AFINIDADE E DIFERENÇA

Ana Bénard da Costa (Org.)

ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA LISBOA, 6,7 E 8 DE ABRIL DE 2006

APRESENTAÇÃO

Entre 6 e 8 de Abril de 2006 decorreu em Lisboa, no Instituto de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE) e no Instituto de Ciências Sociais (ICS), o Terceiro Congresso da Associação Portuguesa de Antropologia. Este Congresso organizado em torno das temáticas abrangentes Afinidade e Diferença reuniu cerca de 250 participantes que expuseram e debateram as suas diversificadas comunicações em sessões plenárias, painéis temáticos, mesas redondas e posters. A temática proposta pelos coordenadores do Congresso, José Manuel Sobral e Cristiana Bastos, respectivamente o Presidente e a Vice-Presidente da então Direcção da Associação Portuguesa de Antropologia, invocava, como se refere no texto de apresentação, “uma tensão básica que percorre o nosso campo disciplinar, provocada simultaneamente pela identificação do que se julga ser comum e do que se julga ser específico em cada cultura”. Procurava-se, através desta proposta abrangente, acolher “todos os domínios de saber reconhecidos como Antropologia” e abrir um espaço para uma “reflexão sobre a sua situação actual, tanto no plano nacional como no internacional.”

ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA

Dentro desta perspectiva, os promotores do evento assumiram a responsabilidade da organização das sessões plenárias e solicitaram aos sócios e potenciais interessados que apresentassem propostas de painéis temáticos. O acolhimento por parte da comunidade nacional e internacional de antropólogos e de ciências afins (sociólogos, economistas e outros) excedeu as expectativas. Numerosos investigadores propuseram painéis que abarcaram desde as grandes temáticas da antropologia clássica (cultura popular, religião) às novas problemáticas da actualidade (globalização, identidades, transnacionalismo), a temas transversais (cultura, metodologia) ou temas que se podem considerar geograficamente ou historicamente mais específicos (Timor, Caboverdianidade, colonialismo). Percorrendo o Programa que então foi editado, constata-se a enorme vitalidade que a antropologia em Portugal conhece actualmente. Não só, como já se mencionou, pela diversidade dos temas debatidos - emigração, crenças, saberes, saúde, educação, memórias, arte, história, economia, desenvolvimento, género, natureza, corpos ou afectos, para só enumerar alguns - como também pela variedade de escolas, centros de pesquisa e associações de investigação presentes. Importa ainda acrescentar que este Congresso demonstrou que a internacionalização da antropologia portuguesa é uma realidade: estiveram presentes vários antropólogos de outros países com trabalhos desenvolvidos em Portugal e noutras regiões do mundo e vários antropólogos portugueses que estudam outras realidades que não a portuguesa. A participação da Antropologia Visual (ciclo de cinema-documentários e debate) constituiu outro factor enriquecedor desta iniciativa. Mais de um ano decorreu desde que este Congresso se realizou e vários acontecimentos atrasaram a publicação das Actas: a Associação de Antropologia mudou de Direcção, questões burocráticas urgentes exigiram as atenções dos novos membros da Direcção e, quando foi possível a organização dos textos finais das comunicações, constatou-se que muitos dos participantes não os tinham enviado e que o “estado” dos painéis era muito variável: havia painéis completos, outros sem nenhum dos textos finais das comunicações apresentadas e outros, ainda, em que os textos eram em número insuficiente não justificando a “existência” do respectivo painel nas Actas. Perante esta situação, e porque a nova Direcção considerou de todo o interesse deixar um registo material exemplificativo da riqueza temática e teórica que marcou os debates no Congresso que cumpriu plenamente os objectivos propostos pelos organizadores de “realizar um Congresso onde sejam acolhidos todos os domínios de saber reconhecidos como Antropologia e que constitua um momento de reflexão sobre a sua situação actual, tanto no plano nacional como no internacional”, foi necessário tomar algumas opções que passamos a explicitar:

ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA

-

Foram mantidos os painéis cujos números de textos finais das comunicações eram significativos;

-

Foram agrupados em capítulos novos, textos de comunicações de

diferentes painéis que partilhavam afinidades temáticas (os títulos desses capítulos foram inspirados nos títulos dos painéis originais).
-

Em cada um dos capítulos há uma nota que explica se este corresponde a um
painel apresentado no Congresso ou se é um capítulo que agrega comunicações de painéis diferentes, bem como uma referência aos organizadores dos painéis originais.

Acreditamos que este índice, a organização temática que o suporta e, no seu conjunto, esta publicação de Actas, não desvirtua o que de essencial o Terceiro Congresso da Associação Portuguesa de Antropologia revelou a todos os que nele participaram. Acreditamos, sobretudo, que a publicação destes textos possibilita, a todos aqueles que não puderam estar presentes no Congresso, a participação nesse debate que assim certamente irá continuar.

Ana Bénard da Costa Junho de 2007

ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA

Coordenadores da Comissão Organizadora
José Manuel Sobral (Presidente da Direcção da APA), Cristiana Bastos (Vice-presidente da APA),

Comissão organizadora
Nuno Porto, Paulo Castro Seixas (Direcção da APA), Patrícia Alves de Matos, Cynthia Pereira, Teresa Bolas, Isabel Bajouco (FCSH, UNL), Daniel Seabra (U.F. Pessoa) , Ruy Blanes (ICS, UL), Antónia Pedroso de Lima (ISCTE), Clara Saraiva (FCSH, UNL)

Comissão Científica
João Pina Cabral - Instituto de Ciências Sociais, Universidade de Lisboa Raul Iturra, Jorge Freitas Branco, Clara Carvalho, Brian O’Neill - Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa Augusto Abade, Eugénia Cunha, Manuel Laranjeira - Faculdade de Ciências, Universidade de Coimbra Jill Dias, Jorge Crespo, Claudia Sousa - Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, U. Nova de Lisboa Luis Batalha, Narana Coissoró -Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, U. Téc Lisboa Maria Johanna Schouten - Universidade da Beira Interior, Francisco Ramos, da Universidade de Évora. Álvaro Campelo, Paula Mota Santos - Universidade Fernando Pessoa Jean Yves Durand, Manuela Palmeirim - Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho Fernando Bessa Ribeiro, Xerardo Pereiro - Universidade de Trás os Montes e Alto Douro Ricardo Vieira - Instituto Politécnico de Leiria José Orta - Instituto Politécnico de Beja Joaquim Pais de Brito - Museu de Etnologia Vítor Oliveira Jorge - Sociedade Portuguesa de Antropologia e Etnologia (SPAE) João Leal, Miguel Vale de Almeida, Carlos Simões Nuno - Associação Portuguesa de Antropologia (APA) Maria Cátedra - Universidade Complutense de Madrid Shawn Parkhurst -Universidade de Louisville, USA Miriam Grossi - Associação Brasileira de Antropologia

ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA

Dorle Drackle - European Association for Social Anthropology (EASA) Gustavo Lins Ribeiro - World Council for Anthropological Associations

Coordenação dos Voluntários: Cynthia A. Pereira Voluntários: Fátima Almeida Filipa Soares José Fidalgo Marta Fragata, Marina Sousa, Teresa
Bolas,Elísio Jossias, Mª Fátima Gabriel, Ana Beatriz Boucinha, Vanessa Gonçalves, Rui Costa, Íris Rosa, Tiago Oliveira, Ana Rita Alves, Ana Mafalda Falcão

Secretário
Miguel Jorge Lopes Sousa Pinto

Patrocínios
O Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (ICS-UL) e o Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE) cederam graciosamente à APA as suas instalações para a realização do congresso.

ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA

I – Capítulo Colonialismo

Textos de comunicações dos painéis:

O Saber colonial e o fim da colonização
Coordenação

Clara Carvalho
Departamento de Antropologia, ISCTE;

Raça, Eugenia, Nação e Império
Coordenação

José Manuel Sobral e Patrícia Ferraz de Matos
Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa

ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA

Antropologia Colonial e a Produção de Conhecimento sobre Grupos Étnicos da Guiné Portuguesa
Reflexão em torno da Tese de Mário Humberto Ferreira Marques “Comportamento dos Mandingas da Guiné Portuguesa na Vida e na Morte” 1 ISCSPU, 1965

Ana Mafalda Abreu e Castro Menezes Falcão ISCTE ana.falcao@sapo.pt

A produção científica portuguesa respeitante ao período colonial foi fortemente condicionada por um poder político que pretendia manter a forma colonial existente, alheio às exigências de mudança provindas da conjuntura internacional. Muitos dos autores deste saber participaram activamente nos programas políticos do regime colonial, e mesmo do autoritário, revelando assim a natureza essencialmente política da esfera científica da época. Nesta comunicação pretende-se deixar explícito o entrosamento entre discurso antropológico e dominação colonial, vínculo exemplificado no conteúdo duma das teses de final de curso do ISCSPU. Estas teses exprimiam os níveis de conhecimento (antropológico) em que se inseriram as decisões de política colonial nas décadas de 60 e 70. As referências imediatas dos autores destes trabalhos, que aliás exibem uma consistente igualdade de pontos de vista sobre as sociedades tradicionais, eram constituídas pelos ensinamentos ministrados nas Escolas Coloniais e, como tal, nenhuma novidade sobressai das análises que elaboram. Trata-se, portanto, através de uma leitura da tese “O Comportamento dos Mandingas da Guiné Portuguesa na Vida e na Morte” revelar a estreita conexão entre o saber antropológico e a ideologia colonial portuguesa, plasmada por um lado na valorização dos usos e costumes nativos transformados em “riqueza de Portugal”, e, por outro, no dualismo que opõe a incivilidade desta etnia à tolerância que sobre ela, no suposto respeito por esses mesmos costumes, os portugueses cultivaram. Palavras-chave: Discurso antropológico, Dominação política, Ideologia colonial, Incivilidade, Tolerância.

1

Comunicação apresentada no painel “O Saber colonial e o fim da colonização”( coord. Clara Carvalho, Departamento de Antropologia, ISCTE)

ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA

2

1. Discurso Antropológico e Dominação Colonial

A produção científica portuguesa no que respeita às colónias, principalmente no domínio das Ciências Sociais, encontra-se muito condicionada por um poder político que pretendia manter a forma colonial existente, alheio às exigências de mudança provindas da conjuntura internacional. Muitos dos autores deste saber participaram formal e activamente nos programas políticos do regime colonial, e mesmo do autoritário, revelando assim a natureza essencialmente política da esfera científica na época. De facto, segundo Rui Pereira (1998), a afirmação institucional da antropologia portuguesa remonta à segunda metade do século XIX, e este desenvolvimento dos estudos etnográficos, em Portugal como noutros países Europeus, estava

manifestamente associado à busca de uma identidade nacional. Esta prolífica geração de intelectuais em permanente contacto com as escolas e teorias que então se desenvolviam em Inglaterra, França e Alemanha, contrastou com o anacronismo académico que assolou a antropologia entre as décadas de 1930 e 1970. Na sequência da Conferência de Berlim, Portugal demorou 70 anos a cumprir a exigência de ocupação efectiva das suas possessões coloniais, principal mandamento resultante do evento. Estabelecida a dominação política, económica e administrativa tratava-se de conhecer, de ocupar cientificamente o ultramar português, o que permitiu a elaboração de um plano, que servia ao “prestígio” e à “utilidade nacional”, por parte da Junta das Missões Geográficas e de Investigações Coloniais. Este plano para manter as colónias reivindicava um papel, a par de outras ciências, para uma Antropologia baseada em dados etnográficos existentes nos arquivos portugueses, reconhecendo-se, num mesmo movimento, a insipiência dos estudos elaborados sobre as colónias. A Junta de Investigações Científicas do Ultramar (J.I.U.), à qual se anexou mais tarde o Centro de Estudos Políticos e Sociais (C.E.P.S.), era expressão da ociosidade científica da altura. Porém, o CEPS viria dar vida a uma política de transformação do modelo colonial, organizando e coordenando as necessárias recolhas de dados. Adriano

ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA

Moreira enfatizava a urgência de um exame da situação colonial que assentasse no desenvolver de estudos monográficos sobre a dinâmica do fenómeno colonial. e da necessidade de guiar as populações autóctones porque incapazes de se autodeterminarem. Nestas vemos perdurar a concepção ideológica que faz da imagem do negro enquanto “cidadão subalterno”. ainda que frequentemente apresentada do ponto de vista antropológico.. enquanto se delineava um clima de fraternidade humanitária que bem podia ser posto ao serviço das classes coloniais no poder” (GALLO. poucos teriam sido realizados por antropólogos portugueses. concentrando esforços na mera descrição de ritos tribais. inútil ou pouco conveniente. Alfredo Margarido afirma que a primeira foi mero instrumento na mudança das formas coloniais.I. porque lhes bastava uma aparência de conhecimento” (GALLO. Esta apreciação consubstancia-se na tónica conferida pelos antropólogos culturais aos aspectos esotéricos das religiões e cerimónias africanas. Donde concluiu a quase inexistência de uma antropologia colonial portuguesa. Etnocentrismo que. No campo dos estudos sobre a conexão entre a antropologia e o colonialismo português.U. as bases dos novos modelos integrativos para as situações coloniais portuguesas. era. que todavia comportava elementos de discriminação em relação às populações autóctones. entre estes. segundo R. autor que anos mais tarde se debruçou sobre a etnologia colonial portuguesa. aliás. Pélissier. aliado a uma dose avultada de paternalismo. deste modo se reconhece a especificidade do colonialismo português do ponto de vista científico: “até então aos portugueses não interessava uma informação cientificamente válida. A produção cultural da J. falando a partir de uma asserção de princípio que reafirmava o modelo cultural lusófono como ideologia da colonização. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . 1988: 20). Director do CEPS entre 1956 e 60. no quadro de um colonialismo que reduz as populações autóctones a reservatórios de mão-de-obra. asseverava mesmo que “por definição a situação colonial que interessa à ciência política é uma situação dependente da intervenção do poder político”. encontramos plasmado nas obras dos melhores antropólogos portugueses.3 Moreira. A aceitação do critério luso-tropicalista e a conjuntura favorável de que gozava o império Português no pós 2ª Guerra tornava possível tais projectos de delimitação de uma “área cultural lusófona. 1988: 18-19). situando as parcas obras de cientistas sociais que se ocuparam da ex-África lusófona “abaixo do limiar científico mínimo”. escassa de trabalhos antropológicos e. Isto porque seria.

É precisamente no âmbito deste empreendimento contra as formas eversivas que se pode situar as produções do C.E. 1988: 24). Analisar a produção colonial portuguesa de 1950 a 1975 implica primeiramente considerar a posição do País na década de 50. assim. que institui uma Escola Colonial onde figuram disciplinas como geografia e história mas se pretere a etnologia geral em prol de uma geografia colonial. O argumento que daqui emana refere-se a uma especificidade do colonialismo português que. conjuntura internacional onde emergem renovadas acções dos capitalismos ocidentais face aos países desenvolvidos e.P.C. mas a antropologia era uma cadeira das escolas de quadros coloniais. desde que permitidos pelo enquadramento colonial. A reforma de 1919. e do I. proposta da Sociedade de Geografia de Lisboa no sentido de produzir uma ciência colonial. ainda que não praticada necessariamente pela mão de antropólogos. também Portugal construiu um saber colonial. À semelhança das outras nações coloniais europeias. esclarece ainda melhor o formato da presença ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .P. a despeito da pobreza. agregou autonomamente um conjunto de saberes sobre as suas colónias. em 1906. resultado de determinadas práticas científicas peculiares. de que fazem parte “noções e conceitos confluentes no património do saber antropológico europeu” (GALLO. permitisse a continuidade do colonialismo evitando a contaminação das formas neocoloniais de territórios vizinhos.4 Contudo.S. Era necessário elaborar uma estratégia que. se revelam os elementos de fraqueza e crise do império português. instaurando o consenso social interno. Os sistemas de investigação manejados por estes funcionários do regime foram os mais variados. funcionando nos momentos de normalidade da prática colonial. não é possível negar a existência concomitante de uma “antropologia aplicada”. A finalidade principal do ISCSPU era a de formar quadros civis e militares capazes de fazer funcionar as estruturas da administração colonial. e a pesquisa de campo constituiu o denominador comum entre eles. Esta última instituição é produto das múltiplas reformas sofridas pela Escola Colonial desde a sua criação.S. No decreto de 1906. ressalta a intencionalidade de imbuir os cursos dos quadros coloniais de cadeiras que acelerem a adaptação do conhecimento às formas de dominação.U. fragmentação e subalternidade da antropologia portuguesa. até há alguns anos em Portugal não se formavam antropólogos a um nível académico.S. e as datas das reformas que antecederam a sua consolidação reflectem as transformações dominantes sobre a função dos quadros coloniais. Na verdade.

De facto. Porém. Em 1926. o punha a par de outras formas de colonialismo europeias. A etnologia mantinha-se no currículo mas a sua aplicabilidade e utilidade prática era considerada de segundo plano. “esta [actualização] não se fazia com o fim efectivo de uma transformação do sistema de domínio” (GALLO. visando preparar os quadros teóricos do colonialismo. de ora em diante com uma utilidade prática cada vez mais reconhecida. em 1961. modificando o posicionamento português no quadro internacional do capitalismo. 1988: idem). pondo fim à figura do administrador-etnógrafo na qual se baseavam as precedentes. fazendo sentido acrescentar as disciplinas de direito internacional. se é verdade que se procedeu. que. nomeadamente pela adopção de uma política assimilacionista. espelha o aumento do enfoque etnográfico ao introduzir a cadeira de antropologia cultural no Curso Complementar de Estudos Ultramarinos. através de análises de tipo físico. e cria-se uma segunda formação. No ano de 1946. a uma actualização ideológica de Portugal. A etnologia praticada por esta nova figura permitia deduzir as leis gerais dos fenómenos das vidas dos povos. ano de uma nova reforma. mantendo a sua função de formar quadros coloniais. desde a sua origem até ao estado actual de civilização. em Altos Estudos Coloniais. biológico e comportamental do indivíduo. representando um momento de crescimento económico do colonialismo português. Uma nova reviravolta na orientação destas formações ocorre em consequência da segunda guerra mundial que. frente aos desígnios de domínio em curso. privado e público e ainda formação relativa a práticas judiciárias e notariais.5 portuguesa nas colónias. pois que “a etnologia é a ciência que trata da formação e dos caracteres físicos das raças humanas” (GALLO. a reforma de 1946. preconizava agora a intervenção de um antropólogo. Uma nova reforma. procede-se à reestruturação do antigo curso de Administração Colonial do ISCSPU. 1988: 31). ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . reconhece-se a necessidade de adaptar o sistema de conhecimento às novas exigências coloniais. justifica o abandono de lógicas formativas anteriores. disciplinas funcionais à formação dos administradores. entendido como “um especialista do carácter físico. através destas reformas. Em ambos os cursos constava a etnografia. uma vez que se introduzem elementos de teoria económica e de ciências das finanças. biológico e comportamental das populações primitivas e não um especialista das sociedades primitivas então existentes” (GALLO. 1988: 29).

eram conjugáveis com a ideologia colonial e as suas exigências de domínio. suplantando a simplista visão craneológica. convertidas nas únicas investigações antropológicas úteis. marcou decisivamente a orientação do pensamento antropológico português por toda a primeira metade do século. da mensuração e da quantificação. No âmbito de actividade desta escola. por um lado confirmavam a tradição portuguesa que a partir de Mendes Corrêa foi sobretudo a da antropologia física e.6 A aceitação destes princípios foi bastante simples dado que. ao abordarmos a vertente física da antropologia ou. As concepções contidas nos manuais desta disciplina apontavam para uma ligação entre cultura e comportamento dos indivíduos. e portanto também possíveis. A recorrência a M. que se dispunham “proceder ao conhecimento dos grupos étnicos de cada um dos nossos domínios ultramarinos. Em 1918. vinculada a uma concepção científico-naturalista das ciências. do outro a Etnologia. entendida como o estudo do homem cultural e social” (PEREIRA. de novos elementos naturais. Esta visão restritiva das disciplinas etno-antropológicas. a elaboração das respectivas cartas etnológicas” (PEREIRA. por serem capazes de fornecer à administração colonial portuguesa os meios de reforçar a sua ocupação e incrementar a mobilização da força de trabalho indígena. ou seja. partes de uma equação em que os segundos são produto de uma combinação complexa aprendida e das tendências genéticas de cada ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . tuteladas por Mendes Corrêa. preferindo. 1998: XVII). Assim se subtrai à antropologia qualquer ligação às estruturas sociais dado que ela é apenas o principal elemento para o estudo do crânio humano. geográficos e históricos que. doutorado em Antropologia física. Esta lógica corporiza-se nas reformas de 1946 e 61. António Augusto Mendes Corrêa cria com Américo Pires de Lima a Sociedade Portuguesa de Antropologia e Etnologia. o sentido antropobiologista reinante durante quase toda a primeira metade do século XX. desencorajava a disciplina das categorias exclusivas da antropologia física. Fundador da «Escola do Porto» este médico. foi-se somando. as primeiras acções em terreno colonial dignas de menção foram as famosas missões antropológicas. onde vemos surgir a antropologia cultural nos cursos do ISCSPU. cuja designação trai desde logo “uma divisão fundadora no campo das ciências antropológicas em Portugal na primeira metade deste século: de um lado a Antropologia entendida como o estudo do homem físico. 1998: VII). Foi a época de força da antropobiologia. paulatinamente. por outro. Corrêa é inevitável.

detenhamo-nos no caso particular dos Relatórios Confidenciais. O entendimento ideológico do “outro” não era alterável. 1988: 38).U. exprimiam os níveis de conhecimento em que se inseriram as decisões de política colonial do regime português nas décadas de 60 e 70. Em termos temáticos podem ser classificados em três grupos. ou ainda do rendimento nacional do ultramar. resultavam cientificamente inaceitáveis. este tipo de produção não aparece senão no formato de teses de final de curso do ISCSPU. Retornado à produção cultural do CEPS. na óptica de Donato Gallo. quando publicadas pela J. Após a década de 50. que continuavam a ser “cidadãos de segunda”. É pela análise destas produções que. resultados de missões a África e cujos principais objectivos se cifravam. privilegiavam o discurso ideológico do regime. Esta visão ratificava as convicções portuguesas relativas aos povos africanos. mas também revela “as duas directrizes principais da sua funcionalidade: a gestão dos momentos de transição da forma colonial e o uso ideológico para o interior de Portugal” (GALLO. por outro. pretendessem licenças para elaborar a tese.I. Alternando entre a fidelidade às ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . sem se afastar de uma grelha interpretativa de carácter biológico e social. por um lado. e fortes penalizações para quem desta quisesse eximir-se. se esclarece a relação entre antropologia e colonialismo. elucidando também as dinâmicas culturais que favoreceram e regularam as diferentes funções da antropologia da época. tal como estes. excepto através de simulações que propusessem novamente a sua inferioridade ou subalternidade a um outro nível. em fazer frente às pressões do colonialismo internacional e. podendo mesmo conter conclusões diametralmente opostas às da pesquisa original. de entre estes. pesquisas utilizáveis como fontes antropológicas. As teses de final de curso.7 um. que as teses aparecem como uma continuidade dos relatórios confidenciais e. Frequentemente alvos de censura e de modificações estratégicas.. O estudo dos relatórios e das teses serviu para atestar a sua argumentação em torno da existência de uma antropologia colonial portuguesa. sobre a acção das missões e razões da emigração para as cidades. Existiam simultaneamente facilidades para os que. seguindo o raciocínio de Gallo. É neste sentido que podemos afirmar. na procura das condições necessárias para uma racionalização eficaz da gestão colonial. consoante tratassem de movimentos associativos e minorias étnicas. redigidas pelos vários administradores coloniais que tinham frequentado o curso de Altos Estudos Coloniais.

verificando-a agora com base nas condições que a produziram: o único conhecimento permitido era o aplicado e aplicável e a posição objectiva do intelectual português era a de um prestador de serviços a quem se encomendava. 1988: idem). Gerou uma intelectualidade capaz de produzir análises etno-antropológicas passíveis de apropriação para uso político sobre a população dominada e de cariz propagandístico na metrópole. com as respectivas diferenças que emanam da ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . ainda que tenha sido amiúde negada. Ora. a possibilidade e o uso do saber colonial” (GALLO. O condicionamento dos produtores deste saber devia-se essencialmente ao seu cometimento com o sistema de domínio. É no seguimento destas asserções sobre o imbricamento entre antropologia e colonialismo que Gallo alerta para a precisão de revermos a acusação de acientificidade da produção cultural portuguesa ligada às colónias. 1988: 170). porquanto estão condicionados “ao ponto de serem completamente acríticos em relação à própria visão escolar da realidade colonial” (GALLO. directamente funcional para a gestão do poder nas épocas de crise e de transformação do modelo de controlo colonial. então. numa de duas modalidades possíveis: ou participando directamente nos aparatos coloniais ou dependendo deles para o financiamento das suas investigações. O autor avança ainda que. para além de podermos com alguma propriedade aferir a existência de uma antropologia colonial portuguesa. As suas referências imediatas eram constituídas pelos ensinamentos ministrados nas escolas coloniais e. os aparatos coloniais deste colonialismo funcionaram à semelhança dos de outras potências coloniais. no que concerne as práticas antropológicas podemos.8 práticas normativas e a curiosidade antropológica. apesar de todas as indeléveis ligações ideológicas. como tal. 1988: 169). nenhuma novidade sobressai das análises que elaboram. os autores destes trabalhos exibem uma consistente “igualdade de pontos de vista sobre as sociedades tradicionais. A presença destes mecanismos que submetiam a produção intelectual lusitana aos desígnios do império demonstra que “em Portugal o poder geria exclusivamente para os seus fins a necessidade. com as mensagens ideológicas elaboradas pelo regime e com a ideologia das noções antropológicas do período da sua formação na escola de quadros coloniais” (GALLO. aferir que o domínio colonial português se serviu de um aparato cultural cuja finalidade. era a de “conhecer para melhor dominar”. controlava e até censurava o saber. O saber colonial português foi.

então. os contributos directos ou simbólicos. cuja importância foi já referida no desenvolver da matriz teórica de Donato Gallo. por um lado. Ora. visto que.) ou se considera o conjunto de problemas e temas questionados pela produção antropológica colonial como derivando das relações de força e das necessidades da própria situação colonial (…) ou. a presente tese se insere no período considerado e surge na época da ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . se avaliam. que a distanciam de outras consideradas num mesmo olhar por Donato Gallo. representou.. (PEREIRA. no caso da produção antropológica colonial portuguesa ambos os ângulos de abordagem se afiguram pertinentes. por um lado as necessidades coloniais ditaram a problematização científica – como no caso da relação entre medições antropométricas e a quantificação da força de trabalho indígena –. e. Os Mandingas da Guiné Portuguesa: Confronto entre Incivilidade e Tolerância Em primeira instância cumpre ressalvar as particularidades desta tese de final de curso. no prefácio que escreveu para a reedição do Macondes de Moçambique de Jorge Dias. 2. uma prestação académica e científica importante. um por um. explícitos ou latentes. dez anos depois de Gallo. mesmo servindo um intento de dominação colonial.9 especificidade de uma forma colonial subalterna e periférica ao sistema económico internacional. que tal produção antropológica prestou à empresa colonial. 1998: XLVII). mas complementares. também Rui Pereira. propõe duas perspectivas diferentes. tendo bem presente o subjacente entrosamento entre discurso antropológico e dominação colonial demonstrado nas páginas precedentes. É com base na articulação entre o poder heurístico destes dois vectores de análise da produção antropológica colonial. Se. de encarar as relações entre a Antropologia e a dominação colonial: (.. A este propósito. que passaremos a escalpelizar o conteúdo de uma das teses de final de curso do ISCSPU. o levantamento etnográfico de determinadas culturas. por outro. nalguns casos.

por outro não foi elaborada por um aluno que tenha sido administrador colonial ou militar. entre 1961-1975. consciente dessa realidade. a instauração de hierarquias estatutárias entre os antigos e novos alunos de cursos com uma origem comum. se não havia hostilidade. 1965: II). ainda que modestamente. confessa a mágoa de. durante muito tempo no ambiente ultramarino (…) e. a este respeito. As sucessivas reformas que foram reconfigurando uma Escola Superior Colonial em ISCSPU trouxeram consigo. destas circunstâncias particulares acresce ainda o facto da dissertação sobre o comportamento dos mandingas provir simplesmente da “conexão de elementos bebidos em fontes de várias origens” sendo. Sobre o autor pouco se conseguiu averiguar. uma elaboração teórica desprovida de trabalho de campo. portanto. não ter podido frequentar o curso de Altos Estudos do reformulado ISCSPU. notava-se. pelo menos indiferença” (MARQUES. a defender (MARQUES. a ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . aspirava através dela obter a equivalência ao grau de licenciatura em Ciências Sociais e Política Ultramarina. donde se infere a sua relativa marginalidade face a autores de destaque das ciências sociais comprometidas com o projecto colonial da época. A escolha do tema é também. que sobre esta colónia versavam (1988: 95). Decorrendo. à medida que os cursos se ajustavam às realidades coloniais e se subdividiam para melhor se especializarem.10 extensão das lutas de independência iniciadas em Luanda a outras colónias portuguesas. contudo que a motivação para a realização desta tese parte de uma lógica estatutária visto que o autor. Sabe-se. diplomado com o curso superior colonial. Invoca. assunção retirada por Gallo a partir do reduzido número de teses. curiosa dado que a Guiné na época “parecia não dar as mesmas preocupações que as outras colónias ao governo português”. Ainda. No entanto. O autor. poderemos concluir que. se nos cingirmos apenas ao ambiente metropolitano. algo que se lhe tornou possível. 1965: III). critério de constituição da “amostra” de Donato Gallo. “a hostilidade que os diplomados da Escola Superior Colonial sentiram. depois da reforma de 1961. donde escrever sobre ela serviria para. desde que apresentasse uma dissertação. em função dos seus deveres profissionais metropolitanos (Chefe de repartição do ensino liceal) “absorventes até ao esgotamento”. Ferreira Marques justifica a sua opção temática espacial por “ser a Guiné a nossa província ultramarina mais atingida pelo desvairamento negro da presente hora”. no mínimo. aliás.

missão que “está agora polarizada na decifração do enigma economico-politico suscitado pelas reivindicações que nela pululam. dirigidos aos Drs. o grupo mandinga o mais aliciante pelo fundo histórico de haverem sido os portugueses os primeiros europeus a tomarem contacto com os mandingas no tempo das descobertas” (MARQUES. por enquanto interessa analisar. tendo em conta o que se disse no capítulo anterior. Esta inexactidão de fontes e inferências teóricas pouco documentadas e actualizadas vai percorrer todo o conteúdo da dissertação. e na decifração das referências mais imediatas de um autor. da Guiné Portuguesa. atribuída a Duarte Pacheco Pereira. facto ainda mais preocupante visto que é apenas de conexões teóricas que este se constitui. contudo. sem. lança mão de uma descrição da época.E. Os agradecimentos. no prefácio. António Carreira. criadas pelas correntes ideológicas ou só aparentemente ideológicas que se alicerçam na finalidade. Para o confirmar. ajudam. Mas o que interessa reter à primeira vista são simultaneamente as possibilidades eversivas do povo mandinga. Marques refere-se a África como “o alvo da curiosidade mundial” instituído pelo desejo de “desvendar o seu mistério” e a “pretensão de civilizar as suas gentes”. de uma temática que só no final da tese começamos a compreender do que realmente se trata. muitos destes ligados ao C. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . do ISCSPU. isto é. a referenciar bibliograficamente. e o “pleno clima de confiança nos portugueses. do ódio ao branco” (MARQUES. 1965: idem). de mútua compreensão” que norteou as relações entre povo colonizador e colonizado (MARQUES. e a uma mais vasta panóplia de autoria estrangeira. Esta temática será esclarecida atempadamente no decurso da análise da tese. ameaçadoras para o domínio português.11 escolha da etnia mandinga se rege por critérios de ligação ao projecto lusitano: “ser. Fernando Rogado Quintino e ao Centro de Antropobiologia e Centro de Antropologia Cultural. os diversos capítulos que a constituem. como veremos adiante. Apesar da manifesta ausência de pertinentes referências bibliográficas no texto. na compreensão do tipo de antropologia que se tentou pôr em prática neste estudo dos mandingas. encoberta ou politicamente declarada. 1965: V). fazendo especial menção à reduzida bibliografia de autores portugueses. 1965: IV). passo a passo. Cabe ressalvar também a presença. o autor faz no prefácio um elogio da excelência das obras em que se apoiou. portanto. que são também as de uma escola.

o império do Mandén. considerada como a sua pátria. este grupo subdivide-se. com o Norte de África dominado pelos árabes e as populações subjugadas. E foi dessas massas fugidias que se formaram os grupos étnicos que envolveram a Guiné Portuguesa. trataram de formar um grande estado que não se concretizou devido à ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . talvez não conseguissem arranjar meia dúzia de adeptos” (MARQUES.12 Começando por um relato. assim. tem o seu revés de benefício para os sudaneses visto que. difícil de precisar em termos temporais. se podem superiorizar face ao atraso dos verdadeiros autóctones: os negrilhos. lessem aos instigados os capítulos das suas histórias em que o ódio figura como causa principal no atraso e na ruína de muitas sociedades em evolução. em vez das promessas fantasiosas. a parcela convertida dos soninkés. negros oceânicos da segunda invasão. como veremos. que afirma a posição dos Estados Unidos contra o colonialismo europeu. seguindo-se a tomada do centro de África pelos árabes. Colonialismo e civilização dão as mãos numa relação inextrincável. O acolhimento desta orda islâmica não foi de todo unânime. onde. aqueles que resistiam foram impelidos a rumar a Sul. Marques invoca a Doutrina de Monroe. o domínio português se legitima pela particular tolerância e compreensão reveladas no contacto com os povos que pretende subjugar/civilizar: “se os instigadores do ódio ao branco. Mas este império acaba por sucumbir no despontar do século XV. todavia. nome que provém da região do Mandén. e brancos do mediterrâneo. e os primeiros. depois de estabelecidos. conforme a conversão. com a expansão do islamismo. que sucederam ao desmembramento do império de Kumbi. os Mandingas constituem o seu império. “em adiantado estado de civilização”. para refutar aos sudaneses a sua qualidade de autóctones da África. A aparição dos mandingas dá-se pela mestiçagem entre autóctones. nascem os sarakolés ou soninkés. os não convertidos permanecem com a designação de soninkés ou sarakolés enquanto os convertidos passam a nomear-se mandingas. A chegada dos mandingas à Guiné portuguesa. foi. e a consequente expansão do islamismo. De facto. Em meados do século XIII e sacudido o jugo dos Almoravidas. Destes cruzamentos conjugados às duas vagas de invasão de massas semitas. anterior à dos fulas-pretos feiticistas. perturbando a apropriação colonial de povos e territórios. que se pretende histórico. Numa lógica um pouco travessa Marques pretende deslegitimar esta pertença que. Inicialmente feiticistas. da formação do grupo étnico. 1965: 2).

todos baseados em cálculos da média de uma série de mensurações. António de Almeida. logo civilizadora.13 dispersão que dificultava a unidade política. “elemento indispensável à classificação dos vários grupos da humanidade”. os mandingas entraram numa fase de quietação” (MARQUES. impotentes. uniram-se aos futa-fulas para se libertarem do domínio mandinga. Marques começa pela análise da estatura. ainda. elaborados num texto praticamente telegráfico que desvela a adesão a uma análise antropométrica dos povos. Para tal convoca contributos de Alcide D’Orbigny. numa proposta quase luso-tropical. que. verificada a impotência para a rebeldia e as vantagens em aceitarem o domínio português. 2002: 111). dos portugueses. e com isto assegurar a preservação do império (THOMAZ. Com o aumento das massas de fulas-pretos a fixar-se na Guiné. outros revelam uma certa renitência: “é nos renitentes que se encontra a grande massa que no final do século XIX e nos primeiros anos do século XX deram trabalho às autoridades portuguesas para receber o sopro de Cristianização que sempre foi timbre de Portugal. Estes. o grupo mandinga exigiu-lhes uma elevada tributação de ocupação de território que lhes valeria grandes dissabores futuros. 2002:119) e. no seu estudo por meios antropológicos reproduzir hierarquicamente a desigualdade. À igreja católica caberia desempenhar o papel de instituição legitimadora do regime colonial e dos valores por ele veiculados (THOMAZ. Barrow. reconstruindo assim a homogeneidade através de uma abstracção ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . O primeiro grande capítulo da tese sobre o comportamento dos Mandingas é dedicado aos caracteres somáticos desta etnia. outros entram num sistema religioso misto e. suportam a tirania e revelam diferentes posturas face à islamização: uns convertem-se. 1965: idem). Iniciou-se uma guerra sangrenta donde os mandingas saem vencidos dando origem à tirania dos Fula-Pretos e à tentativa de islamização dos dominados. estes. confere um carácter benevolente à colonização: “E. ao contactar com os povos de todas as latitudes” (MARQUES. Segundo uma chave interpretativa baseada no pressuposto de que a diferença física se manifesta também enquanto diferença mental. assim se divulga uma atitude doutrinária relativamente à qualidade evangelizadora e. Eugene Pittard e do Prof. 1965: 17). eivada de ideias de determinação biológica de tipo racial esgrimidas enquanto discurso científico. fingindo-se convertidos ao islamismo. O intuito de análises assim esboçadas era o de garantir a preservação da diferença e. Aquando da fixação dos fulas.

onde este administrador colonial e antropólogo ligado ao Centro de Estudos da Guiné Portuguesa. na época director da escola de antropologia de Paris. 1965: 22) Paul Broca. Quanto aos mandingas. Os mandingas são considerados por Marques. vê a base desta noção na somatologia. Carreirra e Emília de Oliveira Mateus. como negros que são. mesmo à época. não isenta de polémica já na altura de realização da tese. Les Races et l’Histoire. esta última no quadro da missão antropológica da Guiné em 1946. ao sabor dos cruzamentos havidos no decorrer do tempo” (MARQUES. são dolicocéfalos na sua maior percentagem mas. Continuando a percorrer os caracteres que definiam o conceito abstracto de raça. 1988: 159). espelha uma adesão a teorias de superioridade racial que pretendiam inferir do afastamento entre estádios de civilização dos povos. realizara estudos tributários de um darwinismo social que pretendiam determinar biologicamente a imagem do negro colocando-o entre “o homem e o macaco” (GALLO. Marques vai estabelecer uma equivalência entre a cor da pele do mandinga e as escalas cromáticas propostas pelos anteriores autores: “a cor da pele dos mandingas corresponde ao último destes tipos [preto]. nos grupos humanos. entre 9 e 12 cm”. Recorrendo a textos apodados de uma cientificidade duvidosa e. remetendo obviamente para Mendes Corrêa. segundo Eugene Pittard. “Mandingas da Guiné Portuguesa”. Deste modo permite-se afirmar que “esta diferença está absolutamente de acordo com a teoria científica de que. Deniker insere-se igualmente nesta linhagem de autores que pretendiam ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . nas observações de A. como povo de alta estatura. o índice cefálico figurava como outro dos elementos científicos encontrados para a classificação dos grupos humanos. tendo como base as anteriores “teorias científicas”. Para o atestar recorre a António Carreira. A divisão em dolicocéfalos e braquicéfalos. mas a negrura varia em intensidade. Marques vai forjando um entendimento antropológico dos mandingas. enquadrado por uma ciência das raças que. e “conferindo uma nova aparência de cientificidade a uma classificação oriunda do senso comum” (RAMOS. surgem também as outras categorias cefálicas. Baseando-se em Broca e Deniker. e o valor dessa diferença oscila. já de certo modo datados.14 matemática. a estatura do homem é sempre maior do que a da mulher. 2003). encontra valores médios elevados para os mandingas do sexo masculino e estaturas pequenas em indivíduos do sexo feminino.

o seu carácter adaptativo pode ser encarado como ameaça a este mesmo domínio uma vez ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . e logo aos mandingas. Os estudos deste tipo aspiram a discriminar e analisar primeiramente. uma etnia particularmente dócil na aceitação do jugo colonialista português. Assim. A face. as características são elencadas de forma breve e generalizadora. um prognatismo que correlaciona tipos morfológicos e atributos intelectuais. criando esse quadro de homogeneidade tão precioso no delinear de estratégias de dominação colonial. ou o ângulo facial é considerado. à falta de apreciação presencial. Esta última. pelo sentimentalismo. os mandingas seriam então. pelo seu pacifismo e capacidade de adaptação. Relativamente aos caracteres psicológicos. quanto maior a abertura do ângulo maior a superioridade intelectual. sentido artístico. No caso dos mandingas o autor afirma apenas que estes são platirrinios. depois. segundo A. é fortemente vincada durante a descrição dos seus comportamentos na vida e na morte. e pelo poder de observação demonstrado noutros trabalhos. sem especificar se em virtude desta qualidade se podem tirar conclusões sobre a sua condição intelectual. as características morfológicas de um dado “tipo”. invocando-se novamente teorias científicas que neste caso não possuem referência. o autor reproduziu de descrições lidas. pelo seu aturado contacto com os nossos mandingas. “e. Para o índice nasal sucede o mesmo processo de mensuração e de construção de equivalências automáticas. A psicologia do mandinga caracterizar-se-ia. olhos. não fora a proximidade de fontes subversivas e as doses avultadas de superstição que lhes estrutura o quotidiano. Sobre a boca. 2003). resume a sua ideia religiosa. Carreira. “que acompanha todos os actos da vida do mandinga” e. honradez. biotipologicamente. isto é. 1965: 25). portanto. “segundo conclusões tiradas por pessoas que. nos merecem confiança” (MARQUES. porém não tão evidentes. e através da antropometria. como outro dos indicadores do grau de intelecto. Ademais. Ora. ignorando a enorme diversidade racial no interior de cada grupo. as modalidades mais características da sua fisiopsicologia” (RAMOS.15 classificar globalmente um povo com base nas observações somáticas e morfológicas da sua corporalidade. pacifismo. como apanágio do seu estádio inferior de civilização. meras descrições que. imputando-se aos negros. nas suas características funcionais de maneira a determinar os tipos constitucionais mais frequentes em cada um deles e. ironia e superstição. adaptação. cabelo. vista e ouvidos as informações são escassas e inconclusivas.

“de habitações dignas de serem ocupadas pelo ser humano que é o mandinga!”. são também os juízos de valor. uma estratégia dúbia de afirmação das características positivas e ao mesmo tempo. Casa. Sintoma da falta de cientificidade das descrições de Marques. Perante tal cenário clama. empregam as criadas. o autor refere-se frequentemente às sociedades evoluídas como contraponto de comportamentos supersticiosos que descreve: “salvas as devidas distâncias. pela intensificação da construção. verificamos. justificava o domínio português. 1965: 37). justifica-se referir ainda as representações reveladas relativamente à produção artística mandinga. “por ela pouca ou nenhuma diferença fazer da que serve para recolher animais”. o tom jocoso. contando histórias de lobisomens aos filhos família. nas sociedades evoluídas. que recordemos. que incapaz de se autodeterminar. se pensarmos que em 1965 estavam já acesas muitas das guerrilhas de libertação africanas. é o mesmo processo que. 2002: 281). Refere-se-lhe como um tegúrio.16 que. os mandingas constituiriam um reduto de conformidade que o regime procurava a todo o custo perpetuar. não são mais do que reformulações das originais. 1965: 106). não é onde se habita. com notória indignação. assente sobre as bases da tolerância religiosa e cultural que “caracterizariam a obra portuguesa no mundo” (THOMAZ. para que tal receba esse apelido é preciso ser um sítio “a que nós [civilizados] associamos a ideia de conforto. De facto. e as comparações desniveladas que elabora: referindo-se a uma cerimónia de entronização ao papel de médico mandinga. é-lhe exigido mais que isso. noutra usa-o para imputar primitivismo: “têm alguma originalidade. como forma de os terem em sossego [algo que] nos povos atrasados ainda é desculpável porque obedece ao espírito supersticioso que eles têm” (MARQUES. com a maior urgência. aprisco. Não querendo alongar-me na enumeração de mais exemplos desta parcialidade de análise. da incivilidade desta etnia. Marques classifica de “exortação patética” as palavras dirigidas pelo Almami (padre muçulmano) ao novo profissional e. para o autor. Se numa altura Marques lhes realça o sentido artístico. Partindo agora para uma análise do discurso sobre o comportamento mandinga. desde logo. de segurança e de condições higiénicas” (MARQUES. adverte que “os atrevidos são talvez em percentagem igual ou maior do que nas sociedades evoluídas”. sobre a protecção das casas de mulheres. Quando fala da casa mandinga fá-lo de forma flagrantemente etnocêntrica. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . arrecadação.

A ocupação europeia de África é enfatizada por Marques como “sinónimo de pacificação”. não sabemos o que o leva ou em que documento se apoia para assumir tal coisa. É neste quadro de sentido que une Deus. dada a psicologia gentílica” (MARQUES. serviu ao regime para se posicionar discursivamente acima de qualquer negro. Pátria e Família. mas sente-se nelas um fundo musical de primitivismo” (MARQUES. Noutra zona do texto faz-se a apologia da influência da civilização portuguesa na mudança comportamental dos mandingas: “Pela evolução por que tem passado o mandinga no contacto com a nossa civilização. Só estando profundamente imbuído de uma crença na real superioridade de um povo sobre outro. num processo que mediu pela bitola portuguesa todos os comportamentos que não se coadunavam com a mentalidade colonialista e autoritária do Estado Novo. do que. ou próxima dela. Este etnocentrismo e paternalismo explícito nas produções antropológicas portuguesas era ainda de maior funcionalidade em períodos em que se temia a turbulência das lutas de libertação nas colónias. a dada altura. Apreciações de carácter ético que desvalorizam as particularidades culturais de determinado povo. que “o desenvolvimento intelectual do mandinga encontrou muito cedo o seu termo. tido como objectivamente inferior.17 não há dúvida. Marques esclarece. são menos juízos éticos sobre a vida dos povos em questão. M. e já tendo presente a especificidade antropológica da época. Neste aspecto particular se revelam as fraquezas de uma tolerância característica do português. se pode classificar aspectos da vida mandinga como “actos do mais puro barbarismo”. Ora. 1965: 109). e como tal de civilização e progresso: “tornando possível a movimentação ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . 1965: 49). porquanto esta só faz sentido numa determinada e bem restrita organização social dos significados. 1965: 45). O que deveria estar em causa numa análise etnográfica. 1965: 66). uma descrição detalhada das características fundamentais de dada etnia. mas este darwinismo social manifesto em produções que se queriam antropológicas. Voltamos a assistir a resquícios de uma tese sobre a inferioridade das raças quando se aborda a questão das actividades desportivas. o que o leva a fugir de tudo o que exija esforços mentais” (MARQUES. que Marques faz uma ressalva ao “amor familiar” entre os mandingas: “esse amor tem de ser considerado num campo relativo. nota-se hoje uma acentuada relutância das viúvas em aceitarem a união com os cunhados” (MARQUES.

Já na época dos relatórios confidenciais de que nos fala Gallo. Marques aproveita para inserir mais uma das suas considerações propagandísticas da benevolência lusitana. existia uma atenção particularmente interessada em defender os interesses do colonialismo português. revelada no rápido desmembramento do seu império e na submissão ao domínio fula depois da batalha de Turu-bã. adoçando a prepotência dos dominadores [fulas]. o desenvolvimento económico das regiões” (MARQUES. A isto parece seguir logicamente um sentimento de dívida. demonstrando que “as origens destes movimentos estão nos estragos impostos pelo colonialismo às estruturas tradicionais” (GALLO. e esta só poderia ser superada através da conversão ao catolicismo. originou a criação de novas vias de comunicação e. sabe-se que há “católicos civilizados de raça negra” (MARQUES. afirma. 1965: 64). que os mandingas se distribuem por duas formas religiosas principais: o animismo. 1965: 85). nas zonas de transição e do interior. É o caso dos relatórios de Silva Cunha em que este analisa os vários movimentos eversivos. e islamização. A história da submissão mandinga ao domínio fula reverteu-se num predomínio acentuado do islamismo nestas duas etnias. Alegando a fragilidade da organização política mandinga. mais afincadamente sentiriam o erro” encerrado na modalidade da sua organização política (MARQUES. 1988: 43). incompatível com a série de correntes ideológicas que promovem o ódio ao branco. Os movimentos religiosos eram nos relatórios retratados através de uma imagem em que reinava a incivilidade. baseandose numa “autoridade em assuntos da Guiné” – Teixeira da Mota –. porém. A “acção lenta e pertinaz da colonização dos europeus”. ao afirmar que “se não fora a intervenção das autoridades portuguesas. de afeição pelo bom colonizador. De forma consentânea. Numa alusão clara ao pan-africanismo. com origem política ou religiosa. Marques revela-se preocupado com a série de movimentos eversivos que. 1965: 82). na zona litoral e a norte do canal do Geba. postos em crise pelas tentativas de intromissão do capitalismo internacional.18 com segurança. Em termos religiosos. sob a égide de reivindicações religiosas ou nacionalistas têm provocado uma “agitação negra quasi total”. daí. que foi perdendo terreno com a emergência do nacionalismo africano. vemos em ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . a sua “boa vontade” é sempre enfatizada nas considerações de Marques. principalmente quando se toca no aspecto político e religioso da etnia mandinga.

dos próprios Mandingas. assim. o autor adverte para a necessidade de se lhe dar maior ênfase “quando o atraído não atingiu o grau cultural que lhe permitiria discernir com equilíbrio”. este último diz mesmo que “os negros foram sempre propensos à continuação de sociedades secretas”. logo. mais uma vez reificando o etnocentrismo e paternalismo que o guiaram durante toda a tese. 1965: idem). 1965: 120). na qual. enceta uma revisão da história política dos mandingas. O que estiver mais perto da fonte donde jorram as ideias terá mais probabilidade de ser atingido” (MARQUES. torna possível admitir a existência de uma profunda impregnação dessas doutrinas que ameaçam o domínio colonial português na Guiné.19 Marques uma mesma postura. e. Senegal. ainda ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Mas. admitir-se também a dificuldade da sua absorção pelas correntes de independência que volitam em seu redor” (MARQUES. A simples existência deste pólo atractivo não pode pôr-se de lado e. “a proximidade de repúblicas recém-nascidas põe os povos que nela habitam na iminência de serem influenciados pelas novas doutrinas do continente” (MARQUES. Com o intuito de deixar clara a dívida dos mandingas para com o civilizador português. Este é precisamente o caso dos povos da Guiné portuguesa e. o autor faz especial menção a outras circunstâncias que podem subverter o rumo lógico dos processos de manutenção do império. Gâmbia. “adoçou”a prepotência dos fulas. razão que faz o autor discorrer sobre “as características especiais e únicas do sistema de Portugal contactar com os povos que civilizou” e que permitem esperar deles reconhecimento e gratidão. O equilíbrio é aqui corporizado na perpetuação da dominação colonial portuguesa. em nome de um sentimento de gratidão que. a dispersão dos mandingas pelas terras do Mali. No entanto. como já foi dito. o colonizador português. colocando a salvo os elementos mandingas: “parece lógico admitir a existência de uma dívida de gratidão por parte dos mandingas da nossa Guiné para com Portugal. 1965: 118). e no tom de alerta que faz desta tese um justo sucessor dos relatórios confidenciais. tal como avançado anteriormente. Na verdade. e as conexões ideológicas destas com os movimentos eversivos do poder colonial fá-lo recear as hipóteses de contaminação dos mandingas: “a situação geográfica de cada povo tem uma importância capital na determinação da maior ou menor facilidade de impregnação. “sabido como é que no Mali e na Republica do Gana se agitam com mais intensidade as doutrinas de emancipação do continente negro”. Sudão. República da Guiné e do Gana.

o volume de informação que poderíamos cruzar no espaço deste ensaio extrapola significativamente o que para a sua realização foi estipulado. Tratou-se neste documento. a própria existência da nação portuguesa nos quatro cantos do mundo” (THOMAZ. dominando. muito ainda ficou por dizer. e por outro de opor a sua incivilidade à tolerância que sobre ela. à luz de uma antropologia que não é já aquela dos tempos coloniais. bem de alto a estrada percorrida por mais de quatro séculos por uma Nação que teve sempre como principal determinante da sua expansão no mundo a conquista de almas e não a de territórios. 2002: 277). Próximas oportunidades de repensar estas questões surgirão. encerramos esta dissertação na esperança de que Essa será a força que neutralizará todas as forças contrárias. Mas. Ferreira Marques apela aos Céus para que guie no sentido certo um império que já era na época uma forma colonial em vias de extinção: No entanto. numerosos autores de destaque por convocar e uma história do saber etnológico da Guiné por recordar. Não obstante o que se tentou demonstrar nestas páginas.20 assim. indelevelmente revelador de uma ligação entre o saber antropológico e a ideologia colonial portuguesa. os portugueses alimentavam. a partir de abordagens como esta. porque neste momento nos acode à imaginação a Cruz de Cristo. no suposto respeito por esses mesmos costumes. Procurava-se dessa forma “perpetuar o império e a sua estrutura hierárquica e. contemplando aspectos que. no gradualismo da «transfusão das almas». e outros estudos poderão. eivada de um cariz religioso e de forte carácter ideológico. garantir. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . de por um lado valorizar os usos e costumes nativos e transformá-los em riqueza de Portugal. em virtude de constrangimentos de dimensão não puderam aqui ser desenvolvidos. assim. pode não conseguir neutralizar as forças de sinal contrário trazidas pelas “reivindicações negras em ebulição”. apesar de se estar a analisar em primeira-mão material intocado. ser iniciados. embora associados e pertinentes. A forma como se finaliza esta tese é a expressão mais finalizada do propósito último que levou à sua elaboração. Numa passagem que se assemelha a uma prece.

21 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .

Donato.letras. 1988. Migrations Anciennes et Peuplemente Actuel des Côtes Guinéenes.br/). Jair de Souza. Antropologia e Colonialismo. Mário Humberto Ferreira. Gérald.up.1. Texto Editores. Lisboa. GAILLARD. Lisboa. O Saber Português. Lisboa. 64-86.539-577. nº. PEREIRA. Comportamento dos Mandingas da Guiné Portuguesa na Vida e na Morte. Gérald (dir. CNCDP e IICT.doc. RAMOS. GALLO. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . 2003. Ciências e Saúde. www. 1998. in MARQUES. Ecos do Atlântico Sul. ISCSPU. 1920.). pp. ER. Paris.pt/revistas/documentos/revista_49/artigo4551.scielo. “Ciência e racismo: uma leitura crítica de Raça e assimilação em Oliveira Vianna” in História.ler. Lisboa. “Factos e teorias históricas (sociais)”. Rio de Janeiro. THOMAZ. Jorge. Clara. Rui. MACEDO. Vol. 2000.10.22 Referências Bibliográficas CARVALHO. Rio de Janeiro (http://www. 1965. 2005. “Introdução à reedição de 1998” in DIAS. pp. Omar Ribeiro. editora UFRJ. “Brève évocation d’une histoire de la constitution du savoir ethnologique relatif à la Guinée Bissau” in GAILLARD. Newton de.2. L’Harmattan. Os Macondes de Moçambique. Vol. “Antropologia da Guiné-Bissau” in Dicionário Temático da Lusofonia. 2002.

Eugenia. Associadas a esta lógica. coordenado por mim e por José Manuel Sobral. império. Era necessário afastar os “incapazes” ou mais “fracos”. surgiram noções como “pureza da raça” e. Este trabalho foi realizado com o apoio da Fundação para a Ciência e a Tecnologia. Com este estudo pretendemos contribuir para uma melhor compreensão das sociedades contemporâneas e para uma reflexão sobre a história das ideias e do colonialismo português. 2 Doutoranda em Antropologia Social e Cultural do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e Bolseira da Fundação para a Ciência e a Tecnologia. Posteriormente. Tal projecto de “purificação” procurava garantir o poder e a soberania dos portugueses e alguns cientistas fundamentaram os perigos da mestiçagem daqueles com as populações autóctones dos territórios ultramarinos. 1 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . as espécies eram consideradas imutáveis e os membros de cada uma delas eram detentores de uma essência que os diferenciava de todas as outras. Gonçalo Duro dos Santos. inspirado nas teorias populacionais Comunicação apresentada no painel intitulado “Raça.Oximórons do Império: as buscas da perfeição ao serviço da nação 1 Patrícia Ferraz de Matos 2 Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa patricia_matos@ics. Palavras-chave: raça. neste sentido.pt Nas primeiras décadas do século XX em Portugal tanto a ciência como o poder estatal pretendiam contribuir para o progresso da nação. pois esses constituíam uma ameaça. a miscigenação seria nefasta. pelo seu incentivo e pelo espaço de reflexão que ali foi possível criar. miscigenação. Agradeço aos colegas que fizeram parte deste painel e aos que participaram no debate final. Assistiu-se então à procura de afirmação da superioridade biológica e racial dos portugueses. nação. Clara Carvalho e Leonor Pires Martins. Teoria da selecção natural e origens do pensamento eugénico Num contexto pré-darwiniano. Ricardo Roque. influente nos EUA e na Europa.ul. pois contaminaria a “essência” que se julgava existir e se devia preservar. Uma das formas de garantir a “pureza racial” era através da eugenia. 1. e no qual participaram também José Manuel Sobral. Nação e Império”. eugenia.

era necessário intervir activamente no desenvolvimento do homem. 4. autor do Ensaio sobre o Princípio da População (1798).). 2.. O termo eugenia (eu .geração) foi criado em 1883 pelo britânico Francis Galton (1822-1911). Galton considerou necessário procurar manter as “raças” puras. Malthus não defendia a ajuda aos mais necessitados. uma prática que procurava alcançar a melhoria das qualidades físicas e morais de gerações futuras. enquanto a produção de bens alimentares cresce em proporção aritmética (1. 4 Em 1907 foi presidente da Sociedade para a Educação Eugénica. Inspira-se no darwinismo para elaborar em 1883. falar na existência de “tipos” raciais permanentes. Galton 4 inspirou-se ainda nas descobertas de Gregor Mendel 5 (1822-1884). a teoria eugénica de “aperfeiçoamento da raça humana”. criada na Inglaterra. Ao transferir o resultado das descobertas de Mendel acerca do cruzamento de ervilhas para os humanos. a selecção natural actuava no sentido da preservação das diferenças e variações favoráveis e da eliminação das variações nocivas (Darwin 1968 [1859]: 84). na obra Hereditary genius. podendo tal conduzir a uma catástrofe. segundo o próprio. através de um método estatístico e genealógico. tendo em vista um aperfeiçoamento das populações e a eliminação de características indesejáveis.2 do pastor protestante Thomas Malthus 3 (1766-1834). pois tal não permitia a actuação da selecção natural que eliminava os mais fracos. tendo-lhe sucedido no cargo Leonard Darwin . Não fazia sentido. a primeira do género. Galton procura provar. 2. ou seja. primo direito de Darwin. as espécies não eram imutáveis e evoluíam gradualmente. conhecido como o fundador da genética.. 3 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Segundo ele. e paralelamente ao evolucionismo. por isso. a população cresce em proporção geométrica (1. 8. o processo darwiniano de selecção natural já não operava sob as condições de uma vida “civilizada” e. os seres mais bem adaptados viviam durante mais tempo e deixavam uma maior descendência. uma vez que as populações se adaptavam/ evoluíam ao longo do tempo. o resultado tendia a ser ervilhas de casca enrugada.. na obra Inquires into Human Faculty and its development. 3. emergiu a eugenia.filho de Charles Darwin. que a capacidade humana era influenciada pela hereditariedade e não pelo meio e sugere as proibições dos casamentos inter-raciais. 5 Mendel cruzou pés de ervilhas e identificou algumas características: quando as ervilhas de casca enrugada eram cruzadas com as ervilhas de casca lisa. 4. Em 1869. Ainda durante o século XIX. Alguns eugenistas interpretaram estas experiências de um modo que reconhecia as ervilhas de casca enrugada como uma degeneração (e não como uma variação genética apenas). genus . 16. pois esse gene era dominante. principalmente pelo controle social dos matrimónios. pondo assim em causa a reprodução daquela espécie..boa.). portanto. um monge checo. Darwin (1809-1882) definiu o processo de “selecção natural” das espécies. No entanto. Segundo Malthus.

o isolamento dos “inferiores” e até a sua exterminação. T. por exemplo. como Alcácer do Sal. tendo como resultado a sua degenerescência. pois esta permitiria obter combinações incontroláveis. uma grande parte dos autores da geração de 1870 debruçou-se sobre a constatação do atraso português de então comparado com os feitos heróicos nacionais que ocorreram nos séculos XV e XVI. e com os avanços técnicos. especialistas legais e higienistas mentais. a partir dela. a palavra “raça” tinha ainda. Outros. Já Leite de Vasconcelos (1858-1941) reconheceu que os portugueses resultaram da mistura de vários povos e. 279). tinham uma influência africana evidente (Vasconcelos 1895). mas as superiores sairiam desfavorecidas. Nesta altura. Por outro lado. económicos e políticos das nações mais progressivas da Europa. como para Oliveira Martins. médicos. crenças e tradições (1885). Na obra O povo português nos seus costumes. “o sentido unitário – mas polissémico e ambíguo – de nação” (idem. como Alexandre Herculano (1810-1847) na sua História de Portugal. Alguns teóricos defenderam que as “raças” inferiores ficariam favorecidas. 2. destituída de uma base étnica individualizada”. como observou José Manuel Sobral. Por seu turno. deduzir os caracteres de “uma raça fundadora” portuguesa (Matos 1998: 324). tomou a literatura como “expressão ou produto do meio social” e do “génio nacional” para. Alguns autores vão então procurar encontrar uma matriz rácica para explicar a decadência de finais do século XIX (Sobral 2004: 259). Teorias nacionalistas e influência do pensamento eugénico em Portugal No contexto português de finais do século XIX. Para impedi-la promoveu-se a segregação de alguns grupos. Teófilo Braga (1843-1924). Braga concluiu que os portugueses resultaram da mistura de vários grupos e tal era um exemplo de superioridade. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . resultou da “vontade política e das instituições e não de uma raça entendida como um tipo nacional” (Matos 1998: 329). levantaram-se questões relativas à miscigenação. “a nação portuguesa. inclusivamente. por um lado.3 A eugenia veio a suscitar o interesse de cientistas. a ideia de “nação” estava no centro das preocupações dos intelectuais (Mattoso 1998). p. tanto para Antero de Quental. Porém. por outro. algumas zonas do país. reconheceram a influência árabe.

Na I Semana Portuguesa de Higiene. Corrêa propôs a criação de um “arquivo genealógico dos doentes” que veio a ser “posto em prática. em 1931. assistência social. como António Sardinha (1887-1925) em O valor da raça (1915). reconhece os “traços flagrantes” deixados pelo germano. mais de 50% dos homens sujeitos às inspecções para o recrutamento militar não foram apurados por falta de robustez física. começaram a surgir propostas de medidas de higiene. minora a influência dos semitas e não se refere a uma possível influência dos habitantes da África sub-sahariana. M. Nesse sentido referiu que era “urgente (. assim como pela mortalidade... Por outro lado. a inaptidão bio-social era um fenómeno constitucional-germinal e. o médico e antropólogo Mendes Corrêa. M. nem a existência de sangue árabe consideravam. Nessa mesma altura. Corrêa estava ainda preocupado com o facto de que. cinco anos depois. num texto de 1914-1915.) pôr em prática (. para uma conferência no Porto. presidente da organização brasileira de eugenia. ibidem). promoção e proibição de casamentos.4 Nos inícios do século XX. portanto. hereditário. altura ou saúde. da eugénica negativa (combatendo a procriação mórbida) e da eugénica preventiva (combatendo os factores degenerativos)” (Corrêa 1928: 1-7).. sentiu-se a necessidade de realçar a hegemonia de uma nação colonial afastando elementos que pudessem sugerir degenerescência ou hibridação. convida Renato Kehl. pela tuberculose e pela ilegitimidade das crianças conduzia à necessidade de tomar medidas eugénicas. Para M. na Clínica Psiquiátrica da Faculdade de Medicina de Lisboa” (Pimentel 1998: 22). no sentido de salvar a população portuguesa e manter genuinidade do carácter dos portugueses. Foi neste contexto também que. na qual o eugenista brasileiro condenou a mestiçagem (idem. nesse mesmo ano.) os princípios racionais de eugénica positiva (favorecendo a procriação sã). Corrêa. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . não sendo pois muito eficazes os meios higienistas. Em 1927. No ano seguinte (1932) é convidado para organizar a secção do Porto da Sociedade Portuguesa de Estudos Eugénicos e. M. Corrêa intervém no Congresso Nacional de Medicina defendendo que o desfalque humano suscitado pela emigração.. entre 1915 e 1921. os integralistas lusitanos. ou devido a deformidades físicas (Corrêa 1928).

os “homens de amanhã”. na Universidade de Coimbra. director do Instituto de Antropologia de Kaiser Wilhelm de Berlim (Diário de Coimbra. e realizou estudos que ilustram o seu interesse pela “raça”. 10 Estes pressupostos eram comuns aos defendidos pela Sociedade Portuguesa de Estudos Eugénicos. Esta Sociedade. que segundo ele permitiriam a continuidade dos valores da “nação” e da “raça”. Bissaya-Barreto. João de Almeida (brigadeiro-médico) e Sobral Cid. como Bissaya-Barreto. com a presença 8 de representantes de vários países 9 e esteve em actividade até 1974. pode discordar-se de certos processos. criada em Coimbra em 1937. de tão brilhante Passado.. tornando-a vigorosa e forte. cujos estatutos foram aprovados em 1934. mas o que ninguém pode contestar é a seguinte afirmação do Hitler: ‘Numa época em que as raças se estão intoxicando a si próprias. tinha a intenção de propagandear ideias de “valorização demográfica” e responder à “necessidade de se criar uma geração mais forte”. o médico e antropólogo Eusébio Tamagnini 6 apresenta a proposta para a criação da Sociedade Portuguesa de Estudos Eugénicos 7 . participaram os médicos Joaquim Pires de Lima. 7 Em termos comparativos. Tamagnini analisa a importância do estudo da população e destaca as medidas eugénicas já tomadas pela Alemanha: Podem discutir-se pormenores. mentor de várias estruturas de apoio às crianças. 6 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Foi inaugurada durante as Comemorações Centenárias da Universidade de Coimbra. na lição inaugural da Universidade de Coimbra. Corrêa e H. instruindo-a. defendeu em 1940. desenvolvendo a nossa raça. necessitam (. Do Porto e Lisboa. onde as secções da sociedade eram dirigidas por M. 9 Entre os quais o alemão Eugen Fischer. o Estado que devote os seus cuidados aos seus melhores elementos étnicos dominará um dia o Mundo’ (1934-35: 28). respectivamente. para que possam manter o seu lugar ou conquistar melhor lugar na hierarquia dos Povos” (e isso só é possível) “aumentando a nossa população.) de desenvolver tôdas as fôrças e riquezas com que a Natureza as dotou. a Sociedade para a Educação Eugénica na Inglaterra (1907). Bissaya-Barreto esteve presente na sua inauguração. a Sociedade Eugénica Francesa (1912) e a Sociedade Eugénica Americana (1921) que veio a aconselhar a esterilização de um décimo da população americana para evitar o “suicídio da raça branca”. Anselmo Ferraz de Carvalho ou Elísio de Moura. Rocha Brito. Tamagnini foi ministro do governo de Salazar. podemos referir a criação da Sociedade Alemã para a Higiene Racial (1905). Mas já anteriormente. de 23-10-1934 a 18-1-1936. as variadas causas do seu enfraquecimento 10 (1940: 6). Embora não fazendo parte desta sociedade. 10-12-1937).. educando-a. 8 A maioria dos presentes era constituída por professores da Faculdade de Medicina de Coimbra. que: As Nações novas e as velhas como a Nossa.5 Em 1933. combatendo tanto quanto possível. professor de Antropologia. Vilhena. aperfeiçoando-a. no discurso para as festas comemorativas da cidade de Coimbra. no ano lectivo de 1934-35. Por seu turno. E.

Tamagnini. 26). a via higienista (apoiada pelas descobertas da química. Apenas Egas Moniz. a Igreja foi-se mantendo vigilante no que diz respeito a uma excessiva intervenção do Estado no domínio privado e familiar. 11 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . procurando assim impedir os excessos “negativos” da eugenia. João de Almeida). em parte devido à influência cristã. como sabemos que aconteceu nos EUA e na Alemanha. Em Portugal registou-se então a persistência dos valores humanistas.6 Em Portugal. Sendo assim. De facto. no que diz respeito à regulamentação de casamentos e divórcios proposta por alguns médicos e à consequente necessidade de actualizar o Código Civil português. uma medida no entanto restrita a casos clínicos mais especiais (Pereira 1999: 588). Prémio Nobel de Medicina e Fisiologia (1949). membros da União Nacional e opositores ao regime (como Álvaro Cunhal. membros do Partido Evolucionista (Bissaya-Barreto). propôs a esterilização para eliminar a hereditariedade mórbida. Os católicos defenderam a eugenia “embora aprovassem medidas natalistas de aumento da população e condenassem as medidas limitativas da natalidade” (idem. No que respeita à esterilização. A sua tese de licenciatura incidiu sobre “A Realidade Social do Aborto” e defendeu a legalização do aborto. agnósticos e ateus (Pimentel 1998). medicina e farmácia) acabaria por prevalecer à via eugenista. embora as duas pudessem coexistir. houve em Portugal um certo consenso em a reprovar. e especificamente católica. encontram-se apologistas da eugenia com diferentes posturas relativamente à religião: católicos. Por outro lado. ou de esterilização como sucedeu na Suécia. os elementos sociológicos. conservadores republicanos (Júlio Dantas). p. Entre os grandes defensores da eugenia estiveram vários psiquiatras e pessoas de distintos quadrantes políticos: ex-nacionais-sindicalistas (E. psicológicos e até jurídicos. que defendeu em 1940 a despenalização do aborto 11 ). os princípios da eugenia não foram levados até às últimas consequências e não se registou no país a ocorrência de extermínio ou genocídio. Outro elemento interessante é que as discussões acerca da eugenia passaram a juntar aos argumentos biológicos. com a intervenção da Igreja no Estado.

inaceitáveis em “matéria da eugenésica interétnica”. Higiene racial e questão colonial Na primeira metade do século XX. por essa razão. uma vez que um mestiço era “um sêr imprevisto no plano do mundo” (1934: 332). e defendeu uma política colonial “extremamente humanitária e rasgadamente liberal” para apelar à colaboração dos mestiços. por outro. envolvendo os meios políticos. a Argentina e a Venezuela. referindo que esta era “um risco para tôdas as sociedades humanas. podemos encontrar em M. por exemplo. salvaguardando. refere a importância do “vigor” e da “pureza germinal da Raça” para a “continuidade histórica da Nação” (1940c: 20). enfatiza a sua linha de pensamento quanto à mestiçagem. Assim. 12 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Nas Comemorações de 1940.7 3. que estes constituíssem “grupos cuidadosamente separados” (Ribeiro 1981: 155). Tamagnini. no entanto. Ela foi debatida em alguns países da América Latina. embora fossem a favor da “elevação social de pretos e mulatos”. desde a Família até ao Estado” (1934: 63). com a questão da miscigenação 12 . e os científicos. no I Congresso Nacional de Antropologia Colonial de 1934. não eram favoráveis à mestiçagem. ao defender o esforço para incutir nos portugueses o desejo de emigrarem para as colónias e aí se fixarem definitivamente. o médico Germano da Silva Correia criticou o povoamento colonial por condenados. por exemplo. Apela ainda A questão da mistura racial não era única de Portugal. como o próprio Brasil. Numa outra comunicação apresentada ao Congresso Colonial. pois foram esquecidos desde os “tempos dourados em que o grande Afonso de Albuquerque favorecia o cruzamento de portugueses com as mulheres indígenas”. 1934: 329. este autor chama a atenção para a necessidade do desenvolvimento de estudos sobre os “problemas biológicos e sociais do mestiçamento” cuja “intensidade angustiosa e dramática” deveria preocupar os investigadores. No mesmo Congresso. por um lado. Corrêa propósitos muito idênticos. No Congresso de Antropologia Colonial (1934). Já no âmbito científico. Contemporaneamente a Tamagnini. mas com um espírito um pouco diferente. como Norton de Matos ou Vicente Ferreira. no discurso da Sessão Inaugural do Congresso Nacional de Ciências da População. governadores coloniais. 326). por um lado. defendendo que: “de um mestiçamento não se pode esperar uma nova linha racial pura” (1940b). por outro (Correia. e ainda o México. estas discussões acerca do “aperfeiçoamento da raça” estiveram envolvidas também com a questão colonial (Matos 2006) e. G. o Peru. Este médico não apoiava a mestiçagem. alertou para os perigos da mestiçagem.

Corrêa debruça-se sobre os “Factores degenerativos na população portuguesa e seu combate” e anuncia o mestiçamento como “possível factor degenerativo”. dentro do possível. Ainda no âmbito daqueles congressos de 1940.). após a apropriação das teses luso-tropicalistas de Gilberto Freyre. que é a maior garantia da continuidade histórica da Pátria. exercer postos superiores da política geral do país. o mestiçamento levaria à diluição de caracteres (1940b). um recurso a adoptar para exploração dalguns territórios (. Quatro anos mais tarde (1944). foram desfavorecidos por más condições sociais e educativas e promover. é.º Em tal caso deve procurar-se. o que este autor acaba por destacar é a imprevisibilidade do mestiçamento (1940b) e não a sua fundamentação científica. embora influente. no entanto. M.) (1944: 3-4).º Deve dar-se aos mestiços do nosso Império um tratamento carinhoso. procurando melhorar a situação daqueles que. fraterno. Na sua apresentação integrada no Congresso Nacional de Ciências da População. Dito de outra forma. 2... Contudo. A mestiçagem era vista como uma ameaça. cuja existência vários autores tinham tentado demonstrar desde o século XIX. salvo (.º O mestiçamento em áreas de difícil aclimação dos europeus ou por virtude da escassez dos colonos provenientes da metrópole.. como não devem os estrangeiros naturalizados. aborda questões como o contacto da “raça portuguesa” com as “raças indígenas” e o contacto das “raças” nas colónias portuguesas e revela-se também contrário à existência de “mestiços” (1940: 20-21)...) muito excepcionais e improváveis” (1940b).. Havia alguns que contrastavam com estes. mas a questão de o factor degenerativo surgir era apenas uma possibilidade (1940a). 3. sobretudo mais tarde. Mendes Corrêa sustenta que: 1. humano. professor na então Escola Superior Colonial. Porém. a posição destes autores.ª Sub-Secção do II Congresso da União Nacional.º Não deve considerar-se o mestiçamento em larga escala como base da nossa política colonial. em Lisboa.. pois poderia conduzir à dissolução de caracteres específicos dos portugueses. porventura. numa Comunicação apresentada à 22. a sua colaboração com os mais prestimosos valores nacionais.8 à “conveniência nacional de restringir os cruzamentos raciais” e termina referindo que: “nunca eles (os mestiços) deverão. pois isso implicaria a destruição dum património germinal.. tanto quanto possível. 4. uma selecção eugénica dos progenitores (.) em casos (. no Congresso Colonial. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Gonçalo de Santa-Rita (1891-1967). não representa todos os discursos da época.

O seu autor. vice-rei da Índia. o médico Joaquim Pires de Lima defendeu que os portugueses resultavam da síntese entre os elementos lusitano. Quando os portugueses chegaram à Índia encontraram impérios imponentes. houve quem tenha defendido uma política de casamento misto.9 Curiosamente. Por ocasião do Congresso Nacional de Ciências da População (1940). Germano da Silva Correia refere que “não ocorreu nem degenerescência. a Escola Médica de Goa era muito organizada. Embora a sua religião fosse diferente. Aires de Azevedo apresenta um trabalho no qual conclui que “a influência das raças coloniais (nomeadamente Hindu e Negra) na pureza bioquímica do povo português. Os hindus impressionaram pelo seu desenvolvimento e organização social. embora tenha enfatizado não querer que estes “casassem com as ‘mulheres negras’ de Malabar” (Boxer 1967: 98-9). No âmbito das Conferências de Alta Cultura Colonial (1936). que assistimos à produção de trabalhos visando provar a pureza do povo português. 13 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . No âmbito deste mesmo congresso. que encorajou os seus homens a casar com as mulheres de origem ariana convertidas ao cristianismo. é nesta mesma altura. 4. Histórias de miscigenação na colonização portuguesa Apesar do que foi dito atrás. etc. houve gente que ascendeu à nobreza. domiciliada há mais de dois séculos nesta Colónia” e que a única diferença resultante do clima tropical é “o menor grau de robustez orgânica” (1940: 663-678). nem diversificação rácica na grei Luso-descendente. na história da colonização portuguesa. num texto sobre o índice nasal dos portugueses. professor da Escola Superior Colonial. a par das considerações contrárias à miscigenação. Ainda no âmbito dos congressos de 1940 foi apresentado um estudo sobre as populações indo-portuguesas. Várias vezes foram lembradas as iniciativas de Albuquerque na Índia no que disse Aqui o processo de colonização ocorreu de um modo diferente do que aconteceu em África. como é o caso de Afonso de Albuquerque 13 . Tamagnini (1939) procurou demonstrar que os narizes dos portugueses eram muito diferentes e não tinham qualquer influência dos narizes dos africanos. Sampaio e Mello. Por seu turno. é pràticamente nula” (1940: 563). românico e germânico. negando outras influências (1940: 99). defende que os portugueses em contacto com outras populações se manteriam sempre portugueses e um bom exemplo disso era o Brasil (1936: 52). o seu desenvolvimento social e cultural era considerado superior ao dos africanos.

de adaptação ao ambiente. O “renascimento do império” estava imbuído de ideias raciais e. postas em prática no início do século XVI. dizia: ‘. como nos referiu.Não senhor. 14 Para um maior desenvolvimento sobre este assunto. você ou tem uma ou não pode ter muitas’. mas o administrador onde eu estava. embora depois houvesse uma adaptação. aquilo para mim era um bicho.10 respeito à colonização. devido ao seu passado étnico e cultural de “povo” indefinido entre a Europa e a África 14 . 17 anos quando fui daqui. pode ser descrita como um “choque cultural”. Esta ideia parece ser predecessora da ideologia “luso-tropicalista” cujos fundamentos começam a ser lançados. o próprio soba não perceber como é que um monaqueca (rapaz novo) podia viver sem mulher. eu não quero. Na obra citada. eu não tenho nenhuma. em 1933. não havia lugar para a visão culturalista de Freyre ou para o elogio do mestiço (Castelo 1998). é relativamente comum considerar-se que os portugueses não estabeleciam barreiras raciais nas suas colónias e que a sua fácil miscigenação com outros povos lhes daria uma certa especificidade (Boxer 1967: 35). A sensação de estranheza do colono quando chegava aos territórios ultramarinos e tinha um primeiro contacto com as suas populações autóctones. tal processo não terá sido pacífico. rapaz. um ex-funcionário administrativo nos anos 30 em Angola: J: . mais tarde já não era… É uma questão de costume. e eu chegava lá e ver uma preta nua não me impressionava nada. vide Andrews (1991) e Castelo (1998). G. na obra Casa Grande & Senzala do já referido Gilberto Freyre (1957 [1933]). foram mesmo consideradas inspiradoras e precursoras das ideias que se quiseram pôr em prática nos territórios coloniais depois dos anos 40 do século XX. Todavia. eu não me relaciono com pretas!’ (…) Eu tinha 18. Porém. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . um discípulo de Franz Boas. As suas ideias de política colonial. E eu disse: ‘Ó senhor administrador. a obra de Freyre não teve receptividade em Portugal na década de 30. como tal. De facto. em entrevista.Sucedeu-me isso. quer dizer. Freyre destaca a predisposição dos portugueses para o contacto fraterno com as populações tropicais.

11 5. embora ela nunca tenha sido apoiada oficialmente (Castelo 1998). Ainda hoje. acham mais cómodo repetir aquilo que os outros disseram” (Dias e Guerreiro 1960: 21). 15 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . este autor. A Constituição de 1951 instituiu o regime de indigenato aos nativos de Angola. Tanganhica e União Sul-Africana). No caso de Jorge Dias. fraternidade e até de intimidade. Moçambique e Guiné pelo facto de considerar que estes ainda não tinham alcançado “o nível de cultura e o desenvolvimento social dos europeus” como possuíam os de “Cabo Verde. Reformulações trazidas pelo pós-guerra Embora a recepção inicial da teoria gilbertiana em Portugal tenha sido heterogénea e não lhe tenha sido dado um grande destaque nos anos 30 e 40. harmonia. que se verifica uma mudança na atitude dos políticos do regime face à ideologia de Freyre. A discriminação racial e as duras práticas administrativas coloniais existiam e persistiam. E esta história vai-se repetindo. Angola. como certos erros que passam de uns manuais para os outros. As ideias discriminatórias do Acto Colonial (criado em 1930) começam a ser abandonadas e o regime adopta a teoria “científica” de Freyre 15 . numa altura em que os países europeus já tinham concedido a independência às suas colónias. Em 1959. num Relatório de Campanha (Moçambique. Mas as concepções luso-tropicalistas de Gilberto Freyre receberam críticas. um pouco inesperadamente. é sobretudo no período pós-Segunda Guerra. porque os tratamos com mais humanidade e nos interessamos pela vida deles. uma vez que os portugueses sempre tinham respeitado os valores das populações com as quais se relacionaram e com as quais mantiveram laços de tolerância. é muito difícil para muitos acreditar na teoria luso-tropicalista. Índia Portuguesa e Macau” (Santos 1955: 159). declarava que: “nós continuamos a ouvir sempre repetir que os indígenas gostam mais dos portugueses que dos ingleses. Ao mesmo tempo. só a visita ao “terreno” lhe concedeu uma visão crítica diferente das visões luso-tropicalistas que o regime apropriou. segundo a qual a colonização portuguesa teria sido diferente. a expressão “colonização” passa a ser substituída gradualmente por “integração”. porque os autores em vez de procurarem verificar a exactidão das afirmações. foi necessário proceder a uma reformulação da postura portuguesa face aos territórios ultramarinos e seus habitantes. por exemplo. criando as chamadas sociedades luso-tropicais. e até ousadamente. Como resultado das pressões anti-coloniais.

No âmbito do contexto colonial. não tinha tido quaisquer relações com negros. no fundo. que não permitia o acesso à cidadania da maioria da população das colónias africanas. porque um oximóron designa uma combinação engenhosa de palavras que. com territórios espalhados por todo o mundo. Portugal. e constatamos que alguns discursos científicos afinal estão imbuídos de discursos também eles políticos e até de teor religioso. um país pequeno. cujos recursos não abundavam. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . nos séculos anteriores. imperial. perdurado ainda até 1954. e à influência da Igreja no próprio Estado. se contradizem entre si. pois o potencial eugénico dos portugueses permitia que essa originalidade se mantivesse mesmo em contacto com populações “exóticas”. No âmbito do contexto nacional e colonial português analisado. Os oximórons podem surgir também. num contexto no qual à partida concebemos o Estado e a Igreja como separados. Um outro oximóron resulta da promoção da ideia de “pureza racial” dos portugueses e da argumentação simultânea de que os portugueses descendiam de vários povos (ao longo de séculos). encontrámos algumas dessas combinações. mas depois assistimos ao entrecruzar dos discursos políticos com os discursos da Igreja. nunca perderiam a sua essência individual que os caracterizaria. mas todos eles tinham características particulares que se tinham mantido inalteráveis. Faz sentido também falar em oximóron quando nos estamos a referir ao texto da Constituição de 1951 que se refere ao processo de assimilar os nativos dos territórios sob administração portuguesa. só era concedida se o indivíduo provasse que nunca tinha passado por África e. por exemplo. a atribuição de um título nobiliárquico em Portugal. apesar da ascendência diversa dos portugueses. por exemplo. Ou seja. tendo o “estatuto” de “indígenas”. essa mistura nem sempre foi reconhecida e alguns autores procuraram provar a sua “pureza racial”. portanto. o processo de assimilação das populações autóctones dos territórios ultramarinos não parecia diluir a originalidade portuguesa. Em conclusão Escolhi a expressão “oximórons” para o título desta comunicação. Outros consideravam que mesmo cruzando-se com outros povos.12 6. era dado a ver como um país grande. Curiosamente.

Quanto à predisposição especial dos portugueses para a adaptabilidade. Muitos dos autores que teceram considerações acerca da “raça” e da eugenia tinham currículos que. na altura.. Santos 1993) com a ideia de um “modo de ser português” facilmente identificável e transhistórico? Como vimos. Tanto um autor como outro abordaram a questão da cultura portuguesa se deixar contaminar pelo que lhe é exterior. “volvido quase meio século sobre a sua publicação”. segundo alguns historiadores como Valentim Alexandre (2000) e Cláudia Castelo (1998) e antropólogos como Miguel Vale de Almeida (2000) e Cristiana Bastos (1998). Os Elementos Fundamentais.. O que podemos então esperar dos antropólogos de hoje? Correr-se-á o risco de voltarmos a viver em contextos semelhantes aos aqui descritos. há muito alvo de descrédito científico. “as buscas da perfeição ao serviço da nação”. B. emergiram no final do século XIX. dado o contexto que se vive actualmente? Boaventura Sousa Santos (1993) caracterizou a cultura portuguesa como uma “cultura de fronteira” e defendeu ideias a propósito da capacidade de adaptação da cultura portuguesa. atravessaram o período que precedeu o Estado Novo e reavivaram-se com este. com algumas das ideias acerca do nacionalismo português.. e tendo sobrevivido ao período pós-independência das ex-colónias portuguesas. da identidade nacional e da adaptação dos portugueses a diferentes territórios. atingindo o seu auge durante as décadas de 30 e 40 do século XX. Essas teses foram inicialmente desenvolvidas por Jorge Dias em Os Elementos Fundamentais da Cultura Portuguesa (1990 [1953]) e depois em O Carácter Nacional Português na Presente Conjuntura (1971 [1968]). nos quais se discute a superioridade biológica e cultural de uns indivíduos em relação a outros e se propõem medidas científicas e políticas com vista a penetrar nas esferas pessoais e sociais dos indivíduos? Poderemos nós prever isso. não permitiriam levantar qualquer suspeita. estamos perante um oximóron quando nos lembramos da defesa das teses luso-tropicalistas aplicadas à caracterização da colonização portuguesa. e outras obras (acrescentamos nós). Como referiu João Leal. “continuam a projectar a sua sombra nas discussões contemporâneas acerca do que é ser português” (2000: 103). segundo J. o que faz dela uma entidade “poliglota”. na expressão do nosso subtítulo. 16 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Dias (1990: 156). há autores que ainda recentemente se prenderam com essa questão 16 . S. Hoje. a ideia do luso-tropicalismo. Contudo. não será também um oximóron a combinação sugerida por alguns entre ideias de “cultura de fronteira” (Boaventura Sousa Santos 1993) e a de que a cultura portuguesa se deixa contaminar pelo que lhe é exterior (Jorge Dias 1990 [1953]. parece coadunar-se. segundo Sousa Santos. ou marcada por uma grande “disponibilidade multicultural”.13 Por outro lado.

Teófilo. II Secção. em Trabalhos do 1. Dezembro de 1944. “Tristes trópicos e alegres luso-tropicalismos: das notas de viagem em Lévi-Strauss e Gilberto Freyre”. “Os Eurafricanos de Angola”. 1934. II Secção. Alberto Carlos Germano da Silva.ª Exposição Colonial Portuguesa. Mais vale prevenir do que remediar. Edição dos Congressos do Mundo Português. 1998. CASTELO. Celta. consequentemente. em Sep. 1967. Rio de Janeiro. Tomo 1. em Congresso Nacional de Ciências da População. Volume I. Cristiana. “O mestiçamento nas colónias portuguesas”. VIII Congresso. Edições da 1. de África Médica. Novos Racismos. Lisboa. The University of Wisconsin Press. “O império e a ideia de raça (séculos XIX e XX)”. Porto. 1991. Aires de. sobre o receio da diluição dos caracteres seculares evocados por alguns autores? Inventariar-se-ão diferenças incomparáveis. Mendes. Ano X (229 e 230). porque distintas e distantes. 1985-1986 [1885]. Costa Carregal. 1940. 415-432. ou será que é porque existem semelhanças que se poderão facilmente continuar a compará-los? Por outras palavras. 1998.º.ª Parte. Valentim. 133-144. O luso-tropicalismo e a ideologia colonial portuguesa (1933-1961). em VALA. BOXER. Tomo 1. 663-678. 300-330. BRAGA. CORREIA. Dom Quixote. CORREIA. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Jorge (Coord. “A pureza bioquímica do Povo Português”. 1940. O povo português nos seus costumes. Madison. Charles. em Congresso da História da Actividade Científica Portuguesa. BISSAYA-BARRETO. Perspectivas Comparativas. Porto. Relações Raciais no Império Colonial Português. 1944. Edição dos Congressos do Mundo Português. Fernando. 33 (146-147).º Congresso Nacional de Antropologia Colonial. Jornal popular. 1. Alberto Carlos Germano da Silva. 1. Lisboa. CORRÊA. crenças e tradições. não será apenas onde existem afinidades que podemos encontrar diferenças? Referências bibliográficas ALEXANDRE.ª ed.). 2000. George Reid. Blacks & Whites in São Paulo. 1940. O Modo Português de Estar no Mundo. bi-mensal de Higiene e Profilaxia Sociais. Análise Social. BASTOS. Lisboa. AZEVEDO. Afrontamento. Tempo Brasileiro. 4-7. ANDREWS. “Festas comemorativas dos Centenários e da Rainha Santa”. 551-564. “Antropologia na Índia portuguesa”. Cláudia. Brazil. A Saúde. Nº 12.14 Estando Portugal a transformar-se cada vez mais num país de imigração e de acolhimento para muitos indivíduos poderemos vir a assistir novamente a discussões sobre os possíveis efeitos das misturas biológicas e culturais dos portugueses com outros grupos e. Porto. 1888-1988. 1415-1825.º. Oeiras.

A Origem das Espécies. LIMA. “Influência de Mouros. Estudos do Carácter Nacional Português. João. em Congresso Nacional de Ciências da População. Tomo 1. Comunicação apresentada ao IX Congresso: Congresso Colonial. DIAS. 1971 [1968]. A. Estudos de Antropologia. Inquires into Human Faculty and its development.ª ed. do livro Congresso Nacional de Medicina. Comemorações portuguesas de 1940. GALTON. DIAS. Lisboa. Vol. Lisboa. FREYRE. Enciclopédia Portuguesa. Edição dos Congressos do Mundo Português. Angola. Edição dos Congressos do Mundo Português. Livros do Brasil. Sep. Relatório da Campanha de 1959 (Moçambique. Lisboa. Jorge. Casa Grande & Senzala. MacMillan. Junta de Investigações do Ultramar. I. Lisboa. “Os mestiços nas colónias portuguesas”. Mendes. 35-49. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . “O problema eugénico em Portugal”. 1960. Imprensa Portuguesa. em Congresso do Mundo Português. LEAL. 1937. 1934. 1990 [1953]. Judeus e Negros na Etnografia portuguesa”. 1968 [1859]. HERCULANO. Resumo das lições feitas pelo assistente. Lisboa. 331-349.15 CORRÊA. Londres. 7. CORRÊA. Edição Aillaud & Bertrand. Diário de Coimbra. III Secção.º. A. Tomo 1. Londres. “O mestiçamento nas colónias portuguesas”. Jorge e Manuel Viegas Guerreiro. 1940. CORRÊA. 1940. em Congresso Nacional de Ciências da População. Junta de Investigações do Ultramar. Publicações Dom Quixote. Edições da I Exposição Colonial Portuguesa. Lisboa. 577-589. J.º. Lisboa. Porto. Porto. 1940a. Charles. 2000. 1914-15. Missão de Estudos das Minorias Étnicas do Ultramar Português. 1883. edição de 10-12-1937. Jun. CORRÊA. servindo de professor da cadeira. Gilberto. Edição dos Congressos do Mundo Português. Mendes. Imprensa Nacional Casa da Moeda. Alexandre. 1-7. em Trabalhos do I Congresso Nacional de Antropologia Colonial. CORRÊA. Mendes. Porto. CORRÊA. Imprensa Portuguesa. Lisboa. Jorge. II Secção.º. Formação da Família Brasileira sob o Regime de Economia Patriarcal. 1916. “Os Elementos Fundamentais da Cultura Portuguesa”. 1979 [1869]. 1957 [1933]. Hereditary genius. Tomo 2. GALTON. Hemus. São Paulo. Lulyan Friedman. Francis. “Factores degenerativos na população portuguesa e seu combate”. Etnografias Portuguesas (1870-1970). Mendes 1940c. Porto. Mendes. 135-157. DIAS. 1927. em Congressos do Mundo Português. Cultura Popular e Identidade Nacional. História de Portugal. Pires de. Mendes. Coimbra. I Secção. 1940b. Tanganica e União Sul-Africana). “O Carácter Nacional Português na Presente Conjuntura”. 1928. DARWIN. Lisboa. “Discurso na Sessão Inaugural do Congresso Nacional de Ciências da População”. Antropologia. A. Francis. 63-102. 113-133.

175-176. Revista Crítica de Ciências Sociais. 13-70. 1955. O valor da raça: introdução a uma campanha nacional. RIBEIRO. F. em Historiografia e Memória Nacional no Portugal do Século XIX (1846-1898). Sérgio Campos. 255-284. Identidade e a Cultura de Fronteira”. Imprensa Nacional Casa da Moeda. Celta. Ano XX (2): 8-9. Boletim Geral das Colónias. Porto. et Ethn. II Secção. Lopo Vaz de Sampaio e. Legislação portuguesa”. “O aperfeiçoamento da raça. 2006. Anthrop. Lisboa. VASCONCELOS. Almeida. N. Miguel. o Sul. 1. “Da influência da eugenia no fenómeno da colonização e na política do império”. Imprensa de Ciências Sociais. José Manuel. Patrícia Ferraz de. Vol. MATTOSO. Política Ultramarina de Portugal. “Os problemas da mestiçagem”. Análise Social. Colibri. 1939. J. Orlando. 531-600. TAMAGNINI. des Scien. José. Ano XX (3): 18-27. s. MATOS. Revista de História das Ideias. N. ed. TAMAGNINI. “A morte d’Os Lusíadas”. Miranda e Sousa. SANTA-RITA. “O contacto das raças nas colónias portuguesas. “Eugenia em Portugal?”. Maio de 1936 (131): 37-69. SANTOS. Conferência Plenária apresentada ao I Congresso Nacional de Antropologia Colonial. Lisboa. Coimbra. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . a raça. . Representações raciais no “Império Colonial Português”. V (1): 28. 1993. Ana Leonor.º 171. “Les dimensions du nez. 1981. Cultura e Política da Identidade. Boaventura de Sousa. A Colonização de Angola e o Seu Fracasso. VALE DE ALMEIDA.ed. 1895. José Gonçalo de. 1934. Lisboa. “Lição inaugural do ano lectivo de 1934-35”. 11-39. António. Bahia. “A formação de Portugal”. l'indice nasal et le prétendu fort métissage négroide des portugais”.16 MATOS. Seus efeitos políticos e sociais. 1936. 2004. 1998. MELLO. Congrès Intern. s. em Congresso Colonial. SANTOS. 313-350. Lisboa. A eugenia na primeira metade do século XX”. Raça. Oeiras. Edição dos Congressos do Mundo Português. “Modernidade. Lisboa: Imprensa Nacional. 1940. 1915. História. História. I. PEREIRA. 1999. Um mar da cor da terra. Eusébio. TAMAGNINI. a nação – representações da identidade nacional portuguesa (séculos XIX-XX)”. Irene. 1998.º 38. SOBRAL. As “Côres” do Império. Revista da Faculdade de Ciências. Imprensa Portuguesa. Leite de.. Lisboa. “Excursão Archeológica a Alcácer do Sal: uma raça originária de África”. Lisboa. 39-63. SARDINHA. 2000. O Archeologo Português. “O Norte. Eusébio. 1998. 20.º. Tomo 2. Vol. Eusébio. Copenhaga. 1934-35.

ISTCE leonor. Utilizando diversas fontes literárias de natureza autobiográfica. Martins 2006).piresmartins@gmail. recolhendo espécimens botânicos. a que não estava obrigado pela sua participação na campanha. redigido por Américo Pires de Lima (1886-1966). Eugenia. Moçambique. Uma versão mais desenvolvida e trabalhada foi posteriormente publicada (vd. Este texto. Em 1918 a revista Anais Científicos da Faculdade de Medicina do Porto publicou um artigo com o título de “Contribuição para um estudo antropológico dos indígenas de Moçambique” que revelava interesses no domínio da antropologia física e biológica. Nação e Império”. representava um esforço de sistematização das observações e mensurações antropométricas de populações locais realizadas pelo jovem médico durante o período em que integrou terceira expedição militar ao norte de Moçambique (Lima 1918a). este texto pretende recuperar a sua experiência no litoral norte de Moçambique em 1916-1917 e reflectir sobre os interesses do médico pelas “raças” moçambicanas à luz das práticas antropológicas suas contemporâneas. foi Este texto é uma transcrição fiel da comunicação que foi apresentada no painel intitulado “Raça. Palavras-chave: Antropologia física. 1 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Fazendo uso da técnica da antropometria realizou ainda mensurações em mais de uma centena e meia de nativos moçambicanos e procedeu à descrição dos seus caracteres fisionómicos.com Por ocasião da I Guerra Mundial. O interesse pela aplicação de práticas de natureza antropométrica. o médico Américo Pires de Lima integrou uma expedição militar ao norte de Moçambique. Colonialismo. Aproveitando a estada naquela antiga colónia portuguesa o jovem médico ocupou o tempo livre com o estudo da flora. I Guerra Mundial 1. zoológicos e diversos artefactos. memorialística e técnica da autoria de Pires Lima.Ossos do ofício: um caso de práticas antropométricas no norte de Moçambique (1916-1917) 1 Leonor Pires Martins Doutoranda em Antropologia. fauna e antropologia indígenas.

colónias que confinavam com territórios então sob administração colonial alemã (Arrifes 2004). quatro estatuetas maconde. sobretudo) e um pequeno número de artefactos. e também ao enquadramento específico do desempenho das suas funções naquele território. Estes tiveram como destino diferentes secções museológicas da Faculdade de Ciências do Porto e ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . sendo notório o espírito cumulativo com que procedeu à recolha de informação. da fauna e antropologia indígenas”. Pires de Lima. desenvolvendo uma actividade paralela à assistência médica prestada às tropas expedicionárias portuguesas ali estacionadas. desde Março desse ano. desde o final de 1914 que essas intervenções militares ocorriam em Angola e em Moçambique. designadamente pela oportunidade de serem estabelecidas comparações entre diferentes grupos humanos. Durante a sua permanência em Moçambique. técnicos. Em larga medida.2 principalmente devido ao incentivo de dois colegas da Faculdade de Ciências do Porto. Nessa altura. Portugal era formalmente. Na tradição das expedições e viagens científicas setecentistas e oitocentistas. embora as acções do exército português nesse conflito se tivessem iniciado bastante antes no continente africano. A missão contou com aprovação ministerial e o apoio das autoridades locais. a missão de estudos de Pires de Lima – ainda que condicionada pela modéstia dos recursos logísticos. exemplares da flora (plantas e líquenes. recolheu espécimes zoológicos. como recordou em 1943 no prefácio de um volume que reunia os textos decorrentes daquela experiência em África (Lima 1943: vii). a variedade desses interesses pode ser ilustrada através do destino dado aos resultados da recolha de Pires de Lima. o médico português ocupou o tempo que sobrava da actividade clínica recolhendo “todos os elementos possíveis para o estudo da flora. Assim. Na realidade. veremos que este conflito proporcionou a Pires de Lima condições particularmente favoráveis à realização de estudos de antropometria. Mais adiante. provavelmente as peças etnográficas mais importantes que adquiriu no norte de Moçambique (Afaa 1989. no seu regresso a Portugal em 1917. instituição onde leccionava ciências biológicas. Lima 1918b). Américo Pires de Lima embarcou no início de Junho de 1916. uma nação beligerante no contexto da I Guerra Mundial (1914-1918). materiais e humanos disponíveis para o exercício de averiguações científicas – compreendeu uma importante diversidade de interesses. entre os quais.

os seus índices cefálico. Pires de Lima reuniu ainda dados sobre os caracteres fisionómicos de 170 indígenas moçambicanos. entre outros indicadores – exigiram o manuseamento de diversos ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Parece-me. ao invés. todos adultos e do sexo masculino. em virtude das precárias condições de armazenamento e de conservação de que dispunha – foram oferecidas ao Museu de Zoologia da sua faculdade e também a um entomologista espanhol. No estudo de Pires de Lima não é identificável um propósito prevalecente de associação de traços psicológicos e comportamentais a traços físicos particulares. à forma do nariz e dos lábios. que a actividade antropométrica exercida por Pires de Lima foi sobretudo orientada para a acumulação de dados sobre características fisionómicas por forma a contribuir para a elaboração do imenso arquivo da diversidade humana ambicionado pelo projecto antropológico de Pierre P. Vainio) que. Por sua vez. Deste modo. facial e nasal. ao aspecto do cabelo e da dentição. no final da década de 1930. a aplicação da técnica da antropometria. colega de curso de Pires de Lima na Escola Médica do Porto. quer o exercício de mensuração do corpo humano – por forma à obtenção de valores médios relativos à estatura dos indivíduos observados. Broca e Paul Topinard que o médico português perfilhava. uma parte significativa da sua colecção de botânica foi doada a um liquenólogo finlandês (Edvard A. às tatuagens e outros sinais corporais particulares –. 2. criado em 1914 por António Mendes Correia (1888-1960). de uma parte. Quer a actividade descritiva – atenta à cor da pele dos indivíduos. a observação e a descrição dos seus caracteres físicos e.3 outras entidades estrangeiras ligadas ao ensino e à investigação. Durante a sua estada em Palma e Mocímboa da Praia. Já as suas colheitas no campo da zoologia – apesar do facto de muitos dos exemplares se terem deteriorado. os artefactos trazidos de Moçambique foram depositados no acervo do Museu e Laboratório Antropológico daquela mesma faculdade. O exercício de classificação fisionómica e racial de indivíduos – em que se inscrevem os levantamentos antropométricos realizados pelo médico expedicionário – compreendia o estudo anatómico e metrológico do corpo humano: isto é. classificou várias dezenas de novos líquenes e outros espécimes vegetais recolhidos pelo médico português. de outra parte.

Pires de Lima ressentia a impossibilidade de utilizar uma escala de cores no decurso das suas observações. Na verdade. a utilização daqueles aparelhos visava disciplinar os sentidos do observador e atenuar a interferência da sua subjectividade na produção de resultados (Dias 1996: 33-4). No entanto. Por outro lado. gravando nela a escala com o auxílio da fita métrica (Lima 1918a: 23-4). porquanto. Desta forma. a literatura de cariz técnico e memorialista deixada por Pires de Lima. os profissionais da medicina seriam particularmente aptos para o exercício da antropologia física e da antropometria. não clarifica todos os aspectos que rodearam a sua actividade no campo da antropometria. por exemplo. designadamente sobre as condições logísticas e técnicas em que o médico militar efectuou as observações (no espaço da enfermaria? num laboratório propositadamente montado para aquele fim? foi auxiliado por alguém? em quanto tempo realizou as mensurações?). um compasso de espessura e um outro de corrediça. ainda que constitua um importante repositório de informação sobre a sua experiência biográfica no norte de Moçambique durante a Grande Guerra. Relativamente às circunstâncias específicas em que o estudo de antropometria realizado por Pires de Lima foi desenvolvido. eram extremamente limitados os recursos de que dispunha. são várias as questões que ficam sem esclarecimento.4 instrumentos e aparelhos. uma vez que apenas conseguira transportar consigo três instrumentos que lhe tinham sido cedidos por um colega da Faculdade de Medicina de Lisboa: uma fita métrica. Ao fim e ao cabo. o médico expedicionário fez uma craveira. e como fica sugerido num passo do seu artigo. Na realidade. em virtude da prática rotineira da inspecção de corpos humanos nas actividades clínicas. julgada excessivamente sensorial e imprecisa. sem o auxílio visual daquela ferramenta. Pires de Lima não dispunha de uma vasta aparelhagem antropométrica. De uma porta de madeira. No fundo. a improvisação e a criatividade supriram a inexistência de outros instrumentos necessários à prática antropométrica. entendia ser limitada em precisão a classificação dos grupos humanos observados em função da cor da pele. procurando evitar estimativas produzidas a partir da observação a olho nu. os diversos instrumentos antropométricos tinham por função aperfeiçoar a percepção dos praticantes da antropometria. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .

etc. no norte da província.” (Lima 1918a: 5). contudo. e como já tive ocasião ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . No caso particular de Pires de Lima. Inhambane.). Assinale-se que no espaço geográfico da “metrópole” a colaboração entre a estrutura militar e a comunidade científica tinha já produzido alguns resultados desde os anos finais do século XIX. em Mocímboa da Praia) pôde observar indígenas provenientes de diferentes regiões do território (de Tete. havendo notícia de alguns trabalhos de antropometria realizados entre recrutas do exército português (Roque 2001: 261-2). oportunamente aproveitadas por Pires de Lima.5 Conhecemos. as quais me servem de base a este estudo. a guerra gerou condições particulares de pesquisa. sem sair do Niassa. tive a possibilidade de reunir mensurações antropométricas (…) de várias raças de Moçambique. Por outro lado. depois. As observações antropométricas de Pires de Lima aconteceram. Reporto-me à situação de conflito vivida no norte de Moçambique por altura da permanência do médico português na região. não deve ser menosprezado. um aspecto muito importante que. a colaboração entre a estrutura militar e a esfera académica (a Faculdade de Ciências do Porto) foi formalizada através de um despacho ministerial datado de 31 de Maio de 1916. Em vez de ter sido um obstáculo à realização do seu “estudo antropológico”. estamos perante um caso em que a instituição militar foi parte importante no processo de produção de conhecimento sobre as populações locais daquele território sob administração colonial portuguesa. Quelimane. É o próprio médico quem o sugere logo no início daquele seu texto de 1918: As circunstâncias derivadas da guerra contra a Deutsch Ost Afrika provocaram a concentração. facto que motivou o seu recrutamento e que. já que nos locais onde esteve estacionado (primeiro em Palma e. Na presença do excerto citado. portanto. é notório que o conflito no norte de Moçambique proporcionou circunstâncias extraordinárias de pesquisa ao médico português. outros como soldados das companhias indígenas. de grande número de indígenas de toda a colónia – uns recrutados como carregadores. em meu entender. contrariamente àquilo que poderia supor-se. De alguma maneira. num ambiente militarizado e com o recurso a nativos moçambicanos que integravam a sua expedição. Assim. teve um papel determinante no que respeita à configuração da amostra do estudo de antropologia física de Pires de Lima.

Instituto de Defesa Nacional. 1996. Os casos existentes são.6 de referir. tiveram expressão em alguns trabalhos esporádicos. não chegando a institucionalizarem-se em Portugal.). em pleno regime do Estado Novo. se nos reportarmos à segunda década do século XX. 23-44. Miguel Vale de (org. no meu ver. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . esta constatação não lhe retirará o carácter precursor dos seus levantamentos antropométricos no norte de Moçambique. Treze Reflexões Antropológicas sobre o Corpo. será somente em meados da década de 1930. Marco Fortunato. Contudo. em ALMEIDA. “O corpo e a visibilidade da diferença”. na sua vertente física e biológica. Paris. Nélia. gostaria de acrescentar que. Corpo Presente. Referências Bibliográficas AFAA. ADEIAO. Lisboa. DIAS. são raros os estudos de antropologia física apoiados na aplicação da técnica da antropometria a populações do “império” português que poderão ser referenciados. 1989. Angola e Moçambique (1914-1918). que a antropologia portuguesa. ARRIFES. se implantará de forma mais sistemática e continuada no terreno colonial através das “missões antropológicas” que foram dirigidas por Joaquim Rodrigues dos Santos Júnior (1901-1990) em território moçambicano (Pereira 1998). de resto. Oeiras. penso que deverá ser encarado o estudo de Pires de Lima. Edições Cosmos. circunstanciais e episódicos – como. facto que é assinalado por Rui Pereira na introdução à reedição do primeiro volume de Os Macondes de Moçambique de António Jorge Dias (Pereira 1998). A Primeira Grande Guerra na África Portuguesa. Art Makondé: Tradition et Modernité. Para terminar. 2004. a observação de indivíduos em situação de recrutamento – de soldados e carregadores indígenas que se encontravam ao serviço das tropas expedicionárias portuguesas – possibilita uma associação imediata do seu estudo ao universo dos projectos de antropometria militar que. Celta. 3. De facto.

