma queda. Por outro lado.3 – Da promessa de grande sacrifício e à procura de redução do   De facto. na roupa que. “cada um andar ao seu ritmo”. Atentem-se. 19 Ao contrário das peregrinações cristãs que se caracterizam pela insegurança. as peregrinações a pé a Fátima na actualidade tendem a ser cada vez menos incertas e cada vez mais seguras. se tomarmos como exemplo peregrinos que partem do Porto até Fátima. por vezes emergem critérios sexuais (pessoas do mesmo sexo partilham o mesmo quarto e a mesma cama). mas expressando-se de diversas outras formas. recorrendo aos diversos meios que tem ao seu alcance.8 exemplo. Porém. vai procurar reduzir o mais possível o potencial sofrimento. e comam. codifica diferenças de estatuto sócio-económico. por exemplo. sendo um dos exemplos disso mesmo o seguro de vida realizado por um grupo para todos os seus membros (mais de 300 peregrinos). estradas nacionais com muito trânsito e com elevado perigo19 .             sofrimento 3. do maior ou menor cansaço. procurando reduzir o potencial sofrimento e a incerteza resultante de uma viagem deste tipo. No entanto. que aqueles que têm maior capacidade económica possam dormir numa cama mais cómoda ou comer comida de melhor qualidade num restaurante mais tranquilo. sendo bastante visível a diferenciação económica que permite. durmam pouco e em más condições. Seria desta forma que o equilíbrio simbólico decorrente da promessa seria alcançado. desde logo.

e que eram suficientes para cortejar elementos femininos do seu grupo. Por fim. O jovem português que veio de Inglaterra para caminhar a pé até Fátima. seja em pensões ou em casas particulares. escrita e gestual. 22 Esta opção garantiu algum conforto ao próprio investigador. Por exemplo. 23 Um elemento do meu grupo. apenas andam com o guarda-chuva quando chove. uma crente 20 21 Cf. Um dos aspectos mais relevantes na redução do sofrimento é o chamado carro de apoio. Sendo normalmente conduzido por um familiar de um dos elementos do grupo. desde um vulgar analgésico até pastilhas desconhecidas que ocultam intensas dores durante algumas horas. 23 ou mesmo injectáveis de substâncias também desconhecidas. num nos dias da peregrinação um massagista de beira de estrada deu-lhe uma pastilha que lhe permitiu caminhar durante todo o resto do dia sem dores. prometeu que faria o percurso sem falar. pode valer a pena relatar. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Contudo. quer daquilo que está disposto a fazer. Contudo. que após se romperem eram sucessivamente substituídas por outras. de forma breve. Alguns peregrinos caminham durante a noite. diversos peregrinos recorrem a medicamentos para realizar com menos custo a peregrinação. No entanto. pode ir desde o aproveitamento do capital de experiência de peregrinos que já fizeram muitas peregrinações e acolher a inócua sugestão para usar pensos higiénicos de tamanho grande dentro das sapatilhas 22 ou pode-se aproximar de algo que poderíamos chamar doping. que serviam para se fazer entender com os membros do seu grupo e com as outras pessoas com as quais se cruzava. para além de não transportarem o saco com as suas pertenças. Um crente propôs-se acrescentar dureza à já dura viagem de ir a pé a Fátima: prometeu ir descalço. mais detalhes em Pereira. no fim da peregrinação teve recorrer ao hospital para retirar líquido de um joelho. Por fim. Isto significa que. apenas andam com o casaco quando têm frio ou apenas andam com a garrafa de água quando têm sede 20 21 . o carro permite que os peregrinos possam andar apenas com aquilo que precisam em cada momento. caminhou parte da viagem com fortes dores num joelho. De facto. pois as temperaturas estão mais amenas. este sofrimento era atenuado pelo facto de ele usar diversos pares de meias. procurando assim evitar que o calor se alie à estrada como mais um obstáculo. este crente encontrou outras formas de comunicação. três casos concretos em que emergem singulares estratégias individuais de redução do sofrimento. calçadas umas por cima das outras. 2003: 134-135. No dia seguinte as dores voltaram. A diversidade das estratégias para reduzir o sofrimento varia em função quer das condições que cada um tem ao dispôr.9 essencialmente reservar com antecedência o lugar de pernoita.

Petrópolis: Editora Vozes. Os Ritos de Passagem. come em grupo. Lisboa: Edições 70. mas que só anulada no encontro com a Senhora de Fátima. Barcelona: Editorial Herder. de filiação católica. 1995. sobrepõem-se os interesses do peregrino que parte em grupo.. deste modo. sendo depois transportada de carro pelo marido de volta até casa. MESLIN. No Domingo seguinte. “Introduction” EADE. 1-29. London: Routledge. p. JACKOWSKI. P.10 prometeu ir a pé de Vila Nova de Gaia até Fátima. Michel. o cumprimento desta promessa foi feito em prestações. In a Different Place . pagar a sua contra-dádiva: chegar a Fátima. “Votum”. mas que “anda ao seu ritmo” para. não caminha para Deus. 1991. Princeton: University Press. Diccionario de las Religiones. Todavia. Marcel. dorme em grupo. à frágil e pontual communitas. Jill.). John e SALNOW. (ed. EADE. Michael J. Em cada Domingo. nº 33. pp.. 1988 [1950]. A. a peregrina fazia cerca de 20 quilómetros. (dir. 1987. 1987. Gender. 1978 [1908]. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS   DUBISCH.Pilgrimage. partia do sítio onde tinha parado anteriormente e percorria mais 20 quilómetros até. “Geography of pilgrimage in Poland” in The National Geographic Journal of India. Contesting the Sacred: The Anthropology of Christian Pilgrimage. Portanto. and Politics at a Greek Island Shrine. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Arnold Van. 422-429. Ensaio sobre a Dádiva. Quando o promitente se metamorfoseia em peregrino transporta consigo não apenas o cansaço mas também o ónus de uma dívida que cada passo irá fazer diminuir. chegar a Fátima. John e SALNOW. da forma menos penosa possível.     CONCLUSÃO   O peregrino.). 1829. POUPARD. não caminha como penitência para se libertar de pecados cometidos. MAUSS. pp. GENNEP. Michael J.

“The center out there: Pilgrim’s goal”. “Peregrinações”. Peregrinos – Um estudo antropológico das peregrinações a pé a Fátima. pp. 191-230. Trabalhos de Antropologia e Etnologia.as romarias portuguesas. MORINIS. O Processo Ritual . Victor e TURNER. ROSSO. “Introduction: The Territory of the Anthropology of Pilgrimage”. Victor. Alan. Victor.The Anthropology of Pilgrimage. Dicionário de Mariologia. Lisboa: Piaget. 1973. 1-28. Stefano e MEO. “Doenças. 2003. 1992-a. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . 2003-b. Vol. Pierre. History of Religions. promessas e peregrinações: as promessas de peregrinação a pé a Fátima”. pp. Edith. pp. TURNER. 2003-a. DE FIORES.estrutura e anti-estrutura.11 MORINIS. PEREIRA. Image and Pilgrimage in Christian Culture Anthropological Perspectives. 1995. TURNER. Porto. 3-4). 1974. London: Greenwood Press. 12.. 1031-1052. Oxford: Basil Blackwell. Lisboa: Dom Quixote. 1978. 1992.). Sacred Journeys . S. Petrópolis: Editora Vozes. SANCHIS. São Paulo: Paulus. Alan (ed. TURNER. Arraial: Festa de um Povo . Pedro. 43 (fascs.). Salvatore (dir. Pedro. PEREIRA.

Num primeiro momento.A Cegueira como Transgressão: dos corpos marcados aos corpos que marcam Bruno Sena Martins Faculdade de Economia. centrada no indivíduo.com Com propósito central de compreender a complexa relação entre as representações culturais da cegueira e as vidas daqueles que a conhecem na carne. corpo. Não obstante. Universidade de Coimbra bsenamartins@gmail. importa denotar como as pessoas cegas estão sujeitas a fortíssimas condições de opressão social e estigmatização cultural. a cegueira ficou objectificada como uma exterioridade da norma biomédica: um topos de desvio corporal onde o horizonte de restituição da normalidade está habitualmente ausente. a reflexão de Colin Barnes (et al. numa espécie de fracasso coreografado. enquanto referente. do corpo e da imaginação se foi gradualmente insinuando. nas histórias de vida das pessoas cegas e nos valores dominantes acerca da cegueira. Respostas alojadas numa abordagem reabilitacional. 1999: 60): “o efeito da medicalização dos problemas sociais é a sua despolitização” (minha tradução). os movimentos normalizantes da medicina não cessaram de informar. ostensivamente negligente ao imperativo de transformações sociais mais amplas. pretendo aqui convocar algumas questões teóricas que se erigiram particularmente significativas à medida que fui sendo confrontado com os limites postos às formas convencionais de apreender a experiência nas ciências sociais.. respostas que vêm corroborando vivamente. Palavras chave: cegueira. no achado parentesco com outras condições físicas e mentais. experiência incorporada. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Tentando inquirir o lugar díspar que o sofrimento ocupa. Partindo do meu itinerário etnográfico. desde então. as respostas sociais que se vieram a dirigir às pessoas identificadas com a deficiência. constrangendo. há anos que venho realizando investigação em Portugal sobre questões relacionadas com o tema da deficiência. deparei-me com dimensões da experiência humana onde a centralidade das emoções. deficiência. Sob o conceito de deficiência. Estamos perante uma moldura de inteligibilidade social que muito deve ao modo como a modernidade reinventou a exclusão das pessoas cegas através do idioma da biomedicina.

as nossas sociedades estão estruturadas para a integração social daqueles que Erving Goffman chamou de “heróis de adaptação” (Goffman 1990:37). A própria emergência histórica do conceito de deficiência. marcada por exclusões e silenciamentos. critérios excludentes para a educação superior e para o emprego. perante uma “lógica de classificação” que tem operada como fiel pajem de uma “monocultura da naturalização das diferenças” (ibidem).2 Consequentemente. O facto é que até este dia as pessoas com deficiência encontram na maioria das sociedades um quadro em que a desigualdade de oportunidades caminha de par em par com forte discriminação institucional e vigorosa estigmatização cultural. etc. obstáculos no acesso aos transportes. pude partir de uma condição que sintetiza de modo flagrante os valores incapacitantes com que a sociedade hegemonicamente se dirige para a experiência daqueles a que aprendemos a chamar deficientes. Ao centrar-me na cegueira. Estamos. pois. insuficiência ou inadequação do apoio no sistema regular de educação. ausência. 2002). produtora de um estreitamento das vozes avalizadas e das práticas sociais pensáveis. Este mesmo estado de coisas começou a ser denunciado no início dos anos (19)70 quando os movimentos de pessoas com deficiência. Isto é tão mais problemático e perturbante quando sabemos que se conferidas as condições adequadas. surge como óbvio produto de uma moderna “razão metonímica” (Santos. denunciaram um sistema discriminatório tenazmente vigiado por: valores e atitudes subalternizantes. o sacro caminho para a integração social ― à luz dessoutra abordagem reabilitacional ― ganhou a consistência de uma miragem para a esmagadora maioria das pessoas com deficiência. barreiras arquitectónicas e comunicacionais. apenas uma reduzida percentagem de pessoas com deficiência ficaria impedida de participar na vida económica e social. A situação social das pessoas com deficiência. a “experiência de deficiência” que elegi para recolher histórias de vida e para acompanhar vivências quotidianas e associativas. Nas representações ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . inspirados pela agitação social do final da década anterior. No que à deficiência diz respeito. instiga de sobremaneira a uma “epistemologia das ausências”. Entendo que o elemento mais resistente na marginalização das pessoas com deficiência reside no modo como este processo social de exclusão se articula com o fatalismo dos valores culturais dominantes que encarceram a experiência das pessoas com deficiência nas ideia de tragédia e incapacidade.

o filme “Scent of a woman” . viver num mundo onde se tenha acabado a esperança" (Saramago 1995: 204). clamando a certa altura: ― Vá para a frente com a sua vida! ― Ao que Frank responde: ― Que vida?! Eu não tenho vida! Eu estou aqui na escuridão! Será que não percebes. por exemplo. Charlie. a ignorância e a alienação. Mas o que eu pretendo enfatizar é o modo como esta enunciação. um militar que ficou na reserva na sequência pelo rebentamento acidental de uma granada que o deixou cego. Significados que estão brilhantemente resumidos na voz de uma das personagens de Saramago: “a cegueira também é isto. Uma tal conceptualização da cegueira está bem presente nos nossos artefactos culturais. procura detê-lo. Podemos evocar. conceito central que mobilizo para explorar como as vidas e aspirações das pessoas com deficiência continuamente debatem com préconcepções fatalistas acerca da desgraça e do infortúnio.3 culturais hegemónicas da cegueira esta condição está fortemente está fortemente cingida pelos conceitos de tragédia. no “Ensaio sobre a Cegueira” as experiências das pessoas cegas estão ironicamente ausentes. Como o pude atestar nalgumas experiências de cegueira subitamente infligida. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . É esta mesma substituição que acontece na vida social. o rapaz que o acompanhou numa viagem a Boston. minha ênfase). grosso modo. desgraça e incapacidade. eu estou na escuridão! (minha tradução. Recolho de Michael Oliver (1990) a “narrativa da tragédia pessoal”. Na verdade. O diálogo central do filme ocorre quando Frank Slade é surpreendido preparando o seu suicídio. Construções que. onde Al Pacino desempenha o papel de Frank Slade. trocadas que foram pela imensidão de significados e ecos simbólicos que a história ocidental ligou à experiência de quem não vê. onde as narrativas e reflexões das pessoas cegas se encontram subsumidas pelas construções dominantes. de José Saramago. numa tão sonante aparição mediática da cegueira. reiteram uma “narrativa da tragédia pessoal” enquanto gramática sócio-cultural na apreensão da experiência da deficiência. Neste romance. a súbita cegueira de toda uma população emerge como uma riquíssima metáfora para simbolizar a desgraça humana. a resposta gritada por Al Pacino pode obviamente expressar o sofrimento e dissolução sentidos por alguém que cegou recentemente num acidente. largamente reflecte os termos pelos quais esta condição é socialmente entendida: uma desgraça que assola o valor da própria vida. Estes mesmos valores estão presentes no “Ensaio sobre a Cegueira”.

contra sedimentada negligência. sofrimento e ansiedade existencial onde. desafiar o modo como a razão metonímica se abateu sobre as pessoas com deficiência é também atentar em “racionalidades” embutidas nos corpos. vontade de viver. experiências de sofrimento. que. nos sofrimentos ontológicos e na imaginação sensorial. Refiro-me a experiências de sofrimento e privação mais directamente associadas ao facto corporal da cegueira. que transgride as nossas referências na existência. as nossas referências no modo de ser/estar-no-mundo. como mostrámos. informada pelas vozes das pessoas com deficiência. o corpo vivido e as emoções adquirem estatuto nobre ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . como referentes capitais. A esta dimensão do sofrimento pessoal. Por isso. os mais relevantes dados sociológicos derivam da identificação de perspectivas positivas e capacitantes sobre a cegueira. Se. na investigação que venho realizando entre as pessoas cegas. confronta-nos com preciosas elaborações sócio-políticas capazes de reverter a pesada marginalização de que as pessoas com deficiência vêm sendo alvo. corre o risco de reproduzir o cânone da razão moderna: o velho espectro da reprodução noutros termos do que se procura superar. as suas capacidades. No entanto. De facto.4 Em cintilante contraste com os valores dominantes. desde cedo emergiram evidentes. eminentemente fenomenológicas. potencialidades. a apreensão das vidas e pensares das pessoas com deficiência marcadamente instrui no apagamento dos fatalismos trágicos. tanto como do reconhecimento dos valores fatalistas que se abatem sobre as pessoas com deficiência. quero argumentar um tal enfoque nos poderá levar a desconsiderar outras dimensões da experiência. Uma perspectiva crítica nas nossas sociedades. a assentar numa oposicionalidade estreita. A angústia da transgressão corporal refere-se à vulnerabilidade na existência dada por um corpo que nos falha. eminentemente corporal. neste texto. que amplamente fracassamos em apreender pelo crivo das construções culturais e das condições de opressão social. não totalmente apreensível na sua relação com elementos sociais. Assim entendida. e resistência para superar os muitos obstáculos postos à realização pessoal. leituras positivas da cegueira. ou seja. eu chamo angústia da transgressão corporal. este texto prenha da preocupação de que a desmobilização da “razão metonímica” (Santos 2002) tenha em conta outras densidades da experiência que poderiam ficar de fora de um pensamento contra-hegemónico. a angústia da transgressão corporal concita-nos a reconhecer dimensões de dor.

a dar eco a Bryan Turner. gradual ou súbita. De facto. de visão. mas são também condição da nossa existência no mundo e na cultura. ou confrontaram. retornamos à angústia da transgressão corporal. sofrem doença e violência. essa sensibilidade analítica recolhe da experiência de pessoas que confrontam. Em segundo lugar. tradicionalmente pouco à vontade com tais campos da experiência humana. como Judith Butler (1993: xi) afirma. prazer. conforme ficou patente em muitas histórias de vida e no encontro com algumas experiências. nalgum momento das suas vidas. Os corpos sentem dor. Tal apologia constitui uma sensibilidade analítica recentemente surgida nas ciências sociais. nada disto pode ser desmobilizado como mera representação. quando ele enuncia: “acreditar que as questões da representação são as únicas legítimas ou cientificamente interessantes é adoptar uma posição de idealismo em relação ao corpo” (1992: 41. a angústia da transgressão corporal enceta diálogo com as ansiedades existenciais e corporais fundadas no modo como a cegueira é adivinhada na perspectiva de “corpos que vêem”. É através dos nossos corpos que ganhamos acesso ao mundo e aos outros.5 nas reflexões antropológicas e sociológicas Na investigação que desenvolvi entre as pessoas cegas a centralidade da angústia da transgressão corporal emergiu de ― e permitiu apreender ― duas densidades fenomenológicas diferentes. Procurando seguir estas questões achei-me na esteira apologética da experiência incorporada enquanto relevante dimensão da experiência. Em primeiro lugar. e. pela importância que a visão detém para quem dela pode fazer uso a sua perda ser recebida como uma cataclismo onde o significado da cegueira e o significado da vida não raro dançam juntos. minha tradução). Mas esta evasão ao idealismo não de oferece a uma reinstauração da narrativa da ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Assim investidos. Explorar o carácter incorporado da experiência implica respigar as consequências deste singelo facto: os nossos corpos ― pois de um vos escrevo ― não são apenas objectificados com significados culturais. desde logo. Esta abordagem distancia-se. uma perda. pois. Obrigo-me. onde a noção de tragédia amiúde encontra guarida. Na primeira dimensão que acima enunciei somos convocados a reconhecer as experiências de sofrimento que podem estar fenomenologicamente associadas à cegueira. do idealismo passível de ser sugerido por uma abordagem que procura explorar a cegueira e as suas implicações como correlato de condições sócio-históricas.

nem tão pouco um confronto com as coisas que se tornaram impossíveis de fazer. Apesar de Borges ter visto durante grande parte da sua vida. É como um lento entardecer de Verão. a experiência de uma ruptura fenomenológica. Evoco aqui a pena de Jorge Luis Borges pelo que a sua experiência tem de congruente com muitas histórias de que me tornei próximo. Na verdade.6 tragédia pessoal. directa ou indirectamente. nem a submissão a uma imperativa metamorfose no modus vivendi. não há um mundo empobrecido naquilo que nele se pode apreender. a experiência de ruptura fenomenológica inexiste igualmente em muitas biografias em que a cegueira surge. O escritor alude em vários momentos da sua obra. Numa curiosa fábula. portanto. porque na vida de pessoas que nascerem cegas não existe uma experiência de perda. Não te preocupes. A cegueira gradual não é coisa trágica. à cegueira que lhe sobreveio lentamente até lhe roubar a visão aos 55 anos. e na percepção das facilidades que a visão permite na apreensão de elementos da realidade e na execução de algumas tarefas. Jorge Luís Borges evoca o encontro sonhado de si consigo mesmo. como o autor reitera noutro lugar: ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Em segundo lugar. e onde a cegueira é tranquilamente revelada pela voz do ancião: “Quando atingires a minha idade terás perdido quase por completo a vista.” (Borges 1998b: 14). Verás a cor amarela e sombra e luzes. Assim é. a possibilidade de antecipar a cegueira e a mansidão da sua chegada assomam nele como factores que fazem com que um tal evento não se assuma como algo de trágico. longe disso. não há um constrangimento em relação aos modos de realizar. um lapso que é actualizado quotidianamente na comparação com os outros. junto ao rio. sei de milhares de pessoas que vêm e que não são particularmente felizes. justas ou sábias” (Borges 1998a: 394). tomou lugar o diálogo mágico de um Borges septuagenário com o seu jovem predecessor. É óbvio que as pessoas que já nasceram cegas têm uma noção do lapso que as separa de quem vê. como acontece com algumas patologias degenerativas. em muitas histórias de vida com que tomei contacto. Não há. aí se conta como no banco de um jardim. Uma inevitabilidade que soube aceitar e que já havia visitado o seu pai e a sua avó: “Pedir que não me anoiteçam os meus olhos seria uma loucura. através de um lento anoitecer de muitos anos. numa primeira instância. os sofrimentos mais directamente associados à dimensão física da cegueira estão ausentes. Um encontro dos diferentes tempos de uma vida em que profecias e memórias se cruzam.

