MINISTÉRIO DA SAÚDE INSTITUTO NACIONAL DE CÂNCER COORDENAÇÃO DE ENSINO E DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA ESPECIALIZAÇÃO EM PATOLOGIA CLÍNICA EM ONCOLOGIA

MECANISMOS DE RESISTENCIA AOS ANTIBIÓTICOS

Juliana Francisco Nunes

RIO DE JANEIRO Fevereiro, 2010

JULIANA FRANCISCO NUNES

MECANISMOS DE RESISTENCIA AOS ANTIBIÓTICOS

Trabalho apresentado ao Instituto Nacional de Câncer como requisito parcial para a conclusão do Curso de Especialização em Patologia Clínica em Oncologia (Nível Médio)

ORIENTADORA: RENATA OLÍCIO JARDIM DOS SANTOS

RIO DE JANEIRO

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Fevereiro, 2010

AGRADECIMENTOS:

Quem tenho eu no céu senão a ti? E na terra não há quem eu deseje além de ti? Aquele a quem amo mais do que a minha própria vida! Mãe, Pai e Irmãs não preciso falar.... À Sophia o grande amor da minha vida: que quando eu mais precisava que dormisse lá estava ela do meu lado me pedindo a “Titita”pra brincar. Lilah que tantas vezes esquentou meus pés ao computador. A minhas amigas, mais que irmãs Aline e Juliana pelo amor e apoio incondicional. Talita, foi você quem me incentivou a fazer a prova. Passei e a culpa é toda sua! Obrigada pelo incentivo! Aos meus líderes Rafael e Lia Quesada: Amo vocês demais!!! A minha “Mami” Renata Garcia Costa pelo apoio e pela força. À Renata que me orientou, não sendo somente no TCC. A Suzan que com incentivos e suas agulhas maravilhosas me ajudaram a ter uma vida mais saudável! Marly, obrigado por tudo!! A Drª Ilda por ter cedido o espaço do Laboratório para esse maravilhoso tempo que passei no HC1. Aos Setores: Micologia, Bacteriologia, Urinálise/ Parasitologia, Radioimunoensaio, Bioquímica, Hematologia, Sorologia, Plantão, Imunologia e Coleta. A todos que direta ou indiretamente me ajudaram a concluir mais uma etapa da minha vida. À Catarina, Santina e Stephanie, que mesmo por alguns meses, agradeço pela companhia no Alojamento e em especial à Catarina que me apoiou e me incentivou a conquistar meus sonhos! Ao pessoal do Alojamento: Muito obrigada pela companhia!

4 Simone Nolasco: sua companhia foi o diferencial! DEDICO À: Aquele que começou a Boa Obra a quem amo mais do que minha própria vida! Papai Eu te amo muito!!!! .

5 SUMÁRIO .

a penicilina. A previsão. A utilização deve ser criteriosa quanto ao uso de antibióticos e laboratório de microbiologia deve ser o suporte fundamental para importantes ações de controle. minando a possibilidade de tratamento. as drogas milagrosas do século XXI. o homem e a bactéria disputam uma corrida e a liderança da competição vem se alterando o tempo todo. A emergência da resistência é o sinal mais evidente de que não está sendo levada a sério. Palavras Chave: Mecanismos de Resistência Bacteriana. um dos seres mais primitivos na face da Terra.6 1. . terminem vencidos pela bactéria. porém. em 1928. à ameaça das doenças infecciosas. A resistência bacteriana é um dos maiores desafios do Controle de Infecções em Serviços de Saúde. RESUMO Desde que Alexander Fleming descobriu o primeiro antibiótico. é de que os antibióticos. ESBL. MBL.

às vezes. terminem vencidos pela bactéria. Pasteur observou que algumas colônias eram capazes de produzir substâncias antagônicas a outros microorganismos. A era moderna da quimioterapia antimicrobiana inicia-se em 1936 com a introdução. compostos fenílicos.7 2. iodados. Alexander Fleming e Ernst Boris Chain iniciaram a utilização experimental desta substância no tratamento de processos infecciosos em seres humanos. Dentre os agentes antimicrobianos (desinfetantes. Pasteur e Jouber foram os pioneiros destes produtos. na clínica. entre outros) utilizados no principio da humanidade. Se isso de fato acontecer. as drogas milagrosas do século XXI. a penicilina. muitos apresentavam elevada toxidade relativa ao paciente. Atualmente a maioria dos antibióticos é produzido . um dos seres mais primitivos na face da Terra. porém. Em 1928. Howard Walter Florey. INTRODUÇÃO Desde que Alexander Fleming descobriu o primeiro antibiótico. das sulfonamidas. o homem e a bactéria disputam uma corrida e a liderança da competição vem se alterando o tempo todo. é de que os antibióticos. quando uma simples infecção de ouvido infantil podia se transformar numa terrível meningite e pequenos cortes. Em 1941. A previsão. que lhes renderam o prêmio Nobel de medicina em 1945. a humanidade fará uma viagem no tempo em marcha ré: voltará à era em que as mulheres morriam de parto por causa de contaminação. em 1928. isto foi o que motivou os pesquisadores a desenvolverem drogas com propriedades mais seletivas e de menor toxidade ao paciente. HISTÓRICO BREVE Em 1877. Fleming contribuiu valorosamente com o primeiro componente através da contaminação acidental de uma colônia de Staphylococcus que foi lisada pelo Penicilium notatum. Em 1941. a introdução da penicilina tornou-se um marco histórico na Medicina por revolucionar os princípios terapêuticos até então usados nas doenças infecciosas. provocavam até complicações fatais.

