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Eliana Machado Coelho - Forças para Recomeçar

Eliana Machado Coelho - Forças para Recomeçar

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  • 2 - Sérgio e Débora se reencontram
  • 3 - Dificuldades em família
  • 4 - Débora hospitalizada por causa de uma mentira
  • 6 - Débora enfrenta a oposição do pai
  • 7 - Sérgio e Débora: do passado ao presente
  • 8 - Respeito e amor
  • 9 - Sérgio se deixa dominar pelo ciúme
  • 10 Sérgio revela o assédio de sua irmã
  • 11 - A ação dos espíritos inimigos
  • 13 - O desespero de Rita
  • 14 - Terapia de uma evangélica, ex-espírita
  • 15 - O romance abalado pela influência espiritual
  • 16 - Rita tentada pelo suicídio
  • 17 - Débora flagra Sérgio dormindo com Rita
  • 18 - Os olhos de Deus
  • 19 - Fotos contra Sérgio destroem o romance com Débora
  • 20 - Breno aproxima-se de Débora
  • 21 - Opiniões do doutor Edison
  • 22 - A benfeitora Laryel interfere no suicídio de Sérgio
  • 23 - Cabe a Deus alterar o destino
  • 24 - Discussão entre Sérgio e o médico
  • 26 - Psicólogos de amor
  • 27 - Suicidas em sofrimento no Plano Espiritual
  • 28 - Conversando com Jesus
  • 30 - A elevada Laryel intervém na obsessão injusta
  • 32 - Tiago sofrendo na prova do fogo e mutilação
  • 33 - Débora teme conseqüências do passado
  • 34 - É preciso força para recomeçar

FORÇAS PARA RECOMEÇAR
Eliana Machado Coelho
Pelo espírito Schellida

Índice
1

Reunidos pelo destino

2

Sérgio e Débora se reencontram

3

Dificuldades em família

4

Débora hospitalizada por causa de uma mentira

5

Rita, uma grande amiga

6

Débora enfrenta a oposição do pai

7

Sérgio e Débora: do passado ao presente

8

Respeito e amor

9

Sérgio se deixa dominar pelo ciúme
10 Sérgio revela o assédio de sua irmã
11 A ação dos espíritos inimigos
12 Psicólogo Espiritual
13 O desespero de Rita
14 Terapia de uma evangélica, ex-espírita
15 O romance abalado pela influência espiritual
16 Rita tentada pelo suicídio
17 Débora flagra Sérgio dormindo com Rita
18 Os olhos de Deus
19 Fotos contra Sérgio destroem o romance com Débora
20 Breno aproxima-se de Débora
21 Opiniões do doutor Édison

22 A benfeitora Laryel interfere no suicídio de Sérgio
23 Cabe a Deus alterar o destino
24 Discussão entre Sérgio e o médico
25 Juntos, Tiago e Rita
26 Psicólogos de amor
27 Suicidas em sofrimento no Plano Espiritual
28 Conversando com Jesus
29 Reflexões de um Psicólogo
30 A elevada Laryel intervém na obsessão injusta
31 Débora fracassada, humilhada e submissa
32 Tiago sofrendo na prova do fogo e mutilação
33 Débora teme conseqüências do passado
34 É preciso força para recomeçar
1 - Reunidos pelo destino

Ah!... Que droga! - protestou Débora vendo sua pasta ir ao chão. Uma das pontas d
o elástico que servia de amarra escapou. Algumas folhas se soltaram, espalhando-se
parcialmente, prestes a voarem por causa do vento. Rapidamente a moça se ajoelhou
a fim de apanhar os papéis.
Ao erguer sua bolsa de pertences pessoais e outra pasta com modelo de valise,
ambas alçadas em seu ombro, escorregaram embaraçando-se e dificultando a agilidade
para organizar os documentos que segurava com uma das mãos. Como se não bastasse iss
o, sua roupa sujou na altura do joelho, deixando-a mais irritada.
Era uma bela jovem, bem arrumada e, como todos os transeuntes, estava com pre
ssa. Não queria se atrasar para uma reunião na biblioteca com suas colegas a fim de
realizarem um trabalho para o curso universitário que faziam. Além disso, pretendia
ainda estudar para uma prova. Mas naquele dia tudo parecia colaborar com o intui
to de atrapalhá-la.