1998c: 289). ao explorar a transgressão implicada por um corpo que “falha” e “rouba” referências no modo de ser no mundo. Portanto. No entanto. de um eclipse. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . e dada a prevalência dos questionamentos políticos e sociais que o tema da deficiência justamente nos instiga. estamos longe de sancionar a naturalização hegemónica da incapacidade e do infortúnio. Prolongou-se desde 1899 sem momentos dramáticos. sofrem e lidam com experiências de radical ruptura na sua relação sensorial com o mundo. É fundamentalmente nessas histórias que encontramos fortes experiências de angústia que largamente escapam a uma perspectiva informada pelas condições de opressão social. É dramático o caso dos que perdem bruscamente a vista: trata-se de uma fulminação. é nessas histórias fortemente marcadas por dolorosos períodos de luto apostos à experiência da cegueira.7 O meu caso não é especialmente dramático. O que este cuidado analítico de facto nos concede é a densidade de experiências que são a um tempo emocionais. um lento crepúsculo que durou mais de meio século (Borges. que também nos tornamos familiares com a capacidade dos sujeitos para a reconstrução pessoal: histórias órficas que nos são contadas por pessoas que relatam como morreram e voltaram a nascer. a angústia da transgressão corporal emerge essencialmente nas narrativas de perda de visão súbita. corporais e sociais. a assunção de um conjunto de experiências descritas pela ideia de angústia da transgressão corporal pretende conferir espaço de enunciação a determinadas dimensões do sofrimento pessoal dos sujeitos. Na investigação que venho realizando essa ponderação tem permitido apreender e valorizar o modo como os indivíduos suportam. a alusão a cegueiras congénitas ou lentamente adquiridas mais não pretende do que negar uma qualquer omnipresença biográfica da angústia da transgressão corporal nas vidas da cegueira. O que resulta irónico é perceber como o encontrado alento para viver em novos termos frequentemente se tem de confrontar com os valores fatalistas que visitam a experiência social das pessoas cegas. Nessa ironia o que assoma como trágico é alguém ter que viver refém de valores que ousou superar. De facto. Não sendo possível abraçar generalizações que aplanem o modo particular como os eventos são acolhidos pelos sujeitos. Portanto. e como bem sugere a reflexão de Borges. rápida ou inesperada. mas no meu esse lento crepúsculo começou (essa lenta perda de vista) quando comecei a ver. nesse sentido.

. É nessa persuasão que defendo que os valores hegemónicos associados à cegueira devem aos valores culturais e legados históricos. de que a cegueira.8 Nesse sentido. As conclusões advindas de uma tal relação empática são instrutivamente tocadas por José Saramago (1995:15) referindo-se a uma das personagens do Ensaio Sobre a Cegueira: Como toda a gente provavelmente o fez. corporeamente informadas. Este poderoso postulado. numa perspectiva diferente. jogara algumas vezes consigo mesmo. o mesmo é dizer. a exploração de determinadas experiências através da angústia da transgressão corporal visa contornar o perigo atrás identificado. ao cabo de cinco minutos com os olhos fechados. mas também às ansiedades existenciais. Como conceito mais vasto. a angústia da transgressão corporal curva-se à centralidade que experiências corporais detêm no significado da existência e na construção dos referentes pelos quais o mundo adquire sentido. pretende-se que o reconhecimento das condições de opressão social na vida das pessoas cegas.. (. nesses casos a mais ilustrativa enunciação ― esmagadoramente veiculada como lugar de um país que se fez distante ― fala da morte que um dia se desejou. quero enfatizar como a centralidade dada à angústia da transgressão corporal nos permite compreender algo dos valores dominantes associados à cegueira. não retire espaço de enunciação às experiências subjectivas de sofrimento corporal. Na pesquisa entre as pessoas cegas isto tornou-se sobretudo manifesto nas narrativas de cegueira subitamente infligida. Assim a angústia da transgressão acolhe experiências subjectivas de perda e vulnerabilidade corpórea tanto como sustenta que as nossas referências ontológicas são construídas ― e portanto podem ser perdidas ― através dos nossos corpos. sem dúvida alguma uma terrível desgraça. que a tragédia associada à cegueira trafica com o modo como as pessoas usam os seus corpos para ensaiar a cegueira. Mas. ao jogo do E se eu fosse cego. que algumas condições tendem a incitar. experiências de perda de referentes fenomenológicos onde se torna dramaticamente expresso como a existência carece das fundações dadas pelos corpos. ganha acrescida saliência à luz de itinerários marcados por experiências limite. enquanto evidência sociológica mais cintilante. Alego. e chegara à conclusão. na adolescência. à sistemática marginalização das vozes das pessoas com deficiência.) ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . que vale para mais triviais experiências. pois.

que trouxe para a Antropologia a herança fenomenológica de Maurice Merleau-Ponrty. e sensação de alívio: sonhei que tinha ficado cego.9 É esta forma de “ser no outro”. Desde então. que resgatam a importância do corpo e das emoções para o campo das ciências cognitivas: Como criaturas imaginativas incorpóreas. sabiamente sustentada pelos autores. apesar de singela. manifesta naquele sonho. conduznos precisamente ao reconhecimento das projecções imaginativas corpóreas como uma via para a produção de sentido acerca de outras posições estruturais. de que pensamos embutidos na carne. 1994). e que damos carne aos conceitos através de metáforas e da imaginação. nós nunca estamos separados ou divorciados da realidade numa primeira instância. tem recebido acrescida importância. minha tradução). Esta experiência. por via de projecções imaginativas em que o próprio corpo é feito um “tubo de ensaio” da cegueira. Apesar de uma funda negligência histórica nas ciências sociais. o produto das ansiedades com que ela é empaticamente percebida. isto é. pois. não a sua recusa (Lakoff e Mark Johnson 1999: 93. como via para as relações empáticas com outros corpos Quando principiei o trabalho de campo entre as pessoas cegas tomou lugar um interessante evento. Tento. e é a nossa imaginação. Acordei como uma intensa sensação de angústia. do quão terrível a ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . O que sempre permitiu a ciência é a nossa a incorporação e não a sua transcendência. a relevância dada à experiência incorporada e ao conhecimento incorporado. à medida que fui contactando mais e mais com pessoas cegas e com as suas experiências de vida. durante a primeira noite. e como George Lakoff e Mark Johnson (1999). gradualmente passei por um apagamento dessa pré-concepção. conceder relevância a esse experimentalismo sensorial que a cegueira evoca nos corpos cuja construção do mundo ─ cosmovisão ou mundividência ─ é eminentemente visual. De mencionar trabalhos recentes em que estas abordagens têm conhecido solidificação teórica. assim cabe referir autores como Thomas Csordas (1990. Eu estava num campo de férias a trabalhar como voluntário junto da Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal (ACAPO) quando. não deixa de ser ilustrativa da minha iniciática resposta ansiosa perante o espectro da cegueira. A asserção. despertei de madrugada perturbado por um terrível pesadelo. que labora para que as concepções hegemónicas da cegueira sejam. nalguma medida.

De facto.10 cegueira deveria ser. a angústia da transgressão corporal não é apenas algo vivenciado por alguém que fica cego. Vivencialmente é uma forma de “transcendência”. Ainda assim esta mais comum das experiências é uma forma de transcendência. O papel desempenhado pelas imaginações ansiosas da cegueira foi-se insinuando ao longo do trabalho empírico: nas histórias que me foram sendo contadas pelas pessoas cegas e na observação das interacções sociais. essa transgressão é também conhecida por projecções corpóreas empáticas através das quais a cegueira é “trazida para casa”. ao falar com pessoas sobre o tema da minha pesquisa frequentemente a cegueira suscitava reflexões em termos que reiteradamente expressavam relacionamentos pessoais com o espectro dessa ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .. é uma capacidade eminentemente corporal.. no sentido inverso. vim gradualmente a compreender a importância crucial ocupada pelas ansiedades pessoais na consagração da teoria da tragédia pessoal como a narrativa cultural dominante acerca da cegueira. minha tradução. Como consequência. De facto. Não obstante. para intensamente imaginarmos ser outra pessoa. A capacidade para a projecção imaginativa é uma faculdade cognitiva vital. Através dela podemos experienciar algo próximo a “sair dos nossos corpos” ─ no entanto. fazendo o que essa pessoa faz. uma forma de estar no outro (1999: 565. a projecção imaginária da cegueira através de um corpo que “vive visualmente” vai forjar algo das ideias de prisão sensorial e incapacidade. apesar do centrismo visual em que vivemos ter um fortíssimo viés sóciohistórico. De igual modo. Desde o nascimento nós temos a capacidade para imitar os outros. nós usamos constantemente as projecções imaginativas para aceder às experiências do outro: Uma função central da mente incorporada é a empática. experienciando o que essa pessoa experiencia. Deste modo. Não há nada de místico nela. Alegar a relevância da angústia da transgressão corporal é sustentar as possibilidades criativas para o significado que resultam da imaginação empática de uma dissolução sensorial e fenomenológica. na construção do mundo envolvente. a visão tende a ser um sentido crucial para quem dele pode fazer uso: na realização de actividades. como nos dizem Lakoff e Johnson. ênfase no original). Defendo que a relevância que a angústia da transgressão corporal assume nas representações da cegueira não é separável da sua congruência com um contexto onde as heranças simbólicas não poderiam ser menos favoráveis e onde as vozes das pessoas com deficiência se encontram silenciadas.

finalmente. “acho que preferia matarme”. Berkeley. Routledge. Jorge Luís. O Elogio da Sombra . A ruptura existencial que esta empatia sugere e exporta para os significados sociais toma parte na re-produção das representações culturais prevalecentes. GOFFMAN. III. Polity Press. uma identificação empática parcial e errónea. Byron Good e Arthur Kleinman (orgs. 1990 (1963). Sete Noites . 1993. Pain as Human Experience: An Anthropological Perspective. Thomas (org. Teorema. elas também são mobilizadas como via de acesso à realidade das pessoas com deficiência visual. e Mercer. 1998c. Londres. 1994. e. 1992. III. Tom. University of California Press.Obras Completas de Jorge Luis Borges 1952-1972 vol II. Cambridge.Cambridge. 1999. Nova Iorque. Embodiment and Experience: The Existential Ground of Culture and Self. Jorge Luís. Estas imaginações projectivas não apenas produzem ansiedades pessoais acerca da cegueira.Obras Completas de Jorge Luis Borges 19751985 vol.11 condição. Paul Brodwin. Lisboa. Arthur. etc. fracassa em apreender a adaptação permitida por uma cegueira que caminha gradualmente ao longo dos anos.). Colin. pois. Judith. “Embodiment as a Paradigm for Anthropology”. Teorema. A questão é que uma tal imaginação permite captar algo do eventual impacto de uma súbita perda de visão. mas fracassa em perceber como a vida de alguém se pode vagarosamente reconstruir em novos termos sem a visão. em termos bem distantes das complexas experiências que as pessoas cegas vivem Referências Bibliográficas BARNES. 1990. O que se produz é.). Erving. KLEINMAN. Lisboa. Thomas. não sendo raras frases como: “não sei conseguem”. CSORDAS. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Penguim Books. Geof e Shakespeare. Cambridge. Lisboa.Obras Completas de Jorge Luis Borges 1975-1985 vol. CSORDAS. “Pain and Resistance: the Delegitimation and Relegitimation of Local Worlds” in Mary-Jo Good. University Press. Stigma: Notes on the Management of Spoiled Identity. BORGES. 18 (1): 5-47. BORGES. Jorge Luís. Teorema. O Livro da Areia . Ethos. BUTLER. fracassa em conceber o mundo sem perda de alguém que nasceu cego. Bodies That Matter: On the Discursive Limits of Sex. BORGES. Exploring Disability: a Sociological Introduction. 1998a. 1998b.

SARAMAGO. Revista Crítica de Ciências Sociais. 1995. Regulating Bodies: Essays in Medical Sociology. The Politics of Disablement. Bryan. Londres. Mark. 1992. Lisboa. SANTOS. TURNER. Círculo de Leitores. Michael. Houndmills. Routledge. Nova Iorque. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . OLIVER. “Para uma Sociologia das Ausências e uma Sociologia das Emergências”. 1999. 2002. 1990. Ensaio Sobre a Cegueira. Philosophy in the Flesh: The Embodied Mind and its Challenge to Western Tthought. The Macmillan Press. 63: 237-280. Basic Books.12 LAKOFF. George e Johnson. Boaventura de Sousa. José.

A ilusão da conquista: Sexo. implicando a manipulação de recursos. nas quais o turista é sistematicamente apresentado como o predador que apenas procura satisfação sexual e.pt riosacra@portugalmail. sexualidade. Palavras-chave: género. por outro. Introdução A expansão do turismo de massas. sem capacidade de autodeterminação sobre o seu corpo e a sua sexualidade. em boa medida impulsionado pela redução dos custos das viagens de avião intercontinentais proporcionada pelos avanços tecnológicos e organizativos no sector dos transportes aéreos (Urry 1990: 44-50). Tentando escapar aos discursos vulgares. o Estado do Rio Grande do Norte ocupa uma posição consolidada como ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . a mulher jovem local vista como vítima. amor e interesse entre gringos e garotas em Natal (Brasil) Fernando Bessa Ribeiro e Octávio Sacramento Departamento de Economia e Sociologia Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro fbessa@utad. D’Epinay 1991) – mais tardia no caso português (Arroteia 1994) – e. por outro lado. procura-se mostrar a densa teia de racionalidades que estruturam as práticas destes actores sociais. interesse. com a consolidação do Estado-Providência (Santos 1993) nos países europeus centrais (Boissevain 1996. Um dos mais recentes é o do Nordeste brasileiro. muito intensa a partir dos anos 60. o próprio desenvolvimento do capitalismo na procura e invenção de novos mercados e produtos (Ribeiro e Portela 2002). Debié 1995.pt Este texto analisa as interacções entre os turistas europeus e as garotas de programa na cidade de Natal (Brasil). Turistas e locais participam em complexos jogos de poder. a performance sexual e as emoções. Nesta vasta região. afectos. o corpo. com destaque para o dinheiro. conduziram à incorporação sucessiva de novos destinos na geografia mundial das rotas turísticas. Tal interpela as imagens “a preto e branco”. turismo 0.

1 Deste vasto fluxo turístico passaram a fazer parte indivíduos de classes e grupos sociais até então apenas marginalmente envolvidos. em particular. publicidade e consumismo que caracterizam as sociedades modernas (Baudrillard 1981).000 (24. Com um crescimento verdadeiramente impressionante nos últimos cinco anos. depois de Fortaleza e de Salvador. muito em particular no sudeste asiático (Cohen 1982. elas são fortemente determinadas pelas imagens. Truong 1989. com um aumento vertiginoso dos provenientes do estrangeiro (282. mamã e filhos”.84% superior a 2002). os voos charters internacionais passaram de cinco em 2002 para 17 por semana em 2004. Considerando que na economia do turismo as commodities não possuem apenas valor de uso e de troca mas também um “valor-signo”. assente no “papá. Saraceno e Naldini 2003) têm vindo a repercutir-se significativamente na configuração da procura turística.700. a procura de sexo por parte dos turistas. Por outro lado. as profundas alterações sociológicas no domínio da família experimentadas pelas sociedades europeias nas últimas décadas (Berry-Brazelton 1989. Por outras palavras. Singly 1993. fazendo com que entre os turistas se assista a uma presença crescente daqueles que escapam ao padrão dito tradicional.2 um dos principais destinos turísticos. 92. como os jovens e adultos pertencentes aos meios populares. de origem operária ou trabalhando em actividades mal remuneradas do comércio e dos serviços. Não sendo um fenómeno desconhecido noutras paragens.000. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . cabendo aqui um especial realce para a sua capital. não escapa a esta mercantilização. a cidade de Natal. muitos deles solteiros ou transitoriamente sem parceira/o sexual. motivadas por um conjunto de representações e expectativas ancoradas em imagens de erotismo e de acesso fácil à fruição sexual. pelo menos desde os anos 60. através da publicitação da 1 Dados disponibilizados pela Secretaria de Turismo do Estado do Rio Grande do Norte. contribuindo assim para que o número total de turistas atingisse os 1. 1993.2% superior a 2002). Natal é a cidade com maior número de visitantes estrangeiros no Nordeste brasileiro. cujas deslocações são. De facto. Hitchcock et al. amiúde. Tal é particularmente evidente nos turistas jovens do sexo masculino que afluem ao Nordeste brasileiro. impulsionado pelas entidades públicas ligadas à promoção turística no Brasil. que parece constituir uma motivação presente em numerosos europeus que visitam o nordeste brasileiro (Piscitelli 2004) e. relacionado com a quantidade e a qualidade da experiência que oferecem. Leheny necessariamente de modo intencional.

portanto. o corpo. incluindo aquelas que se fundam no género. enunciados nomeadamente pelos media e pelo senso comum. 2 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . suscitando a atenção dos media e das forças políticas do Estado. Partindo de perspectivas sócioantropológicas e explorando os elementos etnográficos que recolhemos durante o trabalho de campo realizado no Verão de 2005 na cidade de Natal. Em concreto. por sua vez. nas quais o turista é sistematicamente apresentado como o predador que Gringo. Torna-se. em determinados momentos. é usada nos discursos sociais para fazer referência a mulheres que se prostituem ou que são tidas como sexualmente promíscuas (Gaspar 1985). pertinente trabalhar sobre este interpelador campo social. é nosso objectivo central interpretar a densa teia de motivações. A designação garotas de programa. do género e das emoções que exige uma reflexão sociológica densa e um conhecimento empírico aprofundado. a performance sexual e as emoções. como notam Silva e Blanchette (2005). que marcam os intercâmbios entre o Norte e o Sul –.3 imagem da mulata com bunda generosa. que nos ajudam a desconstruir as imagens monolíticas. Neste exercício é fundamental assumir-se que a sexualidade humana. à procriação. Entre os turistas e as mulheres locais estabelece-se um intrincado jogo de relações sociais em torno da sexualidade. com destaque para o dinheiro. 2 Tentando escapar aos discursos vulgares. Hoje em dia trata-se de uma realidade social incontornável e de grande impacto em Natal. racionalidades e interacções que envolvem estes actores sociais. conhecidos localmente como gringos. turistas e locais envolvem-se em complexos jogos de poder. é um termo que no Brasil se aplica a qualquer estrangeiro. incluindo os que se prendem com o sexo mercantil e o turismo. encontramos formas muito diversas de relacionamento sexual que se concretizam em diferentes contextos sociais. Se é certo que não deixa de estar marcada pelas relações de poder entre os de fora e os locais – que nos remete para a problemática das desigualdades. a compreensão cabal desta teia densa de relações sociais exige que se tomem em consideração outros aspectos. se orienta para a procura doutras satisfações. apesar de estar associada. procuraremos reflectir sobre as relações sociais que os turistas. estabelecem com as garotas de programa. implicando a manipulação de recursos. quer do ponto de vista económico quer do ponto de vista do imaginário colectivo e das representações dos actores sociais locais e dos turistas que visitam a cidade. não tendo necessariamente uma conotação pejorativa. Longe de existir apenas um único modo de a fruir.

