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POLÍTICAS PÚBLICAS DE COMBATE

A VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER:


EM BUSCA DE NOVAS ESTRATÉGIAS DE AÇÃO

RENATA TEIXEIRA JARDIM


FIJO- FUNDAÇÃO IRMÃO JOSÉ OTÃO
ESPECIALIZAÇÃO PROFISSIONAIS PARA O TERCEIRO SETOR
TRABALHO DE CONCLUSÃO

POLÍTICAS PÚBLICAS DE COMBATE


A VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER:
Em busca de novas estratégias de ação

RENATA JARDIM
Orientadora: Profª. Doutora MARIA BEATRIZ BALENA DUARTE

Porto Alegre
2006
Agradecimentos...
Aos meus pais pelo carinho e
compreensão,
À Maria Cláudia Crespo Brauner,
que muito me inspirou com seus ideais,
À amiga Sandra Ribeiro, por sua
simplicidade e apoio,
À minha cara orientadora Maria
Beatriz Balena Duarte,
Ao João Paulo, pelo seu amor e
exemplo de luta,
E a todos que me
acompanharam nessa jornada.
4

RESUMO

O estudo procura investigar as políticas públicas de combate a violência


contra a mulher no Brasil, bem como das estratégias de ação propostas pelas
Organizações não-governamentais que trabalham com a temática. Para tanto,
se analisa a violência contra a mulher como um fenômeno social numa
perspectiva de gênero. No segundo momento discute-se a violência como
violação de direitos, avaliando sua evolução histórica e comparando com os
atuais direitos das mulheres. Por fim subdivide-se a ações de combate a este
tipo de violência em ações governamentais (federais e subnacionais) e as não-
governamentais, que inspiram novas estratégias de combate à violência contra
a mulher.
SUMÁRIO

RESUMO ............................................................................................................ 4
INTRODUÇÃO.................................................................................................... 6
1 VIOLÊNCIA COMO FENÔMENO SOCIAL ..................................................... 8
1.1 O fenômeno da violência ............................................................................. 8
1.2 Violência contra a mulher............................................................................ 12
2 VIOLÊNCIA COMO VIOLAÇÃO DE DIREITOS............................................ 23
2.1 Evolução histórica dos direitos das mulheres ............................................. 23
2.2 Os direitos das mulheres na norma brasileira............................................. 33
3 POLÍTICAS PÚBLICAS DE COMBATE A VIOLÊNCIA CONTRA A
MULHER ........................................................................................................ 44
3.1 Políticas Públicas do Governo Federal ....................................................... 45
3.2 Políticas Públicas Estaduais e Municipais .................................................. 49
3.3 Em busca de novas estratégias de Ação .................................................... 53
4 CONCLUSÃO................................................................................................ 59
5 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ............................................................. 62
6

INTRODUÇÃO

A sociedade passa hoje por uma crise em suas instituições sociais. Os


novos arranjos familiares e a remodelação dos papéis sociais de homens e
mulheres realizam uma revolução no espaço doméstico. O reconhecimento das
mulheres como sujeitos de direitos surge nesse cenário de revolução. Todas
estas mudanças foram geradoras de conflitos seja a nível estrutural,
interpessoal e social. Vivemos em uma sociedade complexa que é geradora de
problemas complexos, ou seja, problemas de dimensões ilimitadas.

Um desses problemas é violência contra a mulher que esteve por muito


tempo permitida dentro do espaço doméstico. A partir da redemocratização do
país e dos novos direitos conquistados pela Constituição Federal de 1988, as
mulheres passam a exigir mudanças nesse quadro social permissivo. Esta luta
foi iniciada pelo movimento feminista que explodiu na década de 70 no Brasil.

A fim de tratar desse problema social, o movimento feminista passa a


exigir do Estado serviços e ações que busquem enfrentar o problema da
violência contra a mulher. Os primeiros serviços oferecidos para as mulheres
foram as Delegacias para Mulheres e hoje já se conquistou uma Lei específica
de enfrentamento a violência doméstica e familiar contra a mulher.

É esta história de luta pelo fim da violência contra a mulher que se


pretende abordar nesse trabalho. Uma luta que ousa e que colhe frutos.

No primeiro capítulo abordar-se-á o problema da violência contra a


mulher como um fenômeno social através de uma abordagem ampla das
dimensões da violência e, após, a violência doméstica na perspectiva de
gênero.

No segundo capítulo a analise será pelo ponto de vista dos direitos, ou


seja, a violência contra as mulheres como uma violação de direitos. Divide-se a
7

análise em evolução histórica dos direitos das mulheres e dos atuais direitos
das mulheres na norma brasileira.

No último capítulo refletir-se-á sobre as políticas públicas de combate à


violência contra a mulher no Brasil. O estudo foi subdividido nas ações do
Governo Federal, dos Governos Subnacionais e das Organizações não-
governamentais.
1 VIOLÊNCIA COMO FENÔMENO SOCIAL

A violência contra a mulher, apesar de ser uma questão de causas


particulares, é fruto também de fatores sociais que se interligam. Assim,
decidiu-se por analisar no primeiro momento os atos violentos e algumas
dimensões de violência. Tal análise não tem a pretensão de esgotar o assunto,
mas trazer para a discussão fatores que são importantes para o debate à cerca
da violência contra a mulher.

No segundo momento, com base nos fatores já previamente analisados,


passa-se para ao estudo da violência contra a mulher, com enfoque em
gênero. Para a contextualização do fenômeno da violência, citam-se algumas
pesquisas sobre violência contra a mulher.

1.1 O fenômeno da violência

Atualmente a violência é considerada um fenômeno social e histórico da


humanidade1. O termo violência tem sua origem no latim violentia, que remete
ao radical vis, que significa força, vigor, emprego de força física ou os recursos
do corpo em exercer sua força vital. Esta força torna-se violência quando

1
Adotou-se, para o presente estudo, violência como um fenômeno social multiforme. Não há a
intenção de estudar a natureza da violência, mas apenas de que maneira e formas que ela se
manifesta na nossa sociedade hoje. Nosso objetivo é compreender o problema para discutir de
que forma enfrenta-lo.
9

ultrapassa um limite ou perturba acordos tácitos ou regras que ordenam as


relações sociais (ZALUAR, 1999, p. 8).

Sendo um fenômeno multidimensional, as formas violência podem ser


agrupadas em diversas categorias, o que ajuda na compreensão deste
fenômeno complexo (MINAYO, 1990 apud KRONBAUER, 2004; NARVAZ,
2005).

A violência pode ser definida pela perspectiva de danos à pessoa e de


transgressão à norma social. Na perspectiva de danos à pessoa, a violência
pode ser definida como uma ação direta ou indireta, maciça ou esparsa,
causadora de danos em graus variados, seja em sua integridade física, em
suas posses, seja em suas participações simbólicas e culturais (MICHAUD,
1989, p.11). Analisando o conceito citado, Faleiros diz que a violência é
relacional, ou seja, uma relação de agressão e vitimização. Sendo na relação
entre agressor e agredido que se visualiza e se mede o impacto prejudicial, por
ação ou ameaça, gerado pelo agressor ao agredido de forma física, moral ou
psicológica (FALEIROS, 2003, p. 67).

Através de uma análise sociológica, a violência é uma transgressão à


norma social. Um comportamento considerado pela sociedade como ilegítimo
ou inaceitável. Ainda, um ato que transgride as normas sociais e fere os
valores e expectativas de reciprocidade na sociedade. Nesse sentido, a
violência é uma relação entre sujeitos sociais, que prejudica uns e beneficiam
outros através da imposição de vontade dos beneficiados sobre os
prejudicados (FALEIROS, 2003, p. 67).

Estas primeiras considerações dão conta de definir os atos violentos,


porém, para a compreensão do fenômeno da violência é necessário buscar
outras dimensões (FALEIROS, 2003, p. 67).

No âmbito coletivo, as relações sociais e econômicas de uma sociedade


podem ser geradoras de violência. Denominada de violência estrutural, esta se
10

refere à forma de organização socioeconômica e política de determinada


sociedade, que deve ser entendida a partir de condições históricas e sociais
concretas. Atualmente a violência estrutural abrange os fenômenos de
exclusão social, da globalização e das leis do mercado (REDE FEMNISTA DE
SAÚDE, 2005, p. 19).

A violência pode ser compreendida como uma relação de forças na qual


há um desequilíbrio ou um abuso de poder. Essa relação entre violência e
poder é de extrema importância. Diversos Autores já trataram sobre o assunto,
apontam-se alguns.

Hannah Arendt (ARENDT, 1994), trata a violência e o poder como


termos opostos: a afirmação absoluta de um significa a ausência de outro,
portanto a violência destrói o poder. Assim, Arendt desconstrói a relação da
violência com o exercício do poder e a relaciona com a perda do poder
legítimo2. Diferentemente das relações de poder que são baseadas na
persuasão, influência e diálogo, os instrumentos da violência são mudos, e
abdicam do uso da linguagem. Argumentando, ainda, que a violência é por
natureza instrumental, devendo ser justificada e orientada para o fim que se
almeja. E só se justifica quando for uma re-ação imediata (legítima-defesa),
nunca uma ação.

Sobre Violência, escrito por Hannan Arendt entre 1968 e 1969, procurou
investigar a natureza e as causas da violência em suas manifestações
políticas, através de experiências políticas cruciais como a rebelião estudantil,
os conflitos raciais nos Estados Unidos, a glorificação da violência pelos
militares de esquerda, o aumento surpreendente do progresso tecnológico de
produção de meios de violência, o temor da guerra nuclear, lições políticas da
Guerra do Vietnã e dos movimentos de resistência e desobediência àquela, a

2
Poder é a essência de todo o governo que corresponde à habilidade humana para agir em
concerto e nunca é propriedade de um indivíduo, que pertence a um grupo e permanece em
existência na medida em que o grupo está unido. Ela não precisa de justificação, sendo
inerente à própria existência das comunidades políticas, mas precisa de legitimidade já que é
de fato a essência de todo o governo (ALVES; COURA-FILHO, 2001).
11

impotência e o desgaste das democracias sob o comando das máquinas


burocrático-partidárias, a crescente insuficiência e brutalidade das polícias e
outras, que ocorriam na época (DUARTE, 1994).

Apesar de eminentemente político, ou seja, de análise política, essa


visão é útil para explicar o exercício da violência como último recurso do poder
do Estado contra criminosos e rebeldes. Mas também se presta para verificar
as relações de poder na família, na Escola, no Judiciário, que também são
instituições sociais dotadas de certo poder legítimo, bem como nas relações de
poder entre indivíduos.

Mais contemporaneamente, José Vicente Tavares dos Santos


(SANTOS, J., 2001) sinaliza a violência, correlacionando-a com o excesso de
poder e do não reconhecimento do outro:

Deparamo-nos com uma forma de sociabilidade, a violência, na


qual se dá a afirmação de poderes legitimados por uma determinada
norma social, o que lhe confere a forma de controle social: a violência
configura-se como um dispositivo de controle, aberto e contínuo.
Força, coerção e dano em relação ao outro, enquanto atos de
excesso, presentes nas relações de poder – seja no nível macro, do
Estado, seja no nível micro, entre os grupos sociais –, vêm a
configurar a violência social contemporânea. A violência seria a
relação social de excesso de poder que impede o reconhecimento do
outro – pessoa, classe, gênero ou raça – mediante o uso da força ou
da coerção, provocando algum tipo de dano, configurando o oposto
das possibilidades da sociedade democrática contemporânea.
(SANTOS, J., 2001, p. 107 e 108)

Enfrentadas algumas dimensões da violência, pode-se ponderar


algumas conclusões preliminares. A violência não é um conceito estanque,
devendo ser considerado o que cada cultura e sociedade entende por
violência, bem como situa-la conforme o momento histórico vivido (MICHAUD,
1989, p. 12). Por violência, compreende-se como relacional, entre agressor e
agredido e com uso/abuso de poder.
12

1.2 Violência contra a mulher

Com base nas concepções verificadas sobre violência, pode-se passar


para análise específica do presente trabalho: a violência contra a mulher. Para
tanto, o conceito de gênero é essencial para esta discussão. (BARSTED,
2005).

A construção da idéia de gênero deu-se com o movimento de mulheres,


principalmente na década de 70, quando estas buscaram espaço para a
constituição de uma cidadania feminina.

A utilização da categoria de gênero, segundo a historiadora Ana Colling


(COLLING, 2004, p. 28), tem como objetivo introduzir na História a dimensão
da relação entre os sexos, com a certeza de que esta relação não é natural,
mas uma relação social construída e constantemente transformada pela
dinâmica social. Tem sido utilizado, portanto, para teorizar a questão da
diferença sexual, questionando os papéis sociais destinados às mulheres e aos
homens.

A primeira referência para os estudos sobre gênero no país foi da


historiadora e feminista americana (SANTOS, C.; IZUMINO, 2005) Joan W.
Scott, que definiu gênero dividindo-o em duas partes e vários itens:

Minha definição de gênero tem duas partes e diversas subpartes.


Elas estão ligadas entre si, mas deveriam ser distinguidas na análise.
O núcleo essencial da definição repousa sobre a ligação integral entre
duas proposições: o gênero é um elemento constitutivo das relações
sociais fundadas sobre as diferenças percebidas entre os sexos, e o
gênero é um primeiro modo de dar significado às relações de poder.
(...) Mas a teorização de gênero é apresentada em minha segunda
proposição: gênero é a primeira maneira de dar significado as
relações de poder. Seria melhor dizer: que gênero é um campo no
seio do qual, ou por meio do qual o poder é articulado. (SCOTT,
1990, p. 14 e 16)

Scott sinaliza para uma distinção entre sexo e gênero, onde o sexo é a
categoria biológica e gênero é a expressão culturalmente determinada da
13

diferença sexual (COLLING, 2004, p. 29). Nesse sentido, gênero pode ser
definido como uma relação socialmente construída entre homens e mulheres,
servindo como categoria de análise para investigar a construção social do
feminino e do masculino (SANTOS, C.; IZUMINO, 2005, p. 8).

