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UFRJ-TESE-VERA2

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Published by: Marcos Vinícius Lima Nunes on Oct 29, 2011
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  • 1.2 Belisário Penna e Arthur Neiva: trajetórias
  • 1.3.1 Os sertões em ruínas?
  • 1.3.2 Os sertões em chamas
  • 1.3.3 Porto Nacional: um oásis de “civilização” nos sertões?
  • 1.3.4 Os sertões distantes
  • 1.3.5 O catolicismo e a “terapêutica popular” no norte de Goiás
  • 1.4.1 O saneamento: um projeto “civilizatório” para os sertões goianos?
  • 2.1.1 A Informação Goyana
  • 2.1.2 Os intelectuais goianos versus Arthur Neiva e Belisário Penna
  • 2.2.1 A Informação Goyana em defesa do trabalhador nacional
  • 2.2.2 Os sertões como “cerne da nacionalidade brasileira”
  • 2.2.1 Trajetória de Francisco Ayres da Silva
  • 2.2.2 Artigos do Dr.Francisco Ayres da Silva na Informação Goyana
  • 3.1.1 O olhar dos dominicanos sobre o clero goiano
  • 3.2.1 Os dominicanos entre os fiéis
  • 3.3.3 A terapêutica e as práticas religiosas populares no norte de Goiás
  • 3.3.4 Em defesa do tempo sertanejo: viagens pelos sertões
  • 3.4 Os dominicanos e a reforma da Igreja nos sertões
  • 4.1 O Extremo Norte de Goiás
  • 4.1.1 Os sertões dos “Filhos de Dom Orione”
  • 4.2.1 As escolas paroquiais
  • 4.2.2 Curso de atualização para os professores
  • 4.2.3 A formação de agentes de saúde: os “samaritanos socorristas”
  • FONTES E BIBLIOGRAFIA

UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO-UFRJ

Vera Lúcia Caixeta

Médicos, Padres, Sertões: o Norte de Goiás no Relatório de Arthur Neiva e Belisário Penna e nas Narrativas dos Seus Interlocutores Goianos (19161959)

Rio de Janeiro Setembro/2011

Vera Lúcia Caixeta

MÉDICOS, PADRES, SERTÕES: O NORTE DE GOIÁS NO RELATÓRIO DE ARTHUR NEIVA E BELISÁRIO PENNA E NAS NARRATIVAS DOS SEUS INTERLOCUTORES GOIANOS (1916-1959)

Tese de Doutorado submetida ao Programa de Pós-Graduação em História Social, da Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Doutora em História, sob a orientação da Drª Jacqueline Hermann.

Rio de Janeiro Setembro/201

MÉDICOS, PADRES, SERTÕES: O NORTE DE GOIÁS NO RELATÓRIO DE ARTHUR NEIVA E BELISÁRIO PENNA E NAS NARRATIVAS DOS SEUS INTERLOCUTORES GOIANOS (1916-1959).

Vera Lúcia Caixeta Orientadora: Drª Jacqueline Hermann

Tese de Doutorado submetida ao Programa de Pós-Graduação em História, da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Doutora em História.

Banca Examinadora

Drª. Jacqueline Hermann (UFRJ) Drª. Nísia Trindade Lima (FIOCRUZ) Drª. Têmis Gomes Parente (UFT) Dr. Francisco José Silva Gomes (PPGHIS/UFRJ) Dr. André Campos (UFF/UERJ)

Rio de Janeiro Setembro de 2011

Agradecimentos

Revendo as trilhas que tornaram possível a realização desta tese só me resta uma dívida de gratidão, para com todos aqueles que ajudaram a tornar este sonho possível. De alguns recebi apoio e afeto, de outros, incentivo, fontes, indicações de leituras e correções atentas. Meus agradecimentos, pequenos, por certo, diante da grandeza do que me foi proporcionado pela família, amigos, professores e colaboradores. Agradeço a todos os professores do Colégio de História da UFRJ e em especial à Drª Jacqueline Hermann, de quem recebi preciosas orientações em cada fase da elaboração desse trabalho. Devo ressaltar seu espírito acadêmico, traduzido na sua permanente abertura ao diálogo, além da sua leitura atenta e rigorosa. A você credito os benefícios das sugestões insistentemente cobradas. Ao professor, Dr. Vasni de Almeida, a quem agradeço a solicitude e generosidade ao se dispor a ler as primeiras linhas desse texto. Virtudes presentes também na sua aceitação para compor a Banca de Qualificação. Suas preciosas sugestões ajudaram a compor essa tese. À Drª. Marieta de Moraes Ferreira que também participou da qualificação e apontou caminhos promissores para este trabalho. A vocês a minha admiração. Ao Colegiado de História do Campus de Araguaína, sob a coordenação de Vasni de Almeida, pelo apoio. Agradeço de forma especial, às colegas e amigas Mariseti Soares Lunkes e Martha Victor Vieira pelo convívio durante o ano que passamos no Rio de Janeiro. Ao Marcos Edilson Clemente e Norma Lúcia, também companheiros de trabalho e de doutorado. As experiências vivenciadas, em que realizações, frustrações, ansiedades e esperanças se inscrevem nessa trajetória que, juntos, enfrentamos. Não poderia deixar de mencionar também a amizade e solidariedade dos colegas Olívia Cormineiro e Euclides Antunes. Com vocês posso desfrutar dos debates animados, da rica biblioteca e dos projetos de pesquisa em História Regional. Com cada um de vocês foi possível compartilhar sonhos e manter o foco no objetivo perseguido, abrigada. Gostaria de agradecer também aos colegas de trabalho e amigos mineiros de longa data. A Helen Ulhôa Pimentel, Maria Célia da Silva, Ivone Caixeta e Alexandre, estivemos

A vocês minha gratidão e amizade. Sebastião Nunes Caixeta que partiu antes que eu iniciasse o doutorado. No mais. administrador da casa regional. no ano de 2008. muito obrigada. . Também não poderia deixar de agradecer a Regina. a Rosimeyre que assumiu minhas filhas adolescentes. pelo afeto e incentivo constantes. da Ordem Dominicana.juntos na FINOM por longos anos e no projeto “Paracatu 200 Anos”. irmãs. mãe. ao José Roberto companheiro de longa jornada e às minhas filhas Vanessa e Amanda. Uma riqueza de fontes que tornou possível o capítulo sobre os dominicanos. Ao frei Bruno. quanto em Araguaína e na paróquia de Fátima. onde funciona a biblioteca do Santuário Nossa Senhora de Fátima. narrativas de viagens. em Araguaína e ao ex-seminarita Laércio. no Rio de Janeiro disponibilizaram as fontes existentes sobre a Congregação. Depois ainda tive o privilégio de enfrentar a Br 040. uma caixa de material e deixar lá a minha disposição. nascido Edivaldo Antonio dos Santos que elaborou uma dissertação de mestrado em História sobre os Dominicanos. Ele fez a gentileza de levar do Paraná para Goiás. os padres da Congregação “Pequena Obra da Divina Providência” que tanto em Tocantinópolis. meu eterno agradecimento. Aos padres José Vicente. da Paróquia Nossa Senhora da Consolação de Tocantinópolis. no Rio de Janeiro. Por fim. José Noleto de Souza que até 2010 foi pároco do Santuário Sagrado Coração de Jesus. em 1997 e 1998. A todos vocês. para fazer o mestrado na UNB. Livros. junto com vocês. quando vim para o Rio de Janeiro. Em especial. pela generosidade. marido e filhas pelo apoio e incentivo. Ao meu pai. cartas. Essa tese também é de vocês. Aos colaboradores. gostaria de agradecer a minha família. irmãos.

RESUMO Este estudo analisa as diferentes visões dos sertões goianos. médicos e padres dos sertões. Narrativas. e o segundo. em 1912. Tentamos perceber as disputas. com o do Maranhão. Sertões. . o primeiro faz divisa com o Estado do Pará a oeste. padres e médicos locais. construídas pelas narrativas de médicos/cientistas. entre 1916-1959. Palavras-chaves Médicos. Eles reagiram à circulação do relatório Neiva e Penna e mostraram que estavam na disputa por uma nova caracterização dos sertões goianos. Busca perceber como o mundo dos sertões foi dado a ler. Piauí e Bahia a leste. O cenário desta pesquisa está localizado entre os vales dos rios Araguaia e Tocantins. Padres. A trama foi construída a partir do cruzamento das informações presentes no relatório Neiva e Penna elaborado após a expedição científica realizada ao norte do Brasil. por diferentes sujeitos. História. com as visões dos interlocutores goianos. as contestações e as apropriações das leituras dos sertões realizadas por Neiva e Penna nas narrativas dos médicos e padres locais.

Seeking to find out how the world of the sertões was made available for reading by so many people. the first is the division with the state of Para to the west. History .DOCTORS. SERTÕES: THE NORTH OF GOIAS IN THE REPORT BY ARTHUR NEIVA AND BELISARIO PENNA IN THE NARRATIVES OF THEIR GOIANOS INTERLOCUTRS (1916 – 1959). and the second one with Maranhão. doctors and priests from the sertões. Priests. Abstract This research analyzes the different points of views of the sertões goianos. with the goianos onterlocutrs. PRIESTS. Narratives. The trauma was created by the crossing of the current information in the reports by Neiva and Penna elaborated after the scientific expedition accomplished in the north of Brazil. built by the medical/scientists. KEY-WORDS Doctors. The place of the research is located between the Araguaia and Tocantins river valleys. Piauí and Bahia to the east. between the years 1916 and 1959. They reacted to the Neiva and Penna report circulation and appeared to be in the dispute for a new characterization of the sertões goianos. priests and local doctors´ narratives. We tried to figure out the disputes. the pleas and the approaches of the sertões readings accomplished by Neiva and Penna in the local doctors´ and priests´ narratives. in 1912. Sertões.

............................2 Artigos do Dr.1.........................p....p..3......p...1 Os sertões em ruínas?........................ Francisco Ayres da Silva na Informação Goyana......2 Belisário Penna e Arthur Neiva: trajetórias.....................3 Dr.................p.......SUMÁRIO INTRODUÇÃO.....p..........................3..3..........3........p......40 1......28 1.................20 1............................88 ........................................1 A Informação Goyana em defesa do trabalhador acional.....5 O catolicismo e da “terapêutica popular” no norte de Goiás................p............p..............1 A Informação Goyana...45 1................1 O saneamento: um projeto “civilizatório” para os sertões goianos?....4..........................3.79 2....................85 2...................................3..p......................... Francisco Ayres da Silva na Informação Goyana 2..............p..................p...22 1..63 2........2 Os sertões como “cerne da nacionalidade brasileira”..3 A interiorização da capital federal ..........................1 Trajetória de Francisco Ayres da Silva..............p............1 O “ Relatório” Neiva e Penna........p.....69 2............................................................2...................52 1.......p........1..........3 Imagens do Norte de Goiás no Relatório Neiva e Penna 1...................................................10 Capítulo I A CIÊNCIA A CAMINHO DOS SERTÕES: O BRASIL CENTRAL NO RELATÓRIO DE ARTHUR NEIVA E BELISÁRIO PENNA 1.1 Imagens dos Sertões na Informação Goyana 2............38 1.................................75 2.....................................................2 Os Intelectuais Goianos em Defesa de um Projeto Para os Sertões 2......................................2..............................................................................2.....................82 2............3 Porto Nacional: um oásis de “civilização” nos sertões?...........p..4 Os sertões distantes.....58 Capítulo II EM DEFESA DOS SERTÕES GOIANOS: A INFORMAÇÃO GOYANA VERSUS O RELATÓRIO NEIVA E PENNA 2......4 Um Projeto de Saneamento dos Sertões 1.......2 Os sertões em chamas.2 Os intelectuais goianos versus Arthur Neiva e Belisário Penna..3...................p.....

..................................153 Capítulo IV OS MISSIONÁRIOS CATÓLICOS ITALIANOS NO EXTREMO NORTE DE GOIÁS: SEMEAR E SANEAR OS SERTÕES 4...1 O Extremo Norte de Goiás.........................4 Os Dominicanos e a Reforma da Igreja nos Sertões.........................p...........p...................p......................................3.p.............p..1 Os dominicanos entre os fiéis.........205 .......2...........1.....1 O encontro dos missionários com os médicos nos sertões .....2..........4 Em defesa do tempo sertanejo: viagens pelos sertões..........................p........................................................................................p................2 O Projeto dos Dominicanos Para os Sertões Goianos 3....194 ANEXOS..............p..............................p................................p............................................3 Os Dominicanos no Combate ao Relatório de Neiva e Penna 3......................3 A terapêutica popular e as práticas religiosas no norte de Goiás...138 3.2......189 FONTES E BIBLIOGRAFIA.....................146 3.............................................................123 3.......................................3 ......................................................................................................177 CONCLUSÃO....3.............p.....p.................... p........................Capítulo III A IGREJA NOS SERTÕES: O NORTE GOIANO NAS NARRATIVAS DOS PADRES DOMINICANOS 3..1 Ao Sertões dos “Filhos de Dom Orione”....3.............171 4........2.............1..........................................................120 3.................149 3..................................1.............................p.......161 4..2 Curso de atualização para os professores.............p........1 A Reforma da Igreja e a Inserção dos Dominicanos em Goiás....166 4................175 4... .2 O Projeto da “Pequena Obra da Divina Providência” Para os Sertões 4...3 Um olhar sobre fiéis .111 3..p.......134 3.............1 As escolas paroquiais ...........103 3........2 Os sertões e os sertanejos de Audrin...p......................................2 Um olhar dos dominicanos sobre o clero goiano........3 A formação de agentes de saúde: Os “samaritanos socorristas”............

1 Inquietações. 10 . Viagem Científica pelo Norte da Bahia. em meados de novembro de 2005. particularmente instigada ante algumas questões. sertões e narrativas.INTRODUÇÃO Médicos. no campus de Araguaína. 3 Recuperar as visões dos sertões dos médicos Neiva e Penna. no sentido de que existem fontes as mais variáveis possíveis. adentraram o interior brasileiro. a partir das diversas narrativas disponíveis. efetivamente. sem ter se preocupado em dar voz aos interlocutores: médicos e padres dos sertões visitados. XIX e que chegou ao Brasil em 1914 e no extremo norte de Goiás. no Rio de Janeiro que percorreram o norte do Brasil e todo o Goiás em 1912. presente nos longínquos sertões. frente ao fato das ciências sociais terem se utilizado do relatório médico de Arthur Neiva e Belisário Penna como fonte documental. no final do séc. ainda. e dos interlocutores. Ver: NEIVA. Fac-similar. no final do Império e na Primeira 1 Fui aprovada no concurso da Universidade Federal do Tocantins (UFT) e tomei posse para atuar no curso de História. Belisário. por conta disso. Arthur e PENNA. inerentes à nossa posição diante do mundo como mulher. Para nós foi. essas. Pesquisar não é apenas pensar na construção de um objeto viável. professora e historiadora e. o Norte do Brasil. Os Sertões calculou a distância entre o litoral e os sertões em trezentos anos. do Instituto Manguinhos. 2 Euclides da Cunha. proceder a uma análise de como o mundo dos sertões de Goiás foi dado a ler. 4 Congregação religiosa católica. Havíamos iniciado a pesquisa sobre a Congregação “Pequena Obra da Divina Providência”. Foi este o objetivo a que nos propusemos ante o desafio de buscar respostas para as inquietações colocadas por quem se inseriu numa universidade. Ed. no final de 1951. Sul do Piauí e de Norte a Sul de Goiás. Inquietações.2 Inquietações. 1999. nos sertões. sobretudo. médicos e padres no percurso goiano da expedição foi o desafio a que nos impusemos. na sua obra clássica. em 1912 e fizeram publicar as narrativas dessa viagem. entre o litoral e os sertões. a da distância. Ali percebemos que a preocupação em revelar a “realidade” dos sertões e propor alternativas para os problemas encontrados já estavam presentes nos homens que. Braasília: Sedado Federal. finalmente. padres.4 quando chegou às nossas mãos o relatório Neiva e Penna. fundada por Dom Orione na Itália. 3 Arthur Neiva e Belisário Penna percorreram em expedição. no passado e no presente. através de várias expedições científicas. frente às dificuldades do Estado em se fazer. sudoeste de Pernambuco. entre elas.

Além dessas expedições. Para possibilitar a consecução do objetivo proposto. representava o rural. dos recortes temporal e espacial. os sertões.5 Tais empreendimentos produziram um conhecimento sobre extensas áreas e colocaram. a do astrônomo Louis Cruels ao Planalto Central. Ciên. e. o arcaico. em 1892. p. Vol. ao contrário.164-188 6 SEVCENKO. São Paulo: Cia das Letras.República. Dificuldades de naturezas distintas e de diferentes níveis de complexidade. Hist. visando à demarcação do local das futuras instalações da futura capital.5. 1998. Bahia e Piauí. Rio de Janeiro: IUPERJ. p. Nicolau. apegado às tradições. Eram dois “brasis” que deveriam ser integrados. p. 2 ed. o progresso e o cosmopolitismo propagado pela ciência e pela técnica o segundo. suppl. a oeste. 5 Nísia Trindade Lima encontrou 09 (nove) expedições científicas enviadas ao interior pelo Instituto Oswaldo Cruz.8 O cenário desta pesquisa está localizado entre os Estados do Pará. dos tipos de fontes e formas de tratamento e abordagem. Esse recorte espacial justifica-se tendo em vista o compromisso da UFT – Universidade Federal do Tocantins e em especial. o Brasil urbano e republicano da capital transformada em cartão postal. e é banhado pelos rios Araguaia e Tocantins. espaço social no qual o norte de Goiás foi incorporado a partir de 1953. Nísia Trindade. Missões Civilizatórias da República e Interpretações do Brasil. Literatura como Missão: tensões sociais e Criação Cultural na Primeira República. doente e distante das políticas públicas. dos pressupostos teórico-metodológicos. as da Comissão Geológica de São Paulo.17 8 Região que a partir da Constituição de 1988 passou a constituir o Estado do Tocantins. que incluía o Norte de Goiás. Amazonas e Acre. 7 Nossa tentativa de “redescobrir” os sertões a partir das narrativas de Neiva e Penna e dos interlocutores goianos implicou o desafio de superar uma série de dificuldades na elaboração do presente trabalho. ela lembra a viagem de Euclides da Cunha à Canudos e o impacto de Os Sertões sobre os intelectuais. do Maranhão. já que envolviam definições do eixo temático. dos Cursos de História. Um sertão chamado Brasil: intelectuais e representação geográfica da identidade nacional. as de Cândido Rondon na construção das linhas telegráficas em Mato Grosso. sintonizados no mesmo ritmo e tempo histórico. delimitamos espacialmente o objeto de estudo no norte de Goiás.6 Enquanto o primeiro representava a urbanidade. como o relatório Neiva e Penna parecem indicar foi recortado geograficamente. 11 . a leste. Assim. 1999.9 Porém. SaúdeManguinhos [on line]. entre 1909-1922. longe de serem vistos como um todo homogêneo. do Campus de Araguaína de produzir conhecimentos científicos sobre a Amazônia Legal. 2003. até hoje essa região continua pouco conhecida porque pouco pesquisada.45 7 LIMA. pelo Decreto de agosto de 1953 definiu-se a Amazônia Legal. 9 Em 1953. mais uma vez. em confronto com o Brasil rural dos sertões. Ver: LIMA. Nísia Trindade. foi criada a Superintendência do Plano de Valorização da Amazônia.

só existe diálogo se a alteridade for reconhecida. Esse relato intitulado Dom Orione entre diamantes e cristais: cenas vividas pelos missionários de D. a interlocução ocorreu porque os frades e o médico da “roça” foram reconhecidos em condição de igualdade com os médicos cientistas. O marco final. Fomos atrás desses interlocutores e das suas instituições. após sua saída do extremo norte de Goiás. Este recorte inicial se justifica porque aquele relatório foi considerado o que mais contribuiu para a redefinição dos sertões como espaço da doença e do abandono. em 1916. um dos missionários dessa Congregação.Após recortamos o espaço da pesquisa entre os vales dos rios Araguaia e Tocantins. foi a escrita das memórias do padre Tonini. e mais especificamente o norte daquele estado. Compreendemos por interlocução o diálogo estabelecido entre duas ou mais pessoas. Goiás. para o encerramento da nossa análise. ou seja. Por isso. da Congregação “Pequena Obra da Divina Providência”. para além do olhar dos médicos/cientistas. Pe. Orione nas matas do Norte de Goiás é revelador das expectativas dos missionários italianos. de trabalho e de saúde das populações visitadas. foi o primeiro Prelado de Tocantinópolis (1956-1959) e contribui tanto para a 12 . Através das narrativas de Neiva e Penna percebemos ainda a importância dos médicos locais e dos padres como interlocutores dos cientistas nos sertões. Estes médicos da capital haviam ressaltado a importância da Igreja para a “civilização” dos sertões. Tonini. em Porto Nacional. Estes médicos percorreram o norte do Brasil a pedido da Inspetoria de Obras Contra a Seca e elaboraram um relatório no qual apresentaram as condições de vida. entre 1916-1959. em 1959. Fizemos o recorte a partir das fontes. Porém. tanto o nome da Ordem dos dominicanos quanto o do dr. estabelecemos também o balizamento temporal. Neiva e Penna durante os dias que permaneceram em Porto Nacional desfrutaram da companhia e do diálogo com os frades e com o médico local. Neiva e Penna também se surpreenderam com a presença do médico Francisco Ayres da Silva. nos sertões do Brasil. procuramos suas visões sobre os sertões e de como reagiram frente à circulação do relatório Neiva e Penna. Decidimos que esse “outro” feito testemunho das péssimas condições de vida e de saúde nos sertões goianos deveria ser buscado na sua especificidade. tornou-se exemplo dramático do que poderiam se transformar as sociedades sem assistência efetiva do Governo Federal. chegou aos sertões goianos no início da missão (1952). Iniciamos a análise a partir da circulação do relatório Neiva e Penna. Francisco Ayres da Silva foram inscritos no relatório.

Estevão. 1947. como Visitador extraordinário da Missão dominicana e como Provincial da Província de Tolosa (1890-1894). Império e Primeira República e A Informação Goyana (1917-1935). Fac-similar. Ano 1. Viagem científica pelo norte da Bahia.História e Memória. Brasília: Senado Federal. 1996. 1963. 1890.. Fomos atrás dos documentos. Rio de Janeiro: José Olympio. Uma Viagem de Missão Pelo Interior do Brasil. In: A economia das trocas lingüísticas: o que falar quer dizer. Frei Michel Laurent.ed. em 1907. 10 NEIVA. 1999. “o documento não é qualquer coisa que fica por conta do passado.11 literatura memorialística12 e artigos publicados em periódicos. Ao manter um capítulo sobre a Congregação de Dom Orione c ampliar por demais o tempo histórico da pesquisa e de não darmos conta das várias temporalidades ali presentes. Audrin viveu entre os vales do Araguaia e Tocantins entre 1904-1938.15 Mas é também fruto da sua experiência nos sertões e do local ocupado por ele dentro da sua instituição.p. apesar da proximidade das visões dos sertões do padre Tonini com aquelas de Neiva e Penna na década de 1910 ainda tínhamos que resolver alguns problemas.14 As visões dos sertões goianos.85-95 13 . 4 ed. 2008. presentes nas narrativas. p. Belisário. p. segundo ele. São Paulo:EdUSP. em 1912. por outro lado. Jacques. 13 Ver as revistas: Memórias Goianas. no final do Império. vitimado pela febre amarela. Ver: LE GOFF. In: LE GOFF. Além dos periódicos da Congregação da “Pequena Obra da Divina Providência”: A Fátima Brasileira e a “Pequena Obra da Divina Providência”. Captar os projetos de médicos e padres para os sertões goianos. Salvador: Progresso. Porém. Porém. Encontramos as experiências de médicos e padres registradas em forma de relatórios científicos. 1942. Autor também do livro Os Sertanejos que eu Conheci. entre 1916 a 1959. obviamente. A Linguagem autorizada: as condições sociais da eficácia do discurso ritual. Vol 1. Tonini e sua Congregação.535-536 15 BOURDIEU. 11 BERTHET. Reproduzido em Memórias Goianas I. (1902. sul do Piauí e de norte a sul de Goiás. Então. Documento/monumento. J.10 relatos de viagens.“dilatação da fé” quanto na fixação do estado republicano naquelas paragens. Ed. 14 Pois. em pleno sertão. como justificar a sua inclusão nessa pesquisa? Não foi sem dificuldades que enfrentamos essa questão. sudoeste de Pernambuco. Arthur e PENNA. Foi também autor do livro Uma catequese entre os índios do Araguaia.1905) (1906-1907) e acabou falecendo. Pe. O apóstolo do Araguaia: frei Gil Vilanova. São Paulo: UNICAMP. 2 ed. França: Richaud. mar/1982. como elaborado por Le Goff.109-170 12 AUDRIN. colocou-nos. Gallais veio ao Brasil em 1888. Conceição do Araguaia: s. é produto da sociedade que o fabricou segundo as relações de forças que aí detinham o poder”. Frei José Maria Entre Sertanejos e Índios do Norte. GALLAIS. decidimos que era necessário fechar os ciclos: o do saneamento proposto por Arthur Neiva e Belisário Penna e o da “reforma religiosa” iniciada pela Ordem dos dominicanos nos sertões goianos. Rio de Janeiro: Agir. foi enterrado em Formosa-GO. um missionário dominicano. Pierre.13 As fontes foram utilizadas a partir da compreensão de que são documentos/monumentos. o problema das fontes. são o resultado do olhar da instituição à qual o narrador está vinculado e da qual é porta-voz autorizado. 1954. não foram informantes de Neiva e Penna durante sua peregrinação por Goiás.

foi um dos fios importantes por nós identificados.Enfrentamos o desafio de uma abordagem qualitativa desse material a partir de alguns referenciais teórico-metodológicos. Outro fio utilizado foram as narrativas dos interlocutores goianos. Contrariamente ao que aparece no relatório Neiva e Penna não havia consenso sobre o que seriam os sertões e de como integrá-los à nação. a constituição de um campo religioso acompanha a desapropriação objetiva daqueles que dele são excluídos e que se transformam por esta razão em leigos (ou profanos. como “os lugares das relações de forças”. p. suas visões sobre os sertões goianos. situamos os nossos narradores e suas respectivas instituições nos seus “microcosmos” denominados de “campo”. similares ou as apropriações realizadas.16 O autor ao refletir sobre a gênese e estrutura do campo religioso a partir de elementos anteriormente delineados por Marx Weber ampliou sua noção compreendendo-o como espaço de luta. ressaltou que: “Enquanto resultado da monopolização da gestão dos bens da salvação por um corpo de especialistas religiosos. 2007. ou melhor. São Paulo: Perspectiva. p. a partir de alguns fios condutores. Para “tecer a trama” foi necessário conhecer melhor as instituições. no duplo sentido do termo) destituídos do capital religioso (enquanto trabalho simbólico acumulado) e reconhecendo a legitimidade desta desapropriação pelo simples fato de que a desconhecem enquanto tal” Ver: BOURDIEU.44 14 . Os usos sociais da ciência. Buscamos então colocar em diálogo as visões diferentes. O relatório dos médicos da capital. Reunimos as informações e estabelecemos as relações para “tecer a trama”. Pierre. 2004. ou seja. os médicos e padres dos sertões. Neiva e Penna.27. Aquele foi um momento de disputas que envolveram rejeições e apropriações dessas visões. que a luta “dissimula a oposição entre diferenças de competência religiosa que estão ligadas à estrutura da distribuição de capital cultural”. São Paulo: UNESP. socialmente reconhecidos como os detentores exclusivos da competência específica necessária à produção ou à reprodução de um “corpus” deliberadamente organizado de conhecimentos secretos (e portanto raros). p. como definido por Bourdieu. Pierre. disputas e conflitos ajudou a ler as narrativas do “corpo de especialistas religiosos” da Ordem Dominicana ou da Congregação “Pequena Obra da Divina Providência”. Além disso. porém. 17 Bourdieu ao definir o campo religioso. buscando perceber quais eram os “inimigos” a serem combatidos em cada momento e as estratégias utilizadas para marcar a distinção entre eles e os “outros”.17 Ele ressaltou. A Economia das Trocas Simbólicas.18 Compreender o “campo” religioso como espaço de lutas.39 18 Idem. os sujeitos das narrativas e os problemas e desafios enfrentados pelos nortistas. Por uma sociologia clínica do campo científico. 16 BOURDIEU.

No capítulo II “Em defesa dos sertões goianos: a Informação Goyna versus o relatório Neiva e Penna” analisamos as tensões e conflitos com relação às visões dos sertões desencadeadas a partir do início da circulação do relatório dos médicos Neiva e Penna e aquela dos goianos presentes na revista Informação Goyana. Para discutir as questões apresentadas. Rio de Janeiro: Contraponto. “Espaço de Experiência” e “Horizonte de Expectativa”: duas categorias históricas. Enfim. Contribuição à semântica dos tempos históricos. O capítulo I “A ciência a caminho dos sertões: o Brasil Central nas narrativas de Arthur Neiva e Belisário Penna” foi dedicado à apresentação das visões dos sertões presentes nas narrativas dos médicos/cientistas que percorreram o norte goiano em 1912. esta tese foi dividida em 4 capítulos. p. ibidem. As narrativas foram analisadas considerando que expressavam a “experiência” e a “expectativa” tanto dos narradores quanto das instituições a que estavam vinculados.19 Este autor. atualizam estas experiências elaborando suas visões e projetando o futuro. Os sertanejos. enfim (re) arrumando o antes e o depois. no caso médicos e padres. situados dentro de determinado campo – o que sempre unifica.20 O presente seria o momento em que os narradores. apontou para a possibilidade de pensar a temporalidade nessa tensão entre o passado vivido. Para tanto. experimentado e o futuro sonhado. tratamos da recepção do relatório Neiva e Penna pelos goianos e discutimos seus argumentos em 19 KOSELLECK.309 20 Idem. ao recorrermos às narrativas dos sujeitos. desconheciam o dinheiro e os símbolos nacionais e se apegavam a uma religiosidade e terapêutica popular de valor duvidoso. o que a noção de campo poderia suprimir acabou sendo recuperada através das concepções de experiência e de expectativa. eram extremamente ignorantes. Reinhart. Aquelas imagens dos sertões romperam com as visões idílicas presentes na literatura romântica e apontaram para os desafios da construção do Brasil como nação. generaliza e integra . 15 . ao tratar do “espaço de experiência” e do “horizonte de expectativa”. 2006. Assim. In: KOSELLECK. além de doentes. R. conformados em grande medida pelas experiências do passado e pelas expectativas do futuro. Futuro do Passado.Fez-se necessário também recorrer à concepção de temporalidade como pensada por Koselleck. Estas visões elaboradas dentro da instituição médica da época revelaram um Brasil marcado pela doença e abandono que subsidiaram a elaboração de um projeto de saneamento dos sertões.o que emergiu foi principalmente a presença do sujeito na história. desejado e projetado.

Apresentamos desafios impostos aos dominicanos nos sertões e sua busca pela distinção no campo religioso. No capítulo III “A Igreja nos sertões: o norte goiano nas narrativas dos padres dominicanos e a reação do missionário ao relatório Neiva e Penna” analisamos a perspectiva dos dominicanos sobre os sertões. apontando os problemas do presente e projetando o futuro para o estado mais central do Brasil. à recepção do relatório por parte de um dos interlocutores de Neiva e Penna nos sertões do Brasil. durante a Primeira República (1989-1930). aquém. portanto. da luta empreendida pelo médico e deputado federal Francisco Ayres da Silva para a melhoria dos transportes e comunicações no norte de Goiás. os goianos contrastaram aquelas características negativas sobre os sertões presentes no relatório Neiva e Penna apresentando o passado goiano e suas glórias. apresentamos os argumentos de um missionário dominicano contrário ao relatório Neiva e Penna. o médico e deputado federal Francisco Ayres da Silva. De toda forma. Ou melhor. Compreendem eles 16 . são visíveis suas lacunas e pontos não abordados.defesa “da sua terra e da sua gente” nas páginas da revista. Esta incursão pelos sertões goianos. Depois da denúncia de Neiva e Penna. na década de 1950 – e seus pontos de intercessão com o relatório Neiva e Penna. Nessa luta de projetos sobre nação e região. Por fim. Recuperamos a trajetória da inserção dos dominicanos na diocese de Goiás. através das narrativas dos médicos da capital e do interior. no relatório de 1916. de padres que apenas percorreram a região e de outros que dedicaram os melhores anos de suas vidas a eles. No capítulo IV “Os missionários católicos italianos no extremo norte de Goiás: semear e sanear os sertões” procuramos apresentar a situação dos sertões goianos na década de 1950. após ainda os longos anos de investimento dos dominicanos nos sertões (1886-1944) procuramos saber que sertões os missionários da Congregação italiana “Pequena Obra da Divina Providência” encontraram. especificamente. qual o projeto de um missionário italiano que foi enviado para o extremo norte de Goiás. quase quatro décadas depois. atenua minha inquietude ante tais limitações constatar que esse esforço logrou sucesso no que tange à coleta e sistematização dos dados dispersos pelos múltiplos registros. foi trabalho que possibilitou mostrar diferentes visões e apreensões desses sertões. dentro do projeto de reforma da Igreja. Contudo. da amplitude da análise pretendida. A parte final deste capítulo foi dedicada.

ou ainda pouco utilizados como a Informação Goyana (1917-1935). Além das narrativas de viagens ou narrativas memorialistas de médicos e padres dos sertões. por certo. ciente da natureza lacunar do conhecimento histórico e. envolve outros questionamentos e outras explicações.uma extensa e rica documentação até hoje não utilizada. Entretanto priorizei aqui algumas das possíveis questões articuladas ao tema escolhido e recortado. sobretudo dos meus limites para executá-lo. Um tema tão complexo. se partimos da perspectiva da história como campo de possibilidades. como os periódicos da Congregação “Pequena Obra da Divina Providência”. 17 . no tempo e no espaço e algumas de suas possíveis abordagens.

para os médicos. as expedições científicas foram utilizadas como uma das estratégias do Estado para conhecer e integrar os sertões. entre 1908 e 1922. A expedição de Neiva e Penna tinha por objetivo fazer um amplo levantamento sobre as condições do clima e da vegetação na tentativa de compreender os fenômenos das secas no norte do Brasil. ao retomar o relatório de Neiva e Penna. teve por objetivo romper com as generalizações sobre os sertões e analisar as imagens que eles elaboraram sobre o norte goiano. p. 1999. especialmente sobre o norte de Goiás. já amplamente estudado. Neste capítulo.Capítulo I A Ciência a Caminho dos Sertões: o Brasil Central nas Narrativas de Arthur Neiva e Belisário Penna Na Primeira República. 18 . Ambos estavam vinculados ao Instituto de Patologia Experimental de Manguinhos. a que se pensava como a nação brasileira. 65. mais especificamente sobre o norte de Goiás. Nísia Trindade. avaliaram as condições epidemiológicas e sua relação com as condições de vida e do trabalho das populações locais. passou-se chamar Instituto Oswaldo Cruz (1908). 22 Idem. Um Sertão Chamado Brasil: intelectuais e representação geográfica da identidade nacional. num total de 9 expedições. Nossa proposta.21 Foi nesse contexto que se inseriu a expedição comandada pelos médicos Arthur Neiva e Belisário Penna. Eles percorreram partes do Nordeste e do Centro-Oeste brasileiro a pedido da Inspetoria de Obras Contra as Secas. foi adquirido a partir do êxito 21 LIMA.86-87. focalizamos as narrativas de Neiva e Penna sobre o Brasil Central.22 O credenciamento do Instituto de Manguinhos para intensificar sua participação nas expedições científicas. Foi desse relatório que saíram “as mais fortes imagens associadas às viagens científicas do Instituto Oswaldo Cruz”. Rio de Janeiro: IUPERJ. Como médicos. Mas. na Primeira República (1989-1930). foco da nossa investigação. p. sua tarefa era muito maior: tratava-se de revelar o “verdadeiro” Brasil aos brasileiros e apontar caminhos para a construção da nação. em 1912. Tais viagens empreendidas por cientistas brasileiros podem ser vistas à luz do debate sobre interiorização e construção da unidade territorial do país.

supl1. Ciência e Saúde: Manguinhos. Vol. no final da avenida: Os Sertões redefinidos pelo movimento sanitarista da Primeira República.143 25 Nísia Trindade observou que desde a sua origem. p. Ver: LIMA. em 1912.65. Ver: HOCHMAN. “as viagens estiveram associadas a projetos modernizadores: construções de ferrovias.27 Enfim. as da Comissão Geológica em São Paulo.. Expedições científicas. p.28 Percebe-se que a viagem de Neiva e Penna. as atividades de “Manguinhos” não se limitaram ao Distrito Federal registrando-se.65-66. 24 MELLO. Julho 1998. naquele período. foi apenas uma entre as várias empreendidas pelo Instituto Oswaldo Cruz e por outras instituições. p. em São Luiz do Maranhão. foram publicadas como anexos mais de cem fotografias 23 Oswaldo Cruz conseguiu dois feitos memoráveis. certamente.24 Depois disso.) e as expedições científicas do Instituto Oswaldo Cruz”. Ele está organizado em duas partes: o relatório propriamente dito e o diário de viagem.79 26 Idem.. Sul do Piauí e de Norte a Sul de Goiás. enviou suas expedições científicas aos vários recantos do país. a peste bubônica e a varíola.[0nline]16. Além do relatório e do diário de viagem.p. no interior do Estado de São Paulo.26 Eles percorreram o interior através de expedições oficiais “como as de Cândido Rondon. Rio de Janeiro. 27 Idem. 1999. Fernando A. A publicação de Neiva e Penna foi reproduzida em uma edição fac-similar. p. Hist-cien-saúdeManguinhosvol. V. avaliações da Inspetoria de Obras Contra as Secas. Nísia Trindade. de acordo com Herchann: vencer a tradição retórica e clínica da medicina da capital (ao vencer a epidemia da febre amarela no Rio de Janeiro tornou-se o primeiro cientista-herói do país). 23 Ele tornou o Instituto parceiro da Diretoria Geral de Saúde Pública nas iniciativas do governo federal para a modernização da capital da República. no qual estamos nos baseando para a realização da análise proposta nesta pesquisa. ainda na primeira década ações sanitárias em vinte e três portos. a do astrônomo Louis Cruls (.53. 25 Nessa tarefa de conhecer e “revelar” o Brasil “real” empenharam-se várias instituições e vários profissionais. construções de linhas telegráficas”. p. lançada pelo Senado Federal em 1999. Mas. Sudoeste de Pernambuco. Rio de Janeiro: IUPERJ. Logo ali. sertanejos e imaginação social. Maria Tereza Villela e Mello e PIRES-ALVES. Um sertão chamado Brasil. 28 Idem. grande parte da riqueza daquela viagem está no material elaborado por Neiva e Penna e na repercussão que ganhou o seu relatório. em 1918. fotografia e intenção documentária: as viagens do Instituto Oswaldo Cruz (1911-1913). Gilberto. e a fundação do primeiro instituto científico de reconhecimento internacional: o Instituto Federal de Soroterapia de Manguinhos (fundado em 1901).2009. 19 . O relatório e todo o material produzido durante a viagem de Neiva e Penna foi publicado com o título Viagem Científica pelo Norte da Bahia. História. jul. suplemento.das campanhas de saneamento conduzidas no Rio de Janeiro por Oswaldo Cruz. Naquele período foram acentuadas as ações de combate aos surtos epidêmicos de doenças como a febre amarela. Sua produção médica se concentrava principalmente sobre duas especialidades: a Saúde Pública e a Higiene. Intelectuais. Minas Gerais e na Baixada Fluminense.. 217-235.

31 29 O relatório Neiva e Penna possui 150 páginas de texto. Nísia Trindade.p. o relatório reflete o estilo de uma época.(116 no total) e um encarte com um mapa do Brasil. Ciência. Uma brasiliana médica: o Brasil Central na expedição científica de Arthur Neiva e Belisário Penna e na viagem ao Tocantins de Julio Paternostro. da febre amarela e da doença de Chagas. de 1916. Os autores iniciaram suas análises com informes sobre as condições do clima e das águas. no qual é indicado o roteiro percorrido pela expedição. Elas fundamentariam as análises a serem realizadas posteriormente e apresentadas em forma de relatório. Paranaguá (17 dias). suppl. No final. Naquele espaço eram feitas anotações cotidianamente. 2009.1.29 1. 31 Nas localidades em que a expedição permaneceu por mais tempo como Joazeiro (17 dias). Além das detalhadas informações da vida social. a crença nos poderes curativos das plantas. Na terapêutica popular. o diário de viagem 160 páginas e as fotografias ocupam 28 páginas. São Raimundo Nonato (17 dias). Informaram ainda sobre as condições de vida. Era o olhar do cientista que direcionava a observação e as anotações. 30 LIMA. [online]. trata-se do relatório. Sauúde-Manguinhos. 20 . a tensão dessa escrita nos ajuda a refletir sobre o estilo científico da época. In: História. 30 Na segunda parte do livro está o diário de viagem.1 O “Relatório” de Authur Neiva e Belisário Penna A primeira parte do livro A Viagem Científica Pelo Norte da Bahia. Entretanto.16. Sul do Piaui e de Norte a Sul de Goiás. No diário de viagem é possível acompanhar o roteiro percorrido pelos médicos e os percalços enfrentados nos caminhos de mais de sete mil quilômetros. Assim. eles combatiam as narrativas consideradas literárias e ufanistas. saindo do Rio de Janeiro e percorrendo as regiões Nordeste e Centro-Oeste. Em seguida. além da recorrência dos sertanejos às rezas. foram realizados registros com ricas informações sobre o modo de vida dos seus habitantes. cultural e epidemiológica das regiões percorridas. Sudoeste de Pernambuco. o fenômeno da seca e o efeito das queimadas nas regiões percorridas. analisaram os vetores especialmente aqueles que poderiam estar associados à transmissão da malária. vestuário. os médicos destacaram a ampla utilização de recursos da fauna e flora. e Porto Nacional (12 dias). crendices e abusões. vol. na tentativa de afirmar essa identidade. alimentação. religião e trabalho dos sertanejos. Aquele era o momento em que os autores das narrativas de viagens lutavam para serem reconhecidos como cientistas. sobre os quais o Instituto Oswaldo Cruz concentrava parte de seus estudos. com um total de 116 imagens. encontram-se as biografias dos referidos cientistas. 229-248.

uma importante contribuição para a construção do “efeito de realidade” que se queria produzir. Por meio de trem passaram por Minas Gerais. As fotografias eram a evidência confiável da narrativa. Anjico. 33 BURKE. Eles percorreram o interior do Estado do Piauí passando por São Raimundo Nonato. Eles saíram do Rio de Janeiro em 18 de março de 1912 e foram de vapor até o Estado da Bahia. foi publicada também uma série de fotografias. em Formosa. Cada fotografia é acompanhada de legenda própria. p. foram até Juazeiro e a partir dali. Temas como a influência do clima. para o célebre escritor. suppl. Saúde-Manguinhos. 2004.26 34 Idem. em 25 de outubro. vol.33 Todas as imagens vieram com uma legenda com identificação. Eles iniciaram o retorno descendo todo o estado de Goiás até sua capital. uma tentativa de controlar as interpretações dadas aos artefatos apresentados ao público alvo. In: História.Os médicos utilizaram os meios de transportes então existentes. O Testemunho Ocular: história e imagem. Num total de vinte e quatro fotografias.231.139-179. depois se dirigiram para Ipameri. São Paulo e voltaram ao Rio de Janeiro. Peter. a conformação da raça e do isolamento dessas regiões e populações explicariam. [onlaine]. entraram em Petrolina e subiram até São José da Canastra. p. Partindo de Salvador de trem. as fotografias estão organizadas em conjuntos de quatro imagens retangulares por folha. Brejinho e penetraram novamente na Bahia. Os médicos atravessaram o rio São Francisco. explicações e comentários. p. encaminham-se para exposição das condições de vida e trabalho dos habitantes dos sertões. com identificação científica. Ver no livro de Neiva e Penna o encaixe de fotografias logo após o diário de viagem. A seqüência das fotografias segue a temática tratada no relatório.35 Neiva e Penna romperam com algumas matrizes presentes nos Sertões de Euclides da Cunha. publicado em 1902. 21 . Paranaguá. o atraso do 32 Em geral.1. encerrando-se com as denúncias feitas durante todo o relatório: indicam a imagem do Brasil „doente‟ e abandonado. toda a viagem “pelo sertão” foi realizada em lombo de burros. no estado de Goiás e seguiram para Porto Nacional. Ciência.34 As fotografias iniciam-se pela apresentação do meio físico. de onde se dirigiram para São José do Duro (atual Dianópolis). 35 MELLO Maria Tereza Villela Bandeira de e PIRES-ALVES. Fernando A. Além do relatório e do diário. dezesseis foram tiradas individualmente ou em grupo. geográfico e ambiental. fotografia e intenção documentária: as viagens do Instituo Oswaldo Cruz (1911-1913). 2009. Bauru: EDUSC.32 A organização e apresentação das imagens são encadeadas em seqüência do que já foi analisado no relatório e narrado no diário de viagem. Expedições científicas. mostrando os portadores do bócio ou hipertireoidismo.16.

Os sertanejos. op. não foi o fato de ter sido uma viagem rápida que contribuiu para essa visão detratora. Os Sertões (Campanha de Canudos). cit. Euclides. participou do Congresso Agrícola. atuou como clínico geral na cidade. em 1903. na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro.2 Belisário Penna e Arthur Neiva: trajetórias Belisário Augusto de Oliveira Penna nasceu em Barbacena. considerado extremamente reduzido. ibidem. É o que veremos a partir da análise das trajetórias desses dois cientistas. como o espaço da barbárie. In: NEIVA. Op. não se pode esquecer de que essas imagens dos sertões estão comprometidas com o lugar de fala dos nossos personagens. 2005. Como já dissemos. porque frutos da mestiçagem estariam condenados ao desaparecimento. que fracassou. Os intelectuais goianos apontaram o tempo de permanência nos sertões. cit.68-71 38 Apud PENNA. 29-11-1868.interior do Brasil. em novembro de 1868. 39 Idem. para nós. como já se disse. 22 . no qual foi o relator da comissão do Comércio. Belisário. contudo. Bahia. Ver: CUNHA. Centenário de nascimento de Belisário Penna.38 Já casado. XLVII-LX.36 Essas questões foram reavaliadas pelos autores que apresentaram o interior como espaço a ser incorporado à nação por meio da ação do Estado. 1. transferindo-se no último ano do curso para a de Salvador. matriculou-se. especialmente Canudos. Um sertão chamado Brasil. Antonio Conselheiro seria o efeito nefasto disso. p. Fixou-se em Juiz de Fora em 1895. como uma das razões que impossibilitou uma visão mais ampla e aprofundada da região. Em 1904 abdicou do cargo de vereador para assumir emprego público. 36 Euclides da Cunha fundamentado nas teorias racistas de Nina Rodrigues observou o sertão da Bahia. 37 LIMA. São Paulo: Martins Claret. Junto com um amigo e o pai abriu uma firma comercial de representação e consignação. eles eram homens do seu tempo e do seu “campo” e foi a partir desse tempo e lugar que eles apresentaram os sertões. no Rio de Janeiro. retornou a Barbacena onde passou a exercer a medicina. Arthur e PENNA.39 Eleito vereador em Juiz de Fora. Filho do visconde de Carandaí fez o curso secundário em São João Del Rei.37 Em que pese esse esforço de “neutralidade” e “objetividade” das narrativas de Neiva e Penna. em 1886. então província de Minas Gerais. mas o local de fala dos nossos médicos cientistas. Comercial e Industrial de Belo Horizonte. onde se formou em 1890. foi médico da Hospedaria de Imigrantes por um ano. p. Nísia Trindade. porém seus rendimentos eram insuficientes para manter a família. João Fernandes de O.

como concursado no cargo de inspetor sanitário na Diretoria Geral de Saúde Pública (DGSP), criada e dirigida por Oswaldo Cruz, que era reconhecido internacionalmente como o mais brilhante cientista brasileiro. Oswaldo Cruz desempenhou papel importante na reforma empreendida por Pereira Passos que transformou a velha capital do Império em cartão postal do Brasil republicano, símbolo dos “novos tempos”. Foi neste contexto de modernização da cidade e de fortalecimento do Instituto de Manguinhos que Belisário Penna foi incorporado à inspetoria de Profilaxia da Febre Amarela, trabalhando ao lado de Oswaldo Cruz.40 Com o aumento da credibilidade do Instituto de Manguinhos, intensificaram-se as expedições científicas ao interior do país. Assim, em 1908 Belizário Penna foi designado por Oswaldo Cruz para, em comissão com Carlos Chagas, fazer trabalhos profiláticos contra a malária, endêmica na região e que atrapalhava os trabalhos de construção da Estrada de Ferro Central do Brasil, entre Corinto e Pirapora (MG) cuja extensão deveria alcançar Belém do Pará. Após um ano de pesquisas no interior de Minas, em Pirapora, Carlos Chagas e Belisário Penna capturam o inseto popularmente conhecido como barbeiro, o ponto inicial das pesquisas que levariam Carlos Chagas à descoberta da doença que o consagrou.41 Em 1909, Carlos Chagas comunicou ao mundo científico a descoberta de “nova entidade mórbida”, causada por um protozoário, até então, desconhecido (denominado Trypanosoma cruzi) e transmitida por inseto hematófago, popularmente conhecido como barbeiro, abundante nas casas de pau-a-pique no norte de Minas Gerais. De acordo com a pesquisadora da Casa de Oswaldo Cruz, Simone Petraglia Kropf, a “tripla descoberta de Chagas (vetor, patógeno e infecção humana) foi comemorada como „grande feito‟ da ciência brasileira”.42 A esta doença, Carlos Chagas associou várias manifestações mórbidas, como a cardiopatia, o cretinismo e hipertireoidismo.43

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A “Revolta da Vacina” é tema discutido por historiadores e cientistas políticos brasileiros. A este respeito ver: SEVCENKO, Nicolau. A Revolta da Vacina: mentes insanas em corpos rebeldes. São Paulo: Scpione, 1993 e CARVALHO, José Murilo de. Os Bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foi. São Paulo: Cia das Letras, 1987. 41 LACERDA, Aline Lopes de. Fotografia e valor documentário: o arquivo de Carlos Chagas. In: História, Ciências, Saúde-Manguinhos . Vol.16, supl 1. Rio de Janeiro, jul. 2009, p.119 42 KROPF, Simone Petraglia. Carlos Chagas e os debates e controvérsias sobre a doença do Brasil (19091923). In: História, Ciências, Saúde-Manguinhos. [versão online]. Vol 16. supl.1 Rio de janeiro, Jul/ 2009. p.205 43 Idem, ibidem.

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Nesse primeiro „desenho clínico da doença‟, o bócio ou hipertireoidismo foi considerado o sinal primordial para o diagnóstico da doença de Chagas. Uma doença endêmica que, segundo Carlos Chagas, prejudicava seriamente o progresso nacional, por provocar decadência física e mental, como cretinismo, em gerações sucessivas de extensas áreas do interior do Brasil. Essa caracterização clínica da doença de Chagas teve enorme impacto no relatório Neiva e Penna. Em 1909, Belisário Penna viajou com Oswaldo Cruz à região amazônica do rio Madeira, com o objetivo de realizar a profilaxia da malária na construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré Railway Company. Com Oswaldo Cruz, Penna participou ainda da campanha de erradicação da febre amarela em Belém do Pará. Essas viagens contribuíram para a consolidação do Instituto de Manguinhos como centro de pesquisa experimental. Conforme concluiu Maria Cristina Wissenbach, figuras de projeção do Instituto foram mobilizadas para viabilizar as construções de ferrovias no interior do país.44 Entre essas figuras encontrava-se Belisário Penna. Em 1912, Belisário Penna participou da expedição científica ao norte, nordeste e ao Centro-Oeste do Brasil. As imagens elaboradas sobre aqueles espaços projetaram Belisário Penna como um dos mais importantes sanitaristas brasileiros. O relatório, fruto dessa expedição, foi encaminhado para a gráfica do Instituto de Manguinhos, em 1915. Ao começar a ser divulgado em 1916, o relatório revelou um Brasil desconhecido, abrindo novas possibilidades de análise acerca do atraso dos sertões. 45 Quase 15 anos depois de Os Sertões, de Euclides da Cunha, a “ciência” revia seus princípios sobre a parte do país que parecia irremediavelmente condenada por suas condições naturais e sociológicas e apresentava esses elementos como primordiais na agenda política e científica do país. Em 1918, o sanitarista fundou a Liga Pró-Saneamento do Brasil. 46 Ele defendia que a construção da nação passava pelo saneamento dos sertões, título que deu à série de
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WISSENBACH, Maria Cristina. Da escravidão à liberdade: dimensões de uma privacidade possível. In: SEVCENKO, Nicolau (Org.). História da Vida Privada no Brasil. Vol. 3. São Paulo: Cia das Letras, 1998, p.62-3. “Nos inícios do século XX, cortando regiões insalubres, no geral acompanhando o curso dos rios, os trabalhos de construção das ferrovias eram constantemente ameaçados de interrupção pela ocorrência de epidemias. Para enfrentar as paralisações, os engenheiros responsáveis pelas obras tiveram que recorrer ao apoio das autoridades sanitárias, especialmente aos cientistas de Manguinhos”. 45 SÁ, Dominichi Miranda de. Uma interpretação do Brasil como doença e rotina: a repercussão do relatório médico de Arthur Neiva e Belisário Penna (1917-1935).In:História,ciência,saúde-Manguinhos. Vol.16.sup.1. Rio de Janeiro, jul.2009. p.185. 46 Segundo Dominichi de Sá, a Liga Pró Saneamento foi fundada por Belisário Penna, Plínio Cavalcanti e Olímpio Barreto, sua intenção era de atingir o grande público e de conseguir a adesão de toda a elite de

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artigos (13 no total) que foram publicados pelo Correio da Manhã e divulgados por inúmeros outros jornais, a partir de novembro de 1916.47 Na verdade, ele apresentou ali algumas conclusões presentes no relatório de viagem, porém escrita numa linguagem mais combativa, militante e apaixonada, utilizando-se de uma linguagem simples, direcionada para a compreensão do grande público, no sentido de mobilizá-lo para a aceitação do saneamento. Médicos/cientistas brasileiros se mobilizaram através da campanha pelo saneamento e revelaram suas aspirações. Eles queriam “ocupar posições no Estado, a partir das quais pudessem ditar os rumos da nação”.
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Segundo Dominichi de Sá, a Liga Pró-

saneamento possuía uma inclinação nacionalista e lutava para levar aos sertões a profilaxia rural: “nacionalizar significava, em muito, centralizar, no Estado, a ingerência da educação higiênica da população rural e, isto, por meio de um órgão único que orientasse as diversas atividades sanitárias (...).”49 Em 1919, criou-se o Departamento Nacional de Saúde Pública (DNSP) assumido por Carlos Chagas. A Belisário Penna coube apenas um cargo de diretor de Saneamento e Profilaxia Rural. O líder máximo do movimento Pró-Saneamento do Brasil foi preterido em favor do cientista conhecido e reconhecido internacionalmente, como discípulo de Oswaldo Cruz, descobridor da doença de Chagas e diretor de Manguinhos, “a instituição científica mais famosa do país”.50 Porém, cinco decretos sucessivos em 1920 alteraram e ampliaram enormemente as funções previstas para o DNSP, reduzindo o lugar ocupado pelo saneamento rural.51 A diretoria do Departamento decidiu aplicar seus recursos nas áreas mais densamente povoadas e de maior riqueza econômica, ou seja, nas cidades. Com o saneamento rural praticamente abandonado, Belisário Penna se demitiu e voltou para suas funções, como delegado de saúde, em 1922.52 Sua renúncia foi explicada em razão das limitações
médicos, políticos e intelectuais do Rio de Janeiro alertando-os para as péssimas condições sanitárias do interior do Brasil. Esperava-se obter apoio para o saneamento dos sertões a partir das idéias e soluções políticas nativas. Ver: SÁ, Dominichi Miranda de. Idéias sem fronteira: da generalidade à especialização no pensamento intelectual do Brasil Republicano (1895-1935). Tese de Doutorado: UFRJ, 2003 .p.58. 47 Apud PENNA, João Fernandes de O. Centenário de Nascimento de Belisário Penna. In: NEIVA, Arthur e PENNA, Belisário. Op. cit. p. LI 48 KROPF, Simone Petraglia. Carlos Chagas... Op. cit. p.211 49 SÁ, Dominichi Miranda de. O Brasil “modelado” na Obra de Belisário Penna (1916-1935). Dissertação em História. Universidade Federal do Rio de Janeiro, 1999.p.63 50 Idem, p.83. 51 Idem, p.84. 52 Apud PENNA, João Fernandes de O. In: NEIVA, Arthur e PENNA, Belisário. Op. cit. p.L-LIII

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impostas às suas ações e pelas disputas internas.53 Suas desavenças com Carlos Chagas chegaram ao seu limite e ele preferiu deixar o DNSP. Em 1924, Penna, trabalhando também para a iniciativa privada - como diretor de propaganda dos laboratórios Daudt, Oliveira e Cia - foi preso durante seis meses e suspenso do cargo efetivo de delegado de saúde por ter apoiado, em carta aberta, o movimento tenentista, contra Arthur Bernardes. Após esse incidente, ele foi promovido a dirigente do Serviço de Propaganda e Educação Sanitária.54 Participou ainda da Revolução de 1930 e foi nomeado por Getúlio Vargas para Diretor do Departamento Nacional de Saúde Pública.55 De 1931 a 1932 assumiu, por duas vezes, interinamente, o cargo de Ministro da Educação e Saúde. Em 1932, requereu sua aposentadoria junto a DNSP, como Inspetor de Propaganda e Educação Sanitária e se filiou à Ação Integralista Brasileira. Em 1937, rompeu definitivamente com Vargas e retirou-se para um sítio no interior do Rio de Janeiro, onde faleceu em novembro de 1939. Suas obras mais importantes foram a Viagem Científica pelo Norte da Bahia, Sudoeste de Pernambuco, Sul do Piauí e de Norte a Sul de Goiás e o Saneamento do Brasil.

