A família e o desenvolvimento do indivíduo – D. W. Winnicott Prefácio O livro é uma coletânea de palestras.

Seu tema central é a família e o desenvolvimento de grupos sociais a partir desse primeiro grupo natural. Para Winnicott a estrutura familiar deriva em grande parte das tendências para a organização presentes na personalidade individual. A família possui lugar claramente definido naquele ponto em que a criança em desenvolvimento trava contato com as forças que operam na sociedade. O protótipo desta interação é encontrado na relação original entre criança e mãe. O mundo representado pela mãe pode vir a auxiliar ou impedir a tendência inata da criança ao crescimento. Esta é a ideia central desenvolvida no decorrer desta coletânea de artigos. Parte 1 Capítulo 1 – O primeiro ano de vida: concepções modernas do desenvolvimento emocional Introdução Neste artigo Winnicott empreende um estudo do que ocorre nos primeiros estágios de desenvolvimento da personalidade da criança, ou seja, estudo do desenvolvimento emocional em suas primeiras fases. Segundo ele, a capacidade das mães de cuidar das crianças não se baseia no conhecimento formal, mas provém de uma atitude sensível adquirida na medida em que a gravidez avança, e depois perdida à proporção que a criança se desenvolve e se afasta. Pressupõem, também, a existência de uma mãe que seja sadia o suficiente para comportar-se naturalmente como mãe. Devido à extrema dependência emocional da criança, seu desenvolvimento ou sua vida não podem ser estudados à parte da consideração do cuidado que lhe é fornecido. Demonstra o fato de que o desenvolvimento emocional do primeiro ano de vida lança as fundações mesmas da saúde mental do indivíduo humano. Tendência inata ao desenvolvimento No universo psicológico, há uma tendência ao desenvolvimento que é inata e que corresponde ao crescimento do corpo e ao desenvolvimento gradual de certas funções. Assim, o desenvolvimento emocional se dá por um processo evolutivo natural. todavia, esse crescimento natural não se constata na ausência de condições suficientemente boas. Dependência A grande mudança que se testemunha no primeiro ano de vida refere-se à aquisição de independência. A independência se realiza a partir da dependência e a dependência realiza-se a partir de uma dupla dependência. Nos primórdios há uma dependência absoluta em relação ao ambiente físico e emocional. Nesse estágio de dupla dependência não há vestígios de uma consciência da dependência, e por isto esta é absoluta. Gradualmente, a dependência torna-se em certa medida conhecida pela criança, que, por consequência, adquire a capacidade de fazer saber ao ambiente quando necessita de atenção. Há um progresso muito gradual em direção à independência, sempre marcado por recorrências da dependência e até da dupla dependência. Muito normalmente um certo grau de independência pode ser diversas vezes conquistado, perdido e novamente conquistado; é bastante frequente que uma criança retorne à dependência.

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Dupla dependência absoluta em relação ao amb. físico e emocional. Não consciente

dependência conhecida pela criança

independência

Esta progressão da dupla dependência à dependência, e desta à independência, não é apenas expressão de tendência inata da criança a crescer; este crescimento só pode ocorrer se se processar numa outra pessoa (mãe) uma adaptação muito sensível às necessidades da criança. A mãe é capaz de adaptar-se às necessidades variáveis – e crescentes – da criança. Com um ano de idade, a criança já é capaz de manter viva a ideia da mãe e também do tipo de cuidado que se acostumou a receber. Integração Com um ano, a maioria das crianças já adquiriu de fato o status de indivíduo (já é um ser humano, uma unidade). Em outras palavras, a personalidade tornou-se integrada. Mas a integração não é algo automático; é algo que deve desenvolver-se pouco a pouco em cada criança individual. Para que seu processo se desenrole, há a necessidade da presença de certas condições ambientais, a saber: aquelas cujo melhor provisor é a própria mãe da criança. A integração manifesta-se gradualmente a partir de um estágio primário não integrado. Tanto em nível físico como em níveis mais sutis, a mãe ou o ambiente conservam a criança como que unida a si mesma, e a não-integração e reintegração podem processar-se sem ocasionar ansiedade. não integração integração

A um ano de idade o grau de integração que pode ter sido atingido é bastante variável. ATENÇÃO! não integração # desintegração A não integração NÃO constitui fonte de medo/ansiedade devido ao senso de segurança propiciado pela mãe. Já a desintegração, processo de desconstrução da estrutura integrada já adquirida, é dolorosa para a criança. Personalização Na criança de uma ano, a psique e o soma já aprenderam a conviver. Este estado de coisas, no qual psique e soma estão em íntima relação, desenvolve-se a partir da série de estados iniciais em que a psique imatura não se encontra estreitamente ligada ao corpo e à vida do corpo. A existência de um grau razoável de adaptação às necessidades da criança é o que melhor possibilita o rápido estabelecimento de uma relação forte entre psique e soma. Havendo falhas nessa adaptação, surge uma tendência de a psique desenvolver uma existência fracamente relacionada à experiência corporal, acarretando como resultado que as frustrações físicas não sejam sentidas em toda a sua intensidade. Mente e psique-soma Com um ano, a criança já terá desenvolvido de modo bastante perceptível os rudimentos de uma mente.

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ATENÇÃO! psique # mente A psique está ligada ao soma e ao funcionamento corporal, ao passo que a mente depende da existência e do funcionamento de partes do cérebro que se desenvolvem depois (na filogênese) das partes relacionadas à psique primitiva. De início, a mãe deve adaptar-se de modo quase exato às necessidades de seu filho para que a personalidade infantil desenvolva-se sem distorções Contudo, dá-se à mãe cada vez mais a possibilidade de ser malsucedida nessa adaptação e isso ocorre porque a mente e os processos intelectuais da criança tornam-se capazes de levar em conta e logo permitir certas falhas de adaptação. Na criação de um filho, a mãe é dependente dos processos intelectuais deste, e são eles que aos poucos a tornam apta a readquirir sua vida própria. A partir de determinada idade a criança torna-se capaz de aceitar certas características da mãe, conquistando alguma independência em relação à incapacidade materna de adaptar-se às necessidades filiais; isso, porém, raramente ocorre antes do primeiro aniversário. Fantasia e imaginação Típica da criança é a fantasia, definida como uma elaboração imaginativa das funções físicas. Todo tipo de brincadeira indica a existência de fantasia. A fantasia evolui consideravelmente no decorrer do primeiro ano de vida. Embora isso (como todo crescimento) ocorra como manifestação da tendência natural ao desenvolvimento, a evolução é certamente tolhida ou distorcida na ausência de certas condições. O inconsciente inclui aspectos da psique que, de tão primitivos, nunca se tornam conscientes, e também certos aspectos da psique ou do funcionamento mental que se tornam inacessíveis à consciência a título de defesa contra a ansiedade (inconsciente reprimido). Conceito de inconsciente para Winnicott: aspectos da psique primitivos + aspectos da psique ou do funcionamento mental reprimidos Realidade pessoal (interna) O mundo interno do indivíduo já tomou uma organização definida ao final do primeiro ano de vida. Esse extrato do mundo, interno à criança, vai-se organizando de acordo com mecanismos complexos que têm por objetivo: − a preservação do que se sente ser “bom” - isto é, aceitável e revigorante para o self (ego); − o isolamento do que se sente ser “mau” - isto é, inaceitável, persecutório ou imposto pela realidade externa sem aceitação (trauma); − a preservação de um espaço, na realidade psíquica pessoal, em que objetos tenham relacionamentos vivos entre si – de afeto, mas também de arrebatamento e agressão. A visão que a criança tem do mundo exterior ao self baseia-se em grande medida no padrão da realidade pessoal interna; o comportamento real do ambiente em relação a uma criança é até certo ponto afetado pelas expectativas positivas e negativas da própria criança. Vida instintiva A princípio, a vida instintiva da criança baseia-se no funcionamento alimentar. Os interesses ligados às mãos e à boca predominam, mas as funções excretoras aos poucos vão acrescentando sua Apostila elaborada por Vanessa Lima. Outubro/2011 3

o bebê que se relaciona com o seio). adquirindo seu autocontrole sem perder demais da espontaneidade. vai aparecendo como fator novo na vida da criança por volta da época do seu primeiro aniversário. na medida em que todas. o germe da necessidade de independência. e não raro desastrosas. A excitação genital não tem grande importância no primeiro ano de vida. Durante o primeiro ano de vida as experiências instintivas são as portadoras da crescente capacidade que a criança tem de relacionar-se com objetos. podem privá-la das satisfações físicas que pertencem propriamente à infância. Outubro/2011 4 . ou se diluir numa insatisfação difusa ou num desconforto generalizado da psique e do soma. Espontaneidade O impulso instintivo cria uma situação que pode evoluir. O leitor reconhecerá facilmente em meio a esta exposição a teoria freudiana da sexualidade infantil. A espontaneidade é ameaçada por dois conjuntos de fatores: − pelo desejo da mãe de libertar-se das cadeias da maternidade. as consequências de um treinamento precoce são imensas. que foi a primeira contribuição da psicanálise ao entendimento da vida emocional das crianças. bem como do estudo das raízes da psiconeurose. O primeiro estado caracteriza-se pela relação com objetos parciais (por exemplo. Esforços no sentido de ensinar a criança desde muito cedo a controlar seus processos excretórios. O relacionamento triangular. com sua riqueza e complicações específicas.) possa ser entendido como pertencente a uma pessoa inteira. mas só atinge sua plena extensão quando a criança já começou a andar. Toda criança tem que criar o mundo. As satisfações têm extrema importância para a criança no decorrer de seu primeiro ano de vida. − pelo desenvolvimento de complexos mecanismos de restrição da espontaneidade no interior da própria criança (o estabelecimento de um superego). e a capacidade de esperar só pode ser adquirida de modo gradual. e um período de pós-satisfação. por conseguinte. o mundo for se presentando nos momentos de atividade criativa da criança o sucesso dessa operação Apostila elaborada por Vanessa Lima. e só vem à existência de fato quando as condições são suficientemente boas. De par com o reconhecimento do objeto inteiro surge o germe de um sentido de dependência. por um lado. se bem sucedidos. capacidade essa que culmina num relacionamento amoroso entre duas pessoas inteiras. Isto é uma aquisição que se desenvolve gradualmente. a criança estabelece uma severidade interna de caráter “humano”. e. Todas as funções tendem a ter uma qualidade orgástica. Esta teoria é o tema central da psicologia da infância normal. É a gradual integração da personalidade da criança que faz com que o objeto parcial (seio. contêm uma fase de preparação e estímulo local. e a moralidade tem início já no primeiro ano de vida da criança Por uma evolução natural (supondo-se que as condições exteriores permaneçam favoráveis).contribuição. cada uma a seu modo. pouco a pouco. mãe e filho. Relações objetais A criança de um ano por vezes é uma pessoa inteira que se relaciona com outras pessoas inteiras. mas isso só é possível se. Capacidade criativa O impulso criativo inato desaparece a menos que seja correspondido pela realidade externa (“realizado”). A função e as fantasias genitais só passam a ter predominância sobre as funções ingestivas e excretoras em algum momento do período compreendido entre as idades de dois e cinco anos. etc. É este desenvolvimento do controle interno que proporciona a única base verdadeira da moralidade. e quando o aspecto genital adquire predominância sobre as diversas modalidades de funcionamento alimentar instintivo e de fantasia. um clímax em que o corpo inteiro está envolvido.

essa começa a demonstrar certa capacidade de se preocupar. ao passo que a a criança se encontra nesse estado porque é assim que as coisas começam Constatamos na mãe grávida uma identificação cada vez maior com seu filho. e dependem da capacidade da mãe de apresentar o fragmento de realidade mais ou menos exato. cabe à mãe reparar. e quase todas as aquisições podem ser perdidas frente a uma posterior ruptura das condições mínimas ambientais. temporariamente. um objeto imaginado para ser instalado dentro e Apostila elaborada por Vanessa Lima. termo esse que vai ganhando seu significado à medida que a criança cresce. certa habilidade de ter sentimento de culpa. Estão em jogo dois tipos distintos de identificação: a identificação da mãe com seu filho e o estado de identificação do filho com a mãe. ursinhos. A presença contínua da mãe (ou sua substituta) é pré-condição necessária a essa realização altamente sofisticada. São casos particulares de agressão o ato de agarrar com as mãos e a atividade de sugar. ou mesmo pela ação de certas ansiedades inerentes ao amadurecimento emocional. Posses À idade de um ano. que depois transforma-se em morder.) de importância vital para as crianças pequenas por funcionarem como objetos intermediários entre o self e o mundo exterior. e podem ter o valor de objetos intermediários entre o self e o mundo exterior. a maioria das crianças já adotou um ou mais objetos que lhes são importantes. encontra-se identificada em grau extremo com sua criança Motilidade – agressão A motilidade é precursora da agressão. Podem adquirir importância vital. Capítulo 2 – O relacionamento inicial entre uma mãe e seu bebê Num exame do relacionamento existente entre uma mãe e seu filho. é necessário distinguir aquilo que pertence à mãe daquilo que já começa a desenvolver-se na criança. uma fraldinha. isto é. e a atitude da mãe deve comportar um elemento de estar atenta a ver e aceitar os esforços imaturos feitos pela criança no sentido de contribuir. Outubro/2011 5 . Na criança sadia. Tais objetos desempenham o papel de objetos parciais. representando sobretudo o seio. Ela é capaz de fazê-lo porque. Esses fenômenos (aos quais chama transicionais) podem constituir a base de toda a vida cultural do ser humano adulto. Objeto transicional = objetos (a ponta do cobertor. Desempenham o papel de objetos parciais (sobretudo o seio).depende da sensibilidade da adaptacão da mãe às necessidades da criança. grande parte do potencial de agressão funde-se às experiências instintivas e ao padrão dos relacionamentos do pequeno indivíduo. etc. Conclusão Todos estes desenvolvimentos (ao lado de muitos outros) podem ser observados nos primeiros anos de vida. A mãe introduz na situação uma capacidade amadurecida. sobretudo no começo. Winnicott chama tal objeto de “objeto transicional”. embora nada esteja estabelecido à época do primeiro aniversário. Os dolorosos primeiros estágios do processo de criação vitalício desenrolam-se na primeira infância. Capacidade de se preocupar Em algum momento da segunda metade do primeiro ano de vida da criança normal. Para que esse desenvolvimento ocorra são necessárias certas condições ambientais suficientemente boas. A criança é associada pela mãe à ideia de um “objeto interno”. bonecas de pano. amar construtivamente.