Outra característica do conceito de gênero de Joan W. Scott é deste ser


relacional, ou seja, não é possível analisar homens e mulheres em separado já
que um se define em relação ao outro e que as relações de gênero, como
relações sociais, são permeados pelo poder. Apontando ainda, que como as
desigualdades de poder não existem somente entre gêneros, o conceito de
gênero deve estar articulado aos conceitos de classe e etnia, já que as
desigualdades de poder se estabeleceriam segundo estes três eixos principais
(COULOURIS, 2004, p. 3).

Na mesma linha de pensamento de Scott, Sheila Rowbotham ressalta


que o conceito de gênero não deve “congelar nosso olhar, tornando difícil
enxergar aqueles aspectos da subordinação das mulheres afetadas por outros
fatores sociais” como classe, etnicidade e raça. Segundo a autora, “é
importante perceber o gênero não como um contexto fixo, mas como sendo
constantemente redefinido e modelado pelos indivíduos em situações históricas
particulares nas quais eles se encontram” (SORJ; GOLDENBERG, 1998, p.
366).

O antropólogo e sociólogo Pierre Bourdieu (BOURDIEU, 2005;


BOURDIEU, 2000) trabalha com a questão simbólica das relações de gênero,
que é muito importante para a compreensão do fenômeno da violência contra a
mulher.

Bourdieu explica a construção social das diferenças entre homens e


mulheres a partir do princípio da visão social que divide arbitrariamente o
mundo. Tal princípio funciona como um esquema de percepção, de
pensamento e ação que sugere que a divisão entre os sexos está “na ordem
das coisas”, ou seja, algo que é normal, natural a ponto de ser entendido como
14

inevitável. A incorporação da visão androcêntrica3 na sociedade legitima a


ordem masculina. Esta ordem social funciona como uma imensa máquina
simbólica que tende a ratificar a dominação masculina sobre a qual se alicerça
(BOURDIEU, 2005. p. 17 e 18).

Para Pierre Bourdieu, os princípios da dominação masculina, como a


honra e virilidade masculina ou a virgindade e fidelidade feminina, se inscrevem
no corpo sob a forma de um conjunto de disposições aparentemente naturais,
de maneiras de pensar e agir, criando um éthos, uma crença (BOURDIEU,
2005, p. 63 e 64). O corpo, nesse sentido, é construído pela sociedade como
realidade sexuada e como depositário de princípios de visão e divisão
sexualizantes. Esta percepção incorporada, que se aplica a todas as coisas do
mundo, fundamentou, e ainda fundamenta, como natural e biológica a
diferença socialmente construída entre os gêneros, com base na diferença
anatômica entre os órgãos sexuais masculinos e femininos (BOURDIEU, 2005,
p. 20).

O Autor de A Dominação Masculina vai chamar atenção para uma forma


de poder diferente das tratadas anteriormente: o poder simbólico, que é
gerador da violência simbólica. A partir da idéia de poder dos símbolos, Pierre
Bourdieu define a violência simbólica, que seria o:

poder de construção da realidade, que tende a estabelecer [...]


o sentimento imediato do mundo (e, em particular, do mundo social),
supõem aquilo que Durkheim chama de conformismo lógico, quer
dizer, uma concepção homogênea do tempo, do número, da causa,
que torna possível a concordância entre as inteligências.
(BOURDIEU, 2000, p. 09)

Assim, para este autor, o símbolo é o instrumento da integração social,


pois possibilita o consenso sobre o sentido no mundo4. Para tanto, os símbolos

3
A visão androcêntrica considera o “ser humano do sexo masculino como o centro do universo,
como a medida de todas as coisas, como o único observador válido de tudo o que ocorre em
nosso mundo, como o único capaz de ditar as leis, de impor a justiça, de governar o mundo”
(MORENO, 1999)
4
Nesse sentido, os símbolos, enquanto sistemas simbólicos são instrumentos estruturados e
estruturantes de comunicação e de conhecimento (BORDIEU, 2000, p. 11).
15

são essenciais para o exercício da dominação pois são instrumentos de


legitimação ou de imposição da dominação, contribuindo para assegurar
dominação de um grupo sobre os outros, contribuindo para a domesticação dos
dominados (BOURDIEU, 2000, p. 11).

Ilustrando esta violência simbólica, a historiadora Rachel Soiheit


(SOIHET, 2001), lembra as idéias de inferioridade feminina imposta pela Igreja
Católica, pelos Iluministas e pelos pensadores da época da Revolução
Francesa, que através de um discurso laico afirmavam a inferioridade da razão
feminina como um fato incontestável, devendo ser cultivada apenas para o
cumprimento de seus deveres naturais: obedecer ao marido, ser-lhe fiel e
cuidar dos filhos:

(...) teorias construídas e instauradas por homens, restritivas da


liberdade e da autonomia feminina, que convertem uma relação de
diferença numa hierarquia de desigualdade, configuram uma forma de
violência. As mulheres não são tratadas como sujeito, buscando-se
impedir a sua fala e a sua atividade. Nesta perspectiva, a violência
não se resume a atos de agressão física, decorrendo igualmente, de
uma normatização na cultura, da discriminação e submissão feminina.
(SOIHET, 2001, p. 2)

Para Rachel, com o avanço do processo de civilização nos séculos XVI


e XVIII, a violência bruta foi substituída por lutas simbólicas. E justamente
neste período, a identidade feminina se pautou na interiorização pelas
mulheres das normas informadas em discursos masculinos; fato que
caracteriza uma violência simbólica que supõe a adesão dos dominados às
categorias que embasam sua dominação:

Assim, definir a submissão imposta às mulheres como uma


violência simbólica ajuda a compreender como a relação de
dominação - que é uma relação histórica, cultural e lingüisticamente
construída - é sempre afirmada como uma diferença de ordem
natural, radical, irredutível, universal. (SOIHET, 2001, p. 3)

Retomando o conceito de gênero, a partir das idéias de poder simbólico,


Kergoad (KERGOAD, 1982 apud LOPES 1996, p. 05) afirma que o gênero
“expressa uma ruptura radical com as explicações biológicas das diferenças
entre as práticas sociais masculinas e femininas; ainda, é a afirmação que
16

estas diferenças são construídas socialmente, repousando sobre uma


deliberada hierarquização e têm, portanto uma base material que deve ser
apreendida historicamente”. Para esta Autora, os códigos sociais internalizados
(que transforma o cultural em natural) são geradores e perpetuadores do poder
simbólico:

Tornou-se indispensável mostrar que o que é percebido como


natural por uma sociedade o é porque a condição social é tão forte,
tão interiorizada pelos atores, que ela se torna invisível; o cultural se
torna evidência, o cultural se transforma em natural (KERGOAD, 1982
apud LOPES, 1996, p. 57).

A frase inicial do livro de Simone de Beauvoir que inaugurou o debate


sobre a situação da mulher é conclusiva: “ninguém nasce mulher: torna-se
mulher” (BEAUVOIR, 1980, p. 9). O primeiro passo para a compreensão do
fenômeno da violência contra a mulher, portanto, é o reconhecimento da
construção social das diferenças entre os gêneros, para assim, pensar em
mecanismos de desconstrução desta realidade de desigualdades entre homens
e mulheres.

Para a psicóloga Mariana Azambuja (AZAMBUJA, 2004. p. 271) reunir


os conceitos de gênero e violência não é tarefa difícil, já que o próprio conceito
de gênero pressupõe uma pressão sobre indivíduos para que se insiram nos
padrões culturais sobre o que é ser homem e mulher:

A violência de gênero está presente cotidianamente em quase


todas nossas ações, seja nas idéias veiculadas nos meios de
comunicação, na política, nas leis, no mercado de trabalho, na
economia, na família e etc., mostrando-se nas diferenças entre
remunerações entre homens e mulheres, na responsabilização das
mulheres pelos cuidados com os filhos, nas piadas machistas, na falta
de apoio social para as mulheres que desejam se separar dos
companheiros violentos, etc. (AZAMBUJA, 2004, p. 271 e 272).

Deste modo, para que se possa entender a violência de homens contra


mulheres na perspectiva de gênero, deve-se incluir na análise os processos de
socialização e sociabilidades masculinas e os significados de ser homem na
nossa sociedade:
17

Em geral, os homens são educados, desde cedo, para responder a


expectativas sociais, de modo proativo, em que o risco e a
agressividade não são algo que deve ser evitado, mas experimentado
cotidianamente. A noção de autocuidado, em geral, é substituída por
uma postura destrutiva e autodestrutiva.
Essa noção se desenvolve de diferentes maneiras e em diferentes
lugares (...) Pouco importa o lugar, o que importam são os recorrentes
mecanismos de brutalidade constitutivos do tornar-se homem, pois a
violência é, muitas vezes, considerada uma manifestação tipicamente
masculina para resolução de conflitos. Os homens são, em geral,
socializados para reprimir suas emoções, sendo a raiva, e inclusive a
violência física, formas socialmente aceitas como expressões
masculinas de sentimentos (MEDRADO; LYRA, 2003, p. 22).

E são estas formas socialmente aceitas e muitas vezes estimuladas pela


sociedade que leva aos homens realizarem atos violentos graves contra a vida
de mulheres e deles próprios, conforme se observa nos altos índices de
mortalidade das populações masculinas por causa de homicídios, suicídios e
mortes por acidentes de trânsito (MINAYO, 2001 apud MEDRADO; LYRA,
2003).

Para a feminista Heleieth Saffioti, a perpetuação da violência contra a


mulher é incrementada por diversos fatores que orbitam os três eixos da
sociedade: o patriarcado, racismo e capitalismo5. Cita como exemplo o
mercado de trabalho:

Observa-se um agudo sentimento de impotência, nos homens


desempregados e, sobretudo naqueles que estão sendo vítimas do
desemprego de longa duração, na medida em que perderam, talvez
em definitivo, seu papel social tradicionalmente considerado o mais
importante: o de provedor das necessidades materiais da família.(...)
o poder apresenta duas faces: da potência e da impotência. Não é no
desfrute da potência, mas na tentativa de viver a impotência, ainda
que de forma extremamente desagradável, já que a força e a vitória
estão vinculadas ao masculino, que se perpetra violência. (SAFFIOTI,
2003. p. 31)

Assim, Saffioti (SAFFIOTI, 2003) retoma todos os elementos já


demonstrados anteriormente através da análise de um problema social da

5
Na sociedade capitalista há três projetos, de longa duração, de exploração-dominação: o
projeto da burguesia, que visa a dispor como lhe aprouver da classe trabalhadora; o projeto
dos homens, cujo objetivo consiste em subordinar as mulheres; e o projeto dos brancos de
manter sua supremacia, no caso do Brasil, face aos negros (SAFFIOTI, 2003. p. 37)
18

nossa sociedade, que é gerador de violência, principalmente da violência


contra a mulher.

Para Wânia Pasinato Izumino (IZUMINO, 2003 apud SANTOS;


IZUMINO, 2005) a literatura sobre violência contra a mulher tem usado
“violência de gênero” como sinônimo daquele sem que houvesse de fato uma
mudança conceitual. Segundo esta Autora, o paradigma do patriarcado6 deve
ser abandonado, por ser insuficiente para explicar as mudanças dos papéis
sociais e do comportamento de muitas mulheres diante da violência.
Argumenta que ao se definir violência de gênero como uma relação de
dominação patriarcal, o poder das partes segue sendo concebido como
estático:

Pensar as relações de gênero como uma das formas de


circulação de poder na sociedade significa alterar os termos em que
se baseiam as relações entre homens e mulheres nas sociedades;
implica em considerar essas relações como dinâmicas de poder e não
mais como resultado da dominação de homens sobre mulheres,
estática, polarizada (IZUMINO, 2003. p. 90)

Lia Zanotta Machado também entende que o termo patriarcado remete,


em geral a um sentido fixo, ou seja, a uma estrutura fixa que imediatamente
aponta para o exercício e presença da dominação masculina. Apesar de
acreditar que as relações patriarcais ainda estão presentes na
contemporaneidade, alerta que seu uso implica um sentido totalizador e
empobrece os sentidos contraditórios das transformações. Sugere assim, ao
invés da utilização do termo patriarcado, a utilização do conceito de relações
de gênero, o qual permite construir metodologicamente uma rede de sentidos,
quer divergentes, convergentes ou contraditórios das diferenças de gênero
(MACHADO, 2000. p. 3).

Nesse sentido, diz “ser mais adequado afirmar a persistência


hegemônica de uma dominação masculina na contemporaneidade, sempre, no

6
“(...) como o próprio nome indica, é o regime da dominação-exploração das mulheres pelos
homens.” (SAFFIOTI, 2004. p. 44).
19

entanto, contestada em nome do enraizamento social e cultural da legitimidade


política do código dos direitos individuais à igualdade e liberdade”, bem como
aponta que “mais do que um construtivismo individual de gênero, seria
desejável um construtivismo social e político baseado na desnaturalização da
desigualdade de poder entre o gênero em todas as dimensões da vida social”
(MACHADO, 2000. p. 16).

Atualmente, são identificadas diversas formas de violência contra a


mulher, quais sejam: violência doméstica, violência familiar, violência urbana,
violência comunitária, violência institucional, violência social, violência política,
violência revolucionária, violência simbólica, violência de gênero e violência
estrutural (BOURDIEU, 2005; ODALIA, 1983; STREY, 2001). A tentativa de
classificação é metodológica e não possui universalidade. Todas essas formas
de violência estão interligadas, sobrepondo-se, muitas vezes, umas às outras.
Com base nestas constatações, citam-se algumas pesquisas sobre violência
contra a mulher, que possuem categorias diferenciadas de classificação (REDE
FEMINISTA DE SAÚDE, 2005).