3. . parcialmente sintéticos (penicilinas semi-sintéticas). OBJETIVOS O Objetivo deste trabalho é estudar os mecanismos de ação dos antibióticos e resistência bacteriana e alertar contra o uso inadequado de antibióticos de amplo espectro evitando assim a ocorrência e incidência de bactérias multirresistentes. alguns podem ser totalmente sintéticos (cloranfenicol) enquanto outros.8 sinteticamente.

cefalosporina e vancomicina que atuam sobre as enzimas responsáveis pela síntese da parede. Como exemplo temos os antibióticos: penicilina. inibindo sua síntese e provocando sua destruição. são denominados antibióticos. CONCEITOS PRINCIPAIS SOBRE ANTIBIÓTICOS Segundo Waksman. produzidos originalmente pelo metabolismo de certas espécies de fungos (griseofulvina. São drogas utilizadas no tratamento de doenças infecciosas. gentamicina. Classificação dos Antimicrobianos 1. penicilina. bacitracina).9 4. assim como os quimioterápicos.bombeamento de drogas para fora da célula. DEFINIÇÃO São substâncias que inibem o crescimento de microorganismos ou os destroem. A bactéria pode adquirir resistência produzindo enzimas (transferases e β-lactamases). tendo como propriedade comum à atividade bactericida (inativação de todos microorganismos) ou bacteriostática (controle do crescimento bacteriano) em condições propícias. sobre microorganismos sensíveis. que apresentam toxidade apenas para o microorganismo invasor. portanto de origem natural. Quando são produzidos de forma sintética. estreptomicina) e bactérias (polimixina B. resguardando a integridade do paciente. que alteram ou degradam drogas.1. por inibição da permeabilidade da membrana plasmática e pelo efluxo de drogas . denominam-se quimioterápicos. Quando estes agentes são originalmente produzidos por espécies de microorganismos. os antibióticos podem ser classificados como substâncias muito diferentes entre si quimicamente. Bactericidas: Atuam na membrana plasmática ou na parede celular AGENTES ANTIMICROBIANOS bacteriana. 4. .

Atuam também sobre os ribossomos. a cada ano. cerca de 100. sejam patogênicas ou não. Os antibióticos são produtos de enorme importância não apenas na área de saúde. Bacteriostáticos: Atuam sobre o material genético bacteriano (cromossomo e plasmídeos) bloqueando a replicação do DNA e a transcrição. não podemos deixar de mencionar o crescente problema em relação ao surgimento de espécies bacterianas resistentes aos diferentes antibióticos. pouquíssimas são efetivamente aproveitadas e utilizadas como agentes antimicrobianos. RNA mensageiro e transportador bloqueando a síntese de proteínas. Paralelamente. visto que muitas destas não atendem aos requisitos mínimos para seu emprego terapêutico. visto que a multirresistência vem se disseminando nas populações microbianas. o cloranfenicol e os novíssimos zyvox e synercidi. as bactérias ficam estáticas e morrem. Como exemplo temos a tetraciclina.000 toneladas são produzidas anualmente.10 2. como também na economia. centenas de novas substâncias sejam descobertas. Este talvez corresponda ao principal desafio de pesquisadores. visto que apenas nos Estados Unidos. Embora aproximadamente 8000 substâncias com atividade antimicrobiana sejam conhecidas e. . Dessa forma.

• Espectro de ação: Refere-se à diversidade de organismos afetados pelo agente. (Adaptado de Madigan et al.. Geralmente os antimicrobianos são de pequeno ou de amplo espectro. Fig. Brock Biology of Microorganisms. onde: A) Dose terapêutica: concentração para tratamento. que atuam especificamente sobre um ou um pequeno número de microrganismos. 1: Exemplos de diferentes drogas antimicrobianas. No entanto. pois se reflete na capacidade de atuar seletivamente sobre o microrganismo. sem provocar danos ao hospedeiro. uma série de laboratórios vem trabalhando em busca de isolar e purificar antimicrobianos de espectro restrito. atualmente os antibióticos comercializados enquadram-se nas categorias de pequeno e amplo espectro de ação (Figura 1). CARACTERÍSTICAS GERAIS DAS DROGAS ANTIMICROBIANAS • Toxicidade Seletiva: característica que todo antimicrobiano deveria apresentar. classificadas de acordo com o espectro de ação. Atualmente.11 5. B) Dose tóxica: concentração a partir da qual é tóxica. Droga que atuam sobre funções microbianas inexistentes em eucariontes geralmente tem maior toxicidade seletiva e índice terapêutico (Penicilina). 2003) . Esta é expressa em termos do índice terapêutico: relação Bactéria/ Antibiótico.