Embora muito diferente em termos paisagísticos e a uma escala mais reduzida. restaurantes e bares. É aqui.4 apenas procura satisfação sexual e. Durante séculos os seus habitantes viveram praticamente de costas voltadas para a praia. aparthotéis. cultivando as suas terras férteis. nos bares e nas discotecas que gringos e garotas constroem relações sociais nas quais o corpo. 4 Por detrás da praia localiza-se a pequena vila de Ponta Negra. no calçadão. com uma faixa de areia interrompendo a vegetação. nomeadamente identificando ristorantes. A presença italiana faz-se notar através dos inúmeros anúncios escritos na língua de Leonardo da Vinci. desprovida de self-ownership sobre o seu corpo e a sua sexualidade. a vila está hoje mergulhada num acelerado processo de gentrificação. mulheres ou transgéneros. como o tipo de envolvimento emocional e a questão do poder no contexto das relações de género. pizzerias e outros negócios ligados ao turismo. situada no extremo sudoeste da cidade. realizando obras de ampliação e de melhoramento das habitações. esta articulação entre turistas e sexo mercantil compreende outros aspectos. Constituindo hoje um espaço-chave na “cidade do prazer” (Lopes Júnior 2000). Um lugar dionisíaco e economicamente dinâmico: a praia de Ponta Negra Um dos principais cenários turísticos de Natal e com maior presença de garotas de programa é a praia de Ponta Negra. Trata-se da discussão sobre os limites do direito de cada um dispor do seu próprio corpo. que dão um ar americanizado à cidade. Em plena praia posicionam-se pequenos espaços de apoio aos veraneantes. nas esplanadas. a praia é dominada pelo “morro do careca”. uma encosta belíssima debruçada sobre o mar. Com o turismo e a expansão da cidade. Mas não só. 4 Ao longo dos cerca de dois quilómetros da estreita língua de areia que dá corpo à praia erguem-se hotéis. em troca de remuneração mercantil. Os prédios altos. a sexualidade e o dinheiro aparecem como elementos estruturantes. Vallentyne e Steiner. amplamente discutido pelos filósofos libertários (Van Parijs 1997. situam-se precisamente por detrás da primeira linha de praia. por outro lado. 3 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . oferecendo esteiras. 3 1. guarda-sóis e serviço de bar. homens. melhor dito. incluindo o da utilização para satisfação do prazer físico e emocional de outros. a mulher jovem local vista como vítima. pousadas. os prédios que ficam na encosta da praia fazem lembrar alguns dos piores exercícios Em termos filosóficos. 2000a e 2000b). turismo sexual e sexo mercantil interpelam o princípio do chamado selfownership. com numerosas residências e propriedades adquiridas quer por europeus quer por natalenses que aí decidiram fixar residência.

muitos deles politicamente engajados nas lutas estudantis contra a ditadura militar. transportando-as de suas casas para a praia. distante da cidade e com acesso precário. 6 Quer dizer.5 urbanísticos do Algarve e da costa andaluza espanhola. da praia como um lugar idílico. primeiro Pirangi e Cotovelo. Relevando o seu sentimento de perda. numa zona de paisagem protegida. a venda ambulante dos mais variados produtos (tabaco. vivem das dinâmicas económicas geradas. 5 Esta praia. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . as condições suficientes para experiências sociais mal toleradas pela ordem político-moral dominante. É assim que temos. 6 Numa notícia saída no jornal “Tribuna do Norte”. era nos anos 60 e 70 do século passado um point de “alternativos”: jovens das classes mais privilegiadas de Natal. que encontravam neste espaço paradisíaco. quinquilharia. incluindo aquelas ligadas ao sexo e ao consumo de estupefacientes. o comércio e serviços prestados pelas barracas do areal. nesta economia do prazer todas as demais actividades. encarregando-se também do seu transporte aos motéis e 5 Avançando pela estrada marginal. presença obrigatória em todos os catálogos e brochuras de promoção turística editados pelo governo estadual e pelo município local. pelas trocas sexuais de carácter mercantil. os bares e as discotecas da avenida marginal. Ponta Negra era qualificada como uma “praia de apelos sexuais” (Francisco 2004). A expansão da cidade e. como o transporte de passageiros em táxis. onde se acampava e se faziam fogueiras. De forma recorrente cooperam entre si para dinamizar os consumos por parte dos turistas. empurrou os alternativos para praias mais distantes. as lojas de artesanato. um deles afirmou que “onde a civilização chega acaba com tudo”. os estupefacientes. construída nos anos 90 do século passado. Todos os actores sociais envolvidos parecem saber com precisão o lugar ocupado nesta divisão social do trabalho do prazer. em especial. roupa. Nesta praia tudo parece girar em torno do sexo mercantil. com a ocupação de um litoral dunar muito sensível por um sem fim de hotéis e empreendimentos turísticos literalmente em cima do mar. CD e DVD. directa ou indirectamente. que liga a zona de Ponta Negra ao velho forte construído pelos portugueses no século XVI. mais tarde Pipa. ao início da noite. sempre repletas de trabalhadoras sexuais. actualmente a praia mais cosmopolita do Rio Grande do Norte. sente-se o carácter predador do turismo. ao ponto de os habitantes locais até já a terem (re)baptizado com o nome de Puta Negra. Muitos destes “alternativos” falam hoje com saudade deste tempo em que a praia não estava bordejada pela urbanização avassaladora. fastfood). os taxistas a colaborar com as garotas. o desenvolvimento do turismo. os próprios agentes policiais. entre outros exemplos. fruta.

Nada falta para o conforto de um tempo bem passado. nomeadamente o “familiar” e o de proveniência interna. mormente para Recife. frutas. Marcada pela auto-exclusão quase geral dos natalenses das classes sociais mais privilegiadas. servem bebidas e refeições. os comerciantes informais podem conseguir por mês rendimentos entre dois a três salários mínimos (cerca de 750 a 1000 reais). alguns com belas pinturas. 7 os vendedores ambulantes percorrem a praia sem cessar. Ainda que muito variável. vendendo de tudo um pouco: roupa. as políticas neoliberais empurraram milhões de brasileiros para o campo da economia informal. são transportados em carrinhos de mão apresentados de uma forma impecável. geralmente marcada por actividade sexual intensa e pelo consumo em grande quantidade de bebidas alcoólicas. na escolha da parceira.8 Durante o dia. CD e DVD. Relevando o engenho dos seus proprietários e um certo sentido de negócio. Ao mesmo tempo disponibilizam a estes contactos de garotas anotados nos seus books – agendas ou pequenos cadernos de registo de contactos telefónicos –. Além dos taxistas. Os barraqueiros alugam cadeiras e toldos. Incapazes de gerar emprego formal. gelados. Os produtos mais pesados. a mediação entre as garotas e os turistas pode envolver vários outros intervenientes. os carrinhos de venda de CD e DVD fazem-se anunciar através de equipamento sonoro simples. num vai-e-vem aparentemente ininterrupto. por vezes. não deixando. muitos turistas aproveitam para recuperar da noite agitada. única forma de garantir a sobrevivência e o acesso ao consumo mercantil. 8 Não sendo relevante para a presente discussão. Foi uma invenção dos mercadores sertanejos que viajavam desde o sertão nordestino para as cidades do litoral. crepes. aconselhando-os mesmo. ora aproveitando para estabelecer novos contactos.6 hotéis para as “transacções” com os turistas. Durante estas longas e fatigantes viagens tinham na “carne-sol” moída no pilão e misturada com farinha o seu principal alimento. todavia. cremes solares. de conviver com as garotas de programa. 7 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . ora continuando a relação social já estabelecida. amêndoa de caju. durante o período diurno a praia é frequentada não só pelos turistas em busca de sexo mas também por outros tipos. como as bebidas. camarão. com base na aplicação de um auto-rádio alimentado por uma pequena bateria e dois altifalantes de qualidade modesta parecendo quase sempre ligados na sua máxima potência. como por exemplo o comerciante da barraca e algum dos seus empregados. esta situação revela o papel social decisivo desempenhado actualmente pelas actividades informais no Brasil. para aí venderem e comprarem mercadorias. Estes são realizados quase sempre por iniciativa das jovens Um dos pratos mais populares é a paçoca: carne seca moída acompanhada de molho vinagrete e feijão. bebidas. O uso social da praia varia consideravelmente do dia para a noite.

aliás. uns a pé. de nacionalidade italiana. extorquindo aos turistas que se deslocam em carros alugados pequenas quantias monetárias em troca do perdão de multas relativas a infracções reais ou imaginárias por eles cometidas. A noite começa invariavelmente por algum bar ou restaurante. Pará e Amazonas – os mais distantes. Turistas e garotas vão chegando. Daí segue-se para as barracas em frente das discotecas acima referidas. Assim que a noite se impõe. quer circulando em viatura automóvel. estas “[…] aproximações adquirem características de uma paquera […] remetendo a padrões tradicionais de cortejo”. como Paraíba. Para além destes actores sociais. do olhar. do sorriso.7 nativas. não raro com música ao vivo. Ceará. preparados para as corridas em direcção aos motéis ou aos hotéis onde eles se alojam. algumas provenientes de outros Estados brasileiros. Pertencendo ao mesmo proprietário. marcam também presença agentes da Polícia Militar. que “é raro pegar na discoteca alguma mulher que não seja de programa”. Segundo o respectivo proprietário. não deixam de ir retirando alguns benefícios desta economia do prazer. ou talvez para um destino mais afastado. Se bem que exerçam um papel dissuasor da criminalidade. Maranhão. Diga-se. da solicitação de um cigarro. Aos restaurantes e bares fixos juntam-se cerca de meia dúzia de barracas móveis. em virtude do movimento não justificar outra solução. a exposição para o turista e a interpelação que se segue é feita de forma mais ou menos subtil: através da postura corporal. montadas ao início da noite em pleno passeio mesmo em frente das duas discotecas da praia. quer em posição fixa. outros transportados por táxis que estacionam na avenida. para onde converge a grande maioria das garotas de programa e dos turistas de Ponta Negra. como um dos nossos informantes relevou. Depois de mais algumas cervejas. caipirinhas ou outras bebidas alcoólicas. Por norma. a diversão continua sobretudo na discoteca da avenida da praia de serviço nessa noite. como é o caso dos visitantes cujos hotéis se localizam na própria avenida da praia ou nas artérias adjacentes. estas discotecas funcionam em regime alternado. ao mesmo tempo que tentam obter das garotas de programa alguns serviços sexuais gratuitos. onde também existe animação nocturna. o areal esvazia-se em favor do calçadão e dos estabelecimentos de restauração e de diversão alinhados ao longo da avenida que bordeja a praia. em cada noite podem ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . nomeadamente para a avenida que faz a ligação da praia ao centro da cidade. Como nota Piscitelli (2006). Pernambuco – os mais próximos –.

São. desejos e sexualidade. de que resulta a combinação de numerosos consumos sexuais de carácter mercantil. 2. quase sempre motivados pelas representações sociais dominantes sobre a sexualidade da “mulher 9 O’Connell-Davidson (1995: 53). perfis de masculinidade e estrato social. aferindo as expectativas de ambos. com destaque para esta. Tratam-se de interacções definidas por um jogo de sedução no qual o discurso. profissões. adverte que não existe nada de verdadeiramente particular ou distintivo nos seus comportamentos. sobretudo. profissionais técnicos). os gestos e o uso do corpo desempenham funções importantes. portanto. Temos assim o predomínio de turistas de nacionalidade espanhola e italiana. referindo-se aos turistas ingleses que procuram sexo comercial na Tailândia. Podendo prolongar-se por várias horas. entre outros aspectos. homens insatisfeitos com as relações de género nos seus contextos de origem. os actores envolvidos dão-se a conhecer. normalmente viajando em grupo (3 a 6 elementos). de um modo geral. Não há. É neste espaço que as interacções entre turistas e garotas atingem um nível elevado de erotismo e sedução. como por vezes se sugere. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . na sua maioria jovens adultos (entre os 30 e os 40 anos). idades. Ainda que se encontrem as mais diversas posições de classe. nomeadamente em termos de duração do possível relacionamento. um turista típico no quadro do chamado turismo sexual. preferências sexuais e recursos financeiros a mobilizar por parte do turista. existem determinados elementos caracterizadores que sobressaem. há uma certa preponderância dos indivíduos das classes populares (trabalhadores fabris) e. Embora seja inadequado falar-se de um perfil-tipo de turista sexual. Buscando aventura. funcionários públicos.8 passar por lá cerca de 300 mulheres à procura de programas com gringos. 9 O seu comportamento deverá ser interpretado sobretudo por referência a condicionalismos de ordem sociológica. dos diversos segmentos das classes médias urbanas (empregados do comércio e dos serviços. motivações. sexo e romance: os gringos Os turistas que frequentam a praia de Ponta Negra à procura de aventuras sexuais evidenciam uma considerável diversidade no que diz respeito aos seus países de origem. quando se diz que os turistas que vêm à procura de sexo são indivíduos sexualmente perturbados.

com os estereótipos da mulher brasileira como sexualmente libertina e promíscua. Apesar desta avaliação desfavorável à mulher europeia. e o relativo constrangimento em conviver com uma feminilidade ocidental que continua a colocar algumas limitações às preferências e valores predominantes da masculinidade são dois elementos centrais a considerar para compreender o fenómeno do turismo sexual (O’Connell-Davidson 1995: 52). sobretudo os italianos. mais altivas. com 31 anos. também constatada por Piscitelli (2006) entre os turistas que visitam Fortaleza. Como dizia um italiano. por razões que certamente se prendem com aspectos relacionados com a afinidade cultural e. Referem-se às brasileiras como mulheres sexualmente “mais quentes e mais afectuosas”. Alguns deles. sublinhando. para os grupos de gringos que visitam Ponta Negra. Os turistas com quem falámos tendem a estabelecer uma diferenciação bastante vincada entre as mulheres brasileiras e as europeias.9 brasileira”. técnico administrativo no porto de Nápoles. classificam-nas como “mais simples”. especialmente válido para os turistas mais velhos. num registo de certo modo paradoxal. Deste modo. no sentido de estarem disponíveis para um relacionamento menos atado à fase do enamoramento em favor de uma interacção sexual mais imediata e intensa. “a brasileira é boa para transar. dizem que as europeias são “mais frias. mais conservadoras. a italiana é boa para casar”. o turismo parece ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . em boa medida amplificadas pelos discursos mediáticos de impacto global e pelas narrativas dos amigos e conhecidos que se envolveram em experiências sexuais com brasileiras em viagens turísticas ao Brasil. Em contraponto. como veremos. de status ou de apresentação do eu. ainda que daqui não se possa afirmar. eventualmente. mais snobes”. Considerando que não dão tanto valor à aparência do homem como na Europa. a procura de recriação dos laços e das vivências masculinas que antecedem a rotina e as responsabilidades da vida adulta (Kruhse-Mountburton 1995). que a dimensão afectiva não esteja presente. solteiro. destacam também que as garotas de programa têm um grande interesse pelo dinheiro. A estes dois elementos junta-se um terceiro. A maior dificuldade de acesso às mulheres que os turistas gostariam de conquistar nos seus contextos de origem. são muitos os que admitem preferir casar com uma mulher do seu país em detrimento de uma brasileira. ou seja. que elas ligam muito à aparência e à capacidade económica do homem. seja por motivos económicos. relacionado com as expectativas de revivalismo de experiências de homossociabilidade da juventude.

como destaca Kruhse-MountBurton (1995: 197). ao dever e à obrigação […] e também a liberdade para a fantasia.10 assumir-se como uma experiência de liminaridade. explica porque é que turismo. não raro. “o turismo sexual tem subjacente um potencial de rejuvenescimento […] o sentimento pessoal de conquista e poder que proporciona pode constituir uma compensação para um indivíduo que. de um modo geral. Neste contexto de excessos tem lugar um estreitamento dos laços homossociais entre os membros do grupo. ou seja. Delgado 2004). imaginação e aventura”. em virtude da distância que os separa dos seus contextos de origem. “viajar proporciona anonimato e evasão face ao controlo. sexo e romance se encontram tão interligados”. “a liminalidade. eventualmente. decorrente de uma experiência de transição espacial e social. de ruptura face às restrições sociais da vida quotidiana (O’Grady 1981) e de (re)constituição de um espírito de communitas masculina (Turner 1974). de estupefacientes. Santana 1997. No entender de Bauer e McKercher (2003: xiv). O turismo sexual constitui. Com efeito. Como nota Franklin (2003: 255). Jafari 1987. uma expressão extrema da ruptura com a previsibilidade e os constrangimentos quotidianos que o turismo de massas ambiciona (MacCannell 1976. assim. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . atenuou. a diversão e o prazer como forma de ruptura com o quotidiano laboral. proposto por Cohen (1979) para designar os turistas que procuram. que os turistas de Ponta Negra enveredam por um estilo de vida dionisíaco. aventura e fantasia. parecem não manifestar qualquer tipo de preocupação ou constrangimento pelo facto de serem vistos na companhia de garotas de programa. amor. é incapaz de manifestar qualquer tipo de autoridade efectiva”. sentir de novo o poder e o orgulho viril que a vida quotidiana. os turistas que visitam Ponta Negra. pela festa e transgressão (Bataille 1962) e pelos excessos dionisíacos (Benedict 1950). na sua vida quotidiana. essencialmente. Desta forma. É precisamente num ambiente de anonimato. o que nos permite incluí-los no tipo “hedonístico”. perante os quais se procura (re)afirmar os atributos de masculinidade (muito em particular os que dizem respeito à capacidade de conquista sexual) e. caracterizado pela liberdade face às normas sociais quotidianas – situação social anti-estrutural –. a deslocação temporária do turista da sua vida quotidiana. A sua estadia em Ponta Negra é marcada pelas constantes saídas em grupo para os bares e discotecas à procura das mulheres locais e pelo consumo desregrado de álcool e. assim.

procurando. não resultam. parecem não nutrir grande simpatia pelo brasileiro. assumindo-se. Impõe-se. portanto. assim. tendem a referir-se ao fenómeno do turismo sexual como um contexto no qual os homens poriam de lado as emoções e dariam livre curso à sexualidade. É precisamente tendo em conta este tipo de interesses que elas parecem não denotar grande preferência pelos portugueses. Dizem que os portugueses são “cafussú (querem comer [ter relações sexuais] de graça). nem tampouco exclusivamente. associando-lhe uma imagem de pé rapado (sem capacidade económica) e de machista. da sua competência de sedução.11 As conquistas sexuais que os turistas tanto procuram exercitar. para as garotas de programa como simples objectos de satisfação sexual. como veremos. em muitos casos. de acordo com os interesses económicos daquelas. como também com vários outros aspectos que remetem para o domínio da afectividade. mediáticos e do senso comum que. questionar alguns discursos teóricos. um derivado da ilusão que as garotas de programa criam como estratégia comercial subjacente à sua actividade. Amiúde. envolvimento e conforto emocional. São. na maior parte dos casos. A valorização dos afectos e das emoções por parte de muitos turistas constitui um traço identitário não enquadrável naquelas que são as expectativas sociais dominantes do que é ser homem. são eles próprios alvo de manipulação. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . que fodem bem. mas pagam mal”. retomam nos períodos de férias seguintes. Só assim se compreende o facto de muitos deles desenvolverem relações de longa duração com uma única mulher que. no essencial. pelo contrário. consequentemente como uma manifestação “subordinada” de masculinidade (Connell 1995). Na construção desta ilusão. De igual modo. de forma linear e acrítica. Isto porque muitos dos turistas não procuram apenas gratificação sexual mas também intimidade. Os turistas não olham todos. concretizar as suas fantasias sexuais e afirmar a sua virilidade. elas preocupam-se não só com as questões mais directamente vinculadas à esfera da sexualidade.

portanto. A ilusão é-lhe presenteada a troco de dinheiro” (2004: 177). as garotas de programa constroem um simulacro (Baudrillard 1991) no qual se apresentam como completamente rendidas à capacidade de sedução e de conquista dos indivíduos que com elas interagem. As garotas de programa parecem ser especialmente entendidas nesta arte de sedução manipulatória.. 10 Neste processo estratégico de criação de uma “ilusão de ‘normalidade’” (Piscitelli 2006). Muitos dos turistas julgam mesmo como genuínas as atitudes e emoções das garotas de programa. para a disseminação de uma imagem (racializada) da mulher sul-americana altamente valorizada no mercado erótico. contribuindo. erótica e sexual da mulher brasileira que emergem nos discursos dos turistas com quem falámos e em muitos outros que partilham as suas experiências no ciberespaço. Fazendo intimidades e aspirando a uma outra vida: as motivações e os projectos das garotas de programa Mais ou menos conscientes de que a uma grande parte dos turistas não interessa apenas o sexo pelo sexo. O beijar na boca constitui um dos principais componentes do simulacro da sua rendição emocional. que deve ser entendido no contexto de uma representação do relacionamento como estando dentro da norma e do socialmente reconhecido como o namoro e o sexo monetariamente desinteressados. Idêntica situação é constatada por Oliveira no seu estudo sobre a prostituição de rua na cidade do Porto (Portugal). 2005). a que não é alheia a própria alteração da geografia internacional do turismo sexual. 10 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . o que nos permite Comportamento totalmente diferente têm as trabalhadoras sexuais que exercem a actividade na zona raiana de Portugal e Espanha. mas também romance e emoção. como uma forma de demarcação da fronteira entre a esfera profissional e a pessoal (Ribeiro et al. como amplamente o demonstra Piscitelli (2005). mas está a fazer sexo sozinho. gringos e garotas. Não são. manipulando assim as suas impressões e fazendo-lhes acreditar na genuinidade da cena. Algo que foi também observado por Manita e Oliveira (2002) e Handman e Mossuz-Lavau (2005). as quais. elas encenam uma realidade em função daquilo que julgam ser as expectativas dos gringos.12 3. por norma. recusam beijar os seus clientes. de estranhar as inúmeras construções acerca da competência emocional. não tendo efectiva consciência de que elas estão apenas a desempenhar o seu “papel”. partilhada por ambos. levando-a mesmo a referir-se às trabalhadoras sexuais como “vendedoras de ilusões”: o cliente “[…] pensa que está a fazer amor com uma mulher.

Nestes casos de relacionamento amoroso. destacando que não há uma fronteira nítida entre a prostituição e o casamento. estabelecer um relacionamento amoroso com um ou outro turista que a ajudará economicamente e que. ao ponto de se poder considerar o matrimónio com um estrangeiro como a consequência última do exercício do sexo comercial. permitindo-lhe conquistar e fidelizar clientela e. No nordeste brasileiro é ainda bastante frequente o homem bancar a mulher. configurações que fazem lembrar as obrigações que sustentam o tradicional contrato matrimonial patriarcal. a que surge associada uma “[…] ilusão de ‘normalidade’ que possibilita aos visitantes não necessariamente se perceberem como clientes” (Piscitelli 2006). Cohen (2003: 66) mostra a frequente evolução e continuidade de uma relação comercial para uma relação matrimonial.” Esta é uma situação favorável à concretização dos interesses comerciais e/ou dos projectos de vida da garota de programa. aos seus serviços sexuais. tendo como contrapartida o seu trabalho em casa e o acesso. ser bancada (sustentada) por ele e. aquilo que começou por ser uma relação meramente prostitucional – prestação de serviços sexuais a troco de dinheiro – evolui para uma relação de um certo envolvimento afectivo. de competência viril e crê ser um autêntico Don Juan. geralmente. em princípio em regime de exclusividade. segundo o qual é obrigação do marido bancar a sua esposa. não raro. Debatendo a articulação entre a prostituição orientada para turistas na Tailândia e o fenómeno dos casamentos transnacionais entre nativas e estrangeiros. esta vertente mercantil não desaparece. na Tailândia. um simulacro no qual ele parece sentir-se inebriado de poder. eventualmente. No entanto. assumindo. O’Connell-Davidson (1995: 45) refere o seguinte: “[…] todos os turistas sexuais que entrevistei comentam o facto de que. mais tarde. como também (e sobretudo) uma ilusão de conquista. 11 Entra-se então aqui num contexto de “prostituição difusa”. ou melhor. mas sim uma grande ambiguidade. 11 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . A este propósito. vivem como ‘reis’ ou playboys. ir para a Europa. poderá até permitir-lhe a realização do sonho da maioria das jovens que fazem programas em Ponta Negra: casar com um gringo. sendo que a vertente mercantil associada à sexualidade começa gradualmente a tornar-se menos explícita.13 dizer que o turista não compra apenas serviços sexuais.

