O NASCIMENTO DO HOSPITAL1

MICHEL FOUCAULT

O hospital como instrumento terapêutico é uma invenção relativamente nova que data do final do século XVIII. A consciência de que o hospital pode e deve ser um instrumento destinado a curar aparece claramente em torno de 1780 e é assinalada por uma nova prática: a visita e a observação sistemática e comparada dos hospitais (Howard – inglês e Tenon – francês, a pedido da Academia de Ciências Francesa). Objetivos das viagens-inquérito: a) definir um programa de reformas e reconstrução dos hospitais, por meio de um inquérito empírico; b) há uma preocupação com os aspectos funcionais dos hospitais (não apenas da estrutura exterior – monumento): o número de doentes, o número de leitos, a área útil do hospital, a extensão e altura das salas, a cubagem de ar disponível para cada doente, a taxa de mortalidade e de cura; Busca-se estabelecer uma relação entre os fenômenos espaciais e patológicos. Por exemplo: em que condições espaciais os doentes hospitalizados por ferimentos são melhor curados e quais as vizinhanças mais perigosas para eles. A correlação entre a taxa de mortalidade crescente dos feridos e a vizinhança de doentes atingidos por febre maligna (infecção). Observam que se as parturientes são colocadas acima/ao lado de uma sala onde estão os feridos, a taxa de mortalidade das parturientes aumenta. Tenon (francês) estuda o percurso, deslocamento, o movimento no interior do hospital, particularmente as trajetórias espaciais seguidas pela roupa branca, lençol, roupa velha, o pano utilizado para tratar ferimentos, etc. Investiga quem os transporta e onde são transportados, lavados e distribuídos. Começam a ser estabelecidas as relações entre a estrutura funcional do hospital, a distribuição dos doentes e as taxas de mortalidade e cura. c) O olhar desses inquiridores é novo: o hospital passa a ser visto como local de cura e que, se produz efeitos patológicos, deve ser corrigido. Hospital na Idade Média: não era de forma alguma o local da cura; não era uma instituição médica e a medicina era, nesta época, uma prática não hospitalar. O hospital na Idade Média: era essencialmente uma instituição de assistência aos pobres. Instituição de assistência e, também, de separação e exclusão. “O pobre como pobre tem necessidade de assistência e, como doente, portador de doença e de possível contágio é perigoso”. O personagem do hospital até o século XVIII, não é o doente que é preciso curar, mas o pobre que está morrendo. É alguém que precisa ser assistido material e espiritualmente, alguém a quem se deve dar os últimos cuidados e o último sacramento. Essa era a função essencial do hospital. O hospital, nessa época, era um morredouro, um lugar onde morrer. O pessoal do hospital não era fundamentalmente destinado a realizar a cura do doente, mas a conseguir a sua própria salvação. Esse pessoal, caritativo – religioso ou leigo – estava no hospital para fazer uma obra de caridade que lhe assegurasse a salvação eterna. A prática desenvolvida no hospital procurava assegurar a salvação do pobre no momento da morte e a salvação do pessoal do hospital que cuidava do pobre. O hospital cumpria, até o começo do século XVIII, a função de transição entre a vida e a morte, de salvação espiritual mais do que material, aliada à função de separação dos indivíduos perigosos à saúde geral da população. O Hospital Geral constituía-se no local de internamento, onde se justapõem e se misturam doentes, loucos, devassos e prostitutas. Uma espécie de instrumento misto de exclusão, assistência e transformação espiritual, em que a função médica não aparece. A medicina dos séculos XVII e XVIII era profundamente individualista. O processo de formação do médico, assegurado pela própria corporação médica, compreendia o conhecimento de textos e transmissão de receitas mais ou menos secretas ou públicas. A experiência hospitalar estava excluída da formação ritual do médico. O que o qualificava era a transmissão de receitas e não o campo de experiências que ele teria atravessado, assimilado e integrado. A intervenção do médico na doença era organizada em torno da noção de crise. O médico devia observar o doente e a doença, desde os seus primeiros sinais, para descobrir o momento em que a crise apareceria. A crise era o momento em que se afrontavam, no doente, a natureza sadia do indivíduo e o mal que o atacava. A cura era um jogo entre a natureza, a doença e o médico. Nesta luta o médico desempenhava o papel de prognosticador, árbitro e aliado da natureza contra a doença. Esta prática só podia se desenvolver em forma de relação individual entre o médico e o doente. A idéia de uma longa série de observações no interior do hospital, em que se poderia registrar as constâncias, as generalidades, os elementos particulares, etc., estava excluída da prática médica.
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In: FOUCAULT, M. Microfísica do Poder. 10. ed. Organização e tradução de Roberto Machado. Rio de Janeiro, Graal, 1992.