Estudo realizado na década de 907 em diversos países, constatou quatro


fatores fundamentais na prevalência da violência contra as mulheres nas
sociedades estudadas: desigualdade econômica entre homens e mulheres, um
padrão de violência física para resolver conflitos; autoridade masculina;
controle de tomada de decisões e restrições para as mulheres no que se refere
a sair de casa (CARRILLO, 1997 apud BARSTED, 2006).

A primeira pesquisa nacional realizada pelo Instituto Brasileiro de


Geografia e Estatística (IBGE) que englobou os índices de violência contra a
mulher foi em 1988. Os dados informaram que as mulheres eram as maiores
vítimas de violência cometida em casa. Entre as mulheres que disseram ter
sofrido algum tipo de violência, 65% sofreram no lar e 35% em outros lugares.

7
Esta pesquisa teve como base informações de 90 sociedades em todo o mundo, na qual
levantou dados de ocorrências de violência familiar e de estupro, categorias inseridas no rol de
violências contra as mulheres.
20

Porém, a pesquisa não deu conta explicar o fenômeno da violência contra a


mulher, tendo em vista não ter sido levantados outros dados relevantes, como
o sexo do agressor, tipo de vínculo com a vítima, raça e outros (BOSELLI,
2004).

Tendo em vista da precariedade dos dados sobre violência contra a


mulher, a Fundação Perseu Abramo8, por meio do Núcleo de Opinião Pública,
investigou 2.502 mulheres sobre diversos temas envolvendo as condições das
mulheres. Os resultados relativos à violência mostram que o marido é o maior
agressor, apontado como responsável por 70% das “quebradeiras”, 56% dos
espancamentos e 53% das ameaças com armas à integridade física. Em
segundo lugar aparece o ex-marido, ex-companheiro, ex-namorado como autor
das agressões. Das mulheres que sofrem violência sexista, 33% disseram
serem vítimas de violência física: ameaça ou cerceamento (24%), agressão
(22%) e estupro ou abuso sexual (13%).

Outra pesquisa importante sobre conflitos conjugais foi a realizada em


1999 pela Subsecretaria de Pesquisa e Cidadania do IBGE em dois bairros
cariocas9. Nesse universo foi constatado um alto padrão de agressividade e
violência nos conflitos existentes nas relações conjugais, inclusive entre os
casais de classe média. Outro dado relevante é que o grau de escolaridade
não tem relação direta com o uso da violência: 78,6% das pessoas (homens e
mulheres) que se disseram vítimas de violência conjugal (física e emocional)
tinha 2o grau completo ou mais; 65% tinham pelo menos 3o grau incompleto e
45,7 % tinham 3o grau ou pós-graduação (REDE FEMINSTA DE SAÚDE,
2001).

8
Pesquisa “A mulher brasileira nos espaços públicos e privados”, realizada em 2001. O
universo pesquisado foi de mulheres brasileiras, com 15 anos ou mais. Com margem de erro
de mais ou menos dois pontos percentuais para os resultados com o total da amostra (dados
obtidos na secção Metodologia. Para outras informações, acessar: http://www.fpa.org.br/nop/).
9
O levantamento foi realizado em julho de 1999, nos Bairros Tijuca e Maracanã. Foram
entrevistadas 57.755 pessoas casadas, que vivem com o/a companheiro em domicilia
permanente (incluindo-se casais homossexuais), sendo excluídos/as moradores/as de favelas
e conflitos entre namorado/a, ex-namorado/a e filho/filha. Os casos de Violência sexual também
não foram objeto de pesquisa.
21

O Instituto Patrícia Galvão encomendou ao Ibope Opinião (INSTITUTO


PATRÍCIA GALVÃO, 2004), em setembro de 2004, uma pesquisa inédita
sobre violência contra a mulher. A pesquisa trabalhou com uma mostra
representativa da população adulta brasileira e buscou revelar o que pensa a
sociedade sobre o problema da violência contra as mulheres. A pesquisa
revelou um alto grau de rejeição à violência contra as mulheres: 82% dos
entrevistados respondem que “não existe nenhuma situação que justifique a
agressão do homem a sua mulher”. Além disso, 91% consideram muito grave o
fato de mulheres serem agredidas por companheiros e maridos. Ao mesmo
tempo, o velho ditado que afirma que “em briga de marido e mulher não se
mete a colher” ainda tem boa aceitação (66%).

Apesar da opinião pública de rejeição à violência contra a mulher, dados


colhidos pela Fundação Perseu Abramo em 2001 revelam que isto não se
observa nos dados concretos:

A projeção da taxa de espancamento (11%) para o universo


investigado (61,5 milhões) indica que pelo menos 6,8 milhões, dentre
as brasileiras vivas, já foram espancadas ao menos uma vez.
Considerando-se que entre as que admitiram ter sido espancadas,
31% declararam que a última vez em que isso ocorreu foi no período
dos 12 meses anteriores, projeta-se cerca de, no mínimo, 2,1 milhões
de mulheres espancadas por ano no país (ou em 2001, pois não se
sabe se estariam aumentando ou diminuindo), 175 mil/mês, 5,8
mil/dia, 243/hora ou 4/minuto – uma a cada 15 segundos.
(FUNDAÇÃO PERSEU ABRAMO, 2001)

A pesquisa também levantou o vínculo da vítima com o agressor, tendo


sido verificado, novamente, que a violência contra a mulher é cometida por seu
parceiro ou ex-parceiro:

A responsabilidade do marido ou parceiro como principal


agressor varia entre 53% (ameaça à integridade física com armas) e
70% (quebradeira) das ocorrências de violência em qualquer das
modalidades investigadas, excetuando-se o assédio. Outros
agressores comumente citados são o ex-marido, o ex-companheiro e
o ex-namorado, que somados ao marido ou parceiro constituem
sólida maioria em todos os casos (FUNDAÇÃO PERSEU ABRAMO,
2001) .
22

Estes dados revelam que a violência contra a mulher tem sua expressão
maior no ambiente doméstico e é cometida principalmente por seus
companheiros e/ou ex-companheiros. E que, apesar da opinião pública
contrária a este tipo de violência, ela existe em larga escala no Brasil.

Com relação às conseqüências da violência contra a mulher, o


Programa Nacional de Prevenção e Redução da Violência Doméstica e de
Gênero da Secretaria Nacional de Segurança Pública, analisou as
conseqüências da violência contra a mulher, com um enfoque na violência
doméstica10, em três planos:

No plano individual, a violência pode levar a morte da


vítima e freqüentemente produz lesões, cicatrizes deformantes,
mutilações, doenças crônicas, depressão, apatia, baixa auto-estima,
ansiedade, distúrbios do sono, pânico etc. No plano econômico, a
violência consome parte das riquezas do país, por meio de
aposentadorias precoces, faltas e atrasos ao trabalho, baixa
produtividade, consultas médicas etc. No plano social, ela leva,
muitas vezes a delinqüência juvenil, ao comportamento violento por
parte de crianças e adolescentes, vítimas e testemunhas, ao
abandono da casa e da família, trocadas pela vida nas ruas, à
depressão e ao baixo rendimento escolar. (BRASIL, 2003a)

As pesquisas no Brasil sobre violência contra mulher apontam um tipo


de violência prevalente: a violência doméstica conjugal, apesar de ser
amplamente rejeitada pela sociedade. Esta contradição revela fatores sociais
próprios de uma cultura onde há um discurso de igualdade entre os sexos e de
não violência, mas um comportamento que demonstra a incorporação de uma
diferença entre os sexos que inferioriza as mulheres (SANTOS, B., 2000).

10
Violência doméstica: violência que mutila as mulheres (física e psicologicamente), que as
degrada e que as submete, destruindo-as física e psicologicamente, motivada pelo desejo dos
homens de dominá-las e exercer sobre elas o seu poder. (BRASIL, 2003a)
23

2 VIOLÊNCIA COMO VIOLAÇÃO DE DIREITOS

A medida e o limite da violência é estabelecido através de normas e


regras instituídas através do sistema jurídico. Formas de intermediação de
conflitos são temas do direito, ao passo que este deve legislar sobre regras de
convívio, de executar a fiscalização e implementação destas regras, bem como
de cuidar de mecanismos que assegurem a igualdade entre todos. Assim, a
violência deve ser entendida como uma violação de direitos, ao passo que,
para conceituar a violência contra a mulher faz-se necessário estudar a
evolução dos direitos das mulheres, para então se definir que tipos de
violações que são consideradas violência na atualidade.

Para tanto, buscou-se analisar a evolução histórica dos direitos das


mulheres nas normas internacionais, já que é recente a consolidação da noção
de mulheres como sujeitos de direitos internacionais, a partir do levantamento
dos principais documentos internacionais ratificados pelo Brasil. No segundo
momento, por meio do levantamento da legislação brasileira sobre direitos das
mulheres atuais, defini-se os tipos de violência contra a mulher e mecanismos
de proteção.

2.1 Evolução histórica dos direitos das mulheres

Atualmente as mulheres são consideradas sujeitos de direitos. Porém,


nem sempre foi assim. A articulação por um direito à igualdade entre homens
24

e mulheres surgiu na Revolução Francesa, quando as mulheres buscavam


equiparar-se aos homens, reivindicando o direito ao voto e a educação
(BRAUNER, 2003). Porém o ideário da Revolução de igualdade, liberdade e
fraternidade se restringiram aos homens brancos e aristocratas, inibindo a luta
das mulheres ao invés de abrir espaços para conquistas femininas
(MONTEIRO; LEAL, 1998, p. 11).

Ao longo da história, tanto as mulheres como outras categorias sociais,


definidas a partir de sua raça e etnia, de religião e renda foram total ou
parcialmente excluídas do direito de liberdade e participação política.
Relacionando o conceito de cidadania e o de polis11 da antiga Grécia, a
doutrinadora Jacqueline Pitanguy (PITANGUY, 1998, p. 105 a 107) indica que
tais excluídos são considerados cidadãos de segunda categoria ou nem
mesmo são considerados cidadãos, ou indivíduos livres12:

Ao longo da história e através dos séculos, constatamos que o


sexo tem sido um fator de discriminação e exclusão das mulheres,
consideradas cidadãs de segunda categoria ou, simplesmente, não-
cidadãs. Esta exclusão perdurou ao longo do tempo, e em todos os
países – inclusive no Brasil até o ano de 1932 – nos quais era negado
às mulheres o direito ao sufrágio, um exercício básico de cidadania.
Fundamentada na naturalização da condição do sexo, atribuía-se à
biologia e à anatomia da mulher, características que a
desqualificavam para a participação na esfera pública. Ainda hoje, em
alguns países regidos pelo fundamentalismo islâmico, existe uma
total exclusão da mulher na esfera pública. Exemplo mais dramático é
do Afeganistão, onde as mulheres estão submetidas a um regime que
lhes nega o direito a identidade social. Elas não participam da esfera
política e tampouco podem trabalhar, estudar ou mesmo se
locomover livremente nas vias públicas (PITANGUY, 1998, p. 107).

A luta das mulheres por melhores condições de trabalho e pelo


direito á cidadania foram desencadeadas no século XIX. Nos Estados Unidos e
na Inglaterra, a campanha pelo voto feminino durou 70 anos e mobilizou até 2
milhões de mulheres, tornando este um movimento político de massa de
grande importância no século XX (MONTEIRO; LEAL, 1998, p. 14).

11
A origem dos conceitos ocidentais de liberdade e democracia está na polis da antiga Grécia,
onde os homens livres se reunião para legislar e governar.
12
Sobre o conceito de liberdade ver livro de Hannah Arendt, Da revolução (ARENDT, 1998).
25

A proteção internacional dos direitos das mulheres teve início em 191913,


com as primeiras normas internacionais de proteção à maternidade, proibição
do trabalho insalubre e perigoso. Normas estas, de caráter protetivo somente,
influenciaram todas as legislações do mundo, inclusive a CLT14 brasileira
(DORA, 1998, p. 33).

A Declaração Universal dos Direitos Humanos de 194815, trouxe a


igualdade e a autonomia, independente de sexo, e o princípio da não
discriminação, o que avança na idéia de proteção para a participação igualitária
(DORA, 1998, p. 33). Na prática, porém, a idéia de proteção genérica, geral e
abstrata do novo paradigma que se baseia na igualdade formal revelou-se
incapaz de conferir proteção especial às mulheres (PRÁ; NEGRÃO, 2004. p.
217) .

No que se refere aos direitos políticos das mulheres, o primeiro


instrumento Internacional de proteção foi a Convenção para os Direitos
Políticos da Mulher de 195216. Em muitos países, essa Convenção tem como
objetivo assegurar à mulher, nas legislações nacionais, os direitos de votar e
ser votada em qualquer eleição, assim como no exercício de qualquer cargo ou
função pública em igualdade de condições com o homem17 (PINTANGUY;
HERINGER, 2001, p. 46).