A) Microbiana .são antibióticos naturais. modificados pela adição de grupamentos químicos. Geralmente correspondem a produtos do metabolismo secundário. química ou semi-sintética. meticilina). tornando-os menos suscetíveis microrganismos (ampicilina. b) Não alterar os mecanismos naturais de defesa do hospedeiro. • Quanto à ação: Bacteriostáticos ou Bactericidas Os bactericidas podem ser bacteriostáticos dependendo da concentração. carbencilina.Sulfonamidas. B) Química . Dois parâmetros indicam a eficiência da droga.geralmente por uma ou poucas bactérias (actinomicetos) e vários tipos de fungos filamentosos. C) Semi-sintéticos . Os bacteriostáticos têm sua ação vinculada à resistência do hospedeiro. Isoniazida além de outros antivirais e antiprotozoários. sendo o inverso falso. ou do tipo de organismo. Cloranfenicol. à inativação pelos . • CMI (Concentração Mínima Inibitória): A droga bactericida geralmente elimina o agente em concentrações de 2 a 4 vezes maior que a bacteriostática.12 • Quanto à síntese: Microbiana. Trimethoprim. a) Atingir concentrações efetivas nos tecidos e entrar em contato com o microrganismo.

responsável pela ligação entre as cadeias de tetrapeptídeos do peptidioglicano (Figura 3). há o impedimento da formação das ligações entre os tetrapeptídeos de cadeias adjacentes de peptideoglicano. 2: Principais estruturas ou etapas metabólicas afetadas por antibióticos. Ampicilina e Cefalosporinas: contém em sua estrutura um anel βlactâmico.13 6. Penicilinas. Acredita-se também que tais drogas podem atuar . apresentando um elevado índice terapêutico. 2003) 1) Inibição da síntese da Parede Celular: estes agentes antimicrobianos correspondem aos mais seletivos. (Adaptado de Madigan et al.. Brock Biology of Microorganisms. que interage com proteínas denominadas PBPs (Penicillin Binding Protein ou Proteínas Ligadoras de Penicilina). O conhecimento dos mecanismos de ação destes agentes permite entender sua natureza e o grau de toxicidade seletiva de cada droga (Figura 2). ocasionando uma perda na rigidez da parede celular. Com isso. Fig. MECANISMOS DE AÇÃO DOS ANTIMICROBIANOS Vários são os possíveis alvos para os agentes antimicrobianos. inibindo a enzima envolvida na transpeptidação.

Principles of Microbiology. pois afetam tanto a membrana citoplasmática como a membrana externa.. Ionóforos: Moléculas hidrofóbicas que se misturam na membrana citoplasmática. Resulta na não formação das ligações entre o NAM e NAG. . 2) Ligação à Membrana Citoplasmática: são agentes antimicrobianos que muitas vezes exibem menor grau de toxicidade seletiva. É ainda a droga de escolha para linhagens resistentes de S. entre os fosfolipídeos. Vancomicina: liga-se diretamente à porção tetrapeptídica do peptideoglicano. R. alterando sua permeabilidade (detergentes). Polimixinas: Ligam-se à membrana. resultando na degradação da parede. aureus.3: Mecanismo de ação dos antibióticos β-lactâmicos (Adaptado de Atlas. permitindo a difusão passiva de compostos ionizados para dentro ou fora da célula (Figura 4). São extremamente eficientes contra Gram negativos.M.14 promovendo a ativação de enzimas autolíticas. 1997) Bacitracina: Interfere com a ação do carreador lipídico que transporta os precursores da parede pela membrana. Fig.

5: Diferentes etapas da tradução que podem ser afetadas por agentes antimicrobianos (Adaptado de Atlas. R. 1997). Eritromicina: Liga-se à subunidade ribossomal 50S e inibe a elongação. inibindo a elongação. 4) Inibição da tradução: São geralmente bastante seletivos.M. Correspondem a um dos principais grupos de agentes antimicrobianos. afetando a replicação. bloqueando a transcrição. Fig. . Rifampicina: Ligação à RNA polimerase DNA-dependente.. afetando o desenovelamento do DNA. impedindo sua replicação. transcrição e reparo. Tetraciclina: Liga-se à subunidade ribossomal 30S (sítio A).4: Exemplo de um antibiótico que atua como ionóforo (Adaptado de Atlas. Principles of Microbiology. Novobiocina: se liga a DNA girase. Cloranfenicol: Liga-se à subunidade ribossomal 50S e inibe a ligação do tRNA e da peptidiltransferase. 1997). R.15 Fig. Estreptomicina e Gentamicina: Liga-se à subunidade ribossomal 30S. Principles of Microbiology. impedindo a ligação do aminoacil-tRNA. bloqueando-a e promovendo erros na leitura do mRNA. Interferem com a formação do complexo de iniciação. 3) Inibição da síntese de ácidos nucléicos: seletividade variável. envolvendo várias etapas e diversas moléculas e estruturas (Figura 5).M.. Quinolonas: Inibem a DNA girase. uma vez que a síntese protéica corresponde a processo altamente complexo.

Sulfas e derivados: inibição da síntese do ácido fólico. Trimethoprim: bloqueio da síntese do tetrahidrofolato. Fig. R. R.. inibindo a dihidrofolato redutase."fator corda". pela competição com o PABA (Figura 7). Principles of Microbiology. Principles of Microbiology. .7: Similaridade estrutural entre a sulfanilamida e o PABA (importante precursor da síntese de purinas) (Adaptado de Atlas. 1997).M.6: Exemplos de drogas que interferem com a síntese protéica (Adaptado de Atlas.16 Fig. 1997). 5) Antagonismo metabólico: geralmente ocorre por um mecanismo de inibição competitiva.. Isoniazida: afeta o metabolismo do NAD ou piridoxal.M. inibe a síntese do ácido micólico .