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2º) A disciplina exerce o seu controle. como também desordem econômico-social de que ele era foco perpétuo. antes de tudo. O índice de mortalidade dos soldados era imenso no século XVII. a partir do momento em que a técnica da marinha torna-se muito mais complicada e não pode mais perder alguém cuja formação foi bastante custosa. fragmentado. dentre outras. cuja atribuição era observar não só se o trabalho tinha sido feito. Exemplo disso foi o caso dos soldados. Para se aprender a manejar um fuzil será preciso exercício. mas de uma tecnologia que pode ser chamada política: a disciplina. Se os hospitais militares e marítimos tornaram-se o modelo é porque as regulamentações econômicas tornaram-se mais rigorosas no mercantilismo. Os grandes hospitais marítimos de Londres. Com o surgimento do fuzil. essencialmente nos hospitais marítimos e militares. A desordem significava doenças que ele podia suscitar nas pessoas internadas e espalhar na cidade em que estava situado. rápido e melhor ajustado. A partir do século XVIII. desde a antiguidade. no exército e na escola aparecem novas técnicas de poder que são uma das grandes invenções do século XVIII. objetos preciosos. quando o poder disciplinar foi aperfeiçoado como uma nova técnica de gestão dos homens. suas aptidões passam a ter preço para a sociedade. Começa-se a observar de que maneira os gestos são feitos. 2 . na França. Historicamente as disciplinas existiam há muito tempo. os alunos também estavam aglomerados e o professor chamava um deles por alguns minutos. Um exército austríaco. O mesmo acontece com o hospital marítimo. 2º) Era preciso cura-los. da doença epidêmica que as pessoas que desembarcam podem trazer. o exército torna-se muito mais técnico. no momento do desembarque. trazidas das colônias. A partir da mutação técnica do exército. tráfico de mercadorias. sutil e custoso. Os mecanismos disciplinares existiam em estado isolado. Se ele morrer deve ser em plena forma. a inserção dos corpos num espaço individualizado. a análise do espaço. nesses hospitais marítimos e militares. nos lados e no meio as que não sabiam lutar. o problema da quarentena. graças a um sistema de poder suscetível de controla-los. é que esses hospitais constituíam-se num lugar de desordem econômica. a partir do momento em que o soldado recebe um fuzil. Esse tipo de hospitalização não procura fazer do hospital um local de cura. Através dele se fazia. não sobre o resultado de uma ação. A força de um corpo de tropa era o efeito da densidade desta massa. no final do século XVII. mas sobre seu desenvolvimento. Dessa forma. sua capacidade. qual o mais eficaz. purificando-o dos efeitos nocivos. mas impedir que seja foco de desordem econômica ou médica. epidemia e deserção era um fenômeno relativamente comum. mas elaborada em seus princípios fundamentais durante o século XVIII. A perda de homens por motivo de doença. É assim que o preço de um soldado ultrapassa o preço de uma simples mão-de-obra e o custo do exército torna-se bastante oneroso. o traficante escapava do controle econômico da alfândega. fazia-se de doente e era levado ao hospital. o que se vê aparecer nesta época? 1º) Uma distribuição espacial dos indivíduos. O ensino coletivo dado simultaneamente a todos os alunos implica uma distribuição espacial. A disciplina é uma técnica de exercício de poder que foi. como o hospital foi medicalizado e a medicina pôde tornar-se hospitalar? O primeiro fator de transformação foi não a busca de uma ação positiva do hospital sobre o doente ou a doença. especiarias. da desordem que ele acarretava. 3º) Era preciso evitar que quando curados os soldados fingissem ainda estar doentes e permanecessem de cama. não inteiramente inventada. É nesta época que os indivíduos. até os séculos XVII e XVIII. o hospital militar tornou-se um problema técnico e militar importante: 1º) Era preciso vigiar os homens no hospital militar para que não desertassem. se desenvolve uma arte do corpo humano. É a individualização pelo espaço. Aparece também. que aparece no século XVII. é sobre a inspeção dos cofres. mas como era feito. Até o século XVII o exército era um aglomerado de pessoas com as mais fortes e mais hábeis na frente. e não de doença. matérias raras. eram covardes. A disciplina é. Marseille ou La Rochelle eram lugares de intenso tráfico. como também o preço dos homens tornou-se cada vez mais elevado. O primeiro regulamento de hospital. classificatório. A partir do século XVIII. Nas escolas do século XVII. na batalha.Como se deu a transformação. como podia ser feito mais rapidamente e com gestos melhor adaptados. por exemplo. como soldado. O ponto de partida da reforma hospitalar foi o hospital marítimo. controlar as suas multiplicidades utilizá-las ao máximo e majorar o efeito útil de seu trabalho e de sua atividade. Quando se formou um soldado não se pode deixá-lo morrer. A razão disso. tinham vontade de fugir. O traficante. que saiu de Viena para combater na Itália chegou a perder 5/6 de seus homens antes de chegar ao lugar do combate. No caso das oficinas aparece a figura do contramestre. isto é. combinatório. mandava-o de volta e chamava outro. Essa hipótese pode ser confirmada pelo fato da primeira grande organização hospitalar da Europa se situar. A disciplina passa a constituir-se numa técnica de gerir os homens. evitando que morressem de doença. Nas grandes oficinas que começam a se formar. se é obrigado a estudar a distribuição dos indivíduos e colocá-los corretamente no lugar em que sua eficácia seja máxima. isto é. mas simplesmente a anulação dos efeitos negativos do hospital. Como se fez esta reorganização do hospital? Não foi a partir de uma técnica médica. no século XVII. manobra e adestramento. ensinava-lhe algo. Tomando como exemplos o exército e a escola.