O outro médico que acompanhou Belisário Penna na expedição de 1912 foi Arthur Neiva. Sua biografia revela que este baiano nascido em Salvador em 1880, matriculou-se na Faculdade de Medicina da Bahia em 1898, da qual, logo no segundo ano, se transferiu para o Rio de Janeiro, onde se formou em 1903. Viu-se atraído pelo ambiente de pesquisa criado por Oswaldo Cruz em Manguinhos.56 Ainda estudante, ocupou o cargo de Auxiliar Acadêmico do Serviço de Profilaxia Especial da Febre Amarela (1903-1904). Já formado, Arthur Neiva foi efetivado no cargo (1904-1905), depois incluído nos quadros dos pesquisadores de Manguinhos onde trabalhou como Auxiliar Técnico interino do Laboratório Bacteriológico (1906-1908).57 Em 1907, Neiva atuou em São Paulo, a serviço

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Idem, ibidem SÁ, Dominichi Miranda de. O Brasil “modelado” na Obra de Belisário Penna. Op. cit. p.27. 55 Apud PENNA, João Fernandes de O.In: NEIVA, Arthur e PENNA, Belisário. Op. cit. p.LVI 56 LENT, Herman. In Memoriam: Arthur Neiva (1880-1943). Rev.Brasil. Biol., set, 1943. Rio de Janeiro. P.273-291. Reproduzido na edição fac-similar da Viagem Científica. Op. cit. p.XXI-XLV 57 Arthur Neiva participou ainda da campanha de profilaxia da malária em Xerém, na Baixada Fluminense, a partir da colaboração de Manguinhos com a Inspetoria Geral de Obras Públicas no serviço de captação de águas para a cidade do Rio de Janeiro. Idem, p.XXVI-XXVII

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da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil. Em 1910 viajou aos Estados Unidos para completar estudos entomológicos.58 Em 1913, Neiva obteve o título de Livre Docência da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, com sua tese “Revisão do gênero Triatoma Lap.” As ações de Arthur Neiva foram marcadas pelas inúmeras pesquisas realizadas no Instituto Manguinhos, pela fundação e direção de institutos, além de ter ocupado cargos políticos (interventor da Bahia e deputado federal de 1933-1934 e 1934-1937). Nas palavras do biógrafo Herman Lente, entre as ações de Arthur Neiva destacam-se:
Profilaxia do impaludismo em Xerém e Mantiqueira, e na construção da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil; fundação do Instituto Borges de Medeiros, em Pelotas; criação e organização da Seção de Zoologia Médica e Parasitologia no Instituto Bacteriológico do Departamento Nacional de Higiene, em Buenos Aires; Diretor de Saúde Pública em São Paulo; Diretor do Museu Nacional no Rio de Janeiro, onde criou o “Boletim”; fundador do Instituto Biológico de São Paulo, onde publicou os “Arquivos”; Secretário de Interior de São Paulo; interventor no Estado da Bahia onde fundou o Instituto do Cacau; Diretor-Geral de Pesquisa do Ministério da Agricultura, onde criou o Instituto de Tecnologia. 59

Arthur Neiva foi cientista de laboratório e homem público. Atuou no Instituto Manguinhos e, depois, no Instituto Biológico de São Paulo. Foi interventor federal na Bahia e deputado federal, de 1933-1937. Na relação dos trabalhos publicados contam-se 187 títulos.60 Ele manteve relações de amizade com o círculo emergente da intelectualidade paulista, fato relevante de sua trajetória.61 Além de manter amizade com o “historiador Afonso de Taunay [diretor do Museu Paulista] e com o jornalista e empresário Júlio de Mesquita Filho [proprietário do jornal O Estado de São Paulo], cultivou com Monteiro Lobato longa amizade e estreita identidade intelectual”. 62 De acordo com Nicolau Sevcenko, uma das características mais marcantes da tradição intelectual brasileira, na passagem do século XIX para o XX, foi o intenso desejo de reinventar a nação. Nesse sentido, os cientistas compreendiam a atividade intelectual como missão política ou como „ação pública‟, voltada para a reforma e transformação
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Arthur Neiva estudou temas relacionados aos mecanismos de transmissão de doenças por artrópodes, os ciclos evolutivos de parasitos no meio ambiente e no meio orgânico de sucessivos hospedeiros vertebrados ou invertebrados. Oswaldo Cruz, Carlos Chagas e Arthur Neiva constituíram-se nos maiores nomes envolvidos com a entomologia em Manguinhos na Primeira República. 59 Apud LENT, Herman. In Memoriam –Arthur Neiva (1880-1943). In: NEIVA, Artur e PENNA, Belisário. Op. cit. p. XXXIII 60 Idem, ibidem. 61 SOUZA, Vanderlei Sebastião de. Arthur Neiva e a „questão nacional‟ nos anos 1910 e 1920. In: História, Ciências, Saúde-Manguinhos . [versão online]. Vol.16. supl.1, Rio de Janeiro, jul-2009. p.249 62 Idem, ibidem

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efetiva da realidade brasileira.63 Tanto Arthur Neiva quanto Belisário Penna foram bem sucedidos nesse esforço obstinado de intervenção para a construção da nação, projetando soluções próprias para os problemas nacionais, rompendo com o modismo e a imitação de idéias européias. Eles construíram imagens novas sobre os sertões brasileiros, imaginaram soluções e criaram expectativas com relação ao Brasil.64 Nesse movimento de “reinvenção da nação” os intelectuais foram construindo uma “realidade” inteligível aos próprios brasileiros. Assim, nação e cidadania entraram em foco porque “supunham que a existência de uma identidade nacional implicava na adesão dos indivíduos ao Estado”.65 Focalizaremos adiante as imagens do norte goiano, elaboradas por Neiva e Penna. Porém, convém esclarecer que nosso recorte concentra-se apenas nas imagens do norte goiano e dos homens que o habitavam. Deixamos de fora, portanto, as análises sobre o sertão nordestino, as características gerais do meio físico, como o clima, as plantas venosas, os protozoários, os insetos hematófagos seja no percurso nordestino ou goiano da viagem, por considerar desnecessárias aos objetivos propostos para esta pesquisa. 1.3 Imagens do Norte de Goiás no Relatório Neiva e Penna 1.3.1 Os sertões em ruínas? Nísia Trindade explicou a presença da “missão científica” no Centro-Oeste como parte de um projeto maior - que envolveu outros cientistas em duas outras expedições, realizadas no ano de 1912 - a pedido da Inspetoria de Obras Contra a Seca, em localidades do vale do Rio São Francisco, Nordeste e Centro-Oeste.66 De abril a julho, Adolfo Lutz e Astrogildo Machado percorreram o vale do São Francisco, de Pirapora (MG) a Juazeiro, em Pernambuco.67 No relatório de viagem dessa expedição apareceu uma região atrasada, numa combinação da raça e do meio na formação de uma gente incapaz. Estes cientistas apenas validaram as teorias sobre os sertões presentes na obra de Euclides da Cunha. A segunda expedição, a comandada por José Gomes de Faria e João Pedro de Albuquerque percorreu os Estados do Ceará e Piauí, em 1912. Dessa expedição não encontraram nenhum diário ou relatório, apenas as fotografias de viagem. Por fim, a
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SEVCENKO, Nicolau. Literatura como Missão: tensões sociais e criação cultural na Primeira República. 2 ed; São Paulo: Cia das Letras, 2003. p.96-137. 64 SOUZA, Vanderlei Sebastião de. Arthur Neiva e a „questão nacional‟ nos anos 1910 e1920. Op. cit. p.250 65 SÁ, Dominichi Miranda de. O Brasil” modelado” na obra de Belisário Penna. Op. cit. p.15. 66 LIMA, Nísia Trindade. Um Sertão Chamado Brasil. Op. cit. p.84. 67 Idem, ibidem

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terceira expedição, a comandada por Arthur Neiva e Belisário Penna reuniu um amplo registro fotográfico e apresentou um relatório de viagem que, ao ser divulgado a partir de 1916, tornou-se um marco da origem do movimento pelo saneamento dos sertões na Primeira República.68 Foram estes últimos que imprimiram uma imagem dos sertões que se transformou num quadro de referência importante para se pensar o Brasil. Os sertões da doença, do abandono e da ausência de sentimento de identidade nacional. Todavia um país viável, apesar de miscigenado, porque seria redimido pela ação da ciência. Durante a expedição científica de Neiva e Penna, eles ressaltaram que foi difícil olhar para os sertões brasileiros sem fazer referências às imagens subjetivas que elaboraram a partir das leituras prévias e acabaram se decepcionando com o que de fato encontraram. Porém, tal argumento pode ser apenas fruto de um exercício retórico uma vez que eles conheciam Os sertões de Euclides da Cunha. Flora Süssenkind sublinhou que Euclides da Cunha já havia registrado o desapontamento que teve diante do Amazonas quando o viu pela primeira vez.
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Havia uma distância entre o Amazonas sonhado e o

encontrado. Mas Euclides adotou logo uma atitude analítica fazendo um cruzamento da velha “imagem subjetiva”, construída através das leituras prévias, com o novo olhar sobre a paisagem.70 Esta operação intelectual também foi adotada por Neiva e Penna. O mesmo procedimento de confrontação do que leram com a realidade dos sertões está presente em todo o relatório. Ao percorrer o norte do Brasil, os médicos assinalaram as dificuldades da viagem empreendida pela expedição e ao mesmo tempo, o desconforto frente ao abandono em que viviam as populações locais, suas condições “primitivas” de existência: sem escolas, sem estradas, sem polícia, sem cuidados médicos, nem higiênicos. A população sabia da existência do governo apenas pela cobrança de impostos de bezerros, bois, cavalos e burros.71 Eles alertaram sobre o retrocesso de muitas cidades, além da rotina e da ignorância generalizadas, e concluíram que o “povo é indolente, como aliás em todo o Brasil”.72 Porém, retomaram sua tese da doença e do abandono para explicar aquela situação. Afirmaram ainda que existiria ali uma “raça resistente, aproveitável, vigorosa e
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Idem, ibidem. SUSSENKIND, Flora. O Brasil não é Longe Daqui. O narrador, a viagem. São Paulo: Cia das Letras, 1990. p.32 70 Idem, p.33 71 NEIVA, Arthur e PENNA, Belisário. . Op. cit. p.199. 72 Idem, p.198

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) Em uma excursão que fizemos nas cercanias da vila. seus encantos. a saúde dos sertanejos e a generosidade da natureza. a partir da vila de São José do Duro.200 Idem. Rio de Janeiro. pela expedição científica. ao contrário: os “que conhecemos. Ver: NEIVA. uma raça forte e destemida. 13. vol.digna de melhor sorte”. Este poema denunciaria o quadro infernal. a leste do Estado de Goiás. Arthur e PENNA. este seria um poema trágico.. que só poderia ser perfeito se descrito pelo Dante imortal. habitação. 75 Neiva e Penna associaram os sertões a obra clássica de Dante Alighieri “A Divina Comédia”. p. Contudo. op. descansamos meia hora em casa dum sitiante 73 74 Idem. Há algumas casas bem regulares. alimentação e higiene com as condições de saúde e de “atraso” dos sertanejos: Duro é uma vila goiana. destruiria toda a poesia do viver no campo.207. a fartura do solo.37. p. Enfim. se fossem escrever um poema para descrever os sertões brasileiros.77 A vila surgiu como redução jesuítica em meados do século XVIII e teve suas minas exploradas um século depois. de força e de resistência”. 30 . os médicos inovaram ao direcionar o olhar para as relações entre trabalho e iniciativa individual. na divisa com a Bahia: “uma pequena vila com 60 casas e 400 moradores”.)”. 75 Eles afirmaram que nos sertões não se encontrariam as terras férteis. nem seus campos seriam cobertos de rebanhos de gado sadio.. por exemplo. purgatório e chegando ao céu. Contaria as misérias e as desgraças dos seus habitantes. cit. p. Belisário. 78 A INFORMAÇÃO GOYANA. p. n. situada na meia encosta da serra do mesmo nome. quer os do extremo norte. Ano XII.78 A preocupação dos médicos em contabilizar as habitações e quantificar seus habitantes constituía uma prática presente nos relatos dos viajantes estrangeiros e administradores nacionais que visitaram o interior do Brasil. (. como nol‟o pintam os padres.74 Os médicos afirmaram que. Foi agradável nossa impressão. quer os centrais quer os do norte de Minas são pedaços do purgatório. 73 Esta frase poderia ter sido dita por Euclides da Cunha ou retirada de “Os Sertões”. para os médicos. dezembro de 1929. seria “um símbolo de destreza.76 A partir dessas palavras dramáticas entremos nos sertões goianos. com cerca de 60 casas e uma população de 400 almas mais ou menos. as inesgotáveis fontes de pedras preciosas. p. onde se purgam os pecados em vida (. Uma trilogia onde o autor imagina uma viagem além-túmulo passando pelo inferno. As da praça e das três ruas que ali desembocam.. O “vaqueiro das caatingas”. de agilidade. 76 Idem. desde o século XVIII. ibidem. Eles foram encontrados. são todas caiadas e de bom aspecto. os sertões não seriam o paraíso. as matas infindáveis.221-222..222 77 Idem.5.

Esse sitiante tem 10 filhos. seu acabamento. a maioria é construída por casas de adobe não rebocadas (. Como concluiu Wissenbach. mixedematosos. no interior do Brasil 79 80 NEIVA Arthur e PENNA.207 81 Idem. naquele sítio específico. 81 Nas considerações de Neiva e Penna “quase todos os domicílios ofereciam todas as condições para permitir a reprodução das triatomas. se as casas eram rebocadas e caiadas. o que é raríssimo nessas alturas.80 Os nossos observadores registraram a prática econômica e de vida de uma família rural. engenho. “cretinos. Idem. plantação de legumes. localizada próximo a uma vila. Segundo os médicos. mas é abundante entre os habitantes pobres e entre os roceiros”. Eles justificaram tal presença pelo fato da casa do sitiante ser apenas barreada. sem qualquer outra manifestação da moléstia de Chagas. alambique. bem como os meios de transportes de cargas. p. 31 . mas portadores todos eles do papo. (. Concluíram que em outras habitações próximas da vila foram encontradas diversas modalidades graves da doença de Chagas. Também foram consideradas precárias as residências dos sertanejos. como os “carros de boi” e os barcos encontrados ao longo da viagem foram consideradas muito rudimentares.. Op.100-101.208 82 Idem.)”. propícia à existência do barbeiro. a presença do „papo‟ em todos os seus membros. cit. e frutas. Já a preocupação com os materiais utilizados na construção das casas e.. Belisário.207-208. que habitavam casas rebocadas e caiadas as quais não se prestam ao hábito do barbeiro. p. Os médicos constataram.) 79 Nota-se a prática dos médicos de observar se a construção da vila seguia um mínimo de planejamento urbanístico. tal doença não estaria presente “nas camadas mais abastadas. além de chamarem a atenção para o espírito de “trabalho e iniciativa” do sitiante dentro de um modelo de trabalho familiar que garantia boa produção. pois acreditavam na relação entre planejamento urbanístico. todos robustos. fazia parte do olhar médico que naquele momento associava bócio a barbeiro e doença de Chagas. bastante fartura enfim e sinal de trabalho e de iniciativa..82 As cafuas foram consideradas mais apropriadas para a moradia do barbeiro do que dos homens. roças. p. de modo geral. Entretanto. Boa lavoura de cana. Eles observaram ainda se as ruas eram mais ou menos retas. do engenho de açúcar e de aguardente. inteligentes. principalmente. p. tais como. afásicos e paralíticos”. ordem social e saúde. as instalações para a fabricação da farinha de mandioca..relativamente abastado. Eles mostraram práticas sociais de produção e consumo.

São Paulo: Cia das Letras. p. as pessoas. cobertas de sapé ou de qualquer outra palha existente na região”. História da Vida Privada no Brasil.nem nas cidades com domicílios em boas condições. Existia produção e comércio mesmo nas áreas consideradas decadentes porque as populações necessitavam de produtos que vinham de fora. a virilidade e a saúde de milhares de infelizes”. De acordo com Nísia Trindade. mais próximo à natureza. Por mais que eles tenham reclamado da indolência associada à presença da doença nos sertanejos. Nicolau (org). vivendo ao “Deus dará”. 83 WISSENBAH. Isto naturalmente traria um impacto sobre a saúde desse homem que deixara a vida selvagem mas não poderia ser considerado um civilizado. elas estariam largamente presentes na população que não era mais primitiva e não era ainda civilizada. Um Sertão Chamado Brasil. A doença de Chagas. 1998. os produtos e as idéias circulavam. cit. Entretanto. verduras. ou de adobe. Porém. p. 32 . visível pela presença do bócio. cereais e aguardente. das dificuldades de transportes e comunicações. O parasitismo animal e social. Da escravidão à liberdade: dimensões de uma privacidade possível. Defendia-se a necessidade de avançar com a civilização para retirar o “caboclo” daquela condição intermediária. como por exemplo. o segundo. através de um trabalho familiar. que identificam com freqüência ao caboclo. agos/1918.83 Este tipo de moradia foi vista como sinal de nomadismo.predominavam condições de vida e visões de mundo relativamente similares: “a começar pelas moradias.126-133. Maria Cristina Cortez. de precariedade da vida sertaneja e da presença do barbeiro. garantiam o seu abastecimento vendendo o excedente da produção: frutas. Gazeta Clínica. Op. o sertanejo encontrado pelos médicos não era “um forte”. no geral choças construídas de pau a pique. além de artefatos culturais e comportamentos sociais que indicariam imprevidência. teria uma vida mais saudável e harmoniosa. estava localizada numa civilização intermediária. “sitiantes” ou camponeses residindo próximo aos núcleos urbanos. existia uma forte idéia que identificava a existência dessa fase intermediária entre o selvagem e o civilizado: O primeiro. de barro a sopapo. mas um doente e abandonado pelos governos. Entre os índios que viviam em aldeias não se encontravam esses males – acreditava-se que eles possuiriam defesas naturais contra o papo . Ele estava preso na primitiva luta pela vida. Estas características de organização social e produtiva das famílias camponesas foram encontradas pelos médicos no norte de Goiás. Nísia Trindade. esquecidos pelos poderes públicos. revela uma relação puramente predatória com a natureza. República: da Bele Époque à Era do Rádio. os pequenos lavradores.64 84 LIMA. o sal. nas margens da “civilização”.134 85 PENNA.84 A doença de Chagas sacrificava “a inteligência. In: SEVCENKO. p.85 Enfim. Belisário.

no imaginário popular. os homens locais refletiriam as características do seu ambiente. com as populações atacadas pela doença de Chagas em todas as suas modalidades mais graves. cit. moradas de almas penadas.93 Casas e casarões abandonados pelos homens tornaram-se. estava em ruínas. cit. Carmo. sobre uma natureza em ruína”. além de vários contos de autores da geração de 1870. Literatura como missão. Ver: SILVA. do tempo como instância destruidora. Goiânia:UCG. Conceição. os únicos que nos puderam fornecer algumas informações”. Temis Gomes. Arthur e PENNA. Este norte de Goiás passou em 1988 a constituir-se o Estado do Tocantins. mais ainda.86 O arraial de Almas. 92 SÁ. p. Op. Naquele arraial habitado por cem pessoas. fundado durante o ciclo da mineração goiana. 93 RAMOS. 1950.92 O jovem literato goiano Hugo de Carvalho Ramos afirmou que era comum no interior considerar a “tapera” lugar mal-assombrado. In: Obras Completas. Dominichi Miranda de.41. havia “apenas dois indivíduos aparentemente sadios. 90 Idem. Príncipe.89 Para Euclides. devem ser investigadas as possibilidades de contaminação química e carências nutricionais. na calada dos ermos. a autoria desse tema. p. embora papudos. Op. começou com Euclides da Cunha “muito antes que Monteiro Lobato o transpusesse em livro”.16 33 .233. Luciana. 87 NEIVA. cit.91 Na concepção de Neiva e Penna. Op. todas as sombras de um povo que morreu. p. Belisário.90 Murari ressaltou que a literatura brasileira da geração de 1870 viu a tapera como um dos aspectos constitutivos e privilegiados da paisagem sertaneja. Natividade.173. Goiânia: UCG.209. p. Nicolau. Sobre essa questão a autora analisou Cidades Mortas de Monteiro Lobato e Canaã de Graça Aranha. p. Os médicos concluíram que “sua pequena e miserável população” estava atacada pela moléstia de Chagas. ibidem. Arraias e Pilar encontravam-se no norte de Goiás. Maria da Conceição. além de uma profunda decadência econômica. 87 Existia naquela antiga área de mineração um verdadeiro purgatório de deformidades físicas e mentais. Para Sevcenko. normalmente atribuído a Monteiro Lobato. os médicos passaram pelo arraial de Almas e pelo município de Natividade. 91 MURARI. Op. Fundamentos Históricos do Estado do Tocantins. Para os 86 Cidades e arraiais como Almas. 2009. 2007. 89 SEVCENKO. ao revés do progresso”. era como se sobre aquele passado “vagassem. “O interior goiano”[1918].88 O tema “cidades mortas” ou em ruínas surgiu para expressar os vestígios grandiosos do passado. Hugo de Carvalho. 88 Maria da Conceição Silva afirma que as razões da presença expressiva de retardo físico ou mental na Cidade de Goiás entre 1860-1920 não podem ser atribuídos apenas aos casamentos endogâmicos. São Paulo: Panorama. denominativo atribuído inicialmente a uma região das Minas dos Goyazes que localizavam numa seqüência dos descobrimentos auríferos ocorridos durante toda a primeira metade do século XVIII. errantes. cit. O Brasil “modelado” na obra de Belisário Penna. como “materialização da decadência e. na verdade.Saindo da vila de Duro em direção a Porto Nacional.. Catolicismo e casamento civil em Goiás 1860-1920. A respeito da mineração em Goiás ver: PARENTE.

95 PALACIN. em meados do século XIX. São Paulo: Loyola. a começar por suas torres. Foi possível encontrar nos relatórios dos governos da província publicados nas Memórias Goianas. Serviu de local de residência do ouvidor da comarca de 1809 até 1815”.. vinte e quatro léguas. Luis. Foi povoada no ano de 1739. Otávio Barros da. vilas e cidades como Almas. os presidentes da província. arraiais. Era como se os homens assim como a natureza tivessem “vocação” para regredir. e teve no seu distrito acima de quarenta mil escravos (. Carmo e outras 94 De acordo com Cunha Matos na Chorografia História da Província de Goyás. p. elas seriam sinal de decadência do ambiente e dos próprios homens. Arraial de Bom Jesus do Pontal.67. Op. Nem mesmos os prédios religiosos foram salvos das ruínas. quatro igrejas (. extremamente negativa.95 De uma população radicada nos espaços urbanos. no século seguinte. p. largas praças. O dominicano francês José Maria Audrin chegou ao norte de Goiás no início da República e afirmou que era muito comum ouvir os miseráveis habitantes das “taperas” de Pilar. 2003. Arraias. Goiânia: UCG. em meados do XIX.. concluiu Palacin. Natividade possuía “boas casas. Crixás.). ocorreu uma inversão da imagem positiva sobre a natureza presente na literatura romântica para outra. Relatórios dos Governos do Estado de Goiás. 96 Devido à relação entre Igreja e Estado no Império.). vão caindo aos pedaços”.45 96 MEMORIAS GOYANAS. apenas noticiavam a precariedade dos templos e reconheciam a necessidade urgente de reformas. Apud SILVA. o capim crescendo nas ruas.médicos. Pilar. durante o ciclo da mineração. passa-se a sua dispersão pelos campos. 1990. Ver especialmente as edições entre 1840-1870. cit.. Nesse sentido. Passado o ciclo da mineração goiano no século XVIII. Natividade distava do registro de Duro.. caberia ao Estado o pagamento dos padres.O Coronelismo no extremo norte de Goiás: o padre João e as três revoluções de Boa Vista. a maior parte das casas abandonadas por seus habitantes se desmancham e até igrejas. Monte do Carmo e Natividade perderam sua pujança econômica. belas ruas. Porém.94 O historiador Palacin encontrou as marcas do retrocesso e da “ruralização” da vida no norte goiano nas ruínas da arquitetura dos prédios daquele antigo centro minerador. 34 . A presença das ruínas no antigo norte de Goiás também foi registrada pelos memorialistas que percorreram a região no século XX. aquelas antigas povoações pareciam fantasma do que foram no passado: “carcaças antigas de povoações mineiras outrora cheias de vida. Afirmou que. várias informações sobre o abandono das igrejas matrizes da província. Amaro Leite. Conceição. a manutenção dos prédios religiosos e a compra de alfaias.

p.16. “a mata virgem reconquistou seus domínios.) Vê-se ainda espalhado em todo o seu município. palacetes. 97 Naquelas cidades e vilas foram construídas igrejas servidas por numerosos padres onde ainda era possível encontrar peças sacras. Ano II.101 Assim. 1947. Para Audrin. os esforços das gerações passadas sucumbiam frente à força da natureza tropical.fev/1928. 101 A INFORMAÇÃO GOYANA. p.[atual Paranã] que a cem anos possuía 255 casas. n. Viagem ao Tocantins. (. p. Ano XV. edifícios abandonados que. as “taperas”. afogados na mata”. ainda não foi concluída. vol 11. A vida parou. todos de pedra. a presença da tapera denunciava o fim do fausto. “Tapera. n. Entre sertanejos e índios do norte.164. militar enviado para demarcar os campos de pouso em Goiás na década de 1930. p. jul/1918. Veja o que ele diz: “A cidade de Palma.12. etc.33 102 PATERNOSTRO.. desafiando as intempéries do tempo”.”102 97 98 AUDRIN. tudo importado diretamente de Lisboa. 100 A INFORMAÇÃO GOYANA. 99 A INFORMAÇÃO GOYANA. nov/dez/1931. passou pela região em 1935 e deixou registradas suas impressões sobre uma cidade em ruínas. Editora Nacional. do Ministério da Saúde num convênio com a divisão Internacional de saúde pública. grandes edifícios. os vestígios das construções antigas. Também o médico Júlio Paternostro. tudo anteriormente importado do além-mar. e onde se tem a sensação de se estar em escombros de uma cidade antiga.99 Passado o ciclo da mineração. porém.54-55. porque a sua decadência é um fato. Idem. 35 .98 Natividade e Pilar também foram caracterizados como decadentes pelo inspetor agrícola de Goiás. estando às igrejas. Inúmeros prédios subsistiram como testemunhas da opulência de um tempo distante. Ele idealizou um tempo de fausto e de grande produção no passado. como toscas relíquias.contarem aos viajantes o fausto de outrora. Segundo ele. São Paulo: Cia. “Aquelas vilas caíram de seu antigo esplendor e riquezas. com primorosas ferragens de ferro batido. ao passar por Pilar e Matança deixou-nos um impressionado relato da decadência daquelas duas antigas povoações.7. eram uma coisa triste de se ver. de portas de carvalho lavrado.100 Lysias Rodrigues. Júlio. associado ao auge da mineração e radicalizou a realidade encontrada. Rio de Janeiro: Agir. funcionário do serviço de febre amarela.51. em cujas redondezas se encontram grande número de vestígios de propriedades abandonadas”. jazem adormecidos. 1945. p.251. p. José Maria. vol. vol 1..4/5.55. Ano XI. da fundação Rockfeller. atualmente é um arraial de 120 habitações velhas ou em ruínas. Uma igreja que estava sendo construída há setenta anos.. n.

105 De modo geral. a História. Noé Freire. aqueles historiadores endossaram de forma acrítica um discurso identitário fundado nas imagens da crise do ouro.108 Porém. 105 Idem. 6. In: SANDES.104 Enfim. dez/2000. ibidem. “pouca atenção foi dada às atividades que se desenvolveram paralelamente ao mundo do ouro e que permaneceram na obscuridade”. Goiás.21-22. a historiografia goiana. N. Nars Chaul. 1976. Brasília: UFG.107 Tal concepção de decadência e isolamento construiu uma “zona de sombreamento” em Goiás nos séculos XVIII e XIX. 2002. p. Assim. memória e história estariam situadas em campos específicos e seria papel da História dessacralizar a memória.19.103 Enquanto a memória “situa-se nos campo dos afetos e dos sentimentos”. capaz de encontrar a 103 SALGADO. Sérgio Paulo Moreyra. 108 Idem. Usos da História: refletindo sobre identidade e sentido. Paulo Bertran. influenciados por Luís Palacin. restando apenas as “„ilhas de história‟: a cidade de Goiás abrigando a administração e a formação de inúmeros arraiais que cresceram e pereceram à sombra do reluzente metal”. ao contrário. apontaram novos caminhos para a interpretação desse passado. 36 . 104 Idem. 107 SANDES. fazendo a crítica à memória da decadência. a perspectiva revisionista da historiografia goiana nas últimas décadas do século XX valorizou outra leitura da região. 106 PALACIN.106 Utilizando como fontes os viajantes europeus que percorreram a região nos séculos XIX e relatórios de presidente de província. UFPel. p. restituindo a historicidade aos sujeitos e aos acontecimentos. predominam nos trabalhos de alguns historiadores goianos. uma ênfase nos aspectos da decadência de Goiás após o ciclo da mineração. Memória e Região. 1722-1822. Luís. Goiânia: Oriente.Como compreender as narrativas dos memorialistas. Vol. Segundo Sandes (2002).(Org). Memória e História de Goiás. ibidem. Manuel. dos médico/cientistas e dos próprios historiadores que em pleno século XX insistiam em descrever estradas abandonadas e cidades em ruínas? Manuel Salgado chamou a atenção para as intrincadas relações entre memória e História. entre outros. um exercício crítico capaz de investigar as construções da memória. ibidem. retirando dos altares e trazendo para o mundo dos homens aqueles objetos sacralizados”. como as engenhocas e os inúmeros produtos oriundos das fazendas. a partir das décadas de 1980. In: História em Revista. começou a relativizar o marco identitário do ciclo do ouro e no mesmo movimento romper com as imagens da decadência e isolamento. “pretende-se uma operação intelectual.

p. Ele possibilitou a fixação de novos moradores nas suas margens e dinamizou a economia das suas vilas e cidades.115 109 110 Idem. mas principalmente. que a destruição operada pelo tempo havia atingido cruelmente as pessoas.54 112 Idem. Nesse sentido.79 113 MURARI. 2009. Depois de prolongada tramitação foi aprovado sob a forma do substitutivo Miguel Couto Filho. assim como. p. com o então deputado Café Filho.109 Entretanto. cortando todo o norte de Goiás. Op. a precariedade do comércio. 115 A legislação para combater a endemia do bócio iniciou-se em 1948. evidentemente.114 Assim. visando tornar obrigatória a iodetação do sal de cozinha.lógica de uma sociedade distante do processo de acumulação de capital e que conduziu à percepção de processos históricos diferenciados. 37 . Luciana. Ver: FLORES.111 Todavia.28 O rio Tocantins é considerado de integração do centro-sul ao centro-norte do país. Kátia Maia. Caminhos que andam: o rio Tocantins e a navegação fluvial nos sertões do Brasil. sofrendo os efeitos destrutivos do tempo. p. a “navegação pelo rio Tocantins deu vida e movimento às novas cidades e povoados ribeirinhos. de quem os médicos conseguiram arrancar informações mínimas sobre o caminho a seguir. ela continua presa à concepção de decadência defendida por Palacin. não é de se estranhar que em meio a tanta “decadência” aparecessem apenas dois homens “aparentemente sadios” apesar de papudos.110 Em 1782 foi revogada a proibição da navegação e os rios foram reincorporados ao uso social através de uma navegação rudimentar feita à força bruta. Goiânia: UCG. Para eles. a falta de conservação dos prédios.112 Kátia Flores acabou justificando a “decadência” da antiga área da mineração.235 114 Idem. ainda é possível encontrar parte desta “memória da decadência” em historiadores contemporâneos. passa pelo Maranhão e deságua no Pará. 111 Idem. Neiva e Penna ficaram chocados com a gravidade da decadência. cit. pois nasce no Planalto Central de Goiás. condenou ao abandono antigas povoações ligadas à mineração”. apesar desse esforço. p. Este apresentou ao Legislativo Federal. O século XIX representou a fase áurea da navegação pelo Tocantins e do comércio com o Pará. Kátia Flores (2009) investigou a navegação pelo rio Tocantins após a crise da mineração e afirmou que ela foi de fundamental importância para a recuperação econômica do norte de Goiás. o aspecto físico dos homens era muito preocupante. Projeto de Lei. 113 Naquele antigo local de esplendor e riquezas nada era passível de admiração porque tudo ali estava em degradação. ibidem. Pareceu-lhes que todos os moradores teriam sucumbidos atacados pela doença de Chagas nas suas modalidades crônicas a denunciar. exemplarmente.

Op. 117 Idem. como se pode confirmar pela seguinte citação: “apesar de ser um fato. como era denominado o governador dos estados da federação. 116 SÁ. tentaram em vários lugares do Estado após estudos prévios. cit. Op. elas não existiriam mais. Belisário. que jazem esquecidos ou abandonados por falta de capitães e de braços”. os médicos. de 14 de agosto de 1953. O Brasil „ modelado‟ na obra de Belisário Penna. ao optarem pelo relato “científico” de pretensa neutralidade e transparência em relação à “verdade”. querer mostrar que não devem nutrir esperança a este respeito e. uma natureza em ruína e decadência (porque supostamente existiu o fausto de outrora) não possibilitava o surgimento de homens saudáveis e trabalhadores. A concessão de licenças foi assim justificada. em várias partes do relatório eles contestaram a existência das riquezas naturais e concluíram que naquele “purgatório”. cit. comprovadamente. então. instalar empresas que morreram devido á escassez do ouro. de nada serve. 119 Enfim. p. que o Estado possui ricas minas de ouro e de outros metais preciosos. Eles informaram que o governo de Goiás havia concedido licença a diversos técnicos para explorar a existência de ouro e metais preciosos. Em 1901. Op.120 Os administradores goianos também criticavam a ineficiência da agricultura praticada na região. ibidem. 1906. Miguel da Rocha.176 120 Idem.1.42. na Primeira República. 116 De acordo com Dominichi de Sá. pois os métodos empregados eram extremamente primitivos. A agricultura praticada na região foi considerada pelos médicos como muito atrasada. a citação de que vários técnicos estrangeiros. “acabaram por entrever a transmutação da natureza e de seu desenho em ruínas e desmoronamento”. o “presidente” de Goiás. p.117 Assim. cobrou maior empenho do Legislativo nessa questão. Memórias Goianas. hoje visivelmente esgotada.17 e 37 119 NEIVA. ibidem 118 LIMA. devido ao sucesso da extração aurífera aluvial. Dominichi Miranda. cit. que tornou obrigatória a iodetação do sal em áreas bocígenas do país.2 Os sertões em chamas Neiva e Penna contestaram uma dada concepção de natureza em nome do esforço para compreender “cientificamente” as suas manifestações mais gerais. de todos conhecido. 38 . vejamos o que transformando-se na Lei de 1944. mesmo recentemente. Mensagem ao legislativo de Goyas. 118 Em Goiás. é inútil a qualquer.3. Arthur e Penna. p.

Belisário.127 Fogo que provocava a miséria.124 Após lançado. a vida animal existe escassamente representada devido à ação do fogo”. p. alertaram que ela “diminuiu paulatinamente. Artur e PENNA. a agricultura não adianta um passo. p. Euclides da. 77 39 . Os médicos tentaram provar o efeito devastador. Os mesmos sistemas antiquados. cit.. “são centenas de quilômetros por zonas parcamente habitadas. seguidor das idéias do escritor Euclides da Cunha. Op. p. In: Memórias Goianas. porém incessantemente”. alastrando-se pelos Gerais dos tabuleiros e chapadões a afugentar a fauna alada daqueles campos (.143. onde. segundo os médicos.)”. Belisário. na recusa à criação de animais. cit. 124 NEIVA. 2006. todo o horizonte goiano é um vasto mar de chamas: fogo das queimadas que ardem.89. Euclides da.126 Hugo de Carvalho Ramos.na precariedade da sua moradia. 123 CUNHA.. num meio natural extremamente rude e relacionava-se de forma predatória com o meio. ibidem.123 Ela atingia proporções alarmantes em Goiás. registrou que “Pelos dias de agosto. 126 CUNHA. 128 As queimadas. cit. de 13 de maio de 1901. Op. na obra clássica da literatura goiana Tropas e Boiadas.ele também perpetuava a prática das queimadas. avançando pela mata.. p. Op. Além de adotar o nomadismo como modo de vida . levando sua obra de destruição. de 1917. Ele era a imagem da “insensatez do matuto que destruía e preparava a ruína das futuras gerações”. Mas. Hugo de Carvalho. estúpido. p. diminuíam as águas e empobrecia a alimentação dos sertanejos. Tropas e Boiadas.125 Euclides da Cunha já havia afirmado ser o homem um agente fazedor de desertos. p.77 125 Idem.123 129 NEIVA. Mensagem ao Legislativo.89. 121 O homem dos sertões vivia de forma precária. do desaparecimento dos buritizais goianos: 121 FRANAÇA. do “secamento” dos brejos.129 Os próprios moradores. 9 ed. Luciana. 128 Idem. na exigüidade de suas posses122 . o fogo só era interrompido por um curso de água ou buritizal. 127 RAMOS. cit. Op. Op. Esta foi denunciada por Euclides da Cunha como “desastroso legado indígena”. Valdomiro Coelho. criminoso e imprevidente das ações dos sertanejos: “é proverbial a abundancia dos cursos d‟ água deste Estado”. Cit.ele diz: “Assim como a indústria. no entanto. p. a mesma devastação das matas”. além de provocar destruição brutal da flora e da fauna enfraqueciam as terras. Goiânia: ICBC. cit.26 122 MURARI. Arthur e PENNA. deram testemunhos da diminuição das águas dos rios. Op.

. 132 Idem. uma vez que as terras de Goiás foram consideradas fracas para a expansão da pecuária. em 34 dias.). para torná-la produtiva. o meio natural seria subjugado pelo esforço humano.131 O sertanejo “vive ao Deus dará. Tudo isso se voltava contra o próprio homem.440). porque esse era o meio para que a natureza e os homens fossem “civilizados”. Desde Petrolina até Porto Nacional.911) e Natividade (115. Boa Vista era o município nortense com o maior rebanho bovino (159. na sua ignorância e pobreza. como as queimadas.164 133 O Censo de 1920. resultava numa agricultura ineficiente e numa vida miserável. a escassez d‟água é verdadeiramente notável. no Descoberto. esta atividade cada vez mais se expandia. a zona é tão seca que há necessidade de se abrirem grandes e profundas cacimbas à procura d‟água. 40 . 1. de preferência mão-de-obra imigrante. cozido simplesmente n‟água e acompanhado de arroz. com a utilização de novas técnicas e instrumentos agrícolas. percorreram 300 léguas ou 1. Nas imagens elaboradas pelos médicos os moradores dos sertões. quando há. farinha e alguns cocos quando é tempo”. após percorrerem 66 léguas em lombo de burros. A perspectiva de Neiva e Penna foi a de romper com as imagens idealizadas da natureza e das condições de vida dos homens que viveriam na sua dependência e direcioná-la com o auxílio da ciência. Idem. Porto Nacional impressionou os 130 131 Idem. assinalaram os médicos. como as florestas. Pedro A fonso (139.Em muitos povoados goianos. aparecem como imprevidentes. A alimentação da maioria da população foi considerada pobre e má. p.508 cabeças). uma ameaça para a nação brasileira. p.. procurando mel e comendo o que caça sem sal. 133 Porém. 130 A luta do homem contra a natureza através do uso de práticas tão predatórias. Assim. em Almas a exploração do ouro não pode ir adiante por falta deste elemento.3 Porto Nacional: um oásis de “civilização” nos sertões? Partindo da Vila de São José do Duro e passando pela antiga área da mineração. ibidem.800 km. Conhecida como a capital cultural do norte de Goiás. os médicos chegaram a Porto Nacional.132 Porém. além de não serem produtivos os homens ainda contribuíam assustadoramente para a destruição dos poucos recursos naturais que existiam. do presente e do futuro. tal como fazem nas zonas consideradas secas (.3. o cerrado e as águas. registrava o rebanho do norte goiano com quase 1 milhão de cabeças de gado.164.

011 habitantes”. o seu comércio com o Pará e a Bahia. Paternostro afirmou que Porto Nacional foi o terceiro nome recebido pela mesma aglomeração que surgiu com o nome de Arraial de Porto Real. A INFORMAÇÃO GOYANA. comentou os dados do censo de 1900 ressaltando exatamente o vazio demográfico e econômico do Centro-Oeste: “Imagine-se que deserto não devem ser aqueles 700 mil e tantos quilômetros quadrados – de Goiás – povoados por 250. 141 De acordo com o censo o Estado de Goiás possuía uma receita anual de mil contos e o norte do estado contribuía apenas com pouco mais de quarenta contos. reagiu através do periódico local Norte de Goyás quando foi chamada de sertão por uma revista do Rio de Janeiro. 12.223. Todo o norte é despovoado”. Luís. São Paulo: Cia Editora Nacional.238-282 137 Idem. Maria de Fátima. Goiânia: UFG.) desde o tempo da monarquia. Ano IV. p. Uma cidade situada à margem direita do Tocantins. O Coronelismo no Extremo Norte de Goiás: o Padre João e as três revoluções de Boa Vista. o município de Porto Nacional era um dos mais prósperos daquela área. p. p.000 habitantes. Um Porto no Sertão: cultura e cotidiano em Porto Nacional 1880-1910. Arthur Neiva e Belisário Penna ressaltaram as características de Porto Nacional. p. Um Porto no Sertão. In: GIRALDIN. além da presença dos dominicanos. Luís.141 Porém o jornal local reagiu questionando a forma como eram feitos tanto o censo quanto a arrecadação fiscal. O coronelismo no extremo norte de Goiás. p. 2002. cit. moradores do município de Porto Nacional. destacou sua posição geográfica estratégica à beira do rio Tocantins. cit. a elite “portense”. op. Tal prosperidade se explicava “graças ao intercâmbio comercial que manteve ininterruptamente com os mercados paraenses (. no então chamado Porto Imperial”. Maria de Fátima.140 Todo o norte apareceu no censo com reduzidíssima população e baixa arrecadação fiscal. uma arrecadação de fato diminuta.. em 1908.139 No município de “Porto Nacional encontrava-se 5. Viagem ao Tocantins. Ver PALACIN. 139 Apud PALACIN. Jul/1920.000 134 135 PATERNOSTRO. depois foi elevada à condição de cidade pela lei provincial de 1861. a cidade foi denominada de Porto Nacional. São Paulo: Loyola. Com o advento da República.274 138 Idem. 136 Entre elas. A (Trans) formação Histórica do Tocantins. argumenta Palacin. p.médicos.. 134 durante o império passou a vila de Porto Real em 1831. 1945.Op.12 140 OLIVEIRA. A revista carioca Leitura Para Todos. p. que tinha sua cidade como oásis de “civilização”. Odair (org). n. com uma população de cerca de 2. p.137 Localizado na região norte de Goiás. 135 A historiadora Maria de Fátima Oliveira considerou alguns elementos específicos para explicar a proeminência econômica e cultural alcançada pela cidade.237-239.138 No início do século XX. 1990. vol. pelo decreto de 7 de março de 1890.138-139. 3. 136 OLIVEIRA.12 41 .138.

transações eram feitas. usava-se o pilão. cit. Homens de estatura média. cit. suas casas baixas. ou abaixo da média. farinha e milho eram levados pelos produtores locais e vendidos diretamente aos habitantes da cidade ou aos comerciantes locais. couro e cereais.pessoas vivendo em 300 casas térreas. fumo. havendo algumas pintadas a cores. Ibidem 144 SOUZA FILHO. p.44-45. 142 143 NEIVA.. p. a maioria de dois lanços. alguns sobrados. Op. eles encontraram o belo e grande edifício da igreja. na “sua maioria são caiadas. 147 SOUZA FILHO. normalmente gastavam um mês até Belém do Pará e cinco meses para retornar até Porto Nacional).143 Uma construção monumental que chamou a atenção dos médicos.48. 148 Idem.144 Enfim. As ruas são retas e obedecem a alinhamento”.149 Para espanto dos médicos. Belisário.. p. edificado pelos padres dominicanos. feijão. movidos a remos e que. cit. muitas assoalhadas e forradas.) não é de saúde. Arthur e PENNA. 210 Idem. Op. Neiva e Penna ressaltaram as características negativas de Porto Nacional. de estilo neo-românico. pegadas umas às outras. 146 NEIVA. 150 Na constituição desse amplo quadro negativo foi incluído também os habitantes da cidade: “o tipo comum (.147 Na falta de máquina para beneficiar o arroz. Op. nem iluminação pública”. p. principalmente com Barreiras na Bahia – através das tropas – e com Belém do Pará – pelos batelões e iguarités (tipo de embarcações que trafegavam pelo rio Tocantins. com grandes quintais. nem esgoto. p. de frente para o rio. da organização espacial da cidade. da existência de um jornal local e dos dominicanos. ibidem. 142 Na praça principal da cidade. Na sede do município não havia serviços essenciais: “não há água canalizada. 149 NEIVA.45. onde se criavam porcos e galinhas. Op. Em geral de telha vã e pavimentadas de tijolos. Arthur e PENNA. Arthur e PENNA.145 A economia da cidade estava baseada no comércio de gado. a cidade de Porto Nacional tinha suas ruas traçadas em terreno plano.210. p. cit. Belisário.148 Apesar das intensas atividades comerciais realizadas pelo rio Tocantins. p.146 Na época da colheita os gêneros essenciais como o arroz. Op. na cidade havia vendedores de água em barris. Eduardo Henrique de. uma grande construção em estilo colonial. cit. Belisário. 145 Idem.166 42 .210 150 Idem. Atrás da igreja encontrava-se o convento dos dominicanos. Eduardo Henrique de. em estilo colonial.

212. O Dr.224-225. ao penetrar em Goiás. outra.212 PATERNOSTRO.153 Estes vales não eram utilizados no grande comércio. um deles já idoso. os médicos já haviam encontrado com os dominicanos: A 25 de Julho chegaram á vila (de Duro) dois frades Dominicanos em trabalho de missões. Seus moradores possuíam o melhor nível cultural da região devido a presença do colégio das freiras e dos frades dominicanos. o abastecimento de água na cidade ainda se fazia pela coleta em pequenos recipientes. a igreja estaria assumindo uma função exclusiva da União. Francisco Ayres quanto os dominicanos foram citados como autoridades que comprovaram a presença de portadores de bócio na região. uma no convento dos dominicanos. cit. já que na cidade existia apenas três cisternas. Tanto o Dr. Anteriormente. Francisco Ayres da Silva. no Estado da Bahia. Apesar disso. que são aceitos como moeda corrente”. 43 . Arthur e PENNA. A ciência via virtudes nos religiosos. Mas talvez devido à dificuldade de acesso do norte goiano à moeda nacional. 151 Ainda em 1935. aquele realizado com Belém do Pará e com Barreiras. Estes “emitem vales impressos em papel. O frade velho adquiriu 151 152 Idem. os tais “vales” dos dominicanos. Arthur. População indolente. mas residindo em Goiás. onde prevalecia a moeda nacional ou a permuta. p. p. por fim. 153 NEIVA. Francisco Ayres da Silva. uma última na casa do dr. Em Porto Nacional Neiva e Penna encontraram um médico formado. e os frades dominicanos franceses. ao passar pela cidade de Porto Nacional.152 Neiva e Penna notaram que o dinheiro que circulava em Porto Nacional e proximidades era emitido pelos frades dominicanos franceses ali residentes. o Dr. no comércio local. p. Paternostro registrou que as marcas da arquitetura portuguesa estavam presentes nas casas e nas ruas da cidade. cit. mais 25 e outro moço ainda. há cerca de 5 anos. O surpreendente foi o fato de Neiva e Penna não terem se espantado com essa irregularidade da Igreja nos sertões. Op.154 A igreja de Porto Nacional foi o que de melhor os médicos encontraram em todo o percurso sertanejo da viagem. no colégio das freiras e. Se isso de fato acontecia.171 154 Idem. Francisco era o diretor do jornal Norte de Goyas desde 1905 e já havia atuado na campanha de profilaxia da varíola no norte de Goiás. p. São ambos de origem francesa.franzinos e pálidos. Op. Ausência de plantações de legumes e verduras nos quintais e raras as árvores frutíferas”. talvez fossem utilizados. Júlio. Os dominicanos ali se estabeleceram em 1886.

enquanto o “velho” provavelmente era frei Domingos Carrerot. fizeram um enorme esforço para se adaptarem e conhecerem a região. os dominicanos representavam “um oásis de civilização no sertão”. à „civilização‟. Já percorreu todo o Estado de Goiás. Em Porto Nacional. 157 Idem.157 Felizmente. O moço é um homem culto e inteligente. Os dominicanos além de serem reconhecidos por possuírem uma boa formação acadêmica e religiosa.212.168.208 Idem. O jovem missionário era frei Reginaldo Tournier. p. a presença dos dominicanos na cidade. p. bem como as outras modalidades da moléstia. 158 Para os médicos. estes sim exercem o sacerdócio com toda a dignidade e. professor do Colégio em Porto Nacional e autor do mais completo mapa da região.155 O trecho citado faz referência ao encontro dos médicos de Manguinhos com os missionários dominicanos em São José de Duro (hoje Dianópolis)s. Deu-nos preciosas informações sobre o nosso itinerário do Duro em diante e sobre os costumes goianos. ao lado da soberba igreja de estilo romano. humanitária e civilizadora há de certamente se inscrever na historia da civilização brasileira. A presença de escola confessional católica significava a possibilidade de mudanças em direção ao „progresso‟. É ele o autor do melhor mapa do Estado de Goiás.os hábitos locais. (..) existem liceus dirigidos pelas freiras e onde se ensina artes e ofícios e a ler a grande número de crianças. Na cidade de Porto Nacional. entre os quais nunca se observou o bócio. p. 158 Idem. 169 44 . exceto nos índios.. afirmaram que ela “torna-se-á futuramente um centro de civilização em pleno coração do Brasil”.156 Ao contrário dos “portenses”. e diz que o papo é universal em todo o Estado. existem os frades dominicanos instalados no Porto Nacional. identificou-se com eles e diz que não troca a vida dos sertões pela civilização da Europa. para contraste consolador [com os redentoristas]. principalmente devido à presença dos dominicanos na cidade. única construção de valor encontrado em todo o trajeto. Elogios foram destinados a estes frades considerados “dignos de todo o respeito pela grande obra de benemerência que há mais de 20 anos vêm desempenhando no Brasil Central”. de forma a romper com o „atraso‟. para os médicos. Esse frade deu-nos uma carta de recomendação para os seus irmãos da congregação residentes em Porto Nacional. mas já se constituía numa promessa. os médicos viram com muita esperança. prelado de Conceição do Araguaia e futuro bispo de Porto Nacional. inclusive as regiões habitadas pelos índios. a sua ação inteligente. p. 155 156 Idem. Porto Nacional ainda não era um oásis.

dispensaram tempo. porque educados e „civilizados‟. Os médicos fizeram destes semelhantes mais do que simples informantes. suas ações “civilizatórias” constituíam uma promessa de oásis para a cidade e os sertões. (Orgs. Os dominicanos contavam na época com uma experiência de mais de vinte anos em Porto Nacional e já haviam palmilhado os sertões goianos em todas as suas direções. p. era filho de uma família tradicional de Porto Nacional. enfim. frente à dificuldade do Estado para se fazer presente nos sertões. os semelhantes nos sertões.3. Goiânia: UCG. de alguns frades e do médico local.„barbárie‟ e doença. Para os de “dentro” a cidade de Porto Nacional se constituía num oásis nos sertões. médico formado. Francisco Ayres da Silva e com os dominicanos provocou um impacto positivo nos viajantes. dos médicos que percorriam em expedição os sertões e as de “dentro”. Elio et al. “A única bandeira que conhecem é a do Divino”. mas testemunhos das péssimas condições de vida e saúde dos homens dos sertões. identificadas com os sertões. ela e os próprios homens acabaram compondo um amplo quadro de características negativas. E.160 Assim. o contato com o Dr. a Igreja ocupou o seu lugar e parte de suas funções. Diva do Couto Gontijo.83-98 160 Idem . proprietário do jornal local e amplo conhecedor das mazelas e das dificuldades existentes no norte de Goiás. Após percorrer longas distâncias. p.191 45 .) Escritas da História: intelectuais e poder. contudo. com estes semelhantes.4 Os sertões distantes Neiva e Penna ressaltaram o fato do sertanejo pobre nordestino e goiano não conhecer o dinheiro do país. In: SERPA. Sobre Experiências. 1. Vimos que existia um conflito entre as visões “de fora”. eles até ressaltaram características positivas da cidade. Quanto a Neiva e Penna. Cultura Escolar e Identidades. ou seja. E a Igreja lutava para reafirmar sua força e conquistar um novo lugar. esta jamais deveria assumir as funções de um estado laico e republicano que naquele momento tinha sérias dificuldades para se estabelecer nos distantes rincões do país. deslocar-se por entre locais e pessoas desconhecidas. Eles encontraram. Quanto ao Dr. Os médicos saudaram com entusiasmo as ações da Igreja.159 Ora. desconhecer os símbolos nacionais e identificar apenas os símbolos católicos. a ausência 159 MUNIZ. em longas horas de conversas. 2004. Os médicos consideraram que os dominicanos representavam “um oásis no sertão”. mas. os problemas existentes estariam nos sertões e não naquela cidade. Francisco.

Ele acabou transferindo a responsabilidade para os municípios mais ricos reservando para si apenas a sua fiscalização. o que estava em questão era uma dada concepção de nação que implicava o sentimento de integração.161 Para os médicos.163 Esta transferência de responsabilidade para os municípios não significou a melhora da instrução. apenas desonerou o Estado.97. É claro que aquela bandeira do Divino também não agradava aos frades dominicanos. Todavia. cit.21 GOUVEIA. Mensagem ao Legislativo do Estado de Goyas em 13 de maio de 1914. Nesse sentido. na percepção de Neiva e Penna. “levando a civilização” e a ordem. bem como na inexistência ou ineficácia das escolas públicas existentes. Assim. divulgando seus símbolos. a grande extensão territorial. da Silva. Memórias Goianas. Enfim. o que foi visto como um grave problema pelos médicos. Op. na dificuldade de transportes e comunicações.162 O argumento do Governo centrava-se na ineficiência das escolas mantidas pelo Estado. Mensagem ao Legislativo do Estado de Goyas. a educação escolar no norte de Goiás foi considerada extremamente precária. op. frente aos parcos recursos orçamentários e a rarefação demográfica. Memórias Goianas. Cit. op. O Brasil “modelado” na obra de Belisário Penna. Dominichi Miranda de. p. nos sertões era perceptível a inexistência da conscientização generalizada de pertença à unidade nacional. Esse “distante” seria também marcado pela diferença com relação ao centro. Com relação à instrução pública. a instrução teria papel fundamental na unificação do país. 46 . Contudo. as dificuldades de comunicação e escassez de população. Neiva e Penna presumiram uma alta taxa de analfabetos para a região: “não estará 161 162 SÁ. garantindo a coesão social. Olegário H. a Constituição de 1891 estabelecia o ensino primário como de responsabilidade das unidades da federação. a 13 de maio de 1911. os sertões seriam o espaço “distante” porque sem a presença efetiva do Estado. tudo isso causado pelo Estado que.de qualquer identificação do sertanejo com a pátria se expressava na falta de circulação da moeda nacional e dos símbolos nacionais. quando aparecia. 163 PINTO. o litoral. p. de pertencimento a algo maior do que a própria comunidade local. cit. o governo de Goiás alegava não ter instrumentos para fiscalizá-la e meios para sustentá-la. era apenas para cobrar os impostos. p. Distante devido à falta de uma representação cartográfica nos mapas publicados da época. Urbano Coelho de.62-63. Por outro lado. em pleno coração do Brasil estava presente a Igreja.

atrasado.171 166 Idem. Com relação ao oferecimento do serviço de saúde. a situação continuava a mesma: “Até a presente data não tem ainda no Estado um serviço de Hygiene organizado e cuja necessidade é palpável. 165 O quilo fora popularizado. afirmou que vinha tomando as medidas cabíveis. Urbano Coelho de.170 Em 1917. 168 Em 1914. Memórias Goianas. Belisário. Mensagem ao Legislativo do Estado de Goyas. o presidente de Goiás. p. em 1911. restringia-se à distribuição de vacinas para os municípios infectados. como “a limpeza pública das povoações. a 13 de maio de 1914. cit. por isso as informações concernentes à distância a percorrer. p. 170 Idem. cit. para as grandes quantidades a referência continuava sendo a arroba. Op. porém. Alegava-se que os serviços de saúde deveriam ser confiados ao estado.166 Nessas imagens. Memórias Goianas. porém. p. como eram chamados os governadores na Primeira República.longe da verdade quem o calcular pelo menos em 95% no norte do Estado.170 Idem. agarrado às tradições. 1911. Mensagem ao Legislativo do Estado de Goyas. 167 LIMA. o presidente de Goiás.. Arthur e PENNA.169 Quanto à capacidade de interferência do estado. Memórias Goianas . em vista do aumento da 164 165 NEIVA. Mensagem ao Legislativo do Estado de Goyas. nem o sistema métrico decimal e continuava utilizando medidas antigas como o palmo.Op.cit.” 164 Poucos eram os professores existentes e o método de ensino era muito tradicional. cit. Op. como enviar as vacinas e recomendar a vacinação. côvado. o “sertanejo” aparece como um retrógrado. p. Os municípios deveriam ficar apenas com medidas preventivas.167 Frente à presença da varíola.32 168 GOUVEIA. o serviço de abastecimento d‟água e de esgotos e todos quantos dizem respeito ao asseio necessário para evitar focos epidêmicos”.92. buscava reformar a legislação para centralizá-la. Para as longas distâncias era a légua. 1906. o governador goiano denunciou a falta de aparelhamento do estado para impedir a expansão de epidemias em Goiás. Ibidem. p. avesso a inovações e muito distante da modernidade presente na capital da República. vara e onça. cuja ação naquele momento. p. os serviços de higiene continuavam a cargo dos municípios. As pessoas mais pobres não conheciam o valor monetário da moeda em réis. Miguel da Rocha. ele declarou: “não temos serviço de hygiene de espécie alguma”.61 169 PINTO. são às vezes das mais disparatadas”. existia a légua grande e pequena: “a grande quase nunca ultrapassa de 4 quilômetros. contudo.93 47 . Miguel da Rocha. Op.

Em geral. no norte de Goiás.176 Os pobres usavam roupas de chitas e calças de algodão.172 O pilão ainda ocupava o lugar do moinho de café. cit. Joaquim Rufino Ramos. bem como o café. Op. devido aos exorbitantes preços cobrados. ibidem 178 Idem. 178 Os moradores do norte de Goiás foram caracterizados como atrasados. a máquina de costura era repelida ou desconhecida. Op. registraram os médicos.165 48 . feitas de argila e alimentadas com óleo de animal. p. p. fiado. presos a formas de viver e sentir de “três séculos atrás”. mas o pão era desconhecido fora das cidades e vilas maiores. p. Os sertões distantes seriam também marcados pela ausência de meios de transportes e comunicações modernas. os adultos vivem andrajosamente”. O sertanejo não utilizava o filtro de barro para filtrar água. “As crianças de ambos os sexos das famílias mais pobres. Memórias Goianas. as rodas de fiar e os teares. Os sertões seriam distantes devido à dificuldade de acesso a produtos essenciais e pela manutenção do arcaico.173 Também não utilizava tulhas para guardar milho e feijão. Após percorrer dias e meses em sofrida viagem em lombo de 171 JUBÉ.175 Também o vestuário era muito rudimentar. a aguardente e o querosene. Uma distância entre o litoral e os sertões que Euclides da Cunha já havia estimado em três séculos. Os médicos anotaram que ficaram indignados com a situação de “profunda miséria e do abandono em que jazem milhares de seres humanos”. p.173 174 Idem. mamona ou cera de abelha ou carnaúba. os habitantes dos sertões continuavam doentes e sem assistência médica.165 173 Idem p. em 13 de maio de 1917. Arthur e PENNA. 171 Apesar das tentativas de centralização da saúde em Goiás. A farinha de mandioca era feita em toda parte.167 177 Idem. Mensagem ao Legislativo do Estado de Goyas.177 Neiva e Penna fotografaram os instrumentos utilizados na transformação dos fios em tecidos.157 172 NEIVA. cit. antigos. p. tecido (no tear) e costurado a máquina ou a mão. andam nuas mesmo quando já estão bem crescidas.174 175 Idem. O uso de candeia era generalizado. o sal era pouco utilizado. Belisário. o pão só foi encontrado em Juazeiro e em Porto Nacional.nossa população”. encontradas no percurso da viagem com o intuito de provarem que os sertanejos estavam distantes dos meios técnicos disponíveis na sociedade moderna. denunciavam Neiva e Penna. ou seja.174 Na verdade. durante todo o trajeto da expedição científica pelo norte do país.213 176 Idem. p.

chamados de trilhos transitados pelo homem. dos barcos e das próprias pernas para se locomover. ainda que de forma lenta e desgastante. Trafegava-se por caminhos. Humberto. Op. cidade fundada pelos dominicanos no Pará. Arthur e PENNA.181 No livro do juiz Eduardo Henrique Reminiscências de um Juiz. subir o rio Araguaia até Leopoldina (atual Aruanã) e. 1942. ele gastou 44 dias. Op. com destino à cidade de Goiás. Luís. Eles haviam planejado ir até Conceição do Araguaia. do Rio pela estrada de ferro até Uberaba e daí a lombo de burro até Goiás. o fato de não utilizarem vapores no comércio entre Porto Nacional e Belém e a inexistência de estradas de rodagem. A ausência de estradas foi muito sentida por Neiva e Penna durante a expedição. Op. os goianos ainda estavam na dependência dos carros de bois. entretanto. Belisário. desistiram alegando dificuldades em contratar canoeiros para conduzi-los rio Araguaia acima até Leopoldina. depois embarcando para o Rio e. pelo medo de serem abandonados pelos barqueiros durante aquela 179 PEREGRINO. em 1932. cit. pelo cavalo e pelas compridas fileiras de burros cargueiros.13. 180 NEIVA. cit. p. os médicos alteraram o roteiro previamente traçado. p. Palacín narrou as peripécias de um padre – o João de Souza Lima de Boa Vista – o qual. das tropas de muares. Imagens do Tocantins e da Amazônia. montado em lombo de burros. Neiva e Penna criticaram a inexistência de meios de transportes modernos. encontramos o relato. Foi o mesmo percurso que utilizou no ano seguinte para a volta”.15 182 SOUZA FILHO. e daquela localidade.42. para ir da cidade de Goiás a Porto Nacional. Eduardo Henrique de. p. segundo o qual. Partindo de Porto Nacional. Porém. 180 Enfim. decidiu que o caminho mais longo seria o menos difícil: foi de “bote pelo Tocantins até Belém. dos cavalos.171 181 PALACIN. depois. ao ser eleito deputado estadual em 1909. cit.182 A circulação de pessoas e produtos pelo norte de Goiás só se fazia enfrentando os dificultosos caminhos dos rios Araguaia e Tocantins ou as longas jornadas no lombo dos animais. O Coronelismo no Extremo Norte de Goiás. 49 . seguir por terra até a capital de Goiás. Rio de Janeiro: Instituto Geográfico e Histórico Militar. p. na estação chuvosa.179 O transporte de cargas se fazia por meio de muares e os animais não eram ferrados.burros. Argumentamos. que aquela ausência não impedia a circulação de pessoas e de mercadorias. tendo que tomar posse em Porto Nacional. além de ter sido considerada uma questão importante para a construção do Brasil como nação. Para Neiva e Penna a expedição aos sertões mais parecia uma viagem de volta ao passado.

conhecer a realidade local e contratar nova tropa que os levariam até o terminal ferroviário mais próximo. Eles foram em direção a Santo Antônio do Descoberto. concluiu que eles poderiam ser vistos como “os etnógrafos em seu contato e observação do outro. sem a mínima noção de asseio pessoal e de conforto. Cit. os médicos escolheram o caminho mais curto possível. Nísia Trindade. Arthur e PENNA. de chegada. do estrangeiro. uma natureza ainda virgem. a quantidade de léguas percorridas. distante do mundo “civilizado” da capital da República. da qual anotaram apenas o essencial: o horário de partida.cit. em região despovoada e ainda pelo risco de não conseguirem encontrar uma tropa para transportá-los a Goiás. no retorno para a capital de Goiás. 184 No diário aparece o cansaço daquela viagem. Op. p. 183 184 NEIVA. impermeável ao progresso. que eles construíram certas imagens dos sertões e dos seus habitantes. ponto final da viagem a cavalo. Belisário.. quase mil quilômetros. Idem. vivendo de forma “paupérrima”. p. na imensidão da monotonia do cerrado. região da seca. Nísia Trindade. Os médicos ainda permaneceram na capital goiana por treze dias. o sertanejo. nenhuma delas com mais de 400 habitantes.185 Não poderia ser diferente. a decadência geral da natureza e dos homens. indignados com as condições primitivas de existência nos sertões.183 Enfim. com o objetivo de recuperar suas próprias forças. Neiva e Penna olharam com desconfiança para a população local. com apenas três núcleos de população. pois foi a partir dos referenciais culturais dos médicos. considerado muito atrasado. portador de outra cultura e identificado com outras civilizações”.104 50 . Acrescentaram ainda o fato de dois camaradas estarem doentes e profundamente abatidos.213. ao tentar definir os cientistas. casos médicos. porque o olhar foi o do outro. cansados daquela longa marcha por entre raros núcleos de populações “decadentes” ou. de sua formação e inclusão em determinado “campo” e num determinado momento. num percurso de 160 léguas. Op. p. distante 80 léguas. foi encontrado inicialmente nas caatingas do nordeste. Eles procuraram e encontraram outro mundo. com vocação para regredir. chegaram à cidade de Goiás. Trinta e três dias após partirem de Porto Nacional. além da tristeza de ver tantos espaços não ocupados.subida. O outro.. não dominada pelas mãos humanas. Um Sertão Chamado Brasil. Amaro Leite e Pilar.220 185 LIMA.