Tentando ser rápida, ela juntou tudo. Arrumou a pasta e desembaraçou as bolsas la
nçando as alças novamente ao ombro. Ao curvar-se para tentar limpar a roupa, não pôde de
ixar de ver uma criança chorando. Aquilo lhe chamou muito a atenção.
Débora estava impaciente, mas acabou sendo refém de um sentimento inexplicável.
Ela olhou para um lado... Para outro... E apesar de muitas pessoas irem e vir
em, ninguém parecia ver ou se importar com aquela criança. Se talvez a vissem, ignor
avam sua presença e nítida necessidade de amparo.
A jovem olhou para as escadarias do metrô, para onde pretendia ir, porém sentiu-s
e como que envolvida por uma força maior. Algo naquela cena tocou seu coração generoso
.

Tratava-se de uma garotinha, aparentando pouca idade, sentada no degrau paral
elo a uma vitrine, num cantinho em que mal se podia enxergá-la devido à floreira com
arbusto que praticamente a escondia. Estava encolhida, com as perninhas dobrada
s e as mãozinhas cobrindo o rosto abafando seguidos soluços dolorosos que os ruídos do
grande centro financeiro não deixavam alguém ouvir.
Atendendo ao chamado de sua bondade, Débora se aproximou perguntando meigamente

:

Oi, meu bem! O que aconteceu? - A menininha só chorava, enquanto a moça a observo
u com atenção reparando que estava bem vestida e arrumadinha, não parecia se tratar de
uma menina de rua. No braço, a menina trazia delicada pulseirinha que combinava c
om suas sandálias, cujos detalhes da moda infantil eram iguais. Preocupada, a jove
m insistiu com voz afável: Oi querida, onde está a sua mamãe? - Sem obter qualquer res
posta, delicadamente, Débora tirou-lhe uma das mãozinhas do rosto para vê-la melhor.
Lágrimas corriam ligeiras naquelas bochechas coradas e seus olhinhos esverdeado
s mal podiam ser vistos pelas pálpebras avermelhadas.
Com a outra mãozinha, a garotinha esfregou o rostinho e a moça aproveitou para ti
rar-lhe os fios de cabelos colados em sua face úmida. Fazendo-lhe um carinho nos c
abelos cacheados, parcialmente presos por uma delicada tiara rosa, Débora sentou-s
e a seu lado falando com brandura na voz:
O meu nome é Débora. Qual é o seu?

Cris... - respondeu em meio aos soluços.

Cris!... - E então, Cris, onde está a mamãe?

A... Ma... Mãe... Su... Sumiu... - gaguejou a garotinha.

Onde você estava com a sua mamãe? - A menina gesticulou com os ombrinhos insinuan
do não saber e Débora perguntou: Quantos aninhos você tem, Cris? - A garotinha mostrou
-lhe quatro dedos para responder a idade e a jovem tornou a questionar: Como a s
ua mamãe se chama?

Foi necessário Cris repetir algumas vezes para ser entendida, pois os soluços não a
deixavam se expressar.
Ah!... Elza! O nome da sua mamãe é Elza! - exclamou a moça ao compreender.

E... E eu quero... Que... Ro a minha... Ma... Mãe... - chorou.
A jovem estava atrapalhada com suas bolsas e pastas, mas deu um jeito de reco
star Cris em si, avisando em seguida:
Não chore, ta? Nós vamos encontrar a mamãe. Ela também está procurando por você. Eu ten

certeza disso.