a emergência da resistência ocorre à medida que as bactérias se replicam. até aqueles de condições mais extremas. transposons e até bacteriófagos. È uma característica natural de determinados grupos de bactérias. Dentre os principais mecanismos de resistência podemos citar: Mutação: Cromossômicas. dando vantagens aos mais aptos. Durante o processo de replicação podem ocorrer erros que modifica a seqüência de codificação do DNA e conseqüentemente. criando ambiente muito favorável às bactérias resistentes. ou por recombinação após transferência de genes. As bactérias surgiram na terra há cerca de 3. alteração da . O uso abusivo dos antimicrobianos contribui para aumentar a pressão seletiva dessas drogas. favorecendo as raras bactérias resistentes presentes na população. ou via metabólica alvo. que garante a troca de genes entre as bactérias. tempestades e falta de nutrientes. radiações ultravioleta e cósmicas. pois a cada ano observamos o aumento de linhagens resistentes aos mais diversos agentes antimicrobianos. Sua grande capacidade de adaptação está associada à estrutura genômica. A resistência aos antimicrobianos pode ser de dois tipos: Natural ou Intrínseca: ausência da estrutura.17 7. sendo espécie ou gênero específica e delimita o espectro de atividade dos antimicrobianos. As drogas atuam como agentes seletivos. Estes últimos destroem as bactérias hospedeiras. A resistência intrínseca pode muitas vezes ser utilizada para confirmar a correta identificação de uma bactéria. A causa primária é a mutação espontânea e a recombinação dos genes (reprodução).  Adquirida: Através de mutações espontâneas e seleção. Elas superaram tudo e evoluíram para ocupar hoje todos os habitats. mas podem carregar e espalhar genes bacterianos. em ambientes hostis: temperaturas altíssimas. além de servir como marcador no monitoramento de procedimentos padronizados.5 bilhões de anos. RESISTÊNCIA BACTERIANA Este tema tornou-se um motivo de preocupação crescente entre os profissionais da área de saúde. que criam variabilidade genética sobre a qual atua a seleção natural. usando para isso elementos não cromossômicos: plasmídios.

Transferência de DNA: A Transferência pode ocorrer por: a) Conjugação: É a transferência dos genes de resistência através de plasmídios.8: Esquema de conjugação bacteriana Além do DNA cromossômico. ela é dirigida quase sempre a uma só droga e os genes são transferidos com freqüência relativamente baixa. Eles também possuem genes que permitem sua passagem de uma bactéria para outra (fator F) (Figura 8). as células bacterianas podem conter pequenas moléculas circulares de DNA denominadas plasmídios. Fig.18 informação contida no DNA original. Quando dois ou mais tipos de plasmídios R estão presentes em uma mesma bactéria. Por isso. produzindo células com uma mutação específica que será transferida a futuras gerações. seu impacto clínico é menor que o da resistência plasmidial. Como a resistência cromossômica depende de mutação espontânea. os genes de um deles podem passar para outro por recombinação gênica: . Certos plasmídios possuem genes responsáveis pela síntese de enzimas que destroem um antibiótico antes que ele destrua a bactéria. havendo necessariamente. contato entre as células bacterianas (Figura 8). São os chamados plasmídios R (de resistência aos antibióticos). oferecendo uma vantagem competitiva em seu ambiente e as mutações são consideradas a forma menos freqüente de resistência extrínseca. Algumas mutações são benéficas para a bactéria como resistir à ação de um antibiótico. evento raro.

b) Transdução: A transferência dos genes de resistência é realizada por intermédio de um vírus (Figura 9). Fig. Muitos são promíscuos. c) Transformação: Transferência dos genes de resistência da célula doadora para a receptora sem contato entre as células d) Transposição: Genes determinantes de resistência podem transferir-se de um plasmídeos a outro. para o cromossomo ou para um bacteriófago. O elemento responsável pela transferência é o transposon.9: Transdução à partir de um bacteriófago (vírus). transformação e transdução. Esse mecanismo faz com que surjam plasmídios R portadores de diversos genes para resistência a diferentes antibióticos. sendo capazes de transferir genes cromossômicos.19 conjugação. isto é. . Os plasmídios podem estar integrados no cromossomo. Descobriu-se em 1974 que grande parte dos genes de resistência considerados plasmidiais ou cromossômicos estão localizados sobre transposons e apresentam as propriedades destes: disseminação rápida dentro da célula ou entre célula. passam o gene de resistência para espécies não aparentadas geneticamente.

a penicilinase (β-lactamases) é uma enzima que cliva o anel β-lactâmico inativando a droga.10: Figura esquemática da transposição de genes Impermeabilidade à droga: Muitas bactérias Gram negativas são resistentes à penicilina G por serem impermeáveis à droga. Alteração do sítio de ligação do Antibiótico (alvo): Os antibióticos ligam-se a sítios específicos na bactéria. Por exemplo. Assim. ou por apresentarem alterações em proteínas de ligação à penicilina. Exemplos: Staphylococcus aureus resistente a meticilina. Inativação: Muitas drogas são inativadas por enzimas codificadas pelos microrganismos. produzindo mutações letais (Figura 10). . No caso das sulfonamidas. eles codificam a enzima transposase responsável por sua transferência para outros segmentos de DNA.20 Os transposons são segmentos de DNA com grande mobilidade. diminui a atividade da droga pelo sítio e faz com que haja perda da atividade antimicrobiana. muitos microrganismos são capazes de promover a fosforilação ou acetilação de antibióticos. o antibiótico não pode efetivar a ligação e torna-se ineficiente contra o microorganismo. tais como a adição de grupamentos químicos. Eles são promíscuos: criam as variações invadindo diversos sítios do DNA hospedeiro. Outras drogas podem ser inativadas em decorrência de modificações introduzidas pelo microrganismo. o microrganismo pode também apresentar uma menor permeabilidade à droga. Se esse sítio for alterado. Streptococcus pneumoniae resistente à penicilina. mas às vezes exageram. Essa alteração é físico-química. Fig.