A especificidade encontrada estava no maior número de analfabetos e na maior presença da doença. A construção arquitetônica da igreja também chamou a atenção. na visão dos médicos. para os padrões da sociedade da época. caberia ao Estado assumir o seu papel. apegado às tradições e refratário ao progresso é porque ele era analfabeto. Por fim. principalmente. Se o sertanejo às vezes aparece na narrativa como indolente. saírem daquele purgatório. cit. A ausência efetiva do Estado inviabilizava o trabalho e o espírito de iniciativa do sertanejo. Porém. Missionários bem preparados intelectualmente atuavam no colégio e nas missões. para a “civilização” do norte de Goiás. Por fim. p.levando uma vida muito primitiva. Porto Nacional se preparava para ser futura sede da diocese (1915) e os dominicanos representavam um “oásis de civilização no sertão”. Belisário. Op. o purgatório de Dante Alighieri. A seguir vamos recuperar as avaliações que os médicos fizeram da religião e da medicina “popular” encontrada nos sertões goianos. inviabilizava a formação de uma raça forte porque o sertanejo estava dentro de um círculo vicioso de doença. Uma obra grandiosa. Tal ausência dificultava a comercialização do excedente da sua produção. abandonado de toda e qualquer assistência. para Neiva e Penna a nação brasileira seria perfeitamente viável.181 51 . justificaram os referidos médicos. eles foram categóricos ao afirmar que os sertanejos não tinham condições. Arthur e PENNA. frente a outras congregações religiosas e ao clero nacional. p.187 Neiva e Penna ressaltaram a importância da Congregação dominicana francesa. impedia a formação do sentimento de pertencimento à nação.181 Idem. de sozinhos. porque os representantes do governo só apareciam para cobrarem impostos e a educação pública não funcionava. má alimentação. doente e abandonado. ao ressaltar esse 186 187 NEIVA. má habitação e abandono difícil de ser rompido apenas através de iniciativas individuais e isoladas. limitados em termos de recursos financeiros e humanos. Acreditamos que. Aquela igreja se tornou um dos símbolos da capacidade e da distinção dos dominicanos. Porém.186 Esse discurso da doença e do abandono foi repetido para descrever o sertanejo do norte de Goiás. o norte goiano era muito mais amplo e se espalhava para muito além da sede do município de Porto Nacional. Ele não poderia ficar na dependência de ações benevolentes dos homens da Igreja. da doença de Chagas que fez desta região.

3. Op. Dominichi Miranda de. Laura de Mello e. além do aspecto dinâmico e significativo. p.aspecto cotidiano dos sertanejos. o quanto o sertanejo ordinário vivia na barbárie e poderia até representar uma ameaça para a nação que se queria projetar como moderna. os médicos tinham por finalidade não apenas combater aquelas práticas consideradas distantes da religião e da medicina oficial. 1. não era de se esperar que esses médicos fossem tolerantes para com as práticas religiosas e médicas populares. A religiosidade popular na colônia. fundamentalmente. 168 190 SOUZA. Percebe-se que em grande parte. mas. Arthur e PENNA. onde uma assistência paroquial era dificultada pelas distâncias e pela própria ausência dos padres. nem permanentes e nem definitivas. cit. Tal religiosidade foi compreendida como 188 189 SÁ. 189 A mesma conclusão a que chegou Euclides da Cunha ao analisar as práticas e crenças religiosas no interior da Bahia. porém os médicos perceberam essa religiosidade como cristalização da resignação e forma de resistência frente à precariedade da vida. Ao percorrer Goiás. a religião praticada no norte do estado de Goiás não diferia daquela vivenciada no Brasil rural. A historiadora Laura de Mello e Souza. eles se colocavam na luta contra as “trevas”. p. Belisário. “eivada de exageros e superstições”. da reza.1986.5 O catolicismo e a “terapêutica popular” no norte de Goiás Neste item procuramos recuperar um pouco mais da imagem do sertanejo comum presente no relatório Neiva e Penna.188 Porém.33. Op. Neiva e Penna perceberam a predominância da religião católica entre a população. 98-99. O diabo e a Terra de Santa Cruz: feitiçaria e religiosidade popular no Brasil colonial. “revelar” o quanto os sertões estavam distantes do litoral. ao tratar da religiosidade popular na América Portuguesa. multifacetado e colonial e concluiu que as assimilações e seleções não são arbitrárias. Ao nos aproximarmos do norte de Goiás e dos seus “pobres habitantes” desaparece completamente qualquer imagem idílica presentes na narrativa romântica. L. O Brasil “modelado” na obra de Belisário Penna. NEIVA. Afinal. p. 52 . cit. O flagelo vivido naquele purgatório estaria associado à rusticidade reinante e ao embotamento da inteligência diagnosticada na vivência religiosa e na terapêutica utilizada. São Paulo: Cia das Letras. O sertanejo seria um resignado que enfrentaria suas dificuldades cotidianas através da fé.190 Ela ressaltou a mistura de raças e vivências religiosas num todo específico. chamou atenção para a sua especificidade. entretanto. In: Souza. a “ignorância” e as “superstições” nos sertões brasileiros. da simpatia.

uma experiência vivenciada. lembra as “populações errantes” de Euclides da Cunha e retoma a imagem dos sertões como espaço da barbárie. arraial próximo a Natividade. vivenciadas. do cumprimento de promessas [tais] festas redundavam em grandes feiras e muita jogatina. a caminho “de um lado para o outro em contínua peregrinação” pelos sertões. significativa.192 As práticas populares estariam relacionadas às diferentes formas como as pessoas externam suas crenças religiosas de matriz católica. p. Neiva e Penna se depararam com uma leva de romeiros que retornavam da Chapada. mestiços e caboclos. significativas para as 191 192 Idem. essa gente “ingênua” poderia ser facilmente enganada pelos comerciantes que se reuniam nas feiras. a vivência religiosa dos sertanejos beirava ao fanatismo.209 53 .194 Os médicos viram com desconfiança essa intensa movimentação dos sertanejos pelo espaço dos sertões. mulheres e crianças. Os próprios médicos já haviam ressaltado. Porém. Arthur e PENNA. onde só não compareciam os velhos impossibilitados de longas caminhadas e os inválidos.168 194 Idem.193 Segundo eles. p. no entanto. colocava os fiéis em movimento. Op. a falta de estradas. as práticas da religiosidade popular são sempre práticas e crenças autênticas. condições elementares para a dinamização econômica da região. compartilhada no cotidiano das populações e que comportaria sempre novas assimilações. 193 NEIVA. cit. Belisário. a falta de iniciativa e a fé conformista 191 Assim sendo. prejudiciais aos “ingênuos caboclos‟”. eles deveriam empregar suas energias e parcos recursos no trabalho sistemático. de dinheiro e da impossibilidade de armazenamento dos produtos. Segundo Neiva e Penna as práticas religiosas nos sertões goianos beiravam ao fanatismo e contribuíam para aumentar o marasmo. Idem. esperando por milagres. Essa imagem do sertanejo peregrino. cerca de 60 pessoas.130. p. Então os médicos concluíram que estas festas ocorriam sempre após as colheitas e repetiam-se em vários pontos. ibidem. Segundo os autores. “a par do pretexto feticista. pessoas e comunidades. para os médicos. presente no relatório. para participar das festas religiosas e das romarias. Além do mais. para melhorar as suas próprias vidas e não permanecer em atitude passiva. todos papudos. Eram homens.

e uma vez colocada. o contato com as novidades presentes nas feiras. Missão da Igreja no Brasil. A maioria dessas orações encerrava dizeres para combater as epidemias. o sacrifício. Em Almas. 197 SOUZA. Op. em Porto Nacional. As embarcações ostentavam a bandeira do Divino Espírito Santo e raras eram aquelas onde também existia a bandeira nacional. cit. O diabo e a terra de Santa Cruz . Cândido et al (Orgs).200 As práticas religiosas poderiam se constituir em orações. p. como poderia ser também uma relíquia ou uma imagem. amuletos e bandeiras para proteção das pessoas e comunidades. da festa. enfim. In:PADIM. São Paulo: Loyola. distante dos centros urbanos e do litoral do país. visível na exposição de seu estandarte. dos barcos que regressavam do Pará era motivo de uma grande festa local. Para os fiéis católicos o que interessava era a promessa feita e que se queria cumprir. Op. A chegada.196 O enorme apego dos fiéis aos aspectos externos e imagéticos da religião podem ser explicados pela ligação do homem com o universo mágico. p. a proteção era confiada ao Espírito Santo. capazes de proteger seu portador. a cruz estava presente em todas as residências: “a cruz é feita não por ocasião da inauguração da residência. Ibidem 54 .de quem tudo esperava dos “céus”. o visível do invisível. Laura de Mello e. já que ele “distinguia mal o natural do sobrenatural. Segundo os médicos. não se dissociava a penitência da fé e a fé.84. também eram comuns. as sociabilidades. Para exemplificar o quanto os princípios religiosos católicos estavam sendo colocados em riscos pelos “ignorantes e supersticiosos”.91.198 Outros sinais imagéticos encontrados no norte goiano foram a cruz e a bandeira do Divino. 1973. a parte do todo. 199 NEIVA. com fórmulas mágicas. p. a peregrinação. ibidem.168 200 Idem.195 Percebe-se que era difícil para os médicos compreenderem a lógica de uma vivência religiosa inserida no cenário peculiar de uma região agrária. por exemplo. a busca da proteção do sagrado 195 196 Idem. p. cit. não é mais retirada”. a imagem da coisa figurada”.197 O texto escrito seria o sinal da mediação entre os homens e o sagrado. Arthur e PENNA. cruzes.199 Os patuás e amuletos. Belisário. Francisco Corlaxo. Religiosidade Popular. participar de uma romaria fazia parte de um modo de vida que valorizava o movimento. mas também a alegria da festa. nas viagens perigosas pelo rio Tocantins. Neiva e Penna registraram as práticas devocionais enraizadas no norte de Goiás. Uma das mais comuns consistia em escrever orações e pregá-las nas paredes das casas. 198 ROLIM. patuás. mais quando reina epidemia. Para o fiel católico. Idem.

o médico de Porto Nacional. No norte de Goiás ele só encontrou o médico Francisco Ayres em Porto Nacional. sal amargo. 201 202 Idem. 203 Idem. tinha dificuldades para se atualizar e adquirir um eficiente arsenal terapêutico. magnésia fluída e outra droga. Ele explicou tal situação apontando para a inexistência de postos médicos (no seu trajeto pelo rio Tocantins só encontrou um posto médico em. estava surdo. segundo Paternostro. com funções limitadas a distribuir sais de quinino). ele tinha uma experiência de mais de 40 anos de exercícios. Paternostro questionava a eficácia dos próprios medicamentos vendidos pelos médicos nos sertões do Brasil. porém. bicarbonato de sódio. Op. cit. de farmácias e apenas a venda de alguns medicamentos como sulfato de quinino.201 Era. p. Percorrendo o norte de Goiás em 1935.231.203 Assim. Para os médicos. assim como os outros médicos do interior do Brasil. encontrados nos “armarinhos” de algumas povoações.que poderia se expressar de diferentes formas como naquelas que chamaram a atenção dos médicos. p. as práticas religiosas ali vivenciadas eram antigas porque faltavam padres comprometidos com a reforma dos fiéis. eles recorriam primeiro aos recursos da terapêutica natural.fosse mais conhecido do que a bandeira nacional.229. Apesar da sua lucidez. era inconcebível que um símbolo da religiosidade popular – a bandeira do Divino . portanto. PATERNOSTRO. Quanto aos sertanejos ricos ou pobres. da crença e da tradição. Júlio. Ela estaria associada à fauna e à flora locais. 161. bem como às “rezas. Para estes.202 Paternostro também ressaltou a falta de atrativos para os médicos nos sertões. receitas de chás para quase todos os males e rezas. uma terapêutica regida pela lógica da fé. Ao que parece. em conseqüência da quininização prolongada a que se submetera. em casos de doenças. na cidade de Marabá. p. crendices e abuzões”. e sempre havia um curandeiro encarregado de indicá-las e prepará-las”. prevalecia a adoção de práticas de saúde rotineiras e habituais. no Pará. “a terapêutica se resumia nas infusões de raízes e folhas. Normalmente o contato com os novos medicamentos eram feitos através das revistas de laboratórios farmacêuticos que possuíam objetivos mais comerciais do que científicos. já conhecida e testada através das gerações. entretanto. 55 . Nos povoados distantes. Paternostro percebeu a permanência dessa terapêutica utilizada nos sertões. Neiva e Penna perceberam também uma proximidade entre as práticas religiosas populares e a terapêutica praticada no norte de Goiás.

Dissertação em História: UnB. pimenta. Belisário. idem. 56 . bebendo o sangue de galinha d‟angola. estes só eram procurados em último caso. alho. permaneceram até os 204 205 NEIVA. Após o parto. nem receber visitas no sétimo dia. sal. como a de não sair do quarto e não ver a luz do sol. curandeiros e benzedores eram figuras respeitadas e temidas nos sertões. Feiticeiros. adicionado de limalha de ferro e limão.208 Temia-se a morte do recém-nascido e utilizava-se de uma enorme quantidade de práticas para afugentá-la. Parteiras em Minas Gerais no Século XIX: saberes e poderes compartilhados (1832-1850).162 208 Idem. p. 209 CAIXETA.163 206 Idem. Segundo Neiva e Penna. Porém. em alguns lugares. magia e religião” deveria ser divulgada. Idem.91. nem farmácia e nem remédios na região? Para Neiva e Penna pareceu inútil contestar os poderes atribuídos pelas comunidades locais aos curandeiros. pólvora. As mulheres grávidas eram potencialmente possuidoras desses poderes e mal vistas. 207 Idem. porém. essa associação entre “medicina. como contestá-los se não havia médicos. querosene e os resíduos de alcatrão dos cachimbos em misturas com limão. cit.209 Ao acompanhar as narrativas dos médicos estamos diante de algumas práticas curativas que foram rompidas e de outras que. As conjuntivites eram tratadas com alcatrão dos cachimbos e. p. elas costumavam ingerir uma beberagem para limpar o útero. p. p. com baixa instrução e sem uma presença efetiva do Estado. ibidem. Arthur e PENNA. Tanto para Neiva e Penna quanto para Paternostro os “dons” dos curandeiros e feiticeiros não passavam de superstições. os sertanejos acreditavam curar-se das doenças mordendo a chave do sacrário da igreja.Alguns procuravam também aos curandeiros.205 Mesmo em localidades onde havia médicos. após recorrer às rezas e às medicações em uso. usando álcool. 2003. talvez pelo fato de serem consideradas impuras. 161-162. pois. Op. ela estaria presente numa população dispersa. já a tesoura utilizada para cortar o cordão umbilical era colocada sob a cabeça da criança com o objetivo de impedir o mal de sete dias.207 O indivíduo picado de cobra não recebia visitas para evitar mal olhado ou outro poder maléfico.206 Também era normal a crença no chamado “mal olhado” e na reza “braba”. em alguma medida. Vera Lúcia. Acreditava-se que a fala ou a simples presença de certos indivíduos eram atribuídos poderes malignos que podiam ser associados à morte de pessoas.204 Estes eram homens e mulheres a quem se atribuíam poderes sobrenaturais.

211 o que só dificultava o estabelecimento da República naqueles rincões. Assim. passou a ser repelido pelos sertanejos. Op cit. Belisário. desde que a primeira se submetesse ao Estado.210 Para Neiva e Penna as práticas católicas e a “terapêutica popular” não foram consideradas perigosas para a República. a medicina era uma ciência completamente separada da magia e da religião. Op. porque eles acreditavam que a medicina aliada ao Estado e à Igreja. representada nos sertões goianos pelos dominicanos. foi denunciada pelos médicos porque fazia guerra ao casamento civil. Ao contrário. os benzedores.p. foi possível acompanhar o olhar inquiridor dos médicos no sentido de verificar se a Constituição estava sendo cumprida em Goiás. Para “civilizar os sertões” além da presença do Estado. ao contrário dos redentoristas.nossos dias. seria necessário também a ampliação da presença dos médicos. Mas o pior seria a guerra que faziam ao casamento civil. p. seria perfeitamente capaz de romper com elas. o médico Júlio Paternostro 26 anos após a viagem de Neiva e Penna. assumidas pelo Estado republicano. cit. Os dominicanos. Durante todo o relatório. já que as pessoas continuavam supersticiosas e presas a um modo de vida muito particular. Porém. os curandeiros e feiticeiros. principalmente no que se referiam aos registros civis. Arthur e PENNA. funções anteriormente exercidas pela Igreja e. NEIVA. por cobrarem pela realização de quase todos os sacramentos e por validarem os casamentos realizados na noite de São João. que. que havia se estabelecido no sul de Goiás e enviava seus missionários para percorrer os sertões. a Congregação dos Redentoristas. não sem resistência desta. alertou para a não aceitação dos médicos em algumas localidades. porque foi confundido com o anti-Cristo.Ele não conseguiu colher sangue na população de Piabanhas. Júlio.217-218. naqueles rincões Igreja e ciência não estavam em campos totalmente opostos.168 57 . pelas rivalidades entre Igreja/Estado e pelo 210 211 PATERNOSTRO. Ao contrário do que se poderia supor. Por outro lado. Neiva e Penna reconheciam as dificuldades enfrentadas pela República para impor uma presença mais efetiva nos sertões. Estes substituiriam as comadres. por isso. Os redentoristas foram chamados de “vis exploradores”. Os cartórios e os funcionários eram muito poucos frente à extensão do território. foram elogiados por representarem a parte da Igreja que se submeteu às leis da República e recomendava os registros civis. Neiva e Penna eram otimistas com relação a essa atuação da medicina nos sertões. Para os cientistas de Manguinhos.

com urgência. apegados às tradições necessitavam. Esse “campo” passou a ser interlocutor desse debate. 58 . Vejamos os projetos de saneamento propostos por Arthur Neiva e Belisário Penna. Estas ações já estavam sendo colocadas em prática pela Igreja. de profissionais. mas o espaço dos sertões ainda estava aberto tanto para as missões religiosas. Políticas imigratórias deveriam ser pensadas para possibilitar a entrada de inovações técnicas na agricultura. Ela proporcionou à Fundação Manguinhos a ampliação de seu saber. Neiva e Penna narraram práticas religiosas e terapêuticas populares. um projeto “civilizatório” não poderia e não deveria ser conduzido pelo Estado sem a adesão aos argumentos e orientações da medicina. 1. Caberia ao Estado e à ciência assumirem seus papéis.4 Um Projeto de Saneamento dos Sertões 1. Concebido a partir de critérios científicos. de “ações civilizatórias”. em Porto Nacional. a ciência chegou a reconhecer que os dominicanos representavam “as luzes” dos sertões goianos.1 O saneamento: um projeto “civilizatório” para os sertões goianos? A viagem de Neiva e Penna colocou em evidência não só o estado “mais central e desconhecido do Brasil”. mas também o próprio “campo médico”. por isso mesmo. com o objetivo de denunciar a precariedade da vida no norte de Goiás. Saúde.que cada um representava. O saneamento foi acompanhado de uma preocupação com o controle social.4. diagnósticos e prognósticos específicos para a construção do “novo homem” e do “novo país”. porque elaboradas por quem de fato conhecia aquela realidade. porque passou a ser detentora de uma vasta gama de conhecimentos. Homens doentes. no início da República. No relatório Neiva e Penna apareceram sugestões para a construção do “processo civilizador” dos sertões apresentadas como o único caminho possível. educação e transportes foram considerados de fundamental importância e deveriam ser assumidos pelo poder público. perigosas para a República. fornecedor privilegiado de “imagens” dos sertões que se queria superar. necessária para a consecução das ações do governo. quanto para a prática de uma religiosidade e uma terapêutica popular prejudicial ao indivíduo e à sociedade. abandonados. Pensou-se ainda na instalação de postos sanitários e na inadiável necessidade de distribuição de sais de quinino para os sertanejos. na área de saneamento do interior.

a doença de Chagas (tripanosomiase americana). além de possibilitar a chegada do “progresso” a novos ambientes espaciais e sociais brasileiros. no jornal Correio da Manhã. o impaludismo (malária) e o terrível flagelo dos sertões. centralizando-as. pelo norte do país. 1923. principalmente aquelas relacionadas às aéreas essenciais. enriquecel-o. através do saneamento surgiriam “novos sertanejos” e um “novo Brasil”. com um esboço de um plano de saneamento rural. era fácil fazer dela símbolo dos sertões doente e abandonado. No relatório os sertões foram representados como purgatório. foi dedicada à etiologia. amarelão e mal de terra). é moralisal-o. a “reconstrução”. denominada de “demolição”. que colocasse todos os estados em comunicação com a capital. com o título O Saneamento dos sertões. Belisário. Fazia-se necessário acabar com a dispersão. elas circularam entre 1916 e início de 1917. Assim.54 59 . 2 ed. 212 Podemos afirmar que durante a expedição científica de Neiva e Penna.Os referidos médicos defenderam também a transferência da capital para o Planalto Central. Daí a pouco todo o Centro-Oeste passou a ser “a região do barbeiro” e todos os goianos portadores da doença de Chagas em suas várias modalidades. desde que saneados os sertões. O sertanejo deveria ser integrado e curado até porque dos sertões não sairiam homens “prestáveis” para ingressarem no serviço militar e defenderem o país. onde os “pobres párias” penavam seus pecados. com a descentralização das ações e unificá-las. higiene e instrução. Ora. Dos sertões purgatórios passaram ao Centro-Oeste inferno. Na segunda parte. como justiça. A primeira parte. seria necessário um amplo plano ferroviário. As idéias sobre o saneamento presentes no relatório Neiva e Penna foram ampliadas e publicadas em linguagem mais militante e combativa por Belisário Penna. durante a campanha pelo saneamento Belisário Penna transformou o norte de Goiás. 213 Era preciso transformar medidas sanitárias em leis e regulamentos. 212 PENNA. Inicialmente. Estes artigos foram reunidos no livro O Saneamento do Brasil (1918). p. apresenta a realidade dos sertões marcados pela ancilostomíase (opilação.. Entretanto. Enfim. aquela era a região mais distante e menos conhecida de toda a área por eles percorrida. eles procuraram e encontraram o purgatório. Sanear o Brasil é povoal-o. tratamento e profilaxia das endemias que devastavam a energia das populações rurais. Tal projeto poria fim na dispersão. Porém. O Saneamento do Brasil. Rio de Janeiro: Jacinto Ribeiro dos Santos. 213 Idem. em inferno.

de votar leis (.. a beber água limpa.219 “Cuida-se aqui em São Paulo. Ibidem.2. p.131. 60 . 217 Os habitantes dos sertões deveriam aprender a alimentar-se. PENNA. a democracia não era fundamental. 9. perceber as vantagens e necessidades do calçado.. imprudentes e ignorantes. p.Ano II. que vivia em São Paulo. que será a sua incorporação real à civilização. porém. 218 Importante perceber o quanto essas narrativas alarmistas sobre a doença nos sertões abriram “caminho‟ para as reformas saneadoras empreendidas pelo Brasil afora. p. Belisário. n. mas pela adoção de novas práticas higiênicas. o sertanejo deveria aprender a viver sem contaminar o meio ambiente. organizadas segundo os preceitos da higiene e formar normalistas preparadas para ensinar medidas e comportamentos higiênicos. A adoção dessas novas práticas higiênicas implicaria o rompimento com antigos preceitos. cit. lavar as mãos antes das refeições e depois das defecções. em todos os níveis. Estas seriam enfim. convencer os bacharéis. mas quando se convencer de que deve construir a sua habitação de acordo com os preceitos da higiene”. mas saúde sim. abr/1919. n. a defender-se dos insetos e parasitas transmissores e causadores de doenças. jul/1929. Op. A incorporação da população rural à nação se faria. não quando ele souber ler e escrever. iluminadas e com paredes lisas. O saneamento do Brasil. utilizar-se de fossas e latrina. além de abster-se de bebidas alcoólicas. Para isso seria necessário criar um modelo de organização rural através de “colônias agrícolas”.2. do valor da higiene nos empreendimentos nacionais. Ano II. A poetisa goiana Cora Coralina. p.214 Necessário seria também a instituição do ensino obrigatório da higiene nas escolas e nos colégios para que as novas populações aceitassem voluntariamente tais preceitos.Tornava-se urgente. Hygia: revista popular de medicina e educação sanitária. percebeu o caráter tirânico das reformas “saneadoras”. segundo Penna. não apenas através do voto. defendeu que tal projeto deveria ser implantado em Goiás. Plano de educação de hygene na escola e no lar. Belisário. vol.180 217 Idem. só se fará.215 Belisário Penna pondera que “a educação higiênica do nosso povo. 216 PENNA. 219 A INFORMAÇÃO GOYANA.160-348. Enfim. qualificados de negligentes. medidas fundamentais no combate à verminose. 218 Idem. que ocupavam o executivo e legislativo.1-4. pintadas ou caiadas e cobertas com telhas. Os sertanejos deveriam também construir casas higiênicas. Ibidem.) reformar e melhorar a 214 215 Idem.216 Na sua concepção.

cit. 223 SOUZA. Op. todavia. no intuito muito louvável de expurgá-las do terrível barbeiro”. os representantes da nação também discutiram a questão. concluindo oficialmente que é transmissor de gravíssimas enfermidades. ele será expulso da nova habitação rural: “Oxalá que os goianos saneando e embelezando a velha cidade saibam lhe negar a hospitalidade da sua casa e a refeição do seu sangue”. A imprensa brasileira foi mobilizada acerca de um país praticamente desconhecido e criticou-se a ineficiência do Estado. ibidem.254. p. lagartos e escorpiões contra sua reputação. 220 221 Idem. Idem. habitação e transportes no interior do país. educação.220 Esse vil inseto caiu na boca de “sábios e saneadores”. sobretudo no que dizia respeito à saúde. O relatório transformou-se numa fonte importante para todos aqueles que se propuseram a conhecer o Brasil “real”. Porém. 61 . “vomitam cobras. como os goianos reagiram a ver “sua terra e sua gente” no centro daquele debate? Como eles viram à caracterização dos sertões como espaço da doença e do abandono? Para os intelectuais goianos era possível concordar com a centralidade da doença de Chagas como principal problema do CentroOeste? É o que veremos no próximo capítulo. estava convencida da necessidade de sanear a capital do seu estado natal: a velha cidade de Goiás. 222 Idem. estando todos em guerra contra ele”. Vanderlei Sebastião de. 222 Cora Coralina podia até criticar a tirania de algumas leis e medidas executadas no interior do estado de São Paulo. Neiva e Penna não só apresentaram os problemas encontrados no percurso da viagem ao norte do Brasil como também apontaram suas soluções. ibidem.223 No Congresso Nacional.habitação rural. estes. além de descobrir e divulgar uma “variedade sinistra de doenças” ligadas ao barbeiro.221 Sendo assim. ibidem.

localizado no centro geográfico do país e transformado em “imenso hospital”. Apresentamos os diretores da Informação Goyana e seus principais articulistas. A circulação e a apropriação das visões de Neiva e Penna sobre os sertões como espaço da doença. durante os treze dias que Neiva e Penna ali permaneceram após terem percorrido Goiás. provocaram indignaçãxfdtftgfdtho nos goianos. mas também o contexto da época marcado pelo início da circulação das idéias de Neiva e Penna. que se encontravam no Rio de Janeiro. que teriam sido os artífices dessa empreitada. para divulgar Goiás e contestar as idéias divulgadas a partir da leitura do relatório Neiva e Penna e defender os interesses de Goiás. no Congresso Nacional ou através da Informação Goyana. publicadas na revista A Informação Goyana e o relatório Neiva e Penna. o que os deixavam distantes do impulso modernizador do litoral e da integração nacional. O encontro ocorreu na capital de Goiás. buscaram as razões dos problemas que enfrentavam. Este capítulo tem por objetivo fazer o contraponto entre as idéias dos intelectuais goianos. liderada por Belisário Penna. Estes. Ao pensarmos nas condições de possibilidade que levaram à fundação da revista buscamos não apenas as trajetórias individuais de seus diretores.Capítulo II Em Defesa de Goiás: A Informação Goyana versus o Relatório Neiva e Penna A Informação Goyana foi fundada pelo jornalista goiano e militar reformado Henrique Silva. analisado no capítulo anterior. Nesse processo não perdemos de vista a constituição de um grupo de intelectuais goianos que por diferentes motivos se encontravam no Rio de Janeiro e se reuniram para a defesa do seu estado natal. dentre os quais enfatizaram a ausência de transportes. A hipótese aqui defendida é a de que a Informação Goyana surgiu como uma estratégia dos intelectuais goianos. Na primeira parte deste capítulo tratamos da reação dos goianos frente à circulação das idéias de Neiva e Penna. da decadência e do abandono. O fato de todos eles se identificarem como goianos ou amantes e defensores das coisas do interior nos ajuda a 62 . um dos interlocutores de Neiva e Penna durante sua viagem pelo Norte do país. Buscamos nas páginas da revista os argumentos que eles utilizaram para contestar o relatório Neiva e Penna e suas apropriações. somadas à campanha materializada na Liga Pró-Saneamento do Brasil (1918-1920). em 1912.

In: História. p. Supl.1. sua publicação poderia ser utilizada contra Carlos Chagas. Gil Vidal.br/chagas/cgi/cglua. p. ciências.227 Como já vimos. 227 Idem. Na segunda parte desse capítulo tratamos. a diretoria do Instituto ficou nas mãos do Carlos Chagas. Jul. A fundação da Informação Goyana mostra a vontade coletiva desse grupo de formalizarem um projeto em favor da região e ao mesmo tempo. diante das pressões. por Júlio de Mesquita e assumida por Monteiro Lobato em 1918. A doença de Chagas e o movimento sanitarista da década de 1910. Carlos Chagas teve que elaborar uma nova 224 SÁ. O importante aqui é perceber que existiam disputas dentro do campo médico e que. Assim. Affonso Taunay. 226 Naquele contexto de controvérsia científica.axe/sys/start. Vol16. dos artigos escritos por Francisco Ayres da Silva. acessado em 20/06/2011. em 1917. ibidem.225 O que teria provocado a retenção do relatório Neiva e Penna nas oficinas de Manguinhos? Devemos lembrar que após a morte do Oswaldo Cruz. pois referendaria os argumentos dos seus adversários. Carlos Chagas tentava minimizar os distúrbios endócrinos – o bócio – e reforçar os aspectos cardíacos. 2 . todos estes periódicos divulgaram artigos a partir da leitura do relatório Neiva e Penna.224 Entretanto. Neiva distribuiu-o entre diretores de importantes jornais do Rio de Janeiro e São Paulo.1 Imagens dos Sertões na Informação Goyana 2. saúde-Manguinhos.1 Rio de Janeiro. Nísia Trindade e Dominichi de Sá afirmaram que a demora na publicação do relatório estaria associada aos interesses de Chagas que. recebia sérias críticas de pesquisadores argentinos sobre o desenho clínico da doença de Chagas. especificamente.2009.1 A Informação Goyana Para Dominichi de Sá. literária e/ou no espaço político regional e nacional. de se inserirem no âmbito de uma comunidade científica. diretores daqueles jornais e a Revista do Brasil fundada em 1916.188. naquele momento. www. Simone Petraglia e LIMA. como o Correio da Manhã e o Correio Paulistano. Dominichi Miranda de.pensar sobre a especificidade desses intelectuais. 225 Idem. o relatório Neiva e Penna não foi publicado em 1916. porque além de médico “da roça” e deputado federal. foi um dos interlocutores de Neiva e Penna nos altos sertões.fiocruz. p. Nísia Trindade. Uma interpretação do Brasil como doença e rotina: a repercussão do relatório médico de Aerhur Neiva e Belisário Penna (1917-1935).htm?sid=57. no relatório Neiva e Penna a “tireóide” foi utilizada como critério primordial para definir a presença da doença de Chagas na região percorrida. 226 KROPF.1 63 .1. mas em 1918.

porém.232 Depois desse episódio Henrique Silva começou a se articular para fundar A Informação Goyana lançada em agosto de 1917. 228 229 SÁ. ibidem.caracterização clínica da doença. com o título: “A eliminação do brasileiro”. Miguel Pereira teria razão ao “delinear com a maior riqueza de detalhes o quadro negro do inferno brasileiro (. Esse conflito atrasou a publicação do relatório Neiva e Penna. no editorial provavelmente de Gil Vidal. conforme deliberaram os legisladores constituintes. no mesmo dia. a moléstia de Chagas e outras enfermidades perigosas. p.. a leishmaniose. suas idéias ganharam divulgação através da imprensa. antes disso. principalmente quanto à transferência da capital para o Planalto Central. O Diretor desta revista teve então oportunidade de endereçar àquele matutino uma carta.231 O que nos interessa é a reação dos goianos frente às apropriações das narrativas de Neiva e Penna que transformaram o Brasil e. 230 Idem. E dizia que as notabilidades científicas de Manguinhos acabavam de lá encontrar o paludismo. Dominichi de Sá identificou o início da circulação do relatório num artigo do Correio da Manhã na segunda feira.400 km².. Dominichi Miranda de. Henrique Silva percebeu que a leitura acrítica das idéias de Neiva e Penna.) asseverou a redação do nosso confrade que o 64 . ibidem. 232 Para Henrique Silva não era possível aceitar que uma missão enviada por Manguinhos que nem chegou a percorrer a área demarcada para a futura capital do país pudesse dar margem a interpretações contrárias à interiorização da capital federal.. em imenso hospital. ibidem. escolhidos para a capital do Brasil. Uma interpretação do Brasil como doença e rotina. Goiás.229 Assim. que havia afirmado ser o Brasil um “imenso hospital” e ressaltou que os médicos de Manguinhos revelaram o “verdadeiro” sertão brasileiro. Gil Vidal se negou a publicá-la. se houvéssemos transferido a sede do governo federal para o planalto central antes de estar realizada a obra colossal do saneamento do vastíssimo sertão brasileiro”. como prova da existência do “Brasil-imenso-hospital”. Ele afirmou ter escrito uma carta ao Gil Vidal. 231 Idem. em especial. pelos intelectuais do Rio de Janeiro e São Paulo. Ele endossou o médico Miguel Pereira. Correio Paulistano e na Revista Brasil poderia ser extremamente prejudicial para Goiás. Idem. 188. Este citava sempre o relatório Neiva e Penna como “ilustração da denúncia de Miguel Pereira”. Op. Porém. contestando em termos serenos e dizendo que nenhum médico desses poderia ter feito pesquisa nesse local e nem tampouco na área de 14. (. “Em dezembro de 1916 o Correio da Manhã afirmou que estaríamos em maus lençóis se a capital do Brasil viesse um dia ser localizada na área do planalto central. diretor do Correio da Manhã..)”.230 A repercussão do editorial abriu espaço para que o jornal passasse a publicar artigos de Belisário Penna sobre “o saneamento dos sertões”. 23 de outubro de 1916.228 O editor afirmou: “podemos avaliar em que camisa de onze varas nos teríamos metido. no Correio da Manhã. como resposta ao artigo “a eliminação do brasileiro”. para Gil Vidal. cit.

flora. seu editor tinha grandes dificuldades para mantê-la e nos últimos anos ela só teria sido publicada graças ao patrimônio pessoal de Henrique Silva. além de ter participado da Comissão Exploradora do Planalto Central do Brasil. Henrique.233 Sugerimos que a revista goiana funcionou como um instrumento legítimo de divulgação do “verdadeiro” Goiás. da necessidade de afirmar seu futuro projetado como “celeiro da nação” e local das futuras instalações da capital da República. filho de Bartolomeu Bueno da Silva. vol.80. considerado o “mais central e desconhecido do Brasil”. Na verdade. escritor. O Correio deliberou não publicar essas provas.ligado aos bandeirantes paulistas -. Jorge. 235 Americano do Brasil só ficou na direção da revista entre agosto de 1917 a março de 1918. 234 Henrique Silva faleceu em 1935 e após esse fato encerrou-se as atividades da revista. p. Essa comissão foi constituída em 1892. Goiás: uma nova fronteira humana. achando-se este local no centro da aludida área geográfica?” Ver:SILVA.400 km² demarcada pela Comissão Cruls para o futuro Distrito Federal da República! Como. A Informação Goyana foi uma publicação mensal editada entre agosto de 1917 a maio de 1935 de forma ininterrupta. A verdade sempre aparece. A Informação Goyana.Na disputa pela definição do que seria o Brasil Central.2. mas também como estratégia de construção da identidade dos intelectuais goianos. p.5.. pois. que se amoitaram. Tal empreendimento foi chefiado por Bartolomeu Bueno da Silva.7. pois os Drs. Essas idéias passavam pelo melhor conhecimento do interior brasileiro. Ano II. o grupo de intelectuais que se reuniu em torno da revista Informação Goyana defendia um conjunto de idéias e de ações.(.235 Henrique Silva foi militar. Era necessário. Rio de Janeiro: Conselho de Imigração e Colonização.. Arthur Neiva e Belisário Penna lá estiveram em Comissão do Instituto de Manguinhos. Mas acaba de vir a lume nas Memórias do Instituto Oswaldo Cruz tão sensacional Viagem Científica pelo Norte da Bahia. nos sertões brasileiros. Ela era considerada sua obra pessoal. Dirigida pelo Major reformado Henrique Silva (1865-1935) e pelo jovem médico Antonio Americano do Brasil (1892-1932). os não goianos ou aqueles que não conheciam Goiás. sudoeste de Pernambuco. Anteriormente. “fazer ver e fazer crer” que o “verdadeiro” Goiás era aquele “revelado” por um dado grupo. ele teria colaborado com inúmeros jornais no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul. sobre a missivista laborava grave erro. 233 É preciso lembrar que Goiás surgiu a partir de um grande movimento dos bandeirantes paulistas... jornalista e grande responsável pela fundação e manutenção da Informação Goyana. os intelectuais goianos ou amantes e conhecedores das terras goianas. porque não lhe convinha destruir as capciosas afirmações da véspera nem tão pouco desmentir os emissários de Manguinhos. Arthur Neiva e Belisário Penna para confirmar de vez que estes jovens cientistas na sua excursão nem sequer avistaram os lides da área de 14. 65 . da grandiosidade da sua fauna. era editada no Rio de Janeiro e pretendia divulgar o estado de Goiás. em 1918. n. poderiam esses viajantes apressados fazer pesquisas científicas no local escolhido para a futura capital da União. 1949.).. Ele deixou o cargo para assumir junto ao estado de Goiás a Secretaria do Interior e Justiça. Esse grupo estabelecia suas fronteiras. Ver: LATOUR. como ele cognominado “O Anhanguera”. portanto. das suas águas e do seu passado . visando à descoberta e exploração do ouro. sul do Piaui e de norte a sul de Goiás pelos Drs. fev/1918. 234 Foram cerca de 210 números. entre 1722 e 1725.

sob a direção de Luiz Cruls. em 1918. Goiânia: UFG. diretor do Observatório Astronômico do Rio de Janeiro.presidência do engenheiro belga Luiz Cruls. foi organizada a Comissão Exploradora do Planalto Central do Brasil. O “Art 3ª Fica pertencendo à União.9-19 238 Americano do Brasil envolveu-se em conflitos amorosos e foi assassinado aos 41 anos de idade em Santa Luzia (Luziânia) em abril de 1932. foi aluno e depois professor da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. retornou a Goiás para assumir a Secretaria de Estado dos Negócios do Interior e da Justiça. mandando lançar no Planalto Central a pedra fundamental da futura Capital do Brasil. (Coleção Documentos Goianos). uma esperança. fundou com seu tio-avô Henrique Silva A Informação Goyana e. Em 1917.br.400 quilômetros quadrados. No ano seguinte. era sobrinho neto de Henrique Silva. Olegário Pinto. O médico Americano do Brasil escreveu vários livros sobre Goiás. 237 BORGES. no estado de Goiás. ambos estudantes de direito no Rio de Janeiro. O doutor Antônio Americano do Brasil. Hugo de Carvalho Ramos e seu irmão Victor. outro editor do periódico. uma realidade. ex-aluno da Praia Vermelha e Francisco Ayres da Silva. quando se estabeleceu na Constituição Federal. reconhecer e delimitar a área do futuro Distrito Federal. Entre eles. no Planalto Central da República. Americano. 2 ed. para nela estabelecer-se a futura Capital Federal”. p. além da poetiza goiana Cora Coralina. e do escritor regionalista mineiro Afonso Arinos de Melo Franco. em 1932. Foi assassinado pelo marido da sua amante em Goiás. Ver: SILVA. Brasília: Senado Federal. deputados federais. Antônio Azevedo Pimentel. que será oportunamente demarcada.237 Ele reuniu documentos oficiais em sua secretaria e redigiu para o Instituto Histórico e Geográfico um resumo da História de Goiás. Humberto Crispim. pensado desde a Independência do Brasil. 1980.236 Este projeto. ganhou fôlego ao ser incluído como dispositivo constitucional. no início da República. médico higienista que participou da “Comissão Cruls”. uma zona de 14. 66 . Os colaboradores da revista foram considerados “os mais competentes e conhecidos sabedores das coisas do hinterland brasileiro”. Introdução.academiagoianiense. médico formado pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Ernesto. Brasília: um sonho. na primeira Constituição Republicana. ela se tornou um dispositivo constitucional. porém. mas principalmente a Varnhagen. 1892. incumbida da missão de estudar. Elegeu-se deputado federal em 1921 e em 1922 foi sancionado um projeto de lei de sua autoria. entre outros. In: BRASIL. Cursou Medicina na Faculdade da Praia Vermelha. 1985. Pela História de Goiás.238 Henrique Silva e Americano do Brasil mantinham relações com um grupo de goianos que ajudaram na elaboração da revista A Informação Goyana. Ver: WWW.org. Devemos 236 A idéia da interiorização da Capital do Brasil foi atribuída a José Bonifácio. que residia em São Paulo.

mencionar também o apoio que Henrique Silva e a revista receberam dos governadores de Goiás e do historiador Capistrano de Abreu, contrários ao relatório Neiva e Penna. No frontispício da Informação Goyana aparece a finalidade daquele periódico: “Revista mensal, ilustrada e informativa das possibilidades econômicas do Brasil Central”. O primeiro número da revista trouxe a justificativa de uma publicação que pretendia levar a informação e fazer a “propaganda das incomparáveis riquezas nativas do hinterland brasileiro”.239 Em seus inúmeros artigos a revista buscou mostrar Goiás “o que é, o que tem, o que vale, do que necessita”.240 No editorial de lançamento da revista foram definidos os seus objetivos. Ela trataria de “colocar diante dos capitalistas, dos industriais e dos comerciantes as possibilidades econômicas sem conta do Estado mais central e menos conhecido do Brasil (...)”.241 As inúmeras matérias da revista refletiam a própria identidade assumida pelos seus colaboradores. Ela se propunha a ser ao mesmo tempo científica, literária e política.242 Assim, o periódico publicava, além de artigos “científicos” sobre Goiás, poesias, folclore, lendas, literatura e história dos “pró-homens” do sertão e questões que afligiam os goianos, como as definições das suas fronteiras geográficas. Misturado a todos esses temas, estava o desejo de ver Goiás integrado ao restante do país e de demonstrar “cientificamente” que o estado mais central do Brasil estava fadado a cumprir importante papel no futuro da nação brasileira. Os editores também definiram o público alvo de sua revista.243 Seus leitores deveriam ser um público seleto, encontrado entre os homens de negócio, os políticos, a imprensa da época e os próprios goianos. Henrique Silva e Americano do Brasil esperavam que seus leitores investissem em Goiás e ajudassem a divulgar as possibilidades econômicas daquele estado. A confiança na contribuição de Goiás para o futuro da nação estava presente no final da justificativa dos editores da revista Informação Goyana: “Goiás ocupa o centro geométrico do Brasil, e não carece, pois, de razões geográficas para

239

BRASIL, Americano e SILVA, Henrique. Editorial: “A Informação Goyana”. A Informação Goiana. Ano I, vol.1. n.1, ago/1917. p.1 240 SOUZA, Alves. Conheçamo-nos! A Informação Goyana. Ano VII. vol.7. n. 2, set/1923. p.10. 241 BRASIL, Americano e SILVA, Henrique. Editorial: “A Informação Goyana”. Op. cit. p.1, 242 Idem, ibidem 243 Idem, ibidem

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representar ainda um importante papel social e econômico na grandeza futura da nossa nacionalidade”. 244 O relatório da missão Cruls, aquela comissão incumbida de demarcar no Planalto Central a área da futura capital da República, foi amplamente utilizado em defesa de Goiás. Nele encontramos a seguinte citação: “ver-se-á que o sertão goyano não é precisamente „um vasto hospital‟, como por aí corre”.245 Para o médico sanitarista daquela comissão, Azevedo Pimentel, a área demarcada possuía um clima salubérrimo: “a infecção palustre, que na opinião de todos os médicos é a nota característica da patologia intertropical, é excepcionalmente rara em toda a área do planalto central”.246 Ele defendia a salubridade de Goiás e a viabilidade da instalação da futura capital do país no Planalto Central. Pimentel era reconhecido como pertencente ao grupo dos goianos, amante e defensor das coisas goianas, ao contrário dos “outros”, principalmente Neiva e Penna que “difamavam” os sertões brasileiros. A Informação Goyana tentou “revelar” Goiás, mostrar suas possibilidades, seus dilemas e contestar o relatório Neiva e Penna. Americano do Brasil ressaltou a variedade e opulência da flora goiana, porém ainda não classificadas.247 O goiano, militar e também exintegrante da Comissão Cruels e articulista da revista, J. Curado, argumentou que o clima de Goiás era bom, agradável e variado. 248 O estado contaria ainda com extensas florestas e pastagens, além de riquezas minerais incalculáveis. Seria necessário, porém, cuidar melhor do interior do país, uma vez que foi deixado a sua própria sorte, fascinado pelo que “é exterior e estrangeiro”.249 Enfim, o sertanejo na sua maioria seria bom, honesto e tradicionalmente hospitaleiro.250 Henrique Silva sublinhou que Goiás era o único estado que tinha ligação com os principais sistemas hidrográficos do Brasil: o amazônico, o platino e com o São Francisco, artérias fluviais fundamentais para a interligação do Brasil.
251

Victor de Carvalho Ramos

244 245

Idem, ibidem BRASIL, Americano e SILVA, Henrique. Goiás na Patologia. A Informação Goyana. Ano 2. vol.1. n.9, abr/ 1918. p.109 246 PIMENTEL, Azevedo. O Clima do Planalto de Goiás. A Informação Goyana. Ano I, vol.1, n..1,ago/1917. p.6 247 BRASIL, Americano. A vegetação e a fertilidade do solo goiano. A Informação Goyana. Ano I, vol. 1, n.1, ago/1917. p.2 248 CURADO, J. J. O clima goiano. A Informação Goiana. Ano I. vol.1. n..3, out/1917. p.33. 249 Idem, ibidem. 250 Idem, ibidem. 251 SILVA, Henrique. A riqueza ictiológica de Goiás. A Informação Goyana. Ano I. vol.1. n.1,ago/1917. p.8

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fez questão de ressaltar a majestade do céu equatorial, a exuberância da terra virgem e suas fabulosas riquezas, além de ser cortado por artérias fluviais viáveis à navegação. Ele lembrou ainda o papel criativo dos sertanejos na fabricação de objetos e enumerou os produtos de exportação e importação de Goiás.252 Os editores do periódico argumentaram que as riquezas produzidas no estado eram desconhecidas, principalmente, devido à ausência de estatísticas oficiais e da precariedade dos recenseamentos. Segundo Americano do Brasil um dos sérios problemas de Goiás estavam na sua indefinição cartográfica. Segundo ele, por conta dos recenseamentos mal feitos e das fronteiras do estado ainda indefinidas, os goianos ignoravam ou desconheciam a totalidade dos seus moradores.253 Henrique Silva também lembrou que o estado apresentava problemas de definição na cartografia nacional.254 Outro articulista ressaltou o terror das populações rurais com relação ao recrutamento militar.255 Durante a Primeira Guerra Mundial, e “sob a liderança de Olavo Bilac e da Liga de Defesa Nacional, acentuou-se a importância do alistamento militar, considerado essencial para a soberania e afirmação da nacionalidade”.256 O fato de poucos goianos se alistarem seria uma prova, para a imprensa nacional, do deserto humano nos sertões. Porém, para os intelectuais goianos, o não alistamento seria uma forma de resistência dos sertanejos pobres frente a um Estado que não estava presente no seu cotidiano. Prevalece na Informação Goyana a concepção de que Goiás era mais rico, mais populoso, mais acolhedor e produtivo do que se divulgava. Havia uma tendência à sua idealização. Quanto aos recursos humanos, eles não seriam inaproveitáveis e inaptos para o trabalho conforme afirmaram Neiva e Penna. Enfim, Goiás possuía seus problemas principalmente relacionados às distâncias porque faltavam meios de transportes que possibilitasse a dinamização da economia local e boas estatísticas - mas também possuía enormes possibilidades.

2.1.2 Os intelectuais goianos versus Arthur Neiva e Belisário Penna

252

RAMOS, Victor de Carvalho. Um mundo desconhecido. A Informação Goyana. Ano I, vol. 1. n. 1. Ago/1917. p.9-10 253 BRASIL, Americano. .Pela história de Goiás. Goiânia: UFG,1980. p.53. 254 SILVA, Henrique. A população de Goiás. A Informação Goyana. Ano I.vol.1. n.2, set/1917. p.19. 255 R. C. A população de Goiás. A Informação Goyana. Ano IV, vol. n.7, fev/1920. p.79. 256 LIMA, Nísia Trindade. Um Sertão Chamado Brasil: intelectuais e a representação geográfica da identidade nacional. Rio de Janeiro: IUPERJ, 1999. p.105.

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A primeira referência direta ao texto de Neiva e Penna na Informação Goyana foi feita por Henrique Silva no seu artigo “Viajores – mas superficiais observadores” em março de 1918.
257

Este afirmou terem “vindos à luz nesses últimos dias” os tão

proclamados trabalhos sobre o Brasil Central. “Temos sobre a nossa mesa de trabalhos dois desses volumes: Viagem Científica... pelos Srs. Arthur Neiva e B. Penna e „Rondônia‟ de Roquete Pinto”. Para Henrique Silva tais obras já nasceram consagradas porque seus autores eram “notáveis membros da Academia Brasileira de Ciências”.258 Ele concluiu seu artigo afirmando que a Viagem Científica Pelo Norte da Bahia, Sudoeste de Pernambuco, Sul do Piauí e de Norte a Sul de Goiás estaria cheia de “passagens contraditórias, inverossímeis”.259 Ora, para os intelectuais goianos não era possível concordar com o cenário “dantesco” descrito para o Brasil-Central. No relatório Neiva e Penna, Goiás seria, por excelência, a terra da doença de Chagas, das cafuas e dos portadores do bócio. 260 Os intelectuais goianos entraram na disputa pela definição do que seria a região e por uma caracterização positiva sobre o interior. Enfim, todos os colaboradores da Informação Goyana eram reconhecidos como “nossos” porque defendiam os interesses da terra e da gente goiana, enquanto Neiva e Penna eram os “outros” acusados de criar um “retrato” negativo de Goiás, de difamar a terra e os homens do interior. No geral, os diretores e articulistas do periódico buscaram desqualificar o relatório Neiva e Penna alegando que eles não agiram de forma científica. Através dos artigos do periódico eles expressavam suas visões sobre os sertões goianos e contestavam as conclusões dos médicos de Manguinhos. De acordo com o médico Americano do Brasil, Neiva e Penna não ousaram se distanciar das velhas trilhas “dos primitivos bandeirantes, as quais hoje ainda constituem as estradas reais, geralmente cerceando os espigões e cabaceiras e evitando as ensombradas matas percorridas pelo gentio”.261 Percorrer rapidamente os sertões pelos antigos “caminhos reais” não lhes daria o direito de tirar conclusões apressadas sobre Goiás e “despi-lo em proveito de outras regiões sem
257

SILVA, Henrique. Viajores – mas superficiais observadores. A Informação Goyana. Ano II, vol.1, n.8,mar/1918. p.91. 258 Idem, ibidem 259 Idem, ibidem 260 KROPF, Simone Petráglia. Doença de Chagas, doença do Brasil: ciência, saúde, nação. Tese de Doutorado em História: UFF, 2006. Acessívem em: ged.1.capes. gov.br. p.184. acessado em 20/06/2011. 261 BRASIL, Americano. A vegetação e a fertilidade do solo goiano. A Informação Goyana. Ano I. vol.1. n. 1, ago/1917, p.2.

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A Informação Goyana. na verdade.1.1. Henrique. Vol. Americano do. povo de papudos e crioulos”. ibidem.106.266 Durante o encontro de Henrique Silva com Neiva e Penna na capital goiana. Henrique. “esses excursionistas de Manguinhos” não fizeram nenhuma referência à coleção vista e descreveram peixes de regiões goianas que sequer visitaram. Hugo de Carvalho Ramos (1895-1921). 269 262 263 Idem.161. a ignorância generalizada sobre a região. vaca normalmente sem chifres. feita toda ao longo das estradas comerciáveis”.1.4. Ano I. 264 RAMOS. Se a vaca não foi mencionada é porque os “enviados de Manguinhos”.262 Para o escritor goiano. Porém. pouco ou nada sabiam sobre Goiás. out/1918. julho de 1918. A Informação Goyana. p. cafarnauns. Hugo de Carvalho. Ano II. 269 BRASIL. ibidem. Vol 1. n. Aiêtê. 264 E por serem viajantes não acostumados com as longas marchas a cavalo. “compendistas” e “ensaístas” pouco ou nada conheciam além das florestas da “Gávea e Tijuca e a vegetação de climas europeus de nossas avenidas asfaltadas”.possibilidades de esforço humano. N.37 265 Idem. Isto ocorria porque os enviados eram “curiosos”. A vaca mocha de Goiás. da raça leiteira comum na região.12. em 1912. n.263 os “médicos de Manguinhos” „erraram‟ ao pretender “surpreender as complexas modalidades do habitat sertanejo numa viagem apressada. O que mais chamou a atenção foi o fato de Neiva e Penna não mencionarem a „vaca mocha de Goiás‟.93. terra adversa à civilização. A Informação Goyana. p. A Informação Goyana. p. abr/1918. Pela fauna do Brasil Central: retificações e refutações. Hugo de Carvalho Ramos. matriculou-se na Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais no Rio de Janeiro em 1916. A vegetação e a fertilidade do solo goiano. ago/1917. acabaram ficando sem ânimo e “estímulo para um estudo mais detalhado e completo do que seja realmente o nosso interior”. Era esse desconhecimento que possibilitava a sua transformação em “vasto hospital de paludicos. p.1. 268 Permanecia.2 71 . glorificando assim a própria ignorância e insuflando uma antipática campanha contra as riquezas naturais do Alto Sertão”. Ano II. 267 SILVA.267 Em vários artigos da Informação Goyana o argumento era o mesmo: os “médicos de Manguinhos” erraram nas suas descrições e julgamentos porque na verdade não conheceram Goiás.9. N. A Informação Goyana. vol. n. 268 EUZÉBIO.265 Alguns detalhes foram citados nos artigos da Informação Goyana para provar que o estudo realizado pelos referidos médicos foi muito superficial. A.5 dez/1917. vol 2. 266 SILVA. Ano II. Ano I. Suicidou-se em 1921. em 1917 publicou seu livro: Tropas e Boiadas. enfim. Literato goiano. O interior goiano. Vol. p. ele mostrou a Neiva um catálogo que publicou com material zoológico da mais completa coleção de peixes característicos das bacias do Araguaia e Tocantins.

de Carlos Chagas? Henrique Silva desconfiou das generalizações e questionou: se agora Penna afirma que “é absoluta a relação entre a presença da doença e a do barbeiro infectado”. zona que nos propomos a estudar. reduzido. se a infestação é universal não atinamos porque S. pior que o relatório Neiva e Penna. ibidem 72 . Diz S. Se no relatório eles afirmaram que a região sul do estado era habitada por maioria sadia.S. por que agora Penna dizia que todos eram “triponogoianos”. pelo menos no que concerne a Goiás. Belizário Penna constituiu-se o mais infatigável arauto da difamação das nossas coisas e sob o fundamento de uma campanha patriótica de saneamento nada lhe escapou ao alfange ferino e mordaz. por que no relatório concluíram terem sido infrutíferas as pesquisas realizadas para encontrar um barbeiro contaminado no norte de Goiás. encontram-se portadores de bócio. 1. Belizário através de dois momentos de seus inglórios escritos para o público e veremos que o afamado médico higienista está em contradição consigo mesmo.Porém. em artigo A Noite. Este conseguiu ampliar as características negativas de Goiás. É o que se pode ver no artigo de Henrique Silva “Em favor de Goiás: assuntos sanitários” no qual este se propôs a mostrar as incoerências do discurso de Penna comparando seu artigo do periódico A Noite com a o relatório: Desde muito o Sr.4. de 20 de agosto: „Na capital de Goiás não há casos de doença na zona urbana. Sob pretexto da publicação a que aludimos o grande arauto dos maldizeres investe novamente sobre todos os Estados do Brasil e de seus habitantes reduzidos à pestilência completa. região tida como universalmente contagiada pela doença?271 Para o diretor da revista aquelas certezas propagadas por Belisário Penna não correspondiam às pesquisas 270 SILVA. uma referência ao Triponosama Cruzzi. porém. Belizário Penna era “o mais infatigável arauto da difamação das nossas coisas”.S. Ela abunda nos bairros e é universal nos subúrbios construídos de casas apenas barreadas e inçadas de barbeiros infectados de tripanosoma Cruzi. 270 Para Henrique Silva. Ano V. n. Igual fato se observa nas cidades das regiões infectadas‟.3 271 Idem. foram as publicações de Belisário Penna. Mas se assim é. Mas estudemos os ditos do Sr. p. na concepção dos intelectuais goianos. em número. além de perder qualquer relação com a cientificidade. ao traçar as suas apreciadas notas para as Memórias de Manguinhos tem passagens como esta: „Em toda a região (refere-se à capital e ao sul). bastante habitada por gente sadia em sua maioria‟. Henrique. A Informação Goyana. sendo ainda mais reduzido o número de doentes com as modalidades mais graves da moléstia‟. A favor de Goiás: assuntos sanitários. Em outra passagem: „a região sul do Estado. bem construída. ago/ 1920. vol.

Simone Petraglia.4. para Neiva e Penna era “um dever de consciência e de patriotismo” denunciar a situação de doença.4 275 HOCHMAN. supl. Porém. O que o diretor da revista questionou foram as afirmações categóricas do líder da campanha pró-saneamento (1918-1920) que extrapolavam as conclusões presentes no relatório. p. além disso.gov. saúde-Manguinhos. a relação entre bócio e doença de Chagas e a ampla contaminação dos sertanejos não seriam tão evidentes e generalizadas como ele agora queria fazer crer. ciências. p.br. p. no final da avenida.) no tocante a esses estudos”. a consciência patriótica ordenava a não utilização política do relatório. n.p.199. A favor de Goiás: assuntos sanitários. anteriormente criticado por falta de cientificidade. determina e ordena não sejamos demolidores contumazes e reincidentes”. caberia ao cientista respeitar os moradores dos sertões.capes. miséria e abandono em que se encontrava o homem do interior. aquele era o contexto da Primeira Grande Guerra. mas capturaram poucos protozoários responsáveis pela transmissão da doença de Chagas no percurso goiano da viagem. vol. que realçava a doença de Chagas como símbolo da “doença do Brasil” e. Gilberto. momento de fortalecimento da idéia de um “nós” coletivo. 275 O diretor da Informação Goyana considerou um despropósito o fato de Neiva e Penna querer destruir a idéia de comunhão nacional naquele contexto.. Disponível em: ged1. doença do Brasil: ciência.feitas.228. 273 SILVA. ago/1920. além da sua dimensão epidemiológica.272 Para Henrique Silva havia ainda. em relação à doença de Chagas.Interessante que este documento. A Informação Goyana. 73 . Estes não poderiam continuar sendo difamados por “estudos carentes de revisão e confirmação e. Vol. História. Tese de doutorado em História. Ora. Jun/1998.1. “algo de incerto e impreciso (. No relatório os médicos afirmaram terem encontrado uma grande quantidade de pessoas com bócio. Henrique Silva provavelmente acompanhou as críticas feitas pelos pesquisadores argentinos à primeira caracterização clínica da doença de Chagas. Ano V. principalmente com relação ao bócio e sua associação ao retardo física e mental. UFF: 2006.. ao contrário.V. Logo ali. sobretudo. 272 KROPF. foi utilizado contra as generalizações feitas por Penna. saúde e nação (1909-1962). Henrique. a boa fama de nosso país que o mais elementar senso patriótico manda.3 274 Idem. Os Sertões redefinidos pelo movimento da Primeira República. de Goiás. Doença de Chagas. 273 Se assim era.274 Para Henrique Silva. Eles questionavam as fragilidades da teoria elaborada por Carlos Chagas em torno de certos enunciados da doença.