Sem se demonstrar apreensiva diante da situação e muito preocupada com o horário, Déb
ora revirou sua bolsa, pegou o celular e decidiu ligar para a polícia. Afinal, não p
oderia abandonar aquela garotinha tão indefesa. Atendida, após fornecer os dados e t
erminar a ligação, Débora virou-se para Cris e pediu:
Vem, meu bem. Dê-me sua mãozinha. Tem muita gente com pressa e eu não quero que se
perca de mim, está bem?
Precisavam ficar em um lugar visível aguardando a viatura da polícia que chegaria
. Com dificuldade, a jovem segurava as bolsas, a pasta e o celular em uma só mão par
a prender a mãozinha da menina com a outra. No instante em que olhava ansiosamente
à procura do carro da polícia, sem esperar, Débora foi empurrada e teve o telefone ce

lular furtado.

Sem soltar a mão de Cris, ela gritou assustada e indignada e teve o impulso de
seguir o agressor, mas a menininha começou a chorar novamente.
Aturdida com o acontecido, a jovem não sabia o que fazer. Suspirando fundo, aba
ixou-se perto de Cris, secou-lhe o rostinho com a mão trêmula e tentou ser simpática,
falando amavelmente:

Oh... Meu bem... Não fique assim. Vem cá - disse, pegando-a no braço, mesmo com tod
o empecilho de carregar seus pertences. Cris debruçou-se em seu ombro e chamava ba
ixinho pela mãe. Tentando não se exaltar, Débora procurava se refazer do susto e do ma
l estar que sentia. Em fração de segundo, teve seu celular roubado e temia que suas
bolsas fossem os próximos alvos. Angustiada, estava quase chorando pelo ato repuls
ivo do furto, pela ausência de amparo e falta de segurança vivenciada. Em meio a tan
ta gente que passava, ela e aquela menina estavam sozinhas.
Se eu estou me sentindo assim, imagine essa pobre criança! , pensou entristecida e
nquanto apertava a menininha contra o peito ao mesmo tempo em que olhava de um l
ado para o outro.

Não demorou muito e Débora avistou a viatura da Polícia Militar chegando à baixa velo
cidade, parecendo procurá-la.
Levando Cris firme em seu braço, segurando seus pertences mal ajeitados e quase
caindo da outra mão, Débora, apesar do salto alto, correu em direção aos dois policiais
, que de imediato, reconheceram tratar-se de quem havia solicitado os préstimos da
polícia, pois a moça demonstrava nítida expressão assustada e enervante.
Frente a um dos policiais que, educadamente, a cumprimentou, a jovem mal corr
espondeu e relatou às pressas:
Eu encontrei essa menininha ali! - exclamou apontando. Naquele momento a past
a caiu de sua mão e querendo pegá-la, Débora viu suas bolsas caírem também. Oh, meu Deus!
Hoje é dia!... - reclamou procurando conter as lágrimas. Abaixando-se para pegar os
pertences tentou pôr a garotinha ao chão, mas Cris não quis e agarrou-se com seus brac
inhos em volta do pescoço de Débora e, enlaçando as perninhas em sua cintura, chorou.
Calma, senhora. Pode deixar - pediu brandamente o policial à sua frente que se
abaixou, apanhou as folhas espalhadas da pasta, cujo elástico rompeu, e as bolsas
caídas.

A menininha começou a chorar, e Débora não conseguiu conter as lágrimas. Mas, entre s
oluços, abraçando a garotinha, explicou:
Eu fui roubada!...

Como assim?! Poderia nos explicar melhor? - perguntou o outro policial, aprox

imando-se.