A doença é a natureza. não mais à doença propriamente dita. paradas. A disciplina hospitalar que surge do ajustamento desses dois processos terá como função assegurar o esquadrinhamento. onde localizar o hospital. É assim que no exército aparecem sistemas de graus que vão. de modo que. específico e modificável. água suja. o grande modelo de inteligibilidade da doença passa a ser a botânica. Se individualizará e distribuirá os doentes em um espaço onde possam ser vigiados e onde será registrado o que acontece. 4º) A disciplina implica um registro contínuo. A estrutura espacial do hospital passa a ser considerada como um meio de intervenção sobre o doente. como local de cura. O médico era chamado para os mais doentes entre os doentes. nessa perspectiva. Mas essa disciplina torna-se médica e o poder disciplinar é confiado ao médico devido à transformação do saber e da prática médicas. confusa em pleno coração da cidade. a temperatura ambiente. Isso significaria a exigência da doença ser compreendida como fenômeno natural. a disciplinarização do mundo confuso do doente e da doença. ar poluído. Até meados do século XVIII quem detinha o poder no hospital era o pessoal religioso. utilizálos ao máximo. decorre do ajuste dos processos de disciplinarização do espaço hospitalar e deslocamento da intervenção médica (do espaço privado para o espaço público/hospitalar). acontecimento ou elemento disciplinar escape a esse saber. O médico passa a ser consultado sobre a forma de construção e organização do 3 . o regime geral constituem o solo sobre o qual se desenvolvem em um indivíduo as diferentes espécies de doenças. etc. onde se rejeitam os doentes para a morte. Esta é a primeira característica da transformação do hospital no final do século XVIII. a alimentação. se a duração da doença é motivada por uma ação sobre o meio. Portanto. raramente leigo. A anotação do indivíduo e a transferência da informação de baixo para cima. A água. É preciso que o espaço em que está situado o hospital estado ajustado ao esquadrinhamento sanitário da cidade (medicina do espaço urbano). a individualidade torna-se elemento pertinente para o exercício do poder. mas uma natureza devida a uma ação particular do meio sobre o indivíduo. de modo que o quadro hospitalar que os disciplina seja um instrumento de modificação com função terapêutica. segundo o doente. etc. é o suporte da doença. É assim que se estabelece o princípio que não deve haver mais de um doente por leito. Partindo da hipótese do duplo nascimento do hospital decorrente das técnicas de poder disciplinar e médica de intervenção sobre o meio pode-se compreender as várias características que ele possui: 1º) A questão do hospital. As razões econômicas. o regime. revistas. desfiles. a água que bebem. o ar. é fundamentalmente a do espaço ou dos diferentes espaços a que ele está ligado. perigosamente. etc. A esse pessoal cabia assegurar a vida cotidiana do hospital. Através do exame. Em segundo lugar. É preciso vigiá-los durante todo o tempo da atividade e submetê-los a uma pirâmide de olhares. Ela terá espécies. e ao mesmo tempo se modificará o ar que respiram. a temperatura do meio. Essas visitas eram irregulares e objetivo era mais uma justificação do que uma ação real. 2º) Transformação do sistema de poder no interior do hospital. classificatória que permite distribuir os indivíduos. na medida em que a doença é concebida como fenômeno natural que obedece leis naturais. De modo que a cura é. a alimentação.3º) A disciplina é uma técnica de poder que implica uma vigilância perpétua e constante dos indivíduos. nenhum detalhe. julgá-los. para onde as pessoas afluem no momento da morte e de onde se difundem. para que não continue a ser uma região sombria. É a introdução dos mecanismos disciplinares no espaço confuso do hospital que vai possibilitar a sua medicalização. No século XVIII. mas ao que a circunda: o ar. a vigilância. medi-los. sua doença e evolução. É uma medicina do meio que vai se constituindo. no final do século XVII. como também transformar as condições do meio em que os doentes são colocados. a salvação e a assistência alimentar das pessoas internadas. por conseguinte. miasmas. devendo ser fator e instrumento de cura. O exame é a vigilância permanente. quando submetido a certas ações do meio. sem interrupção. obscura. curso e desenvolvimento como toda planta. etc. O espaço