279 SILVA. Henrique. Ironicamente argumentou que o governo teria várias opções.. vol.279 Para Henrique Silva.277 Enfim.Para os cientistas de Manguinhos não bastava ter encontrado e diagnosticado um povo doente. porém. portanto.10. a polpuda verba que o governo pediu ao Congresso Nacional para o urgente saneamento dos sertões interiores. ibidem. Ao que parece os intelectuais goianos não perceberam a gravidade da doença de Chagas para os habitantes dos sertões. o pretexto era que o interior do Brasil não passava de um vasto hospital. todas elas ligadas a investimentos “inadiáveis e produtivos”.. Eles negaram o gesto patriótico do tão “decantado saneamento dos sertões”.. 74 . na hora de aprovar a verba para o saneamento esqueciam Goiás. ao ampliar as características negativas de Goiás. “era urgente transformar esses „estranhos habitantes‟ do Brasil em brasileiros”. sendo inclusive pretexto para a criação do Departamento Nacional da Saúde Pública.2. com a condenação ao atraso e recuperá-los “através de ações de higiene e saneamento. Votada. Aiêtê (Verdade). Neiva e Penna acreditavam ser possível “redimir”. Arthur Neiva e Belisário Penna foram contemplados”. tabagismo. n. Entretanto.276 Seria necessário.130. a motivação patriótica da campanha “pró-saneamento”. mai/1918. A Informação Goyana. os nossos bons amigos Srs. inclusive segundo afirmativas dos srs. pois estados “não palmilhados pelos emissários de Manguinhos. A. vol. alcoolismo. Henrique Silva chamou atenção para a caracterização dos sertões goianos como “o vasto hospital” que nunca era esquecido.151.1. Ano II. ou para a expansão do telégrafo. Está aí na memória de toda a gente o quadro dantesco que aqueles dois aludidos emissários de Manguinhos pintaram dos sertões goianos e piauienses. Notas e Comentários. fundadas pelo conhecimento médico e implantadas pelas autoridades públicas”. Idem. ibidem.11. A Informação Goyana. n. romper com a resignação. p. ou no mínimo procuraram diminuir seus efeitos. paludismo. não havia dúvidas de que vivíamos num país singular: Quando foi da propaganda do tão desejado Ministério de Hipócrates. Ano II. jun/1919. p. e 276 277 Idem. curar e salvar os habitantes dos sertões através de uma aliança entre os homens da ciência e o Estado. um horror. 278 EUZÉBIO. Ele sugeriu também a fundação de um laboratório químico em Goiás. ou ainda para a construção de estradas de rodagem e de postos zootécnicos. Entretanto. desagradava enormemente os intelectuais goianos. Arthur Neiva e Belisário Penna – a área demarcada para a futura capital da República.278 Henrique Silva sugeriu que a possível verba destinada ao saneamento fosse transferida para o prolongamento da via férrea.

75 . a indignação e a denúncia do diretor e dos articulistas da revista. Arthur e PENNA. p.2. Entretanto. vol. mas para sanear o Estado do Paraná – tido e havido como a região mais salubre do Brasil. Ora. 282 LUCA. funesto. homem baldio. na sua primeira caracterização. p.2 Os Intelectuais Goianos em Defesa de um Projeto Para os Sertões 2. parasita. a terra dos cretinos e dos “tryponogoianos” não teve acesso às verbas. Por fim. Tânia Regina de. a propagação daquelas imagens “infernais” teve uma finalidade: a de viabilizar a criação de um órgão que coordenasse as ações voltadas para a saúde nacional.281 Que posição foi assumida pelo diretor e colaboradores da Informação Goyana com relação ao homem do campo? Os médicos de Manguinhos atribuíram importante valor civilizacional à imigração. aquela do conto Urupês. na verdade. Henrique. 1. não para Goiás ou Piauí.11 NEIVA. O Jeca Tatu foi um personagem criado por Lobato e publicado no jornal O Estado de São Paulo.quando esperávamos que de Manguinhos partissem as primeiras caravanas de Esculápios para os insalubérrimos sertões goianos. In: AXT. n. Gunter e SCHULER. cit.139-143. vivendo em terras lendariamente ricas mas que. Belisário. 2004.280 Frente às incoerências do poder público restava a ironia. 2. Goiás foi novamente abandonado. Ano II. de Monteiro Lobato. utilizando-se do desconhecimento generalizado sobre o Brasil Central. “Sem o concurso da imigração será difícil galvanizar populações rotineiras. seminômade. o trabalhador nacional não seria o Jeca Tatu. para Henrique Silva a transformação dos sertões num “quadro dantesco” teve por objetivo a criação do Departamento Nacional de Saúde Pública. eí-los que partem. ago/1918. A Informação Goyana.2. p. Op. Em 1918. quando do 280 281 SILVA. Notas e informações. aos médicos e aos postos médicos como havia acenado e diagnosticado Belisário Penna. Assim. Monteiro Lobato: a luta em prol da brasilidade e do progresso. Porto Alegre: Artes e Ofícios. estão longe disso”. inadaptável à civilização e improdutivo. Fernando Luis (Org) Intérpretes do Brasil: ensaios de cultura e identidade. em 23 de dezembro de 1914.282 Naquele conto o caboclo foi caracterizado de forma impiedosa: piolho da terra. após conseguir o seu intento.1 A Informação Goyana em defesa do trabalhador nacional Neiva e Penna consideravam que sem a ação da ciência na redenção do trabalhador nacional ele continuaria como pária da civilização e o progresso da nação estaria na dependência da mão-de-obra imigrante. Porém.175.

ibidem. Contestando Neiva e Penna. “Como fazer chegar às chochas disseminadas as distâncias as luzes emancipadoras. Populações rurais.)”.96-99. avesso ao progresso. esse discurso vinha seduzindo a todos e a solução apresentada seria a vinda de imigrantes com seus métodos modernos de cultura. através das páginas da Informação Goyana.98 287 Idem. poderia ser redimido através da ação da medicina. p. p. 2. indolente por vias da hereditariedade e despauperramento físico decorrente de endemias e inoculações varias de parasitas (. o mesmo apoio e assistência dada pelos governos aos imigrantes. a partir do momento em que as populações rurais foram descobertas como principal fonte de riqueza pública. segundo o articulista. as boas vias de transportes. não era proprietário das terras. já que o trabalhador nacional seria um fator negativo de progresso. veríamos o quão apto para o trabalho seria também o homem do campo. se as comunicações se fazem ainda por vias do faraônico carro de boi e às costas de bestas de cargas?” Não dava para exigir que o trabalhador resolvesse esse problema sozinho. Segundo ele. desde que o Estado centralizasse as saúde e enviasse os médicos para o interior do país. Depois disso. Lobato se engajou na campanha pelo saneamento dos sertões. segundo ele. ibidem 288 Idem. liderada por Belisário Penna e publicou uma série de artigos que depois foram reunidos no livro O Problema Vital.lançamento do livro. Nessas condições de produção pouco sobrava para comerciar. às populações rurais faltava o essencial.97 286 Idem. Hugo de Carvalho. p. 7. vol.. supersticioso. como os sertanejos de Neiva e Penna.284 Este passou então a ser caracterizado como “fatalista. Ano II.286 O articulista reclamou para os trabalhadores nacionais. A Informação Goyana. fev/1919.287 Segundo ele. Hugo de Carvalho Ramos recuperou o início desse debate.. RAMOS. assim. pois. ele vivia numa economia de subsistência. Enfim. ibidem 76 . n.283 O Jeca Tatu . 285 Idem. as classes parasitárias das capitais não se cansaram de afirmar a superioridade da mão de obra imigrante e a inferioridade do camponês.285 Eles foram ainda acusados de não possuírem espírito de concorrência nem de se adaptar ao progresso. nem recebia auxílio para a compra de ferramentas.288 Carvalho Ramos lembrou ainda que o trabalhador rural vivia na simplicidade e não deveria ser julgado a partir dos valores do litoral. afirmou que aquele 283 284 Idem.

Victor de Carvalho. p.289 Com relação às queimadas havia um consenso.291 Para Victor de Carvalho Ramos a agricultura goiana nunca contou com auxílio público.5. permanecia sem solução. tanto Neiva e Penna no relatório quanto os goianos através da Informação Goyana a condenavam. Aos poucos os articulistas passaram a defender a vinda de imigrantes.11.55 293 COELHO. Ano I. a golpes de enxadas se abrem as covas em que são lançadas as sementes (. 1. comodismo. Americano do Brasil. Henrique Silva. ausência de ambição e pobreza. dez/1917. que governou Goiás de 1832-1837.. se surpreendeu com a atualidade das informações divulgadas por Jardim sobre a lavoura goiana: “as grandes árvores são derrubadas a golpes de machado. então. A deondroclastia no Brasil. 1.61. 292 Para Euler Coelho.)”. havendo precedido uma laboriosa roçada. p. Americano do. desconfiados das inovações e com suas energias “comidas pela ancilostomose”..293 Assim. n. A Informação Goyana. p. n. A Informção Goyana. vol. o fogo reduz a cinza os madeiros que os séculos criaram. Ano XI. a total falta de informações e de acesso às máquinas e equipamentos agrícolas.. 77 . As queimadas seriam feitas em nome de uma lavoura rotineira que discriminava o cerrado (reputado como estéreo) em favor da mata a ser devastada. A Informação Goyana. In: Pela História de Goiás. Ano 1. dez/1917. 8. O governo Jardim. ele justificava a baixa produtividade. vol.. Cit. mar/1928. tentaram buscar explicações históricas para a permanência daquela prática secular. A agricultura em Goiás.modo de viver não poderia ser visto como sinal de indolência. a falta de inovação técnicas na agricultura em Goiás e a necessidade de incentivar a vinda de imigrantes. os agricultores goianos estavam muito próximos das caracterizações feitas por Neiva e Penna. porém. por isso ela viveu do inveterado costume rotineiro. a precariedade das estradas e ausência do poder público para fiscalizar as queimadas. Euler. ibidem BRASIL. porém. Henrique. Todavia. Eles estariam presos a culturas tradicionais e a métodos antigos. argumentavam que sem os meios de 289 290 Idem. no artigo “A deondroclastia no Brasil”. Estes deveriam completar a mão de obra nacional.97. 5. Entre elas encontramos os “costumes em comum” dos trabalhadores nacionais. n. 292 RAMOS. Op. ao escrever sobre José Rodrigues Jardim.290 As queimadas eram uma prática que indignava tanto no passado quando no presente. agarrados à tradição. Alguns articulistas da revista. p. inspetor agrícola do estado. clamou por um código florestal que impedisse a devastação da natureza. 291 SILVA.110. vol. A cultura dos campos goianos.

Victor de Carvalho. máquinas agrícolas e informação aos sertanejos. vol. A Informação Goyana. Aiêtê.81. p. Op. A.1.82. Ano VII. jul/1918. Eles esperavam que o Estado implantasse um conjunto amplo de medidas para melhorar a situação no campo. Victor de Carvalho. 7.296 A própria revista se encarregou de fazer tanto a divulgação das possibilidades econômicas de Goiás quanto do incentivo à modernização da agricultura. A expansão capitalista no sul goiano poderia ser explicada em função dos atrativos ali existentes.161. Era preciso fazer ver que a terra goiana. Henrique.22 297 SILVA.10. 11. n. vol.. encaminham-se para o sul do Estado. 1924. como a fertilidade do solo. ibidem. p. os baixos custos da terra e a melhoria dos transportes possibilitados pela expansão 294 295 RAMOS. EUZÉBIO. além de ser “um rico pedaço da terra brasileira”. Notas e Informações. o sul de Goiás estaria modernizando sua agricultura e recebendo imigrantes.12. set/1917.)”..298 “Atraídos pela fertilidade daquelas terras virgens. afirmava Carvalho Ramos. Quando isso acontecer Goiás estará em condições de produzir “o suficiente para abastecer todo o Brasil”.2. sobressaindo entre aqueles os japoneses e alemães. p. A Informação Goyana. além de diminuir o preço das terras devolutas e fiscalizar a devastação das florestas.295 Os intelectuais goianos acabaram se apropriando da caracterização de sertão como local abandonado pelo poder público. 12. A nossa propaganda no exterior. Para Carvalho Ramos a rotina e a baixa produtividade da lavoura goiana seriam superadas quando os governos distribuíssem sementes de qualidade.. Ano I. “os nossos votos são para que venham. e integravam-se ao mercado do centro-sul na Primeira República. Ano XIII. cit. A Informação Goyana. vol.55. Ano II. 299 Idem. vol. era também “um indispensável celeiro para a capital e outros grandes centros do país”.299 As regiões sul e sudoeste de Goiás atraíam imigrantes nacionais e estrangeiros.transportes necessários eles teriam dificuldades para escoar sua produção. n. p. que tanto precisa de braços”.1. imigrantes estrangeiros e nacionais. n. Henrique. n. A Informação Goyana. Os intelectuais goianos acabaram concordando com os médicos quanto à necessidade de imigrantes no estado. no relatório Neiva e Penna. 298 SILVA. p. Uma região desconhecida. mas milhões de alemães para o grande Estado Central. aumentando as culturas e adquirindo propriedades (.297 Mais tarde o mesmo Henrique Silva afirmou que à revelia do governo da União. Como disse Henrique Silva. 296 RAMOS. 78 . não milhares.294 Em vários outros artigos da Informação Goyana a profecia de Goiás como futuro celeiro da nação contrapõe-se às imagens negativas divulgadas sobre o estado.

Jorge. Goiás: uma nova fronteira humana. ago/1917.21. São Paulo: Cia das Letras. set/1917.2 Para Benedict Anderson mais do que inventadas. p. 302 Apud LATOUR.117. o médico e deputado federal de Porto Nacional. 2008. como o fato de os sertanejos serem descendentes dos bandeirantes paulistas. 304 Eles seriam os responsáveis pelas glórias do passado. encontramos no Anuário Estatístico do Brasil. lutava para levar os benéficos da “civilização” aos vales dos rios Araguaia/Tocantins.3. 1.301 Porém. o dr. A Construção de Goiânia e a Transferência da Capital. Ano I. 1. Goiânia: UFG. As mil e uma noites do sertão: seus pró-homens.833 que entraram no Brasil. os “heróicos filhos dos Campos de Piratininga”. 303 ANDERSON.854. A Informação Goyana.2.283. p. Nars N.2.22 79 . p.da linha férrea. O historiador goiano Fayad Chaul lembra ainda que as levas de migrantes e imigrantes “passaram a se dirigir para as áreas periféricas da economia nacional”. de 1946 o número de estrangeiros presentes em Goiás. Os sertões como “cerne da nacionalidade brasileira” 2. Ano I. n. Comunidades Imaginadas: reflexões sobre a origem e difusão do nacionalismo. Rio de Janeiro: Conselho de Imigração e Colonização. p.305 Henrique Silva e Americano do Brasil não se conformaram com as conclusões de Neiva e Penna. Francisco Ayres da Silva. p.25. n. 304 SILVA. Na Informação Goyana outros aspectos dos sertões também foram valorizados. ainda. 301 Idem. Benedict. todas essas condições favoráveis foram propagadas pela revista. Henrique.300 uma exigência das “mudanças econômicas brasileiras representadas pela industrialização no Centro-Sul e pela expansão da economia cafeeira”. houve a necessidade de recuperar o passado goiano ligado aos bandeirantes paulistas. num total de 1. A Informação Goyana. 1988. as nações são imaginadas como comunidades. Ele propunha e fazia aprovar projetos para a melhoria dos meios de transportes através da dinamização da navegação naqueles rios e da construção de estradas de ferro e de rodagem. 305 SILVA.302 Quanto ao norte de Goiás.1. que acusaram os goianos de não 300 CHAUL. No caso de Goiás.303 A partir desse momento tem-se a necessidade de construir um passado que seja significativo para aquelas populações. Estes foram denominados de “pró-homens do sertão” ou. Ele acreditava na capacidade produtiva dos trabalhadores nacionais e desejava ver superadas as dificuldades para o escoamento da sua produção. Fayad.vol. As mil e uma noites do sertão: seus pró-homens. vol. 1949. Henrique. Estes seriam apenas de 1.

a presença dos tropeiros que trafegavam pelos caminhos conduzindo o gado e dos remeiros que impeliam. As mil e uma noites do sertão: seus pró-homens. 9. Ano VII.1. Doença de Chagas. Op. 7. as almas penadas.306 Para os editores da Informação Goyana. Para Henrique Silva. Arthur e PENNA. que nos vae desnacionalizando pelo 306 307 NEIVA. Belisário. SILVA. O que faltava era escrever a epopéia dos bandeirantes paulistas no Brasil Central.177. com seus roteiros que seduziam e exaltavam o espírito aventureiro dos sertanejos. onde se apagavam os rastros deixados pelas glórias de outrora. A Informação Goyana. p. 1987. 309 SILVA.184 80 . Henrique. 307 Nos “altos sertões”. p. à força de varejão. as pesadas embarcações “mineiras” com destino a Belém. 309 No momento.310 Nos “altos sertões”. segundo Henrique Silva. nos “altos sertões” ainda seriam comuns os mutirões para a derrubada das matas virgens ou para fazer a “moagem” da cana de açúcar. Simone Petraglia. nos “altos sertões” estariam preservadas as verdadeiras tradições goianas e brasileiras. AnoI. n. Henrique.308 ali estaria os verdadeiros brasileiros. presentes nas práticas cotidianas e no “folk-lore” da região. vol 148. p. estaria o brasileiro puro.possuírem a idéia de nacionalidade e pela ausência de um folklore interessante entre as populações nortistas. p. Op. vol.. e os do sul. um passado distante. adjetivação de sertão. Ali ainda prevalecia a rotina dos tempos passados. agora transformado em “imenso hospital”. pária da zona estreita da Bahia vizinha do litoral e em contacto com o elemento estrangeiro. Folk-Lore do Brasil Central.2. set/1917. n. Ceres Rodrigues. Doença do Brasil. Cit. o que se via era o desaparecimento dos encantos do vasto cenário sertanista. p.311 Não aqueles sertanejos encontrados por Euclides da Cunha “despauperado jagunço. O Sertão Nordestino e Suas Permanências (Séc. abr/1924. n. 308 MELLO. herdeiros dos gloriosos bandeirantes paulistas. Comuns seriam também as tradições dos bandeirantes. ibidem. onde se encontravam os rios Araguaia e Tocantins. os poços encantados. as lendas da mãe de ouro. 311 KROPF. Euclides da Cunha já havia feito a separação entre os sertanejos do norte.356.22 310 Idem. XVI-XIX). para quem a atividade dos vaqueiros se colocava como referência para a construção do universo sertanejo.cit. A Informação Goyana. para os editores da Informação Goyana todos os goianos seriam descendentes dos bandeirantes paulistas.67-69.295-300. de forma a recuperar um “tempo perdido”. Entretanto. jul/set. vol. que guardavam os enterros sob as árvores das taperas e todo um mundo estranho povoado de entes monstruosos. In: Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro . A concepção de sertão de Henrique Silva parece se aproximar da visão de Capistrano de Abreu. miscigenados e nefastos.

314 A sessão cívica evocou um passado glorioso e rememorou “as façanhas dos bandeirantes. A Informação Goyana. A bandeira do Anhanguera a Goiás em 1722: o roteiro de José Peixoto da Silva Braga. p. Ano II. pesquisadores e desbravadores (. fev/1927. o próprio diretor da revista afirmou que ela.67 ALMEIDA.313 Por isso. Folk-Lore do Brasil Central. restaurar um passado grandioso na construção da nacionalidade. A cruz. ibidem 316 SILVA. ibidem 315 Idem.312 O goiano seria mais puro..)”. a resistência e bondade do negro e as varonis qualidades da raça portuguesa (. Henrique.315 Em 1918.55 81 . Ver ainda: A Informação Goyana. o evento em torno da cruz tinha o poder de evocar “o passado do Brasil. A cruz do Anhanguera. n. O artigo informava sobre uma sessão cívica realizada em 15 de novembro de 1914. A Informação Goyana. Acreditava-se que a cruz teria sido fincada em solo goiano pelo bandeirante Bartolomeu Bueno da Silva. símbolo da fé cristã e marco da chegada da civilização aos sertões goianos. Ano IX. Mendes. as suas glórias. p. onde se perpetuam a energia indômita do caboclo. p. Vol. na cidade de Catalão. Henrique. é construção narrativa de um passado que nunca existiu. Ano VII. A Informação Goyana. n.cosmopolitismo crescente”.7.7. A. num dado presente. vol. fez com que a Informação Goyana publicasse o artigo “A Cruz de Anhanguera” transcrito do Jornal O Anhanguera. a revista publicou um manuscrito encontrado no Instituto Histórico e Geográfico do Brasil. pelos bandeirantes.2. p. em 1927. “foi 312 313 SILVA.. intitulado “A bandeira do Anhanguera a Goyas em 1722”. Ano II. nas primeiras décadas do século XVIII. vol. set/1918. no estado de Goiás. Tal narrativa tinha por finalidade. vol.. a formação de sua nacionalidade. já que teria resguardado os costumes tradicionais. Ainda naquela mesma edição e nos dois números seguintes.316 Com relação à suposta “Cruz do Anhanguera”.2. Bartolomeu Bueno da Silva. ela foi considerada a maior relíquia do estado.18 314 Idem.22. a cruz foi levada para a cidade de Goiás onde foi transformada em monumento numa praça pública. n. Ele estaria mais próximo da autenticidade da qual a nação carecia. 2. conquistadores.2.10. dando conta do roteiro percorrido pelo bandeirante paulista. De acordo com o articulista. associada ao bandeirantismo paulista. A preocupação com a construção da identidade dos goianos e da própria nacionalidade associada à conquista do espaço. porque ainda não deturpada pela onda europeizante que varria o litoral. na verdade..9.)”. n. as suas lutas.

na cidade de Goiás. Segundo ele. em Goiás”.7.3839.fincada para assinalar a cova de um capitão pertencente à milícia de Minas Gerais (. n.318 A cruz permaneceu fincada na praça pública da cidade como símbolo da epopéia bandeirante até ser arrancada pelo transbordamento do rio Vermelho em 2001 e uma réplica foi colocada em seu lugar.br/goiás. saúde-Manguinhos.2009.184. como afirmou o próprio Henrique Silva. em seu lugar. In: História.322 Enquanto a revista defendia a transferência da Capital para o 317 SILVA. 322 Idem. 319 Depois da enchente do Rio Vermelho. Ano IX.) como rezam as crônicas”. ibidem 82 .319 Pertencendo ou não a Anhanguera.velho. vive mais na legenda do que na história. Uma interpretação do Brasil como doença e rotina: a repercussão do relatório médico de Arthuir Neiva e Belisário Penna (1917-1935).A bandeira do Anhanguera a Goiás em 1722. Frei Reginaldo. Henrique.7. que os goianos tinham motivos para se orgulharem de seu passado e projetarem um futuro não menos glorioso.16.1. encontrada a Cruz de Anhanguera. p. p. vol.. p. Henrique. jul.. A Informação Goyana. supl. „o Anhanguera‟. Vol. Dominichi Miranda de. Rio de Janeiro.10.mochileiro. Pois.321 Ela chamou a atenção para a importância da Informação Goyana ao ativar aquela pauta e para os vários projetos apresentados no Congresso Nacional. “o nome de Bartolomeu Bueno da Silva. em 31 de dezembro de 2001. com música e discurso. vol. ciências. 320 SILVA.55. em 1918. Durante a inauguração do monumento ocorreu uma bela cerimônia. 321 SÁ. p. Paris: Missions Dominicines.3 A interiorização da Capital Federal De acordo com Dominichi de Sá.. 2. fev/1927. Ano IX. n. fev/1927. foi instalada uma réplica.10. A Informação Goyana. A bandeira do Anhanguera a Goiás em 1722. Ver: WWW.tur. a campanha pela transferência da Capital Federal foi um “resultado imprevisto do relatório”.317 O missionário dominicano frei Reginaldo Tournier registrou apenas o evento da inauguração do monumento público..55. 318 TOURNIER.320 Pode-se dizer. Plages Lointaines de L‟Araguaya. ela continuou cumprindo uma função explícita: a de lembrar aos goianos que eles tiveram uma origem grandiosa porque descendentes dos antigos bandeirantes. Data de acesso 20/06/2011.httm. a cruz feita de madeira havia sido encerrada em soberbo monumento. ela foi levada para o Museu das Bandeiras e. erguido em praça pública.2. 1934. durante as comemorações dos duzentos anos de Goiás.

p. como determinava a Constituição Federal. cit. que passaram defender tal projeto. a sede do governo seria fixada nas cabeceiras dos afluentes dos rios Tocantins. Brasília: Senado Federal. uma esperança. 326 CRUlS. Op. A questão da capital: marítima ou no interior? A Informação Goyana. p. Ali instalada. entre julho de 1892 a fevereiro de 1893. Eles comemoram quando o relatório daquela expedição apontou os benefícios da mudança da capital para o interior como de fundamental importância para o desenvolvimento e progresso futuro do país. Como havia sugerido Varnhagem. a geologia. garantiria a segurança e a unidade do Brasil. História de Brasília: um sonho.1985. Após a sua promulgação foi formada uma comissão. Em seguida.323 Inúmeros foram os artigos elaborados pelos goianos e publicados na Informação Goyana em defesa da mudança da Capital Federal para o Planalto Central do Brasil.Planalto Central ganhava adeptos para sua causa e divulgava as riquezas e possibilidades econômicas de Goiás. fundada em 1921. as fontes de energia. A transferência da capital foi determinada pela Constituição de 1891.45-61. A esse respeito ver: SÁ. eles colaboraram com a “Missão Cruls”. Relatório Cruls: relatório da comissão Exploradora do Planalto Central do Brasil. Durante a realização desses trabalhos os goianos participaram ativamente. criada em 1932. uma área de 14. Ernesto. diretor do Observatório Astronômico do Rio de Janeiro. Identificamos quase quarenta matérias tratando especificamente daquele projeto. 2003. ajudando nas tarefas de levantamento e reconhecimento daquela área.. 83 . Luiz Cruls. 324 SILVA. 325 SEGURO. uma realidade. Uma interpretação do Brasil como doença e rotina.324 A existência de um projeto de transferência da Capital da República para o Planalto Central alimentava as esperanças dos goianos quanto ao futuro do Centro Oeste. p. sob a liderança do Dr. em 1877. 10. a fertilidade do solo. n. a futura Capital favoreceria o desenvolvimento do comércio interno. vol.183-203. e a Associação Universitária Goiana. Visconde do Porto.3. Brasília: Congresso Federal.400 km². 323 Dominichi de Sá listou uma série de periódicos goianos e algumas associações como A Sociedade Goiana de Geografia e História. Essa expedição demarcou a área do futuro Distrito Federal. Dominichi Miranda de. ajudaria a “civilizar” todo o sertão. para fazer o levantamento e a demarcação do futuro Distrito Federal. a fauna e a flora. Ano IV.325 No início da República. do Prata e do São Francisco. mai/1920. do Amazonas. Luiz.121-123. que percorreu Goiás. os goianos comemoraram a inclusão do artigo 3º na Constituição Federal tratando especificamente da transferência da Capital para o Planalto Central. em seu artigo 3º. no Estado de Goiás. a abundância das águas. o clima e a salubridade da região.326 Ela tinha por objetivo fazer um amplo estudo sobre a topografia.

Normalmente. p.79. ele ainda insistiu na salubridade da região e na grandiosidade do futuro nacional a partir da construção na nova Capital. os sertões povoados e o nome do Brasil devidamente levantado pela fama do seu clima invejável. os intelectuais goianos utilizavam o argumento da ordem estratégica. com o início da circulação do relatório Neiva e Penna (1916). Azevedo.146. Entre as causas apontadas para explicar a existência de doenças em Goiás. Eles então reativaram a pauta da transferência da Capital vista como verdadeira campanha patriótica e buscaram justificar a transferência recuperando as idéias dos estadistas do Império. A Informação Goyana.5. Antonio Azevedo Pimentel. todos os grandes rios navegáveis do Brasil estariam abertos ao comércio. os relatórios de chefes de turmas e dos especialistas em determinadas áreas. do Rio de Janeiro para o Planalto Central.327 Ele também afirmou a existência de temperaturas amenas na área demarcada. eles sentiram que as pretensões de Goiás para receber a futura Capital da República estavam sendo ameaçadas. Mudança da Capital da República. da disseminação do „progresso‟ e da „civilização‟ que irradiaria desse novo centro para o interior do país. Durante o 6° Congresso Brasileiro de 327 328 PIMENTEL. 84 . como se ela fosse uma antiga aspiração nacional. dez/1923. em anexo.Ano II. no anexo IV encontramos o relatório do dr. especialmente aquelas associadas ao bócio. n. p. 328 Por fim. A justificativa para a mudança da Capital apontava também para o futuro. Ano VII. Gomes. n. p. jun/1919.329 A nova Capital possibilitaria a interligação do Brasil e a resolução dos problemas nacionais como a integridade e defesa do país. Afinal. PIMENTEL. Mudança da Capital: Patologia. Assim. médico sanitarista da comissão.5. e não seríamos (. A Informação Goyana. 329 CARMO. Azevedo. estaria a má alimentação dos sertanejos. n. A preocupação dos intelectuais goianos em definir o que seria o “Planalto Central” e qual o local em que seria construída a capital constituía-se numa reação frente às pretensões dos mineiros de sediar o Distrito Federal. Clima da área demarcada para o futuro Distrito Federal.10. Entretanto.. vol. Através da Informação Goyana argumentaram que se a Capital já se encontrasse no Planalto Central. A Informação Goyana. os goianos passaram a ver os sertões a partir da ótica do relatório da “Missão Cruls” (1892-1893). a busca de legitimidade num passado distante é fundamental nesses momentos de disputas. Ano VI.2. vol. a falta de instrução e ausência de noções elementares de higiene e o abusos de bebidas alcoólicas.33-35. “o interior do país estaria cortado de estradas.7.O relatório da “Missão Cruel” apresentou após a conclusão.11.) o país da febre amarela”. vol. assim.. A.

inúmeros artigos foram publicados na Informação Goyana se opondo aos interesses dos mineiros. p. Ano II. 3. Francisco Ayres da Silva na Informação Goyana 2. vol. eles até concordavam com os médicos de Manguinhos quanto à ausência do Estado nos sertões. Não seria um relatório elaborado após a visita dos médicos Neiva e Penna. Para os intelectuais goianos era fundamental recuperar o projeto de transferência da capital para o Planalto Central e provar a sua viabilidade. que poria fim ao sonho dos goianos. dez/1919.1 Trajetória de Francisco Ayres da Silva Tínhamos grande curiosidade com relação aos argumentos de Francisco Ayres da Silva sobre a apropriação das idéias de Neiva e Penna pelos periódicos nacionais. Tal ato simbólico foi realizado em comemoração ao centenário da independência.2.2 Dr. Assim. dr. sua visão sobre o relatório Neiva e Penna e o movimento “Pró-saneamento dos sertões” (1918-1920) liderado por Belisário Penna. Americano do Brasil conseguiu aprovar um projeto para o lançamento da pedra fundamental no local da construção da futura capital da República.59. Ele era médico e foi interlocutor de Neiva e Penna nos sertões. porém esperavam que esse problema fosse resolvido com a transferência da capital para o Planalto Central. n. que nem chegaram a percorrer a área demarcada pela “Missão Cruls”. A mudança da capital para Goiás: um projeto apresentado no Senado. 2. Como ele se posicionou frente ao relatório Neiva e Penna? Ele. como pertencente ao “campo” médico. integrante do grupo de intelectuais que se reuniu 330 BRASIL.330 Devido à proximidade da comemoração do centenário da Independência (1922). os representantes goianos tentavam aprovar projetos que apressassem a mudança da Capital para a área demarcada. Enquanto isso. no Congresso Nacional. 85 . Tal curiosidade advinha do fato de que Neiva e Penna consideraram o médico de Porto Nacional como “ilustre” colaborador e amplo conhecedor das mazelas dos sertões. Os “médicos de Manguinhos” fizeram-no testemunha da precariedade da vida no norte de Goiás. Em contrapartida. ao “campo” político. Americano do.Geografia (1919) realizado em Belo Horizonte.12. Naquele momento em que o relatório começava a circular eles assumiram uma posição de defesa da “sua terra e da sua gente”. A Informação Goyana. o tema foi amplamente discutido.

8-9 332 Sobre o Jornal Norte de Goyas encontramos uma carta ofício redigida por João Ayres Joca e enviada à Secretária do Interior e Justiça de Goiás. data de sua fundação – em períodos quinzenais (1º a 15 de cada mês). principalmente. In: SILVA. sendo o fundador e primeiro redator-chefe do jornal o Norte de Goyás. já que desde 1914 era deputado federal. Ao retornar à cidade de Porto Nacional permaneceu por vários anos como o único médico radicado em toda a imensidão do vasto norte goiano. Prefácio. os interesses do norte goiano. Assim. que era um jornal político. 1999. Caminhos de Outrora. Altamiro de Moura. Sobre os redatores e filosofia do jornal informou que o primeiro redator chefe foi Exmo.10 86 .332 Em 1910. Mais tarde. fixou sua morada. ligando Pirapora a Belém do Pará e pela expansão da ferrovia Goiás.333 Eleito deputado federal em 1914. pelo ardor e perseverança demonstrados quando empreendeu a ligação rodoviária Bahia Goiás”. Alem disso. Ver: PACHECO. morador. recebeu “o diploma de Sócio Correspondente da Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro. Porto Nacional: Prefeitura Municipal. quem eram seus proprietários e diretores. Seus argumentos ganhavam legitimidade especial porque ele se posicionava como filho. Francisco Ayres. atual Porto Nacional. Caixa: Documentos avulsos de Porto Nacional. médico da “roça” e político. anteriormente. Francisco Ayres da. Com o título Norte de Goyas o periódico era publicado na cidade de Porto Nacional desde 22 de setembro de 1905. onde definiu o jornal. p. noticioso e que defendia. com 84 anos. Foi a partir dali que ele iniciou sua carreira política na defesa dos interesses dos goianos. 333 Em 1910 Francisco Ayres da Silva “foi admitido como Sócio-Honorário com Medalha de Primeira Classe por mérito científico universitário da Academia Físico-Chímica Italiana de Palermo”. em 11 de setembro de 1872 e faleceu a 24 de maio de 1957. p. Altamiro de Moura. SILVA. empenhou-se pela concretização da estrada de ferro Central do Brasil. como se colocou frente ao debate sobre o saneamento dos sertões? Estas questões orientaram as reflexões a seguir. Francisco Ayres foi nomeado pelo governo estadual como um dos responsáveis pela vacinação contra a varíola no norte de Goiás. Dr. em 1924. exerceu atividade de professor. Além da medicina. principalmente de Porto Nacional. que deveria chegar até Leopoldina. foi ali que ele recebeu e colaborou com Neiva e Penna e agora ele deveria se posicionar frente ao relatório e do movimento pró-saneamento dos sertões. já havia sido condecorado com Medalha do 11º Congresso Pan-americano de Estradas de Rodagem. Natividade e Pedro Afonso. ao contrário de Neiva e Penna e do próprio diretor da Informação Goyana os sertões de Ayres da Silva foi onde ele nasceu. Francisco Ayres da Silva nasceu em Porto Imperial. deputado federal (1914-1930) e jornalista. sua família. Ver: Arquivo Público de Goiás. Francisco Ayres da Silva.2 ed. Prefácio. seus negócios. defendeu a construção da estrada no trecho de Alcobaça à Praia da Rainha. sendo que.em torno da Informação Goyana. ponto terminal 331 Apud PACHECO. Os fundadores e proprietários do Jornal “Viúva Ayres e filho”. Desde o início da Informação Goyana Ayres da Silva participou ativamente do debate sobre o saneamento dos sertões. cit. Op. 331 Formou-se em medicina pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro em 1899. em 1931.

334 Segundo a historiadora Maria de Fátima Oliveira. além de outros benefícios.9 OLIVEIRA.. O importante é que após terminar o curso retornou para sua terra natal. In: Odair Giraldin (Org). Em 1928. p.. ensinando como evitar doenças e suas contaminações. em 1930.105-160. Maria de Fátima.336 Filho de família tradicional e único médico local. 338 Idem. As narrativas dessa viagem que ocorreu entre 16 de outubro de 1928 a 16 de fevereiro de 1929 encontram-se no seu livro Caminhos de Outrora. Além de médico. cit. p.337 A chegada de Francisco Ayres da Silva com seus automóveis em Porto Nacional se transformou num evento noticiado nos jornais do vale do rio Tocantins. Ayres da Silva era tido como uma autoridade na cidade. Ayres da Silva foi o primeiro filho do norte de Goiás a formar-se em medicina. amigo do deputado. Um Porto no Sertão: cultura e cotidiano em Porto Nacional (1880-1910).) uma estrada de rodagem que viesse encurtar as distâncias que nos separam dos grandes centros 334 335 Idem. p.) um homem de altos descortínios.278. Ele também contribuiu com a vigilância da saúde pública ao orientar a elaboração do Código de Posturas Municipais.156-157 87 .A (Trans)Formação histórica do Tocantins.da zona encachoeirada mais perigosa do rio Tocantins. O dominicano frei Reginaldo Tournier. principalmente a respeito do asseio do açougue público.. professor e deputado federal. no Rio de Janeiro. 337 SILVA. foi o orador oficial da recepção pública organizada na cidade: “Louvado seja Deus por nos ter dado (. um trabalhador intransigente e infatigável ao progresso do Norte de Goiás”. além de ter utilizado métodos de combate às epidemias através da vacinação. Francisco Ayres. p.2002. após comprar um automóvel Chevrolet e um caminhão Ford. Op.278-279. jornalista. p. Ele lutou ainda pela desobstrução dos trechos encachoeirados e pela modernização dos transportes pelos rios Araguaia e Tocantins.. Elaborou projetos para a construção de estradas de rodagem e conquistou para Porto Nacional. Goiânia:UCG. a estação climatológica e a estação rádiotelegráfica. contratou trabalhadores para abrir as picadas e conduziu os automóveis até Porto Nacional. da limpeza das ruas e dos lotes baldios e da manutenção das fontes limpas.338 O frei continuou seu discurso de recepção: “Louvado sejais pela feliz inspiração (. 336 Idem.335 Ali tratou dos doentes e divulgou medidas preventivas. Francisco Ayres da Silva foi o responsável pela introdução de algumas novidades tecnológicas nos sertões goianos.

desapaixonado.. na set/26 Bahia jul/30 Um Excelente Relatório: a instrução em Goiás Emendas ao projeto do orçamento do Ministério da jul/30 Viação A INFORMAÇÃO GOYANA.343 Enfim.. 2001. o surto arrojado” que Francisco Ayres acaba de realizar em sua terra.. um sucesso notável digno de ser consignado (. “temos automóvel. ibidem. 2.340 O Jornal O Tocantins de Carolina também noticiou o feito: “Quebrando elos por elos.2 Artigos do Dr. 343 Idem. publicadas na revista Informação Goyana. os acontecimentos e as idéias circulavam pelos vales dos rios Araguaia e Tocantins através dos seus jornais.civilizados e nos prostam fatalmente no desalento que produz o isolamento”. dos grilhões que prendiam em sono letárgico o progresso nessas paragens ignotas e esquecidas do mundo civilizado. temos caminhão em Porto! Ontem parecia-nos essa maravilha um sonho irrealizável.339 Hoje. porém ressaltou: “Ainda é cedo demais para bem se estimar. (. ibidem Idem. principalmente quando elas eram muito sonhadas e desejadas. em marcha vertiginosa. Eles divulgavam as conquistas locais.) hoje é um fato consumado.342 Também o jornal O Sertanejo de Carolina noticiou o acontecimento.. 339 340 Data set/17 Idem. Goiânia: AGEPEL [CD-ROM]. p. acaba de entrar nesta decantada Porto Nacional.) como um dos mais felizes acontecimentos de nossa história portense”.Francisco Ayres da Silva na Informação Goyana Quadro 1 Artigos do médico Ayres da Silva na Informação Goyana Artigo A Bancarrota do Saneamento dos Sertões O Saneamento do Hinter-land: discurso pronunciado na ago/18 sessão de 26 de julho pelo deputado Ayres da Silva ago/25 Viação Fluvial a Vapor: Tocantins/Araguaia De Porto Nacional à Cidade da Barra do Rio Grande. o cometimento histórico. Veremos a partir de agora as idéias de Ayres da Silva. 88 . relacionadas à circulação do relatório Neiva e Penna.157 341 Idem. Francisco Ayres”. o audaz representante nortista Dr. p.2.341 Ele retornou do Rio de Janeiro em automóvel e caminhão. ibidem.160 342 Idem.

do médico de Porto Nacional publicado na revista.. set/1917.).14 345 Idem. num campo completa e francamente aberto. no segundo número da Informação Goyana. ibidem. com o artigo “A bancarrota do saneamento dos sertões”. quando se aludia ao tipo sertanejo era para decantar sua coragem. as energias que os indivíduos de outros países sabem gastar em prol do progresso e bem-estar individual e coletivo”. os poderes públicos da Nação se volvam a estender suas vistas para ponto de tão alta relevância. A partir dessas narrativas buscamos perceber como o médico e deputado se posicionou frete ao início da circulação das idéias de Neiva e Penna. ameaçam aniquilar. regiões há em que o impaludismo e a ancilostomíase devastam endemicamente (. Francisco Ayres da. a bouba. A bancarrota do saneamento dos sertões. vozes autorizadas. 89 . a miserável condição vital de nossos concidadãos das regiões centrais do país.. os brasileiros. o mal de Chagas. no qual seus habitantes foram caracterizados como portadores de moléstias.2. ibidem. até o presente. agindo de mãos dadas. p.. uma outra missão científica arriscou transpor os limiares dos centros. incapazes de despender. onde o impaludismo. de visu. a grande miséria em que se 344 SILVA.. médicos ilustres. despauperrados. Segundo ele.346 Uma voz autorizada. de um ilustre e conceituado professor da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro fez-se ouvir. pela imprensa toda. entre 1817-1935.) Mais tarde. exatamente. em circunstâncias idênticas. n. podese dizer. a sífiles. No decorrer da benéfica agitação que ecoou no Congresso Federal. enfraquecidos. data de setembro de 1917.345 Ironicamente argumentou que até pouco tempo. Ayres da Silva percebeu o processo de construção dos sertões como espaço da doença. A Informação Goyana. a uncinariose. vol. por inteiro.Fizemos um levantamento de todos os artigos assinados por Francisco Ayres. publicados na Informação Goyana. (. que havia comparado o interior do Brasil a “imenso hospital”. 346 Idem. e desde logo a impressão foi dolorosa: verificou que zonas há em que 90% dos habitantes são contaminados pela tripanosomíase sul-americana. que têm palmilhado crescido número de Estados da Federação e observado. Ali ele noticiou a existência de debates sobre os sertões. força e vigor. a leishmaniose. O primeiro artigo. descrevendo. agora tudo mudava. no Congresso Nacional.1. porque partem de homens que conhecem. sem que. essa “celeuma” iniciou-se com um discurso do professor da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Ano I. em cores verdadeiramente negras. a tuberculose e tantas outras modalidades mórbidas. por ocasião de uma solenidade. de caráter acadêmico.344 Na sua concepção “uma grande celeuma” se levantou nas principais capitais do país sobre o interior do Brasil. “verdadeiros homens doentes. senão todo ao menos em parte do Brasil. a lepra.

se fosse enfrentado o seu verdadeiro problema: o da distância. da circulação do relatório Neiva e Penna.. dizem que a grande razão que motiva semelhante estado de coisa é a máxima deficiência alimentar dos nossos proletários do interior. Para ele aquele debate era benéfico porque chamava a atenção para os problemas do interior do país. essas imagens dos sertões ganharam repercussão porque vieram de “vozes autorizadas”. Em segundo lugar. pois a grande imprensa e o próprio Congresso Nacional já discutiam o Brasil como um “imenso hospital”.encontram os habitantes do centro do país. Como poderão alimentar-se suficientemente indivíduos que não possuem meios de transporte para se abastecer de elementos essenciais para seu nutrimento?(. Na sua concepção. e pessoalmente. por uma alimentação deficiente (. ele era contrário a essa idéia de campanha. ele não abria mão do seu uso. partiram de homens que conheceram grande parte do Brasil. ele discordou da caracterização dos sertões como “imenso hospital” e com a campanha pelo saneamento defendida por Belisário Penna. sais de quinino e telas para evitar a mordedura de mosquitos. quando o produto de seu trabalho desvalorizado pela falta de meio de transporte.. como ele mesmo se definia.. ainda. Na leitura das memórias de Ayres da Silva percebe-se que fazia parte de sua prática médica receitar sais de quinino e recomendar o uso do mosquiteiro para as populações ribeirinhas. à falta dos mesmos meios de transportes? Nessa sua primeira intervenção no debate sobre o saneamento Ayres da Silva tratou de recuperar o início da “contenda”. enormemente encarecidos. ou seja. que a grande maioria do povo estará em condições de fazer aquisição de tais coisas. Pensarão. mal e definitivamente dá para a compra do sal. inclusive durante suas viagens 347 Idem. acaso. Enfraquecidos.. café e outros gêneros de necessidade imediata.) A campanha que agora surge nas grandes capitais será mais uma campanha inútil (. uma ação pontual sobre uma doença específica e também porque ela seria inútil uma vez que os habitantes dos sertões não teriam como comprar sais de quinino e cortinado para se proteger dos mosquitos.. graças. distribuindo. a preços reduzidos. aniquilados quase. que observaram a situação em que se encontravam os habitantes do centro do país.) imagine-se que o Governo tente fazer profilaxia contra o impaludismo. a questão da doença dos sertões só seria vencida. porque a campanha não atacava o foco do problema dos sertões: a falta de transportes. Porém.347 Enfim. Em primeiro lugar. O “médico da roça”.).14 90 .. “médicos ilustres”. p. concluiu seu texto premeditando o fracasso da campanha pelo saneamento.

p. Ela foi escrita ainda na capital de Goiás. percorrendo-o de Porto Nacional a cidade de Goiás. 91 . cit. Joca Ayres. que depois de apoderar-se do ser humano aniquilava-o rapidamente. Os contaminados tornavam-se verdadeiros fardos sociais. Elas chegaram a Porto Nacional através de uma carta escrita por Belisário Penna e remetida a Francisco Ayres. Op.350 Neiva e Penna após terminar a “missão científica” em Goiás. Op. idiotas. Ayres da Silva preferiu mandar publicar no seu jornal aquelas informações.32. bem como a ausência de verduras e frutas na sua alimentação diária. principalmente quando ela atacava o sistema nervoso”. editor do Jornal. a desafiar a atenção dos dirigentes (. após os referidos médicos terem percorrido o trajeto de Porto Nacional à cidade de Goiás. pois na sua concepção. como medida pública para enfrentar os graves problemas do Brasil Central. da tuberculose. Francisco Ayres. surdos-mudos e papudos na região.238. sentiram-se na obrigação de alertar Ayres da Silva sobre a enorme contaminação dos “infelizes” goianos pela doença de Chagas. Ele acreditava que caberia ao Estado enfrentar o problema de frente e não apenas tentar amenizar suas conseqüências. e de par com elas.. em 1912. do impaludismo. p..348 Mas isso. aleijados. Júlio. Ayres da Silva atribuía a presença do bócio nos nortistas devido a ausência de sais de cálcio na água. PATERNOSTRO.pelo rio Tocantins e no Rio de Janeiro. Joca. a grande presença de cretinos. a divulgação das primeiras informações de Neiva e Penna sobre os sertões goianos. recebeu a carta das mãos de Francisco Ayres para divulgar as descobertas realizadas: metade da população do norte de Goiás estaria contaminada pela moléstia de Chagas ou trypanosomíase sul americana.349 Encontramos no editorial do jornal Norte de Goyás de 15 de dezembro de 1912. da ancylostomíase etc. eles se sentiram na obrigação de retribuir informando ao “médico da roça” sobre a grande presença de doenças na região. Por isso. 350 AYRES. Editorial. aí está a doença de Chagas. 15 de dez. cit. na época.)”. as elites locais deveriam ser informadas sobre as novas descobertas científicas. 1912. Norte de Goyas. era muito pouco. Caminhos de Outrora. O editor concluiu que Goiás se encontrava dominado por um flagelo que conspirava contra seu progresso. “ao lado da sífiles. 348 349 SILVA. principalmente da doença de Chagas nas suas modalidades mais graves. Depois das valiosas informações prestadas por Ayres da Silva aos médicos de Manguinhos. “Uma doença incurável transmitida pelo barbeiro.

354 Idem. A publicação daquelas informações mostra que Ayres da Silva confiava na “voz” legitimada da ciência. 352 353 PATERNOSTRO. Francisco Ayres não tinha como contestar a associação do bócio à doença de Chagas. No Congresso Nacional. dois dias depois. Ele atribuía a presença do “papo” no nortista a duas ausências: a de frutas e verduras na sua alimentação e a falta de sais de cálcio na água. como se pode notar através da narrativa de Paternostro que percorreu a região 26 anos depois de Neiva e Penna.principalmente porque a situação de saúde dos goianos mais pobres parecia grave.231-239.353 Paternostro encontrou famílias com bócio e conseguiu capturar um triatoma exatamente num casebre em que seus moradores não possuíam o bócio. Op. Júlio. também conhecida por impaludismo. os seus hábitos alimentares e a generalização do “papo” entre eles.238. ele apresentou e fez aprovar projetos para superar os dramas dos sertões. Paternostro também buscou trocar informações com Ayres da Silva. um médico que nasceu. com o título Saneamento e Viação . morava e clinicava no norte de Goiás. como anteriormente fizeram Neiva e Penna. Saneamento do Hinter-land 351 Após o início da circulação do relatório Neiva e Penna. No discurso que pronunciou na seção do plenário da Câmara dos deputados no dia 26 de julho de 1918 publicado na íntegra no Paiz. em 1916 e durante a campanha pelo saneamento rural (1918-1920) aquele índice chegou a quase 100% e Goiás. com o título original. como feita por Carlos Chagas e “comprovada” no percurso goiano da expedição dos médicos de Manguinhos.e reproduzido na Informação Goyana. p. 351 Como médico da “roça”.354 Enfim. ou seja. 92 . Porém. p. p. a principal doença que predominava nos vales dos rios Araguaia e Tocantins era a malária. Ayres da Silva conhecia as doenças mais freqüentes que atacavam o homem do campo. Ayres da Silva não gastou tinta.237-238. tornou-se terra de barbeiro e símbolo da doença de Chagas. papel e saliva para contestar o quadro dramático dos sertões apresentado no relatório Neiva e Penna naquilo que estava relacionado às doenças. além de lutar para fazê-los sair do papel. Idem. cit. já que Neiva e Penna calcularam que a metade da população estaria contaminada. Ele entrou no debate para tentar colocar os transportes como foco do problema do interior do Brasil. 352 Essa informação foi passada por Ayres da Silva ao também médico Júlio Paternostro que percorreu o vale do rio Tocantins em 1935.

vivendo e lidando na zona central do país. presente no relatório Neiva e Penna. mas que após tantos elogios aos “ilustres cientistas de Manguinhos” feitos naquela tribuna. 9-11. Porém. os autores do relatório descreveram com pouco colorido a desgraça e o infortúnio dos homens do interior. 355 Naquele discurso. que o problema do interior não foi provocado pelos sertanejos. Segundo Ayres da Silva. O Saneamento do Hinter-land.9. 356 Idem. raramente eram comprometidos pelo mal de Chagas. p. por mais de 17 anos ininterruptos” quem tentaria atenuar aqueles quadros tragicamente traçados pelos cientistas brasileiros. porém com aspecto saudável e perfeita robustez. um “humilde e despretensioso clínico da roça. ibidem 93 . Isso mostrava. não seria ele. “como encarar o problema do saneamento de tais regiões?”.356 Ressaltou. naquelas condições precárias de transportes. 357 Idem. ago/1918. segundo ele. aqueles que conseguiam viver com o mínimo de conforto e mantinham uma alimentação mais nutritiva. que apesar das dificuldades da vida no interior. mas sim pela ausência do poder público e principalmente pela falta de transportes. Ayres da Silva afirmou que o problema do saneamento teria merecido a atenção de alguns dos deputados. o pouco caso.percebe-se a intenção estratégica de Francisco Ayres para ampliar seus ganhos políticos a partir do relatório Neiva e Penna. 2. com frutas e verduras variadas. ibidem 358 Idem. Francisco Ayres. p. porém.357 Neste seu discurso no parlamento Ayres da Silva buscou sustentação no relatório Neiva e Penna para defender suas idéias sobre a necessidade de melhoria dos meios de transportes no Brasil Central. A Informação Goyana. n. com que o poder público encara a solução dos problemas referentes àquelas paragens?” Se ainda não conseguimos efetivamente fazer o homem do interior sentir que.1. é filho de uma nação civilizada. o dinheiro e serem anêmicos: “como não ser assim. Para tal fez citações diretas das páginas do relatório principalmente daquelas em que os médicos afirmaram terem encontrado portadores do bócio.358 Sobre a notícia desoladora da contaminação da quase totalidade dos habitantes de Goiás pela doença de Chagas. ele questionou o fato de os sertanejos desconhecerem os símbolos nacionais. Ano II. de fato. Ayres da Silva 355 SILVA. vol. se para aqueles centros do nosso país existiu sempre um flagelo ainda maior que é a indiferença.

como São Paulo. concluiu.359 Enfatizou que seu discurso tinha por objetivo deixar seu protesto registrado contra esse estigma de raça “inaproveitável” presente no relatório Neiva e Penna e buscar soluções para os transportes nas áreas centrais do Brasil. assim. Ainda naquele discurso Ayres da Silva considerou que o relatório de Neiva e Penna apresentou uma idéia precisa do que eram os transportes no interior do Brasil: a liteira (para o transporte de senhoras). a comunicação do centro-sul com o norte do Brasil”. Classicamente. valorizou a navegação que ali existia. 94 . o Médio Tocantins. canoas. ibidem. sem apoio do poder público. Rio Grande do Sul e Minas sem que. os cavalos e burros. a remoção dos obstáculos que dificultavam a navegação dos botes jamais foram efetivadas”. Kátia Flores ao tratar da navegação pelo rio Tocantins mostrou o vigor de um rio com 2. ibidem 361 Idem. o clamor que se ouviu durante todo o século XIX e princípios do XX foi o mesmo: “pela desobstrução dos rios e pelo estímulo à navegação do Tocantins e Araguaia como meio de assegurar um canal de escoamento por mar e. Kátia Maria. cachoeiras e pedregais e desagua no Pará. tem sua navegação dificultada por várias corredeiras.363 Para os intelectuais goianos. Eles insistiam na navegação fluvial mesmo através de formas primitivas de navegação. p. 361 Segundo a historiadora Kátia Flores. o carro de boi.600 km de extensão. ela era realizada pelos naturais da terra. 120. pois por mais precária que pudesse parecer. balsas e batelões (Rio Tocantins) e uma viação fluvial a vapor pouco utilizada. tanto quanto possível. alguém ousasse taxar a raça ali existente de „inaproveitável‟?”. apesar de alguns investimentos “o certo é que a navegação a vapor ficou restrita ao baixo Tocantins. p.362 Segundo ela. ibidem Idem. Para exemplificar Ayres da Silva transcreveu parte do relatório mostrando o preço exorbitante alcançado pelo sal e pelo café no norte de Goiás.71.400 Km. ele é dividido em três trechos: o Alto Tocantins que vai da nascente até a Cachoeira do Lajeado. os barcos a vela (chamados de paquetes no Rio São Francisco). num total de 1.360 Era o transporte que levaria ao desenvolvimento e este seria a pré-condição para a melhoria da saúde nos sertões e não o contrário. vai da Cachoeira do Lajeado a Tucuruí. que nasce na confluência dos rios Paraná e Maranhão e vai revezando entre trechos de corredeiras e estirões. 363 Idem. a magna questão dos transportes”. argumentou “ao encararmos o problema do saneamento urge resolver. 362 FlORES. Por fim. A permanência dessa navegação era a prova da sua viabilidade. cit. a manutenção das vias de transportes e 359 360 Idem. todavia. Op. Mas.questionou se zonas inteiras do nosso país também não estavam contaminadas.

. o Baixo Tocantins. abrirá para as comunidades ribeirinhas do Araguaia Tocantins uma época de animação e resgatará uma dívida ao ajudar na integração da região ao convívio da “civilização”. que. principalmente no norte. dez/1925. vol. ago/1925. extremamente fértil. quando tínhamos encerrado a sessão!”. 366 SILVA. 9. sendo tragado pelo rio. “na vasta. Olegário. n. Ayres da Silva. Caminhos de Outrora.365 Ao insistir nos meios de transportes por via fluvial a bancada de Goiás no Congresso Nacional vinha clamando insistentemente pelos melhoramentos nas vias Araguaia e Tocantins. três homens foram lançados ao rio. Na viagem de regresso (subindo o rio Tocantins) seriam gastos mais de cinco meses. Foram gastos mais de um mês para descer o rio e alcançar Belém. opulenta. criava grandes dificuldades para os goianos.1. p.30.comunicação precárias impediam o sucesso de qualquer medida de saneamento restrita ao combate a algumas doenças através de campanhas pontuais. 9. Para noticiar a divulgação do decreto federal de agosto de 1925 que autorizou o auxílio para a navegação fluvial a vapor nos rios Tocantins e Araguaia. Francisco Ayres. PINTO. Viação Fluvial a Vapor.364 Ele fez anotações de uma viagem realizada pelo rio Tocantins. O fato de Goiás se encontrar distante do litoral. n. Os jornais locais noticiavam tais tragédias. 95 . O senador goiano Olegário Pinto ilustrou tal problema contando na tribuna o que havia ocorrido com uma convocação extraordinária do Congresso. dotada de imensas reservas nativas.5. ocupada por uma população laboriosa foi deixada no mais cruel abandono. entre eles. se efetivamente colocado em execução. Op. de Porto Nacional a Belém do Pará.15-159. o experiente piloto Casemiro. A Informação Goyana. Francisco Ayres. A Informação Goyana. Ayres da Silva enviou novo artigo à Informação Goyana. todo navegável no período das cheias. que não conseguiu retornar à embarcação. “sempre conto com amargor o que aconteceu certa vez com o nosso colega de bancada. p. vol.366 Argumentou que tal decreto. Uma dívida porque aquela região. com uma extensão de 280 km. e por fim. cit. sem estradas e vias de comunicação. possuindo um sério obstáculo à navegação que é a corredeira de Santo Antonio. Debate parlamentar. Ano IX. fértil e riquíssima zona da alta região das duas importantes com 980 km. Sr.4. Segundo ele. em 1920. O bote Cristal no qual viajava ao atravessar o funil de Itaboca bateu violentamente em uma pedra. Ayres da Silva deixou registrado em suas memórias as dificuldades de transportes enfrentadas pelos habitantes do norte de Goiás. que vai do Tucuruí à foz. sendo convidado para uma sessão extraordinária do Congresso. p. só recebeu o telegrama. 364 365 SILVA. Ano IX.

o Governo Federal encontrou dificuldades para enviar a força pública para combater os revoltosos. mas que vivia importando trigo. Vol. vol.369 Segundo ele. Francisco Ayres. porém denunciava que seus projetos eram reiteradamente negados nas comissões do Congresso Nacional devido à baixa densidade demográfica da região. Em suas palavras: “A conseqüência desse descaso pelos interesses de Goyas estamos vendo agora na dificuldade que tem o Governo de mandar forças para diversos pontos do norte do Estado ao encalço dos desordeiros e bandoleiros”. Em 1926. na Bahia. p. o deputado nortista partiu então para a elaboração de projeto de lei para a construção de uma estrada de rodagem de Porto Nacional a cidade da Barra do Rio Grande. arroz. seria absurdo pensar o Brasil como um país eminentemente agrícola. Assim. nov/ 1925.371 Tal projeto foi publicado na Informação Goyana. set/1926.367 Em seu argumento a plena abertura fluvial do Tocantins e Araguaia “longe de ser um problema meramente regional é um verdadeiro problema nacional”. desprovido de meios de transportes e de segurança. Ano IX. A Informação Goyana. Idem. 370 A Informação Goyana. ibidem.2.368 Ao transformar os problemas da navegação nos rios Araguaia e Tocantins em problema nacional. porque ali não havia estradas de rodagem nem ferrovias. De Porto Nacional à Cidade da Barra do Rio Grande. as estradas de ferro seriam fundamentais para articular o transporte fluvial com o interior. 369 Idem. com seu imenso território. feijão. desde que existissem os meios de transportes adequados. Ela passava também pela construção de vias férreas e pela abertura de estradas de rodagem. Ano IX. Tocantins 367 368 Idem.bacias”. N. na Bahia.370 Durante a passagem da Coluna Prestes pelos sertões de Goiás (1925). para o médico e deputado federal. por causa da ausência de meios de transportes rápidos e seguros.4. p. todos esses produtos e muito mais poderiam ser abundantemente produzidos nas terras férteis do norte de Goiás e colocados no mercado.2. Porém. Por outro lado. ibidem. p.10.9. ao permanecerem como letras mortas deixavam o Brasil Central.23 371 SILVA. n.15 96 . milho e outros. a necessidade de modernização dos transportes não se restringia aos rios Araguaia e Tocantins. Ayres da Silva denunciou que os projetos de integração nacional. Ayres da Silva assim justificou a necessidade daquela construção: a) interligar as bacias Araguaia. Ayres da Silva ressaltou a dívida da nação para com o norte de Goiás deixando ali desamparados seus filhos.

questionou Ayres da Silva. sua questão era a seguinte.372 O deputado enviou novo artigo à Informação Goyana para anunciar que o ministério da agricultura havia aprovado uma verba para dar início aos estudos para a construção de uma estrada entre Porto Nacional e Barreiras. se a maioria dos habitantes do norte de Goiás não tinha acesso ao mercado? Exatamente porque a região não contava com meios de transportes modernos o tal “saneamento dos sertões” seria inviabilizado. teve condições de apresentar uma visão mais ampliada da questão. Quando as idéias de Neiva e Penna começaram a circular e o movimento pelo “saneamento dos sertões” (1918-1920) ganhou as páginas da grande imprensa e chegou ao Congresso Nacional. como era o caso do norte de Goiás.373 Depois de décadas de luta em prol das melhorias dos meios de transportes e comunicações no norte de Goiás. Ayres da Silva contribuiu ativamente com a missão científica de Neiva e Penna fornecendo informações sobre as doenças e os meios de transportes no norte de Goiás. p. as idéias poderiam sair do papel. aos habitantes das áreas mais ameaçadas. Como “médico da roça” e conhecedor daquela realidade ele não negou a caracterização de Goiás como terra do barbeiro. tal projeto era compartilhado por 372 373 Idem. se o governo não destinava verbas para o interior.com a do São Francisco.15 Idem. não mais para melhorar a navegação no Araguaia e no Tocantins. porém. nem para a construção de estradas de ferro. Como fazer. parecia que enfim. Ele participou ativamente dele como político e como médico. ao compreender que no mínimo aqueles cientistas tinham colocado o Brasil Central em questão. na Bahia. Ele admirava os cientistas de Manguinhos e tratou de apresentar seu projeto para a integração dos sertões.24 97 . Ayres da Silva viu a abertura do debate sobre o “saneamento dos sertões” de forma positiva. Ayres da Silva teve que se posicionar. mas sim para construir as estradas trafegadas por automóveis. Ele fez então um retrospecto da importância do rio São Francisco e do Tocantins e das várias comissões que na república estudaram as possibilidades de tal conjunção sem que efetivamente saísse do papel. p. b) valorizar as terras do hinterland e suas inúmeras riquezas. como político. Porém. Ele foi contrário a uma concepção de saneamento restrita à distribuição de sais de quinino e de cortinado. Como vimos. caberia então aos pobres habitantes dos sertões comprarem sais de quinino e cortinados.