Contorcendo o rosto pelo choro incontido, Débora pediu entre as lágrimas:
Desculpe-me... E que tive um dia complicado e... Bem... Eu estava com pressa
quando essa maldita pasta arrebentou... Como agora... - disse olhando para a mão e
para o rosto do policial que segurava seus pertences. Depois de pegar minhas co
isas que caíram, eu vi essa menininha ali - apontou , encolhidinha e chorando. Ela
se perdeu de sua mãe. - Depois de breve pausa em que secou o rosto com a mão, contin
uou: Disse que tem quatro anos e se chama Cris. Ah! Ela falou que o nome de sua
mãe é Elza. Foi o que entendi... Eu não sabia o que fazer e... Nossa!... Nem pensei em
deixá-la ali sozinha! Sabe lá,
Deus, o que alguém poderia fazer com ela! Então... Liguei para a polícia e pediram
para eu aguardar aqui. Assim que desliguei, um cara... Bandido, safado, sem verg
onha... Passou correndo, me empurrou e roubou meu celular! Eu quase caí!... - As lág
rimas corriam em seu rosto, mas ela prosseguiu emocionada. Tive de pegar a Cris
no colo porque ela chorava muito! Fiquei aflita e sem saber o que fazer! Desculp
e, mas estou confusa, com medo... Eu não poderia perder a hora da faculdade, tenho
uma prova importante hoje e um trabalho para...
Bem calmos, os policiais ouviram-na atentamente. Um deles ainda segurava os p
ertences de Débora ao tempo em que ela trazia a menininha debruçada em seu ombro e a
fagava-lhe as costinhas ao embalá-la levemente, pois a sentia chorando amedrontada
.

Tranqüilo e na primeira oportunidade, pois percebeu que a jovem estava bem angu
stiada e sentia intensa necessidade de contar o ocorrido, com as bolsas e a past
a da moça nas mãos, o policial perguntou educadamente:
Qual o nome da senhora, por favor? - Após a resposta ele explicou: Dona Débora, a
senhora encontrou uma criança perdida e, pela boa aparência da mesma podemos deduzi
r que a mãe esteja tomando as devidas providências para encontrá-la. Além disso, a senho
ra teve seu celular furtado. Diante das duas ocorrências, precisaremos encaminhá-la
até o Distrito Policial a fim de elaborar um Boletim de Ocorrência para que a autori
dade policial, que é o delegado, possa decidir quais as providências a serem tomadas
. Certo?

Lógico! Claro! - aceitou a jovem de imediato. Eu estou com dó da menininha... E..
. O meu celular pode ser usado por bandidos e... Tenho de prestar queixa.
Percebendo-a nervosa pelo modo como aninhava a criança nos braços e o jeito amedr
ontado que tentava disfarçar sua voz, o policial solicitou gentilmente ao ver o pa
rceiro abrir a porta da viatura:
Entre, por favor. - Ao vê-la sentada no interior da viatura aconchegando a meni
ninha no colo, ele pediu educadamente: A senhora poderia pegar suas coisas, por
favor?

Claro!... Desculpe-me... Estou tão atordoada que me esqueci... - sem saber como
se justificar, Débora ergueu o olhar para o policial e ofereceu um tímido sorriso s
em qualquer brilho de alegria. Seus olhos se fixaram nele, por longos segundos,
como se implorassem algo mais caloroso do que aquelas providências que a auxiliari
am. Somente depois pegou os pertences de suas mãos.
Ele correspondeu ao sorriso de modo amigável. Em seu íntimo admirou a beleza da j
ovem, sua afabilidade e sensibilidade. No instante em que seus olhos pareciam im
antados teve vontade de poder consolá-la com um abraço amistoso, mas não podia e mante
ve a postura militar. Em seu íntimo estranhou, pois estava acostumado a situações seme
lhantes e isso nunca havia acontecido. Sempre foi um profissional cumpridor de s
eus deveres.
* * *

Chegando à Delegacia de Polícia, enquanto Débora aguardava o atendimento, o policia
l anotava alguns de seus dados pessoais, procedimentos normais exigidos por seu
serviço.