contribuindo para uma concentração inadequada da droga e conseqüentemente.Efluxo da droga: É a propriedade de expulsar ativamente os antibióticos para fora da célula. outro aspecto que vem sendo cada vez mais levado em consideração refere-se à ocorrência dos biofilmes e sua importância na terapêutica antimicrobiana.21 Bombeamento para o meio externo . será necessário um maior conhecimento acerca dos biofilmes formados naturalmente em nosso organismo. ação não efetiva. em bactérias entéricas. Exemplo: No caso da resistência as tetraciclinas. Pois. . pois o conhecimento sobre a ocorrência de biofilmes microbianos em nosso organismo levou a uma quebra do paradigma de tratamento das doenças infecciosas. somente a partir da elucidação da ecologia dos biofilmes naturais do homem. Biofilmes: Mais recentemente. para que os antibióticos possam ser empregados de forma mais eficaz. teremos maiores chances de tratar de forma adequada às várias doenças infecciosas. Certamente.

apresentando uma atividade menor quando comparada as β-lactamases produzidas pelas bactérias Gram-negativas que se situam no meio periplasmático. cefalosporinas e carbapenêmicos.lactamases que são inibidas pelo Ácido Clavulânico. são enzimas que catalizam a hidrolise de amidos.1.22 INATIVAÇÃO ENZIMÁTICA DE ANTIBIÓTICOS 8. Grupo 4: β. Grupo 3: Metalo-β-lactamases que atuam sobre penicilina. Nas bactérias Gram-positivas essas enzimas são secretadas para o meio extra celular. com ação mais eficaz. geralmente inibidas pelo Acido Clavulânico. ante aos antimicrobianos que precisam atravessar esse espaço para atingir seus alvos (PBPs). separando a base do substrato. não inibidas pelo Ácido Clavulânico e inibidas pelo EDTA. por Bush . integrando características funcionais. . Com o avanço das metodologias moleculares. amidinas e outras Ligações C—N (Carbono – Nitrogênio). se conhecem mais de 260 tipos de β-lactamases e novas enzimas são descritas com freqüência. CLASSIFICAÇÃO DAS β-LACTAMASES Em 1989 foi proposta uma classificação. O QUE SÃO β-LACTAMASES? Segundo a definição do Nomenclature Comitte of the Internacional Union of Biochemistry. Essas enzimas podem ser produzidas por diferentes espécies com características distintas.lactamases que não são inibidas pelo Ácido Clavulânico. Grupo 2: β-lactamases de amplo espectro. Essa localização facilita e favorece uma maior concentração. cujo agrupamento inclui enzimas β-lactamases de todos os grupos bacterianos e que correlaciona substratos e propriedades de inibição. Quatro grupos são definidos de acordo com o substrato e os perfis de inibição: Grupo 1: β.

.lactamases tem relação de como e onde foi descoberta. uma jovem paciente grega da qual foi isolado o primeiro microorganismo com essa característica.). Algumas enzimas foram nomeadas segundo a preferência de substratos ou espectro de ação. e as enzimas subseqüentes descritas com estas características foram incorporando diferentes números. CTX etc. O nome da β-lactamase SHV deriva de uma propriedade bioquímica dessa mesma enzima TEM. fechado e circular. O numero de plasmídios pode variar por célula e estão localizados no citoplasma e podem ser replicados e incorporados no cromossomo da célula-filha passando de uma espécie a outra. Muitas bactérias também contém informações em pequenos fragmentos de DNA extra-cromossomial denominada plasmídios. essa diversidade de nomenclaturas contribui para uma falta de sistematização na compreensão e nos estudos dessas enzimas (OXA. A codificação da enzima β-lactamase pode estar no DNA cromossomial ou extra-cromossomial (plasmídeos e transposons).LACTAMASES O cromossomo bacteriano contém todos os genes essenciais para a viabilidade da célula e é único. A βlactamase TEM deriva de Temoniera. IMP. Outro elemento genético importante na resistência bacteriana é o transposon (fragmentos de DNA móveis). ORIGEM DA NOMENCLATURA DAS β-LACTAMASES O nome das β. que podem carregar informações sobre a resistência bacteriana e estão localizados nos plasmídios ou nos cromossomos.23 CODIFICAÇÃO DAS β. porém com variável sulfidrila (SulpHydryl Variable) e também passou a incorporar números para distinguir características menores. PSE. Ao longo dos anos. Essa enzima ficou conhecida como TEM-1.