Rui. 1-100. Lisboa. CNDP/IICT. Leonor Pires. Edições Pátria. PEREIRA. Os Macondes de Moçambique. 341-361. ROQUE. 2001. _____. Jorge. “Ossos do ofício: antropometria e etnografia no norte de Moçambique (1916-1917)”. Ricardo.7 LIMA. 1918b. “Portugal não é um País Pequeno”. Memórias de um Médico Expedicionário a Moçambique. 113-139. Explorações em Moçambique. Antropologia e Império: Fonseca Cardoso e a Expedição à Índia em 1895. IV (3). 2006. Gaia. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . 1933. em SANCHES. “Contribuição para o estudo antropológico dos indígenas de Moçambique”. Lisboa. _____. “Introdução à reedição de 1998”. Anais Científicos da Faculdade de Medicina do Porto. 1918a.). MARTINS. IV (2). Anais Científicos da Faculdade de Medicina do Porto. Aspectos Históricos e Económicos. Cotovia. 1998. I. V-LII. Lisboa. Contar o “Império” na Pós-colonialidade. “Notas etnográficas do norte de Moçambique”. Instituto de Ciências Sociais. Agência Geral das Colónias. Na Costa d’ África. Lisboa. 1943. Manuela Ribeiro (org. _____. em DIAS. Américo Pires de.

II – Capítulo Caboverdianidade e Crioulidade Textos de comunicações do painel Caboverdianidade e Crioulidade Coordenação Wilson Trajano Filho Departamento de Antropologia da Universidade de Brasília e Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa João Vasconcelos Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .

e serve para se situarem perante as mudanças políticas e sociais assaz adversas sobrevindas no S. sua e dos outros. à primeira vista tributária do ideário colonial. com alguma frequência. Tomé. efectuadas entre 2001 e 2003. Devido à percepção das dificuldades na sua terra e às mudanças nos Este texto socorre-se igualmente do trabalho de campo em S.Cabo-verdianos em S. Refiro-me a idosos. Introdução Este trabalho aborda um peculiar processo de identificação de ex-serviçais caboverdianos em S. Tomé e Príncipe independente. Vicente em 2004. Nesta comunicação. consideraremos o uso desta denominação pelos ex-serviçais que se quedaram por S. intenta-se contextualizar o uso esta designação. na sua maioria voluntariamente ainda que sem escolha. os cabo-verdianos que se quedaram por S. Tomé e Príncipe: os contornos da consciência de segundos europeus Augusto Nascimento Instituto de Investigação Científica Tropical. Afinal. a viver naquele arquipélago há cerca de meio século. nem sempre ligada a uma visão instrumental dos testemunhos que eles fornecem sobre a sua presente condição social e política. Lisboa Nas suas memórias e auto-caracterizações. aventaríamos a de que tal expressão traduz um alheamento em relação às inquietações e aos temas que. Cumulativamente. Entre as várias hipóteses explicativas. Mas. eles reiteraram de forma enfática a sua condição de caboverdianos 1 . comporta um juízo sobre a civilização. nem por isso ela deixa de traduzir uma dada consciência da sua especificidade enquanto cabo-verdianos. Descrevem-se antes como cabo-verdianos e. Tomé e Príncipe. a classificação subjacente à denominação de segundos europeus. eram debatidos pela intelectualidade cabo-verdiana. Esses cabo-verdianos contrataram-se como serviçais. No decurso de entrevistas não estruturadas. como segundos europeus. “segundos europeus”. onde a designação segundos europeus aflorou em testemunhos dos ex-contratados. identidade cabo-verdiana. Contudo. aparentemente um traço adicional da sua identidade. Tomé e Príncipe nunca se referem a si mesmos como crioulos. Tomé e Príncipe. alguns descreveram-se como segundos europeus. Palavras-chave: ideário colonial. ao tempo do seu êxodo para S. 1 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .

desde então. também a decrescente valia política de uma tal expressão vai de par com o fim da vida predito para breve. Mas. Durante as entrevistas surgiu a expressão segundos europeus. Tomé e Príncipe. Em primeiro lugar. particularmente sentida pelos ex-serviçais cabo-verdianos.2 moldes de trabalho e nas relações sociais nos anos finais do colonialismo. ela não parece passível de redução a algo de meramente instrumental. correlatamente. Dadas a pobreza e a solidão a que estão confinados. Tal indiciará o curso dessa expressão nos terreiros das roças. os cabo-verdianos somaram. a classificação de segundos europeus caminha ao arrepio das redefinições identitárias ainda algo politizadas por relação ao colonialismo. Tomé e Príncipe. por um lado. por outro. assim. expor perplexidades a propósito de uma caracterização identitária algo inesperada. é notório o esforço de construção de uma nação diaspórica e.. adquire o tom de apelo à acção justiceira de quem tenha poder para o efeito 2 . com que se conformaram em vista das promessas políticas. seja na luta contra a opressão colonial. por outra. assim como das pretextadas dificuldades do seu repatriamento e do recomeço da vida no seu pobre país. descrêem e alheiam-se de práticas associativas –. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Para além de um ambiente avesso à sua afirmação grupal – no geral. serão raríssimas as ocasiões para um tal desabafo que. hoje falidas e fisicamente degradadas. Nos discursos sobre a nacionalidade cabo-verdiana patenteia-se o orgulho nas cultura e identidade historicamente fundadas. Ainda assim. Neste texto. 3 Os cabo-verdianos não têm qualquer capacidade de luta política e social. À vida espinhosa antes de 1975. uma experiência de privações difíceis de suportar. a representação de segundos europeus como que cinge os cabo-verdianos a metas 2 A designação segundos europeus foi recorrentemente usada pelos mais idosos em contactos espaçados ao longo de anos. seja na criação da sua terra e de um destino próprio contra a adversidade natural. de uma identidade cabo-verdiana política e culturalmente útil à projecção internacional do país e à obtenção de vantagens no mundo globalizado. A independência representou para eles um momento difícil. devemos questionar-nos acerca da sua faceta instrumental. veiculada? Usá-la-ão quando não estão presentes interlocutores europeus? É difícil ser taxativo. acabaram por permanecer nas roças ou. Ora. É lícito supor que essa expressão condensa um desabafo acerca da marginalidade social.. e sem futuro (político) visível 3 . os cabo-verdianos contam-se entre as principais vítimas do empobrecimento de S. a expressão emergiu sem indagações prévias a tal respeito. Hoje. por se fixar em S. Em que circunstâncias a ideia de segundos europeus será. pretendemos enunciar hipóteses ou. Entre cabo-verdianos. quando saíram destas. Apesar da presença de um interlocutor português a poder induzir. mesmo admitindo que a presença de um português a possa lembrar. ou não.

Tomé e Príncipe avultam preocupações arredias das dos arautos da identidade caboverdiana. Tomé 5 . conquanto nela possam ecoar os debates em curso em Cabo Verde ao tempo em que os ex-serviçais daí largaram para S. noutras ilhas. igualmente baseada na interpretação de gestos e dizeres dos ex-serviçais cabo-verdianos. Outros motivos aconselham a evitar um tal enfoque redutor. nessa medida contrariando a exaltação do cabo-verdiano – outrora. Em suma. Vicente e. decerto. cuja memória se afigura errática e avessa à perspectiva institucional da diacronia e do discurso histórico. Parecendo uma reivindicação identitária passadista e anacrónica. os exserviçais cabo-verdianos estão irremediavelmente condenados à subalternidade. trata-se de uma caracterização sem futuro. Como veremos. Em segundo lugar. não há lugar para a negociação política a partir da consideração de identidades. Contra uma visão sub-repticiamente normativa da identidade cabo-verdiana. tão pouco parece servir a concepção de nação diasporizada 4 . Tal abrange igualmente os valores de há meio Como frequentemente sucede em narrações de indivíduos de grupos subalternizados. A noção de segundos europeus não contribui para a valorização dos referentes identitários cabo-verdianos no mercado de bens culturais. Ainda assim. permite-lhes uma reordenação simbólica deste mundo. atento o contexto político são-tomense. E.3 coloniais. dada a sua situação e a do país em que se encontram. entre eles. não tem sentido do ponto de vista político ou sequer ideológico e cultural. também entre os cabo-verdianos de S. abdicaria de tentar explicar o curso e o significado social e político dessa designação corrente entre os ex-serviçais cabo-verdianos. tão pouco para o reconhecimento político e social das minorias. Dadas as características sociais e culturais do arquipélago equatorial e o veio essencialista da afirmação são-tomense. até. a porosidade observável entre um discurso mais erudito e o discurso popular em S. também. lembre-se a pluralidade dessa identidade nos mais variados contextos. 5 Tal hipótese assenta em indícios escassos. Politicamente. Só uma investigação profunda permitiria validar esta hipótese. que a filiasse apenas na ideologia colonial e racista. talvez a qualificação de segundos europeus tenha sentido para aqueles que a evocam. uma abordagem pressurosamente condenatória da alienação subjacente à designação de segundos europeus. De outra perspectiva. das motivações de quem os procura para redigir histórias de vida. Todavia. tal caracterização suscitará estranheza e. do grupo e do arquipélago. tal designação comporta uma sugestão de hierarquização social que. a designação de segundos europeus não participa da reflexividade das elaborações identitárias dos cabo-verdianos. do mestiço – como construtor do Cabo Verde independente. 4 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . aversão.

tivesse a crítica sentido. miscigenação. Olhemos. Tomé e Príncipe independente. decidir-se-ia arbitrariamente o que comporia. são cabo-verdianos. embora marginalizados. Tomé e Príncipe. em tempos orgulhosamente reclamada pela elite dos nativos. Prontamente se sentenciará que a asserção relativa à europeização é enviesada e extemporânea e.4 século. a génese e o curso da designação de segundos europeus. discussão sem paralelo em S. essa designação comportou (e comporta) uma afirmação social. Com a menção ao abandono. importa reportá-la à evolução do arquipélago. quer com a sua permanência. no S. cumpre contextualizar o seu uso 8 para a interpretação de um arquipélago que. 7 Diga-se. de alguma forma perseguida pelos cabo-verdianos ao longo de cerca de meio século de vida no arquipélago equatorial. que os ex-serviçais ainda hoje têm por crivo de definição dos cabo-verdianos. Tomé e Príncipe. a identidade caboverdiana. noções como mestiçagem. os cabo-verdianos aludem à sua miséria em S. então. Ademais. crioulidade ou processo de crioulização não constituem tópicos de debate em S. Assim. Mas tal enunciação provém de sujeitos que. 6 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Porém. Rejeitando-se esta parcela da vivência cabo-verdiana. para além de aplicado num sentido lato e de fraco valor descritivo ou interpretativo. a noção de segundos europeus tem uma história relacionada quer com o contrato nas roças coloniais. Concretamente. no foco dos governantes do seu país na diáspora dos países ricos 6 . Não obstante as mutações de significado social e político ao longo de sucessivas conjunturas. Sem dúvida. a qualificação de segundos europeus surge à margem da discussão relativa à origem e ao conteúdo de uma identidade crioula em Cabo Verde. onde a europeização. No fundo. patente. se tornou o seu mundo. também não completamente voluntária. que não evidencia senão a insensibilidade dos que a veiculam relativamente ao impróprio de uma classificação eurocêntrica 7 . se solicitados a opinar formalmente. assim como ao facto de não beneficiarem em nada dos êxitos económicos na terra natal e do sucesso dos seus conterrâneos nos países mais ricos. alegam eles. Tomé e Príncipe (MAINO 1999:135). tal designação padecerá de um paternalismo retrógrado. um inquérito talvez produzisse resultados inesperados e contraditórios. a ser enunciada por outrem. O termo crioulo foi adoptado por são-tomenses em textos científicos e ensaísticos sobre asua etnogénese. alguns dos que asseveram com sentimento serem segundos europeus talvez não se mostrassem tão seguros dessa classificação. ao invés de classificar a designação de segundos europeus à luz do (nosso) mundo globalizado. Ora. dar-se-ia razão aos lamentos dos cabo-verdianos em S. De resto. 8 A afirmação relativa à condição de segundos europeus não foi partilhada por todos. ou não. este termo tem vindo a perder lugar no discurso dos são-tomenses. vai deixando de ser uma marca local. para os ex-contratados. Tomé e Príncipe sobre o abandono em que se acham. pois que.

presumimos. por ALMEIDA 2004:284). Ora. S. um mero conteúdo geográfico.5 Génese da expressão segundos europeus A primeira dificuldade reside na datação desta noção. 11 Algumas autoridades coloniais pensaram em usar cabo-verdianos como factor de aportuguesamento do arquipélago. o poder ensaiou uma aproximação aos são-tomenses. FERNANDES cit. asserção que não terá. 9 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . dos cabo-verdianos e da sua “civilização”. Vicente pequenino é um pedacinho do Brasil. a conquista da fidelidade política dos nativos tornou-se o objectivo prioritário. Tomé e Príncipe foram sendo reelaboradas ao sabor tanto da evolução das relações laborais e sociais nas roças. cantarolou um verso de uma modinha da sua juventude. a sua resistência à opressão excessiva nas roças. uma noção relativa à miscigenação ou à mestiçagem como matriz da génese dos cabo-verdianos poderá ter sido levada para S. Assim. Em S. É concebível o cepticismo quanto à possibilidade de no termo segundos europeus ainda ecoarem mensagens acerca da mestiçagem como expressão. Tomé e Príncipe independente. quanto até das inconsequentes intenções de instrumentalização política e social dos cabo-verdianos por autoridades coloniais 11 . Vicente por uma ex-serviçal dessa ilha. Tendo em mente as inquietações e os temas debatidos nos anos 50 pela intelectualidade cabo-verdiana 10 . Bastaria tão só que a sua socialização nos terreiros das roças tivesse ajudado a alicerçar as relações entre os cabo-verdianos e. citemos a descrição de S. tenham viajado com os contratados. da lusitanidade cultural do caboverdiano ou de Cabo Verde como um regionalismo português (cf. não é de todo impossível que estas e outras descrições de Cabo Verde. por exemplo. nos derradeiros anos do colonialismo. mormente aos elementos das famílias ditas tradicionais. Expressando o desejo de que Deus olhasse para ela e a levasse a morrer na sua terra. para que tais ecos viessem a ser recriados para afirmar a indignação contra a miséria a que acabaram condenados no S. de caminho. Entre as reminiscentes percepções da mestiçagem constitutiva dos cabo-verdianos. 10 Consulte-se uma resenha destes debates em ALMEIDA 2004:255 e ss. Face ao espanto. Tomé e Príncipe. ganhando aí novos significados. Uma hipótese tem-na como um eco longínquo da difusão no meio cabo-verdiano dos discursos sobre a etnogénese do povo cabo-verdiano 9 . Porém. nunca o senhor ouvir? Outra exserviçal aventou Cabo Verde com Portugal é perto. esses ecos não precisam de ser coerentes. após o sangrento episódio de Batepá e face à ofensiva anti-colonial nos círculos internacionais. Esta política fez esquecer aquele desígnio político e social que alguns voluntaristas tinham gizado para os cabo-verdianos. Conquanto sujeita a refracções múltiplas.

a vida nas roças era marcada pela rispidez. esta adesão pode ter sido induzida. fosse quando insinuava uma competição civilizacional. pelas clivagens entre as roças e os nativos. 13 Em parte. traduzida. fosse quando denotava uma adesão ao colonizador. os roceiros tenham feito por avivar a disjunção entre os das roças e os nativos. por exemplo. Amiúde barrada pelas assimetrias sociais nas roças. Noutros termos.6 Ao tempo. A alegada civilização ou a reivindicada semelhança fenotípica com o europeu podiam desencadear efeitos contraditórios. Por seu turno. 12 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . a designação segundos europeus pode ter passado a compor mecanismos de acomodação. Até meados do século XX. por várias vezes a proximidade racial – por exemplo. Por exemplo. mormente na negociação informal de uma diferenciação social. Mais tarde. que as mutações políticas e sociais do colonialismo tardio não dissolviam por completo 13 . tendo em vista. Neste quadro. por vezes. tal deveu-se aos roceiros. por entre desencontradas intuições sobre o futuro político do arquipélago. bem como de identificação com as roças e os roceiros. entre outros factores. Deixe-se dito. Para os europeus. tão-somente criaturas humanas – não seria uma afirmação fácil. Em todo o caso. uma tal designação deveria ter um curso contido ou carecer do beneplácito do europeu. A criação de um tecido social nas roças deveria afigurar-se o melhor dos antídotos contra tais reivindicações. por exemplo. quando não era da autoria destes. a ter acompanhado as mudanças dos derradeiros anos do colonialismo. É provável que. hoje. ao que nem sempre os cabo-verdianos se mostravam prontos. em razão da aptidão para o trabalho. no tocante à alfabetização – causou crispações entre empregados europeus subalternos e cabo-verdianos. podendo suscitar quezílias ao invés de apaziguamento. Logo. tal pretensão terá tido importância. com a indigenização da mão-de-obra a pautar as condições de trabalho. a aptidão do trabalho incluía o acatamento incondicional das suas ordens. dizerem-se segundos europeus – e. num tratamento diferente do dispensado a moçambicanos e a angolanos. o mais das vezes. esta vertente conflitual parece esquecida pelos cabo-verdianos. alguns dos quais asseveraram que a designação de segundos europeus tinha o reconhecimento dos colonos. o quotidiano era emoldurado por um racismo difuso e pelo ideário colonialista sobre a hierarquização dos vários segmentos populacionais 12 . no que nem sempre os cabo-verdianos eram os mais apreciados. a reiteração da qualidade de segundos europeus poderia afigurarse um atrevimento por ameaçadora das barreiras sociais – tão só por implicar um juízo implícito sobre estas –. a preservação das propriedades em caso de turbulência política e de reivindicações de distribuição de terras.

Por existir uma primazia do aspecto civilizacional – mais conforme à sua ideia de cabo-verdianos – sobre o referente racial? Não o saberíamos dizer. temos de equacionar a hipótese de estarmos perante um expediente – de alguma forma. alguma proximidade dos administradores das roças com o pessoal terá servido para obter uma prestação produtiva a contento num tempo em que se tornara impossível extorqui-la pela coacção. Podemo-nos interrogar acerca das razões pelas quais dizem segundos europeus e não segundos brancos. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . veja-se NAVE 1990:29). 14 Neste particular. não a “branco”. Assistiu-se a alguma personalização das relações laborais. tal induz a supor que. Tal processo prosseguiria no pós-independência. os roceiros tinham uma atitude oposta à das décadas precedentes. 16 Sem prejuízo da necessidade de pesquisas ulteriores. observa-se que.7 Dissemo-lo. no final do colonialismo. Vicente ainda no tempo colonial. ela foi utilizada por ex-serviçais regressados a S. combinando-se a reiteração das diferenças sociais com a proximidade assente no reconhecimento da valia dos indivíduos (em termos comparativos. Eventualmente. “no tempo do colono”) ou “o branco fez…” –. Em todo o caso. da designação “branco”. tenham asseverado que a designação segundos europeus 16 não tinha curso na era colonial. Tomé e Príncipe ou com uma visão muito esbatida da evolução deste arquipélago após a sua saída. é possível que a designação possa ter sido (re)criada no tempo colonial. conhecendo sucessivas adaptações conformes às mudanças de políticas e no dia-a-dia das roças. Por outro. mas a “europeu”. convida a imaginar recriações dessa expressão já depois da independência para efeitos de interpretação da evolução política do arquipélago equatorial. tributário de reminiscências da ideologia colonial – para avalizar a interpelação implicitamente contida na apresentação de si mesmos como segundos europeus a quem chega de fora. os cabo-verdianos recorrem. Portanto. nos testemunhos dos cabo-verdianos. actualmente menos aceitável. por exemplo. Justamente. Ou. pode pensar-se que a noção de segundos europeus conterá implicitamente uma reivindicação social inspirada na valorização das garantias de vida e no papel do paternalismo. 15 Nalguns administradores notavam-se sinais de uma emergente consciência social que como que visava reparar as fissuras causadas pela agressividade e a rudeza de trato inspiradas pelo ideário colonialista imperante até meados de Novecentos. Embora pessoas. parte deles sem contactos com S. Por um lado. prescindindo-se. apesar de branco ser um termo corrente nas narrativas do passado – sendo comum ouvir dizer “no tempo do branco” (em alternativa. nos derradeiros anos do colonialismo associado a uma maior contiguidade nas roças. a rarefacção de braços obrigava à racionalização das tarefas. a crer nalguns ex-serviçais. foram os próprios europeus a usar essa expressão 14 . Segundos europeus ou o juízo do pós-independência Na ausência de tal equação política. da ocupação do tempo como princípio de organização de trabalho. iniciando-se em manifestações de paternalismo 15 . tal poderia advir da cautela induzida pela carga racial. o critério da civilização parece sobrepujar o da coloração epidérmica. ter sido transportada desde Cabo Verde. Mas a expressão europeus pode ter sido induzida no tempo colonial. talvez. que não ex-serviçais. A par disso.

Anos depois. nalgumas circunstâncias. Por outras palavras. quando a miséria se abateu sobre os trabalhadores das roças. o da dissemelhança entre a epiderme e o fenótipo deles e os dos demais africanos habitantes e senhores da terra. provas irrefutáveis da sua natureza. 18 Tal não invalida que. desenhou-se uma clivagem assente na raça – que congregava são-tomenses. em virtude do percurso pós-independência. a intrepidez ou a esperteza – tenham conflituado com a boçalidade dos europeus. Sem embargo das roupagens progressistas do ideário independentista. a esperteza. foi com base na clivagem racial que se legitimaram os que acederam ao poder em 1975. Tomé e Príncipe 17 . do fracasso do país. supostos traços da sua personalidade – por exemplo. Como? A noção de segundos europeus aponta para uma característica irredutível. na diferença de natureza encontra-se. deles – o mais contundente dos argumentos para contestar o status quo e as assimetrias sociais. 17 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Tomé e Príncipe –. a designação segundos europeus readquiriu sentido para os que dela se reivindicam. É disso que os ex-serviçais cabo-verdianos se distanciam. as lesivas do património das roças –. Simultaneamente – por um processo de identificação (alienada que seja) com o colono e de oposição aos mandantes em S. a A racialização. entre os quais. Ao tempo. atribuíram o empobrecimento do país à natureza de quem passara a governar S. Tal como no colonialismo. caboverdianos e outros contra os colonos –. apelam ao mais poderoso dos argumentos. traduzida pelo fenótipo. a visão do mundo dos cabo-verdianos tende a enquistar. como explicação dos comportamentos e. para eles. a lida do mundo e uma dada ética de trabalho 18 . Há anos a passar por privações incontáveis e a caminho do fim de suas vidas. a inteligência demonstrada na compreensão da condição humana. Vejamos como. estes. embora o lema fosse o da luta contra a exploração do homem pelo homem. daí.8 Actualmente. preterindo os slogans políticos pela racialização das condutas – entre elas. entrementes tornada uma deriva identitária com que os são-tomenses ensaiam racionalizar o processo de perda económica e social por que passa o seu país. indubitavelmente. a designação segundos europeus pode interpretada como uma reacção dos ex-serviçais à africanização da terra e das gentes. após o 25 de Abril as considerações de teor racial continuaram como um instrumento de análise do rumo da história e um móbil de acção. segundos europeus remete para supostos atributos de cabo-verdianos. é também adoptada por são-tomenses que encontram na natureza do africano ou do negro – isto é. a capacidade de afrontamento das adversidades. Para os exserviçais cabo-verdianos. O seu discurso reporta-se a marcas corporais.

decerto. a hierarquização social subjacente a essa denominação comporta um juízo sobre a sua civilização comparada com a dos outros. do racismo. como. e. No mínimo. Apesar de enviesada pela resiliência do ideário colonial ou. Por um lado. Conquanto tributária do ideário colonial. menos gravoso. 19 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . era este padrão de evolução que os cabo-verdianos (e. os são-tomenses. também os sãotomenses) esperavam ver prosseguido após a independência. por outro. não se legitimam por uma prática justa. vinham intentando fazer os patrões brancos. Tal noção de um mundo fatalmente injusto não os torna nem passivos nem acríticos relativamente às desigualdades sociais. Tomé e Príncipe. Afinal. cabo-verdianos. no final. Tomé e Príncipe. Mas umas são mais toleráveis do que outras. incluindo a terra natal. a esta distância. a noção anacrónica de segundos europeus condensa uma leitura da evolução do (seu) mundo. de que eles. Portanto. A perda económica e social A reavaliação e o matizar das críticas ao tempo do colono resulta da apreciação dos políticos sãotomenses. estes derrogaram a ideologia igualitarista com que aliciaram os cabo-verdianos. Agora. enquanto o alinhamento de contornos raciais – brancos. Atenhamo-nos. então. Os cabo-verdianos detêm uma visão acerca das desigualdades humanas como princípio perene da ordenação do mundo. são as maiores vítimas. Serve igualmente para se situarem perante as danosas mudanças políticas e económicas desfavoráveis sobrevindas no pósindependência. rejeita-se a afinidade racial apregoada para efeito da mobilização anti-colonial nessa época.9 explicação da trajectória de perda de S. à crítica da presente situação em S. mesmo. nativos e outros – do tempo colonial parece. A noção de segundos europeus traduz um ressentimento e hoje – irremediavelmente traçado que está o seu destino – ela pode ser lida como a denegação da solidariedade racial que cimentou o bloco político-social contra os colonos na transição para a independência. ex-trabalhadores das roças. a noção de segundos europeus tem um valor interpretativo evidente: o de que o desajustamento entre a actual posição hegemónica dos são-tomenses e a respectiva natureza não pode senão desembocar em comportamentos anti-sociais conducentes à ruína dos empreendimentos dos homens. quando não aceitável 19 . o actual ordenamento social favorável aos são-tomenses afigura-se-lhes contra-natura.

20 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .10 No tempo colonial. pese embora o eventual orgulho na identificação com o veio de filhos da terra ou de forros. Em S. deixando implicitamente entendido que a desmerecem. porquanto diminui o argumento de que os são-tomenses estão na sua terra. esta prática de rebaixamento dos serviçais com que outrora os nativos se procuravam demarcar das roças. Esta alegação poderá não corresponder fielmente à realidade. as clivagens étnicas não são encorajadas. justamente a evolução que os levou a ficar por S. A designação de segundos europeus tem um valor político. eles deviam sentir-se acima dos nativos (e até de europeus boçais. não obstante a pobreza da sua terra os ter impelido para o contrato. a afirmação da qualidade de segundos europeus comporta uma acusação quanto às provações por que passam e denuncia a contradição entre a sua situação social e a sua imaginada natureza. Mas também é natural que. dissemo-lo. Retratando-se como segundos europeus. os cabo-verdianos lembrem agravos antigos para explicar compreensivamente a sua situação actual. Presentemente. Hoje. O reconhecimento da sua idiossincrasia pelos roceiros foi um passo na melhoria do ambiente social. nunca vi responsáveis políticos incentivar o uso de linguagem pejorativa para com os exserviçais. o ressentimento advirá da derrogação da superioridade simbólica de outrora. alguns chegam a classificar-se como escravos dos são-tomenses em cujo quintal são obrigados a trabalhar. a quem tinham de obedecer por terem escolhido o contrato). Na era colonial. queda por comprovar com que intensidade subsiste. Noutros termos. Não se pode descartar o uso do termo gabão. a reivindicação de civilização subjacente à ideia de segundos europeus compôs variadas contestações ao labor e à vida nas roças. as diferenças eram constitutivas do mundo. o termo segundos europeus escorou as queixas e protestos contra a indigenização a que estavam obrigados pelos ditames dos roceiros. Outrora. pelo menos ao nível retórico. como voltando a invectivá-los com o termo gabão 20 . invertendo simbolicamente a actual subalternidade relativamente a estes. Tomé. os caboverdianos desqualificam os são-tomenses. Esse reconhecimento não anulava as assimetrias sociais. Tomé e Príncipe. A distinção social dos poderosos e dos governantes socorre-se de outros meios e. para eles. não apenas esquecendo as promessas políticas do advento da independência. Com efeito. em perda. se subsiste. Os nativos passaram a mandar na terra e subalternizaram-nos. uma vez dobrada a fase das maiores agruras de trabalho e de vida dos anos 50. Enfatizando a sua desventura. mas. os europeus reconheciam a índole diferente dos cabo-verdianos. nome de escravizados e de desqualificados coagidos aos ditames das roças.

tem a ver com o enraizamento popular de ecos de ideias do tempo colonial. os ex-serviçais estão acantonados nas roças. Aventaríamos que hoje a designação de segundos europeus sublinha esta negação. há anos. tal fito comportava uma esconsa negação do negro. Justamente.11 Hoje. como e para que fins denunciá-la? Quando momentaneamente se rompe a solidão e têm oportunidade de falar. Reina a desolação que não advém apenas da pobreza mas igualmente da perda da valia individual e da condição de cabo-verdianos. nos antípodas das (nossas) noções de crioulização e das perspectivas do mundo a ela associadas. Possivelmente. uma face da identidade cabo-verdiana Situamo-nos. desse modo. Empobrecidos. hoje nula. os termos em que os cabo-verdianos interpretam a sua situação implicam a O crivo étnico deve ter várias vezes barrado a trajectória ascensional de descendentes de caboverdianos. 21 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . alguns dos quais se percebem como genuínos enquanto descendentes de progenitores de diferentes raças. Logo. em trapos. supostamente constitutiva do povo cabo-verdiano. resumem-se à crítica da apropriação indevida de bens das roças pelos responsáveis nomeados após 1975. pois. um artifício retórico de alguma ressonância política. De fundo ético. No passado. terem sido impedidos pelo fechamento da sociedade são-tomense à competição e à mobilidade social de usar as suas aptidões e a sua identidade para ascenderem económica e socialmente. em escravos. Segundos europeus. Devido à evolução pós-1975. Esta valorização da mestiçagem entre os cabo-verdianos não se prende com a sua valia política. os mandantes de uma terra tornada estranha não lhes reconhecem nada. Ou mesmo de uma noção de mestiçagem 22 . com a mestiçagem visava-se o embranquecimento das sociedades ou. Neste contexto. depois de. de outro modo. realçando. o contra-senso entre a sua condição de segundos europeus e a de escravos. sem outro horizonte além da morte. Têm consciência da marginalização – a que aludem subliminarmente com a palavra abandono – embora não a classifiquem de premeditada 21 . essa crítica faz-se a partir da racialização de comportamentos. a qualidade de segundos europeus sentencia o seu distanciamento de tais práticas.tomense. 22 A ideia de mestiçagem corre entre os cabo-verdianos. eles descrevem a sua situação falando em abandono. não necessariamente devido a uma ideologia segregacionista quanto ao peso dos laços familiares e clientelares na modelação da sociedade são.

marginalizados e sem razões para aspirar à integração numa sociedade drasticamente empobrecida. os são-tomenses não a poderão reivindicar. a quem responsabilizam pela sua desgraça. valiosa porque vivamente sentida e consciencializada por alguns dos cabo-verdianos. Por exemplo. parece comprovado pela degradação social em S. não tem sido reclamada por são-tomenses em tempos recentes 23 . não podiam aspirar. Em época de prosperidade devida ao cacau. raça e cultura não se afiguram suficientemente distintas. contratados para cargos intermédios nas roças.. para os cabo-verdianos. nem sempre serão totalmente arbitrários. Já os caboverdianos apontam a injustiça da sua perda social. Mais. A dimensão da alienação será notada pelo observador exterior. Esta é a posição dos cabo-verdianos que. Enfatizando a dimensão civilizacional da sua condição de segundos europeus. o determinismo. E relatam. os seus ascendentes ostentavam um refinamento de gostos a que europeus rústicos.12 rejeição liminar de um negro em particular – daquele que tomou o poder em S. Entre os cabo-verdianos. ou de uma herança europeia. por exemplo.) os estrangeiros veio ensinar a vocês [são-tomenses] trabalhar e a falar… A denominação segundos europeus comporta uma faceta instrumental. reelaboram a sua identidade pela reafirmação da ética aprendida no torrão natal a que se afirmam incondicionalmente fiéis. chamam a nós estrangeiros (. No final de suas vidas. outrora imediatamente inerente a esse binómio.. 23 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . estes terem reivindicado comungar de mais elevados patamares de civilização europeia. seguindo as pisadas de seus pais. Tomé e Príncipe –. E. Apregoando a sua civilização. Tomé e Príncipe. a ideia de segundos europeus. ao menos simbolicamente. que resta senão procurar uma demarcação que contrabalance. é com noções aparentadas com a de segundos europeus que interpretam o mundo e a sua vida. o que reforça o impulso a sublinhar a condição de segundos europeus. na Apesar de nos primórdios do século XX. Ao invés. que a usam para rebater o epíteto de gabão e estabelecer uma demarcação social inversa. na ausência de qualquer perspectiva para safar a o dia-a-dia após décadas de trabalho massacrante. hoje. a miséria e a marginalização que não têm hipótese de combater? Independentemente dos processos de identificação acorrerem às oportunidades políticas. dizem nós podemos acompanhar branco. apartam-se da africanização dos nativos.

reafirmando uma justeza (cabo-verdiana) de princípios que. A expressão de tais ideias revelaria. Se o rótulo de segundos europeus proporcionasse ganhos reais. tal afigura-se pouco consentâneo quer com os sentimentos do comum dos cabo-verdianos. a que se presta tal designação. quer com valores que actualmente plasmam a pesquisa social. Notas conclusivas Segundos europeus afigura-se uma etiqueta de indivíduos de vidas corridas em horizontes fechados e. aqui e além propensos a expressar. pouco conhecimento do mundo. pois. Concomitantemente. ainda entendido à luz do imobilismo social do S. Tomé e Príncipe independente que reside a explicação do uso da noção de segundos europeus. como outrora. mesmo se enviesada. como é próprio da experiência humana. sentimentos passíveis de confusão com a aceitação da inferioridade face aos europeus. ainda seria mais abraçado. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . porque insistiriam os ex-serviçais cabo-verdianos numa tal formulação? A explicação pode ser encontrada na compensação simbólica e na denúncia política. na falta da canga do destino ou da graça de Deus. Tomé e Príncipe colonial. é na vivência no S. o isolamento e a privação extrema vincam ainda mais. através da qual tentam uma compreensão do que lhe sucedeu. recorrem para reagir simbolicamente à subalternidade em que se acham. talvez por isso. as piruetas da vida ensinaram aos cabo-verdianos o escusado do apego a sentimentos de outrora que – sabem-no bem – não têm mais sentido. Na realidade. Seja como for. a consciência de serem cabo-verdianos. No entanto. Evidentemente. nem sempre encontra realização neste mundo.13 procura de vida. se porventura isso é imaginável. a que. Tomé lhes pregaram. Mas não tendo os olhos fechados – assim o pretextam –. verbal e gestualmente. é pela afirmação da sua diferença que se reconciliam com as partidas que o destino e a evolução política em S. A ênfase dos testemunhos valida a sua verdade e autentica o seu sentimento de revolta sofrida e contida. Para eles. pouco ou nada porá em causa a sua leitura do mundo.

Race. CEA-UP MEINTEL. Porto. Porto. Oeiras. “A identidade santomense em gestão: desde a heterogeneidade do estatuto de trabalhador até à homogeneidade do estatuto de cidadão” in Africana Studia nº2. James e WICHAM. Lisboa. cultura e política de identidade. Uma abordagem antropológica através da literatura de ficção. ideia que. 2004. Rio de Janeiro. Elisabetta. Lisboa. 1989. António. Deirdre. A interpretação das culturas. previsivelmente. começa a ser reconhecido. Paul. 1986. mesmo se nos seus testemunhos aflora uma noção de um veio singular que dimanaria das suas ilhas 24 . 1999. não corroboro. quem lhes dirá que não viveram de acordo com o que os seus pais lhes legaram como sendo valores cabo-verdianos? Referências Bibliográficas ALMEIDA. Ph. Hora di bai. 1994. Teorema FERNANDES. Raça. 1983 [1977]. de essencialistas ou de coisa que o valha. Campo das Letras CARREIRA. com quem me sinto emocionalmente implicado. Pablo.14 Seria risível taxar os ex-serviçais cabo-verdianos. Um mar da cor da terra. 1999 [1ª ed. dissertation. Margarida. Os cabo-verdianos e a morte. 1993] Como as sociedades recordam. Miguel Vale de. culture. West Africa. noutras circunstâncias sociais sugere o enquistamento do discurso identitário ou o reveste de tons marcadamente auto-encomiásticos atinentes à exaltação do cabo-verdiano. 1984. Outros destinos. Clifford. and portuguese colonialism in Cabo Verde. Editora Guanabara MAINO. Oeiras. Termino de outro modo: ao cabo de décadas de vida assaz sofrida. Miguel Vale de. Instituto Caboverdeano do Livro CONNERTON. Syracuse University E que. Chris. Ensaios de antropologia e de cidadania. Celta EYZAGUIRRE. Migrações nas ilhas de Cabo Verde. 2004. Nova Vega GEERTZ. 2000. Small Farmers and Estates in Sao Tome. D. Memória social. Yale University FENTRESS. Celta ALMEIDA. 24 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .

Gordon and Breach NASCIMENTO. Tomé e Príncipe e de Moçambique. S. Praia. 2002. Comrades. Tomé. Power and Social Segmentation in Colonial Society. Brian L. Tomé segundo vozes de Soncente [para publicação] NASCIMENTO. Lisboa. Tomé. Race. S. Tomé e Príncipe de finais de Oitocentos a meados de Novecentos. Edição da Presidência da República de Cabo Verde NASCIMENTO. Leiden. O fim do ‘caminhu longi’ [para publicação] NAVE. Praia. Gerhard. Órfãos da Raça: Europeus entre a fortuna e a desventura no S. 2005. Universidade de Leiden SILVA. 2006. Combates pela história. Augusto. Augusto. 2002. Francisco. Lisboa. Identidade social e ética do trabalho nos assalariados agrícolas do Alentejo – a empresa colectiva e a comunidade local no espaço rural pós-latifundista. Augusto. Junta de Investigações do Ultramar ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . O sul da diáspora. 1990. António Leão Correia e. 2003. Joaquim Gil. Um estudo de caso. Socialism and Democratization in São Tomé and Príncipe. ISCTE SEIBERT. Nova Yorque. Vidas de S. Tomé e Príncipe colonial. Poderes e quotidiano nas roças de S. Augusto. Augusto. Tomé NASCIMENTO. Colonialism. Instituto Camões / Centro Cultural Português NASCIMENTO. 2003.15 MOORE. Clients and Cousins. 1987. A ilha de S. 1999. Spleen Edições TENREIRO. 1961.. Cabo-verdianos nas plantações de S. Guyana After Slavery 1838-1891.

Discorrer sobre uma coletividade. Tão somente.A ORIGEM DA MORNA E A ORIGINALIDADE CABO-VERDIANA Juliana Braz Dias Departamento de Antropologia. A morna é mesmo uma criação dos cabo-verdianos? Que matrizes culturais exerceram influência na sua origem? Quais acontecimentos e sentimentos inspiraram a criação desse gênero musical? Não procuro trazer respostas definitivas a essas questões. empenhada no projeto ideológico de construção da identidade nacional. nunca foi um trabalho simples. morna. Os próprios membros constituintes de qualquer totalidade apresentam idéias divergentes a respeito daquilo que os define. presentes em diferentes projetos identitários. e que alcançam cada setor dessa sociedade. Como em qualquer processo social de identificação. mostro como membros de variados setores da população cabo-verdiana. e as discussões em torno daquilo que singulariza este povo. em diferentes momentos da história daquele país. São discussões que ultrapassam os limites de uma elite intelectual. Neste trabalho procuro abordar uma coletividade específica. procuraram responder tais perguntas. São diversas hipóteses sobre a origem da morna. reconstrói a dinâmica das discussões sobre a origem da morna (gênero musical tomado como um dos símbolos da nação cabo-verdiana). bem como suas características mais notáveis. Universidade Federal de Mato Grosso Este trabalho aborda parte do debate realizado no arquipélago de Cabo Verde em torno do significado cultural da cabo-verdianidade. as construções dos caboverdianos acerca da nação a qual pertencem não são fixas. Palavras-chave: cabo-verdianidade. imutáveis. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . nas suas mais diversas formas de expressão. a sociedade cabo-verdiana. identidade social. portadoras de uma riqueza simbólica capaz de revelar diferentes construções. não apenas sobre esse fenômeno musical. fruto de consenso. Mais precisamente. indicando como essa polêmica reflete a pluralidade de concepções acerca do sentido de ser “crioulo”. A pluralidade de opiniões dos cabo-verdianos sobre eles próprios e sobre o sentido de ser “crioulo” conforma um rico campo de debate. mas sobre a própria cultura cabo-verdiana. assinalando seus limites internos e externos.

Este trabalho é uma versão resumida de parte do argumento apresentado na tese de doutoramento Mornas e Coladeiras de Cabo Verde: versões musicais de uma nação. dar esta resposta. mas sobre a própria cultura cabo-verdiana. Desde o início das atividades de investigação que fundamentam a presente discussão. 1 A pergunta “qual a origem da morna?” tem sido insistentemente levantada pelos cabo-verdianos. Assim como o homem cabo-verdiano é apresentado como um mestiço. a discussão sobre a história da morna tem-se confundido.2 As reflexões a seguir abarcam parte do debate realizado em Cabo Verde em torno do significado cultural da cabo-verdianidade. pesquisadora. indicando como a polêmica criada acerca do surgimento desse fenômeno musical reflete a pluralidade de concepções acerca do sentido de ser “crioulo”. procuro indicar como as diferentes versões sobre a origem da morna são todas elas portadoras de uma verdade. Baseia-se. tomado hoje como um dos símbolos da nação cabo-verdiana. Muito mais interessante. produto do encontro entre Portugal e África. 1 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . visto que apresentam uma riqueza simbólica capaz de revelar diversas construções. Mais precisamente. Muito antes. procura-se reconstruir a dinâmica das discussões sobre a origem do gênero musical cabo-verdiano denominado morna. impondo. Cada um desses atores. não apenas sobre esse fenômeno musical. levanta inevitavelmente uma série de questões: a morna é mesmo uma criação dos cabo-verdianos? que matrizes culturais exerceram influência na sua origem? quais acontecimentos e sentimentos inspiraram a criação desse gênero musical? Repito que não pretendo aqui responder a essas questões. Exemplo disso é o discurso seguinte. Em grande parte dos casos. muito menos discutir qual das diversas hipóteses sobre a origem da morna aproxima-se mais da verdadeira trajetória percorrida por essa manifestação da cultura popular cabo-verdiana. era analisar o significado das diversas hipóteses construídas sobre o nascimento desse gênero musical. aparentemente. ao refletir e opinar sobre o assunto. da mesma autora. sob uma perspectiva antropológica. também a morna surge como resultado desse cruzamento de culturas diversas. explícita ou implicitamente. com a discussão sobre a formação da sociedade cabo-verdiana. Essas diversas versões para a origem da morna têm percorrido diferentes momentos da história de Cabo Verde e envolvem membros de diferentes setores da população cabo-verdiana. a necessidade de uma resposta definitiva. soube que não cabia a mim.

é preciso maior cuidado na análise da maneira como esse processo de miscigenação é apresentado. Ele não é português nem africano. Nas narrativas sobre o processo histórico que deu origem ao cabo-verdiano. em atividades de investigação realizadas entre os anos de 2001 e 2002. E a morna apresenta-se como um símbolo dessa síntese sui generis. onde há gemidos dolentes. e suas contribuições para a formação da sociedade cabo-verdiana são continuamente discutidas. em Lisboa (Portugal) e Mindelo (Cabo Verde). há as dolências africanas. “uma personalidade própria”. o processo de criação da morna cabo-verdiana: O indígena africano. o musicólogo Jean-Paul Sarrautte publicou em Cabo Verde um artigo onde procurava demonstrar a maior intensidade da influência metropolitana na origem da morna. as duas matrizes culturais que participam desse encontro quase nunca se apresentam em posição de igualdade. possue música pobre. a preceito. (Correia. Caiu como uma luva no discurso daqueles que participavam do processo de construção da nação cabo-verdiana como uma organização sócio-cultural distanciada de suas raízes africanas. Mas se a morna é descrita como a melhor testemunha da mestiçagem étnica. O artigo de Sarrautte passou a ser amplamente citado. muitas vezes. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . o povo caboverdeano. em A Aventura Crioula. na sua música. vibrados no sofrimento duma fatalidade étnica que os tempos não destroem. Preponderando nêle os elementos mestiços. neste caso. devidamente influenciado pelo português. capaz de gerar. sem qualquer nota de influências lusas. Os portugueses teriam sido peça fundamental na formação desse novo estilo musical. espiritual e cultural do cabo-verdiano. Manuel Ferreira. nesse povo.3 onde o português Afonso Correia descreve. criou uma personalidade própria que os mais pequenos nadas tornam evidente. Em 1961. no seu sangue e nos seus hábitos. Mas o africano. Está. 1939: 301) O homem cabo-verdiano é apresentado como o produto original de um encontro intersocietário. as dolências e as alegrias portuguesas. na sua morna. utiliza-se da autoridade do referido musicólogo para argumentar sobre “a importância da presença europeia na origem e desenvolvimento fundamentalmente. é simplesmente “crioulo”. conforme os interesses em questão. com base na idéia de mestiçagem. É assim que o debate sobre a origem da morna acaba tomando a forma. de um jogo de forças entre as heranças culturais portuguesa e africana. Elas são valoradas.

Vale de Almeida. (ibid: 207-208) O fado. diversos autores enxergaram na canção portuguesa a mais provável explicação para a origem da morna. Mais do que meras semelhanças. que tem sido alvo de longo e acirrado debate em Portugal. E no calor dessa polêmica. porém. Com isso. Durante a vigência do Estado Novo. com o surgimento de críticas que denunciaram sua ligação ao regime de Salazar (ver Carvalho. Tal hipótese. de tal forma que a relação entre os dois gêneros musicais adquirisse o caráter de uma filiação direta. António Germano Lima propõe uma nova versão para a polêmica origem da morna. Alguns. 1985: 205). o cabo-verdiano José Alves dos Reis. Sugere que sua procedência pode ser encontrada no ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Já na atualidade.) a morna. da morna. o caráter ideológico do fado tornou-se evidente. Nessa asserção percebe-se claramente o intuito de reforçar o caráter singular. maestro e professor do liceu Gil Eanes de São Vicente. 1999: 83-88. as ligações entre o fado e a morna viram-se cada vez mais questionadas pela intelectualidade em Cabo Verde. afastou a morna (e com ela todo o arquipélago cabo-verdiano) de seus vínculos históricos com a África: Europeia pela tonalidade. tem sido amplamente contestada. (.. possivelmente até pela síncope. exclusivamente cabo-verdiano. para a entendermos na sua mais íntima estrutura e figuração tem de ser estudada essencialmente nos seus apports europeus. 1995: 5-8). uma vez que se supõe ser a segunda mais antiga que o primeiro. O que precisa ser lembrado é a polêmica que envolve o próprio fado. ganhou destaque em narrativas sobre a história da morna. Pouco a pouco o debate sobre o nascimento da morna caminhou no sentido de romper (ou pelo menos minimizar) possíveis associações entre esse e outros gêneros musicais e de enfatizar a originalidade daquela que vinha sendo construída como a canção nacional cabo-verdiana. Ainda em 1954. muitas vezes. tudo concorre para a encararmos indiscutivelmente como uma criação do CaboVerdiano..4 orgânico da morna” (Ferreira. com proximidades muito pouco significativas do mundo africano. afirmou que “não é fácil encontrar no folclore português ou outro estrangeiro qualquer das características das formas musicais das mornas” (Reis. alegam simplesmente que o fado não poderia ter influenciado a morna. 1984: 11). como Manuel Ferreira (ibid: 185). e sem dúvida nenhuma que pela natureza das suas letras e pela atmosfera lírica e sentimental que a envolve.

. no tempo dos escravos. o luto. Percebemos na análise dessa versão para a origem da morna uma mudança radical de direcionamento. daquele gemido. a saudade. Nas hipóteses anteriores notamos. ouvi cabo-verdianos ressaltando que os escravos. aquele gemido escravo. Por diversas vezes. em “linguagens e gestos imperceptíveis para os colonizadores mas sempre na forma de cantos e danças” (Lima. a dor. quando vieram da África.. expressos. natural da Ilha da Boavista: Dizem que a morna foi criada na Boavista no tempo da escravidão. a ênfase na participação de elementos culturais portugueses nesse processo. é que eles inventaram a morna. 2001: 247). aquele gemido. criaram a morna. Diziam que os escravos cantavam a morna no lugar de chorar. os escravos africanos e seus descendentes são apresentados como os principais personagens da história da morna. aquela dor. conforme eles algemavam os escravos. assim eram também as mornas da Boavista. Enquanto a coladeira. António Germano Lima vai buscar o processo de criação da morna na “dor”. alegre. porque. A grande mudança nesse jogo de forças que se dá agora com um enfoque quase que exclusivo na população cabo-verdiana de origem africana reflete um novo momento no debate.. a morna identifica-se quase que exclusivamente com valores como o sofrimento. de um lado.5 “substrato sócio-cultural de origem afro-negra” da Ilha da Boavista (Cabo Verde). no tempo dos escravos. dançante. irônica e satírica. em vez de cantar aquelas músicas africanas mais “mexidas”. segundo o autor. E é essa hipótese que tem ganhado força em outros estratos nãointelectualizados da população cabo-verdiana. a preocupação em afirmar a origem genuinamente cabo-verdiana desse gênero musical e.... que escreve no começo do século XXI. por isso. tinham um trabalho muito duro e. É importante perceber que a força dessas narrativas está justamente no destaque que dão ao sofrimento vinculado à escravidão. nos “queixumes” e nas “lamentações” dos escravos. A experiência histórica da escravidão torna-se a peça chave para a compreensão dessa hipótese. o ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Daquele som. em oposição a ela. daquela tristeza. as mãos. o que permite que elas se aproximem muito do sentido que a morna carrega nos dias de hoje. de outro lado. vem ocupando o espaço da música “mexida”. Com António Germano Lima. outro importante estilo da música popular cabo-verdiana. Cito aqui um trecho da entrevista realizada com uma senhora de 75 anos.

todo ele. e sim enquanto “escrava”. Seu argumento não tem recebido muito apoio (cf. assim. Cabo Verde é produto direto da expansão européia e do sistema econômico implantado nesse contexto. ora distanciando-o dos dois continentes. 1985: 49). a discussão sobre a ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .. como afirmam. podemos perceber o poder de uma narrativa que a identifica com a dor escrava. Contudo. por exemplo. ela não deixa de carregar as marcas da cabo-verdianidade. dentro da narrativa. como linguagem para falar das tristezas e amarguras vividas pelo povo cabo-verdiano. ora aproximando-o. no arquipélago de Cabo Verde. o que interessa é observar que. É a junção da cultura africana com as particularidades da história e da geografia cabo-verdiana que possibilita o nascimento da morna. atribui à morna origem argelina (ver sua entrevista em Duarte. Esse é um ponto muito importante para as freqüentes afirmações sobre a morna como símbolo da identidade nacional cabo-verdiana. Partindo desse significado da morna. A população negra não aparece como contribuinte para a criação da morna enquanto “africana”. Mesmo que procedente de uma população “de origem afro-negra”. através da ênfase. como em várias outras narrativas. por exemplo. bem como uma possível participação árabe no desenvolvimento da canção cabo-verdiana. outras matrizes culturais têm sido destacadas pelos cabo-verdianos nas reflexões sobre sua história social.6 choro. A influência brasileira sobre a morna aparece em algumas narrativas. o processo de criação da morna ocorre. Gostaria de comentar especialmente que essas hipóteses não deixam de enfatizar. a morna. se o debate sobre a identidade cabo-verdiana tem sido muitas vezes retratado como um dilema que coloca o arquipélago entre a Europa e a África Negra. a dor na sua expressão máxima. 1989: 20-21). Martins. Não podemos concluir a discussão sem observar que. na experiência da escravidão e no sofrimento a ela vinculado. a exclusividade cabo-verdiana nesse processo. A morna surge. Se no atual momento a africanidade é enfatizada. a lamentação e a melancolia. além da participação de portugueses e africanos no encontro que gerou a sociedade cabo-verdiana e. em particular. E é a partir disso que podemos compreender o caráter particular que assume aqui a afirmação da africanidade. e são tais particularidades da história social cabo-verdiana que são assimiladas por esta última versão sobre a origem da morna. O músico e compositor Jorge Monteiro.

nem culturas geométricas. o que. Numa relação metonímica. acalentou-o. atraiu-o.. Assim como versões de um mito que. E é com essa narrativa que Fausto Duarte apresenta a morna como a síntese. esculpindo na sua sensibilidade o ritmo das ondas. não eliminam umas às outras. Como no lirismo rebuscado de Fausto Duarte. É do mar e suas ondas que vem o ritmo da morna. assim. mas também a própria “alma do oceano”. uma determinada construção sobre essa formação sócio-cultural. o caboverdeano volveu os olhos para o mar. embora contraditórias. afirmando: Cabo Verde é a transição. E porque a terra se recusou à fecundação. dedilhando o violão. o símbolo máximo da fusão do caboverdiano com o Atlântico que o circunda. (Duarte. 1934: 10-11). seja mesmo a característica dessa sociedade crioula. que não se fecha em si mesma e participa de um contínuo movimento de reformulação. as notas plangentes que se perdem na imensidade do espaço e são a própria alma do oceano. Cada uma das versões da gênese da morna faz parte de um projeto específico de construção da unidade nacional cabo-verdiana e.. talvez. nunca é definitiva. o caboverdeano escutou os queixumes. funcionário da administração colonial e escritor cabo-verdiano que representou o arquipélago na 1ª Exposição Colonial Portuguesa. sofrimento e harmonia – virtudes da alma do povo ilhéu que se inspirou directamente na mágoa dolorosa do Atlântico.7 origem da morna vem tornar mais complexo esse quadro através de narrativas que acrescentam novos elementos na composição dessa sociedade crioula. O mar surge aqui como um valor. Sob as velas enfunadas que se deleitam na luz flava e recolhem o murmúrio da brisa. tão grato aos ouvidos dos mareantes. essas inúmeras hipóteses se somam ao contar a história de um fenômeno musical e do povo que o criou. do murmúrio da brisa. Nem arvoredos bastos crescidos ao acaso pela mão da natureza. E o espaço permanece aberto às possibilidades mais diversas. compôs a primeira “morna”: dolência. A melodia nascente não é apenas a “alma do povo ilhéu”. e o mar enamorou-se dele. E.. sua melodia. segundo interesses cambiantes.. Noto também a existência de hipóteses para o surgimento da morna que colocam em evidência um conteúdo bem diferenciado. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . cada hipótese sobre a origem da morna sugere um “mito de origem” de Cabo Verde. em 1934.

as versões para a gênese da morna então articuladas apresentam-se imersas nesse processo político. o debate sofre uma mudança radical. que tem no tempo o seu critério orientador. tanto por intelectuais cabo-verdianos quanto portugueses. e a Metrópole se mantém como o referencial de civilidade. Com o processo de independência vivido pelos cabo-verdianos. em detrimento das relações com a África continental. Ele é ainda um importante símbolo da ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Cada uma dessas narrativas tem sentido em si. Já num outro período. ainda que claramente marcadas pela disparidade entre elas. Entre as décadas de 1930 e 1960. agora estas últimas posicionam-se no centro da agenda política de Cabo Verde. É possível observar que as narrativas elaboradas nesse período. que marcou o período salazarista. Como não poderia deixar de ser.8 À guisa de conclusão. Afirmam sua originalidade. passam a figurar nos círculos da intelectualidade local. sem no entanto deixar de enfatizar a força da influência portuguesa sobre esse gênero musical. concentra-se a grande maioria das narrativas sobre a origem da morna. por outro. acarretando importantes alterações na política colonial. a importância que adquiria a construção da singularidade cabo-verdiana frente ao Império Colonial naquela época. E mesmo a morna toma agora nova feição. começa a dar lugar a novos debates envolvendo outras manifestações da cultura popular cabo-verdiana. porém. A morna deixa de ser praticamente a única manifestação da cultura popular trabalhada em projetos de construção da nacionalidade cabo-verdiana. conseqüentemente. Essa dupla tendência indica. E a imensidão de estudos sobre a morna. entre outros. O Império é recriado. Se até então a proximidade em relação à Metrópole era valorada positivamente. por um lado. o funaná e a tabanka. especialmente aquelas onde a herança africana pode ser mais facilmente percebida. e o controle sobre as colônias é reforçado. de Cabo Verde. É nessa fase que se instaura em Portugal o Estado Novo. é preciso observar que as narrativas aqui analisadas. O batuku. com caráter nacionalista e centralizador. quando têm início os movimentos de libertação nacional nas colônias. revela um momento histórico em que a lusitanidade é apresentada como um valor. delineiam um padrão. seguem a mesma tendência de construção da morna – e. mas também deve ser compreendida como parte de uma estrutura que lhe abrange. este último gênero musical deixa de ser expressão da lusitanidade para se tornar índice de africanidade.

nessa versão a explicação para a gênese da morna tem início com a referência ao encalhe de uma embarcação ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .. mas acrescenta à narrativa novos elementos. Quase sempre o Brasil assume a forma de uma ligação entre Cabo Verde e a África...) é a primeira povoação do norte. o sofrimento e a própria imagem do escravo acorrentado.. havia problema. mas que dava um sentido de tristeza. tem muito a ver com alguma influência da língua brasileira. Então começaram a pôr letra nas mornas (. Mas a referência ao Brasil representa... porque lá fala muito de ‘bocê’.). funcionário público e músico cabo-verdiano. e estavam acorrentados. Encerro a presente discussão com mais uma das inúmeras narrativas sobre a origem da morna. noto que também nesse período são relativamente freqüentes as referências ao Brasil nas narrativas sobre a gênese da morna.. ‘bocê’. a tristeza. Então quando se deslocavam de um sítio a outro. Até por causa do sotaque que ainda existe naquele povoado. ‘você’ e que. onde nós temos convicção de que lá é que nasceu a morna... E então ficaram em João Galego. O que segue abaixo é a sua narrativa: Teria encalhado no norte da ilha [Boavista] um barco brasileiro que tinha escravos a bordo. ‘você’.. não havia comunicação naquele tempo. porque aqui esses escravos ficaram lá durante muito tempo. sem a letra. ao mesmo tempo. de solidão. logo se disponibilizou para contar sua versão sobre a gênese da morna. nós pensamos que teria sido.. comer ou ir para um outro sítio.. Então. O barco encalhou e as pessoas salvaram-se ou foram salvas. (. nós temos essa informação oral de que a morna terá nascido daquele ambiente de tristeza. alguém de há muito pegou nessa melodia que eles iam cantando assim. Essas referências têm caráter um tanto ambíguo.. eles tinham uma melodia que eles iam interpretando.. portadora de admirável riqueza simbólica. Nuno. como a escravidão.... de sofrimento dos escravos brasileiros aqui na Boavista e alguém pegou. natural da Ilha da Boavista.9 originalidade cabo-verdiana.... de saudade ou de sofrimento. quando procurado por mim para conversar sobre suas experiências com a música local. hoje comunidade lusófona. uma forma de religação ao antigo Império Colonial. sem que para tal seja necessário fazer referência direta à ex-Metrópole. nós teríamos... antes mesmo de perguntado sobre o assunto. Em primeiro lugar.. mas é ao mesmo tempo um instrumento para a recriação do vínculo com o continente africano. Por fim. mas só com melodia. Nuno retoma alguns pontos já levantados nos discursos aqui analisados.. sem palavras.

portanto.10 ocorrido na costa norte da Boavista. é compreensível a sugestão de que ela tenha nascido em uma povoação marcada por tamanha ambigüidade. Em segundo lugar. “A música africana como a vê a sensibilidade dum europeu”. evento que durante séculos foi relativamente comum na referida ilha. a referência à povoação de João Galego como o local onde nasceu a morna enriquece ainda mais o relato. Por fim. e sim do Brasil. CORREIA. Nuno cita a povoação para reforçar seu argumento sobre a influência brasileira na origem da morna. VI. Diante da complexidade do debate em que está inserida a busca pelas raízes da morna. João Galego é também conhecida entre os boavistenses por ter sido fundada por “escravos-galegos”. uma identificação com o continente africano. curiosamente. como de costume. Tal caráter ambíguo pode mesmo ser apontado como um dos traços marcantes da “crioulidade”. Ruben de. 68. O Mundo Português. uma vez que não vinham da África. Portanto. 301-304. A aproximação construída entre Cabo Verde e Brasil é a base sobre a qual se desenrola a narrativa. há a identificação com um terceiro. passando antes pela mediação realizada pelo Brasil. escravos brancos provenientes da Europa (Lima. também resultado do encontro dessas duas matrizes culturais. mas também nuanças da história local são contempladas na narrativa. vol. E no lugar da habitual disputa entre as heranças portuguesa e africana. 1999. ao menos não diretamente. todo o discurso de Nuno aponta os escravos como criadores da melodia que veio a dar origem à morna tal qual conhecemos. 2002: 196). p. Afonso. pela via de uma rota na contracorrente do tráfico negro. Amadora: Ediclube. não apenas a escravidão. O reconhecimento da participação dos escravos na criação da morna não representa. Referências bibliográficas CARVALHO. Um Século de Fado. baseando-se para tal no sotaque que ainda hoje existe no local. n. mas se trata de escravos muito especiais. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . 1939. construída metaforicamente através de uma etno-história musical. Porém.

1985 [1ª edição: 1967].II . “Da literatura colonial e da ‘morna’ de Cabo Verde”. Ilha da Morna e do Landú. Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social. p. António Germano.A morna”.I (A Morna). 1985. ano XII. Portugal Cooperação. 2002.11 DIAS. 2001. “Marialvismo: A Moral Discourse in the Portuguese Transition to Modernity”. Série Antropologia. Juliana Braz. Jean-Paul. 239-267. n. n. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Lisboa: Plátano. a morna e o mandó . Vasco. Praia: Instituto Caboverdiano do Livro e do Disco. DUARTE. Mornas e Coladeiras de Cabo Verde: versões musicais de uma nação. p. Cabo Verde: Boletim de Propaganda e Informação. 1984. 1. “A morna: síntese da espiritualidade do povo cabo-verdiano”. José Alves dos. p. p. Tese (Doutoramento em Antropologia). n. A Aventura Crioula. Universidade de Brasília. Africana. 2004. REIS. “Morna: o doce lamento do Atlântico”. VALE DE ALMEIDA. Fausto. DUARTE. 1995. n. Miguel. António. Manuel. 21. SARRAUTTE. 4853. 1934. “Subsídios para o estudo da Morna”. 1989. 6. Porto: Edições da 1ª Exposição Colonial Portuguesa. Praia: Instituto Superior de Educação. 1961. MARTINS. ______ Boavista. Raízes. 138. 184. 7-10. 9-18. esp. FERREIRA. LIMA. “Três formas de influência portuguesa na música popular do ultramar: o samba. A Música Tradicional Cabo-Verdiana . n.

vasconcelos@ics. A compreensão etnográfica da crioulidade cabo-verdiana levanta-me reservas em relação aos usos generalistas da noção e leva-me a defender em vez disso um uso ad hoc. a palavra significa qualquer coisa que diga respeito a Cabo Verde ou aos cabo-verdianos. o substantivo “crioulo” designa um indivíduo cabo-verdiano. onde o termo significa essencialmente ideias de mestiçagem e hibridez. A etnografia caboverdiana desafia a acepção de “crioulidade” corrente na literatura antropológica. regionais e de classe. nos países de emigração. Ambos os termos podem ser trocados na maioria dos contextos de fala sem que isso afecte o sentido dos enunciados. Argumento que a definição emic da crioulidade cabo-verdiana recorre a marcadores de vária ordem: não apenas genealógicos e fenotípicos.ul. Circunscrevo assim a minha abordagem às vivências e aos sentidos que andam atrelados ao termo no ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Como adjectivo. “Crioulo” e “cabo-verdiano” são sinónimos portanto. ou Lamarck em Cabo Verde João Vasconcelos Instituto de Ciências Sociais. Palavras-chave: crioulidade. O peso relativo atribuído a cada um deles varia consoante os contextos de interacção social. transportam ou cultivam uma identidade cabo-verdiana. identidades lamarckianas e mendelianas. atento aos sentidos que ela possui nos diferentes espaços e tempos em que é empregada pelos agentes sociais. Não obstante as suas importantes variações locais. Em Cabo Verde. Universidade de Lisboa joao.Filhos da terra. O propósito deste texto é mapear o campo semântico e afectivo associado à palavra “crioulo” tal como ela é usada correntemente em Cabo Verde.pt Este texto pretende mapear o campo semântico e afectivo associado à palavra “crioulo” tal como ela é usada correntemente em Cabo Verde. “Crioulo” é também o nome corrente da língua cabo-verdiana. mas também comportamentais ou performativos. identidade cultural. o crioulo é a língua materna de todos aqueles que nascem no arquipélago e é uma língua falada por quase todos os cabo-verdianos e seus descendentes que. identidade performativa. Cabo Verde.

Ou a minha percepção etnográfica está completamente equivocada. Recorro para esse efeito a materiais etnográficos que reuni em 2000 e 2001. cujo lema era “afinidade e diferença”. 6-8 de Abril de 2006). um texto em construção. mas parecem-me ser as mais difundidas no senso comum dos antropólogos contemporâneos. mencionando que foi buscar aquela expressão a um 1 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . ou os cabo-verdianos estão errados quando se dizem crioulos. no painel “Caboverdianidade e Crioulidade”. a quem manifesto a minha gratidão. Estas duas concepções não são as únicas. Porque é que me abalancei a escrevê-lo? Primeiro porque o congresso onde o apresentei. Jorge Rivera e Ramon Sarró. e não decretar se estão certos ou errados. por João de Pina Cabral. ou então a crioulidade caboverdiana possui realmente alguns traços distintos daqueles que são veiculados na crioulidade da vulgata antropológica.) A terceira hipótese é aquela que irei defender e explicitar aqui. 2 Sahlins (1999a) fala de “afterological studies” para designar os autodenominados estudos pósmodernistas. para usar linguagem de antropólogo. no decurso de trabalho de campo prolongado na ilha de São Vicente. ainda bastante incipiente.º Congresso da Associação Portuguesa de Antropologia (Lisboa. pós-estruturalistas e pós-coloniais. A primeira é moeda corrente naquilo a que chamarei os estudos pós e os estudos trans (traduzindo livremente duas expressões provocativas lançadas respectivamente por Marshall Sahlins e Jonathan Friedman). à noção de crioulo enquanto categoria emic. Esta primeira revisão procura endereçar alguns comentários que me foram dirigidos naquela ocasião e. os caboverdianos se afirmassem uma raça superior e justificassem dessa maneira qualquer forma de tirania sobre outros povos. Principiarei por identificar duas concepções de crioulidade e crioulização em uso na literatura antropológica recente. coordenado por Wilson Trajano Filho e por mim. (É claro que as coisas seriam diferentes se. Pode haver três razões para este desajuste. e é também um working paper.2 arquipélago – ou. posteriormente. o trabalho do etnógrafo é tentar perceber o que querem eles dizer com isso. A primeira hipótese é admissível. que tratou de outros assuntos. me pareceu uma ocasião adequada para reflectir acerca de lógicas culturais de identificação e diferenciação. por mera hipótese académica. 1 Depois porque nos últimos anos tenho lido vários trabalhos antropológicos que falam de “crioulidade” e “crioulização” em termos que me parecem ser apenas parcialmente transponíveis para Cabo Verde. Este texto é um produto lateral da minha pesquisa de doutoramento. A segunda é absurda: se os cabo-verdianos se dizem crioulos. 2 A segunda circula em estudos com alicerces Uma versão ligeiramente diferente deste trabalho foi apresentada no 3.

procurarei demonstrar que a crioulidade cabo-verdiana. início dos anos 1960. Todo o artigo é uma celebração deslumbrada do movimento e da mistura. região que corporiza o protótipo da crioulidade nos imaginários anglófono e francófono. é “um mundo em crioulização”.3 etnográficos nas Caraíbas. nas cervejarias. comunga também aspectos de uma lógica de formação de identidades que tem sido registada noutros espaços insulares bem mais afastados em termos geográficos. 4 Hannerz 1987: 555 – tradução minha. “Michael Jackson. 3 Hannerz 1987: 546 – tradução minha. Friedman (2002) fala do “trans-X discourse” como uma agenda ideológica que permeia os estudos sobre translocalismo. nas livrarias missionárias. Um dos primeiros antropólogos a formulá-la foi Ulf Hannerz. históricos e culturais. Os elementos culturais importados não abafam necessariamente os elementos indígenas. não tem de designar algo homogéneo nem sequer particularmente coerente. 5 Hannerz 1987: 551 – tradução minha. fiquei fascinado com aqueles modos de vida e de pensar que vão emergindo da interacção entre culturas importadas e indígenas. Na Nigéria. transculturalismo e transnacionalismo. Refiro-me especialmente às ilhas do Pacífico. * Ataquemos para já a crioulidade dos estudos pós e trans. nos colégios internos. muito embora partilhe várias características da crioulidade caraíba. A noção de cultura. os Abba e Jimmy Cliff não destruíram o mercado da música popular de Fela Anikulapo-Kuti. no artigo “The world in creolisation”. No final desta apresentação. 5 trabalho inédito de Jacqueline Mraz. Esse texto começa assim: Desde que me embrenhei pela primeira vez no Terceiro Mundo. publicado em 1987 na revista Africa. Sunny Ade ou Victor Uwaifo”. nas discotecas. nos jornais e nas estações de televisão. 4 Este mundo de importações e misturas. nos bairros de lata. escreve Hannerz. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . no final dos anos 1950. e o antropólogo é sueco. nas salas de espera das estações de comboio. e o conceito de cultura crioula é a “metáfora mais promissora” para o descrever. São as culturas em exibição nos mercados. afirma Hannerz. 3 O país do Terceiro Mundo de que o antropólogo fala é a Nigéria.

parece-me francamente débil como formulação conceptual. montagem. Ver também Friedman 1994: 209-210. Arjun Appadurai. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . E acrescenta que o fascínio contemporâneo de intelectuais como Hannerz. Os discursos do mundo em crioulização e do transnacionalismo “constituem uma agenda ideológica e não uma descoberta científica”: “um programa elitista imposto de cima para baixo e baseado na experiência de viajar de avião”. imagine-se. miscigenação. 6 Esta concepção da crioulização como sinónimo de “hibridez. retomada por Hannerz em trabalhos posteriores. Friedman 2002: 32-33 – tradução minha. Sahlins 1999b: xi – tradução minha. No final do seu artigo. como escreve Sahlins. transculturação. misturadas. 8 Mais ainda. Homi Bhabbha ou James Clifford pelas viagens e pelo hibridismo decorre mais da forma de vida dos académicos e das suas próprias preocupações políticas paroquiais (como por exemplo o multiculturalismo nas grandes metrópoles). então somos todos crioulos – coisa que não me repudia de todo. bricolage […]. 10 * 6 7 8 9 10 Hannerz 1987: 557 – tradução minha. até os suecos são crioulos. que “as culturas crioulas não são apenas necessariamente as culturas coloniais e pós-coloniais”. Leia-se a este respeito Sarró 1999. Mais de noventa e oito por cento da população mundial permanece toda a sua vida no país onde nasceu e a maioria não tem acesso à Internet. sinergia. “a chamada hibridez é no fim de contas uma observação genealógica. do que da emergência de uma nova realidade global. Hannerz 1997: 26. mestiçagem. e que. 7 Se a crioulização significa isto. mas que também não me parece poder constituir ponto de partida útil para um empreendimento analítico capaz de esclarecer o que quer que seja. colagem. miscelânea. mistas. mélange. Ver também Hannerz 1996. 9 Friedman argumenta no mesmo sentido. terceiras culturas e outros termos”. sincretismo. Hannerz conclui (com uma candura que não chego a perceber se é retórica ou genuína).4 As culturas crioulas são culturas híbridas. e não uma determinação estrutural – talvez apropriada apenas para os intelectuais cosmopolitas que fabricam estas teorias culturais a partir da sua posição de exterioridade”.

asiáticos e europeus) em diferentes tempos. sociedades formadas através de processos históricos que envolveram o desenvolvimento de economias de plantação. de acordo com a proveniência dos grupos que real ou presumidamente os introduziram. a deslocação mais ou menos forçada de populações de origens diversas (africanos. e a etnografia mais recente de Daniel Miller (1994) sobre a Trinidad. a escravatura. São também estudos muito diferentes no tocante às suas perspectivas teóricas de partida. os costumes e os objectos são classificados de forma quase obsessiva em termos étnicos ou raciais. Como escreve Leiris. Estes trabalhos cobrem um período bastante longo: o livro de Leiris baseia-se em missões etnológicas realizadas em 1948 e 1952 e o de Miller em trabalho de campo do final dos anos 1980. um outro que ele toma por mulato é afinal um branco crioulo. 11 11 Leiris 1955: 160-161 – tradução minha. visto encontrar-se em estudos baseados em trabalho de campo prolongado. o observador estrangeiro que chega à Martinica ou a Guadalupe é forçado a constatar que o seu discernimento falha frequentemente quando julga saber. e nas quais as pessoas. qual a categoria racial em que ela é colocada localmente: um indivíduo que ele vê como um branco é afinal classificado como mulato. que parece demonstrar a existência de um traço bem saliente na crioulidade das Caraíbas. um influente artigo de Lee Drummond (1980) sobre a Guiana. fiando-se no aspecto da pessoa com quem trava contacto. Esse traço comum é a importância que as categorias étnicas e raciais ali assumem na organização das relações sociais e no pensamento sobre a sociedade. e a manutenção durante séculos de um domínio colonial centrado em metrópoles europeias. Os três estudos retratam sociedades cujos membros designam “crioulas” e vêem como resultado de uma mistura de ingredientes de origens diversas. outro ainda que ele julgava negro é rotulado de mulato. Tomarei como amostra três estudos sobre quatro sociedades caraíbas: a monografia de Michel Leiris (1955) sobre a Martinica e Guadalupe. que merece outra atenção.5 Passemos à segunda concepção de crioulidade e crioulização. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Não vou aqui resumi-los. Os estudos a que aludirei concentram-se nas sociedades das Caraíbas. Vou somente identificar um denominador comum a todos eles. As classificações étnicas e raciais utilizadas nem sempre coincidem com aquelas que os observadores exteriores aprenderam nos seus países de origem.

Drummond afirma que também nesta sociedade as diferenças entre pessoas e formas de vida são expressas de forma explícita em termos de categorias raciais ou étnicas. Mais ainda. “buck” (ameríndio). A africanidade e a indianidade. por fim. que não equivale a “branco” no sistema guianense). negativas ou neutras. cujos pólos são os “africanos” e os “indianos”. as categorias primárias são “coolie” (indiano). muito difícil a um indivíduo naturalizado noutro esquema classificatório e ignorante da pequena história local. a forma modelar do racialismo. 12 Escrevendo sobre a Guiana. “black” (negro). de que o tipo de classificação racial estabelecido há cerca de cem anos nos Estados Unidos da América e nalguns países do norte da Europa constituiria por assim dizer o tipo padrão. 12 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . da qualidade dos cabelos e também da genealogia das pessoas e do seu estrato social que são aprendidos desde a infância e cujo domínio competente se torna. que não só evidencia a existência de diferentes tipos de formação racial e de racismo. Drummond acrescenta que a primeira manifesta uma variação à primeira vista desconcertante. 13 Além de reconhecer a inexistência de isomorfismo entre a classificação guianense e. consoante a situação em que são utilizadas. não são apenas atributos de dois grupos étnicos. na interpretação do autor. sobressai um padrão classificatório dualista. na ilha de Trinidad. entram em jogo modos de percepção e apreciação da cor da pele. dois estereótipos associados a valores em larga medida opostos. a inglesa. argumenta Miller. ver Vale de Almeida 1997.6 A questão é que na classificação racial. portanto. implícito na maioria dos estudos sociais sobre “raça”. a atribuição de africanidade e indianidade a determinados usos e costumes nem sempre reflecte a real origem cultural dos mesmos. “potuguee” (português. São. como varia também o valor atribuído aos estereótipos étnicos e raciais. da fisionomia. Leia-se a este respeito Wade 2002. e classificações como “whiteman” e “blackman” podem assumir conotações positivas. A etnografia de Miller sobre a Trinidad. ele mostra que não só a classificação varia situacionalmente. “chinee” (chinês) e “white” ou “english” (branco ou inglês). além disso. digamos. Através de vários exemplos etnográficos. Sobre os potuguees da Trinidad. Segundo Miller. Um branco num determinado contexto pode ser um mulato noutro. acrescenta algo às observações de Leiris e Drummond. e às vezes nem sequer sua real disseminação entre os grupos étnicos correspondentes. 13 Drummond 1980: 356. Aqui. que as pessoas da Trinidad usam para pensar sobre a sua sociedade. como também denuncia o pressuposto. em qualquer classificação racial. dentro do pluralismo étnico e das formas de categorização social que se baseiam nele.

Miller 1994: 132-133. tal como nas Caraíbas. ao longo do século XX. a sociedade cabo-verdiana do século XX e dos dias de hoje. por experiência própria ou através de leituras. nenhum destes grupos construiu identidades étnicas de longa duração vinculadas às respectivas origens. segundo Glissant. e 15 da “transiência” ou efemeridade (corporizada nos valores * Muito disto será familiar para quem conheça um pouco. 14 Essa raiz. Há que esperar para ver o que acontecerá com as 14 15 16 17 Miller 1994: 15 – tradução minha. Passar-se-á antes o contrário: “muito do conteúdo específico da estereotipagem étnica e da experiência contemporânea da etnicidade resulta do uso de grupos étnicos para objectivar um dualismo cuja raiz se encontra noutro lugar”. Noutro trabalho tive ocasião de argumentar que. intelectual natural da Martinica. Em Cabo Verde. por exemplo). 17 Não me parece adequado falar de grupos étnicos em Cabo Verde. dá ao termo. encontra-a Miller na “natureza fundamental da modernidade”: na contradição entre a valorização simultânea da “transcendência” ou continuidade (corporizada nos valores da indianidade) africanidade). Glissant 1981. Muito embora o arquipélago tenha conhecido em diversos momentos da sua história várias vagas migratórias (de escravos da costa ocidental africana. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . é “uma mestiçagem consciente de si própria”. o discurso da crioulidade nunca deixou de reproduzir as “categorias puras” que pretendia dissolver. 16 Não estamos portanto a falar do vago e vasto “mundo em crioulização” de Hannerz e outros. Estamos a falar de sociedades concretas nas quais as pessoas se vêem a si próprias como mistas ou misturadas e usam o vocabulário das “categorias puras” que compõem a mistura para se pensarem e se classificarem. madeirenses. confrontamo-nos com um contexto social crioulo no sentido que Édouard Glissant. deportados políticos da antiga metrópole e judeus de Gibraltar. o dualismo cultural entranhado na Trinidad não resulta da diferença étnica. por isso mesmo. A crioulidade. alentejanos e algarvios. Ver Vasconcelos 2004: 170-187. a identidade cabo-verdiana foi sistematicamente definida pela mistura e que.7 Para Miller.

em vez disso. a maioria dos cabo-verdianos vê-se como gente com sangue mais africano que português e com espírito mais português que africano. Além disso. no passado tal como no presente. empregado de escritório ou funcionário público nas horas vagas. “aristocratização cultural” (no período da Claridade). estes estereótipos não são étnicos. são conversas que se ouvem nos cafés. Em suma. existe em Cabo Verde a ideia de que ser crioulo é ser misturado. observam-se estratégias de classificação e distinção social que põem em prática a ideologia subjacente dos “tipos puros”. personificada na figura do badio. Diferentemente das Caraíbas. Duas jovens mindelenses perfumadas e de cabelo alisado que passam descaradamente à frente de um rapaz de Santo Antão de aspecto pobre na fila da bilheteira do cinema Éden Park são descompostas por uma rabidante que vende drops. a operação de critérios de identificação insular. nas esquinas da Rua de Lisboa e em casa. No decurso das transformações políticas que marcaram o século XX. dois estereótipos fortes. e “hibridez” (nos neo-liberais anos 1990).8 migrações mais recentes de vendedores ambulantes da África Ocidental e de comerciantes chineses. esta crença tem recebido os nomes de “civilização” (no período republicano). “alienação cultural” (no período da guerra colonial e dos anos pós-independência). ora “África”. Mais ainda. personificada no literato claro do Mindelo. à semelhança do que acontece nas Caraíbas. os estereótipos que fazem a mistura crioula caboverdiana são as nove micro-sociedades insulares que constituem o arquipélago. mais modestamente. e que resultam de processos de formação social bastante distintos e desfasados no tempo. nos mercados. A Europa de Cabo Verde é a ilha de São Vicente. E são. De onde veio a morna? E o machismo? E a família matrifocal? E o gosto pelo desporto? Não são apenas debates de intelectuais. nos botequins. “Portugal”). “África” e “Europa” foram internalizadas em Cabo Verde. Consoante as conjunturas político-ideológicas. o estereótipo positivamente valorado foi ora “Portugal”. “África” e “Europa” (ou. Em vez de grupos étnicos. Os debates acerca da cultura cabo-verdiana são quase sempre debates acerca de origens culturais. E. tal como nas Caraíbas. Revelam. sobretudo. o camponês escuro e iletrado do interior que vibra ao som do batuque. racial e classista. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . A África cabo-verdiana é a ilha de Santiago. mas ambos estiveram sempre presentes na consciência da caboverdianidade.

militante do PAICV. Quando é O estudo de Deirdre Meintel (1984) sobre a classificação e a discriminação raciais em Cabo Verde. Sem negar que a ideia de que se é “misturado” e as práticas de discriminação que só superficialmente a contradizem constituem componentes característicos da caboverdianidade enquanto forma de vida. Andam sempre com faca. que naquele tempo me incomodava) e a ganhar um tom moreno. conserva ainda muita actualidade. 18 Mas quero agora. gostaria de sugerir que estes componentes coexistem com outros. comenta logo: “Aquilo são badios da Praia. em que comecei a frequentar espaços públicos locais. chamar a atenção para uma outra característica bem diferente da crioulidade cabo-verdiana. a tomar uns grogues e uns pastelinhos nas vendas dos subúrbios e nos botequins da cidade. e creio que não se trata de uma percepção puramente subjectiva. que identifica os assaltantes como cabo-verdianos. a vestir-me à moda local (tirando o uso de sandálias. que evidenciam o funcionamento paralelo de uma outra lógica de formação de identidades. Foi um processo gradual. e um amigo meu. Os homens e rapazes com quem convivia foram-se tornando cada vez mais indiscretos e insistentes acerca das minhas relações com as raparigas da terra. que viviam na ilha há bastante tempo e que se comportavam e eram tratados como filhos da terra. para concluir. 18 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Conheci em São Vicente alguns estrangeiros (brancos a maioria. mas bastante escuro e de cabelo encarapinhado. mas também alguns negros e um chinês). Os filhos destas pessoas que nasceram ou foram criados desde pequenos na ilha em nada se distinguiam das crianças e dos jovens dos estratos sociais correspondentes. que lhes grita: “tempo de escravatura acabá!” Assisto no noticiário das oito a uma reportagem sobre um assalto em Lisboa a uma actriz de teatro. a ter a minha cachupa preparada em casa todos os sábados ou a ir comê-la a casa de outros. assente em trabalho de campo realizado no começo dos anos 1970. sempre a armar afronta!” Acompanho o drama de uma rapariga de boas famílias cujos parentes tentam por todos os meios pôr fim ao seu namoro com um rapaz também de boas famílias e até com estudos universitários. comecei a sentir-me parte da pequena cidade com cerca de setenta mil habitantes. a partir do momento que fiz questão de falar crioulo sempre que as circunstâncias não aconselhavam o uso do português.9 mancarra e cigarros no seu balaio em frente à escadaria. Não só existe racismo em Cabo Verde como ele é além do mais consciencializado e verbalizado. Eu próprio. a frequentar as tocatinas que se organizavam aqui e ali.

A minha experiência pessoal e o meu universo de observação podem implicar muitos enviesamentos. desde que o outro estivesse disposto a isso. estava afrontado porque toda a gente presumia que ele era cabo-verdiano com base na sua aparência física e lhe falava em crioulo. por muito que se esforcem por se comportar como portugueses. são apreciados. de comer o mesmo que as pessoas da terra. mas também elementos performativos. Pode haver aqui algum romantismo de going native da minha parte. por serem afro. Em todo o caso. negros e brancos? Não sei. ao cabo de uma semana em Cabo Verde. e quase todos os estrangeiros que conheci que estavam mais crioulizados que eu eram homens também. Os meus amigos mais chegados dizem. de ir nadar à praia da Lajinha pela manhã. embora três deles não fossem brancos. Mas sei que os meus amigos cabo-verdianos não são tratados desta forma em Portugal. que eu falo como os filhos dos caboverdianos que nasceram em Portugal. Todos apreciavam o facto de eu não ser esquisito com a comida. havia ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . julgo que com sinceridade. Não que ele seja muito bom. E noutros contextos são depreciados pelo mesmo motivo. Por outro lado. Eu sou homem e sou branco. É verdade que há uma espécie de fenótipo cabo-verdiano modal. Quando ele tentava explicar em francês ou em inglês que não era cabo-verdiano. é claro.10 que eu arranjava uma pequena? Quando é que eu tinha lá um filho? As raparigas foramse tornando cada vez mais atrevidas nos jogos de sedução – ou então fui eu que comecei a percebê-los melhor. Tenho amigos mindelenses que até em Portugal seriam brancos e que eram tomados por estrangeiros pelos raros camponeses com quem nos cruzávamos nos nossos passeios de domingo pelo interior da ilha – isto. Será a que a antropofagia cultural mindelense manifesta igual apetite por homens e mulheres. conheci um jovem turista mulato da Martinica que. Pelo contrário. de fazer as minhas compras no supermercado. Aquilo que experimentei e que observei na interacção dos mindelenses comigo e com outros estrangeiros foi uma grande abertura da parte deles à assimilação do outro (para usar uma palavra politicamente incorrecta). antes de abrirem a boca e falarem em crioulo. em certos contextos. aquilo que quero sugerir é que a crioulidade é uma classificação identitária que contempla não apenas elementos genealógicos (o facto de se ter nascido na terra. O meu domínio do crioulo foi talvez o feito mais apreciado. exactamente pela sua diferença. de se ter pais ou avós cabo-verdianos) e fenotípicos.

termo que não está exclusivamente reservado aos nascidos no lugar. Em Cabo Verde. Um estrangeiro. se cantar ou dançar a música da terra. para diferenciar os brancos europeus ou reinóis dos brancos da terra e os pretos africanos dos pretos da terra. ou “filhos da terra”.11 quem não acreditasse e achasse que ele era um desses emigrantes cheios de inchadura que perderam as raízes ou. Naquele enclave português na China. 19 Outros trabalhos etnográficos recentes realizados noutras regiões do Pacífico descrevem a operação de lógicas de formação de identidade semelhantes. a “raça” interessa. por exemplo. quando se trata de classificar as pessoas como cabo-verdianas ou não. entre outras coisas. Portanto. Marshall Sahlins. […] Para os havaianos. pior. Há também uma outra crioulidade que obedece a uma lógica identitária que tem subjacente a ideia de que aquilo que se faz é uma parte importante daquilo que se é. diz-nos que no Havai uma pessoa pode tornar-se “nativa”. eram considerados macaenses. tal como interessa quando se trata de diferenciar internamente os cabo-verdianos. 20 19 20 Ver Pina Cabral e Lourenço 1993: 53-72. pretos e mestiços. Depois de residir um certo tempo na comunidade. pode tornar-se crioulo se falar a língua da terra. até os estrangeiros se tornam “filhos da terra” (kama’àina). o facto de uma pessoa viver numa determinada terra e se alimentar do que ela dá fá-la da mesma substância que a terra. que se envergonham delas. pretos e mestiços são todos crioulos sem que deixem com isso de ser brancos. mediante acção adequada. Sahlins 1985: xi-xii – tradução minha. A palavra “crioulo” tem a sua raiz etimológica no verbo “criar” e começou a ser utilizada em sítios como Cabo Verde e as colónias de povoamento das Américas. se comer as comidas da terra. se acamaradar e eventualmente procriar com gente da terra. independentemente da sua aparência física. Esta realidade tem muito em comum com aquela que João de Pina Cabral e Nelson Lourenço encontraram em Macau no início dos anos 1990. no mesmo sentido em que se diz que uma criança é feita da substância de seus pais. ser-se di terra. não apenas os filhos de naturais do território. Brancos. mas também chineses e gente de outras proveniências que adoptavam a língua e a cultura locais. ser-se crioulo é. As classificações raciais e classistas que os diferenciam em certas situações coexistem com uma outra que os irmana. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Mas não é o único critério em jogo.

21 Diferentemente das “identidades mendelianas”. Rita Astuti identificou também entre os vezo. que provavelmente se poderão encontrar em qualquer parte do mundo. Num extremo estão as semelhanças e diferenças estabelecidas a partir de reais ou supostas heranças genealógicas.12 James Watson. introduziu a expressão “identidades lamarckianas” para designar este tipo de classificações performativas. Ver por exemplo Linnekin e Poyer (eds. A conceptualização de Watson foi depois aplicada por outros autores a diversas sociedades oceânicas.) 1990 e Hoëm e Roalkvam (eds. e “possui um forte cunho africano. A primeira. o recurso a duas formas de identificação idênticas às identidades lamarckiana e mendeliana de Watson: uma identidade “performativa” e uma identidade “étnica”. escreve a autora. Astuti 1995: 1 – tradução minha. de que se é aquilo que se faz. no outro as semelhanças e diferenças reconhecidas nos modos de vida. “adquire-se através de actividades realizadas no presente” e possui “traços caracteristicamente austronésios. em doses e com matizes diferentes. 23 Identidades mendelianas e lamarckianas podem ser concebidas como dois pólos de um continuum de produção de semelhanças e diferenças entre os seres humanos. não primordialista e não essencialista”. É-se reconhecido como crioulo em virtude tanto da ascendência familiar.) 2003. O peso relativo atribuído a marcadores genealógicos. fenotípicos e comportamentais varia consoante os contextos de interacção social. 22 Na ilha índica de Madagáscar. um grupo da costa oeste. como ainda daquilo que se faz. Creio que a crioulidade cabo-verdiana congrega ambas as lógicas de formação identitária. com base na acção. mas é igualmente possível que uma pessoa se faça crioula pela acção adequada. Um filho de crioulos é crioulo pelo nascimento. por se enraizar na ordem imutável da descendência e ser por ela determinada”. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . na prática quotidiana. como de traços corporais herdados e adquiridos socialmente. A segunda é vista “como uma essência herdada do passado”. as “identidades lamarckianas” baseiam-se na crença de que o comportamento constitui o ser. Este entendimento da crioulidade cabo-verdiana levantame reservas em relação a qualquer uso generalista da noção e leva-me a defender em 21 22 23 Ver Watson 1983: 276-280. na sua monografia sobre os tairora das terras altas da Nova Guiné. que enfatizam a preeminência dos traços herdados na constituição do ser. por ser transformativa.

LINNEKIN. Culture. si bô esquecê’m um ta esquecê’b. FRIEDMAN. Paris.”) Este é o meu ponto de interrogação final. Syracuse University. se me esqueceres eu vou esquecer-te. Transnational Connections: Culture. Termino com uma hipótese. “The world in creolisation”. HANNERZ. 1980. atento aos sentidos que ela possui nos diferentes espaços e tempos em que é empregada pelos agentes sociais. tão belamente expresso na morna mais conhecida de Cesária Évora: “Si bô escrevê’m um ta escrevê’b. Jocelyn.). FRIEDMAN. HANNERZ. 1955. 1984. 2002.). Routledge. até ao dia em que tu voltares. Ingjerd. 1981. Cultural Identity and Ethnicity in the Pacific.13 vez disso um uso ad hoc. Man (N. 57 (4): 546-559. Cultural Identity and Global Process. Jonathan. Africa.S. Oceanic Socialities and Cultural Forms: Ethnographies of Experience. GLISSANT. 3 (1): 7-39. Ulf. Thousand Oaks e Nova Deli. Jonathan. mais uma. Seuil. Édouard. Londres e Nova Iorque. Oxford e Nova Iorque. HOËM. Não estará a crioulidade enquanto identidade performativa estreitamente relacionada com aquilo a que poderíamos chamar o presentismo cabo-verdiano. Sage. Rita. Londres. 1987. híbridos: palavras-chave da antropologia transnacional”. “The cultural continuum: a theory of inter-systems”. 1997. “From roots to routes: tropes for trippers”. LEIRIS. Ulf. 1995. Paris. Honolulu.). Mana. 2003. Bibliografia ASTUTI. People. Syracuse. 1996. Le discours antillais. 1994. Michel. e Sidsel Roalkvam (eds. Race. Cambridge University Press. até dia que bô voltá”? (“Se me escreveres eu vou escrever-te. Ulf. e Lin Poyer (eds. Gallimard. Berghahn Books. People of the Sea: Identity and Descent among the Vezo of Madagascar. Places. University of Hawai’i Press. 15 (2): 352-374. fronteiras. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . and Portuguese Colonialism in Cabo Verde. 1990. Lee. Cambridge. Contacts de civilisations en Martinique et en Guadeloupe. “Fluxos. 2 (1): 21-36. HANNERZ. ligado por sua vez à experiência do trânsito migratório e da transitoriedade das relações. Deirdre. Maxwell School of Citizenship and Public Affairs. MEINTEL. DRUMMOND. Anthropological Theory.

1985. Marshall. SAHLINS. Miguel. Revista de Libros. Berg. “Ser português na Trinidad: etnicidade. e Nelson Lourenço. 1999a. Seattle e Londres. VASCONCELOS. João. “What is anthropological enlightenment? Some lessons of the twentieth century”. “Two or three things that I know about culture”.). 1999. Race. University of Chicago Press. Modernity – An Ethnographic Approach: Dualism and Mass Consumption in Trinidad. 1 (1): 9-31. University of Washington Press. 1994.. João de. James B. Ramon. “Espíritos lusófonos numa ilha crioula: língua. Imprensa de Ciências Sociais. WATSON. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . SARRÓ. The Journal of the Royal Anthropological Institute. e João de Pina Cabral (orgs. Nature and Culture: An Anthropological Perspective. Annual Review of Anthropology. Em Terra de Tufões: Dinâmicas da Etnicidade Macaense. 28: i-xxiii. Etnográfica. Marshall. 1993. WADE. em CARVALHO. SAHLINS. Chicago e Londres. Peter. Pluto Press. 2002. “Cultura y metacultura: más allá de la diversidad y de la homogeneización”. SAHLINS. 1997. Londres e Sterling. PINA CABRAL.14 MILLER. Instituto Cultural de Macau. VALE DE ALMEIDA. Tairora Culture: Contingency and Pragmatism. 27: 13-14. 1999b. poder e identidade em São Vicente de Cabo Verde”. A Persistência da História: Passado e Contemporaneidade em África. Islands of History. 5 (3): 399-421. Clara. Oxford e Providence. Lisboa. 1983. 2004. Macau. Marshall. subjectividade e poder”. Daniel. 149-190.

ISCTE ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .III – Capítulo Identidades migrantes: afinidades e diferenças como processos sociais Textos de comunicações do painel Identidades migrantes: afinidades e diferenças como processos sociais Coordenação Lorenzo Bordonaro Chiara Pussetti Centro de Estudos de Antropologia Social .

psiquiatria transcultural. a filosofia. a neurobiologia e a história. a sociologia. de carácter não cognitivo. inatas e geneticamente determinadas: fenómenos biológicos interiores passivos e involuntários. o convite é de repensar o conceito de identidade pessoal. Os biologistas sustentam que as emoções são essências universais. “genes/ambiente”. Podemos. Infelizmente. a reproduzir dicotomias como “natureza/cultura”. considerando como as afinidades e diferenças emocionais são estrategicamente realçadas. assim. os debates recentes continuam. Temos assistido nos últimos vinte anos a manifestações de um interesse académico renovado pelas emoções em campos disciplinares diferentes. Palavras-chave:Antropologia das emoções. reconduzir a maior parte dos estudos produzidos nas últimas décadas sobre as emoções a dois ramos teóricos opostos: os biologistas e os construcionistas sociais.Emoções migrantes: afinidades e diferencias como factos políticos Chiara Pussetti CEAS/ISCTE chiara_pussetti@hotmail. salvo raras excepções. Questionando quer as posições biologizantes quer as radicalmente relativistas.it Temos assistido nos últimos vinte anos a manifestações de um interesse académico renovado pelas emoções em campos disciplinares diferentes. “genes/ambiente”. Entre estes a antropologia. sobretudo nas disciplinas que se confrontam com as vivências emocionais dos migrantes – ou seja a antropologia e a psicologia transcultural -. ligados mais à memória filogenética que não à aprendizagem ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . herdadas pelo pensamento do século XIX. Definir o que é comum a todos os seres humanos e o que é específico de cada cultura torna-se assim um assunto politicamente relevante e potencialmente discriminante. reconstruídas ou inventadas pelos diferentes actores sociais. migrantes. Infelizmente. herdadas pelo pensamento do século XIX. a psicologia. etnopsiquiatria. sobretudo nas disciplinas que se confrontam com as vivências emocionais dos migrantes – ou seja a antropologia e a psicologia transcultural os debates recentes continuam a reproduzir dicotomias como “natureza/cultura”.

2 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . melhor. nas atitudes e nos preconceitos de muitos dos técnicos dos serviços de saúde que se confrontam com migrantes. como o sinal da limitação das capacidades introspectivas e de averbamento emocional de alguns grupos humanos (nomeadamente os africanos e os negros americanos). de terem submetido desenhos estilizados ou fotografias de caras. de se terem baseado numa identificação mecanicista entre movimento muscular e emoção propriamente dita. A falta de correspondência linguística directa. William James. sem terem em conta as eventuais diferenças de género. mas. algo de interno aos indivíduos e conexo a uma base genética hereditária e universal. e no final de terem fornecido uma tradução não critica dos termos emocionais ingleses em outras línguas. universais e inatos. abstraídas de qualquer contexto.2 individual. O que em síntese une a posição destes teóricos é uma visão das emoções como fenómenos não cognitivos e involuntários. não é interpretada como uma contradição da tese da universalidade das emoções. Durante muito tempo. o contexto e as circunstâncias da experiência emotiva. reduz-se à classificação das experiências e das narrativas dos outros no próprio horizonte lexical e categorial. a um agregado restrito de pessoas. as emoções foram consideradas também pelos antropólogos como fenómenos naturais. segundo critérios apriorísticos. caracterizadas por influências de tipo etológico e neurobiológico. 1980b. presente ainda hoje nas expectativas. Os antropólogos culturais criticaram duramente a metodologia utilizada por Ekman e pelos pesquisadores que partilharam a sua opinião e a sua orientação teórica. As teorias universalistas ou inatistas. Nestes trabalhos Ekman tentou identificar a correlação entre um grupo limitado de expressões faciais universais e um conjunto definido de “emoções básicas”. descuidando o ponto de vista dos locais. O conceito de unidade psíquica dos seres humanos justificava ao nível teórico a possibilidade de compreensão imediata entre pessoas de culturas diferentes: antropólogos e psicólogos poderiam assim entender empaticamente as emoções dos outros enquanto idênticas às próprias e utilizar sem problemas as próprias categorias para descrever as vivências afectivas dos outros. idade e posição social. ou seja a um exercício de tradução imediata entre as palavras de uma língua às palavras de uma outra língua. que baseia as suas pretensões de eficácia transcultural no pressuposto da unidade biopsíquica dos seres humanos. desinteressantes e inacessíveis portanto aos métodos da análise cultural 1 . nesta perspectiva. Um exemplo clássico desta postura teórica. Walter Cannon e Sigmund Freud podem ser considerados pais fundadores da moderna pesquisa sobre as emoções. É nesta posição que se coloca a psiquiatria transcultural norte-americana de derivação kraepeliniana. é a teoria do “processo evolutivo na 1 Entre os pensadores que inauguraram a concepção científica das emoções Charles Darwin. censurando-os de terem seleccionado artificialmente algumas emoções “purificadas”. têm dominado há muitos anos o campo das pesquisas psicológicas e são representadas de maneira emblemática pelos estudos neuroculturais de Paul Ekman sobre a expressão facial das emoções (Ekman 1980a. A compreensão. 1984) 2 .

às vezes. a teoria de Leff é ainda considerada absolutamente válida 4 . âmbitos de significados articulados logicamente e sem contradições internas. para o que concerne a experiência emocional. encontrei um vocabulário das emoções muito complexo e uma requintada capacidade de comunicar os próprios estados interiores. o prevalecer de um código somático indicaria um nível mais arcaico de expressão e elaboração emocional. Ots 1990. A verbalização emocional típica dos ocidentais – salientam as minhas entrevistas . Os relativistas culturais. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . sistemas de representações relativamente homogéneos. Nas palavras de Leff : “as pessoas de países desenvolvidos apresentam uma bem maior diferenciação de estados emocionais em relação às pessoas que provêm de países em desenvolvimento” (Leff 1973: 305 – tradução minha). depende da dificuldade de encarar e compreender questões sobre as quais se reflecte localmente utilizando categorias muito diversas das nossas. um evidente continuum caracterizaria a evolução do tradicional para o moderno e. O facto que esta modalidade de expressão emocional possa ser interpretada pelo psiquiatras ocidentais como sinal de um arcaísmo do grau de elaboração do próprio vivido interior. ou seja de um processo de atribuição de sentido e valor historica e culturalmente específico. Podemos distinguir na teoria de Leff a presença de um modelo antropológico evolucionista. marcados por confins precisos e imóveis no tempo. afirmam que as emoções derivam da interpretação e da avaliação de um estímulo. enquanto que. 5 No meu trabalho de terreno dedicado ao vivido emocional entre os Bijagós da Ilha de Bubaque (Pussetti 2005).3 elaboração emocional” do psiquiatra cultural Julian Leff (1981: 66). Dirven e Niemeier 1997. variáveis como qualquer outro fenómeno cultural: não faz sentido portanto falar de emoções inatas e universais. ainda que. pelo contrário. que todavia não têm um valor puramente somático. Beneduce 1996. 1979. Se para os 3 4 Veja-se Lilltewood e Lipsedge [1982] 1997. Segundo esta teoria.seria assim expressão de uma maior capacidade de introspecção e de uma melhor gestão do próprio vivido interior. as emoções são consideradas como construções sociais. Vejam-se Bibeau 1978. Desjarlais 1992. idênticas através das culturas e através do tempo. Neste sentido. salvo raras excepções. através de expressões referidas a partes do corpo. A maioria dos antropólogos construcionistas tem assim descrito comportamentos emocionais culturalmente específicos em contextos etnográficos apresentados como terrenos puros e coerentes. típico por exemplo dos africanos 5 . posso afirmar que. de uma modalidade e uma expressão somática (própria das culturas menos desenvolvidas) a um léxico psicológico (próprio das culturas ocidentais). presente ainda hoje nos assuntos e nas práticas das ciências psicológicas ocidentais 3 . Heelas 1996. Na base das minhas entrevistas em hospitais e centros de saúde vários em Itália como em Portugal. Devisch 1990. pelo contrário.

Se pensando as formas de acompanhamento psicológico dos migrantes. 6 Psicólogo e psicanalista. Se a emoção não é independente da cultura. No encontro com os próprios interlocutores. o primeiro ambulatório de etnopsiquiatria em França. Lila Abu-Lughod e Catherine Lutz sustentam que “a emoção é só cultura” (Grima 1992: 6 – tradução minha) e que “longe do ser entidades psicobiológicas internas”. fundou o “Centre Georges Devereux”. na posição construcionista radical podemos colocar a etnopsiquiatria francesa à la Tobie Nathan 6 . Em 1993.4 biologistas a empatia é o instrumento privilegiado de compreensão transcultural – em virtude da comum humanidade -. “estilos culturais”. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . o antropólogo. as emoções são antes “construções socioculturais”. Tobie Nathan criou. para os construcionistas radicais o trabalho de terreno sobre as emoções dos outros acaba paradoxalmente por se tornar uma confirmação da incomensurabilidade da experiência humana. observa Catherine Lutz (1988: 8). examinar a dimensão cultural torna-se um passo fundamental para compreender as dimensões de significado que os modelos biológicos não conseguem colher e explicar. constituída por modelos de experiência adquiridos. só pode desempenhar o papel de “tradutor”. historicamente situados e continuamente modificados pelas experiências diferentes e pelos discursos polivalentes que se encontram em cada indivíduo. 12 – tradução minha). colocamos a psiquiatria transcultural clássica no filão teórico dos biologistas. no Hospital Avicenne. já que não existe um terreno bio-psíquico comum de compreensão humana. “práticas discursivas”. Os filósofos Robert Solomon e Claire Armon-Jones por exemplo afirmam que “a emoção não é um sensação mas é essencialmente uma interpretação” (Solomon 1984: 248 – tradução minha) e que “cada emoção é um produto sociocultural único e irreduzível” (ArmonJones 1986: 37 – tradução minha). em 1979. do mesmo modo as suas perturbações não podem ser consideradas como objectivas e value-free. “performance sociais” culturalmente específicas (Abu-Lughod e Lutz 1990 – tradução minha). Aderindo a esta forma de construcionismo radical muitos cientistas sociais têm produzido afirmações discutíveis. mas é. nas palavras de Beneduce. as antropólogas Benedicte Grima. discípulo do Georges Devereux. centro clínico-académico de investigação e apoio psicológico às famílias imigrantes. Nesta visão. AbuLughod e Lutz chegam até a propor uma concepção das emoções como algo que “pertençe à vida social e não a estados interiores” (Abu-Lughod e Lutz 1990: 2 – tradução minha). sugerindo aos antropólogos de “trabalhar para libertá-las da psicobiologia” (Abu-Lughod e Lutz 1990: 10. antes pelo contrário. mas antes.

por exemplo. portanto. a possessão espírita seria uma perturbação dissociativa mascarada por crenças e práticas religiosas. é definida como “experiência esquizofrénica dissociativa” e considerada. dissimulado pelas prescrições locais. no Diagnóstic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM-IV) da American Psychiatric Association (1994) a possessão zar. baseada no pressuposto da universalidade das emoções. de forma evidente. patologia psiquiátrica. metáforas. portanto. afirmam os etnopsiquiatras italianos Roberto Beneduce (2001) e Salvatore Inglese (2002).5 como “um conjunto de conotações. as abluções rituais dos muçulmanos praticantes uma forma de distúrbio obsessivo-compulsivo. É neste sentido que.nas palavras de Owen Lynch . ligada a temáticas religiosas e a crenças culturais (Ndetei 1988). ou ainda uma forma de controlo sanitário e moral sobre os outros. as interpretações não ocidentais da doença. o xamanismo uma esquizofrenia disfarçada por superstições culturais. então a cultura nesta perspectiva só pode condicionar a interpretação destas mesmas experiências universais através dos óculos opacos das crenças locais. Assim. objectiva e portanto culture-free. estudada já no 1958 pelo antropólogo Michel Leiris que trabalhou entre os Etíopes de Gondar. Esta colonização cultural da psiquiatria estadunidense. Trabalhando como antropóloga na área da saúde mental dos migrantes. parece-me que quer as posições biologizantes quer as radicalmente relativistas acabam para se tornar muito problemáticas. significados.uma forma de imperialismo ocidental sobre as emoções dos outros” (Lynch 1990: 17 – tradução minha). valores e ideologias” (Beneduce 1995: 17 – tradução minha). relações assimétricas de poder. revela. as outras representações da pessoa e dos seus limites. independentemente das maneiras através das quais os homens as avaliam intelectualmente e as vivem somaticamente. Ou que a linguagem da feitiçaria é interpretada num registro exclusivamente psicopatológico como psicose aguda de natureza persecutória com alucinações auditivas e visuais. e em particular sobre as atitudes interpretadas como perturbações do comportamento emocional. as distinções alternativas entre ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . No primeiro caso a tese da universalidade da vivência emocional justifica as pretensões hegemónicas das categorias diagnósticas e dos modelos interpretativos da psiquiatria euroamericana. e a psiquiatria conseguiu identificá-las de forma cientifica. permitindo “instituir . Se as emoções são exactamente as mesmas em cada lugar. Nesta visão.

dissimulando como questões culturais conflitos. o risco de cair em derivas relativísticas: em vez de procurar ou inventar espaços originais de diálogo. de mediação e de confrontação. afirma Fassin. Este uso da noção de cultura – que postula a incomensurabilidade de mundos culturais diversos . etnopsicologias. há questões objectivas. situações que têm também outras raízes. Assim. psicologias indígenas. podem relegar os outros saberes e práticas para a categoria de psicologias folk. realçou os riscos gerados pela reificação do conceito de cultura e por uma culturalização excessiva dos instrumentos e das estratégias metodológicas dos antropólogos e dos psiquiatras que querem indagar as emoções humanas. A este respeito. reproduzindo assim o risco de guetizar os imigrados. reais e universais que só a psiquiatria ocidental conseguiu identificar. Na base das ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .por definição construídas ao redor de presumíveis universais -. As minhas investigações nos serviços de saúde mental específicos para migrantes. de facto. por se tornar um instrumento de ratificação da incomensurabilidade da experiência humana. Em contextos quentes como os das políticas directas aos migrantes. uma das principais revistas psiquiátricas. “primitivas”. psicologias culture-bound. pode assim acontecer que se reproduzam formas de racismo cultural. Neste sentido. assim. cientificas.confina os outros numa “diversidade” fechada em si mesma e autónoma. ou seja. da expressão e da experiência emocional individual. comportamentos. realçam todavia que também as perspectivas construcionistas ou relativistas podem revelar-se muito perigosas e politicamente discriminatórias. que podem ser ligadas a “crenças erradas e superstições mórbidas culturalmente específicas”. a expressão mesma das suas necessidades. as ciências da psique ocidentais . o psiquiatra Andrew Cheng (2001) chegue a afirmar que além da interpretação. os conceitos de cultura e de diferença cultural foram empregues de maneira ambígua. o médico e sociólogo Didier Fassin (2000). Muitas vezes. nos quais elaborar práticas clínicas inovadoras. a perspectiva relativista acaba. Corre-se. intraduzíveis e incompatíveis entre elas. não é de admirar que no British Journal of Psychiatry. considerar as culturas como irredutivelmente distintas. lugares singulares de pesquisa. com inteligência escassa só podem ter um conhecimento limitado dos problemas mentais. propondo-se como as únicas com validade científica.6 “normalidade” e “anomalia” são consideradas como maneiras culturalmente impróprias de interpretar a experiência humana (Fernando 2003). Na sua opinião é evidente que as sociedades “menos desenvolvidas”.