embora. O ego da mãe está em harmonia com o ego do filho. mas qual o resultado final disso? É normal que a mãe vá recuperando seus interesses próprios à medida que a criança lhe permite fazê-lo. Mas não sabem como o bebê está se sentindo a cada minuto. sem dar atenção à crescente necessidade da própria criança de ser desmamada. na verdade. como também abandona de súbito a preocupação com a criança. pois é apoiado Apostila elaborada por Vanessa Lima. a criança torna-se um acumulado de reações à violação. Essa realidade pode ser afetada por dois tipos de distúrbios maternos. temos a mãe cujos interesses próprios tem caráter tão compulsivo que não podem ser abandonados e ela é incapaz de mergulhar nessa extraordinária condição que quase se assemelha a uma doença. vivem pela primeira vez) os relacionamentos primeiros que não foram satisfatórios em seu passado. Acerca dessa criança. o self verdadeiro da criança não consegue formar-se. pois estão fora dessa área de experiência. ou permanece oculto por trás de um falso self que a um só tempo quer evitar e compactuar com as bofetadas do mundo. As crianças colocadas sob nosso cuidado.aí mantido apesar de todos os elementos persecutórios que também tem lugar na situação O bebê tem outros significados na fantasia inconsciente da mãe. conosco. afirma: seu ego é simultaneamente fraco e forte. substituindo-a pela preocupação que tinha antes do nascimento desta. No outro extremo temos a mãe que tende a estar sempre preocupada. Num extremo. e ela só é capaz de dar apoio se for capaz de orientar-se para a criança. e certamente conhecem tudo sobre a saúde e a doença do corpo. Tais enfermidades podem ser ocasionadas. Considera apenas aquela criança que. atravessam fases em que regridem e revivem (ou. O primeiro tipo de mãe não consegue desmamar o filho porque este nunca a teve de fato para si. Encontramos fatos análogos a todos estes quando consideramos nossa própria atividade terapêutica com crianças. Outubro/2011 6 . na medida em que precisam de terapia. o ego da criança é de fato muito forte. A mãe patologicamente preocupada não só permanece identificada a seu bebê por um tempo longo demais. o que ocorre é uma espécie de desmame. Tudo depende da capacidade da mãe de dar apoio ao ego. A meu ver. e nesse caso o bebê torna-se uma preocupação patológica. temporária mas plenamente. Essa mãe pode ter uma capacidade especial de abdicar do próprio self em favor da criança. um colapso daquilo que permite à mãe estar voltada para dentro e esquecer todos os perigos externos enquanto dure sua preocupação materna (via de regra. a outra mãe doente é incapaz de desmamar. em certa medida. pode começar seu desenvolvimento. Dois tipos de distúrbios maternos que interferem na relação mãe-bebê mãe com interesses próprios compulsivos mãe com preocupação patológica Quando a mãe normal vai deixando de preocupar-se com seu filho. Os médicos e enfermeiras talvez saibam muito a respeito de psicologia. tendo uma mãe boa o suficiente. de modo que o desmame deixa de ser sentido. Só na presença dessa mãe suficientemente boa pode a criança iniciar um processo de desenvolvimento pessoal e real. é isso que confere à mãe uma capacidade especial de fazer a coisa certa. Ela sabe como o bebê pode estar se sentindo. Somos capazes de nos identificar com elas assim como a mãe identifica-se com seu filho. A identificação do bebê com sua mãe Winnicott pressupõe que a criança esteja sendo cuidada por uma mãe suficientemente boa. Ninguém mais sabe. seja bastante indicativo de boa saúde. por um colapso da cobertura protetora. Já denominei esse aspecto da atitude da mãe como “preocupação materna primária”. Não só o desenvolvimento da preocupação materna primária é difícil de alcançar para certas mulheres mas também o processo de recobrar uma atitude normal em relação à vida e ao self pode produzir enfermidades clínicas. Se a maternagem não for boa o suficiente. ou tende a fazê-lo subitamente. Quando o par mãe-filho funciona bem. o pai). mas é possível que o traço predominante nesta seja uma vontade e uma capacidade de desviar o interesse do seu próprio self para o bebê.

o terapeuta faz o papel de mãe suficientemente boa e dá as bases para o desenvolvimento do ego infantil. identificando-se com seu filho. O self de cada criança ainda não se formou. e logo não pode ser visto como estando fundido. de modo que ainda não existe um EU. mas as memórias e expectativas podem agora começar a acumular-se e formar-se. Estas coisas só ocorrem quando o ego da criança é forte. Retornando a este estado. Apostila elaborada por Vanessa Lima. ou é fraco. O estado de não-integração consiste no contrário da personalização. nada ainda distinguiu-se como não-eu. Na realidade em que vivem as crianças. − Leva em conta a sensibilidade cutânea do lactente e a falta de conhecimento. Os bebês bem cuidados rapidamente estabelecem-se como pessoas. complacência). cedo torna-se verdadeiramente ela mesma. um processo de construção das relações objetais. estranhamento. mas que não há conhecimento da mãe ou de qualquer objeto externo ao self. o self da criança é apenas potencial. ao passo que os bebês que recebem apoio egoico inadequado ou patológico tendem a apresentar padrões de comportamento semelhantes (inquietude. portanto. A identificação é aqui aquilo com que a criança começa. forte) da criança é desde muito cedo capaz de organizar defesas e desenvolver padrões pessoais fortemente marcados por tendências hereditárias. Essas questões muito primitivas começam quando a mãe. ou as funções corporais. o desenvolvimento passa então a estar mais relacionado com uma sucessão de reações a colapsos ambientais que com as urgências internas e fatores genéticos. neste estágio. cada um deles diferente de todos os outros que já existiram ou existirão. A função materna Funções da mãe suficientemente boa nesses primeiros estágios: 1) Holding 2) Manipular 3) Apresentar objetos holding Funções da mãe suficientemente boa manipular apresentar objetos 1) O holding é descrito por Winnicott como uma fase em que a mãe ou substituta: − Protege da agressão fisiológica. por ser reforçado. inibição. Essa imagem do ego fraco e forte aplica-se também ao caso dos pacientes (crianças e adultos) que estão regredidos e dependentes na situação terapêutica. O ego reforçado (e. Poder-se-ia dizer que. definida como processo de construção da pessoa. Existe. o indivíduo torna-se fundido com o self da mãe. portanto. pois não existe ainda um self. a criança não consegue desenvolver-se numa trilha pessoal. por parte deste. um processo de estabelecimento de uma união ou vínculo entre o corpo. cuja psique está apenas começando a elaborar-se em torno do funcionamento corporal. é capaz e tem vontade de dar apoio no momento em que for necessário. Na situação de terapia. ou intermitente. A criança cujo ego é forte devido ao apoio do ego da mãe. apatia. muito embora a criança se satisfaça relacionando-se com um objeto parcial. e mesmo essa afirmação não pode ser considerada correta. um tal problema ainda nem sequer chegou a colocar-se para a criança. Ao considerarmos o crescimento primordial. Outubro/2011 7 . Se o apoio do ego da mãe não existe. e a psique. um estado anterior ao momento em que a noção de objeto passa a ter sentido para a criança.em todos os aspectos. Não significa que a criança se identifica com a mãe. A criança passa por um processo pelo qual se estabelece a capacidade de relacionar-se com objetos. ou seja.

o que encontramos. o processo de desenvolvimento pode ser descrito em termos de dependência absoluta. por oposição a “irreal”. mas esse desenvolvimento só pode ocorrer num ambiente propiciador. O desenvolvimento. vai ao encontro do estado original de não-diferenciação da criança. − e de outras ansiedades que são geralmente classificadas como psicóticas. dotado de um ego que é forte porque nós. a que já me referi. constatamos ao final o surgimento de uma criança cujo ego pode organizar as próprias defesas contra as ansiedades decorrentes dos impulsos e experiências do id. pode desenvolver um falso self que esconde todo vestígio que possa haver do self verdadeiro. partindo de uma nãoorganização. O holding (segurar) inclui especialmente o holding físico do lactente. Trata-se de algo que. As falhas nesse cuidado bloqueiam ainda mais o desenvolvimento da capacidade da criança de sentir-se real em sua relação com o mundo dos objetos e dos fenômenos. Apostila elaborada por Vanessa Lima. fomos capazes de dar-lhe apoio. Um holding satisfatório é uma porcão básica de cuidado. a criança não consegue emergir verdadeiramente do estado original. a rigor. e aos poucos separando-se da matriz que propicia tais condições. processo de maturação Desenvolvimento = + experiências de vida Processo de desenvolvimento: dependência absoluta dependência relativa rumo à independência ambiente propiciador Sumário Na descrição da relação mãe-criança vista pelo lado da criança. Isso contribui para a formação do sentido do “real”. − de um sentimento de que a realidade exterior não pode ser usada para o reconforto interno. o tornar real o impulso criativo da criança) dá início à capacidade do bebê de relacionar-se com objetos. e de SER. Se tudo corre bem. Na ausência deste estado especial da mãe. Na melhor das hipóteses. dependência relativa e um caminhar rumo à independência. por meio de certo tipo de identificação. tanto físico quanto psicológico. e da acumulação de experiências de vida. A importância desse ambiente propiciador é absoluta no início. A manipulação deficiente trabalha contra o desenvolvimento do tônus muscular e da chamada “coordenação”. só experimentada nas reações a um holding deficiente. vai-se organizando sob condições altamente especializadas. Ocorre a evolução da experiência imatura dessa parceria entre mãe e filho em que a mãe. Na atividade terapêutica assistimos a queda do falso self ou dos falsos selves da criança. − da sensação de estar caindo num poço sem fundo. − Segue também as mudanças instantâneas do dia a dia que fazem parte do crescimento e do desenvolvimento do lactente. 2) A manipulação facilita a formação de uma parceria psicossomática na criança. e a seguir relativa. − Inclui a rotina completa do cuidado dia e noite adequado a cada bebê. O holding deficiente produz extrema aflição na criança. e também contra a capacidade de a criança gozar a experiência do funcionamento corporal. sendo fonte: − da sensação de despedaçamento. Outubro/2011 8 . e ao nascimento de um self verdadeiro. não pode de modo algum ser chamado identificação. é uma função da herança de um processo de maturação. O holding tem muita relação com a capacidade da mãe de identificar-se com seu bebê.da existência de qualquer coisa que não seja ele mesmo. 3) A apresentação de objetos ou “realização” (isto é. assim como a mãe a seu filho. em poucas palavras.

o crescimento. para a criança a estabilidade e a continuidade de seu ambiente em seus aspectos físicos e emocionais. é exatamente nestes primeiros estágios do desenvolvimento instintivo que tem início as sérias repressões que paralisam as vidas de muitos indivíduos. cada vez mais confiável. são a boca e todos os demais mecanismos de absorção.A tese de Winnicott é que. Inicialmente a criança carece de uma grau de adaptação ativa a suas necessidades que só pode ser provida se uma pessoa devotada estiver cuidando de tudo. Mais tarde. Capítulo 3 – Crescimento e desenvolvimento na fase imatura Cada indivíduo surge. Só uma mãe devotada (ou uma mãe substituta dotada do mesmo sentimento) pode acompanhar as necessidades de uma criança. são os fenômenos de excreção e o funcionamento interno do corpo que fornecem material para fantasias de excitação. que se desenvolvem em associação com ideias envolvem inibições e confusões na vida corporal. Em se tratando de crianças pequenas. A educação dos pais No que toca ao estabelecimento de uma relação emocional entre a mãe e o bebê (o que inclui o início da amamentação). vê-se aparecer uma modalidade genital de excitação que Apostila elaborada por Vanessa Lima. à medida que recuamos no tempo. passando pela idade adulta. A criança viva O estado de excitação obviamente envolve a operação dos instintos. Com o tempo. desenvolve-se e torna-se maduro. incluindo o agarrar com as mãos. na verdade. a mãe normal não é somente a especialista. no coletivo. tornar-se uma pessoa que tem um lugar na comunidade sem por isso perder sua individualidade. mas também a administração de cada estágio à medida que surge. Há uma progressão natural no desenvolvimento dos impulsos instintivos. Num primeiro momento. temos em vista determinado objetivo – a saber. Na terapia. A pessoa que se relaciona com a criança precisa ser. tentamos imitar o processo natural que caracteriza o comportamento de qualquer mãe em relação à sua criança. quando estivermos tratando de crianças cuja primeira relação com a mãe não foi “boa o suficiente”. sem que se sofram muitas perdas no que se refere às bases instintivas do sentimento. ambiente este que dará a cada indivíduo a oportunidade de. na terapia. Quão necessárias são. que é. até a velhice. E há uma razão para isso: sua devoção. que formam a base da fantasia que constitui o auge da excitação. Entretanto. Quando proporcionamos às crianças um certo tipo de ambiente saudável. não implica apenas transpor estágios devido ao aumento da idade. e ocorre de contínuo desde o nascimento. pois. ela é. Se a tese estiver correta deduz-se que é o par mãe-criança que pode nos ensinar os princípios básicos sobre os quais deve fundar-se nosso trabalho terapêutico. ou foi interrompida. neste caso. Outubro/2011 9 . é só o amor por aquela criança que torna a pessoa confiável o suficiente. a única pessoa que sabe o que fazer com relação àquele bebê. Toda função corporal tem sua elaboração imaginativa e também os conflitos. o de tornar possível o crescimento de cada criança até o estado adulto. ou desde antes. tentamos imitar o processo natural que caracteriza o comportamento de qualquer mãe em relação à sua criança. não se pode considerar a maturidade adulta como algo separado do desenvolvimento anterior. a única motivação efetiva. Este desenvolvimento é extremamente complexo. chame-se democracia. naturalmente. nesse contexto. aos poucos e a seu modo. o qual. Nossa preocupação é a de proporcionar uma ambiente adequado às crianças.