Caminhos de Outrora. no Maranhão. um ato de patriotismo e amor à terra natal.159. Francisco Ayres da. a população foi conduzida.79 378 SILVA. a malária e a ancilostomose ou opilação. vol. Ele não estava restrito ao controle ou erradicação das doenças da “trilogia maldita”.160 377 A Informação Goyana. os eventos cívicos. viu em tal gesto. além dos inúmeros colaboradores da Informação Goyana. n. no qual seriam rompidas as grandes distâncias e como possibilidade de ligações rápidas com os centros “civilizados”. Francisco Ayres da. onde eram feitos discursos saudando o benefício que a cidade acabou de receber do Governo Federal. p. com a presença dos padres dominicanos. Ano XIV. 376Tal fato só se concretizou na década de 1960! No final de março de 1930 foi inaugurada a estação de telégrafo de Porto Nacional. cit.Henrique Silva e Americano do Brasil. 13. todos os oradores foram aclamados pelo povo e pela banda musical. Dom Domingos Carrerot (1920-1936) que pronunciou um belo discurso. O frade dominicano viu tal feito como prenúncio dos novos tempos.158 376 Idem. Como concluiu o articulista. uma voz muito prudente lembrou através do jornal O Sertanejo de Carolina. das irmãs dominicanas. Na verdade. p. que ainda não era possível vislumbrar o impacto daquele feito. 379 Os 374 375 SILVA. A partir dali. no final da década de 1920. 379 Idem. Atento como era aos temas ligados aos transportes Ayres da Silva retornou para Porto Nacional. Op. dos seminaristas. Generosa P. com paradas em frente das residências das principais autoridades da cidade.156 Idem. 10. como a doença de Chagas. conforme noticiou a Informação Goyana. p.377 Através de tal evento foi possível perceber o quanto médicos e padres ali residentes estavam unidos em prol dos melhoramentos locais.375 Porém. como a questão dos transportes e das comunicações em Goiás. realizados para comemorar a inauguração do telégrafo (1930) ou a chegada dos automóveis em Porto Nacional (1929) contavam com discursos de um representante da Igreja. 98 . mai/1930. Op. p. dos alunos do colégio e da banda de música. esta conquista faria Porto Nacional subir mais um degrau na “brilhante escada do progresso”. ibidem. mas demandava a resolução de problemas considerados centrais.378 A abertura da inauguração do telégrafo foi feita na frente da residência do bispo. p. levando dois automóveis. Caminhos de Outrora. em forma de passeata organizada pelos frades. cit. de Castro.374 A professora de Porto Nacional. Principalmente quanto se tratava das conquistas nas áreas de transportes e comunicações.

O terceiro propunha o aumento da verba destinada pela União para o prolongamento da Estrada de Ferro Central do Brasil. ibidem 385 NEPOMUCENO. Quanto às dificuldades de transportes e comunicações.381 Nada saiu do papel. uma expansão importante que conseguiu reduzir o índice de analfabetismo calculado por Neiva e Penna em 95%. Um excelente relatório: a instrução em Goiás.org. vol. esses foram 380 Nada distante daquilo que ocorria a nível nacional. A educação ia se expandindo. Ano XIV. A Informação Goyana. A Informação Goyana. frades. O primeiro deles tentava aumentar de 4 para 6 viagens mensais a linha postal da cidade de Goiás a Porto Nacional. ambos. 13. tratando da instrução em Goiás. 382 SILVA. n. o bispo coadutor do Rio de Janeiro Dom Sebastião Leme (1882-1942) e futuro cardeal do Rio de Janeiro (19301942). 381 SILVA. segundo informações do governo de Goiás. Porém. buscava aproximar a Igreja do Estado. para 86. p. Francisco Ayres.89-90 383 Idem. 382 Apesar de seus problemas de transporte e comunicação Goiás já aplicava 16% da arrecadação do estado em instrução pública. como ressaltou a pedagoga e pesquisadora goiana Maria de Araújo Nepomuceno o que sobreviveu foram as idéias que propagou e as lutas que travou.9 99 . Ao se confiar nas narrativas do articulista local. O segundo pedia para aumentar as verbas destinadas à ampliação da Estrada de Ferro Goiás.sbhe. a história e a política em Goiás (1917-1935). em 1912. além da diversificação da rede escolar no estado que ia da pré-escola ao ensino superior. A Informação Goyana: seus intelectuais.br/novo/congresso/cbhe2/pdfs/tema4/0424.pdf. Henrique. n.385 Entre elas destaca-se o fato de ter colocado na ordem do dia questões importantes como a transferência da capital federal para o Planalto Central e a instalação da capital estadual em Goiânia. Ano XIV.3%. Ayres da Silva apresentou projetos de emendas orçamentárias no Congresso Nacional. 94. Maria de Araújo. dentro de uma estratégia de recuperação e consolidação de um espaço para a Igreja católica na sociedade. p. além das questões de fronteira com os estados vizinhos já plenamente solucionados.12. jul/1930. 90 384 Idem. vol. Ela não sobreviveu ao seu criador. 12.380 Ainda na década de 1930. Notas e Informações.13. reduzido. nos sertões. em 1930. médicos e políticos estavam unidos em favor do progresso da região.www. p. a aliança entre Estado e Igreja. Uma das últimas contribuições de Ayres da Silva à Informação Goyana foi o envio de um artigo comentando um relatório elaborado pelo secretário do Interior e Justiça de Goiás.eventos cívicos e religiosos ressaltavam. Devemos lembrar que desde a década de 1920. p.383 Sem dúvidas.384 A Informação Goyana e seu diretor desapareceram em 1935.

Arthur e PENNA. a ferrovia não chegou no século XX. além de ter projetado novas imagens de Goiás e dos goianos.melhorados no sul de Goiás. nem todas foram ganhas ou plenamente resolvidas naquele momento. não foram desobstruídos os canais e cachoeiras que facilitariam a navegação pelos rios Araguaia e Tocantins e nem construídas as estradas de rodagem. antes da década de 1960. Neiva e Penna deixaram registradas suas impressões positivas com relação aos dominicanos sediados no convento de Porto Nacional. Quantas lutas foram travadas através das páginas da Informação Goyana! Sem dúvidas. ibidem. tanto com a construção de estradas de rodagem quanto pela expansão dos trilhos da estrada de ferro. Idem. uma linha aérea passou a funcionar cortando os céus goianos e descendo nas suas principais cidades.386 A Ordem dos Frades Pregadores foi elogiada por se comprometer com os ideais “civilizatórios”. cit. Toda uma geração de intelectuais goianos se formou nessa luta em favor “da sua terra e da sua gente”. Op. apesar dos projetos de Ayres da Silva. pelos cientistas. Porém. com a elevação moral.169. pode-se atribuir à revista o mérito de ter contribuído para tornar Goiás conhecido e valorizado. os casamentos e a morte. Belisário. a Igreja ainda foi reconhecida. mesmo o catolicismo perdendo o status de religião oficial.387 No início da República. ocorreu a perda de importantes funções anteriormente assumidas pela Igreja já que o Estado se empenhou na secularização da sociedade através do controle sobre os nascimentos. como importante aliada do Estado para a “civilização” dos sertões. No final da década de 1930. 100 . espiritual e cultural do norte de Goiás. O avião chegou antes dos automóveis e dos vagões dos trens nos sertões goianos. com o fim do regime de padroado e a separação do Estado da Igreja. No norte do estado. Todavia. No próximo capítulo buscamos o olhar dos missionários dominicanos sobre o norte de Goiás. p. 386 387 NEIVA.

Todavia. a construção de igrejas e capelas e o pagamento dos padres. muito provavelmente pela proximidade maior dos dominicanos com o pensamento liberal do século XIX. 1934.388 Assim. em especial no norte daquele estado. na diocese goiana. grande parte da jurisdição religiosa era exercida pelo poder civil. Como o Brasil vivia no regime de padroado. Todavia. Goiás. Conhecido como a reforma da Igreja. Paris: Missions Dominicaines. e no norte de Goiás. R. uma das primeiras Ordens estrangeiras que chegaram para ajudar os bispos reformadores foi a dos dominicanos. A reforma do clero e a instrução religiosa dos fiéis estiveram dentro das principais preocupações dos bispos reformadores de Goiás. esse projeto chegou ao Brasil na segunda metade do século XIX. com a finalidade de adequar as práticas religiosas populares ao catolicismo oficial e aproximar o episcopado brasileiro de Roma e da Cúria Romana. Este capítulo foi elaborado com o objetivo de estabelecer a relação entre as narrativas dos missionários dominicanos e o relatório Neiva e Penna e/ou suas apropriações. Como se verá esse processo de reforma da Igreja envolveu também a europeização da instituição eclesiástica. p.Capítulo III A Igreja nos Sertões: o Norte Goiano nas Narrativas dos Frades Dominicanos Os missionários dominicanos foram interlocutores de Neiva e Penna durante a viagem dos médicos pelos sertões goianos. apesar de serem elogiados pelos cientistas de Manguinhos por sua obra “civilizatória” nos sertões e por terem aderido à República. desde 1881.11e 12 101 . Plages Lointaines de L‟ Araguaya. o estabelecimento dos dominicanos. Porto Nacional e Conceição do Araguaia. como por exemplo. 388 TOURNIER. não perdemos de vista a inserção dos dominicanos no processo de implantação do projeto de romanização ultramontana da Igreja em Goiás. os frades tinham suas próprias visões sobre os sertões que poderiam coincidir ou não com as dos cientistas. Formosa. No caso de Goiás. eles ocupavam um vasto território que se encontrava repartido em cinco centros de apostolado: Uberaba. desde 1886. já havia lhes dado uma ampla experiência de vida nos sertões. Em 1912.

tenham sido muito mais condescendentes com eles do que o foram os cientistas. das narrativas de quem conviveu com os nortistas goianos. Os frades fizeram da região entre os vales dos rios Araguaia e Tocantins sua segunda pátria e dedicaram aos homens e mulheres que viviam naquele espaço. um missionário dominicano”. também vitimado pela febre amarela. em 1896.389 As suas narrativas revelam entusiasmo diante da natureza.1905) (1906-1907) e acabou falecendo. participou de sua intimidade. as narrativas de viagens e os relatos de memórias dos padres dominicanos. com maior afinco. em grande parte. observaram. recuaremos às narrativas dos missionários dominicanos. elaboradas entre o final do século XIX e meados do século XX. das suas dores e alegrias e. entre outras coisas.Para alcançarmos nossos propósitos. que chegaram ao Brasil central no final do século XIX. além do acolhimento generoso dos seus habitantes. realizar suas excursões atrás dos índios do Araguaia.390 Para que tenhamos uma noção de como se estabeleceu essa relação. Devemos acrescentar ainda que a maioria das narrativas dos missionários dominicanos foi elaborada por quem ali viveu. Ele faleceu. da grandeza dos rios. Trata-se. Consideramos. os anos mais produtivos de suas vidas ou suas próprias vidas. (1902. passou pelo convento de Goiás e em 1890 foi para Porto Nacional de onde pode. Sua vida e obra foi escrita pelo superior da Congregação Pe. assim não é de se estranhar o seu olhar crítico com relação ao comportamento do clero local e dos fiéis. da riqueza das florestas e das terras. Campinas:Papirus. Tornou-se mapa oficial do estado. p. a caminho de Belém. Gallais veio ao Brasil em 1888. como Visitador extraordinário da Missão dominicana no Brasil e como Provincial da Província Dominicana de Tolosa (1890-1894). Esse corpus documental apresenta variadas possibilidades de análise. Eles buscavam mostrar que eram possuidores de habitus e práticas distintas. foi enterrado em Formosa. Pierre. o que ajudava a reforçar o seu papel privilegiado junto aos bispos de Goiás e projetá-los na Igreja do Brasil. Gallais “O apóstolo do Araguaia: frei Gil Vilanova. autor dos livros “Entre Sertanejos e Índios do Norte” e “Os Sertanejos que eu Conheci” viveu entre os vales do Araguaia e Tocantins entre 1904-1938. Frei Gil Vilanova chegou a Uberaba em fins de 1887. os frades eram franceses e haviam recebido uma formação dentro dos novos princípios reformadores. não 389 Um dos mapas elaborado pelo missionário frei Reginaldo Tournier serviu para orientar o percurso goiano de Neiva e Penna e em 1920 ele foi impresso pelo governo de Goiás. as estratégias dos dominicanos para marcar sua distinção no “campo” religioso.391Porém. Razões Práticas: sobre a teoria da ação. até fundar a missão e a futura cidade de Conceição do Araguaia. Frei. em 1907 em pleno sertão. de febre amarela. 391 BOURDIEU. 390 Frei José Maria Audrin. em 1905.21 102 . principalmente. descreveram e mapearam o estado de Goiás. principalmente com relação ao clero nacional e com as congregações religiosas estrangeiras que atuavam em Goiás.1996. talvez por isso. utilizamos como fontes. Porém.

Foi o que ocorreu com o bispo de Goiás. conventos e escolas na região. Os Dominicanos em Goiás e Tocantins (1881-1930): Fundação e Consolidação da Missão Dominicana no Brasil. Edivaldo Antonio dos. devido ao nome do seu fundador Domingo de Gusmão. 5 ed. portanto. em 1881. Com a vitória da revolução e da concepção de vida secular. Ver: SANTOS. entre elas a dos dominicanos. queria ser conhecido e reconhecido como portador de competências raras e.deixamos que o “campo” apagasse a subjetividade dos sujeitos na história. Ressaltamos também sua forte espiritualidade. que havia sido expulsa da França e se encontrava na Espanha. Dissertação de Mestrado: UFG. na Espanha.392 Estas passavam tanto pela sua história. distintos entre si pela experiência vivenciada. D. 3. vamos recuperar um pouco da trajetória dos dominicanos e inseri-los no “campo religioso” da época em que chegaram ao Brasil.14-32 103 . que incluía suas regras. 392 393 BOURDIEU. p. Cláudio Gonçalves Ponce de Leão (1881-1890) que convidou os dominicanos para virem ao Brasil e ajudá-lo nessa árdua tarefa. técnicas. Depois eles conseguem retornar para a França. quanto pelo modo do seu funcionamento. 1996. desejosos de modificar as crenças e os comportamentos do clero local e dos fiéis. disciplina. elas tiveram suas propriedades confiscadas e seus conventos fechados. A economia das trocas simbólicas. Pierre. Os missionários dominicanos apresentaram suas próprias visões e projetos para os sertões e nem sempre estiveram de acordo com o relatório Neiva e Penna. mais conhecida pelo nome de ordem dominicana. na França em 1216. para tal utilizamos o conceito de experiência como pensado por Kosseleck. A Ordo Praedicatorum (OP) chegou ao Brasil no final do segundo Império. São Paulo: Perspectiva. os dominicanos foram expulsos da França e acabam transferindo sua sede para Salamanca. como fruto da necessidade das dioceses no Brasil e da própria situação vivida pela Ordem. além dos seus conhecimentos. hierarquia. 1999. O “corpo de especialistas religiosos”. os dominicanos faziam os estudos teológicos no convento de Salamanca (Espanha) e depois passavam pelo convento de Toulouse (França) onde se preparavam para serem enviados para a missão. O movimento revolucionário francês de 1789 perseguiu as Ordens e Congregações religiosas. Sua presença em Goiás foi uma resposta à política impulsionada pela Santa Sé de incentivar a expansão das Congregações religiosas católicas para fora da Europa. Para melhor compreensão das diferenças entre as visões desses religiosos e dos médicos. enfim. seus templos. 1880. específicas.1 A Reforma da Igreja e a Inserção dos Dominicanos em Goiás A Ordem dos Frades Pregadores. recorreram às Congregações estrangeiras. No final do século XIX. os novos bispos do Brasil. voltada para a oração e a missão.393 Naquele momento.

como ficaram hospedados com os padres lazaristas. seriam nomeados para constituir a nova elite eclesiástica.396 Ele proclamou o dogma da Imaculada Conceição (1854). 1992. criar dioceses. devido à aliança entre Estado e Igreja. conheceram o padre Cláudio Gonçalves Ponce de Leão que. nomear os bispos. Historia Liberationis: 500 anos de História da Igreja na América Latina. Essa centralização exigia a preparação de um corpo de especialistas bem qualificados e. para formar os padres que. além de decidir quais as diretrizes de Roma que poderiam ser implantadas no Brasil. a fama de inquisidores dos dominicanos e a presença da febre amarela. a Igreja iniciou um processo de reforma que distanciaria o altar do trono. distintos dos fiéis.Os dominicanos anteriormente já haviam tentado se estabelecer no Brasil. Tomo III. São Paulo: Paulinas. Porém. Ao afasta-se do Estado. História Geral da Civilização Brasileira: Sociedade e Instituições (1889-1930). Pio IX fundou o Colégio Pio Latino Americano em Roma. Sérgio Lobo de e ALMEIDA. In: Dussel. A Igreja na Primeira República. em 1879. O Papa Pio IX defendia a adesão dos seus subordinados aos princípios de uma igreja fortemente centralizadora daí a necessidade de formar o clero comprometido com as novas orientações. a começar pela papa. que consistia basicamente na centralização do poder religioso nas mãos de uma elite eclesiástica. padres e ministros. Os três primeiros missionários que aqui chegaram. São Paulo: DIFEL. recolher os dízimos. foi nomeado bispo de Goiás. altamente hierarquizada. Durante o Império. José Maria Gouvêa de.25-28 MOURA. p. em 1878.395 A partir da segunda metade do século XIX.394 Este bispo se empenhou para levar os dominicanos para o Brasil Central. Era o padroado régio que garantia direito de placet governamental. Em 1858. p. na pessoa do Imperador. Boris (org). In: FAUSTO. depois. bispos. Johannes. cabia ao primeiro. 396 MEIER. pagar o clero. As Ordens e as Congregações Religiosas na América Latina. 1984.643 104 . este bispo conseguiu uma autorização do governo brasileiro para a vinda dos dominicanos. com a finalidade de implantar o projeto de Igreja denominado de romanização ultramontana. parte do episcopado brasileiro passava a aderir à centralização romana e a romper os limites impostos pela legislação do Império. Enrique. entre elas destacam-se: a expansão das idéias liberais. portanto. estavam vestidos como padres seculares (sotaina preta) e perceberam as dificuldades para se estabelecerem na capital do Império. enquanto o Estado manteve-se preso aos princípios regalistas. no Rio de Janeiro. A partir do contato inicial do Vigário Geral com o bispo do Rio de Janeiro Dom Pedro Maria de Lacerda (1868-1890). publicou as encíclicas Quanta Cura e 394 395 Idem.

para a comemoração do décimo nono centenário da morte dos apóstolos Pedro e Paulo (1867) e o Concílio Vaticano I (1869-1870). As Instituições Religiosas.186-188.400 Em primeiro lugar. Do Pio Latino virão igualmente os formadores do novo clero. p195 400 FRAGOSO. a luta entre Igreja e o mundo liberal. A “questão religiosa” (1872-1875) que foi um conflito entre os bispos D. esse dogma ficou restrito a algumas condições: “A mais importante seria a obrigação..o Syllabus Errorum (1864) e convocou o Concílio Vaticano I (1869-1870). Vital e D.. 1980. 105 . No alto do púlpito ele proclama uma doutrina decorrente da verdade revelada e já definida pela Igreja ou por ela sempre admitida. São Paulo: DIFEL. História da Igreja no Brasil. Porém. 401 Idem.). do alto do púlpito de Pedro. Enrique. para o Papa. durante o Segundo Império (1840-1889). José Oscar. In: BEOZZO. p. p. 1992. como as grandes concentrações de bispos em Roma por ocasião da proclamação do Dogma da Imaculada Conceição (1854). segundo Hugo Fragoso. p. dele saiu boa parte daqueles que formariam a nova hierarquia eclesiástica “afinada com as diretrizes da Santa Sé (. Quanto ao Colégio Pio Latino-Americano.1966. Idem. teria ocorrido uma tomada de consciência da importância da Sé pontifícia como centro da unidade e da ortodoxia. Esse alinhamento dos bispos brasileiros ao papa abalou as relações entre Estado e Igreja ao radicalizar as posições ultramontanas das elites eclesiásticas. Petrópolis: Vozes.182-183.. Hugo. o Syllabus e a experiência do Concílio Vaticano I levaram ao conflito porque a intransigência católica 397 398 PACAUT.. A Igreja na Formação do Estado Liberal (1840-1875). de falar excatedra.. In: DUSSEL. ele citou o impacto da invasão dos Territórios Pontifícios que teria criado um sentimento de solidariedade pelo Sumo Pontífice. acompanhando o movimento católico romano antiliberal.) dos seminários do continente”. ou seja. Durante o Concílio foi aprovado o dogma da infabilidade Pontifícia. Macedo contra a maçonaria expressava. M. São Paulo: Paulinas. moral e cânones (. ibidem. José Oscar (Org). pois serão eles os professores de teologia.401 Para Beozzo.398A revelação divina é encontrada na própria história da Igreja. Historia Liberationis: 500 Anos de História da Igreja na América Latina.”397Nesse evento o Papa deve apenas esclarecer que aquilo que proclama é “matéria obrigatória para todos os fiéis”. 399 BEOZZO.399 Hugo Fragoso enumerou três razões para explicar a maior vinculação do episcopado brasileiro com Roma. as ações estratégicas do Papa Pio IX. 2 ed. A Igreja frente aos Estados Liberais: 1880-1930. fórmula imaginada para indicar que tais declarações devem decorrer da função pontifical de ensinar a verdade. Em segundo lugar. Por fim.13.

p. com o fim da união Estado e Igreja teve início o processo de expansão das dioceses. Religião e Política no Alvorecer da República: os movimentos de Juazeiro. Canudos e Contestado. Goiânia: UCG. de 1898. deveriam ser abolidas ou reelaboradas. Idem. ganhou liberdade de ação para multiplicar suas dioceses e paróquias. p. para Roma. trazer padres e religiosos 402 403 Idem. o surgimento do Estado laico foi recebido “com um duplo e contraditório sentimento pelos representantes da Igreja Católica: alívio e apreensão”.406 Com a implantação da República e o fim do padroado régio. Élio Catalício.407 Todavia. por decisão do Concílio. em 1900. consideradas como ignorância religiosa do povo. 1977. levou a Igreja a empreender uma forte clericalização de suas estruturas. In: QUADROS. o Concílio Plenário Latino Americano. p. Eduardo Gusmão de et al (Orgs). Confrarias e Ordens Terceiras que. criar seminários. a Igreja perdeu os privilégios de uma religião de Estado. afirmando a autoridade da Igreja enquanto instituição altamente hierarquizada. A Presença da Igreja no Brasil. p. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. de 1707. Enfim.408 Por um lado.304 407 A Igreja no Brasil contava em 1891 com apenas com 12 dioceses.197.tornou-a “inassimilável para a ordem liberal”. Lucília de Almeida (Orgs. mas por outro.). Oscar de Figueiredo. 2008. Ver: LUSTOSA. nas encíclicas de Pio IX e Leão XIII. Jorge & NEVES. com o objetivo de adequar a realidade latino-americana ao novo perfil de Igreja centrado inteiramente em Roma. ibidem 405 SERPA. em 1910. já havia 17. a Igreja conseguiu se livrar das ingerências do Estado e fortalecer seu aparato institucional. Beozzo ressalta a importância do Concílio Plenário Latino-Americano convocado por Leão XIII (1878-1903). As decisões atingiram de cheio as Irmandades. 301-304 406 Idem. 33. In: FERREIRA. em 1899.123 106 . Jacqueline. em Santa Catarina. Seus bens seriam incorporados ao patrimônio da Igreja. Assim. a rejeitar o passado e a tradição cultural latino-americana. Vaticano I (18691870). Igreja e Poder na Primeira República.402 Tal conflito encerrou-se com a proclamação da República e com a separação da Igreja do Estado. propugnando por uma postura europeizante da sociedade em toda sua extensão. porém. e colocaram todos os países latinos sob a égide de uma única legislação. a Igreja no Brasil buscou submeter as práticas religiosas populares que. 408 HERMANN. deveriam ter seus estatutos reformulados.405 Assim. O Tempo do Liberalismo Excludente: da Proclamação da República à Revolução de 1930. em 1920.403 As resoluções e normas do Concílio foram fundamentadas em Trento (1543-1565). passando para o controle do governo diocesano. p. Cristianismo no Brasil Central: História e Historiografia.198 404 Idem. 58. 2003.404 Sob o ponto de vista jurídico os decretos de Leão XIII puseram à margem as Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia. São Paulo: Giro.

percebemos que ocorreu a substituição do clero secular pelo religioso. Oscar. Enfim.201 Idem. cit. além de se tornarem propagadores dos novos valores religiosos: As novas associações deveriam recolher-se ao âmbito interno da Igreja. a reforma católica no Brasil foi tridentina. Nessa nova estrutura paroquial sobressaia a figura do padre. episcopal e clerical. dedicar-se mais à oração do que à ação social (. A Elite Eclesiástica Brasileira. p. como as Filhas de Maria e Congregados Marianos. Foi assim que ocorreu uma “verdadeira avalanche de novas congregações tanto masculinas como femininas” para o Brasil. que os párocos eram instados a fundar em suas freguesias e capelas. mais disciplinado. das antigas devoções e associações de origem portuguesa para as de origem francesa. com estatutos apenas eclesiásticos e sem personalidade civil. Como caracterizou Riolando Azzi. Senhoras de Caridade e muitíssimas outras. Associações de São José. Nesse processo de reforma foi necessário trazer da Europa Ordens e Congregações religiosas comprometidas com o pensamento ultramontano. p. subordinar os leigos controlando as organizações leigas e as devoções populares. como a Cruzada Eucarística. formar um corpo de especialistas religiosos comprometidos com os novos valores ultramontanos. O modelo mais acabado destas novas associações foi o Apostolado da Oração.. p.). ibidem 411 Idem. ilustrado e moralizado e pela evangelização. Op. Ligas de Jesus. Confrarias e Ordens Terceiras. extremamente conservadores e hierarquicamente verticalizados. Maria. 1988.estrangeiros. esses padres e frades se responsabilizaram pela formação de um novo clero.212 412 MICELLI. 412 No Brasil. Conferências Vicentinas. A Igreja Frente aos Estados Liberais. esse modelo de Igreja buscava afirmar a autoridade do papa. Houve um florescimento espetacular destas associações a começar pelas infantis.. 409 Foram elas que “imprimiram um rosto „moderno‟ e uma revitalização do catolicismo”. prosseguindo com as de jovens. e as adultas: Apostolado da Oração. do clero brasileiro pelo estrangeiro. O mesmo se deu com relação às imagens 409 410 BEOZZO. romanista.53 107 . congregar-se ao culto e à santificação dos seus membros. Sérgio. ao assumir tanto os novos campos do apostolado quanto a pastoral paroquial. José (para os operários). 411 As novas associações estavam subordinadas ao pároco e muito distantes da autonomia leiga das Irmandades. Rio de Janeiro: Bertrand.410 A nova pastoral paroquial deveria preparar os leigos para se adequar a nova estrutura hierárquica da Igreja. Nesse esforço para mudar a imagem do clero e do catolicismo praticado no Brasil.

415 SILVA. Ver histórico da diocese de Goiás em WWW. n.11. os bispos reformadores.2.das devoções coloniais. Mônica Martins da. p. o ensino do catecismo. a introdução de novas associações leigas e novas devoções. A Prelazia foi criada em 1745 e elevada à diocese em 1824. Coube a D. Cabia a eles a divulgação daquela mensagem. bispo da Congregação dos Lazaristas e quinto bispo da diocese de Goiás (1881-1890). Goiânia. apesar de algumas diferenciações à frente da diocese. Eram aquelas dirigidas especificamente ao clero. 416 As cartas pastorais eram utilizadas como forma de comunicação entre o bispo. V.br/sub/a_dioces/Historia. Ética da Súplica: catolicismo em Goiás no final do século XIX. 416 SANTOS. também ao final da missa e antes da bênção final. o incentivo às missões paroquiais. impressas em tipografias.414 aprofundar as reformas e por isso ele é considerado pela historiografia goiana como um dos mais importantes nesse processo de romanização ultramontana da Igreja em Goiás. Leila Borges Dias. a construção de escolas. p. As Fronteiras da Fé nos Domínios das Festas: Sociedade. Ele foi o sucessor de D. Joaquim Gonçalves de Azevedo (1865-1876) que fundou o seminário e iniciou na província o sistema de visitas e de cartas pastorais. mar/abr. a realização das visitas pastorais. Goiânia: UCG. A diocese de Goiás já existia desde o início do século XIX e no final daquele século teve início o processo de reforma. Op. lidas durante a celebração da missa.413 Em Goiás. Igreja e Romanização em Pirinópolis (1890-1950). tinham como principais questões: a construção e revitalização do seminário “Santa Cruz”.htm. distribuídas entre os fiéis e enviadas aos padres espalhados pela diocese. a realização de sínodo diocesano. normalmente tratavam-se de orientações sobre o modo de proceder durante as 413 414 BEOZZO. Elas eram escritas pelo bispo.211-218. Os eclesiásticos goianos recorreram a Ordens religiosas estrangeiras para sua diocese e se comunicavam com o clero através de cartas pastorais. 2001. D. Eduardo Duarte da Silva (1891-1909).203204. o incentivo à imprensa católica. Oscar. Fragmentos de Cultura. Esta adequação aos novos tempos se consolida com o seu sucessor. Data do acesso 01/06/2011. os padres e os fiéis. Org. 108 . o controle e administração dos santuários. Existiam também as cartas pastorais reservadas. cit. Claudio assumiu o bispado de Goiás havia cinco anos que a igreja estava em vacância.diocesedegoiás. durante a Primeira República. o combate ao concubinato do clero. 2008. o aumento do patrimônio. 415 Quando D. Cláudio José Gonçalves Ponce de Leão (1841-1924). o Senhor dos Passos e a Senhora das Dores foram substituídas pelas do Sagrado Coração de Jesus e pelas devoções marianas.

Mônica Martins da.ed. Claúdio (1881-1890). 417 Com a chegada de D. depois de D. Cristianismos no Brasil Central: História e historiografia. bem como do dinheiro arrecadado que eram utilizados em festas. o novo bispo encontrou-se diante de um clero disseminado no meio de populações muito espalhadas. Goiânia.2 . da necessidade de manter atualizados os livros sob a sua responsabilidade.137. 1942. com apenas 56 anos. 1902 e 1906). com cerca de 250. 422 SILVA. como um dos meios de comunicação com o clero e os fiéis e deu ênfase na formação feminina.000 habitantes. n. O bispo implanta medidas de cerceamento das festas populares e folias. assumiu a diocese de Goiás D. p. chamou atenção para o problema do concubinato dos padres e exigiu a disciplina dos clérigos. no intervalo entre o segundo e o terceiro mandato. Goiânia: IPEHBC. além de ter defendido a autoridade do clero e combatido as “exterioridades” nas cerimônias religiosas. Goyas: Typografia Perseverança de Tocantins y Aranha. Ele continuou utilizando as cartas pastorais. na diocese de Goiás. v.418 Segundo ele. bailes e cavalhadas. Enfim. à diocese de Goiás. Cit. Conceição do Araguaia: s. As fronteiras da fé nos domínios das festas: sociedade. Goiânia: UCG. visitou as paróquias em amplo trabalho pastoral. No total. o bispo recebeu uma extensa e pobre diocese que abrangia toda a província de Goiás e o Triângulo Mineiro. soma-se o conflito da hierarquia eclesiástica com o grupo 417 LEÃO. o dever de respeitar o celibato e levar uma vida moral e social distinta do laicato. p. In: Coleção Especial do Cônego Trindade. ibidem. fez 4 visitas canônicas ao Brasil. Op. O apóstolo do Araguaia: Frei Gil Vilanova. p. Missionário dominicano. Dom Cláudio José Gonçalves Ponce de. tudo estava por fazer ou refazer. 109 .420 Em 1891. através do culto mariano e de colégios femininos católicos. 419 GALLAIS. Em 1888 foi designado Visitador extraordinário da Missão Dominicano no Brasil. os dominicanos vieram para o Brasil para ajudar o bispo de Goiás na reforma da Igreja. Claúdio. conseguiu a ida dos dominicanos para sua diocese.2005-206. 420 Idem. 2008. (1894. 421. banquetes. N. Eduardo e Silva (1891-1909). O catolicismo popular em Goiás e o regulamento para festividades e funções religiosas. ordenou vários sacerdotes.). voltou ao Brasil como Visitador.4348. mar/abr/2001. Ver: SANTOS. 422 À reação dos fiéis a essas medidas normativas do bispo.11. Eduardo Gusmão de et al. Igreja e romanização em Pirinópolis (1890-1950). Os Dominicanos em Goiás e Tocantins: Fundação e consolidação da missão dominicana no Brasil (1881-1930). In: QUADROS. Foi eleito mais três vezes para o mesmo cargo que tinha duração de 4 anos. In: Fragmentos de Cultura. Carta Circular (Reservada).celebrações. Dirigida aos Parochos e aos demais Clérigos de Ordens Sacras da Diocese de Goyas.421 Naquele momento sem apoio do Estado a Igreja precisava adquirir fundos para seus cofres vazios. ele reabriu o seminário “Santa Cruz”. Mônica Martins. Na visão do padre Provincial Estevão Gallais. na visão dos dominicanos. Claúdio. 418 Estevão Gallais nasceu na França em 1851 e morreu no Brasil em 1907. Também era grande a ignorância entre os fiéis e a disciplina entre o clero andava frouxa. (Orgs. Edivaldo Antonio dos. p. Ao regressar à França foi eleito Provincial da Província de Tolosa em 1890.58-59.419 Para atender a essa diocese. quando da posse de D. 421 SILVA. Estevão.

Porto Nacional (1886) e Conceição do Araguaia (1896). Eles fundaram seus Conventos em Uberaba (1882). Medidas que visavam ampliar o patrimônio da Igreja e divulgar suas idéias.74-78. 425 Idem.. como Rio de Janeiro (1927). D. p. entre outras. como o Apostolado da Oração. nos primeiros cinqüenta anos de atuação no Brasil. cit. SILVA. Casamento na Cidade de Goiás. do interior para as 423 424 SILVA. além de prédios e casas em Goiás. na cidade de Goiás (1883). cit. 424 Durante seu bispado ocorreu também a separação entre o norte e o sul de Goiás. o incentivo a novas práticas devocionais”. Prudente Gomes da Silva (1909-1921) deu continuidade a esse processo de “reforma” da Igreja goiana. As fronteiras da fé nos domínios das festas. 1860-1920. o que resultou na transferência da sede da diocese para Uberaba (1896). p. Ele utilizou ainda de práticas rotineiras como o “retiro espiritual. Maria da Conceição. em Formosa (1905). com a criação do bispado de Porto Nacional (1915). da Diocese de Goiás. Dom Emanuel incentivou a fundação de escolas católicas. Op. Maria da Conceição. São Paulo (1938) e Belo Horizonte (1946) e seus Conventos em Goiás foram fechados. p. A Igreja. foi criada a Diocese de Uberaba. comprou uma tipografia. eles partiram para as grandes cidades. visitas e cartas pastorais. eles se concentraram no interior da diocese de Goiás e de Minas Gerais. com sede novamente na cidade de Goiás.. Como a primeira constituição da República havia estabelecido o Estado laico. Ele empreendeu inúmeras iniciativas no sentido de resolver a questão do ensino religioso na sua diocese. as Filhas de Maria. as escolas católicas deixaram de ser subsidiadas pelo Estado e o ensino religioso deixou de ser obrigatório nas escolas confessionais. Após a Revolução de 1930.209. 110 . Em 1907. a Conferência e Associação São Vicente de Paulo. Getúlio Vargas decretou a legalidade do ensino religioso nas escolas públicas e o próprio Estado voltou a subvencionar as escolas católicas.207. separando o Triângulo Mineiro. Depois. A partir de 1922 a diocese de Goiás foi assumida pelo Dom Emanuel (Manuel) Gomes de Oliveira (1922-1955). Op.425 Quanto aos dominicanos. Essa mudança dos dominicanos.423 Ele reabriu o Seminário Santa Cruz. a construção e reforma das capelas e matrizes e a vinda de novas congregações estrangeiras para auxiliar o clero local.político dos Bulhões que dominava a cena política em Goiás na época. ao criticar abertamente a maçonaria da qual participava os Bulhões e ao tentar impor a reforma perdeu o apoio das elites políticas e dos fiéis.

membro da comunidade dominicana. 427 BERTHET.109-170. três empregados (um guia e dois outros para cuidar da tropa) e dois soldados (sendo que um deles era responsável pela cozinha).427 Este relato está informado pelo campo religioso da época e também pelas leituras dos viajantes franceses que percorreram partes do Brasil naquele século. Dom Sebastião Leme (1882-1942). p. Berthet. 428 426 Sem dúvidas. dos fiéis e enfim. uma visita pastoral ao norte goiano envolvia tempo na preparação e na viagem (seis meses). Leme que pediu insistentemente aos dominicanos que marcassem sua posição nas grandes cidades brasileiras. vol. 428 Michel Berthet fez questão de relatar como se organizou a caravana episcopal para percorrer o norte goiano. O roteiro utilizado foi previamente traçado. os fiéis católicos e as práticas religiosas vivida no norte goiano? O que eram os sertões para os dominicanos? E ainda. foi a maior liderança católica no Brasil entre 1921-1942. A tropa era composta por vinte burros. Ela foi composta por oito pessoas: o bispo. num artigo intitulado “Uma viagem de missão pelo interior do Brasil”. a primeira “radiografia” feita sobre a situação do clero. Enfim. De Boa Vista subiram pelo rio Tocantins até Porto Imperial (futura Porto Nacional). pode ser explicada em função das novas orientações da Igreja no Brasil e suas articulações com o Estado. exatamente. várias pessoas e muita disposição para viajar em lombo de burros. Organizou o movimento leigo. Uma viagem de missão pelo interior do Brasil. Nesse processo dinâmico que vai do final do século XIX até meados do século XX que imagens os missionários elaboraram sobre o clero local. recém instalada em Goiás e que nos deixou importante relato. 3. que estratégias utilizaram para implantar um projeto de Igreja reformada entre os vales dos rios Araguaia e Tocantins? Até que ponto eles concordavam com as imagens dos sertões propagadas pelos médicos Neiva e Penna? É o que veremos a partir de agora. em seguida pelo Araguaia foi até São Vicente e dali. conseguindo aproximar a Igreja e o Estado. Ele foi arcebispo auxiliar na década de 1920 e cardeal do Rio de Janeiro na década de 1930 e início de 1940. Em 1883.1.In: Memórias GoianasI. Essa viagem foi acompanhada pelo frei Michel L. durante a primeira visita pastoral realizada por toda a diocese.grandes cidades. naquele momento em que o apostolado missionário pelos sertões constituía-se no foco das atenções e investimentos dos dominicanos franceses no Brasil. em especial. por terra até Boa Vista (futura Tocantinópolis). A caravana foi por terra até Leopoldina. entre 16 de maio a 21 de novembro. ocorreu a visita ao norte de Goiás. de toda a diocese foi realizada por D. Cláudio.426 Nossa preocupação com as visões dos sertões goianos estão centradas. Ano I. SaintHilaire. dois padres (um diocesano e outro dominicano).1 O olhar dos dominicanos sobre o clero goiano Em Goiás. Ao que parece foi o próprio D. através da ação católica e procurou consolidar o espaço ocupado pela Igreja na sociedade brasileira. 111 . Frei Michel. mar/1982. entre 1881-1884.1.

Riolando e GRIJP. BERTHET.430 Ao contrário dos frades dominicanos. quais seriam esses supostos “erros” do clero? Berthet apontou apenas que os sacerdotes não possuíam as virtudes para exercer o magistério o que lhe foi confiado. à cidade de Goiás. Além de todos aqueles “desleixos” do clero com relação ao templo e ao “rebanho católico” existia algo mais grave que Berthet não registrou claramente em seu relatório: o concubinato clerical. Op.429 No norte de Goiás. cit. bem como da confissão e distribuição de sacramentos aos fiéis. p. sob o peso dos pecados mais monstruosos”. que viviam em comunidades nos Conventos. cit. Entre eles estaria a corrupção. Petrópolis: Vozes. o missionário dominicano concluiu “que estes pastores estão longe de possuir as virtudes que exigiria tal situação.141 431 AZZI. encontra-se a ignorância mais crassa entre esta pobre gente. que vive sem fé e morre sem sacramento. Esse pouco interesse de parte do clero goiano pela sua missão sacerdotal já havia sido denunciada por SaintHilaire. a falta de zelo das paróquias. eclesial e sacramental” nos sertões. Frei Michel. O frade acusou o clero nacional ali existente de não pregar aos domingos. 432 BERTHET. Uma Viagem de Missão pelo Interior do Brasil.No relato da viagem. p. O olhar do dominicano sobre o clero que atuava no norte de Goiás está marcado pela perplexidade em decorrência da distância entre a realidade e a expectativa do missionário. Michel. p. (1930-1964). O comportamento desses padres foi visto como mundano e desinteressado pelo exercício da instrução moral e religiosa dos fiéis. bem como da necessidade de implantação do catolicismo “de inspiração romana. Até mesmo a reza do breviário parecia ser negligenciada pelo clero nativo. o despreparo moral e intelectual. além da distância das autoridades eclesiásticas.117 430 Idem. Berthet encontrou apenas o clero diocesano e dois Capuchinhos. o clero secular era subordinado ao bispo e vivia nas paróquias.15 112 . o concubinato era uma realidade entre os clérigos na Diocese de Goiás no século de onde retornaram. p. Enfim. Todavia. Desta forma. História da Igreja no Brasil: Terceira Época. por terra. Op.116 429 Idem. após visitar vinte e quatro paróquias assistidas por doze sacerdotes.431 Na concepção de Berthet. aqueles padres não estavam preparados para assumir a função de “condutores do rebanho”. p. Moreira. Frei Berthet encontrou vários problemas associados aos padres nacionais. 2008.432 Mas. como ressalta Maria da Conceição Silva e Welhigton C.17. Klaus van der. na quaresma e de não cuidar sequer da limpeza e asseio dos templos.

dos ornamentos que a constituem. todas as alfaias necessárias. em dia. Wellington Coelho.br/scielo. 1948. com o concubinato clerical e com a submissão das confrarias e irmandades à autoridade do padre. p.. Goiânia: IPEHBC. Cláudio estava preocupado com a organização administrativa. Disponível em http://homolog.435 Ele exigiu a observância do clero quanto à manutenção. E. Cônego Trindade da Fonseca. São Paulo: Salesianas. que residem em vossas freguesias. In: BEOZZO.. Claúdio.1.. Maria da Conceição e MOREIRA. 1824-1907. através da Carta Circular Reservada. História da Igreja no Brasil. In: Coleção Especial do Cônego Trindade. vol.103.php? Acessado em 20/06/2011. quaes vossas relações com ellas [. em que estado. casamentos e óbitos que deveriam ser preparados e redigidos para que servissem de documentos legais. 1980. de 1885. O edifício material de vossas Egrejas acha-se em bom ou Mao estado.]. Tem ou não vossas matrizes um patrimônio.437 D. seos nomes. João Fagundes. 433 Podemos acrescentar também os registros de concubinato do clero goiano nos relatos dos memorialistas e nos relatórios de viajantes estrangeiros e nacionais que percorreram a região nos séculos XIX e XX.421. Existiam exceções e elas chamavam a atenção dos viajantes estrangeiros.XIX. observão ou não os seus respectivos compromissos.434 Após conhecer toda a diocese de Goiás D. Haverá um cemitério. dos livros de assentos de batizados. tanto J. presentes em documentos civis e eclesiásticos. Carta Circular (Reservada). Quais as capellas filiais. Ibidem 113 . 437 Idem. 434 Apud HAUCK. José Oscar et al (org). Lugares e Pessoas: subsídios eclesiásticos para a história de Goiás. Assim. Lembrava também da necessidade de estudo rigoroso.. ou mais de um. quem e de que modo são elles administrados. Claúdio foi transcrita no livro: SILVA. Dirigida aos Parochos e aos demais Clérigos de Ordens Sacras da Diocese de Goyas. Haverá sacrário decente. p. N. [online] 2010. do lugar adequado e tempo de sua duração. Assim nos deveis declarar: quais são os sacerdotes. Pohl quanto Saint-Hilaire fizeram questão de registrar o comportamento exemplar do vigário de Santa Luzia (GO).170-196. 433 SILVA.] quais as confrarias e irmandades existentes em vossas freguesias. em que estado se achão os edifícios materiais [.scielo. da preparação do pão e do vinho. e porque não produzem. Petrópolis: Vozes. Além de instruído. A Igreja na Emancipação (1808-1840). Dom Claudio José Gonçalves Ponce de. Goyas:1885. 435 Parte das pastorais de D.29. 436 LEÃO. Typografia-Perseverança do Tocantins Y Aranha. pregava gratuitamente todos os domingos e confessava grande número de fiéis. pia Baptismal. História. normatizou as obrigações do clero goiano. O bispo reformador ainda exigiu detalhado relatório a ser elaborado pelo clero goiano tratando do levantamento e registro sobre a quantidade e qualidade do rebanho católico em Goiás. da preservação da castidade e do respeito devido no espaço sagrado das igrejas.436 Tal carta tratava ainda da celebração da Missa. existem os documentos legaes d‟esses bens. produzem ou não algum rendimento para a fabrica. n. seos costumes. Conjugalidades Clericais na Diocese de Goiás.

438 O rompimento do celibato também constituía-se um problema para os bispos reformadores goianos. Op. Como se pode acompanhar através das palavras de Dom Cláudio. O evento reuniu grande parte do clero goiano. Edivaldo Antonio dos. Maria da Conceição. Dissertação de mestrado em História. p.441 Antecedeu o Sínodo o retiro espiritual. o seminário não provocou mudanças rápidas. 114 . Este tinha por objetivo fortalecer a formação moral e intelectual dos futuros padres. p. ele convocou todo o clero para participar do Sínodo Diocesano em 1887.12 Idem. 442 SILVA. Catolicismo e casamento.444 Esse esforço para o “enquadramento” dos sacerdotes dentro das regras disciplinares e doutrinais passou também pela reforma do Seminário “Santa Cruz”. Os Dominicanos em Goiás e Tocantins. a saber: a obrigatoriedade do uso do hábito fora de casa e de estudo (os padres com menos de 10 anos de ordenação deveriam se sujeitar. no qual foram aprovados os principais pontos da reforma católica em Goiás.439 Como alerta o bispo. 19996. 441 SANTOS.440 Diante da má fama do clero goiano. “As desordens. a um exame de teologia). p. p. que se tem o nome de chistãos”. 39 no total. quase a metade dos padres da diocese.83. Universidade Federal de Goiás. p. participando do Sínodo. cit.Por isso. Maria da Conceição. 443 além do cumprimento dos votos de castidade. Edivaldo Antonio dos. os crimes dos sacerdotes são conhecidos de todos (. p. estimada em 80.. 440 Idem. 443 SANTOS. 2009. pregado pelo Padre Vigário Provincial dominicano Frei Raimundo Madré e girou em torno da “santa castidade” e da importância do sacramento do matrimônio segundo as regras doutrinais.55. Goiânia: UCG.. cit. “Pelo que temos dito é manifesto: a vida de muitos Sacerdotes de nenhum modo se distingue da vida dos seculares e d‟aquelles seculares mundanos. p. licensiosos. Porém.442 Entre os dias 12 a 15 de agosto ocorreu propriamente o Sínodo.Op. 444 SILVA. O Sínodo Diocesano ocorreu na primeira quinzena de agosto de 1887 e foi uma obra conjunta dos dominicanos e do bispo de Goiás.1. Catolicismo e casamento civil em Goiás (1860-1920). todos os anos. Fundação e consolidação da missão dominicana no Brasil.) cada um acha mil razões para continuar sua vida escandalosa.83. Exemplar na resistência do clero “sertanejo” a esse 438 439 Idem.55. para violar cada vez mais criminosamente as leis Santas de Jesus-Chisto e de sua Igreja”. o bispo procurava a unificação interna das suas condutas e conclamava todos os sacerdotes para „consolar‟ o coração de Nossa Senhora.28. Aquele foi o primeiro evento do gênero realizado no Centro-Oeste e teve por objetivo o “cumprimento de vossos deveres sacramentais”.

em 1883. da perseverança e do sonho. antes da chegada dos dominicanos existiam paróquias sem pastores. contudo. ao norte de Goiás. a fim de garantir sua vida ameaçada. Teria recebido as ordens sacras em 1893 e assumido a paróquia de Boa Vista em 1897. administrador da Mesa de Rendas entre 1920 a 1930 445 LIONARDI.446 Audrin ressaltou que alguns daqueles padres foram contemporâneos seus nos sertões e seriam “as últimas „espécimes‟ do antigo clero sertanejo”. ele não conseguia exercer condignamente a função religiosa para a qual foi preparado. em conflitos sangrentos e necessitando da companhia de jagunços para garantir sua segurança durante as “desobrigas”. 115 . Segundo ele. Embora não chegasse ao ponto de colocar o revolver junto às galhetas. estudou no seminário “Santa Cruz” já dentro das novas diretrizes impostas pela reforma. onde tudo se resolvia na base da invenção. intelectual e. missionário dominicano que chegou ao norte de Goiás no início da República. na hora da missa. como se verá em seguida. Entre Árvores e Esquecimentos: História social nos sertões do Brasil. Um deles era o padre João de Souza Lima de Boa Vista (1869-1947): No extremo-norte. p. p.216. mesmo formados pelo seminário reformado. 446 AUDRIN. Op. da vastíssima diocese de Porto Nacional. Como pároco local. e passava então „por fora‟. deixando numerosos cristãos sem sacramentos!447 Padre João de Souza Lima aparece nessa narrativa como triste exemplar do “velho” clero. Brasília: Paralelo 15. p. 1996. ao escrever seu livro na década de 1940.445 Assim. sobretudo. Os sertões goianos seriam espaços de fronteiras entre o legal e o ilegal. José Maria. ocupados em política local ou em negócios temporais e cuidados de família”. envolvido em política e às vezes em conflitos sangrentos. padre João acabou se transformando em liderança política.309-310. Entre Sertanejos e Índios do Norte. via-se. Ele havia sido “recrutado” durante a viagem pastoral de Dom Claúdio. de Boa Vista (atual Tocantinópolis). cit. de soluções novas. Audrin. de insuficiente preparo moral. 447 Idem. espiritual. Envolvido na política local. ou “entregues a sacerdotes idosos. detalhe mais penoso ainda.50. E. encontrava fechadas ao seu ministério as residências dos seus „contrários‟. na triste necessidade de fazer-se acompanhar por jagunços.“enquadramento” disciplinar foi o padre João de Souza Lima. repetiu as narrativas dos primeiros missionários sobre o clero nacional. Foi deputado estadual entre 1910 e 1914. em suas desobrigas. para se presumir contra algum ataque inimigo (como fazia certo vigário sertanejo que conhecemos). deixaram-se contaminar pela liberdade dos sertões. alguns padres. entre o possível e impossível. Victor. a paróquia de Boa Vista era regida por um padre filho do lugar.

São Paulo: Cia Editora Nacional. 1945. Goiânia: s. cit. do Ceará. nem o exemplo dos dominicanos que assumiram a paróquia e posteriormente a diocese de Porto Nacional conseguiram enquadrá-lo. estava em perfeito desacordo com aquilo que se esperava dos padres formados dentro dos princípios disciplinares e das novas orientações doutrinárias. 1974. Padre João foi censurado por celebrar casamento de pessoas já casadas ou separadas. abençoando as segundas núpcias. cit. nunca perdeu política. reaberto e reformado por D.e Prefeito Municipal durante o ano de 1945. Goiânia: UFG. Porém. Op. p. entretanto. 1991. Essa gente vivia na igreja rezando”. Era a regra do tempo”. Padre João foi considerado a segunda edição do Padre Cícero (1884-1934). Para tomar o poder em 1908 ele sitiou a cidade com 700 caboclos. 448 449 CORREA. nem o seminário diocesano “Santa Cruz”. Ele deveria ficar longe das mulheres e da política. Porém. Tinha centenas de cabras que punha o nariz onde ele tirava o pé. o que nos interessa ressaltar é apenas o fato de ele ser um exemplar desse antigo clero nacional que a reforma procurou extirpar. Op. p.ed. 116 .451 Porém. Adenora Alves.72. Tiveram que aceitar aquela presença incômoda na sua diocese e único pároco de Boa Vista até a sua morte (1947). p.63-64. ibidem. Quando faleceu. vários aspectos da atuação do “Padre João de Boa Vista” poderiam ser explorados por nós.452 Chegou-se a afirmar que o padre de Boa Vista teve suas ordens eclesiásticas suspensas. Claúdio. 452 Idem. Boa Vista do “Padre João”. era o “outro” com o qual não queriam ser confundidos e queriam ver reformados.127 450 CORREA. o padre “João de Boa Vista”. Ele representava exatamente o tipo de sacerdote que os dominicanos queriam distância. Viagem ao Tocantins. Aldenora Alves.31 PATERNOSTRO.449 O padre de Boa Vista “acoitava cangaceiros e praticava todos os desmandos. Júlio. Aldenora Alves. p. nem a legislação eclesiástica. “A cabroeira do Padre João era desses assim [não recusavam empreita de matar homens].448 Enfim. 453 CORREA. Carmo. Não obedeceu: na casa paroquial mantinha uma viúva e sua filha. Ora. era presidente do Diretório local do PSD.450 De acordo com o romancista Carmo Bernardes. como era chamado. “Esse padre. p. até hoje não se encontrou um documento que comprove tal punição. sempre garantido pelo Governo de Goiás”. Enquanto viveu apoiou todos os governos.453 Interessante que o mesmo padre João que usava de violência para combater seus inimigos e defender seus interesses políticos era condescendente com o modo de vida dos fiéis. mandou em Boa Vista.31 451 BERNARDES. Perpetinha: um drama nos babaçuais.

117 . Hugo. Em meados do século XIX doze Capuchinhos chegaram à Diocese de Goiás com objetivo de evangelizar os índios do Araguaia e Tocantins. Estevão. com a presença de soldados. o missionário dominicano. a superioridade moral de Conceição do Araguaia sobre a catequese mantida pelo Estado estaria no fato de que a primeira foi formada basicamente por “famílias honestas e laboriosas que para ali foram com o fim de viverem em paz e de gozarem as vantagens morais e religiosas que lhes faculta a vizinhança dos missionários”. defesa e produção agrícola ao longo do Rio Araguaia e Tocantins. p. em 1883. cit.170. assim os capuchinhos italianos ocuparam um lugar de quase monopólio no trabalho missionário entre os índios. de sua população. 457 GALLAIS. 454 455 FRAGOSO.458 Para Gallais as práticas de vida nos presídios militares constituíamse num péssimo exemplo para os povos indígenas e depunha contra os capuchinhos.285.455Os capuchinhos italianos encontrados no norte de Goiás por Berthet continuavam executando a política indigenista do governo. prisioneiros e um missionário. p. Uma catequese entre os índios do Araguaia. no Pará. De acordo com Hugo Fragoso durante o Segundo Império. A Igreja na Formação do Estado Liberal.456 Segundo ele. obra dos dominicanos. Ao comparar os antigos presídios militares fundados pelo governo e atendidos pelos capuchinhos. os dominicanos também queriam se distinguir dos missionários das Congregações estrangeiras que atuaram no norte de Goiás. frei Michel Berthet registrou o que se havia convencionado chamar de catequese dos índios. Op. na segunda metade do século XIX. 458 Idem. cit. p. p. o Provincial dominicano Frei Gallais ressaltou os aspectos decadentes dos presídios de Leopoldina. colônias militares de povoamento. Eles foram encarregados pelo Imperador da catequese dos índios e atendiam também aos cristãos fixados perto dos “presídios militares”. em especial dos capuchinhos. o governo autorizava a vinda de missionários da Itália.454 Durante a visita pastoral ao norte de Goiás. pela lei n. 456 Idem. Frei Michel. com Conceição do Araguaia.457 Enquanto nos “Presidios funcionários longe de toda fiscalização e soldados sem disciplina levavam freqüentemente uma vida dissoluta e davam o exemplo de todas as desordens”. principalmente. São José e Santa Maria.148. ibidem. cit.Além do clero secular. Op. BERTHET.139. Uma empresa de navegação pelo rio Araguaia e alguns presídios militares.79. Op. ao longo do rio Araguaia e ressaltou a pujança de Conceição do Araguaia. de 1842.

Estevão. Frei Michel. com pouca estrutura moral e religiosa. estavam isolados. Uma catequese entre os índios do Araguaia. cit. História da Igreja no Brasil. A Igreja e os Índios. Op.464 Poderíamos apontar essas mesmas razões para explicar o insucesso do clero nacional. BEOZZO.55 462 AUDRIN. Op. Porém. a morte e o seu abandono pelos missionários. pois a experiência mostrara o quanto a dispersão se apresentava funesta.461 Segundo Audrin “esses beneméritos apóstolos tinham já desaparecido ou envelhecido. pois sua base de apoio era a paróquia. 465 Temia-se a dispersão e o isolamento. Gallais ressaltou que o princípio que serviu de fundamento para a organização da missão dominicana no Brasil foi a comunidade. ao contrário. na visão de Gallais o modo de vida em Conceição do Araguaia seria inspirador para os povos indígenas que viviam ao seu redor. Nos conventos se agrupavam no mínimo de cinco a seis religiosos e estes faziam suas jornadas missionárias em dois ou três. p. 461 GALLAIS. Cônego Trindade. p. 459 460 Idem. Mas. p. Cláudio insistiu para que os missionários observassem essas regras. J. (org). In: BEOZZO. Ensaio de Interpretação a partir do povo. distantes das autoridades eclesiásticas. p. 465 GALLAIS. O. ibidem. como os dominicanos se preveniram para não serem contaminados pelos maus hábitos dos sertões? Pe. Estevão. 1980. p. Segunda Época. 463 SILVA.466 A essa prática dos dominicanos Fonseca e Silva atribuiu o sucesso da sua empreitada expressa no epíteto de “Beneméritos do Norte”. na visão dos dominicanos. O Apóstolo do Araguaia. cit.140-143. As razões apontadas para esse resultado “desastroso” foram as doenças. cit.418. Lugares e Pessoas. além de muito próximos das tentações mundanas. cit. p. 466 Idem.297.460 As obras dos capuchinhos “acabaram com os que a criaram”. ibidem 118 . com uma formação precária. e ninguém tinha vindo continuar suas heróicas empresas”. Rio de Janeiro: AGIR. 464 BERTHET. além de serem tratados como empregados pelo governo. devia-se ao rígido controle da moral. 1946. impressiona a extensa lista de „aldeamentos‟ criados pelos capuchinhos em todo o Brasil no segundo Império.59-60. De acordo com o frei. Petrópolis: Vozes. Segundo Beozzo. com a mesma rapidez com que eram formados eles também se desfaziam totalmente. cp.O sucesso do povoamento de Conceição do Araguaia. José M. José Oscar.51.462 O Cônego Fonseca e Silva atribuiu o fracasso da obra evangelizadora dos capuchinhos ao fato de eles não estarem inseridos numa comunidade religiosa. dos costumes e da justiça empregados pelos missionários na condução da vila. Entre Sertanejos e Índios do Norte. o próprio D. op. 463 Frei Berthet ressaltou que os missionários capuchinhos. as guerras.459 Assim.