Nathan. em particular. Para descrever a ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Mountain e Koenig 2001. no seu texto principal (L'influence qui guérit 1994). porque. o fantasma da Raça disfarçado de Cultura. continua Nathan. qualquer seja a sua história pessoal. sem considerar as dinâmicas sociais. de facto. delimitada por confins que tornam impossível a compreensão recíproca. antes em Bobigny e depois no Centre Devereux. Fassin.7 minhas experiências de trabalho em três centros de etnopsiquiatria clinica posso também salientar que é precisamente nestes serviços específicos para migrantes que muitas vezes se utilizam noções estereotipadas. ataca abertamente Tobie Nathan – o etnopsiquiatria francês aluno de Devereux que. Na palavras de Fassin esta atitude comporta. fechada. ocultando-o. conceptualmente e metodologicamente difícil compreender a heterogeneidade e a indeterminação interna dos sistemas de representações que os indivíduos utilizam para construir criativamente e estrategicamente a própria identidade e as próprias emoções. A asserção da coerência das estruturas referenciais baseada numa abordagem essencialista da cultura. como um Bambara com um bambara. do género “é necessário fazer o possível para agir como um Soninké com um paciente soninké. Por esta razão. essencializadas e biologizantes de “cultura” e “etnia”. “um Dogon será sempre um Dogon e um Bozo um Bozo” (Nathan 1994: 219 – tradução minha). históricas e políticas mais amplas. que dissocia os cenários locais do sistema mundial assumindo frequentemente posições de relativismo absoluto. e de procurar nesta “cultura” a origem e os remédios dos mal-estares dos outros. postula a reprodução das culturas especificas em guetos fechados em si mesmos e autónomos. torna. Muitos autores realçaram como a frequente sobreposição das noções de biologia e cultura nos programas terapêuticos para migrantes acaba para “naturalizar” as diferenças entre grupos (Lee. as instituições francesas deveriam “favorecer os guetos para nunca constranger uma família a abandonar o seu próprio sistema cultural” (Nathan 1994: 216 – tradução minha). Nathan utiliza afirmações bastante criticáveis. confundindo de facto “cultura” com “raça”. assumindo uma posição rigidamente relativistica. Como na sua visão é a mestiçagem ou o encontro cultural que gera patologias psíquicas. De facto. como um Kabyle com um kabyle” (Nathan 1994: 24 – tradução minha) tendo sempre em conta a identidade étnica dos migrantes. Fernando 2003). constituiu uma das práticas e teorias etnopsiquiátricas mais originais – acusando-o de considerar a “cultura” como uma entidade definida.

sobrepondo-se à obrigação de pôr as traduções como um problema que é preciso enfrentar e não com uma solução tão rápida quanto superficial. memórias. além de culturais) e bem concentrados sobre os indivíduos em si. que o antropólogo. esperanças. As minhas experiências de investigação na área da antropologia das emoções na Guiné Bissau e da saúde mental dos migrantes em Itália como em Portugal. tem que se mexer. constroem a sua experiência interior combinando os códigos fundamentais das multíplices visões do mundo às quais aderem. autoridade e hegemonia. Os antropólogos que se confrontam com migrantes. é necessário imaginar uma abordagem diferente. as suas experiências do mal estar. em particular. os margens. sociais. e em particular com o mal-estar dos migrantes. já não podem assumir que os indivíduos habitam mundos circunscritos de experiências e significados que dão forma às suas respostas emocionais: os indivíduos. políticos e económicos. É neste panorama complexo. O convite é de trabalhar bem conscientes das relações entre conhecimento. que ofereça espaços de autonomia e de liberdade ao indivíduo. híbridos. móvel e mutável. O confronto quotidiano com os migrantes. poder. as próprias emoções e a própria experiência do mundo. encontramos panoramas complexos. conflituais. Os indivíduos e as sociedades do mundo contemporâneo parecem ser sempre mais envolvidos em uma transição permanente: em lugar de horizontes culturais bem definidos. móveis e mutáveis. os paradoxos. emoções.8 complexidade e as mutações da vida social e da experiência individual. rejeitando quer o determinismo psicobiológico quer o sociocultural. com as suas crises existenciais. conflitual. obrigou-me a repensar também o conceito de identidade pessoal e as suas relações com as multíplices ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . as ambiguidades e as incongruências que são partes constitutivas dos sistemas de significado. da multiplicidade dos factores em jogo (sociais. com elementos periféricos marginais que invadiram os seus sistemas de representação. familiares. como o psiquiatra cultural. pelo contrário. ambiguidades. no qual múltiplos discursos coexistentes entram em contradição entre eles e os problemas sociais podem tornar-se sintomas. as suas interpretações. as suas representações. observando com mais atenção os interstícios. realçaram a importância de repensar as minhas ferramentas de trabalho para apreciar melhor a heterogeneidade interna dos sistemas de representação que os indivíduos utilizam para construir o próprio self.

interpretam e transformam continuamente a própria identidade. anomalias. atravessados. conexas a metanarrativas fragmentárias e a sistemas de referência flexíveis (Bibeau 1997: 57). explorados e outras redes sociais percorridas e construídas. Esta abordagem permite de facto reconstruir os percursos de significação individuais e os processos de construção de e de negociação entre as identidades múltiplas das quais todos somos portadores. permite aos meus interlocutores procurar o sentido do próprio percurso. Reconstruir as histórias de vida dos migrantes através das suas narrativas. sociais e económicas que ontem os obrigaram a migrar e hoje os bloqueiam nas margens da sociedade -. muitas vozes falam nos indivíduos. Se cada cultura possui uma alma multíplice. mas também da memória familiar e colectiva. participando de relações nas quais outros grupos e culturas são encontrados. Castillo 1997. instáveis e transitórios (Bibeau 1997: 55. A narração . selfexploration e self-alteration (Reddy 2001: 32). contraditória.não apenas da vida individual. 57 – tradução minha) 7 . na perspectiva metodológica da person-centered ethnography. gerir as ligações contraditórias 7 Muitos autores salientaram a importância de uma abordagem centrada sobre o paciente (entre os outros. revelou-se na minha experiência de investigação um método mais eficaz para compreender como cada indivíduo constrói relações originais com o próprio contexto de origem e com as suas identidades diferentes. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . que se encontra à sua disposição. Hollan 1997). por um lado. a códigos centrais de referência que geram estruturas de representações e cenários pragmáticos que podem ser amplamente caracterizados como móveis. utilizando o conjunto amplo e híbrido de representações ou modelos culturais do self. espaços vazios. Neste processo de auto-narração os indivíduos reconstroem. Outra vez um panorama instável e contraditório com o qual antropólogos e psiquiatras têm que se confrontar: o mundo interior dos indivíduos. William Reddy fala a este respeito de processos de self-making.9 comunidades às quais as pessoas pertencem simultaneamente. assim também em cada indivíduo coexistem sujeitos diferentes: nas palavras de Bibeau. contradições e sobreposições de valores. que fazem de facto referência a esquemas que inevitavelmente produzem quebra-cabeças. do presente como do passado e das mais amplas constrições políticas.

10

com a própria família e a própria terra de origem e estabelecer relações originais entre as próprias identidades, por outro, revela-se como um acesso privilegiado para reconhecer dimensões “ocultas”, estratégias e interesses políticos e económicos, muitas vezes intencionalmente omitidos ou dissimulados na literatura sobre o argumento, mas importantes para compreender o que acontece quando se passa uma fronteira.

Referências Bibliográficas
ABU-LUGHOD, Lila,

e Lutz Catherine, 1990, “Introduction: Emotion, Discourse, and the Politics of Everyday Life”, em Abu-Lughod e Lutz (eds) Language and the Politics of Emotion, Cambridge, Maison des Sciences de l’Homme and Cambridge University Press, pp.1-19. ARMON-JONES, Claire, 1986, “The thesis of constructionism”, em Harré Rom (ed) The social constructionism of emotions, Oxford: Basic Blackwell, pp.32-56

BENEDUCE,

Roberto, 1995, “Figure della morte e depressione nelle culture africane”, em Beneduce Roberto e Collignon René (eds), Il sorriso della volpe. Ideologie della morte, lutto e depressione in Africa, Napoli, Liguori, pp. 7-40.

BENEDUCE, Roberto, 1996, “Mental Disorders and Traditional Healing Systems among the Dogon (Mali, West Africa)”, Transcultural Psychiatric Research Review, 33: 189-220. BENEDUCE,

Roberto, 1998, Frontiere dell’identità e della memoria. Etnopsichiatria e migrazioni in un mondo creolo, Franco Angeli, Milano.

BENEDUCE, Roberto, 2001, “Politiche dell’etnopsichiatria e politiche della cultura”, Il De Martino, Bollettino dell’Istituto Ernesto de Martino, 11: 213-233. BIBEAU,

Gilles, 1978, “L’organisation Ngbandi des noms de maladies”, Antropologie et Societé, 2 (3): 83-116. Gilles, 1979, De la maladie à la guerison. Essai d’analyse systémique de la médecine des Angbandi du Zaire, Thèse doctorale, Université Laval, Quebec.

BIBEAU,

BIBEAU,

Gilles, 1997, “Psichiatria culturale in un mondo in via di creolizzazione: Temi per le future ricerche”, I fogli di Oriss, 7/8: 21-64. Walter Bradford, 1927, “The James-Lange theory of emotion: A critical ewamination and an alternative theory”, American Journal of Psychology, 39: 106-124. Richard, 1997, Culture and mental illness: A client centered approach, Pacific Grove, CA. Brooks Cole.

CANNON,

CASTILLO,

CHENG, Andrew T. A., 2001, “Case definition and culture: are people all the same?”, British Journal of Psychiatry, 179: 1-3.

ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA

11

DARWIN, Charles, 1872, The Expression of the Emotions in Man and Animals, Murray, London; trad. it. 1999, L'espressione delle emozioni nell'uomo e negli animali, Bollati Boringhieri, Torino. DESJARLAIS, Robert, 1992, Body and Emotion. The Aesthetics of Illness and Healing in The Nepal Himalayas, Philadelphia, University of Pennsylvania Press.

1990, “The Human Body as a Vehicle for Emotions among the Yaka of Zaire”, em Jackson M. e Karp I. (eds) 1990, Personhood and Agency. The Experience of Self and Other in African Cultures, Washington, Smithsonian Institution Press, pp. 115-133.
DIRVEN, René, e Niemeier Susanne 1997, The Language of Emotions, Philadelphia, Benjamins Publishing Company, Amsterdam. DSM-IV, 1994, EKMAN,

DEVISCH, René,

Washington, DC: American Psychiatric Association.

Paul, 1980a, “Biological and cultural contributions to body and facial movement in the expression of emotions”, em Rorty A. (ed) 1980, Explaining Emotions, Berkeley: University of California Press, pp.73-101.
EKMAN,

Paul, 1980b, Face of Man: Universal Expression in a New Guinea Village, Garland, New York.
EKMAN,

Paul, 1984, “Expression and the nature of emotions”, in Ekman P. e Scherer K. (eds) Approaches to Emotion, Erlbaum, Hillsdale NJ, pp. 319-344.
FASSIN, Didier, 2000, “Les politiques de l’ethnopsychiatrie. La psyché des colonies africaines aux banlieues parisiennes”, L’Homme, 153, 231-250. FERNANDO, Suman, 2003, Cultural Diversity, Mental Health and Psychiatry. The Struggle Against Racism, Hove and New York, Brunner-Routledge. FREUD,

Sigmund, e Breuer Josef, 1895, Studien über Hysterie. Deuticke, Leipzig and Vienna

GRIMA, Benedicte, 1992, The performance of emotion among Paxtun women: “The misfortunes which have befallen me”, University of Texas Press, Austin. HEELAS,

Paul, 1996, “Emotion Talk across Cultures”, em Harré R. e Parrott W.G. (eds) The Emotions. Social, Cultural and Biological Dimensions, London, Thousand Oaks and New Delh, SAGE Publicationsi, pp. 171-199.

HOLLAN, David, 2001, “Developments in Person-Centered Ethnography”, em H. Mathews and C. Moore (eds) The Psychology of Cultural Experience. New York: Cambridge University Press. HOLLAN, David, 1997, “The Relevance of Person-centered Ethnography to Cross-cultural Psychiatry”, Transcultural Psychiatry, 34(2): 219-234. HOLLAN, David, e Levy Robert 1998, “Person-Centered Interviewing and Observation in Anthropology”, em Bernard H. R.. (ed) Handbook of Methods in Cultural Anthropology. Walnut Creek, CA: Altamira Press.

ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA

12

INGLESE,

Salvatore, 2002, “Etnopsichiatria in terra ostile: appunti di metodologia della psicoterapia culturalmente orientata”, Pol.it The Italian on line psychiatric magazine, www.polit.org.
JAMES,

William, 1884, “What is an emotion?”, Mind 9: 188-205.

LEE, Sandra Soo-Jin, Mountain Joanna e Koenig Barbara 2001, “The Meanings of "Race" in the New Genomics: Implications for Health Disparities Research”, Yale Journal of Health Policy, Law e Ethics 1: 33-75. LEFF, Julian,

1973, “Culture and the differentiation of emotional states”, British Journal of Psychiatry 123: 299-306. 1981, Psychiatry around the Globe. A Transcultural View. New York: Marcel

LEFF, Julian,

Dekker. Michel, 1958, La possessione et ses aspects théâtraux chez les Ethipiens de Gondar, Plon, Paris; ed. it. La possessione e i suoi aspetti teatrali tra gli Etiopi di Gondar, 1988, Ubu Libri, Milano.
LITTLEWOOD, LEIRIS,

Roland, e Lipsedge Maurice [1982] 1997, Aliens and Alienists. Ethnic minorities and psychiatry, Hove and New York, Brunner-Routledge.

LUTZ, Catherine, 1988, Unnatural Emotions; Everyday Sentiments on a Micronesian Atoll and their Challenge to Western Theory, University of Chicago Press, Chicago. LYNCH,

Owen, 1990, “The Social Construction of Emotion in India”, em Lynch Owen (ed) Divine Passions. The Social Construction of Emotion in India. Oxford: University of California Press, pp. 3-34. L'influence qui guérit, Paris, Editions Odile Jacob.

NATHAN, Tobie, 1994, NDETEI,

David, 1988, “Psychiatric phenomenology across countries: constitutional, cultural, or environmental?”, Acta Psychiatrica Scandinavica Supplementum, 344: 33-44.

OTS,

Thomas, 1990, “The angry liver, the anxious heart and the melancholy spleen”, Culture, Medicine and Psychiatry, 14: 21-58.

Chiara, 2005, Poetica delle emozioni. I Bijagó di Bubaque (Guinea Bissau), Roma, Bari, Edizioni Laterza.
REDDY, M.

PUSSETTI,

William, 2001, The Navigation of Feeling. A Framework for the History of Emotions, Cambridge, Cambridge University Press.

Robert, 1984, “Getting angry: the Jamesian theory of emotion in anthropology” em Shweder R. and LeVine R. (eds.), Culture theory: Essays on Mind, Self, and Emotion. New York: Cambridge University Press, pp. 238-254.

SOLOMON, C.

ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA

Antigas afinidades na construção da diferença na diáspora: emigração e o resgate da herança cripto-judaica transmontana 1

Elsa Lechner CEAS, ISCTE elsa.lechner@iscte.pt

Trás-os-Montes é considerada uma região clássica de judeus convertidos, onde, ainda hoje, se encontra viva a memória dessa herança histórica perdida. Entre emigrantes transmontanos em França no final dos anos noventa, a identidade secreta dos judeus convertidos parece ter encontrado um contexto favorável de publicização que ganha reconhecimento crescente. Analisando a alteridade particular existente entre “judeus” e “lavradores” transmontanos, bem como a posição de Outro que os “judeus” ocupam nas comunidades a que pertencem, este texto identifica os factores distintivos das duas categorias sociais que separam uns transmontanos de outros. Visa-se assim compreender a reivindicação de uma origem judaica e os movimentos de resgate de uma identidade de descendente de judeus convertidos.

Palavras-chave: diferença.

Identidade,

migração,

memória,

alteridade,

Entre emigrantes transmontanos em Paris contactados no final dos anos noventa no âmbito de uma pesquisa sobre reconstrução da identidade em situação de emigração 2 , constatámos a presença de uma distinção, nas narrativas de alguns entrevistados, entre transmontanos “judeus” e transmontanos lavradores ou cristãos velhos. O tema dos judeus convertidos apareceu nas entrevistas como um discurso calado mantendo em silêncio, ao longo das gerações, uma distinção identitária pronta a revelar-se no contexto migratório. Comecemos com uma vinheta etnográfica retirada de uma das nossas entrevistas neste terreno:
Quando o barbeiro da minha aldeia morreu, ficámos todos espantados em ver que na sua campa no cemitério, a mulher e
Partes deste texto foram publicadas no artigo “Memória das origens e identidade social. Análise a partir de um caso português” in Encontro de Saberes, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa 2006, pp. 67-83. 2 Tese de Doutoramento defendida pela autora na EHESS, Paris 2003.
1

ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA

2

as filhas puseram uma estrela de David em vez da cruz de Cristo. Eu não sabia que eles eram judeus… na minha altura não se falava no assunto…pronto, sabíamos que havia judeus em Trás-os-Montes mas não se falava nisso. Foi aqui em França que descobri muita coisa e segundo o meu primo nós também somos da raça dos judeus. (empresário transmontano em Paris, 1998).

Este excerto de conversa ilustra um facto recorrente entre alguns transmontanos que se dizem judeus por referência a uma “memória das origens” de antepassados convertidos à força ao catolicismo. Refugiados desde os finais do século XVI nas montanhas do nordeste português, estes “judeus” não estão organizados numa comunidade voluntária com um projecto étnico, nem têm uma cultura judaica consolidada. No entanto, e apesar das contingências adversas da história, muitos guardam vestígios e memórias de uma pertença presumidamente judaica que acompanha uma condição de alteridade e diferença nas comunidades a que pertencem. Esta, manifesta-se tanto nas formas de nomeação destes descendentes de convertidos, como na sua posição social, e também num sentimento de si que suscita movimentos de resgate da sua história colectiva e herança identitária. Mais do que “judeus secretos” de Trás-os-Montes”, estes descendentes de cristãos-novos são os guardiães de vestígios históricos herdados em silêncio e a expressão social de uma alteridade que remete os seus protagonistas para uma condição de Outro no seio da comunidade local. A herança do segredo confere-lhes uma consciência de grupo distintiva no meio social em que se inserem, e hoje suscita processos de construção ou reinvenção da identidade que conduzem à tentativa de recuperar sentidos históricos longínquos. Este processo de atribuição de sentido a uma herança perdida origina um diálogo entre identidade e memória exercido em contextos existenciais e políticos concretos que consubstanciam a identidade social dos “judeus” transmontanos.

Alteridade e diferença: nomes, pessoas e “animais analógicos”

Considerada pelos especialistas da história da Península Ibérica como uma região clássica de assentamento de “marranos” (Révah 1959), Trás-os-Montes é actualmente, do ponto de vista etnográfico, ainda o reduto de um passado histórico

ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA

3

marcado pela presença de judeus refugiados de Espanha após o édito de expulsão de 1492, pelos reis Fernando e Isabel de Castela. Entre um sentido mais erudito e propriamente historiográfico da presença de judeus convertidos no território transmontano, e o significado antropológico da persistência de uma diferenciação de um grupo reportado a uma origem étnica judaica, os diversos termos utilizados para designar os “judeus” transmontanos, traduzem nuances conceptuais relevantes para a análise percorrida aqui. O termo marrano confunde-se com a raiz antropológica da identidade dos judeus convertidos e remete-os para uma condição de alteridade particular. Segundo o estudo clássico de Arturo Farinelli (1925), encontra-se no vocabulário espanhol de quinhentos e corresponde a um termo ofensivo (significando porco, em português) adaptado para denegrir, na época, os cristãos-novos de Espanha e de Portugal. O seu significado de origem parece não se referir à relutância dos judeus em comer carne de porco, mas antes exprimir um sentimento de desprezo com que é conotada aquela palavra também noutras várias línguas. 3 O significado que adquiriu posteriormente configura a adaptação a um contexto histórico que se tornou hostil à presença judaica na Península Ibérica. Forçados a converterem-se à religião católica desde que a Inquisição foi instituída em 1536, muitos judeus foram acusados de práticas de um judaísmo secreto. Vários autores utilizam a expressão “cripto-judeu” para designar membros de comunidades rurais portuguesas nas quais foram identificadas práticas de um judaísmo sujeito a forte erosão pela história de conversão dos seus antepassados. 4 Em Trás-os-Montes, e mais especificamente no Distrito de Bragança, os descendentes de judeus convertidos são apelidados de perro (cão, em português), ilustrando um facto antropológico identificado por Edmund Leach (1964) segundo o qual o uso recorrente de nomes de animais como injúria, cumpre uma função social de imposição de distância entre pessoas próximas. Claude Lévi-Strauss já havia pensado na utilização de nomes de animais entre os humanos, referindo que “… aos cães não damos um nome humano sem provocar um sentimento de mal estar, ou mesmo de pequeno escândalo […] Como animais “domésticos”, eles fazem parte da sociedade humana, mas ocupando uma posição tão baixa que não sonharíamos, seguindo o exemplo de
3 4

Encyclopaedia Judaica, entrada « Marrano », Vol. 11, Jerusalém, p. 1018. Ver nomeadamente, Samuel Schwarz Os Cristãos Novos em Portugal no Século XX, Instituto de Sociologia e Etnologia das Religiões, Universidade Nova de Lisboa, 2000 [1925].

ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA

4

alguns australianos e ameríndios, em chamá-los como se fossem humanos (…)” 5 (LéviStrauss 1962: 272). Nas aldeias e vilas do concelho de Vimioso, distrito de Bragança, onde coexistem estes dois grupos, mantém-se até hoje o distintivo de “terras de judeus”, aplicado quando se trata de espaços onde se concentraram ao longo do tempo grupos dedicados ao comércio e à indústria artesanal de curtumes (as pelicarias). Na descrição dos próprios sobre as especificidades destes ditos “judeus”, relatam-se as suas viagens pelos montes, montados numa mula, vendendo produtos alimentares e bens essenciais que os lavradores não produziam. Os homens perros eram também artesãos, sapateiros, latoeiros, carpinteiros ou alfaiates, enquanto as mulheres trabalhavam como tecedeiras. Em geral eram letrados e escolarizavam os filhos, ao contrário dos lavradores mais necessitados da mão-de-obra dos seus descendentes nos campos. No final dos anos 90 do século XX, observava-se ainda uma compartimentação no espaço físico da aldeia de Carção, com os comerciantes instalados no centro, na praça, perto da fonte e da rua principal, e os lavradores sobretudo na periferia do burgo, perto dos campos que cultivavam. A organização urbana e a economia política locais exprimem assim uma alteridade em que se foram reproduzindo e perpetuando as posições ocupadas pelos dois grupos de oficiais e lavradores economicamente interdependentes. A par desta estratificação sócio-económica, a população local refere estereótipos físicos e comportamentais que contribuem para reforçar a divisão criada. Os dois grupos auto-distinguem-se atribuindo-se características fenotípicas específicas, sendo a aparência física dos “judeus” associada a cabelos ruivos, pele sardenta e olhos claros. Este estereótipo coincide com a imagem clássica do “judeu vermelho”ou “judeuruivo”, analisada na tradição cristã europeia por Claudine Fabre-Vassas (1994). Eles são o Outro mais diferente dos outros, ou seja uma figura de alteridade extrema, remetida para um limiar de aceitação na fronteira com o animal. Assim, tal como o termo perro constitui uma rejeição linguística daquele que é designado literalmente de “cão espanhol”, o estereótipo físico do “judeu ruivo” traduz a condição de Outro, próximo do animal, a que a tradição cristã sempre tendeu a remeter os judeus. Esta iconografia

5

« Comme animaux domestiques, ils font partie de la société humaine, tout en y occupant une place si humble que nous ne songerions pas, suivant l’exemple de certains Australiens et Amérindiens, à les appeler comme des humains… »

ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA

5

surgiu na Europa medieval expandindo-se numa imagética popular e médica que diagnosticava um laço “de natureza” entre “a raça maldita” e o animal porco. Nos dados etnográficos recolhidos junto de transmontanos, encontra-se este saber estereotipado sobre si próprios utilizado como forma de afirmação identitária e de demarcação. Mas esta não corresponde a uma cultura judaica, fazendo com que o que caracteriza a diferença destes ditos “judeus” é a referência às origens étnicas herdada ao longo das gerações em silêncio. Ou seja, a insistência na demarcação identitária participa aqui do carácter do segredo, que é um saber à parte, de que as novas gerações são depositárias sem conhecer os respectivos conteúdos culturais. O que os interlocutores entrevistados no terreno dizem sobre si é um saber marcado pela dispersão e pela fragmentação de referências ao judaísmo dos seus antepassados. A maior parte fala da sua cultura de converso na terceira pessoa do plural “eles”, para depois dizer, em tom de aceitação ou revelação que “nós também somos judeus” (Lechner 2002). Os mais idosos relatam costumes dos membros “da família de Moisés” como os bradórios ou velórios de quatro e cinco dias consecutivos, em que se acendiam velas em torno do morto, se faziam rezas próprias e se colocavam pedaços de pão sobre os cantos das mesas. Tudo era feito às escondidas dos vizinhos, na mesma lógica de segredo que deu origem à bola tosca e às alheiras transmontanas. O isolamento das montanhas transmontanas, permitiu aos judeus convertidos conservar e transmitir estes vestígios de um passado escondido que reaparece através de rastos e fragmentos etnográficos quase crípticos. Mas a herança do segredo histórico como factor constitutivo de uma identidade social de “judeu”, suscita ainda processos de reconstrução da identidade em forma de identificações com parentescos intelectuais, espirituais, e com novos laços de casamento ou de amizade, para os quais a emigração contribui de forma decisiva. De forma consciente ou inconsciente as novas gerações criam as condições de possibilidade de reconstituição e publicitação deste aspecto importante da cultura transmontana e portuguesa. À semelhança do que mostra Frédéric Brenner no seu documentário “Les Derniers Marranes” realizado em Belmonte em 1990, o que resta desta memória identitária é o segredo histórico transformado em práticas residuais que persistem em segregar o grupo da comunidade. Este efeito de segregação não resulta do facto de se ter tratado de práticas judaicas ou “judaizantes”, num passado longínquo, mas sim da

ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA

nestes territórios. ou entre transmontanos da diáspora. a afirmação de uma identidade assenta em identificações continuadas que. herdaram da sua perda histórica O que se encontra hoje no distrito de Bragança. também ela dinâmica. apenas recuperável na pesquisa historiográfica e/ou num trabalho de arqueologia identitária. a percepção e a memória conservam uma função ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . “do passado já não me lembro e o futuro já passou”. Origens e identidade social: vestígios e memórias de uma pertença Qualquer identidade é necessariamente construída por referência a uma alteridade. são vestígios e memórias de uma pertença identitária reinventada de forma pontual a partir de fontes dispersas. relatou de forma evasiva os costumes da sua herança afirmando. De um ponto de vista antropológico. que a emigração potencia. diferentes tipos de identidade ressaltam tipos distintos de diferenças e de diferenciações entre o Eu e o Outro. que havia frequentado a Sinagoga inaugurada nos anos 1930 pelo Capitão Barros Basto (“O Apóstolo dos Marranos”) e que havia convivido de perto com o rabino. de forma evidente. como em Trás-os-Montes. Mas mesmo quando registadas pela negativa. sublinha o facto de que a memória histórica é aqui quase fantasmagórica. culturais e políticos específicos. Em função de contextos históricos. Neste caso é a obliteração identitária que é incorporada como traço distintivo dos auto-denominados “judeus de Trás-os-Montes” como ilustra um episódio ocorrido durante o meu trabalho de campo em Bragança onde um entrevistado que me havia sido apresentado como sendo “a pessoa” que conhecia as ladainhas marranas. que na realidade se perdeu para a maioria do grupo. ao mesmo tempo. mais do que de um saber à parte. A sugestão deste transmontano de que o futuro da sua cultura está comprometido. se encontram obliteradas no caso dos descendentes de marranos de Trás-os-Montes enquanto “judeus”. As formas sociais e os conteúdos culturais que determinam identidades humanas são complexas e radicam na dimensão temporal. Trata-se de uma marca de seres à parte. Essa a razão pela qual uma reconversão ao judaísmo não é sequer procurada ou desejava pelos que.6 persistência das manifestações de um segredo herdado que funciona como marca identitária. a diferenças categorizadas.

ou a comunidade de emigrantes transmontanos da região de Paris. em função dos interesses de quem detém algum poder de publicitação: intelectuais. É importante. aqui ressalvar a diferença entre a auto-referência destes transmontanos à origem étnica como fundadora da sua identidade. porém. É importante notar que a imaterialidade da herança dos descendentes de judeus convertidos não é desobjectivada e não deixa de fazer parte da construção identitária dos seus depositários. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . políticos. Esta faz-se de forma personalizada e potencialmente politizada. artistas. que as vozes singulares (ou com ressonância plural) estão impedidas de agir socialmente e de ter consequências práticas na construção da memória no presente. jornalistas. podemos apoiar-nos na definição proposta por Max Weber (1956). É justamente a falta de referenciais tangíveis. torna-se relevante para que a questão das origens possa ser considerada decisiva na definição da respectiva identidade. personalidades carismáticas. O comentário em voz off da herança de um passado enterrado no tempo transforma os testemunhos privados de muitos transmontanos numa reapropriação articulada da história que permite a transmissão lúcida no seio da comunidade. segundo a qual a identidade étnica se baseia na crença numa origem comum. onde outros se descobrem ou reinventam “descendentes de judeus convertidos”. no seio da própria comunidade a que se pertence. ou de ser o Outro. Rejeitando uma visão essencialista da etnicidade. a intelligentsia bragançana onde muitos se dizem algo “judeus”. Esta última podendo ser a pequena aldeia transmontana de peliqueiros onde o “judeu” é o perro. torna-se pois necessário compreender o sentido desta persistência de uma reivindicação codificada por referência a uma herança histórica perdida. O facto de um importante número de transmontanos assumir uma identidade social a partir da crença numa origem étnica judaica. e um entendimento da etnicidade como categoria de definição identitária impermeável ao tempo e à história.7 identitária que não pode deixar de ser tomada em conta num estudo antropológico. a par da ausência de uma transmissão transgeracional articulada e continuada. Não é porque os contextos de vivência das pessoas possam ser surdos ou impermeáveis à experiência privada. Se o que resta aos descendentes de judeus convertidos de Trás-os-Montes é o rasto de uma pertença étnica judaica que se mantém todavia presente na definição da sua identidade social. que define esta forma particular de ser “judeu”.

Nomeadamente em Carção e Argoselo. as estratégias de preservação da diferença assentaram em acordos tácitos reproduzidos ao longo das gerações. bem como os efeitos da implementação da democracia em Portugal. por referência a uma origem absolutamente identificada nos judeus vindos de Espanha depois de 1492. Os casamentos mistos apenas surgiram com as transformações sociais resultantes da emigração. Este passou a ser palco de uma crescente autonomização das consciências individuais e de uma ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . é de notar também que o impacto cultural e económico da emigração. passou-se para um domínio público de visibilidade de uma herança colectiva. então. estes escultores do presente. muitas vezes isolado. oferecendo à análise uma categoria que na realidade encobre o que realmente os define como “judeus” e que assenta num complexo jogo cruzado entre identidades históricas e interesses sociais e pessoais. Mas a este propósito. interrogam-se sobre a descontinuidade que os habita tornando-se assim agentes activos do seu ser no mundo. de reconstrução da identidade. coincidiram com a emergência de discursos públicos regionais. Do espaço privado das memórias familiares. O presente da memória: tecer os laços desfeitos O longo movimento histórico que se iniciou com as descobertas do século XVI. contemporâneas da expulsão dos judeus de Espanha. os perros dizem ser “da raça dos judeus”. em que alguns se lançam ao trabalho de tecer os laços desfeitos do passado.8 Em Trás-os-Montes. a questão das origens para o domínio daquilo a que chamamos “memórias de uma pertença”. com a preocupação de se tornarem “eles mesmos” num projecto. dando voz à herança histórica marrana. O deficit de capital cultural judaico destes judeus baptizados e convertidos ao catolicismo remete. a vivência de um luto. Os mesmos 500 anos que separaram os judeus convertidos da tradição dos seus antepassados. produziu no Ocidente uma nova maneira de conceber e de pensar a identidade humana. e mesmo nacionais. Movidos por uma consciência agudizada em contextos de ruptura biográfica como a emigração. desembocaram numa modernidade que estabeleceu o princípio da subjectividade como estrutura da relação dos sujeitos com o mundo e consigo próprios (Giddens 1991). ou crise existencial.

Num movimento de retorno ao passado e ao mesmo tempo de descoberta de si. e a experiência generalizada de ruptura com tradições. É nesta dimensão subjectiva da reinvenção de si. As fronteiras da identidade e da memória definem uma dimensão quase “natural” dos contextos de pertença dos indivíduos. À procura de um sentimento de si enraizado numa história familiar herdada com falhas. Não conta para os descendentes de judeus convertidos de Trás-osMontes o facto de não se constituírem como uma comunidade voluntária assente numa cultura específica. como o site www. bem como congressos anuais onde procuram construir o presente. na emigração e em Trás-os-Montes. organizam viagens a Portugal e a Espanha. é em função dos novos contextos multi-referenciais dos nossos dias que a identidade dos descendentes de judeus convertidos se define. Neste contexto. que reaproxime as distâncias criadas. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .org criado por uma descendente de portugueses cristãos-novos emigrados na África do Sul. Sob 6 7 Acto de simbolização subjectiva. com vista a garantir o futuro da sua família simbólica. Também desde os anos 1990 se observa o surgir de associações internacionais de estudos cripto-judaicos. que caracterizam os grandes desafios actuais das identidades juntamente com a crioulização global das humanidades contemporâneas (Glissant 1996). e de história do judaísmo na Península Ibérica. de tal modo que. em situações de ruptura como a conversão religiosa do passado ou a imigração dos nossos dias. e porque a identidade é uma relação processual e não uma coisa em si ou uma qualidade fixa de alguém ou de um grupo. A persistência da sua crença numa pertença étnica judaica contrasta com a descontinuidade entre uma presumida origem “natural” judaica e uma cultura cristã imposta pela história. que o sentimento de pertença identitária se consubstancia.saudades. muitos se reúnem em fóruns electrónicos de encontro e partilha de experiências. No sentido de “consciência incorporada” de um corpo-sujeito.9 secularização da vida humana incorporando a aceleração de criação de novidades no quotidiano. Estes são espaços tanto virtuais como reais de estudo e troca de informações entre pessoas que se identificam com a problemática da reconstrução de uma identidade de descendentes de judeus convertidos. ou da criação de uma identidade edificada pela palavra – no sentido lacaniano de parole 6 – e pelo gesto – como sugeriu Merleau-Ponty 7 –. se torne necessário todo um trabalho de reelaboração.

pp. pp. FABRE-VASSAS. Introduction à une poétique du divers. Encyclopaedia Judaica. Phénoménologie de la Perception. pp. PINA CABRA. Gris. GLISSANT Edouart. Écrits. Plon. Instituto de Sociologia e Etnologia das Religiões. Paris. FARINELLI. Jacques. 1989. Macau. Paris. Elsa. La Bête Singulière: les juifs. LEACH. 1925. Universidade Nova de Lisboa. 1966. 1994. Cambridge. 1993. a descontinuidade que atinge os “órfãos de cultura própria”. LECHNER.Os Cristãos Novos em Portugal no Século XX. GIDDENS. Samuel. SCHWARZ. Le Seuil. La Pensée Sauvage. Paris.9. Num outro tempo. “Fonction et champ de la parole et du langage”. RÉVAH. 11. não deixa indiferente quem assim descobre poder ser o autor de si mesmo e nascer para uma condição humana que ultrapasse o acidente biológico. 1980 [1964]. The University of Chicago Press. 1962. Marrano : storia di un vituperio. LACAN. Les Gardiens du Secret. pode-se “retornar a casa”. « Les Marranes ». Sigila. Gallimard. Em Terra de Tufões: dinâmicas da etnicidade macaense. 321361. Lisboa. Firenze. Paris. L’unité de l’homme et autres essais. Max. 29-77. les chrétiens et le cochon. Modernity and Self-Identity: self and society in the late modern age. João e Nelson Lourenço.10 o risco de uma condição humana “descosida” de si. Paris. Jerusalém. 1958. Instituto Cultural de Macau. Paris. Anthony. Claudine. Gallimard. 2002. 1018. Edmund. « Pleins Silences ». Gallimard. Economie et société. LÉVI-STRAUSS. Maurice. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . 17-27. 1945. Claude. Paris. Vol. Os Contextos da Antropologia. Paris. Revue des Etudes Juives. mesmo que esta última seja uma ruína e o retorno uma viagem. p. Plon. Referências Bibliográficas ARENDT. João. TheHuman Condition. 1996. Paris. Isaac. 2000 [1925]. WEBER. Polity Press. PINA CABRAL. 1959. vol. 1925. Difel. entrada « Marrano ». num outro lugar. MERLEAU-PONTY. CXVIII/1. Arturo. Hanna. Gallimard. 1956 [1971]. 1992.

Palavras-chave: integração.es Nesta comunicação aproximar-nos-emos. imigração. Muito bom dia. venho referir hipóteses num momento concreto da investigação. Vol. antes de começar gostaria de agradecer à Associação Portuguesa de Antropologia e principalmente à Prof. históricos e religiosos que funcionariam como factores de integração. ∗ Esta conferência integra-se numa investigação em curso no âmbito da pesquisa de doutoramento em realização na Universidad Autónoma de Madrid financiada pela Fundação para a Ciência. levou a que diferentes investigadores chamassem a atenção. ao fenómeno da imigração marroquina em Portugal. Nina Clara Tiesler pela possibilidade de participar neste Congresso. Tentaremos compreender se. de forma muito sucinta. Assim. O interesse pela investigação do fenómeno da imigração marroquina para Portugal surge pela possibilidade de completar o quadro visual sobre Uma versão desenvolvida desta conferência poderá encontrar-se na revista Lusotopie (Brill). religião e comunidade”. num momento de saturação dos países que tradicionalmente recebem imigrantes marroquinos. “Islam en lusophonie” (2007) com o título “Marroquinos em Portugal: imigração. ° ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Portugal pode constituir uma alternativa considerando alguns elementos sociais. A análise dos resultados da regularização extraordinária de imigrantes realizada em Portugal no ano de 1996.Participação marroquina na construção da comunidade muçulmana em Portugal ° Rita Gomes Faria Universidad Autónoma de Madrid ∗ rita.gomesfaria@uam. mais que constatar dados. ainda que subtilmente. XIV (1). religião. comunidade. O trabalho que hoje apresento integra-se numa investigação em curso sobre a integração de Portugal na rede transnacional de imigração marroquina e sobre a permeabilidade da fronteira luso-espanhola por parte destes sujeitos migrantes. Tecnologia e Ensino Superior (Portugal). marroquinos. para a aparição inesperada de regularizados de nacionalidade marroquina.

ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Pela existência de uma relevante bolsa de imigrantes marroquinos irregulares que não se encontram contabilizados pelas instituições oficiais. dos quais 778 estão contabilizados pelo Serviço de Estrangeiros e Fronteiras português como detentores de uma autorização de residência e os restantes de autorizações de permanência. também Portugal parecia ser a alternativa lógica a uma certa saturação do mercado espanhol 1 . mas também pelo facto de Portugal não constituir um destino final do processo migratório. No relatório sobre as migrações mediterrâneas publicado pela Comissão Europeia (Fargues 2005).2 imigração marroquina na Europa mas também. Espanha. por nos parecer que Portugal poderia ser a sequência directa da evolução do fenómeno – tal como Espanha e Itália vão estabelecer-se como destinos para estes migrantes no momento em que países como a França. mas as regularizações extraordinárias dos anos 90 apontam para um fenómeno que posteriormente se confirmou com o processo de pedidos de autorizações de permanência do ano 2001: por um lado a nova presença massiva em Portugal de cidadãos oriundos de países do Leste da Europa. em Portugal a questão da imigração marroquina constitui uma novidade. principalmente de Marrocos. os imigrantes que tradicionalmente se dirigem para Portugal são originários dos chamados PALOP e do Brasil. o acesso a um documento oficial que lhes permita uma residência legal em Portugal (inclusive para aqueles que esperaram os dez anos necessários para receber a 1 A única investigação até agora realizada sobre o tema encontra-se publicada: CABRAL 2003. observando desde a perspectiva espanhola. Discutindo a questão com alguns dos informantes desta investigação eles próprios se negam a acreditar na sua validade. a população marroquina seja uma das mais importantes dentro da comunidade imigrante. Bélgica e a Alemanha fecham as suas fronteiras à imigração. e por outro a aparição e crescimento (constante mas discreto) de pessoas provenientes do norte de África. Marroquinos em Portugal Ainda que se encontre relativamente perto de Marrocos e que no seu principal país vizinho. Como sabemos. Holanda. Segundo os próprios sujeitos. o Ministère des Affaires Étrangères et de la Coopération marroquina contabiliza 2866 marroquinos a viver em Portugal.

O fenómeno entra numa segunda fase. pais onde a maioria tem família já instalada. e para Espanha e Itália que demonstram ser regiões nas quais era possível (principalmente devido à inexistência de uma legislação relativa aos movimentos de imigração) a permanência daqueles que não conseguiram passar as fronteiras do norte ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .de recepção de imigrantes muito limitada).de recursos e de interesse político . Holanda. Os países do norte e centro da Europa mantêm um único canal de imigração aberto através do reagrupamento familiar (primário e secundário) o que provoca por um lado uma estabilização das populações. Por essa altura dirigiam-se a países do Médio Oriente e da África ocidental. e principalmente a partir do boom económico do pós-II Guerra Mundial. Alemanha. Os primeiros marroquinos que chegam à Europa são comerciantes que se instalam em França e em Inglaterra pela metade do século XIX. e por outro o aumento das entradas irregulares.3 nacionalidade) permite-lhes atingir o seu objectivo final que é a “verdadeira Europa” – França. atrás dos seus empregadores. Marrocos vive um momento de explosão demográfica o que acentua um certo desequilíbrio entre a população e os recursos naturais e económicos do país. Os anos 70 do século XX assistem à grave crise de petróleo que provoca o fecho das fronteiras europeias e o inicio da chamada “imigração zero”. de assentamento e de diversificação de destinos. B) durante a mesma época. A imigração marroquina na Europa Os movimentos migratórios marroquinos remontam a épocas anteriores ao período colonial. Já no século XX. que vão abrir os primeiros canais de imigração (pendular) massivos. C) mas as principais saídas são provocadas pela assinatura dos primeiros acordos de mão de obra entre países como a França. Como alternativa os trabalhadores marroquinos dirigem-se então para países como a Líbia e a Arábia Saudita (com uma capacidade . o que levou ao seguimento dos trabalhadores rifenhos para o território francês. a Alemanha. a Holanda e a Bélgica. vários são os acontecimentos (simultâneos) que “empurram” os nacionais marroquinos para os países europeus: A) a guerra de independência argelina provocou o regresso a França das empresas instaladas na região norte da Argélia.

Público. página 24. Ver TEIM 1996. D) e por último a forma como os últimos governos portugueses têm tentado recuperar estas distintas tradições para a construção de um papel de mediador politico entre a Europa e o mundo árabe. “Acordos com Marrocos”. Ver também o jornal Público nos dias posteriores aos atentados de Madrid de 10 de Março de 2004. como David Lopes (responsável pela institucionalização do arabismo em Portugal) No caso espanhol os primeiros assentamentos de marroquinos realizam-se na Catalunha. O potencial integrador Por outro lado. Cardeira da Silva recorda numa publicação recente (Cardeira da Silva 2005). B) a tradição do arabismo português que procura aproximar-se da academia europeia orientalizando parte do próprio território português. A imigração foi muito utilizada pelo PP como instrumento n luta económica e politica com o governo do Reino de Marrocos em debates sobre distintas temas. 2 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . como por exemplo a pesca. página 9. 4 Ver por exemplo Público. Nestes anos 70 e 80 Portugal ainda não era considerado um destino mas a crescente politização e mediatização (além do tratamento negativista do tema que os media espanhóis estão a desenvolver e da preferência pela imigração originária da América do sul e de países do leste europeu) da questão migratória que verificamos a partir dos anos 90 em Espanha 3 . 1994. “Portugal e Marrocos inauguram cimeira anual” edição de 30-05-1994. levou-nos a pensar que Portugal poderia ser o próximo passo. inicialmente que Portugal poderia (potencialmente) como um destino alternativo baseando-nos em alguns supostos que poderiam funcionar como meios de integração positiva dos marroquinos por parte dos portugueses: A) uma certa construção da identidade nacional baseada na capacidade de adaptação ao outro resultante da experiência histórica do contacto cultural (na boa tradição do luso-tropicalismo). 1993. “MAI de Marrocos em Lisboa” edição de 17-05-1997. tendo o governo marroquino como interlocutor do outro lado do mediterrâneo 4 . também. 1997. Público.4 economicamente mais vantajoso (Teim 1996) 2 . formam-se claramente por indivíduos que não ultrapassaram a fronteira com França e que ficaram a trabalhar na Catalunha (que no final dos anos 70 indicava um aumento da industrialização e que por isso agradecia estes novos trabalhadores). página 2-3. 3 Visível principalmente durante o governo do Partido Popular que assumiu a luta contra a imigração irregular como um dos seus principais papéis ante a União Europeia e para tal a imagem da patera como metáfora dessa irregularidade. consideramos. C) a recuperação da presença “árabe” no território e identidade portugueses através da redignificação dos espaços arqueológicos do Al-Andalus. edição de 26-01-1993.

Até que ponto esta recuperação da essência árabe na identidade nacional leva a uma real facilidade de integração dos árabes (marroquinos) contemporâneos que escolhem este pais para residir? O contexto de integração Os imigrantes marroquinos que se encontram em Portugal enquadram-se perfeitamente como sujeitos do que Tiesler (2005) chamou a pós-descolonização. Castro Marim. num multiculturalismo tolerante que ascende à idade média) permite. Castro Verde. uma nova fase de imigração caracterizada por novos padrões de imigração independentes do passado colonial. Mértola abriu caminho para que as regiões norte e sul do país se apercebessem das vantagens da reabilitação de material arqueológico sempre sustentado por uma promoção turística do mesmo através da escenificaçao da vida quotidiana em feiras e mercados da época do Al-Andalus. E a nível nacional diversos governos portugueses.5 definiu o Portugal histórico através de três dimensões “paranacionais”: a presença dos árabes na Península. associam a redignificação da imagem dos árabes na história e identidade nacionais servindo por um lado uma folclorizaçao e reinvenção da memória. Cacela Velha. Lagos e Sintra. exteriores ao mundo lusófono e integrados em trajectórias migratórias globalizadas. procuraram personificar o papel do mediador de conflitos. Aí se encontra o stock identitário tradicional que se pode conjugar com o imaginário do exotismo árabe economicamente operacional. a presença dos próprios portugueses em Marrocos e a presença dos portugueses no Oriente. A nível local. de ponte de diálogo que a proclamada genética diversa (árabe. nessa encruzilhada entre a Europa e os países árabes. judaica e crista. Silves. 5 Fez e Marraquexe transformam-se nas cidades guardiãs de uma identidade que pode ser explorada economicamente para aproximar-se do ideal imaginário dos portugueses. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . mas também uma dimensão política de encontro com os países árabes do mediterrâneo 5 . Mértola. E como no pós-25 de Abril de 1974 o processo de reconstrução nacional e de desenvolvimento económico regional passou por uma exploração do potencial turístico e económico que os vestígios e a herança árabes poderiam implicar.

Participação na comunidade islâmica Quando os marroquinos chegam a Portugal encontra-se já constituída a Comunidade Islâmica de Lisboa.6 O colectivo com o qual trabalhamos nesta investigação é constituído por pessoas que seguem um padrão de imigração por imperativos económicos. os imigrantes económicos irregulares e os estudantes .numa adaptação à nova realidade através de subalternização da etnicidade. As trajectórias da maioria dos informantes caracteriza-se por uma forte mobilidade e em geral a sua presença em Portugal está marcada por uma temporalidade associada a um objectivo. principalmente pela Europa. uma instituição constituída principalmente por indivíduos oriundos das antigas colónias portuguesas que se esforçaram desde o inicio na construção de uma relação positiva e apolítica com o Estado e com a sociedade de acolhimento(Tiesler 2000). Estes grupos não são uniformes. No entanto. Os anos 90 observam uma diversificação das origens dos imigrantes muçulmanos mas estes “pioneiros” permanecem como porta-voz da comunidade. e em muitos casos o seu próprio percurso individual é marcado pela transnacionalidade. o circuito da imigração e a forte mobilidade vivida por todos os sujeitos levamnos a participar da comunidade transnacional marroquina – quase todos têm membros da unidade familiar dispersos pelo mundo. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . No entanto. como Roy (2003) afirmou. As relações que os nossos informantes constituem no pais de acolhimento são circunstanciais partilham elementos étnico-culturais que contextualmente os afirmam a todos como marroquinos mas existem numa distância já que entre os diferentes indivíduos ou colectivos não se criam tecidos que os unam a todos como comunidade em Portugal.que em muitos casos desenvolvem paralelamente actividades económicas (Freire 1999). elaborando agora um discurso universalizante do Islão e integrador dos distintos membros da umma (Mapril 2005) . este Islão como fenómeno mundializado encontra-se sujeito a fenómenos como a individualização da relação com a religião e a comunitarização do grupo religioso. Dentro do universo dos marroquinos que vivem em Portugal podemos encontrar distintas categorias: os imigrantes económicos regularizados.

Ramírez (1998) refere. distinta e imediatamente associável à religião islâmica. O lenço é instrumentalizado por algumas destas mulheres de múltiplas formas numa estratégia de integração na sociedade de acolhimento mas também de manutenção de direitos e de um determinado estatuto num contexto diverso ao da sua sociedade original. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Ainda que a participação na vida religiosa da Mesquita Central de Lisboa seja praticamente nula. como o contexto de saída condiciona uma situação determinada da mulher no país de imigração.7 A vivência dos marroquinos em Portugal provoca uma transformação na sua religiosidade – na forma como estes indivíduos vivem a sua relação com a religião (Roy 2005). O espaço da mesquita de Lisboa não se traduz num elemento catalizador das sociabilidades e configurações identitárias destes marroquinos que vivem em Lisboa. Visibilidade e religiosidade feminina Segundo os próprios informantes há um outro elemento que os distancia da comunidade islâmica portuguesa: uma imagem exterior. em pequenos locais de culto nos arredores de Lisboa (como no caso do local de culto de Forte da Casa) ou noutras regiões do país é mais activa (como é o caso do local de culto de Faro para cuja criação há cerca de quatro anos diversos imigrantes marroquinos participaram activamente 6 ). O sistema de estratificação de género em Marrocos define que o projecto de vida feminino é dependente do masculino 6 No Verão do ano 2005 a Comunidade Islâmica de Lisboa não tinha sequer informação da sua existência. Existe uma dissociação para com as actividades da mesquita central e para com o culto o que impede uma prática religiosa quotidiana. não impede a sua integração na comunidade a nível local. para o caso da mulheres marroquinas em Espanha. Observa-se um distanciamento do principal protagonista do Islão em Portugal – a Mesquita Central e a Comunidade Islâmica de Lisboa (com cuja identidade e discurso não se sentem identificados) – e uma privatização do Islão ou uma participação em comunidades religiosas particulares. principalmente feminina. O facto de representarem uma diferença em relação aos representantes dos muçulmanos em Portugal. Os sujeitos elaboram um discurso politico sobre a realidade da mesquita central que é o local de reunião de africanos e indianos e não de árabes ou magrebinos.

Algumas destas mulheres. por exemplo.8 mas parece ser que a imigração permite uma adaptação da condição feminina e das restrições culturais à mobilidade feminina. O colectivo de marroquinos que vive em Portugal ainda é maioritariamente constituído por homens. Por outro lado Abranches (2005) observa em Portugal como as mulheres muçulmanas imigrantes utilizam as transformações características da sociedade ocidental na (re)construção das duas identidades. principalmente as que não realizaram um trajecto imigratório individual e cuja presença no terreno da imigração resulta da reagrupamento familiar. Este país continua a ser manipulado como um passo num ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . muitos deles em situação de irregularidade ante a legislação portuguesa. e “mercadorizam”. podendo a condição feminina ser estrategicamente manipulada. O lenço é então utilizado na luta pela recuperação de um papel dentro do espaço íntimo da casa familiar. com o nascimento das primeiras crianças em Portugal e com a criação das primeiras associações de imigrantes marroquinos. Notas finais Portugal resulta ser um contexto difícil para a imigração marroquina. numa tentativa de conjugar fidelidade às origens mas também modernidade e autonomia pessoal. instrumentalizam o papel da mulher muçulmana de forma a recuperar direitos que consideram que estão a perder em contexto imigratório. num contexto de incorporação ao mercado de trabalho (subalterno) referem como o lenço lhes permite participar e auxiliar a economia familiar. a época da presença árabe em Portugal. No entanto estes sujeitos parecem mais interessados na participação na comunidade muçulmana transnacional do que na construção de uma comunidade em Portugal. auto-orientalizam e personificam a imagem de árabo-muçulmanas nas festas “árabes” e nas feiras de artesanato oriental regionais que se realizam principalmente durante o Verão e que fazem reviver. agora transnacional. Algumas mulheres. No entanto até há três anos atrás parecia que este fluxo estava a entrar numa segunda fase. O reduzido número e a dispersão territorial dos nacionais marroquinos que vivem em Portugal dificulta a constituição do que se pode chamar uma comunidade de marroquinos no país. com o inicio de processos de reagrupamento familiar. Outras.

. ele é do Paquistão e na mesquita falam todos português. “Mulheres muçulmanas em Portugal: formas de adaptação entre múltiplas referencias” in SOS RACISMO Imigração e Etnicidade. Vivências e trajectórias de mulheres em Portugal.). E é que nem pensam que usas o lenço porque és muçulmana. “O sentido dos árabes no nosso sentido. não representa para estes indivíduos um colchão interessante de integração. 2003. ou se vais aquelas feiras onde ela vai com o marido. CABRAL. [. Europa e Islão. pp. Dos estudos sobre árabes e sobre muçulmanos em Portugal” in Análise Social. países que constituem. European University Institute y European Commission – Europe Aid Cooperation Office (Euromed).] Eu quero é ir para casa da minha cunhada [França]. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . a comunidade islâmica. Maria .] Aqui nem o imã da mesquita nos defende. FARGUES.9 projecto migratório que se quer terminar em França ou na Holanda. segundo os informantes.. Alcinda (ed. Maria. Imigração Marroquina. 753-806. há três anos a viver em Portugal) Nesta transcrição podemos observar a distância que existe entre a recuperação da memória histórica do legendário passado árabe na identidade portuguesa e a dificuldade de integração da realidade dos marroquinos contemporâneos que vivem no país. Porto. Lisboa. Ao viver debaixo de uma consciência de temporalidade restrita. Mas aqui no meu bairro [num polígono industrial em Carcavelos]. SOS Racismo. não querem saber do que dizem dos árabes. Uma vez com a Karima na rua uma senhora tirou a cabeça pela janela do carro e chamou-nos terroristas.. Bibliografia: ABRANCHES. Migrations Méditerranéennes. 2005. Sabes. 2005. 2005. Rapport 2005.) se estás ao balcão numa loja que vende coisas árabes.. é só sair à rua que ficam todos a olhar para mim. como me aconteceu lá em baixo na loja da Fátima [Olhão]. Philippe (ed.. Também esta reanimação do árabe em Portugal parece não servir realmente como aproximação aos árabes contemporâneos que vivem no país. XXXIX (Inverno). 26 anos. edições Universidade Fernando Pessoa. todos te perguntam de onde é que és. (Loubna. CARDEIRA DA SILVA. Vol.)..[.. Uma informante dizia: (. a “verdadeira” Europa.. ainda maioritariamente “portuguesa”... 149-179. pp. Nº 173.

PEREIRA BASTOS.. Os movimentos humanos e culturais em Portugal. policopiado. José Gabriel e Susana Pereira Bastos. Ana Rita. Género e Islam. 2000. Ideias. Fernando Luís. Itinerários para a construção de uma masculinidade. Luso-American Foundation. 273-288. “’Bangla masdjid’: Islão e bengalidade entre os bangladeshianos em Lisboa” in Análise Social. hoje: da exclusão social e identitária ao multiculturalismo?” em SOS RACISMO (ed. MAPRIL. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . pp. página 9. 91-118. Migraciones. Nuno Dias e José Mapril. “MAI de Marrocos em Lisboa” edição de 17-05-1997. nº 34 (Dezembro). 2003. Évelyne (dir. El Islam en occidente: ¿La occidentalización del Islam?. 2005. nº 173. ROY. Nº 173. “Acordos com Marrocos”. Francisco. Ángeles. Lisboa. XXXIX (Inverno). Maria Ioannis e Maria Lucinda Fonseca (eds. Lisboa. Madrid. Maria Margarida. MOREIRA.) A Imigração em Portugal.) New Waves: migration from eastern to southern Europe. Agencia Española de Cooperación Internacional.) L’Europe du Sud face à l’Immigration. 851-873. Mujeres marroquíes en España. edição de 26-01-1993. 1993. RAMÍREZ. “Contornos e especificidades da imigração em Portugal” em Sociologia – Problemas e Práticas. 2005. MARQUES. Madrid. pp. Nina Clara. José. Práticas e Instituições do Arabismo Português. TEIM. Público. TIESLER. MACHADO. página 24. pp. TIESLER. policopiado. Vol.10 FONSECA. 1997. “Imigrantes. 9-44. João Alegria e Alexandra Nunes. FCSH-UNL. FCSH-UNL. Transcrição editada da Conferência realizado no FRIDE. Público. Monografia de licenciatura em Antropologia. vol. Olivier. página 23. Barcelona. Los musulmanes en la era de la globalización. 117-144. 1994. 1996. Monografia de licenciatura em Antropologia. Universidad Autónoma de Madrid Ediciones. Atlas de la Inmigración Magrebí en España. pp. nº 24. Ediciones Bellaterra. “Portugal e Marrocos inauguram cimeira anual” edição de 30-05-1994. Artigos de jornais: Público. pp. XXXIX (Inverno). Paris. “Muçulmanos na margem: a nova presença islâmica em Portugal” in Sociologia – Problemas e Práticas. Olivier. Maria Lucinda. El Islam Mundializado. 827-849. “Immigration to medium sized cities and rural areas: the case of eastern Europeans in the Évora region (southern Portugal)” em BAGANHA. ROY. pp. 2000. 1997. SOS Racismo. 2002. Europa e Islão. 1999) Do Yemen ao Dafundo. FREIRE. Nina Clara. “Novidades no terreno: muçulmanos na Europa e o caso português” in Análise Social – Europa e Islão. Politique de l’étranger. 2005. « Le ‘retour des caravelles’ au Portugal: de l’exclusion des immigrés à l’inclusion des lusophones ? » in RITAINE. 2005. 149-183. Madrid. minorias étnicas e minorias nacionais em Portugal. PUF. 2004. 1998.

Partindo do princípio de que em grande parte dos países de origem dos imigrantes – com particular expressão para os países africanos de expressão portuguesa ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Portugal e em particular a área metropolitana de Lisboa. obrigam a reflectir sobre novas formas de encarar o mundo e soluções mais ajustadas a uma sociedade multicultural. a prevenção do HIV–SIDA. orientados para as populações imigrantes residentes num determinado concelho? Qual a importância do trabalho em parceria. Vulnerabilidade.Contextos Migratórios. tenha a responsabilidade de dar uma resposta eficaz às suas diversas necessidades. faz com que o país receptor. em particular pela coexistência de populações nacionais e estrangeiras com diferentes origens geográficas. se propõe desenhar projectos de intervenção na área da saúde. como cruzar saberes institucionalizados e hegemónicos com saberes ancestrais explicadores de uma determinada visão do mundo? Palavras chave: Trabalho autárquico. no contexto do seu trabalho como técnico de uma autarquia. a Mutilação Genital Feminina ou a gravidez prematura? No campo da saúde. quando se pretende intervir em áreas como a acessibilidades dos imigrantes ao Serviço Nacional de Saúde. Saúde. diversos de vida e inclusive diferentes sistemas de organização política e administrativa que. uma das áreas mais sensíveis na condição de imigrante economicamente desfavorecido. técnica na Câmara Municipal de Loures Quais os desafios que se colocam ao Antropólogo quando. a par da expressividade idiossincrática e das histórias de vida particulares de cada indivíduo. cultural e religiosa da população imigrante residente actualmente em Portugal. Imigrantes. Particularidades Culturais e Abordagens específicas no Campo da Saúde Maria Cristina Santinho Antropóloga. A diversidade social. em particular no campo da saúde. étnica. foi alvo de uma alteração profunda na sua morfologia social nas décadas mais recentes.

pelos líderes das associações de imigrantes locais. é necessária uma formação adequada em direitos de cidadania. nalguns casos. face à nova realidade que estão a viver. cada grupo. A questão da saúde dos imigrantes tem sido encarada de uma forma geral. Cada etnia. confundindo frequentemente conceitos fundamentais como nacionalidade e origem étnica e prejudicando assim a comunicação em termos de eficácia de utilização dos serviços de saúde. A promoção da saúde deverá por conseguinte ser levada a cabo não só pelos profissionais de saúde – médicos e enfermeiros – mas também de forma concertada e em parceria. A necessidade de se promover uma abordagem específica no campo da saúde das comunidades imigrantes. Por conseguinte uma das abordagens que se pode e deve fazer. promoção da saúde. culturais. num contexto mais global da exclusão social. tendo em conta as idiossincrasias de cada grupo e os seus problemas relativos às desigualdades no acesso à saúde e outros serviços básicos. importa-nos aprofundar outros modelos alternativos neste campo. sem esquecer as mulheres da comunidade e os líderes religiosos. psicólogos. pelos mediadores de saúde que fazem uma ponte entre a sua comunidade de origem e a sociedade de acolhimento – escola ou trabalho.2 – os sistemas de saúde de modelo ocidental. sem tomar grandemente em conta os padrões culturais específicos de cada grupo cultural. animadores sócio-culturais). enquanto abordagem no domínio da promoção da saúde e prevenção da doença. pelos técnicos que intervêm em programas e projectos comunitários (desde logo antropólogos. formação esta que também deve ser partilhada por cada um destes actores culturais. eram (e em muitos casos ainda são) praticamente inexistentes. sociólogos. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . e interculturalidade. assim como os seus recursos comunitários para a prevenção de certas doenças e cura de males comuns. religiosas e cívicas que fragilizam o seu estado físico e psíquico. surge do facto destas populações estarem sujeitas a muitas desigualdades sociais. salvaguardando as suas particularidades identitárias e. a intervenção médica de modelo ocidental. económicas. é uma abordagem localizada. que estabeleçam a ponte entre a necessidade de apoio sentida pelos imigrantes no campo concreto da saúde. É necessário que haja uma acção concertada entre todos. tem as suas próprias crenças e práticas únicas no referente à saúde.

Infelizmente a formação cruzada ou mesmo a investigação sobre as características específicas em termos de saúde e doença entre as diferentes comunidades imigrantes ainda não está trabalhada nem sequer ao nível dos simples dados estatísticos. teremos que analisar se intimamente estamos dispostos a intervir com acções concretas e pragmáticas. Factores como o índice de morbilidade. natalidade. distúrbios mentais. ou incidência de determinadas doenças específicas de certos grupos. conseguir consulta no médico. e não apenas a ausência de enfermidade ou doença”. traduzindo a importância dos valores e práticas culturais. Tomando como ponto de partida a definição da Organização Mundial de Saúde. tomando o papel de facilitadores entre estas comunidades e os médicos e enfermeiros. pois o nosso contributo poderá de facto vir a influenciar a maneira como outros técnicos de saúde percepcionam o contexto cultural dos imigrantes. Assim sendo. em suma: uma fragilidade perigosamente manifestada em quase todos os indicadores dos condicionantes sociais da saúde. técnicos de saúde ou investigadores que dedicam a sua atenção a casos particulares de bairros onde residem imigrantes.3 Como antropólogos. gravidez prematura. Quase inevitavelmente manifestada através de numa crónica acumulação de desvantagens sociais. mental. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . ter boas notas na escola. é procurar noutro país melhores condições de vida. social e espiritual. segundo a qual: “A saúde é um estado de completo bem-estar físico. que conduzem estas populações a circuitos de exclusão e que se vão manifestando mais cedo ou mais tarde em frustração. partimos dos seguintes pressupostos relativamente à população imigrante: . mortalidade. manifestadas através de uma maior dificuldade em arranjar emprego de acordo com as suas necessidades. Por outro lado. sabemos que uma das características comuns de grande parte da população imigrante é a sua vulnerabilidade. dependência do álcool ou alucinogéneos. violência. religiosas e simbólicas próprios de cada comunidade. somos levados a ter em conta as circunstancias que pautam a vida da maioria da população imigrante e consequentemente condicionam a sua saúde. sentimentos de revolta. ainda estão no domínio dos dados empíricos ou do conhecimento de alguns estudantes.A principal razão que leva um indivíduo ou uma família a emigrar. sociais. desadaptação.

entre alguns grupos étnicos guineenses. será necessário abordar cada aspecto. mal remunerados. culturais e políticos dos países de origem dos imigrantes.Neste contexto. com certeza diferente do país de acolhimento.. etc. Esta premissa pode-se verificar por exemplo. instáveis. muitas vezes dependentes da má índole dos empregadores que preferem não regularizar os contratos de trabalho. condicionam também a atitude dos indivíduos perante os diversos conceitos de saúde e de doença. religioso. habitacional. de grande parte dos imigrantes constituídos como população alvo de alguns projectos levados a cabo pelos Centros de Saúde locais e autarquias. que implica a relação do corpo com vários contextos: familiar. nem tem dinheiro para os medicamentos. o corpo é usado como principal ferramenta de trabalho. condicionando assim a sua relação com o bom ou o mau desempenho profissional – a pessoa doente não pode trabalhar (se falta ao trabalho é imediatamente despedida por não estar abrangida na maior parte dos casos pelos sistemas de saúde e segurança social). profissional. remetendo-os para actividades pouco valorizadas socialmente. pois o contexto em que os imigrantes se inserem irá condicionar a sua própria relação com a saúde e com a doença. limita as suas opções de trabalho. . a dificuldade no domínio da língua ou a inexistência de certificação de competências. ou seja: compromete perigosamente todos os projectos e aspirações a uma vida melhor que o levaram em primeira instância a emigrar. O conceito de saúde e de doença tem uma enorme abrangência e portanto a doença do indivíduo não se pode observar só numa perspectiva clínica ocidental. por vezes propensos a acidentes graves.” ritual inclusivo da prática da Mutilação Genital Feminina. No desenrolar de cada projecto de saúde a levar a cabo eventualmente por uma parceria técnica de intervenção. se é despedida não tem capacidade para sustentar a sua por vezes numerosa família. em particular muçulmanos. em relação à forma como se encara o “Fanado. Os contextos sociais. mas também tomando em linha de conta que os próprios imigrantes terão em determinados contextos étnicos. práticas tradicionais de saúde eficazes para o contexto cultural que as produziu e que obviamente devem ser tomadas em conta pela medicina ocidental. Esta prática cultural que tem sido alvo da atenção de muitos meios ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . com horários violentos.A reduzida formação académica. mas antes sobretudo de forma holística. trabalhos de alto risco. sem seguros de risco.4 .

relativizando o próprio relativismo cultural. tendo em conta a importância do trabalho em parceria com as associações de imigrantes e seus lideres religiosos. que chegou a adquirir forma de projecto-lei e que. a ausência de Sistemas Nacionais de Saúde por vários motivos como a guerra. dados constantes dos ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . No que diz respeito à população hindú proveniente do Gujarati. deverá ser abordada como uma prática que põe em causa a própria saúde sexual e reprodutiva da mulher. levando a medicina ocidental a integrar o valor da medicina tradicional. a ausência de hábitos de prevenção da doença. É pois necessário abrir o leque de conhecimentos e de práticas médicas. como já referimos. sobretudo nos países africanos. a Mutilação Genital não deve ser analisada fora de todo o contexto cultural e ritual que a justifica. Passamos a referir apenas algumas: no caso da população de origem africana. que existem de facto fragilidades de saúde directamente relacionadas com as comunidades imigrantes. pois se por um lado. crenças e tabús que é necessário entender e contextualizar no ponto de vista antropológico.5 de comunicação social pelas razões mais perversas. envolta em mitos. porque se levantam questões tão delicadas como a sexualidade. levando-os a interagir com a medicina ocidental apenas em situações de emergência. Por outro lado. deve ser alvo de uma apreciação profunda por parte dos antropólogos. por outro lado. colocando ainda em risco de vida as crianças e mulheres que a ela voluntariamente ou involuntariamente se submetem.Portela. existem por exemplo. como pelo facto de muitas vezes serem estes os únicos detentores do poder da cura reconhecidos pela comunidade. sabemos da relevância da tuberculose (muito associada a situações de pobreza e carências alimentares por exemplo) e do HIV – Sida e da necessidade de combater esta pandemia. é necessário ter em conta a importância das curas tradicionais praticadas pelos curandeiros. É ainda importante mencionar. infelizmente tem estigmatizado grande parte da população guineense residente em Portugal. condicionam as atitudes dos imigrantes perante a doença. residente no bairro da Quinta da Vitória . reconhecendo a profunda sabedoria que os curandeiros possuem sobre o uso das plantas para fins terapêuticos. a pobreza ou as políticas governamentais. em território português. tanto pela importância que estes indivíduos têm no universo simbólico dos contextos etnográficos. com especial destaque para as enfermidades do foro psíquico. Do ponto de vista cultural.

Contudo. tabaco. presente em todas as cerimónias e rituais praticados frequentemente por aquela comunidade (o açúcar é associado simbolicamente à fertilidade e abundância). Quanto aos imigrantes oriundos de leste. quer nos projectos de educação para a saúde que envolvam adolescentes imigrantes de origem africana. como se relacionam entre si. como são as suas estruturas familiares. problemas dentários. seria interessante promover a investigação voltada para os seus hábitos de saúde relacionados com as práticas das terapias orientais e obviamente. metodologias e estratégias de intervenção comunitária. e álcool em excesso. tensão alta. Em parte. a fragilidade no campo da saúde está sobretudo relacionada com o stress provocado pela sua condição de imigrantes. os seus referentes culturais e em particular. promover de forma sistematizada investigação aprofundada do ponto de vista da antropologia da saúde. Um dos vários objectivos no campo quer da intervenção clínica. muitas vezes indocumentados. Condições de habitabilidade deficientes. visa o combate determinado da gravidez na adolescência. gratuita para toda a população. tendo em conta a chegada de novos imigrantes com características sociais e culturais diferenciadas. distúrbios mentais. alerta para a necessidade de se constituírem equipas multidisciplinares sempre que se definam objectivos. Onde se localizam. havia muito pouco trabalho desenvolvido na promoção de estilos de vida saudáveis. Relativamente aos imigrantes de origem oriental. com quartos de pensão sobrelotados. Ainda um outro exemplo. esta doença é devida ao consumo excessivo de açúcares. sobre o modo de vida destas comunidades em território nacional. Segundo os médicos que ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .6 estudos da morbilidade efectuados pelo Centro de Saúde de Sacavém que dão conta de uma alta incidência de diabetes naquela população. ou de dependência das mafias. as suas práticas relativas à saúde e à doença e a sua expectativa de vida aqui em Portugal. Apesar de sabermos que as ex repúblicas soviéticas tinham uma política generalizada na cobertura da saúde. Sabemos através de resultados empíricos realizados por técnicos de saúde das autarquias que. mais próximo do campo específico da saúde. ainda muito pouco se aprofundou sobre as práticas e o estado de saúde destas populações. considerado pelos especialistas da medicina ocidental como um indicador que é imperioso combater. será necessário realizar outras investigações para o desenvolvimento e implementação de projectos científicos adequados. em condições promíscuas e pouco higiénicas. originam problemas cardíacos. colesterol elevado.

a gravidez na adolescência pode não ser um problema para diversos contextos culturais onde os sistemas de parentesco estão dependentes de alianças em que a rapariga assume desde muito jovem o compromisso de procriação. em segundo lugar a participação de cientistas sociais em particular de antropólogos e obviamente dos próprios profissionais de saúde – médicos e enfermeiros. A verdade é que em concreto. são sempre diagnosticadas características recorrentes. ou quando a opção por engravidar está mais relacionada com uma estratégia de sobrevivência afectiva num contexto de exclusão social. O problema contudo. hipertensão. São elas: tuberculose. tinha. (homens ou mulheres) e eventualmente os líderes religiosos. dentro destas ainda se podem destacar os anciãos. de informação sobre saúde. é contribuir ainda mais para a desestruturação social e psicológica das comunidades e dos indivíduos de origens etnográficas diferentes. é necessário contar com a contribuição de diversos especialistas: em primeiro lugar. Preferencialmente. referentes às doenças com maior incidência. impor a alteração de padrões culturais e de normas de comportamento de forma desajustada. integrando saberes diferentes e envolvendo-os nos projectos de saúde institucionais porque. hemoglobinopatias. diabetes. violência doméstica. hepatite. estes projectos orientados para a intervenção directa no campo da saúde. doenças do foro mental. etc. a participação de representantes das próprias comunidades locais – aqui as associações de imigrantes têm um papel fundamental quando existem.7 intervêm nesta área. Há pois que saber distinguir as diferentes situações. alcoolismo. fazendo uso de uma linguagem comum e dos mesmos referentes simbólicos. consumo de droga e. é necessário contextualizar a saúde e a doença no campo cultural. esclarecendo também eventuais estereótipos criados pela sociedade ocidental que podem colocar em risco projectos de promoção da saúde sexual e reprodutiva. Não é de estranhar que nos bairros de imigrantes onde se faz intervenção comunitária. são muito raros os casos que se podem considerar de sucesso. adaptando-os a novas realidades. deverão também ser elaborados em parceria com homens e mulheres da comunidade. Para perceber este ou outro fenómeno da mesma natureza. Para além de uma abordagem no campo social. sida. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . anti-concepção. sobre auto-estima. pode surgir quando a constituição física da jovem ainda não atingiu a maturidade biológica que lhe permita ter filhos sem por em risco a sua própria saúde física e mental.

ONG’s e IPSS’s de forma a adequar as intervenções e projectos de saúde directamente dirigidos às populações imigrantes. espartilhados por uma África que nem conheceram e um Portugal que nada lhes diz e que lhes recusa a nacionalidade portuguesa apesar de terem cá nascido? Porquê a existência de gangs? Não será eventualmente esta a resposta a uma necessidade de identificação grupal. um folheto em crioulo para alertar a população africana em geral. mas também a procura de estilos de vida alternativos como possível resposta às novas (velhas) angústias. com as suas próprias hierarquias e sistemas de valor simbólicos. A população crioula letrada. os cancros. numa sociedade que também ela atravessa uma profunda crise de valores identitários? Podemos ainda acreditar na justiça? E na educação? E na saúde? Como poderemos exigir às populações imigrantes que assimilem e adeqúem comportamentos e atitudes sociais nos quais uma grande parte dos portugueses tem dificuldade em acreditar? Entre a população portuguesa. ou de comportamentos aditivos com recurso ao álcool ou a alucinogéneos. entre a população alvo. uma língua que se escreva ou que se leia com frequência. aumentam também cada vez mais as depressões. foi feito numa Câmara Municipal. escreve e lê em português. sabendo que muitos indivíduos provêem por vezes de países em guerra prolongada e pobreza extrema. tendo em conta os conhecimentos adquiridos com base no trabalho de campo e observação participante realizada junto às diferentes nacionalidades e particularidades étnicas. pior ainda: será que alguma vez a tiveram.8 O que dizer do surgimento excessivo de perturbações mentais entre os imigrantes e refugiados. Centros de Saúde. Ainda apelando à necessidade de enquadramento de Antropólogos em Autarquias. Darei um exemplo: – Aqui há alguns anos. No entanto. sobre os perigos da sida e a forma de evitar comportamentos sexuais de risco. As intenções de dito folheto eram de facto as melhores e o mesmo teve bastante aceitação tendo sido considerado muito original – sobretudo pelos outros técnicos envolvidos na divulgação do referido folheto. tornando-os ainda mais vulneráveis? Como estranhar o comportamento agressivo e os actos de vandalismo de alguns jovens de origem africana mas frequentemente já nascidos em Portugal? Não terão eles também perdido a sua própria identidade. É em português ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Porquê? Em primeiro lugar porque o crioulo não é por enquanto. ou. a sua aceitação foi quase nula.

e apesar da oferta insistente dessa instituição na comunidade. estavam a chegar cada vez mais idosos. residiam precisamente nos tabus do corpo. veio-se a constatar que as razões para essa recusa. Frequentemente. e com grandes carências e fragilidades na saúde. Esta necessidade tinha sido de facto identificada nas reuniões do Projecto de Intervenção Comunitária que se realizavam no bairro. Em segundo lugar. Logo. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . tendo em conta que os seus percursos identitários são mutáveis e bem ou mal. em que cerca de 90% da população é de origem africana. considero imprescindível valorizar os códigos culturais próprios de cada grupo. agora relacionado com os tabus do corpo: Num dos bairros de realojamento de imigrantes em Loures. esse folheto só atingiu uma minoria insignificante de população que teria entendido perfeitamente a mensagem em português. que disponibilizava técnicos especializados para prestar assistência domiciliária. Mas também considero importante que os Antropólogos olhem urgentemente para as realidades dos imigrantes aqui residentes. os serviços eram sistematicamente recusados. interiorizadas. No entanto. surgiu uma Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS) que tinha a valência de Centro de Dia para idosos. Outro caso. as características culturais de uma determinada etnia em Angola ou na Guiné. Apesar de normalmente a população desse bairro ser maioritariamente jovem. ficam diluídas. quando transpostas para a necessidade de sobrevivência dos indivíduos imigrantes. ficavam a residir em casa dos seus filhos e aí permaneciam todo o dia sozinhos. no contexto de um bairro de realojamento e face à pressão exercida pelas instituições portuguesas. ainda que seja médico. rapidamente adaptáveis às condicionantes impostas pela sociedade receptora.9 que se escrevem as cartas para a tia ou para a avó que ficou em Cabo-Verde. É por estas razões que acabei de expor que. Um idoso ou idosa africana. porque existe uma grande variedade de crioulos. para que cuide de si e muito menos que invada a intimidade do seu próprio corpo. vindos dos países africanos que. integrando os saberes destas comunidades e envolvendo-os nos projectos de saúde institucionais. Aprofundando mais as razões que levaram a essa situação e contactando mais de perto com as famílias e com indivíduos dessas comunidades culturais. de cada etnia. relegadas para a privacidade do espaço doméstico ou religioso. não dá legitimidade a um estranho à família.

os Anos da Mudança. Lisboa. all). Hans. all). decidir se está disposto a intervir nestes contextos migratórios. Fall. Introdução a uma Antropologia da Sobremodernidade. Champ Multiculturel. Marc. Práticas Culturais e Atitudes Perante o Corpo. 90º (ed. Fernando. 2004. Manuel Villaverde e Pais. para poder PARTICIPAR e INTERVIR de forma útil na melhoria da qualidade de vida e em particular da saúde das várias comunidades de imigrantes residentes em Portugal. VERMEULEN. Hacia la Construcción del Bienestar y del Desarrollo Comunitário Transnacional. 2000. 1996.Ed. Quarteto Editora. Imigração. México. 2005. CABRAL. 2006. CARMO. ao Antropólogo. Condutas de Risco. 1998. António (et.) BARRETO. Rocio Gil Martínez de. Integração e a Dimensão Política da Cultura. Socinova . ou paternalismos das instituições onde se enquadra profissionalmente. Fronteras de Pertenencia. 2005. Lisboa. 1996. Hermano (et. Direcção Geral de Saúde. Colibri. Universidade Técnica de Lisboa. Universidade Autónoma Metropolitana. José Machado (et all). Celta. Exclusão Social. Lisboa. Imigrantes na Região de Lisboa. ISCSP. Ministério da Saúde. Edições Colibri. nem submeter-se pacificamente às regras. Lisboa. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . burocracias e estereótipos. Referências Bibliográficas: AUGÉ. MALHEIROS. Lisboa. L’Harmattan. Paris. Imprensa das Ciências Sociais.. Não Lugares. Poder local e Exclusão Social. Transactions Interculturelles.10 Cabe a ainda a meu ver. Rotas de Intervenção. Jorge Macaísta. KHADIYATOULAB. Plano Nacional de Saúde. RUIVO. 2001. Coimbra. ESCOBAR. sabendo contudo que não basta nem OBSERVAR. Lisboa. 2003. Globalização e Migrações. racismos.

Guiné Bissau. mas pelo contrario é utilizada nos contextos locais para produzir novas diferencias e distinções. roupas. sede da administração colonial da Região: é uma zona de contacto. a Praça funciona .como um íman para os jovens das ilhas. Bem que seja um pequeno centro. Bijagós. Estas reflexões têm a sua origem em uma pesquisa efectuada na ilha de Bubaque. Palavras-chave: Globalização. onde não só Europeus e Bijagós se encontraram e se encontram.com Porque é que os jovens Bijagós do centro urbano de Bubaque acham cool andar de gangas. viso contribuir ao debate sobre as dinâmicas entre local e global. esquecendo a preocupação com uma fictícia autenticidade e negando uma formulação rígida da identidade e do sujeito. Lisboa lo_bordonaro@hotmail. Arquipélago dos Bijagós. explorar as conexões entre local e global significa na prática etnográfica considerar as ligações que os indivíduos em contextos específicos estabelecem com os significados e os produtos que o seu habitat cultural lhes oferece e que podem escapar uma delimitação espacial precisa. chapéu de baseball e ténis? A partir destas questões da minha experiência de pesquisa na Guiné-Bissau. Consumo. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . com jovens rapazes. salientando como a circulação de modas. com mais o menos 2000 habitantes permanentes. mais especificadamente no único pequeno centro urbano do Arquipélago.no âmbito restrito do Arquipélago . A minha intenção nesta comunicação é a de explorar a relevância e a pertinência do conceito de ‘estilo cultural’ (um noção que pertence mais aos Cultural Studies do que à antropologia) para descrever a cultura juvenil urbana em África ocidental. Guiné Bissau. Bordonaro CEAS – Centro de Estudos de Antropologia Social. chamado familiarmente Praça 1 . mas também onde Guineenses de outras regiões e comerciantes de diferentes nacionalidades exercem as suas actividades. óculos de sol e estilos. não produz homogeneização. Sem negar as estratégias geopoliticas e as relações de dominação.Valores e ícones da cultura juvenil na Guiné-Bissau: uma abordagem individualista e não-essencialista à dinâmica local/global Lorenzo I. ultrapassando a dialéctica entre resistência e homogeneização. Jovens. segundo dinâmicas de migração rural/urbana bem conhecidas 1 Originalmente tratava-se de um posto construído pelos Portugueses.

Paralelamente ao que acontece em outros lugares em África (Larkin 2000. urbanos. um estilo que os rapazes chamam cool. para o cuidado do seu aspecto segundo cânones que se referem à uma circulação mais ampla de estéticas e atitudes. primitivo e não civilizado. se adornam: as atitudes. os corte de cabelo. e das práticas de consumo em geral. educados. ficaria surpreendido para o cuidado com quem rapazes e raparigas se vestem. Em termo gerais. Estas interpretações tristo-tropicalistas baseiam-se sobre uma ideia de imobilidade e autenticidade das culturas que a antropologia recusou em nome de uma imagem mais dinâmica. as mais recentes leituras antropológicas interpretam a moda como uma prática social que visa à formulação e a expressão da identidade e a significação de diferenças sociais. a capital do país. de tratar com as meninas. considerado com desprezo como atrasado. Ora bem. de falar. Weiss 2002). Definindo-se a si mesmos como “desenvolvidos”. É também uma maneira de andar. quem desse um passeio na Praça de Bubaque no Sábado a noite. a estética do cool em Bubaque tem muito a ver com ícones de sucesso global da cultura negro-americana. todos respondem a uma estética. criativa e crioula. as roupas. mediada e reinterpretada por os artistas da cena musical Africana e Lúso-Africana em particular. Uma das modalidades mais espectaculares de expressão desta diferença. caracterizadas pelas oposições próprias da ideologia da modernidade. De facto a Praça tem atraído nos últimos anos muitos jovens que queriam abandonar o sistema tradicional de produção da aldeia. para a constituição e como ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . nomeadamente a cultura do hip-hop. muitas vezes como primeira etapa de uma deslocação mais definitiva para Bissau. como também um lugar de acção social e política. de cumprimentar os amigos.2 em África. A relevância dos hábitos. ténis de marca. Em particular. como temos que interpretar estes aspectos da cultura material? A antropologia já salientou muitas vezes nos últimos anos como estes traços não podem ser facilmente considerados aspectos de um processo de homogeneização devido à ‘globalização cultural’. os jovens da Praça contrapõem-se ao mundo das aldeias. é a atenção que os jovens demonstram pela moda. Um dos aspectos mais sobressaliente dos jovens que vivem neste espaço são as suas narrativas modernistas. Ser cool não é só vestir gangas. chapéu de baseball e absurdos óculos de sol nas escuras noites de Bubaque. Estas aproximações consideram o vestuário como sinal e como objecto de consumo: um campo de representação social onde identidades individuais e sociais são criadas.

Neste contexto. a subordinação dos jovens aos velhos é um elemento essencial da organização social: tornar-se ancião é um processo complexo que exige a passagem através vários graus de idade e o pagamento contínuo aos membros das classes de idade superiores. As roupas são também um sinal de 'civilização' e de 'desenvolvimento'. foi também considerada produtivamente pela antropologia do consumo. rejeitando firmemente o paradigma da homogeneização global. e portanto não têm acesso à terra e às mulheres. A iniciação divide a população masculina em dois grupos opostos: os que já adquiriram o estatuto de homem adulto e os que ainda são “crianças”. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Segundo esta abordagem. a cultura da modernidade dos jovens da praça não pode ser compreendida sem referencia à estrutura social das aldeias. Sem esquecer as geografias ocultas de produção que também fazem parte das relações sociais de consumo. eficaz para marcar o distanciamento dos valores e hábitos da aldeia. as características da cultural juvenil que temos salientado. O cuidado pela moda. e movendo para o um paradigma da crioulização. adquire um valor especifico e profundamente local. Os rapazes que abandonaram as aldeias para viver na Praça criticam as normas éticas e as instituições “tradicionais” e tentam subtrair-se a estas relações de poder. acho que podemos considerar a pratica do vestir cool em Bubaque como uma forma de apropriação de produtos e imagens com circulação transnacional. são compreendidas melhor como praticas de distinção do mundo das aldeias e como afirmação de uma identidade urbana e moderna 2 . 2 Mas para perceber melhor é preciso dar alguns detalhes sobre o conflito generacional que opões jovens e anciãos. conferindo voz e descrevendo em termos reconhecidos uma dialéctica generacional. em acordo com estratégias locais de identidade e de distinção social. de facto. As suas críticas baseiam-se na contraposição entre dois termos chave: desenvolvimento por um lado e cultura do outro. que visa a considerar esta actividade como uma forma de produção cultural e de construção de identidade. é verdade que se nos condenamos o consumo como emulação ou imitação.3 marca de identidade. A contraposição ideológica entre “tradição” e “modernidade”. Para a maioria deles a Praça é o lugar onde alguém tem que se vestir correctamente. manifestando ao mesmo tempo proximidade com o ambiente moderno da Praça. à moda. pode ser de facto interpretado como mais um signo de distinção do mundo rural da aldeia que os homens jovens querem exibir no contexto urbano. No interior das dinâmicas modernistas. evidente nas palavras dos jovens. nós denegrimos as capacidades criativas e expressivas das pessoas de apropriar-se e de usar bens estrangeiros para o próprio propósito. De facto. de autonomia e de autenticidade. Um dos méritos fundamentais desta abordagem. é que supera a retórica modernista que condena o consumo de produtos globais ou estrangeiros em contextos locais como perca de identidade. Em particular o conceito de distinção pode dar nos umas pistas importantes. quase um palco da modernidade.

Sem fazer referências aqui aos que salientaram a função de distinção de algumas prática de consumo (nomeadamente Veblen 1998 e Bourdieu 1979). em direcção de uma aproximação performativa e prática às identidades sociais. Segundo esta abordagem. são duas práticas simbólicas socialmente posicionadas. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . e eles olhavam para mi com admiração. De facto. vesti os meus vestidos na aldeia em frente dos meus colegas. E vi algumas pessoas. onde a noção de estilo como ‘prática significante’ 3 é proposta para explicar como a diferença é activamente produzida e utilizada em uma sociedade. Comprei a minha roupa. A noção de estilo cultural pode então oferecer uma solução original ao problema da definição de modernidade local e nesta direcção já foi utilizado por James Ferguson na Zambia (Ferguson 1999). mas produzida por essas mesmas práticas em um contexto social. bem como para a construção da diferença e a produção de identidade. como eles se vestiam (é ta bisti). foi proposto nos anos Setenta pelo Center for Contemporary Cultural Studies na análise das sub-culturas juvenis no Reino Unido. alguém fica na rua com o traseiro de fora. não tem a ver nem com o fim da tradição face ao avançar da modernidade. se utilizarmos um conceito que não é propriamente antropológico: o de ‘estilo cultural’. o contraste entre ‘moderno’ e ‘tradicional’. colegas. como eles se vestiam… as vezes na aldeia. um rapaz de 17 anos que entrevistei em Bubaque. então fui para a aldeia e percebi que não era possível viver assim para um ser humano. uma aproximação sociológica à moda e às práticas de consumo que realça a sua relevância quer para marcar e elaborar um estilo de vida distinto. a noção de estilo como prática significante pode também nos oferecer explicações alternativas e não-essencialistas sobre como a diferença não só é significada e marcada. vender mangas. Aliás. nem com a imitação de uma cultura hegemónica. o que eu quero propor aqui é a possibilidade de uma interpretação original deste tipo de características culturais. vi os meus colegas. no seu significado local. Eu percebi que não é uma vida boa porque eu vim na Praça. O texto fundamental desta abordagem é Subculture: the meaning of style do Dick Hebdige (1979). Vim na Praça. realizadas (enacted) 3 The notion of signifying practice was initially elaborated in France by the Tel Quel group. Eu percebi que esta coisa é ma.4 Xarife. Moderno e tradicional. voltei para a aldeia. deu-me um relato extremamente significativo neste sentido: Mas ao final eu percebi que aquela vida [na aldeia] não é uma boa vida. Assim foi à Praça.

executadas com êxito’ (Ferguson 1999: 98). por outro o Estado pós-colonial. Ser cool para os jovens em Bubaque não é simplesmente um estilo que se pode mudar ou adoptar ao acaso. enfatizando o caractere consciente. Afirmar que modernidade é uma questão de estilo não significa dizer que é uma questão de possuir um certo tipo de vestidos. Não se trata de manter que os indivíduos flutuam livremente num oceano de signos que eles podem apropriar e utilizar a vontade para se construir uma identidade ad hoc. Embora seja verdade que um estilo não é o resultado exclusivo de escolhas individuais e que as pessoas também são limitadas em parte por condicionamentos económicos e sociais. É uma competência performativa que tem que ser aprendida e interiorizada: é uma estratégia de sobrevivência em uma situação de poder tensa. As pessoas sempre vivem naquela área posicionada entre a lógica microsociológica da situação social e as estruturas globais e regionais da economia política. mas que se trata de ‘práticas encarnadas. e os ténis Nike para voltar a vestir uma máscara cornuda e tornar-se novamente 'verdadeiros' Bijagós de aldeia.no sentido que nós geralmente damos a este termo . um processo motivado de auto-construção: é neste sentido que poderíamos utilizar uma ideia de cultivação de estilo. no horizonte. que envolve quer uma deliberada auto-construção quer determinações estruturais. um processo em parte consciente como também inconsciente. e. O estilo cultural é uma capacidade de utilizar e manifestar signos em uma maneira que posiciona o actor em relação a categorias sociais relevante. um aspecto importante da cultura material dos jovens. Os jovens do Praça não eram actores que ao fim do espectáculo tiravam os seus chapéus de baseball.5 em uma conjuntura social e político-económica específica. Isto não significa claro que os jovens recitavam . deixando espaço para identidades mais autênticas. E é em relação a estes fantasmas que. não podem não ser ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . construído e cultivado dessas práticas. da qual as roupas também fazem parte. A atitude cool dos jovens. os fantasmas da Europa e do Ocidente.e que o seu teatro terminava ao fim do dia. os óculos de sol. em conclusão. um estilo é claramente pelo menos em parte uma actividade. pode bem ser considerada como um aspecto de um ‘estilo cultural’ em quanto conjunto de práticas que significam diferenças e alianças entre as categorias sociais. que vê por um lado os anciãos na aldeia. na qual as pessoas improvisam estratégias duráveis e motivadas de auto-construção e apresentação.

Amherst (NY). HEBDIGE. Por outro lado nos permite. Expectations of Modernity. Critique sociale du Jugement. Les éditions de minuit. Methuen. Prometheus. questionar e investigar a origem do valor destes aspectos da cultura material.6 salientado. que não são só actores sociais cientemente utilizando signos de distinção. “Thug realism: inhabiting fantasy in urban Tanzania”. Subculture: The Meaning of Style. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Esta abordagem nos permite por um lado dar uma imagem mais concreta e realística dos jovens. The Theory of the Leisure Class. Paris. com a qualidade material das coisas em si. pelo seu caracter estético. Pessoas com um gosto. Globalization and Urban Experience in Nigeria”. 1999. 1979. que a investigação sobre a cultura material tem que focar a sua atenção. 2000. 1. 1979. um sentido da beleza. WEISS. VEBLEN. London. FERGUSON. Referências bibliográficas BOURDIEU. Brad (2002). na articulação e na dialéctica entre apropriação e sedução. Pierre. fascinados e seduzidos pela materialidade das coisas. LARKIN. Cahiers d’Études Africaines. Cultural Anthropology 17(1). Myths and Meanings of Urban Life on the Zambian Copperbelt. mas indivíduos vivos. um aspecto que nos permite de adicionar mais uma perspectiva à puramente semiótica até agora salientada. University of California Press. Acho que é exactamente neste ponto. mas tem também a ver com fascinação e sedução. Dick. “Bandiri Music. questão que não acaba de suscitar debates. 1998 [1899]. Thorstein. mais criticamente. 168 (XLII-4): 739-762. Brian. James. A relação que os jovens têm com a materialidade das coisas não é só puramente semiótica. Berkeley. La distinction. 93-124.

Porto ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Universidade Fernando Pessoa. Centro de Estudos de Antropologia Aplicada.IV – Capítulo Processos de Integração Social e Económica de Imigrantes Textos de comunicações do painel: Processos de Integração Social e Económica de Imigrantes Alcinda Cabral.

a convicção de que voltaria ao seu país de origem uma vez que sua atividade laboral se findasse. affecting all society. juridique and with your community. envolvendo a integração de todas as atividades ao longo cadeia de valores sociais. Cidadania. Within this context. as ciências humanas ganham nova dimensão. ethical. a sociedade que o acolhia não solicitava a adesão a seus valores. em especial ao que tange a função desempenhada por este cidadão no mercado laboral.br Nos últimos anos a economia mundial tem sofrido mudanças importantes.Porto Portugal carlosluizjr@terra. encompassing the integration of all activitis related to the social vlue system. the human sciences gains a new dimension. A busca da competitividade relaciona-se cada vez mais com a busca do ótimo sistêmico das fronteiras da cidadania. jurídicos e comunitários. Imigração. não integrando de forma plena e efetiva aquele ser humano oriundo ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .Cidadania e o Homem: construção de uma sociedade integrativa Carlos Luiz Cerqueira Junior CEAA . éticos. De inicio a figura do imigrante encontrava-se relacionada à figura de trabalhador.Centro de Estudos em Antropologia Aplicada . Antropologia Jurídica.com. para tanto. The search for competitiveness is more and more concerned with the search for the optimal systemic beyond citizenship frontiers. sociedade. Por este motivo. Existia. Neste contexto. importante traçar-se panorama deste individuo pertencente a este coletivo com o intuito de se proteger com políticas públicas efetivas a devida integração na sociedade que o acolhe sob vários enfoques. In the last years the world economy has been changing deeply. Palavras-chave: Antropologia. Introdução Pertinente aos imigrantes brasileiros em Portugal. acquistions and strategic alliances are multiplying everywhere. Fusions. Most of these changes are related with deep modifications in the value systens. aquisições e alianças estratégicas têm se multiplicado. Fusões. Parte considerável destas mudanças relaciona-se com profundas alterações nos sistemas de valores de todos os segmentos sociais.

a aceitação do outro sob o olhar justo.2 de outra cultura. Esses fluxos têm-se alterado em dimensão e direção de acordo com as fases de transição económicas. traduzindo a função social e política do homem – a esta função se atribui o caráter necessário da delimitação da importância da cidadania como fonte primária desta pretendida estabilidade a que o homem pretende e deseja. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . assim como delinear seu estado cidadão. ou seja. em especial àquela migração evidenciada no sentido sul-norte. encontrando respostas para o dilema hoje vivenciado na antropologia jurídica. interagindo com a sua comunidade no intuito claro de trazer-lhe melhoras e benfeitorias. seus modos e seus projetos de inserção nesta comunidade tão parecida e ao mesmo tempo tão distante dos hábitos imigrantes. imprescindível saber o efetivo conceito da importância do ser humano. enquanto fator propulsor de desenvolvimento local. Este primeiro grupo que emigra era. equânime e legal do Estado e da sociedade acolhedora. o Estrangeiro e sua Política de Integração Diante do panorama atual. qual seja. Diante de tais fatos. A Cidadania. imprescindível situarmos a questão relativa à política migratória travada entre Portugal e Brasil nos últimos anos. reduzido e heterogêneo. e sobretudo da discussão acerca da cidadania. cujos factores sociais. onde se inclui a discussão da ciência em proveito do desenvolvimento social e humanitário. Brasil-Portugal. fundamentalmente. económicos e financeiras não esgotam a pluralidade de motivos propulsores do evento migratório. I. em particular ao nosso estudo Portugal. desde o momento que sua permanência no país recorrido. Nas sociedades modernas tem-se obtido relevo a questão associada aos fluxos migratórios da humanidade. da nacionalidade e do estrangeiro. que invariavelmente desenvolvia atividades para aquela comunidade receptora. aos quais se refere como transição migratória histórica à demográfica econômica. relacionando os factores endógenos do país de origem em face da perspectiva de construção de vida digna e construtiva. Assim. Todavia. deseja-se demonstrar o perfil do imigrante brasileiro em terras portuguesas. vai se convertendo em definitiva.

Acerca dos assuntos. sempre em busca de melhor avaliar as correntes migratórias firmadas entre os dois países. A isto se deu pelo fato da crescente isenção estatal em desenvolver políticas determinadas de identidade cultural e social do seu povo. Observa-se. demonstrando determinado enfraquecimento da conjuntura educacional interna brasileira. Diante deste cenário. leva-se em consideração a clara aparência de culturas. região escolhida para fixar residências e outros critérios de aderência do imigrante. com políticas de identidade cultural. muitas vezes opondo-se aquela a esta. língua e identidade antropológica referente ao caminho sul-norte. Após o advento da II Guerra Mundial. cujo país submergia em profunda crise política junto ao uma falta de perspectiva de crescimento sócio-económico. cujo contexto de crise de estrutural nos países de destino impulsiona à procura por outras culturas. aqueles na direção SulNorte. Tais estudos deram inicio na década de 40 (quarenta) quando se efetivou a corrente migratória a Europa. o Brasil ingressa no circuito das migrações internacionais. através dos quais quase um milhão e meio de pessoas (IBGE:2004) estão chegando anualmente à Europa e América do Norte. social e educacional em franco declínio no país. em face dos acontecimentos políticos e sociais à época evidenciados. permitindo a aproximação cada vez mais freqüente da cultura local com o estrangeiro. notadamente o Brasil. diversos estudos foram realizados em Portugal e em Brasil. corroborada pela falta de perspectiva de desenvolvimento sustentável nos países de emigração. a procura de profissionais cuja qualificação se amolda aos padrões internacionais. ao passo que evidenciamos a ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . uma política dualista. qual seja. outros recursos não restaram aos cidadãos senão buscar no estrangeiro à sustentação financeira. portanto. apresenta-se por fator determinante o aspecto social e econômico. em busca de atividades acadêmicas enriquecedoras. a ruptura do conjunto econômico-social na Europa estimulou a imigração de mão-de-obra menos qualificada.3 O aparente paradoxo dos fluxos migratórios mais recentes. cabendo ao país receptor (Portugal) analisar as questões pertinentes ao grau de escolaridade. se não poderia o estado criar e sustentar vias de acesso à manutenção da ordem interna. justificando a imigração sempre temporária.

consubstanciando a sua migração em busca de novos mercados. Passados alguns anos. em especial a inclusão do cidadão e do estrangeiro frente à nova ordem mundial – a globalização e os mercados comunitários. levando-se em consideração os diversos fatores externos que influenciam na reestruturação destes estatutos. vários foram – e ainda são – os Tratados e Acordos bilaterais chancelados entre os citados Estados. sempre em busca de equilíbrio das políticas migratórias. ainda continua reflexo da irmandade cultural. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Assim. Estudos recentes realizados pelos dois países demonstram duas categorias efetivas de migração. referente às pessoas sem grau de escolaridade e ou econômico satisfatório. cujo interesse nos países desenvolvidos se amoldam na busca de qualificação profissional e acadêmica. racial e lingüística a migração de brasileiros para terras Portuguesas. embora se tenha em mente as adversidades tratadas. língua e costumes colonizadores. não podemos deixar de citar aquelas pertinentes a OPLP (Organização dos Paises de Língua Portuguesa) com significativos contributos na formação de medidas de acolhimento do colectivo imaginário desta comunidade lingüística. em face da semelhança de cultura. programas e estatutos que evidenciam a esta política humanitária. cujo efeito imediato foi o reexame das políticas bilaterais com o Brasil visando à adequação da legislação lusitana àquelas impostas pelo pacto comunitário europeu. cujas causas e razões estimulantes à migração se distanciam de forma latente. vejamos. duas correntes diferentes. perspectivas laborais e inclusão social. modernamente se tem um espelho efetivo das correntes migratórias entre Brasil e Portugal. mesclando seu conhecimento adquirido com a vivencia em novas culturas. Todavia. primeira. A segunda. em face dos constantes estudos realizados. observamos a existência de dois mundos distintos e paradoxais. a exemplo da própria inclusão de Portugal na União Européia. A saber.4 procura especial por Portugal pelos menos qualificados. referente aos profissionais de formação técnica e científica. havendo clara formulação de estudos.

centro de acolhimento e frentes próprias de trabalho e inclusão social. A nível europeu. o Estado Português em busca de novas tendências de inclusão local do imigrante tem desenvolvido políticas próprias e sérias para o enquadramento da imigração legal. natos) e cultural (sociedade diversificada com perspectivas de aberturas de mercado). não lhe restando alternativa senão vender de forma irresponsável a sua força de trabalho em países em troca de tratamento sério e digno as condição de cidadão. encontra-se o país envolvido em grave crise de inclusão social ao longo das última duas décadas. buscando a inclusão menos traumática para este individuo na cultua local. levando-se em conta. acreditando realizar em um novo país as perspectivas frustradas na sua pátria de origem. a política de acolhimento do imigrante sem os freqüentes questionamentos de raça. ano base 2004). cujo afastamento das classes menos favorecidas ao acesso dos meios justos e honestos de emprego. cujo trabalho realizado orienta com cartilhas. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . cite-se a excelente lição oferecida pela ACIME – Alto Comissariado para a Imigração e Minorias Étnicas. cor e escolaridade. leva o cidadão a busca de novas fronteiras. demográfica (povoamento de locais não desejados pelos habitantes locais. cujo intuito é diminuir o sofrimento dos imigrantes que partem deixando sua família no Brasil. não se pode deixar de ressaltar o papel das entidades de acolhimento aos imigrantes no esforço em fazer cumprir em território português a legislação comunitária pertinente ao reagrupamento familiar.5 Pertinente à primeira situação. Cabe ressaltar que nem sempre se encontra no país receptor tais políticas dignas e de recepção ao imigrante. A exemplo de tais assertivas. seguridade social e saúde pública. palestras. identificando-se com o país em face da identidade lingüística. ademais. importante que se observe o cenário económico e as perspectivas sociais existentes no Brasil. Mesmo diante de situações adversas na política internacional. A isso se dá em face da completa exclusão social do ser humano (do indivíduo) na realidade que o cerca no Brasil. Estudo realizado por tal entidade revelou que os imigrantes influenciam e enriquecem a pátria portuguesa frente às questões de ordem financeira (65 mil contos investidos no país.

Frise-se que as condições profissionais portuguesas após a sua inclusão no mercado comum europeu se deu de forma alarmante. necessidade de se incluir em uma sociedade plural justa. Outro fator de observação importante na consideração dos imigrantes são aqueles apontados por pesquisas recentes demonstrando a desvinculação entre os índices de violência. financeiras e sociais cuja economia local alcançou níveis altíssimos. eis que as causas de sua busca migratória e a retórica desenvolvimentista. trata-se de questão humanitária de fiel recepção dos familiares. retribuindo-lhe com o reconhecimento prático da sua força de trabalho. cultural e ou econômica. demonstra-se a urgente necessidade de se delinear o efetivo papel do Estado nas políticas migratórias quando se tem por objeto o imigrante sem qualificação social. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Destarte. somente no Brasil encontram-se os investimentos portugueses na ordem de bilhões de euros. encontram-se os imigrantes integrantes da segunda categoria ou gênero. é. a ruptura entre desemprego. desejando realizar em Portugal trabalhos de aprendizado. com a inclusão de novas perspectivas econômicas. pois. qual seja. buscando na fonte as novas técnicas e meios científicos. Diante de tais fatos. De forma distinta. não mais deixando na marginalidade os agregados da imigração. quais sejam. emprego e exercício do direito de integração entre os nacionais e os imigrantes. havendo o favorecimento ao imigrante legal que traga ao seio da sociedade acolhedora aqueles entes familiares (cônjuges e filhos) para a formação da entidade familiar. buscam os profissionais brasileiros qualificados e ou em vias de qualificação um melhor aproveitamento desta política de investimentos e desenvolvimento econômico. aqueles que migram em busca de melhores condições profissionais e ou em face do melhor aproveitamento acadêmico em Portugal.6 Com efetividade a este programa. não havendo dessa forma qualquer vínculo e ou relação direta entre a elevação das taxas de desemprego com a corrente migratória evidenciada. colocando Portugal na segunda posição de investimentos internos no Brasil nos últimos cinco anos. violência e usurpação de postos de trabalhos locais pelo imigrante brasileiro. inclusive com investimentos sólidos e altos nos países em desenvolvimento. contribuindo de forma clara na agregação deste ser na comunidade acolhedora. que respeita as condições humanas.