Citrobacter freudii. Acinetobacter baumani já foram descritos como produtores de ESBL. Enterobacter aerogenes. Citrobacter diversus. Sthenotrophomonas maltophilia. mas existem ambigüidades.. mas não conferem resistência as Cefamicinas (Cefoxitina e Cefotetam) e carbapenêmicos (Imipenem e Meropenem). capazes de hidrolisar a cadeia Oximino-β-lactâmica presente na estrutura química da droga. A expressão da enzima pode ser: a) Constituitiva: a produção enzimática é independente de um agente indutor. Cefotaxima e Ceftriaxona) e monobactâmicos (Aztreonam). Diferentes ESBLs variam em relação a eficiência cinética e o grau de resistência in vitro aos diferentes compostos . Microorganismos como Proteus mirailis. O potencial de indução varia entre os diferentes agentes. a β-lactamase SVH-1. b) Indúzivel: a produção enzimática se manifestará quando a bactéria for exposta ao agente indutor (β-lactâmico). Salmonella spp. em menor grau na Escherichia coli. o que faz com que seu espectro de ação se estenda aos β-lactâmicos de amplo espectro como as cefalosporinas de 3a geração (Ceftazidima. A produção de ESBL ocorre predominantemente em Klebsiela spp. Algumas espécies produzem β-lactamases cromossômicas por via constituitiva ou de forma indúzivel e outras são plasmideo-mediadas. não indúzivel. mas pode ser encontrada em vários patógenos clinicamente importantes e é um problema significativo no tratamento de infecções graves por esses agentes. Enterobacter cloacae.24 CODIFICAÇÃO GENÉTICA DA ENZIMA β-LACTAMASE De um modo geral. Por exemplo. LACTAMASES DE ESPECTRO AMPLIADO – ESBL São enzimas mediadas por genes plasmidiais. Serratia marcescens. as β-lactamases plasmideo-mediadas são diferente sas cromossômicas. também pode se apresentar como βlactamase cromossômica da Klebsiela pneumoniae. comumente um tipo plasmídeos mediada. Pseudomomas aeruginosa.

bactéria).  ampliado (3ª e 4ª geração) impõe limites para a utilização de drogas da classe dos β. os quais alteram configurações e propriedades do seu sítio ativo.  A seleção dos antibióticos para o tratamento e infecções graves por cepas As ESBLs diferem-se entre si (mesma família) por substituições na seqüência de aminoácidos (de 1 a 7). TEM-2 e SHV-1). esta modificação faz com que estas enzimas sejam capazes de hidrolisar antibióticos βlactâmicos como a: Ceftazidima. ESBL é um desafio devido à complexidade do TSA in vitro e a correlação in vivo.: Posição 164 de Ambler nas TEMs.  O TSA tradicional pode não revelar as cepas produtoras de ESBL e determinar a liberação de falsas resistências principalmente relacionadas as cefalosporinas de 3ª e 4ª geração. que reconhecem os antibióticos βlactâmicos de amplo espectro como substrato.lactâmicos. podendo aumentar a prescrição de drogas de amplo espectro como os carbapenêmicos . . 179 nas SHVs e 238 em ambas). muito fracamente. Em contraste como suas “parentes” próximas (TEM-1. Cefuroxima e Aztreonam. o qual produz espaço suficiente para interação entre a enzima e os antibióticos β. como resultado. Cefotaxima.lactâmicos de amplo espectro portadores de grandes cadeias Oxiamino-.25 SIGNIFICADO CLÍNICO DAS ESBLS A emergência dos microorganismos produtores de ESBL tem grande importância clínica e algumas implicações terapêuticas:  Esse mecanismo de resistência é mediado por plasmídios facilitando a A extensão do espectro de resistência para cefalosporina de espectro transmissão horizontal (bactéria . As substituições mais importantes são as mutações que conferem amplo espectro a estas enzimas (Ex. que ampliam seu sítio ativo.

Os aminoglicosídeos também podem ser utilizados se a cepa estudada for suceptível. serem transmitidos via plasmídios. foi considerado o tratamento de escolha. foi verificado que estes fármacos estão também sujeitos ao aumento da concentração inibitória mínima (CIM). embora não se demorou muito para verificar-se sua ineficácia in vivo. pode haver perda de porinas na membrana externa bacteriana. já que inicialmente achava-se que a sua resistência era somente codificada por via cromossomal. Já que a maioria dos microorganimos produtores de ESBLs serem também resistentes aos aminoglicosídeos. existe a possibilidade de transmissão cepa-a-cepa. Um exemplo deste efeito pode ser visualizado em modelos de infecção em ratos. o que leva também à redução na atividade inibitória destes fármacos.26 OPÇÕES TERAPÊUTICAS Existe a possibilidade de tratamento com cefamicinas. fator que pode levar rapidamente a transmissão de resistência a esta classe de fármaco. Relatos demonstram níveis como 95-100% de atividade contra este tipo de microorganismo. com o aumento do inóculo bacteriano. Além do mais. Porém. Além do mais. pode adquirir resistência as cefamicinas. esbarrou-se na característica da maioria das bactérias produtoras de ESBLs. o cefepime não é considerado fármaco de primeira escolha para infecções causadas por microorganismos produtores de ESBLs. Embora estes fármacos demonstrem o mesmo problema apresentado pelas outras cefalosporinas (aumento da CIM. principalmente a gentamicina. verificou-se que o sulbactam e o tazobactam não possuem bons efeitos contra ESBLs codificadas pelos genes SHV. Novamente. alguns estudos vêm demonstrando que esta resistência também pode ser transferida via plasmídios. Outra opção seria a utilização de fluoroquinolonas. Porém. Mesmo quando em combinação com a . com terapias prolongadas a Klebsiella pneumoniae. SHV e CTX-M). A utilização de Β-lactâmicos em associação com inibidores de β-lactamases. As cefalosporinas de 4ª geração demonstram alta capacidade de destruir estes microorganismos in vitro. inicialmente. além disso. Inicialmente. que são geralmente efetivos contra as Enterobactérias produtoras de ESBLs (TEM. possuir este cromossomo. devido aos genes que condificam as ESBL. cefotetan e moxalactam. Atualmente. como a cefoxitina. conforme aumento de inóculo).