470 A criação do bispado de Porto Nacional ocorreu em 1915. cit. 469 Ora. p. quanto mais fraco o Estado nos sertões. deveriam viver agregados não lhes sendo permitido assumir as diversas paróquias espalhadas pela região. Aquele grandioso prédio religioso foi elogiado por Neiva e Penna. Enfim. 470 Nesse processo. duas apenas possuíam titular em exercício”. o missionário dominicano que veio para o Brasil possuía sólida formação moral e intelectual adquirida nas grandes universidades européias. Op. Os médicos ficaram realmente impressionados com aquela construção nos confins dos sertões goianos. as bases físicas de onde os missionários partiam cruzando os sertões e para onde retornariam no início das chuvas. estrategicamente não divulgadas. p. em Porto Nacional. apenas em 20 de julho de 1920 o papa nomeou frei Domingos Carrérot. entre eles. além de alfaias próprias. a paróquia de Porto Nacional foi elevada a diocese pelo Papa Bento XV.198 119 . contribuiu com D. Em 1915.e pelo deputado federal Francisco Ayres da Silva. cit. como a dos dominicanos. foi noticiado que a igreja de Porto Nacional possuía. em 1912. envolvido em política. Outro poderoso símbolo de distinção dos dominicanos com o passado religioso do norte de Goiás foi a construção arquitetônica em estilo romano. os dominicanos deveriam viver em comunidade e seguir suas regras. 3. Estas apenas recebiam a visita desses missionários periodicamente.34 469 A INFORMAÇÃO GOYANA. obra local. sofrendo a ação destrutiva do tempo. Um deles se encontrava em Arraias em idade muito avançada e outro em Boa Vista. mais fortes e visíveis deveriam ser os símbolos do poder religioso e. n. como a única igreja digna que eles encontraram em todo o percurso da viagem. porém. AUDRIN. bispo de Goiás. estariam seus prédios. Enquanto isso. os padres de uma Ordem conventual. Ano IV. uma comissão presidida pelo frei Reginaldo Tournier – superior do Convento dominicano de Porto Nacional .000 quilômetros. vol. jul/1920. confeccionada por um hábil ouríveres”. Numa área de 300.140. da Ordem dos Pregadores. vice-presidente da comissão. Op. Em 1920.87-97. contava a nova diocese com apenas seis missionários para 467 468 SANTOS. Prudêncio. Para lembrar os desafios assumidos pelo primeiro bispo daquela diocese Audrin ressaltou que “das quatorze paróquias enumeradas pomposamente no Decreto de criação do Bispado. matizadas de pedras preciosas de valor. o que não impedia que elas não fossem quebradas. uma Ordem conventual revelava sua força nos sertões.12. M.Os Conventos significavam os pontos de apoio. 467 Assim. como primeiro bispo de Porto Nacional (19201933). Entre Sertanejos e Índios do Norte. as velhas igrejas continuaram abandonadas. 468 Seja na Europa ou na América. adereçado com cruzes de ouro pelo lado externo e interno. p. Além disso. J. Edivaldo Antonio dos. um “sacrário todo de prata. p. porém. Idem.

Caixa: Documentos avulsos de Porto Nacional.com relação ao clero nativo e com relação aos capuchinhos – os primeiros porque longe da “ortodoxia e da observância legal”. p. José Maria. Frei.2 Um olhar sobre os fiéis O choque entre o olhar europeu dos missionários dominicanos e a realidade vivida pelos fiéis no norte de Goiás foi enorme e inevitável.472 Enfim.1. Cavalcante e Amaro Leite. a superioridade cultural de Porto Nacional e a própria distinção atribuída pelas autoridades eclesiásticas aos dominicanos. Hugo. Enormes distâncias entre “as condições materiais e morais dos pobres moradores privados dos mais necessários recursos da civilização”. 3. p. 474 AUDRIN. seus índios. porque subordinados ao Estado e vivendo dispersos. Ao criticar os outros. os dominicanos procuravam justificar a intervenção e marcar uma distinção . Idem. ao sul. 1980. p. e dando continuidade a romanização da Igreja. Existia um abismo entre o modelo de Igreja pretendido pelo missionário e aquele encontrado nos sertões. em carta pastoral enviada ao administrador apostólico de Porto Nacional anunciando a criação da nova diocese assim justificou a necessidade da mesma: “Na falta de clérigos e religiosos nacionais. Atente-se que ali não foi criada uma prelazia. A Igreja na formação do Estado Liberal. História da Igreja no Brasil. fiéis e bens materiais foram entregues aos dominicanos”.000 habitantes espalhados por cidades. In: BEOZZO. os dominicanos ressaltavam aquilo que para eles era de fundamental importância: a vida comunitária. 120 . em geral. Seus limites com a diocese de Goiás eram as cidades de Flores. a solidez dos seus princípios e da sua obra. Op.474 O dominicano centrava sua atenção no aspecto moral dos fiéis: “o estado moral deste povo é dos mais lamentáveis. ibidem.473 e. os dominicanos tiveram sua área de atuação. mas um bispado ressaltando exatamente. 475 BERTHET. José Oscar et al. Petrópolis: Vozes. Por fim. a Diocese de Porto Nacional. fora de uma comunidade de referência. Op. Ensaios de interpretação a partir do povo. reconhecida pelo bispo e pela Igreja. Segunda Época. concluímos que o julgamento realizado pelos dominicanos sobre o clero nacional e os capuchinhos foi bem desfavorável. vilas e povoados. 471 Dom Prudente. Em diversas narrativas. no norte de Goiás.65-66. Entre Sertanejos e Índios do Norte. cit.150. cuja obra não teve continuidade. os segundos. cit.475 Ou ainda: “encontra-se a ignorância mais crassa entre 471 472 ARQUIVO PÚBLICO DE GOIÁS. 218.151-152. e o único remédio seria enviar-lhes bons padres”. 473 FRAGOSO.

aos custos dos casamentos. Quanto ao sacramento da confissão. Consideram uma felicidade quando se esquece de perguntar-lhes algo que seria ampla matéria de acusação. não havia desculpas para o amancebamento. na rede suspensa em árvores ou sobre um couro de boi. dentre as quais não se encontrariam dez que soubessem confessar-se. os casais se abrigavam por detrás “da razão de impossibilidade” e esperavam a melhor oportunidade para receber as bênçãos da Igreja.” 476 Quais seriam os pecados dos fiéis. Nessa situação. como ressalta Berthet. a casamentos realizados sem a presença do padre e ao amancebamento. segundo frei Gallais. em alguns lugares. As casas eram mal construídas e de uma sujeira pavorosa: “durante a estação da seca. cit. contando que lhes fosse permitido continuar sua vida desregrada. como na própria cidade de Goiás. p. os fiéis necessitavam ser instruídos a respeito das verdades da fé. num estado moral lamentável.482 Em Porto 476 477 Idem.esta pobre gente. 481 Idem. onde se trabalhava apenas para não morrer de fome.479 Segundo Berthet. é melhor dormir ao relento. A indolência grassava pelos sertões. a demanda era tão grande que não podia ser oferecido a todos. 478 Porém. o frade dominicano ressaltou que eles se mostraram dispostos a participar dos sacramentos.163 121 . ibidem. a preguiça e a ignorância atrapalhavam até a confissão: Confessamos milhares e milhares de pessoas. 481 Apesar do julgamento negativo sobre os fiéis. Estevão. porque ela se traduzia na vivência de uma religião supersticiosa. devido às enormes distâncias. p. na concepção dos missionários? Para Berthet. ibidem 482 Idem. a lei eclesiástica não era observada e numerosos casais viviam amancebados. 479 BERTHET. Op. ibidem 478 GALLAIS.107. sob o peso dos pecados mais monstruosos. que vive sem fé e morre sem sacramentos. porque a maioria deles não tinha a real noção do significado dos sacramentos. E todos querem se confessar. É preciso perguntar-lhes tudo. do que ir repousar em tais moradias”. Durante aquela visita pastoral ao norte de Goiás foram realizados mais de mil casamentos.477 Este estado moral estava associado. enfim. Op. p. pois eles não se acham na obrigação de responder senão ao que o padre pergunta. Michel. a não ser a “A ignorância e a indolência” dos fiéis. sobretudo. à ausência de padres. Aceitariam as mais rudes penitências. Tal atitude era justificada pelos fiéis. O Apóstolo do Araguaia. o pecado capital dos fiéis goianos seria a ignorância.152 480 Idem. ibidem Idem.480 Assim. cit.

benzedores. cit. p. O Apóstolo do Araguaía. Mauro (Org. Era também uma religiosidade assentada sobre lideranças leigas – rezadores. João Fagundes. muito mais do que seria lícito supor. 1999.489 Não possuiriam conhecimentos sobre os sacramentos. p. ibidem. eles eram católicos e poderiam ser redimidos através da ação missionária.487 Essas práticas religiosas eram aprendidas nas famílias e comunidades que se reuniam para celebrar os santos de devoção.152. percebeu-se uma enorme distância entre a religião oficial e aquela vivida nos sertões. Ressaltamos que as imagens elaboradas pelos missionários dominicanos sobre os fiéis no norte de Goiás compuseram um amplo quadro negativo.112-113. Op. a população local deu grandes consolações ao bispo e ao missionário. A Igreja na Emancipação.485 Os habitantes daquelas paragens seguiam a religião católica. novenas dirigidas aos santos protetores e a romarias. 490 Idem. p. além de imagens milagrosas e objetos protetores – onde o papel do padre era relativamente pouco importante. 122 . cit. nos cinco dias que ali permaneceram.115. suas intenções religiosas não seriam sinceras e o que prevalecia era a ignorância e a superstição. Ali os homens importantes se confessaram. 487 HAUCK.488 Tais práticas religiosas ficavam distante dos complicados conceitos teóricos doutrinários e pouco agradavam a hierarquia que tudo fará para modificar tal situação. ibidem Idem. Porém. Naquele espaço social prevaleciam as crenças tradicionais. ibidem 486 GALLAIS. Primórdios da Catequese: arranjos do período colonial e imperial.486 Tais práticas estavam associadas a promessas. 483 O vigário local.484 Nas palavras do missionário. Riolando. como se verá em seguida. porém. Op. Eles estariam mergulhados nas trevas da ignorância e do erro. foram realizados mais de duzentos casamentos e até as mulheres públicas correram atrás de um marido e foi impossível confessar a todos que procuraram aquele sacramento. eles não puderam contar com o exemplo dos padres.490 Afinal. nem com 483 484 Idem. transmitidas de pai para filho nas famílias. Os ricos negociantes pediram ao bispo que ali deixasse o missionário dominicano. Op. Petrópolis: Vozes.Imperial. ibidem 485 Idem. p. já idoso e quase cego pediu ao bispo sua exoneração. In: PASSOS. Estevão.) Uma História no Plural: 500 anos do movimento catequético brasileiro. Frei Michel.15-31 489 BERTHET. “Esta população faria os maiores sacrifícios para ter uma casa de missionários e a graça do Nosso Senhor transformaria certamente em pouco tempo estas almas tão bem dispostas”. cit. 488 AZZI.

Frei Gil Vilanova. na quaresma de 1888.492 Essa tentativa de sacralizar as famílias foi uma prática comum dos dominicanos nos sertões goianos. Op.491 Inicialmente. O Apóstolo do Araguaia.suas valiosas instruções. Op. nos sacramentos e na “moralização da realização das festas religiosas mediante a sacralização dos espaços e dos eventos da Igreja”. chegadas da França. jul/1920. p. n. fundaram o Colégio “Sagrado Coração de Jesus”. 123 . Assim.108-109. Outra preocupação dos dominicanos foi com relação à formação da juventude. Eles insistiam na freqüência às missas.138-139.2 O Projeto dos Dominicanos para os Sertões 3. 493 INFORMAÇÃO GOIANA. Mônica Martins da. cit. Ano IV.493 Em 1904. O curso normal era equiparado à Escola Normal e recebia subvenção do poder público. Para viabilizar o ato religioso mandou confeccionar um único vestido de noiva que passava de mão em mão. foram em seu auxílio as Irmãs dominicanas do Santíssimo Rosário de Monteils que. no Convento “Santa Rosa de Lima”. No currículo do Colégio. cit. porque os padres que atuaram na região foram considerados extremamente negligentes. p. p. o Colégio funcionava como internato feminino e externato para ambos os sexos. vol. antes de se transformar no “Apóstolo do Araguaia”. Estevão . Instalado em prédio próprio desde 1906. GALLAIS. 3. 3.2.12. Após realizar um levantamento sobre os amancebamentos. O catolicismo popular em Goiás. um esforço enorme foi feito pelos dominicanos no sentido de sacralizar as famílias. foi criado curso normal. porém em 1920. Inicialmente o Colégio só oferecia o ensino primário.1 Os dominicanos entre os fiéis Os missionários dominicanos se fixaram nos sertões goianos e passaram a disputar com os leigos a condução das práticas religiosas. chama a atenção o estudo 491 492 SILVA. ele foi de casa em casa visitando as famílias e convidou-as a se casarem na Igreja. ele conseguiu realizar cerca de setenta uniões.138. tornou-se conhecido na cidade de Goiás pela expressão “Larga ou casa!”. via instrução. A idéia de Porto Nacional como capital cultural do norte de Goiás está também relacionada com a instalação dos dominicanos na cidade (1886).

A Produção do Habitus cultural em Porto Nacional (Sec. banquetes dos Imperadores do Divino e bailes.228. In: htpp//WWW.496 Assim. XIX-XX). Nesse esforço da hierarquia eclesiástica e dos próprios dominicanos na adequação da religiosidade dos fiéis de modo mais coerente com as exigências do catolicismo romanizado. desenho. Ora.ufmt.227 124 . Segundo Audrin. Aproximar os dois catolicismos praticados nos sertões – o da vida e o da teologia – implicava enfrentar os problemas do analfabetismo e do ensino da doutrina. José Maria. Assim. 496 AUDRIN. cit. devido à preocupação das famílias com o controle da honra feminina na época. Op.br/semiedu2009/gts/gt8/ComunicaçãoOral. Acessado em 16/11/2010. cumpria a função de disseminar a educação formal e os valores do catolicismo romanizado entre as elites locais e regionais.495 Cabia aos missionários dominicanos fazer cumprir. essa normativa episcopal. cit. em Porto Nacional. latim e francesa. no norte de Goiás. 494 RIBEIRO. o Colégio foi conduzido pelas Irmãs dominicanas e as meninas ficavam em regime de internato. Op.8-10. Era costume realizarem-se ali eleições políticas. porque qualquer protesto violento e precipitado seria contraproducente. culinária e música. os missionários logo perceberam que não seria conveniente opor-se de uma vez às tradições antigas. Os dominicanos tinham consciência da necessidade de incluir as meninas no seu projeto de propagação da alfabetização e da catequese no norte de Goiás. 495 SILVA. p. Porém. p. o Colégio “Sagrado Coração de Jesus”. Dom Cláudio. quando tomou posse da diocese de Goiás em 1881.494 Percebe-se que tais esforços dos dominicanos nos sertões tinham por objetivo básico diminuir ou mesmo suprimir a distância entre os ideais e as práticas dos cristãos. os dominicanos participavam ativamente das festas religiosas. Benvinda Barros Dourado. Entre Sertanejos e Índios do Norte. percebe-se uma tentativa de separar o sagrado do profano. Mônica Martins. o Colégio preparava as meninas para serem professoras e/ou boas esposas e mães. de forma a garantir a influência da Igreja junto à sociedade. além do ensino das artes manuais. Enfim. Inicialmente elas foram consideradas sinal de decadência e de ignorância dos fiéis (padre Berthet). porém. através das normatizações. O Catolicismo popular em Goiás. os dominicanos viam as festas do Rosário e do Imperador (as mais populares em Goiás) como deformações do que outrora organizaram os jesuítas. p. proibiu ao povo e aos padres de celebrar festejos dentro das igrejas. mais tarde foram reconhecidas como expressão da força do catolicismo (padre Audrin).das línguas grega.

a “folia do Divino” também era composta pelos devotos que fizeram a promessa de acompanhar a bandeira. chamado de imperador. receberia esmolas e um pequeno refresco. tarefa destinada aos padres. a festa ao Espírito Santo veio de Portugal e foi adaptada no Brasil pelos padres jesuítas. indo de casa em casa pedindo esmolas. Porto Alegre : Edições EST. Cit. 497 498 Idem. cit.499 O fato é que a festa conseguia envolver a comunidade local e todos se empenhavam para dar-lhe brilho.porém impunham restrições ao uso do espaço sagrado do templo. Op.148 499 AUDRIN. lembra a seguir. O festeiro organizaria ao giro da “folia” angariando esmolas para o custeio da solenidade. 504 Idem.226-228.501 Entretanto. “Eis que umas trinta pessoas se apresentam na casa de um pobre roceiro todo feliz por receber a visita do „Divino‟ e por vezes bastante embaraçado para poder hospedar e alimentar a folia”. 503 Idem. tiravam-lhes uma possível fonte de renda. assim. Frei Michel. precedidos da bandeira do Divino e acompanhada por alguns músicos. Cláudio.149. Segundo ele. ibidem. p. Populações Rio-Grandenses e Modelos de Igreja. Entre Sertanejos e Índios do Norte. p. Op. ibidem.). que os foliões. Eles entrariam na casa. 1998. BERTHET. (Org. esgotam-se as provisões do pobre roceiro e: Viva o Divino”. 125 . realizadas em Goiás.498 O personagem principal da festa seria o “Imperador do Divino” escolhido no ano anterior. como havia normatizado D.502 Após ter feito o giro pela cidade. despeja-se cachaça com abundância. Cit. que quer ser bem tratada. onde a bandeira seria beijada respeitosamente pela família. procurou compreender a dinâmica relação das festas com a experiência dos sujeitos sociais que. Festa do Divino: modelo de igreja dos açorianos. era revestida de grande seriedade. Berthet foi bem mais prolixo e se preocupou em descrever as várias etapas da festa considerada “a grande devoção dos brasileiros”. 497 Berthet e Audrin nos deixaram descrições da festa do Imperador do Divino. A “folia” seria composta por pedintes que.226-227 500 JACHEMET. Op.500 Berthet. p.504 Berthet não conseguia perceber a festa do Divino como um sinal expressivo da força do catolicismo nem como expressão da fé de um povo. Frei Michel. 502 Idem. Martha Abreu. Martin. ao estudar sobre a Festa do Divino no Rio de Janeiro Imperial entre 1830-1900. faziam o giro pela cidade.116 501 BERTHET. a folia se dirigia para as roças. Mata-se um boi. além de levarem a bênção aos fiéis. p. In:DREHER. p. “a esmola reservada ao Divino será absorvida pela folia. 503 Para Berthet. a escolha do festeiro. Célia Silva. ibidem.

1978. apresentavam o Divino como amigo dos pobres e consolador após a morte. a pesquisa possibilitou “observar que as festas são sempre recriadas e reapropriadas. J.57. O catolicismo popular no Brasil: Aspectos históricos. p.509 Os foliões. 505 ABREU. Op. Op. Op. cit.513 A novena consistia em cantar uma antífona ao Espírito Santo ou uma ladainha e rezar uma dezena de terço. prazer.. O Império do Divino: festas religiosas e cultura popular no Rio de Janeiro. Martha Abreu descobriu os grandes atrativos do Divino.510 Acompanhando os foliões. ibidem. cit. cit. Aldenora Alves. Ela podia ser rezada com ou sem a presença do padre. pandeiros.505 Para ela. Entre Sertanejos e Índios do Norte. presentes nas cantigas. M.508 A população se fazia presente para participar da cerimônia e ver se elevar nos ares a bandeira do Divino. Aldenora Alves. indicando que chegara o “tempo do Divino”.. cit. a cargo dos festeiros escolhidos no ano anterior. Alcance o reino da glória”. que também prometiam muitas graças terrenas e o reino da glória a quem o ajudasse.. Deus lhe pague a esmola. garantia do seu sucesso. Veja: “(. Os preparativos para a festa do Divino iniciavam-se com grande antecedência.38 506 Idem. Op.71 511 ABREU.) elogiavam quem contribuísse. p. 512 CORREIA. Não se ponha duvidar. (. na paróquia de Tocantinópolis. p. p. 1830-1900. O Império do Divino. as crenças. p.122 508 CORREIA.150 510 CORREIA. Michel. Riolando. Tudo temperado com música e foguetes. No sábado da Aleluia era erguido o mastro simbólico. com a pomba no topo. as esperanças dos seus próprios agentes sociais”. onde o dono era abençoado e dava esmolas. a cooperação” e ajuda mútua. prometendo-lhe muita graça”. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. pelo menos.71-72. Aldenora Alvas. contendo as paixões. nas brincadeiras da festa.situados no tempo e no espaço. seu “tríduo”.71. 126 . cit. com a falta de definição clara das funções do clero e dos leigos ou talvez com o papel menor ocupado pelos padres durante as festas. 507 Porém. 509 BRETHET. que serviria de “pau-de-sebo” posteriormente. Petrópolis: Vozes. p. Op. com viola. Mas é rico pra nos dar. encontramos o registro de um canto para tirar esmolas do Divino. a festa era antecedida pelo seu “novenário” ou. Berthet parece preocupado exatamente com a ausência de separação entre o sagrado e o profano.512 Nos sertões goianos.506 Riolando Azzi ressalta que “a Festa do Divino desperta também a coesão social. 513 AUDRIN. Ele é pobre no pedir... Martha. Op. p. Martha. p. cit. elas “falavam sempre de muita alegria. tornaram-nas autênticas e concorridas. comidas e bebidas. Deus permita que por ela. os conflitos. de chapéus enfeitados com flores e fitas e a bandeira do Divino iam de casa em casa. 1999.) Quem der esmola ao Divino.226. 507 AZZI.511 Para o extremo norte de Goiás. Que deu ao Divino agora.

ao trovoar das „rouqueiras‟ e de centenas de foguetes. as bebidas. antes da missa. todavia. regados a Vinhos e „branquinha‟. cabendo aos escolhidos para organizá-las funções e títulos militarizados. da reza 514 515 Idem. tratava-se de uma festa religiosa que. os banquetes tradicionais. para os fiéis não havia a separação entre espaço sagrado e espaço profano. cit. em presença dos festeiros coroados e assentados num trono em frente ao celebrante. noites passadas em imaginar as muitas desordens morais provocadas por tais orgias! 515 No dia da festa. com acompanhamento de ruidosa orquestra. p. vestidos a caráter. Op. sempre rezada na entrada da noite. a participação na missa não passava de uma obrigação formal. O comum do povo. ali permaneciam durante toda a celebração. Para os fiéis. ressaltava exatamente o poder do leigo. os bailes. sentados num trono.516 Em segundo lugar. o cetro na mão e o conduziam até a igreja. o indispensável baile para a „elite‟. como o título de Imperador (autoridade máxima). Célia Silva. ibidem. colocavam a coroa na sua cabeça. Depois do banquete. Encontramos vários elementos relevantes para pensar o mundo das festas religiosas populares no norte de Goiás. 516 JACHEMET. Em primeiro lugar. pajens e outros. saltava e sapateava tarde e noite inteiras. começavam os leilões. A renda seria revestida para a festa. alferes da bandeira. E começavam. cantava-se a missa. a negrada. Idem. Os assistentes acompanhavam então os dignatários até suas residências. ao ritmo estonteante de enormes tambores de antiga importância africana.514 Na igreja.Após a novena. seguido de procurador. com as oferendas dos fiéis ao Espírito Santo. os banquetes. Esta parte considerada “profana” da festa era apenas suportada pelo missionário e realizada fora do templo. a caboclada. porque era ele que mobilizava a população da vila e do campo através do “giro da folia”. 127 . porém. festins pantagruélicos. o padre celebrava a missa e na frente do altar. as danças e a música. nessas festas havia uma hierarquia rigorosamente obedecida. os assistentes. debaixo de imensas „latadas‟ feitas de bambus e ramos de palmeiras. Durante a missa havia sermão e no fim a procissão solene. essas diversões barulhentas! Que noites de insônia. mesmo de longe. No dia do evento. p.227.. que faziam naturalmente subir em alto grau os entusiasmos e inspiravam um sem número de oradores. depois das fadigas do dia.117. A festa começava muito antes e terminava muito depois do fim do sermão com os foguetes. precedidos pela música iam até a casa do “imperador do Divino”. ao contrário do que pretendia a Igreja. sob o pálio. estavam o imperador e a imperatriz do Divino que. Pobre do missionário e pobre do bispo obrigados a suportar.

com relação às festas religiosas populares. como a bandeira. portanto. Frei Berthet fez questão de ressaltar os detalhes da festa para chamar a atenção para os abusos e as superstições dos fiéis. Ou seja. Frei Audrin. enquanto estava nos sertões fez enormes esforços para agüentar com paciência aquela “mistura de alegria ruidosa e profana”. acostumado de muitos anos. nas suas memórias. Este mérito da negociação foi atribuído por Audrin a Dom Carrerot. pois na sua concepção tudo aquilo precisava ser alterado. Paciência e negociação atribuída por Audrin ao bispo de Porto Nacional: Dom Domingos. o que exigiu permanentes e dinâmicas negociações. ibidem. era a de suportar para lentamente modificar. numa relação sempre complexa entre o clero e os leigos. 519 Percebe-se que o ímpeto de reforma dos dominicanos foi contido pela resistência dos fiéis. Porém.das novenas. normatizar para retirar o que se considerava como excessos. primeiro prelado da prelazia de Conceição do Araguaia (1911-1920) e depois primeiro bispo da diocese de Porto Nacional (1920-1933). precipitado e contra-producente contra costumes inveterados. tudo tinha que ser feito muito lentamente porque esbarrava sempre na resistência dos fiéis. aproveitando a oportunidade para propagar a doutrina religiosa. Por fim. acostumar o fiéis a participar das celebrações e dos sacramentos. 517 518 519 AUDRIN. ela dispõe de vários recursos simbólicos.517 A estratégia dos dominicanos. 227 Idem. na instalação do mastro da bandeira e no destino das doações. Era melhor “ser condescendente” e reconhecer as práticas religiosas populares como expressões de uma fé simples e sincera do que simplesmente tudo condenar. Sua prudência unida a uma velha experiência impedialhe qualquer protesto violento. Por isso.228. Não estranhava tais abusos como aconteceria para outro Prelado pouco treinado em suportar as esquisitices do sertão. cit. após vários anos de experiência nos sertões compreendeu que as festas faziam parte dos costumes em comum daquelas comunidades espalhadas pelo interior e sem possibilidades de diversão. sabia que não podia e nem convinha opor-se de uma vez a tradições ancestrais. Entre sertanejos e índios do norte. transformações ou antes deformações do que outrora 518 inventaram e organizaram santos missionários. a pomba que representa o Divino e. p. 128 . Elas pensavam e agiam sempre em consonância com sua fé e seus costumes antigos. distante do dogma. O missionário dominicano reconheceu a autonomia de pessoas comuns. Op. Idem.

aos maus exemplos daqueles que tendo missão de ensinar o caminho de Deus. Era preciso atender a milhares de romeiros vindos em procura de confissões. e lá se deteve em árduos trabalhos. não destituídas todas porém de pitoresco. distante de Porto Nacional trinta e cinco léguas.. no Muquém. as missas cantadas. de casamentos e sobretudo de crisma. os sermões. e outras são um pretexto para se 520 521 Idem. como aquele encontrado por Arthur Neiva e Belisário Penna (que retornavam daquela romaria) . até o dia 18. Além de tudo isso. por onde marchavam homens e mulheres montados em cavalos ou burros.Entre os atos religiosos comunitários e expressão coletiva da religiosidade no norte de Goiás. p.. Idem. (. as procissões.(. às tentativas teimosas dos espíritas e. „a festa da Senhora da Abadia. chegavam a triste necessidade de dizer outrora aos fiéis. O primeiro deles foi a grande concorrência popular. Esse costume chamou a atenção também do Tenente Humberto Peregrino. Nos alongaríamos demais si quisessemos contar apenas algumas das muitas “promessas” que o bom povo sertanejo gosta tanto de fazer.520 Na transcrição a seguir encontram-se outra série de elementos que caracterizam a prática da festas populares naquele tempo como a de romaria (ainda hoje existente): Neste antigo santuário costumam reunir-se. Segundo ele. de batismos. A mais tradicional e concorrida era a romaria do Bom Jesus de Bonfim. ao Sul da Província. as rezas solenes. ou ainda por grupos de pessoas a pé. ibidem. Domingos fez sua entrada solene no arraial do Bom Jesus de Bonfim. “famílias inteiras se transportavam a estiradas distâncias por qualquer motivo. a 15 de agosto. (. no município de Natividade. para depois cumpri-las a todo custo e sobretudo sem respeito humano. Numa região distante e considerada de difícil acesso .. afim de cumprirem suas „promessas‟.) A 14 de agosto D.permanecia o costume de viajar a grandes distâncias para participar das festas religiosas..) Muitos atos de fé e gratidão a Nosso Senhor pudemos presenciar no devoto santuário: manifestações sinceras. é verdade. 129 . no seu livro Imagens do Tocantins e da Amazônia publicado em 1942. que resistiu aos esforços periódicos de agentes protestantes. 521 Alguns dos elementos presentes na romaria chamaram a nossa atenção. milhares de romeiros vindos de todo o norte de Goiás e mesmo dos vizinhos Estados da Bahia e Piauí. e até de ridículo e quase supersticioso.) Fé tão robusta na sua ingenuidade.. encontramos também as romarias. e inédito. 218. digamolo com franqueza.pois as estradas existentes eram ainda os trilhos do carro de boi. aos pés de uma vetusta imagem de Jesus Crucificado.. com sincera humildade: „Fazei o que vos pregamos e não o que nos vedes praticar‟.

Durante a procissão chamava a atenção mulheres carregando na cabeça pesadas pedras e outras com pote de água fresca na cabeça e vasilha na mão. 524 O missionário. Assim diante de uma dificuldade na vida – doença. era expressão da fé de um povo e de sua identidade. de procissões realizadas e de sacramentos distribuídos. O catolicismo popular em Goiás. três dias e mais dias.fazerem viagens de 60 a 80 léguas‟”. como o pagamento de promessas. o missionário reconhecia que as festividades faziam parte do culto católico. viajam entre dois. de missas celebradas. aos fiéis do sertão não faltava fé . ao ressaltar a quantidade de pessoas. Mesmo criticando os excessos. promessas feitas diretamente ao santo de sua proteção. Entre sertanejos e índios do norte. vestidos apenas com uma calça dobrada acima dos joelhos assistiam toda a celebração de joelhos e com os braços cruzados.o devoto recorre diretamente ao seu santo protetor e promete algo em troca do benefício esperado.523 A romaria expressava também a vocação da Igreja para o culto das exterioridades bem como de uma identidade de um catolicismo repleto de festas. no espaço dos sertões. Ibidem. José Maria. em companhia da mulher. ou seja. 1942. 220. no qual o relacionamento com o sagrado se dá de forma direta. cit. outros.526 As promessas ou votos estão associados a práticas religiosas devocionais. Op. Podemos até estranhar os pés descalços. ao contrário. o torso nu e as mulheres carregando pedras na 522 PEREGRINO. Tem. 524 SILVA. cit. Humberto. Sobre os votos.525 O voto também poderia ser pago dentro ou fora da capela. “alguns começam a cumprir seus votos ao sair das casas. p. 525 AUDRIN.522 Ele ressaltou então que “a aspereza e o prazo das jornadas não impressionam nem tolhem os habitantes destes mundos”.146.13 523 Idem. falta de chuva. 526 Idem. má colheita. 130 . Rio de Janeiro: Biblioteca Militar. sem pronunciar uma só palavra”. Durante as celebrações religiosas era possível ver alguns fiéis trajados ricamente. mas com os pés descalços. filhos e tropeiros. o missionário anotou que eles poderiam começar a ser pagos antes de iniciar os festejos. distribuindo água aos romeiros. Imagens do Tocantins e da Amazônia. entre outras . Ao narrar o que considerou um “espetáculo variado e curioso” Audrin nos ajuda compreender esse universo religioso vivido no espaço dos sertões. Op. p. Mônica Martins da.tão profusamente demonstrada durante a festa de romaria faltava doutrina. Na concepção dos dominicanos. p. dificuldade no parto.219. evidenciava também a própria popularidade do catolicismo e da Igreja.

527 Compreende- se que combater os excessos significava direcionar a festa e a fé dentro das expectativas dos missionários. autoridades e padres locais.529 De acordo com João Fagundes Hauck. 131 . 530 HAUCK.528 Os sertões constituíam-se também em área de expansão religiosa não católica. para os penitentes o que interessa é a promessa feita. ressaltava-se a existência do planejamento das ações dos missionários dominicanos. por sua vez. Dessa forma. o modelo de missões populares. foram aderindo a ela sem romper radicalmente com as suas tradições religiosas. a proteção do sagrado que ele buscou e foi agraciado. ela passou a significar missão entre os fiéis.cabeça e distribuindo água por ocasião das procissões. tanto para evitar contestações.111. nos quais os missionários demoravam de quinze a vinte dias. dinâmica e criativa. A Igreja na Emancipação. “O povo é prevenido e sabe em que data e onde poderá encontrar-se com os missionários”. cit. O missionário compreendia que aquela fé e suas práticas poderiam constituir-se num fator de impedimento da penetração dos protestantes e espíritas nos sertões goianos. o que era positivo. como nos exemplo de Audrin. tudo deveria ser feito sem romper radicalmente com práticas costumeiras. 527 528 Idem. sediados nos seus Conventos. Op. de grande sucesso na França. p.103. os pontos ou locais onde ocorreriam as “missões populares”. Na tentativa de implantar a reforma os dominicanos. ibidem. na década de 1940. O apóstolo do Araguaia. quanto nas do padre Audrin. para evitar “contestações” e os leigos. 529 GALLAIS. Porém. Tanto nas narrativas de Gallais.530 De catequese dos índios. os missionários dominicanos tentaram implantar a reforma sem entrar em conflito aberto com os leigos. utilizando-se das missões populares e das “desobrigas”. Porém. Idem. montavam estratégias para atingir todos os fiéis da diocese. ibidem. Como ressaltou Audrin. quanto porque a religiosidade popular poderia ser útil para a própria Igreja. ao contrário do relatório Penna e Neiva que condenou a participação dos sertanejos nas romarias e nas feiras como desperdício de energia e de recursos. os missionários acabaram por valorizá-las e reprovaram apenas os exageros. Tudo feito dentro de uma relação complexa. p. cit. João Fragoso. A cada ano era demarcado um “campo de ação”. foi trazido para o Brasil e adquiriu novo sentido a partir do trabalho dos lazaristas. Op. no início do século. Estevão.

68. Entre sertanejos e índios do norte. organizava-se o plano da campanha espiritual. de confessar e comungar. seguiam um roteiro pré-determinado e duravam apenas uma noite e uma manhã. o missionário despedia-se com uma larga bênção e dirigia-se a outro pouso onde repetia o mesmo esquema dos trabalhos anteriores. a fim de que todos pudessem aproveitar a breve passagem e receber os sacramentos. Aquele era o momento de rezar o terço. iniciava os trabalhos com o catecismo às crianças. Assim.com padres não dominicanos e não adequados .68-69. mas. indicando os povoados e as zonas a visitar.e podiam durar até 15 dias. Op. cit. Após a refeição iniciava a reza do terço e o canto da ladainha seguido de pregação. que se estendiam até altas horas da noite. recomeçava bem cedo a ouvir confissões. ao chegar ao primeiro pouso. 533 Idem. as estradas por onde seguiria. junto com um roteiro bem determinado. o missionário. Segundo Audrin: No princípio do ano.531 Audrin ainda se preocupou em deixar detalhado o esquema de uma “desobriga”. No dia seguinte. Idem. previamente avisado e estando os fiéis ali reunidos. Elas eram mais demoradas. além do indispensável sermão e a distribuição da eucaristia. em seguida celebrava a missa durante a qual eram realizados os casamentos e batizados. elas poderiam durar entre uma e duas semanas. avisos e convite para os sacramentos.532 Faz-se necessário esclarecer que a Igreja através dessa prática supletiva possibilitava ao fiel fazer a páscoa anual. publicação dos casamentos. as “santas missões” tinham por finalidade a evangelização e a catequese. povoações e famílias eram informadas do dia da chegada do Padre e do tempo da sua permanência. Diferentemente das desobrigas. p. cantar a ladainha. informações e anotações sobre casamentos. Com a mesma antecedência. provocar conversões e regularização 531 532 AUDRIN. Após o almoço. através delas buscava-se recuperar o fervor religioso. Havia a compreensão de que anunciar a palavra equivalia à preparação doutrinária para a recepção dos sacramentos. Cada um recebia um programa de ação. enquanto os Religiosos estavam esperando no convento o fim das chuvas invernais. O canto do bendito encerrava a reunião e o padre iniciava o atendimento às confissões.533 Nas “desobrigas” o missionário cumpria uma função bem clara: a de possibilitar a regularização da vida sacramental dos fiéis. as desobrigas ocorriam por todo o interior.Enquanto as missões eram realizadas onde existiam paróquias . p. através da confissão e comunhão. p.69 132 . os sítios em que deveria „pousar‟. principalmente.

p. entre novos e velhos fiéis. Quanto aos indígenas podemos dizer rapidamente que os primeiros dominicanos que chegaram ao Brasil em 1881 planejavam catequizá-los. 534 535 FRAGOSO.209-210. os missionários procuravam.112. fizeram verdadeiros trabalhos etnográficos e implantaram seu projeto de catequese entre os índios nos sertões goianos e paraenses. os missionários assistiram a extinção rápida dos Caiapós estimados em cinco mil no início da missão. criando novas práticas religiosas e morais nos sertões.536 Percebemos que. com a formação cristã da juventude conjugadas a ações missionárias e “desobrigas” tinham por finalidade conformar as comunidades que viviam no espaço entre os rios Araguaia e Tocantins ao novo modelo de Igreja. O Apóstolo do Araguaia. cit. espalhados pelas beiras do rio. com uma população de seis mil almas. O dominicano frei Gil Vilanova foi o principal responsável pela catequese indígena na região do AraguaiaTocantins. p. a Santa Sé criou em 1911 a Prelazia de Conceição do Araguaia. Op.da vida. e seu território contava com mais de quinze mil habitantes. Em reconhecimento ao enorme esforço feito pelos dominicanos. os missionários dominicanos. cabeça de comarca. ambos eram otimistas com relação ao futuro dos sertões goianos. “almas a socorrer e salvar”. p.144. O pobre povoado de frei Gil não era mais o arraialzinho de outrora. Op. reduzidos a dois mil e quinhentos em 1911. fosse através das missões ou das desobrigas. cit. já os dominicanos se aproveitavam da fragilidade de Estado para ampliar seus espaços. Hugo. reconciliação de ódios. e no final da década de 1940. ao contrário. confiada a Dom Domingos Carrérot. 535 Porém. “Era já cidade. nos campos e nas matas que se estendem em direção ao Xingu”. A Igreja na Formação do Estado Imperial. enquanto os médicos de Manguinhos desistiram de conhecer Conceição do Araguaia e não registraram a presença de índios no norte de Goiás. Estevão. Os primeiros acreditavam no poder da ciência aliada ao Estado para modificar a situação de doença e abandono ali encontrados. onde ficou conhecido como “o apóstolo do Araguaia”. evitando assim os conflitos. 133 . A preocupação com a sacralização da família. 536 Idem. além das tentativas de afastar os abusos e as superstições e estimular a volta aos sacramentos. quase completamente desaparecidos. GALLAIS. Apesar das diferenças de projetos de médicos e padres. 534 Com uma temática exposta em sermões doutrinários e moralizantes e farta distribuição dos sacramentos.

.”540 Para os médicos de Manguinhos.168. os sacramentos de casamento e batizado eram cobrados. principalmente com o médico Francisco Ayres da Silva e com os dominicanos. Idem. p. já que estavam diante de uma expedição médica oficial.. p. Neiva e Penna ao encontrarem com os dominicanos em Goiás.168 134 .169 540 Idem.539 Neiva e Penna criticaram abertamente a atuação dos redentoristas. principalmente.1 O Encontro dos missionários com os médicos nos sertões Como já dissemos no primeiro capítulo. depois em Porto Nacional (Frei Audrin e outros não identificados) notaram uma diferença enorme entre os missionários franceses e os missionários de outras Ordens e Congregações que atuavam nos sertões. 12 dias de pesquisas e conversas com a população local. ibidem.3. mas. os médicos chegaram no dia 04 de agosto e permaneceram até dia 16. Em Porto Nacional.) exploram vilmente a população”. Um posto médico seria bem vindo. declaram guerra ao casamento civil e (. estes sim. não instalaram sequer uma escola. Em suas palavras: “Felizmente. Foram. a sua ação intelijente. Arthur e PENNA.. cit.) se inscrever na história (. Op. principalmente. Neiva e Penna ao percorrerem o norte do Brasil criticaram os frades de diversas congregações religiosas que circulavam em “missão” no interior. os dominicanos constituíam a parte da Igreja que se submeteu ao Estado e se tornou colaboradora e propagadora da “civilização” nos sertões.. exercem o sacerdócio com toda a dignidade e.538 Em Goiás.). porque eles não aceitaram o casamento civil. os médicos encontraram-se com os padres redentoristas e reclamaram da sua atuação: “até hoje nada fizeram de útil. É claro que esses interlocutores alimentaram expectativas com os resultados daquele encontro. existem os frades dominicanos instalados no Porto Nacional.3... primeiro em São José do Duro (frei Domingos Carrerot e frei Reginaldo Tournier). humanitária e civilizadora há de (. portanto. esperavam que após aquela expedição que o Estado interviesse para melhorar as questões dos transportes terrestres e fluviais na região entre os rios Araguaia e 537 538 NEIVA.3 Os Dominicanos no Combate ao Relatório Neiva e Penna 3. para contraste consolador. p. 539 Idem.537 Durante as ditas “missões”. O pior ainda era a guerra que esses missionários faziam ao casamento civil. Belisário.

Certamente. diretor do seminário de Porto Nacional. Porém. souberam fazê-lo com justiça”. 1963. Audrin nasceu no sul da França em 1879. como os dominicanos reagiram ao relatório Neiva e Penna e as suas apropriações? Não sabemos se todos os dominicanos que foram interlocutores de Neiva e Penna nos sertões goianos tiveram acesso diretamente às páginas do relatório. 135 . que Frei Reginaldo Tournier.541 Frei José M. Na década de 1930. Frei José M. todavia. sua pretensão era a de restabelecer a verdade. Entre Sertanejos e Índios do Norte. Permaneceu em Uberaba até 1904. Os Sertanejos Que Eu Conheci. a biografia de Dom Domingos Carrerot. porém. Muitos viajantes teriam escrito sobre “os nossos sertanejos. Todavia. porém. Foi contemporâneo de Frei Gil de Vilanova em Conceição do Araguaia e dirigiu o Convento de Porto Nacional de 1921 a 1928. Podemos dizer. só publicado no início da década 1960. uma vez que. Ingressou na Ordem Dominicana em 1896 e foi ordenado sacerdote em 1902. acompanharam as polêmicas que o relatório suscitou. esse enfoque na doença que transformava os goianos numa população de ignorantes. Para o frade.Tocantins. Em seguida escreveu Os sertanejos que eu conheci. essas expectativas acabaram se frustrando e todas aquelas informações dadas pelo médico Francisco Ayres e pelos dominicanos foram apropriadas por Neiva e Penna para transformar Goiás na região da doença de Chagas. Entretanto. nem todos. Rio de Janeiro: José Olympio. não só tomou conhecimento do relatório. Foi em Uberaba que escreveu seu primeiro livro. No ano seguinte veio para o Brasil. Mas. Audrin. de escritores franceses e brasileiros. ela foi ofendida em algumas narrativas. no mínimo. como escreveu um livro para contestar aquelas visões: Os Sertanejos Que Eu Conheci. como eles eram colaboradores e provavelmente assinantes da revista Informação Goyana. como vimos no capítulo anterior. afirma que buscou inspiração para a escrita do seu segundo livro nas diversas narrativas de viagens aos sertões. compartilhava com Francisco Ayres da Silva a preocupação com a melhoria dos transportes na região. de lá foi enviado para os sertões entre os vales dos rios Araguaia e Tocantins. Quanto ao Dom Domingos Carrerot. segundo o frade. os viajantes estrangeiros teriam sido mais leais e compreensivos com o modo de viver do homem do interior do que muitos 541 AUDRIN. primeiro Prelado de Conceição do Araguaia e primeiro Bispo de Porto Nacional. doentes e inaproveitáveis desagradou os goianos. ele deixou pouquíssimas coisas escritas e nenhuma referência ao relatório. Porém. frei Audrin. viveu em Conceição do Araguaia e na década de 1940 já havia retornado para Uberaba e Rio de Janeiro.

7 e 8. muitos “têm sido fecundos em livros. de respeito”.7 Idem. indagações apressadas. Além disso. já que ele. além dos métodos de investigação dos viajantes estrangeiros sobre os sertões. além de terem sabido “evitar o perigo de concluir sob o impulso de primeiras impressões e de basear-se em simples probabilidades. porque escrita a partir da sua longa experiência nos sertões.) generalizaram por demais.”. Audrin também se preocupa em delimitar os espaços e os sujeitos sobre quem fala.) [Para] prevenir os possíveis protestos daqueles que pretendem pensar e falar baseados nas descrições um tanto acerbas de Euclides da Cunha.542 Para Audrin.brasileiros. p. sobre os sertões e os sertanejos. p. fadigas. tão mal conhecidas. (. de grupos e até de comissões científicas.” Para o missionário. em seus relatórios. em nome da “verdade”. evitando as generalizações presentes no relatório Neiva e Penna: Os sertanejos a que nos referimos e que chamamos „nossos‟ não são os sertanejos em geral. portanto.8 545 Idem.. em nome dessa verdade ultrajada que ele elaborou suas narrativas sobre os sertões e os sertanejos que ele conheceu.. pelo menos. neles vendo apenas atrasos e misérias. Em suas palavras: “Falamos baseados em casos por nós presenciados. uma Ordem religiosa que há mais de 50 anos atuava nos sertões e. porém.) olharam. “vieram aos nossos recantos bravios com a evidente preocupação de atravessá-los à pressa (. Araguaia. nas narrativas 542 543 Idem. obstáculos e perigos da viagem e permaneceram mais tempo nos sertões. banhadas pelos Rios Tocantins. sobre os sertões e os sertanejos. 136 . Sua narrativa então deveria ser vista como verdadeira. Xingu e seus afluentes. em seu próprio nome. Eles foram mais metódicos e criteriosos nas suas observações e conclusões. pobres.. Audrin... portanto. nomes de indivíduos.. ressalta não só o local de onde fala. e escutaram sem paciência (. ou respostas ambíguas e talvez malévolas”. ricos talvez de imaginação. p. e poderíamos citar..544 Esses viajantes. males e defeitos. por mais de 30 anos havia vivido como missionário entre os vales dos rios Araguaia e Tocantins. pretendeu ressaltar em contraposição às falhas das narrativas dos viajantes nacionais. e sim aquêles que vivem nas zonas centrais. ibidem 544 Idem.543 Foi. chegando mesmo a ridicularizar tradições dignas. eles não teriam recuado frente às privações.. ao idealizar os valores de persistência e tenacidade. faltou a Neiva e Penna “simpatizar com seus rudes patrícios. aqui.545 O missionário. de verdades”. mesmo o das comissões científicas como a de Neiva e Penna.

Simbolicamente. aproximando o progresso material do litoral com os valores de brasilidade presentes nos sertões. ele então defendendo a existência de um espaço imutável. Nação e Povo. Campinas: Papirus. 2003.. que redundaria na nação unificada e integrada. para eliminar os “vácuos demográficos” e fazer coincidir as fronteiras econômicas com as fronteiras políticas.. Jorge e DELGADO. ele pôde acompanhar a construção e transferência da capital de Goiás para Goiânia. nos relatórios pessimistas de certas comissões oficiais. senão de desprezo! Não os acusemos. fazendo a associação entre Estado. Admiremo-los como os pioneiros silenciosos mais teimosos da verdadeira „marcha para Oeste‟. Não estão sujeitos à lamentável necessidade de disputar ao gado e outros animais a água escassa das cacimbas.107-144. LENHARO. (.(. 1986. nem os trate de párias.. vivem e pelejam num país de florestas. p. onde o Estado não conseguia. Na prática.p. não andam esfarrapados e esfomeados. Sabemos que durante o Estado Novo (1937-1945) foi elaborado o projeto de “Marcha para Oeste”. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.).) Tais são os sertanejos que conhecemos. de verdes campinas e várzeas. portanto. rasga-gibões e xiquexiques. certamente.5-9.548 Audrin. ed. (.. inutilizam lavouras e obrigamnos a expatriar-se à procura do „Inferno Verde‟.injustas de Monteiro Lobato. 548 CAPELLATO. (.56. asseados. Estaria.) São livres. dignos apenas de compaixão. O Brasil Republicano: o tempo do nacional-estatismo. onde crescem apenas mandacarus. Alcir. de serem apróbio para a Nação. em 1942.. Não são vítimas de secas periódicas que aniquilam criações. do início da década de 1930 ao apogeu do Estado Novo. atraso para nossa marcha. Pátria. na verdade.) os sertanejos que chamamos “nossos”.547 Dentre as preocupações do governo no período estaria a da formação de uma identidade nacional coletiva.....) São pobres. onde o solo é rico e fartas as pastagens. porém.). O sentimento de agregação e pertencimento foi muito valorizado através da propaganda no Estado Novo. os tenha como “os jecas-tatus” do autor de Urupês. 546 A partir dessa transcrição. 137 . prejuízo para a nossa fama. não vegetam em recantos desolados. como ousaram fazer alguns patrícios. (. como a preocupação do Estado em incluir os sertanejos na nação. Lucília de Almeida Neves (Orgs. pois. ao 546 547 Idem. onde correm águas permanentes. Sacralização da Política. Porém. conhecia essas propagandas. p. uma tentativa de colonização do interior do país. efetivamente. 2. é possível perceber também o presente da narrativa de Audrin. se estabelecer e o progresso não chegava? Como atentou Alceu de Amoroso Lima. Maria Helena. Que ninguém.. ele lembra que a única “marcha para o Oeste” que chegou aos sertões que ele conheceu foi a realizada pelos próprios sertanejos. seria o encontro do litoral com os sertões. O Estado Novo: o que trouxe de novo? In: FERREIRA.

marca o início desse processo. ao cabo da longa convivência com os sertões. Porém. Edivaldo Antonio. para ambos o Estado continuava distante dos sertões e dos sertanejos. porque ele se coloca no relato como testemunha dos acontecimentos vividos. respectivamente. p. mas é também uma autobiografia. As narrativas de Audrin são uma tentativa de guardar a memória da atuação da Ordem dominicana nos sertões. Outro ponto importante a ser considerado nas narrativas de Audrin é com relação as experiências vividas nos sertões e as memórias sobre essas experiências. 3. as modificações das conclusões sobre os sertões que o missionário antecipara na introdução ficam por conta dos misteriosos caminhos da narrativa. In: AUDRIN.prefaciar Os sertanejos que eu conheci. o de Porto Nacional em 1944 e o da cidade de Goiás. cit. 549 550 LIMA. Percebe-se que ao tratar das suas lembranças sobre aquele passado Audrin acaba sendo mais generoso com os sertanejos e suas práticas religiosas do que ele fora enquanto atuava nos sertões. SANTOS. em 1938. José M. Audrin não gostou da saída da Ordem dos Frades Pregadores (dominicanos) do interior brasileiro. No mesmo período foram fechados os Conventos localizados no Estado de Goiás: o de Formosa em 1938.550 Audrin também teve que deixar os sertões. Op.XI-XIV. Op.549 Para nós. A fundação do Convento do Rio de Janeiro. contudo. Cit. Prefácio. os Conventos de São Paulo (1938) e Belo Horizonte (1946). em 1927. Alceu Amoroso. são dois tempos históricos diferenciados e às vezes contraditórios. quando começou a escrever sobre a sua experiência e a da sua Ordem nos sertões. Como se verá. p.3. Os sertanejos que eu conheci.2 Os sertões e os sertanejos de Audrin No relatório Neiva e Penna os habitantes dos sertões apareceram como doentes e dentro de um círculo vicioso de má alimentação e desnutrição difícil de superar sem a presença ostensiva do Estado e da ciência. Audrin acabou fazendo a defesa dos sertões e dos sertanejos. Audrin teria reconhecido que a marcha inexorável da Evolução já estaria chegando aos sertões. Na década de trinta e quarenta foram fundados. frente ao relatório Neiva e Penna e suas apropriações. sua Ordem o enviou para Uberaba. Nos sertões não seria encontrada a opulência.1 138 . na década de 1940.

555 A associação entre beleza paradisíaca e ação divina . cit. 555 LACAMBE.553 os missionários. Antonio de. 558 Idem.552 Assim. o estranho em familiar. p. cit.558 Audrin ressaltou ainda a riqueza da fauna e da flora dos sertões. 553 NEIVA. 1789.ajudaria na adaptação do missionário nos sertões. Laura de Mello.149. além de reforçar a presença do Criador naquelas paragens. ibidem.1-2. 1997. Entre os índios do Araguaia. Op. tanto da natureza quanto dos homens por eles encontrados. Op. O Diabo e a Terra de Santa Cruz. In: ALENCASTRO. o provincial frei Jacinto Lacombe “quem tinha o privilégio de contemplar o Araguaia com suas águas ora plácidas como lago tranqüilo. Neiva e Penna ressaltaram a monotonia da natureza e dos horrores da destruição provocadas pelas queimadas. reformado. Nas palavras do dominicano. p. A opulência na Província da Bahia. Frei Michel Laurent. Lisboa. Diccionário de língua portuguesa composto pelo padre. 552 MATOSO. Belisário. natural do Rio de Janeiro.compreendida como riqueza visível e “ostentatória”551 ou como „plenitude‟. pela 551 MORAES SILVA. ora águas agitadas como massas oceânicas.125.14-15. com suas praias extensas e areias alvíssimas como areias do mar” estaria contemplando os “vestígios vivos da beleza do Criador só tende a acreditar que Ele semeou com mãos cheias naquelas paragens solitárias”. 557 Tanto o sertanejo poderia retirar dali riquezas valiosas. a partir de em 1880. Rio Araguaia. „magnificência‟ e „beleza‟ significado que a palavra passou a assumir nos dicionários. Ano I. p. Os missionários sublinharam também a grande presença de riquezas minerais e a abundância de recursos naturais presentes naquela “terra virgem”. sublinharam suas belezas naturais. D. Kátia M. 554 BERTHET. os médicos de Manguinhos ressaltaram exatamente a pobreza e a feiúra. cit. Op.5-6. 139 .já brilhantemente analisada por Laura de Mello e Souza para a América Portuguesa . Raphael Blutteau. de Queiroz.554 A visão da floresta virgem e principalmente do rio Araguaia que se transformava ganhando proporções gigantescas durante a época das chuvas provocava um estado de fascinação nos frades. Jacinto. p. porque reconhecido nas leituras anteriormente realizadas. História da Vida Privada no Brasil: Império. Informação Goyana. São Paulo: Cia das Letras. v. p. São Paulo: Cia das Letras. Para eles esta riqueza passava pelos grandes e pequenos animais presentes nos cerrados e nas matas.556 Aquele vale distante associado ao Paraíso Terrestre ajudaria a tornar o desconhecido em conhecido. quanto o missionário que encontraria “um vasto campo a cultivar. numerosas tribos selvagens a evangelizar e legião de almas a salvar”. ago/1917. 557 GALLAIS. Arthur e PENNA. Estevão. Luiz Felipe. Feitiçaria e religiosidade popular no Brasil colonial. ao contrário. 1986. e acrescentado por Morais Silva. 556 SOUZA.84.

José Maria. os alimentos de maior sustento existentes no cerrado eram o pequi e o buriti. p. 13-30 BERNARDES. Os sertanejos que eu conheci Op. 140 . não só para sustentar a sua vida. cit. cit. ambos podiam ser comidos com farinha.562 Para Carmo Bernardes. cit. Op.10. Carmo. Audrin defendia a fartura alimentícia à disposição do sertanejo. a massa era comprimida e 559 560 AUDRIN. retirar-se o finíssimo polvilho.53.variedade e quantidade de aves e dos frutos. 562 Idem. Os sertanejos que eu conheci. ralada em roda de ralar ou manualmente em ralos. p. Op. era levada para a torrefação em enormes tachos de cobre. beijus e biscoitos. além da fécula para a tapioca. 566 Idem.565 Tudo era feito em longas jornadas de trabalho.54. M. p.561 Naquelas paragens existia caça e pesca à disposição dos sertanejos. Carmo. depois de decantado o amido. cascada. Ele caçava e pescava tanto para prover a alimentação da família quanto para se divertir em dia de folga. Quanto ao homem do sertão. cit. Os sertanejos que eu conheci. p. Audrin nomeou os maiores peixes existente no Araguaia e Tocantins.53. Em seguida. Op. depois de enxuta. Para o romancista Carmo Bernardes. além dos peixes dos rios. 559 Ele estaria adaptado ao meio e dali retirava o necessário para sua sobrevivência. depois de seco o produto era ensacado. p. Em seguida ela era amassada e retirada a casca. ibidem 567 Idem.10-11.31-42 563 BERNARDES. p. Op. cit. Quanto à massa de mandioca.563 Aliás. Ao ressaltar a riqueza da fauna e da flora do norte de Goiás. de ferro ou de pedra colocado em cima de uma fornalha que era mexida com uma pá de madeira. o sertão seria farto em todos os dias do ano. 561 AUDRIN. e ainda ressaltou a arte e a técnica utilizadas pelos sertanejos nas pescarias. mas ainda para gozar de fartura”. ele foi considerado portador de habilidades como caçador e pescador. a base da alimentação do sertanejo era a mandioca. José Maria.566 A mandioca precisava ser arrancada. ibidem.567A farinha de puba era preparada depositando as raízes de mandioca não descascadas na água até amolecer. A fécula era levada ao sol para secar (sobre os estaleiros feitos de madeiras estendiam-se os lençóis de algodão e sobre eles eram colocados a fécula). a massa era colocada numa prensa feita de tábuas perfuradas a fim de expelir o líquido que era recolhido em vasilhas de fundo largo ou grandes gamelas para. 565 Idem.564 O missionário explicou como se processava o plantio e a transformação da mandioca em farinha seca e na farinha de “puba”. J. o sertanejo seria capaz de “encontrar sempre o necessário. p.560 Assim. 564 AUDRIN.

mais tarde o feijão e a mandioca. 573 Idem.46. p. Naquela época.569 Essa alimentação baseada na farinha de mandioca foi criticada no relatório Neiva e Penna devido à pobreza nutricional. Lavoura perdida logo no início da safra significava 568 569 Idem.. as atividades agrícolas eram realizadas quase que unicamente pelos braços humanos. penúria e preguiça dos sertanejos e fez questão de ressaltar o quanto se trabalhava no sertão. Audrin contestava a situação de pobreza. normalmente não ostentava. tanto a farinha normal quanto a de “puba” era consumida de diferentes formas. 575 Idem. armas. como ao juiz ou mesmo ao padre. p. o sertanejo que Audrin conheceu. 141 . não existia nos sertões.42. Adubo? Só o da fertilidade natural do solo. de aves. a foice e a enxada. ibidem. 571 Idem. de carne). Para Audrin. sabia e queria trabalhar. no pirão (farinha misturada com caldo de peixe. munições. Geralmente plantava-se uma vez por ano. Chuvas demais. 572 Além de contratar serviços e pagá-los.43.568 Assim. porém. que dispensava os homens das cidades do trabalho na terra.torrada. Mesmo normalmente não sendo dono da terra. 570 Idem. p. o sertanejo era muito produtivo e enfrentava duras jornadas de trabalho.573 Assim. Escolhia-se um terreno próximo a um curso d‟água. 572 Idem. Ao prenúncio das primeiras chuvas.44 574 Idem. utensílios e vestuário. p. tudo alcançava.571 Ali. ibidem. p. derrubavam as árvores e queimava-as para depois semear as sementes.570 Ele lembrou que o dinheiro. Com eles era possível comprar novos instrumentos de trabalho. como se costumava dizer.574 Desprezava-se o cerrado porque era considerado estéreo. de São Pedro.575 Como ressaltou o historiador goiano Teixeira Neto: A fartura da colheita dependia. arroz “amarelado” e chocho e feijão melado e grão mixo. farinha ou milho pelos serviços prestados.55 Idem. ibidem. plantação arruinada. na jacuba (mistura de farinha com rapadura ralada e água) e na paçoca (mistura de farinha com carne assada e socada no pilão). ele conseguia pequena área onde podiam levantar sua casa e fazer suas plantações. plantava-se arroz e milho. ambos aceitavam o pagamento em arroz. utilizando-se de primitivos instrumentos de trabalho: o machado. estiagem prolongada. a moeda corrente eram os produtos da terra.