13
Ano da fundação da Organização Internacional do Trabalho (OIT).
14
Consolidação das Leis do Trabalho, aprovada pelo Decreto-Lei 5452 de 1º de maio de 1943.
15
No direito internacional, o termo Declaração refere-se a documentos cujos signatários (os
legítimos representantes dos governos) expressam sua concordância com as metas, objetivos
e princípios neles estabelecidos (UNESCO, 1997 apud SEMINÁRIO DIREITO
INTERNACIONAL DOS DIREITOS HUMANOS: SISTEMA GLOBAL E REGIONAL, 2000).
16
No direito internacional, o termo Convenção refere-se a acordos concluídos entre nações,
sendo sinônimo de Tratado e Pacto. Tem o poder de obrigar legalmente os Estados que o
ratificam (UNESCO, 1997 apud SEMINÁRIO DIREITO INTERNACIONAL DOS DIREITOS
HUMANOS: SISTEMA GLOBAL E REGIONAL, 2000).
17
No Brasil o Decreto n. 2.176 estabeleceu o voto feminino nas eleições populares em 1932,
mas apenas em 1982, pela primeira vez, uma mulher ocupou uma pasta ministerial no Brasil e,
em 1978 uma mulher foi eleita suplente para o Senado Federal. A “Lei das Cotas” (Lei n.
9.100/95) determinou que 20%, no mínimo, das mulheres deveriam participar das vagas de
cada partido político ou coligação nas eleições municipais de 1996 (PINTANGUY; HERINGER,
2001, p. 46 e 47).
26

A Convenção Americana sobre Direitos Humanos, assinada na


Conferência Interamericana sobre Direitos Humanos na Costa Rica em 1969,
regulariza o direito a vida e à integridade pessoal com direito fundamental de
todos (JARDIM; BRAUNER, 2005, p. 18):

Artigo 4º Direito à vida


Toda pessoa tem o direito de que se respeite sua vida. Esse direito
deve ser protegido pela lei e, em geral, desde o momento da
concepção. Ninguém pode ser privado da sua vida arbitrariamente.

Artigo 5º Direito à integridade física


Toda a pessoa tem direito a que se respeite sua integridade física,
psíquica e moral.

A análise de ambos os direitos deve ser feita conjuntamente, assim, o


direito à vida se complementa ao direito da pessoa de conservar sua
integridade física. É a faculdade do indivíduo de repelir qualquer agressão
corporal para conservar sua vida em plenitude (PINTANGUY; HERINGER,
2001, p. 38).

A Conferência da Costa Rica demonstra a preocupação das Nações que


com direitos essenciais da pessoa humana, principalmente no que se refere à
pena de morte (art. 4°; §2, §3, §4, §5 e §6), a tortura (art. 5°; §2), e ao
cumprimento de penas de privação de liberdade (art. 5°; §4, §5 e §6).

Por outro lado, mesmo sem possuir uma perspectiva de gênero, estes
dispositivos podem ser aplicados nos casos de violência física contra a mulher.
Porém, a Convenção é mais utilizada quando se debate a questão do aborto
provocado, já que a regularização do direito a vida desde a concepção
(intimamente ligado à cultura cristã) se opõem ao direito da mulher sobre seu
próprio corpo. (DALLARI, 1994).

A luta pelos direitos das mulheres foi revigorada em 1975, quando foi
decretado pela ONU, o Ano Internacional da Mulher, na I Conferência Mundial
da Mulher realizada na cidade do México. Naquela Conferência foram
discutidos temas até então “abafados” como a sexualidade, os direitos
27

reprodutivos, creche e família, além de outros como a igualdade salarial,


acesso profissional, as políticas públicas de gênero e representação política
(MONTEIRO; LEAL, 1998, p. 16 e 17).

A preocupação com a violência contra a mulher surge na Convenção


sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Contra a Mulher
(CEDAW), aprovada pela Assembléia-Geral da ONU no ano de 1979, a qual
inova em seu texto, ao dizer que os Estados têm o dever de adotar medidas
para se opor à discriminação e eliminá-la. Tal entendimento é englobado pelos
demais instrumentos internacionais posteriores (DORA, 1998. p. 33 e 34):

Artigo 1º
Para fins da presente Convenção, a expressão “discriminação contra
a mulher” significará qualquer distinção, exclusão ou limitação
imposta com base no sexo que tenha por conseqüência ou finalidade
prejudicar ou invalidar o reconhecimento, gozo ou exercício por parte
das mulheres, independentemente do seu estado civil, com base na
igualdade de homem e mulher, dos direitos humanos e liberdades
fundamentais nos domínio político, econômico, social, cultural e civil
ou em qualquer outro campo (THEMIS, 1997, p. 59).

O Brasil assinou a CEDAW, com reservas no capítulo da família, pois


em nosso Código Civil vigente aquela época, se atribuía somente ao homem a
chefia da sociedade matrimonial18 (PITANGUY; MIRANDA, 2006. p. 19) .

A luta do movimento feminista pela visibilidade social da violência contra


a mulher e a conseqüente insegurança vividas pelas mulheres no espaço
público e privado foi um marco na história dos direitos das mulheres. Nos
anos 90, influenciados por este movimento internacional, as Nações Unidas
lançam o conceito de segurança humana tendo como foco a proteção das
necessidades vitais das pessoas, incluindo entre elas a ausência de medo
(BARSTED, 2006. p. 250).

Esse novo olhar introduziu na agenda pública o tema da violência, que


atingem diferentemente homens e mulheres. O que significa que as

18
A Constituição de 1988 estabeleceu a igualdade entre homens e mulheres na sociedade
conjugal, com o que o governo revoga suas reservas em relação a CEDAW.
28

vulnerabilidades e os obstáculos à segurança humana são potencializados


quando se considera o fenômeno da violência sob as perspectivas de gênero e
de raça/etnia (BARSTED, 2006. p. 250).

A III Conferência Mundial da Mulher de Nairobi, em 1985, avaliou os


avanços conquistados no período considerado como a “década da mulher”,
estabelecendo um pacto no qual todos os países signatários se
comprometeram com a equidade entre homens e mulheres (MONTEIRO;
LEAL, 1998, p. 17).

Segundo Leila Linhares, foi a partir da década de 70 que “as diversas


Conferências da Mulher, no México (1975), em Copenhague (1980) e em
Nairobi (1985), apontaram a violência de gênero como uma ofensa à dignidade
humana e instaram os Estados-partes a assumirem compromissos voltados
para a sua eliminação” (BARSTED, 2006. p. 250).

A partir desse novo compromisso internacional, de eliminação da


violência de gênero, a Assembléia Geral das Nações Unidas aprovou a
Resolução n. 19 em 1992, que recomenda aos Estados participantes que
cumpram com a CEDWA, através da adoção de “(...) medidas de ordem
jurídica ou de qualquer índole, que forem necessárias, a fim de oferecer às
mulheres proteção eficaz contra a violência cometida contra elas (...)”
(THEMIS, 1997, p. 79).

Apenas em 1993, com a Conferência de Direitos Humanos em Viena19,


ratificada pelo Brasil no mesmo ano, que é dito explicitamente que os direitos
das mulheres são direitos humanos e que a violência contra as mulheres é uma
violação aos direitos humanos. Desde então, os governos dos países-membros
da ONU e as organizações da sociedade civil têm trabalhado para a eliminação

19
A Conferência de Viena, como a do Cairo, 1994 e a de Pequim (Beijing), 1995, não são
Convenções Internacionais, mas Programas de Ação, não sendo fonte legislativa, mas
costumeira.
29

desse tipo de violência, que já é reconhecido também como um grave


problema de saúde pública (DORA, 1998. p. 34) .

No âmbito do sistema regional da OEA (Organização dos Estados


Americanos) de proteção aos direitos humanos, o Brasil adotou em 1995, a
Convenção Interamericana para Prevenir e Erradicar a Violência Contra a
Mulher (Convenção de Belém do Pará, 1994)20, na qual a violência contra a
mulher é definida pela como:

Artigo I – Para efeitos desta Convenção deve-se entender por


violência contra a mulher qualquer ação ou conduta, baseada no
gênero, que cause morte, dano ou sofrimento físico, sexual ou
psicológico à mulher, tanto na esfera pública como no privado.

Artigo II – Entender-se-á que a violência contra a mulher inclui a


violência física, sexual e psicológica:
a) que tenha ocorrido dentro da família ou unidade
doméstica ou em qualquer outra relação interpessoal, em que o
agressor conviva ou haja convivido no mesmo domicílio que a mulher
e que compreende, entre outros, estupro, violações, maus-tratos e
abuso sexual.
b) que tenha ocorrido na comunidade e seja perpetrada
por qualquer pessoa e que compreende, entre outros, violação
sexual, tortura, maus tratos de pessoas, tráfico de mulheres,
prostituição forçada, seqüestro e assédio sexual no lugar de trabalho,
bem como em instituições educacionais, serviços de saúde ou
qualquer outro local, e
c) que seja perpetrada ou tolerada pelo Estado ou seus
agentes, onde quer que ocorra (THEMIS, 1997, p. 185).

Esta Convenção é de extrema importância pois incorporou o conceito de


gênero à definição de violência contra a mulher, explicitando que esta pode ser
física, sexual ou psicológica e que pode ocorrer tanto na esfera pública como
na privada, trazendo um amplo conceito de violência doméstica e intrafamiliar
(PANDJIARJIAN, 2006).

A Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento,


realizada na cidade do Cairo em 1994, centrou em um enfoque mais
abrangente de políticas sociais visando os direitos humanos e a igualdade de
gênero, que extrapolam os aspectos específicos do controle da natalidade,

20
A Convenção de Belém do Pará foi adotada por proclamação na Assembléia Geral da OEA
(Organização dos Estados da América) e ratificada pelo Brasil em novembro de 1995.
30

planejamento familiar e saúde materno-infantil, preocupando-se com os temas


como saúde, direitos sexuais e reprodutivos (JARDIM; BRAUNER, 2005, p.
19).21

Nesta Conferência visou-se promover a eqüidade e a igualdade dos


sexos e os direitos da mulher, eliminando todo o tipo de violência contra a
mulher, garantindo que ela controle sua própria fecundidade, além de afirmar
que as mulheres têm o direito individual e a responsabilidade social de decidir
sobre o exercício de sua maternidade, assim como o direito à informação e
acesso aos serviços para exercer tais direitos e responsabilidades. Enquanto
que o homem tem a responsabilidade pessoal e social, a partir de seu
comportamento sexual e fertilidade, pelos efeitos dessas decisões na saúde e
bem estar de suas companheiras e filhas (PITANGUY; HERINGER, 2001. p.
129).

A Declaração e Plataforma de Ação da IV Conferência Mundial da ONU


sobre a Mulher, realizada em 1995, em Pequim (Beijing, como chamada na
Ásia), também destacou o tema da violência contra a mulher. Sua plataforma
de ação incluiu um capítulo inteiro sobre esse tema e considerou a violência
contra as mulheres como um obstáculo à igualdade, ao desenvolvimento e à
paz. A plataforma chamou a atenção para o reconhecimento e a proteção da
liberdade das mulheres de tomarem decisões sobre suas vidas, incluindo as
decisões nos campos da sexualidade e da reprodução, sem coerção,
discriminação ou violência (BARSTED, 2005, p. 57). Declarando, ainda, o
estupro em conflitos armados como um crime de guerra, que poderia, sob
certas circunstâncias, ser declarado genocídio (REDE FEMINISTA DE SAÚDE,
2001, p. 30). Destaca-se que o Brasil assinou, sem reservas, ambas
(BARSTED; HERMANN, 1999).

21
Contudo a liberdade de expressão sexual e a orientação sexual jamais receberam
reconhecimento como um direito humano, nem na Conferência do Cairo, nem em qualquer
outra.
31

A IV Conferência sobre a Mulher é acima de tudo, relativa a questão da


violência doméstica, preocupando-se com medidas de prevenção, punição e
apoio para a vítima e agressor:

(...) prevendo que são necessárias, além das medidas punitivas,


ações que estejam voltadas para a prevenção, e, ainda medidas de
apoio que permitam, por um lado, à vítima e à sua família ter
assistência social, psicológica e jurídica necessárias à recomposição
após a violência sofrida e, por outro, que proporcionem a
possibilidade de reabilitação dos agressores (PITANGUY;
HERINGER, 2001. p. 58).

Para a feminista Telia Negrão (NEGRÃO, 2004, p. 219), os instrumentos


internacionais de combate à violência contra a mulher da ONU prevêem
medidas de impacto crescente em cada país que o adotou e tem como meta de
longo prazo a mudança dos padrões culturais calcados na concepção patriarcal
de sociedade nas desigualdades.

Como medidas recomendadas por estes instrumentos estão: à revisão


das legislações nacionais que possam ser discriminatórias e que podem impor
obstáculos a cidadania das mulheres; a busca de nova legislação nacional que
aponte para a igualdade formal de direitos, seguidas de tipificações de crimes,
suas proibição e penalização; ações concretas nos campos econômico, social,
político, familiar, da saúde, dos direitos sexuais e reprodutivos, entre outros;
implementação de ações que visem o acesso das mulheres a um melhor
padrão de inserção social; e a utilização de medidas especiais de caráter
temporário destinadas a acelerar a igualdade entre homens e mulheres, com
destaque especial ao acolhimento e proteção às mulheres vítimas de violência
e seus filhos em abrigos e redes de serviços. Já as políticas públicas,
programas, ações e serviços são considerados pelas Nações Unidas como
mecanismos de proteção e prevenção a violência contra a mulher (NEGRÃO,
2004, p. 219 e 218).

No sistema nacional, as Convenções e Declarações sobre Direitos


Humanos ao serem ratificados e aprovados pelo Congresso Nacional
comprometem legalmente o governo, uma vez que passam a fazer parte do
32

ordenamento jurídico existente, podendo ser utilizados em resoluções


proferidas em sentenças ou como orientação para políticas públicas do Estado.
Exercem duplo grau de ação no Estado, tornando, assim, de extrema
importância na construção e efetivação dos direitos das mulheres (BUGLIONE,
2002). Já as Plataformas de Ação, aprovadas no ciclo das Conferências
Mundiais da ONU para a construção de uma agenda social para o século XXI,
podem ser consideradas um conjunto de princípios gerais do direito e utilizadas
na aplicação da lei pelo Poder Judiciário. Para tanto, são importantes
instrumentos para o combate à violência de gênero (REDE FEMINISTA DE
SAÚDE, 2001, p. 22).