Posta tais questões. pois estes são inerente dos nacionais. volta-se a se a realizar as constantes indagações acerca da urgente e necessária diretiva acerca da cidadania. consolidando-se como o grande coletivo de imigrantes que povoa o território português. Com referência aos imigrantes acadêmicos. buscando a atualização profissional a ser aplicada no seu país de origem. Sendo o ser humano aquele capaz de lançar-se em busca de novas perspectivas vitais. exceto quanto aos direitos políticos. eis que a sua satisfação migratória se deu em face da necessidade em melhor aparelhar seus currículos e estudos no exterior. diametralmente oposta encontram-se aquel’outros que migram frente a necessidade de melhorar suas condições humanitárias. próxima dos grandes centros internacionais e integrante do maior e mais rico continente do globo. Assim. eis que não possuindo grau de instrução e ou condições próprias necessárias para se fazer incluir em mercado de trabalho ríspido no Brasil buscam em Portugal uma fonte de nova vida. civil. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . adquiridos ou natos. desenvolvida e próspera. em face da sua inclusão na sociedade. em face da concentração secular de boas escolas e centro de estudo. novas perspectivas em uma pátria rica. econômica e laboral do estrangeiro. quer se enquadrem no gênero de imigrante sem a devida escolaridade ou integrante do grande sistema de inclusão social no país emigrante (Brasil).7 De igual sorte encontram-se os profissionais em busca de novas perspectivas acadêmicas. a Europa. necessário se faz a reflexão sobre a necessidade de se admitir a inclusão social. tem a comunidade de imigrantes brasileiros constituído-se naquela que mais cresceu desde o final da década de noventa até os dias atuais. como são conhecidos nos centros de estudos migratórios. Vislumbra-se que tais pessoas retornam na sua maioria ao seu país de origem. inobstante a categoria que possa vir a integrar-se. a exemplo da Constituição Européia que assim o deseja. ou seja. do estrangeiro e do individuo. ai se incluem aqueles que buscam na pátria acolhedora o fortalecimento dos conhecimentos científicos e acadêmicos. sendo o cidadão aquele ser humano que possui o exercício e gozo dos direitos civis. convertendo seu conhecimento em garantias de melhores condições de empregabilidade e inclusão profissional. peculiar interesse têm em desenvolver técnicas de aprendizado e melhor aproveitamento das teses e conhecimentos do velho mundo.

os diminutivos culturais e o temido choque de costumes. trazendo para o conjunto de análises da constituição de uma sociedade integrada o respeito na elaboração de políticas públicas exigíveis no plano da migração. sem fazer delinear para com os seus novos compatriotas as diferenças. eis que somente a adoção de políticas adequadas ao reconhecimento da força ativa em proveito da construção da sociedade que o acolhe o cidadão imigrante poderá sentir-se fortalecido o suficiente para aceitar a integração plena. faz-se indagar: é fundamental diminuir a influência do estado na construção de uma nova acepção sobre as estruturas de um novo regime democrático. posto que o retrato da democracia nestes países assolados pela falta de investimentos de base e total desrespeito ao homem e a cidadania. reconhecendo o efetivo ajuste desta sociedade sob ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . muitas vezes arrasadores na aceitação do coletivo ante a nova perspectiva de vida por ele sonhada ao chegar na sociedade que o acolhe. do esforço de se alertar as novas gerações sobre tais questões que preocupam a sociedade moderna. buscando no país receptor (Portugal) a pátria que poderá conceder melhor perspectiva de engrandecimento intelecto-social. Conclusão Tais questionamentos refletem a ligação do homem como reflexo da sociedade na qual se encontrar engajado. atendendo-se aos anseios da cidadania? Qual o retorno. em especial a necessidade de cobrança da atuação efetiva e proactiva do Estado e das demais Instituições em favor da formação do Homem? Desta forma. a cidadania do imigrante somente poderá se efetivar quando o Estado reconhecer a necessidade de se desenvolver políticas publicas adequadas à inserção deste coletivo sob o prisma do reconhecimento social via inserção laboral. não se pode deixar de auferir que a cidadania é elemento constitutivo da sociedade devidamente instituída e legalmente formada. ao que tange à formação de uma consciência política e social. quer como elemento de desenvolvimento social. democrática. quer na qualidade de vetor imprescindível a este desenvolvimento.8 quer sejam aqueles que buscam um aperfeiçoamento no seu grau de enriquecimento humano. Em conclusão.

levando-se em consideração os conceitos básicos de similitude de cultura. Madrid. La doble moral de las organizaciones. Adolfo. MacGrawhill. Jorge. (1997). Ética e Política em Aristóteles: physis. RAMOS. Ethos. (1996). nomos. Ética. Rio de Janeiro. Da Comunidade Internacional e do seu Direito. edição 2005. VERGINIÈRES. traçando um panorama plausível na elaboração de meios reais para melhor acolher o imigrante brasileiro em Portugal. assim como analisando de forma plena as políticas de acolhimento.9 o ângulo do imigrante que se insere na comunidade que o acolhe. MOURA. Coimbra. Paulos. (1998). São Paulo. Rui Manual Gens de Moura. (1986). ed. Construindo a cidadania. Los sistemas perversos y la corrupcion institucionalizada. língua e hábitos similares entre tais coletivos. Referências Bibliográficas ETKIN. Makron Books e PUC – RIO. São Paulo. (1996). Civilização Brasileira. Laércio Dias. _______ Imigração: os mitos e os factos. Coimbra editora. Solange. ACIME – Alto comissariado para a Imigração e Minorias Étnicas. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . VASQUEZ.

o projecto procura identificar.pt Universidade Fernando Pessoa . parlamento. de forma diacrónica. mas também a forma como essa dimensão se cruza com o pragmatismo político-institucional. O presente trabalho. nas ciências sociais e política. análise de discurso. no actual contexto político português. uma apresentação de ideias emergentes de trabalhos recentes de análise do discurso parlamentar. Palavras-chave: imigração. mas atendendo também ao enquadramento do processo legislativo. as linhas estruturantes das posiçõestipo assumidas em matéria de imigração pelas diferentes forças políticas em presença.Porto cramos@ufp O presente texto apresenta o ponto de partida metodológico e as linhas gerais da operacionalização de um estudo decorrente sobre discurso político parlamentar e integração de imigrantes. uma explicitação do plano e pressupostos da pesquisa em curso. aborda o modo como o discurso político constrói a integração de imigrantes.Discurso político e integração de imigrantes: uma análise do discurso parlamentar Cláudia Toriz Ramos Centro de Estudos de Antropologia Aplicada . Com particular recurso aos debates plenários. Estrutura-se em torno de três itens fundamentais: uma abordagem breve à análise de discurso. o trabalho abordará não apenas a dimensão da construção ideológica associada ao discurso de cada uma das forças políticas representadas no Parlamento português. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . a decorrer no âmbito do projecto Processos de integração social e económica de imigrantes do Centro de Estudos de Antropologia Aplicada da Universidade Fernando Pessoa. nomeadamente nas vertentes da discussão e tomada de decisão legislativa e do controlo da execução de políticas. discurso político. integração. Centrando-se no discurso político parlamentar.

A análise do discurso político A análise de discurso. a antropologia. o terceiro. Esta linha de estudo. mas sim o plano que para ela foi gizado e a sua razão de ser. para os objectivos do presente trabalho. Daí decorre também a análise das interacções inerentes ao diálogo entre os falantes e. a ciência política e as ciências da comunicação usam de forma recorrente a análise de discurso. tais abordagens subdividem-se numa pluralidade de práticas investigativas. Taylor e Yates. 2001. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . do ponto de vista disciplinar. Taylor e Yates. para o contexto parlamentar português e para o tema da imigração. 2001a). de forma mais lata. não se pretende apresentar resultados. Ao presente. a linguística. deve ser colocada. O texto que se segue estrutura-se em torno de três itens fundamentais: o primeiro. 2001. sendo assim este um contributo transdisciplinar. encarada na perspectiva das metodologias de investigação das ciências sociais. no âmbito dos estudos de ciência política sobre discurso político parlamentar. corresponde a um vasto campo de estudo que toma o discurso – oral e/ou escrito – como objecto. Do ponto de vista metodológico. Em comum. uma apresentação de ideias emergentes de trabalhos recentes de análise do discurso parlamentar. Se abordados os suportes teóricos e filosóficos dos diversos modos de análise do discurso encontra-se também uma pluralidade de posicionamentos. 2001a). referir. no quadro teórico e metodológico das ciências sociais e política. não necessariamente contínuas entre si (Wetherell. a psicologia social. uma explicitação do modo de operacionalização da presente pesquisa. terão a acepção de que o discurso é parte da acção social e como tal pode ser estudado. o segundo. do contexto social do discurso (Wetherell. um breve apontamento acerca da análise de discurso. centrada no modo como o discurso político parlamentar constrói a integração de imigrantes. Estando esta abordagem na sua fase inicial.2 Esta comunicação corresponde a uma notícia preambular sobre essa perspectiva de abordagem à problemática da imigração. que não caberá. mas também a sociologia. por relação com o âmbito teórico e temático da antropologia. sobremaneira.

Hansen. Todavia. a abordagem ao discurso é entendida essencialmente como uma metodologia. considerando-o circunstancial ou mesmo Também em Waever: «…a linguagem é um sistema e podemos estudar a sua estrutura como um estrato separado da realidade» (2002: 29). por relação com o pensamento. ou pouco razoáveis (2004: 199. cujas características cabe analisar. também uma abordagem em expansão. Isto é. ressalvando-se a sua maleabilidade a diferentes abordagens teóricas de fundo. Neste sentido. as percepções e as crenças dos sujeitos. a palavra assume um papel nuclear na explicitação de ideias. Diez. 2004: 6.3 A análise do discurso político é. 2006. considerando-o interessante por si próprio. enquanto construção mental ou realidade ideada. na captação de adesões. traduzido). Muitos dos estudos recentes baseados nesta abordagem filiam-se. Waever afirma 1 : A análise de discurso procura identificar. em diversos âmbitos da ciência política. no entanto. numa perspectiva ligeiramente diferente. porque. As abordagens ditas cognitivistas tenderão a procurar aplicar parâmetros de verdade ou falsidade ao discurso. Por um lado. na argumentação e contra-argumentação de causas. Por outro porque. Poder-se-ia dizer que a política democrática começa no discurso e por vezes mesmo nele se finda (Chilton. independentemente de referenciais de verdade ou falsidade. Definem-se. Chilton (2004: 21). 2001. e ao contrário do que o senso comum frequentemente afirmará sobre o mesmo. em declarações públicas as estruturas e os padrões que regulam o debate político fazendo com que algumas coisas possam ser ditas enquanto outras seriam sem sentido ou menos fortes. Outro aspecto salientado pelo autor é o das características de sistematicidade e coerência do discurso político. no contexto da política democrática contemporânea. Ver. na tomada de posições públicas. a análise de discurso pode centrar-se “apenas” neste. assim. 2006). Hansen. 1 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . nos planos teórico e metodológico. em sentido lato. 2001. Rosamond. É corrente que tais análises se centrem no estudo das “estruturas de sentido”. a acção política é o próprio discurso (Chilton. 2002). 1992) específicas do âmbito da política. Waever. “comunidades de discurso” (Porter. construídas através do discurso. nos paradigmas construtivistas e pós-estruturalistas aplicados à ciência política (Adler. Em alguns casos. 1997. 2004: 6).

» (Waever. por exemplo. este revela uma estruturação interna sólida e continuada. mas também uma larga análise de contexto. e analisa criticamente os que estão no poder. procuram descrever e explicar o padrão específico dos sistemas de linguagem e da comunicação verbal» (2001: 19-20. traduzido). da retórica. traduzido). a abordagens “micro”. que procuram identificar padrões de conjunto do quadro conceptual do discurso político. e os que têm os meios e a oportunidade de resolver esses problemas (cit. Veja-se por exemplo a afirmação de van Dijk: Para lá da descrição ou de aplicações superficiais. nomeadamente do político. O autor afirma: “Os analistas do discurso estarão mais frequentemente interessados em perceber como um político argumenta do que estarão interessados no que ele diz. Uma outra linha de abordagem define-se no quadro da chamada “análise crítica do discurso” a qual conjugará ambas as dimensões. Tirar daí consequências para a acção política é assim intenção expressa. 2001:1. embora com terminologia algo diferente. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . 2001: 19-20) 2 . Meyer afirma: «As teorias do discurso visam a conceptualização do discurso enquanto fenómeno social e procuram explicar a sua génese e a sua estrutura. centradas em técnicas linguísticas de análise detalhada do texto (Waever. a ciência crítica formula. Esta escola tem desenvolvido o seu trabalho com relação com a “teoria crítica” e assume posicionamentos normativos. por enquadrar técnicas de análise linguística. entre outros: os de Siegfried Jäger. Do ponto de vista metodológico este modelo de abordagem releva mais da hermenêutica do que dos métodos analítico-dedutivos. M. 1995. parte de problemas sociais prementes e consequentemente opta pela perspectiva dos que mais sofrem. os que são responsáveis. em cada domínio. 2004: 201). dos interesses ou da ideologia. 2001).4 errático. São exemplos de estudos desenvolvidos nesta perspectiva. da gramática. teorias da argumentação. ao distinguir teorias do discurso de teorias linguísticas (Meyer. 2001) que publicaram «The semiotics of racism» e 2 A este propósito. Em vez de focar problemas puramente académicos ou problemas teóricos. Wodak e Meyer. Esta distinção é também utilizada por Meyer. outras questões. traduzido). os de Reisigl e Ruth Wodak (2000. O autor contrapõe abordagens “macro”. in Wodak. em associação com a ideologia e as relações de poder (Fairclough. Um terceiro aspecto prende-se com os tipos de análise de discurso em presença. tias como as da responsabilidade./ As teorias linguísticas. 2002: 30. sobre os discursos de extrema direita na Alemanha (2001: 32).

Em parte. não procura chegar ao pensamento ou aos motivos dos actores.5 «Discourse and discrimination. um bom exemplo é a obra editada por Waever e Hansen (2002) sobre identidades nacionais no contexto da integração europeia. (…) Se nos limitamos ao nível do discurso. em matéria de investigação politológica. Numa óptica que se reclama do pós-estruturalismo. 2002: 42). s. Afirma ainda: A análise de discurso trabalha sobre textos públicos. para os casos dos quatro países escandinavos – Dinamarca. Finlândia e Noruega. no discurso político e parlamentar. traduzido). Waever apresenta a tarefa do investigador como «a procura de pequenas constelações de conceitos que produzem um núcleo de sentido. Os autores basearam-se substancialmente numa análise da construção das ideias de nação.). O discurso parlamentar A análise do discurso político parlamentar. Do ponto de vista metodológico. Rhetorics of racism and antisemitism». o modelo desenhado por Waever foi já aplicado ao discurso parlamentar português. cuja aparência de alguma desestruturação interna se dissolve quando se identificam os núcleos de sentido recorrentes que ele comporta (Waever. o autor chama a atenção para a coerência das representações evidenciadas no discurso parlamentar. ganha todavia novas perspectivas. não sendo um exercício novo. se enquadrada nos enfoques de análise do discurso acima referidos. de estado e de Europa. às suas intenções secretas ou aos seus planos.d. Desse ponto de vista. respectivamente sobre identidade nacional e integração europeia e sobre construção do Estado. o discurso populista e o discurso racista. a partir do qual muito do discurso nacional poderá ser gerado» (2002: 24). 2005. Este último aborda o discurso do anti-semitismo. 2002: 26. pela autora do presente texto (Ramos. Suécia. Tal análise visou justamente identificar e interpretar as posições chave estruturantes do ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . a lógica dos seus argumentos torna-se muito mais clara (Waever.

o emprego. o que poderá vir a permitir uma análise comparativa entre os discursos de imigração e de emigração. constitui uma hipótese de trabalho interessante mas carece de comprovação. Temas circunvizinhos como a nacionalidade. Porque a questão é histórica e sociologicamente premente para a sociedade portuguesa. Estão. para os temas mencionados. o presente projecto de investigação decorre do cruzamento do projecto «Processos de integração social e económica de imigrantes» com a perspectiva de investigação sobre estruturas discursivas do debate parlamentar português. e bem assim o contexto em que as questões surgem (nomeadamente. entre outras. Chilton (2004: 92-109) apresenta ainda uma outra abordagem ao discurso parlamentar. Discurso parlamentar português e imigração Como foi anteriormente explicitado. são também identificadas e analisadas as alusões à emigração portuguesa. a necessidade de estudar cuidadosamente as estruturas regimentais e informais de enquadramento do discurso parlamentar. a cidadania. debate corrente nos media). preparação prévia. centrando-se no parlamento britânico e em particular nas sessões de perguntas e respostas (“question time”). de acordo com a agenda política e parlamentar. agenda política. por uma sociedade tradicionalmente de emigração e com episódios muito recentes de fortes fluxos emigratórios. A ideia de fundo é identificar no debate parlamentar as posições chave assumidas pelos diferentes partidos políticos e governo relativamente à questão da imigração. por isso. segurança e justiça e o discurso de direitos serão também analisados. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . A ideia de que a questão da integração de imigrantes possa ser vista de uma forma particular. procurando a sua correlação com o contexto político e com os posicionamentos político-partidários.6 discurso parlamentar. o espaço de liberdade. observando detalhadamente a estrutura das interacções (inclusivamente as não verbais) estabelecidas na arena parlamentar. Esta análise disseca o discurso parlamentar num nível “micro”. a ser isolados e analisados os debates em que o tema é abordado. Deste trabalho parece ressaltar. eventualmente positiva.

lhe possam vir a ser acrescentados documentos resultantes de trabalhos em comissão (e eventualmente registos vídeo de uns de outros). poderá. que ainda não foi ensaiada. todo o processo político associado à integração europeia é relevante para a compreensão do objecto. revelar-se de alguma utilidade. marcam os pontos de referência necessários a uma análise diacrónica. em fase posterior. é ainda relevante para a contextualização um estudo sistemático das condicionantes regimentais e do modus faciendi próprio do Parlamento português. A análise micro. Encarado o Parlamento no seu interior. O procedimento que tem vindo a ser seguido filia-se nas linhas gerais da orientação para a aplicação da análise de discurso às ciências políticas como a apresenta Ole Waever (detecção de estruturas de sentido. para a história da democracia portuguesa. isto é. Para a análise de contexto. permitindo assim a detecção dos temas que ditam ou condicionam a actividade parlamentar. à questão das atitudes sociais e políticas condicionantes da integração dos migrantes e ao debate sobre os modos da ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Por sua vez. embora se admita que. como não poderia deixar de ser. o contexto económico e social de fundo e a identificação dos momentos-chave (“critical junctures”). A documentação em análise é constituída pelo registo escrito dos debates plenários parlamentares. utilizam-se também materiais complementares do debate público nos media e. Este desenvolve-se a partir de 1986. a legislação relevante sobre os temas enunciados acima produzida no Parlamento. supracitada). os insights da análise crítica do discurso levantam um conjunto de questões que permitem reconduzir a análise do discurso à temática de partida do projecto de investigação. Por outro lado. enunciada acima. nomeadamente no que respeita à hipótese sustentada numa análise comparativa.7 O estudo pretende-se longitudinal. na evolução nacional e internacional da imigração. Entende-se que a análise diacrónica poderá acrescer à interpretação desta documentação. mas é antecedido por toda uma preparação política e legislativa de que os debates parlamentares fazem eco e parte constituinte. balizando-se entre 1976 e a actualidade. no seu tudo. A análise de contexto carece ainda de uma análise cuidadosa da agenda política concomitante com as iniciativas legislativas e debates parlamentares. em posteriores rondas de recolha de material. económico e político da União Europeia. e uma vez que o fenómeno da imigração em Portugal tem uma forte correlação com a integração de Portugal no espaço territorial. Por sua vez.

No quadro da análise dos posicionamentos ideológicos e das relações de poder. The challenge of the Nordic states.). o discurso parlamentar ganhará certamente acrescidas potencialidades de leitura. Taylor & Francis. Referências Bibliográficas ADLER. Knud e Wiener. Londres. no discurso político sobre imigração. maior normatividade do que aquela que é inerente a todo o acto de investigação científica. The Social Construction of Europe. De outro modo dito. Michael (eds. Routledge. Londres. Sage. CHRISTIANSEN. Sage. Ainda assim. FAIRCLOUGH. Thomas. Sage. Antje (eds.). Antje (eds. HANSEN. 32-62. The Social Construction of Europe. nas finalidades deste trabalho. Lene e WAEVER. Londres. Thomas. Michael. não é também de excluir a hipótese de que a desconstrução desses discursos possa evidenciar atitudes bem mais reticentes do que as que aparentemente emergem da letra do discurso político. 2004. “Seizing the Middle Ground: Constructivism in World Politics” in European Journal of International Relations. CHILTON. Londres. European Integration and National Identity. Analysing Political Discourse: Theory and Practice. 2006.). não se assume. Paul. 2001. sendo hipótese plausível à partida que. Londres.) 2002. “Between theory. MEYER. Londres. Thomas. Londres. Siegfried. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . 1997. Emmanuel. Ole (eds. Jorgensen. JÄGER.) 2001. Security as Practice: Discourse Analysis and the Bosnian War. Lene. “Speaking ‘Europe’: The Politics of Integration Discourse” in Christiansen. 3 (3): 319-363. 85-100. 2001. Ruth e MEYER. Sage. “Discourse and knowledge: theoretical and methodological aspects of a critical discourse and dispositive analysis” in Wodak. 14-31.8 operacionalização de tal integração. Routledge. a tendência dominante seja a da afirmação da necessidade da integração. Methods of Critical Discourse Analysis. Ruth e Meyer. method and politics: positioning of the approaches to CDA” in WODAK. 2001. Michael (eds. DIEZ. Methods of Critical Discourse Analysis. Critical Discourse Analysis: The Critical Study of Language. 1995. Norman. Londres. Longman. Knud e WIENER. JORGENSEN. HANSEN.

158-173. Oxford.). RAMOS. Michael (eds. REISIGL. Thomas. Oxford U. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . WAEVER. Stephanie e YATES. WODAK. 1-13. Joseph. New Jersey. Stephanie e YATES. Ole. Oxford U. Simeon (eds. Vienna. Thomas (eds. European Integration and National Identity. Antje e DIEZ. RAMOS. The challenge of the Nordic states. Discourse as Data: a Guide for Analysis. The semiotics of racism. Margaret. Ben. Ruth (eds. ROSAMOND. Cláudia.). Londres. 1992.) 2001a. Oxford. Lene e WAEVER. “What CDA is about – a summary of its history. Sage. Sage. Sage.) 2001. “Discursive Approaches” in WIENER. European Integration Theory. Margaret. Sage. Routledge. s. Michael e WODAK. Simeon (eds. WETHERELL. 2002. Rhetorics of racism and anti-Semitism. Thomas (eds. Cláudia. 2001. Audience and Rhetoric: An Archaeological Composition of the Discourse Community. Pamplona.). Londres. Michael e WODAK Ruth. European Integration Theory.). WAEVER.) 2000. JORGENSEN. Methods of Critical Discourse Analysis. Sage. Discourse Theory and Practice: a reader. Ole. Ruth e MEYER. Michael (eds. Londres. Navarra [prelo]. Antje e DIEZ..P. Methods of Critical Discourse Analysis. “Discourses of Globalization and European Identities” in CHRISTIANSEN. Londres. 2001. 2001. Discourse and discrimination. communities and foreign policy: discourse analysis as foreign policy theory” in HANSEN. WODAK. important concepts and its developments” in WODAK. p. 2005. Londres. WIENER. TAYLOR. REISIGL. 9: 67-96.).). The Social Construction of Europe. Knud e WIENER. Londres.d. Univ. 20-49. Routledge. “Identity. “Is Portugal a “strong state”? An analysis of Portuguese political discourse on the state of the state. “Discurso parlamentar português e construção da identidade política no contexto da integração europeia” in Antropológicas. Ruth e MEYER. Antje (eds. Londres. Ole (eds. Ruth. 2004. in a context of transnationalisation” in VIII Congreso de Cultura Europea. Prentice Hall. TAYLOR. WETHERELL. 2001.9 PORTER. Passagen Verlag.P.

e releva. vindos do estrangeiro. com sentido prospectivo. em forma de reflexão. No pressuposto de que a sociedade civil. Apresenta-se aqui um conjunto de opiniões e de percepções sobre a imigração e. mutuamente. encontrarem respostas satisfatórias à instituição de uma política estratégica capaz de servir. nele se radicam. sobretudo. isto é. para a necessidade premente de se fixar um Livro Branco para a imigração em Portugal. Introdução A imigração constitui uma matéria de enquadramento legal particularmente delicada. A ausência de uma política de imigração que considere.OPINIÕES E PERCEPÇÕES SOBRE A IMIGRAÇÃO: CONTRIBUTO PARA A DEFINIÇÃO DE UMA POLÍTICA DE IMIGRAÇÃO PARA PORTUGAL Rui Leandro Maia Centro de Estudos de Antropologia Aplicada Universidade Fernando Pessoa – Porto A partir do tratamento de um vasto conjunto de informações provenientes da aplicação de um inquérito por questionário a uma amostra da população portuguesa de maior idade. o País e os que. fundadas em percepções e em interesses parciais e não com base em conhecimentos sustentados sobre o que as populações pensam da imigração e dos imigrantes. o texto propõe um modelo possível de integração social e económica de imigrantes. Pressupõe a existência de condições económicas. pensam e querem o conjunto de respondentes a um questionário construído para o efeito. pluralista e dinâmica. para além do número. e. as tipologias de políticas de imigração que advoga em relação com os espaços sociais com que se identificam as “categorias” dos respondentes. Mas a norma tem sido a de fixação de “políticas” de imigração “de cima para baixo”. o perfil tipo do imigrante em favor da sociedade receptora deve conduzir à reflexão alargada muito para além do que julgam e podem ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . descreve-se o que ela opina e percepciona sobre a imigração e os imigrantes. com capacidade executiva e legislativa. procura-se desenhar perspectivas sobre a imigração “de baixo para cima”. sociais e culturais de integração daqueles que a representam e não cabe em exclusivo aos decisores. é referência para a fixação de qualquer contrato social. a partir do que sabem.

2 aqueles que estão transitoriamente mandatados e. valores que correspondem à oscilação esperada para os alunos que frequentam o ensino superior em geral. carece de ampla participação cívica na perspectiva de. seguido do de Braga. os casados e os que estão a viver maritalmente 9. sendo residuais os valores referentes a outras categorias possíveis de estado civil.8 por cento.3 por cento. com 10. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . ao invés. E essa só se alcança com aceitação e participação social alargada. Estão sobretudo adstritos a actividades relacionadas com o comércio e os serviços. com um intervalo de amplitude de 46 anos. 63. Os alunos nascidos no distrito de Aveiro representam 17.7 por cento. e a idade média dos elementos dos 202 elementos do século feminino é de 23. 2. com 15.3 por cento do total.3 por cento e 2. considerando os do ensino pré-universitário.3 anos. em consequência de aqui estarem radicados muitos respondentes por estarem a estudar.3 por cento do total dos respondentes.3 por cento.7 por cento. 2. São sobretudo de religião católica.1 por cento de respostas referentes à não filiação em qualquer credo e.0 por cento.4 por cento. com um intervalo de amplitude de 40 anos. respectivamente. uma minoria.3 por cento. com 7. e os restantes 97. A idade média dos 98 elementos do sexo masculino inquiridos é de 25. valor elevado e compreensível tendo em conta o estado da economia nacional e internacional e as baixas oportunidades de emprego. sobretudo em relação ao mercado de trabalho capaz de absorver mão-de-obra possuidora de formação superior. 43. com estratégia. Os solteiros representam 86. As origens geográficas dos alunos estão essencialmente concentradas pelo Norte do País. 82.5 anos. 25.2 por cento. com 12. todos universitários de cursos de licenciatura em regime diurno ou em regime nocturno. de outras confissões. com o distrito do Porto em maior evidência. se associar ao processo imigratório uma política de integração. seguido do de Braga. Os respondentes nascidos no estrangeiro representam 7. com o distrito do Porto em evidência.5 por cento. e do de Viana do Castelo. Os distritos onde residem estão também essencialmente concentrados pelo Norte do País. O número de alunos que exerce ocupação / profissão.6 por cento. com 5.3 por cento. é significativo. e do de Viana do Castelo.8 por cento dos alunos. A preocupação em relação à situação económica é manifesta por 78.9 por cento.

não estando tão presentes.4 por cento. dos respondentes não tem contactos frequentes com imigrantes. as percepções e as perspectivas sobre a imigração se relacionam e diferenciam em função e consoante as regiões de origem dos imigrantes. em espaços públicos. simultaneamente. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Tem por base empírica a recolha de informações por um inquérito por questionário que.7 por cento refere contactar com imigrantes nas terras onde residem quando não estão no Porto e 8. a maioria.6 por cento e a esquerda com 19.9 por cento. Mas é de relevar que. ou seja. no trabalho. 70.1 por cento e o centro-esquerda com 7. 39. com 0. a direita com 21. descreve que eles ocorrem no dia-a-dia. 68. em número de trezentos.7 por cento. O posicionamento manifesto no texto parte do princípio de que as opiniões. Para além dos elementos referentes à caracterização sócio-demográfica da amostra não representativa colhida.4 por cento. exploram-se sobretudo questões relacionadas com algumas perspectivas sobre a imigração. Dos que referem ter. As opiniões dos respondentes são aqui literalmente transcritas. em ambiente de estudo. dos 300 indivíduos respondentes. as que estão representadas entre nós com maior acuidade e as demais que.3 por cento contacta com imigrantes em casa. considerando. por isso. uma divisão dicotómica coloca os indivíduos situados à direita e em minoria.0 por cento. descreve-se o que querem os respondentes da imigração e dos imigrantes para Portugal em matéria de impedimentos. após validação.5 por cento. Metodologia Esta proposta assenta no princípio de que a sociedade civil deve ser auscultada. respectivamente a extrema-direita. com vista à fixação de uma política estratégica. e a extrema-esquerda. em relação à imigração e à integração de imigrantes. apresentados os extremos valores residuais. Um pouco mais de dois terços. 21. de autorizações e de qualidades relacionadas com escolaridade e com experiência de trabalho.3 Quanto à orientação política.9 por cento manifesta não saber ou não responder sobre a orientação política que os norteia. foi lançado na primeira quinzena do mês de Março de 2006 a um público específico. com 1. o centro-direita com 9. frequentador habitual das bibliotecas da Universidade Fernando Pessoa – Porto.

2 por cento. seguidos dos que aceitam a imigração em qualquer idade. dos que dizem não saberem ou não responderem. A maior parte dos respondentes considera que ela deve situara-se nos que têm entre os 20 e os 29 anos. Essas preferências remetem para a existência de uma consciência sobre a imigração e a necessidade de se adoptarem políticas estratégicas para o País e é sobre elas que este texto reflecte. dos imigrantes.7 por cento. 7.5 por cento. Mas os restantes 40.5 por cento. 11. fundamentalmente variável a variável. 2.0 por cento. acham que o Estado não deve seleccionar. dos que têm entre os 15 e os 19 anos. de qualquer forma. uma vez que a investigação de conjunto está ainda em desenvolvimento e terá conclusão prevista até ao final do ano de 2007. Uma análise dos discursos dos respondentes.3 por cento. e dos que têm mais de 50 anos. para cada uma das opções tomadas. 20. 19. dos que têm menos de 15 anos. configuram explicações reveladoras de preferências por uma imigração condicionada à existência de um a série de requisitos. os estrangeiros que querem vir para Portugal. Conquanto não exista qualquer manifestação de preferência de fixação dos imigrantes no nosso País pelo seu sexo. 37. por entender ser melhor. Para os que entendem que os imigrantes devem vir para Portugal entre os 20 e os 29 anos os discursos podem dividir-se em três grupos: ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .4 também induzam à tomada de posições relativamente ao conjunto de questões contempladas. há uma manifestação dispersa pelas categorias consideradas sobre se a imigração deve corresponder a determinada faixa etária.7 por cento. dos que estão entre os 30 e os 39 anos. 1. Os dados apresentados são ainda de nível exploratório primário.5 por cento. 58. face às questões que aqui foram consideradas para tratamento e análise. Discussão de resultados A maior parte dos inquiridos.7 por cento. permite entender como se posicionam em relação à imigração e ao que pretendem.

representando 50. para trabalhar e não para ter qualquer tipo de ajuda. que querem ganhar dinheiro. representando 39. O que justifica a idade por motivos educacionais. Pessoas mais novas. A formação de um aluno fica cara ao Estado. Trata-se de uma idade em que a adaptação é mais fácil. Pessoas com ambição e com vontade de trabalhar. daí trabalharem e serem importantes para o desenvolvimento económico do nosso País. e vêm para o País trabalhar e não beneficiar de ajudas. São pessoas em início de vida.0 por cento das justificações aduzidas: • • • • • • • • • • • • • • A população portuguesa está a ficar envelhecida. dos imigrantes a admitir no País por motivos económicos e sociais essencialmente. 3. Contribuir para o desenvolvimento do País. Física e psicologicamente mais preparados para o trabalho. representando 7. Porque se encontra em idade de produção. já adquiriram um nível de educação superior à média.5 1. Idade onde eles podem contribuir para o desenvolvimento do País mais activamente. A entrada de imigrantes jovens e com formação superior e conhecimentos é uma mais-valia para o País.3 por cento das explicações aduzidas: ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . às suas expectativas e ambições. Fase de maior capacidade física e psicológica. relativamente jovem. Porque já possuem alguma escolaridade e já são maiores de idade. às suas realizações pessoais. E o que apresenta motivos essencialmente associados à vida dos imigrantes. com capacidade. 2. Porque são jovens adultos. podendo contribuir para o crescimento sócio-económico.1. O que justifica a idade. por cento das explicações aduzidas: • • De preferência. São os mais produtivos. Porque são idades em que o rendimento/ produtividade no trabalho é maior. com espírito de trabalho e disponibilidade. à partida. como é o caso dos idosos. supostamente.

até porque é nesta idade que está patente a aventura. não custa tanto nesta idade. É necessário ter em conta a fase de integração que é muito importante. mas que venham para trabalhar.4 por cento das justificações aduzidas: • • • • A população deve ser controlada de modo a que não haja injustiças sociais Desde que queira trabalhar e não cause desemprego para os de Portugal. Porque é a idade onde começa uma nova vida e há mais perspectivas futuras. Pelo facto de não serem menores. Jovens. Estão numa idade de procurar uma vida melhor.6 • • A vontade de "crescer na vida" aumenta neste escalão etário. O que justifica a admissão dos imigrantes por motivos pessoais..2 por cento das justificações aduzidas: • • • Porque qualquer pessoa tem direito a tentar melhorar a vida. representando 22. E esta integração. Todos somos iguais. Idade propícia a uma integração mais rápida e ainda com possibilidade de formação ideal. e por estarem num nível etário em que precisam de trabalho para serem alguém na vida. • • • • • • • • • Encontram-se numa boa idade para começar a delinear livremente a sua vida. Para os que entendem que os imigrantes podem vir para Portugal em qualquer idade os discursos podem dividir-se em quatro grupos: 1. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . a conhecer locais novos. Idade com melhor integração na comunidade. caso não a tenha no seu país de origem. Sendo menor. O que justifica a admissão dos imigrantes por motivos económicos e sociais essencialmente.. 2. Poucas. Mais expectativas nestas idades. Por serem maiores de idade para poderem ter mais condições de vida. representando 44. se calhar. a sua sobrevivência tem que ser assegurada pelos pais ou familiares.

Idade adulta – mais responsáveis/ maduros/ com objectivos construídos. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .1. em consonância com a opção de resposta. • • • Idade intermédia – aptos para trabalharem. Penso que a idade não é determinante mas sim a motivação e os objectivos dos imigrantes.7 por cento das justificações aduzidas: • • Aumenta o número de pessoas aptas para trabalharem e assim contribuem para o desenvolvimento económico do País. entender a língua portuguesa. O que justifica a admissão de imigrantes por motivos educacionais.2 por cento das justificações aduzidas: • • Não há idade determinada para se poder imigrar para qualquer país. Embora os que referem não saber ou não responder não apontem qualquer grupo de idades. sem vícios de trabalho. são três as justificações avançadas: • • • A idade implica que estes tenham maturidade suficiente e valores definidos. E o que. 4. representando 11. provavelmente. alguma maturidade e.7 3. Não faz sentido falar em idade para a imigração ou emigração. por cento das razões aduzidas: • Importância na aprendizagem da língua. Para os que entendem que os imigrantes devem vir para Portugal entre os 30 e os 39 anos os discursos podem dividir-se em dois grupos: 1. Só se for para trabalhar seriamente. representando 22. adaptarse a uma nova cultura. Relativamente novos – para. com o seu contributo profissional. representando 85. Melhor [por] estarem dentro da idade para trabalharem. não dão quaisquer motivos específicos para associar a idade ao acto de imigrar. Maior aptidão para o trabalho. ajudarem a economia do País. O que justifica a idade dos imigrantes a admitir no País por motivos económicos e sociais essencialmente.

8

Porque já são pessoas com experiência e a integração num novo país não vai ser tão dificultada.

2. E o que apresenta motivos associados à vida dos imigrantes, às suas realizações pessoais, às suas expectativas e ambições, representando 14.3 por cento das explicações aduzidas: • Porque terão uma idade mais madura para fazerem essa opção.

Para os que entendem que os imigrantes devem vir para com idade inferior a 15 anos os discursos referem-se a motivos de natureza social e económica: • • • Adaptação. Há uma melhor inserção no País de escolha. Não deveria haver imigração, mas, a haver, os imigrantes devem ser o mais possível novos: integram-se melhor. A existência de imigrantes é o oportunismo de alguns. • Pois seriam portugueses, pois iriam contribuir para o País como portugueses, desde terem a escolaridade obrigatória e mais tarde terem direito a uma reforma porque contribuíram para o Estado. • São criadas normas de ensino e saber estar num país que não é o deles. Logo, conseguem adaptar-se melhor.

Para os que entendem que os imigrantes devem vir com idades entre os 15 e os 19 anos, os discursos referem-se a motivos económicos e sociais: • • É a idade adequada para se adaptarem a quase tudo, têm maior independência e maior autonomia. Podem assegurar vários tipos de trabalho. Pois são pessoas ainda jovens que podem vir a realizar o trabalho que cá ninguém quer fazer, normalmente trabalhos mais forçados

Dos que entendem que os imigrantes devem vir para Portugal com mais de 50 anos nenhum respondente avançou explicações. A associação entre requisitos educacionais prévios e imigração identifica a prioridade para as pessoas que tenham realizado estudos, com 19,3 por cento e 26,9 por

ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA

9

cento das manifestações para os adeptos de que os imigrantes devem, respectivamente, possuir a escolaridade equivalente ao nosso ensino secundário e ao nosso ensino superior. Os adeptos do primeiro e do segundo ciclos do ensino básico são em igual valor percentual, 2,5, e do terceiro ciclo do ensino básico são 5,9 por cento. No entanto, 6,7 por cento dos respondentes optam pela não exigência de qualquer frequência escolar para os imigrantes e 36,1 por cento não sabe ou não responde. A imigração por fases colhe 69,7 de respostas favoráveis, 6,7 de respostas não e 23,5 por cento de não respostas, não sabe ou não responde. O sim foi mais expressivo, 90,8 por cento, na questão do estabelecimento de um número máximo de pessoas a admitir por ano como imigrantes, ficando o não pelos 4,2 por cento e o não sabe não responde pelos 5,0 por cento. A maior parte dos respondentes considera que deve existir algum grau de restrição à entrada de imigrantes, com maior expressão para os que pensam que ela deve ser elevada e moderada, 25,0 por cento cada, seguidas de perto pelos que pensam que ela deve ser baixa, 20,0 por cento, e, a alguma distancia, muito baixa, 8,3 por cento. Apenas 12,5 por cento consideram que não deve existir qualquer restrição à imigração e 8,3 por cento não sabem ou não respondem. A manifesta restrição à entrada de imigrantes, para as três regiões mais expressivas, é revelada em relação à China, com 17,1 por cento, a Outros Países de África, com 11,2 por cento, e aos PALOP, com 10,3 por cento na categoria “muito elevada”; é de 21,4 por cento para a Europa de Leste e repete-se para Outros Países de África, com 19,8 por cento, e para os PALOP, com 18,8 por cento na categoria “elevada”. As manifestas exigências de grau de escolaridade dos imigrantes são maioritárias na categoria “moderado”, com 50,4 por cento, “elevado”, com 33,1 por cento, “muito elevado”, com 3,3 por cento, “muito baixo”, com 1,7 por cento, “baixo”, com 0,8 por cento. 10,7 por cento, não sabe ou não respondem. As maiores exigências em relação ao grau de escolaridade colocam-se, naturalmente, em relação a quadros superiores, 45,5 por cento “muito elevada”, e em relação a técnicos profissionais intermédios, 57,0 por cento “muito elevada”. Para as profissões e ocupações de menores exigências habilitacionais a expressão de requisitos escolares é dominada pelas categorias “moderada” e “baixa”.

ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA

10

Da mesma forma em relação às maiores exigências em relação ao grau de experiência profissional para os quadros superiores, 44,2 por cento “muito elevada”, e em relação a técnicos profissionais intermédios, 45,0 por cento “muito elevada”. Para as profissões e ocupações de especialização a expressão do requisito experiência é dominada pelas categorias “elevada” e moderada”.

Nota de conclusão A posição de que ao Estado não cabe seleccionar, de qualquer forma, os estrangeiros que querem vir para Portugal é reveladora, na expressão maioritária que tem e tendo em conta as características dos respondentes – pessoas com um nível educacional acima da média – da ausência de uma consciência cívica estratégica para a imigração e para os imigrantes. É de assinalar que 58,7 por cento dos respondentes acham que o Estado não deve seleccionar os imigrantes. E para os restantes regista-se que: • Apesar de 37,5 por cento entender que os imigrantes devem vir para Portugal entre os 20 e os 29 anos, não há uma definição marcante de idade ideal. • As justificações sobre as opções de idades de imigração são, fundamentalmente, de carácter económico e social, seguidas das relacionadas com as competências educacionais e das relacionadas com os interesses e as expectativas dos imigrantes, numa distinção que nem sempre é clara pelas categorias de análise expostas. Há uma manifesta tendência pelas respostas justificativas da imigração como um todo por aquilo que a mesma representa de vantajoso para o País e não para as pessoas. • Há uma assunção clara pela aceitação de imigrantes com formação média e superior, uma associação entre as competências educacionais de base e as competências exigidas para o trabalho a desenvolver em Portugal, bem como destas em relação à experiência profissional de base.

Parece consensual que não é possível nem é desejável, no quadro geoeconómico em que se insere Portugal, parar a imigração. É possível geri-la de modo a que responda ao desafio, quase utópico, de contribuir para um benefício triplo: entre os países que nela se envolvem e para os actores que a sustentam. E isso implica um conhecimento

ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA

11

profundo do que a imigração e os imigrantes representam, em si e para a sociedade civil que com eles interage. O que se afirma é tanto mais importante quando a definição de uma política de imigração, para além do número, implica a preparação e a definição de uma política de integração de imigrantes, o que só se consegue com a colaboração da sociedade civil. O projecto a que este texto se associa pretende dar corpo a essa preocupação de auscultar o entendimento da sociedade civil, em forma de Livro Branco, sobre a imigração e os imigrantes. Ao que ele esboça, parece não existir um sentimento formado sobre o lugar da imigração e dos imigrantes na construção da nossa sociedade e, muito menos, sobre uma estratégia imigratória para o País.

Referências Bibliográficas

CÁDIMA, Rui e FIGUEIREDO, Alexandra, 2005, Representações (imagens) dos imigrantes e das minorias étnicas nos media. Lisboa: ACIME. LAGES, Mário e POLICARPO, Verónica, 2003, Atitude e valores perante a imigração, Lisboa: ACIME. LEANDRO, Maria Engrácia, 2000 “A construção social da diferença através da acção denominativa. O caso dos jovens portugueses perante as migrações internacionais” in Sociedade e Cultura 1, Cadernos do Noroeste, Série Sociologia, vol. 13 (1): 5-30. McANDREW, Marie, 2005 “Envolvimento do Canadá na área da imigração e da integração” in Globalização e Migrações (António Barreto org.). Lisboa: Imprensa de Ciências Sociais, ICS/UL: 75-99. OLIVEIRA, Catrina Reis de, 2005 Empresários de origem emigrante. Estratégias de Inserção Económica em Portugal. Lisboa: ACIME. ROCHA-TRINDADE, Maria Beatriz 2002 “A imigração em Portugal: contribuição externa para o desenvolvimento interno” in Imigração e Mercado de Trabalho (AA.VV). Cadernos Sociedade e Trabalho II. Oeira: Celta Editora: 145-160. ROSA, Maria João Valente, SEABRA, Hugo de, SANTOS, Tiago 2004 Contributo dos imigrantes na demografia portuguesa. O papel das populações de nacionalidade estrangeira. Lisboa: ACIME. VITORINO, António 2002 “Imigração para trabalho” in Imigração e Mercado de Trabalho (AA.VV). Cadernos Sociedade e Trabalho II. Oeira: Celta Editora: 3-11.

ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA

12

Este questionário destina-se a recolher informações junto de cidadãos portugueses de maior idade sobre a imigração e os imigrantes, ou seja, sobre aqueles que, sendo estrangeiros, fixaram residência em Portugal. Está dividido em três partes cada qual com a sua função: a primeira, de carácter identificativo, visa caracterizar os respondentes; a segunda, de carácter valorativo, visa perceber o que opinam e percepcionam os respondentes sobre a imigração e os imigrantes; a terceira, de carácter prospectivo, visa perceber que tipos de imigração defendem os respondentes. A sua participação, com resposta a todas as questões, é muito importante. I – Caracterização sócio-demográfica 1. Idade Anos 2. Sexo Masculi Femini no no

Solteiro(a)

Casado(a)

3. Estado Civil A viver maritalme Divorciado Separado(a nte (a) )

Viúvo(a)

Outra situação

4. Tem filhos? Sim Quantos ? Não

5. Qual é o grau de escolaridade mais elevado que frequenta ou frequentou? 1º Ciclo ou 2º Ciclo ou 3º Ciclo ou Ensino Nenhuma Ensino Ensino Ensino Ensino Secundário, frequência Primário, 1ª, Superior Preparatório Médio, 7, 8º 10º, 11º e 12º escolar 2ª, 3ª e 4ª , 5º e 6º anos e 9º anos anos classes

ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA

13

6. Trabalha? Sim Se sim, em que trabalha? Não

7. Está preocupado(a) com a sua situação económica? Sim Não

8. Refira o distrito, o concelho e a freguesia onde nasceu Distrito Concelho Freguesia 9. Refira o distrito, o concelho e a freguesia onde vive habitualmente Distrito Concelho Freguesia

Nenhuma

10. Qual é a sua opção religiosa? Católica

Outra Qual?

11. Qual é a sua orientação política? Extrema direita Direita Centro direita Centro esquerda Esquerda Extrema esquerda Não Sabe/ Não responde

II – Opiniões e percepções sobre a imigração 12. Contacta frequentemente com imigrantes? Sim Não Onde? 13. Assinale o grau de simpatia que tem em relação aos imigrantes das seguintes regiões: Não Muito sabe/ Eleva Mode Muito Nenh Eleva Baixa Não da rada Baixa uma da respo nde União Europeia Europa de Leste Países Africanos de Língua

ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA

14

Oficial Portuguesa Outros países de África América do Norte Brasil Outros países da América Central e do Sul China Outros países da Ásia Oceânia 14. Assinale o grau de importância que os imigrantes dão ao trabalho, segundo as seguintes regiões: União Europeia Europa de Leste Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa Outros países de África América do Norte Brasil Outros países da América Central e do Sul China Outros países da Ásia Oceânia 15. A impressão que os imigrantes têm e a forma como agem com os portugueses é: Não sabe/ Muito Modera Muito Boa Má Não boa da má respond e União Europeia Europa de Leste Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa Outros países de África América do Norte Brasil Outros países da América Central e do Sul China Outros países da Ásia Oceânia 16. A impressão que os portugueses têm e a forma como agem com os imigrantes é: União Europeia Europa de Leste Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa

ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA

15

Outros países de África América do Norte Brasil Outros países da América Central e do Sul China Outros países da Ásia Oceânia 17. A presença de imigrantes influencia o número de crimes registados no País? Sim, eles Sim, eles são Sim, eles vítimas do são Não cometem Não Sabe/ vítimas do crime e o crime Não crime cometem Responde o crime União Europeia Europa de Leste Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa Outros países de África América do Norte Brasil Outros países da América Central e do Sul China Outros países da Ásia Oceânia 18. Trabalho e legislação. Os imigrantes: Sim Tiram o trabalho aos portugueses? Os que estão ilegais devem ter direito a trabalhar? São regidos por legislação adequada? Contribuem para o nosso desenvolvimento económico? Pagam os impostos que devem? E beneficiam desses impostos? 19. É função do Estado: Adoptar políticas de actuação específicas para os imigrantes Assegurar igualdade de tratamento entre nacionais e imigrantes Assegurar maior ajuda aos imigrantes Não Não Sabe/ Não Responde

ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA

sem tentar promover a sua inserção? 20. 3ª e io. Aceitaria ter como imigrantes: Membros da sua família? Seus amigos? Seus vizinhos? Seus colegas de trabalho? Residentes nas imediações ao espaço onde você vive? Residentes no espaço onde você vive? III – Perspectivas sobre a imigração 21. 10º. . 11º e Superior escolar 1ª. 22. Preparatór Sabe/ Não Médio. 2ª.16 Expulsar os imigrantes ilegais. Sobre a escolaridade. O Estado deve seleccionar os imigrantes que querem vir para Portugal? Sim Não ⇒ para si. o questionário termina aqui. 5º e 6º responde 8º e 9º anos 12º anos 4ª classes anos ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . o Estado deve dar prioridade a imigrantes com (assinale apenas uma opção): 1º Ciclo ou 2º Ciclo ou 3º Ciclo ou Ensino Nenhuma Ensino Ensino Não Ensino Secundário Ensino frequência Primário. Indique a melhor idade para os imigrantes virem para Portugal (assinale apenas uma opção): Menos Dos 20 Dos 30 Dos 40 Não sabe/ Dos 15 aos Mais de Qualquer de 15 aos 29 aos 39 aos 49 Não 19 anos 50 anos idade anos anos anos anos responde Justifique a sua escolha 24. O Estado deve dar preferência à entrada de imigrantes do sexo: Masculino Feminino Sem preferência 23. 7.

Outros países da Ásia Oceânia 28. Assinale o grau de escolaridade que os imigrantes devem ter para poderem desempenhar as seguintes profissões: Não Muito sabe/ Eleva Mode Muito Nenh elevad Baixo Não do rado Baixo um o respo nde Quadros Superiores da Administração Pública. indique o grau de restrição de entrada que lhes atribui: Não Muito sabe/ Elevad Moder Muito Nenhu Elevad Baixo Não o ado Baixo m o respon de União Europeia Europa de Leste Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa Outros países de África América do Norte Brasil Outros países da América Central e do Sul China. A integração dos imigrantes deve ser feita por fases? Sim Não Não sabe/ Não Responde 26. Das seguintes regiões de origem dos imigrantes. O Estado deve estabelecer o número máximo de imigrantes a entrar em cada ano? Sim Não Não sabe/ Não responde 27.17 Justifique a sua escolha 25. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .

18 Dirigentes e Quadros Superiores de Empresas Especialistas das Profissões Intelectuais e Científicas Técnicos e Profissionais de Nível Intermédio Pessoal Administrativo e Similares Pessoal dos Serviços e Vendedores Agricultores e Trabalhadores Qualificados da Agricultura e Pescas Operários. Assinale o grau de experiência profissional que os imigrantes devem ter no seu país de origem para poderem desempenhar as seguintes profissões em Portugal: Quadros Superiores da Administração Pública. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Artífices e Trabalhadores Similares Operadores de Instalações e Máquinas e Trabalhadores da Montagem Trabalhadores Não Qualificados O questionário termina aqui. Dirigentes e Quadros Superiores de Empresas Especialistas das Profissões Intelectuais e Científicas Técnicos e Profissionais de Nível Intermédio Pessoal Administrativo e Similares Pessoal dos Serviços e Vendedores Agricultores e Trabalhadores Qualificados da Agricultura e Pescas Operários. Artífices e Trabalhadores Similares Operadores de Instalações e Máquinas e Trabalhadores da Montagem Trabalhadores Não Qualificados 29. A sua colaboração foi muito importante.

/ Rua.º do questionário: Responsável pela administração: Data e hora: Local de realização e contacto do respondente: Av.facultativo: ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .19 Ficha Técnica do questionário N.º : Telefone de contacto . n.

A integração dos imigrantes deve ser feita por fases? As associações de imigrantes latino-americanos na Península Ibérica Alcinda Cabral Centro de Estudos de Antropologia Aplicada Universidade Fernando Pessoa e M. esse vigor. em que urge partilhar experiências. as associações cobrem objectivos de recriação dos modelos de origem. à legalização. de ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Enquanto elemento coesionador do grupo estrangeiro. elas vão actuar no sentido de integrar o seu modo de vida. enfim. o que permite colmatar os constrangimentos resultantes das diferenças ao nível das normas sociais e dos padrões culturais da sociedade de chegada. o mesmo acontecendo com os diferentes grupos de sul-americanos em Espanha. ao trabalho. necessidades. de diversão. de perpetuação da cultura de partida. as associações organizam-se no sentido de agir socialmente e politicamente a fim de que os seus membros possam ter acesso no lugar de chegada aos direitos elementares relativos à permanência e residência. A nossa proposta de comunicação centrar-se-á nesse desígnio. outras razões poderão ajudar a explicar este fenómeno. aos cuidados de saúde. buscar apoios materiais afectivos ou de outra índole e conceber espaços de segurança. que aportam aos seus membros um pouco do lugar que deixaram. duas atitudes que podem parecer antagónicas. Enquanto elemento dinamizador da presença e do enquadramento legal e profissional dos seus concidadãos. funcionando também como redes sociais de encontro. ao reagrupamento familiar. à escolarização dos filhos. Uma das comunidades imigradas em Portugal que mais tem dinamizado o seu movimento associativo é a brasileira. ajustando-o ao novo ambiente social. Com o tempo e a inevitável aculturação. Dolores Vargas Llovera Centro de Estudos de Antropologia Aplicada Universidade de Alicante As associações de imigrantes constituem uma estratégia clássica de ligação à origem e de luta pela integração no destino. à segurança social. Todavia. Introdução O associacionismo é uma necessidade vital do ser humano. sobretudo nos momentos chave da vida. mas que na realidade se revelam complementares. no sentido de acederem aos recursos e aos direitos existentes na sociedade receptora. O facto de se tratar de comunidades numerosas justifica. em parte.

Por isso é de grande importância ter em conta que o actual dinamismo associativo dos imigrantes teve que ultrapassar grandes impedimentos para consolidar a sua realidade social e para ganhar o respeito fundamental das instituições oficiais. e são fundamentais para a assistência das pessoas. como é o caso dos imigrantes. que fomentam a divisão da sociedade e que não favorecem a integração. como guetos ou nichos socio-culturais. culturais. mas também com os poderes estabelecidos. O grande objectivo é o de. a sua música. particularmente em momentos difíceis. A formação e a importância dada às associações demonstra que os indivíduos se envolvem em acções recíprocas e em contactos entre os que buscam o mesmo fim. actuam como grupos de pressão de reivindicações sociais. que encontram todo o tipo de carências. apresentando-se como lugares delimitados no interior da sociedade de recepção. Desta maneira. bem como romper com as fronteiras sociais que a sociedade civil pretende ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . As associações dinamizam actividades próprias na base das estruturas que criaram. É certo que as associações de imigrantes recriam os esquemas das suas sociedades de origem. geram iniciativas de actuação para o fortalecimento das suas ideias associativas. de crenças. não só com a sociedade civil. estas não vêem com bons olhos a criação desses espaços. económicas e políticas. Ao mesmo tempo fomentam a solidariedade. de manter identidades e tudo o que implica a afirmação socio-cultural própria do ser humano. provocando tensões. procurarem junto dos companheiros a coerência das suas ideias e não actuarem isoladamente. sejam locais. o intercâmbio de experiências. não coincide com o ritmo do reconhecimento social. as suas actuações e a sua cosmovisão chocam frontalmente com os esquemas de uma sociedade que culturalmente não é igual.2 ideias. Ante a grande eclosão de associações de imigrantes que se formam nas actuais sociedades receptoras. sobretudo nas primeiras etapas da imigração. como um mundo que não pertence a ela. A sua estética. na mira de uma eficácia dos seus propósitos. porque os apercebem unicamente como reproduções das diferentes culturas de origem. o fim primordial de uma associação é o de partilhar metas e o de formar espaços que rompam com o isolamento social e cultural. mas este reconhecimento oficial que vão adquirindo paulatinamente. regionais ou nacionais. Pode afirmar-se que as associações de imigrantes terão que continuar a lutar para ultrapassar os muitos entraves que as instâncias oficiais lhes apresentam. mantêm identidades e são um núcleo de informação necessária.

3 estabelecer. Sem dúvida. encontram-se ante duas dificuldades: por um lado levam a cabo. uma vinculação de ajuda dirigida fundamentalmente ao conhecimento das vivências de origem. longe de dificultarem a integração. estas associações. e por outro lado. Tem havido tentativas de classificação segundo as tendências manifestadas pelas associações de imigrantes: umas orientadas para o país de origem e outras para o país de residência. Sobre estes dois pontos de vista. e outros. através de actividades. desempenham um papel muito importante no conjunto das práticas que integram a ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . com o fim de afrontarem a vulnerabilidade social em que os imigrantes se encontram. Morán (2001) distingue as associações de imigrantes que têm uma predominância de relações com a sociedade de partida e as que têm uma predominância relacional com a sociedade de chegada. com ou sem ajudas de fundos públicos. ao afirmarem que as associações de imigrantes são uma manifestação necessária para a sua instalação nas novas sociedades. pelo que. distinguindo entre a temporalidade e a permanência definitiva. estão tentando de cada vez mais incrementar a integração no espaço de acolhimento. embora não rompam os laços com a origem. o associacionismo migratório constitui actualmente uma força importante nas sociedades receptoras. através do qual criam. com pessoas da mesma etnia ou de várias. Certo é que se tem constatado que as associações de imigrantes. dirigidos aos colectivos recém-chegados. de programas de ajuda e de acolhimento. facilitam a negociação da sua participação social e da sua incorporação efectiva. tal como sustentam Castels e Millar (1994). Apesar do esforço que fazem as associações de imigrantes para serem reconhecidas e aceites como centros de integração. e simultaneamente como plataformas de reivindicação dos seus direitos como trabalhadores e como seres humanos. a fim de conseguirem convencer umas e outras de que o maior anseio dos seus dirigentes e membros é a inserção da sua comunidade na sociedade receptora. actividades destinadas ao acolhimento e à integração dos imigrantes. na Península Ibérica e segundo as aportações de Martín (2004). Este tipo de classificação baseia-se sempre na instalação na sociedade de acolhimento. que é na verdade uma faceta da sua realidade. As associações deste cariz revelam constituir um processo de socialização. conselhos de carácter burocrático. e não como centros de realidades culturais fechadas.

Todavia. agrupando os colectivos dos diferentes países que formam a América do Sul. às associações de imigrantes não é concedida a participação na tomada de decisões políticas em nenhum âmbito oficial. de cidades grandes ou pequenas. a partir dos quais recenseamos os seus pontos de partida: * Abordar o fenómeno da imigração em todos os seus aspectos. arriscam-se a ver impossibilitada a execução das suas actividades. Se optarem pela primeira possibilidade. na medida em que as acções que desenvolvem são o resultado. quer da ausência de acção dos poderes públicos. 2004: 123). quer se trate de capitais de província. se formam associações. Se elegem a via reivindicativa. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Em todas as zonas onde haja um número considerável de imigrantes com essa proveniência. renunciando frequentemente aos seus princípios. Por outro lado. No que respeita às da América Latina. * Elaborar projectos de acção social e de cooperação internacional. Desenvolvimento A Espanha encontra-se com um número importante de associações de imigrantes registadas no Ministério do Interior.4 política de imigração. a maior parte delas adoptam uma postura intermédia (Martín. apesar da sua posição destacada nas práticas de integração. as associações funcionam como entidades prestadoras de serviços do Estado. quando pertencem ao conjunto das financiadas. independentemente dos membros que as constituem. Perante tal situação. quer da delegação de competências através do financiamento de projectos de ajuda social. As suas estruturas passam por registos oficiais. as associações encontram-se perante a seguinte alternativa: ou servem as políticas públicas. arriscando a perda do financiamento público. ou introduzem soluções inovadoras para o tratamento dos problemas derivados da integração dos imigrantes. * Assessorar a população imigrante nas áreas que favoreçam a sua integração. ultrapassam um milhar. A sua formação obedece a um leque comum de objectivos gerais. pelo que se revela difícil individualizá-las por países.

e mesmo a imigrantes de outras origens. Desta forma. * Associar-se a projectos com associações e entidades das zonas onde vivem.5 * Desenvolver campanhas de sensibilização em relação a estas populações e às suas culturas. tentando proporcionar aos seus concidadãos. em alguns casos mais especificados quando se trata de promover a identidade cultural dos imigrantes. Estes pontos. uma inserção o menos traumática possível. que conduzam a mudanças sociais. * Facilitar a participação das pessoas em actividades laborais. as associações de imigrantes brasileiros em Portugal apresentam fins distintos. outras dirigem-se a populações específicas. que tantas vezes dificultam a vida destas pessoas. pelo que o número de associações deste tipo é mais reduzido e muito mais específico quanto à origem geográfica e nacional dos seus sócios. * Participar em campanhas contra o racismo e a xenofobia. sociais e políticas. * Potenciar o respeito pelos direitos humanos. * Colaborar com outros colectivos. entidades e instituições especialmente relacionadas com a imigração. caracterizando-se pelo ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . ou parceiros profissionais. No que respeita a Portugal. De facto. os seus objectivos são orientados para o seu público alvo. organizações. * Fomentar a convivência e a integração social e educativa dos imigrantes. * Promover um diálogo construtivo com as autoridades e a sociedade acolhedora. formam o núcleo central de todas as associações de imigrantes latino-americanos em Espanha. tais como imigrantes vinculados a uma universidade. * Promocionar individual e colectivamente os imigrantes nos seus lugares de residência. * Defender estas populações junto das autoridades administrativas e outras. dada a pequenez do seu território e dos seus recursos. Enquanto umas têm um carácter mais geral de apoio ao público imigrante. ou ainda indivíduos oriundos do mesmo local de origem. também as suas necessidades de mão de obra e os seus factores de atracção para a instalação destas populações são mais raros. de acordo com as necessidades sentidas pelos próprios.

da Associação Mais Brasil (www. 1 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . da Associação Luso-Brasileira de Saúde Oral – Portugal (www.pt). da Associação de Imigração em Portugal.abop.casadobrasil.pt) e da Associação Luso-Brasileira de Juristas do Trabalho (www. da Associação de Amizade Cabo Verde – Brasil (www.pt/distritais/genericos/detalheArtigo.yahoo. Imigrantes do Brasil e de países africanos de língua oficial portuguesa (http://www. como poderemos verificar no quadro que segue 1 : Fonte: Site da Casa do Brasil (www.maisbrasil.html) e da Torcida Brasil (www.pt/).oa. da Associação dos Brasileiros na Universidade de Aveiro (www.pt).angelfire.br/apebcoimbra/).ua.org/aacilus/).pt/abruna/).php).net/torcida.com.6 desenvolvimento de actividades específicas.torcidabrasil.ca.com/bc/sscb/aacb. da Associação de Cidadãos Brasileiros na Universidade do Porto (http://brasup.aacilus.up. da Associação de Pesquisadores e Estudantes Brasileiros em Coimbra (http://geocities.asp?sidc=478&idc=22393).

Associações Académicas de Brasileiros • • • Associação dos Brasileiros na Universidade de Aveiro (ABRUNA) Associação de Cidadãos Brasileiros na Porto 2003 Aveiro 2001 Coimbra 2004 Porto 1999 Universidade do Porto (BRASUP) Associação de Pesquisadores e Estudantes Brasileiros em Coimbra (APEBC) IV .Associações de Amizade entre Países • • Coimbra 2004 Associação de Amizade Cabo Verde – Brasil (AACB) Associação de Imigração em Portugal. social e jurídico.Associações Lúdicas Brasileiras • Torcida Brasil (TB) 1994 No que respeita às Associações Generalistas. 2004 Imigrantes do Brasil e de países africanos de Porto língua oficial portuguesa (AACILUS) 1997 • V . estas têm como objectivo prioritário o apoio aos imigrantes a nível moral.7 Tipologia da Associação I . ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .Associações Generalistas de Brasileiros • • Casa do Brasil de Lisboa (CBL) Associação Mais Brasil (AMB) Localização Sede da Ano em que foi fundada Lisboa Porto 1992 II .Associações de Profissionais Brasileiros • • Associação Luso Brasileira de Saúde Oral (ABOP) Associação Luso-Brasileira de Juristas do Trabalho (ALBJT) III .

A partir daqui.8 As Associações de Profissionais visam a defesa das suas profissões e sobretudo dos seus profissionais. também se detectaram. Conclusão Todo o esforço das associações tem como finalidade a melhoria das condições das comunidades imigrantes que representam. objectivos e actividades muito específicos. ou ainda para organizarem um movimento que fortalecesse a posição da população imigrante face às instituições oficiais da sociedade acolhedora e no diálogo com as mesmas. naturalmente. Foi criada por imigrantes brasileiros. muitas similitudes entre elas. nomeadamente de apoio às equipas brasileiras em eventos desportivos. Ao pretender-se encontrar os traços distintivos de cada uma destas 5 tipologias de Associações de Brasileiros em Portugal. As principais semelhanças encontram-se ao nível dos seus estatutos. mas também ao nível dos objectivos traçados e das actividades. no sentido de colmatarem lacunas na organização da sociedade civil e nas dificuldades sentidas pelos imigrantes para se integrarem na comunidade portuguesa. Estas associações de imigrantes brasileiros foram criadas por estes e por portugueses que os apoiaram. muitas vezes opondo-se a alguma discriminação que encontram no mesmo meio profissional português. principalmente para formar uma “claque” para dar apoio às equipas brasileiras nos torneios mundiais de futebol. procurando ser uma mais valia nos ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . devidas ao traço comum que une os seus filiados. nomeadamente a constituição formal da associação em si. As Associações de amizade entre indivíduos brasileiros e de outros países definem-se pelo apoio prestado às comunidades imigrantes em questão e pela promoção de actividades recreativas num espaço de partilha cultural. que é a sua condição de imigrantes. começou a desenvolver outras actividades recreativas e culturais para os seus sócios. Os objectivos e actividades das Associações Académicas orientam-se principalmente no sentido de apoiar a integração de estudantes brasileiros e de promover eventos culturais e científicos que possibilitem a valorização da identidade brasileira no seio da comunidade portuguesa. A Torcida Brasil apresenta uma população alvo.

L. CASTLES. M. (ed. Internacional population movements in the modern world. G. R. para lhes proporcionar os meios condutores a fim de que se incorporem paulatinamente na sociedade de chegada. Universidad Pontificia de Comillas. Un estudio internacional sobre las sociedades y el sentido comunitario. The age of migration. S. y GARCÍA. y MILLER. R. Cremos que estamos perante um desenrolar de participação que implica novas formas de cidadania: os estrangeiros continuam privados de direitos políticos. D. Madrid. bem como nos contactos informais com a comunidade anfitriã em si. http://fuentes. Universidad de Guadalajara.udg. Nexo. MORÁN. Madrid.mx/CUCSH/Sincrinia/ PUTNAM. ao mesmo tempo. 1995. a nível dos dois países implicados.csh. Londres MARTÍN. As associações de imigrantes constituem um meio de institucionalização das vias necessárias para a defesa dos seus interesses e. numa perspectiva da possível inclusão na sociedade de acolhida.J. V. Estudio sobre la situación actual y capacidad institucional de las asociaciones de inmigrantes en España. através de estratégias que valorizem a sua identidade cultural de pertença. no entanto podem participar através das associações na tomada de decisões sobre alguns dos aspectos que os afectam. 1994. Macmillan. tal como referem Alonso e Garcia (1995) quando dizem que os reptos aos quais devem fazer face as associações de imigrantes visam veicular a sua integração social e económica no país que escolheram para trabalhar e viver e daí a importância de que se reveste o tecido associativo desta natureza. Revista electrónica de estudios culturales. pelas implicações pessoais e nacionais.9 contactos formais com as instituições oficiais da sociedade acolhedora. A. Barcelona: Galaxia Gutemberg. Referências Bibliográficas ALONSO. 2004 “ Las asociaciones de inmigrantes en el debate sobre nuevas formas de participación política y de ciudadanía: reflexiones sobre algunas experiencias en España” Migraciones. 2001 “Las asociaciones de extranjeros y su origen: algunos comentarios para el caso de Alemania” Sincronía. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .) 2003 El declive del capital social.

com/bc/sscb/aacb.com.html) Associação dos Brasileiros na Universidade de Aveiro (www.ua.br/apebcoimbra/) Casa do Brasil (www.pt) Associação de Pesquisadores e Estudantes Brasileiros em Coimbra (http://geocities.pt) Torcida Brasil (www.10 Sites Consultados Associação de Amizade Cabo Verde – Brasil (www.pt) Associação Mais Brasil (www.angelfire.pt/abruna/) Associação de Cidadãos Brasileiros na Universidade do Porto (http://brasup.casadobrasil.oa.up.org/aacilus/) Associação Luso-Brasileira de Juristas do Trabalho (www.php) ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .torcidabrasil.ca.pt/distritais/genericos/detalheArtigo. Imigrantes do Brasil e de países africanos de língua oficial portuguesa (http://www.pt/) Associação de Imigração em Portugal.maisbrasil.yahoo.asp?sidc=478&idc=22393) Associação Luso-Brasileira de Saúde Oral – Portugal (www.aacilus.net/torcida.abop.

aquelas. pela aplicação da Convenção sobre a Igualdade de Direitos e Deveres entre Brasileiros e portugueses. aquilo a que vulgarmente se chama valores e que pode ser definido como um “conjunto de ideias partilhadas por indivíduos sobre o que é desejável.Porto blepl@netcabo. A sua localização enquanto porta de entrada para a Europa – continente que ainda hoje exerce o seu fascínio sobre os povos mais recentes – e a lusofonia são.Modos e modas de integração de imigrantes (o papel do jornal Sabiá) 1 Isabel Ponce de Leão Centro de Estudos de Antropologia Aplicada Universidade Fernando Pessoa . datada de 29 de Dezembro de 1971. brasileiros. imprensa. Sabiá Portugal é. como sejam a forma como educam os filhos. consabidamente. Palavras-chave: imigrantes. construída ao longo de séculos de convivência entre os povos de Portugal e das suas Desenvolvimento do Projecto CEAA/0013/ALC "Processos de integração social e económica de imigrantes"integrado no Centro de Estudos de Antropologia Aplicada da Universidade Fernando Pessoa. corroboradas. motivos determinantes para essa escolha. talvez. 1 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . alguns estudos demonstram que os brasileiros são os imigrantes que têm em Portugal maior grau de aceitação “assente na ideia de uma identidade lusófona. integração. as práticas religiosas e os comportamentos sexuais. Trata-se com especial acuidade o jornal Sabiá publicado pela Casa do Brasil de Lisboa. De facto. vendo-se de que forma ele contribui para a inserção dos brasileiros em Portugal. acreditado pela FCT (Fundação para a Ciência e a Tecnologia). o país escolhido como pátria de adopção de imigrantes brasileiros. Acresce a isto a semelhança de procedimentos entre portugueses e brasileiros em certos usos e costumes.pt O presente texto faz uma reflexão sobre a imprensa enquanto modo de integração de imigrantes. o que é bom e o que é mau” (Trindade 1995: 381).

A partir do número 53. no seu artigo 74. logo actuando como factor de integração. minimizadora da discriminação e da intolerância. assazmente. pela integração 2 e pela socialização aprendendo padrões de cultura e modos de vida da sociedade de acolhimento. pretenda ignorar os da pátria de origem. jornal editado pela Casa do Brasil de Lisboa. e de gizar estratégias de integração. o referido formato dá lugar a um jornal Entendemos integração enquanto ajustamento dos imigrantes a um novo dependente de dois conjuntos de factores: “os que dizem respeito às características individuais dos migrantes e os que se relacionam com características fundamentais dos países de origem e de destino entre os quais se processa a transferência de recursos humanos”. junta-se uma boa adaptação vista esta enquanto “fenómeno multidimensional que compreende aspectos tais como a satisfação. 2003: 51). têm necessidade de criar elos de identidade. por outro lado. a aculturação linguística. sem que. reitera “os laços de amizade e cooperação com os países lusófonos”. o tipo de desempenho económico. A essa boa aceitação por parte do país de acolhimento. VV. Um caso paradigmático é o Sabiá. ainda que se anunciasse mensal. lançado em Abril de 2003. tinha uma periodicidade irregular. Distribuído gratuitamente.colónias” (AA. está disponível na CBL. nem sempre de modo bem sucedido. ligada ao país de origem. ao curioso fenómeno da aculturação. reflectindo o desejo da preservação de laços históricos. A própria Constituição da República Portuguesa. por tal. um desenraizado que luta. o contacto entre portugueses e brasileiros origina “alterações nos padrões culturais originais” (Trindade 1995: 357) de ambos os povos o que deixa prever um intenso diálogo. bem como nas instalações dos seus anunciantes. Apesar desta reciprocidade de aceitação. quer dizer. O primeiro número foi publicado em Maio de 1992 em formato de boletim de folhas A4 e. e por mais que o país de acolhimento assuma uma postura fraternal. (CBL). os brasileiros radicados em Portugal não deixam de constituir uma minoria e. No caso dos brasileiros assiste-se. no Consulado do Brasil e noutros locais consabidamente frequentados por brasileiros. em Portugal. primeira publicação destinada aos brasileiros residentes em Portugal. (Trindade 1995: 102) 2 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Seja como for. Uma delas é a produção de uma imprensa própria. a verdade é que um imigrante é. a integração social e a identidade cultural” (Trindade 1995: 358).

como se pode verificar pela leitura do seguinte quadro que abarca os 4 números saídos em 2005: Assuntos Política nacional (Portugal) Política nacional (Brasil) Política internacional Educação Saúde Habitação Economia Emigração Cultura Desporto Sociedade 3 1 4 2 2 4 5 2 5 4 Quantidade 19 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . agências de viagens. lojas de comércio…. clínicas médicas.500 7. estes números tratam de assuntos diversificados. A tiragem.500 8 4 4 4 N. bares.tablóide. a saber: N. difunde serviços prestados por brasileiros em Portugal: restaurantes. constituem o corpus em análise e foram em número de 4.º Para além de publicidade que. bancos.500 7. discotecas. aumenta e a sua periodicidade anuncia-se mensal.º Mês Tiragem pp. de uma maneira geral. Os números publicados em 2005. XIIº ano da sua publicação. Verificar-se-ia depois que essa periodicidade não viria a ser respeitada o que é perfeitamente compreensível neste tipo de publicações por constrangimentos de ordem vária que aqui nos dispensamos de escalpelizar. composto por 4 a 8 páginas. 66 67 68 69 Março Junho Julho Novembro 5.000 7. que até aí era de 2 mil exemplares.

contudo os interesses parecem estar virados para o que se passa em Portugal. Por outro lado. numa manifesta vontade de interagir com o país de acolhimento. uma maior abundância de artigos relacionados com desporto e lazer. mostra bastante superficialidade quer no tratamento quer nas opções conteudísticas. sendo essa preocupação menor relativamente ao país de origem.ª página Quan tidade Política Nacional (Portugal) Política Nacional (Brasil) Política Internacional Habitação Cultura Desporto Sociedade 1 3 1 2 1 1 13 Uma leitura comparativa dos dois quadros descobre um jornal intensamente preocupado com os acontecimentos políticos do país de adopção dos seus leitores.ª página: Chamadas à 1. Reveladoras de certas preocupações são igualmente as chamadas à 1. Por tal. naturalmente. são cegos. que não se faz por extrapolar o âmbito deste trabalho.Os números. evidencia preocupações de índole cultural e uma atenção especial para a política internacional cujos artigos constantes.Lazer 2 Este quadro traz-nos algumas surpresas relativamente à imagem empírica que temos dos imigrantes brasileiros. são sempre chamados em destaque à 1.ª página. ainda que em número reduzido. por exemplo. e uma leitura dos artigos. não se torna difícil a identificação do público-alvo: Alcance / Público-alvo Público em geral Grupos étnicos / minorias Quantidade 40 12 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Seria de esperar.

º Total A observação deste quadro mostra que o desejo de inserção em termos políticos ocupa. grande parte dos artigos.Brasil Expectativas na política de imigração do Títulos dos artigos Imigrantes vão às ruas exigir a regularização Regularização para todos Moção exige políticas de integração Duzentos mil pediram regularização em ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Apesar desta visão optimista. cultural e profissional e encontram-se assim distribuídos pelos 4 números saídos em 2005: Artigos 66 Inserção social Inserção política Inserção cultural Inserção profissional 1 1 1 3 4 2 6 6 5 6 5 22 1 N.º 66 • • • • Espanha • novo governo PS • Na ponte aérea Portugal. de forma quase obsessiva. muitos têm escolarização secundária e superior e querem ser o elo de união entre Portugal e o Brasil. logo não se assumem como minoria. Isto tem a sua explicação no facto do perfil sócio-económico dos imigrantes brasileiros ser extremamente diversificado. ainda que não quebrem a sua ligação ao país de origem.º 67 N. político. Não se sentem vítimas de tratamentos discriminatórios.Não esquecendo embora os imigrantes. o jornal dirige-se. prioritariamente ao público em geral. são vários os artigos do Sabiá que se prefiguram como factores de aglutinação e inserção aos níveis social.º 68 2 N.º 69 3 N. cujos títulos aparecem em baixo: N.

ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . É sem dúvida. pá Dois anos depois. outro com mero carácter informativo. outros ainda onde uma leve ironia esconde uma crítica profunda.67 • • • • • O direito de ser português Eleições em Portugal e no Brasil Lei da Nacionalidade – Alterações à vista Governo promete mudar a lei Quem pode ser português Burocratices Brasileiro tem nova chance de conseguir o 68 • • visto • maioria de fora • • • Lei da nacionalidade do governo deixa Foi bonita a festa. neste ano de 2005 a grande preocupação do jornal enquanto elemento de inserção política. De facto. completados pelos conteúdos que conhecemos mas que extrapolam o âmbito deste trabalho. nos dão a noção clara das pretensões dos imigrantes brasileiros em Portugal e que são: – legalização e integração. De uma forma geral lamentam a morosidade processual e pugnam por uma cidadania activa. outrossim com a legalização obviadora da segurança que permita a construção do seu futuro em Portugal. só 14 mil legalizados Opiniões divergem na avaliação do acordo Casa do Brasil convoca acto público pela 69 • legalização • • • • Nacionalidade: o que vai mudar Mobilização já! Muito barulho por nada Governo admite nova lei de estrangeiros mas recusa debate Só a leitura dos títulos destes artigos. – dupla nacionalidade. olhando com alguma apreensão o empenhamento dos governantes portugueses e brasileiros na resolução dos conflitos. o Sabiá corrobora a ideia de que o grande problema dos brasileiros em Portugal não tem a ver com a adaptação. – igualdade de direitos. Por isso surgem mesmo títulos incentivando à luta.

respeitando-se. o Sabiá propriedade da Casa do Brasil. fazem perceber a necessidade dos imigrantes brasileiros interagirem com os portugueses quer no que diz respeito a actividades lúdicas quer na procura de uma forma de estar semelhante. quer dizer uma divulgação das literaturas e das artes portuguesas e brasileiras bem como das suas respectivas afinidades. naturalmente as idiossincrasias de cada povo. a maior parte dos artigos que privilegiam a inserção cultural assentam em iniciativas desta associação que através dele as promove e as divulga. a tentativa de inserção cultural atravessa também as páginas do jornal através dos seguintes artigos: N. Para além disso há uma preocupação por práticas interculturais.º 66 Títulos dos artigos • casa própria 68 • • na Caparica Mais Brasil Torcida premiada Como adquirir a Ainda que escassos. como é. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . No que diz respeito à inserção social temos os seguintes artigos: N. O poeta do absurdo ou Títulos dos artigos O significado da palavra associação Primavera relança actividades na Sendo.Ainda que bastante distanciada.º 66 • • CBL • • o Dali do Sertão 67 • • Era uma vez na América As sombras das coisas Mulheres de Morte Zé-Limeira.

a publicidade é abundante. encontrámos os seguintes artigos: N. por outro sobre o papel que ele tem na integração destas minorias. Este interesse é já a primeira manifestação de tentativa de inserção e aparece em artigos quase sempre com chamadas à primeira página. naturalmente. configuram uma publicação que se debate com problemas económicos como é comum neste tipo de imprensa de imigrantes. A instituição sua proprietária – Casa do Brasil de Lisboa – tem. mesmo assim. é eco das preocupações dos potenciais leitores. Os problemas de natureza cultural são também tratados recorrentemente ainda que a sua superficialidade configure um público-alvo minoritário ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . com o que se passa no país de adopção. Da sua leitura depreende-se que essas preocupações se prendem. a tiragem reduzida e o escasso número de páginas onde. Curiosamente o jornal é policromático. Sushi do jeito que o futebol e churrasco 69 • Restauração Os seus títulos demonstram que não sendo grande a preocupação em termos de inserção profissional. o que o torna naturalmente mais dispendioso mas também mais consentâneo com as características do público que quer atingir. sobretudo uma particular acuidade pela actualização dos imigrantes de forma a acompanharem a evolução da Europa.º 66 Títulos dos artigos • povo gosta 67 • Informática. há uma certa tendência para que esta se faça no âmbito da restauração e.Em termos de inserção profissional. que ter capacidade de resposta para muitas situações logo não pode canalizar toda a sua atenção para um jornal que. A periodização irregular. fundamentalmente. Esta observação dos números do jornal Sabiá saídos em 2005 permitem-nos tirar conclusões por um lado sobre as características de um jornal feito por brasileiros e para brasileiros fisicamente distanciados da sua pátria. mesmo assim.

com uma formação cultural de nível médio / inferior o que nem sempre corresponde ao perfil dos brasileiros residentes em Portugal (AA. VV. 2003. 87). Isto leva-nos a crer que, dadas as similaridades linguísticas, a maior parte dos imigrantes brasileiros recorre à leitura da imprensa portuguesa, sendo o Sabiá tão só uma forma de matar as saudades pátrias. A sua periodicidade irregular poderá também gerar esta situação. De qualquer forma, o Sabiá cumpre o seu papel integrador da comunidade brasileira. A integração faz-se aos níveis social, político, cultural e profissional ainda que nos artigos nele inseridos, e que tentámos dissociar, se torne difícil separar estes tipos de integração uma vez que aparecem assiduamente em simultâneo. Mesmo assim tentámos ver a predominância de cada um deles. O único número que remete para os quatro tipos de inserção acima referenciados é o 66. De facto é o maior – 8 páginas enquanto os outros números têm apenas 4 – logo aquele que pode mostrar interesses diversificados. Apenas a inserção política é contemplada e tratada de forma obsessiva em todos os números. Isto é facilmente explicável. Dissemos, no início, que vários eram os factores optimizadores da inserção dos brasileiros em Portugal. Assim sendo, por aquilo que aduzimos, constata-se que desde que se encontrem numa situação legal, seja, politicamente inseridos, a inserção cultural, social e profissional são praticamente automáticas. Por um lado, a maioria dos brasileiros têm em Portugal um emprego estável (AA. VV. 2003: 86), por outro, convém não esquecer que não só, mas também através da comunidade imigrante, o nosso país assimilou muitos traços da cultura brasileira fazendo, muitas vezes, dela um modelo. A forma extrovertida de ser deste povo coadjuvada pela comunhão linguística viabilizam a rápida inserção social. Há, contudo, outra explicação para o tratamento obsessivo da problemática da inserção política nestes 4 números do periódico. Eles saíram em 2005, quando o governo português introduziu alterações à lei da imigração. Fazendo, como faz, o Sabiá, eco das preocupações dos imigrantes brasileiros não admira que dê voz à sua luta pela conquista de determinadas regalias.

ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA

Assim sendo, e apesar dos constrangimentos vivenciados por este tipo de associações e publicações, o Sabiá erige-se como factor de integração, ponto de encontro e também de partida para aqueles que pretendem estabilizar numa segunda pátria.

Referências Bibliográficas
AA. VV., 2000, Dicionário de Ciências da Comunicação. Porto, Porto Editora. AA. VV., 2003, Atitudes e valores perante a imigração. Lisboa, ACIME. Chaliand, G., 1991, Atles des Diáspores. Paris, ed. Odile Jacob. Elias, N., 1980, Introdução à Sociologia. Lisboa, Edições 70. Escarpit, R., 1991, L’information et la Communication. Théorie Générale. Paris, Hachette. Esteves, M. C. (org), 1991, Portugal, país de Imigração. Lisboa, I. E. D. Jackson, J., 1991, Migrações. Lisboa, Escher. Leitão, J., 1991, A situação dos Emigrantes e das Minorias Étnicas na Imprensa. Lisboa, I.E.D. Mauss, M., 1991, Sociologie et Antropologie. Paris, Quadrige / puf. Neno, P., 1989, Morrer no Brasil. Lisboa, Veja. Neto, F., 1993, Psicologia da Migração Portuguesa. Lisboa, Universidade Aberta. Trindade, B R., 1995, Sociologia das migrações. Lisboa, Universidade Aberta. Sabiá, n.º 66, 67, 68 e 69 (2005). Lisboa, Casa do Brasil.

ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA

V – Capítulo

Educação e formação

Textos de comunicações dos painéis:

Transnacionalismo, identidade, desenvolvimento
Coordenação

Miguel Moniz
Instituto de Ciências Sociais - Universidade de Lisboa

Percursos e testemunhos em Antropologia da Educação –
Coordenação

Telmo Caria, Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro - UTAD

ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA

Sistema de Ensino, Transição Societal e Práticas Educativas Estratégicas dos Actores Sociais
Virgílio Correia Escola Superior de Educação de Coimbra (ESEC) vcorreia@esec.pt

Este texto pretende contribuir para o esforço de compreensão da realidade social angolana na actual fase de transição política, económica e social. Trata-se de uma análise da realidade, tentando captar as dinâmicas sociais resultantes das práticas educativas estratégicas dos actores sociais no quadro da transição e veiculadas pelo Sistema de Ensino. Estas práticas educativas estratégicas são analisadas enquanto respostas sociais a uma política educativa e enquanto mecanismo social que reflecte e reforça a dinâmica societal. Abordando três períodos do Estado pós-colonial (1975-1991/1992, 1992-2002 e 2002 até ao presente), propõe-se demonstrar que essas três conjunturas correspondem a dinâmicas de ensino que são função das políticas de ensino ‘praticadas’ pelo Estado e das respostas dos actores sociais a essas mesmas políticas. Palavras-chave: sistema de ensino, práticas educativas estratégicas, actores sociais, Estado pós-colonial, Angola.

Não constituindo objectivo desta comunicação apresentar resultados definitivos, deixam-se aqui algumas notas que permitem apreender e compreender a prática e o sentido das estratégicas educativas dos actores sociais no âmbito do processo de transição política, económica e social em Angola. A estrutura expositiva da comunicação obedece o seguinte percurso: num primeiro momento debruça-se sobre o processo de constituição e desenvolvimento da estrutura social angolana e o papel societal do sistema de ensino no mesmo. Esta incursão ao passado é fundamental para se perceber o processo de transição que Angola vem experimentando de forma particular desde o princípio da década de 90. A seguir aborda-se o processo de transição angolano no quadro do movimento global dos processos de transição que têm vindo a atravessar vários países da África ao Sul do Saara (ASS). Esta tarefa é completada com uma explicitação sucinta das principais perspectivas analíticas do processo de transição, proporcionando assim um elemento indispensável para se perceber a especificidade do caso angolano. Finalmente, no terceiro e último ponto, faz-se uma aproximação à questão central desta pesquisa: as estratégias educativas dos actores sociais no processo de transição em

ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA

2

Angola. Nesta fase do trabalho não só é possível identificar os protagonistas (segmentos sociais) como também percepcionar os sentidos das suas acções.

Sistema de ensino e formação da estrutura social angolana

O objectivo que move o presente trabalho é o de proceder a uma análise crítica da realidade angolana do presente e captar as dinâmicas sociais resultantes das práticas estratégias dos actores sociais associadas ao sistema de ensino, no quadro do processo de transição política, económica e social iniciado em 1991/92. Semelhante empresa não dispensa uma perspectiva analítica socio-histórica. Muito pelo contrário, a análise do passado, sobretudo do passado recente, que coincide grosso modo com as décadas de 60 e 70, é fundamental para se perceber o momento actual. Esse período da história angolana, particularmente no que se refere às políticas e práticas educativas coloniais, marca decisivamente o Estado pós-colonial pela possibilidade de (re)estruturação societal que então permitiu e que haveria de permitir mais tarde, nos primeiros momentos após a independência. Os períodos que precederam e seguiram a independência foram importantes para a definição das posições e dos protagonistas na estrutura social angolana. Com a independência, e a consequente saída de grande maioria dos portugueses, era preciso ocupar os lugares deixados vagos, criar novos e eliminar outros. Neste processo era preciso fazer uma triagem, saber quem entrava, quem saía, e quem se mantinha. No entanto, o processo de formação social angolana vem de períodos mais recuados. Se é verdade que na época pré-colonial uma população pré-banta — constituída por pequenas sociedades, pouco diferenciadas e com baixo nível tecnológico — cobria de um modo escasso e intermitente o actual território angolano, no decurso de uma penetração lenta, 1 já nos quatro séculos de presença portuguesa no litoral angolano (iniciada no fim do século XV e prosseguida até meados do século XIX), sobretudo na sua fase final, verificava-se a coexistência de duas sociedades estratificadas, cujo
No Norte formou-se a sociedade Kongo, tendo alcançado extensão apreciável e alguma complexidade e maturidade, mas não atingindo o nível de certas sociedades políticas que naquela época (século XX) já existiam noutras partes de África. No Leste a penetração, até o século XV, não levou à formação de unidades sociais maiores. E no Sul (e Oeste) do Cuanza a cobertura demográfica continuara fraca e intermitente.
1

ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA

3

«centro» era formado por um núcleo pequeno de europeus e «assimilados» (isto é, os que se encontravam próximos dos europeus, não no sentido legal que viria a ter mais tarde) e O período seguinte, isto é, a fase da ocupação colonial, que coincide com as últimas décadas do século XIX, corresponde ao momento em que Portugal redobrou o seu esforço de conquista do «interior de Angola», numa clara tentativa de antecipação e reforço da sua presença em África, em consequência da crescente concorrência de outros países europeus empenhados na «corrida para a África». Nesta fase consolidou-se um sistema eco-cultural colonial integrado, 2 composto por um «centro» e uma «periferia». O «centro» era constituído por uma imigração portuguesa cada vez mais importante, um número limitado de africanos «assimilados» e um número algo maior de mestiços. A «periferia» era composta por um número crescente de africanos, que constituiriam a mão-de-obra não qualificada (ou pouco qualificada) de que o sistema precisava para o seu funcionamento. Esta situação de dominação do «sistema central» sobre a «periferia» ou «sistemas tributários» manteve-se mesmo depois de algumas transformações posteriores a 1961, como são exemplos o surgimento de disposições legais abolindo a distinção entre «núcleo» e «periferia» no «sistema central», e entre «sistema central» e «sistemas tributários»; a supressão do trabalho obrigatório e da coacção para aceitar contratação de trabalho; a imposição de culturas obrigatórias, etc. Por conseguinte, essas alterações não passavam de estratégias da metrópole portuguesa para manter o seu domínio colonial sobre Angola, recorrendo à situação militar e à introdução de algumas modificações no status quo. Uma análise do papel societal do ensino na formação e desenvolvimento da estrutura social angolana de então permite constatar que, em cada um daqueles momentos históricos, o sistema de ensino teria não só servido como mecanismo de consolidação do modelo societal vigente, mas também contribuído para a passagem de um modelo para outro e para produzir modificações parciais em cada um dos modelos (Heimer 1973: 639). 3 Assim, nos primeiros quatro séculos da presença portuguesa, as sociedades
2

Sobre a teoria dos ecossistemas eco-culturais cf. Silva e Morais 1973: 93-109. Conclusões globais de vários estudos levados a cabo nas ciências sociais sobre o papel societal da «educação formal» (ensino escolar) apontam no sentido da confirmação da hipótese segundo a qual o impacto da educação tende a reforçar a dinâmica societal prevalecente (cf. Bourdieu e Passeron s.d.).
3

ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA

4

africanas e as «micro-sociedades coloniais» desenvolveram os seus mecanismos próprios de educação. Aquelas dispunham dos seus mecanismos de educação das novas gerações e estas últimas desenvolveram um pequeno número de instituições escolares que viriam a complementar a educação «informal». Relativamente às instituições escolares das «micro-sociedades coloniais», umas serviam os «núcleos» da população urbana e outras a parcela da população africana situada na faixa do território anexa a Luanda. Se as primeiras contribuíam para a consolidação do «centro» das micro-sociedades coloniais as segundas serviam para a consolidação do domínio do «centro» sobre a sua «periferia». Na fase da ocupação colonial, o estabelecimento de uma rede escolar estatal contribuiu para a consolidação do «centro» do sistema colonial, enquanto que uma rede escolar paralela estabelecida pela penetração missionária nas sociedades africanas (iniciada de forma sistemática na segunda metade do século XIX) viria a cobrir o conjunto do território. Tendo atingido uma ínfima parte das sociedades rurais africanas, o ensino missionário (chamado «ensino rudimentar») ajudou, por um lado, a consolidar, em termos de «superestrutura» ideológico-cultural, o domínio do «núcleo» sobre a «periferia» do «sistema central» e do «sistema central» sobre os «sistemas tributários» e, por outro lado, a mobilizar um certo número de africanos de que o «sistema central» precisava para o seu funcionamento. No período de transformação posterior a 1961 um balanço global da situação aponta no sentido de que as prioridades relativas tanto ao ensino primário como ao ensino pós-primário foram dadas ao «sistema central», pelo que o ensino constituiu um poderoso mecanismo de «integração» e de diversificação. Quanto aos «sistemas tributários», a expansão do ensino pouco ou nada contribuiu para o seu desenvolvimento; continuou, isso sim, a constituir um mecanismo de «domesticação» ideológico-cultural dos «sistemas tributários» pelo «sistema central», um mecanismo de drenagem de elementos dos «sistemas tributários» para o «sistema central» (Heimer 1973: 643). Essas transformações da década de 60 foram o culminar de uma estratégia iniciada na década anterior. Em 1951, quando o ensino «rudimentar» passou a chamar-se «ensino de adaptação», havia a intenção de facilitar (de forma restrita, é claro) a passagem de alunos deste tipo de ensino para o estatal; a partir de 1954/55, em certas zonas urbanas ou mesmo rurais praticava-se uma admissão «tácita» em escolas estatais de

ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA

5

crianças africanas oriundas de famílias consideradas «indígenas»; a reforma do ensino primário de 1961, sancionada por lei em 1964 e continuada por outras tantas medidas subsequentes, foram importantes em termos estruturais (cf. Ministério do Ultramar 1964). Os aspectos mais importantes desta mudança foram a abolição da distinção de princípio entre duas redes de ensino primário, com status diferentes; o alargamento da actuação do Estado, implicando o estabelecimento de postos escolares rurais e «suburbanos»; a «oficialização» do ensino missionário católico (cujos professores ficaram a depender, financeira e pedagogicamente do Estado); a manutenção das escolas das missões protestantes, sem subsídios estatais, mas seguindo os modos de actuação das escolas estatais; a generalização de um tipo de escola inspirada nos parâmetros culturais vigentes em Portugal, com modificações apenas destinadas a facilitar a transição da criança africana «não-assimilada» para este tipo de ensino; a introdução de dois novos tipos de agentes de ensino: o monitor, elemento africano, com «habilitações literárias» elementares e precária formação profissional, e o professor de posto, não diplomado, com «habilitações literárias» equivalentes ao ensino preparatório; a aceleração da expansão escolar (ensino primário) beneficiando sobretudo efectivos das áreas rurais; a introdução da escola preparatória do ensino secundário (1968); a expansão do ensino liceal técnico; e a criação do ensino universitário. Independentemente das razões que se prendem com as estratégias políticas de fundo, essa mudança na política educacional proporcionou, por um lado, à sociedade central em expansão uma mão-de-obra mais qualificada e numerosa e, por outro, contribuiu para uma maior corrosão e incorporação das sociedades periféricas; isto é, a educação foi um factor decisivo para o avanço maciço dos não brancos em posições de classe média, que durante muito tempo foram domínio quase exclusivo dos brancos. 4 Assim, com a independência e a correspondente saída dos portugueses, os lugares deixados vagos foram ocupados por esse grupo que viria a constituir a classe dirigente e burguesia técnica executante, o gérmen da classe-Estado pós-colonial. Com efeito, o
4

Esta explicação não invalida, no entanto, as interpretações dessas mudanças que vão no sentido de explicar estas últimas como uma estratégia de «contra-subversão», isto é, uma tentativa da metrópole assinalar o fim da discriminação social/racial e manifestar preocupação com o «bem-estar das populações», dando resposta a uma procura da educação por parte dos «indígenas»; como uma preocupação de valorização da Província (mais tarde Estado) de Angola face à metrópole, africanizando, em certa medida, os manuais escolares e tentando criar uma afiliação cultural e uma identificação forte e generalizada com Portugal e, deste modo, minar a base de uma contestação anti-colonial inspirada na ideia de uma identidade nacional angolana (cf. Silva 1969; citado por Heimer 1973: 641).

ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA

uma estrutura social heterogénea. que esteve congelado durante muitos anos. até 1982. Heimer 1973: 648). em Luanda. Nestas lojas vendiam-se produtos nacionais 5 Na época colonial. 5 Nas primeiras décadas de independência. em tudo semelhante ao verificado nos «sistemas tributários» e na «periferia» do «sistema central». criava as condições para competições individuais e colectivas que podiam assumir feição de concorrência inter-étnica. com os Akuwambundu. praticante de políticas sociais dirigidas aos grupos vulneráveis. melhores ‘razões de troca’ com a classe-Estado ou dirigente. os assalariados do Estado recebiam um salário nominal baixo. ou mesmo cessou. Nessas circunstâncias. ou obter a seu favor uma mudança nos termos da heterogeneidade (por exemplo. tenta garantir a permanência do poder e a legitimação social. aceitaram a sua utilização pelo «sistema central» entrando em disputas com outras etnias. algumas tensões inter-étnicas entretanto verificadas foram provocadas pela ‘situação colonial’. à semelhança da quase totalidade dos Estados africanos. maior participação na classe-Estado ou dirigente). reconversão essa que devia ser acompanhada de um maior desenvolvimento. em detrimento de outros). estavam criadas as condições para o surgimento de conflitos diversos e. utilizando as mais diversas formas de compensação. São exemplos os conflitos que envolveram geralmente os Ovimbundu que. Com os Bakongo. possibilitando aos empresários europeus fixar um nível de remuneração mais baixo para a mão-de-obra assalariada. Com efeito. Esta situação era ‘compensada’ por um cartão (o cartão do povo) que dava acesso às «Loja do Povo». de práticas estratégicas de sobrevivência dos actores sociais. ao ver tolhida a sua base de subsistência. a utilização do sistema de ‘cartão’ é um exemplo disso mesmo. Na luta por condições relativamente melhores (ou apenas menos más) podia dar-se o caso de determinadas etnias tentarem ou garantirem para si mesmas uma posição mais vantajosa na estrutura vigente (por exemplo. os trabalhadores ovimbundu colaboraram na expansão do «sistema central».6 Estado pós-colonial seguiu e ‘reproduziu’ o ‘modelo societal’ da época colonial. uma convivência harmoniosa entre os vários segmentos sociais ou etnias africanas estaria dependente de uma reconversão do referido modelo societal. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . consequentemente. os conflitos resultaram na competição nos empregos oferecidos pelo «sistema central» (cf. a estratégia de um Estado que. isto é. os riscos mínimos de conflito associados aos vários segmentos sociais ou às etnias africanas foram em larga medida superados graças a um Estado protector. também. A prática desse Estado protector reflecte. Quando esta prática de funcionamento do Estado começou a dar mostras de fraqueza. já que a manutenção do baixo nível médio de desenvolvimento. ou conseguir combinações de ambas as modalidades. no Uíge. Em Angola.

absentismo. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Pierre Moukoko Mbondjo representa o pólo oposto. que exigirá sempre mais. e não satisfazer com as aberturas/soluções apresentadas. 7 As medidas de liberalização tendem a introduzir uma significativa abertura do regime burocrático-autocrático em vigor. Trata-se de processos de 6 Muitas empresas do Estado utilizavam também formas de pagamento em géneros aos seus trabalhadores. O’Donnel e Schmitter 1986). Um exemplo do modelo de explicação das transições pelo topo é o trabalho de Fall. permitindo no início apenas ‘aberturas’ controladas do espaço político. práticas essas que se mantiveram de forma sistemática até 1989. ora valorizando a sociedade civil (‘política pela base’). suborno. retém a sociedade civil como protagonista de desmantelamento dos regimes monopartidários (Mbondjo 1993). Pode dizer-se que os processos de transição. conduziu. económica e social na África ao Sul do Saara (ASS) e o caso angolano À semelhança do que aconteceu na África subsaariana em geral. económica e social. O sector informal da economia tornava-se. segundo o qual a instituição da democracia em África se deveu a um processo de democratização progressiva. assumindo formas de nepotismo. mas depois pode levar as reformas até um ponto onde já não se pode parar. o espaço de sobrevivência da quase maioria da população. entre outras (cf. Ennes 1994/95: 171-196). a não ser sob graves riscos políticos (O’Donnel 1979. calculada ao câmbio oficial. em Abril de 1992. precipitar um processo de expansão de expectativas de uma sociedade civil. 6 A restrição daquela prática de sobrevivência. em Angola a fraqueza do Estado e o ‘abandono’ das populações surgiram ligados ao processo de transição política. altura em que foi extinto o controlo dos preços. diferentemente das outras formas de mudança política baseadas na violência. isto é. decorrem na vigência de expectativas mais ou menos seguras. postos em marcha pelo poder instituído. Generalizaram-se as práticas de «corrupção».7 e importados em moeda nacional. assim. realizado por vários regimes de partido único (cf. O cartão dava direito a um cabaz de compras em função do número de elementos do agregado familiar e/ou da qualificação profissional do detentor. acumulação de cargos ou falta de decisões. 7 Os processos africanos de transição têm sido explicados ora valorizando o sistema político (‘política pelo topo’). Kwanza. ao reforço da utilização do património do Estado em benefício próprio. Fall 1993). mais do que nunca. sobretudo para os trabalhadores que mais precisavam dela. as transições políticas tendem a surgir associadas aos processos de liberalização económica. O processo de transição política. As medidas liberalizantes podem. Com efeito.

quase sempre.5%. com a consequente perca das fontes tradicionais de legitimidade. associada ao processo de transição. Esta fraqueza do Estado. É neste contexto que uma grande maioria dos Estados africanos é sujeitos aos programas de estabilização impostos pelo Banco Mundial e pelo Fundo Monetário ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . na qual os recursos públicos são distribuídos segundo princípios clientelares. mas sim como mecanismo de predação dos recursos financeiros (Bayart 1989. muitos dos Estados africanos conhecem uma dinâmica económica regressiva desde então. ao perder grande parte da sua legitimidade o poder político provoca fenómenos de descontentamento e insubordinação. resultam muitas vezes deste processo. iniciados nos anos 80. Ao contrário dos processos de ruptura. as transições nunca chegam a caracterizar-se pela anomia. Efectivamente. o fomento do aparecimento de empresas privadas. O Estado é objecto de apropriação por uma gestão neo-patrimonialista. Bayart 1985). A aceitação deste paradigma causal das determinações económicas nos processos políticos africanos. as medidas de liberalização acabam por abrir brechas nos fundamentos doutrinários. confirma. a partir de então experimenta a tendência para o abrandamento do ritmo de crescimento das suas economias: entre 1981-1989 o crescimento do PIB atinge os 0. neste sentido. a hipótese segundo a qual a derrapagem económica sofrida pelo continente africano.7%. O abandono dos mecanismos de distribuição social dos rendimentos por parte do Estado e o alargamento das desigualdades. Se entre 1960-1972 o continente regista um crescimento real do Produto Interno Bruto (PIB) na ordem de 2.8 mudança intencionalmente direccionada e parcialmente dominada pelos actores em presença. incentivar e acelerar esse mesmo processo de transição. Tocqueville 1989). Ou seja. o fim dos sistema de controlo de preços de bens e serviços essenciais. não como um agente do desenvolvimento. O Estado funciona. e que têm na democracia o fim último a atingir (Przeworski 1994). parece encontrar razões que as justifiquem. tenha contribuído para desencadear. em certa medida. na segunda metade dos anos 80. de uma tendência acentuada e prolongada de degradação das condições económicas (Boudon 1990. tais como a perca de certos monopólios. etc. Por todo o continente a desintegração institucional surge como uma das facetas mais importantes da crise. A ideia base é que os processos de ruptura resultam. A nível económico.

a educação e a cultura. Gabão. países que proibiram o multipartidarismo ou que tendo aceite avançar com Deve notar-se. No plano interno. Botsuana e também Senegal). nos cortes nos programas sociais que envolvem a saúde. as ‘novas democracias’. As reformas institucionais. os regimes monopartidários não conseguem resistir às pressões externas e internas que apontam para o seu desmantelamento. Angola. Os governos perdem a capacidade autónoma de decisão em matéria estrita de política económica e bem assim nos aspectos que se prendem com o enquadramento legislativo e definição constitucional de competências. na desvalorização da moeda.9 Internacional. nomeadamente o respeito pelos Direitos Humanos e o engajamento do poder político no processo tendente à instauração do pluripartidarismo. a aplicação das medidas do PAE parece estar na origem de greves. à fraqueza e à perca de alguma soberania real dos Estados tanto a nível externo como interno. As medidas accionadas pelo PAE contribuem. na alienação das empresas. em muito. as ‘novas democracias’. perdendo em muitos casos o controlo sobre o processo social. Gâmbia. não foram os países mais endividados. sem alternância de poderes (Costa do Marfim. na restrição do pacote de preços subsidiados de produtos essenciais. não deixando aos responsáveis políticos africanos um espaço de manobra apreciável. São Tomé e Príncipe. onde vigorava o multipartidarismo desde a independência (Ilhas Maurícias. 8 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . motins. para a erosão da legitimidade do Estado. 8 Um balanço do processo de transição democrática iniciado na ASS nos 80 dá conta de alguns resultados positivos mas também de muitos obstáculos. e a mobilização política contra o poder monopartidário e sua penalização eleitoral. mais marginalizados e mais pobres que enfrentaram a rejeição mais expressiva do regime monopartidário aí existente. Cabo Verde. Camarões e Gana). a um tempo. Congo e Mali). A adopção do Programa de Ajustamento Estrutural (PAE) coloca estes Estados na situação de dependência. A aplicação das medidas do PAE conduzem. que não existe uma correlação linear e directa entre fraqueza ou crise económica e os respectivos efeitos sociais (mais) dramáticos. traduzida na redução das despesas públicas e restrições das importações associadas ao despedimento de funcionários públicos considerados excedentários. jurídicas e políticas. Zâmbia. no entanto. etc. Neste quadro. resultantes de alternância de poderes (Benin. Ou seja. No panorama da rápida evolução política propriamente dita ocorrida na ASS em direcção ao multipartidarismo é possível distinguir quatro categorias: as ‘velhas democracias’. etc. são alguns exemplos. manifestações diversas.

como sejam a oposição dos poderes instituídos e. Estes grupos eram constituídos sobretudo por altos funcionários competentes. Quando da independência o poder foi apropriado pela elite política e. um à direita e outro à esquerda (Buijtenhuijs e Rijnierse 1993: 1). dado que não havia uma burguesia local. aproveitava as suas posições para se munir de uma base económica própria pela criação de empresas públicas e privadas ou outras actividades económicas. ao passado longínquo e recente da África nem às características do regime anterior. e o caso da Nigéria onde o governo militar autorizou dois partidos. Autores há que são ainda mais pessimistas. Eles fundamentam as suas posições essencialmente nas imperfeições de algumas experiências já levadas a efeito. De qualquer modo. noutros deparou-se com algumas dificuldades. o funcionamento do Estado pós-colonial não favorece o desenvolvimento e a prática da democracia. se relativamente ao passado longínquo. o processo de democratização em África não deixou de ser influenciado pela combinação de factores externos e internos e acontecimentos só foi 9 Os múltiplos obstáculos ao processo de democratização estão na origem do pouco optimismo de muitos autores relativamente ao futuro do continente africano. O Estado pós-colonial em África constituiu. jogando um papel central na formação das classes sociais. quer no plano político quer no plano económico. a centralização e o paternalismo. de Estados que não tinham o controlo sobre os meios de produção. persistem dúvidas sobre uma «participação» que se reportava às formas de democracia da política tradicional africana (cf. pré-colonial. pode dizer-se que as mudanças entretanto ocorridas não produziram efeitos significativos. Buijtenhuijs e Rijnierse 1993: 18 e 19). Esta característica influenciou decisivamente a política africana e o processo de competição política. todas formas de organização política que não favoreciam. pela classe política ou. ou classe dirigente. Por outro lado. a classe-Estado.10 mudanças políticas tudo fizeram para minar esses acordos (Quénia. fundamentalmente. reconhecendo uma dimensão económica. 9 Esta evolução não é estranha. Tratando-se. ex-Zaire e Malawi). ainda. vendo nela apenas um sistema multipartidário (cf. mais tarde. Bozenan 1976). Em alguns casos o processo foi bem sucedido. relativamente ao passado colonial é consensual a ideia de que a tradição política então praticada repousava sobre a autarcia. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Com efeito. caracterizados por Por outro lado. certamente. dirigentes de partidos e oficiais superiores. o canal principal de crescimento económico. em alguns países. pela burguesia burocrática. a transição entrou numa fase de estagnação. Este grupo inclui autores que encaram a democracia no seu sentido mais lato. assim como autores que pensam a democracia de uma forma mais restrita. o surgimento e o desenvolvimento de práticas democráticas. e não favorecem. e continua ainda a constituir.

demitindo-se progressivamente das funções sociais que anteriormente assumira. à semelhança da grande parte do resto do continente africano. A partir de 1991. surge também num contexto de crise económica e social que atravessa o país e num contexto de fortes pressões internas e externas que reivindicam para Angola mudanças rápidas e drásticas dos rumos que o país tem tomado. Para esta autora. Enfim. negociados sob auspícios internacionais. este fracasso fica a dever-se. não estarem convencidos de que a democracia era o melhor sistema governamental.11 possível porque as forças sociais internas. UNITA e MPLA. «o papel da ‘comunidade internacional’ neste processo e sua responsabilidade política neste resultado foram consideráveis» (Messiant 1995: 48). ao facto dos Acordos de paz de Bicesse destinados a pôr fim à guerra civil. O insucesso do processo de transição em Angola tem certamente várias causas. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . com o início do processo de abertura política. Angola experimenta um processo de transição que enfrenta problemas graves. visto que o processo de pacificação foi limitado aos dois beligerantes: UNITA e MPLA. mas teve o mérito de possibilitar ‘alguma abertura política’ para manifestações sociais/laborais e económicas. resistiu enquanto pôde. Em Angola o processo de transição assume características específicas. Para esta autora. estavam lá e aproveitaram as circunstâncias para fazer ouvir a voz dos seus protestos. O MPLA. só assinou os Acordos de Bicesse porque estava convencida que sairia vencedora das eleições de 1992. Por isso mesmo. o que não acontecia no sistema monopartidário vigente anteriormente. um processo que até 2002 esteve bloqueado (Buijtenhuijs e Thiriot 1995: 26). associado a um processo liberalização económica. terem sido mal conduzidos (Messiant 1995: 40-57). quando deu conta 10 É verdade que a abertura pré-eleitoral de 1991-92 não permitiu resolver as situações de guerra. só cedendo sob pressões. o Estado diminuiu o seu controlo sob todos os sectores da economia. A UNITA. em larga medida. além de não ter tomado a iniciativa de abertura democrática. que apelavam para uma mudança. 10 Este abandono do Estado das suas funções sociais é agravado pela necessidade do governo do MPLA garantir a sua manutenção no poder na sequência da guerra civil vivida após as eleições de 1992. de negociações e de guerra intensificada. Mas o processo angolano. o insucesso do processo de transição angolano fica a dever-se também ao facto de que os dois principais partidos angolanos. por seu lado. Conforme Messiant. Esta especificidade deve-se sobretudo ao facto desse processo surgir num contexto de guerra civil em que o país está mergulhado há mais de três décadas.

aproveitando alguma segurança que a UNAVEM III proporciona. registou uma significativa recuperação. vão sobreviver nos círculos informais da economia. Até 1996 muitos funcionários do Estado. 5% das exportações de 1994. recorrendo sobretudo ao sector informal da economia. Na segunda metade de 1995 o governo perdeu de novo controlo da situação. em relação ao ano de 1993 (mas não em relação ao de 1992). às divisas e ao crédito. 57. em 1994 a economia angolana. Sobre as eleições abortadas de Setembro de 1992 cf. confrontados com a falta de «cartões». 11 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . responsável por 96. Subempregados. A estratégia da classe dirigente ou ex-classe dirigente é sobreviver na área económica sem perder a ligação aos círculos de influência. e sobre a guerra civil angolana cf. demitem-se das suas funções ou ausentam-se do serviço para procurar sobrevivência na economia paralela. uma possibilidade de manter a sua posição na primeira linha de hierarquia económica e social do país.2%. que haveriam de formar uma pequena burguesia. dependente de um contexto de guerra. em 1993 a situação agravara-se: o ritmo de inflação mensal atingiu os 23%. O segmento intermédio da classe-Estado. Pelo contrário. São eles que vão alimentar Luanda e outras cidades do país. na maioria dos casos. a taxa de desemprego em Luanda era superior a 24%. a situação económica e social em Angola não melhorou. As actividades mais lucrativas no imediato. os deslocados e outros afectados pela situação de guerra atingiam os três milhões de pessoas. desempregados e muitos empregados recorrem a esse sector como tábua de salvação.12 que os resultados eleitorais lhe eram desfavoráveis não hesitou em retomar a guerra. 12 As privatizações das empresas do sector público trazem. iniciado em 1991. Pereira 1994: 1-28. com a inflação a atingir valores elevadíssimos. No entanto. cerca de metade dos quais entre a população rural (cf. Pycroft 1994: 241-262. 11 Nos anos que se seguiram esse período conturbado da vida angolana. Banco de Portugal 1995 e Carvalho 1996). são as preferidas pelo novo empresariado angolano. devido sobretudo ao reforço da exportação de petróleo. Se os dirigentes ou ex-dirigentes candidatos a empresários encontram nos mecanismos de privatização um espaço para manter o status quo. É neste contexto de crise generalizada que as populações desenvolvem estratégias próprias de sobrevivência. O PIB cresceu na ordem dos 8. 12 os segmentos mais baixos da classe-Estado. Sommerville 1993: 51-77.Angola. Os indivíduos pertencentes aos níveis mais elevados da classe-Estado encontram no processo de privatização. como é o caso do comércio grossista. Por vezes mantêm as suas funções no aparelho de Estado. que consagra grande parte dos artigos a . e a Revista Politique Africaine. prejuízos avultados ao Estado.