hospitalar é medicalizado em suas funções e em seus efeitos. características observáveis. dirigida por uma intervenção médica que se endereça. será necessário constituir em torno de cada doente um pequeno espaço individualizado. Pois. o desejo de evitar que as epidemias se propaguem explicam o esquadrinhamento disciplinar a que estão submetidos os hospitais. O médico estava sob a dependência administrativa do pessoal religioso que podia inclusive despedi-lo. a origem do hospital médico. Não basta olhá-los às vezes ou ver se o que fizeram estava de acordo com as regras. não deve mais existir. o preço atribuído ao indivíduo. devendo ser suprimido o leito dormitório onde se amontoavam até seis pessoas. o médico passa a ser o principal responsável pela organização hospitalar. O hospital-exclusão. como também os sistemas de inspeção. o regime.Será também necessário construir em torno de cada doente um meio manipulável que possibilite aumentar a temperatura ambiente. refrescar o ar. é preciso não somente calcular a sua localização. O indivíduo sadio. a água. orientá-lo para um único doente. no cume da pirâmide disciplinar. Em primeiro lugar. A partir do momento em que o hospital passa a ser concebido como um local de cura e a distribuição do espaço torna-se instrumento terapêutico. mas a distribuição interna de seu espaço. localizá-los e. do general chefe até o ínfimo soldado. como na medicina da crise.

Aparece em cima do leito a ficha com o nome e a doença do paciente. pelo médico. O pessoal religioso que residia nos hospitais é banido em proveito do espaço que deve ser organizado medicamente. vai ao leito de cada doente seguido de toda a hierarquia do hospital: assistentes. alunos. etc. durante a visita. acúmulo e formação do saber. nos regulamentos dos hospitais a obrigação dos médicos. depois. que o médico deve ser anunciado por uma sineta. era o médico de consulta privada. o hospital passa a se constituir no local de formação de médicos. O saber médico que até o século XVIII estava localizado nos livros passa a ter no hospital a sua principal fonte. na frente. a sal em que se encontra e. A partir de 1780/1790 a formação normativa do médico deve passar pelo hospital. que tinha adquirido prestígio graças a um certo número de curas espetaculares. Essa “tomada do poder”. Constitui-se um campo documental no interior do hospital. Em torno de 1770 surgem regulamentos determinando que um médico deve residir no hospital e pode ser chamado ou se locomover a qualquer hora do dia ou da noite para observar o que se passa. não aparecia no hospital. O grande médico de hospital. onde cada pessoa deve estar colocada. do que acontece. se morreu ou saiu curado. finalmente. As visitas médicas passam a ser normatizadas nos regulamentos dos hospitais. as receitas e o tratamento prescritos. por exemplo. aquele que serás mais sábio quanto maior for a sua experiência hospitalar é uma invenção do final do século XVIII. Ao mesmo tempo. Amarra-se no punho do doente uma pequena etiqueta que permitirá distingui-lo. exaustivo. 4 . se as doenças epidêmicas passam de uma sala para outra. Até o final do século XVIII o grande médico. registro do médico que manda anotar. o diagnóstico do médico que o recebeu. que não é somente um local de cura. registro de cada sala feito pela enfermeira-chefe.hospital. os que têm melhor êxito. O ritmo das visitas médicas aumenta cada vez mais durante o século XVIII. no hospital passa a se manifestar no ritual da visita. confrontarem suas experiências e seus registros para ver quais são os diferentes tratamentos aplicados. etc. Aparece também uma série de registros que acumulam e transmitem informações: registro geral de entradas e saídas em que anota o nome do doente. enfermeiras. Os regulamentos dos hospitais do século XVIII passam a descrever. registro da farmácia em que se diz que receitas e para quais doentes foram despachadas. na medida do possível. mas também de registro. o diagnóstico. que a enfermeira deve estar na porta com um caderno nas mãos e deve acompanhar o médico quando ele entrar. Além de ser um local de cura. 3º) Organização de um sistema de registro permanente e. que médicos têm mais sucesso. ao menos uma vez por mês. Em primeiro lugar técnicas de identificação dos doentes. a presença do médico se afirma e se multiplica no interior do hospital. desfile quase religioso em que o médico. Aparece.