É importante destacar que no Brasil o status dos Tratados, Convenções


e Declarações assinados em fóruns internacionais não é pacífico. A doutrina
orienta no sentido de dá-los status constitucional, através da interpretação do
art. 5º, § 2 em harmonia com o § 1º desse mesmo art., c/c art. 1º, III e art. 4º, II;
todos da Carta Magna. Porém o Supremo Tribunal Federal jamais decidiu
neste sentido, dando a estes instrumentos internacionais status de lei federal
(BUGLIONE, 2002).

Visando dirimir os conflitos existentes sobre o assunto, em 2004, foi


aprovada a Emenda Constitucional n. 45, que inseriu o § 3o no artigo 5o da
Constituição Federal:

o
Artigo 5
...
o
§ 3 Os tratados e convenções internacionais sobre direitos humanos
aprovados, em cada Casa do Congresso Nacional, em dois turnos,
por três quintos dos votos dos respectivos membros, serão
equivalentes às emendas constitucionais.

Esta norma dá aos Tratados e Convenções Internacionais sobre direitos


humanos status constitucional, o que significa um grande avanço para os
direitos humanos das mulheres no Brasil.
33

Na opinião de Flávia Piovesan (PIOVESAN, 1997, p. 59), pode-se dizer


que nosso país não só assinou todos os documentos relativos ao
reconhecimento e às proteções aos direitos humanos das mulheres, como
apresenta um quadro legislativo bastante avançado no que se refere à
igualdade de direitos entre homens e mulheres. No entanto, muito ainda tem
que ser feito no campo do legislativo.

Uma das dificuldades apontadas por Piovesan é compatibilizar ações na


área dos direitos humanos com modelos de desenvolvimento econômico e
político excludentes e, portanto, incompatíveis com esses mesmos direitos.
Porém, os Tratados, Convenções Internacionais e as Declarações oriundas das
Nações Unidas gera uma espécie de “cultura” jurídica que fortalece os
movimentos sociais nacionais organizados em torno da luta pela equidade na
lei e na vida.

2.2 Os direitos das mulheres na norma brasileira

A Constituição Federal de 1988 (em vigência atualmente no Brasil)


simboliza um marco fundamental na instituição da cidadania e dos direitos
humanos das mulheres no Brasil. O texto constitucional inaugura os princípios
democráticos e rompe com o regime autoritário militar instalado em 1964
(PITANGUY; MIRANDA, 2006, p. 23).

A Carta Constitucional de 1988 traz, de forma inédita para o direito


brasileiro, a igualdade de direitos entre homens e mulheres como um direito
fundamental (artigo 5o, §1o). Contrariando o Código Civil Brasileiro22 vigente

22
Em 1988 estava em vigor o Código Civil de 1916, que foi substituído pelo atual Código Civil,
que entrou em vigor em 2003. “O texto de 1916 privilegiava o ramo paterno em detrimento do
materno; exigia a monogamia; aceitava a anulação do casamento face à não-virgindade da
mulher; afastava da herança a filha de comportamento ‘desonesto’ e não reconhecia os filhos
nascidos fora do casamento. Por esse Código, com o casamento, a mulher perdia sua
capacidade civil plena, ou seja, não poderia mais praticar, sem o consentimento do marido,
inúmeros atos que praticaria sendo maior de idade e solteira. Enfim, o Código de 1916
34

àquela época, a Constituição Federal instituiu a igualdade entre os gêneros na


família (artigo 226, §5o), quando estabeleceu que os direitos e deveres
referentes à sociedade conjugal são exercidos igualmente pelos homens e
pelas mulheres (PITANGUY; MIRANDA, 2006, p. 23).

A Constituição de 1988 reconhece, ainda, a união estável entre o


homem e a mulher como entidade familiar (artigo 226, §3º), acrescentando que
os filhos, havidos ou não da relação de casamento, ou por adoção, terão os
mesmos direitos e qualificações, proibidas quaisquer designações
discriminatórias relativas à filiação, conforme artigo 227, § 6º (PIOVESAN,
2006, p. 47).

No âmbito dos direitos trabalhistas a Constituição de 88 assegura o


direito a licença maternidade (de 120 dias); a licença paternidade (de 5 dias);
proíbe diferenças salariais, de exercício de funções e de critérios de admissão
por motivo de sexo, idade, cor ou estado civil, bem como assegura às
empregadas domésticas: salário mínimo, irredutibilidade de salário, 13o
salário, jornada de 6 horas de trabalho ininterrupta, férias remuneradas, licença
maternidade, aposentadoria, bem como sua integração à previdência social
(artigo 7o , XVIII, XIX, XXV,XXX e § único respectivamente).

Antecipando-se a Conferência de Direitos Humanos Viena, a


Constituição do Brasil reconheceu, ainda, o dever do Estado de prevenir e
atuar diante da violência intrafamiliar (PITANGUY; MIRANDA, 2006. p. 21).
Reconhecendo desta maneira, a violência doméstica que, conforme já ilustrado
nas pesquisas citadas no item 1.2 do presente trabalho, que no Brasil é a forma
mais comum das violências contra a mulher.

O atual Código Civil Brasileiro, que entrou em vigor em 2003, incorporou


os novos preceitos da Carta Constitucional, expandindo os direitos das
mulheres brasileiras ao definir: que a direção conjugal e o poder familiar são

regulava e legitimava a hierarquia de gênero e o lugar subalterno da mulher dentro do


casamento civil” (PITANGUY; MIRANDA, 2006, p. 23).
35

compartilhados pelo casal; a substituição do termo “homem” pela palavra


“pessoa”, quando usado genericamente para se referir ao ser humano; a
faculdade do marido adotar o sobrenome da mulher, bem como que a guarda
dos filhos passa a ser do cônjuge com melhores condições de exercê-la
(PIOVESAN, 2006, p.49).

Apesar das inovações trazidas pelo novo Código Civil, é importante


destacar que, tendo em vista a longa vigência do Código Civil de 1916, a
cultura jurídica brasileira e o senso comum da sociedade ainda estão muito
influenciados pela ideologia do antigo Código Civil, particularmente no que se
refere às desigualdades entre homens e mulheres (BARSTED, 2006, p. 275).

Importante passo dado pelo governo, no que se refere à violência contra


a mulher, foi a regulamentação, por meio da Portaria no 2.406/2004 do
Ministério da Saúde, da notificação compulsória de violência contra a mulher no
atendimento prestado em quaisquer serviços de saúde, sejam públicos ou
privados. Assim, sempre que uma mulher se dirigir a um serviço de saúde para
ser atendida em razão de lesões provocadas pela violência doméstica ou
sexual, o profissional que realizar o atendimento terá que emitir uma notificação
ao Serviço de Vigilância Epidemiológica, ou outro, da Secretaria Municipal de
Saúde. Estas informações formam uma base de dados integrada sobre a
violência contra a mulher, colaborando para traçar o perfil das vítimas e
agressores, além de dimensionar com mais precisão a amplitude do fenômeno
da violência contra a mulher e servir de base para a elaboração de políticas
públicas para as mulheres (INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA
APLICADA, 2005, p. 142).

Outra conquista relevante para os direitos das mulheres foi a Lei


10.886/04 que cria como tipo especial de lesão corporal a violência
23
doméstica , modificando o artigo 129 do Código Penal:

23
Referida lei acrescenta ao artigo 129 do Código Penal Brasileiro o tipo penal especial
o o
violência doméstica, acrescendo os parágrafos §9 e §10 .
36

Violência Doméstica
o
§ 9 Se a lesão for praticada contra ascendente, descendente, irmão,
cônjuge ou companheiro, ou com quem conviva ou tenha convivido,
ou, ainda, prevalecendo-se o agente das relações domésticas, de
coabitação ou de hospitalidade:
Pena – detenção, de 6 (seis) meses a 1 (um) ano.
o o
§ 10. Nos casos previstos nos §§ 1 a 3 deste artigo, se as
o
circunstâncias são as indicadas no § 9 deste artigo, aumenta-se à
pena em 1/3 (um terço).

A inovação desta Lei foi a de dar visibilidade para o crime de violência


doméstica ao tipificar como tipo especial de lesão corporal, bem como do
aumento de pena (1/3) nos casos de lesão corporal de natureza grave (§ 1 e §
2 do artigo 129 CP) e lesão corporal seguida de morte (§ 3 do artigo 129 CP)
que seja praticada em circunstâncias de violência doméstica.

Considerado arcaico e discriminatório, o Código Penal foi novamente


modificado pela Lei nº- 11.106, de 28/3/2005. No que se refere à violência
contra a mulher, houve modificações pertinentes: pôs fim a extinção de
punibilidade do estuprador que se casasse com a vítima ou quando esta se
casasse com outro e não requeresse o prosseguimento do inquérito ou da ação
penal; descriminalizou os crimes de sedução, adultério e de rapto; ampliou a
punição para o crime seqüestro e cárcere privado; retirou o qualificativo
“honesta” na caracterização da vítima mulher, nos crimes de posse sexual
mediante fraude e do atentado violento ao pudor mediante fraude; ampliou as
situações de aumento de pena nos crime de estupro, incluindo os casos em
que o agente for madrasta, tio, cônjuge ou companheiro; além de tipificar o
tráfico internacional de pessoas (PITANGUY, MIRANDA, 2006, p. 28)

Mas, conforme salienta a especialista Leila Linhares Barsted, essas


alterações fundamentais introduzidas no Código Penal não incluíram a
descriminalização do aborto ou mesmo a ampliação dos permissivos legais
para a interrupção voluntária da gravidez além dos listados no artigo 128, II, do
Código Penal, apesar de o Estado brasileiro ter assinado os Planos de Ação
37

das Conferências realizadas no Cairo, em 1994, e em Pequim, em 1995.


(BARESTES, 2006, p. 279).

As mudanças do Código Penal foram, em grande parte, aquelas


indicadas nas Recomendações do Comitê da Convenção para a Eliminação de
todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres (CEDAW), por ocasião
da apresentação do Relatório Nacional Brasileiro, em 2004. O Comitê também
recomendou que o Brasil elaborasse uma lei sobre violência doméstica contra
as mulheres (PITANGUY, MIRANDA, 2006, p. 28 e 29), o que nosso país
recentemente concretizou com a Lei 11.340/06.

Os casos de violência contra a mulher mais comum são os crimes de


violência doméstica (artigo 129, § 9, do Código Penal) e os de ameaça (artigo
147 do Código Penal), ambos cometidos pelo cônjuge ou companheiro da
mulher24. Até o advento da Lei11.340/06 os crimes de violência doméstica e
familiar eram tipificados no nosso Código Penal como crimes de menor
potencial ofensivo, incidindo sobre eles a Lei dos Juizados Especiais (Lei
9.099/95)25. A lei 9.099/95 era muito criticada pelos doutrinadores tendo em
vista sua não adequação para a violência contra a mulher.

Pesquisa realizada em cinco Juizados Especiais Criminais, constatou


que a etapa de conciliação nestes juizados é muito rápida, em geral, realizada
em menos de cinco minutos. O perfil hegemônico dos conciliadores é de
jovens, na maioria das vezes estudantes de direito. De regra esses jovens
conciliadores partem diretamente para a aplicação de multa, mesmo sem a
presença do representante do Ministério Público e sem, ao menos, ouvir as
partes envolvidas no processo, tudo em nome da “agilidade”. No final desse
procedimento, os acusados acabam aceitando, mesmo que contrariados, a

24
Conforme pesquisas e estudos na área de violência contra a mulher, sendo alguns citados
no item 1.2 do presente trabalho. Outros estudos: AZEVEDO, Rodrigo. Conciliar ou punir?
Dilemas do direito penal na época contemporânea. In: Diálogos sobre justiça dialogal. Rio de
Janeiro: Lúmen Júris, 2002. e BURGOS, Marcelo Baumann. Conflito e sociabilidade: a
administração da violência pelos juizados especiais criminais. In: Cidadania e Justiça. Revista
ABM. Rio de Janeiro, 2001.
25
IA incidência foi vedada pela Lei 11.340/06.
38

pena antecipada de multa, sem sequer compreender seu significado ou saem


achando que a causa mais uma vez foi ganha (VIANNA, 1997 apud MASSULA;
MELO; 2003).

Esse modelo é totalmente inadequado para demandas que versam


sobre violência doméstica contra a mulher, uma vez que é uma situação que
tende a se repetir e na qual a vítima e agressor dividem o mesmo espaço
doméstico. Na sua prática, a Lei dos Juizados Especiais Criminais resolvem os
processos e não os conflitos entre as partes. A vítima, que deveria gozar maior
satisfação e respaldo nesse sistema, retorna para a casa frustrada com a
banalização que o sistema penal trata de seu problema (MASSULA; MELO;
2003).

Para Leila Linhares Barsted26 a Lei 9099/95 ao propor como medida


preliminar à conciliação entre as partes, não considera as relações de poder
que estão presentes no espaço doméstico e familiar em detrimento das
mulheres.

Na mesma linha, Carmem Campos afirma que a Lei 9.099/95, quando


analisada na perspectiva do paradigma de gênero, é totalmente inadequada
para julgar os conflitos domésticos. Pautada nas recomendações do Comitê da
CEDAW, a Autora fala da importância de uma legislação sobre a violência
doméstica que vise a prevenção de novas violências e crie medidas que
possam fazer o agressor de abster-se de praticar o comportamento violento.
Indicando, ainda, que essa nova legislação não deve ser pensada no direito
penal, mas no direito civil (CAMPOS, 2003).

Recentemente o Presidente da República sancionou a Lei Maria da


Penha (Lei 11.340 de 07 de agosto de 2006, em vigor a partir do dia 22 de

26
Opinião extraída da Reportagem “Resposta efetiva à Violência contra a mulher” (RETS –
Revista do Terceiro Setor, de 12/08/2005).
39

setembro de 2006) que cria mecanismos para coibir e prevenir a violência


doméstica e familiar contra a mulher27.