A degradação progressiva dos edifícios herdados da época colonial e a escassez de verbas orçamentais destinadas à educação revelam a grave crise do sector. por exemplo. a ponto de se tornar imprescindível o apoio das organizações internacionais com vista a uma nova reforma do sistema de educativo. ao sector de segurança e defesa. Apesar da educação ter sido eleita pelo Estado pós-colonial como uma via privilegiada para o desenvolvimento e para a transformação da estrutura social em Angola (à semelhança. Há também aqueles que aproveitam a abertura política para se dedicarem às actividades do sector privado. tanto por parte do Ministério da Educação de Angola como das instituições ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . que surge associado a um certo abandono das populações por parte do Estado. cumulativamente ou não com a sua funções do sector público. no período de transição. Os segmentos sociais menos bem colocados tendem. reforçada ainda pelo facto de que o sector de educação surge. aliás. Além da oferta de ensino não satisfazer a procura a sua qualidade era muito fraca. levando consigo a propriedade do Estado. este sector defrontou-se desde sempre com grandes dificuldades. por sua vez. Em suma. em Angola. O reconhecimento do baixo nível de preparação dos professores. mantém o seu emprego no Estado ou noutro organismo. as classes dirigentes ou classe-Estado. evidentemente.13 por sua vez. Mas as dificuldades que afectavam e afectam a realidade educativa em Angola foram sempre muito mais graves. a nível do sistema de ensino. no quadro de transição. marginalizado e subordinado. social e económico acumulado ao longo dos tempos junto do aparelho de Estado. os diversos actores sociais tentam rentabilizar o capital político. que tendem a transitar do Estado/partido para o topo da hierarquia económica. acumulando frequentemente outras funções em empresas multinacionais. Realidades educativas angolanas e estratégias educativas dos actores sociais no processo de transição É justamente esta lógica estratégica de rentabilização de capital acumulado junto do aparelho do Estado que também prevalece. Os melhores colocados para exercer esse «poder» são. de todos os países africanos recém-independentes). a rentabilizar as funções que exercem usando a corrupção e o suborno para aumentar os seus rendimentos.

a maioria dos professores continuava a ter entre quatro a seis anos de escolaridade. como foi o caso da Reforma de 1994. com um estilo de vida urbano. cientes de que os seus salários não lhes permitiam garantir a sua sobrevivência e da sua família. doravante e mais do que nunca. o funcionamento real da estrutura do sistema educativo angolano apresenta-se desfasada da estrutura «oficial». motivou a cooperação técnica da UNESCO. as tentativas de levar a cabo as reformas educativas. por exemplo. a uma situação em que o Governo eleito não controla parte significativa do território e à consequente subordinação do sector do ensino relativamente aos esforços e políticas estratégicos de defesa e segurança. A Reforma educativa de 1994 orientava-se para uma realidade educacional concreta. procuram outras formas de complementar os seus salários para assegurar uma sobrevivência condigna. permanecia desigual. A frequência dos alunos nos níveis escolares mais avançados (II e III) continuava a ser fraca.14 internacionais. Face à situação de instabilidade política em que o país vive. Os professores. a distribuição da frequência. As outras realidades. como sejam das populações que chegam à cidade. associada à situação de guerra civil. mas que ainda não estão integradas. ao sentirem-se abandonadas pelo Estado. reflectindo uma situação de litoralização (à medida que se afastava para o interior a frequência diminuía) e desfavorável aos elementos femininos. defrontavam-se sempre com um problema central que era o desconhecimento da realidade educativa de Angola. não são contempladas nas preocupações da reforma (cf. Nestas circunstâncias. Rapport National de la République d’Angola par le Ministère de l’Éducation 1994). as próprias populações. Acrescente-se que o sector de educação angolano sofria de uma desarticulação a nível de coordenação de acções a nível nacional/regional ou local. associada a um projecto financiado pelo PNUD. a todo o custo. a não ser que. estratégias próprias com vista à resolução dos seus problemas educativos específicos. embora africano. O processo de transição/liberalização não trouxe alterações significativas ao sector de educação. As orientações políticas e outras relativas ao sector são sacrificadas. em 1979. projecto este que visava elevar o nível académico de vinte mil professores com a 4ª classe para a 6ª classe. Muitas vezes conseguir um complemento salarial significa abandonar o posto de trabalho em qualquer momento. desenvolvem. em termos regionais. a da população que vive na cidade. sempre que surja ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .

As populações de origem rural. uma situação em que a política de formação de quadros está ausente ou se encontra subordinada a um processo de manutenção/melhoria das condições de vida ou de sobrevivência. receber de volta as suas antigas instalações escolares nacionalizadas com a chegada da independência. As populações mais carenciadas. os funcionários públicos e os pequenos empresários — que acaba por aproveitar as oportunidades de escolarização existentes. este traduz. os grupos desfavorecidos ou menos favorecidos. o arranque do ensino privado não se processa sem grandes dificuldades. por outro. que deixar de «mandar os filhos à escola» em favor de uma qualquer estratégia de ganha-pão no mercado informal/paralelo. os grupos favorecidos. e os perdedores também são sempre os mesmos. Aqui o que está em jogo é o poder de influência e ligação com o Poder político. deste modo. conseguem a legalização e o funcionamento de escolas privadas sem grandes obstáculos.15 uma oportunidade. Quanto ao aparecimento do ensino privado. teoricamente gratuita. em que os vencedores são sempre os mesmos. por um lado. Daí que os empreendimentos de maior importância surjam ligados à classe-Estado. que chegam à cidade fugindo à guerra ou em busca de melhores condições. na maioria das vezes. Naturalmente. após 1992. A mesma lógica preside às estratégias de atribuição/acesso às bolsas de estudo reflectindo. encontram nas diferentes comunidades religiosas um espaço de pertença e integração. Junto aos edifícios do culto religioso foram surgindo ‘espontaneamente’ as «escolas» em salas de aulas anexas. Poucas pessoas ou instituições. Uma vez mais o jogo do poder e de influência política encontra um campo propício. esta situação favorece o carácter reprodutor da educação. é apenas parte dela — mormente a pequena burguesia. têm. a incapacidade do Estado em responder à procura de educação e. Os ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . As diligências da Igreja Católica permitiram-lhe. a pressão exercida pela classe-Estado e pela burguesia emergente. fugindo da guerra ou simplesmente à procura de melhores condições. a classe-Estado. que chegam à cidade. enquanto via de obtenção de interesses próprios. desejosa de protagonizar dinâmicas próprias dos países capitalistas. com excepção da Igreja Católica. exige das famílias um investimento significativo que não está ao alcance de toda a população. E porque a frequência de uma escola pública. Todavia. sobretudo as «deslocadas».

Paris. investindo os seus recursos de modo a atingir os seus objectivos: a pequena burguesia do empresariado emergente socorre-se dos seus recursos provenientes do comércio informal. 1996. 1 (10): 171-196. 1990. corrupção. e a classe-Estado rentabiliza os recurso do próprio Estado em seu favor. Raymon. Lisboa. Gradiva. L’État en Afrique: la politique du ventre. por sua vez. Evolução das economias dos PALOP 1994. Referências Bibliográficas BANCO DE PORTUGAL. as populações dos estratos mais baixos têm como recurso as comunidades religiosas (e/ou ONG). Estas instituições tentam aproveitar as antigas instalações negociando. Conflict in Africa: Concepts and Realities. Ibrahima.16 Colégios e Externatos surgem. BUIJTENHUIJS. 1989-1992: Un aperçu de la littérature. 1993. etc. BAYART. Princeton. geralmente com o Estado. A. Démocratisation en Afrique au Sud du Sahara. Revista Energia. «Esquisse d’une théorie de la transition: du monopartisme au ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . BUIJTENHUIJS. s. Paulo. Jean-Claude. Elly. Rob e THIRIOT. Démocratisation en Afrique au Sud du Sahara 1992-1995: un bilan de la littérature. B. Pierre e PASSERON. Centre d’Études Africaines. Céline. 1989. BOUDON. Paris. 1976. Leiden. BOURDIEU. CARVALHO. Política Internacional. 1994/95. O lugar da desordem. FALL. BAYART.). o seu poder de influência resulta do controlo do aparelho de Estado (incluindo ‘cunhas’. Jean-François. Em suma. bastante acima da oferecida por outras instituições. Fayart. incluindo o Estado. associados aos grupos com algum poder/interesse económico interessados em desenvolver projectos de ensino com uma qualidade razoável.. 1993. A reprodução: elementos para uma teoria do sistema de ensino. «Hiperinflação em Angola». African Studies Centre. tratam-se de escolas de elite. Editorial Vega. Princeton University Press. 42.. 1985. Rob e RIJNIERSE. BOZENAN. 1995. Lisboa. L’État au Cameroun. Ferreira. os vários segmentos sociais desenvolvem estratégias próprias de acesso à educação.d. FNSP. 1995. Leiden. a reconstrução de edifícios que no período colonial serviam funções similares. Jean-François. Lisboa. ENNES. «O processo de privatização em Angola».

W. TOCQUEVILLE. em L’Afrique vers le pluralisme politique. Franz-Wilhelm. 1979. Pierre Moukoko. Luanda. O’DONNEL. 1969. Guillermo e SCHMITTER. Paris. 1994. Relume e Dumará. 57: 40-57. Estúdios CEDES. «Développement de l’Éducation». PEREIRA. Guillermo. Economica. Phillipe. Lisboa. K.?. «The Neglected Tragedy: The Return to War in Angola. 40: 621-655. «Angola — The Forgotten Tragedy». 1993.. Social Change in Angola.. PRZEWORSKI. «Le retour au multipartisme au Cameroun». «The Failure of Democratic Reform in Angola and Zaire». 1973. C. Análise Social. Journal of Southern African Studies. Politique Africaine. 1964. s. SILVA.. 1994. em L’Afrique vers le pluralisme politique. 20 (2): 241-262. SILVA. 1995. O Antigo Regime e a revolução. MBONDJO. Paris. RAPPORT NATIONAL DE LA RÉPUBLIQUE D’ANGOLA PAR LE MINISTÈRE DE L’ÉDUCATION. Jorge Vieira da e MORAIS. A reforma do ensino primário no Ultramar. O’DONNEL. «Notas para el estúdio de procesos y democratizacion a partir del estado burocrático-autoritário». A. SOMMERVILLE.. PYCROFT. Survival. Toda educação aponta para a integração. Editorial Fragmentos. C.l. The Journal of Modern African Studies. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . 1994. Economica. Conférence Internationale de l’Éducation. 1994. John Hopkins University Press. José Pinheiro da. MINISTÉRIO DO ULTRAMAR. Júlio Artur de. Munique. 1986.). 1973. Genève.17 multipartisme en Afrique». Transitions from Authoritarian Rule: Tentative Conclusions about Uncertain Democraties. Democracia e mercado. 1989. 35 (3): 51-77. Franz-Wilhelm (ed. Rio de Janeiro. 1993. MESSIANT. em HEIMER. 32 (1): 1-28. HEIMER. «Estrutura social e descolonização em Angola». 5. Adam. Alex. «MPLA et UNITA: processus de paix et logique de guerre». 93-109. «Ecological Conditions of Social Change in the Central Highlands of Angola». 44èmme Session. Lisboa. 1992-1993».

Palavras-Chave: Formação Profissional. a realizar um curso técnico. procurámos compreender as relações sociais estabelecidas entre os formandos e o pessoal de enquadramento. entre os 17 e os 18 anos. na compreensão da forma de relação destes jovens formandos com os formadores e os mediadores culturais que lidam com eles.A. 2 E que. com diferentes origens etno-culturais. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . radicamos os seus padrões de atitude e conduta na adesão a diferentes mentalidades culturais. que. por motivos éticos. embora limitando o horizonte da investigação. Mentalidade Cultural O presente trabalho. inseridas no quadro geral de um horizonte de acção comum. apesar de diversos entre si. Em suma. acordámos com a direcção da Instituição. realizámos a avaliação etnográfica1 de um Centro de Formação Profissional. S. elaboradas sobre o fenómeno da educação/formação. em 2003. Assim.pt Através do estudo de um grupo de jovens desfavorecidos. de uma monografia final de pósgraduação em Formação de Formadores que frequentámos no Instituto Superior de Psicologia Aplicada. Assim. esta condicionante permitiu-nos estudar a vida quotidiana destes formandos nos espaços físicos onde existe maior flexibilidade de regras. logo. ao invés da tendencial “naturalização” dos fenómenos sócio-culturais das explicações etno-culturalistas. deriva de um conjunto de desenvolvimentos e reflexões.Relações Sociais na Formação Profissional Especial: da(s) Cultura(s) às Pessoas Miguel Ângelo Granja Lobato FCSH-UNL miguellobato@sapo. que iríamos restringir o locus da pesquisa aos espaços de recreio e lazer. ponderando o peso da agência pessoal e dos condicionantes estruturais. aproveitando para estudar aquele grupo durante os seus tempos livres. designámos como Instituto Global de Artes e Ofícios da Periferia. sito na região da Grande Lisboa 2 . posteriores à apresentação. que neste encontro tem a sua primeira oportunidade de ser submetido ao escrutínio dos nossos pares. Insucesso Escolar. Inserção Social. Na supracitada monografia. de manifestação “livre” de condutas e atitudes. 1 Nesta investigação. face ao horizonte de acção. defendemos a reabilitação da figura do agente social. junto de um grupo de jovens (seis rapazes e uma rapariga). Mediação Cultural.

De facto. visando a inclusão social dos jovens envolvidos. por norma. convém referir que este grupo de formação 6 era o remanescente da “turma” inicial. era bastante reduzido. 6 Com quem nos envolvemos. a qual. iremos apresentar uma breve reflexão sobre uma tese que preconiza o primado da agência pessoal. com qualificação de nível II. estava legalmente regulamentado pelo Despacho Normativo n. pois embora recorra a técnicas etnográficas. habitando em bairros ou degradados. oriundos de famílias com baixos níveis de escolaridade. profissões desprestigiantes. refira-se que a maior parte da oferta formativa do IGAOP dirigia-se a áreas de formação tradicionalmente masculinas. também foi expulso. consequentemente. não produzir uma verdadeira etnografia. Todavia. e. visa antes de tudo. tinham percursos existenciais similares. social. neste trabalho não pretendemos apresentar uma súmula da nossa pesquisa. parcos rendimentos. Por motivos imprevistos. quando começou. Assim sendo. laboral. marcados pela exclusão escolar. na época. Porém. desenvolvendo-se em três anos. avaliador). como se sabe. no presente trabalho. que foram emergindo ao longo do tempo que passámos entre os formandos. Não obstante. os problemas que motivaram a expulsão. Nesse sentido. 4 Neste campo. que era composta por dezasseis elementos. ao abrigo do programa da Formação Profissional Especial 5 . equivalência ao 9º ano. estes jovens estavam ali a frequentar um curso de longa duração (2 anos 3 ) no domínio da construção civil 4 . particularmente por intermédio dos mediadores culturais. mantendo todavia a carga horária total inicial.º 140/93. devemos relembrar que os resultados deste trabalho estão enformados pelo facto de emergirem de uma avaliação etnográfica. procedeu sempre ao seu acompanhamento. o que é visível no escasso número de raparigas que o frequentavam. tanto quanto sabemos. como forma de resolver a recorrente perturbação que provocava nas sessões de formação. como nas suas “origens etno-culturais”. e. local onde o alcance da intervenção dos mediadores. 3 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . dos quais quatro haviam sido expulsos. derivaram das condutas desenvolvidas no interior da sala de formação. (Fetterman 1984. o dispositivo institucional.2 tanto nos seus “fenótipos”. e outros quatro haviam desistido 7 . Fetterman & Pitman 1986). Ora. 7 Já durante a nossa pesquisa. 5 O qual. mas antes desenvolver algumas reflexões relativas à perspectiva do investigador (e. durante os últimos meses do segundo ano do curso. ou populares. mas antes avaliar uma realidade face a um referente. partindo da pesquisa efectuada sobre a relação destes jovens formandos com os mediadores culturais. face aos Pelo menos de início. tem um estatuto intelectualmente ambíguo. a acção teve um desdobramento curricular. antes de entrarmos nos aspectos mais substantivos desta comunicação. e. ou de habitação social. um dos formandos com que trabalhámos. de 6 de Julho. pese embora as características especiais desta formação.

Por outras palavras. 8 Sobre este assunto. e. este trabalho decorreu a uma escala micro-social. do qual emergem simultaneamente como produtos e produtores.) ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . mas antes das mais-valias heurísticas e hermenêuticas derivadas da opção consciente de. pessoas concretas. num processo decisório. Nesse sentido. reflectidos em espelhos distintos. elaborado no seio de uma avaliação etnográfica sobre os formandos de um curso de formação profissional especial. ou seja. devemos ter a preocupação de recorrer a uma(s) que responda(m) às questões que urge resolver. a saber. que. sem prejuízo dos elementos que os unem entre si 9 . rejeitando as sobredeterminações (sociais. pelo que. procurámos tratar cada um dos envolvidos nesta investigação como um sujeito. esperamos) existentes ao nível da agência pessoal dos intervenientes (Bourdieu s. Todavia. pode consultar-se proveitosamente os estudos de David Fetterman (Fetterman 1984. como filosóficas (valorização e dignificação da pessoa humana). balizado por preocupações. enquanto avaliadores etnográficos. o nosso papel principal é a produção de conhecimentos para apoio à acção. Fetterman & Pitman 1986). etc). reconhecendo a distintividade e diversidade dos seus caminhos pessoais. económicas. movem-se num lebenwelt (mundo da vida). sexuais) que possam ser elaboradas sobre determinadas categorias de pessoas (pobres. através do seu dasein (estar-aí). recorrer-se à “atomização” das estruturas sociais. enjeitando as teses mais “estruturalistas”. hic et nunc (aqui e agora). não vamos aqui falar da avaliação etnográfica em si 8 . familiares. e escolares. lendo os agentes envolvidos como hologramas societais. minorias. operando no âmago da dualidade da estrutura de que nos fala Anthony Giddens (Guiddens 2000). onde tentámos equilibrar horizontes de acção macro-estruturais e as possibilidades (realistas e/ou razoáveis. tanto pragmáticas (escolha de um quadro teórico com boa adesão aos fenómenos observados e relevância para a acção). raciais. 9 Assim sendo. mulheres. ou seja.3 condicionantes estruturais. de entre a variedade de teorias disponíveis para abordar o terreno. na adesão (pessoal) dos agentes a diferentes configurações de mentalidades culturais. no estudo de pequenos grupos (como é o caso de um meio escolar circunscrito).d. inscrevendo a diversidade dos padrões de atitude e conduta que observámos.

preconizando que «…the ethnographer enters the field with an open mind. nesta pesquisa. numa perspectiva próxima da teoria emergente (usualmente conhecida por grounded theory). enformando-as a visões políticas do mundo. e. encontram-se mesmo entre alguns antropólogos. e. Assim. opusemos uma teoria que considera o domínio cultural como uma rede constelacional. por considerarmos que essas teses escondem escolhas ideológicas que enviesam as análises científicas. not an empty head. ainda que estes o ignorem ou neguem. que visam reduzir o “lebenwelt” a uma tendência configuradora de um inequívoco e normativo padrão de ideias e condutas.4 Posto isto. vivem num regime de “esquizofrenia cultural”. Costa 1998). 11 As marcas mais ou menos camufladas deste tipo de teses. que. particularmente no que concerne à identificação e filiação identitária (Nunes 1995. A título de exemplo. descuram a importância da dimensão social e colectiva da vida humana. hoje reconhecemos que o quadro teórico em que nos movimentámos na altura está um pouco desactualizado. p. próprias de determinada civilização. desenvolvemos uma reflexão sobre a sociedade e a cultura. preconiza que as culturas são tendencialmente fixistas e/ou essencialistas 11 . reificam os indivíduos. razão pela qual procurámos deixar que os eventos em que participávamos fossem ajudando à emergência de uma hermenêutica do vivido. bem como as teorizações ostensivamente psicologistas. Crehan 2004). embora tenhamos explorado algumas teorizações bastante profícuas sobre a exclusão social 10 . etnia. Especialmente os estudos feitos sobre a égide de Luís Capucha e Alfredo Bruto da Costa (Capucha 1999. fruto dos processos dinâmicos (e. 1). a posição dos sujeitos na estrutura e organização da sociedade.). enjeitámos as teorias que elaboram instrumentais (modelos de dados e grelhas de leitura da realidade) centrados no primado de determinada variável (classe. e. Ora. etc. que pode assumir expressões diversas no interior de cada sociedade. 10 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Fruto das aprendizagens posteriores. Isto porque. assente na desconstrução de visões homogeneizantes e intentos hegemónicos (oriundas tanto dos estratos dominantes como de grupos subalternos). sem todavia negar a sua unidade. a auto-vigilância do discurso é fulcral para evitar cair nesta dissimulada e recorrente armadilha do senso comum. Logo.» (Fetterman 1998. salvo melhor opinião. contra esta tese que – inclusive sob o signo do multiculturalismo –. sexo. Nesse sentido. recusámos abordar o terreno com um quadro teórico “prontoa-vestir”. raça. defendemos que é um erro (infelizmente comum) considerar que as “segundas gerações” de imigrantes. transitória e em constante (re)produção. classe social ou mesmo sub-cultura.

enquanto ser singular – embora nunca perdendo a sua posição de sujeito cultural e socialmente situado – ao invés de ser discursivamente sobredeterminado por um conjunto de categorizações genéricas (nacionais. expressam-se por códigos culturais emergentes.e. numa identidade dilacerada).. organizado segundo princípios policêntricos.. Por outras palavras. reelaboram-nos de formas particularmente distintas. mas temos que redefinir também a sua semântica. tanto têm de comum como de diverso. por vezes ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . nestas pessoas (que podem ou não viver impregnadas em redes comunitaristas de identificação e sociabilidade). devemos reconhecer o “Outro” (seja ele qual for). O reconhecimento de uma emergência miscigenada (que tanto se aplica a filhos de caboverdeanos em Portugal como à prole dos portugueses em França) não é a denúncia de uma alienação cultural (embora alguns o possam viver assim. ou de género neutro. por parte do investigador. embora podendo. para lá da sua aparência. como também respondem de forma plural e diversa a todo um conjunto de diferentes desafios. no quadro de um complexo socio-cultural que assenta numa lógica que não é monolítica. sociais. foi através do enquadramento da investigação com um conjunto de noções operatórias. seja de cariz laudatório. em que se revêem. que. saindo deste breve excurso. não só “miscigenizam” elementos de diferentes proveniências. não devemos apenas mudar as palavras. mais próxima do multiculturalismo celebratório (com que certos sujeitos se podem porventura identificar). sexuais. Ou seja. importa referir que. o fulcro da nossa tese é a defesa que. etc). Nesse sentido. ao edificarem novas “sub-culturas”. expectativas e/ou aspirações. Efectivamente. que o torne capaz de reconhecer que. entre diferentes “mundos de vida”. nos mesmos parâmetros que identificamos o “Eu”. possuir um núcleo de elementos transversais. Mas. étnicas. nem a apologia da hibridez cultural. abrindo e explorando um feixe de modos de vida. que reflectem as novas modalidades societais de pensar. mas antes segmentar. de tipo pejorativo. sentir e agir. por vezes.e. i. i. um interlocutor tem o supremo direito de falar por si.5 amiúde ambíguos ou contraditórios) de socialização e endoculturação. reconhecendo a pluralidade das pessoas e dos seus modos de vida. em que usualmente são (re)produzidas. mas antes uma abertura intelectual.

revelam como nas suas vidas. venha a ser refinado. o que desenlevando a acção diferencial dos agentes sociais sob investigação. monografia de Óscar Lewis sobre a biografia de uma família pobre da cidade do México. que permitimos que o terreno fosse gerando pistas para a sua própria interpretação. pelo que esperamos que o aparato teórico referido em epígrafe nos tenha apartado do senso comum. refutado por uma perspectiva mais promissora 12 . Esta última noção.. revelou trajectórias sociais e percursos biográficos diferenciados que. Efectivamente. sintetizando mecanismos de ordem cultural e sócioeconómica. a qual. expressos por percursos biográficos singulares – que se apresentam sob o conceito de “modo de vida”. 12 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . se possam perspectivar diferentes padrões de conduta – enraizados em trajectórias sociais colectivas (culturalmente informadas) e. por desenvolver uma reflexão emergente das fecundas contribuições do debate entre Thomas Khun e Karl Popper (Lakatos 1998. e. exploraram distintos percursos existenciais. entre e no interior. no seio da qual os membros da linhagem. Lakatos 1999). em tempo. com a existência de diferentes tipos de exclusão social. esperamos que o nosso insight ao ser aquilatado pelos nossos pares. opostas à “naturalização” dos fenómenos e/ou à justificação e padronização da evolução das suas configurações societais). favorece a legibilidade das diferenças (por vezes profundas). Além disso. Desta forma. Porém. pôde assentar no individualismo metodológico. esta diversidade de modos de vida da pobreza e exclusão social é magistralmente ilustrada em “Os filhos de Sanchez”. importa ainda referir que as nossas conclusões devem muito à estratégia de pesquisa mobilizada. matizam as visões hegemónicas que tendem sumariamente a associar e/ou justificar a pertença a determinada categoria social. da profusão de dados observados.e.6 contra-factuais (i. mais que pugnar por uma tese. foi para nós uma referência basilar. Imre Lakatos. o individualismo metodológico – se interpretado em termos culturalistas – permite-nos que. No campo da epistemologia. devido a estudarmos um fenómeno restrito a um pequeno grupo de pessoas. que separam as condutas consideradas dominantes. com um acento tónico no pólo da observação (e da escuta casual). sem por isso cortar relações com o bom senso. dos vários estratos sócioeconómicos ou comunidades etno-culturais.

considerámos o terreiro de formação. na tentativa de escapar ao pântano intelectual em que muitas vezes caem os culturalistas. bem como os discursos e as práticas a ela associada – por vezes levados a extremos (Vasconcelos 1996) – mesmo que elaborados com intenções igualitárias. Efectivamente. o IGAOP. mesmo que com a mais benigna e igualitária das intenções. de consequências incertas e equívocas 13 . um bom estudo sobre alguns aspectos desta problemática. particularmente visível em comportamentos belicosos para com os seus pares. decorriam em franca grande animação. Face a tudo isto. correm o sério risco de enfraquecer e inquinar os laços sociais em prol de políticas comunitaristas. umas vezes dando mostras de maior acatamento de normas de conduta instituídas. enquanto comunidade de agentes institucionais e beneficiários da formação. em contexto holandês (Vermeulen 2001). Na mesma linha. 13 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . nomeadamente no domínio sócio-educativo.7 desde o prosseguimento dos estudos. esse termo expressa simplesmente um sistema de referências colectivas. enquanto em outras ocasiões. 14 Expressos particularmente na resistência à imposição da pontualidade quanto aos tempos lectivos. a sua consequente redução ao nível do estereótipo ou das ideias feitas. possuam atitudes e condutas comuns concordantes com essa percepção do mundo (Vieira 1995). Em suma. embora a maioria dos sujeitos demonstra-se uma conduta intermédia. e. tanto mais que ao invés da difícil operacionalização da ideia de cultura. (re)constroem processos de regulação e legitimação das diversas formas de conduta social em presença. Assim sendo. protagonizado por Consuelo até ao crime ocasional. pelo menos. de modo especial quando as actividades recreativas (como a conversa ou o pingue-pongue) em que estavam envolvidos. com tudo isto. no seio do qual os indivíduos que dele partilham. se alguns formandos (principalmente jovens adultos. através das quais jovens formandos e agentes institucionais. outros havia que revelavam claro “desajuste”. perpetrado por Roberto (Lewis 1979). como um terreiro de desiguais e permanentes negociações. estamos entre os que defendem que a reificação da diferença. conforme nos foi dado a observar. No entanto. optámos pelo recurso ao conceito de mentalidade cultural. tendiam a acentuar os actos de insubordinação e/ou desobediência 14 . maiores de idade) exprimiam atitudes mais “consentâneas” com o institucionalmente “desejável”. não quisemos fazer mais do que evitar a sobredeterminação das pessoas. era governado por um regime de Existe.

excepto no caso de estarmos dispostos a acreditar nas vetustas “caracterologias” nacionais ou a preconizar que as culturas constituem súmulas sistematizadas e orgânicas bem delimitadas. 15 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . entre os formandos e a organização. particularmente através dos mediadores/animadores culturais. justificando os fenómenos com argumentos quasi-naturalistas. que englobam não só uns quantos estudiosos. defendemos que. acabassem por ser irradiados do sistema. Isto porque. concluímos que a diversidade dos padrões de conduta observados. estes desenvolvem um papel decisivo na gestão da mudança. tomando-os como pessoas ao invés de especímenes de determinada categoria (social. tinham o fulcro da sua actividade centrada na harmonização dos diferentes modos de vida e mentalidades culturais em presença. necessárias ao institucionalmente desejável desenrolar da Formação Profissional. entramos em choque com aqueles que. Assim sendo. os activistas de toda a espécie – especialmente os nacionalistas radicais – que lutam pela implementação efectiva deste tipo de programa de acção. os projectos institucionalizados de regulação das atitudes e condutas 15 .8 mútua adaptação. os quais. Neste domínio. e. não obstante haver muitos adeptos destas teorias. comprimido entre os esforços envidados por diferentes jovens em implementarem os seus distintos modos de vida (que iam do acatamento geral das regras à violência entre pares. prevenindo conflitos. ao contrário da escola “tradicional”. nos espaços livres. visam circunscrever grupos de pertença. sexual ou cultural). Todavia. como também. reificar os ethos. e. ancorados numa posição de “charneira”. incentivando alterações de atitudes e condutas. radicam modos de vida e mentalidades culturais em supostos ascendentes e/ou filiação em determinada cultura. Não obstante os elementos mais recalcitrantes ao respeito ou negociação de fórmulas de “convivência”. especialmente pelo recurso a animadores/mediadores culturais. e. Conforme revelou a nossa pesquisa. é ao explorar a descontinuidade entre os arquétipos do dever-ser. Todavia. existente no Centro de Formação Profissional que estudámos. essas teses. em última análise. mais que qualquer outros. verifica-se um efectivo esforço de inclusão social e combate à marginalidade. Isto é válido. remete o valor heurístico da causalidade fundada na categorização para um papel residual. passando pela subordinação da formação à diversão). devido ao amplo regime de autonomia organizacional e pedagógica. racial. no sentido dos padrões socialmente aceites. ao estudar os jovens envolvidos nesta formação. de modo ligeiro.

através dos formadores. particularmente em termos laborais. desenvolvia um duplo labor. a realidade substantiva das modalidades concretas de padrões de atitude e comportamento. proceder à "correcção" de comportamentos. bem ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . em determinados modos de vida e mentalidades culturais. que estes jovens adquirissem conhecimentos profissionais passíveis de lhes abrir as portas ao mercado de trabalho (quebrando assim o ciclo da pobreza e da exclusão profissional). que moldaram a sua socialização primária. enquanto avaliadores etnográficos. Posto isto. Neste sentido. verifica-se que os jovens formandos trazidos à colação. procurámos interpretar as mentalidades culturais. inscritas no âmago dos sujeitos investigados. foi o facto de enformarmos a nossa pesquisa por estes pressupostos. e. assumiam uma grande diversidade de formas de conduta. Deste modo. negligenciando as situações de marginalidade mais brandas. concluímos pela vacuidade das teses que tendem a reduzir os jovens pobres ou socialmente excluídos a um grupo de comportamento homogéneo. releva da nossa pesquisa que estamos perante um processo de (re)produção social e cultural. o que provoca leituras equívocas. passíveis de lhes facultar uma melhor integração no seio das normas de conduta da sociedade envolvente e do mercado de trabalho. Deste modo. afigurou-se que a Instituição. através dos animadores/mediadores culturais. tendo em vista uma maior adaptação destes jovens em risco de exclusão social no seio da sociedade envolvente. informadas tanto por idiossincrasias pessoais. sem procurarmos “naturalizar” qualquer modalidade de organização do mundo humano. emergente de uma dinâmica de socialização secundária. radicando-a numa pletora de modos de vida e mentalidades culturais. procurando. Logo. tanto mais que afigura-se que. que encontramos esta pletora de modos de vida e de mentalidades culturais. esta visões derivam de um excessivo enfoque nos casos particularmente problemáticos. Ora. que não são redutíveis a causalidades unidimensionais. que acabámos por valorizar a diversidade interna entre os formandos. que erradamente tomam o todo pela parte. com vista a que estes jovens pudessem adquirir (quando necessário) competências sociais. nesta linha. na qual se negoceiam formas de pensar e agir. como pela diversidade de trajectórias biográficas.9 e. interessados em conhecer as diferentes expressões das atitudes e condutas dos formandos.

as pessoas operam sobre a cultura. defendemos que. Posto isto. Logo. Em suma. e. antes de tudo o mais. que há pessoas para lá das culturas. Assim. reconhece-los como pessoas e tratá-los como sujeitos. pelo que ao invés de os reduzirmos a categorias. patentes nos modos de vida destes jovens. se a cultura (en)forma os sujeitos. mas antes. perspectivados no quadro de uma cultura segmentar. tanto “tradicionais” como “modernas”16 . corporizado nos cientistas sociais – tenhamos sempre em conta. Efectivamente. seja de etnia ou de classe. não radicam a sua conduta em modos essencialmente determinados de relacionamento social. as instituições culturais dotadas de superior legitimidade ou poderio (substantivo ou simbólico). 16 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . fazemos votos para que. fruto de uma determinada cultura. da dimensão policêntrica das culturas e sociedades. concluímos que estes jovens. mesmo que discordem das suas linhas programáticas. não obstam à presença em cena de focos de poder alternativos. (bem como o inverso). secundários ou marginais. que assumem funções de complementaridade. derivada ela própria. exprimem a diversidade das formas de conduta humana. outros também possam vir a lucrar com as nossas teses. não entrámos em pormenores substantivos do empírico. esperando que. especialmente quando se estuda ou trabalha entre grupos desfavorecidos – que estão particularmente expostos ao olhar desse “Outro”. reiterando o propósito desta comunicação. nem ficámos na especulação gratuita. Falámos pois de algumas reflexões sobre a prática e o terreno. devemos.10 como as suas expressões societais. concorrência e/ou antagonismo. nenhum destes elementos é redutível ao outro.

Gramsci. Oeiras. LAKATOS. Ethnography in theory.d. Observatório do Emprego e Formação Profissional. Centro de Estudos Sociais. 1999. FETTERMAN. LEWIS. s. 1998. 2001. 2000. Perfis Emergentes. Identidade e Globalização. Edições 70. Lisboa. 1995. Ricardo. Configurações e Fronteiras: Sobre Cultura. Integração e a Dimensão Política da Cultura. VERMEULEN. 1998. Esquisse d’une Théorie de la Pratique. Grupos Desfavorecidos Face ao Emprego. Lisboa. Kate. FETTERMAN. História da Ciência e suas Reconstruções Racionais.. GUIDDENS. Campo da Comunicação. 1979. 1984. Thousand Oaks.). Fundação Mário Soares/Gradiva Publicações. VASCONCELOS. FETTERMAN. Os Filhos de Sanchez. David e Mary Anne Pitman (eds. 1995. 4: 127-147. Lisboa. 6: 23-46.). Lisboa. Imre. Exclusões Sociais. Lisboa. Imre. Hans. Edições Colibri. David M. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Cultura e Antropologia. Instituto para a Inovação na Formação. Sage Publications. CAPUCHA. Librairie Droz. LAKATOS. 2004. “Onde Pensas que Tu Vais? Senta-te! – Etnografia como Experiência Transformadora”. Teresa Maria Sena de. Reportórios. Dualidade da Estrutura.11 Bibliografia BORDIEU. João Arriscado. Lisboa. 1986 Educational Evaluation. Lisboa. Lisboa. VIEIRA. Beverly Hills. CREHAN. Ethnography. Sage Publications. Imigração. practice and politics.. Alfredo Bruto da. Pierre. Educação. Celta Editora.). Escola e Pedagogia Intercultural”. Anthony. Coimbra. Ethnography in Educational Evaluation. Falsificação e Metodologia dos Programas de Investigação Científica. Óscar. MILAGRE. David (ed. Sociedade & Culturas. Sage Publications. Beverly Hills. Cristina Maria Paulo do Nascimento et al. Educação. NUNES. “Mentalidades. 1999. Edições 70. Genebra. Moraes Editores. 2002. COSTA. 1998. Luís Manuel Antunes (coord.. Sociedade & Culturas. 1996.

um pequeno esboço histórico sobre a Antropologia da Educação em Portugal. 1. a Licenciatura em Antropologia da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa tinha uma cadeira optativa de Antropologia da Educação 1 leccionada pelo professor Viegas Tavares.ipleiria. Setúbal e Leiria. a este propósito. Esboço Histórico No início dos anos 80. Manuel José Alves Viegas Tavares resumia assim a Antropologia da Educação: A Antropologia da Educação analisa as relações escola/comunidade e as suas implicações no processo de enculturação dos jovens.A ANTROPOLOGIA DA EDUCAÇÃO EM PORTUGAL Ricardo Vieira Centro de Investigação Identidade(s) e Diversidade(s) (CIID) Instituto Politécnico de Leiria (IPL) rvieira@esel. Histórias de Vida. o papel da FCSH-UNL.pt Faz-se. Salienta-se. como são o caso da de Castelo Branco. currículo vitae que integra estas provas de agregação). essencialmente. Educação Intercultural. que acumulava a docência com a de quadro superior no Ministério da Educação. tanto ao nível do trabalho ligado ao ensino da antropologia como à investigação em antropologia da educação produzida no ISCTE. Num artigo de 1985. numa primeira instância. também o papel da APA no desenvolvimento destas matérias. Há um investimento maior na obra de Raul Iturra e sua equipa de investigação. do ISCTE e de algumas ESEs. Aplicando os métodos de pesquisa e 1 No ano lectivo de 1983/84 eu próprio fui seu aluno e desenvolvi para avaliação final um pequeno trabalho de pesquisa etnográfica numa escola de Lisboa com o financiamento do Ministério da Educação (cf. Palavras-chave: Antropologia da Educação. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . realçando.

do 10º ano. nos ciclos do Inverno e da Primavera. como ele próprio diz. obrigatoriamente. Em particular. ramo de Jornalismo e Turismo. mas centrando-se sempre no método etnográfico de observação participante na análise dos processos educacionais. 1985: 53). Jorge Crespo desenvolvia também uma cadeira optativa de Antropologia do Jogo. vim a ingressar na Escola Superior de Educação de Leiria 4 que tinha iniciado a sua função docente há apenas um ano. 1982: 52). os jogos integravam-se no complexo de cerimónias cíclicas através das quais as crianças e os jovens se apropriavam da cultura das suas comunidades. a disciplina de Antropologia Cultural desapareceu com a nova reforma curricular. da autoria de Augusto Mesquitela Lima. Terminada a minha licenciatura. Antropologia Cultural. 1999: 7). Nas sociedades tradicionais. mas apenas por necessidade de complemento de horário. no processo cíclico de reestruturação do mundo. espaço e tempo da liberdade favorável à inovação e transformação da realidade (Crespo. e depois de 2 anos a ensinar Geografia e Antropologia no Ensino Secundário 3 . De resto. destacam-se os jogos que constituíam experiências fundamentais da morte e da vida. O insucesso escolar e as minorias étnicas em Portugal: uma abordagem antropológica da educação.2 análise de ciências afins. 1997: 116). “tendo sido na sua generalidade. depois. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Professores do 2º Ciclo do Ensino Básico. Manuel Viegas (1998). o jogo é um dos elementos mais importante na formação das personalidades. com uma 2ª parte que. tendo deixado de ser leccionada em 1993/94” (Santos e Seixas. depois das noções operatórias básicas da Antropologia Geral e das 2 TAVARES. Paralelamente. “Entretanto. Viegas Tavares veio a fazer o seu doutoramento sobre o insucesso escolar e as minorias étnicas em Portugal 2 . Benito Martinez e João Lopes Filho. visa contribuir para a solução de problemas da prática e da política educativa (Tavares. Fui convidado a construir o programa de Antropologia Cultural e fi-lo. de cursar Antropologia. 3 Na área de Estudos Humanísticos. na altura. o Ensino Secundário os alunos tinham. no 1º semestre do 2º ano. não tinham habilitação própria nem formação específica em Antropologia. em 1987. sendo que os cursos de Educadores de Infância e Professores do 1º Ciclo do Ensino Básico tinham. variante de Português/Francês. O programa e o manual mais divulgado eram. pois o número de aulas de Antropologia não chega para formar um horário lectivo normal de 22 horas” (Souta. encarregues de a leccionar – o que nem sempre fazem com gosto. os professores de Geografia. no 1º semestre. Todos os cursos de então 5 . Educadores de Infância. no domínio das relações com os outros. Lisboa: Piaget. Nestes casos. incluíam nos seus curricula a disciplina de Introdução às Ciências Sociais. 4 No ano lectivo de 1987/88 5 Poucos na altura: Formação de Professores para o 1º Ciclo. Os professores de Antropologia Cultural.

e os demais foram publicados nas Actas das I Jornadas de Antropologia e Etnologia Regional. a 10. Os conferencistas convidados para esta sessão foram os professores Raul Iturra do ISCTE que apresentou a conferência “A passagem da oralidade à escrita na formação do saber: o mito do insucesso escolar” e Augusto Mesquitela Lima da FCSH – Universidade Nova de Lisboa. na altura. no ano de 1988. que apresentou a conferência “A Antropologia e o Sistema Educativo 6 ”. na Universidade de Bordéus. 11 e 12 de Novembro. numa tentativa de relativizar a mente dos futuros professores e educadores. ora no Estados Unidos da América. dias 10. apontava para o estudo do processo educativo embora. É preciso recordar que as Escolas Superiores de Educação (ESEs) nasceram a partir dos Magistérios Primários que. por professores que haviam feito os seus mestrados em Ciências da Educação. Nalgumas escolas 6 Estes textos. basicamente por todo o país. um pouco por todos os Magistérios do País. tinham também nos currículos da formação de professores e de educadores de infância. Leiria: Escola Superior de Educação. Sociologia da Educação e Antropologia da Educação dos currículos de formação das ESEs. lembro-me. não tivesse formação suficiente para ir além do Culturismo Americano e da escola de cultura e personalidade. há já alguns anos. 11 e 12 de Novembro de 1988. O corpo docente das emergentes Escolas Superiores de Educação foi alimentado. Os que fizeram as suas especializações em Análise Social da Educação ou em Metodologia dos Estudos Sociais são. provavelmente. No ano de 1988. era o célebre “Padrões de Cultura” de Ruth Benedict e “Os conflitos e Gerações” de Margaret Mead. Os livros obrigatórios de então. traduzida em edição brasileira por “Introdução à Antropologia Cultural” em 3 tomos que basicamente constituíam o manual da disciplina. A minha preocupação com o cruzamento da Antropologia com a educação era de tal forma já considerável na altura que consegui que a manhã do primeiro dia fosse inteiramente dedicada ao tema da Antropologia e Educação. os docentes que estão na origem das disciplinas de Análise Social da Educação. integrei a comissão organizadora das I Jornadas de Antropologia e Etnologia Regional. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . a disciplina de Antropologia Cultural muito desenvolvida em torno da obra de Herskovits “Man and his Works”. financiados por um projecto do Banco de Portugal. na Universidade de Boston.3 Ciências Sociais. ora em França.

não podem/devem perder a experiência da Antropologia nessas matérias 9 . actualmente. embora não tendo especificamente Antropologia da Educação nos seus currículos. Nuno Porto e Berta Nunes. inevitavelmente. licenciado em Antropologia e. é notável sobre a questão da escola e das propostas inter/multiculturais. O trabalho de Carlos Cardoso. leccionada por Luís Costa. Outras Escolas Superiores de Educação e Universidades públicas e privadas. Professor Coordenador da ESE de Setúbal. Entre 1993 e 1997. também ele Mestre em Ciências da Educação 7 pela Universidade de Boston. Pulo Raposo. Aproveitavam o tempo livre Luís Souta. e cuja coordenação tem sido assegurada por Luís Souta. desde muito cedo que orientou a Antropologia (licenciatura) para a questão da educação e da diversidade cultural e para a legitimação da Antropologia da Educação (tese de mestrado e de doutoramento) sob a orientação do Doutor Raul Iturra. – Associação Portuguesa de Antropologia. a secção de Antropologia da Educação da APA. professor da Escola Superior de Educação de Lisboa.4 surgiu mesmo a disciplina de Sócio-Antropologia. com Filipe Reis. 9 Ver a este propósito a obra “Nos Bastidores da Formação: Contributo para o Conhecimento da Situação Actual da Formação de Adultos para a Diversidade em Portugal”. iniciado em Vila Ruiva. 8 Ricardo Vieira. no entanto. É inegavelmente. reuniu várias vezes com o Ministério da Educação a propósito da habilitação própria para leccionar no Ensino Secundário e de outras saídas profissionais dos Antropólogos no ensino: Área-Escola. definida como uma área curricular não disciplinar e os TEIP (Territórios Educativos de Intervenção Comunitária) criados pelo Despacho 147-B/ME/96. como é o caso de Castelo Branco. Em 1987 Raul Iturra dava o grande pontapé de saída com o trabalho de campo com observação participante. em 1992. Na ESE de Leiria surgiu a Antropologia da Educação como disciplina optativa dos cursos de Formação de Professores para o 1º Ciclo e de Educadores de Infância. é. Rosa Nunes e Rui Trindade. acabam por ter algumas disciplinas viradas para a questão da educação e diversidade cultural que. 2000). sem qualquer grau em Ciências da Educação. Na ESE de Setúbal foi criada a disciplina de Antropologia da Educação. coordenada por Luíza Cortesão (Cortesão. Rosa Madeira. 7 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . está a concluir o seu doutoramento em Antropologia da Educação no ISCTE. Professor Catedrático do ISCTE. de Carlinda Leite. presidida pelo professor Raul Iturra e da qual eu próprio fazia parte. que funcionou pela primeira vez no ano lectivo de 1988/89. a Raul Iturra que se deve o boom do desenvolvimento da Antropologia da Educação em Portugal. criada pelo Decreto-Lei 286/89. sob proposta de Ricardo Vieira 8 .

etc. cientistas da educação e antropólogos (Raul Iturra desde o primeiro número 11 . os seguintes livros: “Fugirás à Escola Para Trabalhar a Terra: Ensaios de Antropologia Social Sobre o Insucesso Escolar” de Raul Iturra (1990a). através da metodologia das genealogias. Assim. o Coração: A Construção Social da Sexualidade em Vila Ruiva” de Nuno Porto (Porto. Luís Souta e Amélia Frazão-Moreira). (cf. “A Construção Social do Insucesso Escolar: Memória e Aprendizagem em Vila Ruiva” de Raul Iturra (1990b). ao hospital. Iturra. levava os alunos a pensar a sua história. sobre a temática “sistemas de avaliação doa alunos do Ensino Básico”. o aparecimento da revista “Educação. 1991). brincavam à família. os animais etc 10 . em 1994. papel e lápis e faziam com as crianças os trabalhos de casa. integra vários sociólogos. 1991). “Corpos. mais tarde. Sociedade e Culturas”. e “Entre a Escola e o Lar: O Curriculum e os Saberes da Infância” de Ricardo Vieira (Vieira. 2000). n. conjuntamente com Telmo Caria e Ana Benavente. Ricardo Vieira. desde o segundo e. em particular com a Sociologia da Educação. 10 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Ana Felisbela Lavado e Paula Godinho para a revista Arquivos da Memória do Centro de Estudos de Etnologia Portuguesa da Universidade Nova de Lisboa. Arados e Romarias: Entre a Fé e a Razão em Vila Ruiva” de Paulo Raposo (Raposo. ainda em termos do desenvolvimento da Antropologia da Educação em Portugal. Ricardo Vieira colaborou na organizou da secção Diálogos sobre o Vivido. 1991). Dessa investigação foram publicados. 1997). o património dos pais. Vieram a juntar-se a estas publicações a “Escola e Aprendizagem para o Trabalho num País da (Semi)periferia Europeia” de Stephen Stoer e Helena Araújo (Stoer e Araújo. à doença. Paulo Raposo. ainda que de uma forma mais interdisciplinar. terras.º 6/7. 11 Contudo. 1990 e Iturra. dirigida pelo professor Stephen Stoer e que. Esta revista. a Razão. em termos de secretariado de redacção e conselho de redacção. que tem Ver entrevista dada por Raul Iturra em 1999 a Ana Levy Aires. Compravam cadernos. Ensino e Crescimento: O Jogo Infantil e a Aprendizagem do Cálculo Económico em Vila Ruiva” de Filipe Reis (Reis. Iturra e Reis. propriedade da Associação de Sociologia e Antropologia da Educação. Filipe Reis. “Educação.5 que a escola concedia às crianças para fazerem actividades com elas a fim de compreender as suas representações sociais e conhecimento local. “O Saber Médico do Povo” de Berta Nunes (Nunes. 1992). É de assinalar aqui. “O Corpo. 1992). na colecção “A aprendizagem para além da Escola”.

Isso levou-me. por insistência de Paulo Raposo. que vivem no que é denominada «uma situação de ghetto sóciocultural». […] Eu queria entender a racionalidade daquelas estratégias reprodutivas. através do que é que pensam e como pensam as crianças acerca do que acontece na sua casa. Finalmente. Na base de um conhecimento da evolução de instituições de ensino técnico. a partir das brincadeiras e jogos passámos a analisar. a meter-me por uma ideia feliz daquela equipa: como é a epistemologia do lar.5). no artigo de Sérgio Grácio. com seis artigos que abordam temas variados: O primeiro artigo [da autoria de Stephen Stoer] aborda a construção. A seguir. As crianças vêem o mundo através dos olhos dos adultos. editorial do primeiro número da revista. Antropologia da Sexualidade. (Stoer. por criar. e. inventámos os ATL. do conceito do professor inter/multicultural através do campo da recontextualização pedagógica. ou o Filipe Reis. uma Antropologia Urbana. a epistemologia dos seres humanos. possivelmente “contra-hegemónia”. saiu. Então. Investigação e Ensino da Antropologia da Educação no ISCTE.6 tido um forte pendor etnográfico. uma proposta para um modelo explicativo dos graus de autonomia ou de heteronomia nas relações das instituições de ensino com as instituições económicas o mercado de emprego. começámos a brincar com as crianças. porque a criança ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Antropologia do Género. 2. passando. como tentativa de aceder a uma compreensão dos seus quotidianos. ou o Nuno Porto. Este objectivo de entender a racionalidade reprodutiva tem-me levado da Antropologia Económica à Antropologia da Educação. os tempos livres. O artigo de Luiza Cortesão e colaboradores apresenta uma análise das histórias contadas por crianças luso-brancas e luso-ciganas. apresenta-nos uma reflexão crítica sobre o conceito e as teorias da mudança social. uma Antropologia do Turismo. Augusto Santos Silva. no seu primeiro número. pelo meio. que fez comigo trabalho de campo. o artigo de Georges Augustin lança um olhar antropológico sobre o jogo de berlindes. em conjunto com uma equipa que angariei enquanto colaborava na fundação do departamento do ISCTE. p. apresentamos dois artigos que estudam o processo de aprendizagem nas crianças como forma de produção e construção de novos saberes e poderes: enquanto o artigo de Raul Iturra ensaia ideias sobre a natureza do processo educativo. encontramos. recusando uma visão linear e sucessiva de mudança.

º 6/7. Já antes. corresponde ao espraiar do pensamento teórico do autor na perspectiva da afirmação de uma Antropologia da Educação. ao estudar o grupo doméstico. A propósito da primeira obra da colecção “A Aprendizagem Para Além da Escola”. numa recensão bibliográfica da obra atrás citada de Stoer e Araújo (Stoer e Araújo. as crianças não entendem porquê mas são também seus inimigos 12 . 14 Dados apurados em entrevista com Raul Iturra. 129. 1994: 186). “A criança não é o domínio de ninguém. tanto assim que os inimigos dos pais. elaborado numa linguagem não hermética. Abril/Maio/Junho de 2002. em 23 de Julho de 2004. em termos de investigação. no trabalho de campo em VilaTuxe. p. n. só que ninguém dá por isso” 13 . incluída na mesma. n. pela primeira vez. 13 Entrevista dada por Raul Iturra aos cadernos de Educação de Infância. passim). p.7 não tem ainda conceitos. A Antropologia da Educação. 1992). A leccionação em cadeira autónoma viria a acontecer no ISTE. em 1970 e em 1974. Trata-se de um pensamento radical. trata mal os conceitos. Ana Felisbela Lavado e Paula Godinho para a revista Arquivos da Memória do Centro de Estudos de Etnologia Portuguesa da Universidade Nova de Lisboa. que se debruça sobre a complexa relação entre o «saber letrado» (da escola) e a «mente cultural» (rural). Raul Iturra reconhece 14 que. (Silva. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Pedro Silva. um conjunto de ensaios. 4. A cultura está dividida em duas partes: a dos adultos e a da infância. 1990a). é do domínio dela própria. se começou a interessar como se 12 Extracto de entrevista dada por Raul Iturra em 1999 a Ana Levy Aires. mas foi precedida de muita investigação financiada pelo INIC e pela FCT e de muito debate no país e no estrangeiro. […] As crianças entendem o mundo da forma que os pais o entendem. diz que O primeiro livro (Iturra. no ano lectivo de 1994/95.º 62. emergiu no ISCTE pela mão de Raul Iturra que assim foi progredindo da Antropologia Económica para o estudo da aprendizagem e transmissão cultural para além da escola e para o estudo da mente cultural e da epistemologia da criança (Iturra.

Porto. Pierre Bourdieu. à volta de temas como o insucesso escolar. etc. Françoise Zonabend. 1992. Ricardo Vieira) como uma equipa pioneira que lançou em Portugal a Antropologia da Educação. Luís Souta. Paulo Raposo. a oralidade e a escrita na aprendizagem. diz que O Saber das Crianças «trilha outros caminhos. Raul Iturra e a sua equipa de investigação iniciaram um conjunto de seminários fechados sobre Antropologia da Educação. (Souta. 1997 e 2001). a etnopsicanálise. Comparando-a com os trabalhos de Antropologia da Educação americana que se tem preocupado com o sistema formal. considera os cinco autores dos textos que compõem este livro (Raul Iturra.8 aprendia a calcular na rua. Na recensão da obra “O Saber das Crianças” (Iturra. em Portugal (Lisboa. Marie Elizabeth Handman. 1997a e 1997b). Percebeu que as crianças eram educadas pela interacção dentro do grupo onde vivem (cf. Filipe Reis. E toda esta diversidade levava Iturra a pensar nas descontinuidades entre a casa e a escola. no jogo. Embora a pesquisa aí realizada fosse centrada na vida económica. procurando compreender os mecanismos da aprendizagem informal. início de 90. Amélia Frazão Moreira. Monique de Saint Martin. não em torno de “problemas” mas na procura das virtualidades e potencialidades das crianças para aprenderem e entenderem o real.. o jogo e a aprendizagem. na economia doméstica etc. Em casa as línguas eram o Castelhano e o Inglês. Iturra. As suas filhas começaram a ir à escola em VilaTuxe onde falavam galego. A partir dos finais da década de 80. Alfândega da Fé. a ideia da aprendizagem para além da escola foi emergindo e viria a despertar o seu interesse pela Antropologia da Educação. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . 1993. 1997a: 353).) e em França (Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales e no Collège de France) com a participação de Maurice Godelier. etc. num processo que conduz naturalmente ao reconhecimento e valorização desses saberes. François Bonvin e Bernard Lahire. A sua pesquisa faz-se por isso a montante do sistema educativo. 1996). professor de Antropologia da Educação na Escola Superior de Educação de Setúbal 15 . a transgressão e a aprendizagem. 15 Luís Souta tem dado um contibuto notável ao desenvolvimento da educação multicultural e da antropologia da educação em Portugal (1991. Albergaria dos Doze.

2003). […] Filipe Reis […] analisa a forma como a escola introduz as crianças na cultura escrita. Sociologia e Psicologia Social (cf. numa aldeia da serra da Estrela. (de uma aldeia de Trásos-Montes). anexos. 1996:10 e 11). Começo por abordar uma forma particular de interacção entre ascendente e descendente: aquela através da qual um grupo social contextualiza ou quer contextualizar. ambas orientadas por Raul Iturra e conducentes aos seus doutoramentos já terminados. parte IV). nas conversas sobre os amores e a afectividade. a continuidade histórica das pessoas sobre a terra […]. e hoje sob a minha coordenação.). Raul Iturra diz na Introdução ao livro “O Saber das Crianças”: Uma parte do grupo que comigo trabalha decidiu escrever sobre o saber das crianças. ora em colaboração conjunta. (Iturra. e tem sido coordenada por Raul Iturra e leccionada por este. e a de Amélia Frazão Moreira sobre as classificações das crianças apreendidas do mundo adulto (FrazãoMoreira. 1994 e sobre etnobotânica (Frazão-Moreira. Ricardo Vieira […] procura explicar como o adulto de hoje é resultado do jovem e da criança que antigamente foi. ora separadamente em termos de docência. […] Paulo Raposo […] regressou comigo à Beira Alta e observou os comportamentos rituais dos pequenos.9 As pesquisas de Telmo Caria sobre culturas de escola e culturas profissionais. transmite saberes e contra saberes através das tarefas que constituem o trabalho doméstico (nutrição. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . queríamos definir processos e actividades que permitam ao leitor entender o dito saber. por Filipe Reis e por Paulo Raposo. 2000. A disciplina de Antropologia da Educação tem-se mantido como optativa para as licenciaturas de Antropologia Social. a emotividade do mais novo para assegurar a reprodução. isto é. engrossam a latitude da Antropologia da Educação que este tem feito desenvolver em Portugal. a partir de uma experiência de terreno. colectando dados a partir dos quais foi capaz de concluir que o real é representado e manipulado pela pequenada que estamos a estudar aí. bem como sobre o método etnográfico (Caria. etc. 2003). ao longo do tempo. 1994. Assumindo essa consciência e essa responsabilidade. Sob a minha orientação. Amélia Frazão-Moreira […] analisa o processo de interacção que no interior de um grupo doméstico. esta análise é feita por meio de entrevistas e análises de histórias de vida de professores do ensino Básico. arranjo doméstico.

todos os programas abrangem o processo educativo na escola e fora da escola. 70. Referências bibliográficas AUGÉ. BRUNER..Lugares. J. 11 e 12.tradicional/moderno. Luís Souta da ESE de Setúbal. Lisboa. BASTIDE. Bertrand. Ed. Actos de Significado.. Ricardo Vieira da ESE de Leiria e José Catarino da ESE de Setúbal). 2000. e com a colaboração de docentes internos (Paulo Raposo e Miguel Vale de Almeida do Departamento de Antropologia Social do ISCTE) e externos (Amélia Frazão-Moreira da Universidade Nova de Lisboa. Darlinda Moreira da Universidade Aberta. Anais XXXL Congresso Internacional de Americanistas.10. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Ricardo Vieira .problemas metodológicos e de investigação em contexto escolar. Telmo Caria da UTAD.saberes secretos. Amélia Frazão . como corolário de uma basta investigação e prática de ensino no ISCTE. 8.A análise do jogo .etnicidade e identidade nacional. a disciplina envolveu convidados exteriores ao ISCTE na leccionação das aulas nº 7. 1997. 70. grosso modo. BRUNER. 9. Introdução a uma Antropologia da Sobremodernidade. Não . 1994. Para além da disciplina que integra como optativa os currículos das licenciaturas do ISCTE já mencionadas. São Paulo. Lisboa. a criação do primeiro mestrado em Portugal de Antropologia da Educação (2003-2005). Marc.histórias de vida e biografias. Cultura e Educação.10 De ano para ano. J. Luis Souta multiculturalismo e educação. Lisboa. Ed. 1: 493-503. com os seguintes docentes e respectivos temas: Teimo Caria . No ano lectivo de 1995/96. há algumas alterações pontuais em termos da ordem e da natureza das temáticas abordadas mas. José Veiga . é de assinalar. “Le Principe de Coupure et le Comportement Afro-Bresilien”. Luis Silva Pereira . coordenado por Raul Iturra. Roger. 1955.

PUF.. 2002. Telmo. Garden City. A Experiência etnográfica: antropologia e literatura no século XX. "L'éducation comme réalité sociale: points de vue d' ethnologue". 1981c. “La famille et l’ école”. Paris. FORTES. A aprendizagem do Mundo”. R. Afrontamento. Metodologias Etnográficas em Ciências Sociais. Arquivos da Memória.F. Révue Française de Pédagogie. e S. 1978. 2003. 1968. Lisboa. H. Telmo (Org. Centro de Estudos de Etnologia Portuguesa. 2003. NY. ERNY. A Cultura Profissional dos Professores. Telmo. CARIA. Denys. Child to Adult: Studies in the Anthropology of Education. Educação. 55. 1994. “Aprender Etnobotânica em Terras de África: Trabalho e Campo entre os Nalu da Guiné-Bissau”. Telmo (Org. Afrontamento. COHEN. A Handbook of Methods in Cultural Anthropology. “Social and Psychological Aspects of Education in Taleland”. CRESPO.). AKINSANYA (eds. Lisboa.Essai sur l’ éducation traditionelle. COHEN (eds. 1999. em J. 1976. James. Anthropology and Education Quarterly. Educational Patterns and Cultural Configurations. Gulbenkian. “Generalisations in Ethnography”. Metodologias Etnográficas em Ciências Sociais. Payot. Pierre. 4. Les amis des Lèvres. N. Sociedade e Culturas. ERNY. "A reforma escolar da avaliação dos alunos do ensino básico analisada no contexto da(s) cultura(s) do professor(es)”. “On the Ethnographic Process in Anthropology and Education”. Middleton (ed. Edições Colibri. “What Makes School Ethnography ‘Ethnographic’?”. 2000. “Os Jogos da morte e da vida. ERIKSON. A. CARIA. 2003. F. NY: Natural History Press. em ROBERTS. ERNY. em CARIA.: David Mckay. Pierre. CLIFFORD. Paris. Telmo.). ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Porto. J.. Natural Histiry Press. 2003. 1973.. 1.. FRAZÃO-MOREIRA. Pierre. 93-117. Porto. Lisboa.). “Event Description and Analysis in the Micro-Ethnography of Urban Classrooms”. ERNY. CARIA. Telmo (Org.). CUCHE. 1938. 1972. J. 7(3): 25-33. CARIA. Y. R. Council on Anthropology and Education Newsletter. Porto. J. UFRL. “A Construção Etnográfica do Conhecimento em Ciências Sociais: Reflexividade e Fronteiras”. Amélia.11 BURNETT. M. Afrontamento.). Metodologias Etnográficas em Ciências Sociais.). BURNS.. 1981a.. Ethnologie de l' Education.. L´Enfant et son milieu en Afrique Noire. A Noção de Cultura nas Ciências Sociais. em CARIA. 1970. 1981b. Fim de Século. 2003. Pierre. (2): 10-19. em NAVOLL. O uso do conhecimento em contexto de trabalho na conjuntura da reforma educativa dos anos 90. 1999. 1970. Rio de Janeiro. e R.

ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . J. 1977. GOODY. 1985. O Imaginário das Crianças: Os Silêncios da Cultura Oral. 1997. Lisboa. [1973]. J. Amélia. ICE ITURRA. GEERTZ. Raul. Cambridge. Setúbal. M. 1996b. 2000. Literacy in traditional societes. (Org. ITURRA. O Caos da Criança: Ensaios de Antropologia da Educação. Clifford. J.. O Saber Sexual das Crianças. O Saber das Crianças. Minneapolis. Raul. “Perfil e Funções que podem ser desempenhadas pelo Antropólogo(a) no quadro dos «Territórios Educativos de Intervenção Prioritária»”. 1996a. Afrontamento. HERRIOT. 8(2): 106-115. 1988. Edições 70. “Education and cultural dynamics”. A Lógica da Escrita na Organização da Sociedade. Porto. J. “Entre favas e ovelhas: categorias do mundo do adulto apreendidas pelas crianças numa aldeia do Alto Douro”. Lisboa. 12. GOODY. Fim de Século. J. 1980. Boletim APA. Political and Personal”. The Jounal Of Sociology. D. ”Mémoire et apprentissage dans les societés avec et sans écriture: la transmission du Bagré”. GOODY. M. em HYMES. Guanabara [original de 1973]. Educação. Raul. Desejo-te Porque te Amo. ITURRA. Livros Horizonte. GOODY. Rio de Janeiro. 1994. Edition de minuit. 10: 7-8. XVII. HERSKOVITS. Afrontamento. C. (ed. Lisboa. 1974.12 FRAZÃO-MOREIRA. J. J. 1954. 1989. Raul. Paris. NY. Edições 70. N. Porto. Rio de Janeiro. Method and Perspective in Anthropology. em SPENCER...E.. J. Raul (Org.). GOODY. Anthropology and Education Quarterly.). University of Minnesota Press. GEERTZ. ITURRA. HERSKOVITS. Inc. A Domesticação do Pensamento Selvagem. 1961. Jorge Zahar Editor. Reiventing Anthropology. Sociedade e Culturas. Random House. R. D..). “Ethnografic Case Studies in Federally Funded Multidisciplinary Policy Research: some design and implementations issues”. “Some Problems in Etnography”. R. l’ Homme..Y.. (Ed. American Journal of Sociology. “The of Anthropology: Critical. ” Les chemins du savoir oral in Critique”. 2001. Lisboa. University Press.. 1977.). F. Revue generale des publications françaises et étrangères.. HYMES. 1943. Nova Luz Sobre a Antropologia. 1968. 2001. GOODY. ITURRA.. ”Religion and Ritual: The Definitional Problem”. A Interpretação das Culturas.

Lisboa. P. Raul. NY. PELISSIER. “Identidades Inseridas: Algumas Divagações sobre Identidade. O Saber Médico do Povo. e T. Lisboa. disponível em: <htpp://www. Catherine. KNAP. 19 (2): 163-213. MEAD. Limitations and Potencials”. O Jogo Infantil Numa Aldeia Portuguesa. Guarda. PELTO. Corpos Arados e Romarias. João de. em RICHARDT. PORTO. o Coração: A Construção Social da Sexualidade em Vila Ruiva. Nuno. Vozes.. Harcourt Brace. 1997. Pub. Emoção e Ética”. National Society of Education. Madrid. Escher. Margaret.ul.. KAUFMANN. MEHAN. 1990b. Méridiens Klieksieck. 1977. 1991. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . ITURRA. a Razão. “Etnografia Escolar: una Aproximación a nível múltiple”.. e H. Ed. Anthropological Research: The Structure of Inquiry. Paulo. Fim de Século. e G. e Angel Díaz de Rada. Fugirás à Escola para Trabalhar a Terra Terra: Ensaios de Antropologia Social sobre o Insucesso Escolar. 1991. S. The reality of ethnometodology. O Conflito de Gerações.. Velasco. American Anthropologist.htm>. 1970. Ed. H. LAPASSADE. A.Claude. Dom Quixote. “Anthropological Ethnography in Education: Some Methodological Issues. Values Imposed by the Social Sciences. CA. J.ics. L' Ethno-Sociologie. OGBU.. NUNES. LAHIRE. KROEBER.. Sage publications. 1991.pt/publicações/workingpapers/índex. Raul. Paulo. Willey. Escher. Associação de Jogos Tradicionais. Beverly Hills. WOOD. C. O corpo. ITURRA. N. 1981.. Qualitative and Quantitative Methods in Evaluation Research. Ego. 1981.. COOK (eds. F. Lisboa. 1990a. Instituto Piaget. Para uma Sociologia da Cultura. em MAILLO. 1993. G. RAPOSO. A Construção do Insucesso Escolar. . Honorio M. PINA CABRAL. 1917. S. 2002. OGBU. Escher. “ The Superorganic”. e Filipe Reis. 2003. 20: 75-95. Paris. 1991. Bernard. 1993. PELTO. P.).. Trotta. Lisboa.). et al (eds. 1975. J.. Berta. em GIDEONSE. H. Lecturas de Antropologia para Educadores. M. Annual Review 0f Anthropology. Javier García Castaño. Escher. D. Jean. Lisboa. “Ethnography in Evaluation Research: The Experimental Shools Program Studies an Some Recent Alternatives”. 1990.Y. Raul.13 ITURRA. O Homem Plural. Lisboa. 2003. "The Anthropology of Teaching and Learning". Lisboa.

Reinehart and Winston. Lisboa. ARAÚJO. J. Educação e Ensino.. 1994. Reinehart and Winston. SPERBER. SPINDLER.). Mouton and Company. “Emerging Methodological Developments for Research Design. Cadernos ICE. SOUTA. 1997a. Holt. Data Collection and Data Analisys in Anthropology and Education”. NY. Dan. “A Antropologia na Educação: Abertura Antropológica sem Antropólogos”. (ed. J. em Educação. S. “Ethnografic Techniques and the study of an urban school”..). Rinehart and Winston. J. "A educação multicultural". Multiculturalidade & Educação. RIST. SPINDLER. Doing the Ethnography of Schooling. P. em MAILLO. F. R. C. e MARQUES.). Recensão à obra de STOER. F. Velasco. “O Ensino da Antropologia”. A. SPRADLEY. SOUTA. Being an Anthropologist: Fieldwork in Eleven Cultures. Javier Garcia Castaño. Teorema. 10 (1): 86-108. Ensino. 1982. L. Edições 70. Ensino e Crescimento. Antropológicas. família. 1982. 1976. Recensão à obra de Iturra. “Epistemological Imolications of Fieldwork and their Consequences”. O Saber dos Antropólogos. 1975. Holt. SPINDLER.C. SOUTA. 1991. 1979. Giovanni. e F. 1991. "Educação multicultural . 5 e 7.A. "Escola. 1993. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Porto. The Etnographic Interview. 1996.um imperativo dos nossos dias". Reinehart and Winston. Honorio M. 81(1): 46-60. R. SOUTA. Setúbal. G. Inovação. Madrid. 2 e 3.. 1992. SANTOS. Pedro. e Paulo Castro Seixas. 4. SARTORI. 3. 1979. O saber das Crianças. Luís. SOUTA. Urban Education. Escher. Participant Observation. The Hague. New York/Chicago/ Holt. Lisboa. SANDAY. New York.. Educação. Lisboa. Filipe. e L. American Anthroplogist. SPINDLER. nota de abertura". Sociedade e Culturas..R. Educação. Escher. 1992. 1997. 1: 113-127. Raul (org. Luís.14 REIS. 4(14): 54-59. Lisboa. Profedições. “Escola e Aprendizagem para o Trabalho”. IANNI (eds.J. 1993. SPRADLEY. Porto. e Angel Díaz de Rada. “ La transmision de la cultura”. Paula Mota. 1991. The Anthropological Study of Education. George. Lecturas de Antropologia para Educadores.. 1971. 1993. SILVA. SALOME. Gerontologia.. Ed. SOUTA. 2000. e H. Luís. Homo Videns: Televisão e Pós-pensamento. Luís. New York. em CALHOUN. Afrontamento..D.. Luís. 1997b. Pub. G. Trotta. 1980..

Honorio M. 1995. Ricardo 1999a. Ed. B. Honorio M. 1993. John Wiley & Sons. "Antropologia da educação". F. TYLOR. Anthropology: Na Introduction to the Study of Man and Civilization. WAX. e Angel Díaz de Rada. Macmillan and Co. VIEIRA. WHITING. MA. Velasco. (ed. B.H. Ser Igual. Edward Burnett. Escola e Aprendizagem para o Trabalho. Ricardo. London. B. Raul (Org. B. em ITURRA. e Angel Díaz de Rada. Ed. VIEIRA. University of Chicago Press. 1985. 1994.). "Histórias de vida e etnografia na análise das representações e práticas dos professores". WHITING. em MAILLO. Cambrige. Afrontamento. Madrid. 1. N. Javier Garcia Castaño. e Helena. Lisboa. 1993.). Trabalhos de Antropologia e Etnologia. Ricardo. 1992. Manuel Viegas. STOER. Revista de Educação. Velasco.. Lisboa. Trotta. R. Entre a Escola e o Lar. 1971. Escher. WILCOX. Ricardo. STOER. Encruzilhadas da Identidade. e J. Trotta. Madrid. Araújo. 1996. Revista de Educação. Histórias de Vida e Identidades: Professores e Interculturalidade. (dir. Lecturas de Antropologia para Educadores. Escher. Harvard University Press. Porto. "Mentalidades. Child Rearing in Six Cultures. O Saber das Crianças. K. VIEIRA. Pub. VIEIRA. 1963. George W. VIEIRA. 3... ICE. 1978. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Manuel J. kathleen. Sociedade e Culturas. 1993. Harvard Univerity. ser diferente. Cambridge. 1975.15 STOCKING.). WHITING. Doing Fieldwork: Warnings and Advice. Antropologia Portuguesa. El Trabajo de Campo en la Antropologia Britaníca desde Tylor a Malinowski”. 1998. "Da Infância à Adultez: O Reconhecimento da Diversidade e a Aprendizagem da Interculturalidade". Ricardo. Mass. WILCOX. Inc. “ La magia del etnógrafo. 1999b. 1998 O insucesso escolar e as minorias étnicas em Portugal: uma abordagem antropológica da educação. TAVARES. Porto.. Piaget. 38. Escola e Pedagogia Intercultural". Chicago. em MAILLO. 1889 [1881]. Afrontamento. Lisboa. Sociedade e Culturas. Jr. Stephen R. C. Children of Six Cultures: A Psycho Analysis. VIEIRA. 1992.. 4. Schooling and Socialization for Work Roles.. F. Javier Garcia Castaño.. Ricardo. Setúbal.Y. TAVARES. 1993. “ La Etnografía Como Una Metodologia E Su Aplicación Al Estudio De La Escuela: Una Revisión”. Stephen. Lecturas de Antropologia para Educadores.

. e K. Paris. Révue Française de Pédagogie. 47(1): 245-265. H. University of Giorgia. ZANTEN. 1975. "Aspectos sociais da criatividade do professor". WOODS. ANDERSON-LEVITT. "Criteria for an ethnographic approach to research in schools". S. 34(2): 111-127. 1977. in Human Organization. "Ethnologie de l’ éducation". Révue Française de Pédagogie. Armand Colin. 37. Barcelona. 75 (1). Profissão Professor. L´Ethnographie de l' Ecole. 1975b. "L' Anthropologie de l' éducation aux États-Unis: méthodes. Peter. em NÓVOA. HENRIOT-VAN. L’ année Sociologique. Revue Française de Pédagogie. ZANTEN. 1992a. Anthropology Project Publication. 1992b. 1990. WOODS. A. 1975a. HENRIOT-VAN. 101. A. “Ethnographic Approaches to Research in Education: A Bibliography on Method”. Porto. (Org. 101. Review of Educational Research. ZANTEN. "Etudes éthnographiques de la scolarisation des enfants d' immigrés". Paidós. HENRIOT-VAN.).. "L’ école en milieu rural: reálités et représentations". “The use of Ethnografic Techniques in Educational Research”. A.. 73.. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . La Escuela Por Dentro. 1987.. ANDERSON-LEVITT. A.. théories et applications d' une discipline en évolution". Peter. WOLCOTT. A. HENRIOT-VAN.16 WILSON. Ed. WOLCOTT. ZANTEN. Peter. H. 1991. e K. Porto Editora. WOODS.. 1987.

VI – Capítulo Diferenças e Semelhanças do Género Textos de comunicações do painel: Diferenças e Semelhanças do Género Coordenação Antónia Pedroso de Lima Centro de Estudos de Antropologia Social -ISCTE Susana Matos Viegas Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e Universidade de Coimbra ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .

ocupar o espaço de forma desigual. teóricos.Construindo Diferenças e Semelhanças no Recreio: uma Micro-Etnografia de Género e Poder em Contexto Escolar Maria do Mar Pereira Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE) maria. reflectir sobre os recursos (metodológicos. Estes conceitos podem ser definidos e medidos de formas distintas e as nossas opções teóricas e metodológicas sobre a utilização que lhes damos têm efeitos significativos nas análises que fazemos. Como descrever e problematizar. cantina ou sala de aula de uma escola de 2º e 3º ciclo.do. discursivos) que empregamos para descrever diferenças e semelhanças de género (bem como aquelas que estão associadas a outros eixos de diferenciação e desigualdade social) e discutir o ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Importa. partindo de observações realizadas numa micro-etnografia com uma turma de 8º ano de uma escola em Lisboa. então. saltam frequentemente à vista diferenças entre raparigas e rapazes – as/os jovens dos dois sexos parecem desempenhar actividades diferentes. é fundamental problematizar o lugar do binómio diferença e/vs semelhança na investigação sobre género e debater o seu estatuto epistemológico. pertencer a grupos separados. as diferenças de género identificadas na observação são configuradas pelas questões que colocamos e perspectivas de análise que adoptamos. potencial heurístico e relevância etnográfica. como tal. Jovens. Semelhança Quando entramos num recreio. Escola. Não são factos apenas dados pelos contextos empíricos mas. mas são abordados nessa reflexão de modos variáveis. pretende-se lançar pistas que contribuam para esse debate. Como tal. construídos na produção de conhecimento sobre esses contextos e as relações que aí se estabelecem. sala de convívio. Diferença. Nesta comunicação. Palavras-Chave: Género. orientando a atenção para certas dimensões dos fenómenos em estudo e deixando outras encobertas. em larga medida.mar@netcabo. estas diferenças e os processos sociais e culturais através dos quais são constituídas? Mais do que uma propriedade unívoca e “objectiva” das pessoas ou grupos em estudo. Poder.pt Os conceitos de diferença e semelhança são eixos estruturantes da reflexão sobre género. ter comportamentos distintos.

Nesta comunicação. Existem estudos que se centram nas diferenças entre mulheres e homens e outros que privilegiam a exploração de diferenças entre mulheres. Os conceitos de diferença e semelhança assumem-se. colocar no centro da análise as situações em que estas diferenças são minimizadas ou negadas. Um estudo poderá focar os contextos em que as diferenças entre mulheres e homens são acentuadas e explicitadas ou. No entanto. geralmente orientando o olhar para ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . tomando como ponto de partida observações efectuadas no âmbito de um trabalho de micro-etnografia. É problematizar os processos materiais e simbólicos através dos quais se representam e posicionam as mulheres como sendo diferentes dos homens e. assim. por outro lado. Diferença e Semelhança na Investigação sobre Género Estudar género é analisar a construção social de diferenças e semelhanças.2 papel que esse processo de descrição desempenha na (re)produção e legitimação dessas diferenças e semelhanças. Cranny-Francis. como eixos estruturadores da reflexão sobre género. et al 2003. Eagly 1995. diversas/os autoras/es têm salientado a necessidade de problematizar o lugar do binómio diferença e/vs semelhança na investigação sobre género e de debater o seu estatuto epistemológico. Butler 1990 e 1993. West e Zimmerman 1987). com uma turma de 8º ano de uma escola em Lisboa (Pereira 2006). pretende-se lançar pistas que contribuam para esse debate. actualmente em curso. As opções teóricas e metodológicas sobre os modos como se usam os conceitos de diferença e semelhança de género e sobre o papel e estatuto que lhes é atribuído num dado estudo têm implicações nas observações feitas e conclusões formuladas. De facto. não têm um significado unívoco ou posição constante nessa reflexão: as diferenças e semelhanças de género podem ser (e são) definidas e medidas das mais variadas formas. potencial heurístico e relevância etnográfica (por exemplo. se salientam as semelhanças entre homens (em especial no que diz respeito aos aspectos entendidos como características centrais e necessárias da masculinidade) e as semelhanças entre mulheres (em particular no que se refere aos elementos considerados distintivos e fundamentais da feminilidade). analisando deste modo a diversidade de performances de feminilidade. por exemplo. ao mesmo tempo.

relações e situações em função Como argumenta Gherardi. mesmo quando essa descrição assenta no pressuposto de que essas diferenças são o produto de experiências sociais distintas e não o resultado de características biológicas necessárias e universais. nos últimos séculos os discursos científicos têm desempenhado um papel crucial como “narrativas de legitimação” (Foley e Faircloth 2003) da subordinação das mulheres (Amâncio 1994 e 1997. como no das físico-naturais) intervém. Como tal. Como tal. exagerados ou mitificados) se tornam elementos integrantes de crenças e discursos generalizados sobre as diferenças entre mulheres e homens e sobre as implicações dessas diferenças ao nível dos papéis e posições sociais que devem corresponder a umas e outros. Enquanto instituição que produz discursos (diversos) sobre as diferenças e semelhanças entre mulheres e homens. Jacobus et al 1990. como mais uma prova de que mulheres e homens são.” (1995: 1 – itálicos no original). conferida particular autoridade nesta regulação. uma descrição “científica” de diferenças entre mulheres e homens pode ser lida e usada como confirmação da existência de “essências” de feminilidade e masculinidade. Maranta et al 2003. Laqueur 1990). na regulação dos significados e normas associados ao género1 . À ciência é. Friedan 1965. “the knowledge yielded by the category «gender» about gender is one of the clearest examples of reflexive knowledge – by which I mean the social process of knowledge production which changes the knowing subjects and the conditions under which the phenomenon is produced. com base nos seus traços “biológicos”. “demonstrando” as diferenças entre os sexos e a “natural” superioridade de um em relação ao outro. Rosenberg 2005. aliás. os próprios processos sociais de construção de diferenciações que analisam. Ao analisar práticas. a investigação científica (tanto no âmbito das ciências sociais. diferentes. directa ou indirectamente. As/os jovens com as/os quais convivi no âmbito do trabalho que aqui vou apresentar diziam com frequência que “está provado cientificamente que as raparigas amadurecem mais cedo do que os rapazes” ou que “há estudos que mostram que os homens têm muito mais força do que as mulheres”. de forma activa e sistemática. devido ao seu estatuto (nas sociedades ocidentais contemporâneas) como forma mais “objectiva" de produção de conhecimento sobre o real (Bourdieu 2001.3 certas dimensões dos fenómenos em análise e deixando outras encobertas. 1 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Thorlindsson e Vilhjalmsson 2003). de facto. Têm também implicações a outros níveis: influenciam. Esta é uma ilustração de como os discursos científicos sobre género (embora filtrados e muitas vezes adaptados.

Diferenças e Semelhanças na Escola Desde inícios da década de 1980. Fernandes (1984). instrumentos pedagógicos. as escolas têm sido descritas e estudadas no âmbito das ciências sociais como espaços em que as questões de género estão presentes de forma transversal e estruturante. isto é. recompensas e sanções. então. rotinas. necessária e dualista. discursos oficiais e não oficiais. construir vocabulários e modelos de análise que nos permitam dar conta das dinâmicas e efeitos da produção da diferenciação (e desigualdade) de género e descrever as múltiplas configurações dessa diferenciação (evidenciando o seu carácter variável e contextual). sem reificar. sem lhes conferir uma existência concreta. para ilustrar e explorar as formas como estas questões se manifestam num contexto empírico particular. actividades curriculares e extra-curriculares. Connell et al (1982). Delamont (1990). Kessler et al (1985). independente das suas manifestações situacionais. espaços e recursos. ainda em curso. em suma. Os vários estudos que têm problematizado as relações entre género e educação2 demonstram que as estruturas institucionais. estável. estratégias de gestão. sistemas de regras. No entanto. essencializar e dicotomizar as diferenças entre mulheres e homens. sobre negociação de masculinidades e feminilidades entre jovens de uma escola em Lisboa. cultura organizacional. e utilização de artefactos. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . todas as dimensões da vida na escola estão organizadas.4 da dicotomia feminino/masculino. Stanworth (1981) e Wolpe (1988) foram alguns dos trabalhos pioneiros nesta área. relações formais e informais. a investigação em ciências sociais sobre género pode contribuir indirecta e inadvertidamente para a re-inscrição biológica dessa diferenciação e para a reprodução e legitimação de uma dicotomia que deve ser seu objectivo problematizar e desnaturalizar. em função de representações socialmente partilhadas sobre os significados e implicações da diferença 2 Arnot e Weiner (1987). Thorne (1993). O desafio é. gostaria de recorrer a observações e reflexões efectuadas no âmbito do meu trabalho de micro-etnografia. Não há fórmulas já prontas e infalíveis para o fazer e não tenho quaisquer pretensões de apresentar aqui respostas e soluções a estas questões. de forma mais ou menos explícita. relações de poder e autoridade.

estar a prestar atenção ao que estava a ser dito. sem intrigas. noutras circulavam pela sala. etc. ao longo de seis semanas.5 entre mulheres e homens. mais quietas e atentas. Muito do que vemos parece confirmá-lo: frequentam espaços distintos. um olhar atento revela que muitas das diferenças que observamos e que nos são relatadas pelas/os jovens são menos diferentes do que inicialmente pareciam. por vezes. diferentes. Para o fazer. aparentando. os rapazes adoram jogar futebol e outros desportos. faziam sons de animais. os rapazes barulhentos e irrequietos. as raparigas não sabem e não estão interessadas em jogar. No entanto. integrei-me numa turma de 8º ano e acompanhei as/os jovens da turma (com idades compreendidas entre os 13 e os 15 anos) em todas as suas actividades (lectivas ou não) na escola (e. na sua quase totalidade. a sensação inicial é a de que rapazes e raparigas são muito diferentes. os grupos de amigas/os têm dimensões. rapazes – as raparigas pareciam estar. ouviam música em leitores de mp3. têm comportamentos em sala de aula. já que elas/es frequentemente falam de rapazes e raparigas através de dicotomias e oposições: as raparigas são bem comportadas. uma escola pública em Lisboa. A turma que observei tinha comportamentos bastante diferentes em cada disciplina – em algumas estavam caladas/os. recreio. Esta diferença foi observada por várias/os autoras/es ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . No projecto de investigação no qual estou neste momento a trabalhar. no geral. por exemplo. Os discursos que as/os jovens produzem reiteram e reforçam esta diferença. A questão do comportamento na aula é um exemplo pertinente. em geral. também fora dela). Interessam-me em particular os modos como estas/es jovens definem e expressam o “ser mulher” e “ser homem”. as raparigas gostam de fazer fofocas e são intriguistas. atiravam canetas e outros objectos. e as dinâmicas de poder e (auto e hetero) regulação através das quais certas performances de feminilidade e masculinidade são avaliadas e sancionadas como “naturais” (e portanto legítimas e desejáveis) e outras como desviantes e problemáticas. Os protagonistas deste tipo de comportamentos eram. os rapazes não querem saber da vida das outras pessoas e dizem o que têm a dizer “na cara”. estruturas e dinâmicas de interacção distintas. proponhome analisar as formas como jovens negoceiam género num contexto desse tipo. os rapazes o inverso. as raparigas demonstram maturidade e responsabilidade. Quando se realiza um trabalho de observação sobre género junto de jovens desta idade numa escola.

Uma observação mais atenta e continuada do que acontece na escola demonstra também que as diferenças que se observam entre rapazes e raparigas não são diferenças já resolvidas e consolidadas. Como tal. mais dificilmente identificáveis pelo/a professor/a ou outro/a observador/a mas são. interiorizadas na infância. Mesmo quando parecem estar atentas. muitas delas estão envolvidas em práticas que podem ser consideradas também como estratégias de disrupção da concentração em aula e que incluem. considerados adequados a rapazes e raparigas (Ferreira 2002). A relação das raparigas com o futebol e com os espaços onde este é praticado é um exemplo interessante da forma como se estabelecem e negoceiam fronteiras. na medida em que podemos ser levadas/os a focar a atenção nas diferenças e dicotomias que. não só a nível simbólico mas também geográfico.6 em outros estudos. habitualmente formulada por meio da dicotomia “integração feminina / resistência masculina” (Abrantes 2003: 88. portanto. etc. Na véspera de um campeonato inter-turmas (no qual participavam equipas femininas e masculinas). são mais visíveis e familiares para nós. uma análise do comportamento das raparigas na turma que observei demonstra que esta “integração feminina” é. traços. também elas. um grupo de nove raparigas decidiu praticar num dos campos principais. manifestações de distracção e resistência. conversar e rir baixinho. ler revistas. comportamentos. que contrariam o dualismo rígido e simplista que é habitualmente usado para descrever comportamentos em aula e que tende a reforçar a tradicional dicotomia entre actividade masculina e passividade (e obediência) feminina. é raro ver raparigas jogar futebol nos campos principais. importa proceder com cautela na observação. por exemplo. tendo sido interpretada como um demonstração da postura significativamente diferente de rapazes e raparigas face à escola. ver também Willis 1977) No entanto. As/os jovens da turma atribuem-no ao facto de as raparigas não terem jeito ou interesse para o futebol. escrever e trocar recados em papel. descrição e análise de diferenças e semelhanças de género. Estas práticas são menos visíveis e audíveis do que as dos rapazes e. mas sim elementos de processos recorrentes e contínuos de criação e negociação de fronteiras entre os espaços. frequentemente. Na escola onde está a ser realizado este estudo. enviar mensagens de telemóvel. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . por serem elementos centrais das representações colectivamente partilhadas sobre a masculinidade e feminilidade. apenas aparente.

7

Depois de jogarem durante alguns minutos, dois rapazes pediram-lhes que saíssem do campo, dizendo que eles e os colegas queriam jogar ali. Elas não acederam, declararam que tinham tanto direito à utilização do campo quanto eles, disseram que eles não lhes pediriam para sair do campo se elas fossem rapazes e chamaram-lhes machistas. Os rapazes insistiram e perante a recusa delas ameaçaram pontapear a sua bola na direcção delas, tiraram-lhes a bola com que elas estavam a jogar e as raparigas acabaram por sair do campo e ir jogar numa zona exígua do outro lado do recreio, sem condições para a prática do futebol. Mais tarde, uma das raparigas explicou-me que “muitas vezes nós tentamos ir jogar ali mas eles arranjam sempre desculpas para nos tirar de lá”. Como tal, a observação de que os campos de jogos são quase sempre ocupados por rapazes não é, necessariamente, uma demonstração de que as raparigas não se interessam (ou se interessam menos) pela prática desportiva e uma prova de que rapazes e raparigas são incontornavelmente diferentes a este nível, seja devido à socialização ou biologia. Pode estar associada a dinâmicas específicas de apropriação do espaço, também elas centrais para a análise da forma como se negoceia o género em contexto escolar. Além disso, nem todos os rapazes manifestam interesse pela prática do futebol, aspecto que por vezes fica camuflado pela tendência para focar a análise nas diferenças entre sexos, tendência que pode levar a sobrevalorizar as semelhanças que existem entre os rapazes e entre as raparigas e a negligenciar a heterogeneidade que caracteriza tanto um grupo como o outro. Neste episódio, como em vários outros que marcam o quotidiano de jovens na escola, as/os jovens recorrem a estratégias várias de (auto e hetero) monitorização e regulação (que incluem o gozo e o insulto ou o uso da força física, por exemplo) para marcar fronteiras (que não são sempre consensuais ou aceites passivamente), evitar que essas fronteiras sejam desrespeitadas e aplicar sanções quando isso acontece. Nesta e em muitas outras situações, a diferenciação de género não aparece como um facto dado e resolvido mas como uma construção que dá trabalho manter no quotidiano. De facto, essa diferenciação é algo que se faz todos os dias, e não algo que simplesmente existe na sequência de uma socialização que (re)produz identidades e papéis genderizados, profundamente enraízados e estáveis.

ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA

8

Considerações Finais Não é possível sintetizar, numa comunicação de quinze minutos, a diversidade de observações que preencheram as seis semanas de trabalho de campo que aqui vos apresentei sumariamente ou a multiplicidade de interrogações e reflexões que elas têm suscitado. No entanto, mais do que descrever exaustivamente os modos como estas/es jovens vivem e fazem género nas suas relações em contexto escolar, o objectivo desta comunicação é contribuir para animar o debate sobre os conceitos de “diferença” e "semelhança”, por vezes utilizados de forma excessivamente rigída e potencialmente reificante no estudo do género, em particular, e nas ciências sociais, em geral. Pretendia-se, também, contribuir para a discussão do papel que a investigação científica sobre a diferenciação de género desempenha, directa ou indirectamente, na regulação social dessa diferenciação, demonstrando que não é só nos recreios que se constroem diferenças e semelhanças – os nossos próprios estudos, textos e comunicações são, também eles, agentes e espaços dessa construção.

Bibliografia
ABRANTES, Pedro, 2003, Os Sentidos da Escola: Identidades Juvenis e Dinâmicas de Escolaridade. Oeiras, Celta Editora. AMÂNCIO, Lígia, 1994, Masculino e Feminino: A Construção Social da Diferença. Porto, Edições Afrontamento. AMÂNCIO, Lígia, 1997, “Sexismo e Racismo – Dois Exemplos de Exclusão do «Outro»”, comunicação apresentada no colóquio Jornadas sobre Racismo, Xenofobia e Outras Formas de Exclusão, Sociedade Portuguesa de Antropologia e Etnologia, Porto, 10 de Novembro. ARNOT, Madeleine, e Gaby Weiner, 1987, Gender and the Politics of Schooling. Londres, Hutchinson & Open University. BOURDIEU, Pierre, 2001, Science de la Science et Reflexivité. Paris, Raisons d’Agir. BUTLER, Judith, 1990, Gender Trouble: Feminism and the Subversion of Identity. Nova Iorque, Routledge. BUTLER, Judith, 1993, Bodies That Matter: On the Discursive Limits of “Sex”. Nova Iorque, Routledge.

ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA

9

CONNELL, Robert W., et al, 1982, Making the Difference: Schools, Families and Social Division. Sidney, Allen and Unwin. CRANNY-FRANCIS, Anne, et al, 2003, Gender Studies: Terms and Debates. Hampshire, Palgrave Macmillan. DELAMONT, Sara, 1990, Sex Roles and the School. Londres, Routledge. EAGLY, Alice, 1995, “The Science and Politics of Comparing Women and Men”, American Psychologist, 50 (3): 145-148. FERNANDES, João Viegas, 1984, The Reproduction of Gender Inequality Through the Portuguese School System. Tese de Mestrado em Educação. Boston, School of Education Boston University. FERREIRA, Manuela, 2002, “O Trabalho de Fronteira nas Relações entre Géneros em Espaços de «Brincar ao Faz-de-Conta»”, ex aequo, 7: 113-128. FOLEY, Lara, e Christopher A. Faircloth, 2003, “Medicine as Discursive Resource: Legitimation in the Work Narratives of Midwives”, Sociology of Health and Illness, 25 (2): 165-184. FRIEDAN, Betty, 1965, The Feminine Mystique. Harmondsworth, Penguin Books. GHERARDI, Silvia, 1995, Gender, Symbolism and Organizational Culture. Londres, Sage Publications. JACOBUS, Mary, Evelyn Fox Keller, e Sally Shuttleworth (eds.), 1990, Body/Politics: Women and the Discourses of Science. Nova Iorque, Routledge. KESSLER, Sandra, et al, 1985, “Gender Relations in Secondary Schooling”, Sociology of Education, 58: 34-48. LAQUEUR, Thomas, 1990, Making Sex: Body and Gender from the Greeks to Freud. Cambridge, Harvard University Press. MARANTA, Alessandro, et al, 2003, “The Reality of Experts and the Imagined Lay Person”, Acta Sociologica, 46 (2): 150-165. PEREIRA, Maria do Mar, 2006, Construindo Diferenças e Semelhanças no Recreio: uma Análise Performativa da Negociação do Género entre Jovens, Tese de Licenciatura em Sociologia, Lisboa, Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE). ROSENBERG, Alex, 2005, Philosophy of Science: A Contemporary Introduction. Londres, Routledge. STANWORTH, Michelle, 1981, Gender and Schooling: A Study of Sexual Divisions in the Classroom. Londres, Hutchinson Education. THORLINDSSON, Thorolfur, e Runar Vilhjalmsson, 2003, “Science, Knowledge and Society”, Acta Sociologica, 46 (2): 99-105. THORNE, Barrie, 1993, Gender Play: Girls and Boys in School. Buckingham, Open

ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA

10

University Press. WEST, Candace, e Don Zimmerman, 1987, “Doing Gender”, Gender & Society, 1 (2): 125151. WILLIS, Paul, 1977, Learning to Labour: How Working Class Kids Get Working Class Jobs. Farnborough, Saxon House. WOLPE, Ann Marie, 1988, Within School Walls: The Role of Discipline, Sexuality and the Curriculum. Londres, Routledge.

ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA

DIFERENÇAS DE GÉNERO E FAMÍLIAS HOMOPARENTAIS
Margarida Moz ISCTE margaridamoz@oniduo.pt

As famílias homoparentais parecem contrariar a noção de família, assente numa forte distinção de género, a que correspondem algumas atribuições ideais de papéis: mãe/mulher, pai/homem. A antropologia questionou já o carácter universal do parentesco mas pode-se também questionar a distinção masculino/feminino, pai/mãe associada à família. A par da contingência do parentesco e da sua “desnaturalização”, a ciência aumenta as possibilidades no domínio do parentesco, ao introduzir a escolha como critério de construção familiar. Em simultâneo, os governos de alguns países ajustam as leis para que se construam relações familiares não assentes nas distinções de género fundamentais. Nesta comunicação discute-se a relevância dos papéis de género numa família homoparental, com base nalguns estudos efectuados na Europa e na América do Norte. PALAVRAS-CHAVE: Género, Família, Parentesco, Homossexualidade, Homoparentalidade.

Quando falamos numa família homoparental estamos desde logo a entrar por uma via que, à partida, parece contrariar a própria noção de família, assente numa forte distinção de género, a que correspondem simbolicamente algumas atribuições: os papéis de mãe/mulher e de pai/homem. Se é certo que, aparentemente, estas distinções tendem a estar cada vez mais esbatidas, e que se espera que a responsabilidade na educação dos filhos seja dividida por igual entre os pais, continua a dar-se uma enorme importância às distinções de género no seio da família, consideradas como referências fundamentais. As distinções de que falamos pressupõem que a mulher é mãe e o homem pai, e que os dois coexistem numa relação parental (mesmo se uma das partes nunca participou de facto nesta relação) e esta é normalmente vista como a única e natural possibilidade numa relação que é, apesar de tudo, socialmente construída. A ideia de que para se ser pai é necessário ser-se homem está ligada àquela outra defendida por David

ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA

2

Blankenhorn, autor do livro Fatherless América (1995) que causou um enorme debate ao afirmar que a própria masculinidade só se atinge plenamente com a paternidade:

A paternidade, mais do que qualquer outra actividade masculina, ajuda os homens a tornarem-se bons homens: mais propensos a obedecer às leis, a ser bons cidadãos, a pensar nas necessidades dos outros. (p.21 – tradução minha)

É certo que, para o autor, esta paternidade benévola é apanágio exclusivo dos pais biológicos ou adoptivos, sendo os padrastos excluídos desta propensão para o bem. Também na equação subjacente a este argumento existe a mãe/mulher, cuja presença é fundamental e necessária à existência deste pai/homem. Para lá do interesse em defender os valores da família tradicional americana, o autor está empenhado em reforçar, através da família, as distinções de género, absolutamente necessárias à conservação destes valores. Quando se fala em famílias homoparentais esta lógica familiar fica desde logo ameaçada e com ela o futuro da família pensada nestes termos. As justificações para a não-aceitação das famílias homoparentais são frequentemente as de que se trata de uma situação anormal, desviante, em que as crianças vão crescer confusas, destituídas de valores morais, em que serão provavelmente recrutadas para a homossexualidade. Esta ideia pode manifestar-se de várias formas e quase sempre é expressa em favor do “superior interesse da criança”. Em 2003 (a 31 de Julho), o Vaticano emitiu um documento de oposição ao casamento homossexual onde se lia: “Inserir crianças nas uniões homossexuais através da adopção significa, na realidade, praticar a violência sobre essas crianças, no sentido que se aproveita do seu estado de fraqueza para introduzi-las em ambientes que não favorecem o seu pleno desenvolvimento humano.” 1 Apesar das alegações da Igreja de que “o pleno desenvolvimento humano” das crianças que crescem nas famílias homossexuais está comprometido, o que parece estar de facto comprometido nesta possibilidade é mais a plena continuidade da família tradicional. Desde logo porque o referido documento trata de uma eventual autorização do casamento homossexual e da sua reprodução, ignorando a existência dos milhares de
1

http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_con_cfaith_doc_20030731_homos exual-unions_po.html

ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA

3

famílias que por todo o mundo, vivem já, e nalguns casos há muito, nessas condições sem que os estudos efectuados revelem qualquer deficit de humanidade nestes filhos, nestas crianças – ideia corroborada pela American Academy of Pediatrics que se posiciona publicamente em favor da adopção de crianças por casais do mesmo sexo. Antes do mais é preciso lembrar aos que acreditam que a adopção é a única forma de um casal homossexual ter filhos que não só a maioria dos indivíduos que compõem estes casais não é estéril como tão-pouco a reprodução é um acto exclusivamente natural. Ter filhos é um acto de vontade, uma vontade vista como um desejo natural, que a homossexualidade não inibe. O parentesco foi já “desnaturalizado” (Collier e Yanagisako, 1997), porquanto as evidências etnográficas esclarecem a sua pertença mais ao domínio da cultura que da natureza, uma vez que as associações genealógicas são sobretudo construídas. David Schneider (1984) foi dos antropólogos que mais se bateu contra o enraizamento biológico do parentesco que prevalece no pensamento ocidental onde, por definição, o parentesco é composto por relações baseadas na reprodução sexual. Sendo um dos primeiros grandes críticos do que designou por “Doutrina da Unidade Genealógica da Humanidade”, chamou a atenção para que o método não é mais que uma tentativa de generalização de uma noção ocidental assente na ideia de que o parentesco está ligado à partilha de uma substância comum, que aproxima e identifica as pessoas umas com as outras. No Ocidente, esta consubstancialidade está fortemente ligada à reprodução e ao pressuposto de que “o sangue é mais espesso que a água” (blood is thicker than water). Os estudos realizados em diversos contextos não ocidentais revelam, porém, que o valor atribuído à reprodução no Ocidente não é universal. Entre os Nuer do Sudão, por exemplo, a designação de pai estendia-se a demais membros da família, incluindo mesmo alguma irmã do pai, que por ser estéril passava, ao fim de alguns anos de não gestação, a constar do grupo dos homens e a ser chamada de pai (Héritier, 1996). E nas Ilhas Salomão, por exemplo, em que as crianças ficam com os pais não pela ordem natural das coisas mas porque os pais as desejam e são autorizados a fazê-lo pela comunidade, torna-se evidente o carácter frágil e condicional das relações entre pais e filhos (Holy, 1996). A par da evidência universal da contingência do parentesco e da sua “desnaturalização”, os desenvolvimentos tecnológicos aumentam as possibilidades no

ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA

4

domínio do parentesco ao introduzir a escolha como critério de construção familiar. Marilyn Strathern (1996) chama a atenção para a forma como as possibilidades introduzidas pelas novas tecnologias reprodutivas, desenvolvidas para colmatar limitações biológicas, vão mais longe na requalificação do parentesco: ao criarem um vínculo natural por via artificial, como resultado da escolha de se ter filhos que naturalmente não se podem conceber, abrem caminho para que outros candidatos a pais, naturalmente impossibilitados, possam também satisfazer as suas pretensões. A ciência permite já situações que desafiam todas as noções de parentesco, como é o caso de mães virgens ou de duplas mães biológicas (no caso em que existe uma mãe hospedeira, que gera um embrião proveniente de uma combinação de óvulo/espermatozóide alheia). Mas não é apenas a ciência que dá passos na construção de relações familiares não assentes nas distinções de género fundamentais, os governos de alguns países, acompanham já estes desenvolvimentos ao permitirem aos casais homossexuais tanto a adopção plena de crianças, como a adopção do filho do companheiro por um parceiro do mesmo sexo. Nesta segunda forma, a mais frequente na Europa e em prática em países onde a adopção conjunta não é, ainda, permitida, trata-se de adaptar a legislação a uma realidade em que as famílias se vêem muitas vezes incapazes de gerir a sua situação familiar por falta de enquadramento legal (seja na relação dos filhos com a escola, seja na própria vivência quotidiana quando, por exemplo, o pai/mãe legal se ausenta e a criança é deixada com o companheiro/a. Mas há países que vão mesmo mais longe nesta adaptação às diversas formas de agrupamento familiar e aplicam a presunção de paternidade à parceira não parturiente de um casal de lésbicas que tenha um filho por inseminação artificial - é assim no Quebeque, no Canadá. Voltando à questão inicial da distinção pai/mãe, homem/mulher, importa desde logo chamar a atenção para o modo como a reprodução medicamente assistida introduz novas questões com forte ressonância no plano social e jurídico. Hoje em dia as famílias são cada vez mais diversificadas e pai/madrasta; mãe/padrasto, meio-irmão-materno, meio-irmão-paterno, irmão-filho-do-marido-da-mãe, etc. são realidades que não surpreendem ninguém. Para além destas famílias recompostas, as novas tecnologias evidenciam ainda outras distinções como “mãe genética”, “mãe biológica”, “mãe de aluguer”, etc. As realidades sociais há muito que transcendem as designações que existem e que são visivelmente insuficientes.

ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA

sobretudo quando as crianças vivem esta situação desde sempre. Mas depois acrescentou. “A que ramo de negócio é que eles se dedicam?” (Garner. Gays. como também se opta por chamar pai/mãe a ambos os membros do casal. Eu sustive a respiração.” (Cadoret. 2000: 173 – Tradução minha). sob o argumento do princípio do bem-estar da criança. não fossem estas estar. “as minhas mães”. era o seu pai. surgem termos como “a outra mãe”. “os meus pais”. e os restantes.5 Nas famílias homoparentais esta parece ser das situações mais difíceis de resolver e aceitar: assim. Respirei de alívio. satisfeita por ela ter percebido e achado fantástico. normalmente. sublinhando assim uma vontade de formar uma família. tanto acontece que mãe e pai sejam os biológicos ou legais. Bissexuais e Transgender) – Families Like Mine (2004) –. e em relação aos pais. uma colega lhe perguntou qual dos dois homens para quem apontou como sendo a família. “Bem” continuou “não é fantástico que o ‘partner’ do teu pai tenha vindo de tão longe com ele para assistir à cerimónia da tua graduação!”. Garner esclareceu que um era seu pai. Esta dificuldade. Abigail Garner. não é tanto sentida no seio da família. etc. A inexistência de nomes para as relações torna difícil fazer transparecer a importância destas pessoas na família quando se fala dela a estranhos. “madrasta”. de se afirmarem como pais. “tia” ou então opta-se pela utilização apenas do nome da pessoa em causa. 2004: 139 – Tradução minha) – é que partner em inglês quer igualmente dizer sócio. seguido do primeiro nome que distingue cada um deles. mas nas referências à família fora do seio familiar. e o outro. “O ‘partner’?” perguntou. A antropóloga Anne Cadoret (2000) observa no contexto francês. autora de um importante estudo americano sobre os filhos de pais LGBT (Lésbicas. Em relação ao casal é referido como “a minha mãe e a parceira”. o parceiro dele (em inglês partner). na cerimónia de graduação da faculdade. esta mesma necessidade: “Nota-se uma vontade muito nítida de utilizar um termo de parentesco e não apenas o nome próprio da pessoa em causa. As dificuldades relatadas não seriam provavelmente muito distintas das que existiriam para a adopção comum. e ela própria filha de pai gay. sendo que muitas vezes as condições exigidas jamais seriam satisfeitas pelas famílias que geram crianças sem ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Assim. padrastos ou padrinhos. porém. ao serviço de uma ficção de nascimento: veja-se as restrições no acesso à adopção e à reprodução assistida. conta que certa vez.

Como diz ainda Anne Cadoret (2000): A família sempre foi uma montagem. O envolvimento de mais do que duas pessoas no processo de concepção dificulta a nomeação de cada um dos pais e privilegia um em detrimento do outro dos membros do casal. ou pelo casal do mesmo sexo. o afectivo. Já quando uma mãe sozinha. e era até recorrente a indicação de que na sua grande maioria estas crianças na idade adulta tendiam para a heterossexualidade. se as raparigas crescessem mais arrapazadas e os rapazes ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Sejam quais forem os termos usados. o histórico. o jurídico. (Cadoret. o cultural. Quase todos os estudos nesta área referem não ser difícil. estas famílias. o social. ao reproduzir-se poderão estar a reproduzir o desajuste: que será dos filhos que crescem nestas famílias? Que homens e que mulheres serão? Que famílias irão eles construir? Nos anos 80. 2000: 173 – Tradução minha) Para além disso. Por outro lado. ou até um casal do mesmo sexo opta pela adopção. e uma vez que esses receios se prendem normalmente com a hipótese de estas crianças apresentarem inconformidades de género. Tanto para as famílias homossexuais quanto para as famílias heterossexuais trata-se de fazer a ‘bricolage’ da família a partir de diversos argumentos de parentesco: o biológico. As descobertas iam ao encontro dos receios da maioria heterossexual e homo-hesitante. na maioria dos casos. ou um pai celibatário. como se isso fosse sinónimo de uma educação eficaz.6 recorrer a estes meios. de uma adequação do parentesco biológico ao parentesco social. a dificuldade em classificar os parentes parece residir mais na forma como se explicam as relações familiares em causa. situar o sexo ausente uma vez que a criança nasce de um casal heterossexual e é posteriormente adoptada por esta ou aquela pessoa. no caso dos filhos resultantes de inseminação artificial esta questão torna-se mais difícil de resolver. os estudos sobre filhos de casais do mesmo sexo evidenciavam a necessidade de contrariar os argumentos homofóbicos e sublinhavam a existência de poucas diferenças entre as crianças educadas numa família homossexual face às que cresciam numa família heterossexual. Mas as famílias homossexuais fazem cair a nossa ilusão de um “parentesco natural”. nos Estados Unidos da América. está-se em geral consciente da ausência de um dos sexos nesta composição. O termo escolhido deverá evidenciar a existência de uma relação de tipo familiar e a posição da pessoa face a quem a nomeia.

A interpretação feita por estes autores sugere uma maior tendência dos filhos com pais do mesmo sexo para desafiar as ideias relativas aos papéis de género e à sexualidade. sinónimo de uma sexualidade mal resolvida – tanto para a homossexualidade quanto para a heterossexualidade. estes filhos apresentavam algumas diferenças relativamente aos seus congéneres de famílias heterossexuais. efectuados entre 1981 e 1998. E se os próprios se sentem bem. reexaminaram os dados utilizados nos estudos sobre os filhos das famílias do mesmo sexo. mas longe de considerarem isso uma falha no seu desenvolvimento pessoal. na medida em que lhes confere uma liberdade maior de comportamento ao poderem expressar livremente traços mais efeminados ou masculinos e ao serem abertamente afectuosos com alguém do mesmo sexo sem que isso os faça sentir esquisitos ou inseguros em relação à sua própria sexualidade. e concluíram que contrariamente ao que antes havia sido divulgado. o lugar dos homens e das mulheres na sociedade e na família? E quando é que o “problema” das famílias homoparentais passa a ser o ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . e integrados. por exemplo. em geral. por vezes. Abigail Garner verifica que por vezes estes filhos apresentam personalidades em cujas distinções de género são menos óbvias e em que os papéis são mais indistintos – um aspecto que os conservadores tomam como evidência de uma falha no desenvolvimento das crianças. ao igual desempenho de funções normalmente associadas a um dos sexos. acreditam que tal os valoriza no seu relacionamento com os outros e lhes dá uma maior abertura e capacidade de tolerância – conclusão. tal seria motivo para preocupação. ser uma maisvalia. a que têm chegado quase todos os estudos nesta área.7 efeminados. no entanto. actualmente entre os 20 e os 30 anos. Biblarz. mas que os próprios consideram. os sociólogos americanos Judith Stacey e Timothy J. e resolvidos na sua sexualidade. sem que isso fosse. sobre filhos de casais do mesmo sexo. também se revelavam mais abertos à aceitação das relações homossexuais. Entre os jovens adultos com quem trabalhou. Ao mesmo tempo que se mostravam mais abertos. com as suas próprias referências. No seu estudo. Garner percebeu como muitos deles têm uma clara noção de que a sua identidade de género escapa. aliás. Em 2001. à rigidez dos padrões e não se coaduna exactamente com o que é ser homem e mulher. por que motivo se teme tanto pelo desenvolvimento destas crianças? Porque é que se diz ser no seu superior interesse que se impede a adopção por casais do mesmo sexo? Como é que se poderá viver com uma realidade familiar que parece não ensinar a distinguir.

2004. A Critique of the Study of Kinship. Françoise. o que a homoparentalidade evidencia é a possibilidade de se formar e viver a família de um modo não alicerçado nas categorias de género que na sociedade Ocidental estiveram sempre na base da sua formação. in Martine Goss (dir. Landislav. Thousand Oaks. Abigail. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . London: Pluto Press. Ann Arbor: University of Michigan Press. 2000. Referências Bibliográficas: BIBLARZ. 1996. justificando (e justificadas por) o seu carácter natural. 1984. Families Like Mine – Children of gay parents tell it like it is. Jane. Timothy J. 1996: Masculin/Féminin: La pensée de la différence. Questions of Cultural Identity. SCHNEIDER. in American Sociological Review 66 (April 2001): 159-183. “(How) Does the Sexual Orientation of Parents Matter?”. David 1995. Gender and Kinship: essays toward a unified analysis. Marilyn. 2001. New York: Basic Books. CADORET. STRATHERN. (eds.) Homoparentalités.8 “problema” da família? Acima de tudo. CA: Standford University Press. New Delhi: SAGE Publications. London. Anthropological Perspectives on Kinship. État des Lieux. HERITIER. GARNER. Paris : Editions HOLY.) 1997. Fatherless America. 1996. “Figures d’homoparentalité ”. Para melhor se perceber a homoparentalidade é pois fundamental desmontar este conceito de família assente numa forte distinção de género e a partir daí perceber se ainda sobram motivos para que se receie a sua proliferação. New York: Perennial Currents. David. e Judith Stacey. BLANKENHORN. Anne. Choice and the New Reproductive Technologies”. COLLLIER. Standford. in Stuart HALL & Paul DU GAY (eds. & Sylvia YANAGISAKO. Issy-les-Moulineaux : ESF éditeur. “Enabling Identity? Biology.).

por exemplo. poder. apesar destas já terem uma participação importante no mercado de trabalho A sua chegada tardia ao mundo do trabalho remunerado contribuiu para as segregar em profissões onde a sua presença é fundamentada nos seus atributos «naturais». as educadoras de infância a transmitir aos seus educandos o modelo feminino: o cuidar. Em Portugal. isto é. reprodução. enquanto que. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . o tratar e o ensinar. O estereótipo masculino está associado aos domínios profissionais mais dinâmicos e independentes. 1. A partir de um trabalho de observação empírica feito numa creche. de acordo com o seu género. em entrevistas semi-estruturadas realizadas a educadoras e alunos da licenciatura de educação de infância e também um inquérito realizado entre profissionais e futuros candidatos à profissão. Elas estão em maioria e são poucos os homens que ultrapassam a barreira simbólica do género. jardim-de-infância e ATL. A sua ausência da profissão permite que sejam as mulheres. a marcada diferenciação entre “trabalho de homem” e “trabalho de mulher” tem criado condições para que continuem a existir trabalhos maioritariamente desempenhados pelas mulheres. Palavras-chave: educadores de infância.e nos veículos por ele utilizados . o estereótipo feminino está associado à expressividade e à submissão (cf. esta comunicação dará conta de uma forma de reprodução de poder assente na diferenciação de género.Educadoras de Infância: A fragilidade de uma maioria Manuela Raminhos Centro de Estudos de Antropologia Social ISCTE A profissão de Educadores de infância é em Portugal exercida quase em exclusividade por mulheres.as mulheres e as crianças. O êxito da sua longevidade está no seu meio de reprodução – os pequenos domínios de relações sociais . género. 1994). Apresentação Os estudos desenvolvidos em Portugal demonstram uma grande consensualidade no que diz respeito aos estereótipos do género. Amâncio.

Lisboa. Através de um forte dispositivo ideológico continuamos a assistir à naturalização do género que. Como resultado. 1995). Como pano de fundo fica a ideia que existem profissões para as quais as mulheres possuem habilitações naturais dado crer-se «que os sexo tem consequências inevitáveis quando à forma de pensamento. 2003 e 2004 foram frequentadas por cerca de 2 mil alunos nos cursos de educação de infância onde se estima que apenas 3% dos alunos sejam do sexo masculino 1 . colocando as mulheres em profissões menos prestigiantes socialmente e dificultando-lhes o acesso a funções de chefia tradicionalmente desempenhadas por homens. 2005). em Portugal. mas em contrapartida. o tratar e o ensinar.354 educadores de infância em Portugal. Mas porque é que a divisão do trabalho por género persiste? A primeira explicação centra-se nos estereótipos que passam através da ideologia do género e que 1 DGES. A sua ausência da profissão permite que sejam as mulheres. Elas estão em maioria e são poucos os homens que ultrapassam a barreira simbólica do género. Cardana. promove a desigualdade social. que as jovens já escolhem com frequência cursos e profissões ligados com o estereótipo da masculinidade (cf. As várias escolas superiores de educação públicas entre 2002. 2002. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Ministério da Ciência e do Ensino Superior.a transmitir aos seus educandos o modelo feminino: o cuidar. a presença das mulheres no domínio profissional masculino tem aumentado.2003 3 2004. A profissão de Educadores de infância é em Portugal exercida quase em exclusividade por mulheres. dos quais 161 do sexo masculino (INE: 2001). A concentração por sexos quer a nível do ensino (licenciaturas e cursos profissionais) quer na actividade profissional é suportada por um discurso que alimenta a ideia que existem profissões masculinas e femininas. as educadoras de infância . Os homens tinham neste universo profissional um peso inferior a 1%. a partir da diferença sexual. O Recenseamento Geral da População de 2001 regista um total de 20. Nota-se. sentimentos e comportamentos» (cf. Concurso Nacional de Acesso ao Ensino Superior. os empregos do domínio feminino pouco têm mudado a sua composição sexual. 2005. Williams. no entanto.2 Em Portugal são poucas as profissões do domínio profissional que tradicionalmente está ligado ao mundo do trabalho feminino que empregam homens e são poucos os jovens do sexo masculino que escolhem licenciaturas em áreas comprometidas com o estereótipo feminino.

São os estereótipos que fazem com que o trabalho. Pine Forge Press (an imprint of Sage Publications. com uma distribuição razoavelmente equitativa.). nos lugares de chefia e de decisão.3 permitem aos indivíduos a partilha de um conjunto de ideias que naturalizam. 2 Uma segunda explicação para a para a divisão do trabalho é o facto desta divisão conceder privilégios ao grupo dominante proporcionando-lhe uma posição de controlo. uma vez que têm demonstrado falta de estratégias de afastamento dos homens nas funções de liderança quando estes entram no seu domínio profissional. deixando-os construir a sua masculinidade e evidenciando a sua supremacia e poder. “género é poder”. Women and Men at Work. Thousand Oaks. jardim-de-infância e ATL. e Barbara Reskin (2002).que ainda consegue preservar a sua vantagem localizando-os em esferas diferentes das da mulher. A imagem de si Dizem as feministas. A amostra revelou uma distribuição por género fortemente feminizada. São estes estereótipos que levam a que a profissão de educador de infância seja própria de mulher. Este controlo é exercido pelo sexo privilegiado . Inc. entre os alunos das Escolas Superiores de Educação de Lisboa e do Porto. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . como por exemplo. Sociology for a new Century. col. em entrevistas semi-estruturadas realizadas a educadoras e alunos da licenciatura de educação de infância e também um inquérito realizado entre profissionais e futuros candidatos à profissão. pag. como esperado. “seja etiquetado como feminino e masculino”. da Licenciatura de educação de infância e a Educadores de Infância e exercerem a sua actividade em creches e jardins-de-infância de Lisboa e do Porto. Uma terceira explicação surge. mas como é que o género se torna poder? e qual é a sua natureza? A partir de um trabalho de observação empírica feito numa creche. 3 2. Irene. um conjunto de comportamentos e atributos. Londres e Nova Deli. 2ª edição. 4 Padavic. 42-43. por sexo.o masculino . esta comunicação tem como objectivo identificar a natureza do poder atribuído ao género. as mulheres não têm sido consistentes na consolidação dos seus privilégios profissionais. Os registos etnográficos que suportam este texto são: uma amostra baseada em 166 questionários. 3 4 2 ID. No grupo de educadores de infância não foi inquirido um único homem e no grupo de alunos de educação infantil apenas um.

efeito do património biológico do indivíduo. O género manifesta-se segundo a sua natureza biológica. Esta naturalidade está contida nos discursos científicos da biologia e da psicologia. desejos e crenças. Acredita-se que é assim. não está ao nível da sua composição sexual. (Foucault. prende-o à sua identidade que ele ou ela deve reconhecer e acreditar como reflexo do seu verdadeiro “eu”. E é aqui que reside também um dos poderes do género. Porque? Porque o poder é produtivo: produz indivíduos. tornando o discurso ideológico coerente e permitindo também a continuidade do discurso do senso comum. Isto significa que a feminização das profissões. 1979). No caso das educadoras de infância estas assumem que a profissão é feminina e que está de acordo com o seu património biológico. diferentes tipos de identidades. O poder perde o seu carácter dominante e deixa de ser repressivo. apesar de todo os projectos de transgressão e de rotura. E se esta verdade fizer parte de cada “verdadeiro eu” acredita-se nela. Apesar de ser uma identidade plástica. É este modelo que é reproduzido e assimilado pelas mulheres e pelos homens que ingressam em profissões que de acordo com o seu género. actos. Esta é a verdade. porque se acredita nele. 1982:212).4 Um dos maiores contributos de Foucault foi fazer a ligação entre o discurso dominante da verdade (ou a verdade de um grupo reflectida no discurso dominante) e a emergência do poder. também o género é assumido como um fenómeno causal. apesar de sabermos que é uma construção social. Um dos impedimentos à mudança social é a assunção da naturalidade das coisas. Contudo a verdade não existe por si só o que permite que o poder não se reduza somente às formas de dominação e não seja essencialmente repressão. no seu carácter fixo. O Género está de acordo com o seu sistema nervoso. É uma verdade que liga os indivíduos e que fortalece as estruturas de poder e dominação (cf. Nestes discursos o género tem qualquer coisa de fixo e permanente. é normal e natural. Como o comportamento. controlando a massa crítica. Como a fé aceita-se e não se discute. Dizem: ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . o género justifica-se de acordo com um quadro biológico que suporta a ideia que divisão do trabalho. mas na presença de um modelo de género institucionalizado. Foucault. modos de comportamento. segundo o género. O poder identifica o indivíduo. formas de subjectividade.

da paciência. aos médicos. (aluna da licenciatura de Educação de Infância. dentro dos parâmetros da verdade estabelecida. Dizia a minha avó quando via o meu irmão a brincar com as minhas bonecas: Vê lá que ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . são as flores do nosso jardim que nos primeiros tempos de vida precisam da nossa ajuda. porque está ligada ao cuidar. a tratar dos filhos. Mais crescidas. à paciência. Às casinhas. da bondade. aos astronautas. (mulher. aos veterinários. Ao mesmo tempo perante as crianças a educadora é a autoridade. A mulher biologicamente está preparada para isso. No entanto dava-me bonecas a mim e carrinhos ao meu irmão. Essa era implacável. ao carinho. Até lhe dizia «assim é que é. Elas são como as flores. consolidando a ideia de que esta ocorre com normalidade. a ajudar a mãe dos meninos.5 Somos só mulheres … penso que os homens não têm paciência … exercemos a nossa profissão com mais naturalidade é por isso que é uma profissão feminina. Não tenho assim presente que fossemos muito rigorosos na divisão de tarefas. negam que tenham sido condicionadas pela família e pelos amigos na escolha da sua profissão. A tudo. mas é simultaneamente a imagem da passividade. essa realidade é bem diferente. É verdade! Se calhar sem querer estava-me a ensinar-nos que cuidar de meninos era coisa de mulher! Mas a minha avó sim …que espectáculo. da dedicação. como professoras. Lembro-me de brincar com os meus irmãos. educadora. educadora de infância. tão ligadas ao universo materno. negando o papel que estes tiveram na sua aprendizagem do género. enfermeiras. Ou seja o seu género não acrescenta nada à profissão. A naturalização do género é tão forte nas educadoras que apesar de no inquérito terem respondido que em crianças as profissões que gostariam de ter em adultas se situavam no universo das profissões femininas. A minha mãe não se ralava nada se o meu irmão brincasse com as bonecas e eu com os brinquedos dele. mais fortes. mas é assim que eu penso. aos escritórios. 55 anos) os homens aparecem no ensino já quando «as nossas crianças estão prontas» para a mudança. só te fica bem!». No entanto através dos seus discursos. Não aprendo isto na licencaitura. 21 anos) Nós sabemos que é uma profissão feminina. Em interacção com as crianças partilham com estas experiências ligadas ao universo da casa. da tolerância. (mulher. 55 anos) As educadoras de infância deixaram transparecer que no decurso da sua actividade profissional o seu universo é feminino.

põem mais em causa a sua masculinidade. A forte presença da mulher face ao afastamento da figura do pai nos primeiros anos de vida é pertinente para tentarmos compreender a necessidade que os rapazes têm em manifestar a sua masculinidade. afastando-se das brincadeiras das meninas. a preocupação na construção da masculinidade profissional. Nova Iorque. negando dessa forma a sua ligação ao mundo feminino e. mais tarde. acaba por ser influenciada pelo modelo que lhe está mais próximo. 1978. 5 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . o modelo da paternidade (masculino) fica mais ausente. já na vida adulta. 6 Como me disse uma educadora. 6 CHODOROW. olha que as bonecas são para as meninas! (Aluna da ESE. perdendo. Talcott.6 desgostos que ainda queres dar ao teu pai. pp. «a sociedade vê a sua profissão como a profissionalização do trabalho doméstico» (Mulher. quando entram no campo profissional tradicionalmente conotado com o género feminino. que resulta desta intensidade do significado atribuído ao género.174. Lisboa). afirmar a sua masculinidade. também o seu afastamento das profissões “apropriadas às mulheres”. Mais tarde. Se atendermos a PARSONS. Porto). Nancy. em contrapartida. Uma forte identidade Como já dissemos. Quando chegam à vida adulta os homens escolhem geralmente uma profissão do universo das profissões masculinas. O afastamento dos homens das profissões femininas ou a necessidade que estes têm de. The University of California Press.17-33. New York Free Press. aparentemente. o feminino e em muitos casos a figura da mãe ou da educadora. os rapazes são pressionados para abandonar esta identificação com a mãe e assumirem a sua identidade de género masculino. enquanto que os homens. no seu processo de aprendizagem. exige uma assimetria dos papéis: A mulher pode fazer qualquer trabalho que não deixa por isso de ser feminina. as escolhas profissionais são incentivadas ou condicionadas através da aprendizagem dos papéis do género no seio das solidariedades primárias. Berkley. 3. 5 Através da construção de uma identidade masculina pela negativa: “tu não fazes isso porque quem o faz são as mulheres!”. pp. 40 anos. influência. quando aí chegam. The reproduction of mothering. “The superego and the theory of social systems”. Social Structure and Personality. pode ser explicada através da teoria do sexo. A criança. 1970 (1952).

a biblioteca. Colocariam em causa a sua masculinidade. práticas e comportamentos domésticos e profissionais que alimenta a forte imagem feminina que estas profissionais têm de si mesmo. pudemos verificar que algumas das suas tarefas são semelhantes às que as mulheres realizam no espaço privado. o seu prestígio. normalmente. no seu local de trabalho – o infantário -. os espaços em que interagem com as crianças estão carregados de simbolismo feminino. como por exemplo. a arrumar. usam roupas largas . As salas estão decoradas. A sua actividade profissional demonstra que a passagem da casa para o trabalho continua a permitir que esta profissão consolide os estereótipos femininos. ensinandoos a arrumar a casa. As educadoras continuam a cuidar.público -. com os seus educandos a quem dispensam toda a sua atenção ao longo das muitas horas que estão com eles. o seu poder de grupo privilegiado. calçam sapatos baixos.as batas – e. e o profissional . ou a cuidar da sua higiene. E até o espírito de poupança doméstica se reflecte nestas profissionais que promovem «as festinhas onde vendemos coisinhas feitas por eles para juntar dinheiro para a viagem dos finalistas» (Mulher. a educadora olha atentamente “pelos seus meninos”. Por outro lado. a apresentação destas mulheres muda e o significado que daí emerge permite sinalizar a semelhança entre o trabalho de casa e o trabalho que desempenham profissionalmente nos infantários. Entre o social. preocupandose com o seu bem-estar. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . onde surge a cozinha. Porto).privado -. . compreendemos porque é que os homens não escolhem esta profissão. A feminilidade da profissão também é observável através das relações sociais que estas profissionais estabelecem no seu dia-a-dia com os seus interlocutores mais directos. 49 anos. o quarto e até a garagem. a vigiar. 7 Entendemos que poder ou o exercício do poder por parte de pessoas ou de grupos sociais é a capacidade que estes têm em usar estratégias próprias que provocam obediência outras pessoas ou grupos. a sala. Na sua sala. O formal que trazem da rua passa a informal dentro do infantário. 7 Através do trabalho de observação realizado junto de educadoras de infância.7 isso. com as enfermeiras que prestam serviço no infantário. a ensinar e a proteger as suas crianças. É esta simbiose perfeita entre objectos. com os pais destes. a quem se dirigem para saberem como devem actuar face a problemas de saúde das crianças. Como no lar. em alguns estabelecimentos. também aqui as mulheres. numa atitude de conforto e de disponibilidade para com a sua tarefa. como se fossem uma casa familiar. o justo das roupas passa a folgado.

40. 20005 (2003). Na prática. enquanto que o homem é caracterizado pela sua objectividade. Perguntar-lhe-ia. Catherine. 8 Algumas educadoras de infância entrevistadas não escondem que para as mulheres é normal reagirem emocionalmente enquanto que se espera que os homens escondem as suas emoções. 8 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Londres. pelas categorias do género. ou o seu emprego como adjectivação de uma mulher serve fins ideológicos. racionalidade. Envolvemonos e demonstramos. (Educadora. pp. a emoção opõe-se ao pensamento e muitas vezes é empregue para caracterizar a mulher negativamente reforçando a sua subordinação ao homem.). uma vez que está associada. Mary Gergen e Kenneth J.. As educadoras fazem um trabalho valorizado socialmente mas em contrapartida com pouco realce e estatuto social de prestígio. Gergen (Ed. com raiva ou com alegria. com paixão a determinadas situações. face à alegria ou tristeza das crianças». à mulher. Porto) A emoção pode ser também entendida como uma representação do feminismo da profissão. Mas hoje se a minha filha escolhesse esta profissão eu iria contra a ideia dela. 40 anos. «mas não é só a mulher que consegue experimentar a angustia e reagir. As educadoras sofrem e riem. Emoção significa subjectividade. Disse-me uma Educadora. ao mesmo tempo que dizem. a reader. a diferença é que nós conseguimos LUTZ. Segundo Catherine Lutz (2003) a aplicação do conceito emoção. Sou educadora porque quis sê-lo e gosto da minha profissão. Quer dizer que a emoção faz parte de um sistema de relações de poder e tem um papel fundamental na manutenção desse mesmo poder. “Emotion: The universal and the local. organização. sabes porque é que não há homens nesta profissão? Porque nós somos socialmente vistas como “donas de casa” que trabalham fora de casa. irracionalidade a tal ponto que pode gerar o caos. Sage. Isso é uma injustiça e eu não quero que tu continues a alimentar essa injustiça.8 No entanto por detrás desta imagem estereotipada está a ideologia do género que através da divisão do trabalho por sexo atribui à mulher tarefas diferentes das que atribui ao homem. permitindo desta forma a manutenção um sistema de estratificação profissional que atribui valor desigual ao trabalho segundo o género. Social Construction.

4% 13. A paciência e a compreensão. gosto Afectividade.4% 37.3% 32. o carinho.6% 32. Segundo uma professora da ESE do Porto. afectividade.3% Aluno Lic. amor.3% 33.7% 15.1% 30.5% 13.1% 30. enquanto que eles a escondem!» (Educadora. simpatia 34. os possíveis candidatos homens desta profissão.5% 10. a criatividade e a flexibilidade. 54 anos.3% 16.2% 12. humanismo Vocação.4% 11. assim como as denúncias de praticas pedófilas em estabelecimentos de ensino têm ultimamente afastado da licenciatura possíveis candidatos.9% 25. em muitos casos condição essencial para afastamento dos homens da profissão.6% 19.9 manifesta-la.3% Para as mulheres educadoras de infância os afectos fazem parte da sua prática profissional.8% 18.4% 10. Professora da ESE.4% 15.6% 24. segurança Observação. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .9% 22.8% 25. amor.5% Total 41.8% 32.1% 20. 40 anos.5% 14. «os poucos rapazes que aqui chegam não conseguem aguentar a carga emocional negativa que lhes é transmitida pelos média. Educação Infância 44.9% 39.3% 25.8% 32. compreensão Criatividade.5% 18. Acabam por desistir» (Mulher.7% 30. Lisboa).2% 13. Características de um bom educador Educador de infância Paciência.0% 33. a vocação e o gosto. dedicação Responsabilidade. carinho Empenho. No inquérito realizado embora de opinião bastante díspares os educadores revelam um leque alargado de características comportamentais na área da emoção e atribuídas à mulher pelas categorias do género feminino.1% 34. flexibilidade Sensibilidade.0% 12. Os afectos que manifestam também nas carícias que as crianças recebem dos educadores afasta. a sensibilidade. educação Afabilidade. Porto). atenção Competência técnica e científica Capacidades profissionais Respeito. empatia.

Aqui. não reconhecem directamente a influência dos seus pais. sem a necessidade de um “diferente por perto”. têm características e apetências diferentes. As crianças representam a pureza e a mulher conserva uma imagem menos perigosa. mais tarde. No seu processo de sociabilização a criança começa por copiar as atitudes daqueles que lhes estão mais próximos ou daqueles que sobre ela exerçam mais influência e que se encontram no universo das solidariedades primárias. Isto quer dizer que até a sociabilização com os papéis atribuído ao género acontece dentro dos parâmetros naturais da ordem estabelecida. foi o que constatámos junto das Educadoras de Infância. mais dócil e o seu as suas carícias são consideradas normais. afastando deste universo os homens. neste universo. a criança vai à procura do seu “outro” para o copiar ou simplesmente para o ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Segundo a ideologia do género os indivíduos. também manifestam que a profissão de educador de infância é própria para mulheres. Os inquiridos. por exemplo. amigos ou mesmo da escola no seu processo de sociabilização com as categorias do género. Pelas práticas profissionais que lhes vemos ter. 4. pelo meio em que estão inseridas. Conclusão O processo de aprendizagem das categorias do género iniciado através do processo de interacção desenvolvido no seio das solidariedades primárias. já na fase adulta. De facto. segundo o sexo. pela a forma de comportamento que se espera delas. a imagem de feminilidade contida nesta profissão é forte e constrói-se sozinha. nem tão pouco se sentem que houve algum dia qualquer forma de influência que condicionasse a sua escolha. por tudo isto. até pelo perigo que pode representar a presença de um homem nesta profissão. As mulheres devem ficar junto das crianças.10 Por outro lado. os pais das crianças em idade de pré-escolar. Na verdade expressam a ideologia do género e os seus medos. se sentirá mais atraído pelas profissões que estão de acordo com as características atribuídas ao seu género. Esta aprendizagem condicionará o indivíduo que. Porém a sua natureza não passa de uma construção social. O seu poder advém-lhe da sua forma de reprodução.

a criança aprende as categorias do género. Lisboa). 1994. Apesar dos educadores de infância deixarem transparecer que o seu trabalho com as crianças é feito com o objectivo de os influenciar no sentido do equilíbrio e equidade entre géneros. É também neste universo. Nos seus espaços de trabalho. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . condicionando o leque das profissões disponíveis para os futuros homens e influenciando-os a escolher: «uma profissão que não envolva o cuidar dos filhos dos outros e ensiná-los brincando» (Educadora. mas mais do que entanto a criança habitua-se a partilhar a sua vida com uma mulher que os ensina a divisão do trabalho por sexo. A construção Social da Diferença. copia e aprende a reproduzir os papéis sociais esperados para o homem e para a mulher. Este processo de aprendizagem dos papéis do género é universal. 54 anos. Mais tarde. Edições Afrontamento. no jardim-de-infância a criança começar por distinguir os papéis diferenciados do género. as salas que recebem as crianças. Referências Bibliográficas AMÂNCIO. “e todas as sociedade reconhecem os laços que cada criança tem com as pessoas envolvidas no planeamento e empreendimento do acto reprodutivo”. As crianças brincam e utilizam este espaço não tendo em conta o seu sexo. 9 É na família que. no seu estabelecimento todas as educadoras são mulheres. esta transmite-lhe a ideia que cuidar das crianças é trabalho para mulher. Porto. que a criança vê. Masculino e Feminino. O trabalho de observação empírica permitiu ver que as mulheres educadoras de infância desenvolvem um tipo de trabalho que as posiciona de acordo com o imaginário feminino. muitas vezes a brincar ao “faz de conta” sob os olhares da mãe ou da avó. pp. Provadamente. Lígia. um número de factores e de práticas profissionais chama a nossa atenção. E aí está a perversidade desta profissão. Através da interacção que se estabelece entre a criança e a sua educadora.11 identificar com determinado tipo de trabalho. os objectos estão distribuídos como se de uma casa se tratasse. 41. Estas profissionais actuam como frentes de consolidação do género feminino. precisamente para a falta de práticas conducentes a esse equilíbrio e equidade. 9 ID.

1982. WEINREICH. CA. pp. FOUCAULT. Sociedade e Culturas. Rita Laura. Vol. Brasília. Social Construction. Universidade de Guadalajara. Robert. e Nelson Lourenço. Michel Foucault beyond structuralism and hermeneutics. and RABINOW. Isabel. (Texto 14).). João de. Vermont. “A Casa é para as raparigas. Os percursos do género na antropologia e para além dela. Em Terra de tufões: dinâmicas da etnicidade macaense. Londres. 2ª edição. Nova Iorque. (ed). pp. Vintage. Sociology for a new Century. Thousand Oaks. The reproduction of mothering. Revista de estúdios de género. 1993. Sociology for a new Century. PHILIP. e Barbara Reskin (2002). “We all love Charles: men in Child Care and the Social construction of Gender”. Padavic. PINA-CABRAL. Londres e Nova Deli.2002. “The superego and the theory of social systems”. La Ventana.es/huesped/rae. Women and Men at Work. New Haven. Still a man’s World: men who do “women’s work”. Nova Iorque. 1999. pp. PARSONS. Educação. WILLIAMS. Mary Gergen e Kenneth J. http://www. 1978.17-33. 2005. 1970 (1952). Michel. Gender and Society. “Electrotecnia e Informática: Dinâmicas de Género em Ciência e Tecnologia”. New York Free Press. Paul. 18. Women and Men at Work. Wheatsheaf. 42. Mercedes. Academic Press. Universidad de Jaén (España). pp. Pine Forge Press (an imprint of Sage Publications. Peter. os rapazes são para trabalhar fora: a diferenciação sexual do trabalho das crianças camponesas e a construção da identidade dos rapazes e raparigas”. PINTO. Berkley. Gower/European Science Foundation. Christine. Guadalajara. Subject and Power. “Variations in Ethnic Identity: Structure Analysis”. Catherine. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Social Structure and Personality. Série Antropologia 236. PALENCIA. University of California Press. Presentations of Gender. col. Irene. 1998. Gergen (Ed. pp. Graça Alves.369. FOUCAULT. Karmela Liebkin (Eds). 1979. Hubert. pp. “Espacios e Identidades: ingreso de profesores a preescolar”. MURRAY. 4 pp. 2000. Sage. Discipline and punish: the birth of the prision. CHODOROW. nº 5.40. Inc. 1996. 8. New Identities in Europe. DREYFUS. Michel. 2ª edição.). Revista de Antropología Experimental. Irene. SEGATO. L. Pine Forge Press. No. Nancy. Cohen. pp. Nº 2. Talcott. 20005 (2003). ICM. Susan. col. 2005. a reader. Padavic. 42-43. Vol 10. N. pp. 1985.. The University of California Press. LUTZ. San Diego. 52. 1989. 174. “Emotion: The universal and the local. Hemel Hempsted. Berkeley.12 CARDANA. 99-121. Yale press University. 2004. STOLLER.ujaen. Gender & Society. 1995. Thousand Oaks. “The gender division of labour: Keeping house and occupational Segregation in the United States”. Londres e Nova Deli. e Barbara Reskin.

13 WILLIAMS.). (Ed. Sage.1993. Christine L. Nova Iorque. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Doing «Woman’s work»: men in non-traditional occupations.

relações de aliança. este artigo articula a avaliação da efectiva capacidade de controlo de recursos que os homens e mulheres da família exercem. de índices elevados de «pobreza» e desemprego formal. estratégias económicas. género. Introdução Esta comunicação 1 baseia-se em investigações que decorreram entre os anos de 1998 e 2002 junto de famílias dos bairros de Mafalala. Polana Caniço A e Hulene B na periferia de Maputo 2 . poder. Palavras-chave: Moçambique. Para a compreensão de todo este processo foi essencial o estudo das relações de género e poder que se processam no interior das famílias e nesta comunicação analisam-se os diferentes papéis desempenhados pelos homens e mulheres reflectindo-se sobre as 1 Uma versão desenvolvida desta comunicação foi publicada na revista Lusotopie (Costa 2005) ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .Há-de vir um senhor que é meu marido: relações de género na periferia de Maputo Ana Bénard da Costa Instituto de Investigação Científica e Tropical. Lisboa anabenard@netcabo. com as representações sociais e culturais e com a auto percepção que os membros da família têm do poder que exercem ou ao qual se submetem. que as investigações decorreu centrando-se na análise de estratégias de sobrevivência e reprodução social de famílias maioritariamente originárias do Sul de Moçambique. Nesta análise discute-se se as transformações ocorridas nas relações de aliança e nas práticas desenvolvidas pelos membros das famílias para obtenção de rendimentos e/ou produtos terão contribuído (ou não) para uma modificação nos papeis de género e mais especificamente para um acréscimo do poder e autonomia das mulheres e para uma valorização do seu estatuto social. Foi neste contexto de precariedade de infra-estruturas urbanas e de serviços sociais.pt Baseando-se numa investigação sobre estratégias de sobrevivência e reprodução social de famílias da periferia de Maputo.

Uniões conjugais em transformação e questões de género Nestas famílias coexistem diferentes processos de formalização das uniões conjugais que não são exclusivos entre si. e himbuya significa amantes. pelo menos ao nível das representações. E quando os actores sociais se afirmam «casados» podem referir-se a uniões formalizadas simultaneamente no Registo Civil. Mutchade significa casamento no registo civil . que pode ser repartida por tempos diferentes. 3. é um processo que. simbólica e económica) e diferentes tipos de recursos (humanos. implica diferentes cerimónias e o pagamento de uma prestação matrimonial. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . kulovoliva designa o casamento com lobolo . uma intenção de compromisso. há casais que só cumpriram parcialmente as diferentes cerimónias e prestações que o lobolo implica. Oppenheimer 2003). 4. em que cada uma das mulheres é casada de forma diferente com o marido e há «uniões de facto» que não envolveram qualquer formalização 5 . há famílias poligâmicas. não só entre o casal e entre as duas famílias que assim se unem. envolvem múltiplas dimensões (social. nas igrejas Cristãs (Católica. entre outras coisas. A diversidade de tipos de uniões matrimoniais é significativa. mas também entre estas e o(s) modelo(s) social (is) de onde emanam os ritos ou as leis através dos quais esse casamento se realiza. Entende-se como estratégias económicas o conjunto de práticas articuladas através das quais os membros das famílias obtêm rendimentos e/ou produtos. Não formalizar uma união num contexto onde se cruzam diferentes sistemas matrimoniais pode ter múltiplos significados. outros referiram que se casaram «muçulmanamente». A presente análise baseia-se em investigações realizadas na periferia de Maputo entre 1999 e 2002 (Costa 2007 . 5. O lobolo não é um acto ou uma cerimónia circunscrita a um momento. culturais e naturais) que são articulados de forma dinâmica e relacional pelos actores sociais no quadro das estratégias económicas que desenvolvem. sociais. Formalizar de algum modo uma união implica. protestante ou de inspiração protestante) ou mesquitas Muçulmanas e através de lobolo 4 .2 implicações que as mudanças ocorridas nas relações de aliança e nas estratégias económicas das famílias 3 têm (ou não) na sua transformação. significar alterações substantivas nas relações de género e de poder que implicam rupturas profundas com os modelos 2. Uma informante referiu que existiam palavras diferentes em changana para designar os diferentes tipos de uniões conjugais. kukandza ou avukate designam a mulher que não foi lobolada e não formalizou a união conjugal de nenhuma das formas possíveis e significam «estar no lar (mùntì » . kutilhuva designa uma situação em que o homem sai de sua casa e vai viver para casa de outra mulher . Estas práticas.

html.net/mozambique/Outras_voces-3Maio % 202003. A proposta de lei e particularmente a questão da poligamia « inflamaram » os ânimos de alguns sectores da « sociedade civil moçambicana » (cf. Foram entrevistadas 81 famílias e inquiridas 1 000 e foi realizado trabalho de terreno mais aprofundado com seis famílias do bairro Polana Caniço A. desde 1991 (Casimiro. http://allafrica. Entre outros aspectos inovadores que esta Lei consagra. Pretende-se que esta nova Lei da Família venha a ser um importante instrumento de mudança no conjunto de práticas sociais (consagradas na anterior Lei ainda do tempo colonial e imanentes dos diferentes sistemas de parentesco moçambicanos) que sustentam e promovem profundos desequilíbrios nas relações de género 6 .mujeresenred. embora em 24 % das famílias estudadas11 existissem relações 6. A pluralidade de formas possíveis de formalizar uma união conjugal e o facto de existirem uniões de facto em que casal se considera e é considerado socialmente casado. o facto de este processo legislativo decorrer pelo menos desde 1991 (Casimiro. e Pessoa 1991). Decorre. entrevista radiodifundida pela Rádio Moçambique a 15 de Maio de 2002 às 10. Cf. o reconhecimento do casamento religioso e tradicional e das uniões de facto desde que estas últimas tenham mais de um ano de duração. pelo menos. Loforte.com/stories/200312090271. 9. A morosidade deste processo legislativo 8 e a polémica que à volta dele se desenvolveu 9 testemunha as contradições resultantes da coexistência de diferentes sistemas culturais que permitem uma dinâmica « normativa ». http://www. 8.3 matrimoniais prevalecentes e com os papéis que os respectivos cônjuges supostamente assumem dentro na união conjugal e várias implicações.). sendo uma das mais importantes a legal. sendo esta promulgada pelo Presidente Joaquim Chissano vários meses depois (a 25 de Agosto de 2004). destaca-se o facto de o marido deixar de ser « automaticamente » o representante da família. Cf. em parte.30 TMG).doc 7. nomeadamente no que se refere às uniões poligâmicas. sistemas de sucessão e herança e sistemas matrimoniais são interpretados de forma diversa. deveres e obrigações dos diferentes membros da família. As uniões poligâmicas não são reconhecidas (nem proibidas) e a lei estabelece que no caso de morte do marido a herança deste deve ser dividida em partes iguais pelas viúvas 7 . 11. possibilitando arbitragens permanentes entre vários referentes 10. Loforte e Pessoa 1991). Se estas uniões se quebram o homem pode ser obrigado a contribuir com uma pensão para a sua ex-mulher e filhos. Desta forma. Este facto explica. em que direitos. dificulta a análise das diferentes situações. Depois de um longo debate o Parlamento aprovou em Dezembro de 2003 a nova Lei da Família. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . 10.

Esta distinção é subtil e o lobolo não é o factor que introduz a diferença. 2. sede» (1996 : 132). e assim sucessivamente […] e então chamamos de «mães solteiras». […] A mulher tem todos os direitos iguais aos do homem. Mas qual é a verdadeira situação da mulher moçambicana em meio urbano ? A existência de um elevado número de mulheres «mães solteiras» tem sido apontada como espelhando tanto a crise social que se vive e a dissolução da família «tradicional» e dos laços familiares subjacentes a esta. De forma a compreender as transformações ocorridas ao nível das relações de aliança e de género. Porque a mulher. e a amante passa a ser a esposa do homem. a mulher livre da actualidade. A família do marido leva todos os bens da senhora […] podem até levar os filhos […] e a mulher volta para casa dos pais […] e ela engravida outra vez. secretária da OMM (Organização da Mulher Moçambicana) no bairro de Hulene B : Minha mãe não quis casar com o cunhado e por isso mandaramna embora. cidade. 3. Depois a Frelimo. tem outro filho. lar. Se o homem decidir sair definitivamente da sua casa. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . aldeia vila. então passam de amantes a casal.4 entre um homem e duas ou mais mulheres. A explicação dada para distinguir uma amante de uma segunda (ou terceira…) mulher «legítima» foi a seguinte : é-se amante quando se «namora fora do mùntì 12 » e quando a esposa «legítima» desconhece a situação. Só que a diferença deve haver porque da mulher nasce bebé […]. não foi possível apurar se todas estas relações eram poligâmicas de tipo «tradicional» ou se eram casamentos monogâmicos onde havia uma «amante». pois muitas mulheres (em regime de monogamia ou poligamia) consideram-se casadas mesmo sem terem sido loboladas. […] faziam isso antigamente. transcrevem-se aqui as palavras de uma mulher. como a libertação da mulher da 12. Nestes excertos estão patentes as contradições entre uma «realidade» que ela descreve como composta de mães solteiras e mulheres abandonadas e as representações ideológicas que contrapõem à mulher submissa da sociedade tradicional. casa. com a independência deu a liberdade à mulher. instalações. No dicionário de Bento Sitoe pode ler-se o seguinte : «mùntì […] 1. família. povoação. vou viver com aquela família definitivamente porque me lobolaram[…]. antes […] eu caso. quando morre o marido eles arrancam todas as coisas da mulher.

simultaneamente. que o papel desempenhado pelo lobolo se relacione apenas com o estabelecimento de direitos e deveres de mulheres e maridos. Por outro lado. por conseguinte. Coexistem.5 tutela da família «tradicional» e das regras rígidas que a reduziam a um «ser menor». mas sobretudo com a criação. e muitos disseram que o valor monetário do lobolo era calculado em função das despesas que haviam tido com a educação da filha. Segundo. Não parece. O lobolo (ilustrando o pluralismo moral do contexto) é visto como um acto abominável através do qual mulheres são compradas e vendidas e simultaneamente como algo positivo que sanciona e dá estabilidade a uniões. o processo de deslocamento em que estas populações estiveram envolvidas nos últimos anos e que tornaram por vezes obsoletas as velhas alianças. porque no passado envolvia bens de prestígio com valor simbólico (vacas) mas aos quais não era estranho o valor material. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . É difícil fazer uma análise « objectiva » da evolução do «custo» do lobolo. a família destas sabe que. mas sim as possibilidades (facilidades) que os rapazes e as famílias têm de os adquirir – e estas talvez fossem maiores no passado. Estas solidariedades. o noivo (e a família deste) não o pode pagar e que arrisca. se exigir muito dinheiro. Aparentemente esse aumento não é do interesse de nenhuma das partes : os rapazes querem cumprir a obrigação e não têm meios suficientes. valores simbólicos e monetários. Se actualmente se verificam transformações estas reflectem. Esta prestação matrimonial era. a crise social e económica e as contradições internas das estratégias de reprodução social. manutenção e desenvolvimento de redes de solidariedade entre diferentes grupos familiares. entre outras coisas. Finalmente. Mas «a vida está cara». as raparigas sentem que se «juntarem» sem lobolo não estão casadas . podendo esta ser abandonada com mais facilidade do que aconteceria se fosse lobolada. não passam necessariamente pelo casamento e pelo pagamento de prestações matrimoniais. muitos dos bens transaccionados (roupa. Actualmente. obrigando à criação e ao desenvolvimento de novas cadeias de solidariedade. também. anel e dinheiro) ainda conservam essa conotação. por isso. na sociedade tsonga. que o dinheiro que assim vão receber pode contribuir para fazer face a outras despesas 13. porque se trata de uma prestação matrimonial que envolve um sistema de trocas complexo onde a «lógica da dádiva» se articula com a «lógica de mercado». estruturante das estratégias matrimoniais que visavam antes de mais estabelecer uma cadeia de relações entre diferentes linhagens (Feliciano 1989a). porque o que importa aferir não é o valor monetário dos bens transaccionados. no entanto. Primeiro. o aumento (relativo) 13 do custo desta prestação matrimonial reflecte. Consideram. a que este e a sua filha vivam maritalmente. em meio urbano.

No entanto não é necessário que todos estes requisitos se cumpram para o casal se sentir «casado» e para a família de ambos os aceitar como tal. Essas transformações reflectem a dinâmica das estratégias de sobrevivência e reprodução social que articulam de forma ambígua valores contraditórios. No entanto.6 essenciais (por exemplo. os indivíduos para sobreviverem e se reproduzirem necessitam de estar inseridos em redes sociais de solidariedade. mesmo quando as situações indefinidas criadas ao nível das relações de aliança permitem à mulher uma maior liberdade e autonomia face às suas obrigações tradicionais. Por outras palavras. eventualmente. à semelhança das próprias uniões conjugais (o divórcio e a separação não são propriamente novidades). as famílias) e por conseguinte quebram-se as alianças (neste caso. escrevem a carta onde as exigências ficam expressas e esperam que. não sobrevivem se não desenvolverem práticas «egoístas» que lhes permitam satisfazer as suas necessidades materiais. ajudar um filho a pagar o lobolo que outra família exige). apesar de ambas as partes não considerarem que a formalização do acto de matrimonial se tenha cumprido na íntegra. Concluindo. correndo o risco. Essas práticas podem gerar a quebra de alguns dos compromissos sociais em que se baseiam as referidas redes (neste caso. são muitas vezes auto-percepcionadas como negativas e podem traduzirse num maior isolamento social das mulheres e consequentemente num decréscimo do seu poder e estatuto. Nesse hipotético futuro se projectam actos e cerimónias como se de processos se tratasse. e como referem : «há-de cumprir-se». matrimoniais) que tenderiam a perpetuar essas unidades sociais. existe sempre a possibilidade de «circulação» entre redes de solidariedade e por isso é possível aos indivíduos e às famílias estabelecerem novas alianças com outras unidades sociais (novas uniões ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . A cerimónia de casamento é. o rapaz e a família deste façam os sacrifícios necessários para as poder cumprir. as transformações que se verificam em todo o processo cerimonial do lobolo não reflectem necessariamente mudanças qualitativas nas relações de género. algo em permanente construção que se pode ir realizando ou protelando no tempo. Essa liberdade e autonomia. num contexto onde a sobrevivência e a reprodução social dependem em grande medida do estabelecimento de redes familiares de entreajuda. Por isso. sendo a família uma das mais importantes . Porém. simultaneamente.

a flexibilidade desta unidade social permitiu o desenvolvimento de estratégias de reprodução social adaptadas a um contexto social e económico que exige uma grande versatilidade de práticas e a articulação permanente de valores opostos. a fragilidade dos laços matrimoniais não significou a desestruturação da família. as mulheres exercem actividades geradoras de rendimentos ou produtos e as vendas são uma das tarefas principais em que se ocupam. estas mulheres tiveram de inserir-se nos circuitos do chamado mercado informal. Desta forma. confecção e venda de alimentos ou revenda de produtos importados. O trabalho feminino nas estratégias económicas das famílias Em praticamente todas as famílias. e referem : «eu não faço nada. executando aí um leque muito variado de actividades – confecção e venda de carvão. A especificidade deste contexto social não lhe advém.7 matrimoniais) e desenvolverem processos dinâmicos e versáteis de reprodução social. desta articulação que é sentida por todos os homens independentemente da sociedade a que pertencem (Casal 2001: 123). Importa notar que. venda de produtos hortícolas e frutícolas. Para subsistir e fazer face às suas responsabilidades tradicionais de provedoras do sustento da família. foi possível concluir que em muitas famílias o número de mulheres que trabalham é igual ou superior ao número de homens que ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . as famílias desenvolvem uma estratégia pela qual tentam conciliar a instabilidade das relações de aliança com as necessidades de coesão interna. Uma das soluções possíveis passa pela aceitação e criação de condições que transformem as cerimónias matrimoniais em processos em permanente construção que podem a qualquer altura ser interrompidos. Não obstante este facto e a dificuldade de apurar a importância da contribuição financeira das mulheres para os orçamentos familiares – a maioria das actividades não tem um rendimento constante e não é realizada de forma continuada –. venda de lenha. só vendo» ou «aquilo que ela faz é para entreter». as mulheres e os seus maridos não consideram as actividades que estas desenvolvem como «trabalho». Pelo contrário. Advém sim da forma particularmente dinâmica de que se revestem as articulações entre valores opostos. em alguns casos. Concluindo. continuidade e reprodução social. contudo.

pelo facto de obterem rendimentos monetários em actividades que exercem «fora de casa». O que esta investigação constatou foi que existiam situações muito diversas. um acréscimo de trabalho e de responsabilidades. os recursos materiais disponíveis e a capacidade da mulher para os mobilizar e rentabilizar em seu benefício. Destacam-se algumas: a estrutura familiar (tipo de família. embora continuem a gerir as actividades domésticas. Esta ideia tem sido contrariada por outros autores (Caplan 1995 e Campbell 1995. Em alguns casos. as crianças e os jovens (incluindo rapazes). em meio urbano africano. na ausência deste. as actividades que desenvolve e a importância relativa dos rendimentos daí resultantes no orçamento familiar. têm a possibilidade de aceder a certas posições de poder e de conquistar uma certa visibilidade a nível do bairro que pode influenciar positivamente o seu estatuto na família e fora da família. com outros elementos masculinos da família. sendo necessário relacionar inúmeras variáveis para compreender a posição das mulheres em termos de autonomia. Rocha e Grinspun 2001). as mulheres. irmãs mais novas. Quem vai buscar água e comprar lenha. poder e estatuto. face às mulheres que não as desenvolvem.8 trabalham. esta pode gerar ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . a situação do homem em termos de trabalho/rendimentos. quem varre o chão e lava a roupa. ele não tem nada a ver com isso». para outras tal não acontece. a relação afectiva e emocional com o cônjuge ou. segundas mulheres. Segundo alguns autores (Tripp 1989 . a posição que a mulher ocupa dentro desta estrutura. que têm chamado a atenção para o facto de muitas mulheres que desenvolvem actividades geradoras de recursos financeiros terem. número de membros da família e distribuição por sexo). quem vai às compras ou cozinha. ou que ele tinha arranjado outra mulher e quando vinha dava uma quantia insignificante. não as realizam. são as outras mulheres da família de estatuto inferior (noras. Estas últimas. Se para muitas mulheres. Loforte 1996). as actividades geradoras de rendimentos representam um acréscimo de trabalho. as mulheres afirmaram que eram elas que efectivamente sustentavam a família e que a contribuição financeira do marido para as despesas domésticas não era suficiente : «atirou toda a responsabilidade. Se o exercício de actividades geradoras de rendimentos monetários cria possibilidades para o aumento de autonomia e liberdade das mulheres.

solteira e com uma situação económica que lhe permite possuir casa própria e usufruir de uma certa independência não se considera mais «valorizada» socialmente (embora seja certamente mais independente e tenha mais poder e autonomia sobre a sua vida) do que outra mulher inserida numa família poligâmica e sem rendimentos próprios. estou à espera que ele venha para saber se fica comigo ou não. apenas produz para o consumo da família. é ela que dá ao marido» – ou rompimentos com redes familiares e de parentesco. não tenho quase despesas. Prefiro assim. nem registo nem nada. que por vezes atingem níveis dramáticos. A primeira trabalha na machamba da família e não obtém quaisquer rendimentos monetários com essa actividade. Eva (30 anos) : Não me considero uma mulher com sorte porque não tive o marido só para mim. Uma (Eva) é a terceira esposa de um casamento poligâmico e outra (Cristina) afirma-se casada. Estas mulheres referem-se nos seguintes termos às suas situações : Cristina (29 anos) : Eu há dois anos que vivo numa casa que é só minha em Magoanine. O estatuto do casamento e da maternidade constitui um factor de grande peso cultural e social. A autonomia da mulher pode ainda traduzir-se numa capacidade limitada para mobilizar recursos (humanos e materiais) e num aumento consequente de responsabilidades face a si e aos seus filhos e num maior isolamento social. tem um ordenado e casa própria. comprei o talhão sozinha e foi o meu irmão que fez a casa […]. mas vive sozinha. sozinha. marido e filhos. mas também não posso dizer que sou muito azarada em ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . sou só eu e o meu irmãozinho de dez anos que vive comigo […]. e a ausência de alternativas – uma mulher sem família é socialmente marginalizada – podem transformar a autonomia em sofrimento e a liberdade num pesadelo. O potencial de conflitos. por isso às vezes a mulher faz sem dizer nada ao marido. Os homens não tiram o dinheiro. […] Mas gostava mais de ter uma família. ele é de três. ele está na África do Sul e nunca mais veio. Sou casada mas ainda não fui lobolada. Uma mulher sem filhos. Como exemplo destas situações apresenta-se aqui o testemunho de duas amigas da mesma idade que vivem situações muito diferentes.9 conflitos quando é concretizada – «há muita zanga entre os homens e as mulheres por causa do que hão-de fazer ao dinheiro. Cristina é professora na escola comunitária do bairro Polana Caniço A. do que esta situação de independente.

esta mudança não significou. traduzir-se num aumento relativo do espaço de poder feminino face ao masculino. estas «conquistas» só adquirem «valor» quando têm significado e reconhecimento social dentro do contexto em que se efectivam. mas o facto de as mulheres terem a responsabilidade de prover ao sustento alimentar básico da sua família não constitui uma mudança. mas estas mudanças ocorrem em múltiplos sentidos. pois esta era tradicionalmente a sua obrigação. interesses «modernos » e representações ideais de modernidade. é necessária prudência quando se tenta extrair conclusões sobre eventuais modificações nas relações de género e é difícil percepcionar as direcções para as quais tendem as transformações observadas. Neste complexo jogo e face às alternativas existentes. que existem efectivamente mudanças no papel que a mulher desempenha dentro da família. para mim basta. romper com fidelidades antigas que as subalternizavam. E tal pode. uma transformação valorativa no estatuto das mulheres. para além de estar profundamente marcado por relações de género que subalternizam o papel social da mulher face ao do homem. trate de mim. os ganhos monetários provenientes de diversas actividades. em certos casos. associações de bairro (excluindo aqui a Organização da Mulher Moçambicana) e grupos de entreajuda.10 relação à minha amiga. A diferença reside nos rendimentos monetários que agora adquirem através do seu trabalho. a afirmação de interesses individuais e a capacidade (e coragem) de certas mulheres tornam possível. por si só. porque esta aí ainda anda a tentar ver se consegue um lar […] agradeço a Deus o que me deu. efectivamente. Conclusão A análise demonstrou que as mulheres constituem um elemento essencial nas estratégias económicas. é pleno de contradições e articula de forma complexa valores «tradicionais». Esse contexto. A formação escolar. No entanto. estou num lar que já tinha lá duas mulheres. mas desde que o senhor Josué [marido] cuide de mim. Da mesma forma o acesso aos rendimentos monetários não se traduziu numa maior visibilidade ou intervenção a nível do bairro. A participação das mulheres em ONG. o exercício de profissões. por exemplo no ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . neste estudo de caso. Através deste exemplo é possível concluir. No entanto.

ao nível das representações sociais e culturais no contexto em questão (como a sociedade em causa molda os papéis e os comportamentos de ambos os sexos) e em termos da auto-percepção que os membros da família têm do poder que exercem ou ao qual se submetem. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . a essência multidimensional das relações familiares implica que nessas mesmas relações sejam expressos diversos tipos e níveis de poder que não só podem não ser coincidentes como são dinâmicos e se alteram permanentemente sob a influência de inúmeros factores (Medick e Sabean. A compreensão destas questões pressupõe uma análise integrada onde intervêm diferentes significados e interpretações : o significado que o investigador dá a esses conceitos e que influencia as interpretações que faz da realidade social que analisa. que as mulheres não podem ser membros desta Igreja sem autorização do seu parceiro. Sendo assim. as relações de poder devem ser compreendidas em termos de avaliação da capacidade de controlo de recursos materiais e humanos por parte dos homens e mulheres da família. o evangelista. os secretários e diáconos) é constituída exclusivamente por homens. é reduzida. a análise das questões de género constitui essencialmente uma análise relacional e o que está em jogo são fundamentalmente relações sociais entre os membros masculinos e femininos da família. Da mesma forma. «independência». As informações empíricas disponíveis não permitem chegar a conclusões acerca de modificações nos papéis de género. por um lado. Neste último caso. «controlo» e «relações de poder» são extremamente complexas e têm de ser contextualizadas. Simultaneamente. embora a maioria dos crentes das igrejas ziones sejam mulheres.11 «xitike». Refere ainda que. as mulheres participam frequentemente em grupos religiosos (igrejas). bem como significados que essas questões e conceitos têm no contexto cultural e social em observação. Estas mudam frequentemente de culto quando se casam e passam a seguir a religião do marido 14 . 1988 : 18). Mas mesmo a vida religiosa da mulher está por vezes dependente da vontade do marido. não faz sentido falar de poder ou de autonomia sem os contextualizarmos dentro desta dinâmica relacional (Medick e Sabean 1988 : 18). Pelo contrário. Neste sentido. há ainda que ter em conta não só os múltiplos referentes em presença como as diferenças entre valores culturais e representações sociais. O que se verificou foi que questões relacionadas com «autonomia». por outro. e as práticas concretas dos actores. 14 Seibert (2001: 5 e 15) acrescenta em relação às igrejas Zione. a hierarquia destas igrejas (incluindo o pastor.

sociétés”. E GRINSPUN. Lisboa. LOFORTE. Género e Poder entre os Tsonga de Moçambique. dissertação de doutoramento. Gender. GONZÁLEZ de la ROCHA. Family and Household in Tanzania. O preço da sombra: sobrevivência e reprodução social entre famílias de Maputo. “Femmes. “Introduction”. M. Lisboa. COSTA. e LAURAS-LOCOH. pouvoir. 2007. CAMPBELL. World Development. Lisboa. 12. Cambridge. undp. 2001. Henri A. Aldershot. mimeo. Antropologia Económica dos Thonga do Sul de Moçambique. Ana. Hans. Instituto superior de ciências do trabalho e da empresa. dissertação de mestrado. mimeo. Alexandro. 1988. 1997. John. “Conceptualizing Gender Relations and the Household in Urban Tanzania”. MEDICK. Colin ed. Avebury : 178-202. Universidade Eduardo Mondlane. [1912-1913] LOFORTE. JUNOD. Coimbra.. e PESSOA.. 1991. A Mulher em Moçambique. 1-2. mimeo. Faculdade de Economia. 2 vols. Politique Africaine. CASIMIRO. http ://www. Thérèse. Lisboa. mimeo. in CREIGHTON.. Crises and Work” in Choices for the Poor : Lessons from National Poverty Strategies. Isabel 1999. Isabel. Cambridge University Press : 1-8. 1995. XXVII (12) : 20212044. 1999. Ana Bénard 2005 “Género e poder nas famílias da periferia de Maputo”. dissertação de doutoramento. David W. “Private Adjustments: Households. Usos e Costumes dos Bantos. “"In My Office We Don’t Have Closing Hours" : Gendered Household Relations in a Swahili Village in Northern Mafia Island” in CREIGHTON. Livros Horizonte. Género e Poder entre os Tsonga de Moçambique. FELICIANO. CASIMIRO. Family and Household in Tanzania. Centro de estudos africanos. Aldershot. e SABEAN. Pat. 1989. 1996. 1996. “Paz na Terra. 1995. Avebury : 118-138. ––––– 2003. 203-216.12 Referências Bibliográficas BEBBINGTON. Instituto superior de ciências do trabalho e da empresa. HESSELING. Rural Livelihoods and Poverty”. Ana Maria. Maputo. in Interest and Emotion: Essays on the Study of Family and Kinship. ed. 3ª edição. org/dpa/publications/choicesforpoor/ENGLISH/CHAP03. Arquivo Histórico de Moçambique. COSTA. Gender. G. 65 : 3-20. UNDP (United Nations Development Programme). ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . “Capitals and Capabilities : A Framework for Analyzing Peasant Viability. Universidade de Coimbra. pp. Ana Maria. Lusotopie. Ela Por Ela. Anthony. Ana Bénard.. Maputo. José Fialho. CAPLAN. Guerra em Casa : Feminismo e Organizações de Mulheres em Moçambique”. Colin.

Estudos de desenvolvimento nº 6. Instituto Nacional de Desenvolvimento da Educação. 27: 601-23. “The Political Economy of Sacrifice : Kinois and the State”. comunicação apresentada no III° Congresso de Estudos Africanos no Mundo ibérico : Novas relações com África : que perspectivas ? SHELDON. Lisboa. Centro de estudos africanos. Gradiva. Aili Mari. Instituto superior de ciências do trabalho e da empresa (ISCTE). Fundação Calouste Gulbenkian. Chantal. 2001. Dicionário Changana-Português. comunicação apresentada no Seminário internacional Dinâmicas Políticas na África Contemporânea. Bento. RODRIGUES. “Women and the Changing Urban Household Economy in Tanzania”. Lisboa. Cristina.. SEIBERT. 1996. OPPENHEIMER. 1989. Gerhard. TRIPP. 2002. O Regresso do Político. mimeo. tese de doutoramento em Estudos africanos interdisciplinares em ciências sociais. Lusotopie : 121140.13 MOUFFE. TREFON. Trabalho assalariado e estratégias de sobrevivência e reprodução social de famílias em Luanda. mimeo. Theodore. Journal of Modern African Studies. “Urbanização acelerada em Luanda e Maputo: impacto da guerra e das transformações sócio-económicas (décadas de 80 e 90)”. Centro de estudos sobre África e do desenvolvimento. Instituto superior de economia e gestão. Maputo. Lisboa. 2004. Universidade técnica de Lisboa. 2001. 1999. “Machambas in the City: Urban Women and Agricultural Work in Mozambique”. SITOE. textos preliminares. Jochen et al. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . “Exclusão social e Igrejas cristãs sincréticas em Moçambique “. 1996. Kathleen. Lisboa. Lisboa. in Dynamiques religieuses en lusophonie contemporaine. Instituto superior de ciências do trabalho e da empresa.

cf. IDEMEC micunha@ics. A esta posição destacada nos níveis gerais de reclusão acrescentava dois records no contexto europeu: a maior proporção de condenações por crimes de droga e a maior taxa de reclusão feminina (cerca de 10%). 1987-2000).Os géneros do tráfico 1 Manuela Ivone P. recentementemente exumada. 1994. o Estabelecimento Prisional de Tires. em torno dessa velha e recorrente personagem designada por nova delinquente. da Cunha Universidade do Minho. permitirá dar conta das propriedades específicas que a intervenção das mulheres no tráfico assume em contextos portugueses. pelas 1 Agradeço à Wenner-Gren Foundation for Anthropological Research (Gr. 6099) o apoio prestado à investigação da que resulta este texto. bem como às ideologias de género que diversamente os caracterizam. estrutura dos narcomercados Em finais de século. Estes factos não são alheios entre si. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . esta especificidade pode também contribuir para reapreciar a uma outra luz a controvérsia criminológica. Cunha.000 habitantes (Estatísticas da Justiça. CEAS. pt Partindo da actual centralidade dos crimes de droga na condenação penal de mulheres e da assinalável reorganização das fileiras prisionais que ela veio indirectamente produzir. Palavras-chave: ideologias de género. criminalidade feminina. como e quando são os narcomercados estratificados por este e outros critérios e quais as modalidades da participação feminina na economia da droga. Ministério da Justiça. Pretendo focar aqui alguns aspectos da conexão entre eles tal como aparece refractada na maior prisão feminina do país. economia da droga. Cunha 2002). 2 Entre 128 e 145 por 100. Reafirmando assim a importância de contextualizações precisas. Uma perspectiva comparativa atenta às variações na estrutura destes mercados ilegais. Portugal situava-se regularmente no topo dos países da União Europeia com os maiores índices de encarceramento por 100 000 habitantes 2 . procurar-se-á examinar como se modula o tráfico segundo o género. Não cabe dizer aqui como e porquê a economia retalhista da droga veio induzir uma reorganização sem precedentes nas fileiras prisionais.uminho. tráfico a retalho. cujo aspecto mais fundamental. onde fiz trabalho de campo nos anos 80 e nos anos 90 (1986-87/1997.

implicações analíticas que tem para os estudos prisionais. por exemplo. Na cadeia de Tires. pode bem ser que por uma vez o estudo das instituições femininas contribua para estabelecer os termos do debate teórico sobre a prisão. enquanto a investigação sobre a feminina se desenrolava ao invés na base mesma do critério do género. 46% dos reclusos estavam condenados por crimes contra o património e 34% por crimes de droga. Quer dizer. repartem-se por eles de maneira mais equilibrada. 76% das reclusas estavam presas por tráfico. É ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . No caso converso das mulheres. é o facto de agora a maior parte dessas fileiras se articular em redes de parentesco e vizinhança. amarrada a esse critério. com a extraordinária homogeneidade que a sociografia dos contingentes de reclusas agora apresenta. tal prende-se. que apesar de na sua maioria também se distribuírem por um leque pouco variado de crimes. no que respeita às reclusas). E dado que os fenómenos que a configuram emergem também noutros contextos carcerais. incapazes de alimentar de forma recíproca a produção global de conhecimento sobre a reclusão (um olhar rápido aos títulos das respectivas publicações é bastante ilustrativo: o género apenas é especificado quando a investigação em questão versa sobre uma prisão feminina).não portanto em termos absolutos . O problema era que permanecia confinada a ele. invertendo-se assim as assimetrias do passado: a reclusão masculina sempre enquadrou este debate de maneira universalista. Acontece que essa mutação é especialmente vincada na população prisional feminina. quer dizer.as mulheres são pois muito mais condenadas a penas de prisão por crimes de tráfico do que os homens. Se a mutação que referi ganha uma particular proeminência no contexto carceral feminino. Em termos proporcionais . a concentração é comparativamente muito superior (em 1997. em núcleos mais ou menos vastos de presos que já tinham laços entre si antes da reclusão. antes de mais. Esta centralidade dos crimes de droga nas condenações de mulheres é também aquilo que melhor permite esclarecer a subida dos índices de encarceramento feminino. Em todo o caso. contra 16% e 69%. mas de maneira mais diluída. alheia ao género. respectivamente. o seu perfil penal é bastante mais homogéneo que o das populações de reclusos. os contributos teóricos que ia gerando não eram exportados para lá do âmbito das prisões femininas.

E assim permaneceu. suponhamos. Mas o tráfico parece na verdade ter atraído muitas mulheres e ter-se-lhes apresentado como uma estrutura de oportunidades onde elas. 1980. por exemplo. Mas a forte presença feminina recentemente constatada um pouco por toda a parte na economia da droga conduziu inevitavelmente à tentativa de reciclar a ideia. ainda que agora num âmbito mais restrito. A tese da "nova delinquente".. Que a proliferação vertiginosa dos mercados de droga expandiu as oportunidades ilegais é um facto consensual. por exemplo.que estes são os crimes com maiores taxas de condenação e contam-se entre os crimes mais duramente sentenciados.. Smart.de "cavalheiresca". como ficou conhecida. tratar-se-á de uma repercussão ou até da reprodução no mundo do crime do mesmo movimento emancipatório que reivindica a igualdade de oportunidades? Ora. por exemplo. Wilson. foi no entanto rebatida em tantas frentes que parecia definitivamente enterrada (cf. Bourgois y Dunlap. 1975). poderiam investir. 1986. Simon. Adler. 1975. mesmo as mais idosas. 1993. sob pena de se tomar a nuvem por Juno. É claro que não é de excluir a possível intervenção de várias filtragens deste e outros tipos ao longo do percurso que termina na constituição das populações prisionais. Quer isto dizer que a subida nestes índices de encarceramento não parece de facto dever-se a uma eventual mudança na atitude dos tribunais para com o género feminino . E é também a partir daqui ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . A questão então é a seguinte: dever-se-á às próprias características do tráfico o facto de ele se ter tornado a actividade ilegal de eleição entre as mulheres? Ou será antes que as mulheres conquistaram para si uma arena ilícita que até aí lhes estaria vedada. limitado a este tipo de mercado ilegal. assim como o é o da maior presença de mulheres neles (cf. Carlen. do mesmo modo que conquistaram as mais variadas arenas lícitas? Por outras palavras. 1993). 1988). 1979. Chapman. para especialmente intransigente (para retomar aqui os termos de uma velha controvérsia da criminologia em torno do eterno diferencial entre os índices carcerais femininos e masculinos) 3 .. de facto. Chesney-Lind. há que examinar a natureza desta presença. foi precisamente a propósito do tráfico que se assistiu à ressurreição de uma velha tese dos anos 70 segundo a qual um dos efeitos colaterais do feminismo teria sido o de libertar as mulheres também para o crime (cf. no que respeita à criminalidade em geral. Simplesmente.

Não se pode no entanto dizer que estas barreiras ideológicas à participação feminina no tráfico sejam inéditas nos mercados retalhistas americanos. Ou seja. A masculinidade hegemónica é com efeito reforçada pelo facto de os empregadores desta economia definirem os requisitos de empregabilidade no narco-comércio como algo de intrinsecamente masculino: às mulheres faltaria. A forte estratificação destes mercados segundo o género levou a que alguns autores vissem mais continuidade do que propriamente mudança na participação feminina no tráfico (Maher e Daly. 1996). presença não quer dizer participação paritária. por exemplo. que nem sequer se encontravam inventariados nas anteriores tipologias dos actores deste mercado (veja-se Dunlap. 1997). a nova cornucópia não estaria ao alcance das mulheres. Johnson e Maher. 1997). de resto gerando nela novos papéis. Em primeiro lugar ao facto de se regerem por uma visão domesticizada das mulheres que as confina ideologicamente aos tradicionais papéis de género. Pode até dizer-se que se trata mais propriamente de pequenos nichos que elas criaram nos interstícios desta economia. E as condições dessa eficácia foram proporcionadas 3 Veja-se.que as coisas divergem segundo os contextos. a necessária ferocidade física e mental. pelo que é imprescindível uma perspectiva comparativa. 1986) . precários e arriscados deste mercado (Maher. por exemplo. assistência na administração de drogas a terceiros. assumem funções marginais como publicitação de drogas. Em primeiro lugar. como sucede com mercados retalhistas norte-americanos. O que acontece é que elas se tornaram mais eficazes nos anos 90. (1993) ou Heidensohn (1997). etc. ou a capacidade de intimidação necessária para vingar num meio violento. Mas este "sexismo do sub-mundo" (Steffensmeier e Terry.que na verdade se mostra muito pouco sensível a veleidades emancipatórias encontra além disso um terreno especialmente propício na violência endémica que aí marca a economia retalhista da droga. Na limitada medida em que nele podem participar (nomeadamente enquanto exército de reserva usado quando a mão-de-obra masculina escasseia ou na iminência do risco de uma intervenção policial). ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . onde a maioria das oportunidades se abriu às mulheres apenas nos segmentos mais baixos. aluguer ou venda de parafernália acessória ao consumo. a mudança seria afinal pura aparência. A hierarquização sexual do trabalho ilegal deve-se nesses contextos à conjugação de vários factores. Steffensmeier et al.

quando e como vender (cf. Com uma relativa facilidade. 1997). como "crime em associação". Jacobs e Miller. com muito pouca interdependência hierárquica e com uma fraca divisão funcional do trabalho. 1998.. fossem na prática mais permeáveis. Ora. em suma. centralizada e envolvendo equipas de assalariados cuja margem de autonomia é praticamente nula. mas enquanto parentes. 1999) do ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Pode-se definir o seu perfil como marcadamente free-lance (veja-se a tipologia de Johnson. Hamid e Sanabria. com frequência obtendo drogas em regime de empréstimo ou à consignação através de redes de vizinhança e preparando elas próprias o produto para revenda. com uma estrutura relativamente rígida.por uma mutação na estrutura dos narco-mercados retalhistas. Tais mercados passaram por essa altura a assumir um perfil empresarial que se viria a traduzir em organizações hierarquizadas. Aliás este modo de abastecimento segue muitas vezes os circuitos do fiado. 1995). Até essa década o modelo que prevalecia era outro. que de resto se verificou não só nos EUA mas também em contextos europeus. Sucede que é precisamente esta estrutura de mercado que prevalece actualmente no tráfico retalhista português. desconcentrado. a sua própria estrutura free-lance fazia com que as barreiras à participação feminina fossem mais frágeis e ineficientes. tendo-se até registado uma evolução de sentido contrário à que acabei de referir para contextos europeus e americanos: isto é. Portanto. mesmo que mercados deste tipo se pautassem igualmente pela dominação masculina e por um ethos agressivo que à partida os tornava arenas desfavoráveis às mulheres. amigas e vizinhas e não como assalariadas de uma organização que estes chefiariam. por exemplo. Trata-se. passou-se de um modelo empresarial para um modelo free-lance. assim como uma maior autonomia nas decisões que tomavam acerca de onde. Ora. havia apesar de tudo maior latitude para as incursões das mulheres no tráfico. Era bastante mais fluido. Outras vezes as mulheres limitaram-se a assessorar episodicamente parceiros masculinos numa ou noutra transacção. uma forma tradicional de empréstimo informal e de entreajuda. além de esta estrutura de mercado que domina em Portugal representar uma estrutura de oportunidades bastante mais aberta (veja-se neste sentido Chaves. se quisermos. muitas mulheres puderam lançar-se autonomamente no tráfico como free-lancers. do chamado "crime em organização" (Ruggiero e South. Morgan e Joe. 1992) ou. quanto muito.

é uma ideia desajustada. porque ou essa participação permanece afinal acantonada nas margens da margem. por assim dizer. mas apenas ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . nem este é necessariamente considerado um desvio ao guião cultural feminino ou uma decorrência de um fracasso masculino. porque não é possível caracterizar em abstracto o tráfico. quando comparado com outras actividades ilegais? Sim e não. que seria uma espécie de sub-produto feminista espúrio . traçar-lhe um perfil absoluto. Mas não é só por isso que é menos operante a filtragem dos candidatos segundo o género. mas como condição e estratégia de sobrevivência (veja-se neste sentido Cole. Quanto à segunda questão: serão características inerentes ao tráfico que o tornam um tipo de crime particularmente acessível e atractivo para as mulheres. não lhes vedam o papel extra-doméstico de provedora de recursos. É que os obstáculos ideológicos à participação feminina no mundo do trabalho remunerado e no orçamento familiar são obstáculos de maneira geral débeis em Portugal. Começando pela tese da "nova delinquente". quer dizer nos patamares mais baixos do patamar retalhista. Primeiro. não enquanto opção "emancipatória". ou "contra-hegemónica".uma tese reactivada a propósito da participação feminina no tráfico e que tem alguma popularidade nos meios judiciais -. ou. digamos. Dito de outro modo. sendo esta debilidade especialmente acentuada nas chamadas classes populares. E é precisamente porque são tributárias desses mesmos contextos que tais características são variáveis. 1991 e Pina Cabral. 2000). quando não está. As mulheres de baixos estratos sociais sempre investiram na esfera do trabalho. como é o caso em Portugal. não é para este efeito pertinente falar em tráfico. pois. isso em nada se deve a uma mudança ideológica nas definições culturais dos papéis de género. Recapitulo. já que as suas características não são essencializáveis ou dadas fora dos contextos sociais e históricos em que se desenvolve. O narco-trabalho é aqui menos sexuado. Contudo. questões estas que corresponderam propositamente a modos correntes de colocar o problema. acontece também que o tráfico a retalho é aqui bastante menos violento do que noutras geografias. as definições culturais dos papéis de género também remetem para as mulheres as responsabilidades familiares e domésticas. na forma de resposta às questões formuladas de início. não sendo de facto exigido aos candidatos a traficantes especiais requisitos de virilidade.que a empresarial. Não. Aí.

Sally. Lisa Maher. Crack Pipe as Pimp: An Ethnographic Investigation of Sex-For-Crack Exchanges. Reformulada a questão nestes termos. Murji Karim. Drug Markets and Law Enforcement. em M. Princeton University Press. CHAVES. BOURGOIS. Referências Bibliográficas ADLER. CUNHA. Lexington Books. pode dizer-se que o tráfico em Portugal . Crime and Poverty. Women. noutros contextos europeus e norte-americanos configura uma estrutura de oportunidades ilegais bastante inclusiva das mulheres. Signs. 1997. COLE.em versões do tráfico . Lisboa.mas não. DORN. CHESNEY-LIND. Lexington Books. Em todo o caso. Nova Iorque. “Exorcising Sex for Crack: An Ethnographic Perspective from Harlem”. Freda. 1991. e Eloise Dunlap.e evidentemente não faz qualquer sentido pressupor uma espécie de modelo-padrão em relação ao qual cada uma delas seria considerada mais ou menos conforme. 1993. NY. 1994. 2002. DUNLAP. Routledge. Manuela P. Milton Keynes. por exemplo. Sisters in Crime. CARLEN. Entre o Bairro e a Prisão: Tráfico e Trajectos. Open University Press. Malhas que a Reclusão Tece. McGraw Hill. Women of the Praia. Lisboa. Questões de Identidade numa Prisão Feminina. da. New Jersey. Work and Lives in a Portuguese Coastal Community. Jane 1980. 8 (4). 1988. Londres. Lexington. "Female Crack Sellers in New York City: Who They Are and What They Do". Princeton. 7896. 1986. 25-55. Eloise. CUNHA. RATNER (ed.). 1992. Meda. Bruce Johnson. Fim de Século. Lisboa. Casal Ventoso: Da Gandaia ao Narcotráfico. Miguel. 1999. CHAPMAN. Nigel South. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Imprensa de Ciências Sociais. NY. Traffickers. Women & Criminal Justice. Nicholas. Manuela P. "Women and Crime: The Female Offender". 97-132. Cadernos do Centro de Estudos Judiciários. então sim. da. 12 (1). Economic Realities and the Female Offender. como porventura nenhuma outra o foi antes. Nova Iorque. Philippe. nenhuma outra houvera mudado tão extensamente a paisagem carcerária. Pat. 1975.

Scientific Report . STEFFENSMEIER. Female Criminality: The State of the Art. 85-109. MORGAN. Eurodrugs. 169-194. 865-892.EMCDDA. 45 (4). PINA CABRAL. 1975. 1997. 1993. NY. 1979. Women and Criminal Justice. Boston. Drug Use. Allyn and Bacon. 2000. "Stealing and Dealing: The Drug War and Gendered Criminal Opportunity". 1995. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . OEDT. Robert Terry. Jody Miller. Darrell. 19 (1). Markets and Trafficking in Europe. 304-323. University of Oldenburg. and Concerns. Race and Resistance in a Brooklin Drug Market. JACOBS. João de. Luxemburgo. Lexington Books. Sociological Inquiry. 2000. Lexington and Toronto. Lisa. 1996. em T. 1986. "The New Female Criminal: Reality or Myth?". "Emerging Models of Crack Distribution". SPOCE. Criminology. 8 (3). Nova Iorque.). "Uncharted Terrain: Contexts of Experience Among Women in the Illicit Drug Economy". Relatório Anual Sobre o Fenómeno da Droga na União Europeia. 2001. Gatland Publishing. MAHER. "Institutional Sexism in the Underworld: A view from the Inside". Social Problems. Harry Sanabria. MAHER. Bruce. Jaren Ann Joe. Gender. 50-9. 56. 1998. and Arrest Avoidance". Crime. Clarendon Press. and Social Policy: Research. Hegemonias e Contradições". Drugs. Patricia. Bruce. em C. "Women in the Street-Level Drug Economy: Continuity or Change?". 1997. RUGGIERO. UCL Press. Vicenzo. Ansley Hamid. Rita. Nigel South. Nancy. Londres. 550-569. 56-78. Kathleen Daly. SMART.). Women and Crime. Sexed Work. XXXIV (153). "Crack Dealing. 465-491. Oxford. Mieczkowski (coord. European Monitoring Centre for Drugs and Drug Addiction. Lisa. WILSON. Gender. 1992. JOHNSON.An Overview Study: Assistance to Drug Users in European Union Prisons. Issues. "A Difusão do Limiar: Margens. Carol. Análise Social. British Journal of Criminology. 34 (4). Culliver (ed. SIMON.

do subgrupo mais setentrional da família lingüística yanomami. uniformes e unitários. especificamente. convertendo relações de gênero e parentesco em ícones da dialética entre permanência e efemeridade. pois enquanto a residência uxorilocal permanece onde quer que seja. quão violentos seriam os Yanomamö descritos pelo estadunidense Napoleon Chagnon ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Trato aqui. os autodenominados Sanumá com quem tenho convivido desde 1969. Assim. Em linguagem antropológica. à la Austin. porém. Poderíamos supor que parte das diferenças resultam dos próprios etnógrafos. Pode-se. ou seja. as mulheres. os homens.Tempo está para homens assim como espaço está para mulheres: por uma teoria do conhecimento sanumá Alcida Rita Ramos Universidade de Brasília (UnB) Sistemas desarmônicos em que descendência e residência seguem linhas opostas são hoje comuns na etnografia indígena da Amazônia. interpretá-lo no contexto de outros componentes culturais. Por Yanomami entende-se comumente uma de suas metades. Como já tive oportunidade de demonstrar (Ramos 1995). não existem. Mas esses Yanomami. espaço e tempo sanumá surgem como categorias básicas do entendimento. a patrilinearidade pode evaporar-se nas vicissitudes do tempo. os homens circulam em busca de esposas. A outra metade. aos olhos ocidentais. mas por certos aspectos da vida social. desvela-se que a aparente fragilidade da condição supostamente de imanência feminina tem como contrapartida a real fragilidade da aparente transcendência masculina. como produto de evolução materialista na visão de Robert Murphy sobre os Mundurucu). parecem existir apenas para dar aos seus homens a oportunidade de exibir machismo superlativo a platéias ocidentais em busca do exótico. O fenômeno da patrilinearidade combinada a uxolilocalidade ou vice-versa tem sido analisado de várias formas (por exemplo. é possível “fazer coisas sociais com outras coisas sociais”. Na família lingüística Yanomami os Sanumá são os únicos que exibem um inquestionável sistema desarmônico: as mulheres ficam em casa. Por exemplo. os Sanumá diferem bastante dos outros subgrupos não apenas pela língua (uma de quatro). ressaltando-se como.

segundo o qual filhos de irmãos de sexos opostos (os ditos primos cruzados) podem casar-se entre si e. o que significa que a responsabilidade pela reprodução do grupo é mais deles do que de marido e mulher. irmão e irmã. Refiro-me especificamente às noções de tempo e espaço. estão numa posição perfeitamente ambígua. mas com algumas consequências epistemológicas. ao serem também afins dos filhos uns dos outros. entre nós e os outros. muito brevemente. mesmo que não se casem. mas. É. Primeiro. e o padrão de parentesco chamado dravidiano.2 (1968) se fossem descritos por mim? Ou quão subjugadas seriam as mulheres sanumá se fossem descritas por Chagnon? Questões meramente acadêmicas? Pode ser. essa dupla é uma cápsula da socialidade sanumá. não com palavras ou gestos. embora atados numa relação permanente de sangue. portanto. Como consangüíneos que produzem afins. são considerados afins. ao contrário de outros subgrupos yanomami (Ramos e Albert 1977). É como se os Sanumá dissessem e fizessem coisas. inclusive no cognitivo. certos elementos da vida social. como diz Louis Dumont (1953). Como elas estão diretamente ligadas à organização social. Os Sanumá. no mundo das idéias. Encarnam tanto os efeitos da dispersão como da permanência e marcam a manutenção da identidade no tempo e de vínculos no espaço. vamos à relação entre irmão e irmã. as diferenças de gênero no contexto etnográfico yanomami têm um interesse que vai muito além do tira-teimas entre etnógrafos ou de filigranas empíricas sobre o quão violenta deve ser a violência para caracterizar um povo inteiro como violento. Para mim. com princípios axiológicos subentendidos. exibem a conjunção de dois elementos: um sistema desarmônico entre descendência patrilinear e residência matrilocal. é preciso descrever. Tomo aqui a questão de gênero como uma excelente oportunidade para observar a capacidade dos Sanumá para expor categorias-chave do seu entendimento e que nos dizem muito mais do que a simples diferença entre os sexos. A díade irmãoirmã tem. à moda de um Austin ampliado. Em outras palavras. A complementaridade entre homens e mulheres aparece em vários planos. eles simbolizam a paradoxal co-existência entre intimidade e recato. uma afinidade herdada e não apenas adquirida com o casamento. Em grande medida. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . o encargo de fornecer cônjuges para a geração seguinte.

este último matou um papagaio. vira-lhe a cara para trás. O ideal da maternidade é ter um número equilibrado de filhos e filhas. sua mulher e um irmão desta viviam a alguma distância dos outros parentes dela. “Vem cá. respondeu ele. “Meu marido matou meu irmão”. portanto. Abriu-lhe a barriga e retirou as vísceras – wi! wi! wi! wi! “Não havia rastro?” ela perguntou a Koshiloli. O cunhado subiu e conseguiu soltá-la dos galhos. Ela segurava a cabeça de Koshiloli virada para o sol. ela foi ter com os seus parentes. “É pesado”. “Não. No caminho de volta. ela começou a pranteá-lo. criarem uma narrativa sobre ele. matou-o a pauladas – to! to! to! to! Koshiloli voltou para casa carregando o morto. nada”. “Está bem”. informou. Faz com que ele se sente do lado de fora da casa e faz de conta que lhe catas os piolhos. Os outros mataram-no com um golpe de terçado – ka! E assim morreu Koshiloli (Colchester 1981: 59-60). como foi coletada por Marcus Colchester nos anos 70. disseram os parentes. “É mesmo?”. disse ela. mas a flecha ficou presa nos galhos das árvores. tendo pensado no assunto. na sua teoria de sociedade. Voltando a casa. enquanto a sua gente se aproximava. disse Koshiloli. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . acompanhado do cão da mulher e do cunhado. Ao ver o irmão morto no chão. Um dia Koshiloli foi caçar muito longe. Koshiloli. Ela puxou-lhe a cabeça para trás de modo a ficar de frente para o sol. ela cozinhou o fígado e deu-o para o filho comer. Quando o cunhado desceu. respondeu ele. Entrou e jogou-o no chão. inserindo-o. Esta análise poderia ser atribuída à imaginação da etnógrafa se não fosse pelo fato de os próprios Sanumá. disse ela ao marido. Veio e sentou-se à frente dela. senta aqui! Vou te catar piolhos”. pronta para o ataque. Nela encontramos claramente as diferenças de lealdade entre irmãos e entre cônjuges e a tácita luta da consanguinidade com a afinidade. Aproximou-se da mulher e disse: “Corta a caça!”. de modo a encarar o sol” “Está bem!”. “Está certo. Koshiloli esperava ao pé da árvore. Assim que preparou a caça. furioso. assim!. “Sobe lá e sacode a flecha”. Koshiloli. Vale a pena contar a história. disse ela.3 Não é por acaso que as mães procuram os serviços de um xamã quando só têm prole do mesmo sexo.

mães contra filhos. pelo rio. Durante minha convivência relativamente longa com os Sanumá. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Até pouco antes da puberdade. vivendo sozinhos. pois se não fosse não se deixaria mandar tão facilmente pelo cunhado. mais novo. sogras contra genros – mas nunca vi uma briga entre irmãos de sexos opostos. presenciei muitos incidentes entre homens e mulheres – maridos contra mulheres. Mas. fica-se sempre com os consangüíneos – talvez diga mais sobre os pares irmão-irmã e marido-mulher do que qualquer elaboração antropológica. que é um mal necessário na vida dos homens sanumá. Essa rotina descontraída muda abruptamente quando meninos e meninas entram na adolescência. os irmãos desta correm imediatamente em defesa dela. Com uma criatividade hiperbólica. pela mata em volta. gritos e choros constantes. O duplo assassinato sublinha a tensão permanente entre afins e. mas afastados. A narrativa sublinha a fragilidade do elo entre marido e mulher e a problemática afinidade. afinal de contas. mas prontos para se defender mutuamente quando for necessário. Irmãos e irmãs deixam de brincar juntos e começam a ensaiar uma postura que terão pelo resto da vida: respeitosos. Esse trio etnograficamente improvável de marido. A duplicidade estrutural que envolve irmãos de sexos opostos. mulher e cunhado. ao mesmo tempo. Circulam com outras crianças pela aldeia. É por isso que as mulheres órfãs estão em franca desvantagem: faltam-lhes irmãos que as defendam dos maridos. Muito pelo contrário.4 Esta história cria um arranjo residencial pouco comum: um homem casado que se esquiva de cumprir o regulamentar serviço da noiva. enchendo o ar com risadas. a moral da história – entre consangüíneos e afins. quando algum homem ameaça bater na esposa. gerada pela combinação explosiva de consangüinidade (filhos dos mesmos pais) e afinidade (filhos de irmãos de sexos opostos) também está evidente na maneira como irmão e irmã se comportam. além de um filho não identificado. a lealdade que se espera dos consangüíneos. irmãos de ambos os sexos constituem um bando virtualmente indivisível. reservados. pelas roças. ao que parece. representa um artifício narrativo para enfatizar os antagonismos e lealdades presentes naquilo que para Lévi-Strauss é “a forma mais elementar do parentesco” (Lévi-Strauss 1963: 46). vive com a esposa e o irmão desta. principalmente dos homens: a sogra e o pai que. o que tem tudo isto a ver com espaço e tempo? Consideremos duas figuras centrais na vida sanumá.

O casamento implica um longo período de serviço da noiva. Enquanto os homens circulam. ele está à mercê de seus afins. a mulher se realiza. A sogra é mais um mal necessário na vida de um homem. essas mulheres desgarradas vivem como cidadãs de segunda ou terceira categoria à mercê do gênio dos seus maridos e demais afins. de produção e reprodução que ela encontra a dimensão mais compatível com a feminilidade. Órfãs e viúvas que vivem na aldeia dos maridos são um triste espetáculo de vulnerabilidade. a sogra é o foco da vida conjugal. Algumas velhas me asseguraram que fulano não se casou na própria aldeia porque não havia sogras para ele. A mensagem é clara: sem sogra. no lar dos pais. Viver como genro na casa dos outros sujeita um homem a uma condição de subalternidade ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .5 são. Não é mera coincidência que o símbolo maior do incesto é a díade sogra-genro. Aí. as opções de casamento endogâmico podem ser bastante reduzidas. principalmente se ele é jovem. Vivendo sob o mesmo texto. as mulheres permanecem na casa materna. Expressões faciais de absoluta repulsa geralmente acompanham a descrição dessa relação incestuosa cujo arquétipo mítico é o comportamento de um certo tipo de preguiça de gestos lânguidos a trepar pelas árvores em câmara lenta agarrada ao genro num abraço obsceno. preferencialmente. quando a mulher fica isolada de seus parentes. O resultado é que cada aldeia precisa exportar uma boa parte dos seus jovens. não há esposa. além de ser obrigado a prestar-lhe serviços e provisões. Esta condição talvez fique mais clara em negativo. ele tem que evitá-la a todo custo. alvos fáceis de maus tratos. insultos e brincadeiras de mau gosto. Ela personifica a dispersão masculina que resulta da disparidade entre as normas de descendência e residência. Até terem filhos e estes crescerem. Para a maioria dos homens. Sendo as aldeias sanumá em geral pequenas (de 30 a 60 pessoas. distante dos parentes que o apoiariam psicológica e politicamente. Com os homens algo semelhante acontece. ele se vê só. tornando-se seus consangüíneos protetores. irmãos entre si. Com a residência matrilocal. A quintessência dos anos de chumbo de um marido sanumá é a sogra. mas com outro viés e por outras razões. enquanto as moças ficam com os pais. a maioria dos homens tem que deixar a casa e muitas vezes a aldeia dos pais à procura de esposa. É nesse espaço de residência. Se o rapaz se casa longe de casa. normalmente). Virtualmente indefeso.

duas gerações. com um nome próprio e politicamente importante. Enquanto o espaço os dispersa. que contribui para agravar o problema de homens agnatas. Para que surjam esses grupos patrilineares localizados. o que raramente ocorre. mais diplomáticos ou aguerridos. como trabalhar duro no serviço da noiva. Por que o tempo? Porque é através do tempo que os homens sanumá podem desenvolver plenamente o seu potencial. a que chamo sibs. é preciso que grupos de irmãos se mantenham juntos depois do casamento por. uma outra unidade mais localizada. Cada aldeia tem membros de várias unidades patrilineares. Onde quer que estejam. Os descendentes desses homens dispersos acabam. ou seja. outros. Pode-se dizer que. guardadas as devidas distinções inerentes à fisicalidade dos sexos. porém. ou ser objeto de suspeitas até provar o contrário. quando enfrentam a dispersão causada pela residência matrilocal. São grupos muito frágeis porque. exogâmico. Esse sistema de identidade paterna é o mecanismo mais eficaz para garantir hospitalidade onde quer que vão as pessoas do mesmo sib. para sobreviver. Tanto homens como mulheres herdam dos pais a condição de membros e mantêm-na por toda a vida. ligados por filiação paterna. ter seus pertences desrespeitosamente afanados. Alguns sofrem constantes abusos dos cunhados. dependem da conjunção de uma série de circunstâncias favoráveis. um tipo de grupo patrilinear. de uma geração a outra.6 que não difere muito da das órfãs e viúvas. definitivamente. da identidade grupal. a longo prazo. há grandes variações sobre o tema do marido forasteiro. co-habitar com gente com quem não pode falar ou interagir. A categoria tempo significa neste contexto a transmissão patrilinear. que se espalham pelo território sanumá. mesmo em circunstâncias amenas. Naturalmente. É no tempo que eles encontram a possibilidade de criar alguma coisa de importância social e de se projetar na posteridade. de modo a poder formar-se um grupo agnaticamente bem definido. a que com algum desconforto chamo linhagens. pelo menos. A força centrífuga da matrilocalidade produz a dispersão dos homens de uma mesma linhagem. não é o espaço. Há. para os homens adultos o espaço de residência envolve sacrifícios. A dimensão própria dos homens sanumá. levam uma vida mais leve com os afins. por ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . o tempo os une e prolonga. homens e mulheres são identificados pelo nome da unidade do pai.

Nesse brotar e murchar de unidades patrilineares em sua trajetória diacrônica. é algo a ser conquistado. nota 4). esses grupos representam. o resultado de duas forças em colisão: a força centrífuga da exogamia e a força centrípeta da transmissão agnática. perpetuando mecanicamente o casamento endogâmico entre primos cruzados. sendo. ausência de mulheres casáveis na mesma aldeia. embora nunca percam a de sib. injetar harmonia no seu sistema desarmônico. átomos sociais voltados para si mesmos. Sem a residência em comum. Se todos os homens pudessem casar-se na aldeia dos pais. Efêmeros ao extremo. uma díade irmão-irmã. eles mesmos. muitas pessoas ficam sem afiliação de linhagem. por trás de um pai temporal há sempre uma sogra espacial. O resultado é que aqueles que conseguem a proeza de se manter juntos terão seus nomes perpetuados nas gerações seguintes numa escala de tempo que pode ser muito curta. Os homens podem criar grupos de descendência. um homem fica quase sempre dividido entre a lealdade para com o pai e o dever para com a sogra. haveria o risco de se criar mônadas residenciais. O grau ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . As linhagens sanumá não existem sem concentração no espaço e esta só pode ser alcançada na medida em que os homens conseguem superar a necessidade de casar fora. com um desfecho tão melancólico como previsível: o grupo residencial em questão acabou por se desintegrar e seus remanescentes passaram à condição de apêndices dispersos por várias aldeias (Ramos 1995: 329.7 perder sua afiliação paterna por falta de foco residencial. Fatores demográficos. Sua existência ou colapso é. portanto. mas sempre mais longa do que as suas próprias vidas. mas não controlam o seu destino. Por ironia da vida. Pude acompanhar ao longo de mais de uma década um caso concreto desse tipo. como ausência de filhos homens. a figura do pai e da sogra teriam pesos iguais. longe de ser um dado incontestável. mas virtualmente impossível de sustentar. ou uma epidemia devastadora podem dizimar uma linhagem em apenas uma geração. no entanto. Numa situação ideal. essas linhagens se esboroam até ao desaparecimento. o esforço de homens e mulheres para alcançar a coincidência do tempo com o espaço. a vida de uma linhagem depende da capacidade de um grupo de homens agnaticamente relacionados para controlar o espaço onde vivem durante um número mínimo de gerações. Para eles. o espaço. Em suma. Na realidade. ou seja.

RAMOS. Representa perda de raízes. quando o único elemento de ligação entre comunidades em trânsito eram os elos patrilineares sempre por um fio (Ramos 1995: 17277). Louis. o fulcro da sociabilidade onde as mulheres estão à vontade e os homens gostariam de nunca deixar. Evocam noções de estabilidade. Juntos. 1990. O lar e as roças são os símbolos de espaço por excelência. Por contraste. Napoleon. Madison: The University of Wisconsin Press. Alcida Rita e Bruce Albert. The Dravidian kinship terminology as an expression of marriage. Actes du XLIIe Congrès International dês Américanistes 2: 71-90. a complementaridade entre o espaço-mulher e o tempo-homem é uma marca que o pensamento teórico sanumá imprime na experiência vivida. como se pode perceber nas histórias sobre as migrações sanumá. 1981. mulher e homem revelam-se metáforas da oscilação necessária entre repouso e movimento. insegurança e aventura. Paris: Société des Américanistes. Yanoama descent and affinity: the Sanumá/Yanomam contrast. Man 54: 34-39. Sanumá Memories: Ethnic politics in Brazil. Nova Iorque: Holt. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Marcus.8 de sucesso em se criar um grupo de descendência próprio reflete o jogo de influências entre essas duas figuras determinantes. 1963. Yanomamo: The Fierce People. Antropológica 56: 25-126. Rinehart & Winston. arraigamento. LÉVI-STRAUSS. COLCHESTER. 1968. o tempo traz incertezas. Myths and legends of the Sanema. Structural Anthropology. Referências Bibliográficas CHAGNON. Claude. Nova Iorque: Basic Books. RAMOS. 1953. confiabilidade. DUMONT. idéias fundamentais que dão sentido ao mundo. 1977. Alcida Rita. A exemplo da bruxaria zande. instabilidade.

com ricardoseica@gmail. Elas são o ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Articula-se a observação participante com “Oficinas-diagnóstico” no intuito de potenciar uma abordagem antropológica para a investigaçãoacção. identificando-se com uma ruralidade que muitos sectores institucionais têm vindo a declarar extinta. realizado em Abril de 2006. no Centro e Norte de Portugal.com Com base no projecto “Iguais num Rural Diferente”. promovido por várias instituições ligadas ao desenvolvimento local. Este projecto. e cujo objectivo central foi o da promoção da igualdade de género em meio rural. Apresenta-se uma proposta metodológica de diagnóstico. no qual apresentámos uma proposta metodológica. teatro e ensino/investigação. assim como a sustentabilidade da actividade agrícola.Iguais num Rural Diferente: o papel da Antropologia na investigação-acção sobre género Ana Luísa Micaelo e Ricardo Seiça Salgado CEAS/ISCTE analuisamicaelo@gmail. Palavras-chave: investigação-acção. teatro e ensino/investigação. Sever de Vouga. ruralidade. denominado de “Iguais num Rural Diferente”. 1. oficinas-diagnóstico. Amarante. os homens estão ausentes e são as mulheres que asseguram a vida social quotidiana. com vista a sistematizar um possível contributo da Antropologia na promoção da igualdade de género. igualdade de género. nomeadamente na conciliação família/trabalho. Em ambos os contextos. Introdução Este artigo refere-se à comunicação proferida no Terceiro Congresso da Associação Portuguesa de Antropologia. que contemple as necessidades específicas e os interesses estratégicos de homens e mulheres em meio rural e se ajuste aos seus valores e experiências. revelam-se os resultados da investigação-acção realizada em 2005 no centro e norte de Portugal (Sever do Vouga e Amarante) onde se identificaram as desigualdades produzidas pelo género. decorrente de um projecto de investigaçãoacção realizado em 2005. foi realizado em parceria por várias instituições ligadas às áreas do desenvolvimento local.

a APA – Associação dos Agricultores do Porto. Sever do Vouga e Vouzela – mas a comunicação e este artigo só se referem aos dois primeiros. a ADRL – Associação de Desenvolvimento Rural de Lafões. a observação participante (cf. que decorreu entre Janeiro e Junho de 2006. a Solidários – Fundação para o Desenvolvimento Cooperativo e Comunitário. 2 De acordo com o modelo do Programa EQUAL. os projectos são compostos de uma primeira fase. A participação dos antropólogos no projecto teve como objectivo a realização de um Diagnóstico de Necessidades 2 destes contextos sobre a igualdade de género. Relembramos que a comunicação foi proferida em Abril de 2006. sendo produzidas pelo género. na qual se realizarão as actividades planeadas anteriormente. a partir dele. culturais e económicas – tal como elas são vividas pelos actores sociais – e contemplar as necessidades específicas e interesses estratégicos de homens e mulheres em meio rural. eram específicas a estes meios sociais rurais. em que se realiza o diagnóstico de necessidades e. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . a autora realizou ainda uma tese de investigação.. Assim. não faziam já parte da parceria. nomeadamente no que diz respeito à conciliação do trabalho com a vida familiar. Para tal. o projecto identificou uma série de desigualdades que. a equipa técnica de antropólogos que elaborou este diagnóstico (de Sever de Vouga e de Amarante) guiou-se pela abordagem empírica que há muito tempo se consolidou na antropologia. com a qual concluiu a licenciatura (cf. assim como o Departamento de Antropologia da U. 2004/EQUAL/A2/IO/343). Foi financiado pelo Programa de Iniciativa Comunitária EQUAL. pretendia-se também promover uma abordagem participada e reflexiva (estratégia bottom-up) com estas populaçõesalvo. do Fundo Social Europeu (Ref.C. a ACERT – Associação Cultural e Recreativa de Tondela e o ICE – Instituto das Comunidades Educativas. sublinhamos que esta metodologia se refere àquela desenvolvida na primeira fase do projecto. para que fosse possível o desenvolvimento de actividades futuras em conjunto.2 Departamento de Antropologia Universidade de Coimbra 1 . Micaelo 2005b). Com o objectivo de aferir a diversidade das realidades sociais. Por outro lado. numa altura em que o projecto estava já na sua segunda fase e os autores. incorporando a maior multiplicidade de técnicas de recolha de material possível. 1 A equipa técnica foi composta pelos autores e a coordenação científica ficou a cargo da Professora Doutora Susana de Matos Viegas. A partir desta experiência de trabalho. a candidatura à segunda fase. querendo envolvê-las no diagnóstico que fazíamos sobre as suas vidas e implicando-as no projecto. O projecto realizou-se em três contextos rurais diferentes: Amarante. Sanjek 1990 e Davis 1999). para o Terceiro Congresso da APA.