Outubro/2011 10 . associadas à repressão de conflitos dolorosos. Apêndice clínico É grande a responsabilidade das mães. Está na fronteira entre o dentro e o fora. Apostila elaborada por Vanessa Lima. no passado. O desenvolvimento desvinculado dos estados de excitação Ocorre o desenvolvimento de uma capacidade de relacionar-se com a realidade externa. complexa e difícil. e ao final desaparecerá. O mundo objetivamente percebido nunca é idêntico ao mundo concebido. durante o período em que durar a culpa. isso talvez remonte. necessita definitivamente daquela atenção que só pode ser dada por uma mãe devotada. A ciência e a natureza humana O Bebê adota um objeto. pais. Esta tarefa. A criança deve ser capaz de tolerara o sentimento de culpa e alterar este estado de coisas através da reparação. Estágio implacável ideias excitadas e destrutivas dirigidas para o seio da mãe sem qualquer culpa Estágio de preocupação o bebê descobre que o objeto atacado e o amado são o mesmo Existe uma necessidade específica que o ambiente deve prover para que a criança possa elaborara e crescer. Este objeto é um meio termo entre o self e o mundo. e nem o maior cuidado seria capaz de alterar esse fato. As ideias associadas aos momentos de excitação formam a base das brincadeiras e dos sonhos. ou visto subjetivamente. o indivíduo adquire uma estabilidade que jamais poderia obter de outro modo. Se o ambiente não sofre reviravoltas. dão origem às várias manifestações neuróticas e aos distúrbios de humor. e degringola quando as necessidades instintivas diretas exigem predominância de atenção. não faz parte nem de um e nem de outro. aos primeiros movimentos no interior do útero. reconhece os impulsos espontâneos de construção e reparação. Para que isso aconteça. Esse estágio inicial dá lugar a um estágio de preocupação tão logo o bebê descobre que o objeto que na fantasia é tão impiedosamente atacado é o mesmo que é amado e necessitado.domina toda a vida do menino ou da menina de dois a cinco anos de idade. viva e alerta. que toda criança deve chegar a realizar. A natureza do bom cuidado consiste sobretudo em oferecer a cada criança um conjunto de condições consistentes para que ela possa elaborar o que lhe é específico. Dificuldades no campo das experiências de excitação. A brincadeira é marcada por um tipo especial de excitação. Trata-se de algo ao mesmo tempo subjetivo e objetivo. É simultaneamente sonho e realidade. o qual permanecerá por alguns anos como uma coisa muito necessária para a criança. enfermeiras e professoras de a cada estágio terem que criar e proporcionar um ambiente o mais adequado possível. Essas organizações da excitação seguem uma progressão natural e todos os estágios apresentam conflitos próprios. A mãe que cuida de seu filho e está sempre mais ou menos por perto. Os bebês encontram paz em sua relação com este objeto (objeto transicional). mas é ambos. Capítulo 4 – Segurança Necessidades básicas de bebês e crianças: “as crianças precisam de segurança”. no qual as ideias excitadas e altamente destrutivas que acompanham a experiência instintiva na criança são dirigidas para o seio da mãe sem qualquer culpa. a mãe (ou uma substituta) deve estar lá. Já os distúrbios sob a denominação geral dos estados de não excitação têm qualidade psicótica. Winnicott postula a existência de um primeiro estágio que denomina implacável. a criança tem a oportunidade de conservar um sentimento de continuidade do ser. Mas o que se quer dizer com a palavra segurança? É certo que pais superprotetores deixam seus filhos aflitos. Existindo essa continuidade.

tendem a testar todas as medidas de segurança. os controles mecânicos não tem aí qualquer utilidade. nas circunstâncias mais satisfatórias. no caso de um comportamento inesperado por parte de alguém. a criança. As crianças muito novas necessitam de um cuidado absoluto. mas também daquilo que eles exigem de seu ambiente à medida que crescem. O bebê que conheceu a segurança nesse primeiro estágio passa a levar consigo a expectativa de que não será decepcionado. a segurança proporcionada pelo ambiente. e com saúde. E. protegemos a criança de seus próprios impulsos e dos efeitos que estes possam produzir. É o ambiente circundante que torna possível o crescimento de cada criança. Os adolescentes. Assim. traçando a evolução não só dos indivíduos. a crença em algo que não seja apenas bom. e essas verificações podem perpetuar-se até que as crianças já tenham crescido. As crianças sadias necessitam de quem lhes imponha um certo controle. e o pequeno indivíduo agarra todas as oportunidades que tem de expressar-se livremente e agir segundo seus impulsos. constata-se muitas vezes que a criança daí por diante lidará com dificuldades que não relevam das imposições do mundo. mas os indivíduos que impõem a disciplina devem poder ser amados e odiados. por uma ou outra razão. Quando oferecemos segurança. Por que cabe aos adolescentes especialmente empreender tais testes? A resposta parece ser que os adolescentes começam a encontrar em si próprios uma nova gama de sentimentos fortes e até amedrontadores. desafiados e chamados a ajudar. ao mesmo tempo. isto é. tipicamente. e o medo não é o instrumento mais adequado para estimular a colaboração. em casos de doença ou morte de um dos pais. a mãe aos poucos vai abrindo um espaço maior para o mundo. a implosão de um lar faz vítimas entre as crianças. Para Winnicott o que propicia a construção desse sentido de segurança são as condições ambientais. sem uma confiabilidade ambiental mínima. Os pais que conseguem manter o lar unido estão. se desfaz. que as convida a provar que podem ser livres. as crianças tornam-se capazes de conservar um sentido de segurança mesmo frente à insegurança mais manifesta. Fica claro que Winnicott considera o bebê. fazemos simultaneamente duas coisas. pelo outro lado. tanto no que toca à parte que devemos prover quanto ao papel da sociedade em relação a nós. Naturalmente. querem provar serem capazes de romper esses controles e estabelecer a si próprios como pessoas autônomas. como. E o que acontece depois que o sentido de segurança se instala na criança? Segue-se daí uma prolongada batalha contra a segurança. Entretanto. por exemplo. Depois do período inicial de proteção. a criança começa a viver uma vida pessoal e individual. regras e disciplinas.assim como os pais pouco confiáveis tornam as crianças confusas e amedrontadas. o adolescente e o adulto. ou quando o lar. e desejam verificar se os controles externos ainda estão de pé. na verdade. nossa ajuda livra a criança do inesperado. A necessidade de testar as medidas de segurança As crianças têm sempre a necessidade de verificar se ainda podem confiar em seus pais. ou desenrola-se com distorções. prestando a seus filhos um serviço de inestimável importância. É necessário que se edifique. no interior de cada criança. quando a mãe obtém êxito nesse primeiro estágio. na segurança de um cuidado suficientemente bom. Por um lado. Outubro/2011 11 . As crianças nos dão sinal certo de sua boa saúde quando começam a ser capazes de desfrutar da liberdade que cada vez mais lhes conferimos. É sempre um relacionamento vivo entre duas pessoas que Apostila elaborada por Vanessa Lima. mas da vida mesma e dos conflitos que acompanham os sentimentos vivos. Com o tempo. isto é. o crescimento pessoal da criança não pode se desenrolar. mas seja também confiável e durável. de um sem-número de intrusões indesejáveis e de um mundo que ainda não é conhecido ou compreendido. as crianças veem na segurança uma espécie de desafio. ou capaz de recuperar-se depois de se ter machucado ou mesmo perecido. Mas.

Capítulo 5 – A criança de cinco anos Coloca a questão: é fato que as crianças de cinco anos têm acentuada capacidade de recuperação? Parece-me que essa capacidade só se manifesta com o crescimento e a maturidade. A escola primária aos cinco anos de idade Nesse estágio surgem algumas dificuldades. e poder-se-ia sustentar a opinião de que não há qualquer estágio. em que se possa dizer que esta tem grande capacidade de recuperação Pode-se mesmo sustentar que. independente e desafiador. Noutro nível. Quando saudáveis. que suponho ser mais profundo e não de todo consciente. as cercas passam a apresentar uma espessura desigual. De início a mãe adaptava-se de modo íntimo às necessidades de seu filho. o que faz com que passem a odiar todo tipo de controle externo. É assim. por sua natureza. pois as mudanças de ambiente são sobrepostas a mudanças que têm lugar na criança devido ao crescimento. e foi aos poucos desadaptando-se de acordo com o grau em que a criança começava a gostar de defrontar-se com o novo e o inesperado. O filho percebe isso muito facilmente. a criança apresenta certas características que nos incitam a tomar todos os cuidados para não abalar a confiabilidade de seu ambiente circundante. em verdade. gostam de tê-las.. que entendo a questão: as boas condições de cuidado num primeiro estágio de vida geram um sentido de segurança. que. e só a recordará no momento em que de súbito precisar dele novamente. Quando a criança se retrai. Podemos dizer que ela vai saindo de um cercado: nas paredes começam a abrir-se fendas. a segurança imposta do exterior transforma-se num insulto. e que a vida é uma longa sequência de saídas de cercados. o controle se muda em autocontrole. que por sua vez gera o autocontrole. Não é fácil para ela voltar para dentro ou sentir-se novamente envolvida. A criança sente-se melhor quando a mãe dá graças ao vê-lo ir. nessa fase. quando o autocontrole se realiza de fato. a criança esqueceu-se da importância que esse objeto já teve. é doloroso para a criança perceber que não pode retornar. do que quando. Algumas mães funcionam em dois níveis. Neste nível mais profundo. em que a lógica não tem grande papel. casos em que o cercado é novamente fechado para seu próprio benefício. no desenvolvimento da criança. e. isso pode ser sinal de que há algo de errado com a mãe. e eis que a criança já está do lado de fora. Tem pena de sua mãe. Num nível querem apenas uma coisa: que sua criança cresça. a menos que esteja cansada ou doente. riscos e desafios novos e estimulantes. saia do cercado. pois. encontre o mundo. Quanto a seu objeto transicional. pois. Não a toa. não conseguiria deixá-lo ir. assim como gostam de adquirir novas habilidades.abre espaço ao crescimento. é mais fácil para ela sentir-se maternal quando seu bebê é dependente. as crianças desenvolvem suficientemente bem uma crença em si mesmas e nos outros. pelo crescimento. vá à escola. o que representa uma grande mudança na vida infantil. nessa fase que rodeia os cinco anos. Winnicott aponta para a mudança pela qual a criança que vivia num mundo subjetivo passa a viver num mundo de realidade compartilhada. e age do mesmo modo ao tê-lo de volta. O importante é entender que a saída do cercado é a um só tempo estimulante e amedrontadora. a mãe não consegue abdicar dessa coisa tão preciosa que é sua função materna. uma visão mais abrangente e a própria felicidade. seu ursinho de pelúcia já se encontra na gaveta do armário. e é bom que as crianças não tenham de ver-se envolvidas nelas. no início – e suposto que tenha recebido Apostila elaborada por Vanessa Lima. É de tais características que me proponho a falar aqui. pois sabe que esta não suportaria perdê-lo e que. Os pequenos já tem suas próprias agonias e. uma vez do lado de fora. é nessa fase que a criança está pronta para ir à escola. não concebem a ideia de deixar seu filho ir. As mães vivem muitas outras agonias. ele já começa a gostar de ser separado. Outubro/2011 12 . na verdade. A criança.

A família é um dado essencial de nossa civilização e tem seu próprio crescimento. ou não. à época em que o bebê apenas começava a reconhecer a mãe e o mundo como entidades separadas do próprio self. pedacinho este que remonta à época da dependência infantil. Ao resolverem-se as ansiedades relativas ao ir à escola. em relação a cada um dos filhos. Os pais tem sentimentos muito diferentes. Muito disso depende do relacionamento dos pais na época da concepção. Outubro/2011 13 . e agem de modo diferente. Tendências positivas nos pais A existência da família e a preservação de uma atmosfera familiar resultam do relacionamento entre os pais no quadro do contexto social em que vivem. Esses padrões transformam-se numa espécie de psicoterapia embutida que conserva sua eficácia devido ao fato de a mãe estar viva e disponível. dá a estes uma grande sensação de alívio. É possível que. Não seria possível entender a atitude dos pais relativa a seus filhos sem considerar o significado de cada criança em termos da fantasia consciente e inconsciente dos pais em torno do ato que produziu a concepção.um cuidado suficientemente bom -. Objeto que une a criança à realidade externa ou compartilhada e faz parte tanto da criança como da mãe. A introdução gradual do ambiente externo é a melhor maneira de levar uma criança a entrar em bons termos com o mundo mais vasto. Entretanto. Apostila elaborada por Vanessa Lima. quando do nascimento e depois. está levando um pedacinho de seu relacionamento com a mãe. a cada momento recriando o mundo e seus objetos. A ansiedade pode manifestar-se como uma retomada de certos padrões infantis de comportamento. a necessidade desse objeto ainda subsista. mesmo em se tratando de sua mãe. e a vivacidade inata de cada criança. Capítulo 6 – Fatores de integração e desintegração na vida familiar Cabe a cada indivíduo empreender a longa jornada que leva do estado de indistinção com a mãe ao estado de ser um indivíduo separado. o menino será capaz de deixar de levar consigo esse objeto. A criança que leva tais objetos à escola. mas muitas outras coisas podem já tomar seu lugar. contexto esse que nunca é duas vezes o mesmo. A criança como fato real lida. e sabe reconhecer o fato da dependência no momento mesmo em que vai começando a tornar-se verdadeiramente independente. e a pequena criança experimenta mudanças que advêm da gradual expansão e das tribulações familiares. durante a gravidez. geralmente deixam essas coisas de lado. que continuam existindo para servir de conforto. aos cinco anos. num certo contexto imaginativo e emocional. Winnicott considera o momento específico pelo qual cada criança vem a se encaixar. por mais que todo o ambiente físico restante não sofra mudanças. Outras complicações Quanto ao objeto transicional. na medida em que é reconhecida palos pais. e ao pai e à mãe enquanto conjunto. já admite a existência de objetos que já existiam antes da sua concepção. sendo usado sobretudo nos momentos de transição. como a hora de dormir. aquele que adquiriu sua importância pouco antes ou pouco depois do primeiro aniversário do bebê. relacionado à mãe. de que são relíquias os citados padrões de comportamento. e o tempo todo servindo de elo de ligação entre o presente e as experiências da primeira infância da criança. por hora. aso cinco anos a criança já é capaz de ver sua mãe de modo bem próximo ao que ela é de fato. exerce um controle mágico sobre o ambiente. livrando-os de ideias que procedem de seu sentimento de culpa ou inutilidade. da primeira infância. com todas as fantasias referentes ao bem e ao mal. e segue de modo exato o padrão pelo qual a mãe apresenta à criança a realidade externa. Na medida em que as crianças ganham confiança.