A Lei Maria da Penha traz inúmeras alterações na legislação brasileira e


cria outras tantas novas regras. Entre elas podemos destacar:

1. tipifica e define a violência doméstica e familiar contra a mulher,


estabelecendo suas formas (física, psicológica, sexual, moral e
patrimonial).

2. define as diretrizes das políticas públicas e medidas integrativas de


prevenção e erradicação da violência doméstica e familiar contra as
mulheres. Prevendo um conjunto articulado de ações governamentais,
não-governamentais, destacando a integração operacional de órgão
do poder judiciário, Ministério Público, Defensoria Pública, Segurança
pública, assistência social, saúde, educação, trabalho e habitação.

3. prevê a assistência à mulher em situação de violência doméstica e


familiar de forma articulada e conforme os princípios e diretrizes do
serviço de assistência social, de saúde, de segurança pública e outros.

4. determina novos procedimentos para o atendimento pela autoridade


policial nos casos de violência doméstica familiar contra a mulher.

5. retira a competência da Lei 9.099/05 para julgar os casos de violência


doméstica e familiar contra a mulher.

27
Maria da Penha é militante dos direitos das mulheres que, por duas vezes, foi vítima de
tentativa de assassinato pelo marido. Por causa disso, ela ficou paraplégica, mas o agressor só
foi punido 19 anos e 6 meses depois, assim mesmo com uma pena de apenas 2 anos de
reclusão. Em decorrência da impunidade, em 2001, o Brasil foi responsabilizado por
negligência e omissão em relação à violência doméstica, pela Comissão Interamericana de
Direitos Humanos (Dados obtidos no site de notícias da Secretaria Especial de Políticas para
as Mulheres em 06/08/2006). Mais informações: FERNANDES, Maria da Penha. Sobrevivi...
posso contar. Fortaleza: Edição do autor, 1994. 151p.
40

6. prevê a criação de Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra


a Mulher de competência cível e criminal para processar, julgar e
executar causas decorrentes da prática de violência doméstica e
familiar contra a mulher.

7. cria um procedimento especial para os Juizados de Violência


doméstica e familiar contra a mulher: admitindo a renúncia do
processo somente na audiência; vetando a aplicação de penas de
prestação pecuniárias e de cestas básicas; vedando a entrega da
intimação pela mulher; prevendo notificação à ofendida dos atos
processuais; determinando o acompanhamento de defensor à
ofendida em todos os atos processuais e possibilitando a prisão em
flagrante.

8. prevê medidas inéditas de proteção à mulher em situação de violência


doméstica e familiar. As medidas, que variam conforme o caso, devem
ser determinadas pelo juiz em 48 horas e vão desde a saída do
agressor do domicílio e a sua aproximação física junto à mulher
agredida e filhos, até o direito da mulher de reaver seus bens e
cancelar procurações conferidas ao agressor.

9. alteração do artigo 61 Código Penal para considerar a violência


doméstica familiar contra a mulher como agravante genérica de pena.

10. alteração do artigo 129, § 9 (violência doméstica) para aumentar a


pena máxima de 1 ano para 3 anos e diminuir a pena mínima de 6
meses para 3 meses.

11. alteração do artigo 129, para acrescentar a hipótese de aumento de


1/3 da pena dos casos de violência doméstica e familiar contra a
mulher portadora de deficiência física.
41

12. alteração do artigo 313 do Código de Processo Penal para acrescentar


a hipótese de prisão preventiva nos crimes de violência doméstica e
familiar, qualquer que seja a pena aplicada.

13. alteração do artigo 152 do da Lei de Execuções Criminais para


acrescentar a permissão ao juiz que determine o comparecimento
obrigatório do agressor a programas de recuperação e reeducação.

14. cadastramento dos casos de violência doméstica e familiar contra a


mulher pelo Ministério Público.

15. previsão de equipe multidisciplinar para atuarem junto aos Juizados de


Violência Doméstica e Familiar.

Referida lei é fruto do Projeto de Lei28 elaborado por um Grupo de


Trabalho Interministerial, composto de 8 ministérios, baseado em um
anteprojeto de um consórcio de organizações não-governamentais. O Projeto
foi apresentado ao Congresso Nacional pelo governo federal em 25 de
novembro de 2004. Tanto na Câmara dos Deputados como no Senado o
Projeto de Lei sofreu algumas alterações endossadas pelo governo, após
amplo processo de audiências públicas (14) em assembléias legislativas em
todo o país29.

As mudanças realizadas pelo Congresso Nacional no Projeto de Lei


original referem-se a adequações orçamentárias e financeiras, algumas
substituições de termos, entre outras. Mas a que mais se destaca foi a retirada
do crime de violência doméstica e familiar do âmbito da Lei 9.099/99, além de

28
O Projeto de Lei de Não-Violência contra a Mulher pode ser consultado através do site da
Secretaria Especial de Políticas Públicas para as Mulher
(http://www.planalto.gov.br/spmulheres/legislacao/index.htm).
29
Informações obtidas através do site da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres
(http://200.130.7.5/spmu/noticias/2006/noticias_06_08.htm), da Câmara dos Deputados
(http://www2.camara.gov.br/proposicoes/loadFrame.html?link=http://www.camara.gov.br/interne
t/sileg/prop_lista.asp?fMode=1&btnPesquisar=OK&Ano=2004&Numero=4559&sigla=PL) e do
Senado (http://www.senado.gov.br/sf/ATIVIDADE/materia/detalhes.asp?p_cod_mate=77244).
42

aumentar a punição da pena máxima (de 1 ano para 3 anos) e diminuição da


pena mínima (de 6 meses para 3 meses), que foram propostas pela Comissão
de Seguridade e Família da Câmara dos Deputados.

Como relatora da Comissão de Seguridade e Família, a Deputada


Jandira Feghali30 faz um extenso relatório para justificar as alterações
propostas. Apresenta diversos argumentos que afirmam a ineficácia dos
Juizados Especiais Criminais para as questões de violência doméstica e
familiar. Lembrando, ainda, que conforme expresso na Resolução da ONU de
1993, a violação de direitos humanos não pode ser considerada como crime de
menor potencial ofensivo. A relatora informa, ainda, que as alterações
sugeridas pela Comissão são baseadas em propostas encaminhas pelas
audiências públicas que foram realizadas em todo o país, além de outras
sugeridas durante o Seminário “Violência contra a Mulher: um ponto final”.

O Brasil está em um novo momento e como todos, deve-se aguardar


que a lei saia do papel para avaliar seus avanços, acerto e retrocessos. As
notícias da nova Lei trazem a esperança de que ela acabe com a impunidade
do agressor de crimes de violência doméstica31, mas poucos se preocuparam
em enfatizar o compromisso dos governos de instituírem os Juizados Especiais
e disponibilizar todos os serviços previstos na lei, inclusive os oferecidos para
tratamento de agressores, muito escassos no Brasil.

Apesar de todos os avanços, à realidade empírica descreve um cenário


mais pessimista com relação aos direitos das mulheres. As mudanças na
legislação e as ações governamentais rumo à eqüidade de gênero não foram

30
Relatório da Comissão de Seguridade Social e Família. Disponível em:
http://www.camara.gov.br/sileg/integras/334626.pdf. Acessado em: 07 de agosto de 2006.
31
Notícias disponíveis na internet, acessadas em 08 de agosto de 2006: da Secretaria de
Políticas para as Mulheres: (http://200.130.7.5/spmu/noticias/2006/noticias_06_08.htm), do
Governo Federal (http://www.brasil.gov.br/noticias/ultimas_noticias/violenciadomestica), do site
jurídico (http://www.espacovital.com.br/novo/noticia_ler.php?idnoticia=4544), do portal de
notícias PE 60 graus (http://pe360graus.globo.com/noticias360/matler.asp?newsId=61280), do
Jornal o Globo (http://oglobo.globo.com/jornal/pais/285178581.asp) e do Jornal Tribuna
Catarinense (http://www.jornaltribuna.com.br/geral.php?state=select&id_materia=16116).
43

suficientes para consolidar a cidadania efetiva de todas as mulheres no país


(PITANGUY; MIRANDA; 2006, p. 28 e 29).

Segundo estudos de decisões proferidas nos Tribunais do Rio de


Janeiro (MACHADO, 2003; CARRARA, VIANNA e ENNE, 2001 apud
MACHADO, 2003), a violência física conjugal, na maioria dos casos não leva a
punição, mesmo quando comprovada. Este dado revela que os valores que
parecem estar norteando grande parte dos juízes é o temor de intervir no valor
da família e na posição masculina na família. Nesse sentido:

O mundo da política, da administração pública e da justiça ainda está


sob o domínio dos valores masculinos e, de forma muitas vezes
inconsciente, esta ação é perpassada por um imaginário social
predominantemente excludente e discriminador (MACHADO, 2003, p.
145)

A violência contra as mulheres pelo simples fato de serem mulheres


marcou a história das mulheres. Usar a violência para submeter o feminino,
como matar em defesa da honra, estuprar, agredir fisicamente e etc, é algo que
tem sido permitido ao longo da nossa história legal. O efeito dessa permissão
social e cultural é o desprezo da violência doméstica pelos juristas (CAMPOS,
2004, p. 71). Espera-se, contudo, que as inovações trazidas pela Lei Maria da
Penha venha a contribuir para a alteração desse quadro de impunibilidade de
autores de crimes de violência doméstica e familiar, mas mais relevante do que
isto, cumpra seu objetivo de prevenir a violência contra a mulher.
44

3 POLÍTICAS PÚBLICAS DE COMBATE A VIOLÊNCIA CONTRA

A MULHER

As políticas públicas atuam de forma complementar as normas jurídicas,


preenchendo os espaços normativos e concretizando os direitos e princípios
previstos no ordenamento jurídico, de forma objetiva (DOWORKIN, 1997 apud
BUCCI, 2001). Para tanto, a garantia dos direitos das mulheres não passa
apenas pelo reconhecimento destes em legislações e em Tratados
Internacionais, é necessário, ainda, a concretização de uma ação
governamental planejada de combate à violência contra as mulheres.

Existem no Brasil ações governamentais de combate a violência contra a


mulher de abrangência nacional, estadual e municipal. Com o objetivo de
realizar uma análise crítica das políticas públicas de combate a violência contra
a mulher, com base no referencial teórico analisado nos capítulos anteriores,
busca-se as diretrizes do Governo Federal, Estaduais e Municipais no que se
refere a esta temática.

E, complementando estas políticas públicas, há o trabalho das


Organizações do Terceiro Setor que em parceria com entidades
governamentais, bem como agências de financiamentos, buscam novas
estratégias de combate a violência contra a mulher.
45

3.1 Políticas Públicas do Governo Federal

No Brasil, as primeiras políticas públicas com recorte de gênero foram


implementadas na década de 80. Nesse sentido, houve a criação, no Estado
de São Paulo, do primeiro Conselho Estadual da Condição Feminina, em 1983
e a primeira Delegacia de Polícia de Defesa da Mulher, em 1985. Tais
instituições se disseminaram por todo o Brasil após a criação do Conselho
Nacional dos Direitos das Mulheres pelo Ministério da Justiça, em 1985
(FARAH, 2004, p. 51). A criação destes órgãos impulsionou a luta pela
cidadania feminina e, em especial, a luta contra a violência (BARSTED, 2006,
p. 256). No campo da saúde, em 1983, o governo federal instituiu o Programa
de Assistência Integral à Saúde da Mulher (FARAH, 2004, p. 51).

Já na década de 1990 o Brasil começou a desenhar o Plano Nacional de


Direitos Humanos (PNDH), que apresentava propostas de ações relativas à
violência doméstica (PITANGUY; MIRANDA; 2006. p. 21). Lançado em 1996, o
PNDH destacava a implementação das decisões da Conferência Mundial dos
Direitos Humanos de Viena, de 1993, da Convenção Interamericana para
Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra as Mulheres e da IV Conferência
Mundial da Mulher, em Pequim, de 1995 (Conferências já analisadas no item
2.1 do presente estudo), através do apoio:

(...) ao Programa Nacional de Combate à Violência contra as


Mulheres; à criação de centros integrados de assistência a mulheres
sob risco de violência doméstica e sexual; às políticas dos governos
estaduais e municipais para prevenção da violência doméstica e
sexual contra as mulheres; à pesquisa e divulgação de informações
sobre a violência contra as mulheres e sobre formas de proteção e
promoção dos direitos da mulher; e ao projeto que trata o estupro
como crime contra a pessoa, e não mais como crime contra os
costumes (BARTED, 2006, p. 284).

Em 2002 foi criada a Secretaria de Estado dos Direitos da Mulher


(Sedim), órgão de função executiva para propor e monitorar políticas públicas e
governamentais de promoção da igualdade de gênero. No ano seguinte, foi
criado a Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres (SPM), com status
46

de Ministério, que pressupõe maior autonomia e orçamento próprio para


desenvolver suas atividades (BRUSCHINI; LOMBARDI; UNBEHAUM, 2006.
p.89).

O primeiro Plano Nacional de Políticas para as Mulheres foi elaborado


em 2004, após a aprovação de suas diretrizes na I Conferência Nacional de
Políticas para as Mulheres (BRASIL, 2004, p. 15 e 16). Prevendo ações para o
período de 2005-2007, o Plano é constituído por quatro eixos de atuação:
autonomia, igualdade no mundo do trabalho e cidadania; educação inclusiva e
não sexista; saúde das mulheres, direitos sexuais e direitos reprodutivos; e
enfrentamento à violência contra a mulher (BRASIL, 2006b, p. 4).