13 Com programas por noite raramente inferiores a 150 reais. é forçoso sublinhar que o turismo sexual não se circunscreve necessariamente à prostituição. quantia equivalente a cerca de 300 euros) para abandonar a prostituição.000 reais (cerca de 1. o pagamento da renda de casa. entre outros.14 Os benefícios que a garota de programa retira de uma situação em que é bancada pelo gringo podem incluir a mesada. Podendo esta existir (e normalmente está presente) em contextos turísticos. ao ponto de se auto-excluírem desse local. entendida aqui numa acepção restrita: a disponibilização do corpo em troca de remuneração material (designadamente monetária) e. 13 que parece pertinente admitir que o trabalho sexual lhes permite um relativo empowerment económico e social. No entanto. a compra de serviços sexuais a troco de dinheiro. É precisamente tendo em conta estes benefícios. os ganhos mensais podem ser superiores a 4. suspendendo a actividade somente quando o recebe de visita em Natal. Nas situações em que as garotas de programa são bancadas por um gringo não há uma mercantilização directa e imediata da sexualidade. 4. pobres e maioritariamente mestiças. poderá estar na origem do desconforto que as camadas sociais privilegiadas de Natal manifestam relativamente à prostituição em Ponta Negra. e na esteira do que é referido por Oppermann (1998. isto é. em regra e prioritariamente. abrindo-lhes a porta para uma estilização da vida semelhante à fruída pelas classes mais privilegiadas. 12 a aquisição de móveis para a casa. esta ascensão social de mulheres jovens. Considerações finais A praia de Ponta Negra faz parte das rotas turísticas globais. Enquanto espaço de Uma garota de programa que entrevistámos confidenciou-nos receber do seu namorado italiano uma quantia mensal na ordem dos três salários mínimos (cerca de 1000 reais. não há de facto prostituição. São benefícios extremamente significativos atendendo a que a generalidade delas provem das camadas sociais mais desfavorecidas. a fruição da sexualidade em tempo de férias não tem de estar estritamente a ela associada. 2003). 14 Ao colocar em causa a “ordem natural das coisas”. sem ele saber. bem como o facto de a maioria das garotas de programa ter um rendimento bastante considerável para a realidade brasileira. 12 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . começando já a destacar-se como um destino do chamado turismo sexual.500 euros). continua a fazer programas. pelo lado da procura. presentes diversos. 1999) e Cohen (1982. para satisfação ou prazer sexual. ajudas pontuais à família dela ou aos filhos. 14 Face a isto.

que lhes permite desafiar a desigualdade estrutural de género e os estereótipos dominantes que organizam a condição feminina. Se bem que as suas interacções sejam atravessadas por poderes assimétricos. por si só. nomeadamente na esfera sexual. Deste modo. portanto. o poder não está estruturalmente atribuído ad eternum aos indivíduos em concreto. Em lugar das visões a “pretoe-branco”. a alegada supremacia económica dos turistas. Ao invés do sugerido pelos discursos do senso comum e outros. de contingências várias presentes nos contextos em que ocorrem as suas interacções. Quer dizer. não serão sempre os dominantes. nela se exprimem e articulam de modo muito próprio as motivações. questionamo-nos sobre quem explora quem na relação turista-garota de programa e encaramos com sérias reservas os discursos mais comuns que tendem a apresentar as trabalhadoras sexuais como a parte exclusiva e sistematicamente explorada. à semelhança do que acontece em muitos outros destinos. não significa. nem pode ser vista como o único factor determinante na configuração dos processos relacionais entre estes actores sociais. vinculados a práticas de envolvimento sexual marcadas pela violência e o completo descomprometimento ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . as garotas colocam em campo os seus atributos físicos e recursos eróticos.15 acolhimento deste tipo de turismo. nem aqueles que sempre “ganham”. incapazes de captar a densidade das relações sociais que envolvem turistas e garotas. através do uso eficiente dos seus recursos. presente também noutros contextos de trabalho sexual (Barry 1979. em boa medida. como tentámos mostrar através da mobilização dos elementos etnográficos recolhidos. à semelhança de Oppermann (1999). mas depende. Como argumenta Foucault (1992). aproveitando criativamente em seu próprio benefício as emoções e os desejos mais profundos dos seus parceiros vindos do outro lado do Atlântico. Admite-se. uma capitalização automática de poder. Heyl 1979. Hart 1998). a possibilidade de as mulheres locais deterem algum nível de autonomia. nomeadamente sexuais. à partida favorecendo os gringos. em contraste com a debilidade económica da generalidade das mulheres locais com quem eles sexualmente se relacionam. Daqui decorre que os turistas. as jovens locais são muitas vezes capazes de inverter as posições. os interesses e os desejos dos turistas e das mulheres locais. impõe-se considerar que uns e outras estabelecem relações sociais permeadas por complexos jogos de poder. não é possível qualificar os turistas como indivíduos sexualmente pervertidos. Enquanto que os turistas mobilizam sobretudo os seus recursos económicos.

1989. Nova Iorque. mais importante ainda. Nova Iorque. Thomas e Bob McKercher (orgs. Avon Books. La Famille en Crise. Haworth Press. 1981. pelo menos de forma directa e imediata. Relógio d’Água. bem como nos interesses que lhes são subjacentes. BAUDRILLARD. nas quais a componente mercantil acaba por se esbater de forma significativa. empenham-se em estabelecer com eles relações de namoro. que se olhe para o turismo sexual como um continuum (Piscitelli 2006). Jean. 1962. New Jersey. Como os discursos e as observações etnográficas registadas o testemunham. Death and Sensuality: A Study of Eroticism and the Taboo. o relacionamento sexual pode ser atravessado por afectos de grande intensidade que. Love and Lust. Assim. Lisboa. aproveitando a receptividade de muitos turistas. algumas acabam por o conseguir. 1991. Kathleen. Paris. Este tipo de situações implica. Jorge. BERRY-BRAZELTON. BAUER. BENEDICT. Referências bibliográficas ARROTEIA. continuam para além do tempo rigorosamente fixado da permanência do turista na cidade. uma considerável heterogeneidade nas relações que se estabelecem entre os gringos e as garotas. Jean. Walker. 1994. Female Sexual Slavery. Stock. BAUDRILLARD.. Padrões de Cultura.). Georges. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Livros do Brasil. Existe. Já as garotas guiam-se por desejos e projectos que não se esgotam na simples obtenção de um rendimento monetário em troca da disponibilização de serviços sexuais. entre um pólo em que ele é coincidente com a prostituição e o pólo oposto em que o relacionamento sexual entre o turista e a garota de programa tem subjacente um maior envolvimento emocional e. Lisboa. Sex and Tourism: Journeys of Romance. Simulacros e Simulação. Lisboa. O Turismo em Portugal: Subsídios para o seu Conhecimento.16 afectivo. desde logo. através de um envolvimento mais duradoiro que pode incluir o casamento com o gringo e a emigração para o seu respectivo país. s/d [1934]. A Sociedade de Consumo. BATAILLE. Aveiro. não raro. Universidade de Aveiro. Edições 70. não está monetariamente quantificado. Guiadas pelo sonho da vida na Europa. T. 1979. portanto. BARRY. 2003. Ruth.

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Para tanto foi implementada uma política de atração de investimentos para a indústria do turismo. desperta nos utentes do bairro. Nos anos 2000. um tema de grande relevância nas pesquisas sociológicas e antropológicas. por parte do governo estadual. ou não usos. passou a ser associada ao turismo. de “modernizar” o Estado do Ceará. iniciaram-se outras formas de uso originando conflitos. O uso social dos seus corpos. entre prostitutas e gringos se relacionam com as novas formas de uso do espaço urbano. tem início na década de 1990. sentimentos relacionados a valores morais. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Ceará-Brasil. Palavras-chave: requalificação urbana.Praia de Iracema como cenário de encontros de alcova Roselane Gomes Bezerra * Universidade Federal do Ceará A Praia de Iracema localizada na cidade de Fortaleza. Os conflitos decorrentes das trocas sexuais. o diálogo entre diferentes formas de ocupação do espaço e novas representações. financeiras e afectivas. turismo sexual e prostituição. Uma nova imagem-síntese se constituiu associando-a ao lugar de prostitutas e gringos. tradicionais e implementando nestes espaços públicos e/ou privados diferentes representações. por meio de projetos de “requalificação” urbana e conseqüentes alterações nos usos do espaço. que há um interesse. tem sido as políticas de intervenções em áreas históricas. No Brasil. capital do Estado do Ceará. Momento. estabelecendo a cidade de Fortaleza como um pólo turístico. descriminação e xenofobia. mediante incentivos fiscais. Em Fortaleza. * Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal do Ceará/Brasil. nos últimos anos. começou a ser difundido um discurso sobre o fim da Praia de Iracema. a imagem de boémia. sentimento de pertença. pertença. É notável nos estudos urbanos que a “requalificação” de áreas históricas e/ou degradadas da cidade vem acarretando em uma ruptura dos seus usos. povoa o imaginário dos fortalezenses como um bairro boémio. turismo. Após a requalificação do bairro no início dos anos 1990.

no inicio dos anos 1990. Nesse sentido. a mídia tornou públicos problemas referentes à degradação física de algumas áreas e a ocupação de certos lugares. O objetivo desses projetos de requalificação era transformar áreas “degradadas” em lugares de entretenimento. estas muitas vezes os orientam. assim como os processos simbólicos de inclusão e exclusão de seus utilizadores. quando a imagem de boêmia passou a ser associada ao turismo. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . imagens e discursos dos utilizadores do bairro em diferentes momentos de sua história. No início dos anos 2000. por meio das narrativas dos utilizadores da Praia de Iracema. Como conseqüência desse fenômeno. uma disputa administrativa entre os governos estadual e municipal com interesse em atrair a atenção de moradores da cidade e de turistas para este bairro que se tornara a “vitrine” de suas políticas administrativas. que os usos que se fazem nesse espaço não estão separados das imagens. Um breve passeio pela história da Praia de Iracema nos permite entender a constituição das representações. Contudo. ocorreu forte especulação imobiliária. surgiram dissensões quanto às formas de ocupações desse espaço.2 As políticas de “requalificação” urbana em Fortaleza tiveram lugar no bairro Praia de Iracema. O bairro Praia de Iracema passou a ser o cenário das políticas de requalificação em virtude das representações construídas ao longo de sua história. na década de 1990. Ressalto ainda. Os utilizadores deste bairro reforçaram. Chegaremos aos dias de hoje percebendo como e porque a Praia de Iracema se tornara um cenário para encontros de alcova. após essas intervenções. a representação do bairro como lugar de prostitutas e gringos se relaciona diretamente com as formas de uso do espaço urbano. a construção e reprodução de sua imagem como um bairro boêmio e bucólico. consumo cultural e turismo. começou a ser difundido por meio de jornais locais um discurso sobre o fim da Praia de Iracema com ênfase à sua degradação e abandono. Foi notável. Veremos que. sentimento de pertença e afetividade desse espaço da cidade de Fortaleza. contribuindo para a expulsão e permuta de antigos moradores e freqüentadores. as representações sobre Iracema resultam das práticas. uma nova representação se constituiu para defini-la. Neste momento. por meio dos seus discursos e práticas. e assim. associando-a ao lugar de prostitutas e gringos.

solicitando ‘que mude a denominação imprópria e vulgar por que é conhecido aquelle encantador trecho de Fortaleza para a de Praia de Iracema’. ao então prefeito Godofredo Maciel. Como foi descrito por Schramm (2001). foi arrendada às tropas americanas e transformada em um ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . elaborava-se uma imagem do bairro associada ao bucólico e aprazível. a mansão Vila Morena. Tremembés. ganharam fama o Jangada Clube. tem início uma campanha. apoiada pela imprensa local. antes denominado porto das Jangadas. Devido as novas formas de apropriação desse espaço da cidade surgiu a necessidade de se forjar uma nova imagem para aquele lugar. A primeira manifestação pública que permite antever o futuro nome do bairro ocorre em 1924. construída em 1925. e o Hotel Pacajus. pequenas instalações comerciais. Esta elite intensificou a sua inserção na praia. com a construção de casas alpendradas ou do tipo bungalow. que expressasse os novos hábitos e valores. neste período. residência da família Porto. aluguel de calções de banho e guarda de pertences dos banhistas. foram inaugurados na Praia de Iracema os “balneários”. está associado à “descoberta” do banho de mar como medida terapêutica e também como contemplação e lazer por parte da elite econômica da cidade nos anos de 1920. “Um abaixo assinado é encaminhado. Em 1925. Durante a Segunda Guerra Mundial. Houve também a instalação de clubes. As ruas do bairro ganharam nomes de tribos indígenas cearenses: Tabajaras. onde a um bar se agregava um local para troca de roupa. pelos novos moradores do bairro. Groaíras. Guanacés. inclusive no que se refere à sua denominação. para a oficialização da denominação Praia de Iracema. como o Praia Clube e o América. Potiguaras. Na época. de frente para o mar.2001:37). freqüentado pela boêmia de classe média e alta da cidade.3 A origem da Praia de Iracema O surgimento do bairro Praia de Iracema. o primeiro à beira-mar. entre outras” (Schramm. inclusive por meio do epíteto Praia dos Amores. quando a cronista social Adília de Albuquerque Morais lançou a idéia de que se construísse um monumento à heroína do romancista José de Alencar. Desta forma. a ser erigido na orla marítima. fenômeno que “obrigou” os pescadores a mudaram-se para outras praias. praia do Peixe ou Grauçá.

Essa prática foi responsável por gerar uma disputa simbólica entre os moradores da cidade e os visitantes. vindo a atingir.O. que se dirigiam ao local para namorar os oficiais americanos e beber o refrigerante coca-cola. a maré investirá com grande violência. com prejuízos para a própria estética da cidade (O Povo. enciumados. A transformação da paisagem obrigou a saída de antigos moradores e freqüentadores dando início a um discurso melancólico sobre a praia “que o mar carregou 1 ”. os ricos ‘bungalows’ da nossa aristocrática praia. como pode ser lido nos trechos abaixo: Nestes próximos dias. o que acarretou também significativa diminuição da faixa de praia. principalmente no tocante às sociabilidades. através da seguinte canção: «Adeus. O compositor Luís Assunção contribui para a elaboração da imagem de afetividade da Praia de Iracema na cidade de Fortaleza. (United States Organization). que ainda não era consumido na cidade. o Porto do Mucuripe. Praia de Iracema/Praia dos Amores que o mar carregou/Quando a lua te procura/Também sente saudades/Do tempo que passou/De um casal apaixonado/Entre beijos e abraços/Que tanta coisa jurou/Mas a causa do fracasso/Foi o mar enciumado/Que da praia se vingou». A partir de meados da década de 1940.. tornando-se atrativo para as moças da cidade. Parte do casario foi destruído em decorrência da alteração no movimento das correntes marítimas. associando o encanto do bairro à sua apropriação pela elite. especialmente a área conhecida desde o início do séc.S. passaram a chamar por coca-colas as freqüentadoras do cassino dos americanos. o lugar era quase exclusivo aos estrangeiros. 2001. Matérias do jornal O Povo lamentavam a sua destruição. grifos meus). 27 de abril de 1946 apud Schramm. Destacam-se entre os prédios mais visados pela fúria do mar os de propriedade da família João Gentil. pois se a maré próxima for impetuosa assistiremos à eliminação dos ‘bungalows’. a Praia de Iracema começou a apresentar um novo cenário em virtude do avanço do mar.) O fato é que estamos mais uma vez diante de uma situação difícil. do sr. XVIII por Prainha. talvez. jogos e shows. Denominado U. a antiga sede da United States Organization (U. Os rapazes da terra. 1 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .S. José Porto. também viveu transformações. Nesse período.O) e o do antigo ‘Ideal Clube’(.. a imprensa local começava a falar em decadência da Praia de Iracema. e ficou conhecido por suas noites com danças.4 cassino pelos oficiais. decorrente da construção de um novo porto da cidade. O interior do bairro. adeus/Só o nome ficou/Adeus.

A Praia de Iracema tornou-se reduto de artistas. se consolida a imagem da Praia de Iracema como um bairro boêmio.5 Com a transferência do porto da Praia de Iracema para o Mucuripe. a vida [no bairro] era uma festa” (15 de janeiro de 1996 apud SCHRAMM. o bairro foi “descoberto” por novos freqüentadores e se tornou um ponto de encontro de militantes de esquerda. foi inaugurado. também. 09 de dezembro de 2004). transformando-se em prostíbulos. A partir desta década. os armazéns e casas comerciais ligadas aos negócios de exportação foram fechados. que havia sido arrendado a comerciantes portugueses. profissionais liberais e músicos. uma inversão dos valores e normas de disciplina da cidade. El Dourado. assim. Iracema era apropriada por: jornalistas. era freqüentado por boêmios seresteiros. 2001). afamado o local de vida boêmia. Iracema era apropriada por utilizadores “marginais” em relação aos valores sociais vigentes. Eles compartilhavam o mesmo sentimento de pertença ou entendimento sobre o lugar e sobre os seus códigos culturais (Leite. Nos anos 1950. Jangadeiro”(2001:47). militantes políticos e intelectuais. que figurou. em meio às residências da população de classe média e classe média baixa do bairro: Tonny’s Bar. defronte ao hotel. na antiga residência da família Porto. Os seus ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . que funcionava desde 1948. “Na década de 1950. Estes se reuniam no Restaurante Estoril. Nos tempos do regime militar entre 1964-1985. para “ver e ‘fumar’ o pôr-dosol”. Os donos do espaço. contudo. como afirma um ex-freqüentador (O Povo. até os anos 70. Alguns bares surgiram nas ruas de toponímia indígena. Era palco de encontros culturais. ficando. que se dirigiam ao lugar para cantar e namorar. Praticavam. onde existia o cassino dos americanos. que se encontrava em mau estado de conservação. intelectuais. como pode ser visto nesse trecho de uma matéria publicada no jornal Tribuna do Ceará: “mesmo com as torturas rolando pelo país. ocupantes do Estoril. o Restaurante Lido. como casa de pasto que reunia a elite fortalezense. Nick Bar. Nesse período. se apropriaram também da Ponte dos Ingleses. políticos e amorosos. a parte costeira do bairro ainda figurava como um lugar da elite econômica e intelectual. 2001). Como nos mostra Schramm. o Restaurante Estoril.

Nesse período iniciava-se a edificação de prédios com mais de dez pavimentos. ou seja. Assim é que. foi fundada a Associação de Moradores da Praia de Iracema/AMPI e houve grande movimento pela sua preservação. diante das possibilidades de mudanças na lei de uso e ocupação do solo no bairro. uma imagem de bairro decadente. O público que se dirigia ao Bar e Restaurante Estoril e Ponte dos Ingleses. por meio da construção de casas de madeira ou papelão. houve uma mobilização dos moradores e freqüentadores no sentido de sustar aquele processo e solicitar. O bairro era habitado por famílias de classe média e baixa. 1985 e 1986. moradores e freqüentadores não aceitaram as transformações da sua arquitetura. Durante a década de 1980. deram inicio a uma “requalificação espontânea”. ainda se restringiam aos intelectuais. o Cais Bar e o Pirata Bar. uma mudança nas formas de uso e apropriação do espaço. os usos na Praia de Iracema. inaugurados em 1981. O banho de mar perdera sua atração. terminou com os moradores chamando atenção do poder público. entre meados dos anos 1960 e 1980. mesmo fazendo parte de uma elite da cidade. antigos moradores mudaram-se do bairro. para os problemas causados pela especulação imobiliária. respectivamente. Em 1984.6 comportamentos. porém. que a Praia de Iracema fosse reconhecida como Patrimônio Histórico e Cultural da cidade. alguns bares temáticos. Sob protestos. não tiveram êxito. mas. eram legitimados e compartilhados entre os usuários da Praia de Iracema. sem um devido planejamento do poder público. As transformações vivenciadas ali durante a década de 1980. atraíram diversos freqüentadores para o bairro. profissionais liberais. Esse fenômeno ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . era marginalizado por questões ideológicas. políticos. como o La Trattoria. e havia uma ocupação irregular na margem da praia. artistas e universitários. assim como a instalação de uma diversidade de bares e restaurantes em imóveis supervalorizados. É importante ressaltar que Iracema vivenciou. Contudo. além de algumas melhorias. da Praia de Iracema. Entendendo como uma “destradicionalização” daquele espaço da cidade. as tentativas de barrar as construções de edifícios verticais no bairro. por meio dos jornais. pois a pequena faixa de areia que restara recebia somente alguns poucos freqüentadores. com adesão de artistas e intelectuais. a década de 1980. Nesse período.