a qual enriquece e elabora a relação física dos dois. Cita como exemplo mais marcante a tendência anti-social da criança carente. que faz parte do processo de crescimento. Fatores de desintegração advindos das crianças Passa a considerar agora a desintegração familiar desencadeada pelo desenvolvimento insuficiente ou pela doença de uma criança. nesses casos. depende ainda de modo absoluto do cuidado materno para efetuar progressos pessoais.Deve-se ter sempre em mente que a família é composta de crianças individuais cujas diferenças não são apenas genéticas. Em condições favoráveis normais. em que a democracia possa florescer. com seu crescimento emocional sadio. as crianças devem ser capazes de adaptarse à desintegração da família. ou fazem por sê-lo. um processo ativo que movimenta muita energia. que é Apostila elaborada por Vanessa Lima. O casamento é sujeito a distúrbios e. apesar de terem tido a necessidade de desfazer a estrutura matrimonial ou de construir outra. A integração da família deriva da tendência integrativa de cada criança individual. Em todos os casos. requerem algo que continue vivo mesmo quando os filhos são odiados. ou não. o dado mais importante é a grande segurança que a criança proporciona por simplesmente existir: é real e. uma mistura de dependência e desafio. Nessa descrição procurou salientar os fatores integradores e desintegradores que afetam diretamente a vida familiar e provêm do relacionamento entre um homem e uma mulher casados e das fantasias conscientes e inconscientes de sua vida sexual. Para atingi-lo cada ser humano parte de um estado inicial não integrado. A criança que se desenvolve bem. Numa sociedade sadia. tendo apenas começado a se estabelecer. mas também bastante determinadas. encarrega-se por certo tempo de neutralizar as fantasias e eliminar as expectativas de desastre. que se esvai na medida em que o adolescente torna-se adulto. em tantos quantos sejam os indivíduos sadios ou relativamente sadios viventes na comunidade. uma proporção suficiente de indivíduos tem de haver realizado uma integração satisfatória da própria personalidade. seu desenvolvimento pessoal satisfatório. Se as condições favoráveis nos primeiros estágios realmente estimularem a integração da personalidade. e só podem ser conservados pela integração das personalidades individuais. A ideia de democracia. A integração pessoal é uma questão de desenvolvimento emocional. bem como o modo de vida democrático. A adolescência é uma fase do desenvolvimento que trata-se essencialmente de um período de dificuldades. Às vezes os pais conseguem conduzir os filhos até um estágio satisfatório de independência adulta. quando o self. As crianças requerem dos pais algo além do amor. o bebê humano é capaz de manifestar uma tendência inata à integração. como já disse. dos primeiros estágios do desenvolvimento infantil. Outubro/2011 14 . afeta por sua vez o ambiente externo. promove a família e a atmosfera familiar. no contexto da fantasia dos pais. Fatores de desintegração oriundos dos pais Winnicott diria que uma boa parte dos fatores de complicação da vida familiar advém das atitudes que os pais tomam ao esgotar-se sua capacidade de sacrificar tudo em favor dos filhos. e cuja personalidade foi capaz de realizar internamente sua integração por força das capacidades inatas de crescimento individual. exerce um efeito integrativo sobre seu ambiente externo imediato. Essa criança “contribui” para a situação familiar. essa integração do indivíduo. quanto ao desenvolvimento emocional. originam-se da saúde e do crescimento natural do indivíduo. Cada criança individual. por aquilo a que me referi como sendo o modo pelo qual cada criança se encaixa. Tendências positivas nas crianças A outra metade do problema são os fatores de integração e desintegração da vida familiar provenientes das crianças.

Há algo no desenvolvimento sadio de cada criança que constitui a base da integração do grupo familiar. ao menos – depende da existência de uma ambiente suficientemente bom. Inconscientemente. essa compulsão é representada pela tendência anti-social. Capítulo 7 – A família afetada pela patologia depressiva de um ou ambos os pais Considera o papel dos distúrbios psiquiátricos na desintegração da família. é o objeto de sua fúria. A psicose está ligada à presença de um elemento de loucura no interior da personalidade. a tendência anti-social evolui em delinquência. Define a depressão como um distúrbio afetivo ou do humor e o psicopata como um adulto que não se recuperou de uma delinquência infantil. Pelo termo psicose refere-se a uma linha de defesa mais profunda. tendência anti-social A realidade externa ainda pode Apostila elaborada por Vanessadano sofrido remediar o Lima. Mais especificamente. Psiconeurose = defesas da personalidade contra as ansiedades. os efeitos da patologia depressiva de um ou ambos os pais sobre a família. mas que – no início. ou seja. Classificação dos distúrbios psiquiátricos Divide as patologias psiquiátricas em dois gêneros: psiconeurose e psicose. se o dano é irreparável. É como se a criança estivesse procurando algo que valesse a pena destruir. No psicopata ocorre uma continuidade da compulsão de fazer a realidade externa remediar o dano sofrido. a criança procura uma coisa boa que foi perdida numa data mais ou menos recuada. A força da família advém do fato de ser um ponto de encontro de forças que se originam do relacionamento do pai e da mãe e forças que derivam dos fatores inatos ligados ao crescimento de cada criança – fatores estes que agrupei sob a denominação geral de “tendência para a integração”. Psicose = presença de um elemento de loucura no interior da personalidade. talvez por ter ocorrido muito cedo na vida do indivíduo. Desenvolvimento adicional dos dois temas Aborda a interação desses múltiplos fatores. a mudanças operadas na personalidade do indivíduo por força de uma tensão que não poderia ser aliviada pelos mecanismos ordinários de defesa. em sua relação com a sociedade e em seu desejo de fundar uma família. e que. delinquência O trauma original tornou-se irreparável Outubro/2011 15 .extremamente destrutiva para a vida familiar. Se a realidade externa não pode consertar o trauma original. Há algo no desenvolvimento sadio de cada criança que constitui a base da integração do grupo familiar. A tendência anti-social deve ser mencionada como um dos padrões de desintegração da vida familiar que provém do desenvolvimento insuficiente ou do crescimento distorcido da criança. por tê-la deixado. fatores que concernem aos pais. Cada bebê e cada criança cria a família. e fatores que surgem da tendência inata à integração que acompanha o crescimento pessoal. Os cuidados de crianças tendencialmente anti-sociais consistem em um grande problema. Na criança carente. A psiconeurose deriva seus padrões das defesas organizadas pela personalidade individual intacta para afastar ou lidar com as ansiedades que se originam dos fatos e fantasias ligados às relações interpessoais.

às vezes. associada ao luto. Capítulo 9 – Consequências da psicose parental para o desenvolvimento emocional da criança No capítulo anterior discuti os efeitos da psicose sobre a vida familiar. tem. Outubro/2011 16 . − depressão crônica. É importante lembrar que onde há depressão há também saúde. seu self verdadeiro terá conservado sua integridade. Também. concentrando-me sobretudo nos problemas criados pela patologia psicótica da criança. enquanto em outros esse dado não é significativo. e passa a exigir sua quota de atenção e aceitação. A psicose propriamente dita seria indicativa de um distúrbio nas primeiras fases do desenvolvimento emocional. não raro. a depressão tende a curar a si mesma. − fases de depressão em indivíduos normais. que até então se mantivera oculta e adormecida. quando não estão deprimidos.Depressão na mãe ou no pai Quando chamo a atenção para a depressão. A psicose nesse caso está em um ou ambos os pais. de toda forma. O termo psicose pode ser visto como uma designação popular para a esquizofrenia. o indivíduo é incapaz de chegar a sentir-se deprimido. A psicose representa uma organização das defesas e por detrás de toda defesa organizada há a ameaça de confusão. forte a tendência hereditária à psicose. a psicose maníaco-depressiva e a melancolia com complicações mais ou menos paranoides. os filhos só podem ter esperanças de melhora depois da morte dos pais. A condição dessa ajuda é uma aceitação da depressão. − depressão manifestando-se como um negação da depressão (estado hipomaníaco). mas também a um fenômeno quase universal entre os indivíduos sadios. O êxito no tratamento de uma criança pode ser traumático para um ou ambos os pais. Capítulo 8 – Os efeitos da psicose sobre a vida familiar A psicose é um distúrbio de natureza psicológica. uma base física. de agir construtivamente. e não a ânsia de curá-la. Quando os primeiríssimos estágios do desenvolvimento emocional não são cumpridos de modo satisfatório. permanecendo oculto e resguardado da violência exterior. Psicologia da depressão Tipos de depressão: − melancolia severa. e. e que está ligado de perto à capacidade que estes tem. Agora gostaria de examinar Apostila elaborada por Vanessa Lima. O ponto principal é que a depressão é evidência de crescimento e saúde no desenvolvimento emocional do indivíduo. Indica que o indivíduo está assumindo a responsabilidade pelos elementos agressivos e destrutivos da natureza humana. em alguns casos. Afirma que não se deve permitir a dissolução de nenhuma família por força da psicose num dos filhos ou num dos pais. sendo. é claro que o filho pode morrer antes dos pais. não me refiro apenas a um severo distúrbio psiquiátrico. − depressão alternando-se com mania. uma pequena ajuda vinda do exterior faz toda a diferença e contribui para afastar a depressão. reaparece pela profunda transformação positiva operada na criança. com ansiedade de natureza mais ou menos paranoide. Muitas famílias se desfazem devido à carga da psicose sobre um de seus membros. Afeta pessoas que não são sadias o bastante para serem psiconeuróticas. A psicose latente do adulto. Às vezes. − depressão reativa. que constitui na verdade uma ruptura da integração. mas. e constitui-se de tal modo que a única esperança da criança passa a ser o desenvolvimento de um falso self. A família é uma das estruturas que pode ser posta em risco pela depressão da mãe e do pai. os pais sentem-se culpados pela condição do filho.

especialmente se este é psicótico ou severamente neurótico. Os indivíduos esquizoides fundem-se com outras pessoas e coisas com mais facilidade que os indivíduos normais. percebemos uma certa fraqueza de integração entre ego e corpo. e os limites da psique por vezes não correspondem exatamente aos do corpo. Patologia psicótica A psicose dos pais não produz psicose nos filhos. e pode sofrer distúrbios não obstante o bom cuidado. algo que talvez pertença apenas à Apostila elaborada por Vanessa Lima. Os esquizofrênicos não tem facilidade de entabular relacionamento nem de mantê-los. de muitos modos. as concepções subjetivas das percepções objetivas. a própria esquizofrenia. mais séria. Clinicamente. e tem mais dificuldade de sentirem-se separados enquanto indivíduos. seja manifestado como uma hipersensibilidade de caráter paranoide. porém. Devemos lembrar. Além disso. que o distúrbio da criança pertence apenas à criança. O trabalho de parceria entre psique e soma é falho. afetam de muitos modos o desenvolvimento das crianças. na verdade. que incluem. um estado de caos organizado. que é o mais severo de todos os distúrbios. Encontraremos no paciente sentimentos de irrealidade. seja em alternância com a hipocondria. Tomemos agora a esquizofrenia. Estabelecem relacionamentos segundo seus próprios termos. A depressão a que me refiro aqui é de natureza reativa. A mãe caótica As mães são sujeitas a um estado muito perturbador. embora as condições ambientais devam ser levadas em alta conta na consideração da etiologia do problema. Por outro lado. reais. no cuidado de seus filhos (a não ser na medida em que. isto é. A necessidade de afastar uma criança do pai perturbado Reconhece a existência de um tipo de caso em que é essencial afastar a criança de um dos pais. entregam-nos aos cuidados de outrem). O mais importante é que propiciem uma experiência satisfatória de amamentação e aquele apoio egoico tão necessário aos bebês novos e que só pode provir se uma mãe identificada com seu filho ou filha. Outubro/2011 17 . que constitui uma ameaça constante. Acompanha todos esses distúrbios um grau razoável de delírios de perseguição. Os pais dotados dessas características fracassam. Se examinarmos os indivíduos esquizoides. pode ser muito perturbador ver a mãe preocupada com alguma outra coisa. As mães que apresentam esse problema são indivíduos com quem é difícil conviver. Características psicóticas nos progenitores. Pais depressivos A depressão pode ser uma doença crônica. conscientes da própria deficiência. que aparecem e somem mais ou menos de súbito. no grau mais alto. Trata-se de uma defesa: cria-se e conserva-se permanentemente um estado de caos para ocultar uma desintegração subjacente. eu dividiria as psicoses entre as de tendência maníaco-depressiva e as desordens esquizoides.mais a fundo as consequências da psicose parental para a família e o desenvolvimento emocional da criança Não é impossível que uma mãe muito perturbada trate excepcionalmente bem de seu bebê. que pode afetar seriamente a vida das crianças: o estado caótico. A criança pode encontrar meios de crescer sadia apesar dos fatores ambientais. os processos intelectuais tendem a correr à solta. encontraremos neles uma distinção imprecisa da fronteira que separa a realidade interior da exterior. quando os objetos desse relacionamento são externos. e pode também manifestar-se em fases agudas. Quando uma criança encontra-se num estágio em que o cuidado materno é fator muito importante. tendo bastante repercussão sobre o afeto que um pai tem disponível para dar aos filhos. que é. e não segundo os termos que orientam os impulsos dos demais indivíduos. e sobretudo nas mães.