Na área de enfrentamento à violência contra a mulher, o PNPM elenca


como prioridades:

1. Ampliar e aperfeiçoar a Rede de Prevenção e Atendimento às


mulheres em situação de violência.
2. Revisar e implementar a legislação nacional e garantir a aplicação
dos tratados internacionais ratificados visando o aperfeiçoamento dos
mecanismos de enfrentamento à violência contra as mulheres.
3. Promover ações preventivas em relação à violência doméstica e
sexual.
4. Promover a atenção à saúde das mulheres em situação de
violência doméstica e sexual.
5. Produzir e sistematizar dados e informações sobre a violência
contra as mulheres.
6. Capacitar os profissionais das áreas de segurança pública, saúde,
educação e assistência psicossocial na temática da violência de
gênero.
7. Ampliar o acesso à justiça e à assistência jurídica gratuita.
(BRASIL, 2004 p.77).

O Programa de Enfrentamento a Violência contra a mulher prevê quatro


linhas de atuação, além do apoio a serviços especializados32: 1. capacitação de
agentes para prevenção e atendimento de mulheres em situação de violência.
2. incentivo à articulação dos poderes públicos para a constituição de
atendimento multidisciplinar em rede. 3. apoio a projetos educativos e culturais

32
Até 2002, o apoio à implantação de Casas Abrigo constituía o principal programa do Governo
Federal (BRASIL, 2006b).
47

de prevenção à violência contra as mulheres. 4. ampliação do acesso das


mulheres aos serviços de Justiça e Segurança Pública (BRASIL, 2006b, p. 16).

Com base nessas linhas de atuação a Secretaria Especial de Políticas


para as Mulheres instituiu normas técnicas destinadas: 1. à qualificação e
humanização do atendimento aos casos de violência sexual e estupro. 2. de
“Atenção humanizada ao abortamento”, que dispensa o Boletim de Ocorrência
Policial para processos legais de abortamento nos serviços públicos de saúde.
3. a padronização dos atendimentos dos Centros de Referências e das
Delegacias Especializadas de Atendimento as Mulheres (BRASIL, 2006b, p.
17).

Já parceria da SPM com a Secretaria Nacional de Segurança Pública


(SENASP) do Ministério da Justiça, busca fortalecer as redes de atendimento à
mulher em situação de violência. Segundo dados da SPM, nos últimos anos,
mais de 5 mil agentes públicos da rede receberam capacitação específica nas
questões de gênero, direitos humanos, cidadania e ética. A violência de gênero
também foi incluída na matriz curricular de todas as Academias de Polícia do
país (BRASIL, 2006b, p. 17 e 18).

Por outro lado, a SPM disponibiliza de uma verba anual para Projetos
de: 1. criação, implementação e reforma dos serviços especializados no
atendimento a mulheres vítimas de violência. 2. capacitação dos agentes que
trabalham com a questão da violência contra a mulher e de ações. 3. ações
educativas e culturais de prevenção à violência a mulher (BRASIL, 2006a, p. 6
e 7).

Além destas ações, o Programa de Enfrentamento à Violência contra a


Mulher realizou em 2004 e 2005 a campanha “Sua vida começa quando a
violência termina” e apoiou outras Organizações da Sociedade Civil que tinham
como objetivo de sugerir uma mudança de atitude e do comportamento
masculino frente à violência doméstica (BRASIL, 2006b, p. 18). Esta é uma das
poucas ações destinadas a prevenção da violência com enfoque do agressor.
48

O Programa “Gênero e Diversidade na Escola” visa à formação de


educadores e educadoras da rede pública que atuam entre a 5ª e 8ª séries
do Ensino Fundamental na área de gênero, raça e orientação sexual. O
objetivo do programa é fornecer elementos para transformar as práticas de
ensino, desconstruir preconceitos e romper o ciclo de sua reprodução pela
escola (BRASIL, 2006b). Com metodologia de ensino a distância, desde maio
de 2006, o Programa já capacitou 1.200 professores.

Tanto as campanhas de prevenção à violência como o Programa


Gênero e diversidade na escola são de extrema importância para mudança nos
modelos de socialização de homens e mulheres que autoriza os homens a
atuarem de forma agressiva frente às mulheres (MEDRADO; LYRA, 2003)

Por fim, a SPM instituiu, em 2005, a “Central de Atendimento à Mulher


24 horas”, para auxiliar e orientar as mulheres em situação de violência
(BRASIL, 2006b, p. 18).

Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), o Plano


Nacional de Políticas para as Mulheres possui vários limites. Destaca primeiro,
o não estabelecimento de um compromisso orçamentário com as ações
arroladas em cada uma das áreas de ações – sendo esta uma das principais
críticas feitas pelos movimentos sociais ao PNPM. Em segundo lugar, há
dificuldades em se tratar com as demais instâncias governamentais, tendo em
vista a não capacitação dos funcionários para as questões de gênero. Em
terceiro lugar, a frágil articulação entre estados e municípios dificulta a
execução de ações, que foram previstas para serem realizadas de forma
conjunta. Finalmente, o Instituto sinaliza a dificuldade de se trabalhar com a
mentalidade conservadora de grande parcela da sociedade brasileira,
especialmente no encaminhamento de algumas questões ligadas aos direitos
sexuais e reprodutivos das mulheres, como o debate atual em torno da
descriminalização ou à legalização da interrupção voluntária da gravidez
(INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA APLICADA; 2005, p. 134).
49

Especificamente nas ações de enfrentamento a violência contra a


mulher, o IPEA verifica que há uma má distribuição regional de Delegacias
Especializadas de Atendimento a Mulheres (DEAMs) no país33. Apesar das
ações da SPM de reaparelhamento das DEAMs, estes recursos acabam sendo
direcionados para as cidades onde já existe o serviço. Sendo urgente, portanto,
atuar naqueles municípios não atendidos pelas delegacias e que se constituem
em públicos ainda mais carentes de equipamentos de proteção às mulheres
(INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA APLICADA; 2005, p. 134).

Com o mesmo entendimento, Leila Linhares Barsted aponta para a


fragilidade da política nacional de enfrentamento a violência contra a mulher.
Constata que houve aumento significativo na área de Segurança Pública com
as Delegacias das Mulheres, mas a Autora não acredita que “exista em
funcionamento no país uma política pública voltada para o atendimento à
mulher vítima de violência, calcada na integralidade dessa assistência e na
articulação entre as diversas instâncias do Estado e da sociedade” (BARSTED,
2006, p. 286).

É preciso mencionar, ainda, a falta de uma avaliação nacional sobre


qualidade e quantidade dos serviços de atenção a violência contra a mulher,
bem como a escassez de recursos para a implementação destas políticas
públicas (BARSTED, 2006, p. 287).

3.2 Políticas Públicas Estaduais e Municipais

As políticas públicas de combate à violência contra a mulher,


desenvolvida por governos subnacionais (Estaduais e Municipais), em sua
maioria, estão estruturadas em Programas de atenção integral a mulheres
vítimas de violência doméstica e sexual, compreendendo assistência jurídica,

33
Dados da Pesquisa de Informações Básicas Municipais de 2001, do IBGE (IBGE, 2001).
50

social e psicológica. A maioria dos serviços oferecidos inclui atendimento na


área da saúde e na área da educação, com destaque a capacitação das
mulheres atendidas, buscando a reinserção social (FARAH, 2004, p. 61).

Uma característica destas políticas públicas é que elas não resultam


apenas de uma agenda nacional das questões de gênero, mas tendem a
refletir uma problemática local, que se expressa na mobilização de mulheres
naquela localidade. Influenciando não apenas na criação do serviço, mas na
sua implementação (FARAH, 2004, p. 63).

Observa-se, a partir da análise das Constituições Estaduais brasileiras,


uma preocupação dos governos estaduais com a violência contra a mulher.
Algumas apenas mencionam a prevenção da violência doméstica34, já outras
prevêem medidas para prevenir essa espécie de violência35. Há, ainda,
previsões de criação de Delegacias especializadas em casos de violência
contra a mulher36 e de alojamentos para abrigar mulheres em situação de
risco37, bem como a previsão de Programas para atendimento multidisciplinar
voltado a mulheres vítimas de violência38. Sendo a Constituição do Estado do
Tocantins a única a prever o atendimento especializado médico e psicológico
prestado a mulheres vítimas de estupro, pelo SUS (MASSULA; MELO; 2003).

Os governos subnacionais oferecem também serviços gratuitos de


atendimento jurídico especializado para as mulheres; muitos com atendimento
social e psicológico integrado (MASSULA; MELO; 2003). Este é o caso das
Defensorias Públicas Estaduais. O Estado do Rio Grande do Sul, por exemplo,
conta com um serviço de assistência judiciária gratuita desde 1994. O serviço

34
Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Paraíba, Paraná, Tocantins e Distrito Federal.
35
Amapá, Bahia, Espírito Santo, Goiás e Rio Grande do Sul.
36
Amapá, Bahia, Ceará, Distrito Federal, Mato Grosso do Sul, Paraná, Rio de Janeiro, Rio
Grande do Sul e Sergipe.
37
Bahia, Ceará, Distrito Federal, Mato Grosso, Paraná, Piauí, Rio de Janeiro e Tocantins.
38
Bahia, Goiás, Pará, Paraná, Rio Grande do Sul, São Paulo e Sergipe.
51

conta com uma divisão de direitos humanos, que atua em regime de plantão de
24 horas, atende, entre outros, casos de violência contra a mulher39.

Os Estados e Municípios contam ainda com Conselhos de Direitos


Estaduais e Municipais. Atualmente, no Brasil existem 173 Conselhos de
Defesa da Mulher40. Segundo o Plano Nacional de Políticas para as mulheres,
os Conselhos são importantes instrumentos de construção de relações
democráticas com os movimentos feministas e de mulheres (BRASIL, 2004, p.
32).

Os Conselhos de Direitos são espaços constituídos pelos setores


governamentais e não-governamentais que vêm oferecendo importantes
iniciativas de monitoramento de políticas públicas de diversas áreas,
particularmente no que se refere às questões de gênero (NEGRÃO, 2004, p.
217).

Na cidade de Porto Alegre, como em várias outras, há o Conselho


Municipal dos Direitos da Mulher (COMDIM), criado pela Lei 347/95. Lá,
encontra-se um universo de mulheres organizadas na busca de seus direitos
individuais e coletivos, bem como um local para discussão e proposição de
políticas públicas para as mulheres. O COMDIM é composto 40 entidades
(governamentais e não governamentais), e está vinculado a Prefeitura de
Porto Alegre, a qual disponibiliza um espaço para seu funcionamento e repassa
verba para infraestrutura e Projetos. Entre suas atividades está a promoção de
seminários, de capacitações, de parcerias com Entidades não-governamentais
e do movimento feminista, além de espaço para articulação de propostas de
reivindicações junto ao governo dos direitos das mulheres (JARDIM, 2003, p.
22).

39
Dados disponíveis no site: www.dpe.rs.br. Acessado em 27 de julho de 2006.
40
Dados obtidos através da página da internet da Secretaria Especial das Mulheres.
Disponível em: http://200.130.7.5/spmu/docs/atendimento_mulher/conselhos.pdf. Acessado em:
1 de agosto de 2006.
52

Em 1998, como estratégia de atuação, o Conselho da Mulher de Porto


Alegre implementou o Projeto Daniella Perez de monitoramento de políticas,
programas e serviços de combate à violência contra a mulher. O Projeto
deveria captar as impressões sobre o funcionamento da rede de serviços,
programas, ações e políticas. Para tanto foi constituído um serviço de
acolhimento de mulheres em situação de violência. Através da perspectiva de
atenção integral, o Projeto reunia atendimento jurídico, psicológico, de
orientação à saúde, direitos sexuais e reprodutivos, além de espaços para
reflexão teórica e elaboração de novas políticas (NEGRÃO, 2004, p. 217 e
218).

Para Telia Negrão, uma das idealizadoras do Projeto, os quatro anos de


existência do Projeto Daniella Perez foram importantes para que se lançasse
um olhar crítico sobre as políticas públicas da cidade de Porto Alegre, além de
ter sido um instrumento de ação política, de intervenção social, reflexão e de
proposição de novas políticas públicas (NEGRÃO, 2004, p. 218).

Outra política pública prevista no Plano Nacional de Políticas para as


Mulheres é as Casas Abrigo, locais secretos em que as mulheres ameaçadas,
agredidas e que estejam correndo risco de vida podem morar enquanto sua
situação é resolvida. A Casa de Apoio Viva Maria, foi um dos primeiros abrigos
protegidos do Brasil. Criado em 1992 pela Prefeitura de Porto Alegre, hoje atua
vinculada a Secretaria de Direitos Humanos e Segurança Pública da Prefeitura
de Porto Alegre. Este ano, está em reforma, graças ao apoio do Governo
Federal41. Pelos dados da SPM, no Brasil existem 68 Casas-abrigo42.

Os governos subnacionais têm criando, ainda, órgãos especializados


nas questões de gênero como as Coordenadorias Estaduais de Mulheres;
Núcleos da Mulher, dentro das Secretarias de Governos, bem como de Centros

41
Projeto encaminhado para SPM em 2005, tendo sido aprovado em outubro de 2005, de
minha autoria.
42
Dados obtidos através da página da internet da Secretaria Especial das Mulheres.
Disponível em: http://200.130.7.5/spmu/docs/atendimento_mulher/casas_abrigo.pdf. Acessado
em: 1 de agosto de 2006.
53

de Referencia para Atendimento a Mulheres Vítimas de Violência contra a


Mulher (BRASIL, 2006b, p. 16)

Cabe destacar, por fim, algumas experiências de combate à violência


doméstica contra mulheres que foram desenvolvidas buscando o
envolvimento, sensibilização e capacitação de operadores de justiça.