Assim. o então prefeito de Fortaleza. Nesse novo momento estavam na pauta das reivindicações dos moradores: o combate à poluição sonora. já não era prioridade a transformação do bairro em Patrimônio Histórico e Cultural. com a presença de grande diversidade de estabelecimentos comerciais. No cerne da polêmica. estava a questão de quem tinha direito ao bairro. juntamente com o arquiteto Paulo Simões. alguns gestores da cidade passaram a defender a tese de que a Praia de Iracema possuía uma “vocação natural para o lazer”. Juraci Magalhães. Devido as novas formas de ocupação desse espaço e suas novas representações. mas. Como conseqüência dessa “requalificação espontânea” que estava transformando a paisagem do bairro desde meados dos anos 1980. em junho de 1991. Outro problema que emergiu com as transformações na apropriação do espaço na Praia de Iracema foi a presença de pessoas que não tinham uma tradição boêmia. a paisagem transformou-se rapidamente. apresentaram para os moradores e comerciantes da Praia de Iracema um projeto de urbanização da sua parte costeira.7 que chamo de “espontâneo” foi incentivado pela tradição boêmia do bairro e pela movimentação dos diversos freqüentadores que se dirigiam para alguns bares. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . criou-se um clima de rivalidade entre os empresários estabelecidos e os recém-chegados. Em meio à disputa pelo espaço de Iracema. ao desordenamento do trânsito. à abertura irregular de estabelecimentos comerciais e à especulação imobiliária. A partir de então. graças ao seu passado boêmio. os moradores intensificaram suas lutas na defesa do bairro. empresários da noite se inseriram no bairro com uma grande oferta de bares e restaurantes. restaurantes e para assistir ao pôr-do-sol na Ponte dos Ingleses. Impulsionados pela freqüência desses estabelecimentos e vislumbrando a Praia de Iracema como um novo mercado.

De um lado havia os usuários. que. Carlos Fortuna (1997). mediante inscrições arquitetônicas e urbanísticas que representem visualmente valores e visões de mundo de uma nova camada social que busca se apropriar de certos espaços da cidade (Leite. flats e pousadas. Nesse novo contexto. entre os governos estadual e municipal. havia desmoronado. há uma afirmação simbólica do poder. As intervenções urbanísticas na Praia de Iracema podem ser associadas a uma disputa administrativa. 2001). lugar de artistas e 2 Denominação dada por ex-freqüentadores e moradores do bairro. por meio de obras da Prefeitura Municipal e do Governo do Estado. processo que tenta adequar as tradições locais às demandas globais do consumo cultural. nacionais e internacionais. hotéis. apareceram investimentos da iniciativa privada em bares. que em abril de 1994. o bairro já apresentava diversos sinais da “requalificação” urbana. mediante suas práticas sociais e lembranças – baseadas na imagem de um bairro bucólico. percebo um conflito na ocupação do espaço na Praia de Iracema. boêmio. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .8 A Praia de Iracema “requalificada” Em 1994. Falava-se em “Miamização de Iracema 2 ”. um calçadão a beira mar já fazia parte do novo cenário de Iracema. como a construção do largo Luiz Assunção. habitantes da cidade. Consolidouse a imagem do marketing turístico na Praia de Iracema. Havia um interesse político em estabelecer a cidade de Fortaleza como um pólo turístico. Por meio de uma política de atração de investimentos. mediante incentivos fiscais e da estratégia de Place Marketing (Gondim. essa política de reforma urbana na Praia de Iracema acarretou uma mudança nas práticas sociais e conseqüentemente foi proposta uma imagem do bairro. Alusão a Miame (EUA). esse espaço da cidade de Fortaleza passou a ser consumido por moradores de classe média e alta da cidade e também por turistas. Na política de gentrification. Em meados dos anos 1990. a reforma da Ponte dos Ingleses e a reconstrução do Restaurante Estoril. restaurantes. fala em “conservação inovadora do elemento tradicional”. o calçadão. Neste sentido.2001). Transformando a arquitetura vernacular em paisagem. Paralelamente as intervenções nos espaços públicos do bairro.

está a política de gentrification. ou seja. o processo de “requalificação” acarretou um choque de valores. não tinha proposta. O poder público chegou fez um calçadão superlegal. Na fala de um empresário. não teve..2000). Desta forma. maravilhoso. uma “descoberta” do lugar para “novos freqüentadores”. incentivados por um marketing do lugar turístico. 3 de junho de 1995). É inevitável uma asfixia da Praia de Iracema” (O Povo. É o que pode ser constatado nesse depoimento de Hélio Rôla. eu só tenho a parabenizar. a Praia de Iracema se tornou um lugar de consumo para os novos utilizadores que passaram a ocupar aquele espaço. ex-morador do bairro: “Os donos de bares daqui impõem um repertório na altura que querem e não se relacionam de modo democrático com sua vizinhança.9 intelectuais – forjaram um sentimento de pertença ao bairro. não tinha proposta comercial dentro da Praia de Iracema (. esse fenômeno contribuiu para o início da imagem da degradação da Praia de Iracema. habitantes da cidade e turistas. ótimo.) não deviam ter liberado tantos alvarás pra tanta gente devia ter escolhido o que fazer em cada lugar. De outro. ou seja. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . já que o novo desenho arquitetônico impôs um controle social. onde moradores e freqüentadores antigos se tornam outsiders. aí dá aquele inchaço onde toda casa por menor que ela fosse era um bar. foi assim ao leu e então como não tinha nenhuma proposta desinchou a Praia de Iracema deixou de ser moda o fortalezense enjoou (Entrevista concedida em 27 de abril de 2005). ou seja. em segundo lugar todo mundo vendia a mesma coisa que era uma cerveja com petisco.. Esse processo desencadeou a monofuncionalidade com a predominância de bares e restaurantes no bairro. o modo como as práticas sociais criam seus nexos identitários com os lugares sociais colide muitas vezes com as formulações abrangentes das políticas oficiais da cultura. que transforma a tradição na city marketing. Foi vivenciado naquele bairro o que Carlos Fortuna (1999) chama de “sociabilidades efêmeras”. O maior conflito em relação às novas formas de apropriação era quanto à falta de harmonia entre os bares e as residências que ainda restavam. uma grande valorização dos imóveis e conseqüente aumento nos valores dos aluguéis e dos serviços e produtos ofertados. Como a “requalificação” conduz ao “consumo do lugar” (Zukin. Então você tinha três milhões de bares. ou seja. Como anota Leite (2001). o que foi presenciado na Praia de Iracema foi uma supervalorização dos “produtos vendidos”. você nem andava pelo calçadão.

no final dos anos 1990. No seu entorno. meninos em situação de rua. foi inaugurado o Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura. dando maior visibilidade aos hippies. livraria. Em 1999. 2000) de ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . E a Praia de Iracema “requalificada” começou a apresentar sérios problemas no tocante à ocupação do espaço e manutenção dos espaços reformados. concorrendo para a construção da representação de bairro degradado e lugar de prostitutas e gringos. 300 machos vindo. sob a forma de uma arquitetura eclética e pós-moderna. Iniciavam-se também as denúncias de violência. passaram a existir bares. com cinco prostitutas voltando da Itália (Entrevista concedida em 27 de abril de 2005). Nesse sentido. os turistas internacionais e as “garotas de programa”. Este equipamento passou a oferecer teatro. café. mendigos. auditório. A sua implementação não considerou os “trajetos” (Magnani. também passaram a incomodar alguns utilizadores do bairro.10 Outro fenômeno a ser ressaltado é que a “política de controle social”. um planetário. museus. os protestos dos moradores ganharam novos temas. os freqüentadores da Praia de Iracema foram paulatinamente procurando outros lugares de lazer. os poucos turistas [estrangeiros] que vieram pra cá foram vôos italianos e alemães e no início o vôo dos italianos foi péssimo conseguiram acabar com esse vôo tem pouco tempo atrás que era assim. Adentravam o bairro atores sociais que não comungavam com os códigos da disciplina dos espaços “equalificados” como os hippies. como a expulsão dos hippies. que dava os seus primeiros passos rumo ao dissídio na ocupação daquele espaço. além de praças. O Dragão do Mar projetou uma intervenção no bairro que se refletiu por toda a Praia de Iracema. Além dos hippies. cinemas. não permitiu uma nítida visualização dos contra-usos. Leiamos a fala de um empresário da Praia de Iracema: Essa imagem [da degradação] se dá porque no início não teve uma boa divulgação do turismo [internacional] aqui do Estado. loja de artesanato e bares. Como parte da dinâmica de ocupação dos espaços da cidade. boates e casas de shows. onde havia antigos armazéns desativados. típica dos processos de “requalificação”. turistas estrangeiros e prostitutas. vendedores ambulantes. como assalto aos freqüentadores.

Um empresário. Fausto Nilo. a harmonia superficial. os problemas referentes à ocupação do espaço na Praia de Iracema se agravaram. conhecida na cidade de Fortaleza. a partir do inicio dos anos 2000. abrindo espaço para instalação de boates algumas com shows de striper. ele esclarece que o projeto original previa um “corredor” de ligação entre a parte costeira do bairro o Centro Dragão do Mar. Este fato produziu um conflito na apropriação do espaço daquele bairro. O calçadão apresentava muitos trechos com buracos e a grade de proteção quase toda quebrada. Os novos freqüentadores saíram em busca de novos lugares. mendigos. 1994). e teve seus pontos comerciais e observatório de golfinhos desativados. Esse fenômeno redesenhou a Praia de Iracema a partir dos seus usos e contra-usos.11 seus utilizadores 3 . hippies. principal rua do bairro. No inicio dos anos 2000. Os bares e restaurantes gradativamente foram sendo fechados. ou seja. pois grande parte do público freqüentador da parte costeira da Praia de Iracema passou a ocupar esse novo espaço. afirma que a nova representação surgiu a partir da instalação de uma boate. a Praia de Iracema passou a abrigar duas “manchas” (Magnani. Em janeiro de 2003 a pizzaria Geppo’s fechou. pois os utilizadores da Praia de Iracema passaram a ser predominantemente. inclusive o tradicional restaurante La Trattoria e o Cais Bar. turistas estrangeiros. por intermédio do não-respeito aos códigos culturais do lugar ou da falta de um entendimento mínimo sobre o que eles representavam. contudo por falta de verbas a ligação não foi estabelecida. como uma casa que favorecia a prostituição. construída nestes “lugares de consumo”. deixando um terreno baldio no meio da rua dos Tabajaras.2000) de lazer com sociabilidades e temporalidades distintas. ambulantes e meninos em situação de rua. foi sendo cortada pelos contra-usos. Assim é que. instalado no bairro há quase vinte anos. Este fato contribuiu para enfatizar ainda mais a representação do bairro como lugar de prostitutas e gringos. 3 Em entrevista com um dos arquitetos do projeto do Centro Dragão do Mar. espaços praticados (Marc Augé. Quando os espaços “requalificados” tornam-se “lugares”. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . mais da metade dos novos estabelecimentos já haviam sido fechados. prostitutas. No ano de 2004. O Largo Luis Assunção deixou de ser ocupado por famílias nos finais de tarde. A Ponte dos Ingleses ficou sem iluminação. passando a ser ocupado predominantemente pelos hippies e meninos em situação de rua.

contudo. poluição sonora e desordenamento do tráfego. (. Frente a este panorama que se estabeleceu na Praia de Iracema.. a tradição boêmia de Iracema foi comercializada por meio de uma política de incentivo ao turismo no Estado do Ceará. sem um devido planejamento. por parte do Poder Municipal. Primeiro houve a execução das políticas de gentrification. 1997). no dia que o África’s vier. O cenário atual da Praia de Iracema Após essas intervenções arquitetônicas esse bairro se apresentou como um lugar turístico. Ocorreu uma intervenção no espaço urbano. o cara muitas vezes vinha com boa fé tinha muita gente que vinha com boa fé e ficavam com um puteiro nos braços (Entrevista concedida em 27 de abril de 2005).. tendo como ícone o bairro Praia de Iracema. Esse fenômeno contribuiu para a saída da maioria dos moradores. entendo que a nova representação é um reflexo das práticas sociais e das condições espaciais de algumas áreas do bairro. e foi dito e feito.) Depois apareceu um português que era o maior trambiqueiro. a própria dinâmica da cidade e do turismo nacional e internacional foi determinando as novas faces de Iracema..12 A deterioração começou por que? Porque em primeiro lugar deixaram construir o África’s [boate conhecida na cidade por shows de striper] (. Este fenômeno gerou uma disputa pela ocupação do espaço urbano. acarretando a monofuncionalidade do bairro.) a gente fez toda uma campanha pro África’s não vir. Como resultado desse processo. se vier um puteiro vem todos os puteiros da praia. ou seja. Segundo.. a fronteira para o lugar dos habitantes ficou muito tênue. houve ingerência quanto à ocupação do espaço. que tentam adequar as tradições locais às demandas globais do consumo cultural (Carlos Fortuna. não existiu um respeito às demandas dos moradores do bairro. porque a gente pensava assim. Ele fazia o seguinte: montava um restaurante achava um investidor em Portugal e dizia olha eu tenho um restaurante maravilhoso pra você ele montava o restaurante pras pessoas ai o cara vinha de lá pra cá com o restaurante montado comprava o restaurante e achava que tinha um ponto super bem feito e vinha pra trabalhar quando chegava aqui ele tinha um puteiro. Nesse sentido. tornando visível a existência de ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . ou seja.

13 conflitos simbólicos decorrentes do encontro entre alguns habitantes de Fortaleza. tema tão caro à produção antropológica. taxistas. o uso social dos corpos dos turistas estrangeiros. ou seja. José. estava a contribuir para uma reafirmação da representação do bairro como degradado e lugar de prostitutas e gringos. enleio. o que fazem. valores morais. 2005. El Presente de su Futuro. A utilização deste modelo de análise de conteúdo segue o método de investigação adotado por: Machado Pais. globalização. No cerne da questão percebo que temas relacionados a “requalificação” urbana. proprietários de boates. Os moradores do bairro passaram a denunciar por meio de suas narrativas que. Devido a essa simbologia negativa os habitantes do bairro estão buscando justificativas para a emergência dessa representação. 5 Os entrevistados na pesquisa de terreno na Praia de Iracema foram: moradores. Alguns utilizadores do bairro falam em degradação espacial. segundo meus interlocutores 5 . freqüentadores da Ponte Metálica. Modelos de Autopercepción y de Vida entre Adolescentes Españoles. A pesquisa etnográfica me permitiu perceber que existe um dissenso nas opiniões quanto à representação da degradação. análise sóciosemântica e análise interpretativa 4 . turismo sexual e prostituição fazem parte dessa nova representação da Praia de Iracema. In Ganchos. Lisboa: Ed Âmbar. Outros falam em degradação social. com quem andam e como se comportam. entre outros problemas. e associam a representação atual à presença do turista estrangeiro e suas acompanhantes. erosão no calçadão. sobressalto. Madrid. trabalho e futuro. 4 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Por meio deste modelo de análise de conteúdo está sendo possível identificar “expressões conceituais”. O encontro com o “outro”. a de estafeta. Distribuindo pizas: vida estafada. tachos e biscates – jovens. Estas levam a percepção de categorias definidoras do “mito fundador” da nova representação do bairro. É perceptível uma admiração. empresários. entre alguns nativos e o turista. envolto ao espanto. vendedores ambulantes. bancos quebrados. o diferente. sentimento de pertença. Siglo Veintiuno de España Editores. turismo. emerge nesse bairro. moradores do bairro Praia de Iracema. 1996. Aplicando a metodologia de análise de conteúdo que venho utilizando na apreciação dos dados apresentarei a seguir a análise de conteúdo das narrativas. hippies e meninas freqüentadoras das boates. turistas estrangeiros e suas acompanhantes. falta de iluminação. ex-moradores. Esta metodologia foi desenvolvida por: Captolina Díaz Martinez.

as quais devem ter um significado autônomo. Assim. Ao se referir ao gringo cheio de tatuagem e inchado. dos sujeitos da pesquisa.14 Das expressões conceituais ao “mito fundador” da nova representação de Iracema Identifiquei as “expressões conceituais” aplicando o método de análise voltado para a percepção de “homologias conceituais”. Neste modelo de análise o investigador deve “traduzir” a conceitos as “expressões lingüísticas”. a partir de sua obra de referência. ou narrativas. de pele morena. 6 Estou fazendo alusão a Capitolina Martínez autora deste modelo de análise de conteúdo. E “macacas” é uma expressão utilizada para se referir as garotas pobres. uma expressão pode incluir vários conceitos. É importante ressaltar que o processo de “homologação conceitual” é próprio do pesquisador ao empregar suas habilidades de intuição lingüística e social. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . quando os membros do grupo. Seguindo este modelo de análise de conteúdo é importante ressaltar que a proposta da autora 6 é desenvolver um método de análise “não-redutivo”..(1996).. depende do entendimento por parte do grupo pesquisado. Contudo. as “expressões conceituais” são produzidas pelos sujeitos da pesquisa e não pelo pesquisador. aquele cheio de tatuagem. vem com umas macacas que se você vê as macacas você corre. o significado social das expressões. contudo a relação entre os conceitos e suas “expressões literais” não é unívoca: distintas expressões literais podem representar o mesmo conceito (sinonímia) e a mesma expressão literal pode representar distintos conceitos (homonímia). entendem o significado dessa expressão. Estas têm um significado social. o entrevistado está a fazer uma analogia com o turista estrangeiro pobre identificado por alguns utilizadores do bairro como pessoas com emprego precário na Europa e com pouca qualificação escolar. uma série de unidades de significados. Assim como. El Presente de su Futuro. o qual conserva duas operações: 1) se seleciona dentre os textos. de quem as explicitaram. Contudo. que reafirma a imagem da Praia de Iracema como lugar de prostitutas e gringos. todo inchado. Apresento abaixo a fala de um empresário do bairro. a sua fala parece ininteligível se relatada em outro contexto: Quem vem aqui é o gringo. que namoram ou fazem programa com os turistas estrangeiros. Os conceitos estão encarnados em expressões literais.

os conceitos específicos definem reciprocamente os seus significados através da interação dos diversos conceitos. que relatam as mudanças vivenciadas no bairro a partir dos anos 1980. extratos de quatro entrevistas que associam. Concedida em 02 de agosto de 2005). Como conseqüência. a nova representação do bairro. Assim. é o pessoal daqui ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Narrativa um: Hoje a Praia de Iracema é dominada por menores infratores. prostituição e turistas estrangeiros que não é o bom turista. uma “categoria” é um conceito geral que deriva de uma família de conceitos concretos por sua vez derivados de orações particulares. a lista de conceitos se estrutura em dois níveis. A seguir apresento. Para isso coloca-se as unidades soltas (palavras-chave) frente às unidades complexas (orações conceituais) de que formam parte. A apreciação de uma lista de conceitos e palavras-chave permite ao pesquisador agrupar famílias de conceitos similares. 2) a especificação do significado das ditas unidades tem de ser redefinida observando seus contextos: uma unidade dada pode está localizada em distintos contextos e a interação entre esses contextos deve redefinir o significado da unidade em questão. o processo de “homologação conceitual” não só funciona a partir dos significados isolados das orações conceituais. Assim. porque o que mantém um restaurante não é turista. Ao utilizar esse modelo de análise de conteúdo identifiquei “categorias” que caracterizam fases da história recente do bairro Praia de Iracema. começou a chegar boates e o fortalezense deixou de andar aqui. Narrativa dois: Os bares começaram a fechar porque encheu de gringo. não é bom para a capital é o turista que vem a procura de drogas e prostituição. Para chegar a estas “categorias” selecionei diversas “expressões conceituais” dos meus entrevistados. e sua representação hoje. o que mantém é o fortalezense. mas também por meio de palavras-chave. com os significados concorrentes de distintas orações conceituais. (Entrevista com um morador que reside há 32 na Praia de Iracema. com a presença do turista estrangeiro.15 parcialmente livre do contexto. estas constituem as “categorias”. Por meio deste método proposto por Martínez (1996). relacionadas à construção do “mito fundador” da representação da degradação e lugar de prostitutas e gringos.

Concedida em 23 de agosto de 2005). as pessoas faziam questão de vir aqui pra usufruir a beleza do ambiente. que não tem segurança. estão loteando as praias para fazer os resortes. o modelo de desenvolvimento.. as pessoas não andam mais na Praia de Iracema.. hoje em dia as pessoas não vem mais aqui porque ficam incomodadas com essa invasão de prostitutas e de gringos que tem aqui. A lista de palavras que tem significados relevantes é: Prostituição Turistas estrangeiros Drogas Boates A lista de conceitos contempla: A Praia de Iracema é dominada por menores infratores. Narrativa quatro: O gringo traz o taxista. que sempre residiu na Praia de Iracema. Gringo Taxista Vendedores ambulantes ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . o turista melhora [o movimento]. (Entrevista com uma moradora. dessa coisa gostosa da beira da praia e tudo.16 que vai com a família.. Concedida em 19 de maio de 2005). não é isso porque sempre foi dessa forma e as pessoas vinham.. seria em primeiro lugar. traz a prostituta. que a Praia de Iracema é uma ponta de iceberg. implementado no Estado. Os bares começaram a fechar porque encheu de gringo. (Entrevista com um empresário. de 34 anos. prostituição e turistas estrangeiros. (. fechar essas boates porque eu acho que elas é que trazem todos os outros problemas. Concedida em 19 de maio de 2005). os modelos de turismo que a gente tem no Estado. Turista (estrangeiro) que vem a procura de drogas e prostituição.) tudo isso para dá a esse turista europeu.) As soluções pra mim. não tem iluminação. Começou a chegar boates e o fortalezense deixou de andar aqui.. Narrativa três: Eu acho. não é pelo simples fato de que está quebrada. (O problema é) o modelo de turismo que a gente tem no Estado.. Residente há 25 anos na Praia de Iracema. traz os vendedores ambulantes (. (. isso é o modelo de turismo que a gente tem aqui. traz o menino de rua. esse turista qualquer que venha pra cá e manter as mulheres que eles quiserem. é o modelo dos hotéis que estão destruindo as comunidades dos povos do mar. mas as despesas do dia-a-dia são tiradas com o pessoal daqui.) (Entrevista com um morador.