essencialmente complexas. antes do período de latência. Os processos não podem ser acelerados ou atrasados. O desenvolvimento da capacidade sexual e as manifestações sexuais secundárias fazem-se presentes em indivíduos dotados de uma história pessoal. pode ter entrado num estado de dependência ordinária. de modo que nada pode ser feito por esta sem a violação dos direitos que todo pai tem sobre seus filhos. Elas fazem isso ao início de cada dia. Assim. ao aparecimento da pessoa adulta. a experiência de um complexo de Édipo plenamente desenvolvido. ao final. As psicoses parentais devem ser consideradas em relação a tais estágios. A cura da adolescência A cura da adolescência vem do passar do tempo e do gradual desenrolar dos processos de amadurecimento. e podem ser graduadas segundo a seguinte escala: − Pais muito perturbados. estando fundida com a mãe. Outubro/2011 18 . pedindo ajuda. derivadas das experiências da infância de cada adolescente. Também. no qual aos poucos vai adquirindo sua independência. A criança pode estar numa dependência quase completa. outros indivíduos assumem o cuidado dos bebês e crianças. Nestes casos. subsistem certas Apostila elaborada por Vanessa Lima. Cada adolescente está na verdade vivendo um processo ao cabo do qual se tornará um adulto consciente e integrado na sociedade. Definição teórica O menino e a menina na faixa etária adolescente tem de lidar com as mudanças decorrentes da própria puberdade. Em particular. ou pode já ter-se tornado em certa medida independente. as crianças conseguem conviver com quase todo tipo de fator adverso que permaneça constante ou possa ser previsto. que inclui um padrão próprio de organização de defesas contra ansiedades de vários tipos. Estágios de desenvolvimento e a psicose parental Na teoria que subjaz a essas considerações. e podem definhar internamente. isto é. − Pais menos perturbados. estes de fato conduzem. cada indivíduo teve. fica claro que as crianças conseguem lidar com as mudanças de humor de seus pais observando-os cuidadosamente. Parece-me que. e. Há períodos em que outros entram em cena. e é essencialmente uma fase de descoberta pessoal. Capítulo 10 – Adolescência: transpondo a zona das calmarias Adolescência. uma vez tendo atravessado os primeiros estágios de dependência máxima. No caso de alguns pais. mas podem ser invadidos e destruídos. e às vezes aprendem a ficar de olho no rosto da mãe ou do pai durante quase todo o tempo. tem-se sempre em mente o estágio de desenvolvimento em que se encontra a criança quando da operação de determinado fator traumático. viveu as duas principais posições do relacionamento triangular que constituiu com os dois pais (ou pais substitutos). organizaram-se modos de combater a tensão ou aceitar e tolerar os conflitos inerentes a tais condições. na experiência prévia de cada adolescente. é a imprevisibilidade de alguns pais que pode ser traumática. − Pais cuja patologia inclui a criança. uma fase que precisa ser efetivamente vivida.vida particular materna. no caso do distúrbio psiquiátrico. e em casos sadios. − Pais dotados de saúde suficiente para proteger os filhos da própria patologia. são as mudanças de humor de caráter maníaco-depressivo que mais afetam as crianças É impressionante ver como até as crianças mais novas aprendem a avaliar o estado de espírito dos pais.

supor a continuidade da existência e do interesse do pai. toda socialização. da mãe e da família pelo adolescente. Rebeldia e dependência É característica da faixa etária em questão a rápida alternância entre independência rebelde e dependência regressiva. Sexo antes do tempo As experiências sexuais dos adolescentes mais jovens são marcadas por esse fenômeno de isolamento. Todo relacionamento entre indivíduos. e também pelo fato de que o menino ou a menina não sabe ainda se será homossexual. São capazes de agrupar-se quando são atacados enquanto grupo mas esta é uma organização paranoide de reação ao ataque. este fato apenas serve para enfatizar a vital importância do ambiente e da família para aquela imensa maioria de adolescentes que de fato chega à maturidade adulta. Há muito espaço para variações individuais no que toca ao grau e ao tipo de problema que pode resultar de tudo isso. então inexistente. e. O isolamento do indivíduo O adolescente é essencialmente um isolado. Os grupos de adolescentes jovens são ajuntamentos de indivíduos isolados que procuram formar um agregado por meio da identidade de gostos. a ponto de ser mais adequado. e mesmo a coexistência dos dois extremos num mesmo momento. e muito não é conhecido porque simplesmente ainda não foi experimentado. restam todos os tipos de padrões doentios associados a falhas de amadurecimento em nível edípico ou préedípico. além disso. A constante atividade masturbatória. Assim. Outubro/2011 19 . pode constituir uma maneira de ver-se livre do sexo. papel de imensa importância. Para muitos.características e tendências pessoais herdadas e adquiridas. mesmo se. em última instância. três grandes mudanças sociais alteraram todo o clima que envolve os adolescentes na adolescência: − As doenças venéreas não assustam mais. capaz de relacionar-se com objetos externos ao self e à área de controle onipotente. e. Apostila elaborada por Vanessa Lima. para os pais. Três mudanças sociais Na opinião de Winnicott. heterossexual ou simplesmente narcisista. o processo todo é pontilhado de dores de cabeça. e não uma experiência sexual. pois o bebê é um ser isolado ao menos até o momento em que repudia o não-eu e constitui-se como indivíduo distinto. derivam das más condições ambientais. e as atividades homossexuais ou heterossexuais compulsivas podem servir ao mesmo propósito ou como forma de descarregar tensões. o grupo constitui-se novamente num agregado de indivíduos isolados. há um longo período de incerteza quanto à própria existência de um impulso sexual de fato. mas a questão geral é a mesma: como essa organização preexistente do ego reagirá à nova investida do id? Como se acomodarão as mudanças da puberdade ao padrão de personalidade específico do menino ou da menina em questão? Como poderão esse menino e essa menina lidar com seu novo poder de destruir ou mesmo de matar. poder que. Muitas das dificuldades por que passam os adolescentes. parte de uma posição de isolamento. muita coisa permanece guardada no inconsciente. não complicava os sentimentos de ódio na infância? O ambiente O ambiente desempenha. Cessada a perseguição. Nesse aspecto. num relato descritivo. o menino e a manina chegam à puberdade com todos os seus padrões predeterminados pelas experiências de infância. neste estágio. fixações a modalidades pré-genitais de experiência instintiva e resíduos da dependência e da implacabilidade infantis. o adolescente revive uma fase essencial da infância. nesse estágio. e que muitas vezes requerem a intervenção de um profissional. antes de representarem formas de união entre pessoas humanas integrais.

não há mais justificativa para se impor às crianças e jovens uma forte disciplina militar e naval. Necessidades do adolescente Necessidades manifestadas pelo adolescente: − A necessidade de evitar a falsa solução. Na raiz da tendência anti-social jaz. compare-se também com a ambivalência psiconeurótica e com a ilusão e a auto-ilusão de saúde. A criança anti-social busca. com violência ou sem ela. A necessidade de sentir-se real ou nada sentir tem relação com a depressão psicótica acompanhada de despersonalização. por mais conveniente que isso seja. acolha também a dependência. Agora a agonia mental provém do sentimento de culpa inato a cada indivíduo. ou tenta fazer com que o mundo reconstrua a estrutura rompida. − As mudanças produzidas pela bomba atômica. porém. portanto. tal como se manifesta na delinquência. Assim. essa privação ou carência. O adolescente moderno tem a opção de explorar todo o território da vida sensual sem a agonia mental acarretada pelo medo de concepção indesejada. e possa ser rebatido por um contra-antagonismo. Há na adolescência a mistura de rebeldia e dependência. Por trás de tendência anti-social hã sempre uma fase de saúde seguida de uma ruptura. A adolescência sadia e os padrões patológicos Os padrões que se manifestam no adolescente normal tem relação com os que se manifestam em vários tipos de distúrbio mental. Não se pode dizer. é o fenômeno da delinquência. confiadamente. na etiologia de ambos. A necessidade de desafiar corresponde à tendência anti-social. após a qual as coisas nunca mais foram as mesmas. Na raiz da tendência anti-social há sempre uma privação ou carência.− O desenvolvimento de técnicas contraceptivas deu ao adolescente a liberdade de explorar. Se hã um tipo de distúrbio que não pode ser deixado de lado em qualquer consideração sobre a adolescência. − A necessidade de ser rebelde num contexto que. − A necessidade de sentir-se real. de um modo ou de outro. Adolescência e tendência anti-social Há uma íntima relação entre as dificuldades normais da adolescência e o estado anormal a que se pode chamar tendência anti-social. Raiz da tendência anti-social = privação ou carência A criança anti-social busca fazer com que o mundo reconheça sua dívida e reconstrua a estrutura rompida. Outubro/2011 20 . que toda adolescência seja igualmente fundada sobre uma tal Apostila elaborada por Vanessa Lima. − A necessidade de aguilhoar repetidamente a sociedade de modo que o antagonismo desta faça-se manifesto. ou de tolerar a absoluta falta de sentimento. através da suposição de que não haverá mais guerras. A inaceitabilidade da falsa solução Uma das principais características dos adolescentes é o fato de não aceitarem falsas soluções. A diferença entre os dois estados não se manifesta tanto em nível do quadro clínico de cada um. mas reside sobretudo na dinâmica. obrigar o mundo a reconhecer sua dívida. Por exemplo: A necessidade de evitar a falsa solução corresponde à incapacidade de o paciente psicótico aceitar o meio-termo.

Creio que a família da criança é a única entidade que possa dar continuidade à tarefa da mãe (e depois também do pai) de atender às necessidades do indivíduo. Mas como fazer para estar disponível quando o adolescente torna-se criançola e dependente. Mas há uma certa semelhança entre os dois quadros. Postula o conceito de “maturidade relativa” que seria a maturidade adequada a cada estágio de desenvolvimento. sobretudo. Devemos encarar o desafio e não tentar curar uma coisa que é essencialmente sadia. por largos e vastos que sejam. Todos esses círculos. Não é conveniente. Nenhum dos membros faltará à lealdade e todos darão apoio àquele que agir pelo grupo. mas também de estar presente para receber as contribuições que são características essenciais da vida humana. e ao mesmo tempo ser capaz de absorver adequadamente a necessidade adolescente de rebelar-se para estabelecer a própria identidade? É provável que a família do jovem seja a estrutura mais apta a suportar essa dupla exigência: a exigência de tolerância face à rebeldia. O cuidado proporcionado pelos pais evolui para a família e esta palavra começa a ter seu significado ampliado e passa a incluir os avós. bem como a necessidade que o indivíduo tem de inserir-se num contexto que possa. que os indivíduos amadureçam muito cedo ou estabeleçam-se como indivíduos numa idade em que deveriam ser ainda relativamente dependentes. e estrutura temporariamente o grupo. esse elemento de carência. não apenas no sentido de satisfazer a impulsos instintivos. a existência no grupo de um. Uma atitude que surge. Apostila elaborada por Vanessa Lima. Quando examinamos esse fenômeno evolutivo que se inicia com o cuidado materno e prolonga-se até o interesse da família pelos filhos adolescentes. em aceitar as irrupções de rebeldia e as recaídas na depressão que se seguem à rebeldia. e a exigência dos cuidados. Entre os adolescentes normais. não podemos deixar de notar a necessidade humana de ter um ciclo cada vez mais largo proporcionando cuidado ao indivíduo. de tempos em tempos. A tarefa consiste em fazer face às necessidades mutantes do indivíduo que cresce. Identificação entre maturidade e saúde O tema do presente capítulo é o papel desempenhado pela família no estabelecimento da saúde individual. ademais. os pais tem a função de receber as “contribuições” fornecidas pelas crianças sadias da família. Levanta a seguinte questão: seria possível ao indivíduo atingir a maturidade emocional fora do contexto familiar? O cuidado materno transforma-se num cuidado oferecido por ambos os pais. identificam-se ao colo. primos e outros indivíduos que adquirem o status de parentes devido à sua grande proximidade ou a seu significado especial – os padrinhos. cria nos outros membros um sentido de realidade. que juntos assumem a responsabilidade por seu bebê e pela relação entre todos os filhos. é mais brando e difuso. A tarefa consiste. na adolescência normal. O maior dos desafios colocados pelos adolescentes atinge aquela parte de nós que não viveu em verdade sua adolescência. Outubro/2011 21 . com vistas à maturidade. Capítulo 11 – Família e maturidade emocional A corrente psicológica a que Winnicott filia-se (psicologia dinâmica) considera a maturidade sinônimo de saúde.privação. embora nenhum deles aprovasse essa atitude em si mesma. aceitar uma contribuição sua nascida de um impulso de criatividade ou generosidade. do tempo e do dinheiro dos pais. por exemplo. na adolescência diz respeito à alternância entre rebeldia e dependência. aos braços e aos cuidados da mãe. Além disso. e não exige demais das defesas existentes. Tais necessidades incluem tanto a dependência como o caminhar do indivíduo em direção à independência. dois ou três indivíduos antisociais que se disponham a tomar uma atitude concreta de provocação à sociedade cria no agregado uma coesão.

Entretanto. mais percebemos o quão difícil seria para qualquer grupo que não a família tomar todas as providências para que o processo se desenrole sem problemas. o afastamento só se dá em relação à figura externa dos pais. Se levarmos em conta a fantasia inconsciente. às vezes. o que equivale a dizer que ele tem necessidade de retornar à situação rompida. devemos ter como certo que o indivíduo só pode atingir sua maturidade emocional num contexto em que a família proporcione um caminho de transição entre o cuidado dos pais (ou da mãe) e a vida social. Na realidade. de outro. Poder-se-ia constatar. em muitos aspectos. A ameaça de desintegração da estrutura familiar não determina automaticamente o aparecimento de distúrbios clínicos nas crianças. As figuras reais da mãe e do pai permanecem vivas na realidade psíquica e interior de cada um de seus membros. conduz a um crescimento emocional prematuro e ao estabelecimento precoce da independência e do sentido de responsabilidade. Com relação ao casamento. Quanto mais examinamos essas questões. chegaremos à conclusão que os afastamentos da criança. cada vez mais Apostila elaborada por Vanessa Lima. Não obstante. do pai e da família. isso não é garantia de que a criança vá desenvolver-se até a tingir a plena maturidade. o indivíduo rompe o círculo imediato que o envolve e dá segurança. Outubro/2011 22 . pela observação das famílias. Em qualquer de seus estágios. uma extensão das funções da família. Mas duas coisas são necessárias para que esse rompimento seja vantajoso. toda demanda remete-se fundamentalmente ao pai e à mãe. é a necessidade de conservar ou retomar o relacionamento com o pai e a mãe. a família contribui de dois modos para a maturidade emocional do indivíduo: de um lado dá-lhe a oportunidade de voltar a ser dependente a qualquer momento. tudo na vida do indivíduo relaciona-se em última instância com seu pai e sua mãe. permiti-lhe trocar os pais pela família mais ampla. cada uma das quais é compatível com a conservação de um vínculo inconsciente com as figuras ou a figura central – os pais ou somente a mãe. Na rebeldia. adquirindo a cada passo maior liberdade de pensamento e ação. espera-se que seja a um só tempo uma ruptura em relação aos pais e à família e um prolongamento da ideia orientadora da estrutura familiar. Na medida em que a família permanece intacta. o inconsciente sempre retém o caminho de volta aos pais. numa série bem graduada de ações rebeldes e iconoclastas. Assim. sua constante busca de integração a grupos extra familiares e sua destruição rebelde de todas as formas rígidas são idênticas à sua necessidade de conservar o relacionamento primário com os pais de fato. A primeira é a tendência de o indivíduo afastar-se da mãe. O indivíduo precisa inserir-se num círculo mais amplo que esteja pronto a aceitá-lo. e pode ter tirado proveito disso. sair desta em direção ao círculo social imediato e abandonar esta unidade por outras ainda maiores. isto é. o desenvolvimento sadio do indivíduo baseia-se numa progressão regular. Sendo a vida social. por mais que uma família faça tudo do melhor por um de seus filhos. pois. Na fantasia inconsciente da criança. É esta segunda tendência que permite que a primeira constitua uma etapa do crescimento e não uma desarticulação da personalidade do indivíduo. Esses círculos. que atua no sentido oposto.Recapitulando: no decorrer do desenvolvimento emocional o indivíduo transita da dependência para a independência. e o indivíduo sadio conserva a capacidade de transitar livremente de um estado ao outro. o imenso cuidado tomado pelos pais no sentido de organizar o curso natural dessas séries de modo que a sequência gradual que determina o crescimento do indivíduo não seja rompida. Conclusão: se aceitarmos como correta a identificação entre saúde e maturidade relativa. A outra tendência. Os círculos ampliados de relacionamento retem simbolicamente a ideia do pai e da mãe. e a meta principal da psicoterapia individual é esclarecer essas tensões internas. Há assim duas tendências. A criança pode ter-se afastado dos pais na vida e na fantasia consciente. A economia interna de cada indivíduo pode apresentar seu próprios riscos.