O Tribunal de Justiça do Estado do Matogrosso, por meio da


Desembargadora Shelma Lombardi de Kato, implementou o Projeto JEP –
Jurisprudência para a Equidade, o qual realizou diversos seminários no país de
capacitação e sensibilização para as questões de gênero com enfoque em
direitos humanos voltados a magistrados. Os seminários contaram com a
participação do movimento feminista e de direitos humanos (MASSULA; MELO;
2003).

Já no Estado de São Paulo, foi desenvolvido um Projeto de capacitação


de advogados para atuarem na assistência judiciária a mulheres vítimas de
violência, atendidas pela Delegacia da Mulher. Este projeto foi proposto pela
Procuradoria Geral do Estado em parceria com a Secretaria Estadual de
Segurança Pública e Ordem dos Advogados do Brasil, seccional São Paulo
(MASSULA; MELO; 2003).

3.3 Em busca de novas estratégias de Ação

Não se poderia deixar de lado o trabalho das organizações da sociedade


civil no combate a violência contra a mulher. Estas organizações atuam de
forma articulada com as Políticas Públicas e contribuem para a erradicação da
violência contra a mulher.
54

Segundo o levantamento realizado pelo CLADEM/UNIFEM existem no


Brasil 64 organizações não-governamentais (ONGS) que trabalham com a
temática da mulher. Estas Organizações realizam alianças com o poder público
e também com financiadoras internacionais tais como Fundação Ford,
MacArtthur entre outras (MASSULA; MELO; 2003).

As chamadas ONGS Feministas surgiram na década de 90 quando o


movimento feminista se profissionaliza e suas participantes fundam diversas
Entidades que passam a fazer parte do cenário nacional, oferecendo serviços à
população de baixa renda (COSTA, 2005, p. 38 e 39), principalmente nas
questões de violência doméstica ou conjugal. O destaque dado por estas
ONGS Feministas ao tema se deve ao fato que a violência doméstica ou
conjugal ser um dos elementos catalisadores da identidade do feminismo
nacional, já que houve uma enorme comoção social no que se refere a crimes
de assassinatos de mulheres (de classe média) no início dos anos 80
(HEILBORN; SORJ, 1999 p. 210).

Estas organizações receberam destaque internacional por sua vigorosa


atuação no acompanhamento dos processos preparatórios e de implantação
das plataformas das conferências sociais realizadas na década de 90. Sua
atuação tem sido potencializada por alguns mecanismos de articulação como a
criação de Redes e Fóruns Regionais de Organizações não-governamentais
(BRASIL, 2000, p. 10).

Reconhecendo o trabalho destas Organizações, o Governo Federal no


primeiro Plano Nacional de Políticas para as Mulheres afirma a necessidade da
reunião de recursos públicos e comunitários e do envolvimento do Estado e da
sociedade civil para a efetividade das ações de prevenção e redução da
violência contra a mulher. Apostando no estabelecimento de uma Rede de
Atendimento e Proteção à Mulher que envolva o poder legislativo, judiciário e
executivo, os movimentos sociais e a comunidade (BRASIL, 2004, p. 74 e 75).
55

Assim, o Plano prevê como metas integrar os serviços em redes locais,


regionais e nacionais e instituir redes de atendimento às mulheres em situação
de violência em todos os Estados brasileiros englobando os serviços
governamentais e não-governamentais. Prevendo, ainda, como prioridade
ampliar e aperfeiçoar a Rede de prevenção e atendimento às mulheres em
situação de violência (BRASIL, 2004, p. 77).

Portanto, os movimentos sociais e as ONGS Feministas e de Mulheres


tem um papel fundamental no desenvolvimento e implementação de uma
verdadeira Rede de Cidadania:

Os movimentos sociais, em particular as organizações dos


movimentos feministas e de mulheres, têm um papel fundamental no
desenvolvimento e implementação desta Rede de Cidadania, atuando
como fiscalizadoras das medidas, ações e programas adotados;
como capacitadoras das diferentes instituições envolvidas na Rede,
mobilizando a sociedade brasileira para a erradicação da violência
contra as mulheres (BRASIL, 2003b, p. 53).

Fazem parte dessa Rede de Cidadania inúmeras organizações não-


governamentais que desenvolvem uma série de Projetos e Programas de
combate a violência contra a mulher. Uma destas ações é o Programa AZIZA
de Direitos Humanos, executado pela ONG Criola do Rio de Janeiro, em
aliança com outras entidades entre Organismos Internacionais, Governo e
ONGS. O Programa atua no encaminhamento de denúncias de violências que
atinjam mulheres e adolescentes negras, em conseqüência da discriminação
racial, do seximo e da homofobia. Contempla ainda o Projeto ações na área de
educação, de monitoramento de casos no judiciário, de articulação política para
acompanhamento de casos e ações de prevenção (promoção de fóruns,
debates e etc.). O Projeto já atendeu cerca de 2000 mulheres e meninas
(MASSULA; MELO; 2003).

Outra importante estratégia de ação é a Campanha Brasileira do Laço


Branco que tem o objetivo sensibilizar, envolver e mobilizar homens no
engajamento pelo fim da violência contra a mulher. A Campanha foi criada no
Canadá a partir de um trágico episódio ocorrido na Escola Politécnica de
56

Montreal, em 1989, onde um homem entrou em uma sala de aula e pediu para
que os rapazes da turma se retirassem. Gritando “vocês são todas feministas!”,
matou todas as 14 mulheres que estavam na sala de aula com tiros à queima
roupa. Em uma carta deixada por ele, argumentava que havia feito aquilo
porque não suportava a idéia de ver mulheres estudando engenharia, um
curso, na opinião dele, dirigido somente para homens. A partir desse episódio
um grupo de homens de Ontário e Quebec, sensibilizados com o acontecido,
decidiu criar a Campanha do Laço Branco com a idéia de prevenir que outros
massacres e violências deste tipo se repetissem. Difundida no Brasil em 2001,
a campanha conta a participação de muitas entidades43 não-governamentais
(MASSULA; MELO, 2003; MEDRADO; LYRA, 2003).

Já o Estado do Rio Grande do Sul foi pioneiro na formação de


“Promotoras Legais Populares” (PLPs). O Projeto, iniciado em 1992 pela ONG
Themis, foi inspirado no Projeto de formação de paralegais que existe em
diversos países. O curso das Promotoras Legais Populares prevê a
capacitação de lideranças da comunidade, boa parte de baixa renda e
escolaridade, para trabalhar com a questão da violência contra a mulher. No
curso elas aprendem seus direitos e garantias em caso de violência, além de
outras disciplinas relacionadas a direitos humanos. O diferencial do Projeto é
que essas promotoras têm local específico para atuar: o Serviço de Informação
à Mulher (SIM), um local dentro da comunidade para os atendimentos das
promotoras. Existem sete SIMs na região metropolitana de Porto Alegre. Ao
longo desses doze anos, 6 mil mulheres passaram pelas orientações das
Promotoras Legais Populares (FALCO; RICCI, 2006, p. 53 e 54).

O Projeto das Promotoras Legais Populares já foi replicado em diversos


estados do Brasil e hoje trabalha para instituir uma Rede que reúna todas as
organizações que trabalhem com as PLPs no Brasil. A intenção é a partir desta
Rede criar uma política pública de acesso à justiça, como foi recomendado no

43
Atualmente a campanha é coordenada, no Brasil, por sete organizações não-
governamentais: Instituto NOOS de pesquisas sistêmicas e desenvolvimento de redes sociais
(RJ), Instituto PROMUNDO (RJ), ECOS: Comunicação em Sexualidade (SP), CES: Centro de
Educação para a Saúde (SP), Pró-mulher, Família e Cidadania (SP), Programa PAPAI (PE) e
Rede Acreana de Mulheres e Homens (AC).
57

documento final da 1a Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres


(FALCO; RICCI, 2006, p. 56 e 57).

A instalação, em 2003, do Juizado Especial Criminal da Família pelo


Tribunal do Estado de São Paulo também se deu por causa da articulação do
Consórcio de ONGS que coordenam o Projeto Promotoras Legais Populares,
composto pela União de Mulheres de São Paulo, pelo Instituto Brasileiro de
Advocacia Pública, pelo Movimento do Ministério Público Democrático, pela
Comissão da Mulher Advogada da OAB – seção São Paulo, pelo Centro
Dandara de Promotoras Legais Populares, pelas Promotoras Legais Populares
de Suzano e pelas Promotoras Legais Populares de Santo André. Estas
Entidades lançaram em 2001 uma Campanha para a criação de Juizados
Especiais Criminais para Crimes de Violência de Gênero. A proposta era que
estes Juizados tivessem atuação permanente, com autoridades e instalações
judiciais adequadas, incluindo uma equipe multidisciplinar e capacitação para
os profissionais na área de gênero. A proposta previa ainda um Conselho
Consultivo para acompanhamento de sua implementação e funcionamento,
composto de especialistas na questão da violência de gênero, representando
tanto as instituições governamentais e estatais como da sociedade civil
(MASSULA; MELO, 2003; COLETIVO FEMINISTA SEXUALIDADE E SAÚDE,
[entre 2003 a 2006]).

Atualmente o Juizado não mais atende exclusivamente crimes de família


e desde sua criação é amplamente criticado pelo movimento por considerarem
a mudança do nome um atraso, uma vez que a instituição “família” tem sido um
espaço de “naturalização” da violência de gênero, e ainda, por causa da não
instituição do Conselho Consultivo e da não capacitação do pessoal para o
atendimento específico (COLETIVO FEMINISTA SEXUALIDADE E SAÚDE,
[entre 2003 a 2006]).

A campanha para a criação de Juizados Especiais Criminais para


Crimes de Violência de Gênero demonstra a importância do trabalho das
Entidades do Terceiro setor no debate e amadurecimento das questões de
58

gênero que, depois de 5 anos de luta contra a violência contra a mulher e o


amplo debate realizado por toda a sociedade civil entorno do Projeto de Lei de
não violência contra a mulher é contemplada com uma Lei que abarca as
reivindicações destas Organizações.
4 CONCLUSÃO

Atualmente é garantida a toda a mulher gozar de todos seus direitos


inerentes a pessoa humana, sendo-lhe assegurado oportunidades e facilidades
para viver sem violência. A violência contra a mulher tanto no Brasil, como
internacionalmente, é reconhecida como uma das formas de violação dos
direitos humanos.

Inserida no rol dos crimes contra a pessoa, é considerado violência


contra a mulher qualquer ação ou omissão baseada no gênero que lhe cause
morte, lesão, sofrimento físico, sexual ou psicológico e dano moral ou
patrimonial. Nesta concepção, são de competência do Estado a prevenção,
assistência e combate à violência contra a mulher. Para tanto, foi criada, em
2006, a Lei de Violência Doméstica e Familiar contra a mulher que acompanha
o atual entendimento sobre violência de gênero.

Porém, não basta promulgar uma Lei para que seja garantido o respeito
os direitos nela protegidos. É preciso criar mecanismos que a tornem eficaz.
Neste prisma, as políticas públicas são essenciais, seja no âmbito da
segurança pública, seja na esfera educacional. O que se necessita é dar a
todos o que lhes é assegurado em lei: uma vida sem violência.

Na realidade, existe no Brasil uma cultura de relações conjugais


violentas, associada a um padrão de não intervenção nas relações familiares e
de banalização da violência. Em contrapartida, é possível pensar
procedimentos, seja na política, seja no direito, capazes de preservarem o
60

princípio constitucional e de direitos humanos da dignidade da pessoa e da


não-violência.

Alisando a violência contra as mulheres na ótica do gênero, conclui-se


que a relação social entre homens e mulheres é constituída através dos
significados sociais de ser homem e ser mulher. E, dentro dessa construção
social, a definição de papéis sociais. Assim, é nas relações entre os gêneros
que se constroem padrões de agressividade e conflitualidade, que são
geradores de violência. Sendo ainda nessa construção social o surgimento das
desigualdades entre homens e mulheres. A violência contra a mulher surge
por conta da naturalização das desigualdades de poder entre os gêneros.

A mudança nas práticas e mentalidades, bem como dos padrões sociais


discriminatórios que produzem as relações de poder desiguais, somente
poderá ser realizada através de políticas públicas que modifiquem estas
práticas sociais desiguais e garantam os direitos já consolidados no nosso
ordenamento. Nesse sentido, a mudança deve ser dar na base das relações de
gênero, construindo relações entre homens e mulheres pautadas na dignidade
humana, a igualdade e o respeito às diferenças.

A entrada em vigor de uma Lei de Enfretamento à Violência doméstica e


familiar no Brasil é um progresso para os direitos das mulheres. No entanto, já
sabemos que o fim da violência contra as mulheres é um caminho que envolve
outras ações, como de prevenção a violência através da mudança de marcas
sociais desiguais, seja nas relações de gênero, seja da de raça ou de classe
social, bem como de medidas de proteção a mulheres e seus filhos em
situação de violência.

Reconhecendo que a violência doméstica e familiar é a mais usual forma


de violência contra a mulher, o enfrentamento desta passa também pelo
atendimento ao agressor, já que por muitas vezes nas relações conjugais e
familiares a solução para o fim da violência não é o afastamento do agressor,
mas sim a composição de uma nova relação entre as partes. Serviços que
61

atendam esta demanda são escassos no Brasil, o que dificulta o avanço no


campo da violência contra a mulher, já que a mudança dos padrões violentos
deve ser estimulada tanto nos homens, como nas mulheres e nos filhos destes
casais. Procurando, com isto, encerrar o ciclo da violência doméstica e familiar.

Muitos são os desafios para o enfrentamento da violência contra a


mulher no país. Porém um passo importante já foi dado através o
reconhecimento que a violência contra a mulher é uma questão de violação de
direitos humanos e que o Estado como a Sociedade precisa pensar e executar
ações de combate a este tipo de violência.
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