Apesar de responder atentamente todas as perguntas, a moça demonstrava-se tímida,
quase assustada pelo ambiente tóxico que imperava ali devido ao nível dos acusados
e vítimas que também esperavam. Alguns falavam alto, brigavam, xingavam, enquanto ou
tros acusavam ou choravam.
A garotinha, amedrontada, apertava-se ao pescoço de Débora e escondia o rostinho

nos cabelos da moça, chorando baixinho. Controlando seus sentimentos, ela disfarçava
a apreensão e o desconforto afagando a criança com carinho e procurando ficar atent
a aos questionamentos do policial.
Naquele plantão, tanto os policiais civis quanto os policiais militares estavam
sobrecarregados e praticamente esgotados pelo tipo de trabalho exigente que os
sugava. Havia muito a resolver e o nível moral da maioria dos que aguardavam atend
imento era voltado ao mal, aos vícios e às piores mazelas da vida. Por suas palavras
, linguagem de baixo nível e grosseria nos modos podia-se saber que tipo de espírito
s se afinava a tudo aquilo. E ali estavam os mais vis e degradantes, repletos de
vícios, sensualidade, hipocrisia, crueldade e sordidez.
Na espiritualidade, para quem pudesse ver, o lugar era preenchido por uma den
sa névoa escura, sombria, correspondente aos estados vibratórios e mentais de encarn
ados e desencarnados. Uma forte energia invisível pairava como que um veneno espir
itual maligno, impregnando os encarnados de caráter fraco que se deixavam envolver
pelas sugestões de diversos espíritos impuros, que desejavam o mal por prazer e odi

avam o bem.

Entretanto, a ética e os bons princípios morais de alguns poucos encarnados prese
ntes ali, por forças das circunstâncias ou do dever, permitiam a reunião de espíritos be
nevolentes e sábios. Tais espíritos, às vezes, deixavam os encarnados que estavam sob
sua proteção serem testados a se corromperem de alguma forma. Mas de acordo com a di
gnidade apresentada, esses espíritos elevados os amparavam e protegiam a fim de não
serem envolvidos por desencarnados tão insufladores da discórdia, da corrupção e do ódio,
pois esses tinham o intuito de levá-los ao retardamento espiritual, fazendo-os suc
umbir diante de provas tentadoras.
O ambiente não era agradável. Quando menos esperavam, Débora e o policial se surpre
enderam ao ver Cris que se sobressaltou gritando:
É a minha mamãe! Mamãe!

Onde, Cris?! Quem?! - quis saber a moça, segurando firmemente a garotinha que q
ueria saltar de seu colo.
Apesar de toda movimentação e aglomeração, a menina reconheceu a voz chorosa de sua mãe
em desespero que a procurava com o olhar seguindo o som de seus gritos. Cris fo
rçava-se a descer dos braços de Débora, mas a moça a segurou firme e junto com o policia
l foi em direção da jovem mulher acompanhada de um rapaz muito bem vestido e alinhad
o. Nada precisou ser explicado quando a mulher gritou em pranto:
Cris! Minha filhinha!
A menina se jogou nos braços da mãe. Entre o choro se beijavam enquanto a mulher
a tocava como se não acreditasse que a tinha entre os braços.
Algum tempo depois, Débora pôde explicar tudo a Elza, mãe de Cris, que abraçou e beij
ou a jovem agradecendo-a diversas vezes. A forma como a menina agarrou-se a Elza
, com um abraço apertado e as perninhas entrelaçadas em sua cintura, era inegável que
a jovem mulher fosse sua mãe.
Por aquele ser um plantão bem agitado, a autoridade policial foi consultada a f
im de decidir se as partes envolvidas naquela ocorrência poderiam ou não ser liberad
as. O comportamento de Cris não deixava dúvidas sobre Elza ser sua mãe, Embora a mulhe
r apresentasse documentos e até fotos comprovando que a menininha era sua filha. A
ssim sendo, o delegado as liberou.
Enquanto o policial militar fazia algumas anotações para relatar a ocorrência, o ra
paz que acompanhava Elza se apresentou para Débora.
Prazer! Meu nome é Breno. Sou tio da Cris e irmão da Elza. Você não imagina como fica
mos aflitos! Muito obrigado! Obrigado mesmo! Do jeito que algumas pessoas agem h
oje... Nossa!... Mil coisas passaram pelos nossos pensamentos!... Muito obrigado
, Débora! - nitidamente agradecido, sem se conter, deu um abraço emocionado na moça.
Ora... Não fiz mais do que a minha obrigação - respondeu ela com um brilho emotivo

no olhar.