amplos. Pediatria e psiquiatria infantil Freud demonstrara que. uma disciplina científica das mais complexas. O campo profissional A pediatria baseia-se num conhecimento a priori do crescimento orgânico e das desordens que afetam o crescimento e o funcionamento corporais. Como exemplo. sair desta em direção ao círculo social imediato e abandonar esta unidade por outras ainda maiores. Tanto o aspecto físico como o aspecto emocional do desenvolvimento se desenrolam em simultaneidade com o desenvolvimento da personalidade humana e com a relação entre a criança e a família e o ambiente social. o analista lida constantemente com a criança ou o bebê presentes no interior do paciente. a psicologia acadêmica parece ser mais científica que a psicologia dinâmica. Os problemas clínicos de que trata a psiquiatria infantil envolvem em larga medida a psique. da criança. e as habilidades que não se desenvolvem devido a lesões cerebrais. A psicologia acadêmica paira na linha divisória entre o crescimento físico e o crescimento emocional. a pessoa e a vida sensível interna e externa. está ligada à maturidade. e não à inexistência de sintomas. e das mutações na relação entre o indivíduo e a realidade externa. Mas não se pode discutir o fato de que os seres humanos são feitos de sentimentos e padrões de sentimento. O paciente infantil Aspectos do problema psiquiátrico estudados em sequência: (i) As dificuldades normais da vida A normalidade. e talvez o próprio nacionalismo. À primeira vista. as habilidades que se desenvolvem em conjunto com o crescimento cerebral e o desenvolvimento da coordenação. Segundo Winnicott. na verdade. religiosos e sociais da sociedade. pertencem na verdade ao crescimento físico. embora psicológicas. que a certa altura tornam-se os agrupamentos políticos. são o produto final de um processo que se inicia com o cuidado materno e se prolonga na família. II. 2) permiti-lhe trocar os pais pela família mais ampla. que exige muito de seus estudantes. Já a psiquiatria baseia-se numa compreensão do crescimento emocional do bebê. Parte II Capítulo 12 – Definição teórica do campo da psiquiatria infantil I. Apostila elaborada por Vanessa Lima. esta dependência inclui a necessidade que a criança tem de separar-se com rebeldia. ou saúde. a personalidade. da função dos pais e do desenvolvimento das crianças em geral é. no tratamento dos distúrbios neuróticos do adulto. O médico como conselheiro O estudo do desenvolvimento emocional do bebê. Outubro/2011 23 . A família parece ser a estrutura especialmente programada pra dar continuidade à dependência inconsciente da criança em relação ao pai e à mãe de fato. O psicólogo acadêmico estuda manifestações que. o conhecimento da forma da forma da mente não se identifica ao conhecimento da psique. do adolescente e do adulto normais. o psiquiatra se aproveita exatamente daquilo que o psicólogo procura eliminar: a complexidade emocional. A família contribui de dois modos para a maturidade emocional do indivíduo: 1) dá-lhe a oportunidade de voltar a ser dependente a qualquer momento e.

de quem não se espera que já tenha atingido um grau pleno de socialização O adolescente manifesta uma mescla de independência rebelde e de dependência. na manutenção e na alteração desse ambiente sem sacrificar seriamente seus impulsos pessoais. da infância ao estado adulto. em boa saúde. diagnosticados e muitas vezes curados. ingressa num período denominado pela psicologia período de latência. em casa e no cuidado de outras crianças. Não obstante. que poderão vir a manifestar-se posteriormente sob tensão. O falso self pode adequar-se muito bem ao padrão familiar. do estado adulto e da independência. isto é. em outros. Adolescência Caracterizada pelas expectativas da sociedade em relação ao adolescente. quanto mais limitado o tamanho do grupo. Apostila elaborada por Vanessa Lima. da adolescência. Desenvolvimento que tem início numa época bastante recuada (por volta da data de nascimento) e prolonga-se até a fase de maturidade adulta. Maturidade adulta Os adultos maduros gozam da saúde enquanto membros de um subgrupo do grupo total. Os dois estados alternam-se. Essa capacidade só pode ser adquirida dentro de um contexto familiar relativamente estável. Nesse período. Espera-se que. à idade de cinco ou seis anos. a criança encontra-se por certo tempo relativamente livre do crescimento emocional e da mudança instintiva. cita a organização do falso self. especialmente quando elas tem (e de fato podem ter nesse estágio) certos interesses de menino. Em alguns casos. e podem sobrepor-se às sempre mutáveis afinidades grupais. tensão de um trauma. Latência A criança. O adulto maduro é capaz de identificar-se com seu ambiente e tomar parte no estabelecimento. uma vez que. a criança terá atingido antes do período de latência a plena capacidade de viver o sonho ou o jogo adulto. As organizações defensivas contra ansiedades intoleráveis produzem sintomas que podem ser reconhecidos. elas tem alguma capacidade de apreciarem ser iguais à mãe. nesse período.(ii) Neuroses (ou psicoses) de infância manifestas Em todas as idades. Assim. Como meninas. o tratamento objetiva o estabelecimento da maturidade. O período de latência apresenta certas características: a tendência dos meninos à adoração de heróis e à associação com outros meninos com base em algum tipo de busca. as amizades pessoais existem. ou mesmo coexistem em simultaneidade. O psiquiatra ocupa-se do desenvolvimento emocional do indivíduo. a adolescência propõe um paradoxo. Como exemplo. menos apropriada é a definição de maturidade. com os instintos apropriados e as ansiedades e conflitos resultantes destes.que vai grosso modo dos dois aos cinco anos de idade. Desse modo. e pode ser muito facilmente tomado como sinal de saúde. É esse o período mais receptivo à atividade do professor.. no qual ocorre uma modificação da pulsão biológica que subjaz à vida instintiva. a pessoa pode ser acometida de patologias psiquiátricas. As meninas apresentam características semelhantes. Primeira maturidade Tendo boa saúde. um fator externo pode ter importância etiológica. Saúde como maturidade emocional Má saúde como sinônimo de imaturidade. vive-se uma quantidade imensa de vida. (iii) Neuroses ou psicoses latentes O psiquiatra aprende também a enxergar na criança os problemas potenciais. a criança possa vir a manifestar todo tipo de sintoma. Outubro/2011 24 . porém. o ambiente circundante é normal. ou talvez a uma perturbação da mãe. implica uma instabilidade e uma propensão ao colapso.

isto é. manutenção e modificação de seu ambiente. tendo essa relação. como. o direcionamento de amor e ódio ao mesmo objeto. As patologias derivadas desse primeiríssimo estágio assumem a natureza da psicose. devem ser chamadas sintomas. Relacionamento entre mãe. passamos da habilidade demonstrada pelo indivíduo de tomar parte na criação. pode ser hoje delineado e até certo ponto detalhadamente descrito. no qual a criança encontra-se envolvida apenas com a mãe. O estado de dependência da criança é tal que estas primeiras tarefas não podem ser realizadas na ausência de um apoio materno suficientemente bom. Primeira infância Estágio anterior à primeira maturidade (estágio no qual a criança envolve-se essencialmente em relacionamentos triangulares). apesar de sua complexidade. Outubro/2011 25 . Primeiríssima infância O bebê encontra-se num estado de alta dependência e engaja-se em certas tarefas preliminares e essenciais. porém. dos distúrbios agrupados sob a denominação geral de esquizofrenia. o qual. o bebê é altamente dependente da capacidade de sua mãe ou mãe substituta de adaptar-se às necessidades do filho. por exemplo. A ansiedade vincula-se ao conflito (em grande parte inconsciente) entre amor e ódio. Distúrbios psicossomáticos = estados físicos causados por um conflito emocional A mudança de atitude em relação à criança A psicanálise tem aos poucos demonstrado que nem o processo de nascimento é vazio de significado para o bebê. É possível que todos os detalhes do nascimento (tal como vividos pela criança) estejam registrados na mente do bebê. Esses são os chamados distúrbios psicossomáticos. Os jogos e brincadeiras simbolizam os vários fenômenos vividos pela criança. a conformação da psique ao corpo e o estabelecimento dos primeiros contatos com a realidade externa. Conclusão Traçando o caminho de volta à psicologia da criança. e ela. quando persistem ou aparecem de forma exagerada. ao estado de dependência absoluta que constitui o início. A condição psiquiátrica relativa a este estágio manisfesta-se mais como distúrbios afetivos. isto é. Capítulo 13 – Contribuições da psicanálise à obstetrícia O lugar da psicanálise Muitos estados físicos podem ser causados em parte por um conflito na vida emocional inconsciente do paciente.características que. Na primeira infância as ansiedades tem a ver com a ambivalência. A neurose é nada mais e nada menos que uma rigidez na organização de defesas contra a ansiedade que nascem da vida instintiva da criança dessa idade. por sua vez. a integração unitária da personalidade. No decorrer do progresso desse último estado ao primeiro. É nesse estágio que se lançam as fundações da saúde mental. depressão e paranoia e menos como neurose. A chave desse período – no qual a neurose lança suas bases – é a ansiedade. só consegue fazê-lo por meio de uma identificação com a criança que deriva diretamente de sua atitude de devoção. médico e enfermeira Apostila elaborada por Vanessa Lima. o caráter de encontro entre dois seres humanos integrais. Os sintomas podem ser extravasamentos da ansiedade ou princípios de organizações visando defender contra ansiedades intoleráveis. a criança passa por um processo muito complexo de desenvolvimento pessoal.

se o lar não for satisfatório. O termo atendimento de caso parece aplicar-se. a psicoterapia. se possível. Apostila elaborada por Vanessa Lima. a pressa e o atraso equivalem a uma interferência. Essa habilidade não resulta da inteligência ou de qualquer instrução formal. A mãe doente Como é natural. muitas vezes coexistem e tornam-se mutuamente dependentes. Esses dois processos. em contraste. Capítulo 14 – Aconselhando os pais Tratamento de doenças e conselhos sobre a vida Quando lidamos com pessoas saudáveis. mas em seu trabalho não há lugar para a tentativa de mudar o curso dos acontecimentos por meio de uma interpretação do inconsciente.Winnicott atribui importância primordial a essa questão do contato entre mãe. contato esse que. O profissional de atendimento de caso deve saber tanto quanto possível a respeito do inconsciente. Outubro/2011 26 . O trabalho do psicoterapeuta. Capítulo 15 – Atendimento de caso com crianças mentalmente perturbadas Atendimento de caso e psicoterapia O “atendimento de caso” é aqui descrito como um processo de solução de problemas. A entrevista profissional A entrevista deve dar-se num lugar adequado e conter-se dentro de um limite específico de tempo. Exemplos clínicos O atendimento de caso com crianças perturbadas sempre me traz à mente as palavras: integração e desintegração Nesses casos. o atendimento de caso e a psicoterapia. cada qual apropriado a um momento específico do contexto terapêutico. na prática. que aproveitará como ninguém esse conhecimento verdadeiro dos fatos. um tanto vagamente. Ao mesmo tempo. baseia-se sobretudo na interpretação do inconsciente. a mãe está vivendo um processo tão natural e automático que quanto maior a parte que se conceder à natureza. coisa totalmente diferente. deve dar-se ao longo de toda a gravidez. melhor será para a mãe e o bebê. O ser confiável em todos os aspectos é a principal qualidade do psicólogo. a doente carece de segurança. A expressão de um juízo moral destrói de modo absoluto e irrevogável a relação profissional. Sendo. a todas as ações que não constituem a psicoterapia propriamente dita. Devemos deixar os processos naturais a cargo da própria natureza. Sensibilidade pós-natal A mãe é a única pessoa que pode apresentar o mundo ao bebê de modo significativo para este. A pessoa em quem a mãe deposita sua confiança deve fornecer-lhe uma explanação completa do processo do parto. da neurose de transferência e de uma série de exemplos da manifestação do conflito pessoal do paciente. o que muito contribui para dissipar as preocupações advindas de informações incorretas. há que encontrar-se alternativas. a psicoterapia é sempre acompanhada de um atendimento de caso. médico e enfermeira. mas do simples fato de ser ela a mãe natural. a mãe imatura ou doente requer uma ajuda especial da pessoa encarregada de assisti-la: se a mãe normal carece de instrução. Isso é sumamente necessário para a mulher sadia. Há sempre algo a ser feito com os pais da criança ou. nossa principal preocupação deve ser a de acompanharmos o tempo dos processos naturais.