579 A ausência de plantações de verduras e legumes foi denunciada por Neiva e Penna como uma das razões de sua má alimentação e doença nos sertões.50 582 Idem. Antonio. No comércio.580 De acordo com ele.48 579 TEIXEIRA NETO.576 Audrin lembra que era necessário ainda o levantamento da cerca da “roça” feita com a madeira que escapou do fogo. pois. segundo Audrin. Tudo isso apenas provava.49. nas proximidades dos sítios era sinal de trabalho e previdência do sertanejo. Segundo Audrin. p. “que aos nossos sertanejos não faltam fadigas e lutas cotidianas por todo o tempo que dura sua faina agrícola”. José Maria. p. Depois de recolhidos.48. Audrin. Pequena história da agropecuária goiana. para onde eram transportados em bruacas penduradas em lombos de jumentos e mulas. Op. Normalmente. ou em carros-de-boi. cit. “são constantes as preocupações do roceiro para defender o seu trabalho dia e noite”. Nas beiras do cercado se plantavam ananases. jerimuns e melancias. Pequena história da agropecuária goiana. p. 577 AUDRIN. o arroz era cortado com facão (o cutelo só aparece certamente mais tarde) e os feixes batidos no jirau com os grãos caindo sobre couros de bois estendidos no chão. a vazante era uma plantação de menores proporções que a “roça” e era preparada na beira de um ribeirão ou rio.577 Depois de realizada a plantação era preciso defendê-la dos ataques de bichos domésticos e selvagens. Nos montes de carvão e cinzas se lançavam as sementes de abóboras. ele estava presente apenas entre os sertanejos mais abastados. quando possível de ser avistada. eles eram vendidos a granel. eram plantados os legumes. 581 Idem. p.581 Uma boa vazante. antes que a chuva fosse embora. Nos sítios bem organizados também existiam quintais plantados de várias fruteiras. além das batatas. no quintal e no canteiro. preparar a terra a tempo.43-51. ao contrário. Os sertanejos que eu conheci. p. Goiânia: Asa Editora. raramente eram ensacados.de novo capinar o chão.578 Na época da colheita: O milho quebrado era debulhado à mão. N.582 576 TEIXEIRA NETO. Op. Op. 2009. aqueles produzidos nas beiras do Tocantins tinha a fama de serem os melhores de Goiás. 580 AUDRIN. o quintal além de ser indício de vida mais confortável também indicava a vontade do seu dono de permanecer fixado no lugar. 578 Idem. na estação da seca. p. iam para as tulhas e paióis. Até a colheita. ressaltou a existência de plantações na vazante. porque os mais pobres eram mais nômades. Naquela terra fresca e fartamente adubada. ibidem 142 . José Maria. Os sertanejos que eu conheci.46. cit. Além da plantação de legumes e frutas também eram utilizadas as vazantes para o plantio do fumo. 20. mamoeiros e pés de algodão. In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás. Antonio. cit.

o médico Júlio Paternostro subindo de Belém até Porto Nacional pelo rio Tocantins afirmou que “A única horta que mereceu esse nome em toda aquela extensão de 2. sua sobriedade e agilidade. Op. esse equilíbrio entre o homem e a natureza. cit.585 Eram consumidos o inhame. p. Os sertanejos que eu conheci. As frutas mais comuns eram bananas. José Maria. pequi. Ele também possuía uma pequena produção de cana para fazer a rapadura. 585 AUDRIN. pimentas.Entretanto. cit. mangabas. castanhas. observando. de Monteiro Lobato. doente e improdutivo como era caracterizado na figura do Jeca Tatu. Júlio. 143 . Além disso. entre outras.584 Quanto às frutas e legumes elas estavam presentes na dieta alimentar daquelas pessoas. inerte.53-61.51 PATERNOSTRO.000 quilômetros foi a dos padres dominicanos”. depois de um longo aprendizado com o 583 584 Idem. cajus. ananás. ouvindo. 588 Idem. 586 Idem. cupuaçu. ao contrário.225. seja durante as caçadas. seja como vaqueiro. plantação suspensas por estacas e realizadas dentro de uma comprida caixa cheia de terra adubada era encontrado em todas as casas. palmito. goiabas. Ali se plantava cheiro verde. ele não seria ocioso. Op. Audrin defende esse modo de viver. jenipapos. chamado de “cará”. açaí. p. Como ressaltou Carmo Bernardes.586 Sendo assim. cheirando e distinguindo as pisadas e a proximidade dos bichos perseguidos.583 Em todo o seu percurso pelo norte de Goiás em 1935. p. Segundo Audrin. seja ainda como exímio nadador e fino observador da natureza. rastejando. O sertanejo ainda consumia o mel encontrado nos campos e nas matas.106-113. p. ele tinha extrema agilidade. cajá.588 Ele apresentava enorme capacidade de suportar as fadigas no trabalho diário da lavoura. possuía um canavial e um engenho. p.52 587 Idem. Porém. o “canteiro”. ao contrário. Audrin reconheceu que as hortaliças eram pouco cultivadas porque não eram consumidas. bacuri. por mais pobre que fosse a família. ibidem. do nascer ao pôr do sol. além de plantas ou raízes medicinais. ele estava envolvido com a luta cotidiana e realizava inúmeros esforços para produzir sua subsistência e da sua família. manejando o machado ou a enxada. moendo a cana numa engenhoca primitiva. O missionário fez questão de ressaltar sua resistência física. o sertanejo seria um forte e não um doente e “anemiado” conforme o caracterizaram Neiva e Penna. a abóbora e a batata-doce.587 Para Audrin. já o sertanejo abastado.

Outra razão apontada por Audrin estava no costume do sertanejo conservar-se. p. tinham um aspecto agradável e conservavam o ambiente fresco. questão central nas preocupações dos médicos. Quando percebe.)”. Op. p. A cafua foi considerada mais propícia para a morada dos barbeiros do que dos homens. ibidem. poderia ser que o forasteiro aprendesse coisas que “a gente ilustrada pelos livros nem sabe. mal protegidas contra as chuvas”. 592 Idem. elas eram “asseadas e arrumadas com gosto”. com paredes esburacadas. Audrin ressaltou que uma das causas do equívoco estaria na fisionomia do sertanejo pobre. 144 .sertanejo. p. Elas normalmente eram feitas com madeira. “sentado ou deitado na rede. pelo fato de ele não ser robusto. as casas dos sertanejos pobres e perfeitamente adaptadas ao clima equatorial.591 Audrin queria fazer crer que os longos anos vividos nos sertões fez diferença. rodeadas de mato. ramos de palmeiras. ao contrário dos julgamentos apressados de Neiva e Penna. de ficar de cócoras. O missionário contestou a injusta e inexata caracterização dos sertanejos divulgada pelos intelectuais: “o povo dos sertões que conhecemos não merece a denominação de „jecas-tatus‟. cit. fora das horas de trabalho. M. AUDRIN. São dignos de maior consideração”. ele havia compreendido o sertanejo e seu modo de viver. Os sertanejos que eu conheci. ou recostado. 592 não seria o comum. 591 Idem. ao contrário. as “casas sujas. palhas de babaçu. 594 Idem. mas ao lugar de fala. Carmo. p.117.589 Audrin contestou as visões daqueles que não conheceram e se equivocaram ao retirar conclusões apressadas sobre os sertanejos. Um sério problema apontado por Neiva e Penna no norte goiano dizia respeito à habitação do sertanejo. J.593 O frade reconheceu a simplicidade dos materiais utilizados na construção das casas. no geral. ibidem. 589 590 BERNARDES. por fim. ibidem. mal cobertas de palha. entende errado e passa o equívoco pra frente”. 590 Essas atitudes poderiam ser facilmente confundidas com indolência e preguiça.. ressaltou que como em todo o lugar. No geral. com certa moleza (. Audrin não fez nenhuma referência à doença de Chagas e à presença dos barbeiros nas cafuas.18. Audrin. poderia facilmente indicar má disposição para o esforço físico e. 594 Estas seriam. buritis ou piaçava.106.. nem percebe. Porém. ser julgado anemiado e abatido. Op. já argumentamos que o problema do olhar de Neiva e Penna sobre os sertões não pode se restringir ao tempo da viagem.65 593 Idem. cit.

mais seguras e mais raras. homens e mulheres se vestiam em “conformidade com seus limitados recursos.)”. depois barreadas. ou seja. porém preferiam ficar descalços. Eram as casas barreadas. 599 Idem. 598 Idem.599 Nem por isso eles andavam sujos. utilizando as riquezas de origem vegetal e animal (. Normalmente. “Nessas lojas encontra-se de tudo. calçados e chapéus. existia uma pequena loja comercial onde os vizinhos e passageiros vinham trocar seus produtos pelos vindos de fora.)”. entretanto. casemiras.596 No interior dessas residências. p.. cestas e balaios. Com o barro as mulheres fabricavam “panelas. à faca. as gamelas de todos os tamanhos.600 No cotidiano os sertanejos não sentiam necessidade de 595 596 Idem. o purgante de rícimo. normalmente. etc”. O calçado era o chinelo de couro ou alpercata de sola ou embira. potes. caiadas e pintadas. nus ou maltrapilhos como havia afirmado Neiva e Penna. de barro amassado em forma de tijolos. a pólvora. portanto. Todos os raros móveis e utensílios eram funcionais. Confeccionam as suas vestes segundo métodos ancestrais. que talham em madeiras escolhidas e lavram. Porém. Seus poucos móveis se constituíam de redes.75 145 .. botijas e pratos. p...66 597 Idem. A simplicidade também marcava o vestuário sertanejo no seu cotidiano. pode-se dizer que elas se caracterizavam pela simplicidade. Os utensílios domésticos também eram extremamente simples.Havia também as residências dos sertanejos ricos.72 600 Idem. riscados. Os homens reservam para si as conchas. desde o sal. chiqueiros. ibidem. não deveria ser vista como sinal de pobreza. ranchos para o engenho e forno. os garfos e colheres. p. da mesa de madeira. p. algodão da terra.595 Eram as casas de adobes. Ao seu redor se encontravam os currais.597 Quanto ao mobiliário das habitações sertanejas.68. os seus rudes trabalhos e as condições especiais e exigências da região e do clima. artisticamente”. as balas. de tamboretes de quatro pés cobertos de couro. 598 Tal simplicidade. as mulheres usavam blusas e saias e os homens camisas e calças. “Suas paredes externas e internas constam de varas fincadas no chão e destinadas a suportar talos de palmeiras ou de bambus estendidas em linhas horizontais. Com massa argilosa revestem o conjunto e tapam todos os interstícios (. mas como parte de um modo de vida sertanejo. p.65 Idem. paiol e outros depósitos. a cachaça e o vinho do porto até meias e gravatas de seda.

82. Op. como nas festas religiosas e casamentos.601 Os chapéus eram de fibra de carnaúba.3.111. O produto essencial para a vestimenta sertaneja era o algodão. brins finos. Os sertanejos que eu conheci. O apóstolo do Araguaia. redes e tecidos lisos. prata e diamantes. Estevão.3 A terapêutica e as práticas religiosas populares no norte de Goiás Para Audrin era um absurdo caracterizar os sertões como inferno ou hospital. calçados e meias.73 605 Idem. tingiam os fios e teciam. No cotidiano. Segundo ele. associada a nuances de poder e influência nos vales do Araguaia e Tocantins. sedas e cetins.. colchas. levava uma vida regrada. 3. ibidem. listados e em cores variadas. Op. sobretudo. os sertanejos ricos ou pobres continuavam com seus trajes e costumes simples. Ricos fazendeiros e comerciantes adquiriam vestimentas e acessórios de última moda.606 Quanto à malária.. além de realçar o luxo do vestuário com jóias de ouro. 607 Idem. p. chapéus.602 As mulheres apanhavam os capuchos e retiravam o caroço. colares e brincos. 604 Idem. gravatas. ibidem. cit. tais como: “chitas vistosas. fiavam.)”. porque sabia resistir a vários ataques de malária durante sua vida. resistir e manter sua saúde. ibidem 606 Idem. o vestuário. p.603 Um trabalho que envolvia arte e técnica e que não foi valorizado por Neiva e Penna. Estes estavam sempre presentes nas festas religiosas e missões levando infinidade de produtos. AUDRIN.76 603 Idem. De seus teares saiam toalhas. p. “cardavam”. 601 602 GALLAIS. sabonetes (. Até mesmo os sertanejos mais pobres tinham acesso a vestimentas e calçados mais finos graças à passagem dos mascates e regatões. 146 . vindos dos grandes centros. a maioria de seus habitantes sabia prevenir..605 Porém. p. o sertanejo sabia se alimentar suficientemente e observava a higiene do corpo e da casa e. os acessórios e sapatos finos eram para serem usados em ocasiões especiais. José Maria.)”. 604 Bom gosto e riquezas eram ostentados durante as festas religiosas. Audrin ressalta que havia também a riqueza ostentatória. ela só era “fatal aos indivíduos viciados pelo álcool e pelos excessos (.607 Para o missionário existia uma relação entre doenças e desregramento moral e quanto ao sertanejo ele seria um forte. da verminose e do bócio. cit.calçado. pois apesar da presença da malária. este grande mal dos sertões.. xadrez.

cit. de laranja da terra e do limão galego. Belisário. Neiva e Penna condenaram o fatalismo. p. ao contrário. Presos a uma concepção sobrenatural da existência. p. os sertanejos preveniam ou combatiam a malária tomando o pó da casca de quina. Contra a verminose utilizavam a raiz do maracujá e a erva de santa Maria. 614 Idem. De acordo com Riolando Azzi. p. Op.612 Assim. p. segundo Neiva e Penna. recorriam aos “curandeiros” inseridos no cotidiano dos sertões. a apatia e a comodismo que obstavam o modo de vida do sertanejo. ele permanecia fiel às suas crenças e preceitos da Igreja. bem como aos agentes de cura já conhecidos. 612 Idem.168. os sertanejos recorriam aos recursos da terapêutica natural que estavam à sua disposição. AUDRIN.Marcados pela penúria. 611 talvez devido à permanência de uma concepção sobrenatural da existência. José M. empregavam as receitas já legitimadas pela tradição. Contudo. 147 . a meios de purgação dos pecados e instrumento de salvação eterna. em vista disso.cit. Op. Arthur e PENNA. também chamada de mastruz. Arthur e PENNA. de jaborandi. perpetuando as tradições religiosas dos 608 609 NEIVA. Op.610 Além disso.609 Assim. estavam fortemente armados para a luta pela vida. recorriam aos meios que lhes proporcionavam a natureza. p. cit. Para Neiva e Penna a vivência religiosa do sertanejo era “eivada de exageros e superstições”. durante toda a primeira metade do século XX. no Brasil.41.613 Para Audrin. p. Por sua vez. os médicos afirmaram que a eficácia da ação terapêutica das plantas carecia de estudos mais rigorosos. onde a salvação da alma teria um lugar central e a saúde do corpo estaria relegada a um plano secundário. os sertanejos procuravam auxílio. não se encontram orientações pastorais com relação aos problemas de saúde das populações rurais.88 610 Idem. Os sertanejos que eu conheci. ibidem. Belisário.162. valorizou esses saberes criados pela experiência e preservados por gerações. o arsenal utilizado pelos sertanejos teria antes “grande voga pelo prestígio que lhe empresta o maravilhoso”. o fiel associava doença e sofrimentos a provações. na flora e fauna locais. e.90 611 Idem. Contra os acessos de febre tomavam o chá de sabugueiro. no trato das suas moléstias.614Mesmo tendo recebido uma instrução religiosa precária. o sertanejo vivia e morria como cristão católico.608 Audrin. Os sertanejos conhecidos por Audrin não se desesperavam nas adversidades.119. 613 NEIVA. sempre que necessário. a Igreja se preocupava mais com a salvação da alma do que em cuidar dos corpos dos fiéis.

618 Quanto à existência de superstições e crendices. Op. além da falta habitual de médicos e remédios. 617 Idem. Francisco Ayres da. além de participarem das romarias e das festas religiosas. p. Audrin afirmou pouco saber de positivo sobre indivíduos que diziam atuar por meio de intervenções extranaturais..121-126 618 Idem.621 Uma figura bastante controversa nos sertões era a do feiticeiro. p. Audrin justificou a existência das superstições e crendices devido à herança do atavismo indígena que transmitiu ao sertanejo exagerada propensão para tudo o que é mistério e lenda.) foi oficializada”. pelas cruzes fixadas nas portas das casas.. acrescentou-se a isso.) isto mesmo depois que (.50 622 AUDRIN.623 Segundo o autor.139 620 SILVA. em número muito menor do que era divulgado. Caminhos de Outrora. 615 616 AUDRIN. os que acrescentavam às orações as receitas “miraculosas” elaboradas com os recursos da fauna e da flora.127 619 Idem. a sua enorme falta de instrução. frei Audrin reconheceu que elas resultavam da simplicidade da alma sertaneja. p.139 623 Idem. pelos oratórios e bandeiras dos santos.cit. a denominação de feiticeiro era dada indistintamente a “benzedores” que seriam aqueles que utilizavam de gestos e orações secretas para curar as pessoas e animais e “curandeiros”. Porém. entre outras.622 Eles existiam.120 Idem. cit. não seria o caso de caracterizar os sertões. a presença dessas “figuras” entre os sertanejos ou suas crenças não poderiam ser utilizadas para ridicularizar o sertanejo porque elas estariam presentes também nas grandes cidades. já havia mostrado a impossibilidade dos sertanejos de pagar pelos remédios. da Virgem Maria e dos Santos.. como anteriormente fizeram Neiva e Penna. p. citado nos capítulos anteriores. p. por mais que ocorressem exageros. porém. Op. mantendo-se fiel às práticas do culto a Deus. Os sertanejos que eu conheci. já que o espírito que movia as ações dos fiéis era o religioso. Op. pelos cruzeiros. jejuavam na quarta-feira de cinzas e na sexta-feira da paixão. como espaço da ignorância e da tolice.antepassados.615 Essa preocupação religiosa dos sertanejos se manifestava. o missionário estava mais inclinado para a indulgência do que para a condenação.30 621 Idem.. José Maria.140 148 . Os sertanejos que eu conheci. Em geral. ibidem. p. cit. p.617 Assim.619 O médico Francisco Ayres da Silva.616 Eles suspendiam os trabalhos aos domingos e nos dias santos.p. 620 “A quinina é quase sempre inacessível à classe pobre (.

cit.. asseados. Para Audrin os sertanejos eram trabalhadores. Op. 626 Idem. Op.118. fazendo anotações apressadas.4 Em defesa do tempo sertanejo: viagens pelos sertões Uma característica das viagens pelos sertões seria a lentidão.628 Porém. para conhecê-lo era necessário mergulhar nos sertões.627 Paternostro sublinhou que “quem tem pressa não viaje ao sertão”. mas eram católicos e guardavam os dias santos.Audrin aproveitou a crítica à presença do dito “feiticeiro” nos sertões para lembrar a não efetivação das promessas dos cientistas quando de suas visitas apressadas.248. 624 625 Idem. de pouca ou nenhuma utilidade para as povoações visitadas”.80 PATERNOSTRO. tinham o necessário para manter sua vida e da sua família. Nos sertões ignoravase a pressa.93 628 PATERNOSTRO. p. os sertões não seriam “uma sepultura viva” ou “pedaços do purgatório ou inferno”. o médico Júlio Paternostro passou pela cidade de Palma colhendo amostras de sangue de portadores de malária para estudos patrocinados pela fundação Rockfeler. que acreditavam em conseqüências auspiciosas para a saúde dos habitantes do município. Eles seriam fisicamente resistentes e sabiam curar seus males.3. 3. dando consultas rápidas e distribuindo remédios. cit. ibidem. 627 AUDRIN. cit. p. José Maria. p. por isso eles continuaram utilizando os recursos que conheciam e tinham acesso. que um médico aparelhado com medicamentos seria destacado para aquela área etc”. Ele ficou impressionado com a expectativa das autoridades locais com relação à sua missão. como divulgaram Neiva e Penna. 149 . Enfim. Op. Júlio. apesar de terem passado pelos sertões comissões médicas enviadas por instituições científicas e organismos federais. suas “doutas informações ficaram consignadas em relatórios geralmente desoladores e.625 Os sertanejos que Audrin chamou de “nossos” não seriam aqueles que apareceram nas narrativas de Neiva e Penna ou na caricatura do Jeca Tatu. Os sertanejos que eu conheci. “Supunham que após a minha visita seria instalado um posto de profilaxia da malária. p. em todo caso. viver entre os sertanejos e possuir um sentimento de compaixão por esses brasileiros que vivam distantes da modernidade da capital da República. Ao percorrer Goiás em 1935.626 Mas.624 As missões científicas não se converteram em postos médicos e na presença de médicos no meio sertanejo. Segundo ele. Eles pouco conheciam a doutrina. Júlio. de Monteiro Lobato.

PATERNOSTRO. os animais também”. atrás de trabalho .630 Também era difícil depender das informações dadas pelos sertanejos e da boa vontade dos animais. p. Os sertanejos que eu conheci. dependendo da quantidade de pessoas e bagagens. não passavam de trilhas traçadas pelo gado e pelos pés dos homens. Op. José Maria. Júlio.. Op.629 Uma das principais razões da morosidade das viagens por terra era a própria inexistência de estradas.91 150 .. consulta a pedir. Audrin anotou que um velho missionário dominicano costumava dizer “Sairemos bem cedo.634 O frade mencionou também as migrações temporárias dos sertanejos. Viagem ao Tocantins. herança a recolher. José Maria. Nos caminhos formavam-se atoleiros.os sertanejos já estavam acostumados com a morosidade das viagens e ao despedir-se para enfrentá-las era costume declarar simplesmente: “Não me espere tão cedo! Ou “Estarei de volta no finalzinho das águas! Chegarei. no princípio do ano. Os sertanejos que eu conheci. que desapareciam no cerrado e no interior da mata virgem. Audrin explicou que essa necessidade dos sertanejos de “percorrer o mundo” estava relacionada à herança indígena.97. Op. dívidas a pagar ou receber. 632 Mesmo onde existia a prestação de serviço de travessia de rio numa canoa. Os tais caminhos “reais”.cit. cit. Além dos motivos utilitários. cit. a dificultar a marcha e os córregos e rios transbordavam impedindo a travessia.203 631 AUDRIN. Como não existiam estradas e nem pontes. trocas. p. perdia-se muito tempo improvisando as travessias dos rios e córregos. Op. tratamento a seguir.33. iniciar ou concluir negócios: “compras. Op. se Deus quiser e. ou seja. p. Tanto Audrin quanto Neiva e Penna apontaram os costumes religiosos como a principal motivação para a realização dessas viagens. Eduardo Henrique de. levavam um dia inteiro. 632 SOUZA FILHO. se Deus quiser. Os sertanejos que eu conheci. cit. A viagem poderia ainda ser atrasada devido ao desaparecimento de burros e cavalos e sua demora em encontrá-los. cit p.nos seringais e castanhais dos vales dos rios Araguaia e 629 630 AUDRIN.95. José. p.631 O tempo das viagens terrestres aumentava na época das chuvas. Acertar os roteiros e as distâncias a percorrer esbarrava na falta de mapas e na “imprecisão da linguagem” dos sertanejos. 633 Idem. p. que ligavam as cidades.633 Os sertanejos gostavam muito de viajar.34 634 AUDRIN. vendas. etc”. ao gosto atávico pelas migrações e para fugir à monotonia da vida.

p.92. rapadura. pedra de fogo. tiveram que organizar sua tropa e contratar camaradas em Juazeiro. ibidem. cit. palha de milho.641 Numa viagem pelos sertões tudo deveria ser cuidadosamente previsto inclusive a alimentação. já que a partir dali não existiam mais estradas de ferro. cit. isqueiro. p. p. A viagem cotidiana era dividida em duas etapas. ibidem. 637 Idem. trabalhadores que conheciam os caminhos e sabiam tratar os animais. Entre os índios do Araguaia. organizava a patrona (pequena mala) com moedas. José Maria. a velha espingarda. 639 GALLAIS. santinhos. para os frades não era coisa fácil comprar. Arthur e PENNA. marcar e arriar a tropa.642 No geral. A tropa dos médicos foi constituída por 36 animais.25 641 NEIVA.186 642 GALLAIS. Idem. o cuidado das cargas e a boa escolha do pouso. era necessário ainda contratar bons camaradas. p. Ao menos inicialmente. ou como se dizia na época. Op. “as provisões”. a alimentação habitual dos viajantes era bem trivial.97 151 . 24 eram para o transporte de cargas e o restante para o transporte do pessoal. exigia preparação. a hora da partida.636 O sertanejo pobre preparava o cavalo. Reginaldo. a marcha recomeçava até o “sol entrar”. Ao “pender do sol”. 643 AUDRIN.640 Neiva e Penna.Tocantins . Os sertanejos que eu conheci. Entre os Índios do Araguaia. sendo que destes. cit. em grande parte.639 Era deles que dependia.9. 640 Idem. pólvora e estopa para bucha. farinha e paçoca.além da atração exercida pelas jazidas diamantíferas e pelo comércio de peles e animais da região. a presteza da marcha e a extensão das jornadas. A mais comum constituía-se em carne seca. Op. hora em que preparavam o pouso da noite e o jantar. horário do almoço. Op. arroz e farinha de mandioca. 638 TOURNIER. Op. em número e quantidade proporcional aos viajantes e as cargas a serem transportadas.637 Também os médicos e os padres tiveram que se preparar para percorrer os sertões.638 Além de obter uma tropa com animais de sela e de carga.643 Levantava-se bem cedinho e depois de tomado o café partia-se para aproveitar a fresca da manhã. No verão o pouso era armado 635 636 Idem. chumbo. feijão preto. Estevão. p. cit. ferrar.25. p. alho e gengibre.24-25. cit. em grande parte. que se prolongava até ao meio dia. p. conduzir a tropa e preparar a alimentação foram contratados oito camaradas. colocava no jacá o fumo de corda.635 Uma viagem por terra fosse de sertanejos pobres ou ricos. o facão. O sucesso da viagem dependia. Estevão. por exemplo. Belisário. Op. Para cuidar dos animais. da escolha da tropa e dos camaradas.

As “descidas” ocorriam nos meses das chuvas para aproveitar a força das correntezas do rio cheio. cit. cit.644 Médicos e padres concordaram que. onde o viajante poderia abrigar-se.652 Ele criticou a não instalação de banheiro nas embarcações. “que os barqueiros vencem em vinte minutos. fugiam das casas. Também o porão.100 651 Idem. ibidem. dependendo ser de “descida” ou de “subida” dos rios. Como médico Ayres da Silva reclama medidas higiênicas nas 644 645 SOUZA FILHO. Op. Op. José Maria. é claro. A viagem num bote descendo o rio Tocantins de Porto Nacional a Belém do Pará.651 Ayres da Silva chamou a atenção para a ausência de conforto no bote Cristal e em todas as embarcações que trafegavam pelos rios Tocantins e Araguaia.ao relento. Caminhos de Outrora.97 646 SOUZA FILHO. Os sertanejos que eu conheci. o sertanejo estava sempre pronto a acolher os viajantes. cit. p.31 647 AUDRIN. Caminhos de Outrora. eram terrivelmente vagarosa e trabalhosa a navegação rio acima. cit. p. o mesmo barco ao retornar na época da seca gastava cinco meses. dormia-se em redes suspensas nas árvores e em torno de uma fogueira. Tese de doutorado em História: Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Goiás. obriga-os a gigantescos esforços. um rancho coberto de palha de piaçava ou de capim. durante três semanas ao menos. preferiam acampar distantes delas. porém. 2007. AUDRIN. 650 AUDRIN. eram viagens morosas e nunca presas a horários fixos.646 Para médicos e padres os sertanejos eram hospitaleiros porém. cit. Alguns os instalavam numa das dependências do sítio. era extremamente fétido. quando volta de Belém”. Cidades Ribeirinhas do Rio Tocantins: identidades e fronteiras. Op. p.31.645 Os médicos. Op. 652 SILVA. p. em 1920 gastava pouco mais de um mês.17-89. cabia ao viajante organizar sua tropa. Op. Francisco Ayres da. outros os recebiam na sala grande da casa. Francisco Ayres da. Também as viagens fluviais eram freqüentes nos sertões. p. p. p. José Maria. no Tocantins. cit. principalmente nos trechos encachoeirados do rio. como a realizada por Ayres da Silva. condições fundamentais para garantir uma boa e lenta viagem. 649 OLIVEIRA. Os sertanejos que eu conheci. cit. Eduardo Henrique. p. 648 Ao contrário. Op. Os sertanejos que eu conheci. Maria de Fátima. Eduardo Henrique de. José Maria.650 A cachoeira da Itaboca. salvo raras exceções. 647 O tempo de duração das viagens poderia ser mais rápido ou mais lento.89. 649 Segundo Audrin. 152 . Já na estação chuvosa os viajantes precisavam procurar uma casa hospitaleira. Op.87. contratar seus camaradas e organizar suas provisões.98-99 648 SILVA. Também existiam no trajeto as “casas de rancharia”. onde se guardava a carne. sem nenhuma formalidade.

Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. o controle do tempo era exercido ou pelo camarada. nem ver sua Congregação trocar os sertanejos pelos operários. no caso da segunda. Este investimento lhes rendeu a Prelazia de Conceição do Araguaia (1911) e o bispado de Porto Nacional (1915). importaram congregações e ordens européias e produziram clérigos e leigos defensores da reforma e engajados nas causas da catolicidade. sejam pilotos ou camaradas. litúrgicos e devocionais. em 1881. Dali ele não queria sair. p. cit. teve que enfrentar o desafio de sobreviver num Estado laico.18. Sérgio. Para garantir o sucesso dessas medidas os bispos goianos ampliaram o número de dioceses. na Primeira República. romanizar os procedimentos pastorais. como em todo o Brasil. Eles representavam um corpo de especialistas adequadamente preparados dentro das exigências do novo modelo de catolicismo que se queria implantar no Brasil Central: o catolicismo romano e ultramontano. Ayres da Silva ficou admirado com a capacidade de trabalho. disciplina e ordem daqueles homens. direcionou o olhar e os investimentos daquela Ordem religiosa para os sertões. A Elite Eclesiástica Brasileira. os bispos reformadores puderam contar com o exemplo e dedicação dos dominicanos.4 Os dominicanos e a reforma da Igreja nos sertões A Igreja em Goiás.653 Enfim. Tantas coisas só aprendidas ou talvez compreendidas por quem por um bom tempo residiu nos sertões. “observando e tomando aula com o sertanejo”. 153 . 1988. como escreveu o romancista goiano. seja nas viagens terrestres ou fluviais. Porém. interpretadas com maestria pelos sertanejos. 655 MICELLI. Com relação à tripulação do bote. A pressa do homem “moderno” conduzida pelos ponteiros do relógio nada podiam frente às forças da natureza. Carmo. Com a separação da Igreja do Estado coube aos bispos proceder à (re)construção institucional.86. p. se inicialmente o espaço missionário dos dominicanos na diocese de Goiás ocupava uma 653 654 Idem. Op.654 Foi o que procurou fazer Audrin que por quase quarenta anos viveu nos sertões. 3.655 A instalação dos dominicanos na diocese de Goiás. os vales do Araguaia e Tocantins pelas grandes cidades brasileiras. BERNARDES.embarcações que trafegavam pelo Tocantins e Araguaia. no caso da primeira ou pelo piloto. de paróquias. Em Goiás. fixar diretrizes e normatizar as atividades ligadas ao serviço da religião.

Assim. como as Filhas de Maria e o Apostolado da Oração. pastorais. foi intensificada a administração dos sacramentos.659 Se. no final do século XIX e início do XX aquilo 656 657 GALLAIS. sua aliança com as oligarquias locais e sua capacidade de ocupar os espaços deixados pelo Estado. Domingos Carrerot (1920-1933). em 1915 e assumida pelo dominicano D. eles se preocuparam em combater a “ignorância” religiosa dos fiéis e insistiram na sua clericalização. de celebrações aos domingos e dias de festas. Os dominicanos assumiram a direção da nova diocese. O sucesso do projeto de reforma da Igreja nos sertões pode ser atribuído ao enorme investimento feito pelos dominicanos sobre os fiéis. Os sinais de vitória da missão dominicana nos sertões estão visíveis na criação da diocese de Porto Nacional. o missionário utilizava-se das homilias para explicar o evangelho e cobrar dos fiéis um comportamento social condizente com a moral católica e a sua participação nos sacramentos.12 659 Barco movido a remo que circulava pelo Tocantins.000 km². criaram escolas. presididas também por eles.000 km². no Pará. p.12.300. além do Centro Catequético Indígena (1896). seminários. Op. espalharam seus Conventos. em Porto Imperial (1886) e em Formosa (1905). colégios e asilos em Goiás.656 com sede em Uberaba e Conventos na cidade de Goiás (1883). os dominicanos investiram em várias obras como seminário. Reginaldo. na década de 1920. Além disso. Op. Com os dominicanos.658 A divisão do território poderia apontar para o fracasso da missão dominicana nos sertões? Acreditamos que não.superfície de 1. p. na futura vila e cidade de Conceição do Araguaia. também sob a direção do padre. 658 Idem. cit. Estevão M. O apóstolo do Araguaía.59. Os redentoristas ocuparam o sul de Goiás e São José do Tocantins foi entregue sob a responsabilidade dos padres de “Coração de Maria”. p. Esses elementos favoreceram a consolidação do catolicismo romanizado e a criação de associações religiosas de caráter paroquial. Durante as santas missas. mas ela aponta alguns limites na sua atuação. escolas e buscaram envolver toda a comunidade para construir uma igreja monumental na cidade. cit. TURNIER.Plages loitaines l‟Araguaia. no norte de Goiás. o vasto território das missões dominicanas estava reduzido a 160. 657 aos poucos esse enorme “campo do apostolado” foi sendo dividido com outras Congregações religiosas estrangeiras. Um exemplo da vitória desse projeto de Igreja em Porto Nacional está na alteração da relação da população da cidade com a chegada ou saída dos batelões. 154 . Em Porto Nacional.

após ser combatida e ter sua festa regulamentada foi. o segundo bispo dominicano de Porto Nacional. Op. nos sertões. a bandeira do Divino anteriormente visível nos batelões que circulavam pelo rio. Júlio. confissões e casamentos realizados na diocese de Porto Nacional. novas devoções e festas – menos ruidosas – substituíram aquelas do passado. como afirmou a memorialista Aldenora Alves. Em 1946. por fim. Certamente que os missionários dominicanos também conseguiram aumentar o número de batizados. comunhões. 662 CORREIA. toda a vila sabe quando chega um barco. da vitória do projeto de reforma da Igreja no antigo norte de Goiás levada a cabo pelos dominicanos? Acreditamos que um dos limites da ação dos dominicanos nos sertões foi exatamente o fato de eles pertencerem a uma Ordem Conventual. Por isso. Assim. as manifestações “efusivas do passado” deram lugar a atos mais contidos e direcionados para os ritos sacramentais. os dominicanos propagaram a figura do padre. Os missionários deveriam permanecer nos Conventos. Vimos no início desse capítulo que o bispo de Goiás. Não sem o lamento dos fiéis. Hoje. p. cit. todo mundo corria para a beira do rio. Quais os limites. tangiam os sinos. Aldenora Alves. as devoções marianas e do Rosário. 155 .661 Para nós. As paróquias permaneceram em vacância ou continuaram nas mãos do clero nacional e apenas periodicamente recebiam as “santas missões” dominicanas. então. de reconhecimento da hierarquia 660 661 PATERNOSTRO. terá permanecido? Segundo Paternostro. o que continuava era o importante papel desempenhado pelos barqueiros “de ligar as aglomerações”.179 Idem. Exemplar nesse sentido.era motivo de festa: “Pipocavam foguetes. entre várias outras.71. Dom Alano Du Noday (1936-1976) proibiu a realização da “Festa do Divino” em toda sua diocese.660 Os sinos deixaram de tocar para recepcionar os comerciantes e viajantes. cit. proibida. Uma das devoções religiosas mais tradicionais na região. mas não há mais as demonstrações efusivas do passado”. Op. mas não conseguiam fazer avançar a reforma. eles não puderam assumir as diversas paróquias espalhadas pela diocese. ibidem. de Tocantinópolis. ao menos no ritmo desejado pela hierarquia. Dom Cláudio e o superior dos dominicanos o padre Gallais insistiram para que os missionários mantivessem os seus princípios organizacionais. o que continuava era a implantação de um projeto de reforma da Igreja que separava o espaço sagrado do espaço profano. p.662 No lugar do Imperador do Divino.

Em 1947. o bispo dominicano de Porto Nacional. no extremo norte de Goiás. faleceu o padre João de Souza Lima. D. assumiu a Paróquia de Nossa Senhora da Consolação. ainda não “reformado”. A partir da sua presença ocorreu a formação de agentes de saúde os denominados “Samaritanos socorristas”. no extremo norte de Goiás. É sobre a presença dos missionários dessa Congregação. Uma Congregação religiosa não conventual e com jovens missionários dispostos a cuidar da saúde do corpo e da salvação da alma dos sertanejos. no final do século XIX.de que havia regiões inteiras ainda não reformadas em Goiás foi o convite a uma Congregação estrangeira para assumir a paróquia de Tocantinópolis. Com a sua instalação completa-se um ciclo de envio de Congregações religiosas européias para Goiás. Foram construídos os primeiros postos de saúde e hospitais. no final de 1951. 156 . no início da década de 1950. Alano Du Noday convidou a Congregação “Pequena Obra da Divina Providência” fundada por D. na Itália. Orione. além das escolas paroquiais e de um ginásio católico. sua visão dos sertões e seus projetos que trataremos no próximo capítulo. Sua presença significou a ocupação efetiva do último espaço social. no norte de Goiás.

Os missionários católicos. foi a última grande área de expansão religiosa católica. qualquer visão dos sertões como espaço imóvel. completa um ciclo de ocupação do espaço religioso goiano. em Goiás. imutável. pelas Congregações estrangeiras européia. 664 No extremo norte de Goiás foi destinada uma área de 42. Este capítulo tem por objetivo apresentar as visões dos integrantes da Congregação dos “Filhos de D. para o interior de Minas.Capítulo IV Os Missionários Católicos Italianos no Extremo Norte de Goiás: Semear e Sanear nos Sertões A instalação da Congregação “Pequena Obra da Divina Providência” no extremo norte de Goiás na década de 1950.664 Os missionários italianos que ali chegaram. Alano Du Noday (1936-1976). D. Genésio. Consideramos que o extremo norte de Goiás encontrado pelos missionários estaria com características muito próximas dos sertões visitados e analisados por Neiva e Penna. arcebispo de Mariana. A partir da sua fixação no interior aquela Congregação expandiu-se para o Rio de Janeiro. por Dom Luis Orione (1872-1940). dentro de um projeto de reforma da Igreja. procuraram cuidar do corpo e da alma dos sertanejos. iniciado no final do século XIX. a família e a escola direcionada para a 663 A Congregação “Pequena Obra da Divina Providência” foi fundada na Itália. antes da chegada da Congregação “Pequena Obra da Divina Providência”. destinada a Nossa Senhora da Consolação no extremo norte de Goiás. a convite do bispo dominicano de Porto Nacional.000 km² à Congregação “Pequena Obra da Divina Providência”. São Paulo e Santos. no extremo norte de Goiás. Em 1914 Dom Orione enviou seus primeiros sacerdotes ao Brasil. 157 . no final do século XIX. Seus primeiros contatos com o Brasil foram feitos através de correspondências com Dom Silvério Gomes Pimenta.663 A paróquia de Tocantinópolis.ed. queremos ressaltar a lentidão nas transformações dessa região principalmente com relação ao saneamento e o movimento de reforma da Igreja. contudo. 1986. 40 anos antes. São Paulo: s. Orione” sobre os sertões e as estratégias utilizadas para incluir os fiéis no novo modelo de Igreja. utilizaram-se de uma dinâmica relação entre as associações católicas. Porém. Não defendemos. Ver: POLI. estático uma vez que é próprio das sociedades o movimento e a mudança. Os Filhos de Dom Orione no Brasil.

668 PAPASÓGLIO. Ela se propunha a “trabalhar para levar os pequenos. 2007. foi firmado esse propósito de trabalhar junto aos mais pobres através de obras de educação e saúde.667 Também foram criadas as Congregações femininas “Pequenas Irmãs Missionárias da Caridade” (1915) e a Congregação das “Irmãs Sacramentinas Cegas” (1927). p. ibidem. passou pelo seminário de D. Após a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) ocorreu uma proliferação de escolas. Luis Orione nasceu em Pontecurone. 1991. abriu uma escola em regime de internato. com o apoio do bispo. na diocese de Tortona. Introdução: a força do sentido. na Tortona. Pierre. 669 Idem. Ele iniciou sua vida religiosa no seminário dos franciscanos (1885). para a Polônia (1923). começou a dar aulas de catequese para as crianças e fundou um oratório festivo (1892). Entre elas. no bairro São Bernardino.XLI. a de 1904. Ali cursou filosofia e teologia. A economia das trocas simbólicas.com/santos/crlo 1605. no dia 23 de junho de 1872. em Tortona. os pequenos “Cotolengos”. irmãos leigos e eremitas da família da Pequena Obra da Divina Providência. para cuidar dos doentes pobres. a Inglaterra e a Albânia (1936). A vida de Dom Orione. destinada a crianças e jovens pobres. para o Brasil (1914). Orione (1872-1940).668 A aprovação pontifícia definitiva da “Pequena Obra da Divina Providência” correu em 1954. chegou ao Seminário Diocesano de Tortona.666 Na primeira Constituição da Congregação. A trajetória para a canonização de Dom Orione iniciou-se no 665 MICELI. pelo papa Pio XII. para que entendamos sua introdução nos sertões é preciso recuperar a trajetória da Congregação da “Pequena Obra da Divina Providência”.669 Dom Orione. 666 HTTP://www. além de fundador foi o Superior Geral da Congregação até sua morte em 12 de março de 1940. Giorgio. o Paraguai. no limiar do século XX. São Paulo: Perspectiva. na Itália. o Uruguai. os pobres e o povo à Igreja e ao Papa. Em 1895. Sérgio.13. mediante obras de caridade”. Ele faleceu de ataque do coração em 1940. por fim. colégios e colônias agrícolas. fundada por D.665 Porém. Ele expandiu a Congregação pela Itália. In: BOURDIEU. o Chile (1921).produção de novos habitus religiosos e sanitários. Luís Orione foi ordenado padre. 158 . ou casas de saúde. em 1889.htm. Bosco (1886-1889) – Congregação dos Salesianos – e. pequeno município no norte da Itália. Em decreto de 21 de março de 1903. para a Argentina. p. São Paulo: Loyola. Depois. 667 Idem. o bispo de Tortona aprovou a criação dos “Filhos da Divina Providência” que reunia sacerdotes. os Estados Unidos (1934).pagnaorionte.

a canoa virou e o Padre Egídio e o Irmão Serra faleceram. João de Souza Lima (1897-1947). aquele espaço da paróquia pertencente anteriormente à Diocese de Goiás (1745-1915) e de Porto Nacional (1915-1954) foi entregue aos cuidados da Congregação “Pequena Obra da Divina Providência” e pouco depois elevada à Prelazia de Tocantinópolis (1954). Dom Orione: entre diamantes e cristais. que o proclamou venerável (1978) e terminou no pontificado de João Paulo II (1978-2005) que o beatificou (1980) e canonizou em 16 de maio de 2004. na Itália. Cenas vividas pelos missionários de Dom Orione nas matas do Norte de Goiás-Brasil.. cit.673 Padre Tonini se empenhou arduamente na luta pela reforma da Igreja no 670 671 Idem. Diretor algumas palavras de sentimentos sinceros relativamente a morte prematura dos inesquecíveis missionários: Pe. com especialização em assistência em cirurgia. serão os nossos 159 . na cidade de Tortona. pelo seu espírito missionário.671 Nasceu em Rimini. p. TONINI. afogados no Rio Tocantins. junto com o padre Egídio Addobati. Ver: FOLI. Ordenou-se sacerdote em 29 de junho de 1950. encontramos “Antes de encerrar a reunião dirigiu-nos o nosso Rvmo. padre André Alice e o irmão José Serra.pontificado de Paulo VI (1963-1978). p. canoeiro encarregado do transporte de passageiros. Quinto. a vida de D. Ver: TONINI.670 Na concepção da alta hierarquia da Igreja. Em novembro de 1951 foi enviado ao Brasil. Op. em 4 de julho de 1922. 1996. falava o português. A paróquia de Tocantinópolis era a única existente no extremo norte e ficou por meio século sob a direção do Pe. mas não falavam nossa língua. O missionário Quinto Tonini além de padre era enfermeiro formado. 2001. Orione serviria de exemplo por sua espiritualidade. Até aquela década a região encontrava-se sob a jurisdição religiosa dos dominicanos sediados em Porto Nacional.672 Os três últimos deveriam iniciar a missão em Tocantinópolis e Tonini teria que ficar no Rio de Janeiro até aprender a língua portuguesa. apenas padre Egídio.14-15.. p. estando junto de Deus. já no meio do rio a chuva caiu. Mosaíco de uma História. Fez teologia em Gênova e ao mesmo tempo cursou Enfermagem. no trajeto Tocantinópolis-Porto Franco se dispôs a fazer a travessia dos missionários mesmo armando um forte temporal. devido ao falecimento do padre Egidio e do irmão Serra. principalmente. Fortaleza: Expressão Gráfica. assumida por Quinto Tonini (1956). Egídio e Irmão José (. o mais velho e superior da missão. A inserção de Quinto Tonini na missão foi antecipada para o início de fevereiro de 1952. 672 Dos três primeiros missionários. Fortaleza: Expressão Gráfica. Teresinha de Jesus Nóbrega. Padre Alice. dedicação aos mais necessitados e. Pe.93. os outros dois eram jovens e alegres. Também na ata do Apostolado da Oração de fevereiro de 1952. O espírito missionário de Dom Orione chegou ao extremo norte do Brasil no início dos anos de 1950. 673 O velho Crispim. Quinto.13-15. Entrou na Congregação “Pequena Obra da Divina Providência” em 1936.) Agora. o barqueiro e seu ajudante salvaram-se agarrados nas bordas da canoa. Em 1952.

no Rio de Janeiro. mês fevereiro. Este livro só foi publicado em 1996. para que fosse traduzido e publicado. Ele argumenta que o slogan paulino “é bom desejar ser bispo” era notório entre os missionários e não faltavam pretendentes. 2000. de Pio XII. de Montevideu. embora todos soubessem que já havia o escolhido pela cúpula à espera. O motivo da renúncia do missionário não foi até hoje esclarecido pela Congregação. na Congregação.23b. Em 1954. quando se retirou da missão e foi para o Uruguai. ele também foi retirado da missão no final dos anos de 1950. em dezembro de 1955. em 1953. 674 CORAZZA. cargo que ocupou até 1959. sucessor de Dom Orione. p. a Paróquia de Tocantinópolis foi elevada a Prelazia. Ver: ATAS DO APOSTOLADO DA ORAÇÃO DE TOCANTINÓPOLIS.61 675 Idem. em silenciar o missionário? Ao se confiar nas memórias do missionário Remígio Corazza. com o apoio do bispo dominicano D. Em 10 de outubro de 1959.extremo norte de Goiás. No Uruguai. Não saiu. Diante de tantas informações importantes tanto para a Congregação quanto para os habitantes do extremo norte de Goiás nos perguntamos por que o manuscrito demorou tanto para ser publicado? Haveria o interesse da Congregação. p. na rua Riachuelo. Foi com grande emoção que folheamos o manuscrito do Pe. Pe. Tonini era o prelado.674 Padre Remigio Corazza chegou ao extremo norte. e em outubro tomou posse na paróquia de Filadélfia. Na época. no Santuário homônimo.36 160 . pela Bula papal “Céu Pastor”. Quinto Tonini foi nomeado Administrador Apostólico da Prelazia em 1956. Fortaleza: Expressão Gráfica. no livro Silêncio Prudente foi parte da cúpula da Congregação que tramou a saída do padre Quinto Tonini da missão e de todos aqueles missionários que o apoiavam. mas. todavia o intercessores ajudando-nos alcançar as graças das quais temos necessidades para conseguirmos a nossa eterna salvação. Alano Du Noday e do superior da missão. Cenas vividas pelos missionários de Dom Orione nas matas do norte do Brasil e trata das experiências missionárias no extremo norte de Goiás. Tonini enviou o que chamou de “datiloscrito” ao Diretor Geral Dom Carlos Pensa.675 Assim como Tonini. Remígio. 1952. Tonini. na década de 1950. intitulado Dom Orione: Entre Diamantes e Cristais. p. o padre André Alice. Tonini organizou seus relatos sobre aquela experiência missionária no Brasil em caderno datilografado e encadernado (1959). principalmente do Provincial Padre Giovanni Patarello que havia assumido a direção provincial. certamente esteve relacionado às disputas de poder dentro da mesma. após encontrálo na antiga sede da Província Nossa Senhora de Fátima. Silêncio Prudente.

678 676 677 Idem. Tonini percorreu a Diocese de Tocantinópolis. Mas talvez fossem considerados independentes demais pelo provincial. Não era possível que aquilo fosse verdade. São Paulo: Loyola. Foi realizada uma tiragem de 600 exemplares e. não representava mais nenhuma ameaça aos novos ou velhos missionários da Congregação “Pequena Obra da Divina Providência”. também se fixou.O Coronelismo no extremo norte de Goiás: o Padre João e as três revoluções de Boa Vista. 4. Já estava tudo decretado. próximo a 1820. Em 1834. Talvez ele mesmo tenha financiado sua publicação. 161 . o Frei capuchinho Francisco de Monte São Vitor ali chegou e vendo as boas relações de Pedro Cipriano com os indígenas. precisamos dizer que ela surgiu a partir da chegada do paraense Pedro José Cipriano. Luís. Sobre a cidade de Tocantinópolis.677 “Esta haveria de ser a única paróquia para o largo território nos próximos 90 anos”. a sede da missão da Congregação “Pequena Obra da Divina Providência” foi a Paróquia de Tocantinópolis. Ele ali se estabeleceu e construiu uma capela em homenagem ao Divino Espírito Santo. Patarello e o Vigário Geral da Congregação. ibidem. p. na época do lançamento. fez os contatos com Tonini na Itália e depois encaminhou o material para publicação. a vila fora elevada à cidade e a capela à paróquia. até 1943. Parodi tramavam sua retirada para colocar outro no cargo. Desmoronava tudo. O frei promoveu melhoramentos na capela e dedicou-a a Nossa Senhora da Consolação. Em 1858. Pacífico.676 Pe. Boa Vista foi elevada à categoria de vila. 1990. A tradutora é uma filha da região e exmissionária: Teresinha de Jesus Nóbrega Foli. apoiado pelo padre Corazza. em Araguaína representavam os missionários mais dinâmicos da missão orionita nos sertões do Brasil. Nas palavras de Corazza: “Acredite quem quiser. um trabalho feito com tanto amor e sacrifício”. p.Tonini foi publicado em 1996. Pe. Em 1840.61 PALACIN. na paróquia de Filadélfia e pelo Pe.provincial Pe. ela além de fazer a tradução. já que não há nas suas páginas nenhuma referência à Congregação ou a alguma instituição que pudesse tê-lo feito. denominada de Boa Vista. Tonini. matando as saudades dos seus antigos paroquianos. Eram novos tempos e ele já idoso.20. 678 Idem. O livro do Pe.1 O Extremo Norte de Goiás Como já dissemos.

. o problema da vacância. Em 1897. pelo censo de 1872. apesar das condições políticas adversas. Tem uma capela (. Geográfico e Descritivo de Goiás (1910) a cidade foi assim retratada: “tem mais de 300 casas das quais 100 são talvez cobertas de telhas.682 Havia várias casas comerciais.680 A centenária cidade de Boa Vista. com 7. Em 1910. 679 Nas últimas décadas do século. 682 SILVA. às quais se vem unir mais algumas secundárias e compostas de casas de palha. a paróquia ficou sob a responsabilidade dos dominicanos franceses de Porto Nacional.41 162 . situada à margem esquerda do rio Tocantins. e resolveu-se.21. vários padres. 681 No início da década de 1920. o censo de 1920 deu para Boa Vista uma população de 25. Caminhos de Outrora.. Mesmo com a agitação política que iniciou na década de 1890 e permaneceu por três décadas.20 Idem. Para substituí-lo e acelerar as reformas da Igreja. p.. notou que a cidade era “formada por um agregado de quatro ruas principais.786 habitantes. na imigração maranhense. a cidade teria “pouco mais de 1. foi descrita em estudos oficiais ou nas narrativas de viajantes e memorialistas. mas sólida”. Na segunda metade do século XIX. p.872 habitantes.). de diversas Congregações religiosas passaram por Boa Vista. ao passar por Boa Vista. Francisco Ayres da. o médico e deputado federal Francisco Ayres da Silva. p. o dominicano e bispo de Porto Nacional Dom Alano (1936-1974) convidou os missionários da “Pequena Obra da Divina Providência” que assumiram a Paróquia de Tocantinópolis. No Anuário Histórico. um prédio religioso. Porto Nacional: Prefeitura Municipal. enfim. mas na maior parte do tempo ela ficou vazia. A agitação política no Maranhão favorecia a emigração. o padre João de Souza Lima foi nomeado pároco.Após a fundação da paróquia. com excelente vista para o rio. O historiador Luís Palacin encontrou as razões para explicar esse crescimento populacional. Nas ruas principais se observam alguns prédios bem regulares e de construção antiga. a segunda de Goiás. Na década de 1880. 2 ed. a exploração da borracha no vale amazônico também contribuiu para o aumento populacional de Boa Vista..000 habitantes”. Tem também cadeia e casa de câmara”. p. uma estação 679 680 Idem.26-27.) e um cemitério (. 681 Idem. Boa Vista era uma das fronteiras mais dinâmicas de Goiás. Ele permaneceu no cargo até sua morte em 1947. Boa Vista já aparecia como o sexto município em povoação de Goiás. 1999.

1974. entre eles estavam também maus elementos que poderiam facilmente aniquilar a iniciativa dos bons. Boa Vista fora constituída com população oriunda principalmente dos estados nordestinos. Rio de Janeiro:Bertrand Brasil. que (. 684 As anotações no diário de Ayres da Silva chamam atenção para a violência praticada nos sertões. p. e teria provocado emigrações que comprometiam o desenvolvimento local. Suas marcas estariam presentes na arquitetura de Boa Vista. Maria Isaura Pereira. 1949. QUIROZ. Era uma verdadeira “guerra civil.43. o conflito de 1892. LEAL. O coronelismo numa interpretação sociológica. História Geral da Civilização Brasileira: o Brasil republicano (1889-1930) 6 ed. Segundo Palacin. a cidade estava se refazendo dos últimos embates.ed. Segundo ele. O resultado de tais questões: quem não pereceu ao contato das armas foi obrigado a retirar-se”.683 Francisco Ayres da Silva fez referência à origem da população da cidade. 1981. dois coronéis em disputa pelo poder: o Coronel Perna e o Coronel Carlos Gomes Leitão.81 688 O coronelismo foi objeto de rica análise por muitos cientistas sociais brasileiros.. do padre João de Souza Lima e de um juiz de direito..). Boa Vista tinha sofrido “embates formidáveis de lutas intestinas. Victor Nunes. 685 Idem. ibidem.40-42. p. p. Aldenora A..685 Porém. Ayres da Silva ainda registrou a presença de uma igreja. a presença dos “coronéis” em disputas pelo poder local. Ver: RODRIGUES. não raro. entre estes coronéis iniciou a época das “revoluções” em Boa Vista. Os Donos do Poder: a formação do patronato político brasileiro.686 Para a memorialista Aldenora Correia. Conciliação e reforma no Brasil: um desafio histórico-cultural. 1965. instalados na cidade.) criou o tipo de revolução sertaneja e 683 684 Idem. havia em Boa Vista. o padre João de Souza Lima era o coronel local que cuidava da proteção dos moradores. Boris (org. p. enxada e voto: o município e o regime representativo no Brasil. ibidem. Goiânia: s. Normalmente essas pessoas chegavam com pouco ou nenhum recurso para começar a vida. aos prédios públicos e aos sinais de progresso ali existentes. 1997. 687 No final do século XIX. In: FAUSTO. duas escolas públicas para ambos os sexos. em 1920. em ruínas.688 Eles armaram seus partidários e viviam em constantes lutas. Enfim. 686 CORREIA. 163 . Rio de Janeiro: Forense. Idem. Boa Vista do “Padre João”: Tocantinópolis-GO. Porto Alegre: Globo.153-190. além da arregimentação de jagunços e bandoleiros por parte desses “coronéis” impunha o terror à população que se encontrava sem proteção do Estado.. Raimundo. 687 Idem. um pequeno destacamento policial.). Coronelismo. FAORO. José Honório. e pode-se dizer mesmo que a cada etapa de melhoramento corresponde uma fase ulterior de lutas internas (.metereológica não muito boa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.

p. p. que viabilizasse a aviação no interior do Brasil.41 695 Idem.696 O major Lysias Rodrigues.143.695 Carolina. tanto na vertente comercial. Padre João iniciou a reforma da igreja de Boa Vista. com paredes de tijolos ou adobe e 224 palhoças de babaçu. 689 Padre João (1897-1947) acabou disputando o poder político com o coronel Leão Leda. Milagre em Joazeiro. Goiás passou a ser governado pelo interventor o médico Pedro Ludovico. passou pela cidade de Boa Vista no início da década de 1930. do Ceará.691 Na década de 1930.692 No perímetro urbano existia “324 habitações. 1945. Sem dúvidas. uma novidade nos sertões. Nacional. p. militar do campo dos Afonsos.156. no Maranhão. o panorama político mudou. quanto na militar. p. durante o longo período do Padre João a revolução se tornou o meio normal de solucionar as tensões políticas e sociais”.127. O Coronelismo no Estremo Norte de Goiás: O Padre João e as três revoluções de Boa Vista. 692 PATERNOSTRO. porém acabou aderindo ao governo e assim permaneceu até sua morte em 1947. Sua população era de 1. 100 cobertas de telhas.institucionalizou seus mecanismos de forma que. p. a rota do Correio Aéreo Militar (CAM) 689 PALACIN. no Maranhão. 690 CORREIA. no Rio de Janeiro. esse envolvimento político do Padre João o aproxima do seu contemporâneo Padre Cícero (1884-1934). Ralph Della.625 habitantes”. São Paulo: Cia Ed. era sede da organização religiosa protestante da região. Júlio. a cidade já possuía iluminação elétrica (a motores).128 696 Idem. p. Ele participou da expedição que percorreu Goiás procurando estabelecer as condições para a abertura de pistas de pouso. 693 De frente par a cidade de Boa Vista estava Porto-Franco. Rio de Janeiro: Paz e Terra.56 693 Idem. Aldenora. Viagem ao Tocantins. Op. p. nos conflitos de 1907 e passou a ser o aliado do grupo político que controlou Goiás.694 Porto Franco possuía como única vantagem sobre Boa Vista a agência de Correios e Telégrafos. O padre permaneceu na oposição entre 1930-1936. Segundo o tenente Humberto Peregrino. Até 1930 o padre João recebeu o apoio do grupo político dos Caiados. 1976. 164 . 694 Idem. Ele era governista e todos em Boa Vista deviam obedecê-lo na hora de votar. cit. que se encontrava no poder em Goiás. na Primeira República. São Paulo: Loyola.690 Com a Revolução de 1930. Luiz.53 691 Cf CAVA. pouco se comunicavam devido aos perigos da travessia das águas. 1990. apesar de fronteiriças. Estas duas cidades.

702 Idem. do engenheiro civil Américo de Oliveira. para ouvir as notícias da guerra. o médico Júlio Paternostro assinalou que o sertanejo viveria uma vida primitiva. p. p. p. Geo e Hisi. cortando ou singrando os rios. as “instalações para a fabricação da farinha de mandioca. sem nenhum aparelhamento moderno de navegação”. 706 Idem.. no mesmo ritmo de um século atrás. Op. 2004. 225 704 Idem.“do Tocantins é nova. (Orgs). os aviadores “pernoitavam”. p. In: SERPA. os oficiais aviadores da aeronáutica tinham que conduzir um avião “com pequena autonomia de vôo. Militar.22 703 BORGES. era o “catador de babaçu. A fronteira na formação do espaço brasileiro (1930-1980). Os padres tinham um rádio a bateria. 701 Idem.706 No relatório.700 Como os vôos noturnos não eram possíveis. sem rádio.115. “embora há três anos. da 697 PEREGRINO. 699 IPATERNOSTRO. idealizado na década de 1940. Rio de Janeiro: Conselho de Imigração e colonização. Humberto. os engenhos de açúcar e aguardente são muito rudimentares”.p.112.701 Em Porto Nacional.20 700 PEREGRINO.1949. cit.702 No que se refere às políticas visando à integração do norte goiano à nação. 1942. o norte de Goiás não foi atingido pela “Marcha para Oeste”.. o paqueteiro. venha levantando os olhos para ver as assas rutilantes do avião que chega do litoral”. normalmente em Porto Nacional e Carolina. naquele momento. ele defendeu as possibilidades econômicas da região e a viabilidade da navegação fluvial.704 No norte de Goiás. passando a ser chamada de Correio Áeréo Nacional (CAN). ao Ministério da Guerra. Humberto. Lysias. 1978. Roteiro do Tocantins. 165 . durante o governo Vargas. periodicamente. p. ibidem. ibidem. p. p.703 Toda a região “se encontrava fora das áreas de interesse de expansão do território do capital”. cit.17. Júlio. Op. separadas umas das outras por muitas léguas de distância. o pescador.18. Rio de Janeiro: Inst. o minerador”. data de 1939”.705 Devido às dificuldades de transportes. Imagens do Tocantins e da Amazônia.697 inicialmente o CAM era subordinado diretamente ao Exército. Goiânia: UCG.699 Os aviões utilizados eram monomotores e contavam com a habilidade dos “bandeirantes do ar”. Jorge. Barsanufo Gomides.698 Com a criação dessa rota aérea pelo Tocantins. Goiânia: sed.228 705 LATOUR. Goiás: uma nova fronteira humana. Viviam em habitações pobres. Elio Catalício et al. e nos anos 1940. Escritas da História: intelectuais e poder. o vaqueiro. eles se hospedavam no Convento dos dominicanos. quase 90% da população residia na zona rural. A rota comercial não foi implantada. 698 RODRIGUES.

708 GASPAR. 4. mesmo com essa política de conquista da fronteira acionada pelo Governo Federal.707 Devemos ressaltar que havia uma preocupação do governo com a integração nacional. em 1953. Esse quadro desolador. além da criação do Banco de Crédito da Amazônia. prova disso é a proliferação de relatórios. naquela época. Jacira Garcia. 64. a partir da própria especificidade da sua Congregação? Além das associações paroquiais tradicionalmente presente na Igreja. Com relação a esse primeiro ciclo de políticas regionais explícitas.708 Entretanto. Universidade Federal de Pernambuco. financiados por diferentes órgãos públicos.709 Como os missionários italianos viram os sertões? Como eles foram impactos por ele? Que ações empreenderam para modificar a realidade encontrada. qual a novidade levada pelos missionários “Filhos de Dom Orione” para os sertões? Estas questões orientaram as reflexões a seguir. cit. associada às medidas complementares como o Decreto lei de agosto de 1953. todo o norte de Goiás ainda se encontrava fora do interesse do capital. naquele momento. 2002. Dissertação de mestrado em Geografia. podemos enumerar a criação da Superintendência do Plano de Valorização da Amazônia – SPVEA. com suas imagens negativas da região deve ser visto também de uma perspectiva da atuação daquela Congregação.1. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional. alguns programas de integração nacional apontaram para a necessidade de abertura de uma nova fronteira na Amazônia. ainda não se constituía em “fronteira agrícola” do Planalto Central e da Amazônia. doente e suja. 1941. eles foram impactados negativamente. Américo Leonides Barbosa de. Barsanufo G. tudo lhes parecia precário. Saídos da Europa logo após a Segunda Guerra Mundial. Op. “especialista”. 709 BORGES.construção de estradas de ferro e de rodagem. na área da saúde e da educação. p. p. O Vale Tocantins-Araguaia: possibilidades econômicas e navegação fluvial. No início dos anos de 1950. Araguaína e sua região: saúde como reforço da polarização. baixa arrecadação fiscal e sem um projeto de integração nacional o extremo norte de Goiás foi construído nas narrativas dos missionários italianos como uma região pobre.1 Os sertões dos “Filhos de Dom Orione” Distantes dos principais centros econômicos do país. com baixa taxa demográfica.248 166 . que definiu a chamada Amazônia Legal nela incluindo o Norte de Goiás. Ao entrarmos diretamente nas imagens dos sertões elaboradas pelos missionários italianos devemos lembrar que suas narrativas estavam ancoradas numa determinada concepção de “civilização” e moldadas por uma visão católico-eurocêntrica do mundo e 707 OLIVEIRA.