Ah! Fez sim! - afirmou Breno expressivo. O mínimo que podemos fazer por você é levá-l

a para casa. Certo?
Creio que não será possível, Breno. Agradeço de coração!

Por que não?! Mora aqui perto?

Não. É que... - Débora ficou sem jeito, mas precisou contar sobre o furto de seu ce
lular e precisaria ficar ali para prestar queixa. Depois de fazer o Boletim de O

corrência, eu preciso avisar à operadora. Não posso ir agora. Mesmo assim, agradeço.
O rapaz mostrou-se insatisfeito e apreensivo ao olhar em volta e observar o a
mbiente. Aproximando-se do policial, lendo seu nome e seu posto na identificação fix
ada em seu peito, perguntou:
Sargento Barbosa, será que vai demorar muito para a Débora ser atendida?

Não sei lhe dizer - respondeu educado. Acredito que ainda tenha três ocorrências na
frente. Não há como precisar o tempo a ser usado para o atendimento de cada uma. De
sculpe-me por não poder ajudar.
É que eu e minha irmã, junto com a Cris, lógico... - sorriu gostaríamos de levar a mo
para casa. É o mínimo que podemos fazer por enquanto. Ela me contou que teve o celu
lar furtado porque estava ajudando a minha sobrinha e...
Verdade?! - espantou-se Elza por não ter ouvido o relato da jovem. Sem esperar
uma resposta, considerou olhando para Débora: Não pode ficar aqui sozinha! Veja isso
! Não merece! Ainda mais depois de tudo o que fez pela minha filha! - Voltando-se
ao policial, Elza pediu: Será que o senhor não pode dar um jeitinho? O furto do celu
lar da Débora é bem mais simples e rápido para relatar do que outros casos!
Sinto muito - tornou o policial militar com um brando tom de lamento. Logo ex
plicou: Isso é do âmbito da Polícia Civil. Eu concordo que a elaboração de um Boletim de O
corrência, tão necessário para o furto de um celular, seja bem mais rápida e creio que o
delegado também pense assim. No entanto, as demais pessoas a serem levadas em con
ta são cidadãos com direitos iguais e o atendimento é por ordem de chegada. Perdoe-me,
mas não tenho como ajudar.
Nesse instante Cris, debruçada no ombro de sua mãe, começou a reclamar de frio e pe
dia para comer um doce em especial. Elza e Breno queriam um meio de ajudar Débora
e questionavam o policial, mas durante a conversa a garotinha começou a pedir insi
stentemente para ir embora e começou a chorar.
Diante disso, Débora solicitou comovida:
Não se importe comigo, por favor. A Cris teve um dia péssimo. Ficou amedrontada e
está muito tempo aqui. Esse não é um bom lugar para uma criança, como podemos ver. Vá! -
disse olhando firmemente para Elza e pediu sorrindo: Cuide bem dela. A pobrezinh
a deve estar tão assustada!...
Não queremos perder contato com você, Débora! Não vou ficar sossegada em deixá-la aqui
sozinha! - avisou Elza enquanto Cris resmungava continuamente em seu ombro.
A jovem abriu a bolsa, tirou um cartão e o entregou à mulher, pedindo com generos

o sorriso:

Tome. Telefone-me para dizer como a Cris está, por favor! - exclamou enternecid
a, afagando a menininha e dando-lhe um beijo em seu rostinho. Virando-se para Br
eno, também lhe deu um cartão.
Então fique com o meu cartão também! - ofereceu Breno que, rapidamente, pegou uma c
aneta e fez ligeira anotação no verso do cartão. Em seguida avisou: Esse é o telefone da
Elza. Assim pode falar com a Cris quando quiser.
Eu não queria deixar você aqui - lamentou Elza novamente.
A moça a abraçou com carinho, beijou-a e se despediu a fim de apressá-la. Breno tam
bém a abraçou, agradeceu e beijou-lhe o rosto na despedida. Enfim, eles se foram.
O policial, sem saber explicar, via-se envolvido sentimentalmente com o ocorr
ido, mas nada demonstrou. Sua tarefa já havia sido cumprida e nem precisaria estar
ali. Seu parceiro aguardava na viatura, entretanto o sargento Barbosa experimen
tava um travo de melancolia por deixar Débora ali sozinha.
Sem alternativa, conversou um pouquinho mais com a moça, mas depois se despediu

e foi embora.
* * *

Débora estava sozinha, apesar de tantos a sua volta. Começou a acreditar que os m
inutos naquele lugar pareciam horas. Na sua vez de ser atendida, a moça prestou a
devida queixa e rapidamente foi liberada.
Já era noite ao percorrer o corredor da delegacia que a levaria para a saída. Mai
s calma, decidiu ler novamente o Boletim de Ocorrência pelo furto de seu celular,
parando por um instante próximo das escadarias. Por causa da iluminação um tanto fraca
e de uma lâmpada defeituosa, intermitentemente irritante, Débora parou e voltou-se

novamente para o corredor dando as costas para as escadas.
Ao ler o que a interessava, virou-se bem rápido, mas sobressaltou-se ao deparar
com um rapaz no qual trombou. Ela cambaleou por causa do salto que usava. Ágil, e
le a segurou firme não a deixando cair.
Desculpe-me!... - pediu a moça agarrando-se nele que ainda a segurava com força,
pois ela poderia rolar pelos degraus abaixo. Nesse instante, a pasta que carrega
va se abriu, espalhando as várias folhas e documentos pela escadaria. Equilibrando
-se, resmungou baixinho e incrédula: Ah... Não... Não!...
O moço riu sem deixá-la perceber. Rapidamente ajeitou a mochila nas costas, abaix
ou-se e a ajudou a pegar os papéis. Enquanto arrumava as folhas, ela o agradecia e
se justificava parecendo envergonhada, mas ao encará-lo, fitando-o impressionada,
Débora deu um largo sorriso ao perguntar incrédula:
Você!... O policial da viatura que...

Sim, sou eu mesmo. Não pensei que fosse me reconhecer.

Como não poderia... - sussurrou de um modo que ele não ouviu. Em seguida a moça exc
lamou atrapalhada: Ah!... Desculpe-me de novo sargento...
Por favor - interrompeu-a educadamente e correspondendo-lhe ao sorriso , meu n
ome é Sérgio. Quando estou de serviço, o meu nome de guerra é Barbosa.
Mas você é sargento? Não é?! Ou eu disse errado?

Sim, eu sou sargento. Mas me chame de Sérgio, por favor.

Puxa! Perdoe-me, Sérgio - pediu com jeito encabulado, apesar do sorriso bonito.

Hoje eu sou o próprio desastre! E o pior é que mais uma vez eu o fiz me ajudar pega
ndo os documentos e meu material por causa dessa maldita pasta! - riu acanhada.
Ora... Isso não foi nada. Acontece.

Nossa! Com a farda você fica tão diferente!

É comum não me reconhecerem quando estou à paisana, ou melhor, em traje civil. Eu t
rabalho na Companhia da Polícia Militar ao lado da delegacia. - Riu de modo simple
s e, sem saber qual seria a reação da jovem, admitiu: Acabei perdendo a hora de ir p
ara a universidade e... Para ser sincero... Estava indo embora quando me lembrei
de você. Também tive um dia cheio e...
Débora ficou encabulada, corando imediatamente, embora experimentasse um gostin
ho de satisfação por ouvir aquela confissão. Sem saber o que dizer, encarou-o por segu
ndos como se algo a atraísse para aquele olhar e sorriu. Suspirando fundo, disfarçou

ao mostrar:

Veja, aqui está o Boletim de Ocorrência. Amanhã mesmo eu entrarei em contato com a
operadora para avisar sobre o furto.
Por que não faz isso hoje? - Diante do silêncio, preveniu-a: Assim que chegar a s
ua casa, ligue para a operadora e peça o bloqueio imediato do aparelho. Não é bom ter
um celular usado indevidamente. O principal e mais trabalhoso já foi feito, que é o
registro da queixa pelo furto.
Estou tão exausta que nem havia pensado nisso. É verdade. Você tem razão. Não vou para
a universidade hoje e me sobrará tempo.
Aceita uma carona? - ofereceu Sérgio com voz branda e um tanto receoso.

É... Bem... - pela surpresa, a jovem titubeou sem saber decidir.

Nós moramos relativamente perto. Não terei trabalho algum, pois meu caminho é pelo
seu bairro. Meu carro está ali no estacionamento da Companhia da PM. Se quiser...
- falou ele sentindo o coração acelerado e disfarçando a grande expectativa.
Como sabe onde moro? - perguntou sorridente e curiosa.

Esqueceu-se de que anotei os seus dados para preencher aquele talão de ocorrência
atendida pela viatura na qual eu estava como encarregado?
Esqueci! - gargalhou gostoso. Esqueci mesmo! Por favor, Sérgio, não pense que sej
a um desleixo ou descaso da minha parte. Não me julgue. Isso não é comum. E hoje não está
sendo um dia normal para mim.
Não costumo julgar as pessoas - avisou, achando graça nos modos da moça. Porém, com j
eitinho e um brilho especial no olhar, pediu: Venha! Será melhor ter uma carona ou
ainda pode pegar condução errada! Afinal, o dia não terminou - brincou sorridente.

Ela o olhou de um modo diferente. Sorriu, agradeceu e aceitou acompanhá-lo até o
carro para que fossem embora.
Ambos sentiam que algo muito especial os envolvia, mas, naquele instante, era

m incapazes de falar a respeito, pois, praticamente, acabavam de se conhecer.
Como aprendemos na Doutrina Espírita, os espíritos podem intervir no mundo corpóreo
mais do que os encarnados imaginam.1
Os espíritos, bons ou maus, inspiram os pensamentos e as ações de acordo com o caráte
r, a moral e os desejos do encarnado. Só se neutraliza a influência dos espíritos maus
e imprudentes com o desejo no bem. E Deus permite que esses espíritos sem instrução e
imperfeitos assediem os encarnados a fim de testarem à pessoa em sua fé para que pa
sse pelas provas do mal e continue seguindo o bom caminho, como nos é ensinado em
O Livro dos Espíritos. Quando as más influências atuam através do encarnado, é a pessoa qu
em as chama pelo desejo no mal, a começar por um simples pensamento, pois os espírit
os inferiores correm para perto da criatura para auxiliá-la.
Assim acontece com o desejo no que é bom. Espíritos benevolentes, sábios e elevados
influenciarão e sustentarão o encarnado que tiver fé, amor e bom ânimo no bem, afastand
o-o da inspiração de espíritos maus. Seja qual for à situação, a prova ou expiação, havendo
erdadeira no bem, o mal não terá acesso.
Apesar de Débora acreditar que tudo estava sendo difícil naquele dia, seu coração bon
doso a resguardou de experiências mais dolorosas.
Aproveitando de sua generosidade e misericórdia, espíritos amigos a inspiraram a
cumprir com sua responsabilidade diante de uma criaturinha indefesa. Mesmo com o
s prejuízos aparentes como o furto de seu celular e a perda do horário para ir à unive
rsidade, a coragem que demonstrou, enfrentando o desafio de tomar uma decisão, gui
ou-a ao encontro de pessoas que, certamente, mudariam sua vida, para o bem ou pa
ra o mal, conforme sua livre decisão de escolha.

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