Atualmente são conhecidas cinco subclasses de MßL adquiridas: IMP (imipenemase). Estes novos genes que codificam as MßLs foram encontrados inseridos em estruturas genéticas que fornecem mobilidade ao gene. codificada pelo gene blaSIM-1 detectado em sete cepas de Acinetobacter baumannii isolados de um hospital terciário em Seul. SPM (São Paulo metalo-ß-lactamase). e membros da família Enterobacteriaceae. Contudo.27 amicacina ou outro aminoglicosídeo.2. Legionella gormanii. Coréia. também vêm sendo descritas por inúmeros centros de pesquisa distribuídos pelo mundo. temos os carbepenens (Imipenem. Bacillus cereus. pois este uso ainda necessita de mais estudos clínicos antes de ser recomendado como tratamento de escolha. quando foi descrita uma nova subclasse denominada IMP-1. novos genes que codificam MßLs têm sido descritos em patógenos clinicamente importantes. fazendo com que essas enzimas passassem a ser conhecidas como MßLs móveis ou MßLs adquiridas.. A aquisição de carbepenases. spp. Além disso. SIM-1. 8. O primeiro relato de MßL adquirida ocorreu em 1994. principalmente devido a seu peso molecular compacto e sua forma estrutural muito peculiar. METALLO-ß-LACTAMASES As MßLs são produzidas intrinsecamente por determinados microrganismos. Acinetobacter spp.. resistências específicas contra ESBLs codificadas por TEM. Chryseobacterium meningosepticum. Caulobacter crescentus e Aeromonas. VIM (Verona imipenemase. mais recentemente. Meropenem) que possuem ação uniforme contra este tipo de microorganismo. seja in vitro ou in vivo. Finalmente. os carbepenens são altamente estáveis à atividade hidrolítica das ESBLs. Essa enzima foi detectada em uma cepa . como Stenotrophomonas maltophilia. Chryseobacterium indologenes. GIM (German imipenemase) e. SHV e AmpC foram descritas como resultado da perda de porinas. tais como perda de proteínas na membrana externa. sem contar sua ótima penetração através da membrana externa. enzimas capazes de degradar os carbepens. desde o início da década de 1990. como Pseudomonas spp. Mecanismos de resistência a estes fármacos já vêem sendo detectados.

atualmente. já houve relatos da produção dessas enzimas por microrganismos pertencentes à família Enterobacteriaceae. em parceria com o laboratório Bistrol Center for Antimicrobial Research and Evaluation (BCARE). não . Klebsiella pneumoniae isolados de diferentes regiões geográficas. Essas enzimas são mais prevalentes na Europa. foi identificada em amostra de P. entretanto. a segunda subclasse de MßL adquirida descrita foi denominada VIM-1. Durante muitos anos a ocorrência de isolados produtores de IMP-1 foi restrita a esse país. que caracterizou SPM-1 esse novo estar determinante codifica parece especificamente relacionado à espécie P. A SPM-1. no Chile e na Venezuela. As variantes de VIM foram encontradas tanto em microrganismos fermentadores de glicose quanto nos não-fermentadores. denominada IMP-7. aeruginosa 48-1997 recuperada do trato urinário de um paciente hospitalizado no complexo Hospital São Paulo. mais recentemente. Em 1999. como Acinetobacter spp. As enzimas pertencentes a essa subclasse apresentam menor número de variantes atualmente descritas. Pseudomonas spp.28 clínica de Serratia marcescens isolada no Japão. Achromobacter xylosoxidans. a IMP-1 tem sido detectada em diferentes microrganismos. variantes de VIM também foram relatadas na Ásia e. até então. sendo comumente encontradas em bacilos Gramnegativos não-fermentadores (BGNNF). uma vez que. Posteriormente houve diversos relatos dessas enzimas em microrganismos isolados em países da Comunidade Européia. que. A presença dessa enzima foi observada numa amostra de P. quando comparadas às pertencentes à subclasse IMP. No entanto. O primeiro relato de uma MßL no continente americano ocorreu em 2002 por Gibb. da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Pseudomonas aeruginosa. de O Bristol. Análises posteriores revelaram a presença de uma nova enzima. nos EUA. Os autores descreveram a detecção de uma cepa de Pseudomonas aeruginosa num hospital canadense que apresentava alto grau de resistência a ceftazidima e carbepenens. bem como distribuição concentrada em determinadas regiões geográficas. Itália. e Acinectobacter spp. terceira subclasse de MßL adquirida. a qual apresentava fenótipo de resistência a imipenem e cefalosporinas de espectro ampliado. da Universidade de resistência. No entanto. Essa amostra bacteriana foi enviada ao programa SENTRY. aeruginosa isolada em Verona. gene Inglaterra.. aeruginosa. região onde foi originariamente encontrada em 1999. As variantes pertencentes à subclasse IMP parecem ser mais prevalentes na Ásia.

Posteriormente. a mesma parceria avaliou cinco cepas de P. denominada GIM-1. encontrando uma nova e quarta subclasse de MßL adquirida.29 foi detectado em demais microrganismos nosocomiais. Alemanha. aeruginosa provenientes de Dusseldorf. .