distúrbios do desenvolvimento emocional do indivíduo que tem como raiz o fato de a vida ser naturalmente difícil. tentar avaliar o estrago acarretado pela privação. Sumário O atendimento de caso torna-se o elemento principal nos casos em que. cita os casos em que o ambiente do paciente se desintegra. a criança capaz de beneficiar-se de um bom ambiente começa a melhorar. à luz dessa informação. não só por ser mais econômico. acarretando grande tensão. existe uma atitude anormal dos pais que constitui. A criança carente é perturbada. torna-se também mais capaz de reagir com fúria a seu estado de carência. no momento em que ocorreu e nas épocas subsequentes. há uma deficiência ambiental que precisa ser corrigida. e que esses elementos de desintegração tem de ser organizados por algum tipo de processo integrativo. na medida em que fica menos doente. A ideia de atendimento de caso só nos chega quando reconhecemos que pode haver no caso forças desintegradoras. nossa primeira atitude deve ser a de determinar qual o grau de desenvolvimento emocional normal atingido pela criança no começo devido a um ambiente suficientemente bom (1) a relação entre bebê e mãe. São essas as situações a que melhor se aplica o termo atendimento de caso. Essas considerações inevitavelmente desviam-nos do caminho certo. Outubro/2011 27 . quando o lar é suficientemente bom. causa do distúrbio. em alguns casos de psicose infantil. É esse o objetivo. é ele o melhor lugar para a criança se desenvolver. o elemento desintegrador chama à vida e sustenta toda a dinâmica do atendimento de caso. O mais importante aqui é a organização de uma tendência ativa à integração.O atendimento de caso é um elemento terapêutico de vital importância. e permanece depois como um fator de manutenção do mesmo. É essa a diferença entre o atendimento de caso e a psicoterapia com crianças mentalmente perturbadas. além do distúrbio da criança. Como exemplo extremo. Winnicott defende a existência de uma ligação muito estreita entre as formas mais brandas da psicose e os primeiros estágios da tendência anti-social. Deste modo. a criança pode ser curada no lar onde vive. o levantamento da história do caso é tarefa importante. os distúrbios de pais e filhos interagem. depois. 2) a relação triangular entre pai. na grande maioria dos casos. ou um holding do material potencialmente desintegrador. De acordo com Winnicott. Assim. na verdade. Segundo ele. Um elemento desintegrador confere ao atendimento de caso sua função específica. Deve-se procurar proporcionar à criança um ambiente suficientemente bom e ver como ela é capaz de aproveitá-lo. Capítulo 16 – Sobre a criança carente e de como ela pode ser compensada pela perda da vida familiar Aborda a questão dos cuidados que devem ser dispensados às crianças que foram privadas da vida familiar. Assim. contrabalançando uma tendência desintegradora. de um modo ou de outro. Na melhor das hipóteses. É necessário evitar fazer qualquer avaliação do problema com base nos sintomas da criança. um processo ativo de integração tem que se desenrolar para dar conta das necessidades do caso. Aqui a necessidade da administração externa se torna óbvia. Há nela um ódio Apostila elaborada por Vanessa Lima. Avaliação da carência Para descobrirmos a melhor maneira de ajudar uma criança carente. e sobretudo nos casos mais severos. mãe e criança). mas também porque. A maioria das crianças perturbadas sofrem em decorrência de fatores internos. A questão central é que. e esse perturbação não tem uma natureza tal que a simples mudança ambiental possa transformar a criança num ser sadio.

está à procura da pessoa. Com mais frequência do que normalmente se pensa. ou desencadear-se um estado de introversão patológica. uma relação entre os pais suficientemente boa. e pode até ter experimentado por certo tempo a vida em família. Considera o significado do ato anti-social – o roubo. Mas é possível que outra criança não tenha tido uma experiência sadia que possa ser redescoberta e reativada por sua inserção num novo ambiente. e permanece o tempo inteiro envolvida em relações ocultas com objetos de fantasia idealizados. mais que isso. da mãe. Pergunta-se: o que ocorre à criança quando um bom ambiente é destruído. quando bebê. sobre o qual teria podido urinar nos primeiros estágios de sua existência. a criança está estabelecida como uma unidade e é capaz de sentir o embate entre suas concepções e o que realmente existe na realidade compartilhada com outros. que a criança carente é uma pessoa doente. como urinar na cama e roubar. que possa proporcionar uma resposta da realidade à esperança expressa pelos sintomas. assumindo a responsabilidade por tudo o que deu errado. pode haver certa esperança – esperança de redescobrir uma mãe suficientemente boa. Também os atos anti-sociais. a situações tão complexas ou ruins que chegaram a afetar as fundações da saúde mental em termos da estrutura da personalidade ou do sentido de realidade. Sabemos. no momento. Em sua forma mais simples. Os sintomas anti-sociais são como que uma busca por uma ambiente sadio. ou quando esse bom ambiente nunca chegou a existir? Alguns fenômenos são já suficientemente conhecidos: o ódio é reprimido.dirigido contra o mundo. A psicoterapia não é praticável. em algum Apostila elaborada por Vanessa Lima. dá-se uma cisão da personalidade. que contém toda a espontaneidade. as fundações da saúde mental da criança podem ter sido devidamente lançadas. na verdade. A criança anti-social necessita. Do mesmo modo. tendo como base a complacência. Uma depressão simples indica. Cuidando da criança carente Mesmo uma criança privada da vida familiar pode ter vivido em condições favoráveis na primeiríssima infância. Num tal caso. portanto. a criança confiada a pais adotivos deve ser uma criança capaz de responder a algo tão bom. Várias organizações defensivas cristalizam-se na personalidade da criança Pode ocorrer uma regressão a fases iniciais do desenvolvimento emocional que tiveram caráter mais satisfatório. no momento ao menos. uma pessoa que viveu uma experiência traumática em sua história passada e que desenvolveu um modo pessoal de combater as ansiedades assim criadas. de um ambiente especializado e concebido com fins terapêuticos. a criança pode ter sido submetida. Outubro/2011 28 . um lar suficientemente bom. O princípio do cuidado dispensado à criança carente não é a psicoterapia. Não fracassam por serem dirigidos a um objeto errado. essa cisão faz com que a criança manifeste uma metade de si que funciona como uma vitrine de loja. Quando uma criança rouba. ela está. isso quer dizer que elas tem de ter tido. ou a capacidade de amar outras pessoas é perdida. portanto. e mantenha secreta a parte principal do self. ao menos. a criança que urina na cama está procurando o colo de sua mãe. O procedimento essencial é o fornecimento de uma alternativa à família. A depressão pode ser na criança carente um sinal favorável. Deve ser feito um diagnóstico em termos da presença ou da ausência de traços positivos no ambiente primordial da criança e na relação desta com esse ambiente. que a criança conserva a unidade de sua personalidade e retém um sentido de preocupação. mas sim porque a criança não tem consciência do que está acontecendo. indicam que. Mesmo a fúria pode ser sinal de esperança e do fato de que. por exemplo. e são sinais de esperança. Essas alternativas podem ser: (i) Pais adotivos: essencialmente. ela não está à procura do objeto roubado. sabemos também ser ela uma pessoa cuja maior ou menor capacidade de recuperação depende da intensidade da consciência que ainda conserva de seu ódio e da capacidade primária de amar. Na prática. e a saúde só sobrevém quando esse ódio é sentido.

aquelas que tiveram poucas experiências boas no início da vida. Entre os dois mundos existe a necessidade de vários tipos de fenômenos transicionais. e. a criança confiada à grande instituição não é cuidada com vistas a uma cura de sua perturbação. avançando. proporcionar um tipo de cuidado que faça com que as crianças vivam num estado de ordem e não de caos. A importância da história passada da criança A primeira coisa que se deve fazer ao receber uma criança é coletar todas as partículas de informação que se puder encontrar a respeito da vida da criança até aquele momento. Uma criança levada de uma família a outra ou de uma instituição a outra pode suportar ou não a mudança segundo tenha podido ou não levar consigo um trapo ou um objeto macio. e que seria normalmente direcionado contra o primeiro lar da criança. Terão de suportar esse ódio que começa a ser sentido. No primeiro. se o tiveram. a meta é verdadeiramente terapêutica. ou segundo existam ou não músicas conhecidas que. É mais saudável que os pais adotivos possam receber e sobreviver às ondas periódicas de sentimento negativo. (ii) Pequenos asilos. Espera-se que. Esse objeto precisa ser representativo de alguém. cantadas à hora de dormir. resguardar tanto quanto possível as crianças de um embate com a sociedade. vinculem o passado ao presente. com a idade de dezesseis anos mais ou menos. ou segundo as atividades auto-eróticas tenham ou não sido respeitadas. Os pais adotivos perceberam que. Todos esses objetos e fenômenos transicionais permitem que a criança suporte frustrações. (iv)Albergues de maior porte: esse tipo de albergue é mais representativo da modalidade de cuidado capaz de dar conta das crianças mais doentes. vai adquirindo também mais capacidade de sentir-se furiosa com o colapso ambiental já ocorrido. A maioria das crianças descritas como desajustadas não chegaram a ter um objeto desse tipo. Fenômenos transicionais Toda criança vive a dificuldade de relacionar a realidade subjetiva à realidade compartilhada que pode ser percebida objetivamente. Por meio dessas coisas. eles mesmos tornam-se o alvo do ódio da criança. Nesse tipo de instituição. À medida que a criança adquire confiança. em direção a uma relação mais segura (por ser menos idealizada) com a criança. toleradas ou mesmo valorizadas como meios positivos de adaptação. entre eles. (iii) Albergues: grupos um pouco maiores que nos pequenos asilos. no decorrer do tempo. A criança não está consciente das grandes mudanças revolucionárias que estão ocorrendo. em terceiro lugar. coloca-se a ênfase no controle com vistas à tranquilidade social. (v) Instituições maiores. o objeto transicional. As metas são: em primeiro lugar. de tempos em tempos. em segundo lugar. Outubro/2011 29 . Por contraste. alimento e vestuário a crianças abandonadas. isto é. proporcionar habitação. Não pode haver dúvida de que a importância desses fenômenos é maior para crianças advindas de um ambiente Apostila elaborada por Vanessa Lima. privações e a chegada de situações novas. ou. o perderam. até o momento em que elas tenham mesmo que ser soltas no mundo. a criança se recupere de uma privação ou carência.momento de seu passado. uma vida familiar suficientemente boa e ter podido responder a isso. Terapêutica e cuidado Dois extremos do cuidado que se pode dar à criança carente: o lar adotivo e a grande instituição. as crianças adquirem uma capacidade de verem-se privadas em alguma medida daquilo a que estão acostumadas e até daquilo que necessitam. A criança confiada a um tal albergue tem menos necessidade de uma boa experiência anterior que possa ser revivida. a cada vez.

Quando essa cisão se forma e as pontes entre o subjetivo e o objetivo são destruídas (ou nunca se formaram bem). perde seu sentido de cidadania. um falso self engajado na dupla tarefa de esconder o self verdadeiro e ceder às exigências que o mundo lhe impõe a todo momento. Desenvolvimento emocional individual Existe um processo contínuo de desenvolvimento emocional que se inicia antes do nascimento e permanece por toda a vida. pois as crianças dessa idade necessitam mesmo é de oportunidades para brincar organizadamente e condições controladas para poder dar início a sua vida social. o bebê precisa. O processo de desenvolvimento pode encontrar-se ameaçado tanto por perigos internos (instintos) quanto externos (falha ambiental). o bebê é extremamente dependente do cuidado materno. pelo holding. Tese principal: a concepção de que a psicologia de grupo tem sua base na psicologia do indivíduo. Isso resume-se à aceitação do princípio de que a criança parte da dependência em direção à independência. no que se refere ao bebê. Essa teoria subjaz a todas as escolas de psicologia. de modo que constitui-se nele um self verdadeiro escondido e. ela só tem uma saída: uma cisão da personalidade. isto é. só pode ser combatido por uma interrupção do processo de desenvolvimento e pela psicose Apostila elaborada por Vanessa Lima. da presença contínua e da própria sobrevivência da mãe. a “escola” tem o significado de “abrigo” ou “albergue”. mais importância deve ser dada ao fator ambiental. A escola da criança pequena deve estar integrada ao lar e não deve dar muita ênfase ao ensino propriamente dito. Quanto mais recuamos no exame desse processo de crescimento individual. A escola funciona como uma extensão ou alargamento do lar. sabemos ser um verdadeiro desastre a quebra de continuidade do cuidado familiar. os indivíduos ligados ao cuidado de crianças anti-sociais não são professores escolares que em certos momentos acrescentam a seu trabalho um colorido de compreensão humana. Nos primeiros estágios desse processo. são antes psicoterapeutas de grupo que às vezes aplicam-se a dar um pouco de ensino escolar. A dependência neste estágio é absoluta. em outras palavras. o indivíduo perde contato. A criança desajustada tem necessidade de um ambiente cuja tônica seja o cuidado e não o ensino. sem a qual esta não pode evitar desenvolver defesas que distorcem o processo. quando ocorre. e especialmente na integração pessoal deste.perturbado. por exemplo. Capítulo 17 – Influências de grupo e a criança desajustada: o aspecto escolar O objetivo deste capítulo é estudar certos aspectos da psicologia de grupo que talvez possam contribuir para uma melhor compreensão dos problemas inerentes ao cuidado de grupos de crianças desajustadas. A ideia da continuidade do desenvolvimento emocional nos une a todos. Para a criança desajustada. um conhecimento da formação dos grupos é elemento altamente importante para seu trabalho. a criança é incapaz de operar como um ser humano total. e o colapso ambiental. Num momento ainda mais recuado. Esta deve realizar em si uma adaptação ativa suficientemente boa às necessidades da criança. Assim. voltado para fora. Esperamos que o indivíduo sadio seja capaz de identificar-se com grupos cada vez mais amplos sem uma perda da noção do self e de sua espontaneidade. na qual uma metade permanece em relação com o mundo subjetivo e a outra reage complacentemente às imposições do mundo (falso self). se é muito estreito. assumir ele mesmo a função ambiental se esta não se impõe do exterior. Outubro/2011 30 . Por isso. o bebê só entende o amor que é expresso em termos físicos. Se o grupo é muito extenso. O verdadeiro grupo da criança pequena é seu próprio lar e. até a morte natural. Se privarmos a criança dos objetos transicionais e perturbarmos os fenômenos transicionais estabelecidos.