Oeiras. Alguns utilizadores do bairro entendem que a chegada dos novos freqüentadores. e os vendedores ambulantes. da representação do bairro como degradado e lugar de prostitutas e gringos. Começaram boates. o menino de rua. os conflitos decorrentes das trocas sexuais. Referencias Bibliográficas AUGÉ. Com o gringo veio o Surgimento de boates. Estudos Sociológicos de Cultura Urbana. 1994. ___________. Neste sentido. contribuiu para sua identificação com um cenário de encontros de alcova. Marc. Percursos. FORTUNA. 1997. Identidades. Celta. fechar porque encheu de gringos. Não-Lugares. a prostituta. financeiras e afetivas entre os turistas estrangeiros e suas acompanhantes se relacionam diretamente com o uso e apropriação do espaço na Praia de Iracema. Cultura e Globalização: Ensaios de Sociologia. A análise de conteúdo das narrativas me permitiu identificar que a chegada do turista estrangeiro é considerado o “mito fundador”. sem um sentimento de pertença ao bairro. Fechamento de bares. Carlos (org. 1999. gringo. Paisagens Culturais. taxista. a O fortalezense abandona chegar o bairro.17 Quadro 1: A presença de gringos como um “mito fundador” da representação da degradação. gringos. Oeiras: Celta Editora. São Paulo: Papirus. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .) Cidade. Fase do bairro Características Categorias “Mito fundador” de Chegada dos turistas Os bares começaram a Invasão de prostitutas e Presença estrangeiros – gringos. O fortalezense abandona o bairro.

Universidade Estadual de Campinas. Lisboa: Ed Âmbar. ZUKIN. 09 de dezembro de 2004. Espaço público e política dos lugares: usos do patrimônio cultural na reinvenção contemporânea do Recife Antigo. 2001. In Revista de Ciências Sociais. Era uma vez a Praia de Iracema. José Machado.Fapesp. Caderno Vida e Arte. Fortaleza. Território livre de Iracema: só o nome ficou? Memórias coletivas e a produção do Espaço na Praia de Iracema. Imagens da Cidade ou Imaginário Espacial? Reflexões sobre as relações entre Espaço. MONTE. El Presente de su Futuro. 2ª Ed. Linda. Captolina Díaz. PAIS. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo. a Propósito da Praia de Iracema. 2005. 2000. Números ½. 2001. MARTINEZ. Lilian de Lucca (orgs). José Guilherme Cantor. Rogério Prença de Sousa. 03 de junho de 1995. O POVO. impresso. Sharon. 1996. Fortaleza. TORRES. 32. Madrid: Siglo Veintiuno de España Editores. Política e Cultura. Campinas: Papirus. Universidade Federal do Ceará. impresso. Modelos de Autopercepción y de Vida entre Adolescentes Españoles.18 GONDIM. trabalho e futuro.) O espaço da diferença. Na metrópole: textos de antropologia urbana. Campinas. Programa de PósGraduação em Sociologia. “Paisagens urbanas pós-modernas : mapeando cultura e poder” In Antônio Arantes (org. tachos e biscates – jovens. Fortaleza. MAGNANI. Ganchos. 2000. SCHRAMM. O POVO. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . 2001. Vol. Periódicos ARTE guarda memória da PI. Airton. Solange Maria de Oliveira. LEITE.

Introdução A luta despenalização do aborto em Portugal constitui uma das aspirações mais emblemáticas na enunciação dos direitos das mulheres no contexto português. Portugal é dos únicos países da Europa com legislação fortemente restritiva à prática de interrupção voluntária da gravidez. Elemento este que foi mobilizador para uma conciliação de esforços entre algumas organizações portuguesas e estrangeiras com vista a à vinda do célebre barco da organização holandesa. O interesse deste quadro histórico não se restringe às nossas fronteiras. É a partir da minha experiência de activista neste processo. juntamente com a Irlanda. Este processo que com diferentes momentos de intensidade vem animando o debate político na sociedade portuguesa esgrime questões tão instigantes como as representações culturais da mulher. e pela circunstância de constituir uma forma de acção política sobre uma legislação nacional com um desenho exuberantemente transnacional.O Kula revisitado? A cultura dos direitos na luta pela despenalização do aborto Madalena Duarte Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra madalena@ces. Malta e Polónia. Este processo que com diferentes momentos de intensidade vem animando o debate político na sociedade portuguesa esgrime questões tão instigantes como as representações ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . foi um fenómeno singular na sociedade portuguesa: pelo aceso debate que suscitou na opinião publica.uc. concitando ainda relevantes momentos de análise das dinâmicas democráticas sobre o direito e a transformação legislativa. da maternidade e da vida. que pretendo formular nesta comunicação algumas reflexões sobre o momento cultural e político então criado Palavras-chave: direitos/género/cidadania/movimentos sociais 1. A recente viagem deste barco que se propunha a realizar interrupções voluntárias da gravidez em águas de jurisdição internacional ― onde prevaleceria a lei holandesa ― de bandeira do barco. dado que.pt A luta despenalização do aborto em Portugal constitui uma das aspirações mais emblemáticas na enunciação dos direitos das mulheres no contexto português. uma perspectiva de análise ao mesmo tempo privilegiada e problemática. Women on Waves. pelo facto de se inscrever nas formas de acção política ditas radicais ao mesmo tempo que sustenta a sua acção no cumprimento da lei.

à sua consulta. 2. pelo facto de se inscrever nas formas de acção política ditas radicais ao mesmo tempo que sustenta a sua acção no cumprimento da lei. foi um fenómeno singular na sociedade portuguesa: pelo aceso debate que suscitou na opinião publica. Women on Waves. concitando ainda relevantes momentos de análise das dinâmicas democráticas sobre o direito e a transformação legislativa. que pretendo formular nesta comunicação algumas reflexões sobre o momento cultural e político então criado e sobre as estratégias encetadas pelo movimento. Portugal é dos únicos países da Europa com legislação fortemente restritiva à prática de interrupção voluntária da gravidez. juntamente com a Irlanda. uma perspectiva de análise ao mesmo tempo privilegiada e problemática. marcados por um esboçar daquela que viria a ser uma luta forte pelos direitos das mulheres nas décadas Neste ponto sigo de perto Tavares. É a partir da minha experiência de activista neste processo. 1998 e 2003 e UMAR. pois. Elemento este que foi mobilizador para uma conciliação de esforços entre algumas organizações portuguesas e estrangeiras com vista a à vinda do célebre barco da organização holandesa. O interesse deste quadro histórico não se restringe às nossas fronteiras. pois. Os finais da década de 70 são. 1999.2 culturais da mulher. A recente viagem deste barco que se propunha a realizar interrupções voluntárias da gravidez em águas de jurisdição internacional ― onde prevaleceria a lei holandesa ― de bandeira do barco. Malta e Polónia. e pela circunstância de constituir uma forma de acção política sobre uma legislação nacional com um desenho exuberantemente transnacional. 1 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Uma análise mais detalhada desta análise cronológica obriga. da maternidade e da vida. dado que. A contextualização da luta 1 O direito da mulher à interrupção voluntária da sua gravidez não foi consagrado no conjunto de direitos das mulheres adquiridos após o 25 de Abril com a Constituição da República Portuguesa de 1976. Em ambas as publicações é feito um importante retrato histórico da luta pela despenalização do aborto em Portugal.

Logo em 1975 é criado o Movimento para a Contracepção e Aborto Livre e Gratuito que exigia a despenalização do aborto em Portugal e a difusão e informação sobre contraceptivos em Portugal. uma vez que não prevê sequer razões económicas para uma mulher interromper a sua gravidez (UMAR. Nas galerias do ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . E. entre outras). são considerados algo limitativos no que concerne aos direitos da mulher (Tavares. como os sindicatos começam a ter iniciativas neste domínio. com ele. Em simultâneo a Igreja Católica começa a firmar a sua posição publicamente. 1999). APF e MDM. é a vez do PS apresentar um projecto-lei. em consequência. o aborto clandestino em Portugal vai continuar a ser uma realidade. nomeadamente da UDP (1980) e do PCP (1982) para que a mulher possa interromper livremente a sua gravidez até às 12 semanas. cria-se a Campanha Nacional pelo Aborto e Contracepção (CNC) que incorpora várias associações feministas e que se começa a mobilizar para mostrar solidariedade para com as mulheres julgadas por aborto. 2003). consequência das acções do movimento feminista e dos julgamentos da década de 70. que é considerado ainda mais restritivo do que o do PCP. rapidamente chegam à imprensa internacional e. Várias associações feministas. é entregue uma petição de 5 mil assinaturas na Assembleia da República exigindo a despenalização do aborto. Em 1983. entre eles o de uma jovem alentejana. conhecendo algumas destas uma visibilidade social que as mantém ainda hoje como importantes actores nesta luta. Em 8 de Março de 1977. e partidos de esquerda tomam posições públicas contra este projecto-lei. porque consideram que.3 seguintes. entre elas a UMAR. sobretudo o do PCP. partidos políticos como o PS e PCP anunciam a preparação de propostas de lei sobre a despenalização do aborto. Não só os partidos políticos. é precisamente este projecto que vai ser aprovado em Janeiro de 1984. Estes julgamentos. demonstrando uma total oposição a qualquer medida legislativa que autorize o aborto. também. a emergir associações e organizações feministas que têm a despenalização do aborto como bandeira e que o assumem publicamente (UMAR. Surgem projectos-lei. contudo não deixam de representar um caminho no sentido da despenalização. Na década de 80 o aborto entra na agenda política. em 1979. Não obstante esta resistência e críticas. Estes projectos. Começam. Os projectos-lei são chumbados em Assembleia da República e fica na história a imagem de 12 mulheres da CNAC nas galerias do parlamento envergando uma camisola com a inscrição “Nós abortámos”.

assim que é aprovado o projecto. que desenvolve campanhas ancoradas moralmente impactantes como. se houver sério risco para a saúde física e mental da mãe (12 semanas).4 parlamento. A indignação e o mal-estar público levam a que algumas deputadas do PCP e do PS acusem os deputados que votaram contra os projectos-lei apresentados de contribuir em grande medida para situações como esta. se houver inviabilidade fetal (sem prazo). se a gravidez resultar de violação (16 semanas). a iniciada em Fevereiro de 1997 “Não matarás o zezinho”. no dia internacional da mulher. o aborto é um crime. o movimento anti-escolha. Os dois projectos-lei vão a votação na Assembleia da República. em 1996. deste modo. ligado à Igreja Católica. com 36 anos e três filhos. artigos 140º e seguintes. se houver grave malformação do feto ou se o recém-nascido vier a sofrer. pois. na sua maioria. aos poucos. No mesmo mês. a reerguer-se. de forma incurável de doença grave (24 semanas). em Fevereiro de 1997. por exemplo. de 11 de Maio). e como consequência de notícias na imprensa de que a PJ estaria a investigar 1200 mulheres que tinham abortado numa clínica clandestina em Lisboa. vítima de aborto clandestino. longo e complexo o caminho que levou de novo à colocação do aborto na agenda pública e política. quer por parte dos partidos políticos (Tavares. Este crime está previsto e punido no Código Penal. solta-se uma faixa que diz: “Lei do PS mantém aborto clandestino. as mulheres que se fazem abortar e as pessoas que realizam a intervenção estão a cometer um crime. 2003) e. A década de 90 ficou marcada pelo referendo sobre o aborto e pelos julgamentos de mulheres. começam a organizar-se novas iniciativas quer por parte da sociedade civil. o movimento conheceu algum esmorecimento e durante vários anos a luta passou. A luta continua”. em Portugal. pela publicação de artigos. Foi. morre uma mulher. 2 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Após a aprovação da lei de 1984. O aborto não é punido apenas nos seguintes casos: se for o único meio de evitar a morte da mãe (sem prazo). a UMAR lança a Linha SOS-Aborto. No entanto. a JS e o PCP apresentam dois projectos-lei de despenalização do aborto a pedido da mulher. De acordo com esta lei (Lei nº 6/84. Mas. mas não são aprovados. produção de relatórios e realização de debates. sendo que o da JS não é aprovado por um voto. Alguns dias mais tarde. É esta a lei que está hoje em vigor 2 . também começa a ganhar força um contra-movimento. se a discussão parlamentar dos projectos-lei constitui um novo alento para o movimento pela despenalização que começa.

e PSD celebram um acordo para a realização de um referendo nesta matéria. artistas. sindicatos. Para tal não foi indiferente a posição do líder do PS. associações de defesa dos direitos das mulheres. a JS apresenta um outro projecto-lei. porque nesse mesmo dia PS. profissionais de saúde. o “Movimento Sim Pela Tolerância”. etc. à complexidade da questão referendada. assim. Também o PCP apresenta um projecto-lei semelhante ao já proposto em 1997. à indiferença e/ou à indecisão dos portugueses. O referendo não foi. que desde cedo se pronunciou contra a mudança da lei. António Guterres. e a um cenário político partidário em que a direita se unia e o partido do governo se encontrava fragmentado e marcado pelo ideal católico de um PrimeiroMinistro que publicamente se mostrou contra a despenalização. Cria-se. A 5 de Fevereiro de 1998. era necessário criar um movimento forte que fizesse face aos movimentos associados à Igreja Católica. Para as pessoas envolvidas no movimento pela despenalização do aborto este foi um marco histórico (Tavares. os dois projectos são debatidos na Assembleia da República: o do PCP não é aprovado por 3 votos. Mas. contra todas as sondagens. com maiores recursos e capacidade de mobilização. em 28 de Junho de 1998. Perante um referendo imposto que muitos percepcionaram como uma expressão de uma instrumentalização política atentatória dos direitos de cidadania dos cidadãos e das cidadãs portuguesas. A campanha do referendo (que ocorreu de 15 a 26 de Junho de 1998) assumiu-se como um momento de intenso e polémico debate em que nem sempre os argumentos surgiram com a clareza necessária. sobretudo. mas o projecto-lei da JS é aprovado. o não ganhou. uma plataforma que integrava partidos políticos. No entanto. mais restritivo que o anterior.5 No início de 1998. a vitória na luta estava longe de ser conseguida. deputados. 2003). Por razões atribuídas ao fundamentalismo da posição do não. que se encontrava no Governo. uma vez que o prazo legal previsto para a interrupção voluntária da gravidez é reduzido para 10 semanas. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . e que depois se foi alargando a juristas. Desde logo porque algumas associações feministas envolvidas entendiam que a JS não devia ter encurtado o prazo.

4 Uma das excepções a este desânimo surge com a discussão e aprovação da Lei 12/2001. A campanha WOW: breve descrição É num cenário de um activismo institucionalizado e essencialmente reactivo que um conjunto de associações portuguesas . a discussão devia ter sido retomada e. referiu que nenhuma outra consulta nesta matéria seria realizada até ao final do mandato do seu governo. votaram menos de 3 milhões.5% a favor do não e 15. 5 O então Primeiro-ministro José Manuel Durão Barroso. em 2004. Portugal torna-se o único país da União Europeia que leva mulheres a julgamento por interromperem a sua gravidez. foi ignorada. Aveiro. Setúbal. não te prives e UMAR (União Mulheres Alternativa e Resposta) . 3. Clube Safo.Acção Jovem para a Paz. já que. vinculativo 3 . pelo contrário. líder do PSD. “O referendo só tem efeito vinculativo quando o número de votantes for superior a metade dos eleitores inscritos no recenseamento”.5% a favor do sim.6 contudo. Tendo como base um campo 3 De acordo com o artigo 115º da Constituição da República Portuguesa. As manifestações do movimento pelo sim começam a cingir-se a presenças à porta dos tribunais. coube aos agentes judiciários e aos tribunais garantirem a aplicação efectiva da lei em vigor e. Lisboa…). consequentemente. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . apenas 32% dos eleitores se pronunciaram. Neste cenário. à entrega de uma petição com 120 mil assinaturas na Assembleia da República para a realização de um novo referendo que se revelou infrutífera 5 . Com efeito. a artigos na imprensa e. O pós-referendo foi uma altura de grande desânimo 4 e de desvitalização de um movimento que se sentia impotente face à constituição da Assembleia da República e às demandas da democracia representativa.unem esforços e decidem convidar a organização holandesa Women on Waves (WOW) para vir a Portugal e desenvolver uma campanha pela despenalização do aborto. isto é. 16. dos mais de 8 milhões de eleitores. sobre a contracepção de emergência que assegura que a chamada pílula do dia seguinte pudesse ser vendida em Portugal e sem prescrição médica. começam a despoletar os julgamentos de mulheres (Maia. assumindo-se o resultado no referendo como uma decisão final.

para tal. Com efeito. com uma gravidez até seis semanas. eventos culturais. uma equipa de médicas e enfermeiras devidamente autorizadas podem realizar abortos. Assim. a WOW assenta a sua campanha na deslocação de um barco que traz consigo um contentor onde funciona uma clínica ginecológica e na qual é possível realizar abortos a pedido da mulher. designadamente workshops no âmbito da saúde sexual e reprodutiva. a bordo do barco que está sob jurisdição holandesa. debates com profissionais do direito. até águas internacionais 6 . Tal acção não expressa qualquer tipo de ilegalidade. canalizando os ganhos mediáticos da campanha desenvolvida para a mudança da lei restritiva. através da pílula abortiva. definindo-o como uma zona marítima contígua ao território do Estado costeiro e sobre a qual se estende a sua soberania. Inspirada na ideia do barco da organização ambientalista Greenpeace. o Borndiep. de 1982. desde 2001 que a WOW é uma organização não governamental (ONG) devidamente autorizada pelo Ministério de Saúde holandês a interromper a gravidez de mulheres que assim o decidam até um prazo máximo de 6 semanas e meia. Esta componente do projecto aplica-se exclusivamente a águas internacionais. o limite exterior do mar territorial é fixado nas 12 milhas náuticas. reuniões com partidos políticos. mas antes articula normas do direito nacional com normas do direito internacional. certo é que o projecto WOW consistia em mais actividades. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . propunha-se a ajudar as mulheres portuguesas. cerca de um ano antes. Embora tivesse sido a faceta mais mediática e polémica da campanha. onde. Tais iniciativas e a vinda do Borndiep foram cuidadosamente preparadas desde a vinda de Rebecca Gomperts a Portugal. que desejassem interromper a sua gravidez. nome do barco utilizado na campanha da WOW em Portugal.7 de acção transnacional e usufruindo de um pluralismo jurídico a partir de cima. sessões de esclarecimento e sensibilização para a prevenção de doenças sexualmente transmissíveis e de gravidezes não desejadas. jurídicos e culturais que os 6 De acordo com a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar. a WOW desenvolve actividades mediáticas nos países onde o aborto é ainda criminalizado que visam chamar a atenção para as consequências nefastas dos abortos clandestinos e para a necessidade do aborto ser despenalizado. A cronologia deste acontecimento consubstancia um exercício importante de reflexão sobre as opções dos movimentos sociais e dos constrangimentos políticos. deslocando-as.

Mais especificamente. os cerca de trinta voluntários. bem como todas as informações relativas ao projecto são. na prática.8 condicionam. uma conferência de imprensa anunciada a partida do Borndiep rumo a Portugal. quer internamente para o movimento constituído. receberam formação diversa para poderem participar na campanha. estando presentes na formação os advogados portugueses das associações envolvidas e da WOW. sempre dentro da legalidade. o barco pretende atracar no porto da Figueira da Foz. da relação com os media. médica ginecologista da WOW. bem como o Governo. para angariar voluntários. quer para a opinião pública. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . este seminário serviu. Esta formação. pelo que o contacto com os media é reduzido ou mesmo nulo. foi realizado em Coimbra um seminário sobre saúde reprodutiva onde. devem ser surpreendidos. pelo que se referem de seguida algumas das datas que. sócios das associações envolvidas e pessoas a título individual. foi dito aos voluntários como agir. à Polónia. entre os palestrantes. na Holanda. Agosto de 2004: a chegada do Borndiep e a acção do Governo português A 23 de Agosto é realizada. do atendimento da hotline e ao nível jurídico. e da estratégia pensada para o projecto. nomeadamente ao nível da segurança. Junho/ Julho de 2004: Recrutamento e Preparação de Voluntários Em 5 de Junho de 2004. a WOW navega novamente para um país onde o aborto é penalizado. em 2003. ainda confidenciais. Depois da viagem em 2001 à Irlanda e. a esta altura. Em Julho. Em cada uma destas áreas. Para além de promover o conhecimento e a sensibilização junto dos profissionais de saúde. Desde cedo se percebe que os media. o que dizer. se encontravam a Rebecca Gomperts e Guinilla Kleivierda. activistas e outros para as campanhas da WOW e para a questão da despenalização do aborto como um problema de saúde pública. se assumiram como mais marcantes.