Apresentação dos contextos Ambos os contextos onde decorreu o trabalho de campo correspondem ao território de actuação da respectiva entidade local – a APA em Amarante e a Solidários em Sever do Vouga. decorrente da sua experimentação em cada um dos referidos contextos-piloto. Têm características semelhantes que passamos a enumerar: ambas são montanhosas e o povoamento é disperso pelas encostas. Neste artigo iremos apresentar as opções metodológicas que fizemos neste projecto. trabalho e/ou ruralidade. articulando a observação participante com as Oficinas Diagnóstico no intuito de potenciar uma abordagem antropológica para a investigação-acção. 2. de discutir a integração profissionalizante da antropologia. mas igualmente marcantes para a criação de modelos de promoção da igualdade de género em meios rurais do Portugal contemporâneo. propomo-nos assim tecer uma reflexão acerca do papel da Antropologia enquanto saberfazer específico e da maneira como a análise dos discursos de poder é. representações e relações hegemónicas de poder – sejam elas de género.3 Para a elaboração do Diagnóstico de Necessidades – com base no qual se propuseram actividades concretas a realizar na Acção 2 do programa (2006/2007) – os procedimentos metodológicos qualitativos para este projecto assentaram no trabalho de campo e tinham por objectivo a criação de um Modelo de Oficina Diagnóstico para contextos de investigação-acção em meios rurais em que. devolvida à sociedade. Aceitando um dos desafios deste congresso. Consideramos que estes dois territórios oferecem desafios diferentes. ela própria. pode participar na mudança das formas culturais. com algumas freguesias e populações muito ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Segue-se uma breve apresentação dos dois contextos onde se realizou este trabalho. Tomando a tipologia e dados recolhidos no Instituto Nacional de Estatística (Censos de 2001) estas regiões são denominadas como Predominantemente Rurais. se pretendia envolver a população-alvo na formulação das questões socialmente relevantes no âmbito das relações de género. uma outra forma de poder que. família.

consequência de vários factores como o êxodo rural e os fluxos de emigração (anos 60 e anos 80). Face a uma divisão sexual do trabalho que leva os ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . de recolha de lenhas e de matos. contribuíram para a escassez de relações entre as pessoas e as várias aldeias da região. cuja economia tem uma base rural e agrícola (não intensiva). O acesso à saúde é escasso e não há instituições capazes de dar resposta à dependência que as crianças e idosos têm para com a família.4 isoladas. o território-alvo do projecto corresponde à parte Este do concelho. 7 freguesias que constituem as comunidades serranas do Marão. reflorestação. o fraco empreendedorismo e um ainda baixo investimento turístico (algumas freguesias ainda não têm saneamento básico). e têm direito ao uso e fruição do terreno baldio – para efeitos de apascentação de gado. de culturas e outras fruições. silvo-pastoril. Hoje. como por uma Comissão de Compartes independente. A relação das pessoas em Amarante está marcada por um passado emigratório. Em Amarante. sendo que a acessibilidade ao Predominantemente Urbano é maior e mais frequente que ao Rural. Todas elas gerem baldios. Os acontecimentos da década de 60. muito feminizada. fracas vias de acesso e um sistema de transportes públicos entre as freguesias praticamente inexistente. a perda de peso económico da agricultura não foi compensada com a criação de outras actividades económicas que pudessem absorver a mão-de-obra. Existe uma tendência para o declínio populacional e envelhecimento. têm um potencial a desenvolver pelo projecto. estes terrenos que desde o 25 de Abril passaram outra vez a ser geridos pelas comunidades locais. a característica mais evidente do contexto de Sever do Vouga é a agricultura. São também baixos os níveis de escolaridade e qualificação profissional. Tal como em Amarante. apesar da existência de condições ambientais que permitem apostar na qualidade das produções agrícolas. a quase inexistência de indústrias e alternativas de emprego na região. apícola e turística. em contraponto com a alta taxa de desemprego – sendo que todas estas características assumem maior relevo na população feminina. tanto por via da Junta de Freguesia. silvícola. Nestas regiões. nomeadamente de natureza agrícola. dos anos 80. após a retirada da possibilidade de gestão dos baldios e seus recursos pelo Estado salazarista e. depois de terem voltado e do incêndio que devastou a Serra do Marão.

e também devido ao impacto do fenómeno migratório. enquanto as mulheres se encarregam das tarefas domésticas. aumento da autonomia destas mulheres e promoção de maior igualdade nas relações entre casais: reequilibra as formas de poder entre cônjuges. Assim sendo. de igual modo. das terras e animais e do cuidado dos filhos. São as mulheres que asseguram a vida social quotidiana. ou também nas estruturas mais precárias do trabalho da indústria do calçado (Amarante). constituindo como modelos familiares o que propomos chamar de “temporariamente monoparentais femininos”. do trabalho assente em actividades artesanais. a Solidários considera que em Sever de Vouga o incremento da agricultura segundo o modo de produção biológica. os homens vão para fora e têm trabalho remunerado. a ausência dos homens nas tarefas familiares reflecte uma grande disparidade de participação na vida familiar entre homens e mulheres. fixando as mulheres à terra. contribuindo para que os homens valorizem o papel da mulher na actividade económica local. Decorrente da divisão sexual do trabalho e das representações e concepções acerca da feminilidade e masculinidade. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . assim como a sustentabilidade da actividade agrícola – que não deixou de ser muito importante para a economia familiar – sem que tenham com isso um reconhecimento do seu trabalho. Esta situação resulta ainda numa dependência financeira das mulheres em relação ao marido. seja este doméstico. agrícola (Sever do Vouga) ou. sendo que o modelo hegemónico de género não reconhece simbolicamente o papel da mulher no trabalho. dos idosos e de outras pessoas dependentes. Por outro lado. em Sever de Vouga e Amarante a organização familiar está historicamente marcada pelo trabalho assalariado masculino fora da área de residência. em ambos os contextos. bem como a reestruturação que ela permite das actividades laborais.5 homens a longos períodos de ausência (emigração e/ou trabalho temporário fora da região). se tem mostrado um meio eficaz de empoderamento (empowerment).

Os investigadores permaneceram nos territórios-alvo respectivos. Teve-se sempre em conta a necessidade de informar as pessoas acerca do projecto e dos seus objectivos. conversa informal dirigida. a sua própria relação com os eventos descritos é útil para a sua compreensão – e deve ser sempre especificada” (Pina Cabral 2003: 25). vivendo numa habitação local e integrando-se na vida quotidiana da população. Esta ideia é válida nos dois sentidos: por um lado. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . os resultados desta investigação-acção reflectiram necessariamente a forma como ela foi conduzida. Essa informação serviu sempre de subtexto. texto e paratexto. por outro lado. do encontro estabelecido. era condição necessária a consciência das pessoas em relação à sua participação e envolvimento no projecto. condutor da conversa. entrevista aberta.1. vivência no local de estudo. em função do tempo que se dispunha pelo programa para a Acção I (4 meses). um mês (trabalho de campo e realização da Oficina Diagnóstico). Metodologia 3. realizaram-se histórias de família e identificaram-se estudos de caso que vieram a servir para a selecção das pessoas com potencial representativo da população-alvo. que foram convidadas a participar nas Oficinas Diagnóstico. directores associativos ou o padre. Assim. a posição e acção do investigador devem ser referidas como parte integrante da situação social estudada: “Quando o etnógrafo recorre ao método de estudo de caso. como o presidente da junta.6 3. técnicos das instituições parceiras. Primeira etapa metodológica: observação-participante O diagnóstico realizou-se a partir da recolha de material empírico em duas estadias de campo dos investigadores. Tendo em conta a escassez de tempo para executar os objectivos recorreu-se ainda a outros informantes privilegiados. O acesso aos informantes e o enquadramento no terreno não foi efectivamente restritivo na medida em que nunca os contactos interpessoais foram forçados ou veicularam a necessidade de uma reverência para com as instituições locais ou os informantes privilegiados. Utilizaram-se as variadas técnicas de observação participante (entrevista. em períodos de cerca de quinze dias (a entrada no terreno tendo em vista a definição da população-alvo) e posteriormente. registo da informação e “notas de campo” e realização de diário de campo).

valores e experiências de homens e mulheres na vida familiar e no trabalho. Previamente fez-se uma simulação da oficina com os parceiros. foram elaborados pelos investigadores e depois debatidos com os técnicos das associações. bem como do próprio drama a ser construído por cada grupo. Enquanto modelo de diagnóstico. A ideia de modelo operatório inicial da oficina foi proposto pela ACERT em conjunto com a Solidários. na conciliação do trabalho com a vida familiar. pode ser favorável e será ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . os participantes representam a população-alvo e foram identificados previamente pelo antropólogo no terreno. foram sinalizados problemas e identificadas possibilidades de inovação.7 através do envolvimento das pessoas na procura das estratégias para o seu próprio “desenvolvimento”. A sua atitude aproxima-se muito daquela que é assumida por um investigador a fazer trabalho de campo com observação participante. Os “relatores” são aqueles que vão ouvindo o processo de construção das histórias.2. O “relator” não deve ser um “participante” e o facto de já ter contactado as pessoas que participam na oficina. Segunda etapa metodológica: Oficinas Diagnóstico A Oficina Diagnóstico tem o seu modelo baseado em metodologias teatrais de modo a monitorizar a realidade social. “os relatores” e os “facilitadores”. Com elas e a partir delas. registando a interacção entre as pessoas e os comentários. em função dos interesses. Para as oficinas de cada contexto seleccionaram-se temas e personagens consideradas prioritárias na identificação dos problemas e possíveis soluções ligadas à promoção da igualdade de género. 3. que já haviam experimentado em outras circunstâncias. Os conteúdos trabalhados nas oficinas provêm dos resultados analíticos da observação-participante no terreno. motivações. Consistiu em se fazer uma fotonovela em grupo. Os “participantes” são todos aqueles que irão exercer as actividades desenvolvidas na oficina desde a elaboração das histórias à reflexão sobre elas. na investigação de terreno. mobilizando a população-alvo para práticas de inovação social. Quem participa nas Oficinas? Cada oficina é constituída por três tipos de intervenientes: “os participantes”.

sobretudo para garantir a prossecução dos trabalhos. O envolvimento de membros das associações que já têm contacto com as populações pode ser igualmente importante. Garante a existência de papéis sociais representativos da população-alvo e que. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . de 5 ou 6 pessoas cada. A cada grupo é dado um tema sustentado pela informação empírica recolhida em trabalho de campo. um facilitador e relator por grupo (investigador e membros da associação parceira). deve provocar o debate com alguma ideia que conecte com a informação obtida e algum conflito passível de emergir da rede de relações produzida. Recomenda-se que circulem pelos diferentes grupos para permitir momentos de liberdade e tornar a oficina mais dinâmica podendo. Recomenda-se a filmagem da oficina por um elemento conhecedor do projecto. abrindo espaço para a monitorização. os sonhos. 2. Deve deixar um espaço de liberdade criativa aos participantes durante todo este processo. os facilitadores/relatores. a situação familiar e profissional).8 fundamental num modelo mais consistente de utilização destas oficinas para diagnóstico. Atento. Solicita-se a construção da identidade de uma personagem (que consiste em preencher uma ficha com o nome. intervir também nos outros grupos. “sem ele monopolizase”. 3. Cada oficina teve cerca de 4 grupos com cinco participantes cada. Guião da Oficina 1. A personagem deve ser inspirada a partir do contexto em causa e induzida pelo tema do grupo. não tenha sido possível comparecerem. Em cada grupo existem duas personagens predefinidas atribuídas ao acaso. por exemplo. 4. os pesadelos. Os “facilitadores”: em cada grupo existe um facilitador que intervém no sentido de ajudar a desenhar um mapa de relações entre as personagens construídas e organizar a sequência de fotografias finais representativas da história. De uma forma completamente aleatória divide-se o colectivo em grupos. Um ou dois dos grupos ficam com tema livre. uma vez que prepara as pessoas para os objectivos pretendidos.

9. tendo em conta a realidade da região. Fotografam-se as personagens. reforçando finalmente a presença dos homens. reunido à parte. em Amarante. representações e expectativas geradas). Em Sever de Vouga a teatralização e interpretação das personagens e enredos aconteceu espontaneamente. apesar de terem problemas comuns. para futura apresentação. numa pequena série de fotografias. Desenhado o mapa de relações. 4. 6. 8. encenam-se colectivamente quadros representativos da história produzida. 7. passa-se à construção de um drama possível. a história é conduzida a partir de um qualquer conflito. A existência de iniciativas isoladas. Com recurso a um projector. com a sucessão das fotografias produzidas. Discussão colectiva das histórias (os sentimentos. seu passado). O facilitador toma a iniciativa com uma questão observada e lança a discussão. tendo em conta a relação de poderes criada entre personagens e recaindo também para a desigualdade de género. havia sido identificada anteriormente pelo investigador como uma condição adversa à ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Conclusão As conclusões a que se chegou nas Oficinas Diagnóstico mostraram. apresentam-se as histórias por um “participante” do grupo. Também aqui se deixou espaço de liberdade para os participantes desenvolverem os argumentos. seus problemas e expectativas. começando pela apresentação das personagens intervenientes (uma fotografia por personagem) e contando a história produzida em cada tema. sob olhar do facilitador/relator. que as pessoas das diferentes freguesias. Os dirigentes das associações sociais e culturais locais não se conheciam sequer. A história deve ser conclusiva. Em cada grupo. relação entre personagens. Em Amarante. Depois. vai inventando uma rede de relações sociais entre os personagens. Cada grupo. uma a uma. dando origem a um mapa de relações (nome. tendo em conta as relações entre personagens.9 5. não se relacionam na promoção de resoluções conjuntas. em torno das situações criadas na dramaturgia geral da história. seguiu-se um convívio que se transformou num concerto espontâneo de um grupo de bombos e de uma tuna da região.

no seu desenvolvimento associativo para uma actividade económica – o que iria ao encontro das intenções manifestadas por elas próprias na Oficina. e a Oficina Diagnóstico assim o demonstrou. apesar de terem sido convidados a participar. já que é com as mulheres e a feminilidade que este espaço passou a estar associado.10 dinâmica para o desenvolvimento regional e estas oficinas permitiram essa consciencialização por parte dos participantes. uma vez que não se trata apenas de resolver os problemas das mulheres. quiçá. não tenham muita disponibilidade de tempo. Esta intervenção teve um sucesso relativo em motivar. Contudo. exponencia a desigualdade de género. em oposição à sociabilidade masculina com que se identifica localmente o espaço do café. foi realizada pontualmente em cada aldeia e não com um conjunto integrado de mulheres das várias aldeias. Isto deve-se. também identificado durante o trabalho de campo. Um outro factor. prende-se com o facto de o espaço social de género ser muito segregado. que faz com que os homens. de forma a reforçar a importância do trabalho feminino nos baldios e. à já referida divisão sexual do trabalho. a realização da Oficina mostrou haver uma a dificuldade em envolver os homens. quando a vida quotidiana é assegurada pelas mulheres e eles estão ausentes? A questão salienta a necessidade da integração da perspectiva de género (cf. até porque identificámos uma grande diferenciação social de género no que diz respeito às ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Este aspecto remete-nos ainda para uma limitação sentida no início do trabalho de campo sobre “o género do próprio antropólogo” – como chegar também aos homens. promovendo cursos que desenvolvem aptidões potencialmente económicas às mulheres da região. fazendo com que o espaço onde actualmente se realizam estes cursos – e onde decorreu a Oficina Diagnóstico – tenha uma associação de género diametralmente oposta à do café (cf. não se conseguiu integrar estas iniciativas isoladas num projecto comum. Comissão Europeia 2004). por um lado. por estarem empregados. No nosso entender. nomeadamente no que diz respeito aos espaços de sociabilidade. Em Sever do Vouga. sobretudo nas possibilidades de trabalho auferidas pelos recursos dos baldios. Os formandos dos cursos até aqui promovidos pela Solidários são maioritariamente mulheres. A intervenção da APA. por exemplo. a produção de artesanato a partir dos recursos dos baldios. Micaelo 2005b). esta falta de comunicação entre as pessoas das diferentes aldeias.

Em ambas as Oficinas. as domésticas. o construtor civil. uma organização familiar “temporariamente monoparental feminina”. através da consciencialização dos problemas-soluções apurados entre todos – contribuindo. investigadores. Este modelo parte do conhecimento empírico do terreno e da sua transformação em estudos de caso e conteúdos para a realização de oficinas teatrais onde os participantes (população-alvo. ao acesso ao dinheiro e ao poder. consideramos ainda que contribuiu para o apuramento de práticas de intervenção que incorporem a participação efectiva das respectivas populações-alvo. consideramos que o modelo participativo das Oficinas Diagnóstico cria condições para a resolução dos problemas assinalados. em resultado do espaço de reflexão e experimentação criativas dos participantes. as agricultoras. mas principalmente. ao trabalho. estes dados permitem-nos perceber melhor a categoria de Predominantemente Rural. para um potencial processo de mudança. assegurando que a comunidade seja agente das transformações propostas. pôr em causa a imagem de um mundo rural homogéneo e “tradicional”.11 relações familiares. Por fim. cujo modo de vida e características de sociabilidade são melhor apreendidas por metodologias qualitativas. Este “modelo” de um mundo rural é diferente daquele que conhecíamos na década de 60 no norte do país. por isso. Assim. O modelo de investigação-acção foi cientificamente informado e adaptado para comunidades rurais. e mesmo de outros meio rurais portugueses contemporâneos. à mobilidade e mesmo à forma como se constituem os modos de sociabilidade. tipicamente envelhecidos e despovoados – como o Alentejo – ou aqueles que têm uma relação mais dinâmica com a actividade industrial – como é o caso de Vouzela. a situação profissional de todas as personagens coincide com a realidade socio-económica e antropológica da região estudada: os desempregados. os emigrantes. o patrão. os estudantes deslocados. não podemos ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . os próprios mapas das relações entre os personagens mostram a construção de redes familiares do mesmo tipo que constatámos na realidade. isto é. como grande parte das regiões rurais de Portugal são classificadas. Ele foi pensado de forma a garantir que os modelos de intervenção social na promoção da igualdade de género compreendam e se ajustem aos valores e experiências da população. Concluindo. agentes de intervenção e animadores culturais) reflectem sobre os seus problemas específicos no âmbito das desigualdades de género. Por sua vez. Por outro lado. o político.

2004/EQUAL/A2/IO/343).). PINA CABRAL. 2004/EQUAL/A2/IO/343). Susana de Matos (coord. Londres e Nova Iorque. Charlotte Aull. a partir da abordagem etnográfica. 2004. Em: VIEGAS. trabalho e espaços de ruralidade: um estudo antropológico em Sever do Vouga. DAVIS. do Fundo Social Europeu (Ref. Projecto Iguais num Rural Diferente. Diagnóstico de Necessidades: Iguais num Rural Diferente (policopiado). O Homem na Família: cinco ensaios de Antropologia. VIEGAS. Lisboa. SALGADO.12 deixar de sublinhar que considerámos o contributo da Antropologia não como uma oportunidade para “dar voz” aos seus objectos de estudo/informantes/população-alvo. Susana de Matos (coord.eu. Ithaca e Londres. Acção 1 – Programa de Iniciativa Comunitária EQUAL.int/comm/equal> (acesso em 17-05-2005). Em: VIEGAS. João de. Routledge. 1990. Fieldnotes: The Making of Anthropology. 1999. Referências Bibliográficas COMISSÃO EUROPEIA.). Projecto Iguais num Rural Diferente. 2005. 2005. um meio de estabelecer relação com as pessoas. Roger (ed). 2005b. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . 2004/EQUAL/A2/IO/343). Ana Luísa. Departamento de Antropologia da Universidade de Coimbra. 2003. “Diagnóstico de Necessidades para Sever do Vouga”. Ricardo Seiça. do Fundo Social Europeu (Ref. Diagnóstico de Necessidades: Iguais num Rural Diferente. MICAELO. “Guia Equal sobre a Integração da Perspectiva de Género” [online].). Cornell University Press. Diagnóstico de Necessidades: Iguais num Rural Diferente (policopiado). Imprensa do ICS. Reflexive Ethnography: a guide to researching selves and others. (policopiado). “Diagnóstico de Necessidades para Amarante”. Acção 1 – Programa de Iniciativa Comunitária EQUAL. Susana de Matos (coord. Dissertação de Investigação I e II (policopiado). do Fundo Social Europeu (Ref. Mulheres. Coimbra. SANJEK. para aceder à sua realidade vivida. Projecto Iguais num Rural Diferente. 2005. Acção 1 – Programa de Iniciativa Comunitária EQUAL. MICAELO. Disponível em: <http://europa. mas antes. Ana Luísa.

Economia e Sociologia. direitos e precariedade laboral ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Universidade do Minho Pluralismo Religioso: novas abordagens etnográficas Coordenação Ramon Sarró Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa Estigma. Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro Manuel Carlos Silva Instituto de Ciências Sociais. dinheiro e afecto Coordenação Fernando Bessa Ribeiro Dep.VII – Capítulo Crenças e corpos Textos de comunicações dos painéis: Corpos.

peregrinação. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . tal como as páginas dos jornais e os principais noticiários dos canais de televisão portugueses. religião e Senhora de Fátima. uma comunicação realizada no 3º Congresso da APA – Afinidade e Diferença (6-8 de Abril de 2006). concretamente no Painel Pluralismo Religioso: novas abordagens etnográficas. pt   Desde as Aparições da Virgem Maria. longe de fazerem parte de uma communitas. Contudo. encher-se-ão de peregrinos.  “Cada um anda ao seu ritmo” As práticas individuais nas peregrinações a pé a Fátima 1   Pedro Pereira* Escola Superior de Enfermagem – Instituto Politécnico de Viana do Castelo pedro. revelam práticas profundamente individualizadas para realizar a peregrinação. mas pouco sobre as práticas dos peregrinos desde o momento em que abandonam as suas casas e percorrem a pé a distância que os separa do Santuário de Fátima. o acto de caminhar até Fátima está fortemente condicionado pelas motivações que lhe subjazem. 1 Este texto recupera alguns elementos do trabalho de campo anteriormente realizado (Pereira. por um lado. que os peregrinos caminhantes até Fátima. até ao presente que todos os anos milhares de pessoas percorrem os caminhos que as levam até àquilo que nos meios católicos se chama. 2003) e reproduz. Professor Adjunto – Instituto Politécnico de Viana do Castelo – Escola Superior de Enfermagem. e. Palavras-chave: Promessa. Recorrendo privilegiadamente a elementos etnográficos. recorrentemente. uma promessa. Agradeço ao Professor Doutor José Manuel Sobral as críticas e sugestões que fez ao trabalho. Tem-se escrito muito sobre Fátima. com breves alterações. nesta comunicação procurar-se-á evidenciar.pereira@netcabo. doutorando em Antropologia (ISCTE). tem sobejado o interesse por parte * Mestre em Antropologia (UM). se perante tão abrangente fenómeno social tem escasseado a atenção por parte dos cientistas sociais. e que são frequentemente. Todavia. em 1917 em Fátima. Altar do Mundo. que estes peregrinos procuram pagar com o mínimo de sofrimento o grande sacrifício prometido.q.    INTRODUÇÃO    No início do mês de Maio. coordenado por Ramon Sarró. as estradas que convergem para Fátima. por outro.

Duas ideias aparecem recorrentemente expressas nestes dois discursos: por um lado. sendo os peregrinos católicos. tem sido mais este discurso. também católica. intensamente. a Fátima 3 .2 dos religiosos católicos. a prática da peregrinação a pé é apresentada como um meio para solicitar alguma coisa à Senhora de Fátima. sendo um lugar com grande magnetismo espiritual (Eade. 1 – A PROMESSA DE PEREGRINAÇÃO   Efectivamente. neste artigo propõe-se desconstruir os dois pressupostos anteriores. que tem contribuído de uma forma mais intensa para a maneira como se vão atribuindo significados às peregrinações a pé a Fátima. ideais religiosos. onde o poder da Senhora de Fátima pode ser invocado (ainda que neste caso à distância) para a resolução de problemas cruciais dos crentes. mostrando que: em primeiro lugar. o principal pilar que alicerça as práticas do acto de peregrinar 2 a pé da generalidade dos peregrinos que viajam até Fátima. as peregrinações a pé a Fátima não são o início de uma relação com a Senhora de Fátima. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . invisível. Perante este diagnóstico da situação. então as crenças e práticas dos peregrinos são interpretadas em consonância com o sentido teológico católico do peregrinar. por outro. que se expressa vulgarmente numa promessa. 2 3 Deve entender-se por peregrinação uma viagem por devoção a um lugar considerado sagrado. que caracteriza os lugares onde estão presentes. 1991). tentar-se-á avançar com elementos que contribuam para uma efectiva compreensão do significado da expressão “cada um anda ao ritmo” (que dá o título a este artigo) e consequentemente enunciar as estratégias individuais que cada peregrino encontra para chegar até Fátima com o menor sofrimento possível. É de facto uma promessa que leva os crentes para a estrada e é ela que os impele a chegarem ao fim. dos meios de comunicação. frequentemente sensacionalista. Em Fátima. latente. A partir deste dois postulados. e a entidade a que prestam culto. os peregrinos podem encontrar aquilo que Alan Morinis chama ideais colectivos da cultura (1992-a: 4-5). a promessa apresenta-se como a parte oculta. mas sim a consequência de uma motivação. De facto. em boa parte dos casos. apologético. em segundo. que a redução dos motivos envolvidos nas peregrinações a pé a Fátima à teologia católica impede a efectiva compreensão das crenças e práticas dos peregrinos. a par do outro discurso.

a autonomia individual está bem presente na construção dos termos da troca. nem a mim. Veja-se um exemplo comum: “Se tu (Senhora de Fátima) curares o meu filho eu prometo ir a Fátima a pé”. o motivo da promessa. sendo portanto ele quem estabelece o que é simbolicamente equilibrado. como me dizia um devoto: “concentro-me e mentalmente defino o que pretendo e o que estou disposto a fazer”. que já vai há mais de vinte anos a pé a Fátima. Só se o desejo se realizava é que o homem cumpria o que havia prometido”(1987: 1829).   4 Partindo do pressuposto que a promessa é um voto. quer pelo facto de o promitente (aquele que faz o voto) procurar manter sigilo da promessa até receber a graça ou dádiva 5 . De facto. uma contra-dádiva. nos primeiros anos do casamento. De facto. com a condição de o homem obter dela um favor particular. há 15 anos atrás. normalmente. que os votos são feitos dentro da própria pessoa. 5 Reportando-se às promessas de peregrinação a Tinos. 1995: 89). na Grécia. a promessa está sustentada numa clara racionalidade e. ele continuar a fazer “vida de solteiro”. organiza-se em torno de três fases primordiais: uma declaração de compromisso. mas é também visível quer na forma como o voto é feito. uma dádiva. Como já foi defendido noutro lugar (Pereira. uma promessa pode ser definida como uma troca entre um crente e a Senhora de Fátima 4 . nem mesmo ao marido que a acompanha. nunca revelou a ninguém. é quase sempre assim que ela é concebida pelos crentes que prometem ir a pé a Fátima. Quando o crente constrói a declaração de compromisso está também a definir as condições da troca. poucos dias antes da partida – outras vezes nem isso – outra pessoa do meu grupo.   1. Dubisch salienta. normalmente dentro da própria pessoa.3 Neste contexto. de igual modo. será interessante recuperar a referência de Michel Meslin à proveniência latina da palavra voto que provém do latim votum e que “consistia na promessa de uma oferenda que se fazia a uma divindade. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . e de uma forma simples. O marido suspeita que a promessa se deveu ao facto de. sendo estes uma expressão de uma relação muito pessoal entre o promitente e o ser espiritual a quem o primeiro se dirige”(Dubisch. J. 2003-a).1– A declaração íntima de compromisso A declaração de compromisso é a enunciação da troca com a Senhora de Fátima. Este voto é tão pessoal que por vezes só é revelado à família poucos dias antes da partida – um elemento do meu grupo revelou à mulher que tinha feito uma promessa de ir a Fátima.

a peregrinação a pé é um agradecimento. o promitente espera pela dádiva da Senhora de Fátima (ou pela graça. Porém. efectivamente. 8  Se  o  critério  for  histórico. “só se promete ir a Fátima a pé quando é uma aflição muito grande. não apenas porque uma dádiva implica uma contra-dádiva. não visa uma recompensa. Esta citação ilustra bem o sentido maussiano da dádiva. é o pagamento de algo que já foi recebido. a utilização do critério de filiação religiosa apresenta acentuadas fragilidades. as pessoas dão-se com aquilo que dão 6 .     2 – O CATOLICISMO E AS PEREGRINAÇÕES A PÉ  Todos os peregrinos com quem falei. como me dizia uma peregrina. disseram-me que eram católicos. a peregrinação a pé apresenta-se como a última fase deste processo. pelo contrário. nesta situação de troca. perante uma grande aflição promete-se um grande sacrifício pois. como refere M. Por conseguinte.  e  seguindo  a  tipologia  de  Edith  e  Victor  Turner  (1978). As marcas mais ou menos perenes no corpo dos peregrinos. ou seja. pois atrai peregrinos dos mais diversos lugares do mundo. como é referido pelos crentes). como uma contra-dádiva. 1988: 101). Esta filiação religiosa poder-se-ia apresentar como um critério mais interessante do que outros apresentados por outros autores como o geográfico 7 ou o histórico 8 . as referências mais ou menos assíduas de que foi a Senhora de Fátima que salvou o filho ilustram bem que.  as  peregrinações a Fátima são modernas.2 – A troca simbólica Assim. depois da referida declaração de compromisso. 7 Atendendo às classificações de Jackowski (1987) e Victor Turner (1973). a comunhão e a aliança que elas estabelecem são relativamente indissolúveis”(Mauss.  6 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . a peregrinação a Fátima situase na categoria internacional. “[as coisas trocadas] não estão nunca completamente desligadas dos seus agentes de troca. seja ela escatológica ou terrena. mas também porque o que é dado nunca se separa de quem o deu. os crentes procuram re-equilibrar as suas relações com a Senhora de Fátima. porque custa muito ir até lá a pé”. para em seguida retribuir com a peregrinação a pé. querendo isto dizer que. visto que. e não como uma dádiva. através de uma troca simbolicamente equilibrada. Mauss. Portanto. temos de considerar as peregrinações a pé.4 1.

como refere P. Estes autores recuperam alguns pressupostos anteriormente defendidos quer por Van O autor católico S. “vai-se a Maria para chegar melhor e mais facilmente a Deus”(1995: 1046). ou como uma penitência (libertação de pecados) 9 . 2003: 168-171). mas deve ser de tipo festivo”(1995: 1048). Rosso define algumas orientações para aquilo que se poderia chamar uma pastoral da peregrinação.1 – peregrinação como fenómeno liminóide   De facto. E tanto assim é que são diversas as actuações da igreja para orientar ou converter essas práticas que se afastam do ideal de peregrinação cristã. em que. apesar das dificuldades se pode chegar a um lugar mais sagrado que é o Céu. “não pode haver peregrinação sem a celebração da eucaristia”(1995: 1048). Como se pôde notar ao longo do trabalho. Contudo. 9 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . estando exposta na sua obra Image and Pilgrimage in Christian Culture. ainda que os peregrinos que caminham até Fátima se autodefinam como católicos. a peregrinação deve promover a “participação na vida da igreja. na realização de promessas o padre raramente é consultado e mesmo quando é consultado a sua opinião não é muito valorizada pelos promitentes (Sanchis. Pereira. a concepção católica da peregrinação a pé. Contudo. 2003: 120-122) quer no santuário procurando fazer prevalecer o seu discurso na arena de discurso (Eade. 10 A Igreja Católica tenta utilizar estratégias que lhe permitam evangelizar as peregrinações quer durante o caminho.5 De uma forma simples. apresenta esta como uma “imitação da vida”. as peregrinações a pé a Fátima não satisfazem estas importantes directrizes daquilo que. deve ser uma peregrinação cristã. como oferecimento a Deus. através da formação de guias do Santuário (cf. e que a mesma prática. entrando ativamente nas suas preocupações e na sua ação”(1995: 1048-1049). a mais relevante teoria sobre as peregrinações deve-se a Edith e Victor Turner. como privilegiar do despojamento que seria uma aproximação a Deus. Bastará tão-só recordar que as peregrinações a pé são uma relação que os crentes estabelecem com a Senhora de Fátima e não com Deus.     3 – A PEREGRINAÇÃO COMO FENÓMENO LIMINÓIDE E AS PRÁTICAS  INDIVIDUAIS NAS PEREGRINAÇÕES A PÉ A FÁTIMA     3. pelo menos na actualidade. Pereira. 1992: 51-52). Sanchis. tal não significa que as suas crenças e as suas práticas estejam em consonância com aquilo que é defendido pela teologia católica. “a peregrinação não deve representar acréscimo de obrigações (pagar dívidas ou ‘comprar’ facilidades diante de Deus). salientando-se as seguintes: “A peregrinação deve orientar para o sentido de corresponder ao oferecimento que Deus nos faz da sua misericórdia e do seu amor”(1995: 1048). 1991: 2) evidente no Santuário (cf. normalmente. decorre de uma promessa nos termos anteriormente descritos 10 .

Petrópolis: Editora Vozes. emergindo o individualismo de uma forma bem mais efectiva do que a ténue. penitências. todavia a viagem em grupo não decorre de um eventual interesse dos peregrinos em partilhar com outros os valores espirituais da peregrinação. indiferenciação. Victor (1974) O Processo Ritual . com a peregrinação a Meca. O objectivo da viagem em grupo decorre do facto de esta se constituir como uma estratégia mais eficaz para que o peregrino alcance o seu objectivo. 11 12 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . 1974).2 – Da ilusória communitas às práticas individuais     Contudo. um símbolo da ‘communitas’.   3. Gennep. Este facto pode transmitir a ilusão da communitas. pois apesar de ter características semelhantes aos ritos de iniciação das sociedades tribais 13 . o próprio movimento. despojamento. realização ritualizada de correspondências entre paradigmas religiosos e experiências humanas partilhadas. homogeneidade e camaradagem. Turner 12 . Assim.estrutura e anti-estrutura. a individualidade posta contra o meio institucionalizado. emersão da pessoa integral na multiplicidade da persona. um axis mundi da fé. 14 Os Turner salvaguardam a excepção do Islão. os dados etnográficos não confirmam que as peregrinações a pé a Fátima possam ser consideradas como um fenómeno liminóide. pois normalmente os futuros peregrinos procuram um grupo para fazer a viagem. anomia (Turner. Deste modo. Turner. homogeneidade. a peregrinação 14 é um acto voluntário. mudança de um centro mundano para uma periferia sagrada que de repente se torna transitoriamente central para o indivíduo. Petrópolis: Editora Vozes. para os Turner.6 Gennep 11 quer pelo próprio V. com particular ênfase para o conceito de fenómenos liminares que apresentam uma junção de submissão. os peregrinos vão adquirir uma homogeneidade de status caracterizada de uma forma detalhada pelos autores: “simplicidade de vestes e comportamento. que muda com o tempo contra o estático que representa a estrutura. 15 Esta caracteriza-se pela igualdade. reflexão sobre o significado dos valores básicos religiosos e culturais. a peregrinação apresentase como um fenómeno liminóide. libertando-se das estruturas mundanas. Arnold Van (1978 [1908]) Os Ritos de Passagem. etc”(1978: 34)”. ‘communitas’. fortuita e por vezes ilusória communitas 15 . santidade. 13 Designação dos próprios autores. Não é muito frequente encontrarem-se peregrinos que fazem toda a peregrinação a pé sozinhos.

Pude ver. independentemente daquilo que comesse. e vai socializando os peregrinos neófitos como eu. 17 Deve notar-se que frequentemente os grupos procuram agregar os seus membros para entrarem em conjunto no Santuário. cada grupo vai-se desmembrando ao longo do dia. Efectivamente esta locução foi-me repetida. passaram a ser manifestos e cada peregrino pagou a sua própria refeição. cada um pagava a mesma quantia. sendo quase sempre uma das últimas a chegar ao local de pernoita. por Em grupos coordenados por guias do santuário não é raro existirem conflitos decorrentes do interesse em cada um chegar o mais rapidamente possível ao fim e o interesse do guia do Santuário que é manter grupo todo junto. A partir do momento em que se inicia a peregrinação podem-se construir novas estruturas relacionais que podem decorrer. Ela desde o primeiro dia que apresentava imensas dificuldades. Desde a primeira refeição que as pessoas que já tinham feito mais vezes a peregrinação sugeriram que as refeições de todo o grupo seriam pagas por uma pessoa. que rapidamente vão assimilando este ideal. Ela ia ficando parada em diversos postos da Cruz Vermelha. Note-se que depois deste momento a necessidade que cada peregrino tem do grupo é bem menor. como o almoço e particularmente a pernoita. desde o primeiro dia. Assim. Ainda que existam momentos de agregação dos peregrinos no seu grupo. Encontrei peregrinos que por fragilidades resultantes de esforço tão continuado (dores intensas num tornozelo ou num joelho) foram ficando para trás cada vez mais distantes do seu grupo. que em seguida dividia o total por todos os elementos. Claro que estas marcas de individualismo concorrem para infirmar a homogeneidade de status defendida pelos Turner. diversos peregrinos a caminharem sozinhos 17 . No meu grupo viajavam um irmão e uma irmã. ele fazia a peregrinação com uma certa tranquilidade. chegue a Fátima. Ainda no meu grupo pude testemunhar outro exemplo da ilusão da communitas. aumentando de frequência com o passar dos dias de caminhada. ou seja. Da desocultação da ilusão da communitas emergem práticas individuais claramente ilustradas na expressão que dá o título a esta comunicação – “cada um anda ao seu ritmo” 16 . Mas desde a primeira situação que os conflitos foram ficando latentes. sendo quase sempre um dos primeiros a chegar ao local de pernoita. diversas vezes. 16 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . ele ia avançando. particularmente no fim da tarde.7 pague a sua promessa. e especialmente já mais próximo de Fátima. até que na última refeição do último dia. constituindo um dos primeiros registos no meu diário de campo.

sendo bastante visível a diferenciação económica que permite. a promessa que os peregrinos fizeram foi de grande sacrifício e este expressa-se num quadro geral que. vai procurar reduzir o mais possível o potencial sofrimento. na roupa que. pode também notar-se a existência de um prolongamento das estruturas sociais anteriores à peregrinação 18 . comida de qualidade duvidosa. as peregrinações a pé a Fátima na actualidade tendem a ser cada vez menos incertas e cada vez mais seguras. 18 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . sendo um dos exemplos disso mesmo o seguro de vida realizado por um grupo para todos os seus membros (mais de 300 peregrinos). normalmente exige uma peregrinação deste tipo. Atentem-se. do maior ou menor cansaço.             sofrimento 3. que aqueles que têm maior capacidade económica possam dormir numa cama mais cómoda ou comer comida de melhor qualidade num restaurante mais tranquilo. mas expressando-se de diversas outras formas. aqueles que detêm um capital de experiência de peregrinações anteriores. procurando reduzir o potencial sofrimento e a incerteza resultante de uma viagem deste tipo. No entanto. outras vezes critérios de aliança (duas pessoas casadas partilham um só quarto e uma só cama). se tomarmos como exemplo peregrinos que partem do Porto até Fátima. das bolhas que podem surgir nos pés e que condicionam profundamente o andar ou de uma indisposição ou ainda das consequências de uma queda. codifica diferenças de estatuto sócio-económico. Seria desta forma que o equilíbrio simbólico decorrente da promessa seria alcançado. recorrentemente. é interessante notar que cada peregrino. “cada um andar ao seu ritmo”. estradas nacionais com muito trânsito e com elevado perigo19 . recorrendo aos diversos meios que tem ao seu alcance. na acomodação dos corpos durante a pernoita onde. Por outro lado. e comam. Uma boa parte dos peregrinos procura programar com detalhe a viagem. pelo afastamento de casa e da família. por vezes emergem critérios sexuais (pessoas do mesmo sexo partilham o mesmo quarto e a mesma cama). na referida locução.8 exemplo. desde logo. longe de indiciar simplicidade. quase sempre. conhecem melhor o caminho e podem gerir melhor o esforço acentuado que. e ao longo de cinco dias percorram. Porém. durmam pouco e em más condições.3 – Da promessa de grande sacrifício e à procura de redução do   De facto. por exemplo. o mais provável é que andem cerca de 200 quilómetros. Cada vez mais os grupos aumentam o seu investimento na logística da viagem. 19 Ao contrário das peregrinações cristãs que se caracterizam pela insegurança. divididos em etapas de 40 quilómetros por dia. por um lado. visível. por outro.

23 ou mesmo injectáveis de substâncias também desconhecidas. Um crente propôs-se acrescentar dureza à já dura viagem de ir a pé a Fátima: prometeu ir descalço. Por exemplo. três casos concretos em que emergem singulares estratégias individuais de redução do sofrimento. desde um vulgar analgésico até pastilhas desconhecidas que ocultam intensas dores durante algumas horas. para além de não transportarem o saco com as suas pertenças. apenas andam com o casaco quando têm frio ou apenas andam com a garrafa de água quando têm sede 20 21 . que serviam para se fazer entender com os membros do seu grupo e com as outras pessoas com as quais se cruzava. procurando assim evitar que o calor se alie à estrada como mais um obstáculo. 23 Um elemento do meu grupo. Um dos aspectos mais relevantes na redução do sofrimento é o chamado carro de apoio. este crente encontrou outras formas de comunicação. 22 Esta opção garantiu algum conforto ao próprio investigador. O jovem português que veio de Inglaterra para caminhar a pé até Fátima. uma crente 20 21 Cf. prometeu que faria o percurso sem falar. No dia seguinte as dores voltaram. Contudo. calçadas umas por cima das outras. No entanto. escrita e gestual. seja em pensões ou em casas particulares. diversos peregrinos recorrem a medicamentos para realizar com menos custo a peregrinação. Isto significa que. no fim da peregrinação teve recorrer ao hospital para retirar líquido de um joelho. Sendo normalmente conduzido por um familiar de um dos elementos do grupo. Por fim. este sofrimento era atenuado pelo facto de ele usar diversos pares de meias. Por fim. pode valer a pena relatar. mais detalhes em Pereira. Alguns peregrinos caminham durante a noite. de forma breve. caminhou parte da viagem com fortes dores num joelho. que após se romperem eram sucessivamente substituídas por outras. quer daquilo que está disposto a fazer. e que eram suficientes para cortejar elementos femininos do seu grupo. 2003: 134-135.9 essencialmente reservar com antecedência o lugar de pernoita. apenas andam com o guarda-chuva quando chove. num nos dias da peregrinação um massagista de beira de estrada deu-lhe uma pastilha que lhe permitiu caminhar durante todo o resto do dia sem dores. De facto. pode ir desde o aproveitamento do capital de experiência de peregrinos que já fizeram muitas peregrinações e acolher a inócua sugestão para usar pensos higiénicos de tamanho grande dentro das sapatilhas 22 ou pode-se aproximar de algo que poderíamos chamar doping. pois as temperaturas estão mais amenas. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . o carro permite que os peregrinos possam andar apenas com aquilo que precisam em cada momento. A diversidade das estratégias para reduzir o sofrimento varia em função quer das condições que cada um tem ao dispôr. Contudo.

“Votum”. partia do sítio onde tinha parado anteriormente e percorria mais 20 quilómetros até.Pilgrimage. Quando o promitente se metamorfoseia em peregrino transporta consigo não apenas o cansaço mas também o ónus de uma dívida que cada passo irá fazer diminuir. Contesting the Sacred: The Anthropology of Christian Pilgrimage. chegar a Fátima. A. 1991.. da forma menos penosa possível. Marcel. (ed. sobrepõem-se os interesses do peregrino que parte em grupo. de filiação católica. p. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS   DUBISCH. Gender. pagar a sua contra-dádiva: chegar a Fátima.10 prometeu ir a pé de Vila Nova de Gaia até Fátima. Michael J.). JACKOWSKI. 1829. 1-29. deste modo. Diccionario de las Religiones. come em grupo. Petrópolis: Editora Vozes. nº 33. 1988 [1950]. P. (dir. MAUSS. não caminha para Deus. pp. John e SALNOW. “Geography of pilgrimage in Poland” in The National Geographic Journal of India. Barcelona: Editorial Herder. 1995. a peregrina fazia cerca de 20 quilómetros. à frágil e pontual communitas. pp. 1987. Michael J. 1978 [1908]. 422-429. Jill.). mas que só anulada no encontro com a Senhora de Fátima. John e SALNOW. Em cada Domingo. Portanto. In a Different Place . mas que “anda ao seu ritmo” para. 1987. não caminha como penitência para se libertar de pecados cometidos. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Arnold Van. dorme em grupo. MESLIN. Michel. Ensaio sobre a Dádiva. and Politics at a Greek Island Shrine. Os Ritos de Passagem.     CONCLUSÃO   O peregrino. o cumprimento desta promessa foi feito em prestações. London: Routledge. EADE. POUPARD. Lisboa: Edições 70. Princeton: University Press. GENNEP.. “Introduction” EADE. Todavia. sendo depois transportada de carro pelo marido de volta até casa. No Domingo seguinte.

Porto. 1974. Victor e TURNER. promessas e peregrinações: as promessas de peregrinação a pé a Fátima”.as romarias portuguesas. Petrópolis: Editora Vozes.. Pedro. Pierre. 1031-1052.estrutura e anti-estrutura. São Paulo: Paulus. S. History of Religions. Edith.The Anthropology of Pilgrimage. ROSSO. Alan (ed. 2003. 12. “Introduction: The Territory of the Anthropology of Pilgrimage”. pp. 1995.). Lisboa: Piaget. SANCHIS. London: Greenwood Press. pp. TURNER. Pedro. Peregrinos – Um estudo antropológico das peregrinações a pé a Fátima. 191-230. 1992. Image and Pilgrimage in Christian Culture Anthropological Perspectives. Victor. Dicionário de Mariologia. “The center out there: Pilgrim’s goal”. 3-4). pp.). MORINIS. Oxford: Basil Blackwell. PEREIRA. “Doenças. “Peregrinações”. 1973. Vol. DE FIORES. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Sacred Journeys . Alan. O Processo Ritual . Victor. 1992-a. 43 (fascs. Lisboa: Dom Quixote. Stefano e MEO. TURNER. 1978.11 MORINIS. 1-28. Salvatore (dir. Trabalhos de Antropologia e Etnologia. TURNER. PEREIRA. 2003-a. 2003-b. Arraial: Festa de um Povo .

corpo. experiência incorporada. os movimentos normalizantes da medicina não cessaram de informar.. as respostas sociais que se vieram a dirigir às pessoas identificadas com a deficiência. Sob o conceito de deficiência. Não obstante. pretendo aqui convocar algumas questões teóricas que se erigiram particularmente significativas à medida que fui sendo confrontado com os limites postos às formas convencionais de apreender a experiência nas ciências sociais. respostas que vêm corroborando vivamente.A Cegueira como Transgressão: dos corpos marcados aos corpos que marcam Bruno Sena Martins Faculdade de Economia. do corpo e da imaginação se foi gradualmente insinuando. a cegueira ficou objectificada como uma exterioridade da norma biomédica: um topos de desvio corporal onde o horizonte de restituição da normalidade está habitualmente ausente. há anos que venho realizando investigação em Portugal sobre questões relacionadas com o tema da deficiência. constrangendo. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . centrada no indivíduo. numa espécie de fracasso coreografado. Partindo do meu itinerário etnográfico. importa denotar como as pessoas cegas estão sujeitas a fortíssimas condições de opressão social e estigmatização cultural. deparei-me com dimensões da experiência humana onde a centralidade das emoções. no achado parentesco com outras condições físicas e mentais. Respostas alojadas numa abordagem reabilitacional. enquanto referente. desde então. Universidade de Coimbra bsenamartins@gmail. Tentando inquirir o lugar díspar que o sofrimento ocupa. a reflexão de Colin Barnes (et al. ostensivamente negligente ao imperativo de transformações sociais mais amplas. Estamos perante uma moldura de inteligibilidade social que muito deve ao modo como a modernidade reinventou a exclusão das pessoas cegas através do idioma da biomedicina. Palavras chave: cegueira.com Com propósito central de compreender a complexa relação entre as representações culturais da cegueira e as vidas daqueles que a conhecem na carne. Num primeiro momento. 1999: 60): “o efeito da medicalização dos problemas sociais é a sua despolitização” (minha tradução). deficiência. nas histórias de vida das pessoas cegas e nos valores dominantes acerca da cegueira.

instiga de sobremaneira a uma “epistemologia das ausências”. Isto é tão mais problemático e perturbante quando sabemos que se conferidas as condições adequadas. inspirados pela agitação social do final da década anterior. critérios excludentes para a educação superior e para o emprego.2 Consequentemente. No que à deficiência diz respeito. A situação social das pessoas com deficiência. surge como óbvio produto de uma moderna “razão metonímica” (Santos. a “experiência de deficiência” que elegi para recolher histórias de vida e para acompanhar vivências quotidianas e associativas. marcada por exclusões e silenciamentos. insuficiência ou inadequação do apoio no sistema regular de educação. etc. barreiras arquitectónicas e comunicacionais. obstáculos no acesso aos transportes. ausência. perante uma “lógica de classificação” que tem operada como fiel pajem de uma “monocultura da naturalização das diferenças” (ibidem). o sacro caminho para a integração social ― à luz dessoutra abordagem reabilitacional ― ganhou a consistência de uma miragem para a esmagadora maioria das pessoas com deficiência. O facto é que até este dia as pessoas com deficiência encontram na maioria das sociedades um quadro em que a desigualdade de oportunidades caminha de par em par com forte discriminação institucional e vigorosa estigmatização cultural. Ao centrar-me na cegueira. Estamos. as nossas sociedades estão estruturadas para a integração social daqueles que Erving Goffman chamou de “heróis de adaptação” (Goffman 1990:37). apenas uma reduzida percentagem de pessoas com deficiência ficaria impedida de participar na vida económica e social. pois. A própria emergência histórica do conceito de deficiência. Este mesmo estado de coisas começou a ser denunciado no início dos anos (19)70 quando os movimentos de pessoas com deficiência. denunciaram um sistema discriminatório tenazmente vigiado por: valores e atitudes subalternizantes. Nas representações ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . 2002). produtora de um estreitamento das vozes avalizadas e das práticas sociais pensáveis. pude partir de uma condição que sintetiza de modo flagrante os valores incapacitantes com que a sociedade hegemonicamente se dirige para a experiência daqueles a que aprendemos a chamar deficientes. Entendo que o elemento mais resistente na marginalização das pessoas com deficiência reside no modo como este processo social de exclusão se articula com o fatalismo dos valores culturais dominantes que encarceram a experiência das pessoas com deficiência nas ideia de tragédia e incapacidade.

largamente reflecte os termos pelos quais esta condição é socialmente entendida: uma desgraça que assola o valor da própria vida. procura detê-lo. Charlie. clamando a certa altura: ― Vá para a frente com a sua vida! ― Ao que Frank responde: ― Que vida?! Eu não tenho vida! Eu estou aqui na escuridão! Será que não percebes. onde Al Pacino desempenha o papel de Frank Slade. o rapaz que o acompanhou numa viagem a Boston. trocadas que foram pela imensidão de significados e ecos simbólicos que a história ocidental ligou à experiência de quem não vê. viver num mundo onde se tenha acabado a esperança" (Saramago 1995: 204). eu estou na escuridão! (minha tradução. Estes mesmos valores estão presentes no “Ensaio sobre a Cegueira”. Recolho de Michael Oliver (1990) a “narrativa da tragédia pessoal”. a resposta gritada por Al Pacino pode obviamente expressar o sofrimento e dissolução sentidos por alguém que cegou recentemente num acidente. Mas o que eu pretendo enfatizar é o modo como esta enunciação. a ignorância e a alienação. de José Saramago. grosso modo. por exemplo. O diálogo central do filme ocorre quando Frank Slade é surpreendido preparando o seu suicídio. um militar que ficou na reserva na sequência pelo rebentamento acidental de uma granada que o deixou cego. conceito central que mobilizo para explorar como as vidas e aspirações das pessoas com deficiência continuamente debatem com préconcepções fatalistas acerca da desgraça e do infortúnio.3 culturais hegemónicas da cegueira esta condição está fortemente está fortemente cingida pelos conceitos de tragédia. É esta mesma substituição que acontece na vida social. a súbita cegueira de toda uma população emerge como uma riquíssima metáfora para simbolizar a desgraça humana. desgraça e incapacidade. Podemos evocar. Significados que estão brilhantemente resumidos na voz de uma das personagens de Saramago: “a cegueira também é isto. numa tão sonante aparição mediática da cegueira. Construções que. Como o pude atestar nalgumas experiências de cegueira subitamente infligida. reiteram uma “narrativa da tragédia pessoal” enquanto gramática sócio-cultural na apreensão da experiência da deficiência. Uma tal conceptualização da cegueira está bem presente nos nossos artefactos culturais. onde as narrativas e reflexões das pessoas cegas se encontram subsumidas pelas construções dominantes. Neste romance. minha ênfase). no “Ensaio sobre a Cegueira” as experiências das pessoas cegas estão ironicamente ausentes. Na verdade. o filme “Scent of a woman” . ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .

e resistência para superar os muitos obstáculos postos à realização pessoal. que amplamente fracassamos em apreender pelo crivo das construções culturais e das condições de opressão social. os mais relevantes dados sociológicos derivam da identificação de perspectivas positivas e capacitantes sobre a cegueira. experiências de sofrimento. corre o risco de reproduzir o cânone da razão moderna: o velho espectro da reprodução noutros termos do que se procura superar. que. eminentemente fenomenológicas. potencialidades. eu chamo angústia da transgressão corporal. sofrimento e ansiedade existencial onde. a apreensão das vidas e pensares das pessoas com deficiência marcadamente instrui no apagamento dos fatalismos trágicos. De facto. não totalmente apreensível na sua relação com elementos sociais. desafiar o modo como a razão metonímica se abateu sobre as pessoas com deficiência é também atentar em “racionalidades” embutidas nos corpos. que transgride as nossas referências na existência. informada pelas vozes das pessoas com deficiência. na investigação que venho realizando entre as pessoas cegas. leituras positivas da cegueira. Se. como mostrámos. Assim entendida. A esta dimensão do sofrimento pessoal. a assentar numa oposicionalidade estreita. neste texto. este texto prenha da preocupação de que a desmobilização da “razão metonímica” (Santos 2002) tenha em conta outras densidades da experiência que poderiam ficar de fora de um pensamento contra-hegemónico. contra sedimentada negligência. Por isso. desde cedo emergiram evidentes. quero argumentar um tal enfoque nos poderá levar a desconsiderar outras dimensões da experiência. Refiro-me a experiências de sofrimento e privação mais directamente associadas ao facto corporal da cegueira. A angústia da transgressão corporal refere-se à vulnerabilidade na existência dada por um corpo que nos falha. ou seja.4 Em cintilante contraste com os valores dominantes. Uma perspectiva crítica nas nossas sociedades. as nossas referências no modo de ser/estar-no-mundo. confronta-nos com preciosas elaborações sócio-políticas capazes de reverter a pesada marginalização de que as pessoas com deficiência vêm sendo alvo. vontade de viver. nos sofrimentos ontológicos e na imaginação sensorial. tanto como do reconhecimento dos valores fatalistas que se abatem sobre as pessoas com deficiência. como referentes capitais. No entanto. a angústia da transgressão corporal concita-nos a reconhecer dimensões de dor. as suas capacidades. eminentemente corporal. o corpo vivido e as emoções adquirem estatuto nobre ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .

De facto. retornamos à angústia da transgressão corporal. desde logo. Em primeiro lugar. sofrem doença e violência. a dar eco a Bryan Turner. Procurando seguir estas questões achei-me na esteira apologética da experiência incorporada enquanto relevante dimensão da experiência. Assim investidos. como Judith Butler (1993: xi) afirma. É através dos nossos corpos que ganhamos acesso ao mundo e aos outros. e. uma perda.5 nas reflexões antropológicas e sociológicas Na investigação que desenvolvi entre as pessoas cegas a centralidade da angústia da transgressão corporal emergiu de ― e permitiu apreender ― duas densidades fenomenológicas diferentes. mas são também condição da nossa existência no mundo e na cultura. pois. do idealismo passível de ser sugerido por uma abordagem que procura explorar a cegueira e as suas implicações como correlato de condições sócio-históricas. nada disto pode ser desmobilizado como mera representação. onde a noção de tragédia amiúde encontra guarida. prazer. tradicionalmente pouco à vontade com tais campos da experiência humana. nalgum momento das suas vidas. gradual ou súbita. Explorar o carácter incorporado da experiência implica respigar as consequências deste singelo facto: os nossos corpos ― pois de um vos escrevo ― não são apenas objectificados com significados culturais. essa sensibilidade analítica recolhe da experiência de pessoas que confrontam. Tal apologia constitui uma sensibilidade analítica recentemente surgida nas ciências sociais. Na primeira dimensão que acima enunciei somos convocados a reconhecer as experiências de sofrimento que podem estar fenomenologicamente associadas à cegueira. pela importância que a visão detém para quem dela pode fazer uso a sua perda ser recebida como uma cataclismo onde o significado da cegueira e o significado da vida não raro dançam juntos. quando ele enuncia: “acreditar que as questões da representação são as únicas legítimas ou cientificamente interessantes é adoptar uma posição de idealismo em relação ao corpo” (1992: 41. conforme ficou patente em muitas histórias de vida e no encontro com algumas experiências. Mas esta evasão ao idealismo não de oferece a uma reinstauração da narrativa da ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . minha tradução). Esta abordagem distancia-se. ou confrontaram. de visão. Obrigo-me. Os corpos sentem dor. a angústia da transgressão corporal enceta diálogo com as ansiedades existenciais e corporais fundadas no modo como a cegueira é adivinhada na perspectiva de “corpos que vêem”. Em segundo lugar.

Um encontro dos diferentes tempos de uma vida em que profecias e memórias se cruzam. aí se conta como no banco de um jardim. Assim é. em muitas histórias de vida com que tomei contacto. Na verdade. a experiência de uma ruptura fenomenológica. não há um constrangimento em relação aos modos de realizar. e na percepção das facilidades que a visão permite na apreensão de elementos da realidade e na execução de algumas tarefas. a experiência de ruptura fenomenológica inexiste igualmente em muitas biografias em que a cegueira surge. a possibilidade de antecipar a cegueira e a mansidão da sua chegada assomam nele como factores que fazem com que um tal evento não se assuma como algo de trágico. não há um mundo empobrecido naquilo que nele se pode apreender.6 tragédia pessoal. A cegueira gradual não é coisa trágica. É como um lento entardecer de Verão. nem tão pouco um confronto com as coisas que se tornaram impossíveis de fazer.” (Borges 1998b: 14). Em segundo lugar. Evoco aqui a pena de Jorge Luis Borges pelo que a sua experiência tem de congruente com muitas histórias de que me tornei próximo. à cegueira que lhe sobreveio lentamente até lhe roubar a visão aos 55 anos. Apesar de Borges ter visto durante grande parte da sua vida. numa primeira instância. e onde a cegueira é tranquilamente revelada pela voz do ancião: “Quando atingires a minha idade terás perdido quase por completo a vista. Não há. longe disso. É óbvio que as pessoas que já nasceram cegas têm uma noção do lapso que as separa de quem vê. Não te preocupes. através de um lento anoitecer de muitos anos. Uma inevitabilidade que soube aceitar e que já havia visitado o seu pai e a sua avó: “Pedir que não me anoiteçam os meus olhos seria uma loucura. Numa curiosa fábula. justas ou sábias” (Borges 1998a: 394). sei de milhares de pessoas que vêm e que não são particularmente felizes. como o autor reitera noutro lugar: ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . os sofrimentos mais directamente associados à dimensão física da cegueira estão ausentes. como acontece com algumas patologias degenerativas. directa ou indirectamente. O escritor alude em vários momentos da sua obra. Verás a cor amarela e sombra e luzes. Jorge Luís Borges evoca o encontro sonhado de si consigo mesmo. portanto. tomou lugar o diálogo mágico de um Borges septuagenário com o seu jovem predecessor. nem a submissão a uma imperativa metamorfose no modus vivendi. um lapso que é actualizado quotidianamente na comparação com os outros. junto ao rio. porque na vida de pessoas que nascerem cegas não existe uma experiência de perda.

corporais e sociais. mas no meu esse lento crepúsculo começou (essa lenta perda de vista) quando comecei a ver. e como bem sugere a reflexão de Borges. rápida ou inesperada. sofrem e lidam com experiências de radical ruptura na sua relação sensorial com o mundo. De facto. O que resulta irónico é perceber como o encontrado alento para viver em novos termos frequentemente se tem de confrontar com os valores fatalistas que visitam a experiência social das pessoas cegas. um lento crepúsculo que durou mais de meio século (Borges. 1998c: 289). a alusão a cegueiras congénitas ou lentamente adquiridas mais não pretende do que negar uma qualquer omnipresença biográfica da angústia da transgressão corporal nas vidas da cegueira. Na investigação que venho realizando essa ponderação tem permitido apreender e valorizar o modo como os indivíduos suportam. Não sendo possível abraçar generalizações que aplanem o modo particular como os eventos são acolhidos pelos sujeitos. a assunção de um conjunto de experiências descritas pela ideia de angústia da transgressão corporal pretende conferir espaço de enunciação a determinadas dimensões do sofrimento pessoal dos sujeitos. é nessas histórias fortemente marcadas por dolorosos períodos de luto apostos à experiência da cegueira. e dada a prevalência dos questionamentos políticos e sociais que o tema da deficiência justamente nos instiga. No entanto. É fundamentalmente nessas histórias que encontramos fortes experiências de angústia que largamente escapam a uma perspectiva informada pelas condições de opressão social. que também nos tornamos familiares com a capacidade dos sujeitos para a reconstrução pessoal: histórias órficas que nos são contadas por pessoas que relatam como morreram e voltaram a nascer.7 O meu caso não é especialmente dramático. É dramático o caso dos que perdem bruscamente a vista: trata-se de uma fulminação. Portanto. estamos longe de sancionar a naturalização hegemónica da incapacidade e do infortúnio. O que este cuidado analítico de facto nos concede é a densidade de experiências que são a um tempo emocionais. nesse sentido. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . a angústia da transgressão corporal emerge essencialmente nas narrativas de perda de visão súbita. Portanto. Prolongou-se desde 1899 sem momentos dramáticos. ao explorar a transgressão implicada por um corpo que “falha” e “rouba” referências no modo de ser no mundo. de um eclipse. Nessa ironia o que assoma como trágico é alguém ter que viver refém de valores que ousou superar.

nesses casos a mais ilustrativa enunciação ― esmagadoramente veiculada como lugar de um país que se fez distante ― fala da morte que um dia se desejou. não retire espaço de enunciação às experiências subjectivas de sofrimento corporal. ao cabo de cinco minutos com os olhos fechados. numa perspectiva diferente. a angústia da transgressão corporal curva-se à centralidade que experiências corporais detêm no significado da existência e na construção dos referentes pelos quais o mundo adquire sentido. mas também às ansiedades existenciais. à sistemática marginalização das vozes das pessoas com deficiência. na adolescência. pois.8 Nesse sentido. o mesmo é dizer. ao jogo do E se eu fosse cego. que algumas condições tendem a incitar. Mas. (. As conclusões advindas de uma tal relação empática são instrutivamente tocadas por José Saramago (1995:15) referindo-se a uma das personagens do Ensaio Sobre a Cegueira: Como toda a gente provavelmente o fez. Na pesquisa entre as pessoas cegas isto tornou-se sobretudo manifesto nas narrativas de cegueira subitamente infligida. a exploração de determinadas experiências através da angústia da transgressão corporal visa contornar o perigo atrás identificado. É nessa persuasão que defendo que os valores hegemónicos associados à cegueira devem aos valores culturais e legados históricos.) ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Assim a angústia da transgressão acolhe experiências subjectivas de perda e vulnerabilidade corpórea tanto como sustenta que as nossas referências ontológicas são construídas ― e portanto podem ser perdidas ― através dos nossos corpos.. Como conceito mais vasto. Este poderoso postulado.. que vale para mais triviais experiências. experiências de perda de referentes fenomenológicos onde se torna dramaticamente expresso como a existência carece das fundações dadas pelos corpos. que a tragédia associada à cegueira trafica com o modo como as pessoas usam os seus corpos para ensaiar a cegueira. Alego. e chegara à conclusão. sem dúvida alguma uma terrível desgraça. quero enfatizar como a centralidade dada à angústia da transgressão corporal nos permite compreender algo dos valores dominantes associados à cegueira. de que a cegueira. ganha acrescida saliência à luz de itinerários marcados por experiências limite. corporeamente informadas. jogara algumas vezes consigo mesmo. enquanto evidência sociológica mais cintilante. pretende-se que o reconhecimento das condições de opressão social na vida das pessoas cegas.

Eu estava num campo de férias a trabalhar como voluntário junto da Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal (ACAPO) quando. Apesar de uma funda negligência histórica nas ciências sociais. e que damos carne aos conceitos através de metáforas e da imaginação. O que sempre permitiu a ciência é a nossa a incorporação e não a sua transcendência. não a sua recusa (Lakoff e Mark Johnson 1999: 93. conduznos precisamente ao reconhecimento das projecções imaginativas corpóreas como uma via para a produção de sentido acerca de outras posições estruturais. durante a primeira noite. manifesta naquele sonho. nalguma medida. nós nunca estamos separados ou divorciados da realidade numa primeira instância. que trouxe para a Antropologia a herança fenomenológica de Maurice Merleau-Ponrty. minha tradução). despertei de madrugada perturbado por um terrível pesadelo. Tento. do quão terrível a ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . e sensação de alívio: sonhei que tinha ficado cego. por via de projecções imaginativas em que o próprio corpo é feito um “tubo de ensaio” da cegueira. Desde então. de que pensamos embutidos na carne. isto é. o produto das ansiedades com que ela é empaticamente percebida. a relevância dada à experiência incorporada e ao conhecimento incorporado. 1994). De mencionar trabalhos recentes em que estas abordagens têm conhecido solidificação teórica. e é a nossa imaginação. e como George Lakoff e Mark Johnson (1999). à medida que fui contactando mais e mais com pessoas cegas e com as suas experiências de vida. sabiamente sustentada pelos autores. como via para as relações empáticas com outros corpos Quando principiei o trabalho de campo entre as pessoas cegas tomou lugar um interessante evento. A asserção. que resgatam a importância do corpo e das emoções para o campo das ciências cognitivas: Como criaturas imaginativas incorpóreas. apesar de singela. Acordei como uma intensa sensação de angústia. gradualmente passei por um apagamento dessa pré-concepção. tem recebido acrescida importância. pois. não deixa de ser ilustrativa da minha iniciática resposta ansiosa perante o espectro da cegueira. que labora para que as concepções hegemónicas da cegueira sejam. Esta experiência.9 É esta forma de “ser no outro”. conceder relevância a esse experimentalismo sensorial que a cegueira evoca nos corpos cuja construção do mundo ─ cosmovisão ou mundividência ─ é eminentemente visual. assim cabe referir autores como Thomas Csordas (1990.

vim gradualmente a compreender a importância crucial ocupada pelas ansiedades pessoais na consagração da teoria da tragédia pessoal como a narrativa cultural dominante acerca da cegueira. apesar do centrismo visual em que vivemos ter um fortíssimo viés sóciohistórico. Através dela podemos experienciar algo próximo a “sair dos nossos corpos” ─ no entanto. ao falar com pessoas sobre o tema da minha pesquisa frequentemente a cegueira suscitava reflexões em termos que reiteradamente expressavam relacionamentos pessoais com o espectro dessa ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . na construção do mundo envolvente. fazendo o que essa pessoa faz. a angústia da transgressão corporal não é apenas algo vivenciado por alguém que fica cego. essa transgressão é também conhecida por projecções corpóreas empáticas através das quais a cegueira é “trazida para casa”. é uma capacidade eminentemente corporal.. no sentido inverso. Não obstante. Alegar a relevância da angústia da transgressão corporal é sustentar as possibilidades criativas para o significado que resultam da imaginação empática de uma dissolução sensorial e fenomenológica. O papel desempenhado pelas imaginações ansiosas da cegueira foi-se insinuando ao longo do trabalho empírico: nas histórias que me foram sendo contadas pelas pessoas cegas e na observação das interacções sociais. como nos dizem Lakoff e Johnson. Defendo que a relevância que a angústia da transgressão corporal assume nas representações da cegueira não é separável da sua congruência com um contexto onde as heranças simbólicas não poderiam ser menos favoráveis e onde as vozes das pessoas com deficiência se encontram silenciadas. De facto. uma forma de estar no outro (1999: 565. De igual modo. A capacidade para a projecção imaginativa é uma faculdade cognitiva vital. a visão tende a ser um sentido crucial para quem dele pode fazer uso: na realização de actividades.10 cegueira deveria ser. Vivencialmente é uma forma de “transcendência”. De facto. Desde o nascimento nós temos a capacidade para imitar os outros. para intensamente imaginarmos ser outra pessoa. experienciando o que essa pessoa experiencia. a projecção imaginária da cegueira através de um corpo que “vive visualmente” vai forjar algo das ideias de prisão sensorial e incapacidade. Deste modo. Não há nada de místico nela.. Como consequência. Ainda assim esta mais comum das experiências é uma forma de transcendência. minha tradução. nós usamos constantemente as projecções imaginativas para aceder às experiências do outro: Uma função central da mente incorporada é a empática. ênfase no original).

Paul Brodwin. 18 (1): 5-47. Ethos. em termos bem distantes das complexas experiências que as pessoas cegas vivem Referências Bibliográficas BARNES. 1998c. 1999. Stigma: Notes on the Management of Spoiled Identity. University Press. O Elogio da Sombra . e. Lisboa. Arthur. “Pain and Resistance: the Delegitimation and Relegitimation of Local Worlds” in Mary-Jo Good. Estas imaginações projectivas não apenas produzem ansiedades pessoais acerca da cegueira. Exploring Disability: a Sociological Introduction. BORGES.Obras Completas de Jorge Luis Borges 1975-1985 vol. Jorge Luís. Judith.Obras Completas de Jorge Luis Borges 1952-1972 vol II. Londres. Thomas. Teorema. III. Routledge. Tom. 1998b. CSORDAS. elas também são mobilizadas como via de acesso à realidade das pessoas com deficiência visual. O que se produz é. Embodiment and Experience: The Existential Ground of Culture and Self. Bodies That Matter: On the Discursive Limits of Sex. Erving. “acho que preferia matarme”.). O Livro da Areia . Cambridge. pois. III. Byron Good e Arthur Kleinman (orgs.Obras Completas de Jorge Luis Borges 19751985 vol.11 condição. 1992. Sete Noites . Cambridge. Penguim Books. Polity Press. etc. Geof e Shakespeare. BORGES. não sendo raras frases como: “não sei conseguem”. 1990 (1963). GOFFMAN. KLEINMAN. finalmente. mas fracassa em perceber como a vida de alguém se pode vagarosamente reconstruir em novos termos sem a visão. fracassa em conceber o mundo sem perda de alguém que nasceu cego. Thomas (org. BORGES. A questão é que uma tal imaginação permite captar algo do eventual impacto de uma súbita perda de visão. CSORDAS. Lisboa. “Embodiment as a Paradigm for Anthropology”. Jorge Luís. e Mercer. Colin. Jorge Luís. 1998a. Teorema. 1993. A ruptura existencial que esta empatia sugere e exporta para os significados sociais toma parte na re-produção das representações culturais prevalecentes. Berkeley. Nova Iorque. Lisboa.). Teorema. 1990. uma identificação empática parcial e errónea. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . 1994. BUTLER. fracassa em apreender a adaptação permitida por uma cegueira que caminha gradualmente ao longo dos anos. University of California Press. Pain as Human Experience: An Anthropological Perspective.Cambridge.

Nova Iorque. The Politics of Disablement. Philosophy in the Flesh: The Embodied Mind and its Challenge to Western Tthought. 63: 237-280. SARAMAGO. George e Johnson. 1992. Revista Crítica de Ciências Sociais. Lisboa. Basic Books. The Macmillan Press. TURNER. “Para uma Sociologia das Ausências e uma Sociologia das Emergências”. Círculo de Leitores. 1990. José. Boaventura de Sousa. Houndmills. Londres. SANTOS. Regulating Bodies: Essays in Medical Sociology. OLIVER. 2002. Ensaio Sobre a Cegueira. Mark. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . 1999. Routledge.12 LAKOFF. Bryan. 1995. Michael.

Nesta vasta região. nas quais o turista é sistematicamente apresentado como o predador que apenas procura satisfação sexual e. afectos. amor e interesse entre gringos e garotas em Natal (Brasil) Fernando Bessa Ribeiro e Octávio Sacramento Departamento de Economia e Sociologia Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro fbessa@utad. D’Epinay 1991) – mais tardia no caso português (Arroteia 1994) – e. Tal interpela as imagens “a preto e branco”. em boa medida impulsionado pela redução dos custos das viagens de avião intercontinentais proporcionada pelos avanços tecnológicos e organizativos no sector dos transportes aéreos (Urry 1990: 44-50). Debié 1995. o próprio desenvolvimento do capitalismo na procura e invenção de novos mercados e produtos (Ribeiro e Portela 2002). Tentando escapar aos discursos vulgares. Turistas e locais participam em complexos jogos de poder. a mulher jovem local vista como vítima.pt Este texto analisa as interacções entre os turistas europeus e as garotas de programa na cidade de Natal (Brasil). o corpo. com a consolidação do Estado-Providência (Santos 1993) nos países europeus centrais (Boissevain 1996.A ilusão da conquista: Sexo. conduziram à incorporação sucessiva de novos destinos na geografia mundial das rotas turísticas. sem capacidade de autodeterminação sobre o seu corpo e a sua sexualidade. Um dos mais recentes é o do Nordeste brasileiro. procura-se mostrar a densa teia de racionalidades que estruturam as práticas destes actores sociais. com destaque para o dinheiro. implicando a manipulação de recursos. por outro. sexualidade.pt riosacra@portugalmail. por outro lado. Palavras-chave: género. o Estado do Rio Grande do Norte ocupa uma posição consolidada como ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . interesse. muito intensa a partir dos anos 60. turismo 0. Introdução A expansão do turismo de massas. a performance sexual e as emoções.

fazendo com que entre os turistas se assista a uma presença crescente daqueles que escapam ao padrão dito tradicional. não escapa a esta mercantilização.700. Com um crescimento verdadeiramente impressionante nos últimos cinco anos. motivadas por um conjunto de representações e expectativas ancoradas em imagens de erotismo e de acesso fácil à fruição sexual. pelo menos desde os anos 60. Natal é a cidade com maior número de visitantes estrangeiros no Nordeste brasileiro. Tal é particularmente evidente nos turistas jovens do sexo masculino que afluem ao Nordeste brasileiro. a cidade de Natal. em particular. como os jovens e adultos pertencentes aos meios populares.000. de origem operária ou trabalhando em actividades mal remuneradas do comércio e dos serviços. De facto.2% superior a 2002). Considerando que na economia do turismo as commodities não possuem apenas valor de uso e de troca mas também um “valor-signo”. Hitchcock et al. através da publicitação da 1 Dados disponibilizados pela Secretaria de Turismo do Estado do Rio Grande do Norte. Leheny necessariamente de modo intencional. depois de Fortaleza e de Salvador.84% superior a 2002). Não sendo um fenómeno desconhecido noutras paragens. muitos deles solteiros ou transitoriamente sem parceira/o sexual. que parece constituir uma motivação presente em numerosos europeus que visitam o nordeste brasileiro (Piscitelli 2004) e. Por outro lado. Saraceno e Naldini 2003) têm vindo a repercutir-se significativamente na configuração da procura turística. contribuindo assim para que o número total de turistas atingisse os 1. 92. cabendo aqui um especial realce para a sua capital. mamã e filhos”.2 um dos principais destinos turísticos. cujas deslocações são. elas são fortemente determinadas pelas imagens. 1 Deste vasto fluxo turístico passaram a fazer parte indivíduos de classes e grupos sociais até então apenas marginalmente envolvidos. Singly 1993. publicidade e consumismo que caracterizam as sociedades modernas (Baudrillard 1981). muito em particular no sudeste asiático (Cohen 1982. 1993. a procura de sexo por parte dos turistas. as profundas alterações sociológicas no domínio da família experimentadas pelas sociedades europeias nas últimas décadas (Berry-Brazelton 1989.000 (24. os voos charters internacionais passaram de cinco em 2002 para 17 por semana em 2004. impulsionado pelas entidades públicas ligadas à promoção turística no Brasil. com um aumento vertiginoso dos provenientes do estrangeiro (282. assente no “papá. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Por outras palavras. amiúde. Truong 1989. relacionado com a quantidade e a qualidade da experiência que oferecem.

a performance sexual e as emoções. A designação garotas de programa. implicando a manipulação de recursos. Se é certo que não deixa de estar marcada pelas relações de poder entre os de fora e os locais – que nos remete para a problemática das desigualdades. turistas e locais envolvem-se em complexos jogos de poder. Entre os turistas e as mulheres locais estabelece-se um intrincado jogo de relações sociais em torno da sexualidade. por sua vez. incluindo os que se prendem com o sexo mercantil e o turismo. conhecidos localmente como gringos. incluindo aquelas que se fundam no género. se orienta para a procura doutras satisfações. portanto. encontramos formas muito diversas de relacionamento sexual que se concretizam em diferentes contextos sociais. Em concreto. como notam Silva e Blanchette (2005). com destaque para o dinheiro. enunciados nomeadamente pelos media e pelo senso comum. em determinados momentos. o corpo. estabelecem com as garotas de programa. é nosso objectivo central interpretar a densa teia de motivações. quer do ponto de vista económico quer do ponto de vista do imaginário colectivo e das representações dos actores sociais locais e dos turistas que visitam a cidade. Longe de existir apenas um único modo de a fruir. é um termo que no Brasil se aplica a qualquer estrangeiro. racionalidades e interacções que envolvem estes actores sociais. nas quais o turista é sistematicamente apresentado como o predador que Gringo. Torna-se. que nos ajudam a desconstruir as imagens monolíticas. 2 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . do género e das emoções que exige uma reflexão sociológica densa e um conhecimento empírico aprofundado. Hoje em dia trata-se de uma realidade social incontornável e de grande impacto em Natal. que marcam os intercâmbios entre o Norte e o Sul –. suscitando a atenção dos media e das forças políticas do Estado. não tendo necessariamente uma conotação pejorativa. a compreensão cabal desta teia densa de relações sociais exige que se tomem em consideração outros aspectos. procuraremos reflectir sobre as relações sociais que os turistas. pertinente trabalhar sobre este interpelador campo social. Partindo de perspectivas sócioantropológicas e explorando os elementos etnográficos que recolhemos durante o trabalho de campo realizado no Verão de 2005 na cidade de Natal. 2 Tentando escapar aos discursos vulgares. apesar de estar associada. é usada nos discursos sociais para fazer referência a mulheres que se prostituem ou que são tidas como sexualmente promíscuas (Gaspar 1985). à procriação. Neste exercício é fundamental assumir-se que a sexualidade humana.3 imagem da mulata com bunda generosa.

pizzerias e outros negócios ligados ao turismo. 4 Por detrás da praia localiza-se a pequena vila de Ponta Negra. nos bares e nas discotecas que gringos e garotas constroem relações sociais nas quais o corpo. a mulher jovem local vista como vítima. Em plena praia posicionam-se pequenos espaços de apoio aos veraneantes. a sexualidade e o dinheiro aparecem como elementos estruturantes. homens. amplamente discutido pelos filósofos libertários (Van Parijs 1997. A presença italiana faz-se notar através dos inúmeros anúncios escritos na língua de Leonardo da Vinci. 3 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . que dão um ar americanizado à cidade. em troca de remuneração mercantil. Mas não só. nomeadamente identificando ristorantes. É aqui. 3 1. cultivando as suas terras férteis. a praia é dominada pelo “morro do careca”. desprovida de self-ownership sobre o seu corpo e a sua sexualidade. situam-se precisamente por detrás da primeira linha de praia. Os prédios altos. pousadas. turismo sexual e sexo mercantil interpelam o princípio do chamado selfownership. como o tipo de envolvimento emocional e a questão do poder no contexto das relações de género. por outro lado. aparthotéis. com numerosas residências e propriedades adquiridas quer por europeus quer por natalenses que aí decidiram fixar residência. Trata-se da discussão sobre os limites do direito de cada um dispor do seu próprio corpo. 4 Ao longo dos cerca de dois quilómetros da estreita língua de areia que dá corpo à praia erguem-se hotéis. Embora muito diferente em termos paisagísticos e a uma escala mais reduzida. incluindo o da utilização para satisfação do prazer físico e emocional de outros. a vila está hoje mergulhada num acelerado processo de gentrificação. no calçadão. Constituindo hoje um espaço-chave na “cidade do prazer” (Lopes Júnior 2000). esta articulação entre turistas e sexo mercantil compreende outros aspectos. os prédios que ficam na encosta da praia fazem lembrar alguns dos piores exercícios Em termos filosóficos. oferecendo esteiras. 2000a e 2000b). com uma faixa de areia interrompendo a vegetação. realizando obras de ampliação e de melhoramento das habitações. restaurantes e bares.4 apenas procura satisfação sexual e. uma encosta belíssima debruçada sobre o mar. mulheres ou transgéneros. situada no extremo sudoeste da cidade. Vallentyne e Steiner. nas esplanadas. melhor dito. Um lugar dionisíaco e economicamente dinâmico: a praia de Ponta Negra Um dos principais cenários turísticos de Natal e com maior presença de garotas de programa é a praia de Ponta Negra. Com o turismo e a expansão da cidade. guarda-sóis e serviço de bar. Durante séculos os seus habitantes viveram praticamente de costas voltadas para a praia.

vivem das dinâmicas económicas geradas. os estupefacientes. da praia como um lugar idílico. actualmente a praia mais cosmopolita do Rio Grande do Norte. fruta. 5 Esta praia. era nos anos 60 e 70 do século passado um point de “alternativos”: jovens das classes mais privilegiadas de Natal. pelas trocas sexuais de carácter mercantil. muitos deles politicamente engajados nas lutas estudantis contra a ditadura militar. que encontravam neste espaço paradisíaco. De forma recorrente cooperam entre si para dinamizar os consumos por parte dos turistas. roupa. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . os próprios agentes policiais. Todos os actores sociais envolvidos parecem saber com precisão o lugar ocupado nesta divisão social do trabalho do prazer. Muitos destes “alternativos” falam hoje com saudade deste tempo em que a praia não estava bordejada pela urbanização avassaladora. fastfood). que liga a zona de Ponta Negra ao velho forte construído pelos portugueses no século XVI. ao início da noite. incluindo aquelas ligadas ao sexo e ao consumo de estupefacientes. o comércio e serviços prestados pelas barracas do areal.5 urbanísticos do Algarve e da costa andaluza espanhola. os bares e as discotecas da avenida marginal. ao ponto de os habitantes locais até já a terem (re)baptizado com o nome de Puta Negra. sente-se o carácter predador do turismo. quinquilharia. transportando-as de suas casas para a praia. Relevando o seu sentimento de perda. a venda ambulante dos mais variados produtos (tabaco. Ponta Negra era qualificada como uma “praia de apelos sexuais” (Francisco 2004). Nesta praia tudo parece girar em torno do sexo mercantil. em especial. onde se acampava e se faziam fogueiras. numa zona de paisagem protegida. CD e DVD. directa ou indirectamente. primeiro Pirangi e Cotovelo. É assim que temos. presença obrigatória em todos os catálogos e brochuras de promoção turística editados pelo governo estadual e pelo município local. o desenvolvimento do turismo. sempre repletas de trabalhadoras sexuais. as lojas de artesanato. A expansão da cidade e. os taxistas a colaborar com as garotas. entre outros exemplos. 6 Quer dizer. 6 Numa notícia saída no jornal “Tribuna do Norte”. com a ocupação de um litoral dunar muito sensível por um sem fim de hotéis e empreendimentos turísticos literalmente em cima do mar. mais tarde Pipa. distante da cidade e com acesso precário. construída nos anos 90 do século passado. as condições suficientes para experiências sociais mal toleradas pela ordem político-moral dominante. um deles afirmou que “onde a civilização chega acaba com tudo”. nesta economia do prazer todas as demais actividades. empurrou os alternativos para praias mais distantes. como o transporte de passageiros em táxis. encarregando-se também do seu transporte aos motéis e 5 Avançando pela estrada marginal.

muitos turistas aproveitam para recuperar da noite agitada. esta situação revela o papel social decisivo desempenhado actualmente pelas actividades informais no Brasil. Os produtos mais pesados. 7 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . todavia. os carrinhos de venda de CD e DVD fazem-se anunciar através de equipamento sonoro simples. como por exemplo o comerciante da barraca e algum dos seus empregados. Durante estas longas e fatigantes viagens tinham na “carne-sol” moída no pilão e misturada com farinha o seu principal alimento. não deixando. na escolha da parceira. para aí venderem e comprarem mercadorias. de conviver com as garotas de programa. num vai-e-vem aparentemente ininterrupto. Estes são realizados quase sempre por iniciativa das jovens Um dos pratos mais populares é a paçoca: carne seca moída acompanhada de molho vinagrete e feijão. a mediação entre as garotas e os turistas pode envolver vários outros intervenientes. amêndoa de caju. cremes solares. aconselhando-os mesmo. vendendo de tudo um pouco: roupa.8 Durante o dia. os comerciantes informais podem conseguir por mês rendimentos entre dois a três salários mínimos (cerca de 750 a 1000 reais). Ao mesmo tempo disponibilizam a estes contactos de garotas anotados nos seus books – agendas ou pequenos cadernos de registo de contactos telefónicos –. alguns com belas pinturas. são transportados em carrinhos de mão apresentados de uma forma impecável. 7 os vendedores ambulantes percorrem a praia sem cessar. Os barraqueiros alugam cadeiras e toldos. ora continuando a relação social já estabelecida. ora aproveitando para estabelecer novos contactos. CD e DVD. bebidas. Ainda que muito variável. geralmente marcada por actividade sexual intensa e pelo consumo em grande quantidade de bebidas alcoólicas. servem bebidas e refeições. camarão. 8 Não sendo relevante para a presente discussão. as políticas neoliberais empurraram milhões de brasileiros para o campo da economia informal. Relevando o engenho dos seus proprietários e um certo sentido de negócio. Nada falta para o conforto de um tempo bem passado. Incapazes de gerar emprego formal. frutas. gelados. durante o período diurno a praia é frequentada não só pelos turistas em busca de sexo mas também por outros tipos. O uso social da praia varia consideravelmente do dia para a noite. com base na aplicação de um auto-rádio alimentado por uma pequena bateria e dois altifalantes de qualidade modesta parecendo quase sempre ligados na sua máxima potência. Foi uma invenção dos mercadores sertanejos que viajavam desde o sertão nordestino para as cidades do litoral. como as bebidas. crepes. nomeadamente o “familiar” e o de proveniência interna.6 hotéis para as “transacções” com os turistas. Além dos taxistas. Marcada pela auto-exclusão quase geral dos natalenses das classes sociais mais privilegiadas. por vezes. única forma de garantir a sobrevivência e o acesso ao consumo mercantil. mormente para Recife.

não deixam de ir retirando alguns benefícios desta economia do prazer. para onde converge a grande maioria das garotas de programa e dos turistas de Ponta Negra. de nacionalidade italiana. Depois de mais algumas cervejas. em cada noite podem ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . do olhar. Para além destes actores sociais. quer circulando em viatura automóvel. Pertencendo ao mesmo proprietário. o areal esvazia-se em favor do calçadão e dos estabelecimentos de restauração e de diversão alinhados ao longo da avenida que bordeja a praia. Pernambuco – os mais próximos –. Assim que a noite se impõe. estas “[…] aproximações adquirem características de uma paquera […] remetendo a padrões tradicionais de cortejo”. A noite começa invariavelmente por algum bar ou restaurante. ao mesmo tempo que tentam obter das garotas de programa alguns serviços sexuais gratuitos. quer em posição fixa. que “é raro pegar na discoteca alguma mulher que não seja de programa”. marcam também presença agentes da Polícia Militar. Como nota Piscitelli (2006). Por norma. nomeadamente para a avenida que faz a ligação da praia ao centro da cidade. outros transportados por táxis que estacionam na avenida. onde também existe animação nocturna. Pará e Amazonas – os mais distantes. algumas provenientes de outros Estados brasileiros. montadas ao início da noite em pleno passeio mesmo em frente das duas discotecas da praia. a exposição para o turista e a interpelação que se segue é feita de forma mais ou menos subtil: através da postura corporal. preparados para as corridas em direcção aos motéis ou aos hotéis onde eles se alojam. ou talvez para um destino mais afastado. como é o caso dos visitantes cujos hotéis se localizam na própria avenida da praia ou nas artérias adjacentes. extorquindo aos turistas que se deslocam em carros alugados pequenas quantias monetárias em troca do perdão de multas relativas a infracções reais ou imaginárias por eles cometidas. do sorriso. Daí segue-se para as barracas em frente das discotecas acima referidas. Diga-se. uns a pé. Turistas e garotas vão chegando.7 nativas. não raro com música ao vivo. da solicitação de um cigarro. como um dos nossos informantes relevou. caipirinhas ou outras bebidas alcoólicas. Se bem que exerçam um papel dissuasor da criminalidade. estas discotecas funcionam em regime alternado. Aos restaurantes e bares fixos juntam-se cerca de meia dúzia de barracas móveis. Ceará. como Paraíba. Maranhão. aliás. em virtude do movimento não justificar outra solução. a diversão continua sobretudo na discoteca da avenida da praia de serviço nessa noite. Segundo o respectivo proprietário.

Ainda que se encontrem as mais diversas posições de classe. de que resulta a combinação de numerosos consumos sexuais de carácter mercantil. São. sobretudo. profissões. como por vezes se sugere. quando se diz que os turistas que vêm à procura de sexo são indivíduos sexualmente perturbados. homens insatisfeitos com as relações de género nos seus contextos de origem. de um modo geral. nomeadamente em termos de duração do possível relacionamento. idades. há uma certa preponderância dos indivíduos das classes populares (trabalhadores fabris) e. perfis de masculinidade e estrato social. É neste espaço que as interacções entre turistas e garotas atingem um nível elevado de erotismo e sedução. Podendo prolongar-se por várias horas.8 passar por lá cerca de 300 mulheres à procura de programas com gringos. os actores envolvidos dão-se a conhecer. Temos assim o predomínio de turistas de nacionalidade espanhola e italiana. referindo-se aos turistas ingleses que procuram sexo comercial na Tailândia. preferências sexuais e recursos financeiros a mobilizar por parte do turista. sexo e romance: os gringos Os turistas que frequentam a praia de Ponta Negra à procura de aventuras sexuais evidenciam uma considerável diversidade no que diz respeito aos seus países de origem. portanto. Tratam-se de interacções definidas por um jogo de sedução no qual o discurso. 9 O seu comportamento deverá ser interpretado sobretudo por referência a condicionalismos de ordem sociológica. Não há. Buscando aventura. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . um turista típico no quadro do chamado turismo sexual. profissionais técnicos). dos diversos segmentos das classes médias urbanas (empregados do comércio e dos serviços. normalmente viajando em grupo (3 a 6 elementos). quase sempre motivados pelas representações sociais dominantes sobre a sexualidade da “mulher 9 O’Connell-Davidson (1995: 53). 2. existem determinados elementos caracterizadores que sobressaem. Embora seja inadequado falar-se de um perfil-tipo de turista sexual. os gestos e o uso do corpo desempenham funções importantes. aferindo as expectativas de ambos. funcionários públicos. entre outros aspectos. com destaque para esta. adverte que não existe nada de verdadeiramente particular ou distintivo nos seus comportamentos. desejos e sexualidade. motivações. na sua maioria jovens adultos (entre os 30 e os 40 anos).

destacam também que as garotas de programa têm um grande interesse pelo dinheiro. em boa medida amplificadas pelos discursos mediáticos de impacto global e pelas narrativas dos amigos e conhecidos que se envolveram em experiências sexuais com brasileiras em viagens turísticas ao Brasil. ou seja. num registo de certo modo paradoxal. com 31 anos. Considerando que não dão tanto valor à aparência do homem como na Europa. relacionado com as expectativas de revivalismo de experiências de homossociabilidade da juventude. no sentido de estarem disponíveis para um relacionamento menos atado à fase do enamoramento em favor de uma interacção sexual mais imediata e intensa. mais altivas. e o relativo constrangimento em conviver com uma feminilidade ocidental que continua a colocar algumas limitações às preferências e valores predominantes da masculinidade são dois elementos centrais a considerar para compreender o fenómeno do turismo sexual (O’Connell-Davidson 1995: 52). eventualmente. “a brasileira é boa para transar. classificam-nas como “mais simples”. de status ou de apresentação do eu. que elas ligam muito à aparência e à capacidade económica do homem. solteiro. com os estereótipos da mulher brasileira como sexualmente libertina e promíscua. especialmente válido para os turistas mais velhos. Deste modo. técnico administrativo no porto de Nápoles. o turismo parece ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Alguns deles. A maior dificuldade de acesso às mulheres que os turistas gostariam de conquistar nos seus contextos de origem. também constatada por Piscitelli (2006) entre os turistas que visitam Fortaleza. a italiana é boa para casar”. sobretudo os italianos. seja por motivos económicos. para os grupos de gringos que visitam Ponta Negra. Como dizia um italiano. dizem que as europeias são “mais frias.9 brasileira”. a procura de recriação dos laços e das vivências masculinas que antecedem a rotina e as responsabilidades da vida adulta (Kruhse-Mountburton 1995). Em contraponto. como veremos. sublinhando. por razões que certamente se prendem com aspectos relacionados com a afinidade cultural e. Apesar desta avaliação desfavorável à mulher europeia. são muitos os que admitem preferir casar com uma mulher do seu país em detrimento de uma brasileira. Os turistas com quem falámos tendem a estabelecer uma diferenciação bastante vincada entre as mulheres brasileiras e as europeias. ainda que daqui não se possa afirmar. Referem-se às brasileiras como mulheres sexualmente “mais quentes e mais afectuosas”. A estes dois elementos junta-se um terceiro. mais snobes”. mais conservadoras. que a dimensão afectiva não esteja presente.

essencialmente. Santana 1997. eventualmente. É precisamente num ambiente de anonimato. não raro. os turistas que visitam Ponta Negra. de ruptura face às restrições sociais da vida quotidiana (O’Grady 1981) e de (re)constituição de um espírito de communitas masculina (Turner 1974). uma expressão extrema da ruptura com a previsibilidade e os constrangimentos quotidianos que o turismo de massas ambiciona (MacCannell 1976. “a liminalidade. A sua estadia em Ponta Negra é marcada pelas constantes saídas em grupo para os bares e discotecas à procura das mulheres locais e pelo consumo desregrado de álcool e. Neste contexto de excessos tem lugar um estreitamento dos laços homossociais entre os membros do grupo. de estupefacientes. Com efeito. sexo e romance se encontram tão interligados”. imaginação e aventura”. “o turismo sexual tem subjacente um potencial de rejuvenescimento […] o sentimento pessoal de conquista e poder que proporciona pode constituir uma compensação para um indivíduo que. parecem não manifestar qualquer tipo de preocupação ou constrangimento pelo facto de serem vistos na companhia de garotas de programa. decorrente de uma experiência de transição espacial e social. caracterizado pela liberdade face às normas sociais quotidianas – situação social anti-estrutural –. assim. Jafari 1987. O turismo sexual constitui. amor. de um modo geral.10 assumir-se como uma experiência de liminaridade. como destaca Kruhse-MountBurton (1995: 197). na sua vida quotidiana. aventura e fantasia. o que nos permite incluí-los no tipo “hedonístico”. que os turistas de Ponta Negra enveredam por um estilo de vida dionisíaco. explica porque é que turismo. Desta forma. ao dever e à obrigação […] e também a liberdade para a fantasia. ou seja. a deslocação temporária do turista da sua vida quotidiana. assim. Como nota Franklin (2003: 255). em virtude da distância que os separa dos seus contextos de origem. pela festa e transgressão (Bataille 1962) e pelos excessos dionisíacos (Benedict 1950). sentir de novo o poder e o orgulho viril que a vida quotidiana. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . a diversão e o prazer como forma de ruptura com o quotidiano laboral. proposto por Cohen (1979) para designar os turistas que procuram. é incapaz de manifestar qualquer tipo de autoridade efectiva”. perante os quais se procura (re)afirmar os atributos de masculinidade (muito em particular os que dizem respeito à capacidade de conquista sexual) e. No entender de Bauer e McKercher (2003: xiv). “viajar proporciona anonimato e evasão face ao controlo. atenuou. Delgado 2004).

da sua competência de sedução. mas pagam mal”. assumindo-se. Na construção desta ilusão. retomam nos períodos de férias seguintes. Impõe-se. parecem não nutrir grande simpatia pelo brasileiro. que fodem bem. São.11 As conquistas sexuais que os turistas tanto procuram exercitar. um derivado da ilusão que as garotas de programa criam como estratégia comercial subjacente à sua actividade. mediáticos e do senso comum que. A valorização dos afectos e das emoções por parte de muitos turistas constitui um traço identitário não enquadrável naquelas que são as expectativas sociais dominantes do que é ser homem. concretizar as suas fantasias sexuais e afirmar a sua virilidade. assim. Dizem que os portugueses são “cafussú (querem comer [ter relações sexuais] de graça). portanto. no essencial. associando-lhe uma imagem de pé rapado (sem capacidade económica) e de machista. pelo contrário. nem tampouco exclusivamente. em muitos casos. como também com vários outros aspectos que remetem para o domínio da afectividade. De igual modo. Amiúde. na maior parte dos casos. para as garotas de programa como simples objectos de satisfação sexual. Isto porque muitos dos turistas não procuram apenas gratificação sexual mas também intimidade. envolvimento e conforto emocional. É precisamente tendo em conta este tipo de interesses que elas parecem não denotar grande preferência pelos portugueses. não resultam. como veremos. Os turistas não olham todos. consequentemente como uma manifestação “subordinada” de masculinidade (Connell 1995). elas preocupam-se não só com as questões mais directamente vinculadas à esfera da sexualidade. são eles próprios alvo de manipulação. procurando. de forma linear e acrítica. de acordo com os interesses económicos daquelas. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . tendem a referir-se ao fenómeno do turismo sexual como um contexto no qual os homens poriam de lado as emoções e dariam livre curso à sexualidade. questionar alguns discursos teóricos. Só assim se compreende o facto de muitos deles desenvolverem relações de longa duração com uma única mulher que.

partilhada por ambos. de estranhar as inúmeras construções acerca da competência emocional.. Não são. Idêntica situação é constatada por Oliveira no seu estudo sobre a prostituição de rua na cidade do Porto (Portugal). contribuindo. Algo que foi também observado por Manita e Oliveira (2002) e Handman e Mossuz-Lavau (2005). as garotas de programa constroem um simulacro (Baudrillard 1991) no qual se apresentam como completamente rendidas à capacidade de sedução e de conquista dos indivíduos que com elas interagem. 10 Neste processo estratégico de criação de uma “ilusão de ‘normalidade’” (Piscitelli 2006). portanto. 10 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . erótica e sexual da mulher brasileira que emergem nos discursos dos turistas com quem falámos e em muitos outros que partilham as suas experiências no ciberespaço. não tendo efectiva consciência de que elas estão apenas a desempenhar o seu “papel”. as quais. recusam beijar os seus clientes. como uma forma de demarcação da fronteira entre a esfera profissional e a pessoal (Ribeiro et al. Muitos dos turistas julgam mesmo como genuínas as atitudes e emoções das garotas de programa. para a disseminação de uma imagem (racializada) da mulher sul-americana altamente valorizada no mercado erótico. por norma. 2005). mas também romance e emoção. elas encenam uma realidade em função daquilo que julgam ser as expectativas dos gringos. O beijar na boca constitui um dos principais componentes do simulacro da sua rendição emocional. manipulando assim as suas impressões e fazendo-lhes acreditar na genuinidade da cena. que deve ser entendido no contexto de uma representação do relacionamento como estando dentro da norma e do socialmente reconhecido como o namoro e o sexo monetariamente desinteressados. como amplamente o demonstra Piscitelli (2005).12 3. mas está a fazer sexo sozinho. a que não é alheia a própria alteração da geografia internacional do turismo sexual. A ilusão é-lhe presenteada a troco de dinheiro” (2004: 177). o que nos permite Comportamento totalmente diferente têm as trabalhadoras sexuais que exercem a actividade na zona raiana de Portugal e Espanha. gringos e garotas. levando-a mesmo a referir-se às trabalhadoras sexuais como “vendedoras de ilusões”: o cliente “[…] pensa que está a fazer amor com uma mulher. Fazendo intimidades e aspirando a uma outra vida: as motivações e os projectos das garotas de programa Mais ou menos conscientes de que a uma grande parte dos turistas não interessa apenas o sexo pelo sexo. As garotas de programa parecem ser especialmente entendidas nesta arte de sedução manipulatória.

ir para a Europa. No nordeste brasileiro é ainda bastante frequente o homem bancar a mulher. como também (e sobretudo) uma ilusão de conquista. Debatendo a articulação entre a prostituição orientada para turistas na Tailândia e o fenómeno dos casamentos transnacionais entre nativas e estrangeiros. eventualmente. não raro. Nestes casos de relacionamento amoroso. mais tarde. assumindo. aos seus serviços sexuais. Cohen (2003: 66) mostra a frequente evolução e continuidade de uma relação comercial para uma relação matrimonial. tendo como contrapartida o seu trabalho em casa e o acesso. destacando que não há uma fronteira nítida entre a prostituição e o casamento. 11 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . esta vertente mercantil não desaparece.” Esta é uma situação favorável à concretização dos interesses comerciais e/ou dos projectos de vida da garota de programa. em princípio em regime de exclusividade. na Tailândia. poderá até permitir-lhe a realização do sonho da maioria das jovens que fazem programas em Ponta Negra: casar com um gringo. ao ponto de se poder considerar o matrimónio com um estrangeiro como a consequência última do exercício do sexo comercial. estabelecer um relacionamento amoroso com um ou outro turista que a ajudará economicamente e que. ser bancada (sustentada) por ele e.13 dizer que o turista não compra apenas serviços sexuais. permitindo-lhe conquistar e fidelizar clientela e. sendo que a vertente mercantil associada à sexualidade começa gradualmente a tornar-se menos explícita. A este propósito. geralmente. de competência viril e crê ser um autêntico Don Juan. a que surge associada uma “[…] ilusão de ‘normalidade’ que possibilita aos visitantes não necessariamente se perceberem como clientes” (Piscitelli 2006). O’Connell-Davidson (1995: 45) refere o seguinte: “[…] todos os turistas sexuais que entrevistei comentam o facto de que. configurações que fazem lembrar as obrigações que sustentam o tradicional contrato matrimonial patriarcal. um simulacro no qual ele parece sentir-se inebriado de poder. 11 Entra-se então aqui num contexto de “prostituição difusa”. No entanto. mas sim uma grande ambiguidade. aquilo que começou por ser uma relação meramente prostitucional – prestação de serviços sexuais a troco de dinheiro – evolui para uma relação de um certo envolvimento afectivo. segundo o qual é obrigação do marido bancar a sua esposa. vivem como ‘reis’ ou playboys. ou melhor.

sem ele saber. o pagamento da renda de casa. e na esteira do que é referido por Oppermann (1998. para satisfação ou prazer sexual. 12 a aquisição de móveis para a casa. ajudas pontuais à família dela ou aos filhos. quantia equivalente a cerca de 300 euros) para abandonar a prostituição. 4. não há de facto prostituição. pelo lado da procura. ao ponto de se auto-excluírem desse local.14 Os benefícios que a garota de programa retira de uma situação em que é bancada pelo gringo podem incluir a mesada. 12 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .500 euros). os ganhos mensais podem ser superiores a 4. No entanto. entendida aqui numa acepção restrita: a disponibilização do corpo em troca de remuneração material (designadamente monetária) e. 2003). suspendendo a actividade somente quando o recebe de visita em Natal. Enquanto espaço de Uma garota de programa que entrevistámos confidenciou-nos receber do seu namorado italiano uma quantia mensal na ordem dos três salários mínimos (cerca de 1000 reais. Considerações finais A praia de Ponta Negra faz parte das rotas turísticas globais. É precisamente tendo em conta estes benefícios. 14 Face a isto. 14 Ao colocar em causa a “ordem natural das coisas”. entre outros. poderá estar na origem do desconforto que as camadas sociais privilegiadas de Natal manifestam relativamente à prostituição em Ponta Negra. 1999) e Cohen (1982. presentes diversos. São benefícios extremamente significativos atendendo a que a generalidade delas provem das camadas sociais mais desfavorecidas. começando já a destacar-se como um destino do chamado turismo sexual. Podendo esta existir (e normalmente está presente) em contextos turísticos. abrindo-lhes a porta para uma estilização da vida semelhante à fruída pelas classes mais privilegiadas. isto é. bem como o facto de a maioria das garotas de programa ter um rendimento bastante considerável para a realidade brasileira. em regra e prioritariamente. a compra de serviços sexuais a troco de dinheiro. Nas situações em que as garotas de programa são bancadas por um gringo não há uma mercantilização directa e imediata da sexualidade. 13 Com programas por noite raramente inferiores a 150 reais. 13 que parece pertinente admitir que o trabalho sexual lhes permite um relativo empowerment económico e social. continua a fazer programas. esta ascensão social de mulheres jovens. pobres e maioritariamente mestiças. é forçoso sublinhar que o turismo sexual não se circunscreve necessariamente à prostituição.000 reais (cerca de 1. a fruição da sexualidade em tempo de férias não tem de estar estritamente a ela associada.

não serão sempre os dominantes. presente também noutros contextos de trabalho sexual (Barry 1979. por si só. através do uso eficiente dos seus recursos. à partida favorecendo os gringos. Daqui decorre que os turistas. em contraste com a debilidade económica da generalidade das mulheres locais com quem eles sexualmente se relacionam. Ao invés do sugerido pelos discursos do senso comum e outros. as jovens locais são muitas vezes capazes de inverter as posições. em boa medida. não significa. os interesses e os desejos dos turistas e das mulheres locais. Se bem que as suas interacções sejam atravessadas por poderes assimétricos. nomeadamente na esfera sexual. Hart 1998). Em lugar das visões a “pretoe-branco”. uma capitalização automática de poder. à semelhança do que acontece em muitos outros destinos. como tentámos mostrar através da mobilização dos elementos etnográficos recolhidos. Como argumenta Foucault (1992). nem aqueles que sempre “ganham”. de contingências várias presentes nos contextos em que ocorrem as suas interacções. que lhes permite desafiar a desigualdade estrutural de género e os estereótipos dominantes que organizam a condição feminina. à semelhança de Oppermann (1999). Quer dizer. nem pode ser vista como o único factor determinante na configuração dos processos relacionais entre estes actores sociais. mas depende. não é possível qualificar os turistas como indivíduos sexualmente pervertidos. impõe-se considerar que uns e outras estabelecem relações sociais permeadas por complexos jogos de poder. nomeadamente sexuais. vinculados a práticas de envolvimento sexual marcadas pela violência e o completo descomprometimento ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . portanto. as garotas colocam em campo os seus atributos físicos e recursos eróticos. a possibilidade de as mulheres locais deterem algum nível de autonomia. incapazes de captar a densidade das relações sociais que envolvem turistas e garotas. Deste modo. a alegada supremacia económica dos turistas. o poder não está estruturalmente atribuído ad eternum aos indivíduos em concreto. questionamo-nos sobre quem explora quem na relação turista-garota de programa e encaramos com sérias reservas os discursos mais comuns que tendem a apresentar as trabalhadoras sexuais como a parte exclusiva e sistematicamente explorada. Admite-se. Enquanto que os turistas mobilizam sobretudo os seus recursos económicos. nela se exprimem e articulam de modo muito próprio as motivações.15 acolhimento deste tipo de turismo. aproveitando criativamente em seu próprio benefício as emoções e os desejos mais profundos dos seus parceiros vindos do outro lado do Atlântico. Heyl 1979.

Relógio d’Água. Lisboa. Love and Lust. Referências bibliográficas ARROTEIA. aproveitando a receptividade de muitos turistas. Assim. através de um envolvimento mais duradoiro que pode incluir o casamento com o gringo e a emigração para o seu respectivo país. Existe. New Jersey. 2003. Walker. entre um pólo em que ele é coincidente com a prostituição e o pólo oposto em que o relacionamento sexual entre o turista e a garota de programa tem subjacente um maior envolvimento emocional e. 1981. Sex and Tourism: Journeys of Romance. O Turismo em Portugal: Subsídios para o seu Conhecimento. A Sociedade de Consumo. não raro. BAUER. o relacionamento sexual pode ser atravessado por afectos de grande intensidade que. 1991. Universidade de Aveiro. 1989. Avon Books. Como os discursos e as observações etnográficas registadas o testemunham.). 1979. Livros do Brasil. uma considerável heterogeneidade nas relações que se estabelecem entre os gringos e as garotas. Já as garotas guiam-se por desejos e projectos que não se esgotam na simples obtenção de um rendimento monetário em troca da disponibilização de serviços sexuais. Guiadas pelo sonho da vida na Europa. BENEDICT. BERRY-BRAZELTON. não está monetariamente quantificado. Ruth. nas quais a componente mercantil acaba por se esbater de forma significativa. Padrões de Cultura. 1994. Edições 70. Thomas e Bob McKercher (orgs. Aveiro. Jorge. BARRY. que se olhe para o turismo sexual como um continuum (Piscitelli 2006). Georges. BATAILLE. 1962. Nova Iorque. Jean. Kathleen. Nova Iorque. Death and Sensuality: A Study of Eroticism and the Taboo. s/d [1934]. BAUDRILLARD. Lisboa. desde logo. Stock. BAUDRILLARD. bem como nos interesses que lhes são subjacentes. Lisboa. Este tipo de situações implica. Jean. La Famille en Crise. Haworth Press. Paris. T. continuam para além do tempo rigorosamente fixado da permanência do turista na cidade. empenham-se em estabelecer com eles relações de namoro.. mais importante ainda. Female Sexual Slavery. pelo menos de forma directa e imediata. Simulacros e Simulação. algumas acabam por o conseguir. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . portanto.16 afectivo.