onde podem reunir-se as memórias de experiências e edificar-se a estrutura infinitamente complexa que pertence ao ser humano. mais tarde. esse momento só pode ser suportado – ou. tudo o que a mãe podia fazer era estar pronta a ser repudiada. depois. sem uma mãe suficientemente boa. A integração precede sempre a formação grupal. o mundo externo não está diferenciado. um bebê possa existir antes da integração. Para o bebê. ele é essencial e simultaneamente uma criação da criança e uma parte da realidade externa. um lenço da mãe. esse todo aos poucos divide-se em dois elementos: a parte que o bebê repudia e a parte que reclama para si. A criança recém integrada participa. destruindo num único momento o self e o mundo. uma fralda. Antes desse estágio. e vestimentas (e logo ela começa a responder a necessidades instintivas). Esse ambiente é a mãe que segura o filho. Depois da integração o indivíduo É. Examinemos agora o que ocorre quando o ambiente porta-se suficientemente bem. o bebê morrerá. assim como não existe mundo interno ou pessoal. Este eu possui agora um dentro. O que constatamos. Outubro/2011 31 . Apostila elaborada por Vanessa Lima. só existe uma formação primária pré-grupal. mas neste contexto estamos mais preocupados com as condições ambientais que tornam possível todo o restante. o indivíduo é um conjunto não organizado de fenômenos sensório-motores contidos pelo ambiente externo. na qual elementos não integrados são mantidos unidos por uma ambiente do qual não se encontram ainda diferenciados. Gosto de chamar um tal objeto de “objeto transicional”. uma ambiente suficientemente bom. o amor que porta uma capacidade de identificação com o bebê e um sentimento de que a adaptação às suas necessidade é algo que vale a pena. há uma região entre criança e mãe que pertence tanto à criança quanto à mãe. Só ao completar-se esse processo podemos dizer que. estamos mais preocupados com as condições ambientais que tornam possível todo o restante. por isso. cuidado amoroso. Antes da integração. talvez. Dizemos que a mãe demonstra devoção a seu bebê. os pais respeitam esse objeto ainda mais do que respeitam outros brinquedos. calor. a criança humana atinge o status de unidade. de acordo com as necessidades específicas a cada momento do desenvolvimento. isto é. a mão e a pele da mãe. a criatividade e a percepção objetiva. colcha ou camisa. O grupo é uma conquista do EU SOU. Ela gosta de preocupar-se com a criança. É de fato isso mesmo que vemos. a todo momento. Não há dúvida de que as experiências instintivas contribuem incessantemente ao processo de integração. A psicanálise preocupa-se primordialmente com as necessidades instintivas (do ego e do id). quando o holding e todos os demais cuidados são suficientemente bons? Antes do processo de integração. se a mãe falhar. Depois da integração. arriscado – quando há alguém envolvendo a criança com seus braços. até o momento em que esta passa a demonstrar menos necessidade disso. etc. Mas devemos esperar que permaneçam vestígios dessa região intermediária. estamos mais preocupados com a mãe segurando (holding) o bebê que com a mãe alimentando o bebê. Antes. e uma realidade interna. no tocante ao processo de crescimento emocional individual. Se tudo corre bem. o que pode fazer é proporcionar à criança apoio. bonecos e ursinhos. no primeiro objeto que a criança toma afetivamente como seu – um pedaço de tecido cortado de um cobertor. isto é. há um estágio em que o indivíduo só existe aos olhos do observador. temporária mas verdadeiramente. o bebê começa a ter um self. ou seja. Neste período que antecede a integração. No momento do EU SOU o indivíduo sente-se infinitamente exposto.infantil. Do mesmo modo. O bebê que perde seu objeto transicional perde de uma só vez a boca e o seio. Por isso. Essa pessoa não pode agir assim a não ser que seja movida por aquele tipo de amor que é apropriado a esse estágio. é impensável que. podendo já dizer EU SOU. Esse objeto é uma das pontes que tornam possível um contato entre a psique individual e a realidade externa. de seu primeiro grupo. uma pessoa que dê holding à criança adaptando-se suficientemente bem às suas necessidades mutáveis. mas é necessário também. assim.

e adquirem confiança. c) começam. ao mesmo tempo existe uma mãe que dá cobertura. dos indivíduos. “unidade individual” e “cobertura materna” são termos coexistentes. adolescentes ou crianças sadias lança luz sobre o problema do cuidado de grupos formados por crianças doentes (no sentido de serem desajustadas). b) começam a explorar a situação. Crianças anti-sociais roubam algo toda vez que sentem um impulso amoroso. no qual os indivíduos mesmos proporcionam o funcionamento grupal. Tendência anti-social = sinal de esperança Complacência = sinal de aniquilamento Os grupos de crianças desajustadas aglutinam-se devido aos membros serem todos não-integrados em diferentes graus. O termo desajustamento significa que. exigindo uma nova oportunidade de lançar-se à tarefa da integração pessoal. Já outros não podem ser curados pela terapia de cobertura apenas.A formação dos grupos Atingimos assim o estágio de uma unidade humana integrada. Cada menino ou menina. perdendo a identidade pessoal. (ii) No outro extremo. a entidade grupal. apresentando uma necessidade anormal de cobertura. a partir do interior. a qual lhes é necessária devido a suas expectativas de perseguição. que foi compelida a assumir para si o trabalho de cobertura. tem sido sustado em sua integração em algum momento da primeira infância. o trabalho de grupo não provém. cada um por si mesmo. Origem dos grupos: (i) superposição de unidades (ii) cobertura (i) A base da formação grupal madura é a multiplicação de unidades individuais. Trabalho de grupo com as crianças desajustadas O estudo das formações grupais compostas por adultos.integração. a adquirir alguma integração. tornando-se dependentes e regredindo à não. Outubro/2011 32 . e. A existência dessa segunda opção pode ocasionar o reaparecimento do self verdadeiro. A palavra “democracia” é usada para descrever o agrupamento mais maduro de todos. consciente do estado paranóide inerente ao estado de recém-integração. um conjunto de pessoas relativamente não integradas pode receber uma cobertura e constituir um grupo. Neste caso. A criança anti-social tem duas alternativas – aniquilar o self verdadeiro ou cutucar a sociedade até que esta lhe ofereça cobertura. mas da cobertura. portanto. A integração grupal implica num primeiro momento uma expectativa de perseguição. e aplica-se apenas a um conjunto de pessoas adultas das quais a vasta maioria já atingiu a integração pessoal (além de ser madura segundo outros critérios). ou senão a fazer-se incômoda para a sociedade a fim de forçar alguém a dar-lhe cobertura. Apostila elaborada por Vanessa Lima. valem-se da cobertura proporcionada pelo grupo. Portanto. nesses momentos. numa data recuada. o ambiente deixou de ajustar-se às necessidades da criança. e continuam precisando do cuidado de uma agência. Os indivíduos passam por três estágios: a) apreciam o fato de estarem sendo cobertos. e prestam-se assim a serem inseridos em outro tipo de grupo. A organização representada pela integração pessoal de cada um dos indivíduos tende a conservar. Alguns indivíduos conseguem conter sua integração pessoal. sem porém identificarem-se com essa agência.

O trabalho de grupo com crianças carentes está diretamente relacionado com a maior ou menor quantidade de integração pessoal de cada uma das crianças. Psicologia do uso do termo Winnicott dá início a um estudo psicológico do termo “democracia”. atravessando uma fase de boa fortuna. A democracia é definida aqui. na estrutura social. possui uma qualidade que vem de par com a qualidade de maturidade individual que caracteriza seus membros sadios. pode-se encontrar implícita a ideia de maturidade ou maturidade relativa. O termo “democrático”. portanto. quando há um sinal negativo. está implícito no termo o elemento de maturidade. de acordo com sua idade cronológica e seu ambiente social há um grau de desenvolvimento emocional apropriado (conceito de maturidade relativa!). (iv)Um sistema social em que o governo concede ao povo liberdade de: (a) pensamento e expressão. Outubro/2011 33 . Definição de Winnicott para a palavra democracia: “A sociedade bem ajustada a seus membros individuais sadios”. é capaz de conceder aos indivíduos liberdade de ação. pode significar o caráter mais maduro. e não menos. pode-se dizer que o indivíduo normal ou sadio é o indivíduo maduro. Definição de trabalho do termo Importante significado latente do termo democracia: a sociedade democrática é uma sociedade “madura”. o abrigo proporciona cobertura. Estrutura democrática Apostila elaborada por Vanessa Lima. Saúde psiquiátrica Em termos psiquiátricos. O termo conserva seu valor por implicar um reconhecimento da maturidade como idêntica à saúde. isto é. as crianças trazem consigo suas próprias forças integrativas. (b) empreendimento. Ou seja. empregado por uma comunidade. Democracia (= maturidade) Significado latente: a sociedade democrática é uma sociedade “madura”. (v) Um sistema social que. Capítulo 18 – Algumas considerações sobre o significado da palavra democracia A palavra democracia é usada segundo uma ampla gama de sentidos: (i) Um sistema social em que o povo governa. (iii) Um sistema social cujo governo é escolhido pelo povo. Em todos os usos que se dão ao termo democracia. como “a sociedade bem ajustada a seus membrosindividuais sadios”. (ii) Um sistema social cujo líder é escolhido pelo povo.Sumário Relação básica: quando há um sinal positivo.

A essência de estrutura democrática é o voto livre e secreto. Isso implica a garantia da liberdade das pessoas expressarem sentimentos profundos. Um dos sinais desta tendência é a instituição corretiva. Os chamados “anti-sociais ocultos”. e é só através deles que a tendência inata (hereditária) do grupo à maturidade social pode ser implementada. o campo de treino para os líderes pessoalmente imaturos que são. A tendência antidemocrática é uma tendência à ditadura cuja característica inicial é uma afirmação febril da fachada democrática. pode-se afirmar: nesta sociedade e nesta época. sem o saberem. a ditadura localizada. Essa estrutura deve possibilitar a deposição de governantes pelo voto secreto. só ocorre mediante o desenvolvimento emocional sadio dos indivíduos. Outubro/2011 34 . Portanto. Essa estrutura deve possibilitar a eleição de governantes pelo voto livre e secreto. apenas parte dos indivíduos que compõem um grupo social terá tido a sorte de desenvolver-se até a maturidade. tudo o que pudermos fazer para incrementar a quantidade desse fator democrático inato nada será em comparação com o que já poderia ter sido feito (ou não) pelos pais e pelas famílias dos indivíduos enquanto estes foram bebês. porém. Essa estrutura deve suportar a ilogicidade da eleição e deposição de governantes. desvinculados de um pensamento consciente. Winnicott quer dizer o seguinte: as tendências naturais (hereditárias) da natureza humana desenvolvem-se e florescem no modo de vida democrático (maturidade social). como agentes da tendência antidemocrática. os médicos de presidiários e de loucos tem de estar em constante alerta para não serem usados. crianças ou adolescentes. Identificação imatura coma sociedade Numa dada sociedade há tanto indivíduos cuja falta de sentido social manifesta-se no desenvolvimento de uma tendência anti-social.Devemos tentar enunciar as qualidades reconhecidas da estrutura democrática. o que de melhor podemos fazer é procurar evitar intervir nos lares capazes de dar conta da educação de suas crianças e adolescentes (mera não interferência). Os indeterminados Composição de uma sociedade: indivíduos anti-sociais + indivíduos indeterminados (os quais podem ser influenciados a agir como pessoas maduras) + indivíduos pró sociedade mas antiindivíduo (anti-sociais ocultos) + indivíduos sadios capazes de contribuir para a sociedade. Tais lares bons e Apostila elaborada por Vanessa Lima. Tendência democrática inata De uma democracia verdadeira. isto. na verdade. Pelo termo “inata”. em qualquer momento. Tanto a prisão como o hospital psiquiátrico da sociedade sadia aproximam-se perigosamente desse gênero de instituição corretiva. A criação do fator democrático inato Democracia é maturidade. à recriação e à conservação da estrutura democrática. e maturidade é saúde. por essa razão. quanto indivíduos que reagem à insegurança interna por meio da identificação com a autoridade. A essência da estrutura democrática é o voto livre e secreto. Constata que. anti-sociais invertidos (prósociedade mas anti-indivíduo). há uma proporção suficiente de indivíduos que atingiu um grau suficiente de maturidade emocional para que exista uma tendência inata à criação. Os “anti-sociais ocultos” tem tendência a exercer um tipo de liderança sociologicamente imatura.

Apoio à tendência democrática: sumário O melhor apoio consiste na atitude negativa de promover organizadamente a nãointerferência na relação normal entre mãe e bebê. se a importantíssima contribuição da mãe – baseada em sua devoção – for prejudicada ou impedida. A melhor atitude que se pode tomar para promover a tendência democrática tem caráter negativo: evitar a interferência no lar bom e normal. O valor da educação para procedimentos democráticos só existe para os indivíduos sadios ou emocionalmente maduros. O processo pelo qual a mãe apresenta a realidade exterior ao bebê representa a base da capacidade que o indivíduo pode ter de relaciona-se com uma realidade externa cada vez mais ampla. A interferência massiva nesse ponto. A devoção que a mãe boa e normal dedica a seu bebê é fato dotado de especial significação. faria diminuir rápida e decisivamente o potencial democrático dessa sociedade. constitui um esteio adicional. 4. O limite geográfico de uma democracia A base de qualquer sociedade é a personalidade humana. Sumário 1. 2. e certamente minoraria a riqueza de sua cultura. Desenvolvimento de subtemas: a eleição de pessoas A estrutura democrática carateriza-se essencialmente pelo fato de eleger pessoas (voto). Outubro/2011 35 . 6. a partir de bases já conhecidas. Apostila elaborada por Vanessa Lima. O aprendizado do fazer democrático A tendência democrática existente pode ser reforçada por um estudo da psicologia da maturidade social e individual. O uso da palavra democracia pode ser estudado psicologicamente com base na ideia de maturidade. É impossível que as pessoas realizem na sociedade o que não são capazes de realizar em seu próprio desenvolvimento pessoal. A democracia é uma conquista de uma determinada sociedade num determinado momento do tempo. bem como a qualificarem-se para tornarem-se membros da sociedade mais ampla. O estudo da psicologia e da educação. bem como nos lares bons e normais. a capacidade de atingir a maturidade emocional é resultado dessa mesma devoção. cuidando de tudo o mais.normais são o único cenário que pode acalentar a criação do fator democrático inato. implícita no termo. permite que a mãe se dedique inteiramente ao bebê. 3. por parte de uma sociedade. 5. A pessoa – homem ou mulher As fundações da saúde mental de cada indivíduo são lançadas no início de sua vida. Dentro desses lares. Nem a democracia nem a maturidade podem ser implantadas em uma sociedade. O fator democrático inato da uma comunidade deriva do funcionamento do lar bom e normal. não haverá a menor esperança de que o indivíduo possa integrar aquela porcentagem dos membros da sociedade que compõem e geram o fator democrático inato. quando a mãe encontra-se simplesmente devotada a seu bebê e este acha-se num estado de dupla dependência por não ter sequer consciência de sua dependência. o pai tem a função de um agente protetor que. A importância do lar para o desenvolvimento individual consiste em que um lar estável habilita as crianças a conhecerem a si mesmas e aos outros.

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