A cautelosa formação a que se tinham submetido preparava-os para qualquer imprevisto e obstáculo após a chegada do Barco a águas territoriais. após tentativas falhadas de comunicação com as autoridades marítimas. As arenas de eleição eram. Mais tarde o Governo justifica a sua decisão afirmando que. mais de trinta voluntários portugueses e holandeses se encontram preparados. efectivamente. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . de 1982. teve conhecimento que a ONG holandesa WOW pretendia entrar em território português para: distribuir e publicitar produtos farmacêuticos não autorizados em Portugal. inclusive a perseguição judicial. três: a legal. constituída somente por membros da WOW. O impacto mediático da campanha cresce a cada dia. sobretudo quando são destacadas duas covertas para vigiar o Borndiep. recebe um fax no qual se pode ler: “Em nome das autoridades marítimas portuguesas. violando-se um sem número de convenções e directivas europeias. Pela primeira vez o barco era proibido de entrar em águas nacionais num país. a sua soberania jurídica. nomeadamente os artigos 19 e 25. começam a ouvir-se rumores de que o barco será impedido de entrar em águas territoriais. através da equipa jurídica. esse foi recusado” (WOW. Neste momento nota-se. e o direito português. nomeadamente. no seio dos activistas. o que poderia colocar em causa a saúde pública (idem: 12). através do recurso aos media. ao abrigo da Secção III Parte II da Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar. na prática. publicitar e promover a prática de actos ilícitos em Portugal. informamos o seguinte: no que se refere ao pedido de autorização para a embarcação Borndiep entrar em águas territoriais portuguesas com destino ao Porto da Figueira da Foz. O impacto mediático é extraordinário. mediante o lobby exercido junto aos partidos políticos portugueses e Governo holandês. como suporte ao argumento mais invocado: o de que esta campanha atentava contra a soberania do Estado português. a pública. através dos media nacionais e internacionais. um certo desnorteamento. agora. Estes argumentos serviram. com várias equipes de reportagem estrangeiras a chegar à Figueira da Foz. mas não para a eventualidade da sua não chegada. com a notícia a abrir vários serviços noticiosos televisivos. Entre 26 e 27 de Agosto. imagens que rapidamente são divulgadas nacional e internacionalmente. a tripulação do Borndiep. e a política. informamos que. 2005: 11). E. desenvolver uma actividade numa infra-estrutura médica sem licença ou inspecção por parte das autoridades portuguesas competentes.9 onde numa casa especialmente arrendada para o efeito.

necessariamente. alteradas. entendem que o barco deve forçar a entrada e avançar para águas territoriais portuguesas. mas não para ir contra a lei. a WOW e as associações portuguesas envolvidas optam por contornar a situação inesperada. O objectivo agora é. Os activistas estavam preparados para serem detidos pela polícia. Se alguns. alugando uma pequena embarcação: se o Borndiep está impedido de vir junto dos portugueses. Com a proibição à entrada do barco. claramente. Afinal. Este barco faz viagens para levar mantimentos à tripulação. A discussão instala-se no seio do grupo de activistas: deve ou não o Borndiep regressar à Holanda? Que alternativas devem ser equacionadas para que toda a campanha não seja colocada em risco? Nesta altura há uma certa cisão no grupo. havendo viagens específicas para jornalistas e políticos: a JS realiza no Borndiep uma conferência de imprensa a 30 de Agosto e. estes não estão proibidos de ir até eles. as acções planeadas para os quinze dias de estadia são. irem ao Borndiep. a acção foi pensada para ser desenvolvida sempre dentro dos limites da lei portuguesa e toda a formação dos activistas foi no sentido de cumprimento da lei pelo que a opção por uma acção ilegal podia traduzir-se em perdas de legitimidade do projecto globalmente considerado. Entendendo-se que é ainda cedo para encerrar a campanha. mas. designadamente os activistas da WOW. é rentabilizado em termos mediáticos. Também o Governo e deputados holandeses iniciam esforços no sentido de ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . a acção radical e a acção ilegal Como refere Boaventura de Sousa Santos (2005). Odete Santos (PCP) e Jamila Madeira (Parlamento Europeu). quer para os activistas envolvidos. também. os movimentos sociais caminham num permanente limbo entre a acção institucional e a acção radical que foge ao poder do Estado. outros consideram que tal acção constitui um risco grave quer para a tripulação. o que não se vem a verificar. voluntários a conhecer o Borndiep. pressionar politicamente o governo para que este levante a proibição. é a vez dos deputados parlamentares Francisco Louça (Bloco de Esquerda). no dia seguinte. A campanha WOW foi a este nível paradigmática. porque a sua acção era legitima e legal.10 Finais de Agosto. inícios de Setembro: entre a acção institucional.

assim como a acção judicial contra o Estado português Paralelamente a estas. também. argumento que foi contestado. no programa SIC 10 Horas de 7 de Setembro. que reuniu cerca de 250 pessoas junto da residência oficial do Primeiro-Ministro. deputadas do Parlamento Holandês vêm a Portugal como forma de apoio à campanha WOW. Assim. em nome do Parlamento Holandês. o Ministro dos Negócios Estrangeiros da Holanda. há acções de confronto como a manifestação realizada a 1 de Setembro.11 convencer o Governo Português a permitir a entrada do Borndiep. uma vez que a pílula abortiva era administrada no barco. mas pede. Os advogados do governo argumentaram. Progressivamente a campanha começa a perder força e vitalidade e os media dão menos destaque às iniciativas. Considerou. que havia continuidade de actividade criminosa em território português. mas o aborto ocorria em Portugal. Também a quatro de Setembro. A seis de Setembro é conhecida a decisão do Tribunal Administrativo de Coimbra. por seu lado. A dois de Setembro. Julgamento. A juíza decidiu a favor do Governo dizendo que este tinha agido de acordo com o seu poder discricionário e não cabia a um juiz anulá-lo. já que tal operação foi proibida em Portugal. que levante a interdição. Estas são acções moderadas e institucionais. diz respeitar a decisão do Governo Português. de reunião e de expressão. os advogados da WOW solicitaram ao tribunal que anulasse a decisão do Ministro Paulo Portas e permitisse ao barco entrar em águas portuguesas. Bernard Bot. Estes são momentos de uma nova atenção mediática. do modo como a mulher portuguesa podia abortar usando Misoprostol. artistas e profissionais de saúde que ocorrem em terra e não a bordo do Borndiep como inicialmente se tinha previsto. o Borndiep fez a viagem que muitas mulheres portuguesas fazem para abortar: vão a Espanha. Baseados no direito à liberdade de mobilidade. de informação. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . a colagem de faixas com a inscrição “Eu fiz um aborto” em diversos pontos da cidade de Lisboa. e a divulgação pela Rebeca Gomperts. designadamente aos workshops com políticos. que verdadeiramente podia haver continuação da actividade criminosa e que os direitos fundamentais invocados pela WOW não são absolutos e podem ser restringidos quando há interesses maiores em risco. assim como a viagem forçada do Borndiep a Espanha para se abastecer de combustível.

aliás. O Borndiep surge como uma “dádiva” provinda de outro país para a luta pela despenalização do aborto em Portugal ou.12 Sem qualquer esperança de que o Borndiep fosse ainda autorizado a entrar em Portugal e perante uma luta que se desmobilizava. Também a acção política do movimento foi constrangida. ambíguos e manipuláveis. O Borndiep como Kula? Numa sociedade marcada pela ausência de movimentos sociais fortes e por uma luta que se tem marcado. por acções institucionais. que está. já que os direitos são instáveis. o chamado “Barco do Aborto” emerge como uma forma de acção colectiva nova que se inscreve nas formas de acção política ditas radicais. tal pluralismo jurídico não só foi ignorado pelo Governo. Em primeiro lugar. à Holanda e a campanha termina. ao mesmo tempo que sustenta a sua acção no cumprimento da lei. um obstáculo a que a acção se radicalizasse. essencialmente. mostrando que. pelo contrário. como a decisão do tribunal mostrou ser mais uma decisão política do que uma decisão judicial. o recurso a um pluralismo jurídico que permite toda uma acção dentro da legalidade acabou por ser. 4. O balanço da campanha obriga a uma reflexão deste tipo de estratégias não só na luta específica pela despenalização do aborto a pedido da mulher. o barco regressa. 1984). notou-se uma diferença entre a agenda da WOW e a agenda das associações portuguesas. podendo ser utilizados para justificar quase qualquer decisão judicial (Tushnet. o que de facto aconteceu após o programa SIC 10 Horas. A primeira era mais imediata e procurava ajudar o maior ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . entendendo várias pessoas que Rebeca Gomperts não deveria ter divulgado como cada mulher podia fazer um aborto se assim o entendesse. uma vez que os voluntários e algumas associações envolvidas queriam permanecer dentro da legalidade e evitar colocar em risco a legitimidade da acção. no final. na génese da criação da WOW. foi uma estratégia contraproducente? As acções usadas durante a campanha face à proibição da entrada do Barco foram adequadas? O grande trunfo da campanha. mas também na acção dos movimentos sociais generalizadamente considerados. a 9 de Setembro. Neste ponto. o direito é político. como defendem vários autores.

inclusive do PSD. quer na televisão.9% dos inquiridos afirmavam querer um novo referendo e 60% defendiam que o aborto devia ser despenalizado. mostrou que 79. contribuiu para que os portugueses tivessem consciência do posicionamento de Portugal nesta matéria face aos restantes países da União Europeia. durante a campanha. mostrou que 56% da população queria que o aborto fosse despenalizado imediatamente e 7% depois do Governo terminar mandato.13 número de mulheres portuguesas possível levando-as a bordo do Borndiep. A proibição da entrada do barco acabou por ter. entendo que os ganhos desta campanha superaram as eventuais perdas. Permitiu. esta foi uma mobilização do movimento pela despenalização que fugiu ao carácter reactivo e pontual dos protestos dos últimos anos. Assim. uma sondagem efectuada pelo jornal Público. Desde logo. partido do Governo. ainda. tinha objectivos definidos a médio-longo-prazo que passavam pela criação de um cenário propício à alteração da lei em vigor. a segunda. levando ao repensar de conceitos como o de democracia. De facto. Com efeito. Uma outra sondagem. a derrota judicial conduziu a uma desmobilização final da luta. media e população em geral. mesmo aqueles que eram contra a despenalização. Estes resultados e a reintrodução deste tema na opinião pública ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Num outro aspecto. Finalmente. não deveria ser “espectacularizada” em iniciativas como o “Barco do Aborto”. ganhos mediáticos significativos. permitiu reintroduzir na discussão pública um tema que parecia estar votado à marginalização das opções políticas. como activista e socióloga. no final. Certo é que o mediatismo conseguido por uma acção radical da sociedade civil sem precedentes em Portugal perdeu vitalidade e dinamismo quando enveredou por uma via mais institucional e moderada. questionando-se o grupo se esta foi uma opção eficaz. Em terceiro lugar. No entanto. e inclusive após a partida do Barco e houve informação disponibilizada quer na Internet. direitos e cidadania e a relacioná-los com a questão do aborto. foram várias as vozes que consideraram que uma questão da esfera íntima como é a da interrupção de uma gravidez. realizada pelo Diario de Noticias e TSF. ajudar efectivamente várias mulheres portuguesas. ainda que de uma forma mais indirecta do que a inicialmente prevista. a hotline esteve a funcionar durante toda a campanha. mais moderada. Esta possibilitou uma onda de apoio por parte de vários políticos.

para que nas campanhas para as eleições legislativas que se iniciaram pouco tempo depois da campanha WOW. Boaventura de Sousa (2005) Fórum Social Mundial: Manual de Uso. na minha opinião. UMAR (1999) Aborto – decisão da mulher. TUSHNET. 62:1363. UMAR. TAVARES. Lisboa: Livros Horizonte. Manuela (2003) Aborto e Contracepção em Portugal. Manuela (1998) Movimentos de Mulheres em Portugal. Mark (1984) “An Essay on Rights. a questão do aborto estivesse presente em todos os debates televisivos e nos programas eleitorais. WOW (2005) Women on Waves – Portugal. Lisboa: Universidade Aberta. Dissertação de Mestrado em estudos sobre as mulheres. TAVARES.14 contribuiu. História do movimento pelo aborto e contracepção em Portugal. WOW ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Referências Bibliográficas SANTOS.” Texas Law Review. Porto: Edições Afrontamento. após Abril de 1974.

mas que desde há mais de uma década enfrenta um processo de degradação. um promotor imobiliário que. enquanto que uma posição nega o interesse patrimonial do edifício. 1 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . a outra reforça-o. FEUC. Trata-se. que defende a sua aquisição pública ou expropriação e a devolução da sua função de espaço cultural. O interesse do edifício não é consensual. em tempos. Esta comunicação baseia-se em dissertação realizada no âmbito do programa de mestrado em sociologia “As Sociedades Nacionais Perante os Processos de Globalização”. dado que o mesmo dá origem a duas versões contraditórias sobre o valor do edifício. um acordo com o proprietário. em que o estatuto patrimonial do objecto analisado não está definido. portanto. O motivo da discórdia relaciona-se com diferentes versões daquilo que é o valor patrimonial do edifício. mas sim em discussão. originalmente com o título “Património em Contestação: o caso da controvérsia em torno do Teatro Sousa Bastos. e por fim. Assim. controvérsia.Uma controvérsia como objecto etnográfico1 Andrea Gaspar Palavras-chave: património. propondo como solução alternativa. Introdução Esta comunicação centra-se numa controvérsia patrimonial em torno de um antigo Teatro situado na Alta de Coimbra. inviabiliza a última proposta. espartilhado entre toda uma heterogeneidade de objectivos contraditórios: por um lado. A transformação do título deve-se ao facto de esta se tratar de uma versão revista e mais detalhada. a vontade de rentabilização do seu proprietário. alegando razões financeiras. foi um dos mais importantes Cine-teatros de Coimbra. processos de tradução. de um caso que nos remete para uma concepção de património como uma construção social. um movimento cívico em prol do Teatro. em finais da década de 80. por outro. em Coimbra”. a Câmara Municipal de Coimbra que. A minha abordagem situa-se O presente texto corresponde à comunicação apresentada pela autora no 3º Congresso da APA. havendo diferentes posições relativamente ao seu destino e às suas possíveis funções. adquiriu o espaço para a construção de apartamentos. A controvérsia propriamente dita diz respeito à discussão sobre o tipo de intervenção a dar ao edifício que. mediação 1.

é importante salientar a tentativa de deslocação da análise de um ponto de vista meramente discursivo e ideológico. 2. Como Teatro. altura em que foi remodelado ao estilo arte déco. considero que este processo de patrimonialização se trata de uma construção social não apenas no sentido de algo que não está definido. Gambini 1999). após instauração da República.precisamente na análise de todo o processo que leva à construção destes respectivos enunciados. A sua decadência. Soares 1990-1992). por sua vez. da qual se supõe a existência de vestígios (cf. são ainda mais antigas: remetem para o século XII. para uma Igreja Românica semelhante à Sé Velha. Pequeno apontamento histórico sobre o edifício Embora a fachada do edifício remonte à década de 1940. 1999b). com o nome de Teatro Sousa Bastos. Luís em homenagem ao monarca vigente. Não sendo o meu objectivo avaliar qual dos lados da controvérsia é que tem razão. tendo passado a ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . como se de algo puramente “social” se tratasse (ou seja. de modo a ter um registo de todas as circunstâncias de que eles são feitos. como algo exclusivamente humano). O ter estado atenta ao processo que antecede as suas consequências significou a consciência da problematicidade em separar um ponto de vista discursivo de um ponto de vista pragmático e material. e sobretudo após 74. As origens do edifício. que conduzem a dois produtos possíveis da controvérsia (património/não património). tendo sido reinaugurado em 1910. a sua função de Teatro é bem mais antiga – remonta ao século XIX. passando a incluir estes aspectos numa abordagem mais ampla que permite dar conta da construção praxiológica de um objecto patrimonial. desta vez em homenagem ao dramaturgo que era tio do então proprietário da casa de espectáculos (cf. 1999a. começou a sentir-se na década de 70. a constatação de que eles fazem parte do mesmo processo. mais precisamente. Em todo o caso. e portanto. numa espécie de liminaridade patrimonial. no entanto. importa sobretudo analisar as posições que a compõem enquanto processos contraditórios. foi frequentado pela elite de Coimbra. altura em que foi aclamado Teatro D. Seguindo a perspectiva de Bruno Latour (1996. mas no sentido em que há uma série de processos ou acções que são simultaneamente humanos e não humanos ou materiais – as mediações – as quais irão determinar esse estatuto do objecto em discussão.

folclóricas e etnográficas). mais “autêntica”. associações recreativas. do que dos discursos nos quais essa separação é produzida. A Alta de Coimbra Contextualizando um pouco a controvérsia. viria a trocar este espaço por outro. a Alta é assim uma espécie de laboratório de representações múltiplas e ambíguas. Por essa razão. não obstante as diversas tentativas por parte dessa Cooperativa que. acabaria por ser adquirido por uma sociedade constituída entre um promotor imobiliário e um ex-presidente de Câmara de Coimbra (cf. a Alta de Coimbra é um espaço dotado de alguma ambiguidade. 1989). Há. em inícios da década de 80. que lhe fora oferecido com melhores condições. Posteriormente. uma vez que a própria Universidade. uma vez que a posse pública do edifício nunca se chegou a concretizar. desde então. e por outro lado. Diário de Coimbra. devido à coexistência de população autóctone e de população universitária. tinha o intento de transformar o espaço num Centro Cultural. preocupadas em reviver costumes e tradições de uma Alta passada. a discórdia e. Instalou-se. tem vindo a deslocar-se para zonas mais periféricas. entretanto. por exemplo. centro de serviços). sobretudo westerns e filmes pornográficos.funcionar exclusivamente como Cinema. altura em que foram sendo projectados filmes altamente lucrativos. A Alta de Coimbra tem vindo a perder as suas funções de centro (centro habitacional. ao nível associativo. à semelhança da maioria dos centros históricos em Portugal. as quais são visíveis. 3. ambição essa mal sucedida. um processo de ruína que tem durado até aos dias de hoje. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . bem como o bairro mais antigo da cidade. Uma das mais importantes características da Alta de Coimbra é o facto de se tratar simultaneamente da zona onde se situa a Universidade. associações mais ligadas ao meio local (associações de moradores. importa salientar o facto de o espaço se situar na Alta de Coimbra. com o seu crescimento. Espaço de múltiplas vivências. produto de um conjunto de tensões que provêm menos de uma real separação entre dois tipos de população (a população autóctone vs população flutuante). perante a degradação do edifício. ao espírito da época. consequentemente. fazendo do local uma zona marcada pelo envelhecimento e pela desertificação. O edifício. na Alta. foi a sede de uma Cooperativa de Teatro – a Bonifrates – que.

contestando o localismo e o passadismo da visão das primeiras. tal como a Alta. como algo que perdeu a sua centralidade e se desfuncionalizou. Este foi o primeiro momento da controvérsia. Neste contexto de relações. segundo o conceito de Kristoff Pomian (1984). Breve contexto da controvérsia A controvérsia é longa. e que por isso se situa numa espécie de liminaridade em que se discutem novas funcionalidades. Formou-se então um Movimento Cívico composto por várias associações da Alta. salientam a Alta como um espaço vivo de relações sociais. através dos seus discursos. uma representação da Alta como um espaço pitoresco. para os quais funcionam como uma espécie de rituais de cidadania. interpretar o Teatro Sousa Bastos. entre as principais. Tal é o caso das Repúblicas de estudantes. passando a significante. mas foi sobretudo em 1996 que se levantou a discórdia. por sua vez preocupadas em promover a participação cívica e o activismo social dos seus residentes (cf. No seguimento do que foi dito no ponto anterior. altura em que a Cooperativa de Teatro Bonifrates abandonou o edifício. quando o proprietário apresentou um projecto de construção de apartamentos. por isso. de reactualização de discursos e constante negociação de representações e divergências políticas acerca do que é e deve ser o espaço social do centro histórico de Coimbra. que viria a ser aprovado pela Câmara Municipal. e do ponto de vista da musealização do espaço urbano. enquanto as Repúblicas. 4. ou a semióforo. a ADDAC (Associação de Desenvolvimento da Alta de Coimbra) e as Repúblicas da Alta de Coimbra – o movimento Salvem o Sousa Bastos. o Sousa Bastos pode ser considerado como uma espécie de objecto de museu metonímico da própria Alta e dos discursos sobre ela produzidos. residências de estudantes autogeridas e organizadas em termos associativos. representam-na como espaço em que o espírito de bairro e as relações sociais cedem lugar a uma objectificação e esteticização do centro histórico para consumo turístico – a perspectiva da mercantilização da cultura. Estanque 2005). importa salientar que a ADDAC reproduz. remonta a 1989. o que não raramente corresponde a uma visão idealizada do “espírito de bairro”. Poderemos.associações mais ligadas a um meio académico e político que. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . a Alta é objecto politico de contestação. Mais do que pano de fundo da controvérsia.

altura em que se reacendeu a discórdia. No contexto das suas intenções. com vista a resolver o problema do Teatro. com um novo nome: o Movimento Sousa Bastos Vivo. há aqui contextos de motivações políticas que divergem e que formam agregações de intencionalidades distintas. ao longo da controvérsia. dado que ambos possuíam. a Comissão para a Coimbra Capital Nacional da Cultura. E portanto. Deu-se assim o ressurgimento do protesto. Apesar das diferenças de sensibilidades e de motivações de partida. com a contrapartida da cedência de algum espaço no rés-do-chão para construção de uma sala polivalente que servisse as actividades locais da população daquele bairro. implicando a restituição fiel da sua fachada bem como da sua função. um “espaço cultural” significava. na qual este edifício se insere. mantendo a defesa do edifício como espaço cultural. com a ideia de recuperação do edifício. havendo por parte da Câmara Municipal. enquanto processo (contestado) de patrimonialização em curso. começava a ruir. tal não significava necessariamente um restauro do edifício. que surgiu aquando da reunião de dois factores: por um lado. Por seu lado. e este objectivo inseria-se num outro contexto de preocupações: a política cultural da cidade. a anunciação de negociações com o proprietário. um significado diferente para ambos os grupos. Houve um impasse até uma segunda fase da controvérsia. público na sua essência. O assunto do Teatro Sousa Bastos volta a ser colocado nas agendas políticas. o projecto do proprietário ficou suspenso devido à obrigatoriedade de escavações arqueológicas.marcada por uma visão negativa e pessimista relativamente aos fenómenos de “musealização” do espaço urbano. a aproximação de eleições municipais. O movimento cívico veio discordar desta posição. a reconstrução do edifício como Teatro. a reuniões com a população. Tais negociações iam no sentido de permitir o projecto do construtor. para a ADDAC. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . procurando com isso acompanhar o modo como essas duas versões sobre o interesse patrimonial do edifício estavam a ser construídas. em 2003. por outro lado. Entretanto. a acções e a manifestações culturais. diferentes intenções à partida. Esta associação de moradores manifesta uma preocupação com a degradação e crescente desertificação e desfuncionalização da Alta como espaço social. formando um único grupo. ambas se uniram num objectivo comum (lutar pela preservação do edifício como espaço cultural). Mas o objectivo de recuperação do edifício como espaço cultural acabou por revelar. que entretanto. Foi a partir deste segundo momento que tive a oportunidade de acompanhar a controvérsia à medida que ela se foi desenrolando: assistindo a debates. para as Repúblicas.