La prostitution à Paris. “Aproximación conceptual al fenómeno turístico en la actualidad”. DEBIÉ. Londres. 1982. FRANCISCO. Boston. Paulo (2004). Ángel. em ADLER. 1995. Westview Press.. 1993. Londres. Nova Iorque. Paris. Berkeley. Maria Dulce. Sex and Tourism: Journeys of Romance.. “Thai girls and Farang men: the edge of ambiguity”. M. Annals of Tourism Research. Routledge. Robert. “Loisir: dynamique et différenciation sociales”.). University of California Press. Buying and Selling Power: Anthropological Reflections on Prostitution in Spain. Gazeta de Antropología. PUF. Thomas e Bob McKercher (orgs. Power and Social Change. M. CONNELL. Tourism in South-East Asia. em HALL. Thomson. “Rethinking the sociology of tourism”. 32: 163-171. Franck. Love and Lust. 20. Angie. Tourism Management. 1979. JAFARI. Commerce and Coercion. 2005. Junho: 151-159. Jornal Tribuna do Norte. Microfísica do Poder. e S. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . 2000. D’EPINAY.. “Ponta Negra: uma praia de apelos sexuais”. Oxford. Haworth Press. Zahar. GASPAR. HALL. Oxford. C. 2004. Houghton. “Transnacional marriage in Thailand: the dynamics of extreme heterogamy”.). e S. FOUCAULT. Graal. Pinter. Tourism: An Introduction. Coping with Tourists: European Reactions to Mass Tourism. Sage. C. COHEN. 1995. J. Christian Lalive. Éditions de la Martinière. Page. “Tourism models: the sociocultural aspects”. COHEN. Sociétés. et al. FRANKLIN. “Political effects of tourism in the Pacific”. 1987. Bergham CLIFT. Freda e Rita Simon (orgs. HART. Adrian. 1996. Rio de Janeiro. Londres.). Barbara. 2003. Jeremy. Annals of Tourism Research. em BAUER. texto 20-17. Marie-Élisabeth e Janine Mossuz-Lavau (orgs. 9: 403-428. HEYL. 25 de Abril. Jan/Mar: 18-35. 1985. “Prostitution: an extreme case of sex stratification”. DELGADO. Erik. 1992. 1996. Masculinities: Knowledge. Erik. HANDMAN. HITCHCOCK. Michel. Géographie Économique et Humaine. 57-84. Erik. 81-90. COHEN. 1998. Rio de Janeiro. Tourism and Sex: Culture. Carter (orgs. 1979. Londres. The Criminology of Women. 1991. S.). Garotas de Programa: Prostituição em Copacabana e Identidade Social. Tourism in the Pacific: Issues and Cases. Paris.17 BOISSEVAIN. 196-210. 2003.

Novos Terrenos da Antropologia. Homem. M. 2002. Adriana. Celina e Alexandra Oliveira. EDUFRN. 1999. MAcCANNELL. 2000. As Vendedoras de Ilusões: Estudo sobre Prostituição. (Hetero)sexual Politics. Adriana. Alterne e“Striptease”. Nova Iorque. Sex Tourism and Prostitution: Aspects of Leisure. Kamala. PISCITELLI. World Council of Churches. Comissão para a Igualdade e para os Direitos das Mulheres. Rowamn and Littlefield. and Work. 22 (2): 367-384. Martin (org. OPPERMANN.). 1995. “Sex tourism”.. 1999. Taylor & Francis.). em Actas do IV Congresso Português de Sociologia. Homens. Vila Real. 2005. O’GRADY. 2005. Manuela et al. Sex and Gold: Tourism and Sex Work in the Caribbean. Maria Cardeira da (org. D. “Exotismo e autenticidade: relatos de viajantes à procura de sexo”. em MAYNARD. Julia. Prostituição Feminina em Regiões de Fronteira: Actores. Editora 34 (no prelo). Estudo de Caracterização da Prostituição de Rua no Porto e Matosinhos. KRUHSE-MOUNTBURTON. Fernando Bessa e José Portela. Lisboa. resistências e/ou alternativas: David frente a Golias?”. Rio de Janeiro. PISCITELLI. PISCITELLI.). 1981. 2002. Suzy. 1995. “Périplos tropicais: a inserção de Fortaleza nas rotas mundiais do turismo sexual”. “British sex tourists in Thailand”. Cadernos Pagu. (orgs. 2006. MANITA. “Globalizações. Editorial Notícias. “Sex tourism and traditional Australian male identity”. “A political economy of Asian Sex Tourism”. Londres. R. Sage. Adriana. Purvis (orgs. KEMPADOO. Associação Portuguesa de Sociologia. Lanham. Cognizant Communication Corporation. em SILVA. 2001. Lisboa. Sun. Third World Stopover: The Tourism Debate. International Tourism: Identity and Change. Entre a Prostituição e os Namoros de Verão: Género e Sexualidade no Contexto do Turismo Internacional. 2004. UTAD/UM/UBI (relatório final do Projecto Sapiens/99 POCTI/36472/SOC). Annals of Tourism Research. em COSTA. 25: 281-326. Londres. Annals of Tourism Research. Recreation. Porto. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . O’CONNELL-DAVIDSON.). em LANFANT. Albertina. OLIVEIRA.. Alexandra. Marie-Françoise et al. Outros trópicos: Novos Destinos Turísticos. The Tourist: A New Theory of the Leisure Class. São Paulo. Nova Iorque. “Viagens e sexo on-line: a internet na geografia do turismo sexual”. 1995. Fapesp (relatório parcial de pesquisa). D. Adriana. A Construção da Cidade do Prazer. Edmilson.. Livros Horizonte: 101-123. Genebra. RIBEIRO. Estruturas e Processos. Martin. Natal. e J. 26 (2): 251-266.18 LOPES JUNIOR. Lisboa. 1998.. Schocken. 1976. OPPERMANN. RIBEIRO. LEHENY. PISCITELLI. 2004.

1990. 25: 249-280. Oxford University Press. Londres. SEABROOK. F. Editora Vozes. Palgrave..). Sociologia da Família. Victor. European University Studies. Portugal: Um Retrato Singular. turismo e deslocamento transnacional em Copacabana”. Theuns e F. Real Freedom for all: What (if Anything) Can Justify Capitalism? Oxford. T. URRY. Money and Morality. Hampshire. VALLENTYNE. Phillippe. Thanh-Dam. 2003. Sage. em SINGH.). 1990.. La Sociologie de la Famille Contemporaine. VAN PARIJS. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . SILVA. 1995.). “The dynamics of sex tourism: the case of South East Asia”. 1996. Viejas Barcelona. Boaventura de Sousa. The Tourist Gaze: Leisure and Travel in Contemporary Societies. Porto. Nathan.19 SANTANA. Antropología y Turismo:¿Nuevas Hordas. 1989. Agustín. Naldini. “O Estado. Paris. Boaventura de Sousa (org. 2000b. Sex. Culturas? SANTOS. Berna. Editorial Estampa. The Origins of Left Libertarianism: An Anthology of Historical Writings. Afrontamento: 15-56. 2000a. Lisboa. Hampshire. 2005. Palgrave. Londres. O Processo Ritual: Estrutura e Anti-estrutura. F. Cadernos Pagu. 1993. “Nossa Senhora da Help: sexo. TRUONG. as relações salariais e o bem-estar na semiperiferia: o caso português”. Thanh-Dam. Zed Books. John. Left Libertarianism and its Critics: The Contemporary Debate. Pluto. 1974. 1997. Ana Paula e Thaddeus Blanchette.). SARACENO. Peter e Hillel Steiner (orgs. VALLENTYNE. Ariel. Chiara e M. Go (orgs. 1993. Petrópolis. Peter e Hillel Steiner (orgs. Travels in the Skin Trade: Tourism and the Sex Industry. Jeremy. Towards Appropriate Tourism. em SANTOS. TRUONG. TURNER. SINGLY. Londres.

Momento. No Brasil. começou a ser difundido um discurso sobre o fim da Praia de Iracema. que há um interesse. * Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal do Ceará/Brasil. O uso social dos seus corpos. É notável nos estudos urbanos que a “requalificação” de áreas históricas e/ou degradadas da cidade vem acarretando em uma ruptura dos seus usos. pertença. Uma nova imagem-síntese se constituiu associando-a ao lugar de prostitutas e gringos. entre prostitutas e gringos se relacionam com as novas formas de uso do espaço urbano. Os conflitos decorrentes das trocas sexuais. por parte do governo estadual. sentimentos relacionados a valores morais. um tema de grande relevância nas pesquisas sociológicas e antropológicas. povoa o imaginário dos fortalezenses como um bairro boémio. a imagem de boémia. Ceará-Brasil. o diálogo entre diferentes formas de ocupação do espaço e novas representações. turismo sexual e prostituição. ou não usos.Praia de Iracema como cenário de encontros de alcova Roselane Gomes Bezerra * Universidade Federal do Ceará A Praia de Iracema localizada na cidade de Fortaleza. financeiras e afectivas. tem início na década de 1990. estabelecendo a cidade de Fortaleza como um pólo turístico. iniciaram-se outras formas de uso originando conflitos. tradicionais e implementando nestes espaços públicos e/ou privados diferentes representações. Em Fortaleza. Para tanto foi implementada uma política de atração de investimentos para a indústria do turismo. Palavras-chave: requalificação urbana. sentimento de pertença. turismo. de “modernizar” o Estado do Ceará. desperta nos utentes do bairro. passou a ser associada ao turismo. por meio de projetos de “requalificação” urbana e conseqüentes alterações nos usos do espaço. Nos anos 2000. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Após a requalificação do bairro no início dos anos 1990. descriminação e xenofobia. nos últimos anos. mediante incentivos fiscais. capital do Estado do Ceará. tem sido as políticas de intervenções em áreas históricas.

ocorreu forte especulação imobiliária. a mídia tornou públicos problemas referentes à degradação física de algumas áreas e a ocupação de certos lugares. Contudo. na década de 1990. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Veremos que. sentimento de pertença e afetividade desse espaço da cidade de Fortaleza. começou a ser difundido por meio de jornais locais um discurso sobre o fim da Praia de Iracema com ênfase à sua degradação e abandono. a representação do bairro como lugar de prostitutas e gringos se relaciona diretamente com as formas de uso do espaço urbano. consumo cultural e turismo. Como conseqüência desse fenômeno. imagens e discursos dos utilizadores do bairro em diferentes momentos de sua história. Ressalto ainda. assim como os processos simbólicos de inclusão e exclusão de seus utilizadores. e assim. que os usos que se fazem nesse espaço não estão separados das imagens. Foi notável. Um breve passeio pela história da Praia de Iracema nos permite entender a constituição das representações. contribuindo para a expulsão e permuta de antigos moradores e freqüentadores. O bairro Praia de Iracema passou a ser o cenário das políticas de requalificação em virtude das representações construídas ao longo de sua história. surgiram dissensões quanto às formas de ocupações desse espaço. uma disputa administrativa entre os governos estadual e municipal com interesse em atrair a atenção de moradores da cidade e de turistas para este bairro que se tornara a “vitrine” de suas políticas administrativas. a construção e reprodução de sua imagem como um bairro boêmio e bucólico. após essas intervenções. as representações sobre Iracema resultam das práticas. por meio dos seus discursos e práticas. uma nova representação se constituiu para defini-la. Chegaremos aos dias de hoje percebendo como e porque a Praia de Iracema se tornara um cenário para encontros de alcova. Os utilizadores deste bairro reforçaram. estas muitas vezes os orientam. associando-a ao lugar de prostitutas e gringos. Nesse sentido. por meio das narrativas dos utilizadores da Praia de Iracema.2 As políticas de “requalificação” urbana em Fortaleza tiveram lugar no bairro Praia de Iracema. quando a imagem de boêmia passou a ser associada ao turismo. no inicio dos anos 1990. No início dos anos 2000. Neste momento. O objetivo desses projetos de requalificação era transformar áreas “degradadas” em lugares de entretenimento.

elaborava-se uma imagem do bairro associada ao bucólico e aprazível. “Um abaixo assinado é encaminhado. o primeiro à beira-mar. Tremembés. Guanacés. residência da família Porto. que expressasse os novos hábitos e valores. praia do Peixe ou Grauçá. ganharam fama o Jangada Clube. construída em 1925. Esta elite intensificou a sua inserção na praia. As ruas do bairro ganharam nomes de tribos indígenas cearenses: Tabajaras.2001:37). Devido as novas formas de apropriação desse espaço da cidade surgiu a necessidade de se forjar uma nova imagem para aquele lugar. Desta forma. tem início uma campanha. Groaíras. foi arrendada às tropas americanas e transformada em um ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . solicitando ‘que mude a denominação imprópria e vulgar por que é conhecido aquelle encantador trecho de Fortaleza para a de Praia de Iracema’. como o Praia Clube e o América. e o Hotel Pacajus. onde a um bar se agregava um local para troca de roupa. ao então prefeito Godofredo Maciel. Na época. para a oficialização da denominação Praia de Iracema. a ser erigido na orla marítima. de frente para o mar. foram inaugurados na Praia de Iracema os “balneários”. neste período. a mansão Vila Morena. Durante a Segunda Guerra Mundial. antes denominado porto das Jangadas. fenômeno que “obrigou” os pescadores a mudaram-se para outras praias. entre outras” (Schramm. Houve também a instalação de clubes.3 A origem da Praia de Iracema O surgimento do bairro Praia de Iracema. apoiada pela imprensa local. inclusive por meio do epíteto Praia dos Amores. Potiguaras. está associado à “descoberta” do banho de mar como medida terapêutica e também como contemplação e lazer por parte da elite econômica da cidade nos anos de 1920. com a construção de casas alpendradas ou do tipo bungalow. A primeira manifestação pública que permite antever o futuro nome do bairro ocorre em 1924. aluguel de calções de banho e guarda de pertences dos banhistas. quando a cronista social Adília de Albuquerque Morais lançou a idéia de que se construísse um monumento à heroína do romancista José de Alencar. Como foi descrito por Schramm (2001). pequenas instalações comerciais. Em 1925. freqüentado pela boêmia de classe média e alta da cidade. inclusive no que se refere à sua denominação. pelos novos moradores do bairro.

A partir de meados da década de 1940. como pode ser lido nos trechos abaixo: Nestes próximos dias. e ficou conhecido por suas noites com danças. a Praia de Iracema começou a apresentar um novo cenário em virtude do avanço do mar. também viveu transformações. (United States Organization). o que acarretou também significativa diminuição da faixa de praia.) O fato é que estamos mais uma vez diante de uma situação difícil. Parte do casario foi destruído em decorrência da alteração no movimento das correntes marítimas. Nesse período. principalmente no tocante às sociabilidades. decorrente da construção de um novo porto da cidade. passaram a chamar por coca-colas as freqüentadoras do cassino dos americanos. grifos meus).S. José Porto. através da seguinte canção: «Adeus. adeus/Só o nome ficou/Adeus. Denominado U. pois se a maré próxima for impetuosa assistiremos à eliminação dos ‘bungalows’. Matérias do jornal O Povo lamentavam a sua destruição. Praia de Iracema/Praia dos Amores que o mar carregou/Quando a lua te procura/Também sente saudades/Do tempo que passou/De um casal apaixonado/Entre beijos e abraços/Que tanta coisa jurou/Mas a causa do fracasso/Foi o mar enciumado/Que da praia se vingou». O compositor Luís Assunção contribui para a elaboração da imagem de afetividade da Praia de Iracema na cidade de Fortaleza. que se dirigiam ao local para namorar os oficiais americanos e beber o refrigerante coca-cola. associando o encanto do bairro à sua apropriação pela elite. 1 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . o Porto do Mucuripe.. 2001. jogos e shows. do sr. tornando-se atrativo para as moças da cidade. Essa prática foi responsável por gerar uma disputa simbólica entre os moradores da cidade e os visitantes. enciumados. 27 de abril de 1946 apud Schramm. o lugar era quase exclusivo aos estrangeiros. talvez.O. XVIII por Prainha..4 cassino pelos oficiais. com prejuízos para a própria estética da cidade (O Povo.S. que ainda não era consumido na cidade. A transformação da paisagem obrigou a saída de antigos moradores e freqüentadores dando início a um discurso melancólico sobre a praia “que o mar carregou 1 ”. Os rapazes da terra. os ricos ‘bungalows’ da nossa aristocrática praia. a imprensa local começava a falar em decadência da Praia de Iracema. a maré investirá com grande violência. Destacam-se entre os prédios mais visados pela fúria do mar os de propriedade da família João Gentil. O interior do bairro. especialmente a área conhecida desde o início do séc. vindo a atingir.O) e o do antigo ‘Ideal Clube’(. a antiga sede da United States Organization (U.

contudo. o Restaurante Lido. que havia sido arrendado a comerciantes portugueses. Iracema era apropriada por utilizadores “marginais” em relação aos valores sociais vigentes. Jangadeiro”(2001:47). se apropriaram também da Ponte dos Ingleses. Alguns bares surgiram nas ruas de toponímia indígena. Os donos do espaço. em meio às residências da população de classe média e classe média baixa do bairro: Tonny’s Bar. que figurou. Praticavam. Nick Bar. Estes se reuniam no Restaurante Estoril. Como nos mostra Schramm. os armazéns e casas comerciais ligadas aos negócios de exportação foram fechados. defronte ao hotel. militantes políticos e intelectuais. 2001). que se encontrava em mau estado de conservação. o bairro foi “descoberto” por novos freqüentadores e se tornou um ponto de encontro de militantes de esquerda. a vida [no bairro] era uma festa” (15 de janeiro de 1996 apud SCHRAMM. intelectuais. transformando-se em prostíbulos. El Dourado. como casa de pasto que reunia a elite fortalezense. “Na década de 1950. A partir desta década. onde existia o cassino dos americanos. Nos tempos do regime militar entre 1964-1985. a parte costeira do bairro ainda figurava como um lugar da elite econômica e intelectual. afamado o local de vida boêmia. Os seus ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . foi inaugurado. para “ver e ‘fumar’ o pôr-dosol”. profissionais liberais e músicos. como afirma um ex-freqüentador (O Povo. 09 de dezembro de 2004). políticos e amorosos. 2001). Nos anos 1950.5 Com a transferência do porto da Praia de Iracema para o Mucuripe. Eles compartilhavam o mesmo sentimento de pertença ou entendimento sobre o lugar e sobre os seus códigos culturais (Leite. na antiga residência da família Porto. que funcionava desde 1948. ocupantes do Estoril. Nesse período. o Restaurante Estoril. também. se consolida a imagem da Praia de Iracema como um bairro boêmio. Era palco de encontros culturais. A Praia de Iracema tornou-se reduto de artistas. uma inversão dos valores e normas de disciplina da cidade. que se dirigiam ao lugar para cantar e namorar. ficando. assim. Iracema era apropriada por: jornalistas. como pode ser visto nesse trecho de uma matéria publicada no jornal Tribuna do Ceará: “mesmo com as torturas rolando pelo país. até os anos 70. era freqüentado por boêmios seresteiros.

era marginalizado por questões ideológicas. políticos. uma mudança nas formas de uso e apropriação do espaço. O banho de mar perdera sua atração. Entendendo como uma “destradicionalização” daquele espaço da cidade. Nesse período iniciava-se a edificação de prédios com mais de dez pavimentos. As transformações vivenciadas ali durante a década de 1980. alguns bares temáticos. Contudo. não tiveram êxito. Assim é que. e havia uma ocupação irregular na margem da praia. ainda se restringiam aos intelectuais. mesmo fazendo parte de uma elite da cidade. sem um devido planejamento do poder público. profissionais liberais. além de algumas melhorias. assim como a instalação de uma diversidade de bares e restaurantes em imóveis supervalorizados. por meio da construção de casas de madeira ou papelão. terminou com os moradores chamando atenção do poder público. O público que se dirigia ao Bar e Restaurante Estoril e Ponte dos Ingleses. uma imagem de bairro decadente. o Cais Bar e o Pirata Bar. que a Praia de Iracema fosse reconhecida como Patrimônio Histórico e Cultural da cidade. os usos na Praia de Iracema. as tentativas de barrar as construções de edifícios verticais no bairro. com adesão de artistas e intelectuais. mas. foi fundada a Associação de Moradores da Praia de Iracema/AMPI e houve grande movimento pela sua preservação. Esse fenômeno ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Nesse período. É importante ressaltar que Iracema vivenciou. Em 1984. porém. a década de 1980. artistas e universitários. deram inicio a uma “requalificação espontânea”. como o La Trattoria. antigos moradores mudaram-se do bairro. para os problemas causados pela especulação imobiliária. ou seja. por meio dos jornais. respectivamente. pois a pequena faixa de areia que restara recebia somente alguns poucos freqüentadores. atraíram diversos freqüentadores para o bairro. moradores e freqüentadores não aceitaram as transformações da sua arquitetura. entre meados dos anos 1960 e 1980. da Praia de Iracema. eram legitimados e compartilhados entre os usuários da Praia de Iracema. Sob protestos. Durante a década de 1980. houve uma mobilização dos moradores e freqüentadores no sentido de sustar aquele processo e solicitar. diante das possibilidades de mudanças na lei de uso e ocupação do solo no bairro. 1985 e 1986. O bairro era habitado por famílias de classe média e baixa.6 comportamentos. inaugurados em 1981.

à abertura irregular de estabelecimentos comerciais e à especulação imobiliária. os moradores intensificaram suas lutas na defesa do bairro. criou-se um clima de rivalidade entre os empresários estabelecidos e os recém-chegados. a paisagem transformou-se rapidamente. Em meio à disputa pelo espaço de Iracema. Outro problema que emergiu com as transformações na apropriação do espaço na Praia de Iracema foi a presença de pessoas que não tinham uma tradição boêmia. já não era prioridade a transformação do bairro em Patrimônio Histórico e Cultural. Como conseqüência dessa “requalificação espontânea” que estava transformando a paisagem do bairro desde meados dos anos 1980.7 que chamo de “espontâneo” foi incentivado pela tradição boêmia do bairro e pela movimentação dos diversos freqüentadores que se dirigiam para alguns bares. graças ao seu passado boêmio. em junho de 1991. ao desordenamento do trânsito. apresentaram para os moradores e comerciantes da Praia de Iracema um projeto de urbanização da sua parte costeira. estava a questão de quem tinha direito ao bairro. A partir de então. restaurantes e para assistir ao pôr-do-sol na Ponte dos Ingleses. No cerne da polêmica. juntamente com o arquiteto Paulo Simões. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . mas. empresários da noite se inseriram no bairro com uma grande oferta de bares e restaurantes. Devido as novas formas de ocupação desse espaço e suas novas representações. Nesse novo momento estavam na pauta das reivindicações dos moradores: o combate à poluição sonora. Assim. alguns gestores da cidade passaram a defender a tese de que a Praia de Iracema possuía uma “vocação natural para o lazer”. Juraci Magalhães. com a presença de grande diversidade de estabelecimentos comerciais. Impulsionados pela freqüência desses estabelecimentos e vislumbrando a Praia de Iracema como um novo mercado. o então prefeito de Fortaleza.

De um lado havia os usuários. As intervenções urbanísticas na Praia de Iracema podem ser associadas a uma disputa administrativa. Por meio de uma política de atração de investimentos. Em meados dos anos 1990. como a construção do largo Luiz Assunção. mediante incentivos fiscais e da estratégia de Place Marketing (Gondim. um calçadão a beira mar já fazia parte do novo cenário de Iracema. Falava-se em “Miamização de Iracema 2 ”.2001). mediante inscrições arquitetônicas e urbanísticas que representem visualmente valores e visões de mundo de uma nova camada social que busca se apropriar de certos espaços da cidade (Leite. que. flats e pousadas. Neste sentido. Carlos Fortuna (1997). Alusão a Miame (EUA). 2001). esse espaço da cidade de Fortaleza passou a ser consumido por moradores de classe média e alta da cidade e também por turistas. Na política de gentrification. percebo um conflito na ocupação do espaço na Praia de Iracema. lugar de artistas e 2 Denominação dada por ex-freqüentadores e moradores do bairro. Nesse novo contexto. entre os governos estadual e municipal. que em abril de 1994. Paralelamente as intervenções nos espaços públicos do bairro. há uma afirmação simbólica do poder. restaurantes. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . mediante suas práticas sociais e lembranças – baseadas na imagem de um bairro bucólico. Havia um interesse político em estabelecer a cidade de Fortaleza como um pólo turístico. o calçadão. processo que tenta adequar as tradições locais às demandas globais do consumo cultural. o bairro já apresentava diversos sinais da “requalificação” urbana. havia desmoronado. habitantes da cidade. hotéis. apareceram investimentos da iniciativa privada em bares. Consolidouse a imagem do marketing turístico na Praia de Iracema.8 A Praia de Iracema “requalificada” Em 1994. por meio de obras da Prefeitura Municipal e do Governo do Estado. fala em “conservação inovadora do elemento tradicional”. nacionais e internacionais. boêmio. a reforma da Ponte dos Ingleses e a reconstrução do Restaurante Estoril. Transformando a arquitetura vernacular em paisagem. essa política de reforma urbana na Praia de Iracema acarretou uma mudança nas práticas sociais e conseqüentemente foi proposta uma imagem do bairro.

9 intelectuais – forjaram um sentimento de pertença ao bairro. habitantes da cidade e turistas.. Desta forma. uma grande valorização dos imóveis e conseqüente aumento nos valores dos aluguéis e dos serviços e produtos ofertados.. em segundo lugar todo mundo vendia a mesma coisa que era uma cerveja com petisco. De outro. Então você tinha três milhões de bares. já que o novo desenho arquitetônico impôs um controle social. está a política de gentrification. É o que pode ser constatado nesse depoimento de Hélio Rôla. esse fenômeno contribuiu para o início da imagem da degradação da Praia de Iracema. Como a “requalificação” conduz ao “consumo do lugar” (Zukin. eu só tenho a parabenizar. O poder público chegou fez um calçadão superlegal. É inevitável uma asfixia da Praia de Iracema” (O Povo. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .) não deviam ter liberado tantos alvarás pra tanta gente devia ter escolhido o que fazer em cada lugar. maravilhoso. o processo de “requalificação” acarretou um choque de valores. 3 de junho de 1995). ou seja. foi assim ao leu e então como não tinha nenhuma proposta desinchou a Praia de Iracema deixou de ser moda o fortalezense enjoou (Entrevista concedida em 27 de abril de 2005). uma “descoberta” do lugar para “novos freqüentadores”. Esse processo desencadeou a monofuncionalidade com a predominância de bares e restaurantes no bairro. ex-morador do bairro: “Os donos de bares daqui impõem um repertório na altura que querem e não se relacionam de modo democrático com sua vizinhança. ou seja. Na fala de um empresário. onde moradores e freqüentadores antigos se tornam outsiders. Como anota Leite (2001). aí dá aquele inchaço onde toda casa por menor que ela fosse era um bar. O maior conflito em relação às novas formas de apropriação era quanto à falta de harmonia entre os bares e as residências que ainda restavam. não tinha proposta. não tinha proposta comercial dentro da Praia de Iracema (.2000). o modo como as práticas sociais criam seus nexos identitários com os lugares sociais colide muitas vezes com as formulações abrangentes das políticas oficiais da cultura. não teve. a Praia de Iracema se tornou um lugar de consumo para os novos utilizadores que passaram a ocupar aquele espaço. Foi vivenciado naquele bairro o que Carlos Fortuna (1999) chama de “sociabilidades efêmeras”. ótimo. você nem andava pelo calçadão. incentivados por um marketing do lugar turístico. o que foi presenciado na Praia de Iracema foi uma supervalorização dos “produtos vendidos”. que transforma a tradição na city marketing. ou seja. ou seja.

museus. os freqüentadores da Praia de Iracema foram paulatinamente procurando outros lugares de lazer. dando maior visibilidade aos hippies. os poucos turistas [estrangeiros] que vieram pra cá foram vôos italianos e alemães e no início o vôo dos italianos foi péssimo conseguiram acabar com esse vôo tem pouco tempo atrás que era assim. não permitiu uma nítida visualização dos contra-usos. onde havia antigos armazéns desativados. um planetário. como assalto aos freqüentadores. Leiamos a fala de um empresário da Praia de Iracema: Essa imagem [da degradação] se dá porque no início não teve uma boa divulgação do turismo [internacional] aqui do Estado. A sua implementação não considerou os “trajetos” (Magnani. além de praças. Como parte da dinâmica de ocupação dos espaços da cidade. E a Praia de Iracema “requalificada” começou a apresentar sérios problemas no tocante à ocupação do espaço e manutenção dos espaços reformados. sob a forma de uma arquitetura eclética e pós-moderna. 2000) de ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . os turistas internacionais e as “garotas de programa”. turistas estrangeiros e prostitutas. foi inaugurado o Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura. que dava os seus primeiros passos rumo ao dissídio na ocupação daquele espaço. Adentravam o bairro atores sociais que não comungavam com os códigos da disciplina dos espaços “equalificados” como os hippies. No seu entorno.10 Outro fenômeno a ser ressaltado é que a “política de controle social”. também passaram a incomodar alguns utilizadores do bairro. boates e casas de shows. vendedores ambulantes. O Dragão do Mar projetou uma intervenção no bairro que se refletiu por toda a Praia de Iracema. como a expulsão dos hippies. Além dos hippies. Iniciavam-se também as denúncias de violência. passaram a existir bares. Nesse sentido. Este equipamento passou a oferecer teatro. 300 machos vindo. os protestos dos moradores ganharam novos temas. loja de artesanato e bares. café. com cinco prostitutas voltando da Itália (Entrevista concedida em 27 de abril de 2005). cinemas. Em 1999. auditório. no final dos anos 1990. concorrendo para a construção da representação de bairro degradado e lugar de prostitutas e gringos. típica dos processos de “requalificação”. mendigos. livraria. meninos em situação de rua.

a harmonia superficial. afirma que a nova representação surgiu a partir da instalação de uma boate. construída nestes “lugares de consumo”. passando a ser ocupado predominantemente pelos hippies e meninos em situação de rua. Os novos freqüentadores saíram em busca de novos lugares. contudo por falta de verbas a ligação não foi estabelecida. ambulantes e meninos em situação de rua.2000) de lazer com sociabilidades e temporalidades distintas. instalado no bairro há quase vinte anos. pois grande parte do público freqüentador da parte costeira da Praia de Iracema passou a ocupar esse novo espaço. e teve seus pontos comerciais e observatório de golfinhos desativados. Esse fenômeno redesenhou a Praia de Iracema a partir dos seus usos e contra-usos. mendigos. conhecida na cidade de Fortaleza. Assim é que. Este fato produziu um conflito na apropriação do espaço daquele bairro. No ano de 2004. inclusive o tradicional restaurante La Trattoria e o Cais Bar. ou seja. a Praia de Iracema passou a abrigar duas “manchas” (Magnani.11 seus utilizadores 3 . principal rua do bairro. mais da metade dos novos estabelecimentos já haviam sido fechados. hippies. Quando os espaços “requalificados” tornam-se “lugares”. turistas estrangeiros. abrindo espaço para instalação de boates algumas com shows de striper. No inicio dos anos 2000. Um empresário. A Ponte dos Ingleses ficou sem iluminação. Em janeiro de 2003 a pizzaria Geppo’s fechou. os problemas referentes à ocupação do espaço na Praia de Iracema se agravaram. deixando um terreno baldio no meio da rua dos Tabajaras. 3 Em entrevista com um dos arquitetos do projeto do Centro Dragão do Mar. foi sendo cortada pelos contra-usos. 1994). espaços praticados (Marc Augé. Os bares e restaurantes gradativamente foram sendo fechados. ele esclarece que o projeto original previa um “corredor” de ligação entre a parte costeira do bairro o Centro Dragão do Mar. pois os utilizadores da Praia de Iracema passaram a ser predominantemente. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Fausto Nilo. por intermédio do não-respeito aos códigos culturais do lugar ou da falta de um entendimento mínimo sobre o que eles representavam. O Largo Luis Assunção deixou de ser ocupado por famílias nos finais de tarde. O calçadão apresentava muitos trechos com buracos e a grade de proteção quase toda quebrada. Este fato contribuiu para enfatizar ainda mais a representação do bairro como lugar de prostitutas e gringos. prostitutas. a partir do inicio dos anos 2000. como uma casa que favorecia a prostituição.

contudo. houve ingerência quanto à ocupação do espaço. Frente a este panorama que se estabeleceu na Praia de Iracema. acarretando a monofuncionalidade do bairro.) Depois apareceu um português que era o maior trambiqueiro. ou seja. (. a própria dinâmica da cidade e do turismo nacional e internacional foi determinando as novas faces de Iracema. sem um devido planejamento. entendo que a nova representação é um reflexo das práticas sociais e das condições espaciais de algumas áreas do bairro. a fronteira para o lugar dos habitantes ficou muito tênue. tendo como ícone o bairro Praia de Iracema. não existiu um respeito às demandas dos moradores do bairro. a tradição boêmia de Iracema foi comercializada por meio de uma política de incentivo ao turismo no Estado do Ceará. porque a gente pensava assim.. Segundo. por parte do Poder Municipal. e foi dito e feito. se vier um puteiro vem todos os puteiros da praia. que tentam adequar as tradições locais às demandas globais do consumo cultural (Carlos Fortuna. Primeiro houve a execução das políticas de gentrification. no dia que o África’s vier. o cara muitas vezes vinha com boa fé tinha muita gente que vinha com boa fé e ficavam com um puteiro nos braços (Entrevista concedida em 27 de abril de 2005). Esse fenômeno contribuiu para a saída da maioria dos moradores.12 A deterioração começou por que? Porque em primeiro lugar deixaram construir o África’s [boate conhecida na cidade por shows de striper] (. Como resultado desse processo.. Ocorreu uma intervenção no espaço urbano. Ele fazia o seguinte: montava um restaurante achava um investidor em Portugal e dizia olha eu tenho um restaurante maravilhoso pra você ele montava o restaurante pras pessoas ai o cara vinha de lá pra cá com o restaurante montado comprava o restaurante e achava que tinha um ponto super bem feito e vinha pra trabalhar quando chegava aqui ele tinha um puteiro.) a gente fez toda uma campanha pro África’s não vir. poluição sonora e desordenamento do tráfego. tornando visível a existência de ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Nesse sentido.. 1997). O cenário atual da Praia de Iracema Após essas intervenções arquitetônicas esse bairro se apresentou como um lugar turístico. Este fenômeno gerou uma disputa pela ocupação do espaço urbano. ou seja..

turismo sexual e prostituição fazem parte dessa nova representação da Praia de Iracema. sobressalto. o que fazem. empresários. falta de iluminação. segundo meus interlocutores 5 . No cerne da questão percebo que temas relacionados a “requalificação” urbana. O encontro com o “outro”. Esta metodologia foi desenvolvida por: Captolina Díaz Martinez. envolto ao espanto. 5 Os entrevistados na pesquisa de terreno na Praia de Iracema foram: moradores. trabalho e futuro. A pesquisa etnográfica me permitiu perceber que existe um dissenso nas opiniões quanto à representação da degradação. com quem andam e como se comportam. Modelos de Autopercepción y de Vida entre Adolescentes Españoles. Estas levam a percepção de categorias definidoras do “mito fundador” da nova representação do bairro. turismo. enleio. estava a contribuir para uma reafirmação da representação do bairro como degradado e lugar de prostitutas e gringos. globalização. e associam a representação atual à presença do turista estrangeiro e suas acompanhantes. Madrid. El Presente de su Futuro. análise sóciosemântica e análise interpretativa 4 .13 conflitos simbólicos decorrentes do encontro entre alguns habitantes de Fortaleza. valores morais. a de estafeta. entre alguns nativos e o turista. In Ganchos. proprietários de boates. José. vendedores ambulantes. Aplicando a metodologia de análise de conteúdo que venho utilizando na apreciação dos dados apresentarei a seguir a análise de conteúdo das narrativas. moradores do bairro Praia de Iracema. sentimento de pertença. freqüentadores da Ponte Metálica. 4 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . ou seja. Por meio deste modelo de análise de conteúdo está sendo possível identificar “expressões conceituais”. entre outros problemas. Alguns utilizadores do bairro falam em degradação espacial. o uso social dos corpos dos turistas estrangeiros. turistas estrangeiros e suas acompanhantes. Distribuindo pizas: vida estafada. tema tão caro à produção antropológica. 1996. Siglo Veintiuno de España Editores. É perceptível uma admiração. tachos e biscates – jovens. ex-moradores. emerge nesse bairro. Os moradores do bairro passaram a denunciar por meio de suas narrativas que. erosão no calçadão. taxistas. Outros falam em degradação social. A utilização deste modelo de análise de conteúdo segue o método de investigação adotado por: Machado Pais. Lisboa: Ed Âmbar. 2005. hippies e meninas freqüentadoras das boates. o diferente. Devido a essa simbologia negativa os habitantes do bairro estão buscando justificativas para a emergência dessa representação. bancos quebrados.

Ao se referir ao gringo cheio de tatuagem e inchado. dos sujeitos da pesquisa. Contudo. uma série de unidades de significados. Apresento abaixo a fala de um empresário do bairro. 6 Estou fazendo alusão a Capitolina Martínez autora deste modelo de análise de conteúdo. todo inchado. É importante ressaltar que o processo de “homologação conceitual” é próprio do pesquisador ao empregar suas habilidades de intuição lingüística e social. a partir de sua obra de referência. Contudo.. de quem as explicitaram. entendem o significado dessa expressão. ou narrativas. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .(1996). depende do entendimento por parte do grupo pesquisado. o entrevistado está a fazer uma analogia com o turista estrangeiro pobre identificado por alguns utilizadores do bairro como pessoas com emprego precário na Europa e com pouca qualificação escolar.14 Das expressões conceituais ao “mito fundador” da nova representação de Iracema Identifiquei as “expressões conceituais” aplicando o método de análise voltado para a percepção de “homologias conceituais”. a sua fala parece ininteligível se relatada em outro contexto: Quem vem aqui é o gringo. vem com umas macacas que se você vê as macacas você corre. El Presente de su Futuro. que namoram ou fazem programa com os turistas estrangeiros. contudo a relação entre os conceitos e suas “expressões literais” não é unívoca: distintas expressões literais podem representar o mesmo conceito (sinonímia) e a mesma expressão literal pode representar distintos conceitos (homonímia). as quais devem ter um significado autônomo. Estas têm um significado social. o qual conserva duas operações: 1) se seleciona dentre os textos. de pele morena. Seguindo este modelo de análise de conteúdo é importante ressaltar que a proposta da autora 6 é desenvolver um método de análise “não-redutivo”. quando os membros do grupo. E “macacas” é uma expressão utilizada para se referir as garotas pobres.. que reafirma a imagem da Praia de Iracema como lugar de prostitutas e gringos. uma expressão pode incluir vários conceitos. Neste modelo de análise o investigador deve “traduzir” a conceitos as “expressões lingüísticas”. as “expressões conceituais” são produzidas pelos sujeitos da pesquisa e não pelo pesquisador. Assim como. o significado social das expressões. aquele cheio de tatuagem. Assim. Os conceitos estão encarnados em expressões literais.

prostituição e turistas estrangeiros que não é o bom turista. e sua representação hoje. A seguir apresento. Para isso coloca-se as unidades soltas (palavras-chave) frente às unidades complexas (orações conceituais) de que formam parte. é o pessoal daqui ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA .15 parcialmente livre do contexto. Assim. começou a chegar boates e o fortalezense deixou de andar aqui. Como conseqüência. 2) a especificação do significado das ditas unidades tem de ser redefinida observando seus contextos: uma unidade dada pode está localizada em distintos contextos e a interação entre esses contextos deve redefinir o significado da unidade em questão. porque o que mantém um restaurante não é turista. extratos de quatro entrevistas que associam. que relatam as mudanças vivenciadas no bairro a partir dos anos 1980. mas também por meio de palavras-chave. não é bom para a capital é o turista que vem a procura de drogas e prostituição. a lista de conceitos se estrutura em dois níveis. relacionadas à construção do “mito fundador” da representação da degradação e lugar de prostitutas e gringos. o processo de “homologação conceitual” não só funciona a partir dos significados isolados das orações conceituais. estas constituem as “categorias”. com os significados concorrentes de distintas orações conceituais. Ao utilizar esse modelo de análise de conteúdo identifiquei “categorias” que caracterizam fases da história recente do bairro Praia de Iracema. Concedida em 02 de agosto de 2005). os conceitos específicos definem reciprocamente os seus significados através da interação dos diversos conceitos. a nova representação do bairro. Assim. A apreciação de uma lista de conceitos e palavras-chave permite ao pesquisador agrupar famílias de conceitos similares. (Entrevista com um morador que reside há 32 na Praia de Iracema. uma “categoria” é um conceito geral que deriva de uma família de conceitos concretos por sua vez derivados de orações particulares. Para chegar a estas “categorias” selecionei diversas “expressões conceituais” dos meus entrevistados. Narrativa dois: Os bares começaram a fechar porque encheu de gringo. Por meio deste método proposto por Martínez (1996). com a presença do turista estrangeiro. o que mantém é o fortalezense. Narrativa um: Hoje a Praia de Iracema é dominada por menores infratores.

traz os vendedores ambulantes (.. fechar essas boates porque eu acho que elas é que trazem todos os outros problemas. traz a prostituta. mas as despesas do dia-a-dia são tiradas com o pessoal daqui. (. não tem iluminação.. Narrativa quatro: O gringo traz o taxista. que a Praia de Iracema é uma ponta de iceberg. o turista melhora [o movimento].) tudo isso para dá a esse turista europeu.. de 34 anos. os modelos de turismo que a gente tem no Estado.) As soluções pra mim. é o modelo dos hotéis que estão destruindo as comunidades dos povos do mar. que sempre residiu na Praia de Iracema. Gringo Taxista Vendedores ambulantes ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Concedida em 19 de maio de 2005).. as pessoas não andam mais na Praia de Iracema. (Entrevista com uma moradora. prostituição e turistas estrangeiros. implementado no Estado. as pessoas faziam questão de vir aqui pra usufruir a beleza do ambiente. o modelo de desenvolvimento. (O problema é) o modelo de turismo que a gente tem no Estado. estão loteando as praias para fazer os resortes. que não tem segurança. Concedida em 23 de agosto de 2005). hoje em dia as pessoas não vem mais aqui porque ficam incomodadas com essa invasão de prostitutas e de gringos que tem aqui. dessa coisa gostosa da beira da praia e tudo.16 que vai com a família. Turista (estrangeiro) que vem a procura de drogas e prostituição. A lista de palavras que tem significados relevantes é: Prostituição Turistas estrangeiros Drogas Boates A lista de conceitos contempla: A Praia de Iracema é dominada por menores infratores.) (Entrevista com um morador. Narrativa três: Eu acho. não é isso porque sempre foi dessa forma e as pessoas vinham. Residente há 25 anos na Praia de Iracema. isso é o modelo de turismo que a gente tem aqui.. esse turista qualquer que venha pra cá e manter as mulheres que eles quiserem.. não é pelo simples fato de que está quebrada. Começou a chegar boates e o fortalezense deixou de andar aqui. traz o menino de rua. Concedida em 19 de maio de 2005). (Entrevista com um empresário. seria em primeiro lugar. (. Os bares começaram a fechar porque encheu de gringo.

17 Quadro 1: A presença de gringos como um “mito fundador” da representação da degradação. Neste sentido. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . contribuiu para sua identificação com um cenário de encontros de alcova. e os vendedores ambulantes. FORTUNA. Identidades. Referencias Bibliográficas AUGÉ. 1997. Fase do bairro Características Categorias “Mito fundador” de Chegada dos turistas Os bares começaram a Invasão de prostitutas e Presença estrangeiros – gringos. Estudos Sociológicos de Cultura Urbana. O fortalezense abandona o bairro. Fechamento de bares. Celta. Com o gringo veio o Surgimento de boates. gringos. ___________. Cultura e Globalização: Ensaios de Sociologia. os conflitos decorrentes das trocas sexuais. Alguns utilizadores do bairro entendem que a chegada dos novos freqüentadores. Não-Lugares. sem um sentimento de pertença ao bairro. a prostituta. Paisagens Culturais. Percursos. Oeiras. taxista. Marc. 1999. Oeiras: Celta Editora. financeiras e afetivas entre os turistas estrangeiros e suas acompanhantes se relacionam diretamente com o uso e apropriação do espaço na Praia de Iracema. 1994. a O fortalezense abandona chegar o bairro. São Paulo: Papirus. da representação do bairro como degradado e lugar de prostitutas e gringos. gringo. A análise de conteúdo das narrativas me permitiu identificar que a chegada do turista estrangeiro é considerado o “mito fundador”.) Cidade. fechar porque encheu de gringos. Carlos (org. o menino de rua. Começaram boates.

In Revista de Ciências Sociais. impresso. 32. MAGNANI. Programa de PósGraduação em Sociologia.) O espaço da diferença. Lilian de Lucca (orgs). MONTE. impresso. Sharon. Caderno Vida e Arte. José Machado. Campinas: Papirus. Periódicos ARTE guarda memória da PI. PAIS. LEITE. 2ª Ed. Ganchos. SCHRAMM. El Presente de su Futuro. MARTINEZ. trabalho e futuro. Números ½. TORRES. Lisboa: Ed Âmbar. Fortaleza. ZUKIN. José Guilherme Cantor.Fapesp. O POVO. 2005. 2000. 1996. 03 de junho de 1995. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . tachos e biscates – jovens. Fortaleza. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo. Captolina Díaz. Rogério Prença de Sousa. Território livre de Iracema: só o nome ficou? Memórias coletivas e a produção do Espaço na Praia de Iracema. Modelos de Autopercepción y de Vida entre Adolescentes Españoles. a Propósito da Praia de Iracema. Política e Cultura. 2001. Universidade Estadual de Campinas. “Paisagens urbanas pós-modernas : mapeando cultura e poder” In Antônio Arantes (org. Airton. Espaço público e política dos lugares: usos do patrimônio cultural na reinvenção contemporânea do Recife Antigo. Universidade Federal do Ceará.18 GONDIM. O POVO. Era uma vez a Praia de Iracema. Solange Maria de Oliveira. Linda. 2001. Madrid: Siglo Veintiuno de España Editores. Fortaleza. 2000. Imagens da Cidade ou Imaginário Espacial? Reflexões sobre as relações entre Espaço. Campinas. Na metrópole: textos de antropologia urbana. Vol. 09 de dezembro de 2004. 2001.

Este processo que com diferentes momentos de intensidade vem animando o debate político na sociedade portuguesa esgrime questões tão instigantes como as representações culturais da mulher. pelo facto de se inscrever nas formas de acção política ditas radicais ao mesmo tempo que sustenta a sua acção no cumprimento da lei. É a partir da minha experiência de activista neste processo. A recente viagem deste barco que se propunha a realizar interrupções voluntárias da gravidez em águas de jurisdição internacional ― onde prevaleceria a lei holandesa ― de bandeira do barco. Portugal é dos únicos países da Europa com legislação fortemente restritiva à prática de interrupção voluntária da gravidez. Women on Waves. concitando ainda relevantes momentos de análise das dinâmicas democráticas sobre o direito e a transformação legislativa. da maternidade e da vida. uma perspectiva de análise ao mesmo tempo privilegiada e problemática.uc. dado que. Malta e Polónia. O interesse deste quadro histórico não se restringe às nossas fronteiras. que pretendo formular nesta comunicação algumas reflexões sobre o momento cultural e político então criado Palavras-chave: direitos/género/cidadania/movimentos sociais 1. Este processo que com diferentes momentos de intensidade vem animando o debate político na sociedade portuguesa esgrime questões tão instigantes como as representações ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Elemento este que foi mobilizador para uma conciliação de esforços entre algumas organizações portuguesas e estrangeiras com vista a à vinda do célebre barco da organização holandesa.O Kula revisitado? A cultura dos direitos na luta pela despenalização do aborto Madalena Duarte Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra madalena@ces. e pela circunstância de constituir uma forma de acção política sobre uma legislação nacional com um desenho exuberantemente transnacional. juntamente com a Irlanda. foi um fenómeno singular na sociedade portuguesa: pelo aceso debate que suscitou na opinião publica. Introdução A luta despenalização do aborto em Portugal constitui uma das aspirações mais emblemáticas na enunciação dos direitos das mulheres no contexto português.pt A luta despenalização do aborto em Portugal constitui uma das aspirações mais emblemáticas na enunciação dos direitos das mulheres no contexto português.

Uma análise mais detalhada desta análise cronológica obriga. O interesse deste quadro histórico não se restringe às nossas fronteiras. Os finais da década de 70 são. pelo facto de se inscrever nas formas de acção política ditas radicais ao mesmo tempo que sustenta a sua acção no cumprimento da lei. Malta e Polónia. à sua consulta. A contextualização da luta 1 O direito da mulher à interrupção voluntária da sua gravidez não foi consagrado no conjunto de direitos das mulheres adquiridos após o 25 de Abril com a Constituição da República Portuguesa de 1976. e pela circunstância de constituir uma forma de acção política sobre uma legislação nacional com um desenho exuberantemente transnacional. marcados por um esboçar daquela que viria a ser uma luta forte pelos direitos das mulheres nas décadas Neste ponto sigo de perto Tavares. Portugal é dos únicos países da Europa com legislação fortemente restritiva à prática de interrupção voluntária da gravidez.2 culturais da mulher. 2. Women on Waves. que pretendo formular nesta comunicação algumas reflexões sobre o momento cultural e político então criado e sobre as estratégias encetadas pelo movimento. da maternidade e da vida. juntamente com a Irlanda. 1999. É a partir da minha experiência de activista neste processo. 1998 e 2003 e UMAR. uma perspectiva de análise ao mesmo tempo privilegiada e problemática. 1 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . pois. pois. foi um fenómeno singular na sociedade portuguesa: pelo aceso debate que suscitou na opinião publica. Em ambas as publicações é feito um importante retrato histórico da luta pela despenalização do aborto em Portugal. Elemento este que foi mobilizador para uma conciliação de esforços entre algumas organizações portuguesas e estrangeiras com vista a à vinda do célebre barco da organização holandesa. A recente viagem deste barco que se propunha a realizar interrupções voluntárias da gravidez em águas de jurisdição internacional ― onde prevaleceria a lei holandesa ― de bandeira do barco. concitando ainda relevantes momentos de análise das dinâmicas democráticas sobre o direito e a transformação legislativa. dado que.

como os sindicatos começam a ter iniciativas neste domínio. em 1979. é a vez do PS apresentar um projecto-lei. Estes projectos.3 seguintes. Começam. e partidos de esquerda tomam posições públicas contra este projecto-lei. Surgem projectos-lei. rapidamente chegam à imprensa internacional e. Os projectos-lei são chumbados em Assembleia da República e fica na história a imagem de 12 mulheres da CNAC nas galerias do parlamento envergando uma camisola com a inscrição “Nós abortámos”. 1999). consequência das acções do movimento feminista e dos julgamentos da década de 70. partidos políticos como o PS e PCP anunciam a preparação de propostas de lei sobre a despenalização do aborto. conhecendo algumas destas uma visibilidade social que as mantém ainda hoje como importantes actores nesta luta. que é considerado ainda mais restritivo do que o do PCP. Em 1983. Não só os partidos políticos. APF e MDM. E. 2003). contudo não deixam de representar um caminho no sentido da despenalização. Na década de 80 o aborto entra na agenda política. Estes julgamentos. é entregue uma petição de 5 mil assinaturas na Assembleia da República exigindo a despenalização do aborto. Várias associações feministas. é precisamente este projecto que vai ser aprovado em Janeiro de 1984. Não obstante esta resistência e críticas. são considerados algo limitativos no que concerne aos direitos da mulher (Tavares. em consequência. porque consideram que. com ele. Logo em 1975 é criado o Movimento para a Contracepção e Aborto Livre e Gratuito que exigia a despenalização do aborto em Portugal e a difusão e informação sobre contraceptivos em Portugal. entre eles o de uma jovem alentejana. entre elas a UMAR. entre outras). nomeadamente da UDP (1980) e do PCP (1982) para que a mulher possa interromper livremente a sua gravidez até às 12 semanas. cria-se a Campanha Nacional pelo Aborto e Contracepção (CNC) que incorpora várias associações feministas e que se começa a mobilizar para mostrar solidariedade para com as mulheres julgadas por aborto. sobretudo o do PCP. também. Em 8 de Março de 1977. demonstrando uma total oposição a qualquer medida legislativa que autorize o aborto. a emergir associações e organizações feministas que têm a despenalização do aborto como bandeira e que o assumem publicamente (UMAR. Em simultâneo a Igreja Católica começa a firmar a sua posição publicamente. uma vez que não prevê sequer razões económicas para uma mulher interromper a sua gravidez (UMAR. Nas galerias do ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . o aborto clandestino em Portugal vai continuar a ser uma realidade.

pela publicação de artigos. se a discussão parlamentar dos projectos-lei constitui um novo alento para o movimento pela despenalização que começa. morre uma mulher. deste modo. A década de 90 ficou marcada pelo referendo sobre o aborto e pelos julgamentos de mulheres. a reerguer-se. e como consequência de notícias na imprensa de que a PJ estaria a investigar 1200 mulheres que tinham abortado numa clínica clandestina em Lisboa. se houver sério risco para a saúde física e mental da mãe (12 semanas). as mulheres que se fazem abortar e as pessoas que realizam a intervenção estão a cometer um crime. Alguns dias mais tarde. produção de relatórios e realização de debates. Após a aprovação da lei de 1984. Mas. 2003) e. se houver grave malformação do feto ou se o recém-nascido vier a sofrer. Os dois projectos-lei vão a votação na Assembleia da República. quer por parte dos partidos políticos (Tavares. a UMAR lança a Linha SOS-Aborto. No entanto. vítima de aborto clandestino. em Portugal. solta-se uma faixa que diz: “Lei do PS mantém aborto clandestino. se a gravidez resultar de violação (16 semanas). artigos 140º e seguintes. a iniciada em Fevereiro de 1997 “Não matarás o zezinho”. De acordo com esta lei (Lei nº 6/84. o movimento anti-escolha. no dia internacional da mulher. na sua maioria. Foi. de forma incurável de doença grave (24 semanas). o aborto é um crime. em Fevereiro de 1997. assim que é aprovado o projecto.4 parlamento. com 36 anos e três filhos. em 1996. 2 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . mas não são aprovados. pois. também começa a ganhar força um contra-movimento. sendo que o da JS não é aprovado por um voto. A luta continua”. A indignação e o mal-estar público levam a que algumas deputadas do PCP e do PS acusem os deputados que votaram contra os projectos-lei apresentados de contribuir em grande medida para situações como esta. o movimento conheceu algum esmorecimento e durante vários anos a luta passou. aos poucos. O aborto não é punido apenas nos seguintes casos: se for o único meio de evitar a morte da mãe (sem prazo). Este crime está previsto e punido no Código Penal. No mesmo mês. que desenvolve campanhas ancoradas moralmente impactantes como. a JS e o PCP apresentam dois projectos-lei de despenalização do aborto a pedido da mulher. longo e complexo o caminho que levou de novo à colocação do aborto na agenda pública e política. começam a organizar-se novas iniciativas quer por parte da sociedade civil. por exemplo. se houver inviabilidade fetal (sem prazo). de 11 de Maio). É esta a lei que está hoje em vigor 2 . ligado à Igreja Católica.

A campanha do referendo (que ocorreu de 15 a 26 de Junho de 1998) assumiu-se como um momento de intenso e polémico debate em que nem sempre os argumentos surgiram com a clareza necessária. Desde logo porque algumas associações feministas envolvidas entendiam que a JS não devia ter encurtado o prazo. a vitória na luta estava longe de ser conseguida.5 No início de 1998. Cria-se. António Guterres. artistas. sindicatos. mas o projecto-lei da JS é aprovado. era necessário criar um movimento forte que fizesse face aos movimentos associados à Igreja Católica. o “Movimento Sim Pela Tolerância”. porque nesse mesmo dia PS. uma plataforma que integrava partidos políticos. assim. profissionais de saúde. que se encontrava no Governo. Por razões atribuídas ao fundamentalismo da posição do não. os dois projectos são debatidos na Assembleia da República: o do PCP não é aprovado por 3 votos. com maiores recursos e capacidade de mobilização. deputados. Mas. e que depois se foi alargando a juristas. contra todas as sondagens. A 5 de Fevereiro de 1998. O referendo não foi. sobretudo. e a um cenário político partidário em que a direita se unia e o partido do governo se encontrava fragmentado e marcado pelo ideal católico de um PrimeiroMinistro que publicamente se mostrou contra a despenalização. 2003). associações de defesa dos direitos das mulheres. à indiferença e/ou à indecisão dos portugueses. em 28 de Junho de 1998. No entanto. Para tal não foi indiferente a posição do líder do PS. Também o PCP apresenta um projecto-lei semelhante ao já proposto em 1997. e PSD celebram um acordo para a realização de um referendo nesta matéria. à complexidade da questão referendada. o não ganhou. Para as pessoas envolvidas no movimento pela despenalização do aborto este foi um marco histórico (Tavares. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . etc. a JS apresenta um outro projecto-lei. Perante um referendo imposto que muitos percepcionaram como uma expressão de uma instrumentalização política atentatória dos direitos de cidadania dos cidadãos e das cidadãs portuguesas. que desde cedo se pronunciou contra a mudança da lei. mais restritivo que o anterior. uma vez que o prazo legal previsto para a interrupção voluntária da gravidez é reduzido para 10 semanas.

Neste cenário. 4 Uma das excepções a este desânimo surge com a discussão e aprovação da Lei 12/2001. a discussão devia ter sido retomada e. a artigos na imprensa e. isto é. não te prives e UMAR (União Mulheres Alternativa e Resposta) . “O referendo só tem efeito vinculativo quando o número de votantes for superior a metade dos eleitores inscritos no recenseamento”. As manifestações do movimento pelo sim começam a cingir-se a presenças à porta dos tribunais.5% a favor do sim. Portugal torna-se o único país da União Europeia que leva mulheres a julgamento por interromperem a sua gravidez. 16. Tendo como base um campo 3 De acordo com o artigo 115º da Constituição da República Portuguesa. consequentemente. à entrega de uma petição com 120 mil assinaturas na Assembleia da República para a realização de um novo referendo que se revelou infrutífera 5 . ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Com efeito. pelo contrário. Lisboa…). Setúbal. dos mais de 8 milhões de eleitores. 3.unem esforços e decidem convidar a organização holandesa Women on Waves (WOW) para vir a Portugal e desenvolver uma campanha pela despenalização do aborto.6 contudo. assumindo-se o resultado no referendo como uma decisão final. A campanha WOW: breve descrição É num cenário de um activismo institucionalizado e essencialmente reactivo que um conjunto de associações portuguesas . apenas 32% dos eleitores se pronunciaram. Aveiro. O pós-referendo foi uma altura de grande desânimo 4 e de desvitalização de um movimento que se sentia impotente face à constituição da Assembleia da República e às demandas da democracia representativa. foi ignorada.Acção Jovem para a Paz. Clube Safo.5% a favor do não e 15. referiu que nenhuma outra consulta nesta matéria seria realizada até ao final do mandato do seu governo. líder do PSD. em 2004. votaram menos de 3 milhões. começam a despoletar os julgamentos de mulheres (Maia. 5 O então Primeiro-ministro José Manuel Durão Barroso. vinculativo 3 . coube aos agentes judiciários e aos tribunais garantirem a aplicação efectiva da lei em vigor e. já que. sobre a contracepção de emergência que assegura que a chamada pílula do dia seguinte pudesse ser vendida em Portugal e sem prescrição médica.

ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Tal acção não expressa qualquer tipo de ilegalidade. propunha-se a ajudar as mulheres portuguesas. o Borndiep. Com efeito.7 de acção transnacional e usufruindo de um pluralismo jurídico a partir de cima. definindo-o como uma zona marítima contígua ao território do Estado costeiro e sobre a qual se estende a sua soberania. Inspirada na ideia do barco da organização ambientalista Greenpeace. Tais iniciativas e a vinda do Borndiep foram cuidadosamente preparadas desde a vinda de Rebecca Gomperts a Portugal. sessões de esclarecimento e sensibilização para a prevenção de doenças sexualmente transmissíveis e de gravidezes não desejadas. eventos culturais. a WOW desenvolve actividades mediáticas nos países onde o aborto é ainda criminalizado que visam chamar a atenção para as consequências nefastas dos abortos clandestinos e para a necessidade do aborto ser despenalizado. o limite exterior do mar territorial é fixado nas 12 milhas náuticas. designadamente workshops no âmbito da saúde sexual e reprodutiva. Embora tivesse sido a faceta mais mediática e polémica da campanha. Esta componente do projecto aplica-se exclusivamente a águas internacionais. debates com profissionais do direito. reuniões com partidos políticos. cerca de um ano antes. a bordo do barco que está sob jurisdição holandesa. jurídicos e culturais que os 6 De acordo com a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar. com uma gravidez até seis semanas. A cronologia deste acontecimento consubstancia um exercício importante de reflexão sobre as opções dos movimentos sociais e dos constrangimentos políticos. certo é que o projecto WOW consistia em mais actividades. até águas internacionais 6 . para tal. Assim. através da pílula abortiva. mas antes articula normas do direito nacional com normas do direito internacional. onde. nome do barco utilizado na campanha da WOW em Portugal. a WOW assenta a sua campanha na deslocação de um barco que traz consigo um contentor onde funciona uma clínica ginecológica e na qual é possível realizar abortos a pedido da mulher. canalizando os ganhos mediáticos da campanha desenvolvida para a mudança da lei restritiva. deslocando-as. de 1982. desde 2001 que a WOW é uma organização não governamental (ONG) devidamente autorizada pelo Ministério de Saúde holandês a interromper a gravidez de mulheres que assim o decidam até um prazo máximo de 6 semanas e meia. uma equipa de médicas e enfermeiras devidamente autorizadas podem realizar abortos. que desejassem interromper a sua gravidez.

quer internamente para o movimento constituído. Mais especificamente. uma conferência de imprensa anunciada a partida do Borndiep rumo a Portugal. devem ser surpreendidos.8 condicionam. Esta formação. sócios das associações envolvidas e pessoas a título individual. se encontravam a Rebecca Gomperts e Guinilla Kleivierda. na Holanda. na prática. Depois da viagem em 2001 à Irlanda e. este seminário serviu. a WOW navega novamente para um país onde o aborto é penalizado. Desde cedo se percebe que os media. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . foi realizado em Coimbra um seminário sobre saúde reprodutiva onde. Em cada uma destas áreas. se assumiram como mais marcantes. Em Julho. à Polónia. a esta altura. pelo que o contacto com os media é reduzido ou mesmo nulo. pelo que se referem de seguida algumas das datas que. os cerca de trinta voluntários. e da estratégia pensada para o projecto. o barco pretende atracar no porto da Figueira da Foz. da relação com os media. foi dito aos voluntários como agir. quer para a opinião pública. ainda confidenciais. Junho/ Julho de 2004: Recrutamento e Preparação de Voluntários Em 5 de Junho de 2004. bem como todas as informações relativas ao projecto são. do atendimento da hotline e ao nível jurídico. Para além de promover o conhecimento e a sensibilização junto dos profissionais de saúde. bem como o Governo. Agosto de 2004: a chegada do Borndiep e a acção do Governo português A 23 de Agosto é realizada. estando presentes na formação os advogados portugueses das associações envolvidas e da WOW. receberam formação diversa para poderem participar na campanha. nomeadamente ao nível da segurança. para angariar voluntários. em 2003. médica ginecologista da WOW. o que dizer. sempre dentro da legalidade. activistas e outros para as campanhas da WOW e para a questão da despenalização do aborto como um problema de saúde pública. entre os palestrantes.

a sua soberania jurídica. efectivamente. três: a legal. O impacto mediático da campanha cresce a cada dia. com a notícia a abrir vários serviços noticiosos televisivos. nomeadamente. sobretudo quando são destacadas duas covertas para vigiar o Borndiep. A cautelosa formação a que se tinham submetido preparava-os para qualquer imprevisto e obstáculo após a chegada do Barco a águas territoriais. mas não para a eventualidade da sua não chegada. como suporte ao argumento mais invocado: o de que esta campanha atentava contra a soberania do Estado português. começam a ouvir-se rumores de que o barco será impedido de entrar em águas territoriais. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . teve conhecimento que a ONG holandesa WOW pretendia entrar em território português para: distribuir e publicitar produtos farmacêuticos não autorizados em Portugal. e a política. constituída somente por membros da WOW. mais de trinta voluntários portugueses e holandeses se encontram preparados. a tripulação do Borndiep. e o direito português. Pela primeira vez o barco era proibido de entrar em águas nacionais num país. nomeadamente os artigos 19 e 25. desenvolver uma actividade numa infra-estrutura médica sem licença ou inspecção por parte das autoridades portuguesas competentes. a pública. Mais tarde o Governo justifica a sua decisão afirmando que. informamos o seguinte: no que se refere ao pedido de autorização para a embarcação Borndiep entrar em águas territoriais portuguesas com destino ao Porto da Figueira da Foz. após tentativas falhadas de comunicação com as autoridades marítimas. através da equipa jurídica. o que poderia colocar em causa a saúde pública (idem: 12). imagens que rapidamente são divulgadas nacional e internacionalmente. E. Entre 26 e 27 de Agosto. recebe um fax no qual se pode ler: “Em nome das autoridades marítimas portuguesas. de 1982. esse foi recusado” (WOW. informamos que. Estes argumentos serviram. através do recurso aos media. através dos media nacionais e internacionais. As arenas de eleição eram. O impacto mediático é extraordinário. Neste momento nota-se. 2005: 11).9 onde numa casa especialmente arrendada para o efeito. mediante o lobby exercido junto aos partidos políticos portugueses e Governo holandês. ao abrigo da Secção III Parte II da Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar. agora. publicitar e promover a prática de actos ilícitos em Portugal. com várias equipes de reportagem estrangeiras a chegar à Figueira da Foz. violando-se um sem número de convenções e directivas europeias. na prática. no seio dos activistas. inclusive a perseguição judicial. um certo desnorteamento.

A campanha WOW foi a este nível paradigmática. Afinal. o que não se vem a verificar. Este barco faz viagens para levar mantimentos à tripulação. necessariamente. A discussão instala-se no seio do grupo de activistas: deve ou não o Borndiep regressar à Holanda? Que alternativas devem ser equacionadas para que toda a campanha não seja colocada em risco? Nesta altura há uma certa cisão no grupo. alteradas. no dia seguinte. Se alguns. é a vez dos deputados parlamentares Francisco Louça (Bloco de Esquerda). quer para os activistas envolvidos. Odete Santos (PCP) e Jamila Madeira (Parlamento Europeu). a acção foi pensada para ser desenvolvida sempre dentro dos limites da lei portuguesa e toda a formação dos activistas foi no sentido de cumprimento da lei pelo que a opção por uma acção ilegal podia traduzir-se em perdas de legitimidade do projecto globalmente considerado. Também o Governo e deputados holandeses iniciam esforços no sentido de ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . voluntários a conhecer o Borndiep. alugando uma pequena embarcação: se o Borndiep está impedido de vir junto dos portugueses. Com a proibição à entrada do barco. Entendendo-se que é ainda cedo para encerrar a campanha. claramente. os movimentos sociais caminham num permanente limbo entre a acção institucional e a acção radical que foge ao poder do Estado. irem ao Borndiep. estes não estão proibidos de ir até eles. inícios de Setembro: entre a acção institucional. Os activistas estavam preparados para serem detidos pela polícia. outros consideram que tal acção constitui um risco grave quer para a tripulação. a WOW e as associações portuguesas envolvidas optam por contornar a situação inesperada. a acção radical e a acção ilegal Como refere Boaventura de Sousa Santos (2005). mas. mas não para ir contra a lei. havendo viagens específicas para jornalistas e políticos: a JS realiza no Borndiep uma conferência de imprensa a 30 de Agosto e. é rentabilizado em termos mediáticos. porque a sua acção era legitima e legal. designadamente os activistas da WOW. O objectivo agora é. também.10 Finais de Agosto. as acções planeadas para os quinze dias de estadia são. pressionar politicamente o governo para que este levante a proibição. entendem que o barco deve forçar a entrada e avançar para águas territoriais portuguesas.

ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . diz respeitar a decisão do Governo Português. Bernard Bot. designadamente aos workshops com políticos. uma vez que a pílula abortiva era administrada no barco. também. que verdadeiramente podia haver continuação da actividade criminosa e que os direitos fundamentais invocados pela WOW não são absolutos e podem ser restringidos quando há interesses maiores em risco. Estes são momentos de uma nova atenção mediática. o Borndiep fez a viagem que muitas mulheres portuguesas fazem para abortar: vão a Espanha. Considerou.11 convencer o Governo Português a permitir a entrada do Borndiep. Baseados no direito à liberdade de mobilidade. de reunião e de expressão. Julgamento. que havia continuidade de actividade criminosa em território português. no programa SIC 10 Horas de 7 de Setembro. assim como a acção judicial contra o Estado português Paralelamente a estas. do modo como a mulher portuguesa podia abortar usando Misoprostol. A juíza decidiu a favor do Governo dizendo que este tinha agido de acordo com o seu poder discricionário e não cabia a um juiz anulá-lo. e a divulgação pela Rebeca Gomperts. deputadas do Parlamento Holandês vêm a Portugal como forma de apoio à campanha WOW. Assim. por seu lado. Estas são acções moderadas e institucionais. que levante a interdição. Os advogados do governo argumentaram. argumento que foi contestado. Progressivamente a campanha começa a perder força e vitalidade e os media dão menos destaque às iniciativas. A dois de Setembro. Também a quatro de Setembro. A seis de Setembro é conhecida a decisão do Tribunal Administrativo de Coimbra. a colagem de faixas com a inscrição “Eu fiz um aborto” em diversos pontos da cidade de Lisboa. de informação. os advogados da WOW solicitaram ao tribunal que anulasse a decisão do Ministro Paulo Portas e permitisse ao barco entrar em águas portuguesas. em nome do Parlamento Holandês. o Ministro dos Negócios Estrangeiros da Holanda. mas pede. mas o aborto ocorria em Portugal. que reuniu cerca de 250 pessoas junto da residência oficial do Primeiro-Ministro. assim como a viagem forçada do Borndiep a Espanha para se abastecer de combustível. já que tal operação foi proibida em Portugal. há acções de confronto como a manifestação realizada a 1 de Setembro. artistas e profissionais de saúde que ocorrem em terra e não a bordo do Borndiep como inicialmente se tinha previsto.

como defendem vários autores. O Borndiep como Kula? Numa sociedade marcada pela ausência de movimentos sociais fortes e por uma luta que se tem marcado. uma vez que os voluntários e algumas associações envolvidas queriam permanecer dentro da legalidade e evitar colocar em risco a legitimidade da acção. podendo ser utilizados para justificar quase qualquer decisão judicial (Tushnet. notou-se uma diferença entre a agenda da WOW e a agenda das associações portuguesas. O Borndiep surge como uma “dádiva” provinda de outro país para a luta pela despenalização do aborto em Portugal ou. mostrando que. Também a acção política do movimento foi constrangida. como a decisão do tribunal mostrou ser mais uma decisão política do que uma decisão judicial. Em primeiro lugar. A primeira era mais imediata e procurava ajudar o maior ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . o recurso a um pluralismo jurídico que permite toda uma acção dentro da legalidade acabou por ser. pelo contrário. o que de facto aconteceu após o programa SIC 10 Horas. o chamado “Barco do Aborto” emerge como uma forma de acção colectiva nova que se inscreve nas formas de acção política ditas radicais. ao mesmo tempo que sustenta a sua acção no cumprimento da lei. à Holanda e a campanha termina. no final. Neste ponto. 4. ambíguos e manipuláveis. aliás.12 Sem qualquer esperança de que o Borndiep fosse ainda autorizado a entrar em Portugal e perante uma luta que se desmobilizava. um obstáculo a que a acção se radicalizasse. já que os direitos são instáveis. por acções institucionais. a 9 de Setembro. mas também na acção dos movimentos sociais generalizadamente considerados. que está. 1984). foi uma estratégia contraproducente? As acções usadas durante a campanha face à proibição da entrada do Barco foram adequadas? O grande trunfo da campanha. o barco regressa. O balanço da campanha obriga a uma reflexão deste tipo de estratégias não só na luta específica pela despenalização do aborto a pedido da mulher. na génese da criação da WOW. tal pluralismo jurídico não só foi ignorado pelo Governo. entendendo várias pessoas que Rebeca Gomperts não deveria ter divulgado como cada mulher podia fazer um aborto se assim o entendesse. essencialmente. o direito é político.

No entanto. Permitiu. quer na televisão. entendo que os ganhos desta campanha superaram as eventuais perdas. Estes resultados e a reintrodução deste tema na opinião pública ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . esta foi uma mobilização do movimento pela despenalização que fugiu ao carácter reactivo e pontual dos protestos dos últimos anos. direitos e cidadania e a relacioná-los com a questão do aborto. De facto. foram várias as vozes que consideraram que uma questão da esfera íntima como é a da interrupção de uma gravidez. realizada pelo Diario de Noticias e TSF. Esta possibilitou uma onda de apoio por parte de vários políticos. media e população em geral. ganhos mediáticos significativos. mostrou que 79. partido do Governo. mesmo aqueles que eram contra a despenalização. mostrou que 56% da população queria que o aborto fosse despenalizado imediatamente e 7% depois do Governo terminar mandato. Em terceiro lugar. Desde logo. ainda que de uma forma mais indirecta do que a inicialmente prevista. durante a campanha. não deveria ser “espectacularizada” em iniciativas como o “Barco do Aborto”. Certo é que o mediatismo conseguido por uma acção radical da sociedade civil sem precedentes em Portugal perdeu vitalidade e dinamismo quando enveredou por uma via mais institucional e moderada. Uma outra sondagem. Num outro aspecto. a hotline esteve a funcionar durante toda a campanha. ajudar efectivamente várias mulheres portuguesas. levando ao repensar de conceitos como o de democracia. tinha objectivos definidos a médio-longo-prazo que passavam pela criação de um cenário propício à alteração da lei em vigor. questionando-se o grupo se esta foi uma opção eficaz. contribuiu para que os portugueses tivessem consciência do posicionamento de Portugal nesta matéria face aos restantes países da União Europeia. mais moderada. permitiu reintroduzir na discussão pública um tema que parecia estar votado à marginalização das opções políticas. a segunda.13 número de mulheres portuguesas possível levando-as a bordo do Borndiep. Com efeito. Assim. e inclusive após a partida do Barco e houve informação disponibilizada quer na Internet. A proibição da entrada do barco acabou por ter.9% dos inquiridos afirmavam querer um novo referendo e 60% defendiam que o aborto devia ser despenalizado. inclusive do PSD. como activista e socióloga. Finalmente. uma sondagem efectuada pelo jornal Público. a derrota judicial conduziu a uma desmobilização final da luta. ainda. no final.

Boaventura de Sousa (2005) Fórum Social Mundial: Manual de Uso. Referências Bibliográficas SANTOS. Dissertação de Mestrado em estudos sobre as mulheres. a questão do aborto estivesse presente em todos os debates televisivos e nos programas eleitorais. WOW ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . após Abril de 1974.14 contribuiu. Lisboa: Universidade Aberta. para que nas campanhas para as eleições legislativas que se iniciaram pouco tempo depois da campanha WOW. TUSHNET. Porto: Edições Afrontamento. TAVARES. WOW (2005) Women on Waves – Portugal.” Texas Law Review. Manuela (1998) Movimentos de Mulheres em Portugal. UMAR (1999) Aborto – decisão da mulher. Mark (1984) “An Essay on Rights. TAVARES. 62:1363. História do movimento pelo aborto e contracepção em Portugal. UMAR. Lisboa: Livros Horizonte. Manuela (2003) Aborto e Contracepção em Portugal. na minha opinião.

Assim. alegando razões financeiras. e por fim. em finais da década de 80. controvérsia. foi um dos mais importantes Cine-teatros de Coimbra. A minha abordagem situa-se O presente texto corresponde à comunicação apresentada pela autora no 3º Congresso da APA. dado que o mesmo dá origem a duas versões contraditórias sobre o valor do edifício. a outra reforça-o. que defende a sua aquisição pública ou expropriação e a devolução da sua função de espaço cultural. O interesse do edifício não é consensual. a vontade de rentabilização do seu proprietário. O motivo da discórdia relaciona-se com diferentes versões daquilo que é o valor patrimonial do edifício. havendo diferentes posições relativamente ao seu destino e às suas possíveis funções. espartilhado entre toda uma heterogeneidade de objectivos contraditórios: por um lado. de um caso que nos remete para uma concepção de património como uma construção social. mas que desde há mais de uma década enfrenta um processo de degradação. Esta comunicação baseia-se em dissertação realizada no âmbito do programa de mestrado em sociologia “As Sociedades Nacionais Perante os Processos de Globalização”. a Câmara Municipal de Coimbra que. um movimento cívico em prol do Teatro. inviabiliza a última proposta. um promotor imobiliário que. em tempos. adquiriu o espaço para a construção de apartamentos. Introdução Esta comunicação centra-se numa controvérsia patrimonial em torno de um antigo Teatro situado na Alta de Coimbra. por outro. originalmente com o título “Património em Contestação: o caso da controvérsia em torno do Teatro Sousa Bastos. um acordo com o proprietário.Uma controvérsia como objecto etnográfico1 Andrea Gaspar Palavras-chave: património. portanto. FEUC. mediação 1. mas sim em discussão. A transformação do título deve-se ao facto de esta se tratar de uma versão revista e mais detalhada. A controvérsia propriamente dita diz respeito à discussão sobre o tipo de intervenção a dar ao edifício que. Trata-se. 1 ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . enquanto que uma posição nega o interesse patrimonial do edifício. em Coimbra”. processos de tradução. propondo como solução alternativa. em que o estatuto patrimonial do objecto analisado não está definido.

2. altura em que foi aclamado Teatro D. mais precisamente. Gambini 1999). no entanto. tendo sido reinaugurado em 1910. Como Teatro.precisamente na análise de todo o processo que leva à construção destes respectivos enunciados. O ter estado atenta ao processo que antecede as suas consequências significou a consciência da problematicidade em separar um ponto de vista discursivo de um ponto de vista pragmático e material. 1999b). considero que este processo de patrimonialização se trata de uma construção social não apenas no sentido de algo que não está definido. altura em que foi remodelado ao estilo arte déco. como se de algo puramente “social” se tratasse (ou seja. começou a sentir-se na década de 70. a sua função de Teatro é bem mais antiga – remonta ao século XIX. e portanto. foi frequentado pela elite de Coimbra. que conduzem a dois produtos possíveis da controvérsia (património/não património). tendo passado a ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . para uma Igreja Românica semelhante à Sé Velha. a constatação de que eles fazem parte do mesmo processo. desta vez em homenagem ao dramaturgo que era tio do então proprietário da casa de espectáculos (cf. numa espécie de liminaridade patrimonial. Seguindo a perspectiva de Bruno Latour (1996. 1999a. As origens do edifício. Não sendo o meu objectivo avaliar qual dos lados da controvérsia é que tem razão. importa sobretudo analisar as posições que a compõem enquanto processos contraditórios. Soares 1990-1992). com o nome de Teatro Sousa Bastos. como algo exclusivamente humano). após instauração da República. são ainda mais antigas: remetem para o século XII. e sobretudo após 74. Em todo o caso. Luís em homenagem ao monarca vigente. mas no sentido em que há uma série de processos ou acções que são simultaneamente humanos e não humanos ou materiais – as mediações – as quais irão determinar esse estatuto do objecto em discussão. da qual se supõe a existência de vestígios (cf. passando a incluir estes aspectos numa abordagem mais ampla que permite dar conta da construção praxiológica de um objecto patrimonial. por sua vez. é importante salientar a tentativa de deslocação da análise de um ponto de vista meramente discursivo e ideológico. de modo a ter um registo de todas as circunstâncias de que eles são feitos. Pequeno apontamento histórico sobre o edifício Embora a fachada do edifício remonte à década de 1940. A sua decadência.

3. Há. a Alta é assim uma espécie de laboratório de representações múltiplas e ambíguas. Espaço de múltiplas vivências. consequentemente. importa salientar o facto de o espaço se situar na Alta de Coimbra. à semelhança da maioria dos centros históricos em Portugal.funcionar exclusivamente como Cinema. associações mais ligadas ao meio local (associações de moradores. foi a sede de uma Cooperativa de Teatro – a Bonifrates – que. uma vez que a posse pública do edifício nunca se chegou a concretizar. O edifício. a discórdia e. folclóricas e etnográficas). A Alta de Coimbra Contextualizando um pouco a controvérsia. não obstante as diversas tentativas por parte dessa Cooperativa que. do que dos discursos nos quais essa separação é produzida. uma vez que a própria Universidade. as quais são visíveis. A Alta de Coimbra tem vindo a perder as suas funções de centro (centro habitacional. sobretudo westerns e filmes pornográficos. que lhe fora oferecido com melhores condições. tem vindo a deslocar-se para zonas mais periféricas. viria a trocar este espaço por outro. associações recreativas. fazendo do local uma zona marcada pelo envelhecimento e pela desertificação. bem como o bairro mais antigo da cidade. ao espírito da época. Por essa razão. centro de serviços). mais “autêntica”. altura em que foram sendo projectados filmes altamente lucrativos. perante a degradação do edifício. com o seu crescimento. acabaria por ser adquirido por uma sociedade constituída entre um promotor imobiliário e um ex-presidente de Câmara de Coimbra (cf. devido à coexistência de população autóctone e de população universitária. por exemplo. entretanto. Instalou-se. em inícios da década de 80. e por outro lado. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . produto de um conjunto de tensões que provêm menos de uma real separação entre dois tipos de população (a população autóctone vs população flutuante). um processo de ruína que tem durado até aos dias de hoje. 1989). tinha o intento de transformar o espaço num Centro Cultural. Posteriormente. preocupadas em reviver costumes e tradições de uma Alta passada. Diário de Coimbra. desde então. a Alta de Coimbra é um espaço dotado de alguma ambiguidade. ao nível associativo. Uma das mais importantes características da Alta de Coimbra é o facto de se tratar simultaneamente da zona onde se situa a Universidade. ambição essa mal sucedida. na Alta.

por sua vez preocupadas em promover a participação cívica e o activismo social dos seus residentes (cf. importa salientar que a ADDAC reproduz. Neste contexto de relações. como algo que perdeu a sua centralidade e se desfuncionalizou. salientam a Alta como um espaço vivo de relações sociais. Formou-se então um Movimento Cívico composto por várias associações da Alta. e que por isso se situa numa espécie de liminaridade em que se discutem novas funcionalidades. a ADDAC (Associação de Desenvolvimento da Alta de Coimbra) e as Repúblicas da Alta de Coimbra – o movimento Salvem o Sousa Bastos. representam-na como espaço em que o espírito de bairro e as relações sociais cedem lugar a uma objectificação e esteticização do centro histórico para consumo turístico – a perspectiva da mercantilização da cultura. de reactualização de discursos e constante negociação de representações e divergências políticas acerca do que é e deve ser o espaço social do centro histórico de Coimbra. ou a semióforo. Mais do que pano de fundo da controvérsia. Breve contexto da controvérsia A controvérsia é longa. uma representação da Alta como um espaço pitoresco. 4. a Alta é objecto politico de contestação. Estanque 2005). passando a significante.associações mais ligadas a um meio académico e político que. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . e do ponto de vista da musealização do espaço urbano. para os quais funcionam como uma espécie de rituais de cidadania. residências de estudantes autogeridas e organizadas em termos associativos. Tal é o caso das Repúblicas de estudantes. altura em que a Cooperativa de Teatro Bonifrates abandonou o edifício. tal como a Alta. o que não raramente corresponde a uma visão idealizada do “espírito de bairro”. remonta a 1989. quando o proprietário apresentou um projecto de construção de apartamentos. mas foi sobretudo em 1996 que se levantou a discórdia. enquanto as Repúblicas. contestando o localismo e o passadismo da visão das primeiras. entre as principais. através dos seus discursos. que viria a ser aprovado pela Câmara Municipal. segundo o conceito de Kristoff Pomian (1984). Poderemos. Este foi o primeiro momento da controvérsia. interpretar o Teatro Sousa Bastos. No seguimento do que foi dito no ponto anterior. o Sousa Bastos pode ser considerado como uma espécie de objecto de museu metonímico da própria Alta e dos discursos sobre ela produzidos. por isso.

um significado diferente para ambos os grupos. com a contrapartida da cedência de algum espaço no rés-do-chão para construção de uma sala polivalente que servisse as actividades locais da população daquele bairro. em 2003. formando um único grupo. a reuniões com a população. tal não significava necessariamente um restauro do edifício. a anunciação de negociações com o proprietário. na qual este edifício se insere. Por seu lado. diferentes intenções à partida. público na sua essência. o projecto do proprietário ficou suspenso devido à obrigatoriedade de escavações arqueológicas. a Comissão para a Coimbra Capital Nacional da Cultura. que entretanto. No contexto das suas intenções. havendo por parte da Câmara Municipal. ao longo da controvérsia. altura em que se reacendeu a discórdia. com um novo nome: o Movimento Sousa Bastos Vivo. com vista a resolver o problema do Teatro. para as Repúblicas. Foi a partir deste segundo momento que tive a oportunidade de acompanhar a controvérsia à medida que ela se foi desenrolando: assistindo a debates. e este objectivo inseria-se num outro contexto de preocupações: a política cultural da cidade. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . um “espaço cultural” significava. a reconstrução do edifício como Teatro. Tais negociações iam no sentido de permitir o projecto do construtor. que surgiu aquando da reunião de dois factores: por um lado. para a ADDAC.marcada por uma visão negativa e pessimista relativamente aos fenómenos de “musealização” do espaço urbano. procurando com isso acompanhar o modo como essas duas versões sobre o interesse patrimonial do edifício estavam a ser construídas. começava a ruir. a acções e a manifestações culturais. enquanto processo (contestado) de patrimonialização em curso. Mas o objectivo de recuperação do edifício como espaço cultural acabou por revelar. ambas se uniram num objectivo comum (lutar pela preservação do edifício como espaço cultural). há aqui contextos de motivações políticas que divergem e que formam agregações de intencionalidades distintas. O movimento cívico veio discordar desta posição. E portanto. Apesar das diferenças de sensibilidades e de motivações de partida. O assunto do Teatro Sousa Bastos volta a ser colocado nas agendas políticas. dado que ambos possuíam. por outro lado. com a ideia de recuperação do edifício. Entretanto. Esta associação de moradores manifesta uma preocupação com a degradação e crescente desertificação e desfuncionalização da Alta como espaço social. mantendo a defesa do edifício como espaço cultural. implicando a restituição fiel da sua fachada bem como da sua função. Houve um impasse até uma segunda fase da controvérsia. Deu-se assim o ressurgimento do protesto. a aproximação de eleições municipais.

Reformularam-se assim os grupos de acção: Câmara e ADDAC. associa-se à ADDAC. não num Teatro. Mas a principal objecção é dirigida à nova proposta do movimento. de modo a convencê-los de que essa é a opção “boa”. irão procurar convencer os artistas e grupos culturais de Coimbra. que é mais representativa dos interesses dos moradores da Alta. o qual consideram que serviria mais os artistas do que a população da Alta. grupos e alianças. que estão mais interessadas em defender um espaço cultural alternativo. Perante isto. por seu lado. a Câmara Municipal. a sua aquisição pública ou expropriação. com outras intenções. Porém. Perante isto. para atingir o seu objectivo (recuperar o edifício recorrendo à iniciativa do próprio proprietário). Ao longo deste processo.5. que passou a ser a ser aliada da Câmara Municipal. a partir do momento em que a Câmara Municipal anuncia um acordo com o proprietário. também as agendas irão ser reformuladas. em nome de uma melhor política cultural na cidade. por outro. a ADDAC declarou a sua desvinculação do movimento cívico. As Repúblicas. mas têm de ser mediados: são necessários outros. O que defendem é a importância de existência de espaços culturais ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . e que a Câmara não estava interessada em fazer mais um Teatro na cidade. por um lado. e por isso. a concepção por detrás da ideia de “espaço cultural” foi revelando as divergências e diferentes motivações de partida. Perante isto. no sentido de avançar com um projecto misto. então apresentado como Movimento Sousa Bastos Vivo. marcada por novos protestos. Esta posição não veio a ser partilhada pela ADDAC. portanto. Esses objectivos de partida não são atingidos directamente. A justificação da ADDAC pela divergência é a de que a anterior luta não revelou qualquer eficácia. e daí a constituição de acordos. Movimento Sousa Bastos Vivo. Processos de tradução A segunda fase da controvérsia foi. pois permitia a ambos a concretização dos seus objectivos. a transformação do Sousa Bastos num espaço cultural alternativo. o movimento cívico continuou a defender a necessidade da intervenção no antigo Teatro como espaço público. O argumento da recuperação do edifício como espaço cultural foi o denominador comum que agregou as Repúblicas e ADDAC no mesmo grupo. e por não se identificar com a nova reivindicação.

entre outras. propondo para o Teatro Sousa Bastos a criação de um “Espaço Social e Performativo”. e não para a população que ali vive. o que significa que não faz sentido falar em discursos separadamente das estratégias: acções e de operações específicas. em vez de mera consumidora de espectáculos. através do Gabinete para o Centro Histórico. agentes culturais. contingentes e contextuais. a síntese de uma crítica mais geral aos processos mercantilizantes da cultura e do património. sobretudo. para artistas. por sua vez inspirado numa concepção de cidadania cultural.especificamente naquela zona da cidade. ambos os grupos foram realizando uma série de debates e de acções. Reformuladas as devidas estratégias. do que um equipamento de grandes dimensões. Gaspar 2006: 170-176). assim. o que significa que irá haver transformação no final do processo. perante acções que ultrapassam o nível discursivo. o Movimento Sousa Bastos Vivo foi organizando diversos debates públicos com a participação de convidados com algum destaque no meio cultural de Coimbra: artistas. em colaboração com a ADDAC. ateliers com crianças e idosos da Alta. e constituídas as novas alianças. Estamos. organizou. Para estas iniciativas. foram convidados artistas a participar com criações originais. por isso. Também estes procuram mostrar que defendem o que é “melhor” para a Alta (cf. A ideia de um “Espaço Cultural e Performativo” permitiria. outras acções foram realizadas. Importa com isto salientar que o mesmo objecto está a ser duplamente processado como património e como não património. procurando mostrar que a proposta que apresentam. espectáculos. e constitui. que formam o contexto no qual ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . A ideia de cidadania cultural permite entender a população da Alta como agente e participante nos processos culturais desenvolvidos. tais como desfiles performativos. intelectuais. Por seu lado. nível esse inseparável de um contexto praxiológico mais vasto. Para além de debates. com o objectivo de envolver a população. Os argumentos foram os de que uma sala polivalente para pequenas festas e para pequenos ensaios de peças de teatro ou de ranchos folclóricos serve melhor a população. em diferentes contextos e ocasiões: A Câmara. uma inauguração “fantasma” (simbólica) do novo Teatro. é a que melhor representa a Alta. uma sessão de esclarecimento dos moradores. professores universitários. como justificação para o investimento na criação desse espaço alternativo naquela contexto. com o objectivo de convencer os respectivos públicos. portanto. dando assim exemplos do que poderia ser a actividade cultural a desenvolver no “espaço social e performativo” (idem: 111). pelo movimento: diversas manifestações culturais. trabalhar com. arquitectos.

Os segundos grupos. É isto que tem marcado a passagem de uma abordagem simbólica da cultura. na primeira fase da controvérsia. ou seja. Tiveram. que nos habituaram a uma concepção de sociedade como algo puramente humano. não conseguiram convencer os poderes autárquicos. foram a parceria constituída entre Câmara ADDAC. em termos de uma identidade e posição política acerca desta questão. o outro que visa transformá-lo no enunciado oposto de “espaço sem interesse patrimonial”. enquanto que a ADDAC manifestava uma preocupação mais relacionada com a recuperação do edifício e das suas funções. pois. composto por várias associações. no contexto de uma Alta concebida como espaço de habitação e de vivência social. A ideia de tradução. a Câmara Municipal. tão negligenciados ao longo das abordagens excessivamente humanistas e antropocêntricas das ciências sociais da modernidade. que têm consequências que não são meramente retóricas e discursivas. segundo Latour. a autonomização de grupos. ou seja. que constituem dois processos de tradução distintos: um que visa transformá-lo no enunciado de que se trata de um “espaço patrimonial”. Estes interesses eram. a ideia de que há uma série de passos até chegar ao enunciado final. desvio de percurso e reformulação de objectivos. identifica-se como um desses passos ou operações. após reformulação. e consequentemente. Contudo. e consequentemente. Os objectivos de ambos foram interrompidos. por oposição ao primeiro movimento cívico. seguindo o conceito desenvolvido por Bruno Latour (1996). à partida. são constituídos por uma série de acções ou operações. que era a recuperação do Teatro para fins culturais. para uma abordagem material e praxiológica dos fenómenos sociais. remete para um conjunto de acções que conduzem a transformações ontológicas e materiais. Os primeiros grupos autonomizados foram. juntos. pois as Repúblicas estariam mais interessadas na política cultural. que seguir caminhos ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . em pareceria com o proprietário. podemos considerar que o edifício está a ser duplamente processado por intenções opostas. Pessoas e grupos com interesses heterogéneos uniram-se com um interesse comum. mas essas consequências são mais “duras” do que simples discursos. por oposição a Movimento Sousa Bastos Vivo (Repúblicas em pareceria com agentes culturais). incluindo (ADDAC) e as Repúblicas de Coimbra. Os processos de tradução. heterogéneos. os aspectos “objectivos” e materiais da realidade.esses discursos são produzidos. como leis científicas ou novos objectos materiais. trata-se de recolocar no âmbito da análise social. Neste caso. No fundo. reformuladas as estratégias. Nesse sentido.

divergentes para atingir as suas finalidades. Outro dos processos de interessamento. chama a atenção para a impossibilidade de construção de um equipamento cultural adaptado às exigências contemporâneas num espaço com aquelas características (ruas íngremes e medievais). numa segunda fase. mobilizando argumentos técnicos e urbanísticos. em termos de mobilização retórica. o seu significado social. e surgida uma oportunidade de aliança com agentes culturais da cidade. a Câmara considera que o edifício não tem interesse (arquitectónico. e pela ausência de uma estratégia cultural por parte dos poderes autárquicos. Ou seja. como já referi. chamando a atenção para a necessidade de criação de espaços para grupos culturais que não têm espaço. o Movimento Sousa Bastos Vivo. verifica-se na ligação entre a Câmara Municipal e a ADDAC. Em suma. Um dos processos de interessamento que se verificou foi a associação com artistas da cidade que reclamam a falta de espaço cultural. mas que se tornaram aliados. cuja aliança permite reforçar o respectivo argumento ou enunciado. também os processos de mobilização retórica envolvidos (outra das operações de tradução) são reformulados: por exemplo. bem como os discursos que lhe estão associados. histórico. A partir daqui. Estas duas versões do interesse do edifício. a Câmara. Estas estratégias de acção. etc. porém o movimento considera que não é o interesse do edifício que está em causa. designada por processo de interessamento (Latour 1996). que irá procurar associar-se a especialistas em urbanismo para reforçar e legitimar “tecnicamente” o enunciado pretendido. Seguiu-se uma fase de estagnação e posteriormente. Esta operação.). constituem o ponto fundamental que permite a constatação da observação de um fenómeno que ultrapassa o nível meramente linguístico. na altura em que houve negociação da Câmara com o proprietário. detalhadas na minha etnografia. Assim se transformam interesses heterogéneos em interesses comuns. o objectivo do novo movimento. novos protestos. significou seduzir para o mesmo objectivo grupos os pessoas que nada tinham a ver com o assunto. ao mesmo tempo que o movimento mobiliza a retórica da política cultural da cidade. bem como com agentes culturais descontentes com a política cultural da cidade. passou progressivamente a ser a transformação do antigo Teatro num espaço alternativo para os grupos artísticos da cidade. o qual irá determinar o destino do novo objecto resultante. Fragmentado o movimento. têm por base ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . bem como novas retóricas. novos aliados foram sendo mobilizados para a causa. mas a sua memória. aquilo que ele representa como Teatro naquele bairro.

ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . e uma concepção de património como algo social. em detrimento da transformação da Alta para turistas. foge ao padrão dos edifícios que compõem o Centro Histórico. promovendo a participação em detrimento do consumo e transformando consumidores em participantes num processo de produção cultural. a musealização do espaço urbano) e por outro. salientam a importância daquele espaço para os moradores. que é também. urbanísticos (problemas de acessibilidade que têm a ver com a configuração das ruas). num certo sentido. no contexto das sociedades capitalistas modernas. na memória do espaço e no seu significado. defendem. Para além disso. mas também técnicos. o interesse do edifício para as pessoas. desta forma. e que por isso. e não sendo o âmbito desta discussão procurar saber qual das duas a mais válida.tradições ideológicas distintas. arquitectónicas. Com isto. que reduz a proposta de um “espaço social e performativo” a um Teatro. conhecida por Teoria Crítica da Escola de Frankfurt. O interesse do edifício. realçando o aspecto social em detrimento do material. patrimoniais: argumentam que o edifício não é típico da zona onde está inserido. Abandonadas quaisquer pretensões vlorativas de acesso a uma verdade final. impossível de concretizar não apenas devido a motivos económicos. a ideia de que haver interesse patrimonial no edifício. Deslocam. marcado pelo confronto entre duas tendências: por um lado. 3 Insere-se nesta tendência a escola de pensamento dos anos 1970. Isto é o que se poderá considerar uma concepção de cultura como cidadania. ele só 2 As chamadas indústrias culturais. aqui objectificado na posição da Câmara Municipal. no caminho para atingir o seu objectivo) precisamente esta segunda opção: a cultura como cidadania. substituir a noção de cultura popular. está nas pessoas. argumentam que o edifício não possui características que justifiquem a sua preservação: características estéticas. ou seja. que nos remetem para um velho debate sobre as questões da cultura na globalização. históricas. a “cidadania cultural” como crítica a essa tendência de mercantilização da cultura 3 . não no edifício em si. a “mercantilização da cultura” ou as “indústrias culturais”2 (o turismo. importa apenas salientar que o movimento cívico representa (no sentido em que mobiliza a retórica construída por esta tendência. só faz sentido como reacção ao extremo oposto desta concepção. para a memória social. a uma ideia de cultura como sujeito. ou cultura de massas. defendendo a interacção entre dinamizadores culturais e a comunidade local. Esta concepção de cultura e de património. Tal se verifica na acção de salientar um projecto alternativo para aquele espaço (proposta de Espaço Social e Performativo). os sujeitos em detrimentos dos objectos. sinónimo de um grande equipamento. e sobretudo. vieram.

como objecto. é outro dos passos no caminho. que por razoes obvias escapam aos ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . etc. Estratégias a nível de alianças ou processos de interesssamento. a Câmara Municipal defende que a população não precisa de um Teatro. bem como para uma noção de cultura que é mais próxima de uma ideia de cultura como mercadoria (em vez de cidadania). que determinará o predomínio de um enunciado sobre o outro. sendo que a prova final do respectivo enunciado não é a verificação empírica (ao contrário da ciência. reformulação de objectivos e consequentemente. cada lado da controvérsia considera que representa a população da Alta. Ambas as concepções e processos de mobilização retórica podem ser entendidos como diferentes caminhos para atingir diferentes fins. Neste caso. que não correspondem às expectativas em termos de público. reformulação de grupos autonomizados. reuniões de moradores por intermédio de associações de moradores. para além dos já existentes. para a qual este modelo de interpretação foi desenvolvido). Cabral 2004). caso contrário. ou criação de relações com o público. de uma perspectiva de relação entre oferta e procura. no sentido em que defende que representa mais fielmente aquilo que a população quer para o edifício. debates com a população. de retóricas que servem esses objectivos. em processos de representação. em que cada um dos lados desencadeia as suas acções com vista a atingir o seu objectivo.). estão envolvidos em muito maior detalhe. bem como as representações. pois. um dos argumentos desta posição é a de que. Esta ideia. e consequentemente. seria mero “património psicológico”.poderia estar inscrito no próprio edifício. Um dos lados representa a Alta como sujeito. remete para uma concepção objectificante de património. mas sim a representação política. Este é apenas o resumo das narrativas mobilizadas para esta questão ao longo do processo. O Movimento Sousa Bastos Vivo defende que a população do bairro precisa de um espaço cultural. tendo em conta que. o destino do edifício. etc. O que é importante salientar é que esta é a legitimação retórica que fundamenta cada uma das posições a realizar de uma série de acções com vista a convencer a população de que representa aquilo que ela quer: através de manifestações artísticas. A representação é outra das operações. o outro. mas sim de um espaço polivalente para as suas actividades (ranchos. pequenas peças de teatro. não fazem falta mais Teatros na cidade. que assentam todos os processos políticos (cf. contrariamente à anterior. através da conquista do consentimento dos representados (Gramsci 1974). É. É a eficácia dessa representação.

e mobilizados para a controvérsia. até novas eleições municipais). Um destes enunciados terá maior eficácia sobre o outro e dará origem a um novo objecto. ou seja. há. todo um trabalho artefactual de sucessivas mediações. interessou-me analisar como é que cada uma se constrói como “verdade”. interessou-me sobretudo analisar estes dois lados da controvérsia como dois processos de enunciação. àquilo que fica para a história após a controvérsia. mas refiro-me a grupos somente do ponto de vista das suas estratégias de acção.objectivos desta comunicação. dado que esse desfecho ainda não se conhece e a controvérsia ainda perdura (marcada por nova estagnação que durará. ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . que são os seus efeitos. ou seja. pois. Havendo dois enunciados. as consequências materiais desse processo. mais do que procurar saber qual destas posições sobre o Teatro Sousa Bastos é a mais “verdadeira”. foram assim sendo criadas relações ou elos de ligação que não existiam antes – por exemplo: o Sousa Bastos como uma questão de política cultural da cidade. ou seja. ou no sentido de associações. O processo de tradução só é terminado assim que houver uma coesão entre esses elos: esse será o núcleo duro. também. a identidade não foi o critério que utilizei para identificar e diferenciar grupos. no sentido latouriano. duas possibilidades de objectos diferentes. as consequências materiais propriamente ditas. quiçá. Desta forma se constata como o mundo discursivo e o mundo material não se sobrepõe. mas constituem-se mutuamente. Para isso. após a controvérsia. 6. mas no sentido de agregação com fins pragmáticos e acções convergentes. Porém. é esse o elemento que permite analisar as duas posições enquanto grupos de intencionalidades distintas 4 . ou qual é a “melhor”. fica no entanto ausente esta última fase deste processo de tradução. pois a noção de grupo que utilizo refere-se a um nível de sentido meramente formal. foi fundamental o trabalho de Bruno 4 Não se pretende com isto oferecer uma visão homogénea dos grupos em questão. o novo objecto. São estas operações que permitem identificar os diferentes enunciados em causa. ou o Sousa Bastos como uma questão urbanística – mas que foram sendo criados ao longo do processo. Há. a forma e o estatuto que o edifício irá assumir. através das acções referidas. Conclusão Perante estes dois paradigmas (subjectificação/objectificação). sendo isso que define o social. Por outras palavras. a algo irreversível. refiro-me a grupo não no sentido de identificação. Importa porém salientar que. trabalho esse que é feito e refeito em função das inúmeras contingências que surgem ao longo do processo. portanto.

trata-se de analisar os processos pelos quais a acção é mediada: que operações são levadas a cabo para atingir determinados objectivos. Paulo. Aníbal e PEIXOTO. Paulo. a observação etnográfica deste caso permitiu-me descrever e dar conta de dois processos de enunciação de verdade em confronto simultâneo: “o Sousa Bastos é património”. 21-05-04. “Patrimonialização” da Alta e da Praxe académica de Coimbra”. Dezembro de 2002 FRIAS.As Primeiras Décadas de História. No fundo. Comissão de Coordenação da Região Centro. que caminhos mais longos irão ser tomados para lá chegar. é uma espécie de resíduo. mas como parte constituinte desse mesmo processo: a controvérsia como processo de construção em si.php FRIAS. E a tradução é precisamente a passagem da controvérsia aos novos objectos ou factos objectivos: a passagem da contingência à necessidade. Oficina do CES.fe. é aquilo que não fica para a história. Coimbra ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA . Por isso. Oficina do CES. 1999. A ideia de tradução significa. Oeiras: Celta. Aníbal. 2004. 2002. por isso. do ponto de vista da tradução. Mas no fundo. Aníbal e PEIXOTO. sendo que a enunciação é o produto final. entre o passado e o presente”. Teatro Sousa Bastos . 1806-05. João de Pina.pt/publicacoes/oficina/162/162.uc.uc.Latour. o que implica entender a controvérsia não como algo a eliminar. a última fase do processo (património/não património). “Esthetiques urbaines et jeux d’echelles: expressions graphiques étudiantes et images du patrimoine universitaire a Coimbra”. “Aprender a representar: democracia como prática local”. “Representação Imaginária da Cidade. as operações que transformam a modalidade em enunciação. mas que permitiu entender este caso de um ponto de vista processual: o conceito de tradução. Processos de Racionalização e de Estetização do Património Urbano de Coimbra”. O conceito de tradução remete para o processo de construção de novos factos ou de novos objectos. 7. que desvios.pdf ESTANQUE. Actas do IV Congresso Português de Sociologia. 20-05-05. www. Lígia Inês.ces. um instrumento de análise inicialmente concebido para controvérsias científicas. 2001. Elísio. Junho de 2001 FRIAS. nº 162.ul. que delegações.ces. http://www. é aquilo que faz a história. nº 183. 2002.fe.ics. 2005. “As Repúblicas de Coimbra. Bibliografia CABRAL.pt/opiniao/ee/001. A controvérsia é o que Latour chama de modalidade: é o lado contingente de um processo social.pdf GAMBINI. www.pt/corpocientifico/pinacabral/pdf/DemocraciaJPC3. e “o Sousa Bastos não é património”.

“Esperanças renovadas para o Teatro Sousa Bastos: recuperação pode integrar projecto Coimbra Capital da Cultura”. Lisboa LATOUR. 25-04-1989. vol. Paulo. pp – 211-226 POMIAN. 2002. “Associações de Coimbra contra destruição do Cine-teatro Sousa Bastos” ACTAS DO TERCEIRO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ANTROPOLOGIA 1 14 . Politiques de la nature: comment faire entrer les sciences en démocratie. 3 Diário de Coimbra. vol. Stuart Hall. 3 Diário As Beiras. 3 Diário de Coimbra. A J. 30-01-96. “PCP de Coimbra responsabiliza Câmara e IPPAR: Salvem o CineTeatro Sousa Bastos”. XXXIII – XXXIV PEIXOTO. Routledge PEIXOTO. Reconnecting Culture. Critical Dialogues in Cultural Studies. “As fitas de um velho Cine Teatro na Alta. Londres. Paris LATOUR.M. Elementos para uma História das ciências III. dissertação de mestrado em sociologia apresentada à Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra. SOARES. in Serres. 2006. “Requiem pelo Teatro Sousa Bastos” (opinião de José António Cardoso) Diário de Coimbra. “Elementos para a História do Teatro Sousa Bastos”. Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra Publicações Periódicas: Diário de Coimbra.ensmp. The promisses of constructivism. “The problem of ideology: Marxism without guarantees”. www.). 1º vol. “Velho Teatro da Alta com Futuro incerto”. David & CHEN. 25-11-95. 25-46 LATOUR. p. Kuan-Hsing (eds. Éditions La Découverte.GASPAR. 1996 [1989]. António. 1984. p. Dissertação de Mestrado em Sociologia. “Colecção”.html MICHAEL.C. 1996 [1986]. Terramar. Technology and Nature: from society to heterogeneity. Stuart. Memória – História. 1974 [1959] Teoria – obras escolhidas. Departamento de Sociologia. nº 13. p. 5. 19-01-96. I. Arquivo Coimbrão. 1999a. 25-11-2001. GRAMSCI. Bruno. in Enciclopédia Einaudi. Kryzstof. Andrea. 2003. “Teatro Sousa Bastos: os passos de um negócio”. Património e Política: o Teatro Sousa Bastos como objecto de tradução. “Centros Históricos e sustentabilidade cultural das cidades”.fr/~latour/articles/article/087. Imagens e usos do património urbano no contexto da globalização. “Joliot: a história e a física misturadas”. in MORLEY.) 1996. p. Lisboa HALL. Faculdade de Letras da universidade do Porto. Bruno. I. Routledge. Bruno. De Pasteur ao Computador. Sociologia. Bruno. 2000. pp. 1997. Pandora’s Hope: Essays on the Reality of Science Studies. Harvard University Press LATOUR. Mike. 1990-1992. Paulo. Editorial Estampa. 20-01-2004. Michel (org. 1999b.N.