“grupos de crianças sentadas sobre restos de bancos (. ao entrar em Filadélfia. descascada. sinal de riqueza e prestígio social. pobre e úmida de fazer medo”. Dom Orione. aos missionários da Congregação de Dom Orione já foi possível viajar do Rio de Janeiro a Carolina. A igrejinha humilde. Por falta de higiene e de normas elementares da puericultura. ibidem..) outros em pé ou agachadas (. Na cidade “cerca de três mil pessoas habitavam em choupanas e casas de taipa”. no Maranhão. contudo. em local úmido e sujo (.)”.. padre Tonini estimou que 25% das crianças não chegavam a nascer e outros 25% morriam nos primeiros anos de vida. As construções de tijolos.712 A professora “perdia mais tempo em pedir silêncio aos impertinentes do que em ensiná-los”. Quinto.) passavam duas ou três horas ao dia.. uma vila goiana situada de frente para Carolina. dos seus habitantes e dos desafios imposto à Igreja para marcar sua presença naquele espaço social. 712 Idem. estavam restritas à rua principal. Casinhas. em fevereiro de 1952. de avião. Inclusive a casa paroquial era “escura. ibidem 167 . É claro que eles não encontraram nos sertões os sinais de riqueza e prosperidade que caracterizavam a sociedade européia..710 A vila de Filadélfia foi elevada à condição de cidade em 1952. cabanas.23. de carona no Correio Aéreo Militar e dali foram de barco até Tocantinópolis. Orione e padre Tonini foi o primeiro missionário que assumiu a recém criada paróquia da cidade. Devemos lembrar ainda que. ao contrário dos missionários dominicanos que adentraram os sertões goianos montados em lombos de animais.. velha. entre diamantes e cristais. Tonini foi informado de que ali não havia postos de saúde ou hospital. Estava cheia de gente e de sol”. 711 As crianças e jovens tinham acesso a precárias escolas. Para nós. o que interessa são as percepções que os missionários tiveram do extremo norte de Goiás. 713 Idem.. Ao chegar a Tocantinópolis. ou o Rio de Janeiro. Op... Ambas estavam separadas apenas pelo rio Tocantins: “aos primeiros raios do sol aparecia em toda a sua majestosa pobreza.21 Idem. p. Foi também a primeira área de expansão da missão católica da Congregação de D. sem bancos. eram poucas e mal conservadas.713 Também a mortalidade infantil era alta. Os sobreviventes cresciam 710 711 TONINI. baixa.). Tonini relata a primeira impressão que teve dos sertões. no Maranhão. grandes árvores frutíferas (. p. a cidade sede da missão.dos homens. cit.

185 721 Idem.“fracos. sem receber o batismo.721 Os políticos só agiam em proveito próprio e até mesmo as escolas municipais e estaduais eram colocadas a serviço dos interesses dos políticos locais: eram eles que escolhiam o pessoal docente. de fígado e dos rins que levavam à morte.725 O que destoava dessa precariedade toda era a igreja de Tocantinópolis. p. nem fornecimento de água canalizada.718 Quanto aos adultos.720 Tonini presumiu que 80% da população não possuíam registro civil. 168 . amarelos e sofridos”. ele era pouco freqüentado por aqueles que se diziam católicos. enfrentavam enormes sofrimentos físicos e morais. ibidem 719 Idem. p.715 As condições higiênicas dos moradores da cidade também foram consideradas precárias.722 Também a economia local se ressentia dos nefastos influxos da politicagem.106 Idem.185 723 Idem. devido à fraca alimentação a base de arroz e mandioca. p. Boa impressão também causou a Tonini o juiz da cidade que lhe informava sobre os “usos e abusos do 714 715 Idem. de verminose e de sífilis. constatava-se miséria.184 722 Idem.23 717 Idem. Grande parte havia sido registrada em outros estados ou não tinha registros. p. 724 Idem. p.185. eram primitivos. p.714 Quanto às parturientes. p.)”. a tecelagem e.11 718 Idem. não raro. p. resultava em doenças intestinais.719 Aqueles que viviam do trabalho da terra e de pequenas ocupações encontravam-se numa pobreza impressionante.723 Os sistemas usados para trabalhar o ferro. divertindo-se com o cão.716 As crianças eram as maiores vítimas daquela falta de infraestrutura “à entrada. principalmente. o que dificultava os casamentos religiosos. crianças nuas e magras. com o porquinho (.724 Para completar esse quadro de faltas. que rolavam pela terra. ibidem 720 Idem.148 716 Idem. Entretanto. a agricultura.. O prédio religioso reformado e ampliado pelo Padre João de Souza causou uma “boa impressão”.. com o gato. a ausência de estradas e a precariedade da infraestrutura da região.186 725 Idem. logo escasseava o leite. p. nas cabanas. Tocantinópolis não possuía redes de esgotos. Elas então iniciavam muito cedo a alimentação dos bebês com papas muito pesadas que. ibidem. a madeira.717 Elas tinham sinais de malária.

lugar” e a professora Aldenora Correia, com quem aprendeu os rudimentos da língua portuguesa, em suas palavras “a mais preparada e culta mestra da missão”. 726 Com exceção da igreja de Tocantinópolis, todos os outros prédios religiosos precisavam ser reformados ou construídos, porque estavam em ruínas ou não existiam. Nas suas leituras desse “novo mundo” os missionários notaram que o povo sertanejo era simples, bom e católico. Entretanto, professavam um catolicismo distante das normas institucionais. Tonini presumiu que os habitantes do extremo norte de Goiás, na sua grande maioria, eram católicos, porque haviam recebido o batismo, entretanto, eram indiferentes com relação à participação nos atos religiosos e na vida eucarística. Pouco participavam das missas e dos sacramentos.727 Como refletiu Cândido Silva, os sertanejos acostumaram a viver longe do padre e a prescindir-se de sua presença. Contudo, “isto não significa reconhecer-se desvinculado da hierarquia, nem muito menos mostrar-se infensa a ela”.728 Os missionários italianos logo constataram que a grande maioria da população não frequentava a igreja. Porém, o problema maior, segundo Tonini, dizia respeito à celebração das festas religiosas locais. As festas da padroeira, em Tocantinópolis, por exemplo, eram marcadas pelas exterioridades, com músicas, alto-falantes, foguetes, jogos pirotécnicos, danças, muita bebedeira e não raro, mortes.729 A festa da padroeira Nossa Senhora da Consolação, em Tocantinópolis, ocorria e ainda ocorre entre os dias 6 a 15 de agosto e atraia as populações esparsas de vastos territórios.730 De 6 a 14 ocorriam as novenas, sendo que cada noite uma categoria profissional ou grupo de interesse ficava responsável por sua organização. Na porta da matriz eram organizadas barraquinhas para a venda de comidas, bebidas e bugigangas onde também ocorriam os leilões, fruto das doações dos “noveneiros” da noite. Muitos foguetes eram estourados iluminando o céu sob o grito da meninada e do rebuliço da multidão.731 Para Tonini, a “fé goiana” poderia ser comparada com um diamante bruto que precisava ser lapidado, para expor toda a beleza dos cristãos. Esta analogia entre princípios, vivências religiosas e pedras preciosas, sobre a “fé goiana”, talvez tenha se
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Idem, p.11 A PEQUENA OBRA DA DIVINA PROVIDÊNCIA. Ano VI, nº.37, jun /1962. p.4 728 SILVA, Cândido da Costa e. Roteiro de vida e morte: um estudo do catolicismo no sertão da Bahia. São Paulo: Ática, 1982, p.23. 729 Idem, ibidem. 730 CORREIA, Aldenora Alves. Op. cit. p.65. 731 Idem, p.67.

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inspirado em D. Orione, para quem os mais miseráveis eram considerados diamantes e cristais. Uma alusão à Bíblia onde se afirma que “os pobres herdarão os céus”. Mas talvez prevalecesse no missionário e na sua Congregação uma concepção de religião primordial, de pureza religiosa que existiria abaixo da casca da cultura dos homens dos sertões. Naquele mundo em que o homem era mais simples, mais humano e talvez por isso mais naturalmente cristão, “lapidar” constituía-se no projeto católico da Igreja no extremo norte goiano. “Lapidar” era dar um novo formato, enquadrar, informar e retirar os excessos que prejudicavam a revelação do seu verdadeiro brilho. Tonini parece reconhecer que os católicos não haviam sido bem atendidos pelo padre local. Sua Congregação deveria criar mais paróquias, construir e reformar as igrejas, abrir escolas e seminários. Percebe-se uma preocupação da Congregação em se aproximar dos fiéis e cuidar melhor deles.

FOTO 1 Um missionário caminha pela Vila de Araguaína na década de 1950.

FONTE: “A PEQUENA OBRA DA DIVINA PROVIDÊNCIA”. set/out.1956.p.9 Vindos da Europa os missionários tiveram que enfrentar enormes desafios nos sertões. Estes foram desde a necessidade de adaptar-se minimamente numa outra cultura, distante dos padrões europeus, dos grandes centros e dos seus superiores hierárquicos até as privações cotidianas, sem estradas nem automóveis; tiveram que aprender a andar a cavalo e navegar em canoas. Sem camas, aprenderam a dormir em redes, sem o pão,
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substituíram-no pelos produtos da terra e sem o frio, tiveram que adaptar-se ao sol e ao calor equatorial. Por outro lado, encontraram nos sertões um imenso campo de apostolado e grande liberdade de ação.Porém, para os missionários, viver naquela realidade não era fácil. “Quanta diferença entre os dois ambientes! Precisava mesmo morrer a todo um passado e renascer novamente com outra mentalidade, caso quisesse fazer alguma coisa naquelas terras!”.732 Em outra passagem, Tonini afirma que o missionário deveria fazer uma faxina no próprio cérebro para começar uma nova vida, entretanto, essa metamorfose seria a coisa mais difícil para um sacerdote.733 Tonini desejava adaptar-se e ao mesmo tempo tinha medo de ser contaminado pelos sertões. Ora, os sertões eram o local do erro, da violência, das doenças e da ignorância, como se precaver contra esses males? Como mergulhar nos sertões sem deixarse contaminar por ele? Enfim, seria possível não relativizar os próprios princípios tendo que conviver com os sertanejos e tão distantes dos superiores? Para Tonini, uma coisa era o que se lia nas revistas missionárias, normalmente escritas por quem jamais colocou os pés na missão; a outra era a experiência pessoal de quem tinha que fazer-se missionário.734 Estas foram algumas questões enfrentadas pelo padre Tonini frente ao desafio de viver nos sertões. 4.2 O Projeto da “Pequena Obra da Divina Providência” para os Sertões 4.2.1 As escolas paroquiais

Na conquista do espaço religioso no extremo norte goiano, os missionários católicos encontraram concorrentes, os “protestantes”. A presença dos missionários evangélicos era considerada como uma “invasão estrangeira”. Dom Domingos Carrerot (1920-1933), primeiro bispo da Diocese de Porto Nacional, após percorrer a ilha do Bananal em 1925, escreveu uma carta avisando o governador de Goiás e por seu intermédio ao Governo Federal sobre o perigo da invasão norte-americana da ilha. Ele pedia providências urgentes “para se opor à ação dos ministros protestantes, que experimentavam localizar-se, sob pretexto de evangelização, nos pontos melhores da Ilha”.735 Segundo o missionário dominicano José M. Audrin, tanto os “protestantes”
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Idem, p.23. Idem, p.28. 734 Idem, p.168. 735 AUDRIN, José Maria. Entre sertanejos e índios do norte. Op. cit. p.240

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ingleses, quanto os adventistas dos Estados Unidos tentaram converter os índios da Ilha do Bananal, mas diante do fracasso da missão, eles a abandonaram.736 Ainda faltam estudos sobre as estratégias dos “protestantes” na Ilha do Bananal e das razões do seu fracasso. Na década de 1950, Dom Alano, o segundo bispo dominicano de Porto Nacional, orientou os missionários da Congregação de Dom Orione quanto à instalação da escola paroquial para “cortar a estrada dos inimigos de Cristo” nos sertões goianos.737 Ora, construir uma rede de escolas paroquiais ia ao encontro das recomendações da Igreja que, através do sínodo diocesano de Campinas, realizado em 1938, orientava aos bispos e padres a abrir escolas católicas, farmácias e hospitais. Contudo, tais ações sociais e filantrópicas, segundo Luís Roberto Benedetti, eram compreendidas como instrumento de competição contra outras religiões, ou seja, estavam a serviço do proselitismo.738 De qualquer forma, as instruções de Dom Alano aos missionários “orionitas” estavam articuladas às orientações da Igreja no Brasil e dentro da “especialidade” daquela Congregação. Nos sertões, os “Filhos de Dom Orione” se irritaram com a presença dos “protestantes”, principalmente com os de denominação batista. Eles se consideravam “naturalmente” portadores da verdade, além de possuírem uma estrutura de prédios religiosos (em situação precária), o apoio da sociedade de maioria católica e procuraram se aliar às autoridades locais para a ampliação de suas ações no combate aos adversários batistas. Porém, os batistas também possuíam seus aliados e tinham suas estratégias para ampliar o número de fiéis. Tanto para missionários católicos quanto para os batistas existia uma estreita vinculação entre a prática religiosa e a prática escolar. Organizar igrejas e escolas não era práticas estanques porque para ambos a missão de evangelizar incluía romper com as superstições, ignorância e práticas arcaicas que se acreditavam amplamente enraizadas na sociedade sertaneja. A escola transformou-se em campo de luta em Babaçulândia, uma pequena vila banhada pelo rio Tocantins e situada no extremo norte de Goiás. Quando padre Tonini chegou a Babaçulândia, em 1952, não existia nem igreja, nem escola paroquial, mas já tinha igreja e escola batista. Em suas palavras: “a única igreja boa e bem freqüentada era aquela dos Protestantes Batistas”, ela possuía “cerca de 150
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Idem, p.242. TONINI, Quinto. Op. cit. p..20. 738 Apud. AZZI, Riolando e GRIJP, Klaus van der. História da Igreja no Brasil. Op. cit. p.28.

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“Era uma belíssima mestra. Tonini leu a carta ao final da missa e antes da benção final. percebeu que era o momento oportuno para o enfrentamento. Os católicos deixaram de freqüentar os cultos batistas e seus filhos foram retirados da escola “protestante”.105 173 .740 Após dois anos de trabalho. Para o missionário católico. para transformar os moradores da vila em fiéis católicos. Sua reserva e seriedade haviam conquistado a estima geral do povo. em poucas semanas. além da construção arquitetônica e do investimento sobre os fiéis de Babaçulândia. a escola paroquial e o posto médico. Tonini já com igreja.742 Os pais insubordinados seriam considerados pecadores públicos e como tal seriam excluídos dos sacramentos e se morressem ser-lhe-ia negado o funeral religioso. em se tratando de religião e de educação os católicos não poderiam ter nada em comum com os batistas.741 Ele então redigiu e divulgou uma carta proibindo aos filhos dos católicos freqüentarem a escola batista. cit. Tonini percebeu o quanto a população local apoiava os “hereges”. ibidem. A carta do padre Tonini deu os resultados esperados. o papel da escola paroquial além da transmissão cultural e da socialização das crianças e jovens.743 Por fim. Tonini contratou uma normalista para a escola paroquial. ele também se preocupou em organizar várias associações religiosas e fazer um trabalho de catequese de crianças e de adultos. de tal forma que a Escola Paroquial.739 Os próprios católicos assistiam as pregações do pastor batista e não viam problemas em enviar seus filhos para a escola dos “protestantes”. Na verdade. 742 Idem. foi necessário um amplo investimento. 741 Idem. ele então justificou tal fato porque até então não tiveram um sacerdote e resolveu não partir para o confronto naquele momento. para que sua mensagem fosse aceita e acatada primeiro ele tratou de construir o prédio religioso. ao iniciar o ano letivo do ano 739 740 TONINI. Mas. p. das franciscanas de Carolina. por parte do missionário. Quinto. Além disso. tornou-se a mais freqüentada e melhor organizada da cidade”. casa e escola paroquial construídos. ibidem 743 Idem.159 Idem. Tonini estava cobrando fidelidade do rebanho a um só pastor e isso incluía enviar os filhos para a escola católica.alunos”. Porém. Enfim. Op. Era uma professora formada na Escola Normal Nossa Senhora da Piedade. p. Segundo ele. ibidem.

132. contava com 15 paróquias que eram atendidas por 7 sacerdotes (clero regular e secular). então. cit. Os dados revelam a escassez do clero para dar conta de paróquias imensas. o missionário italiano teve que construir ou reformar as igrejas. Com cerca de 20 alunos”. p. valeria à pena acrescentar os dados estatísticos da Província Eclesiástica de Goiás. como ele havia dito. ao que parece. para a década de 1940. preocupava. ao mesmo tempo. Jorge. onde estavam 744 745 Idem. p. construir escolas paroquiais e utilizar os alunos como “escudos” para impedir a entrada dos “protestantes”. que a luta do padre Tonini. a igreja e a escola antecederam o padre.746 Para marcar a presença da Igreja naquele espaço.000 pessoas. uma disputa por fiéis. Dom Alano e. Compreendemos. 746 Idem. no Maranhão. o pastor. ibidem. aquela recémcriada cidade goiana estava situada de frente para Carolina. Em Babaçulândia. a igreja e a escola paroquial. Apud LATOUR. p. a Arquidiocese de Goiás. 1949. Em 1952. era um povo de tradição religiosa católica que participava das “desobrigas” e recebia com muito carinho o bispo dominicano de Porto Nacional. foi. 174 . com 37 paróquias e 21 sacerdotes (clero regular e secular).745 Devemos lembrar que o Convento dos dominicanos havia sido fechado.160-161. “a escola protestante foi reduzida exclusivamente aos filhos da heresia.133. possuía 360.seguinte. enfim. Rio de Janeiro: Conselho de Imigração e Colonização. em Babaçulândia. pelos alunos das escolas paroquiais aquela presença. Ora. numa região com dificuldades de transportes e rarefação demográfica.747 Por mais que Tonini afirme que a penetração batista foi barrada pelas “trincheiras” humanas. Goiás: uma nova fronteira humana. Quinto. em 1944.165. em 1947. não foi apenas para reduzir a escola batista “aos filhos da heresia”. Op. para reduzir o tamanho da igreja batista. p. 747 TONINI. De acordo com esses dados. Porém. ou seja. de 15 Congregações religiosas. Já Porto Nacional.744 O que ocorreu em Babaçulândia nos pareceu muito singular porque normalmente o que vemos na História do Brasil é a chegada dos missionários católicos e depois a luta dos “protestantes” para se estabelecerem nas cidades e vilas. o próprio Tonini foi aconselhado pelo bispo dominicano Dom Alano e pelo superior da missão Padre Alice a fixar-se em Filadélfia. Mas sim. mesmo que numericamente muito pequena. em Porto Nacional. Para compreendermos a situação enfrentada por Tonini em Babaçulândia. freqüentava a igreja e a escola batista.

os missionários investiram em cursos de “aperfeiçoamento de professores” e na formação da pastoral dos “Samaritanos Socorristas”. 748 749 Idem. a casa paroquial. Remígio Corazza.750 Para abrigar os 130 professores. Quinto Tonini. mas resolveu ampliar o curso para todos os professores da Prelazia de Tocantinópolis. na década de 1950.2. entre eles.situados os “protestantes” e. Percebe-se que enquanto Tonini esteve na missão. sugeriu a Tonini. Relação dos missionários e sua colocação em agosto de 1958 TOCANTINOPOLIS Mons. p. Pe. Remígio Corazza BABAÇULANDIA Pe. Os Filhos de Dom Orione no Brasil. Para dar conta de tamanho empreendimento. Pe.2 Curso de atualização para os professores Em 1958. que fosse organizado um curso de aperfeiçoamento para os professores municipais. ibidem. os batistas.197 175 . que possuíam ali um seminário. Cornélio FONTE: POLI. na época Administrador Apostólico da Prelazia. p. a paróquia de Filadélfia colocaria à disposição a sede da escola de Artes e Ofícios. Pacífico ARAGUATINS Pe. Genésio. Bertaina ARAGUAINA Pe. naquela cidade foram realizados eventos importantes da Congregação. a sede do Hospital ainda livre. Também um colégio católico foi fundado em Tocantinópolis. Tonini gostou da idéia. João XAMBIOA Pe. Macário. o padre de Filadélfia. como se poderá ver nos próximos itens. Em cada cidade ou vila onde um missionário católico se fixava. 750 Idem.ed. São Paulo:s. dispersos em 8 municípios. 4. Vitório ITAGUATINS Pe.749 Uma fortaleza contra a entrada dos “protestantes”. 1986. Além disso. seu desejo foi transformar Filadélfia “numa pequena fortaleza católica”. Pe. o Colégio Norte Goiano. ele tratava de abrir uma escola paroquial e um posto médico.174 Idem. Ir. 748 Foi em Filadélfia que Tonini começou a construir o primeiro hospital da região. em Filadélfia. Tiveron. Bruno Raffa. além de conseguir a liberação dos prédios das escolas estaduais. Martins FILADELFIA Pe.

o único padre brasileiro. de quadro deputados estaduais e dos prefeitos de vários municípios. estabelecido em dez mil cruzeiros. O governador de Goiás e o Secretário da Educação também foram procurados e uma verba de cem mil cruzeiros foi liberada para o curso. didática. Idem. educação sanitária. Foram ministradas aulas de metodologia. tendo visto a capacidade organizadora dos orionitas. Corazza controlou as finanças.Para levantar os recursos necessários para a realização do curso. além de 4 professores da Faculdade de Educação de Goiás. ficou responsável pelo acompanhamento espiritual. 176 . práticas agrícolas. 754 O encerramento do Curso contou com a presença do Governador. pedagogia. de três deputados federais. os “Samaritanos Socorristas” tomaram conta da cozinha e garantiram as refeições aos cursistas. prometeu mais apoio às obras da Congregação na região. o entusiasmo dos professores e do povo. Pe. Tonini conseguiu apoio de uma companhia aérea para o transporte do pessoal e materiais didáticos.198 753 Idem. Segundo Tonini. p. o governo de Goiás. Ao final do curso foram aplicados os exames e segundo Tonini.200 755 Idem.200 754 Idem. p. Martins. incluindo um mimeógrafo. no extremo norte de Goiás. O papel dos párocos locais também foi de fundamental importância na divulgação do curso. princípios religiosos e trabalhos manuais. Ibidem.752 Também foram montadas equipes de trabalho para garantir seu o pleno funcionamento. No Rio de Janeiro. ibidem. Tonini procurou os prefeitos e cada um se comprometeu a oferecer o transporte dos professores e pagar uma quantia em dinheiro. A secretaria ficou sob a supervisão de Tonini e foi assumida pelos seminaristas.751 Depois de fechar todos esses acordos ele voltou para o extremo norte de Goiás e começou a visitar cada uma das 8 paróquias e suas vilas para convidar e incentivar os professores a participar do curso. os resultados foram animadores. Pe. p.753 O curso ocorreu entre os dias 12 e 28 de julho em Filadélfia. além de muitas autoridades de Carolina no Maranhão.755 751 752 Idem. com uma carga horária diária de 9 horas/aulas.

Dom Orione Entre Diamantes e Cristais. No diagnóstico do Pe. 4. a verminose e a sífilis. Ela também revela a alegria do Pe. uma Associação Católica de assistência moral e cultural sob a direção do prelado. porque as doenças que formavam a chamada „trindade maldita‟ . a fotografia foi tirada na frente da igreja de Filadélfia. entre elas estavam à malária. Tonini (no centro da foto e vestido de batina escura) e o domínio do magistério pelas mulheres. Ao final do curso. Municipais e privadas do extremo norte de Goiás. Interessante.3 A formação de agentes de saúde: os “samaritanos socorristas” Os sertões dos “Filhos de Dom Orione” eram também aqueles da doença e do abandono presentes no relatório Neiva e Penna. Quinto.propagada durante o movimento pró-saneamento dos sertões (1918-1920) – eram a ancilostomíase. os missionários foram ocupando os espaços deixados pelo Estado e conquistando o apoio da população. Não por acaso. Op. a doença de Chagas e a malária. Dessa forma. fundou-se a “União dos Professores Primários Norte-Goianos”. O curso também rendeu à Congregação o controle sobre as escolas através da nomeação do padre Joaquim Martins para o cargo de Inspetor das Escolas Estaduais.cit.FOTO 2 Curso Para os Professores FONTE: TONINI. cidade onde foi realizado o curso.2. Tonini os habitantes dos sertões ainda eram atacadas pelas mesmas doenças do início do século. 177 . pelo menos no extremo norte de Goiás.199. Tonini identificou as doenças dos sertões. p. as condições.

as endemias rurais continuavam na agenda política da saúde pública brasileira. Hochman analisou os diagnósticos e as propostas do candidato: Kubitschek reconheceu-a diretamente vinculada à precariedade das habitações do interior do país (as cafuas). 757 Idem. continuava sem assistência”. educação sanitária) a 20% da população. no programa de saúde pública de Juscelino Kubitschek. maternidades e programas de merenda escolar. em 1955. 756 HOCHMAN. Enquanto isso.319. ciências. em que se abriga o inseto transmissor (o barbeiro). postos. ex-prefeito e governador de Minas. a malária foi considerada problema praticamente superado e por isso. p.759 Na década de 1950. Gilberto.319. Embora a realidade sanitária do país tivesse se transformado. a melhoria habitacional tarefa de longo prazo. a nível internacional. 759 Idem. do futuro governo. “O Brasil não é só doença”: o programa de saúde pública de Juscelino Kubitschek. em seu programa de governo. no qual o relatório Neiva e Penna teve papel relevante. afinal „não é possível dar imediatamente aos milhões de trabalhadores rurais moradias iguais às da cidade.756 Contraditoriamente. Supl. saúde-Manguinhos.314. como afirma Hochman. o conforto a higiene que elas merecem‟ (. com a segurança. durante sua campanha presidencial. JK exprimiu seu desejo de interiorização da saúde pública federal. JK retoma parte da agenda do movimento pró-saneamento dos sertões da década de 1910. porém. o combate ao barbeiro com inseticidas. ele reconheceu que nos sertões faltavam “assistência médico-sanitária (centros de saúde. O candidato reconhece a inexistência de assistência médica-sanitária nos sertões e parece apontar para um amplo programa de ação. p.pareciam próximas daquelas que teriam levado o médico Miguel Pereira a caracterizar o Brasil como um imenso hospital. História. 758 Idem.757 De qualquer forma. p. que. retirada do conjunto das doenças prioritárias.[online]. Desse modo. entre 1916 a meados da década de 1950. 178 . como a “doença econômica” por excelência e sua erradicação colocada como precondição para o desenvolvimento. segundo ele. A eliminação dessa e de outras endemias possibilitaria que populações e territórios pudessem ser incorporados ao processo de desenvolvimento e alcançassem melhores condições de vida.16.758 Quanto à doença de Chagas. 2009. seria o recurso imediato. Como médico. eficaz e disponível para a contenção da doença. 1.. No final dos anos 1950. segundo o autor. a malária foi escolhida no mesmo período. Considerava. que vinha sendo realizado desde 1950.. JK mudou seu diagnóstico com relação à malária e ela voltou ao topo da agenda sanitária do governo brasileiro. em 1916.321.). como candidato à presidência da República para o pleito (19561961). Vol. p.

técnicas de enfermagem. Ao que parece. 179 . Eles deveriam passar por um curso teórico/prático e teriam uma dupla função: agentes de saúde e agentes religiosos. que já tivessem concluído o 4º ano primário. cit. nos sertões. Tonini pensou em unir a prática assistencial. nos sertões dos missionários italianos esse programa de governo. com aulas de moral e apologética. ao apontar para as possibilidades de desenvolvimento rápido do país ele mostrou-se preocupado com a realidade sanitária do interior e com a necessidade de formação de recursos humanos para o setor. Para tal.318. para garantir o fim do flagelo das doenças de massas. Tonini decidiu cuidar também dos corpos dos sertanejos. Op. dentistas e nutricionistas. assim como a ausência de estatísticas demográficas e sanitárias. A formação da Associação dos “Samaritanos Socorristas” foi uma novidade nos sertões. Caberia a eles enfrentar os problemas encontrados. De acordo com Hochman: A falta de técnicos. Gilberto. voltadas para o combate específico de doenças endêmicas.760 Porém. não dava para ficar esperando pelo Estado. Diante da realidade encontrada no extremo norte de Goiás. Com relação à doença de Chagas. “O Brasil não é só doença”. na década de 1950. era preciso frequentar as aulas e estudar as matérias: anatomia. não sabemos se ocorreu a dedetização das cafuas com inseticidas. A inclusão dessas matérias de cunho moral e religioso foi 760 HOCHMAN. Assim. foram realizadas na região. Para facilitar o acesso dos jovens ao curso. sem médicos. além de religião.incluindo a distribuição de merenda escolar. nem postos médicos ou hospitais. puericultura e higiene. como era o caso da malária. sua concentração nas cidades e a inexistência de regime de dedicação integral aos serviços sanitários seriam obstáculos a superar. ele foi ministrado em algumas paróquias com as aulas teóricas sempre à noite e no período das férias escolares. Em primeiro lugar. Seu público alvo seriam todos os jovens. os missionários perceberam que. Todavia. não chegou a ser implantado. ele necessitava de treinar agentes de saúde que pudessem auxiliá-lo nessa árdua tarefa. vitorioso nas urnas. enfermeiras. com uma forma de condução mais racionalizada. Tonini chegou a registrar nas suas narrativas que às vezes o governo enviava umas latas de leite em pó. mediante a utilização de técnicas adequadas. Kubitschek reconhecia que não seria possível colocar em prática o seu lema “50 anos em 5” se não rompesse com a dicotomia litoral/sertão. Seria este o programa de merenda escolar do Governo Federal? Ora. entre 15 e 30 anos. sempre vista pela Igreja como prática caritativa. nem mesmo as campanhas mais pontuais. p. médicos.

assim justificada pelo padre/professor: “Religião: moral e apologética. fariam partos. “os samaritanos” além de cuidar dos doentes. em março de 1955. era preciso ensinar noções mínimas de higiene para que as pessoas aprendessem cuidar dos seus corpos. seus integrantes ajudariam a combater as epidemias. com formação em primeiros socorros. era preciso ser também samaritano. 106. Por fim. 180 . A cerimônia foi um grandioso evento. Os outros cinco ou evadiram ou foram reprovados. mas na área de saúde precisava de treinamento. Assim. O curso contou com a participação de 35 alunos. das suas casas e dos seus filhos. As aulas práticas ocorreram no prédio da escola paroquial e as teóricas no posto médico. A grande procura pelo curso ocorreu entre as mulheres e. com a celebração da missa. Não bastava apenas aprender as técnicas adequadas. Tonini partiu do princípio de que não bastava apenas cuidar dos doentes. p. no final de 1954 e início de 1955. como padre e enfermeiro. para a defesa contra os protestantes. ocorreu a entrega do diploma. Tonini esperava que os jovens “Samaritanos Socorristas” se constituíssem no braço direito dos missionários nos sertões. A conquista do diploma contribuiria para dar visibilidade e prestígio àqueles jovens. ao percorrer o interior da paróquia. dos quais 30 receberam o diploma. Este ritual foi realizado em 761 Idem. tudo construído pelo padre Tonini. Ele seria realizado nos meses de dezembro. deveriam também ser preparados para confortá-los espiritualmente. ele compreendia que a saúde física estava relacionada ao bom comportamento moral e religioso. O próprio Tonini se encarregou de fazer sua divulgação. ao lado da igreja. entre elas. Os maiores beneficiados seriam as populações espalhadas pelas florestas e beira dos rios. para ser um “socorrista” era necessário ser bom cristão e exercer a caridade. os maçons e para a investida contra a ignorância”. visitariam os doentes. bênção e envio dos “samaritanos”. cerimônia de diplomação. Para isso era necessário fundar uma Associação que poderia contar com subvenções do Governo. aplicariam injeções. os comunistas. porque só recebiam o diploma aqueles que fossem aprovados nas provas teóricas e práticas. janeiro e fevereiro em Babaçulândia. A caridade era um componente da vida católica. aonde chegaria uma professora rural. O primeiro curso proposto por Tonini ocorreu em Babaçulândia. ensinariam noções básicas de higiene. estavam as professoras rurais. curativos.761 Em segundo lugar. No final do curso.

entre o final de 1955 e início de 1956. Mecozzi. através de sua paróquia. ele não tinha um valor legal. 64 jovens se inscreveram. Tonini. já que seis dos alunos residiam naquela vila.prefeito enviou a mula para o transporte do material de Babaçulândia para Araguaína. 131. Na sua concepção.763 Porém.Babaçulândia e repetido em Araguaína. FOTO 3 “Diploma” dos “Samaritanos Socorristas” FONTE: Arquivo da Paróquia “Sagrado Coração de Jesus” Araguaína-TO. Idem.a própria igreja ainda 762 763 Idem. Quanto aos diplomas distribuídos pelo Pe. Tonini. O vice. O segundo curso foi realizado em Araguaína. Naquela vila o auto-falante anunciou a novidade: um curso para “samaritanos socorristas”. paróquia do Pe.762 Entre os materiais estavam livros e medicamentos para serem utilizados durante o curso. como em Araguaína não existia um espaço que comportasse tanta gente . realizado dentro das condições específicas da região e da capacidade do padre/professor. p. distante dali 72 km.106 181 . Ou seja. Ele não possuía o carimbo de nenhuma instituição de ensino a não ser da Escola Paroquial. Por outro lado. era um curso para suprir as necessidades das populações locais. legitimava a distribuição dos diplomas. o fato do missionário distribuir diplomas não desagradou às autoridades locais porque elas participavam do evento de “diplomação dos alunos” e em seus discursos ressaltavam a importância daquele curso para a melhoria das condições da saúde na região. Este ocorreu nos meses de férias escolares e contou com a participação de homens e mulheres.

davam conselhos higiênicos necessários”. p. p. Mecozzi mandou construir ao lado da casa paroquial um amplo salão de palha e nele foram fincados os bancos e as mesas de madeira. cujo tema foi o combate ao alcoolismo. 182 . os doentes recém-chegados deviam passar pelos “samaritanos socorristas” para serem lavados e trocados.140. fortificantes.136. “aplicavam injeções. com direito a discursos das autoridades civis e religiosas da região. antes da primeira consulta com o padre/enfermeiro.764 A prática era realizada no posto médico – que ainda funcionava na casa paroquial – e nas casas dos doentes.135 767 Idem. por mais de 30 km.767 Tudo isso era tarefa para os “Samaritanos Socorristas” que deveriam encontrar na vila. alguns doentes precisavam ser abrigados para receber boa alimentação. 766 Idem. 768 Idem.769 Como afirma Tonini. A parte prática do curso ocorreu concomitante à parte teórica. só depois eram examinados e medicados. ao encontrá-los. Em Araguaina. lavavam os recipientes de água. ocorreu a cerimônia de entrega do diploma. “A Missa foi cantada pelos alunos. p. Os “socorristas” foram de casa em casa procurando pelos enfermos e.133. vitaminas do complexo B e C. só que durante o dia. Além disso. p. curativos. ibidem. Idem. As autoridades locais e dos municípios circunvizinhos participaram do evento. fizeram uma Comunhão Geral entre as lágrimas do povo”.765 Mas os doentes também iam atrás de tratamento. ibidem. Filadélfia e de Carolina. porém. no final do curso. além dos paroquianos que chegaram de Babaçulândia. o salão foi iluminado com lampiões. 55 receberam o diploma. Segundo Tonini.o Pe. num encerramento solene. Enfermos foram transportados em redes. Cabia. À noite. injeções. higiene e conforto espiritual. começaram a chegar pessoas à procura de curativos e remédios.estava sendo construída . os alunos apresentaram uma peça teatral.768 Às três da tarde.766 Em alguns casos. pois àqueles jovens se responsabilizar pelo acompanhamento diário dos doentes mais graves até que eles estivessem plenamente recuperados e em condições de voltar para suas casas. como não havia luz elétrica ou a motores. dos 64 inscritos. curavam suas feridas. uma casa para abrigá-los. 769 Idem. que vestidos de enfermeiros. limpavam e arrumavam a casa. A parte teórica do curso foi realizada à noite. o curso acabou propiciando a “descoberta da vocação” sacerdotal e religiosa 764 765 Idem.

774 Idem. “Para que serviria a dedicação e a caridade dos “Bons Samaritanos” se depois não se eliminavam as fontes de corrupção. p. FONTE: TONINI. 772 Idem. Op. cit.772 Tonini aproveitou a chegada de doentes do interior para realizar matrimônios. Ao final do curso. Orione. p. Três alunas entraram para a Congregação das Pequenas Missionárias de D. Idem. das doenças.771 Dos 25 jovens inscritos. ibidem.dos jovens de Araguaína.770 Por fim. 183 .191.774 A ameaça rendeu os resultados esperados e as casas de prostituição foram fechadas. 773 Por fim. realizar batizados e distribuir outros sacramentos. p. p194. Dom Orione Entre Diamantes e Cristais. FOTO 4 Curso de Fomação de “Samaritanos Socorristas” em Araguatins. “Também cinco rapazinhos entraram no Seminário”. Durante a cerimônia de entrega dos diplomas. a grande maioria também era de mulheres. Tonini ministrou o terceiro curso para “samaritanos socorristas” em Araguatins. 773 Idem. Do contrário. Quinto. em seu discurso. a escola paroquial e o posto médico fechados. ele deu um prazo de três meses para que as casas de “má vida” fossem fechadas.141. o padre seria retirado da cidade. entre o final de 1957 e início de 1958.192 770 771 Idem. questionou Tonini. da miséria mais abjeta”. ibidem. uns vinte alunos foram diplomados. já como Administrador Apostólico. Tonini cobrou das autoridades locais o fechamento das duas casas de prostituição da cidade.

p. No dia marcado. Ao final do evento. de Araguaína e do Pe. e a recepção recomeçou.145.777 Na tarde daquele mesmo dia teve início o “Congresso dos Samaritanos Socorristas” no Cine-Rex de Carolina no Maranhão. entre os rapazes que fizeram o curso estava também o Secretário de Saúde de Araguatins. 184 . na primeira metade do século XX. em comemoração aos quatro anos da presença da Congregação “Pequena Obra da Divina Providência”. repetiu-se em Filadélfia parte do programa do dia anterior. Klaus van der.49 Idem. A tarde. músicos. cit. p. ao se preocupar em dar cursos para os “Samaritanos Socorristas” no extremo norte de Goiás. ressaltou que a maioria desses missionários não tinha uma formação na área de saúde e atuavam sozinhos.144 777 Idem. Riolando Azzi afirmou que era comum os padres. Mas. distribuírem remédios e atuarem como médicos. se preocupou em dar cursos e criar a Associação dos “Bons Samaritanos”. porém. Contudo. O prefeito de Filadélfia emprestou os dois caminhões do município para transportar os “Samaritanos Socorristas” de Araguaína. algo muito original. foram tiradas as fotografias e depois os congressistas foram encaminhados para o Colégio das Irmãs de Carolina. da atuação do Tonini. de Filadélfia. que além da sua formação em enfermagem. No meio daquelas jovens estavam alguns rapazes e alguns deles. p. Corazza. Em 25 de julho de 1956.775 Muito distante. de diversas Congregações religiosas que atuavam na Amazônia. depois ocorreram os discursos. Riolando e GRIJP. pela manhã. em barco enviado pelo prefeito da cidade. no extremo norte de Goiás.Percebe-se que a maioria daqueles que realizaram o curso era constituído por mulheres. Alguns padres faziam “partos difíceis” e pequenas intervenções cirúrgicas. ocorreu o Congresso dos “Bons Samaritanos” em Filadélfia. do Seminário Menor de Tocantinópolis. Tonini percebeu que era necessário preparar também os futuros padres para cuidar do corpo dos fiéis. entoando seus cânticos e foram recebidos com rajadas de foguetes. Eles procuram ajuda entre as autoridades locais. 776 Essa foi uma idéia de Tonini que contou com apoio do padre Mercozzi. eles entraram festivamente em Babaçulândia. Logo depois chegaram os jovens de Babaçulândia. A pequena orquestra regida por Tonini executou o Hino Pontifício e o Hino Nacional. ocorreu a missa cantada na igreja de Filadélfia. Os 775 776 AZZI. Chamamos atenção ainda para a especificidade da atuação de Tonini e da sua Congregação. No dia 26. Os músicos eram seminaristas. Op.

discursos. de criatividade e de resposta rápida frente aos desafios dos sertões. na frente do Colégio Nossa Senhora da Piedade. p. Percebe-se que os denominados “samaritanos socorristas” eram na sua quase totalidade mulheres. 778 Idem. das franciscanas. músicos locais e talvez uns dois samaritanos. o registro fotográfico tinha por objetivo guardar a memória daquele evento para a posteridade. 185 . A organização dos cursos de treinamento e a fundação da Associação dos “Samaritanos Socorristas” foram criações originais dos missionários católicos nos sertões. mas existiam. A fotografia a seguir foi tirada em Carolina. quase todos. Os homens eram poucos. FONTE: Arquivo da Paróquia de Filadélfia-TO Não podemos perder de vista o caráter estratégico e apologético de um evento comemorativo ocorrido nas cidades de Filadélfia e Carolina. Na fotografia identificamos os missionários. um capuchinho e dois “Filhos de Dom Orione”. FOTO 5 Congresso dos “Samaritanos Socorristas” em Filadélfia-1956. segundo Tonini o entusiasmo havia tomado conta de todos. ficaram a cargo das autoridades municipais. Ele era uma demonstração da capacidade de organização. autoridades civis.145.778 Como explicou padre Tonini.

Tanto para Belisário Penna quanto para padre Tonini a educação higiênica era indissociável da questão moral. da lavagem das mãos. da água não contaminada. além de mostrar os malefícios do alcoolismo e as vantagens de uma alimentação nutritiva. as jovens que fizessem apenas o curso de Educação e Propaganda Sanitária sairiam com o diploma de “Guardiãs da Saúde” e cuidariam da educação higiênica popular.2 781 Idem. as novas gerações assim educadas se tornassem “operosas e trabalhadoras” graças aos conhecimentos e as novas práticas adquiridas na escola e no lar. o médico e sanitarista Belisário Penna. Elas também acompanhariam os doentes. ao insistir no uso de calçados e de como evitar as verminoses.781 A elas caberiam ensinar o povo a viver com saúde. Tonini combateu as casas de prostituição. p. durante a Primeira República. acreditava que a “regeneração” do trabalhador nacional só se faria através do saneamento do homem e da terra. p. No Brasil. Ele ensinou noções básicas de higiene e de primeiros socorros. prevenindo o contágio e os encaminhariam aos postos médicos ou hospitais. da terra limpa. como as vantagens do banho diário. Tonini ao dar o curso de “Samaritanos Socorristas” trazia da Itália a preocupação com a saúde da população. vacinação e realização de partos.779 Uma prática empreendida na Europa pelo Estado e transferida para o norte de Goiás por Tonini.780 No futuro. o “desregramento” sexual e moral. através 779 A preocupação dos missionários com a saúde das populações fez com que os primeiros hospitais da Prelazia fossem fundados e mantidos pela Igreja. e o asseio com o corpo. os governos federais e estaduais tiveram dificuldades de formar normalistas para enviar aos sertões e a proposta das “guardiãs da saúde” não saiu do papel. Por isso. Elas entrariam nos lares para ensinar a educação higiênica.3 782 Idem. para que elas adquirissem novos comportamentos ele propôs que as alunas do Curso Normal fizessem um curso complementar de Educação e Propaganda Sanitária. p. Nessa tarefa de educar higienicamente as novas gerações. 780 Idem. segundo ele. além de ensinar noções básicas de limpeza dos corpos e das casas e condenar o uso de bebidas alcoólicas. como técnicas para aplicar injeções.782 Porém. da escovação diária dos dentes e de sua conservação. etc. Divulgou noções sobre alimentação das crianças e de como evitar infecções intestinais. do calçado.4 186 . Porém. do sol. como o asseio com a casa e a influência benéfica do ar. A expectativa de Belisário Penna era de que no futuro. não haveria nomeação de normalistas sem o diploma de “Bandeirante da Saúde”.

chegou a notícia de que havia renunciado ao cargo.231. (1979). 786 CADERNO DA PRELAZIA DE TOCANTINÓPOLIS.785 O Hospital foi inaugurado em junho de 1959. A Congregação doou os materiais cirúrgicos e Tonini ainda conseguiu bastante material hospitalar e instrumentos musicais.143. o próprio Governo Federal se fez representar por um funcionário da SPVEA (Superintendência do Plano de Valorização da Amazônia). Porém. O primeiro médico levado para trabalhar no hospital foi Dr. p. Op. 15 estaduais e uns 30 prefeitos da região. p. De qualquer forma. CADERNO DA PRELAZIA DE TOCANTINÓPOLIS – ANO JUBILAR 1954-1979. Ele precisava levantar recursos para terminar a construção do Seminário Menor em Tocantinópolis e comprar a sala de cirurgia para o hospital de Filadélfia. 187 . a necessidade de médicos e hospitais para a região. 787 Idem. Josimo Tavares. p. 5 deputados federais. a saber: Pe. Além das diversas associações paroquiais existentes. p.”784 Em 1956. Ele também preparava os jovens para assumir a vida sacerdotal e religiosa ou para a constituição de famílias católicas. não estava presente. internado em Belém do Pará. a Associação dos “Samaritanos Socorristas” contou com verbas públicas. Cit. Simão Loty Kossobuozki.783 Ela acabou “elevada a Ente Moral. a dos “Samaritanos Socorritas”. os cursos de formação de “Samaritanos Socorristas” abriram espaço para a propagação de novas concepções e práticas sanitárias e médicas como o uso de remédios alopáticos. este fato não foi explicado pela 783 784 Idem. Desde o início de suas ações os missionários sofreram com a falta de recursos.787 Como já dissemos. A Congregação mandou um representante. Segundo Tonini. Este foi aberto em março de 1958. Idem. com 16 seminaristas. Pe. diretamente do Rio de Janeiro. Eles então procuram ajuda.786 No dia da inauguração estavam presentes o Governador de Goiás.da Associação dos “Samaritanos Socorristas”. Tonini que havia trabalhado por quase 8 anos e sonhado com aquela obra no extremo norte de Goiás. assim pôde obter o reconhecimento e as subvenções do Governo. Ivan Pinheiro (1978) e Pe. através do casamento. p. depois de ser nomeado pela Santa Sé como administrador Apostólico da Prelazia de Tocantinópolis.51. Depois. Nilson Vieira da Silva (1972). apenas três padres que passaram pelo Seminário Menor Leão XIII foram ordenados. entre 1958 a 1979.110. 785 Em 21 anos de existência do Seminário. A Santa Sé doou recursos para terminar a primeira parte do seminário. Notícias do Rio de Janeiro afirmavam que ele estava doente. entre elas.12. Tonini assumiu o cargo e já no ano seguinte viajava para a Itália atrás de doações.

ele organizou uma rede de assistência médica.12 188 . De qualquer forma. Por fim. Ou ainda como professores rurais ou como pais e mães de família. Cornélio Chizzini (. Tonini.)”. CADERNO DA PRELAZIA DE TOCANTINÓPOLIS. Veja o que disse o padre Wilson: “Monsenhor Quinto Tonini por motivos desconhecidos foi afastado do cargo e a ele sucedeu o Pe. com a distribuição dos sacramentos e com educação dos jovens através dos colégios católicos. Cit.788 nem pôde ser esclarecido pelo próprio Tonini. 788 Nem mesmo durante as comemorações dos 25 anos da criação da Prelazia de Tocantinópolis os padres da Congregação “Pequena Obra da Divina Providência” se arriscaram a levantar uma hipótese para a renúncia do Pe. na primeira metade do século XX. que deixou a Prelazia de Tocantinópolis. Como na Prelazia não havia profissionais na área médica. Como as outras Ordens e Congregações que atuaram na Amazônia Legal. distribuir remédios e construir um hospital equipado com sala de cirurgia para atender aos doentes. os “orionitas” inovaram ao dar cursos para formar os “Samaritanos Socorristas”. mas nunca saiu da Congregação.. Op. com profissionais minimamente preparados para ajudar os missionários a enfrentar os desafios dos sertões. Os missionários desejavam colocar à disposição dos sertanejos conhecimentos preventivos na área da higiene. Tonini se dispôs a dar cursos para formar “Samaritanos Socorristas”. p. devemos reconhecer o empenho da Congregação fundada por Dom Orione nos sertões do Brasil com relação à saúde da população. que poderiam atuar como enfermeiros nos postos médicos e no futuro hospital.Congregação. preocupadas com a catequese..

as narrativas de Neiva e Penna pretendiam mesmo chocar as elites da sua época para abrir caminho ao projeto de saneamento.250 189 .789 Os sertões criados por Neiva e Penna entravam em contradição com a literatura romântica e ufanista da época. onde moravam os referidos médicos/cientistas. onde seriam pagas as promessas feitas (votos) e reafirmado seu compromisso de voltar no próximo ano? Como eles poderiam compreender esse universo sertanejo onde existia uma cultura da violência. a beleza. ou mais especificamente. iniciamos com o relatório Neiva e Penna. a técnica e a especificidade dos modos de viver e sentir dos sertanejos? Como eles poderiam compreender as práticas religiosas e curativas dos homens e mulheres dos sertões que só se dispunham a procurar remédios alopáticos e médicos (extremamente raros nos sertões) depois de fazer uso da medicação usual transmitida por gerações? Como esses homens da ciência poderiam ver algum valor nas crenças dos fiéis que caminhavam dias para alcançar um local de romaria. os sertões localizados entre os 789 SOUZA. de redescoberta dos sertões goianos. de. p. para matar índios.Conclusão Nesse movimento de redefinição do Brasil Central. na verdade. as narrativas dos médicos/cientistas construíram imagens novas sobre os sertões. atacados pela doença de Chagas. eles foram reinventados a partir de uma leitura da realidade social elaborada pelo campo médico. a caça. principalmente na capital da república. Além de apresentar os problemas encontrados eles propuseram soluções e alimentaram as expectativas com relação ao Brasil. Cit. entre outras. Vanderlei S. Com essas características os sertões só poderiam provocar desconforto nos cientistas e nos brasileiros. Como vimos. onde as armas de fogo eram utilizadas para a defesa pessoal. Op. controlar os trabalhadores e até para saldar o missionário ou o visitante ilustre que chegava? Realmente. como eles poderiam enxergar a arte. malária e ancilostomose. Eles foram constituídos como o espaço da doença e do aniquilamento físico e moral “dos pobres habitantes”. Arthur Neiva e a „questão nacional‟ nos anos 1920 e 1920. Como não impactar o leitor se a realidade social dos sertões estava marcada pela distância do modelo de civilização e modernidade? Comprometidos como estavam com os valores e os princípios de uma vida moderna que supostamente era vivida no litoral do país.

Vimos que os goianos entraram na disputa pela definição do que seria o Brasil Central e 190 . desvalorizado e negado. Imagine a proximidade dessas experiências para os homens do início do século XX. Procuramos. Caberia. defendemos que a narrativa de Neiva e Penna tinha também por finalidade distanciar os homens do seu passado. Por isso. provocar a repulsa e a indignação. arar e capinar a terra. assim ele deve ser levado a concluir que os sertões devem ser mudados. agrupados em torno do periódico A Informação Goyana fizeram do relatório Neiva e Penna e dos sertões goianos. Belisário Penna fundou e dirigiu a liga Pró-Saneamento do Brasil (1918-1920) e a partir daí a questão do saneamento dos sertões passou a fazer parte da agenda política do país. Como o receptor não deve querer se ver naquela situação então a narrativa deve chocar. esse outro deveria ser extremamente bizarro e impossível de identificação. Homens e mulheres que viviam como nossos “tataravôs” não poderiam ter direito à fala. seus nomes não foram registrados no relatório. instituído por Neiva e Penna. Nessa tentativa de “varrer” o passado e construir o futuro. prensas e tachas. fazer um voto ao santo de devoção e visitar um local de romaria. etc. como andar em carros de bois. senão de negação. correspondia a 63. que foram apontadas como sinal de atraso dos sertões. em usar roupas de algodão. Porém. Assim. então. a especificidade dos sertões e dos sertanejos. recorrer a uma benzedeira ou mandar chamar a parteira. é possível perceber que aquele mundo que brota das narrativas não é tão distante das experiências de grande parte dos brasileiros que nasceram na zona rural. portanto. integrados e suprimidas aquelas características de viver e de pensar de “três séculos atrás”. Retornando. com arado e enxada. porém. ele foi desqualificado. a eles também foi negado o direito de construírem o seu futuro. mesmo que tenha demorado a chegar aos sertões. fazer farinha e polvilho utilizando ralos.vales dos rios Araguaia e Tocantins eram outro mundo. em meados do século XX. mas ao ser comparado com o modelo de sociedade ideal. a leitura que os intelectuais goianos. Devemos lembrar que a população rural do Brasil em 1950. aos homens que viviam no mesmo tempo histórico dos narradores apontarem as soluções e criarem as possibilidades para integrar os sertões à nação. O problema é que a especificidade do “outro” é apresentada para comprovar a tese dos sertões como espaço da doença e do abandono. em animais não ferrados. criando a imagem do outro. se ainda hoje podemos dizer que já experimentamos algumas daquelas “esquisitices”.8% da população total.

associado ao bandeirantismo paulista e as suas tradições ainda presentes nos homens dos “altos sertões” – e a projeção de um também grandioso futuro para Goiás. Devemos ainda ressaltar a importância de um periódico que conseguiu agregar os intelectuais e direcionar o debate “em defesa da terra e da gente goiana”. entre os vales dos rios Araguaia e Tocantins. presente no periódico. estes tiveram seus nomes registrados porque foram considerados iguais. com relação às festas religiosas e as devoções foi a de suportar para lentamente modificar. foi a valorização do passado goiano . a estratégia dos dominicanos. presente na região e que foi tão veementemente denunciada por Neiva e Penna. pois eles poriam fim às distâncias. Para o grupo de intelectuais goianos não seria o saneamento que possibilitaria a desenvolvimento dos sertões. Ora. Talvez sua falha tenha sido em não considerar a gravidade da doença de Chagas. são extremamente ricas para quem pretende se aproximar dos 191 . Francisco Ayres da Silva defendia a capacidade de trabalho dos homens dos sertões e apresentava projetos para resolver os problemas estruturais de escoamento da produção. construindo consensos. Foi interessante perceber que Neiva e Penna nomearam alguns de seus interlocutores nos sertões. Enquanto Neiva e Penna ressaltaram as questões das doenças. Porém. outros não foram nomeados. mas os transportes. os intelectuais goianos apontaram os problemas associados à distância. A novidade contida nesse projeto.apresentaram novas visões sobre os sertões. como o militar reformado Henrique Silva que provavelmente discordou de algumas conclusões dos referidos médicos. principalmente. que buscava adequar as crenças e comportamentos do clero e dos fiéis ao novo perfil de um catolicismo romanizado e ultramontano. Os frades investiram na catequizando índios e educação das elites locais e regionais e. Porém. como o médico Francisco Ayres da Silva e os frades dominicanos. Quanto aos dominicanos vimos que eles estavam inseridos dentro de um projeto conhecido como Reforma da Igreja. Os intelectuais goianos discordaram do enfoque dado aos problemas da região. Enfim. como celeiro da nação e sede da futura Capital da República. seu ímpeto pelas reformas foi barrado pelo medo da reação dos sertanejos. No Congresso Nacional. a criação da revista recolocou os goianos como sujeitos da sua história. Procuramos nas narrativas dos frades a reação dos dominicanos ao relatório Neiva e Penna. em condições de diálogo com os médicos/cientistas. Assim. Percebemos que ela existiu e essas narrativas. consideradas uma tentativa de restabelecer a verdade.

quanto dos intelectuais goianos e dos outros frades. denunciada por Neiva e Penna no relatório. mas em suas memórias deixou registrada uma visão idílica dos mesmos. ao contrário. ele parece tudo querer conservar. ao escrever a biografia do referido bispo afirmou que “sua prudência unida à velha experiência impedia-lhe qualquer protesto violento (. Mas faltou dizer que ele teve o privilégio de conviver por vários anos. j. Entre Sertanejos e índios do Norte. ele teve que deixar os sertões. tanto em Conceição do Araguaia. Maria. Arthur e PENNA. Muito pelo contrário. 790 O próprio Audrin.791 Podemos concluir. Enquanto frei Reginaldo Tournier. Op. a coexistência de tempos históricos diferenciados. Para explicar essa posição tão específica de Audrin. Audrin acompanhou a lenta modificação dos sertões “que ele conheceu”. com a chegada do telégrafo. Nesse sentido. defendemos que Audrin queria a permanência de sua Ordem nos sertões 790 791 NEIVA. Sobre este bispo. 192 . dos seus modos de viver e sentir. contemporâneo do Audrin. por exemplo.227. com Dom Domingos Carrerot.)”. Mas ele não se deixou empolgar pela idéia do progresso. não seria um problema para os sertões. Por fim. dentro da sua instituição e do seu tempo apelamos para a longa experiência de vida do missionário nos sertões. manteve uma distância do médico e dos seus projetos. quanto em Porto Nacional. através dos transportes e das comunicações. essa distância era a garantia da manutenção dos sertões e dos sertanejos dentro de outro ritmo de existência. Nas memórias de Audrin percebemos que os sertões e os sertanejos foram idealizados. da navegação a vapor e do Correio Aéreo Nacional. Audrin. cit. ele foi uma voz discordante. Como vimos.. p.sertanejos. então.208. Ele também discordou da saída da sua Ordem dos sertões. Audrin. p. Na década de 1940. Neiva e Penna disseram: “o frade velho adquiriu os hábitos locais.. um ritmo próprio. cit. específico. os dominicanos trocaram o interior pelas grandes cidades brasileiras e fecharam seus Conventos nos sertões. identificou-se com eles e diz que não troca a vida nos sertões pela civilização da Europa”. que não deveria ser julgado nem como melhor nem pior do que aquele modelo idealizado de civilização. tanto das narrativas de Neiva e Penna. era amigo do médico Francisco Ayres e compartilhava com ele seus projetos de integração nacional. Belisário. Para ele. como impossibilidade da existência de uma nação. ele aprendeu com Dom Domingos a se deixar moldar pelos sertões e pelos sertanejos. Op. afirmando que Audrin não era uma exceção na sua Ordem e nos sertões.

a tentativa de constituir os sertões e os sertanejos. no mais. Os sertões ainda permaneciam longe do litoral. Em todas as narrativas. entretanto. defenderam a permanência dos sertões. O missionário Quinto Tonini. ao mostrar que a diferença não era atraso e que a vida simples não poderia ser confundida com pobreza. independentemente. mais compreensivos. outros. ele tinha uma ligação afetiva com os lugares e as pessoas. conflitantes e confluentes. certamente. apenas apontados. na década de 1950. ao buscar respostas para os problemas de saúde encontrados. Assim. o sonho acabou e os sertões não seriam mais os mesmos. Diferentes olhares sobre o norte de Goiás. através da sua Congregação. depois de tantos anos nos sertões. talvez como Jardim do Édem. no início da década de 1950. ele tinha visto os frutos de um investimento pessoal de vários anos nos sertões. de longe. Visões diferentes. acabou realizando. impossível de identificação. Nos confins dos sertões do Brasil os sertanejos. não teria concordada com as atitudes mais radicais dos missionários italianos da Congregação “Pequena Obra da Divina Providência” que chegaram ao extremo norte de Goiás. alguns tentaram apagar a sua humanidade ou apresentá-la como aberração. outros. ressaltamos o importante papel desempenhado pela Igreja. entre 1916-1959. a abertura de postos médicos. Ele viu que sua Ordem fazia a diferença na região e. Audrin que mesmo valorizando os modos de viver e pensar dos sertanejos não deixou de revelar. francês e frade formado dentro de uma visão de Igreja ultramontana. percebendo valores e contradições. em suas narrativas o seu olhar europeu. como havia preconizado Belisário Penna. 193 . de escolas e hospitais nos sertões não foi obra do Estado. valorizando saberes mas propondo mudanças.porque acreditava naquele projeto. preferiram o meio termo. da Ordem ou Congregação religiosa. ignorância e superstição. como educação e saúde. mas fruto da ação de um missionário estrangeiro e da sua Congregação no extremo norte de Goiás. permanece o desafio de revelar a face dos sertões e dos sertanejos aqui. o propósito de analisar as visões dos sertões goianos presentes no relatório Neiva e Penna e nas narrativas de médicos e padres permitiu a reflexão sobre as diferentes leituras apresentadas. De qualquer forma. a formação de agentes de saúde. Com a saída da sua Ordem de Porto Nacional. parte do sonho de Arthur Neiva e Belisário Penna: sanear os sertões. porém. nos sertões de Goiás. ainda estavam na dependência das ações benevolentes da Igreja para ter direito a serviços essenciais. Finalmente.

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