de células co-agregadas e grupos de células idênticas. a dinâmica de formação de um biofilme ocorre em etapas distintas. Trends Microbiol. (c) co-adesão de células individuais.. 2003) . muitos autores definem biofilmes como associações de microrganismos e de seus produtos extracelulares. geralmente contendo proteínas ou outros compostos orgânicos. podem ser formados por populações desenvolvidas a partir de uma única. de múltiplas espécies.11: Desenvolvimento de um biofilme. divisão celular e produção do exopolissacarídeo (EPS). com o desenvolvimento de micro-colônias. 11:94-100. que passam a atuar como substrato para a aderência de microrganismos colonizadores secundários. que se aderem a uma superfície. (d) maturação e formação de mosaicos clonais no biofilme maduro. que se encontram aderidos a superfícies bióticas ou abióticas. Fig. originando micro colônias que sintetizam uma matriz exopolissacarídica (EPS). (b) crescimento. ou de múltiplas espécies.. Inicialmente temos os organismos denominados colonizadores primários. originando um biofilme jovem.30 8. As células aderidas passam a se desenvolver. Desta maneira. BIOFILMES – COMUNIDADE INVISÍVEL Os biofilmes são complexos ecossistemas microbianos. Estes colonizadores secundários podem se aderir diretamente aos primários. Geralmente. (Adaptado de Rickard et al. podendo ser encontrados em uma variedade de superfícies bióticas e/ou abióticas. ou promoverem a formação de co-agregados com outros microorganismos e então se aderirem aos primários. (a) Colonização primária de um substrato.

mas também sua evolução e amadurecimento. cateteres. as bactérias presentes nos biofilmes encontram-se mais protegidas contra o sistema imune do hospedeiro. Neste sentido. pois de acordo com os microorganismos que o compõem haverá características físicas. PAPEL DOS BIOFILMES NAS INFECÇÕES Até o momento. A figura abaixo ilustra não somente a estruturação fisico-química de um biofilme. Estas alterações fazem com que cada biofilme seja único. Exemplos típicos de doenças associadas a biofilmes incluem as infecções de implantes tais como válvulas cardíacas. 2) Em bactérias presentes em biofilmes. dependendo das relações estabelecidas pelos microrganismos presentes. de acordo com as pesquisas mais recentes. as bactérias podem ser 1000 vezes mais resistentes a um antibiótico. em pacientes com fibrose cística. acredita-se que possa haver a inativação da droga por polímeros ou enzimas extracelulares. Para tornar o quadro ainda mais grave.31 O biofilme corresponde a uma entidade dinâmica. embora os mecanismos envolvidos nesta resistência sejam ainda pouco conhecidos. quando comparadas às mesmas células platônicas. Em um biofilme. a vasta maioria das doenças infecciosas vem sendo tratada eficientemente com antibióticos. Infecções associadas à biofilmes geralmente são de natureza recorrente. entre outros objetos. ou a ineficiência da droga em decorrência de taxas de crescimento muito lentas no interior dos biofilmes. entretanto. Os biofilmes podem ainda promover doenças se formados em tecidos. ao longo do tempo a composição microbiana dos biofilmes normalmente sofre alterações significativas. tais como nas infecções pulmonares provocadas por Pseudomonas aeruginosa. químicas e biológicas distintas. que são suscetíveis a infecções crônicas por esta bactéria. visto que as terapias antimicrobianas convencionais eliminam predominantemente as formas platônicas. Dentre os possíveis mecanismos. . de acordo com os microrganismos presentes. lentes de contato. deixando as células sensíveis livres para se reproduzir e propagar no biofilme após o tratamento. sabemos que tal tipo de estratégia pode ser ineficaz em duas situações: 1) Com organismos exibindo resistência inata à droga.

os dados são mais alarmantes. Os clínicos devem respeitar as decisões e deliberações das comissões que padronizam o uso de drogas no hospital. O uso indiscriminado. CONCLUSÃO A resistência bacteriana é um dos maiores desafios do Controle de Infecções em Serviços de Saúde. Portanto. à ameaça das doenças infecciosas. humano ou veterinário. irresponsável e ignorante de antibióticos. O uso hospitalar tem de ser altamente controlado. Mostra que de todas as drogas utilizadas. parece ser esse o caminho da volta. passando por um maior controle e conscientização no uso agropecuário e. usado de forma mais racional e prudente em clínica. calcula-se que de 20% a 50% não haja necessidade de uso. terapeutica ou profilaticamente. desde sua venda em farmácias. 20% são usados terapeuticamente e até 80% para uso profilático e promoção de crescimento. um controle mais rígido no uso de drogas. minando a possibilidade de tratamento. A utilização deve ser criteriosa quanto ao uso de antibióticos e laboratório de microbiologia deve ser o suporte fundamental para importantes ações de controle. ou seja. Em um artigo publicado na Inglaterra. Para o uso veterinário. o controle no uso de antibióticos e combate à resistência bacteriana tem de estar alicerçado em dois pontos fundamentais: educação e comunicação. em 1998. pois elas são escolhidas com base na microbiota local e no padrão de sensibilidade dos microrganismos mais encontrados. A área multiprofissional da saúde tem de ser informada e conscientizada do real e grande problema que isso significa. pois é nesse ambiente que se criam com maior freqüência os exemplares multirresistentes. o autor mostra dados relativos ao uso de antibióticos no mundo. 20% são em hospitais e 80% comunitátria. finalmente. passando ainda pelo uso no crescimento animal e propósitos agrícolas.32 10. tem favorecido a essa pressão seletiva. Todos . Por tudo isso. A emergência da resistência é o sinal mais evidente de que não está sendo levada a sério. Desse montante. Da fração de drogas usada em humanos. O uso descontrolado de antimicrobianos sem dúvida foi o que nos levou até a atual situação e selecionou microrganismos altamente resistentes. 50% se destinam a uso humano e 50% ao agroveterinário. mostrando como resultado a seleção e predominância de espécies cada vez mais resistentes.

33 os profissionais de saúde devem estar juntos nesta luta. cada qual exercendo seu papel. se informando e policiando-se cada vez mais. .

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