5. e por não se identificar com a nova reivindicação. Ao longo deste processo. por um lado. As Repúblicas. pois permitia a ambos a concretização dos seus objectivos. de modo a convencê-los de que essa é a opção “boa”. a concepção por detrás da ideia de “espaço cultural” foi revelando as divergências e diferentes motivações de partida. para atingir o seu objectivo (recuperar o edifício recorrendo à iniciativa do próprio proprietário). o movimento cívico continuou a defender a necessidade da intervenção no antigo Teatro como espaço público. Perante isto. e por isso. em nome de uma melhor política cultural na cidade. e daí a constituição de acordos. Esses objectivos de partida não são atingidos directamente. que estão mais interessadas em defender um espaço cultural alternativo. não num Teatro. O argumento da recuperação do edifício como espaço cultural foi o denominador comum que agregou as Repúblicas e ADDAC no mesmo grupo. e que a Câmara não estava interessada em fazer mais um Teatro na cidade. irão procurar convencer os artistas e grupos culturais de Coimbra. associa-se à ADDAC. O que defendem é a importância de existência de espaços culturais ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . que é mais representativa dos interesses dos moradores da Alta. Reformularam-se assim os grupos de acção: Câmara e ADDAC. grupos e alianças. mas têm de ser mediados: são necessários outros. a ADDAC declarou a sua desvinculação do movimento cívico. no sentido de avançar com um projecto misto. a sua aquisição pública ou expropriação. portanto. que passou a ser a ser aliada da Câmara Municipal. por outro. com outras intenções. Perante isto. marcada por novos protestos. Perante isto. o qual consideram que serviria mais os artistas do que a população da Alta. Porém. A justificação da ADDAC pela divergência é a de que a anterior luta não revelou qualquer eficácia. a Câmara Municipal. Movimento Sousa Bastos Vivo. Esta posição não veio a ser partilhada pela ADDAC. então apresentado como Movimento Sousa Bastos Vivo. também as agendas irão ser reformuladas. a partir do momento em que a Câmara Municipal anuncia um acordo com o proprietário. por seu lado. Mas a principal objecção é dirigida à nova proposta do movimento. a transformação do Sousa Bastos num espaço cultural alternativo. Processos de tradução A segunda fase da controvérsia foi.

A ideia de cidadania cultural permite entender a população da Alta como agente e participante nos processos culturais desenvolvidos. propondo para o Teatro Sousa Bastos a criação de um “Espaço Social e Performativo”. a síntese de uma crítica mais geral aos processos mercantilizantes da cultura e do património. para artistas. em vez de mera consumidora de espectáculos. e constituídas as novas alianças. A ideia de um “Espaço Cultural e Performativo” permitiria. nível esse inseparável de um contexto praxiológico mais vasto. organizou. foram convidados artistas a participar com criações originais. é a que melhor representa a Alta. ateliers com crianças e idosos da Alta. Para além de debates. pelo movimento: diversas manifestações culturais. contingentes e contextuais. e constitui. Reformuladas as devidas estratégias. como justificação para o investimento na criação desse espaço alternativo naquela contexto. o Movimento Sousa Bastos Vivo foi organizando diversos debates públicos com a participação de convidados com algum destaque no meio cultural de Coimbra: artistas. com o objectivo de envolver a população. por sua vez inspirado numa concepção de cidadania cultural. uma inauguração “fantasma” (simbólica) do novo Teatro. o que significa que irá haver transformação no final do processo. Gaspar 2006: 170-176). através do Gabinete para o Centro Histórico. procurando mostrar que a proposta que apresentam. entre outras. em colaboração com a ADDAC. por isso. que formam o contexto no qual ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Também estes procuram mostrar que defendem o que é “melhor” para a Alta (cf. do que um equipamento de grandes dimensões. com o objectivo de convencer os respectivos públicos. tais como desfiles performativos. Importa com isto salientar que o mesmo objecto está a ser duplamente processado como património e como não património. uma sessão de esclarecimento dos moradores. perante acções que ultrapassam o nível discursivo. trabalhar com. professores universitários. espectáculos. Por seu lado. Os argumentos foram os de que uma sala polivalente para pequenas festas e para pequenos ensaios de peças de teatro ou de ranchos folclóricos serve melhor a população. Para estas iniciativas.especificamente naquela zona da cidade. dando assim exemplos do que poderia ser a actividade cultural a desenvolver no “espaço social e performativo” (idem: 111). portanto. e não para a população que ali vive. sobretudo. Estamos. arquitectos. o que significa que não faz sentido falar em discursos separadamente das estratégias: acções e de operações específicas. em diferentes contextos e ocasiões: A Câmara. intelectuais. outras acções foram realizadas. agentes culturais. ambos os grupos foram realizando uma série de debates e de acções. assim.

Estes interesses eram. e consequentemente. Contudo. na primeira fase da controvérsia. e consequentemente. Pessoas e grupos com interesses heterogéneos uniram-se com um interesse comum.esses discursos são produzidos. remete para um conjunto de acções que conduzem a transformações ontológicas e materiais. que têm consequências que não são meramente retóricas e discursivas. segundo Latour. desvio de percurso e reformulação de objectivos. a Câmara Municipal. seguindo o conceito desenvolvido por Bruno Latour (1996). mas essas consequências são mais “duras” do que simples discursos. Os primeiros grupos autonomizados foram. Os segundos grupos. trata-se de recolocar no âmbito da análise social. à partida. tão negligenciados ao longo das abordagens excessivamente humanistas e antropocêntricas das ciências sociais da modernidade. os aspectos “objectivos” e materiais da realidade. não conseguiram convencer os poderes autárquicos. No fundo. ou seja. em pareceria com o proprietário. Neste caso. É isto que tem marcado a passagem de uma abordagem simbólica da cultura. que constituem dois processos de tradução distintos: um que visa transformá-lo no enunciado de que se trata de um “espaço patrimonial”. que seguir caminhos ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . ou seja. identifica-se como um desses passos ou operações. que nos habituaram a uma concepção de sociedade como algo puramente humano. juntos. pois as Repúblicas estariam mais interessadas na política cultural. Tiveram. reformuladas as estratégias. por oposição a Movimento Sousa Bastos Vivo (Repúblicas em pareceria com agentes culturais). A ideia de tradução. a ideia de que há uma série de passos até chegar ao enunciado final. após reformulação. Os processos de tradução. podemos considerar que o edifício está a ser duplamente processado por intenções opostas. para uma abordagem material e praxiológica dos fenómenos sociais. o outro que visa transformá-lo no enunciado oposto de “espaço sem interesse patrimonial”. Nesse sentido. a autonomização de grupos. foram a parceria constituída entre Câmara ADDAC. heterogéneos. enquanto que a ADDAC manifestava uma preocupação mais relacionada com a recuperação do edifício e das suas funções. como leis científicas ou novos objectos materiais. em termos de uma identidade e posição política acerca desta questão. no contexto de uma Alta concebida como espaço de habitação e de vivência social. pois. composto por várias associações. são constituídos por uma série de acções ou operações. incluindo (ADDAC) e as Repúblicas de Coimbra. que era a recuperação do Teatro para fins culturais. Os objectivos de ambos foram interrompidos. por oposição ao primeiro movimento cívico.

Em suma. Estas duas versões do interesse do edifício. histórico. porém o movimento considera que não é o interesse do edifício que está em causa. Assim se transformam interesses heterogéneos em interesses comuns. também os processos de mobilização retórica envolvidos (outra das operações de tradução) são reformulados: por exemplo. numa segunda fase. constituem o ponto fundamental que permite a constatação da observação de um fenómeno que ultrapassa o nível meramente linguístico. o Movimento Sousa Bastos Vivo. Seguiu-se uma fase de estagnação e posteriormente. Estas estratégias de acção. o seu significado social. Ou seja. Esta operação. a Câmara. mas que se tornaram aliados. em termos de mobilização retórica. novos protestos. na altura em que houve negociação da Câmara com o proprietário. bem como novas retóricas. aquilo que ele representa como Teatro naquele bairro. bem como os discursos que lhe estão associados. chamando a atenção para a necessidade de criação de espaços para grupos culturais que não têm espaço. mobilizando argumentos técnicos e urbanísticos. passou progressivamente a ser a transformação do antigo Teatro num espaço alternativo para os grupos artísticos da cidade. Outro dos processos de interessamento. e surgida uma oportunidade de aliança com agentes culturais da cidade. designada por processo de interessamento (Latour 1996). significou seduzir para o mesmo objectivo grupos os pessoas que nada tinham a ver com o assunto. mas a sua memória. têm por base ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . detalhadas na minha etnografia. o objectivo do novo movimento. verifica-se na ligação entre a Câmara Municipal e a ADDAC. cuja aliança permite reforçar o respectivo argumento ou enunciado. ao mesmo tempo que o movimento mobiliza a retórica da política cultural da cidade. a Câmara considera que o edifício não tem interesse (arquitectónico.divergentes para atingir as suas finalidades. Fragmentado o movimento. que irá procurar associar-se a especialistas em urbanismo para reforçar e legitimar “tecnicamente” o enunciado pretendido. bem como com agentes culturais descontentes com a política cultural da cidade. A partir daqui. como já referi. o qual irá determinar o destino do novo objecto resultante. etc.). novos aliados foram sendo mobilizados para a causa. e pela ausência de uma estratégia cultural por parte dos poderes autárquicos. Um dos processos de interessamento que se verificou foi a associação com artistas da cidade que reclamam a falta de espaço cultural. chama a atenção para a impossibilidade de construção de um equipamento cultural adaptado às exigências contemporâneas num espaço com aquelas características (ruas íngremes e medievais).

defendem. O interesse do edifício. só faz sentido como reacção ao extremo oposto desta concepção. vieram. que reduz a proposta de um “espaço social e performativo” a um Teatro. 3 Insere-se nesta tendência a escola de pensamento dos anos 1970. está nas pessoas. a uma ideia de cultura como sujeito. o interesse do edifício para as pessoas. sinónimo de um grande equipamento. e uma concepção de património como algo social. a musealização do espaço urbano) e por outro. realçando o aspecto social em detrimento do material. foge ao padrão dos edifícios que compõem o Centro Histórico. ele só 2 As chamadas indústrias culturais. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . importa apenas salientar que o movimento cívico representa (no sentido em que mobiliza a retórica construída por esta tendência. que nos remetem para um velho debate sobre as questões da cultura na globalização. ou cultura de massas. marcado pelo confronto entre duas tendências: por um lado. a “cidadania cultural” como crítica a essa tendência de mercantilização da cultura 3 . Deslocam. ou seja. Para além disso. arquitectónicas.tradições ideológicas distintas. e não sendo o âmbito desta discussão procurar saber qual das duas a mais válida. aqui objectificado na posição da Câmara Municipal. impossível de concretizar não apenas devido a motivos económicos. salientam a importância daquele espaço para os moradores. mas também técnicos. a “mercantilização da cultura” ou as “indústrias culturais”2 (o turismo. desta forma. a ideia de que haver interesse patrimonial no edifício. substituir a noção de cultura popular. defendendo a interacção entre dinamizadores culturais e a comunidade local. Tal se verifica na acção de salientar um projecto alternativo para aquele espaço (proposta de Espaço Social e Performativo). Isto é o que se poderá considerar uma concepção de cultura como cidadania. os sujeitos em detrimentos dos objectos. patrimoniais: argumentam que o edifício não é típico da zona onde está inserido. históricas. na memória do espaço e no seu significado. promovendo a participação em detrimento do consumo e transformando consumidores em participantes num processo de produção cultural. no contexto das sociedades capitalistas modernas. no caminho para atingir o seu objectivo) precisamente esta segunda opção: a cultura como cidadania. Esta concepção de cultura e de património. não no edifício em si. urbanísticos (problemas de acessibilidade que têm a ver com a configuração das ruas). argumentam que o edifício não possui características que justifiquem a sua preservação: características estéticas. e sobretudo. conhecida por Teoria Crítica da Escola de Frankfurt. e que por isso. em detrimento da transformação da Alta para turistas. Abandonadas quaisquer pretensões vlorativas de acesso a uma verdade final. para a memória social. que é também. Com isto. num certo sentido.

de retóricas que servem esses objectivos. pois. A representação é outra das operações. para a qual este modelo de interpretação foi desenvolvido). através da conquista do consentimento dos representados (Gramsci 1974). a Câmara Municipal defende que a população não precisa de um Teatro. tendo em conta que. É a eficácia dessa representação. no sentido em que defende que representa mais fielmente aquilo que a população quer para o edifício. O que é importante salientar é que esta é a legitimação retórica que fundamenta cada uma das posições a realizar de uma série de acções com vista a convencer a população de que representa aquilo que ela quer: através de manifestações artísticas. debates com a população. que determinará o predomínio de um enunciado sobre o outro. Este é apenas o resumo das narrativas mobilizadas para esta questão ao longo do processo. mas sim de um espaço polivalente para as suas actividades (ranchos. É. ou criação de relações com o público. reuniões de moradores por intermédio de associações de moradores. é outro dos passos no caminho. que não correspondem às expectativas em termos de público. em processos de representação. contrariamente à anterior. remete para uma concepção objectificante de património. um dos argumentos desta posição é a de que. bem como as representações. Cabral 2004). não fazem falta mais Teatros na cidade. seria mero “património psicológico”. para além dos já existentes. cada lado da controvérsia considera que representa a população da Alta. Neste caso. pequenas peças de teatro.). Ambas as concepções e processos de mobilização retórica podem ser entendidos como diferentes caminhos para atingir diferentes fins. e consequentemente. Um dos lados representa a Alta como sujeito. etc. sendo que a prova final do respectivo enunciado não é a verificação empírica (ao contrário da ciência. como objecto. bem como para uma noção de cultura que é mais próxima de uma ideia de cultura como mercadoria (em vez de cidadania). reformulação de grupos autonomizados. o outro. que por razoes obvias escapam aos ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . caso contrário. Esta ideia. Estratégias a nível de alianças ou processos de interesssamento. mas sim a representação política.poderia estar inscrito no próprio edifício. que assentam todos os processos políticos (cf. O Movimento Sousa Bastos Vivo defende que a população do bairro precisa de um espaço cultural. estão envolvidos em muito maior detalhe. o destino do edifício. reformulação de objectivos e consequentemente. em que cada um dos lados desencadeia as suas acções com vista a atingir o seu objectivo. de uma perspectiva de relação entre oferta e procura. etc.

até novas eleições municipais). Havendo dois enunciados. ou seja. ou seja. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . São estas operações que permitem identificar os diferentes enunciados em causa. sendo isso que define o social. mas no sentido de agregação com fins pragmáticos e acções convergentes. portanto. a algo irreversível. as consequências materiais desse processo. Por outras palavras. O processo de tradução só é terminado assim que houver uma coesão entre esses elos: esse será o núcleo duro. Conclusão Perante estes dois paradigmas (subjectificação/objectificação). Para isso. o novo objecto. no sentido latouriano. pois. interessou-me analisar como é que cada uma se constrói como “verdade”. a identidade não foi o critério que utilizei para identificar e diferenciar grupos. após a controvérsia. ou seja. e mobilizados para a controvérsia. ou o Sousa Bastos como uma questão urbanística – mas que foram sendo criados ao longo do processo. foi fundamental o trabalho de Bruno 4 Não se pretende com isto oferecer uma visão homogénea dos grupos em questão. Desta forma se constata como o mundo discursivo e o mundo material não se sobrepõe. ou no sentido de associações. refiro-me a grupo não no sentido de identificação. através das acções referidas. Importa porém salientar que. foram assim sendo criadas relações ou elos de ligação que não existiam antes – por exemplo: o Sousa Bastos como uma questão de política cultural da cidade.objectivos desta comunicação. Um destes enunciados terá maior eficácia sobre o outro e dará origem a um novo objecto. mas constituem-se mutuamente. Porém. pois a noção de grupo que utilizo refere-se a um nível de sentido meramente formal. há. as consequências materiais propriamente ditas. ou qual é a “melhor”. duas possibilidades de objectos diferentes. mas refiro-me a grupos somente do ponto de vista das suas estratégias de acção. é esse o elemento que permite analisar as duas posições enquanto grupos de intencionalidades distintas 4 . fica no entanto ausente esta última fase deste processo de tradução. dado que esse desfecho ainda não se conhece e a controvérsia ainda perdura (marcada por nova estagnação que durará. trabalho esse que é feito e refeito em função das inúmeras contingências que surgem ao longo do processo. que são os seus efeitos. àquilo que fica para a história após a controvérsia. a forma e o estatuto que o edifício irá assumir. mais do que procurar saber qual destas posições sobre o Teatro Sousa Bastos é a mais “verdadeira”. 6. também. interessou-me sobretudo analisar estes dois lados da controvérsia como dois processos de enunciação. todo um trabalho artefactual de sucessivas mediações. Há. quiçá.

1999.pdf GAMBINI. é aquilo que faz a história. entre o passado e o presente”. 1806-05. O conceito de tradução remete para o processo de construção de novos factos ou de novos objectos. o que implica entender a controvérsia não como algo a eliminar. 20-05-05. a observação etnográfica deste caso permitiu-me descrever e dar conta de dois processos de enunciação de verdade em confronto simultâneo: “o Sousa Bastos é património”. Paulo. 21-05-04. Junho de 2001 FRIAS.fe. “Esthetiques urbaines et jeux d’echelles: expressions graphiques étudiantes et images du patrimoine universitaire a Coimbra”. Paulo. que desvios. “Patrimonialização” da Alta e da Praxe académica de Coimbra”. um instrumento de análise inicialmente concebido para controvérsias científicas. João de Pina.ces. “As Repúblicas de Coimbra. do ponto de vista da tradução.pt/corpocientifico/pinacabral/pdf/DemocraciaJPC3.Latour. Oficina do CES. trata-se de analisar os processos pelos quais a acção é mediada: que operações são levadas a cabo para atingir determinados objectivos. e “o Sousa Bastos não é património”. sendo que a enunciação é o produto final. “Aprender a representar: democracia como prática local”. que caminhos mais longos irão ser tomados para lá chegar. 2005. mas que permitiu entender este caso de um ponto de vista processual: o conceito de tradução. No fundo. 2002. as operações que transformam a modalidade em enunciação. Elísio. Coimbra ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . 7.php FRIAS. A controvérsia é o que Latour chama de modalidade: é o lado contingente de um processo social. Dezembro de 2002 FRIAS. é aquilo que não fica para a história. é uma espécie de resíduo.ul. www. www. Aníbal e PEIXOTO. 2004. Oeiras: Celta.pt/opiniao/ee/001. http://www.ces.pdf ESTANQUE. mas como parte constituinte desse mesmo processo: a controvérsia como processo de construção em si.As Primeiras Décadas de História. A ideia de tradução significa. Lígia Inês. Mas no fundo. Teatro Sousa Bastos . Actas do IV Congresso Português de Sociologia. Processos de Racionalização e de Estetização do Património Urbano de Coimbra”.ics. Aníbal e PEIXOTO.pt/publicacoes/oficina/162/162.uc. E a tradução é precisamente a passagem da controvérsia aos novos objectos ou factos objectivos: a passagem da contingência à necessidade. a última fase do processo (património/não património).fe. por isso. 2001. Aníbal. Comissão de Coordenação da Região Centro. que delegações. “Representação Imaginária da Cidade. nº 162. Oficina do CES. nº 183. Por isso. Bibliografia CABRAL.uc. 2002.

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